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INTEGRALIDADE NO CUIDADO EM ENFERMAGEM DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar os tipos de câncer mais comuns em crianças e sua respectiva incidência. > Explicar as características clínicas do câncer infantil. > Descrever os tratamentos possíveis e suas implicações. Introdução O câncer é definido, de uma forma mais simples, como todo crescimento de- sordenado de células com capacidade de invadir tecidos e órgãos próximos. O conceito do câncer engloba mais de 100 doenças de diferentes etiologias, estágios e classificações (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2011). A maior parte das células do corpo humano, por meio de um processo muito complexo, é capaz de formar novas células idênticas às originais e se multi- plicar como função de manutenção, recuperação e crescimento. No entanto, em algum momento, podem ocorrer pequenos erros durante as multiplicações celulares, e por ser um processo rigoroso, esses erros também são repassados às novas células. Esses erros podem ter diferentes estímulos, como exposição a agentes can- cerígenos ou mutação espontânea. O acúmulo desses erros vai gerar alterações Cuidados de enfermagem em criança com câncer Eveline Lorena da Silva Amaral genéticas no DNA da célula e, consequentemente, serão repassados sinais alterados para as suas funções. Há, então, uma multiplicação descontrolada e irreversível que dará origem ao tumor e, por fim, à presença dos sinais clínicos da doença (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2011). O câncer infanto-juvenil é estudado de forma separada dos demais, uma vez que há uma particularidade nessa faixa etária devido à sua origem, à localização e ao comportamento clínico. Não há como inferir medidas preventivas, uma vez que pouco se sabe sobre suas origens e fatores de risco; no entanto, as maiores chances de cura foram observadas nessas faixas etárias (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019a). Foi estimado, pelo Instituto Nacional de Câncer, que, durante os anos de 2009 e 2013, o câncer foi responsável por 12% de óbitos de crianças e adolescentes entre 1 e 14 anos e 8% da faixa de 1 a 19 anos (BRASIL, 2017) e, no ano de 2017, gerou mais de 2.500 mortes a nível nacional, em ambos os sexos (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019a). As implicações do diagnóstico de câncer na infância podem trazer repercussões em todas as esferas da vida do paciente e de seus familiares. Apesar de existir um bom prognóstico para o câncer infanto-juvenil, ainda é uma doença com muitos estigmas que trazem muitos medos e incertezas sobre lidar com a luta pela vida e o temor da morte. Dessa forma, é sempre imprescindível o acompanhamento por uma equipe multidisciplinar, cuja atenção se volte aos diferentes aspectos daquela criança ou adolescente e de seus familiares. Neste capítulo, você vai identificar os principais tipos de cânceres que mais atingem a faixa etária de 0 a 19 anos e os índices de suas incidências no Brasil. Além disso, conhecerá habilidades de detecção precoce por meio da identificação de sinais clínicos e sintomas clássicos de cada patologia, bem como os principais tipos de tratamentos e como são conduzidos. Tipos de câncer mais comuns em crianças Dentre os principais tipos de câncer que mais acometem a faixa etária infanto- -juvenil, podemos separar em tumores hematológicos, como a leucemia e os linfomas, e em tumores sólidos, como os do sistema nervoso central, as massas abdominais, os tumores oculares, tumores ósseos e tumores de partes moles (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2016). Cuidados de enfermagem em criança com câncer2 Tumores hematológicos Os tumores hematológicos acometem as células do sangue e do sistema linfático. Mais de 50% dos casos de câncer em indivíduos de 5 a 14 anos são de tumores do tipo hematológico, em especial, leucemias (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2016). Leucemias As leucemias consistem em um câncer cuja principal característica é a presença de células anormais na medula óssea que alteram o processo das células do sangue. O tipo da leucemia será definido de acordo com o tipo de célula que se tornou anormal. Estima-se que existam mais de 12 tipos de leucemias, sendo as mais comuns a mieloide e a linfocítica (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019a). A manifestação clínica mais comum da leucemia é a alteração das contagens de células do sangue, facilmente detectada mediante solicitação do hemograma. Há uma estimativa de que haja cerca de 10 mil casos novos no Brasil. Linfomas São cânceres originados no sistema linfático do organismo, podendo ser nos gânglios, linfonodos ou tecidos com função de imunidade. O mais comum na faixa etária infanto-juvenil é o linfoma de Hodgkin. Esse câncer é caracterizado pelo aumento dos linfonodos, normalmente palpáveis, endurecidos, imóveis e indolores (BRASIL, 2017). Estima-se que os linfomas representem mais de 15% dos tumores dessa faixa etária (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2016). A sua taxa de mortalidade é de 0,35 e 0,25 a cada 100 mil habitantes para homens e mulheres, respectivamente (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019a). Tumores sólidos Tumores do sistema nervoso central O segundo tumor mais comum na infância (BRASIL, 2017) classifica-se como a formação de células cancerígenas localizadas no sistema nervoso central (cérebro e medula espinal), comum em crianças, classificado como medu- loblastomas e neuroblastomas. É normalmente diagnosticado por meio de exames de imagem (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019a) e tem um risco Cuidados de enfermagem em criança com câncer 3 estimado de 5,61 casos para cada 100 mil indivíduos do sexo masculino e 4,85 a cada 100 mil do sexo feminino (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019a). Massas abdominais Caracterizam-se pela presença de tumores sólidos na região abdominal, nor- malmente palpáveis. Nem toda massa abdominal tem característica maligna, como a hepatoesplenomegalia (aumento dos órgãos abdominais devido a alguma infecção ou disfunção orgânica) e as malformações. Essa condição normalmente é associada a dores abdominais frequentes, sintomas gastrin- testinais e aumento do volume abdominal (BRASIL, 2017). Estima-se que os tipos mais comuns possam chegar a uma taxa de incidência de cerca de 1,07 e 0,92 por milhão para faixa de 0 a 14 anos e de 0 a 19 anos, respectivamente (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2016). Tumores oculares A incidência dos tumores oculares é de cerca de 2% a 4% em crianças e ado- lescentes, sendo mais comum abaixo de 4 anos de idade. O retinoblastoma é definido como tumor em região ocular, normalmente na forma unilateral, e seu sinal clínico mais comum é o “reflexo de olho de gato”, facilmente visualizado durante consultas de rotina, e pode apresentar sinais de alteração visual e estrabismo (BRASIL, 2017). Em cerca de 10% dos casos diagnosticados havia histórico da doença na família (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2011). No Brasil, a taxa de incidência na faixa etária de 0 a 14 anos é de 6,6 por milhão (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2016). Tumores ósseos Comum na faixa etária de 15 a 19 anos, trata-se de um tumor em tecidos ósseos, como os sarcomas de Ewing e o osteossarcoma (BRASIL, 2017; INS- TITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2016). A maior característica é a dor no local acometido, podendo haver o aumento da região e a presença de lesões. A incidência dos tumores da família Ewing, no Brasil, é estimada em 7,19 por milhão, e a do osteossarcoma é de 4,13 casos por milhão para os grupos de 0 a 19 anos (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2016). Cuidados de enfermagem em criança com câncer4 Tumores de partes moles Chamados de sarcomas extraósseos, são comuns na faixa etária infantil e podem acometer diversas áreas do corpo. Sua nomenclatura, classificação e sintomas dependerão da localização do tumor; normalmente há aumento do local acometido, dor local, hemorragias, alterações respiratórias ou gas- trintestinais. Estima-se que 25% dos casos desenvolvem metástase (BRASIL, 2017). A incidência é de 6,67e 7,54 por milhão, no Brasil, na faixa de 0 a 14 anos e de 0 a 19 anos, respectivamente (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2016). O número de casos novos de câncer infanto-juvenis esperados para o Brasil, para cada ano do triênio 2020-2022, é de 4.310 no sexo masculino e de 4.150 para o sexo feminino. Esses valores correspondem a um risco estimado de 137,87 casos novos por milhão no sexo masculino e de 139,04 por milhão para o sexo feminino (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019a). Características clínicas do câncer infantil Os sinais e sintomas do câncer na infância e adolescência podem ocorrer de forma indefinida e, muitas vezes, são parecidos com os de infecções comuns da idade. O prognóstico positivo para qualquer tipo de câncer, em especial do grupo infanto-juvenil, dependerá da habilidade e expertise do profissional que acolherá esse indivíduo mediante seus primeiros sintomas inespecíficos para conseguir identificar esses sinais de forma rápida. Sabe-se que, em todo tipo de câncer, quanto mais rápido se identificar e se iniciar o tratamento, maiores serão a sobrevida do paciente e as chances de não ter ocorrido metástase. No entanto, o tipo, a localização e o estadia- mento do tumor também serão fatores importantes que definirão maiores ou menores chances de sobrevida (BRASIL, 2017). Vejamos as principais manifestações clínicas do câncer infanto-juvenil no Quadro 1. Cuidados de enfermagem em criança com câncer 5 Quadro 1. Manifestações clínicas do câncer infanto-juvenil Tipo de câncer Principais manifestações clínicas Possíveis tratamentos Leucemias � Baixas contagens de células do sangue � Palidez palmar ou conjuntival grave � Fadiga � Irritabilidade � Sangramentos anormais sem causa definida � Esplenomegalia � Equimoses (manchas roxas na pele) � Quimioterapia � Radioterapia � Transplante de medula óssea Linfomas � Aumento de gânglios � Massa mediastinal com presença de dificuldade respiratória � Febre sem causa determinada, perda de peso e sudorese noturna � Alterações em duas ou mais séries do hemograma � Hepatoesplenomegalia � Adenomegalia dura, indolor e aderida aos planos profundos � Quimioterapia � Radioterapia � Cirurgia Tumores do sistema nervoso central � Cefaleia � Vômitos matinais � Alteração da força muscular � Tonturas � Alterações na visão � Estrabismo � Convulsão sem febre nem doença de base � Paraparesia, ataxia, hemiplegia � Perda do equilíbrio ao caminhar � Alteração do nível de consciência � Quimioterapia � Radioterapia � Cirurgia (Continua) Cuidados de enfermagem em criança com câncer6 Tipo de câncer Principais manifestações clínicas Possíveis tratamentos Massas abdominais � Aumento abdominal � Hepatomegalia e esplenomegalia � Dor abdominal crônica recorrente � Massa abdominal suspeita, dificuldade de exame da criança � Sinais e sintomas constitucionais: palidez, dor generalizada, perda de peso, febre, linfadenomegalia, hematomas, etc. � Hematúria � Hipertensão arterial � Virilização � Síndrome de Cushing: fácies em lua cheia, obesidade, hipertensão arterial, acne, estrias e fraqueza � Alteração do hábito intestinal � Quimioterapia � Radioterapia � Cirurgia Tumores oculares � Branqueamento de pupilas � Estrabismo com aparecimento súbito � Alteração na visão � Irritação ocular � Alteração visual � Dores de cabeça e vômitos � Proptose, protusão ocular � Glaucoma � Quimioterapia � Radioterapia � Cirurgia Tumores ósseos � Dores ósseas � Edemas em membros � Sinais de rarefação e lise óssea: lesões osteolíticas � Reação periosteal: espessamento ou ruptura da linha do periósteo � Quimioterapia � Radioterapia � Cirurgia (Continua) (Continuação) Cuidados de enfermagem em criança com câncer 7 Tipo de câncer Principais manifestações clínicas Possíveis tratamentos Tumores de partes moles � Edemas em membros � Aumento de volume em qualquer região do corpo com sinais de inflamação � Tumor localizado no tronco, membros ou virilha (incluindo os testículos), ao redor dos olhos, no ouvido ou seios paranasais podem causar dor de ouvido, na bexiga ou da próstata (podem ter sangue na urina) � Tumor na vagina pode provocar hemorragia vaginal � Alteração dos movimentos intestinais: vômitos, dor abdominal ou constipação � Olhos ou pele amarelados � Quimioterapia � Radioterapia � Cirurgia Fonte: Adaptado do Graham et al. (2015). É ideal dar-se maior atenção a indivíduos com perda de peso nos últimos meses, sangramentos (hemoptise, epistaxe, hematúria), dores inexplicáveis, alterações neurológicas, alterações visuais, palidez, febre inespecífica, ede- mas, caroços indolores, letargia e fadiga. Sabe-se que o câncer pediátrico não tem muitos fatores de riscos associa- dos, além do fator genético e da situação de exposição a agentes cancerígenos. As crianças estão em constante crescimento, com rápida multiplicação das células, que podem desencadear e acelerar o processo do câncer, sendo assim, pouco se sabe ainda sobre como prevenir. A seguir, listamos algumas recomendações a serem seguidas pelo profissional. � Dar atenção às informações passadas pelos pais, pois, por estarem próximos à criança, poderão descrever de forma precisa o início e s permanência dos sintomas. � Para casos que chamem atenção ou que retornem com frequência, dar maior apoio e marcar consultas de forma multiprofissional. (Continuação) Cuidados de enfermagem em criança com câncer8 � Discutir casos suspeitos de forma multidisciplinar, buscar apoio de outros profissionais para um melhor plano de cuidados. � Encaminhar casos suspeitos para o centro de referência de atendimento oncológico pediátrico. � Trabalhar a referência e a contrarreferência com o oncologista para acompanhamento do caso. � Oferecer escuta ativa, acesso a cuidados psicológicos, informação sobre direitos dos recursos sociais disponíveis e apoio à família em fase de diagnóstico e tratamento do câncer infanto-juvenil. Tratamentos do câncer e suas implicações Os tratamentos de câncer no Brasil estão garantidos pelo Sistema Único de Saúde pela Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/90), que garante prevenção, acolhimento, assistência ao diagnóstico, assistência terapêutica, tratamento e acompanhamento. O tipo de tratamento será definido a partir do diagnóstico do tipo, do estadiamento e da localização do tumor, por meio das características clínicas associadas aos exames laboratoriais e de imagem. Existem quatro principais tipos de tratamento para o câncer: quimioterapia, radioterapia, cirurgia e transplantes de medula. Quimioterapia É a forma de tratamento sistêmico do câncer, na qual se aplica ao paciente químicos antineoplásicos que serão definidos pelo médico, bem como quantas sessões e o tipo de medicação. O protocolo a ser seguido dependerá do tipo de câncer, de seu estágio, do comprometimento e da resposta do paciente ao tratamento (GRAHAM et al., 2015). É normalmente o tratamento de escolha para os casos infanto-juvenis. Pode ter finalidade curativa (eliminação do tumor), potencializadora (associada à radioterapia), paliativa (sem objetivo curativo, apenas para minimizar sintomas ou reduzir tumor), adjuvante (após radioterapia e cirurgia) e neoadjuvante (antes do tratamento principal) (INS- TITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2008). Cuidados de enfermagem em criança com câncer 9 Os químicos antineoplásicos classificam-se em (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2008): � alquilantes (altera cadeias do DNA da célula, impedindo a multiplicação); � antimetabólicos (bloqueiam produção enzimática); � antimitóticos (interferem na fase mitótica da célula); � topoisomerase-interativos (interferem na síntese do DNA); � antibióticos antitumorais (impede duplicação das cadeias de DNA e RNA). Os medicamentos podem ser administrados de forma oral, intramuscular, intravenosa ou intratecal. Seus efeitos precisam ser constantementemonito- rados para evitar algum tipo de intoxicação, uma vez que o tratamento pode durar até 3 anos (GRAHAM et al., 2015). Por ser um tratamento sistêmico, apresenta uma gama de reações, como queda intensa de cabelo, vômitos e náuseas, perda de peso, fraqueza, diar- reias, etc. (NASCIMENTO et al., 2020). As repercussões psicológicas podem ser fortes durante o tratamento e o processo da doença, que se devem ao seu impacto na saúde do indivíduo, seus intensos efeitos colaterais, à necessi- dade de isolamento social devido aos riscos imunológicos, à permanência em ambiente hospitalar longe da escola, de hobbies, à falta de privacidade e conforto. Radioterapia Tratamento com utilização de raios ionizantes com intenção de destruir ou diminuir o crescimento do tumor, levando à diminuição da multiplicação da célula cancerígena. É um tratamento mais local, ou seja, depende da loca- lização do tumor e é focalizado naquela região. Pode ser externa (por meio de focos que irradiam e são posicionados próximos à região a ser tratada) ou interna, quando é aplicada por meio de cateteres cujo foco radioativo é colocado em uma ponta para que irradie próximo à área a ser tratada (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019b). A radioterapia interna é dividida em: teleterapia (a curta distância de fonte que emite a radiação) e braquiterapia (as fontes radioativas são colocadas dentro de reservatórios e aplicados próximo ao tumor) (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2008). A radioterapia pode, ainda, ser dividida em: radiações ionizantes em cor- pusculares e eletromagnéticas. As radiações ionizantes têm massa e carga e cedem sua energia quando há colisões com os átomos do meio em passa Cuidados de enfermagem em criança com câncer10 e, a depender dessa energia, pode-se atingir até dois centímetros do tecido. Já as radiações eletromagnéticas são ondas de alta energia que não têm massa ou carga e liberam sua energia por meio de decaimentos, podendo ser raios gama ou raios X (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2008). Por apresentar muitas reações adversas, a radioterapia não é um trata- mento de primeira escolha, mas pode ser associado a outros. As reações mais comuns são: perda do olfato ou paladar, dor ao engolir, reações dérmicas, cansaço, falta de apetite, náuseas, alterações gastrintestinais, perda de pelos, prurido (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019b). Cirurgia Estima-se que 60% dos pacientes com câncer realizam algum tipo de cirurgia como forma de tratamento. O objetivo é a remoção parcial ou total do tumor e de seus anexos, evitando a disseminação da doença. Normalmente é indicada para tumores sólidos e tem melhor prognóstico quando realizada nos casos iniciais da doença (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2008). As cirurgias oncológicas são normalmente associadas à quimioterapia e à radioterapia. Ainda podem ser consideradas como tratamento paliativo para descompressão de órgãos e vias, controle de hemorragias e perfurações, retirada de lesão, dentre outros, com objetivo de melhorar a qualidade de vida e obter alívio da dor, sem visar à cura (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2008, 2011). Existem várias técnicas cirúrgicas que se tornaram tratamento do cân- cer. Pode-se observar grandes avanços na área cirúrgica de neoplasias nos últimos anos (GRAHAM et al., 2015), como a microscopia transoperatória, o aspirador tecidual ultrassônico, o uso de laser de CO2, a ressecção estereo- tática computadorizada e a eletrocorticografia. Essas tecnologias permitem o diagnóstico do tumor durante o procedimento cirúrgico e a visualização do tumor e seus anexos em regiões delicadas para facilitar a retirada sem grandes danos ao tecido e, consequentemente, promovem melhor recuperação e bons prognósticos (GRAHAM et al., 2015; JERÓNIMO et al., 2011; LIMA, 2014). Transplante de medula óssea Também conhecido como transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH), é um tratamento comum para neoplasias hematológicas, no qual ha- verá a troca da medula óssea doente por uma medula saudável. Para receber a medula, é preciso encontrar alguém compatível para que não haja rejeição Cuidados de enfermagem em criança com câncer 11 do novo material, que pode ser da família ou ser algum doador cadastrado no banco de dados de doação de medula óssea, chamado de Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME). O cadastro de pessoas que necessitam do transplante é feito no Registro Nacional de Receptores de Medula Óssea (REREME) (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019b). O transplante é classificado em três tipos: � autogênico — no qual as células-tronco são retiradas do próprio pa- ciente e reinfundidas; � singênico — as células-tronco são obtidas por meio de irmão gêmeo idêntico, sendo a forma mais segura e com menor rejeição. � alogênico — por meio de um doador com histocompatibilidade, que pode ser parente ou não. A coleta pode ser realizada por meio de cirurgia, na qual são usadas agulhas para aspirar a medula de ossos da bacia do doador. Outro tipo é chamado de coleta aférese, no qual o doador faz uso de uma medicação com o objetivo de aumentar o número de células-tronco circulantes no seu sangue e, após esse período, coleta-se o sangue da veia do doador; este é considerado um procedimento mais simples, sem necessidade cirúrgica (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019b). Os riscos do transplante são de rejeição da medula doada e reações autoimunes (as novas células atacarem o próprio corpo). Os riscos para o doador são mínimos, requerendo uma boa avaliação pré-cirúrgica para evitar complicações (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019b). As principais reações adversas por parte do indivíduo que recebeu o trans- plante são: febre, tosse, falta de ar, alteração gastrintestinal, reação tópica, dores e predisposição a infecções (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 2019b). Para se tornar um doador de medula óssea é necessário ter entre 18 e 35 anos de idade, estar em bom estado geral de saúde, não ter doença infecciosa ou incapacitante, não apresentar doença neoplásica (câncer), hematológica (do sangue) ou do sistema imunológico. Vale salientar que algumas complicações de saúde não são impeditivas para doação, sendo analisado caso a caso. Cuidados de enfermagem em criança com câncer12 Cuidados paliativos A Portaria nº 874/2013, instituiu a Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer na Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas no âmbito do Sistema Único de Saúde. Ela garante a assistência ao paciente com câncer desde o diagnóstico até o fim da vida, incluindo os cuidados paliativos. Para casos em que não há possibilidade de reversão, o cuidado paliativo entrará como forma de melhorar a qualidade de vida do paciente, oferecendo alívio da dor, conforto e trabalho da espiritualidade (ALMEIDA et al., 2011). O câncer infanto-juvenil é uma das maiores causas de mortes dessa faixa etária, apesar de, nessa idade, a evolução até a cura ser mais comum. A maior ação para o controle do câncer infanto-juvenil está no diagnóstico precoce da doença e no tratamento imediato. Sendo assim, ressalta-se a importância da formação dos profissionais de saúde para identificação precoce. Para exercitar o conteúdo do capítulo, analise o caso a seguir. MHP, 14 anos, chegou à unidade com seu pai, que refere que a adoles- cente tem reclamado de muitas dores no pé direito, as quais permanecem por dias, mesmo após uso de formas de alívio. Veio à unidade hoje, pois há alguns dias notou aumento na região e permanência da dor. Quais perguntas seriam relevantes realizar durante essa consulta? Referências ALMEIDA, M. A. et al. (org.). Processo de enfermagem na prática clínica: estudos clínicos realizados no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Porto Alegre: Artmed, 2011. BRASIL. Lei nº 8080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outrasprovidências. Brasília: MS, 1990. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 874, de 16 de maio de 2013. Institui a Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer na Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Brasília: MS, 2013. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de diagnóstico precoce do câncer pediátrico. Brasília: MS, 2017. GRAHAM, D. K. et al. Doença neoplásica. In: HAY JR., W. W. et al. (org.). CURRENT pediatria: diagnóstico e tratamento. 22. ed. Porto Alegre: AMGH, 2015. p. 990–1021. Cuidados de enfermagem em criança com câncer 13 INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. ABC do câncer: abordagens básicas para o controle do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2020. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Ações de enfermagem para o controle do câncer: uma proposta de integração ensino-serviço. 3. ed. Rio de Janeiro: INCA, 2008. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Cartilha: radioterapia. Rio de Janeiro: INCA, 2019b. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Estimativa 2020: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2019a. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Incidência, mortalidade e morbidade hospitalar por câncer em crianças, adolescentes e adultos jovens no Brasil: informações dos registros de câncer e do sistema de mortalidade. Rio de Janeiro: INCA, 2016. JERÓNIMO, A. et al. Cirurgia laser CO2 no tratamento de tumores malignos glóticos. Revista Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Lisboa, v. 49, n. 4, p. 235–241, 2011. LIMA, B. O. Neoplasias do sistema nervoso central na infância: novas perspectivas e abordagens. Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria, Salvador, v. 18, n. 2, p. 139–147, 2014. NASCIMENTO, A. S. M. et al. Câncer infantojuvenil: perfil dos pacientes atendidos na unidade de alta complexidade em oncologia (UNACON) em Rio Branco – Acre, Bra- sil, no ano de 2017. Arquivos de Ciências da Saúde da UNIPAR, Umuarama, v. 24, n. 1, p. 35–39, 2020. Leituras recomendadas CAPRINI, F. R.; MOTTA, A. B. Câncer infantil: uma análise do impacto do diagnóstico. Psicologia: Teoria e Prática, São Paulo, v. 19, n. 2, p. 164–176, 2017. PAIXÃO, T. M. et al. Detecção precoce e abordagem do câncer infantil na atenção primária. Revista de Enfermagem UFPE on line, Recife, v. 12, n. 5, p. 1437 –1443, 2018. Cuidados de enfermagem em criança com câncer14