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W BA 10 59 _V 1. 1 SAÚDE COLETIVA: HISTÓRIA E CONCEITOS 2 Josiane Moreira Germano Mariana da Silva Castro Vianna São Paulo Platos Soluções Educacionais S.A 2022 SAÚDE COLETIVA: HISTÓRIA E CONCEITOS 1ª edição 3 2022 Platos Soluções Educacionais S.A Alameda Santos, n° 960 – Cerqueira César CEP: 01418-002— São Paulo — SP Homepage: https://www.platosedu.com.br/ Head de Platos Soluções Educacionais S.A Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Camila Braga de Oliveira Higa Camila Turchetti Bacan Gabiatti Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Tayra Carolina Nascimento Aleixo Coordenador Camila Turchetti Bacan Gabiatti Revisor Nathalia Assis Augusto Editorial Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Germano, Josiane Moreira Saúde coletiva: história e conceitos / Josiane Moreira Germano, Mariana da Silva Castro Vianna. – São Paulo: Platos Soluções Educacionais S.A., 2022. 32p. ISBN 978-65-5356-099-4 1. Atuação. 2. Construção. 3. Fundamentos. I. Vianna, Mariana da Silva Castro. II. Título. CDD 610.7 _____________________________________________________________________________ Evelyn Moraes – CRB: 010289/O G373s © 2022 por Platos Soluções Educacionais S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Platos Soluções Educacionais S.A. https://www.platosedu.com.br/ 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Preventivismo, Medicina Social e Saúde Coletiva _____________ 07 Saúde Coletiva e Saúde Pública ______________________________ 19 Eixos da Saúde Coletiva ______________________________________ 31 Formação e atuação profissional em saúde coletiva _________ 43 SAÚDE COLETIVA: HISTÓRIA E CONCEITOS 5 Apresentação da disciplina Prezado (a) aluno (a), Na disciplina Saúde Coletiva–história e conceitos, estudaremos como se deu a construção histórica e social da saúde no Brasil. Veremos como houve a incorporação do pensamento social na saúde e quais foram suas contribuições para a emergência do Sistema Único de Saúde (SUS), tido como um sistema universal, equânime e integral. Nem sempre foram considerados os determinantes sociais da saúde (condições de moradia, emprego, fatores ambientais, políticos econômicos, hábitos de saúde, saneamento básico) no processo de adoecimento do indivíduo e das populações. Então, falaremos desses aspectos nesta disciplina. Serão quatro conteúdos programáticos, sendo que o primeiro é o Preventivismo ou Medicina Preventiva, Medicina Social e Saúde Coletiva, com movimentos importantes para conhecermos as bases que auxiliaram na ampliação dos cuidados em saúde das populações, compreendendo saúde para além da ausência de doença e a garantia do Estado na proteção à saúde de sua população. Você sabia que a saúde se tornou um direito, no Brasil, na década de 1980? Veremos sobre isso. O segundo conteúdo será Saúde Coletiva e Saúde Pública. Estudaremos os conceitos, as apostas de cada um deles, que são facilmente confundidos. Aprenderemos quais são as correntes de pensamento da Saúde Pública, que dizem respeito ao diagnóstico e tratamento de doenças com o objetivo de assegurar uma boa qualidade do indivíduo dentro da comunidade. Enquanto, a Saúde Coletiva se estabeleceu no Brasil, a partir da década de 1960, como efeito de debates da Medicina Social, 6 Ciências Sociais, influenciando diretamente no próprio movimento de reforma da saúde no Brasil, o Movimento Sanitário. O terceiro conteúdo será os Eixos da Saúde Coletiva. Veremos como funciona a Saúde Coletiva como campo de conhecimento estruturado, em três pilares: epidemiologia; política, planejamento e gestão em Saúde; e, Ciências Sociais em Saúde. A articulação desses três eixos, mostrará como os problemas devem servir de ferramentas para o planejamento de políticas a nível local, regional e nacional, levando em consideração as questões socioculturais ambientais e políticas que abarcam os indivíduos . Por fim, fecharemos a disciplina com o tema Formação e atuação profissional em Saúde Coletiva. O conteúdo deste assunto visa demonstrar os possíveis campos de atuação, uma vez que a Saúde Coletiva abarca uma multiplicidade de fatores, como anunciado nos Conteúdos Programáticos acima. Tenha um excelente tempo de estudo, aprendizagem e reflexões! 7 Preventivismo, Medicina Social e Saúde Coletiva Autoria: Josiane Moreira Germano Leitura crítica: Nathalia Assis Augusto Objetivos • Apresentar os conceitos de medicina preventiva, medicina social e saúde coletiva. • Conhecer a incorporação do pensamento social na área da saúde e as ressonâncias na saúde coletiva. • Refletir a respeito das contribuições desses movimentos na construção do Movimento de Reforma Sanitária Brasileiro. 8 1. Apresentação do conteúdo desta Leitura Digital Nesta Leitura Digital abordaremos conceitos e propostas que foram importantes para a construção do pensamento social em saúde. Você sabia que nem sempre os aspectos sociais eram levados em consideração no processo saúde-doença das populações? E o que é processo saúde-doença? Também vamos falar dele. Você também conhecerá as influências do preventivismo no ensino em saúde, especialmente nas escolas médicas, na década de 1970, com a criação dos departamentos de medicina preventiva, medicina social ou medicina comunitária, como são conhecidos. Além disso, veremos a emergência da medicina social e da saúde coletiva como contrapontos ao modelo biomédico. Vamos iniciar os estudos. Boa leitura! 2. Conhecendo os conceitos de Medicina Preventiva, Medicina Social e Saúde Coletiva Antes de adentrar no assunto diretamente, vale a pena contextualizar como chegamos ao preventivismo e à medicina social no Brasil. No cenário da saúde no âmbito nacional, especialmente no final do século XIX e início do século XX (período colonial), as ações em saúde eram bastante restritas e. Mediante a exportação de matéria-prima, houve a necessidade de controle sanitário dos portos para preservação do ambiente, e nota-se que essa prática tinha por objetivo o controle de insetos e do ambiente no geral. A assistência à população pobre tem um grande apoio da filantropia, enquanto a corte, abastada, pagava por médicos e remédios. Dessa maneira, o processo saúde-doença era visto 9 apenas com a presença de alguma enfermidade, ou seja, quando se manifestava algum sintoma clínico. A medicina preventiva, também conhecida como preventivismo, surgiu nos Estados Unidos (EUA) nos anos 1940, e podemos considerá-la uma crítica a um tipo de medicina que se alcunhou na fragmentação e na especialização. Também conhecida como modelo biomédico (vamos entender esse modelo mais à frente, quando falarmos de processo saúde-doença), tinha foco nas práticas clínicas. O preventivismo, preocupado com a formação biologicista, teceu várias críticas ao modelo pedagógico das escolas médicas. O fruto desse movimento, que teve o apoio da Organização Pan- Americana da Saúde, culminou nos anos 1960 na implementação dos preventivistas em muitas escolas médicas na América Latina e no Brasil. Hoje, universidades como a Universidade de São Paulo e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro ainda apresentam os Departamentos de Medicina Preventiva e Instituto de Medicina Social, respectivamente, que são frutos desse período, quando o movimento ganhou visibilidade no país. O intuitode inserir essas disciplinas inaugurou a perspectiva biopsicossocial e a atuação pedagógica para além dos muros hospitalares, criando trabalhos comunitários (NUNES, 2007). Ainda na década de 1960, chega na América Latina a medicina comunitária, que também surgiu nos EUA. Essa proposta levava em consideração as desigualdades na cobertura de assistência médica às populações mais vulnerabilizadas. Em resposta a essa fragilidade de acesso à prestação de cuidados básicos em saúde, surgem centros comunitários. Já a medicina social chegou na América Latina entre o final da década de 1960 e o início de 1970. Com ela, observamos a valorização do social no processo saúde-doença, cujo foco era a prevenção de doenças e a promoção da saúde (OSMO; SCHRAIBER, 2015), com o objetivo de 10 superar o modelo biomédico que despreza os fatores socioeconômicos em suas abordagens. Esse movimento nasceu na Europa, em meados do século XIX, e as proposições desta aposta de medicina como ciência social empregava os seguintes princípios no pensamento sanitarista: 1. Saúde das pessoas como um assunto de interesse societário e a obrigação da sociedade em proteger seus membros; 2) Que as condições sociais e econômicas têm um impacto crucial sobre a saúde e a doença e estas devem ser estudadas cientificamente; 3) Que as medidas a serem tomadas para a proteção da saúde são tanto sociais quanto médicas. (NUNES, 2007, p. 296) Nota-se que esses princípios fortaleceram os debates acerca das relações entre saúde e sociedade no país, o que auxiliou na sistematização dos conhecimentos no campo da medicina social e, posteriormente, na saúde coletiva. Curiosidade: você sabia que, no Brasil, a saúde foi considerada um direito nos anos 1980? De acordo com o art. 196 da Constituição Federal de 1988: A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem a redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. (BRASIL, 1988, [s. p.]) Portanto, observamos que tanto a medicina preventiva quanto a medicina social foram construindo seus territórios próprios ao mesmo tempo que ampliavam suas fronteiras. Não foi diferente para a saúde coletiva. Esta engloba lutas coletivas, a saúde pública, e valoriza a dimensão social, constituindo-se como um campo de conhecimentos políticos. Percebemos que o conceito de saúde coletiva ainda não tem um consenso, então vamos dizer que saúde coletiva é um conceito 11 polissêmico, ou seja, que pode ser interpretado de diversas formas. Por isso, é marcado por tensões metodológicas, epistemológicas e, assim, não tem a pretensão de unificar uma teoria explicativa dos fenômenos. A única certeza que temos são as críticas ao saber universalista médico e a concepção de saúde pública. Para Nunes (2007): […] parece uma boa ideia para entender a Saúde Coletiva, mas a imagem que associo ao entendimento de campo é a de um mosaico–conjunto formado por partes separadas mas, que se aproximam quando a compreensão dos problemas ou a proposta de práticas se situam além dos limites de cada “campo disciplinar”, exigindo arranjos interdisciplinares. (NUNES, 2007, p. 305) Observamos que a saúde coletiva é diversa e complexa, refletindo o próprio conceito ampliado de saúde em suas múltiplas dimensões. Suas três grandes áreas são: Ciências Sociais e Humanas; Epidemiologia e Política Planejamento; e Gestão. Veja a aposta de cada uma delas a seguir (NUNES, 2007; PAIM; TEIXEIRA, 2006): Ciências Sociais e Humanas • Contempla as áreas de antropologia, sociologia, política, história, filosofia, artes, ética, estética. • Ajuda na compreensão dos processos de viver, morrer, adoecer e do trabalho. • Visa articular biológico, social e cultural. Epidemiologia • Investigação científica, (iniciada por John Snow no século XIX). 12 • Metodologia quantitativa. • Estudo de causa e efeito de eventos relacionados à saúde. • Engloba disciplinas do social, da demografia e da geografia, entre outras. Política, Planejamento e Gestão • Conjunto coordenado de ações visando à consecução de um determinado objetivo. • Estudos das estratégias de enfrentamento de problemas e dos mecanismos de implementação de políticas; e estudos teóricos e metodológicos para construção de planos, programas e projetos. Conhecemos os conceitos de medicina preventiva, medicina social e saúde coletiva. A seguir, veremos a imbricação desses conceitos na construção do pensamento social na saúde. 3. Pensamento social na saúde: ressonâncias do processo saúde-doença Quando perguntamos a alguém sobre saúde, geralmente ouvimos como resposta “está tudo bem, não precisei tomar medicamentos nos últimos tempos” ou ainda “está tudo bem, não tenho ficado doente nos últimos meses, nem precisei ir ao médico”. Caso contrário, sabemos que a resposta seria outra: a pessoa não estava gozando de boa saúde. Sabemos que esse pensamento é resultado de um lema histórico de que ter saúde é não estar doente. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), saúde é um estado completo de bem-estar físico, mental 13 e social (SEGRE; FERRAZ, 1997). É possível estarmos nessa dimensão constantemente? Situações diversas podem nos trazer indisposição, alegria ou ansiedade. Por vezes nosso corpo não apresenta sintoma fisiopatológico algum, mas os atravessamentos da vida são tão complexos que desanimamos e desestabilizamos. Em outros momentos, estamos alegres e dispostos a cuidar da saúde e da vida. E o que queremos dizer com isso? Que algumas causas são identificáveis e outras não. Com isso, ainda podem ocorrer agravos à saúde que não são identificados e sequer percebidos. Quando analisamos a expressão “está tudo bem, não precisei tomar medicamentos nos últimos tempos”, observamos que a compreensão de saúde se limita à presença ou não de processos fisiopatológicos. Não se consideram outras causas, como preocupação com filhos, desemprego, fome, pobreza e condições de moradia, por exemplo. Como exemplo, toma a seguinte tarefa: entreviste três pessoas, preferencialmente de diferentes idades, e preencha o quadro: Quadro 1 – Processo saúde-doença para as diferentes faixas etárias O que é ter saúde para você? O que significa estar doente? O que afeta a saúde das pessoas? Fonte: elaborado pela autora. Depois de preenchido o quadro, compare as respostas e reflita a respeito desse primeiro aspecto apresentado. Estamos vivendo um momento bastante delicado na saúde pública brasileira devido à pandemia da covid-19. Em meio à transmissibilidade da doença e os agravos e consequências que ela traz, é possível a 14 permanência de um estado completo de bem-estar? Ou a pandemia também trouxe fatores que contribuem para o aparecimento de outras doenças? Um exemplo são os efeitos do isolamento na saúde mental e funcional de idosos; outro são as populações vulnerabilizadas que não podem ou puderam realizar o isolamento social e se expõe/expuseram ao vírus. Esses exemplos mostram quão complexas podem ser as causas do processo de adoecimento, que pode ser multicausal e variar de pessoa para pessoa, a depender da cultura e do meio em que está inserida. Portanto, em algumas localidades do país a falta de saneamento básico e de acesso a água potável pode ser um problema, e algumas doenças passarão a ser recorrentes, como diversas viroses, cujo sintoma comum é a diarreia. Determinadas ocupações também podem se constituir como fator de adoecimento, vide pessoas que trabalham em escavações, ou profissionais de saúde que sofrem com a síndrome de Burnout, também conhecida como estresse no trabalho. O desenvolvimento do conhecimento humano e da ciência permitiu outras abordagens ao processo saúde-doença, e a teoria e prática orientadoras do saber-fazer dos trabalhadores da saúde variam ao longo do tempo. Na Grécia antiga, por exemplo, observava-se que saúde e doençaconstavam dos fenômenos naturais, assim, o estudo da saúde era dirigido ao estudo do ar, da água e do lugar. Vale ressaltar que com a invenção do microscópio, descobre-se que as doenças têm são causadas por micróbios, que são causa visível. Isso também orientou o conhecimento e as novas práticas do processo saúde-doença, a fim de evitar a presença desse agente. Exemplos do pensamento microbiano são as ações preventivas nas campanhas sanitárias e a erradicação de doenças por meio de vacinas. Discutido o processo saúde-doença e entendido que outros fatores são importantes e influenciam esse processo, vamos estudar mais alguns 15 desses fatores: os determinantes sociais da saúde (DSS). Como vimos, saúde é um processo móvel e instável, e a saúde dos indivíduos e do coletivo é influenciada por múltiplas causas (multicausalidade); logo, depende de diversos DSS. Existem alguns determinantes que interferem na saúde e que podem estar relacionados às condições de moradia, asfaltamento, desenvolvimento social e econômico da cidade ou de uma locorregião, e, ainda, relacionam-se à infraestrutura e à oferta de empregos. A ausência de espaços de participação social das pessoas, para necessidades sociopolíticas nos bairros, também é considerada como fator relacionado ao processo saúde-doença. Então, podemos dizer que as condições de vida e de trabalho influenciam diretamente esse processo, além da falta de saneamento básico, de alimentação suficiente, presença de ambientes poluídos e de violência, como já sabemos. Esses fatores levaram à construção do pensamento ampliado na saúde no Brasil. Mas nem sempre foi assim. Vale ressaltar que a área da saúde tem grande influência do paradigma cartesiano. Você já ouviu falar de um filósofo chamado Francis Bacon (1596-1650)? Ele é um dos pais da ciência moderna, e foi um dos primeiros a questionar a natureza por meio do método científico. Para ele, tinha mais valor e era considerado conhecimento seguro o que era advindo da razão e que pudesse ser submetido à experimentação para ser quantificado. E é pela influência do paradigma cartesiano que o modelo biomédico ganha visibilidade na área da saúde. O corpo humano, por conseguinte, passa a ser visto como uma máquina que pode ser analisada em termos de suas peças. Vamos resgatar aquelas expressões citadas anteriormente: “está tudo bem, não precisei tomar medicamentos nos últimos tempos” e “está tudo bem, não tenho ficado doente nos últimos meses, nem precisei ir ao médico”. Elas corroboram com esse modelo, já que a doença é vista como mal funcionamento do corpo. 16 Em um breve recuo histórico à Idade Contemporânea, notamos um olhar fortemente marcado pela ciência positivista (com um caráter matemático, epidemiológico descritivo e microscópico) e mais voltado aos aspectos sociais. Quem nos ajuda a pensar um pouco mais a respeito da medicina social é o filósofo francês Michael Foucault, que em sua obra Microfísica do Poder destinou um capítulo para discorrer sobre o nascimento da medicina social. As etapas da medicina social descritas por Foucault (1984) veremos a seguir: A primeira foi a medicina de Estado, cujo principal exemplo é a Alemanha de meados do século XVIII. • Intervenção do Estado na área da saúde. • Doutrina de governo fortemente centralizadora (entre outras medidas, como as estatizantes e corporativistas). • Normatização do ensino médico e a estatização da medicina (desenvolvimento da noção de polícia médica ou sanitária, com forte viés autoritário). A segunda etapa é a chamada medicina urbana, que tem a França de fins do século XVIII como principal exemplo, e que ocorre em um contexto de grande crescimento das cidades. • Preocupação com as epidemias urbanas, levando à busca do controle sobre a circulação – não dos indivíduos, mas de elementos que poderiam causar doenças no espaço urbano, qualidade do ar e água. • Medicina urbana não é verdadeiramente uma medicina dos homens, corpos e organismos. É chamada de medicina das coisas, das condições de vida e do meio de existência. 17 Já a terceira etapa tem a Inglaterra do século XIX como principal exemplo e diz respeito à medicina da força de trabalho. • Necessidade de tratamento gratuito ou de baixo custo da população pobre. • Garantia de que ricos não fossem vítimas de epidemias. • Foco na redução dos prejuízos da produção industrial. Pode-se observar que, no contexto da medicina, em função do paradigma cartesiano, a quantificação dos fenômenos vitais será supervalorizada para explicar as causas das doenças. Não à toa os dados clínicos dos exames serem expressos por meio dos números. Outra influência desse paradigma é a adoção das medidas de contagem do pulso e a medida da temperatura corporal como práticas comuns, e, então, a estatística torna-se prática central do contexto da saúde. Ressalta-se que a estatística não se limitou aos aspectos vitais individuais; também passou a ser utilizada no contexto social. Não por acaso, a estatística coincide com o surgimento de Estados fortes e centralizadores (LOCK et al., 2017). Dessa maneira, observamos que esse cenário contribuiu para o que discutimos em relação ao pensamento social na saúde, agregando fatores que, outrora, não seriam considerados elementos que poderiam causar problemas de saúde nas populações. Em que pese a adoção do conceito ampliado de saúde pelo SUS e a mudança nos currículos dos cursos, ainda encontramos grandes influências do modelo biomédico hegemônico, constituindo-se, assim, um campo de disputas e de produção de poder, quando se depara com outras perspectivas. Analisamos que o cerne dos debates tensiona um conceito de saúde estático. Os três movimentos apresentados nos mostram outro modo de compreender saúde e doença, produção da vida e do cuidado. 18 Vale ressaltar que essa ampliação do conceito de saúde fortaleceu os debates que movimentaram a luta pela redemocratização da saúde no Brasil, inserindo a saúde como um direito e, ainda, agregando em um dos princípios do SUS a integralidade da atenção, ou seja, o olhar do indivíduo e dos coletivos como um todo. Referências BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em:http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 14 dez. 2021. FOUCAULT, M. O nascimento da medicina social. In: FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Organizado por R. Machado. São Paulo: Graal, 1984. p. 79-98. LOCK, M. R. et al. Aspectos históricos e concepções sobre a Saúde e a Doença. In: ANDRADE, S. M. et al. Bases da Saúde Coletiva. Londrina: Eduel, 2017. p. 529-544. NUNES, E. D. Saúde coletiva: história recente, passado antigo. In: CAMPOS G. W. S. et al. (org.). Tratado de saúde coletiva. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007. p. 305. OSMO, A.; SCHRAIBER, L. B. O campo da Saúde Coletiva no Brasil: definições e debates em sua constituição. Saúde e Sociedade, v. 24, supl. 1, p. 205-218, abr.-jun. 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-12902015S01018. Acesso em: 10 dez. 2021. PAIM, J.; TEIXEIRA, C. F. Política, planejamento e gestão em saúde: balanço do estado da arte. Rev. Saúde Pública, v. 40, n. esp., p. 73-78, 2006. Disponível em: https:// www.scielo.br/j/rsp/a/T59CdBgDQyGf3hqLpZCjyks/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 10 dez. 2021. SEGRE, M.; FERRAZ, F.C. O conceito de saúde. Rev. de Saúde Pública, v.31, n.5, p.538-42. Disponível em: http://dói.org/10.1590/S0034-89101997000600016. Acesso em: 23 mar. 2022. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm https://doi.org/10.1590/S0104-12902015S01018 https://www.scielo.br/j/rsp/a/T59CdBgDQyGf3hqLpZCjyks/?format=pdf&lang=pt https://www.doi.org/ 19 Saúde Coletiva e Saúde Pública Autoria: Josiane Moreira Germano Leitura crítica: Nathalia Assis Augusto Objetivos • Apresentaras perspectivas históricas da saúde pública no Brasil. • Conhecer as contribuições da saúde coletiva como campo emergente para a construção do Sistema Único de Saúde. • Apresentar as ações de saúde pública e saúde coletiva presentes no Brasil na atualidade. 20 1. Apresentação do conteúdo desta Leitura Digital Nesta Leitura Digital, abordaremos a trajetória da saúde pública e da saúde coletiva no Brasil. Você aprenderá as políticas de saúde no país em seus momentos históricos e políticos. Esse resgate ajudará você a entender uma das estratégias mais emblemáticas de saúde pública na atualidade: as campanhas de vacinação como meio de erradicação de doenças e controle de vetores, herdada da República Velha. Também serão apresentados os conceitos de saúde pública e saúde coletiva e, ainda, como a saúde coletiva se consolidou como um campo de saberes e práticas emergente, plural e amplo, para lidar com a saúde das coletividades inserindo a complexidade da vida e as diferenças no cuidado em saúde. Você também entenderá como este mesmo campo de práticas foi importante na construção do Sistema Único de Saúde, o SUS. Então, pronto para iniciar os estudos? Boa leitura! 2. Perspectivas históricas da saúde pública brasileira Discutir o cuidado em saúde no Brasil é algo complexo e ao mesmo tempo interessante. Esse debate necessariamente passa pela filantropia religiosa, que são as ações de caridade. Vale a pena fazer um rápido recuo histórico nas políticas de saúde. É importante dizer que nem sempre as populações que estavam no Brasil por volta de 1500 (ou as que chegaram depois – sejam os africanos escravizados, a corte, a família real ou os colonizadores –, pensando 21 no período escravocrata, por enquanto) tinham o mesmo acesso aos serviços de saúde ofertados. Parte da população, especialmente as pessoas mais pobres e as escravizadas, eram atendidas por casas de caridade, com a filantropia (CARVALHO, 2013). Entre essas populações, as africanas, por pertencerem a outro eixo civilizatório (não ocidental), tinham o seu próprio modo de cuidado em saúde. É interessante enfatizar esse pertencimento a outro eixo civilizatório, pois isso vai ser bem importante quando falarmos das relações dos humanos com o mundo. Deve-se abrir um parêntese: a visão de mundo (cosmovisão), como a própria filosofia, aproximava-os muito mais da natureza, da terra e de práticas mais naturais (assim como as práticas indígenas observadas na atualidade), inseridas nos cuidados em saúde. Cuidar da saúde era também um cuidado com todos esses elementos (água, terra e ar), inclusive com os benefícios que a própria natureza trazia para os corpos e mentes. Práticas indígenas e outras não ocidentais – como algumas da medicina tradicional chinesa –, pelo olhar racionalista-hegemônico, foram e ainda são lidas como conhecimento primitivo ou não científico, por vezes chamado de “mágico religioso”. Por esse pertencimento e cosmovisão, na qual o homem não é dissociado da natureza, o conhecimento não tradicional dessas populações era bastante utilizado, especialmente quando se recorria a ervas, chás, massagens e invocações aos deuses, para se buscar a cura. Observava-se que outro grupo de pessoas, chamadas de boticários, também detinha o conhecimento das ervas, auxiliando as populações mais vulnerabilizadas, inclusive das zonas rurais. As concepções de cuidado, saúde, doença, corpo e mente passaram por várias mudanças ao longo dos períodos históricos: por exemplo, é na Idade Contemporânea que se percebe a junção de múltiplos olhares acerca dos fenômenos do processo saúde-doença (ao longo do texto, 22 você vai estudar que uma visão múltipla e dinâmica será crucial no pensamento da saúde coletiva e na construção do SUS para os diversos processos que englobam o adoecer e a produção de saúde no mundo). Voltando para as populações mais abastadas da sociedade brasileira no período escravocrata, a corte recorria a médicos e medicamentos, e contava com a tecnologia mais sofisticada para cuidados em saúde e cirurgias, especialmente de médicos formados na Europa, destinados a cuidar dessa população. Percebemos, então, que o acesso à saúde também terá a sua diferenciação pela riqueza, pela classe social e pela função que se exerce na sociedade – como trabalhadores com carteira assinada, um pouco mais tarde, nos anos 1920. Curiosidade: você sabia que a questão do acesso à saúde no Brasil vai ser um dos grandes debates no Movimento de Reforma Sanitária (nos anos 1970) que deu origem ao SUS? A luta era para a garantia da saúde como um direito de todos, convocando o Estado para a garantia de ações que permitiriam o acesso à saúde para todo e qualquer cidadão brasileiro, independentemente da classe social. Então, no Brasil, a saúde é um direito de todos há mais de 30 anos, expresso em um dos princípios do SUS, que é a universalidade. Na modernidade, identificamos a origem da medicina social (que nasceu na Europa no século XIX), visando ao controle da sociedade sobre os indivíduos por meio dos corpos humanos. A preocupação da medicina social englobava diversos aspectos presentes em três países da Europa: mudanças nas condições ambientais, especialmente relacionadas às fábricas (Inglaterra), planejamento da cidade, por meio da medicina urbana (França), e a medicina de Estado (Alemanha), que apostava na imposição do controle estatal do comportamento dos indivíduos (SOUZA, 2014). Diversos movimentos em outras partes do mundo são construídos influenciados pela medicina social, como a criação do Departamento 23 Nacional de Saúde, nos Estados Unidos no final do século XIX, que teve grande influência do modelo de saúde pública inglês. As ações eram voltadas para o saneamento e controle de doenças infecciosas com forte influência da bacteriologia, descoberta por Pasteur. O Brasil, durante a República Velha, também foram adotadas medidas de saneamento nos espaços de circulação do café, e era papel do Estado a realização de ações que visavam ao controle de epidemias. Essas ações são conhecidas: campanhas de vacinação e ações de saneamento básico, e foram tomadas especialmente para o fortalecimento do mercado de exportação, na limpeza de portos e aeroportos. Esse modelo de saúde também é conhecido como sanitarismo campanhista. No mesmo período houve uma das campanhas mais emblemáticas da história: a campanha contra a febre amarela, no Rio de Janeiro, sob o comando do médico sanitarista Oswaldo Cruz. Ele percebeu que o índice de mortalidade era muito diferente em lugares onde o saneamento básico era mais precarizado, portanto, observou que os fatores ambientais estavam diretamente relacionados à ocorrência de doenças e mortes (CARVALHO, 2013). Entre os marcos da história da saúde pública brasileira, foram implementadas, a partir do Estado Novo, campanhas sanitárias via programas de saúde pública pelo Ministério da Educação e Saúde Pública, que passará a se chamar Ministério da Saúde em 1953. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil foi fortemente influenciado pelo modelo norte-americano de organização dos programas de saúde pública, sendo um deles a criação do Serviço Especial de Saúde Pública, o SESP, que visava à proteção dos trabalhadores envolvidos na extração da borracha natural na Amazônia. As ações do SESP englobaram técnicas educacionais na área da saúde. Foram introduzidas ações de educação em saúde de grupos, recursos audiovisuais e o trabalho com a 24 comunidade, assim como ações individuais e atendimentos de urgência e emergência (SILVA et al., 2010). Em relação às ações de Saúde Pública, observamos que a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) elencou onze ações essenciais de saúde pública, que são: 1. Monitoramento, análise e avaliação da situação de saúde; 2) Vigilância, investigação, controle de riscos e danos à saúde; 3) Promoção da saúde; 4) Participação social em saúde; 5) Desenvolvimento de políticas e capacidadeinstitucional de planejamento e gestão pública da saúde; 6) Capacidade de regulação, fiscalização, controle e auditoria em saúde; 7) Avaliação e promoção do acesso equitativo da população aos serviços de saúde necessários; 8) Administração, desenvolvimento e formação de recursos humanos em saúde; 9) Promoção e garantia da qualidade dos serviços de saúde; 10) Pesquisa e incorporação tecnológica em saúde; 11) Condução da mudança do modelo de atenção à saúde. (SOUZA, 2014, p. 16) Muitas foram as ações de construção da saúde pública no Brasil. Vimos que o Estado tinha como foco as ações coletivas, como as campanhas de vacinação e o controle sanitário, enquanto outros sistemas de saúde eram construídos paralelamente, alinhados ao setor privado, como planos de saúde para trabalhadores de carteira assinada, médicos privados em consultórios particulares, hospitais privados fomentados pela industrialização e ampliação do complexo médico hospitalar, e a manutenção dos serviços filantrópicos para as populações menos abastadas. Ou seja, formavam-se múltiplos sistemas de saúde, e a saúde era tida como um bem de consumo, já que grande parte da população não tinha direito ao acesso a ela. Um marco importante para a saúde pública no país foi a 3ª Conferência Nacional de Saúde em 1963. Foi a primeira após a criação do Ministério 25 da Saúde (dissociado da Educação em 1953) e trouxe as seguintes pautas: 1. Situação sanitária da população brasileira. 2. Distribuição e coordenação das atividades médico-sanitárias nos níveis federal, estadual e municipal. 3. Municipalização dos serviços de saúde. 4. Fixação de um plano nacional de saúde. Percebe-se que emerge a urgência de pensar a descentralização da saúde, distribuindo as responsabilidades para todas as esferas dos governos e colocando a esfera municipal em franco protagonismo na solução dos problemas de saúde pública pertinentes a cada região do país em suas especificidades. Como sabemos, o Brasil é um país continental e absolutamente diverso, e o destaque dessa conferência foi: um sistema de saúde para todos, no qual a saúde passa ser um direito da população, e com organização descentralizada, com os municípios como protagonistas. Essa proposta de um sistema nacional de saúde enfrentou diversas dificuldades no período da ditadura militar, iniciada em março de 1964, que aboliu a ideia de saúde como direito, especialmente pelos projetos privatizantes como o “Vale Consulta”, uma releitura do SESP (CARVALHO, 2013). Porém, é nos porões da ditadura que se gestava um sistema de saúde (hoje conhecido como SUS), com o objetivo de colocar a saúde como direito de todos, e dever do Estado promover as condições para a garantia desse direito. Esse movimento, denominado Reforma Sanitária, aconteceu em meados dos anos 1970 e apostava na construção de um sistema público de saúde universal, integral e equânime, fortemente influenciado pela medicina social e pela saúde coletiva. 26 3. Contribuições da saúde coletiva como campo emergente para a construção do Sistema Único de Saúde Muitas foram as políticas de saúde no Brasil ao longo do tempo. Elas se articulavam pelo meio privado, na construção de complexos hospitalares e planos privados de saúde, modelo de saúde chamado de modelo biomédico, cujo foco é o olhar especialista para as queixas. Esse modelo é o que vai fragmentar o corpo em especialidades e subespecialidades (ortopedia, neurologia e cardiologia, por exemplo). Não só a profissão médica tomará essas especialidades em sua organização, mas diversas outras também seguirão neste nicho. Esse modelo vai confrontar a gênese da saúde coletiva, pois terá grandes dificuldades de compreender o indivíduo, agora fragmentado, como um todo. A saúde coletiva emerge no Brasil sob influência da medicina social. Por sua vez, a medicina social é motivada pela intersecção de duas outras perspectivas sanitárias, oriundas dos Estados Unidos nos anos 1950 e 1960: a medicina preventiva e a medicina comunitária. Essas propostas trazem outro sentido para a própria medicina, abrindo debates para os grandes custos dos cuidados por meio da especialização e a própria dificuldade de expansão da cobertura para as populações em geral. Há, também, nessa perspectiva, um apelo à reforma educacional dos cursos médicos, com a criação das faculdades de medicina, os departamentos de medicina preventiva. Assim, os cursos de medicina passariam a abordar disciplinas como epidemiologia, bioestatística e administração de serviços de saúde. Com isso, propõe-se, superar o biologicismo, o individualismo e o hospitalocentrismo da formação, buscando desenvolver nos discentes uma visão global dos indivíduos, apesar de todos os desafios e 27 incoerências que a medicina preventiva e comunitária apresenta. No Brasil, em meados dos anos 1960 e 1970 são criados os Departamentos de Medicina Preventiva nas escolas médicas, e a dimensão social ou coletiva da saúde é redefinida, refletindo a respeito das dimensões sociais na saúde. Aspectos sociais e coletivos emergem dessa reflexão “como conjunto de efeitos da vida social, como interação entre elementos, como campo específico e estruturado de práticas sociais” (SOUZA, 2014, p. 10). Nesse sentido, o movimento que se denomina Saúde Coletiva é o herdeiro imediato, porém rebelde, de um movimento ideológico–o preventivismo– que, como diz Arouca, alude a uma crise real da assistência médica, mas ilude e se ilude com a proposição de uma mudança que, na verdade, é uma tentativa de manutenção. Essa breve revisão dos movimentos de ideologias e intervenções sobre a saúde na perspectiva populacional já deixa ver que a Saúde Coletiva tem características próprias que não permitem confundi-la com a Saúde Pública, seja entendida como o Sanitarismo, especificamente, seja vista, genericamente, como qualquer tipo de intervenção sobre a saúde da coletividade. Todavia, para afirmar a existência dessas diferenças, apontando-as com precisão, faz-se necessário ainda descrever a evolução da Saúde Coletiva brasileira do final dos anos 70 aos dias atuais. (SOUZA, 2014, p. 10-11) Assim, a saúde coletiva é tida como uma área do saber que analisa as necessidades sociais de saúde e as relaciona à estrutura da sociedade, concebendo as ações de atenção à saúde como práticas simultaneamente técnicas e sociais. Dessa maneira, impulsionado pela 8ª Conferência Nacional de Saúde em 1986, o SUS é concebido como um sistema universal, equânime e integral, e o Estado passa a garantir a saúde como direito a todos os cidadãos brasileiros, independentemente de classe social. A Constituição Federal de 1988 institui o SUS, enquanto as Leis Orgânicas da Saúde (Leis n. 8.080/90 e n. 8.142/90) sedimentam as diretrizes e o funcionamento do sistema (SOUZA, 2014). 28 Figura 1 – Determinantes sociais da saúde elaborados por Dahlgren e Whitehead Fonte: Dahlgren e Whitehead (1991 apud CARVALHO, 2012, p. 84). A saúde deve inserir em suas análises pesquisas sobre epidemiologia, agregando os condicionantes e determinantes da saúde, e divulgá-los. Dessa maneira, o SUS engloba ações de assistência às pessoas por meio de ações de proteção, promoção e recuperação da saúde (CARVALHO, 2013). 4. Ações de saúde pública e saúde coletiva presentes no Brasil na atualidade O SUS, como o sistema de saúde vigente no país, passou e ainda passa por uma série de mudanças (seja no financiamento ou nas propostas dos programas de assistência), e não cabe discorrer detalhadamente a respeito de cada uma delas nesta Leitura Digital. Entretanto, a 29 organização do SUS em uma rede de serviços que vai desde as unidades básicas de saúde, os ambulatórios de especialidades e os hospitais de pequeno, médio e grande porte, além de uma série de serviços, como laboratórios de fabricação de vacinas, medicamentos, laboratórios de tecnologias, serviços de transplantes, articulados com setor privado, compondo, desta maneiraum sistema amplo e complexo. O SUS também é espaço de formação profissional articulado com universidades em nível de graduação e pós-graduação na oferta de serviços de diversas ordens para as comunidades, com projetos de pesquisa e extensão mediante as diretrizes curriculares dos cursos da área de saúde. Atualmente, a atenção primária à saúde desponta como um dos principais programas do Sistema Único de Saúde (SUS), destacando- se pela sua estreita ligação com os territórios. Operacionalizada através da Estratégia Saúde da Família (ESF), esse programa busca um paradigma diferente de cuidados de saúde, incorporando dimensões sociais, políticas e econômicas, em contraposição à concepção de saúde meramente como a ausência de doença. A proposta da ESF é o trabalho interprofissional, a fim de romper com a lógica fragmentada do cuidado. Tem como estratégia de trabalho o compartilhamento de saberes, ampliando as fronteiras de atuação de cada profissão e agrupando no campo de cada uma delas os fatores extrabiológicos que podem impactar a qualidade de vida e as condições de saúde. Logo, é comum que os profissionais realizem parcerias com escolas, igrejas e centros de assistência social, ou seja, outros serviços presentes nos territórios – o que pode ser chamado de intersetorialidade – para ampliar o cuidado e tratar a saúde das famílias, dos indivíduos e das coletividades de modo mais plural possível. O SUS abarca uma rede complexa de serviços, e a atenção básica é um dos elementos cruciais para o desenvolvimento de vínculo, por estar próximo à população. 30 Por exemplo, uma das orientações de precaução contra a covid-19 é lavar as mãos com água e sabão, porém 50% da população brasileira não usufrui do direito ao saneamento (MASSA; CHIAVEGATTO, 2020). Cabe à saúde pública e à saúde coletiva agregar seus conhecimentos no fomento aos debates e na formulação de políticas de assistência a essas populações em especial, inserindo temas que tratam da desigualdade social no país e dando visibilidade à urgência da equidade no sistema. Outro exemplo de ação de saúde pública na atualidade realizada pelas equipes de saúde da família é o acompanhamento das gestantes, desde a descoberta da gravidez, passando pelas orientações e acompanhamento de pré-natal, até o planejamento familiar e orientações em geral sobre a saúde da mulher e da criança, por meio de políticas específicas. Outras políticas de saúde pública também podem ser exemplificadas, como as campanhas de vacinação contra a influenza e a poliomielite, além das campanhas de conscientização no combate à dengue e outras doenças que incidem sobre a saúde das populações. Referências CARVALHO, G. A saúde pública no Brasil. Estudos Avançados, São Paulo, v. 27, n. 78, p. 7-26, 2013. MASSA, K. H. C. e CHIAVEGATTO, A. D. P. Saneamento básico e saúde autoavaliada nas capitais brasileiras: uma análise multinível. Rev. Bras. Epidemiologia, v. 23, e200050, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-549720200050. Acesso em: 23 mar.2022. SILVA, C. M. da C. et al. Educação em saúde: uma reflexão histórica de suas práticas. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 15, n. 5, p. 2.539-2.550, 2010. SOUZA, L. E. P. F. Saúde Coletiva ou Saúde Pública? Revista Espaço para a Saúde, Londrina, v. 15, n. 4, p. 7-21, 2014. 31 Eixos da Saúde Coletiva Autoria: Mariana da Silva Castro Vianna Leitura crítica: Nathalia Assis Augusto Objetivos • Conhecer os três eixos/ pilares da saúde coletiva: ciências sociais; política, planejamento e gestão; e epidemiologia. • Compreender a saúde coletiva como campo de saber interdisciplinar. • Refletir a respeito de como a saúde coletiva se faz presente em nosso dia a dia. 32 1. Eixos da Saúde Coletiva A saúde coletiva é um campo de saber que, no Brasil, apresenta uma interdisciplinaridade com as ciências sociais, a epidemiologia, a filosofia e as ciências biológicas, citando algumas. Pelo seu caráter abrangente, não seria possível explorar todo o campo da saúde coletiva em um texto tão breve como este, mas podemos refletir um pouco acerca dos principais eixos que sustentam esse campo de saber. Como pilares da saúde coletiva podemos elencar (PAIM, 2006): • Ciências sociais em saúde, com os determinantes sociais da saúde. • Política, planejamento e gestão em saúde, por meio da organização dos serviços de saúde. • Epidemiologia clássica e social. Isso significa que, enquanto profissionais de saúde, a saúde coletiva nos auxilia a compreender o processo saúde-doença para além do campo biomédico, incluindo instrumentos para a investigação desse processo nas populações e na organização dos serviços de saúde (PAIM, 2006). 1.1 Determinação social da saúde O entendimento do processo saúde-doença já teve várias explicações ao longo da história, e ainda é um fenômeno a ser pesquisado e compreendido. Hoje já se entende que não são apenas os aspectos biológicos, como vírus e bactérias, os únicos responsáveis pelo adoecimento das pessoas. As relações sociais e econômicas têm um papel relevante na saúde das pessoas, e o acesso à moradia, 33 educação, boa alimentação, além de condições de trabalho e renda, produzem condições de vida diferentes, com desfechos diversos nas vidas das pessoas (CARVALHO; BUSS, 2012). Mesmo quando consideramos uma doença causada por agente etiológico biológico, como um vírus, também observamos forte relação com os aspectos sociais e o adoecimento das pessoas. Pessoas com má alimentação, por exemplo, podem ser mais suscetíveis a contrair o vírus da gripe do que pessoas que com alimentação mais saudável. O acesso aos serviços de saúde também pode ser determinante no desfecho do processo saúde-doença de uma pessoa ou uma comunidade. Por exemplo, pessoas com baixa renda têm mais dificuldade em se deslocar até os serviços de saúde, o que pode levá-las a ter menos acesso aos serviços de saúde e não conseguir cuidar da saúde de forma adequada. Essas relações entre condições de saúde e condições sociais de uma população são refletidas na forma como essa população adoece, e vêm sendo objeto de estudo da saúde coletiva brasileira desde a sua constituição, mostrando a forte relação das ciências sociais com a saúde (MARSIGLIA, 2013). Diversos modelos já foram criados para explicar a relação entre as condições sociais de uma população e o seu impacto no processo saúde-doença. Em 2005, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou a Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde, objetivando promover no mundo uma reflexão acerca do papel dos determinantes sociais nas condições de saúde das pessoas (SOBRAL; FREITAS, 2010). Em 2006, o Brasil criou a Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS) com o propósito de garantir a equidade na saúde, orientar intervenções e atuar nas iniquidades de saúde, adotando o modelo conceitual de determinação social da saúde criado por Dahlgren e Whitehead em 1991 (SOBRAL; FREITAS, 2010). 34 Figura 1 – Modelo de determinação social elaborado por Dahlgren e Whitehead Fonte: Dahlgren e Whitehead (1991 apud SOBRAL; FREITAS, 2010, p. 39). O modelo de Dahlgren e Whitehead nos mostra a necessidade de atuar em diversos setores da sociedade, de forma a promover intervenções nos determinantes sociais da saúde e elaborar políticas públicas capazes de viabilizar a equidade na saúde (CARVALHO; BUSS, 2012). O diagrama em camadas mostra a relação entre o processo saúde-doença a partir das características individuais (como estilo de vida, sexo e idade) na camada inferior, até alcançar as condições sociais de uma população, em que só a atuação dos serviços e dos profissionais de saúde não é mais capaz de interferir no processo saúde-doença (RIBEIRO et al., 2018). Os macrodeterminantes, destacados na última camada desse modelo, necessitam de políticas públicas intersetoriais e da participação 35 social que garantam melhores condições de vida para as pessoas, com políticasde saneamento básico, moradias saudáveis, geração de emprego e renda, além de ações voltadas para a promoção da saúde e de uma cultura de paz (CARVALHO; BUSS, 2012). A saúde coletiva visa superar o modelo biomédico, em que a relação entre agente etiológico e doença é dominante, ampliando o olhar para o processo saúde-doença a partir dos determinantes sociais da saúde. Procure olhar para a região onde você mora: quais são os problemas de saúde mais prevalentes? Eles estão mais associados a um agente etiológico (como vírus e bactérias) ou estão mais relacionados à maneira como as pessoas vivem e se relacionam entre si? Nenhuma pessoa é um ser isolado do seu meio. A forma como moramos, as condições de trabalho a que estamos expostos ou o ambiente de paz ou de violência no qual estamos inseridos contribuem para a configuração da nossa saúde, que é muito mais do que apenas a ausência de doenças (CARVALHO; BUSS, 2012). 1.2 Organização dos serviços de saúde Outro eixo pertinente à saúde coletiva diz respeito à política, planejamento e gestão dos serviços de saúde. Como vimos pelos determinantes sociais da saúde, o processo saúde-doença é complexo e se relaciona com diferentes instâncias da vida em sociedade. As formas como os serviços de saúde se organizam também afetam a saúde das pessoas, e são, por isso, um tema relevante da saúde coletiva. O Sistema Único de Saúde (SUS) faz parte de uma grande política pública de saúde do país, enquanto papel do Estado, com diretrizes 36 que abrangem desde a promoção da saúde até a reabilitação de doenças, e é apoiado nos princípios de universalidade, equidade e integralidade (BRASIL, 1990). Embora abrangente nas suas diretrizes, o SUS permite que os municípios e os estados tenham uma relativa autonomia na tomada de decisão das políticas locais de saúde, definindo prioridades na alocação dos recursos e no planejamento das ações de saúde (BRASIL, 1990). Em teoria, essa autonomia permite que o planejamento das ações de saúde e a organização dos serviços sejam realizados de forma a atender às necessidades de saúde da população de uma determinada localidade. Na prática, percebemos que existem muitas diferenças na forma como estados e municípios organizam o seu sistema de saúde, contribuindo muitas vezes para manter as iniquidades de saúde da população. Como exemplo de política pública de saúde que afeta o planejamento e a gestão dos serviços de saúde, podemos citar a organização do SUS por meio das Redes de Atenção à Saúde (RAS), um arranjo que busca superar o modelo fragmentado de atenção à saúde ainda existente e alcançar a equidade e a integralidade, princípios do SUS (MENDES, 2011; BRASIL, 1990). As RAS colocam a atenção primária como a coordenadora do cuidado e ordenadora da rede de atenção, com as equipes de saúde da família e equipes de atenção primária (BRASIL, 2017). Essas equipes, por sua vez, devem atuar de maneira a conectar os diversos pontos da rede: serviços de média e alta complexidade, de apoio diagnóstico e transporte sanitário, entre outros. 37 Figura 2 – Diferença dos sistemas piramidais e hierárquicos para as redes de atenção à saúde Fonte: Mendes (2011, p. 84). Para que os serviços de saúde fortaleçam as relações em uma rede de serviços, e para que se alcancem os princípios do SUS, também é necessário que as equipes de saúde inseridas nesses serviços sejam capazes de planejar as ações que serão oferecidas para a população. Entre as diferentes ferramentas de planejamento utilizadas, destaca-se o Planejamento Estratégico Situacional (PES). O PES se caracteriza por tentar conciliar a ação sobre uma realidade complexa, com um olhar estratégico e situacional, considerando a visão de múltiplos atores e a utilização de ferramentas operacionais para o enfrentamento de problemas. (BRASIL, 2015, p. 59) Assim, o PES pode ser dividido em quatro momentos (BRASIL, 2015): • Explicativo: escolha e análise dos principais problemas que precisam ser modificados. • Normativo: elaboração do plano de ação, com destaque para as metas a serem alcançadas. 38 • Estratégico: análise de viabilidade do plano, considerando os recursos existentes e disponíveis. • Tático-operacional: aplicação prática do plano. A elaboração de um planejamento não é neutra nem imparcial, e vai depender de quais atores estão envolvidos nas etapas do planejamento e como se dão as relações de poder entre esses atores (SILVA, 2018). Assim, a participação social assume um papel fundamental na gestão do SUS, para que sejam priorizados os problemas de saúde que mais afetam as pessoas. De forma resumida, podemos apresentar esse eixo da saúde coletiva no quadro a seguir. Quadro 1 – Eixo política, planejamento e gestão dos serviços de saúde Elementos Exemplos Impacto na vida das pessoas Política de Saúde (papel do Estado) Princípios e diretrizes do SUS Políticas temáticas de saúde (saúde da criança, saúde da mulher, saúde do trabalhador etc.). Acesso aos serviços de saúde (universalidade), priorização das necessidades de saúde (equidade) e cuidado integral (integralidade). Planejamento Planejamento Estratégico Situacional Priorização de problemas; diferentes atores; relações de poder. Gestão Redes de Assistência à Saúde APS como coordenadora do cuidado e ordenadora da rede. Fonte: elaborado pela autora. 39 1.3 Epidemiologia clássica e social Para escolha e análise dos problemas de saúde que são mais relevantes para uma determinada localidade, e para posterior elaboração do planejamento em saúde, são necessários diferentes indicadores de saúde e sociais, capazes de fazer uma leitura, ainda que recortada, da realidade. Para isso, a saúde coletiva se apoia na epidemiologia como campo de conhecimento. A epidemiologia clássica utiliza abordagens quantitativas para explicar a frequência e a distribuição de agravos de saúde em grupos populacionais, na tentativa de compreender o seu surgimento e quais medidas são necessárias para combatê-lo (LEAL; BITTENCOURT, 2018). Muitas críticas são feitas ao caráter positivista e cartesiano da epidemiologia clássica, mas é indiscutível o seu papel para avaliar o perfil de morbimortalidade da população e, dessa forma, contribuir para o desenvolvimento de estratégias de promoção, prevenção e cuidado dos problemas de saúde. Concomitantemente ao período de crítica à saúde pública higienista, que culminou com o surgimento da saúde coletiva no Brasil nas décadas de 1960 e 1970, também houve uma crítica à epidemiologia clássica, fazendo surgir uma nova vertente: a epidemiologia social, ou crítica (RAMOS et al., 2016). A epidemiologia social vem sendo utilizada na área da saúde coletiva junto com a epidemiologia clássica, por se debruçar na forma como as comunidades e os seus diversos arranjos organizacionais impactam a saúde das pessoas, articulando saúde com as ciências sociais na busca pelos determinantes sociais da saúde (RAMOS et al., 2016). 40 Assim, tão importante quanto saber o coeficiente de mortalidade infantil de uma região, por exemplo, também é relevante conhecer quais fatores sociais (como renda, escolaridade materna e acesso ao pré-natal) impactam a taxa de mortalidade infantil dessa mesma região. Comparar esses indicadores entre regiões diferentes utilizando o mesmo rigor científico também auxilia a compreender como a relação desses fatores influencia a vida das pessoas. É dessa forma que a saúde coletiva utiliza os conhecimentos da epidemiologia: ampliando os olhares para além da causalidade das doenças (epidemiologia clássica) e envolvendo os aspectos sociais nesse processo (epidemiologia social). 2. Conclusão Como você deve ter percebido, os eixos da saúde coletiva contam com diferentes instrumentos que se aplicam em temas semelhantes, e por isso são utilizados quase que concomitantemente. Este texto tentou trazer para você, de forma didática, como que cada uma dessas áreas de conhecimento se articulacom a saúde coletiva, de forma segmentada. Mas, na prática, fica mais difícil saber quando uma área acaba e a outra começa, como mostra a Figura 3. Utilizamos essas ferramentas constantemente no dia a dia profissional, sem perceber todo o arcabouço teórico que existe por trás delas. Mais do que buscar compreender e explicar um problema de saúde, a saúde coletiva se preocupa em entender como a vida das pessoas afeta a sua saúde, buscando instrumentalizar políticas e estratégias que visam melhorar a vida – e a saúde – dessas pessoas. 41 Figura 3 – Eixos da saúde coletiva Fonte: elaborada pela autora. Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Lei 8080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Brasília, 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8080.htm. Acesso em: 11 dez. 2021. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Planejamento no SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: https://www.conass.org.br/guiainformacao/wp- content/uploads/2016/03/Manual_planejamento_sus.pdf. Acesso em: 20 jan. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n. 2436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para 42 a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Brasília, 2017. CARVALHO, A. I.; BUSS, P. M. Determinantes sociais na saúde, na doença e na intervenção. In: GIOVANELL, L. Políticas e Sistema de Saúde no Brasil. 2. ed. rev. e amp. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012. LEAL, M. C.; BITTENCOURT, S. A. Desenvolvimento da pesquisa epidemiológica em saúde pública. In: HORTALE, V. A. et al. Pesquisa em saúde coletiva: fronteiras, objetos e métodos. 2. reimpressão. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2018. MARSIGLIA, R. M. G. Temas emergentes em Ciências Sociais e Saúde Pública/ Coletiva: a produção do conhecimento na sua interface. Saúde Soc., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 32-43, mar. 2013. Disponível em: https://scielosp.org/pdf/sausoc/2013. v22n1/32-43/pt. Acesso em: 20 jan. 2022. MENDES, E. V. As redes de atenção à saúde. Brasília: Organização Pan-Americana de Saúde, 2011. PAIM, J. S. Desafios para a saúde coletiva no século XXI. Salvador: EDUFBA, 2006. Disponível em: https://www.google.com.br/books/edition/Desafios_ para_a_Sa%C3%BAde_Coletiva_no_S%C3%A9cu/0OBeCgAAQBAJ?hl=pt- BR&gbpv=1&printsec=frontcover. Acesso em: 20 jan. 2022. RAMOS, F. L. P. et al. As contribuições da epidemiologia social para a pesquisa clínica em doenças infecciosas. Rev Pan-Amaz Saúde, Ananindeua, v. 7, n. esp., p. 221-229, dez. 2016. Disponível em: http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S2176-62232016000500221. Acesso em: 20 jan. 2022. RIBEIRO, K. G. et al. Determinantes Sociais da Saúde. In: ROUQUAYROL, M. Z.; SILVA, M. G. C. Rouquayrol: Epidemiologia & saúde. 8. ed. Rio de Janeiro: Medbook, 2018. SILVA, A. J. M. Epidemiologia e Planejamento em Saúde. In: ROUQUAYROL, M. Z.; SILVA, M. G. C. Rouquayrol: Epidemiologia & saúde. 8. ed. Rio de Janeiro: Medbook, 2018. SOBRAL, A.; FREITAS, C. M. Modelo de organização de indicadores para operacionalização dos determinantes socioambientais da saúde. Saúde Soc., São Paulo, v. 19, n. 1, p. 35-47, mar. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ sausoc/a/xt9VTQXXLTgxhm6WMyhz3TD/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 20 jan. 2022. 43 Formação e atuação profissional em saúde coletiva Autoria: Mariana da Silva Castro Vianna Leitura crítica: Nathalia Assis Augustos Objetivos • Conhecer as diretrizes curriculares da área da saúde e suas semelhanças com a saúde coletiva. • Compreender a atuação do profissional de saúde coletiva. • Refletir a respeito dos desafios a serem superados pela saúde coletiva e pelo SUS. 44 1. O ensino da saúde e a saúde coletiva A área da saúde envolve diferentes profissões que, com seus saberes específicos, atuam sobre as pessoas e as maneiras como ocorre o processo saúde-doença, em diferentes espaços sociais. Desde o início dos anos 2000, com o Plano Nacional de Educação (BRASIL, 2001) e com a aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), os cursos superiores da saúde são pautados por uma formação que qualifique a assistência à saúde e que contemple os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), fruto de uma articulação entre Ministério da Saúde (MS) e Ministério da Educação (MEC) (COSTA et al., 2018). Até hoje, foram poucas as mudanças realizadas nas DCN para as profissões das áreas da Saúde (BRASIL, 2022), com a maior parte dos currículos de graduação orientados para formar profissionais capazes de atuar diante das necessidades sociais e de transformar a realidade, considerando a atenção à saúde como um conjunto de ações de prevenção, promoção, proteção e reabilitação da saúde, e rompendo com a lógica de um cuidado fragmentado (COSTA et al., 2018). As DCN exigem que os cursos da área da saúde incluam nos seus projetos pedagógicos o ensino a respeito do SUS e a inserção precoce do estudante nos seus serviços de saúde, acrescentando o ensino da epidemiologia e do processo saúde-doença e buscando garantir conhecimento da realidade de saúde da sua região (HADDAD et al., 2010). A relação entre as DCN e o campo da saúde coletiva pode ser vista sob diferentes análises. Quando consideramos o campo de saber da saúde coletiva e sua trajetória histórica e social, podemos perceber 45 sua aproximação com os princípios e diretrizes do SUS – em partes porque suas origens são semelhantes. A saúde coletiva prioriza a atenção à saúde a partir da integralidade e da equidade propostas pelo SUS, superando o modelo clínico hegemônico biologicista (centrado na doença, no cuidado médico e na assistência hospitalar), para criar vínculos entre a população e os profissionais de saúde sob uma lógica de cuidado, e não de cura (CARVALHO; CECCIM, 2009). Isso vai ao encontro das DCN para as graduações da área da saúde, que também orientam a formação de profissionais capazes de trabalhar em equipe, superando o modelo clínico hegemônico e o cuidado fragmentado do ser humano (COSTA et al., 2018). Sabemos que, apesar de existirem há cerca de 20 anos, as DCN podem não ser suficientes para garantir que a formação dos profissionais de saúde alcance o que nelas está previsto. Mesmo com orientações para superar métodos de ensino e práticas profissionais fragmentadas, percebe-se que ainda é necessário avançar nesse quesito (COSTA et al., 2018). Faça a seguinte reflexão: sua formação na graduação teve mais ênfase na cura e cuidado das doenças ou nos processos de vida e suas necessidades de saúde? Suas atividades práticas priorizaram os serviços de média e alta complexidade, como hospitais, ou buscaram trazer a realidade de vida das pessoas, por meio dos serviços de atenção primária à saúde (APS)? Essa reflexão é importante para entendermos os diferentes olhares que existem sobre o cuidado e assistência à saúde, e o quanto estão próximos – ou distantes – das orientações previstas nas DCN e dos pressupostos da saúde coletiva. 46 Figura 1 – Semelhanças entre a saúde coletiva e as diretrizes curriculares nacionais para a área da saúde Fonte: adaptada de Costa et al. (2018) e Carvalho e Ceccim (2009). Um profissional de saúde precisa ter o saber científico e técnico, específico da sua área, mas também precisa se amparar em saberes das ciências humanas e sociais, para que cuide do outro de maneira singularizada e responsável, já que o cuidado em saúde ocorre nas relações com o outro, exigindo do profissional um constante repensar acerca de sua forma de cuidar (CARVALHO; CECCIM, 2009). Historicamente, a saúde coletiva surgiu em cursos de pós-graduação, na década de 1970. Durante esse período houve uma grande expansão na oferta de cursos de pós-graduação em saúde coletiva, incluindo as especializações e os programas de mestradoacadêmico, mestrado profissional e doutorado (BARATA; SANTOS, 2013). Mais recentemente surgiram os cursos de graduação em saúde coletiva, com suas primeiras turmas formadas em 2012 (LORENA et al., 2016). 47 A saúde coletiva pressupõe a formação de profissionais, no âmbito da graduação ou da pós-graduação, capazes de atender às necessidades de saúde da população, considerando as doenças infecciosas e as crônico- degenerativas e o impacto que a vida social de hoje traz para a saúde das pessoas (CARVALHO; CECCIM, 2009). É na saúde coletiva que os princípios e diretrizes do SUS se articulam com a prática profissional, na tentativa de consolidar o SUS efetivamente (CAMPOS; AGUIAR; BELISÁRIO, 2012). Assim, a formação dos profissionais de saúde no Brasil deve considerar os diferentes cenários de atuação profissional, promovendo o trabalho em equipe, diversificando os cenários de ensino-aprendizagem, valorizando atitudes éticas e humanistas e dando destaque para os problemas de maior prevalência e relevância existentes nos cenários de prática (CAMPOS; AGUIAR; BELISARIO, 2012). 2. Atuação profissional em saúde coletiva Pensando em todas essas características da formação em saúde e em saúde coletiva, percebe-se que o campo de atuação profissional é vasto, considerando os diferentes cenários em que encontramos relação com o processo saúde-doença e as necessidades de saúde. Tradicionalmente, a saúde coletiva é desdobrada em seus campos clássicos: políticas e planejamento em saúde, epidemiologia e ciências sociais aplicadas à saúde. No entanto, a prática profissional de um profissional de saúde coletiva está além desse desdobramento. Assim, o meio ambiente; o saneamento; as condições de trabalho; as condições de produção e comercialização dos alimentos; o impacto das diferentes maneiras de viver sobre a saúde das pessoas e das populações; a promoção da saúde; a prevenção das doenças; as maneiras como se organizam o sistema, os serviços e o cuidado à saúde das pessoas; o 48 controle sobre a produção e a prescrição de medicamentos; o estudo e o controle sobre o comportamento das doenças na população; a educação e a informação em saúde; os modos de governar e planejar a saúde, envolvendo a participação de diferentes atores sociais; a saúde como direito do cidadão; a saúde como direito do consumidor; as maneiras como os distintos segmentos sociais compreendem a saúde, a doença e a morte e como se organizam para interferir sobre elas – nas cidades e nas regiões rurais – são exemplos de temas relacionados às necessidades sociais de saúde. (AKERMAN; FEUERWERKER, 2009, p. 172) Quando pensamos nas áreas de atuação em saúde coletiva, devemos considerar alguns aspectos: • Qual a realidade de saúde do território onde estou inserido? • Como se organiza o sistema de saúde nesse território? • Qual o perfil dos serviços de saúde existentes nesse espaço? • São serviços de saúde públicos? Privados? Centrados no hospital ou na APS? Esses questionamentos são necessários para que se compreenda melhor o perfil de atuação profissional, que vai variar conforme o cenário de prática. Figura 2 – Cenários diferentes, diferentes necessidades de saúde Fonte: pixdeluxe/iStock.com. e AerialPerspectiveWorks/iStock.com. 49 Ao observamos as duas imagens apresentadas, podemos refletir que os modos de viver nesses dois locais é diferente, o que traz diferentes necessidades de saúde para as populações desses dois espaços. Qual é a realidade social do local onde você vive? Isso também vai interferir na sua atuação profissional. Atuar em saúde coletiva é fazer esse questionamento constantemente, já que o principal interesse da saúde coletiva diz respeito às relações entre o meio em que vivemos e seu impacto na vida das pessoas. Dessa forma, retomando os campos clássicos da saúde coletiva, o campo de atuação profissional pode exigir mais conhecimentos em epidemiologia, por exemplo. Ou pode exigir do profissional mais habilidades relacionadas ao planejamento e gestão dos serviços de saúde. A atividade prática da saúde coletiva, enquanto processo de trabalho, envolve três componentes básicos (PAIM, 2006): • Objeto de trabalho: necessidades sociais de saúde. • Instrumentos de trabalho: epidemiologia, sociologia, economia política, ciências sociais. • Atividades: planejamento, programação, controle e avaliação dos serviços e ações de saúde. O profissional de saúde coletiva pode atuar, portanto, nos serviços de saúde propriamente ditos, públicos e privados, oferecendo assistência à saúde diretamente à população, como também pode atuar nas áreas de gestão em saúde, seja nos próprios serviços ou em órgãos de gestão, como secretarias municipais e estaduais de saúde. O terceiro setor também é um dos segmentos possíveis de atuação em saúde coletiva, com muitas organizações não governamentais (ONGs) atuando pela 50 melhoria das condições de vida e de saúde das pessoas (AKERMAN; FEUERWERKER, 2009). Aqueles que optarem por atuar na saúde coletiva devem ser […] capazes de apoiar a implementação de estratégias voltadas para a diretriz da integralidade das ações de saúde e para o desenvolvimento de políticas públicas intersetoriais. (PAIM, 2006, p. 108) Independentemente do espaço de atuação profissional, é necessário superar alguns desafios que se apresentam tanto na saúde coletiva quanto no SUS, sendo imprescindíveis profissionais capazes de atuar na superação desses desafios. Figura 3 – Desafios a serem superados pela saúde coletiva e pelo SUS Fonte: elaborada pela autora. Seja qual for o espaço de inserção profissional que você encontrar, é esperado do profissional com formação em saúde coletiva competências 51 e habilidades que o subsidiem a atuar nas necessidades de saúde, assumindo a: […] direção do processo coletivo de trabalho (planejamento, programação, controle e avaliação) como forma de viabilizar a intervenção estruturada para atender a tais necessidades. Portanto, suas atividades envolvem uma dimensão epidemiológica e social dos meios de trabalho que incide na apreensão das necessidades de saúde e na seleção de tecnologias para atendê-las e uma dimensão organizacional/gerencial que visa à apreensão dos problemas dos serviços de saúde e das organizações, bem como a adoção de procedimentos que interferem na factibilidade e na viabilidade do trabalho coletivo em saúde. Daí o tripé da Saúde Coletiva estar assentado na Epidemiologia, na Planificação & Gestão e nas Ciências Sociais em Saúde. (PAIM, 2006, p. 106-107) Figura 4 – Tripés da saúde coletiva Fonte: Paim (2006, p. 83). 52 Diante desse contexto, é possível entender o vasto campo de atuação da saúde coletiva, que permite trabalharmos em diferentes contextos sociais, políticos e organizacionais. Retomando as DCN, a saúde coletiva está presente nas graduações da área da saúde ao exigir dos profissionais de saúde competências para atuar na promoção, na prevenção e no cuidado integral, na tomada de decisões, na comunicação e na educação em saúde, na liderança e no trabalho em equipes multiprofissionais, na tomada de decisões, administração e gerenciamento do cuidado em saúde, dos serviços e do sistema de saúde, e na educação permanente (AKERMAN; FEUERWERKER, 2009). A formação em nível de pós-graduação visa aprimorar essas competências, permitindo aos seus alunos organizar múltiplos saberes para intervir nos problemas de saúde mais relevantes, com a capacidade de avaliar o impacto das intervenções realizadas, traduzindo o conhecimento acadêmico para a realidade prática dos serviços de saúde (BARATA; SANTOS, 2013). Os processos de globalização do mundo contemporâneo permitem grande rapidez na disseminação de novos conhecimentos, novas culturas e, também, novas doenças. As desigualdades sociais tendem a se acentuar nesse processo, exigindo cada vez mais profissionais de saúde comprometidos a atuar sobre as realidades locais e suprir as necessidades sociaisde saúde da população, em constante mudança (BARATA; SANTOS, 2013). Para garantir a atualização constante diante de novos contextos de saúde, o profissional de saúde coletiva também deve atuar nos espaços de educação permanente, tanto entre os profissionais dos serviços de saúde que já estão atuando como na atualização do seu próprio conhecimento. A educação permanente exige a reflexão a respeito da realidade encontrada nos serviços de saúde, com o objetivo de alterar os processos de trabalho existentes, melhorando, assim, o cuidado à saúde da população (CAMPOS; AGUIAR; BELISÁRIO, 2012). 53 3. Conclusão Como apresentado, o profissional de saúde coletiva precisa ter várias competências que o habilitem a trabalhar com as necessidades de saúde das pessoas. Isso é possível atuando em serviços públicos e privados de saúde, seja na assistência direta à saúde ou em cargos de gestão. Secretarias de saúde, tanto municipais quanto estaduais, também se beneficiam do trabalho desse profissional, além de instituições pertencentes ao terceiro setor. Com tantas possibilidades de inserção profissional, é importante não se esquecer do caráter dinâmico que esse profissional deve ter, capaz de reunir várias áreas do conhecimento em prol do cuidado à saúde da população. Referências AKERMAN, M.; FEUERWERKER, L. Estou me formando (ou eu me formei) e quero trabalhar: que oportunidades o sistema de saúde me oferece na Saúde Coletiva? Onde posso atuar e que competências preciso desenvolver? In: CAMPOS, G. W. S. et al. Tratado de Saúde Coletiva. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Fiocruz, 2009. BARATA, R. B.; SANTOS, R. V. Ensino de pós-graduação em Saúde Coletiva: situação atual e desafios para o futuro. Rev. Brasileira de Pós-Graduação, Brasília, v. 10, n. 19, p. 159-183, mar. 2013. Disponível em: https://rbpg.capes.gov.br/index.php/rbpg/ article/view/367. Acesso em: 8 jan. 2022. BRASIL. Lei n. 10.172, de 9 de janeiro de 2001. Aprova o Plano Nacional de Educação e dá outras providências. Brasília, 2001. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10172.htm. Acesso em: 31 jan. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes curriculares – cursos de graduação. Brasília, [s. d.]. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/escola-de-gestores-da- educacao-basica/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-82187207/12991- diretrizes-curriculares-cursos-de-graduacao. Acesso em: 1 fev. 2022. CAMPOS, F. E.; AGUIAR, R. A. T.; BELISÁRIO, S. A. A formação superior dos profissionais de saúde. In: GIOVANELLA, L. et al. Políticas e Sistema de Saúde no Brasil. 2. ed. rev. e amp. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012. 54 CARVALHO, Y. M.; CECCIM, R. B. Formação e Educação em Saúde: Aprendizados com a Saúde Coletiva. In: CAMPOS, G. W. S. et al. Tratado de Saúde Coletiva. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Fiocruz, 2009. COSTA, D. A. S. et al. Diretrizes curriculares nacionais das profissões da Saúde 2001- 2004. Interface, Botucatu, v. 22, n. 67, p. 1183-1195, out./dez. 2018. Disponível em: https://www.scielosp.org/pdf/icse/2018.v22n67/1183-1195/pt. Acesso em: 31 jan. 2022. HADDAD, A. E. et al. Formação de profissionais de saúde no Brasil: uma análise no período de 1991 a 2008. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 44, n. 3, p. 383-393, maio 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsp/a/ m7ykk7Bgc3hZGJBNBkM9ZCk/?lang=pt#. Acesso em: 31 jan. 2022. LORENA, A. G. et al. Graduação em Saúde Coletiva no Brasil: onde estão atuando os egressos dessa formação? Saúde Soc., São Paulo, v. 25, n. 2, p. 369-380, abr./jun. 2016. PAIM, J. S. Desafios para a saúde coletiva no século XXI. Salvador: EDUFBA, 2006. Disponível em: https://static.scielo.org/scielobooks/ptky6/pdf/paim-9788523211776. pdf. Acesso em: 20 jan. 2022. 55 BONS ESTUDOS! Sumário Apresentação da disciplina Preventivismo, Medicina Social e Saúde Coletiva Objetivos 1. Apresentação do conteúdo desta Leitura Digital 2. Conhecendo os conceitos de Medicina Preventiva, Medicina Social e Saúde Coletiva 3. Pensamento social na saúde: ressonâncias do processo saúde-doença Referências Saúde Coletiva e Saúde Pública Objetivos 1. Apresentação do conteúdo desta Leitura Digital 2. Perspectivas históricas da saúde pública brasileira 3. Contribuições da saúde coletiva como campo emergente para a construção do Sistema Único d 4. Ações de saúde pública e saúde coletiva presentes no Brasil na atualidade Referências Eixos da Saúde Coletiva Objetivos 1. Eixos da Saúde Coletiva 2. Conclusão Referências Formação e atuação profissional em saúde coletiva Objetivos 1. O ensino da saúde e a saúde coletiva 2. Atuação profissional em saúde coletiva 3. Conclusão Referências