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UNIP – UNIVERSIDADE PAULISTA CURSO DE PSICOLOGIA GEOVANNY PETERSON MEIRA PONTES RA: F3157C3 ARTIGO-RESUMO: PRÁTICAS VIOLENTAS E CRIMINAIS DE HOMENS COMO EFEITOS DA DEPENDÊNCIA DE CONTEÚDOS PORNOGRÁFICOS SÃO PAULO 2024 GEOVANNY PETERSON MEIRA PONTES ARTIGO-RESUMO: PRÁTICAS VIOLENTAS E CRIMINAIS DE HOMENS COMO EFEITOS DA DEPENDÊNCIA DE CONTEÚDOS PORNOGRÁFICOS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Paulista (UNIP), como parte das exigências para obtenção do título de Bacharel em Psicologia. Orientadora: Profa. Rilma Bento SÃO PAULO 2024 RESUMO É evidente a influência da tecnologia sobre as práticas da sociedade contemporânea, o seu impacto nos contextos sociais e culturais que, inevitavelmente, demonstram repercussão sobre o comportamento dos indivíduos. Embora o consumo da pornografia é incluído no tipo de prática com registros que a remetem à Antiguidade, com o advento da tecnologia, ela foi ainda mais impulsionada. E, com isso, o aumento da discussão acerca da dependência do consumo desse tipo de produto, especialmente para o público masculino. Adicionalmente, produções que tendem a correlacionar a pornografia à execução de práticas violentas e/ou criminosas são analisadas e discutidas. Sob essa perspectiva, o objetivo principal do presente estudo se debruça sobre a discussão da pornografia como produto cultural e o seu impacto sobre o gênero masculino, em relação a práticas qualificadas como criminosas e/ou violentas, a partir de análises de casos reais descritos na literatura. Para tanto, foi conduzido um levantamento bibliográfico para, inicialmente, descrever práticas qualificadas como pornográficas, as características do seu consumo (incluindo a sua frequência/dependência) e os seus desdobramentos temporais, culturais e sociais. A partir dessa descrição, foi proposta uma análise, tomando como referência fragmentos de histórias disponíveis na literatura, das práticas pornográficas de indivíduos do gênero masculino acusados de crimes (como os popularmente denominados assassinos em série), sob a perspectiva analítico funcional. Os resultados do levantamento conduzido permitiram estabelecer algumas correlações consideradas relevantes para a compreensão do comportamento violento e/ou criminal de serial killers que se tornaram mundialmente conhecidos. De maneira geral, nos casos sob análise, discute-se que o consumo e/ou prática pornográfica como uma das variáveis conjugadas a dinâmicas familiares caracterizadas como negligentes, descuidadas e violentas, durante a infância, e diagnósticos psiquiátricos relevantes, como o transtorno de personalidade antissocial e esquizofrenia. Reconhece-se, aqui, a necessidade de maiores investigações acerca dessa temática dedicadas a uma análise mais aprofundada, sob a leitura de diferentes contextos e variáveis. Palavras-chave: Pornografia; Práticas pornográficas; Crimes sexuais; Serial killer; Análise do comportamento ABSTRACT It is evident that technology influences contemporary societal practices, impacting social and cultural contexts and inevitably affecting individual behavior. Although pornography consumption dates back to antiquity, technology has significantly boosted its prevalence. Consequently, there is an increased discussion about the dependency on this type of product, especially among males. Additionally, productions that correlate pornography with violent and/or criminal behavior are analyzed and discussed. From this perspective, the main objective of this study is to explore pornography as a cultural product and its impact on males, particularly in relation to behaviors classified as criminal and/or violent, based on analyses of real cases described in the literature. To this end, a bibliographic survey was conducted to initially describe practices qualified as pornographic, the characteristics of their consumption (including frequency and dependency), and their temporal, cultural, and social developments.Subsequently, an analysis was proposed, referencing fragments of stories available in the literature, of the pornographic practices of male individuals accused of crimes (such as those popularly known as serial killers), from an analytical functional perspective. The results of the conducted survey allowed for the establishment of some correlations considered relevant for understanding the violent and/or criminal behavior of world-renowned serial killers. Generally, in the analyzed cases, it is discussed that pornography consumption and/or practice is one of the variables combined with family dynamics characterized by neglect, carelessness, and violence during childhood, and significant psychiatric diagnoses such as antisocial personality disorder and schizophrenia. It is acknowledged here the need for further investigations on this topic dedicated to a more in-depth analysis, considering different contexts and variables. Keywords: Pornography; Pornographic practices; Sexual crimes; Serial killer; Behavior analysis. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 5 2. OBJETIVOS 9 3. MÉTODO 10 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 11 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 34 6. REFERÊNCIAS 36 INTRODUÇÃO A palavra pornografia vem dos vocábulos gregos "pornôs” e “graphô”, significando, respectivamente, “prostituta” e “escrever ou gravar” (LOPES, 2013). Na versão online do dicionário de língua portuguesa Michaelis (2024)[footnoteRef:1], pornografia é definida como “[...] qualquer coisa que vise explorar o sexo de maneira vulgar e obscena”, enquanto na Encyclopaedia Britannica (2024)[footnoteRef:2], também na versão online, a pornografia é definida como a “[...] representação do comportamento erótico em livros, quadros, estátuas, filmes etc., que se destina a provocar a excitação sexual”[footnoteRef:3]. Assim, a pornografia é intrinsicamente relacionada à sexualidade. [1: https://michaelis.uol.com.br/palavra/0L9AE/pornografia/.] [2: https://www.britannica.com/topic/pornography.] [3: No original: “(…) representation of sexual behavior in books, pictures, statues, films, and other media that is intended to cause sexual excitement”.] Para Barss (2001), a sexualidade é uma poderosa força que molda a vida do ser humano – para com os outros e para consigo – sendo a arte erótica de longa e rica história, podendo ser presenciada desde as pinturas paleolíticas com desenhos de nudez nas paredes de cavernas. Na Grécia antiga, havia obras de tal cunho nos festivais para Dionísio (o Deus do vinho), enquanto em Roma, a representação de prostitutas era encontrada nas pinturas da ilha de Pompeia (CECCARELLI, 2011). O primeiro registro do uso da palavra pornografia no ocidente, no entanto, só ocorreu no século XVII, e foi utilizado para se referir a qualquer tipo de material sexualmente explícito. O consumo deste tipo de material se iniciou a partir de impressões, como revistas e jornais. Posteriormente, alcançou os meios audiovisuais (BUZZI, 2015 apud MOREIRA et al., 2022), até o início no mundo cinematográfico na primeira década do século XX, ainda de maneira marginalizada, com as obras sendo apresentadas em bordéis. Apenas a partir de 1960, as obras passaram a ser exibidas em salas de cinemas. Segundo Moreira et al. (2022), na contemporaneidade, a pornografia passou a ganhar maior visibilidade, dada a cultura da virtualidade, impulsionada pelo meio digitalizado. As redes sociais (...) têm permitido a frequente disseminação da pornografia sem delimitar seu alcance, o que faz com que indivíduos em situação peculiar de desenvolvimento, tais como crianças e adolescentes, consumam livremente vídeos, imagens e outros tipos de conteúdos pornográficos. O controle e o limite sobre tais produtos, muitas vezes, são impedidos pelo anonimato de quem disponibiliza os materiais virtuais em meio digital, bem como o do sujeito que os acessa. Assim, a segurança de estar incógnito muitas vezes influencia a propagação de materiais pornográficos com conteúdo violento, com cenas de agressão física e verbal, além de temas parafílicos,Pornografia da vingança: novas perspectivas de crimes virtuais contra honra. Jusbrasil, 2016. Disponível em: https://rafaelaraujo22.jusbrasil.com.br/artigos/441628158/pornografia-davinganca. Acesso em: 12 outubro 2024. 7. ARRIGO, B. A. "Ted Bundy: A Complete Psychological Profile." McFarland & Company, 2009. 8. BALDIM, F. A. O vício em pornografia: considerações sobre a internet e a adição na atualidade. 2017. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Departamento de Psicologia, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2017. Disponível em: https://ppi.uem.br/arquivos-2019/UEM_PPI_Fernanda%20A%20Baldim.pdf. 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De acordo com dados descritos por Dekeseredy (2015), essa indústria tem arrecadado mais capital do que a soma das receitas de empresas como Microsoft, Google, Amazon, eBay, Yahoo, Apple, Netflix e Earthlink. Ainda, o número de adeptos à pornografia durante a pandemia da COVID-19 aumentou de maneira altamente expressiva pelo uso plataformas como o OnlyFans. Tal fenômeno se justifica pelo fato de que não havia regras de vendas de conteúdos, permitindo o compartilhamento de materiais sexualmente explícitos (PINHEIRO, 2023). Neste sentido, inclusive, essa passou a ser considerada uma questão de saúde pública em certos lugares no mundo (como em alguns estados norte-americanos). Tomando esses dados como referência, é evidente a influência e o estreito contato das obras pornográficas na vida do ser humano, desde a antiguidade e passando por sua transformação e adaptação dos pontos de vista cultural e tecnológico, no mundo contemporâneo. E, em geral, a sua temática comumente é discutida entre o que se qualifica como saudável ou patológico. Isto é, há os que a caracterizam como uma ação inerente à sexualidade humana, enquanto outros condenam o potencial que o acesso a esse tipo de conteúdo pode representar, atribuindo a eles o que definem como “vícios” e comportamentos violentos. Por exemplo, Moraes e Lapeiz (1985) afirmam que a pornografia é um fenômeno enxergado, debatido e perpassado por discursos carregados de valores morais. Nessa perspectiva, segundo Leite (2012), a pornografia sempre foi desqualificada socialmente, visto que ameaça ferir tabus morais e sociais. De acordo com Lipovetsky (2005), no campo do sexo, algumas pessoas estão procurando novos dispositivos e novas formas de manifestação e utilização de seus corpos. Para o referido autor, a pornografia, assim como os movimentos sociais de liberação sexual, visa à despadronização e à subjetivação do sexo pelo sexo. Segundo Sontag (1967), a imaginação pornográfica é imaginação humana que se projeta na arte e tem um acesso peculiar a alguma verdade, seja essa sobre sexo, sensibilidade ou sobre o indivíduo (RATTS & TABOSA, 2015) Nos estudos dos grupos de Malamuth (2000) e de Bridges (2003), são abordadas as relações entre a pornografia e à violência sexual, às tendências agressivas e às condutas qualificadas como “degradantes”. Sugere-se que a inclinação para a dependência de pornografia e a manifestação de comportamentos criminais e violentos têm relação com as características individuais e o meio cultural no qual o sujeito está envolvido, podendo, dessa maneira, favorecer ou não os efeitos negativos do consumo desse tipo de conteúdo (MALAMUTH et al., 2000). Pacheco (2014) classifica a pornografia como um fator promotor da prática de violação e de submissão das mulheres e de coerção sexual dirigida a elas e às crianças, predispondo os agressores ao abuso e à legitimação dele, podendo impulsionar a outros tipos de atos brutais e criminosos, sendo esse um dos motivos que faz a majoritária audiência do gênero ser composta por homens. É importante salientar que o debate sobre o papel da arte pornográfica, independentemente do contexto, deve se basear em discussões livres de julgamentos morais. Ressalta-se, ainda, que o intuito, aqui, não é o de penalizar ou demonizar o consumo de conteúdos pornográficos, mas buscar entender seus impactos sobre a sociedade e discutir, principalmente, a correlação de determinados estudos que estabelecem entre o gênero (indivíduos do gênero masculino, no caso) e a prática de atos violentos e/ou criminais com o que se classifica como abuso da pornografia. Destaca-se que, nesse trabalho, o vocábulo “vício”, empregado em muitos estudos cuja temática é a pornografia, foi alvo de discussão prévia entre as autoras do presente texto. Por entendê-lo como uma expressão culturalmente atribuída a algo “indecoroso e/ou nocivo” e, naturalmente, com conotação pejorativa, a expressão foi substituída – inclusive no próprio título desse trabalho – por “dependência”. Tal expressão é considerada mais apropriada, uma vez que não carrega julgamentos de moral e de bons costumes, e estabelece a condição de incapacidade do indivíduo (do ponto de vista físico e/ou emocional) ao autocontrole. E neste sentido, a análise do fenômeno torna-se mais abrangente, pois, as dimensões biopsicossociais são consideradas. OBJETIVOS 2.1. Objetivo Geral Discutir a pornografia como produto cultural e o seu impacto sobre o gênero masculino, em relação a práticas qualificadas como criminosas e/ou violentas, a partir de análises de casos reais descritos na literatura. 2.2. Objetivos Específicos · Descrever práticas qualificadas como pornográficas, o seu consumo e os seus desdobramentos temporais, culturais e sociais. · Analisar, a partir de fragmentos de histórias disponíveis na literatura, as práticas pornográficas de indivíduos do gênero masculino acusados de crimes (como os popularmente denominados assassinos em série), sob a perspectiva analítico funcional. MÉTODO Para a execução do presente trabalho, o tipo de pesquisa empregado foi a pesquisa bibliográfica, cujo levantamento se deu a partir das seguintes fontes/plataformas: LILACS/BVS, SciELO, PePSIC, Google Scholar e nos arquivos da biblioteca digital fornecida pelo Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Os critérios estabelecidos para a busca das publicações foram: [a] Período de Publicação: inicialmente, não foi limitado o período de publicação, levando em consideração que o material sobre a temática poderia ser escasso. Assim, foram consideradas as obras, sem limite do período de publicação, desde que elas se referissem pelo menos a um aspecto relacionado à temática do presente estudo. Isto é, que se relacionassem ao fenômeno da pornografia e suas práticas (historicamente e como produto); modus operandi de serial killers, cujas histórias se tornaram públicas, famosas e extensamente analisadas, especialmente porque seus crimes envolviam práticas violentas e sexuais. [b] Definição das seguintes palavras-chave: pornografia; práticas pornográficas; crimes sexuais; serial killer. A lógica utilizada para a busca foi a booleana: isto é, empregando os conectores “e” e “ou” para promover a ligação das palavras-chave. RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1. A Prática Pornográfica O ser humano cria e consome conteúdos eróticos desde a antiguidade. Estes, historicamente, acompanharam o processo de tecnologização, introduzindo-se na indústria cultural com distribuição em larga escala (BARBOZA, 2022). O consumo pornográfico se intensificou com o progresso do capitalismo, que o expõe como uma mercadoria lucrativa no mercado sexual, juntamente com a legalização do hardcore na indústria pornográfica, tornando-se um dos negócios mais rentáveis globalmente. No entanto, esse período industrial não é caracterizado apenas por esse fato, mas também pela industrialização da sexualidade pornográfica. (ADRIANZEN & MONTENEGRO, 2021, p. 6). Com a modernidade, os meios de propagação de pornografia se amplificaram: na segunda metade do século XIX, a partir da invenção da fotografia e das máquinas de impressão, tornou-se possível a produção desse tipo de material em série e mais barato e, consequentemente, de maior acessibilidade.Essa produção acabou repercutindo, até o final daquele século (XIX), na maior popularização do conteúdo classificado como “pornô”. A partir daquele período, o consumo da pornografia se dava não só por imagens, mas também pela literatura erótica. Os livros que abordavam o erotismo, muitas vezes, eram chamados de “romances para homens”. Dentre estes livros, destacavam-se obras como “Os 120 dias de Sodoma” (ou “A Escola de Libertinagem”[footnoteRef:4] de Marquês de Sade; “Fanny Hill”[footnoteRef:5], escrito por John Cleland e considerada o primeiro romance erótico da modernidade, tornando-se, assim, sinônimo de batalha contra a censura erótica; e “A Vênus das Peles”[footnoteRef:6], por Leopold Von Sacher-Masoch. Todas essas obras eram focadas em práticas qualificadas como de perversão sexual (mais tarde, nomeadas de sadomasoquistas, por influência da obra de Sade); de adultério; de incestos; em geral, envolvendo prostíbulos. Além destes, por vezes, as práticas envolviam brutalidade, tortura ao sexo e até morte (LOPES, 2005). [4: Publicado em 1785, pelo francês Donatien Alphonse François (o Marquês de Sade).] [5: Publicado em 1749, essa obra é também conhecida pelos títulos de: “Memórias duma prostituta”; “Memórias de uma mulher de prazer”; “Aventuras de Miss Fanny Hill”; “Memórias de Fanny Hill”.] [6: Publicada, em 1870, como uma novela dentro da coleção de livros de Sacher-Masoch chamada “O legado de Caim”, na qual “A Vênus das Peles” faz parte do primeiro volume.] No início do século XX, a tecnologia, mais uma vez, facilitou o acesso do público aos conteúdos eróticos, apresentando o mundo do cinema e introduzindo na sociedade, ainda que de maneira marginal, curtos filmes de sexo explícito, rotulados de stags films (traduzido como filmes para rapazes). Entretanto, esse tipo de filme chegou ao cinema, de forma legalizada, apenas na década de 60. Com o advento das fitas de filmagem em VHS[footnoteRef:7] e, posteriormente, dos DVD’s[footnoteRef:8], os apreciadores dessas obras não precisavam mais se expor para ver os filmes, uma vez que, a eles, era possível fazê-lo em ambientes mais confortáveis e reservados, como em suas próprias casas (LOPES, 2005). Isto também barateou o conteúdo, fazendo o vídeo pornô ser produzido em larga escala. Abreu (1996) definiu esse momento como de significativa transformação do produto, gerando o que ele nomeou de uma verdadeira linha de montagem. [7: VHS é a sigla para vídeo home system (ou sistema doméstico de vídeo, na tradução para a língua portuguesa). Com a popularização de câmeras de filmagem, esse tipo de vídeo era muito comum nas décadas de 80 e 90, porque era um tipo de gravação analógica em fitas de videoteipe, em padrão comercial.] [8: DVD é a sigla para digital vídeo disc (ou disco digital de vídeo). O formato de DVD se tornou bastante popular do meio para o final da década de 90, como um meio mais avançado do que o formato VHS para arquivar ou guardar dados de som e de voz, inclusive porque tinha maior capacidade de armazenamento pela sua tecnologia óptica superior (criada em 1995).] No entanto, o meio de difusão mais importante até hoje foi e é a Internet (ADRIANZEN & MONTENEGRO, 2021). Se, antigamente, o uso da pornografia se dava por meio de revistas e obras cinematográficas, depois do advento do espaço virtual, este passou a ocorrer por via de acessos a vídeos e imagens ilimitados (ANDRADE et al., 2021). Nos anos 2000, embora a pornografia amadora fosse bastante comum, a maioria dos sites dedicados ao tema já atuava de maneira profissional, a fim de vender o seu produto em ampla quantidade de maneira considerada legítima com contratos sobre direitos de venda de imagem, e tendo sua principal capitalização por meio de anúncios. A partir de então, a indústria pornográfica na modalidade online se tornou uma das mais lucrativas e utilizadas do mundo. Em 2019, o site Pornhub registrou 42 bilhões de acessos em todo o mundo, com aproximadamente 115 milhões de visitas diárias. Esses números são ainda mais impactantes porque, segundo a última contagem da União Internacional de Telecomunicações (UIT)[footnoteRef:9], realizada no final do ano de 2023, cerca de 1/3 da população mundial ainda não têm acesso à rede (MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, 2023). [9: A UIT foi fundada como União Internacional de Telégrafos em Paris, em maio de 1865 e, em 1947, se tornou uma Agência especializada da Organização Mundial da Saúde (OMS). Seus objetivos principais são contribuir para o crescimento e o desenvolvimento sustentável das telecomunicações e redes de informação (https://www.gov.br/mre/pt-br/delbrasomc/brasil-e-uit/brasil-e-uit).] A Figura 1 ilustra a comparação entre o número da população mundial e o número de acessos no site Pornhub, disponível no próprio. Os dados se referem ao ano de 2019[footnoteRef:10]. [10: No início de 2024, dados do Departamento do Censo dos Estados Unidos da América (EUA) projetavam que a população mundial ultrapassaria 8 bilhões de pessoas.] Figura 1. Comparação entre acessos ao site Pornhub e a população mundial, em 2019 (em bilhões). Mesmo com esse alto volume de acessos, no ano de 2020, logo na primeira semana de isolamento social – por conta da pandemia de COVID19 – foram alcançados novos recordes de consumo, que resultou em um aumento de 11,6% de acessos [atingindo, portanto, quase 54 milhões de acesso] a este site (ANDRADE et al., 2021; ADRIAZEN & MONTENEGRO, 2021). Levanta-se a possibilidade da pandemia de COVID-19 ter acentuado o que Cooper (1998) chamou de “triple A Engine” (Mecanismo Triplo A, em tradução livre), que pressupõe que a internet possibilita maior acesso aos conteúdos pornográficos, dado que garante acessibilidade, anonimato e baixo custo aos usuários. Em um momento em que a população está em situação de isolamento social e com baixas possibilidades de relacionamento íntimo, encontra-se na pornografia on-line um meio de satisfação das necessidades sexuais. [ANDRADE et al., 2021, p. 42]. A maior adesão de público durante o período pandêmico também se deu por conta do uso de novas plataformas digitais, especialmente a mídia social OnlyFans. Criada em 2016, ela tinha como objetivo ser um site de personalidades, com algum nível de fama e/ou notoriedade, que permitisse a inscrição de novos seguidores a partir de uma taxa mensal para o acesso a vídeos e fotos postadas (dessas personalidades) pelas contas seguidas. No entanto, teve seu auge apenas no isolamento social do ano de 2020, atraindo consumidores e criadores de conteúdo pela permissão de materiais sexualmente explícitos (sendo estes vetados apenas no segundo semestre de 2021, mas ainda permitindo conteúdos de nudez). A constante e crescente presença desse tipo de material na sociedade aponta, segundo Popovic (2011) e Butler et al. (2018), que a prática pornográfica se dá como uma forma de entretenimento e diversão para a satisfação dos indivíduos solitários sexualmente, a fim de despertar fantasias. Andrade (2021, p. 41), contudo, entende que isso “[...] também pode tornar as pessoas mais solitárias e, assim, retroalimentar este comportamento”. Andrade (2021) ainda destaca que o uso excessivo de pornografia pode ser potencializado pelo seu efeito que, no caso, é a obtenção do prazer que ele proporciona. Neste sentido, o prazer adquire a função de reforçador e, consequentemente, o meio para produzi-lo (isto é, o consumo da pornografia e suas práticas) aumenta a probabilidade de ocorrência. E o aumento dos comportamentos para consumir esses conteúdos pode resultar na dependência para o seu acesso, tal qual acontece com os indivíduos dependentes do uso/abuso do álcool e/ou outras drogas. A dependência de pornografia está relacionada a uma maior necessidade de estimulação externa do sistema de recompensa cerebral e uma necessidade de busca de novos conteúdos pornográficos cada vez mais extremos para se chegar ao mesmo nível de prazer. (ANDRADE et al., 202, p. 41). O que tem se observado, então, é a procura por materiais qualificados como aindamais radicais. Isto é, os vídeos e filmes pornográficos atuais têm a constante presença de práticas brutais que incluem: simulação de estupro; estupro coletivo; e agressão física (DEKESEREDY, 2015). Com cenas de violência e transgressão moral, a ideia de virilidade masculina pode ser revigorada, fazendo da pornografia um reforço de padrões que mantém crenças de violência sexual (LEITE, 2011) e, segundo Russel (2011), servindo de estímulo para o desejo dos espectadores para agredirem sexualmente terceiros. Embora estudos – como de Leite (2011) e de Voros (2009) – tenham ressaltado características negativas do uso qualificado como “excessivo” de pornografia para o indivíduo (culpa, vergonha, problemas em relacionamentos, fragilização da saúde mental e manutenção de crenças de violação), e a 11ª edição da Classificação Mundial de Doenças (CID-11; OMS, 2022) tenha caracterizado essa prática como uma “desordem compulsiva do comportamento sexual”, o texto revisado da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR; APA, 2023) não qualifica a pornografia nessa classe. Isto é, a APA (instituição responsável pelo DSM-5) não qualifica a pornografia como dependência. Essa posição da APA, de acordo com Andrade et al. (2021), considera que “[...] não existem evidências suficientes para estabelecer os critérios de diagnósticos, a fim de identificar tais comportamentos como transtornos mentais” (ANDRADE et al., 2021, p. 41). 4.2. Consumo e Significado Social da Pornografia Os telespectadores de conteúdos classificados como pornográficos possuem um perfil predominante, observado repetidamente em pesquisas feitas em anos distintos com amostras diferentes. Em 2007, foi estimado que 72% dos adultos que visitam sites pornôs são homens (RUPP; WALLEN, 2007). Cooper et al. (2002), a partir de uma pesquisa com 7.544 participantes, concluíram que a maioria dos usuários de sites pornográficos é composta por homens, com média de 30 anos, casados e com emprego. Já em 2022, a revista brasileira Sexy Hot encomendou uma análise de dados envolvendo o levantamento com 1000 internautas do país pela Toluna Corporate. Os dados indicaram praticamente os mesmos parâmetros da pesquisa de Cooper: predominância do gênero masculino (63%), maioria casada e/ou comprometida, de 25 a 34 anos de idade. Outros países aprofundam-se em compreender sobre a frequência com que o gênero masculino acessa tais conteúdos pornográficos, como o estudo da Universidade de Montreal que analisou uma amostra de 1.002 homens canadenses entre 18 e 24 anos. Os dados indicaram que 71% dos homens haviam assistido pornografia pelo menos uma vez nos últimos três meses. Esses dados replicam os obtidos anteriormente em outros estudos com populações masculinas jovens em países ocidentais (FISHER et al., 2019). O fato de a majoritária audiência ser do gênero masculino pode estar fortemente ligada à presença, nesses conteúdos, de comportamentos sexuais que contribuem para a autoafirmação do homem heterossexual como dominante, promovendo a manutenção da subjugação da figura feminina. Na pornografia, a identificação entre os espectadores com os personagens desenvolve a fantasia sexual que, segundo Donnertein, Linz e Penrod (1987), implica o sexo como finalidade apenas para a produção da satisfação dos desejos masculinos, o que pode ser reforçado quando são abordadas as cenas relacionadas ao orgasmo nos filmes: 97% dessas se concentram na figura do homem (LEITE, 2011; ANGELONI, 2021). O conteúdo pornográfico oferecido, seja em meios virtuais, revistas etc., privilegia o desejo sexual de homens heteros em detrimento de outras identidades de gênero. Muitas vezes, a atividade sexual exposta em vídeos e outros tipos de materiais apresenta um modelo de mulher submisso ao desejo masculino. (MOREIRA, POLLI & SANTOS, 2022, p. 3). Esse conteúdo voltado para o homem heterossexual, uma vez que atrai seu público principalmente pela ideia de dominância, acaba, muitas vezes, apresentando as relações sexuais de maneiras consideradas distorcidas e perversas, influenciando a objetificação da parceira e proporcionando uma deturpação do que se classifica como desejo e prazer, “[...] propiciando um cenário de frustração e de violência ao demandar do outro a reprodução dos atos sexuais” (MOREIRA, POLLI & SANTOS, 2022, p. 14). Os vídeos e filmes pornográficos atuais têm a constante presença de práticas brutais que incluem: simulação de estupro, estupro coletivo e agressão física (DEKESEREDY, 2015). Com cenas de violência e transgressão moral, a ideia de virilidade masculina pode ser revigorada, fazendo da pornografia um reforço de padrões que mantém crenças de violência sexual (LEITE, 2011) e servindo de estímulo para o desejo dos espectadores de agredirem sexualmente terceiros (RUSSEL, 2011). 4.3. Os diferentes gêneros pornográficos e a violência na pornografia, na atualidade A pornografia é um campo vasto e diversificado que abrange uma ampla gama de gêneros e subgêneros, que atualmente são consumidos com a ansiedade similar ao de produtos da indústria, pautados pelo excesso, pela rapidez e pela descartabilidade (ALVES, 2018 apud MOREIRA, POLLI & SANTOS, 2022). A pornografia mais comumente acessada é a Mainstream, que é composta por conteúdos que retratam atos sexuais consentidos entre adultos. Tem-se também, como desviante dos padrões convencionais, o crescente consumo de pornografia alternativa focada na exploração de diferentes corpos e posições – dando espaço para a expressão do público feminino ou LGBTQQICAAPF2K+[footnoteRef:11] – além de fetiches e fantasias sexuais específicas, como BDSM[footnoteRef:12] (PARREIRAS, 2012) que, segundo Nunes e Pereira (2017), são regidos pelos princípios de segurança, consensualidade e sanidade. [11: Atualmente, o acrônimo incorpora as iniciais de: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Queer, Questionando, Intersexuais, Curioso, Assexuais, Aliados, Pansexuais, Polissexuais, Familiares, 2-espíritos e Kink (esta última se refere ao uso de práticas, conceitos ou fantasias sexuais qualificadas como não convencionais, desviantes ou peculiares ligadas ao fetichismo).] [12: BDSM é um acrônimo que mistura as iniciais de vários fetiches: Bondage, Disciplina, Dominação, Sadismo, Submissão e Masoquismo. Refere-se a um conjunto de práticas sexuais fetichistas que se utiliza da dor, da humilhação erótica, da coerção e da submissão.] No entanto, com a dessensibilização promovida pelo frequente uso de determinados materiais “pornôs”, para indivíduos específicos, por vezes, torna-se necessária uma maior estimulação externa, fazendo-os buscar por conteúdos pornográficos cada vez mais extremos, a fim de conseguir promover o mesmo nível de prazer que se tinha antes (ANDRADE et al., 2021). E dessa forma, então, aumenta o acesso à pornografia extremista – também nomeada por pornografia violenta, pornografia de violência extrema, pornografia grotesca e/ou pornografia ilegal – que, em geral, apresenta conteúdos explícitos de abuso, estupro, tortura e assassinato, e os interesses e os fetiches estão majoritariamente ligados à ausência de consentimento. Segundo os estudos de Leite (2011), esse tipo de pornografia expressa excessos e desarmonia por meio da confusão de valores e padrões, além da quebra estética e sexual. Os conteúdos apresentam, muitas vezes, a despersonalização da figura feminina e a submetem ao desejo masculino e, assim, promovem, segundo Angeloni (2022), consequência de reprodução e normalização da violência contra mulher, da cultura do estupro e da misoginia. Bridges et al. (2010), ao analisarem 304 cenas de filmes pornográficos populares, classificaram que 88% dessas apresentavam diferentes tipos de agressões físicas (espancamento, engasgos durante o sexo oral praticado no homem, tapas, puxões de cabelo e sufocamento). A maioria dessas cenas era praticada por atores homens (70%) e essas práticas eram dirigidas à mulher (94%). O abuso desses conteúdos classificados como “bizarros” – por vezes até proibidos– visa a satisfação de desejos internos, mas também pode servir como fator de incentivo para intensificação da vontade de concretizar o ato na realidade, como enfatizam Moreira, Polli e Santos (2022): O dependente de sexo constrói um mundo de fantasia em torno da pornografia que, para além de condicionar o seu estado afetivo e performance sexual, faz com que fique dependente nestes objetos e fantasias para satisfazer as suas necessidades sexuais e emocionais antes e durante as relações sexuais com uma pessoa real. (MOREIRA, POLLI & SANTOS, 2022, p. 37) Assim, os conteúdos pornográficos que encenam formas de violência, distorcem a percepção corporal perturbando o ato sexual (ADRIAZEN & MONTENEGRO, 2021), transmitindo para o espectador o conceito de agressão como ambíguo e/ou aceitável (ANGELONI, 2021), banalizando a presença de ações abusivas, coerção e violência nas relações sexuais, podendo gerar também comportamentos agressivos em demais âmbitos da vida: Um estudo realizado por D'Abreu (2013) investigou a relação entre o uso de pornografia e agressão sexual, e revelou que 99,7% da amostra já teve contato com pornografia, sendo 54,3% de uso ocasional ou frequente. Ainda segundo o autor (2013), os agressores possuíam médias mais altas de consumo de pornografia em relação a não agressores, e que o uso de pornografia violenta promovia maior severidade nas agressões sexuais. Os dados obtidos por D’Abreu (2013) realçam a importância de investigar se há relação entre o consumo de pornografia e comportamentos agressivos e dominantes. [MOREIRA, POLLI & SANTOS, 2022, p. 19] A propagação desse material violento se dá principalmente pelo anonimato de consumo e do acesso – antigamente por meios mais restritos, como dos VHS e DVDs – e, atualmente, pela ampla plataforma virtual. A ausência de identificação serve como fator de encorajamento para o acesso de conteúdo continente de cenas parafílicas ligadas à agressão (MOREIRA, POLLI & SANTOS, 2022) e a atos brutais (como estrangulamento, ingestão de carne humana, estupro de pessoas acordadas ou inconscientes, assassinato do parceiro após a relação etc.). O desejo pelo sexo considerado imoral e degradante, segundo Dekeseredy (2015), vem se destacando há séculos; mas, a permissividade propiciada pela tecnologia, permite que as pessoas consigam manifestar, mesmo que anonimamente, o interesse por temas antes escassos pelo tabu e, “[...] dessa forma, seu consumo não se apresenta como a causa, e sim como fator de risco para a violência sexual” (ANGELONI, 2021, p.16). No entanto, é importante salientar que o estudo da pornografia é amplamente complexo e sujeito a interpretações variadas, especialmente em termos de suas implicações sociais, culturais e psicológicas. 4.4. Análise do Comportamento e Fatores Subjetivos do Indivíduo: Práticas Violentas ou Criminais X Uso de Pornografia Com o estudo precursor de Richard Von Krafft-Ebing sobre os homicídios sexuais em série, o autor descreveu características psicológicas recorrentes nos assassinos, das quais se destacam a manipulação, a tortura, os comportamentos sádicos e o uso excessivo de pornografia (MILLER, 2014 apud LEMOS & OLIVEIRA, 2021). Além disso, o JUSBRASIL (2016) e a editora DARKSIDE (2023), ao listarem as principais características dos serial killers, também mencionam o uso excessivo de conteúdos pornôs, principalmente os que envolvem fetichismo e violência. Peters (2004) entrevistou Raymond Pierce que foi o fundador da Unidade de Avaliação Criminal e Perfilagem da NYPD[footnoteRef:13] e, portanto, treinado para a definição do perfil psicológico elaborados pelo Federal Bureau of Investigation[footnoteRef:14] (FBI). Pierce investigou aproximadamente 1000 casos envolvendo assassinatos sexuais, estupros e/ou agressões a adultos e, na entrevista conduzida por Peters, ele perguntou a Peters, em quantos desses, o agressor era usuário de pornografia. A seguir, trechos dessa entrevista: [13: Sigla de New York Police Department; isto é, o Departamento de Polícia de Nova Iorque.] [14: Ou Departamento Federal de Investigação.] Pierce: Eu investiguei entre 750 e mil casos, mas eu estava procurando por isso o tempo todo? Não, eu não estava. Mas minha estimativa seria que pornografia é esperada pela polícia nesses casos. É esperado que eles [os suspeitos] leiam literatura e revistas pornográficas. Em qualquer lugar entre 60 e 80 por cento dos casos, se eu estivesse procurando por isso, eu teria encontrado. Mas realisticamente, bem mais de 80 por cento. Peters: Quais foram as porcentagens de encontrar pornografia envolvida em assassinatos sexuais em série, estupros e agressões, em sua estimativa? Pierce: Quase sempre... Muito frequentemente, especialmente com assassinos em série, eles têm um grande problema com poder e controle. Muitas vezes, eles têm áreas de armazenamento escondidas… (PETERS, 2004, p. 2) Ainda, a fantasia desempenha um papel importante no comportamento sexual dos agressores, desenvolvendo o que Peters (2002) descreve como “[...] imagens sexuais bizarras envolvendo distorções grotescas e não naturais da imagética sexual” (PETERS, 2002, p. 3), produzindo a excitação por meio de pensamentos e fantasias de agressão sexual reforçados a partir da repetição, ilustrados pelo uso de pornografia sádica (GEBERTH, 1983). Fantasias ou atos sádicos podem envolver atividades que indicam a dominação da pessoa sobre a vítima, como no caso retratado em The Perfect Victim (McGuire & Norton,1988). Este caso envolveu Cameron Hooker e sua esposa Janice. A fantasia de Cameron Hooker era dominar e torturar mulheres nuas que estavam amarradas e desamparadas. Suas fantasias foram alimentadas por uma extensa coleção de pornografia hardcore que apresentava bondage, couro, algemas e chicotes... Em um momento durante esta tortura, [uma vítima] conseguiu ver através do fundo de sua venda. Ela viu uma imagem de uma mulher nua pendurada em uma posição muito semelhante à dela. Aparentemente, Cameron estava usando essa pornografia sádica para escrever sua fantasia na realidade (PETERS, 2004, p. 3). Geberth (1983) ainda utilizou relatos reais de criminosos que ocorreram no âmbito judicial, a fim de demonstrar que o significado da fantasia e a dessensibilização dos conteúdos parecem ter estreita ligação com a passagem ao ato. Ao comentar sobre o Case 4, no seu livro (Practical Homicide Investigation: tactics, procedures, and forensic techniques, ainda sem tradução para a língua portuguesa)[footnoteRef:15], o autor expõe a fala do réu abusador (não identificado): [15: GEBERTH, Vernon J. Practical homicide investigation: tactics, procedures, and forensic techniques. Boca Raton (FL): CRC Press, 1983.] “[...] Quando cheguei a Denver, havia muitos sexshops. Lá, eu encontrei revistas e vídeos de bondage. Revistas de mulheres bonitas e jovens meninas amarradas, amordaçadas e em praticamente todas as posições possíveis. Eu estava no paraíso. Comprei muitas revistas e vídeos. Depois de um ano ou mais assistindo, eu queria a coisa real. Eu queria uma mulher amarrada e sexualmente abusada... Eu não queria uma parceira disposta como (nome preservado) tinha sido. Eu queria uma parceira não disposta. Eu saía e caminhava pelas ruas e visitava clubes procurando pela mulher ou menina certa”. (GERBETH, 1983, p. 44) Roger Young, agente do FBI que trabalhou de 1980 a 2001 na investigação de casos qualificados como obscenos, alegou que, em sua opinião profissional e pessoal, acreditava na correlação entre pornografia e crimes sexuais violentos, uma vez que os praticantes destes encontravam no conteúdo pornô, reforçadores, motivação, encorajamento e validação de suas fantasias sexuais (PETERS, 2004). Como já enfatizado anteriormente, as consequências do uso frequente da pornografia não são um consenso. Existem autores – como Vanwesenbeeck (2001) e Kohut (2013), por exemplo – que a associam como elemento de desempenho do papel social fundamental, por entenderem que podem aumentar a autoestima e a exploração da identidade sexual. Há, como opostoa esses primeiros, autores que conceituam a prática pornográfica como uma construção negativa e prejudicial (HASSAN, 2018), como Malamuth (2010) que, então, afirma que esta prática aumenta a aceitação de estupro. Essa posição corrobora a posição de Russel (2004) que atribui à pornografia o papel de endossar e incentivar o abuso sexual, não apenas voltado às mulheres, mas também às crianças e aos animais. O presente texto nunca pretendeu e nem busca se posicionar para quaisquer dessas posições. Mas, a tentativa, aqui, é a de compreendê-las e, talvez, levantar questões para uma possível terceira posição, subsidiada e fomentada pelas análises de Moreira, Polli e Santos (2022). Para tanto, são consideradas as seguintes questões: · O abuso de práticas pornográficas pode produzir impactos nas dimensões afetivas e cognitivas do indivíduo? · Esses impactos estão relacionados diretamente à singularidade e subjetividade do indivíduo, que dá base para a maneira pela qual ele interpreta os conteúdos sexuais consumidos? · E esse consumo ligado à especificidade de cada indivíduo faz com que cada pessoa experimente de maneira distinta a sua sexualidade e a sua relação com a pornografia, a partir de sua história de vida, de sua realidade socioeconômica e cultural e predisposição cognitiva? Deste modo, a pornografia per se não deveria ser classificada como intrinsecamente “boa” ou “má”. Mas, entender como ela pode produzir diferentes efeitos e consequentes comportamentos em diferentes indivíduos que, então, podem ser considerados negativos ou positivos, a depender dos prejuízos a esses próprios indivíduos e a terceiros. Vale ressaltar que, a despeito de o público que consome conteúdos pornográficos ser altamente expressivo, apenas uma parte dos telespectadores desenvolve a passagem ao ato de comportamentos considerados violentos e criminais possivelmente associados a esse uso/abuso de conteúdos. Portanto, a pornografia nesses atos não se classifica como fator de influência, mas como um componente adicional de indivíduos propensos a comportamentos violentos, criminais e abusivos. Neste sentido, deve ser retomado o conteúdo daquele fragmento da entrevista de Peters com Pierce (2004). Isto é, o fato de Pierce ter destacado que, a partir de sua prática profissional voltada à análise de serial killers envolvidos em crimes sexuais, identificar que aproximadamente 80% poderiam ser classificados como apreciadores de material pornográfico, sendo importante enfatizar que apenas uma mínima parcela – menor de 1% da população mundial – compõe essa população de criminosos em série (MARCHIORI, 2021). A partir daqui, serão abordadas questões referentes à constituição de ser; isto é, de como cada indivíduo se constitui como tal. E para isso, o modelo adotado para a compreensão do ser humano foi a concebida pela filosofia de ciência do Behaviorismo Radical de B. F. Skinner (1953/1994). De acordo com essa perspectiva, o comportamento humano é selecionado pelas consequências em três diferentes níveis presentes na vida do indivíduo: 1. Nível Filogenético: refere-se às predisposições genéticas e biológicas dos indivíduos que se consolidaram, a partir da seleção natural e sobrevivência dos antepassados. 2. Nível Ontogenético: aborda as contingências que constituem a história de vida subjetiva de cada indivíduo particular. 3. Nível Cultural: integra as variáveis culturais no contexto ao qual esse indivíduo se insere/pertence (ZILIO & CARRARA, 2009). Assim, a complexidade do comportamento humano é resultado da interação dinâmica entre as variedades influentes de fatores biológicos, subjetivos e culturais (SKINNER, 1953/1994). Todos os comportamentos são afetados pelas consequências que produzem. Uma vez que essas consequências sejam alterações consideradas “positivas” no ambiente do ponto de vista individual do indivíduo (a partir de sua história), aumenta a probabilidade de repetição da ação. No entanto, muitas vezes, em certas situações – como dependência de substâncias, por exemplo – ocorre uma dessensibilização pela recorrência do resultado, sendo necessária maior exposição a estímulos de maior magnitude para que, então, seja produzida a mesma sensação já experimentada como produto do processo comportamental (MOREIRA & MEDEIROS, 2019). Por isso, talvez, a passagem de mero expectador do conteúdo pornográfico para as ações pode ser uma condição natural para cada indivíduo, dadas as suas necessidades. Com relação ao nível filogenético, por exemplo, pode-se agregar a posição de Angeloni: A neurociência já buscou investigar o comportamento aditivo relacionado ao consumo de pornografia. Struthers (2009) descreveu os eventos neurológicos desencadeados no cérebro de homens ao acompanhar pornografia, começando pelo aumento de atividade na área segmental ventral, próximo ao núcleo accumbens, conhecido pelo centro do prazer e recompensa. As conexões estabelecidas são a fonte da excitação sexual, e assistir a materiais pornográficos aumenta este tipo de ansiedade. Na ejaculação, libera-se dopamina e a ação da amígdala, a reguladora das emoções e responsável pelas reações de medo, é inibida. Portanto, o orgasmo está associado ao ápice de prazer e ausência de medo. Além disso, com a participação da glândula basal, encarregada da aprendizagem implícita, o consumo da pornografia é associado a uma experiência satisfatória. A ação dos neurônios espelhos criam um hábito neurológico quando um indivíduo se excita ou masturba assistindo pornografia. Dessa forma, aciona-se o sistema visual, motor, sensorial aos efeitos neurológicos do orgasmo, construindo a compulsão sexual e o vício em pornografia (ANGELONI, 2021, p. 19) Ainda acerca do fator biológico: os assassinos em série (que comumente são relacionados com o uso da pornografia), por exemplo, são majoritariamente diagnosticados com transtorno de personalidade antissocial que, de acordo com anormalidades registradas, apresentam persistência de ondas lentas nos lobos temporais (FILHO & STONE, 2006). Anomalias da circuitaria cerebral também podem ocorrem na infância pela criança que sofre com maus-tratos e negligência, pois nesta fase “[...] o cérebro está sendo esculpido pela experiência” (FILHO & STONE, 2006, p. 75). Há estudos que apontam para outros aspectos orgânicos, como complicações obstétricas, epilepsia e infecção cerebral que influenciam a personalidade. Segundo Eysenck e Gudjohnsson (1989), existe uma condição biológica comum subjacente às predisposições comportamentais dos indivíduos com psicopatia (que se classificam dentro do transtorno antissocial), como: extroversão, impulsividade, sistema nervoso insensível a baixos níveis de estimulação, além de frequente comorbidade de transtorno esquizóide (comumente atrelado à disposição hereditária) e sádico (provavelmente ligado a agressões severas na infância que podem ser de cunho físico, verbal ou sexual). Segundo Hazelwood e Michaud, a maioria dos serial killers exibe um comportamento sexualmente sádico. Embora a apreciação do sofrimento da outra pessoa seja um ingrediente comum e importante no sadismo sexual, o desejo pelo domínio da outra pessoa e uma completa subjugação dela aos seus desejos são ingredientes cruciais para muitos sádicos sexuais. Isso foi claramente explicitado nas palavras de um dos mais conhecidos serial killers (Mike DeBardeleben), que, certa vez, escreveu: "o impulso central é ter completo comando sobre a outra pessoa, fazer dela o objeto desamparado de nosso desejo...fazer com ela o que se quer para o prazer... e o objetivo mais radical é fazê-la sofrer". Vários dados apontam para múltiplas perversões sexuais de serial killers, incluindo necrofilia e canibalismo (FILHO & STONE, 2006, p. 78). Ao considerar o chamado perfil sádico, compreende-se que este geralmente é ligado a agressões severas na infância (que podem ser de cunho físico verbal ou sexual), que, então, estariam ligados ao nível ontogenético, combinando as situações de trauma infantil com as predisposições biológicas. Por fim, o nível culturalalém de fornecer o acesso à pornografia, somado aos dois outros níveis, atribui valores de julgamentos e condutas; mas, também, a aceitação de determinadas práticas para a definição de papeis de dominância e submissão. Malamuth et al. (2000) classificaram os indivíduos que apresentavam combinação específica de fatores de risco, estariam mais propensos a experienciar consequências negativas do consumo frequente de pornografia, como comportamento sexual agressivo. Assim, indivíduos com específicos componentes etiológicos genéticos associados a determinados fatores ambientais, comumente apresentariam similar gama de condutas. Adiciona-se também como um possível fator que pode atrapalhar o desenvolvimento considerado “sadio” da sexualidade, o acesso precoce ao conteúdo pornográfico (MOREIRA, POLLI & SANTOS, 2022). Douglas (2017) destaca que a tríplice comportamental de maus tratos (ou abuso na infância), paranoia e dano cerebral, pode levar à perseguição dos desejos sem considerar regras sociais, alimentando fantasias sexuais com experimentações mórbidas com animais, crueldade com terceiros e uso frequente de conteúdos pornográficos (LEMOS & OLIVEIRA, 2021). Dos 30 homicidas contemporâneos do gênero masculino analisados na obra de Schrechter (2013), apenas sete deles apresentavam conduta de abuso da pornografia como fato comprovado. Inclusive eles chegaram até a mencionar que a pornografia auxiliou na passagem da ação para os crimes praticados. Além disso, esses casos se encontram dentro dos 14 que estão conectados com crimes de cunho sexual, levantando a premissa da possibilidade de existirem comportamentos criminais sexuais que podem ou não ter envolvimento do fator pornográfico. Mas, caso haja a prática pornográfica na vida do criminoso, seus atos se voltariam para o cunho erótico, como Peters (2004) pontua a partir da fala de Overweg: “[...] é difícil determinar quanta influência a pornografia tem sobre as pessoas. No entanto, a pornografia é um denominador comum que geralmente está presente, disse ele. ‘Sempre que investiguei um crime sexual, uma busca... quase sempre revelará pornografia na residência do agressor ou...pornografia em seu histórico’, disse Overweg” (PETERS, 2004, p. 10). Russel (2011) afirma que a pornografia fomenta a violência sexual, ao estimular desejos de agredir sexualmente por conta da desinibição gradual de restrições sociais, sempre levando à busca de materiais mais extremos com práticas sexuais menos comuns para alcançar o mesmo nível de excitação anterior (ANGELONI, 2021). Assim, a associação desses conteúdos pode incentivar que os impulsos violentos se misturem a atos eróticos, gerando interpretação negativa da pornografia resultante da combinação de traços de personalidade e conduta desviante, caracterizada por aspectos interpessoais, afetivos e comportamentais. Segundo Roger Young – reconhecido como uma das principais autoridades do FBI em relação à investigação de casos qualificados como obscenos – a pornografia e crimes sexuais violentos possuem correlação: indivíduos que cometem esses crimes recebem reforço, motivação, incentivo e validação de suas fantasias sexuais, a partir da pornografia que veem e leem, tornando esse material um catalisador para a realização de suas fantasias (PETERS, 2004). A fim de melhor compreender essa associação, foram analisados perfis psicológicos de serial killers, assassinos e criminosos do sexo masculino que tinham contato frequente com o uso pornográfico. As obras “Cruel: índice de maldade” (STONE & BRUCATO, 2023) e “Crime Scene Serial Killers: anatomia do mal” (SCHECHTER, 2019) se constituíram material de consulta para compor esse estudo, uma vez que ambas – publicadas pela DarkSide Books – abordam de maneira documental e biográfica casos reais, apresentando dados que serão aqui utilizados, com o intuito de melhor embasar e “cruzar” características similares para compor análise comportamental aprofundada. 4.5.1. O uso de pornografia e outros fatores em comum em assassinos e crimes violentos Dentre os casos mais divulgados nessa categoria, destaca-se Ted Bundy como uma das mais conhecidas. Bundy, o "Assassino de Mulheres Estudantes", teve sua infância marcada por uma dinâmica familiar prejudicada. Os seus avós assumiram o papel de seus pais, enquanto a sua mãe assumiu o papel de ser sua irmã, fazendo-o acreditar nessa farsa por anos (SILVA; LEMOS & OLIVEIRA, 2021). Além disso, ele também foi frequentemente exposto à violência física que o seu impunha à sua avó e submetido e à exposição a materiais pornográficos precocemente. Ainda quando criança, Bundy desenvolveu comportamentos como voyeurismo e sadomasoquismo (ARRIGO, 2009), além de crescente interesse por pornografia cada vez mais violenta, com o passar dos anos. Na adolescência, foi um jovem tímido que se sentia desconfortável com situações sociais. No entanto, em sua fase adulta, ele era um rapaz considerado inteligente e carismático, embora com traços narcisistas. Passou a sequestrar mulheres e as assassinava após atos de tortura, muitas vezes ligados ao abuso sexual, além da prática de necrofilia. Quando ele foi preso e condenado à morte por seus crimes, optou por dar uma última entrevista um dia antes de sua execução, para o Dr. James Dobson em 24 de fevereiro de 1989, em que alegava como a pornografia afetou suas ações: Ted Bundy: (…) isso é algo que eu quero enfatizar, esse é o tipo mais prejudicial... de pornografia (a violenta) - e, novamente, estou falando por experiência própria... experiência difícil, real, pessoal. Então, o tipo mais prejudicial de pornografia é aquele que envolve violência e violência sexual. Porque a união dessas duas forças – como eu sei muito bem – leva a um comportamento que é simplesmente...simplesmente terrível demais para descrever. Dr. James Dobson: Me explique isso. O que se passava na sua cabeça, naquela época? Ted Bundy: Ok, antes de prosseguirmos, é importante para mim que as pessoas... acreditem no que estou dizendo, e esclareço que não estou culpando a pornografia. Não estou dizendo que ela me fez sair e fazer certas coisas. Eu assumo total responsabilidade por tudo o que fiz e por todas as coisas que cometi. Essa não é a questão aqui. A questão... e o problema é como esse tipo de literatura contribuiu e ajudou a moldar e dar forma aos tipos de comportamento violento. Outro assassino em série que teve a pornografia como um fator de influência de seus crimes foi Gary Ridway, também conhecido como “Assassino do Rio Verde”. Ele teve uma infância conturbada marcada pela violência doméstica e negligência. Seus pais brigavam constantemente e seu pai lhe abusava fisicamente. Na adolescência, Ridway começou a se envolver em atividades criminosas, incluindo roubo e vandalismo (MCELROY & USCHAN, 2001). Era casado, possuía filhos e trabalhava como pintor de caminhões na região de Rio Verde, em Washington. Foi condenado por 48 assassinatos de mulheres e era considerado um indivíduo sádico e necrófilo, que obtinha prazer sexual ao estrangular suas vítimas e a observar o sofrimento delas. Segundo Rule (2002), embora a pornografia não tenha sido o principal fator motivador dos crimes de Ridway, esta desempenhou papel em sua vida quanto à construção de sua psique distorcida, pelo acesso e foco em material violento e degradante. Isto é, levanta-se a hipótese de que essa exposição frequente à pornografia violenta pode ter contribuído para a sua desumanização para com as mulheres e para a normalização da violência contra a figura feminina ligada ao sexo. Observados esses e os outros quatro serial killers adeptos da prática pornográfica descritos nas obras analisadas, foram organizados alguns dados considerados relevantes. O Quadro 1 ilustra essa organização. Quadro 1. Descrição de Características Relevantes de Criminosos – Serial Killers. Praticante dos crimes Consumo de pornografia História (infância e juventude) Uso/abuso de drogas [lícitas e ilícitas] Vida social Hipóteses de transtornos mentais Ted Bundy - Apresentadoprecocemente a conteúdos pornográficos. - Antes de sua execução, mencionou a influência que a pornografia (desde a mais leve como a mais violenta) sobre os seus crimes - Viveu com os avós em uma dinâmica familiar conturbada. - Assistia a diversos episódios de violência cometidos pelo seu avô contra a sua avó. - Torturava e matava animais, na infância. Não fazia uso e/ou abuso de drogas ou álcool. Foi um jovem tímido que se sentia desconfortável em situações sociais. No entanto, em sua fase adulta, se apresentava como um rapaz inteligente e sedutor, embora com traços narcisistas e atitudes de manipulação. Foi diagnosticado com transtorno de personalidade antissocial. Jeffrey Dahmer - Conhecido por consumir pornografia envolvendo violência e fetiches macabros. - Ele incorporava elementos dessas fantasias em seus assassinatos. - Considerava-se negligenciado por conta das constantes brigas dos pais. - Torturava e matava animais na infância. Abuso recorrente de álcool. Introvertido e reservado; mas, também, era capaz de manipular e enganar os outros com sua aparência calma e persuasiva. Não foi diagnosticado oficialmente; mas, demonstrava características de esquizofrenia, como alucinações. Também se classificava como antissocial. Gary Ridway - Admitiu consumir pornografia violenta, antes abusar sexualmente de mulheres e a execução de assassinatos. - Chegou a afirmar que a pornografia alimentava a sua raiva e o seu desejo de controle sobre as mulheres. Ambiente familiar conturbado, marcado por conflitos conjugais e abusos emocionais. Não fazia abuso de drogas e o consumo de álcool não foi destacado como um fator significativo. Reservado e introvertido; não buscava por relações sociais. Diagnosticado com transtorno de personalidade antissocial. John Wayne Gacy Foram encontrados diversos conteúdos eróticos em sua casa, como grande quantidade de revistas pornográficas. Criado por um pai alcoólatra, abusivo e violento. Abuso de drogas. Extrovertido e sociável em público. Era uma figura carismática que se envolvia em eventos de caridade. Diagnosticado com transtorno de personalidade antissocial. Dennis Rader Tinha fixação por pornografia violenta e elaborou fantasias eróticas em torno de seus assassinatos. Sua infância, como relatada em suas próprias declarações e em relatos de familiares e conhecidos, foi relativamente comum, sem grandes incidentes ou traumas aparentes. Não tinha um histórico público de abuso de álcool ou drogas, antes ou durante seus assassinatos. Tímido e reservado; demonstrava dificuldades para estabelecer relacionamentos interpessoais e tendia a se isolar socialmente. Embora fosse introspectivo, tinha personalidade manipuladora. Fontes o diagnosticaram, por vezes, com transtorno de personalidade antissocial e, às vezes, com transtorno narcisista. Além desses, foi levantada a hipótese diagnóstica de esquizofrenia. Richard Ramirez Consumo de pornografia extremamente violenta. Ele incorporava elementos dessas fantasias em seus ataques. - Foi exposto às violências e abusos do pai para com a família, além de ter assistido o primo assassinar a própria esposa. - Quando novo, sofreu um acidente no qual bateu a cabeça e passou a ter convulsões. Histórico significativo de abuso de drogas e álcool. Durante seus crimes, frequentemente, estava sob efeito de substâncias psicoativas, como cocaína e LSD. Alternava entre uma persona carismática e extrovertida e momentos de brutalidade e violência extrema. Embora seus comportamentos sugiram a possibilidade de distúrbios psicóticos, foi diagnosticado com esquizofrenia ou paranoia. Fontes: Silva; Lemos & Oliveira (2021); Schrechter (2019). A partir da síntese ilustrada no Quadro 1, verifica-se que todos os assassinos em série que consumiam materiais eróticos/pornográficos tinham contato com conteúdos qualificados como violentos. Segundo Skinner (1953/1994), comportamentos são modelados e mantidos por suas consequências, sejam elas reforçadoras ou punitivas. Nesse contexto, a exposição contínua à pornografia violenta pode ter exercido tanto função de estímulos antecedentes promotores à ação violenta como, também, a função de reforçador condicionado para a emissão de comportamentos agressivos e sexualmente violentos, ao associar a excitação sexual a esses atos de violência. Além disso, cinco dos seis indivíduos estudados possuíam experiências de conturbações familiares durante a infância, caracterizadas por rejeição, negligência e agressividade. Na infância, o ambiente familiar exerce influência significativa no desenvolvimento comportamental do indivíduo e, portanto, a exposição a um escopo relativamente disfuncional e truculento pode atuar como um contexto altamente aversivo, no qual a violência é vista como uma resposta aceitável ou inevitável para lidar com o estresse e a rejeição. Assim, tal condição pode contribuir para a naturalização de comportamentos agressivos e antissociais, desde a idade precoce (SKINNER, 1953/1994). Essa aderência aos atos violentos e perversos como resposta ao ambiente pode ser vista, no caso de alguns dos analisandos, que, quando crianças, já produziam comportamentos sádicos de torturas em animais. Outro fator relevante observado é o abuso de substâncias presente em metade dos perfis analisados: dois deles faziam uso de drogas e álcool, enquanto um deles fazia apenas uso recorrente de álcool. Skinner (1953/1994) argumenta que esse tipo de consumo pode diminuir as inibições e alterar o julgamento e, potencialmente, reforçar comportamentos impulsivos e violentos. Quanto à hipótese de transtornos mentais, todos os seis assassinos foram diagnosticados com transtorno de personalidade antissocial e dois deles também apresentavam traços de esquizofrenia, o que pode agravar ainda mais a propensão para comportamentos truculentos devido à possível presença de delírios e alucinações. Em resumo, como padrão desses assassinos em série que promoveram crimes sexuais violentos, verifica-se o consumo de pornografia de caráter brutal, o diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial e a majoritária presença de conturbações familiares, desde o período infantil. Outro estudo que apresenta resultados similares a estes aos destacados neste presente estudo, é o de Stone (2001) que, ao analisar 99 assassinos em série, constatou que: [...] 49 eram donos de uma infância traumática marcada por violência física por um familiar, 56 possuíam em sua infância marcas de violências sofridas por humilhação, 25 deles cresceram sem a presença do pai e, quando o tiveram, a presença de uma figura masculina era o padrasto, 12 destes apresentaram sintomas de doença mental, 19 possuíam algum tipo de traumatismo craniano e ou danos cerebrais decorrentes de incidentes como quedas, ou doenças como a meningite. Dos criminosos estudados, 43 faziam uso abusivo do álcool, enquanto 20 deles usavam drogas mais ‘pesadas’ tais quais cocaína, maconha, LSD e outras drogas com efeito analgésico, 29 se apresentaram com características de hipersexualidade, 21 dentre estes 29 eram parafílicos e 29 torturaram animais durante a infância [...]. (SILVA, 2019) Entretanto, ainda que fatores ambientais e sociais – que constituem o que Skinner nomeia de níveis ontogenético e cultural – sejam observados recorrentemente em conjunto nesses casos, é necessário correlacioná-los ao nível filogenético. Segundo dados do FBI (2005), a presença de predisposições biológicas específicas apresenta-se como fator indispensável para que o assassinato em série ocorra. Esse fator biológico como constituinte do comportamento antissocial, pode estar ligado, de acordo com Silva (2019), a lesões no lobo frontal e temporal do cérebro: Segundo Morana; Stone; Abdalla-Filho (2006) foram encontradas anomalias em exames eletroencefalográficos (EEG) em pessoas com personalidade antissocial praticantes de crimes. As ondas lentas nos lobos temporais caracterizaram-se como uma das anomalias mais prevalentes entre eles. Segundo os autores (2006), estes indivíduosseriam extrovertidos, explosíveis e verdadeiros caçadores de emoção, uma vez que apresentam um sistema nervoso relativamente indiferente com baixos níveis de estimulação (SILVA, 2019). Embora a proposta do presente estudo se debruce sobre a análise de características comuns de assassinos em série e o consumo de conteúdos pornográficos, ainda é importante ressaltar que a pornografia se faz presente em crimes violentos com premissas sexuais em outros e não exclusivamente envolvendo serial killers. Por exemplo, no artigo de Peters (2004), são descritos casos de crimes violentos nos quais os indivíduos os cometeram de maneira “não premeditada”, como o abordado na matéria “Porn role probed in murders” do jornal Boston Herald, em 7 dezembro 1987. Na matéria, o acusado por assassinar uma mãe e dois filhos possuía, em sua casa, amplo conteúdo de pornografia hardcore. Este conteúdo encontrado na casa do réu, aliado a elementos de sua história de vida, levou os investigadores a explorar se o acusado poderia ter sido “inspirado” por ele ou poderia ter “copiado” atos retratados em vídeos ou revistas acessados por ele. Outro caso mais atual é do antigo assistente de produção de séries do canal Nickelodeon, Jason Handy, que trabalhava nos bastidores de séries infantis na década de 2000. Handy, indiciado por tentativa de abuso infantil, foi preso em 2003, acusado de envolvimento sexual com menores de idade. Na busca por provas que o incriminassem em sua própria casa, a polícia encontrou mais de 1200 imagens de pornografia infantil, incluindo conteúdo explícito e um diário em que ele afirmava que não teria nenhuma dificuldade, caso “precisasse abusar de alguém sexualmente”. O canal Investigação Discovery lançou um documentário recentemente com 5 episódios retratando esse e outros crimes cometidos com crianças, nos programas infantis. O primeiro episódio foi disponibilizado em 17 de março de 2024 (ROBERTSON & SCHWARTZ, 2024). Por fim, vale ressaltar que a pornografia pode ser utilizada em crimes de caráter não violento. A ampla utilização da internet promoveu, na contemporaneidade, não apenas facilidade no acesso aos conteúdos pornográficos; mas, também, a rapidez para divulgá-los. Neste contexto, surgiu a pornografia qualificada como “pornografia de vingança”: caracterizada pela divulgação, não autorizada, de material íntimo, como fotos e vídeos sexuais e de nudez, como meio de humilhar e envergonhar as vítimas, com a finalidade de impactar negativamente a sua reputação e o seu bem-estar emocional (ARAÚJO, 2016). A ocorrência dessa prática como criminosa resultou, no Brasil, na Lei Carolina Dieckmann (como ficou conhecida a Lei 12.737/2012), sancionada em 30 de novembro de 2012. Essa Lei tipifica os chamados delitos ou crimes informáticos e resultou da situação experimentada pela atriz que dá nome a ela quando, em maio de 2012, teve seus arquivos (36 fotos, especificamente) copiados de seu computador. Os arquivos se referiam a situações íntimas e conversas mantidas entre ela e seu marido com conteúdo erótico que acabaram divulgados na internet, sem autorização e conhecimento da atriz. Esse tipo de prática, qualificada entre as práticas pornográficas, se configura como ato criminal, com base na legislação vigente (Constituição Federal de 1988), considerando-se a violação ao direito à intimidade, à vida privada e à imagem. No âmbito criminal (artigos 138 a 140 do Código Penal), essa prática se configura como injúria, difamação ou ameaça (BREGINSKI, 2018). CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir do levantamento produzido por esse estudo, constata-se que a pornografia pode ser qualificada como um tipo de conteúdo de consumo inerente à humanidade e, que ao longo do tempo, os conteúdos passaram por transformações de acordo com as mudanças socioculturais. Atualmente, na contemporaneidade, a prática pornográfica atingiu números recordes com o avanço da tecnologia e pela facilidade de acesso a esses materiais. Tal facilidade também possibilitou a ampliação dos elementos disponíveis e da sua variedade (MOREIRA et al., 2022) que, assim, evoluíram para pornografias “alternativas”. Dentre estas, destacam-se conteúdos de extrema violência, evidenciando situações de abuso e de violência física, além de outras práticas consideradas ilegais e/ou criminais (como assassinato, necrofilia etc.). Vale considerar como Douglas (2017) define a pornografia: de que ela é uma via de acesso para o indivíduo conectar-se com suas fantasias eróticas e produzir prazer. Além disso, há que reconhecer que a indústria pornográfica é uma das mais rentáveis e consumidas no mundo e, neste sentido, apenas o acesso a esse tipo de conteúdo não seria responsável por produzir comportamentos violentos e criminosos. Afinal, se assim o fosse, haveria maior incidência de assassinatos e abusos, de acordo com o alto consumo desse tipo de material. No entanto, o uso frequente pode levar à dessensibilização e requerer que práticas e materiais, cada vez mais brutais, sejam procurados e utilizados. Certos indivíduos, ainda por conta do efeito considerado como de dessensibilização, acabam por promover a passagem da fantasia à ação e, em busca da reafirmação deste prazer, procuram reproduzir na realidade os comportamentos ilegais presentes nos vídeos e filmes com conteúdo pornográfico (ANDRADE, 2021). A proposta, aqui, portanto foi a de compreender os efeitos pornografia sobre o comportamento de indivíduos, especialmente os comportamentos qualificados como violentos e/ou criminais, em uma abordagem de análise mais ampla; isto é, segundo a perspectiva biopsicossocial do fenômeno psicológico. A perspectiva behaviorista radical de Skinner (1953/1994) considera a interação dinâmica entre os fatores biológicos, a história de vida (pregressa e atual) e os dispositivos culturais, para a compreensão do fenômeno psicológico. Neste sentido, cada indivíduo responde de maneira singular à pornografia, devido à sua história de vida, às predisposições biológicas e ao contexto cultural (e suas agências de controle: religião, família, economia, política etc.). A partir do levantamento conduzido, contudo, foi possível estabelecer algumas correlações consideradas relevantes para a compreensão do comportamento violento e/ou criminal de serial killers que se tornaram mundialmente conhecidos. Isto é, o consumo e/ou prática pornográfica como uma das variáveis conjugadas a dinâmicas familiares caracterizadas como negligentes, descuidadas e violentas, durante a infância, e diagnósticos psiquiátricos relevantes, como o transtorno de personalidade antissocial e esquizofrenia. Assim, com esses dados é importante colocar que a associação entre o consumo de pornografia e comportamentos sexuais violentos não pode ser reduzida a uma relação de causa e efeito direta. Os resultados deste estudo, portanto, visavam apresentar contribuições para o campo de pesquisa em questão, destacando tendências e padrões relevantes. E admite-se, aqui, que este trabalho representa apenas um ponto de partida, evidenciando a necessidade de maiores investigações acerca dessa temática dedicadas a uma análise mais aprofundada, sob a leitura de diferentes contextos e variáveis. REFERÊNCIAS 1. ABREU, N. C. O Olhar Pornô a Representação do Obsceno no Cinema e no Vídeo. Portuguese Editora: Campinas, 1996. 2. ADRIANZEN J.; MONTENEGRO D. Análisis de la Producción Audiovisual sobre la Pornografía en OnlyFans. Lima, 2021. 3. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION [APA]. Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais. 5ª Ed. Texto revisado. [DSM-5-TR]. Porto Alegre (RS): Artmed, 2023. 4. ANDRADE, A. et al. O impacto do consumo de pornografia na saúde mental durante a pandemia de covid-19. Revista Saúde Pública no século XXI: Uma abordagem sobre condições sociais de saúde, vol. 1, p. 38-49, 2021. 5. ANGELONI, T. Consumo e efeitos da pornografia, práticas sexuais violentas e desigualdade de gênero. São Paulo: Universidade Federal de São Carlos, 2021. - SEGUIR COMO PADRÃO O TCC. 6. ARAÚJO, R.