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POLÍCIA CIVIL DE MINAS GERAIS ACADEMIA DE POLÍCIA CIVIL DE MINAS GERAIS PEDOFILIA: DEFINIÇÕES E PROTEÇÃO POLÍCIA CIVIL DE MINAS GERAIS ACADEMIA DE POLÍCIA CIVIL DE MINAS GERAIS PEDOFILIA: DEFINIÇÕES E PROTEÇÃO Administração: Dra. Cinara Maria Moreira Liberal Belo Horizonte – 2020 PEDOFILIA: DEFINIÇÕES E PROTEÇÃO Coordenação Geral Dra. Cinara Maria Moreira Liberal Subcoordenação Geral Dr. Marcelo Carvalho Ferreira Coordenação Didático-Pedagógica Rita Rosa Nobre Mizerani Coordenação Técnica Dr. Helbert Alexandre do Carmo Conteudista: Dr. Guilherme da Costa Oliveira Santos Dra. Isabela Franca Oliveira Larissa Dias Paranhos Produção do Material: Polícia Civil de Minas Gerais Revisão e Edição: Divisão Psicopedagógica – Academia de Polícia Civil de Minas Gerais Reprodução Proibida SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 3 2 A VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES ................... 4 3 CRIMES SEXUAIS CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES ........................... 8 3.1 Crimes previstos no Código Penal Brasileiro ...................................... 8 3.2 Crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente ............ 12 3.3 As redes de exploração sexual de crianças e adolescentes ............ 15 4 A PEDOFILIA....................................................................................................... 17 4.1 O que é a pedofilia? .............................................................................. 17 4.2 Pedofilia é crime? ................................................................................. 18 4.3 O pedófilo criminoso ............................................................................ 19 4.4 Como a pedofilia é tratada pelos tribunais brasileiros ...................... 22 5 AS FORMAS DE ATUAÇÃO DO ABUSADOR ................................................... 24 5.1 A abordagem tradicional ...................................................................... 24 5.2 A abordagem virtual ............................................................................. 27 6 COMO RECONHECER QUE UMA CRIANÇA OU ADOLESCENTE PODE ESTAR SOFRENDO ALGUM TIPO DE VIOLÊNCIA? ..................................................... 30 6.1 Os sinais da violência sexual .............................................................. 30 6.2 As consequências advindas após a violência sexual ....................... 35 6.3 A Síndrome do silêncio ........................................................................ 37 7 A REDE DE PROTEÇÃO DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES ...................... 39 7.1 A Constituição Federal e demais leis.................................................. 39 7.2 A Lei nº 13.431/2017 e o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência........................... 41 7.3 Atuação da Polícia Civil de Minas Gerais ........................................... 41 7.4 Atuação do Conselho Tutelar .............................................................. 50 7.5 O papel dos pais na proteção das crianças e adolescentes ............. 52 7.6 Como e onde denunciar ....................................................................... 59 8 CONCLUSÃO ...................................................................................................... 62 REFERÊNCIAS .................................................................................................... 63 3 1 INTRODUÇÃO As crianças e adolescentes são as principais vítimas de violência em todas as partes do mundo e, também, no Brasil. Eles são submetidos a mais situações de vitimização do que outras partes da população, incluindo estupros, exposição à violência doméstica, castigos corporais, abusos físicos, bullying, entre outras, e tudo isso se deve, principalmente, à sua condição de vulnerabilidade e dependência. Neste cenário, os problemas relativos à violência sexual vêm ganhando cada vez mais visibilidade, devido à sua abrangência e gravidade. O combate a essa triste realidade e preservação dos direitos e garantias de crianças e adolescentes exige a ativa participação de todos, incluindo não apenas o Estado e instituições criadas especificamente para esse fim, mas, em especial, toda a comunidade e as famílias. Considerando isso, pretende-se, através deste curso, informar, orientar, sensibilizar e conscientizar as pessoas sobre as principais formas de violência sexual contra crianças e adolescentes, sobretudo dentro dos próprios lares, e instrui-las para que procedam a denúncias junto aos órgãos e instituições responsáveis. Para tanto, serão feitos breves apontamentos históricos acerca das formas de violência praticadas contra crianças e adolescentes no Brasil e no mundo, bem como apresentados dados atualizados sobre a prática das várias formas de violência sexual em âmbito nacional. Somado a isso, para que se compreenda a abrangência desses atos, serão analisados os crimes relacionados à violência sexual e apresentadas as principais características dos criminosos sexuais, incluindo suas formas e locais de atuação. Neste ponto, também será realizada uma análise sobre a pedofilia, o que ela de fato significa e quais as suas implicações práticas e jurídicas. Também neste curso, serão analisados os mais relevantes sinais que podem indicar a ocorrência de violência sexual em diversos ambientes, incluindo o próprio o lar, lugar que deveria representar um porto-seguro e constituir um ambiente saudável para o crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes enquanto pessoas e cidadãos. Na sequência, serão expostas as mais comuns consequências decorrentes da prática da violência sexual. Ao final, considerando todo o exposto, será feita uma breve abordagem sobre a rede de proteção existente para a salvaguardar os direitos inerentes a esses pequenos seres humanos em estágio de formação, incluindo as leis existentes no Brasil, a atuação dos Conselhos Tutelares e da Polícia Civil de Minas Gerais e o papel dos pais e responsáveis neste cenário (incluindo as medidas de proteção), pois, como sabemos, a família é o núcleo fundamental da sociedade e é nela que deve estar o pilar de proteção das crianças e adolescentes. 4 2 A VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES A violência contra crianças e adolescentes é um fenômeno que sempre esteve presente na história da humanidade, havendo relatos de abandono, mutilação genital, bárbaras punições, imposição de casamento a crianças do sexo feminino, iniciação sexual por parentes, oferecimento de crianças virgens em rituais de magia negra, e outras formas de violência contra menores (PACHECO; CABRAL, 2013). Apesar de integrarem um grupo assinalado por sua vulnerabilidade, haja vista constituírem pessoas em pleno estágio de desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, por muito tempo, essa situação foi ignorada e nenhum mecanismo de proteção foi criado para superar ou, ao menos, minimizar essa fragilidade de crianças e adolescentes, ainda que de forma parcial. Certamente, os atos de violência praticados contra o público infantojuvenil, isto é, a criança, que, de acordo com o art. 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é a pessoa até 12 anos de idade incompletos, e o adolescente (aquele entre 12 e 18 anos de idade), devem ser rechaçados e punidos com mais eficácia do que os demais e, neste contexto, a violência sexual em todas as suas formas merece ainda maior reprimenda. Acredita-se que a prática da violência sexual contra os meninos e meninas esteja ligada à própria evoluçãoda sociedade e às suas leis. Em um passado longínquo, diante da ausência de leis específicas, escassez de informação, baixa expectativa de vida e aspectos culturais, crianças e adolescentes poderiam estar intimamente ligados a questões sexuais, mormente praticados entre membros da própria família (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016). Com o desenvolvimento da sociedade e a definição dos direitos humanos, às crianças e adolescentes foram reconhecidos direitos e garantias, fatores estes que contribuíram para a evolução da humanidade como um todo. Porém, apesar do reconhecimento da titularidade de direitos fundamentais, tais como o direito à vida, à saúde e à dignidade, previstos na Constituição Federal de 1988 (CF/88) e no ECA, a violência sexual contra crianças e adolescentes ainda é uma realidade. Em linhas gerais, a violência sexual – que será melhor analisada no próximo capítulo – consiste em toda atuação (dentro ou fora da família) que constranja o menor a praticar ou presenciar ato de cunho sexual, incluindo a exposição do corpo em foto ou vídeo por meio eletrônico. Traduz-se em uma das mais graves violações dos 5 direitos humanos de crianças e adolescentes e “é a mais abjeta, pois submete a criança a um conjunto de relações e sentimentos para os quais ela não está preparada [...]” (MPMG, 2010, p. 8). Trata-se de um problema de saúde pública, com altos índices de prevalência e consequências que podem perdurar por curtos ou longos períodos das vidas das vítimas e suas famílias (ROVINSKI; PELISOLI, 2020). Diante deste cenário, para confirmar a importância da luta contra a violência sexual, a Lei nº 9.970, de 17 de maio de 2000, instituiu o dia 18 de maio como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Para expor e analisar a situação da violência sexual no Brasil, exatamente no dia 18 de maio deste ano, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos realizou uma coletiva online, na qual foi divulgado um balanço sobre as denúncias feitas ao Disque Direitos Humanos (Disque 100), cujos dados de 2019 apontaram o registro de 159 mil denúncias, dos quais 86,8 mil referem-se a violações de direitos de crianças ou adolescentes, um aumento de, aproximadamente, 14% em relação a 2018. Dentre os registros, identificou-se que as denúncias de violência sexual corresponderam a 11%, um total de cerca de 17 mil ocorrências (MMFDH, 2020). Não obstante esses dados apontem a gravidade da situação, os números revelam, também, que o assunto violência sexual deve ser tratado com cuidado, já que, muitas vezes, pode ser silenciosa e as denúncias não correspondam à realidade. A violência sexual sempre foi, tradicionalmente, subnotificada e essa questão, impõe-nos uma necessária reflexão, sobretudo em virtude do período de quarentena devido à COVID-19. Inúmeras escolas e creches ainda não estão funcionando e muitas crianças e adolescentes, que, antes, ficavam praticamente o dia todo fora de casa, continuam isolados e esta é uma situação que gera bastante preocupação. Muito embora o isolamento seja uma medida eficaz para evitar a propagação e letalidade do vírus, acredita-se que os casos de violência sexual contra menores aumentaram, seja porque muitos desses atos de violência são praticados dentro da < No dia 18 de maio de 1973, Araceli Sanches, de 8 anos de idade, foi sequestrada por membros de uma família do Espírito Santo. A menina foi espancada, drogada, violentada e morta pelos criminosos. Seu corpo foi encontrado desfigurado por ácido, numa mata em Vitória (CHILDFUND BRASIL, 2016). https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22Sonia+Liane+Reichert+Rovinski%22 https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22C%C3%A1tula+da+Luz+Pelisoli%22 6 própria comunidade e por pessoas conhecidas dos menores ou porque eles passaram a estar mais tempo online. Somado a isso, o isolamento interrompeu o principal canal de denúncias utilizado por essas vítimas para relatar os abusos sofridos: o professor. O professor, de acordo com a diretora-presidente do Instituto Liberta, Luciana Temer (apud SOUZA, 2020), é um adulto que tem condições de perceber esse tipo de situação, seja devido a uma marca física, por mudança no comportamento ou, inclusive, uma denúncia da própria criança ou adolescente. Sem ele, hoje, muitas dessas vítimas estão impossibilitadas de se encontrarem com uma pessoa de confiança e fora do ambiente familiar. Neste cenário, além das omissões, tabus e o medo como fatores para que denúncias de violência sexual não sejam feitas, as vítimas mais novas têm, até mesmo, dificuldade de compreender que estão sofrendo um abuso. Quando a escola fala sobre sexualidade, respeitadas as devidas idades, você cria um gatilho para que a criança conte a própria experiência. Quando a professora explica o que são as partes íntimas, onde pode pegar, ela se dá conta da violência que está sofrendo (TEMER apud SOUZA, 2020). Porém, com a limitação das crianças e adolescentes unicamente ao ambiente doméstico, houve um rompimento no ciclo de parte das denúncias, com o aumento da subnotificação, e isso pode ser evidenciado a partir de números. A título de exemplo, em Minas Gerais, os dados apontam uma alarmante redução no número de denúncias e ocorrências no período da pandemia. Conforme dados do Armazém SIDS_REDS, no mês de março de 2019, foram registradas 359 ocorrências relacionadas a crimes de violência contra crianças e adolescentes, ao passo que, em março deste ano, foram registradas apenas 230, uma redução de quase 36%. A mesma discrepância foi observada nos meses seguintes, conforme se verifica no gráfico abaixo: Fonte: Armazém REDS_SIDS 383 300 359 323 342 300 350 304 271 230 199 235 267 268 0 100 200 300 400 500 Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Crianças e adolescentes vítimas de crimes relacionados a violência sexual - Minas Gerais Janeiro a Julho 2019/2020 2019 2020 7 Constata-se que, em todos os meses deste ano, os números de denúncias foram inferiores aos registrados em 2019, mas a diferença é muito superior nos meses de confinamento. No total, de janeiro a julho de 2019, foram feitos 4.376 registros de crimes relacionados à violência sexual contra crianças e adolescentes, contra 3.794 registros no mesmo período de 2020. Dentre esses registros, foram comunicados 2.269 estupros de menores nos seis primeiros meses de 2019 e 1.723 em 2020. Complementando essas informações, em âmbito nacional, um levantamento feito pela Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH) identificou que 73% dos atos de violência sexual contra o público infantojuvenil ocorrem na casa da vítima ou do suspeito e a maioria das violações é praticada pelo próprio pai ou padrasto da criança ou adolescente; um total de 40% das denúncias feitas. Em 87% dos registros, o suspeito é do sexo masculino e, em 62% dos casos, é adulto, com idade entre 25 e 40 anos. As vítimas, em 46% das denúncias, são adolescentes do sexo feminino, com idades que variam entre 12 e 17 anos (MMFDH, 2020). Em síntese, pode-se afirmar que a violência sexual contra as crianças e adolescentes ocorre, muitas vezes, nas sombras, mas ela ainda está presente em todos as partes do mundo, independentemente da condição econômica do país ou de seus cidadãos. Por outro lado, felizmente, apesar de existir desde os tempos mais remotos, condutas dessa natureza passaram a ser repudiadas e reprimidas pela sociedade como um todo. Mas, muito ainda precisa ser feito e, para isso, cabe a nós, em um primeiro momento, conhecer e compreender quais são as condutas que caracterizam os crimes relacionados à violência sexual contra crianças e adolescentes. É o que se pretende no segundo capítulo deste curso. < Assista ao vídeo da campanha Maio Laranjada Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (SNDCA), publicado no dia 18 de maio deste ano (Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes), disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=3qy871LdwJs#action=share>. 8 3 CRIMES SEXUAIS CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES A violência sexual pode ser definida como todo ato ou jogo sexual, de natureza hetero ou homossexual, em que o agressor possui um estágio de desenvolvimento psicossexual mais avançado do que o da criança ou adolescente vítima. O objetivo é estimulá-lo(a) sexualmente ou utilizá-lo(a) para satisfação sexual própria ou de terceiros. Fundamenta-se em relação de poder e pode abranger carícias, manipulação dos órgãos sexuais, mama ou ânus, voyeurismo, pornografia, exibicionismo e o próprio ato sexual com ou sem penetração (SÃO PAULO, 2007). A legislação brasileira criminaliza várias condutas que configuram a violência sexual contra menores, podendo ser divididas em abuso sexual e exploração sexual. O ABUSO SEXUAL infantojuvenil é o ato praticado por aquele que usa o menor para satisfazer o seu desejo sexual, ou seja, “é qualquer jogo ou relação sexual, ou mesmo ação de natureza erótica, destinada a buscar o prazer sexual com crianças ou com adolescentes” (MPMG, 2010, p. 25). Essa violência pode ocorrer dentro ou fora do âmbito familiar, no ambiente virtual ou fora dele. Já a EXPLORAÇÃO SEXUAL, segundo a Lei nº 13.431, de 04 de abril de 2017, art. 4º, III, ‘b’, é o uso da criança ou adolescente em atividade sexual para obter lucro, ganhos financeiros ou outra forma de compensação e pode ocorrer de modo presencial ou virtual. “Ocorre no contexto da prostituição, pornografia, nas redes de tráfico e no turismo com motivação sexual” (MMFDH, 2020, p. 5). Basicamente, a principal diferença reside no fator lucro: enquanto no abuso sexual utiliza-se da sexualidade da criança ou adolescente com o fim de praticar atos de natureza sexual, na exploração, almeja-se o lucro a partir da prática desses atos. Considerando isso, façamos uma breve análise sobre os principais desses crimes, sejam eles praticados no ambiente virtual ou não. 3.1 Crimes previstos no Código Penal Brasileiro O Código Penal (CP) trata de alguns crimes relacionados à violência sexual em que a vítima pode ser uma criança ou um adolescente. O primeiro, que constitui uma forma de abuso sexual, é o ESTUPRO (CP, art. 213, caput1), o qual é cometido pelo 1 Trata-se do enunciado dos artigos de lei. Quando o artigo possui outros elementos, como parágrafos, alíneas e incisos, ao se referir à parte inicial do artigo, fala-se em “caput” (IBIAPINA, 2014). 9 homem ou mulher que obriga alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal (introdução do pênis na vagina) ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso (sexo anal, oral, masturbação...). Caso a vítima tenha menos de 18 anos de idade ou mais de 14, a punição pode variar entre 8 e 12 anos de prisão. Portanto, considera-se estupro tanto a situação em que o adulto obriga uma adolescente de 15 anos a com ele manter relação sexual quanto quando ele a obriga a praticar sexo oral nele, ou ainda, quando pratica forçadamente sexo oral nela. Se a vítima for menor de 14 anos, fala-se em ESTUPRO DE VULNERÁVEL2 e a pena varia entre 8 e 15 anos de prisão. A punição é mais severa se da conduta resultar lesão corporal de natureza grave (10 a 20 anos) – como, por exemplo, trazer risco de morte para o menor – ou morte (12 a 30 anos) (CP, art. 217-A). Outro crime que pode ser praticado contra o menor é a IMPORTUNAÇÃO SEXUAL, que é o praticar contra alguém e sem o seu consentimento ato libidinoso com o objetivo de satisfazer o próprio prazer sexual ou de terceiro (CP, art. 215- A). Um exemplo ocorre quando um homem ejacula furtivamente em uma adolescente de 15 anos dentro de um ônibus. A pena é de 1 a 5 anos de prisão, se o ato não constitui crime mais grave. Assim, por exemplo, caso haja o uso de violência ou grave ameaça, estará caracterizado o crime de estupro (e não a importunação sexual). Este crime não se aplica para vítimas com menos de 14 anos. 2 Também se considera vulnerável aquele que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência (CP, art. 217-A, § 1º). Nesses casos, também há estupro de vulnerável. O ESTUPRO DE VULNERÁVEL caracteriza-se independentemente do consentimento da vítima menor de 14 anos ou do fato de ela já ter mantido relações sexuais antes do crime ou, ainda, da existência de relacionamento amoroso com o agente. Portanto, QUALQUER PESSOA (com mais de 18 anos) que pratica a conjunção carnal ou outro ato libidinoso com menino ou menina com menos de 14 anos comete o crime de estupro de vulnerável. Vide CP, art. 217-A, § 5º; Súmula nº 593 do Superior Tribunal de Justiça (STJ). < Sobre a prática de atos libidinosos diversos da conjunção carnal com menos de 14 anos, o STJ tem mantido o entendimento no sentido de sempre configurar-se o delito de estupro de vulnerável, independentemente de violência ou grave ameaça ou de eventual consentimento da vítima. Nesse sentido, é a decisão do STJ no Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1830026 RJ 2019/0229370-8, disponível em <https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/860006275/agravo- regimental-no-recurso-especial-agrg-no-resp-1830026-rj-2019-0229370-8?ref=serp>. 10 Também pode ser praticado contra vítima menor o ASSÉDIO SEXUAL, que é o constranger (criar situação constrangedora, importunar) alguém para obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da condição de superior hierárquico (chefe) ou ascendência inerentes ao emprego, cargo ou função. Nestes casos, a pena varia de 1 a 2 anos quando a vítima é adulta e é aumentada em até 1/3 se a vítima for menor de 18 (CP, art. 216-A). Também viola a dignidade sexual de crianças e adolescentes a CORRUPÇÃO DE MENORES, que ocorre quando o homem ou a mulher “induzir alguém menor de 14 anos a satisfazer a lascívia (prazer sexual) de outrem” (CP, art. 218). A pena varia de 2 a 5 anos de prisão. Neste crime, o autor convence a vítima a satisfazer o desejo sexual de um terceiro. É o crime praticado pelos mediadores e daqueles que se aproveitam, em geral, da prostituição ou degradação moral. Assim, por exemplo, poderia o agente induzir a vítima a fazer um ensaio fotográfico, completamente nua, ou mesmo tomar banho na presença de alguém, ou simplesmente ficar deitada, sem roupas, fazer danças eróticas, seminua, com roupas minúsculas, fazer streap-tease etc., pois essas cenas satisfazem a lascívia de alguém [...] (GRECO, 2018a, p. 105). Para configurar esse crime, a vítima menor de 14 anos não pode ser submetida à conjunção carnal ou à prática de qualquer outro ato libidinoso, pois, neste caso, haverá o estupro de vulnerável (e não a corrupção de menores). Também é abuso sexual contra o público infantojuvenil a SATISFAÇÃO DE LASCÍVIA MEDIANTE PRESENÇA DE CRIANÇA OU ADOLESCENTE, que consiste em “praticar, na presença de alguém menor de 14 anos, ou induzi-lo a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem” (CP, 218-A). A pena é de 2 a 4 anos. Aqui, o menor não pratica atos de natureza sexual, mas a sua presença representa uma fonte de prazer sexual para terceiros. Um exemplo ocorre quando dois adultos mantêm relações sexuais na frente de uma criança e veem nisso uma fonte de prazer sexual. Além dos crimes que constituem abuso sexual, o Código Penal também trata de condutas que configuram a exploração sexual. Um deles é o FAVORECIMENTODA PROSTITUIÇÃO OU DE OUTRA FORMA DE EXPLORAÇÃO SEXUAL DE 11 CRIANÇA OU ADOLESCENTE OU DE VULNERÁVEL (CP, art. 218-B), que consiste em submeter, atrair ou induzir à prostituição ou outra forma de exploração sexual qualquer menor3. Também pratica o crime, quem facilita a prostituição ou outra forma de exploração e aquele que impede ou dificulta que o menor abandone tais práticas. É autor do crime, ainda, aquele que pratica a conjunção carnal ou outro ato libidinoso com adolescente prostituído com idade entre 18 e 14 anos e o proprietário, gerente ou responsável pelo local em que se verifiquem essas práticas. A pena varia entre 4 e 10 anos de prisão e se o crime tiver por fito a obtenção de vantagem econômica, o agente também deve pagar multa. Por fim, há o RUFIANISMO, que ocorre quando alguém “tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a exerça” (CP, art. 230). Se a vítima for menor de 18 e maior de 14 anos, a punição varia de 3 a 6 anos de prisão e multa. 3 Também é vítima desse crime a pessoa que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato (CP, art. 218-B, caput). < Na PROSTITUIÇÃO, os atos sexuais são negociados em troca de pagamentos, que pode incluir, além do dinheiro, necessidades básicas (alimentação, vestuário, abrigo) ou o consumo de bens e serviços (hotéis, restaurantes, bares, shoppings, butiques, diversão). Trata-se de prática pública, visível (ou não) ou semiclandestina, utilizada amplamente e justificada como necessidade da sexualidade humana, principalmente a masculina [...]. A prostituição tem várias formas – garotas(os) de programa, em bordeis, de rua, em estradas –, serviços e preços. Levantamentos apontam que os menores, em geral, na prostituição de rua (cidades, portos, estradas, articulada com o turismo sexual e o tráfico para fins sexuais), ou em bordéis (na Região Norte em situação de escravidão). Muitos são moradores de rua, tendo vivido situações de violência física ou sexual e/ou de extrema pobreza e exclusão, de ambos os sexos, pouco ou não escolarizados. Trata-se de trabalho extremamente perigoso e aviltante, sujeito a todo o tipo de violência, repressão policial e discriminação, pelos quais crianças e adolescentes não escolhem, mas são a ele levados pelas condições e trajetórias da vida, induzidos por adultos, por suas carências e imaturidade emocional, bem como pelos apelos da sociedade do consumo. Neste sentido, não são trabalhadores do sexo, mas prostituídos, abusados e explorados sexualmente, economicamente e emocionalmente (FALEIROS, 2004, p. 78-79 apud GRECO, 2018a). < Em TODOS os crimes analisados neste capítulo, o autor pode ser um HOMEM ou uma MULHER, assim como a vítima pode ser uma criança ou adolescente do sexo masculino ou feminino. No mesmo sentido, o crime pode ocorrer em relação hetero ou homossexual (homem com homem e mulher com mulher). Além disso, TODOS esses crimes têm a pena AUMENTADA se o crime é praticado com a participação (concurso) de duas ou mais pessoas ou, ainda, se o autor é ascendente (pai ou mãe, avô ou avó...), padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tiver autoridade sobre ela (CP, art. 226, II). A pena para TODOS esses crimes também é AUMENTADA se do crime resultar gravidez ou se o agente transmitir à vítima doença sexualmente transmissível de que sabe ou deveria saber ser portador [...] (CP, art. 234-A). 12 3.2 Crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente Tratando-se do ECA, os crimes relacionados à pornografia infantojuvenil estão previstos nos arts. 240 a 241-E e, neste contexto, é forçoso destacar que as várias formas de violência sexual contra crianças e adolescentes têm crescido de forma assustadora e desenfreada nas últimas décadas, sobretudo devido ao fácil acesso à internet, à modernização dos meios de comunicação e à variedade de equipamentos e mecanismos para captura de imagens e vídeos criados, tais como os smartphones, as câmeras fotográficas e as filmadoras. Todos esses fatores têm facilitado, cada vez mais, a obtenção de fotos e vídeos relacionados à pornografia infantojuvenil. É certo que a internet faz parte do nosso cotidiano e nos proporciona inúmeros benefícios, que vão desde o lazer, o entretenimento, a comodidade de fazer compras e contratar serviços sem sair de casa, a facilidade de realizar operações financeiras através de um simples celular, a busca de informações, os estudos, etc. Contudo, a internet também, devido à (falsa) sensação de anonimato, tornou-se um ambiente fértil para a prática de muitos delitos (especialmente durante a pandemia do COVID-19) e, neste cenário, os crimes relacionados ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes também ganhou um infeliz destaque. A internet não é um universo sem lei e, por isso, as ações que violam direitos e são praticadas nesse ambiente também estão sujeitas às devidas sanções para garantir a máxima efetividade da dignidade humana, incluindo aí a dignidade sexual de crianças e adolescentes. Assim, um dos crimes previstos no ECA (art. 240, caput) é a PRODUÇÃO DE PORNOGRAFIA INFANTOJUVENIL, que consiste em produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar cenas de sexo explícito ou pornográfica4 envolvendo crianças e adolescentes com o objetivo de satisfazer o próprio agressor ou para comercialização. A pena é de 4 a 8 anos de prisão e multa, punição esta que também se aplica a quem agencia, facilita, recruta, coage ou intermedeia a participação de menores em cenas de sexo explícito ou pornográfica, ou ainda quem com eles contracena. 4 Cena de sexo explícito ou pornográfica é, segundo o art. 241-E do ECA, “qualquer situação que envolva criança ou adolescente em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, ou exibição dos órgãos genitais de uma criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais”. 13 Também é crime a VENDA DE PORNOGRAFIA INFANTOJUVENIL (ECA, art. 241), incluindo a comercialização e exposição à venda de fotografias, vídeos ou outros registros que contenham cenas de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente. A pena é de prisão de 4 a 8 anos e multa. Outro crime é a DIVULGAÇÃO DE PORNOGRAFIA INFANTOJUVENIL (ECA, art. 241-A), praticada por quem oferecer, trocar, transmitir, distribuir, publicar ou divulgar imagens, vídeos ou outro registro contendo cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo menores por qualquer meio, inclusive por meio de sistema de informática ou telemático. A pena é de 3 a 6 anos de prisão e multa, que será igualmente imposta àquele que garante os meios ou serviços para que se proceda ao armazenamento desse conteúdo e/ou assegura o acesso a ele pela internet. Também ocorre a violência sexual contra menores quando há a POSSE DE PORNOGRAFIA INFANTOJUVENIL, que se materializa no adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente (ECA, art. 241-B). A pena varia de 1 a 4 anos de prisão e multa. Ainda em relação à exploração sexual de crianças e adolescentes, pode-se citar a PRODUÇÃO DE PORNOGRAFIA INFANTOJUVENIL SIMULADA. Trata-se Divulgar conteúdos contendo cenas de sexo explícito ou pornográficas envolvendo crianças e adolescentes, ainda que acompanhados de mensagens pedindo ajuda para identificar e localizar os agressores, é CRIME. Se você compartilha, está ajudando ainda mais a perpetuar essa prática criminosa, além de prolongar o sofrimento de meninos e meninas e violaros seus direitos fundamentais e à dignidade. Além disso, você pode ser responsabilizado criminalmente por isso. Manter em smartphones e outros dispositivos fotos e vídeos com cenas de sexo explícito ou pornográficas envolvendo crianças e adolescentes é o mesmo que armazenar ou possuir e constitui a POSSE DE PORNOGRAFIA INFANTOJUVENIL. Se algum amigo, parente, conhecido ou até desconhecido envia-lhe materiais dessa natureza para demonstrar sua indignação ou, até mesmo, com o objetivo tentar ajudar a identificar e localizar os criminosos, apague imediatamente e avise-o(a) de que esta conduta também configura uma forma de violência sexual (o crime de DIVULGAÇÃO DE PORNOGRAFIA INFANTOJUVENIL). Se você armazena, também, pratica crime e pode ser responsabilizado por isso. 14 da montagem, isto é, a conduta de “simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual” (ECA, art. 241-C). A pena é de 1 a 3 anos de prisão e multa. Igualmente ligado à pornografia infantojuvenil praticada no ambiente virtual está o ALICIAMENTO DE CRIANÇAS, que consiste em “aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato libidinoso” (ECA, art. 241-D). As punições para este crime são a pena de 1 a 3 anos de prisão e a multa, que também são aplicadas a quem facilita ou induz o acesso da criança a material pornográfico objetivando com ela praticar ato libidinoso (ECA, art. 241-D, § 1º, I). Um exemplo ocorre na situação em que o adulto mostra a pornografia para a criança com a intenção de despertar nela o interesse sexual e, depois, praticarem atos libidinosos. Também caracteriza esse crime praticar o aliciamento com o intuito de induzir a criança a se exibir de forma pornográfica ou sexualmente explícita (ECA, art. 241-D, § 1º, II). É o caso, por exemplo, do criminoso que pede à criança que se exiba nua ou seminua ou, ainda, em poses eróticas diante de uma webcam (câmera de internet), ou pessoalmente (MPMG, 2010, p. 19). O aliciamento de crianças consubstancia-se na conduta conhecida como Child Grooming, isto é, o assédio sexual pela internet, que se desenvolve através de “contatos assíduos e regulares desenvolvidos ao longo do tempo e que pode envolver a lisonja, a simpatia, a oferta de presentes, dinheiro ou supostos trabalhos de modelo, mas também a chantagem e a intimidação” (MPMG, 2010, p. 19). Para caracterizar esse crime, não é necessário que o fato ilustrado tenha ocorrido na vida real, pois mesmo que seja por intermédio de montagem ou edição de imagens há o cometimento do crime previsto no art. 241-C do ECA. O principal objetivo do legislador é desestimular a produção desse tipo de imagem, de forma a não influenciar outras pessoas a buscarem esse tipo de conteúdo (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016, p. 255). É crime a conduta de convidar ou “cantar” uma criança para com ela manter uma relação libidinosa (sexo, beijos, carícias, etc.). Esse tipo de assédio é muito comum na internet, em salas de bate-papo (chats) ou redes sociais (Facebook, Instagram, WhatsApp, Telegram, MySpace, entre outros). 15 Por fim, constitui uma forma de violência sexual a SUBMISSÃO DE CRIANÇA OU ADOLESCENTE À PROSTITUIÇÃO OU EXPLORAÇÃO SEXUAL, que é o “submeter criança ou adolescente à prostituição ou à exploração sexual (ECA, art. 244-A). A pena é de 4 a 10 anos de prisão e multa, bem como a perda de bens e valores empregados na prática criminosa em benefício do Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente do respectivo Estado ou Distrito Federal em que foi praticado o crime, ressalvado o direito de terceiro de boa- fé. Essas mesmas penas são aplicadas em relação ao proprietário, gerente ou responsável pelo estabelecimento em que se constate a submissão de criança ou adolescente às práticas de prostituição ou à exploração sexual. Um efeito obrigatório da condenação é a cassação da licença de localização e funcionamento do estabelecimento acima referido (ECA, art. 244-A, §§ 1º e 2º). 3.3 As redes de exploração sexual de crianças e adolescentes Hoje, muito se enganam aqueles que acreditam que os casos de abuso sexual infantojuvenil são sempre independentes e isolados entre si. Na verdade, muitos criminosos têm o único objetivo de auferir lucros com a exploração sexual de menores. Em diversas situações, os envolvidos não abusam das crianças e adolescentes, mas integram organizações que ganham dinheiro com conteúdos dessa natureza. São as chamadas “Redes de Exploração Sexual”, formadas por grupos de usuários e/ou organizações que realizam a venda e troca de materiais relacionados ao abuso sexual de menores. As ações criminosas não se limitam à manipulação de fotos e vídeos < Muitas pessoas acreditam que a violência sexual somente acontece quando há contato físico com as crianças e adolescentes. Contudo, neste capítulo, foi possível perceber que ela ocorre de muitas formas, inclusive quando não há esse contato. Veja o que pode ser considerado violência sexual: Forçar ou encorajar a criança a tocar um adulto de modo a satisfazer o seu desejo sexual; Fazer ou tentar fazer a criança se envolver em ato sexual; Forçar ou encorajar a criança a se envolver em atividades sexuais com outras crianças ou adultos; Expor a criança a ato sexual ou exibições com o propósito de estimulação ou gratificação sexual; Usar a criança em apresentação sexual como fotografia, brincadeira, filmagem ou dança; Tocar a boca, genitais, bumbum, seios ou outras partes íntimas de uma criança com objetivo de satisfação dos desejos; Espiar ou olhar a criança se despindo, em momentos íntimos, tomando banho, usando o banheiro, com objetivo de satisfação sexual; Mostrar material pornográfico; Assediar a criança, fazer comentários erotizados sobre o corpo dela, fazer propostas sexuais, enviar mensagens obscenas por telefone, bate-papo e outras ferramentas sociais de internet (ARCARI, 2016). 16 contendo cenas de abuso sexual, extrapolando, muitas vezes, até mesmo, para a realização de videoconferências com abusos de crianças e adolescentes em tempo real, intermediação e venda de “encontros” com os menores e agenciamento de pacotes de turismo sexual com eles. Afora as situações de violência sexual, os crimes podem ter relação com o trabalho escravo, o sequestro, o constrangimento ilegal e a lavagem de dinheiro (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016). Além desses criminosos (que visam lucro com a violência sexual), há outros que não fazem parte de negócios tampouco lucram com essa atividade. O objetivo deles é usufruir do fácil acesso proporcionado pela tecnologia para obter materiais de conteúdo pornográfico envolvendo menores para satisfazer os seus desejos sexuais. Usuários que inicialmente buscam por fotos e vídeos de pornografia infantojuvenil na internet e sentem prazer ao ver as cenas contidas nesses materiais são potenciais abusadores que, assim que tiverem a oportunidade, poderão tentar abusar pessoalmente de crianças e/ou adolescentes. Tais pessoas são diferentes de curiosos, que eventualmente já tiveram algum contato com esse tipo de conteúdo e não se interessam em obter mais arquivos dessa natureza (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016, p. 252). Como se vê, várias são as condutas que configuram os crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes, para cuja prática o menor, nem sempre precisa sofrer algum tipo de violência física ou ameaça, ou ser submetido a conjunção carnal ou qualquer ato libidinoso. A simples montagem, assim como a divulgação, posse e armazenamento de conteúdo caracterizam condutas criminosas, que devem ser duramente reprimidas. É neste contexto que figuram os chamados pedófilos, sobre os quais se abordaráno próximo capítulo. < Em 1997, ocorreu a famosa operação “Cathedral”, que ilustra com bastante clareza a utilização da pornografia infantojuvenil como negócio. No caso, que ocorreu na Califórnia, uma menina de 8 anos ficou sozinha com o pai de uma amiga de mesma idade, que registrou e transmitiu as cenas de abuso sexual através de uma webcam “ao vivo” para centenas de usuários conectados em um site. O abusador recebia em tempo real sugestões dos usuários para fazer determinadas ações com a vítima. Posteriormente, o material gravado era vendido em site especializado, gerando lucros aos envolvidos no negócio. Um desmembramento dessa operação, em 1998, desmascarou o “Wonderland Club”, que comercializava esse tipo de conteúdo com pelo menos 1.200 crianças abusadas. Mais de 100 pessoas em diversos países foram presas, devido à ligação com o esquema, que envolvia o sequestro de crianças para produção dos materiais, entre outros crimes (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016, p. 252). Também sobre as “Redes de exploração sexual”, veja a decisão proferida pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em 02 de abril de 2019, na Apelação Criminal nº 0011226-49.2015.4.01.3900, referente à prática de estupro de vulneráveis e corrupção de menores. De acordo com um trecho da decisão, as provas juntadas ao processo incluem laudos periciais, fotos, vídeos e diálogos de WhatsApp, que comprovam a prática de conjunção carnal e atos libidinosos entre o autor e crianças e adolescentes menores de 14 anos, em cenas pornográficas e de sexo explícito. As filmagens e fotos estariam aptas para venda ou troca no mercado da pedofilia. Disponíve l em: <https://trf-1.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/890403553/apelacao-criminal-acr-apr-112264920154013900/ementa-890403628?ref=juris-tabs>. 17 4 A PEDOFILIA Ao tratarmos dos crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes, é natural e inevitável fazermos uma relação com a pedofilia, que é, sem dúvida, um dos temas mais polêmicos neste cenário, sobretudo porque se tornou bastante comum ouvirmos esse termo em noticiários, casos de grande repercussão e diversas campanhas contra abusos sexuais de menores. Mas, o que é a pedofilia? A pedofilia é crime? Todo criminoso sexual é pedófilo? Como a pedofilia é tratada pelos tribunais brasileiros? Neste capítulo, sem pretender esgotar o assunto, vamos responder a essas perguntas. 4.1 O que é a pedofilia? Pedofilia é uma palavra de origem grega que decorre da junção dos vocábulos gregos paidós (que denota criança ou menino) e filia (inclinação, afinidade), indicando “amor por crianças”, “afinidade com crianças”. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a pedofilia é “um transtorno de preferência sexual (parafilia) por crianças de ambos os sexos, geralmente pré-púberes ou no início da puberdade (CID-10, F65.4)” (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016, p. 246). No âmbito da Psicologia, o termo pedofilia é usado para denominar uma parafilia, que se caracteriza pela predileção de adultos por praticar atos sexuais com crianças. Tratam-se de fantasias sexualmente excitantes, impulsos sexuais ou comportamentos intensos e recorrentes envolvendo a atividade sexual com crianças ou adolescentes (ROVINSKI; PELISOLI, 2020). Nesse sentido, Hartz (apud MPMG, 2010, p. 11-12), psicóloga e bacharela em Direito, especializada no atendimento a vítimas de abuso sexual, ensina que: A pedofilia é a parafilia mais frequente e mais perturbadora do ponto de vista humano. É um transtorno de personalidade, consequentemente um transtorno mental que se caracteriza pela preferência em realizar, ativamente ou na fantasia, práticas sexuais com crianças ou adolescentes. Pode ser homossexual, heterossexual ou bissexual, ocorrendo no interior da família e conhecidos ou entre estranhos. O pedófilo é, portanto, a pessoa que tem um interesse sexual primário por crianças e adolescentes, seja apenas do sexo masculino ou feminino, ou de ambos. Trata-se de um transtorno mental e de comportamento, o que não implica dizer que https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22Sonia+Liane+Reichert+Rovinski%22 https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22C%C3%A1tula+da+Luz+Pelisoli%22 18 o pedófilo seja um doente mental ou tenha desenvolvimento mental incompleto ou retardado. A pedofilia, na verdade, é uma doença da vontade e da personalidade antissocial e constitui um tipo de doença mental que não exclui a culpabilidade5, isto é, o autor pode ser considerado responsável por seus atos, pois sua inteligência e vontade não são afetadas (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016). Assim, em regra, o pedófilo tem capacidade de entender o caráter ilícito dos seus atos e determinar- se conforme esse entendimento. Nesse sentido, Hartz (apud MPMG, 2010, p. 11-12): Embora a pedofilia seja uma patologia, o pedófilo tem consciência do que faz, sendo a prática do abuso sexual fonte de prazer e não de sofrimento. [...] São pessoas que vivem uma vida normal, têm uma profissão normal, são cidadãos acima de qualquer suspeita, o famoso “gente boa”, é mais provável um pedófilo ter um ar normal do que um ar “anormal”. (grifo nosso) Considerando, então, que o pedófilo tem consciência da ilicitude dos seus atos, ou seja, de que são contrários às leis, pode-se afirmar que a pedofilia é um crime? 4.2 Pedofilia é crime? Para entendermos se a pedofilia pode ser considerada um crime, é cogente analisarmos duas questões. A primeira delas (e já apresentada) é o fato de a pedofilia constituir o mero interesse sexual de um adulto por crianças e adolescentes. Trata-se de uma parafilia, um transtorno mental. A segunda questão que deve servir de base para a análise é o fato de, no Brasil, não existir nenhuma lei que criminalize a pedofilia em si. Na verdade, no âmbito do nosso Direito Penal, vige o princípio da legalidade, segundo o qual “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal” (CF/88, art. 5º, XXXIX; CP, art. 1º). Em outras palavras, não é possível que determinada conduta ou comportamento ou, ainda, um transtorno mental (como é o caso da pedofilia) seja considerado crime se não houver lei que assim o determine. Logo, pode-se concluir que a PEDOFILIA NÃO É CRIME. Registre-se, porém, que, apesar de a pedofilia não ser crime, este termo já foi usado em diversos documentos oficiais. Assim, por exemplo, o Acordo de Cooperação entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República do Panamá, 5 Culpabilidade é o juízo de reprovação pessoal que se realiza sobre a conduta típica e ilícita praticada pelo agente. Em outras palavras, é o juízo de reprovação pessoal que recai sobre o autor, por ter agido de forma contrária ao Direito, quando podia ter atuado em conformidade com a vontade da ordem jurídica (GRECO, 2018b). 19 no campo da Luta Contra o Crime Organizado, ao tratar, no item 2, III, do art. 3º, do intercâmbio de informações e dados e da tomada de medidas conjuntas para o combate de atividades ilícitas, cita “atividades comerciais ilícitas por meios eletrônicos (transferências ilícitas de numerário, invasão de bancos de dados, pedofilia e outros)” (BRASIL, 2006). Também o Decreto nº 4.229, de 13 de maio de 2002, já revogado e que dispunha sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), previa, no item 143 do Anexo I, dentre as propostas governamentais, “combater a pedofilia em todas as suas formas, inclusive através da internet”. Muito embora a pedofilia não seja crime, a prática de condutas criminosas por parte de pessoas portadoras desse transtorno – os pedófilos – é bastante comum e precisa ser combatida. Mas, então, o pedófilo é um criminoso? 4.3 O pedófilo criminoso Nenhuma pessoa portadora de pedofilia pode, num primeiro momento, ser considerada criminosa. Tal impossibilidadejustifica-se porque é possível que essa pessoa tenha uma atração sexual por meninos e meninas e nunca pratique crime algum. A simples atração (desejo, interesse) não pode ser considerada crime. Em outras palavras, considerando que o pedófilo, em regra tem plena consciência dos seus atos, ele pode jamais praticar um ato de violência sexual contra menores justamente porque sabe ser errado (ROVINSKI; PELISOLI, 2020). Esse pedófilo, exatamente por possuir discernimento e capacidade de autodeterminação, mantém o seu desejo sexual por menores somente em sua mente, não o manifestando através de condutas criminosas. Em síntese, nestes casos, o pedófilo não é um criminoso porque não praticou qualquer conduta ilegal. A revisão da literatura aponta que os pedófilos podem manter seus desejos em segredo durante toda a vida, sem nunca compartilhá-los ou colocá-los em prática no mundo real. Porém, quando essa prática da fantasia acontece passa a existir um fator de risco potencial maior para a repetição da violência sexual. Alguns pedófilos vão passar a agir somente mediante uma situação de estresse intenso, em que se sintam fortemente pressionados. Outros não conseguem alcançar níveis adequados de satisfação sexual sem envolver crianças. Esses últimos [...] são solitários e socialmente inábeis, e vão “mergulhando cada vez mais profundamente em fantasias pedofílicas” (ROVINSKI; PELISOLI, 2020) Então, o pedófilo apenas será criminoso a partir do momento em que utiliza o corpo de uma criança ou adolescente para satisfazer o seu apetite sexual https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22Sonia+Liane+Reichert+Rovinski%22 https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22C%C3%A1tula+da+Luz+Pelisoli%22 https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22C%C3%A1tula+da+Luz+Pelisoli%22 20 fazendo (ou não) o uso de violência física. Nesse caso, o pedófilo pratica uma ou mais das condutas criminosas já analisadas no capítulo anterior e descritas no Código Penal ou no ECA, como, por exemplo, o estupro de vulnerável, o assédio sexual, a posse de pornografia infantojuvenil, entre outras. Infelizmente, é comum vermos a associação das agressões sexuais contra menores à pedofilia. Porém, a literatura permite afirmar que os pedófilos são apenas parte dos possíveis agressores e, em várias situações, eles podem nem colocar em prática as suas fantasias sexuais envolvendo o público infantojuvenil (ROVINSKI; PELISOLI, 2020). Portanto, é preciso desmistificar essa ideia errônea, já incutida na mentalidade de toda a sociedade, de que pedofilia é crime e de que todo pedófilo é um criminoso. PEDOFILIA NÃO É CRIME e NEM TODO PEDÓFILO É CRIMINOSO! Assim, o agente pode ser pedófilo e nunca ter manifestado externamente seu pensamento, chegando, ao máximo, a presentear com meros brinquedos uma criança que admira, sem manter com ela qualquer relação sexual. O que se pune, na verdade, são as condutas praticadas pelos agentes, aplicando-se ao caso o direito penal do fato, e não a mera condição pessoal [...]. Há um grande erro terminológico empregado no Brasil nos dias de hoje quando se aborda o tema em comento (CASTRO; BULAWSKI, 2011, p. 14). Na verdade, existem diferentes tipos de agressores sexuais de crianças e adolescentes e o pedófilo pode ser um deles. Nesse sentido, se o pedófilo é dotado de discernimento e capacidade de autodeterminação, deve ser punido, conforme assevera a psicanalista Hisgail (apud MPMG, 2010, p. 12): O fato de a pedofilia ser uma patologia não significa que o pedófilo não deva ser punido. [...] As estatísticas têm mostrado que 80% a 90% dos contraventores sexuais não apresentam nenhum sinal de alienação mental. São, portanto, juridicamente imputáveis. [...] Assim sendo, a inclinação cultural tradicional de se correlacionar, obrigatoriamente, o delito sexual com doença mental deve ser desacreditada. A crença de que o agressor sexual atua impelido por fortes e incontroláveis impulsos e desejos sexuais é infundada, ao menos como explicação genérica para esse crime. Portanto, em síntese, se um pedófilo mentalmente sadio e capaz de compreender a ilicitude dos seus atos decide exteriorizar a sua atração sexual por crianças e adolescentes e pratica determinada conduta que caracteriza uma forma de violência sexual contra menores, será ele evidentemente imputável6 e deverá ser punido na forma da lei. 6 A imputabilidade constitui-se de dois elementos: um intelectual (capacidade de entender o caráter ilícito do fato) e outro volitivo (capacidade de determinar-se conforme esse entendimento) (BRODT, 1996 apud GRECO, 2018b). Portanto, no Direito Penal, um dos requisitos para que uma https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22Sonia+Liane+Reichert+Rovinski%22 https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22C%C3%A1tula+da+Luz+Pelisoli%22 21 Há situações, porém, em que pedófilos são doentes mentais que apresentam problemas psicopatológicos e características alienantes e, nesses casos, em sua maioria, são enquadrados como juridicamente inimputáveis7, se o exame médico feito em um processo judicial, assim os definir, pois não têm eles o discernimento necessário ou a capacidade de autodeterminação. Na hipótese de esses pedófilos (doentes mentais) exteriorizarem suas preferências sexuais na forma de estupros de vulneráveis, corrupção de menores, etc., não poderão ser condenados, devendo ser a eles aplicada a medida de segurança, conforme determina a legislação penal brasileira (MPMG, 2010). Por fim, ainda sobre este assunto, deve-se destacar que é possível e, inclusive, bastante comum que pessoas não portadoras de pedofilia pratiquem a violência sexual contra menores, conforme lição de Polastro e Eleutério (2016, p. 246): [...] uma pessoa que abusa de uma criança nem sempre é um pedófilo, pois pode se tratar de um abuso de ocasião e essa pessoa pode não ter o diagnóstico de pedofilia. Pesquisas apontam que menos de 1% das pessoas diagnosticadas com pedofilia chegam a abusar sexualmente de crianças e que esses abusos são praticados principalmente por pessoas desprovidas desse distúrbio. (grifo nosso) Esses criminosos (não portadores da pedofilia) praticam crimes sexuais contra crianças e adolescentes de forma ocasional e por entenderem que suas vítimas são vulneráveis; aproveitam-se de determinada situação e extravasam a sua libido com um menor, mas fariam mesmo se se tratasse de uma pessoa adulta. [...] ainda que comumente uma pessoa que pratica ato sexual com uma criança seja taxada como pedófila, há, contudo, outras razões que podem levar a tal ato. Alguns dos exemplos citados por estudiosos do assunto dão conta de que o estresse, problemas no casamento, ou a falta de um parceiro adulto, tal como o estupro de pessoas adultas pode ter razões não-sexuais. Relata-se que a maioria dos abusadores não possui um interesse sexual voltado primariamente para crianças, razão pela qual não se emoldariam ao termo clínico de pedofilia (CASTRO; BULAWSKI, 2011, p. 16). pessoa seja responsabilizada pelo crime cometido é que ela seja imputável, ou seja, entenda que a sua conduta configura um crime e tenha a plena capacidade de conduzir a sua vontade de acordo com esse entendimento. 7 Sobre a inimputabilidade, determina o art. 26, caput, do CP, que: É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento (BRASIL, 1940). < Veja a decisão do STF no âmbito do Habeas Corpus nº 0087951.45.2020.1.00.0000 PE. Disponível em: <https://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/862022067/habeas-corpus-hc-182485-pe-pernambuco-0087951-4520201000000?ref=serp>.22 Outro exemplo de indivíduos não pedófilos que praticam crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes são aqueles que produzem e/ou comercializam a pornografia infantojuvenil para deleite de pedófilos. Esses “comerciantes” não têm atração sexual por menores, mas se aproveitam do interesse de pedófilos para auferir lucros no mercado da pornografia (CASTRO; BULAWSKI, 2011, p. 15). Neste sentido, podem-se citar, ainda, as pessoas que promovem a prostituição infantojuvenil, submetendo crianças e adolescentes aos abusos sexuais dos pedófilos criminosos. Veja-se, portanto, que criminosos podem se aproveitar do interesse sexual de pessoas portadoras de pedofilia por crianças e adolescentes para obterem lucro e, sobre isso, cumpre lembrar a existência de redes de crime organizado pela internet voltadas exatamente para atos dessa natureza, incluindo o abuso, a pornografia e a exploração sexual de crianças e adolescentes, conforme já assinalado anteriormente. Não se consegue calcular a soma de dinheiro que elas movimentam no Brasil e exterior, podendo até estar ligadas a outros crimes, como tráfico de drogas e desvio de dinheiro. As pessoas que praticam esses atos pela Internet podem ser chamadas de “ladrões da inocência”. Elas trocam informações, negociam imagens pornográficas infantis, trocam desejos e fantasias sexuais das vítimas de abuso, merecendo por isso atenção especial das autoridades. O Brasil é um dos três países que mais utilizam a internet para cometer crimes ligados à pedofilia. Dados indicam que [...] a quantidade de dinheiro que esses crimes movimentam é maior que a do tráfico de drogas (MPMG, 2010, p. 27). Vê-se, portanto, a amplitude dos crimes relacionados à violência sexual contra crianças e adolescentes e que atentam contra a sua dignidade sexual. A questão é extremamente grave. 4.4 Como a pedofilia é tratada pelos tribunais brasileiros Diante de todo o exposto e considerando que os pedófilos, em regra, têm plena consciência dos seus atos e, portanto, capacidade de compreender o caráter ilícito dos fatos, os tribunais brasileiros, basilados em laudos periciais, têm se manifestado pela condenação desses indivíduos, que devem responder pelos crimes cometidos. Nesse sentido, em decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), proferida no Habeas Corpus nº 0087951.45.2020.1.00.0000 PE, em 25 de março deste ano, a Ministra Rosa Weber, fazendo referência a uma decisão do juiz de 1º grau, afirmou ser possível que “o Transtorno de Preferência Sexual (Pedofilia), CID 10-F65.4 esteja presente na 23 quase totalidade dos casos previstos nos artigos 240 e ss da Lei nº 8.069/90 sem que tal circunstância seja apta a trazer qualquer presunção de inimputabilidade” (BRASIL, 2020). Na sequência, confirmando a plena capacidade de os pedófilos entenderem a ilicitude e gravidade dos seus atos ilícitos, Rosa Weber, na condição de Relatora, ressaltou um trecho da decisão da Corte Regional Federal que não reconheceu o indivíduo sob julgamento como inimputável: [...] ainda que se reconheça a pedofilia como um transtorno mental, assim classificado pelo Código Internacional de Doenças (10ª Conferência de Genebra), tal situação, por si só, não conclui a possibilidade de incidência do previsto no art. 26, e seu parágrafo único, do Código Penal, no caso a pretendida inimputabilidade do ora paciente. No mesmo sentido, foi a decisão proferida pelo Desembargador Roberto Midolla, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, na Apelação Criminal nº 481635.3/8-0000-000, demonstrando o entendimento de que a pedofilia não é vista como uma doença que afeta a inteligência e a vontade do agente e, portanto, não cabe inimputabilidade. Veja a decisão: [...] o laudo pericial concluiu que o apelante era capaz de entender o caráter criminoso, mas sua determinação é marcada pela compulsão doentia de atividade sexual com crianças, ou seja, a pedofilia. Ocorre que isso não o beneficia, nos termos do artigo 26 do Código Penal. Tentou dissimular a sua conduta perante Juízo, mas contou com detalhes no inquérito. Em razão disso, a absolvição pretendida, com medida de segurança, não merece acolhimento (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016, p. 246). Vê-se, portanto, que, apesar de a pedofilia não ser um crime no Brasil, haja vista não existir lei que assim a defina, os pedófilos que exteriorizam a sua atração sexual por crianças e adolescentes através de condutas caracterizadoras de violência sexual são, em regra, devidamente punidos e condenados, não recebendo qualquer benefício penal. 24 5 AS FORMAS DE ATUAÇÃO DO ABUSADOR A violência sexual contra crianças e adolescentes tem uma longa história no Brasil e no mundo, como visto neste curso. Cada vez mais, somos bombardeados com notícias de menores sofrendo as mais variadas formas de abusos e exploração sexual em muitos lugares e ocasiões. Inúmeros criminosos (muitas vezes, pessoas que antes não levantavam qualquer suspeita) são presos por delitos dessa natureza. Mesmo quando os meios tecnológicos não eram suficientes para permitir a aproximação de autores e suas vítimas, criminosos sexuais já existiam e utilizavam suas próprias técnicas para alcançar os seus objetivos. Hoje, sobretudo, diante do fácil acesso à internet e recursos tecnológicos, como smartphones, tablets e outros, as formas e meios para praticar a violência sexual são ainda mais amplas. Considerando isso, neste capítulo, serão apresentados os dois principais tipos de abordagens realizadas pelos criminosos sexuais para alcançar novas vítimas. 5.1 A abordagem tradicional Antes da criação da internet e da popularização dos mais diversos meios de comunicação hoje existentes, os criminosos sexuais de crianças e adolescentes limitavam-se apenas à região em que viviam. Nesse tipo de abordagem – denominada ‘Abordagem Tradicional’ –, os criminosos, geralmente, utilizam a estratégia de ser um “amigo secreto”, aquele cuja existência as vítimas não podiam contar para ninguém. Na visão de meninos e meninas, essa atuação dos criminosos pode não passar de uma simples “brincadeirinha”, uma aventura secreta. Conforme explicam Polastro e Eleutério (2016, p. 249), esse tipo de abordagem pode ocorrer “na frente da escola, em um shopping ou no parquinho, ou seja, geralmente em lugares públicos e aparentemente seguros”. É possível, também, que a abordagem (e o próprio abuso) ocorra em consultórios médicos, transportes públicos e particulares. Neste caso, fala-se em abordagem extrafamiliar, isto é, praticada por pessoas fora do contexto familiar do menor. Para se aproximarem das vítimas e ganharem a sua confiança, os criminosos passam a agir conforme a necessidade delas, oferecendo-lhes aquilo que querem, gostam e precisam. Em regra, para facilitar a aproximação das vítimas, os agressores sexuais fabricam interesses comuns (brincadeiras e jogos, o gosto por determinados 25 tipos de filmes e músicas); dão presentes (doces, brinquedos, roupas) sem qualquer motivo; oferecem passeios sem a companhia dos pais; e, aos poucos, criam laços de amizade e confiança. Nessas abordagens, os criminosos apresentam-se como adultos alegres, participativos e cooperativos, sempre dispostos a atender as necessidades e desejos das vítimas, o que, muitas vezes, não é notado pelos pais (MPMG, 2010). Com o passar do tempo, os abusadores sexuais passam a fazer parte da vida das crianças e adolescentes, diminuindo a chance de eles se defenderem das situações de abuso e, até mesmo, de negar seus pedidos, uma vez que passam a se sentir devedores de toda a ajuda e agrados recebidos. Depois que conseguem obter a confiança das vítimas, os criminosos sexuais buscam ficar sozinhos com elas. Muitas vezes, são necessários vários “encontros” para que eles toquem no assunto desejado, pois somente o fazem depois que os menores se acostumamcom o local para onde são levados e sentem-se seguros quando sozinhos com os novos “amigos”. Em dado momento, o abuso acaba sendo concretizado (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016). Nessas situações em que o agressor é uma pessoa conhecida da vítima, os atos de violência sexual podem ser acompanhados de “ameaças verbais e/ou de sedução, fazendo com que a criança ou adolescente mantenha o silêncio por medo, vergonha ou para se proteger, ou mesmo para proteger a família ou o próprio agressor” (SÃO PAULO, 2007, p. 16). Há ocasiões, ainda, em que o agressor é uma pessoa totalmente desconhecida da vítima do menor. Neste caso, a violência sexual, em regra, ocorre uma única vez, de forma abrupta e, em regra, o abuso é acompanhado de violência física. Como há ausência de qualquer vínculo com o agressor, a quebra do silêncio por parte da criança ou do adolescente e de sua família é impulsionada e, por isso, a denúncia acontece mais facilmente. Acomete mais frequentemente adolescentes do sexo feminino e a maioria dos casos acontece fora do ambiente doméstico, sendo comuns as situações em que ocorre penetração vaginal, anal ou oral (SÃO PAULO, 2007). Somado a isso, infelizmente, esse tipo de abordagem também ocorre no âmbito intrafamiliar, ou seja, dentro da própria família da criança ou adolescente e, nesses casos, a aproximação entre o abusador e o menor é ainda mais fácil e rápida. Tradicionalmente, em sociedades patriarcais e conservadoras, pessoas mais novas são educadas 26 a respeitar os mais velhos, não se limitando a seus pais ou irmãos, mas, também, os avós, tios e primos. Por este motivo, a aproximação entre agressores e vítimas revela- se quase imediata e a conquista da confiança dos menores é muito mais fácil. Nesses casos, o local em que ocorrem os abusos é, geralmente, a própria residência da vítima ou do parente (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016). Os abusadores e agressores sexuais, em regra, não se contentam com apenas um “encontro”. Em quase todos os casos, eles anseiam continuar encontrando-se com os menores até quando for possível, sempre com o objetivo de repetir os atos sexuais e, em troca, oferecem-lhes mais e mais recompensas e presentes. Esses “encontros”, normalmente, são registrados em fotos e vídeos, que passam a representar “troféus” para os criminosos (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016). Geralmente, as situações de abuso infantojuvenil “começam lentamente, apenas com a prática de “carinhos”, trocas de presente, brincadeiras íntimas que raramente deixam lesões físicas, passando mais tarde para outros níveis mais íntimos de contato” (ARCARI, 2016). As estatísticas brasileiras apontam que a ‘Abordagem Tradicional’ é praticada, com mais frequência, por adultos do sexo masculino de convívio da criança ou adolescente, como o pai, padrasto, avô, um tio, um irmão mais velho, um amigo da família ou um vizinho, apesar de existirem situações em que os agressores são mulheres (ROVINSKI; PELISOLI, 2020). Nesses casos, a resistência para a quebra do silêncio é maior. Diariamente vemos notícias de crianças e adolescentes abusados pelos próprios familiares, e, quando meninas, em muitas situações, acabam engravidando e arriscando as próprias vidas em uma gravidez de risco. Há pouco tempo, vimos a história de uma criança, de 10 anos, que foi abusada durante anos pelo tio, na cidade de São Mateus, no Espírito Santo. Depois de sentir fortes dores abdominais, a menina, no dia 07 de agosto deste ano, procurou atendimento em uma unidade médica, onde foi constatada a gravidez; uma gestação já com pouco mais de 22 semanas. A criança foi levada para Recife/PE, onde passou por um aborto. O autor foi preso em Betim / MG (FOLHAPRESS, 2020). Este é um dos muitos casos que, diariamente, chocam a sociedade brasileira e precisa ser exemplarmente combatido. < O Código Penal, no art. 128, II, autoriza o aborto quando a gravidez resultar de estupro, sendo necessário o consentimento da gestante ou, quando incapaz (como as crianças e adolescentes), do seu representante legal. https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22Sonia+Liane+Reichert+Rovinski%22 https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22C%C3%A1tula+da+Luz+Pelisoli%22 27 Infelizmente, grande parte dos abusos sexuais intrafamiliares ainda se destacam como prevalentes quando comparados àqueles praticados por pessoas fora da família e sem vínculos com o menor. Hoje, o acesso de pessoas não autorizadas e desconhecidas em escolas está cada vez mais difícil, sobretudo devido às fiscalizações voltadas para o combate ao comércio de álcool e drogas e, isso, acaba também inibindo a atuação de criminosos sexuais, que optam por não abordar as crianças e adolescentes pessoalmente. Diante desses fatores, aliados à facilidade de acesso à internet e aos novos meios de comunicação, tem se tornado cada vez mais comum a ‘Abordagem Virtual’. 5.2 A abordagem virtual A internet, hoje, faz parte do nosso cotidiano. Diariamente, desenvolvemos inúmeras atividades que estão, de alguma forma, interligadas à Rede Mundial de Computadores. No entanto, como já apontado neste curso, a internet vem sendo utilizada para o cometimento de muitas práticas criminosas e, dentre elas, crimes relacionados à violência sexual contra crianças e adolescentes. Com a popularização da internet e a implementação de várias facilidades, os criminosos sexuais depararam-se com uma vantagem: a possibilidade de manterem- se anônimos nos primeiros contatos com as vítimas. A atuação desses criminosos no meio virtual, através da ‘Abordagem Virtual’, possibilita que eles alcancem um número incalculável de vítimas simultaneamente e em quaisquer lugares, inclusive em outros países, diferente dos criminosos que atuam com base na ‘Abordagem Tradicional’, que se limitam, basicamente, à sua cidade/região. E, nesse período de distanciamento social, muitas crianças e adolescentes revelam-se vítimas em potencial. Durante o distanciamento social, as crianças permanecem mais tempo conectadas, com acesso a aplicativos com criptografia ponto a ponto, redes sociais, plataformas de live streaming e inúmeras ferramentas que, sem mecanismos adequados de proteção online, poderá dificultar o controle parental (BARRETO; FONSECA, 2020). Essas pessoas mal-intencionadas usam todas as artimanhas disponíveis para conseguir novas vítimas. O primeiro passo, é conquistar a confiança dos menores, tornando-se, para tanto, seus “amigos virtuais”. Criminosos sexuais utilizam chats e redes sociais para se aproximarem de suas vítimas e, neste cenário, salta aos olhos a facilidade propiciada pelos smartphones. Hoje, inúmeras crianças com pouca idade 28 já têm acesso a esses aparelhos e utilizam diversos aplicativos de comunicação instantânea, como o WhatsApp, Skype, Telegram, Facebook, Likee, TikTok, entre outros, além das funcionalidades SMS, MMS e telefonia. Tudo isso abre uma gama de possibilidades de acesso fácil e direto do agressor e abusador com suas vítimas. Recentemente, a BBC News Brasil publicou uma matéria com o título “Likee: a rede social ‘moda’ entre crianças que virou alvo de pedófilos”. Na reportagem, afirma- se que a rede social Likee tornou-se um “refúgio” para crianças brincarem com filtros divertidos e músicas e, também, um terreno fértil para aproximações suspeitas de desconhecidos. Segundo consta, é comum encontrar comentários, como “Linda”, “mora onde?”, “delícia” em vídeos de meninas de 12, 13 anos na rede. Assustadas com essa situação, familiares têm se utilizado de redes sociais e lojas de aplicativos para fazerem alertas. Diante das várias situações envolvendo menores, foi adicionado ao aplicativo, no final de 2019, a função ‘controle dos pais’, que permite que eles acessem o aplicativo no próprio celular, deixem algum conteúdo postado como “privado”e o bloqueio de mensagens privadas com desconhecidos (TAVARES, 2020). As redes sociais em geral são um terreno fértil para a atuação de criminosos sexuais e trazem-lhes uma vantagem: os perfis das vítimas têm informações preciosas sobre suas preferências, como filmes, comidas e passeios favoritos (POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016). Muitos abusadores aproveitam-se dessas informações para se aproximarem de crianças e adolescentes, fingindo possuírem gostos em comum. Durante investigações criminais envolvendo esse tipo de crime, o que se verifica é que os criminosos sexuais podem estar em todos os lugares: seja em uma rede social ou salas de bate-papo, acessando jogos online, aplicativos para troca de mensagens ou quaisquer outros ambientes virtuais que permitam a interação e o relacionamento. Para a prática dos delitos, os criminosos sexuais enviam mensagens com teor erótico (texting), solicitam fotos e vídeos que, já no início, podem conter indícios de erotismo e sexualidade, inclusive mostrando as partes íntimas (sexting). É comum, também, que os criminosos solicitem às crianças e adolescentes que ativem suas webcams ou câmeras do celular para que suas imagens sejam capturadas. Em outras < Lei a reportagem na íntegra em <https://www.bbc.com/portuguese/geral-53871669> e veja o relato de algumas crianças, adolescentes e pais sobre os fatos ocorridos. https://www.bbc.com/portuguese/topics/cpzd4zxwgddt 29 situações, os criminosos, através de conversas com os menores, conseguem obter informações particulares sobre suas famílias (endereço, nome dos pais e onde trabalham, se têm irmãos, a escola em que estudam); enviam presentes; e, depois, sob ameaças de matá-los ou causar-lhes algum mal grave (ou à família), obrigam-nos a enviar conteúdo pornográfico. Há casos em que os criminosos marcam encontros pessoais depois da escola, no cinema ou parque. Esses encontros, infelizmente, são uma oportunidade para a prática de abusos sexuais e, até mesmo, sequestros. Esses criminosos sexuais, geralmente, são adultos que utilizam perfis falsos, passando-se por crianças e adolescentes; conhecem seus hábitos e gostos; sabem elogiar e agradar; jogam os mesmos jogos e assistem os mesmos filmes e desenhos; tudo para se aproximarem e ganharem a confiança dos menores até chegar o momento de seduzi-los, convencê- los e/ou chantageá-los para que forneçam imagens e vídeos eróticos e sexuais e inclusive, encontros pessoais. A violência sexual contra crianças e adolescentes, como se vê, pode ocorrer de diversas formas, seja mediante contato físico – através de atos sexuais (oral, anal, vaginal), beijos, carícias nos órgãos sexuais –, ou sem esse contato – quando há “cantadas” obscenas, exibição dos órgãos sexuais com fim erótico, pornografia infantojuvenil (poses, fotos e vídeos pornográficos ou contendo sexo explícito com crianças e adolescentes). É possível que os abusos ocorram com o emprego de violência física ou graves ameaças ou sem, quando os criminosos sexuais se utilizam da sedução, persuasão, aliciamento, oferecimento de presentes e outros agrados. Tratando-se de exploração sexual, os criminosos pedem ou obrigam os menores a participarem de atos sexuais em troca de dinheiro ou outra forma de pagamento, como moradia, comida, passeios e presentes (MPMG, 2010). Diante do exposto, em resumo, as formas de abordagem ‘Tradicional’ e ‘Virtual’ podem ser comparadas no seguinte quadro: Quadro 1 – Comparação entre as formas de abordagem dos abusadores FORMA DE ATUAÇÃO ABORDAGEM TRADICIONAL ABORDAGEM VIRTUAL O abusador já conhece a vítima? Geralmente sim Geralmente não Tipos de abusadores mais comuns Parentes próximos e distantes, padrastos / madrastas e vizinhos Qualquer pessoa Local de atuação dos abusadores Região/Cidade em que mora Qualquer lugar Local mais comum dos abusos sexuais presenciais Residência da criança Qualquer lugar privado Tipos de abordagem inicial Pessoal, com o uso de presentes, doces e outras formas de recompensa Anônima, com a utilização de ferramentas de comunicação Troca de material como arquivos de foto e vídeos Não Sim Número de vítimas alcançadas Geralmente uma Várias Fonte: POLASTRO; ELEUTÉRIO, 2016, p. 251. 30 6 COMO RECONHECER QUE UMA CRIANÇA OU ADOLESCENTE PODE ESTAR SOFRENDO ALGUM TIPO DE VIOLÊNCIA? Depois de estudar os tipos de violência sexual contra crianças e adolescentes, os diversos crimes previstos na legislação brasileira, conhecer um pouco mais sobre a pedofilia e entender as formas de abordagem realizadas pelos criminosos sexuais, neste capítulo, serão abordados os sinais que indicam a possibilidade de uma criança ou adolescente estar sofrendo ou ter sofrido algum tipo de violência, as consequências advindas após a violência sexual e a chamada Síndrome do Silêncio. Reconhecer que a criança ou adolescente está sofrendo algum tipo de violência é essencial para protegê-la, afastá-la da convivência com o agressor, impedir que novos atos aconteçam, encaminhá-la para o Sistema de Garantia de Direitos e atendimento com equipes multidisciplinares e realizar a denúncia, que permitirá a responsabilização do autor pelo crime praticado. Toda a sociedade deve saber quais sinais servem como alerta de que algum tipo violência pode estar ocorrendo. Alguns serviços, como assistência social, saúde e educação, têm um papel ainda mais importante na identificação destas situações. 6.1 Os sinais da violência sexual Como já estudamos, as maiores vítimas da violência sexual são crianças e adolescentes do sexo feminino e os autores, em regra, são do sexo masculino e familiares ou pessoas próximas à vítima. Em razão da representatividade do agressor na vida desse menor, em muitos casos, a vítima possui uma grande dificuldade de relatar a violência que sofreu para outra pessoa. Há situações em que, devido à sua imaturidade psíquica, a vítima não compreende a violação que sofrera e demora anos para relatar os fatos a alguém. Muitas vezes, o agressor apresenta aquele ato sexual como um ato de carinho e cuidado para com a vítima, que não tem o discernimento necessário para entender a sua finalidade. Desta forma, é necessário conhecer e reconhecer sinais que alertam de que algo não está bem com a criança ou adolescente. As vítimas geralmente apresentam um conjunto de indicadores e, quase sempre, tentam se manifestar da sua própria maneira. A avaliação por profissional especializado é essencial para a confirmação da violência, caso o menor apresente alguns dos sinais que serão objeto de estudo. 31 A Sociedade Brasileira de Pediatria (SPB) traz diversos indicadores de que a criança ou adolescente pode estar sofrendo algum tipo de violência sexual. São eles: Mudança de comportamento O primeiro sinal a ser observado é uma possível mudança no padrão de comportamento das crianças/adolescentes e costuma ocorrer de maneira repentina e brusca, que também pode se apresentar com relação a uma pessoa específica, o possível abusador, portanto, de fácil percepção. Por exemplo, se a criança/adolescente nunca agiu de determinada forma e, de repente, passa a agir; se começa a apresentar medos que não tinha antes (do escuro, de ficar sozinha ou perto de determinadas pessoas); ou, então, mudanças extremas no humor (era ‘super extrovertida’ e passa a ser muito introvertida; ‘era super calma e passa a ser agressiva’). Como a maioria dos abusos acontece com pessoas da família, às vezes, apresentam rejeição a essa pessoa, ficando em pânico quando está perto dela, e a família estranha: ‘Por que você não vai cumprimentar fulano? Vá lá!’. São formas que as vítimas encontram para pedir socorro e a família necessita ficar atenta e identificar esta situação. Em outros casos, a rejeição não se dá em relação a uma pessoa específica, mas a uma atividade. A criança/adolescente não quer ir a uma atividade extracurricular,visitar um parente ou vizinho ou mesmo voltar para casa depois da escola ou frequentar a própria escola ou determinado esporte que tanto gosta (SPB, 2020). Proximidade excessiva Apesar de, em muitos casos, a vítima demonstrar rejeição em relação ao abusador, é preciso usar o bom senso para identificar quando uma proximidade excessiva também pode ser um sinal. A violência costuma ser praticada por pessoas da família na maioria dos casos. Assim, por exemplo, se, ao chegar à casa de familiares ou conhecidos, a criança/adolescente desaparece por horas brincando com um primo(a) mais velho(a)/tio(a)/padrinho(a) ou se é alvo de um interesse incomum de membros mais velhos da família em situações em que ficam sozinhos sem supervisão, é preciso estar atento ao que possa estar ocorrendo. Nessas relações, muitas vezes, o abusador manipula emocionalmente a vítima que nem sequer percebe estar sendo vítima naquela etapa da vida, o que pode levar ao silêncio por sensação de culpa. Essa culpa pode se manifestar em comportamentos graves no futuro como autolesões e até ideias suicidas ou o próprio suicídio (SPB, 2020). Regressão Outro indicativo de possível violência sexual é o de recorrer a comportamentos infantis, que a criança/adolescente já havia abandonado, mas volta a apresentar de repente. Coisas simples, como fazer xixi na cama ou voltar a chupar o dedo, ou, ainda, começar a chorar sem motivo aparente. Se isolar com medo, não ficar perto de amigos, não confiar em ninguém, não sorrir ou usar roupas incompatíveis com o clima, como mangas longas, capuz (pode ser sinal de autolesão) ou fugir de qualquer contato físico. A criança e o adolescente sempre avisam, mas, na maioria das vezes, não de maneira verbal (SPB, 2020). Segredos Para manter o silêncio da vítima, o abusador pode fazer ameaças de violência física e promover chantagens para não expor fotos ou segredos compartilhados pela vítima. É comum também que usem presentes, dinheiro ou outro tipo de benefício material para construir a relação com a vítima. É preciso explicar para os filhos que nenhum adulto ou criança mais velha deve manter segredos com ela que não possam ser compartilhados com adultos de confiança, como a mãe ou o pai (SPB, 2020). Hábitos Uma vítima de abuso também apresenta alterações de hábito repentinas. Pode ser desde um mau desempenho escolar, falta de concentração ou uma recusa a participar de atividades, até mudanças na alimentação (anorexia, bulimia) ou distúrbio do sono, como pesadelos, insônias ou medo de ficar sozinha ou no modo de se vestir. A mudança na aparência pode ser também uma forma de proteção encontrada pela criança, como uma menina se vestir como um menino na adolescência para fugir de possíveis violências (SPB, 2020). ATENÇÃO! Embora exames médicos e psicológicos específicos possam detectar sinais compatíveis com a violência sexual, este tipo de violência é um fenômeno de difícil constatação, uma vez que o uso de violência física associado ao abuso sexual está presente em uma parte pequena dos casos notificados e “o impacto psicológico que tal experiência pode causar nas vítimas envolve uma dimensão muito particular, variável e subjetiva” (WELTER; et al, 2010). 32 Questões de sexualidade As vítimas podem reproduzir o comportamento do abusador em outras crianças/adolescentes. Como, por exemplo, chamar os amiguinhos para brincadeiras que têm algum cunho sexual ou algo do tipo; ou, a vítima que nunca falou de sexualidade e começa a fazer desenhos em que aparecem genitais, podendo ser um indicador. Especialmente crianças que, ainda muito novas, passam a apresentar curiosidades excessivas ou comportamentos como: “Quando ela, em vez de abraçar um familiar, dá beijo, acaricia onde não deveria, ou quando faz uma brincadeira muito para esse lado da sexualidade”. O uso de palavras diferentes das aprendidas em casa para se referir às partes íntimas também é motivo para se perguntar onde seu(sua) filho(a) aprendeu tal expressão (SPB, 2020). Questões físicas Há também os sinais mais óbvios de violência sexual que deixam marcas físicas, as quais, inclusive, podem ser usadas como provas à Justiça. Existem situações em que a criança/adolescente acaba até mesmo contraindo infecções sexualmente transmissíveis ou gravidez. Deve-se ficar atento a possíveis traumatismos físicos, lesões que possam aparecer, roxos ou dores e inchaços nas regiões genitais ou anal, roupas rasgadas, vestígios de sangue ou esperma, dores ao evacuar ou urinar. Dores inespecíficas como abdominal, cefaleia, em membros, torácica (afastadas as hipóteses biológicas) podem indicar sinais de aler ta (SPB, 2020). Negligência Muitas vezes, o abuso sexual vem acompanhado de outros tipos de maus tratos que a vítima sofre em casa, como a negligência. Filhos que passam horas sem supervisão ou que não tem o apoio emocional da família, com o diálogo aberto com os pais, estará em situação de maior vulnerabilidade a este tipo de abuso ou outros. Crianças e adolescentes que permanecem muito tempo acessando a internet também podem ser vítimas de apelos sexuais (SPB, 2020). Sobre esses sinais, a psicóloga clínica Raquel Veloso, em entrevista ao site Vida e Ação, explica que: A estratégia é observar, pois os sinais de sofrimento psíquico poderão ser expressos em distúrbios de sono (terrores noturnos) e alimentação (como anorexia e bulimia), agressividade, crises de choro constantes, episódios de xixi na cama mesmo após superado anteriormente, baixa autoestima, queda no rendimento escolar ou dificuldades importantes de aprendizado, isolamento social, além de somatizações no corpo como constantes dores de cabeça. A criança ainda pode possuir uma importante inquietação ou querer evitar o contato de determinado sujeito ou situação, como, por exemplo, ir à casa de determinada pessoa. Além disso, a manifestação de comportamentos hipersexualizados precocemente poderão ser assinaladores que o infante esteja sendo exposto à violência sexual (COMO..., 2019). Nesse sentido, o documento Protocolo de Atenção Integral a crianças e adolescentes vítimas de violência: uma abordagem interdisciplinar na Saúde (PARÁ, 2010, p. 30-33), destinado a profissionais da saúde, traz importantíssimas orientações para o atendimento de crianças e adolescentes que têm seus direitos violados das mais diversas formas. Em relação à violência sexual, o documento divide os sinais em corporais, comportamentais, quanto aos hábitos, cuidados corporais e higiênicos, e no relacionamento social, conforme a seguir: Sinais Corporais a) Enfermidades psicossomáticas que consistem em uma série de problemas de saúde sem causa clínica aparente, como: dor de cabeça, erupções na pele, vômitos e outras dificuldades digestivas, que têm, na realidade, fundo psicológico e emocional; 33 b) Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST’s, incluindo Aids), diagnosticadas em coceira na área genital, infecções urinárias , odor vaginal, corrimento ou outras secreções vaginais e penianas e cólicas intestinais; c) Dificuldade de engolir devido à inflamação causada por gonorréia na garganta (amídalas) ou reflexo de engasgo hiperativo e vômitos (por sexo oral); d) Dor, inchaço, lesão ou sangramento nas áreas da vagina ou ânus a ponto de causar, inclusive, dificuldade de caminhar e de sentar; e) Canal da vagina alargado, hímen rompido e pênis ou reto edemaciados ou hiperemiados; f) Baixo controle dos esfíncteres, constipação ou incontinência fecal; g) Sêmen na boca, nos genitais ou na roupa; h) Gravidez precoce ou aborto; i) Traumatismo físico ou lesões corporais por uso de violência física (PARÁ, 2010, p. 30-31). Sinais Comportamentais a) Medo, ou mesmo pânico, de certa pessoa ou sentimento generalizado de desagrado quando é deixada sozinha, em algum lugar, com alguém; b) Medo do escuro ou de lugares fechados; c) Mudanças extremas, súbitas e inexplicadas no comportamento,como oscilações no humor entre retraída e extrovertida; d) Mal-estar pela sensação de modificação do corpo e confusão de idade; e) Regressão a comportamentos infantis, como: choro excessivo, sem causa aparente, enurese, chupar dedos; f) Tristeza, abatimento profundo ou depressão crônica. Fraco controle de impulsos e comportamento autodestrutivo ou suicida; g) Baixo nível de autoestima e excessiva preocupação em agradar os outros; h) Vergonha excessiva, inclusive de mudar de roupa na frente de outras pessoas; i) Culpa e autoflagelação; j) Ansiedade generalizada, comportamento tenso, sempre em estado de alerta, fadiga; k) Comportamento disruptivo, agressivo, raivoso, principalmente dirigido contra irmãos e um dos pais não incestuoso; l) Alguns podem ter transtornos dissociativos na forma de personalidade múltipla (DSMIV – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – Fourth Edition); m) Interesse ou conhecimento súbitos e não usuais sobre questões sexuais; n) Expressão de afeto sensualizada ou mesmo certo grau de provocação erótica, inapropriado para uma criança; o) Desenvolvimento de brincadeiras sexuais persistentes com amigos, animais e brinquedos; p) Masturbar-se compulsivamente; q) Relato de avanços sexuais por parentes, responsáveis ou outros adultos; r) Desenhar órgãos genitais com detalhes e características além de sua capacidade etária (PARÁ, 2010, p. 31-32). Sinais quanto a hábitos, cuidados corporais e higiênicos a) Mudança de hábito alimentar: perda de apetite (anorexia) ou excesso de alimentação (obesidade); b) Padrão de sono perturbado por pesadelos frequentes, agitação noturna, gritos, suores, provocados pelo terror de adormecer e sofrer abuso; c) Aparência descuidada e suja pela relutância em trocar de roupa; d) Resistência em participar de atividades físicas; e) Frequentes fugas de casa; f) Prática de delitos; g) Envolvimento em situação de abuso e exploração infanto-juvenil; h) Uso e abuso de substâncias como álcool, drogas lícitas e ilícitas (PARÁ, 2010, p. 32-33). Sinais no relacionamento social a)Tendência ao isolamento social, isto é, poucas relações com colegas e companheiros; b) Relacionamento entre crianças e adultos com ares de segredo e exclusão dos demais; c) Dificuldade de confiar nas pessoas a sua volta; d) Fuga de contato físico (PARÁ, 2010, p. 32-33). 34 Verifica-se que as crianças e adolescentes podem demonstrar de diversas formas que algo de errado está acontecendo e estão sofrendo ou sofreram algum tipo de violência. Por diversas vezes, não conseguem verbalizar e contar o que aconteceu de forma clara. Cabe aos pais, familiares, professores, profissionais da saúde e outras pessoas que convivem com aquela criança ou adolescente conseguir identificar estes sinais e, junto de profissionais qualificados, apurar o que está, de fato, ocorrendo. Professores devem ficar atentos nos casos de alunos que apresentam queda injustificada na frequência escolar ou baixo rendimento causado por dificuldade de concentração e aprendizagem. Outro comportamento importante que deve ser analisado é a pouca participação em atividades escolares e a tendência de isolamento social. Sabidamente, a escola é um lugar onde crianças e adolescentes passam boa parte do dia; têm, em regra, uma relação próxima e de confiança com os professores e demais funcionários, além de se sentirem seguros para relatar diversas formas de violência e pedir ajuda. Várias investigações de crimes sexuais praticados contra crianças e adolescentes tiveram início após a escola notar alterações de comportamentos de forma atenta e realizar os encaminhamentos necessários. A criança sempre tem muita dificuldade em falar e, por isso, o seu depoimento deve ser tomado de forma cautelosa e paciente, sobretudo para que não seja mais um trauma. Também é importante ressaltar que a criança muitas vezes se expressa através de brinquedos e/ou desenhos, como os exemplos abaixo (MPMG, 2010): Observe-se que, no primeiro desenho, a criança representou o abusador como um monstro (que era mesmo, em sua visão) e, no segundo, distanciado da família (como ela desejava) e com expressão agressiva. Desenhos como esses são fortes indícios de que está ocorrendo o abuso sexual e revelam a necessidade de buscar um profissional de psicologia para investigação do fato (MPMG, 2010). 35 É de suma importância estar sempre atento a todos esses sinais, de modo a assegurar a proteção de meninos e meninas possíveis vítimas de violência sexual. 6.2 As consequências advindas após a violência sexual A maior preocupação que todos os profissionais devem possuir em relação ao combate à violência sexual contra crianças e adolescentes é o fato de ela comprometer o crescimento e desenvolvimento do menor, deixando sequelas duradouras. Cada vítima reage à violência de uma forma diferente, visto que algumas apresentam sequelas mínimas e outras, muito severas. Em geral, o dano psicológico no abuso sexual da criança pode estar relacionado aos fatores como idade do início do abuso, duração do abuso, grau de violência ou ameaça de violência, diferença de idade entre a pessoa que cometeu o abuso e a criança que sofreu o abuso, quão estreitamente a pessoa que cometeu o abuso e a criança eram relacionadas, a ausência de figuras parentais protetoras e o grau de segredo (FURNISS, 1993). O menor que sofreu algum tipo de violência sexual pode ter sequelas por toda a vida. As vítimas podem ter distúrbios do sono, distúrbios alimentares e problemas com urina e fezes. Baixa autoestima, depressão, baixa imunidade, dificuldade de socialização, atraso no desenvolvimento, sentimento de culpa, repulsa pelo corpo, automutilação e até mesmo tentativas de suicídio são outras consequências que poderão acompanhar a vítima de violência sexual. < SINTETIZANDO... Os principais sinais que crianças e adolescentes vítimas de violência sexual podem revelar e ser observados pelos pais e educadores são comportamentais. São exemplos os seguintes: Pesadelos, medos inexplicáveis de pessoas ou lugares, mudanças bruscas de humor (extroversão ou agressividade), apatia e afastamento dos amigos; Negação para ir/permanecer em determinado lugar (casas de vizinhos e parentes ou a própria casa) ou até fuga de casa; Perda dos antigos hábitos de brincar; Permanecer muito tempo sozinho e sem supervisão com um familiar ou conhecido; Regressão a comportamentos já abandonados (voltar a chupar o dedo, fazer xixi na cama ou cocô nas calças); Manter segredos com parentes ou conhecidos e receber presentes, dinheiro ou outro benefício sem motivo aparente; Perda do apetite ou compulsão alimentar; Diminuição do rendimento escolar, dificuldades de aprendizagem; Conhecimento ou comportamento sexual fora do esperado (exceto conceitos básicos e saudáveis de educação sexual); Comportamento erotizado; Irritação, sangramento, inchaço, dor, coceira, cortes ou machucados na região genital ou anal; Doenças sexualmente transmitidas. 36 O Guia de Referência: Construindo uma Cultura de Prevenção à Violência Sexual, da Childhood, elenca algumas consequências que as crianças e adolescentes podem apresentar após serem submetidos a situações de violência sexual: Sequelas dos problemas físicos gerados pela violência sexual. Lesões, hematomas e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) podem interferir na capacidade reprodutiva. As gestações podem ser problemáticas, aparecendo complicações orgânicas, cujas causas podem ser psicossociais. Esses problemas são capazes de levar a uma maior morbidade materna e fetal. Dificuldade de ligação afetiva e amorosa, originada no profundo sentimento de desconfiança pelo ser humano em geral, por temor de reedição de experiência traumática ou, ainda, por dissociação entre sexo e afeto, gerando sentimentos de baixa autoestima, culpa,e depressão prolongada por medo da intimidade. Dificuldades em manter uma vida sexual saudável. A dificuldade em estabelecer ligações afetivas pode estar associada com a questão da sexualidade ou interferindo nela. As pessoas podem evitar todo e qualquer relacionamento sexual por traumas e/ou fatores fóbicos que bloqueiam o desejo. Podem ainda vivenciar baixa qualidade nas relações sexuais, com incapacidade de atingir o orgasmo ou demorar demais para atingi-lo. Tendência a sexualizar demais os relacionamentos sociais. Algumas pessoas podem ter reações opostas, geradas por fatores como incapacidade de distinguir sexo do afeto; confusão entre o amor parental e manifestações sexuais; compulsivo interesse sexual para provar que são amadas e para se sentirem adequadas. Isso pode gerar também trocas sucessivas de parceiros. Engajamento em trabalho sexual (prostituição). Muitos profissionais do sexo foram abusados quando crianças. Porém, não se deve estabelecer nenhuma relação mecânica entre abuso sexual e prostituição. Milhares de crianças abusadas não se tornam trabalhadores do sexo quando adultas. A conexão que algumas trabalhadoras sexuais fazem entre uma coisa e outra é o fato de que, com a experiência de abuso, elas aprenderam que a única coisa – ou a mais importante – que as pessoas queriam delas era sexo. Provendo sexo, elas encontram, paradoxalmente, certo sentimento de valor, uma forma de mediação. Posteriormente, essa atividade se transforma em estratégia de sobrevivência. Dependência em substâncias lícitas e ilícitas. Aqui, vale também ressaltar que qualquer associação mecânica entre abuso sexual e uso de drogas mais atrapalha do que ajuda. Apesar disso, algumas pessoas confessam que inicialmente usaram drogas para cuidar de sentimentos, esquecer a dor, a baixa autoestima e, mais tarde, o uso se tornou um vício incontrolável (SANTOS, 2009, p. 44-47). Além disso, as vítimas de violência sexual podem apresentar um quadro de transtorno de estresse pós-traumático, que se manifesta por meio de lembranças, sonhos traumáticos, comportamento de reconstituição e angústia nas lembranças traumáticas. A criança pode evitar a lembrança do trauma, apresentando amnésia psicogênica e desligamento, que é outro sintoma característico do transtorno. As vítimas podem apresentar excitação aumentada, ou seja, transtornos do sono, irritabilidade, dificuldades de concentração e hipervigilância. No mesmo sentido, o Protocolo de Proteção à Mulher, Criança e Adolescente Vítimas de Violência Sexual cita algumas consequências como prováveis nas relações afetivo-sexuais de crianças e adolescentes que sofreram violência sexual. São elas: Distúrbios ou impossibilidade de assumir uma vida sexual adulta saudável: ausência de desejo sexual, anorgasmia, frigidez, impotência, ejaculação precoce; Dificuldades no desenvolvimento sexual: tendências para a assexualidade ou hipersexualidade; 37 Desvio do comportamento sexual: promiscuidade, perversões, fetichismo, exibicionismo, voyeurismo, parafilias – pedofilia (MARINGÁ, 2012, p. 9). A violência sexual sofrida por uma criança ou adolescente, de acordo com a psicóloga Veloso (COMO..., 2019), provoca vivências traumáticas e a família tem papel de extrema importância para o restabelecimento emocional do menor. Somado a isso, a responsabilização do autor é uma questão que beneficia a evolução da vítima, contribuindo para que esta seja acreditada em seu sofrimento. Analisando as possíveis sequelas que crianças e adolescentes podem ter em razão da violência sexual, é imprescindível o acompanhamento da vítima por profissionais qualificados, com atendimento médico e psicológico, entre outros, além do apoio dos familiares e de toda a sociedade, com o intuito de minimizar as consequências sofridas. Urge mencionar que uma criança que sofreu abuso sexual deve ser sempre considerada em situação de risco para desenvolvimento de sequelas a qualquer tempo. 6.3 A Síndrome do silêncio Neste contexto das consequências advindas da violência sexual praticada contra crianças e adolescentes, uma das questões que também merece destaque é a chamada Síndrome do Silêncio, que, em linhas gerais, é exatamente o fato de não se falar sobre o que está acontecendo e, dessa forma, contribuir para que a situação se perpetue. A principal dificuldade de a criança e/ou adolescente relatar a violação de direito sofrida decorre da representatividade da figura do agressor e consequente coerção que oferece à vítima constantemente, já que, em geral, integra a sua rotina, fazendo com que a mesma não tenha coragem de narrar o ocorrido. A ocultação da verdade dos fatos pode ocorrer, também, por parte dos próprios familiares da vítima (quando cientes), com o intuito velado de manter inalterada a rotina doméstica. A não revelação, muitas vezes, por grande espaço de tempo, dá-se pelas mais diversas motivações. Infelizmente, na maioria das vezes, a criança guarda segredo de tais abusos e o agressor consegue dela isso mencionando a irritação de outra pessoa (“se você contar isso à mamãe, ela vai ficar muito irritada ou brava com você”), insinuando que ninguém acreditará nela, usando ameaças e suscitando sentimentos de culpa (“você arruinará a família se contar a alguém”, “ninguém vai 38 acreditar em você”...), distorcendo a realidade do abuso (como, sugerir que isso faz parte de um “jogo”, “isso é normal”...), mencionando a separação (“se você contar isso para alguém vão te mandar embora de casa”). Além da vítima manter o silêncio na maioria das vezes, também há casos em que a criança ou adolescente noticia a violação de direito que sofreu, porém, não encontra apoio na família, que mantém o fato em segredo. Observa-se que é mais fácil a família acreditar no relato da vítima quando o agressor não é um parente, uma vez que, quando se trata de pessoa da família, o relato da criança ou adolescente abala a estrutura daquele lar. O silêncio, além de evitar conflitos e não expor a vítima, mantém o núcleo familiar integrado. Manter a violência sexual em silêncio traz diversas consequências, dentre elas o fato de a vítima continuar convivendo com o agressor e pode voltar a ser violentada, passando a concordar com o abuso, que é transformado em uma situação normal, ou seja, ela se adapta à vitimização sexual, caso não receba ajuda externa. Sobre eventuais fatores externos que podem acarretar a Síndrome do Segredo, é possível listar: a inexistência de evidência médica (a falta de evidência médica do abuso, em determinados casos, leva a família a não revelá-lo por falta de elementos para comprová-lo, principalmente quando a vítima é muito pequena); ameaças contra a criança abusada e suborno (a vítima ameaçada, física ou psicologicamente, não revela o abuso porque teme por si, por sua família e pelo próprio abusador – que pode ser pessoa de quem ela gosta –; muitas vezes, a ameaça vem acompanhada de suborno, que consiste em um tratamento especial dado à criança); a falta de credibilidade da criança (a crença dos adultos de que as crianças mentem as leva a não relatar o abuso com medo de serem castigadas pela ‘mentira’); e as consequências da revelação (as crianças temem as consequências da revelação, pois ameaçadas e com sentimento de culpa e responsabilidade pelo abuso, que lhes é atribuído pelo abusador, concluem que o mal prometido irá se concretizar e, por isso, não revelam) (LEITE, 2014). Diante do exposto, verifica-se que a criança ou adolescente demonstra de alguma forma que está sendo vítima de violência sexual, cabendo à família e à sociedade identificar estes sinais, sempre acreditando na palavra do menor, e oferecer todo o suporte possível, com o objetivo de impedir que novas violências aconteçam e que a vítima consiga superar o trauma em razão da violação sofrida com o mínimo de sequelas possível.39 7 A REDE DE PROTEÇÃO DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES As crianças e adolescentes são as principais vítimas de violência em todas as partes do Brasil e do mundo e, neste cenário, como visto ao longo deste curso, os problemas relacionados à violência sexual vem ganhando cada vez mais visibilidade, devido à sua abrangência e gravidade. A prática da violência sexual contra meninos e meninas, seja para satisfação do prazer sexual próprio, produção de material pornográfico ou em redes organizadas de exploração sexual, representa uma ofensa aos direitos fundamentais de liberdade sexual, intimidade e, antes de tudo, da dignidade humana. Além disso, há uma violação dos direitos vinculados ao desenvolvimento físico, psicológico, moral e social. O combate a essa triste realidade e a preservação dos direitos e garantias do público infantojuvenil exige a ativa participação de todos, incluindo não apenas o Estado e as instituições criadas especificamente para esse fim, mas, em especial, toda a comunidade e as famílias. Considerando isso, neste capítulo, será feita uma abordagem sobre a rede de proteção das crianças e adolescentes, com especial enfoque no papel dos pais. 7.1 A Constituição Federal e demais leis O Brasil é um Estado Democrático de Direito e tem como fundamento a dignidade da pessoa humana, consagrado pela Constituição Federal de 1988. A Carta Magna traz de forma expressa, em seu art. 227, garantias à criança e ao adolescente: Art. 227 – É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988). Dispõe ainda que a lei punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual da criança e do adolescente. Em 1989, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Convenção sobre os Direitos das Crianças, que foi ratificada por 196 países, incluindo o Brasil, que o fez em 1990. Essa Convenção visa à proteção de 40 crianças e adolescentes de todo o mundo. Estabelece direitos sociais, culturais, econômicos e civis para todas as crianças e adolescentes e retrata o direito à vida, à sobrevivência digna, ao desenvolvimento, à dignidade, ao respeito, à liberdade, a não discriminação, devendo sempre ser levado em consideração o interesse superior da criança. Além disso, define as obrigações e deveres da família, da sociedade e do Estado perante as crianças e os adolescentes. O art. 34 traz obrigações ao Estado na prevenção e enfretamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Artigo 34 Os Estados Partes comprometem-se a proteger a criança contra todas as formas de exploração e abuso sexual. Para tanto, os Estados Partes devem adotar, em especial, todas as medidas em âmbito nacional, bilateral e multilateral que sejam necessárias para impedir: o incentivo ou a coação para que uma criança dedique-se a qualquer atividade sexual ilegal; a exploração da criança na prostituição ou em outras práticas sexuais ilegais; a exploração da criança em espetáculos ou materiais pornográficos (ONU, 1990). No mesmo sentido, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que completou 30 anos no dia 13 de julho deste ano, traz diversas garantias e direitos das crianças e adolescente, reconhecendo-os como sujeitos de direitos. Tem por objetivo possibilitar uma proteção efetiva e integral de crianças e adolescentes, que estão em desenvolvimento físico, psicológico, moral e social. A garantia de prioridade deve ser observada na primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias, na precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública, na preferência na formulação e execução das políticas sociais públicas, bem como destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude. De acordo com o ECA, é dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente. O Estatuto cria os Conselhos Tutelares e estabelece obrigações para os órgãos da rede de proteção dos menores, visando à efetivação dos direitos garantidos a eles. Somado a isso, como já estudado, no ECA, estão elencados diversos crimes relacionados à violência e exploração sexual de crianças e adolescentes. Trata-se de uma das leis mais avançadas no mundo sobre a proteção do público infantojuvenil. Além da Constituição Federal e do ECA, outra importante legislação relacionada à proteção de crianças e adolescentes é a Lei nº 13.431, de 04 de abril de 2017, que estudaremos a seguir. 41 7.2 A Lei nº 13.431, de 04 de abril de 2017, e o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência A Lei nº 13.431/2017 prevê que a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios desenvolvam políticas integradas e coordenadas visando a garantir os direitos humanos da criança e do adolescente no âmbito das relações domésticas, familiares e sociais, de modo a resguardá-los de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, abuso, crueldade e opressão. Referida lei traz importantes inovações na temática da violência contra o público infantojuvenil, pois estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência, medidas de assistência e proteção aos menores em situação de violência e cria mecanismos para prevenir e coibir a violência, bem como formas especiais de escuta dessas vítimas. A aplicação da lei é obrigatória para todas as crianças e adolescentes vítimas e testemunhas de violência e facultativa para as pessoas entre 18 e 21 anos de idade, em conformidade com o parágrafo único do art. 2º da Lei nº 8.069/90. Além da violência sexual, que já foi estudada e conceituada no início deste curso, a lei traz outras formas de violência contra crianças e adolescentes, conforme se verifica em seu art. 4º, caput: Art. 4º – Para os efeitos desta Lei, sem prejuízo da tipificação das condutas criminosas, são formas de violência: I - violência física, entendida como a ação infligida à criança ou ao adolescente que ofenda sua integridade ou saúde corporal ou que lhe cause sofrimento físico; II - violência psicológica: a) qualquer conduta de discriminação, depreciação ou desrespeito em relação à criança ou ao adolescente mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, agressão verbal e xingamento, ridicularização, indiferença, exploração ou intimidação sistemática (bullying) que possa comprometer seu desenvolvimento psíquico ou emocional; b) o ato de alienação parental, assim entendido como a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente, promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou por quem os tenha sob sua autoridade, guarda ou vigilância, que leve ao repúdio de genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculo com este; c) qualquer conduta que exponha a criança ou o adolescente, direta ou indiretamente, a crime violento contra membro de sua família ou de sua rede de apoio, independentemente do ambiente em que cometido, particularmente quando isto a torna testemunha; III - violência institucional, entendida como a praticada por instituição pública ou conveniada, inclusive quando gerar revitimização (BRASIL, 2017). O Decreto nº 9.603, de 10 de dezembro de 2018, define violência institucional como a “praticada por agente público no desempenho de função pública, em instituição 42 de qualquer natureza, por meio de atos comissivos ou omissivos que prejudiquem o atendimentoà criança ou ao adolescente vítima ou testemunha de violência” (art. 5º, I). Traz também o conceito de revitimização, qual seja, discurso ou prática institucional que submeta menores a “procedimentos desnecessários, repetitivos, invasivos, que levem as vítimas ou testemunhas a reviver a situação de violência ou outras situações que gerem sofrimento, estigmatização ou exposição de sua imagem” (art. 5º, II). O art. 6º da Lei nº 13.431/2017 prevê que a criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência “tem direito de solicitar, por meio do representante legal, MEDIDAS DE PROTEÇÃO em desfavor do autor da violência” (BRASIL, 2017). As medidas de proteção previstas no art. 101 do ECA e arts. 22 a 24 da Lei Maria da Penha – Le nº 11.340, de 07 de agosto de 2006 –, continuarão sendo aplicadas em conjunto com as medidas previstas no art. 21 da Lei nº 13.431/2017 em relação às crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. Os menores, independente do sexo, gozam de proteção expressa quando vítimas ou, até mesmo, testemunhas de infrações, o que não era possível com a Lei nº 11.340/2006, que restringe sua aplicação às vítimas do sexo feminino. Acrescenta-se que o art. 4º da Lei 13.431/2020 conceitua alguns atos de violência que não são necessariamente criminosos, como a alienação parental e o bullying, sendo possível a utilização e aplicação de medida protetiva de urgência, buscando torná-la mais efetiva, abrangendo qualquer espécie de violência perpetrada em desfavor de crianças e adolescentes (BRASIL, 2017). O art. 21 da Lei nº 13.431/2017 estabelece algumas medidas para proteger a criança ou o adolescente em risco, conforme dispositivo legal a seguir: Art. 21 – Constatado que a criança ou o adolescente está em risco, a autoridade policial requisitará à autoridade judicial responsável, em qualquer momento dos procedimentos de investigação e responsabilização dos suspeitos, as medidas de proteção pertinentes, entre as quais: I - evitar o contato direto da criança ou do adolescente vítima ou testemunha de violência com o suposto autor da violência; II - solicitar o afastamento cautelar do investigado da residência ou local de convivência, em se tratando de pessoa que tenha contato com a criança ou o adolescente; III - requerer a prisão preventiva do investigado, quando houver suficientes indícios de ameaça à criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência; IV - solicitar aos órgãos socioassistenciais a inclusão da vítima e de sua família nos atendimentos a que têm direito; V - requerer a inclusão da criança ou do adolescente em programa de proteção a vítimas ou testemunhas ameaçadas; e VI - representar ao Ministério Público para que proponha ação cautelar de antecipação de prova, resguardados os pressupostos legais e as garantias previstas no art. 5º desta Lei, sempre que a demora possa causar prejuízo ao desenvolvimento da criança ou do adolescente (BRASIL, 2017). 43 Para fins de conhecimento, segue quadro contendo as medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha e as medidas de proteção do ECA: Quadro 2 – Comparativo das Medidas Protetivas Medidas Protetivas da Lei Maria da Penha Medidas Protetivas do Estatuto da Criança e do Adolescente • suspensão da posse ou restrição do porte de armas. • afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida. • proibição de determinadas condutas, entre as quais: aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor; contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida; • comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação; • acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento individual e/ou em grupo de apoio. • encaminhamento a programa oficial ou comunitário de proteção ou de atendimento. • recondução ao respectivo domicílio, após afastamento do agressor. • restituição de bens indevidamente subtraídos. • suspensão das procurações conferidas. • prestação de caução provisória, mediante depósito judicial, por perdas e danos materiais. • encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade. • orientação, apoio e acompanhamento temporários. • matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental. • inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente. • inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, apoio e promoção da família, da criança e do adolescente. • requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial. • inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos. • acolhimento institucional. • inclusão em programa de acolhimento familiar. • colocação em família substituta. No tocante à INTEGRAÇÃO DAS POLÍTICAS DE ATENDIMENTO, o contato de crianças e adolescentes com a rede de proteção, que é parte do Sistema de Garantia de Direitos, embora não intencional, pode ser revitimizante. Ainda hoje, há casos de criança vítima de violência sexual que passa pelo Conselho Tutelar, por uma Unidade da Polícia, pelo Instituto Médico Legal, por uma Unidade de Saúde e por uma Unidade de Assistência Social; e, mais tarde, ainda passa pelo Sistema de Justiça. A falta de integração dos serviços e de preparação específica dos profissionais para lidar com crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência faz com que demorem a receber ajuda, tenham que relatar os fatos ocorridos inúmeras vezes e, ainda assim, recorrentemente, não recebam o cuidado adequado. Esta falta de integração dos serviços e de capacitação adequada e a repetição dos relatos dos episódios de violência terminam por revitimizar os menores. Com o objetivo de evitar essa revitimização, a Lei nº 13.431/2017 estabelece diretrizes para a integração das políticas públicas de atenção e proteção, mediante a implantação de centros integrados de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência, compostos por multidisciplinares especializadas. Os centros integrados poderão contar com delegacias especializadas, serviços de saúde, perícia médico- legal, serviços socioassistenciais, varas especializadas, Ministério Público e Defensoria Pública, entre outros possíveis de integração, e deverão estabelecer parcerias em caso de indisponibilidade de serviços de atendimento (BRASIL, 2017). 44 Antes mesmo da referida lei entrar em vigor, algumas cidades, como Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Teresópolis, já haviam implantado iniciativas nesse sentido (SANTOS; GONÇALVES, 2017). Reúnem em um mesmo espaço diversos serviços públicos de áreas como Saúde, Assistência Social, Segurança Pública e perícia médica, dentre outros. Cada um tem formato particular, baseado na realidade institucional, social, cultural e econômica em que estão inseridos. Nos centros, é ofertado o atendimento integrado, protetivo e de articulação do Sistema de Garantias de Direitos, mediante o estabelecimento de fluxos que promovem a integração dos órgãos, a qualidade e a celeridade dos procedimentos. Em geral, eles concentram o provimento de serviços de atenção em um único espaço físico, visando evitar sofrimento adicional aos menores, que, para serem atendidos no modelo tradicional, têm que percorrer vários locais, o que quase sempre resulta em revitimização. Em Belo Horizonte, em novembro de 2017, foi inaugurado o Centro Integrado de Defesa e Proteção à Criança e ao Adolescente, que é formado pela Vara Especializada de Crimes Contra Crianças e Adolescentes, o Ministério Público, a Polícia Militar e a Polícia Civil, atravésda Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente. No caso de violência sexual, a rede de proteção deve garantir a urgência e a celeridade necessárias ao atendimento de saúde e à produção probatória, preservada a confidencialidade. Nas cidades de pequeno porte, visando à implementação das determinações da lei, o documento Centros de Atendimento Integrado de Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência: Boas Práticas e Recomendações para uma Política Pública de Estado sugere que sejam definidos os procedimentos para esse atendimento < SAIBA MAIS! O art. 14 da Lei nº 13.431/2017 traz as diretrizes para a implementação de centros integrados de atendimento integrado à criança e ao adolescente vítima. Confira na Lei! < SAIBA MAIS! Aprofunde seus conhecimentos e leia o documento Centros de Atendimento Integrado de Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência – Boas Práticas e Recomendações para uma Política Pública de Estado, que se encontra disponível no material complementar, e aprenda alguns aspectos primordiais a serem observados para a criação de novos centros integrados (páginas 184 e 185). Não deixe de conferir! 45 integrado, o que deve incluir o desenho de fluxos integrados, os protocolos de escuta de menores e parâmetros para criação de ambientes amigáveis e para capacitação dos profissionais da rede de proteção (SANTOS; GONÇALVES, 2017). A lei prevê a criação de Delegacias Especializadas no Atendimento de Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência, com equipes multidisciplinares, devendo ser as vítimas encaminhadas à Delegacia Especializada em Temas de Direitos Humanos até a criação das Unidades Policiais Especializadas. Há a previsão de criar Juizados ou Varas Especializadas em Crimes contra a Criança ou Adolescente, devendo o julgamento e execução das causas decorrentes da prática de violência ficar a cargo, preferencialmente, dos Juizados ou Varas Especializadas em Violência Doméstica. Outrossim, a Lei nº 13.431/2017 recomenda que o Poder Público realize campanhas periódicas de conscientização da sociedade, promovendo a identificação das violações de direitos e garantias de crianças e adolescentes e a divulgação dos serviços de proteção e dos fluxos de atendimento, como forma de evitar a violência institucional. Estimula-se a criação de “serviços de atendimento, de ouvidoria ou de resposta, pelos meios de comunicação disponíveis, integrados às redes de proteção, para receber denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes” (art. 15). A lei determina que as denúncias recebidas serão encaminhadas à Autoridade Policial do local dos fatos, para apuração; ao Conselho Tutelar, para aplicação de medidas de proteção; e, ao Ministério Público, nos casos que forem de sua atribuição específica. O Estado de Minas Gerais, reforçando o disposto na Lei nº 13.431/2017, no dia 22 de maio de 2020 sancionou a Lei nº 23.643, que trata do dever de os condomínios localizados no território do Estado comunicarem à Delegacia de Polícia Civil e/ou aos órgãos de segurança pública especializados, por seus síndicos ou administradores, a ocorrência ou o indício que aponte a existência de atos de violência doméstica e familiar contra ATENÇÃO! A lei inova ao determinar que qualquer pessoa que tiver conhecimento ou presenciar ação ou omissão que constitua violência contra criança ou adolescente tem o dever de comunicar o fato imediatamente ao serviço de recebimento e monitoramento de denúncias, ao Conselho Tutelar ou à autoridade policial. O Código de Processo Penal (CPP) – Decreto- lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941 –, em seu art. 5º, § 3º, dispõe que qualquer pessoa tiver conhecimento da existência de infração penal em que caiba ação pública poderá comunicar à autoridade policial, sendo, portanto, uma FACULDADE. Com a entrada em vigor da Lei nº 13.431/2017, caso, qualquer pessoa tenha conhecimento da ocorrência de violência contra criança ou adolescente deverá, ou seja, está OBRIGADO a comunicar o fato ao Conselho Tutelar, à Autoridade Policial ou ao serviço de recebimento de denúncias, em atendimento ao princípio da proteção integral. 46 criança ou adolescente, trazendo a obrigação de afixar, nas áreas de uso comum dos condomínios residenciais, placas ou comunicados que informem sobre o disposto na Lei, além de incentivar os condôminos a notificar o síndico ou o administrador da ocorrência, ou do indício de ocorrência, de violência doméstica e familiar contra criança e adolescente. Outro importante assunto tratado pela Lei nº 13.431/2017 é a ESCUTA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA. Pesquisas apontam que os menores vítimas são ouvidos cerca de 8 a 10 vezes entre o período que noticia o crime e o término do processo judicial, precisando repetir e reviver a situação de violência sofrida para os diversos órgãos de atendimento, investigação e responsabilização. A criança e o adolescente são pessoas vulneráveis, visto que são pessoas em condição peculiar de desenvolvimento físico, psíquico e moral, que se encontram em situação ainda mais vulnerável após serem vítimas ou testemunhas de alguma violência. Assim, é preciso haver um mecanismo diferente para se relatar e colher as provas do crime, para não ferir ainda mais essa criança ou adolescente, uma vez que a simples lembrança e a mera narrativa do ocorrido já causam a revitimização. Com o objetivo de mudar esta situação, a Lei nº 13.431/2017 prevê que a criança e o adolescente serão ouvidos sobre a situação de violência por meio de escuta especializada e de depoimento especial. Uma das principais diretrizes da referida lei, juntamente com a integração de programas e serviços, é a escuta de crianças e adolescentes vítimas de violência, que deve ser realizada de forma protegida e não revitimizante, obedecendo ao disposto na legislação. Tais instrumentos de escuta têm por finalidade impedir que o menor reviva o drama sofrido (o que dificulta a superação da violência e o seu posterior desenvolvimento), protegendo-a. Permite também combater a impunidade, ao evitar influências externas ao depoimento da vítima, por vezes promovidas pelo agressor, bem como que contradições inerentes aos sucessivos depoimentos de uma vítima, em particular situação de desenvolvimento, sejam utilizadas para impedir a responsabilização dos agressores. Vale mencionar que o art. 28, § 1º, do ECA já determinava que o menor, sempre que possível, seja previamente ouvido por equipe interprofissional, respeitado o seu estágio de desenvolvimento e grau de compreensão sobre as implicações da medida, e terá sua opinião devidamente considerada (BRASIL, 1990). No mesmo sentido, a 47 Convenção Internacional sobre Direitos das Crianças, em seu art. 12, assegura à criança a oportunidade de ser ouvida em todo processo judicial ou administrativo que afete a mesma, quer diretamente quer por intermédio de um representante ou órgão apropriado, em conformidade com as regras processuais da legislação nacional (ONU, 1989). Considerando isso, antes mesmo da promulgação da Lei nº 13.431/2017, várias comarcas já adotavam o depoimento especial como forma de escuta das crianças e adolescentes vítimas durante o processo judicial. Assim sendo, a ESCUTA ESPECIALIZADA é o procedimento de entrevista sobre situação de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade (Lei nº 13.431/2017, art. 7º). Trata- se do procedimento realizado pelos órgãos da rede de proteção nos campos da educação, saúde, assistência social, segurança pública e direitos humanos, com o objetivo de assegurar o atendimento da vítima em suas demandas, na perspectiva de superação das consequências da violação sofrida, inclusive no âmbito familiar.Deve se limitar estritamente ao necessário para o cumprimento da finalidade de proteção. O menor será resguardado de qualquer contato, ainda que visual, com o suposto autor ou acusado, ou com outra pessoa que represente ameaça, coação ou constrangimento (Lei nº 13.431/2017, art. 9º). A escuta deve ser realizada em local apropriado e acolhedor, com infraestrutura e espaço físico que garantam a privacidade da criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência (Lei nº 13.431/2017, art. 10). A criança ou o adolescente deve ser informado em linguagem compatível com o seu desenvolvimento acerca dos procedimentos formais pelos quais terá que passar e sobre a existência de serviços específicos da rede de proteção, de acordo com as demandas de cada situação (Decreto nº 9.603/2018, art. 19, §1º). Já o DEPOIMENTO ESPECIAL é o procedimento de oitiva de criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência perante autoridade policial ou judiciária (Lei nº 13.431/2017, art. 8º). Busca a apuração da materialidade e autoria dos fatos criminosos no âmbito de um processo investigatório e de responsabilização judicial do suposto autor da violência. A autoridade policial ou judiciária deverá avaliar se é indispensável a oitiva do menor, dadas as demais provas existentes, de forma a preservar sua saúde física e mental e o seu desenvolvimento 48 moral, intelectual e social (Decreto nº 9.603/2018, art. 22, § 2º). Tanto durante a investigação policial como na instrução criminal, a criança ou adolescente também deverá ser resguardado de qualquer contato, ainda que visual, com o suposto autor ou acusado, ou com pessoa que represente ameaça, coação ou constrangimento. O depoimento especial deverá ser gravado com equipamento que assegure a qualidade audiovisual. A sala destinada ao depoimento poderá ter sala de observação ou equipamento tecnológico destinado ao acompanhamento e à contribuição de outros profissionais da área da segurança pública e do sistema de justiça. A criança ou o adolescente devem ser respeitados em sua iniciativa de não falar sobre a violência sofrida. O contato direto com a vítima será feito pelo profissional habilitado, com expertise na área de atuação (psicólogos e assistentes sociais) e a Autoridade Judicial terá contato com as informações por meio remoto e terá acesso posterior às informações colhidas, que serão gravadas por meio de áudio e vídeo. Por fim, vale citar que a Lei nº 13.431/2017 possibilita à vítima ou testemunha de violência prestar depoimento diretamente ao juiz. Assim, caso a vítima entenda ser melhor, poderá ser ouvida no sistema tradicional. 7.3 Atuação da Polícia Civil de Minas Gerais As atribuições definidas pela Constituição Federal à Polícia Judiciária envolvem a realização de investigações, colaborando com o Sistema de Justiça na coleta de indícios da prática de crimes contra a criança e o adolescente. Dessa forma, a atividade da Polícia Judiciária pode ser o marco inicial para a persecução penal, devendo sua atuação ser pautada de forma técnica, legal e imparcial. No caso de relato espontâneo da vítima ou se a Autoridade Policial entender ser imprescindível a oitiva da criança ou adolescente, esse relato deve ser colhido de forma ética e humanizada, por profissionais qualificados, em ambiente próprio e acolhedor, objetivando colher apenas as informações necessárias à investigação. O Decreto nº 9.603/2018 estabelece que, ao tomar conhecimento da prática de crime envolvendo criança e adolescente vítima ou testemunha de violência, a autoridade policial procederá ao registro da ocorrência policial e realizará a perícia (BRASIL, 2018). Esse registro consiste na descrição preliminar das circunstâncias em que se deram o fato e, sempre que possível, será elaborado a partir de documentação 49 remetida por outros serviços, programas e equipamentos públicos, além do relato do acompanhante da criança ou adolescente. A autoridade policial deverá priorizar a busca de informações com a pessoa que acompanha o menor, de forma a preservá- lo, observado o disposto na Lei nº 13.431/2017. Ressalta-se que a descrição do fato não será realizada em lugares públicos que ofereçam exposição da identidade da criança ou adolescente e, sempre que possível, não será realizada diante do menor. A Autoridade Policial deverá assegurar o registro da ocorrência policial, ainda que a criança ou o adolescente esteja desacompanhado. A perícia médica ou psicológica primará pela intervenção profissional mínima. Os peritos deverão, sempre que possível, obter as informações necessárias sobre o fato ocorrido com os adultos acompanhantes da criança ou adolescente ou por meio de atendimentos prévios realizados pela rede de serviços. A perícia física será realizada somente nos casos em que se fizer necessária a coleta de vestígios, evitada a perícia para descarte da ocorrência de fatos. Além do registro da ocorrência policial e solicitação de perícia da vítima, será realizada da oitiva criança ou adolescente caso seja necessário, que poderá ser por meio de escuta especializada ou depoimento especial, conforme já estudado. Será instaurado o procedimento investigatório, no qual serão ouvidas as testemunhas, representante legal da vítima e do investigado, solicitação de outras perícias cabíveis, além de outras diligências que a Autoridade Policial entender necessárias. Ao final da investigação, o Delegado de Polícia produzirá um relatório detalhado das diligências realizadas, concluindo pela prática ou não do delito. A Autoridade Policial poderá representar pela prisão do agressor, bem como por outras medidas cautelares relacionadas à investigação. Há, também, a possibilidade de prisão em flagrante delito, que ocorre nos casos previstos no art. 302 do Código de Processo Penal, que assim prevê: Art. 302 – Considera-se em flagrante delito quem: I - está cometendo a infração penal; II - acaba de cometê-la; III - é perseguido, logo após, pela autoridade, pelo ofendido ou por qualquer pessoa, em situação que faça presumir ser autor da infração; 50 IV - é encontrado, logo depois, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele autor da infração (BRASIL, 1941). Após concluir a investigação, o procedimento é remetido ao Ministério Público, que oferecerá a denúncia se estiverem presentes os requisitos. Assim, o investigado responderá ao processo criminal e poderá ser condenado pela prática do crime. Além da investigação dos crimes sexuais contra menores, a Polícia Civil de Minas desempenha importante papel na prevenção de novos crimes, ministrando cursos e palestras sobre a temática, além da divulgação, junto à imprensa e redes sociais, de informações sobre os canais de denúncias, como identificar se a criança ou adolescente está sofrendo algum tipo de violência e a importância da notificação. Vale mencionar que a Polícia Civil deve atuar de forma integrada e articulada com os demais órgãos da rede de proteção de cada município, permitindo uma proteção efetiva e integral da criança e adolescente em situação de vulnerabilidade. 7.4 Atuação do Conselho Tutelar O Estatuto da Criança e do Adolescente criou o Conselho Tutelar, que é órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente. Em cada Município haverá, no mínimo, um Conselho Tutelar como órgão integrante da administração pública local, composto de 5 (cinco) membros escolhidos pela população local para mandato de 04 (quatro) anos, permitida recondução por novos processos de escolha. Para ser candidato a membro do Conselho Tutelar, a pessoa deverá ter reconhecida idoneidade moral, idade superior a 21 (vinte e um) anos e residir no município. O Conselho Tutelar é integrante do Sistema de Garantia dosDireitos da Criança e do Adolescente e tem um papel importantíssimo na proteção e garantia dos direitos de crianças e adolescentes, contra qualquer ação ou omissão do Estado ou dos responsáveis legais que resulte na violação ou ameaça de violação dos direitos estabelecidos pelo ECA. De acordo com Digiácomo (2011, p. 9): Trata-se de uma instituição essencial ao “Sistema de Garantias dos Direitos da Criança e do Adolescente”, instituído pela Lei nº 8.069/90 com o objetivo de proporcionar, de maneira efetiva, a “proteção integral” prometida à criança e ao adolescente já pelo citado art. 1º, do citado Diploma Legal. Evidente, no entanto, que 51 agindo de forma isolada, por mais que o Conselho Tutelar se esforce, não terá condições de atingir tal objetivo e/ou de suprir o papel reservado aos demais integrantes do aludido “Sistema de Garantias”, não podendo assim prescindir da atuação destes. Um dos desafios a serem enfrentados pelo Conselho Tutelar, portanto, é fazer com que os diversos órgãos, autoridades e entidades que integram o referido “Sistema de Garantias” aprendam a trabalhar em “rede”, dialogando e compartilhando ideias e experiências entre si, buscando, juntos, o melhor caminho a trilhar, tendo a consciência de que a efetiva e integral solução dos problemas que afligem a população infanto-juvenil local, é de responsabilidade de TODOS. O Conselho Tutelar tem diversas atribuições previstas no ECA. Uma importante função é o atendimento de crianças e adolescentes que tiveram seus direitos ameaçados por falta ou omissão da sociedade ou Estado, por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável ou em razão de sua conduta, aplicando as seguintes medidas, dependendo da gravidade do caso: encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade; orientação, apoio e acompanhamento temporários; matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental; inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, apoio e promoção da família, da criança e do adolescente; requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; acolhimento institucional; inclusão em programa de acolhimento familiar; colocação em família substituta (BRASIL, 1990). O Conselho Tutelar deve realizar o atendimento de pais ou responsável, aplicando as medidas de encaminhamento a serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, apoio e promoção da família; inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico; encaminhamento a cursos ou programas de orientação; obrigação de matricular o filho ou pupilo e acompanhar sua frequência e aproveitamento escolar; obrigação de encaminhar a criança ou adolescente a tratamento especializado e advertência. O órgão pode ainda requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e segurança, bem como representar junto à autoridade judiciária nos casos de descumprimento injustificado de suas deliberações. O Conselheiro Tutelar deve encaminhar ao Ministério Público notícia de fato que constitua infração administrativa ou penal contra os direitos da criança ou adolescente; encaminhar à autoridade judiciária os casos de sua competência; expedir notificações e requisitar certidões de nascimento e de óbito de menores quando necessário. O Conselho Tutelar deve representar ao Ministério Público para efeito das ações de perda ou suspensão do poder familiar, após esgotadas as possibilidades de 52 manutenção da criança ou adolescente junto à família natural, além de promover e incentivar, na comunidade e grupos profissionais, ações de divulgação e treinamento para o reconhecimento de sintomas de maus-tratos em crianças e adolescentes. Se, no exercício de suas atribuições, o Conselho Tutelar entender necessário o afastamento do convívio familiar, comunicará o fato imediatamente ao Ministério Público, prestando-lhe informações sobre os motivos de tal entendimento e as providências tomadas para a orientação, o apoio e a promoção social da família. É importante ressaltar que as decisões do Conselho Tutelar somente poderão ser revistas pela autoridade judiciária a pedido de quem tenha legítimo interesse. O ECA, em seu art. 13, prevê que os casos de suspeita ou confirmação de castigo físico, de tratamento cruel ou degradante e de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais. O Estatuto traz, em seu art. 56, a obrigatoriedade de comunicação ao Conselho Tutelar dos casos de maus-tratos envolvendo os alunos pelos dirigentes de estabelecimentos de ensino. Assim, ao tomar conhecimento da suspeita ou confirmação de violência contra menores, caberá ao Conselho Tutelar aplicar as medidas de proteção cabíveis ao caso concreto para garantir, com absoluta prioridade, a efetivação dos seus direitos. Vale reforçar que o Conselho Tutelar deve atuar de forma integrada e articulada com os demais órgãos da rede de proteção de cada município, como Polícia Civil, Polícia Militar, Ministério Público, Poder Judiciário, além da saúde, educação, assistência social, dentre outros. Por fim, vale acrescentar que o Conselho Tutelar aplica as medidas de proteção, mas a execução delas é de responsabilidade do Poder Público, das famílias e da sociedade civil em geral. 7.5 O papel dos pais na proteção das crianças e adolescentes Além do Estado (que atua através da Polícia Civil, do Conselho Tutelar, do Poder Judiciário e demais órgãos e instituições) e de toda a sociedade, os pais exercem um papel primordial na proteção das crianças e adolescentes. A partir do nascimento de uma criança, os pais (sejam eles biológicos ou adotivos) tornam-se seus principais modelos de como se relacionar consigo mesmo e com o mundo e, neste cenário, eles têm um papel fundamental na educação e proteção do filho. 53 Para exercer essa função, é essencial que haja entre eles uma relação de afeto honestidade e confiança, baseada no diálogo, que sempre deve estar presente nas relações familiares – ainda que para tratar de assuntos difíceis, como, por exemplo, a violência sexual –, pois esta é a maneira mais eficaz de prevenção. Nesse sentido, é muito importante orientar as crianças desde cedo sobre a educação sexual infantil, mostrando quais são as partes do corpo, quais partes são consideradas íntimas e que não devem ser tocadas por ninguém, a importância de contar para alguém de confiança caso aconteça algo de errado, etc. A criança precisa conhecer o seu corpo e saber que tem autonomia sobre ele. Com educação apropriada, as crianças “são muito capazes de entender o que é carinho e o que é abuso. Quando se despir é normal, por exemplo, quando a criança está na praia com a família, e quando a pessoa está mal intencionada” (MORI, 2020). Existem livros e vídeos adequados para cada idade que auxiliam, e muito, nesta conversa. Os pais devem deixar claro para os meninos e meninas a importância de pedir ajuda caso aconteça algo errado e não guardar segredos que não sejam saudáveis ou possam lhes trazer perturbação, vergonha e medo. Os filhos devem ter liberdade e sentirem-se seguros para conversar com os pais e responsáveis. Além disso, é essencial que os pais sempre confiem e acreditem na palavra dos filhos, não os responsabilizando ou culpando caso tenha ocorrido algum tipo de violência. Crianças e adolescentes são vítimas e precisam de apoio e proteção. Não devem, em hipótese alguma, ser questionados ou responsabilizadospor atos praticados por adultos. Infelizmente, há casos em que a vítima narra uma situação de violência sexual para a família e, por não acreditarem no relato da criança ou adolescente (sobretudo quando < DICAS DE CONTEÚDO! A campanha Defenda-se promove a autodefesa de crianças contra a violência sexual por meio de vários vídeos educativos com linguagem acessível, amigável e preventiva, apropriados para meninas e meninos entre 4 e 12 anos de idade. As histórias apresentam situações do dia-a-dia em que os meninos e meninas têm condições reais de agir preventivamente para sua autodefesa, especialmente pelo reconhecimento dos seus direitos sexuais e de estratégias que dificul tam a ação dos agressores. Acesse o site em <https://defenda-se.com/videos/#pt> e mostre os vídeos para as crianças de sua convivência! Outra indicação é a série “Que corpo é esse?”, lançada em 2018, através de parceria com a Childhood Brasil e a Unicef Brasil e disponível em <https://www.childhood.org.br/crescer-sem-violencia>. Os vídeos buscam alertar educadores, crianças, adolescentes e famílias sobre o conhecimento do próprio corpo, a importância da autoproteção e do respeito ao direito à sexualidade. Os vídeos são excelentes para conscientizar crianças e adolescentes e prevenir a prática de violência sexual. Por fim, como sugestão de leitura, indica-se o livro infantil “Pipo e Fifi”, que opera como uma ferramenta de proteção, explicando às crianças, a partir dos 3 anos de idade, conceitos básicos sobre o corpo, sentimentos, convivência e trocas afetivas. De forma simples e descomplicada, ensina-se a diferenciar toques de amor de toques abusivos, apontando caminhos para o diálogo e a proteção. https://www.childhood.org.br/crescer-sem-violencia 54 se trata de violência intrafamiliar), os abusos e agressões sexuais acabam se repetindo por vários anos. A criança ou adolescente sente-se ainda mais culpada, com medo, vergonha e perde a confiança em outras pessoas, o que traz reflexos irreversíveis para a vida daquela vítima, como os já analisados neste curso. Em situações como essa, o responsável legal pela criança ou adolescente pode ser responsabilizado pelo mesmo crime praticado contra o menor, justamente em virtude da sua omissão. De acordo com a legislação brasileira, os pais têm a obrigação de cuidado, proteção e vigilância dos filhos e o Código Penal (art. 13, § 2º) prevê a possibilidade de responsabilização criminal de pessoa que devia e podia agir para evitar determinado resultado, no caso, a violência sexual. A título de ilustração, em uma investigação realizada pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente, a genitora foi responsabilizada pelo estupro de vulnerável em sua forma omissiva, visto que tinha conhecimento das violências sexuais que o pai praticava contra as três filhas e nada fazia para impedir que as condutas criminosas continuassem ocorrendo. Acreditar na palavra da criança e do adolescente é essencial. Isso faz com que a vítima se sinta amparada, segura, protegida e consiga superar o trauma da violência. Como já estudamos, o menor pode não conseguir falar sobre a violência sofrida. Se os pais identificarem sinais ou comportamentos analisados no Capítulo anterior e que sugerem que o menor tenha sofrido violência sexual, devem procurar ajuda de um profissional, que trará a orientação correta e necessária em cada caso. Qualquer órgão do Sistema de Garantias de Direitos, como o Conselho Tutelar e o CREAS, poderá auxiliar os pais e a criança ou adolescente. A proteção dos filhos contra a violência sexual exige medidas básicas, tais como sempre procurar saber onde as crianças e adolescentes estão, com quem estão e o que estão fazendo; ensiná-los a jamais aceitar convites, dinheiro, comida ou favores de estranhos, sobretudo em troca de carinho; acompanhá-los em consultas médicas; e conhecer os amigos deles, principalmente os mais velhos. Ainda neste contexto, considerando que, nos dias de hoje, as crianças e os adolescentes estão, cada vez mais conectados à internet, é importante que os pais também exerçam o seu papel de proteção nesse ambiente, que, apesar de possuir inúmeros benefícios, é também cheio de perigos: 55 [...] existem sites, pessoas e redes criminosas que podem enganar, seduzir ou induzir crianças e adolescentes a acessar conteúdos inadequados, como pornografia, incluindo a infantojuvenil. Elas podem ser encorajadas a enviar fotos e informações pessoais com propósitos duvidosos. [...] Por meio das ferramentas de bate-papo, como chats, e-mails ou sites de relacionamento, crianças e adolescentes podem ser convidados a participar de jogos online ou para encontros no “mundo real”. Essas mensagens podem esconder intenções de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. Existem casos de crianças e adolescentes que foram aliciados, cooptados ou raptados para fins sexuais, levados de um local para outro com falsas ofertas de trabalho, como para se tornarem modelos ou jogadores de futebol (CHILHOOD BRASIL, 2013, p. 15). Alcançar a proteção desejada não é uma tarefa impossível. Os pais devem aprender sobre a internet e, sempre incentivando o diálogo aberto, conversar com os filhos sobre o que eles também sabem. Entender o conhecimento da criança e adolescente em relação aos acessos à internet permitirá um controle mais efetivo. É importante conhecer as possibilidades de uso da internet (para o bem e para o mal), acessando sites, redes sociais, aplicativos de mensageria, jogos virtuais, filmes, desenhos e demais conteúdos de interesse dos seus filhos e constatar se realmente possuem conteúdo adequado e oferecem um ambiente seguro. Essa compreensão, na visão de Barreto e Fonseca (2020), facilitará a tomada de medidas de segurança e assegurará maior proteção e privacidade para as crianças e adolescentes. Nesse sentido, os autores citam algumas medidas que podem ser adotadas quando da utilização dessas plataformas: Configuração de privacidade nas redes sociais, especialmente dos dados relacionados com geolocalização, data de nascimento, telefone, e-mail, nome dos pais e qualquer outro referente a informações pessoalmente identificáveis; Ajustes no WhatsApp para ocultar informações sobre fotos de perfil, permissão para adição em grupos, compartilhamento de status além de habilitar a configuração em duas etapas para evitar a “clonagem” do WhatsApp; Orientação na postagem de conteúdo; Cautela com smart toys e outros devices conectados; Cuidados com o acesso remoto de dispositivos, especialmente de webcams. Recomenda-se a utilização de adesivos ou outro meio que permita sua ocultação quando não estiver em uso e; Atenção para os games online e os recursos de configuração de privacidade e segurança (BARRETO; FONSECA, 2020). Quanto mais bem informados os pais estiverem, mais fácil será a conversa com os filhos, orientando-os sobre os riscos existentes e a supervisão da navegação. Para realizar essa supervisão, é possível criar filtros nos celulares, tablets e jogos online. Há várias formas de monitorar ou impedir o acesso a conteúdos impróprios para crianças e adolescentes. Ative o Controle Parental (ou Controle FAÇA VOCÊ MESMO! COMO ATIVAR A ‘CONFIRMAÇÃO EM DUAS ETAPAS’? Para ativar esse recurso no WhatsApp abra: Configurações (Android) / Ajustes (iOS) > Conta > Confirmação em duas etapas > ATIVAR. Ao ativar esse recurso, você pode inserir o seu endereço de e-mail. Caso você esqueça o seu PIN de seis dígitos, o WhatsApp enviará um link a esse e-mail para desativar a ‘Confirmação em duas etapas’. Isso também ajudará você a proteger sua conta e suas informações. 56 dos Pais), que “é um conjunto de recursos de segurança disponível em diversos sistemas operacionais, sites e equipamentos, como roteadores e consoles de jogos. Também pode ser instalado por meio de aplicativospagos ou gratuitos” (CERT.BR, 2019, p. 12). Sobre este assunto, Barreto e Fonseca (2020) assinalam que existem diversos softwares com ferramentas para restrição de acesso, definição de horários e monitoramento de assuntos a serem acessados pelas crianças. E adolescentes. Dentre as várias opções existentes, eles indicam as seguintes: Bark (www.bark.us), para o monitoramento de redes sociais; Qustodio (www.qustodio.com), para o controle de adolescentes; Net Nanny (www.netnanny.com), para o controle de crianças, e, também, o Kaspersky Safe Kids (www.kaspersky.com/safe-kids), com funções semelhantes. Os menores também devem ser orientados sobre a privacidade, não devendo divulgar dados pessoais, como nome, endereço, telefone, fotografias, escola e e-mail em locais públicos da internet, como salas de bate-papo e sites de relacionamento. Não é recomendado postar fotos com uniformes de escola. Os mecanismos de segurança de sites ou redes sociais devem ser ativados, uma vez que há informações que podem ser classificadas como ‘públicas’ e ‘privadas’. Da mesma forma, deve-se nortear os menores a não conversarem com estranhos na internet, pois infelizmente há pessoas que se aproximam com más intenções. As crianças e adolescentes precisam ser orientadas a nunca marcar encontros com desconhecidos ou pessoas que conhecem apenas na internet. Os pais podem ainda verificar com regularidade o histórico de acesso dos computadores. A melhor opção é que “os equipamentos de acesso à rede estejam situados em locais comuns da casa, onde possa haver supervisão de adultos, diferentemente do isolamento de um quarto” (BARRETO; FONSECA, 2020) Somado a isso, é essencial observar o comportamento do menor no uso da internet. Atitudes como minimizar ou fechar aplicativos, trancar a porta do quarto, bloquear o celular ou tablet e ficar nervoso quando você está por perto podem indicar que seus filhos estão tentando esconder < DICAS DE CONTEÚDO! O Ministério da Justiça e Segurança Pública, atentando-se à importância e necessidade de munir os pais e responsáveis do conhecimento necessário para proteger as crianças e os adolescentes no ambiente virtual, disponibilizou através do link <https://www.justica.gov.br/seus-direitos/classificacao/Controle-parental> informações sobre como ativar o Controle Parental em diversas plataformas virtuais. 57 algo e, possivelmente, correndo riscos. Esse é o momento para tentar conversar e entender o que está ocorrendo. A relação de confiança é o mais importante. Converse e ouça antes de julgar, para que eles não tenham medo de relatar algum incômodo (CERT.BR, 2019, p. 9). (grifo nosso) Por fim, deve-se sempre limitar o tempo de utilização da internet por meninos e meninas. “O uso excessivo da Internet pode colocar em risco a saúde física e psicológica dos seus filhos, atrapalhar o rendimento escolar e afetar a vida social” (CERT.BR, 2019, p. 4). Não é saudável permitir que eles fiquem por longos períodos em frente ao computador, tablet ou celular. A compra de um celular ou tablet para crianças deve, inclusive, ser analisada com cautela, verificando se há maturidade para o uso de tais equipamentos, uma vez que o acesso oferece diversos riscos. Em síntese, é essencial que os pais orientem seus filhos quanto a uma navegação segura, de modo a permitir que eles desfrutem das facilidades e oportunidades do mundo virtual com responsabilidade e as orientações necessárias sobre como proceder diante de possíveis riscos de contato com pessoas mal-intencionadas e conteúdo impróprio. Por isso, é fundamental estimular o diálogo aberto, contribuindo para que a criança ou adolescente se sinta confortável e seguro para compartilhar e tirar dúvidas com os adultos de sua confiança. Por fim, em quaisquer hipóteses, se a criança ou adolescente relatar situação de violência sexual, esteja disponível para ouvi-lo e incentivá-lo a falar devagar o que aconteceu, sem muitas perguntas e comentários. É muito importante não o culpar pela situação e sempre oferecer proteção e apoio, assegurando-lhe de que tomará as providências necessárias, o que deve ser feito o mais rápido possível. De acordo com a situação relatada, deve-se consultar um médico e um psicólogo e informar as autoridades competentes, como a Polícia Civil de Minas Gerais. De imediato, 1) Verifique todos os canais por meio dos quais a criança ou adolescente teve contato com o possível criminoso e não apague nenhuma das conversas e conteúdos (vídeos ou fotos) compartilhados. 2) Se o diálogo se deu em uma rede social, por exemplo, copie a URL8 (link) do perfil e o nome do usuário (veja como fazer mais adiante). 3) Tire cópia de todas as conversas e demais conteúdos; salve em um CD ou pendrive, se for preciso. 4) Anote o(s) dia(s), horário(s) e a cidade(s)/UF(s) em que o menor estava durante as conversas com o suposto criminoso. 5) De posse dessas informações e, se possível, acompanhado do menor de idade, dirija-se à Delegacia mais próxima e registre um boletim de ocorrência. 8 URL significa Uniform Resource Locator (Localizador Padrão de Recursos) e, neste curso, será utilizada apenas para indicar o endereço ou link de um site, como, por exemplo, www.policiacivil.mg.gov.br. MEU(MINHA) FILHO(A) FOI VÍTIMA. COMO PROCEDER? 58 FAÇA VOCÊ MESMO! COMO SALVAR A URL (ou LINK) DE UM PERFIL? Uma das primeiras medidas a ser adotada quando ocorre a prática de um crime em uma rede social é coletar os dados do titular da conta ou perfil. E isso a própria vítima (ou responsável) pode fazer. Tratando-se de crime praticado no Facebook ou Instagram, por exemplo, deve-se coletar de imediato a URL (ou link) da conta a ser investigada, isto é, o seu endereço web completo. Quando o acesso ao Facebook é feito através de um computador, a URL pode ser identificada na barra de endereços do navegador, conforme imagem abaixo: Nesse caso, a URL é www.facebook.com/luiza.paranhos.581. Quando o acesso ao Facebook é feito pelo aplicativo do celular, o procedimento é o seguinte: No Instagram, quando o acesso é feito a partir do computador, a identificação da URL do perfil opera-se de maneira semelhante, isto é, a partir da barra de endereços do navegador. Veja: Esses dados também podem ser coletados no aplicativo do celular: 59 7.6 Como e onde denunciar Diante de todas as informações apresentadas ao longo deste curso, resta-nos, por fim, apresentar as várias formas e locais em que é possível realizar denúncias de situações (e, até mesmo, suspeitas) da prática de violência sexual contra crianças e adolescentes. Assim, é possível proceder às denúncias junto à POLÍCIA CIVIL DE MINAS GERAIS (e de outros Estados). Em Belo Horizonte, há uma Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente, localizada na Avenida Nossa Senhora de Fátima, 217 – Carlos Prates. Esta delegacia apura os crimes sexuais praticados contra crianças e adolescentes ocorridos na capital e conta com profissionais qualificados para realizar a escuta dos menores. O atendimento da Especializada também é feito < DICAS DE CONTEÚDO! O Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.BR), juntamente Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.BR) e o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.BR), criaram uma cartilha com o título “Internet segura para seus filhos: sua participação é muito importante”, que dá diversas dicas para os pais sobre como orientar seus filhos a navegarem com segurança na internet, atentando-se para os riscos existentes. Acesse o conteúdo em: <https://internetsegura.br/pdf/guia-internet-segura-pais.pdf>. No mesmo sentido é a Cartilha “Navegar com Segurança: por uma infância conectada e livre da violência sexual”, da CHILDHOOD BRASIL, quedá maior enfoque à proteção das crianças e adolescentes contra as várias formas de violência sexual e pode ser acessada pelo endereço <https://crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/childhood/navegue_com_seguranca_3ed_2012.pdf>. Quando o acesso ao Facebook é feito através de um computador, a URL pode ser identificada na barra de endereços do navegador, conforme imagem abaixo: Esse é um procedimento deve ser usado em relação a quaisquer crimes praticados nessas redes sociais. É muito simples e representa uma ajuda muito importante para a investigação criminal. NÃO SE ESQUEÇA! 60 no Centro Integrado de Defesa e Proteção à Criança e ao Adolescente, localizado na Avenida Olegário Maciel, 515 – Centro, Belo Horizonte / MG. Os crimes de natureza sexual praticados por meio da internet, por sua vez, são investigados pelas Delegacias Especializadas em Investigação de Crime Cibernético, localizadas na Avenida Francisco Sales, 780 – Santa Efigênia, em Belo Horizonte / MG. Essa Unidade Especializada também possui profissionais capacitados para a investigação de crimes cujas evidências estão contidas no meio virtual, com a devida identificação dos autores. A competência para realizar as investigações abrange a cidade de Belo Horizonte e o suporte técnico é dado a todas as demais Unidades de Polícia Civil do Estado. O registro da ocorrência pode ser realizado nas Delegacias Especializadas ou em qualquer outra Unidade Policial. Após o registro, a Polícia Civil irá apurar os fatos noticiados através de um procedimento investigatório. Outra forma de realizar as denúncias é através do DISQUE DIREITOS HUMANOS – DISQUE 100. Por meio desse serviço, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos recebe, analisa e encaminha aos órgãos de proteção e responsabilização as denúncias de violações dos direitos de crianças e adolescentes, pessoas idosas, pessoas com deficiência, população LGBT, população em situação de rua, entre outros. Funciona diariamente, 24 horas por dia, e qualquer pessoa pode noticiar violações de direitos humanos. Se o cidadão tiver o interesse de acompanhar a denúncia, basta ligar para o Disque 100 e fornecer os dados da denúncia. Além disso, algumas informações são muito importantes para realizar o registro de qualquer denúncia pelo Disque 100. São elas: Quem sofre a violência? (vítima) Qual tipo violência? (violência física, psicológica, maus tratos, abandono, etc.) Quem pratica a violência? (suspeito) Como chegar ou localizar a vítima/suspeito? Endereço (estado, município, zona, rua, quadra, bairro, número da casa e ao menos um ponto de referência) Há quanto tempo ocorreu ou ocorre a violência? (frequência) Qual o horário? Em qual local? Como a violência é praticada? Qual a situação atual da vítima? Algum órgão foi acionado? As denúncias também podem ser feita na POLÍCIA 61 MILITAR. Nos casos de urgência, a Polícia Militar deve ser acionada através do número 190, e policiais militares comparecerão ao local dos fatos para a condução dos envolvidos à Delegacia de Polícia, em estado de flagrante ou lavratura do Boletim de Ocorrência. É possível, ainda, fazer as denúncias no CONSELHO TUTELAR. Como estudado neste capítulo, o Conselho Tutelar é um órgão essencial na proteção de crianças e adolescentes e pode receber informações de violências praticadas contra meores, ocasião em que comunicará aos órgãos cabíveis, como a Polícia Civil e o Ministério Público, além de adotar de forma imediata medidas de proteção. As unidades de saúde deverão notificar os casos suspeitos ou confirmados de violência contra crianças e adolescentes no Sinan (setor Saúde) e ao Conselho Tutelar, de forma obrigatória, conforme previsto no art. 13 da ECA. No mesmo sentido, as unidades de ensino também deverão notificar ao Conselho Tutelar os casos de maus tratos envolvendo seus alunos, de acordo com o art. 56 do ECA. O MINISTÉRIO PÚBLICO, através das Promotorias de Justiça que atuam na defesa dos direitos das crianças e adolescentes, também está apto a receber denúncias da prática de violência sexual. Por fim, é possível realizar denúncias na INTERNET, através da SaferNet Brasil, cujo site pode ser acessado através do endereço https://new.safernet.org.br/denuncie#. A SaferNet Brasil oferece um serviço de recebimento de denúncias anônimas de crimes e violações contra os Direitos Humanos na Internet, contando com procedimentos efetivos e transparentes para lidar com as denúncias. Caso encontre imagens, vídeos, textos, músicas ou qualquer tipo de material que seja atentatório aos Direitos Humanos, faça a sua denúncia. Vê-se, portanto, que muitos são os canais para proceder à denúncia de crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes, os quais devem ser usados por todos nós para a proteção dos meninos e meninas em condição de violência e risco. https://new.safernet.org.br/denuncie 62 8 CONCLUSÃO As crianças e adolescentes são as principais vítimas de variadas formas de violência, praticadas em todas as partes do mundo e, também, no Brasil. Infelizmente, dentre essas abomináveis práticas, destaca-se a violência de natureza sexual, que demanda uma reprimenda ainda maior por parte do Estado. Como visto neste curso, várias são as condutas que caracterizam a violência sexual contra meninos e meninas, não se limitando, apenas, à própria prática do ato sexual. Condutas como divulgar material pornográfico e exigir que uma criança se apresente de forma sensual e erótica é tão grave quanto a prática do estupro, uma vez que todos, em conjunto, integram uma rede que financia o crime organizado, a máfia mundial de exploração sexual de crianças e adolescentes e muitos outros crimes, que, diariamente e de forma violenta, tiram a vida, a integridade e a dignidade de inocentes meninos e meninas, sem escolha e sem defesa. A prática de crimes relacionados à violência sexual contra menores constitui, além da violação, uma verdadeira crueldade à individualidade e à coletividade de crianças e adolescentes, em tenra idade e pleno estágio de desenvolvimento físico, moral, psíquico e social, em situação de extrema vulnerabilidade, que, muitas vezes, são torturadas de forma desumana e degradante. A Constituição Federal impõe integral, absoluta e especial proteção, conforme se extrai do citado art. 227. A dimensão e gravidade dos delitos praticados devem ser encaradas com a devida importância, levando-se em consideração a necessidade de preservar a dignidade e privacidade de cada menino e menina, brasileiro ou estrangeiro, bem como o direito humano de que cresçam sem abusos, sem vícios, sem ferimentos na honra, traumas, maus-tratos, torturas ou violência de qualquer natureza. As crianças e adolescentes merecem respeito em seus valores mais íntimos e a eles deve ser ofertado um lar acolhedor, uma família integrada, uma escola e uma sociedade baseada em princípios sólidos e saudáveis, onde possam estar protegidos de toda forma desumana de violação de sua integridade corporal, moral e psíquica. Do contrário, essas crianças e adolescentes estarão fadados a mortes prematuras e, quando sobreviventes, serão, na grande maioria das vezes, assombrados por marcas irremediáveis e distúrbios pós-traumas de todas as ordens. A prevenção é, sem dúvidas, de suma importância para o enfrentamento ao abuso e à exploração sexual infanto-juvenil, incluindo os cuidados com a internet. O Estado, a sociedade e os pais têm um papel primordial nessa proteção e todos devemos fazer, diariamente, a nossa parte. DENUNCIE! REFERÊNCIAS ARCARI, Caroline. Pipo e Fifi. 2016. Disponível em: <https://www.pipoefifi.org.br/proteja>. Acesso em: 11 set. 2020. BARRETO, Alesandro Gonçalves; FONSECA, Ricardo Magno Teixeira. Abuso e exploração sexual infantojuvenil na internet: seu filho pode estar sendo caçado durantea pandemia. Justiça & Polícia, 11 de abril de 2020. Disponível em: <https://juspol.com.br/abuso-e-exploracao-sexual-infantojuvenil-na-internet-seu-filho- pode-estar-sendo-cacado-durante-a-pandemia/>. Acesso em: 11 set. 2020. BRASIL. Constituição Federal. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 11 set. 2020. ______. 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