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ÉTICA E CIDADANIA 
Me. Fabiola Adami 
GUIA DA 
DISCIPLINA 
 
 
 
1 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
OBJETIVOS 
 Propiciar o entendimento dos conceitos fundamentais da ética e da cidadania. 
 Exceder à compreensão clássica da ética a fim de compreendê-la sob o 
complexo ponto de vista que envolve os diversos espaços em que se coloca a 
questão ética. 
 Reconhecer a importância da proteção humana à luz da ética e dos direitos e os 
princípios para o resgate ou exercício da plena cidadania. 
 Contribuir para a discussão sobre a natureza da indagação ética nos dilemas da 
sociedade contemporânea. 
 
EMENTA 
Introdução geral a Ética. Aspectos doutrinários e fundamentais da ética. Ética e 
responsabilidades. Diferenciação entre ética e moral. Conceito de Cidadania. Cidadania, 
direitos sociais e participação política. Articulação entre ciência e ética. Direitos 
emancipatórios para os cidadãos: reconhecimento ético-moral. Ética, cidadania e 
políticas públicas voltadas à superação da desigualdade social. 
 
PLANO DETALHADO DE ENSINO 
1. Introdução geral a Ética. 
2. Aspectos doutrinários e fundamentais da ética. 
3. Ética e responsabilidades. 
4. Diferenciação entre ética e moral. 
5. Conceito de Cidadania. 
6. Cidadania, direitos sociais e participação política. 
7. Articulação entre ciência e ética. 
8. Direitos emancipatórios para os cidadãos: reconhecimento ético-moral. 
9. Ética, cidadania e políticas públicas voltadas à superação da desigualdade 
social. 
 
 
 
 
2 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
1. INTRODUÇÃO GERAL A ÉTICA 
 
"A pergunta “o que é ética?” toca-nos constantemente, pois não raro vemos em 
noticiários e na mídia geral as pessoas falando sobre ética, como quando algum político 
faltou com a ética ao se envolver em um esquema de corrupção ou um empresário faltou 
com a ética ao cometer fraudes contra o sistema de arrecadação fiscal. Mas, afinal, o 
que é ética?" 
 
Toda discussão sobre “ética” sempre se inicia pela revisão de suas origens 
etimológicas e pela sua distinção ou sinonímia com o termo “moral”. 
Justifica-se a necessidade de explicitar a origem do termo ethos, uma vez que é 
de sua raiz primitiva que iremos encontrar as respostas para as ambiguidades 
terminológicas e imprecisões conceituais. 
"Podemos adiantar que a ética está ligada à ação das pessoas e é aquilo que 
define quais ações podem ser consideradas corretas ou incorretas, definindo o que é o 
certo e o errado. 
A Filosofia preocupou-se com os estudos de ética desde a Antiguidade, e a 
Sociologia pode utilizar-se dos conceitos filosóficos que envolvem a ética para entender 
melhor as relações sociais entre as pessoas." 
A palavra ethos expressa a existência do mundo grego que permanece presente 
na nossa cultura. Esse vocábulo deriva do grego ethos. Nessa língua, possui duas 
grafias: ηθοζ (êthos) e εθοζ (éthos). Essa dupla grafia não é gratuita, pois reúne uma 
 
 
3 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
diversidade de significados que, ao longo do tempo, distanciaram-se do seu sentido 
original. 
 
 
Considerando que, normalmente, os autores não costumam apresentar os 
significados desses termos em suas origens, antes de adentrarmos nos 
conceitos de “ética” e “moral”, passaremos uma breve vista em suas origens, 
uma vez que as controvérsias sobre o que se entende por “ética” devem-se, 
em grande parte, aos diversos significados da palavra primitiva ethos e à sua 
tradução para o latim mos. 
 
 
 
Esses dois termos podem ser entendidos em três sentidos: “morada” ou “abrigo”, 
“caráter ou índole” e “hábitos” ou “costumes”. 
a. O termo grego ηθοζ (êthos), quando escrito com “eta” (η) inicial, possui dois 
sentidos: morada, caráter ou índole. 
O primeiro sentido é de proteção. É o sentido mais antigo da palavra. Significa 
“morada”, “abrigo” e “lugar onde se habita”. Usava-se, primeiramente, na poesia grega 
com referência aos pastos e abrigos onde os animais habitavam e se criavam. Mais 
tarde, aplicou-se aos povos e aos homens no sentido de seu país. Depois, por extensão, 
à morada do próprio homem, isto é, refere-se a uma habitação que é íntima e familiar, é 
o “lar”, um lugar onde o homem vive. É o lugar onde é mais provável de se encontrar o 
eu real. Ele representa aquilo que faz uma pessoa, um indivíduo: sua disposição, seus 
hábitos, seu comportamento e suas características. 
Nesse sentido, cada um tem sua própria ética. É isso, mais que os acidentes e 
incidentes da vida, que o diferencia de todos os demais. 
O segundo significado da palavra êthos assume uma concepção histórica a partir 
de Aristóteles. Representa o sentido mais comum na tradição filosófica do Ocidente. Este 
sentido interessa à ética, em particular, por estar mais próximo do que se pode começar 
a entender por ética. Êthos significa “modo de ser” ou “caráter”. Mas esse vocábulo 
apresenta um sentido bem mais amplo em relação ao que damos à palavra “ética”. 
 
 
4 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
O ético compreende, antes de tudo, as disposições do homem na vida, seu 
caráter, seus costumes e, naturalmente, também a sua moral. Na realidade, poderia se 
traduzir como uma forma de vida no sentido preciso da palavra, isto é, diferenciando-se 
da simples maneira de ser. 
b. O segundo termo grego εθοζ (éthos), quando escrito com épsilon (ε) inicial, é 
traduzido por “hábitos” ou “costumes”. 
Este é o éthos social. Significa hábitos, costumes, tradições. Refere-se aos atos 
concretos e particulares, por meio dos quais as pessoas realizam seu projeto de vida. 
Este sentido também interessa à ética, uma vez que o caráter moral vai se formando, 
precisamente, mediante as opções particulares que fazemos em nossa vida cotidiana. 
De maneira que é a força das tradições quem forma a identidade de uma sociedade. 
Reciprocamente, os hábitos constituem o princípio intrínseco dos atos. 
Conforme diz Aranguren, “parece haver um círculo êthos-hábitos-atos. Assim se 
compreende como é preciso resumir as duas variantes da acepção usual de êthos, estas 
sendo os princípios dos atos e aquele o seu resultado. Ethos é o caráter (χαραҳτρη) 
cunhado, impresso na alma por hábitos”. 
 
Algumas situações cotidianas e corriqueiras podem ilustrar o que é agir de 
maneira ética, sendo elas mais simples ou mais complexas. Veja alguns exemplos: 
 
 
5 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 Não obter benefício próprio por meio de ações incorretas, como furar uma fila 
no banco para ganhar mais tempo; 
 Não se apropriar da propriedade alheia, independentemente do valor em 
questão; 
 Não se utilizar de cargos públicos, políticos ou não, ou de cargos em 
empresas privadas para obter vantagem pessoal ilícita; 
 Respeitar a vida e a individualidade das pessoas. 
 
 
 
Muitas vezes, a ética é confundida com moral e até mesmo empregada no 
cotidiano, no sentido de senso comum. 
Reserva-se à ética o “estudo da moralidade do agir humano (bondade ou maldade 
dos atos humanos): sua retidão frente à ordem moral”. 
A ética é a disciplina filosófica que investiga os diversos sistemas de morais 
elaborados pelos homens, buscando compreender a fundamentação das normas e 
proibições próprias a cada uma e explicar seus pressupostos, ou seja, as concepções 
sobre o ser humano e a existência que os sustenta. 
 
 
6 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
É considerada uma ciência porque, além de se ocupar da reconstrução intelectual 
organizada pela mente humana acerca da moral, tem objeto próprio, leis próprias e 
método próprio. Seu objeto é a moral; e a reflexão teórico-filosófica, o condicionante 
metódico enquanto disciplina teórica. 
 
 
 
7 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educaçãoa Distância 
2. ASPECTOS DOUTRINÁRIOS E FUNDAMENTAIS DA ÉTICA 
 
Observa-se que a palavra ética passou a fazer parte do vocabulário do homem 
comum e está sempre na mídia, demonstrando a vigência de uma preocupação urgente 
e universal. 
 
Sobre os aspectos gerais da ética tem-se que muitos eticistas costumam dividir a 
ética em três dimensões principais, sendo elas: a empírica, a normativa e analítica. 
Por outro lado, há aqueles que consideram que, “pelo menos quatro diferentes 
áreas de estudo se concentram na moralidade.” Sendo duas não-normativas (a 
descritiva/empírica e analítica/metaética) e duas normativas (a normativa, propriamente 
dita, e ética aplicada “que concentram sua investigação em questões específicas como 
aborto, eutanásia, pena de morte, e busca fazer com que a ética normativa se relaciona 
com elas.”). 
A ética empírica é “aquela que pretende derivar seus princípios da mera 
observação dos fatos”. O aspecto empírico (moral descritiva) trata-se da descrição e 
explicação dos fenômenos observados que envolvem o processo moral das decisões 
tomadas. Ex: ética utilitarista. 
 
 
8 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
A ética normativa refere-se à formulação de padrões ou princípios de vida. Suas 
teorias “buscam fornecem um relato sobre quais ações são certas, quais são erradas e 
por quê.” É responsabilidade do aspecto normativo da ética as “asserções acerca do que 
vale ou não a pena perseguir e do que se deve ou não fazer.” Essas afirmações 
conduzem-nos às teorias de obrigação e às teorias de valor. 
A ética analítica é denominada como metaética, e definida como sendo “o ramo 
da filosofia [moral] que analisa o significado de certos termos morais (certo, errado, bom, 
mau, dever, valor etc.). 
Dentre as várias opções formuladas por especialistas em ética 
analítica/metaética, temos as teorias não-cognitivistas (emotivismo, 
imperatismo/prescritivismo) e as teorias cognitivistas, sendo que, estas podem ser 
subjetivistas (subjetivismo particular ou relativismo cultural) ou objetivistas (naturalismo 
ético, moralismo metafísico e não-naturalismo ético). 
As primeiras [não-cognitivistas] negam que enunciados morais são tanto 
verdadeiros quanto falsos. […] 
As teorias cognitivistas retratam os enunciados morais como indicativos. 
As teorias cognitivistas subjetivistas (subjetivismo particular e relativismo cultural) 
deduzem que os enunciados morais trazem em si informações sobre quem pronúncia 
um enunciado moral. 
As teorias objetivistas deduzem que os enunciados morais trazem em si 
informações sobre os próprios atos morais ou sobre objetos (eg, pessoas humanas), em 
relação às quais atribui valor. 
Os naturalistas éticos afirmam que as propriedades morais podem ser reduzidas 
a propriedades não-morais; os não-naturalistas éticos discordam dessa afirmação. 
 
 
9 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
 
 
 
 
Com o fato de, “deixar-nos no âmbito da esfera humana, com seu apelo à 
sociedade ou ao indivíduo – e, portanto, à razão –, a ética geral direciona-
nos para além de si mesma e do que é meramente humano.” Deste modo, 
a proposta de um fundamento teológico ou religioso para a busca moral 
humana é algo relevante para essa inquietação do ser humano. 
 
 
 
 
 
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3. ÉTICA E RESPONSABILIDADES 
 
Serão a ética e a responsabilidade elementos de um novo paradigma, que vem 
substituir um outro superado, cujas leis já não satisfazem, não são suficientes para 
explicar a realidade de fatos observados pelos cientistas? 
Não se trata disso, apesar de não se poder negar que é crescente a atenção e o 
espaço em artigos, livros, seminários, conferências em todo o mundo, dedicados ao 
aprofundamento sobre os temas em questão. 
Por outro lado, podemos afirmar que já ocorrem transformações de uma parte 
ainda pequena da sociedade, em diversas partes do mundo, e quase todas as áreas de 
atuação, que adotam um novo padrão de comportamento, pautado por ações 
impregnadas pelo zelo, respeito e comprometimento com o desenvolvimento humano e 
com o bem-estar. 
Tais movimentos decorrem certamente do inquestionável desgaste e atual 
fragilidade do nosso modelo de civilização, dominado pela “globalização perversa” 
(Santos, 2000), que dá sinais claros de insustentabilidade não apenas ecológica ou 
social, como há anos demonstram inúmeros relatórios, que divulgam índices de 
degradação que hoje podem ser considerados tradicionais. 
Paradoxalmente, há novos indicadores de insustentabilidade que dizem respeito 
ao próprio modelo econômico. Um dos principais aspectos da fragilidade do sistema 
econômico associa-se ao crescente volume de operações financeiras efetivadas 
eletronicamente, que impõe riscos ao capitalismo “moderno”, não somente por sua 
volatilidade, mas também porque a lógica que determina seus movimentos já não é a 
antiga e única lógica da economia, o mercado. 
Temos, portanto sintomas cada vez mais abrangentes e generalizados que 
evidenciam a gravidade da situação do nosso modelo civilizacional que, desde a 
Revolução Industrial, insistem em apresentar como aquele que trará progresso e bem-
estar a todos. 
 Ao mesmo tempo, são essas mesmas condições de miséria social, riscos à 
capacidade de suporte do planeta e fragilidade do modelo econômico, que despertam a 
 
 
11 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
consciência de um número cada vez maior de pessoas. Estas se indignam e têm a 
certeza de que é preciso reverter esse quadro, e que esse processo somente será 
possível através da adoção de diferentes valores e crenças, que por sua vez motivarão 
transformações na conduta da sociedade. 
Entre outros valores, a responsabilidade é fundamental para que as 
transformações desejadas possam ser generalizadas. 
 
E pensar na responsabilidade é pensar na ética, como aquele conjunto maior de 
valores que a compreende. Para pensar sobre ética o primeiro cuidado é estarmos 
atentos às diferenças existentes entre a ética essencial ou espontânea e a ética 
moralista, como bem o faz Weill (1993). 
A primeira (ética essencial ou espontânea), aquela que flui naturalmente, está em 
cada um, e independe de normas escritas, exige sabedoria e mais do que o uso da razão 
para nortear nossas ações, uma vez que a razão apenas complementaria as orientações 
do coração. 
A segunda (ética moralista), entendida como necessária a todos, enquanto não 
podemos despertar para a primeira, é um conjunto de normas prontas, padrões de 
comportamento que são impostos através de pressão social e resultantes da cultura 
hegemônica. 
Para Diskin (2000) trata-se de “normas de comportamento que devem ser 
capazes de assegurar a continuidade do controle e do poder e devem convencer os 
 
 
12 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
indivíduos que a obediência a esses códigos é para seu bem, sustentabilidade, felicidade 
e garantia de futuro para si e demais gerações vindouras.” 
A responsabilidade caracteriza um tipo de comportamento do homem, “que flui de 
um sentimento de pertencimento”. Para isso, é essencial que pertencemos a 2 
comunidades: 
a) a humanidade: que deveria motivar comportamentos que refletissem valores 
de respeito aos direitos humanos, justiça e dignidade; 
b) o planeta Terra: como nossa casa motivaria comportamentos semelhantes 
aos demais habitantes dessa morada, “as plantas, animais e 
microorganismos, que formam uma vasta estrutura de relações que 
chamamos rede da vida”, sendo que esta rede, com toda sua diversidade e 
inter-relações, manteve-se em equilíbrio pelos 3 bilhões de anos anteriores. 
O comportar-se responsavelmente, pensando em toda a rede, nos garantiria 
a sustentabilidade em toda a sua abrangência, ou seja, social, ecológicae 
econômica, por tempo indeterminado. 
Encontramos também que a responsabilidade é a “noção humanística ética que 
só tem sentido para o sujeito consciente” (Morin, 1998). 
Pensar no sujeito consciente nos remete a outras definições convergentes ou 
complementares de responsabilidade como “um gesto livre do querer voluntário” 
(Grajew, 2000); ou ainda do que “tem a ver com o querer, com o desejo das pessoas … 
com o dar-se conta de que as consequências de seus atos são desejáveis” (Maturana, 
1999). 
Para Maturana (1999) isso será possível quando nós nos dermos conta do mundo 
em que vivemos, e que este mundo tem a ver com cada um, que não somos 
independentes do meio em que vivemos, tampouco o meio independe de nós. “Os 
indivíduos em suas interações constituem o social e o social é o meio em que esses 
indivíduos se realizam como tal”(op.cit.). 
Mais do que interdependentes trata-se de elementos Inter constituintes. Dessa 
forma, é mais fácil nos compreender enquanto os responsáveis por nossa sociedade e, 
portanto, por nossa cultura, enquanto o conjunto de elementos não materiais que 
caracterizam uma sociedade, valores éticos e estéticos, ideologia, filosofia, religião, 
 
 
13 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
conhecimento teórico. Dado que são elementos dinâmicos, da mesma forma que nós a 
criamos, somente nós seremos os responsáveis pela transformação da cultura que 
caracteriza a civilização atual, mais especificamente a ocidental. 
Da mesma forma, Herrera (1982) acredita que a evolução cultural é possível 
quando entendemos que nada pode ser feito sem nosso apoio passivo ou ativo, que nós 
somos a sociedade, sendo cada um responsável por suas ações, sendo, portanto, 
impossível a violência social sem a nossa colaboração. 
Tanta atenção à necessidade da reflexão e do pensamento crítico, decorre da 
ausência dessas práticas nas decisões cotidianas de cada um de nós. Acomodados, 
necessitamos mudar hábitos, atitudes passivas, padrões de pensamentos e 
comportamentos essencialmente técnicos, racionais. 
A gravidade desse padrão torna-se absolutamente clara com a explicação de 
Diskin (2000) no trecho que segue: 
“… toda escolha carrega uma intenção carregada de valores que na sua 
maioria não são percebidos conscientemente, estão incrustados na 
substância de nossos pensamentos a respeito do mundo e de nós 
mesmos; … constituem a armação de concepções e categorias que não 
são de nossa própria criação, mas que a sociedade nos entregou já pré-
fabricadas e é por onde nosso pensar individual se move, mesmo quando 
ele é original e ousado”. 
Dois dos autores mencionados acreditam que a prática responsável da educação, 
da ciência, ou de qualquer campo de atuação, só é possível pelo amor. Para Maturana 
(1999), por ser a única emoção que torna possível a convivência que considera o outro 
como legítimo outro na convivência. 
E para Herrera (1982), porque será através da detenção da violência, como um 
ato de fé em nós e nos outros, chegaremos à fraternidade de todos os seres humanos 
e, assim, seremos capazes de redescobrir o significado do amor, como a base sobre a 
qual podemos construir uma verdadeira civilização mundial. 
 
 
 
14 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
4. DIFERENCIAÇÃO ENTRE ÉTICA E MORAL 
 
Uma discussão de relevo é sobre a distinção entre ética e moral. 
Instala-se aqui uma verdadeira confusão entre as similitudes e diferenças, a 
começar pelas definições dos dicionários de filosofia. 
Quanto à origem do termo, de acordo com o dicionário de filosofia de J. Ferrater 
Mora, “a moral deriva de ηθοζ ‘costumes’, do mesmo modo que a ‘ética’, de ηθοζ. 
O vocábulo moral é algumas vezes utilizado como sinônimo de ética. Entretanto, 
usa-se a palavra moral mais frequentemente para designar códigos, condutas e 
costumes de indivíduos ou de grupos, como acontece quando se fala da moral de uma 
pessoa ou de um povo. 
 
 
 
A palavra moral, possui diferentes sentidos com referência direta ao 
comportamento humano e à sua classificação como moral ou, ao seu contrário, imoral; 
como parte da filosofia – filosofia moral. 
 
 
15 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Moral, também escrita com maiúscula, quando se ocupa do comportamento 
humano no que se refere a bem ou mal. O termo “moral” é utilizado atualmente de 
maneira distinta. Assim como ocorreu com os significados de ethos, essa multiplicidade 
de usos também deu lugar a alguns mal-entendidos. Algumas vezes o termo moral é 
empregado como substantivo e outras vezes como adjetivo. Como substantivo pode ser 
empregado em quatro situações: 
1. Quando o termo “moral” for grafado com minúscula e estiver precedido do 
artigo definido feminino, “a moral”, refere-se ao conjunto de princípios, 
preceitos, comandos, proibições, normas de conduta, valores e ideais de vida 
boa que, em seu conjunto, é constituído por um grupo humano concreto em 
uma determinada época histórica. Nesta acepção, a moral representa um 
modelo ideal de boa conduta socialmente estabelecida pela sociedade; 
2. Quando a palavra “moral” é usada para fazer referência ao código pessoal de 
alguém. Por exemplo, quando se diz que “fulano possui uma moral muito 
rígida” ou quando se diz “beltrano carece de moral”, estamos falando de um 
código moral que guia os atos de uma pessoa concreta ao longo de sua vida. 
É o conjunto de convicções e pautas de conduta que costuma constituir a base 
para os juízos morais que cada um faz das outras pessoas e de si mesmo; 
3. Usa-se o termo “moral” com maiúscula (Moral) para referir-se a uma “ciência 
que trata do bem em geral, das ações humanas marcadas pela bondade ou 
pela malícia”. A rigor, esta ciência não existe. O que existe é uma variedade 
de doutrinas como, por exemplo, a Moral católica, protestante, islâmica, 
budista, marxista etc. 
4. Quando a palavra moral se refere a expressões que a utilizam no masculino, 
tais como “ter o moral elevado” ou “estar com o moral alto” e outras 
semelhantes, moral torna-se sinônimo de “boa disposição do espírito”, “ter 
força, coragem suficiente para enfrentar – com dignidade – os desafios que a 
vida nos apresenta. Essa acepção tem um profundo significado filosófico, pois 
a moral não é apenas um saber, nem um dever, mas sobretudo uma atitude e 
um caráter”. 
Com referência ao uso da palavra moral como adjetivo, a maioria das expressões 
está relacionada com a Ética. 
 
 
16 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Neste caso há duas situações em que aparece como adjetivo: 
1) Moral como oposto a “imoral” – Termo usado como termo valorativo de 
reprovação. Esse uso pressupõe a existência de algum código moral que 
serve de referência para emitir um juízo moral. Refere-se a uma conduta 
contrária às regras morais vigentes numa dada cultura; 
2) Moral como oposto a “amoral – Termo usado para se referir a uma ação que 
não tem relação com a moralidade. A conduta dos animais, por exemplo, não 
tem nenhuma relação com a moralidade, pois pressupõe que estes não são 
responsáveis por seus atos. Ao passo que os seres humanos atingiram um 
desenvolvimento completo e, na medida em que se tornam senhores de seus 
atos, têm uma conduta moral. 
A moral refere-se quer aos costumes, quer às regras de conduta admitidas numa 
sociedade determinada. Portanto, um fato moral é aceito para um tipo de sociedade de 
acordo com a sua tradição ou realidade cultural. A realidade moral, neste sentido, vai se 
referir ao conjunto desses costumes e dos juízos sobre os costumes que são objeto de 
observação ou de constatação segundo as regras socioculturais. Daí a compreensão de 
que a moral é conteúdo da ética. “Poder-se-ia dizer que a moral é a matéria prima da 
ética”, pois constitui o conjunto de hábitos e prescrições de uma sociedade.17 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
 
 
À guisa de conclusão, deve-se entender por moral um sistema de normas, 
princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações 
mútuas entre os indivíduos ou entre estes com a comunidade de forma não 
coercitiva. De maneira que estas normas são dotadas de um caráter 
histórico e social e são acatadas de forma livre e por convicção de foro 
íntimo. 
 
 
 
 
 
18 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
5. CONCEITO DE CIDADANIA 
 
A palavra cidadão vem do latim civitas. O conceito remonta à Antiguidade e na 
civilização grega o termo adquiriu os significados de liberdade, igualdade e virtudes 
republicanas. 
Os cidadãos, como sujeitos coletivos, pulverizaram-se em suas características 
individuais, evidenciando suas particularidades: mulher, negro, judeu ou homossexual. 
O cidadão exige, assim, direitos e políticas específicas, inscritas nos campos setoriais 
da diversidade existente na sociedade. 
Devido ao pluralismo social, aumenta, na sociedade contemporânea, a demanda 
por novos direitos e reconhecimentos identitários. 
 
 
Em A Política, Aristóteles (1973) define o que é ser cidadão e quem poderia 
usufruir desse status. Ser cidadão, explica, significava ser titular de um poder público e 
participar das decisões coletivas da polis (cidade). Já com relação à igualdade, o status 
de cidadão limitava-se a um pequeno grupo de homens livres, excluindo-se assim as 
mulheres, os escravos e os estrangeiros. 
Apesar de altamente exclusiva, a cidadania clássica, segundo Aristóteles (1973), 
legou-nos uma dimensão política que atravessa todos os aspectos de vida na polis. 
Cidadão “[...] é o homem que partilha os privilégios da cidade”, ou seja, é um indivíduo 
que participa ativamente das decisões e da vida política da polis. 
 
 
19 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
Essa era a concepção de uma cidadania ativa, embora seu exercício estivesse 
vinculado à condição de ser um homem livre. Na passagem da Idade Média para a Era 
Moderna, a ideia de cidadania adquiriu fundamentos filosóficos, especialmente os 
elaborados pela escola teórica conhecida como contratualista. Foi a partir de tais teóricos 
que a ideia de um contrato firmado pelos cidadãos com o Estado e a noção de direitos 
dos homens adquiriram relevância explicativa na formação do Estado-Nação. 
 
A cidadania moderna diz respeito ao direito da fruição do mundo privado, por meio 
da garantia da liberdade individual e da possibilidade de delegar sua participação na 
política a um terceiro, por meio de seu voto no pleito eleitoral. Essa é a diferença que 
Constant (1985) apresenta ao distinguir a liberdade dos antigos em comparação aos 
modernos. Sob essa perspectiva, a primeira tem como paradigma a república e a 
segunda a tradição liberal. 
Em muitos países tem sido uma preocupação dos governos, e tido grande 
destaque em suas agendas, a discussão do que tem sido considerado como uma crise 
da representação democrática, dos valores cívicos e da cidadania, que seria expressa 
através de manifestações como fraca adesão partidária e fraca participação eleitoral. 
Tradicionalmente, a cidadania é entendida como um conjunto de direitos e 
deveres que um sujeito possui para com a sociedade da qual faz parte. Esta cidadania 
está relacionada à ideia de um status, de um posicionamento jurídico-legal perante o 
Estado. De maneira geral, podemos apontar as seguintes características constitutivas da 
cidadania moderna: a universalidade, a territorialização, a individualização (vínculo direto 
entre indivíduo e o Estado) e a índole estatal-nacional. 
 
 
20 Ética e Cidadania 
Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 
 
A cidadania clássica, baseada em direitos e no pertencimento a um Estado-nação, 
tem enfrentado inúmeros questionamentos, e passa por reconfigurações em função de 
mudanças no contemporâneo. 
Apesar de a identidade social política ideal ser constituída por três elementos – 
vínculo de pertencimento, participação política/coletiva e consciência de ser portador de 
direitos e deveres –, essa composição não é rígida. Ela pode ser composta de um, dois 
ou três elementos. O único elemento essencial para sua constituição é o primeiro, o de 
pertencimento a uma comunidade. 
Com exceção do primeiro elemento, os demais são variáveis constitutivas para a 
formação da cidadania plena. O primeiro elemento garante o pertencimento, o segundo 
garante o exercício político da cidadania, e o terceiro garante os direitos e os deveres do 
cidadão, isto é, sua proteção social, civil e política. 
Assim, as duas últimas constituem as dimensões essenciais para possibilitar o 
exercício da cidadania. Em outras palavras, os três elementos seriam partes constituintes 
de um tipo ideal de cidadania, mas não do conceito definidor de cidadania. 
Dessa forma, partiremos do pressuposto de que a combinação desses elementos 
conforma três grupos de cidadãos: cidadão pleno, cidadão politicamente passivo e 
cidadão tutelado. 
Essa formulação diferencia-se de outras, pois tem por substrato não apenas a 
discussão teórica sobre cidadania, mas, sobretudo, busca incorporar a dimensão do seu 
exercício, de fato, pelos diferentes cidadãos 
 
 
21 Ética e Cidadania 
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A discussão sobre o conceito de cidadania apresentado por Marshall foi abordada, 
uma vez que esta conceituação – baseada no modelo histórico inglês e definido a partir 
de três direitos: direito civil, direito político e direito social – assumiu a maneira 
privilegiada de se definir cidadania. 
Nessa análise, observou-se como crianças e jovens acabaram excluídos do 
acesso a esses direitos, sendo permitido a eles somente o acesso ao direito social, 
principalmente à educação. 
Na verdade, mais do que um direito, a educação é considerada como um dever, 
uma vez que se espera que o indivíduo prepare sua entrada em cena como cidadão. 
Este pensamento apoia-se em uma estratégia desenvolvimentista que considera 
crianças e jovens como sujeitos em preparação, sujeitos "vir-a-ser". 
Constatou-se como este tipo de relação reforça uma tutela, pois muitas vezes para 
dispor do direito social deve-se abrir mão dos demais direitos. 
Inserida no paradigma liberal, Benevides (1994, p. 94) afirma que a “[...] cidadania 
corresponde ao conjunto de liberdades individuais – os chamados direitos civis de 
locomoção, pensamento, expressão, integridade física, associação etc.”. 
Em contrapartida, Chauí (1984) define cidadania pelos princípios da democracia, 
significando conquista e consolidação social e política. Isso quer dizer que a cidadania 
tem sido um conceito que reivindica a democracia e está associado ao reconhecimento 
do outro (ou a sua exclusão e o seu não reconhecimento), bem como conceito atrelado 
ao discurso dos direitos civis e políticos. 
A cidadania, nesse contexto, está associada à atuação civil e política no seio de 
uma sociedade democrática. Dessa forma, a cidadania exige constituições de espaços 
sociais de lutas (movimentos sociais, sindicatos etc.). 
Por sua vez, Arendt (1989; 2011) afirma que ser cidadão implica ser membro de 
uma comunidade e possuir o direito de ter direitos, sendo o primeiro direito o 
pertencimento a uma comunidade política; já o segundo condiz ao conceito jurídico-legal 
e traz a noção de ação do indivíduo segundo as leis. Ser membro da comunidade 
significa poder ter uma participação ativa nos espaços públicos. 
 
 
22 Ética e Cidadania 
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A compreensão da autora está estritamente vinculada à ideia de pertencimento a 
um Estado-Nação, noção que será aprofundada mais adiante. 
 
A concepção de cidadania como identidade social e política é constituída por 
alguns elementos:a) pelos vínculos de pertencimentos: É o conceito de Estado-Nação que se 
configura como central na definição de uma identidade nacional, de 
pertencimento coletivo e de inclusão em determinada comunidade política. 
Por sua vez, o que faz o liame para articular esse espaço de Estado-Nação é 
a consolidação de uma cultura nacional homogênea que congrega e solidifica 
o sentimento de pertença. A consolidação dessa cultura nacional depende da 
idealização e do reconhecimento de fatos, lendas, tradições, costumes e 
mitologias diversas a respeito do passado, ocorridos ou concebidos no 
território delimitado e ocupado por essa sociedade. Em síntese, a identidade 
nacional é uma criação coletiva que dá sustentabilidade, organicidade e 
durabilidade à ideia do Estado-Nação; 
b) pela participação política/coletiva: Tendo Habermas (1994) como referência, 
entende-se que a cidadania nunca esteve conceitualmente ligada apenas à 
ideia de identidade nacional, mas que ela também está vinculada à práxis com 
que os cidadãos exercem seus direitos civis e políticos. Cidadania não é 
apenas um critério passivo de pertença a uma comunidade nacional de 
 
 
23 Ética e Cidadania 
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direitos e deveres conferidos pelo Estado. É também uma prática social que 
os indivíduos assumem para além do Estado, por meio de instituições da 
sociedade civil e de ações civis, tal como expresso por Chauí (1984). Ao 
adicionar o elemento participação política/coletiva, o conceito de cidadania 
torna-se mais complexo e pode ser utilizado não apenas para referir o estatuto 
legal do indivíduo e a sua forma de pertencimento a uma comunidade 
nacional, mas também para definir sua participação ativa na esfera pública. 
Desse modo, acrescida da dimensão da participação política coletiva, parte-
se do pressuposto de que o vínculo com o Estado-Nação é apenas um dos 
itens/componentes que compõe o conceito de cidadania, e não o seu único 
elemento definidor. 
c) pela consciência de ser portador de direitos e deveres: Bobbio (2004), afirma 
que a ideia dos direitos dos homens deriva da inversão de perspectiva na 
representação da relação política, isto é, na consolidação da relação 
estado/cidadão em vez do soberano/súdito: 
[...] relação que é encarada, cada vez mais, do ponto de vista dos direitos 
dos cidadãos não mais dos súditos, e não do ponto de vista dos direitos 
do soberano, em correspondência com a visão individualista da 
sociedade, segundo a qual, para compreender a sociedade, é preciso 
partir de baixo, ou seja, dos indivíduos que a compõem, em oposição à 
concepção orgânica tradicional, segundo a qual a sociedade como um 
todo vem antes do indivíduo. (BOBBIO, 2004, p. 4). 
A ideia moderna de direito, portanto, é inerente ao conceito de indivíduo, um ente 
que tem valor em si mesmo, dotado de direitos naturais. A matriz individualista tem como 
base o fundamento de que o indivíduo antecede o Estado e a sociedade e, dessa forma, 
contrapõe-se à concepção orgânica, segundo a qual a sociedade é um todo. 
A máxima dessa concepção pode ser identificada na frase: todos nascem livres e 
iguais. Isso quer dizer que o indivíduo é concebido como um ser de direitos e que esses 
direitos antecedem a organização social e política, bem como têm prevalência sobre os 
deveres. No prenúncio da modernidade, como pode ser percebido, houve uma mudança 
qualitativa nos termos que se referem à concepção de homem, sociedade e Estado. 
 
 
 
24 Ética e Cidadania 
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Como pode ser percebido, não é fácil definir o conceito de cidadania. São 
múltiplas suas variáveis constitutivas e as possíveis interpretações segundo 
seu contexto social e político. Dessa forma, apresentaremos, a seguir, a 
nossa proposta de definição do conceito de cidadania. 
 
 
 
 
 
 
25 Ética e Cidadania 
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6. CIDADANIA, DIREITOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA 
 
Ao se falar em cidadania pode-se adotar diferentes definições para ela. A 
cidadania pode ser entendida como conjunto de direitos, conjunto de deveres, como 
identidade ou como participação. O sentido da participação é o de se sentir envolvido e 
disposto a contribuir na vida da comunidade. No caso de crianças e jovens, é entendendo 
cidadania como participação que se torna possível o exercício dessa por parte desses 
sujeitos, considerando-os meaning-givers na sociedade, acabando assim por intervir 
nessa. 
O direito político diz respeito ao direito de participar no exercício do poder político, 
como eleito ou eleitor. 
 
 
Não podemos passar à abordagem do processo histórico brasileiro sem antes 
apresentar, ainda que de modo relativamente sumário, o nosso conceito de cidadania 
política. 
Nossa perspectiva, no estabelecimento de uma definição operacional, é a da 
revisão crítica do conceito liberal contemporâneo - vale dizer, marshalliano - de cidadania 
política. 
 
 
26 Ética e Cidadania 
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Para Marshall, a cidadania política na sociedade industrial moderna ou 
contemporânea (nós diríamos, sociedade burguesa ou capitalista) designa a participação 
do Povo - isto é, dos indivíduos que o compõem - no exercício do poder político. 
Tal participação concretiza-se, segundo Marshall, como exercício efetivo, por 
parte do Povo, do direito de escolher os seus governantes. E o exercício efetivo desse 
direito implica, de um lado, a existência de um processo eleitoral autêntico, 
supervisionado por instituições judiciárias independentes, que garantam a 
correspondência entre os resultados das eleições e a vontade eleitoral da maioria social; 
de outro lado, a existência de governantes que de fato governem, o que supõe a 
presença de um Parlamento forte, efetivamente participante na tomada das grandes 
decisões nacionais. 
O Parlamento e os Conselhos de Governo local seriam suas principais 
instituições. Segundo Marshall, o século XIX foi o período formativo dos direitos políticos. 
Esses só puderam surgir uma vez que os direitos civis ligados ao status de liberdade já 
haviam conquistado um status geral de cidadania e "(...) consistiu não na criação de 
novos direitos para enriquecer o status já gozado por todos, mas na doação de velhos 
direitos a novos setores da população". 
No século XVIII, os direitos políticos encontravam-se ainda deficientes em sua 
distribuição para os padrões da cidadania democrática. O direito de voto era ainda 
restrito a determinados grupos. Embora no século XIX os direitos políticos não 
estivessem incluídos nos direitos da cidadania, essa não estava vazia de significado 
político. 
Não conferia um direito, mas reconhecia uma capacidade. Nenhum cidadão são 
e respeitador da lei era impedido, devido ao status pessoal, de votar. Era livre para 
receber remuneração, adquirir propriedade de alugar uma casa e para gozar quaisquer 
direitos políticos que estivessem associados a esses feitos econômicos (Marshall, 
2002:16) 
 
 
 
 
 
27 Ética e Cidadania 
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Enquanto a sociedade capitalista do século XIX tratava os direitos políticos como 
um produto secundário dos direitos civis, no século XX, abandona-se essa posição e se 
associa direito político à cidadania como tal, não sendo o último apenas complemento 
do primeiro. Um exemplo disso é a instituição do sufrágio universal, quando o que se é 
levado em conta para votar é o status pessoal de cidadão e não a condição econômica. 
O surgimento dos direitos sociais se dá por último, no século XX. Até então, 
direitos sociais e direitos políticos encontravam-se entrelaçados. A participação nas 
comunidades locais e associações funcionais constituiu a fonte original dos direitos 
sociais. 
O direito social seria "tudo o que vai desde o direito a um mínimode bem-estar 
econômico e segurança, ao direito de participar, por completo, da herança social" 
(Marshall, 2002:7). Os direitos sociais seriam direitos "positivos", pretensões a 
determinados bens – educação, segurança, saúde – em oposição aos direitos civis e 
políticos tradicionais, chamados de "negativos", pois são considerados geralmente como 
uma tolerância negativa por parte dos outros, e não uma ação positiva (Espada, 1999). 
São chamados também de direitos sociais de cidadania ou direitos de segunda geração. 
Inicialmente estaria ligado ao sistema educacional e serviços sociais. 
No que diz respeito à possibilidade de participação política e à cidadania plena, 
criou-se uma expectativa histórica de que exista um patamar a ser alcançado para se ter 
acesso a essa condição. 
 
 
28 Ética e Cidadania 
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Sociedade civil e cidadania remetem, de algum modo, uma para a outra, sendo 
difícil dizer qual precede ou qual pressupõe a outra. 
Em todo caso, pode dizer-se que a sociedade civil – isto é, a organização de redes 
e grupos autônomos de defesa de valores e interesses distintos ou concorrentes entre 
si, e sobretudo distintos das esferas de interesse do Estado e das igrejas – constitui a 
materialização efetiva do exercício da cidadania. 
Contudo, se a noção de sociedade civil só faz sentido com a formação do Estado 
moderno no século XVII, ela pode emergir antes mesmo do reconhecimento dos direitos 
políticos e da sua institucionalização sob os regimes liberais, ao longo de um processo 
lento e tudo menos linear, cheio de avanços e recuos da franquia eleitoral individual, 
percurso este que, em Portugal, apenas se universalizou de forma genuína com o 25 de 
abril de 1974, fazendo então coincidir cidadania e sociedade civil num mesmo espaço 
estadual nacional. 
Passemos agora à análise da cidadania propriamente política. 
Ela se configura como um desdobramento secundário e contingente da forma-
sujeito de direito na sociedade capitalista. 
Esta pode se reproduzir, em sua estrutura econômica, sem que se concedam 
quaisquer direitos políticos às classes trabalhadoras. 
Para que essa reprodução ocorra, são necessários: no plano econômico, a 
vigência de liberdades civis que permitam a celebração de contratos de trabalho e a 
consequente emergência de um mercado de trabalho; no plano político, a vigência de 
qualquer mecanismo de legitimação do Estado capitalista, podendo tal mecanismo ter 
inclusive um caráter pré-democrático (como a legitimação fundada na competência de 
uma burocracia oficialmente recrutada segundo princípios universalistas e 
meritocráticos). 
Porém, ainda que não corresponda a uma necessidade estrutural do capitalismo, 
a concessão de direitos políticos às classes trabalhadoras pode ocorrer - conforme o 
esquema teórico proposto por Göran Therborn -, caso se combinem a pressão das 
classes trabalhadoras sobre o Estado capitalista e a emergência de conflitos políticos no 
seio do bloco das classes dominantes. 
 
 
29 Ética e Cidadania 
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Como as liberdades civis, as liberdades políticas apresentam um aspecto real: 
elas tornam possível às classes trabalhadoras exercerem influência periférica e marginal 
sobre os processos de tomada das macro decisões, por participação independente na 
escolha dos governantes. 
E também produzem, como as liberdades civis, um efeito ideológico: o sentimento 
generalizado de igualdade política entre todos os membros da nação. Do ponto de vista 
institucional, é frequente que a diferença entre o caráter real das prerrogativas 
reconhecidas pelo Estado capitalista e o seu efeito ideológico sobre o conjunto da 
sociedade se manifeste como diferença entre dispositivos da legislação constitucional 
(tendentes a encarnar princípios universalistas e igualitários) e dispositivos da legislação 
ordinária (tendentes a outorgar prerrogativas diferenciadas a grupos socioeconômicos 
diversos: não apenas às classes sociais antagônicas, mas também a camadas de uma 
mesma classe, a grupos ocupacionais etc.). 
Foi Hobsbawm quem caracterizou de modo lapidar a tendência à defasagem entre 
os princípios constitucionais e o âmbito real da legislação ordinária na sociedade 
capitalista: "Por isso, as Declarações de Direitos foram, na teoria, universalmente 
aplicáveis. 
 
 
 
 
 
30 Ética e Cidadania 
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A cidadania de crianças e jovens, por exemplo, foi incorporada muito 
recentemente às prioridades da agenda de políticas públicas. O Estatuto da Criança e 
do Adolescente (ECA) é uma consequência de mudanças no que diz respeito à 
representação social de criança e adolescente, colocando o Brasil na vanguarda no que 
se refere à legislação sobre a infância e juventude. 
 
 
Temos aqui, em destaque, a educação como direito social do futuro cidadão, a 
qual apoiou-se sobre a perspectiva desenvolvimentista e adultocêntrica da cidadania 
moderna, pois seu objetivo esteve em "durante a infância moldar o adulto em 
perspectiva". 
No que diz respeito ao exercício da cidadania, criou-se uma expectativa de que 
existiria um patamar a ser alcançado para se ter acesso aos direitos civis e políticos, 
patamar este que se encontra marcado por delimitações etárias. 
Dessa forma, infância e juventude são consideradas enquanto etapas de 
preparação e maturação do sujeito, sendo, portanto, restrita sua participação na 
sociedade. 
O que se pretendeu apontar aqui foi que a existência de diferenças entre crianças 
e jovens, e adultos, não legitima sua exclusão de formas de participação mais ampla. 
 
 
 
31 Ética e Cidadania 
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Acreditamos que a cidadania definida a partir da ideia de direitos padece de suas 
injunções históricas, pois acaba por determinar um patamar (condição ou estatuto) ideal 
para se ser reconhecido como cidadão, despotencializando, portanto, a ideia de 
cidadania como participação. 
De acordo com Jans (2004), a ideia de direitos, tout court, entra em conflito com 
o discurso de proteção e tutela, já que encoraja que crianças e jovens sejam autores de 
suas vidas, e que participem mais ativamente. É importante frisar que a proteção de 
crianças e jovens pode articular uma tensão positiva com sua maior participação na 
sociedade, pois crianças e jovens precisam de proteção para que sejam atores e 
respondam à convocação de agir. O desafio está em encontrar a medida certa nessa 
tensão. 
 
 
32 Ética e Cidadania 
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Segundo Bobbio (2004), cada geração de direito expressa por Marshall (1967) 
corresponde a uma concepção de liberdade: “[...] os direitos civis reservam ao indivíduo 
uma esfera de liberdade em relação ao estado; os direitos políticos lhe garantem a 
liberdade no Estado; e os direitos sociais significam liberdade através ou por meio do 
Estado” (BOBBIO, 2004, p. 61). Tal concepção aproxima-se dos princípios liberais de 
cidadania, que buscam preservar as liberdades individuais do cidadão. Essa visão ainda 
permanece viva para muitos teóricos contemporâneos. 
 
 
 
A cidadania por ser uma noção construída socialmente, ganha sentido nas 
experiências sociais e individuais. Por isso, será aqui compreendida com 
uma identidade social política. Ora, se identidade pessoal/individual é o 
conjunto das características e dos traços próprios de um indivíduo, a 
identidade social são as características que o identificam perante as demais 
comunidades. 
 
 
E, em certa medida, a consciência de pertencer a algo maior, a um coletivo, a uma 
sociedade. Os traços de uma identidade social e política caracterizam uma dada 
coletividade perante as demais. 
É o conjunto dessas características sociais que orienta a interação dos membros 
dessa sociedade com relação às demaissociedades, bem como a diferencia das outras: 
são as características culturais, linguísticas, religiosas, musicais, culinárias, dentre 
outras, que representam os hábitos de uma comunidade. 
 
 
 
33 Ética e Cidadania 
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A identidade social é política porque está vinculada ao pertencimento a uma 
comunidade política, formada/ expressa por um Estado-Nação, com bases legais 
próprias que regulam a interação do cidadão perante seu Estado e com os demais 
membros da comunidade. É daí que vem a ideia de direitos e deveres do cidadão. Dessa 
forma, a cidadania, nesta pesquisa, é compreendida como identidade social e política 
também por partir do princípio de que o conjunto de práticas políticas, econômicas, 
jurídicas e culturais definem o indivíduo como membro de uma comunidade. 
 
 
 
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	OBJETIVOS
	EMENTA
	PLANO DETALHADO DE ENSINO
	1. INTRODUÇÃO GERAL A ÉTICA
	2. ASPECTOS DOUTRINÁRIOS E FUNDAMENTAIS DA ÉTICA
	3. ÉTICA E RESPONSABILIDADES
	4. DIFERENCIAÇÃO ENTRE ÉTICA E MORAL
	5. CONCEITO DE CIDADANIA
	6. CIDADANIA, DIREITOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

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