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ÉTICA E CIDADANIA Me. Fabiola Adami GUIA DA DISCIPLINA 1 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância OBJETIVOS Propiciar o entendimento dos conceitos fundamentais da ética e da cidadania. Exceder à compreensão clássica da ética a fim de compreendê-la sob o complexo ponto de vista que envolve os diversos espaços em que se coloca a questão ética. Reconhecer a importância da proteção humana à luz da ética e dos direitos e os princípios para o resgate ou exercício da plena cidadania. Contribuir para a discussão sobre a natureza da indagação ética nos dilemas da sociedade contemporânea. EMENTA Introdução geral a Ética. Aspectos doutrinários e fundamentais da ética. Ética e responsabilidades. Diferenciação entre ética e moral. Conceito de Cidadania. Cidadania, direitos sociais e participação política. Articulação entre ciência e ética. Direitos emancipatórios para os cidadãos: reconhecimento ético-moral. Ética, cidadania e políticas públicas voltadas à superação da desigualdade social. PLANO DETALHADO DE ENSINO 1. Introdução geral a Ética. 2. Aspectos doutrinários e fundamentais da ética. 3. Ética e responsabilidades. 4. Diferenciação entre ética e moral. 5. Conceito de Cidadania. 6. Cidadania, direitos sociais e participação política. 7. Articulação entre ciência e ética. 8. Direitos emancipatórios para os cidadãos: reconhecimento ético-moral. 9. Ética, cidadania e políticas públicas voltadas à superação da desigualdade social. 2 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. INTRODUÇÃO GERAL A ÉTICA "A pergunta “o que é ética?” toca-nos constantemente, pois não raro vemos em noticiários e na mídia geral as pessoas falando sobre ética, como quando algum político faltou com a ética ao se envolver em um esquema de corrupção ou um empresário faltou com a ética ao cometer fraudes contra o sistema de arrecadação fiscal. Mas, afinal, o que é ética?" Toda discussão sobre “ética” sempre se inicia pela revisão de suas origens etimológicas e pela sua distinção ou sinonímia com o termo “moral”. Justifica-se a necessidade de explicitar a origem do termo ethos, uma vez que é de sua raiz primitiva que iremos encontrar as respostas para as ambiguidades terminológicas e imprecisões conceituais. "Podemos adiantar que a ética está ligada à ação das pessoas e é aquilo que define quais ações podem ser consideradas corretas ou incorretas, definindo o que é o certo e o errado. A Filosofia preocupou-se com os estudos de ética desde a Antiguidade, e a Sociologia pode utilizar-se dos conceitos filosóficos que envolvem a ética para entender melhor as relações sociais entre as pessoas." A palavra ethos expressa a existência do mundo grego que permanece presente na nossa cultura. Esse vocábulo deriva do grego ethos. Nessa língua, possui duas grafias: ηθοζ (êthos) e εθοζ (éthos). Essa dupla grafia não é gratuita, pois reúne uma 3 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância diversidade de significados que, ao longo do tempo, distanciaram-se do seu sentido original. Considerando que, normalmente, os autores não costumam apresentar os significados desses termos em suas origens, antes de adentrarmos nos conceitos de “ética” e “moral”, passaremos uma breve vista em suas origens, uma vez que as controvérsias sobre o que se entende por “ética” devem-se, em grande parte, aos diversos significados da palavra primitiva ethos e à sua tradução para o latim mos. Esses dois termos podem ser entendidos em três sentidos: “morada” ou “abrigo”, “caráter ou índole” e “hábitos” ou “costumes”. a. O termo grego ηθοζ (êthos), quando escrito com “eta” (η) inicial, possui dois sentidos: morada, caráter ou índole. O primeiro sentido é de proteção. É o sentido mais antigo da palavra. Significa “morada”, “abrigo” e “lugar onde se habita”. Usava-se, primeiramente, na poesia grega com referência aos pastos e abrigos onde os animais habitavam e se criavam. Mais tarde, aplicou-se aos povos e aos homens no sentido de seu país. Depois, por extensão, à morada do próprio homem, isto é, refere-se a uma habitação que é íntima e familiar, é o “lar”, um lugar onde o homem vive. É o lugar onde é mais provável de se encontrar o eu real. Ele representa aquilo que faz uma pessoa, um indivíduo: sua disposição, seus hábitos, seu comportamento e suas características. Nesse sentido, cada um tem sua própria ética. É isso, mais que os acidentes e incidentes da vida, que o diferencia de todos os demais. O segundo significado da palavra êthos assume uma concepção histórica a partir de Aristóteles. Representa o sentido mais comum na tradição filosófica do Ocidente. Este sentido interessa à ética, em particular, por estar mais próximo do que se pode começar a entender por ética. Êthos significa “modo de ser” ou “caráter”. Mas esse vocábulo apresenta um sentido bem mais amplo em relação ao que damos à palavra “ética”. 4 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O ético compreende, antes de tudo, as disposições do homem na vida, seu caráter, seus costumes e, naturalmente, também a sua moral. Na realidade, poderia se traduzir como uma forma de vida no sentido preciso da palavra, isto é, diferenciando-se da simples maneira de ser. b. O segundo termo grego εθοζ (éthos), quando escrito com épsilon (ε) inicial, é traduzido por “hábitos” ou “costumes”. Este é o éthos social. Significa hábitos, costumes, tradições. Refere-se aos atos concretos e particulares, por meio dos quais as pessoas realizam seu projeto de vida. Este sentido também interessa à ética, uma vez que o caráter moral vai se formando, precisamente, mediante as opções particulares que fazemos em nossa vida cotidiana. De maneira que é a força das tradições quem forma a identidade de uma sociedade. Reciprocamente, os hábitos constituem o princípio intrínseco dos atos. Conforme diz Aranguren, “parece haver um círculo êthos-hábitos-atos. Assim se compreende como é preciso resumir as duas variantes da acepção usual de êthos, estas sendo os princípios dos atos e aquele o seu resultado. Ethos é o caráter (χαραҳτρη) cunhado, impresso na alma por hábitos”. Algumas situações cotidianas e corriqueiras podem ilustrar o que é agir de maneira ética, sendo elas mais simples ou mais complexas. Veja alguns exemplos: 5 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Não obter benefício próprio por meio de ações incorretas, como furar uma fila no banco para ganhar mais tempo; Não se apropriar da propriedade alheia, independentemente do valor em questão; Não se utilizar de cargos públicos, políticos ou não, ou de cargos em empresas privadas para obter vantagem pessoal ilícita; Respeitar a vida e a individualidade das pessoas. Muitas vezes, a ética é confundida com moral e até mesmo empregada no cotidiano, no sentido de senso comum. Reserva-se à ética o “estudo da moralidade do agir humano (bondade ou maldade dos atos humanos): sua retidão frente à ordem moral”. A ética é a disciplina filosófica que investiga os diversos sistemas de morais elaborados pelos homens, buscando compreender a fundamentação das normas e proibições próprias a cada uma e explicar seus pressupostos, ou seja, as concepções sobre o ser humano e a existência que os sustenta. 6 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância É considerada uma ciência porque, além de se ocupar da reconstrução intelectual organizada pela mente humana acerca da moral, tem objeto próprio, leis próprias e método próprio. Seu objeto é a moral; e a reflexão teórico-filosófica, o condicionante metódico enquanto disciplina teórica. 7 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educaçãoa Distância 2. ASPECTOS DOUTRINÁRIOS E FUNDAMENTAIS DA ÉTICA Observa-se que a palavra ética passou a fazer parte do vocabulário do homem comum e está sempre na mídia, demonstrando a vigência de uma preocupação urgente e universal. Sobre os aspectos gerais da ética tem-se que muitos eticistas costumam dividir a ética em três dimensões principais, sendo elas: a empírica, a normativa e analítica. Por outro lado, há aqueles que consideram que, “pelo menos quatro diferentes áreas de estudo se concentram na moralidade.” Sendo duas não-normativas (a descritiva/empírica e analítica/metaética) e duas normativas (a normativa, propriamente dita, e ética aplicada “que concentram sua investigação em questões específicas como aborto, eutanásia, pena de morte, e busca fazer com que a ética normativa se relaciona com elas.”). A ética empírica é “aquela que pretende derivar seus princípios da mera observação dos fatos”. O aspecto empírico (moral descritiva) trata-se da descrição e explicação dos fenômenos observados que envolvem o processo moral das decisões tomadas. Ex: ética utilitarista. 8 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A ética normativa refere-se à formulação de padrões ou princípios de vida. Suas teorias “buscam fornecem um relato sobre quais ações são certas, quais são erradas e por quê.” É responsabilidade do aspecto normativo da ética as “asserções acerca do que vale ou não a pena perseguir e do que se deve ou não fazer.” Essas afirmações conduzem-nos às teorias de obrigação e às teorias de valor. A ética analítica é denominada como metaética, e definida como sendo “o ramo da filosofia [moral] que analisa o significado de certos termos morais (certo, errado, bom, mau, dever, valor etc.). Dentre as várias opções formuladas por especialistas em ética analítica/metaética, temos as teorias não-cognitivistas (emotivismo, imperatismo/prescritivismo) e as teorias cognitivistas, sendo que, estas podem ser subjetivistas (subjetivismo particular ou relativismo cultural) ou objetivistas (naturalismo ético, moralismo metafísico e não-naturalismo ético). As primeiras [não-cognitivistas] negam que enunciados morais são tanto verdadeiros quanto falsos. […] As teorias cognitivistas retratam os enunciados morais como indicativos. As teorias cognitivistas subjetivistas (subjetivismo particular e relativismo cultural) deduzem que os enunciados morais trazem em si informações sobre quem pronúncia um enunciado moral. As teorias objetivistas deduzem que os enunciados morais trazem em si informações sobre os próprios atos morais ou sobre objetos (eg, pessoas humanas), em relação às quais atribui valor. Os naturalistas éticos afirmam que as propriedades morais podem ser reduzidas a propriedades não-morais; os não-naturalistas éticos discordam dessa afirmação. 9 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Com o fato de, “deixar-nos no âmbito da esfera humana, com seu apelo à sociedade ou ao indivíduo – e, portanto, à razão –, a ética geral direciona- nos para além de si mesma e do que é meramente humano.” Deste modo, a proposta de um fundamento teológico ou religioso para a busca moral humana é algo relevante para essa inquietação do ser humano. 10 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. ÉTICA E RESPONSABILIDADES Serão a ética e a responsabilidade elementos de um novo paradigma, que vem substituir um outro superado, cujas leis já não satisfazem, não são suficientes para explicar a realidade de fatos observados pelos cientistas? Não se trata disso, apesar de não se poder negar que é crescente a atenção e o espaço em artigos, livros, seminários, conferências em todo o mundo, dedicados ao aprofundamento sobre os temas em questão. Por outro lado, podemos afirmar que já ocorrem transformações de uma parte ainda pequena da sociedade, em diversas partes do mundo, e quase todas as áreas de atuação, que adotam um novo padrão de comportamento, pautado por ações impregnadas pelo zelo, respeito e comprometimento com o desenvolvimento humano e com o bem-estar. Tais movimentos decorrem certamente do inquestionável desgaste e atual fragilidade do nosso modelo de civilização, dominado pela “globalização perversa” (Santos, 2000), que dá sinais claros de insustentabilidade não apenas ecológica ou social, como há anos demonstram inúmeros relatórios, que divulgam índices de degradação que hoje podem ser considerados tradicionais. Paradoxalmente, há novos indicadores de insustentabilidade que dizem respeito ao próprio modelo econômico. Um dos principais aspectos da fragilidade do sistema econômico associa-se ao crescente volume de operações financeiras efetivadas eletronicamente, que impõe riscos ao capitalismo “moderno”, não somente por sua volatilidade, mas também porque a lógica que determina seus movimentos já não é a antiga e única lógica da economia, o mercado. Temos, portanto sintomas cada vez mais abrangentes e generalizados que evidenciam a gravidade da situação do nosso modelo civilizacional que, desde a Revolução Industrial, insistem em apresentar como aquele que trará progresso e bem- estar a todos. Ao mesmo tempo, são essas mesmas condições de miséria social, riscos à capacidade de suporte do planeta e fragilidade do modelo econômico, que despertam a 11 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância consciência de um número cada vez maior de pessoas. Estas se indignam e têm a certeza de que é preciso reverter esse quadro, e que esse processo somente será possível através da adoção de diferentes valores e crenças, que por sua vez motivarão transformações na conduta da sociedade. Entre outros valores, a responsabilidade é fundamental para que as transformações desejadas possam ser generalizadas. E pensar na responsabilidade é pensar na ética, como aquele conjunto maior de valores que a compreende. Para pensar sobre ética o primeiro cuidado é estarmos atentos às diferenças existentes entre a ética essencial ou espontânea e a ética moralista, como bem o faz Weill (1993). A primeira (ética essencial ou espontânea), aquela que flui naturalmente, está em cada um, e independe de normas escritas, exige sabedoria e mais do que o uso da razão para nortear nossas ações, uma vez que a razão apenas complementaria as orientações do coração. A segunda (ética moralista), entendida como necessária a todos, enquanto não podemos despertar para a primeira, é um conjunto de normas prontas, padrões de comportamento que são impostos através de pressão social e resultantes da cultura hegemônica. Para Diskin (2000) trata-se de “normas de comportamento que devem ser capazes de assegurar a continuidade do controle e do poder e devem convencer os 12 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância indivíduos que a obediência a esses códigos é para seu bem, sustentabilidade, felicidade e garantia de futuro para si e demais gerações vindouras.” A responsabilidade caracteriza um tipo de comportamento do homem, “que flui de um sentimento de pertencimento”. Para isso, é essencial que pertencemos a 2 comunidades: a) a humanidade: que deveria motivar comportamentos que refletissem valores de respeito aos direitos humanos, justiça e dignidade; b) o planeta Terra: como nossa casa motivaria comportamentos semelhantes aos demais habitantes dessa morada, “as plantas, animais e microorganismos, que formam uma vasta estrutura de relações que chamamos rede da vida”, sendo que esta rede, com toda sua diversidade e inter-relações, manteve-se em equilíbrio pelos 3 bilhões de anos anteriores. O comportar-se responsavelmente, pensando em toda a rede, nos garantiria a sustentabilidade em toda a sua abrangência, ou seja, social, ecológicae econômica, por tempo indeterminado. Encontramos também que a responsabilidade é a “noção humanística ética que só tem sentido para o sujeito consciente” (Morin, 1998). Pensar no sujeito consciente nos remete a outras definições convergentes ou complementares de responsabilidade como “um gesto livre do querer voluntário” (Grajew, 2000); ou ainda do que “tem a ver com o querer, com o desejo das pessoas … com o dar-se conta de que as consequências de seus atos são desejáveis” (Maturana, 1999). Para Maturana (1999) isso será possível quando nós nos dermos conta do mundo em que vivemos, e que este mundo tem a ver com cada um, que não somos independentes do meio em que vivemos, tampouco o meio independe de nós. “Os indivíduos em suas interações constituem o social e o social é o meio em que esses indivíduos se realizam como tal”(op.cit.). Mais do que interdependentes trata-se de elementos Inter constituintes. Dessa forma, é mais fácil nos compreender enquanto os responsáveis por nossa sociedade e, portanto, por nossa cultura, enquanto o conjunto de elementos não materiais que caracterizam uma sociedade, valores éticos e estéticos, ideologia, filosofia, religião, 13 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância conhecimento teórico. Dado que são elementos dinâmicos, da mesma forma que nós a criamos, somente nós seremos os responsáveis pela transformação da cultura que caracteriza a civilização atual, mais especificamente a ocidental. Da mesma forma, Herrera (1982) acredita que a evolução cultural é possível quando entendemos que nada pode ser feito sem nosso apoio passivo ou ativo, que nós somos a sociedade, sendo cada um responsável por suas ações, sendo, portanto, impossível a violência social sem a nossa colaboração. Tanta atenção à necessidade da reflexão e do pensamento crítico, decorre da ausência dessas práticas nas decisões cotidianas de cada um de nós. Acomodados, necessitamos mudar hábitos, atitudes passivas, padrões de pensamentos e comportamentos essencialmente técnicos, racionais. A gravidade desse padrão torna-se absolutamente clara com a explicação de Diskin (2000) no trecho que segue: “… toda escolha carrega uma intenção carregada de valores que na sua maioria não são percebidos conscientemente, estão incrustados na substância de nossos pensamentos a respeito do mundo e de nós mesmos; … constituem a armação de concepções e categorias que não são de nossa própria criação, mas que a sociedade nos entregou já pré- fabricadas e é por onde nosso pensar individual se move, mesmo quando ele é original e ousado”. Dois dos autores mencionados acreditam que a prática responsável da educação, da ciência, ou de qualquer campo de atuação, só é possível pelo amor. Para Maturana (1999), por ser a única emoção que torna possível a convivência que considera o outro como legítimo outro na convivência. E para Herrera (1982), porque será através da detenção da violência, como um ato de fé em nós e nos outros, chegaremos à fraternidade de todos os seres humanos e, assim, seremos capazes de redescobrir o significado do amor, como a base sobre a qual podemos construir uma verdadeira civilização mundial. 14 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4. DIFERENCIAÇÃO ENTRE ÉTICA E MORAL Uma discussão de relevo é sobre a distinção entre ética e moral. Instala-se aqui uma verdadeira confusão entre as similitudes e diferenças, a começar pelas definições dos dicionários de filosofia. Quanto à origem do termo, de acordo com o dicionário de filosofia de J. Ferrater Mora, “a moral deriva de ηθοζ ‘costumes’, do mesmo modo que a ‘ética’, de ηθοζ. O vocábulo moral é algumas vezes utilizado como sinônimo de ética. Entretanto, usa-se a palavra moral mais frequentemente para designar códigos, condutas e costumes de indivíduos ou de grupos, como acontece quando se fala da moral de uma pessoa ou de um povo. A palavra moral, possui diferentes sentidos com referência direta ao comportamento humano e à sua classificação como moral ou, ao seu contrário, imoral; como parte da filosofia – filosofia moral. 15 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Moral, também escrita com maiúscula, quando se ocupa do comportamento humano no que se refere a bem ou mal. O termo “moral” é utilizado atualmente de maneira distinta. Assim como ocorreu com os significados de ethos, essa multiplicidade de usos também deu lugar a alguns mal-entendidos. Algumas vezes o termo moral é empregado como substantivo e outras vezes como adjetivo. Como substantivo pode ser empregado em quatro situações: 1. Quando o termo “moral” for grafado com minúscula e estiver precedido do artigo definido feminino, “a moral”, refere-se ao conjunto de princípios, preceitos, comandos, proibições, normas de conduta, valores e ideais de vida boa que, em seu conjunto, é constituído por um grupo humano concreto em uma determinada época histórica. Nesta acepção, a moral representa um modelo ideal de boa conduta socialmente estabelecida pela sociedade; 2. Quando a palavra “moral” é usada para fazer referência ao código pessoal de alguém. Por exemplo, quando se diz que “fulano possui uma moral muito rígida” ou quando se diz “beltrano carece de moral”, estamos falando de um código moral que guia os atos de uma pessoa concreta ao longo de sua vida. É o conjunto de convicções e pautas de conduta que costuma constituir a base para os juízos morais que cada um faz das outras pessoas e de si mesmo; 3. Usa-se o termo “moral” com maiúscula (Moral) para referir-se a uma “ciência que trata do bem em geral, das ações humanas marcadas pela bondade ou pela malícia”. A rigor, esta ciência não existe. O que existe é uma variedade de doutrinas como, por exemplo, a Moral católica, protestante, islâmica, budista, marxista etc. 4. Quando a palavra moral se refere a expressões que a utilizam no masculino, tais como “ter o moral elevado” ou “estar com o moral alto” e outras semelhantes, moral torna-se sinônimo de “boa disposição do espírito”, “ter força, coragem suficiente para enfrentar – com dignidade – os desafios que a vida nos apresenta. Essa acepção tem um profundo significado filosófico, pois a moral não é apenas um saber, nem um dever, mas sobretudo uma atitude e um caráter”. Com referência ao uso da palavra moral como adjetivo, a maioria das expressões está relacionada com a Ética. 16 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Neste caso há duas situações em que aparece como adjetivo: 1) Moral como oposto a “imoral” – Termo usado como termo valorativo de reprovação. Esse uso pressupõe a existência de algum código moral que serve de referência para emitir um juízo moral. Refere-se a uma conduta contrária às regras morais vigentes numa dada cultura; 2) Moral como oposto a “amoral – Termo usado para se referir a uma ação que não tem relação com a moralidade. A conduta dos animais, por exemplo, não tem nenhuma relação com a moralidade, pois pressupõe que estes não são responsáveis por seus atos. Ao passo que os seres humanos atingiram um desenvolvimento completo e, na medida em que se tornam senhores de seus atos, têm uma conduta moral. A moral refere-se quer aos costumes, quer às regras de conduta admitidas numa sociedade determinada. Portanto, um fato moral é aceito para um tipo de sociedade de acordo com a sua tradição ou realidade cultural. A realidade moral, neste sentido, vai se referir ao conjunto desses costumes e dos juízos sobre os costumes que são objeto de observação ou de constatação segundo as regras socioculturais. Daí a compreensão de que a moral é conteúdo da ética. “Poder-se-ia dizer que a moral é a matéria prima da ética”, pois constitui o conjunto de hábitos e prescrições de uma sociedade.17 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância À guisa de conclusão, deve-se entender por moral um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes com a comunidade de forma não coercitiva. De maneira que estas normas são dotadas de um caráter histórico e social e são acatadas de forma livre e por convicção de foro íntimo. 18 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5. CONCEITO DE CIDADANIA A palavra cidadão vem do latim civitas. O conceito remonta à Antiguidade e na civilização grega o termo adquiriu os significados de liberdade, igualdade e virtudes republicanas. Os cidadãos, como sujeitos coletivos, pulverizaram-se em suas características individuais, evidenciando suas particularidades: mulher, negro, judeu ou homossexual. O cidadão exige, assim, direitos e políticas específicas, inscritas nos campos setoriais da diversidade existente na sociedade. Devido ao pluralismo social, aumenta, na sociedade contemporânea, a demanda por novos direitos e reconhecimentos identitários. Em A Política, Aristóteles (1973) define o que é ser cidadão e quem poderia usufruir desse status. Ser cidadão, explica, significava ser titular de um poder público e participar das decisões coletivas da polis (cidade). Já com relação à igualdade, o status de cidadão limitava-se a um pequeno grupo de homens livres, excluindo-se assim as mulheres, os escravos e os estrangeiros. Apesar de altamente exclusiva, a cidadania clássica, segundo Aristóteles (1973), legou-nos uma dimensão política que atravessa todos os aspectos de vida na polis. Cidadão “[...] é o homem que partilha os privilégios da cidade”, ou seja, é um indivíduo que participa ativamente das decisões e da vida política da polis. 19 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Essa era a concepção de uma cidadania ativa, embora seu exercício estivesse vinculado à condição de ser um homem livre. Na passagem da Idade Média para a Era Moderna, a ideia de cidadania adquiriu fundamentos filosóficos, especialmente os elaborados pela escola teórica conhecida como contratualista. Foi a partir de tais teóricos que a ideia de um contrato firmado pelos cidadãos com o Estado e a noção de direitos dos homens adquiriram relevância explicativa na formação do Estado-Nação. A cidadania moderna diz respeito ao direito da fruição do mundo privado, por meio da garantia da liberdade individual e da possibilidade de delegar sua participação na política a um terceiro, por meio de seu voto no pleito eleitoral. Essa é a diferença que Constant (1985) apresenta ao distinguir a liberdade dos antigos em comparação aos modernos. Sob essa perspectiva, a primeira tem como paradigma a república e a segunda a tradição liberal. Em muitos países tem sido uma preocupação dos governos, e tido grande destaque em suas agendas, a discussão do que tem sido considerado como uma crise da representação democrática, dos valores cívicos e da cidadania, que seria expressa através de manifestações como fraca adesão partidária e fraca participação eleitoral. Tradicionalmente, a cidadania é entendida como um conjunto de direitos e deveres que um sujeito possui para com a sociedade da qual faz parte. Esta cidadania está relacionada à ideia de um status, de um posicionamento jurídico-legal perante o Estado. De maneira geral, podemos apontar as seguintes características constitutivas da cidadania moderna: a universalidade, a territorialização, a individualização (vínculo direto entre indivíduo e o Estado) e a índole estatal-nacional. 20 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A cidadania clássica, baseada em direitos e no pertencimento a um Estado-nação, tem enfrentado inúmeros questionamentos, e passa por reconfigurações em função de mudanças no contemporâneo. Apesar de a identidade social política ideal ser constituída por três elementos – vínculo de pertencimento, participação política/coletiva e consciência de ser portador de direitos e deveres –, essa composição não é rígida. Ela pode ser composta de um, dois ou três elementos. O único elemento essencial para sua constituição é o primeiro, o de pertencimento a uma comunidade. Com exceção do primeiro elemento, os demais são variáveis constitutivas para a formação da cidadania plena. O primeiro elemento garante o pertencimento, o segundo garante o exercício político da cidadania, e o terceiro garante os direitos e os deveres do cidadão, isto é, sua proteção social, civil e política. Assim, as duas últimas constituem as dimensões essenciais para possibilitar o exercício da cidadania. Em outras palavras, os três elementos seriam partes constituintes de um tipo ideal de cidadania, mas não do conceito definidor de cidadania. Dessa forma, partiremos do pressuposto de que a combinação desses elementos conforma três grupos de cidadãos: cidadão pleno, cidadão politicamente passivo e cidadão tutelado. Essa formulação diferencia-se de outras, pois tem por substrato não apenas a discussão teórica sobre cidadania, mas, sobretudo, busca incorporar a dimensão do seu exercício, de fato, pelos diferentes cidadãos 21 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A discussão sobre o conceito de cidadania apresentado por Marshall foi abordada, uma vez que esta conceituação – baseada no modelo histórico inglês e definido a partir de três direitos: direito civil, direito político e direito social – assumiu a maneira privilegiada de se definir cidadania. Nessa análise, observou-se como crianças e jovens acabaram excluídos do acesso a esses direitos, sendo permitido a eles somente o acesso ao direito social, principalmente à educação. Na verdade, mais do que um direito, a educação é considerada como um dever, uma vez que se espera que o indivíduo prepare sua entrada em cena como cidadão. Este pensamento apoia-se em uma estratégia desenvolvimentista que considera crianças e jovens como sujeitos em preparação, sujeitos "vir-a-ser". Constatou-se como este tipo de relação reforça uma tutela, pois muitas vezes para dispor do direito social deve-se abrir mão dos demais direitos. Inserida no paradigma liberal, Benevides (1994, p. 94) afirma que a “[...] cidadania corresponde ao conjunto de liberdades individuais – os chamados direitos civis de locomoção, pensamento, expressão, integridade física, associação etc.”. Em contrapartida, Chauí (1984) define cidadania pelos princípios da democracia, significando conquista e consolidação social e política. Isso quer dizer que a cidadania tem sido um conceito que reivindica a democracia e está associado ao reconhecimento do outro (ou a sua exclusão e o seu não reconhecimento), bem como conceito atrelado ao discurso dos direitos civis e políticos. A cidadania, nesse contexto, está associada à atuação civil e política no seio de uma sociedade democrática. Dessa forma, a cidadania exige constituições de espaços sociais de lutas (movimentos sociais, sindicatos etc.). Por sua vez, Arendt (1989; 2011) afirma que ser cidadão implica ser membro de uma comunidade e possuir o direito de ter direitos, sendo o primeiro direito o pertencimento a uma comunidade política; já o segundo condiz ao conceito jurídico-legal e traz a noção de ação do indivíduo segundo as leis. Ser membro da comunidade significa poder ter uma participação ativa nos espaços públicos. 22 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A compreensão da autora está estritamente vinculada à ideia de pertencimento a um Estado-Nação, noção que será aprofundada mais adiante. A concepção de cidadania como identidade social e política é constituída por alguns elementos:a) pelos vínculos de pertencimentos: É o conceito de Estado-Nação que se configura como central na definição de uma identidade nacional, de pertencimento coletivo e de inclusão em determinada comunidade política. Por sua vez, o que faz o liame para articular esse espaço de Estado-Nação é a consolidação de uma cultura nacional homogênea que congrega e solidifica o sentimento de pertença. A consolidação dessa cultura nacional depende da idealização e do reconhecimento de fatos, lendas, tradições, costumes e mitologias diversas a respeito do passado, ocorridos ou concebidos no território delimitado e ocupado por essa sociedade. Em síntese, a identidade nacional é uma criação coletiva que dá sustentabilidade, organicidade e durabilidade à ideia do Estado-Nação; b) pela participação política/coletiva: Tendo Habermas (1994) como referência, entende-se que a cidadania nunca esteve conceitualmente ligada apenas à ideia de identidade nacional, mas que ela também está vinculada à práxis com que os cidadãos exercem seus direitos civis e políticos. Cidadania não é apenas um critério passivo de pertença a uma comunidade nacional de 23 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância direitos e deveres conferidos pelo Estado. É também uma prática social que os indivíduos assumem para além do Estado, por meio de instituições da sociedade civil e de ações civis, tal como expresso por Chauí (1984). Ao adicionar o elemento participação política/coletiva, o conceito de cidadania torna-se mais complexo e pode ser utilizado não apenas para referir o estatuto legal do indivíduo e a sua forma de pertencimento a uma comunidade nacional, mas também para definir sua participação ativa na esfera pública. Desse modo, acrescida da dimensão da participação política coletiva, parte- se do pressuposto de que o vínculo com o Estado-Nação é apenas um dos itens/componentes que compõe o conceito de cidadania, e não o seu único elemento definidor. c) pela consciência de ser portador de direitos e deveres: Bobbio (2004), afirma que a ideia dos direitos dos homens deriva da inversão de perspectiva na representação da relação política, isto é, na consolidação da relação estado/cidadão em vez do soberano/súdito: [...] relação que é encarada, cada vez mais, do ponto de vista dos direitos dos cidadãos não mais dos súditos, e não do ponto de vista dos direitos do soberano, em correspondência com a visão individualista da sociedade, segundo a qual, para compreender a sociedade, é preciso partir de baixo, ou seja, dos indivíduos que a compõem, em oposição à concepção orgânica tradicional, segundo a qual a sociedade como um todo vem antes do indivíduo. (BOBBIO, 2004, p. 4). A ideia moderna de direito, portanto, é inerente ao conceito de indivíduo, um ente que tem valor em si mesmo, dotado de direitos naturais. A matriz individualista tem como base o fundamento de que o indivíduo antecede o Estado e a sociedade e, dessa forma, contrapõe-se à concepção orgânica, segundo a qual a sociedade é um todo. A máxima dessa concepção pode ser identificada na frase: todos nascem livres e iguais. Isso quer dizer que o indivíduo é concebido como um ser de direitos e que esses direitos antecedem a organização social e política, bem como têm prevalência sobre os deveres. No prenúncio da modernidade, como pode ser percebido, houve uma mudança qualitativa nos termos que se referem à concepção de homem, sociedade e Estado. 24 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Como pode ser percebido, não é fácil definir o conceito de cidadania. São múltiplas suas variáveis constitutivas e as possíveis interpretações segundo seu contexto social e político. Dessa forma, apresentaremos, a seguir, a nossa proposta de definição do conceito de cidadania. 25 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6. CIDADANIA, DIREITOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA Ao se falar em cidadania pode-se adotar diferentes definições para ela. A cidadania pode ser entendida como conjunto de direitos, conjunto de deveres, como identidade ou como participação. O sentido da participação é o de se sentir envolvido e disposto a contribuir na vida da comunidade. No caso de crianças e jovens, é entendendo cidadania como participação que se torna possível o exercício dessa por parte desses sujeitos, considerando-os meaning-givers na sociedade, acabando assim por intervir nessa. O direito político diz respeito ao direito de participar no exercício do poder político, como eleito ou eleitor. Não podemos passar à abordagem do processo histórico brasileiro sem antes apresentar, ainda que de modo relativamente sumário, o nosso conceito de cidadania política. Nossa perspectiva, no estabelecimento de uma definição operacional, é a da revisão crítica do conceito liberal contemporâneo - vale dizer, marshalliano - de cidadania política. 26 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Para Marshall, a cidadania política na sociedade industrial moderna ou contemporânea (nós diríamos, sociedade burguesa ou capitalista) designa a participação do Povo - isto é, dos indivíduos que o compõem - no exercício do poder político. Tal participação concretiza-se, segundo Marshall, como exercício efetivo, por parte do Povo, do direito de escolher os seus governantes. E o exercício efetivo desse direito implica, de um lado, a existência de um processo eleitoral autêntico, supervisionado por instituições judiciárias independentes, que garantam a correspondência entre os resultados das eleições e a vontade eleitoral da maioria social; de outro lado, a existência de governantes que de fato governem, o que supõe a presença de um Parlamento forte, efetivamente participante na tomada das grandes decisões nacionais. O Parlamento e os Conselhos de Governo local seriam suas principais instituições. Segundo Marshall, o século XIX foi o período formativo dos direitos políticos. Esses só puderam surgir uma vez que os direitos civis ligados ao status de liberdade já haviam conquistado um status geral de cidadania e "(...) consistiu não na criação de novos direitos para enriquecer o status já gozado por todos, mas na doação de velhos direitos a novos setores da população". No século XVIII, os direitos políticos encontravam-se ainda deficientes em sua distribuição para os padrões da cidadania democrática. O direito de voto era ainda restrito a determinados grupos. Embora no século XIX os direitos políticos não estivessem incluídos nos direitos da cidadania, essa não estava vazia de significado político. Não conferia um direito, mas reconhecia uma capacidade. Nenhum cidadão são e respeitador da lei era impedido, devido ao status pessoal, de votar. Era livre para receber remuneração, adquirir propriedade de alugar uma casa e para gozar quaisquer direitos políticos que estivessem associados a esses feitos econômicos (Marshall, 2002:16) 27 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Enquanto a sociedade capitalista do século XIX tratava os direitos políticos como um produto secundário dos direitos civis, no século XX, abandona-se essa posição e se associa direito político à cidadania como tal, não sendo o último apenas complemento do primeiro. Um exemplo disso é a instituição do sufrágio universal, quando o que se é levado em conta para votar é o status pessoal de cidadão e não a condição econômica. O surgimento dos direitos sociais se dá por último, no século XX. Até então, direitos sociais e direitos políticos encontravam-se entrelaçados. A participação nas comunidades locais e associações funcionais constituiu a fonte original dos direitos sociais. O direito social seria "tudo o que vai desde o direito a um mínimode bem-estar econômico e segurança, ao direito de participar, por completo, da herança social" (Marshall, 2002:7). Os direitos sociais seriam direitos "positivos", pretensões a determinados bens – educação, segurança, saúde – em oposição aos direitos civis e políticos tradicionais, chamados de "negativos", pois são considerados geralmente como uma tolerância negativa por parte dos outros, e não uma ação positiva (Espada, 1999). São chamados também de direitos sociais de cidadania ou direitos de segunda geração. Inicialmente estaria ligado ao sistema educacional e serviços sociais. No que diz respeito à possibilidade de participação política e à cidadania plena, criou-se uma expectativa histórica de que exista um patamar a ser alcançado para se ter acesso a essa condição. 28 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Sociedade civil e cidadania remetem, de algum modo, uma para a outra, sendo difícil dizer qual precede ou qual pressupõe a outra. Em todo caso, pode dizer-se que a sociedade civil – isto é, a organização de redes e grupos autônomos de defesa de valores e interesses distintos ou concorrentes entre si, e sobretudo distintos das esferas de interesse do Estado e das igrejas – constitui a materialização efetiva do exercício da cidadania. Contudo, se a noção de sociedade civil só faz sentido com a formação do Estado moderno no século XVII, ela pode emergir antes mesmo do reconhecimento dos direitos políticos e da sua institucionalização sob os regimes liberais, ao longo de um processo lento e tudo menos linear, cheio de avanços e recuos da franquia eleitoral individual, percurso este que, em Portugal, apenas se universalizou de forma genuína com o 25 de abril de 1974, fazendo então coincidir cidadania e sociedade civil num mesmo espaço estadual nacional. Passemos agora à análise da cidadania propriamente política. Ela se configura como um desdobramento secundário e contingente da forma- sujeito de direito na sociedade capitalista. Esta pode se reproduzir, em sua estrutura econômica, sem que se concedam quaisquer direitos políticos às classes trabalhadoras. Para que essa reprodução ocorra, são necessários: no plano econômico, a vigência de liberdades civis que permitam a celebração de contratos de trabalho e a consequente emergência de um mercado de trabalho; no plano político, a vigência de qualquer mecanismo de legitimação do Estado capitalista, podendo tal mecanismo ter inclusive um caráter pré-democrático (como a legitimação fundada na competência de uma burocracia oficialmente recrutada segundo princípios universalistas e meritocráticos). Porém, ainda que não corresponda a uma necessidade estrutural do capitalismo, a concessão de direitos políticos às classes trabalhadoras pode ocorrer - conforme o esquema teórico proposto por Göran Therborn -, caso se combinem a pressão das classes trabalhadoras sobre o Estado capitalista e a emergência de conflitos políticos no seio do bloco das classes dominantes. 29 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Como as liberdades civis, as liberdades políticas apresentam um aspecto real: elas tornam possível às classes trabalhadoras exercerem influência periférica e marginal sobre os processos de tomada das macro decisões, por participação independente na escolha dos governantes. E também produzem, como as liberdades civis, um efeito ideológico: o sentimento generalizado de igualdade política entre todos os membros da nação. Do ponto de vista institucional, é frequente que a diferença entre o caráter real das prerrogativas reconhecidas pelo Estado capitalista e o seu efeito ideológico sobre o conjunto da sociedade se manifeste como diferença entre dispositivos da legislação constitucional (tendentes a encarnar princípios universalistas e igualitários) e dispositivos da legislação ordinária (tendentes a outorgar prerrogativas diferenciadas a grupos socioeconômicos diversos: não apenas às classes sociais antagônicas, mas também a camadas de uma mesma classe, a grupos ocupacionais etc.). Foi Hobsbawm quem caracterizou de modo lapidar a tendência à defasagem entre os princípios constitucionais e o âmbito real da legislação ordinária na sociedade capitalista: "Por isso, as Declarações de Direitos foram, na teoria, universalmente aplicáveis. 30 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A cidadania de crianças e jovens, por exemplo, foi incorporada muito recentemente às prioridades da agenda de políticas públicas. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é uma consequência de mudanças no que diz respeito à representação social de criança e adolescente, colocando o Brasil na vanguarda no que se refere à legislação sobre a infância e juventude. Temos aqui, em destaque, a educação como direito social do futuro cidadão, a qual apoiou-se sobre a perspectiva desenvolvimentista e adultocêntrica da cidadania moderna, pois seu objetivo esteve em "durante a infância moldar o adulto em perspectiva". No que diz respeito ao exercício da cidadania, criou-se uma expectativa de que existiria um patamar a ser alcançado para se ter acesso aos direitos civis e políticos, patamar este que se encontra marcado por delimitações etárias. Dessa forma, infância e juventude são consideradas enquanto etapas de preparação e maturação do sujeito, sendo, portanto, restrita sua participação na sociedade. O que se pretendeu apontar aqui foi que a existência de diferenças entre crianças e jovens, e adultos, não legitima sua exclusão de formas de participação mais ampla. 31 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Acreditamos que a cidadania definida a partir da ideia de direitos padece de suas injunções históricas, pois acaba por determinar um patamar (condição ou estatuto) ideal para se ser reconhecido como cidadão, despotencializando, portanto, a ideia de cidadania como participação. De acordo com Jans (2004), a ideia de direitos, tout court, entra em conflito com o discurso de proteção e tutela, já que encoraja que crianças e jovens sejam autores de suas vidas, e que participem mais ativamente. É importante frisar que a proteção de crianças e jovens pode articular uma tensão positiva com sua maior participação na sociedade, pois crianças e jovens precisam de proteção para que sejam atores e respondam à convocação de agir. O desafio está em encontrar a medida certa nessa tensão. 32 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Segundo Bobbio (2004), cada geração de direito expressa por Marshall (1967) corresponde a uma concepção de liberdade: “[...] os direitos civis reservam ao indivíduo uma esfera de liberdade em relação ao estado; os direitos políticos lhe garantem a liberdade no Estado; e os direitos sociais significam liberdade através ou por meio do Estado” (BOBBIO, 2004, p. 61). Tal concepção aproxima-se dos princípios liberais de cidadania, que buscam preservar as liberdades individuais do cidadão. Essa visão ainda permanece viva para muitos teóricos contemporâneos. A cidadania por ser uma noção construída socialmente, ganha sentido nas experiências sociais e individuais. Por isso, será aqui compreendida com uma identidade social política. Ora, se identidade pessoal/individual é o conjunto das características e dos traços próprios de um indivíduo, a identidade social são as características que o identificam perante as demais comunidades. E, em certa medida, a consciência de pertencer a algo maior, a um coletivo, a uma sociedade. Os traços de uma identidade social e política caracterizam uma dada coletividade perante as demais. É o conjunto dessas características sociais que orienta a interação dos membros dessa sociedade com relação às demaissociedades, bem como a diferencia das outras: são as características culturais, linguísticas, religiosas, musicais, culinárias, dentre outras, que representam os hábitos de uma comunidade. 33 Ética e Cidadania Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A identidade social é política porque está vinculada ao pertencimento a uma comunidade política, formada/ expressa por um Estado-Nação, com bases legais próprias que regulam a interação do cidadão perante seu Estado e com os demais membros da comunidade. É daí que vem a ideia de direitos e deveres do cidadão. Dessa forma, a cidadania, nesta pesquisa, é compreendida como identidade social e política também por partir do princípio de que o conjunto de práticas políticas, econômicas, jurídicas e culturais definem o indivíduo como membro de uma comunidade. BARROS FILHO, Clóvis de; POMPEU, Júlio. 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