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52 Questões To da s as q ue st õe s fo ra m re pr od uz id as d as p ro va s or ig in ai s de q ue fa ze m p ar te . (Mackenzie-SP) Texto para as questões de 1 a 3. O essencial é saber ver, Saber ver sem estar a pensar, Saber ver quando se vê, E nem pensar quando se vê, Nem ver quando se pensa. Mas isso (triste de nós que trazemos a alma [vestida!) Isso exige um estudo profundo, Uma aprendizagem de desaprender [...]. Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. 1. No contexto da obra do poeta, a imagem alma vestida (verso 6) pode ser cor- retamente compreendida assim: a) Desde a infância o indivíduo incorpora valores culturais com os quais de- fine sua percepção de mundo e de vida. b) O ser humano é fundamentalmente mesquinho: nunca se revela sincero nos relacionamentos. c) Porque nascemos com o pecado original, a realização religiosa estará sem- pre comprometida. d) A essência da alma humana é inatingível. e) Nosso espírito está sempre protegido dos apelos mundanos. 2. As estrofes confirmam a ideia de que, para Caeiro, o homem deve estabelecer com o mundo uma relação eminentemente: a) metafísica. b) emotiva. c) racional. d) sensorial. e) espiritual. 3. Considere os seguintes aspectos da poesia de Caeiro: a liberdade formal, o vocabulário simples e a tendência ao discurso redundante. No contexto da obra do poeta esses traços: a) são coerentes com o modo de ser despojado de um eu que busca integrar- -se plenamente na natureza, avesso, portanto, a requintes estéticos. b) são índices da relevante influência que o movimento futurista exerceu so- bre Fernando Pessoa, criador do heterônimo. c) são reflexos do equilíbrio interior de Caeiro, coerente, pois, com uma con- cepção clássica de vida. d) revelam certa falta de maturidade estética do próprio Fernando Pessoa, já que Caeiro foi seu primeiro heterônimo. e) são contrários a uma proposta modernista e, por isso, coerentes com o fato de esse heterônimo, segundo seu criador, ter vivido em época muito antiga. 4. (Uepa) Como aludido, Ricardo Reis é um poeta doutrinário. Ele considera a existência humana um jogo em que, por definição, sairemos derro- tados – o xeque-mate nos é aplicado pelas mãos hábeis e insondáveis do Destino. oliveira, Paulo. Revista Discutindo Literatura, ano 1, 2. ed. Segundo a citação, Ricardo Reis – heterônimo pagão de Fernando Pessoa – põe a existência humana nas mãos das forças irrevogáveis do Destino. Há momentos que seus versos inflamam-se de tamanha consciência da brevi- 1 2 3 4 5 6 7 8 1. Resposta: a A – CERTA – No poema, o eu lírico lamenta que a alma esteja vestida, referindo-se aos valores culturais que medeiam a relação do sujeito com o mundo, impedindo a visão verdadeira das coisas. B – ERRADA – O poema reflete sobre como o homem deve interagir com o mundo e valoriza o ato de ver como fonte de conhecimento; não há referência a relações interpessoais. C – ERRADA – A referência à “alma” não leva o poema para o universo religioso; Caeiro rejeita concepções metafísicas. D – ERRADA – Ao lamentar que a alma esteja vestida, o eu lírico refere-se à impossibilidade de se ver realmente o mundo e não a uma ten- tativa frustrada de compreender a própria in- terioridade. E – ERRADA – A vestimenta da alma não é vista como aquilo que a protege, mas sim como o obstáculo para a real interação do sujeito com o mundo. 2. Resposta: d Para Caeiro, o mundo só pode ser conhecido com a aplicação dos sentidos (“O essencial é saber ver”), dispensando o uso dos sentimen- tos (alternativa “b”), do pensamento racional/ científico (alternativa “c”) e de referências religiosas/transcendentais (alternativas “a” e “e”). 3. Resposta: a A - CERTA – As construções linguísticas mais simples estão adequadas ao pensamento de Caeiro, que valoriza o contato com a natureza e a simplicidade do pensamento, conduzido pelos sentidos, sem o apoio de tradições culturais. B – ERRADA – Álvaro de Campos, outro heterô- nimo de Fernando Pessoa, revela influência do Futurismo em seus poemas sobre temas con- temporâneos e urbanos, marcados pelo ritmo febril que imita as máquinas. Tal influência não é sentida em Caeiro. C – ERRADA – Ricardo Reis, também heterôni- mo criado por Fernando Pessoa, apoia-se nas concepções clássicas da vida, retomando ideias como o carpe diem, a busca pela felici- dade moderada ou a indiferença frente às leis do destino. Essa tradição, provinda da filosofia clássica, não é vista nos poemas de Caeiro. D – ERRADA – A opção por um estilo mais sim- ples resulta de uma operação consciente por parte de Fernando Pessoa, que busca a coe- rência de seu heterônimo, e não de uma fragi- lidade técnica. E – ERRADA – Segundo Fernando Pessoa, Caeiro teria vivido entre 1889 e 1915. TCP_VU_LA_CADERNO_REVISAO_050A053.indd 52 26/02/14 16:29 53 M od er ni sm o po rt ug uê s dade da vida, que beiram a um pessimismo esnobe por considerar-se úni- co sabedor de que tudo passa. Deste modo investe-se de certo didatismo e convida o leitor a atentar para a consciência de que nada somos, de que nada sabemos. Com base na citação e nessa afirmação, interprete os ver- sos em que o poeta, afastando-se dessa linha, propõe uma meta apenas para si próprio. a) “Ninguém, na vasta selva virgem Do mundo inumerável, finalmente Vê o Deus que conhece.” b) “Seja qual for o certo, Mesmo para com esses Que cremos sejam deuses, não sejamos Inteiros numa fé talvez sem causa.” c) “Deixemos, Lídia, a ciência que não põe Mais flores do que a Flora pelos campos Nem dá de Apolo ao carro Outro curso que Apolo.” d) “Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e próprio Por calmo encher meus dias. De não querer mais deles.” e) “Não te destines que não és futura. Quem sabe se, entre a taça que esvazias, E ela de novo enchida, não te há sorte Interpõe o abismo?” 5. (Unicamp-SP) No poema abaixo, Alberto Caeiro compara o trabalho do poeta com o do carpinteiro. XXXVI E há poetas que são artistas E trabalham nos seus versos Como um carpinteiro nas tábuas! ... Que triste não saber florir! Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um [muro E ver se está bem, e tirar se não está! ... Quando a única casa artística é a Terra toda Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma. Penso nisto, não como quem pensa, mas como [quem respira, E olho para as flores e sorrio... Não sei se elas me compreendem Nem se eu as compreendo a elas, Mas sei que a verdade está nelas e em mim E na nossa comum divindade De nos deixarmos ir e viver pela Terra E levar ao colo pelas Estações contentes E deixar que o vento cante para adormecermos E não termos sonhos no nosso sono. Poemas completos de Alberto Caeiro. In: Pessoa, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1983. p. 156. a) Por que tal comparação é feita? Por que ela é rejeitada pelo eu lírico na se- gunda estrofe do poema? Justifique sua resposta. b) Identifique duas características próprias da visão de mundo de Alberto Caeiro presentes na terceira estrofe. Justifique sua resposta. 4. Resposta: d A – ERRADA – Os versos trazem considerações de caráter genérico (“ninguém”) sobre a ine- xorabilidade do Destino, sugerindo que, mes- mo que antecipado pelo pensamento, ele será sempre desconhecido. B – ERRADA – Os versos incluem o leitor na re- flexão, sugerindo que ambos – eu lírico e leitor – estejam atentos às condições do Destino, sem aderir integralmente a uma crença. C – ERRADA – As considerações sobre o mundo aparecem como orientação para Lídia, sua in- terlocutora, portanto, não há uma meta exclu- sivamente pessoal. D – CERTA – A reflexão sobre o destino e o de- sejo de não lutar contra suas leis envolvem exclusivamente o eu lírico, que confessa o de- sejo de manter-se lúcido e calmo diante da consciência da brevidade da vida. E – ERRADA – O eu lírico sugere a imprevisibili- dade da morte (a “sorte” que se pode colocar entre o esvaziar e o encher novamente uma taça) a partir deuma pergunta dirigida ao in- terlocutor, sugerindo um conhecimento supe- rior das leis da existência humana. 5. Respostas: a) O eu lírico sugere que o “poeta” e o “car- pinteiro” aproximam-se por realizar um traba- lho calculado e técnico, representado na ima- gem da “construção de um muro”. Essa con- cepção racional da arte é rejeitada na segunda estrofe, na qual o eu lírico propõe uma con- cepção mais próxima da harmonia e da espon- taneidade da natureza. b) Na terceira estrofe, afirma-se a preferência pela compreensão direta das coisas, sem a in- tromissão da cultura ou da metafísica, eviden- ciada no verso “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira,”. O verso tam- bém mostra a valorização da apreensão senso- rial, evidente, igualmente, em “E olho para as flores e sorrio.../Não sei se elas me compreen- dem/nem se eu as compreendo a elas,”. Nota- -se também o objetivismo, presente em “Mas sei que a verdade está nelas e em mim”. TCP_VU_LA_CADERNO_REVISAO_050A053.indd 53 26/02/14 16:29