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MEDEL.E77l0
Capitulolp
ELETROfi$10LQGIA CARpiAtA
I - Principios Básicos da Elctrofisiotogia
1) Sistema de Condução
2) O Começo de Tudo
Potoncia.l de Repouso
formação do Impulso Elétrico
Condução do Impulso Elétr ico
Acoplamento ExcitaçãowContração
11 - Bases Teóricas da Eletrocardiografta
1) Teor ia de Oipolo
2) Ativação do Coração
At ividade Elétrica Atrial
Atividad0 Elétrica do NAVe do Sistema His·Purkinje
Atividade Elétrica Ventricular
111- Api!-ndice - Canais Iônicos
1) Célula do Resposta Rápida
2) Célula do Resposta Lonta
IV - Caderno de Exctc:fcios
V - Quadro de Resumos
Capitulo 2: O
ptstúRetos ELETRotincos
I -Introd ução
11 - Distú rbios do Potássio
1) Hipercalemia
2) Hipocalemia
UI - Distúrbios do Cãtcio
1) Hipercalc.emia
2) Hipocalcemia
IV - Apêndice - Digital
V - Cademo de Exerdcios
VI - Quadro de Resumos
VIl - Ele-trocardiograma na Prâtica
Capitulo 3: O
TRAÇADO ELETROCARp!OGRÁFICO
I - Derivações do Eletrocatdiograma
1) Formação do Traçado
2) Sist ema de Detivaçõas
ViolO DIINTRODuçlO
(MEOCOOE)
Oef'lvações do Plano Frontal
Curk>sidades: WiUen Einthoven
Derivações d o Plano Horizontal
Outras Derivações
11 - Eletrocardiograma Normal
1) Parâmetros do Papel e Registro
Volume :1
2) Ciclo Cardiaco o Traçado Eletrocardiogrâflco
OndaP
Intervalo c Segmento PR
Complexo QRS
SegmentoST
OndaT
Inter valo QT
OndaU
3) Avaliação do Ritmo e da Frequência Cardíaca
Análise do Ritmo
Análise da Frn:qufind a Cardiaca
4) As Variações da Normalidade
Rotações Cardiacas
Padrão Juve-nil
Ropolarização Prococe
O Coração d o At leta
5) Rotina do Análise do Traçado
111 - Apêndice - Problemas Técnicos
1) lnvetsão de Eletrodos
2) Artefato~
IV - caderno de Exerd cios
V - Quadro de- Rasumos
VI- Eletrocardiograma na Prát ica
' I o Caprtu o 4:
SOBRECARGAS CAVrtÁR!A$
I - Sobracarga Atrial Direita
1) causas
2) Critérios Eletrocardiográf1cos
11 - Sobrecarga Atrial Esquerda
1) causas
2) Critérios Eletrocardiográf1cos
111 - Sobrecarga Biatriat
1) causas
2) Critérios Eletrocardiográficos
IV - Sobrecarga Ventricular Esquerda
1) causas
2) Critérios Etotrocardiográf1cos
Critérios de Voltagem do Complexo QRS
Escore de Pontos: Critério de Romhilt-Estes
Sobr ecarga Sist6lica X Sobrecarga Diast6Uca
V- Sobrecarga Ventricular Direita
1) Cau sas
2) Critérios Eletrocardiogrãf1cos
VI - Sobrecarga Biventricular
VIl - Caderno de Exerdcios
VIII - Quadro de Resumos
IX- Elet rocardiograma na Prática
o
Capitulo 5:
BLOQUEIOS DE RAMO
I -Organização Elét rica
1) Ativação Ventricular Normal
11 - Bloq ueio de Ramo Direito
1) Fisiopatologia
2) Manifest ações Eletrocardiogrãf1cas
3) Graus de Bloqueio de Ramo Direit()
UI - Bloqueio de Ramo Esquerdo
1) Fisiopatologia
2) Manifest ações Eletrocardiogrãf1cas
3) Graus de Bloqueio de Ramo Esquerdo
IV - Implicações Clinicas dos Bloqueios de Ramo
1) CaUSàS
2) Prognóstico
V - Cademo de Exercidos
VI - Quadro de Resumos
VIl - Ele-trocardjograma na Prática
Capitulo 6: O
HEHIBLOQUE!O$ OU BLOQUEIOS fASCICULARES
l - Organização Elétrica
Curiosidades: Maurtcio Bernardo Rosenbaum
li - Hemibloqueio Anterior Esquerdo (HBAE)
1) Fisiopa:tologia e Ativação Ventricular
2) Manifest ações Eletrocardiogrâfocas
Plano Frontal
Plano Horizontal
Outros Achados
3) Diagnóst icos Diferenciais.
Alterações simuladas. pelo HBAE
Efeitos -do ~BAE sobre outros diagnóst i cos
4) Implica ções Clínicas
UI - Hemibloqueio Posterior Esquerdo (HBPE)
1) Fi.siopa:tologia e Ativação Ventricular
2) Manffestações Eletrocardiogrãf•ca.s.
Plano Frontal
Plano H:orizontal
Outros Achados
3) Oiagnó.sticos Diferenciais
Alterações simuladas pelo HBPE
Efeitos Orona
riano e, assim como o NSA, é formado por
células que apresentam automatismo.repercussões eletrocardio
gráficas?
Como as fases do potencial de ação são mar
cadas prind palmente por fluxos de cátions, não
é surpresa que mudanças nas concentrações
do potássio e cálcio sejam as mais frequente
mente identificadas neste contexto. Você pode
estar se perguntando: "Mas e o sódio?'. Apesar
de o sódio ser um cátion fundamental na geração
do potend al de ação, ele não afeta de forma
significativa o eletrocardiograma, talvez por in
fluenciar pouco o potencial de repouso dia célu
la, sendo basicamente um íon cuja entrada na
célula promove a sua despolarização.
ATENÇAO!!!
Dentre todos os d istúrbios eletroliticos,
as alterações que podem realmente acar
retar alterações eletrocardiogrâficas sig
nificativas são: Hipercalemia, Hipc;cale
mia, Hipercalcemia e Hipocalcemia.
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O ts JU:Isros ELETROLITICOS
Embora, por definição, o diagnóstico destas
alterações seja laboratorial, o eletrocardio
grama é um método rápido e prático que
permite identificar, á beira do leito, s inais
que apontam para a presença. de a lguns
destes. distúrbios. Há inclusive a possibilida
de de estimar a gravidade do distúrbio labo-
ratorial com uma pequena margem de erro
- as modificações eletrocardiográficas an
dam em paralelo com a severidade da alte
ração eletrolít ica. Isto possibilita a instituição
de uma terapia potencialmente salvadora
antes mesmo que o resu ltado laboratorial
esteja dispon ivel.
OIS URBIOS DO POTASSIO
Apenas 2% do potássio corporal está presente
no meio extracelular, fazendo dele o principal
íon do meio intracelular. Assim, seu valor séri
co normal é de apenas 3,5 a 5,5 mEq/L e a
definição de hipercalemia e de hipocalemia é
feita quando seus valores, encontram-se res
pectivamente acima e abaixo destes.
A influência do potássio no potencial de
ação.
Certamente, você ainda se lembra da parti
cipação do potássio no potencial de ação dos
miócitos card iacos, mas não custa nada fi
xarmos esse conceito, certo? Nesse momen-
to, é importante recordarmos que o potássio
tem maior influência em 2 processos: (1)
repolarização de todas as células cardíacas
por conta da abertura de canais que permitem
o seu efluxo (saída) para o meio extracelular;
(2) manu tenção do potencial de repouso das
células de resposta rápida (Figura 1).
Assim, as al terações do potássio constituem o
grupo mais comum de distúrbios eletrolíticos
com capacidade de modific;~r o traçado eletro
cardiográfico. Além disso, a elevada freq;uência
da hipo e hipercalemia na prática clínica e as
características típicas das alterações no traça
do também facilitam o diagnóstico.
Variação Iônica Intracelular e a Mudança do Potencial de Ação
Resposta Rllplda Resposta Lenta
o
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F I G U RA 1: A& P R INC IPAI S I N F'LUÊ NCI A S 00 POTÁSSI O SÃO N A R E POLARI ZAÇÃO
I F'A S E 3) O E AMSAS A S c f:LUL A S E N A MAN UTENÇÃO 00 POTENCI AL O E R E POUS O
O A S C É L U LAS O E R ESPOS TA RÁPIDA t F"AS E 4),
HIPERCALEMIA
Lembre-se que o potencial de repouso do
miócito cardíaco era determinado basicamen
te pela diferença entre o potássio intracelular
(muiio concentrado) e o exiracelu lar (pouco
concentrado), que acabava fazendo com que
boa parte deste íon saísse da célula a favor
de seu grad iente de concentração até que se
encontrasse um equilíbrio e létrico em torno
de -90 mV.
Na hipercalemia, essa diferença de concen
tração é aienuada (o meio exiracelular au
menta sua concentração de potássio), de
modo que, o "novo equilíbrio elétrico" canse-
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O ts JU:Isros ELETROLITICOS
gue se r alcançado com uma menor saída de
potássio, implicando em um novo potencial
de repouso menos negativo (menos nega
tivo que - 90 mv).
Essa alteração muda bastante o comporta
mento e létrico do coração e podemos perceber
as seguintes alterações sequenciais:
( 1) A repolarização é encurtada: fica mais fá
cil o potencial de ação voltar ao seu novo
potencial de repouso após a despolarização,
já que esse novo potencial é menos negativo.
Com o tempo de repolarização encurtando-se,
a onda T também dura menos tempo tornao-
do-se majs a lta e apjcu!ada (formato de tenda)
e, como conseauência o intervalo QTtambém
é encurtado.
(2) Alteraç.ão da despolarização: quanto
mais próximo de O estiver o potencial de
repouso, menos canais de sódio estão dis
poníveis para desencadear uma nova des
polarização, o que torna as ativações atríais
e ventriculares mais lentas, bem como a
propagação desses estímu los pelo tecido
elétrico do coração. Assim, esse novo po
tencial menos negativo acarreta um a larga
mento do complexo QRS e um achatamen
to da onda e.
Pena de Morte
Cerca de 74 países e 32 estados americanos adotam a pena de morte e, atualmente, a injeção
letal é o meio de execução mais empregado nos EUA. onde sucedeu a cadeira elétrica. que,
por sua vez, sucedeu a câmara ode gâs e esta, a guilhotina e a forca.
O protocolo de injeção mais usado envolve a combinação de 3 drogas, administradas na
sequência :
(1) Sarbíturico (ação hipnótico-sedativa para perda da consciência): o mais classicamente
usado é o tiopentato de sódio (tíopental) •.
(2) Bloqueio neuromuscular (paralisia de musculatura respiratória): para este propósito, usa
se o pancurônio (pavulon).
(3) Cloreto de Potássio (produção da parada cardíaca): a hipercalemia interfere nas
propriedades elétricas do coração.
• No final de 2010, a empresa que produzia o üopentato de sódio para comercialização
nos Estados Unidos (Hospira), ao discordar do propósito de seu uso e ter dificuldade em
manter a sua produção, decidiu retirar a droga do mercado. Alguns estados americanos
já terminaram seus estoques e muitos passaram a planejar o uso da injeção letal com o
protocolo de apenas 1 droga, adotando outro barbitúrico- o fenobarbital- em dose alta.
Em geral, existe certa correlação entre os ní
veis sérícos de potássio e os achados eletro
cardiográficos , entretanto o traçado a inda
pode ser normal mesmo com níveis laborato
riais muito elevados.
Considerando-se o traçado eletrocardiográfi
co, podemos dizer que as alterações relacio
nadas à hiperpotassemia geralmente progri
dem da direita para esquerda (onda T
complexo QRS - onda P) à medida que os
níveis de potássio aumentam.
!
J
'Ji '-r•
V3 I
F'IGU R A 2 : ONDA T EM TENDA • PRI M EIRA
A LTERAÇÃO D A H IP ERCAI..EM IA.
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O ts JU:Isros ELETROLITICOS
Hjpercalemja I eye (5 5 7 O mEQI! )
A onda T é o primeiro componente a sofrer com
a hipercalemia, já podendo se observar alguma
manifestação a partir de um potássio sérico de
5,5 mEq/L. Ela assume uma morfologia simé
trica, apiculada e mais estreita, apesar de au
mentar em amplitude: este padrão é conhecido
com onda T em teacta (Figura 2) e justifica
também um encurtamento do intervalo QT.
Essa onda T alta e apiçulada pode nos fuer
lembrar do quê?
Você verá no capitulo 12, que essa caracterís
tica se assemelha a um processo de isquemia
miocárdica e, de fato, é um importante diagnós
tico diferencial. Mas perceba: no caso da hiper
calemia, a tendência é que alteração da onda
T seja d isseminada, ou seja, su~a em qualquer
registro eletrocardiográfico. Enquanto, na do
ença coronariana, ela respeitará a parede do
coração em sofrimento - aparecerá somente
no traçado que registre a parede i squêmica.
Hipercalemia Moderada (7,0 - 9 O mEq/Ll
Quando os níveis de potássio passam de 7,0
mEq/L, já começa a ocorrer uma lentificação
da geração da fase O do potencial de ação e
da propagação do estimulo entre os miócitos.
Assim, observa-se um alargamento do com
plexo QRS e da onda P, que também sofre
uma redução de amplitude. Eventualmente,
o intervalo PRpoderá aumentar, o que., como
veremos no capítulo 10, caracteriza um Blo
queio Atrioventricular (BAV) de 1° grau, j á
que demonstra um alentecimento da passagem do estímulo dos átrios para os ve ntrícu
los. Estas alterações progridem de forma
proporcional à elevação do potássio sérico,
com a onda e tornando-se cada vez majs
achatada e o ORS mais alargado . Com
valores acima de 8 mEq/L, a onda P some
completamente, por causa de um compro
metimento avançado da condução intra
-atrial, embora o nodo sinusal ainda perma
neça funcionante nesta situação. Desta for
ma, ele continua atuando como o nnarca
-passo cardíaco, mas dependendo quase
exclusivamente dos feixes internodais (e não
mais dos miócitos atriais) para que o e·stímu
lo alcance o nodo AV e, em segu ida, os ven
trículos. Portanto, é estabelecido um ritmo
sinusal sem formação de onda P, chamado
de ritmo sinoveatricular, que, no traçado, é
praticamente indistinguível de um ritmo jun
cional ou ventricular.
FIG U RA 3: O N D A T ALTA E A PIC ULADA I"'EM TEND A'') A S S O C I A D A A O A C HAT AMENTO DA
O NDA P S Ã O ACHAD O S CLÁS S IC OS D A HIPER C A LEM IA.
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0 11 I" p~ ...A A
I r
~. I? P"
F"'II3 U RA 4: ONDAS T E M TEND A - GRANDE MARCA DA H IPER C A L EMIA, C O MPL-EXO S QRS N Ã O
PREC EDIDOS POR OND A p, E S S 1E R ITMO GERALME N TE S ERI A CHAMADO OE .JUNCIONA L t MAS
É I MPO S S i V EL D lrERE NCIAR D E UM R ITM O S I NOVE NTRICULA.R (RITMO S I N U SAL S EM ONOA P
V t S Í VEL ),
Hjperçalemja Graye (> 9.0 mEq/L )
E possível observar alteracões do seamen
to sr. prjncjpalmente o sypradesnjyela·
mentq, (segmento ST deslocado para uma
altura acima da linha de base), que inclusive
poderá ser confundido com um infarto ou
pericardite. Este fenômeno provavelmente é
resultado da formação de um gradiente elé
trico entre as regiões mais afetadas pela hi
percalemia e aquelas ainda poupadas ou
menos acometidas, uma vez que a distribui
ção do potássio extracelular não é completa
mente homogênea. Isto é conhecido como
padrão de pseudoinfarto ou corrente de lesão
dialisável, uma vez que reverte completamen
te após a correção da hipercalemia durante
a diálise. O achado eletrocardiográfico mais
grave da hipercalemia - que é um indício de
uma parada cardíaca iminente- é a fusão do
complexo QRS com a onda T, não havendo
segmento QT identificável. Este padrão é
conhecido como "onda em sino" e some com
pletamente se o tratamento correto for insti
tuído imedia tamente.
Veja na Tabela 1 os principais achados da
hipercalemia.
Vale lembrar que esta progressão nem sem
pre ocorre de forma previsível, ainda que seja
uma maneira didática e prática para estimar
o valor sé rico de potássio. A parada cardíaca,
por exemplo, pode ocorrer com níveis meno
res do que 12 mEq/L, apesar de invariavel
mente se estabelecer acima deste corte .
K "lmtq/ll Prtnclp;us Achados Eletrocardlogràficos ECG
3,5-5,5 -T~..,.., L
5,5- 7 · Onda r em "tenda· (.alta e aplcttada ) ~ • Eoo.ttamento do intfl\'illlo QT
7-9
-Aia-doQRS
·Achatamento ou desape.tedmento da ooda P (ritmo sii'IOYef'ltrioJar) -10-
>9,0 • k&s5o do compleloo o:tS ((JI'Tt ondtt T ( orxk.1 em sinQ) -AA
>12,0 • Assbtolol ou flbrilclç3o~
TABELA 1.
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O ts JU:Isros E LETROLITICOS
FIGURA 5 : ONDAS T APICULAOAS, QRS A LARGAD O E O N O A E M S INO E M 011, AVF' E DE
V 2 A VS ( C OMP LEXO QR S S SE CON TINU A D IR ETAMENTE COM A O N DA T ): HIPERCAL E M I .A..
HIPOCALEMIA
Depois de entendido o comportamento elétri
co da hipercalemia, a compreensão da hipo
calemia fica facil itada ... Lembre-se, mais uma
vez, que o potencial de repouso do miócito
cardíaco é determinado basicamente pela
diferença entre o potássio intracelular (muito
concentrado) e o extracelular (pouco concen
trado), que faz com que parte dele saia da
célula a favor de seu gradiente de concentra
ção, encontrando um equilíbrio elétrico em
torno de -90 mV. Na hipocalemia, essa dife
rença de concentração é intensificada (o meio
extrace lular reduziu sua concentração de
potáss io), de modo que, o "novo equilíbrio
elétrico· só é alcançado com uma maiorsaida
de potássio, implicando em um novo poten
cial de repouso mais negativo {mais nega
tivo qu•e - 90 mv): dizemos que a célula está
hiperpolarizada.
Essa a lteração muda a propriedade elétrica
do coração:
(1) A repolarização é mais lenta: com o novo
potencial de repouso mais negativo, torna-se
mais difícil para a célula voltar a esse patamar,
de modo que ela gasta mais tempo para fazê-lo.
Com o tempo de repolarização mais largo, ª
onda I também dura mais temoo e se toma de
menor amplüude assjm como o jnterva!o OI
sofre um alargamento. o que, predispõe a fenô
menos arritmogênicos, especialmente a uma
arritmia denominada Torsades des Pointes.
(2) Alteração da despolarização: quanto mais
afastado de O estiver o potencial de repouso,
mais canais de sódio estão disponíveis para
desencadear uma nova despolarização, que
passa a acontecer com mais intensidade, tor
nando as ativações atriais e ventriculares mais
rápidas. Isso pode causar um aumento da
amplitude da onda P e também predispor a
batimentos ectópicos.
Com estes conceitos de eletrofisiologia, fica
mais fácil entender as mudanças eletrocardio
gráficas associadas à hipocalemia, que ten
dem a ocorrer somente abaixo de 2.8-3 mEq/L
O sinal mais precoce é a reducão da .ampli
tyd e e ayme nto da dyracão da onda r. que
ganha um aspecto mais achatado (base
mais larga).
Em seguida, surge também o achado mais
típico da hipocalemia: aumento da onda U.
• A teoria mais aceita hoje para explicar o au
mento desta onda neste distúrbio eletrolítico
é a ocorrência de uma repolarização tardia
das fibras de Purkinje, que resulta em uma
separação da onda Tem 2 componentes: o
1° componente comporta-se como a onda T
original, enquanto o 2° componente atrasado
acaba sendo chamado de onda U. Esta onda
U patológica tem características distintas da
onda U fisiológica: sua amplitude ultrapassa
25% do tamanho da onda T (comporlamenio
que a onda U fisiológica não tinha}, podendo
até ultrapassá-la em hipocalemias graves,
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O ts JU:Isros ELETROLITICOS
quando a onda U poderá ser confundida com
a onda Te até mesmo mascarar a onda P do
ciclo seguinte.
Além disso, a onda U mais proeminente as
sociada à onda T reduzida acaba dando a
impressão de um aumento do intervalo D T,
quando, na realidade, a fusão desta onda U
com a porção terminal da onda T faz com que
o intervalo que està sendo aferido seja o QU
e não o Q T. Mas isso não pode ser conside
rado um equívoco interpretativo, pois, como
vimos, essa onda U nada mais é que um
componente atrasado da onda L. Então, na
hipoca lemia, a medida do intervalo QT ver
dadeiro deve mesmo incluir a onda U, sendo
mensurado, portanto, pelo intervalo QU. Este
fenômeno, como já ci tado, aumen ta o risco
de Torsades des Pointes.
A onda P e o complexo QRS também podem
ser afetados pela hipocalemia devido às pro
priedades de alteração na despolarízação ci
tadas anteriormente. A despolarização mais
rápida causa um aumento da amplitude da
onda P. Já o complexo QRS, nas hipocale
mias graves, pode sofrer um prolongamento.
• Esse alargamento do QRS na hipocalemia
- situação .que acelera a despolarização -
pode parecer paradoxal, mas tem explicação ...
Na realidade, em hipocalemias muito graves,
os miócitos ventriculares passam a reter mais
cálcio no seu interior, o que altera o s·eu po
tencial de repouso e volta a deixá-lo mais
próximo de .0, o que, como vimos na hlperca
lemia, lentifica a despofarização.
Veja na Tabela 2 os principais achados da
hipocalemia; com atenção especial ao aumen
to progressivo da onda U em concordância
com a evolução da alteração eletrolítica.
K"i n'i4ll I Principais Achados Eletrocardíográficos ECG
2,8 • Achotamentoda onda T ~
· ~ecimerloda onda T
~ 2,5
• -..da onda u
- Plobpi~e>JtOdo inleMioQT (na~. "ernlo QU)
• Ondi: p apio lladi· Onda U proeminente
~ 2 • 41
O ts JU:Isros ELETROLITICOS
Acompanhe os ECGs a seguir ...
-
Hipocalemia
F'"IGU RA 6: ONDA T ACHATADA E CONC OMITAN TE SURGt MEN TO DE O N DA U (V 1 A V6J DÃO A
IMPR ESSÃO DE UM A L ARG AMEN TO DO t NT'ERVALO ~T ( NA REAI!..I DADE, UM I NTERVALO ~UJ,
0111 aVF
F'"IGURA 7: ONDAS U MAIS PRO EMI NENTES QUE AS ON DAS T E S PECIALMENTE DE
V3 A VS, HAVENDO UMA APAREN TE F"USÁO DE AMBAS EM VS E V6, DANDO, MAI S
U MA V EZ, U MA C LARA IMPRESSÃO DE P R O LONGAMEN TO DO I N T ERVALO QT (NA
R E ALIDADE, UM INTERVAL O i~U),
-··-
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CAPin.u> 2 • 42
O ts JU:Isros ELETROLITtCOS
Naturalmente, os distúrbios do potássio que sejam suspeitados por uma
alteração eletrocardiografica devem ser confinnados pela dosagem laboratorial
da calemia e uma abordagem terapêutica deve ser prontamente assumida.
Tratamento da HIPERcalemla
(1) Sempre que o paciente apresentar alterações eletrocardiográficas secundanas á hipercalemia,
devemos infundir glyconato de cálcio antes de reduzir o ni'vel sécico do potássjo. O cálcio
não odiminui a calemia, mas é um elemento estabilizador da membrana do miócito, podendo
prevenir a parada cardiaca! Esta medida não se faz necessaria na ausência de alteraç-ões ao
ECG.
·A hipercalemia reduziu o potencial transmembrana de repouso (deixou-o •menos negativo~
passando, por exemplo, de -90 mV para -80 mV). Isso é um problema porque, os canais de
sódio necessários para a despol.arização só estão plenamente abertos no chamado potencial
limiar de -70 mV. Eis o dado fisiológico: para estes canais de sódio abrirem de forma correta,
eles precisam tomar uma espécie de "choque•, eles precisam sentir essa variação intensa
do potencial transmembrana ao redor dele (de -90 mV até -70 mV). Se não houver essa
variação, os canais de sódio não se abrem corretamente. Quando a hipercalemia torna o
potencial de repouso menos negativo (-90 mV para -80 mV), esse novo potencial acaba
ficando muito próximo do "potenciattimiar e, nesse momento, a variação inicial de voltagem
é muito pequena (-80 mv até ,70 mV). Os canais de sódio não tomam o "choque· necessário
e acabam não abrindo em sua plenitude. A infusão do cálcio aftera o potencial limiar trazendo-o
também para um valor mais baixo (-60 mV). Agora, a membrana vai voltar a sofrer uma
grande variação de voltagem até atingir o limiar (-80 mv até- -60 mV). Ou sej a, os canais de
sódio voltam a sentir o "choque" e voltam a funcionar corretamente. Por isso que popularmente
se diz que o "gluconato de cálcio estabiliza a membrana do miócito cardiaco".
··A única situação em que o uso do gluconato de cálcio não é consensual é na hipercalemia
secundária á intoxicação digitálica. Isso se j ustifica pelo fato do digital em excesso causar por
si só um aumento da concentração intracelular de cálcio (como veremos no apêndice deste
capitulo e também no capitulo 13) que poderia ser ainda intensificado com o uso de um fármaco
contendo esse eletrólito, o que, em teoria, aumenta o risco de arritmias.
(2) Depois da infusão do gluconato de cálcio, devemos assumir medidas que promovam u ma
redycão da calemja, mesmo qye de toona transitória. São estratégias que induzem a entrada
do potássio para o interior celular:
- Glicoinsulinoterapia (10 unidades de insulina+ 50 g de glicose em 20 minutos).
- Bicarbonato de sódio (50 ml da solução a 8,4% - correr em 20 min).
- Beta2-agonista inalatório (nebulizar com 10 gts de fenoterol ou salbutamol).
(3) Como as medidas citadas anteriormente só reduzem o potássio sérico por cerca de 3-4
horas, devemos, a seguir, adotar estratégias que promovam uma redução de!jn!tiva da
calemla . São altemativas que levam á salda de potássio do corpo:
- Resina de troca (poliestirenossulfato de cálcio, conhecido como Sorcal8 - 1 envelope 818h):
promove a perda fecal do potassio ao trocar cálcio pelo potássio na mucosa colônica.
- Furosemida: diurético que aumenta a excreção renal de potassio!!! (01 cp 40 mgldia, via oral).
- Dia lise (em casos refratários).
Tratamento da HIPOcalemla
Aqui, não há muito mistério ... A ideia é promover a reposição de potássio, que até pode ser
feita por via oral ou enteral, mas, em situações com alterações no ECG, a via venosa é a
indlc~da.
- Xarope de KCL a 6%: 1 medida VO 8/Sh.
- Hipocalemia grave (K 2 • 43
O ts JU:Isros E LETROLITICOS
O corpo humano apresenta uma enorme reserva
de cálcio que é estocado quase que exclusiva
mente ao longo do esqueleto na forma de hidro
xiapatita: cerca de 99% encontram-se nos ossos
e apenas 1% no sangue. Deste percentual san
guíneo, metade ainda está ligada a proteínas -
especialmente albumina, cujo nível sérico inter
fere na calcemia. O restante encontra-se basica
mente na forma ionizada, que é aquela que
verdadeiramente se "relaciona" com os tecidos.
E é exatamente essa fração ionizada que é
rigidamente controlada pelo sistema endócri
no: a secreção de paratormônio (PTH) pode
elevar a calcemia por seus efeitos em ossos,
rins e intestino, uma vez que intensifica a re
absorção óssea, aumenta a reabsorção tubu
lar renal de cálcio e eleva a absorção intestinal
de cálcio dependente de vitamina O.
O valor normal do cálcio total é de 8,5 a 10,5
mg/dl, enquanto da sua forma ionizada é de
4,5 a 5 ,5 mg/dl. Assim, a definição de hiper
calcemia e de hipocalcemia é feita quando
seus v alares encontram-se respectivamente
acima e abaixo destes.
Valores normais:
Cálcio total= 8,5-10,5 mg/dl
Cálcio ionizado= 4,5-5,5 mg/dl
• Alguns laboratórios podem usar outras unidades,
como mmoVL ou mEq/L. No caso do cálcio. 1 mgldl
equivale a O, 25 mmoVL e 0.5 mEq/L. Por exemplo:
Cálcio total = 2, 1 - 2, 6 mmoi/L
A influência do cálcio no potencial de ação
Saiba que a concentração intracelular de cálcio
no músculo cardíaco é cerca de 1 O"" mmoi/L,
enquanto a extracelular fica, como visto, em
tomo de 2 mmoi/L. Essa discrepância faz com
que o gradiente de concentração direcione, com
intensidade, o cálcio para dentro da célula. Mas
em que momentos essa entrada de cálcio ga
nha importância no potencial de ação? Se for
necessário, reveja, mais uma vez, a Figura 1...
(1) Nas célu las de resposta rápida, a entra
da de cálcio tem grande partic ipação na fase
2 do potencial de ação (platô ou repo lariza
ção lenta), que é o momento de inscrição do
segmento ST. Vale lembrar que estre trecho
no eletrocardiograma corresponde principal
mente à fase de platô do potencial de ação
das células do feixe de His, das fibras de
Purkinje e dos miócitos ventriculares. Será
exatamente no segmento sr (e , por conse
quência, no intervalo on que perceberemos
adiante as mais significativas consequências
das alterações calcêmicas!
(2) Já, nas células de resposta lenta (células
automáticas), o influxo de cálcio participa das
fases O (despolarização lenta) e 4 (repouso) .
• Além disso, vale lembrar que o cálcio é o
grande responsável pelo processo de aco
plamento entre a excitação e a contração dos
miócitos cardíacos.
PROPADAQÃO 00 IMPIJL6Q NO CORAÇÃO
F'IGURA 8: OIS D ISTÚRBI OS DO C Á L C IO AFETAM A F'ASE
DE PLATÔ 0 0 POTENCI AL DE AÇÃO DAS CÉL U L AS DE
RESPOSTA RÁP IDA, QUE É A PRI NCIPAL RESPON S.ÁVEL P ELA
IN SCRIÇÃO DO SEGMENTO S T NO ECG.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAPin.u> 2 • 44
Ots JU:Isros ELETROLITICOS
Apesar desta ampla participação do cálcio na
elelrofisiologia das células cardíacas, as mu
danças no traçado eletrocardiográfico só ocor
rem nas variações extremas da concentraçãode cálcio extracelular. Portanto, diferente do
que ocorre com o potássio, não há uma boa
correlação entre as alterações eletrocardio
gráficas e a progressão dos distúrbios da cal
cem ia, seja para mais ou para menos. O ele
trocardiograma não deverá ser utilizado
como um instrumento diagnóstico inicial
para a hiper ou hipocalcemia.
----------------------------------------------------------------------
HIPERCALC EMIA
Conforme já compreendido; os achados elelro
cardiográficos mais característicos dos distúr
bios da calcem ia estão relacionados a mudan
ças da duração do intervalo QT, especificamen
te na porção do segmento ST. Na hipercalce
mia, o aumento do cálcio extracelular intensifi
ca a sua entrada durante a fase de platô (fase
2), tom ando-a mais curta e, por co:nsequência,
encurtando também o segmento ST e, por ta
bela, o intervalo QT.
Portanto, o encurtamento do intervalo QT
às cus tas de uma redução do segmento ST
é a alteração eletrocardiográfica mais ca
racterística da hipercalcemia.
Em alguns casos, o segmento ST pode tornar
-se tão curto que o QRS surge demasiada
mente aproximado da onda T ... Neste momen
to, podem surgir outras 2 alteraç 2 • 45
O ts JU:Isros E LETROLITICOS
Hlperealcemla
I c....,
F IGURA 1 O: AUSÊN C IA 0 0 SEG MENTO ST E INT ERVALO Q T C URTO .
r~r-~~ ~l
~.~~~~~~~~~·~V-l ~~~--~V~2--~--~~.l:__l~
~~V3~V6 rn
~-i'-~J--~~~r=f~~~-~' ~~~~~~~~
F" lO U RA 1 1: N O TE O E NCU RTA M ENTO 00 SEGMEN T O S T B EM COMO SEU SUP RA O E V3
A V6 E A ON DA .J OE O SBORN E M V2 E V6 (A CAL C E M I A E R A OE 1 S ,S MG/OL).
Onda J de Osborn e Hipotermia
A "onda J de Osborn' - descrita por John J.
Osborn em 1953-é uma deflexão positiva do
ponto J (surge no ECG semelhante a uma
pequena onda R secundária - r') que, embora
tipicamente seja descrita em situações de hi
potermia (temperatura corporal 2 • 46
O ts JU:Isros E LETROLITICOS
• - • - c
ONOA ~ DE OSBORN ACOMPANHA A
GR.AVIDAOE OA HIPOTERMt A • A ACENTUAÇÃO
D O EN TALHE 0 0 POTEN C I A L DE AÇÃO
EPI CÁRDI CO Ê A RAZÃO DO SUlR G t MENTO
DESTA ALTERAÇÃO ELETROCARDt OGRÁF'"ICA.
Outras alterações da hjpotermja·
A hipotermia reduz a despolarização espon
tânea das células automáticas e prolonga o
potencial de ação do miocárdio, de modo que
podem ser observadas outras alterações além
da onda J de Osborn: bradicardia sinusal,
prolongamento de PRJQRS/QT, arritmias
atriais, fibrilação ventricular, assistolia e ar
tefatos (por tremor do paciente).
0NOA ~ DE 0SS O RN NA H f POTERMIAo
HIPOCALCEMIA
A hipocalcemia provoca efeitos exatamente
opostos sobre o potencial de ação em com
paração com aqueles associados à hiper
calcemia, ou seja, o que ocorre de mais
significativo é um prolongamento da fase 2
(platô) das célu las de resposta rápida.
As alterações no traçado tendem a ser ob
servadas quando o cálcio sérico cai abaixo
de 7 a 8 mgldl. Mais uma vez, a principal
alteração eletrocardiográfica diz respeito à
duração do intervalo QT, j á que o segmento
ST é a porção predominantemente afetada
por sua correlação com a fase 2 • 47
O ts JU:Isros E LETROLITICOS
FII3URA 1 2 .
O tratamento de hipercalcemia d iscreta ( 14 mg/dl) devem receber tratamento
independa de seu quadro clínico .
Tratamento da HIPERcalcemia
A abordagem geralmente é f e i ta com a
administração simultânea de:
(1) Hidratação venosa com solução salina:
infusão de 200-300 mlih, objetfvando um
débito urinário de 100-1 50 ml/h.
(2) Calcitonina (4U/kg IM ou SC 12/12h):
aumenta a excreção renal de cálcio e reduz
a reabsorção óssea. Seu efeito tem uma
duração limitada a cerca de 48h.
(3) Bifosfonados (como pamidronato 60-90
mgiVem 2-4h): reduzem a reabsorção óssea
e, em alguns casos, seu efeito perdura por 2
semanas.
• Alguns autores ainda defendem administração
de furosemida após a hidratação venosa,
mas, com o advento dessas drogas inibidoras
da reabsorção óssea, tal medida não é mais
considerada fundamental.
Tratament·o da HIPOcalcemia
Casos com alterações no ECG (QT longo) ou
sintomáticos (te tania, espasmo carpopedal...)
devem receber reposição de cálcio por via
intravenosa. Recomenda-se gluconato de
cálcio 1-2 g em 10-20 minutos (1 -2 ampolas
de 10 ml a 10%).
* É comum a concomitância com
hipomagnesemia, de modo que, se esta
estiver presente, deve ser corrigida inicialmente
com 2 g de sulfato de magnésio em 10-20
minutos (2 .ampolas de1Om/ a 1 0%).
DIGITAL
PESAR 00 CAPÍ'rUL O 1 3 DE NOSSO MATERIA L SE:R oeoJCAOO
ÀS A~PE.RCUSSÓES E L e-TROCAROIOGRÁF'tCAS OE ALGU NS
M li:OICAM I!N"rOS, APAOVI!I'rAMOS UM PeQUE:NO ESPAÇO F'I NAL
NE:ST'E C APÍT U LO PARA ALGUNS 9RitVES COMEN"fÁtUOS
SOBRE: U M GRUPO OE !='Â~MACOS O~NOMINAOOS "' DIGITAI S ,. , QUE TÊM A CAPACt OAOE:
DE. ASSI M COMO OS 0 1STÚR910S ELETROLÍTICOS . ALTERAR 0 FLUXO IÔNI CO NOS
M I ÓCITOS CAR D Í ACOS.
F"'II3URA 14: EF'EITO OIG IT Á L ICO - IHF'RA D E ST EM up D E PEDREI R O" OU
«ei GOOE DE SALVADOR DAL I .,,
MECANISMO DE AÇÃO
São drogas que bloqueiam a bomba Na'/K•
A TPase e, por consequência, levam ao acúmu
lo de Na• intracelular e aumentam a quantidade
de K• no extracelular (inclusive há o potencial de
complicar com hipercalemia). A maior concen
tração d e sódio dentro da célula irá interferir na
ação de outro transportador iônico existente em
sua membrana: o trocador Na'/Ca· •, que pas
sará a transportar menos Na• para dentro e
menos Ca .. para fora, aumentando a concen
tração intracelular desse último. Ou seja, esse
acúmulo de cálcio acaba mimetizando a conse-
quência da hipercalcemia, encurta a repolariza
ção e diminui o segmento ST, o qual costuma
ficar indusive um pouco desnivelado para baixo,
ganhando um aspecto denominado "em pá de
pedreiro", que alguns autores também denomi
nam de "Bigode de Salvador Dali".
Você reparou no que acabou de ler?
Podemos dizer que o d igital, ao acumular po
tássio inicialmente no extracelular e causar uma
maior concentração de cálcio no intracelular,
mimetiza as consequências da hipercalemia e
da hipercalcemia, reduzindo o intervalo QT.
São 3 as grandes causas de encurtamento do intervalo QT:
- Hipercalemia: associação com outras alterações (onda Tem tenda, QRS alargado ... )
-Hiperca/cemia: encurtamento isolado do segmento ST, que muitas vezes encontra-se até ausente.
- (Efeito Digitálico: associação com infra de ST em aspecto de pá de pedreiro.
• t=m 1999, foi descrita a ''Síndrome do Intervalo QT curto (SQTS)", considerada uma patologia
arritmogênica associada à fibrilação atrial, sincope e morte súbita, especialmente em jovens
e crianças. Ela serà discutida com mais detalhes no capítulo 14.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr:
CAPin.u> 2 • 49
O ts JU:Isros ELETROLITtCOS
Essas -características descritas são esperadas
em qualquer paciente usuário de digital em sua
dose terapêutica, sendo agrupadas sob o nome
de "efeito digitálico". Entretanto, este fármaco em
doses intoxicantes induz o surgimento de dife
rentes arrítmias que iremos ver ao longo do cu r
so. Não podemos confundir essas possibilidades
de repercussão do digital no eletrocardiograma:
-Efeito digitálico (impregnação)· infra de ST
com aspecto em "pá de pedreiro", encurta
mento do segmento ST.e intervalo QT.
- lntoxicacão digitálica: extrassístole ventri
cular, taquicardia atrial com bloqueio, taqui
cardia juncional, taquicardia ven tricular bi
direcional.
MEOEtE'IRO CAPITU..O 2 • .,.. )
Ots1UIS1os Eu:motlncos
BAIXO, SELECIONAMOS A L GUNS EXERCÍCIOS PARA CUE V OCÊ SEDIMENTE, OE
MODO DEf"INITIVO, DS CONCEITOS OBTIDOS AO LONGO 00 CAPÍTULO E T ENHA
MAt S TRANQUIL IOAOE , SEGURANÇA E BASE TEÓRI C A PARA A VANÇAR AO PRÓXI MO
TEMA. MÃOS À OBRA!
1 - Qual alteração eletrolítica apresenta esta progressão
eletrocardiográfica (A~B~C~D)?
A 8
A) Hipocalemia. D) Hipercalcemia.
B) Hipercalemia.
C) Hipocalcemia.
E) Nenhuma das anteriores.
2 - Qual alteração eletrolítica apresenta esta progressão
eletrocardiográfica (A~B~C)?
A) Hipocalemia.
8) Hipercalemia.
C) Hipocalcemia.
O) Hiperulcemia.
E) Nenhuma das anteriores.
Comentário: O fato da onda
T ter ficado alta e apiculada
- a chamada onda T em
tenda -já aponta para o
diagnóstico de hipercale
mia. Outras alterações ain
da corroboram tal diagnós
tico: achatamento progres
sivo da onda P (terminando
com um ritmo sinoventricu
lar- sem onda P e alarga
mento do QRS). Resposta
certa: letra 8.
Comentário: A evolução ele
trocardiográfica demonstra
um claro encurtamento pro
gressivo do intervalo QT,
entretanto 2 alterações ele
trolíticas acarretam isso: hi
percalemia (letra 8) e hiper
calcemia (letra D), Qual mar
car? A grande dica acaba
sendo a coexistência ou não
de outras alterações de hi
percalemia, como onda T
apiculada (isso não ocorreu
no ao longo da progressão)
e onda P achatada. Então
esse ''simples" comporta
mento eletrocardiográfico de
um encurtamento do interva
lo QT às custas de uma redu
ção da duração do segmento
ST é mais compatível com
hipercalcemia. Resposta cer
ta: letra D.
MEOEtE'IRO
3 - Qual alteração eletrolítica apresenta esta progressão
eletrocardiográfica (A~B~C~D)?
A
A) Hipocalemia.
8) Hipercalemia.
C) Hipocalcemia.
O) Hipercalcemia.
E) Nenhuma das anteriores.
C APITU..O 2 • .... I
Ots1UIS1os Eu:motlncos
Comentário: Clássica de·
mais/ Chama a nossa aten·
ção o comportamento das
ondas Te U: enquanto a
primeira progressivamente
sofre um achatamento, a
segunda vai aumentando ...
Nos casos mais graves (si·
tuação D), a onda U inclu·
sive parece ser uma onda
T, dando a impressão de
um alargamento do interva·
lo QT. Além disso, a onda
f' também sofre alteração e
tem a sua amplitud'e au·
mentada na evolução ele·
trocardiográfica. Esse é o
comportamento padrão
das hipocalemias. Respos·
ta certa: letra A.
4- Qual é o provável d istúrbio responsável por este eletrocardiograma?
DI
A) Hipo 8 mEq!L está associada ao encontro do chamado ritmo sinoventricular,
isto é, sem a formação da onda P, embora a origem do estímulo seja ainda o nodo
sinus.af. O alargamento do QRS também se faz presente nas hipercalemias a partir de
7 mEq/L... Resposta certa: letra 8.
MEOEtE'IRO C APITU..O 2 • .,.. J.
Ots1UIS1os Eu:motlncos
5- Qual é o provável distúrbio responsável por este eletrocardiograma?
A) Hipocalemia.
8) Hipercalemia.
C) Hipocalcemia.
O) Hipercalcemia.
E) Nenhuma das anteriores.
Comentário: O traçado mostra um ritmo sinusal com FC
em tomo de70 bpm. Mas o que chama a atenção é o infra de ST associado ao aparecimento
da onda U (como foi assinalado abaixo). Nesta situação, deve ser dosado o nível sérico
do potássio pela forte possibilidade de hipocalemia. Resposta certa: letra A.
6- Mulher de 63 anos com câncer de mama metas tático apresenta-se com fraqueza mus·
cu lar e constipação. Qual é o provável d istúrbio responsável por este eletrocardiograma?
OI • YR VI v•
1 ' ' IA 1\. IA
r' • "Y ·y T
011 •Vl
011 •VF
A) Hipocalemia.
B) Hipercalemia. n01
• • , .. ._
C) Hipocalcemia. L-~M-~--~~--~~~---~~~~M-~--~~
O) Hipercalcemia.
E) Nenhuma das anteriores.
Comentário: Traçado bastante representativo ... Verificamos um ritmo sinusal, mas com
um segmento ST extremamente encurtado- praticamente inexistente- o que resultou
também em um encurtamento do intervalo QT. Lembre-se das 3 grandes causas para um
QT curto: digital (apresentaria um infra de ST em aspecto de pá de pedreiro, o que não
ocorreu), hipercalemia (teria outras alterações, como onda Tem tenda, QRS alargado, o
que também não houve) e hipe.rcalcemia (a grande marca é um segmento ST encurtado
- muitas vezes ausente). A história relatada no enunciado corrobora a suspeição diag·
nóstica: a metâstase óssea da neoplasia mamária pode ser a causa da elevação do cálcio
e as manifestações de fraqueza e constipação são compatíveis com hiperca/cemia. Res
posta certa: letra D.
MEOEtE'IRO C APITU..O 2 • .,.. '
Ots1UIS1os Eu:motlncos
7 - Idoso com confusão mental e insuficiência renal aguda. Qual é o provável comporta·
mento laboratorial do paciente?
A) c.a- = 14,1 mgldl.
8) K" = 1,8 mEqiL.aVR
C) ca- = 7,1 mgldl.
O) K" = 8,0 mEqiL.
E) Digoxina = 11 nglml.
Comentário: O paciente até se encontra em ritmo sinusa~ mas com diversas alterações
eletrocardiográficas. Há um alargamento tão expressivo do complexo QRS; a onda T
encontra-se um pouco mais apiculada, a onda P está um pouco achatada e há um gran
de prolongamento do intervalo PR: alterações compatíveis com hipercalemia. A insu·
ficiê·ncia renal - relatada no enunciado - deve ser a responsável por esta alteração
eletrolítica. Para sedimentação de conceito, compare este traçado com o do exercício
anterior: ambos mostraram um segmento STencurtado,.mas, na hipercalemia, há uma
onda Tem tenda associada ao achatamento de P e ao alargamento do QRS, caracterís
ticas ausentes na hipercalcemia. Resposta certa: letra D.
8- Homem de 35 anos com di arreia realiza ECG. Se você dispusesse de apenas uma
solic itação laboratorial para confirmar sua principal hipótese, qual você faria?
OI oVR V1 Y4
fl.......\.
~
oVL
0111 oVF V3 V6 , I .i .l. I l "' I I • .,. "T T I T ..... ~
í
MEOEtE'IRO C APITU..O 2 • .,.. .J
Ots1UIS1os Eu:motlncos
A) Potássio.
B) Cálcio.
C) Sódio.
O) Albumina.
E) Cloro.
Comentário: O traçado mostra um paciente em ritmo sinusal com frequência de 75
bpm (aprenderemos a contar frequência no próximo capítulo). A avaliação grosseira
do intervalo Qr mostra que ele se encontra alargado (no próximo capítulo, também
aprenderemos, com detalhes, como medir este intervalo e qual é o valor exa-to de
sua normalidade). Mas qual foi a razão para isso? O que ocorreu no traçado foi o
surgimento de uma onda U que se fundiu à onda r , formando um intervalo QU, que,
de fato, dá a impressão de ser um intervalo QT alargado ... Algumas derivações do
traçado (DI/, V4 e V6) permitem visualizar que não se trata de uma onda Túnica. Esta
alteração é clássica da hipocalemia. Resposta certa: letra A .
9- Qual é o provável d istúrbio responsável por este eletrocardiograma?
'~ ~ ~ -lrRj ~r r-~-]- f
~l~~j·-vL ~+-r .....,_....L---+-:J:""-~-'1~-· ..__1 _.,._a
. t~A-~-f'.i---.L-..-.. J-j"-' 1-t-: -+--L- ~.._t___.=t -t_
A) Hipoçalemia.
B) Hipercalemia.
C) Hipocalcemia.
O) Hipercalcemia.
E) Nenhuma das anteriores.
Comentário: Vamos analisar o ECG ... O ritmo é sinusal com frequência cardíaca em
torno de 68 bpm e não há desvio de eixo. A onda P, o intervalo PR e o complexo QRS
não apresentam alterações, mas o intervalo QT parece alargado ... As principais causas
para esta alteração são hipocalemia (às custas do surgimento de onda U e desapare
cimento da onda r , o que não parece ter ocorrido), hipocalcemia, síndrome do QT lon
go congênita (patologia discutida com detalhes no capítulo 14) e drogas (como veremos
no ca·pítulo 13, alguns lármac-os podem prolongar este intervalo). Dentre as opções
listadas, ficamos com a hipocalcemia. Resposta certa: letra C.
MEOEtE'IRO C APITU..O 2 • .,.. _)l
Ots1UIS1os Eu:motlncos
1 O- O traçado é compatível com todas as opções listadas abaixo, EXCETO:
ou
fLL
A) Hipocalemia.
B) Hipocalcemia.
C) Risco de Torsades des Pointes.
O) Efeito Digitálico.
E) Sindrome do QT Longo Congênita.
Comentário: Questão mais complexa, porém bastante int 2 • 56
O ts JU:Isros ELETROLITICOS
Para visualizar os gabaritos acesse a imagem com seu respectivo código alfanumérico
disponibilizado na área restrita de nosso portal na internet ou leia o código através do MEDCODE.
Cód. 301c2r
ACHATADA CURTO
ALTA LONGO (RISCO
DE TORSADES
CURTO
48 MED~I!!lto CAFITU.O 2 .
OlS~IOS E t.eTROl h tCOS
Para visualizar os exames complementares de cada situação, acesse a
imagem com seu respectivo código alfanumérico disponibilizado na área
restrita de nosso portal na internet ou leia o código através do MEDCODE.
SITUA ÃO 01-Í
Ao avaliar o início do seu in tema to, Marilda afirma
estar adorando os plantões obrigatórios na Emer
gência do Hospital Universitário: são casos novos
todos os dias (uma média de 10 a cada hora ... ),
discussão com os staffs (até 2 da manhã ... ), res
ponsabilidade na divisão do horário noturno (me
tade da noite acordada ... } e ainda é remunerada
por tudo isso (meio salário mínimo ... ). As 3 horas
da manhã do último plantão, recebeu um pacien
te diabético queixando-se de fraqueza muscular.
Ela solicitou um eletrocardiograma (PROJEÇÃO
1} e questionou o paciente sobre a presença de
dor precordial. Diante da negativa, foi dormir des
preocupada. Pela manhã, repetiu o exame (PRO
JEÇÃO 2} e, achando curiosa a modificação do
padrão elétrico, procurou o seu staft ...
Cód. 301c2s1a Có~301c2s1b
1 -Descreva as alterações eletrocardiográficas
presentes em cada um dos ECGs.
2 - Qual é a causa para este comportamento
eletrocardiográfico?
3-Sintetize a proposta terapêutica para o caso.
Coo. 301c2s1a
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Sjtuação 1
PROJEÇÃO 1
Cód. 301c2s1b
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Sjtuação 1
PROJEÇÃO 2
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Sjtuação 1
1· EcG 1 :Onda Tem tenda, ausência de onda P (ritmo sinoventricular?)
ECG 2: Alargamento do QRS, aspecto sinusoidal.
2· Hipercalemia.
3- (1) Gluconato de cálcio.
(2) Glicoinsulinoterapia (10 unidades de insulina+ 50g de- glicose em 20 minutos)+ Bi·
carbonato de sódio (50mL) + beta2-agonista.
(3) Furosemida.
48 MED~I!!lto CAFITU.O 2 .
OlS~IOS E t.eTROl h tCOS
Para visualizar os exames complementares de cada situação, acesse a
imagem com seu respectivo código alfanumérico disponibilizado na área
restrita de nosso portal na internet ou leia o código através do MEDCODE.
Na semana seguinte, Marilda aten
de o caso de uma senhora de 68
anos que foi levada à Emergência Cód. 30 1c2s2
1 - Qual foi a alteração metabólica de base
responsável pelo comportamento eletrocar·
diográfico?
2-Qual foi a razão do mal-estar da paciente
durante a realização do ECG?
0 11
0 111
por familiares com queixa de fraqueza muscular
há 2 semanas, associada a câimbras nos membros
inferiores e fadiga. Na anamnese, refere presença
de diarreia com fezes liquidas há 6 meses, tendo
perdido 30% do seu peso nesse periodo. Interes
sada pelo caso (e ainda traumatizada pelo plantão
da semana anterior), Marilda resolve fazer uma
anuscopia e, durante a inspeção, encontra uma
grande lesão na porção distai do reto. Durante a
reai zação do eletrocardiograma (PROJEÇÃO), a
paciente sentiu-se maL.
3 - Qual é o antiarrítmico de escolha na abor·
dagem da alteração descrita no item anterior?
4- Qual é a provável natureza da lesão en·
contrada na inspeção anal?
V2
·~·
' '
vs
I
-
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Sjtuação 2
1- Hipocalemia.
2- Evolução com Torsades dês Pointes.
3- Sulfato de Magnésio.
4-Adenoma viloso (tumor viloso do retossigmoide produz secreção rica em potáss io).
48 MED~I!!lto C AFITU.O 2.
OlS~IOS E t.eTROlhtCOS
Para visualizar os exames complementares de cada situação, acesse a
imagem com seu respectivo código alfanumérico disponibilizado na área
restrita de nosso portal na internet ou leia o código através do MEDCODE.
' ' -' !:; ITl.J.AÇÃD ~O-~
Após orientar a remarcação da consulta da
paciente anterior no Ambulatório de Nefrologia,
Marilda atendeum novo paciente, Airton, de
53 anos com queixa de dor abdo- iil
minai intensa, associada a náuse-
as e vômitos. Refere que a dor C6d. 301c2s3
iniciou-se no epigastro, mas apresenta irradia
ção para o dorso. No exame físico, o paciente
encontra-se agitado, febril e com equimoses
periumbilicais. Enquanto aguarda a chegada
dos exames laboratoriais solicitados, Marilda
aval ia cuidadosamente o eletrocardiograma do
paciente (PROJEÇÃO). IJ
1 - A alteração eletrocardiográfica é secun
dária a que alteração metaból ica?
2 - Qual é a doença de base do paciente?
V3
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Situação 3
1·Hipoçalçemia.
2·Panc:reatite Aguda.
MEOna R.o
SITUAÇÃO 04
No final do plantão, Marilda - já cansada - re
solve fugir sorrateiramente da Emergência e
passear pelas Enfermarias com o intuito de co
nhecer o perfil de alguns pacientes
internados. No leUo 5 da enfermaria íii
A, interessa-se pelo caso de Amai-
do, um homem negro de 66 anos, Cód. 301c2•4
CAPIT\.\.0 2 • 58
O tsn:MIIOS ELETROÚTICOS
internado para investigação de dor lombar há 3
meses e emagrecimento de 5 kg no periodo. Ao
conversar com o paciente, descobre que, no
último semestre, apresentou 2 episódios de in
fecção respiratória e um quadro de pielonefrite.
Marilda procura pelo prontuário do paciente no
escaninho e encontra, além do eletrocardiogra
ma (PROJEÇÃO), os seguintes exames labora
toriais: hemácias 2.950.000/mm3, hemoglobina
8,1 g/dl, hematócrito 26%, leucócitos 6.700/mm'
com diferencial normal, Ureia 114 mg/dl, creati
nina 4,4 mg/. 100 mm.
1 - A alteração eletrocardiog ráfica é secun
dária a que alteração metabólica?
2- Qual é a doença de base do paciente?
3 - De que maneira a doença de base causa
a alteração metabólica citada no item 1?
t:~~f av~ t iv -~ ~~
1
I"""'~V4; 1 ~ ~rit
·r~ ~-~Wltttt ·~~-JU
('~ ~ f'tm rr~vn ...l. ~ ............
011 I I
t::"" ""í."r' Y....:..M-\-yv.. V""""V ...... \""""\"""~'r"" 1 i--"ir--'+ r 'f."'i"'i:'
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Situação 4
1·Hiper çaJçemia.
2·Mieloma Múltiplo.
3·Destruição Óssea.
TRAÇADO ELETRDCARDIDGRÁFICD
0 ENT ENDI M ENT O DA ELETR OF'H itO LOG IA C ARDÍ A C A NOS ,:"ORN E:CE:U A B AGAGEM T E ÓRIC A
NECESSÁRIA PARA A A D EQUA D A COMPREEN SÃO 00 TRA ÇAO O V IS T O N O E L E"l'"R OCA R O IOGR A M A .
A G O RA, é ~URA ~ÍSICA ! MAS, C ALMA! É A PARTE F'ÁCIL O A F"ÍS IC A . .. ANT ES Q U E RETO R N E M,
EM SUA C ABEÇ A , OS F'ANTASMIAS DEIXA DOS P A R A T R Á S N O ENS I NO M É DIO. VOC~ V A I
P E R CEBER Q U E O ENTE:N O IM E:NTC E L fiRO C AROI OG R Á F'ICO é MAI S F"ÁCI L D O Q U E S E: PODERI A
I M A G INAR . .JÁ T EMOS O CON H ECI MEN T O D E QUE O C O MPORTAME NTO E LfTR IC O DAS CÉLUL.A S
C AR D Í A C A S G ERA U MA A LT E RAÇÃO D E POTE N C IAL E L f.TR I CO N A S U P E RF'ÍC I E OE SUA S
M EM àRAN A S , F"OR M AN O O UM V E T OR Q U E A COM P AN H A0 S E:N T I O O O A C O R RENTE ELÉTR I C A .
EsS E VETOR P ODÊ S E R PERCE B I D O PELO E L ETRO C A R D IO G RAMA Q U f: PRO DUZ U M T RAÇ A DO
C O RRE:SP ONOE:N TE . MAS C O M O 0 ELE'rR OCAA O I O G RAM A F'A Z ISSO? É E XAT AM E:NTE: O QU E
VAMOS ÊSTUOAR A P AR'ri R OE A G O R A! APR OVEIT E: .. .
DERIVAÇDES DO EL:ETROCARDIDGRAMA
FORMAÇÃO DO TRAÇADO
S em dúvida, a parte do eletrocardiograma
considerada mais complexa pela maioria dos
alunos é o entendimento sobre as bases físicas
que geram o seu traçado. Portanto , mais uma
vez, não pule essa parte. Ela é também de fun
damen1al importância na interpretação correta
do ECG e nós até já havíamos ini ciado o seu
entend imento no 1° capitulo ao visualizarmos o
"rosto" de um traçado eletrocardíográfico.
Já compreendemos que o comportamento da
atividade elétrica cardíaca pode ser visualiza
do através de vetores. Como estes são a re
presemação de um dipolo, isto é. de uma di
ferença de cargas, basta pensarmos em uma
forma de mensurar esta variação e létrica. Para
isso, podemos colocar o coração entre 2 ele
trodos (um negativo e outro positivo) que vão
nos dizer a diferença de potencial entre eles.
Nós chama mos a linha imaginária que une
esses eletrodos de derivação.
Para unirmos o conceito fisico, acompanhe, com
atenção, a Figura 1 ... Colocamos o coração no
meio da derivação - que, no caso, apresenta
um eixo diagonal - e representamos al-gumas
possibilidades de posição vetorial. Lembre que,
por motivos de padronização, quando o vetor
resultante aponta para o eletrodo positivo, a onda
gerada no registro eletrocardiográfico é positiva:
é a chamada deflexão positiva (em outras pala
vras, o traçado · sobe"). Da mesma forma, se o
vetor se afasta da derivação positiva, a deflexão
será negativa (ou seja, o traçado "desce") .. Quan
do o vetor for perpendicular ao eixo da derivação,
o traçado será isodifásico (deflexão positiva e
negativa do mesmo tamanho) ou, até mesmo,
isoelétrico (sem qualquer deflexão).
60
-··-
MEOr:u:t RO
:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 61
ELETROCARDIO~ÁFICO
~I GI URA 1 : REPR E S ENTAÇÃO O A ATt V I D AOE ELÉTRICA 0 0 C O RAÇÃO DEPEN DE DA POS I Ç Ã O
DO V ETOR EM REL A Ç Ã O AO EI X O D A DER IVAÇÃO .
Entretanto, todos concordamos que enxer
gar a a tividade elétrica através de uma úni
ca derivação seria um grande desperdício ...
Seria como regravar o filme Matrix sem usar
aqueles recursos de filmagem onde o ator
parava suspenso no ar e a câmera movia-se
ao redor dele, mostrando-o sob todos os
ângulos (Figura 2)! Assim, para que não
fosse desperdiçado um método tão rico
como o eletrocard iograma, fo i criado um
sistema de derivações que avalia o compor
tamento elétrico por ângulos dite rentes, mas
de forma simultânea.
F"I GU R A 2 ,
SISTEMA DE DERIVAÇÕES
A disposição das derivações foi feita de uma
forma que permitisse a visualização da ati
vidade elétrica cardíaca de uma maneira
tridimensionaL Assim, elas foram divididas
em plano frontal e horizontal (Figura 3).
F'l G U RA 3 : P L A N O S A PARTtR OOS QUA I S SÃO
C O N S TRUf DAS A S DER I VAÇÕ E S DO EC G ..
A) Derivações do Plano Frontal
As primeiras 3 derivações foram criadas
por Willen Einthoven em 1913 e são consi
deradas derivações bi polares, exatamen
te por serem constru ídas da forma clássica
que vimos anteriormente: entre dois eletro
dos de pol aridade diferente polaridades
diferentes (positivo e negativo).
Para isso, Einthoven usou 3 eletrodos dis
postos de tal forma - ombro esquerdo, om
bro direito e púbis - que formassem um
triângulo equilátero ("Triângulo de Eintho
ven•), cujo núcleo era o centro elétrico do
coração. Dessa forma, ele conseguiu criar
3 derivações (os 3 lados do triângulo) ao
longo do plano frontal, que foram chamadas
de DI, DI I e DI II (Figura 4).
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
C APIJULO 3 - TIUIÇAOO 62
ELETROCARDIO~ÁFICO
Os eletrodos são colocados nos ombros e
no púbis hoje em dia?
Na realidade, não! O próprio Einthoven, j á
na sua época, estabeleceu a convenção de
usar outras posições ele tricamente compa-
tíveis, mas anatomicamente mais simples
para a colocação dos e letrodos. Sendo
assim, o ombro d ireito virou braço direito;
o ombro esquerdo tornou -se braço esquer
do; e o púbis transformou-se na perna es
querda.
FIGU R A 4 : T R I Â NGUL O O E EIN T lHOV EN - F O RMAÇÃO OAS P R IMEI RAS DER IVAÇÕES.
A partir desta disposição, foram criadas as
derivações bipolares do plano frontal, que são
utilizadas até hoje. Vamos conhecê-las um
pouco melhor? Enlão, observe a Figura 5
enquanto continua a leitura.
A derivação DI é obtida colocando o eletrodo
positivo no braço esquerdo e o eletrodo nega
tivo no braço direito. Assim, esta derivação
registra a diferença de potencial entre braço
esquerdo e braço direito!
No registro da derivação 0 11, o eletrodo posi
tivo é conectado à perna esquerda e o eletro
do negativo ao braço direito. O esta forma,
demonstra a diferença de potencial entre a
perna esquerda e o braço direito ...
Já para a obtençãoda derivação 0111, o ele
trodo positivo é colocado também na perna
esquerda, enquanto o eletrodo negativo, no
braço esquerdo. É por isso que esta derivação
mensura a diferença de potencial entre a per
na esquerda e o braço esquerdo.
Vamos começar a usar estes conhecimenios?
Como já sabemos, a atividade elétrica do co
ração vai gerar um vetor e ele poderá ser
projetado nestas derivações criadas . Se a
projeção deste vetor apontar para o eletrodo
positivo ("olho elétrico") da derivação, o regis
tro gerado será de uma onda positiva, mas,
caso o vetor se afaste da derivação positiva,
o registro será de uma onda negativa.
Repare, na Figura 6, que, se projetarmos o
vetor na derivação OI, ele aponta para o seu
eletrodo positivo, de forma que a onda gerada
será majoritariamente positiva, o mesmo acon
tecendo quando a projeção é feita em 011. Já
quando realizamos a projeção em 0 111, perce
bemos que a direção agora é para o eletrodo
negativo, gerando uma onda com um predo
mínio negativo.
Assim, a análise da variação morfológica de
qualquer onda no registro ao longo das deri
vações do plano frontal permite determinar o
posicionamento espacial bidimensional do
vetor representativo de um fenômeno de das
polarização ou repolarização (esquerda x di
reiia & para cima x para baixo).
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
C APIJULO 3 . TIUIÇAOO 63
ELETROCARDIO~ÁFICO
FI GUR A 5! DER IVAÇÕES B IPOLARES DO P L ANO F"RO N TAL - D I , O I I E 01 11.
F"I I3 URA 6 : A P R O .JE ÇÃO DO V ETO R E M O I E 0 11 APONTA PARA O E L ETRODO
P O S ITIV O , ENQ U A N TO QUE SUA PRO .J EÇÀ O E M 01 11 SE A F ASTA D E STE E L ETRODO
- O N O A P O SITI V A EM 0 1 E 011 ; O NDA NEGATIVA E M 011 1,
Existem mais derivações no plano frontal?
Claro! São 6 derivações frontais no total, ou
seja, faltam ainda mais 3 .. . Estas outras são
consideradas derivações unipolares porque
captam a diferença de potencial entre um ele
trodo positivo e um ponto de potencial zero.
Vamos entender como se chegou a elas com
um pouco de história ...
O americano Frank Wilson (1890-1952) per
cebeu, em 1934, que o centro elétrico do
coração apresentava um potencial próximo
a zero-. Esse ponto ficou conhecido como
"Terminal Central de Wilson". Nesse cenário,
Wilson desenvolveu três derivações no pla
no frontal que refletem a diferença de poten
cial entre cada um dos vértices do Triângu lo
de Eint hoven e o centro elétrico do coração
(VL, VR e VF), representadas na Figura 7.
Só existia um pequeno problema: pela proxi
midade do "Terminal Central" em relação aos
eleirodos, o sinal gerado era muiio fraco e,
portanto, o traçado eletrocardiográfico tinha
amplitude reduzida, sendo de difícil distinção ...
Assim, em 1'942, outro americano, Goldberger,
elaborou um sistema de amplificação do sinal
elétrico, dando origem às derivações que são
utilizadas até o presente: aVR, aVL e aVF (a
de "aumentada"). Perceba, desde já, que es
sas letras (R, L e F) não existem à toa! Elas
marcam o potencial de 3 pontos: o braço di
reito (do inglês righl), braço esquerdo (do in
glês, left) e da perna/pé esquerdo (do inglês
foot) e estão representadas na Figura 8.
F"IG U RA 7.
MEOCLEtRO
9""F)
CAPiruu> 3 • TAAÇAoo 64
Et.e:TROCAROIOGRN:"ICO
DERIVAÇÕE:S 00 PLANO FRONTAL
- -
Derivação Tipo Diferenças de
Potenciais
DI Bipolar Braço Esquerdo
(+)-Braço Direito
(-)
Dll Bipolar Perna !Esquerda
(+)-Braço Direito
(-)
0111 Bipolar Perna Esquerda
(+) -Braço
Esquerdo (-)
aVR Unipolar Braço Direito ( +) -
Zero
aVL Unipolar Braço Esquerdo (+)
-Zero
aVF Unipolar Perna Esquerda(+)
- Zero
TABELA 1,
Como o eletrocardiograma é uma ferramen
ta que avalia a atividade elétrica do coração
de modo simultãneo através de um sistema
de derivações, devemos, nesse momento,
aprender uma simples maneira de represen
tar os eixos das 6 derivações do plano fron
ta l em uma única imagem - o chamado
sistema hexaxial (Figura 9) ou a "rosa dos
ventos do ECG". A forma correta de fazer
isso é reposicionar os seus eixos de modo
que todos eles se cruzem em um ponto úni
co. Esse ponto representa, na verdade, a
origem do vetor no espaço e, a part ir dele,
consegu iremos, de maneira s imultânea,
projetá-lo nas 6 derivações! Observe que as
derivações são separadas por um ângulo de
30°, e que as partes sólidas correspondem
às metades positivas e as pontilhadas, às
negativas.
Por convenção, o correto é reo resentar as
decjyacões através de uma seta gye yaj do
eletrodo oegatjyo para o eletrodo positivo
Assjm. se a projeção do vetor !lyer o mesmo
sentido da derjvação será gerada yma onda
posjtjya o contrário ocorrendo Quando a pro
jecllo do vetor estiver voltada oara o sentido
oposto ao da deàyação fFiqura 10).
~ absolutamente imprescindível que você te
nha entendido as informações desse capitulo
até esse momento! Vamos resumir? Os deta
lhes históricos de Einthoven, Wilson e Gold
berger, bem como o tipo de derivação (uni ou
bipolar) são interessantes para quem está
aprendendo ECG, mas tem pouca utilidade
prática .. . O que não podemos perder de vista
é que, até agora , foram apresentadas as 6
derivações do plano frontal (DI, Dll, Dlll, aVR,
aVL e aVF) que sempre são pensadas de
modo simultâneo na interpretação eletrocar
diográfica e por Isso devemos saber construir
esse sistema hexaxial da rosa dos ventos.
J!i!lJllilliJli!j·i•i#l#b
'J'IJLL~i'J !!: h J1 r' ;.,J.~.P/.!!N
Considerado o "Pai da Eletrocardlografia",
Einthoven nasceu em 1860 em Semarang
(atual Indonésia) e faleceu aos 67 anos em 29
de Se lembro de 1927 em leíden (Holanda),
Antes de Elnthoven, já se sabia que o coração
apresentava propriedade elétrica, mas, até
então, ela só efa avaliada inserindo-se ele1rodos
diretamente no coração! Para solucionar esse
obslâculo, ele criou o seu galvanômetro de corda
em 1901, que já conseguia medir pequenas
quantidades de corrente. Os aperfeiçoamentos
de tal protótipo nos levaram ao aparelho de
eletrocardiograma tal qual conhecemos hoje.
Por sua contribuição à ciência, foi agraciado
com o prêmiO Nobel de Fisiologia e MediCina
em 1925. Ao recebê-lo, Einthoven declarou
que ·um novo capítulo se abria no aprendizado
das doenças do coração, não por obra de um
só homem, mas pelo trabalho conjugado de
muitos homens de talento que, espalhados
pelo mundo e sem respeitar fronteiras polltícas,
convergiam seus esforços para um propósito
comum: avmentar nosso conhecimento da
doença. para alívio da humanidade sofredora",
Sábias palavras!
-··-
ME Or:u: t RO
:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 65
ELETROCARDIO~ÁFICO
FIGURA 8: DERIVAÇÕES UNI POLARES DO PLANO f"RONTAL - AVR , AVL E AVF'.
..... -...... !0111
FIGURA 9: SISTEMA HEXAXIAL • REPRESEN TAÇÃO S IMULTÂN EA DAS 6 DERIVAÇÕES DO PLANO
f"RONTAL IA ••ROSA DOS VENTOS.., DO ELETROCARDIOGRAMA) ,
~aVR)-150°
------------+1800
+120° +60°
(0111) +90° (011)
0 @l2S1
FIGURA 1 O: A PRO.JEÇÃO 00 VCTOR EM CADA DERIVAÇÃO CON STRÓI TRAÇADOS DIFERENTES.
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 66
ELETROCARDIO~ÁFICO
Mas como utilizamos este sistema na prática?
Basta percebermos que a polaridade da onda
estudada em cada uma das 6 derivações re
presenta uma pequena informação sobre a
posição de seu vetor no espaço. Portanto,
temos que juntar todos estes "pontos de vista"
que cada derivação fornece até que seja al
cançado o intervalo exato em que o vetor se
encontia naquele sistema hexaxia l.
O sistema de eixos é muito mais utilizado para
determinação do vetor médio da despolariza
ção ventricular (complexo QRS no ECG), ape
sar de funcionar com qualquer onda no traçado.
Como o QRS, com muita frequência não é
uma onda única no ECG e sim um complexo
de ondas, temos que fazer algumas ressal
vas para avançarmos no raciocínio ... Quan
do o vetor da despolarização ventricular tiver
o mesmo sentido da derivação, o QRS for
mado naquela derivação será predominan
tente positi vo (mesmo que tenha alguma
pequena onda negativa). Ao contrário, quan
do o vetor ti ver sentido oposto ao da deriva
ção, o QRS será predominantemente nega
tivo. Já quando o vetor for exatamente per
pendicular à derivação, a soma das áreas
das ondas positivas e negativas será zero.
Nestes casos, o complexo será isod ifásico
(uma deflexão positiva e outra negativa com
a mesma área), ou mesmo isoelétrico (linha
reta). Vamo·s nos familiarizar com estas mor
fologias mais comuns de complexo QRS na
Figura 11.
FIG UR A 1 1 .
CÁLCULO DO EIXO ELÉTRICO DO QRS NO
PLANO FRONTAL
O primeiro passo para calcular o eixo elé
trico médio do QRS- eixo médio da des
polariz:ação ventricular- é isolar o vetor em
um dos quatro quadrantes principais, sepa
rados por ângulos de 90°. Para sistemati
zarmos esse processo, basta que tenhamos
inicialmente em nossa mente aquele eixo
hexaxial e, em seguida, fixemos nossa
atenção somente em DI e aVF. Veja na Fi
gura f 2 que os semicírculos escuros repre
sentam os intervalos definidos quando DI
ou aVF são positivos.
Olhe novamente para o sistema hexaxial e
perceba que a polaridade do QRS em DI de
fine se o vetor está orientado para esquerda
(positivo) ou direita (negativo), enquanto aVF
nos informa se está para baixo (positivo) ou
para cima (negativo). Portanto, considerando
a interseção destas duas derivações, teremos
a definição de que quadrante o e ixo elétrico
do QRS se encontra (Figura 13).
·•-r
'
.... ...
rD)t •W tDn .....
!'lO U RA 12,
Uma vez re·alizado esse passo inicial, basta
agora olhar para as derivações que não cru
zam o quadrante encontrado (Tabela 2) para
achar o intervalo mínimo de 30° onde estará
contido o vetor. Por exemplo, se o eixo está
entre o• e +90°, teríamos que olhar para Dll l
(perpendicu lar a +30°) e aVL (perpendicular a
+60°) - confira estas posições no sistema de
eixos que criamos. Ao adotarmos esta. estra
tégia e avaliarmos a morfologia do QRS nes
tas derivações, saberemos em que intervalo
exato de o• a 90° se encontra o eixo elétrico.
-··-
M EOr:u: t RO
:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 67
ELETROCARDIO~ÁFICO
OI aVF
-90·
' ' I •
' ' ' I
'
OI aVF
+
' + o• ~1800 -----------------+--------
DI aVF
+
+
+900
OI
+
aVF
+
F IGURA I 3: A P O LARIDADE 00 REGISTR O E M OI E AVF'
DETERMINA O QUADRANTE D A ATIVIDADE ELETR ICA,
TABELA 2.
Será q-ue eu entendi mesmo?
Para sedimentarmos esse conhecimento ad
quirido, veja o exemplo da Figura 14.
No eletrocardiograma estão d ispostas so
mente as derivações do plano frontal. A po
laridadle predominante do QRS em DI e aVF
é positiva e, portanto já podemos isolar o
quadrante entre o• e +90°. o próximo passo
é olhar para as derivações que não cruzam
este quadrante: 0 111 e aVL... Neste caso, o
QRS em 0111 também esiá positivo (veja o
traçado!), o que coloca o e ixo entre +30° e
+90° (perceba que, entre o• e +30°, 0 111 seria
negativo!). Por último, analisamos aVL: como
a polaridade do QRS é predominantemente
positiva, o e ixo está entre +30° e +60°. Se
aVL fosse negativo, o intervalo seria entre
+60° e +90°. Viu como é fácil?
E pode ficar ainda mais simples ...
Neste momento, vamos explicitar um macete
bastante vá lido na determinação da posição
de um vetor: a chamada "Regra das Perpen
diculares". Como já havia sido mencionado
anteriormente, quando o complexo QRS é
isodifásico ou isoelétrico em uma derivação
qualquer, significa que o vetor é perpendicu
lar àquela derivação. Assim, encontrar o eixo
nestes casos toma-se mais fácil! Basta de
terminarmos inicialmente o quadrante onde
o vetor está situado-o que já sabemos fazer
ao olhar para DI e aVF. A seguir, procuramos
se existe uma derivação isoelétrica ou isod i
fásica: o vetor é perpendicular a ela, apon
tando para o quadrante encontrado. Veja, na
Figura 15, que o QRS é positivo em OI e aVF,
logo o vetor está entre o• e 90°. Em seguida.
percebemos que 0 111 esiá isoelétrico, o que
faz com que o vetor esteja perpendicular a
esta derivação, ou seja, exatamente a +30°.
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
DI 011 0111
(aVR)-1
aVR aVL aVF
FIGURA 1 4 .
-1200
' ' ' '
+120"
(DI li)
'
-+90"
(a V F)
CAPIJULO 3. TIUIÇAOO 68
ELETROCARDIO~ÁFICO
-80'
I
I
I
I
I
+60"
(011)
(aVL)
RESUMINDO:
POSSIB L DAOES P.ARA O CÁLCULO DO E I XO DO QRS.
Possi biljdade I
(1) Definir o quadrante: olhar para DI e aVF.
(2) Ol har para as derivações que não cruzam o quadrante- encontrado.
Possj bilidade 11
(1) Definir o quadrante: olhar para DI e aVF.
(2) Regra das Perpendiculares: encontrar a derivação isoelétrica ou isod ifâsica ~ o eixo
estará perpendicular a ela.
Agora, vamos treinar!
Veja os exemplos a seguir e determine o eixo médio do QRS, ou seja, o sentido da despola
rização ventricular. Se necessário, desenhe ao lado o eixo hexaxial para ajudâ-lo .. .
DI 011 Dlll
aVR aVL aVF
FIGURA 1 S.
-90"
-1200 ~
' I
' I
' I
\ / -30"(aVL)
'
+120"
(0111) +90"
(a V F)
+60"
(011)
MEOr:u: t RO
Eixo médio do QRS ~
-··-:-lr':
CAPIJULO 3. TIUIÇAOO 69
ELETROCARDIO~ÁFICO
Eixo médio do QRS = +30• a +60•.
MEOr:u: t RO
Eixo médio do QRS •
-··-:-lr':
CAPIJULO 3. TIUIÇAOO 69
ELETROCARDIO~ÁFICO
Eixo médio do QRS =-60• (desvio para esquerda).
MEOr:u: t RO
Eixo médio do QRS s:
-··-:-lr':
CAPIJULO 3. TIUIÇAOO 70
ELETROCARDIO~ÁFICO
Eixo médio do QRS = + 90'.
MEOr:u: t RO
Eixo médio do QRS •
-··-:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 70
ELETROCARDIO~ÁFICO
Eixo médio do QRS = · 30•.
ME Or:u: t RO
Eixo médio do QRS =
-··-:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 70
ELETROCARDIO~ÁFICO
Eixo médio do QRS = + 60• a + 90•.
-··-
MEOr:u:t RO
:-lr':
CAPIJULO 3. TIUIÇAOO 71
ELETROCARDIO~ÁFICO
B Deriva ões do Plano Horizontal
Não esqueça que as derivações do plano
frontal representam uma orientação apenas
bidimensional dos vetores, não nos informan
do sobre seus sentidos anteroposteriores. Esta
noção é dada pelas derivações precordiais
que compõem o plano horizontal, dispostas
ao longo do gradil costaL Elas permitem uma
análise tridimensional da atividade elétrica
cardíaca. As precordiais são unipolares e re
gistram a diferença de potencial entre os ele
trodos positivos localizados ao longo do tórax
e o "Terminal Central" que já conhecemos. A
Figura 16 mostra o posicionamento correto
dos 6 e letrodos que fazem parte deste plano
(V I , V2, V3, V4, VS e V6).
Apesar de anatomicamente as 6· derivações
não estarem exatamente no mesmo plano,
para fins de interpretação do ECG assume-se
que elas estejam. Como estas derivações es
tão mais próximas ao coração do que as do
plano frontal, a amplitude do registro eletro
cardiográfico costuma ser maior neste plano
horizontaL A localização específica de cada
eletrodo permite a visualização de partes di
ferentes do coração. Isto será fundamental
para compreender, mais tarde, as diferentes
morfologias de complexo QRS observadas ao
longo destas derivações precordi.ais.
Comece a perceber que, na posição normal
do coração, o ventrículo direito (VD) localiza
-se logo atrás do estemo, enquanto o ventrí
culo esquerdo (VE) está deslocado para a
esquerda. Pela diferença de massa cardíaca
(VE muito maior do que VD), a princípio nem
enxergaremos muito bem a ativação do ven-
trículo direito ... Deste modo, VI e V2 repre
sentam melhor o septo interventricular (e
eventualmente o próprio VD); já V3 e V4 "en
xergam" melhor a parede anterior do VE; en
quanto VS e V6 são as ideais para a parede
lateral do ventrículo esquerdo (Figura 17).
C) Outras Derivações
Existem outras derivações que podem ser
utilizadas e1111 situações excepcionais, ajudan
do na interpretação do registro.
Um exemplo são as precordiais direitas
(Figura 18) , muito utilizadas para diagnosti
car o infarto do ventrículo d ireito na presen
ça de infarto inferior (assunto do Capítulo
12). Neste caso, basta inverter a posição
de VI e V2 e posicionar os demaise letro
dos á d ireita exatamente como uma imagem
em espelho das precord iais esquerdas, que
acabamos de visualizar. Nesse contexto,
os mais úteis são V3R e V4R - boas deri
vações para se "enxergar" as alterações do
ventrículo d ire ito.
" Com relaçã.o à nomenclatura, apesar destas de~
rivações colocadas na parle direita do tórax serem
denominadas precordiais direitas. este termo tam·
bém e frequentemente utilizado para se referir às
derivações precordiais clássicas, que não estão
localizadas tão á esquerda, isto é, V1, V2 e V3.
Além disso, nos casos em que há também
suspeita de infarto de parede posterior do VE,
podemos lançar mão de V7 e V8 (5' espaço
intercostal na linha axilar posterior e linha es
capular posterior, respectivamente).
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
FIGURA 1 6: D ERIVAÇÕES PRECOROI A IS,
CAPIJULO 3. TIUIÇAOO 72
ELETROCARDIO~ÁFICO
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
riGURA 17.
F'IG·URA 18: DERI VAÇÕES PRE
E
~
I ' I I t-
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I I I S I I I >
I I QRS I I I E
I I I I I :i I lntervolo I RI QT ~ : i ' .... _
....
.... ' -F"IGURA 2 1 .
O registro eletrocardiográfico pode ser inter
pretado como um gráfico de voltagem X tem
po, representando as diferenças de poten
ciais que ocorrem ao longo de um ciclo car
díaco (Figura 19). O papel utilizado para
interpretação do registro é mílimetrado, de
marcando quadrados de 1 e 5 mm através,
respectivamente, de linhas claras (formam
"quadradinhos") e escuras (formam "quadra
dões·). A voltagem é representada no e ixo
vertica l, onde cada milímetro do papel repre
senta O, 1 mV. O aparelho deve sempre ser
calibrado antes de iniciar o regist ro para que
esta proporção (1 mV = 10 mm) seja respei
tada. O tempo é representado no eixo hori
zontal, onde cada quadradinho de 1 mm
corresponde a 0,04s ou 40ms {velocidade
padrão de registro de 25 mm/s).
Estes parâmetros são considerados como
padrões para realização de um eletrocardio
grama convencional. Entretanto, em situações
onde a baixa ou elevada amplitude do registro
dificultam a sua interpretação, o e letrocardió
grafo pode ser reprogramado para expressar
uma voltagem maior (2N) ou menor (N/2),
respec tivamente. Além disso, a velocidade do
papel também pode ser lentificada (ex.: 50
mm/s ),. o que muitas vezes facilita a análise
de certas taquiarritmias.
Como saber se o ECG está " no padrão"?
Descobrir se a velocidade utilizada foi a pa
dronizada é simples, pois, geralmente, a ve-
locidade do papel aparece explicitada no
mesmo. Então, basta procurar se está escrito
25 mm/s. Já a voltagem utilizada é represen
tada, em ge·ral, por um retângulo no início de
cada traçado do ECG (Figura 20). Assi m, um
retângulo com uma altura de 2 •quadradões·
(10 mm) mostra que o aparelho foi calibrado
com padrão clássico. Se o retângulo tiver ape
nas 1 "quadradão" (5 mm) de altura, é indica
tivo de que foi usada a metade do padrão
clássico, isto é. N/2. Ocasionalmente, você
ainda verá um retângulo que sobe 2 "quadra
dões" e, em seguida, desce para apenas 1
"quadradão", significando que as derivações
frontais (OI, 011 , 0 111, aVR, aVL e aVF) estão
com padrão clássico (N), enquanto as precor
diais (V1 a V6) estão com N/2.
CICLO CARDÍACO E
TRAÇADO
ELETROCARDIOGRÁFICO
Em qualquer sistema muscular do organismo a
excitação precede a contração. Portanto, no
eletrocardiograma as ondas representativas da
ativação de cada região antecedem, por alguns
milissegundos, a contração cardíaca em si. Um
traçado eletrocardiográfico é composto por on
das, segmentos e intervalos que juntos com
põem o ciclo elétrico cardíaco (Figura 21 ).
As ondas devem sempre ser avaliadas quan
to à morfologia, amplitude (altura), duração
(largura) e polaridade. Os segmentos repre-
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAPIJULO 3- TIUIÇAOO 77
ELETROCARDIO~ÁFICO
sentam os momentos em que não há formação
de diferenças de potencial, o que significa que
todas as células (ou, pelo menos, a maioria
delas) estão despolarizadas ou em repouso
elétrico. Por este motivo, os segmentes são
isoelétricos (linha reta), ou seja, não apresen
tam deflexões. Por último, os intervalos são
compostos por combinações específicas de
ondas e segmentos. Analisaremos agora cada
um destes elementos.
OndaP
A onda P corresponde à despolarização dos
átrios. Como foi visto no 1° capítulo, a ativação
do átrio direito forma a sua parte inicial, ha
vendo, em seguida, um período de interseção
dos dois átrios, enquanto somente o átrio es
querdo é responsável por gerar a parte final.
Classicamente, os alunos guardam o concei
to de que as duas melhores derivações para
se analisar as propriedades da onda P (mor
fologia, duração e amplitude) são Dll (plano
frontal) e V1 (plano horizontal). Por que esta
regra? Mais do que gravar essa informação,
devemos entendê-la. Para isso, temos que re
cordar a posição dos vetores de despolariza
ção atrial no espaço ...
Perceba na Figura 22 que a despolar ização
do átrio tem um sentido de "direita para es
querda• e de "cima para baixo·, ou seja, exa
tamente a orientação da derivação 0 11 , que
une o braço direito à perna esquerda. Assim,
a tendência é que a onda P tenha a sua maior
amplitude nesta derivação,Porém,
como sua frequência de despolarização é
mais lenta que a do NSA (40-60 vezes por
minuto), em situações normais ele não apre
senta função de marca-passo. O NAV está
encarregado de •atrasar" a condução atrio
ventricular do estímulo para permitir que a
contração atrial preceda a contração ventri
cular, possibilitando assim um esvaziamento
adequado do átrio durante a diástole. Esta
propriedade do NAV também é importante
para preservar os ventrículos de eventuais
taquiarritrnias atriais que poderiam degenerar
para arritmias ventriculares malignas, caso
este "filtro" não estivesse presente. Esta é a
chamada "condução decremental", ou seja,
à medida que o estímulo alcança o NAV,
ocorre uma queda progressiva da eficácia da
propagação através dele.
O SISTEMA HIS-PURK!NJE (SHP) origina
-se do NAV à medida que sua estrutUJra en
trelaçada gradualmente se torna ordenada.
No feixe de His, as células são orientadas de
fonma longitudinal e apresentam uma bainha
de colágeno, penmitindo um aumento da ve
locidade de condução até atingir seu pico nas
fibras de Purkinje. O feixe de His divide-se
ainda em ramos direito e esquerdo, sendo
que o primeiro segue até a base do músculo
papilar anterior direito sem sofrer bifurcação
alguma. O ramo esquerdo origina dois hemi
fasciculos: o anterossuperior e o pos teroin
ferior, que seguem para seus respectivos
músculos papilares. Tais hemifascículos e o
ramo direito caminham através do subendo
cárdio até originarem as fibras de Purkinje,
que então chegam até os miócitos ve-ntricu
lares, configurando as tenminações periféri
cas do sistema de condução.
Para visualizar o funcionamento do sis
tema de condução cardíaco, acesse o
vídeo (código: 30112), disponibilizado na
área restrita de nosso portal na
internet, ou leia o código através ~
doMEDCODE:
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 .
ELETROf~OOV. CAAot.CA
Figura 28
de Kent
Figura 2C
O sistema de condução cardíaco pode apresentar variações patológicas: são as chamadas •vias
acessórias• que comunicam diretamente os átrios com os venttfculos. Esta espécie de •atalho"
atrioventricular, evita a passagem do estimulo pelo NAV, que, como vimos, lentificava a condução
elétrica. Estas vias ganharão mais. importância quando estudarmos as sfndromes de pré-excitação
ventricular. As três principais vias acessórias são: o feixe de James, o feixe de Kent e as fibras
de Mahaim.
O Feixe de James (Figura 2A) é constitufdo por fibras de condução rápida que comunlcar.n o
feixe internodal posterior com o feixe de His, [()(mando assim um verdadeiro desvio do NA V. O
Feixe de Kept (Figura 2B), que pode estar presente em recém-nascidos até os seis meses. de
idade, comunica diretamente o átrio com o ventrículo numa via de condução formada
exclusivamente por miócitos, devido a uma falha no Isolamento do corpo fibroso. Ele pode estar
presente no átrio esquerdo (mais comum) ou direito. Por último, as Fibras de Mahajm (Figura
2C) comunicam a parte mais inferior do NAV ou feixe de His com a parte superior do septo
lnlervenlricular, [()(mando um desvio precoce do sistema de condução intravenlrlcular.
7
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 . 8
ELETROf~OOV. CAAot.CA
O COMEÇO DE TUDO .•.
Vocês já se perguntaram como o coração é capaz de continuar a apresentar cont ração
mesmo após ter sido retirado do corpo? Logicamente, como o fenômeno contrátil é prece
dido de um fenômeno elétrico, tal fato só pode ser possível se o coração possuir um si stema
elétrico independente do restante do corpo e que tenha ainda a capacidade de gerar impulsos
nervosos de modo autônomo.
E é exatamente isso que acontece! A essa capacidade de geração espontânea de um impulso
elétrico (ou corrente elétrica) damos o nome de automatismo cardíaco. Aliás, se essa proprie
dade cardíaca não existisse, o primeiro transplante cardíaco realizado em Dezembro de 1967
continuaria, ainda hoje, sendo apenas um sonho.
A capa da revista americana semanal Time Magazine de 15 de Dezembro de
1967 trazia o Dr. Chrisliaan Barnard, pioneiro no transplante cardfaco, tendo
realizado a primeira cirurgia deste tipo 12 dias antes no Hospital Groote
Schuur, na Alrica do Sul. Ele transplantou o coração de Denise Ann Darvall,
25 anos, que morrera em um acidente de carro, para louls Washkansky, 57
anos, que viveu apenas 18 dias após a cirurgia, vitima de uma pneumonia.
A realização da cirurgia só foi possível após o conhecimento da propriedade
de automatismo cardfaco, que permite que um coração. mesmo desnervado.
mantenha sua propriedade contrátil.
Mas como uma corrente elétrica é formada?
Entenda que a corrente elétrica. nada mais
é que um fluxo de elétrons - partículas que,
por definição, têm carga negativa. Ou seja,
alguma coisa tem que acontecer para pro
piciar essa movimentação de elétrons. Va
mos usar um exemplo bem familiar para que
você entenda! Pense, nesse momento, em
uma p ilha ou uma bateria comum ... Pense
mesmo! A pilha que, por exemplo, faz fun
cionar o controle remoto da sua televisão ou
que é capaz de ligar uma lâmpada .. . Lem
bre-se de que ela tem 2 pólos: um positivo
e outro negativo. Quando esses pólos são
conectados a um circuito elétrico, eles for
mam o incentivo necessário para o fluxo de
elétrons acontecer: eles saem do pólo ne
gativo para o pólo positivo - está formada
a corrente elétrica. Concluindo, as pilhas e
baterias conseguem formar uma corrente
porque são estru turas que tem o que cha
mamos de um dipolo, isto é, um pólo nega
tivo e um pólo positivo.
E o coração? Já conhecemos o seu circuito
elétrico (sistema de condução), mas, para
ter uma corrente elétrica atravessando sua
extensão, e le precisa formar esse dipolo.
Ele consegue isso ao alterar a carga que
existe em sua membrana. E um processo
que parece complexo, mas que, na verda
de, tem até uma lógica interessante para
acontecer .. .
Pode soar estranho em um primeiro momento.
mas entenda que a célula cardíaca no seu
estado de repouso já está polarizada! Ela já
apresenta o seu meio extracelular positivo e
o intracelular negativo - a membrana celular
impede a existência de corrente elétrica entre
estes 2 meios. Mas, como todas as células
estão dessa maneira, não há um dipolo entre
elas e assim, não há corrente elétrica. Portan
to, em algum momento, uma célula cardíaca
inverte essa polaridade, ficando com o extra
celular negativo. Com 2 pólos diferentes, o
coração, assim como a pilha, consegue formar
uma corrente elétrica (Figura 3).
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 . 9
F I GU R A 3 .
A ) Potencial de Repouso
Nesse momento, vamos entender como a cé
lula consegue ficar polarizada no seu "repou
so", como ela consegue inverter essa polari
dade para formar a corrente elétrica e como
essa inversão é transmitida célula a célula
para que a corrente elétrica se perpetue pelo
coração.
A célula miocárdica em repouso apresenta
diferentes concentrações intra e extracelulares
de íons que permitem a manutenção de um
potenc ial transmembrana de repouso entre -65
e .go mV (essa variação depende do t ipo ce
lular - veremos isso adiante), ou seja, o meio
extracelular é mais eletropositivo do que o in
tracelular. Apesar de vários cátions e ãnions
participarem da manutenção deste potencial,
os dois principais íons responsáveis por esta
propriedade são o potássio (K') e o sódio (Na'),
especia lmente o primeiro.
O principal fator para manutenção do potencial
de repouso transmembrana da célula cardíaca
com sua típica negatividade intracelular é a
bomba de Na' /K' ATPase. Sua ação envolve
jogar 3 Na• para fora da célula, enquanto co
loca apenas 2 K• para o meio intracelular, o
que contribui para tomar o interior mais nega
tivo (saíram 3 cargas positivas e entraram
apenas 2 ... ). Em outras palavras, poderíamos
afirmar que, sem ela, não haveria. a formação
do potencial iransmembrana. A bomba de Na•/
K• ATPase é o começo de tudo!:
ELETROf~OOV. CAAot.CArazão pela qual
Dll acaba sendo a melhor derivação para
avaliar as propriedades dessa onda. A sua
morfologia habitual em Dll é arredondada e
monofásica (apenas uma onda positiva), po
dendo apresentar pequenos entalhes que,
em condições normais, não se distanciam por
mais de 30 ms.
Os Vetores da Ativação dos Átrios
A E - Vetor de Atlvaçio doAIIto lilll
SAP - Vetor Médio da A~
FIGURA 22.
E qual o motivo de V1 também ser especial
aqui?
Entenda que o posicionamento de V1 e V2 na
parte anterior do tórax permite que os vetores
atriais direito e esquerdo sejam visualiza.dos de
um ângulo onde apresentam sentidos opostos.
Assim, nestas derivações, a onda P apresenta
uma morfologia bifásica (positiva e negativa),
onde a parte positiva representa a ativação do
-··-
MEOr:u:t RO
:-lr':
CAPIJULO 3. TIUIÇAOO 7 8
ELETROCARDIO~ÁFICO
átrio direito (vetor "aponta" para os eletrodos
de V1 e V2) e parte negativa a do átrio esquer
do (vetor "foge" dos eletrodos), fato que é ainda
mais pronunciado em VI. Deste modo, esta
derivação consegue avaliar o comportamento
de ambos os átrios de forma separada.
A duração da onda Pé diretamente proporcional
á idade e inversamente à frequência cardíaca, e
não deve exceder 100 ms. Sua amplitude não
deve ultrapassar 2, 5 mm em Dll e I ,5 mm em
V1 (parte positiva)- Figura 23. Por último, já vi
mos qu:e sua polaridade nas derivações do plano
frontal depende da orientação do vetor médio da
despolarização atrial, que geralmente é em tomo
de +60°, mas pode ficar entre 00 (pessoas longi
lineas) e +90° (pessoas brevilineas). Assim, em
indivíduos normais ela sempre deverá ser posi
tiva em DI, Dll e aVF e negativa em aVR, apre
sentando polaridade variável em Dlll e aVL.
Intervalo e Segmento PR
O segmento PR corresponde à l inha isoelé
trica que se inicia exatamente quando ter-
-Significado: despolarização atrial.
- Eixo· médio: o• a +90•.
mina a onda P e vai até o começo do com
plexo QRS. Ele representa a condução do
estímulo a través do nodo atrioventricular, do
feixe de His e das fibras de Purkinje e sua
duração é inversamente proporcional à fre
quência car'd iaca. É importante sempre pes
quisarmos desníveis deste segmento (com
parar com a linha de base do início da onda
P), pois sua presença está associada a al
gumas doenças importantes como a pericar
dite (infradesnível), que será estudada no
Cap ílulo 14.
O intervalo PR é a associação da onda P
com o segmento PR. Na prática , a análise
deste intervalo é uma referência mais fide
digna da condução atrioventricu lar, po is
representa o deslocamento do estímulo des
de o nodo sinusal até os miócitos ventricu
lares. A duração normal do intervalo PR deve
ficar entre 1 20 ms e 200 ms. Valores abaixo
desta faixa devem levantar a suspeita de
pré-excitação ventricular (Capítulo 14), en
quanto uma duração maior, por definição,
corresponde a um bloqueio atrioventricular
de primeiro grau (Capítulo I 0).
• Formato: monofásica, positiva e arredondada em Dll / bifásica em VI .
-Duração (largura): até 100 ms (ou 2,5 quadradinhos), embora alguns autores considerem até
120 ms (ou 3 quadradinhos).
-Amplitude (altura): até 2,5 mm em Dll (ou 2,5 quadradinhos) e até 1,5 mm em VI.
Onda P normal
2,5mm
1,5mm
F"IGUR:A 2:3.
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 79
ELETROCARDIO~ÁFICO
·Significado: condução atrioventricular
• Formato: vai do início da onda P até o início do complexo QRS
• Dur.ação (largura) : 120 a 200 ms (3 a 5 quadradinhos)
Com lexo QRS
O complexo QRS representa o processo de
despolarização ventricular e pode ser compos
to por apenas uma onda ou conjun-to de ondas.
Ele é constituído pelas resultantes dos vetores
formados durante a ativação ventricular e se
inicia n.a primeira onda do complexo, terminan
do no ponto J (junção da última onda do com
plexo com o segmento ST). É exatamente pelo
fato da despolarização ventricular ser represen
tada por mais de um vetor (lembre: septo médio,
parede livre de VE e parede basal) que o com
plexo QRS pode apresentar mais de uma onda!
Mas como são definidas as ondas do QRS?
Onda Q- 1' onda negativa. Sua duração não
deve ser maior do que 0,04 seg {1 quadradi
nho) e sua amplitude não pode exceder um
terço da onda R no mesmo complexo (exceto
em 0111 e aVR)
Onda R- 1' onda positiva
j_
y
Onda S-onda negativa que sucede a onda R
Onda R'- 2 ' onda positiva
Onda S'- onda negativa que sucede a onda R'
• Concluindo; todas as ondas posftivas (para cima) são
chamadas de R, enquanto as ondas negativas (para
baixo) podem ser Q (antecede onda R e só pode exis
tir uma por complexo) e ondas S (após onda R).
Por convenção, a onda com maior área re
cebe uma letra maiúscula e a letra com me
nor área, letra minúscula. Quando as ondas
apresentam a mesma área, ambas são c las
si ficadas com uma letra maiúscu la. Se o
complexo não apresenta onda R (polaridade
toda negativa), sua morfo logia é denomina
da QS. Ao longo dos próximos capítulos,
veremos também como diferentes patologias
podem a lterar estes padrões em derivações
específicas.
Por enquanto, como um treinamento, defina
abaixo as morfologias do complexo QRS ...
-
FIGURA 24.
A duracão do complexo QRS geralmente não
ultrapassa 100 ms em indivíduos normais e
valores maiores ou iguais a 120 ms são sempre
sinal de patologia, indicando, na maioria das
vezes, algum distúrbio de condução intraven
tricular (como bloqueio de ramo). A duração é
diretamente proporcional à idade e tamanho do
coração e inversamente à frequência cardíaca.
A onda com a maior amplitude do complexo deve
ter, no mínimo, 5 mm no plano frontal e 8 mm
no horizontal (derivações precordiais). Quando
nenhuma onda de qualquer derivação no plano
frontal e horizontal for maior do que estes valo
res, haverá, por definição, baixa voltag:em do
complexo QRS, que pode estar associada a
diversas patologias como o derrame pericárdico.
amiloidose, enfisema pulmonar e hipotireoidis
mo. Estas d oenças podem influenciar tanto a
quaniidade de dipolos gerados, quanio a resis
tência do meio condutor que transmite as dife
renças de potenciais para os eletrodos.
R pura QS QR RSR'
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAPIJULO 3. TIUIÇAOO 80
ELETROCARDIO~ÁFICO
Em rel ação à voltagem máxima do QRS, os
valores são mais variados e não há um
ponto de corte universalmente aceito. Exis
tem diversos critérios que são utilizados
para diagnosticar sobrecarga ventricular
esquerda que dependem da presença de
certos cortes de amplitude. Este tema serà
abordado com detalhes no próx imo capítu
lo (Sobrecargas Cavitárias). De uma forma
geral, a amplitude do complexo QRS é
maior em indivíduos magros (menor resis
tência da parede torácica) e naqueles com
maior massa card íaca (maíor quantidade
de dípolos).
Por último, o eixo médio do complexo QRS,
no plano frontal, pode ficar entre -30° e +90°
dependendo do biotipo do paciente (longilíne
os _, mais próximo de +90°; brevil íneos _,
mais próximo de -30°). Em geral, ele fica em
torno de +60°: lembre-se que deverá ser sem
pre positivo em DI, Dll e aVF e negativo em
aVR, podendo ser variável em DI II e aVL.
Já no p lano horizon tal, o comportamento do
QRS é característico e interessante: ele vai
se tornando gradualmente positivo de V1 a
V6 (Figura 25). Isso porque, à medida que
os eletrodos vão se aproximando do ventrí
culo esquerdo, passam a observar a fren te
do vetor de maior amplitude da despolariza
ção ventricular (2° vetor - parede livre do
VE). Assim, o eixo médio do QRS, no p lano
horizontal, apresenta uma orientação per
pendicular a V3 e V4 (morfolog ias isodifási
cas RS, ou já positivo com morfologia Rs),
e aponta para trás e para esquerda (negati
vo com morfologia rS em V1 e V2; e positivo
em V5 e V6 com morfologia qRs ou qR).
• O momento em que o QRS troca de pola
ridade no plano horizontal é chamado de
"zona de transição" e geralmente ocorre em
V3 ou V4.Veremos mais ad iante que a onda Q deve
ser analisada com mais atenção, pois alte
rações nela podem significar um infarto ... A
onda a deve ter uma duração 60 bpm, o intervalo RR será 1 s, portanto o QTc será
menor que o QT medido.
O valor normal do QTc não deve ser maior do
que 440 ms. Uma forma prátjca e rápida de
avaliar a duracão do intervalo OT é lembrar
qye quando a freguêocia card jaça está entre
60 e 1 00 bpm ele sempre dgyerá ser menor
do que a metade do intervalo R-R.
Fórmulas para QTc
Apesar da Fórmula de Bazett ser a mais popular para a correção do intervalo QT, ela perde
um pouco em acurácía quando a FC do paciente encontra-se anormal, ou seja, fora do
intervalo entre 60 e 100 bpm. Outras fórmulas são tão ou mais eficazes que Bazett - algumas
inclusive mais simples:
- Fórmula de Hodges: QTc = QT + 1. 75 (FC-60)
- Fórmula de Framingham: QTc = QT + 0,154(1-RR}
- Fórmula de Fridericia: QTc = QT I RR0•33
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAPIJULO 3. TIUIÇAOO 8 3
ALTERAÇÕES DO INTERVALO QT
- Aumento da duração: Síndrome do QT longo congênita (Lange-Nielsen, Romano-Ward),
distúrbios eletrolíticos (hipocalcernia, hipocalemia), drogas (ex.: amiodarona, quinidina, sotalol,
cloroquina, antidepressivos tricíc licos, haloperidol. .. ).
A consequência mais grave associada do prolongamento do QTc é a taquicardia ventricular
polimórfica do tipo Torsades des Pointes.
COMO MEDIR O INTERVALO OT
Apesar de pouco conhecida, a forma mais correta de medir o intervalo QTconsiste em desenhar
uma l inha de base tendo como referência o segmento PR e, em seguida, desenhar uma linha
tangente à deflexão {descida) da onda T. O intervalo QT começa no início do QRS e termina
no ponto onde a tangente corta a linha de base.
'
.........
011001 vs
- u -
FIGURA 27 ,
Assim, podemos perceber alguns conceitos que. sem essa bagagem teórica, poderiam passar
despercebidos:
lnl âQT
F IGURA28,
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAPIJULO 3- TIUIÇAOO 84
ELETROCARDIO~ÁFICO
Onda U
A pequena onda U sucede a onda T e está
presente em 40-50% da população, sendo me
lhor visualizada em V2 e V3. Sua amplitude é
proporcional à da onda T, não ultrapassando
25% da voltagem desta onda. Além disso, em
condições normais estas duas ondas sempre
apresentam a mesma polaridade. IExiste muita
controvérsia em relação à sua origem, mas se
acredita que ela poderia representar a repola-
rização do sistema His-Purkinje ou das células
M, encontradas na parede livre do ventrículo
esquerdo e cuja fase 3 do potencial de ação é
mais longa do que a dos miócitos ventriculares.
De qualquer forma, diversas doenças podem
influenciar sua amplitude (ex.: hipocalemia
aumento) e polaridade (ex.: sobrecarga do
ventrículo esquerdo - inversão).
A tabela abaixo resume as características dos
itens eletrocardiográficos:
ITEM DURAÇÃO (MS ) I AMP L ITUDE (MM) E I XO MÉDI O
Onda P
Intervalo PR
---------------------
+60o (O a +90 5 no plano frontal e
> 8 no horizonta I
+60o (-30o a +90")
Positivo em DI, Dll e
f-----------1 aVF Negativo em aVR
Intervalo QT Até 440
- - --- -----·- ----------
Segmento ST
- - .. - . . . . .. Onda T
Onda U Sem padronização Até 25% da onda T
+45o (O a +90•)
Positivo em DI, Dlt e
emaVR
TABELA 4,
AVALIAÇÃO DO RITMO E DA
FREQUÊNCIA CARDÍACA
Análise do Ritmo
Para que o ritmo cardíaco seja caracterizado
como normal, a sequência temporal das ondas
e segmentos revisados acima deve ser res
peitada em todos os ciclos (onda P, segmen
to PR, complexo QRS, segmento ST e onda
n. O fator mais importante a ser analisado é
a origem do estímulo responsável pela des
polarização ventricular. Esta será a região que
estará ditando o ritmo cardíaco! Como, em
condições fisiológicas, o estímulo é gerado no
nado s inusal, o ritmo cardíaco normal é clas
sificado como sinusal (frequência normal em
repouso de 60 a 100 bpm - lembre que, no
coração. quem é mais rápido comanda).
Eletrocardiograficamente, este ritmo é carac
ierizado por uma regularidade dos ciclos e pela
presença de uma onda P com as característi
cas descritas (polaridade, morfologia, ampli-
tude e duração) precedendo todos os comple
xos QRS. E fundamental que estas proprieda
des sejam analisadas, pois a simples presen
ça de uma onda P antes de cada complexo
ventricular s ignifica apenas que o local com
função de marca-passo está em um dos. átrios,
mas não ne•cessariamente no nado sinusal .. .
RITMO SINUSAL (CR I TÉR I OS)
Onda P precede todos os complexos QRS
Onda P: positiva em DI e Dlt;
negativa em aVR
Intervalo PR: constante ese
aproxima de -300 (horizontalização- a gran
de dica é o complexo QRS negat ivo em 0111),
como em indivíduos brevilíneos, ou +120° (ver
ticalização - a grande dica é o complexo
negativo em aVL), como nos longilíneos.
Veja na Figura 32 como a polaridade do QRS
poderá se modificar de acordo com a rotação.
(2) EIXO LONGITUDINAL
Olhando o coração no sentido de sua. ponta
até a base, definimos o eixo longitudinal por
onde poderão ocorrer as rotacões horária e
anti-horária. Estas rotações alteram o QRS
tanto no pia no frontal quanto horizontal.
RO[AÇÃO HORARIA
Nesta rotação, VD é deslocado para frente e
para a esquerda, VE vai para trás e o septo
interventricuJar fica também mais anteriorizado
e para a esquerda. No plano fronial, o (peque
no) vetor do septo passa a apontar para DI e
-··-
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CAPIJULO 3- TIUIÇAOO 88
ELETROCARDIO~ÁFICO
fugir d·e Dlll, enquanto o (grande) vetor da
parede livre do VE foge de DI e se direciona
para D 11 1. Isso gera um QRS com morfologia
rS em DI e qR em Dl ll: é formado o padrão
S1-Q3 (ondaS em DI e Q em Dllll). No plano
horizontal, surge a característica mais impor
tante: estas rotações influenciam o padrão de
transição do complexo QRS (de p redominan
temente negativo em V1 para positivo em V6).
Quando o coração está numa posição inter-
mediária (sem rotação), esta transição ocorre
em V3 e V4 (Figura 33). Entretanto, na rotação
horária, como o VD está mais para a esquerda,
a transição é mais tardia, podendo cursar com
ondas S proeminentes até VS - mais raramen
te até V6 (Figura 34).
• Essa rotação costuma estar associada à
verticalização, sendo, portanto, mais encon
trada em pacientes longilíneos.
F" I G U RA 32 : VE:A:T ICA~I%AÇÁO/LONBILfl'fE:O I,AV L N E:ISA T I VOJ lt
M OAI%0N T A \.I ZAÇÁOitB REVU .. ÍN 20 t 0 1lt NEGAT IV O,,
Trans.lçlo
norm•t
r,.nsrçõo
hlrdia 1
fb) '
-tt++-t- :1
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: Pt*çlo
I hortril
F'IG U RA 34: R OTAÇÃO H O RÁRIA - Z ONA OE T RAN S IÇÃO TARD IA,
-··-
M EOr:u: t RO
:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 89
ELETROCARDIO~ÁFICO
ROTAÇÃO ANTI-HORA RIA
Nesta rotação, o VE é a câmara que vem mais
para frente, o VD fica mais para trás e o septo
se volta um pouco mais para a direita. Assim,
no plano frontal, o vetor do septo passa a fugir
de OI e apontar para 0 111, enquanto o vetor da
parede livre do VE se direciona para OI e foge
de OIIL Isso gera um QRS com morfologia qR
em OI e rS em 0111: é o denominado padrão
Resposta:
i l'ilf 1'!!'1 il
I~'- ~~-
I:
Vi\. !:/
I'
oj r
Q1-S3 (onda Q em OI e Sem 0111). Já no plano
horizontal, como o VE está mais para frente, a
transição é mais precoce (Figura 35).
• Essa rotação costuma estar associada à
horizontalização, sendo, portanto, mais encon
trada em pacientes brevilíneos.
Faça você mesmo: quem é longili neo e
brevilineo abaixo?
*
''. '" "~ 'f ~· 4
;.. '- ;;, ' ' ':/
. lmn ·
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111: :~ liiJm;r ~~ ~ 4 ~-
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f"l b ~~--· ~ f+ 1-- ... I
Resposta:
Resposta: Brevlllneo.
Resposta: Longillneo.
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 90
ELETROCARDIO~ÁFICO
Translçlo
precoce :
(c)
J_j_j_J_
Poslçlo anti-horária
F"IG U RA 3 5 : ROTA Ç Ã O A N TI•H O RÁRIA - ZON A DE TRAN S IÇ Ã O P RECO C E .
(3) EIXO TRANSVO:RSAL
As últimas rotações ocorrem em torno do eixo
transversal, que é perpendicular ao longitudi
nal. Estas rotações resultam num desvio da
pon taG . t
RELAT IVAM ENT E C OMU M N OS O t:PA A A R M OS COM
U M T R A Ç A D O C H E IO OE IN T E R F"ERÊNCIA S O U
Mll:SMó ~Uf NÃO R~SPr!1TA U MA LIN HA b ~
B A SE: SÃO EXI!:M P LO S OE PROBLEM A S TéCNI·
COS Q U E T AM BéM CEVEM SER OE NOSSO O O ·
M iN tO P ARA A CORRETA AVALIA ÇÃO E LE"TR OCA R ·
O IOGR Á F'ICA 00 P A C IENTE.
INVERSÃO DE ELETRODOS
A troca de eletrodos é um erro comum na
realização do ECG, podendo comprometer
sua in terpretação e levar a diagnósticos
equivocados!
Alteração em DI:
Progressão
normal da
onda R nas
precord íais
Entre os Membros Superiores
A onda P e o complexo QRS ficam negativos
em OI. Nesse contexto, temos a obrigação de
diferenciar uma simples troca de eletrodos de
uma dextrocardia (Figura 38). Para isso, de
vemos aval i ar a progressão da onda R ao
longo das derivações precordiais e, obviamen
te, examinar o precórdio:
- Progressão normal da onda R de V 1 a V6
(vai se tomando positiva) e precórdio com
ictus tópico: TROCA DE ELETRODOS.
- Auséncia de progressão da onda R de V1 a
V6 e precórdio sem ictus à esquerda: DEX
TROCARDIA.
Entre os Membros Superior e
Inferior
- Braço e perna direitos (Figura 39): Sinal redu
zido em 011, pois esta derivação passa a mensu
rar a diferença de potencial entre a pema direita
e a esquerda. Já as derivações OI e 0 111 passam
a construir imagens em espelho entre si.
QRS eonda
P negatiVos
Ausência de r:----1t--'-
progressão da V1 I V6
onda R nas
precordiais
DE_XTRCCARDIA
FI GURA 3 8.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 94
ELETROCARDIO~ÁFICO
NORMAL TROO.OE
El.ETRODOS
DI
DIZ
DIIZ
or e on1 s :1o
i~gcns e. espel ho
sinal reduzido
F"I GURA 39.
- Braço e perna esquerdos: Reversão das de
rivações DI e 011 entre si; inversão da deriva-
ção 0111; reversão das derivações aVL e aVF
entre si.
ARTEFATOS
Artefatos de Movimentos
Podem ocorrer por movimentos voluntários ou
até mesmo por tremores involuntários, como
os do parkinsonismo. A linha de base do ECG
aparece ondulada e irregular, principalmente
nas derivações do eixo frontal - que usam os
membros como posicionamento dos eletrodos.
F'I GURA 40.
'=uga ~a !-_in_ h a_ de_E~ase
Normalmente, ocorre por realização do ECG
prontamente após colocação de uma deri
vação ou após cardioversão elétrica. Mas
pode também surgir em virtude de um mo-
vimento torácico mais exuberan te durante a
respiração ou pela colocação inadequada
do eletrodo (ex.: em cima de uma estrutura
óssea).
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAPIJULO 3 . TIUIÇAOO 95
ELETROCARDIO~ÁFICO
F I GURA 4 1 .
lnte rferê ncia E létrica
É normalmente causada pela proximidade de
algum d ispositivo elétrico, o que acaba produ
zindo um artefato caracterizado pela alteração
DI
D li
da linha de base-geralmente um pouc:o mais
grossa e irregular e em todas as derivações
(diferente dos artefatos de movimento).
F I GURA 4 2.
Sinal Fraco
Pode ocorrer por problemas técnicos, como
colocação inadequada dos eletrodos e cabos
danificados, ou mesmo pelo fato da amplitude
do QRS ser pequena demais para ser regis-
Irada na voltagem padrão. Nesse último con
texto, como percebemos ao longo do capítulo,
devemos reiniciar o registro optando por nova
detecção de voltagem.
MEOEtE'IRO CAPITULO 3 • TRAÇADO
ELETFtOC.AROIOGR.ÃFICO
é AIXO, SeLE:CI ONA MCJS ALGUNS EXERCÍCIOS PARA Q U t! VOC€- St:OIM IE:N TE.,
D E: MODO O Ef"I N ITIVO. OS CONC!:ITOS OB'riO OS AO LON G O 00 CAPÍTULO E:
TENHA M A I S 'rR ANQ UIL IOA O f::. SE:GUR ANÇA E âAS!t TEÓRICA PAR A AVAN ÇAF:l AO
PRÓXIMO T EMA. MÃOS À OSRA !
1 - Marque a opção que contenha apenas
derivações bipolares do plano frontal:
A) V1 , V2, V3, V4, V5 e V6.
8) OI, 011, 0111.
C) aVR, aVL, aVF.
O) 011, V2.
E) V1, V2, V3, DI, 011, 0111.
2 - Que derivação avalia a corrente elétrica
na direção do braço direito para o braço
esquerdo?
A) V1.
8) 011.
C) V2.
O) aVF.
E) DI.
Come-ntário: Para a confecção das deriva
ções bipolares do plano frontal (DI, DI/,
3-Para a adequada realização do eletrocar
diograma, devemos saber onde colocar os
eletrodos que irão avaliar a atividade elétri·
ca no eixo frontal. Qual é a alternativa que
melhor descreve o seu posicionamento?
A) amarelo - braço direito I verde - perna
direita I vermelho -braço esquerdo I preto
- perna esquerda.
8 ) amarelo- braço esquerdo I verde - bra
ço direito I vermelho - perna direita I preto
- perna esquerda.
C) amarelo - perna esquerda I verde- per
na direita I vermelho -braço direito I preto
- braço esquerdo.
O) amarelo - braço esquerdo I verde - per-
Comentário: Questão simples e conceitual.
Existem 6 derivações no eixo frontal: 3
bipolares que avaliam a atividade elétrica
pela diferença de potencial entre 2 eletrodos
{DI, D/1 e D/JI) e 3 unipolares que avaliam a
diferença de potencial entre 1 eletrodo e um
ponto central de polaridade nula (aVR, aVF
e aVL). Resposta certa: letra B.
D/11), colocam-se eletrodos no braço direito,
no braço esquerdo e na perda esquerda
(para mimetizar o triângulo de Einthoven).
O eixo da derivação DI vai exatamente da
direita para a esquerda, ou seja, avalia a
diferença de potencial entre braço esquer
do (eletrodo positivo) e braço direito (ele
trodo negativo). Já DI/ é perna esquerda(+)
- braço direito (-); e Dfll é perna esquerda
(+) - braço esquerdo (-). l?esposta certa:
letra E.
na esquerdla I vermelho - braço direito I
preto- perna direita.
E) amarelo - braço direito I verde - perna
esquerda I vermelho - braço esquerdo I
preto- perna direita.
Comentário: Ainda hoje, muitos aparelhos
de ECG usam os pregadores de cores vari
áveis para o posicionamento dos eletrodos
do eixo frontal, por isso é importante conhe
cê-los. Os -eletrodos do braço esquerdo,
braço direit;o e perna esquerda correspon
dem aos vértices do triângulo de Einthoven,
enquanto o eletrodo da perna direita serve
como um eletrodo terra. A questão é con
ceitual. Resposta certa: letra D.
MEOEtE'IRO
4 - Com relação às derivações precordiais,
assinale a adequada posição do eletrodo de
V5:
A) 2• espaço intercostal à esquerda na linha
paraesternal.
8) s• espaço intercostal à esquerda na linha
axila anterior.
C) s• espaço intercostal à esquerda na linha
axila média.
O) s• espaço intercostal à esquerda na linha
axila posterior.
E) 2• espaço intercostal à direita na linha
paraesternal.
5 - Para a adequada defin ição do eixo
elétrico da despolarização ventricular
(QRS) no plano frontal, quais são as 2
primeiras derivações que devem ser
analisadas?
A) DI e 011.
8) V1 e V2.
C) 011 e 0111.
O) DI e aVF.
E) 0111 e aVL.
Comentário: Inicialmente, deve-mos dividir
o plano frontal em 4 quadrantes através dos
C APITULO 3 • TRAÇADO
ELETFtOC.AROIOGR.ÃFICO
Comentário: Vamos relembrar o adequado
posicionamento dos eletrodos do eixo
horizontal (derivações precordiais) ... V1- 4•
espaço intercostal na linha paraestemal
direita I V2 - 4° espaço intercostal na linha
paraesternal esquerda I V3- equidistante a
V2 e V4 I V4 - 5° espaço intercostal à
esquerda na linha hemiclavicular I V5 - 5°
espaço intercostal à esquerda na linha
axilar anterior I V6- s• espaço intercostal à
esquerda na linha axilar média. Resposta
certa: letra B.
eixos perpendiculares de DI e aVF. A
polaridade do registro em DI e a VF é que irá
determina o quadrante da atividade elétrica:
(1) DI + I aVF + : entre o• e +90° (inferior
esquerdo)
(2) DI + I aVF - : entre- o• e -90° (superior
esquerdo)
(3) DI - I a VF - : entre -90° e 180° (superior
direito)
(4) DI- I aVF + : entre +90° e 1so• (inferior
direito)
Resposta certa: letra D.
6- Determine o eixo do QRS deste ECG no planto frontal:
n DIÍI • ' '.
.
A J l n -· 11
A) En1re -30° e o•.
8) o•.
C) +30°.
O) En1re +&o• e +90°.
E) Indeterminado.
• ?
aVF l
j I
· v
Comentário: Cálculo de eixo elétrico é um
conceito primordial para o entendimento da
Eletrocardiografíal Isso deve-sermuito bem
• - · ' · I _ I ... ,,. .. , .... , .. ~
trabalhado até que se tome algo natural para
você ... Em 1° lugar, olhamos para DI e aVF:
positivo nos 2 já sabemos que o eixo está
entre o• e +900, o que não resolve a que-stão.
Ao procurarmos a existência de uma
derivação isoelétrica, encontramos D/11.
Assim, o eixo !Hlrá também perpendicular a
esta derivação: exatamente- em +30°.
Resposta certa: letra C.
MEOEtE'IRO
7- Deiermine o eixo do QRS deste ECG:
.,
DI. ,li
;;... U""- ,u,
IE 1 ~ . ':! E 1•:mm
·-
A) .go•.
B) Entre -30° e o•.
C) 00.
O) Entre o• e +30°.
E) +&o•.
... ,._ ~···~ 1:·
I t
.íl l.l
. •i i i
-
.
Comentário: Vamos lá/ Olhamos para DI
e aVF, percebemos que o QRS é positivo
em .ambas as derivações (é discretamente
Là~~~ I l! ii
=i= .'ltíi
I"
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C APITULO 3 · TRAÇADO
ELETFtOC.AROIOGR.ÃFICO
,li I" H.
"
lif
'' '*'·t.
I ' ii
I; :;,
rl!i, I • ,,
positivo em aVF), o que já coloca o eixo
entre o• e +90°. Não encontramos nenhuma
derivação isoelétrica, o que nos obriga
mesmo a olhar para as 2 derivações que
não cruzam o quadrante: DI/I e, se
necessário, aVL. Em DI//, temos o QRS
negativo, o que deixa obriga o eixo a ser
menor que +30°. Pronto: temos um eixo
entre ()O e +30°. Resposta certa: letra D.
8 - Determine o eixo do QRS no planto frontal deste outro ECG:
li •• •• ••• til '"
J
MEOEtE'IRO
A) En.tre +90° e +120°.
B) +306•
C) En,tre -30° e -60°.
D) En,tre -120• e -1so•.
E) Entre ·150° e 180°.
Comentário: Este é um eixo bastante
alterado ... Vamos lá/ Analisando DI e aVF,
C APITULO 3 • TRAÇADO
ELETFtOC.AROIOGR.ÃFICO
percebemos que o QRS é negativo em
ambos, o que deixa o eixo entre -906 e 1806
(quadrante superior direito) ... Devemos
agora analisar as derivações que não
cruzam este quadrante: DI/I e aVl.. É
discretamente positivo em DJ/1, o que deixa
o eixo entre -150° e 180". Resposta certa: E.
9- Determine o eixo do QRS no planto frontal de mais este ECG:
In 11111
~ ~
IQe
A) Entre +30° e +60°.
8) +30°.
C) +60°.
D) -1so•.
E) Entre +60" e +906•
1IUll
--.Jiov--
11\1
Comentário: Com DI e aVF são positivos, o
eixo certamente está o• e +90°. Não há
derivação isoelétrica (cuidado, pois DI/I é
1 O - As derivações V3R e V4R s ão usadas
para enxergar principalmente que região
cardíaca?
A) Ventriculo direito.
8) Átrio direito.
C) Átrio esquerdo.
D) Septo.
E) Parede posterior do ventrículo esquerdo.
Comentário: As derivações VJR e V4R são
posicionadas nas mesmas referências to-
IIWl A fl(}1
I
~ ~
1\'lS ~
positiva ... ), o que nos obriga a olhar para as
derivações que não cruzam este quadrante:
D/11 e aVL. É discretamente positivo em D/11,
o que deixa o eixo entre +ao• e +90"', que
ainda é um intervalo muito impreciso. Como,
em aVL, o QRS também é positivo, sabemos
que o eixo só poderá estar agora entre +30°
e +60°. Resposta certa: A.
rácicas das clássicas derivações V3 e V4,
porém no Jado direito do tórax. Sendo
assim, são úteis para avaliação do ventrí
culo direito. Só para recordar, a avaliação
da parede posterior do ventrículo esquer
do é feita também com derivações pouco
usuais: V7 e VB (5' espaço intercostal na
linha axilar posterior e linha escapular
posterior, respectivamente). Resposta
certa: letra A.
J
MEOEtE'IRO CN'iTULO 3 . TAAÇ;o.OO I I)
ELETFtOC.AROIOGR.ÃFICO
11 - Qual é aproximadamente a frequência cardíaca no ECG abaixo?
A)40 bpm.
8) 50 bpm.
C) 60 bpm.
O) 90 bpm.
E) 100 bpm.
Comentário: Se quiséssemos ser absoluta
mente precisos, poderíamos usar a "Regra
12-Qualéafrequéncíacardíacaaproximada?
A) 75 bpm.
8) 100 bpm.
C) 125 bpm.
O) 140 bpm.
E) 17S. bpm.
Comentário: Ao usarmos a "Regra dos 300"
(300/quadradrões), vemos que a distância
13-Qual é a frequência aproximada?
A)60 bpm.
8) 90 bpm.
C) 120 bpm.
O) 140 bpm.
E) Indeterminada.
Comentário: Este eletrocardiograma não
apresenta um ritmo regular, o que nos
impossibilita de usar a "Regra dos 1500" e a
"Regra dos 300". A única alternati va possível
dos 1500" (1500/quadradinhos), que te
ríamos 1500 I 38 = 39 bpm. Ao usarmos
a "Regra dos 300" (300/quadradrôes),
vemos que, do 2• QRS para o 3° QRS, a
distância fica entre 7 quadradões (43
bpm) e 8 quadradões (37 bpm). Resp os
ta certa: letra A.
fica entre 2 quadradões (150 bpm) e 3
quadradões (100 bpm). Como está mais
próxima de 2 quadradôes, a frequência real
estará mais próxima de 150 bpm. Pela
"Regra dos 1500" (1500/quadradinhos),
teríamos 1500 I 11 = 136 bpm. Resposta
certa: letra D.
é usar a "Regra dos 3 segundos", onde
contamos quantas ondas R existem num
espaço de 3 segundos (15 quadradões) e
depois muiUplicamos por 20 para termos um
valor aproximado da frequência cardíaca. Ao
utilizarmos os 15 primeiros quadra dões,
enxergamos 7 ondas R, o que é compatível
com uma frequência de 140 bpm. Resposta
certa: letra D.
MEOEtE'IRO C APITUlO 3 . TRAÇADO I
ELETFtOC.AROIOGR.ÃFICO
14 - Marque a alternativa ERRADA com relação ao ECG abaixo:
A) Sua frequência cardíaca é de aproxima·
damente 75 bpm.
8) A onda P está nonnal.
C) A duração do intervalo PRé de 160 ms.
O) O complexo QRS dura menos de 120 ms.
E) A morfologia do complexo QRS é Rs.
Com&ntário: Vamos avaliar cada alternati·
va ... A -CERTA: A distância entre cada onda
R é de aproximadamente 4 quadradrões, o
que, pela "Regra dos 300" &quivale a 75
bpm. B-CERTA: A onda P tem uma duração
de 80 ms (2 quadradinhos) e uma amplitude
de 2 mm, características de normalidade.
C - CERTA: Do início da onda P ao início
do QRS contamos 4 quadradinhos, ou
seja, 160 ms, o que dá um caráter de nor·
ma/idade parti li condução lktrioventricu/ar,
uma vez que o intervalo PR nonnal deve
variar &ntre 120 e 200ms. D - CERTA: O
complexo QRS não ultrapassa nem m&smo
80 ms (2 quadradinhos). E- ERRADA :
Perceba que o compl&xo QRS inicia com
uma pequena onda negativa (onda q), de
modo que sua morfologia é qRs. Respos
ta certa: letra E.
15 - Avalie o ECG abaixo e aponte a causa mais provável para a alteração encontrada:
~"f >i;ll~~
: .;,.j.. I I I I I ""'+-f- 1 I .,...,..,.
~· : I .1 -lll':l•';. I I l •não só a onda P, como
também o complexo QRS e a onda T são
também negativas em DI. Há 2 diagnósticos
diferenciais para esse comportamento:
inversão dos eletrodos dos membros
superiores (letra A) ou dextrocardia (letra
E)! A grande dica para diferenciar as 2
MEOEtE'IRO
entidades é a avaliação da progressão do
complexo QRS nas derivações precordiais:
não haverá progressão na dextrocardia
(como no ECG da questão), pois a ativação
do ventrículo esquerdo ocorrerá da esquerda
para a direita, cada vez mais "fugindo"
dessas derivações; já, na inversão dos
eletrodos, a progressão ocorrerá
normalmente .. Em termos clínicos, a
dextrocardia costuma fazer parte do "situs
CN'iTULO 3. TAAÇ;o.OO I J
ELETFtOC.AROIOGR.ÃFICO
inversus ", condição em que o.s órgãos
(inclusive os abdominais) foram formados
em posição invertida. A dextroversão (letra
D) é uma condição onde o coração está
apenas localizado no lado direito do tórax,
mas a organização das câmaras cardíacas
não se modifica: átrio e ventrículo
esquerdos permanecem á esquerda e .átrio
e ventrículo direitos continuam á direita.
Resposta certa: letra E.
18 - Qual a principal alteração presente neste ECG?
A) Rotação horária.
B) Dextrocardia.
C) Troca de eletrodo.
D) Rotação anti-horária.
E) Padrão Juvenil.
Comentário: A grande alteração deste
traçado é a negatividade da onda P e do
complexo QRS em DI. Nesta situação, só há
2 possibilidades: dextrocardia (letra 8) ou
inversão dos eletrodos dos membros
superiores (letra C). A melhor forma de
diferenciá-los é avaliar a progressão do
complexo QRS nas derivações precordiais,
poís não existirá na dextrocardia. Reveja o
traçado: o QRS vai normalmente tomando·
se positivo de V1 a V6, isto é, mantém sua
progressão normal. Resposta certa: letra C.
MEOEtE'IRO CN'iTULO 3 . TAAÇ;o.OO I 4
ELETFtOC.AROIOGR.ÃFICO
19-Avalie o traçado eletrocardiográfico abaixo e assinale a alternativa ERRADA.
A) O ei xo do QRS está normal.
8) Há uma taquicardia sinusal.
C) O intervalo QT corrigido está dentro da
normalidade.
D) A on da P está alargada.
E) O complexo QRS tem duração normal.
Comentário: Vamos avaliar cada alternativa ...
A- CERTA: o QRS está positivo em DI e aVF,
o que já coloca o eixo entre o e +90°. De modo
mais preciso, como ele se aproxima do iso
difasismo em aVL, podemos afirmar que o
eixo encontra-se a +60°. 8 - CERTA: a onda
P precedendo cada QRS e sendo positiva em
DI e DI/ configura um ritmo sinusal, mas a
frequência cardíaca superior a 100 bpm (cer
ca de 115 bpm) é definidor de uma taquicar
dia. C- CERTA: O valor do QTc é aproxima
damente 380 ms {além de uma discreta
hepatomegalia não dolorosa.
1 ·Qual o diagnóstico mais provável? Jus·
tifique.
2- Como explicar o desconforto respirató·
rio do paciente?
3 - Explique o aparente paradoxo entre o
laudo ecoc:ardiográfico e o achado do ele
trocardiog rama.
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Sjtuação 3
1·Amil oidose.
2-Mioc:ard iopatia Restritiva.
l -Dissociação massa-voltagem: o espessamento não é por hipertrofia, mas sim por infil
tração amiloide.
SOBRECARGAS CAVITÁRIAS
AO L ONGO DOS PRIM E IROS CAPÍT'U LOS. ENT E ND EM OS A SASE 00 F U N C IO NAM E N TO ELÉTRICO
DO CORAÇÃ O E SUA REPRESENT AÇÃ O NO R M AL AO E L E"''R OCARO IOGRAM A. DEST A F'"ORMA,
F INCAMOS 0 P ILAR D E S U STENTA!fÂO TE6RI CA PARA QUE POSSAM OS, A PARTI R D E AGORA .
C0N S1'R U IR O RAC I OCÍNIO DIANTE DE A LTERAÇÕES PATOLÓGICAS E N CON T RADAS NOS T RAÇADOS
lt:L eTROCAR OIOGRÁt:"I COS . N ES.,.E CAPÍTULO . ESTUDAREM OS AS SOB R ECARGAS ATRIA I S E
VE:N1'RIC:ULARES . COM ÊNFASE NAS MANI~ESTAÇ6ES Ê L I:'rROCAROJOGRÁF'ICAS DESTAS ENTIOAOES.
MUITOS AUTORES TAM SÉ:M U T I L I ZAM OS TERMOS .. H I PERTROf>IA " . "' CRESC, ME:NTO'• E '0 0 I L A'TAÇÂO ..
PARA D ESCREVER ESTES F'EN6MENOS, EMBORA SE.JAM I DEAIS NA OESCR IÇÁO D E EXAMES DE
I MAGEM E EST UDOS ANA"fÔ MICCS . • . ASS IM O TERMO " SOBRECAR GA'• É M A I S APROPRIADO E SERÁ
U TIL I ZAD O COM MAI OR F'RE:QU ÊNCI A AO L ONGO DAS PR6XI M AS PÁGI NAS.
~~~-·SOBRECARGA A R A I.!! DIRE A-~~~§
CAUSAS
P ara compreendermos as etiologias das
sobrecargas cavitárias, devemos ter em
mente que, como o nosso sisiema card io
circulatório é uma estru tura totalmente fe-
chada, qualquer alteração volumétrica ou
pressórica acaba sendo transmitida retro
gradamente. Assim , para listarmos as cau
sas de sobrecarga atrial direita, basta pen
sarmos em alterações anatomicamente
posteriores a esta cavidade: qualquer enti
dade que produza um aumento das pres
sões de ench imento do lado direito do co
ração poderá levar ao aumento volumétrico
do átrio direito.
Dentre as valvopatias, as disfunções (este
nose e/ou insuficiência) da valva tricúspide
são as que cursam com maiores diâmetros
de átrio direito. Isso porque uma tricúspide
disfuncionanie pode rapidamenie aira.palhar
o esvaziamento do átrio d ireito (estenose),
108
-··-
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CAP!TlA.O 4 • 1 09
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
ou até mesmo permitir um retorno de sangue
regurg itado do ventrícu lo (insuficiência). De
uma forma ou de outra, essa câmara cardí
aca fica sobrecarregada e isto acarretará em
alterações e letrocardiográficas ttípicas!
Etlole>gias Adquiridas
- Valvopatias: tricúspide
(principal), pulmooar.
estágios avançados de
lesões milrais e a6rti
cas.
- Outras causas de Hi
pertensão Arterial Pul
monar (Ex.: DPOC, em
bolia pulmonar).
- Forame Oval Patente
- Teiralogla de Fallot
- Alresla lricúspide
- Persistência do canal
arterial
- Anomalia de Ebsteln
- Sfndrome de Lutem-
bach.-"e,_.r _
T ABELA 1.
Obviamente, pelo fato da valva pu lmonar tam
bém se situar do lado direito do coração, suas
patologias também tem o potencial de induzir
essa sobrecarga ... Além das patologias valva
res à direita, as disfunções da valva mitral, e
mais raramente da valva aórtica, também po
deriam. em estágios mais avançados üá com
hipertensão arterial pulmonar), gerar uma
sobrecarga deste átrio. Isso porque uma hi
pertensão do leito arterial do pulmão dificulta
a ej eção do sangue do ventrícu lo direito, o
que, de forma retrógrada, sobrecarregará tam
bém o átrio direito ... Dentro deste raciocínio,
todas as causas de hipertensão arterial pul
monar (ex: DPOC e embolia pulmonar) apre
sentam-se como potenciais etiologias de au
mentos pressóricos do lado direito do coração.
As cardiopatias congênitas também devem ser
lembradas, como o forame oval patente, a te-
tralogia de Fallot, a alresia tricúspide, a persis
tência do canal arterial e a anomalia de Ebsteín
(implantação baixa da valva tricúspide com
redução da cavidade do ventrículo direito e
aumento do átrio direito). A síndrome de Lutem
bacher (associação de estenose mitral reumá
tica com comunicação interatrial congênita)
pode cursar com aumentos biatriais importan
tes, afetando o lado direito tanto pelo defeito
do septo inleratrial quanto pela hipertensão
arterial pulmonar associada à este no se mitral.
CRITÉRIOS
ELETROCARDIOGRÁFICOS
Embora a sobrecarga atrial direita possa cursar
com alterações no segmento PR, no complexo
QRS e, até mesmo, no segmento ST, sem dú
vidas é na onda P que suas marcas são mais
evidentes, algo facilmente compreensíve l, uma
vez que esta é a onda da despolarização atrial!
OndaP
As modifica·ções da onda P são observadas
principalmente nas derivações Dll e V I , o que
é até intuitivo, uma vez que aprendemos que
Dll é a melhor derivação para observar o fenô
meno de ativação atrial e VI é uma derivação
precordial onde este fenômeno tem uma repre
sentação eletrocardiográfica diferenciada (onda
bifásica). Entretanto, para compreendermos
estas mudanças, temos que recordar como
essa onda é formada (Figura 2). Lembra? A
sua parte inicial corresponde à despolarização
solitária do átrio direito, havendo, em seguida,
um período de interseção entre a ativação dos
dois átrios, enquanto a parte final representa a
despolarização do átrio esquerdo.
A Onda P e a Ativação Atrial
FIGURA 2: O AO É RES,PON•
SÁVEL PELA AMPLITUDE: (AL•
T URA) DA O NDA P, ENQUAN•
TO O AE É RESPONSÁVEL
PELA D URAÇÃO ( LARGURA).
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CAP!TlA.O 4 • 11 0
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
Desta forma, não há dúvida de que a sobre
carga do átrio direito acaba aumentando o
tamanho do vetor médio que despolariza os
átrios - isso aumenta a amplitude da onda
eletrocardiográfica e a torna mais. pontiaguda
- e ainda o desloca um pouco mais para a
direita. Naturalmente, como o vetor continua
apontando para baixo, tais alterações serão
mais evidentes nas derivações inferiores, isto
é, 0 11, 10111 e aVF.
Outro comportamento interessante é notado em
V1... Como, nesta derivação, normalmente a
onda Pé bifásica (área positiva - AO; área ne
gativa - AE), as sobrecargas de cada átrio po
dem ser facilmente diferenciadas. Nesta deriva
ção (e em V2 também), um aumento da ampli
tude da parte positiva (AO) acima de 1 ,5mm é
observado na sobrecarga atrial direita.
Note que, mesmo nestas sobrecargas do átrio
direito, sua ativação termina antes do átrio
esquerdo, não havendo repercussão sobre a
• ' ' '_l - H+;_:_ ;__t ·H-i ' - t ----:__J._IT~-·-r 11Tr I
duração da onda. Por conta disso, a sobre
carga atrial direita não alarga a onda P.
Sedimentando as alterações da onda P ...
1) Aumento da amplitude da onda P (> 2 ,5 mm
em Dll e/ou > 1,5 mm em V1)
2) Onda P pontiaguda (principalmente em DI I,
0111 e aVF) - também chamada de onda P
pu/mona/e
3) Desvio da onda P para a direita (entre +60°
e +90°)
Vale ressaltar que ondas P pontiagudas tam
bém podem ser identificadas em situaç-ões de
aumento da atividade simpática (taqui cardia
sinusal), não sendo exclusivas da sobrecarga
atrial direita . Além disso, raramente o e ixo fi
cará acima de +90° (onda P negativa em DI)
e, quando isto ocorrer, devemos pensar em
ritmo de átrio esquerdo ou dextrocardia, pois
seriam situações onde evidentemente o estí
mulo sairia da esquerda para a direita.
-: · LLH-L.LLi-H_j_j-' -'--~-_;__L , l r Til · ~ 1---r-r-. ' I
FIGURA 3: S O BRECARGA D E ÁTRIO D I R EITO - ONDA P P O NTI AGUDA E A LTA EM O I I E COIM
AUME N TO D A PORÇÃO P O S ITIVA E M V 1,
P pulmonale x P congenitale
A onda P pulmonale (imagem 1} faz referéncia àquela encontrada em etiologias adquiridas
e tem exatamente as alterações descritas anteriormente, ou seja, inclusive com desvio do
eixo da onda P para a direita, o que faz com que ela em 0 111 seja maior que em DL
Já a onda P congenitale (imagem 2}, como o próprio nome sugere, está associadaa etiolo
gias congênitas e não é comum o desvio do eixo para a direita. Isso porque, nesses casos,
o coração encontra-se habitualmente horizontalizado, o que inclusive desvia o eixo de P para
a esquerda e faz com que a onda P em DI seja maior que em DIIL
De qualquer forma, atualmente estes termos são pouco utilizados, pois estudos de necrop
sía e com análise ecocardiográfica têm revelado que estes critérios apresentam baixa cor
relação com o volume e pressão do átrio direi to.
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CAP!TlA.O 4 - 111
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
SOBRECARGA DE Á T RIO D I REIT O
(CRI T ÉRIOS)
OndaP
- 011 : Aumento da amplítude (>2,5
mm) e apiculada (P pu/mona/e)
- V1: Porção positiva > 1 ,5 mm
- Desvio do eixo para direita (>
+600)
TABELA 2,
Surge mais alguma alteração
eletrocardiográfica?
A resposta aqui é ... sim! Ainda podem ocor
rer alterações no segmento PR e no complexo
QRS, entretanto, do ponto de vista prático, tais
modificações têm pouco significado e acabam
não entrando como critérios para o diagnósti
co. De qualquer modo, iremos fOfmalizar es
sas repercussões a seguir.
Segmento PR
A repolarização atrial tem uma duração supe
rior ao processo de despolarização, ocorrendo,
portanto, de modo muito mais disperso e, as
sim, em geral insuficiente para gerar qualquer
representação no ECG. Na sobrecarga atrial,
com a maior massa a ser repolarizada, even
tualmente podemos enxergar uma onda repo
larizante que, como sabemos, tem sentido
inverso à onda P. Assim é possível existir um
infradesnivelamento do segmento PR e até
mesmo do segmento ST.
Complexo QRS
O complexo QRS também está sujeito a mu
danças secundárias à sobrecarga atria l direi
ta. Estas alterações são sinais indiretos que
se tornam importantes em situações onde
não há onda P no traçado, como em uma ar
ritmia chamada fibrilação atrial.
A mais importante atteração do QRS é o cha
mado Sinal de Peiíaloza e Tranchesi, onde
este complexo apresenta uma baixa voltagem
em V1, corn um súbito aumento da amplitude
nas derivações subsequentes (Figura 5). Isto é
explicado pela interposição do átrio direi to dila
tado entre o eletrodo de V1 e o ventrículo direito,
dificultando o registro da atividade elétrica des
ia última câmara. Uma vez não havendo esta
interferência nas derivações seguintes, o com
plexo QRS retoma sua vottagem normal.
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CAP!TlA.O 4 - 112
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
Outra alteração possível, é o surg imento do
padrão qR em V1, podendo ser explicado
pela sobrecarga ventricular direita- frequen
temente associada a estes distúrbios- que,
ao induzir a rotação do coração, altera o 1 o
vetor da despolarização ventricular (o vetor
do septo médio). Essa rotação exacerbada
faz com que esse 1° vetor, que antes apon
tava para V1 passe até a se afastar dele
(Figura 6).
Sobreurv• At•lal Dlrolta .. .. .. ... . ..
F"IGU R A 4.
F"IGU R A 5 : S INAL DE ~ENALOZA E T RAN C H ESI ( TRANSIÇÃO BRUSCA DO
Q RS DE V 1 PARA V2l E UM S INAL I N D IR E T O O E S O SRE CARG A A T R I AL
O IRE.I T A.
Normal Aumento de AO e VO
Padrlo qR em VI
F"IGU R A 6.
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CAP!TlA.O 4 - 11 3
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
CAUSAS
F"I GURA 7 ,
Seguindo a mesma linha de raciocínio das
causas de aumento do átrio direi to, fica fácil
deduzir quais doenças poderiam d ilatar o átrio
esquerdo. Os mesmos princípios de sobrecar
ga de volume e/ou pressão também se aplicam
neste caso, podendo resultar de doenças ad
quirida.s ou congênitas.
Etiologlas I Etiologias
Ad uirldas Con ênltas
- Hipertensão Arterial - Persistência do Canal
Arterial
- Valvopatias: aórtica
e mitral - Coarctaçã.o de aorta
- Miocardiopatia H~
pertrófica
- Valvopatias: aórtica e
mitral
T ABELA 3.
Entre as causas adquiridas, a hipertensão ar
terial sistêmica complicando com uma hipertro
fia ventricular esquerda (HVE) provavelmente
é a causa mais comum. O raciocínio é o mesmo
daquele que fizemos na sobrecarga atrial direi
ta ... Isso porque uma hipertensão do leito arte
rial sistêmico dificulta a ejeção do sangue do
ventrículo esquerdo, o que, de forma retrógra
da, sobrecarregará também o átrio deste lado ...
Outras causas de hipertrofia e sobrecarga de
pressão do VE, como a estenose aórtica e
miocandiopatia hipertrófica, também apresen
tam o mesmo potencial. Além disso, a disfunção
sistólica do VE (situações onde o coração per
de força contrátil, como infarto agudo do mio
cárdio, insuficiência aórtica grave e miocardio
patias dilatadas) iambém eleva a pressão
dentro desta câmara por aumentar o volume
sanguíneo residual dentro da cavidade após
cada sístole. As patologias da valva mitral,
principalmente a estenose, são as que cursam
com maiores diâmetros de átrio esquendo.
As cardíopatias congênitas também são uma
causa importante de sobrecarga atrial es
querda. A persistência do canal arterial, co
arctação da aorta e as valvopatias esquerdas
(estenose aórtica e mitral) são exemplos de
más formações que podem gerar uma sobre
carga desta cavidade.
CRITÉRIOS
ELETROCARDIOGRÁFICOS
Diferente do átrio direito, as alterações eletro
cardiográficas sugestivas de sobrecarga atrial
esquerda são restritas à onda P. Existem 6
critérios principais que são utilizados: (1 ) au
mento da duração da onda P; (2) lndice de
Morris; (3) lndice de Macruz; (4) Onda P mi
tra/e; (5) Aumento da área da onda P; (6)
Desvio do eixo elétrico da onda P para esquer
da. Em geral, estes critérios apresentam uma
sensibilidade baixa a intermediária (30-60%)
com uma boa especificidade (90% ).
AUMENTO DA DURAÇÃO DA ONQA P
Como a despolarização do átrio esquerdo é re
presentada pela parte final da onda P, o que se
observa é um acréscimo na sua duração com
pouca repercussão sobre a amplitude. Lembra
da duração normal da onda P? O corte mais
aceito que acompanha uma razoável sensibi
lidade e especificidade é de 100 ms (2,5 qua
dradinhos), embora alguns autores só consi
derem uma onda P alargada quando > 120 ms.
ÍND I CE DE MORRIS
O índice de Morris talvez seja o critério mais
conhecido de sobrecarga atrial esquerda e
corresponde ao aumento da área da parte
negativa da onda P em V1 acima de 1 mm
(1 "quadradinho"). Outros fatores que podem
produzir este padrão são a hipertensão arterial
sistêmica (mesmo na ausência de crescimen
io do áirio esquerdo) e o posic iona menio
equivocadamente elevado do eletrodo de V1
(2° ou 3° espaço intercostal direito).
-··-
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CAP!TlA.O 4 - 114
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
ONDA P M ITRALE
A morfologia chamada de P mitra/e correspon
de a uma onda bifida, com os dois picos se
parados por mais de 30ms. Esta alteração
ocorre mais frequentemente em DI, 011, aVL
e de V2 a V4 e cada pico representa a ativação
sequencial dos dois átrios.
• Quando a diferença entre os p icos é maior
ou igual a 60ms, deve-se pensar num alente
cimento da condução através do feixe de Ba
chman (aquele que leva o estímulo efélfico até
o átrio esquerdo). Este feixe pode ser lesado
em condições como: isquemia ou infarto atrial,
miocardite e pericardite constrictiva.
Veja nas Figuras 8A e 88 as três principais
alterações da sobrecarga atrial esquerda.
Í NDICE DE MACRUZ
O índice de Macruz é a relação entre a du
ração da onda P e o segmento PR, que, em
condições normais, fica entre 1 e 1, 7. Lembre
que o intervalo PRé composto pela onda P e
segmento PR. Assumindo que a condução
atrioventricular (intervalo PR) se mantenha
constante, um aumento isolado da onda P
(tempo de ativação atrial) irá reduzir o seg
mento PR e aumentar o índice: quando esta
relação é> 1,7, deve-se suspeitar de sobre
carga atrial esquerda. Por outro lado, quando
há uma sobrecarga atrial direita, pode haver
um aumento do segmento PR sem prolongar
a duração da onda P, o que reduziria o índice
até mesmo para valores inferiores a 1.
DESVIO DO EIXO ELÉTRICO E ÁREA
OAONDAP
Estes dois últimoscritérios são menos uti
lizados na prática e correspondem ao des
vio do eixo elétrico médio da despolarização
Sobru•Jil Atrlal Esquerda
lt •• ••
atrial e ao aumento da área da onda P em
DI I. O desvio do eixo raramente ultrapassa
o• e também pode ocorrer em pacientes bre
vilíneos. Neste caso, a polaridade da onda
P tende a ser negativa em 0 111 (eixo 100 ms (> 2,5
quadradinhos)
Onda P bífida (P mitra/e)
lndlce de Morris: fase negativa da onda P em V1
com área> 1 mm (> 1 quadradinho)
lndice de Macruz: onda P I segmento PR > 1 ,7
TABEL A 4.
........._ ,._
• ·-
F I GURA BA: AS 3 PRINC IPAIS A LTERAÇÕES DA
SOBRECARGA ATRIA L ESQUERDA.
... ...
F'IGURA Se.
-··-
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CAP!TlA.O 4 - 11 5
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
Sobrecarga Biatrial
IJ li 111 ... eU ..,
T ~ L ~ I. ~ .. "
,.
F"IGURA 9.
SOBRECARGA BIATRIA L !C R I TÉRIOS)
Onda Pem 011 com aumento da amplitude (> 2,5 mm) e da duração(> 100 ms)
indice de Morris: fase negativa da onda P em V1 com área> 1 mm (> 1 quadradinho)
T AB ELA S.
CAUSAS
Todas as causas de sobrecarga atrial esquer
da podem, em fases avançadas, levar à so
brecarga do átrio direito se não forem adequa
damente tratadas. Isto ocorre pelo aumento
da pressão retrógrada através do leito vascu
lar pulmonar que, eventualmente, repercute
sobre as câmaras direitas. Há também a pos
sibilidade da coexistência de lesõe-s em ambos
os lados do coração que justifiquem as dilata
ções (ex.: cardiopaiia reumáiica com acome
timento mitral e tricúspide ).
CRITÉRIOS
ELETROCARDIOGRÁFICOS
Não há critério específico que indique a pre
sença de sobrecarga biatrial. O que se obser
va é uma combinação variável dos achados
relacionados ao acometimento de cada átrio,
de modo que a grande dica é o aumento si
multâneo da duracão e da amplitude da onda
E. Observe, na Figura 9, um aumento conco
mitante da duração (120 ms) e amplitude (3
mm) da onda P em Dll. Veja iambém, em V1,
a presença do indice de Morris.
-··-
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CAP!TlA.O 4 - 116
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
O ventrículo esquerdo (VE) é a cavidade com
maior massa muscular do coração, sendo
responsável pela maior parte do peso cardí
aco total, que normalmente varia entre 250 g
e 390 g . Assim, o complexo QRS é pratica
mente uma representação exclus iva da a tiva
ção do VE, com o ventrículo direito (VD)
apresentando pouca ou nenhuma participa
ção. Isto ocorre porque, como os dois são
ativados quase simultaneamente, os vetores
gerados pela menor massa do VD são anula
dos temporalmente pelos do VE. Este concei
to é fundamental para entender a dificu ldade
de se caracterizar a sobrecarga do ventrículo
esquerdo no eletrocardiograma, principalmen
te em seus estágios iniciais, pois, mesmo em
condições normais, o VE já é predominante.
Portant o, a massa do VE precisa estar consi
derave lmente aumentada (geralmente acima
de 450 g) para haver qualquer t ipo de reper
cussão eletrocardiográfica.
_ CAUSAS
De uma forma geral, a hipertrofia ventricular
esquerda (HVE) pode ser classificada em pri
mária e secundária. As causas primárias mais
comuns são as miocardiopatias hipertróficas,
que amiúde apresentam-se de forma assimé
trica, acometendo a região septal ou apical
(Cardiomiopatia de Yamaguch i) com maior
frequência.
As causas secundárias podem ser divididas
ainda em sobrecargas de volume (aumento
de pré-carga) e pressão (aumento de pós-
-carga). Nos dois casos, há um aume-nto do
estresse sobre a parede do VE, estimulando
-o a hipertrofiar. Desde agora, para que não
haja confusão com estes termos de fis iologia
cardíaca, lembre-se:
- PRE-CARGA =tensão na parede ventricular
no final da d iástole (depende principalmente
do retomo venoso).
- PóS-CARGA = tensão na parede ventricu
lar no momento da sístole (depende princi
palmente da resistência vascular periférica,
que tem íntima relação com a pressão arterial
do paciente).
Assim, a sobrecarga de pressão resu lta de
uma maior resistência à saída de sangue do
ventrículo durante a sístole, sendo seus prin
cipais exemplos a hipertensão arterial sistê
mica, a estenose aórtica e a coarctação de
aorta. Desta forma, o resultado é uma. hiper
trofia concêntrica, com um aumento da espes
sura da parede e redução da cavidade ventri
cular, com a adição de novos sarcômeros
sendo feita em paralelo: como se o coração
ficasse musculoso (Figura 10).
Por outro lado, a sobrecarga de volume é
consequência de um aumento do fluxo dias
tólico para o VE, resultando numa hipertrofia
excêntrica. Nesta situação, há um aumento
dos diâmetros cavitários devido à adição dos
sarcômeros em série e alongament o dos
miócitos individuais: como se o coração fi
casse "inchado". Exemplos de etiologias que
cursam com aumento do volume diastólico
final são as insuficiências valvares (aórtica
e/ou mitral) .
Tipos de Hipertrofia Ventricular
F'IG U R A 1 Q ,
-··-
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CAP!TlA.O 4 - 117
S OBReCARGAS CA.VITÁRIAS
'
CRITÉRIOS
ELETROCARDIOGRÁFICOS
Critérios de Voltagem do
Complexo QRS
A despolarização ventricular na presença de
hipertrofia segue a mesma sequência de ati
vação do coração normal. A diferença funda
mental está nos vetores resultantes, cujas
amplitudes são maiores como consequência
do aumento do número de dipolos gerados
pela massa ventricular hipertrofiada. A princi
pal repercussão eletrocardiográfica deste fe
nômeno é o aumento da amplitude do com
plexo .QRS. ou seja, a sobrecarga de VE é
apenas uma exacerbação da normalidade.
Existe derivação para onde preferencial
mente devemos olhar?
De certa forma sim ... Mas não há qualquer mis
tério aqui! Como o VE ficou sobrecarregado, é
até simples raciocinarmos que o QR:S ficará mais
positivo nas derivações para onde aponta o seu
vetor (lado esquerdo) e mais negativo naqueles
de onde "foge• o vetor (lado direito). Assim, ha
verá um aumento das ondas positivas (R) nas
derivações "esquerdas· (DI, aVL, VS e V6) e das
ondas negativas (S) nas direitas (aVR, V1 e V2).
Mas, afinal, existem ou não critérios ele
trocardiográficos?
Claro! Dezenas; mais de 30 critérios eletro
cardiográficos de sobrecarga do VE j á foram
propostos ao longo dos anos e. de uma for-
ma geral, eles tendem a ser pouco sensíveis
e muito específicos (sua ausência não exclui
o diagnóstico, enquanto sua presença prati
camente o confirma).
Os critérios i solados de voltagem mais aplica
dos são: o de Sokolow-1 yon: Cornell; Cornell
product (ou Cornell modificado); Gubner; e
Lewis, entretanto os 3 últimos têm uso muito
restrito na prática.
ÍNDIGE QE SQKQLQW-LYQN
O índice de Sokolow-Lyon é o mais antigo e
conheddo dos critérios (criado em 1949), sendo
muito usado pela sua fácil reprodução. O critério
é positivo se a soma da onda S de V1 com onda
R de V5 (ou V6) for maior que 35 mm.
Para gravar: S(V1) + R(V5 ou V6) > 35 mm
• Indivíduos íavens (principalmente com menos de 30
anos) podem apresentar este índice na ausência de
sobrecarga do VE, constituindo um grupo importante
a ser lembrado quando este critério for encontrada na
eletrocardiograma. Assim, nesta faixa etária, o ponta
de corte a ser considerado é de 40 mm.
INDICE DE CORNELLMas ainda falta alguma coisa, como pode ser
observado na Tabela 1 .. .
TABELA 1 - CONCENTRAÇÕES DOS
PRI NCI P A I S Í ONS NOS MEI OS I N T RA E
EXT RACELU L A R IM EQ/ LI
on Intracelular Extracelular
K' 155 5
Na· 12 145 -Mg- 15 2 --
- c a- - _ Desprezível_
1-
2
Ct· 8 110
HCO · 8 27
' -1-
Outros 166 17
ânlons
CÁTIONS + o o
ÁNIONS
Se a soma de cátlons e ânlons é sempre
nula, como o miócito cardíaco pode ler um
potencial de repouso?
De fato, se somarmos as cargas positivas e ne
gativas totais, chegaremos a um valor nulo. Mas
entenda que, na realidade, o gradiente de con
centração que existe para cada tipo de íon cria
um fluxo iônico através da membrana celular (do
"mais concentrado para o menos concentrado").
Esse fluxo acontece com todos os íons, mas,
como a membrana do miócito cardíaco é mais
permeável ao potássio, o fluxo desse íon é mais
pronunciado que o dos demais, de fomna que
ele é quem mais contribui para alterar a polari
dade celular durante o repouso. Sendo assim,
podemos dizer que o potássio é considerado o
grande "maestro• do potencial de repouso
transmembr:ana; é a saída do potássjo gue
deixa a célula inicialmente polarizada!
Acompanhe o raciocínio a seguir (Figura 4) ...
Como já percebemos, há mais potássio no intra
do que no extracelular por ação da bomba de
Na'/K• ATPase, o que gera um gradiente de
concentração para este íon (imagem B ). Des
ta forma, ele começa a sair da célula, acentu
ando o gradiente elétrico: como tem carga
positiva, sua saída intensifica a negatividade
na porção intracelular da membrana (imagem
C). Se nada acontecesse, o poiássio sairia de
forma continua da célula sempre a favor de seu
gradiente de concentração. Entretanto, lembre
·Se que, pelo gradiente elétrico, a porção intra
celular está negativa e isso é um estímulo para
o retomo do potássio para o interior celular, já
que ele tem carga positiva. Então, chega um
momento em que o gradíente de concentração
(que "joga• o potássio de volta para fora da
célula) e o gradiente elétrico (que "puxa" o po
tássio para o interior celular) se equivalem
(Imagem D).Acélula, enfim, pode "descansar":
é finalizado o processo de criação do potencial
de repouso transmembrana, que oscila entre
-65 e -90 mV (imagem E).
c .... , ... o 1 . 1 o
El.ETROF"$0lOGIA CAAOIACA
FIGUR A 4.
RESUMINDO:
f O - lfl - ROUSC T:RA -
Por ação Inicial da bomba de Na'/K' ATPase. há
um gradiente de concentração (força dlfuslonai)
"jogando" o potássio para fora da oéiula. ao mes
mo tempo em que existe um gradiente elétrico
(força elétriea) que o atrai de volta para dentro.
Quando as forças elétrica e difusional forem Iguais
em módulo. ocorrerá um equilibrio dinâmico.
Nesse inslante. a diferença de potencial entre os
meios Interno e externo gira em torno de ·65 a
-90 mV: é o Chamado potencial de repouso: diz-
-se que a célula está "polarizada".
·Perceba que. por convenção. a referéncla do
potencialtrsnsmembrana é o meio intracelular:
potencialtrsnsmembrana negativo signlfíca que
o intracelular está negativo (e o extracelular,
por consaquéncia. positivo). -
Até aqui, entendemos que o miócito cardíaco,
em seu estado normal de repouso, tem seu
meio extracelular positivo e o seu Intracelular
negativo. Mas, para surgir a corrente elétrica
(ou impulso elétrico) na superfície das células
cardíacas. tem que existir um d ipolo entre
estas células para que aquele nuxo de elé
trons do controle remoto também ocorra
aqui... Esse será o nosso entendimento a
partir de agora: como o miócito consegue
inverter sua polaridade em cada região do
coração.
Esta "troca· de um estado negativo Intracelu
lar para um valor positivo é chamada de po·
tenclal de ação e tem a seguinte sequência:
(1) o potencial transmembrana inicia em seu
estado de repouso negativo (-65 a -90 mV)
célula está polarizada.
(2) torna-se positivo (despolarização) .
(3) em seguida, retoma para o potencial de
repouso negativo (repolarização).
-··-
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CAP!TlA.O 1 - 11
ELETROf~OOV. CAAot.CA
Algumas áreas são boas formadoras de im
pulso elétrico e outras são ótimas condutoras
B) Formação do Impulso Elétrico
RB'OUSO
(Ntl IK"A.,_)
upoe •••z•çAo
(Mida do I( I
do impulso elétrico. Vamos entender essas
diferenças ..•
F"I GU RA !S.
Quando estudamos o circuito elétrico do cora
ção momentos atrás, vimos que algumas regi
ões são dotadas de automatismo. isto é, con
seguem gerar automaticamente um impulso
elétrico-nesse momento, conseguimos enten
der que são áreas capazes de inverter sua
polaridade de modo automático. Dizemos que
têm a função de "marca-passo" e são encon
tradas basicamente nos nados sjn usa! e atrjo
ventricular (Figura 5).
Seu potencial de repouso fica em tomo de -65
mV, mas elas possuem canais de cálcio (Ca .. )
que automaticamente se abrem próximo a esta
polaridade, permitindo o influxo (entrada) gra
dual desse cátion para o interior celular que
se encontrava negativo. Assim, a entrada de
cálcio inverte lentamente a polaridade da cé
lula, ou seja, o meio intracelular torna-se po
sitivo (despolarização).
Pronto! Nesse exato momento, com a troca
de cargas, é criado um dipolo no extracelular.
Agora, foi formada a corrente elétrica que se
gue em direção ao sisiema de condução. Sua
propagação dependerá de células especiali
zadas na condução rápida do impulso como
veremos logo a seguir ... Por enquanto, vamos
nos fixar na·s células formadoras do impulso;
as células automáticas!
Como vimos, elas sofreram despolarização
pela entrada de cálcio e agora precisam ser
repolarizadas. Qual é mesmo o íon que dá po
laridade às células cardíacas? O potássio!
Assim, abrem-se canais de K', fato que propicia
a saída deste íon para o extracelular a favor de
seu gradiente de concentração. Como agora
saem cargas positivas, o interior vai voltando a
ser eletronegativo (repolarização ). A célula en
tão retoma ao seu potencial de repouso.
A sequência de eventos do potencial de ação
destes tipos celulares é:
-Repouso (Na'IK' ATPase)
- Despolarização (entrada de cálcio)
- Repolarização (saída de potássio)
O potencial de ação com a inversão de poten
cial transmembrana pode ser representado
graficamente (Figura 6). Como estas células
auiomáticas iêm uma despolarização mais
vagarosa, s.ão chamadas de "células de res
posta lenta".
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 12
ELETROf~OOV. CAAot.CA
~~ ----;ttc--
-10
·120'-~-.... ~ ..... ~-
'T .. po l-1 o 100 200 300
f"'G U RA 6: P OTENC I A L OE AÇÃO OAS C ÉLULAS OE
R ESP O STA LENTA.
- - z•o;Ao (_.,.,...,
DL*RR•çAO
lAtida de IEntre 1985e 1987, um grupo da Universidade
de Cornell, nos EUA, desenvolveu um critério
de voltagem para sobrecarga do VE baseado
no sexo do paciente (critério de voltagem
gênero-especifico). Basta somar a onda R de
aVL com a onda S de V3 e, se o resultado for
maior que 28 mm em homens e 20 mm em
mulheres, o índice será considerado positivo.
Ativação Ventricular na Sobrecarga de VE
F"'IGURA 11: SOBRE
C ARGA DE VE NÁO A L T E
R A A A TIVAÇÃO VENTRt·
C U L AR ( PER CEBA QUE O
Q R S CONT IN U A SE P o
S:ITIVANOO DE: V 1 A V6),
M AS Cl F'AZ COM MAI S
IN T ENSI DADE {MAI OR AM·
P L IT UDE DO QRS ) ,
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAP!TlA.O 4 - 11 8
S OBReCARGAS C A.VITÁRIAS
Para gravar: R(aVL) + S(V3) > 28 mm
(homem) ou > 20 mm (mulher}
ATENÇAO!!!
Os critérios de Sokolow-Lyon e Cornell são
os preconizados pela Sociedade Brasileira
de Cardiologia (SBC) como os melhores
índices de voltagem para o diagnóstico de
sobrecarga ventricular esquerda. São
esses que você tem que memorizar!
Í NOI CE DE CORNELL MODIFICADO
Posteriormente, o critério de Cornell sofreu
uma modificação, onde a amplitude do com
plexo 35 mm
Cornell
R(aVL) + S(V3) > 28 mm ou 20 mm
Com ell Product
[R(aVL) + S(V3) + 8 se mulher] x duração
QRS 17 mm
maís trabalhosa. Nem pense em usá-lo na
prática; só saiba que ele existe ...
I NDICE DE GUBNER
Muíto pouco utílízado, o critério de Gubner repre
senta a soma da onda R de DI com a S de 0111.
Quando este valor for maior ou ígual a 25 mm, o
critério é positivo: R(DI) + S(D//1) 2: 25 mm.
CRITÉRIO DE LEWIS
Outro critério que vale ser lembrado, porém
muíto pouco utílízado é o de Lewis. Neste ín
dice, deve-se subtrair a polaridade resultante
(onda R - onda S) encontrada em OI II daque
la de DI, ou seja, acaba sendo a subtração
do valor algébrico de 0 111 do valor algébrico
de OI. Um resultado superior a 17 mm é su
gestivo de sobrecarga deVE: [R{DI) - S(DI))
- [ R(D//1) - S(D//1)) > 17 mm.
Reveja, na tabela 6, os critérios eletrocardío
gráficos de ampli tude para sobrecarga ven
tricular esquerda, com as respectivas sensi
bilidades e especificidades médías. De uma
forma geral, são critérios de baíxa se nsibilí
dade (não atingem 30%), mas de alta espe
cificidade (ultrapassando 90%), sígníticando
que sua ausência não excluí o díagnóstíco,
mas sua presença pra ticamente o confirma.
Lembre-se que os únicos que devem ser
memorizados são Sokolow-Lyon e Cornell ...
SENS IB IL IDAOE ESPEC i r:-I C I OAOE
24% 87%
15,7% 95,2%
19,8% 92%
13,9% 93,25%
18% 98%
T A BE L A 6,
MEOr:u: t RO
Quantos cri térios ... Vamos treinar?
-··-:-lr':
CAP!TlA.O 4 - 119
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
Tente aplicar, nos exemplos abaixo, os critérios preconizados pela SBC que você acabou de
estudar. ..
1) Mulher de 44 anos com válvula aórtica bicúspide.
Ot
vs..., ... ......~_.
Sokolow-Lyon:
Corn,.ll:
Concf.usão:
2) Homem de 79 anos com hipertensão arterial sistêmica de longa data.
•VR Vl V4
Vl
0111 •VF V3 V6
lliill
Sokolow-Lyon:
C orne li:
Conclusão:
Sokolow-Lyon: SV1 (25) + RVS (11) - 36 mm.
Com,.ll: RaVL (16) + SV3 (7) - 23 mm.
V>
~w
-~-
Conclusão: Critérios da SBC pos ltlvos para sobrecarga de VE.
--
~V8
'
r1 '
c
011 aVL
0111 •••
Sokolow-Lyon: SV1 (18) + RVS (13) ~ 31 mm.
Cornell: RaVL (21) + SV3 (7) ~ 28 mm.
V1'
A c~- /1 r;
_ j . i ,...,.
.;. •
Concfusilo: Não há cri térios da SBC para sobrecarga de VE.
VA"
~
,I l - j
'
ys
• ••
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAP!TlA.O 4 - 120
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
Limitações dos Critérios Eletrocardiográficos de anJplitude
do QRS para o diagnóstico de Sobrecarga de VE
Com o os critérios que nós vimos dependem de aumentos da voltagem do complexo QRS,
é preciso primeiramente esclarecer alguns pontos. A amplitude do complexo QRS depende
de diversos fatores além da massa ventricular. O eletrocardiograma representa apenas cerca
de 10 a 15% da amplitude da despolarização de uma única fibra miocárdica se o eletrodo
estivesse posicionado diretamente sobre ela. Grande parte desta atividade elétrica é perdida
no trajeto do estimulo até a pele. As variáveis que influenciam esta perda são a conformação
da parede torácica (proximidade- do coração com a superfície), condutividade pulmonar (ex. :
o DPOC tende a gerar uma baixa voltagem pelo maior aprisionamento de ar no tórax) e a
gordura epicárdica . Além disso, como estes critérios foram elaborados para o diagnóstico
de sobrecarga nos casos de H VE simétrica, há uma perda maior ainda de sensibilidade
quando se tenta aplicá-los aos crescimentos assimétricos.
Vale mencionar também que o infarto agudo do miocárdio pr-évio e o bloqueio de ramo direito
reduze-m a sensibilidade de qualquer critério que utiliza a amplitude do QRS. O primeiro devido
à fibrose e o segundo por direcionar os vetores da despolarização para direita. Estas entidades
serão estudas em capítulos futuros. Por último, existe o problema destes critérios não terem sido
estudados em todas as etiologias de sobrecarga ventricular esquerda, o que pode dificultar a
sua generalização na prática. De qualquer forma, este sistema. é, se-m dúvida nenhuma, a forma
mais completa de se avaliar a presença de sobrecarga ventricular esquerda no eletrocardiograma.
O uso paralelo dos critérios de voltagem pode acrescentar ainda mais em sensib!idade.
Escore de Pontos: Critério de
Romhilt-Estes
Para suprir algumas limitações dos critérios de
voltagem do QRS, foi elaborado, por Romhilt
-Estes, um grupo de critérios que associava
diversas alterações relacionadas à sobrecarga
do VE no traçado e não somente a amplitude
do complexos QRS. De acordo com o peso de
cada alteração, foram-lhes atribuídas pontua
ções diferentes. Os 3 critérios maiores recebem
3 pontos cada; o único critério interme-diário
conta 2 pontos e os 2 menores, apenas 1 pon
to cada. Se a soma de todos for igual a 4
pontos, a presença de sobrecarga de VE é
provável, enquanto valores 2: 5 praticamen
te confinmam o diagnóstico.
Crjtérjos Majores
Os três critérios maiores (3 pontos cada) são:
índice de Morris; critério de voltagem do QRS
e o padrão strain da repolarização ventricular.
Í NDICE DE M ORRIS
A sobrecarga atrial esquerda, sugerida, nes
te caso, pelo índice de Morris, é um achado
indireto de acometimento do ventrículo es
querdo, pois elevações de pressão dentro
desta cavidade são transmitidas retrograda
mente para o átrio. Raramente, esta pode ser
a única alteração no eletrocardiograma su
gestiva de sobrecarga do VE. Entretanto, este
critério só é· válido na ausência de estenose
mitral, que, por s i só, poderia j usti ficar uma
sobrecarga do átrio esquerdo na ausência de
doença ven tricular.
CRITÉRIOS DE VOLTAGEM DO QRS
O critério de voltagem considerado aqui não
corresponde a nenhum daqueles que j á fo
ram discut idos. Neste caso, considerando-se
primeiramente o plano horizonial, se a onda
R de V5 e/ou V6 ou a onda S de V 1 eJou V2
for superior ou igual a 30 mm, deve-se atribuir
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 4 • 121
SoBReCARGAS CA.viTARtAS
3 pontos à soma do escore. No p lano frontal,
valoriza-se qualquer onda R ou S maiorou
igual a 20 mm.
PADRÃO STRAIN
O último critério maior está relacionado a uma
alteração secundária da repolarização ventri
cular (capítulo 3), consequente a modificações
da despolarização. Nesta situação, a onda T
tende a manter sua assimetria, porém assume
uma polaridade oposta (negativa) à do com
plexo QRS, associada, muitas vezes, ao infra
desnivelamento do ponto J e se-gmento ST.
Este padrão de in vers ão assim étrica da
onda T é denominado de strain e deve ser
pesqui:sado no plano horizontal em V5 e V6 e
frontal em DI e aVL (derivações esquerdas),
valendo 3 pontos. Entretanto, h.á ainda um
detalhe importante: se o paciente estiver utili
zando um digital (ex.: digoxina), podem ocor
rer alterações semelhantes do segmento ST
e onda T ("pá de pedreiro") induzidas por esta
droga, o que atrapalha a interpretação do pa
drão strain. Assim, neste caso, o critério só
vale 1 ponto.
F"II3 U RA 1 2 : PADRÃO S TRAtN DE VE - INV E R •
SÃO ASSIMÉTRICA O A O NDA T NAS DERIVAÇÕES
ESQUER D A S (VS, V61 0 1, AVL),
Critério Intermediário
A sobr·ecarga do ventrículo esquerdo inten
sifica a orientação do eixo da das polarização
ventricular para este lado. Se o desvio for
além de -30°, este critério é considerado
positivo e o paciente ganha 2 pontos. Mas
aqui vale um detalhe: diversos trabalhos já
mostraram que a sobrecarga de VE, por si
só, não desviaria o eixo da despolarização
para e·squerda nessa magnitude! Na reali
dade, quando isto ocorre, é si nal de que
houve um alentecimeni o da condução pelo
feixe anterossuperior do ramo esquerdo
(chamado de hemibloqueio anterior esquer-
do, que será visto no capitulo 6). De qual
quer maneira, entra como critério pelo fato
de tal alteração ser relativamente frequente
em pacientes com sobrecarga deVE devido
à fibrosa de feixes de condução que frequen
temen te acompanha as mudanças anatõmi
cas secundárias à sobrecarga ventricu lar.
Crjtérjos Menores
Os dois cri térios menores também podem
ser consequência do comprometimento do
sistema de condução ou simplesmente pelo
aumento da massa ventricu lar que precisa
ser ativada.
TEMPO DE ATIVAÇÃO VENTRICULAR
(TA VI
Corresponde ao tempo entre o início do com
plexo QRS e o pico da onda R, ou tempo de
inscrição da def/exão intrinsecoide (Figu ra 13).
Se for maior ou igual a 50 ms, vale 1 ponto no
escore, sendo melhor visualizado em VS e V6.
• Na prática, é diflcil determinar 50ms: como um
quadradinho tem 40 ms, seria o equivalente a 1
quadradinho .e mais Y. de outro ... O que fica impra
ticável! Para facilitar, guarde que o TAV deve ser
> 40 ms, o que vai colocá-lo na proximidade dos
50ms ...
1'1 E ........... Yt 11 I
' '
~
I l t
t
*
L
~ 1
t
- ~
"I .I l I I
FIG U RA 1:3: 0 TEMPO D E ATI V AÇÃ O V ENTRI•
C U LAR (T A V J OU OEf'"\.E XÃO INTR t S ECO l D E COR •
R E S PONDE A O T E M PO ENTR E O INÍ C t O 00 Q R S
ATÉ O PIC O DA O N D A R .
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAP!Tl-'.0 4 • 122
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
DURAÇÃO DO COMPLEXO QRS
O último critério menor (1 ponto) é o aumento
da duração do complexo QRS (~ 90 ms) em
qualquer derivação. Isso porque uma maior
massa ventricular pode, de fato, acabar ele
vando o tempo de despolarização.
• Embora atualmente considera-se que um QRS
normal possa chegar até 120 ms e geralmente nem
ultrapasse os 100 ms, esse critério é antigo e o
valor de 90 ms continuou ...
Reveja, na tabela 7, o sistema de escore de
pontos de Romhilt-Estes para o diagnóstico
de sobrecarga ventricular esquerda. Em ter
mos de acurácia, o resultado é semelhante
aos critérios de amplitude: baixa sensibilidade
(54%) e alta especificidade (97%). Uma pon
tuação de 4 pontos apenas sugere o diag
nóstic-o, enquanto valores 2:5 confirmam o
diagnóstico eletrocardiográfico.
Sobrecarga Sistólica X
Sobrecarga Diastól ica
A diferenciação eletrocardiográfica dos tipos
de sobrecarga do VE é extremamente d idá
tica, mas infelizmente é pouco confiável... A
principal diferença entre as duas classifica
ções ocorre na repolarização ventricular
(segmento ST e onda T) , sendo melhor ob-
servada nas derivações esquerdas (DI, aVL,
VS e V6):
- SOBRECARGA SISTÓLICA (Figura 14): é
o comportamento clássico; já descrito com o
padrão stra[n (inversão assimétrica da onda T
em V5, V6, DI e aVL), com tendência também
ao infradesnivelamento do segmento ST. É
mais característico de situações de sobrecar
ga de pressão, como na hipertensão arterial
sistêmica e na estenose aórtica.
- SOBRECARGA DIASTÓLICA (Figura 15):
ocorre um discreto supradesnivelamento do seg
mento ST com concavidade para cima, seme
lhante á morfologia da repolarização pre-coce e
da pericardite. A onda Ttoma-se simétrica, pon
tiaguda e com a amplitude aumentada, adquirin
do um aspecto que lembra a hipercalemia e a
isquemia subendocárdica. É mais caracteristico
de situações de sobrecarga de volume, como
nas insufiCiências valvares (aórtica e/ou mitral).
• Esta classificação foi proposta nos anos 50 por
Cabrera e se defende que o padrão entllo classi
ficado como sobrecarga diastólica nada mais é do
que a fase inicial de qualquer processo qua possa
aumentar tanto a pré quanto a pós-carga ventricu
lar. Lembre-se que a sobrecarga não tratada é um
fenômeno contínuo, que, em suas fases finais,
independentemente do processo inicial, evoluiu
com dilatação importante da cavidade ventricular
e disfunção tanto diastóllca quanto sist6Jica.
Critérios Maiores
Aumento da Amplitude do Complexo QRS
Plano Horizontal: S(V1 ou V2) ou R(V5 ou V6) 35 mm
Cometi : R(aVL) + S(VJ) > 28 mm (homem) ou> 20 mm (mulher)
TABELAS ,
11 •• •• '"
F I GURA 1 4 .
...
11 .. ••
Sokolow-lyon: SV1 (18) + RVS (31) ~ 49 mm.
Comei i: RaVL (1 5) + SV3 (10) ~ 25 mm.
Critério de Pontos: (3) + (3) + (3) .•.
Conclusão: Sobrecarga deVE.
... ...
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAP!TlA.O 4 - 124
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
Sobrecargo Ventrlc11lar Esquerda do Tipo Olut611ca
11 .. •• ... '"
FIG U RA 1 5 .
As repercussões eletrocardiográficas da so
brecarga do ventrículo direito são ainda me
nos sensíveis do que as do ventrículo esquer
do. Fato que não é difícil de entender, pois,
como já visto, o eletrocardiograma é quase
que uma representação exclusiva da ativida
de elétrica do VE. Logo, para que a sobrecar
ga do VO comece a se manifestar, ele tem que
estar muito sobrecarregado, pois somente
assim seus dipolos irão "puxar" as resultantes
vetoriais para direita. Como a massa ventricu
lar esquerda é cerca de três veze·s maior que
a direita, o VO pode dobrar a sua massa sem
que haja mudanças eletrocardiográficas.
Entretanto, quando há sobrecarga do VO no
eletrocardiograma, percebemos que os veto
res resultantes da ativação dos ventrículos
tornaram-se completamen te diferentes do
padrão normal e daquele observado na sobre
carga do VE, que era apenas uma exacerba
ção da normalidade.
CAUSAS . -
Todos os conceitos já discutidos em rela-
ção às causas de sobrecarga do VE tam
bém valem para oVO, especificamenteem
relação às variações na pré ou pós-carga.
Assim, compõem esta lista as pato logias
da valva tricúspide e pu lmonar; más for
mações congênitas com desvio de san
gue da esquerda para direita, sobrecarre
gando este lado (comunicação interatrial
e comunicação interventricular, chamadas
de CIA e CIV, respectivamente) ; Tetralogia
de Fallot (a hipertrofia do ventrículo direi
to é um do:s componentes da tetralogia ... )
e todas as causas de hipertensão arterial
pulmonar (principalmente o tromboembo
lismo pu lmonar e as doenças pulmonares
obstrutivas crônicas evolu indo com cor pul
monale, que significa exatamente uma so
brecarga deVO secundária a alterações do
pulmão).
• Não se esqueça também de que todas as causas
de sobrecarga das cavidades esquerdas tém po
tencial de acometer, de forma retrógrada, o lado
direito se cursarem com hlperlensllo atterial pul
monar (o que geralmente só ocorre em fases avan
çadas), especialmente a estenose mitral.
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAP!TlA.O 4 • 125
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
CRITÉRIOS
ELETROCARDIOGRÁFICOS
Como no caso do ventrículo esquerdo, os prin
cipais critérios de sobrecarga ventricular direita
dependem da voltagem do complexo QRS e,
por isso, esbarram em limitações de sensibilida
de, apesar de serem razoavelmente específicos.
Para oompreendermos, sem sobressattos, estes
critérios eletrocardiográficos, é importante a
percepção de como se modifica a ativação elé
trica ventricular neste novo cenário (Figura 16),
na SobnK:arga de VD
•
F'IGU!RA I 6: SOSRt!CARGA DE VO MODIFICA
A A T I VAÇÃO V E NTR I CULAR (t='~RCEBA QUt! 0
QRS t. M A I S POSITIVO E M V l E V2 ~ MAIS
NEGATIVO EM VS C V6) .
Entendendo a sequência vetorial da despo
larização ventricular na sobrecarga de VD ...
O primeiro vetor (septo médio) geralmente não
sofre alteração (exceto em sobrecargas graves)
e continua a ser orientado para frente e para a
direita, sendo formado pela despolarização do
septo a partir do ramo esquerdo do sistema de
condução. Nada de novo até aqui.. .. Em segui
da, surgem as primeiras modificações, pois,
embora a despolarízação da pared.e livre deVE
se mantenha orientada para a esquerda, a ati
vação de VD, antes inexpressiva do ponto de
vista e letrocardiográfico, agora é mais impo
nente que a própria ativação da cãmara esquer
da. Deste modo, é produzido um vetor domi
nante de toda a despolarízação ventricular que
aponta para a direita, "puxando" o eixo médio
para este lado. O último vetor (da parede basal)
não é modificado nesta situação.
Mas como essa modificação se traduz
no ele1rocardiograma?
Critérios de Voltagem
Os critérios de voltagem para sobrecarga do
VD são praticamente exclusivos das derivações
precordiais. De uma forma geral, o que se vê
é um aumento da onda R em V1 e V2 e/'ou sua
diminuição em VS e V6, com o oposto aconte
cendo com a onda S. Em outras palavras. o
complexo QRS torna-se posjtjyo em V1 e V 2
e negatjyo em ys e V6! Os critérios mais sen
síveis são aqueles que utilizam as precordiais
esquerdas, enquanto as atterações das precor
diais direitas são mais específicas. Veja, na
tabela abaixo, os principais critérios de volta
gem associados à sobrecarga do VD.
P RECOR D I A I S P RECORDIA I S
D IREI T AS ESQ U ERDAS
CV 1 E V2) IVS E V6 )
R>7mm S>7mm
S1 RIS 7 mml
QRS negativo em VS e V6: OndaS predominante
em VS e V6 (> 7 mml
Padrão straln em V1 e V2 (Inversão assimétrica
da onda 7}
Desvio do eixo para direita
(entre +120" e +180°)
Padrão QR em V1 (sinal de maior Qravidadel
Au mento do tempo de ativação ventricular
ildeftexão lntrinsecoidel >50 ms '
Sinais Indiretos: sobrecarga de AO; rotação
horária (padrão S 103 e transição !ardia do QRS);
I ponta para trás (S 1 S2S3)
T AB ELA 1 O,
MEOr:u: t RO
.. ..
T y-
n
-··-:-lr':
•• .,.
.. .J. - ~
-
• li
an
r
CAP!TlA.O 4 - 127
SOBReCARGAS CA.VITÁRIAS
...
~
F I G U RA 1 9 : S O S R ECARG.A OE VO (PAC I E N TE C O M C O R PUL M O N ALE G R A V E ),
Estes critérios são pouco sensíveis para o
diagnóstico quando utilizados isoladamente,
apesar de relativamente específicos. Assim,
sempre que possível, eles devem ser empre
gados em conjunto.
Dll
0111
;A--
•VR
•Vl
Agora é com você: assinale os sinais de
sobrecarga ventricular direita no exemplo
abaixo ...
Critérios Eletrocardiográficos:
• Cód. 301c4m1
Para visualizar o gabarito acesse a imagem com seu respectivo código alfanumérico disponi
bilizado na área restrita de nosso portal na internet ou leia o código através do MEDCODE.
- Alteração da amplitude do QRS: QRS positivo em V1
-Padrão qR em V1
- Padrão strain em V1
- Desvi o do eixo do QRS para di re ita (entre +120° e +150°)
- Rotação horária S 1 Q3
OBS: Não há sinais de sobrecarga do AOe nem aumento do tempo de ativação ventricular.
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAP!TlA.O 4 • 12 8
S OBReCARGAS CA.VITÁRIAS
Com relação ao ORS·
- Sot>recarga deVE (exacerba a amplitude das ondas normais): ondaS mais alta em V1 e
onda R mais alta em V6
- Sot>recarga de VD (inverte a polaridade das ondas normais): QRS positivo em VI (onda
R predominante) e negativo em V6 (ondaS predominante). Aqui, há também um desvio do
QRS para direita (> +120•)
SOBRECARGA BIVENTRICULAR
Como foi dito no caso da sobrecarga biatrial,
qualquer causa de sobrecarga do VE pode,
em fases avançadas, cursar com uma sobre
carga do VD através da geração de hiperten
são arterial pulmonar retrogradamente. Já
entre as cardiopatias congênitas,. vale desta
car aquelas que podem resultar na síndrome
de Eisenmenger (ex. : CIV - comunicação
interventricular I CIA- comunicação intera
trial), quando a sobrecarga do VD é desen
volvida até antes do VE.
" Síndrome de Eisenmenger decorre de qualquer
cardiopaüa congênita que apresente inicialmente
um shunt esquerda~direita. mas que, ao aumentar
o huxo sanguineo pulmonar pela maior quantidade
de sangue no lado direlto do coraçãO 7
mm).
C) lnfradesnivelamento do segmento ST
e inversão assimétrica da onda T em V6.
O) OndaS em V2 l!: 30 mm.
E) Desvio do eixo do QRS no plano fron·
tal para além de -30°.
Comentário: Devemos ter a capacidade de
reconhecer uma sobrecarga ventricular
esquerda no eletrocardiograma! Esse re·
conhecimento pode ser feito através de
critérios de amplitude do QRS, como
Sokolow-Lyon e Come//, mas o Escore de
Romhilt-Estes também deve ser memori·
3 -A presença de uma onda P com dura·
ção de 140 ms nos permite colocar que
alteração no laudo do ECG?
A) Sobrecarga de átrio esquerdo.
B) Sobrecarga de ventrículo esquerdo.
C) Sobrecarga biairial.
O) Sobrecarga de átrio esquerdo e ventri·
culo esquerdo.
destas câmaras cardíacas. Como a ativa·
ção do átrio direito é responsável pela
porção inicial desta onda, sua sobrecarga
não terá repercussão na sua duração,
mas sim na sua amplitude, que, como
critério, ficará > 2,5 mm (mais facilmente
percebido em DI/). Uma onda P com as
pecto bífido (P mitra/e), com aumento
expressivo de sua porção negativa em V1
(índice de Morris) ou de maior duração
são características de sobrecarga atrial
esquerda. Resposta certa: letra C.
zado. Este inclui 6 critérios divididos entre
maiores, intermediários e menores. Os
critérios maiores valem 3 pontos e são:
indice de Morris marcando a sobrecarga
atrial esquerda frequentemente associada
à HVE (letra A), maior amplitude do QRS,
como onda S (V1 ou V2) ou onda R (V5 ou
V6) l!: 30 mm (letra D) e o padrão de strain
em derivações esquerdas (letra C). O úni
co critério intermediário é o desvio do eixo
médio do QRS para esquerda além de -300,
que vale 2 pontos e, na realidade, já marca
a presença de hemibloqueio anterior es·
querdo, patologia também muito associa
da à HVE. Os critérios menores somam 1
ponto cada e são tempo de ativação ven
tricularda repolarizaçâo com o surgimento de
inversão assimétrica da onda Tem deri
vações direitas (letra C ERRADA - V6 é
derivação esquerda ... ). Uma hipertrofia
significativa de VD chega a induzir uma
importante rotação horária do coração, o
que faz com que o vetor do septo médio
(1° vetor da ativação ventricular) passe a
ser orientado para a esquerda, afastando
-se de V1, o que explica o padrão qR em
V1 (letra A). Resposta certa: letra C.
VD desvia eixo para direita e torna as
precordiafs deste lado positivas e com
padrão strain I sobrecarga de VE pode
cursar com desvio do eixo para es quer
da e aumenta a positividade das precor
diais deste lado que também passam a
ter padrão strain). E a sobrecarga biven
tricu/ar? Essa pode apresentar uma mes
cla entre sobrecarga de VD e VE, mas
pode ter um padrão mais específico,
denominado Sinal de Katz-Wachtel, que
é exatamente o achado de QRS amplo e
ísodifásíco do tipo RS nas precordiaís
intermediárias (V2 a V4). Ao lado está o
ECG do paciente para que você enxer
gue, mais uma vez, esta alteração:
MEOEtE'IRO
Dll •Vl
Dll
6 - Assinale as alteraç,ões presentes no
ECG abaixo de uma criança com uma
cardiopatia congênita cianótica.
A) Sobrecarga atrial direita + Sobrecarga
do ven trículo direito.
B) Sobrecarga biatrial + Sobrecarga do
ventrículo esquerdo.
C) Sobrecarga do ventrículo direito.
O) Sobrecarga biatrial + Sobrecarga do
ventrículo direito.
E) Sobrecarga atrial esquerda.
Comentário: Ao iniciannos a interpretação
do ECG, vemos que o ritmo é sinusal e que
a frequência cardíaca está normal. Passaria
mos então para as "letras" ... Logo de cara:
onda P/ Atente para sua amplitude e seu
forma to em DI/: onda apiculada e com altura
de4 mm (muito acima dos 2,5 mm nonnais).
Concfusão neste ponto: sobrecarga de átrio
direito! Não há duração aumentada dessa
onda P para se pensar em uma concomitân·
cia de sobrecarga de átrio esquerdo também.
Mas, ao analisannos V1, percebemos um
componente nega6vo muito profundo, maior
que 1 mm, o que configura o índice de Mor-
CAPil"'-0 4 - I J.
SOBRECARGAS CA.VITAAIAS
V4
Vl V$
ris, sugestivo de sobrecarga atrial esquerda
também. Só como um detalhe: muitos auto·
res não consideram tal alteração pelo fonna·
to mais estreito da sua porção negativa e a
chamam de pseudossobrecarga atrial es·
querda. Ate-ntaremos agora para o QRS ... Seu
eixo não chega a estar desviado, mas já
mostra uma tendência de deslocamento para
esquerda (entre O e --300). Veja sua amplitude:
onda S profunda em V1 e onda R altíssima
em V6 com concomitante padrão stram nes·
sa derivação (onda T com inversão assimé
trica e infradesnive/amento do segmento ST}:
sobrecarga do ventrículo esquerdo. Concluí
mos que o gabarito só poderia ser a letra 8.
Para enriquecer: qual o diagnóstico clínico?
O mais provável é tratar-se de uma atresia
tricúspíde, onde não há comunicação entre
AD e VD (válvula ausente ou imperfurada), o
que obriga a existência de defeitos associa·
dos para pennitir a mistura do sangue sisté
mico e pulmonar: ocorre comunicação inter·
atrial (CIA) e, muitas vezes, também uma
comunicação interventricular (CIV). Assim,
o sangue passa de AD para AE e deste para
VE. Resposta certa: letra 8.
MEOEtE'IRO C.t.PilLl.O 4- I
SOBRECARGAS CA.VITAAIAS
DLJ aVR "ir ~[ rr
ou aVl V2 vs~
0111
[f.
7- O que você enxerga no próximo ECG?
. rO'ry
·" ,.:. '_jf
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0111 . . I
,.._...,._ '"--: ,.., ..
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. ""'. l fiiiT' . .. Lfo;
~
•A . '
'
.. 'j.:., {• . ...,.: ~ \~
A) Sobrecarga atrial direita + Sobrecarga
do ve ntriculo direito.
B) Sobrecarga biatrial + Sobrecarga do
ventrículo esquerdo.
C) Sobrecarga do ventrículo direito.
O) Sobrecarga biatrial + Sobrecarga do
ventrículo direito.
E) Sobrecarga atrial esquerda.
Comentário: Já estamos craques em in·
terpretar ECG de modo organizado! A
frequência ê de 100 bpm, o ritmo ê sinu·
~""+ -
sal, então vamos às letras ... A onda P, já
está diferente ... Repare nela em D/1: tem
quase 4 mm(!) e um formato apiculado:
isso é sobrecarga atrial direita. Aqui exis·
te outra alteração por esta sobrecarga:
em V1, a amplítude da onda Pé maior que
1,5 mm. E o QRS? Seu eixo está desviado
para a direita entre +120° e +150°, há um
predomínio de onda R em V1 (> 7 mm) e
de onda S em V5 e V6 (também > 7 mm):
todos são critérios de sobrecarga de VD.
Resposta certa: letra A.
s
MEOEtE'IRO CAPil"'-0 4 - I 4
SOBRECARGAS CA.VITAAIAS
8- O que você colocaria no laudo desse ECG e que tipo de doença valvar cardfaca o
paciente tem?
t>ll~\- IV f
A) Sobrecarga de AE + sobrecarga de VD:
esten ose mitral.
B) Sobrecarga de AE + Sobrecarga deVE:
esten ose aórtica.
C) Sobrecarga de AE: estenose tricúspide.
O) Sobrecarga de AO+ Sobrecarga de VD:
insuficiência tricúspide.
E) Sobrecarga de AE +Sobrecarga de VD:
insufic iência mitral.
Comentário: Inicialmente, vamos nos ater
ao ECG- que é o principal foco do nosso
material! Ao iniciarmos a interpretação
do ECG, vemos que o ritmo é sinusal e
que a frequência cardíaca está baixa (cer
ca de 55 bpm). Passaríamos então para
as "letras" ... Logo de cara: onda P/ Ela
dura 120 ms em DI/, o que já configure um
alargamento, mas como alguns autores
interpretam essa duração como ainda
9 - Qual seria o diagnóstico do próximo
ECG baseando-se nas derivações DI, 011,
0111, V1, V2 e V3?
A) Sobrecarga atrial direita + Sobrecarga
do ve ntriculo direito.
B) Sobrecarga biatrial + Sobrecarga do
ventrículo esquerdo.
C) Sobrecarga do ventrículo direito.
D) Sobrecarga biatrial + Sobrecarga do
ventrículo direito.
E) Sobrecarga atrial esquerda.
normal, repare agora em V1 ... Não há dú·
vida: temos o índice de Morris nesta de
rivação (perceba a porção negativa da
onda P): isso já configura uma sobrecar
ga de AE ..• Outra alteração está no com·
plexo QRS ... Se você ainda não calculou
o eixo médio no plano frontal, tente fazê
-lo agora. Mas tente mesmo ... Negativo
em DI e aVF: está no 4• quadrante {entre
·900 e 180•)! Pelo isodifasismo em DI/I,
concluímos que se encontra a -150•. Além
disso, em V1 e V2, o QRS está positivo
com onda R bastante alta e há um padrão
strain. Esses achados nos fazem concluir
que também existe uma sobrecarga de
ventrículo direito. A associação de sobre
carga de AE e VD aponta para o diagnós·
tico de estenose mitral (na insuficiência
mitral, também é esperada uma sobrecar
ga de VE). Resposta certa: letra A.
Comentário: A onda P, em DI/, está alar
gada e bifida (P mitra/e), o que aponta
para uma sobrecarga atrial esquerda. Em
V1, a onda P tem seu componente positi
vo maior que 1,5 mm, demonstrando a
presença concomitante de sobrecarga do
átrio direito. Com relação ao QRS, sua
negatividade em DI sugere um desvio
para a direita, enquanto a presença de
ondas R proeminentes em V1 e > 7 mm
atestam a presença de sobrecarga do
ventrículo direito. Resposta certa: letra D.
MEOEtE'IRO CAPil"'-0 4 - I ~
SOBRECARGAS CA.VITAAIAS
10- Qual(is) a(s) câmara(s) cardíaca(s) com sobrecarga no ECG abaixo?
'11 .b..
A) Átrio direito.
B) Átrio esquerdo.
C) Ambos os átrios.
O) Átrio esquerdo e ventriculo direito.
E) Ventriculo direito.
Comentário: Neste ECG, o ritmo é sinusal
e a frequência cardíaca está em torno de
75 bpm. A onda P não apresenta qualquer
alteração de amplitude ou duração ... Mas
o QRS está fora dos padrões de norma
lidade! Com relação ao eixo no plano
frontal, como é negativo em DJ e isodifá
sico em DI/, concluímos que está a -150°.
Além disso, nas precordíais direitas (V1
. '
e V2), percebe-se um predomínio de onda
R, inclusive com amplitude > 7 mm em
V1. Isso tudo nos permite confirmar a
presença de sobrecarga de ventrículo
direito. Além do mais, o padrão qR em
V1 nos é indicativo de uma sobrecarga
muito severa a ponto de causar uma rotação horária do coração, fazendo com
que o vetor do septo médio (1° vetor da
ativação ventricular) passe a ser orien
tado para a esquerda, "fugindo" de V1
(repare também no padrão 51 Q3- onda
S em DI e onda Q em D/11- também com
patível com rotação horária). Resposta
certa: letra E.
MEOr:u:t RO
-··-:-lr':
CAP!TlA.O 4 - 136
S OBReCARGAS CA.VITÁRIAS
Para visualizar os gabaritos acesse a imagem com seu respectivo código
alfanumérico disponibilizado na área restrita de nosso portal na internet ou
leia o código através do IIAEDCODE
Cód. 301c4r
fNDICE DE MORRIS
MEOELEl'RO C'.s>iTU.O 4 • 13 7
SOBRECARGAS CAVITARIA.S
Para visualizar os eletrocardiogramas de cada situação, acesse a imagem com seu
respectivo código alfanumérico disponibilizado na área restrita de nosso porta! na
internet ou leia o código através do MEDCODE.
SITUAÇÃO 01
No hospftal onde faz atendimento ambulatorial às
2~, 4u e 6M feiras, você conhece Claudenilson,
um homem de 58 anos que foi à coosutta de ro
tina no Ambulatório de Clínica Médica-é apenas
o 4° paciente do dia de um total de 31 , sem con
siderar os "encaixes" que certamente estão por
vir ... Ele é portador de hipertensão arterial e dis
lipidemia. fazendo uso regular de hidroclorotiazi
da 25 mg ao dia e atorvastatina 40 mg à noite.
Não há atteração em seus níveis pressóricos,
assim como seus últimos exames laboratoriais
estão normais. O paciente não fez o ECG solici
tado e você se prepara para liberá-lo, mas é
apanhado por um sentimento de culpa: não po
deria finalizar uma consutta clínica em 4 minutos!
Assim, imbuído do mais nobre "espírito de cui
dar", você decide por examiná-lo. Durante a
palpação do precórdio, percebe um ictus cordis
propulsívo e, na avaliação da pressão arterial,
é encootrado um valor de 150 x 94 mmHg.
Buscando fechar uma linha de raciocínio, você
solicita um eletrocardiograma (PROJEÇÃO).
~ Cod. 301c4s1
1-Qual a alteração presente no ECG? Ela
pode ser corroborado com algum critério
eletrocardiográfico?
2 - Qual é a provável causa da alteração
do ECG?
3 - Você modificaria algo na prescrição do
paciente?
SITUAÇÃO 02
A 16• paciente do dia é Mariângela, uma
jovem senhora de 42 anos, que procurou o
Ambulatório de Clínica Médica por queixa
de cansaço que se acentuou aos esforços
nos últimos meses, além de disfagía e apa
recimento recente e insidioso de rouquidão.
Nega tabagismo, hipertensão ou diabetes.
Refere não fazer uso crônico de q uiTU.O 4 • 13 7
SOBRECARGAS CAVITARIA.S
Para visualizar os eletrocardiogramas de cada situação, acesse a imagem com seu
respectivo código alfanumérico disponibilizado na área restrita de nosso porta! na
internet ou leia o código através do MEDCODE.
SITUAÇÃO 01
No hospftal onde faz atendimento ambulatorial às
2~, 4u e 6M feiras, você conhece Claudenilson,
um homem de 58 anos que foi à coosutta de ro
tina no Ambulatório de Clínica Médica-é apenas
o 4° paciente do dia de um total de 31 , sem con
siderar os "encaixes" que certamente estão por
vir ... Ele é portador de hipertensão arterial e dis
lipidemia. fazendo uso regular de hidroclorotiazi
da 25 mg ao dia e atorvastatina 40 mg à noite.
Não há atteração em seus níveis pressóricos,
assim como seus últimos exames laboratoriais
estão normais. O paciente não fez o ECG solici
tado e você se prepara para liberá-lo, mas é
apanhado por um sentimento de culpa: não po
deria finalizar uma consutta clínica em 4 minutos!
Assim, imbuído do mais nobre "espírito de cui
dar", você decide por examiná-lo. Durante a
palpação do precórdio, percebe um ictus cordis
propulsivo e, na avaliação da pressão arterial,
é encootrado um valor de 150 x 94 mmHg.
Buscando fechar uma linha de raciocínio, você
solicita um eletrocardiograma (PROJEÇÃO).
~ Cod. 301c4s1
1-Qual a alteração presente no ECG? Ela
pode ser corroborado com algum critério
eletrocardiográfico?
2 - Qual é a provável causa da alteração
doECG?
3 - Você modificaria algo na prescrição do
paciente?
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Situação 1
1· Sobreçarga Ventricular Esquerda;
Escore de pontos: 8 pontos
lndice de Sokolow: 44 mm
Cornell: 46 mm.
2· Hipertensão Arterial.
3· Sim: acrescentaria IECA.
MEOELEl'RO
SITUAÇÃO 02
A 16• paciente do dia é Mariângela, uma
jovem senhora de 42 anos, que procurou o
Ambulatório de Clínica Médica por queixa
de cansaço que se acentuou aos esforços
nos últimos meses, além de disfagia e apa
recimento recente e insidioso de rouquidão.
Nega tabagismo, hipertensão ou diabetes.
Refere não fazer uso crônico de qualquer
medicação, afirmando sempre ter sido uma
mulher saudável, exceto pelos episódios
recorrentes de dor de garganta que apre
sentara durante a infância e o inicio da ado
lescênci a, mas que hoje não a incomodam
mais. Já trazia consigo um Rx de tórax que
mostrava parênquima pulmonar sem alte
rações, mas era perceptível a elevação do
brônquio-fonte esquerdo.
Para complementação da investigação do
quadro, você então solicita um eletrocardio
grama, que é realizado em poucos minutos
{PROJEÇÃO).
11 11 •• '"
4- Se, após 3 anos sem acompan hamento
médico, a paciente retomasse ao seu am
bulatório com este novo ECG (PROJ EÇÃO),
que conclusões seriam possíveis?
C'.s>iTU.O 4 • 13 7
SOBRECARGAS CAVITARIA.S
1 - Descreva as alterações eletrocardio
gráficas encontradas e sua conc lusão
sobre elas.
2 - Qual é a causa mais provável desta al
teração cardiológica na situação clínica
apresentada?
3 - Como explicar a disfagia e a rouq uidão
da paciente? E a elevação do brônquio
·fonte esquerdo na radiografia torácica?
'"
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Sjtuação 2
1- lndic;e de Morris t alargamento da onda P: aumento de átrio esquerdo.
2- Estenose mitral por sequela ele lesão reumática.
3- Aumento de Átrio Esquerdo comprimindo esôfago e n. laríngeo recorrente e deslocan
do cranialmente o brônquio-font e esquerdo.
4- Evol ução com Sobrecarga Ventricular Direita.
MEOELE'tR.O
2 - Qu al é a causa mais provável desta al
teraçã.o cardiológica na situação clínica
apresentada?
3 - Como explicar a disfagia e a rouquidão
da pac;iente? E a elevação do brônquio·
-fonte esquerdo na radiografia torácica?
4- Se, após 3 anos sem acompanhamento
médico , a paciente retornasse ao seu am
bulatório com este novo ECG (PROJEÇÃO),
que conclusões seriam possiveis?
Cod. 301c2s2b íii
O fim d!a tarde começava a se anunciar e você
se despede do 30° paciente agendado. Fal
tava apenas Dona Marina, que dormia con
fortavelmente com a cabeça apoiada sobre o
ombro esquerdo há 3 horas. Você imediata
mente a chama e começa o atendimento.
Mal começou a anamnese e sua secretária
entra esbaforida pela porta dos fundos do
ambulatório.
- Doutor. pelo amor de Deus, me ajudai
Tem uma senhora gritando .. . A filha dela . .. A
criança ainda não foi atendida hoje!
-Mas eu não sou o pediatra! Avisa que
a pediatria é no 2• andar. .. - você retrucou.
- Pois é doutor, eu sei ... Mas o pediatra
não veio e aquela senhora disse que a filha
tem uma doença no coração e que precisa da
consulta de rotina!
Você, sem acreditar no que estava aconte
cendo. solic" a à Dona Marina que espere
mais um pouco no corredor e pede que a mãe
C•oPiTU.O 4 - 13 8
SOBRECARGAS CAVITAAIAS
entre. Era um dos "encaixes", que aconteceria mais cedo ou mais tarde ...
A história da criança era instigante .. . Tratava
-se de Britney, de 7 anos de idade, acompa
nhada desde o nascimento pelo ambulatório
de Cardiologia Pediátrica e que voltara hoje
somente para uma consulta de rotina. A mãe
conta que a criança nasceu bem. mas, em
poucos meses, começou a apresentar ciano
se de extremidades. sendo diagnosticada sua
cardiopatia. Posteriormente, Britney alé me
lhorou, mas de 2 meses para cá, a cianose
voltou a aparecer. especialmente após ativida
de fisica. A mãe notou também um surgi mento
eventual de edema de membros inferiores.
Buscando compreender ainda mais o caso da
jovem, você acessa a rede de informática do
ambulatório, onde consegue um ECG recente
(PROJEÇÃO) e o ecocardiograma realizado
3 semanas antes.
í1i Cod. 301c2s3a
1 - Qual a alteração presente no eletro·
cardiograma? Justifique.
2- O eletrocardiograma é compativet com
os achados ecoc ardiográficos (PROJE·
ÇÃO)? Justifique.
~ Cod. 301c2s3b
3 - Qual a cardiopatia de base da paciente?
lt=:::::=== SITUAÇÃOÍ04"~-
Enfim, Dona Marina, sua última paciente do
dia, poderá ser atendida - pelo menos é as-
MEOCLetRO
I ----=siTUAÇÃOl 0~3,~ -- ~~- -
O fim da tarde começava a se anunciar e você
se despede do 300 paciente agendado. Fal
tava apenas Dona Marina, que dormia con
fortavelmente com a cabeça apoiada sobre o
ombro esquerdo há 3 horas. Você imediata
mente a chama e começa o atendimento.
Mal começou a anamnese e sua secretária
entra esbaforida pela porta dos fundos do
ambulatório.
· Doutor, pelo amor de Deus, me ajuda!
Tem uma senhora gritando ... A filha dela ... A
criança ainda não foi atendida hojel
• Mas eu não sou o pediatra I Avisa que
a pediatria é no 2• andar .. . - voc-ê retrucou.
• Pois é doutor, eu sei .. . Mas o pediatra
nêo veio e aquela senhora disse que a filha
tem uma doença no coração e que precisa da
consulta de rotina!
Você, sem acreditar no que estava aconte
cendo, solicita à Dona Manna que espere
mais um pouco no corredor e pede que a mãe
entre. Era um dos "encaixes·, que acontece
ria mais cedo ou mais tarde .. .
2 - O el etrocardiograma é compatlvel com
os achados ecocardlográflcoa (PROJE
CÃOl? Justifique.
3-Qual a cardiopatia de base da paciente?
r OI
J ....... ....
CAPiHA.0 4 . I 8
S OBRECARGAS CAVITAAIAS
A história da criança era instigante ... Tratava
·se de Britney, de 7 anos de idade, acompa
nhada desde o nascimento pelo ambulatório
de Cardiologia Pediátríca e que voltara hoje
somente para uma consulta de rotina. A mãe
conta que a criança nasceu bem, mas, em
poucos meses, começou a apresentar ciano
se de extremidades, sendo diagnosticada sua
cardiopatia. Posteriormente, Brítney até me
lhorou, mas de 2 meses para cá, a cianose
voltou a aparecer, especialmente após ativida
de física. A mãe notou também um surgimento
eventual de edema de membros infenores.
Buscando compreender ainda mais o caso da
jovem, você acessa a rede de informática do
ambulatório, onde consegue um ECG recente
(PROJEÇÃO) e o ecocardiograma realizado
3 semanas antes.
1 - Qual a alteração presente no e letro
card iograma? J ustifique.
~ .rt-Jih-~v-L_,., -.,,,--J-I·.,_,v2 ""r-~
.fl.i:'lll l
.L IJ~F3 1--l +~ ... V~6~-... 1--...!_,.....,
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Sjtuação 2
1-Sobrecarga de AD; onda P alta e apiculada em Dll e V1.
2-Sim: aumento de AO e redução deVO ...
3-Anomalia de Ebstein: válvula tricúspide com folhetos anômalos (má-formação congênita).
MEOELE'tR.O
SITUACÃO 04''-de possíveis altera
ções secundárias da repolarização ventricular.
Como a ativação ventricular é anômala e mais
lenta, surgem complexos QRS com morfo·
loqja djferente e alargados.
É importante frisar que o termo bloqueio ex
pressa inadequadamente o que realmente
aconte-ce neste grupo de distúrbios, pois acaba
transmitindo uma ideia de tudo ou nada no
processo de condução do estímulo, E isso não
é uma verdade absoluta! O que ocorre na rea
lidade são alentecimentos variáveis da condu
ção que podem ser quantificados e letrocardio
graficamente em primeiro, segundo e terceiro
graus de acordo com a sua magnitude. Alguns
autores preferem utilizar os termos bloqueio de
ramo completo (equivalente ao de 3° grau) e
incompleto (equivalente aos de 1°' e 2° graus).
Será que existe outra "dica" eletrocardio·
gráfica?
OK, vamos à 2• dica então: também vai exis
tir uma alteração do processo de repolarização
ventricular! Leia devagar para facilitar seu
processo de entendimento ... Como um ramo
foi bloqueado, o ventrículo deste lado será
despolarizado mais tardiamente, assim o vetor
final da despolarização "aponta" para o lado
do ramo bloqueado. Naturalmente, como o
outro ventrículo foi ativado antes. ele iniciará
seu processo de repolarização mais cedo
também. Sendo assim, o sentido do processo
de repolarização também caminhará no sen
tido do lado do ramo bloqueado, de forma que
o vetor da repolarização (que, lembre-se, tem
sentido contrário ao do processo repolarizan
te) "aponta" para o lado oposto ao do ramo
bloqueado. Isso quer dizer que os vetores da
despolarização (complexo QRS) e da repola
rização ventricular (onda T) têm sentidos
opostos (Figura 1). Ficou confuso? Então,
vamos entender com um exemplo prático ...
No bloqueio de ramo direito- que veremos a
seguir-o estímulo não desce adequadamen
te por este ramo, sendo assim o VD é o último
a se despolarizar, de modo que o vetor final
da despolarização aponta para a direita. Já
que o VE se despolarizou antes, ele será o 1•
a se re polarizar, de forma que a repolarização
também caminha para a direita. Assim, o vetor
da repolarização (que tem sentido contrário
ao do processo repolarizante) apontará para
o sentido oposto, isto é, para a esquerda. As
sim, os vetores da despolarização (complexo
QRS) e da repolarização ventricular (onda T)
acabam tendo sentidos opostos
·o-• --rOIM&t"l .... ,..,..
..... TI_ ....... _.. .... ,..._ ..
F I G U RA 1: NOS BL-OQUEIOS D E RAMO. OS PRO·
CESSOS DE OESPOLARIZAÇÁO E REPOLARIZAÇÀO
VENT RICULAR APONTAM PARA O LADO DO RAMO
BLOQUEADO - CJ R S APONTA PARA A D I R EÇÃO
LESADA E" A ONDA T PARA O S E"NTIOO OPOSTO.
Desta forma, nos bloqueios completos de
ramo, percebemos que a onda T (e o segmen
to ST) apresenta sempre uma polaridade
oposta a do complexo QRS!
Só tome um cuidado nesse momento!
Nem todo traçado com QRS alargado carac
teriza um b loqueio de ramo ... Veremos nos
próximos capítulos que, quando o coração tem
seu ritmo comandado pelo ventrículo e não
pelo nado sinusal (exemplos: ritmo idioventri
cular, taquicardia ventricular), o QRS também
alarga. O que a gente entende por bloqueio
de ramo é que o estímulo, após ser gerado
pelo nado sinusal, tentou descer em direção
aos ventrículos, mas não conseguiu percorrer
um de seus ramos. Assjm no bloguejo de
ramo é aerado um QRS alargado precedido
de onda p
RESUMINDO:
' . i . ' .
Duas condições caracterizam os bloqueios com
pletos de ramos:
• QRS alargadopara direita, porém com maior lentidão).
Ativação Ventricular no BRD
F I G URA 4 : EC O NO BLOQ U E IO O E RAM O
D I R E I T O ,
Assim, em V1 e V2 (principalmente em V1 )
- que são derivações localizadas um pouco
mais à direita, teremos uma 1" onda positiva
(onda r), uma 2" onda negativa (onda s) e
uma 3• onda mais alargada novamente po
sitiva (chamada de onda R'), cuja área varia
de acordo com a gravidade do bloqueio. Esta
última é, sem dúvida, a principal manifesta
ção eletrocardiográfica, pw ois representa a
despolarização atrasada do VD.
Desde agora, fixe sua atenção na morfologia
clássica do QRS em V1 no contexto de BRD:
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 5 • 145
8LOOLGOS OE RAMO
rSR'. É uma marca deste distúrbio, também
conhecida como morfologia em "M" ou em "ore
lha de coelho" (Figura 5).
F"IGURA 5 : R sR• C OM R' E M EN TALHE E A
MOR FOL O G I A C LÁS S ICA DO Q R S EM V 1 N O
CONTEXTO D E BR O ,
Por oUJtro lado, em VS e V6 (principalmente
em V6)- que são derivações à esquerda, o
que se observa é exatamente a morfologia
oposta (padrão qRS), pois teremos uma 1"
onda negativa (onda q), uma 2• onda posit iva
(onda R) e a 3" onda também negativa (onda
S) e que tende a ser larga e espessada(> 40
ms) por representar a despolarização lenta e
tardia do VD, que depende de uma condução
do tipo miócito-a-miócito.
Esse a largamente retilíneo da porção final do
complexo QRS é conhecido como entalhe ou
meseta e é clássico dos bloqueios de ramo
mais avançados.
As outras derivações intermediárias (V3 e V4)
apresentam uma grande variação morfológica.
Independente das possibilidades de morfolo
gia, não podemos perder de vista o principal,
que é o padrão típico em V1 e V6 (Figura 6).
V t v.
1-
;. A \[f . I \
\{
rSR' ( RS
F I G U RA 6.
RESUMINDO:
As " R s o BRD
V1 = onda R' alargada (padrão rSR'}
V6 =ondaS alargada (padrão qRS)
No plano frontal, as alterações não são tão
típicas e o eixo médio do complexo QRS pode
estar normal ou eventualmente desviado para
a direita . Mesmo assim, existem alterações
morfológicas que sugerem o diagnóstico, de
acordo com o mesmo raciocínio do plano ho
rizontal: onda R' ampla nas derivações d ireitas
(neste caso,. especificamente em aVR) e onda
S espessada e alargada nas derivações es
querdas (principalmente em OI). Ou seja, aVR
assemelha-se a V1 enquanto DI, a V6 ...
Ainda existem mais manifestações eletro
cardiográticasl
Outros três fatores, que não são específicos do
BRO, também são encontrados: o aumento da
duração tota l do complexo QRS, aumento do
tempo de ativação ventricular e as alterações
secundárias da repolarização ventricular.
DURAÇÃO DO COMPLEXO QRS
Nos distúrbios mais brandos, a duração d'o com
plexo QRS pode ser normal ou discretamente
aumentada. Entretanto, à medida que o atraso
da condução pelo ramo direito aumenta, maior
será a contribuição do salto de onda para a ati
vação lentifi-cada do VD. Portanto, nos graus
mais avançados, a maior ocorrência de condu
ção do tipo miócito-miócito resulta em complexos
alargados, com durações superiores a 1 20 ms.
TEMPO DE ATIVAÇÃO VENTRICULAR
Da mesma forma, o tempo de ativação ventri
cular aumenta nas derivações direitas para va
lores acima de 50ms (enquanto pemnanece
normal em V5 e V6) e, na presença de uma onda
R, deverá ser medido até o seu pico (Figura 7).
ALTERAÇÕES SECUNDÁRIAS DA
REPOLARIZAÇÂO VENTRICULAR
As alterações da repolarização ventricular
manifesiam-se por desníveis do segmenio
sr (ponto J) e inversões na polaridade da
-··-
MEOr:u: t RO
:-lr':
CAP!TlA.O 5- 146
8LOOLGOS OE RAMO
onda Tem relação ao complexo QRS. Como
já foi dito, estas mudanças ocorrem como
consequência da despolarização anômala e
tardia do ventriculo direito, resultando numa
repolarização mais precoce do VE. Assim,
enquanto os vetores terminais da despola
rização ventricular estão d irecionados para
direita, aqueles correspondentes à repolari
zação voltam-se para esquerda, de forma
exatamente oposta. Nas derivações direitas
(V1 e V2), onde o QRS serà predominante
mente positivo, espera-se um infradesn ive
lamento do segmento ST e inversão da onda
T, que permanece assimétrica. Nas deriva
ções e-squerdas (VS, V6 e OI), onde a onda
S (negativa) torna-se proeminente, o seg
mento ST pode ficar supradesnivelado e a
onda T ainda permanece positiva. Para re
sumir: surgem alterações do ST-T opos
tas ao QRS.
I F"I GURA 7.
Agora , a tenção para uma terminologia clás
sica de ser encontrada em eletrocardiogra
fia! Aqui, como vimos, houve uma modifica
ção da expressão elétrica da repolarização.
j á que a onda T passou a ter polaridade
oposta ao QRS. Mas como essa mudança
de comportamento não surgiu de uma alte
ração primária da própria repolarização e
sim de uma modificação do processo de
despolarização, ela é chamada de alteração
secundárja da repolarjzação yentrjcular.
• Em algumas situações, como na isquemia, a
onda T pode aparecer invertida, mas por uma
alteração do próprio processo de repo/arização,
constituindo uma alteração primária da repo/ari
zaçáo ventricular.
Ufa! Que tal sedimentarmos as manifesta
ções eletrocardiográficas de BRD?
Reveja, na ttabela abaixo, os principais acha
dos sugestivos de bloqueio de ramo direito
avançado no ECG. Os três primeiros critérios
são os mais importantes para o diagnóstico
de BRD avançado.
BLOQUEIO OE R AMO D I REITO ( C RIT É R I OS)
Duração do QRS 2: 120 ms
V1 (e V2): padrão rsR' com R' espessada
V6 (e VS, DI, aVL): ondaS alargada (> 40 ms
ou superior .à onda R)
Alterações Secundárias da Repolarização
Ventricular: ST-T opostos ao QRS
Tempo de Ativação Ventricular em V1 e/ou V2 >
50 ms
TABELA 1.
GRAUS DE BLOQUEIO DE
RAMO DIREITO
Os critérios e letrocardiográficos descritos até o
momento referem-se aos graus mais avançados
de bloqueio do ramo direito. Entretanto, em ca
sos mais brandos, nem todos os achados esta
rão presentes em sua plenitude. Assim, atual
mente a gravidade do bloqueio pode ser quan
tificada eletrocardiograficamente em três graus.
O principal achado que diferencia os bloqueios
de 1° e 2• graus (ou incompletos) do bloqueio
de 3° grau (ou completo) é a duração do QRS:
quando é maior ou igual a 120 ms, já con
figura o nível mais avançado de bloqueio
dentro desta classificação. Mas não é ape
nas essa diferença ...
No BRD de 1° grau, já podem ser identificadas
algumas mudanças morfológicas no QRS que
sugerem um alentedmento da parte final da
despolarização, mas, como regra, em V1, a
onda r' apresenta uma área menor do que a
onda r inicial e a onda S reduz o seu tamanho.
Já nas derivações esquerdas (VS, V6, DI e aVL),
há um alargamento discreto na onda s. O BRD
de primeiro grau não produz alterações se
cundárias da repolarização ventricular.
No BRD de 2° gray, o maior atraso na condu
ção já pode gerar o salto de onda tão carac
ierísiico do bloqueio mais avançado e, por
isso, os vetores terminais do QRS são mais
proeminentes. Portanto, nas precordiai s direi-
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 5 • 14 7
8LOOLGOS OE RAMO
tas (especialmente V1) deverá haver uma
onda R' com área maior do que a primeira
onda r do complexo. Nas derivações esquer
das, a onda s sofre um novo aumento, porém
sem preencher os critérios para um BRD de
terceiro grau (onda S > 40ms ou superior a
onda R). Neste grau de bloqueio, já ocorrem
alterações secundárias da repolarização ven
tricular, repercutindo sobre o segmento ST e
onda T da mesma forma que foi e-xposta para
o BRD de terceiro grau (vetores em sentidos
opostos aos da despolarização ),
Por último, vale mencionar que, no BRD de 3°
grg.u, a onda R em V1 e/ou Sem V6 podem
sofrer um a largamento tão expressivo que
adquirem um aspecto parecido com uma mesa
e, por isso, a escola mexicana o denominou
de "meseta", termo amplamente empregado.
Agora, podemos organizar a representação
eletrocardiográfica da progressãodo BRD na
Tabela 2.
Vamos treinar?
• • - - - -~~ _,_
I"' ~ ...Jr..-
• • .. • •
-+-' ~ ~~
RESPOSTA:
Analise os ECGs a seguir e indique o grau de
BRD presernte ...
bemplos V1 V6
Normal [t] [±j
BAOd:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 1 3
ELETROf~OOV. CAAot.CA
cado pela abertura de canais de cálcio (Ca .. ), que
entra na célula e se contrapõe à saída de K·. Logo
em seguida, a entrada de Ca .. se reduz, mas é
mantida a saída de K', fato que finatiza a repola
rização já que são cargas positivas saindo e fa
zendo com que o interior volte a ficar negativo.
A sequência de eventos fica:
- Repouso (Na"/K' ATPase)
- Despolarízação (entrada de sódio)
- Repolarízação (saída de potássio) - lentifi
cada pela entrada de cálcio
Mais uma vez, o potencial de ação pode ser
representado graficamente (Figura 8). Como
estas células de condução têm uma despola
rização instantânea, são chamadas de "células
de resposta rápida".
Potenclol de Açlo
C"ula do Respcsta RAplda
I
---,...---~-------
- 80 -
-120 __ ................ _ ... __
Tempo(ms) O 100 200 300
~H3URA 8: P O TEN C I A L OE AÇÃO DAS CÉL ULAS DE RESP OSTA
RÁPIDA,
Mas não existem diferentes tip0cs de canais
de Na• , K• e C a••?
Isso é até verdade, mas apresentá-los a você
nesse momento não ajudaria em nada no en
tendimento da eletrofisiologia cardíaca; pelo
contrário: atrapalharia ... São vários canais (só
de K• são 7 tipos descritos!) que, em última
análise geram os fluxos iônicos que foram de
monstrados até aqui. Se tiver curiosidade, ao
final do capítulo, existe um "Apêndice" para
abordagem específica dos diferentes canais.
Que tal relacionar alguns conceitos com a
prática médica?
As drogas chamadas de bloqueadores de
canal de cálcio (como diltiazem e verapamil)
agem exatamente bloqueando o influxo (en
irada) de Ca '". Se pensarmos na redução do
influxo nas células de resposta lenta, a con
sequência será uma maior dificuldade para
despolarizar a célula, sendo assim h.á uma
redução do automatismo cardíaco. A reper
cussão clínica é uma bradicardia! Se pensar
mos na redução do influxo de C a .. nas células
de resposta rápida haverá, menos cálcio dis
ponível para contração muscular dos m iócitos
ventriculares, reduzindo a força contrátil (efei
to in o trópico negativo).
O sistema nervoso autônomo (simpático e
parassimpático) possui grande influência tan
to sobre a função de marca-passo das células
do nodo sinusal quanto sobre a velocidade de
condução das outras populações celulares do
sistema. O estímulo simpático é um estímulo
adrenérgico , ou seja, realizado pelos hormô
nios chamados catecolaminas: adrenalina e
noradrenalina. A ação adrenérgica em recep
tores do t ipo j3 aumenta o influxo de cálcio,
resultando numa maior velocidade de despo
larização das células de resposta lenta (maior
automatismo sinusal). Por este motivo que
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 14
ELETROf~OOV. CAAot.CA
drogas bloqueadoras adrenérgícas (como os
~-bloqueadores) têm a capacidade de reduzir
a frequência cardíaca.
Tudo tem explicação! Quer ver mais um
exemplo?
Teremos um capitulo bem mais adiante para
aprendermos a ação das drogas antíarrítmí-
cas, mas podemos antecipar algumas con
clusões ... A propafenona é uma droga conhe
cida pelo seu efeito de bloqueio de canais de
sódio, o que lentifica a formação de poten
ciais de ação nas células de resposta rápida,
reduzindo a condução elétrica: consequência
que pode ser suficiente para interromper uma
taquiarritmia (arritmia com frequência cardía
ca elevada).
o potencial de ação das células cardlacas é didaticamente dividido em rases:
(1) AUTOMATISMO (Célula de Resposta lenta}:
- Fase O (Despolarização lenta}: Entra Ca"
-Fase 2 (Repolarização lenta): Sai K'
- Fase 3 (Repolarização Final): Sai K'
- Fase 4 ("Repouso Elétrico"}: Entram Ca" e Na·
• Nas células de resposta lenta, não existe a fase 1 .
.. É interessante notar que estas células nilo costumam permanecer em um potencial de repouso
constante, uma vez que, logo em .seguida. emendam uma nova despolar/2ação espont§nea. Isso
ocorre pela entrada lenta e continua de Ca" e um pouco também de Na• até que um lnffuxo mais
intenso de Ca" cause uma nova despolarização lenta.
(2} CONDUÇÃO (Célula de Resposta Rápida}:
- Fase O (Despolarização Rápida): Entra Na·
• Fase 1 (Repolarização Transitória}: Saí K'
- Fase 2 (Platô ou Repolarlzação Lenta}: Entra Ca" e sal K'
· Fase 3 (Repolarização Final}: Sai K·
- Fase 4 (Repouso Elétrico}: Sai Na· e entra K' (bomba Na·IK· ATPase}
Variação 16nica Intracelular e a Mudança do Potencial de Ação
Resposta Lenta Resposta Rápida
l K' 0
111.. ! K' (!)
o --- t ca'* l -----
f Na'
@
l K'
® -60
\ tK•
l Na' "ª
-90
F"IGURA 9.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 1 5
ELETROf~OOV. CAAot.CA
Se existem diferentes áreas do sistema de condução com propriedade de autornat:fsrno ,
que o nodo slnusal é o comandante do ritmo cardíaco?
Ao estudarmos os diferentes padrões de potencial de ação. vimos que as células de resposta lenta
não chegam a manter uma estabilidade elétrica em seu potencial de repouso, de forma que, logo
após sofrerem repolarização, apresentam entrada de cargas positivas, atingem um potencial l imiar
e, erofim, autodespolarizam-se. A esse fenômeno damos o nome de despolarização diastólica.
Essas células são encontradas principalmente nos nodos sinusal (NSA) e atrioventricular (NAV),
mas lambém podem estar presentes nos folhelos das válvulas mitral e trieúspide, nos átrios, nas
fibras de Purkinje, no óstio do seio coronário, entre outros.
O interessante é que as células automáticas do NSA (células. P) são as fibras com frequência
intrlnseca mais rápida (em média, 60 a 100 vezes. por minuto). seguidas pelas fibras do NAV. Por
esse motivo, são o marca-passo normal do coração: seu estimulo gera a propagação de um impulso
que despolarize as demais células cardlacas, inclusive as automáticas, que, por terem rrequência
intrln seca menor, são despolarizadas sistematicamente pelo ímpulso gerado no NSA e, dessa
forma, não se expressam. Isso é o que chamamos de ritmo sinusal, isto é, o impulso nasce no
NSA e Induz uma frequência cardiaca de 60 a 100 bpm.
Esse fenômeno é chamado de "Inibição automática por supraestimulação" (ou "overdrive
supression"). Em outras palavras. a região de maior frequência inibe as demais- o mais rápido é
quem comanda! Mas. se, por algum motivo, o nodo sinusal falhar, quem assume o ritmo é o nodo
AV, que tem uma frequência automática de 40-60 vezes por minu to (é o chamado ritmo idiojunc ional
- fazendo referência ao termo junção AV). Da mesma forma, se o nodo AV também falhar, a
tendência é que um foco ventricutar nas fibras de Purkinje assuma o ritmo, mas agora com uma
frequência de apenas 8- 40 vezes por minuto (é o chamado ritmo idioventricular).
Com o impulso nascendo no nodo sinusal e
sendo conduzido para as demais áreas do co
ração, conseguimos visualizar, na Figura 10,
os diferentes tipos de potencial de ação varian
do de acordo com a localização e função da
célula no sistema de condução.
PROPAGAÇÃO 00 IMPUL.SO N O CORAÇÃO
de PIJrklnje
t:::::::J ECG
FIGURA 1 O: POTE NCI A I S DE AÇÃO A O LON G O 00 S ISTE MA D E COND UÇÃO
- N O TE O POTE NCIAL DE RESPO S T A L E N TA NOS NOOOS S I NUSAL E AV E O
POTEN C I AL OE RESPO STA RÁPIDA NAS DEMAI S L OCAL I DADES.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 16
ELETROf~OOV. CAAot.CA
D) Acoplamento excitação-contração
Até o momento, já temos o conceito de que o
impulso elétrico é gerado e propagado por um
fluxo iônico intenso através das membranas
cardíacas e a razão de sua existência é induzir
posteriormente a contração cardíaca. Mas
como isso é feito? Como conseguimos enfim
juntar o estímulo elétrico excitatório e o fenô
meno mecânico contrátil?
Lembra do Complexo Actina-Miosina?
Nós estudamos isso na graduação, mas não
há aquí no que se alongar .. . Só relembre que,
dentro de cada fibra muscular cardíaca, exis
te uma maquinária contrátil que i nclui 2 pro
teínas chamadas actina e miosína, as quais
precisam interagir para gerar uma contração.
Só que existe um problema:supradesnivelado e a onda
T é positiva e assimétrica, enquanto em VS,
V6, DI e aVL observa-se exatamente o oposto.
Que ta I sedimentarmos também as manifes
tações eletrocardiográficas de BRE?
Reveja, na tabela a seguir, os principais achados
sugestivos de bloqueio de ramo esquerdo avan
çado no ECG. Os três primeiros critérios são os
mais importantes para o seu diagrnóstico.
B L OQU E IO OE RAMO ESQU EROO CCRITÉRIOS)
Duração do QRS ~ 120 ms
V1 (e V2): padrões QS ou rS alargados
V6 (e VS, DI, aVL): onda R pura alargada ou
com entalhe
Alterações Secundárias da Repoiarização
Ventricular: ST-T opostos ao QRS
Tempo de Ativação Ventricular em V5 e/ou V6 >
50 ms
T ABELA 3.
GRAUS DE BLOQUEIO DE
RAMO ESQUERDO
Em alguns casos, o distúrbio de condução pelo
ramo esquerdo não é grave o suficiente para
manifestar todas as alterações descritas acima
no ECG. Por este motivo, assim como foi men
cionado para o BRD, a gravidade do BRE
também pode ser quantificada eletrocardio
graficamente em três graus. O que foi expos
to até agora é típico do BRE de 3° grau (ou
completo), onde o salto de onda está presen
te de forma significativa.
Por oUJtro lado, no BRE de 1° grau, este fe
nômeno não ocorre e o VE ainda é ativado
pela condução através do ramo esquerdo, a
qual é feita apenas de forma mais leniificada.
Entretanto, a formação do vetor do septo
médio já é comprometida, sendo- a ausência
de onda q em VS, V6, DI e aVL a primeira
manifestação eletrocardiográfica do BRE
leve. Em alguns casos, pode haver um pe
queno entalhe na fase ascendente da onda
R nestas derivações. Apesar da onda r em
V1 e V2 ainda estar presente nestes casos.
ela tem sua amplitude reduzida com a men
cionada ausência do vetor do septo médio.
A duração do QRS é normal e jamais ultra
passa 120 ms, pois isto já caracterizaria um
bloqueio de 3° grau. Como não ocorre o sal
to de onda, não são observadas alterações
secundárias da repolarização ventricular.
• Vale ressaltar ainda que este grau de bloqueio
é frequente nos traçados que preenchem critérios
para sobrecarga de VE. Nestes casos. quando
estilo presentes alterações secundárias da repo
larização ventricular devido à sobrecarga (padri!o
strain), o diagnóstico diferencial torna-se diflcil
com um BRE de 2° grau.
.. .., VI Y6
...... I In ~
BREdo [1j ~ t' vr•u
~~~~n~ ""-o Semtlt«~lo·~ , ..
8REdt ta ~ 2" 9f'•u
hi,I1MOS 'r:.:'.: o AJ• ttttJo 1to~o 1M ltpol.lll.t{IO Met~- -~
·~leio ~ ~ ,.9' ...
PoNifMOS ...,_0
Or'IPSMINMU -r .. -CM) 1'10!M Ofl • l)Orl'lf,
T ABELA 4.
No BRE de 2° grau, o salto de onda através
do septo interventricular já é formado. Por
tanto, além -de estarem presentes as mudan
ças descritas no BRE de 1° grau, já podem
ser observados padrões OS nas precordiais
direitas V1 e V2 (eventualmente a té V4 ). A
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 5 - 151
8LOOLGOS OE RAMO
duração do QRS aumenta, mas não chega a
120 ms. Porém, talvez a alteração mais sig
nificativa em relação ao bloqueio de 1 • grau
seja a presença de alterações secundárias
da repolarização, com o segmento sr e onda
T apresentando polaridades opostas em re
lação ao QRS. De uma forma simplificada,
quando estão presen tes os critérios morfoló
gicos do complexo QR S e há alterações se
cundárias da repolarização, uma duração do
QRS menor que 120 ms define o traçado
como um BRE de 2• grau.
RESPOSTA:
JUSTIFICATIVA:
RESPOSTA:
JUSTIFICATIVA:
Como já entendemos, a configuração de um
BRE de 3• grau é feita quando, além dos acha
dos clássicos do QRS e repolarização ventri
cular já mencionados. houver uma duração
aumentada da despolarização ventricu lar e a
presença do padrão de "meseta• da onda R em
V5, V6, DI e aVL ou da onda Sem V1 e V2.
Vamos treinar?
Analise os ECGs abaixo e indique o grau de
BRE presente,,
... oiL '"
""
.,
,.
~
RESPOSTA: Bloqueio de Ramo Esquerdo de 2• grau (ou Incompleto).
JUSTIFICATIVA' Padrão QS em V1 , R pura em V6 com alteração secundária de repolarização,
· mas QRS que não ultrapassa 120 ms.
RESPOSTA: Bloqueio de Ramo Esquerdo de 3• grau (ou completo).
JUSTIFICATIVA: Padrão QS em V1 , R pura em V6 com alteração secundária de repolarlzação,
QRS com 140ms.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
Cód. 301c5m2
CAP!TlA.O 5 - 152
8 LOOLGOS OE RAMO
Para visualizar o gabarito acesse a imagem co.m seu respectivo
código alfanumérico disponibilizado na área restrita de nosso portal
na internet ou leia o código através do MEDCODE.
Eixo do QRS no contexto de BRE
O eixo médio da despolarização ventricular noBRE estará voltado, na maioria das vezes, para
esquerda, geralmente não ultrapassando --30°: foca entre -300 e+ 60°. E é importante frisar que
os graus do bloqueio não interler.em no eixo do QRS.
Porém, quando existe um desvio para a esquerda além de -30°, deve-se assumir que há
lesão concomitante ou desproporcional do fascículo ântero-superior (chamado de hemiblo
queio anterior esquerdo: HBAE), conceito que entenderemos melhor no próximo capítulo.
Da mesma forma, um eixo para a direita além de +60° nos faz pensar na associação com
alguma condição que induza verticalização do coração como enfisema pulmonar.
Assim, poderemos concluir:
- BRlE com eixo entre -30° e +60°: BRE puro
- BRlE com eixo além de -30°: BRE + HBAE
- BRIE com eixo além de +60°: BRE com verticalização do coração
Até esse momento, jâ vimos 2 condições (sobrecarga de VE e BRE) que carregam uma ten
dência de deslocarem o eixo do QRS para o lado esquerdo, entretanto percebemos que esse
desvio não ultrapassa -300 se estas condições aparecerem de forma isolada. Desta forma, jà
começamos, desde jâ, a ter o conceito de que a grande dica de um hemibloqueio anterior es
querdo sera o encontro do eixo a lém desse valor.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 5 - 15 J
8LOOLGOS OE RAMO
Vamos tentar relacionar o conhecimento
eletrocardiográfico recém-adquirido com a
prática médica! A pergunta que se impõe
nesse momento é "o que dev:emos fazer
se nos depararmos com um ECG cujo tra
çado configura um bloqueio de ramo?". Até
porque é uma situação que certamente vai
ocorrer conosco em algum momento (se é
que já não ocorreu!). A prevalência dos blo
queios de ramo aumenta consideravelmente
com o avançar da idade, sendo inferior a 2%
nos pacientes com 50 anos, mas atingindo
os 18% naqueles com 80 anos de idade -
em todas as faixas etárias, o BRD é mais co
mum que o BRE. Isso é justificado especial
mente pelas características anatômicas do
ramo direito, que se assemelha a um "ma
carrão", ou seja, é longo e fino, sendo mais
susceptível a lesões.
Mas, respondendo à pergunta in icial, deve
mos fazer 2 avaliações dianie de um bloqueio
de ramo: (1) investigar sua causa; (2) deter
minar o prognóstico do paciente_
CAUSAS
Q s bloqueios de ramo podem surgir em co
rações normais ou associados a alguma do
ença cardíaca estrutural, com destaque para:
Cardiopatia lsquêmica
A isquemia pode provocar lesão direta dos
ramos direito e esquerdo, sendo ambos irri
gados por ramos septais da artéria descen
dente anterior (DA).
Cardiopatia Hipertensiva
A hipertensão arterial pode alterar a muscula
tura do VE, inclusive do septo interventricular
por onde passam os ramos direito e esquer
do que podem ser danificados.
• Ganham destaque também situações que ele
vam a pressão em VD, sobrecarregando esta
câmara, o que pode provocar disfunção contrá-
-··-
MEOr:u:tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 5 • 154
8LOOLGOS OE RAMO
IH (cor pu/mona/e) e, o que nos interessa nesse
momento, /es!lo do ramo direito: embolia pul
monar, DPOC.
Miocardiopatia Dilatada
A alteração da musculatura cardíaca danifica
a arquitetura normal do sistema dle condução
por graus variáveis de fibrose. E veja que
interessante: em um paciente com insuficiên
cia cardíaca (I CC), a presença de BRE pode
piorar a inda mais a ejeção do sangue ventri
cular. Acompanhe o raciocínio: noBRE, como
o VD é despolarizadoprimeiro, ele se contrai
antes que o VE, o que atrapalha a dinâmica
contrátil ventricular por fazer com que o sep
to interventricular contraia alguns milissegun
dos com antecedência em relação à parede
livre do VE - é o chamado dessincronismo
ventricular, que prejudica ainda mais o de
sempenho cardíaco, exacerbando os sinto
mas de disfunção miocárdica. Esse é um
fenômeno interessante e deve ser levado em
consideraç.ão na estratégia terapêutica desse
grupo de pacientes.
• Nesta situação. a estratégia de "Ressincroni·
zação Card/aca" com um marca-passo biventri·
cu/ar pode ser benéfica: são colocados cabos de
marca-passo que despolarizam sim ultaneamen·
te os 2 ventrlculos, fazendo com que ele voltem
a contrair ao mesmo tempo. Veremos mais de·
talhes sobre isso no Capitulo 11 dedicado aos
marca-passos.
Miocardiopatia Chagásica
A Doença de Chagas, na sua fase crônica,
pode induzir fibrose do tecido elétrico de con
dução do coração.
• Um conhecimento muito clássico é de que o
BRD é o distúrbio de condução mais comumen·
te observado no acometimento cardlaco da Do·
ença de Chagas (40-60% dos cass), estando
frequentemente associado ao hem/bloqueio
anterossuperior esquerdo, que estudaremos no
próximo capitulo.
Cardiopatia Congênita
Aqui as associações mais típicas são com
BRD: comunicação interairial (frequente
mente. o BRD é o único achado clinico que
sugere a presença de tal malformação) , Do-
ença de Ebstein, Tetralogia de Fallot, per
sistência do canal arterial, comunicação in
terventricular e a transposição dos grandes
vasos. Em sua maioria, são situações que
sobrecarregam o VD, o que pode provocar
lesão do ramo direito.
Distúrbios Degenerativos do Sistema de
Condução (Doença de Lev-Lenegre~
A Doença de Lev-Lenêgre é uma condição
que progressivamente gera fibrose e calcifi
cação de todo sistema de condução card ia co
(por isso são também associados a bloqueios
atrioventriculares). Embora com frequência
seja utilizada uma denominação única, a do
ença de Lev é referida como "esclerose da
parte esquerda do esqueleto cardíaco· por
iniciar com calcificação do anel mitral e aór
tico que, em seguida, progride para o si stema
de condução. Por outro lado, a doença de
Lenêgre é um processo esclerótico primário
já do sistema de condução.
Outras causas que podem ser citadas: mio
cardite, valvopatias e miocardiopatias infiltra
tivas (amiloidose, hemocromatose, sarcoidose
e Doença de Gaucher).
PROGNÓSTICO
- Pacientes com coração normal: prognóstico
não se altera cem BRD, mas, com BRE, há
maior desenvolvimento de doença cardiovas
cular no futuro.
- Paciente com cardiopatia estrutural: a pre
sença de q ualquer bloqueio de ramo está
associada à maior mortalidade (principal
mente BRE).
Essa associação de pior prognóstico com BRE
justifica-se pelo fato da lesão do ramo direito ser
mais fácil de ocorrer Qembre-se que, por ser um
"macarrão", é mais susceptível a lesões). Assim,
o BRD já é induzido por alterações pouco inten
sas (e pouco graves), ou seja, com risco não tão
atto de levar à mortalidade. Em contrapartida,
como a lesão do ramo esquerdo é mais difícil,
apenas condições já mais graves (e com maior
mortalidade) conseguem induzir BRE. Em outras
palavras, para uma cardiopaiia induzir bloqueio
de ramo, ela já é de maior gravidade, especial
mente para induzir BRE.
MEOr:u: tRO
-··-:-lr':
CAP!TlA.O 5 - 155
8LOOLGOS OE RAMO
Padrão de pseudo-BRD
Existem síndromes arritmogênicas específocas com padrões elelrocardiográficos semelhantes
ao B RD que serão detalhadas no Capítulo 14 de nosso material: ''Síndrome de Brugada" e
"Dísp/asia Arritmogêníca do vo· (DAVD). São situações em que não há lesão no ramo direito
- portanto não há BRD por definição, mas o QRS tem morfologia rSR' em V1. A razão para
esse comportamento é uma alteração em canais de sódio da musculatura deVO em Brugada
e uma substituição fibrogordurosa da musculatura de VD na Displasia Arntmogênica.
A melhor maneira de termos a certeza de que estamos diante de um pseudo-B RD é
encontrarmos as outras alterações eletrocardiográficas de cada uma destas sindromes.
- Brugada: supradesnível do segmento ST com um aspecto descendente em V1 e V2.
- DAVD: onda épsilon em V1 e V2 (deflexão anormal entre o final do complexo QRS e o início
da onda T).
Slndrome de Brugada
~ "" 1\ 1\
•
. .. -
. \ 1
Displasia Arritmogênica
deVO
! ; ! I V1
: • ...
\ ~ --"" :.'>. . I
I v
~
v • v . -
P I GURA 12:
MEOEtE'IRO C.t.PilLl.O :5 - I .... _)I
8LOOLEiOS OE R.t. MO
BAIXO, SEL f:CIO NAMOS A L GUNS EXERCÍC IOS PARA Q U E VOCÊ SEOIME: N TE,
OE: M OOO OeFI N IT IVO, OS CONCEITOS OBTI OOS AO L ONGO 00 CAPÍTUL O
E ít:NH A M A I S 'rRANQUI L I OAOe . SEGU RANÇA E 9ASE ,.~ÓRICA PARA AVAN Ç A R
- C::..-' AC PR6XIM 0 T t:MA. MÃOS À Oâ~A!
1 -Quais são as principais características
de um bloqueio de ramo de 3.0 grau (ou
compl eto) ao ECG?
A) QRS ~ 120 ms e inversão do ST-T em
relação à orientação do QRS
B) QRS com aumento de sua amplitude e
duraçãopercor
re miócito a miócito para chegar ao VE,
gerando um outro vetor que aponta para
este lado (mais uma vez na direção de V6).
Por último, a parede do VE é despofariza
da por completo, o que gera mais um ve
tor para a esquerda (de novo apontando
para V6). Como todos os vetores apontam
para esta derivação, forma-se um padrão
R puro. Resposta certa: letra 8.
4- Qual é o diagnóstic·o eletrocardiográfico?
A) BRD incompleto.
8) BRD completo.
C) BRE incompleto.
O) BRE completo.
E) Nenhuma das opções.
Comentário: O ritmo é, mais uma vez, si·
nu sal (onda P positiva em DI/ e seguida de
QRS) e com frequência de 75 bpm. É fácil
perceber que o complexo QRS está gros-
seiramente alargado (em torno de 160 ms
- 4 quadradinhos) ... Já sabemos que será
um bloqueio de ramo completo! BRD ou
BRE? Observe o padrão rS em V1 (também
presente em V2): uma pequena e discre
tíssima onda r (positiva) seguida de uma
profunda e alargada onda S ... Já em V6 (e
também nas derivações esquerdas: VS, DI
e aVL) temos o padrão de R puro! São as
"marcas" doBRE. Resposta certa: letra D.
MEOEtE'IRO
5- Qual é o diagnóstico eletrocardiográfico?
CAPil"'-0 5 - I w J
8LOOLEiOS OE R.t. MO
.I Vl
1.,.._, 11 t
A) 8RD incompleto.
8) 8RD completo.
C) 8RE incompleto.
D) 8RE completo.
E) Nenhuma das opções.
Comentário: O ritmo é sinusal com fre
quência cardíaca em torno de 65 bpm. Em
V1, percebe-se o padrão rSR' e, em V6, um
discreto alargamento da onda S. Isso é
BRD! Como não há alargamento do QRS
(não chega a 120 ms) e nem mesmo opo
sição de ST-T com relação ao próprio QRS,
não pode ser BRD completo (3° grau). Fi
camos então com o diagnóstico de BRD
incompleto. Para sermos mais precisos,
como R' > r, temos um BRD de 2° grau.
Resposta certa: letra A.
6 - Qual é o diagnóstic,o eletrocardiográfico?
A) 8RD incompleto.
8) 8RD completo.
C) 8RE incompleto.
D) 8RE completo.
E) Nenhuma das opções.
Comentário: Vamos á análise ... O ritmo
é sinusal (onda P positiva em DI/ e segui
da sempre de um complexo QRS) e ta
quicárdico (frequência cardíaca um pou
co acima de 100 bpm). É simplesmente
uma taquicardia sinusal. Percebemos as
grandes "marcas" do BRD: (1) V1 com
padrão rSR'; (2)V6 (assim como VS, DI e
MEOEtE'IRO
aVL) com um claro alargamento da onda
S. Verifique que o QRS está alargado
(exatamente em 120 ms) e repare na po·
laridade invertida do ST-Tem compara·
CAPil"'-0 5 - I w J
8LOOLEiOS OE R.t. MO
ção com o QRS- isso fica evidente em
V1. Ficamos então com o diagnóstico de
BRD completo (ou de 3° grau). Resposta
certa: letra B.
7 - Qual é o diagnóstic,o eletrocardiográfico?
A) BRD incompleto.
8) BRD completo.
C) BRE incompleto.
O) BRE completo.
E) Nenhuma das opções.
Comentário: Vamos interpretar este ECG!
O ritmo é sinusal; frequência cardíaca
em torno de 93 bpm e eixo do QRS pró
ximo de +300 ... Não há alterações de onda
P ou mesmo do complexo QRS ... Não
existe achado nenhum de bloqueio de
ramo. Um ECG absolutamente normal!
Resposta certa: letra E.
8- Avalie o eletrocardiograma abaixo e assinale a única característica dentre as cita·
das que está ausente no traçado.
~~"1'-:aVR I ,4:N;1r-N-~r~~~h-H
~J~~I"''V2 N NI":>--.J'\W'III\.rv,~w..w
~~~~•VF~~~~~~~~~l~
~~~·\z~~::J.L~~J:~
A) Bloqueio de ramo direito.
8) Taquicardia sinusal.
C) Desvio do eixo para a esquerda.
D) Padrão RSr' em V1.
E) Bloqueio de ramo incompleto.
MEOELE'IRO
Comentário: Ótima questão para agregar
conhecimento .. . Vamos usar tudo que
aprendemos até aqui/ Vamos à frequên·
c ia: poderíamos usar qualquer derivação,
mas utilize o Dl/longo (última derivação
no traçado) e observe que os complexos
QRS estão espaçados praticamente por
2 quadradões, isto é, a frequência gira em
torno de 150 bpm (está taquicárdico!). A
onda P é positiva em DI e Dlf e sempre
seguída de complexo QRS, logo o ritmo
é sinusal ... Isso é uma taquicardia sinusa/
(letra 8 certa). Vamos ao eixo da ativação
CAPiTl.0.0 5 - I )
BLOOLEiOS OE R.t. MO
ventricular: DI e aVF positivos configuram
um eixo entre o• e +90°, ou seja, não há
qualquer desvio (letra C errada). Em V1,
verificamos o padrão clássico do BRD
(RSr'), bem como um discreto aumento
da onda Sem VS e V6, também compatível
com tal bloqueio. Como o complexo QRS
não está alargado, assumimos que existe
um BRD incompleto (letras A, D e E cer
tas). Para sermos um pouco mais preci
sos, o encontro de R > r ' caracteriza um
BRD ainda de t• grau ... Resposta a ser
marcada: letra C.
MEOr:u: tRO
íi
Cód. 301c5r
-··-:-lr':
CAP!TlA.O 5 - 161
8LOOLGOS OE RAMO
Para visualizar os gabaritos acesse a imagem com seu respectivo
código alfanumérico disponibilizado na área restrita de nosso portal
na internet ou leia o código através do MEDCODE.
Cód. 301c5r
osR' COM R' ALARGADA $ALARGADA
PADRÃO QS OU RS
AUSÊNCIA DE Q
R PURA ALARGADA
MEOElEl'R.ó CJoPiTU.O .s- 16 2
BLOOLEtOS oe RA.t.to
SITUAÇÃO O I 1 - Qual é a alteração presente no eletro·
cardiogramá atual?
Dona Maria, uma senhora de 73 anos, porta
dora de diabetes e dislipidemia, faz acompa
nhamento médico regular em uma Clinica pró
xima a sua residência, onde lhe foi solicitada a
realização de um eletrocardiograma pelo novo
cardiologista do local. A este, Dona Maria avisa
que trouxe o exame realizado há 2 anos, onde,
segundo lhe informaram, existia uma "atteração
zinha". Apreensiva, ela agora quer saber se o
novo eletrocardiograma está normal...
BeATU••
2 - Houve alguma alteração em compara·
ção com o eletrocardiograma realizado 2
anos antes?
RO ANIIOO ta UtD-
:,~.~ ~~~l't-V-
4
'~,....,-.IIi-11
:~ ~ •r VLI ~ r\ ~JJ ~~
0111 i '"""'""' r VF J
3- Qual é a mais provável causa da alte·
ração eletrocardiográfica encontrada?
ELETROCARDIOGRAMA NA PRÁTICA
Sjtyaç;lo 1
1· Bloqueio de Ramo Direito çompleto (ou de 3" grau).
2· Evolução do BRD: inçompleto (2" grau) para completo (3"grau).
J. Doença de Lev-Lenégre.
MEom .. o
: .. ~ SITUAÇÃO ô2 ~
CAP~ws•sy!OpMfdlO.§ot,all~
'!l"·'i"~~'i!laWJll&lat~~'!lWI'~
,., .• I)WIWIQtÇ~Af.~
l-.~~À't~ tar'*!:!JW}atll!!.-J!I,
FIGURA 1: AS RAMIF"ICAÇÕES DO CIRCUI TO EL~ÉTR!CO CARDÍACO,
C omo estudado no capítulo anterior, o ramo
direito segue seu trajeto até o miocárdio da
parede ventricular sem sofrer ramificações
significativas, enquanto o ramo esquerdo logo
emite 2 fascícu los principais: o anierossupe
rior e o posteroinferior. Na realidade, hoje,
sabemos que as subd ivisões deste ramo
apresentam muitas variações anatômicas:
fascículos mais ou menos espessos, mais ou
menos longos, e certas pessoas possuem
também um fascículo médio-septal ou ante
romedial (Figura 1). Os mecanismos de lesão
mais comuns destes feixes são por fibrose ou
necrose.
164
-··-
MEOr:u:tRO
:-lr': CAPIT'-'-06- 165 HEI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
Muitos autores se referem aos fascículos como
"divisões·, de modo que não é incomum encon·
trarmos denominações do tipo: divisão ante
rossuperior do ramo esquerdo; divisão poste
roinferior do ramo esquerdo ... Por conta disso,
os hemibloqueios são também chamados de
bloque·ios fasciculares ou, até mesmo, blo
queios divisionais.
Existe alguma " dica" eletrocardiográfica
da ocorrência de um HEMIBLOQUEIO?
Não exatamente ... Vimos que os bloqueios de
ramo tinham "marcas· eletrocardiográficas exa
tamente por existir a necessidade do estímulo
elétrico atravessar o septo interventricular miá
cito a miócito (salto de onda), o que implicava
no alargamento do complexo QRS. Já, nos
hemibloqueios, o impulso elétrico con segue
descer através dos ramos - ou através de parte
deles - de forma que não se fará necessário
atravessar o septo para despolarizar toda a
massa ventricular do lado oposto. Assim, o com
plexo QRS não está. a prjncjpjo. alargado.
I SINÔNIMOS DE UMA MESMA ALTERAÇÃO:
- Hemíbloqueío
- Bloqueio fascicular
- Bloqueio divisional
'
rníílillJ®MiiJlWl ' 'Mll\~1 :-.J:f~ tlll = ~r~J'tNr~~!!l ~EJ:~.J'.~]'~.;J ... ~LJ'bl
Considerado o "Descobridor dos Hemibtoqueios", Dr. Rosenbaum nasceu
em 1921 em Carlos Casares-província de Buenos Aires - e faleceu aos
81 anos em 4 de Maio de 2003.
Na Argentilla, ele observou, na Doença de Chagas, um importante mo
delo experimental de desordem na cor~dução intraventricular, de modo
que, na época, formulou e confirmou a hipótese da existéncia de 3 fas
cículos para condução do impulso elétrico que poderiam ser bloqueados
de forma independente: o ramo direito, a divisão anterossuperior do ramo
esquerdo e a divisão posteroinferior do ramo esquerdo. A estes bloqueios
independentes dos fascículos à esquerda, ele deu o nome de hemiblo
queios, escrevendo em 1967 um livro dedicado a eles.
O que sempre aumentou exponencialm ente a admiração do meio cien
tífico com relação a este argentino foi a sua origem humilde e de poucos
recursos. Em v irtude disso, Dr. Rosenbaum gostava de repetir que
"quando se é de um país menos influente do Hemisfério Sul, você- pre
cisa de imaginação e tenacidade para alcançar o sucesso".
Não há duvida de que ele teve ...
HEMIBt.:DQUEID :A:NTERfOR ESQUERDO HB:A:E
FISIOPATOLOGIA E ATIVAÇÃO
VENTRICULAR
Q bloqueio do fascículo anterossuperio r gera
o distúrbio de condução ventricular denomi
nado Hemibloqueio Anterior Esquerdo (HBAE)
ou Bloquei o D iv is iona l An leroSsu perio r
(BOAS), que é um dos bloqueios intraventri
culares mais comuns devido à natureza mais
delicada de sua estrutura. Além de ser um
fascículo mais fino, sua localização cruzando
o trato de saída do ventrículo esquerdo facili
ta a lesão pelo próprio fluxo sanguíneo.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT~.é fundamen
tal para entender como se comporta o eixo do
complexo QRS na vigência de HBAE, que, sem
dúvida, é o principal critério eletrocardiográfico.
O segundo vetor gerado na presença deste dis
túrbio de comlução é o principal determinante do
eixo médio d a ativação ventricular, que se toma
desviado para esquerda. necessariamente ultra
passando -30° (OI positivo, aVF negativo e 011
negativo). Neste aspecto, existe alguma contro
vérsia na l~eratura quanto ao ponto de corte do
para se caracterizar o diagnóstico de HBAE, pois
alguns autores, como a Sociedade Brasileira de
Cardiologia (SBC), utilizam -45° ao invés d e -300.
Com um corte de -45°, o diagnóstico fica mais
específico e menos sensível. Na prática, um eixo
do QRS além de -300 deve, no mínimo, sugerir
a presença d e HBAE. (Tabela 1).
EIXO ALÉM DE -30° É O PRINCIPA L
CRITÉRIO ELETROCARDIOGRÁFI CO
PARA O DIAGNÓSTICO DE HBAE•
Conclusão· DI+ I Dll-/ aVF-
"A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) con
sidera o ponto de corte em -45°.
OUTRAS CAUSAS OE DESVI O 00 E I XO
00 Q R 5 PARA E SQU EROA
IAM Inferior
Enfisema Pulmonar
Ritmo de Marca
passo com
estimulação do ápice
doVD
Síndrome de
Wolff-Parkinson-White
Hipercalemia
Cardiopatias
Congênitas
(atresia tricúspi'de,
CIA, CIV)
TA BEL A 1 .
RS NAS DERIVAÇÕEs oA PAREDE INFER IOR cou, 0 111 "A ~Sobrecarga deVE" e a "Horizontalização .. consü·
E AV Ft coM oNoA s EM 011 1 MAJOR Q U E EM ou : 12> tuem situações com tendéncia do eixo para a esquer·
QR N A S DERI V AÇÕES E S QUERDAS CO I E AVU. da,. mas nãO chega a Ultrapassar .3()0,
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT~.OndaS em 011
Presença de onda Sem VS e V6
-• Outros achados poss/vets: redução da amplttude da onda R em V5 e V6 e tempo de ativação ventncu/ar
'f '. i • ! ' ' t
' -
d I
I. .r: -te= ..,b; fu t i . . H· L
T . J-L'
FIGURA 8 .. HBAE NO PLANO HORIZONTAL: POUCA PROGRESSÃO DA ONDA R E
PRESENÇA DE ONDAS A T É V •6.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT"'-06· 169 HEI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
Veja um exemplo clássico abaixo ...
F I GURA 9.
D IAGNÓSTICOS D IFERENCIA IS
Dois aspectos interessantes dos hemiblo
queios de uma forma geral são as doenças
que eles podem simular e os seus efeitos so
bre as manifestações de outras patologias
associadas.
Alterações s imuladas pelo HBAE
ROTAÇÃO ANTI-HORÁRIA
No plano frontal, o padrão morfológico 01 S3
pode simular uma rotação anti-h orária do
coração (capítulo 3), sendo o desvio do eixo
para esquerda além de -30° um importante
fator diferenciador, uma vez que, nesta rotação
isoladamente, este n ivel de desvio não ocorre.
SOBRECARGA DEVE ! PLANO
FRONTAL}
Outro diagnóstico que pode ser erroneamen
te feito é o de sobrecarga deVE (capítulo 4)
pelos critérios de Cornell (RaVL + SV3 > 20
ou 28 mm) ou de Gubner (R1 + S3;;, 25 mm),
devido à onda R ampla de OI e aVL e onda S
profunda de 0111 que acompanham o HBAE.
Neste caso, o escore de pontos de Romhilt
-Estes é útil para fazer o diagnóstico diferen
cial, uma vez que ele utiliza ou!Y'os critérios
além da amplitude do QRS.
I NFARTO
As ondas q observadas em DI e aVL podem
simular um infarto lateral, apesar dos critérios
definidores de uma onda q de necrose (dura
ção> 40 ms e/ou amplitude >1/3 da onda R
em no mínimo duas derivações de uma mes
ma parede - capítulo 12) raramente estarem
presentes no hemibloqueio isoladamente.
Efeitos do HBAE Sobre Outros
Diagnósticos
SOBRECARGA DEVE ! PLANO
HCJRIZQNTAU
A sobrecarga de VE. que pode ser erronea
mente diagnosticada no plano frontal na vi
gência de HBAE, pode não ser identificada no
plano horizontal pelos critérios de amplitude
quando ela realmente estiver presente. Isto
ocorre devido à redução da amplitude da onda
R em VS e V6, associada a um aumento con
comitante d.a onda S. Desta forma, o critério
de Sokolow-Lyon poderia ser prejudicado
(menos sensível), assim como o escore de
pontos, que considera a amplitude da onda R
;;, 30 mm ne·stas derivações como um critério
maior. Este conceito apresenta grande impor
tância, pois este hemibloqueio frequentemen
te está associado à sobrecarga de VE, cuj o
diagnóstico deverá ser buscado por diversos
critérios diferentes nesta s ituação.
SOBRECARGA DEVO
Por outro lado, a sobrecarga de VD pode difi
cultar o diagnóstic-O de HBAE no plano frontal
por desviar o eixo médio do QRS para d ireita,
neutralizando os efeitos do hemibloqueio so
bre o eixo. Entretanto, um fato que deve ser
percebido é que, como a sobrecarga de VD
provoca um a rotação horária do c.oração no
plano frontal (ver capítulo 4), espera-se a for
mação de um padrão S1Q3, com uma onda r
na parte final das derivações inferiores (prin
cipalmente 0111 ). Quando, houver evidências
desta sobrecarga associada a uma onda q em
DI e aVL e uma onda r inicial em 0111, significa
que o começo da ativação do VE está d irecio
nado para baixo e para esquerda ( despolari
zação rápida pelo fascículo posteroinferior).
Isto não só é incompatível com uma rotação
horária, como sugere exatamente o oposto.
Assim, estas morfologias poderão ser as úni
cas evidências de um atraso da condução pelo
hemifascículo anterossuperior na presença de
uma sobrecarga do VD.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT,.,06- 170 HEI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
I i 1
DA.~
CD, Cc>loniN-
•.r-......_..._., J.f--
F"IGU R A 1 O : SUPRI MENTO ARTERIAL DOS FAS
C Í CULOS À ESQUERDA.
IMPLICAÇÕES CLINICAS
Inicialmente, é importante ressaltar que o
HBAE pode ser encon trado em ind ivíduos
saudáveis. Na população geral, a incidência
deste hemibloqueio varia de 0,9 a 6,2% e não
confere um maior risco de morbimortalidade
cardiovascular.
Com re lação às patologias, sabemos que,
devido às suas propriedades anatômicas, o
fascículo anterossuperior podeser lesado por
doenças que acometem o trato de saída do
VE, a parte anterior do septo interventricular
ou a parede anterolateral. A hipertensão arte
rial e as valvopatias áorticas, apresentam este
potencial pela sua capacidade de modificar
estruturalmente o VE, provocando hipertrofia
e áreas de fibrose. A doença isquêmica tam
bém é uma causa importante de HBAE, assim
como as miocardiopatias, especialmente a
chagásica. Em pacientes idosos, a Doenças
de Lev- Lenêgre é uma possível etiologia de
HBAE, como já era para os bloqueios de ramo.
Nesse momento, é válido ressaltar alguns
pontos específicos sobre a doença isquêmica
e a Doença de Chagas .. .
I NFARTO
O HBAE é observado em cerca de 4% de todos
os infartos, sendo o distúrbio de condução in
traventricular mais comum relacionado ao in
farto de parede anterior. A irrigação deste he
mifascículo é feita basicamente por ramos
septais da artéria descendente anterior, justifi
cando a sua alta susceptibilidade à isquemia,
uma vez que não possui um múltiplo suprimen
to arterial. Porém, é interessante nota r, pela
Figura 10, que a ocorrência deste hemibloqueio
em um cenário de síndrome coronariana aguda
não parece determinar um prognóstico ruim,
uma vez que, ao ter um suprimento arterial
simples e único, basta um infarto de tamanho
pequeno para induzir tal tipo de lesão.
DOENÇA DE CHAGAS
A doença de Chagas deve sempre ser lembra
da como uma possível etiologia de um IHBAE,
principalmente quando houver um BRD asso
ciado. O BRD é o distúrbio de condução mais
comum da miocardiopatia chagásica (40 a 60%
dos casos) e cerca de 50% destes pacientes
também apresentam acometimento do fascí
culo anterossuperior. Estes distúrbios de con
dução podem surgir numa fase ainda assinto
mática da doença, mesmo sem haver doença
estrutural detectável. O mecanismo responsá
vel é a fibrose do sistema de condução.
ATENÇAOIII
HBAE + BRD: Pensar sempre em
DOENÇA DE CHAGAS
PRINCIPAIS CAUSAS OE H BAE
Hipertensão Arterial Sistêmica
Coronariopatia
Doença de Chagas
Valvopatia aórtica
Doença de Lev-Lenêgre
TABEL A 3 ,
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT'-'-06- 171 H EI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
HEMIBt.:OQUEIO POSTERIOR ESQUERDO !HBP )
FIGU R A 1 1.
FISIOPATOLOGIA E
ATIVAÇÃO VENTRICULAR
O bloqueio do fascículo posteroinferior gera
o distúrbio de condução ventricular denomi
nado IHemibloqueio Posterior Esquerdo
(HBPE) ou Bloqueio Divisional Posterolnferior
(BDPI), no qual a ativação ventricular ocorre
de forma exatamente oposta ao que foi des
crito para o HBAE.
Assim, as primeiras regiões a serem despola
rizadas neste caso são aquelas supridas dire
tamen te pelo hemifascículo sem lesão, ou
seja, as paredes anterossuperior e lateral do
VE. Es.te evento gera um 1 • vetor direcionado
para cima, para frente e para esquerda (cerca
de -60°) durante os primeiros 40 ms do pro
cesso. Consequentemente, a parede infere
posterior é despolarizada mais tardiamente
(além de 40 ms) pela condução do estímulo
através de conexões entre as redes de Pur1 +120.).
• Vale notar que é configurado, no plano frontal,
o padrão de S1q3 (ondaS em DI e onda q em
D/11), classicamente relacionado à rotação horá
ria do coração. Entretanto, neste caso, a rctaçt!o
ocorre com a alça de ativação, não estando re
lacionada com a posição anatômica do coração
dentro do tórax.
Perceba, neste momento, que as morfolo
gias descritas nas derivações esquerdas (rS)
e inferiores (qR) no HBPE (Figura 15) cor
respondem, respectivamente , àquelas en
contradas nas derivações inferiores (rS) e
esquerdas (qR) no HBAE, pois os dois dis
túrbios produzem alças de ativação exata
mente opostas.
Outra característica fundamental do H BPE
no plano frontal é o desvio do eixo médio do
QRS oara d jrejta, geralmente além de +90°
(DI negativo, aVF positivo) e eventual mente
acima de +120° (aVR positivo). Este desvio
é consequência do segundo vetor que, por
possuir uma maior amplitude, tende a ser o
principal determinante da orientação média
da ativação ventricular. Entretanto, esta ca
racterística não é exclusiva do HBPE, poden
do estar pre·sente em outras cond ições ainda
mais frequentes, como o BRD e a sobrecarga
do VD (tabela abaixo).
O U T RAS CAU SAS OE DESVIO 00 E I XO
DO QRS PARA D IREI T A
Infarto Lateral
I Embolia Pulmonar
Pneumopatias
Crônicas
(ex.: DPOC)
I Sfndronne de
Wolff-Parkinson-White
com via acessória à
esquerda
Sobrecarga do
Ventrieulo Direito
Dextrocardi a
Cardiopatias
Congênitas
(ex.: CIA, Doe•nça
de Ebstein)
Verticallzação
(não ultrapassa
+120°)
TABELA 4.
Enquanto o HBAE é uma causa frequente
de desvio do eixo para a esquerda, o HBPE
é uma causa rara de desvio do eixo para a
direita ... De um modo geral, existem 3 prin
cipais causas de desvio do eixo para a di
reita em adultos: Sobrecarga de VD, infarto
lateral e HBPE, sendo este último um diag·
nóstico de- exclusão.
-··-
MEOr:u:tRO
:-lr': CAPIT'-'-06- 173 H EI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
F I I3UR.A 1 5 ~ H B P E N O P L A NO F'RO NTAL: C 1 ) Q R N A S DER I V A Ç ÕES DA P A REDE t N F'ERIOR (011 ,
0 111 E AVF ) C O M ONDA R EM 0 11 1 M A IOR Q U E EM 011 ; C2 ) RS NAS OERt VAÇÕES ESQUER D AS ( 0 1 E AVL).
Plano Horizontal
Nas derivações precordiais, as mudanças não
são grosseiras e, por isso, possuem menor
importância diagnóstica. Entretanto, o seu
entendimento é válido por possibilitar a reali
zação de diagnósticos diferenciais com outros
distúrb ios.
A orientação do 1 • vetor para cima e para
esquerda resu lta na diminuição ou mesmo
desaparecimento da onda r de V1 e da onda
q de V5 e V6. Além disso, a orientação do
2° vetor para baixo e para direita resulta
num nnenor crescimento da onda R ao lon
go do plano horizontal, assim como a redu
ção de sua amplitude em V5 e V6. Por este
mesmo motivo,a onda S tende a permane
cer a té as precord iais esquerdas (Figura
16), dificu ltando ainda mais o diagnóstico
diferencial com a sobrecarga de VD, além
de mascarar uma possível sobrecarga de
VE associada.
Outros Achados
Assim como no HBAE, a duração do QRS, o
tempo de ativação e a repolarização ventricu
lar também podem ser afetados.
A duração total da despolarização ventricular
aumenta pouco e raramente ultrapassa 1 00
ms, sendo consequência da ativação anôma
la e tardia da região posteroinferior do VE. O
TAV caracteristicamente aumenta em 0 111 e/
ou aVF (;, 45 ms), por estas derivações "visu
alizarem· melhor a região posteroinferior (onde
a ativação está atrasada) e por estarem no
final da alça de despolarização. O TAV deverá
ser maior nestas derivações do que em V6.
Por último, a onda T pode sofrer alterações
secundárias que dependem do grau de aco
metimento do hemifascículo, mas ainda assim
permanece com sua morfologia assimétrica.
Reveja, na tabela abaixo, os critérios sugesti
vos HBPE isolado no ECG (em negrito, as
alterações mais importantes).
FI GURA 1 6 • H BPE NO P L A NO HORI ZONTA L : POUCA P R OGR E SSÃO D A O N D A R E P R ESENÇ A
DE OND A S ATÉ VS ( E E V E NTUAL MENTE V 6 ).
-··-
MEOr:u:tRO
:-lr': CAPIT'-'-06- 174 H EI.IIBLOOUEIOS ou
B t.OOOEIOS fASC.CUlARES
HEMIBLOQUE-10 POSTERIOR ESQU ERDO (CRI TÉRIOS)
Desvio do eixo do QRS para direita além de +90° (geralmente em torno de +12o•;
Ausência de outra explicação para o desvio do eixo para a direita (ex.; HVO)
QRS estreito Onda R em 011
Presença de ondaS em V5 (e V6)
• Outros achados posslveis: reduçfJO da amplitude da onda R em VS e V6 e tempo de ativação ventricular
« 45 ms em DI/ e/ou aVF.
T ABEL A 5 .
D IAGNÓSTICOS D IFERENCIAI S
Alguns autores acreditam que o diagnóstico
eletrocardiográfico de HBPE é apenas presun
tivo, uma vez que existem diversas outras
condições que podem desviar o eixo do QRS
para direita. Assim, é sempre importante que
os dados clínicos do paciente sejam levados
em consideração, além de ser necessário
pesquisar as mudanças morfológicas no plano
frontal para que se possa determinar a orien
tação da alça de ativação ventricular.
Alterações Simuladas pelo HBPE
SOBRECARGA DEVO
Por conta do desvio de eixo para a direita,
a sobrecarga de VO é o principal diagnós-
tico a ser diferenciado do HBPE e nem sem
pre isto é possível somente através do ele
trocardiograma. No plano frontal, o que deve
chamar a atenção é a orien tação dos veto
res terminais, que, no HBPE, resulta numa
onda R que aumenta de 011 para 0 111, além
de não haver uma onda S nessas deriva
ções. A sobrecarga do VO não apresenta
estas propriedades. A lém disso, as precor
diais direitas também podem ajudar, pois
uma onda R ampla em Y1 - uma vez afas
tado BRO - tende a favorec-er o diagnóstico
de sobrecarga do VO. A ondaS aumentada
em V5 e V6 pode ocorrer nos dois casos e
não ajuda no diagnóstico diferencial. Por
último, uma sobrecarga do átrio direito as
sociada poderá ser um sinal indireto de
acometimento do VO.
FIGURA 1 7: PADRÃO S 1 Q3T 3 ( OU SI N A L DE MCGINN•W H t TE) SUGERE E MBOLIA
PU L MON AR - O N DAS EM OI, O N DA Q EM 0111 E INVERSÃO DE ONDA. TEM 0111.
ROTAÇÃO HORÁRIA
No plano frontal, outro diagnóstico que deve
ser lembrado é a rotação horária do coração
que também cursa com um padrão S1-Q3,
além de poder esiar associado a.o desvio do
eixo para direita e à transição tardia do QRS
nas precordiais. Assim, a diferenciação deste
fenômeno com um HBPE isolado pode não
ser possível .
I NFARTO
O infarto de parede lateral poderá desviar
o eixo elétrico para direita ao amputar a
onda R de OI, produzindo um padrão QS.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT'-'-06· 175 HEI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
Entretanto, este diagnóstico é facilmente dife
renciado do HBPE porque não serão represen
tadas as ondas correspondentes aos dois veto
res principais que caracterizam o hemibloqueio.
EMBOLIA PULMONAR
Outro diagnóstico importante de ser lembra
do quando ocorre um desvio do e ixo do QRS
para direita no plano frontal, associado à
presença de ondas S e Q proeminentes em
DI e 0!11 respectivamente, e ainda com uma
inversão da onda Tem Dlll, é a embolia pul
monar. Este é o clássico padrão conhecido
como S1Q3T3, ou sinal de McGinn-White
(Figura 17) , que nem sempre resulta num
desvio do eixo médio e cuja especificidade
para ta l d iagnóstico é baixa. Entretanto, a
suspeita aumenta se houver sina is de sobre
carga de VD, principalmente o strain nas
derivações precordiais direitas, o que tende
a ser um sinal indireto de uma embolia de
grande monta.
Efeitos do HBPE Sobre Outros
Diagnósticos
Devemos sempre estar atentos aos efeitos dos
hemibloqueios sobre o rendimento diagnóstico
de outros distúrbios no eletrocardiograma.
SOBRECARGA DEVE
A sobrecarga ventricu lar esquerda tem re
conhecimento dificu ltado pelos. efeitos do
HBPE sobre a amplitude das principais on
das utilizadas nos critérios de amplitude. A
redução da onda R de DI e aVL e da onda
S de D I II no plano frontal e da onda R de VS
e V6 no plano frontal, reduz a sensibilidade
dos critérios de Sokolow-Lyon e Cornell.
Mesmo o escore de pontos de Romhilt-Estes
é prejudicado, pois o eixo desviado para
direita e as alterações secundárias da onda
T afetarão a análise dos critérios. Resta so
mente a sobrecarga do átrio esquerdo como
um sinal indireto na ausência das alterações
clássicas do QRS. Perceba que- o diagnós
tico pelos critérios de amplitude tornou-se
menos sensível, mas ainda com a mesma
elevada especificidade. Portanto, se estive
rem presentes, deverão ser valorizados.
I NFARTO
No capítulo 12, veremos que os infartos antigos
geram uma onda q grande (chamada de onda
q patológica) na parede infartada. Pois bem,
eventualmente, o HBPE pode ocultar as ondas
q patológicas de um infarto de pare-de inferior.
Isto acontece porque logo após os primeiros
40ms, as resultantes vetoriais já apontam em
dire-ção às derivações inferiores, na presença
deste hemibloqueio. Assim, há uma redução da
amplitude e duração da onda q e um aumento
da onda R em DI I, Dlll e aVF (Figura 18).
F"IGURA 1 B: HBPE PODE 0 1.,-f CULTAR O D I AG•
N ÓSTICO DE INFARTO OE PAREDE IN F'ER IOR -
MAIS DETALHE S NO CAPÍTULO 1 2.
IMPLICAÇÕES CLINICAS
O HBPE isolado é o distúrbio de condução in
traventricula r mais raro graças à baixa vulnera
bilidade do fascículo posteroinferior. Esta pro
priedade é consequência de sua localização
afastada do t rato de saída do VE (menor turbu
lência sanguínea), maior espessura, menor
comprimento e dupla irrigação sanguínea, re
cebendo sangue tanto da artéria descendente
anterior (que é ramo da coronária esquerda)
quanto da coronária direita (Figura 10). Portan
to, quando este hemifascículo é lesado, existe
uma grande probabilidade de já haver um aco
metimento do ramo direito (o mais vulnerável)
e até mesmo do fascículo anterossuperior. O
que mais se observa na prática é a associação
do HBPE com o BRD, sendo a lesão do fascí
culo posteroinferior, em geral, já um sinal de
bloqueio atrioventricular total (BAVT) iminente.
Na prática médica, dificilmente nos depa
ramos com HBPE puro: o mais comum é
seu aparecimento em conjunto com IBRDI
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT'-'-06· 176 HEI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
O HBPE é um sinal inespecífico de doença
cardíaca e apesar do trabalho original de
Rosenbaum (o "Descobridor dos Hemiblo
queios") ter considerado a miocardiopatia
chagásica a sua causa mais frequente, al
guns autores reconhecem a doença corona
riana como a etio logia mais comum. Vale
ressaltar que uma importante razão para esta
divergência é a diferença de pre·valência da
doença de Chagas entre os países de onde
os dados foram coletados.
Apesar de sua baixa incidência(em torno de
0,5% dlos casos de miocardiopatia chagási-
ca e doença coronariana), sua presença está
relacionada a um pior prognóstico. Por
exemplo, a associação de BRD com HBPE
na evolução do infarto está relacionada a
uma letalidade de 80-87% nas primeiras
semanas após o evento. Isto é compreensí
vel, uma vez que seria necessário um aco
metimento no mínimo biarterial, já que, como
dito, o fascículo posteroinferior apresenta
dupla irrigação sanguínea.
Outras etiologias menos frequentes incluem;
doença de Lev-Lenegre, cardiopatia hiper
tensiva e valvopatias aórticas.
Desvio do QRS Esquerda (além de Direita (além de
-30°) +90°)
Estreito( S de qR (R de Dlll >R de
DIIJ Dll)
TABELA 6.
A maioria dos auiores aiualmenie já admiie
que o ramo esquerdo possa apresentar uma
terceira divisão conhecida como fascículo ante-
romedial (ou médio-septal), que desce pelo sep
to interventricular. Alguns trabalhos chegaram a
encontrar este ramo em 65% das pessoas.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT~. BRD* > BRE > HBPE
"Alguns autores consideram BRO mais comum que
o HBAE
Existe nomenclatura especial para a associa·
ção de bloqueios?
Os termos mais consagrados referem-se à
quantidade de fascículos acometidos, de for
ma que se usa comumente a nomenclatura
"Bloqueios bifascic.ulares e trifasciculares· .
A definição clássica do BLOQUEIO BIFASCI
CULAR refere-se aos distúrbios de condução
abaixo do nado AV em que o ramo direito e
um dos 2 principais fascículos do ramo es
querdo (anterossuperior ou posteroinferior)
são envolvidos.
• Alguns autores (como a Sociedade Europeia
de Cardiologia) incluem também nessa def/niçi!o
o bloqueio de ramo esquerdo, pelo fato deste
implicar no bloqueio de seus 2 fase/cu/os ao
mesmo tempo.
O termo BLOQUEIO TRIFASCICULAR é clas
sicamente aplicado nos casos em que há um
bloqueio bifascicular associado ao aumento
do intervalo PR (que é a definição de bloqueio
atrioventricular de 1° grau- assunto do capi
tulo 10).
• Alguns autores também incluem na definiçi!o da
lesão tritasc/cular os casos que envolvem o blo
queio do mmo direito e dos 2 fase/cu/os esquerdos
ou mesmo o· bloqueio de mmo altemante (BRE
alternando com BRD).
Essa confusão de termos fez com que o con
glomerado americano definidor de diretrizes
cardiológicas (American Co/lege ofCardiology
I American Heart Association I Heart Rhythm
Society) recomendasse a abolição deles em
2009, mas, de qualquer forma, são termos já
muito difundidos.
Como reconhecer um bloqueio bifascicular?
Inicialmente, devemos identificar a presença do
BRD. Depois, é preciso verificar se existe des
vio do eixo do QRS compatível com algum tipo
de hemibloqueio ... No capitulo anterior, vimos
que o BRD pode, eventualmente, até desviar oeixo para a d ireita, mas nunca para a esquerda!
Isso facilita o diagnóstico de BRD + HBA.E, pois
enc.ontraremos o eixo desviado para a esquer
da (além de -30°). Mas acaba dificuttando o
diagnóstico de BRD + HBPE, já que ambos têm
a capacidade de desviar o eixo para a direita.
Nesta situação, seremos obrigados a analisar
a morfologia do QRS em 011, 0111 e aVF ...
BRD + HBAE: A ASSOCIAÇÃO MAIS COMUM
A associação de bloqueio do ramo direito com
hemibloqueio anterossuperior esquerdo é a
mais comum entre os distúrbios de condução
intraventricular, sendo descrita em cerca de
1% de toda popu lação hospitalizada. Sua
presença está frequentemente relacionada à
Doenca de Chagas (até 40% dos casos) e
doença coronariana, apesar de também ser
observada nas doenças degenerativas do
sisiem.a de condução (Lev-Lenegre ), cardio
patia h ipertensiva, valvopatias aórticas e
cardiopatias congênitas. A expli·cação mais
coerente para a elevada incidência desta
combinação de distúrbios é a proxim idade
anatômica do ramo direito e do fascículo an
terossuperior. A evolução para bloqueio atrio
ven tricular tota l (BAVT) pode ocorrer em
cerca de 11 % dos casos.
Os achados e le trocardiográficos re·velam
uma combinação das alterações relaciona
das a cada distúrbio isoladamente. lsio ocor
re porque, enquanto o HBAE modifica a
parte inicial e intermediária do processo de
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT'-'-0 6- 180 HEI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS f ASC.CUlARES
ativação ventricu lar, o BRD influencia as
porções finais. Assim, as alterações apresen
tam pouca superposição temporal. tendendo
a respeitar uma sequência que é claramente
identificada no traçado.
risticamente desviado para a esquerda (além
de -30°). Por último, como o plano horizontal
é pouco influenciado pelo HBAE, as precor
diais permanecem com o padrão de· BRD,
revelando rSR' ou R puro entalhado em V1
(dependendo do grau de BRD) e onda S alar
gada em V5 e V6 (Figura 19). O plano frontal mantém o padrão rS nas deri
vações inferiores (com ondaS em Dlll >onda
S em 0 11) e a onda q inicial em DI e aVL ca
racterísticos do HBAE, além da onda S alar
gada em DI consequente ao BRD. De qualquer
maneira, o eixo do QRS encontra -se caracte-
Vincul o cerebral: BRD com eixo
desviado para a esquerda (além de -30°)
= BRD+ HBAE
Bloqueio Blfasclcular {8AO + HBAE) - -
F"' GURA 1 9: ASS OCIAÇÃO DE BRO COM HBAE : tl) R P U R O E N T A LHADO EM VI (QUASE
UM RSR'l, A L ÉM DE O NDA S LARGA EM V S E V6 SÃO D O BRO.; (2) D E SVIO 00 E I X O P ARA
A ESQUE RDA IALÉM DE .. 300) 0 A L ÉM DE RS EM 011, 0111 E AVF' SÃO 00 HBAE.
Enaltecido como o desbravador da "Doença de Chagas', Carlos Chagas
nasceu em 1878 no município de Oliveira - Minas Gerais - e faleceu
aos 55 anos em 8 de Novembro de 1934.
Ele foi o primeiro e o único cientista na história da medicina a descrever,
de modo integral, uma doença infecciosa: o patógeno (Trypanosoma
cruzi - homenagem ao seu amigo Oswaldo Cruz), o vetor (barbeiro:
Triatoma infestans), os hospedeiros, as manifestações clínicas e a
epidemiologia. Publicou sua descoberta em 1909 denominando a
doença de Tripanosomíase americana, mas Dr. Miguel Couto - então
membro da Academia Nacional de Medicina - logo propôs o nome de
Doença de Chagas.
A repercussão da descoberta rapidamente ganhou o mundo e Carios
Chagas foi agraciado com diversos prêmios e homenagens, chegando a
receber duas indicações para o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina,
mas não ganhou em nenhuma delas .. _ As questões parecem ter sido
basicamente políticas: além da pouca credibilidade e respeito entre
pesquisadores de países centrais em relação aos dos países periféricos,
alguns médfcos brasileiros também rejeitavam as descobertas de Chagas!
É como se diz: "A invej a de muitos anuncia o merecimento de alguns .. . ".
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT'-'-06- 181 H EI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
BRD + HBPE ------------
Esta combinação é mais rara do que a anterior,
entretanto já é mais frequente do que o HBPE
isolado e está relacionada á miocardiopatia
chagásica e doença coronariana. Na fase
aguda do infarto, a ocorrência de BRD + HBPE
é sinal de doença coronariana mais extensa,
estand o associada a um pior prognóstico.
lembra do motivo? Como o feixe posteroinfe
rior tem dupla irrigação arterial (descendente
anterior e coronária direita), é necessária uma
doença isquêmica biarterial, portanto de maior
gravidade para lesá-lo ...
Apesar de o traçado apresentar características
dos dois distúrbios de condução, com o HBPE
alterando a parte inidal e média do QRS e o
BRD, a final, neste caso há uma maior sobrepo
sição dos dois eventos do que no B RD + HBAE.
Como ficaria então o aspecto eletrocardio
grãfico?
Por conta do HBPE, o começo da ativação
ventricular envolve a parte anterossuperior do
VE seguida pela posteroinferior, d irecionando
os vetores desta fase inicialmente para cima
e para esquerda e, depois, para baixo e para
a direita. No plano frontal, isto resulta nas co
nhecidas morfologias qR nas derivações infe
riores (com onda R de 0111 >onda R de 011 ) e
rS nas esquerdas (OI e aVL). Em seguida,
ocorre a despolarização do VO após o estímu
lo atravessar o septo interventricular, com os
vetores resultantes orientados para dire ita. O
BRD não altera de forma s ignificativa estas
morfologias relacionadas ao HBPE, pois este
hemibloqueio já direcionava as forças vetoriais
finais para d ireita.
No plano horizontal, predominam as morfolo
gias associadas ao BRD, porém com peque
nas modificações consequentes ao HBPE. A
onda q em VS e V6 não está presente pela
ausência de formação do vetor do septo mé
dio. Além disso, a onda S de VS e V6 poderá
estar com sua amplitude reduzida, porque,
apesar de ambos os distúrbios produzirem
esta onda nas derivações precordiais esquer
das, o BRD resulta numa orientação dos ve
tores para cima, enquanto o HBPE os d irecio
na para baixo. Ocorre assim um pequeno grau
de antagonismo dos vetores finais relaciona
dos aos dois processos.
I Vínculo cerebral : BRD com qR em 011, 0111 e aVF = BRD + HBPE I
BRD 2° grau + HBPE
o ~ \'í'íJ
m
om
m
F"I GU R A 20: A SSOC I A Ç Ã O D E BR O C O M H BPE : { l t RSR' E M Vl , A L ÉM
OE O N DA S LARG A EM V S E V6 S Ã O 00 B ROj ( 2 t Q R E M 0 111 E AVF
S Ã O 0 0 HBPE,
-··-
MEOr:u:tRO
:-lr': CAPIT'-'-06- 182 H EI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
BRE + HBAE & BRE + HBPE
Estes d istúrbios não são comple tamente
aceitos na l iteratura, pois algu ns autores
acreditam não ser possível identificar um
atraso na condução dos hemifascícu los es
querdos na presença de um acometimento
do próprio tronco do ramo esquerdo . Já ou
tros autores afirmam ser possível que, no
BRE, um dos fascículos estej a "mais bloque
ado" do que o outro, causando um desvio
do eixo do QRS para a esquerda (HBAE) ou
para a direita (HBPE).
• E interessante notar que. como n.a arquitetura
elétrica do coração, o ramo esquerdo surge antes
que seus fase/cu/os, o traçado e/etrocardiográfico
da associação de BRE com um hemib/oqueio
mostrará alterações induzidas pelo bloqueio de
ramo no inicio da ativação ventricular, enquanto
as alterações causadas pelo bloqueio fascicular
serão percebidas melhor no final do QRS.
B E +HBAE
O BRE + HBAE é mais comumente observa
do na doença coronariana e cardiopatia hí
pertensiva. Neste traçado, as partes iniciais
do complexo QRS apresentam evidências de
BRE tal qual já conhecemos: ausência de
onda q em DI, aVL, VS e V6 e redução ou
amputação da onda r em V1, devido á falta
do vetor do septo médio. Entretanto, enquan
to noBRE isolado a região final a ser ativada
é a parede latera l do VE, na presença de
HBAE concomitante os últimos vetores são
mais d írecionados para cima e para trás, de
vido à despolarização tardia da região ante
rossuperior. Isto produz um desvio do eixo do
QRS no plano frontal para valores em torno
de -45° a -60°e poderá resultar em pequenas
ondas Sem VS e V6, que não são caracterís
ticas do BRE, mas ocorrem no HBAE, como
vimos no início do capítulo. São formadas
também as morfologías rS em Dl t Dlll e aVF
(com ondaS em DI II >ondaS em DI I), com
patíveis com HBAE (Figura 21).
Vínculo cerebral : BRE com eixo desviado
para a esquerda além de -30° = BRE + HBAE
BRE + HBPE
O BRE + HBPE, além de também estar mais
associado à cardiopatia isquêmica, segue o mes
mo princípio fisiopatológíco do BRE + HBAE.
Desta forma, o início da ativação ventrictJiar re
flete os feitos do BRE e o seu final manifesta a
presença de· um atraso maior através do fascí
culo posteroinferior. Não há onda q em DI, aVL,
VS e V6 (características doBRE), e as derivações
inferiores revelam as morfologias qR (com onda
R em Dlll > onda R em Dll) - características do
HBPE. Entretanto, um dado que deve chamar a
atenção no plano frontal é o desvio do eixo médio
do QRS para direita (em tomo de +100°) devido
à despolarização tardia da parede posteroinferíor.
Esta propriedade do HBPE produzirá do is efei
tos que podem confundir a interpretação do
traçado se a análise não for feita de forma mi
nuciosa. Primeiro, a morfologia do QRS em DI
(e também em aVL) tenderá a ser predominan
temente negativa (rS) modificando o aspecto
clássico doBRE nesta derivação de R puro. Se
as precordíaís não forem analisadas (V1 man
tém o padrão OS ou rS doBRE), esta morfolo
gia em DI poderá inclusive passar a impressão
de um BRD. Segundo, poderá ser observada
também uma pequena onda S nas derivações
precordíais esquerdas (VS e V6).
Veja na Figura 22 um traçado de BRE +
HBPE. Note que DI apresenta um padrão su
gestivo de BRD (rS), que não é confirmado no
plano horizontal. O eixo está desviado para
direita (+90° a +120°) e há ondaS em VS.
Vínculo cerebrai :BRE com eixo desviado
para a direita = BRE + HBPE
-··-
MEOr:u: tRO
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~'ih-(\.-., 1\: aVJ:_ J ON DA 8 EM 0111.
BRE 3° grau+ HBPE :~
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i\!AI ~ ·~ l f\!líl " ~ OOl
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IA li'\ .___.. / " __.., í -.. r' - ,(' ' I-'
w ' I ./ L
' IV
I
FIGURA 22: ASSOCIAÇÃ-O DE BRE COM H BPE: () ) BRE: QS ALARGADO E M Vl + R PURA
ALARGADA E M V6 ; 121 HBPE: QR EM 011 , 0111 E AVF'" CONDA R EM 0 111 > ON DA R EM 0111,
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT'-'-0 6 - 184 H EI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
BLOQUEIO TRIFASCICULAR
A combinação de BRD + HBAE (ou HBPE)
+ BAV de 1 • (intervalo PR > 200 ms) é co
nhecida como bloqueio trifascicu lar. O tra
çado apresenta evidências de um atraso da
condução pelo ramo dire ito e pe lo fascículo
anterossuperior (ou posteroinferior no caso
de HBPE), além de um pro longamento do
intervalo PR. Este intervalo re·presenta o
tempo que leva para o estímulo chegar do
nado s inusal até o miocárdio ventricu lar.
Assim, o seu aumento na presença ode um
atraso evidente através do ramo direito e de
um dos hemifasciculos esquerdos é um sinal
indireto de que o outro fascículo do ramo
esquerdo também deverá estar com a con
dução comprometida.
F IG U R A Z 3: B l.O ii;IUEIO T R IFA S CI C ULAR: I 11 B RD 3 ° GRAU i CZ J H BAE C E IXO ALÉ M D E
•3 Q OJ; ( 3 ) BAV 1 a G R AU (PR > 200 M S ) .
Outras formas de bloqueio trifascicular in
cluem: (1) Bloqueio de ramo altemante (BRE
alternando com BRD em um mesmo traçado);
.. B loquejos Bjfasçjçulares·
(1) BRD + HBAE:
(2) BRE + BAV de 1°grau (muitos autores não
consideram tal associação).
- Sinais de BRD: rSR' em V1 e onda S alargada em V6
- Sinais de HBAE: desvio do e ixo para a esquerda além de -30° (011 negativo); rS em 011,
0111 e aVF (com ondaS em 0111 >ondaS em 011)
(2) BRD + HBPE:
- Sinais de BRD: rSR' em V1 e onda S alargada em V6
- Sinais de HBPE: qR em 011, 0111 e aVF (com onda R em 0111 >onda R em 011)
(3) BRE (classificação discutível: seria HBAE + HBPE)
(4) BRE + HBAE (existência discutível):
- Sinais de BRE: ondaS alargada em V1 (rS ou QS) e onda R pura alargada em V6
-Sinais de HBAE: desvio do e ixo para a esquerda além de -30° (011 negativo); rS em 011,
0111 e aVF (com onda Sem 0111 >ondaS em 011)
(5) BRE + HBPE (existência discutível):
- Sinais de BRE: ondaS alargada em V1 (rS ou QS) e onda R pura alargada em V6
- Sinais de HBPE: desvio do eixo para a direita; qRem 011 , 0111 e aVF (com onda R em 0111
>onda R em 011); DI perde o padrão doBRE e mantém o padrão negativo do HBPE (rS)
- B loquejo s Trjfasçjçulares·
(1) BRD + HBAE (ou HBPE) + BAV 1° grau:
-··-
MEOr:u:tRO
:-lr': CAPIT'-'-06- 185 H EI.IIBLOOUEIOS ou
Bt.OOOEIOS fASC.CUlARES
- Sinais de BRD: rSR' em V1 e onda S alargada em V6
- Sinais de HBAE ou HBPE
- Sinal de BAV 1 • grau: intervalo PR > 200 ms (assunto do capítulo 9)
(2) Bloqueio de ramo altemante ou bilateral (BRE alternando com BRD)
(3) BRE + BAV 1° grau (classificação discutível: seria HBAE + HBPE + BAV 1° grau)
A s divisões do ramo direito em fascículos
ocorrem mais tardiamente, de modo que seus
bloque-ios fasciculares têm pouquíssimo inte
resse prático. Iremos citá-los buscando a
construção de um material didático completo
dentro da eletrocardiografia ...
Do ponto de vista de comportamento vetorial,
os bloqueios divisionais direitos ·se asseme
lham aos esquerdos. Com os fascículos à
direita agora bloqueados, chama atenção a
expressão de vetores terminais orientados
para a direita, uma vez que não há oposição
de forças esquerdas - parede livre de VE e
regiões basais esquerdas já se ativaram. Este
entendimento é importante porque o processo
inicial de despolarização ventricular não so
frerá modificações.
Vale lembrar que, como nos demais bloqueios
divisionais, não ocorre alargamento do QRS,
o qual permanece onda S em
D lll). A derivação aVR chama atenção por
apresentar um QRS positivo com padr.ão qR,
onde a onda R é inclusive mais espessa. O
eixo encontra-se bastante desviado, orientan
do-se entre -45° e -180°.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr': CAPIT~.o sítio de intera
ção entre ambas fica escondido. Para todo
problema tem que existir uma solução e aqui
a solução chama-se cálcio! Ele altera a con-
formação do complexo contrátil e consegue
assim expor o sítio de ligação actina-m iosina.
Para resumir, faz-se necessária a entrada de
Ca .. na fibra cardíaca ...
E a participação do potencial de ação nes
sa história?
Simples! Sabemos que as grandes áreas
contráteis do nosso coração são os átrios e
os ventrículos, que, como aprendemos ante
riormente, apresentam potencial de ação do
tipo "resposta rápida". Assim, naquela fase
de platô (Fase 2), há um influxo de cálcio
que já passa a interagir com toda maquinária
contrátil. Além disso, o próprio influxo de câl
cio induz uma organela intracelular chamada
retículo sarcoplasmático - rica neste íon - a
liberar mais cálcio para o interior da célula,
o que intensifica a contração .. . Pronto, está
feito o acoplamento excitação-contração!
BAS S TEORIC)lo;S D A E L:ETROC A R lOGRA I A
TEORIA DE D IPOLO
A s bases celulares da geração e condução
do impulso cardíaco já abordadas ainda não
explicam como o eletrocard iograma seria
capaz de registrar todos aqueles eventos. A
teoria do dipolo é o elo entre a eletrofisiologia
e o registro eletrocardiográfico. O dipolo é
um conceito físico simples que representa um
"sistema formado por duas cargas do mesmo
valor, porém de polaridades opostas, sepa
radas por uma distância qualquer". Se parar
mos para pensar, um dipolo aparece na
membrana da célula no momento da altera
ção de sua polaridade pela formação do po
tencial de ação! Concorda? Para não ficar
qualquer dúvida, continue a leitura e observe
a Figura 11.
Jun ões Comunicantes
F"'II3 UR A 1 1 : 0 V ETOR DI P OLO Q U E REP RES EN TA A D E S POLARf ZAÇÃO
TEM O MESMO S ENTIDO DO P R Ó PRIO F'ENÔMENO OE OES POLARfZ A Ç À O.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 17
ELETROf~OOV. CAAot.CA
Conforme vimos anteriormente, quando a cé
lula ca rdíaca está em repouso, a sua polari
dade externa é posit iva em relação à interna.
Porém, como estas duas regiões são separa
das por uma barreira de alta resistência (mem
brana celular), não há formação de uma cor
rente elétrica entre elas. Entretanto, quando a
célula é estimulada, sua superfície externa
toma-se negativa em relação ao interior e,
principalmente, em relação às célu las vizinhas
que ainda não foram a tivadas. Assim, são
formados djpolos entre a superfície da célula
já despoladzada (negativa) e as células vizi
nhas a inda em repouso (positivas).
O dipo!o classicamente pode ser representado
oor um vetor que oor convencão sempre apon
ta para o lado das cargas posjtjyas Perceba
que a propagação do estimulo elétrico célula
-a-célula forma uma espécie de onda despola
rizante que encontra áreas positivas pela frente
(ainda não despolarizadas) e deixa um "rastro"
de áreas negativas para trás. Ou seja, o vetor
que representa a despolarização aponta no
mesmo sentido do processo despolarizante.
• A razão do vetor de um dipolo apontar sempre
para o lado positivo tem um motivo físico: o que
se movimenta e forma a corrente efétrica são os
elétrons (cargas negativas), de modo que a
orientação do vetor demonstra o sen6do destas
cargas (do nega6vo para o positivo), que nada
mais é que o senUdo da corrente elétrica.
O eletrocard iograma, ao utilizar eletrodos que
detectam esse comportamento elétrico, é capaz
de medir estas resultantes vetoriais a cada
momento da ativação cardíaca, representando
-as na forma de ondas, intervalos e segmentos.
Percebemos, pelo comportamento do potencial
de ação, que "tudo que despolarize, repolariza
a seguir", ou seja, as células voltam a possuir o
potendal transmembrana que tinham anterior
mente. Sendo assim, as cargas voltam a se in
verter no momento da repolarização e o fenô
meno repolarizante é propagado célula a célula.
Note, entretanto, que agora o vetor da repola
rização tem orientação inversa em comparação
com o sentido do processo de repolarização.
Claro! Quando ocorre o evento repolarizante,
a superfície da célula volta a ser positiva, en
quanto a célula adjacente a ser repolarizada
ainda está negativa. Como o vetor "vai do ne
gativo para o positivo" ele é orientado d.a célu
la ainda despolarizada para a célula que j á se
repolarizou. Veja abaixo:
FII3URA 1 Z: 0 V E TOR O I POLO QUE R EPRESENTA A REPO LARIZAÇÃO
TEM O SEN T I DO O POS TO AO FENÔMENO DE REP OLARIZAÇÀO.
Como fazer o elo com a representação
eletrocardiográfica?
Já nesse primeiro capítulo, o eletrocardiogra
ma começa a mostrar um pouco do seu "ros
to"! O ideal é usarmos um modo universal de
avaliar a progressão da despolarização e da
repolarização, ou seja, a progressão do vetor
do dipolo. Utiliza-se o que chamaremos, des-
de agora, de derivação, que nada mais é que
um eixo entre 2 eletrodos - um positivo e ou
tro negativo, capaz de medir as diferenças de
potencial ent re eles. Por convenção, a d ireção
da derivação também é voltada para o eletro
do positivo (Figura 13). Na prática, o que se
faz é posicionar os 2 eleirodos de modo que
o coração fique entre eles, o que será descrito
com mais detalhes no capítulo 3.
-··-
MEOr:u:tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 • 1 8
ELETROf~OOV. CAAot.CA
FI GURA 1 3, O EIXO DA DER IVAÇÃO
A P O N TA P A R A O E LET R ODO P O SIT IVO
A derivação funciona como uma espécie de
"olho e lélrico", acompanhando o comporta
mento dos vetores. Como isso ocorre?
Em 1° lugar, devemos entender que nem sem
pre o eixo da derivação será semelhante ao
do vetor. Assim, o correto é inicialmente pro
jetar perpendicularmente o vetor no e ixo da
derivação. Quando a resultante vetorial "apon
tar" para o e letrodo positivo, ou seja, tiver a
mesma direção da derivação, o registro gera
do no eletrocardiograma será de uma onda
positiva e vice-versa (Figura 14). Dito de outra
forma, o registro é posjtjyo Q••ando o e fietrodo
positivo enxergar o vetor se aproximando dele.
Como o que interessa de fato é a relação do
vetor com o eletrodo positivo, este é chamado
por muitos autores de "eletrodo expiOI'ador".
Ele é o verdadeiro "olho elétrico· de uma de
rivação eletrocardiográfica!
' ':11,, -'
F I G URA 14: 0 EC I3 TERÁ UMA O N D A POS IT I V A ( "' SOBE' •) SEMPRE Q UE
O VET OR A P ON TAR PAR A O E LETRODO POSITI V O O A DERIVAÇÃO
( ,_.ELETRO DO E XPLOR A D O R'' ),
Colocamos na Figura 15 diversas possibilida
des de registro eletrocardiográfico na depen
dência da relação do vetor com a derivação.
Por exemplo, perceba no último registro que,
quando TODAS as células estão em repouso
ou des polarizadas não há formação de dipolo
e nem de vetores, porque não há diferenças
de carga elétrica em suas superfícies. Assim,
nestas fases da ativação do coração, o regis
iro eleiiocardiográfico é isoelétrico (uma linha
horizontal). Veja que interessante; comece a
enxergar o "rosto" de um eletrocardiograma'
No capítulo 3, iremos, com calma, relacionar
o coração com algumas derivações específi
cas, o que i rá nos possibilitar enxergar não
só o "rosto•, mas todo o traçado eletrocardio
gráfico. Não vamos queimar etapas! Nesse
momento, preocupe-se apenas em entender
que a atividade elétrica cardíaca é represen
tada através de vetores e os mesmos são
visualizados pelo ECG através de derivações
consiru idas com 2 eletrodos que são coloca
dos no tórax do paciente em posições que
estudaremos bem mais adiante.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 19
ELETROf~OOV. CAAot.CA
FIGURA 15: ••RoSTO" 00 E C G - O R E G I STRO E L ÉTRICO DO VETOR D E PEN D E OA
RELAÇÃO COM A D E R I VAÇÃO UTILIZADA,
ATIVAÇÃO DO CORAÇÃO
A sequência temporal e espacial que caracte
riza o processo de ativação do coração é es
sencial para que haja o sincronismo mecânico
atrioventricular (despolarização atrial -> repo
larização atrial -> despolarização ventricular
-> repolarização ventricular). Em cada etapa
do processo, há aregíã.o - que se dirige para a dí reíta e
para baixo.
Este comportamento explica a ocorrência de
um padrão rS em DI e de uma onda IR pura
em 0 11. O eíxo então se encontra em torno
de +90°.
Bloqueio Dlvlsional Póstero-lnferior Direito
FIGURA 25,
MEOEtE'IRO
CAPfTLl.O 6-
HEI.í!BLOOUEIOS ou
BlOOOEIOS fASC.C:UlARES
lu
SAI X O , SEL ECI O N A M OS ALGUN S EXE:Aé::ÍCt OS PARA QUE: VOCÊ
S!tOIM E N rE:, D E M COO O EF'fN ITIVO. tOS CONCEITOS OBTI DOS AO
L ONGO O C CAPÍTUL O ~ TENHA MAI S 'rFIAN Q U I L t OAOE, SEGURAN ÇA § E aAS~ TEÓRI CA PARA AVANÇAR AO PRÓ:XI MO 'rEM A. M ÃOS À OBRA!
1 - Assinale a opção que apresenta as
características do hemibloque i o anterior
esquerdo.
A) Oe.svio do eixo para a direita, padrão
qR em 011, 0111 e aVF.
B) Desvio do eixo para a d ireita, padrão
rS em 011, 0111 e aVF.
C) Desvio do eixo para a esquerda, padrão
rS em 011, 0111 e aVF.
O) Desvio do eixo para a esquerda, padrão
qR em 011, 0111 e aVF, QRS onda Sem 0111.
Comentário: Tenha em mente os critérios
diagnósticos; sempre eles ... Em primeiro
lugar, como não há um bloqueio de ramo,
não haverá alargamento do complexo QRS.
Em segundo lugar, o bloqueio do fascícu
lo anterossuperior (gerador do HBAE)
muda a ativação ventricular, fazendo com
que esta se inicie pela porção posteroínfe
rior do VE e depois suba para despolarizar
a região anterossuperior esquerda. De
modo simples, é como se a ativação an
dasse para baixo no início e, no final, fizes
se 11meia·volta" e subisse. Ou seja, as de-
2- Dentre as alternativas abaixo, marque
aquela que NÃO condiz com uma carac
teristica do hemibloqueio posterior es
querdo.
A) De.svio do eixo para a direita.
B) Duração do QRS :S 100 ms.
C) Onda R em 0111 > onda R em 011.
O) Alteração incomum.
E) Padrão rS em 011, 0111 e aVF.
Comentário: Neste tipo de hemibloqueio, a
parede posteroinferiordo VE é ativada mais
tarde em comparação com a região anteros
superior. Deste modo, se fôssemos pensar
em uma espécie de alça de ativação, teria-
rivações inferiores enxergam um 1• vetor
se aproximando (onda r- positiva) e um 2°
vetor se distanciando (onda S - negativa).
Como o principal determinante do eixo da
despolarízação ventricular acaba sendo o
último momento da ativação, o eixo encon
tra-se desviado para a esquerda além de
-30". Nesse mesmo pensamento, estando
o eixo ele é quase paralelo a D/11, o que faz
com que a onda Sem DI/I tenha maior am
plitude que a ondaS em DI/. Resposta cer
ta: letra C.
Reveja abaixo os principais critérios do
HBAE:
- Desvio do eixo do QRS para esquerda
além de -30° (geralmente entre -45° e -60°).
· QRS estreito Onda S em DI/.
mos um sentido inicial de despolarização
direcionado para cima e para a esquerda e
posteriormente para baixo e para direita. A
consequéncia é um padrão rS nas deriva
ções esquerdas (DI e a VL) qR nas inferiores
(DI/, DI/I e a VF) - o que já deixa a letra E in
correta. Como o 2" vetor tem maior amplitu
de, o eixo médio do QRS acaba sendo des
viado para a direita e, como a direção deste
l"vetoré praticamente perpendicular a DI//,
a onda R nesta derivação é maior do que a
onda R em DI/ (letras A e C corretas). Além
disso, como não é um bloqueio de ramo, o
alentecime-nto da ativação ventricular não é
significativo, de modo que o QRS é estreito
MEOEtE'IRO
(letra 8 co"eta). Por último, este tipo de
hemib/oqueio é o distúrbio de condução
intraventricular mais raro graças à baixa
vulnel'abilidade do fascículo posteroinferior,
uma vez que é espesso e tem "farta" ímga
ção sanguínea. Resposta a ser marcada:
letra E.
Reveja abaixo os príncípaís critérios do
HBPE:
CAP!Tc Onda R em DI/.
3 - Qual é o diagnóstico eletrocardiográfico?
Dlll ~ rr--Tr --_-...:, ....... í.J~-"--.,..-;1 ~
~~~~~~~~~
A)HBAE.
B) HBPE.
C)BDAM.
O) BRO + HBAE.
E) BRO + HBPE.
Comentário: Na nossa rotina de análise do
ECG, verificamos um ritmo sinusal com
uma frequência cardíaca em torno de 83
bpm ... Ao verificarmos o eixo do QRS,
percebemos que está desviado para a es·
querda além de -30" (DI posítívo, enquanto
aVF e DI/ estão negativos). Isso por si só
já nos permitiria presumir o diagnóstico
de HBAE. Mas ainda verificamos outras
características: padrão qR em derivações
esquerdas (DI e aVL) e padrão rS em deri·
vações inferiores (DI/, DI/I e aVF), sendo
onda S em DI/I maior que onda S em DI/.
Alguma dúvída? Resposta certa: letra A.
4- Qual é o diagnóstic·o eletrocardiográfico?
'
011
ir' ~Ir
n~~~·V~F~~--r---~-~--~~~~1~v-·~~--~~~
A) HBAE. C) BOAM.
B) HBPE. O) BRO + HBAE.
MEOEtE'IRO
E) BRO + HBPE.
Comentário: Temos um ritmo sinusal com
FC de praticamente 60 bpm ... Não há alte·
ração de onda P ou de intervalo PR, mas
o complexo QRS encontra-se grosseira·
mente alargado (quase 160 ms). BRD ou
BRE? As morfologias em V1 (rSR? e V6
(onda-S alargada) nos permite afirmar que
CAP!Tcgeração de milhares dipolos
à medida que várias células despolarizam-se
simultaneamente. Mas, naturalmente, a ava
liação não é feita com milhares de vetores: na
realidade, acaba sendo formado um vetor
resultante de cada etapa, que representa a
direção, o sentido e o módulo de todo proces
so elétrico daquele exato momento.
Vamos avaliar essa sequência de ativação
elétrica do coração, imaginando que a en
xergássemos através de uma derivação
com um eixo semelhante ao do próprio co
ração (Figura 16).
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 20
ELETROf~OOV. CAAot.CA
F"II3URA 16,
Os Vetores da At1vaçáo dos Atnos
F"II3URA 1 7.
A) Atividade Elétrica Atrial
Como v imos, a a tividade elétrica inicia-se no
nodo s inusat devido às propri edades de
marca-passo de suas células. Como esta é
uma região que apresenta uma massa des
prezível, os vetores formados s.ão insignifi
cantes e sua ativação não é reg istrada pelo
eletrocardiograma.
A partir deste ponto, o estímulo segue ao lon
go da parede atrial direita despolarizando tam
bém o sepio inierairial, o feixe de Bachmann
e, em seguida, o átrio esquerdo. O vetor resul
tante da ativação do átrio direito aponta para
baixo, para frente e levemente para esquerda.
enquanto a do átrio esquerdo se dirige para
trás, para esquerda e um pouco para baixo. A
resultante destes dois vetores segue para bai
xo e para esquerda, de forma praticamente
paralela ao plano frontal (Figura 17). Tal vetor
é o responsável pela geração da chamada
onda P no registro eletrocardiográfico.
• Muita atenção: os termos "para esquerda" e
''para direita • são sempre com relação ao pa
ciente! Ao visualizarmos tais processos em
uma imagem (como na Figura 17), devemos
lembrar que o paciente está voltado para nós .. .
Cuidado para não causar confusão!
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 • 21
ELETROf~OOV. CAAot.CA
Como estamos enxergando a ativação atrial
através de uma derivação com eixo seme
lhante ao do coração e com o eletrodo posi
tivo ("o lho elétrico") na porção mais baixa.
percebemos que o vetor da ativação atrial tem
a mesma direção da derivação, o que fará
com que essa onda P será positiva no eletro
cardiograma (Figura 18). Por ser ativado
primeiro, o átrio direito (AO) é responsável
pela porção inicial da onda. Em seguida, ocor
re um momento de sobreposição das duas
ativações e a parte final sendo composta so
mente pela atividade atrial esquerda (AE).
A Onda P e a Ativação Atrial
f"II3 U RA 1 8 .
O processo de repolarização atria l inicia-se
logo a pós o término da despolarização.
Como a primeira reg ião a se repolarizar cor
responde à mesma que havia. iniciado a
despolarização, o processo começa no nodo
sinusal e segue o mesmo caminho da onda
de ativação. Porém, enquanto na despolari
zação o vetor resultante orien tava-se no
mesmo sentido que a onda de ativação, na
repolarização, como sabemos, e les ocorrem
em sentidos contrários. Assim , quando a
repolarização estiver em andamento o vetor
apontará em um sentido exatamente inverso
ao vetor da despolarização, ou seja, para
cima e para direita. No eletrocardiograma,
geralmente não se observa uma onda de
repolarização atrial por 2 motivos: (1) a maior
parte do processo coincide com o momento
de despolarização ventricular, sendo ocu lta
do por esta; (2) a repolarização, por ser mais
len ta, gera vetores de pequena magnitude,
produzindo portanto potenciais baixos, que
não são percebidos pela derivação.
B) Atividade Elétrica do NAVe do
Sistema His·Purkinje
O estímulo alcança o nodo atrioventtricular
(NAV) antes de completar a despolarização
dos átrios e, portanto, antes até do término
da onda P. Este fato reforça o conceito de
que a condução sinoventricular (do nado si
nusal aos ventrículos) é quase independente
da ativação dos átrios, provavelmente graças
aos feixes internodais.
Mas, como as células desse nodo conduzem
o estímulo de forma lenta, elas causam um
atraso para o início da despolarização ventri
cular, o que é muito importante: assegura que
os ventrículos só sejam ativados (e depois
contraiam) após a ativação (e contração) atrial,
mantendo o sincronismo atrioventricular.
De qualquer maneira, como existem pou
cas células no nodo AV (e no sistema His
-Purkinje abaixo dele), também não é perce
bido qualquer vetor, o que deixa o registro
isoelétrico (linha reta) até o início da despo
larização ventricular. Essa condução através
do NAV e sistema His-Purkinje corresponde
basicamente ao chamado segmento PR no
registro eletrocard iográfico.
C) Atividade Elétrica Ventricular
Após o sistema His-Purkinje, o estímulo chega
aos miócitos ventriculares, cuja despolariza
ção pode se r representada temporalmente por
três vetores principais (Figura 19). Estes ve
tores são representados no traçado eletrocar
diográfico pelo que chamamos de complexo
QRS. Apesar dos ramos direito e esquerdo
serem ativados praticamente de modo simul
tâneo, a descida inicial do estimulo é discre
tamente mais rápida pelo ramo esquerdo, o
que faz com que o septo interventricular seja
ativado da esquerda para a direita. Assim, o
primeiro vetor é uma resultante que aponta
para frente, para direi ta e para baixo. Este é
o vetor do septo médio e se inscreve cerca de
10 ms após o início da ativação ventricular.
-··-
MEOr:u:tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 • 22
ELETROf~OOV. CAAot.CA
Em seguida, a onda despolarizante chega
simultaneamente a ambos os ventrículos,
mas, como a massa esquerda é considera
velmente maior, o vetor resultante aponta
para esquerda e para trás (para cima ou para
baixo). Este é o vetor da oarec!e livre do ven
túculo esquerdo e apresenta a maior ampli
tude dos três vetores da despolarização
ventricular, ocorrendo aos 40 ms. O último
vetor é orien tado para trás e para cima (para
esquerda ou direita), fruto da despolarização
da parede basal dos ventrículos (yetorbasaO,
após c.erca de 60ms.
O processo de despolarização ventricular é
um fenômeno contínuo, sendo a sua divisão
temporal em vetores uma forma simplificada
e didática de descrevê-lo, além de ser útil
para explicar certas patologias e com preen
der a geração das diferentes morfologias do
complexo QRS observadas no eletrocardio
grama, como veremos no capitulo 3.
Todo processo de despolarização ventricular,
assim como o atrial, pode ser representado
por um vetor médio: esta medida é chamada
de eixo médio do complexo QRS (SÃQRS).
Diversas patologias podem alterar este eixo,
sendo o seu cálculo - também feito no capí
tulo 3 - uma ferramenta indispensável duran
te a análise do traçado eletrocardiográfico.
Muitos gostam de visualizar de modo tridi
mensional esse processo de despolarização
ventricular: é a chamada representação ve
torcardiográfica (Figura 20).
FIGURA 1 9 : A T I VAÇ Ã O VEN T RICU L A R E SEUS V ETORES SEQ UENCIALM ENT E
R EPR E S ENTAO OS,
~ ·~---· ·-- ..
F'II3URA 20 : V ETORCA ROIOGRAM A O A OES POL A R f ZAÇ ÃO V ENTRICU LAR.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 2 3
ELETROf~OOV. CAAot.CA
Alguns autores descrevem 4 e não apenas 3 vetores da despolarização ventricular.
Quando essa descrição estiver presente é porque foi considerado, como 2• vetor, o
vetor do septo baixo que é gerado predominantemente pela condução do Impulso através do ramo
direito até a região baixa do septo interventricular. Este vetor orienta-se para frente, para esquerda
e para baixo, sendo gerado cerca de 20ms após o inicio da despolarização ventricular.
Utilizando esta interprelação. a sequência vetorial seria a seguinte:
FII3U R A 21.
~IGURA 22: N o s VEN•
TRÍCULOSt COMO AS ÚL•
T f MAS ÁRE AS A S E REM
OESPOLAR IZAOAS SÃO AS
PRIMEIRAS A SE REPOLA•
R IZAREM , OS VETO RES OA
O E SPO LARI ZAÇÂO E OA
REPOLARIZAÇÃO (SETAS
AZU I S) TÊM O MESM O
SENTt OOt SENDO O BSER •
VAOAS OA M ESMA MANE I•
RA P E LAS D E R I VAÇÕES
( " OLHOS ELÉTRI COS'' ) , O
QUE FAZ COM QUE O C OM•
PLEXO QRS E A ONOA T
TENHAM A M ESMA POL A •
R IOAOE N O ECG.
AllvldHe et .. rlca do -•çM
•
---4i • • • ..
F'IGURA 23: ATI V f OAOE ELéTR IC A 0 0 CO RAÇÃO E SUA R E PERCUSSÃO N O ECG - ( l)
DESPOLAR IZAÇÃO ATRI AL.IONOA P; C2 , 3 E 4) DESPOLARIZAÇÃO VENTRI CULAR/
COMPLEXO QRS; CS ) REPOLARIZAÇÂO VEN TRIC ULAR/ONOA T.
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 • 24
ELETROf~OOV. CAAot.CA
Após o complexo QR S, observa-se um seg
mento isoelétrico denominado segmento
ST, onde, apesar de já haver atividade re
polarizante, a pequena massa ventricular
envolvida nesta fase a inda não é suficiente
para gerar dipolos (e vetores) que causem
alguma repercussão no traçado. A junção
do complexo QRS com o segmento ST no
eletrocardiograma é chamada de ponto J,
que represen ta o fim da despolarização de
todo tecido ventricu lar.
Repolarização ventricular: um processo
diferente ...
Enquanto nos átrios a primeira região a se
despolarizar é a mesma a iniciar a repolari
zação, nos ventrículos o processo é diferen
te e as últ imas áreas a serem despolarizadas
são as primeiras a se repolarizarem (Figura
22)! Portanto, apesar do sentido do processo
de repolarização ser o inverso da despolari
zação, os vetores resultantes de ambos apre
sen tam a mesma orientação. Assim, em situ
ações normais, a onda de repolarização
ventricular - onda T- possui a mesma pola
ridade do complexo QRS.
O processo repolarizante apresenta um eixo
médio denominado SÂT, dirigido para baixo e
p PRs
para esquerda, que também se altera em cer
tas patologias. As alterações da repolarização
ventricular podem ser divididas em primárias
e secundárias. As primárias são aquelas que
afetam diretamente a repolarização, como a
isquemia, enquanto as secundárias são con
sequências de alterações na despolarização,
como ocorre nos bloqueios de ramo. Tais pa
tologias serão abordadas com mais detalhe
nos capítulos subsequentes.
Alguns traçados de ECG ainda apresentam
uma onda U após a onda T, representando
uma repolarização tardia de algumas regiões
ventriculares.
Na Figura 23, reunimos todos os vetores
resultantes da atividade elétrica do coração
que são os grandes responsáveis pelas on
das observadas no eletrocardiograma. lem
bre que estes vetores são avaliados por
derivações e, na dependência de sua rela
ção com o eixo da derivação usada, serão
produzidas ondas positivas ou negativas.
Na Figura 2.4, temos um traçado eletrocardio
gráfico normal com suas respectivas ondas,
segmentos e intervalos (onda + segmento).
No capitulo 3, estudaremos estes componen
tes com mais detalhes.
J
T
I
I
I
QRS
: Intervalo PR Intervalo QT
I
F I GURA 2 4,
-··-
MEOr:u: tRO
:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 25
ELETROf~OOV. CAAot.CA
A INVERSÃO DO SENTIDO DA REPOLARIZAÇÃO VENTRICULAR
Como vimos, a repolarlzação do ventriculo não se Inicia na mesma região que começou a
despolarização. A justifiCativa para este fenômeno é o prolongamento dos potenciais de ação das
células endocárdicas em relação às epicárdicas. Uma hipótese seria a menor perfusão sangulnea
do endocárdio durante a sístole ventricular, devido á compressão sofrida pelas pequenas artérias
desta região.
Como o enaocárdio só é perlundido na diástole ventricular e o eplcárdio continuamente, o primeiro
estaria submetido a uma menor lavagem intersticial de escórias metabólicas e lons, como o potássio.
Consequentemente, uma maior concentração local de potássio poderia resultar num menor gradiente
de salda deste cátion e, assim, retardar a repolarização. Esla possibilidade é reforçada pela
ocorrência da inversão da polaridade da onda T em relação ao QRS em situações de isquemia
epicãrdlca, quando então esta reg ião repolariza mais tardiamente.
I m!IIJ-1~~ ' Por que PQRST e não ABCDE?
Einthoven, considerado o "Pai da Eletrocardiografia" foi o primeiro a enxergar as 5 deflexões do ECG.
A escolha de P para começar a nomeá-las foi uma simples convenção matemática utilizando as letras
da 2' metade do alfabeto. Na realidade, a 2' metade começaria na letra N, mas esta era amplamente
usada pelos matemáticos para outros fins. A seguir seria a letra O, que também já era utilizada para
marcar origem das coordenadas de elxos cartesianos. P é simplesmente a próxíma letra!
24 MEDe4e4ro
APÊNDICE ' . . ---------------
C ANAIS I ÔN IC O S
O I~ÍC IO 00
ENTEN D I M ENTO SOBRE E L ETR OF'ISIO LOGIA CAR DfACA. VIMOS
Cr;IUE O POTEN C IA L OE A ÇÃO É F'O RMA DO P ELO F"L UXO OE (QNS
A T R AVÉS OE CANAIS D ISPO STOS N A MEM B R ANA D AS CÉLU LAS
CAR O fAC AS. VAMO S R E VER O MESMO PROC ESSO ANT E R IO RM ENTE
APREND I DO. M A S AGO R A D I F'E R EN C IAN D O COM E X ATI D Ã O OS T I P OS
D E CANA I S U T I L IZADOS .
CÉLULA DE RESPOSTA
RÁPIDA
Seu potencial de repouso é de -90 mV, mas,
ao receber um estimulo elétrico através das
junções comunicantes, o potencia l é reduzido
até -70 mV, o chamado "potencial limiar". É
apenas neste momento que são abertos os
"canais de sódio de resposta rápida· (1 •• ). tam
bém chamados de "canais de sódio voltagem
-dependentes", j á que precisam desta altera
ção de potencial para abrirem. O que interes
sa é que agora surge um grande influxo (en
trada) de carga positiva (Na•), o que eleva
quase que instantaneamente o potencial para
cerca de +20 mV. Esta é a fase O do potencial
de ação: DESPOLARIZAÇÃO.
• Muitos autores classificam a despolarização
das células de resposta rápida como um fenô
meno do tipo "tudo ou nada •: se não atingirem
o potencial limiar, nada acontece; mas se este
for atingido, lodos os canais de sódio se abrem
completamente. Como os principais respon
sáveis pela despolarização são os canais de
sódio, estas células são também chamadas
de ·'sódio-dependentes"_
Ao atingir esse potencial, o canal de sódio se
fecha, o que é útil para ev" ar uma possível
lise celular pela sobrecarga de Na• e, conse
quentemente, de água ("água anda junto com
o sódio"). Mas, na realidade, o acontecimento
mais importante é a abertura transitória de
canais de potássio, permitindo a saída deste
íon a favor do seu gradiente (canal I,.- "tran
sient outward'), o que induz uma discreta re
polarização, aproximando o potencial de Omv.
Esta é a fase 1 do potencial de ação: REPO
LARIZAÇÃO TRANSITÓRIA.
• Um outro fluxo iônico que pode contribuir
para esta fase é entrada de cloro, que tem
carga negativa.
Canais Iônicos
Resposta Répida
"'
Resposta Lenta
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MEOr:u: tRO
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CAP!TlA.O 1 - 27
ELETROf~OOV. CAAot.CA
PERIODO REFRATÁRIO
Quando a célula é despolarizada, ela passa por um periodo em que pennanece
inexcitável, ou seja. mesmo que chegue mais um estímulo, um novo potencial de ação não é
desencadeado em cima daquele que já se encontra em curso. Essa característica é chamada de
Período Refratário e é um útil instrumento para evitar ativ·ações excessivas que poderiam
desencadear uma taquicardia.
O período refratário da célula de resposta rápida pode ser dividido ainda em 2:
(1) perfodo Refl'atárjo Absot11to ro;t Efetivo)· a célula não será ativada, pois não há qualquer canal
de sódio dlspnfveL Este só começará a ter possibilidade de- abertura, quando o potencial se
aproximar de -60mV (metade inferior da fase 3), momento em que os canais de sódio recuperam
sua capacidade de serem ativados.
(2) Período Relxatárjo Relativo· a partir de -60mV, a célula até pode voltar a ser ativada, mas apenas
com estfmulos supralimiares (acima do limiar normal), uma vez que poucos canais de sódio estariam
disponíveis para serem abertos. Ou seja. para serem efetivos, os estfmulos nessa área deverão
ser mais fortes que aqueles capazes de resultarem em uma resposta propagada na fase 4 .
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T....,o~) O 100 200 JOO
FII3URA 26.
Agora, o efluxo (saída) de potássio vai conti
nuar. porém através de um canal diferente (1. ).
De qualquer maneira, essa saída de carga
positiva é contrabalanceada principalmente
pela entrada de cálcio através de canais do
tipo L (lc. ,). que ganha essa denominação por
sua abertura mais duradoura (do inglês, "long
-lastinff). Desta forma, o potencial é mantido
na forma de um platô em valores. próximos a
O mV. Esta é a fase 2 do potenc ial de ação:
PLA TO ou REPOLARIZAÇÃO LENTA.
Com pouco tempo, a corrente de cálcio é re
duzida, enquanto a permeabilidade ao potás
sio pelos mesmos canais IK é intensificada.
Como agora saem cargas positivas (K') sem
serem contrabalanceadas, o potencial vai se
reduzindo e a repolarização propriamente dita
ocorre. Esta é a fase 3 do potencial de ação:
REPOLARIZAÇÃO FINAL.
A célu la então retoma ao seu potencial de
repouso (em torno de -90 mV), que, como
vimos, é mantido principalmente pela ação da
bomba de Na•fK• ATPase. Esta é a fase 4 do
potencial de ação: REPOUSO ELÉTRICO.
• Nas células de resposta rápida, a fase de
repouso até pode apresentar uma leve tendên
cia à despolarização espontânea pela possível
presença de um outro tipo de canal de sódio
OJ. Mas, mesmo que esteja presente, essa
atividade espontânea nâo comanda o co!âção
pelo fato de ser feita em uma frequência muito
mais baixa que a sinusal (30-40 bpm).
CÉLULA DE RESPOSTA
LENTA
Como foi fa lado, este tipo celular não costu
ma permanecer em um potencial de repouso
constante, ou seja, é facilmente passível de
autoexcitação: é aquela propriedade do au-
MEOr:u: tRO
-··-:-lr':
CAP!TlA.O 1 - 2 8
ELETROf~OOV. CAAot.CA
tomatismo cardíaco já comentada . .. Essa
autoexcitação ocorre principalmente pelo
influxo espontâneo de cálcio através de ca
nais do tipo T (lc •. r), que ganha essa deno
minação por sua abertura mais transitória (do
inglês, "transíenf'), mas também recebe in
fluência da entrada espontâne·a de sódio
(canal 1
1
- "funny"). Deste modo, o potencial
de repouso que ficava em torno de -65 mV
vai gradualmente se reduzindo.
polaridade da célula, ou seja, seu potencial
transmembrana toma-se positivo. Esta é a
fase O do potencial de ação: DESPOLARIZA
ÇÃOLENTA.
• Como os principais responsáveis pelo fenô
meno de despolarização neste tipo celular são
os canais de cálcio, muitos autores chamam
estas células de "cálcio-dependentes•.
Quando o potencial é reduzido até -40 mV,
atingimos o "potencial limiar" da célula de
reposta lenta. Nesse momento, abrem-se ou
tros tipos de canais de cálcio - os do tipo L
(lc •. ,). que, como vimos, também são encon
trados nas células de resposta rápida. Assim,
a entrada extra de cálcio inverte lentamente a
Após esta etapa, os canais de potássio (I, ) vão
sendo gradativamente abertos, até que a sa
ída de cargas positivas (potássio) ultrapassa
a sua entrad!a (cálcio), caracterizando as fases
2 e 3: REPOLARIZAÇÃO LENTA e REPOLA
RIZAÇÃO FINAL. A célula então retoma ao
seu potencia l de repouso na fase 4: REPOU
SO ELETRICO.
CANAI S MECANI S M O OE AÇÁO
Sódio de resposta -Célula de resposta rápida (Fase 0/Despolarização rápida.):
rápida (1,..) abertura no limiar de -'70 mV oom Intensa entrada de Na', fechando
em seguida com cerca de +20 mV e só podendo ser reativados
em torno de -60 mV.
Potássio (1,.) I -Cé1uta de resposta rápida (Fase 11Repolarização Transitória):
, abertura transitória permitindo salda momentânea de potássio.
Cálcio -Célula de resposta rápida (Fase 21Piató): entrada de ca -
tipo L (te;,.,) balanceada pela saída de K' .
- Célula de resposta lenta (Fase 0/Despolarlzação): abertuA seguir,
ocorre uma repolarização tran·sitória que
aproxima seu potencial de O m\1, perma
necendo em torno desse valor na fase
seguinte de platô. O potencial de ação é
completado com a repolarização final,
onde a célula retoma ao seu potencial de
repouso (volta a ficar polarizada). Res
posta certa: letra 8.
5- Um vetor perpendicular ao eixo de uma
derivação eletrocardiográfica se expressa
de qual maneira no traçado?
A) Pequena deflexão positiva.
8) Grande deflexão positiva.
C) Traçado isoelétrico.
O) Pequena deflexão negativa.
E) Grande deflexão negativa.
Comentário: Se a projeção do vetor no eixo
da derivação tiver o mesmo sentido dela, o
registro no ECG será de uma onda (ou de
flexão) positiva; enquanto se tiver o sentido
oposto, surgirá uma onda negativa. Se o
vetor for perpendicular ao eixo da derivação,
surgirá, no traçado, uma linha isoelétrica ou
um traçado isodifásico (igualmente positivo
e negativo). Resposta certa: letra C.
6 - Com relação à formação do eletrocar
diograma, assinale a alternativa CORRETA:
A) A onda T corresponde à repolarização
atrial.
8) A onda P representa a atividade elétrica
do nodo sinusal.
C) O átrio esquerdo é despolarizado antes
do átrio direito.
C.t.Pill.l.O 1 -
Et.ETROFtSJOt.OGtA CARDIACA
O) O complexo QRS é a representação elé
trica da repolarização ventricular.
E) A onda T geralmente tem a mesma po·
laridade do complexo QRS.
Comentário: Lembre-se que a atividade elé
trica norma /mente é formada no no do sinu
sal, que, pela sua reduzida massa celular,
não tem representação eletrocardiográfica
(letra 8 errada). A seguir, o impulso é condu
zido através dos átrios, formando a onda P,
que corresponde à despolariução atrial -
sendo o átrio direito despolarizado momen
tos antes que o átrio esquerdo e, portanto, é
o responsável pela porção inicial desta onda
(letra C errada). O estimulo alcança o nodo
atrioventricular e, depois, despolariza os
ventrículos, dando origem ao complexo QRS
(letra D errada). A repo/arização ventricular
é expressa pela onda r no ECG, enquanto a
repolarização atrial, em geral, não é repre
sentada (letra A errada). Devemos lembrar
que, como o sentido do processo de repola
rização ventricular (epicárdio - endocárdio)
é oposto ao sentido da despolarização (en
docárdio -> epicárdio), estes 2 processos
são represe.ntados por vetores com a mesma
orientação, formando, portanto, complexo
QRS e onda r com a mesma polaridade. Res
posta certa: letra E.
7 - O diltiazem é um fármaco conhecido
por suas propriedades como bloqueador
de canal de cálcio cardiosseletivo, i sto é,
com maior magnitude de ação nas c élulas
cardíacas. Deste modo, em que fase do
potencial de ação é esperada a sua inter·
ferência direta mais pronunciada?
A) Despolarização das células de resposta
rápida.
8) Repolarização de todas as células car
díacas.
C) Repolarização transitória das células de
resposta rápida.
O) Repouso elétrico das células de respos
ta rápida.
E) Despolarização das células de resposta
lenta.
Comentário: Para responder a esta pergun
ta, bastaria que recordássemos a ação dos
canais de cálcio ... Nas células de resposta
rápida, sua ação principal é na fase de pia-
)
MEOELE'IRO
tô, enquanto, nas células de resposta lenta,
há interferência deste ion no repouso e/é•
trico e na despolarização. Para sermos um
pouco mais precisos, a ação do diltiazem
é mais expressiva nos canais de cálcio
responsáveis pela despolarização das cé·
lulas de resposta lenta, razão pela qual é
um fármaco reconhecido por seu efeito
bradic ardizante. Resposta certa: letra E.
8 - Com relação ao potencial de ação das
células cardíacas, qual é o conceito de
"período refratário"?
A) Periodo sem atividade elétrica.
B) Período em que a atividade &létrica do
coraçã o não é percebida pelo el.etrocardio·
grama.
C) Período em que a célula cardíaca per·
manece inexcítável mesmo que seja esti·
mulada por potenciais que atinjam seu li·
miar de despolarízação.
O) Período em que a célula não pode ser
excitada por nenhum tipo de estímulo
elétrico.
E) Período em que mesmo potenciais su·
blimiares conseguem despolarizar a célula.
Comentário: O período refratário começa
assim que ocorre a despolarização da cé·
lula cardíaca e compreende 2 momentos:
um em que a célula não consegue ser a ti·
vada por nenhum tipo de estimulo (perío·
do refratário absoluto) e outro em que a
célula só é novamente ativada por estímu
los acima de seu limiar, isto é, supralimia·
res (período refratário relativo). Resposta
certa: letra C.
C.t.Pill.l.O 1 -
Et.ETROFtSJOt.OGtA CARDIACA
9-No eletrocardiograma, a onda T rep