Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

UNIVERSIDADE PAULISTA
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
CAMPUS SÃO JOSÉ DO RIO PARDO
Paulo Eduardo Dal Bello
F20CIB-4
Fichamento do livro " A psicologia em diálogo com o SUS prática profissional e produção acadêmica – Capítulo 3 - O psicólogo no SUS: suas práticas e as necessidades de quem o procura"
SÃO JOSÉ DO RIO PARDO-SP
2024
Capítulo 3. O psicólogo no SUS: suas práticas e as necessidades de quem o procura
1. A inserção do psicólogo
O capítulo destaca a atuação dos psicólogos no SUS, que trabalham em diversos serviços, como UBS, CAPS, hospitais psiquiátricos e programas voltados à saúde pública. Nos anos 1970, o papel do psicólogo era limitado a serviços ambulatoriais do INAMPS, atendendo principalmente trabalhadores. Na década de 1980, com a atenção integral à saúde e parcerias entre universidades e prefeituras, as equipes de saúde mental começaram a se formar. Com a criação do SUS nos anos 1990, a saúde se tornou direito de todos, exigindo dos psicólogos uma adaptação de seu modelo tradicional de clínica privada para práticas mais integradas e comunitárias. A estratégia da Saúde da Família e o movimento antimanicomial impulsionaram novas formas de atuação, promovendo a inserção dos pacientes em suas realidades sociais. A Lei da Reforma Psiquiátrica, aprovada em 2001, consolidou essa mudança. O capítulo também discute as respostas dos profissionais à pesquisa da ABEP, mostrando avanços e resistências nas novas práticas de saúde pública.
2. A oferta da atenção psicológica: as atividades desenvolvidas
As atividades desenvolvidas pelos psicólogos no SUS ainda são, em grande parte, focadas no atendimento clínico individual, conforme a maioria das respostas dos profissionais entrevistados. No entanto, houve uma diversificação das práticas, incluindo atividades como atendimento em grupo, oficinas terapêuticas, visitas domiciliares e atenção a crises. Apesar dessa evolução, muitas ações necessárias para a gestão e planejamento das atividades, como o conhecimento das demandas territoriais e o trabalho intersetorial, continuam pouco mencionadas. Além disso, registros e cadastros para acompanhamento e avaliação do trabalho também são subexplorados.
A transição do modelo tradicional de clínica para um mais comunitário e integrado ainda encontra resistências. Enquanto psicólogos em serviços ambulatoriais continuam focados em práticas individuais e diagnósticos, aqueles que atuam em serviços comunitários (como CAPS) relatam uma prática mais colaborativa, envolvendo atividades grupais, oficinas e apoio às famílias. Essa mudança reflete a evolução do SUS, que busca um atendimento mais próximo do usuário e da comunidade, indo além das ofertas programadas e focadas no serviço.
3. As demandas reconhecidas
O capítulo discute as respostas dos psicólogos no SUS, onde mais da metade menciona queixas ou quadros clínicos baseados em classificações como o CID (Classificação Internacional de Doenças). Embora o CID e a epidemiologia sejam importantes, o texto destaca que os psicólogos precisam distinguir entre diagnóstico, queixa e demanda, percebendo as necessidades dos pacientes por outros ângulos além do clínico.
Demandas ligadas a violência, abuso, negligência e relações familiares aparecem com menos frequência, sugerindo que muitos profissionais ainda não separam essas questões dos quadros clínicos tradicionais. A pesquisa também aponta diferenças entre os modelos de atenção: em modelos mais tradicionais, as demandas são geradas por médicos, escolas e instituições como o conselho tutelar. Nessas situações, a prática é agendar atendimentos sem questionar a real necessidade dos encaminhamentos, o que gera filas longas.
Nos modelos comunitários (PSF e CAPS), as demandas vêm mais diretamente dos pacientes e seus familiares, como em casos de crises psicóticas. Contudo, o psicólogo ainda parece não questionar a expectativa de que ele resolva todo tipo de queixa ou sofrimento, perpetuando a ideia de que sempre é necessária uma ajuda especializada.
4. Os modelos de atenção e o fazer dos psicólogos
O texto destaca que, embora o foco não seja discutir os modelos de atenção do SUS, ele enfatiza mudanças que influenciaram o trabalho do psicólogo na saúde pública, especialmente após a Constituição de 1988, que tornou a saúde um direito universal. O SUS, criado pela Lei 8080, organiza os serviços de forma hierarquizada em Atenção Primária, Secundária e Terciária, baseando-se no custo-benefício e no perfil epidemiológico das regiões. Nesse modelo, as profissões, incluindo a Psicologia, ofereciam serviços especializados como psicoterapia individual ou grupal, isolados das necessidades subjetivas dos usuários.
Historicamente, o modelo era centrado em hospitais e especialistas, com pouca coordenação e planejamento. A transição para um modelo de atenção mais integral exige que o psicólogo e outros profissionais trabalhem de forma multidisciplinar, considerando as necessidades dos usuários e o vínculo entre profissional e paciente. O novo modelo propõe que o trabalho clínico seja adaptado às demandas individuais, valorizando a integralidade do sujeito e a inclusão social no território de vida.
Essa nova abordagem obriga o psicólogo a se integrar em equipes multiprofissionais e a colaborar na construção de redes de cuidados intersetoriais, permitindo que as necessidades dos usuários influenciem sua prática clínica.
5. Refletindo sobre a prática
5.1. Saúde Coletiva
A prática do psicólogo na Saúde Coletiva envolve a atuação em um contexto territorial, onde o sujeito é parte de uma coletividade e, por isso, o trabalho é necessariamente multiprofissional e interdisciplinar. No entanto, a formação do psicólogo ainda é tradicionalmente voltada para o atendimento de queixas individuais e patológicas. Isso cria um conflito entre a formação acadêmica focada na clínica e a complexidade das demandas da saúde pública.
Esse cenário gera dilemas éticos, como a notificação compulsória de casos de violência e maus-tratos, que desafia o psicólogo a equilibrar o sigilo profissional e a proteção do coletivo. O psicólogo precisa encontrar uma forma de conciliar as demandas individuais com as obrigações legais e sociais.
5.2. Clínica Ampliada
A Clínica Ampliada é uma prática que considera não só a subjetividade do indivíduo, mas também todo o contexto social em que ele está inserido. Essa abordagem vai além da doença ou queixa individual, integrando fatores relacionais, conflitos e a convivência. O psicólogo passa a trabalhar de forma mais abrangente, considerando a rede de subjetividade que envolve o sujeito.
Nesse modelo, o trabalho do psicólogo na Saúde Pública deixa de ser centrado no consultório e passa a incluir o convívio com a comunidade, a partir das demandas e necessidades do usuário.
5.3. Apoio Matricial e Equipe Multiprofissional
O apoio matricial é um modelo de trabalho em que o psicólogo compartilha seu conhecimento técnico com outros profissionais de saúde. Nesse processo, há uma troca de saberes que permite que a equipe multiprofissional ofereça um atendimento mais completo ao usuário. O psicólogo não trabalha isoladamente, mas contribui para a construção de Projetos Terapêuticos Singulares, considerando as necessidades individuais do usuário e as possibilidades da rede de serviços.
Esse modelo requer que o psicólogo esteja aberto a discutir e questionar seu conhecimento com os colegas de outras áreas, promovendo um trabalho coletivo que prioriza o bem-estar do usuário.
5.4. Adesão, Responsabilização e Vínculo
O abandono de tratamentos pelos usuários é uma queixa frequente dos psicólogos. Porém, na Saúde Pública, essa situação não é vista como uma falha do usuário, mas sim como parte de sua trajetória de cuidado. A responsabilidade pelo acompanhamento do usuário é da equipe, que deve desenvolver vínculos com a comunidade e, em caso de falhas no tratamento, envolver outros serviços e profissionais.
6. Considerações finais
A reflexão sobre os princípios do SUS, discutidapor Luiz Cecílio e Domingos Sávio Alves, traz importantes contribuições para a prática dos profissionais de saúde, em especial os psicólogos, no contexto da Saúde Pública. Cecílio (2001) destaca quatro conjuntos de necessidades de saúde que orientam o cuidado: boas condições de vida, acesso a tecnologias de saúde, criação de vínculos afetivos e efetivos, e o desenvolvimento da autonomia das pessoas. Os dois primeiros blocos, relacionados às condições de vida e ao acesso a tecnologias, fazem parte da formação dos sanitaristas, profissionais voltados ao planejamento, gestão e políticas de saúde. No entanto, os psicólogos, de maneira geral, não possuem essa formação, já que seu currículo pouco aborda esses temas, deixando a organização de estágios e a experiência a cargo dos supervisores. Por outro lado, os dois últimos blocos, que dizem respeito ao vínculo e à autonomia, são princípios fundamentais na formação básica dos psicólogos, o que lhes permite contribuir de forma significativa em equipes multiprofissionais e intersetoriais na construção de novos saberes e práticas no campo da saúde pública.
Domingos Sávio Alves (2001), por sua vez, aborda a intencionalidade na substituição do termo "tratar" por "cuidar", ampliando o foco para além de uma mera nomeação diagnóstica e incorporando diversos problemas que precisam ser superados. Ele lembra que a Saúde Mental foi pioneira no uso da interdisciplinaridade e intersetorialidade como premissas de trabalho, especialmente no contexto da Reforma Psiquiátrica. Antes da Reforma, os psicólogos não tratavam "pacientes graves", que eram de responsabilidade da Psiquiatria, tratados com internações e medicamentos. Com as mudanças trazidas pela Reforma, os psicólogos passaram a lidar com questões mais amplas, como reinserção social, lazer e trabalho, além de desenvolver práticas que valorizam diferentes saberes específicos.
Essa mudança provocou uma verdadeira revolução no fazer do psicólogo, que agora, ao invés de enxergar o paciente apenas pela ótica da patologia, encontra uma pessoa com nome, sobrenome, família, desejos e projetos. A doença mental é colocada entre parênteses, e o sujeito deixa de ser reduzido à condição clínica, revelando novas necessidades que antes não eram vislumbradas. Assim, o ato psicológico, assim como o ato médico ou de qualquer outro profissional de saúde, insere-se em um Projeto Terapêutico Singular, que considera o indivíduo inserido em seu território e em suas relações sociais.
Essa mudança de paradigma exige que os trabalhadores da saúde, especialmente os psicólogos, desempenhem ações para as quais muitas vezes não tiveram formação formal. No entanto, a prática em equipes multiprofissionais e a troca de saberes podem ajudar a superar esses desafios, permitindo a construção de novas formas de cuidado que respondam às complexas necessidades dos usuários do sistema de saúde, respeitando os princípios de universalidade, integralidade e equidade do SUS.
Referências:
SPINK, M. J. P. (Org.) A psicologia em diálogo com o SUS: prática profissional e produção acadêmica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007

Mais conteúdos dessa disciplina