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Fisiologia SEXTA EDIÇÃO Linda S. Costanzo, Phd Professor of Physiology and Biophysics Virginia Commonwealth University School of Medicine Richmond, Virginia Sumário Capa Folha de rosto Créditos Dedicatória Tradução e Revisão Científica Prefácio Agradecimentos Capítulo 1: Fisiologia Celular Volume e composição dos fluidos corpóreos Características das membranas celulares Transporte através das membranas celulares Potenciais de difusão e potenciais de equilíbrio Potencial de membrana em repouso Potenciais de ação Transmissão sináptica e neuromuscular Musculatura esquelética Musculatura lisa Resumo Capítulo 2: Sistema Nervoso Autônomo Organização e características gerais do sistema nervoso autônomo Receptores autonômicos Resumo Capítulo 3: Neurofisiologia Organização do sistema nervoso Células do sistema nervoso Características gerais dos sistemas sensoriais e motores Sistemas sensoriais Sistema somatossensorial e dor Visão Audição Sistema vestibular Olfato Paladar Sistemas motores Funções superiores do sistema nervoso central Líquido cerebrospinal Resumo Capítulo 4: Fisiologia Cardiovascular Circuitos do sistema cardiovascular Hemodinâmica Eletrofisiologia cardíaca Contração do músculo cardíaco Ciclo cardíaco Relações entre o débito cardíaco e o retorno venoso Regulação da pressão arterial Microcirculação Circulações especiais Regulação da temperatura Funções integrativas do sistema cardiovascular Resumo Capítulo 5: Fisiologia Respiratória Estrutura do sistema respiratório Volumes e capacidades pulmonares Mecânica da respiração Trocas gasosas Transporte do oxigênio no sangue Transporte de dióxido de carbono no sangue Relações ventilação/perfusão Controle da respiração Funções integrativas Hipoxemia e hipóxia Resumo Capítulo 6: Fisiologia Renal Anatomia e irrigação sanguínea Líquidos corporais Depuração renal Fluxo renal sanguíneo Filtração glomerular Reabsorção e secreção Terminologia associada a um néfron isolado Balanço do sódio Balanço de potássio Balanço de fosfato, cálcio e magnésio Balanço hídrico – concentração e diluição da urina Resumo Capítulo 7: Fisiologia Acidobásica pH dos fluidos corpóreos Produção de ácido no corpo Tamponamento Mecanismos renais no equilíbrio acidobásico Distúrbios acidobásicos Resumo Capítulo 8: Fisiologia Gastrintestinal Estrutura do trato gastrintestinal Inervação do trato gastrintestinal Substâncias reguladoras gastrintestinais Motilidade Secreção Digestão e absorção Fluido intestinal e transporte de eletrólitos Fisiologia hepática Resumo Capítulo 9: Fisiologia Endócrina Síntese hormonal Regulação da secreção hormonal Regulação dos receptores de hormônios Mecanismos da ação hormonal e dos segundos mensageiros Relações hipotalâmico-hipofisárias Hormônios do lobo anterior Hormônios do lobo posterior Hormônios tireoidianos Medula e córtex da adrenal Pâncreas endócrino Regulação do metabolismo de cálcio e fosfato Resumo Capítulo 10: Fisiologia Reprodutiva Diferenciação sexual Puberdade Gécia Kelly Fisiologia reprodutiva masculina Fisiologia reprodutiva feminina Resumo Apêndice I Abreviações e Símbolos Comuns Apêndice II Valores Normais e Constantes Respostas dos Exercícios (Desafie-se) Índice Créditos © 2018 Elsevier Editora Ltda. ISBN: 978-85-352-9034-9 ISBN versão eletrônica: 978-85-352-9035-6 PHYSIOLOGY, SIXTH EDITION © 2018 by Elsevier, Inc. All rights reserved. Esta tradução de Physiology 6th Edition, de Linda S. Costanzo foi produzida por Elsevier Editora Ltda. e publicada em conjunto com Elsevier Inc. ISBN: 978-0-323-47881-6 Capa Luciana Mello e Monika Mayer Editoração Eletrônica Thomson Digital Elsevier Editora Ltda. Conhecimento sem Fronteiras Rua da Assembleia, n° 100 – 6° andar – Sala 601 20011-904 – Centro – Rio de Janeiro – RJ Av. Nações Unidas, nº 12995 – 10º andar 04571-170 – Brooklin – São Paulo – SP Serviço de Atendimento ao Cliente 0800 026 53 40 atendimento1@elsevier.com Nota Esta tradução foi produzida por Elsevier Brasil Ltda. sob sua exclusiva responsabilidade. Médicos e pesquisadores devem sempre fundamentar-se em sua experiência e no próprio conhecimento para avaliar e empregar quaisquer informações, métodos, substâncias ou experimentos descritos nesta publicação. Devido ao rápido avanço nas ciências médicas, particularmente, os diagnósticos e a posologia de medicamentos precisam ser verificados de maneira independente. Para todos os efeitos legais, a Editora, os autores, os editores ou colaboradores relacionados a esta tradução não assumem responsabilidade por qualquer dano/ou prejuízo causado a pessoas ou propriedades envolvendo responsabilidade pelo produto, negligência ou outros, ou advindos de qualquer uso ou aplicação de quaisquer métodos, produtos, instruções ou ideias contidos no conteúdo aqui publicado. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C873f 6. ed. Costanzo, Linda S. Fisiologia / Linda S. Costanzo; [tradução Aline Santana da Hora, Renata Scavone de Oliveira]. - 6. ed. - Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. : il.; 28 cm. Tradução de: Physiology Apêndice Inclui índice ISBN 978-85-352-9034-9 1. Fisiologia humana. I. Oliveira, Aline Santana da Hora. II. Scavone de, Renata. III. Título. mailto:atendimento1@elsevier.com 18-50154 CDD: 612 CDU: 612 Dedicatória Para Heinz Valtin e Arthur C. Guyton, que tão bem escreveram para estudantes de fisiologia Richard, Dan, Rebecca, Sheila, Elise e Max, que fazem tudo valer a pena Tradução e Revisão Científica Revisão científica Everson Araújo Nunes Professor Doutor do Departamento de Ciências Fisiológicas Centro de Ciências Biológicas Universidade Federal de Santa Catarina Gustavo Jorge dos Santos, PhD Biólogo, Mestre em Biologia Funcional e Molecular e Doutor em Biologia Funcional e Molecular - Fisiologia Professor e Coordenador de Pesquisa do Departamento de Ciências Fisiológicas (CFS) do Centro de Ciências Biológicas (CCB) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Professor do Programa de Pós-Graduação Multicêntrico em Ciências Fisiológicas (PPGMCF) Mariana Terenzi Professora Associada do Departamento de Ciências Fisiológicas de Santa Catarina (UFSC) Pós-doutorado na University of Bristol, Reino Unido Doutora em Fisiologia pela Cardiff University, Reino Unido Mestre em Farmacologia pela Universidade de São Paulo Graduada em Farmácia pela Universidade de São Paulo Vander Baptista Professor Doutor do Departamento de Ciências Fisiológicas Centro de Ciências Biológicas Universidade Federal de Santa Catarina Tradução Aline Santana da Hora Doutoranda em Epidemiologia Experimental Aplicada às Zoonoses pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) Mestre em Clínica Veterinária pela FMVZ-USP Médica Veterinária pela Universidade do Estado de Santa Catarina (CAV-UDESC) Renata Scavone de Oliveira Médica Veterinária formada pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo Doutora em Imunologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo Prefácio A fisiologia é o fundamento da prática médica. O conhecimento sólido de seus princípios é essencial para o aluno de medicina e para o médico. Este livro é destinado a alunos de medicina e disciplinas relacionadas que estão estudando fisiologia. Pode ser usado como suporte em palestras e conteúdos programáticos de currículos disciplinares ou como fonte primária em currículos integrados ou práticos. Para alunos avançados, o livro pode ser uma referência em cursos de fisiopatologia e estágios clínicos. Na sexta edição deste livro, como nas edições anteriores, os conceitos importantes da fisiologia são discutidos em níveis celulares e de sistemas orgânicos. Os Capítulos 1 e 2 apresentamde ligantes possuem comportas controladas por hormônios e neurotransmissores. Os sensores dessas comportas estão no lado extracelular do canal iônico. O receptor nicotínico na placa motora, por exemplo, é, na verdade, um canal iônico permeável a íons Na+ e K+ que se abre pela ligação da acetilcolina (ACh). Potenciais de Difusão Um potencial de difusão é a diferença de potencial gerada por meio de uma membrana quando um soluto carregado (um íon) se difunde a favor de seu gradiente de concentração. Um potencial de difusão, portanto, é causado pela difusão de íons. Dessa forma, um potencial de difusão somente pode ser gerado se a membrana for permeável àquele íon. Ainda, se a membrana não for permeável ao íon, não há geração de potencial de difusão, independentemente do tamanho do gradiente de concentração presente. A magnitude de um potencial de difusão, medida em milivolts (mV), depende do tamanho do gradiente de concentração, que é a força motriz. O sinal do potencial de difusão depende da carga do íon em difusão. Por fim, como já observado, os potenciais de difusão são criados pelo movimento de poucos íons e não alteram a concentração iônica geral da solução. Potenciais de Equilíbrio O conceito de potencial de equilíbrio é, simplesmente, uma extensão do conceito de potencial de difusão. Quando há uma diferença de concentração de um íon por meio de uma membrana e essa é permeável ao íon, uma diferença de potencial (o potencial de difusão) é criada. Após um certo intervalo de tempo, a difusão efetiva do íon fica mais lenta e, então, é interrompida devido a essa diferença de potencial. Em outras palavras, se um cátion se difunde a favor de um gradiente de concentração, ele transporta uma carga positiva através da membrana, o que retarda e acaba por interromper a difusão do cátion. Quando um ânion se difunde seguindo seu gradiente de concentração, transporta uma carga negativa, que retarda e, por fim, interrompe a difusão do ânion. O potencial de equilíbrio é o potencial de difusão que anula ou se opõe à tendência de difusão a favor da diferença de concentração. No equilíbrio eletroquímico, as forças motrizes químicas e elétricas atuantes sobre o movimento de um íon são iguais e opostas, e não há mais difusão geral. Os seguintes exemplos de um cátion e um ânion em difusão ilustram os conceitos de potencial de equilíbrio e equilíbrio eletroquímico: Exemplo do Potencial de Equilíbrio do Na+ A Figura 1.11 mostra duas soluções separadas por uma membrana teórica que é permeável ao Na+, mas não ao Cl-. A concentração de NaCl é maior na Solução 1 do que na Solução 2. O íon permeante, Na+, se difunde seguindo seu gradiente de concentração da Solução 1 para a Solução 2, mas o íon impermeante, Cl-, não o acompanha. Devido a esse movimento geral de cargas positivas para a Solução 2, há o desenvolvimento de um potencial de difusão de Na+ e a Solução 2 se torna positiva em relação à Solução 1. A positividade da Solução 2 se opõe à maior difusão de Na+ e, por fim, é grande o suficiente para impedir a difusão efetiva. A diferença de potencial que equilibra exatamente a tendência do Na+ de se difundir a favor de seu gradiente de concentração é o potencial de equilíbrio do Na+. Quando as forças motrizes químicas e elétricas sobre o Na+ são iguais e opostas, diz-se que esse íon está em equilíbrio eletroquímico. Esta difusão de poucos íons Na+, suficiente para a criação de um potencial de difusão, não altera significativamente a concentração de Na+ nas soluções como um todo. FIGURA 1.11 Geração de um potencial de difusão de Na+. Exemplo do Potencial de Equilíbrio do Cl- A Figura 1.12 mostra o mesmo par de soluções apresentadas na Figura 1.11; na Figura 1.12, porém, a membrana teórica é permeável ao Cl-, mas não ao Na+. O Cl- se difunde da Solução 1 para a Solução 2 seguindo seu gradiente de concentração, mas o Na+ não o acompanha. Há o estabelecimento de um potencial de difusão e a Solução 2 se torna negativa em relação à Solução 1. A diferença de potencial que equilibra exatamente a tendência apresentada pelo Cl- de se difundir a favor de seu gradiente de concentração é o potencial de equilíbrio de Cl-. Quando as forças motrizes químicas e elétricas sobre o Cl- são iguais e opostas, esse íon está em equilíbrio eletroquímico. Mais uma vez, a difusão destes poucos íons Cl- não altera sua concentração nas soluções como um todo. FIGURA 1.12 Geração de um potencial de difusão de Cl-. Equação de Nernst A equação de Nernst é usada para calcular o potencial de equilíbrio de um íon em uma determinada diferença de concentração por meio de uma membrana, assumindo que ela é permeável ao íon. Por definição, o potencial de equilíbrio é calculado para um íon de cada vez. Assim, em que Ex = Potencial de equilíbrio (mV) para um determinado íon X z = Carga do íon (+1 para Na+; +2 para Ca2+; -1 para Cl-) Ci = Concentração intracelular de X (mmol/L) Ce = Concentração extracelular de X (mmol/L) Em outras palavras, a equação de Nernst converte uma diferença de concentração de um íon em voltagem. Essa conversão é conseguida pelo uso de diversas constantes: R é a constante dos gases, T é a temperatura absoluta e F é a constante de Faraday; a multiplicação por 2,3 converte o logaritmo natural a log10. Por convenção, o potencial de membrana é expresso como o potencial intracelular em relação ao potencial extracelular. Dessa forma, uma diferença de potencial transmembrana de -70 mV indica 70 mV com o interior da célula negativo. Os valores normais do potencial de equilíbrio dos íons comuns na musculatura esquelética, calculados como previamente descrito e assumindo os gradientes de concentração típicos através de membranas celulares, são os seguintes: É bom lembrar desses valores ao considerar os conceitos do potencial de membrana em repouso e dos potenciais de ação. Exemplo de problema Se a [Ca2+] intracelular é 10-7 mol/L e a [Ca2+] extracelular é 2 × 10-3 mol/L, em que diferença de potencial através da membrana celular o Ca2+ estará em equilíbrio eletroquímico? Assuma que 2,3RT/F = 60 mV à temperatura corporal (37 °C). Solução Outra forma de colocar esta questão é perguntar qual o será o potencial de membrana, dado este gradiente de concentração através da membrana, se Ca2+ for o único íon permeante. Lembre-se que Ca2+ é divalente, de modo que z = +2. Assim, Uma vez que essa é uma função log, não é necessário lembrar qual concentração vai no numerador. Simplesmente termine o cálculo até chegar a 129 mV e, então, de forma intuitiva, determine o sinal correto. A abordagem intuitiva depende do conhecimento de que, já que a [Ca2+] é muito maior no LEC do que no LIC, o Ca2+ tende a se difundir de acordo com seu gradiente de concentração do LEC para o LIC, tornando o interior da célula positivo. Assim, o Ca2+ está em equilíbrio eletroquímico quando o potencial de membrana for igual a +129 mV (interior da célula positivo). Lembre-se que o potencial de equilíbrio foi calculado em um determinado gradiente de concentração para os íons de Ca2+. Em um gradiente de concentração diferente, o potencial de equilíbrio calculado seria outro. Força Motriz Ao lidar com solutos sem carga, a força motriz da difusão efetiva é simplesmente a diferença de concentração do soluto através da membrana celular. No entanto, ao lidar com solutos carregados (ou seja, íons), a força motriz da difusão efetiva deve considerar a diferença de concentração e a diferença de potencial elétrico através da membrana celular. A força motriz de um determinado íon é a diferença entre o potencial de membrana (Em) real e calculado, e o potencial de equilíbrio do íon (EX). Em outras palavras, é a diferença entre o Em real e o valor que o íon “gostaria” que o potencial de membrana fosse (o íon “gostaria” que o potencial de membrana fosse seu potencial de equilíbrio, calculado pela equação de Nernst). A força motriz de um determinado íon, X, é, portanto, calculada como: em que Força motriz = Força motriz (mV) Em = Potencial de membrana real (mV) Ex =Potencial de equilíbrio de X (mV) Quando a força motriz é negativa (ou seja, Em é mais negativa do que o potencial de equilíbrio do íon), o íon X entrará na célula se for um cátion e deixará a célula se for um ânion. Em outras palavras, o íon X “acha” que o potencial de membrana é muito negativo e tenta trazê-lo para seu potencial de equilíbrio ao se difundir na direção adequada através da membrana celular. Por outro lado, se a força motriz for positiva (Em for mais positivo do que o potencial de equilíbrio do íon), o íon X deixará a célula se for um cátion e entrará na célula se for um ânion; nesse caso, o íon X “pensa” que o potencial de membrana é muito positivo e tenta levá-lo para seu potencial de equilíbrio ao se difundir na direção adequada através da membrana celular. Por fim, se Em for igual ao potencial de equilíbrio do íon, a força motriz é zero e o íon, por definição, está em equilíbrio eletroquímico; uma vez que não há força motriz, não há movimentação geral do íon em qualquer direção. Corrente Iônica A corrente iônica (IX), ou fluxo de corrente, ocorre quando há movimentação de um íon através da membrana celular. Os íons se movem através da membrana celular por meio de canais iônicos quando duas condições são atendidas: (1) há uma força motriz sobre o íon e (2) a membrana apresenta condutância para aquele íon (ou seja, seus canais iônicos estão abertos). Assim, em que Ix = corrente iônica (mAmP) Gx = condutância iônica (1/ohm), onde a condutância é a recíproca da resistência Em – Ex = força motriz sobre o íon X (mV) Note que a equação da corrente iônica é simplesmente um rearranjo da lei de Ohm, em que V = IR ou I = V/R (sendo V a mesma coisa que E). Uma vez que a condutância (G) é a recíproca da resistência (R), I = G × V. A direção da corrente iônica é determinada pela direção da força motriz, descrita na seção anterior. A magnitude da corrente iônica é determinada pelo tamanho da força motriz e pela condutância do íon. Para uma determinada condutância, quanto maior a força motriz, maior a condutância e maior o fluxo de corrente. Por fim, se a força motriz ou a condutância de um íon for zero, não pode haver difusão efetiva daquele íon através da membrana celular nem fluxo de corrente. Potencial de membrana em repouso O potencial de membrana em repouso é a diferença de potencial existente na membrana de células excitáveis, como neurônios e miócitos, no período entre potenciais de ação (ou seja, em repouso). Como anteriormente mencionado por convenção, o potencial de membrana é descrito como o potencial intracelular em relação ao potencial extracelular. O potencial de membrana em repouso é estabelecido por potenciais de difusão, que são resultantes das diferenças de concentração dos vários íons pela membrana celular (lembre-se que essas diferenças de concentração são estabelecidas por mecanismos de transporte ativo primário e secundário). Cada íon permeante tenta levar o potencial de membrana para seu próprio potencial de equilíbrio. Os íons com maiores permeabilidades ou condutâncias em repouso fazem as maiores contribuições ao potencial de membrana em repouso e aqueles com menores permeabilidades contribuem pouco ou nada. O potencial de membrana em repouso da maioria das células excitáveis é de -70 a -80 mV. Esses valores podem ser melhor explicados pelo conceito de permeabilidade relativa da membrana celular. Assim, o potencial de membrana em repouso é próximo aos potenciais de equilíbrio de K+ e Cl-, já que a permeabilidade a esses íons é maior em repouso. O potencial de membrana em repouso é muito diferente dos potenciais de equilíbrio do Na+ e do Ca2+, já que a permeabilidade a esses íons em repouso é baixa. Uma forma de avaliar a contribuição de cada íon para o potencial de membrana é o uso da equação de condutância de corda, que pondera o potencial de equilíbrio de cada íon (calculado pela equação de Nernst) por sua condutância relativa. Os íons com maior condutância levam o potencial de membrana para mais próximo de seus potenciais de equilíbrio, enquanto aqueles com menor condutância têm pouca influência sobre o potencial de membrana. (Uma abordagem alternativa a essa mesma questão utiliza a equação de Goldman, que considera a contribuição de cada íon de acordo com sua permeabilidade relativa, e não sua condutância). A equação da condutância de corda é escrita da seguinte forma: em que Em = Potencial de membrana (mV) gK+ etc. = Condutância do K+ etc. (mho, recíproca de resistência) gT = Condutância total (mho) EK+ etc. = Potencial de equilíbrio do K+ etc. (mV) Em repouso, as membranas das células excitáveis são muito mais permeáveis ao K+ e ao Cl- do que ao Na+ e ao Ca2+. Essas diferenças de permeabilidade são responsáveis pelo potencial de membrana em repouso. Qual é o papel desempenhado pela Na+-K+ ATPase na criação do potencial de membrana em repouso? Essa resposta tem duas partes. Primeiro, há uma pequena contribuição eletrogênica direta da Na+-K+ ATPase, com base na estequiometria dos três íons Na+ bombeados para fora da célula para cada dois íons K+ bombeados para dentro da célula. Em segundo lugar, a contribuição mais importante, e indireta, é a manutenção do gradiente de concentração de K+ através da membrana da célula, que, então, é responsável pelo potencial de difusão deste íon que leva o potencial de membrana para o potencial de equilíbrio de K+. Assim, a Na+-K+ ATPase é necessária para a criação e a manutenção do gradiente de concentração de K+, o que estabelece o potencial de membrana em repouso. (Uma argumentação similar pode ser feita para o papel da Na+-K+ ATPase na fase ascendente do potencial de ação, na qual mantém o gradiente iônico de Na+ através da membrana.) Potenciais de ação O potencial de ação é um fenômeno de células excitáveis, como neurônios e miócitos, e é composto por uma rápida despolarização (fase ascendente) seguida pela repolarização do potencial de membrana. Os potenciais de ação são o mecanismo básico de transmissão de informação no sistema nervoso e em todos os tipos de músculos. Terminologia A seguinte terminologia será usada na discussão do potencial de ação, dos períodos refratários e da propagação dos potenciais de ação: ♦ Despolarização é o processo de tornar o potencial de membrana menos negativo. Como já discutido, o potencial de membrana normal, em repouso, das células excitáveis, é orientado com o interior da célula negativo. A despolarização faz com que o interior da célula fique menos negativo ou até mesmo se torne positivo. Essa alteração no potencial de membrana não deve ser descrita como “aumento” ou “diminuição”, já que esses termos são ambíguos (por exemplo, quando o potencial de membrana se despolariza, ou se torna menos negativo, aumenta ou diminui?). ♦ Hiperpolarização é o processo de tornar o potencial de membrana menos positivo. Como na despolarização, os termos “aumento” e “diminuição” não devem ser usados na descrição da alteração que faz com que o potencial de membrana seja mais negativo. ♦ Corrente de influxo é o fluxo de cargas positivas para o interior da célula. Assim, as correntes de influxo despolarizam o potencial de membrana. Um exemplo de corrente de influxo é a entrada de Na+ na célula durante a fase ascendente do potencial de ação. ♦ Corrente de efluxo é o fluxo de cargas positivas para fora da célula. As correntes de efluxo hiperpolarizam o potencial de membrana. Um exemplo de corrente de efluxo é a saída de K+ da célula durante a fase de repolarização do potencial de ação. ♦ Potencial limiar é o potencial de membrana em que a ocorrência do potencial de ação é inevitável. Uma vez que o potencial limiar é menos negativo do que o potencial de membrana em repouso, uma corrente de influxo é necessária para despolarizar o potencial de membrana até o limiar. No potencial limiar, a corrente de influxo total (p. ex., a corrente de influxo de Na+) se torna maior do que a corrente de efluxo total (p. ex., a corrente de efluxo de K+) e a despolarização resultante torna-se autossustentável,originando a fase ascendente do potencial de ação. Se a corrente de influxo total for menor do que a corrente de efluxo total, a membrana não despolariza até o limiar e não há potencial de ação (veja a resposta tudo ou nada). ♦ Pico do potencial de ação (ultrapassagem) é aquela porção do potencial de ação na qual o potencial de membrana é positivo (interior da célula positivo). ♦ Pós-potencial hiperpolarizante (hiperpolarização) é aquela parte do potencial de ação, após a repolarização, em que o potencial de membrana é mais negativo do que em repouso. ♦ Período refratário é o período em que outro potencial de ação normal não pode ser iniciado em uma célula excitável. Os períodos refratários podem ser absolutos ou relativos (nas células do músculo cardíaco, há uma outra categoria chamada período refratário efetivo). Características dos Potenciais de Ação Os potenciais de ação possuem três características básicas: tamanho e formato estereotípicos, propagação e resposta tudo ou nada. ♦ Tamanho e formato estereotípicos. Cada potencial de ação normal de um determinado tipo celular parece idêntico, despolariza no mesmo potencial e repolariza no mesmo potencial de repouso. ♦ Propagação. Um potencial de ação em um sítio provoca a despolarização dos sítios adjacentes, trazendo-os ao limiar. A propagação dos potenciais de ação de um sítio para o outro é sem decaimento (amplitude constante). ♦ Resposta tudo ou nada. Um potencial de ação ocorre ou não ocorre. Se uma célula excitável é despolarizada até o limiar da maneira normal, a ocorrência de um potencial de ação é inevitável. Por outro lado, se a membrana não for despolarizada até o limiar, o potencial de ação não pode ocorrer. Na verdade, se o estímulo for aplicado durante o período refratário, o potencial de ação não ocorre ou ocorre com tamanho e formato estereotípicos diferentes. Bases Iônicas do Potencial de Ação O potencial de ação é a despolarização rápida (fase ascendente), seguida pela repolarização de volta ao potencial de membrana em repouso. A Figura 1.13 mostra os eventos do potencial de ação no sistema nervoso e na musculatura esquelética, que ocorrem nas seguintes etapas: 1. Potencial de membrana em repouso. Em repouso, o potencial de membrana é de aproximadamente -70 mV (interior da célula negativo). A condutância ou permeabilidade ao K+ é alta; os canais de K+ estão quase completamente abertos, permitindo que esses íons se difundam para fora da célula seguindo o gradiente de concentração existente. Essa difusão cria um potencial de difusão de K+, que leva o potencial de membrana até o potencial de equilíbrio do K+. A condutância ao Cl- (não mostrada) também é alta e, em repouso, esse íon está próximo de seu equilíbrio eletroquímico. Em repouso, a condutância de Na+ é baixa e, assim, o potencial de membrana de repouso está longe do potencial de equilíbrio desse íon e ele está distante do equilíbrio eletroquímico. 2. Fase ascendente do potencial de ação. Uma corrente de influxo, geralmente o resultado da corrente disseminada por potenciais de ação de sítios adjacentes, provoca a despolarização da membrana da célula nervosa até o limiar, o que ocorre a aproximadamente -60 mV. Essa despolarização inicial provoca a rápida abertura das comportas de ativação do canal de Na+, aumentando, rapidamente, a condutância a esse íon, que fica até superior à de K+ (Figura 1.14). O aumento da condutância ao Na+ gera uma corrente de influxo do íon; o potencial de membrana é ainda mais despolarizado, mas não chega a atingir o potencial de equilíbrio do Na+, de +65 mV. A tetrodotoxina (uma toxina obtida do baiacu japonês) e o anestésico local lidocaína bloqueiam esses canais de Na+ dependentes de voltagem e impedem a ocorrência de potenciais de ação no sistema nervoso. 3. Repolarização do potencial de ação. A fase ascendente termina e o potencial de membrana repolariza ao nível em repouso em decorrência de dois eventos. Primeiro, as comportas de inativação dos canais de Na+ respondem à despolarização e se fecham, mas essa resposta é mais lenta do que a abertura das comportas de ativação. Assim, depois de um tempo, as comportas de inativação se fecham, fechando os canais de Na+ e terminando a fase ascendente. No segundo evento, a despolarização abre os canais de K+, aumentando a condutância desse íon a um valor ainda maior do que o observado em repouso. O efeito combinado do fechamento dos canais de Na+ e da maior abertura dos canais de K+ faz com que a condutância desse último íon seja muito maior do que a do primeiro. Assim, há o estabelecimento de uma corrente de efluxo de K+ e a membrana é repolarizada. O tetraetilamônio (TEA) bloqueia esses canais de K+ dependentes de voltagem, a corrente de efluxo desse íon e a repolarização. 4. Pós-potencial hiperpolarizante (hiperpolarização). Por um breve período após a repolarização, a condutância ao K+ é maior do que em repouso e o potencial de membrana se aproxima ainda mais do potencial de equilíbrio de K+ (pós-potencial hiperpolarizante). Por fim, a condutância ao K+ retorna ao nível de repouso e o potencial de membrana sofre uma pequena despolarização, retornando ao valor de repouso. A membrana agora está pronta para, se estimulada, gerar outro potencial de ação. FIGURA 1.13 Progressão das alterações de voltagem e condutância durante o potencial de ação do axônio. FIGURA 1.14 Estados das comportas de ativação e inativação no canal de Na+ do axônio. 1) No estado fechado, porém disponível, no potencial de membrana em repouso, a comporta de ativação está fechada, a comporta de inativação está aberta e o canal está fechado (porém disponível em caso de despolarização). 2) No estado aberto, durante a fase ascendente do potencial de ação, as comportas de ativação e inativação estão abertas e o canal está aberto. 3) No estado inativado, no pico do potencial de ação, a comporta de ativação está aberta, a comporta de inativação está fechada e o canal está fechado. O Canal de Na+ do axônio Um canal de Na+ dependente de voltagem é responsável pela fase ascendente do potencial de ação nas células nervosas e da musculatura esquelética. Esse canal é uma proteína integral de membrana, composta por uma grande subunidade α e duas subunidades β. A subunidade α possui quatro domínios, cada um com seis α-hélices transmembrânicas. As repetições das α-hélices transmembrânicas revestem o poro central por onde o Na+ pode fluir (se as comportas do canal estiverem abertas). Um modelo conceitual do canal de Na+, mostrando a função das comportas de ativação e inativação, é mostrado na Figura 1.14. A premissa básica deste modelo é que, para que o Na+ atravesse o canal, as duas comportas devem estar abertas. Lembre-se de como essas comportas respondem a alterações de voltagem. As comportas de inativação se fecham em resposta à despolarização, mas de forma lenta, após um tempo. Assim, quando a despolarização ocorre, as comportas de ativação se abrem rapidamente e, a seguir, há o fechamento mais lento das comportas de inativação. A figura mostra três combinações das posições das comportas e o efeito resultante sobre a abertura do canal de Na+. 1. Canal fechado, mas disponível. No potencial de membrana em repouso, as comportas de ativação estão fechadas e as comportas de inativação estão abertas. Assim, os canais de Na+ estão fechados. No entanto, estão “disponíveis” para disparar um potencial de ação se houver despolarização (a despolarização abre as comportas de ativação e, uma vez que as comportas de inativação já estão abertas, os canais de Na+ se abrem). 2. Canal aberto. Durante a fase ascendente do potencial de ação, a despolarização provoca a rápida abertura das comportas de ativação e tanto essas quanto as comportas de inativação ficam abertas por um curto período. O Na+ pode fluir pelos canais até o interior celular, causando maior despolarização. 3. Canal inativado. No pico do potencial de ação, as lentas comportas de inativação finalmente se fecham em resposta à despolarização; agora, os canais de Na+estão fechados, a fase ascendente acabou e começa a repolarização. Como os canais de Na+ voltam ao estado fechado, mas disponível? Em outras palavras, como se recuperam para que fiquem prontos para disparar outro potencial de ação? A repolarização para o potencial de membrana em repouso provoca a abertura das comportas de inativação. Agora, os canais de Na+ voltam ao estado fechado, mas disponível, e estão prontos e “à disposição” para disparar outro potencial de ação caso haja despolarização. Períodos Refratários Durante os períodos refratários, as células excitáveis são incapazes de produzir potenciais de ação normais (Figura 1.13). O período refratário é formado por um período refratário absoluto e um período refratário relativo. Período Refratário Absoluto O período refratário absoluto se sobrepõe à quase toda a duração do potencial de ação. Durante esse período, não importa quão grande o estímulo, outro potencial de ação não pode ser provocado. A base para esse período refratário absoluto é o fechamento das comportas de inativação do canal de Na+ em resposta à despolarização. Essas comportas de inativação ficam fechadas até que a célula seja novamente repolarizada até o potencial de membrana de repouso e os canais recuperem o estado “fechado, mas disponível” (Figura 1.14). Período Refratário Relativo O período refratário relativo começa ao final do período refratário absoluto e se sobrepõe, principalmente, ao período de pós-potencial hiperpolarizante. Durante esse período, um potencial de ação pode ser provocado, mas apenas se uma corrente despolarizante (de influxo) maior do que a usual for aplicada. A base desse período refratário relativo é a maior condutância ao K+ do que a observada em repouso. Uma vez que o potencial de membrana é mais próximo do potencial de equilíbrio de K+, mais corrente de influxo é necessária para trazer a membrana ao limiar e iniciar o próximo potencial de ação. Acomodação Quando uma célula nervosa ou muscular é lentamente despolarizada ou mantida em um nível despolarizado, o potencial limiar usual pode passar sem que um potencial de ação seja disparado. Esse processo, denominado acomodação, ocorre porque a despolarização fecha as comportas de inativação nos canais de Na+. Quando a despolarização é suficientemente lenta, os canais de Na+ se fecham e assim permanecem. A fase ascendente do potencial de ação não pode ocorrer, já que não há suficientes canais de Na+ abertos para carrear a corrente de influxo. Um exemplo de acomodação é observado em indivíduos que apresentam elevação da concentração sérica de K+, chamada hipercalemia. Em repouso, as membranas de células nervosas e musculares são muito permeáveis ao K+; um aumento na concentração extracelular de K+ despolariza a membrana em repouso (como determinado pela equação de Nernst). Essa despolarização faz com que a membrana celular fique mais próxima do limiar e deveria facilitar o disparo de um potencial de ação. Na verdade, é menos provável, porém, que a célula dispare um potencial de ação, já que a manutenção da despolarização fecha as comportas de inativação dos canais de Na+ (Quadro 1.3). Q u a d r o 1 . 3 F is io logia Cl ínica : Hipercalemia com Fraqueza Muscular Descrição do caso Uma mulher de 48 anos, com diabetes melito insulino-dependente, relata grave fraqueza muscular a seu médico. A paciente também apresenta hipertensão e é tratada com propranolol, um agente bloqueador β-adrenérgico. Seu médico imediatamente solicita exames de sangue, que revelam que a [K+] sérica é de 6,5 mEq/L (normal, 4,5 mEq/L) e elevação do nível sérico de ureia. O médico reduz gradativamente a dosagem do propranolol até interromper o tratamento. Em poucos dias, a [K+] sérica cai a 4,7 mEq/L e a paciente relata que a força muscular voltou ao normal. Explicação do caso A paciente diabética apresenta hipercalemia grave causada por diversos fatores: (1) uma vez que a dose de insulina que essa paciente recebe é insuficiente, a ausência do hormônio provoca a saída do K+ das células para o sangue (a insulina promove a entrada desse íon nas células). (2) O propranolol, um agente bloqueador β-adrenérgico usado no tratamento da hipertensão, também causa a saída do K+ das células para a circulação. (3) A elevação da concentração sérica de ureia sugere que a mulher apresenta insuficiência renal; os rins doentes não são capazes de excretar o K+ extra que se acumula no sangue. Esses mecanismos envolvem conceitos relacionados à fisiologia renal e endócrina. É importante entender que essa paciente apresenta grande elevação da [K+] sérica (hipercalemia) e que sua fraqueza muscular era decorrente da hipercalemia. A base da fraqueza pode ser explicada da seguinte maneira: o potencial de membrana em repouso das células musculares é determinado pelo gradiente de concentração de K+ através da membrana celular (equação de Nernst). Em repouso, a membrana celular é muito permeável ao K+, que se difunde para fora da célula conforme seu gradiente de concentração, criando um potencial de difusão de K+. Esse potencial de difusão de K+ é responsável pelo potencial da membrana em repouso, em que o interior celular é negativo. Quanto maior o gradiente de concentração de K+, maior a negatividade da célula. Quando a [K+] sanguínea é elevada, o gradiente de concentração através da membrana celular é menor do que o normal; o potencial de membrana em repouso, portanto, é menos negativo (ou seja, despolarizado). Seria possível esperar que a despolarização facilitasse a geração de potenciais de ação no músculo, já que o potencial de membrana em repouso seria mais próximo ao limiar. Um efeito mais importante da despolarização, porém, é o fechamento das comportas de inativação nos canais de Na+. Quando essas comportas de inativação são fechadas, os potenciais de ação não podem ser gerados, mesmo se as comportas de ativação estiverem abertas. Sem potenciais de ação no músculo, não pode haver contração. Tratamento O tratamento dessa paciente tem como base o retorno do K+ para dentro das células, aumentando as doses de insulina e interrompendo a administração de propranolol. Ao reduzir a [K+] sanguínea a níveis normais, o potencial de membrana em repouso de suas células musculares esqueléticas retorna ao normal, as comportas de inativação nos canais de Na+ são abertas no potencial de membrana em repouso (como devem ser) e potenciais de ação normais podem ocorrer. Propagação dos Potenciais de Ação A propagação dos potenciais de ação por uma fibra nervosa ou muscular ocorre por meio da disseminação de correntes locais das regiões ativas às regiões inativas adjacentes. A Figura 1.15 mostra o corpo celular de um neurônio com sua árvore dendrítica e um axônio. Em repouso, todo o axônio apresenta o potencial de membrana de repouso e o interior da célula é negativo. Os potenciais de ação começam no segmento inicial do axônio, mais próximo ao corpo do neurônio. Esses potenciais se propagam pelo axônio por meio da disseminação de correntes locais, como mostra a figura. FIGURA 1.15 Disseminação da despolarização por um axônio por meio de correntes locais. A, O segmento inicial de um axônio disparou um potencial de ação e a diferença de potencial através da membrana celular foi revertida, tornando o interior positivo. A área adjacente permanece com o potencial de membrana em repouso, com o interior negativo. B, No sítio ativo, as cargas positivas dentro do neurônio fluem para a área em repouso adjacente. C, O fluxo local de correntes faz com que a área adjacente seja despolarizada até o limiar e dispare potenciais de ação; a região ativa é repolarizada, voltando a apresentar o potencial de membrana em repouso. Na Figura 1.15A, o segmento inicial do axônio é despolarizado até o limiar e dispara um potencial de ação (a região ativa). Devido à corrente de influxo de Na+, no pico do potencial de ação, a polaridade do potencial de membrana é revertida e o interior da célula se torna positivo. A região adjacente do axônio continua inativa, com seu interiorcelular negativo. A Figura 1.15B ilustra a disseminação da corrente local da região ativa despolarizada à região inativa adjacente. No sítio ativo, as cargas positivas no interior da célula fluem em direção às cargas negativas no sítio inativo adjacente. Esse fluxo de corrente faz com que a região adjacente se despolarize até o limiar. Na Figura 1.15C, a região adjacente do axônio, tendo sido despolarizada até o limiar, agora dispara um potencial de ação. A polaridade de seu potencial de membrana é revertida e o interior da célula fica positivo. Nesse momento, a região ativa original foi repolarizada, voltando ao potencial de membrana de repouso e restaurando sua polaridade negativa interior. O processo continua e transmite o potencial de ação de forma sequencial pelo axônio. Velocidade de Condução A velocidade com que os potenciais de ação são transmitidos por uma fibra nervosa ou muscular é a velocidade de condução. Essa propriedade tem grande importância fisiológica, já que determina a velocidade de transmissão da informação pelo sistema nervoso. Para entender a velocidade de condução em tecidos excitáveis, dois conceitos principais devem ser explicados: a constante de tempo e a constante de comprimento. Esses conceitos, as propriedades de cabo, explicam como os nervos e músculos agem como cabos na condução da energia elétrica. A constante de tempo (τ) é o período transcorrido após a injeção de corrente para a mudança do potencial a 63% de seu valor final. Em outras palavras, a constante de tempo indica a rapidez da despolarização da membrana em resposta a uma corrente de influxo ou ainda a rapidez da hiperpolarização em resposta a uma corrente de efluxo. Assim, Em que τ = Constante de tempo Rm = Resistência da membrana Cm = Capacitância da membrana Dois fatores afetam a constante de tempo. O primeiro fator é a resistência da membrana (Rm). Quando a Rm é alta, a corrente não atravessa a membrana celular com facilidade, o que dificulta a alteração do potencial de membrana e, assim, aumenta a constante de tempo. O segundo fator, a capacitância da membrana (Cm) é a habilidade de armazenamento de carga pela membrana celular. Quando a Cm é alta, a constante de tempo aumenta, já que a corrente injetada deve, primeiro, descarregar o capacitor da membrana antes de despolarizá-la. Assim, a constante de tempo é maior (ou seja, o período transcorrido é maior) quando Rm e Cm são altas. A constante de comprimento (λ) é a distância do sítio de injeção de corrente em que o potencial caiu a 63% de seu valor original. A constante de comprimento indica a distância de disseminação da corrente despolarizante pelo nervo. Em outras palavras, quanto maior a constante de comprimento, maior a disseminação da corrente pela fibra nervosa. Assim, em que λ = Constante de comprimento Rm = Resistência da membrana Ri = Resistência interna Mais uma vez, Rm representa a resistência da membrana. A resistência interna, Ri, é inversamente relacionada à facilidade do fluxo de corrente pelo citoplasma da fibra nervosa. A constante de comprimento, portanto, é maior (ou seja, a corrente trafega mais) quando o diâmetro do nervo é grande, a resistência da membrana é baixa e a resistência interna é pequena. Em outras palavras, a corrente flui pelo caminho de menor resistência. Alterações na Velocidade de Condução Existem dois mecanismos que aumentam a velocidade de condução através do nervo: o aumento do tamanho da fibra nervosa e a mielinização da fibra nervosa. Esses mecanismos podem ser mais bem entendidos em termos das propriedades de cabo da constante de tempo e da constante de comprimento. ♦ Aumento do diâmetro do axônio. O aumento do tamanho de uma fibra nervosa eleva a velocidade de condução, uma relação que pode ser explicada da seguinte forma: a resistência interna, Ri, é inversamente proporcional à área transversal (A = 2πr2). Portanto, quanto maior a fibra, menor a resistência interna. A constante de comprimento é inversamente proporcional à raiz quadrada de Ri (veja a equação da constante de comprimento). Assim, a constante de comprimento (λ) é maior quando a resistência interna (Ri) é menor (ou seja, a fibra é maior). Os nervos maiores apresentam as maiores constantes de comprimento e as correntes se disseminam para mais longe da região ativa para propagar os potenciais de ação. O aumento do tamanho da fibra nervosa certamente é um mecanismo importante para elevar a velocidade de condução no sistema nervoso, mas existem limitações anatômicas ao tamanho dos axônios. Assim, um segundo mecanismo, a mielinização, é usado para aumentar a velocidade de condução. ♦ Mielinização. A mielina é um isolante lipídico de axônios que aumenta a resistência da membrana e diminui a capacitância da membrana. A maior resistência da membrana força a corrente a fluir pela via de menor resistência do interior do axônio, ao invés da via de alta resistência da membrana axonal. A diminuição da capacitância da membrana reduz a constante de tempo; assim, nas interrupções da bainha de mielina (veja a seguir), a membrana do axônio despolariza mais rapidamente em resposta à corrente de influxo. Juntos, os efeitos da maior resistência da membrana e de sua menor capacitância aumentam a velocidade de condução (Quadro 1.4). Q u a d r o 1 . 4 F is io logia Cl ínica : Esclerose Múlt ipla Descrição do caso Uma mulher de 32 anos teve um primeiro episódio de visão borrada há 5 anos. A paciente sentiu dificuldade ao ler o jornal e as letras pequenas em etiquetas. A visão voltou ao normal de forma espontânea, mas, 10 meses depois, houve recidiva da visão borrada, dessa vez acompanhada por outros sintomas, incluindo visão dupla e uma sensação de “pontadas” e fraqueza grave nas pernas. A paciente estava muito fraca até mesmo para subir um único lance de escadas. Ela foi encaminhada a um neurologista, que pediu uma série de exames. A ressonância magnética (RM) do encéfalo mostrou a presença de lesões características da esclerose múltipla. Os potenciais visuais evocados apresentaram latência prolongada, consistente com a diminuição da velocidade de condução nervosa. Desde o diagnóstico, a paciente apresentou duas recidivas, e está sendo tratada com interferon beta. Explicação do caso Os potenciais de ação são propagados ao longo das fibras nervosas por meio da disseminação das correntes locais, da seguinte maneira: quando há um potencial de ação, a corrente de influxo da fase ascendente do potencial de ação despolariza a membrana naquele ponto, revertendo a polaridade (ou seja, o interior daquele sítio se torna, por um breve período, positivo). A despolarização, então, se dissemina a sítios adjacentes ao longo da fibra nervosa por meio do fluxo de corrente local. É importante notar que, se essas correntes locais despolarizam uma região adjacente ao limiar, há o disparo de um potencial de ação (ou seja, sua propagação). A velocidade de propagação do potencial de ação é chamada velocidade de condução. Quanto maior a disseminação das correntes locais sem decaimento (expressa como a constante de comprimento), maior a velocidade de condução. Dois fatores principais aumentam a constante de comprimento e, portanto, a velocidade de condução nos nervos: o maior diâmetro do axônio e a mielinização. A mielina é um isolante de axônios que aumenta a resistência da membrana e diminui sua capacitância. Ao aumentar a resistência da membrana, a corrente é forçada a seguir pelo interior do axônio e, assim, há menor perda de corrente na membrana da célula (aumentando a constante de comprimento); com mais corrente seguindo pelo axônio, a velocidade de condução aumenta. Ao diminuir a capacitância da membrana, as correntes locais a despolarizam com maior rapidez, o que também aumenta a velocidade de condução. Para que os potenciais de ação sejam conduzidos pelos nervos mielinizados, a bainha de mielina deve apresentar quebras periódicas (os nós de Ranvier), nos quais os canais de Na+ e K+ se concentram. Assim, nos nós, as correntes iônicas necessárias parao potencial de ação podem fluir pela membrana (p. ex., a corrente de influxo de Na+ necessária à fase ascendente do potencial de ação). Entre os nós, a resistência da membrana é muito alta e a corrente é forçada a fluir rapidamente pelo axônio até o próximo nó, onde o próximo potencial de ação pode ser gerado. Assim, o potencial de ação parece “pular” de um nó de Ranvier até o outro, isso é denominado condução saltatória. A esclerose múltipla é a doença desmielinizante mais comum do sistema nervoso. A perda da bainha de mielina ao redor dos axônios diminui a resistência da membrana, fazendo com que a corrente “escape” pela membrana durante a condução das correntes locais. Por isso, as correntes locais decaem mais rapidamente ao fluir pelo axônio (menor constante de comprimento) e, por causa disso, podem ser insuficientes para gerar um potencial de ação ao chegarem ao próximo nó de Ranvier. Se todo o axônio fosse recoberto pela bainha lipídica de mielina, porém, não haveria potenciais de ação, já que não existiriam as interrupções de baixa resistência por onde ocorre o fluxo de corrente despolarizante. É importante notar, portanto, que a bainha de mielina é interrompida a intervalos de 1 a 2 mm, nos nós de Ranvier. Nesses nós, a resistência da membrana é baixa, a corrente pode fluir através da membrana e os potenciais de ação podem ocorrer. Assim, a condução de potenciais de ação é mais rápida em axônios mielinizados do que naqueles não mielinizados, já que esses potenciais “saltam” grandes distâncias de um nó ao próximo, em um processo denominado condução saltatória. Transmissão sináptica e neuromuscular A sinapse é um sítio em que a informação é transmitida de uma célula para outra. A informação pode ser transmitida eletricamente (sinapse elétrica) ou através de um transmissor químico (sinapse química). Tipos de Sinapse Sinapses Elétricas As sinapses elétricas permitem o fluxo de corrente de uma célula excitável para outra através de vias de baixa resistência entre as células, chamadas junções comunicantes. Essas junções são encontradas no músculo cardíaco e em alguns tipos de músculos lisos, e são responsáveis pela condução extremamente rápida nesses tecidos. A rápida condução de célula a célula que ocorre no músculo ventricular cardíaco, no útero e na bexiga, por exemplo, permite que as células desses tecidos sejam ativadas de forma simultânea e assegura que a contração ocorra de maneira coordenada. Sinapses Químicas Nas sinapses químicas, há um espaço entre a membrana da célula pré-sináptica e a membrana da célula pós-sináptica, conhecido como fenda sináptica. A informação é transmitida através da fenda sináptica por meio de um neurotransmissor, uma substância liberada do terminal pré-sináptico que se liga a receptores localizados no terminal pós-sináptico. Nas sinapses químicas, a sequência de eventos é a seguinte: um potencial de ação na célula pré- sináptica leva à abertura de canais de Ca2+. Um influxo de Ca2+ no terminal pré-sináptico provoca a liberação por exocitose do neurotransmissor armazenado nas vesículas sinápticas. O neurotransmissor se difunde pela fenda sináptica, ligando-se a receptores na membrana pós-sináptica e alterando seu potencial de membrana na célula pós-sináptica. A alteração do potencial de membrana na célula pós-sináptica pode ser excitatória ou inibitória. É o tipo de receptor de membrana com o qual o neurotransmissor interage que resulta em efeito excitatório ou inibitório. Por exemplo, o neurotransmissor noradrenalina ao ligar-se ao receptor α1- adrenérgico em músculo liso causa excitação e, portanto, contração desse músculo, no entanto, se a noradrenalina se ligar ao receptor β2-adrenérgico o efeito será de inibição e relaxamento desse músculo. Assim, um neurotransmissor pode ser excitatório em algumas membranas mas inibidor em outras, tudo depende do receptor. Diferentemente das sinapses elétricas, a neurotransmissão através das sinapses químicas é unidirecional (da célula pré-sináptica para a célula pós-sináptica). O retardo sináptico é o tempo necessário para a ocorrência das diversas etapas da neurotransmissão química. Junção Neuromuscular – Exemplo de Sinapse Química Unidades Motoras Os neurônios motores inervam as fibras musculares. Uma unidade motora é composta por um único neurônio motor e as fibras musculares por ele inervadas. As unidades motoras apresentam variação considerável de tamanho: um único neurônio motor pode ativar poucas fibras musculares ou milhares delas. Como pode ser previsto, as unidades motoras pequenas estão envolvidas nas atividades motoras finas (p. ex., expressões faciais) e as unidades motoras grandes estão envolvidas nas atividades musculares grosseiras (p. ex., os músculos do quadríceps usados em corridas). Sequência de Eventos na Junção Neuromuscular A sinapse entre um neurônio motor e uma fibra muscular é denominada junção neuromuscular (Figura 1.16). Um potencial de ação no neurônio motor produz um potencial de ação nas fibras musculares por ele inervadas, por meio da seguinte sequência de eventos (as etapas numeradas são correlacionadas aos números circundados da Figura 1.16): 1. Os potenciais de ação são propagados pelo neurônio motor, como já descrito. As correntes locais despolarizam cada região adjacente até o limiar. Por fim, o terminal pré-sináptico é despolarizado e essa despolarização abre os canais de Ca2+ dependentes de voltagem na membrana pré-sináptica. 2. Com a abertura dos canais de Ca2+, há um aumento da permeabilidade ao Ca2+ no terminal pré-sináptico e entrada do íon, seguindo seu gradiente eletroquímico. 3. A entrada de Ca2+ no terminal provoca a liberação do neurotransmissor acetilcolina (ACh), que foi previamente sintetizado e armazenado nas vesículas sinápticas. Para liberar a ACh, as vesículas sinápticas se fundem à membrana plasmática e esvaziam seu conteúdo na fenda sináptica, por exocitose. A ACh é formada a partir de acetil coenzima A (acetil CoA) e colina pela ação da enzima colina acetiltransferase (Figura 1.17). A ACh é armazenada em vesículas com ATP e proteoglicana para subsequente liberação. Após a estimulação, todo o conteúdo de uma vesícula sináptica é liberado na fenda sináptica. A menor quantidade possível de ACh que pode ser liberada é o conteúdo de uma vesícula sináptica (um quantum) e, por isso, a liberação de ACh é denominada quântica. 4. A ACh se difunde pela fenda sináptica até a membrana pós-sináptica. Essa região especializada da fibra muscular é denominada placa motora e contém receptores nicotínicos para ACh. A ACh se liga às subunidades α do receptor nicotínico e altera sua conformação. É importante notar que o receptor nicotínico de ACh é um exemplo de canal iônico dependente de ligante: é também um canal de Na+ e K+. Com a alteração conformacional, o centro do canal se abre, aumentando a permeabilidade da placa motora terminal simultaneamente a ambos Na+ e K+. 5. Com a abertura desses canais, há entrada de Na+ e saída de K+, segundo seus respectivos gradientes eletroquímicos; o Na+ entra na placa motora terminal e o K+ sai. Cada um desses íons tenta levar o potencial da placa motora (PPM) a seu potencial de equilíbrio. Na verdade, na ausência de outros canais iônicos na placa motora, essa estrutura é despolarizada a um valor intermediário entre os potenciais de equilíbrio do Na+ e do K+, ou seja, cerca de 0 mV (nesse caso, zero não é um “número mágico” – é, simplesmente, o valor intermediário entre os dois potenciais de equilíbrio). Na prática, porém, devido à presença de outros canais iônicos que influenciam o potencial de membrana, a despolarização da placa motora é de apenas cerca de -50 mV, que é o PPM. O PPM não é um potencial de ação, mas, simplesmente, uma despolarização local da placa motora especializada. O conteúdo de uma única vesícula sináptica produz a menor alteração possível no potencial de membrana da placa motora, o potencial de placa motora em miniatura (PPMM). Os PPMMs se somam, produzindo o PPM total. O aparecimento espontâneode PPMMs prova a natureza quântica da liberação de ACh na junção neuromuscular. Cada PPMM, que representa o conteúdo de uma vesícula sináptica, despolariza a placa motora em cerca de 0,4 mV. Um PPM é um múltiplo dessas unidades de despolarização de 0,4 mV. Quantas dessas unidades são necessárias à despolarização da placa motora até o PPM? Uma vez que a placa motora deve ser despolarizada desde seu potencial de repouso de -90 mV para o potencial limiar de -50 mV, deve, portanto, ser despolarizada em 40 mV. A despolarização de 40 mV requer 100 quanta (já que cada quantum ou vesícula despolariza a placa motora em 0,4 mV). 6. A despolarização da placa motora (o PPM), então, se dissemina por correntes locais pela membrana plasmática adjacente da fibra muscular, que é despolarizada ao limiar e dispara potenciais de ação. Embora a placa motora, por si só, não consiga disparar potenciais de ação, é despolarizada o suficiente para iniciar o processo na membrana plasmática vizinha. Os potenciais de ação são propagados pela fibra muscular como uma continuação desse processo. 7. O PPM na placa motora é interrompido quando a ACh é degradada à colina e ao acetato pela acetilcolinesterase (AChE) nessa estrutura. Aproximadamente 50% da colina retorna ao terminal pré-sináptico através do cotransporte de Na+-colina, para ser novamente usada na síntese de nova ACh. FIGURA 1.16 Sequência de eventos na transmissão neuromuscular. 1, O potencial de ação trafega pelo neurônio motor até o terminal pré-sináptico. 2, A despolarização do terminal pré-sináptico abre os canais de Ca2+ e estes íons fluem para dentro do terminal. 3, A acetilcolina (ACh) é liberada na fenda sináptica por exocitose. 4, A ACh se liga a seu receptor na placa motora. 5, Os canais de Na+ e K+ se abrem na placa motora. 6, A despolarização da placa motora gera potenciais de ação na membrana plasmática adjacente. 7, A ACh é degradada à colina e acetato pela acetilcolinesterase (AChE); a colina é captada pelo terminal pré-sináptico por um cotransportador de Na+-colina. FIGURA 1.17 Síntese e degradação da acetilcolina. Acetil CoA, Acetil coenzima A. Agentes que Alteram a Função Neuromuscular Diversos agentes interferem na atividade normal da junção neuromuscular; seus mecanismos de ação podem ser facilmente compreendidos ao considerarmos as etapas envolvidas na transmissão neuromuscular (Tabela 1.3; Figura 1.16). ♦ A toxina botulínica bloqueia a liberação de ACh dos terminais pré-sinápticos, o que interrompe completamente a transmissão neuromuscular, causa paralisia da musculatura esquelética e, por fim, morte por insuficiência respiratória. ♦ O curare compete com a ACh pelos receptores nicotínicos da placa motora, diminuindo o tamanho do PPM. Quando administrado em dose máxima, o curare provoca paralisia e morte. A D-tubocurarina, uma forma de curare, é terapeuticamente utilizada para relaxar a musculatura esquelética durante anestesias. Uma substância semelhante, a α- bungarotoxina, se liga irreversivelmente aos receptores de ACh. A ligação de α- bungarotoxina radioativa é uma ferramenta experimental para medir a densidade de receptores de ACh na placa motora. ♦ Os inibidores de AChE (anticolinesterases), como a neostigmina, impedem a degradação da ACh na fenda sináptica, prolongando e aumentando sua ação na placa motora. Os inibidores de ACh podem ser usados no tratamento da miastenia grave, uma doença caracterizada por fraqueza da musculatura esquelética e fadiga, em que os receptores de ACh são bloqueados por anticorpos (Quadro 1.5). ♦ O hemicolínio bloqueia a recaptação de colina pelos terminais pré-sinápticos, depletando os estoques de colina do terminal do neurônio motor e diminuindo a síntese de ACh. Tabela 1.3 Agentes que Afetam a Transmissão Neuromuscular Exemplo Ação Efeito na Transmissão Neuromuscular Toxina botulínica Bloqueia a liberação de ACh de terminais pré-sinápticos Bloqueio total, paralisia de músculos respiratórios e morte Curare Compete com a ACh por receptores na placa motora Diminui o tamanho do PPM; em doses máximas, causa paralisia dos músculos respiratórios e morte Neostigmina Inibidor de AChE (anticolinesterase) Prolonga e aumenta a ação da ACh na placa motora Hemicolínio Bloqueia a recaptação de colina pelo terminal pré-sináptico Depleta os estoques de ACh do terminal pré-sináptico ACh, Acetilcolina; AChE, acetilcolinesterase; PPM, potencial da placa motora. Q u a d r o 1 . 5 F is io logia Cl ínica : Miastenia Grave Descrição do caso Uma universitária de 18 anos procura o serviço médico estudantil queixando-se de fraqueza progressiva. Ela relata que, às vezes, suas pálpebras “caem” e que se cansa facilmente, mesmo durante a realização de tarefas cotidianas, como escovar os cabelos. Ela sofreu várias quedas ao subir escadas. Esses sintomas melhoram com o repouso. O médico solicitou exames de sangue, que revelaram elevação dos títulos de anticorpos contra receptores de ACh. Estudos de estimulação nervosa mostraram diminuição da responsividade da musculatura esquelética após a estimulação repetida de neurônios motores. A paciente foi diagnosticada com miastenia grave e está sendo tratada com piridostigmina. Após o tratamento, ela relata o retorno da força muscular. Explicação do caso A jovem apresenta miastenia grave clássica. Na forma autoimune da doença, há produção de anticorpos contra receptores de ACh nas placas motoras da musculatura esquelética. Seus sintomas de fraqueza muscular grave (músculos dos olhos, dos braços e das pernas) são explicados pela presença de anticorpos que bloqueiam os receptores de ACh. Embora a ACh seja liberada em quantidades normais pelos terminais dos neurônios motores, a ligação da ACh a seus receptores nas placas motoras é prejudicada. Uma vez que a ACh não consegue se ligar, não há despolarização da placa motora (PPM) nem geração de potenciais de ação normais na musculatura esquelética. Assim, há fraqueza muscular e fadiga. Tratamento O tratamento dos pacientes com miastenia grave depende do bom entendimento da fisiologia da junção neuromuscular. Uma vez que o quadro melhorou com a administração de piridostigmina (um inibidor de colinesterase [AChE] de ação prolongada), o sucesso do tratamento confirmou o diagnóstico de miastenia grave. A AChE na placa motora degrada normalmente a ACh (ou seja, a AChE interrompe a ação da ACh). Ao inibir a enzima de degradação de ACh com a piridostigmina, os níveis da molécula na junção neuromuscular continuam altos, aumentando o tempo para que haja a ativação dos receptores na placa motora. Assim, é possível produzir um PPM mais normal na fibra muscular, embora muitos receptores de ACh estejam bloqueados por anticorpos. Tipos de Disposição Sináptica Existem vários tipos de relação entre a entrada de uma sinapse (o elemento pré-sináptico) e sua saída (o elemento pós-sináptico): uma a uma, uma a muitas e muitas a uma. ♦ Sinapses uma a uma. A sinapse uma a uma é ilustrada pela junção neuromuscular (Figura 1.16). Um único potencial de ação na célula pré-sináptica, o neurônio motor, provoca um único potencial de ação na célula pós-sináptica, a fibra muscular. ♦ Sinapses uma a muitas. A sinapse uma a muitas é incomum, mas é encontrada, por exemplo, nas sinapses de neurônios motores com células de Renshaw da medula espinal. Um potencial de ação na célula pré-sináptica, o neurônio motor, causa uma explosão de potenciais de ação nas células pós-sinápticas. Esse arranjo amplifica a atividade. ♦ Sinapses muitas a uma. A sinapse muitas a uma é bastante comum no sistema nervoso. Nessas sinapses, um potencial de ação na célula pré-sináptica é insuficiente para evocar um potencial de ação na célula pós-sináptica. Ao invés disso, muitas células pré-sinápticas convergem até a célula pós-sináptica; esses impulsos se somam e determinam se a célula pós-sináptica irá disparar um potencial de ação. Impulso Sináptico – Potenciais Pós-Sinápticos Excitatórios e Inibitórios A disposição muitas a uma é uma configuração comum, na qualmuitas células pré-sinápticas convergem em uma única célula pós-sináptica; os impulsos são excitatórios ou inibitórios. A célula pós-sináptica integra todas as informações convergentes e, se a soma de impulsos for suficiente para trazê-la ao limiar, dispara um potencial de ação. Potenciais Pós-Sinápticos Excitatórios Os potenciais pós-sinápticos excitatórios (PPSEs) são impulsos sinápticos que despolarizam a célula pós-sináptica, aproximando o potencial de membrana do limiar e do disparo de um potencial de ação. Os PPSEs são produzidos, por exemplo, pela abertura de canais permeáveis a ambos o Na+ e o K+, como descrito anteriormente para o receptor nicotínico da ACh. Nesse caso, o potencial de membrana é levado a um valor aproximadamente intermediário entre os potenciais de equilíbrio desses dois íons, ou 0 mV, que é um estado despolarizado. PPSEs podem também ocorrer pela abertura de canais de Ca2+, ou pelo fechamento de canais de K+. Entre os neurotransmissores que podem causar PPSEs, incluem-se a ACh, a noradrenalina, a adrenalina, a dopamina, o glutamato e a serotonina. Potenciais Pós-Sinápticos Inibitórios Os potenciais pós-sinápticos inibitórios (PPSIs) são impulsos sinápticos que hiperpolarizam a célula pós-sináptica, distanciando o potencial de membrana do limiar e do disparo de um potencial de ação. Os PPSIs são produzidos pela abertura de canais de Cl-. O potencial de membrana é levado ao potencial de equilíbrio desse ânion (aproximadamente -90 mV), que é um estado hiperpolarizado. PPSIs podem também ocorrer pelo fechamento de canais de Na+ ou pela abertura de canais de K+. Os neurotransmissores que podem causar PPSIs são o ácido γ-aminobutírico (GABA) e a glicina. Integração da Informação Sináptica A informação pré-sináptica que chega à sinapse pode ser integrada de uma ou duas formas: espacial ou temporal. Somação Espacial A somação espacial ocorre quando dois ou mais impulsos pré-sinápticos chegam, simultaneamente, a uma célula pós-sináptica. Se ambos os impulsos forem excitatórios, serão combinados de forma a produzir uma despolarização maior do que a que seria obtida por qualquer um deles de maneira isolada. Se um impulso for excitatório e o outro inibitório, cancelam um ao outro. A somação espacial pode ocorrer mesmo quando os impulsos estão distantes no corpo celular do neurônio, já que a condução dos PPSEs e PPSIs pela membrana celular é bastante rápida. Somação Temporal A somação temporal ocorre quando dois impulsos pré-sinápticos chegam na célula pós-sináptica em rápida sucessão. A sobreposição temporal dos impulsos faz com que sejam somados. Outros Fenômenos que Alteram a Atividade Sináptica A facilitação, o aumento e a potenciação pós-tetânica são fenômenos que podem ocorrer nas sinapses. Em cada caso, a estimulação repetida faz com que a resposta da célula pós-sináptica seja maior do que a esperada. Acredita-se que o mecanismo básico comum seja a maior liberação de neurotransmissores nas sinapses, talvez causada pelo acúmulo de Ca2+ no terminal pré-sináptico. A potenciaação a longo prazo ocorre no armazenamento de memórias e envolve tanto a maior liberação de neurotransmissores de terminais pré-sinápticos quanto a maior sensibilidade das membranas pós-sinápticas a essas moléculas. A fadiga sináptica pode ocorrer quando a estimulação repetida produz uma resposta menor do que a esperada na célula pós-sináptica, talvez em decorrência da depleção dos estoques de neurotransmissores do terminal pré-sináptico. Neurotransmissores A transmissão da informação nas sinapses químicas depende da liberação de um neurotransmissor por uma célula pré-sináptica, sua difusão pela fenda sináptica e sua ligação a receptores específicos na membrana pós-sináptica, causando uma alteração no seu potencial de membrana. Os seguintes critérios são usados para formalmente designar uma substância como neurotransmissor: a substância deve ser sintetizada na célula pré-sináptica; deve ser liberada da célula pré-sináptica após a estimulação; e, se a substância for aplicada de forma exógena na membrana pós-sináptica em uma concentração fisiológica, a resposta da célula pós-sináptica deve mimetizar a resposta in vivo. As substâncias neurotransmissoras podem ser agrupadas nas seguintes categorias: ACh, aminas biogênicas, aminoácidos e neuropeptídeos (Tabela 1.4). Tabela 1.4 Classificação das Substâncias Neurotransmissoras Ésteres de Colina Aminas Biogênicas Aminoácidos Neuropeptídeos Acetilcolina (ACh) Dopamina Ácido γ-aminobutírico (GABA) Adrenocorticotropina (ACTH) Adrenalina Glutamato Colecistocinina Histamina Glicina Dinorfina Noradrenalina Endorfinas Serotonina Encefalinas Peptídeo liberador de gastrina (GRP) Peptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) Glucagon Neurofisina II Neurotensina Ocitocina Secretina Somatostatina Substância P Hormônio tireoestimulante (TRH) Vasopressina ou hormônio antidiurético (ADH) Peptídeo intestinal vasoativo (VIP) Acetilcolina O papel da acetilcolina (ACh) como neurotransmissor tem importância vital por diversos motivos. A ACh é o único neurotransmissor utilizado na junção neuromuscular. É o neurotransmissor liberado por todas as células pré-ganglionares e pela maioria dos neurônios pós-ganglionares na divisão parassimpática do sistema nervoso autônomo e por todos os neurônios pré-ganglionares da divisão simpática do sistema nervoso autônomo. É também o neurotransmissor liberado pelos neurônios pré- sinápticos que inervam a medula adrenal. A Figura 1.17 ilustra as vias de síntese e degradação da ACh. No terminal pré-sináptico, a colina e a acetil CoA se combinam para formar a ACh, em uma reação catalisada pela colina acetiltransferase. Quando a ACh é liberada pelo terminal nervoso pré-sináptico, se difunde pela membrana pós- sináptica, onde se liga a receptores nicotínicos, ativando-os. A AChE está presente na membrana pós- sináptica, onde degrada a ACh a colina e acetato. Essa degradação interrompe a ação da ACh na membrana pós-sináptica. Aproximadamente metade da colina liberada da degradação da ACh é recaptada pelo terminal pré-sináptico e reutilizada na nova síntese do neurotransmissor. Noradrenalina, Adrenalina e Dopamina A noradrenalina, a adrenalina e a dopamina são membros da mesma família das aminas biogênicas; essas moléculas compartilham um precursor comum, a tirosina, e uma via biossintética (Figura 1.18). A tirosina é convertida a L-dopa pela tirosina hidroxilase e a L-dopa é convertida a dopamina pela dopa descarboxilase. Em caso de presença de dopamina β-hidroxilase no terminal nervoso, a dopamina é convertida a noradrenalina. Na presença de feniletanolamina-N-metil transferase (PNMT) (com a S-adenosilmetionina como doador metil), a noradrenalina é metilada, formando a adrenalina. FIGURA 1.18 Síntese e degradação de dopamina, noradrenalina e adrenalina. COMT, Catecol-O-metiltransferase; MAO, monoamino oxidase. O neurotransmissor específico secretado depende de qual porção, ou quais porções, da via enzimática são encontradas em um determinado tipo de neurônio ou célula glandular. Assim, neurônios dopaminérgicos secretam dopamina porque o terminal nervoso pré-sináptico contém tirosina hidroxilase e dopa descarboxilase, mas não as outras enzimas. Os neurônios adrenérgicos secretam noradrenalina porque possuem dopamina β-hidroxilase, além de tirosina hidroxilase e dopa descarboxilase, mas não PNMT. A medula adrenal apresenta a via enzimática completa e, portanto, secreta principalmente adrenalina. A degradação da dopamina, da noradrenalina e da adrenalina a substâncias inativas ocorre por meio de duas enzimas: catecol-o-metiltransferase (COMT) e monoamina oxidase (MAO). A COMT, uma enzima metilante, não é encontrada em terminais nervosos, mas está amplamente distribuída pelos demais tecidos, inclusive o fígado. A MAO está localizada em terminais pré-sinápticos e catalisa a desaminação oxidativa. Um neurotransmissor degradado pela MAO deve ser recaptado pela sinapse. Cada uma das aminas biogênicas pode serdegradada apenas pela MAO, apenas pela COMT ou por ambas (em qualquer ordem). Assim, existem três possíveis produtos de degradação de cada neurotransmissor e, de modo geral, essas moléculas são excretadas na urina (Figura 1.18). O principal metabólito da noradrenalina é a metanefrina. O principal metabólito da adrenalina é a metaepinefrina. A noradrenalina e a adrenalina são degradadas a ácido 3-metoxi-4- hidroximandélico (VMA). Serotonina A serotonina, outra amina biogênica, é produzida a partir do triptofano em neurônios serotoninérgicos do encéfalo e do trato gastrintestinal (Figura 1.19). Após sua liberação dos neurônios pré-sinápticos, a serotonina pode retornar intacta ao terminal nervoso ou ser degradada no terminal pré-sináptico pela MAO a ácido 5-hidroxiindoleacético. Além disso, a serotonina é um precursor da melatonina na glândula pineal. FIGURA 1.19 Síntese e degradação da serotonina. MAO, Monoamina oxidase. Histamina A histamina, uma amina biogênica, é sintetizada a partir da histidina, em uma reação catalisada pela histidina descarboxilase. Essa molécula é encontrada em neurônios do hipotálamo, assim como em tecidos não neuronais, como os mastócitos do trato gastrintestinal. Glutamato O glutamato, um aminoácido, é o principal neurotransmissor excitatório do sistema nervoso central. Essa molécula desempenha um papel fundamental na medula espinal e no cerebelo. Existem quatro tipos de receptores de glutamato. Três deles são receptores ionotrópicos, ou canais iônicos dependentes de ligantes, incluindo o receptor NMDA (N-metil-D-aspartato), amplamente distribuído pelo sistema nervoso central. Um quarto subtipo é formado pelos receptores metabotrópicos, acoplados via proteínas ligantes de trifosfato de guanosina (GTP; proteínas G) a canais iônicos. Glicina A glicina, um aminoácido, é um neurotransmissor inibitório encontrado na medula espinal e no tronco encefálico. Seu mecanismo de ação é o aumento da condutância ao Cl- na membrana celular pós-sináptica. Ao aumentar a condutância ao Cl-, o potencial de membrana se aproxima do potencial de equilíbrio do íon. Assim, a membrana da célula pós-sináptica é hiperpolarizada ou inibida. Ácido γ-Aminobutírico (GABA) O ácido γ-aminobutírico (GABA) é um aminoácido e neurotransmissor inibitório amplamente distribuído pelo sistema nervoso central em neurônios GABAérgicos. O GABA é sintetizado a partir do ácido glutâmico, em uma reação catalisada pela enzima ácido glutâmico descarboxilase, encontrada apenas em neurônios GABAérgicos (Figura 1.20). Após sua liberação de neurônios pré-sinápticos e sua ação na membrana celular pós-sináptica, o GABA pode ser reciclado, voltando ao terminal pré- sináptico, ou ser degradado pela GABA transaminase, entrando no ciclo do ácido cítrico. Diferentemente de outros aminoácidos que atuam como neurotransmissores (p. ex., glutamato e glicina), o GABA não exerce qualquer função metabólica (ou seja, não é incorporado a proteínas). FIGURA 1.20 Síntese e degradação do ácido γ-aminobutírico (GABA). Os dois tipos de receptores de GABA nas membranas pós-sinápticas são GABAA e GABAB. O receptor GABAA está diretamente ligado a um canal de Cl- sendo, portanto, ionotrópico. Quando estimulado, aumenta a condutância ao Cl- e, assim, hiperpolariza (inibe) a célula pós-sináptica. O receptor GABAA é o sítio de ação dos benzodiazepínicos e barbitúricos no sistema nervoso central. O receptor GABAB está acoplado, via proteína G, a um canal de K+, sendo, portanto, metabotrópico. Quando estimulado, aumenta a condutância ao íon K+ e hiperpolariza a célula pós-sináptica. A doença de Huntington está associada à deficiência de GABA. A doença é caracterizada por movimentos coreiformes hipercinéticos relacionados à deficiência de GABA em projeções do estriado ao globo pálido. Os movimentos descontrolados característicos são, em parte, atribuídos à ausência de inibição dependente de GABA nas vias neurais. Óxido Nítrico O óxido nítrico (NO) é um neurotransmissor inibitório de ação breve no trato gastrintestinal e no sistema nervoso central. Nos terminais nervosos pré-sinápticos, a enzima NO sintase converte a arginina em citrulina e NO. Assim, o NO, um gás permeável, simplesmente se difunde do terminal pré- sináptico até sua célula-alvo (ao invés do usual empacotamento do neurotransmissor em vesículas sinápticas e sua liberação por exocitose). Além de atuar como neurotransmissor, o NO também atua na transdução de sinal da guanilil ciclase em diversos tecidos, incluindo a musculatura lisa vascular (Capítulo 4). Neuropeptídeos Os neuropeptídeos que atuam como neuromoduladores, neuro-hormônios e neurotransmissores formam uma lista longa e crescente (veja uma lista parcial na Tabela 1.4). ♦ Os neuromoduladores são substâncias que atuam nas células pré-sinápticas e alteram a quantidade de neurotransmissor liberado em resposta ao estímulo. Alternativamente, um neuromodulador pode ser secretado junto a um neurotransmissor, alterando a resposta da célula pós-sináptica a esse último. ♦ Os neuro-hormônios, como outros hormônios, são liberados por células secretoras (nesses casos, neurônios) no sangue e agem em um sítio distante. ♦ Em diversos casos, os neuropeptídeos são armazenados e secretados em conjunto com neurotransmissores clássicos nas vesículas pré-sinápticas. O peptídeo intestinal vasoativo (VIP), por exemplo, é armazenado e secretado com a ACh, principalmente em neurônios do trato gastrintestinal. A somatostatina, a encefalina e a neurotensina são secretadas com a noradrenalina. A substância P é secretada com a serotonina. Diferentemente dos neurotransmissores clássicos, que são sintetizados em terminais nervosos pré- sinápticos, os neuropeptídeos são sintetizados no corpo do neurônio. Como ocorre em todas as sínteses proteicas, o DNA da célula é transcrito em um RNA mensageiro específico, que é traduzido em polipeptídeos nos ribossomos. De modo geral, um polipeptídeo preliminar, contendo uma única sequência peptídica, é sintetizado primeiro. O peptídeo sinalizador é removido no retículo endoplasmático e o peptídeo final é entregue às vesículas secretoras. Essas vesículas, então, se movem rapidamente através do neurônio, por meio do transporte axonal, até o terminal pré-sináptico, onde formam as vesículas sinápticas. Purinas O ATP e a adenosina atuam como neuromoduladores nos sistemas nervosos central e autônomo. O ATP, por exemplo, é sintetizado por neurônios simpáticos que inervam a musculatura lisa vascular. É armazenado e secretado em conjunto com o neurotransmissor “comum” desses neurônios, a noradrenalina. Quando estimulado, o neurônio libera ATP e noradrenalina e ambos contraem a musculatura lisa; na verdade, a contração induzida por ATP precede aquela induzida pela noradrenalina. Musculatura esquelética A contração da musculatura esquelética está sob controle voluntário ou reflexo (involuntário). Cada célula da musculatura esquelética é inervada por um ramo de um motoneurônio. Os potenciais de ação são propagados pelos motoneurônios, levando à liberação de ACh na junção neuromuscular, o que despolariza a placa motora e inicia potenciais de ação na fibra muscular. Quais eventos, então, provocam a contração da fibra muscular? Esses eventos, que ocorrem entre o potencial de ação da fibra muscular e a contração da fibra, são denominados acoplamento excitação- contração. Os mecanismos do acoplamento excitação-contração em músculos esqueléticos e lisos são discutidos nesse capítulo, enquanto os mecanismos observados na musculatura cardíaca são discutidos no Capítulo 4. Filamentos Musculares Cada fibra muscular se comporta como uma única unidade, é multinucleada e contém miofibrilas. As miofibrilas são circundadas pelo RS e são invaginadas por túbulos transversos (túbulos T). Cada miofibrila contém filamentos finos e grossos, interdigitados, dispostos longitudinal e transversalmente em sarcômeros (Figura 1.21). As unidades repetidas de sarcômeros são responsáveis pelo exclusivo padrão em bandas observado na musculaturaestriada (que inclui os músculos esqueléticos e cardíacos). FIGURA 1.21 Estrutura dos filamentos grossos (A) e finos (B) da musculatura esquelética. A troponina é um complexo formado por três proteínas: I, Troponina I; T, troponina T; e C, troponina C. Filamentos Grossos Os filamentos grossos são compostos por uma proteína de alto peso molecular denominada miosina, que possui seis cadeias polipeptídicas, incluindo um par de cadeias pesadas e dois pares de cadeias leves (Figura 1.21A). A maior parte das cadeias pesadas da miosina apresenta uma estrutura em α- hélice, na qual duas cadeias se enrolam ao redor uma da outra, formando a “cauda” da molécula. As quatro cadeias leves e a porção N-terminal de cada cadeia pesada formam duas “cabeças” globulares na molécula de miosina. Essas cabeças globulares possuem um sítio de ligação à actina, necessário à formação das pontes cruzadas, e um sítio que se liga ao ATP, hidrolisando-o (ATPase da miosina). Filamentos Finos Os filamentos finos são compostos por três proteínas: actina, tropomiosina e troponina (Figura 1.21B). A actina é uma proteína globular e, nessa forma, é denominada actina G. Nos filamentos finos, a actina G é polimerizada em duas fitas, enroladas em uma estrutura α-helicoidal, formando a actina filamentosa, denominada actina F. A actina possui sítios de ligação à miosina. Quando um músculo está em repouso, os sítios de ligação à miosina são cobertos por tropomiosina, impedindo a interação entre actina e miosina. A tropomiosina é uma proteína filamentosa localizada na fenda entre cada filamento torcido de actina. Em repouso, sua função é bloquear os sítios de ligação à miosina da actina. Para que a contração ocorra, a tropomiosina precisa ser movida fora desse sítio para que a actina e a miosina possam interagir. A troponina é um complexo de três proteínas globulares (troponina T, troponina I e troponina C) localizado a intervalos regulares nos filamentos de tropomiosina. A troponina T (T de tropomiosina) liga o complexo troponina à tropomiosina. A troponina I (I de inibição), em conjunto com a tropomiosina, inibe a interação entre a actina e a miosina, recobrindo o sítio de ligação à miosina na actina. A troponina C (C de Ca2+) é uma proteína ligante de Ca2+ que desempenha um papel fundamental no início da contração muscular. Quando a concentração intracelular de Ca2+ aumenta, o íon se liga à troponina C, produzindo uma alteração conformacional no complexo da troponina. Essa alteração conformacional tira a tropomiosina do caminho, permitindo a ligação da actina às cabeças de miosina. Disposição dos Filamentos Grossos e Finos em Sarcômeros O sarcômero é a unidade contrátil básica e é delimitada por discos Z. Cada sarcômero contém uma banda A completa no centro e metade de duas bandas I a cada lado da banda A (Figura 1.22). FIGURA 1.22 Disposição dos filamentos grossos e finos da musculatura esquelética em sarcômeros. As bandas A estão localizadas no centro do sarcômero e contêm os filamentos grossos (de miosina), que são escuros quando vistos sob luz polarizada. Na banda A, os filamentos grossos e finos podem se sobrepor; essas áreas de sobreposição são possíveis sítios de formação de pontes cruzadas. As bandas I flanqueiam os dois lados da banda A e são claras à luz polarizada. Essas bandas possuem os filamentos finos (actina), as proteínas filamentosas intermediárias e os discos Z, mas não filamentos grossos. Os discos Z são estruturas de coloração escura que seguem pelo meio de cada banda I, delimitando as extremidades de cada sarcômero. A zona vazia está localizada no centro de cada sarcômero. Não existem filamentos finos na zona vazia; assim, nesta região, não há sobreposição de filamentos grossos e finos, nem a formação de pontes cruzadas. As linhas M dividem a zona vazia e contêm proteínas de coloração escura que unem as porções centrais aos filamentos grossos. Proteínas do Citoesqueleto As proteínas do citoesqueleto estabelecem a arquitetura das miofibrilas, garantindo que os filamentos grossos e finos se alinhem de maneira correta e em distâncias adequadas uns dos outros. As proteínas transversas do citoesqueleto unem filamentos grossos e finos, formando um arcabouço para as miofibrilas e unindo sarcômeros de miofibrilas adjacentes. Um sistema de filamentos intermediários mantém as miofibrilas juntas, lado a lado. Toda a estrutura miofibrilar está ancorada à membrana celular por uma proteína ligante de actina denominada distrofina (em pacientes com distrofia muscular, a distrofina é defeituosa ou inexistente). Entre as proteínas longitudinais do citoesqueleto, estão duas proteínas grandes, denominadas titina e nebulina. A titina, associada aos filamentos grossos, é uma proteína de alto peso molecular que se estende das linhas M aos discos Z. Parte da molécula de titina passa por dentro do filamento grosso; o restante da molécula, que é elástico ou em formato de mola, está ancorado ao disco Z. Conforme a extensão do sarcômero se altera, a porção elástica da molécula de titina também muda. A titina também ajuda a centralizar os filamentos grossos no sarcômero. A nebulina está associada aos filamentos finos. Uma única molécula de nebulina se estende de uma extremidade do filamento fino à outra. A nebulina atua como uma “régua molecular”, determinando a extensão dos filamentos finos durante sua montagem. A α-actinina ancora os filamentos finos ao disco Z. Os Túbulos Transversos e o Retículo Sarcoplasmático Os túbulos transversos (T) são uma extensa rede de membranas de células musculares (membranas sarcolemais) que se invaginam profundamente na fibra muscular. Os túbulos T são responsáveis por propagar a despolarização dos potenciais de ação na superfície dos miócitos para o interior da fibra. Os túbulos T fazem contato com a cisterna terminal do RS e possuem uma proteína sensível à voltagem, denominada receptor de diidropiridina graças ao fármaco que a inibe (Figura 1.23). FIGURA 1.23 Túbulos transversos e retículo sarcoplasmático (RS) da musculatura esquelética. Os túbulos transversos são contínuos às membranas sarcolemais e se invaginam profundamente na fibra muscular, fazendo contato com as cisternas terminais do RS. O retículo sarcoplasmático (RS) é uma estrutura tubular interna que é o sítio de armazenamento e liberação de Ca2+ para o acoplamento excitação-contração. Como já discutido, a cisterna terminal do RS faz contato com os túbulos T em um arranjo em tríade. O RS contém um canal liberador de Ca2+ denominado receptor de rianodina (assim chamado graças ao alcaloide vegetal que abre seu canal de liberação). O significado da relação física entre os túbulos T (e seu receptor de diidropiridina) e o RS (e seu receptor de rianodina) é descrito na seção referente ao acoplamento excitação-contração. O Ca2+ se acumula no RS pela ação da Ca2+ ATPase (SERCA) na membrana da organela. A Ca2+ ATPase bombeia o íon do LIC da fibra muscular para o interior do RS, mantendo sua concentração baixa quando a fibra está em repouso. No interior do RS, o Ca2+ se liga à calsequestrina, uma proteína ligante do íon de baixa afinidade e alta capacidade. Ao se ligar ao Ca2+, a calsequestrina ajuda a manter uma baixa concentração do íon livre no interior do RS, reduzindo o trabalho da bomba Ca2+ ATPase. Assim, uma grande quantidade de Ca2+ pode ser armazenada no interior do RS em forma ligada, ao mesmo tempo em que a concentração de Ca2+ livre permanece extremamente baixa. Acoplamento Excitação-Contração na Musculatura Esquelética O mecanismo que converte o potencial de ação muscular em produção de tensão é o acoplamento excitação-contração. A Figura 1.24 mostra as relações temporais entre um potencial de ação na fibra muscular esquelética, o subsequente aumento da concentração intracelular de Ca+2 livre (que é liberado do RS) e a contração da fibra muscular. Essas relações temporais são muito importantes, já que o potencial de ação sempre precede o aumento da concentração intracelular de Ca2+, que sempre precede a contração.os princípios subjacentes da fisiologia celular e do sistema nervoso autônomo. Os Capítulos 3 a 10, os principais sistemas orgânicos: neurofisiologia e fisiologia cardiovascular, respiratória, renal, acidobásica, gastrintestinal, endócrina e reprodutiva. As relações entre os sistemas orgânicos são enfatizadas para destacar os mecanismos integrativos da homeostase. Nesta edição, as seguintes características facilitam o estudo da fisiologia: ♦ O texto é fácil de ler e conciso: cabeçalhos claros orientam o aluno quanto à organização e à hierarquia do material. As informações fisiológicas complexas são apresentadas de forma sistemática, lógica e gradual. Quando o processo ocorre em uma sequência específica, as etapas são numeradas no texto e, de modo geral, correlacionadas com números mostrados na figura correspondente. Marcadores são usados para separar e destacar as características de um processo. Em todo o texto, perguntas retóricas antecipam as dúvidas que os alunos possam ter; ao ver e, então, responder a essas perguntas, o aluno aprende a explicar conceitos difíceis e racionalizar achados inesperados ou paradoxais. Os resumos dos capítulos fazem recapitulações curtas. ♦ Tabelas e ilustrações que podem ser usadas com o texto ou, por serem autoexplicativas, como revisão: as tabelas resumem, organizam e comparam as informações. Exemplos são (1) a tabela que compara os hormônios gastrintestinais quanto à família hormonal, ao local e ao estímulo para a secreção e as ações de cada molécula; (2) a tabela que compara as características fisiopatológicas dos distúrbios da homeostase de Ca2+; e (3) a tabela que compara as características do potencial de ação em diferentes tecidos cardíacos. As ilustrações são identificadas de maneira clara e apresentam cabeçalhos principais, diagramas simples, diagramas complexos com etapas numeradas e fluxogramas. ♦ Equações e exemplos de problema integrados ao texto: todos os termos e unidades das equações são definidos e cada equação é reescrita em palavras, a fim de colocá-la em seu contexto fisiológico. Os exemplos de problema são acompanhados por soluções numéricas completas e explicações que orientam os alunos ao longo das etapas adequadas de resolução; seguindo essas etapas, os alunos ganham as habilidades e a confiança para resolver problemas similares. ♦ Fisiologia clínica, apresentada em quadros: cada quadro traz um paciente fictício com uma doença clássica. Os achados clínicos e o tratamento proposto são explicados conforme os princípios fisiológicos subjacentes. A abordagem ao paciente é integrada, enfatizando as relações entre os sistemas orgânicos. Por exemplo, o caso do diabetes mellitus tipo I discute a doença não apenas do sistema endócrino, mas também dos sistemas renal, acidobásico, respiratório e cardiovascular. ♦ Perguntas práticas nas seções “Desafie-se” ao final de cada capítulo: as perguntas, feitas de forma a terem respostas curtas (uma palavra, uma frase ou uma solução numérica), desafiam o aluno a aplicar os princípios e conceitos à solução de problemas, e não relembrar fatos isolados. As perguntas, que são de diversos formatos e colocadas em ordem aleatória, serão mais eficazes se usadas como ferramentas após o estudo de cada capítulo e sem consultar o texto. Dessa forma, o aluno pode confirmar sua compreensão do material e determinar suas áreas de deficiência. As respostas são dadas no final do livro. ♦ Vídeos didáticos sobre tópicos selecionados: uma vez que a explicação oral de princípios complexos pode ajudar os alunos, pequenos vídeos didáticos sobre tópicos selecionados complementam o texto escrito. ♦ Abreviações e valores normais apresentados em apêndices: ao consultar e utilizar essas abreviações e valores comuns por todo o livro, os alunos os memorizam com naturalidade. Este livro incorpora três de minhas crenças sobre o ensino: (1) mesmo informações complexas podem ser transmitidas com clareza se a apresentação for sistemática, lógica e gradual; (2) a apresentação pode ser tão eficaz por escrito quanto pessoalmente; e (3) os alunos que começam a estudar medicina querem materiais de ensino precisos e com didática forte, mas sem os detalhes que interessam principalmente aos especialistas. Em essência, um livro pode “ensinar” se a voz do professor estiver presente, o material for cuidadosamente selecionado para inclusão de informações essenciais e se houver muito cuidado quanto à lógica e à sequência. Este texto é uma apresentação realista e profissional escrita para alunos. Espero que os leitores deste livro gostem do estudo da fisiologia. Aqueles que aprendem bem seus princípios serão recompensados ao longo de suas carreiras profissionais! Linda S. Costanzo Agradecimentos Agradeço muito a Elyse O’Grady, Jennifer Ehlers e Dan Fitzgerald, da Elsevier, pelas contribuições no preparo da sexta edição de Fisiologia. Ao artista Matthew Chansky, que revisou as figuras existentes e criou novas ilustrações que complementam lindamente o texto. Aos colegas da Virginia Commonwealth University, que responderam prontamente às minhas dúvidas, em especial aos Drs. Clive Baumgarten, Diomedes Logothetis, Roland Pittman e Raphael Witorsch. Também agradeço sinceramente aos alunos de medicina de todo o mundo que, de forma generosa, escreveram para mim sobre suas experiências com as edições anteriores do livro. A meu marido, Richard; aos nossos filhos, Dan e Rebecca; à nossa nora, Sheila; e aos nossos netos, Elise e Max, que me deram o apoio entusiasmado e o amor incondicional que permeiam este livro. C A P Í T U L O 1 Fisiologia Celular Volume e Composição dos Fluidos Corpóreos, Características das Membranas Celulares, Transporte Através das Membranas Celulares, Potenciais de Difusão e Potenciais de Equilíbrio, Potencial de Membrana em Repouso, Potenciais de Ação, Transmissão Sináptica e Neuromuscular, Musculatura Esquelética, Musculatura Lisa, Resumo, Desafie-se, O entendimento das funções dos sistemas de órgãos requer um profundo conhecimento dos mecanismos celulares básicos. Embora cada sistema de órgãos tenha uma função geral diferente, todos têm como base um conjunto comum de princípios fisiológicos. Os seguintes princípios básicos de fisiologia são introduzidos neste capítulo: os fluidos corpóreos, com ênfase nas diferenças de composição dos líquidos intracelular e extracelular; a criação dessas diferenças de concentração por meio de processos de transporte nas membranas celulares; a origem da diferença de potencial elétrico através das membranas celulares, em especial em células excitáveis, como neurônios e células musculares; a geração de potenciais de ação e sua propagação em células excitáveis; a transmissão da informação entre células por meio de sinapses e o papel dos neurotransmissores; e os mecanismos que acoplam os potenciais de ação à contração das células musculares. Esses princípios da fisiologia celular formam um conjunto de assuntos recorrentes e interligados. Depois de entendidos, esses princípios podem ser aplicados e integrados à função de cada sistema de órgãos. Volume e composição dos fluidos corpóreos Distribuição da Água nos Compartimentos de Fluidos Corpóreos No corpo humano, a água constitui grande parte do peso corpóreo. A quantidade total de líquido ou água é denominada água corpórea total e é responsável por 50% a 70% do peso corpóreo. Um homem de 70 quilogramas (kg), por exemplo, cuja água corpórea total equivale a 65% de seu peso corpóreo, apresenta 45,5 kg ou 45,5 litros (L) de água (1 kg de água ≈ 1 L de água). De modo geral, a água corpórea total é inversamente correlacionada à gordura corpórea. Assim, a porcentagem de água corpórea total é maior quando a quantidade de gordura corpórea é baixa e é menor se a quantidade de gordura corpórea for alta. Uma vez que mulheres apresentam maior porcentagem de tecido adiposo do que homens, tendem a ter menos água corpórea. A distribuição da água entre os compartimentos dos fluidos corpóreos é brevemente descrita neste capítuloFIGURA 1.24 Sequência temporal de eventos no acoplamento excitação-contração da musculatura esquelética. O potencial de ação do músculo precede o aumento na concentração intracelular de Ca2+, que é anterior à contração. As etapas envolvidas no acoplamento excitação-contração são descritas a seguir e ilustradas na Figura 1.25 (a Etapa 6 é mostrada na Figura 1.26): 1. Os potenciais de ação na membrana do miócito são propagados aos túbulos T pela disseminação de correntes locais. Assim, os túbulos T que são contínuos à membrana sarcolemal propagam a despolarização da superfície para o interior da fibra muscular. 2a. e b. A despolarização dos túbulos T provoca uma alteração conformacional crítica nos receptores de diidropiridina sensíveis à voltagem. Essa alteração conformacional abre os canais de liberação de Ca2+ (receptores de rianodina) no RS próximo (embora os receptores de diidropiridina dos túbulos T sejam canais de Ca2+ dependentes de voltagem do tipo L, o influxo dos íons para célula através desses canais não é necessário para o acoplamento excitação-contração na musculatura esquelética). 3. Quando esses canais de liberação de Ca2+ se abrem, o íon sai de seu sítio de armazenamento no RS para o LIC da fibra muscular, aumentando a concentração intracelular de Ca2+. Em repouso, a concentração intracelular de Ca2+ livre é inferior a 10-7 M. Após sua liberação do RS, essas concentrações aumentam a nível de 10-7 para 10-6 M. 4. O Ca2+ se liga à troponina C dos filamentos finos, provocando uma alteração conformacional no complexo da troponina. A troponina C pode se ligar a até 4 íons Ca2+ por molécula de proteína. Uma vez que essa ligação é cooperativa, cada molécula ligada de Ca2+ aumenta a afinidade da troponina C pelo próximo Ca2+. Assim, até mesmo um pequeno aumento na concentração de Ca2+ eleva a probabilidade de que todos os sítios de ligação sejam ocupados, de modo a produzir a alteração conformacional necessária no complexo da troponina. 5. A alteração conformacional da troponina resulta em que a tropomiosina (que, anteriormente, bloqueava a interação entre a actina e a miosina) saia do caminho, possibilitando o início do ciclo das pontes cruzadas. Quando a tropomiosina sai, os sítios de ligação da miosina na actina, previamente cobertos, são expostos. 6. Ciclo das pontes cruzadas. Com o Ca2+ ligado à troponina C e a tropomiosina fora do caminho, as cabeças de miosina podem agora se ligar à actina, formando as chamadas pontes cruzadas. A formação de pontes cruzadas está associada à hidrólise do ATP e à geração de força. A sequência de eventos do ciclo das pontes cruzadas é mostrada na Figura 1.26. A) No início do ciclo, não há ATP ligado à miosina, que está bem unida à actina na posição de “rigor”. No músculo em rápida contração, esse estado é muito breve. Na ausência de ATP, porém, esse estado é permanente (ou seja, rigor mortis). B) A ligação de ATP à fenda atrás da cabeça da miosina produz uma alteração conformacional na molécula que diminui sua afinidade pela actina; assim, a miosina é liberada do sítio original de ligação à actina. C) A fenda se fecha ao redor da molécula de ATP ligado, produzindo outra mudança conformacional que causa o deslocamento da miosina em direção à extremidade positiva da actina. O ATP é hidrolisado a ADP e Pi, permanecendo ligado à miosina. D) A miosina se liga a um novo sítio na actina (em direção a sua extremidade positiva), gerando força ou tensão. Em cada ciclo das pontes cruzadas, a cabeça da miosina “caminha” por 10 nanômetros (10-8 metros) pelo filamento de actina. E) O ADP é liberado e a miosina retorna a seu estado original, sem nucleotídeos ligados (A). O ciclo das pontes cruzadas continua, com a miosina “caminhando” em direção à extremidade positiva do filamento de actina, desde que o Ca2+ continue ligado à troponina C. 7. O relaxamento ocorre quando o Ca2+ volta a se acumular no RS, graças à ação da Ca2+ ATPase da membrana da organela (SERCA). Quando a concentração intracelular de Ca2+ cai a menos de 10-7 M, não há íons suficientes para a ligação à troponina C. Quando o Ca2+ é liberado da troponina C, a tropomiosina retorna a sua posição de repouso, bloqueando novamente o sítio de ligação da miosina na actina. Enquanto a concentração intracelular de Ca2+ for baixa, o ciclo das pontes cruzadas não pode ocorrer e a musculatura fica relaxada. FIGURA 1.25 Etapas na excitação-contração da musculatura esquelética. RS, Retículo sarcoplasmático; túbulos T, túbulos transversos. Veja a explicação dos números circundados no texto. FIGURA 1.26 Ciclo das pontes cruzadas na musculatura esquelética. Mecanismo pelo qual a miosina “anda” em direção à extremidade positiva do filamento de actina. A-E, Veja a discussão no texto. ADP, Difosfato de adenosina; ATP, trifosfato de adenosina; Pi, fosfato inorgânico. O ciclo das pontes cruzadas produz força (tensão) nos elementos contráteis. Para que essa força seja transmitida para a superfície do músculo, uma série de elementos elásticos (p. ex., titina) deve, antes, ser distendida. Como isso, há um retardo na transmissão de força das pontes cruzadas para a superfície do músculo (Figura 1.24). Com o fim do ciclo das pontes cruzadas, há também um retardo na queda da tensão muscular; a série de elementos elásticos continua distendida e, assim, a transmissão de força para a superfície do músculo continua após a redução da concentração intracelular de Ca2+ e o término do ciclo das pontes cruzadas. Mecanismo da Contração Tetânica Um único potencial de ação provoca a liberação de uma quantidade fixa de Ca2+ do RS, produzindo um único evento contrátil (abalo isolado). O abalo termina (ou seja, há relaxamento) quando o RS volta a acumular Ca2+. Com a estimulação muscular repetida, porém, não há tempo suficiente para que o RS volte a acumular Ca2+ e a concentração intracelular do íon nunca retorna aos baixos níveis existentes durante o relaxamento. Ao invés disso, a concentração intracelular de Ca2+ permanece alta, levando à contínua ligação do íon à troponina C e, consequentemente, à manutenção do ciclo das pontes cruzadas. Nesse estado, há uma contração permanente denominada tetânica, ao invés de um abalo isolado. Relação Comprimento-Tensão A relação comprimento-tensão no músculo se refere ao efeito do comprimento da fibra muscular sobre a tensão que ela pode desenvolver (Figura 1.27). A tensão é determinada durante uma contração isométrica do músculo, em que se permite o desenvolvimento de tensão em um comprimento pré-determinado (chamado pré-carga), mas não seu encurtamento (imagine tentar levantar um peso de 250 kg. A tensão desenvolvida seria enorme, mas não haveria encurtamento ou movimentação muscular!). As seguintes medidas de tensão podem ser feitas como função do comprimento predeterminado (ou pré-carga): ♦ A tensão passiva é aquela desenvolvida pelo simples alongamento de um músculo em diferentes comprimentos (pense na tensão produzida por um elástico progressivamente esticado a comprimentos maiores). ♦ A tensão ativa é determinada pela subtração da tensão passiva da tensão total. Representa a força ativa desenvolvida pelo ciclo das pontes cruzadas. ♦ A tensão total é aquela desenvolvida quando um músculo é estimulado a se contrair em diferentes pré-cargas. É a soma da tensão ativa desenvolvida pelo ciclo das pontes cruzadas nos sarcômeros e pela tensão passiva provocada pelo alongamento do músculo. FIGURA 1.27 Relação comprimento-tensão na musculatura esquelética. A tensão ativa máxima ocorre nos comprimentos musculares em que há sobreposição máxima de filamentos grossos e finos. A incomum relação entre a tensão ativa e o comprimento muscular é a relação comprimento- tensão e pode ser explicada pelos mecanismos envolvidos no ciclo das pontes cruzadas (Figura 1.27). A tensão ativa desenvolvida é proporcional ao número de pontes cruzadas daquele ciclo. A tensão ativa, portanto, é máxima quando a sobreposição de filamentos finos e grossos e o número possível de pontes cruzadas tambémsão máximos. Quando um músculo é estirado a extensões maiores, o número de pontes cruzadas possíveis diminui, assim como a tensão ativa. Da mesma forma, quando a extensão do músculo diminui, os filamentos finos colidem uns com os outros no centro do sarcômero, reduzindo o número de pontes cruzadas possíveis e a tensão ativa. Relação Força-Velocidade A relação força-velocidade, mostrada na Figura 1.28, descreve a velocidade do encurtamento quando a força contra a qual o músculo se contrai, a pós-carga, varia (Figura 1.28, esquerda). Diferentemente da relação comprimento-tensão, a relação força-velocidade é determinada permitindo o encurtamento do músculo. A força, ao invés do comprimento, é fixa e, portanto, é denominada contração isotônica. A velocidade de encurtamento reflete a velocidade do ciclo das pontes cruzadas. Como é intuitivamente óbvio, a velocidade do encurtamento é máxima (Vmáx) quando a pós-carga muscular é zero. Conforme a pós-carga sobre o músculo aumenta, a velocidade diminui, já que o ciclo das pontes cruzadas pode ser mais lento contra uma resistência maior. Com o aumento ainda maior da pós-carga, a velocidade de encurtamento é reduzida a zero. (imagine a rapidez com que você pode levantar uma pena em comparação a uma tonelada de tijolos!). FIGURA 1.28 Velocidade inicial do encurtamento como função da pós-carga na musculatura esquelética. O efeito da pós-carga sobre a velocidade de encurtamento pode ser também demonstrado pela fixação do músculo em um comprimento predeterminado (pré-carga) e, então, medindo a velocidade de encurtamento em vários níveis de pós-carga (Figura 1.28, direita). Uma “família” de curvas é gerada, na qual cada uma representa uma pré-carga fixa diferente. As curvas sempre se intersectam em Vmáx, o ponto onde a pós-carga é zero e a velocidade de encurtamento é máxima. Musculatura lisa A musculatura lisa não possui estriações, o que a diferencia dos músculos esqueléticos e cardíaco. As estriações encontradas nos músculos esqueléticos e cardíaco são criadas pelos padrões em banda dos filamentos grossos e finos dos sarcômeros. Na musculatura lisa, não há estriações, já que os filamentos grossos e finos, mesmo estando presentes, não estão organizados em sarcômeros. A musculatura lisa é encontrada nas paredes de órgãos ocos, como os do trato gastrintestinal, a bexiga e o útero, assim como na vasculatura, nos ureteres, nos bronquíolos e nos músculos dos olhos. A musculatura lisa tem duas funções: produzir motilidade (p. ex., para propelir o quimo pelo trato gastrintestinal ou a urina pelos ureteres) e manter a pressão (p. ex., musculatura lisa das paredes dos vasos sanguíneos). Tipos de Músculos Lisos Os músculos lisos são classificados como multiunitários ou unitários, dependendo do acoplamento elétrico entre suas células. Os músculos lisos unitários apresentam junções comunicantes entre as células, que permitem a rápida disseminação da atividade elétrica pelos órgãos, seguida pela contração coordenada. No músculo liso multiunitário, o acoplamento entre as células é pequeno ou mesmo nulo. Um terceiro tipo, uma combinação entre músculos unitários e multiunitários, é observado na musculatura lisa vascular. Musculatura Lisa Unitária A musculatura lisa unitária é encontrada no trato gastrintestinal, na bexiga, no útero e no ureter. Nesses órgãos, o músculo liso se contrai de forma coordenada, já que as células são unidas por junções comunicantes. Essas junções são vias de baixa resistência para o fluxo de corrente, que permitem o acoplamento elétrico entre as células. Os potenciais de ação, por exemplo, ocorrem simultaneamente em todas as células da musculatura lisa da parede da bexiga, de modo que todo o órgão pode se contrair (e esvaziar) de uma vez. A musculatura lisa unitária é também caracterizada pela atividade espontânea de marca-passo, ou ondas lentas. A frequência de ondas lentas determina um padrão característico de potenciais de ação em um órgão, que, então, determina a frequência de contrações. Musculatura Lisa Multiunitária A musculatura lisa multiunitária está presente na íris, nos músculos ciliares do cristalino e nos ductos deferentes. Cada fibra muscular se comporta como uma unidade motora separada (similar ao músculo esquelético) e o acoplamento entre as células é pequeno ou nulo. As células da musculatura lisa multiunitária são densamente inervadas por fibras pós-ganglionares dos sistemas nervosos parassimpático e simpático e são esses que regulam a sua função. Acoplamento Excitação-Contração na Musculatura Lisa O mecanismo do acoplamento excitação-contração na musculatura lisa é diferente daquele observado na musculatura esquelética. Lembre-se que, no músculo esquelético, a ligação entre a actina e a miosina pode ocorrer quando o Ca2+ se liga à troponina C. Nos músculos lisos, porém, não há troponina. Ao invés disso, a interação entre a actina e a miosina é controlada pela ligação do Ca2+ a outra proteína, a calmodulina. O complexo Ca2+-calmodulina, por sua vez, regula a quinase da cadeia leve de miosina, que regula o ciclo das pontes cruzadas. Etapas do Acoplamento de Excitação-Contração na Musculatura Lisa As etapas envolvidas no acoplamento de excitação-contração da musculatura lisa são ilustradas na Figura 1.29 e ocorrem da seguinte forma: 1. A depolarização da musculatura lisa abre canais de Ca2+ dependentes de voltagem na membrana sarcolemal. Com esses canais abertos, o Ca2+ entra na célula, seguindo seu gradiente eletroquímico. Esse influxo de Ca2+ do LEC provoca um aumento na concentração intracelular de Ca2+. Diferentemente da musculatura esquelética, em que potenciais de ação são necessários para que haja contração, na musculatura lisa, a despolarização sublimiar (que não leva a um potencial de ação) pode abrir esses canais de Ca2+ dependentes de voltagem e aumentar a concentração intracelular de Ca2+. Se a despolarização da membrana da musculatura lisa atingir o limiar, potenciais de ação podem ocorrer, provocando despolarização ainda maior e abertura ainda maior dos canais de Ca2+ dependentes de voltagem. O Ca2+ que entra nas células da musculatura lisa por meio dos canais de Ca2+ dependentes de voltagem liberam mais Ca2+ do RS (em um processo chamado liberação de Ca2+ induzida por Ca2+). Assim, o aumento da concentração intracelular de Ca2+ se deve, em parte, pela entrada do íon através da membrana sarcolemal e, em parte, pela liberação de Ca2+ dos estoques intracelulares no RS. 2. Dois outros mecanismos podem contribuir para o aumento da concentração intracelular de Ca2+: os canais de Ca2+ dependentes de ligantes e os canais de liberação de Ca2+ dependentes de IP3. Os canais de Ca2+ dependentes de ligantes da membrana sarcolemal podem ser abertos de forma direta por diversos hormônios e neurotransmissores, permitindo a entrada de mais Ca2+ do LEC. Os canais de liberação de Ca2+ dependentes de IP3 na membrana do RS podem ser abertos indiretamente por hormônios e neurotransmissores. Esses dois mecanismos podem aumentar a elevação da concentração intracelular de Ca2+ causada pela despolarização. 3. O aumento da concentração intracelular de Ca2+ faz com que esse íon se ligue à calmodulina. Como a troponina C na musculatura esquelética, a calmodulina se liga a quatro íons de Ca2+ de maneira cooperativa. O complexo Ca2+-calmodulina se liga à quinase da cadeia leve da miosina, ativando-a. 4. Quando ativada, a quinase da cadeia leve da miosina fosforila a cadeia leve da miosina. Quando a cadeia leve da miosina é fosforilada, a conformação da cabeça da molécula é alterada, aumentando, enormemente, sua atividade ATPase (por outro lado, a atividade ATPase da miosina da musculatura esquelética é sempre alta). O aumento da atividade ATPase da miosina permite sua ligação à actina, iniciando o ciclo das pontes cruzadas e a produção de tensão. A tensão é proporcional à concentração intracelular de Ca2+. 5. O complexo Ca2+-calmodulina, além de provocar os efeitos anteriormente descritos sobre a miosina, também atua sobreduas proteínas dos filamentos finos, a calponina e a caldesmona. Em baixas concentrações intracelulares de Ca2+, a calponina e a caldesmona se ligam à actina, inibindo a atividade ATPase da miosina e impedindo a interação entre a actina e a miosina. Quando a concentração intracelular de Ca2+ aumenta, o complexo Ca2+- calmodulina provoca a fosforilação da calponina e da caldesmona, liberando sua inibição da ATPase da miosina e facilitando a formação de pontes cruzadas entre a actina e a miosina. 6. O relaxamento da musculatura lisa ocorre quando a concentração intracelular de Ca2+ fica abaixo do necessário à formação de complexos Ca2+-calmodulina. Uma queda na concentração intracelular desse íon pode ser provocada por diversos mecanismos, incluindo a hiperpolarização (que fecha os canais de Ca2+ dependentes de voltagem); a inibição direta dos canais de Ca2+ por ligantes, como o AMP cíclico e o monofosfato cíclico de guanosina (GMPc); a inibição da produção de IP3 e a redução da liberação de Ca2+ do RS; e o aumento da atividade Ca2+ ATPase no RS. Além disso, o relaxamento da musculatura lisa envolve a ativação da fosfatase da cadeia leve da miosina, que desfosforila a cadeia leve da molécula, inibindo sua atividade ATPase. FIGURA 1.29 A sequência dos eventos musculares na contração da musculatura lisa. ADP, Difosfato de adenosina; ATP, trifosfato de adenosina; ATPase, adenosina trifosfatase; IP3, 1,4,5- trifosfato de inositol; Miosina∼P, miosina fosforilada; Pi, fosfato inorgânico; RS, retículo sarcoplasmático. Mecanismos que Aumentam a Concentração Intracelular de Ca2+ na Musculatura Lisa A despolarização da musculatura lisa abre os canais de Ca2+ dependentes de voltagem do sarcolema e o íon do LEC entra na célula. Como já mencionado, esta é a única fonte de Ca2+ para a contração. O Ca2+ também pode entrar na célula por meio de canais dependentes de ligantes na membrana sarcolemal ou ainda ser liberado do RS por mecanismos mediados por segundo mensageiro (IP3) (Figura 1.30). (Por outro lado, lembre-se que, na musculatura esquelética, o aumento da concentração intracelular de Ca2+ é causado exclusivamente pela liberação do RS — o Ca2+ do LEC não entra na célula). Os três mecanismos envolvidos na entrada de Ca2+ na musculatura lisa são descritos a seguir: ♦ Os canais de Ca2+ dependentes de voltagem são canais sarcolemais de Ca2+ que se abrem quando há despolarização do potencial da membrana celular. Assim, os potenciais de ação na membrana da célula muscular lisa provocam a abertura dos canais de Ca2+ dependentes de voltagem, permitindo que o íon flua a favor de seu gradiente de potencial eletroquímico. ♦ Os canais de Ca2+ dependentes de ligantes também são encontrados na membrana sarcolemal. Esses canais não são regulados por alterações no potencial de membrana, mas sim por eventos mediados por receptores. Diversos hormônios e neurotransmissores interagem com receptores específicos na membrana sarcolemal, que são acoplados, por meio da proteína ligante de GTP (proteína G), a canais de Ca2+. Com o canal aberto, o Ca2+ entra na célula seguindo seu gradiente eletroquímico. (As proteínas G são mais discutidas nos Capítulos 2 e 9), ♦ Os canais de Ca2+ dependentes de IP3 são encontrados na membrana do RS. O processo começa na membrana celular, mas a fonte de Ca2+ é o RS, não o LEC. Os hormônios ou neurotransmissores interagem com receptores específicos na membrana sarcolemal (p. ex., noradrenalina com receptores α1). Esses receptores são acoplados por uma proteína G à fosfolipase C (PLC). A PLC catalisa a hidrólise do 4,5-difosfato de fosfatidilinositol (PIP2) a IP3 e diacilglicerol (DAG). O IP3, então, se difunde até o RS, que abre os canais de liberação de Ca2+ (similar ao mecanismo do receptor de rianodina na musculatura esquelética). Quando os canais de Ca2+ estão abertos, o íon flui de seu sítio de armazenamento no RS para o LIC. (A ação hormonal mediada por IP3 é discutida no Capítulo 9). FIGURA 1.30 Mecanismos para aumento da [Ca2+] intracelular na musculatura lisa. ATP, Trifosfato de adenosina; G, proteína ligante de GTP (proteína G); IP3, 1,4,5-trifosfato de inositol; PIP2, 4,5-difosfato de fosfatidilinositol; PLC, fosfolipase C; R, receptor para hormônio ou neurotransmissor. Alterações Independentes de Ca2+ na Contração da Musculatura Lisa Além dos mecanismos contráteis da musculatura lisa que dependem de alterações na concentração intracelular de Ca2+, o grau de contração pode também ser regulado por mecanismos independentes desse íon. Na presença de uma concentração intracelular constante de Ca2+, por exemplo, caso haja ativação da quinase da cadeia leve da miosina, mais pontes cruzadas são criadas e mais tensão é produzida (sensibilização por Ca2+); por outro lado, em caso de ativação da fosfatase da cadeia leve da miosina, menos pontes cruzadas se formam e menos tensão é produzida (dessensibilização por Ca2+). Resumo ▪ A água, o principal componente do corpo, se distribui entre os dois compartimentos principais, o LIC e o LEC. O LEC se divide ainda entre o plasma e o líquido intersticial. As diferenças na composição do LIC e do LEC são criadas e mantidas por proteínas de transporte localizadas nas membranas celulares. ▪ O transporte pode ser passivo ou ativo. Quando o transporte ocorre segundo um gradiente eletroquímico, é passivo e não consome energia. Quando o transporte ocorre contra um gradiente eletroquímico, é ativo. A energia usada no transporte ativo pode ser primária (com utilização de ATP) ou secundária (empregando a energia proveniente do gradiente de Na+). A osmose ocorre quando um soluto impermeável cria uma diferença de pressão osmótica por meio da membrana, que direciona o fluxo de água. ▪ Os canais iônicos são vias para a movimentação de solutos com carga elétrica através das membranas celulares. A condutância dos canais iônicos é controlada por comportas, que são reguladas pela voltagem, segundos mensageiros ou por ligantes, ainda por movimento ou temperatura. A difusão de um íon permeável a favor de um gradiente de concentração cria um potencial de difusão, que, no equilíbrio eletroquímico, é calculado por meio da equação de Nernst. Quando diversos íons são permeantes, cada um tenta levar a membrana em direção a seu potencial de equilíbrio. Os íons com maiores permeabilidades fazem as maiores contribuições para o potencial de membrana em repouso. ▪ Os potenciais de ação em nervos e músculos são compostos pela rápida despolarização (pico), seguida pela repolarização causada pela abertura e fechamento dos canais iônicos. Os potenciais de ação são propagados pelas fibras nervosas e musculares por meio da disseminação de correntes locais; a velocidade de condução depende das propriedades de cabo do tecido. A velocidade de condução é aumentada pelo maior tamanho da fibra e pela mielinização. ▪ As sinapses entre as células podem ser elétricas ou, mais comumente, químicas. O protótipo da sinapse química é a junção neuromuscular, que usa a ACh como neurotransmissor. A ACh é liberada por terminais nervosos pré-sinápticos e se difunde pela fenda sináptica, despolarizando a placa motora. Os neurotransmissores de outras sinapses podem ter efeitos excitatórios (causando despolarização) ou inibitórios (causando hiperpolarização) dependendo do receptor pós-sináptico ali presente. ▪ Nos músculos, os potenciais de ação precedem a contração. Os mecanismos que traduzem o potencial de ação em contração são denominados acoplamento excitação-contração. Nos músculos esqueléticos e lisos, o Ca2+ é fundamental para o acoplamento. ▪ Na musculatura esquelética, o potencial de ação é transmitido para o interior da célula por túbulos T, onde a despolarização libera Ca2+ da cisterna terminal do RS adjacente. O Ca2+, então, se liga à troponina C dos filamentos finos, provocando uma alteração conformacional que remove a inibição dos sítios de ligação da miosina. A ligação entre actina e miosina inicia o ciclo das pontes cruzadas, produzindo a tensão. ▪ Na musculaturalisa, o Ca2+ entra na célula durante o potencial de ação, através de canais de Ca2+ dependentes de voltagem. O íon, então, se liga à calmodulina e o complexo formado ativa a quinase da cadeia leve da miosina, que fosforila a miosina. A miosina∼P pode se ligar à actina, formar pontes cruzadas e gerar tensão. Outras fontes de Ca2+ intracelular na musculatura lisa são os canais dependentes de ligantes nas membranas sarcolemais e os canais dependentes de IP3 nas membranas dos RS. Desaf ie -se Responda a cada pergunta com uma palavra, expressão, frase ou solução numérica. Se a questão vier acompanhada por uma lista de possíveis respostas, uma, mais de uma ou nenhuma das escolhas pode estar correta. As respostas corretas são mostradas ao final do livro. 1. A Solução A contém 100 mM de NaCl, a Solução B contém 10 mM de NaCl e a membrana que as separa é permeável ao Cl-, mas não ao Na+. Qual é a orientação da diferença de potencial que será estabelecida por meio da membrana? 2. A osmolaridade de uma solução de 50 mmol/L de CaCl2 é mais próxima à osmolaridade de qual das seguintes soluções: 50 mmol/L NaCl; 100 mmol/L de ureia; 150 mmol/L NaCl; ou 150 mmol/L de ureia? 3. De que forma a concentração intracelular de Na+ muda após a inibição da Na+-K+ ATPase? 4. Qual fase do potencial de ação nervoso é responsável pela propagação do potencial de ação aos sítios vizinhos? 5. Qual quantidade de acetilcolina (ACh), expressa em quantidade, é necessária para a despolarização da placa motora de -80 mV para -70 mV, se o potencial de placa motora em miniatura (PPMM) for de 0,4 mV? 6. Um homem foi envenenado com curare. Qual dos seguintes agentes pioraria seu estado: neostigmina, nicotina, toxina botulínica ou ACh? 7. Coloque estes eventos na ordem temporal correta: potencial de placa motora (PPM), potencial de ação na fibra muscular; liberação de ACh do terminal pré-sináptico, PPMM, abertura dos canais iônicos dependentes de ligantes, abertura dos canais de Ca2+ no terminal pré- sináptico, ligação da ACh a receptores nicotínicos, potencial de ação na fibra nervosa. 8. Na musculatura esquelética, em comprimentos musculares inferiores aos que geram tensão ativa máxima, a tensão ativa é maior, menor ou aproximadamente igual à tensão total? 9. Qual dos seguintes neurotransmissores pode ser inativado por peptidases: ACh, substância P, dopamina, glutamato, GABA, histamina, vasopressina, óxido nítrico (NO)? 10. A Solução A contém 10 mmol/L de glicose e a Solução B contém 1 mmol/L de glicose. Se a concentração de glicose em ambas as soluções for dobrada, em quanto o fluxo de glicose entre elas será alterado (p. ex., metade, permanece inalterado, duplica, triplica, quadruplica)? 11. Os neurônios adrenérgicos sintetizam qual das seguintes substâncias: noradrenalina, adrenalina, ACh, dopamina, L-dopa, serotonina? 12. Qual o efeito exercido por cada um dos seguintes itens sobre a velocidade de condução: aumento do diâmetro do nervo, aumento da resistência interna (Ri), aumento da resistência da membrana (Rm), diminuição da capacitância da membrana (Cm), aumento da constante de comprimento, aumento da constante de tempo? 13. Como a hipercalemia altera o potencial de membrana em repouso (despolariza, hiperpolariza ou não exerce efeito nenhum) e por que isto causa fraqueza muscular? 14. O ATP se liga à miosina durante qual das seguintes etapas do ciclo das pontes cruzadas na musculatura esquelética: rigor, alteração conformacional da miosina que reduz a afinidade pela actina, força? 15. Qual das seguintes classes de fármacos é contraindicada em um paciente com miastenia grave: antagonista de receptores nicotínicos, inibidor da recaptação de colina, inibidor de acetilcolinesterase (AChE), inibidor da liberação de ACh? 16. A Solução A contém 100 mmol/L glicose e a Solução B contém 50 mmol/L NaCl. Assuma que gNaCl é 2, σglicose é 0,5 e σNaCl é 0,8. Se uma membrana semipermeável separa as duas soluções, qual é a direção do fluxo de água através da membrana? * Nota da Revisão Científica: Há ainda dois outros tipos de canais regulados por comportas, além das três aqui citadas, canais sensíveis a movimento e canais sensíveis a temperatura. Estes são encontrados em neurônios e células receptoras sensoriais como, por exemplo, corpúsculos de Pacini e nociceptores (ver Capítulo 3). C A P Í T U L O 2 Sistema Nervoso Autônomo Organização e Características Gerais do Sistema Nervoso Autônomo, Receptores Autonômicos, Resumo, Desafie-se, O sistema nervoso motor (eferente) possui dois componentes: o somático e o autônomo. Estes dois sistemas são bastante diferentes, principalmente no que se refere aos tipos de órgãos efetores que inervam e os tipos de função que controlam. O sistema nervoso somático é um sistema motor que tanto pode ser voluntário, sob controle consciente, como involuntário. Cada uma de suas vias é composta por um único motoneurônio e as fibras musculares esqueléticas por ele inervadas. O corpo celular do motoneurônio está localizado no sistema nervoso central (SNC), seja no tronco encefálico ou na medula espinal, e seus axônios fazem sinapses diretamente na musculatura esquelética, o órgão efetor. O neurotransmissor acetilcolina é liberado de terminais pré-sinápticos dos motoneurônios e ativa receptores nicotínicos localizados nas placas motoras da musculatura esquelética. Um potencial de ação no motoneurônio provoca um potencial de ação na fibra muscular, causando a contração do músculo. (Ver a discussão completa sobre o sistema nervoso somático no Capítulo 1) O sistema nervoso autônomo é um sistema involuntário que controla e modula as funções principalmente dos órgãos viscerais. Cada via do sistema nervoso autônomo é composta por dois neurônios: um pré-ganglionar e um pós-ganglionar. O corpo celular de cada neurônio pré-ganglionar reside no sistema nervoso central. Os axônios desses neurônios pré-ganglionares fazem sinapses com os corpos celulares dos neurônios pós-ganglionares em um dos diversos gânglios autonômicos localizados fora do sistema nervoso central. Os axônios dos neurônios pós-ganglionares trafegam, então, até seus alvos, onde fazem sinapses com órgãos efetores viscerais, como o coração, os bronquíolos, a musculatura lisa vascular, o trato gastrintestinal, a bexiga e a genitália. Todos os neurônios pré-ganglionares do sistema nervoso autônomo liberam acetilcolina. Os neurônios pós- ganglionares liberam acetilcolina ou noradrenalina ou, ainda, em alguns casos, neuropeptídeos. Organização e características gerais do sistema nervoso autônomo O sistema nervoso autônomo apresenta duas divisões principais: a divisão simpática e a divisão parassimpática, que geralmente são complementares na regulação da função do órgão visceral. Uma terceira divisão do sistema autônomo, o sistema nervoso entérico, localiza-se nos plexos do trato gastrintestinal. (O sistema nervoso entérico é discutido no Capítulo 8) A organização do sistema nervoso autônomo é descrita na Figura 2.1 e na Tabela 2.1. As divisões simpática e parassimpática, assim como o sistema nervoso somático, são incluídas para comparação. FIG. 2.1 Organização do sistema nervoso autônomo. O sistema nervoso somático é incluído para fins comparativos. ACh, Acetilcolina; M, receptor muscarínico; N, receptor nicotínico; NA, noradrenalina. *As glândulas sudoríparas apresentam inervação colinérgica simpática. Tabela 2.1 Organização do Sistema Nervoso Autônomo Características Divisão Simpática Divisão Parassimpática Sistema Nervoso Somáticoa Origem dos neurônios pré- ganglionares Segmentos T1-L3 da medula espinal (toracolombares) Núcleos dos NC III, VII, IX e X; segmentos S2-S4 da medula espinal (craniossacrais) — Localização dos gânglios autonômicos Paravertebral e pré-vertebral Em órgãos efetores ou em suas adjacências — Comprimento dos axônios pré- ganglionares Curto Longo — Comprimento dos axônios pós- ganglionares Longo Curto — Órgãos efetores Musculatura lisa; músculo cardíaco; glândulas Musculatura lisa; músculocardíaco; glândulas Musculatura esquelética Junções neuroefetoras Difusas, ramificadas; os receptores não estão concentrados em uma única região Difusas, ramificadas; os receptores não estão concentrados em uma única região Discretas, organizadas; os receptores de ACh estão localizados na placa motora Neurotransmissor e tipo de receptor nos gânglios ACh/receptor nicotínico ACh/receptor nicotínico — Neurotransmissor em órgãos efetores Noradrenalina (exceto em glândulas sudoríparas, ACh) ACh ACh Tipos de receptores em órgãos efetores α1, α2, β1, β2 (exceto em glândulas sudoríparas, muscarínico) Muscarínicos Nicotínicos ACh, Acetilcolina; NC, nervo craniano. a O sistema nervoso somático é incluído para comparação. Terminologia Os termos simpático e parassimpático são estritamente anatômicos e se referem à origem anatômica dos neurônios pré-ganglionares no SNC (Tabela 2.1). Os neurônios pré-ganglionares da divisão simpática são originários da medula espinal toracolombar. Os neurônios pré-ganglionares da divisão parassimpática são originários do tronco encefálico e da medula espinal sacral. Os termos adrenérgico e colinérgico são usados para descrever neurônios de qualquer uma das divisões, de acordo com o neurotransmissor sintetizado e liberado. Os neurônios adrenérgicos liberam noradrenalina; os receptores de noradrenalina nos órgãos efetores são denominados adrenorreceptores. Os adrenorreceptores podem ser ativados por noradrenalina, que é liberada por neurônios adrenérgicos, ou por adrenalina, que é secretada na circulação pela medula da glândula adrenal. Os neurônios colinérgicos liberam acetilcolina (ACh); os receptores de ACh são denominados colinorreceptores. (Um terceiro termo é não adrenérgico, não colinérgico e descreve alguns neurônios pós-ganglionares parassimpáticos do trato gastrintestinal que liberam peptídeos [p. ex., substância P] ou outras moléculas [p. ex., óxido nítrico (NO)] como neurotransmissor, em vez de ACh.) Em resumo, sejam localizados na divisão simpática ou na divisão parassimpática, todos os neurônios pré-ganglionares liberam ACh e, portanto, são denominados colinérgicos. Os neurônios pós- ganglionares podem ser adrenérgicos (liberando noradrenalina) ou colinérgicos (por secretarem ACh). A maioria dos neurônios parassimpáticos pós-ganglionares é colinérgica; os neurônios simpáticos pós- ganglionares podem ser adrenérgicos ou colinérgicos. Junções Neuroefetoras do Sistema Nervoso Autônomo As junções entre neurônios autonômicos pós-ganglionares e seus efetores (tecidos-alvo), as junções neuroefetoras, são análogas às junções neuromusculares do sistema nervoso somático. Existem, porém, diversas diferenças estruturais e funcionais entre esses dois tipos de junção. (1) A junção neuromuscular (discutida no Capítulo 1) possui um arranjo distinto, no qual o “efetor”, uma fibra muscular esquelética, é inervada por um único motoneurônio. Por outro lado, no sistema nervoso autônomo, os neurônios pós-ganglionares que inervam os tecidos-alvo formam redes ramificadas e difusas. Estruturas em formato esférico, ou varicosidades, recobrem esses ramos e são sítios de síntese, armazenamento e liberação de neurotransmissores. As varicosidades são, portanto, análogas aos terminais nervosos pré-sinápticos da junção neuromuscular. (2) Há uma sobreposição entre as redes ramificadas de diferentes neurônios pós-ganglionares e, assim, os tecidos-alvo podem ser inervados por várias dessas células. (3) No sistema nervoso autônomo, os receptores pós-sinápticos são amplamente distribuídos pelos tecidos-alvo e não há uma região especializada de receptores como a placa motora da fibra muscular esquelética. Sistema Nervoso Simpático A função principal do sistema nervoso simpático é mobilizar o corpo para a atividade. Em caso extremo, quando uma pessoa é exposta a uma situação estressante, o sistema nervoso simpático é fortemente ativado, em uma resposta conhecida como “luta ou fuga”, que inclui o aumento da pressão arterial, do fluxo sanguíneo para os músculos ativados, da taxa metabólica, da glicemia, da atividade mental e do grau de alerta. No entanto, mesmo que essa resposta, por si só, seja raramente empregada, o sistema nervoso simpático opera continuamente em grau moderado para modular as funções de muitos sistemas de órgãos, como o coração, os vasos sanguíneos, o trato gastrintestinal, os brônquios e as glândulas sudoríparas. A Figura 2.2 mostra a organização do sistema nervoso simpático em relação à medula espinal, aos gânglios simpáticos e aos órgãos efetores da periferia. Os neurônios simpáticos pré-ganglionares são originários dos núcleos da medula espinal toracolombar, deixam a medula através das raízes motoras ventrais e dos ramos brancos e se projetam para os gânglios paravertebrais da cadeia simpática ou em uma série de gânglios pré-vertebrais. Assim, uma categoria de neurônios pré-ganglionares faz sinapses com neurônios pós-ganglionares nos gânglios paravertebrais (p. ex., gânglio cervical superior) da cadeia simpática. Essas sinapses podem ocorrer em gânglios do mesmo nível segmentar da cadeia ou as fibras pré-ganglionares podem cursar em direção cranial ou caudal e inervar gânglios em níveis superiores ou inferiores da cadeia, permitindo, assim, o estabelecimento de sinapses em múltiplos gânglios (o que é consistente com as características difusas das funções simpáticas). A outra categoria de neurônios pré-ganglionares atravessa pela cadeia simpática sem estabelecer sinapses para somente fazê-las nos gânglios pré-vertebrais (celíacos, mesentéricos superiores e mesentéricos inferiores) que suprem os órgãos viscerais, as glândulas e o sistema nervoso entérico do trato gastrintestinal. Nos gânglios, os neurônios pré-ganglionares fazem sinapses com os neurônios pós-ganglionares, que trafegam para a periferia e inervam os órgãos efetores. FIG. 2.2 Inervação do sistema nervoso simpático. Os neurônios pré-ganglionares são originários dos segmentos torácicos e lombares da medula espinal (T1-L3). As características do sistema nervoso simpático, discutidas nas próximas seções, são listadas na Tabela 2.1 e ilustradas na Figura 2.2. Origem dos Neurônios Pré-ganglionares Os neurônios pré-ganglionares da divisão simpática são originários de núcleos nos segmentos torácico e lombar da medula espinal, especificamente do primeiro segmento torácico ao terceiro segmento lombar (T1-L3). Assim, a divisão simpática é chamada toracolombar. De modo geral, a origem dos neurônios pré-ganglionares na medula espinal é anatomicamente consistente com sua projeção na periferia. Dessa maneira, as vias simpáticas para os órgãos do tórax (p. ex., o coração) possuem neurônios pré-ganglionares originários da medula espinal torácica superior. As vias simpáticas para os órgãos da pelve (p. ex., cólon, genitais) possuem neurônios pré- ganglionares originários da medula espinal lombar. Os vasos sanguíneos, as glândulas sudoríparas termorreguladoras e os músculos piloeretores da pele apresentam neurônios pré-ganglionares que fazem sinapses com múltiplos neurônios pós-ganglionares acima e abaixo da cadeia simpática, refletindo sua ampla distribuição pelo corpo. Localização dos Gânglios Autonômicos Os gânglios do sistema nervoso simpático estão localizados próximos à medula espinal, seja nos gânglios paravertebrais (conhecidos como cadeia simpática) ou nos gânglios pré-vertebrais. Mais uma vez, a anatomia é lógica. O gânglio cervical superior se projeta até os órgãos da cabeça, como os olhos e as glândulas salivares. O gânglio celíaco se projeta até o estômago e o intestino delgado. O gânglio mesentérico superior se projeta até os intestinos delgado e grosso e o gânglio mesentérico inferior atinge a porção inferior do intestino grosso, o ânus, a bexiga e a genitália. A medula da glândula adrenal é simplesmente um gânglio simpático especializado cujos neurônios pré-ganglionares são originários da medula espinal torácica (T5-T9), passam pela cadeia simpática e pelo gânglio celíaco sem estabelecersinapses e seguem pelo nervo esplâncnico maior até a adrenal. Comprimento dos Axônios Pré-ganglionares e Pós-ganglionares Uma vez que os gânglios simpáticos são próximos à medula espinal, os axônios dos neurônios pré- ganglionares são curtos e os axônios dos neurônios pós-ganglionares são longos (para que possam atingir os órgãos efetores periféricos). Neurotransmissores e Tipos de Receptores Os neurônios pré-ganglionares da divisão simpática são sempre colinérgicos. Estes neurônios liberam ACh, que interage com receptores nicotínicos (N2) nos corpos celulares dos neurônios pós- ganglionares. Os neurônios pós-ganglionares da divisão simpática são adrenérgicos em todos os órgãos efetores, exceto nas glândulas sudoríparas termorreguladoras (onde são colinérgicos). Os órgãos efetores inervados por neurônios adrenérgicos simpáticos apresentam um ou mais dos seguintes tipos de receptores: alfa1, alfa2, beta1 ou beta2 (α1, α2, β1 ou β2). As glândulas sudoríparas termorreguladoras são inervadas por neurônios colinérgicos simpáticos que possuem colinorreceptores muscarínicos. Varicosidades Adrenérgicas Simpáticas Como anteriormente descrito, os neurônios adrenérgicos pós-ganglionares simpáticos liberam seus neurotransmissores das varicosidades em tecidos-alvo (p. ex., a musculatura lisa vascular). As varicosidades adrenérgicas simpáticas contêm neurotransmissores clássicos (noradrenalina) e não clássicos (trifosfato de adenosina [ATP] e neuropeptídeo Y). O neurotransmissor clássico, a noradrenalina, é sintetizada a partir da tirosina nas varicosidades (Figura 1.18) e armazenada em pequenas vesículas de centro denso, prontas para serem liberadas; estas pequenas vesículas de centro denso também contêm dopamina β-hidroxilase, que catalisa a conversão da dopamina em noradrenalina (a etapa final da via sintética) e ATP. O ATP é considerado “colocalizado” à adrenalina. Um grupo separado de grandes vesículas de centro denso contém neuropeptídeo Y. A estimulação de neurônios adrenérgicos pós-ganglionares simpáticos leva à liberação de noradrenalina e ATP das pequenas vesículas de centro denso. A noradrenalina e o ATP atuam como neurotransmissores na junção neuroefetora, onde se ligam a receptores específicos nos tecidos-alvo (p. ex., a musculatura lisa vascular), ativando-os. Na verdade, o ATP age primeiro, ligando-se a receptores purinérgicos no tecido alvo e provocando um efeito fisiológico (p. ex., a contração da musculatura lisa vascular). A ação da noradrenalina ocorre após a ação do ATP; a noradrenalina se liga a seus receptores no tecido alvo (p. ex., receptores α1-adrenérgicos na musculatura lisa vascular), causando uma segunda contração, mais prolongada. Por fim, com a estimulação mais intensa ou de maior frequência, as grandes vesículas de centro denso liberam neuropeptídeo Y, que se liga a seu receptor no tecido alvo e causa uma terceira fase de contração, mais lenta. Medula da Glândula Adrenal A medula da adrenal é um gânglio especializado na divisão simpática do sistema nervoso autônomo. Os corpos celulares de seus neurônios pré-ganglionares estão localizados na medula espinal torácica. Os axônios destes neurônios pré-ganglionares trafegam pelo nervo esplâncnico maior até a medula da adrenal, onde fazem sinapses com as células cromafins e liberam ACh, ativando receptores nicotínicos. Quando ativadas, as células cromafins da medula da adrenal secretam catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) na circulação geral. Diferentemente dos neurônios pós-ganglionares simpáticos, que liberam apenas noradrenalina, a medula da adrenal secreta, principalmente, adrenalina (80%) e uma pequena quantidade de noradrenalina (20%). A razão para essa diferença é a presença de feniletanolamina-N-metiltransferase (PNMT) na medula da adrenal, mas não nos neurônios adrenérgicos pós-ganglionares simpáticos (Figura 1.18). A PNMT catalisa a conversão da noradrenalina em adrenalina, e é interessante notar que essa etapa requer cortisol advindo do córtex adrenal adjacente; o cortisol é disponibilizado para a medula da adrenal graças ao fluxo venoso do córtex adrenal. Um tumor na medula da adrenal, ou feocromocitoma, pode estar localizado nela mesma ou em suas proximidades ou, ainda, ser ectópico (em uma região distante) (Quadro 2.1). Diferentemente da medula da adrenal normal, que secreta principalmente adrenalina, um feocromocitoma secreta, em especial, noradrenalina, o que é explicado pela grande distância entre o tumor (se ectópico) e o córtex da adrenal, impedindo o recebimento do cortisol exigido pela PNMT. Q u a d r o 2 . 1 F is io logia Cl ínica : Feocromocitoma Descrição do caso Uma mulher de 48 anos consulta seu médico, queixando-se do que chama de “ataques de pânico”. A paciente relata taquicardia e poder sentir (e até mesmo ver) o coração batendo no peito. Ela também se queixa de cefaleias do tipo pulsátil, mãos e pés frios, calor, distúrbios visuais, náusea e vômito. No consultório médico, sua pressão arterial é bastante alta (230/125). A paciente é internada para avaliação da hipertensão. O exame de urina de 24 horas revela níveis elevados de metanefrina, normetanefrina e ácido 3- metoxi-4-hidroximandélico (VMA). Depois de descartar outras causas de hipertensão, o médico conclui que a paciente apresenta um tumor na medula da adrenal, denominado feocromocitoma. A tomografia computadorizada do abdômen revela a presença de uma massa de 3,5 cm na medula da adrenal direita. A paciente é tratada com um antagonista α1 e submetida à cirurgia. A recuperação da paciente é completa; sua pressão arterial volta ao normal e os demais sintomas desaparecem. Explicação do caso A mulher apresenta um feocromocitoma clássico, um tumor de células cromafins da medula da adrenal. O tumor secreta quantidades excessivas de noradrenalina e adrenalina, que produzem todos os sintomas e aumentam a concentração de metabólitos das catecolaminas na urina. Diferentemente da medula da adrenal normal, que secreta principalmente adrenalina, os feocromocitomas tendem a liberar noradrenalina. Os sintomas da paciente podem ser interpretados por meio do entendimento dos efeitos fisiológicos das catecolaminas. Qualquer tecido que possua adrenorreceptores será ativado pelos níveis elevados de adrenalina e noradrenalina, que chegam pela circulação. Os principais sintomas apresentados pela paciente são cardiovasculares: palpitações, taquicardia, aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial e mãos e pés frios. Estes sintomas podem ser entendidos ao considerarmos a função dos adrenorreceptores no coração e nos vasos sanguíneos. As maiores concentrações de catecolaminas circulantes ativaram receptores β1 do coração, aumentando a frequência cardíaca e a contratilidade (batimento cardíaco). A ativação dos receptores α1 na musculatura lisa vascular da pele produziu vasoconstrição, causando o frio nas mãos e nos pés. A paciente sentiu calor, porém, porque essa vasoconstrição cutânea prejudicou a dissipação do calor. Sua pressão arterial extremamente elevada foi causada pela combinação entre a maior frequência cardíaca, a maior contratilidade e a maior contração (resistência) dos vasos sanguíneos. A cefaleia era secundária ao aumento da pressão. Os demais sintomas apresentados pela paciente também podem ser explicados pela ativação de adrenorreceptores em outros sistemas de órgãos (isto é, os sintomas gastrintestinais de náusea e vômito e as alterações visuais). Tratamento O tratamento da paciente foi composto pela localização e excisão do tumor, removendo, assim, a fonte do excesso de catecolaminas. Se o tumor não tivesse sido excisado, a paciente poderia continuar a ser tratada farmacologicamente com uma combinação de antagonistas α1 (p. ex., fenoxibenzamina ou prazosina) e antagonistas β1 (p. ex., propranolol) para impedir as ações das catecolaminas endógenas nos receptores. Resposta de Luta ou Fuga O corpo responde ao medo, ao estresse extremo e ao exercício intenso com uma ação maciça e coordenada do sistema nervoso simpático,inclusive da medula da adrenal. Essa ativação, a resposta de luta ou fuga, garante que o corpo possa responder adequadamente a uma situação estressante (p. ex., fazer uma prova difícil, correr de uma casa em chamas ou lutar contra um agressor). A resposta aumenta a frequência cardíaca, o débito cardíaco e a pressão sanguínea; redistribui o fluxo sanguíneo da pele, dos rins e das regiões esplâncnicas para a musculatura esquelética; aumenta a ventilação, dilatando as vias aéreas; diminui a motilidade e as secreções do trato gastrintestinal e eleva a glicemia. Sistema Nervoso Parassimpático A função geral do sistema nervoso parassimpático é restauradora, de conservação de energia. A Figura 2.3 mostra a organização do sistema nervoso parassimpático em relação ao SNC (tronco encefálico e medula espinal), os gânglios parassimpáticos e os órgãos efetores. Os corpos celulares dos neurônios pré-ganglionares da divisão parassimpática estão no tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo) ou na medula espinal sacral. Os axônios pré-ganglionares se projetam para uma série de gânglios localizados nos órgãos efetores ou suas adjacências. FIG. 2.3 Inervação do sistema nervoso parassimpático. Os neurônios pré-ganglionares são originários dos núcleos do tronco encefálico (mesencéfalo, ponte, bulbo) e dos segmentos sacrais (S2-S4) da medula espinal. NC, Nervo craniano. As características do sistema nervoso simpático discutidas nas seções a seguir estão listadas na Tabela 2.1 e ilustradas na Figura 2.2. Origem dos Neurônios Pré-ganglionares Os neurônios pré-ganglionares da divisão parassimpática são originários dos núcleos dos nervos cranianos (NC) III, VII, IX e X ou dos segmentos S2-S4 da medula espinal sacral; assim, a divisão parassimpática é denominada craniossacral. Como na divisão simpática, a origem dos neurônios pré- ganglionares no SNC é consistente com a projeção nos órgãos efetores da periferia. A inervação parassimpática dos músculos dos olhos, por exemplo, é originária do núcleo de Edinger-Westphal no mesencéfalo e trafega até a periferia pelo NC III; a inervação parassimpática do coração, dos bronquíolos e do trato gastrintestinal é originária dos núcleos do bulbo e trafega até a periferia pelo NC X (nervo vago); já a inervação parassimpática dos órgãos genitourinários é originária da medula espinal sacral e trafega até a periferia pelos nervos pélvicos. Localização dos Gânglios Autonômicos Diferentemente dos gânglios simpáticos, localizados próximos ao SNC, os gânglios do sistema nervoso parassimpático são encontrados no interior dos órgãos efetores, sobre estes órgãos ou nas regiões adjacentes (p. ex., gânglios ciliares, pterigopalatinos, submandibulares, óticos). Comprimento dos Axônios Pré-ganglionares e Pós-ganglionares O comprimento relativo dos axônios pré-ganglionares e pós-ganglionares da divisão parassimpática é inversa aos comprimentos relativos na divisão simpática. Essa diferença reflete a localização dos gânglios. Os gânglios parassimpáticos estão localizados nos órgãos efetores ou suas adjacências; os neurônios pré-ganglionares, portanto, possuem axônios longos, enquanto os neurônios pós- ganglionares apresentam axônios curtos. Neurotransmissores e Tipos de Receptores Como na divisão simpática, todos os neurônios pré-ganglionares são colinérgicos e liberam ACh, a qual interage com receptores nicotínicos (N2) nos corpos celulares dos neurônios pós-ganglionares. A maioria dos neurônios pós-ganglionares da divisão parassimpática também é colinérgica. Os receptores de ACh nos órgãos efetores são muscarínicos, não nicotínicos. Assim, a ACh liberada por neurônios pré-ganglionares da divisão parassimpática ativa receptores nicotínicos, enquanto a ACh liberada por neurônios pós-ganglionares da divisão parassimpática ativa receptores muscarínicos. Estes receptores e suas funções são ativados ou inibidos de forma específica por diferentes fármacos (Tabela 2.2). Tabela 2.2 Protótipos de Agonistas e Antagonistas de Receptores Autonômicos Receptor Agonistas Antagonistas Adrenorreceptores α1 Noradrenalina Fenilefrina Fenoxibenzamina Prazosina α2 Clonidina Ioimbina β1 Noradrenalina Adrenalina Isoproterenol Dobutamina Propranolol Metoprolol β2 Adrenalina Noradrenalina Isoproterenol Albuterol Propranolol Butoxamina Colinorreceptores Nicotínicos ACh Nicotina Curare (bloqueia os receptores N1 neuromusculares) Hexametônio (bloqueia os receptores N2 ganglionares) Muscarínicos ACh Muscarina Atropina ACh, Acetilcolina. Varicosidades Colinérgicas Parassimpáticas Como anteriormente descrito, os neurônios colinérgicos pós-ganglionares parassimpáticos liberam seus neurotransmissores das varicosidades em tecidos-alvo (p. ex., a musculatura lisa). As varicosidades colinérgicas parassimpáticas liberam tanto o neurotransmissor clássico (ACh) quanto os neurotransmissores não clássicos (p. ex., peptídeo intestinal vasoativo [VIP], NO). O neurotransmissor clássico, ACh, é sintetizado nas varicosidades a partir de colina e acetil coenzima A (acetil CoA) (Figura 1.17) e armazenado em vesículas pequenas e claras. Um grupo separado de grandes vesículas de centro denso contém peptídeos, como o VIP. Por fim, as varicosidades possuem óxido nítrico sintase e podem sintetizar NO conforme necessário. Quando neurônios colinérgicos pós-ganglionares parassimpáticos são estimulados, a ACh é liberada das varicosidades e se liga a receptores muscarínicos no tecidos-alvo, que determina sua ação fisiológica. Com a estimulação intensa e de alta frequência, as grandes vesículas de centro denso liberam seus peptídeos (p. ex., VIP), que se ligam a receptores nos tecidos-alvo e aumentam as ações da ACh. Inervação Autônoma dos Sistemas de Órgãos A Tabela 2.3 serve como uma referência para as informações sobre o controle autônomo da função dos sistemas de órgãos. Esta tabela lista as inervações simpáticas e parassimpáticas dos principais sistemas de órgãos e os tipos de receptores encontrados em seus tecidos. A Tabela 2.3 é ainda mais importante quando a informação mostrada é vista como um conjunto de temas recorrentes, e não como uma lista aleatória de ações e receptores. Tabela 2.3 Efeitos do Sistema Nervoso Autônomo sobre a Função dos Sistemas de Órgãos Simpático Parassimpático Órgão Ação Receptor Ação Receptor Coração Nó SA, frequência cardíaca ↑ β1 ↓ M Condução do nó AV ↑ β1 ↓ M Contratilidade ↑ β1 ↓ (apenas nos átrios) M Musculatura Lisa Vascular Cutânea; esplâncnica Contração α1 Musculatura esquelética Dilatação β2 Musculatura esquelética Contração α1 Endotélio Liberação de EDRF M Bronquíolos Dilatação β2 Contração M Trato Gastrintestinal Musculatura lisa, paredes Relaxamento α2, β2 Contração M Musculatura lisa, esfíncteres Contração α1 Relaxamento M Secreção de saliva ↑ β1 ↑ M Secreção de ácido gástrico ↑ M Secreção pancreática ↑ M Bexiga Parede, músculo detrusor Relaxamento β2 Contração M Esfíncter Contração α1 Relaxamento M Genitália Masculina Ejaculação α1 Ereção M Olho Músculo radial, íris Dilatação da pupila (midríase) α1 Músculo circular ou esfíncter, íris Contração da pupila (miose) M Músculo ciliar Relaxamento (visão de longe) β Contração (visão de perto) M Pele Glândulas sudoríparas, termorregulação ↑ Ma Glândulas sudoríparas, estresse ↑ α Músculo piloeretor (arrepios) Contração α Glândulas Lacrimais Secreção M Fígado Gliconeogênese; glicogenólise α, β2 Tecido adiposo Lipólise β1 Rim Secreção de renina β1 AV, Atrioventricular; EDRF, fator relaxante derivado do endotélio; M, receptor muscarínico; SA, sinoatrial. a Neurônios colinérgicos simpáticos. Funções Recíprocas – Simpáticas e Parassimpáticas Muitos órgãos apresentam inervação simpática e parassimpática. Estas inervações operam de forma recíproca ou sinérgica para a produção de respostas coordenadas. O coração, por exemplo, possui inervações simpáticas e parassimpáticas que funcionam de forma recíproca, regulando a frequência cardíaca e a velocidade de condução. As paredes de musculatura lisado trato gastrintestinal e da bexiga possuem inervação simpática (que produz relaxamento) e parassimpática (que produz contração); os esfíncteres do trato gastrintestinal e da bexiga também apresentam inervação simpática (que provoca contração) e parassimpática (que causa relaxamento). Os músculos radiais da íris são responsáveis pela dilatação da pupila (midríase) e possuem inervação simpática; o músculo circular da íris é responsável pela contração da pupila (miose) e apresenta inervação parassimpática. Neste exemplo dos músculos oculares, diferentes músculos controlam o tamanho da pupila, mas os efeitos gerais das atividades simpática e parassimpática são recíprocos. Na genitália masculina, a atividade simpática controla a ejaculação, enquanto a atividade parassimpática, ereção; juntas, essas ações são responsáveis pela resposta sexual. Os três exemplos a seguir ilustram melhor a reciprocidade e a sinergia das divisões simpática e parassimpática. Nó sinoatrial A inervação autônoma do nó sinoatrial (SA) do coração é um excelente exemplo de controle coordenado de função. O nó SA é o marca-passo normal do coração e sua taxa de despolarização controla a frequência cardíaca geral. O nó SA possui inervações simpáticas e parassimpáticas, que funcionam de forma recíproca na modulação da frequência cardíaca. Assim, um aumento da atividade simpática eleva a frequência cardíaca, enquanto um aumento da atividade parassimpática a diminui. Essas funções recíprocas são ilustradas da seguinte maneira: se a pressão arterial cair, os centros vasomotores do tronco encefálico respondem a essa diminuição e, simultaneamente, aumentam a atividade simpática do nó SA e reduzem a atividade parassimpática. Cada uma dessas ações, dirigida e coordenada pelo centro vasomotor do tronco encefálico, aumenta a frequência cardíaca. As ações simpática e parassimpática não competem entre si, mas são sinérgicas no aumento da frequência cardíaca (o que ajuda a normalizar a pressão arterial). Bexiga A bexiga é outro exemplo de inervações recíprocas pelas divisões simpática e parassimpática (Figura 2.4). Em adultos, a micção, ou esvaziamento da bexiga, está sob controle voluntário porque o esfíncter externo é composto por músculo esquelético. O reflexo da micção em si, porém, é controlado pelo sistema nervoso autônomo. Este reflexo ocorre quando sensores detectam que a bexiga está “cheia”. O músculo detrusor da parede da bexiga e o esfíncter interno do órgão são compostos por músculos lisos, ambos apresentando inervações simpáticas e parassimpáticas. A inervação simpática do músculo detrusor e do esfíncter interno é originária da medula espinal lombar (L1-L3), e a inervação parassimpática tem origem na porção sacral da medula (S2-S4). FIG. 2.4 Controle autonômico do funcionamento da bexiga. Durante o enchimento da bexiga, o controle simpático é predominante e há relaxamento do músculo detrusor e contração do esfíncter interno. Durante a micção, há predominância do controle parassimpático, com contração do músculo detrusor e relaxamento do esfíncter interno. As linhas pontilhadas representam a inervação simpática; as linhas sólidas representam a inervação parassimpática. α1, Adrenorreceptor no esfíncter interno; β2, adrenorreceptor no músculo detrusor; L1- L3, segmentos lombares; M, colinorreceptor muscarínico no músculo detrusor e no esfíncter interno; S2.S4, segmentos sacrais. Quando a bexiga está sendo enchida por urina, o controle simpático é predominante. Esta atividade simpática, por meio de receptores β2, relaxa o músculo detrusor e, através de receptores α1, contrai o músculo do esfíncter interno. O esfíncter externo é simultaneamente fechado pela ação voluntária treinada. Quando a musculatura da parede está relaxada e os esfíncteres estão fechados, a bexiga pode ser enchida com urina. Quando a bexiga está cheia, sua distensão é percebida por mecanorreceptores presentes na parede do órgão e os neurônios aferentes transmitem essa informação para a medula espinal e daí para o tronco encefálico. O reflexo de micção é coordenado por centros no mesencéfalo e, agora, o controle parassimpático é predominante. A atividade parassimpática contrai o músculo detrusor (para aumentar a pressão e ejetar a urina) e relaxa o esfíncter interno. Simultaneamente, o esfíncter externo é relaxado pela ação voluntária. Obviamente, as ações simpáticas e parassimpáticas sobre as estruturas vesicais são opostas, mas coordenadas: as ações simpáticas dominam o enchimento da bexiga e as ações parassimpáticas são responsáveis pelo esvaziamento do órgão. Pupila O tamanho da pupila é reciprocamente controlado por dois músculos da íris: o músculo dilatador (radial) e o músculo constritor (esfíncter) da pupila. O músculo dilatador da pupila é controlado pela inervação simpática, por meio de receptores α1. A ativação desses receptores α1 causa a contração do músculo radial, provocando a dilatação da pupila, ou midríase. O músculo constritor da pupila é controlado pela inervação parassimpática, por meio de receptores muscarínicos. A ativação desses receptores muscarínicos contrai o músculo do esfíncter, levando à contração da pupila, ou miose. No reflexo pupilar à luz, por exemplo, a luz atinge a retina e, por meio de uma série de conexões no SNC, ativa neurônios pré-ganglionares parassimpáticos no núcleo de Edinger-Westphal; a ativação dessas fibras parassimpáticas contrai o músculo do esfíncter e a pupila. Na resposta de acomodação, uma imagem retiniana sem nitidez ativa neurônios pré-ganglionares parassimpáticos nos núcleos de Edinger-Westphal, contraindo o músculo do esfíncter e a pupila. Ao mesmo tempo, há contração do músculo ciliar, o que “arredonda” a lente e aumenta seu poder de refração. Há algumas exceções notáveis na generalização da inervação recíproca. Diversos órgãos apresentam somente inervação simpática: as glândulas sudoríparas, a musculatura lisa vascular, os músculos piloeretores da pele, o fígado, o tecido adiposo e o rim. Coordenação da Função nos Órgãos A coordenação da função nos sistemas de órgãos, orquestrada pelo sistema nervoso autônomo, é outro tema fisiológico recorrente (Quadros 2.2 e 2.3). Q u a d r o 2 . 2 F is io logia Cl ínica : S índrome de Horner Descrição do caso Um homem de 66 anos de idade sofreu um derrame do lado direito e apresenta queda da pálpebra direita (ptose), contração da pupila direita (miose) e ausência de sudorese no lado direito da face (anidrose). Seu médico solicita um exame com colírio de cocaína. A solução de cocaína a 10% aplicada no olho esquerdo causa dilatação da pupila (midríase). No olho direito, no entanto, a solução de cocaína não provoca a dilatação da pupila. Explicação do caso O homem apresenta um caso clássico de síndrome de Horner secundária ao derrame. Nesta síndrome, há perda da inervação simpática do lado afetado da face. Assim, a perda de inervação simpática para o músculo liso que eleva a pálpebra direita causou ptose desse lado. A perda de inervação simpática para o músculo dilatador da pupila do lado direito provocou a contração da pupila direita. Por fim, a perda de inervação simpática para as glândulas sudoríparas do lado direito da face causou anidrose ipsilateral. Com a instilação do colírio no olho esquerdo (o lado não afetado), a cocaína bloqueou a recaptação de noradrenalina pelos nervos simpáticos que suprem o músculo dilatador da pupila; devido às maiores concentrações de noradrenalina nessas sinapses adrenérgicas, houve contração do músculo radial da íris, causando a dilatação prolongada da pupila. O uso do colírio de cocaína no olho direito não provocou dilatação da pupila devido à menor quantidade de noradrenalina nessas sinapses. Tratamento O tratamento da síndrome de Horner é a resolução da causa subjacente. Q u a d r o 2 . 3 F is io logia Cl ínica : S índrome de Shy-Drager Descrição do caso Um homem de 58 anos de idade, aparentemente saudável, começa a apresentar sintomas alarmantes. Ocasionalmente impotente, sua impotência progrediue hoje é contínua. Além disso, ele apresenta enorme urgência de urinar, mas tem dificuldade em produzir um jato de urina. Ele relutou em procurar assistência médica para esses problemas, mas, em uma manhã, desmaiou ao se levantar da cama. Quando marcou uma consulta com o médico, apresentava tontura todas as manhãs e muitos sintomas, inclusive visão dupla, indigestão, diarreia e intolerância ao calor. O paciente foi encaminhado para um neurologista, que realizou um exame ocular com instilação de metacolina no saco conjuntival; nesse homem, a metacolina provocou miose exagerada (contração da pupila devido à contração do músculo circular da íris). Por causa da natureza global dos sintomas do paciente e dos resultados desse exame ocular, o neurologista o diagnosticou com síndrome de Shy-Drager. Explicação do caso A síndrome de Shy-Drager é uma doença rara e progressiva do sistema nervoso autônomo central associada à degeneração dos neurônios pré-ganglionares da coluna celular intermediolateral da medula espinal, dos gânglios autonômicos periféricos e dos centros autonômicos do hipotálamo. Consequentemente, há grave prejuízo das divisões simpática e parassimpática do sistema nervoso autônomo. Os sintomas de impotência, dificuldade em urinar e intolerância ao calor são explicados pelos distúrbios simpáticos e parassimpáticos. A resposta sexual masculina é composta por ereção (receptores muscarínicos parassimpáticos) e ejaculação (receptores α1 simpáticos). O músculo detrusor da parede da bexiga é composto por musculatura lisa, com inervação simpática (receptores β2) e parassimpática (receptores muscarínicos); o esfíncter interno da bexiga também é composto por músculo liso, com inervações simpática (receptores α1) e parassimpática (receptores muscarínicos). As glândulas sudoríparas termorreguladoras estão sob controle simpático. A resposta ocular exagerada à metacolina (um agonista muscarínico colinérgico) talvez seja surpreendente, já que o sistema nervoso parassimpático do paciente está prejudicado; no entanto, os resultados do exame fazem sentido, uma vez que a perda da inervação parassimpática do músculo circular da íris provoca a regulação positiva dos receptores colinérgicos e, assim, aumenta a resposta a um agonista colinérgico exógeno (hipersensibilidade por desnervação). O paciente apresentava hipotensão ortostática, ou seja, diminuição da pressão arterial ao ficar em pé. Ao se levantar, o sangue se acumula nos membros inferiores, o que reduz a pressão arterial. Em pessoas normais, a queda da pressão arterial evoca o reflexo barorreceptor, com participação dos sistemas nervosos simpático e parassimpático; juntas, essas respostas autonômicas normalizam a pressão arterial. O mecanismo barorreceptor do paciente foi extremamente prejudicado e sua pressão arterial não pôde ser corrigida por reflexos autonômicos, por isso ele sentia tontura e até desmaiou. Tratamento O paciente foi instruído a manter a cabeça elevada durante o sono (para reduzir os efeitos ortostáticos sobre a pressão arterial ao se levantar), usar meias de compressão para impedir o acúmulo de sangue nas pernas e tomar um análogo da aldosterona para aumentar o volume sanguíneo. Cada uma dessas medidas foi uma tentativa de melhorar a tontura e os desmaios ao se levantar. Os tratamentos foram paliativos; não há cura para essa doença degenerativa e fatal. Esse controle é bastante claro, por exemplo, ao considerarmos a função da bexiga. Neste órgão, deve haver uma coordenação temporal entre a atividade do músculo detrusor da parede vesical e dos esfíncteres (Figura 2.4). Assim, a atividade simpática é dominante quando a bexiga está se enchendo para relaxar a parede do órgão e, simultaneamente, contrair o esfíncter vesical interno. A bexiga pode ser enchida porque sua parede está relaxada e o esfíncter, fechado. Durante a micção, a atividade parassimpática é dominante, contraindo a parede da bexiga e, ao mesmo tempo, relaxando o esfíncter. Uma lógica similar pode ser aplicada ao controle autônomo do trato gastrintestinal: a contração da parede do trato gastrintestinal é acompanhada pelo relaxamento (parassimpático) dos esfíncteres, permitindo que o conteúdo seja propelido para frente. O relaxamento da parede do trato gastrintestinal é acompanhado pela contração (simpática) dos esfíncteres; o efeito combinado dessas ações é retardar ou interromper a movimentação de seu conteúdo. Tipos de Receptores A Tabela 2.3 traz algumas generalizações sobre os tipos de receptores e seus mecanismos de ação. Essas generalizações são: (1) na divisão parassimpática, os órgãos efetores apresentam receptores muscarínicos; (2) na divisão simpática, existem diversos tipos de receptores em órgãos efetores, incluindo os quatro adrenorreceptores (α1, α2, β1 e β2); nos tecidos com inervação simpática colinérgica, há receptores muscarínicos; (3) entre os adrenorreceptores simpáticos, o tipo de receptor está relacionado com a função. Os receptores α1 contraem músculos lisos, como a musculatura lisa vascular, os esfíncteres gastrintestinais e vesicais, os músculos piloeretores e o músculo radial da íris. Os receptores β1 participam de funções metabólicas, como a gliconeogênese, a lipólise e a secreção de renina, assim como de todas as funções cardíacas. Os receptores β2 relaxam a musculatura lisa dos bronquíolos, da parede da bexiga e da parede do trato gastrintestinal. Centros do Hipotálamo e do Tronco Encefálico Os centros do hipotálamo e do tronco encefálico coordenam a regulação autônoma das funções dos sistemas de órgãos. A Figura 2.5 resume as localizações desses centros, que são responsáveis pela regulação da temperatura, pela sede, pela ingestão de alimentos (fome e saciedade), pela micção, pela respiração e pela função cardiovascular (vasomotora). O centro vasomotor, por exemplo, recebe informações sobre a pressão arterial de barorreceptores localizados no seio carotídeo e compara essas informações com a pressão arterial ideal. Se houver necessidade de correção, o centro vasomotor orquestra alterações nas inervações simpáticas e parassimpáticas do coração e dos vasos sanguíneos, modificando a pressão arterial. Esses centros autonômicos superiores são discutidos em todo este livro no contexto de cada sistema de órgãos. FIG. 2.5 Centros autonômicos no hipotálamo e no tronco encefálico. CI, Primeiro segmento cervical da medula espinal. Receptores autonômicos Como observado na discussão anterior, os receptores autonômicos estão presentes nos corpos celulares de neurônios pós-ganglionares e nos órgãos efetores. O tipo de receptor e seu mecanismo de ação determinam a natureza da resposta fisiológica. Além disso, as respostas fisiológicas são específicas para o tecido e o tipo celular. Para ilustrar tal especificidade, compare o efeito da ativação de receptores adrenérgicos β1 no nó SA com o efeito dessa mesma ativação no músculo ventricular. Tanto o nó SA quanto o músculo ventricular estão localizados no coração, e seus receptores adrenérgicos e mecanismos de ação são os mesmos. As ações fisiológicas resultantes, porém, são completamente diferentes. O receptor β1 do nó SA está associado a mecanismos que aumentam a frequência espontânea de despolarização e a frequência cardíaca; a ligação de um agonista, como a noradrenalina, a este receptor β1 aumenta a frequência cardíaca. O receptor β1 do músculo ventricular está associado a mecanismos que aumentam a concentração intracelular de Ca2+ e a contratilidade; a ligação de um agonista, como a noradrenalina, a este receptor β1 aumenta a contratilidade, mas não exerce efeito direto sobre a frequência cardíaca. O tipo de receptor também indica qual agonista ou antagonista farmacológico o ativa ou bloqueia. Os efeitos desses fármacos podem ser facilmente previstos pela compreensão das respostas fisiológicas normais. Os fármacos que são agonistas β1, por exemplo, devem aumentar a frequência cardíaca e a contratilidade, enquanto os antagonistas β1 devem diminuir a frequência cardíaca e a contratilidade.A Tabela 2.4 resume as características dos receptores adrenérgicos e colinérgicos, seus tecidos-alvo e seus mecanismos de ação. A Tabela 2.2 é disposta de forma similar, por tipo de receptor, e lista os fármacos prototípicos que ativam (agonistas) ou bloqueiam (antagonistas) os receptores. Juntas, essas duas tabelas devem ser usadas como referência durante a discussão sobre os mecanismos de ação. Esses mecanismos, com participação das proteínas ligantes do trifosfato de guanosina (GTP) (proteínas G), da adenilil ciclase e do 1,4,5-trifosfato de inositol (IP3), são também discutidos, no Capítulo 9, no contexto da ação hormonal. Tabela 2.4 Localização e Mecanismo de Ação dos Receptores Autonômicos Receptor Tecido-Alvo Mecanismo de Ação Adrenorreceptores α1 Musculatura lisa vascular, (cutânea, renal e esplâncnica) Trato gastrintestinal, esfíncteres Bexiga, esfíncter Músculo radial, íris IP3, ↑ intracelular de [Ca2+] α2 Trato gastrintestinal, parede Neurônios adrenérgicos pré-sinápticos Inibição de adenilil ciclase, ↓ AMPc β1 Coração Glândulas salivares Tecido adiposo Rim Estimulação de adenilil ciclase, ↑ AMPc β2 Musculatura lisa vascular de músculos esqueléticos Trato gastrintestinal, parede Bexiga, parede Bronquíolos Estimulação de adenilil ciclase, ↑ AMPc Colinorreceptores Nicotínicos Neurônios pós-ganglionares, SNS e SNP (N2) Medula da adrenal (N2) Abertura dos canais de Na+ e K+ → despolarização Muscarínicos Todos os órgãos efetores, SNP Glândulas sudoríparas, SNS IP3, ↑ intracelular de [Ca2+] (M1, M3, M5) ↓ adenilil ciclase, ↓ AMPc (M2, M4) AMPc, Monofosfato cíclico de adenosina; IP3, 1,4,5-trifosfato de inositol; SNP, sistema nervoso parassimpático; SNS, sistema nervoso simpático. Proteínas G Os receptores autonômicos são associados a proteínas ligantes de GTP (proteínas G) e, assim, são denominados receptores ligados à proteína G. Esses receptores, inclusive aqueles do sistema nervoso autônomo, são compostos por uma única cadeia polipeptídica que atravessa a membrana celular sete vezes e, por isso, são conhecidos como receptores proteicos transmembrânicos de sete passagens. O ligante (p. ex., ACh, noradrenalina) interage com o domínio extracelular de seu receptor ligado à proteína G. O domínio intracelular do receptor se liga (é “associado”) à proteína G. Essas proteínas G são heterotriméricas. Em outras palavras, apresentam três diferentes subunidades: α, β e γ. A subunidade α se liga ao difosfato de guanosina (GDP) ou ao GTP. Quando o GDP está ligado, a subunidade α é inativa; quando o GTP está ligado, a subunidade α é ativa. Assim, a atividade da proteína G reside em sua subunidade α e esta proteína alterna entre os estados ativo e inativo de acordo com sua ligação ao GDP ou GTP. Quando a proteína G libera o GDP e se liga ao GTP, por exemplo, passa do estado inativo para o estado ativo; quando o GTP é novamente convertido em GDP por meio da atividade intrínseca da GTPase da proteína G, há mudança do estado ativo para o inativo. As proteínas G acoplam receptores autonômicos ligados à proteína G a enzimas que executam ações fisiológicas. Estas enzimas são a adenilil ciclase e a fosfolipase C, que, quando ativadas, dão origem a um segundo mensageiro (monofosfato cíclico de adenosina [AMPc] ou IP3, respectivamente). O segundo mensageiro amplifica, então, a mensagem e executa a ação fisiológica final. Em alguns casos (p. ex., em certos receptores muscarínicos), a proteína G altera diretamente a função de um canal iônico sem a mediação de um segundo mensageiro. Adrenorreceptores Os adrenorreceptores são encontrados em tecidos-alvo do sistema nervoso simpático e são ativados pelas catecolaminas noradrenalina e adrenalina. A noradrenalina é liberada por neurônios pós- ganglionares do sistema nervoso simpático. A adrenalina é secretada pela medula da adrenal e chega aos tecidos-alvo por meio da circulação. Os adrenorreceptores são divididos em dois tipos, α e β, que ainda se dividem em α1, α2, β1 e β2. Cada um desses tipos de receptores possui um mecanismo de ação diferente (exceto os receptores β1 e β2, que têm o mesmo mecanismo de ação), provocando efeitos fisiológicos distintos (Tabelas 2.3 e 2.4). Receptores α1 Os receptores α1 são encontrados na musculatura lisa vascular (da pele, nos músculos esqueléticos e na região esplâncnica), nos esfíncteres do trato gastrintestinal e da bexiga, além de no músculo radial da íris. A ativação dos receptores α1 leva à contração de cada um desses tecidos. O mecanismo de ação envolve uma proteína G denominada Gq e a ativação da fosfolipase C, ilustrada na Figura 2.6. Os números circulados na figura correspondem às etapas discutidas, da seguinte maneira: 1. O receptor α1 está inserido na membrana celular, onde é acoplado, via proteína Gq, à fosfolipase C. No estado inativo, a subunidade αq da proteína Gq heterotrimérica está ligada ao GDP. 2. Quando um agonista, como a noradrenalina, se liga ao receptor α1 (etapa 1), a unidade αq da proteína Gq sofre uma alteração conformacional. Esta alteração conformacional tem dois efeitos (etapa 2): a liberação do GDP da unidade αq e sua substituição por GTP e a liberação da subunidade αq (ligada ao GTP) do restante da proteína Gq. 3. O complexo αq-GTP desloca-se pela membrana celular e se liga à fosfolipase C, ativando-a (etapa 3). A atividade GTPase intrínseca, então, converte o GTP em GDP e a subunidade αq retorna ao estado inativo (não mostrado). 4. A fosfolipase C ativada catalisa a liberação de diacilglicerol e IP3 do 4,5-difosfato de fosfatidilinositol (etapa 4). O IP3 gerado provoca a liberação de Ca2+ de estoques intracelulares nos retículos endoplasmáticos ou sarcoplasmáticos, aumentando a concentração intracelular de Ca2+ (etapa 5). Juntos, o Ca2+ e o diacilglicerol ativam a proteína quinase C (etapa 6), que fosforila proteínas. Estas proteínas fosforiladas executam as ações fisiológicas finais (etapa 7), como a contração de músculos lisos. FIG. 2.6 Mecanismo de ação dos adrenorreceptores α1. No estado inativo, a subunidade αq da proteína Gq é ligada ao GDP. No estado ativo, com a noradrenalina ligada ao receptor α1, a subunidade αq está ligada ao GTP. αq, β e γ são subunidades da proteína Gq. Os números circulados correspondem às etapas discutidas no texto. RE, Retículo endoplasmático; GDP, difosfato de guanosina; Gq, proteína G; GTP, trifosfato de guanosina; IP3, 1,4,5- trifosfato de inositol; PIP2, 4,5-difosfato de fosfatidilinositol; RS; retículo sarcoplasmático. Receptores α2 Os receptores α2 são inibidores, localizados pré e pós-sinapticamente, e são menos comuns do que os receptores α1. Esses receptores são encontrados em terminais nervosos adrenérgicos e colinérgicos pré-sinápticos e no trato gastrintestinal. Existem duas formas de receptores α2, os autorreceptores e os heterorreceptores. Os receptores α2 presentes nos terminais nervosos pós-ganglionares simpáticos são denominados autorreceptores. Nessa função, a ativação de receptores α2 pela noradrenalina liberada por terminais nervosos pré-sinápticos inibe a maior liberação da molécula pelas mesmas estruturas; esta retroalimentação negativa conserva a noradrenalina em estados de alta estimulação do sistema nervoso simpático. É interessante notar que a medula da adrenal não possui receptores α2, portanto não está sujeita à inibição por retroalimentação e, consequentemente, a medula da adrenal pode esgotar as catecolaminas durante períodos de estresse prolongado. Os receptores α2 presentes em terminais nervosos pós-ganglionares do trato gastrintestinal são denominados heterorreceptores. A noradrenalina é liberada por fibras pós-ganglionares simpáticas que fazem sinapse com essas fibras pós-ganglionares parassimpáticas. Quando ativados pela noradrenalina, os receptores α2 inibem a liberação de ACh pelos terminais nervosos pós-ganglionares parassimpáticos. Dessa forma, o sistema nervoso simpático inibe, indiretamente, a função gastrintestinal (ou seja, por meio da inibição da atividade parassimpática). Oe discutida de forma mais detalhada no Capítulo 6. A água corpórea total se distribui entre os dois principais compartimentos dos fluidos do organismo: o líquido intracelular (LIC) e o líquido extracelular (LEC) (Figura 1.1). O LIC é encontrado no interior das células e corresponde a dois terços da água corpórea total; o LEC está fora das células e equivale a um terço da água corpórea total. O LIC e o LEC são separados pelas membranas celulares. FIGURA 1.1 Compartimentos líquidos corpóreos. O LEC é ainda dividido em dois compartimentos: o plasma e o líquido intersticial. O plasma é o líquido que circula nos vasos sanguíneos e é o menor dos dois subcompartimentos do LEC. O líquido intersticial é o qual realmente banha as células e é o maior dos dois subcompartimentos. O plasma e o líquido intersticial são separados pela parede capilar. O líquido intersticial é um ultrafiltrado do plasma, formado pelos processos de filtração através da parede capilar. Uma vez que a parede capilar é praticamente impermeável a moléculas grandes, como as proteínas plasmáticas, a quantidade de proteínas no líquido intersticial é pequena ou nula. O método para estimativa do volume dos compartimentos líquidos corpóreos é mostrado no Capítulo 6. Composição dos Compartimentos dos Fluidos Corpóreos A composição dos compartimentos dos fluidos corpóreos não é uniforme. As concentrações de diversos solutos são muito diferentes entre o LIC e o LEC. Existem também algumas diferenças previsíveis nas concentrações de soluto entre o plasma e o líquido intersticial, que ocorrem devido à exclusão de proteínas neste último. Unidades para Mensuração das Concentrações de Soluto Normalmente, as quantidades de soluto são expressas em moles, equivalentes ou osmoles. Da mesma maneira, as concentrações de solutos são expressas em moles por litro (mol/L), equivalentes por litro (Eq/L) ou osmoles por litro (Osm/L). Nas soluções biológicas, as concentrações de soluto geralmente são muito baixas e expressas em milimoles por litro (mmol/L), miliequivalentes por litro (mEq/L) ou miliosmoles por litro (mOsm/L). Um mol é igual a 6 × 1023 moléculas de uma substância. Um milimol é igual a 1/1.000 ou 10-3 moles. Uma solução de glicose com concentração de 1 mmol/L contém 1 × 10-3 moles de glicose em 1 L. Um equivalente é usado para descrever a quantidade de soluto com carga (ionizado) e é o número de moles do soluto multiplicado por sua valência. Um mol de cloreto de potássio (KCl) em solução, por exemplo, se dissocia em um equivalente de potássio (K+) e um equivalente de cloreto (Cl-). Da mesma maneira, um mol de cloreto de cálcio (CaCl2) em solução se dissocia em dois equivalentes de cálcio (Ca2+) e dois equivalentes de cloreto (Cl-); assim, a concentração de Ca2+ de 1 mmol/L equivale a 2 mEq/L. Um osmol é o número de partículas em que cada soluto se dissocia quando em solução. A osmolaridade é a concentração de partículas em solução expressa como osmoles por litro. Se um soluto não se dissocia em solução (p. ex., a glicose), sua osmolaridade é igual a sua molaridade. Quando um soluto se dissocia em mais de uma partícula em solução (p. ex., NaCl), sua osmolaridade é igual à molaridade multiplicada pelo número de partículas em solução. Uma solução contendo 1 mmol/L de NaCl equivale a 2 mOsm/L, já que o NaCl se dissocia em duas partículas. O pH é um termo logarítmico usado para expressar a concentração de hidrogênio (H+). Uma vez que a concentração de H+ nos fluidos corpóreos é muito baixa (p. ex., 40 × 10-9 Eq/L no sangue arterial), é expressa de forma mais conveniente como um termo logarítmico, o pH. O sinal negativo indica que o pH diminui conforme a concentração de H+ aumenta e que o pH aumenta conforme a concentração de H+ diminui. Assim, Exemplo de problema Dois homens, o Indivíduo A e o Indivíduo B, apresentam doenças que causam produção excessiva de ácido no corpo. Os exames de laboratório mostram a acidez do sangue do Indivíduo A em termos de [H+] e a acidez do sangue do Indivíduo B como pH. O Indivíduo A apresenta [H+] arterial de 65 × 10-9 Eq/L e o Indivíduo B, pH arterial de 7,3. Qual indivíduo apresenta a maior concentração de H+ no sangue? Solução Para comparar a acidez do sangue de cada paciente, converta a [H+] do Indivíduo A em pH, da seguinte maneira: O pH sanguíneo do Indivíduo A, calculado a partir da [H+], é de 7,19 e do Indivíduo B é de 7,3. O Indivíduo A apresenta menor pH sanguíneo, refletindo uma maior [H+] e maior acidez. Eletroneutralidade dos Fluidos Corpóreos Cada compartimento de fluido corpóreo deve obedecer ao princípio da eletroneutralidade macroscópica; assim, cada compartimento deve ter a mesma concentração, em mEq/L, de cargas positivas (cátions) e de cargas negativas (ânions). Não pode haver mais cátions do que ânions ou vice- versa. Mesmo quando há uma diferença de potencial por meio da membrana celular, o equilíbrio de cargas ainda é mantido na maior parte (macroscópica) da solução. (Uma vez que as diferenças de potencial são criadas pela separação de apenas algumas cargas adjacentes à membrana, esta pequena separação de carga não é suficiente para alterar, de forma mensurável, as concentrações totais). Composição do Líquido Intracelular e do Líquido Extracelular As composições do LIC e do LEC são muito diferentes, como mostrado na Tabela 1.1. O principal cátion no LEC é o sódio (Na+) e os ânions equilibrantes são o cloreto (Cl-) e o bicarbonato ( ). Os principais cátions no LIC são o potássio (K+) e o magnésio (Mg2+) e os ânions equilibrantes são proteínas e fosfatos orgânicos. Outras diferenças importantes na composição desses líquidos são a concentração de Ca2+ e o pH. Normalmente, a concentração de Ca2+ ionizado no LIC é muito baixa (≈ 10-7 mol/L); no LEC, essa concentração é cerca de 10.000 vezes maior. O LIC é mais ácido (possui menor pH) do que o LEC. Assim, substâncias encontradas em alta concentração no LEC são observadas em concentrações menores no LIC e vice-versa. Tabela 1.1 Composições Aproximadas dos Líquidos Extracelular e Intracelular Substâncias e Unidades Líquido Extracelular Líquido Intracelulara Na+ (mEq/L) 140 14 K+ (mEq/L) 4 120 Ca2+, ionizado (mEq/L) 2,5b 1 × 10-4 Cl- (mEq/L) 105 10 (mEq/L) 24 10 pHc 7,4 7,1 Osmolaridade (mOsm/L) 290 290 a Os principais ânions do líquido intracelular são proteínas e fosfatos orgânicos. b A [Ca2+] total no líquido extracelular é de 5 mEq/L ou 10 mg/dL. c O pH é –log10 da [H+]; o pH 7,4 equivale à [H+] de 40 x 10-9 Eq/L. É importante notar que, dadas todas as diferenças de concentração de cada soluto, a concentração total de solutos (osmolaridade) é a mesma no LIC e no LEC. A igualdade se deve ao fluxo livre de água pelas membranas celulares. Quaisquer diferenças transientes na osmolaridade entre o LIC e o LEC são logo dissipadas pela movimentação da água para dentro ou fora das células, restabelecendo a igualdade. Criação das Diferenças de Concentração por meio das Membranas Celulares As diferenças na concentração de soluto por meio das membranas celulares são criadas e mantidas por mecanismos de transporte consumidores de energia localizados nas próprias membranas. O mais conhecido desses mecanismos de transporte é a Na+-K+ ATPase (bomba de Na+-K+), que transporta Na+ do LIC para o LEC e, simultaneamente, K+ do LEC para o LIC. Tanto o Na+ quanto o K+ são transportados contra seus respectivos gradientes eletroquímicos; portanto, uma fonte de energia, o trifosfato de adenosina (ATP), é necessária. A Na+-K+ ATPase é responsável pela criação dos grandes gradientes de concentração de Na+ e K+ por meio das membranas celulares (ou seja, pela baixa concentração intracelular de Na+ e pela alta concentração intracelular de K+). Da mesma maneira, a concentração intracelular de Ca2+ é mantida em um nível muito menor do que sua concentração extracelular. Essa diferença de concentração é estabelecida, em parte, por uma Ca2+ ATPase na membrana celular que bombeia o cátion contra seu gradiente eletroquímico. Como a Na+-K+ ATPase,mecanismo de ação desses receptores envolve a inibição da adenilil ciclase, descrita pelas seguintes etapas: 1. O agonista (p. ex., noradrenalina) se liga ao receptor α2, que está acoplado à adenilil ciclase por uma proteína G inibidora, Gi. 2. Com a noradrenalina ligada, a proteína Gi libera o GDP e se liga ao GTP, e a subunidade αi se dissocia do complexo da proteína G. 3. A subunidade αi, então, desloca-se pela membrana, liga-se à adenilil ciclase e a inibe. Por causa disso, os níveis de AMPc diminuem, produzindo a resposta fisiológica final. Receptores β1 Os receptores β1 são proeminentes no coração, sendo encontrados no nó SA, no nó atrioventricular (AV) e no músculo ventricular. Nesses tecidos, a ativação dos receptores β1 aumenta a frequência cardíaca no nó SA, a velocidade de condução no nó AV e a contratilidade do músculo ventricular, respectivamente. Os receptores também estão localizados nas glândulas salivares, no tecido adiposo e nos rins (onde promovem a secreção de renina). O mecanismo de ação dos receptores β1 envolve uma proteína Gs e a ativação da adenilil ciclase. Esta ação é ilustrada na Figura 2.7 e composta pelas seguintes etapas, que correspondem aos números circulados na figura: 1. Da mesma forma que outros receptores autonômicos, os receptores β1 estão inseridos na membrana celular. Esses receptores são acoplados, por uma proteína Gs, à adenilil ciclase. No estado inativo, a subunidade αs da proteína Gs está ligada ao GDP. 2. Quando um agonista, como a noradrenalina, se liga ao receptor β1 (etapa 1), a unidade αs sofre uma alteração conformacional. Esta alteração conformacional tem dois efeitos (etapa 2): a liberação do GDP da unidade αs e sua substituição por GTP e a liberação da subunidade αs ativada do complexo da proteína G. 3. O complexo αs-GTP desloca-se pela membrana celular e se liga à adenilil ciclase, ativando-a (Etapa 3). A atividade GTPase intrínseca, então, converte o GTP em GDP e a subunidade αs retorna a seu estado inativo (não mostrado). 4. A adenilil ciclase ativada catalisa a conversão do ATP em AMPc, que atua como segundo mensageiro (etapa 4). O AMPc, por meio de etapas que envolvem a ativação de proteínas quinases, inicia as ações fisiológicas finais (etapa 5). Como anteriormente mencionado, essas ações fisiológicas são específicas dos tecidos e tipos celulares. A ativação de receptores β1 no só SA provoca a elevação da frequência cardíaca; no músculo ventricular, o aumento da contratilidade; nas glândulas salivares, há aumento da secreção; e, nos rins, há secreção de renina. FIG. 2.7 Mecanismo de ação dos adrenorreceptores β. No estado inativo, a subunidade αs da proteína Gs é ligada ao GDP. No estado ativo, com a noradrenalina ligada ao receptor β, a subunidade αs está ligada ao GTP. Os receptores β1 e β2 possuem o mesmo mecanismo de ação. Os números circulados correspondem às etapas discutidas no texto. ATP, Trifosfato de adenosina; AMPc, monofosfato cíclico de adenosina; GDP, difosfato de guanosina; GTP, trifosfato de guanosina. Receptores β2 Os receptores β2 são encontrados na musculatura lisa vascular dos músculos esqueléticos, nas paredes do trato gastrintestinal e da bexiga e nos bronquíolos. Nesses tecidos, a ativação dos receptores β2 provoca relaxamento ou dilatação. O mecanismo de ação dos receptores β2 é similar ao dos receptores β1: ativação de uma proteína Gs, liberação da subunidade αs, estimulação da adenilil ciclase e geração de AMPc (Figura 2.7). Respostas dos Adrenorreceptores à Noradrenalina e à Adrenalina Existem diferenças significativas nas respostas dos adrenorreceptores α1, β1 e β2 às catecolaminas noradrenalina e adrenalina. Estas diferenças são explicadas a seguir, lembrando que a noradrenalina é a catecolamina liberada pelas fibras nervosas adrenérgicas simpáticas pós-ganglionares, enquanto a adrenalina é a principal catecolamina liberada pela medula da adrenal: (1) a noradrenalina e a adrenalina possuem quase a mesma potência em receptores α1, sendo esta última um pouco mais potente. No entanto, em comparação com os receptores β, os receptores α1 são relativamente insensíveis às catecolaminas. A ativação de receptores α1 requer concentrações maiores de catecolaminas do que a ativação de receptores β. Fisiologicamente, essas altas concentrações são localmente atingidas quando a noradrenalina é liberada por fibras nervosas simpáticas pós- ganglionares, mas não após a liberação de catecolaminas pela medula da adrenal. A quantidade de adrenalina (e noradrenalina) liberada pela medula da adrenal na resposta de luta ou fuga, por exemplo, é insuficiente para a ativação de receptores α1; (2) a noradrenalina e a adrenalina são equipotentes em receptores β1. Como já mencionado, concentrações muito menores de catecolaminas ativam os receptores β1 em comparação com os receptores α1. Assim, a noradrenalina liberada pelas fibras nervosas simpáticas ou a adrenalina liberada pela medula da adrenal ativa os receptores β1; (3) os receptores β2 são preferencialmente ativados pela adrenalina. Assim, a adrenalina liberada pela medula da adrenal deve ativar os receptores β2, mas não a noradrenalina liberada pelas terminações nervosas simpáticas. Colinorreceptores Existem dois tipos de colinorreceptores: nicotínicos e muscarínicos. Os receptores nicotínicos são encontrados em todos os gânglios autonômicos e nas células cromafins da medula da adrenal. Os receptores muscarínicos são encontrados em todos os órgãos efetores da divisão parassimpática e em alguns órgãos efetores da divisão simpática. Receptores Nicotínicos Os receptores nicotínicos são encontrados em diversos locais importantes: na placa motora dos músculos esqueléticos, em todos os neurônios pós-ganglionares dos sistemas nervosos simpático e parassimpático e nas células cromafins da medula da adrenal. A ACh é seu agonista natural e é liberada pelos motoneurônios e por todos os neurônios pré-ganglionares. Não se sabe se o receptor nicotínico na placa motora terminal é idêntico ao receptor nicotínico dos gânglios autonômicos. Essa questão pode ser respondida pela análise das ações dos fármacos que atuam como agonistas ou antagonistas nesses receptores. Os receptores nicotínicos dos dois locais certamente são similares: ambos são ativados pelos agonistas ACh, nicotina e carbacol e antagonizados pelo curare (Tabela 2.2). Outro antagonista do receptor nicotínico, no entanto, o hexametônio, bloqueia-o nos gânglios, mas não na placa motora. Assim, pode-se concluir que os receptores desses dois locais são similares, mas não idênticos; os receptores nicotínicos da placa motora da musculatura esquelética são denominados N1, e os receptores nicotínicos dos gânglios autonômicos são chamados N2. Segundo essa distinção farmacológica, substâncias como o hexametônio são agentes bloqueadores ganglionares, mas não bloqueadores neuromusculares. É possível chegar a uma segunda conclusão sobre os agentes bloqueadores ganglionares, como o hexametônio. Esses agentes devem inibir receptores nicotínicos em gânglios simpáticos e parassimpáticos, e, assim, produzir efeitos disseminados sobre a função autonômica. Para prever as ações de agentes bloqueadores ganglionares em um determinado órgão, porém, é necessário saber se o controle dominante desse órgão é simpático ou parassimpático. A musculatura lisa vascular, por exemplo, apresenta apenas inervação simpática, que causa vasoconstrição; dessa forma, os agentes bloqueadores ganglionares relaxam a musculatura lisa vascular e provocam vasodilatação. (Devido a essa propriedade, os agentes bloqueadores ganglionares podem ser usados no tratamento da hipertensão.) Por outro lado, a função sexual masculina é dramaticamente prejudicada por agentes bloqueadores ganglionares, já que a resposta sexual do homem apresenta componentes simpáticos (ejaculação) e parassimpáticos (ereção). O mecanismo de ação dos receptores nicotínicos, seja na placa motora ou nos gânglios, é baseado no fato de que esse receptor de ACh é também um canal para Na+ eK+. Quando o receptor nicotínico é ativado pela ACh, o canal se abre, permitindo a passagem simultânea de Na+ e K+ conforme seus respectivos gradientes eletroquímicos. A Figura 2.8 ilustra a função dos receptores/canais nicotínicos em dois estados: fechado e aberto. O receptor nicotínico é uma proteína integral da membrana celular composta por cinco subunidades: duas α, uma β, uma δ e uma γ. Estas cinco subunidades formam um funil ao redor da abertura central. Quando não há ACh ligada, a abertura do canal está fechada. Quando a ACh está ligada a cada uma das duas subunidades α, há uma mudança conformacional em todas as subunidades, abrindo a área central do canal. Com a abertura do centro do canal, o Na+ e o K+ fluem de acordo com seus respectivos gradientes eletroquímicos (Na+ para dentro da célula e K+ para fora da célula) e cada íon tenta levar o potencial de membrana a seu potencial de equilíbrio. O potencial de membrana resultante é a média entre os potenciais de equilíbrio dos dois íons, aproximadamente 0 milivolt, o que corresponde a um estado despolarizado. FIG. 2.8 Mecanismo de ação dos colinorreceptores nicotínicos. O receptor nicotínico para acetilcolina (ACh) é um canal iônico para Na+ e K+. O receptor possui cinco subunidades: duas α, uma β, uma δ e uma γ. Receptores Muscarínicos Os receptores muscarínicos estão localizados em todos os órgãos efetores do sistema nervoso parassimpático: no coração, no trato gastrintestinal, nos bronquíolos, na bexiga e nos órgãos sexuais masculinos. Esses receptores também são encontrados em certos órgãos efetores do sistema nervoso simpático, especificamente nas glândulas sudoríparas. Alguns receptores muscarínicos (p. ex., M1, M3 e M5) apresentam o mesmo mecanismo de ação que os adrenorreceptores α1 (Figura 2.6). Nesses casos, a ligação do agonista (ACh) ao receptor muscarínico provoca a dissociação da subunidade α da proteína G, a ativação da fosfolipase C e a geração de IP3 e diacilglicerol. O IP3 libera o Ca2+ armazenado e o aumento da concentração intracelular deste íon associado à presença de diacilglicerol produz as ações fisiológicas específicas ao tecido. Outros receptores muscarínicos (p. ex., M4) inibem a adenilil ciclase e reduzem os níveis intracelulares de AMPc. Outro tipo de receptores muscarínicos (M2) altera os processos fisiológicos por meio da ação direta da proteína G. Nesses casos, não há participação de segundos mensageiros. Os receptores muscarínicos do nó SA do coração, por exemplo, quando ativados pela ACh, ativam a proteína Gi e liberam a subunidade αi, que se liga diretamente aos canais de K+ do nó SA. Quando as subunidades αi se ligam aos canais de K+, estes se abrem e diminuem a taxa de despolarização do nó SA e a frequência cardíaca. Nesse mecanismo, não há estimulação ou inibição de adenilil ciclase ou fosfolipase C, nem a participação de quaisquer segundos mensageiros; em vez disso, a proteína Gi age diretamente sobre o canal iônico (Quadro 2.4) Q u a d r o 2 . 4 F is io logia Cl ínica : Tratamento do Enjoo por Movimento (Cinetose) com um Antagonista de Receptor Muscarínico Descrição do caso Uma mulher que planeja realizar um cruzeiro de 10 dias pede que seu médico receite algo que previna o enjoo por movimento. O médico prescreve escopolamina, uma substância similar à atropina, e recomenda à paciente que ela tome a medicação durante toda a viagem. Tomando o fármaco, a mulher não tem náuseas ou vomita, como esperado, mas apresenta secura na boca, dilatação das pupilas (midríase), aumento da frequência cardíaca (taquicardia) e dificuldade de micção. Explicação do caso A escopolamina, como a atropina, bloqueia os receptores colinérgicos muscarínicos nos tecidos- alvo. Este fármaco pode, de fato, ser usado com sucesso no tratamento do enjoo por movimento, cuja etiologia envolve receptores muscarínicos do sistema vestibular. As reações adversas que a paciente apresentou durante o tratamento com escopolamina podem ser explicadas pela fisiologia dos receptores muscarínicos nos tecidos-alvo. A ativação dos receptores muscarínicos aumenta a salivação, contrai as pupilas, diminui a frequência cardíaca (bradicardia) e contrai a parede da bexiga durante a micção (Tabela 2.2), portanto a inibição dos receptores muscarínicos por meio da administração de escopolamina deve provocar sintomas relacionados com diminuição da salivação (boca seca), dilatação das pupilas (devido à livre influência do sistema nervoso simpático sobre o músculo radial), aumento da frequência cardíaca e micção lenta (causada pela perda do tônus contrátil da parede da bexiga). Tratamento Interrupção da administração de escopolamina. Resumo ▪ O sistema nervoso autônomo é composto por duas divisões principais, simpática e parassimpática, que operam de forma coordenada para regular as funções involuntárias. A divisão simpática é toracolombar e originária da medula espinal. A divisão parassimpática é craniossacral, sendo originária do tronco encefálico e da porção sacral da medula espinal. ▪ As vias eferentes do sistema nervoso autônomo são compostas por um neurônio pré- ganglionar e um neurônio pós-ganglionar, que fazem sinapse em um gânglio autônomo. Os axônios dos neurônios pós-ganglionares, então, trafegam até a periferia para inervar os órgãos efetores. A medula da adrenal é um gânglio especializado da divisão simpática; quando estimulada, secreta catecolaminas na circulação. ▪ De modo geral, as inervações simpáticas e parassimpáticas dos órgãos ou sistemas de órgãos têm efeitos recíprocos. Estes efeitos são coordenados por centros autonômicos no tronco encefálico e no hipotálamo. Os centros autonômicos do tronco encefálico controlam a frequência cardíaca, por exemplo, ao modularem a atividade simpática e parassimpática no nó SA. ▪ Os receptores para neurotransmissores do sistema nervoso autônomo são adrenérgicos (adrenorreceptores) ou colinérgicos (colinorreceptores). Os adrenorreceptores são ativados pelas catecolaminas noradrenalina e adrenalina; os colinorreceptores, por ACh. ▪ Os receptores autonômicos são acoplados a proteínas G, que podem ser estimuladoras (Gs) ou inibidoras (Gi). As proteínas G, por sua vez, ativam ou inibem enzimas que são responsáveis pelas ações fisiológicas finais. ▪ O mecanismo de ação dos adrenorreceptores pode ser explicado da seguinte maneira: os receptores α1 atuam mediante a ativação da fosfolipase C e a geração de IP3. Os receptores β1 e β2 agem por meio da ativação de adenilil ciclase e a geração de AMPc; os receptores α2 atuam por intermédio da inibição da adenilil ciclase. ▪ O mecanismo de ação dos colinorreceptores pode ser explicado da seguinte forma: os receptores nicotínicos atuam como canais iônicos para Na+ e K+. Muitos receptores muscarínicos apresentam o mesmo mecanismo de ação que os receptores α1; em alguns receptores muscarínicos, há ação direta da proteína G no mecanismo fisiológico. Desaf ie -se Responda a cada pergunta com uma palavra, expressão, frase ou solução numérica. Se a questão vier acompanhada por uma lista de possíveis respostas, uma, mais de uma ou nenhuma das escolhas pode estar correta. As respostas corretas são mostradas no final do livro. 1. Qual(is) da(s) seguinte(s) ação(ões) é(são) mediada(s) por receptores β2: aumento da frequência cardíaca, contração dos esfíncteres gastrintestinais, contração da musculatura lisa vascular, dilatação das vias aéreas, relaxamento da parede da bexiga? 2. Uma mulher que está tomando atropina para tratamento de uma doença gastrintestinal nota que suas pupilas estão dilatadas. Isto ocorreu porque a atropina bloqueia os receptores _______________ do músculo _________________ da íris. 3. Qual(is) da(s) seguinte(s) é(são) característica(s) do sistema nervoso parassimpático, mas não do sistema nervoso simpático: gânglios em tecidos-alvo ou regiões próximas, receptores nicotínicos em neurônios pós-ganglionares, receptores muscarínicos em alguns tecidos-alvo, receptores β1 em alguns tecidos-alvo, neurônios pré-ganglionarescolinérgicos? 4. O propranolol diminui a frequência cardíaca por ________________ os receptores ________________ no nó sinoatrial do coração. 5. Qual(is) da(s) seguinte(s) ação(ões) é(são) mediada(s) pelo mecanismo da adenilil ciclase: efeito do sistema nervoso parassimpático para aumento da secreção ácida no estômago, efeito da adrenalina para aumento da contratilidade cardíaca, efeito da adrenalina para aumento da frequência cardíaca, efeito da acetilcolina para redução da frequência cardíaca, efeito da acetilcolina para contração das vias aéreas, contração da musculatura lisa vascular nos vasos sanguíneos esplâncnicos? 6. Qual enzima é responsável pela maior síntese de adrenalina do que de noradrenalina pela medula da adrenal? 7. Um homem teve um feocromocitoma que causou uma grave elevação em sua pressão arterial. Antes da cirurgia para remoção do tumor, o paciente foi tratado com o fármaco errado, que aumentou ainda mais sua pressão arterial. Diga duas classes farmacológicas que podem ter sido erroneamente administradas e causado essa elevação. 8. A bexiga de um homem está cheia. Ao urinar, os receptores __________ provocam __________ do músculo detrusor e os receptores __________ provocam __________ do esfíncter interno. 9. Na ação dos receptores α1, qual é a ordem correta das etapas: ligação de αq ao GDP, ligação de αq ao GTP, geração de IP3, liberação de Ca2+ dos depósitos intracelulares, ativação da proteína quinase, ativação da fosfolipase C? 10. Quais das seguintes ações são mediadas por receptores muscarínicos: redução da velocidade de condução no nó AV, secreção ácida no estômago, midríase, contração dos esfíncteres gastrintestinais, ereção, secreção de renina, sudorese em um dia quente? C A P Í T U L O 3 Neurofisiologia Organização do Sistema Nervoso, Células do Sistema Nervoso, Características Gerais dos Sistemas Sensoriais e Motores, Sistemas Sensoriais, Sistema Somatossensorial e Dor, Visão, Audição, Sistema Vestibular, Olfato, Paladar, Sistemas Motores, Funções Superiores do Sistema Nervoso Central, Líquido Cerebrospinal, Resumo, Desafie-se, O sistema nervoso é uma rede complexa que permite a comunicação do organismo com seu ambiente. Esta rede possui componentes sensoriais, que detectam alterações na estimulação ambiental, e componentes motores, que geram movimentos, contração dos músculos cardíacos e lisos e secreções glandulares. Os componentes integradores do sistema nervoso recebem, armazenam e processam as informações sensoriais e, então, organizam as respostas motoras adequadas. Organização do sistema nervoso Para entender a neurofisiologia, é preciso conhecer a organização do sistema nervoso e a disposição anatômica macroscópica das estruturas. Uma apresentação abrangente da neuroanatomia seria o assunto de um texto inteiro. Assim, neste capítulo, a anatomia será brevemente descrita conforme o contexto fisiológico. O sistema nervoso é composto por duas divisões: o sistema nervoso central (SNC), formado pelo encéfalo e pela medula espinal, e o sistema nervoso periférico (SNP), que inclui os receptores sensoriais, os nervos e os gânglios fora do SNC. O SNC e o SNP se comunicam extensamente entre si. Uma maior distinção pode ser feita entre as divisões sensoriais e motoras do sistema nervoso. A divisão sensorial ou aferente leva a informação para o sistema nervoso, geralmente a partir de eventos ocorridos nos receptores sensoriais da periferia. Dentre estes receptores estão, por exemplo, os receptores visuais, auditivos e somatossensoriais (tato) e os quimiorreceptores. Esta informação aferente é, então, transmitida a níveis progressivamente superiores do sistema nervoso e, por fim, chega ao córtex cerebral. A divisão motora ou eferente traz a informação do sistema nervoso para a periferia. Esta informação eferente provoca a contração da musculatura esquelética, lisa e cardíaca ou a secreção de glândulas endócrinas ou exócrinas. Para ilustrar e comparar as funções das divisões sensoriais e motoras do sistema nervoso considere um exemplo mostrado no Capítulo 2: a regulação da pressão arterial. A pressão arterial é percebida por barorreceptores localizados nas paredes do seio carotídeo. Esta informação é transmitida, através do nervo glossofaríngeo (nervo craniano [NC] IX), ao centro vasomotor do bulbo do tronco encefálico – este é o ramo sensorial ou aferente da regulação da pressão arterial. No bulbo, a pressão arterial percebida é comparada a um padrão e o centro vasomotor bulbar determina alterações no fluxo simpático ou parassimpático para o coração e os vasos sanguíneos, produzindo os ajustes apropriados na pressão arterial – este é o ramo motor ou eferente da regulação da pressão arterial. O SNC é formado pelo encéfalo e pela medula espinal. A organização das principais estruturas do SNC é ilustrada nas Figuras 3.1 e 3.2. A Figura 3.1 mostra as estruturas em suas posições anatômicas corretas. Estas mesmas estruturas são ilustradas de forma esquemática na Figura 3.2, que pode ser mais útil como referência. FIGURA 3.1 Corte sagital mediano do encéfalo. São mostradas as relações entre os lobos do córtex cerebral, o cerebelo, o tálamo e o hipotálamo, o tronco encefálico e a medula espinal. FIGURA 3.2 Diagrama esquemático do sistema nervoso central. As principais divisões do SNC são medula espinal; tronco encefálico (bulbo, ponte e mesencéfalo); cerebelo; diencéfalo (tálamo e hipotálamo); e hemisférios cerebrais (córtex cerebral, substância branca, núcleos da base, formação hipocampal e amígdala). Medula Espinal A medula espinal é a porção mais caudal do SNC e se estende da base do crânio até a primeira vértebra lombar. A medula espinal é segmentada e apresenta 31 pares de nervos espinais que contêm nervos sensoriais (aferentes) e motores (eferentes). Os nervos sensoriais carreiam a informação da pele, das articulações, dos músculos e das vísceras da periferia para a medula espinal por meio dos gânglios da raiz posterior e dos gânglios dos nervos cranianos. Os nervos motores carreiam a informação da medula espinal até a periferia; estes nervos podem ser nervos motores somáticos, que inervam a musculatura esquelética, e nervos motores do sistema nervoso autônomo, que inervam o músculo cardíaco, a musculatura lisa e as glândulas (Capítulo 2). A informação também trafega para cima e para baixo na medula espinal. As vias ascendentes da medula espinal transmitem as informações sensoriais da periferia a níveis superiores do SNC. As vias descendentes da medula espinal transmitem as informações motoras de níveis superiores do SNC para os nervos motores que inervam a periferia. Tronco Encefálico O bulbo, a ponte e o mesencéfalo são coletivamente chamados tronco encefálico. Dez dos 12 nervos cranianos (NC III-XII) são originários do tronco encefálico. Estes nervos carreiam as informações sensoriais para o tronco encefálico e, a partir dele, as informações motoras. Os componentes do tronco encefálico são: ♦ O bulbo é a extensão rostral da medula espinal. Possui centros autônomos que regulam a respiração e pressão arterial, além de centros que coordenam os reflexos de deglutição, tosse e vômito (Capítulo 2, Figura 2.5). ♦ A ponte é rostral ao bulbo e, junto com os centros bulbares, participa da manutenção do equilíbrio e da postura e da regulação da respiração. Além disso, a ponte transmite informações dos hemisférios cerebrais para o cerebelo. ♦ O mesencéfalo é rostral à ponte e participa do controle dos movimentos dos olhos. Também contém os núcleos de retransmissão dos sistemas auditivos e visuais. Cerebelo O cerebelo é uma estrutura foliada ligada ao tronco encefálico e dorsal à ponte e ao bulbo. As funções do cerebelo são a correção do planejamento e da execução dos movimentos, a manutenção da postura e a coordenação dos movimentos da cabeça e dos olhos. Assim, o cerebelo, convenientemente posicionado entre o córtex cerebral e a medula espinal, integra as informações sensoriais sobre a posição do corpo transmitidaspela medula espinal, as informações motoras originadas do córtex cerebral e as informações dos órgãos vestibulares da orelha interna. Tálamo e Hipotálamo Juntos, o tálamo e o hipotálamo formam o diencéfalo, que significa “no meio do encéfalo”. Este termo faz referência à localização do tálamo e do hipotálamo entre os hemisférios cerebrais e o tronco encefálico. O tálamo processa quase todas as informações sensoriais que chegam ao córtex cerebral e quase todas as informações motoras que vêm do córtex cerebral para o tronco encefálico e a medula espinal. O hipotálamo é ventral ao tálamo e contém os centros que regulam a temperatura corpórea, a ingestão de alimentos e o balanço hídrico. O hipotálamo também é uma glândula endócrina que controla as secreções hormonais da hipófise. O hipotálamo secreta hormônios que estimulam ou inibem a secreção de outros hormônios no sistema porta-hipofisário, levando à liberação (ou não) de hormônios pela hipófise anterior. O hipotálamo também contém os corpos celulares dos neurônios da hipófise posterior que secretam o hormônio antidiurético (ADH) e a ocitocina. Hemisférios Cerebrais Os hemisférios cerebrais são compostos pelo córtex cerebral, pela substância branca subjacente e por três núcleos profundos (núcleos da base, hipocampo e amígdala). Os hemisférios cerebrais são responsáveis pela percepção, pelas funções motoras superiores, pela cognição, pela memória e pelas emoções. ♦ Córtex cerebral. O córtex cerebral é a superfície convoluta dos hemisférios cerebrais e é composto por quatro lobos: frontal, parietal, temporal e occipital. Estes lobos são separados por sulcos. O córtex cerebral recebe e processa as informações sensoriais e integra as funções motoras. Estas áreas sensoriais e motoras do córtex são ainda designadas “primárias”, “secundárias” e “terciárias”, dependendo de como lidam, diretamente, como o processamento sensorial e motor. As áreas primárias são as mais diretas e possuem o menor número de sinapses; as áreas terciárias requerem o processamento mais complexo, com um grande número de sinapses. As áreas secundárias e terciárias são também denominadas áreas de associação porque integram informações de vários tipos para executar ações determinadas. A área de associação límbica (terciária), por exemplo, participa da motivação, da memória e das emoções. Os exemplos a seguir ilustram a nomenclatura: (1) O córtex motor primário contém os motoneurônios superiores, que se projetam diretamente para a medula espinal e ativam motoneurônios inferiores que inervam a musculatura esquelética. (2) Os córtices sensoriais primários são compostos pelo córtex visual primário, pelo córtex auditivo primário e pelo córtex somatossensorial primário e recebem informações de receptores sensoriais localizados na periferia, com somente algumas sinapses interpostas. (3) As áreas de associação sensoriais e motoras secundárias e terciárias estão ao redor destas áreas primárias e participam de processamentos mais complexos. ♦ Núcleos da base, hipocampo e amígdala. Os hemisférios cerebrais possuem três núcleos profundos. Os núcleos da base são compostos pelo núcleo caudado, pelo putâmen e pelo globo pálido. Os núcleos da base recebem impulsos de todos os lobos do córtex cerebral e se projetam, através do tálamo, até o córtex frontal, onde participam do planejamento do movimento. O hipocampo e a amígdala são parte do sistema límbico. O hipocampo participa da memória; a amígdala está envolvida com as emoções e se comunica com o sistema nervoso autônomo por meio do hipotálamo (por exemplo, efeito das emoções sobre a frequência cardíaca, o tamanho da pupila e a secreção de hormônios hipotalâmicos). Células do sistema nervoso Os neurônios, ou células nervosas, são especializados no recebimento e no envio de sinais. A estrutura dos neurônios consiste no corpo celular ou soma, os dendritos, o axônio e os terminais pré-sinápticos (Figura 3.3). As células da glia, em número muito superior ao de neurônios, incluem os astrócitos, os oligodendrócitos e as células da micróglia; sua função é, grosseiramente, dar suporte aos neurônios. FIGURA 3.3 Estrutura do neurônio. Estrutura do Neurônio Corpo Celular O corpo celular, ou soma, envolve o núcleo do neurônio e contém o retículo endoplasmático e o aparelho de Golgi. É responsável pela síntese e pelo processamento de proteínas dos neurônios. Dendritos Os dendritos são processos afunilados do corpo celular. Os dendritos recebem informações e, assim, apresentam receptores para os neurotransmissores liberados por neurônios adjacentes. Axônio O axônio é uma projeção de uma região especializada do corpo celular, chamada cone axonal, contínua à zona de gatilho (ou segmento inicial), onde os potenciais de ação são gerados para envio de informações. Enquanto os dendritos são numerosos e curtos, cada neurônio possui um único axônio, que pode ser bastante longo (com até 1 metro de comprimento). O citoplasma do axônio apresenta grupos densos e paralelos de microtúbulos e microfilamentos que rapidamente transferem materiais entre o corpo celular e o terminal do axônio. Os axônios carreiam potenciais de ação entre o corpo celular do neurônio e os alvos daquela célula, que podem ser outros neurônios ou músculos. Os axônios podem ser isolados por mielina (Capítulo 1), que aumenta a velocidade de condução; quebras na bainha de mielina ocorrem nos nós de Ranvier. Terminais Pré-sinápticos O axônio faz contato com suas células alvos (p. ex., outros neurônios) em múltiplas terminações, chamadas terminais pré-sinápticos. Quando o potencial de ação transmitido pelo axônio chega ao terminal pré-sináptico, o neurotransmissor é liberado na sinapse. O neurotransmissor se difunde pela fenda sináptica e se liga a receptores na membrana pós-sináptica (p. ex., dos dendritos de outros neurônios). Desta maneira, as informações são rapidamente transmitidas de neurônio a neurônio (ou, na junção neuromuscular, de neurônio para a musculatura esquelética). Células da Glia As células da glia ocupam metade do volume do sistema nervoso e atuam como células de sustentação para os neurônios. Algumas células da glia do cérebro adulto têm propriedades de células-tronco e, assim, podem dar origem a novas células da glia ou até mesmo a novos neurônios. Os astrócitos fornecem combustível metabólico, como o ácido láctico, para os neurônios; estas células também sintetizam neurotransmissores, secretam fatores tróficos que promovem a sobrevida neuronal, modulam o fluxo sanguíneo e ajudam a manter a concentração extracelular de K+ no sistema nervoso. Os oligodendrócitos sintetizam mielina no SNC; as células de Schwann produzem mielina no SNP. As células da micróglia proliferam após lesões neuronais e participam na remoção de restos celulares. Características gerais dos sistemas sensoriais e motores Antes de prosseguir com discussões específicas sobre os principais sistemas sensoriais e motores, algumas características organizacionais comuns devem ser consideradas. Embora os detalhes de cada sistema sejam variáveis, estas características podem ser consideradas um conjunto de temas recorrentes por toda a neurofisiologia. Conexões Sinápticas As sinapses mais simples são conexões uma a uma, compostas por um elemento pré-sináptico (p. ex., um motoneurônio) e um elemento pós-sináptico (p. ex., uma fibra muscular esquelética). No sistema nervoso, porém, muitas sinapses são mais complicadas e usam núcleos de retransmissão para integrar a informação convergente. Os núcleos de retransmissão são encontrados por todo o SNC, mas são mais proeminentes no tálamo. Os núcleos de retransmissão contêm diversos tipos de neurônios, incluindo interneurônios locais e neurônios de projeção. Os neurônios de projeção estendem longos axônios para fora do núcleo e fazem sinapses com outros núcleos ou o córtex cerebral. Quase todas as informações que entram ou saem do córtex cerebral são processadas pelos núcleos do tálamo. Organização Topográfica Uma das principais características dos sistemasnervosos sensoriais e motores é que as informações são codificadas em mapas neurais. No sistema somatossensorial, por exemplo, um mapa somatotópico é formado por um conjunto de neurônios que recebem informações de e mandam informações para locais específicos do corpo. A codificação topográfica é preservada em cada nível do sistema nervoso, até mesmo em nível mais alto: o córtex cerebral. Desse modo, no sistema somatossensorial, as informações topográficas são representadas como um homúnculo sensorial no córtex cerebral (Figura 3.12). No sistema visual, a representação topográfica é denominada retinotópica, no sistema auditivo, tonotópica, e assim por diante. Decussações Quase todas as vias sensoriais e motoras são bilateralmente simétricas e as informações passam de um lado (ipsilateral) para o outro (contralateral) do encéfalo ou da medula espinal. Dessa forma, a atividade sensorial de um lado do corpo é transmitida ao hemisfério cerebral contralateral; da mesma maneira, a atividade motora de um lado do corpo é controlada pelo hemisfério cerebral contralateral. Nem todas as vias, porém, se cruzam na mesma altura do SNC. Algumas vias se cruzam na medula espinal (p. ex., dor) e muitas o fazem no tronco encefálico. Estes cruzamentos são denominados decussações. As áreas do cérebro que possuem somente axônios de decussação são chamadas comissuras; o corpo caloso, por exemplo, é a comissura que conecta os dois hemisférios cerebrais. Alguns sistemas são mistos e possuem vias que se cruzam e vias que não o fazem. No sistema visual, por exemplo, metade dos axônios de cada retina segue em direção contralateral e a outra metade permanece ipsilateral. O cruzamento das fibras visuais ocorre no quiasma óptico. Tipos de Fibras Nervosas As fibras nervosas são classificadas de acordo com sua velocidade de condução, o que depende de seu tamanho e da presença ou não de mielinização. Os efeitos do diâmetro da fibra e da mielinização na velocidade de condução são explicados no Capítulo 1. Em resumo, quanto maior a fibra, maior a velocidade de condução. A velocidade de condução também aumenta devido à presença de uma bainha de mielina ao redor da fibra nervosa. Assim, fibras grandes e mielinizadas apresentam as maiores velocidades de condução, enquanto fibras pequenas e não mielinizadas apresentam as menores velocidades de condução. Dois sistemas de classificação, baseados nas diferenças de velocidade de condução, são usados. O primeiro sistema, descrito por Erlanger e Gasser, se aplica às fibras nervosas sensoriais (aferentes) e motoras (eferentes) e usa como nomenclatura as letras A, B e C. O segundo sistema, descrito por Lloyd e Hunt, se aplica apenas às fibras sensoriais e usa os algarismos romanos I, II, III e IV. A Tabela 3.1 apresenta um resumo dos tipos de fibras nervosas em cada classificação, com exemplos sobre cada tipo e informações sobre o diâmetro da fibra, a velocidade de condução e a presença ou não de mielinização. Tabela 3.1 Classificação das Fibras Nervosas Classificação Tipo de Fibra Nervosa Exemplo Diâmetro Relativo Velocidade Relativa de Condução Mielinização Sensorial e Motora A alfa (Aα) Motoneurônios α Grande Rápida Sim A beta (Aβ) Tato, pressão Médio Média Sim A gama (Aγ) Dos motoneurônios γ até os fusos musculares (fibras intrafusais) Médio Média Sim A delta (Aδ) Tato, pressão, temperatura, dor rápida Pequeno Média Sim B Nervos autônomos pré- ganglionares Pequeno Média Sim C Dor lenta; nervos autônomos pós-ganglionares; olfato Muito pequeno Lenta Não Apenas Sensorial Ia Aferentes dos Fusos musculares Grande Rápida Sim Ib Aferentes do órgão tendinoso de Golgi Grande Rápida Sim II Aferentes secundários dos fusos musculares; tato, pressão Médio Média Sim III Tato, pressão, dor rápida, temperatura Pequeno Média Sim IV Dor, temperatura, olfato Muito pequeno Lenta Não Sistemas sensoriais Vias Sensoriais Os sistemas sensoriais recebem informações do ambiente através de receptores especializados presentes na periferia e as transmitem por meio de uma série de neurônios e conexões sinápticas para o SNC. A transmissão da informação sensorial ocorre nas seguintes etapas (Figura 3.4): 1. Receptores sensoriais. Os receptores sensoriais são ativados por estímulos ambientais. A natureza dos receptores varia de uma modalidade sensorial para outra. Nos sistemas visual, gustativo e auditivo, os receptores são células epiteliais especializadas. Nos sistemas somatossensorial e olfativo, os receptores são neurônios de primeira ordem ou aferentes primários. Independentemente destas diferenças, a função básica dos receptores é a mesma: converter um estímulo (p. ex., ondas sonoras, ondas eletromagnéticas ou pressão) em energia eletroquímica. O processo de conversão, denominado transdução sensorial, é mediado pela abertura ou fechamento de canais iônicos específicos. A abertura ou fechamento dos canais iônicos altera o potencial de membrana do receptor sensorial, causando despolarização ou hiperpolarização. Tal alteração no potencial de membrana do receptor sensorial é denominada potencial receptor. Após a transdução e a geração do potencial receptor, a informação é transmitida para o SNC por meio de uma série de neurônios aferentes sensoriais, que são designados neurônios de primeira, segunda, terceira e quarta ordem (Figura 3.4). Os neurônios de primeira ordem são aqueles mais próximos do receptor sensorial, enquanto os neurônios de ordens maiores são os mais próximos do córtex cerebral. 2. Neurônios aferentes sensoriais de primeira ordem. O neurônio de primeira ordem é o neurônio aferente sensorial primário; em alguns casos (somatossensorial, olfato), é também a célula receptora. Quando um receptor sensorial é uma célula epitelial especializada, faz sinapse com um neurônio de primeira ordem. Quando o receptor é também o neurônio aferente primário, esta sinapse é desnecessária. O corpo do neurônio aferente primário geralmente está em um gânglio de uma raiz posterior da medula espinal*. (Exceto nos sistemas auditivo, olfativo e visual). 3. Neurônios aferentes sensoriais de segunda ordem. Os neurônios de primeira ordem fazem sinapse com os neurônios de segunda ordem em núcleos de retransmissão, localizados na medula espinal ou no tronco encefálico. De modo geral, muitos neurônios de primeira ordem fazem sinapse com um único neurônio de segunda ordem no núcleo de retransmissão. Os interneurônios, também localizados nos núcleos, podem ser excitatórios ou inibitórios. Estes interneurônios processam e modificam as informações sensoriais recebidas dos neurônios de primeira ordem. Os axônios dos neurônios de segunda ordem deixam o núcleo e ascendem para o próximo núcleo, localizado no tálamo, onde fazem sinapse com neurônios de terceira ordem. Seguindo em direção ao tálamo, os axônios destes neurônios de segunda ordem se cruzam na linha média. A decussação, ou cruzamento, pode ocorrer na medula espinal (como ilustrado na Figura 3.4) ou no tronco encefálico (não mostrado). 4. Neurônios aferentes sensoriais de terceira ordem. Os neurônios de terceira ordem localizam-se principalmente nos núcleos do tálamo. Novamente, muitos neurônios de segunda ordem fazem sinapse com um único neurônio de terceira ordem. Os núcleos de retransmissão processam as informações que recebem dos interneurônios locais, que podem ser excitatórios ou inibitórios. 5. Neurônios aferentes sensoriais de quarta ordem. Os neurônios de quarta ordem localizam-se na área sensorial específica do córtex cerebral. Na via auditiva, por exemplo, os neurônios de quarta ordem são encontrados no córtex auditivo primário; na via visual, estão no córtex visual primário; e assim por diante. Como já mencionado, existem áreas secundárias e terciárias (áreas de associação) no córtex, e todas integram informações sensoriais complexas. FIGURA 3.4 Diagrama esquemático das vias sensoriais no sistema nervoso. A informação é transmitida, através de uma série de neurônios, de receptores localizados na periferia até o córtexcerebral. As sinapses são feitas em núcleos de retransmissão entre os neurônios de primeira e segunda ordem, de segunda e terceira ordem, e de terceira e quarta ordem. Os neurônios de segunda ordem cruzam a linha média na medula espinal (mostrada na ilustração) ou no tronco encefálico (não mostrado) e, assim, a informação de um lado do corpo é transmitida para o tálamo e para o córtex cerebral contralaterais. Receptores Sensoriais Considere novamente a primeira etapa da via sensorial, onde um estímulo ambiental é transduzido em um sinal elétrico no receptor sensorial. Esta seção discute os diversos tipos de receptores sensoriais, os mecanismos de transdução sensorial, os campos receptivos dos neurônios sensoriais, a codificação sensorial e a adaptação dos receptores sensoriais. Tipos de Receptores Os receptores são classificados pelo tipo de estímulo que os ativam. Os cinco tipos de receptores são mecanorreceptores, fotorreceptores, quimiorreceptores, termorreceptores e nociceptores. A Tabela 3.2 resume os receptores, dá exemplos e a localização de cada tipo. Tabela 3.2 Tipos e Exemplos de Receptores Sensoriais Tipo de Receptor Modalidade Receptor Localização Mecanorreceptores Tato Corpúsculo de Pacini Pele Audição Célula pilosa Órgão de Corti Vestibular Célula pilosa Mácula, canal semicircular Fotorreceptores Visão Cones e bastonetes Retina Quimiorreceptores Olfato Receptores olfativos Mucosa olfativa Paladar Botões gustativos Língua PO2 arterial Carótida e corpos aórticos pH do LCE Bulbo ventrolateral Termorreceptores Temperatura Receptores de frio Pele Receptores de calor Pele Nociceptores Extremos de dor e temperatura Nociceptores mecânicos e térmicos Pele Nociceptores polimodais Pele LCE, Líquido cerebroespinal PO2, Pressão parcial de oxigênio. Os mecanorreceptores são ativados por pressão ou alterações de pressão. Dentre os mecanorreceptores, incluem-se os corpúsculos de Pacini do tecido subcutâneo, os corpúsculos de Meissner da pele não pilosa (tato), os barorreceptores do seio carotídeo (pressão arterial) e as células pilosas do órgão de Corti (audição) e dos canais semicirculares (sistema vestibular). Os fotorreceptores são ativados pela luz e participam da visão. Os quimiorreceptores são ativados por substâncias químicas e estão envolvidos no olfato, no paladar e na detecção de oxigênio e dióxido de carbono para o controle da respiração. Os termorreceptores são ativados pela temperatura ou por alterações de temperatura. Os nociceptores são ativados por extremos de pressão e temperatura ou ainda por moléculas nocivas. Transdução Sensorial e Potenciais Receptores Transdução sensorial é o processo pelo qual um estímulo ambiental (p. ex., pressão, luz, substâncias químicas) ativa um receptor e é convertido em energia elétrica. A conversão geralmente envolve a abertura ou o fechamento de canais iônicos na membrana receptora, provocando um fluxo de íons (fluxo de corrente) através da membrana. O fluxo de corrente provoca, então, uma alteração no potencial de membrana, denominada potencial receptor, aumentando ou diminuindo a probabilidade de ocorrência de potenciais de ação. Quando um receptor sensorial é ativado, ocorre a seguinte série de etapas: 1. O estímulo ambiental interage com o receptor sensorial e altera suas propriedades. Um estímulo mecânico movimenta os mecanorreceptores (p. ex., as ondas sonoras movem as células pilosas do órgão de Corti). Os fótons luminosos são absorvidos por pigmentos em fotorreceptores da retina, causando a fotoisomerização da rodopsina (uma molécula da membrana do fotorreceptor). Os estímulos químicos reagem com quimiorreceptores, que ativam proteínas Gs e adenilil ciclase. Em cada caso, ocorre uma mudança no receptor sensorial. 2. Estas alterações fazem com que os canais iônicos da membrana dos receptores sensoriais se abram ou fechem, modificando o fluxo de corrente. Se o fluxo de corrente total dos íons for de entrada (ou seja, se as cargas positivas entrarem na célula receptora), ocorre despolarização. Se o fluxo de corrente for de saída (ou seja, se as cargas positivas saírem da célula), há hiperpolarização. A resultante alteração do potencial de membrana, seja despolarização seja hiperpolarização, é denominada potencial receptor ou potencial gerador. O potencial receptor não é um potencial de ação. Ao invés disso, o potencial receptor aumenta ou diminui a probabilidade de ocorrência de um potencial de ação, dependendo de sua natureza despolarizante ou hiperpolarizante (ou seja, aproximar ou distanciar o potencial de membrana do limiar). Os potenciais receptores são potenciais eletrotônicos graduados, cuja amplitude é proporcional ao tamanho do estímulo. 3. Se o potencial receptor for despolarizante, leva o potencial de membrana em direção ao limiar e aumenta a probabilidade de ocorrência de um potencial de ação (Figura 3.5). Uma vez que potenciais receptores possuem amplitude graduada, um pequeno potencial receptor despolarizante pode ser sublimiar e, assim, ser insuficiente à produção de um potencial de ação. Um estímulo maior, porém, produz um potencial receptor despolarizante maior e, se este alcançar o limiar ou excedê-lo, os potenciais de ação ocorrem. Se o potencial receptor for hiperpolarizante (não mostrado), o potencial de membrana se distancia do limiar, sempre diminuindo a probabilidade de ocorrência de potenciais de ação. FIGURA 3.5 Potenciais receptores em células receptoras sensoriais. Os potenciais receptores podem ser despolarizantes (mostrados na ilustração) ou hiperpolarizantes (não mostrados). A, Quando um potencial receptor despolarizante não leva o potencial de membrana até o limiar, não há potencial de ação. B, Quando um potencial receptor despolarizante leva o potencial de membrana até o limiar, ocorre um potencial de ação no receptor sensorial. Campos Receptivos Um campo receptivo é definido como uma área do corpo que, quando estimulada, altera a frequência de disparos de um neurônio sensorial. A alteração na frequência de disparos pode ser um aumento ou uma diminuição; os campos receptivos, portanto, são descritos como excitatórios (porque aumentam a frequência de disparos do neurônio sensorial) ou inibitórios (porque reduzem a frequência de disparos do neurônio sensorial). Existem campos receptivos para neurônios de primeira, segunda, terceira e quarta ordens. O campo receptivo de um neurônio de segunda ordem, por exemplo, é a área de receptores periféricos que altera a taxa de disparos daquele neurônio de segunda ordem. Os campos receptivos têm tamanho variável (Figura 3.6). Quanto menor o campo receptivo, maior a precisão de localização ou identificação de uma sensação. Normalmente, quanto maior a ordem do neurônio do SNC, mais complexo o campo receptivo, já que mais neurônios convergem em núcleos de retransmissão a cada nível. Assim, neurônios sensoriais de primeira ordem possuem os campos receptivos mais simples, enquanto os neurônios sensoriais de quarta ordem apresentam os campos receptivos mais complexos. FIGURA 3.6 Tamanho dos campos receptivos dos neurônios sensoriais. Como mencionado, os campos receptivos podem ser excitatórios ou inibitórios e este padrão de excitação ou inibição transmite informações adicionais ao SNC. A Figura 3.7 ilustra um destes padrões para um neurônio de segunda ordem. O campo receptivo cutâneo deste neurônio em especial possui uma região central de excitação delimitada (de cada lado) a regiões de inibição. Todas as informações que chegam são processadas em núcleos de retransmissão da medula espinal ou do tronco encefálico. As áreas de inibição participam de um fenômeno denominado inibição lateral e auxiliam a localização precisa do estímulo ao definir seus limites e formar uma borda contrastante. FIGURA 3.7 Campos receptivos excitatórios e inibitórios dos neurônios sensoriais. Codificação Sensorial Os neurônios sensoriais são responsáveis pela codificação dos estímulos do ambiente. A codificação começa com a transdução do estímulo por receptoressensoriais e continua conforme as informações são transmitidas a níveis progressivamente mais altos do SNC. Um ou mais aspectos do estímulo são codificados e interpretados. Ao ver uma bola vermelha, por exemplo, seu tamanho, sua localização, sua cor e sua profundidade são codificados. As características que podem ser codificadas incluem a modalidade sensorial, a localização espacial, a frequência, a intensidade, o limiar e a duração do estímulo. ♦ A modalidade do estímulo geralmente é codificada por linhas rotuladas, compostas por vias de neurônios sensoriais dedicadas a esta modalidade. Dessa forma, a via de neurônios dedicada à visão começa com os fotorreceptores da retina. Esta via não é ativada por estímulos somatossensoriais, auditivos ou olfativos. Estas modalidades possuem suas próprias linhas rotuladas. ♦ A localização do estímulo é codificada pelo campo receptivo dos neurônios sensoriais e, como anteriormente descrito, pode ser melhorada pela inibição lateral. ♦ O limiar é o estímulo mínimo que pode ser detectado. O limiar é mais bem compreendido no contexto do potencial receptor. Quando um estímulo é suficientemente grande para produzir um potencial receptor despolarizante que alcança o limiar, ele é detectado. Estímulos menores, sublimiares, não são detectados. ♦ A intensidade do estímulo é codificada de três formas. (1) A intensidade pode ser codificada pelo número de receptores que são ativados. Assim, estímulos fortes ativam mais receptores e produzem respostas maiores do que estímulos fracos. (2) A intensidade pode ser codificada por diferenças na frequência de disparos dos neurônios sensoriais da via. (3) A intensidade pode até mesmo ser codificada pela ativação de diferentes tipos de receptores. Desse modo, um toque leve na pele pode ativar somente mecanorreceptores, enquanto um estímulo cutâneo intenso e danoso pode ativar mecanorreceptores e nociceptores. O estímulo intenso é detectado não apenas como maior, mas também como de uma modalidade diferente. ♦ As informações do estímulo também são codificadas em mapas neurais formados por conjuntos de neurônios que recebem informações de diferentes locais do corpo (ou seja, mapas somatotópicos) ou da retina (mapas retinotópicos) ou ainda de diferentes frequências sonoras (ou seja, mapas tonotópicos). ♦ Outras informações sobre o estímulo são codificadas no padrão de impulsos nervosos. Alguns destes códigos são baseados na frequência média de disparos, outros na duração dos disparos e outros ainda são baseados no padrão temporal de disparos. A frequência do estímulo pode ser codificada diretamente nos intervalos entre as descargas dos neurônios sensoriais (denominados intervalos interpicos). ♦ A duração do estímulo é codificada pela duração das descargas de disparo dos neurônios sensoriais. Durante uma estimulação prolongada, porém, os receptores se “adaptam” ao estímulo e mudam suas taxas de disparo. Os neurônios sensoriais podem ser de adaptação lenta ou rápida. Adaptação dos Receptores Sensoriais Os receptores sensoriais se “adaptam” ao estímulo. A adaptação é observada quando um estímulo constante é aplicado por um determinado período. A princípio, a frequência dos potenciais de ação é alta, mas, com o passar do tempo, esta frequência diminui mesmo com a continuação do estímulo (Figura 3.8). O padrão de adaptação difere entre os vários tipos de receptores. Alguns receptores são fásicos, ou seja, se adaptam rapidamente ao estímulo (p. ex., corpúsculos de Pacini), enquanto outros são tônicos, adaptando-se ao estímulo de maneira lenta (p. ex., células de Merkel). FIGURA 3.8 Resposta dos mecanorreceptores fásicos e tônicos. A base fisiológica da adaptação também é ilustrada na Figura 3.8. Dois tipos de receptores são mostrados: um receptor fásico e um receptor tônico. Um estímulo (p. ex., pressão) é aplicado (ligado) e, então, removido (desligado). Na presença do estímulo, o potencial receptor e a frequência de potenciais de ação são medidos. (Na figura, os potenciais de ação são mostrados como “picos”). ♦ Os receptores fásicos são exemplificados pelos corpúsculos de Pacini, que detectam alterações rápidas na estimulação ou vibrações. Estes receptores se adaptam rapidamente à estimulação constante e detectam principalmente o aparecimento, o desaparecimento de um estímulo e a intensidade variável de um estímulo. O receptor fásico responde imediatamente ao início da estimulação com um potencial receptor despolarizante, que leva o potencial de membrana acima do limiar. Em seguida, ocorre uma série de potenciais de ação de alta frequência. Depois disso, embora o estímulo continue, o potencial receptor diminui ficando abaixo do limiar e não há mais potenciais de ação (ou seja, há silêncio). Quando o estímulo é desligado, o receptor é novamente ativado, conforme o potencial receptor despolariza até o limiar, causando um segundo período breve de potenciais de ação. ♦ Os receptores tônicos são ilustrados pelos mecanorreceptores (p. ex., células de Merkel) da pele, que detectam a pressão constante. Quando comparados aos corpúsculos de Pacini (que detectam vibrações com sua resposta rápida de liga-desliga), os mecanorreceptores tônicos são projetados para codificar a duração e a intensidade do estímulo. O receptor tônico responde ao aparecimento do estímulo com um potencial receptor despolarizante, que leva o potencial de membrana até o limiar, gerando uma longa série de potenciais de ação. Diferentemente do corpúsculo de Pacini, cujo potencial receptor volta rapidamente para o valor de repouso, o potencial receptor, aqui, permanece despolarizado por uma parte maior do período de estimulação, continuando os potenciais de ação. Quando o potencial receptor começa a repolarizar, a frequência de potenciais de ação cai e, por fim, há silêncio. Os receptores tônicos codificam a intensidade do estímulo: quanto maior a intensidade, maior o potencial receptor despolarizante e maior a probabilidade de ocorrência dos potenciais de ação. Assim, os receptores tônicos também codificam a duração do estímulo: quanto mais longa a estimulação, maior o período em que o potencial receptor excede o limiar. Sistema somatossensorial e dor O sistema somatossensorial processa as informações sobre tato, posição, dor e temperatura. Os receptores envolvidos na transdução destas sensações são os mecanorreceptores, os termorreceptores e os nociceptores. Existem duas vias para transdução das informações somatossensoriais para o SNC: o sistema da coluna dorsal e o sistema anterolateral. O sistema da coluna dorsal processa as sensações de tato fino (epicrítico), pressão, discriminação entre dois pontos, vibração e propriocepção (posicionamento de membros). O sistema anterolateral processa as sensações de dor, temperatura e tato grosseiro (protopático). Tipos de Receptores Somatossensoriais Os receptores somatossensoriais são categorizados de acordo com a sensação específica que codificam. Os principais grupos de receptores são os mecanorreceptores (de tato e propriocepção), os termorreceptores (de temperatura) e os nociceptores (de dor e estímulos nocivos). Mecanorreceptores Os mecanorreceptores são subdivididos em diferentes tipos de receptores, dependendo do tipo de pressão ou qualidade proprioceptiva que codificam. Alguns tipos de mecanorreceptores são encontrados na pele não pilosa (glabra) e outros na pele pilosa (com pelos). Os mecanorreceptores são descritos na Tabela 3.3 de acordo com sua localização na pele ou na musculatura, o tipo de adaptação que apresentam e a sensação que codificam e são ilustrados na Figura 3.9. Tabela 3.3 Tipos de Mecanorreceptores Tipo de Mecanorreceptor Localização Adaptação Sensação evocada Corpúsculo de Pacini Subcutânea, intramuscular Muito rápida Vibração, batida leve Corpúsculo de Meissner Pele sem pelos Rápida Discriminação de pontos, batidas leves, ondulações Folículos pilosos Pele com pelos Rápida Velocidade, direção do movimento Corpúsculo de Ruffini Pele com pelos Lenta Estiramento, rotação articularReceptores de Merkel Pele sem pelos Lenta Indentação vertical da pele Discos táteis Pele com pelos Lenta Indentação vertical da pele FIGURA 3.9 Tipos de mecanorreceptores encontrados na pele com ou sem pelos. Uma característica importante de cada receptor é o tipo de adaptação apresentada. Entre os vários tipos de mecanorreceptores, a adaptação varia de “muito rápida” (p. ex., corpúsculos de Pacini) a “rápida” (p. ex., corpúsculos de Meissner e folículos pilosos) e “lenta” (p. ex., corpúsculos de Ruffini, receptores de Merkel e discos táteis). Os receptores de adaptação muito rápida e rápida detectam alterações no estímulo e, portanto, mudanças de velocidade. Os receptores de adaptação lenta respondem à intensidade e à duração do estímulo. ♦ Corpúsculo de Pacini. Os corpúsculos de Pacini são receptores encapsulados encontrados nas áreas profundas da derme, nas camadas subcutâneas da pele pilosa, da glabra e nos músculos. Estes corpúsculos são os mecanorreceptores de adaptação mais rápida. Devido à sua rápida resposta liga-desliga, podem detectar mudanças na velocidade do estímulo e codificam a sensação de vibração. ♦ Corpúsculo de Meissner. Os corpúsculos de Meissner também são receptores encapsulados encontrados na derme da pele sem pelos (glabra), principalmente nas pontas dos dedos das mãos, nos lábios e em outros locais onde a discriminação tátil é muito boa. Estes corpúsculos possuem pequenos campos receptivos e podem ser usados na discriminação entre dois pontos. Os corpúsculos de Meissner são receptores de adaptação rápida que codificam a discriminação entre dois pontos, a localização com grande precisão batidas e ondulações. ♦ Folículo piloso. Os receptores dos folículos pilosos são conjuntos de fibras nervosas dispostas ao redor da raiz pilosa na pele com pelos. Quando um pelo é deslocado, excita os receptores dos folículos pilosos. Estes receptores também são de adaptação rápida e detectam a velocidade e a direção do movimento na pele. ♦ Corpúsculo de Ruffini. Os corpúsculos de Ruffini estão localizados na derme da pele pilosa, da glabra e nas cápsulas articulares. Estes corpúsculos apresentam grandes campos receptivos e são estimulados quando a pele é esticada. O estímulo pode ser localizado a alguma distância dos receptores ativados. Os corpúsculos de Ruffini são receptores de adaptação lenta. Quando a pele é esticada, os receptores rapidamente disparam e, então, de forma lenta, se adaptam a um novo nível de disparo que corresponde à intensidade do estímulo. Os corpúsculos de Ruffini detectam o estiramento e a rotação da articulação. ♦ Receptores de Merkel e discos táteis. Os receptores de Merkel são receptores de adaptação lenta encontrados na pele sem pelos e possuem campos receptivos muito pequenos. Estes receptores detectam indentações verticais na pele e sua resposta é proporcional à intensidade do estímulo. Os discos táteis são similares aos receptores de Merkel, mas são encontrados na pele pilosa, não na pele glabra. Termorreceptores Os termorreceptores são receptores de adaptação lenta que detectam alterações na temperatura cutânea. As duas classes de termorreceptores são os receptores de frio e os receptores de calor (Figura 3.10). Cada tipo de receptor funciona em uma ampla gama de temperaturas, com alguma sobreposição em temperaturas moderadas (p. ex., a 36° C, ambos receptores são ativos). Quando a pele é aquecida acima de 36° C, os receptores de frio se tornam quiescentes e, quando a pele é resfriada a menos de 36° C, os receptores de calor se tornam quiescentes. FIGURA 3.10 Perfis de resposta dos receptores cutâneos de temperatura. Quando a temperatura cutânea sobe a níveis danosos (acima de 45° C), os receptores de calor são inativados; assim, estes receptores não sinalizam a dor causada pelo calor extremo. Em temperaturas acima de 45° C, os nociceptores polimodais são ativados. Da mesma forma, temperaturas extremamente baixas (congelantes) também ativam os nociceptores. A transdução de temperaturas quentes envolve canais de potencial receptor transiente (TRP) da família dos receptores vaniloides (ou seja, TRPV). Estes canais são ativados por compostos da classe vaniloide, como a capsaicina, um ingrediente de comidas condimentadas. (Este fenômeno explica por que as pessoas descrevem o sabor das pimentas como “quente”.) A transdução de temperaturas frias envolve um canal TRP diferente, chamado TRPM8, que também é aberto por componentes como o mentol (que dá uma sensação fria). Nociceptores Os nociceptores respondem a estímulos nocivos que podem produzir dano tecidual. Existem duas classes principais de nociceptores: os nociceptores térmicos ou mecânicos e os nociceptores polimodais. Os nociceptores térmicos ou mecânicos (canais TRPV ou TRPM8) são supridos por fibras nervosas aferentes A-delta finamente mielinizadas e respondem a estímulos mecânicos, como a dor aguda e puntiforme. Os nociceptores polimodais são supridos por fibras C não mielinizadas e respondem a certos estímulos químicos e a estímulos mecânicos ou quentes ou frios de alta intensidade. A pele lesionada libera diversas substâncias químicas, como a bradicinina, as prostaglandinas, a substância P, K+ e H+, que iniciam uma resposta inflamatória. Os vasos sanguíneos se tornam permeáveis e, assim, há edema local e eritema cutâneo. Os mastócitos próximos ao local da lesão liberam histamina, que ativa diretamente os nociceptores. Além disso, os próprios nociceptores liberam substâncias que sensibilizam nociceptores vizinhos a estímulos que antes não eram nocivos ou dolorosos. Este processo de sensibilização, denominado hiperalgesia, é a base de diversos fenômenos, inclusive a redução do limiar de dor. Vias Somatossensoriais Existem duas vias para transmissão das informações somatossensoriais para o SNC: o sistema da coluna dorsal e o sistema anterolateral ou espinotalâmico* (Figura 3.11). Cada via segue um padrão geral, já descrito para os sistemas sensoriais. 1. O neurônio de primeira ordem da via somatossensorial é o neurônio aferente primário. Os corpos dos neurônios aferentes primários se localizam na raiz posterior ou em gânglios de nervos cranianos e suas fibras periféricas funcionam como receptores ou fazem sinapses com células receptoras somatossensoriais (ou seja, mecanorreceptores, termorreceptores ou nociceptores). O sinal é transduzido pelo receptor e transmitido ao SNC pelo neurônio aferente primário. 2. O neurônio de segunda ordem está localizado na medula espinal (sistema anterolateral) ou no tronco encefálico (sistema da coluna dorsal). Os neurônios de segunda ordem recebem informações de neurônios de primeira ordem e as transmitem ao tálamo. Os axônios dos neurônios de segunda ordem cruzam a linha média, seja na medula espinal ou no tronco encefálico, e ascendem ao tálamo. Esta decussação faz com que as informações somatossensoriais de um lado do corpo sejam recebidas pelo tálamo contralateral. 3. O neurônio de terceira ordem está localizado em um dos núcleos somatossensoriais do tálamo. O tálamo possui um arranjo somatotópico das informações somatossensoriais. 4. O neurônio de quarta ordem está localizado no córtex somatossensorial, denominado S1 e S2. Os neurônios de ordens maiores do córtex somatossensorial e de outras áreas corticais de associação integram informações complexas. O córtex somatossensorial S1 possui uma representação somatotópica, ou “mapa”, similar à observada no tálamo. Este mapa do corpo é chamado homúnculo somatossensorial (Figura 3.12). As maiores áreas de representação do corpo são a face, as mãos e os dedos, que são densamente supridos por nervos somatossensoriais e apresentam grande sensibilidade. O homúnculo sensorial representa a codificação da localização das informações somatossensoriais. FIGURA 3.11 Comparação entre o sistema somatossensorial da coluna dorsal (A) e o sistema somatossensorial anterolateral (B). O sistema da coluna dorsal atravessa a linha média no tronco encefálico. O sistema anterolateral cruza a linha média na medulaespinal. FIGURA 3.12 O homúnculo somatossensorial. (De Penfield/Rasmussen. THE CEREBRAL CORTEX OF MAN. © 1950 Gale, divisão de Cengage Learning, Inc. Reproduzido com permissão. www.cengage.com/permissions). Sistema da Coluna Dorsal O sistema da coluna dorsal é usado na transmissão das informações somatossensoriais sobre o tato fino (epicrítico), a pressão, a vibração, a discriminação entre dois pontos e a propriocepção. O sistema da coluna dorsal é composto principalmente por fibras nervosas do grupo I e II. Os corpos dos neurônios de primeira ordem se localizam em gânglios da raiz posterior ou gânglios de nervos cranianos e ascendem ipsilateralmente até o núcleo grácil (porção inferior do corpo) ou o núcleo cuneiforme (porção superior do corpo) no bulbo do tronco encefálico. No bulbo, os neurônios de primeira ordem estabelecem sinapses com neurônios de segunda ordem, que cruzam a linha média. Os neurônios de segunda ordem ascendem ao tálamo contralateral, onde fazem sinapses com neurônios de terceira ordem, que ascendem ao córtex somatossensorial e fazem sinapses com neurônios de quarta ordem. Sistema Anterolateral O sistema anterolateral (espinotalâmico) transmite as informações somatossensoriais sobre dor, temperatura e tato grosseiro (protopático). O sistema anterolateral é composto principalmente por fibras de grupos III e IV. (Lembre-se que as fibras do grupo IV, ou C, apresentam as menores velocidades de condução dentre todas as fibras sensoriais.) No sistema anterolateral, os corpos celulares dos neurônios de primeira ordem estão localizados no corno posterior e terminam na pele como termorreceptores e nociceptores. Os neurônios de primeira ordem fazem sinapses com os neurônios de segunda ordem na medula espinal. Nesta estrutura, os neurônios de segunda ordem cruzam a linha média e ascendem até o tálamo contralateral. No tálamo, os neurônios de segunda ordem fazem sinapses com os neurônios de terceira ordem, que ascendem ao córtex somatossensorial e fazem sinapses com neurônios de quarta ordem. A dor rápida (p. ex., causada por agulhas) é carreada por fibras A delta e dos grupos II e III, tem início e fim abruptos e localização precisa. A dor lenta (p. ex., queimadura) é carreada por fibras do grupo IV, ou C, e caracterizada como sensação dolorosa, pulsátil ou de queimadura e de localização imprecisa. http://www.cengage.com/permissions A dor referida tem origem visceral e é erroneamente percebida em um local somático. A dor é “referida” de acordo com a regra dos dermátomos, que determina os locais cutâneos supridos por nervos originários dos mesmos segmentos da medula espinal que aqueles que inervam os órgãos viscerais. Assim, de acordo com a regra dos dermátomos, a dor cardíaca isquêmica (angina) é referida no peito e nos ombros, a dor na vesícula biliar é referida no abdômen, a dor renal é referida na porção inferior das costas e assim por diante. Visão O sistema visual detecta e interpreta estímulos luminosos, que são ondas eletromagnéticas. O olho pode distinguir duas qualidades da luz: o brilho e o comprimento de onda. Para seres humanos, os comprimentos de onda entre 400 e 750 nanômetros são denominados luz visível. Estruturas do Olho As principais estruturas do olho são ilustradas na Figura 3.13. A parede do olho é composta por três camadas concêntricas: uma camada externa, uma camada média e uma camada interna. A camada externa, que é fibrosa, inclui a córnea, o epitélio córneo, a conjuntiva e a esclera. Na camada média, que é vascular, estão a íris e a coroide. A camada interna, que é nervosa, possui a retina. As porções funcionais da retina cobrem toda a área posterior do olho, à exceção do ponto cego, que é o disco óptico (a cabeça do nervo óptico). A acuidade visual é maior no ponto central da retina, chamado mácula; a luz é focalizada pela córnea em uma depressão da mácula, denominada fóvea. O olho também apresenta o cristalino (que ajusta o foco da luz), pigmentos (que absorvem a luz e reduzem a dispersão) e dois líquidos, os humores vítreo e aquoso. O humor aquoso preenche a câmara anterior do olho e o humor vítreo preenche a câmara posterior do olho. FIGURA 3.13 Estruturas do olho. Os receptores sensoriais da visão são os fotorreceptores, localizados na retina. Existem dois tipos de fotorreceptores, os bastonetes e os cones (Tabela 3.4). Os bastonetes apresentam limiares baixos, são sensíveis à luz de baixa intensidade e funcionam bem no escuro. Os bastonetes apresentam baixa acuidade e não participam da visão em cores. Os cones apresentam um limiar para luz mais alto do que os bastonetes, operam melhor à luz do dia, dão alta acuidade visual e participam da visão em cores. Os cones não são sensíveis à luz de baixa intensidade. Tabela 3.4 Propriedades dos Cones e Bastonetes Fotorreceptor Sensibilidade à Luz Acuidade Adaptação ao Escuro Visão Colorida Bastonetes Limiar baixo Acuidade baixa Adaptação tardia Não Sensíveis à luz de baixa intensidade Ausentes na fóvea Visão noturna Cones Limiar alto Acuidade alta Adaptação precoce Sim Sensíveis à luz de alta intensidade Presentes na fóvea Visão diurna As informações são recebidas e transduzidas por fotorreceptores na retina e, então, levadas para o SNC por meio dos axônios das células ganglionares retinianas. Alguns axônios dos nervos ópticos se cruzam no quiasma óptico, enquanto outros seguem de forma ipsilateral. A principal via visual é composta pelo núcleo geniculado lateral do tálamo, que se projeta ao córtex visual. Fotorrecepção Camadas da Retina A retina é um epitélio sensorial especializado que contém fotorreceptores e outros tipos celulares dispostos em camadas. As células da retina incluem fotorreceptores, interneurônios (células bipolares, células horizontais e células amácrinas) e células ganglionares. As sinapses são estabelecidas entre células nas duas camadas plexiformes, uma camada plexiforme interna e uma camada plexiforme externa. As camadas da retina são descritas a seguir e correspondem aos números circulados na Figura 3.14: 1. Camada de células pigmentadas. A retina começa dentro da coroide, com uma camada de epitélio pigmentado (Figura 3.13). As células do epitélio pigmentado absorvem a luz excessiva (não usada para realizar fototransdução) e apresentam processos, semelhantes a tentáculos, que se estendem até a camada fotorreceptora para impedir a dispersão da luz entre os fotorreceptores. As células pigmentadas também convertem o todo-trans-retinal a 11-cis-retinal e disponibilizam a forma 11-cis para os fotorreceptores (veja as etapas da fotorrecepção). 2. Camada fotorreceptora. Os fotorreceptores são os bastonetes e os cones, compostos por um corpo celular, um segmento externo e um segmento interno. Nesta figura, apenas os bastonetes são mostrados. 3. Camada nuclear externa. Os núcleos dos fotorreceptores (F) estão contidos na camada nuclear externa. 4. Camada plexiforme externa. A camada plexiforme externa é uma camada sináptica que contém os elementos pré e pós-sinápticos dos fotorreceptores e dos interneurônios da retina. (Os corpos celulares dos interneurônios da retina estão na camada nuclear interna.) As sinapses são feitas entre os fotorreceptores e os interneurônios e também entre os próprios interneurônios. 5. Camada nuclear interna. A camada nuclear interna contém os corpos celulares dos interneurônios da retina, incluindo as células bipolares (B), as células horizontais (H) e as células amácrinas (A). 6. Camada plexiforme interna. A camada plexiforme interna é a segunda camada sináptica. Esta camada contém os elementos pré e pós-sinápticos dos interneurônios da retina. Há sinapses entre os interneurônios da retina e as células ganglionares. 7. Camada de células ganglionares. A camada de células ganglionares contém os corpos celulares das células ganglionares (G), que são as células de saída da retina. 8. Camada do nervo óptico. Os axônios das células ganglionares da retina formam a camada do nervo óptico. Estes axônios atravessam a retina (evitando amácula), entram no disco óptico e deixam o olho através do nervo óptico. FIGURA 3.14 Camadas da retina. As células de projeção da retina são as células ganglionares retinianas, cujos axônios formam os nervos ópticos. Os números circulados correspondem às camadas de retina descritas no texto. A, células amácrinas; B, células bipolares; G, células ganglionares; H, células horizontais; F, fotorreceptores. Como mencionado, os cones e os bastonetes diferem quanto à acuidade, o que pode ser explicado pelas diferenças em seus circuitos retinianos (Tabela 3.4). Somente alguns cones fazem sinapses com uma única célula bipolar que, por sua vez, faz sinapse com uma única célula ganglionar. Este arranjo é responsável pela maior acuidade e menor sensibilidade dos cones. A acuidade é maior na fóvea, onde um cone faz sinapse com uma célula bipolar que faz sinapse com uma célula ganglionar. Por outro lado, muitos bastonetes fazem sinapse com uma única célula bipolar. Este arranjo é responsável pela menor acuidade, mas maior sensibilidade, dos bastonetes – a luz que atinge qualquer um dos bastonetes ativa a célula bipolar. Estrutura dos Fotorreceptores Os fotorreceptores, cones e bastonetes, ocupam diversas camadas da retina, como já descrito. Os segmentos internos e externos dos fotorreceptores estão localizados na camada fotorreceptora, os núcleos estão na camada nuclear externa e os terminais sinápticos (em células bipolares e células horizontais) são encontrados na camada plexiforme externa. As estruturas dos cones e bastonetes são mostradas na Figura 3.15. FIGURA 3.15 Estrutura dos fotorreceptores. Os segmentos externos são mostrados em aumento maior. Os segmentos externos dos cones e bastonetes contêm rodopsina, um pigmento sensível à luz (um fotopigmento). Nos bastonetes, os segmentos externos são longos e compostos por pilhas de discos flutuantes de membrana dupla que contém grandes quantidades de rodopsina. Os cones possuem segmentos externos curtos e de formato cônico compostos por dobramentos da membrana celular. Esta membrana dobrada também contém rodopsina, mas em uma quantidade menor do que a encontrada nos bastonetes. Quanto maior a quantidade de fotopigmento, maior a sensibilidade à luz, o que é, em parte, responsável pela maior sensibilidade à luz apresentada pelos bastonetes. Um único fóton de luz pode ativar um bastonete, enquanto centenas de fótons são necessários à ativação de um cone. Os segmentos internos dos cones e bastonetes são conectados aos segmentos externos por um único cílio. Os segmentos internos contêm mitocôndrias e outras organelas. A rodopsina é sintetizada nos segmentos internos e, então, incorporada nas membranas dos segmentos externos, da seguinte maneira: nos bastonetes, a rodopsina é inserida em novos discos de membrana, que se deslocam até o segmento externo; por fim, estes discos são liberados e fagocitados pelas células epiteliais pigmentadas, o que dá aos segmentos externos seu formato em bastão. Nos cones, a rodopsina é aleatoriamente incorporada em pregas de membrana, sem processo de eliminação. Etapas da Fotorrecepção A fotorrecepção é o processo de transdução que converte a energia luminosa em energia elétrica nos cones e bastonetes. A rodopsina, o pigmento fotossensível, é composta por opsina (uma proteína que pertence à superfamília dos receptores acoplados à proteína G) e retinal (um aldeído da vitamina A). Quando a luz atinge os fotorreceptores, a rodopsina é quimicamente transformada em um processo denominado fotoisomerização, que inicia o processo de transdução. As etapas da fotorrecepção, discutidas a seguir, correspondem aos números circulados mostrados na Figura 3.16: 1. A luz atinge a retina, iniciando a fotoisomerização da rodopsina. O 11-cis-retinal é convertido a todo-trans-retinal. A partir disso, a opsina sofre uma série de alterações conformacionais que culminam na produção de metarrodopsina II. (A regeneração do 11- cis-retinal envolve a nova conversão de todo-trans-retinal a retinol [vitamina A].) 2. A metarrodopsina II ativa uma proteína G chamada transducina ou Gt. (Há uma enorme amplificação nesta etapa, onde um fóton de luz ativa uma molécula de metarrodopsina II que, por sua vez, ativa quase 800 moléculas de transducina!) Quando ativada, a transducina estimula uma fosfodiesterase que catalisa a conversão do monofosfato cíclico de guanosina (GMPc) a 5’-GMP. Consequentemente, há um aumento na degradação de GMPc, diminuindo a sua concentração. 3 e 4. Na membrana do fotorreceptor, os canais de Na+, que carreiam a corrente de entrada são regulados pelo GMPc. No escuro, há um aumento nos níveis de GMPc, produzindo uma corrente de entrada de Na+ (ou “corrente escura”) e despolarização da membrana do fotorreceptor. Na luz, há uma diminuição dos níveis de GMPc, já descrita, que fecha os canais de Na+ na membrana do fotorreceptor, reduz a corrente de entrada do íon e produz hiperpolarização. (O término do estado ativado por luz envolve a redução do Ca2+ intracelular, o que restaura os níveis de GMPc.) 5. A hiperpolarização da membrana do fotorreceptor diminui a liberação de glutamato dos terminais sinápticos do fotorreceptor. (Lembre-se da Figura 3.14, que mostra que os fotorreceptores fazem sinapse com células bipolares e horizontais da camada plexiforme externa.) 6. Existem dois tipos de receptores de glutamato nas células bipolares e horizontais: os receptores ionotrópicos, que são despolarizantes (excitatórios), e os receptores metabotrópicos, que são despolarizantes (inibitórios). O tipo de receptor na célula bipolar ou horizontal determina se a resposta será despolarização (excitação) ou hiperpolarização (inibição). Assim, a menor liberação de glutamato que interage com os receptores ionotrópicos causa hiperpolarização e inibição da célula bipolar ou horizontal (ou seja, menor excitação). Já a menor liberação de glutamato que interage com os receptores metabotrópicos causa despolarização e excitação da célula bipolar ou horizontal (ou seja, a menor inibição causa excitação). Este processo estabelece os padrões de ligado-desligado dos campos visuais. FIGURA 3.16 Etapas da fotorrecepção. Quando a luz atinge a retina, os fotorreceptores são hiperpolarizados. Estes fotorreceptores, por sua vez, reduzem a liberação de glutamato, causando hiperpolarização ou despolarização das células bipolares ou horizontais. Os números circulados são correlacionados às etapas descritas no texto. GMP cíclico, monofosfato cíclico de guanosina; GMP, monofosfato de guanosina. Campos Receptivos Visuais Cada nível da via visual pode ser descrito por seus campos receptivos. Assim, existem campos receptivos para fotorreceptores, células bipolares e horizontais, células ganglionares, células do núcleo geniculado lateral do tálamo e células do córtex visual. A cada nível superior, os campos receptivos ficam mais complexos. Fotorreceptores, células horizontais e células bipolares Um arranjo simples de campos visuais é ilustrado na Figura 3.17. A figura mostra os campos receptivos para três fotorreceptores, duas células bipolares e uma célula horizontal localizada entre as células bipolares. Quando a luz atinge os fotorreceptores, estes são sempre hiperpolarizados e liberam quantidades menores de glutamato (lembre-se das etapas da fotorrecepção), como indicado pelo sinal de subtração nos fotorreceptores. Os fotorreceptores fazem sinapse diretamente com as células bipolares da camada plexiforme externa da retina. O campo receptivo da célula bipolar é mostrado como dois círculos concêntricos: o círculo interno é denominado “centro” e o círculo externo é chamado “periferia”. O centro do campo receptivo da célula bipolar representa conexões diretas dos fotorreceptores e pode ser excitado (ligado) ou inibido (desligado), dependendo do tipo de receptor de glutamato na célula bipolar, como anteriormente descrito. Se o centro do campo receptivo apresentar receptores metabotrópicos de glutamato, a célula bipolar será excitada (+); se o centro do campo receptivoa Ca2+ ATPase usa ATP como fonte direta de energia. Além dos transportadores que usam ATP de forma direta, outros estabelecem diferenças de concentração por meio da membrana celular utilizando o gradiente de concentração transmembrana de Na+ (estabelecido pela Na+-K+ ATPase) como fonte de energia. Esses transportadores criam gradientes de concentração de glicose, aminoácidos, Ca2+ e H+ sem o uso direto de ATP. Obviamente, as membranas celulares possuem a maquinaria necessária ao estabelecimento de grandes gradientes de concentração. No entanto, se as membranas celulares fossem livremente permeáveis a todos os solutos, esses gradientes seriam rapidamente dissipados. Assim, é muito importante que as membranas celulares não sejam livremente permeáveis a todas as substâncias, mas que tenham permeabilidades seletivas para manter os gradientes de concentração estabelecidos pelos processos de transporte consumidores de energia. As diferenças de composição entre o LIC e o LEC baseiam, de forma direta ou indireta, todas as funções fisiológicas importantes, como mostram os seguintes exemplos: (1) O potencial de membrana em repouso de células nervosas e musculares depende da diferença de concentração de K+ por meio da membrana celular; (2) O pico do potencial de ação dessas mesmas células excitáveis depende de diferenças na concentração de Na+ por meio da membrana celular; (3) O acoplamento excitação- contração nas células musculares depende de diferenças na concentração de Ca2+ por meio da membrana celular e da membrana do retículo sarcoplasmático; e (4) A absorção de nutrientes essenciais depende do gradiente de concentração transmembrana de Na+ (p. ex., a absorção de glicose no intestino delgado ou a reabsorção dessa molécula no túbulo proximal renal). Diferenças de Concentração entre o Plasma e os Líquidos Intersticiais Como já discutido, o LEC é composto por dois subcompartimentos: o líquido intersticial e o plasma. A diferença mais significativa entre a composição desses dois compartimentos é a presença de proteínas (p. ex., albumina) no plasma. As proteínas plasmáticas não atravessam as paredes capilares com facilidade por causa de seu grande tamanho molecular e, portanto, são excluídas do líquido intersticial. A exclusão de proteínas do líquido intersticial tem consequências secundárias. As proteínas plasmáticas têm carga negativa, que leva à redistribuição dos pequenos cátions e ânions permeáveis pela parede capilar, em um fenômeno denominado Equilíbrio de Gibbs-Donnan. A redistribuição pode ser explicada da seguinte maneira: o compartimento plasmático contém as proteínas impermeáveis, de carga negativa. Devido à necessidade de eletroneutralidade, o compartimento plasmático deve ter concentração ligeiramente menor de pequenos ânions (p. ex., Cl-) e um pouco maior de pequenos cátions (p. ex., Na+ e K+) do que o líquido intersticial. A pequena diferença de concentração dos íons permeáveis é expressa na Relação de Gibbs-Donnan, que dá a concentração plasmática de ânions em relação ao líquido intersticial e a concentração de cátions no líquido intersticial em relação ao plasma. A concentração de Cl- no plasma, por exemplo, é ligeiramente menor do que a concentração de Cl- no líquido intersticial (devido ao efeito das proteínas plasmáticas impermeáveis); a relação de Gibbs-Donnan para o Cl- é de 0,95, indicando que [Cl-]plasma/[Cl-]líquido intersticial é igual a 0,95. A relação de Gibbs-Donnan para o Na+ também é igual a 0,95, mas esse cátion, sendo positivo, está orientado em direção oposta e [Na+]líquido intersticial/[Na+]plasma é de 0,95. De modo geral, essas pequenas diferenças na concentração de pequenos cátions e ânions entre o plasma e o líquido intersticial são ignoradas. Características das membranas celulares As membranas celulares são compostas principalmente por lipídeos e proteínas. O componente lipídico é formado por fosfolipídeos, colesterol e glicolipídeos e é responsável pela alta permeabilidade das membranas celulares a substâncias lipossolúveis, como o dióxido de carbono, o oxigênio, os ácidos graxos e os hormônios esteroides. O componente lipídico das membranas celulares também é responsável pela baixa permeabilidade das membranas celulares a substâncias hidrossolúveis, como os íons, a glicose e os aminoácidos. O componente proteico das membranas celulares é formado por transportadores, enzimas, receptores de hormônios, antígenos de superfície celular e canais iônicos e aquosos. Componente Fosfolipídico das Membranas Celulares Os fosfolipídeos são compostos por um esqueleto de glicerol fosforilado (“cabeça”) e duas “caudas” de ácidos graxos (Figura 1.2). O esqueleto de glicerol é hidrofílico (solúvel em água) e as caudas de ácidos graxos são hidrofóbicas (insolúveis em água). Assim, as moléculas de fosfolipídeos possuem propriedades hidrofílicas e hidrofóbicas, sendo chamadas anfipáticas. Em uma interface água-óleo (Figura 1.2A), as moléculas de fosfolipídeos formam uma monocamada e se orientam de forma que o esqueleto de glicerol se dissolve na fase aquosa e as caudas de ácido graxo se dissolvem na fase oleosa. Nas membranas celulares (Figura 1.2B), os fosfolipídios se orientam de modo que as caudas lipossolúveis de ácido graxo ficam frente a frente e as cabeças de glicerol, hidrossolúveis, se afastam umas das outras, dissolvendo-se nas soluções aquosas do LIC ou do LEC. Essa orientação cria uma bicamada lipídica. FIGURA 1.2 Orientação das moléculas de fosfolipídios na interface água e óleo. A orientação das moléculas de fosfolipídios em uma interface água-óleo (A) e a orientação em bicamadas, como ocorre na membrana celular (B), são mostradas. Componente Proteico das Membranas Celulares As proteínas das membranas celulares podem ser integrais ou periféricas, dependendo de como as atravessam ou se estão presentes em apenas um lado. A distribuição das proteínas em uma bicamada fosfolipídica é ilustrada no modelo do mosaico fluido, mostrado na Figura 1.3. FIGURA 1.3 Modelo do mosaico fluido de membranas celulares. ♦ As proteínas integrais de membrana estão inseridas e ancoradas na membrana celular por interações hidrofóbicas. Para remover uma proteína integral da membrana celular, suas ligações à bicamada lipídica devem ser rompidas (p. ex., com detergentes). Algumas proteínas integrais são proteínas transmembranas, ou seja, atravessam a membrana uma ou mais vezes; assim, as proteínas transmembranas estão em contato com o LIC e o LEC simultaneamente. Exemplos de proteínas integrais transmembranas são os receptores de ligantes (p. ex., de hormônios ou neurotransmissores), proteínas transportadoras (p. ex., Na+- K+ ATPase), poros, canais iônicos, moléculas de adesão celular e proteínas ligantes de GTP (proteínas G). Uma segunda categoria de proteínas integrais está inserida na bicamada lipídica, mas não a atravessa. Uma terceira categoria de proteínas integrais está associada a outras proteínas da membrana, mas não está ela mesma inserida na bicamada lipídica. ♦ As proteínas periféricas de membrana não estão inseridas na membrana e não estão ligadas de forma covalente a componentes da membrana celular. Essas proteínas estão frouxamente ligadas ao lado intracelular ou extracelular da membrana por meio de interações eletrostáticas (p. ex., com proteínas integrais) e podem ser removidas com tratamentos brandos, que rompem ligações iônicas e pontes de hidrogênio. Um exemplo de proteína periférica de membrana é a anquirina, que “ancora” o citoesqueleto das hemácias a uma proteína transportadora integral de membrana, o trocador Cl-- (também chamado proteína de banda 3). Transporte através das membranas celulares Diversos tipos de mecanismos são responsáveis pelo transporte de substâncias através das membranas celulares (Tabela 1.2). Tabela 1.2 Resumo do Transporte de Membrana Tipo de Transporte Ativo ou Passivo Mediado por Carreador Usa Energia Metabólica Dependente de Gradiente de Na+ Difusão simples Passivo; a favor do gradiente eletroquímico Não Nãopossuir receptores ionotrópicos de glutamato, a célula bipolar será inibida (−). A periferia do campo receptivo da célula bipolar recebe sinais de fotorreceptores adjacentes, através das células horizontais. A periferia do campo receptivo responde de forma oposta ao centro, já que as células horizontais são inibitórias (ou seja, revertem a resposta direta do fotorreceptor em sua célula bipolar). Os dois padrões de campos receptivos das células bipolares são ilustrados na Figura 3.17 e explicados a seguir: ♦ Ligado no centro, desligado na periferia (ou “ligado no centro”). Este padrão é ilustrado pela célula bipolar mostrada à esquerda da figura. O centro de seu campo receptivo é excitado (ligado) pela luz, enquanto a periferia é inibida (desligada) pela luz. Como este padrão é conseguido? Como sempre, a luz que atinge os fotorreceptores produz hiperpolarização e menor liberação de glutamato. Este fotorreceptor é conectado ao centro do campo receptivo da célula bipolar e o glutamato se liga a um receptor metabotrópico. Assim, o centro do campo receptivo é excitado (ou seja, a menor inibição produz excitação); isto também é chamado inversão de sinal. A luz também inibe o fotorreceptor adjacente, que se liga a um receptor ionotrópico na célula horizontal e a inibe. A célula horizontal é conectada à periferia do campo receptivo da célula bipolar. Com a inibição da célula horizontal, há reversão da ação direta dos fotorreceptores na célula bipolar e produção de inibição na periferia. ♦ Desligado no centro, ligado na periferia (ou “desligado no centro”). Este padrão é ilustrado pela célula bipolar mostrada à direita na figura. O centro de seu campo receptivo é inibido (desligado) pela luz e a periferia é excitada (ligada) por ela. Como este padrão é conseguido? Mais uma vez, a luz que atinge os fotorreceptores produz inibição. Este fotorreceptor é conectado ao centro do campo receptivo da célula bipolar e se liga a um receptor ionotrópico. Dessa forma, o centro do campo receptivo é inibido; este arranjo é também chamado conservação de sinal. A luz também inibe o fotorreceptor adjacente, que inibe a célula horizontal. A célula horizontal é conectada à periferia do campo receptivo da célula bipolar. A inibição da célula horizontal reverte a ação direta do fotorreceptor na célula bipolar e produz excitação na periferia. FIGURA 3.17 Campos receptivos visuais das células bipolares da retina. Dois padrões são mostrados: ligado no centro e desligado no centro. Células amácrinas As células amácrinas recebem sinais de diferentes combinações de células bipolares de centro ligado ou desligado. Assim, os campos receptivos das células amácrinas são misturas de padrões de centros ligados e desligados. Células ganglionares As células ganglionares recebem sinais de células bipolares e células amácrinas (Figura 3.14). Quando o sinal para as células ganglionares advém primariamente das células bipolares, os padrões de centros ligados ou desligados estabelecidos no nível das células bipolares são mantidos. Quando o sinal para uma célula ganglionar é derivado principalmente de células amácrinas, os campos receptivos tendem a ser difusos, pois há uma mistura de sinais no nível destas células. Neurônios do núcleo geniculado lateral do tálamo Os neurônios do núcleo geniculado lateral do tálamo mantêm os padrões de centros ligados e desligados transmitidos pelas células ganglionares. Córtex visual Os neurônios do córtex visual detectam o formato e a orientação de figuras. Três tipos celulares participam desta categoria de discriminação visual: as células simples, as células complexas e as células hipercomplexas. As células simples possuem campos receptivos similares aos das células ganglionares e do núcleo geniculado lateral (ou seja, de centro ligado ou desligado), embora os padrões sejam retângulos alongados e não círculos concêntricos. As células simples apresentam uma resposta melhor a barras de luz que apresentam a posição e a orientação “corretas”. As células complexas respondem melhor a barras de luz em movimento ou a bordas luminosas com a orientação correta. Já as células hipercomplexas respondem melhor a linhas de um determinado comprimento e a curvas e ângulos. Vias Ópticas As vias ópticas da retina para o SNC são mostradas na Figura 3.18. Os axônios das células ganglionares da retina formam os nervos ópticos e os tratos ópticos fazem sinapse no núcleo geniculado lateral do tálamo e ascendem até o córtex visual pelo trato geniculocalcarino. FIGURA 3.18 Vias ópticas. As fibras dos campos visuais temporais se cruzam no quiasma óptico, mas as fibras dos campos visuais nasais não se cruzam. (Adaptado de Barrett, et al. Ganong’s Review of Medical Physiology, 23rd ed., McGraw-Hill 2010.) Note que os campos visuais temporais se projetam na retina nasal e que os campos nasais se projetam na retina temporal. As fibras nervosas de cada hemirretina nasal se cruzam no quiasma óptico e ascendem de forma contralateral. As fibras nervosas de cada hemirretina temporal não se cruzam e ascendem de maneira ipsilateral. Assim, as fibras da hemirretina nasal esquerda e as fibras da hemirretina temporal direita formam o trato óptico direito e fazem sinapses com o núcleo geniculado lateral direito. Por outro lado, as fibras da hemirretina nasal direita e as fibras da hemirretina temporal esquerda formam o trato óptico esquerdo e fazem sinapses com o núcleo geniculado lateral esquerdo. As fibras do núcleo geniculado lateral formam o trato geniculocalcarino, que ascende até o córtex visual (área 17 do lobo occipital). As fibras do núcleo geniculado lateral direito formam o trato geniculocalcarino direito; as fibras do núcleo geniculado lateral esquerdo formam o trato geniculocalcarino esquerdo. Lesões em diversos pontos da via óptica causam déficits visuais, que podem ser previstos ao rastrear a via, como mostrado na Figura 3.19. A hemianopsia é a perda de visão em metade do campo visual de um ou ambos os olhos. Se a perda ocorrer no mesmo lado do corpo que a lesão, é denominada ipsilateral; se a perda ocorrer no lado oposto à lesão, é denominada contralateral. As seguintes lesões correspondem às barras sombreadas e aos números circulados na figura: 1. Nervo óptico. A secção do nervo óptico causa cegueira do olho ipsilateral (do mesmo lado). Assim, a secção do nervo óptico esquerdo causa cegueira no olho esquerdo. Todas as informações sensoriais advindas daquele olho são perdidas, já que a lesão ocorre antes do cruzamento das fibras no quiasma óptico. 2. Quiasma óptico. A secção do quiasma óptico causa hemianopsia (em ambos os olhos) heterônima bitemporal (em ambos os campos visuais temporais*). Em outras palavras, todas as informações das fibras que se cruzam são perdidas. Assim, há perda das informações dos campos visuais temporais de ambos os olhos, já que estas fibras se cruzam no quiasma óptico. 3. Trato óptico. A secção do trato óptico causa hemianopsia homônima** contralateral. Como mostrado na figura, o corte do trato óptico esquerdo leva à perda do campo visual temporal do olho direito (cruzado) e perda do campo visual nasal do olho esquerdo (não cruzado). 4. Trato geniculocalcarino. A secção do trato geniculocalcarino causa hemianopsia homônima contralateral, mas sem afetar a mácula (o campo visual macular fica intacto). A mácula é poupada porque as lesões do córtex visual não destroem todos os neurônios que a representam. FIGURA 3.19 Defeitos no campo visual produzidos por lesões em diversos níveis da via visual. Os números circulados se referem aos déficits e são explicados no texto. (Adaptado de Barrett, et al. Ganong’s Review of Medical Physiology, 23rd ed., McGraw-Hill 2010.) Audição O sentido da audição consiste na transdução das ondas sonoras em energia elétrica, que, então, é transmitida para o sistema nervoso. O som é produzido por ondas de compressão e descompressão transmitidas em meios elásticos, como a água ou o ar. Estas ondas são associadas a aumentos (compressão) e diminuições(descompressão) de pressão. As unidades para expressão da pressão sonora são os decibéis (dB), uma medida relativa em escala log. A frequência sonora é medida em ciclos por segundo, ou hertz (Hz). Um tom puro é resultante de ondas sinusoidais de uma única frequência. A maioria dos sons é uma mistura de tons puros. A orelha humana é sensível a tons com frequências entre 20 e 20.000 Hz, principalmente entre 2.000 e 5.000 Hz. Uma referência, 0 dB, é o limiar médio para a audição a 1.000 Hz. A pressão do som, em dB, é calculada da seguinte forma: onde dB = Decibel P = Pressão sonora medida P0 = Pressão de referência medida na frequência limiar Portanto, se a pressão sonora for 10 vezes a pressão de referência, é igual a 20 dB (20 × log 10 = 20 × 1 = 20 dB). Se a pressão sonora for 100 vezes a pressão de referência, equivale a 40 dB (20 × log 100 = 20 × 2 = 40 dB). As frequências normais da fala humana são de 300 a 3.500 Hz e a intensidade do som é de cerca de 65 dB. Intensidades sonoras superiores a 100 dB podem danificar o aparelho auditivo e aquelas superiores a 120 dB podem causar dor. Estrutura da Orelha As estruturas da orelha externa, média e interna são mostradas na Figura 3.20 e descritas a seguir: ♦ A orelha externa é composta pelo pavilhão auricular e pelo meato acústico externo (canal auditivo). A função da orelha externa é direcionar as ondas sonoras para o canal auditivo. A orelha externa é preenchida por ar. ♦ A orelha média é composta pela membrana timpânica e por uma cadeia de ossículos auditivos denominados martelo, bigorna e estribo. A membrana timpânica separa a orelha externa da orelha média. Uma janela oval e uma janela redonda situam-se entre a orelha média e a orelha interna. O estribo possui uma plataforma que se insere na janela oval, formando uma interface entre a orelha média e a orelha interna. A orelha média é preenchida por ar. ♦ A orelha interna é composta pelo órgão vestibulococlear. O órgão vestibular é formado por três canais semicirculares (lateral, posterior e superior) e dois órgãos de otólitos. A cóclea é constituída por uma série de ductos, denominados rampa do vestíbulo, rampa do tímpano e rampa média. FIGURA 3.20 Estruturas da orelha externa, média e interna. A cóclea foi ligeiramente deslocada para melhorar a visualização. A cóclea e o vestíbulo são formados pelos labirintos membranoso e ósseo. A cóclea, uma estrutura espiralada composta por três canais ou ductos tubulares, contém o órgão de Corti (órgão espiral). O órgão de Corti possui células receptoras e é onde ocorre a transdução auditiva. A orelha interna é preenchida por líquido, cuja composição é diferente em cada um dos ductos. O líquido presente nas rampas do vestíbulo e do tímpano é denominado perilinfa e é similar ao líquido extracelular. O líquido na rampa média é chamado endolinfa e apresenta alta concentração de potássio (K+) e baixa concentração de sódio (Na+). Assim, a endolinfa é incomum, já que apresenta composição similar ao líquido intracelular, embora, tecnicamente, seja um líquido extracelular. Transdução Auditiva A transdução auditiva é a transformação da pressão sonora em energia elétrica. Muitas das estruturas da orelha participam, direta ou indiretamente, deste processo de transdução. Lembre-se que a orelha externa e média são preenchidas por ar e que a orelha interna, que contém o órgão de Corti, é preenchida por líquido. Assim, antes que a transdução possa ocorrer, as ondas sonoras que se propagam pelo ar devem ser convertidas a ondas de pressão no líquido. A impedância acústica do líquido é muito maior do que a do ar. A combinação da membrana timpânica e dos ossículos atua como um dispositivo de equivalência de impedância para fazer esta conversão. A equivalência da impedância é conseguida pela razão entre a grande área superficial da membrana timpânica e a pequena área superficial da janela oval, e pela amplificação mecânica decorrente do sistema de alavanca dos ossículos. A orelha externa direciona as ondas sonoras para o canal auditivo, que as transmite para a membrana timpânica. Quando as ondas sonoras movimentam a membrana timpânica, a cadeia de ossículos também se move, empurrando a plataforma do estribo em direção à janela oval e deslocando o líquido no interior da orelha interna. Cóclea e Órgão de Corti A cóclea contém o aparato de transdução sensorial, o órgão de Corti (órgão espiral). As estruturas da cóclea e do órgão de Corti são mostradas na Figura 3.21. FIGURA 3.21 Estrutura da cóclea e do órgão de Corti. O corte transversal da cóclea mostra suas três câmaras: rampa do vestíbulo, rampa média e rampa do tímpano. Cada uma destas câmaras é preenchida por líquido; a rampa do vestíbulo e a rampa do tímpano contêm perilinfa e a rampa média apresenta endolinfa. A rampa do vestíbulo é separada da rampa média pela membrana de Reissner. A membrana basilar separa a rampa média da rampa do tímpano. O órgão de Corti encontra-se sobre a membrana basilar da cóclea e é banhado pela endolinfa da rampa média. As células pilosas auditivas do órgão de Corti são os sítios de transdução auditiva. O órgão de Corti possui dois tipos de receptores: as células pilosas internas e as células pilosas externas. Há menos células pilosas internas, que são dispostas em fileiras únicas. As células pilosas externas são dispostas em fileiras paralelas e são mais numerosas do que as células pilosas internas. Os cílios originários das células pilosas ficam embebidos na membrana tectorial. Assim, os corpos das células pilosas ficam encostados na membrana basilar e seus cílios ficam em contato com a membrana tectorial. Os neurônios que suprem o órgão de Corti estão contidos no nervo vestibulococlear (NC VIII). Os corpos celulares destes neurônios estão localizados nos gânglios espirais e seus axônios fazem sinapse na base das células pilosas. Estes neurônios transmitem a informação das células pilosas auditivas para o SNC. Etapas da Transdução Auditiva Diversas etapas importantes precedem a transdução das ondas sonoras pelas células pilosas do órgão de Corti. As ondas sonoras se dirigem à membrana timpânica; com a vibração da membrana timpânica, os ossículos também vibram e o estribo é empurrado para dentro da janela oval. Este movimento desloca o líquido presente na cóclea. A energia sonora é amplificada por dois efeitos: a ação em alavanca dos ossículos e a concentração das ondas sonoras da grande membrana timpânica para a pequena janela oval. Assim, as ondas sonoras são transmitidas e amplificadas da orelha externa e média, preenchidas por ar, até a orelha interna, que contém líquido e células receptoras. A partir desse ponto, ocorre a transdução auditiva pelas células pilosas do órgão de Corti nas seguintes etapas (Figura 3.22): 1. As ondas sonoras são transmitidas à orelha interna e provocam a vibração do órgão de Corti. 2. As células pilosas auditivas são mecanorreceptores localizados no órgão de Corti (Figura 3.21). A base das células pilosas repousa sobre a membrana basilar e seus cílios estão embebidos na membrana tectorial. A membrana basilar é mais elástica do que a membrana tectorial. Assim, a vibração do órgão de Corti dobra os cílios das células pilosas devido a uma força de deslocamento conforme estes cílios são empurrados contra a membrana tectorial. 3. O dobramento dos cílios altera a condutância ao íon K+ na membrana da célula pilosa. O dobramento em uma direção aumenta a condutância ao íon e causa despolarização; o dobramento na direção oposta diminui a condutância ao K+, provocando hiperpolarização. (Estas alterações no potencial de membrana são opostas às esperadas. Lembre-se, porém, que os cílios das células pilosas são banhados por endolinfa, que apresenta alta concentração de K+; assim, o gradiente eletroquímico de K+ é oposto ao observado em outras membranas celulares. Consequentemente, mudanças na condutância ao K+ nos cílios têm o efeito oposto sobre o potencial de membrana.) 4. Estas alterações no potencial de membrana são os potenciaisreceptores das células pilosas auditivas. O potencial receptor oscilante é denominado potencial microfônico coclear. 5. Quando as células pilosas são despolarizadas, seus canais de Ca2+ dependentes de voltagem nos terminais pré-sinápticos são abertos. Em decorrência disso, o íon entra nos terminais pré-sinápticos e provoca a liberação de glutamato, que aqui age como um neurotransmissor excitatório, causando potenciais de ação nos nervos cocleares aferentes que transmitirão estas informações para o SNC. Quando as células pilosas são hiperpolarizadas, ocorrem os eventos opostos e há menor liberação de glutamato. 6. Assim, a oscilação entre potenciais receptores despolarizantes e hiperpolarizantes nas células pilosas provoca a liberação intermitente de glutamato, o que produz disparos intermitentes nos nervos cocleares aferentes. FIGURA 3.22 Etapas da transdução auditiva nas células pilosas. Os números circulados correspondem às etapas descritas no texto. Codificação do Som A codificação de frequências sonoras ocorre porque diferentes células pilosas auditivas são ativadas por diferentes frequências. A frequência que ativa uma determinada célula pilosa depende da posição desta célula ao longo da membrana basilar, como mostrado na Figura 3.23. A base da membrana basilar é mais próxima ao estribo e é estreita e rígida. As células pilosas localizadas na base respondem melhor a altas frequências. O ápice da membrana basilar é mais largo e flexível. As células pilosas localizadas no ápice respondem melhor a frequências baixas. Assim, a membrana basilar age como um analisador de frequências sonoras, já que as células pilosas posicionadas ao longo da membrana basilar respondem a diferentes frequências. Este mapeamento espacial de frequências gera um mapa tonotópico, que, então, é transmitido a níveis superiores do sistema auditivo. FIGURA 3.23 Respostas de frequência da membrana basilar. Vias Auditivas As informações são transmitidas das células pilosas do órgão de Corti para os nervos cocleares aferentes. Os nervos cocleares fazem sinapse com neurônios dos núcleos cocleares dorsais e ventrais do bulbo, que enviam axônios que ascendem pelo SNC. Alguns destes axônios cruzam para o lado contralateral e ascendem pelo lemnisco lateral (o trato auditivo primário) até o colículo inferior. Outros axônios continuam sendo ipsilaterais. Os dois colículos inferiores são conectados pela comissura do colículo inferior. As fibras dos núcleos do colículo inferior ascendem até o núcleo geniculado medial do tálamo. As fibras do tálamo ascendem até o córtex auditivo. O mapa tonotópico, gerado no órgão de Corti, é preservado em todos os níveis do SNC. A discriminação complexa de características (p. ex., a capacidade de reconhecer uma sequência padronizada) é propriedade do córtex auditivo. Uma vez que algumas fibras auditivas cruzam e outras não, uma mistura de fibras ascendentes representa as duas orelhas em todos os níveis do SNC. Assim, as lesões na cóclea de uma orelha provocam surdez ipsilateral. Lesões unilaterais mais centrais, porém, não causam surdez, já que algumas das fibras que transmitem a informação daquela orelha já cruzaram para o lado íntegro. Sistema vestibular O sistema vestibular detecta acelerações angulares e lineares da cabeça e é por isso usado na manutenção do equilíbrio. As informações sensoriais do sistema vestibular são usadas para manter estável as imagens na retina enquanto a cabeça se move, assim como para fazer os ajustes posturais necessários à manutenção do equilíbrio de acordo com a posição e movimento da cabeça. Órgão Vestibular O órgão vestibular está localizado no interior do osso temporal, adjacente ao aparelho auditivo (a cóclea). O órgão vestibular é composto por um labirinto membranoso no interior do labirinto ósseo (Figura 3.24). O labirinto membranoso é formado por três canais semicirculares perpendiculares (horizontal, superior e posterior) e dois órgãos de otólitos (utrículo e sáculo). Os canais semicirculares e os órgãos de otólitos são preenchidos por endolinfa e cercados por perilinfa, de forma bastante similar ao órgão auditivo. FIGURA 3.24 Estruturas do órgão vestibular, mostrando os três canais semicirculares perpendiculares e os dois órgãos de otólitos (utrículo e sáculo). Os canais semicirculares, dispostos de forma perpendicular uns aos outros, são usados na detecção da aceleração angular ou rotacional da cabeça. (A disposição perpendicular dos canais garante a cobertura dos três principais eixos de rotação da cabeça.) Cada canal, preenchido por endolinfa, possui um alargamento denominado ampola em sua extremidade. A ampola possui células pilosas vestibulares, recobertas por uma massa gelatinosa denominada cúpula (Figura 3.25). A cúpula, que ocupa a área transversal da ampola, apresenta a mesma densidade que a endolinfa presente no canal. Durante a aceleração angular da cabeça, a cúpula é deslocada, excitando ou inibindo as células pilosas. FIGURA 3.25 Estrutura de uma célula pilosa vestibular, mostrando a função das células pilosas no canal semicircular horizontal. A rotação da cabeça em sentido anti-horário (à esquerda) provoca a excitação dos canais semicirculares esquerdos e a inibição dos canais semicirculares direitos. Os órgãos de otólitos, o utrículo e o sáculo, são usados na detecção da aceleração linear (p. ex., forças gravitacionais). No utrículo e no sáculo, uma massa de otólitos composta por mucopolissacarídeos e cristais de carbonato de cálcio recobre as células pilosas vestibulares (como uma almofada). Quando a cabeça se move, as forças gravitacionais agem sobre a massa de otólitos, movimentando-a sobre as células pilosas vestibulares e dobrando seus cílios. As células pilosas são ativadas ou inibidas, alertando o indivíduo sobre a mudança da posição da cabeça. Transdução Vestibular Canais Semicirculares A função dos canais semicirculares horizontais é a detecção da aceleração angular da cabeça, como mostrado na Figura 3.25. Esta ilustração mostra os canais horizontais direito e esquerdo e suas respectivas ampolas anexas. As ampolas contêm células pilosas vestibulares embebidas na massa gelatinosa da cúpula. As células pilosas vestibulares diferem das células pilosas auditivas por possuírem um cinocílio maior e um conjunto de estereocílios. As fibras nervosas aferentes das células pilosas levam a informação vestibular para o SNC. Ao girar a cabeça em sentido anti-horário (para a esquerda), por exemplo, os seguintes eventos ocorrem nos canais semicirculares horizontais: 1. Ao girar a cabeça para a esquerda, os canais semicirculares horizontais e suas ampolas também viram para a esquerda. A princípio, a cúpula (ancorada à ampola) se move antes do início do fluxo da endolinfa. Assim, a cúpula é deslocada ou arrastada pela endolinfa, dobrando os cílios das células pilosas. Por fim, com a continuação da rotação, a endolinfa começa a se mover. 2. Se os estereocílios se dobrarem em direção ao cinocílio, a célula pilosa é despolarizada e há um aumento na taxa de disparo dos nervos vestibulares aferentes. Se os estereocílios se dobrarem e se afastarem do cinocílio, a célula pilosa sofre hiperpolarização e há redução da taxa de disparos dos nervos vestibulares aferentes. Portanto, durante o início da rotação para a esquerda, o canal horizontal esquerdo é excitado e o canal horizontal direito é inibido. 3. Enquanto a cabeça ainda vira para a esquerda, a endolinfa “alcança” o movimento da cabeça, da ampola e da cúpula. Agora, os cílios retornam às suas posições originais e as células pilosas não são despolarizadas nem hiperpolarizadas. 4. Quando a cabeça para de se mover, os eventos ocorrem ao contrário. Por um breve período, a endolinfa continua a se mover, empurrando a cúpula e os cinocílios das células pilosas na direção oposta. Assim, se uma célula pilosa foi despolarizada no início da rotação, é agora hiperpolarizada e há inibição dos nervos aferentes. Se uma célula pilosa foi hiperpolarizada no início da rotação, é agoradespolarizada e há excitação dos nervos aferentes. Desta forma, quando a cabeça para de se mover para a esquerda, o canal horizontal esquerdo é inibido e o canal horizontal direito é excitado. Em resumo, a rotação da cabeça para a esquerda estimula os canais semicirculares esquerdos, enquanto a rotação para a direita estimula os canais semicirculares direitos. Órgãos de Otólitos As máculas são sensíveis à aceleração linear (p. ex., aceleração por forças gravitacionais). Lembre-se que as células pilosas das máculas estão embebidas na massa de otólitos. Ao virar a cabeça, as forças gravitacionais fazem com que a massa de otólitos deslize pelas células pilosas vestibulares, dobrando os estereocílios, que se aproximam ou distanciam do cuinocílio. A movimentação dos estereocílios em direção ao cinocílio provoca a despolarização da célula pilosa e excitação. A movimentação dos estereocílios em direção contrária ao cinocílio provoca a hiperpolarização da célula pilosa e inibição. Quando a cabeça está reta, a mácula do utrículo tem orientação horizontal e a mácula do sáculo, vertical. No utrículo, a inclinação da cabeça para frente ou lateralmente excita o utrículo ipsilateral; a inclinação da cabeça para trás ou medialmente inibe o utrículo ipsilateral. O sáculo responde aos movimentos da cabeça em todas as direções. As células pilosas do sáculo são excitadas por movimentos para frente e para trás (chamados “lançamentos”) e laterais e mediais (denominados “rolamentos”). O sáculo também responde aos movimentos para cima e para baixo da cabeça. Devido ao arranjo bilateral dos órgãos de otólitos, todas as possíveis orientações da cabeça podem ser codificadas pela excitação ou inibição das células pilosas vestibulares. Para cada posição da cabeça, há um padrão único de atividade dos nervos aferentes que suprem os órgãos de otólitos, dando informações detalhadas sobre o posicionamento espacial da cabeça para o SNC. Vias Vestibulares Os nervos aferentes das células pilosas vestibulares terminam nos núcleos vestibulares do bulbo: superior, medial, lateral (núcleo de Deiter) e inferior. Os núcleos medial e superior recebem sinais dos canais semicirculares e se projetam a nervos que suprem os músculos extraoculares através do fascículo longitudinal medial. O núcleo vestibular lateral recebe sinais dos utrículos e se projeta a motoneurônios da medula espinal através do trato vestibuloespinal lateral. As projeções do núcleo vestibular lateral participam dos reflexos posturais. O núcleo vestibular inferior recebe sinais dos utrículos, dos sáculos e dos canais semicirculares. Este núcleo se projeta ao tronco encefálico e ao cerebelo através do fascículo longitudinal medial. Reflexos Vestíbulo-Oculares Diversos reflexos vestibulares são produzidos em resposta à movimentação da cabeça. Um reflexo, chamado nistagmo, ocorre em resposta à aceleração angular ou rotacional da cabeça. Ao virar a cabeça, os olhos inicialmente se movem em direção oposta à rotação, tentando manter o olhar em direção constante. Esta movimentação inicial é o componente lento do nistagmo. Quando os olhos ficam quase no limite de sua movimentação lateral, rapidamente se movem na mesma direção da rotação da cabeça. Este movimento é o componente rápido do nistagmo, em que os olhos “pulam para frente” para fixar uma nova posição no espaço. O nistagmo é definido pela direção do componente rápido: o nistagmo ocorre na direção da rotação da cabeça. Se a rotação for interrompida de forma abrupta, os olhos se movem na direção oposta à rotação original. Este movimento ocular é denominado nistagmo pós-rotatório. Durante o período pós- rotatório, o indivíduo tende a cair na direção da rotação original (devido à estimulação dos músculos extensores contralaterais), porque pensa que está girando na direção oposta. Teste dos Reflexos Vestíbulo-Oculares A função vestibular pode ser analisada usando os fenômenos de nistagmo e nistagmo pós-rotatório. O teste de Bárány consiste na rotação de um indivíduo em uma cadeira especial por cerca de dez vezes. Em uma pessoa com função vestibular normal, a rotação para a direita causa nistagmo rotatório direito, nistagmo pós-rotatório esquerdo e queda para a direita durante o período pós-rotatório. Da mesma maneira, a rotação para a esquerda causa nistagmo rotatório esquerdo, nistagmo pós-rotatório direito e queda para a esquerda durante o período pós-rotatório. No teste calórico, a orelha interna sofre estimulação térmica e os canais semicirculares horizontais direito e esquerdo podem ser separadamente estimulados. Neste teste, a cabeça é virada para trás em 60 graus para que os canais horizontais fiquem em orientação vertical. A colocação de água quente ou fria na orelha provoca o fluxo de endolinfa, que deflete a cúpula como se a cabeça estivesse sendo virada. Há um nistagmo, que dura aproximadamente 2 minutos. A água quente produz nistagmo em direção ao lado tratado; a água fria produz nistagmo em direção ao lado não tratado. Olfato Nos sentidos químicos, há detecção de estímulos químicos e sua transdução em energia elétrica, que será transmitida pelo sistema nervoso. O olfato é um dos sentidos químicos. Em seres humanos, o olfato não é necessário à sobrevivência, embora melhore a qualidade de vida e até mesmo proteja de perigos. A anosmia é a ausência do sentido do olfato, a hiposmia é sua diminuição e a disosmia, sua disfunção. Lesões cefálicas, infecções no trato respiratório superior, tumores na fossa anterior e exposição a substâncias tóxicas (que destroem o epitélio olfativo) podem prejudicar o olfato. Epitélio Olfativo e Receptores As moléculas de odor, presentes na fase gasosa, atingem os receptores olfativos através da cavidade nasal: o ar entra nas narinas, atravessa a cavidade nasal e segue pela nasofaringe. A cavidade nasal possui estruturas denominadas conchas nasais; algumas delas são revestidas pelo epitélio olfativo, que possui as células receptoras olfativas. (O restante da cavidade nasal é recoberto pelo epitélio respiratório.) As conchas nasais atuam como um difusor, fazendo que o fluxo de ar se torne turbulento e, assim, atinja regiões superiores da cavidade nasal. O epitélio olfativo é composto por três tipos celulares: células de suporte, células basais e células receptoras olfativas (Figura 3.26). ♦ As células de suporte são células epiteliais colunares revestidas por microvilosidades em sua borda mucosa e preenchidas por grânulos secretórios. ♦ As células basais estão localizadas na base do epitélio olfativo e são células progenitoras não diferenciadas que dão origem às células receptoras olfativas. Estas células progenitoras sofrem mitose e renovam as células receptoras de maneira constante. ♦ As células receptoras olfativas, que também são neurônios aferentes primários, são os sítios de ligação, detecção e transdução do odor. As moléculas de odor se ligam a receptores presentes nos cílios, que se estendem pela mucosa nasal. Os axônios das células receptoras olfativas deixam o epitélio olfativo e seguem centralmente até o bulbo olfatório. Estes axônios devem atravessar a lâmina cribriforme, na base do crânio, para chegarem ao bulbo olfatório. Assim, fraturas na lâmina cribriforme podem seccionar os axônios dos neurônios olfativos, causando disfunções do olfato (p. ex., anosmia). Os axônios destes neurônios não são mielinizados e estão entre as fibras menores e mais lentas do sistema nervoso (lembre-se das relações entre o diâmetro da fibra, sua mielinização e a velocidade de condução, discutidas no Capítulo 1). FIGURA 3.26 Vias olfativas, mostrando o epitélio olfativo e o bulbo olfatório. Uma vez que as células receptoras olfativas são também neurônios aferentes primários, a substituição contínua destas células receptoras a partir das células basais indica a existência de neurogênese contínua. Transdução Olfativa No sistema olfativo, a transdução envolve a conversão de um sinal químico em um sinal elétrico que pode ser transmitido para o SNC. As etapas da transdução olfativasão as seguintes (Figura 3.27): 1. As moléculas de odor se ligam a proteínas receptoras olfativas localizadas nos cílios das células receptoras olfativas. Existem pelo menos 1.000 diferentes proteínas receptoras olfativas (membros da superfamília dos receptores ligados à proteína G), cada uma codificada por um gene diferente e encontrada em uma célula receptora olfativa diferente. 2. As proteínas receptoras olfativas são acopladas à adenilil ciclase por meio de uma proteína G denominada Golf. Com a ligação da molécula de odor, há ativação da proteína Golf, o que ativa a adenilil ciclase. 3. A adenilil ciclase catalisa a conversão do ATP a AMPc. Os níveis intracelulares de AMPc aumentam, abrindo canais de cátions na membrana celular do receptor olfativo que são permeáveis a Na+, K+ e Ca2+. 4. A membrana da célula receptora é despolarizada (ou seja, o potencial de membrana é levado a um valor entre os potenciais de equilíbrio dos três cátions, que é a despolarização). Este potencial receptor despolarizante aproxima o potencial de membrana do limiar e despolariza o segmento inicial do axônio do neurônio olfativo. 5. Os potenciais de ação são, então, gerados e propagados pelos axônios do nervo olfativo em direção ao bulbo olfatório. FIGURA 3.27 Etapas na transdução olfativa. Os números circulados correspondem às etapas descritas no texto. AMPc, Monofosfato cíclico de adenosina. Codificação do Estímulo Olfativo Não se sabe exatamente como os estímulos olfativos são codificados; ou seja, como reconhecemos o cheiro de uma rosa, uma gardênia ou de uma pessoa especial e como diferenciamos a rosa de uma gardênia? Sabemos que: (1) As proteínas receptoras olfativas não são exclusivas a uma única molécula de odor e cada uma responde a uma série de odores. (2) As proteínas receptoras olfativas, porém, são seletivas, respondendo mais a algumas moléculas do que a outras ou mesmo não respondendo a uma determinada molécula. (3) Diferentes proteínas receptoras olfativas respondem de maneira diferente a uma mesma molécula de odor. A proteína receptora “A”, por exemplo, responde muito mais a “maçã” do que a proteína receptora “B”. (4) Quando a resposta a uma determinada molécula de odor é examinada em muitos receptores, diferentes padrões são observados para diferentes moléculas. Isto é chamado código de padrão através de fibras. Cada molécula de odor produz um padrão único de atividade em uma população de receptores, que se projeta em glomérulos alvos no bulbo olfatório (“mapa de odor”). O SNC interpreta, então, estes mapas de odor (p. ex., uma rosa, uma gardênia ou uma pessoa especial). Vias Olfativas Como discutido, as células receptoras olfativas são neurônios aferentes primários do sistema olfativo. Os axônios das células receptoras deixam o epitélio olfativo, atravessam a lâmina cribriforme e fazem sinapse nos dendritos apicais das células mitrais (os neurônios de segunda ordem) no bulbo olfatório. Estas sinapses ocorrem em agrupamentos denominados glomérulos (Figura 3.26). Nos glomérulos, aproximadamente 1.000 axônios receptores olfativos convergem a uma célula mitral. As células mitrais são dispostas em uma única camada no bulbo olfatório e apresentam dendritos laterais, além de dendritos apicais. O bulbo olfatório também contém células granulares e periglomerulares (não mostradas). As células granulares e periglomerulares são interneurônios inibitórios que fazem sinapses dendrodendríticas em células mitrais vizinhas. Os impulsos inibitórios desempenham uma função similar às células horizontais da retina e podem fazer a inibição lateral que “lapida” a informação projetada ao SNC. As células mitrais do bulbo olfatório se projetam a centros mais altos do SNC. Ao se aproximar da base do cérebro, o trato olfativo se divide em dois tratos principais, um trato lateral e um trato medial. O trato olfativo lateral faz sinapses com o córtex olfativo primário, que inclui o córtex pré-piriforme. O trato olfativo medial se projeta até a comissura anterior e o bulbo olfatório contralateral. Paladar O segundo sentido químico é o paladar. Para o sentido do paladar, substâncias químicas, denominadas moléculas de gosto, são detectadas e transduzidas por quimiorreceptores localizados nos botões gustativos. Os gostos são misturas de cinco qualidades elementares: salgado, doce, ácido, amargo e umami (gosto de aminoácidos, incluindo o glutamato monossódico e proteínas). Os distúrbios associados ao paladar não são fatais, mas podem prejudicar a qualidade de vida e o estado nutricional e aumentar a possibilidade de envenenamento acidental. Os distúrbios do paladar são a ageusia (ausência de paladar), a hipogeusia (diminuição da sensibilidade gustativa), hipergeusia (aumento da sensibilidade gustativa) e a disgeusia (distorção do paladar, incluindo sensação gustativa na ausência de estímulo). Botões Gustativos e Receptores As células receptoras gustativas estão localizadas em botões gustativos na língua, no palato, na faringe e na laringe. Na língua, centenas de botões gustativos são encontrados nas papilas gustativas. Os botões gustativos são anatomicamente similares ao epitélio olfativo e são compostos por três tipos celulares: células de suporte, células basais e células receptoras (Figura 3.28). ♦ As células de suporte são encontradas entre as células receptoras gustativas. Estas células não respondem ao estímulo gustativo e sua função é desconhecida. ♦ As células basais são células-tronco não diferenciadas que atuam como precursores das células receptoras gustativas (assim como as células basais são precursoras das células receptoras olfativas). As células basais sofrem substituição contínua. Novas células, geradas aproximadamente a cada 10 dias, migram em direção ao centro do botão gustativo e se diferenciam em células receptoras. As novas células receptoras são necessárias à substituição daquelas que descamam da língua. ♦ As células receptoras gustativas são os quimiorreceptores do sistema gustativo. Estas células revestem os botões gustativos e estendem microvilosidades até os poros gustativos. Estas microvilosidades aumentam a área de superfície para detecção do estímulo químico. Diferentemente do sistema olfativo (onde as células receptoras são os neurônios aferentes primários), as células receptoras do sistema gustativo não são neurônios. Estas são células epiteliais especializadas que funcionam como quimiorreceptores e fazem a transdução dos estímulos químicos em sinais elétricos. Fibras aferentes inervam as células receptoras gustativas e transmitem esta informação para o SNC. Os botões gustativos da língua são organizados em papilas especializadas (Figura 3.29). Três tipos de papilas contêm botões gustativos: circunvaladas, foliáceas e fungiformes. ♦ As papilas circunvaladas têm tamanho maior, mas são as menos numerosas. Estas papilas são dispostas em fileiras na base da língua. Cada papila circunvalada é cercada por uma depressão; os botões gustativos se localizam dos dois lados da vala. Devido a seu tamanho grande, as papilas circunvaladas possuem cerca de metade do número total de botões gustativos. As células receptoras gustativas das papilas circunvaladas são inervadas pelo NC VII e IX. ♦ As papilas foliáceas estão localizadas nas bordas laterais da língua. Os botões gustativos se localizam em pregas dos lados destas papilas. ♦ As papilas fungiformes estão dispersas pela superfície dorsal da língua e são mais numerosas na extremidade anterior. Estas papilas têm formato de cogumelo (“fungiforme”) e contêm entre três e cinco botões gustativos. As papilas fungiformes são translúcidas e apresentam suprimento sanguíneo denso; assim, são observadas como manchas vermelhas na superfície da língua. As células gustativas das papilas fungiformes são exclusivamente inervadas pela corda do tímpano do NC VII. FIGURA 3.28 Estrutura de um botão gustativo. FIGURA 3.29 Estrutura de uma papila gustativa recoberta por botões gustativos. Transdução do Paladar A detecção das cinco qualidades básicasdo paladar depende das diferentes sensibilidades das áreas da língua (Figura 3.30). Embora as cinco qualidades possam ser detectadas por toda a superfície da língua, diferentes regiões do órgão apresentam diferentes limiares. A ponta da língua responde mais a gosto doce, salgado e umami, enquanto sua porção posterior é mais responsiva a gosto amargo e as laterais respondem mais a ácido. FIGURA 3.30 Organização das papilas gustativas na língua. A ilustração mostra as papilas circunvaladas, foliáceas e fungiformes e as substâncias químicas que detectam. Os sinais químicos das cinco qualidades do paladar são transduzidos por meio dos mecanismos mostrados na Figura 3.31. Na maioria dos casos, a transdução provoca a despolarização da membrana do receptor gustativo (ou seja, causa um potencial receptor despolarizante). Esta despolarização gera potenciais de ação nos nervos aferentes que suprem aquela porção da língua. Para a sensação amarga, as moléculas de sabor se ligam a receptores acoplados a uma proteína G na membrana do receptor gustativo e, em um fenômeno mediado por 1,4,5-trifosfato de inositol (IP3)/Ca2+, há abertura dos canais TRP e, consequentemente, despolarização. Para as sensações de doce e umami, as moléculas se ligam a uma classe diferente de receptores acoplados à proteína G na membrana da célula receptora gustativa e, usando IP3/Ca2+, abrem os canais TRP e provocam despolarização. Para a sensação ácida (mediada por H+), este íon entra no receptor gustativo através de canais epiteliais de Na+ (ENaCs) e causa despolarização. Para a sensação salgada (mediada por Na+), o íon entra no receptor gustativo através destes mesmos ENaCs e, de forma direta, causa despolarização. FIGURA 3.31 Mecanismos de transdução nas células receptoras gustativas. ENaC, Canal epitelial de Na+; IP3, 1,4,5-trifosfato de inositol; TRP, potencial receptor transiente. Codificação do Estímulo Gustativo Não se sabe exatamente como as qualidades do sabor são codificadas no SNC. Segundo uma teoria, há uma codificação de padrão através de fibras, onde cada fibra gustativa responde melhor a um estímulo, mas também responde, em menor grau, a outros estímulos. Assim, uma fibra gustativa aferente pode responder melhor ao salgado, mas também responde ao ácido. Outra fibra gustativa pode responder melhor ao gosto ácido, mas também responde ao amargo. Desta maneira, cada fibra gustativa aferente recebe estímulos de uma população de receptores gustativos com um padrão distinto de respostas. O padrão de resposta através de muitas fibras codifica, então, uma determinada sensação de paladar. Vias Gustativas Como já mencionado, o paladar começa com a transdução de sinais químicos nas células receptoras gustativas, localizadas nos botões gustativos. A transdução provoca potenciais receptores despolarizantes, que geram potenciais de ação nos neurônios aferentes primários que inervam regiões específicas da língua. Diferentes regiões da língua são inervadas por ramos de três nervos cranianos. O terço posterior da língua (onde as sensações amargas e ácidas são mais percebidas) é inervado pelo nervo glossofaríngeo (NC IX). Os dois terços anteriores da língua (onde as sensações doces, salgadas e de umami são mais percebidas) são inervados pelo nervo facial (NC VII). A parte de trás da garganta e a epiglote são inervadas pelo vago (NC X). Estes três nervos cranianos (NC VII, IX e X) entram no tronco encefálico, ascendem pelo trato solitário e terminam em neurônios de segunda ordem no núcleo do trato solitário do bulbo. Os neurônios de segunda ordem se projetam de forma ipsilateral no núcleo posteromedial ventral do tálamo. Os neurônios de terceira ordem deixam o tálamo e terminam no córtex gustativo. Sistemas motores A postura e os movimentos dependem de uma combinação de reflexos involuntários coordenados pela medula espinal e ações voluntárias e involuntárias controladas por centros encefálicos. Organização da Função Motora pela Medula Espinal A postura e os movimentos dependem, em última análise, da contração de alguns músculos esqueléticos, enquanto, simultaneamente, outros músculos são relaxados. Lembre-se que a ativação e a contração de músculos esqueléticos são controladas pelos motoneurônios que os inervam. O sistema motor é projetado para executar esta resposta coordenada principalmente por meio de reflexos integrados na medula espinal. Unidades Motoras Uma unidade motora é definida como um único motoneurônio e as fibras musculares que inerva. O número de fibras musculares inervadas pode variar de algumas a muitas, dependendo da natureza da atividade motora. Assim, para os movimentos oculares que requerem controle fino, os motoneurônios inervam apenas algumas fibras musculares. Para os músculos posturais que participam de movimentos grosseiros, os motoneurônios inervam milhares de fibras musculares. Um grupo de motoneurônios é aquele que inerva fibras do mesmo músculo. A força de contração de um músculo é graduada pelo recrutamento de unidades motoras (princípio do tamanho). Motoneurônios pequenos, por exemplo, inervam poucas fibras musculares e, por possuírem os menores limiares, são os primeiros a disparar. Os motoneurônios pequenos também geram as menores quantidades de força. Motoneurônios grandes, por outro lado, inervam muitas fibras musculares. Estes motoneurônios apresentam os maiores limiares para o disparo de potenciais de ação; assim, são os últimos a disparar. Uma vez que os motoneurônios grandes inervam muitas fibras musculares, também geram as maiores quantidades de força. Segundo o princípio do tamanho, quanto mais unidades motoras forem recrutadas, motoneurônios cada vez maiores são recrutados e mais tensão é gerada. Tipos de Motoneurônios Existem dois tipos de motoneurônios: os motoneurônios α e os motoneurônios γ. Os motoneurônios α inervam fibras musculares esqueléticas extrafusais. Os potenciais de ação nestes motoneurônios estimulam a ocorrência de outros potenciais de ação nas fibras musculares extrafusais que inervam, o que causa contração muscular (Capítulo 1). Os motoneurônios γ inervam fibras musculares intrafusais especializadas, encontradas dentro dos fusos musculares. A função geral do fuso muscular é detectar o comprimento do músculo; a função do motoneurônio γ que o inerva é ajustar a sensibilidade dos fusos musculares (para que possam responder de forma adequada durante a contração e o encurtamento das fibras extrafusais). Os motoneurônios α e os motoneurônios γ são coativados (ou seja, ativados simultaneamente) para que os fusos musculares continuem sensíveis a alterações no comprimento do músculo mesmo durante a contração ou o encurtamento. Tipos de Fibras Musculares Como já discutido, existem dois tipos de fibras musculares: as fibras extrafusais e as fibras intrafusais. As fibras extrafusais constituem a maior parte dos músculos esqueléticos, são inervadas por motoneurônios α e são usadas na geração de força. As fibras intrafusais são fibras especializadas inervadas por motoneurônios γ e são muito pequenas para gerar força de forma significativa. Várias fibras intrafusais, encapsuladas em bainhas, formam os fusos musculares orientados em paralelo às fibras extrafusais. Fusos Musculares Os fusos musculares se distribuem entre as fibras musculares extrafusais e são especialmente abundantes nos músculos utilizados em movimentos finos (p. ex., músculos dos olhos). Os fusos musculares são órgãos fusiformes compostos por fibras musculares intrafusais e inervados por fibras nervosas sensoriais e motoras, como ilustrado na Figura 3.32. Os fusos musculares são ligados ao tecido conjuntivo e dispostos paralelamente às fibras musculares extrafusais. FIGURA 3.32 Estrutura do fuso muscular. A ilustração mostra uma fibra muscular intrafusal em relação a uma fibra muscular extrafusal. Fibras Musculares Intrafusais dos Fusos Musculares Existem dois tipos de fibras intrafusais nos fusos musculares: as fibras de bolsa nuclear e as fibras de cadeia nuclear (Figura 3.32). De modo geral,estes dois tipos de fibras são encontrados em todos os fusos musculares, mas as fibras de cadeia nuclear são mais numerosas do que as de bolsa nuclear. (Há cinco ou seis fibras de cadeia nuclear por fuso muscular, mas apenas duas fibras de bolsa nuclear.) As fibras de bolsa nuclear são grandes e seus núcleos se acumulam em uma região central (“bolsa”). As fibras de cadeia nuclear são menores e seus núcleos são dispostos em fileiras (“cadeias”). Inervação dos Fusos Musculares Os fusos musculares são supridos por nervos sensoriais (aferentes) e motores (eferentes). ♦ A inervação sensorial do fuso muscular consiste em um único nervo aferente do grupo Ia, que inerva a região central das fibras de bolsa ou cadeia nuclear, e nervos aferentes do grupo II, que suprem principalmente as fibras de cadeia nuclear. Lembre-se que as fibras do grupo Ia estão entre os maiores axônios e, assim, apresentam as maiores velocidades de condução. Estas fibras formam as terminações primárias na forma de um terminal espiralado ao redor da região central das fibras de bolsa ou cadeia nuclear. As fibras de grupo II têm diâmetros intermediários e velocidades de condução também intermediárias. Estas fibras formam terminações secundárias, principalmente nas fibras de cadeia nuclear. ♦ A inervação motora do fuso muscular é composta por dois tipos de motoneurônios γ: dinâmicos e estáticos. Os motoneurônios γ dinâmicos fazem sinapse com as fibras de bolsa nuclear, em “terminações em placa”. Os motoneurônios γ estáticos fazem sinapse com as fibras de cadeia nuclear, em “terminações em trilha”, espalhadas em distâncias maiores. Os motoneurônios γ são menores e mais lentos do que os motoneurônios α que inervam as fibras extrafusais. Novamente, a função dos motoneurônios γ (sejam estáticos ou dinâmicos) é regular à sensibilidade das fibras musculares intrafusais que inervam. Função dos Fusos Musculares Os fusos musculares são receptores de estiramento cuja função é corrigir as alterações no comprimento muscular quando as fibras extrafusais são encurtadas (pela contração) ou alongadas (pelo estiramento). Assim, os reflexos do fuso muscular operam para que o músculo volte a seu comprimento de repouso após ser encurtado ou estirado. Para ilustrar a função do reflexo do fuso muscular, considere os eventos associados ao aumento de comprimento (estiramento) de um músculo. 1. Quando um músculo é estirado, as fibras extrafusais são alongadas. Devido a seu arranjo muscular paralelo, as fibras intrafusais também são alongadas. 2. O aumento do comprimento das fibras intrafusais é detectado pelas fibras sensoriais aferentes que as inervam. As fibras aferentes do grupo Ia (que inervam a região central das fibras de bolsa nuclear ou cadeia nuclear) detectam a velocidade da alteração de comprimento, enquanto as fibras aferentes de grupo II (que inervam as fibras de cadeia nuclear) detectam o comprimento da fibra muscular. Assim, quando um músculo se alonga, o aumento do comprimento das fibras intrafusais ativa as fibras aferentes sensoriais de grupo Ia e II. 3. A ativação das fibras aferentes do grupo Ia estimulam os motoneurônios α da medula espinal. Estes motoneurônios α inervam fibras extrafusais no músculo homônimo (isto é, no mesmo músculo) e, quando ativados, provocam a contração do músculo (ou seja, seu encurtamento). Assim, o estiramento (aumento de comprimento) original é oposto quando o reflexo faz o músculo se contrair e encurtar. Os motoneurônios γ são coativados com os motoneurônios α, garantindo que o fuso muscular continue sensível às alterações no comprimento muscular mesmo durante a contração. Reflexos da Medula Espinal Os reflexos da medula espinal são respostas motoras estereotipadas a tipos específicos de estímulos, como o aumento de comprimento de um músculo. O circuito neuronal que orienta esta resposta motora é denominado arco reflexo. O arco reflexo inclui receptores sensoriais, nervos sensoriais aferentes (que levam as informações até a medula espinal), interneurônios da medula espinal e motoneurônios (que controlam a contração ou o relaxamento do músculo). O reflexo miotático (de estiramento) é o mais simples de todos os reflexos medulares, já que possui apenas uma sinapse entre os nervos sensoriais aferentes e os nervos motores eferentes. O reflexo tendinoso de Golgi tem complexidade intermediária e apresenta duas sinapses. O reflexo medular mais complexo é o de flexão e retirada, com múltiplas sinapses. As características destes três tipos de reflexos medulares são resumidas na Tabela 3.5. Tabela 3.5 Reflexos Musculares Tipo de Reflexo (Exemplo) Número de Sinapses Estímulo para o Reflexo Fibras Sensoriais Aferentes Respostas Reflexo miotático (reflexo patelar) Uma Estiramento (alongamento) do músculo Ia Contração do músculo Reflexo tendinoso de Golgi (sinal do canivete) Duas Contração (encurtamento) do músculo Ib Relaxamento do músculo Reflexo de flexão e retirada (encostar em um fogão quente) Muitas Dor; temperatura III e IV Flexão ipsilateral; extensão contralateral Reflexo Miotático (de Estiramento) O reflexo de estiramento (miotático) é exemplificado pelo reflexo patelar (Figura 3.33). Este reflexo, que apresenta uma única sinapse entre os neurônios sensoriais aferentes (do grupo Ia) e os neurônios motores eferentes (motoneurônios α), ocorre nas seguintes etapas: 1. Com o alongamento (estiramento) de um músculo, as fibras aferentes do grupo Ia do fuso muscular são ativadas e sua frequência de disparos aumenta. Estes aferentes do grupo Ia entram na medula espinal e fazem sinapse diretamente com motoneurônios α, ativando-os. Este conjunto de motoneurônios α inerva o músculo homônimo. 2. Ao serem ativados, estes motoneurônios α provocam a contração do músculo que foi originariamente estirado (o músculo homônimo). Quando o músculo se contrai, encurta, diminuindo o comprimento do fuso muscular. O fuso muscular retorna o seu tamanho original e a frequência de disparo das fibras aferentes do grupo Ia volta ao valor basal. 3. Simultaneamente, a medula espinal envia uma informação que causa a contração dos músculos sinérgicos e o relaxamento dos músculos antagonistas. FIGURA 3.33 Mecanismo do reflexo miotático (de estiramento). As linhas sólidas mostram as vias excitatórias; as linhas pontilhadas mostram as etapas inibitórias. Os neurônios abertos são excitatórios; os neurônios preenchidos são inibitórios. O reflexo miotático é ilustrado pelo reflexo patelar, que é iniciado por uma batida no tendão patelar e leva ao estiramento do quadríceps. O estiramento do quadríceps e de seus fusos musculares provoca a estimulação das fibras aferentes do grupo Ia. Estas fibras fazem sinapse com motoneurônios α da medula espinal, ativando-os. Estes motoneurônios α inervam o quadríceps (o músculo inicialmente estirado) e provocam sua contração. A contração e o encurtamento do músculo quadríceps forçam a extensão da porção inferior da perna no característico reflexo patelar. Reflexo Tendinoso de Golgi O reflexo tendinoso de Golgi é um reflexo dissináptico da medula espinal e também é chamado reflexo miotático inverso (inverso ou oposto ao reflexo miotático). O órgão tendinoso de Golgi é um receptor de estiramento, encontrado em tendões, o qual detecta a contração (encurtamento) do músculo e ativa nervos aferentes do grupo Ib. Os órgãos tendinosos de Golgi são dispostos em série com as fibras musculares extrafusais (diferentemente do arranjo paralelo dos fusos musculares no reflexo miotático). As etapas do reflexo tendinoso de Golgi são mostradas na Figura 3.34 e descritas a seguir: 1. Quando o músculo se contrai, as fibras musculares extrafusais se encurtam, ativando os órgãos tendinosos de Golgi ligados a elas. As fibras aferentes do grupo Ib que fazem sinapse com interneurônios inibitórios da medula espinal, por sua vez, são ativadas. Estes interneurônios inibitórios fazem sinapse com os motoneurônios α. 2. Quando os interneurônios inibidores são ativados (ou seja, ativados para inibir), inibemo disparo dos motoneurônios α, relaxando o músculo homônimo (que originalmente foi contraído). 3. Com o relaxamento do músculo homônimo, o reflexo também faz com que os músculos sinérgicos relaxem e os antagonistas se contraiam. FIGURA 3.34 Mecanismo do reflexo tendinoso de Golgi. As linhas sólidas mostram as vias excitatórias; as linhas pontilhadas mostram as etapas inibitórias. Os neurônios abertos são excitatórios; os neurônios preenchidos são inibitórios. Uma forma exagerada do reflexo tendinoso de Golgi é ilustrada pelo sinal do canivete. Este reflexo é anormal e ocorre quando há um aumento no tônus muscular (p. ex., hipertonicidade ou espasticidade do músculo). A flexão passiva de uma articulação faz com que os músculos opostos inicialmente resistam à movimentação passiva. Se a flexão continuar, porém, há aumento da tensão no músculo oposto, ativando o reflexo tendinoso de Golgi; o reflexo provoca o relaxamento da musculatura oposta e o fechamento rápido da articulação. A resistência inicial à flexão seguida pela flexão rápida é similar ao fechamento de um canivete de bolso: A princípio, a movimentação contra a resistência alta é lenta, mas, a seguir, o fechamento é rápido. Reflexo de Flexão e Retirada O reflexo de flexão e retirada é um reflexo polissináptico que ocorre em resposta a estímulos táteis, dolorosos ou nocivos. As fibras aferentes somatossensoriais e de dor iniciam um reflexo de flexão que leva à retirada da parte do corpo afetada pelo estímulo doloroso ou nocivo (p. ex., colocar a mão em um fogão quente e rapidamente retirá-la). O reflexo produz flexão ipsilateral (ou seja, do lado do estímulo) e extensão contralateral (Figura 3.35). O reflexo de flexão e retirada tem as seguintes etapas: 1. Quando um membro toca um estímulo doloroso (p. ex., a mão toca um fogão quente), as fibras aferentes do reflexo flexor (dos grupos III e IV) são ativadas. Estas fibras aferentes fazem sinapses com múltiplos interneurônios da medula espinal (ou seja, o reflexo é polissináptico). 2. Ipsilateral ao estímulo doloroso, os reflexos que causam a contração dos músculos flexores e o relaxamento dos músculos extensores são ativados. Esta parte do reflexo provoca flexão ipsilateral (p. ex., a retirada da mão do fogão quente). 3. Contralateral ao estímulo doloroso, os reflexos que provocam a contração dos músculos extensores e o relaxamento dos músculos flexores são ativados. Esta parte do reflexo causa extensão contralateral e é chamada reflexo de extensão cruzada. Assim, se o estímulo doloroso ocorrer no lado esquerdo, há flexão ou retirada do braço esquerdo e da perna esquerda e extensão do braço direito e da perna direita para manutenção do equilíbrio. 4. Há uma descarga neural persistente, chamada pós-descarga, nos circuitos dos reflexos polissinápticos. Devido à pós-descarga, os músculos contraídos assim permanecem por um determinado período após a ativação do reflexo. FIGURA 3.35 Mecanismo do reflexo de flexão e retirada. As linhas sólidas mostram as vias excitatórias; as linhas pontilhadas mostram as etapas inibitórias. Os neurônios abertos são excitatórios; os neurônios preenchidos são inibitórios. Controle da Postura e do Movimento pelo Tronco Encefálico As vias motoras descendentes (ou seja, aquelas que descem do córtex cerebral e do tronco encefálico) são divididas entre o trato piramidal e o trato extrapiramidal. Os tratos piramidais são tratos corticoespinais que atravessam as pirâmides bulbares e descem diretamente até os motoneurônios inferiores da medula espinal e os tratos corticonucleares que fazem sinapse nos motoneurônios dos nervos cranianos. Todos os demais são tratos extrapiramidais. Os tratos extrapiramidais são originários das seguintes estruturas do tronco encefálico: ♦ O trato rubroespinal é originário do núcleo rubro e se projeta até motoneurônios na medula espinal lateral. A estimulação do núcleo rubro ativa os músculos flexores e inibe os músculos extensores. ♦ O trato reticuloespinal pontino é originário dos núcleos da formação reticular pontina e se projeta até a medula espinal anteromedial. A estimulação possui um efeito ativador generalizado nos músculos flexores e extensores, com efeito predominante sobre estes últimos. ♦ O trato reticuloespinal bulbar é originário da formação reticular bulbar e se projeta a motoneurônios da medula espinal. A estimulação exerce um efeito inibidor generalizado nos músculos flexores e extensores, com efeito predominante nestes últimos. ♦ O trato vestibuloespinal lateral é originário do núcleo vestibular lateral (núcleo de Deiter) e se projeta até motoneurônios ipsilaterais da medula espinal. A estimulação ativa os extensores e inibe os flexores. ♦ O trato tectoespinal é originário do colículo superior (teto do tronco encefálico) e se projeta até a medula espinal cervical. Este trato participa do controle dos músculos do pescoço. Tanto a formação reticular pontina quanto o núcleo vestibular lateral exercem potentes efeitos excitatórios sobre os músculos extensores. Lesões no tronco encefálico acima da formação reticular pontina e do núcleo vestibular lateral, mas abaixo do mesencéfalo, portanto, provocam um aumento dramático do tônus extensor, denominado rigidez por descerebração. As lesões acima do mesencéfalo não causam rigidez por descerebração* . Cerebelo O cerebelo, ou “pequeno cérebro”, regula a movimentação e a postura e participa de certos tipos de aprendizado motor. O cerebelo ajuda a controlar a frequência, a amplitude, a força e a direção dos movimentos (coletivamente denominados sinergia). Lesões cerebelares provocam perda de coordenação. O cerebelo está localizado na fossa posterior, logo abaixo do lobo occipital. É conectado ao tronco encefálico por três pedúnculos cerebelares, que contêm fibras nervosas aferentes e eferentes. O cerebelo apresenta três divisões principais: o vestibulocerebelo, o espinocerebelo e o pontocerebelo. O vestibulocerebelo recebe principalmente informações vestibulares e controla o equilíbrio e os movimentos oculares. O espinocerebelo recebe principalmente informações da medula espinal e controla a sinergia dos movimentos. O pontocerebelo recebe principalmente informações do córtex motor advindas dos núcleos pontinos e controla a execução dos movimentos. Camadas do Córtex Cerebelar O córtex cerebelar apresenta três camadas, que são descritas em relação a suas células de saída, as células de Purkinje (Figura 3.36). As camadas do córtex cerebelar são: ♦ A camada granular é a mais interna. Contém células granulares, células de Golgi do tipo II e glomérulos. Nos glomérulos, os axônios das fibras musgosas dos tratos espinocerebelares e pontocerebelares fazem sinapses com os dendritos das células granulares e das células de Golgi do tipo II. ♦ A camada de células de Purkinje é a camada do meio. Contém as células de Purkinje e sua saída é sempre inibitória. ♦ A camada molecular é a mais externa. Contém as células estreladas externas, as células em cesto, dendritos das células de Purkinje e de Golgi do tipo II e axônios das células granulares. Estes axônios formam fibras paralelas, que fazem sinapse com os dendritos das células de Purkinje, das células em cesto, das células estreladas externas e das células de Golgi do tipo II. FIGURA 3.36 Estruturas do córtex cerebelar em corte transversal. Aferentes ao Córtex Cerebelar Dois sistemas dão sinais excitatórios para o córtex cerebelar: o sistema de fibras trepadeiras e o sistema de fibras musgosas. Cada sistema também envia ramos colaterais diretamente para os núcleos cerebelares profundos, além de suas projeções para o córtex cerebelar. As projeções excitatórias do córtex cerebelar ativam, então, circuitos secundários que modulam as informações que saem dos núcleos cerebelares através das células de Purkinje. ♦ As fibras trepadeiras começam no núcleo olivar inferior do bulbo e se projetam diretamente nas células de Purkinje. Estas fibras fazem múltiplas conexões sinápticas ao longo dos dendritos das células de Purkinje,embora cada uma destas células receba impulsos de apenas uma fibra ascendente. Estas conexões sinápticas são muito potentes! Um único potencial de ação de uma fibra trepadeira pode gerar múltiplos pulsos de excitação, denominados picos complexos, nos dendritos da célula de Purkinje. Acredita-se que as fibras ascendentes “condicionam” as células de Purkinje e modulam sua resposta aos impulsos das fibras musgosas. As fibras ascendentes também podem participar do aprendizado cerebelar. ♦ As fibras musgosas são responsáveis pela maior parte da estimulação cerebelar. Estas vias podem ser aferentes vestibulocerebelares, espinocerebelares e pontocerebelares. As fibras musgosas se projetam em células granulares, que são interneurônios excitatórios localizados em grupos de sinapses denominadas glomérulos. Os axônios destas células granulares, então, ascendem até a camada molecular, onde se bifurcam e dão origem às fibras paralelas. As fibras paralelas das células granulares fazem contato com os dendritos de muitas células de Purkinje, produzindo um “feixe” de excitação ao longo da fileira destas células. A árvore dendrítica de cada célula de Purkinje pode receber impulsos de até 250.000 fibras paralelas! Diferentemente dos impulsos das fibras trepadeiras para os dendritos das células de Purkinje (que produzem picos complexos), os impulsos das fibras musgosas geram potenciais de ação únicos denominados picos simples. Estas fibras paralelas também fazem sinapses com interneurônios cerebelares (células em cesto, estreladas e de Golgi do tipo II). Interneurônios do Cerebelo A função dos interneurônios cerebelares é modular a saída dos impulsos das células de Purkinje. À exceção das células granulares, todos os interneurônios cerebelares são inibitórios. As células granulares dão impulsos excitatórios às células em cesto, estreladas, de Golgi II e de Purkinje. As células em cesto e as células estreladas inibem as células de Purkinje (por meio das fibras paralelas). As células de Golgi do tipo II inibem as células granulares, o que reduz seu efeito excitatório sobre as células de Purkinje. Eferentes do Córtex Cerebelar A única saída do córtex cerebelar é através de axônios das células de Purkinje. Os estímulos que saem das células de Purkinje são sempre inibitórios, já que o neurotransmissor liberado por estas sinapses é o ácido γ-aminobutírico (GABA) (Capítulo 1). Os axônios das células de Purkinje se projetam topograficamente até os núcleos cerebelares profundos e os núcleos vestibulares laterais. Esta saída inibitória do córtex cerebelar regula a frequência, a amplitude, a força e a direção do movimento (sinergia). Doenças do Cerebelo As lesões cerebelares provocam uma anomalia da movimentação denominada ataxia. A ataxia cerebelar é a ausência de coordenação devida a erros na frequência, amplitude, força e direção do movimento. A ataxia pode se apresentar de diversas maneiras. O movimento pode ter início tardio ou sua sequência pode ser mal executada, fazendo com que a movimentação pareça descoordenada. Um membro pode ultrapassar seu alvo ou parar antes de alcançá-lo. A ataxia pode ser expressa como disdiadococinesia, onde o indivíduo é incapaz de realizar movimentos rápidos e alternados. Os tremores de intenção podem ser perpendiculares à direção de um movimento voluntário, aumentando próximo a seu fim. (Os tremores de intenção observados na doença cerebelar diferem dos tremores em repouso do mal de Parkinson.) O fenômeno de rebote é a inabilidade de parar um movimento; o flexionar o antebraço contra uma resistência, por exemplo, o indivíduo com doença cerebelar pode ser incapaz de interromper a flexão quando a resistência for removida. Núcleos da Base Os núcleos da base são os núcleos profundos do telencéfalo: núcleo caudado, putâmen, globo pálido e amígdala* . Associados a esses núcleos telencefálicos, existem também os núcleos anteriores ventrais e laterais ventrais do tálamo e o núcleo subtalâmico do diencéfalo e a substância negra do mesencéfalo. A principal função dos núcleos da base é influenciar o córtex motor por meio de vias através do tálamo. O papel dos núcleos da base é auxiliar no planejamento e a execução dos movimentos delicados. Os núcleos da base também participam de funções afetivas e cognitivas. As vias que entram e saem dos núcleos da base são complexas, como mostrado na Figura 3.37. Quase todas as áreas do córtex cerebral se projetam topograficamente até o estriado** , inclusive os importantes aferentes vindos do córtex motor. O estriado se comunica, então, com o tálamo e daí o impulso volta ao córtex por meio de duas vias diferentes. ♦ Via indireta. Na via indireta, o estriado inibe o segmento externo do globo pálido que, por sua vez, inibe os núcleos subtalâmicos. Os núcleos subtalâmicos enviam impulsos excitatórios para o segmento interno do globo pálido e a pars reticulada da substância negra, que manda impulsos inibitórios para o tálamo. O tálamo, então, envia impulsos excitatórios de volta ao córtex motor. Nesta via, o neurotransmissor inibitório é o GABA e o neurotransmissor excitatório é o glutamato. A saída geral da via indireta é inibitória, como ilustrado no diagrama resumido na parte de baixo da figura. ♦ Via direta. Na via direta, o estriado envia impulsos inibitórios para o segmento interno do globo pálido e a pars reticulada da substância negra, que envia impulsos inibitórios para o tálamo. Como na via indireta, o tálamo envia impulsos excitatórios de volta para o córtex motor. Novamente, o neurotransmissor inibitório é o GABA e o neurotransmissor excitatório é o glutamato. A saída geral da via indireta é excitatória, como ilustrado no diagrama resumido na parte de baixo da figura. FIGURA 3.37 Vias dos núcleos da base. A ilustração mostra as relações entre o córtex cerebral, os núcleos da base e o tálamo. As linhas azuis sólidas mostram as vias excitatórias; as linhas marrons pontilhadas mostram as vias inibitórias. O resultado final da via indireta é a inibição, enquanto o da via direta é a excitação. (Modificado de Kandel ER, Schwartz JH, Jessell TM: Principles of Neural Science, 4th ed. New York, McGraw-Hill, 2000.) As saídas das vias indireta e direta, dos núcleos da base até o córtex motor, são opostas e cuidadosamente equilibradas: A via indireta é inibitória e a via direta é excitatória. Um distúrbio em uma das vias prejudica este equilíbrio do controle motor, aumentando ou diminuindo a atividade motora. Tal desequilíbrio é característico das doenças dos núcleos da base. Além do circuito básico das vias direta e indireta, existe mais uma conexão, para frente e para trás, entre o estriado e a pars compacta da substância negra. O neurotransmissor que faz a conexão de volta para o estriado é a dopamina. Esta outra conexão entre a substância negra e o estriado significa que a dopamina é inibitória (através de receptores D2) na via indireta e excitatória (via receptores D1) na via direta. Doenças dos Núcleos da Base As doenças dos núcleos da base incluem o mal de Parkinson e a doença de Huntington. No mal de Parkinson, as células da pars compacta da substância negra degeneram, reduzindo a inibição por meio da via indireta e a excitação através da via direta. As características do mal de Parkinson são explicadas por disfunções nos núcleos da base: tremor em repouso, lentidão ou retardo de movimentos e marcha cambaleante. O tratamento do mal de Parkinson é feito com reposição de dopamina, por meio da administração de L-dopa (seu precursor) ou de agonistas de dopamina, como a bromocriptina. A doença de Huntington é hereditária e causada pela destruição de neurônios colinérgicos estriados e corticais e pela inibição de neurônios GABAérgicos. Os sintomas neurológicos da doença de Huntington são os movimentos coreicos (contorcidos) e a demência. Não há cura. Córtex Motor Os movimentos voluntários são controlados pelo córtex motor através de vias descendentes. A motivação e as ideias necessárias à produção da atividade motora voluntária são primeiramenteorganizadas em múltiplas áreas associativas do córtex cerebral e, então, transmitidas para os córtices pré-motor e suplementar para o desenvolvimento de um plano motor. O plano motor identifica os músculos específicos que precisam se contrair, a intensidade desta contração e em qual sequência deve ser feita. O plano é, então, transmitido para os motoneurônios superiores do córtex motor primário, que o envia, por meio de vias descendentes, para os motoneurônios inferiores da medula espinal. Os estágios de planejamento e execução do plano motor são também influenciados pelos sistemas de controle motor do cerebelo e dos núcleos da base. O córtex motor é composto por três áreas: córtex motor primário, córtex motor suplementar e córtex pré-motor. ♦ O córtex pré-motor e o córtex motor suplementar (área 6) são as regiões do córtex motor responsáveis pela geração do plano de movimento que, então, é transferido ao córtex motor primário para execução. O córtex motor suplementar programa sequências motoras complexas e é ativado durante o “ensaio mental” de um movimento, mesmo que o movimento não seja executado. ♦ O córtex motor primário (área 4) é a região do córtex motor responsável pela execução de um movimento. Os padrões programados dos motoneurônios são ativados a partir do córtex motor primário. Conforme os motoneurônios superiores do córtex motor são excitados, esta atividade é transmitida para o tronco encefálico e a medula espinal, onde motoneurônios inferiores são ativados e produzem a contração coordenada dos músculos adequados (ou seja, o movimento voluntário). O córtex motor primário é topograficamente organizado e descrito como homúnculo motor. Esta organização topográfica é dramaticamente ilustrada nas convulsões jacksonianas, eventos epilépticos originários do córtex motor primário. O evento epiléptico geralmente se inicia nos dedos de uma mão, progride para a mão e os braços e termina por se disseminar por todo o corpo (ou seja, a “marcha jacksoniana”). Funções superiores do sistema nervoso central Eletroencefalograma O eletroencefalograma (EEG) registra a atividade elétrica do córtex cerebral por meio de eletrodos colocados no crânio. As ondas do EEG são originárias da soma de potenciais sinápticos excitatórios e inibitórios alternados que produzem um fluxo de corrente extracelular pelo córtex suficiente à detecção por eletrodos superficiais. (As ondas do EEG não são potenciais de ação. Os eletrodos na superfície do crânio não são sensíveis a ponto de detectar as pequenas alterações de voltagem dos potenciais de ação únicos, não somados.) O EEG normal (Figura 3.38) é composto por ondas de diversas amplitudes e frequências. Em um adulto normal, acordado e com os olhos abertos, a frequência dominante registrada sobre os lobos parietal e occipital é o ritmo beta (13-30 Hz), formado por ondas dessincronizadas de baixa voltagem e alta frequência. Com os olhos fechados, a frequência dominante é o ritmo alfa (8-13 Hz), que apresenta ondas mais sincronizadas, de voltagem maior e frequência menor. FIGURA 3.38 Eletroencefalograma de um indivíduo acordado e de pessoas em sono de Estágios 1, 2 e 4 e sono com movimentos rápidos dos olhos (rapid eye movements [REM]). Ao adormecer, o indivíduo passa pelos quatro estágios do sono de ondas lentas. No Estágio 1, as ondas alfa observadas no adulto acordado de olhos fechados são intercaladas por ondas teta de baixa frequência. No Estágio 2, estas ondas de baixa frequência são intercaladas por explosões de alta frequência, denominadas fusos de sono, e potenciais grandes e lentos chamados complexos K. No Estágio 3 (não mostrado na figura), existem ondas delta de frequência muito baixa e alguns fusos de sono. O Estágio 4 é caracterizado pelas ondas delta. A cada 90 minutos, aproximadamente, o padrão de sono de ondas lentas passa para o sono de movimentos rápidos oculares (REM, do inglês rapid eye movements), onde o EEG se torna dessincronizado e apresentam ondas de baixa voltagem e alta frequência que lembram as observadas em indivíduos acordados. O sono REM é ocasionalmente denominado sono paradoxal: Embora o EEG seja mais similar ao do estado acordado, o indivíduo está dormindo (inconsciente). O sono REM é caracterizado pela perda do tônus muscular, e por rápidos movimentos oculares; além disso, há constrição pupilar, ereção peniana e flutuações na frequência cardíaca, na pressão arterial e na respiração e temperatura. A maior parte dos sonhos ocorre durante o sono REM. A proporção entre o sono de ondas lentas e o sono REM varia conforme a idade. Neonatos passam metade do sono em REM; adultos jovens passam cerca de 25% do sono em REM; em idosos, há pouco sono REM. Aprendizado e Memória O aprendizado e a memória são funções superiores do sistema nervoso. O aprendizado é o mecanismo neural que faz um indivíduo alterar seu comportamento em decorrência de suas experiências. A memória é o mecanismo de armazenamento do que é aprendido. O aprendizado é classificado como não associativo ou associativo. No aprendizado não associativo, exemplificado pelo hábito, um estímulo repetido provoca uma resposta, mas esta diminui de forma gradativa conforme se “aprende” que o estímulo não é importante. Um recém-chegado à cidade de Nova Iorque, por exemplo, a princípio pode ficar acordado à noite por causa do barulho da rua, mas acaba por ignorar os ruídos ao perceber que não são relevantes. O oposto ao hábito é a sensibilização, onde um estímulo aumenta a probabilidade de resposta subsequente quando se aprende sua importância. No aprendizado associativo, há uma relação consistente com o momento do estímulo. No condicionamento clássico, há uma relação temporal entre um estímulo condicionado e um estímulo não condicionado que provoca uma resposta não aprendida. Quando a combinação é repetida, desde que haja manutenção da relação temporal, a associação é aprendida; uma vez aprendido (p. ex., pelo cão de Pavlov), o estímulo (p. ex., o sino), sozinho, provoca uma resposta não aprendida (p. ex., a salivação). No condicionamento operante, a resposta ao estímulo é reforçada, positiva ou negativamente, fazendo com que a mudança da resposta seja provável. A plasticidade sináptica é o mecanismo fundamental que baseia o aprendizado. Isto é, a função e a eficácia sináptica são variáveis e dependem do nível anterior de atividade ou “tráfego” pela sinapse. A responsividade de neurônios pós-sinápticos (denominada força sináptica) não é fixa, mas sim dependente do nível anterior de tráfego sináptico. No fenômeno de potenciação, por exemplo, a ativação repetida de uma via neuronal aumenta a responsividade dos neurônios pós-sinápticos daquela via. O período de maior responsividade pode ser breve, de apenas alguns milissegundos, ou ser longo, de dias ou semanas (ou seja, potenciação a longo prazo). No hábito, por outro lado, a maior atividade sináptica diminui a responsividade do neurônio pós-sináptico. O mecanismo de potenciação a longo prazo envolve vias sinápticas que usam o neurotransmissor excitatório glutamato e seu receptor N-metil-D-aspartato (NMDA). A ativação dos neurônios pré- sinápticos leva à liberação de glutamato, que se difunde através da sinapse e ativa receptores NMDA nas membranas pós-sinápticas. Os receptores NMDA são canais de Ca2+ dependentes de ligante que, quando abertos, permitem a entrada do íon nas células pós-sinápticas. A estimulação de alta frequência (maior atividade da via) leva ao maior acúmulo de Ca2+ nas células pós-sinápticas; a maior concentração intracelular de Ca2+ aumenta a atividade da proteína quinase dependente de cálcio e calmodulina e, por meio de mecanismos não completamente entendidos, aumenta a responsividade daquelas sinapses. Líquido cerebrospinal O sistema nervoso central humano é composto por 80% de fluido, grande parte dele é o líquido cerebrospinal (LCE). O LCE é produzido em ritmo de 500 mililitros (mL) por dia pelas células epiteliais do plexo coroide (localizado nos ventrículos laterais e nos terceiro e quarto ventrículos).Não Difusão facilitada Passivo; a favor do gradiente eletroquímico Sim Não Não Transporte ativo primário Ativo; contra o gradiente eletroquímico Sim Sim; direta Não Cotransporte Ativo secundário* Sim Sim; indireta Sim (o soluto se move na mesma direção em que o Na+ atravessa a membrana da célula) Contratransporte Ativo secundário* Sim Sim; indireta Sim (o soluto se move na direção oposta em que o Na+ atravessa a membrana da célula) * O Na+ é transportado a favor do gradiente eletroquímico e um ou mais solutos são transportados contra o gradiente. As substâncias podem ser transportadas a favor de um gradiente eletroquímico (passivo) ou contra um gradiente eletroquímico (ativo). O transporte passivo ocorre por difusão, seja simples ou facilitada, e não precisa de energia metabólica. O transporte ativo requer gasto de energia e pode ser primário ou secundário. Os processos de transporte ativo primário e secundário distinguem-se pela fonte de energia. O transporte ativo primário requer uma fonte direta de energia metabólica; o transporte ativo secundário utiliza uma fonte indireta de energia metabólica. Outras diferenças entre os mecanismos de transporte têm como base a participação de uma proteína carreadora. A difusão simples é a única forma de transporte que não é mediada por carreadores. A difusão facilitada, o transporte ativo primário e o transporte ativo secundário envolvem proteínas integrais da membrana e são denominados transportes mediados por carreador. Todas as formas de transporte mediado por carreador compartilham as três seguintes características: saturação, estereoespecificidade e competição. ♦ Saturação. A saturação baseia-se no conceito de que as proteínas carreadoras apresentam um número limitado de sítios de ligação para o soluto. A Figura 1.4 mostra a relação entre a taxa de transporte mediado por carreador e a concentração de soluto. Em baixas concentrações de soluto, há muitos sítios de ligação disponíveis e a taxa de transporte aumenta gradualmente conforme a quantidade de soluto se eleva. No entanto, em altas concentrações de soluto, a disponibilidade dos sítios de ligação diminui, assim como a taxa de transporte. Por fim, quando todos os sítios de ligação estão ocupados, a saturação é obtida em um ponto denominado transporte máximo, ou Tm. A cinética do transporte mediado por carreador é similar à cinética de enzimas de Michaelis-Menten – em ambas, as proteínas têm um número limitado de sítios de ligação. (O Tm é análogo à Vmáx da cinética enzimática). O transporte de glicose limitado por Tm no túbulo proximal renal é um exemplo de transporte passível de saturação. ♦ Estereoespecificidade. Os sítios de ligação de soluto nas proteínas transportadoras são estereoespecíficos. O transportador de glicose no túbulo proximal renal, por exemplo, reconhece e transporta o isômero natural D-glicose, mas não o isômero não natural L- glicose. Em comparação, a difusão simples não diferencia entre os dois isômeros de glicose, já que não há participação de proteínas carreadoras. ♦ Competição. Embora os sítios de ligação dos solutos transportados sejam bastante específicos, podem reconhecer, se ligar a, e até mesmo transportar solutos quimicamente similares. O transportador de glicose, por exemplo, é específico para a D-glicose, mas também reconhece e transporta um açúcar bastante semelhante, a D-galactose. A presença de D-galactose, portanto, inibe o transporte de D-glicose ao ocupar alguns dos sítios de ligação e torná-los indisponíveis para a glicose. FIGURA 1.4 Cinética do transporte mediado por carreador. Tm, Transporte máximo. Difusão Simples Difusão de Não Eletrólitos A difusão simples é decorrente da movimentação térmica aleatória das moléculas, como mostrado na Figura 1.5. Duas soluções, A e B, são separadas por uma membrana permeável ao soluto. A princípio, a concentração de soluto em A é o dobro da observada em B. As moléculas de soluto estão em movimento constante, com igual probabilidade de uma determinada molécula atravessar a membrana e chegar até a outra solução. Uma vez que há duas vezes mais moléculas de soluto na Solução A do que na Solução B, porém, haverá maior movimentação de moléculas de A para B do que de B para A. Em outras palavras, haverá uma difusão geral de soluto de A para B, que continuará até igualar as concentrações de soluto nas duas soluções (embora a movimentação aleatória das moléculas continue para sempre). FIGURA 1.5 Difusão simples. As duas soluções, A e B, são separadas por uma membrana, que é permeável ao soluto (círculos). A princípio, a concentração de soluto é maior na Solução A do que na Solução B. A difusão geral do soluto é denominada fluxo (J) e depende das seguintes variáveis: tamanho do gradiente de concentração, coeficiente de partição, coeficiente de difusão, espessura da membrana e área superficial disponível para a difusão. Gradiente de concentração (CA – CB) O gradiente de concentração por meio da membrana é a força que impele a difusão efetiva. Quanto maior a diferença na concentração de soluto entre a Solução A e a Solução B, maior a força motriz e a difusão efetiva. Além disso, quando a concentração das duas soluções é igual, não há força motriz nem difusão efetiva. Coeficiente de partição (K) O coeficiente de partição, por definição, descreve a solubilidade de um soluto em óleo em relação a sua solubilidade em água. Quanto maior a solubilidade relativa em óleo, maior o coeficiente de partição e maior a facilidade com que o soluto pode se dissolver na bicamada lipídica da membrana celular. Os solutos não polares tendem a ser solúveis em óleo e possuir altos coeficientes de partição, enquanto solutos polares geralmente são insolúveis em óleo e apresentam baixos coeficientes de partição. O coeficiente de partição pode ser determinado pela adição do soluto a uma mistura de azeite e água e, então, pela medida de sua concentração na fase oleosa em relação a sua concentração na fase aquosa. Assim, Coeficiente de difusão (D) O coeficiente de difusão depende de características como o tamanho da molécula de soluto e a viscosidade do meio. É definido pela equação de Stokes-Einstein (veja a seguir). O coeficiente de difusão é inversamente proporcional ao raio molecular do soluto e à viscosidade do meio. Assim, solutos pequenos em soluções não viscosas apresentam os maiores coeficientes de difusão e se difundem com maior rapidez; solutos grandes em soluções viscosas apresentam os menores coeficientes de difusão e se difundem de forma mais lenta. Assim, em que D = Coeficiente de difusão K = Constante de Boltzmann T = Temperatura absoluta (K) r = Raio molecular η = Viscosidade do meio Espessura da membrana (∆X) Quanto mais espessa a membrana celular, maior a distância pela qual o soluto deve se difundir e menor a taxa de difusão. Área superficial (A) Quanto maior a área superficial de membrana disponível, maior a taxa de difusão. Gases lipossolúveis, como o oxigênio e o dióxido de carbono, por exemplo, apresentam taxas de difusão através de membranas celulares especialmente altas. Essas taxas elevadas podem ser atribuídas à grande área superficial para difusão dada pelo componente lipídico da membrana. Para simplificar a descrição do processo de difusão, diversas das características anteriormente citadas podem ser combinadas em um único termo, denominado permeabilidade (P). A permeabilidade inclui o coeficiente de partição, o coeficiente de difusão e a espessura da membrana. Assim, Combinando as diversas variáveis à permeabilidade, a taxa de difusão é simplificada à seguinte expressão: em que J = Taxa efetiva de difusão (mmol/s) P = Permeabilidade (cm/s) A = Área superficial para difusão (cm2) CA = Concentração na Solução A (mmol/L) CB = Concentração na Solução B (mmol/L) Exemplo de problema A Solução A e a Solução B estão separadas por uma membrana com permeabilidade à ureia de 2 × 10-5 cm/s e área superficial de 1 cm2. A concentração de ureia em A é igual a 10 mg/mL e, em B, é de 1 mg/mL. O coeficienteApós a síntese pelo plexo coroide, o LCE flui para os ventrículos e para os espaços subaracnoides ao redor do encéfalo e da medula espinal. As regiões alargadas do espaço subaracnoide são denominadas cisternas subaracnoides. O líquido é transferido do LCE para o sangue venoso através das vilosidades aracnoideas, em um fluxo unidirecional, e retorna para a circulação sistêmica. No estado de equilíbrio, a movimentação de líquido entre o LCE e o sangue venoso deve ser ao ritmo de sua formação (ou seja, 500 mL/dia). Para fins diagnósticos, uma amostra de LCE pode ser obtida por meio de uma punção lombar, realizada na cisterna lombar. As relações entre o suprimento de sangue arterial do cérebro, o plexo coroide e a barreira hematoencefálica são mostradas na Figura 3.39. Note que as células cerebrais (que são banhadas pelo líquido intersticial), o líquido intersticial e o LCE podem trocar substâncias. FIGURA 3.39 Mecanismo da produção do líquido cerebrospinal. LCE, Líquido Cerebrospinal. A barreira entre o sangue capilar cerebral e o LCE é o plexo coroide. Esta barreira é composta por três camadas: as células endoteliais capilares e a membrana basal, a membrana da neuróglia e as células epiteliais do plexo coroide. As células epiteliais do plexo coroide são similares às do túbulo distal renal e apresentam mecanismos de transporte que movimentam solutos e líquido do sangue capilar para o LCE. A barreira entre o sangue capilar cerebral e o líquido intersticial do sistema nervoso central é a barreira hematoencefálica. Anatomicamente, a barreira hematoencefálica é composta por células endoteliais capilares e membrana basal, membrana da neuróglia e terminações podais da glia (projeções de astrócitos do lado nervoso da barreira). Do ponto de vista funcional, a barreira hematoencefálica difere das barreiras análogas de outros tecidos de duas formas: (1) As junções entre as células endoteliais do sistema nervoso central são tão fechadas que poucas substâncias conseguem passar entre elas. (2) Poucas substâncias podem atravessar as células endoteliais: As moléculas lipossolúveis (p. ex., oxigênio e dióxido de carbono) podem cruzar a barreira hematoencefálica, mas não as substâncias hidrossolúveis. Formação do Líquido Cerebrospinal O líquido cerebrospinal (LCE) é formado por células epiteliais do plexo coroide. Os mecanismos de transporte destas células secretam algumas substâncias do sangue para o LCE (p. ex., Na+, Cl-, HCO3 - e água) e absorvem outras substâncias do LCE para o sangue (K+). Moléculas como proteínas e colesterol são excluídas do LCE por causa de seu tamanho. Por outro lado, substâncias lipossolúveis, como o oxigênio e o dióxido de carbono, se movem livremente entre os dois compartimentos e se equilibram. Assim, dependendo dos mecanismos de transporte e das características da barreira, algumas substâncias são encontradas em maior concentração no LCE do que no sangue, algumas estão presentes aproximadamente na mesma concentração e outras ainda são observadas em menor concentração no LCE do que no sangue. Muitas moléculas são facilmente trocadas entre o líquido intersticial do sistema nervoso central e o LCE (Figura 3.38); assim, as composições do líquido intersticial do sistema nervoso central e do LCE são similares entre si, mas diferentes das observadas no sangue. A Tabela 3.6 compara a composição do LCE e do sangue. Tabela 3.6 Composição do LCE [LCE] ≈ [Sangue] [LCE] [Sangue] Na+ K+ Mg2+ Cl– Ca2+ Creatinina HCO3 – Glicose Osmolaridade Aminoácidos pH Colesterol* Proteína* LCE, Líquido Cerebrospinal * Insignificante no LCE. Funções do LCE As funções do LCE são o fornecimento de um ambiente constante e controlado para as células nervosas e a proteção do sistema nervoso central de toxinas endógenas e exógenas. O LCE também impede o escape de neurotransmissores locais para a circulação geral. Dependendo de sua solubilidade lipídica, os fármacos penetram a barreira hematoencefálica em graus variados. Assim, fármacos não ionizados (lipossolúveis) penetram o sistema nervoso central com facilidade, enquanto fármacos ionizados (não lipossolúveis) não o fazem. A inflamação, a irradiação e os tumores podem aumentar a permeabilidade da barreira hematoencefálica e permitir a entrada de substâncias que, em condições normais, seriam excluídas. Dentre tais substâncias estão os quimioterápicos, os antibióticos e os marcadores radioativos. Resumo ▪ Os sistemas sensoriais transmitem informações do ambiente para o SNC através de receptores especializados e uma série de neurônios de primeira, segunda, terceira e quarta ordens no SNC. Os receptores sensoriais incluem mecanorreceptores, fotorreceptores, quimiorreceptores, termorreceptores e nociceptores. Um estímulo (p. ex., luz) é convertido em energia elétrica nos receptores sensoriais, através de processos de transdução que geram potenciais receptores. ▪ Os sistemas somatossensoriais processam informações sobre tato, posição, dor e temperatura usando os sistemas da coluna dorsal e anterolateral. ▪ O sistema visual detecta e interpreta os estímulos luminosos. Os fotorreceptores são bastonetes e cones da retina, que sofrem hiperpolarização em resposta à luz. Os fotorreceptores fazem sinapses com as células bipolares e as células horizontais da retina, e causam excitação ou inibição dependendo do tipo de receptor presente nestas células. As células de projeção da retina são as células ganglionares, cujos axônios formam os nervos ópticos. Os nervos ópticos fazem sinapses com o núcleo geniculado lateral do tálamo. As fibras de cada hemirretina nasal cruzam o quiasma óptico e ascendem de forma contralateral; as fibras de cada hemirretina temporal ascendem de maneira ipsilateral. ▪ O sistema auditivo envolve a transdução de ondas sonoras. Os mecanorreceptores são células pilosas auditivas localizadas no órgão de Corti da orelha interna. O dobramento dos cílios das células pilosas produz um potencial receptor bifásico. A localização das células pilosas pela membrana basilar codifica a frequência. ▪ O sistema vestibular é usado para manter o equilíbrio. As células pilosas vestibulares são mecanorreceptores localizados na ampola dos canais semicirculares e nos órgãos de otólitos. Os canais semicirculares detectam a aceleração angular da cabeça e os órgãos de otólitos detectam a aceleração linear da cabeça. ▪ Os sentidos químicos são o olfato e o paladar. O epitélio olfativo contém células receptoras que também são neurônios aferentes primários. Os axônios destes neurônios atravessam a placa cribriforme e fazem sinapses com os glomérulos do bulbo olfatório. Os receptores gustativos estão em botões gustativos, que são organizados em papilas. ▪ Os fusos musculares são compostos por fibras intrafusais e dispostos paralelamente às fibras musculares extrafusais. Os fusos musculares são receptores de estiramento e detectam alterações no comprimento muscular em caso de contração ou relaxamento das fibras extrafusais. ▪ Os reflexos da medula espinal incluem o reflexo miotático ou de estiramento (monossináptico), o reflexo tendinoso de Golgi (dissináptico) e o reflexo de flexão e retirada (multissináptico). ▪ As vias motoras descendentes do córtex cerebral e do tronco encefálico se dividem entre o trato piramidal e os tratos extrapiramidais. Os tratos piramidais passam pelo bulbo e fazem sinapses com os motoneurônios inferiores da medula espinal. Os tratos extrapiramidais incluem os tratos rubroespinal, reticuloespinal pontino, reticuloespinal bulbar, vestibuloespinal e tectoespinal. ▪ O cerebelo regula a movimentação por meio do controle da sinergia. O córtex cerebelar é formado por uma camada granular, uma camada de células de Purkinje e uma camada molecular. A saída do córtex cerebelar se dá por axônios das células de Purkinje e é sempre inibitória. As doenças cerebelares provocam ataxia. ▪ Os núcleos da base são núcleos profundos do telencéfalo e participam do planejamento e da execução de movimentos delicados. ▪ O córtexde partição da ureia é de 10-3, medido em uma mistura de água e azeite. Quais são a taxa inicial e a direção da difusão efetiva da ureia? Solução Note que o coeficiente de partição é uma informação irrelevante, porque o valor da permeabilidade, que já inclui o coeficiente de partição, é dado. O fluxo efetivo pode ser calculado pela substituição dos seguintes valores na equação da difusão geral: assuma que 1 mL de água = 1 cm3. Assim, em que A magnitude do fluxo efetivo foi calculada como 1,8 × 10-4 mg/s. A direção do fluxo efetivo pode ser determinada de forma intuitiva, já que o fluxo efetivo ocorre da área de maior concentração (Solução A) para a área de menor concentração (Solução B). A difusão efetiva continua até que as concentrações de ureia nas duas soluções se igualem, momento quando a força motriz se torna zero. Difusão de Eletrólitos Até agora, a discussão a respeito da difusão assumiu que o soluto não é um eletrólito (ou seja, não apresenta carga). Quando o soluto em difusão é um íon ou um eletrólito, porém, há duas outras consequências da presença de carga. Primeiramente, se há uma diferença de potencial por meio da membrana, essa diferença altera a taxa efetiva de difusão de um soluto com carga (uma diferença de potencial não altera a taxa de difusão de um não eletrólito). A difusão do íon K+, por exemplo, será mais lenta caso a difusão ocorra para uma área de carga positiva e mais rápida para uma área de carga negativa. Esse efeito da diferença de potencial pode aumentar ou anular os efeitos das diferenças de concentração, dependendo da orientação da diferença de potencial e da carga do íon em difusão. Caso o gradiente de concentração e o efeito de carga sejam orientados na mesma direção por meio da membrana, seus efeitos serão somados; se forem orientados em direções opostas, podem cancelar um ao outro. Além disso, quando um soluto com carga se difunde por um gradiente de concentração, a difusão pode, por si só, criar uma diferença de potencial pela membrana, denominada potencial de difusão. O conceito de potencial de difusão será discutido, em detalhes, na próxima seção. Difusão Facilitada Como a difusão simples, a difusão facilitada ocorre a favor de um gradiente de potencial eletroquímico; assim, não requer o uso de energia metabólica. Diferentemente da difusão simples, porém, a difusão facilitada usa um carreador de membrana e exibe todas as características do transporte mediado por carreador: saturação, estereoespecificidade e competição. Em uma baixa concentração de soluto, a difusão facilitada é normalmente mais rápida do que a difusão simples (ou seja, é facilitada) devido à função do carreador. No entanto, em concentrações mais altas, os carreadores tornam-se saturados e a difusão facilitada é menor (por outro lado, a difusão simples continua enquanto houver gradiente de concentração de soluto). Um excelente exemplo de difusão facilitada é o transporte de D-glicose nas fibras musculares esqueléticas e nas células adiposas pelo transportador GLUT4. O transporte de glicose pode ocorrer desde que sua concentração sanguínea seja maior do que sua concentração intracelular e os carreadores não tenham sido saturados. Outros monossacarídeos, como a D-galactose, a 3-O-metil glicose e a florizina inibem o transporte de glicose de forma competitiva ao se ligarem aos sítios de transporte do carreador. O soluto competitivo pode ser transportado (p. ex., D-galactose) ou simplesmente ocupar os sítios de ligação e impedir a ligação da glicose (p. ex., florizina). Como anteriormente discutido, o estereoisômero não fisiológico L-glicose não é reconhecido pelo carreador da difusão facilitada e, portanto, não se liga a ele nem é transportado. Transporte Ativo Primário No transporte ativo, um ou mais solutos são movidos contra um gradiente de potencial eletroquímico (transporte ativo). Em outras palavras, o soluto é movido de uma área de baixa concentração (ou baixo potencial eletroquímico) para uma área de alta concentração (ou alto potencial eletroquímico). Uma vez que a movimentação ativa de um soluto exige trabalho, energia metabólica, na forma de ATP, deve ser disponibilizada. No processo, o ATP é hidrolisado a difosfato de adenosina (ADP) e fosfato inorgânico (Pi), liberando energia da ponte de fosfato terminal altamente energética do ATP. Quando o fosfato terminal é liberado, é transferido a uma proteína transportadora, iniciando um ciclo de fosforilação e desfosforilação. Quando o ATP, como fonte energética, é diretamente acoplado ao processo de transporte, é denominado transporte ativo primário. Três exemplos de transporte ativo primário em sistemas fisiológicos são a Na+-K+ ATPase presente em todas as membranas celulares, a Ca2+ ATPase encontrada nos retículos sarcoplasmáticos (RS) e nos retículos endoplasmáticos e a H+-K+ ATPase das células parietais gástricas e das células α-intercaladas renais. Na+-K+ ATPase (Bomba de Na+-K+) A Na+-K+ ATPase está presente nas membranas de todas as células. Bombeia Na+ do LIC para o LEC e K+ do LEC para o LIC (Figura 1.6). Cada íon se move contra seu respectivo gradiente eletroquímico. A estequiometria pode variar, mas, geralmente, para cada três íons Na+ retirados da célula, dois íons K+ são bombeados para seu interior. Esta estequiometria de três íons Na+ para dois íons K+ significa que, a cada ciclo da Na+-K+ ATPase, mais carga positiva é tirada da célula do que nela colocada. Assim, o processo é denominado eletrogênico, já que cria uma separação de carga e uma diferença de potencial. A Na+-K+ ATPase é responsável pela manutenção dos gradientes de concentração desses dois íons por meio das membranas celulares, mantendo a concentração intracelular de Na+ baixa e a concentração intracelular de K+ elevada. FIGURA 1.6 Bomba de Na+-K+ das membranas celulares. ADP, Difosfato de adenosina; ATP, trifosfato de adenosina; E, Na+-K+ ATPase; E∼P, Na+-K+ ATPase fosforilada; Pi, fosfato inorgânico. A Na+-K+ ATPase é composta por subunidades α e β. A subunidade α possui a atividade de ATPase, assim como os sítios de ligação para os íons transportados, Na+ e K+. A Na+-K+ ATPase alterna entre dois estados conformacionais principais, E1 e E2. No estado E1, os sítios de ligação de Na+ e K+ ficam voltados para o LIC e a enzima possui alta afinidade por Na+. No estado E2, os sítios de ligação de Na+ e K+ ficam voltados para o LEC e a enzima possui alta afinidade por K+. A função de transporte de íons da enzima (ou seja, o bombeamento de Na+ para fora da célula e de K+ para dentro da célula) é baseada no ciclo entre os estados E1 e E2, e tem como sua fonte de energia a hidrólise do ATP. O ciclo de transporte é mostrado na Figura 1.6. O ciclo é iniciado com a enzima no estado E1, ligada ao ATP. Nesse estado, os sítios de ligação iônica ficam de frente para o LIC e a enzima tem alta afinidade por Na+; há a ligação de três íons Na+, a hidrólise de ATP e a transferência do fosfato terminal do ATP para a enzima, produzindo um estado de alta energia, E1∼P. Agora, ocorre uma mudança conformacional importante e a enzima passa de E1∼P para E2∼P. No estado E2, os sítios de ligação iônica ficam de frente para o LEC e a afinidade por Na+ é baixa e a afinidade por K+ é alta. Os três íons Na+ são liberados da enzima para o LEC, dois íons K+ se ligam e o fosfato inorgânico é liberado de E2. A enzima agora se liga ao ATP intracelular e sofre outra grande mudança conformacional, retornando ao estado E1; os dois íons K+ são liberados no LIC e a enzima está pronta para outro ciclo. Os glicosídeos cardíacos (p. ex., ouabaína e digitálicos) são uma classe de fármacos que inibem a Na+-K+ ATPase. O tratamento com esses fármacos provoca certas alterações previsíveis na concentração iônica intracelular. A concentração intracelular de Na+ aumenta, enquanto a de K+ diminui. Os glicosídeos cardíacos inibem a Na+-K+ ATPase por se ligar à forma E2∼P, próximo ao sítio de ligação do K+ no lado extracelular, impedindo, assim, sua conversão a E1. Ao interromper o ciclo defosforilação/desfosforilação, esses fármacos interrompem todo o ciclo enzimático e suas funções transportadoras. Ca2+ ATPase (Bomba de Ca2+) A maioria das membranas celulares contém uma Ca2+ ATPase, ou Ca2+ ATPase de membrana plasmática (PMCA), cuja função é retirar Ca2+ da célula contra um gradiente eletroquímico; um íon Ca2+ é retirado para cada ATP hidrolisado. A PMCA é responsável, em parte, pela manutenção da concentração intracelular de Ca2+ em níveis muito baixos. Além disso, o retículo sarcoplasmático das células musculares e o retículo endoplasmático das outras células contêm variantes da Ca2+ ATPase, que bombeiam dois Ca2+ (para cada ATP hidrolisado) do LIC para o interior do RS ou do retículo endoplasmático (ou seja, sequestro Ca2+). Essas variantes são denominadas Ca2+ ATPase dos retículos sarcoplasmáticos e endoplasmáticos (SERCA). A Ca2+ ATPase funciona de forma similar à Na+-K+ ATPase, com estados E1 e E2 que apresentam, respectivamente, afinidade alta e baixa por Ca2+. Na PMCA, o estado E1 se liga ao Ca2+ no lado intracelular, há uma mudança conformacional para o estado E2 e esse libera o Ca2+ no LEC. Na SERCA, o estado E1 se liga ao Ca2+ no lado intracelular e o estado E2 o libera no lúmen do RS ou do retículo endoplasmático. H+-K+ ATPase (Bomba de H+-K+) A H+-K+ ATPase é encontrada nas células parietais da mucosa gástrica e nas células α-intercaladas do ducto coletor renal. No estômago, a H+-K+ ATPase bombeia H+ do LIC das células parietais para o lúmen do órgão, onde o íon acidifica o conteúdo gástrico. O omeprazol, um inibidor da H+-K+ ATPase gástrica, pode ser terapeuticamente utilizado para reduzir a secreção de H+ para o tratamento de alguns tipos de úlceras pépticas. Transporte Ativo Secundário Os processos de transporte ativo secundário são aqueles em que o transporte de um soluto é acoplado ao de outro(s) soluto(s). Um desses solutos, geralmente o Na+, se move a favor do gradiente eletroquímico (passivamente) e o outro soluto se move contra esse gradiente (ativamente). O movimento passivo do Na+ fornece energia para a movimentação ativa do outro soluto. Assim, a energia metabólica, sob a forma de ATP, não é usada de forma direta, mas é indiretamente suprida pelo gradiente de concentração de Na+ por meio da membrana celular. (A Na+-K+ ATPase, utilizando ATP, cria e mantém este gradiente de Na+). O nome transporte ativo secundário, portanto, se refere à utilização indireta de ATP como fonte de energia. A inibição da Na+-K+ ATPase (p. ex., pelo tratamento com ouabaína) diminui o transporte de Na+ do LIC para o LEC, aumentando a concentração intracelular desse íon e, assim, reduzindo seu gradiente transmembrana. Dessa forma, todos os processos de transporte ativo secundário são indiretamente diminuídos pelos inibidores da Na+-K+ ATPase, já que sua fonte de energia, o gradiente de Na+, é menor. Existem dois tipos de transporte ativo secundário, diferenciados pela direção do movimento ativo do soluto. Quando essa movimentação ocorre na mesma direção que a de Na+, é denominada cotransporte ou simporte. Se tal movimentação for oposta à de Na+, é chamada contratransporte, antiporte ou troca. Cotransporte O cotransporte (simporte) é uma forma de transporte ativo secundário em que todos os solutos são transportados na mesma direção por meio da membrana celular. O Na+ é movido para dentro da célula pelo carreador, seguindo seu gradiente eletroquímico; os solutos, cotransportados com o Na+, também são movidos para dentro das células. O cotransporte participa de diversos processos fisiológicos importantes, principalmente nos epitélios absortivos do intestino delgado e dos túbulos renais. O cotransporte de Na+-glicose (SGLT) e o cotransporte de Na+-aminoácido, por exemplo, estão presentes nas membranas luminais das células epiteliais do intestino delgado e do túbulo proximal renal. Outro exemplo de cotransporte no túbulo renal é o cotransporte de Na+-K+-2Cl- na membrana luminal das células epiteliais do ramo ascendente espesso. Em cada exemplo, o gradiente de Na+ estabelecido pela Na+-K+ ATPase é usado no transporte de solutos, como glicose, aminoácidos, K+ ou Cl, contra os gradientes eletroquímicos. A Figura 1.7 ilustra os princípios do cotransporte, usando o exemplo do cotransporte de Na+-glicose (SGTL1 ou proteína transportadora de Na-glicose 1) nas células epiteliais do intestino. O cotransportador está na membrana luminal dessas células e pode ser visto como portador de dois sítios de reconhecimento específico, um para os íons Na+ e outro para glicose. O Na+ e a glicose presentes no lúmen do intestino delgado se ligam ao mesmo tempo ao cotransportador. Nessa configuração, a proteína cotransportadora gira e libera o Na+ e a glicose no interior da célula (subsequentemente, os dois solutos são transportados para fora da célula, através da membrana basolateral – o Na+ pela Na+-K+ ATPase e a glicose por difusão facilitada). Na ausência de Na+ ou glicose no lúmen intestinal, o cotransportador não pode girar. Assim, ambos os solutos são necessários e nenhum deles pode ser transportado na ausência do outro (Quadro 1.1). FIGURA 1.7 Cotransporte de Na+-glicose em uma célula epitelial intestinal. ATP, Trifosfato de adenosina; SGTL1, proteína transportadora de Na+-glicose. Q u a d r o 1 . 1 F is io logia Cl ínica : Gl icosúria Devido a Diabetes Mel i to Descrição do caso Em seu exame médico anual, um garoto de 14 anos relata sintomas de micção frequente e sede intensa. A análise com tira reagente revela a presença de níveis elevados de glicose na urina. O médico solicita a realização de uma curva glicêmica, que leva ao diagnóstico de diabetes do tipo 1. O paciente foi tratado com insulina injetável e os resultados das análises subsequentes com tiras reagentes foram normais. Explicação do caso Embora o diabetes melito do tipo 1 seja uma doença complexa, a discussão é limitada ao sintoma de micção frequente e ao achado de glicosúria (presença de glicose na urina). O rim costuma lidar com a glicose da seguinte maneira: a glicose do sangue é filtrada pelos capilares glomerulares. As células epiteliais, que revestem o túbulo proximal renal, reabsorvem toda a glicose filtrada e, assim, a molécula não é excretada na urina. Assim, a análise com tiras reagentes mostra a ausência de glicose na urina normal. Se as células epiteliais do túbulo proximal não reabsorverem toda a glicose filtrada, devolvendo-a ao sangue, as moléculas que escapam à reabsorção são excretadas. O mecanismo celular dessa reabsorção é um cotransportador de Na+-glicose na membrana luminal das células do túbulo proximal. Uma vez que esse é um transporte mediado por carreador, há um número finito de sítios de ligação de glicose. Com esses sítios de ligação completamente ocupados, ocorre a saturação do transporte (transporte máximo). Nesse paciente com diabetes melito do tipo 1, a insulina não é produzida em quantidades suficientes pelas células β do pâncreas. A insulina é necessária para o consumo normal de glicose pelo fígado, pelos músculos e por outras células. Sem insulina, a concentração de glicose no sangue aumenta, porque as células não a consomem. Quando a glicemia aumenta muito, mais glicose é filtrada pelos glomérulos renais e a quantidade filtrada excede a capacidade do cotransportador de Na+-glicose. A glicose que não pode ser reabsorvida devido à saturação desse transportador é, então, excretada pela urina. Tratamento O tratamento do paciente com diabetes melito do tipo 1 é composto pela injeção de insulina exógena. Seja normalmente secretada pelas células β pancreáticas ou administrada de forma injetável, a insulina reduz a glicemia ao promover o consumo da molécula pelas células. Quando esse paciente recebeu a insulina, sua glicemia diminuiu; assim, a quantidade de glicose filtrada também foi reduzida e, assim, os cotransportadores de Na+-glicose não foram mais saturados. Toda a glicose filtrada pôde ser reabsorvida e, portanto, não houve excreção da molécula na urina. Por fim, o papeldo processo de cotransporte de Na+-glicose pode ser entendido no contexto da absorção intestinal total de carboidratos. Os carboidratos da dieta são digeridos por enzimas gastrintestinais a uma forma absorvível, os monossacarídeos. Um desses monossacarídeos é a glicose, que é absorvida pelas células do epitélio intestinal por uma combinação do cotransporte de Na+-glicose na membrana luminal e a difusão facilitada de glicose na membrana basolateral. O cotransporte de Na+-glicose é a etapa ativa, que permite que a glicose seja absorvida para o sangue contra um gradiente eletroquímico. Contratransporte O contratransporte (antiporte ou troca) é uma forma de transporte ativo secundário em que os solutos se movem em direções opostas através da membrana celular. O Na+ se move para dentro das células, seguindo seu gradiente eletroquímico; os solutos que são contratransportados ou trocados por Na+ se movem para fora das células. O contratransporte é ilustrado pela troca de Ca2+-Na+ (Figura 1.8) e pela troca de Na+-H+. Como no cotransporte, cada processo usa o gradiente de Na+ estabelecido pela Na+-K+ ATPase como fonte de energia; o Na+ se move em direção ao seu gradiente eletroquímico (passivamente) e o Ca2+ ou H+ se movimenta contra esse gradiente (ativamente). FIGURA 1.8 Contratransporte (troca) de Ca2+-Na+ em uma célula muscular. ATP, Trifosfato de adenosina. A troca de Ca2+-Na+ é um dos mecanismos de transporte que, em conjunto com Ca2+ ATPase, ajuda a manter a concentração intracelular de Ca2+ em níveis muito baixos (≈ 10-7 M). Para fazer a troca de Ca2+-Na+, o transporte ativo deve atuar, já que o Ca2+ se move para fora das células contra seu gradiente eletroquímico. A Figura 1.8 ilustra o conceito da troca de Ca2+-Na+ na membrana de uma célula muscular. A proteína trocadora possui sítios de reconhecimento para Ca2+ e Na+. A proteína deve se ligar ao Ca2+ no lado intracelular da membrana e, simultaneamente, ao Na+ no lado extracelular. Nessa configuração, a proteína trocadora gira e leva o Ca2+ para fora da célula e o Na+ para seu interior. A estequiometria da troca de Ca2+-Na+ varia entre os diferentes tipos celulares e pode até mesmo variar em um único tipo celular sob condições específicas. De modo geral, porém, três íons Na+ entram na célula para cada íon Ca2+ retirado. Com esta estequiometria de três íons Na+ para um Ca2+, três cargas positivas entram na célula enquanto duas saem, fazendo com que o trocador Ca2+-Na+ seja eletrogênico. Osmose A osmose é o fluxo de água através de uma membrana semipermeável devido a diferenças na concentração de solutos. As diferenças de concentração de solutos impermeáveis estabelecem diferenças de pressão osmótica e essas fazem a água fluir por osmose. A osmose de água não é o mesmo que a sua difusão: a osmose ocorre por causa de uma diferença de pressão, enquanto que a difusão ocorre devido a uma diferença de concentração (ou atividade) da água. Osmolaridade A osmolaridade de uma solução é sua concentração de partículas osmoticamente ativas, expressas como osmoles por litro ou miliosmoles por litro. Para calcular a osmolaridade, é preciso saber a concentração do soluto e se esse se dissocia em solução. A glicose, por exemplo, não se dissocia em solução; o NaCl se dissocia em duas partículas e o CaCl2 se dissocia em três partículas. O símbolo “g” indica o número de partículas em solução e também considera a ocorrência de dissociação completa ou apenas parcial. Assim, se a dissociação de NaCl em duas partículas for completa, g equivale a 2; se a dissociação de NaCl for apenas parcial, g fica entre 1 e 2. A osmolaridade é calculada da seguinte forma: em que Osmolaridade = Concentração de partículas (mOsm/L) g = Número de partículas por mol em solução (Osm/mol) C = Concentração (mmol/L) Quando duas soluções apresentam a mesma osmolaridade, elas são chamadas isosmóticas. Se duas soluções apresentam osmolaridades diferentes, a de maior osmolaridade é denominada hiperosmótica e a de menor osmolaridade, hiposmótica. Osmolalidade A osmolalidade é similar à osmolaridade, exceto por ser a concentração de partículas osmoticamente ativas expressa como osmoles (ou miliosmoles) por quilograma de água. Uma vez que 1 kg de água é praticamente equivalente a 1 L de água, a osmolaridade e a osmolalidade têm, em essência, o mesmo valor numérico. Exemplo de problema A Solução A possui 2 mmol/L de ureia e a Solução B possui 1 mmol/L de NaCl. Considere gNaCl = 1,85. As duas soluções são isosmóticas? Solução Calcule as osmolaridades de ambas as soluções para compará-las. A Solução A contém ureia, que não se dissocia em solução. A Solução B contém NaCl, que se dissocia de forma parcial, mas não completa, em solução (ou seja, g de soluto nas duas soluções sejam iguais. Em outras palavras, o soluto se comporta como água. Nesse caso, não há pressão osmótica efetiva através da membrana e, assim, não existe força motriz para o fluxo osmótico de água. Veja novamente a equação de van’t Hoff e perceba que, quando σ = 0, a pressão osmótica efetiva calculada é igual a zero. A ureia é um exemplo de soluto com σ = 0 (ou quase 0). ♦ σ = um valor entre 0 e 1 (Figura 1.10B). Muitos solutos não são impermeantes (σ = 1) nem livremente permeantes (σ = 0) através das membranas, apresentando coeficientes de reflexão em algum ponto entre 0 e 1. Em tais casos, a pressão osmótica efetiva fica entre seu valor máximo possível (quando o soluto é completamente impermeante) e zero (quando o soluto é livremente permeante). Veja novamente a equação de van’t Hoff e perceba que, quando σ está entre 0 e 1, a pressão osmótica efetiva é menor do que seu valor máximo possível, mas maior do que zero. FIGURA 1.10 Coeficiente de reflexão (σ). Quando duas soluções separadas por uma membrana semipermeável apresentam a mesma pressão osmótica efetiva, são denominadas isotônicas; ou seja, não há fluxo de água entre elas, já que não há diferença de pressão osmótica efetiva através da membrana. Quando duas soluções possuem pressões osmóticas efetivas diferentes, aquela com menor pressão é hipotônica e a de maior pressão é hipertônica. A água flui da solução hipotônica para a solução hipertônica (Quadro 1.2). Q u a d r o 1 . 2 F is io logia Cl ínica : Hiposmolaridade com Edema Cerebral Descrição do caso Um homem de 72 anos de idade foi recentemente diagnosticado com carcinoma pulmonar de pequenas células. O paciente tentou se manter ativo, trabalhando como consultor, mas a doença o enfraqueceu. Uma noite, sua esposa percebeu que ele parecia confuso e letárgico e, subitamente, o paciente sofreu uma convulsão do tipo grande mal. No pronto-socorro, sua concentração plasmática de Na+ era de 113 mEq/L (normal, 140 mEq/L) e sua osmolaridade plasmática era de 230 mOsm/L (normal, 290 mOsm/L). O paciente foi imediatamente tratado com uma infusão hipertônica de NaCl e recebeu alta alguns dias depois, tendo sido instruído a limitar sua ingestão de água. Explicação do caso O carcinoma de pequenas células do paciente secreta, de forma independente, hormônio antidiurético (ADH), o que provoca síndrome de secreção inadequada de hormônio antidiurético (SIADH). Na SIADH, os altos níveis circulantes de ADH provocam a reabsorção excessiva de água pelas células principais do final do túbulo distal e dos ductos coletores renais. O excesso de água que é reabsorvido e retido no organismo dilui a concentração de Na+ e a osmolaridade do LEC. A menor osmolaridade faz com que a pressão osmótica efetiva do LEC também seja menor e, em resumo, a pressão osmótica do LEC é inferior à pressão osmótica do LIC. A diferença de pressão osmótica efetiva através das membranas celulares provoca o fluxo osmótico de água do LEC para o LIC, causando edema celular. Uma vez que o cérebro está contido em uma estrutura fixa (o crânio), o aumento de volume das células cerebrais pode provocar convulsão. Tratamento O tratamento do paciente com a infusão hipertônica de NaCl foi realizado para aumentar rapidamente a osmolaridade do LEC e a pressão osmótica, o que elimina a diferença de pressão osmótica efetiva nas membranas das células nervosas e interrompe o fluxo osmótico de água e o edema cerebral. Exemplo de problema Uma solução de 1 mol/L de NaCl é separada de uma solução com 2 mol/L de ureia por uma membrana semipermeável. Assuma a dissociação completa de NaCl, σNaCl = 0,3 e σureia = 0,05. As duas soluções são isosmóticas e/ou isotônicas? Há fluxo total de água e qual sua direção? Solução Etapa 1. Para determinar se as soluções são isosmóticas, simplesmente calcule a osmolaridade de cada solução (g x C) e compare os dois valores. Foi dito que a dissociação do NaCl é completa (ou seja, há separação em duas partículas); assim, para o NaCl, g = 2. A ureia não está dissociada na solução; assim, para a ureia, g = 1. A osmolaridade de cada solução é de 2 Osm/L – assim, as soluções são isosmóticas. Etapa 2. Para determinar se as soluções são isotônicas, a pressão osmótica efetiva de cada solução deve ser calculada. Assuma que, a 37 C (310 K), RT = 25,45 L atm/mol. Assim, Embora as duas soluções apresentem as mesmas osmolaridades calculadas e sejam isosmóticas (Etapa 1), possuem pressões osmóticas efetivas diferentes, não sendo isotônicas (Etapa 2). Essa diferença ocorre porque o coeficiente de reflexão do NaCl é muito maior do que o da ureia e, assim, o NaCl cria uma maior pressão osmótica efetiva. A água flui da solução de ureia para a de NaCl, da solução hipotônica para a hipertônica. Potenciais de difusão e potenciais de equilíbrio Canais Iônicos Os canais iônicos são proteínas integrais de membrana que a atravessam completamente e, quando abertos, permitem a passagem de certos íons. Dessa maneira, os canais iônicos são seletivos e permitem que íons com características específicas passem através deles. Essa seletividade baseia-se no tamanho do canal e nas cargas que o recobrem. Os canais revestidos com cargas negativas, por exemplo, normalmente permitem a passagem de cátions, mas não de ânions; os canais revestidos com cargas positivas permitem a passagem de ânions, mas não de cátions. Os canais também discriminam íons com base em seu tamanho. Um canal seletivo de cátions e revestido com cargas negativas, por exemplo, pode permitir a passagem de Na+, mas não de K+; outro canal seletivo de cátions (p. ex., o receptor nicotínico na placa motora) pode apresentar seletividade menor e permitir a passagem de diferentes cátions pequenos. A maioria dos canais iônicos são controlados por comportas e, dependendo da posição dessas comportas, os canais podem estar abertos ou fechados. Quando um canal está aberto, os íons para os quais é seletivo podem atravessá-lo por difusão passiva, seguindo um gradiente eletroquímico existente. No estado aberto, há uma via contínua entre LEC e LIC, pela qual os íons podem fluir. Quando o canal está fechado, os íons não podem fluir por ele, independentemente do tamanho do gradiente eletroquímico. A condutância de um canal depende da probabilidade de estar aberto. Quanto maior tal probabilidade, maior sua condutância ou permeabilidade. As comportas dos canais iônicos são controladas por três tipos de sensores* . Um tipo de comporta possui sensores que respondem a alterações no potencial de membrana (ou seja, canais dependentes de voltagem); um segundo tipo de comporta responde a mudanças nas moléculas de sinalização (ou seja, canais acionados por segundo mensageiro); e o terceiro tipo de comporta responde a alterações em ligantes como hormônios ou neurotransmissores (ou seja, canais acionados por ligantes). ♦ Os canais dependentes de voltagem possuem comportas que são controladas por alterações no potencial de membrana. A comporta de ativação no canal de Na+ de axônios, por exemplo, é aberta pela despolarização da membrana da célula nervosa; a abertura desse canal é responsável pelo pico do potencial de ação. É interessante notar que outra comporta no canal de Na+, uma comporta de inativação, é fechada pela despolarização. Uma vez que a comporta de ativação responde mais rapidamente à despolarização do que a comporta de inativação, o canal de Na+ se abre e logo se fecha. Essa diferença no tempo de resposta das duas comportas é parcialmente responsável pelo formato e pela progressão temporal do potencial de ação. ♦ Os canais acionados por segundo mensageiro possuem comportas controladas por mudanças nos níveis de moléculas de sinalização intracelular, como o monofostato cíclico de adenosina (AMPc) ou o 1,4,5-trifosfato de inositol (IP3). Assim, os sensores dessas comportas estão do lado intracelular do canal iônico. As comportas nos canais de Na+ no nó sinoatrial do coração, por exemplo, são abertas pelo aumento do AMPc intracelular. ♦ Os canais dependentes