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Principais funções do sistema circulatório. ■Coração: bombear o sangue para todo o organismo e para si mesmo ■Veias: conduzir sangue dos diferentes órgãos e tecidos para o coração – constitui o sistema coletor sanguíneo ■Artérias: transportar sangue do coração para os órgãos e tecidos corporais – sistema distribuidor sanguíneo ■Capilares: transportar o sangue de modo mais lento e possibilitar a difusão de gases e a filtração de substâncias ■Sangue: transportar oxigênio, hormônios, nutrientes e substâncias químicas e excretas – subprodutos do metabolismo celular que necessitam ser eliminados e/ou metabolizados por via renal ou hepática ■Cavidade torácica Os animais, por serem quadrúpedes, apresentam o tórax achatado em suas laterais; esse achatamento é mais acentuado na porção ventral – cerca de 2/3 da parte inferior do tórax. Nele estão órgãos como coração, vasos sanguíneos e linfáticos, linfonodos, traqueia, pulmões e pleuras. ■Sangue O sangue é o principal componente do sistema circulatório, pois todos os outros órgãos têm como função possibilitar o fluxo sanguíneo adequado aos diversos órgãos e tecidos. Sua principal função é transportar o oxigênio, além de muitas outras substâncias. O sangue circula com velocidades diferentes em cada tipo de vaso: 50 cm/s nas artérias; 20 cm/s nas veias; e 0,07 cm/s nos capilares. Em geral, o sangue passa pelo sistema circulatório em menos de 30 s. A quantidade de sangue em um ser vivo varia de espécie para espécie, mas costuma variar de 7 a 10% do peso corporal do animal. O sangue e seus constituintes não serão escopo de estudo nesta Seção. Recomenda-se, portanto a leitura de livros especializados na área de hematologia. ■Coração O coração é um órgão localizado na cavidade torácica, em sua porção anterior e ventral, com sua maior parte localizada do lado esquerdo ou, em algumas espécies, estando metade do lado direito e metade do lado esquerdo. Pela maior proximidade cardíaca da parede torácica esquerda, é necessário realizar um exame mais detalhado desse lado; no entanto, jamais podemos negligenciar o exame do lado oposto, visto que, particularmente em bovinos, o lado direito – mais precisamente a valva atrioventricular direita ou tricúspide – costuma ser mais afetado. Em bovinos, é mais comum o envolvimento dessa valva nas endocardites bacterianas que as demais valvas. A explicação para isso talvez seja que a maior parte das infecções bovinas – tais como mastites, pododermatites, ruminites e outras – ocorra em locais que drenam o sangue para as veias cavas caudais, chegando primeiramente ao coração pelo átrio direito, passando primeiro pela valva atrioventricular direita ou tricúspide. O coração tem como função principal manter uma boa circulação sanguínea, a qual deve ser adequada para o bom funcionamento de todos os órgãos e tecidos do organismo. Essa circulação é que levará oxigênio a todas as células do corpo, possibilitará o transporte de gás carbônico, nutrientes e eletrólitos, e carreará as substâncias medicamentosas para todo o organismo, além de transportar as substâncias indesejáveis para serem metabolizadas e eliminadas de modo satisfatório por órgãos como fígado e rins. O coração é também o responsável inclusive pela sua própria irrigação, mantendo a oxigenação adequada para o seu próprio funcionamento. Juntamente com o sistema respiratório, o circulatório propicia a hematose – a troca gasosa que ocorre nos alvéolos: eliminação de gás carbônico (CO2) produzido pelo organismo e a captação de oxigênio (O2) do ar inspirado para ser transportado pelo sangue até os tecidos e órgãos do organismo. Uma alteração nesse órgão pode ou não comprometer uma ou mais dessas funções anteriormente referidas, podendo inclusive levar à perda parcial ou completa de sua função, determinando um quadro de insuficiência cardíaca, que se torna incompatível com a vida do animal, sendo, portanto, fatal. Ela pode ser de curso lento, ocorrendo em um período prolongado (insuficiência cardíaca congestiva) ou de modo rápido e fulminante (insuficiência cardíaca aguda). Na primeira, os mecanismos compensatórios podem ser acionados e o quadro, revertido; ao passo que, na última, aguda e fulminante, pode não haver tempo hábil para que o organismo compense esse distúrbio, sendo, muitas vezes, um quadro fatal. Se a demanda circulatória for aumentada, isso pode ser compensado pelo coração, mediante dois modos básicos possíveis pelos quais se proporciona maior volume circulante por minuto. São eles: ■Aumentar a frequência cardíaca; elevando, portanto, a quantidade de sangue por minuto que o coração bombeia ■Aumentar a força de contração, o que determina maior força de propulsão sanguínea, a qual levará ao aumento da pressão arterial e tornará mais disponível o sangue para os diferentes tecidos e órgãos. O primeiro mecanismo é o que ocorre mais comumente e no início de qualquer processo de déficit circulatório; já o segundo ocorre quando o primeiro não é suficiente para compensar esse déficit ou quando o processo evolui e se torna crônico, tornando insuficiente o primeiro mecanismo. O coração dispõe de quatro câmaras distintas pelas quais o sangue passa, sendo cada uma delas separada das outras. No entanto, em cada lado do coração, chamados corações direito e esquerdo, há duas câmaras que estão interligadas: o átrio e o ventrículo. O sangue sempre flui do átrio para o ventrículo. Os átrios direito e esquerdo estão separados dos seus respectivos ventrículos por valvas, que ficam no orifício atrioventricular. Portanto, essas valvas são denominadas atrioventriculares esquerda e direita. A valva cardíaca do lado esquerdo é a bicúspide (mitral) e a do lado direito, tricúspide. São essas valvas que impedem que, ao contraírem os ventrículos durante a sístole, o sangue retorne aos átrios – a chamada regurgitação, decorrente da insuficiência das valvas atrioventriculares. O sangue que sai do coração passa pelos grandes vasos: artéria pulmonar e aorta. Para impedir o refluxo sanguíneo dos grandes vasos para os ventrículos durante a diástole ventricular, existem as chamadas valvas semilunares direita e esquerda, denominadas pulmonar e aórtica, respectivamente. Pelo lado direito cardíaco, circula o sangue venoso; pelo esquerdo, o arterial. Propriedades do coração É importante estar ciente de que o coração apresenta algumas peculiaridades com relação ao seu funcionamento, pois ele tem certa autonomia e também está sujeito a controle realizado pelo sistema nervoso simpático e parassimpático. O coração é autoexcitável e contrátil, ou seja, tem a capacidade de produzir e propagar impulsos elétricos e de contrair-se. Assim, ele pode, por controle próprio, bombear sangue para todo o organismo de maneira rítmica e vigorosa. O coração é dotado de uma capacidade de autocontrole para que seus batimentos sejam ininterruptos, fortes e rítmicos. Tal capacidade se deve a certas características, tais como: ■Batmotropismo (autoexcitabilidade): capacidade que o coração tem de se autoexcitar e propagar os impulsos elétricos e, assim, se contrair. O batmotropismo tem início no nó sinusal ■Cronotropismo (ritmicidade): capacidade cardíaca de ritmar suas contrações na frequência necessária, de modo sincrônico – rítmico –, para que todos os seus eventos – sístole e diástole – ocorram de maneira adequada e completa ■Dromotropismo (contratilidade): capacidade que o coração tem de se contrair e promover a propulsão sanguínea para os vasos ■Inotropismo (força de contração): capacidade cardíaca de proporcionar força de contração necessária para que a pressão sanguínea obtida por essa capacidade, associada à ação das artérias e veias, possibilite que o sangue seja distribuído para todo o organismo de modo satisfatório. Estrutura cardíaca O coração é formado por três estruturas básicas (as túnicas): (1) pericárdio; (2) miocárdio; e (3) endocárdio. A essas estruturas estão associados os sistemas arterial e venoso, além do nervoso. ■Pericárdio: serosa que reveste a superfície externa cardíaca, estando uma de suas duas porçõesintimamente ligada ao miocárdio, revestindo-o. Essa porção é denominada pericárdio visceral; já a outra, chamada de pericárdio parietal – ou saco pericárdico –, é constituída de material mais fibroso, resistente e de pouca extensibilidade, e envolve o coração, formando uma cavidade entre os pericárdios (cavidade pericárdica), em cujo interior há pequena quantidade de líquido seroso, o qual lubrifica a superfície cardíaca, facilitando a movimentação do coração ■Endocárdio: serosa que reveste o coração internamente, contendo uma porção que reveste as câmaras cardíacas, constituindo-se no chamado endocárdio mural ou parietal, e outra que recobre as valvas cardíacas atrioventriculares, sendo denominada endocárdio valvar ■Miocárdio: constituído de duas porções distintas histológica e funcionalmente: o miocárdio ordinário, que constitui o sistema contrátil – o músculo cardíaco em si –, responsável, portanto, pela mecânica do funcionamento cardíaco; e o miocárdio especializado – formado por células especializadas na formação e na transmissão de impulsos –, determinando, portanto, o ritmo cardíaco e sua autonomia, sendo constituído de: ºNó sinusal ou sinoatrial (ou de Keith-Flack), localizado no seio venoso auricular direito, na entrada da veia cava cranial, da qual, portanto, são produzidos os impulsos ºNó atrioventricular (ou de Aschoff-Tawara), localizado no tabique interatrial ºFascículo atrioventricular (ou de His), com ramos esquerdo e direito e ramificações finais em formato de rede: os ramos subendocárdicos (fibras de Purkinje). Essas três estruturas compõem o chamado sistema de produção e condução nervosa do coração. A projeção cardíaca na parede torácica ocorre entre o terceiro e o sexto espaço intercostal (EIC), quase completamente recoberto pelos pulmões, possibilitando que apenas uma pequena porção cardíaca tenha contato direto com a parede torácica. Essa porção existe nos equinos, ao passo que, nos bovinos, ela praticamente é insignificante. Irrigação cardíaca O coração é irrigado pelas artérias e veias coronárias, que emergem da aorta e levam sangue arterial para esse órgão. Há dois grandes troncos de irrigação cardíaca: um longitudinal (ramo descendente) e outro transversal (ou circunflexo). Controle nervoso A mecânica cardíaca é mantida e controlada pelo sistema nervoso, além da capacidade autonômica cardíaca dirigida pelo miocárdio especializado. O sistema nervoso autônomo, representado pelos nervos cardíacos que emergem dos troncos simpático e parassimpático (vagal), atua como acelerador (simpático) e frenador ou moderador (parassimpático) da função cardíaca Particularidades de algumas espécies Existem diferenças com relação à anatomia cardíaca que merecem ser descritas; algumas delas são apresentadas a seguir. Bovinos O coração dos bovinos tem formato mais globoso, arredondado. Sua projeção torácica ocorre entre o terceiro e quinto EIC, sua porção basal dista 6 cm acima da linha articular escapuloumeral, ao passo que seu ápice está levemente direcionado caudalmente e para a esquerda. O contato entre o coração e a parede torácica nessa espécie é mais tênue e cranial, não se formando a zona cardíaca de macicez absoluta. Aproximadamente 5/7 do coração estão localizados do lado esquerdo do tórax; portanto, apenas 2/7 estão do lado direito. Pequenos ruminantes O coração dos caprinos se estende da terceira à sexta costela, podendo sua borda caudal encostar-se ao diafragma. Uma de suas particularidades é o fato de o coração dos caprinos adultos apresentar dois pequenos ossos cardíacos, os quais se localizam ao redor do arco aórtico. À semelhança do que ocorre também em outros ruminantes, os ramos subendocárdicos (fibras de Purkinje) se estendem tão profundamente no miocárdio que tornam sem valor a avaliação do eixo cardíaco, como rotineiramente se faz em cães e gatos. Figura 7.1 Ilustração das principais estruturas cardíacas responsáveis pela produção e consunção dos impulsos cardíacos. O coração dos pequenos ruminantes é praticamente todo recoberto pelos pulmões. A arritmia sinusal respiratória é comum em caprinos, ocorrendo aceleração dos batimentos no final da inspiração. Equinos O formato cardíaco desses animais é mais cônico que o dos ruminantes, e a sua projeção torácica vai do terceiro ao sexto EIC, mas a inserção da porção distal do pericárdio no esterno ocorre no nível da sétima costela, ao passo que, para os ruminantes, isso se dá na sexta costela. O coração dos equinos não é totalmente recoberto pelos pulmões – é a chamada incisura cardíaca –, desenvolvendo-se, assim, uma área em que o coração se encosta totalmente à parede torácica, formando uma área de macicez absoluta. Ao realizarmos a percussão desta área, obteremos, portanto, um som maciço. Há uma outra área de macicez relativa da região cardíaca nessa espécie, em que a parte pulmonar que recobre o coração é bem fina e produz, assim, à percussão, um som submaciço, diferentemente do que ocorre com os ruminantes, em que há somente a área de macicez relativa. Em decorrência da dinâmica cardíaca, uma série de fenômenos ocorre e pode ser percebida mediante diferentes métodos semiológicos, dentre os quais se destacam: ■A produção dos ruídos cardíacos, os quais podem ser auscultados ou registrados em fonocardiograma ■A produção da atividade elétrica cardíaca, a qual pode ser registrada em eletrocardiograma ■A propulsão sanguínea em determinada pressão, a qual pode ser avaliada por palpação arterial (avaliação do pulso arterial) ou mensurada mediante medidores de pressão de modo invasivo ou não, como no uso do esfigmomanômetro. Nos cavalos, o coração representa 0,7 a 1,1% do peso corporal do animal adulto, sendo maior em cavalos de corrida que nos de outro uso. O coração dos equinos tem um posicionamento característico: na realidade, ao examinar o lado esquerdo do tórax, não estamos avaliando o lado esquerdo do coração, pois o coração equino tem seu ventrículo direito cranial à esquerda, além de o coração estar ligeiramente deslocado à esquerda da linha média torácica. Sua porção apical se situa caudoventralmente no tórax, próximo ao osso esterno, à altura da porção dorsal do olécrano, ao passo que a sua base está situada mais craniodorsalmente. O coração, radiograficamente, ocupa a extensão de cinco costelas e quatro espaços intercostais, da segunda à sétima costela. Em virtude disso, as quatro valvas cardíacas podem ser auscultadas no lado esquerdo do tórax. ■Artérias, capilares, veias e sistema linfático Os vasos sanguíneos são responsáveis pela distribuição de sangue para todas as células do corpo; eles são os principais responsáveis pela manutenção da pressão sanguínea arterial e também pelo retorno venoso. Quando ocorrem problemas vasculares, ou compromete-se a irrigação ou a drenagem, levando a processos de isquemia, hipoxia, degeneração e morte celular ou à estase sanguínea, determina-se um quadro congestivo. Tudo isso é decorrente da chamada insuficiência circulatória periférica, para diferenciar da central ou também denominada insuficiência cardíaca, relacionada com problemas cardíacos. Figura 7.2 Ilustração dos quatro focos de auscultação que podem ser examinados do lado esquerdo do tórax (A) e do posicionamento craniocaudal dos ventrículos e átrios (B). Diagrama de um registro da primeira e da segunda bulha (C) e de um traçado eletrocardiográfico de equino (D). ECG = eletrocardiograma. A insuficiência circulatória periférica é decorrente de redução do débito cardíaco ou por acúmulo de sangue nos vasos periféricos. Já a insuficiência cardíaca é consequência de processos que comprometam o volume de sangue por minuto que sai do coração. Didática e funcionalmente, podemos dividir a circulação sanguínea em pequena e grande. A pequena circulação é aquela que vai do coração aos pulmões e volta ao coração; a grande é aquela em que o sangue sai do coração e é distribuído para todos os órgãos e tecidos, para levar oxigênio, e retorna ao coração. Grande circulação Compreende desde a saída do sangue do ventrículoesquerdo pela aorta, passando pela valva aórtica – semilunar –, sua distribuição para todo o corpo do animal, até seu retorno para o átrio direito, pelas veias cavas, sua chegada ao ventrículo direito, passando pela valva tricúspide – atrioventricular direita. O sangue que sai do ventrículo esquerdo tem mais oxigênio, sendo considerado arterial; aquele que chega ao átrio direito apresenta maior quantidade de gás carbônico, considerado venoso. Pequena circulação Inicia-se na saída do sangue do ventrículo direito, pela artéria pulmonar, passando pelos pulmões; termina com o retorno sanguíneo para o átrio esquerdo, pelas veias pulmonares. A passagem do sangue do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo é pela valva mitral (bicúspide). O sangue que sai do ventrículo direito dispõe de maior quantidade de gás carbônico, sendo considerado venoso, ao passo que o que chega ao átrio esquerdo é rico em oxigênio, portanto, chamado de arterial (Figura 7.3). Figura 7.3 Ilustração de um coração e suas câmaras e o sentido do fluxo sanguíneo. Em vermelho, então os locais por onde circula o sangue arterial e, em azul, o venoso. AD = átrio direito; AE = átrio esquerdo; Ao = aorta; VA = valva aórtica; VCI = veia cava inferior; DAE = ducto arterioso esquerdo; APE = artéria pulmonar esquerda; APP = artéria pulmonar principal; VM = valva mitral; VTP = valva do tronco pulmonar; VP = veias pulmonares; APD = artéria pulmonar direita; VCS = veia cava superior; VT = valva tricúspide; VD = ventrículo direito; VE = ventrículo esquerdo. image1.png image2.png image3.png