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BITCOIN E A EVASÃO DE DIVISAS COMO AS CRIPTOMOEDAS ESCANCARAM O ATRASO DAS LEIS NO BRASIL MARCO ANTONIO COELHO “Eu penso que a Internet será uma das maiores forças para reduzir o tamanho do governo. Uma coisa que está faltando, mas que em breve será desenvolvida, é uma moeda eletrônica confiável” — Milton Friedman, Ganhador do Prêmio Nobel de Economia prevendo o Bitcoin em 1999 “O Bitcoin fará com os bancos o que o e-mail fez com a indústria postal”. — Rick Falkvinge, Empresário de TI e criador do 1º Partido Pirata do mundo. DEDICATÓRIA Este livro é dedicado aos meus pais, que acreditaram em mim e me estimularam a publicar esta obra. À Maria, aquela que com seu amor me torna uma pessoa melhor a cada dia que passa. Àquela voz que, no meio da madrugada, ocupou meus pensamentos e me estimulou a publicar esta obra. Deus. Dedico também ao meu amigo Leonardo Senes por me dar ouvidos quando eu era uma voz solitária a falar do Bitcoin. Dedico este livro não só aos que me deram o apoio para escrevê- lo, mas a todos que entendem as ideias libertárias por trás do Bitcoin. Aos homens e às mulheres que defendem a liberdade acima de tudo também dedico esta obra. Os hodlers que me ensinaram a acreditar nos fundamentos e os traders que fazem o mercado ser emocionante merecem também a dedicatória. Dedico a Frédéric Bastiat (in memoriam) pelas suas obras que me ensinaram que a liberdade deve ser protegida e a força somente usada contra agressores. Ludwig Von Mises (in memoriam) merece também essa dedicatória por defender que o progresso é tudo aquilo não previsto nas normas e regulamentos. A Friedrich Von Hayek (in memoriam) e Satoshi Nakamoto, o primeiro por incentivar desestatização do dinheiro e o segundo por colocar a ideia em prática. Ao genial Murray N. Rothbard (in memoriam) por ensinar quão criminoso é o banco central ao roubar o poder de compra das pessoas quando inflaciona a moeda. Ao grupo #tothemoon por gerar discussões interessantes e acaloradas acerca do tema e recomendar parte da bibliografia aqui presente. E, por fim, dedico aos anarcocapitalistas por defenderem acima de tudo que imposto é roubo. AGRADECIMENTOS Inicialmente, agradeço a Deus por me permitir chegar a tal momento com saúde. Agradeço aos meus pais por me darem apoio em todas as minhas decisões mesmo não entendendo as consequências. Agradeço também por não me internarem em um hospício quando decidi comprar “dígitos de computador” ao invés de “investir” na “segurança” da poupança. Um agradecimento especial aos meus amigos Eduardo Ossimas, Leonardo Graciosa e Gabriel Cesar de Andrade por me ajudarem a ser uma pessoa melhor intelectualmente. A Satoshi Nakamoto agradeço por criar uma tecnologia disruptiva que nos protege de todo o autoritarismo e barbaridades cometidas pelos bancos centrais mundo a fora. Agradeço a Dâniel Fraga (in memoriam?), por ensinar a ser fiel aos ideais libertários até as últimas consequências. Aos humoristas Danilo Gentili e Leo Lins por ridicularizarem os autoritários com suas piadas sensacionais. Aos familiares e demais pessoas que me chamaram de maluco, eu agradeço pela força de vontade para provar que desde o começo estiveram errados. Por fim, agradeço a mim mesmo por ter acreditado, por ter trabalhado duro, por ter dormido menos e por escrever esse livro maravilhoso que você terá o prazer de ler. PREFÁCIO DO AUTOR Se eu pudesse voltar no tempo – especialmente em 2011 –, eu diria: Compre Bitcoin! Com toda a certeza isso mudaria a minha vida. Após ver os libertários, especialmente Dâniel Fraga, defendendo o uso do Bitcoin não só como reserva de valor, mas sim como algo inconfiscável, eu decidi não só comprar, mas estudar sobre o assunto. Antes eu achava inimaginável existir um meio de troca sem o carimbo do Banco Central. Hoje eu já não vejo a instituição com bons olhos. O surgimento do Bitcoin na minha vida me deu uma aula de economia. Aprendi diversos conceitos, dentre eles os de escassez e poder de compra, e como eles são completamente ignorados pelos bancos centrais. Ao mesmo tempo que eu me aprofundava no estudo dos conceitos econômicos, eu via a popularidade do Bitcoin aumentando aos poucos. As primeiras corretoras começaram a surgir. Os primeiros p2p também. E assim a comunidade foi se expandindo. Era fascinante. Obviamente que fui chamado de louco (quem nunca), por familiares e amigos quando defendi a tecnologia. Hoje se aparecer qualquer notícia referente ao Bitcoin, eu sou o primeiro a ser perguntado por eles. Depois de eu ver que ele possui certas semelhanças com o ouro, eu tive um interesse muito maior. Afinal, o ouro é a mais antiga reserva de valor e é totalmente livre das garras do estado, sempre protegendo as pessoas nos momentos de crise. Da mesma forma que o Bitcoin vai nos proteger no próximo apocalipse financeiro. Se você ainda não entende como o Bitcoin funciona, você aprenderá nesse livro. Além disso, o livro fala também das top 6 criptomoedas do mercado! Não só isso: Ele mostra também o passo a passo de como declarar as suas criptomoedas. (Se você quiser, claro!) Aliás, quer guardar suas criptomoedas de maneira prática, rápida e segura? O livro também ensina! Quer saber o motivo porque os criptoanarquistas e Hodlers preferem manter suas criptomoedas em vez de trocá-las pelo papel colorido do estado? O livro vai te explicar! E se você não gosta de Direito Penal, vai ficar fã graças ao que o livro vai mostrar. Ele esclarece os conceitos iniciais com exemplos simples e de fácil entendimento. Além disso há um capítulo sobre o crime mais comum envolvendo criptomoedas. Geralmente começa com alguém chamando você para participar de uma reunião em que uma empresa apresenta um negócio lucrativo. É apresentado a você que esse negócio vai deixá-lo rico de maneira rápida e fácil a ponto de dobrar o valor “investido”. Você pode não saber do que se trata e seus familiares também não. Mas fique tranquilo, o livro vai ensinar você a proteger seu patrimônio desses caras. Talvez um dos capítulos mais interessantes é aquele que trata das investigações policiais. Foi descrito como a polícia vai agir contra os piramideiros para leva-los à justiça! É explicado o procedimento investigativo inteiro: a ação policial na prática; o que vão perguntar no interrogatório e quais softwares as autoridades estão usando para rastrear as wallets. Além disso, pelo fato de o livro tratar dos mais variados assuntos, os termos técnicos foram traduzidos no texto. Dessa forma, você não vai perder seu precioso tempo procurando o significado na internet. Porque para entender o Bitcoin é necessário dominar os conceitos básicos de: Economia, criptografia, redes distribuídas e teoria dos jogos. E no caso desse livro, um pouco de Direito. Mas pode ficar tranquilo (a), porque o livro vai explicar de uma maneira simples e fácil graças à linguagem descomplicada utilizada pelo autor. Tenha uma ótima leitura! LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas Altcoin – Criptomoeda alternativa ao Bitcoin Bitcoin – Criptomoeda criada por Satoshi Nakamoto bitcoin(s) – unidades da criptomoeda BACEN – Banco Central do Brasil Crowdfunding – Financiamento Coletivo CVM – Comissão de Valores Mobiliários CMN – Conselho Monetário Nacional COPOM – Conselho de Política Monetária DPV – Declaração de Porte de Valores DCBE – Declaração de Capitais de Brasileiros no Exterior Exchange – casa de câmbio nacional ou internacional ENCCLA – Estratégia Nacional de Combate à corrupção e à Lavagem de Dinheiro FED – Federal Reserve FATF – Financial Action Task Force GAFI – Grupo de Ação Financeira Internacional Halvening – redução da oferta monetária de criptomoedas com o passar do tempo Holder – Aquele que guarda acredita no potencial do ativo independentemente do seu preço. ICO – Initial Coin Offer (oferta inicial de moeda) NSA – National Security Agency Open Source – Software de código aberto P2p – Peer-to-Peer (Ponto-a-Ponto)mas no momento ainda não é. Uma outra definição para bem é, em sentido filosófico, tudo o que satisfaz uma necessidade humana. Bens são coisas com valores, interesse jurídico e econômico. De acordo com os profissionais do Direito Civil, os bens se classificam em: imóveis e móveis; substituíveis e insubstituíveis; corpóreos e incorpóreos; consumíveis e inconsumíveis; divisíveis e indivisíveis; singulares e coletivos; e, comercializáveis ou fora do comércio. Das classificações acima mencionadas, o Bitcoin é categorizado como um bem móvel porque pode ser transacionado de onde você estiver para qualquer lugar do mundo. Substituível, já que pode ser trocado por qualquer outra unidade de Bitcoin; incorpóreo, dado que é digital e não tem existência nem forma física; inconsumível em razão de não perder sua substância, ou seja, não é destruído. Quanto à divisibilidade, o Bitcoin possui uma característica de ser um número seguido de oito zeros. Esses zeros são chamados de Satoshis, que é a sua menor unidade de medida. De outra maneira: uma unidade de Bitcoin equivale a 100.000.000 (cem milhões de satoshis). Já em relação à singularidade, o Bitcoin é único; possui suas próprias características que o separam dos outros bens. Em relação à comerciabilidade, nota-se que é alta, sendo negociado, no Brasil, em torno de 45 mil reais[21], com compradores e vendedores em todos os lugares do planeta. Portanto, vemos que o Bitcoin é classificado, de acordo com a doutrina jurídica nacional, como um bem. O poder judiciário da Califórnia pensa da mesma forma: Sob a lei estatutária da Califórnia, “a propriedade de uma coisa é o direito de uma ou mais pessoas de possuí-la e utilizá-la com a exclusão de outras” e “a coisa da qual pode haver propriedade é chamada propriedade”. Consistente Com os princípios articulados pela Suprema Corte dos EUA, como discutido acima, os tribunais da Califórnia descreveram a propriedade como um conceito amplo que inclui “todos os benefícios e prerrogativas intangíveis suscetíveis de posse ou disposição”[...] Aplicando o teste de três partes predominante para interesses de propriedade articulado pelo Nono Circuito, a propriedade do Bitcoin deve ser considerada um interesse de propriedade intangível sob a lei da Califórnia. (HANSEN; BOEHM, 2017) Leonardo Oliveira[22] afirma que o conceito de bem no Brasil é muito mais abrangente do que aquele feito pelos tribunais da Califórnia. Na terra do Snoop Dogg, a ideia de property é limitada a bens intangíveis. Pelo fato de o Bitcoin ser incorpóreo[23], ele acaba sendo intangível. Dessa forma, a característica de intangibilidade da property não atrapalha a natureza jurídica que a criação de Nakamoto possui tanto no estado da Califórnia, quanto no Brasil. A property nada mais é que uma espécie do gênero “bem”[24]. Por ser um bem, o Bitcoin é amplamente negociado. Dessa forma, são aplicadas a ele as normas do contrato de compra e venda. O artigo 481 do Código Civil é explícito: Art. 481. Pelo contrato de compra e venda, um dos contratantes se obriga a transferir o domínio de certa coisa, e o outro, a pagar-lhe certo preço em dinheiro. (BRASIL, 2002). A compra e venda se realiza a partir do momento em que os contratantes acertam o preço da negociação. Maria paga o dinheiro a João que envia o Bitcoin à carteira dela por meio da rede Blockchain. No momento em que o Bitcoin é classificado como um bem, as operações que o envolvem podem ser regidas pelos contratos de compra e venda. Porém, quando ele é utilizado como meio de pagamento, a transação será considerada uma permuta. A permuta, que é tão antiga quanto a criptografia, é uma das modalidades utilizadas antes mesmo do desenvolvimento do sistema legal moderno. Seu conceito consiste em um negócio em que as partes se obrigam a entregar coisas uma para outra, que não seja dinheiro. Portanto, o Bitcoin nos faz pensar como se iniciou o processo de troca entre os seres humanos. No começo, era realizado o escambo. Porém, devido à não coincidência de desejos e a dificuldade de fracionamento dos bens, surgiu que é utilizado como o meio de troca universal entre os demais: o dinheiro. Nesse sentido, o Bitcoin se consolida no mercado como um bem de enorme comerciabilidade e grande possibilidade de fracionamento. Pelo fato de não ser caracterizado como um título de crédito e muito menos um ativo financeiro, resta a ele ser definido como um bem. Resumindo, bem é algo que tem valor. O Bitcoin é um bem; portanto, tem valor. Se tem valor, o fisco vai querer um pedaço. A pergunta que fica é: Como a Receita Federal vê o Bitcoin? Quais ferramentas ela usa para me rastrear? Devo declarar minhas criptos? A resposta será descoberta no próximo capítulo. 2.5. COMO O FISCO VÊ O BITCOIN? Por ser tratado como um bem, a Receita Federal percebeu no comércio do Bitcoin uma fonte de tributo. Não só por esse fato, mas também pela sua consequente valorização e aumento proporcional no patrimônio de quem tem. Desde 2014, seu preço saltou de U$D 890,00 (oitocentos e noventa) para mais de U$D 10.500,00 (dez mil e quinhentos) dólares, uma valorização de 1.179% em 6 anos[25]. Outras criptomoedas tiveram uma valorização absurda em relação ao dólar e ao próprio Bitcoin, deixando muitas pessoas com o pé-de- meia pronto para aposentadoria. A BNB, por exemplo, é uma delas. Só em 2019 valorizou mais de 400%, enquanto o Bitcoin valorizava só 100%. Essas valorizações fizeram as autoridades fiscais crescerem o olho no patrimônio do “contribuinte”[26]. Dessa forma, para fins tributários, a Receita Federal classifica as criptomoedas como “outros bens” a ponto de haver a cobrança de tributos sobre ganhos de capital no Imposto de Renda. Conforme a Lei vigente, há um “escalonamento” na cobrança de impostos sobre ganho de capital. Vamos a ele. 15%, se a quantia não ultrapassar R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais); 17,5%, caso o montante for superior a R$ 5.000.000,00 (cinco milhões) de reais e inferior a R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais); 20%, se a soma for maior que R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais) e menor que R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais); 22,5% se o valor exceder R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais); [27] O estado sempre vai querer um pedaço do bolo mesmo não sendo convidado para sua festa. Por mais que haja a tributação sobre esses valores, felizmente há a isenção. O artigo 10 da Instrução Normativa 1.500 de 2014 da Receita Federal, afirma que são isentos de Imposto de Renda os rendimentos de ganho de capital inferiores a R$ 20.000,00 (vinte mil reais) para ações, e R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais) nos demais casos[28], incluindo-se aqui, as criptomoedas. O ato de recolher impostos é, do ponto de vista tributário, a obrigação principal. O ato de declarar suas informações e seus bens, por outro lado, é a obrigação acessória. Em relação a essa última, a Receita Federal editou em 2019 a Instrução Normativa 1.888 que trata da exigência de informações por parte de negociantes p2p (peer-to-peer) e exchanges. A Instrução normativa obriga os p2p e exchanges a enviarem à Receita Federal uma gama de dados dos seus clientes. Também definiu o que é criptoativo, exchange e quem está sujeito a ela. Você leitor, deve estar pensando: Já vimos que Bitcoin foi classificado como bem, por que diabos a Receita classificaria como um criptoativo? Tanto a Receita quanto o Banco Central são órgãos que lidam diretamente com a contabilidade e essa ciência possui alguns termos que merecem ser explicados aqui. A contabilidade é a ciência social que registra, organiza e analisa as modificações do balanço patrimonial de uma determinada empresa. O patrimônio dela é organizado em 3 grandes grupos: Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido. No ativo estão os bens e direitos da companhia. Máquinas e contas a receber, por exemplo. Já no passivo estão basicamente as dívidas da empresa, isto é, as obrigações. O patrimônio líquido é o que sobra quando do ativo é reduzido o passivo.Em outras palavras: Ativo – Passivo = Patrimônio Líquido. Exemplo: se uma empresa tem um ativo avaliado em R$ 100.000,00 (cem mil reais) e um passivo de R$ 70.000,00 (setenta mil reais), o seu patrimônio líquido é o restante, isto é, os R$ 30.000,00 (trinta mil reais). Como falado anteriormente, os ativos são os bens e direitos que têm a possibilidade de gerar renda a quem os possui. Dessa forma, o Bitcoin, devido à escassez, tem uma alta chance de se valorizar, aumentando o patrimônio de seu proprietário. Depois dessa breve explicação, voltamos à análise. O texto dela é explícito: Criptomoeda “é uma representação de valor denominada em sua própria unidade de conta, cujo preço pode ser expresso em moeda soberana local ou estrangeira que pode ser utilizada como investimento de transferência de valores ou acesso a serviços e que não constitui moeda de curso legal”[29]. No que diz respeito à obrigação de prestar de informações, quem deve fazer são as exchanges[30] e os p2p (peer-to-peer), que facilitam a intermediação de compra e venda de criptomoedas[31]. Já em relação aos p2p, há uma certa limitação de quem deve, de fato, fornecer esses dados ao Leão. Conforme a normativa fiscal, somente quem movimenta mensalmente valores acima de trinta mil reais[32] tem essa obrigação. Quanto conteúdo das informações, são exigidos dados referentes a: compra, venda, permuta e doação, além de outras operações que sejam transferências de criptoativos[33]. Dessa forma, as autoridades fiscais querem alcançar toda e qualquer transação que envolva criptomoedas. O fisco possui hoje uma quantidade absurda de dados. Agora quer também as informações de quem opera com criptomoedas. A Receita Federal, por meio da coação, obriga as corretoras a fornecer diversos dados dos clientes. Essas informações valiosas agora se concentram não só nas corretoras, mas também nos servidores do Fisco, tornando-os um alvo de ataques hacker. Com a edição da Instrução Normativa 1.888/19, é visível que a Receita está tentando rastrear qualquer indivíduo que opere com criptomoedas. A gana de controle por parte do estado aumenta a cada dia. Mas além disso, você é rastreado pelo leviatã de outras formas e nem sabe. Quais formas são essas? Será que dá para escapar? Vire a página e descubra 2.5.1 COMO A RECEITA RASTREIA SUA VIDA FINANCEIRA Depois da edição das Instruções Normativas 1.888 e 1.899, a Receita Federal apertou o cerco contra os p2p e as corretoras, exigindo todas as informações possíveis. Se o p2p ou a própria corretora movimentar mensalmente mais de R$ 30.000,00 (trinta mil reais), (o que acontece facilmente), eles terão que informar uma imensa quantidade de dados. Dentre esses dados estão, por exemplo, a data da compra ou venda, o nome do cliente, a criptomoeda usada, a quantidade do que foi negociado e o valor. Só não pedem o número do WhatsApp porque seria muita cara-de-pau. É válido informar que a entrega de informações sobre a wallet do usuário é obrigatória se ele receber algum tipo de intimação da Receita. Para receber uma intimação do fisco, deve haver divergências entre o declarado ao órgão e o que foi realmente obtido pelo usuário. Se você comprou ou vendeu bitcoins cujos valores sejam iguais ou inferiores a R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais), você não vai pagar imposto, mas deve declarar na seção do código 99 – outros bens e direitos. Se o valor de compra ou venda for de R$ 36.000,00 (trinta e seis mil reais) em bitcoins, você pagará 15% sobre a diferença de R$ 1.000,00 (mil reais), ou seja, R$ 150,00 (cento e cinquenta reais). Portanto, caso você precise de dinheiro e queira vender seus bitcoins, venda em frações de R$ 34.999,99 (trinta e quatro mil novecentos e noventa e nove reais e noventa e nove centavos). Já em relação a pagamentos em espécie, abra o olho. Você é obrigado a entregar a DME (Declaração de Movimentação em Espécie) caso os valores sejam maiores que R$ 30.000,00 (trinta mil reais). Sendo assim, para evitar o controle das autoridades fiscais sobre seu patrimônio, tome cuidado. Se for vender em espécie, venda quantidades cujos valores não sejam superiores a R$ 29.999,99 (vinte e nove mil novecentos e noventa e nove reais e noventa e nove centavos). Se você utiliza sua conta corrente para receber em reais o montante referente as suas vendas de Bitcoin, sinto lhe dizer mas existe a E-Financeira. Ela é um conjunto de informações que os bancos e demais cooperativas de crédito devem prestar à Receita Federal. Infelizmente, dela é quase impossível escapar: É informada à Receita Federal a movimentação mensal de mais de R$ 2.000,00 (dois mil reais) na conta bancária da pessoa física e R$ 6.000,00 (seis mil reais) na da pessoa jurídica. A não ser que você possua conta corrente laranja (o que não recomendo), suas operações serão monitoradas pela Receita Federal. Caso seja algo mais inovador tipo um cartão pré-pago, os valores acima de R$ 100.000,00 (cem mil reais) são informados à UIF (Unidade de Inteligência Financeira), antigo COAF. Então se quiser evitar as garras do Leão, utilize cartões tipo Advcash ou Xapo. Já em relação aos cartões de crédito, algumas empresas como o pague.nu geram boletos que podem ser pagos utilizando bitcoins. Infelizmente existe a Declaração de Operações com Cartões de Crédito (DECRED) para acabar com a festa. Na DECRED estarão as informações sobre as operações feitas com cartão de crédito. São identificados os usuários, os serviços e os montantes mensalmente movimentados. A Receita usa a DECRED para fazer o cruzamento fiscal, porque se você decidir comprar seus bitcoins com cartão de crédito e declarar no Imposto de Renda menos do que de fato comprou, a diferença será tributada com multa e juros. Então muito cuidado. Em um futuro não muito distante, vai ser comum as pessoas comprarem imóveis pagando com criptomoedas. Porém, lamentavelmente existe a DOI (Declaração de Operações Imobiliárias). Dessa forma, o fisco pode comprovar a incompatibilidade patrimonial. Em outras palavras: se o Bitcoin valorizar muito e você decidir sair comprando mansões e carros de luxo, a Receita vai te pegar. Caso você seja um p2p ou outro profissional no mundo das criptos e não quer ter seu patrimônio vigiado pelo leão faminto da Receita Federal, mude de país ou utilize laranjas para realizar suas negociações (o que eu não recomendo). Porém fique ciente que se você for pego, pode responder por falsidade ideológica, sonegação fiscal e, caso não consiga comprovar a origem do patrimônio, lavagem de dinheiro. Por mais que seja revoltante e doloroso pagar impostos, infelizmente somos obrigados a declarar os bens e pagar o que a lei determina. Mas em relação aos Bitcoins surgem as dúvidas: Devo declarar? Como faço? Descubra no próximo tópico 2.5.2 DEVO DECLARAR MEUS BITCOINS? A sanguessuga é um anelídeo da classe Hirudinea que vive de parasitar e explorar o hospedeiro, semelhante ao que a Receita Federal faz. Diferentemente da Receita, a sanguessuga tem lá suas utilidades. Ela combate a gangrena, descongestiona os vasos sanguíneos e restabelece a pressão e a circulação do sangue no corpo. Por mais que ambas sejam parasitas e tenham poucas diferenças, a maior delas é que a sanguessuga irá embora quando sua vítima morrer. Infelizmente é difícil escapar da Receita que, por menor que seja o aumento do SEU patrimônio, vai querer uma parte do SEU dinheiro. Na época do Imposto de Renda surge a pergunta: Devo declarar meus bitcoins? Como faço para declarar? Em 1970, Whitfield Diffie popularizou a utilização da criptografia de chave pública. A partir disso, ele ficou na mira da NSA, porque o uso dessa tecnologia era considerado secreto pelo estado americano. Depois do ocorrido, o governo americano obrigou as empresas de tecnologia a instalarem um chip em todos os aparelhos de comunicação. Ele permitiria a escuta das chamadas por voz. De modo semelhante, em 2013, Edward Snowden escancarou ao mundo o que o governo americano fazia por meio de sua Agencia Nacional deSegurança: Vigiava tudo e todos. Inclusive os próprios americanos. E o detalhe: sem autorização judicial. Posteriormente ao primeiro abuso do governo americano, Whitfield Diffie descobriu a chave assimétrica: A divisão da chave pública em duas. Uma pública e uma privada. A primeira poderia ser divulgada aos 4 ventos; A outra guardada a 7 chaves. Inspirados por Diffie, surgiram os CypherPunks. Era um grupo de indivíduos das mais variadas formações que tinham um mesmo objetivo: a defesa da privacidade e da liberdade por meio da criptografia. O Manifesto CypherPunk, com intuito de difundir a ideia de liberdade e privacidade, aparenta ter um teor bem libertário. Um dos trechos é o seguinte: Como desejamos privacidade, devemos garantir que cada parte de uma transação tenha conhecimento apenas daquilo que é diretamente necessário para essa transação; [...] Quando compro uma revista em uma loja e entrego dinheiro ao funcionário, não há necessidade de saber quem eu sou. Quando solicito ao meu provedor de correio eletrônico que envie e receba mensagens, ele não precisa saber com quem estou falando ou o que estou dizendo ou o que os outros estão dizendo para mim; meu provedor só precisa saber como receber a mensagem e quanto devo a eles em taxas. Além disso, tem um ideal muito semelhante ao criador do Bitcoin. Wei dai, o criador do B-Money, foi o primeiro a ser consultado por Satoshi Nakamoto enquanto estava desenvolvendo o Bitcoin. Wei Dai escreve no White paper do B-Money: Eu estou impressionado com a criptoanarquia. Diferentemente das comunidades tradicionalmente ligadas ao nome anarquia, em uma criptoanarquia o governo não é temporariamente destruído, mas é permanentemente proibido e permanentemente desnecessário. É uma comunidade onde a ameaça de violência é impotente porque a violência é impossível, e violência é impossível porque seus participantes não podem ser ligados aos seus nomes e localizações verdadeiros. (DAI, 1998) Ele afirma que por meio da critpografia a privacidade é garantida e o governo é proibido de acessá-la. E, devido a ela, o leviatã não poderá promover a violência contra quem e o que não conhece. Portanto, devemos defender nossa privacidade se esperamos ter alguma. As pessoas vêm defendendo sua própria privacidade há séculos com sussurros, escuridão, envelopes, portas fechadas e apertos de mão secretos. As tecnologias do passado não permitiam uma privacidade forte, mas as tecnologias do presente sim. Caso você queira declarar suas criptomoedas, declare. Mas saiba que você estará matando a descentralização e a privacidade, os motivos de sua criação. Defender qualquer ação do estado sobre as criptomoedas é uma atitude estúpida e demonstra total desconhecimento da finalidade da criptografia. Respeite a história de quem arriscou a vida para defender nossa liberdade e privacidade. Sem o escudo da privacidade, você será tão indefeso quanto uma criança. Seus bens serão tomados e suas mensagens serão monitoradas. Nas próximas linhas eu mostro um miniguia de como declarar suas criptomoedas ao Leão. Use da maneira que a sua consciência mandar. Se você quiser declarar seus bitcoins, faça o seguinte: 1º. Vá até a opção Bens e Direitos. 2º. Após clicar em “Novo” na parte inferior à direita da tela, aparecerá os menus ‘código”, “localização”, “discriminação” e “situação em” seguintes: 3º. No menu “código”, escolha o número 99 – Outros Bens e Direitos. 4º. A localização tem a ver com o país que irá colaborar com as autoridades fiscais brasileiras para tomar seu patrimônio. Muitos colocam Brasil e outros colocam Antártica. Decida qual o melhor para você. 5º. No espaço chamado “descriminação”, você escreve detalhadamente o que são criptomoedas. A descrição ideal é: “Criptomoedas são moedas de verdade, diferente desse papel higiênico impresso pelo Banco Central. ” 6º. Os menus inferiores representam o valor em cada ano; O da esquerda, o valor no penúltimo e o da direita, o valor no último ano. 7º. Depois de realizada a declaração, tire um print screen da tela e imprima. 8º. Agora compre um nariz vermelho. Tire uma selfie e fique olhando para ela até sentir vergonha, porque quem está rindo de você são os funcionários da Receita Federal. 2.6. AS OPERAÇÕES ENVOLVENDO O BITCOIN O que leva alguém a comprar Bitcoin? Qual o objetivo em negociá-lo? Há vários motivos. Entre as razões, uma delas é que, atualmente, o mercado de criptomoedas possui uma capitalização de USD 328.000.000.000 (trezentos e vinte e oito bilhões de dólares)[34]. Os objetivos que levam alguém a comprar criptomoedas são vários. Alguns compram para guardar – conhecidos como Holders – e esperar a sua valorização. Outros adquirem para negociar com o objetivo de lucro – os Traders. Os Holders compram e guardam Bitcoin por causa dos seus fundamentos técnicos e econômicos. No que diz respeito às qualidades técnicas, há o fato de serem inconfiscáveis e terem baixíssimas taxas de transação; já em relação aos atributos econômicos, há a escassez autêntica semelhante à do ouro. Os Traders compram e vendem por causa da oscilação do preço e volatilidade. Para comprar e vender criptomoedas, há, inicialmente, duas formas: A transação direta com os Peer-to-Peer – conhecidos como p2p – e a negociação em corretoras, por exemplo, no Brasil, FoxBit[35] e MercadoBitcoin[36]. Deve-se analisar como são feitas as operações. Primeiramente, vamos ver como é realizada a compra e venda por meio dos p2p (Peer- to-Peer). O comprador entra em contato com o p2p. Então o vendedor apresenta a cotação pela qual está disposto a vender e questiona qual a quantidade em reais o comprador pretende negociar. A partir do momento em que a cotação é escolhida, o cliente envia a quantidade de reais para a conta bancária do p2p, que solicita ao cliente o endereço de sua carteira virtual. Depois, o vendedor envia a quantidade de bitcoins à wallet do cliente. A carteira de bitcoins pode ser de papel a chamada coldwallet (carteira fria ou carteira offline) ou uma hotwallet, a carteira online de aplicativo ou de corretoras. Apesar de a transação ser realizada com segurança, fica a pergunta: Quais as razões para uma pessoa comprar de vendedores p2p? O que leva o cliente a comprar dos p2p é que, além de eles não cobrarem taxas de saque e de execução de ordem de compra/venda, oferecem preços mais atrativos em operações de médio/grande porte[37]. Esse é o mercado OTC (Over the Counter), também chamado mercado de balcão. Ele existe porque as corretoras não têm bitcoins o suficiente para atender a demanda de grandes investidores. Ou seja, o mercado de criptomoedas é um iceberg: a ponta pode ser vista nas corretoras, mas a maior parte do volume negociado está fora delas. Isso é invisível para a grande parte do público. Investidores profissionais e institucionais, fundos de investimentos e grandes empresas se interessam cada vez mais por criptomoedas e procuram o mercado de balcão. Em vez de entrar nas corretoras e executar ordens no livro de ofertas e provocar grandes movimentações no preço, eles compram de forma discreta fora delas. É visível, na próxima imagem, o processo de compra por meio de p2p. Após a negociação do preço, o vendedor fornece ao cliente o endereço da conta e depósito. Já o cliente, por sua vez, fornece a wallet para onde as unidades de Bitcoin serão enviadas. (IMAGEM 1. Compra por p2p. Print retirado em 25 de março de 2019.) Depois de efetuada a transação e com a posse das unidades de Bitcoin, o cliente tem diversas alternativas: guardar; doar ou revender, transferindo para quem quiser e para onde bem entender, desde que possua o endereço da carteira de destino. Da mesma forma que o p2p envia os bitcoins por meio da rede Blockchain, o seu cliente pode transferir para a corretora do mesmo modo, independentemente de onde esteja. A rede não reconhece fronteiras. Enviar bitcoins às corretoras é uma alternativa comum entre os traders, porque operam trocando-ospor altcoins com intuito de obter lucro. As corretoras mais famosas são a Binance[38], a Bitmex[39] e a Huobi[40]. A primeira tem sede da Ilha de Malta[41], a segunda em Hong Kong[42] e a terceira, nos Estado Unidos[43]. Além de a rede ignorar fronteiras, ela permite que os participantes realizem transferências sem limites. Uma das maiores transações já feitas e registradas na Blockchain foi a de Laszlo Hanyecz, quando ele decidiu comprar duas pizzas por 10 mil bitcoins. Depois dessa, houve diversas outras de grande volume. Uma outra grande operação foi aquela responsável pela liquidação do patrimônio do finado Silk Road. Os 50 mil bitcoins de Dread Pirate Roberts foram leiloados por USD 18.000.000,00 (dezoito milhões) de dólares e enviados para a wallet do arrematador. Em junho de 2018, um usuário realizou uma transferência de 48.500 bitcoins[44] (quarenta e oito mil e quinhentos)[45] pagando 0.00000675 bitcoins de taxa. Em outras palavras: Ele movimentou o equivalente a mais de um bilhão de reais pagando somente U$D 0,16 (dezesseis centavos de dólar). Recentemente, houve uma movimentação de 94.504 bitcoins (noventa e quatro mil e quinhentos e quatro), o equivalente a R$ 4.000.000.000,00 (quatro bilhões de reais). Apesar do alto volume, a taxa paga foi de apenas 0,06534852 btc o equivalente a R$ 2.880,00 (dois mil oitocentos e oitenta reais). Ela em si é muito superior a de uma transação média, mas, considerando o valor transferido, a taxa representa menos de 0,0001%. [46] Após realizada a operação pela rede Blockchain, as unidades de Bitcoin chegam à wallet da corretora. A partir daí, o usuário está apto a realizar diversos tipos de transações: “comprar” altcoins, trocá-las por dólares ou emprestá-las à corretora[47]. Percebe-se que, querendo aumentar seu patrimônio, o usuário realiza diversas modalidades de operações tendo enormes margens de lucro. (IMAGEM 2. Oscilação FUEL. Print retirado em 9 de junho de 2019) Note que a altcoin Etherparty, negociada como FUEL, valorizou mais de 100% em relação ao Bitcoin no dia em que a imagem foi tirada. Além disso, valorizou mais de 11% em apenas 5 minutos, o que um título de renda fixa não valoriza em 5 anos. Com a possibilidade de lucros altíssimos que superam facilmente os da renda variável tradicional, o mercado de criptomoedas vai aos poucos se tornando sólido e confiável. Dessa forma, acaba atraindo investidores institucionais[48]. A volatilidade atrai tanto os traders iniciantes quanto os profissionais que, com o retorno elevado, possuem grandes aumentos patrimoniais em virtude das operações. Veja também que quando um trader negocia outra criptomoeda, ele a compra podendo pagar o preço em dólares ou em unidades de Bitcoin, os meios de troca mais comuns. Caso ele opte pela segunda opção, a partir do momento que a criptomoeda comprada valoriza, ele aumenta seu patrimônio em Bitcoin. A imagem serve de exemplo: Se um indivíduo realizou a compra da criptomoeda FUEL e a vendeu depois de ela ter valorizado em 100%, o patrimônio dele aumentou na mesma proporção. Depois de realizar o lucro, o trader possui duas alternativas: ou transfere as unidades de Bitcoin recém lucradas da corretora internacional para alguma corretora nacional; ou negocia com um p2p que, após acertar o preço de venda, troca as unidades de Bitcoin por reais. Diferentemente dos negociantes autônomos, as corretoras nacionais são pessoas jurídicas que fazem o intermédio entre compradores e vendedores em sua plataforma digital[49]. Para evitar a lavagem de dinheiro, a Lei obriga as corretoras a exigir a verificação do usuário. Dessa forma ele envia documentos e uma selfie com a sua cédula de identidade. Inicialmente quando você decide criar uma conta, são solicitados o Nome Completo, CPF e Data de Nascimento. São dados que basicamente identificam a alma do cliente. Posteriormente é exigido o envio de duas imagens: uma foto do documento que comprove a identidade do cliente e uma selfie dele com o documento em mão. A negociação se torna burocrática. Além disso, às vezes demora muito para que os documentos sejam aprovados. Assim, o comprador pode perder diversas oportunidades de lucrar. Por serem enquadradas no inciso XII do artigo 9º da Lei 9.613[50], as corretoras são obrigadas a exigir esse tipo de informação que confirma a autenticidade do comprador. Além dessa exigência, as corretoras mantêm sempre o registro das transações realizadas por ele[51]. Apesar de demonstrar uma seriedade por parte da corretora, às vezes é perigoso a presença de vários dados sobre os clientes em um só lugar. Várias corretoras já foram hackeadas a ponto de identidades e saldos dos clientes serem divulgados na internet[52]. Depois desse breve alerta, vamos ver como é feita a operação. Verificados os documentos, o passo inicial do cliente é depositar reais em uma das contas bancárias da corretora. (IMAGEM 3. Depósito Fox. Print retirado em 4 de julho de 2019.) Após o depósito, começam as operações. Notamos que, na próxima imagem, é realizada uma compra de R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais) em Bitcoin. Na parte superior à direita está a cotação que o cliente deseja pagar, isto é, R$ 42.150,09 (quarenta e dois mil, cento e cinquenta reais e nove centavos). Logo abaixo está a quantidade de 0,010667613 bitcoins. (IMAGEM 4. Compra Fox. Print retirado em 4 de julho de 2019.) Posteriormente, é realizado o saque, ou seja, a transferência para outra carteira de Bitcoin: (IMAGEM 5. Saque Fox. Print retirado em 4 de julho de 2019.) Após solicitar o saque, é necessário ter acesso ao endereço de destino. Ele só é adquirido a partir do momento que é fornecido por quem vai receber os bitcoins. No caso em análise, o cliente deve ter uma conta na corretora em que as suas unidades de Bitcoin serão trocadas por outras criptomoedas e solicitar o endereço de depósito, conforme a figura abaixo. (IMAGEM 6. Endereço de recebimento Bitfinex. Print retirado em 4 de julho de 2019.) Depois de copiado o endereço de destino, ele é colado no espaço solicitado pela corretora que vai enviar as unidades de Bitcoin. (IMAGEM 7. Endereço da Bitfinex na Fox. Print retirado em 4 de julho de 2019 às 16:20) A partir de então, por meio da rede Blockchain[53] a transação será efetuada. A quantidade de Bitcoin sai do endereço da corretora nacional e chega ao da corretora internacional. Lá o indivíduo poderá trocar seus bitcoins pelas altcoins, que possuem grandes oscilações e enormes margens de lucro. Agora que você já sabe como funciona a compra e venda e de que forma são realizados os trades, fica a pergunta: Como você vai guardar seus bitcoins de maneira segura? O próximo tópico vai te ajudar da melhor maneira possível. 2.7. GUARDANDO SEUS BITCOINS COM SEGURANÇA Depois de comprar seus bitcoins, é a hora de transferi-los a um local seguro. A minha recomendação é sempre utilizar uma carteira de papel. Primeiro porque ela é extremamente segura pelo fato de ser off- line; segundo, você pode guardá-la onde quiser. Mas a grande questão que fica é: como criar uma paper wallet? Criar uma paperwallet é simples. Vou dividir em alguns passos para facilitar. 1º – Tenha um sistema operacional livre de vírus e outros malwares. 2º – Após se certificar de que seu sistema operacional é livre de pragas virtuais, acesse o site https://www.bitaddress.org/; 3º – Desconecte-se da rede. Se você for um pouco paranoico com segurança igual eu, desligue o modem. 4º – Mexa no mouse de maneira aleatória. Quando você fizer isso, aparecerá alguns pontinhos verdes e a porcentagem do progresso. Observe na imagem: (IMAGEM 8. Paper wallet. Print retirado em 10 de dezembro de 2019 às 20:20) 5º – Note que os pontos não seguem nenhuma sequência lógica, mas sim foram criados de maneira aleatória. Recomendo fazer isso para dificultar possíveis ações de hackers ou semelhantes. 6º – Depois de atingir os 100% e ainda fora da internet,imprima a página seguinte: https://www.bitaddress.org/ (IMAGEM 8. Paper wallet. Print retirado em 10 de dezembro de 2019 às 20:21) 7º – Após imprimir, guarde a paperwallet em local seguro. 8º – Para receber novos bitcoins, compartilhe o endereço e/ou o QR CODE da esquerda, isto é, a chave pública. 9º – Caso queira vendê-los, você deverá importar sua carteira de papel para algum aplicativo que cumpra essa função. 10º – O aplicativo que uso para importar os bitcoins é da Blockchain.com. Veja que você irá transferir seus fundos de uma paper wallet (carteira off-line) para uma hotwallet de aplicativo (carteira on- line). Após a transferência, você deverá descartar a carteira de papel. Para importar seus bitcoins de uma paper wallet é fácil. Faça da seguinte forma: Depois de instalar o aplicativo da Blockchain.com você deverá clicar em Painel como a imagem monstra. Posteriormente você deverá entrar no menu Endereços: Em seguida, clique em Endereços importados: Então você utilizará a câmera do seu smartphone para escanear a chave privada da paperwallet. Após o escaneamento, os bitcoins presentes na carteira de papel vão direto para a hotwallet do aplicativo, podendo ser enviados para qualquer endereço. Depois de realizar o procedimento, você deverá descartar a carteira de papel anteriormente usada. Caso queira recolocar seus bitcoins em outra carteira de papel, é só repetir o processo presente nos pontos 1 ao 6º. Agora você já sabe como comprar e guardar de maneira segura. Mas como é classificada a operação de compra e venda de bitcoins? É transação financeira? Vire a página e você descobrirá a resposta. 2.8. TRANSAÇÃO DE BITCOIN É OPERAÇÃO FINANCEIRA? Com o desenvolvimento da ciência, a vida humana sofreu impactos em várias áreas. Em relação às finanças, percebe-se que a tecnologia trouxe diversos benefícios: comodidade, segurança e transparência nas transações. As operações com dinheiro no mundo estão se tornando raras. Apesar de existir certas culturas[54] que priorizam essa forma de pagamento, o uso dinheiro em espécie está sendo extinto na Holanda, Suécia e demais países escandinavos[55], por exemplo. O uso das cédulas está sendo lentamente substituído por outros meios. Na China, o Alipay é mais comum que o próprio dinheiro[56]. Em meio a essa evolução, fica a pergunta: pagar uma conta por meio de um aplicativo de celular é transação financeira? Aliás, o que configura uma transação financeira? Transação financeira é toda operação que envolve dinheiro. Um exemplo é quando você compra um carro ou paga o aluguel com suas cédulas ou com cartão de crédito/débito. Por outro lado, se você compra uma casa e o “pagamento” é feito com um veículo, você está fazendo uma permuta. Para a Comissão de Valores Mobiliários, o Bitcoin não é um ativo financeiro[57], mas sim um bem. Mas o que o Banco Central tem a dizer sobre o assunto? Em 2017, o Banco Central era avesso à tecnologia. A instituição alertou que as criptomoedas não são supervisionadas e nem garantidas por autoridade alguma[58]. Já em 2019 o Banco Central do Brasil se posicionou de forma diferente. Por causa de uma recomendação do FMI, a autarquia abordou o tema de maneira mais amigável. Ela classificou o Bitcoin como bem para fins de balança de pagamentos das instituições bancárias centrais. Foi categorizado como “ativo não financeiro produzido, o que implica sua inclusão na conta de bens da balança de pagamentos”[59]. Segundo a Contabilidade, ativo é o conjunto de bens e direitos com a possibilidade de gerar renda para quem os possui. Devido ao seu potencial de valorização causado pela escassez pré-programada, o Bitcoin é classificado como um bem, no subgrupo dos ativos não financeiros. Conforme foi explicado no capítulo anterior, a aquisição inicial de bitcoins é realizada quando o comprador troca sua moeda fiduciária pelas unidades da criptomoeda. Mas o que é moeda fiduciária? A palavra fiduciária vem de fidúcia, que significa confiança. De outra maneira: você é obrigado (lembra do curso legal?) a confiar em quem a emite. A moeda fiduciária é o papel colorido emitido pelos governos: Dólar, Real, Euro e Bolívar. Em relação aos bitcoins, a partir da posse ele pode usufruir da maneira que quiser: vender, doar ou utilizar para pagar dívidas. Este último processo é conhecido como dação em pagamento[60]. Quando o indivíduo revende, ele realiza uma operação financeira porque ele vai receber moeda fiduciária de quem compra. Após o envio do dinheiro, são transferidos os bitcoins à carteira de destino. Quando é doado, há somente a movimentação de uma wallet pra outra. Notamos que a transferência entre as carteiras se faz pela rede Blockchain, após aprovada pelos nós[61] e por eles registradas no livro- razão virtual. Por meio de rede própria, um bem é transferido de um local a outro. Dessa forma, quando o indivíduo envia seus bitcoins para outra carteira sobre seu controle, há somente uma mudança de lugar, semelhante ao que fazemos com os móveis da casa. Por outro lado, quando há uma transferência de unidades de Bitcoin da carteira de João para a carteira de Maria, ocorre a movimentação de uma wallet a outra. Somente será uma transação financeira quando, na negociação, há a presença de moedas fiduciárias. Vemos que quando as unidades de Bitcoin são enviadas à carteira de uma corretora e são trocadas por altcoins[62], há uma permuta. Aqui também não há transação financeira. Desse modo, as transações envolvendo criptomoedas podem ser de diversos tipos, financeiras ou não. No vídeo intitulado Bitcoin In Uganda[63], é visível a utilização da rede Blockchain como um meio de driblar as altas taxas cobradas pelas empresas especializadas em remessas Western Union[64] e MoneyGram[65]. As taxas cobradas por essas empresas giram em torno de 10% (dez por cento) a 20% (vinte por cento), o que é absurdamente maior ao exigido pelos mineradores para aprovar a sua transação. As transações realizadas por essas empresas, além de serem caras, podem demorar cerca de dois dias[66], diferentemente do que ocorre na Blockchain: você pode movimentar o quanto quiser, pagando bem pouco por uma operação quase instantânea. Como falado anteriormente, em junho de 2018 um usuário movimentou 48.500 bitcoins[67] pagando uma taxa de 0.00000675 bitcoins. Em termos matemáticos, a taxa é inferior a 0,00000139175% do valor da transação. Como é mostrado no vídeo Bitcoin in Uganda, a rede Blockchain é utilizada não só para “burlar” as altas taxas das remessas, mas também para enviar ao jovem um bem valioso e demandado no país em que mora. Assim, é exibido que as unidades de Bitcoin são compradas por Ronah Nansubuga, no Brooklyn, nos Estados Unidos. Depois, pela rede Blockchain, são enviadas à hotwallet do celular de Ronald, seu irmão mais novo, que mora em Makindye, Uganda. Depois de recebidas as frações de Bitcoin, Ronald negocia com comerciantes locais em troca de Xelins Ugandeses para realizar suas compras diárias. Portanto, no primeiro momento, existe uma transação financeira: a compra de unidades de bitcoins com dólares. Posteriormente, é feito o envio pela rede Blockchain à carteira do celular de seu irmão mais novo, sendo uma simples movimentação de bens de um lugar a outro. No fim, há a venda das criptomoedas em Uganda, quando são trocadas pela moeda local, caracterizando outra transação financeira. Assim, só há transação financeira quando envolve moeda fiduciária. Em relação ao que ocorre na Blockchain, é simplesmente uma mudança de unidades de Bitcoin de uma carteira para outra. Por falar em moedas fiduciárias, existe uma Lei da economia que se aplica a elas e também ao Bitcoin. Ela está presente toda vez que você decide entre gastar, guardar ou investir seu dinheiro. Quer saber qual é? No próximo tópico ela estará esperando por você 2.9 A LEI DE GRESHAM E O BITCOIN Por mais que o Bitcoin não seja uma moeda conforme o conceito publicista, ele reúne todas as características e funções monetáriasdo modelo privatista. Porque, além de vir do mercado, também possui as seguintes qualidades: é um meio de troca; é divisível; é reserva de valor; é indestrutível; é facilmente transferível; e facilmente transportável. Além disso, devido à escassez pré-programada, o seu valor tende a aumentar conforme o tempo passa. Dessa forma, o Bitcoin é deflacionário, tornando-se uma “moeda” boa, enquanto o inflacionário papel colorido do estado se torna uma moeda ruim. A Lei de Gresham, por sua vez, afirma que uma moeda artificialmente sobrevalorizada tende a tirar de circulação aquela artificialmente subvalorizada. Imagine que, lá no século XVIII, um comerciante possuísse 50 moedas de ouro, cada uma com a estampa governamental do número 10, o equivalente ao seu peso em gramas. Porém, pelo fato de ele as utilizar no dia a dia, algumas delas sofreram um desgaste muito maior que as outras, perdendo parte de sua massa em ouro. Por força de Lei, o estado determina que elas tenham o mesmo valor monetário. Nesse sentido, o comerciante usará somente as moedas desgastadas, guardando as outras mais novas e com maior massa de ouro. Em outras palavras: moedas ruins expulsam as boas do mercado. A Lei de Gresham surgiu devido à criação das Leis de Curso Forçado. Essas normas, como visto antes, instituem uma moeda como padrão de valor monetário. Dessa forma, o comerciante é obrigado a aceitá-la como forma de pagamento. Caso se recuse, ele cometerá uma contravenção penal.[68]. Essa impossibilidade de recusa prejudica os vendedores e outros comerciantes. Em países com histórico inflacionário, a Lei permite que os devedores paguem suas dívidas com uma moeda ruim. Por consequência, após o pagamento do débito, ela já não tem o mesmo valor de antes. Dez mil reais hoje não tem o mesmo poder de compra de dez mil reais amanhã. Às vezes a moeda está tão desvalorizada que ao invés de ser contada, ela é pesada, como ocorre com o Bolívar Venezuelano[69]. Vemos que há um controle absurdo do governo sobre a moeda. Por exemplo, no Brasil da década de 80, o dólar foi cotado a um preço fixo de Cz$ 13,84 cruzados[70]. Sim, a força da caneta governamental determinou o preço do dólar no país. Por causa disso, tanto as pessoas comuns quanto os grandes investidores utilizavam o cruzado para pagar pelos bens de consumo e armazenavam dólares: Quem podia deixava seu dinheiro fora do Brasil; quem não podia guardava a moeda americana embaixo do colchão. O controle de preços exercido fez com que não houvesse mais produção, estimulando a importação de bens, pagos em dólares. Como consequência dessa saída de dólares do país, o preço disparou, gerando um círculo vicioso. Com o intuito de frear esse aumento e exercer o controle sobre as moedas estrangeiras no Brasil, foi editada a Lei 7.492/86. Ela prevê o crime de Evasão de Divisas que penaliza tal prática. Já em relação ao Bitcoin, a Lei de Gresham também age. As pessoas não o usam como meio de troca, mas sim como uma reserva de valor. Ele é visto como um ouro virtual. Quem entende seus fundamentos não procura outro investimento fora do mundo digital. Os “Hodlers” preferem ter todo o seu patrimônio em Bitcoin, tendo moeda fiduciária só para seus gastos diários. A Lei de Gresham em ação. Os traders por sua vez, fazem as negociações sempre visando o aumento da quantidade de bitcoins. Já em relação à moeda, a Lei de Gresham tende a deixar no mercado a moeda fiduciária e expulsa o Bitcoin. Dessa forma as pessoas ignoram a característica de meio de troca para bens e serviços, e valorizam mais a reserva de valor da criação de Satoshi Nakamoto. Ele só é trocado realmente por outros ativos que tendem a valorizar. Após a valorização, esses ativos são vendidos para que o indivíduo aumente seu patrimônio em bitcoins. Um exemplo clássico é aquelas pessoas que, por causa do aumento patrimonial decorrente da valorização do Bitcoin, vendem os seus bens materiais para obtê-lo em maior quantidade. Por consequência, reduzem drasticamente seu padrão de consumo, adotando uma vida extremamente simples e comprando mais unidades na esperança de valorização[71]. Com isso é possível notar a aplicação prática da Lei de Gresham: As pessoas entesouram o Bitcoin e utilizam o papel colorido do estado somente para as despesas obrigatórias com alimentação, moradia, saúde e etc. É o que faz a grande maioria dos hodlers: deixam seu patrimônio todo em Bitcoin, porque, devido à escassez, cada Satoshi fica mais difícil de conseguir conforme o tempo passa. Nesse mesmo sentido, o holandês Didi Taihuttu vendeu todos os seus bens materiais para comprar a criptomoeda. Ele e sua família têm um estilo de vida minimalista e viajam o mundo só com o que julgam realmente necessário[72]. Dessa forma, os que possuem grandes somas de Bitcoin hoje tendem a viver uma vida simples, sem luxos e sem ostentação. Ser visivelmente pobre virou moda mesmo que a quantidade de bitcoins na wallet seja capaz de comprar qualquer carro disponível no mercado, independente do seu preço 3. AS ANÁLISES DO CRIME Este capítulo faz uma avaliação do crime de Evasão de Divisas. Do ponto de vista Legal, será feita uma leitura completa do artigo, desde aquilo presente no caput até as práticas previstas no parágrafo único. A doutrina, por sua vez, vai classificar o crime em relação ao que o agente faz, o meio utilizado para cometer o crime e o potencial lesivo ao bem protegido pela lei. No que diz respeito à jurisprudência, várias decisões sobre o delito serão analisadas, tanto as sentenças que abordam a prática criminosa quanto os acórdãos que delimitam o que de fato é divisa. 3.1. O CRIME DE EVASÃO DE DIVISAS Com o progresso da sociedade, o mercado financeiro também evoluiu. A interligação da economia mundial permitiu a criação de câmbios entre as moedas dos diversos estados soberanos. Essa prática tinha como objetivo a conexão de pessoas e a fácil negociação de bens. Conforme vimos na teoria privatista abordada no capítulo anterior, a moeda tem origem no mercado. Depois da monopolização da cunhagem e a criação do banco central, o estado agora determina o que é dinheiro e emite o quanto quiser, quando bem entender. Essa prática deu fundamento à teoria publicista hoje adotada no mundo inteiro. É importante lembrar o contexto histórico em que a Lei 7.492/86 foi criada. Em 1986, o Brasil vivia uma situação financeiramente caótica: hiperinflação, controle de preços e escassez de bens e serviços. O controle era tão grande que o dólar foi cotado, a um preço fixo de Cz$ 13,84[73] (treze cruzados e oitenta e quatro centavos). Já em relação aos bens de consumo, foi criada a tabela da Superintendência Nacional de Abastecimento - SUNAB, publicada nos jornais e fixada nos supermercados. Ela listava o preço que cada item deveria custar. As pessoas saíam com a tabela em mãos e fiscalizavam os supermercados que praticavam preços divergentes. Surgiram assim os fiscais do Sarney. No começo foi tudo dando certo: As pessoas tinham um relativo poder de compra e os mercados que praticavam preços acima da tabela eram fechados. Infelizmente, as consequências foram aparecendo: Ao mesmo tempo que todas as pessoas queriam comprar por causa do preço tabelado, ninguém queria produzir pelo mesmo motivo. Esse controle de preços foi comum entre 1980 e 1990. Os resultados foram prateleiras vazias, filas para compra de mantimentos e o nome década perdida. Os fiscais do Sarney eram os mocinhos que queriam colocar comida na mesa mandando a polícia prender o dono do mercado. Pelo visto na cabeça dessas pessoas tem mais vento que biscoito de polvilho. Por causa da ausência de bens de consumo, houve uma redução nas exportações e um aumento nas importações. Dessa forma, as reservas de dólares do estado brasileiro esvaziaram. Para frear a escassez, o Congresso Nacional aprovou a Lei 7.492/86, apelidada carinhosamente de “Lei dos Crimes de Colarinho Branco”. A necessidade de evitar a desvalorização da moeda, controlar as operações financeiras e conter a inflação,resultaram na ocorrência desse expansionismo do direito penal. Com a finalidade de impedir a saída de dólares do país, foi criado o delito de Evasão de Divisas, presente no artigo 22[74] da Lei. Para que seja feita uma análise ideal, vamos à definição de crime. De maneira resumida, crime é um fato típico, antijurídico e culpável. Traduzindo: É toda ação ou omissão descrita pela lei, contrária à ordem jurídica e realizada por alguém que pode ser responsável. Para que um crime ocorra são necessários alguns requisitos: a) a conduta (ação ou omissão) do autor, que pode ser dolosa ou culposa; b) o nexo de causalidade, c) o resultado, e d) a tipicidade. A conduta é o agir do indivíduo. Ela é dividida em duas: Dolosa e culposa. A primeira é aquela que o indivíduo quer ou assume o risco de produzir o resultado. Já a segunda existe quando o indivíduo por negligência, imprudência ou imperícia dá causa ao resultado sem querer. Quando Quico, por livre e espontânea vontade, joga a bola no Chaves, a conduta é dolosa. No momento em que o Chaves, querendo jogar a bola no Quico, acerta de maneira imprudente o Sr. Barriga e diz que foi “sem querer querendo”, a conduta é culposa. O nexo de causalidade e o resultado merecem também uma explicação. O primeiro é o elo entre o ato de jogar a bola e a bolada propriamente dita. O segundo é a lesão causada. O resultado pode ser dividido em dois tipos: jurídico e material. O resultado jurídico é aquilo desaprovado pela norma, já o resultado material é a lesão ao bem protegido por ela. Em outras palavras: O primeiro é a proibição de causar a lesão corporal; o segundo é a lesão àquilo protegido pela norma, ou seja, a integridade física do Sr. Barriga. Já a tipicidade é o encaixe da conduta do indivíduo no que está previsto na norma e que pode ser dividida em duas: a formal e a material. A tipicidade formal é o enquadramento perfeito da conduta do indivíduo naquilo que a norma prevê. Já a material, por sua vez é ato de causar a lesão. A primeira é a lesão corporal leve prevista no Código Penal, a segunda é a bolada propriamente dita. Depois dessa breve explicação, vamos à análise do crime. Após uma leitura, nota-se que há na cabeça do artigo: Efetuar operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover evasão de divisas do País. É um crime material, ou seja, além do resultado jurídico, é exigido também um resultado material. No furto, há a subtração do patrimônio; e na primeira modalidade do crime de Evasão de Divisas, há a realização da operação de câmbio não autorizada. Por outro lado, no parágrafo único há a seguinte previsão: Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver depósitos não declarados à repartição federal competente.[75] Há duas modalidades de crime: o ato de promover, considerado um crime material; e, o ato de manter, o que a doutrina classificaria como um crime de mera conduta. O crime formal ou de mera conduta é aquele que ocorre mesmo não existindo resultado material. Dessa forma, o legislador dispensa a ocorrência de um dano. Em relação à operação de câmbio prevista no caput, nada mais é que a simples troca de uma moeda por outra, devendo ser realizada por meio de uma instituição financeira autorizada pelo Banco Central. Se a negociação ocorrer sem autorização do BACEN, será entendida como uma operação de câmbio não autorizada. Quando se menciona operação de câmbio não autorizada é necessário observar que a expressão não possui o mesmo sentido do termo sem autorização legal, previsto no parágrafo único do artigo 22 da Lei 7.492/1986. A expressão não autorizada faz referência àquelas operações de câmbio realizadas em desconformidade com as normas cambiais vigentes, como aquelas feitas no mercado paralelo, por exemplo. O crime em análise é considerado uma lei penal em branco, porque depende de complementação de atos administrativos do BACEN. O Banco Central do Brasil é uma instituição do sistema financeiro nacional e é responsável pela execução das resoluções do Conselho Monetário Nacional. Em relação ao crime descrito no artigo 22 da Lei 7.492/1986, sabemos que as operações de câmbio e as remessas de valores para o exterior, como também o controle da declaração de valores mantidos fora do país, são todos regulamentados pelo BACEN. Em relação a quem pratica e quem sofre o crime, o primeiro poderá ser qualquer pessoa maior de idade e o segundo somente será o Estado. Por outro lado, em relação às práticas criminosas, o artigo prevê duas modalidades de condutas. No caput é previsto o verbo efetuar; no parágrafo único, os verbos promover e manter. Manoel Pedro Pimentel diz que: O verbo efetuar, com o significado de tornar feito, fazer, realizar, indica também uma ação positiva, que caracteriza um crime comissivo, de resultado natural e, portanto, um crime material. Na modalidade manter, o crime é de mera conduta, de caráter permanente, requisitando a habitualidade. (PIMENTEL, 1987, p. 157) Percebemos que as palavras efetuar e promover são verbos que exigem uma ação prática. Por outro lado, o verbo manter requer habitualidade, não sendo suficiente para a caracterização do crime o ato ocasional. Outra consideração a ser feita é a presença do dolo no delito do caput[76]. Ele indica precisamente a finalidade, ou seja, com qual intenção o suspeito age: Com o fim de promover evasão de divisas do país. No momento em que o objetivo específico do indivíduo é previsto no texto do artigo, há uma restrição enorme no campo da repressão penal. Somente existirá crime quando ele viabilizar a saída clandestina das divisas. Se João comprar dólares no mercado paralelo com o intuito de efetuar um pagamento no exterior, não existirá crime porque a finalidade dele é diferente daquela prevista no caput do tipo penal[77]. Em outras palavras: Se o indivíduo efetuar uma operação de câmbio não autorizada sem o intuito de promover a evasão de divisas do país, não haverá crime. Por outro lado, só ocorrerá o crime existente no parágrafo único se a divisa de fato sair do país, supostamente lesando o bem protegido pela lei. Um outro detalhe a ser considerado é que o artigo em análise é uma Lei Penal em branco, isto é, faz referência a uma outra norma. As expressões não autorizada e sem autorização legal, presentes no caput e no parágrafo único, respectivamente se referem a uma manifestação jurídica emitida por uma autoridade competente do âmbito econômico/financeiro, conforme o artigo 65 da Lei 9.069/95[78]. O art. 65 permite ao Banco Central dispor sobre os limites e as condições de entrada e saída de moeda nacional e estrangeira do país. Além disso, exige que essas operações só possam ser realizadas exclusivamente por meio de instituição autorizada pelo BACEN, desde que identifiquem o cliente ou beneficiário. De forma contrária ao artigo 65 da Lei, agem os doleiros. Eles praticam o delito de evasão de divisas em duas das três modalidades presentes no artigo 22 da Lei 7.492/86: Realizam operação de câmbio não autorizada com o fim de evadir divisas e promovem sem autorização a saída de moeda do país. O autor Leandro Bastos Nunes explica como os doleiros agem: Podemos citar três espécies de operações típicas complementares bastante encontradas em investigações criminais: na primeira, um cliente entrega, em espécie ou por transferência bancária, reais a um “doleiro” no Brasil, o qual disponibiliza moeda estrangeira em taxa pré-ajustada, em favor do seu cliente, no exterior, em reais ou por transferência bancária; na segunda, o cliente recebe do doleiro, no Brasil, em reais, recursos em moedas estrangeira que mantinha no exterior e que disponibilizou lá fora ao “doleiro”; a terceira, o “doleiro” aproveita a existência simultânea de cliente nas duas posições anteriores e determina a troca de recursos entre esses clientes, no Brasil e no exterior, atuando como um banco de compensações, isto é, movimentando recursos sem que nada passe por contasde sua titularidade. (NUNES, 2017) Com destaque ao delito da primeira parte do parágrafo único, a violação da norma se dá quando o indivíduo cruza a fronteira do país com quantia superior a R$ 10.000,00 (dez mil reais), sem a devida Declaração de Porte de Valores, seja saindo do país ou nele entrando. Embora seja necessária a DPV para que não haja o crime, a existência do tipo penal dificulta a vida de viajantes e demais turistas. Muitas pessoas viajam com dinheiro em quantidades muito superiores ao exigido pela Lei para pequenos gastos durante a viagem, sem essa declaração. Outras pessoas, por residirem em países de moeda forte, vêm ao Brasil com um numerário pequeno da moeda de seu país de origem. Qualquer quantia razoável ultrapassa facilmente os R$ 10.000,00 (dez mil reais). Infelizmente, por desconhecimento, esses turistas não portam esse documento. No julgamento do Habeas Corpus 03069836[79], o TRF da 3ª Região já decidiu a respeito. O Tribunal afirma que o turista não é obrigado a submeter a moeda que carrega consigo à fiscalização das autoridades. Mas, se em uma revista posterior é descoberta a posse de dinheiro que supera o determinado pela norma, existe a tentativa do crime de Evasão de Divisas. Por outro lado, quando indivíduo desconhece a norma e consequentemente não sabe da obrigatoriedade do porte da DPV, ele se enquadra em erro de proibição, uma excludente de culpabilidade. Conceito extra para os que não são familiarizados com o Direito: Erro de proibição é uma excludente de culpabilidade. Em português simples, é aquilo que elimina a possibilidade de o indivíduo ser punido. Imagine o caso do holandês que chega ao Brasil e começa a fumar maconha. Do ponto de vista legal, ele está cometendo um crime previsto na Lei 11.343/06.[80] Mas pelo fato de no seu país de origem o consumo de drogas ser liberado, ele pensou que aqui também fosse. Ele desconhecia a proibição. Daí vem o nome: Erro de proibição. Caso semelhante ao do holandês ocorreu no processo 200151015396206[81]. A segunda turma do TRF da 2a Região julgou, em 2006, um turista pela prática do crime naquela modalidade presente na primeira parte do parágrafo único. Por mais que seja óbvia a autoria do crime, o turista desconhecia o porte da DPV, porque não tinha conhecimento do Direito Financeiro brasileiro. Por outro lado, o TRF da 2a região, no julgamento do Acr- 200202010026385[82], se posicionou de maneira diferente. Foi julgado inexistente o erro de proibição alegado pela defesa. O tribunal decidiu que, se o indivíduo sabe que portar muito dinheiro e não comunicar à Receita Federal é ilícito, teoricamente estaria praticando o crime. Há de se analisar também a modalidade evasão-depósito, presente na segunda parte do parágrafo único do artigo 22. Bittencourt e Breda dizem que é crime a ação de manter no exterior depósitos não declarados à repartição federal competente. Segundo os autores, a conduta incriminada pode ter como objeto um depósito feito no Brasil ou um depósito feito no exterior. No primeiro caso, o depósito pode ter sido feito fora do Brasil com origem em operação de câmbio autorizada. Se depois o indivíduo não declarar à repartição federal competente a manutenção desse depósito no exterior, será caracterizada a evasão imprópria, ou evasão-depósito. Nesse sentido, poderá haver progressão criminosa se o depósito realizado no Brasil tiver origem no mercado paralelo, porque o indivíduo praticará tanto a evasão-operação quanto a evasão-depósito. No segundo caso, quando o depósito for feito e mantido fora do Brasil, o indivíduo continua obrigado a fazer anualmente ao Banco Central sua declaração de bens ou valores mantidos no exterior. Além disso, esses mesmo bens devem estar previstos na declaração de Imposto de Renda, exigida pela Receita Federal. Existem duas obrigações: Uma com a Receita Federal e outra com o Banco Central. A primeira se refere ao aspecto tributário e fiscal; a segunda, ao aspecto financeiro e cambial. Até dezembro de 2001, ambas as obrigações eram cumpridas com uma só repartição competente, a Receita Federal. Isso facilitava muito a vida do “contribuinte”[83]. Mas a partir de 2002, isso mudou. O contribuinte agora tem uma obrigação tanto com a Receita quanto com o Banco Central[84], emitindo assim uma declaração para cada órgão. Dessa forma, a burocracia aumenta e dificulta ainda mais a vida de quem tem patrimônio fora do Brasil. O Banco Central do Brasil, como autoridade competente, passou a editar Cartas Circulares. Essas normativas estabelecem que pessoas com patrimônio fora do Brasil devem informar à instituição bancária, por meio da Declaração de Capitais Brasileiros no Exterior, se o montante for superior a USD 100.000,00 (cem mil dólares)[85] Além disso, ele também fiscaliza e regula o mercado de câmbio, permitindo que as instituições financeiras possam operar nesse mercado, diretamente ou por meio de seus representantes. Por consequência, as operações devem ser registradas por essas instituições, cujo controle é feito posteriormente pelo Banco Central, não sendo necessária prévia autorização para que o câmbio se realize. O BACEN define como não autorizado e ilegal o câmbio clandestino ou fraudulento, caracterizado pela aquisição de moeda estrangeira no mercado paralelo ou em atividades ilícitas. Nesse sentido, se o indivíduo tiver a finalidade de promover a evasão das divisas obtidas neste mercado paralelo, cometerá o crime descrito no caput do artigo 22. Além disso, existe diferença entre os tipos de dolo previstos no artigo. Na modalidade criminosa do caput, o indivíduo precisa ter de fato a intenção de efetuar a saída clandestina das divisas do País para que exista o crime. Já no parágrafo único, há a presença de um dolo genérico no trecho a qualquer título. Ou seja: a lei pouco se importa com a intenção do indivíduo. Se ele cruzar a fronteira do País com dinheiro acima do permitido, estará cometendo o crime. Nesse sentido, para ocorrer o crime não é exigida uma finalidade específica, ao contrário do previsto no caput do artigo. Pela abrangência do texto, diversas condutas poderiam configurar o delito, independente da sua finalidade[86]. A rede de repressão é tão grande que pode incriminar inocentes. Imagine que você juntou dinheiro durante o ano inteiro para viajar a Europa. Com um mês de antecedência, decide comprar € 3.000,00 (três mil euros) para pequenos gastos durante a viagem. Para evitar ficar abrindo as malas quando chegar, decide carregar essa quantia em uma pequena bolsa de mão. Infelizmente, ao passar pelo Raio-X do aeroporto, os servidores da Receita percebem, chamam a Polícia e você sai de lá direto para o presídio. Triste, não? Pois é, mas a lei dá essa margem de interpretação. Essa mesma interpretação permite que as autoridades prendam turistas estrangeiros que decidam sair do país, como ocorreu em Guarulhos em 2019. Quatro israelenses estavam tentando ir para a Turquia portando U$ 50.000,00 (cinquenta mil dólares). Talvez por desconhecimento, não declararam a quantia ao Fisco[87]. Foram presos e encaminhados ao presídio estadual de São Paulo. No melhor dos casos, as autoridades promoveriam revistas vexatórias em passageiros nos aeroportos, aduanas de embarques ou de fronteiras. A finalidade é apreender a moeda estrangeira cujo valor ultrapasse o limite legalmente fixado, sujeitando os faltosos a processo criminal. Talvez não tenha sido essa a intenção do legislador, mas o que está escrito permite essa interpretação. Juridicamente correta, mas moralmente injusta. A abrangência da norma pune condutas como a do italiano Césare Battisti, preso em outubro de 2017 quando tentava ir à Bolívia com € 1.300,00 (mil e trezentos Euros) e USD 6.000,00 (seis mil Dólares), afirmando às autoridades que pretenderia pescar e passear no país vizinho[88]. É fácil perceber que a norma, além de abrangente, pune condutas aparentemente não ofensivas. Assim, a lei permite às autoridades que, com o intuito de investigar, causem vexames desnecessáriosa ponto de desconfiarem de qualquer indivíduo que porte alto numerário em espécie[89]. Já no crime da segunda parte do parágrafo único, o dolo do indivíduo também é genérico. Independentemente da finalidade, seja ela a simples ocultação patrimonial, ou até mesmo a realização de investimentos no exterior, a lei criminaliza a conduta se não houver a comunicação ao BACEN, quando os valores forem superiores a U$D 100.000,00 (cem mil Dólares). Na operação Lava Jato, ficou visível que funcionários da Petrobras abriam contas em paraísos fiscais, em nome de empresas fantasmas – as offshores – para o recebimento de propina. Geralmente criadas para fins lícitos, as offshores tiveram seu uso deturpado por criminosos. São constituídas por residentes do dito paraíso fiscal – o laranja ou o trust – que outorgam procuração com amplos poderes ao verdadeiro dono, isto é, aquele que infringe a lei. Agindo de maneira fantasma, ela não realiza nenhum tipo de atividade empresarial, possuindo não mais que um endereço fixo para o recebimento de correspondências[90]. O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, foi condenado por Corrupção Passiva, Lavagem de Dinheiro e Evasão de Divisas por manter U$D 5.000.000,00 (cinco milhões de dólares) em um banco suíço[91]. Outro condenado pelo mesmo crime é Marcelo Augusto de Barros Sanches Ponce, cotista do Opportunity Fund, fundo de investimento sediado nas Ilhas Cayman. Segundo o Ministério Público Federal, ele mantinha U$D 180.900,00 (cento e oitenta mil e novecentos) dólares aplicados no exterior entre os anos de 1997 e 2003, que não foram declarados às autoridades, e posteriormente descobertos na operação Satiagraha. De 60 investidores, ele foi o único condenado pela prática, por possuir mais de U$D 100.000,00 (cem mil) dólares não declarados às autoridades competentes. Seu advogado afirmou que ele possuía uma cota no fundo equivalente a U$D 80.000,00 (oitenta mil) dólares.[92] Provavelmente a sua cota valorizou e ultrapassou o limite estipulado pelo Banco Central. Percebemos aqui que a interpretação do termo depósito adotada pelo Superior Tribunal de Justiça não se restringe apenas àquele feito em uma conta no exterior. A interpretação teleológica, adotada pelo STJ, busca extrair a finalidade da Lei. Portanto, o termo depósito inclui também títulos de crédito e ativos financeiros.[93] O alcance do crime de Evasão de Divisas é intrigante pelo fato de que é uma norma incompleta. Dessa forma, depende da edição de textos complementares por uma instituição reguladora. Esse fato causa uma insegurança jurídica enorme, porque é uma norma penal que depende da vontade de uma instituição bancária. Por não ser do seu ramo de atuação, os princípios penais são desconhecidos pela instituição bancária. Assim, pode haver ofensa aos princípios da lesividade e intervenção mínima. Além do mais, o próprio legislador ofende o princípio da legalidade ao dar essa possibilidade a uma instituição do poder executivo, porque a criminalização de condutas deve ser feita por meio de Lei em sentido estrito e não através de Cartas Circulares ou outros instrumentos jurídicos. Vemos, aliás, que a norma quis punir diversas condutas ao abranger o dolo do crime no trecho a qualquer título, incriminando inocentes. Entretanto, para que uma prática seja considerada crime, ela deve ofender ou criar perigo para um bem protegido pelo Direito. Mas fica uma pergunta: O crime de Evasão de Divisas realmente ofende o bem jurídico protegido pela Lei? Vire a página e descubra. 3.2. O QUE A LEI PROTEGE E COMO O SUSPEITO AGE De acordo com os princípios que regem o Direito Penal, para que haja o crime, é necessário a lesão ao bem protegido pela norma ou simplesmente colocá-lo em perigo. Importante também é o meio que o indivíduo usa para praticar o crime, isto é, a moeda ou divisa enviadas modo irregular ao exterior. O instrumento crime é a divisa, cujo significado depende da definição de dicionários etimológicos, jurídicos e econômicos. A expressão divisa é tratada de maneira diferente pelos dicionários. Devido ao progresso da sociedade, o significado da palavra foi também evoluindo. De acordo com os glossários etimológicos, a palavra tem origem no vocábulo “divícia”, significando riqueza[94]. Os dicionários linguísticos, por sua vez, afirmam que a expressão trata só das moedas estrangeiras que uma nação possui e os títulos de crédito[95]. O livro dos vocábulos econômicos apresenta definição semelhante àquela mostrada nos glossários linguísticos. Entretanto, juridicamente o significado de divisa é mais restrito. Maria Helena Diniz afirma que Divisa é: 1.Direito internacional público a) Disponibilidade de cambiais possuídas por uma nação em praças estrangeiras; recurso de que dispõe um país no mercado internacional b) linha divisória entre dois países; fronteira. 2 Direito administrativo a) emblema ou insígnia b) linha divisória entre zonas administrativas. 3.Direito civil Linha limítrofe entre propriedades contíguas ou confinantes. 4. Direito militar. Distintivo de pano, colocado no braço, que indica a posição hierárquica das praças. 5. Direito agrário: Marca a fogo usada pelos criadores. 6. Direito cambiário: Saque de câmbio que pode ser emitido contra qualquer praça estrangeira, constituindo reserva que autorize pagamento do que ali se vier adquirir. (DINIZ, 2010,) (grifo nosso) Portanto, divisa é o que está associado ao que um país, ou mesmo particular (pessoa física ou jurídica) possui em moedas estrangeiras. Essas moedas são obtidas a partir de um negócio relacionado à sua origem[96] (exportação, empréstimo, investimento, ouro, cheques sacados no exterior, etc.). Nesse mesmo sentido, moedas e divisas são elementos que têm uma natureza econômica. Dependem desse entendimento para que haja a lesão ao bem jurídico protegido pela segunda e terceira modalidade do crime presentes no artigo 22 da Lei 7.492/86. Bem jurídico, de acordo com Roxin[97], é aquilo que deve ser protegido pelo Direito para a manutenção de uma vida livre e segura, a ponto de permitir a convivência social. Na mesma linha de raciocínio, Bianchi, Molina e Gomes afirmam que bem jurídico é aquele de enorme importância para o indivíduo ou para a sociedade. É o bem que, quando apresenta grande significado social, pode e deve ser protegido pelo Direito. A vida, o patrimônio, a liberdade sexual, o meio-ambiente e etc. são bens existenciais de grande relevância para o indivíduo. Quanto ao crime Evasão de Divisas, de acordo com Vitor Antonio Guazzelli Peruchin, o bem protegido pelo parágrafo único do artigo 22 é duplo: A preservação das reservas cambiais e a exação fiscal do Estado[98]. Inicialmente é importante definir o que é a exação fiscal do Estado. É o controle, por parte do Estado, do patrimônio tributável, presente no exterior, de pessoas físicas ou jurídicas com residência fiscal no Brasil[99]. Vale a pena ressaltar que a exação fiscal do estado é protegida por outra norma, a Lei 8.137/90. No Direito Penal existem princípios que devem ser seguidos pelo legislador antes de elaborar uma norma incriminadora. Um deles é o da especialidade. O princípio afirma que a incidência da norma especial afasta a da norma geral. Por exemplo, tanto na lei penal quanto na de trânsito estão previstos o homicídio culposo. Imagine que João está saindo de uma festa e decide ir para casa de carro. No trajeto, ele atropela Maria, que estava no ponto esperando o ônibus para ir trabalhar. Qual norma será aplicada nesse caso? O Código de Trânsito. É explícito quando o artigo 302 afirma: “Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor”. João estava dirigindo. Portanto, a ele não se aplica o Código Penal, mas sim o Código de Trânsito Brasileiro. Da mesma forma aqui. A exação fiscal do estado já é protegida pela Lei dos crimes contra a ordem tributária. Portanto, o estado não precisa utilizar outra norma para tutelar o mesmo bem. O mais controverso é que a Lei 8.137/90 exige um requisitopara que haja o crime: O lançamento tributário. Já no art. 22 da Lei dos crimes contra o sistema financeiro, essa condição não é necessária. A Lei 8.137/90 explica no inciso I do art. 1º que “constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo mediante a omissão de informação ou prestação falsa de declaração às autoridades fazendárias”[100]. Portanto, nota-se que a exação fiscal do Estado é protegida por uma norma específica. Segundo Luiz Regis Prado: O legislador, na cunhagem dos tipos contidos na lei Lei 8.137/90, tutela o Erário (patrimônio da Fazenda Pública) não no sentido simplesmente patrimonialista (ou individualista), mas sim como bem jurídico supra-individual de cunho institucional. Tem por escopo proteger a política socioeconômica do Estado, como receita estatal, para a obtenção dos recursos necessários à realização de suas atividades. Assim, essa concepção de Fazenda Pública como bem jurídico protegido implica também a “diminuição das possibilidades de o Estado levar a cabo uma política financeira e fiscal justa” A ideia de bem jurídico mencionada não se vincula de persi à função cumprida pelo tributo. (PRADO, 2014) Portanto, é explícito que o crime previsto na segunda parte do parágrafo único do art. 22 da Lei 7.492/86, além de não respeitar os princípios penais, desconsidera totalmente as garantias do “contribuinte”[101]. A preservação das reservas cambiais, por sua vez, pode ser representada de duas formas: A primeira faz referência ao estoque total de divisas do Banco Central; A segunda, de modo mais amplo, refere-se não somente ao estoque do BACEN, mas também ao patrimônio das instituições autorizadas a operar no mercado de câmbio. É importante deixar claro que os valores mantidos no exterior por pessoas não residentes no Brasil, ou até mesmo moedas adquiridas no mercado paralelo, não integram o conceito de reservas cambiais pelo fato de não estarem dentro dos registros da instituição bancária. A relevância das reservas cambiais[102] de uma nação tem influência direta na confiabilidade e desenvolvimento do sistema nacional. Qualquer instabilidade pode abalar seu funcionamento acarretando diversos problemas a um grande número de indivíduos[103]. Dessa forma, Vitor Antonio Guazzelli Peruchin afirma: Assim, entende-se que não se pode mais colocar em dúvida a grande importância que as reservas cambiais refletem ao patrimônio das nações, no sentido de emprestar confiança e equilíbrio, juntamente com seu crescimento e estabilidade econômica. São essas reservas que auxiliam no controle da valorização da moeda nacional, pela disponibilidade de moeda estrangeira no mercado, tendo reflexos diretos no controle da inflação, bem como nas negociações de importação e exportação. Por essa razão, as reservas cambiais dos países de economia mais vulnerável alcançam na maioria das vezes a categoria de bem jurídico. (PERUCHIN, 2006) Observamos que com a redução da taxa de juros de seus países de origem, investidores procuram aplicar seu dinheiro em outras nações cujos títulos públicos tenham maior retorno. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa é de 0,25% (vinte e cinco centésimos) ao ano[104]. Por outro lado, o COPOM (Conselho de Política Monetária) manteve a taxa de juros a 3,75% ao ano (três por cento e setenta e cinco centésimos)[105] o que estimula o investidor internacional a aplicar seu dinheiro no Brasil. Porém, essa política é vista de duas maneiras diferentes. Devido à disponibilidade maior de dinheiro estrangeiro no país, a sua oferta aumenta. Exemplo: se o preço do dólar no Brasil está cotado a R$ 4,00 (quatro) reais, significa que para cada unidade de moeda americana no país, existem 4 unidades da brasileira em circulação. Se o preço da moeda americana cai para R$ 2,00 (dois) reais, significa que há o dobro da sua quantidade no país. Oferta e demanda: Quanto mais dólares no Brasil, menor o seu preço em reais. A queda do preço do dólar prejudica as exportações criando sequelas sociais avassaladoras: fechamento de fábricas e demissões em massa. Este cenário é uma das consequências da globalização[106]. Como resultado dessa política caótica, o estado acaba se tornando um motivador da utilização do mercado de câmbio paralelo. Nesse mercado, destacamos a operação dólar-cabo. Ela é realizada por doleiros que recebem o valor no Brasil e determinam o pagamento fora do país, por meio de uma livre movimentação que possuem em instituições financeiras no exterior. Assim, essas negociações seguem à revelia do estado[107]. Vemos então que é um efeito cascata: A alta taxa de juros no país atrai o investidor internacional. Ele traz os dólares, aumentando a oferta da moeda americana, reduzindo seu preço no mercado oficial. Se o preço do dólar no mercado oficial é baixo, o exportador é prejudicado porque seu produto fica mais caro (a moeda americana fica com um poder de compra menor) e o comprador estrangeiro reduz as aquisições. Com a redução nas vendas, o comerciante decide negociar no mercado paralelo porque, pelo fato de o dólar ser escasso, o seu preço é mais alto. Assim os compradores têm um poder de compra maior, esvaziando o estoque dos vendedores. Pelo fato de o vendedor negociar seus produtos no mercado paralelo, ele acaba por cometer o crime de Evasão de Divisas, na modalidade prevista na primeira parte do parágrafo único. Mas há um pequeno detalhe: Ou o crime era cometido ou ele iria à falência. No tópico anterior foi abordado que um crime é toda ação ou omissão descrita pela lei, contrária ao Direito e realizada por alguém que pode ser responsável. Alguns atos cometidos em certas situações não são contrários ao Direito. Por exemplo, quando duas pessoas após um naufrágio disputam a única boia em que, por infelicidade, só cabe uma pessoa. Assim, Joãozinho mata Pedrinho para sobreviver. Esse é o chamado estado de necessidade. Podemos deduzir então que o vendedor vai negociar no mercado paralelo, porque se comercializar seus produtos pelo preço do dólar no mercado tradicional, o estabelecimento vai à falência. Logo notamos que o comerciante pratica o crime em estado de necessidade, já que essa seria a única forma de sobrevivência de seu estabelecimento. A conduta do vendedor se enquadra em duas excludentes: de ilicitude e de culpabilidade. A primeira, como já vimos, é um ato praticado em extrema necessidade, tornando-o não contrário ao Direito. A segunda excludente, por sua vez, é a inexibilidade de conduta diversa. Ela permite que o indivíduo pratique um crime e não seja responsabilizado, pelo motivo de não poder agir de outra forma. No caso da inexibilidade de conduta diversa, o vendedor se comportou dessa forma porque não havia outro modo. Somente agiu assim porque suas atividades comerciais poderiam ser interrompidas, sendo um dano muito maior do que uma eventual pena por uma prática de crime[108]. Por causa do fato de as reservas cambiais nacionais serem o principal objeto[109] protegido pela lei, concluímos que qualquer conduta que não lese ou não ameace sua integridade está fora do alcance da norma penal pela ausência de lesão.[110] Além disso, o termo evasão significa a saída clandestina do País. Nesse sentido, divisas são as moedas estrangeiras, os títulos ou ativos financeiros de que a nação dispõe, em poder de suas entidades públicas ou privadas. O estoque dessas divisas deve estar devidamente contabilizado nos balanços do BACEN, para que a instituição realize esse controle. As instituições privadas que atuam no país são obrigadas a informar ao Banco Central a quantidade de moedas que possuem, porque ele as readquire para fins de política cambial e para efeito de controle sobre a valorização do Real.[111] É notável que as reservas cambiais do país são importantes para a estabilidade econômica. Porém, fica a pergunta: O Direito Penal é hábil para protegê-las? Outros princípios importantes presentes no Direito Penal são os da subsidiariedade e da intervenção mínima. Os doutrinadores dizem que o primeiro é derivadoSISBACEN – Sistema de Informações do Banco Central do Brasil Short – operação em que o trader vende o ativo a valor presente acreditando que comprará mais barato no futuro. Trader – A pessoa que opera qualquer ativo financeiro com intuito de vende-lo mais caro, ou o vende para comprar mais barato no futuro. ÍNDICE 1. INTRODUÇÃO 2. O BITCOIN E AS OUTRAS CRIPTOMOEDAS 2.1. O QUE É BITCOIN? 2.2. OUTRAS CRIPTOMOEDAS PRESENTES NO MERCADO 2.2.1. ETHEREUM (ETH) 2.2.2. MONERO (XMR) 2.2.3. RIPPLE (XRP) 2.2.4. LITECOIN (LTC) 2.2.5. BINANCECOIN (BNB) 2.2.6. BASIC ATTENTION TOKEN (BAT) 2.3. AFINAL, É MOEDA OU NÃO? 2.4. É TÍTULO DE CRÉDITO, ATIVO FINANCEIRO OU BEM? 2.5. COMO O FISCO VÊ O BITCOIN? 2.5.1 COMO A RECEITA RASTREIA SUA VIDA FINANCEIRA 2.5.2 DEVO DECLARAR MEUS BITCOINS? 2.6. AS OPERAÇÕES ENVOLVENDO O BITCOIN 2.7. GUARDANDO SEUS BITCOINS COM SEGURANÇA 2.8. TRANSAÇÃO DE BITCOIN É OPERAÇÃO FINANCEIRA? 2.9 A LEI DE GRESHAM E O BITCOIN 3. AS ANÁLISES DO CRIME 3.1. O CRIME DE EVASÃO DE DIVISAS 3.2. O QUE A LEI PROTEGE E COMO O SUSPEITO AGE 4. BITCOIN E A EVASÃO DE DIVISAS 4.1. CRIPTOMOEDAS E A CONDUTA 4.2. HÁ LESÃO AO BEM JURÍDICO? 4.3. BITCOIN É DIVISA? 5. OS CRIMES MAIS COMUNS ENVOLVENDO O BITCOIN 6. COMO A POLÍCIA PRETENDE RASTREAR OS CRIMINOSOS 6.1. O PROCEDIMENTO INVESTIGATIVO 6.2. A AÇÃO POLICIAL NA PRÁTICA 6.2.1 O INTERROGATÓRIO 6.3. OS SOFTWARES UTILIZADOS 7. PALAVRAS FINAIS 8. REFERÊNCIAS 9. SOBRE O AUTOR 10. POSSO TE PEDIR UM FAVOR? 1. INTRODUÇÃO A troca de dinheiro, bens e informações é essencial à vida moderna. A globalização permitiu que pessoas de qualquer lugar do mundo se comuniquem e compartilhem informações ignorando todas as fronteiras. Entretanto, até então era difícil o envio de dinheiro de uma maneira totalmente digital. Em 2008, um pseudônimo chamado Satoshi Nakamoto publicou em um grupo de internet um paper chamado Bitcoin: A Peer-to-peer Eletronic Cash System. Instigado não só pelos ideais libertários, ele queria criar um meio de pagamento independente do sistema financeiro poluído com as ações dos bancos centrais. Afinal, o Banco Central Americano salvou os bancos ao injetar liquidez (colocar mais dinheiro) em seus balanços, enquanto as pessoas perdiam suas casas, poupanças e aposentadorias. Era o estímulo perfeito para publicar o White papper do Bitcoin. Satoshi Nakamoto mal sabia que o que tinha em mente viria a ter um impacto colossal: Uma moeda, um sistema de pagamento global, sem fronteiras e que funciona totalmente em uma rede descentralizada. Além disso, é independente de governos ou bancos centrais[1]. É a solução perfeita para o caos. No começo, o seu uso era restrito a nichos específicos, com destaque aos profissionais da computação e criptografia. Afinal, o Bitcoin era pouco conhecido e muito menos usado pelo público em geral. A primeira transação de que se tem conhecimento foi realizada em 22 de maio de 2010, por um programador Húngaro chamado Laslo Hanyecz, quando comprou duas pizzas por dez mil bitcoins. Sim, dez mil. Na cotação atual as pizzas valeriam mais ou menos R$ 400.000.000 (quatrocentos milhões de reais)[2]. Se o dono da pizzaria não vendeu os bitcoins lá atrás, hoje ele tem dinheiro suficiente para comprar a Pizza Hut. Entretanto, por funcionar em uma rede independente em que as transações são dotadas de uma privacidade autêntica, a criptomoeda também foi utilizada por supostos criminosos. O site Silk-Road, gerenciado pelo pseudônimo Dread Pirate Roberts, comercializava qualquer coisa que as pessoas estivessem dispostas a negociar utilizando o Bitcoin como meio de pagamento. Qualquer coisa mesmo. Desde as mais simples até as mais bizarras. Free Market Society, my friend![3] O que dá um tom internacional à criação de Satoshi Nakamoto é a rede Blockchain. Totalmente descentralizada, ela permite que os participantes (nodos) da rede estejam em qualquer lugar do mundo podendo minerar bitcoins e validar as transações. Dessa forma, por meio da internet, a criptomoeda atravessa países e ignora as fronteiras territoriais. Os estados procuram criar leis com o objetivo de impedir a saída de bens e capital do seu território. Recentemente, após a eleição de Alberto Fernandéz, foi imposta à população a limitação de compras de 200 (duzentos) dólares americanos sem a autorização da Receita Federal Argentina. Uma memorável estupidez. O Brasil, por exemplo, prevê na Lei 7.492/86 o crime de Evasão de Divisas, ou seja, a saída de dinheiro ou divisas do país sem a autorização do Banco Central e da Receita Federal. Dessa forma, há um controle cambial e fiscal por parte do Estado. Ciente dessa situação, o livro procurou analisar: a relação do crime de Evasão de Divisas com o envio de criptomoedas ao exterior; o crime mais comum que envolve o Bitcoin; e o procedimento investigativo realizado pelas autoridades policiais. A pesquisa para o desenvolvimento dessa obra ocorre em diversos momentos. No primeiro, procura-se definir o que são as criptomoedas, além de seus atributos como a criptografia, a escassez e a oferta monetária. Por falar em escassez e oferta monetária, o Bitcoin é considerado moeda? Essa pergunta será respondida com ajuda das teorias privatista e publicista da origem do dinheiro. Também será verificado se a criação de Satoshi Nakamoto é um título de crédito, ativo financeiro ou bem, graças ao auxílio das ciências contábeis, jurídicas e econômicas. Quando se trata dinheiro, ativos financeiros ou qualquer outra coisa que possa gerar renda, o fisco vai querer a parte dele. Nesse ponto será abordado não só como a Receita vê o Bitcoin, mas como ela, infelizmente, rastreia a sua vida financeira, além do dilema moral da declaração das criptomoedas no Imposto de Renda[4]. Outro ponto importante é como as operações são feitas na criptoeconomia. Elas são negociadas tanto nas corretoras quanto fora delas, no mercado OTC. A fim de explicar o que acontece nesse novo mercado, serão detalhadas as seguintes transações: O depósito bancário na conta da corretora; A transferência instantânea pela rede Blockchain; as operações em corretora internacional; o armazenamento em paper wallet; e, a posterior venda. Percebe-se que para comprar ou vender bitcoins, envolve dinheiro em espécie. Entretanto, surge a dúvida de como as transações são classificadas. Afinal, quando eu compro Bitcoin eu realizo uma transação financeira ou não? As transações financeiras são regidas por uma inegável lei não ditada pelo Direito de cada país. Essa lei prevê que as pessoas vão usar a moeda ruim no dia a dia e vão poupar a moeda boa. Essa é a Lei de Gresham. Ela se aplica não só ao papel colorido emitido pelo estado, mas também ao Bitcoin. De que forma ela age sobre as negociações? Essa pergunta também será respondida. Em relação à Evasão de Divisas, o crime é previsto na Lei 7.492/86. Ela foi promulgada em uma época turbulenta em que os investidores, apavorados, tiravam daqui seus dólares de uma maneira desesperadora. Afinal, ninguém quer deixar seu dinheiro no Brasil com um preço cujo valor tabelado é inferior ao alto risco de investi-lo em terras tupiniquins. O crime será completamente detalhado, letra por letra e vírgula por vírgula. A realização dessa façanha será com auxílio da doutrina, da jurisprudência e do próprio texto da lei. Pode ficar tranquilo (a) porque o juridiquês foi todo traduzido para que a leitura fique simples e fácil. De acordo com o que é exigido pelos princípios penais, o crime deve lesionar algo protegido pela norma. Por exemplo, matar alguém lesa a vida, bem protegido pelo Direito. Mas o que o crime de Evasão de Divisas protege e qual o instrumento do crime? Aliás, o que é divisa? Essas perguntas serão respondidas no terceiro capítulo. A relação da prática de enviar bitcoins ao exterior com o delito de Evasão de Divisas será feita no quarto capítulo em três tópicos: O primeiro procura analisar se a prática de transferir criptomoedas ao exterior se enquadra no que é previsto pelo crime; A lesão ao bem protegido pelado segundo. O princípio da intervenção mínima prevê que o Direito Penal deve ser usado somente quando fracassam as outras formas de proteção existentes nos demais ramos do Direito. Ou seja, ele deve ser usado maneira subsidiária, só em último caso. Partindo da análise à luz dos princípios da subsidiariedade e intervenção mínima do Direito Penal, vemos que há meios diferentes para a devida proteção das reservas cambiais. Há vários exemplos: a adoção de políticas econômicas cuidadosas, planos estratégicos de investimentos, políticas estáveis de contenção de juros e inflação, políticas de atração de capital estrangeiro, incentivo às exportações e etc.[112]. A fiscalização sobre a remessa de capitais ao exterior é realizada pelo BACEN. Esse controle é feito por meio de comunicações que as instituições financeiras devem realizar de acordo com prazos determinados pela autarquia bancária. Assim, elas informam ao Banco Central dados sobre os valores envolvidos e as operações realizadas, que devem ocorrer por meio de instituições financeiras autorizadas, o que aumenta o poder do BACEN[113]. O Banco Central, em poder dessas informações, realiza o controle das reservas cambiais do país, analisando a entrada e a saída de dinheiro diariamente. Mas será que tal controle de informações deve ser considerado um bem jurídico a ser protegido pelo Direito Penal? O bem jurídico deve ser o limite do poder punitivo do estado. Por conta disso, só se deve penalizar alguém em caso de lesão àquilo protegido pela norma. Dessa forma, a simples não observância de uma regra de controle das informações sobre as operações, poderia ser, no máximo, punida com uma sanção administrativa. Tavares explica de maneira assertiva: Não difere dessa estrutura a sanção imposta a quem deixa de comunicar à receita federal o transporte de dinheiro para fora do país, além de certo limite. Veja-se que a sanção é aplicável, independentemente de que uma outra pessoa o tenha feito, mas com relação a quantias infinitamente superiores, quer dizer, sem levar em consideração o fato de que quem transporta dez mil Dólares (sic.) e não faz a comunicação deste transporte à receita federal causa, no fundo, muito menos prejuízo do que aquele que transporta um bilhão de Dólares, mas comunica o transporte desta quantia. O que está em jogo, neste caso, não é o patrimônio público, somente a função de controle de informação. A gravidade desta última hipótese está em que a sanção, aqui, não é meramente administrativa, mas também criminal, nos termos da legislação vigente, sem ter havido lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico, quer dizer, faz-se de uma simples função de controle um objeto de proteção penal, o que é um absurdo e viola os pressupostos constitucionais da incriminação.[114] Pelo exemplo dado, notamos que o bem protegido é o controle das informações por parte do Banco Central e não as reservas cambiais. USD 10.000,00 (dez mil dólares) não comunicados à autoridade competente causam uma lesão muitíssimo menor do que o transporte ou transferência de USD 1.000.000.000,00 (um bilhão de dólares) devidamente comunicados. O Ano de 2020 é a prova disso. A saída descontrolada de dólares do país (devidamente comunicados) fez o preço atingir seu pico desde a criação do plano real. R$ 5,20 (cinco reais e vinte centavos) e subindo. Nós percebemos então que a evasão de divisas é a remessa de moeda, títulos ou ativos financeiros, de maneira clandestina, retirando- os da contabilidade e controle exercido pelo BACEN. A evasão é efetuada por meio do repasse de divisas não obedecendo às regras administrativas do BACEN, justificando-se assim como abalo às reservas cambiais. Esse abalo não acontece, mas escancara o ímpeto controlador por parte do estado[115]. Dessa forma, não se pode considerar um bem a ser protegido pelo Direito Penal o mero controle administrativo por parte do estado. A fiscalização não existe por existir, mas sim por possuir uma finalidade específica.[116] É explícito que para alimentar a sua sanha de controle patrimonial, o estado acabe por lesionar os princípios basilares do Direito Penal: A intervenção mínima, a lesividade e a própria legalidade estrita. O Direito Penal deve ser utilizado de maneira subsidiária, criminalizando condutas que de fato lesem bem jurídicos relevantes e não um simples controle de informações por parte de uma autarquia estatal. Por mais que esse delito seja contrário aos princípios do Direito, ele existe. Mas há uma pergunta aparentemente sem resposta: Quem envia bitcoins ao exterior pratica o crime? Sim? Não? Na próxima página você verá. 4. BITCOIN E A EVASÃO DE DIVISAS O objetivo aqui é analisar se a prática de enviar bitcoins ao exterior é considerada crime de Evasão de Divisas. Também será verificado se a conduta ofende a exação fiscal e a suposta preservação das reservas cambiais do estado. Além disso, por meio da análise das decisões judiciais, será definido se as criptomoedas são englobadas pela abrangência do termo divisas. 4.1. CRIPTOMOEDAS E A CONDUTA O mundo evoluiu e a sociedade seguiu o mesmo ritmo. Desde os primórdios se pensava em transferir bens de um lugar a outro. Na idade da pedra, eram transferidos alimentos; na idade média, ouro e outros bens. Hoje são enviados documentos e mensagens com um clique e em tempo real. Por outro lado, o sistema financeiro foi evoluindo de uma maneira diferenciada. Após tomar para si o monopólio da cunhagem[117], o estado começou a controlar a oferta da moeda e, assim, interferindo de maneira absurda no mercado. Posteriormente, em agosto de 1971, o presidente Nixon cometeu um do maiores erros da sua vida: anunciou o fim do acordo de Bretton Woods[118], acabando com a convertibilidade do dólar em ouro. Em outras palavras: a moeda americana se tornou um papel colorido sem lastro. Nesse período o Brasil vivia o regime militar. Foi uma época de crescimento devido a entrada de multinacionais e dólares do FMI. Após a crise do petróleo, conseguir a moeda americana ficou mais difícil. Consequentemente, o crescimento do país também desacelerou. Com o objetivo de estimular e economia, o segredo era a criação de estatais. Para isso, as impressoras do Banco Central precisavam estar ligadas a todo vapor. Devido à impressão desenfreada de moeda, o papel colorido aqui valia cada vez menos. Por consequência, o dólar se valorizava. Depois do fim do regime militar, a conta do desenvolvimento artificial chegou para ser paga na democracia. Em dólar. Desesperado para pagar a conta, o governo mandou o Banco Central imprimir mais dinheiro para comprar dólares. Infelizmente o Cruzado se desvalorizava ainda mais. E esse ciclo vicioso se repetia constantemente. Assim se iniciou a década perdida, momento marcado por alta inflação e controle de preços. Nesse período de catástrofes econômicas, foi editada a Lei 7.492/86, conhecida carinhosamente como Lei de Crimes de Colarinho Branco. Depois de vigente, a norma foi sendo aplicada pelos juízes e demais operadores do Direito. A 13ª Vara Federal de Curitiba condenou o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, pelo crime de Evasão de Divisas.[119] Enquanto a norma era aplicada, no fim de 2008 o Bitcoin foi criado. Revolucionando o mundo das finanças, a obra de Nakamoto torna fácil o envio de bens com valor monetário para qualquer lugar do planeta, de maneira simples e com um único clique. Como falado anteriormente, o caput do artigo, menciona a operação de câmbio não autorizada. O câmbio é a simples troca de uma moeda por outra. E, conforme a teoria publicista, moeda é aquilo que tem curso forçado. Portanto, a aquisição de bitcoins não preenche o conceito de operação de câmbio. As moedas estrangeiras, como o Dólar, o Euro e a Libra, são de curso legal forçado em determinados países. Assim, quando o Real é trocado pelo papel colorido de outra nação ocorre uma operação de câmbio. Porém, o Bitcoin não é uma moeda e também não pertence a nenhum país. Consequentemente, a trocade Reais por bitcoins não se enquadra no mercado de câmbio regulado pelo Banco Central do Brasil. Dessa forma, nas condições legislativas atuais, aquele que adquirir criptomoedas estará mais próximo de uma relação comercial de mercadorias digitais. É verdadeira a afirmação de que assim como as moedas fiduciárias, o Bitcoin também possibilita a compra de bens e a contratação de serviços[120]. Mas esse argumento é insuficiente para determinar que a sua aquisição caracteriza uma operação de câmbio. Afinal, juridicamente Bitcoin não é moeda, mas sim um bem. Nesse sentido, quando ele é usado como meio de pagamento, não ocorre uma compra ou venda, e sim uma permuta entre os negociantes. Portanto, o ato de comprar ou vender bitcoins não preenche os requisitos mínimos para que se caracterize o crime previsto no caput do artigo 22 da Lei 7.492/86. Com o propósito de explicarmos as condutas previstas no parágrafo único do artigo[121], vamos partir do pressuposto que o Bitcoin se enquadra no termo divisas. Percebemos que a expressão a qualquer título apresenta um dolo genérico. Portanto, não é exigida do indivíduo uma intenção especial para a prática do crime, diferentemente do que ocorre no caput do artigo. Com o dolo genérico presente no parágrafo único, o legislador quis incluir todas as outras práticas não incriminadas no caput. Devido a essa ampla inclusão, inocentes podem ser vítimas de abusos ou constrangimentos causados pelas autoridades ao aplicarem a lei. Um dos exemplos que deixam óbvia esta prática é o caso já citado do turista brasileiro. Ele possui moeda estrangeira adquirida de maneira lícita e quer viajar ao exterior, mas ele está portando quantidade superior àquela permitida pela norma. Quando as autoridades agirem de acordo com o poder de polícia, poderão provocar humilhantes revistas em passageiros nos aeroportos para apreender moeda cujo valor que ultrapasse o limite legal. Para melhor elucidar o fato e encaixá-lo no tema em análise, imagine que o turista não carregue notas em espécie, mas sim o registro de suas unidades de Bitcoin em um aplicativo de celular ou computador. Haverá revista por parte das autoridades em cada aparelho eletrônico que o indivíduo carregue? Entende-se (e espera-se) que não, porque qualquer revista nos aparelhos eletrônicos quando não há a fundada suspeita[122] do cometimento de um crime, além de ser tecnicamente inviável, viola garantias constitucionais[123] e infralegais[124]. O Superior Tribunal de Justiça decidiu a respeito do assunto. Para acessar os dados do celular do investigado, a autoridade policial necessita da autorização do possuidor ou da justiça[125]. Notamos que, mesmo havendo o registro das criptomoedas no aplicativo do celular do indivíduo, a mera violação do aparelho eletrônico configuraria, por si só, atitude abusiva[126] das autoridades. Há de se falar também que as unidades de Bitcoin não ficam na carteira virtual. O aplicativo que ele possui é simplesmente o conjunto de chaves: uma pública e outra privada. A chave pública é aquela que permite a qualquer pessoa enviar criptomoedas ao indivíduo. Já a chave privada é aquela que permite ao seu possuidor acessar seus bitcoins, que ficam na rede Blockchain. A partir do momento que percebemos a inexistência de criptomoedas no celular do indivíduo, concluímos que estão na rede e, por consequência, na internet, podendo ser acessadas de qualquer lugar do planeta. Pela facilidade de conexão da internet, notamos que um site sediado na Inglaterra pode ser acessado por um computador no Brasil. Dessa forma, há a saída e a chegada de informações tanto no dispositivo que o acessa quanto no servidor que o hospeda. Por se tratar de informações que vão de um lugar ao outro, é importante analisar com cautela o termo exterior. Conforme os dicionários linguísticos Aurélio[127], Michaelis[128] e o jurídico de Maria Helena Diniz[129], exterior significa “aquilo que está fora e é externo, fora de um limite” que, no caso em análise, é o territorial dos países. Percebemos que exterior é aquilo que está fora das fronteiras de um país. E a internet respeita fronteiras? Claro que não. O fluxo de informações é intenso, global e sem limites territoriais, a ponto de a comunicação e o sistema bancário dependerem dessa movimentação instantânea de dados. A internet, como podemos analisar, fica no interior e, ao mesmo tempo, no exterior de um país. O acesso a ela é irrestrito, podendo ser feito de um computador no Cazaquistão a um site hospedado no Panamá, havendo troca de informações entre o dispositivo que acessa e aquele que hospeda a página. A rede do Bitcoin também é assim. Os mineradores ficam em diversos lugares do planeta e oferecem sua força computacional por meio da internet, descentralizando a rede. Por meio da Blockchain, o envio de bitcoins para corretoras no exterior não caracteriza o crime de Evasão de Divisas previsto na modalidade da primeira parte do parágrafo único do artigo 22, já que a verdadeira moeda, isto é, o Real, o Dólar, o papel colorido estatal utilizado para comprá-los, não saiu do país de origem. Percebemos que, no vídeo Bitcoin in Uganda, a irmã mais velha compra unidades de Bitcoin nos Estados Unidos e as envia à carteira do irmão por meio da Blockchain para ser negociado no país africano. Isso é semelhante a enviar um e-mail e comercializar as informações presentes nele. Portanto, devido à Blockchain permanecer na internet e não ser restrita a limites territoriais, acaba por estar no interior e no exterior dos países ao mesmo tempo. Nesse sentido, não há fundamentos que permitem o enquadramento do envio de bitcoins na conduta prevista no tipo penal, porque o termo exterior é inaplicável à Blockchain. No diz respeito ao ato de promover a saída, percebemos que não ocorre, porque as unidades de Bitcoin não saíram do país porque nele nunca estiveram. Além disso quando uma unidade de Bitcoin sai de uma carteira para outra, é transferida somente a propriedade do bem, não o bem em si. Vimos, portanto, que enviar bitcoins ao exterior, é incompatível com o ato de evadir divisas do país. Mas nos resta a pergunta: Se essa prática fosse crime, haveria de fato uma lesão ao bem jurídico protegido pela Lei? Sim? Não? Veja a próxima página e descubra 4.2. HÁ LESÃO AO BEM JURÍDICO? O estado, por meio da lei, descreve as condutas que são obrigatórias, permitidas e proibidas. A primeira é aquela que o indivíduo é obrigado a praticar, sob ameaça de penalidade. A segunda é simplesmente uma opção, sendo a sua prática indiferente para o estado. Por outro lado, a terceira é a proibição de uma ação que, se realizada, leva a uma punição. Dessa forma, o estado age regulando a vida das pessoas. A primeira conduta pode ser exemplificada com a declaração de Imposto de Renda. Caso os dados enviados ao Leão não sejam exatos, o “contribuinte[130]” cai na malha fina, pagando uma multa se não os corrigir. Por sua vez, a segunda tem como exemplo a celebração de um contrato de compra e venda de um automóvel. O estado pouco se importa se o carro tem teto solar ou não. Ele só vai querer saber do veículo na hora de cobrar o imposto. A terceira é a mais grave de todas. É a conduta cuja prática, além de ofender a Lei, ataca bens protegidos por ela. Um roubo é uma agressão à propriedade das pessoas e à norma penal. Portanto, é uma subtração patrimonial proibida. Diferentemente daquela que o estado faz. Presentes nas leis penais, as condutas proibidas ofendem algo preservado pelo Direito. Aquilo que a Lei protege é chamado de bem jurídico. Ele é protegido pela incriminação de ações ou omissões, que tendem a colocá-lo em perigo ou violá-lo. A tentativa de homicídio é punida porque coloca a vida em perigo. O homicídio em si é punido com mais rigor porque acaba com ela. Dessa forma, no que diz respeito ao Crime de Evasão de Divisas, José Carlos Tórtima[131] afirma que o bem jurídico é, aparentemente, a preservação das reservas cambiais do país. As reservas cambiais são o conjuntode moedas estrangeiras que o país possui para quitar suas dívidas com outras nações. Portanto, não há dúvidas que esse estoque monetário tem uma grande importância no mercado internacional. Então podemos afirmar que as reservas cambiais do país podem ser tanto as do BACEN quanto aquelas das instituições privadas registradas no SISBACEN[132] Dessa forma, o crime de Evasão de Divisas é a saída de capital sem o devido controle do BACEN, não obedecendo às normas administrativas editadas por ele, com justificativa do abalo às reservas cambiais. Em relação às criptomoedas, recentemente o Fundo Monetário Internacional recomendou que o Banco Central as incluísse em sua balança contábil[133]. Segundo o FMI, as criptomoedas são consideradas como um ativo “não financeiro”, tratando a mineração como um processo produtivo. De acordo com a Contabilidade, ativo é o conjunto de bens e direitos que podem gerar renda para quem os possui. O Banco Central, por sua vez, afirma que o país é um importador líquido de criptomoedas[134]. Devido a esse fato, o saldo comercial na conta de bens do balanço de pagamentos tende a ficar negativo. Pelo fato de hoje já existirem bitcoins na balança de pagamentos do Banco Central, o crime de Evasão de divisas estaria aparentemente configurado. Aparentemente. Parte-se, agora, para a análise do vídeo inspirador da presente obra: Bitcoin In Uganda[135]. Imagine que tal conduta praticada por Ronah Nansubuga é realizada no Brasil. O ato de enviar uma quantidade de bitcoins ao seu irmão em outro continente com o objetivo de ajudá-lo, não lesa o bem jurídico pelo seguinte fato: O Bitcoin não é moeda. Como já explicado, o Bitcoin é um bem, classificado como um ativo não financeiro na balança comercial do BACEN. Mesmo que a criação de Nakamoto fosse moeda e o seu envio ao exterior ofendesse as reservas cambiais do país, o bem jurídico protegido pelo artigo 22 da Lei 7.492/86 não é digno de ser tutelado pela via penal, mas, no máximo, pela via administrativa. Porém, ainda que fosse tutelado pela via administrativa, o Banco Central teria muita dificuldade para rastrear as transações e vincular a wallet ao proprietário,[136] devido à privacidade fornecida pela rede Blockchain. Notamos que o bem jurídico protegido deve ser algo relativo à pessoa humana e não um simples controle da informação, tutelado pela via administrativa. Juarez Tavares explica de maneira brilhante o bem jurídico com dois exemplos simples: No primeiro, o indivíduo cruza a fronteira do país portando mais de U$D10.000,00 (dez mil) dólares sem a devida Declaração de Porte de Valores. No segundo, o indivíduo realiza uma transferência de U$D 1.000.000.000,00 (um bilhão) de dólares, devidamente comunicada ao BACEN[137]. Com auxílio da matemática, realizamos uma simples divisão e notamos que a quantia do segundo exemplo é 100.000 (cem mil) vezes maior que a do primeiro. Vemos que a lesão às reservas cambiais do país ocorreu somente no segundo exemplo, mesmo havendo o devido comunicado à autoridade competente. Infelizmente o punido é o indivíduo sem a DPV. É explícito que o que está em jogo não é a lesão ao bem jurídico, mas o controle da informação. A lesão às reservas cambiais é só uma desculpa esfarrapada. Algo que literalmente ofende os princípios basilares do Direito. De acordo com o princípio da subsidiariedade, se outro ramo da ciência jurídica resolver o problema, o estado não deve utilizar as forças do Direito Penal. O controle de informações deve ser alvo de políticas administrativas, não criminais. Dessa forma, não se deve fazer de uma simples função de controle um objeto de proteção do direito penal, porque assim são violados os princípios penais da intervenção mínima, subsidiariedade e lesividade. Além de violados os princípios constitucionais de incriminação. É visível que em relação às criptomoedas, não há lesão ao bem jurídico protegido pela lei penal, porque ele não existe. O Direito Administrativo deve proteger o controle de informações, não o Direito Penal. Mesmo que o envio de criptomoedas ao exterior fosse supervisionado pelo BACEN, ele não fiscaliza por dois motivos: A instituição não tem interesse em se preocupar com um mercado aparentemente pequeno e há enorme dificuldade em vincular a carteira virtual ao seu proprietário. Por mais que essa associação seja difícil, esse problema está sendo aos poucos mitigado pelas autoridades policiais. Com a adoção de técnicas especiais de investigação[138] e uso de aplicativos específicos, elas identificam as criptomoedas e outros dados do proprietário. No mercado tradicional esse esforço não é necessário. Para que você abra uma conta em um banco, são exigidas de você suas informações essenciais. Para não ficar distante do progresso, você as fornece à instituição bancária. Hoje, os bancos possuem vários dados sobre você: desde a sua data de nascimento à quantidade de dinheiro que você possui. Dessa forma, o terceiro intermediário abordado por Satoshi Nakamoto, possui “mais informações do que seria de outra forma necessária”[139]. Por outro lado, para possuir uma carteira de bitcoins, basta um aplicativo de celular e uma senha para acessá-lo, ou um papel com o endereço das chaves pública e privada. A primeira para o recebimento das unidades e a segunda para o acesso a elas. Assim, a rede mantém em segurança quem possui criptomoedas, garantindo a devida privacidade quase inexistente no sistema financeiro tradicional. Por outro lado, a mesma privacidade que dificulta a ação das autoridades, impede os abusos governamentais. O estado faz uso do extremo para atingir o propósito de controlar as informações. Como diria Nicolau Maquiavel, “os fins justificam os meios”. De modo arbitrário e desproporcional, o Leviatã utiliza o Direito Penal antes de qualquer outro ramo da ciência jurídica para atingir seus objetivos. Assim, ofende os princípios da intervenção mínima e subsidiariedade, penalizando condutas que não ofendem bens jurídicos. Ou seja, qualquer pessoa que ande com dinheiro no bolso se torna suspeita, vítima de diversas humilhações causados pelas autoridades policiais. Em suma: Os princípios do Direito são jogados no lixo. Já em relação às criptomoedas, o seu mero envio a uma carteira presente em outro lugar do globo não caracteriza o crime em evidência. No máximo será uma infração administrativa se, e somente se, o mercado for regulado pelo BACEN. Como ainda não é, a prática delituosa é inexistente. Já sabemos que enviar bitcoins ao exterior não ofende as reservas cambiais do país. No entanto, ainda existe uma dúvida. Bitcoin é divisa? No próximo capítulo essa pergunta será respondida 4.3. BITCOIN É DIVISA? Atualmente com a globalização da economia, enviar bens e dinheiro ao exterior se tornou uma prática comum. Seja por meio de transporte físico ou até mesmo pela utilização de empresas especializadas em remessas, é cada vez mais fácil e acessível às pessoas enviar e receber recursos de fora do país. Exemplos dessas práticas não faltam: Pais enviando dinheiro a filhos em universidades no exterior; Filhos trabalhando fora do país e enviando bens aos pais no Brasil; Turistas portando valores em visitas ao Brasil; e Criminosos que enviam patrimônio ao exterior para proteger o produto do crime de apreensões e instabilidades econômicas do país. O ato de enviar dinheiro e bens ao exterior se faz de diversas formas. Quem o faz legalmente, por exemplo, um viajante ou turista, pretende portar a DPV para que não incorra no crime de Evasão de Divisas anteriormente abordado. Quem possui dinheiro e bens no exterior o faz ao Banco Central por meio da Declaração de Capitais de Brasileiros no Exterior. Por outro lado, quem o faz de modo a contrariar a norma não se importa com as sanções derivadas de sua violação. Nesse sentido, notamos que a evolução da sociedade e do mercado é anos-luz superior à evolução da norma. A Lei 7.492, que prevê o delito de Evasão de Divisas, foi promulgada em 1986[140]; a Constituição Federalem 1988; e o Bitcoin, tema da presente obra, teve seu paper[141] elaborado 20 anos depois. Como anteriormente abordado, o Bitcoin foi criado visando ser uma alternativa ao sistema financeiro tradicional. O estopim para a sua criação foi o fato de o Banco Central Americano imprimir mais moeda para dar liquidez aos bancos durante a crise de 2008. Devido à presença dirigista do governo na economia e o excesso de informações fornecida aos bancos, o sistema financeiro nunca foi de fato confiável por parte de Satoshi Nakamoto. Se você tem bom senso, também não deveria confiar. O objetivo central pretendido pelo criador do Bitcoin era eliminar o terceiro intermediário e garantir que as transações fossem confirmadas por meio da criptografia, não pela confiança em instituições bancárias. Um dos propósitos do Bitcoin era facilitar o comércio na internet por um meio de pagamentos sem a garantia de terceiros. Nakamoto argumenta que devido à necessidade da confiança para realizar a transação, o comerciante exigiria mais informações do que o suficiente para a realiza-la[142]. O Bitcoin hoje, segundo a legislação nacional, não é moeda, nem título de crédito e muito menos ativo financeiro, restando ser um bem em si mesmo. Mas a grande pergunta é: Bitcoin é considerado divisa para fins penais? Inicialmente é importantíssimo destacar que o tipo penal aborda os termos moeda ou divisa. Moeda é o meio de pagamento criado pelo estado,[143] com o poder de liquidar contratos. Por outro lado, o termo divisa tem um amplo significado. Segundo o dicionário etimológico, a palavra divisa tem origem no termo divícia[144] significando ‘riqueza’. Por mais que a origem histórica e evolutiva da palavra demonstre riqueza o glossário Michaelis trata divisa como disponibilidade de câmbio que um estado possui em praças estrangeiras[145]. Já o dicionário Houaiss trata o termo mais amplamente, incluindo os títulos de crédito[146]. O dicionário econômico de Paulo Sandroni, por sua vez, conceitua divisas como “letras, cheques, ordens de pagamento e etc., que sejam conversíveis em moedas estrangeiras, e as próprias moedas estrangeiras de que uma nação dispõe, em poder de suas entidades públicas ou privadas”.[147] Luiz Souza Gomes afirma em seu dicionário econômico que divisa designa diferentes categorias de papéis negociáveis, incluindo os bancáveis e não bancáveis, incluindo saques, títulos públicos e cheques, sofrendo as divisas os efeitos da lei da oferta e procura[148]. Abordando o significado da palavra de um modo mais restrito, Maria Helena Diniz afirma que Divisa é: 1.Direito internacional público a) Disponibilidade de cambiais possuídas por uma nação em praças estrangeiras; recurso de que dispõe um país no mercado internacional b) linha divisória entre dois países; fronteira. 2 Direito administrativo a) emblema ou insígnia b) linha divisória entre zonas administrativas. 3.Direito civil Linha limítrofe entre propriedades contíguas ou confinantes. 4. Direito militar. Distintivo de pano, colocado no braço, que indica a posição hierárquica das praças. 5. Direito agrário: Marca a fogo usada pelos criadores. 6. Direito cambiário: Saque de câmbio que pode ser emitido contra qualquer praça estrangeira, constituindo reserva que autorize pagamento do que ali se vier adquirir. (DINIZ, 2010, p. 230) (grifo nosso) Divisa é a disponibilidade cambial de uma nação, moeda estrangeira na balança comercial do país. Entretanto há discussão se outros bens são também assim considerados. Por exemplo, na apelação criminal 200036000033096[149] é discutido se o diamante é divisa. O TRF da 1ª Região decidiu que divisa é somente as disponibilidades internacionais que um país possui em função da exportação de mercadorias, serviços e títulos de crédito. Só existe câmbio quando na operação há: moeda nacional ou moeda estrangeira títulos de crédito ativos financeiros Por outro lado, quando são negociados bens e demais mercadorias, não existe operação de câmbio, com exceção do ouro quando classificado como ativo financeiro. Portanto, no crime do art. 22 da Lei 7.492/86 não se insere o diamante, classificado como um bem. O diamante não é divisa pelo fato de ser um bem. O ouro, por outro lado, pode ser classificado como divisa se for um ativo financeiro, e um bem se for ornamento ou decoração. Em outras palavras: Em formato de barra é ativo financeiro; em formato de brinco, anéis e pulseiras é um bem. Como sabemos, o Bitcoin não é moeda, nem ativo financeiro e muito menos título de crédito. Ele é um bem. Portanto, notamos que a criptomoeda não se enquadra na terminologia divisa presente no crime em análise. Para que as criptomoedas em geral sejam consideradas divisas, é necessária a edição de uma norma classificando-as dessa forma, sob pena de ofensa ao princípio da legalidade. Felizmente, ainda não existem leis que equiparam as criptomoedas a divisas, o que impossibilita a prática do crime. No Direito Penal, não se pode admitir equiparação extensiva das palavras com o objetivo de que certas práticas sejam inseridas em condutas criminosas previstas na Lei. Caso contrário, haveria outra violação ao princípio da legalidade. De acordo com esse entendimento, destacamos que mercadoria não é divisa quando foi discutida a possibilidade de o diamante configurar o crime em análise. A equiparação não pode ser realizada, porque ela é insustentável jurídica e penalmente. Divisas não são o mesmo que mercadorias, e a lei é taxativa ao delimitar os elementos e meios do crime, o que confirma a inexistência de evasão de divisas quando se envia criptomoedas ao exterior. O que se proíbe com a previsão do crime é a saída de moedas ou divisas do país. Dessa forma não se pode incluir nessa previsão o envio de criptomoedas ao exterior porque haveria uma interpretação ampliativa, inadmissível no âmbito penal. Ao final do parágrafo único do artigo 22 da Lei 7.492/86, é criminalizada a manutenção no exterior de depósitos não declarados. Foi analisado que os bitcoins são guardados em carteiras digitais, que podem estar hospedadas tanto online em servidores nacionais e internacionais, quanto off-line em uma paper wallet. Nesse sentido, sabemos que existem corretoras de criptomoedas dentro e fora do país. Por mais que um indivíduo possua bitcoins em uma carteira digital hospedada em um servidor internacional, o crime em análise não será configurado. Isso ocorre porque, assim como as outras modalidades criminosas previstas pelo artigo 22 da Lei 7.492/86, a caracterização depende da equiparação do Bitcoin a moedas ou divisas. Assim, notamos que é impossível o Bitcoin ser classificado como moeda porque não está de acordo com a teoria publicista. Além disso, o Bitcoin não possui curso forçado, característica própria dos papéis coloridos estatais, porque, se fossem bons de fato, não precisariam de curso forçado. Foi provado que o crime de evasão de divisas não se comete usando Bitcoin por diversos motivos. Primeiro, porque não é operação de câmbio; segundo, porque não há exterior para a Blockchain; terceiro, porque Bitcoin não é divisa. Além disso, mesmo que seja editada uma norma que classifique o Bitcoin e as demais criptomoedas como divisas para fins penais, o crime não se configura devido ao apresentado nos tópicos anteriores deste capítulo. Mas a pergunta que fica é: Qual o crime mais comum em que são usadas as criptomoedas? Descubra no próximo capítulo 5. OS CRIMES MAIS COMUNS ENVOLVENDO O BITCOIN Imagine que você está navegando na internet e vê uma propaganda sobre uma grande oportunidade de ganhar dinheiro rápido. Curioso (a), você clica para ver o que é. Após o clique, você vê um vídeo sobre o assunto. O apresentador mostra uma criptomoeda que vai valorizar e que você irá deixar de ganhar dinheiro se ficar de fora. Não para por aí: Ela ainda rende até 2% ao dia. Você pensa: “Gostei, vou investir o dinheiro da pizza. Se eu perder esse dinheiro, eu não saio da dieta”. Depois de 5 dias você está com 10% de lucro sobre ovalor inicial. Você pensa: Se com esse valor ínfimo eu já lucrei 10%, imagina o que eu vou ganhar se investir um valor ainda maior? Com um pouco mais de coragem, você decide colocar o dinheiro da viagem do final de ano. No início é uma maravilha. Todo dia você recebe seus 2%. A ganância toma conta e você investe o dinheiro do carro novo. Afinal, em 3 meses você terá o suficiente para comprar uma camionete com o dobro do valor. Uma semana depois, você para de receber o dinheiro. Após uma reclamação, um membro da empresa afirma que é um atraso temporário e já vai ser resolvido. Como não há nada o que fazer, você espera. Mas você continua sem receber e começa a ficar preocupado. Depois, fica puto da vida. Você destila sua raiva no reclameaqui e nas redes sociais da empresa. É completamente ignorado, junto com outros investidores iguais a você. Um tempo depois, um dos apresentadores afirma que a empresa foi hackeada e não há mais como pagar os investidores. Você fica desolado. Mesmo não conseguindo devolver o seu dinheiro, a empresa vai tentar diminuir os danos. Você pensa: “Uffa! Mesmo sem dinheiro por causa desses hackers, a empresa ainda vai me pagar! Pelo menos assim a perda é menor. Que bom! Obrigado, [insira aqui o nome de uma pirâmide qualquer]”. Ela oferece a você uma outra criptomoeda que servirá como meio de troca em vários estabelecimentos comerciais. Você fica aliviado até descobrir que eles não existem. Infelizmente você foi enganado, feito de trouxa e vítima da própria ganância. Aprendeu da pior forma que dinheiro fácil não existe. Essa história triste acontece diariamente com milhões de pessoas. Poderia acontecer com você, mas não vai. Porque a partir da próxima página, o livro vai te mostrar todos os detalhes sórdidos de como esses esquemas funcionam. Os criminosos, conforme o tempo foi passando, foram se adaptando às tecnologias para continuar a fazer suas vítimas. Eles não perderam tempo e pensaram em algo para lesar pessoas utilizando o Bitcoin: As pirâmides financeiras. Esse tipo de esquema (também chamado de marketing multinível) utiliza o Bitcoin para atrair suas vítimas e iludir para que invistam seu dinheiro no “negócio do século”. A verdade é que pouca gente sabe o que realmente é o Bitcoin. Por consequência, ele desperta curiosidade. Os criminosos se aproveitam e utilizam a criptomoeda como fachada para um mascarar uma fraude, prometendo lucros de 1 a 2% ao dia. Ao prometer esse ganho extraordinário, eles despertam a ganância das pessoas. Infelizmente, quando a ganância está acordada, o bom senso está dormindo. As pirâmides financeiras são conhecidas como Esquema Ponzi. O nome foi dado em homenagem ao italiano Charles Ponzi que em 1920 ficou famoso por ser o autor de uma fraude gigantesca. Depois de uma viagem, descobriu ao chegar nos EUA que os selos de resposta do correio internacional poderiam ser vendidos mais caros na terra do Tio Sam. Conforme o rumor foi se espalhando, as pessoas começaram a entregar dinheiro a Ponzi. Porém, por mais que estivesse recolhendo somas astronômicas de dinheiro e houvesse filas para lhe entregar mais, na realidade não comprou selos com o dinheiro recebido. Ele simplesmente pagava rendimentos de até 100% em três meses, com o capital dos novos investidores. Com o dinheiro do lucro na mão, os investidores pouco se importavam como o negócio funcionava. Eles só queriam mais, a ponto de venderem seus bens para depositar o dinheiro nas mãos de Ponzi. Em julho de 1920, Ponzi já tinha milhões de dólares. Muitas pessoas venderam ou hipotecaram as suas casas, na esperança de ganhar quantias maiores. Porém, no dia 26 de julho do mesmo ano, grande parte do esquema começou a colapsar, depois que o banco em que deixava seu dinheiro começou a questionar as práticas da sua empresa. Finalmente a companhia de Ponzi sofreu intervenção do Estado que congelou todas as novas captações de dinheiro. Dessa forma, muitas pessoas foram prejudicadas e o esquema ruiu. O esquema Ponzi é aplicado de várias formas e utiliza qualquer coisa para esconder a fraude, até mesmo o Bitcoin. As pirâmides financeiras sempre terminam falindo, já que a maioria esmagadora dos investidores perde todo o seu dinheiro. As características típicas da propaganda para recrutar novos investidores são: Promessa de altos rendimentos a curto prazo. 1 a 2% diários, por exemplo. Dirigido a um público que desconhece a tecnologia e não é financeiramente esclarecido. Um único promotor ou uma única empresa. (Empresas como: Minerworld, Midas Trend, InDeal, Dreamdiggers, UnickForex, JJ investimentos, Grupo Bitcoin Banco, Genbit, Credminer) Um produto que desperta curiosidade. Porém a negociação acaba por se tornar secundária porque o foco é o recrutamento de novos membros. Às vezes, usam uma celebridade como embaixador ou garoto- propaganda com o intuito de dar mais credibilidade ao esquema. Empresa irregular: ausência de registro em órgãos como a CVM e a Bolsa de Valores. Após despertarem a curiosidade e a ganância, eles persuadem as pessoas por meio da autoridade que demonstram ao encher o discurso com terminologia técnica. Posteriormente, eles fazem a vítima assinar um contrato reconhecido em cartório, com o intuito de dar mais credibilidade ao esquema. Do ponto de vista legal, são contratos de investimento coletivo, regidos pela Comissão de Valores Mobiliários. Mas essas empresas nunca têm autorização da CVM para operar. Os criminosos pouco se importam se o cliente sabe disso. A ganância já cegou a vítima. Dessa forma, os responsáveis pelo esquema ganham dinheiro em cima das vítimas. Portanto, fique atento à seguinte combinação de fatores: Curiosidade + Ganância + discurso de autoridade + falsa credibilidade = vítima convencida e lesada. Para dar um ar de sustentabilidade financeira, os fundadores e demais representantes recomendam que as vítimas atraiam novas pessoas para o negócio. Dessa forma, quem trouxer mais um inocente recebe 5 a 10% de rendimentos extras no fim do mês para cada novo investidor, por exemplo. Após ruir o esquema, algumas empresas têm uma atitude, digamos, muito cara-de-pau. Impossibilitada de pagar os raivosos investidores lesados, ela decide pagá-los em uma criptomoeda ou um “ativo digital de nicho” criado pela própria companhia, como aconteceu com a Minerworld. O investidor pensa que recebeu algo de valor na esperança de recuperar o prejuízo, mas acaba por receber um token inútil que não serve nem para nariz de palhaço. A Lei 1.521/51 dispõe sobre crimes contra a economia popular. Em seu artigo 2ª, inciso IX, a norma prevê o chamado crime de “pirâmide” ou “esquema de pirâmide”. O crime consiste em tentar ou obter ganhos ilícitos, através de especulações ou meios fraudulentos, causando prejuízo a diversas pessoas. A pena prevista é de 6 meses a 2 anos de detenção e multa. Essa pena não assusta ninguém. De acordo com a Lei dos Juizados Especiais, é considerado um crime de menor potencial ofensivo[150], mas infelizmente, acaba causando lesões patrimoniais enormes. Além de a pena ser totalmente desproporcional ao dano causado, o crime é previsto em uma lei que foi editada há 70 anos. Uma norma antiga que deve ser atualizada para não só punir esses criminosos, mas obriga-los a ressarcir suas vítimas. Em certas situações, alguns promotores os acusam pelo crime de estelionato. Por mais que a pena seja muito maior, a sensação de impunidade ainda existe, o que estimula esses bandidos a criar uma pirâmide após a falência da outra. Se uma empresa com as expressões “miner”, “forex”, “trend” ou “hash” no nome aparecer para você com propostas de investimento, cuidado. Confira se ela possui CNPJ e registro na CVM. Se ela não possuir, abra o olho. Verifique também se ela possui uma das características anteriormente citadas. Se sim, é cilada. Um dos casos envolvendo criptomoedas é o caso da Midas Trend. A empresa vendia licença de uso de um suposto robô que realizava compras de bitcoins nos locais mais baratos e os vendia onde estivessemais caro, embolsando os supostos lucros. Era maravilhoso. O esquema rendia 40% ao mês. Nem um agiota lucra dessa forma. As permissões para operar os robôs custavam de U$D 33,00 (trinta e três dólares) a U$D 2.000,00 (dois mil dólares) e quem as vendesse ganhava uma porcentagem do valor. Após adquirir essa licença, as pessoas depositavam os seus bitcoins onde esse suposto robô operava. Quem vendia mais dessas permissões subia no plano de carreira, ou seja, ia em direção ao topo da pirâmide. Os incentivos para chegar ao topo eram vários: Carros de luxo, viagens ao exterior e até casas fora do Brasil. Esses estímulos não foram suficientes para impedir que o esquema ruísse. Depois do atraso nos pagamentos, o criador da Midas Trend, Deivanir Santos, prometeu que, no dia 13 de abril de 2020, iria fazer uma live explicando porque os atrasos ocorreram. Você sabe e eu também. Mas os investidores não. No grande dia para se explicar, o criador do esquema não aparece. 24 horas depois ele decide fazer uma live para explicar toda a situação. Afirmou que os bitcoins foram hackeados[151] e os pagamentos aos investidores continuam retidos. Como era de se esperar, ele culpou outras empresas, bancos e o governo, afirmando que boicotam a Midas Trend. Posteriormente foi descoberto que ele encerrou suas atividades e fugiu para o Canadá, lesando o patrimônio dos investidores. Alguns investidores procuraram a justiça querendo reaver o capital investido. Mas o criador da Midas Trend, de maneira audaciosa, afirmou que quem processá-lo não irá receber seu dinheiro.[152] Infelizmente as pessoas não procuram informações sobre pessoas que oferecem investimentos. Deivanir Santos era um membro da Pirâmide BBOM[153]. A BBOM se apresentava como uma empresa que oferece rastreadores de veículos por meio de pagamento de um valor mensal. Os interessados se associavam mediante o pagamento de uma taxa de cadastro, no valor de R$ 60,00 (sessenta) reais, mais uma taxa de adesão, que variava de R$ 600,00 (seiscentos) reais a R$ 3.000,00 (três mil) reais, de acordo com o plano escolhido. Quanto maior o número de novos integrantes, maior seria a premiação ou bonificação que seria oferecida pela empresa. Mas naturalmente o esquema ruiu e Deivanir decidiu criar sua própria pirâmide[154]. Um outro esquema mais elaborado é aquele chamado de Grupo Bitcoin Banco. Liderado por Claudio Oliveira, o conglomerado empresarial responde a centenas de processos judiciais e não libera saques para investidores há seis meses. Para dar maior credibilidade, entraram no negócio duas corretoras: a TEMBTC e a NEGOCIECOINS. Muitos clientes, talvez por inocência ou desconhecimento, deixaram seus bitcoins nessas empresas. O esquema foi à falência e muita gente perdeu suas criptomoedas. A cada esquema que cai, o ceticismo das pessoas vai aumentando. Os criminosos então decidiram inovar: Para driblar essa desconfiança, eles contratam jogadores de futebol como garoto- propaganda para dar credibilidade ao esquema. A 18K Ronaldinho e a Arbcrypto contrataram pentacampeões para que o esquema conseguisse driblar o ceticismo das pessoas em relação às pirâmides. O astro do Barcelona aparece no vídeo da 18K elogiando os produtos que servem de fachada: Relógios esportivos. Realmente, a empresa não perdeu a hora para iludir seus investidores. Além da venda de relógios, existia um negócio que oferecia rendimentos multinível, com base em operações de trade no mercado de criptomoedas. A promessa era curiosa: “Ganhos de até 2% ao dia e pagamento de até 400% do capital investido, sem necessidade indicar ninguém. ” A frase “sem a necessidade de indicar alguém” tenta afastar a imagem de esquema Ponzi, mas infelizmente o funcionamento mostrava o contrário. Pelo fato de a 18K Ronaldinho supostamente agir como uma pirâmide financeira, a Câmara dos Deputados chegou a convidá-lo para depor sobre esses indícios, mas ele recusou. Após as suspeitas ganharem corpo, Ronaldinho deixou o negócio, e os responsáveis pela empresa passaram a dizer que a menção ao nome dele havia sido uma mera homenagem. A fraude foi descoberta e Ronaldinho Gaúcho virou réu em ação que pede R$ 300 milhões.[155] Cafu, astro do Milan e capitão da seleção pentacampeã em 2002, é garoto-propaganda da Arbcrypto e teve 9 milhões bloqueados pela justiça por fazer parte de um esquema fraudulento de pirâmide financeira. A ArbCrypto é a herdeira da base de usuários de outra pirâmide, a FX Trading. Ela começou em um grupo de Facebook que se chamava Fx Trading – Tirando Dúvidas. Com a queda da Fx Trading, Alex Kwok viu uma oportunidade e lançou a ArbCrypto, que nada mais é do que um bot de arbitragem, semelhante àquele apresentado pela Midas Trend[156]. Como sabemos, o esquema começou a ruir e a empresa parou de pagar seus clientes. Após o levantamento de provas, o Juiz Ernane Fidelis Filho fundamentou que existe um esquema de pirâmide. Ele foi categórico sobre onde as pessoas teriam os rendimentos de 2,5% (dois e meio por cento) ao dia: “nenhum lugar do mundo, talvez apenas no tráfico de drogas”[157]. E assim mais um jogador tem a imagem manchada por estar relacionado a esses criminosos. Outra pirâmide muito conhecida é aquela liderada por Leidimar Lopes, a Unick Forex. Ela captava “investidores” oferecendo lucro de 2% ao dia. Só alguém cego pela própria ganância cairia em um papo furado desse. Entretanto, a empresa captava diariamente 40 milhões de reais. Você não leu errado. 40 MILHÕES DE REAIS eram movimentados POR DIA, e 9 bilhões durante toda a vigência do esquema. Sim, BILHÕES. Mesmo a CVM proibindo a Unick Forex de realizar essas práticas, elas continuaram. A autarquia expediu uma ordem de parada de operações e foi completamente ignorada pela empresa. A partir de então, a Polícia Federal decidiu agir. Os 13 líderes da empresa foram indiciados por organização criminosa. Foram apreendidos 48 carros de luxo e R$ 53.000.000,00 (cinquenta e três milhões) de reais em criptomoedas, já custodiadas em carteiras controladas pela polícia. A operação Lamanai faz referência a uma pirâmide localizada em Belize, país onde fica um escritório da empresa. O esquema criminoso é conhecido pelas autoridades. O Bitcoin até então não era. Pelo fato de ser inconfiscável, os criminosos transferem as criptomoedas dos “clientes” para uma carteira sob seu controle e saem com o produto do crime intacto. O que, por sorte, não aconteceu na operação Lamanai. Esses indivíduos não possuem escrúpulos[158] e não sentem nenhum remorso por saber que estão lesando poupanças e aposentadorias de muitas pessoas. Usam as criptomoedas como fachada para atrair as vítimas. A impunidade de uma lei promulgada há 70 anos permite que esses criminosos tenham passe livre para fundar diversas pirâmides e iludir as pessoas que, na inocência, entregam a eles parte do seu suado dinheiro. Mas esses esquemas não se restringem somente a terras tupiniquins. A CipherTrace, empresa forense em Blockchain especializada na investigação de crimes virtuais, afirma que é raro mas pode haver a presença de corretoras nesses esquemas Ponzi. Por exemplo, Clientes e usuários perderam U$D 2.900.000,00 (dois bilhões e novecentos mil) dólares numa pirâmide financeira envolvendo a corretora Plustoken[159]. Uma outra fraude reportada pela CipherTrace foi aquela envolvendo a QuadrigaCX. Gerald Cotten, o presidente da corretora canadense, criou usuários fantasmas com dinheiro fiduciário que não existia. O dinheiro falso, existente somente na plataforma da QuadrigaCX, foi então usado para comprar criptomoedas reais de outras pessoas. Infelizmente elas viram depois que não havia absolutamente nada para sacar e perceberam que foram iludidas. Depois de procurar o presidente da empresa, as pessoas foram informadas que ele havia perdido tudo. Posteriormente foi descoberto que Gerald Cotten transferiu 21.501 (vinte e um mil e quinhentos e um) bitcoins para uma conta sua em uma corretora desconhecida. Ao longo de três anos, ele liquidou parteque foi depositado na conta pelo equivalente a US$ 80.000.000,00 (oitenta milhões) de dólares canadenses. Depois disso, esses vermes inescrupulosos compram casas e carros de luxo para passar uma imagem de empresários bem- sucedidos. Mantêm um pouco do patrimônio em criptomoedas, para que assim parte do produto do crime permaneça inconfiscável. Caso alguém apresente a você uma empresa que negocie bitcoins, tenha cuidado. Antes de tomar qualquer decisão, procure o nome da companhia no badbitcoin.org. Esse é o site que lista o nome dos milhares de golpes de pirâmides existentes no mundo. Se o nome dela estiver ali, basta alertar quem lhe apresentou essa proposta de investimento. Quem avisa amigo é. Um outro esquema é o chamado “pump e dump”. Imagine que um youtuber famoso informe no canal dele sobre uma criptomoeda com alto potencial de valorização. Não há nenhuma empresa por trás e muito menos rendimentos diários. Com base nessas informações você conclui que não é pirâmide. Após uma profunda análise, você percebe que a criptomoeda está no coinmarketcap. Você pesquisa na internet e ela está presente em uma corretora que você nem desconfiava que existia. O preço dela está alto, afinal, ela valorizou 25% nos últimos 15 minutos. Você pensa: Deve ser uma oportunidade boa, vou comprar. Por acreditar no youtuber, você a adquire, afinal, ela pode valorizar. Depois que você realiza a compra, o preço dela derrete de maneira rápida a ponto de não conseguir vendê-la o mais rápido possível para conter prejuízos. No fim das contas você está com uma criptomoeda que não vale nada. Você foi vítima de uma fraude. Por mais que os esquemas de pirâmides sejam manjados, o “pump e dump” ainda não é. Com origem no mercado de ações, esse golpe acontece quando um indivíduo lança rumores falsos com o objetivo de fazer um papel valorizar e logo após vende-lo. Jordan Belfort, interpretado por Leonardo Dicaprio no filme “O Lobo de Wall Street”, deixa bem explícito: “Às 13:00, abrimos a venda das ações por U$D 4,00 (quatro) dólares por ação. Três minutos depois, o preço já ultrapassava os U$D 18,00 (dezoito) dólares. ” “Das duas milhões de ações que oferecíamos, um milhão me pertenciam, mantidas em contas falsas. Quando os preços chegavam às alturas...quem se importa? ” “O mais importante é isso: U$D 22.000.000,00 (vinte e dois milhões) de dólares em 3 (três) míseras horas” Aplicando esse conceito ao mundo das criptomoedas: O youtuber enche o bolso com uma criptomoeda totalmente desconhecida, pagando muito pouco. Ele incentiva você e os milhares de inscritos no canal dele a comprar, afinal, ele disse que a criptomoeda iria valorizar e fazer você mudar de vida. Quando a criptomoeda subiu seus 400%, ele vende tudo o que tem de uma vez só, jogando o preço para baixo. No desespero, as outras pessoas começam a vender pelo preço que for, para conter prejuízos. Você acaba por não conseguir vender e fica com uma criptomoeda sem valor nenhum, além de perder dinheiro. Por mais que esse golpe seja novo, há alguns indícios que revelam parte do esquema, o suficiente para você não cair na lábia desses “traders” estelionatários. Vamos lista-los: Criptomoeda totalmente desconhecida e muito mal posicionada (abaixo do top 100) no coinmarketcap. Caso ela nem esteja listada, pior ainda. Presente em corretoras pequenas que ninguém conhece Volume de negociação baixíssimo nos últimos meses. Preço muito baixo Pico repentino de preço Vamos usar essa MCashchain como exemplo. É uma criptomoeda que está na posição nº 983. Em setembro de 2019, os estelionatários compraram a criptomoeda pela barganha de 0,015 (um centavo e cinco centésimos de dólar). No começo do mês de outubro o rumor benéfico se espalhou por grupos de whatsapp e telegram. No começo do dia 24, as pessoas que acreditaram começam a comprar. No fim do dia, quem espalhou o rumor vendeu todas as criptmoedas que tinha, deixando muita gente no prejuízo. Devido à associação das criptomoedas com a prática de crimes, qualquer indivíduo que as possua é visto como um suspeito. Infelizmente essa visão é predominante nos membros das forças policiais, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Por mais que haja essa visão negativa dos que operam com criptomoedas, pouquíssimos são criminosos. As pessoas que realmente conhecem o Bitcoin o utilizam como forma de poupança e investimento, porque devido à escassez programada e o aumento gradual da demanda, a criação de Satoshi Nakamoto tem um potencial de valorização enorme. Os criminosos usam esse fato para despertar a ganância nas pessoas e mascarar um esquema fraudulento, porque ninguém em sã consciência entregaria seu suado dinheiro para um homem chamado Deivanir ou Leidimar. Eles escondem a falta de credibilidade dos seus nomes criando empresas com títulos curiosos, que oferecem oportunidade de dinheiro rápido, fácil e sem risco. Entretanto, esses caras são na verdade estelionatários que só querem enganar inocentes para tomar seu dinheiro. Portanto, esperamos que as autoridades policiais monitorem essas empresas e pessoas que oferecem lucros diários exorbitantes. Dessa forma, cai a sensação de impunidade e esses faraós vão pensar duas vezes antes de querer criar uma pirâmide. Porque, infelizmente pela demora das autoridades, piramideiros tipo Deivanir dos Santos enganam inocentes[160], fogem do país e os deixam sem seu suado dinheiro, que muitas vezes é a poupança ou a aposentadoria da família. Para conter a proliferação desses esquemas criminosos, as autoridades policiais aprimoraram suas habilidades investigativas. Dentre elas estão as modernas técnicas de confronto e o uso de softwares específicos para rastreio de wallets. Quer mais detalhes sobre como a polícia vai rastrear os faraós? Veja no próximo tópico. 6. COMO A POLÍCIA PRETENDE RASTREAR OS CRIMINOSOS Em 2019 a quantidade de pirâmides financeiras cresceu tanto que houve um aumento de 160% no número de vítimas em relação ao ano anterior, de acordo com a CipherTrace, empresa forense em Blockchain especializada na investigação de crimes virtuais. “Percebemos um grande aumento em pessoas mal-intencionadas, enganando vítimas inocentes ou se aproveitando de usuários por meio de esquemas de pirâmide”, disse à Reuters Dave Jevans, presidente- executivo da CipherTrace. “O que mais preocupa é a proliferação desses esquemas que, com certeza, é o crime mais comum envolvendo criptomoedas” diz Dave Jevans.”[161] Para que as autoridades levem os piramideiros à justiça com intuito de restituir suas vítimas, foi elaborado recentemente um documento chamado “Roteiro de Boas Práticas de Investigações em Criptoativos”. Criado pela Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA), com auxílio do Financial Action Task Force (FATF )[162] e da EUROPOL[163]. É basicamente um guia para as polícias judiciárias (Federal e Civil) conduzirem investigações “nas quais há suspeitas de práticas de atividades ilícitas envolvendo ativos virtuais, em particular, lavagem de dinheiro e financiamento de terrorismo”[164]. Como já mencionado nos tópicos anteriores, ativo é o conjunto de bens e direitos com a possibilidade de gerar renda para quem os possui. Graças ao seu potencial de valorização causado pela escassez pré-programada e pelo aumento de sua demanda, o Bitcoin é classificado como um bem, no subgrupo dos ativos não produzidos. Após uma leitura mais atenta, percebemos que o assunto é abordado como se o crime organizado só fosse financiado com criptomoedas. É um completo absurdo. Os faraós e demais estelionatários são financiados com Reais, Dólares e outros papéis coloridos. Eles usam o Bitcoin para que o produto do crime não seja confiscado pela justiça. Outro detalhe é que o documento “é de uso restrito às autoridades do Poder Judiciário, Membros do Ministério Público, da Polícia Judiciária, Advogados Públicos e demais entidades autorizadas pelo ENCCLA”[165]. O documento está disponível na internet[166]. Pelo visto, nãoé tão restrito assim, o que permite aos piramideiros acessá-lo e estudá-lo para criar estratégias a fim de escaparem da justiça. Quem coordena é o Ministério Público Federal, com auxílio da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional. Com as informações específicas de cada órgão, o conhecimento a ser passado às autoridades policiais é muito mais completo e abrangente. No documento é descrito como se adquire criptomoedas. Foram elencadas três formas: Compra direta, por meio de Exchange e por máquinas ATM. Isso serve de aviso àqueles (as) quando forem comprar Criptomoedas. Elas não são contratos de investimento coletivo que prometem rendimentos diários exorbitantes, mas sim mercadorias digitais negociadas entre um comprador e um vendedor. Em relação aos vendedores P2p, as autoridades já sabem como funciona a negociação. O detalhe que chamou mais a atenção é a lista dos sites em que as pessoas negociam diretamente: https://catalogop2p.com.br/ https://liberalcoins.com/ https://paxful.com/ Também é explicado que os criptoativos não estão no dispositivo apreendido. Com as autoridades sabendo disso, fica mais fácil levar os faraós e demais estelionatários à justiça. Esses criminosos sabem que o ideal é manter parte do patrimônio em criptomoedas para que o produto do crime se torne inconfiscável. Dessa forma, eles utilizam vários meios de guardar as criptomoedas, fato que a polícia já sabe. É notável o conhecimento das autoridades sobre as formas de armazenamento, desde as mais seguras (paper wallet) até as menos seguras (corretoras e carteiras em software). https://catalogop2p.com.br/ https://paxful.com/ Por falar em software, muito desses estelionatários desenvolvem supostos aplicativos como o Botmidas, um robô que compra bitcoins em locais baratos e vende em lugares mais caros. Mas se as autoridades tiverem o mínimo de bom senso, saberão que esses programas não fazem absolutamente nada e só mascaram um esquema fraudulento. A prática de pirâmide financeira é prevista em uma lei antiga, editada em uma época em que o crime não era tão comum. Como explicado no capítulo anterior, é um crime cuja pena máxima não chega a dois anos. Porém, há a possibilidade de que seus criadores respondam também por estelionato e associação criminosa, o que também não intimida muito. Por mais que a lei que trate do assunto seja antiga e não assuste ninguém, as habilidades policiais para levar esses delinquentes egípcios à justiça estão se aprimorando. Vamos analisar o procedimento investigatório. 6.1. O PROCEDIMENTO INVESTIGATIVO Para que uma investigação seja realizada, deve haver indícios. Indício é um sinal de que um fato aconteceu, acontece ou vai acontecer. Um galo cantando é indício que vai amanhecer. Nuvens escuras e carregadas são indícios de chuva. Um cara de terno apresentando a solução milagrosa para todos os problemas é um indício de que ele seja um estelionatário. A partir do momento que existe o indício de algo, começa a procura por informações para transformá-lo em prova. As autoridades buscam diversos meios para atingir esse objetivo. De acordo com o roteiro, existem 4 categorias de informações a serem consideradas pelos investigadores: Registros Criminais e Inteligência: Informações coletadas por meio de interrogatórios e pesquisa em banco de dados. Mas em relação às criptomoedas, as autoridades devem identificar as atividades on-line, os apelidos e os endereços físicos e eletrônicos dos suspeitos. Além disso, recomendo que as autoridades analisem o histórico criminal do suspeito para ver se ele é conhecido ou famoso no mundo das pirâmides ou marketing multinível. Se sim, é figurinha carimbada. Informações Financeiras: O cruzamento de dados do que foi de fato declarado ao leão com os dados das operações realizadas nas corretoras. Nesse caso, é interessante que as autoridades policiais façam uma verificação profunda se houve um alto crescimento patrimonial em um curto espaço de tempo na declaração do imposto de renda da empresa suspeita. Além disso, é bom saber qual o ramo de atividade vinculado ao CNPJ da instituição, para solicitar à autarquia reguladora a autorização da empresa que atua no mercado. Informações de Código Aberto: Aquelas informações disponíveis na internet, desde o valor das criptomoedas até as postagens em mídias sociais. Os dados presentes nas redes sociais dos faraós e das empresas suspeitas de pirâmide é de extrema importância. Com o intuito de incluir mais vítimas no esquema fraudulento, os faraós tendem a expor os seus lucros e luxos nas redes sociais para ostentar sucesso, o que é um belo indício de prática de pirâmide financeira. Métodos tradicionais de investigação: vigilância física, entrevistas com suspeitos, obtenção de registros por telefone, e-mail e verificação de arquivos, por exemplo. Investigadores financeiros são treinados para “seguir o dinheiro” e o conhecimento de todos os sistemas de pagamento é fundamental para identificar casos em que as criptomoedas são usadas ilicitamente[167]. O que seria interessante é, após a devida autorização judicial, a infiltração de agentes policiais com o intuito de saber quem organiza e como funciona a pirâmide. Dessa forma, depois de obtidos os dados dos membros do esquema, é possível grampear o telefone dos estelionatários, deixando o inquérito policial mais robusto. De acordo com o manual, há alguns itens[168] que indicam a posse ou o uso de criptomoedas: Navegador Tor, para acessar serviços da deepweb que geralmente aceitam apenas criptoativos como métodos de pagamento; Transação com endereços de criptoativos que se conectam a esquemas de fraude conhecidos ou a mercados na deepweb; A presença, o uso ou a assinatura de rede virtual privada (VPN), usada para mascarar os acessos à internet pelo usuário; O uso de uma máquina virtual, que permite ao usuário acessar um sistema operacional dentro do outro. Por exemplo: Acessar um Linux dentro da plataforma Windows. A presença de software ou hardwares específicos para clientes de criptomoedas; A presença de aplicativos de autenticação como o Google Authenticator; Sites visitados ou salvos como favoritos, relacionados aos itens acima, principalmente fóruns de discussão de criptomoedas, podem indicar que o investigado esteja realizando transações E-mails enviados pelas corretoras após as transações; Posts de usuários nas redes sociais ou fóruns públicos (4chan, Reddit, ou Twitter). Uso de meios de comunicação descartáveis ou criptografados (por exemplo, vários celulares descartáveis ou aplicativos de mensagens criptografados de ponta a ponta, especialmente aqueles que são menos populares comercialmente ou exigem assinatura paga) Discrepâncias entre a identificação do cliente e os endereços IP enviados. O caso clássico de um indivíduo que cria a conta em uma corretora fornecendo endereço no Brasil, mas acessa com um IP vindo da China. Criação de contas separadas sob nomes diferentes para contornar restrições aos limites de negociação ou de retirada. Transações de criptmoedas originadas ou destinadas a serviços de jogos de azar on-line. O uso de cold wallets (hardwares, papel etc) para transportar criptomoedas através das fronteiras. Notamos aqui um conhecimento extraordinário das autoridades sobre o tema. Houve realmente um estudo aprofundado a fim de colocar os faraós e demais estelionatários na cadeia. Com o intuito de encobrir suas práticas e não serem rastreados, eles utilizam navegadores anônimos como o TOR, além de usarem softwares que escondem o IP do computador onde são praticados os delitos. O problema é que em certas situações, os piramideiros antes de fugir do país, protegem seus computadores contra acessos não permitidos, por meio da criptografia. Um exemplo desse estilo de proteção foi utilizado por Marcelo Odebrecht[169]. Em seu computador havia uma quantidade enorme de evidências para a operação lava jato. Para acessá-lo era exigido um token que gerava a senha de acesso do usuário. Infelizmenteesse dispositivo eletrônico foi perdido. O acesso às informações do computador sem esse token é considerado ataque por força bruta. Uma de suas modalidades é o uso de técnicas hackers. Caso as autoridades adotarem tal modalidade, haverá o risco de alteração das evidências. Se elas forem alteradas, não poderão ser usadas contra os piramideiros. Invasão por força bruta é um prato cheio para qualquer advogado argumentar que foi feita uma injeção de provas falsas contra o cliente e levantar o benefício da dúvida em favor dos faraós. O interessante é que a partir do momento que os líderes de uma empresa se tornam suspeitos da prática de pirâmide, eles serão monitorados e terão seus hábitos e rotina catalogados. De acordo com o próprio documento: Observar a rotina do suspeito fornece inteligência para um panorama geral de seus hábitos e conexões com outros indivíduos e entidades envolvidas com ativos virtuais. Nessa fase é preciso identificar os tipos de dispositivos eletrônicos que um suspeito está usando, se a carteira de criptoativos está em sua custódia ou com terceiros, as formas de conexão eletrônica e outros meios eletrônicos que os investigadores possam acessar. Em termos de estrutura, uma forma bastante eficiente de organizar informações de entrada é criando uma linha do tempo com uma sequência de eventos, onde cada ponto do esquema representa uma ação separada e requer evidência de apoio, que pode ser adicionada posteriormente. Além de vigiados, os faraós serão monitorados desde a apresentação lucrativa do esquema até a posterior queda da organização. Nesse sentido, após a apreensão de dispositivos eletrônicos dos estelionatários, as autoridades policiais vão direto às hotwallets com o intuito de retomar os bitcoins das vítimas. Caso as autoridades não saibam a senha de desbloqueio do aplicativo, irão procurar o arquivo wallet.dat, que contém as chaves privadas e podem ser armazenadas com ou sem criptografia. Após ter o acesso, a polícia custodiará as criptomoedas das vítimas para devolvê-las aos verdadeiros donos no fim do processo judicial.[170] Porém, antes de o juiz receber a peça acusatória com todos os dados, eles devem ser coletados. Quem colhe essas informações é a polícia, com todos os meios legais que a criatividade humana permite. Quer saber quais são? Vire a página e descubra 6.2. A AÇÃO POLICIAL NA PRÁTICA Antes mesmo de iniciar o processo judicial existe um procedimento chamado inquérito. É a fase investigativa da ação da penal onde são levantados indícios e informações sobre o delito e o suspeito. Depois de concluído o inquérito, o suspeito vira indiciado. Após o inquérito ser aceito pelo Ministério Público, o indiciado vira réu. Tanto antes quanto depois da ação penal, a polícia age com o intuito de buscar mais provas. Esses elementos probatórios serão utilizados pela acusação para convencer o juiz de que o réu é culpado. Com o intuito de coletar informações para tornar o inquérito mais robusto, as autoridades policias tomam atitudes um pouco diferenciadas em relação aos delitos que envolvam criptomoedas. As empresas suspeitas de pirâmides são pessoas jurídicas. Portanto, as autoridades policiais vão requisitar informações ao Banco Central e à CVM sobre a existência de registro e autorização para operar dentro do país. Além disso, haverá pesquisa na internet e nas redes sociais de modo a identificar o responsável pela empresa. Ao juiz será solicitado o acesso aos relatórios da Unidade de Inteligência Financeira, o antigo COAF. Também ocorrerá a quebra do sigilo bancário, a fim de identificar o destino dos valores recebidos, inclusive confirmar (ou não) o investimento em criptomoedas ou o desvio para pessoas físicas. Durante o mandado de busca e apreensão, o delegado de polícia solicitará a ordem judicial para suspensão das atividades da empresa. Dessa forma, o objetivo é prevenir novos ilícitos. Já em relação às pessoas físicas, os mandados de busca e apreensão cumpridos têm suas peculiaridades. Além da quebra de sigilo fiscal, bancário e telefônico, haverá ainda o pedido de indisponibilidade de bens e prisão temporária do suspeito. Além disso, conforme o manual, “O agente da lei deve ter treinamento para reconhecer dispositivos que apontem para utilização de criptoativos, garantindo que as evidências descobertas no curso da investigação sejam mantidas sob custódia e ou documentadas. ”[171] O mandado de busca e apreensão conterá: Autorização para o acesso ao dispositivo eletrônico no próprio local. Porque há o risco de que os suspeitos possam apagar os arquivos e transferir as criptomoedas para outros lugares. Autorização com o objetivo de transferir as criptomoedas, no próprio local, para uma carteira controlada pelo estado. Posteriormente elas serão liquidadas e o valor depositado em uma conta judicial. Permissão para o acesso de dispositivos eletrônicos ou de armazenamento, e-mails ou telefones vinculados para fim do duplo fator de autenticação. Se as carteiras forem custodiadas por exchanges, as seguintes informações serão exigidas: Em relação às wallets, o mandado de busca conterá o acesso aos dados fundamentais: endereços, senhas ou chaves privadas, transações, e-mails e números de telefones vinculados com as respectivas senhas e a seed de recuperação da carteira virtual. Autorização para a quebra do sigilo fiscal, com o objetivo de verificar se a criptomoeda foi declarada. No que diz respeito à indisponibilidade dos bens, serão autorizados: o sequestro dos bens; o acesso aos dispositivos eletrônicos, e-mails e telefones; a transferência das criptomoedas custodiadas em Exchange para uma wallet controlada pelo estado; liquidação a preço de mercado para transferência à conta judicial atrelada aos autos do processo. Por mais que a consulta aos dados dos piramideiros forneça alguma prova, nada melhor do que interrogar o suspeito. O interrogatório também foi aperfeiçoado com as novas técnicas de confronto. Elas estão esperando você na próxima página. 6.2.1 O INTERROGATÓRIO Depois que o suspeito é levado ao interrogatório, algumas ações são tomadas pelas autoridades policiais. Com o surgimento das criptomoedas, foi desenvolvida uma sequência específica de técnicas de confronto. Para cada tipo de alegação do suspeito, uma pergunta diferente será feita pelas autoridades policiais. Veremos com mais detalhes. I - Alegação de que os ganhos identificados como ilícitos tem origem na mineração de criptomoedas: Técnicas de confronto: Exigir a apresentação de todos os custos operacionais: sobretudo com infraestrutura, aquisição de máquinas para mineração e consumo de energia elétrica. Em coleta de provas orais, esclarecer a data em que houve a mineração, quanto foi minerado, em quais carteiras foram alocadas as criptomoedas, se a mineração foi ininterrupta ou em quais períodos teria sido realizada. Com essa linha de raciocínio, as autoridades policias conseguirão derrubar diversas pirâmides financeiras que dizem minerar criptomoedas. II - Pulverização de criptoativos em diversas carteiras independentes e não vinculadas ao titular da carteira inicial: Técnicas de confronto: A investigação realizará a análise de transações das carteiras apontadas pelos investigados como aquelas sob seu controle. A partir de suas alegações serão rastreadas transferências realizadas para outras wallets através da técnica de pulverização de criptomoedas. Um dos recursos que é muito utilizado pelos faraós em geral. Eles possuem uma carteira para que as vítimas depositem suas criptomoedas. Posteriormente eles pulverizam as criptomoedas em outras wallets sobre seu controle III - Criação de interpostas pessoas jurídicas, no Brasil e exterior, para justificar ganhos obtidos como se fossem decorrentes de trading ou mineração: Técnicas de confronto: O uso de informações fiscais. O acesso à base de dados de pessoas jurídicas e de seus funcionários, como aquela mantida pelos órgãos de Previdência Social, além de informações de constituiçãodas empresas. A criação de empresas é comum entre os piramideiros e tem sido combatida pelas técnicas de confronto em análise. Por mais que essa técnica de confronto seja válida, eu acrescentaria ainda a infiltração[172] de agentes nesses esquemas com o intuito de obter o máximo de informação possível para dar um maior suporte probatório à denúncia do Ministério Público. IV - Utilização de intermediários para simular operações de alienação de criptomoedas, de forma a justificar para órgãos de fiscalização e controle, a venda com ganho de capital e declarar assim patrimônio e renda: Técnicas de confronto: Cruzamento com informações coletadas em bases fiscais e de antecedentes criminais. Cruzamento com os dados coletados a partir de quebra de sigilos fiscais e bancários autorizados. A Midas Trend, por exemplo, utilizava um robô para simular negociações de criptomoedas, que supostamente fazia diversas transações e gerava rendimento a quem possuísse a sua licença de operação. Além disso, quem vendia mais dessas permissões subia no plano de carreira, ou seja, ia em direção ao topo da pirâmide. Por mais que o cruzamento de dados seja uma opção interessante, a infiltração de agentes nesses esquemas de pirâmide continua sendo uma das estratégias mais inteligentes para desmantelar esse tipo de organização criminosa. V - Aquisição de criptomoedas recém-mineradas, sem histórico de transações: esquema utilizado para lavagem do dinheiro das máfias e organizações criminosas internacionais, que alegam que o dinheiro dos crimes que praticam tem origem na mineração. Técnicas de confronto: Exigência da prova de que cada bloco alegadamente minerado esteja vinculado a um equipamento de mineração com a identificação do endereço IP utilizado e/ou MAC Address do dispositivo. Por mais que a lavagem de dinheiro das organizações criminosas seja feita com Bitcoin, os criminosos usam altcoins recém mineradas para o mesmo fim. Entretanto, adquirir criptomoedas recém mineradas é algo muito utilizado por alguns youtuber que praticam “pump e dump”. Eles compram a altcoin quando ela não vale absolutamente nada, fazem um marketing agressivo prometendo Deus e o mundo e depois vendem tudo pelo triplo do preço que compraram, deixando no prejuízo quem acreditou neles. VI - A Omissão de dados por Exchanges que não realizam procedimentos de compliance e KYC. Técnicas de confronto: É importante salientar que a identificação KYC (Know Your Client) implica que empresas que são ativas no setor de serviços financeiros precisam saber quem são os clientes, a fim de conferir sua identificação e evitar roubo de identidade, fraude, lavagem de dinheiro e outros delitos. Quebra de sigilo fiscal e bancário para confronto com os dados coletados no curso da investigação de empresas que não apresentem qualquer tipo de ação no sentido de identificar os clientes. Hoje em dia praticamente todas as exchanges fazem o KYC. Quem não faz o KYC são as empresas envolvidas com pirâmide. Pelo fato de não possuírem a autorização da CVM para operar, podemos concluir que não se importam nem um pouco com a legalidade. Os piramideiros pensam: “ Por que eu vou me esforçar para fazer o KYC se eu nem solicitei a autorização da CVM? O negócio é lucrar em cima dos trouxas! ” Dessa forma, notamos que quem age legalmente procura saber com quem está negociando. Os estelionatários, por outro lado, não se importam em enganar ou iludir seus clientes. Afinal, quando a pirâmide der seus primeiros sinais de inadimplência, os membros da cúpula fogem para outros países e colocam a culpa em outras pessoas. Por mais que os piramideiros tenham se adaptado à tecnologia para esconderem seu esquema fraudulento, percebemos que as forças policiais também fazem uso dela para solucionarem os crimes. Utilizando a privacidade presente na Blockchain, os criminosos cometem seus crimes e achavam que podem sair impunes. Achavam. Mas hoje notamos que por mais que a privacidade seja uma pedra no pé dos investigadores, há empresas e softwares especializados a ajudá-los. No próximo capítulo descobriremos quais são 6.3. OS SOFTWARES UTILIZADOS Um dos maiores desafios na investigação é a vinculação de uma wallet com seu proprietário. Partindo desse fato, os investigadores utilizarão aplicativos web que permitem pesquisar endereços, transações e outros detalhes a ela relacionados. Assim, fica fácil a identificação de fluxos financeiros entre os endereços. O ecossistema das criptomoedas permite um certo anonimato. Você sabe quantos bitcoins saíram da carteira X para a carteira Y, mas não sabe quem enviou e quem recebeu. As autoridades enfrentam essa dificuldade durante as investigações. A vinculação é realmente complicada, quase impossível. Ainda mais quando existem os mixers/tumblers. Serviços como o Anonymix, BitcoinMixer e Bitcoin Fog reforçam o anonimato das transações e o “obscurecimento dos fluxos financeiros”[173]. Para procurar criminosos virtuais e piramideiros, o estado utiliza serviços dos especialistas. “Empresas como a Elliptic e a Chainalysis já oferecem softwares de pesquisa diferenciada dentro do Blockchain. Elas contam com ferramentas para análise dos registros, estabelecendo um padrão na detecção e investigação de crimes envolvendo criptoativos”[174]. Além das próprias pesquisas pela Blockchain, os softwares dessas empresas têm funcionalidades específicas para rastrear as transações. Por meio deles é possível pesquisar endereços parciais de criptomoedas, visualizar o histórico de transações de uma determinada carteira, inclusive se alguma operação foi realizada na deepweb. Geralmente, esses softwares são superiores aos de código aberto porque oferecem uma combinação de ferramentas que aumentam o número de entidades identificadas e melhoram o agrupamento de endereços. Não surpreende se as autoridades tiverem o software do Bitcoin instalado em alguma de suas repartições. O Bitcoin Core é uma carteira full-node, portanto vai baixar todas as transações já feitas. Numa investigação ele é muito útil para pesquisar as operações. O roteiro recomenda a instalação para treinamento e compreensão das https://bit.ly/anonymix https://cryptalker.com/bitcoinmixerorg/ https://bit.ly/bitcoinfog informações como IP e metadados, que podem ser colhidos numa busca e apreensão. Depois de instalado, ele abre uma gama de informações relevantes aos investigadores: IP, endereço e saldo. Quando qualquer um dos endereços é selecionado, os metadados sobre a conexão são exibidos. Ao inspecionar a carteira do suspeito, o nó remoto com o primeiro tempo de conexão pode dar ao investigador uma ideia de quanto tempo a carteira do suspeito estava aberta. Exemplo: Portanto, notamos que o conhecimento das autoridades policiais sobre o tema aumentou muito. Por mais que ainda não seja tão profundo, se utilizadas as ferramentas certas, grandes organizações criminosas serão atingidas e muitas pirâmides derrubadas. 7. PALAVRAS FINAIS Como você pôde ver, o livro procurou fazer um apanhado geral dos crimes mais comuns envolvendo criptomoedas. O problema inicial era procurar responder se a prática de enviar bitcoins ao exterior caracteriza o crime de evasão de divisas. Com base em diversas pesquisas e operações realizadas foi possível apresentar algumas conclusões. Uma delas é que o Bitcoin não é considerado moeda. A teoria privatista afirma que a moeda teve origem no mercado. A livre concorrência estipularia um meio de troca aceito por todos e usado para adquirir outros bens. Segundo ela, o Bitcoin seria moeda. Entretanto, a adotada pelos legisladores e bancos centrais é outra: A teoria publicista. A teoria publicista estabelece que moeda é o meio de pagamento com origem no estado. É um conceito totalmente absurdo, já que a moeda nasceu das trocas voluntárias entre as pessoas antes mesmo do surgimento do Leviatã. Em relação aos títulos de crédito, notamos algumas características: Cartularidade, apresentabilidade elei será analisada no segundo; e, se o Bitcoin é divisa ou não, vai ser abordado no terceiro tópico. Depois de verificado se enviar bitcons ao exterior é crime ou não, será analisado o delito mais comum envolvendo criptomoedas: as pirâmides financeiras. Os fundadores do esquema se baseiam em um método criado em 1920 que ainda ilude pessoas 100 anos depois. Além de explicar como funcionam as pirâmides, o livro também ensina o leitor a não cair na lábia desses faraós. Para capturar esses criminosos, as forças policiais tiveram que aprender a lidar com as criptomoedas. Era inevitável. Em 2017, o preço do bitcoin disparou. A quantidade de pirâmides financeiras também. Os membros das forças policiais, do Ministério Público e do Poder Judiciário não sabiam como as criptomoedas funcionavam. Vários mandados de busca e apreensão foram cumpridos sem sucesso pelo fato de não haver o conhecimento sobre a tecnologia por parte das autoridades. E, para dificultar ainda mais, não existe um órgão central na rede Blockchain para cumprir a ordem. Para quem está acostumado com bloqueios patrimoniais feitos com auxílio do BacenJud (contas bancárias e investimentos) e Renajud (veículos), mandar congelar criptomoedas era algo extremamente novo e chocante. Era chocante porque as autoridades não sabiam como a tecnologia funcionava. As decisões são tomadas com base no consenso de quem participa da rede. Nela não existe poder central e nenhum membro da rede obedece ao estado. Para entender como funciona e poder investigar os crimes que envolvem criptomoedas, foi elaborado em 2019 o “Roteiro de Boas Práticas de Investigações em Criptoativos”. Essas práticas vão nortear a fase investigativa e processual. Afinal, o objetivo é tornar qualquer indício em prova para que o suspeito seja transformado em réu e posteriormente condenado. O procedimento investigativo vai levar em consideração certas informações e aplicativos específicos relacionados às criptomoedas. Por exemplo, se o indivíduo possuir em seus dispositivos eletrônicos o navegador TOR ou qualquer software de VPN, ele será considerado suspeito, porque tais aplicativos são indícios de que operações são realizadas na criptoeconomia. Para cada tipo de suspeito, uma ação específica. Se ele for uma pessoa jurídica, as autoridades vão requisitar informações ao Banco Central e à CVM sobre a existência de registro e autorização para operar dentro do país. Além disso, haverá pesquisa na internet e nas redes sociais para identificar o responsável pela empresa. Se o suspeito for pessoa física, serão solicitadas ao juiz autorizações para acessar o dispositivo eletrônico no próprio local e transferir as criptomoedas para uma wallet controlada pelo estado, por exemplo. Caso o suspeito tenha cadastro em corretoras, vários outros dados serão solicitados para que haja o cruzamento de informações a fim de tornar o inquérito um relatório mais robusto. Além disso, o interrogatório será diferenciado. Para cada alegação do suspeito, será feita uma série de perguntas. Além de tornar a investigação mais inteligente, especialistas vão procurar vincular a wallet com o suspeito. Para realizar esse vínculo, há empresas e softwares que realizam esse trabalho. Empresas como a Chainalysis prestam estes serviços especializados para que as autoridades descubram, por exemplo, se a carteira é de fato do suspeito ou se dela foram transferidos bitcoins para outra na deepweb. É com base na apresentação dessas ideias que o autor procura fazer valer o subtítulo do livro: Como as criptomoedas escancaram o atraso das leis no Brasil. É visível que as forças policiais hoje têm um conhecimento inegável para tentar rastrear os usuários de criptomoedas. Mas, infelizmente, a polícia usa essas informações para combater crimes previstos em leis antigas, elaboradas para atingir objetivos que em 2020 são motivos de piada. Dessa forma, o livro pretende trazer um vasto e inesquecível conhecimento ao leitor. Com base nas ciências econômicas, contábeis, jurídicas e da computação, procura-se explicar detalhadamente ao leitor o que são as criptomoedas e como elas têm impacto na vida de quem as possui. Uma parte desse conhecimento está disponível e a outra está em segredo, restrita a somente algumas autoridades. Mas, graças a esta obra, você terá acesso de maneira organizada a este conhecimento e estará apto a negociar, guardar suas criptomoedas de maneira segura, além de protegê-las tanto dos criminosos quanto dos diversos autoritários que existem no mundo. 2. O BITCOIN E AS OUTRAS CRIPTOMOEDAS Este capítulo será sobre a definição das criptomoedas. Os atributos técnicos serão elencados com base nos livros nacionais e internacionais sobre o tema. Com auxílio do Direito e da Economia, será discutido se elas são de fato moedas, títulos de crédito, ativos ou bens. Já no que diz respeito à cobrança de impostos[5], será explicado não só como a Receita Federal vê as criptomoedas, mas também os meios usados pelo fisco para rastrear vida do “contribuinte”[6]. Posteriormente, serão detalhadas as operações com bitcoins baseadas naquelas realizadas pelo autor, além de como guardá-los com segurança. E no fim do capítulo, as leis econômicas serão aplicadas para classificar as transações e explicar o porquê de as pessoas preferirem manter seu patrimônio em bitcoins a trocá-lo pelas moedas fiduciárias. 2.1. O QUE É BITCOIN? Em 2008 o mundo foi assolado pela gigantesca crise do subprime, decorrente de irresponsabilidades de crédito por parte dos bancos americanos. Estes atos imprudentes levaram milhares de pessoas (pobres em sua maioria) a perderem seus imóveis, poupanças e aposentadorias. O apocalipse financeiro havia chegado. As instituições financeiras quebraram. Lehman Brothers, o banco “grande demais para quebrar”, foi à falência junto com outros menores. Após essa catástrofe e muito diferente dos cidadãos, eles foram salvos pelo Banco Central Americano, o FED, quando o governo decidiu injetar liquidez no mercado. Em outras palavras: imprimir mais dinheiro. Após essa atitude inesperada do Banco Central Americano, a desconfiança tomou conta das pessoas e da mídia. Alguns meses depois, um pseudônimo da internet chamado Satoshi Nakamoto escreveu um curioso white paper e publicou na internet. O documento, com o nome Bitcoin: a Peer-to-Peer Eletronic Cash System, criava um meio de pagamento totalmente online, sem a necessidade dos bancos, e completamente fora do sistema financeiro tradicional. Fernando Ulrich, o especialista no Brasil sobre o assunto, define o Bitcoin como uma forma de dinheiro totalmente digital cujo valor é determinado pelas pessoas. Além disso, ele afirma que o Bitcoin fará com o dinheiro o que o e-mail fez com as cartas: Em poucas palavras, o Bitcoin é uma forma de dinheiro, assim como o real, o dólar ou o euro, com a diferença de ser puramente digital e não ser emitido por nenhum governo. O seu valor é determinado livremente pelos indivíduos no mercado. Para transações online, é a forma ideal de pagamento, pois é rápido, barato e seguro. Você lembra como a internet e o e-mail revolucionaram a comunicação? Antes, para enviar uma mensagem a uma pessoa do outro lado da Terra, era necessário fazer isso pelos correios. Nada mais antiquado. Você dependia de um intermediário para, fisicamente, entregar uma mensagem. Pois é, retornar a essa realidade é inimaginável. O que o e-mail fez com a informação, o Bitcoin fará com o dinheiro. Com o Bitcoin você pode transferir fundos de A para B em qualquer parte do mundo sem jamais precisar confiar em um terceiro para essa simples tarefa. É uma tecnologia realmente inovadora. […] Em definitivo, o Bitcoin é a maior inovação tecnológica desde a internet, é revolucionário, sem precedentes e tem o potencial de mudar o mundo de uma forma jamais vista. À moeda, ele é o futuro. Ao avanço da liberdade individual, é uma esperança e uma grata novidade. (ULRICH, 2014,) Aqui se percebe uma previsão esperançosa e surpreendente comparando o que aexecutabilidade. O Bitcoin não tem a característica da cartularidade pelo fato de não ser de papel; também não possui o requisito da apresentabilidade por ser digital e não existir direito de crédito vinculado a ele; e, por fim, não apresenta efeito executivo. Além de não ser um título de crédito, seu preço oscila de acordo com a vontade do mercado e não está sujeito à legislação cambiária. Ele também não é um ativo financeiro pelo fato de não estar presente no rol do art. 2º da Lei 6.385/76, além de o mercado de criptomoedas não ser regulado pela Comissão de Valores Mobiliários. Entretanto, o Banco Central categorizou o Bitcoin como “ativo não financeiro produzido, o que implica sua inclusão na conta de bens da balança de pagamentos” Evidenciamos que ativo é o conjunto de bens e direitos com a possibilidade de gerar renda para quem os possui. Devido ao seu potencial de valorização causado pela escassez, foi mostrado que o Bitcoin é classificado como um bem, no subgrupo dos ativos não financeiros. O Bitcoin é assim considerado porque tem valor econômico e satisfaz algumas necessidades humanas, como ter um patrimônio facilmente transportável e inconfiscável, por exemplo. Pelo que foi apresentado, concluímos que a obra de Nakamoto é um bem móvel, incorpóreo, substituível, inconsumível, divisível e altamente comercializável. Pelo fato de ser comercializado, a Receita procurou observar as operações que o envolvem. Depois da edição das Instruções Normativas 1.888/2019, as corretoras e os p2p são obrigados a informar o Leão quem você é e o quanto negocia. Entretanto, por mais que haja essa coleta de informações, nem sempre é exigido o pagamento de tributos. Se você, por exemplo, opera mensalmente com valores abaixo de R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais), está protegido pela isenção. Ainda. Infelizmente, as informações devem ser fornecidas à Receita Federal. Verificamos que esse banco de dados localizado em uma instituição central pode e será alvo de hackers. Depois de acessado, os criminosos virtuais têm o suficiente para localizar, sequestrar e extorquir quem possua Bitcoins[175]. E esse banco de dados não é preenchido só com dados das transações com Bitcoin. Basicamente o fisco fica sabendo de tudo o que você faz que envolva dinheiro. A cada dia que passa, ao banco de dados do fisco são acrescentadas mais informações sobre você por meio da Declaração de Operações com Cartões de Crédito quando você decide usá-lo para fazer compras. Se você pretende comprar um imóvel, o fisco vai descobrir por meio da Declaração de Operações Imobiliárias. Depois de descobrir que o fisco sabe tudo sobre sua vida, procuramos responder à pergunta “Devo declarar meus Bitcoins? ” Com o intuito de questionar a moralidade dos impostos, estimulamos o debate interno na mente do leitor sobre a declaração das criptomoedas no Imposto de Renda. Afinal, o Fisco já sabe de muita coisa sobre você. Porém, caso o leitor quisesse declarar, bastava seguir o guia feito no tópico. As operações foram muito bem detalhadas. Foi relatado o processo de compra no Brasil, negociação no exterior, envio e posterior venda. Depois de realizado um trade de sucesso, você geralmente negocia ou guarda seus bitcoins. Ficou evidenciado que os traders vendem, os Holders procuram acumular, guardando no local mais seguro de todos: fora da internet, em uma paper wallet. Como o próprio nome já diz, é uma carteira de papel. Além de ser segura, foi demonstrado que criá-la é extremamente fácil: basta um computador livre de pragas virtuais e uma simples conexão com a internet. Percebemos que quando uma criptomoeda é enviada de uma carteira a outra ocorre uma simples transferência, da mesma forma que trocar um móvel de um cômodo a outro. Já se for comprada ou vendida ou até mesmo trocada por algo, ocorre uma transação, como quando negociamos um veículo. Com o auxílio da ciência econômica, percebemos que se ela for trocada pelo papel colorido do estado, estaremos diante de uma transação financeira; se for negociada por outra criptomoeda, o Direito nos diz que estaremos diante de uma permuta. Vimos que as criptomoedas são regidas pelas leis do Direito e da Economia. Uma delas rege não só as transações que envolvem o Bitcoin, mas toda e qualquer transação que envolva uma ou mais moedas: A Lei de Gresham. Ela afirma que as pessoas tendem a guardar a moeda boa e usar a ruim para as suas despesas diárias. A sua aplicação em relação às criptomoedas é visível quando os indivíduos realizam suas negociações com o intuito de aumentar seu patrimônio em Bitcoin. As pessoas preferem não gastar porque sabem do seu potencial de valorização e a dificuldade de conseguir novos satoshis. Já em relação ao crime de Evasão de Divisas, percebemos que ele está presente na Lei 7.492/86, promulgada em uma época de caos econômico, repleta de inflação alta e preços tabelados. Nenhum investidor com bom senso pensaria em colocar seu dinheiro no Brasil e quem já tivesse investido faria questão de tirá-lo daqui. Por consequência, o preço das moedas estrangeiras disparava, o que prejudicava o pagamento da dívida externa do Brasil, contraída em dólares. Com o intuito de frear esse aumento, o crime de Evasão de Divisas foi criado e a norma carinhosamente apelidada de Lei dos Crimes de Colarinho Branco. Previsto no artigo 22 da Lei 7.492/86, o crime tem exatamente três modalidades de Evasão: A operação, o envio e o depósito. A primeira é a operação de câmbio não autorizada. Ficou visível a presença do dolo específico no caput quando vemos a expressão: “com o fim de evadir divisas”. Em outras palavras: para que o crime exista, o indivíduo deve ter o objetivo específico de evadir divisas do país. Já a segunda modalidade aborda a evasão-envio. É aquela modalidade em que o indivíduo cruza a fronteira do país com dinheiro em quantidade superior a R$ 10.000,00 (dez mil reais) sem a devida DPV (Declaração de Porte de Valores), seja saindo do país ou nele entrando. Percebemos também que na expressão “a qualquer título” está presente o dolo genérico, ou seja, o legislador quando criou o crime nem se importou com a verdadeira intenção do indivíduo. Inserindo o dolo genérico no texto para englobar as outras condutas não previstas no caput, notamos que faltou a mínima noção ao legislador quando decidiu expandir o alcance da norma penal. Dessa forma, qualquer pessoa que pretenda entrar no país ou dele sair com valores acima de R$ 10.000,00 (dez mil reais) e sem a Declaração de Porte de Valores, cometerá a segunda modalidade do crime. A terceira modalidade é aquela que prejudica o indivíduo que tem patrimônio no exterior e não o declara ao Banco Central. Eduardo Cunha, por exemplo, foi condenado pela prática do crime porque tinha 5 milhões de dólares em um banco Suíço, não informados ao BACEN. Como já mencionado, o crime deve existir para punir quem ofende um bem protegido pelo Direito. O crime de Evasão de Divisas existe para proteger a exação fiscal e as reservas cambiais do país, mas o livro permitiu concluir de maneira diferente. As reservas cambiais fazem referência ao estoque total de moedas estrangeiras que o país possui. Já a exação fiscal é o controle que o estado faz do patrimônio tributável, presente no exterior, das pessoas com domicílio tributário no país. A exação fiscal, um dos bens tutelados pela Lei 7.492/86, já é protegido pela Lei dos crimes contra a ordem tributária. Essa extensão penal demonstra a sanha do estado por arrecadar a ponto de querer punir com duas leis distintas o mesmo delito fiscal. Porém, o fato de a Lei 7.492/86 tutelar a exação fiscal do estado atenta contra os princípios da especialidade e da intervenção mínima. Ofende o princípio da especialidade porque a exação fiscal já é protegida pela Lei 8.137/90 e o princípio da intervenção mínima é desrespeitado porque o estado quer proteger o mesmo bem usando outra norma. O mais bizarro é que a Lei dos crimes contra a ordem tributária exige um requisito para o crime ser configurado:O lançamento tributário. O parágrafo único do delito de Evasão de Divisas não faz essa exigência. Além de não respeitar os princípios penais, ele desconsidera as garantias do “contribuinte” [176]. Já em relação às reservas cambiais, elas são o estoque de moeda estrangeira no país. Elas têm influência direta na valorização do Real, com reflexos nas importações, exportações e na taxa de inflação. Além disso, quanto maior as reservas de um país, maior sua confiabilidade no mercado internacional. Porém, há um pequeno detalhe. O crime de Evasão de Divisas não impede a lesão às reservas cambiais, mas sim a ofensa ao seu controle. A bizarrice continua aqui: Quando um indivíduo atravessa a fronteira do país com mais de U$D 10.000,00 (dez mil) dólares não informados às autoridades, ele está praticando o crime. Já quando o investidor retira do país a quantia USD 1.000.000.000,00 (um bilhão) de dólares devidamente comunicada, ele não pratica o crime, mas causa uma lesão, matematicamente falando, cem mil vezes maior às reservas de dólares do país. Portanto, a lesão às reservas cambiais é uma desculpa para o estado vigiar o patrimônio das pessoas, ficando explícito que uma simples função de controle por parte do BACEN se tornou um objeto de proteção penal. É um completo absurdo porque viola os princípios penais da subsidiariedade e intervenção mínima. Esses princípios preveem que o Direito Penal deve ser usado somente quando os outros ramos do Direito não puderem resolver o problema. Assim sendo, em relação ao crime de Evasão de divisas, percebemos que qualquer ofensa ao controle informacional do BACEN deve ser abordada na esfera administrativa e não penal. Em relação ao termo “moeda ou divisa”, vimos que é uma expressão muito ampla. Depois de uma pesquisa profunda em diversos dicionários jurídicos e econômicos, concluímos que a palavra representa a disponibilidade cambial de uma nação, ou seja, o estoque de moeda estrangeira que um país possui em sua balança comercial. Portanto, a partir daí já começamos a notar uma incompatibilidade de enquadramento da prática de negociar bitcoins com a conduta criminosa, já que a teoria adotada no mundo não considera o Bitcoin como moeda. Ficou evidenciado também que, pelo fato de as criptomoedas não serem moedas, a sua negociação não é uma operação de câmbio. Câmbio é a troca de um papel colorido estatal por outro. Além disso, o Bitcoin não é regulado por nenhum Banco Central. Quando um indivíduo troca Reais, Dólares ou qualquer outra moeda estatal por criptomoedas, ele realiza uma operação comercial de mercadorias digitais. Dessa forma, percebemos que negociar bitcoins não é compatível com a conduta prevista no caput do artigo 22. O parágrafo único por sua vez prevê: “Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior”. Entretanto, concluímos que a sua aplicabilidade à prática de enviar criptomoedas ao exterior é impossível por diversos fatos. Vamos a eles. O exemplo mais explícito da ocorrência crime de Evasão de Divisas é quando o indivíduo atravessa a fronteira com mais dinheiro que o permitido e sem a respectiva Declaração de Porte de Valores, isto é, a “autorização legal”. Mas se em vez de dinheiro ele for para outro país com criptomoedas, o que acontece? Inicialmente, ficou explícito que a mera revista dos dispositivos eletrônicos viola as garantias constitucionais da privacidade, da intimidade e do sigilo das comunicações, além de caracterizar abuso de autoridade. Em um outro momento, percebemos que em relação à expressão “exterior”, a conduta do crime não se aplica à pratica do negociante de bitcoins, já que a carteira virtual é um mero conjunto de chaves que permite o acesso às criptomoedas presentes na Blockchain, que por sua vez fica na internet. Depois de uma profunda análise nos dicionários etimológicos, concluímos que exterior significa “aquilo que está fora e é externo, fora de um limite” que, no caso em análise, é o territorial dos países. Todos nós sabemos que a internet não reconhece fronteiras. Sites hospedados na Rússia podem ser acessados de um computador presente no interior do Paraguai. A Blockchain funciona da mesma forma: Ela pode ser acessada de qualquer lugar do planeta. É impossível promover a saída de um país de algo que fica “hospedado” na internet. O Bitcoin não sai do Brasil porque ele nunca esteve aqui. Ele é uma informação computacional com valor monetário cujo registro fica na Blockchain, ou seja, um bem digital presente na internet. Semelhante a esse raciocínio, a evasão-depósito é aquela prevista na terceira e última parte do parágrafo único: “[...] ou nele mantiver depósitos não declarados à repartição federal competente”. Novamente, o conceito de exterior é vital para a existência do crime. Mesmo o indivíduo podendo transacionar bitcoins nas corretoras presentes no mundo inteiro, as criptomoedas não se mantêm no exterior; ficam, como dito anteriormente, na Blockchain que, por sua vez, fica na internet. Além disso, o Bitcoin não é considerado divisa. Após uma pesquisa realizada nos dicionários linguísticos, econômicos e jurídicos, notamos que o significado da palavra Divisa é realmente abrangente. Os dicionários econômicos afirmam que o termo engloba as moedas estrangeiras, os títulos de crédito e os ativos financeiros. Já os dicionários linguísticos e jurídicos conceituaram o termo somente como disponibilidade cambial que o estado possui em países estrangeiros. A jurisprudência conceitua o termo de maneira um pouco abrangente, mas nem tanto assim. Os TRFs em suas decisões definiram o significado da palavra divisa de acordo com os dicionários econômicos, incluindo títulos de crédito e ativos financeiros. Porém, há uma ressalva em relação ao ouro. Se o ouro for utilizado para fins de reserva de valor, é divisa porque é ativo financeiro. Caso seja utilizado em joias e demais ornamentos como o diamante, será considerado um bem. Assim como o Bitcoin. Conforme já visto, o Bitcoin não é moeda, título de crédito e nem ativo financeiro, restando-lhe ser classificado como um bem. Dessa forma, ele não pode ser utilizado para a prática do Crime de Evasão de Divisas. Mas infelizmente é utilizado por criminosos que aparentam ser empresários do ramo do Marketing Multinível. Em outras palavras: os faraós das pirâmides financeiras. Ficou evidente que a essência do esquema é aquela que foi criada por Charles Ponzi em 1920: Atrair pessoas oferendo algo curioso com a promessa de riqueza. Elas ficam empolgadas com a ideia de participarem do negócio do século se comprarem uma criptomoeda que rende lucros de 1 a 2% ao dia. Esses criminosos usam o Bitcoin para mascarar o esquema fraudulento que remunera os investidores com o dinheiro de novos participantes. O topo da pirâmide é mantido com os esforços da base. Toda essa fraude ganha a credibilidade quando as pessoas assinam um contrato reconhecido em cartório. Juridicamente falando, esses contratos são de investimento coletivo, considerados ativos financeiros pela Lei 6.385/76. Por consequência, a atividade dessas empresas é regida pela Comissão de Valores Mobiliários. Mas essas empresas que oferecem esses contratos nunca têm autorização da CVM para operar. Os criminosos omitem essa informação e pouco se importam se o os participantes sabem disso. A ganância já cegou a vítima. Depois da pesquisa realizada, percebemos que a pena para “obter ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número indeterminado de pessoas mediante especulações ou processos fraudulentos” é de 6 meses a 2 anos. Totalmente desproporcional pelo dano que o crime causa. O Delito de pirâmide financeira, está previsto na Lei 1.521/51, uma norma antiga que deve ser atualizada para não só punir esses criminosos com mais rigor, mas obriga-los a ressarcir suas vítimas. Com o intuito de capturar esses delinquentes, os investigadores aprimoraram suas técnicas. Com participação do GAFI, da EUROPOL eda ENCCLA, em 2019 foi elaborado o Roteiro de Boas Práticas de Investigações em Criptoativos. Esse guia policial mostrou o avanço do conhecimento das autoridades de como funciona a criptoeconomia. É relatado, por exemplo, como e onde são negociadas e armazenadas as criptomoedas. Dessa forma, os investigadores descobriram que elas não ficam guardadas no dispositivo, mas sim na Blockchain. O software do dispositivo eletrônico nada mais é que o conjunto de chaves que permite o acesso a elas. Em relação aos softwares, há alguns que indicam que o suspeito possua criptomoedas: Navegador TOR, aplicativos de máquina virtual, VPN e fator duplo de autenticação. O procedimento investigativo também se tornou mais moderno e inteligente. São observadas as informações fiscais, financeiras e de código aberto do suspeito. A partir do conhecimento desses dados, ele passa a ter a rotina rastreada. Caso o suspeito seja uma pessoa jurídica, por exemplo, a ação policial foca na requisição de informações por parte do BACEN e da CVM, além dos dados da Unidade de Inteligência Financeira, o COAF. Também será solicitada a quebra do sigilo bancário com o intuito de registrar possíveis desvios a pessoas físicas. A suspensão das atividades empresariais é importante para que a prática de novos crimes seja evitada. Vimos que o mandado de busca também é diferenciado: Além do sequestro e indisponibilidade dos bens, é solicitado ao juiz a apreensão e a transferência das criptomoedas, no local da busca, para uma carteira controlada pela polícia. O interrogatório também mudou. Os agentes possuem novas técnicas de confronto para cada alegação do suspeito. Caso ele afirme investidor em mineração de criptomoedas, a polícia exigirá a apresentação dos custos operacionais do processo, por exemplo. Se a pirâmide financeira for feita por meio de uma pessoa jurídica, haverá a procura de informações em bases fiscais, além da quebra de sigilo bancário. Por consequência, fica muito mais fácil para as autoridades capturarem esses delinquentes que surgem a cada dia com o intuito de iludir as pessoas e tomar o patrimônio delas. Notamos que no processo investigativo serão utilizados os serviços de empresas especializadas em rastreio. Verificamos que, por exemplo, a Elliptic e a Chainalysis auxiliam as autoridades a capturar os criminosos virtuais. Percebemos que o cerco aos criminosos está se fechando. Nós torcemos muito que as autoridades policiais capturem os verdadeiros bandidos: os piramideiros. Eles sim causam grandes lesões ao patrimônio das pessoas, além de sujar a imagem das criptomoedas ao redor do mundo 8. REFERÊNCIAS ANTANOPOULOS, Andreas M. Mastering Bticoin: Unlocking digital cryptocurrencies. California: O’Reilly, 2017. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Carta Circular 3225/12/02/2004. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/exibenormativo? tipo=Circular&numero=3225. Último acesso em 10 de novembro de 2019. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Comunicado 31379/16/11/2017. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/exibenormativo? tipo=Comunicado&numero=31379. Último acesso em 10 de novembro de 2019. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Cotações e boletins. 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Disponível em: https://www.westernunion.com/br/pt/send-money/app/start. Último acesso em 10 de novembro de 2019 9. SOBRE O AUTOR Bacharel em Direito pela UniversidadeFederal de Santa Catarina. Trader. Defensor do Bitcoin. Libertário. 10. POSSO TE PEDIR UM FAVOR? Se você gostou desse livro, eu ficaria muito feliz se você escrevesse uma avaliação lá no site da Amazon. Um feedback lá ajuda a dar mais visibilidade ao livro e faz uma grande diferença para mim como escritor. Eu fico muito feliz quando recebo notificação de que alguém deixou um comentário lá na Amazon. https://bit.ly/BitcoinEvasãodeDivisas Quer trocar ideia diretamente comigo? Manda um e-mail para marcoantoniocoelho@msn.com ou me procura lá no Instagram @marcoantoniocoelh0. Muito obrigado. ~Marco https://bit.ly/BitcoinEvas%C3%A3odeDivisas [1] https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf [2] https://br.cointelegraph.com/news/bitcoin-pizza-guy-laszlo-hanyecz-on-why- bitcoin-is-still-the-only-flavor-of-crypto-for-him [3] Sociedade do Livre Mercado, amigo! [4] “A coisa mais difícil de compreender neste mundo é o imposto de renda”. – Albert Einstein [5] “A diferença entre a morte e os impostos é que a morte não piora toda vez que Congresso se reúne”. – Wil Rogers [6] “Me arrancam tudo à força e depois me chamam de contribuinte” – Millôr Fernandes [7] NAKAMOTO, 2008. [8] https://www.bitcoinblockhalf.com/. [9] Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/688769336737497150/ [10] https://coinmarketcap.com/all/views/all/ [11] https://www.kraken.com/pt-br/ [12] https://www.bitfinex.com/ [13] https://www.bitstamp.net/ [14] ROTHBARD, 2013. [15] ROTHBARD, 2013 [16] ROTHBARD, 2013 [17]https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e politica/noticia/2020/03/23/banco-central-reduz-aliquota-de-compulsorio-sobre- depositos-a-prazo-de-25percent-para-17percent.ghtml [18] Lei 8.880/94: Art. 1º - Fica instituída a Unidade Real de Valor - URV, dotada de curso legal para servir exclusivamente como padrão de valor monetário de acordo com o disposto nesta Lei. (BRASIL, 1994) [19] Art. 1º A partir de 1º de julho de 1994, a unidade do Sistema Monetário Nacional passa a ser o REAL, que terá curso legal em todo o território nacional. https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf https://br.cointelegraph.com/news/bitcoin-pizza-guy-laszlo-hanyecz-on-why-bitcoin-is-still-the-only-flavor-of-crypto-for-him https://coinmarketcap.com/all/views/all/ https://www.kraken.com/pt-br/ https://www.bitfinex.com/ https://www.bitstamp.net/ https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e%20politica/noticia/2020/03/23/banco-central-reduz-aliquota-de-compulsorio-sobre-depositos-a-prazo-de-25percent-para-17percent.ghtml (BRASIL, 1994) [20] Art. 2º São Valores mobiliários sujeitos ao regime desta Lei: I - as ações, debêntures e bônus de subscrição; II - os cupons, direitos, recibos de subscrição e certificados de desdobramento relativos aos valores imobiliários referidos no inciso II; III - os certificados de depósito de valores mobiliários; IV - as cédulas de debêntures; V - as cotas de fundos de investimento em valores mobiliários ou de clubes de investimento em quaisquer ativos; VI - as cotas comerciais; VII - os contratos futuros, de opções e outros derivativos, cujos ativos subjacentes sejam valores mobiliários; VIII - outros contratos derivativos, independentemente dos ativos subjacentes; IX - quando ofertados publicamente, quaisquer outros títulos ou contratos de investimento coletivo, que gerem direito de participação, de parceria ou de remuneração, inclusive resultante de prestação de serviços, cujos rendimentos advêm do esforço do empreendedor ou de terceiros. (BRASIL, 1976) [21] https://bitvalor.com/. [22] OLIVEIRA, 2018. [23] OLIVEIRA, 2018. [24] OLIVEIRA, 2018. [25] https://www.tradingview.com/symbols/BTCUSD/?exchange=BITFINEX. [26] “Tributar as rendas mais altas com uma porcentagem maior de impostos que as baixas se assemelha a castigar as pessoas por terem trabalhado mais duro e terem poupado mais que seus vizinhos”. - John Stuart Mill [27] Lei 8.981/95: Art. 21. O ganho de capital percebido por pessoa física em decorrência da alienação de bens e direitos de qualquer natureza sujeita-se à incidência do imposto sobre a renda, com as seguintes alíquotas: I - 15% (quinze por cento) sobre a parcela dos ganhos que não ultrapassar R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais) II - 17,5% (dezessete inteiros e cinco décimos por cento) sobre a parcela dos ganhos que exceder R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais) e não ultrapassar R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais) III - 20% (vinte por cento) sobre a parcela dos ganhos que exceder R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais) e não ultrapassar R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais) IV - 22,5% (vinte e dois inteiros e cinco décimos por cento) sobre a parcela dos ganhos que ultrapassar R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais) (BRASIL, 1995) [28] Instrução Normativa 1500/2014: [...] Art. 10. São isentos ou não se sujeitam ao imposto sobre a renda, os seguintes rendimentos obtidos na alienação de bens e direitos: I - ganho de capital auferido na alienação de bens e direitos de pequeno valor, observado o disposto no § 1º, cujo preço unitário de alienação, no mês em que esta se realizar, seja igual ou inferior a: a) R$ 20.000,00 (vinte mil reais), no caso de alienação de ações negociadas no mercado de balcão; e b) R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais), nos demais casos; (BRASIL, 2014) [29] Art. 5º Para fins do disposto nesta Instrução Normativa, considera-se: I - criptoativo: a representação digital de valor denominada em sua própria unidade de conta, cujo preço pode ser expresso em moeda soberana local ou estrangeira, transacionado eletronicamente com a utilização de criptografia e de tecnologias de registros distribuídos, que pode ser utilizado como forma de investimento, instrumento de transferência de valores ou acesso a serviços, e que não constitui moeda de curso legal; (IDEM, Ibidem) [30] II - exchange de criptoativo: a pessoa jurídica, ainda que não financeira, que oferece serviços referentes a operações realizadas com criptoativos, inclusive intermediação, negociação ou custódia, e que pode aceitar quaisquer meios de pagamento, inclusive outros criptoativos. (IDEM, Ibidem) [31] Parágrafo único. Incluem-se no conceito de intermediação de operações realizadas com criptoativos, a disponibilização de ambientes para a realização das operações de compra e venda de criptoativo realizadas entre os próprios usuários de seus serviços (IDEM, Ibidem) [32] § 1º No caso previsto no inciso II do caput, as informações deverão ser prestadas sempre que o valor mensal das operações, isolado ou conjuntamente, ultrapassar R$ 30.000,00 (trinta mil reais). (IDEM, Ibidem) [33] A obrigatoriedade de prestar informações aplica-se à pessoa física ou jurídica que realizar quaisquer das operações com criptoativos relacionadas a seguir: I - compra e venda; II - permuta; III - doação; IV - transferência de criptoativo para a exchange; V - retirada de criptoativo da Exchange; VI - cessão temporária (aluguel); VII - dação em pagamento; VIII - emissão; e IX - outras operações que impliquem em transferência de criptoativos. (IDEM, Ibidem) [34] https://moneytimes.com.br/capitalizacao-do-mercado-do-bitcoin-us-328- bilhoes-de-dolares/. [35] https://foxbit.com.br/. [36] https://www.mercadobitcoin.com.br/. [37] https://moneytimes.com.br/nao-vale-a-pena-comprar-bitcoin-em-exchanges- compre-via-otc/. [38] https://www.binance.com/en/markets. [39] https://www.bitmex.com/. [40] https://www.huobi.com/markets. [41] https://criptoeconomia.com.br/apos-transferencia-da-binance-para-malta-o- pais-europeu-quer-se-tornar-a-ilha-blockchain/. [42] https://guiadobitcoin.com.br/bitmex-aluga-o-escritorio-mais-caro-do-mundo/. [43] https://www.huobi.com/. [44] https://portaldobitcoin.com/usuario-movimenta-mais-de-r-1-bilhao-em-bitcoin-e- paga-16-centavos-de-taxa/. [45] https://www.blockchain.com/pt/btc/tx/4410c8d14ff9f87ceeed1d65cb58e7c7b2422b 2b7529afc675208ce2ce09ed7d. [46] https://portaldobitcoin.com/usuario-transfere-r-4-bilhoes-em-bitcoin-em- apenas-uma-transacao/. [47] https://www.binance.com/en/lending.[48] https://guiadobitcoin.com.br/investidores-institucionais-comprando-bitcoin/ https://cointimes.com.br/quem-sao-os-investidores-institucionais. [49] Instrução Normativa 1.888/2019: Das definições Art. 5º Para fins do dispositivo nesta Instrução Normativa, considera-se: I - criptoativo: a representação digital de valor denominada em sua própria unidade de conta, cujo preço pode ser expresso em moeda soberana local ou estrangeira, transacionado eletronicamente com a utilização de criptografia e de tecnologias de registros distribuídos, que pode ser utilizado como forma de investimento, instrumento de transferência de valores ou acesso a serviços, e que não constitui moeda de curso legal; e II - exchange de criptoativo: a pessoa jurídica, ainda que não financeira, que oferece serviços referentes a operações realizadas com criptoativos, inclusive intermediação, negociação ou custódia, e que pode aceitar quaisquer meios de pagamento, inclusive outros criptoativos. Parágrafo único. Incluem-se no conceito de intermediação de operações realizadas com criptoativos, a disponibilização de ambientes para a realização das operações de compra e venda de criptoativo realizadas entre os próprios usuários de seus serviços. (IDEM, Ibidem) [50] Art. 9º Sujeitam-se às obrigações referidas nos arts. 10 e 11 as pessoas físicas e jurídicas que tenham, em caráter permanente ou eventual, como atividade principal ou acessória, cumulativamente ou não: XII - as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de luxo ou de alto valor, intermedeiem a sua comercialização ou exerçam atividades que envolvam grande volume de recursos em espécie. [51] Art. 10. As pessoas referidas no art. 9º: I - identificarão seus clientes e manterão cadastro atualizado, nos termos de instruções emanadas das autoridades competentes; II - manterão registro de toda transação em moeda nacional ou estrangeira, títulos e valores mobiliários, títulos de crédito, metais, ou qualquer ativo passível de ser convertido em dinheiro, que ultrapassar limite fixado pela autoridade competente e nos termos de instruções por esta expedidas; III - deverão adotar políticas, procedimentos e controles internos, compatíveis com seu porte e volume de operações, que lhes permitam atender ao disposto neste artigo e no art. 11, na forma disciplinada pelos órgãos competentes; IV - deverão cadastrar-se e manter seu cadastro atualizado no órgão regulador ou fiscalizador e, na falta deste, no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), na forma e condições por eles estabelecidas; V - deverão atender às requisições formuladas pelo Coaf na periodicidade, forma e condições por ele estabelecidas, cabendo-lhe preservar, nos termos da lei, o https://guiadobitcoin.com.br/investidores-institucionais-comprando-bitcoin/ sigilo das informações prestadas. (BRASIL, 1998) [52] https://livecoins.com.br/suposta-lista-com-dados-de-clientes-da-atlas-quantum- sao-expostos-na-internet/ [53]https://www.blockchain.com/pt/btc/address/12dhPCrG2shYTQtBMFAGiyorV722YYB5zJ. [54] https://oglobo.globo.com/economia/pesquisa-aponta-que-961-dos-brasileiros- preferem-pagar-com-dinheiro-em-especie-22900982. [55] https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-38131182 [56] https://meiobit.com/345160/china-alipay-sistema-de-pagamentos-digitais-da- alibaba-e-o-lider-do-pais-e-se-torna-tao-ou-mais-presente-do-que-dinheiro-vivo/. [57] [...] interpretação desta área técnica é de que as moedas digitais não podem ser qualificada como ativos financeiros, para os efeitos dispostos no artigo 2º, V, da Instrução CVM nº555/14, e por essa razão, sua aquisição direta pelos fundos de investimento ali regulamentados não é permitida . https://www.migalhas.com.br/arquivos/2018/art20180112-25.pdf. [58] Considerando o crescente interesse dos agentes econômicos (sociedade e instituições) nas denominadas moedas virtuais, o Banco Central do Brasil alerta que estas não são emitidas nem garantidas por qualquer autoridade monetária, por isso não têm garantia de conversão para moedas soberanas, e tampouco são lastreadas em ativo real de qualquer espécie, ficando todo o risco com os detentores. Seu valor decorre exclusivamente da confiança conferida pelos indivíduos ao seu emissor. [...] As empresas que negociam ou guardam as chamadas moedas virtuais em nome dos usuários, pessoas naturais ou jurídicas, não são reguladas, autorizadas ou supervisionadas pelo Banco Central do Brasil. Não há, no arcabouço legal e regulatório relacionado com o Sistema Financeiro Nacional, dispositivo específico sobre moedas virtuais. O Banco Central do Brasil, particularmente, não regula nem supervisiona operações com moedas virtuais (BRASIL, 2017, grifo nosso). [59] O Comitê de Estatísticas de Balanço de Pagamentos, órgão consultivo sobre metodologia das estatísticas do setor externo ao Departamento de Estatísticas do Fundo Monetário Internacional (FMI), recomendou classificar a compra e venda de criptoativos (especificamente aqueles para os quais não há emissor) como ativos não financeiros produzidos, o que implica sua compilação na conta de bens do balanço de pagamentos. A atividade de mineração de criptomoedas, portanto, passa a ser tratada como um processo produtivo. A recomendação foi formalizada no texto Treatment of Crypto Assets in Macroeconomic Statistics. As estatísticas de exportação e importação dos bens passam, portanto, a incluir as compras e vendas de criptoativos. O Brasil tem sido importador líquido de criptoativos, o que tem contribuído para reduzir o superávit comercial. https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticassetorexterno. [60] Art. 356. O credor pode consentir em receber prestação diversa da que lhe é devida. De acordo com o artigo 356 do Código Civil, a dação em pagamento se dá com o consentimento do credor em receber coisa diversa da prestação que lhe é devida. Por isso, alguns autores a entendem como uma modalidade contratual, mas, na https://livecoins.com.br/suposta-lista-com-dados-de-clientes-da-atlas-quantum-sao-expostos-na-internet/ https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-38131182 https://meiobit.com/345160/china-alipay-sistema-de-pagamentos-digitais-da-alibaba-e-o-lider-do-pais-e-se-torna-tao-ou-mais-presente-do-que-dinheiro-vivo/ verdade, ela é uma forma indireta de pagamento, já que seu objetivo é extinguir a obrigação https://bamandavilela.jusbrasil.com.br/artigos/395664453/dacao-em- pagamento. [61] Os nós dessa rede que atuam como mineradores validam se há saldo no endereço pagador e organizam diversas transações em blocos de dados para registrá-los na rede. Cada bloco de dados é iniciado pela chave criptográfica do bloco anterior, produzindo um registro sequencial de transações (timestamp) que não permite alterações nem cancelamentos de transações já registradas. [62] Criptomoedas alternativas ao Bitcoin, tendo sua tecnologia própria, porém semelhante à do Bitcoin. [63]63 https://www.youtube.com/watch?v=4bJ6WBJVYjA&t=4s [64] https://www.westernunion.com/br/pt/send-money/app/start. [65] https://moneygram.com.br/como-enviar-dinheiro. [66] Bitcoin in Uganda, 2:05m. (BITCOINFILM, 2014) [67] https://portaldobitcoin.com/usuario-movimenta-mais-de-r-1-bilhao-em-bitcoin-e- paga-16-centavos-de-taxa/. [68]68 Art. 43. Recusar-se a receber, pelo seu valor, moeda de curso legal no país: Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis. [69]69 https://outline.com/jF7Jq6 [70] https://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?frame=1 [71] https://epocanegocios.globo.com/Dinheiro/noticia/2017/10/familia-investe-tudo- em-bitcoins-para-viver-em-camping-na-holanda.html [72] https://yolofamilytravel.com/ [73] https://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?frame=1 [74] Lei 7.492/86: Art. 22. Efetuar operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover evasão de divisas do País: Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver depósitos não declaradosà repartição federal competente. (BRASIL, 1986) [75] LEI 7.492/86 . [76] Art. 22. Efetuar operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover evasão de divisas do País: Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa. [77] Colocando este elemento subjetivo no tipo, o legislador restringiu muito o campo de repressão penal, pois somente haverá este crime quando o agente tiver esta intenção especial, de promover a evasão de divisas do país. Vale dizer que, se a intenção for a de obter vantagem de outra natureza, ou mesmo, pensamos, a de efetuar um pagamento devido no exterior, em razão de contrato firmado, não se caracterizará o crime, porque não estará presente a intenção de promover a evasão de divisas do país. (PIMENTEL, 1987) https://www.youtube.com/watch?v=4bJ6WBJVYjA&t=4s https://outline.com/jF7Jq6 https://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?frame=1 https://epocanegocios.globo.com/Dinheiro/noticia/2017/10/familia-investe-tudo-em-bitcoins-para-viver-em-camping-na-holanda.html https://yolofamilytravel.com/ https://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?frame=1 [78] Art. 65. O ingresso no País e a saída do País de moeda nacional e estrangeira devem ser realizados exclusivamente por meio de instituição autorizada a operar no mercado de câmbio, à qual cabe a perfeita identificação do cliente ou do beneficiário. § 1º Excetua-se do disposto no caput deste artigo o porte, em espécie, de valores: I - quando em moeda nacional, até R$ 10.000,00 (dez mil reais) II - quando em moeda estrangeira, o equivalente a R$ 10.000,00 (dez mil reais) III - quando comprovada a sua entrada no País ou sua saída do País, na forma prevista na regulamentação pertinente. § 2º O Banco Central do Brasil, segundo diretrizes do Conselho Monetário Nacional, regulamentará o disposto neste artigo, dispondo, inclusive, sobre a forma, os limites e as condições de ingresso no País e saída do País de moeda nacional e estrangeira. § 3º A não observância do contido neste artigo, além das sanções penais previstas na legislação específica, e após o devido processo legal, acarretará a perda do valor excedente dos limites referidos no § 1ºdeste artigo, em favor do Tesouro Nacional. (BRASIL, 1965) [79] DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. tentativa de evasão de moeda estrangeira. 1. incorre no tipo previsto pelo art. 22, parágrafo único, da lei n. 7.492/86, a pessoa que tenta promover, sem autorização legal, a saída de moeda estrangeira para o exterior. 2. se o paciente não submete espontaneamente a moeda estrangeira a verificação e fiscalização da autoridade competente, vindo a sobrevir a descoberta do numerário em virtude de revista pessoal que lhe e imposta, caracteriza-se, em tese, o indigitado delito de tentativa de evasão de moeda estrangeira. 3. ordem de “habeas corpus” denegada. (TRFf-3a - HC: 69836 SP 93.03.069836-3, relator: juiz Souza Pires, data de julgamento: 14/09/1993). [80] Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas: I - advertência sobre os efeitos das drogas; II - prestação de serviços à comunidade; III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. [81] PENAL. CRIME DE EVASÃO DE DIVISAS. TENTATIVA. ERRO DE PROIBIÇÃO ESCUSÁVEL. 1. Não há dúvidas de que a conduta imputada ao réu, consistente em tentar deixar o país portando moeda estrangeira, sem a prestação de DPV, em montante superior ao previsto na legislação de regência, constitui em tese o crime de evasão de divisas 2. Materialidade comprovada pelo Auto de Apresentação e Apreensão. A Autoria é incontroversa, tendo restado patente o dolo genérico necessário à configuração do tipo penal 3. O erro de proibição, causa que pode impossibilitar a compreensão da ilicitude, somente isenta de pena quando inevitável. Tem-se por escusável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando não lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir esse conhecimento 4. Na esteira da doutrina capitaneada por Zaffaroni e Pierangelli, não há regras fixas a determinar a evitabilidade do erro, devendo este ser aferido caso a caso, dadas as circunstâncias do caso concreto, especialmente as de caráter pessoal 5. Cuidam os autos do crime de evasão de divisas, tema adstrito ao Direito Penal Econômico que, excluídas aquelas pessoas habituadas a lidar com o mercado financeiro em geral, as demais, integrantes do corpo social, têm dificuldade em internalizar as regras de comportamento que lhes são impingidas, aliada a circunstância de se tratar de estrangeiro não habituado a lidar com esse ramo específico 6. Caracterizado o erro de proibição escusável, não merece reprovação a conduta perpetrada. 7. Apelação improvida (TRF- 2a REGIÃO, 2a TURMA ESPECIALIZADA, REL. LILIANE RORIZ, PROC. 200151015396206, 05/07/2006). [82] PENAL DESCLASSIFICAÇÃO DO DELITO DO ART. 12 C/C O ART. 18, DA LEI Nº 6368/76, PARA O DO ART. 16 DO MESMO DIPLOMA LEGAL.CÚMULO COM O DELITO DE TENTATIVA DE EVASÃO DE DIVISAS. DOLO GENRICO. INEXISTÊNCIA DE ERRO DE PROIBIÇÃO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL POR CONEXÃO. SÚMULA 122 DO STJ. 1. Comprovada a semi- imputabilidade do acusado por crime de tráfico internacional de drogas através do laudo de exame de dependência toxicológica e inexistindo provas nos autos de que a quantidade de cocaína encontrada em poder do acusado se destinasse à mercância ou ao consumo de terceiros, há que ser desclassificado o delito para o previsto no art. 16 da Lei nº 6368/76, ainda que se trate de quase quinhentas gramas da substância, por ser possível a um viciado, no período de dois a três meses, consumir tal quantidade de entorpecente. 2. O delito previsto no caput do art. 22 da Lei nº 7492/86 exige o dolo específico, mas, em seu parágrafo único, primeira parte, contenta-se o legislador com o dolo genérico. 3. Improcede a alegação de erro de proibição se ao acusado era possível conhecer o caráter ilícito de sua conduta, de saber que ao se retirar do território nacional portando soma razoável de numerário, ainda que não vultuosa, deveria se reportar às autoridades fazendárias. 4. Havendo o cúmulo do crime de porte de substância entorpecente com o de tentativa de evasão de divisas, a competência para o julgamento é da Justiça Federal por conexão. Inteligência da Súmula nº 122 do STJ. (TRF-2 - ACR: 3131 2002.02.01.002638-5, Relator: Desembargador Federal FREDERICO GUEIROS, Data de Julgamento: 10/09/2002) [83] “Confiar nosso dinheiro ao governo é como confiar nosso pássaro a um gato faminto”– Hans Sennholz [84] NUNES, 2017. [85] Carta Circular 3225/2004: Art. 1º – Estabelecer que as pessoas físicas ou jurídicas residentes, domiciliaras ou com sede no País, assim conceituadas na legislação tributária, devem informar ao Banco Central do Brasil, no período de 10 de março de 2004 a 31 de maio de 2004, os valores de qualquer natureza, os ativos em moeda e os bens e direitos detidos fora do território nacional, na data-base de 31 de dezembro de 2003, por meio de declaração disponível na página do Banco Central do Brasil na internet, ednereço www.bcb.gov.br. Art. 2º – As informações solicitadas estão relacionadas às modalidades abaixo indicadas, podendo ser agrupadas quando forem coincidentes o país, a moeda, o tipo e a característica do ativo: I - depósito no exterior; II – empréstimo em moeda; III – financiamento; http://www.bcb.gov.br/ IV – leasing e arrendamento financeiro; V – investimento direto; VI – investimento em porfólio; VII – aplicação em derivativos financeiros e VIII outros investimentos, incluindo imóveis e outros bens. Art. 3º – Os detentores de ativos, cujos valores somados, em 31 de dezembro de 2003, totalizem montante inferior a USD 100.000,00 (cem mil dólares dos Estados Unidos), ou seu equivalente em outras moedas, estão dispensados de prestar a declaração que trata esta Circular. (BRASIL, 2004) [86] O tipo subjetivo está representadopelo dolo, consubstanciado na consciência e vontade de efetuar operação de câmbio não autorizada, e pelo elemento subjetivo especial do tipo, a saber: com o fim de promover evasão de divisas do País (caput). Entretanto, quando se refere ao parágrafo único, está presente apenas o dolo, isto é, a consciência e a vontade de promover, sem autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, a qualquer título, isto é, não importa qual o motivo impeliu o agente a atuar, ou nele manter depósitos não declarados à repartição federal competente. (PRADO, 2014) [87] http://www.pf.gov.br/imprensa/noticias/2019/04/pf-prende-4-pessoas-por- evasao-de-divisas [88] https://www.conjur.com.br/2017-dez-12/battisti-torna-reu-evasao-divisas-usar- tornozeleira [89] PENAL. EVASÃO DE DIVISAS. TENTATIVA O crime de promover, sem autorização, a saída de moeda ou divisa para o exterior (art. 22, parágrafo único, da Lei 7.492/86: pressupõe a efetiva saída de cheques sacados contra bancos nacionais do País. Se o agente é preso ainda no território nacional de posse de numerário superior ao permitido pelo art. 65, II, da Lei 9.069/95, ainda que sustado após a apreensão, impõe-se o reconhecimento da tentativa (art. 14, parágrafo único, do CP). Precedentes (TRF- 4ª Região, ACR 200370000372289, 8ª Turma, Rel. Eloy Bernst Justo, D.E 23/05/2007) [90] NUNES, 2017. [91] Ainda segundo a denúncia, em 11/04/2014, da conta em nome da Orion, foram efetuadas duas transferências no montante de 970.261,34 francos suíços e de22.608,37 euros para conta 4548.6752 no Banco Julius Baer (sucessor do Merrill Lynch), em Genebra, Suíça, em nome da Netherton Investments PTE. Ltd., constituída em Singapura. A conta em nome da Netherton também seria, segundo a denúncia, controlada pelo acusado Eduardo Cosentino da Cunha.USD 165.000,00 teriam sido transferidos, em 04/08/2014, da conta em nome da Netherton para conta de nº 4547.8512, denominada de Köpek, mantida, na mesma instituição financeira, e que seria utilizada por Cláudia Cordeiro da Cruz, esposa de Eduardo Cosentino da Cunha. Os valores na conta Köpek teriam sido utilizados para o pagamento de despesas de cartão de crédito do acusado e de seus familiares, no montante de USD 156.275,49, entre 05/08/2014 a 02/02/2015. Segundo a denúncia, o recebimento da vantagem indevida em conta secreta no exterior, as transferências sucessivas a outras contas secretas e a ocultação dessas contas e valores das autoridades brasileiras configurariam crimes de lavagem de dinheiro. http://www.pf.gov.br/imprensa/noticias/2019/04/pf-prende-4-pessoas-por-evasao-de-divisas https://www.conjur.com.br/2017-dez-12/battisti-torna-reu-evasao-divisas-usar-tornozeleira A denúncia também imputa a Eduardo Cosentino da Cunha o crime de evasão fraudulenta de divisas, do art. 22, parágrafo único, da Lei nº 7.492/1986, já que o acusado não informou a existência das contas e dos ativos nela mantidos, entre 31/12/2007 a 31/12/2014, ao Banco Central do Brasil e à Receita Federal. Reportase a denúncia às contas em nome da Orion, da Netherton e ainda em nome da Triumph SP, de nº 466857, também mantida no Banco Julius Baer (sucessor do Merril Lynch Bank), em Genebra, na Suiça, cujo beneficiário final seria Eduardo Cosentino da Cunha. [...] 263. Essa é uma conta aberta com os recursos do Sr. Eduardo Cunha. Ele atualmente mantém cinco milhões de dólares em quatro contas no Merril Lynch (as principais sendo Orion e Triumph). Kopek é uma conta para cartão de crédito do Sr. Cunha e esposa. Netherton é para os novos negócios (pouco financiados até o momento), espera mais rendas para investimentos em 2012 quando os negócios de energia se desenvolverem. 264. Não há nenhum documento avaliando o trust Orion como algo independente do cliente Eduardo Cosentino da Cunha. 265. A conclusão óbvia é que Eduardo Cosentino da Cunha é o titular, controlador e beneficiário da conta em nome do trust Orion, apesar da figura jurídica utilizada para a abertura da conta. [92] https://exame.abril.com.br/economia/justica-abre-acao-contra-cotista-do- opportunity-fund/ [93] https://www.conjur.com.br/dl/aplicacao-fundo-exterior-equivale.pdf [94] Divícia sf. ‘riqueza’ XVI. Do Lat. Divitia -ae, por divitiae – arum de dives -itis ‘rico, opulento’. (CUNHA, 1982) [95] Divisa s.f (sXV) emblema simbólico (animal, planta etc) acompanhado ou não de um lema, usado em brasões; símbolo. A figura ou o corpo deste emblema. A sentença curta que acompanha um emblema e expressa uma atitude. Qualquer sentença breve (de partido político, clube, time desportivo etc) usado para caracterizar um ideal. Insígnia de posto ou patente dos militares usado em suas fardas. Traço ou linha divisória entre espaço e propriedades. Sinal feito a ferro quente sobre o lombo dos animais para marcar a propriedade de seu criador. Divisas ECON letras, cheques, ordens de pagamento e etc, convertíveis em moedas estrangeiras, ou as próprias moedas usadas em transações comerciais (HOUAISS, 2007) [96] (NUNES, 2017). [97] Podem-se definir os bens jurídicos como circunstâncias reais dadas ou finalidades necessárias para uma vida segura e livre, que garanta a todos os direitos humanos e civis de cada um na sociedade ou para o funcionamento de um sistema estatal que se baseia nestes objetivos. (ROXIN, 2006) [98] Constata-se ser duplo o objeto da tutela contemplado por este artigo 22. Primeiramente, o da preservação das reservas cambiais do País. Igualmente, a norma tutela a exação fiscal do Estado, ou seja, o controle sobre depósitos em moedas estrangeiras mantidos clandestinamente no exterior, com origem em recursos financeiros tributáveis no País, mas não tributados. PERUCHIN, 2006. [99] (TÓRTIMA, 2002) https://exame.abril.com.br/economia/justica-abre-acao-contra-cotista-do-opportunity-fund/ https://www.conjur.com.br/dl/aplicacao-fundo-exterior-equivale.pdf [100] Art. 1° Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: I - omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias; II - fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal; III - falsificar ou alterar nota fiscal, fatura, duplicata, nota de venda, ou qualquer outro documento relativo à operação tributável; IV - elaborar, distribuir, fornecer, emitir ou utilizar documento que saiba ou deva saber falso ou inexato; V - negar ou deixar de fornecer, quando obrigatório, nota fiscal ou documento equivalente, relativa a venda de mercadoria ou prestação de serviço, efetivamente realizada, ou fornecê-la em desacordo com a legislação. Pena - reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. Parágrafo único. A falta de atendimento da exigência da autoridade, no prazo de 10 (dez) dias, que poderá ser convertido em horas em razão da maior ou menor complexidade da matéria ou da dificuldade quanto ao atendimento da exigência, caracteriza a infração prevista no inciso V. (BRASIL, 1990) [101] “O poder de tributar é o poder de destruir” – John Marshall [102] PENAL. CRIME CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL. EVASÃO DE MOEDAS OU DIVIDAS. (ART. 22, PARÁGRAFO ÚNICO, DA LEI Nº 7.492/86). TENTATIVA DE REMESSA DE DINHEIRO PARA O EXTERIOR. AUSÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO LEGAL. INAPLICABILIDADE DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. ERRO DE PROIBIÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. SENTENÇA CONDENATÓRIA MANTIDA. 1. A proibição de "evasão de moedas (numerário nacional ou estrangeira) ou divisas (ouro, créditos etc)" sem a devida autorização tem por objetividade jurídica garantir que o Brasil tenha moeda ou divisa estrangeira para atender aos seus compromissos de pagamento de importações, de execução de contratos de câmbio e da dívida externa. Busca, também, evitar a lavagem de dinheiro, ou seja, a legitimação no sistema financeiro nacional do dinheiro ganho ilicitamente, especialmente pelas organizações criminosas. 2. Não incidência do princípio da insignificância ao crime em comento,praticado contra o Sistema Financeiro, eis que seu objeto jurídico não é material e patrimonial, mas garantir que o Brasil tenha moeda ou divisa estrangeira para atender aos seus compromissos de pagamento de importações, de execução de contratos de câmbio e da dívida externa. Busca, também, evitar a lavagem de dinheiro, ou seja, a legitimação no sistema financeiro nacional do dinheiro ganho ilicitamente, especialmente pelas organizações criminosas. 3. Restou comprovado que os acusados objetivavam remeter para o exterior vultosa quantia de dinheiro, sem nenhuma autorização ou comunicação às autoridades competentes, devendo ser mantida a sentença que os condenou pela prática do crime previsto no art. 22, parágrafo único, da Lei 7.492/86 c/c o art. 14 do Código Penal. 3. Não ocorrência de erro de proibição quando restar suficientemente provado nos autos que os réus tinham plena consciência da ilicitude de suas condutas. 4. A redução da pena, em razão da tentativa, deve se dar no grau mínimo, tendo em vista que os atos praticados pelos acusados ficaram bem perto da consumação do delito, eis que foram presos em flagrante quando tentavam remeter para o exterior vultosa quantia de dinheiro, sem nenhuma autorização ou comunicação às autoridades competentes”. (ACR 0005732-43.2009.4.01.3601/MT, Rel. DESEMBARGADOR FEDERAL TOURINHO NETO, TERCEIRA TURMA, e-DJF1 p.532 de 07/12/2012) [103] A alta relevância das reservas cambiais influi diretamente na confiabilidade e desenvolvimento do Sistema Financeiro Nacional. A mesma importância é conferida aos Sistemas Financeiro de países em desenvolvimento, por possuírem um grau de instabilidade maior em suas divisas. Por essa razão o permanente cuidado em garantir seu estável funcionamento, diante das consequências avassaladoras que a sua má administração e seu descontrole podem acarretar a um sem número de nações e pessoas. [104] https://pt.global-rates.com/taxa-de-juros/bancos-centrais/banco-central- estados-unidos/juros-fed.aspx. [105] https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/taxaselic. [106] Atualmente, com a alta taxa de juros designada pelo Conselho de Política Monetária – COPOM –, existe uma alta disponibilidade de moeda estrangeira no País, fazendo com que haja uma valorização na moeda nacional, por conta da busca ao sistema financeiro nacional, por parte dos investidores estrangeiros, em negociações com o Brasil. Essa política de incentivo ao ingresso do capital estrangeiro é vista como uma faca de dois gumes: por um lado, a moeda nacional fica fortificada e a inflação controlada. Por outro lado, prejudica a exportação de produtos nacionais, deixa o empréstimo interno com um custo muito elevado, e produz conseqüências sociais avassaladoras, como fechamento de unidades fabris e demissões em massa. Esse cenário une-se ao que expomos acerca da globalização (PERUCHIN, 2006) [107] Como conseqüência da adoção dessa política monetária, de sufocamento à produção nacional, à importação e exportação, o próprio Estado impulsiona aos usuários do mercado financeiro a utilização da via alternativa, qual seja, o mercado de câmbio paralelo (também praticada por meio do Dólar cabo, que é a operação executada por “doleiros”, na qual, por exemplo, recebem os valores referente à compra aqui no Brasil e determinam o respectivo pagamento no exterior, através de uma conta de livre movimentação que possuem em alguma instituição financeira no exterior, geralmente nos denominados paraísos fiscais). Através desses meios, as negociações seguem à revelia do rígido controle fiscal do Estado. Sua utilização, em alguns casos, pode configurar a busca pela sobrevivência nos negócios. [108] Percebe-se que no agir delituoso do agente que pratica, em tese, o delito de evasão de divisas, esse muitas vezes age em flagrante Estado de Necessidade, pois esta seria sua única forma de sobrevivência à voracidade mercadológica e fiscal. Igualmente, sugere-se que, no mesmo agir, pode ser configurado uma excludente de culpabilidade, pela inexigibilidade de outra conduta. Nesse caso, ao agente não havia outra maneira de agir. Somente lhe era facultado agir da forma como efetivamente procedeu, sob pena de ter que interromper suas atividades. Por certo, o dano do fechamento de sua empresa, por exemplo, poderia ser muito maior do que o causado por uma eventual sonegação fiscal. PERUCHIN, 2006. [109] as reservas cambiais nacionais serem o principal – e cremos, o único – objeto a cuja tutela estaria voltado esse artigo 22, conclui-se, por óbvio, que as condutas que não prejudiquem ou ameacem sua integridade encontram-se fora da coibição da norma penal, por plena ausência de lesividade [110] Nessa obra, o autor exulta a importância dos valores e princípios constitucionais na experiência cultural e política do direito penal. Acerca da lesividade, comenta que “o princípio de lesividade do delito, pelo qual o fato não pode constituir ilícito se não for ofensivo (lesivo ou simplesmente perigoso) do bem jurídico tutelado, responde a uma clara exigência de delimitação do direito penal. E isso a dois níveis. A nível legislativo, o princípio da lesividade (ou ofensividade), enquanto dotado de natureza constitucional, deve impedir o legislador de configurar tipos penais que já hajam sido construídos, ‘in abstracto’, como fatos ‘indiferentes’ e preexistentes à norma. Do ponto de vista, pois, do valor e dos interesses sociais, já foram consagrados como ‘inofensivos’. A nível jurisdicional-aplicativo, a integral atuação do ‘princípio da lesividade’ deve comportar, para o juiz, o dever de excluir a subsistência do crime quando o fato, no mais, em tudo se apresenta na conformidade do tipo, mas, ainda assim, concretamente é inofensivo ao bem jurídico tutelado pela norma”. [111] (SANDRONI, 2002). [112] Os argumentos favoráveis à descriminalização utilizam a interpretação sobre a conduta de evasão de divisas à luz dos princípios da subsidiariedade e da intervenção mínima do Direito Penal. Nesse sentido, afastam a incidência da tutela penal, aduzindo haver outras maneiras de se proteger as reservas cambiais, como a adoção de: políticas econômicas diligentes; estancamento da fuga de capitais; planos estratégicos de investimentos; políticas estáveis de juros e inflação; políticas de atração do capital estrangeiro não-especulativo; incentivo à política de exportações; maior controle nas informações de saídas de divisas; cooperação entre os órgãos fiscalizadores bancários nacionais e internacionais, etc. (PERUCHIN, 2006.) [113] (PERUCHIN, 2006). [114] (TAVARES, 2003.) [115] A evasão de divisas, portanto, é a remessa de títulos ou ativos financeiros, de maneira clandestina, retirando-os da contabilidade e controle exercidos pelo BACEN. Essa remessa efetua-se por meio do repasse de divisas que integram as posições das instituições financeiras públicas ou privadas residentes no País, não obedecendo as regras administrativas editadas pelo BACEN, com a justificativa do abalo às reserva cambiais nacionais, se for alto o volume dos valores envolvidos. Essa operação ocorre, por exemplo, através da transferência de divisas por uma pessoa física ou jurídica (ou instituição financeira pública ou privada com domicílio fiscal no País, para uma pessoa física ou jurídica com domicílio fiscal fora do Brasil. Isso acarretaria diminuição dos estoques de moedas estrangeiras de que dispõe a nação. [116] (PERUCHIN, 2006). [117] O primeiro passo, firmemente dado por todos os governos relativamente grandes, foi o de tomar para si próprio o monopólio absoluto da cunhagem. Este era o meio indispensável para se controlar a oferta de moedas. A figura do rei ou do nobre era estampada nas moedas e, em seguida, propagava-se o mito de que a cunhagem era uma prerrogativa essencial para a “soberania” real ou baronial. O monopólio da cunhagem permitia ao governo oferecer quaisquer denominações de moeda que ele, e não o público, desejasse. Como resultado, a variedade de moedas no mercado foi forçosamente reduzida. (ROTHBARD, 2013.) [118] No dia 15 de agosto de1971, ao mesmo tempo em que impunha um congelamento de preços e salários em uma vã tentativa de controlar a explosiva inflação de preços, o presidente Nixon impôs um estrondoso fim ao sistema de Bretton Woods. Como os bancos centrais europeus estavam ameaçando restituir em ouro o máximo possível de seus inchados estoques de dólares, Nixon acabou completamente com o que restava do padrão-ouro. Pela primeira vez na história americana, o dólar era totalmente fiduciário, sem qualquer lastro em ouro. Mesmo aquele tênue elo com o ouro, mantido desde 1933, estava agora definitivamente cortado. O mundo estava novamente mergulhado no sistema fiduciário dos anos 1930, só que com um agravante: nem mesmo o dólar possuía mais qualquer ligação com o ouro. Novamente surgia no horizonte o temível espectro dos blocos monetários, das desvalorizações artificiais, dos conflitos econômicos e do colapso do comércio internacional e do investimento, com a depressão mundial que tais atitudes gerariam. (ROTHBARD, 2013.) [119] https://www.conjur.com.br/dl/condenacao-eduardo-cunha-13-vara.pdf [120] https://forbes.com.br/negocios/2018/01/8-estabelecimentos-brasileiros-que- aceitam-bitcoin/#foto1 [121] [...] Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver depósitos não declarados à repartição federal competente. (BRASIL, 1986) [122] Requisito motivador da busca pessoal nas ações policiais. [123] Art. 5º XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; [124] Art. 240.A busca será domiciliar ou pessoal. §1oProceder-se-á à busca domiciliar, quando fundadas razões a autorizarem, para: a) prender criminosos; b) apreender coisas achadas ou obtidas por meios criminosos; c) apreender instrumentos de falsificação ou de contrafação e objetos falsificados ou contrafeitos; d) apreender armas e munições, instrumentos utilizados na prática de crime ou destinados a fim delituoso; e) descobrir objetos necessários à prova de infração ou à defesa do réu; f) apreender cartas, abertas ou não, destinadas ao acusado ou em seu poder, quando haja suspeita de que o conhecimento do seu conteúdo possa ser útil à elucidação do fato; g) apreender pessoas vítimas de crimes; h) colher qualquer elemento de convicção. https://www.conjur.com.br/dl/condenacao-eduardo-cunha-13-vara.pdf https://forbes.com.br/negocios/2018/01/8-estabelecimentos-brasileiros-que-aceitam-bitcoin/#foto1 § 2o Proceder-se-á à busca pessoal quando houver fundada suspeita de que alguém oculte consigo arma proibida ou objetos mencionados nas letrasb a f e letra h do parágrafo anterior. (BRASIL, 1941) [125] PENAL E PROCESSO PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. APARELHO TELEFÔNICO APREENDIDO. VISTORIA REALIZADA PELA AUTORIDADE POLICIAL SEM AUTORIZAÇÃO JUDICIAL OU DO PRÓPRIO INVESTIGADO. VERIFICAÇÃO DE MENSAGENS ARQUIVADAS. VIOLAÇÃO DA INTIMIDADE. PROVA ILÍCITA. ART. 157 DO CPP. RECURSO EM HABEAS CORPUS PROVIDO. 1. Embora a situação retratada nos autos não esteja protegida pela Lei n. 9.296/1996 nem pela Lei n. 12.965/2014, haja vista não se tratar de quebra sigilo telefônico por meio de interceptação telefônica, ou seja, embora não se trate violação da garantia de inviolabilidade das comunicações, prevista no art. 5º, inciso XII, da , houve sim violação dos dados armazenados no celular do recorrente (mensagens de texto arquivadas). 2. No caso, deveria a autoridade policial, após a apreensão do telefone, ter requerido judicialmente a quebra do sigilo dos dados armazenados, haja vista a garantia, igualmente constitucional, à inviolabilidade da intimidade e da vida privada, prevista no art. 5º, inciso X, da .Dessa forma, a análise dos dados telefônicos constante do aparelho do recorrente, sem sua prévia autorização ou de prévia autorização judicial devidamente motivada, revela a ilicitude da prova, nos termos do art. 157 do CPP. 3. Recurso em habeas corpus provido, para reconhecer a ilicitude da colheita de dados do aparelho telefônico do recorrente, sem autorização judicial, devendo mencionadas provas, bem como as derivadas, serem desentranhadas dos autos. [126] Art. 33. Exigir informação ou cumprimento de obrigação, inclusive o dever de fazer ou de não fazer, sem expresso amparo legal: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Lei nº 13.869 (BRASIL, 1965) [127] Exterior Adj. 1 que está por fora ou da parte de fora. Que está fora de nós. Concernente a países estrangeiros. Superficial. A parte externa. Aspecto, aparência. As nações estrangeiras. Negócio exterior. Parte do universo não incluída no sistema. Conjunto dos pontos exteriores a um conjunto. (AURÉLIO, 2003) [128] Da parte ou do lado de fora. Externo, superficial. Que se manifesta ou se produz visível ou publicamente. Relativo às nações estrangeiras, o estrangeiro. Aparência, aspecto e exterioridade (MICHAELIS, 1998) [129] EXTERIOR: 1 Direito internacional público. a) Estrangeiro; b) relativo aos países estrangeiros. 2 Filosofia do Direito. Diz-se do conjunto de objetos sensíveis que não são apresentados pela percepção (DINIZ, 2010) [130] “O Estado se interessa pelas pessoas da mesma forma que as pulgas se interessam pelos cães” – P. J. O’Rouke [131] Considerando o momento histórico da edição da Lei 7.492/86, marcado por gravíssimo desequilíbrio do nossa balança de pagamentos, pode-se considerar que a ênfase do escopo da tutela da norma abrangida pelo art. 22 no seu parágrafo único é a preservação das reservas cambiais do país, com todos os seus reflexos no equilíbrio do Sistema Financeiro Nacional, em particular, e da própria economia como um todo. Quando a última parte do disposto no parágrafo único, que trata da manutenção clandestina de ativos no exterior, a preocupação do legislador está também voltada a proteção do patrimônio fiscal, ameaçado pela incógnita manutenção no exterior de recursos amealhados através de ganhos tributáveis, mas não efetivamente oferecidos à tributação. Como já observamos alhures, a questão das reservas cambiais como bem jurídico resguardado pelas normas penais contidas no art. 22 e seu parágrafo único, deve se achar no centro de qualquer discussão que se proponha a uma correta interpretação no seu sentido teleológico. [132] (TÓRTIMA, 2006,) [133] http://bit.ly/ContabilidadeBC [134] 1 . Por serem digitais, os criptoativos não tem registro aduaneiro, mas as compras e vendas por residentes no Brasil implicam a celebração de contratos de câmbio2 . As estatísticas de exportação e importação de bens passam, portanto, a incluir as compras e vendas de criptoativos. O Brasil tem sido importador líquido de criptoativos, o que tem contribuído para reduzir o superávit comercial na conta de bens do balanço de pagamentos. [135] https://www.youtube.com/watch?v=4bJ6WBJVYjA&t=194s [136] É difícil, mas não impossível. As autoridades policiais e fazendárias têm hoje conhecimento profundo de como as criptomoedas funcionam. Para mais detalhes, veja o capítulo 7. [137] Não difere dessa estrutura a sanção imposta a quem deixa de comunicar à receita federal o transporte de dinheiro para fora do país, além de certo limite. Veja-se que a sanção é aplicável, independentemente de que uma outra pessoa o tenha feito, mas com relação a quantias infinitamente superiores, quer dizer, sem levar em consideração o fato de que quem transporta dez mil Dólares (sic.) e não faz a comunicação deste transporte à receita federal causa, no fundo, muito menos prejuízo do que aquele que transporta um bilhão de Dólares, mas comunica o transporte desta quantia. O que está em jogo, neste caso, não é o patrimônio público, somente a função de controle de informação. A gravidade desta última hipótese está em que a sanção, aqui, não é meramente administrativa, mas também criminal,criptomoeda fará com o sistema financeiro ao que o e-mail fez com a comunicação. Vemos que hoje um dos meios de pagamento mais usados no mundo, que facilita a transação de bens e informações, é o cartão de crédito. Qualquer pessoa usa, por mais simples que seja. Porém, infelizmente, há a necessidade de um terceiro intermediário, a empresa que fornece o serviço. Por meio do modelo Peer-to-Peer (ponto a ponto) da tecnologia do Bitcoin, a presença de terceiros é eliminada, sendo substituída pela prova criptográfica. Satoshi Nakamoto afirma no white paper que o necessário é um sistema de pagamento eletrônico à prova de falhas. A tecnologia seria baseada em prova criptográfica, permitindo que duas partes possam transacionar diretamente entre si sem a necessidade de um terceiro confiável. As transações, que são computacionalmente impraticáveis de reverter, além de tornar a negociação segura, protegem de fraude tanto os vendedores quanto os compradores. Assim, também é apresentada uma solução para o problema do gasto duplo. O gasto duplo é o envio do mesmo item para destinatários diferentes. Sabe quando você manda o mesmo documento para várias pessoas? Isso é o gasto duplo. Imagine a tragédia que seria se isso fosse aplicado às criptomoedas. O sistema perderia a credibilidade e entraria em colapso. Assim, de modo brilhante, Satoshi Nakamoto pensou em uma forma para que esse problema não acontecesse. No white paper foi previsto “um servidor de horas distribuído peer-to-peer para gerar prova computacional da ordem cronológica das operações”[7]. Além da criptografia, um outro aspecto a ser analisado na tecnologia do Bitcoin é a Blockchain. A cadeia de blocos (em tradução literal) é o que permite o registro total e íntegro de todas as transações realizadas, e reconhecidas pelos nós (mineradores) da rede. É o protocolo de confiança da tecnologia que a torna segura e fascinante. Fazendo uma simples analogia, a Blockchain é o livro-razão público e universal, a prova de que ocorreram todas as transações nele armazenadas. Na Blockchain, por motivo da disponibilidade irrestrita das informações, a validade das transações pode ser verificada por meio de uma assinatura digital. A tecnologia Blockchain é mantida pelos chamados nós da rede. Esses indivíduos, por meio de cálculos computacionais e taxas, aprovam as transações e mantêm a rede funcionando, permitindo assim que ela fique 100% on-line. As transações armazenadas na Blockchain são um “recibo” de transferência de propriedade de bitcoins com o “carimbo” de data e hora. Pelo fato de ser pública, descentralizada e distribuída, a Blockchain impede que empresas ou instituições de caráter duvidoso centralizem e monopolizem as informações nela contidas. A transparência na Blockchain é enorme. Não só quem transfere bitcoins consegue acessar os dados da transação, mas também os terceiros interessados em verificar a autenticidade dela. Em relação à criptografia, ela não é uma tecnologia nova. O estudo da arte de cifrar mensagens – em que só o remetente e o destinatário podem acessar o conteúdo – remete aos tempos passados: os primeiros registros datam ao redor de dois mil anos antes de Cristo, no Egito. Historicamente, a criptografia foi utilizada pelos estados em guerras (com destaque ao Enigma, máquina de criptografia alemã usada na segunda guerra mundial) para interceptar mensagens e desvendar comunicações criptografadas. Mas é na era da computação que a criptografia se destaca. Antes do século XX, a criptografia focava somente em padrões da linguagem e análise das mensagens, como a própria etimologia sugere (criptografia, do grego kryptós, “escondido”, e gráphen, “escrita”). Até a “língua do P” utilizada pelas meninas para se comunicar no ensino fundamental, deixando os meninos desnorteados e curiosos, é uma forma de criptografar mensagens. Atualmente, a criptografia é também uma ramificação da matemática, e seu uso no mundo moderno se estende a uma gama de aplicações presentes no nosso cotidiano. Ela é usada, sem que sequer percebamos, em sistemas de telecomunicações, proteção de sites e comércio online. A criptografia moderna permite criar comprovações matemáticas que oferecem um altíssimo nível de segurança. Existem duas modalidades de criptografia. A simétrica e a assimétrica. A utilizada pelo Bitcoin é a assimétrica, ou seja, utiliza duas chaves: uma pública e outra privada. A criptografia simétrica é caracterizada pela utilização de somente uma chave para o processo de cifragem e decifragem de dados. Isso significa que tanto o remetente quanto o destinatário da mensagem possuem a mesma chave. Dessa forma, o conhecimento é compartilhado somente entre os dois e mantido em segredo por eles. No desenvolvimento do Bitcoin, a criptografia utilizada é a assimétrica, porque utiliza um par chaves pública e privada, em que uma é capaz de executar a operação reversa da outra. Como uma é o inverso da outra, significa que tudo que é cifrado com uma chave pública é decifrado com uma chave privada, e vice- versa. Outro detalhe inerente à criptografia é a utilização da função hash. Ela vai criptografar os dados de entrada e produzir um valor hash que somente será descriptografado pelo destinatário. Exemplo: João deseja enviar uma mensagem para Maria. Utilizando sua chave privada, João cria um código hash e cifra o resumo do texto. Maria usa a sua própria chave pública para abrir o resumo e checar se ele é íntegro. Qualquer mudança na estrutura do que foi escrito por João, a mínima que seja, gera um hash totalmente diferente, que altera a integridade da mensagem original. A partir do momento que Maria percebe que o resumo da mensagem está integro e inalterado, ele utiliza sua própria chave privada para decifrar a mensagem. Outra genialidade da tecnologia, principalmente no que diz respeito ao aspecto universal do Bitcoin, é a mineração. Como são emitidos os bitcoins? De que forma eles entram no mercado? A mineração pode ser vista de duas formas diferentes, mas ao mesmo tempo convergentes. Inicialmente, a mineração é a resolução de cálculos matemáticos muito complexos, isto é, a prova de trabalho, ou proof-of-work. Ela ocorre da seguinte forma: A cada 10 minutos um bloco é encontrado. Nele o minerador coloca as transações coletadas. Para que o bloco seja registrado e validado na rede, o minerador precisa demonstrar para todos os outros que realizou a prova de trabalho. Ela é um cálculo matemático computacionalmente custoso de resolver. Um computador comum demora frações de milissegundos para resolver uma conta simples. Agora imagine que, em diversos lugares do planeta, existem galpões com centenas de milhares dos computadores mais potentes do mercado dedicando toda a sua força para solucionar um único cálculo. E no caso do Bitcoin, é tão difícil que toda essa gigantesca força computacional demora 10 minutos para resolver. A prova de trabalho é um problema criptográfico com base na função SHA-256. Essa função criptográfica possui as seguintes variáveis: Transações do bloco; referência do bloco anterior e o Nonce, o X da questão. O computador fica testando até encontrá-lo. Portanto, quanto mais força computacional, mais tentativas por segundo. Quando o nonce é encontrado, o minerador transmite para todos os outros nós da rede o bloco com as transações, sendo recompensado, atualmente, em 12,5 bitcoins. Devido à escassez pré-programada prevista no white paper e aplicada pela rede, o retorno da mineração diminui com o passar do tempo. Aqui, pode-se fazer um paralelo com a mineração do ouro. Ele é naturalmente escasso e, conforme vai sendo extraído, menos metal há para ser minerado. Percebe-se que não há tanto ouro hoje no Brasil como no século XVIII, e atualmente o processo de minerá-lo é muito mais difícil hoje que no período exploratório. Com o Bitcoin é a mesma coisa: não há tantas unidades como havia na data de sua criação. Isto se dá devido ao Halvening, evento que ocorre a cada 210 mil novos blocos minerados, ou, aproximadamente anos termos da legislação vigente, sem ter havido lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico, quer dizer, faz-se de uma simples função de controle um objeto de proteção penal, o que é um absurdo e viola os pressupostos constitucionais da incriminação. [138] Ver capítulo 7. [139] NAKAMOTO, 2008 [140] Efetuar operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover evasão de divisas do País: Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver depósitos não declarados à repartição federal competente. (BRASIL, 1986) [141] https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf http://bit.ly/ContabilidadeBC https://www.youtube.com/watch?v=4bJ6WBJVYjA&t=194s https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf [142] O comércio na Internet tem dependido quase exclusivamente de instituições financeiras que servem como terceiros confiáveis para processar pagamentos eletrônicos. Enquanto o sistema funciona bem para a maioria das operações, ainda sofre com as deficiências inerentes ao modelo baseado em confiança. Transações completamente não-reversíveis não são possíveis, uma vez que as instituições financeiras não podem evitar a mediação de conflitos. O custo da mediação aumenta os custos de transação, o que limita o tamanho mínimo prático da transação e elimina a possibilidade de pequenas transações ocasionais, e há um custo mais amplo na perda da capacidade de fazer pagamentos não reversível para serviços não reversíveis. Com a possibilidade de reversão, a necessidade de confiança se espalha. Comerciantes devem ser cautelosos com os seus clientes, incomodando-os para obter mais informações do que seria de outra forma necessária. Uma certa percentagem de fraude é aceita como inevitável. Estes custos e incertezas de pagamento podem ser evitados ao vivo usando moeda física, mas não existe nenhum mecanismo para fazer pagamentos ao longo de um canal de comunicação sem uma parte confiável. O que é necessário é um sistema de pagamento eletrônico baseado em prova criptográfica em vez de confiança, permitindo a quaisquer duas partes dispostas a transacionar diretamente uma com a outra sem a necessidade de um terceiro confiável. Transações que são computacionalmente impraticáveis de reverter protegeriam os vendedores de fraudes e mecanismos rotineiros de disputa poderiam ser facilmente implementados para proteger os compradores. Neste artigo, nós propomos uma solução para o problema de gasto duplo usando um servidor de horas distribuído peer-to-peer para gerar prova computacional da ordem cronológica das operações. O sistema é seguro desde que nós honestos controlem coletivamente mais poder de CPU do que qualquer grupo cooperado de nós atacantes. [143] A análise da origem e natureza da moeda também pode ser feita sob um prisma publicístico. Nessa interpretação, o agir livre e espontâneo dos agentes econômicos perde relevância o que importa, agora, é a atuação impositiva de um ator externo, o qual, mediante seu poder de coerção, influencia os rumos do mercado de maneira decisiva e autoritativa conforme a concepção pública, portanto, a moeda não tem um surgimento autônomo, mas condicionado à vontade do ente que tem força – seja ela política, econômica ou militar – para impô-la sobre a sociedade como tal poder tem uma manifestação jurídica, “a moeda é uma criação do direito”. [...] A afirmação de que a moeda é uma criação do Direito deve ser entendida “no sentido amplo de que é uma criação da atividade legislativa do Estado, uma criação de política legislativa”. A moeda é, assim, uma criação prática, não especulativa, do Direito. Por ser uma criação jurídica, a teoria da moeda deve justamente lidar com a História do Direito, pois o surgimento da moeda como tal é indissociável de sua regulação pelo ordenamento normativo. As alterações dos meios de pagamento ao longo do tempo, com a subsistência das relações creditícias estipuladas no padrão monetário anterior, mostram que o Estado trata a parte física da moeda – os materiais e as unidades monetárias – como apenas nomes, sem que ela se torne determinante para os contornos da relação jurídica. Dessa forma, “a alma da moeda não está no material de suas peças, mas nos preceitos legais que regulam seu uso” [144] Divícia sf. ‘riqueza’ XVI. Do Lat. Divitia -ae, por divitiae – arum de dives -itis ‘rico, opulento’. (CUNHA, 1982) [145] Emblema com representações simbólicas (plantas, animais etc.) acompanhado ou não de um lema, usado comumente em armas, bandeiras ou brasões, ou mesmo em vestimentas, túmulos, monumentos etc., representando uma família nobre ou tradicional; símbolo. Essa frase, pensamento ou sentença de poucas palavras, que resume o ideal, o sentimento ou a regra de conduta principal desse emblema, lema. A figura ou corpo desse emblema. Figura e/ou lema usado pelos nobres ou reis para caracterizar as tradicionais famílias da nobreza ou como símbolo de um reinado. Sentença ou frase de poucas palavras que exprime o ideal ou o sentimento predominante de um partido político, time, clube, associação, e etc. Insígnia indicativa da posição hierárquica (posto, patente) dos militares. Distintivo usado em uniformes escolares para identificação da escola, classe ou ano a que pertencem os alunos. Linha divisória entre dois países, zonas administrativas, estados, municípios etc.; fronteira, limite, demarcação. Linha que divide um terreno, uma propriedade (em geral, marcada por algum acidente natural); marco.Sinal feito a ferro quente no lombo do gado (bovino, equino) para marcar a identidade de seu proprietário ou criador. Herança que foi partilhada pelos filhos. Disponibilidade de cambiais que um Estado possui em praças estrangeiras. (MICHAELIS, 1998) [146] Divisa s.f (sXV) emblema simbólico (animal, planta etc) acompanhado ou não de um lema, usado em brasões; símbolo. A figura ou o corpo deste emblema. A sentença curta que acompanha um emblema e expressa uma atitude. Qualquer sentença breve (de partido político, clube, time desportivo etc) usado para caracterizar um ideal. Insígnia de posto ou patente dos militares usado em suas fardas. Traço ou linha divisória entre espaço e propriedades. Sinal feito a ferro quente sobre o lombo dos animais para marcar a propriedade de seu criador. Divisas ECON letras, cheques, ordens de pagamento e etc, convertíveis em moedas estrangeiras, ou as próprias moedas usadas em transações comerciais (HOUAISS, 2007) [147] (SANDRONI, 2002) [148] DIVISAS (fr. dévises) Expressão empregada para designar diferentes categorias de papel negociável: divisas bancáveis e não bancáveis. De um modo geral entendem-se por divisas os valores comerciais sobre o estrangeiro: saques, cheques, títulos provenientes de empréstimos públicos, ou de governo a governo. As divisas estão sujeitas à lei da oferta e da procura, segundo as necessidades de pagamento no estrangeiro, e sofrem, portanto as oscilações decorrentes dessa lei. Num país que tem de realizar grandes pagamentos no estrangeiro, a cotação das letras subirá acima do seu valor nominal em relação à paridade monetária. Se, ao contrário, não existe grande procura de letras, o possuidor destes terá de se conformar com menor soma de que lhe corresponde, feito o cálculo na base da paridade. Nos países de padrão ouro, as oscilações de divisas são insignificantes, podendo ser corrigidas pelo “gold-point”. Mas nos países à base de papel, não existindo paridade monetária, o preço das divisas é regulado pela capacidade aquisitiva da moeda do país, em relação à daquele sobre o qual são sacadas as letras. Não havendo a base invariável do metal, as oscilações são de maior amplitude, e estão sujeitas à situação econômica do país. Oscilações tão profundas na cotação das divisas, alteram o preço das mercadorias estrangeiras, com reflexos nos preços internos, devido à conexão existente entre eles. Evitar tais alterações é a finalidade da boa políticade divisas. Medidas apropriadas permitem regular a cotação tendo em vista as solicitações da balança de pagamentos. (GOMES, 1983) [149] 2. Consideram-se divisas “as disponibilidades internacionais que um país possui em função de exportação de mercadorias, de serviços, empréstimos de capitais (venda de tecnologia, direitos de patente etc.) e podem ser representadas por títulos de crédito (consubstanciados em moeda estrangeira), tais como ordens de pagamento, letras de câmbio, cheques, entre outros, resgatáveis no exterior.” 3. “Afora a própria moeda, nacional ou estrangeira e os títulos nela conversíveis, nenhuma relação obrigacional ou mercadoria pode constituir objeto material de uma operação de câmbio, salvo o ouro, ‘quando definido em lei como ativo financeiro cambial’ ( , art. 153, § 5º)”. 4. No limites do tipo legal em referência, não se insere a saída de diamantes para o exterior. 6.Diante desse contexto, sendo certo que a conduta dos acusados, não obstante danosa à economia, é de tipicidade penal duvidosa, pois não há evasão de divisas, uma vez que apenas as mercadorias, e não os valores, deixaram o país, é imperiosa a manutenção da sentença absolutória. Isto posto, nego provimento ao recurso de apelação. (TRF 1 Apelação Criminal- 200036000033096 – Relator Ministro Mário Cesar Ribeiro). [150] Art. 61. Consideram-se infrações penais de menor potencial ofensivo, para os efeitos desta Lei, as contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa. (BRASIL, 1995) [151] https://portaldobitcoin.com/o-fim-da-midas-trend-criador-da-empresa-diz-que- foi-hackeado-mas-especialista-contradiz/ [152] https://cointimes.com.br/lider-da-midas-trend-afirma-que-quem-entrar-na- justica-nao-vai-receber/ [153] https://criptonizando.com/2020/02/24/presidente-da-midas-trend-liderou- outra-famosa-piramide/ [154] https://cointimes.com.br/ponzi-exposto-site-americano-detalha-como- funcionava-a-midas-trend/ [155] https://valorinveste.globo.com/mercados/cripto/noticia/2020/02/14/ronaldinho- gaucho-vira-reu-em-acao-que-pede-r-300-milhoes-por-piramide-de- criptomoedas.ghtml [156] https://cointimes.com.br/arbcrypto-para-de-pagar-clientes/ [157] N. 0706433-61.2020.8.07.0016 - PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL - Adv(s).: DF56758 - ISABEL PEREIRA DA SILVA. Poder Judiciário da União TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS 11VARCVBSB 11ª Vara Cível de Brasília Número do processo: 0706433-61.2020.8.07.0016 Classe judicial: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7) AUTOR: LUIZ FRANCISCO TOLOSA RÉU: ALEXANDRE CESARIO KWOK, ENEAS DE LIMA TOMAZ DECISÃO INTERLOCUTÓRIA Diante das especificidades da causa e de modo a adequar o rito processual às necessidades do conflito, deixo para momento oportuno a análise da conveniência da audiência de conciliação. (CPC, art. 139, VI e Enunciado n. 35 da ENFAM). Há probabilidade do direito: com efeito, os autores https://portaldobitcoin.com/o-fim-da-midas-trend-criador-da-empresa-diz-que-foi-hackeado-mas-especialista-contradiz/ https://cointimes.com.br/lider-da-midas-trend-afirma-que-quem-entrar-na-justica-nao-vai-receber/ https://criptonizando.com/2020/02/24/presidente-da-midas-trend-liderou-outra-famosa-piramide/ https://cointimes.com.br/ponzi-exposto-site-americano-detalha-como-funcionava-a-midas-trend/ https://valorinveste.globo.com/mercados/cripto/noticia/2020/02/14/ronaldinho-gaucho-vira-reu-em-acao-que-pede-r-300-milhoes-por-piramide-de-criptomoedas.ghtml https://cointimes.com.br/arbcrypto-para-de-pagar-clientes/ informam que foram ludibriados pelos réus que, prometendo ganhos de 2,5% ao dia, os convenceu a investir quantias no mercado de criptomoedas. Fica evidenciada a possibilidade do conhecido esquema de pirâmede - que tem, inacreditavelmente, amealhado gentes que caem no canto da sereia de rendimentos que, em nenhum lugar do mundo, talvez tráfico de drogas, não são oferecidos... Há, ademais, perigo de dano. Argumentam os autores na magnífica petição inicial: "O "periculum in" mora é visível, o referido dano de que os requeridos estão sujeitos é que possam ser transferir as moedas para outras contas desconhecidas ou até mesmo para terceiros próximos aos mesmo, ficando, portanto, a dificuldade de se resgatar os valores investidos pelos requerentes." Defiro, portanto, a tutela cautelar para que se busquem nas contas dos autores os valores investidos, bem como que expeça ofício para o Mercado Bitcoin (ID 55988004 - Pág. 12), para que bloqueiem contas dos réus Indefiro, no entanto, suspensão de passaporte ou de órgão de trânsito, pois isso em nada contribuirá para o deslinde do feito, mesmo porque, pelo andar da carruagem, os réus podem estar, a estas alturas, já teriam tido oportunidade de fugir do país, quem sabe com destino a Belize. Feita as diligências acima, cite(m)-se e intime(m)-se o (a) (s) Ré (us) para contestar (em) o feito no prazo de 15 (quinze) dias úteis, a contar da juntada do aviso de recebimento se feita a citação pelo correio ou do mandado devidamente cumprido, se feita por oficial de justiça (art. 231 I e II do CPC). Frustada a tentativa de citação, por não ter (em) sido encontrado (s) o (a) (s) réu (é) (s) proceda-se à pesquisa de endereços da parte ré nos sistemas BACENJUD, SIEL e INFOSEG. Em sendo localizado endereço diverso, expeça-se mandado de citação inclusive se for o caso por carta precatória. Esgotadas as diligências, intime-se a parte autora para fornecer endereço atualizado ou requerer o que entender de direito. A ausência de contestação implicará revelia e presunção de veracidade da matéria fática apresentada na petição inicial. Int. BRASÍLIA-DF, 3 de março de 2020 15:50:55. ERNANE FIDELIS FILHO Juiz de Direito [158] https://cointimes.com.br/eu-nunca-falei-que-devolveria-o-dinheiro-diz-lider-da- unick-forex/ [159] https://in.reuters.com/article/us-crypto-currencies-crime/cryptocurrency-crime- losses-more-than-double-to-4-5-billion-in-2019-report-finds-idINKBN2051VT [160] https://criptonizando.com/2020/04/17/midas-trend-lideres-organizam-acao- coletiva-contra-a-empresa-e-ceo-pede-ajuda-dos-investidores/ [161] https://exame.abril.com.br/mercados/prejuizo-com-crimes-de-criptomoedas- chegam-a-us45-bi-em-2019/ [162] FATF (2019), Guidance for a Risk-Based Approach to Virtual Assets and Virtual Asset Service Providers, FATF, Paris, www.fatf-gafi. org/publications/fatfrecommendations/documents/Guidance-RBA-virtual- assets.html [163] EC3/European Cybercrime Centre (2017): A guide for Bitcoin investigators [164] ENCCLA, 2019, p. 3. [165] ENCCLA, 2019, p. 3. [166] https://pt.scribd.com/document/450472737/Guia-Bitcoin [167] ENCCLA, 2019, p. 22 https://cointimes.com.br/eu-nunca-falei-que-devolveria-o-dinheiro-diz-lider-da-unick-forex/ https://in.reuters.com/article/us-crypto-currencies-crime/cryptocurrency-crime-losses-more-than-double-to-4-5-billion-in-2019-report-finds-idINKBN2051VT https://criptonizando.com/2020/04/17/midas-trend-lideres-organizam-acao-coletiva-contra-a-empresa-e-ceo-pede-ajuda-dos-investidores/ https://exame.abril.com.br/mercados/prejuizo-com-crimes-de-criptomoedas-chegam-a-us45-bi-em-2019/ [168] ENCCLA, 2019, p. 23 [169] https://www.tecmundo.com.br/seguranca/120610-lava-jato-nao-consegue- invadir-notebook-odebrecht-nao.htm [170] ENCCLA, 2019, p. 23 [171] ENCCLA, 2019, p. 26 [172] Art. 10. A infiltração de agentes de polícia em tarefas de investigação, representada pelo delegado de polícia ou requerida pelo Ministério Público, após manifestação técnica do delegado de polícia quando solicitada no curso de inquérito policial, será precedida de circunstanciada, motivada e sigilosa autorização judicial, que estabelecerá seus limites. (BRASIL, 2013) [173] ENCCLA, 2019, p. 29 [174] ENCCLA, 2019, p. 29 [175] https://gizmodo.uol.com.br/os-detalhes-do-bizarro-sequestro-que-envolveu- criptomoedas/ [176] Não importa o quanto os políticos falem de solidariedade: jamais a tem com os contribuintes. – Thomas Sowell https://www.tecmundo.com.br/seguranca/120610-lava-jato-nao-consegue-invadir-notebook-odebrecht-nao.htmhttps://gizmodo.uol.com.br/os-detalhes-do-bizarro-sequestro-que-envolveu-criptomoedas/ 1. INTRODUÇÃO 2. O BITCOIN E AS OUTRAS CRIPTOMOEDAS 2.1. O QUE É BITCOIN? 2.2. OUTRAS CRIPTOMOEDAS PRESENTES NO MERCADO 2.2.1. ETHEREUM (ETH) 2.2.2. MONERO (XMR) 2.2.3. RIPPLE (XRP) 2.2.4. LITECOIN (LTC) 2.2.5. BINANCECOIN (BNB) 2.2.6. BASIC ATTENTION TOKEN (BAT) 2.3. AFINAL, É MOEDA OU NÃO? 2.4. É TÍTULO DE CRÉDITO, ATIVO FINANCEIRO OU BEM? 2.5. COMO O FISCO VÊ O BITCOIN? 2.5.1 COMO A RECEITA RASTREIA SUA VIDA FINANCEIRA 2.5.2 DEVO DECLARAR MEUS BITCOINS? 2.6. AS OPERAÇÕES ENVOLVENDO O BITCOIN 2.7. GUARDANDO SEUS BITCOINS COM SEGURANÇA 2.8. TRANSAÇÃO DE BITCOIN É OPERAÇÃO FINANCEIRA? 2.9 A LEI DE GRESHAM E O BITCOIN 3. AS ANÁLISES DO CRIME 3.1. O CRIME DE EVASÃO DE DIVISAS 3.2. O QUE A LEI PROTEGE E COMO O SUSPEITO AGE 4. BITCOIN E A EVASÃO DE DIVISAS 4.1. CRIPTOMOEDAS E A CONDUTA 4.2. HÁ LESÃO AO BEM JURÍDICO? 4.3. BITCOIN É DIVISA? 5. OS CRIMES MAIS COMUNS ENVOLVENDO O BITCOIN 6. COMO A POLÍCIA PRETENDE RASTREAR OS CRIMINOSOS 6.1. O PROCEDIMENTO INVESTIGATIVO 6.2. A AÇÃO POLICIAL NA PRÁTICA 6.2.1 O INTERROGATÓRIO 6.3. OS SOFTWARES UTILIZADOS 7. PALAVRAS FINAIS 8. REFERÊNCIAS 9. SOBRE O AUTOR 10. POSSO TE PEDIR UM FAVOR? [1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9] [10] [11] [12] [13] [14]cada 4 anos. Notamos então, a redução da oferta do Bitcoin conforme o tempo passa[8]. Não é à toa que muitos adeptos o chamam de ouro digital. O outro viés da mineração é a aprovação das transações pelos nós da rede. Segundo Antonopoulos, autor de Mastering Bitcoin, esse viés é o que sustenta a rede Peer-to-Peer: Embora a mineração seja incentivada por essa recompensa, o objetivo principal da mineração não é a recompensa da geração de novas moedas. Se você vê a mineração apenas como o processo pelo qual as moedas são criadas, você está confundindo os meios (incentivos) como a meta do processo. A mineração é o mecanismo que sustenta a câmara de compensação descentralizada, através da qual as transações são validadas e compensadas. A mineração é a invenção que torna o bitcoin especial, um mecanismo de segurança descentralizado que é a base do dinheiro digital P2P. Vamos imaginar que João decida enviar 5 unidades de Bitcoin a Maria. Para que isso ocorra, ela deve fornecer a sua chave pública a ele. Com acesso ao endereço, João envia os bitcoins à chave pública dela. A operação de fato será realizada somente quando os mineradores validarem essa transferência. Esse é o incentivo central para que a rede se mantenha funcionando. Dessa forma, os mineradores são remunerados cobrando pequenas taxas para que uma transação seja aprovada. Além disso, a mineração ocorre de forma totalmente descentralizada porque os mineradores podem estar em qualquer lugar do planeta. Essa atividade não necessita de um tipo de autoridade central, diferentemente do que ocorre no sistema financeiro tradicional, em que os Bancos Centrais mandam e desmandam. A mineração tem como objetivo não só gerar novos bitcoins, mas também, processar e validar os registros das novas transações no livro- razão da rede. Dessa forma, com esse incentivo, a rede Blockchain se mantém 100% on-line. A Blockchain é segura pelo fato de ser essencialmente uma sequência de blocos, não sendo controlada por um indivíduo ou organização. Em última instância, o poder de decisão recai sobre a própria rede, de forma distribuída. (Pinterest[9]) O Bitcoin é um software auditável por qualquer um. Seu banco de dados, a Blockchain, é público e todos podem ver o que acontece. Por conta dessa premissa, o sistema permanece incorruptível. Não há casos de fraude ou desvios de fundos, porque tudo pode ser auditado por todo mundo. O Bitcoin é resultado da união de várias tecnologias já existentes. O brilhantismo e genialidade de Satoshi Nakamoto foi unir o conhecimento de várias ciências e desenvolver uma rede infalível com incentivos que funciona de maneira voluntária, autônoma, 24 horas por dia, 7 dias por semana, há mais de 10 anos. Bitcoin é a prova cabal que a anarquia funciona. É a ordem espontânea sem uma autoridade central. Além dessa bela criação da humanidade, outras também foram desenvolvidas, as chamadas altcoins. No próximo tópico algumas delas serão abordadas. E aí, empolgado para conhecê-las? 2.2. OUTRAS CRIPTOMOEDAS PRESENTES NO MERCADO Com o intuito de dar uma liberdade maior às pessoas para que tenham alternativa ao sistema financeiro tradicional, surgiu o Bitcoin. Além dele, outras criptomoedas foram desenvolvidas em paralelo com um objetivo próprio além de ser reserva de valor. Segundo o site Coinmarketcap[10], há pelo menos 200 altcoins. As top 6 serão analisadas nesse capítulo. 2.2.1. ETHEREUM (ETH) Com o intuito de possuir uma Blockchain diferenciada, A Ethereum foi criada por Vitalik Buterin em janeiro de 2014, após ser financiada por um Crowdfunding. Sendo uma das altcoins mais importantes, ela tem a essência semelhante à do Bitcoin. A criação de Vitalik Buterin utiliza a tecnologia similar à do invento de Nakamoto. As transações publicadas na rede são verificadas e validadas pelos próprios usuários (os nós da rede) por meio da mineração. Assim, o sistema pode funcionar num protocolo distribuído recompensando seus usuários pelo seu poder computacional fornecido à rede. Porém, a Ethereum tem um diferencial: Os contratos inteligentes elaborados na plataforma. Sua verificação é realizada por meio de protocolos de computador, sem qualquer possibilidade de tempo de inatividade, censura, fraude ou manipulação por terceiros. Na rede Ethereum, contratos inteligentes podem ser implementados em quatro linguagens diferentes (Sodility, Serpent, Mutan e LLL). Os contratos são compilados para a máquina virtual do Ethereum, assinados digitalmente e em seguida anexados à Blockchain. A execução das cláusulas e a mineração são pagos em Ether, a criptomoeda da plataforma. O ponto que torna o Ethereum diferente do Bitcoin e das outras altcoins, é que ele leva a tecnologia dos contratos inteligentes para "tudo" que possa ser programado. Em abril de 2020 o Ethereum está cotado em torno de U$ 180 (cento e oitenta) dólares. Por mais que tenha um diferencial interessante devido aos contratos inteligentes, eu não a compraria para guardar, mas sim para realizar algumas operações ocasionais. 2.2.2. MONERO (XMR) O Monero é uma criptomoeda de código aberto, criada em abril de 2014, focada em privacidade e descentralização. Seu objetivo é ser não rastreável, oferecendo um maior grau de privacidade em relação ao Bitcoin. Assim como o Bitcoin, o Monero usa uma Blockchain pública para registrar todas as transações que são realizadas na rede. No entanto, ao contrário dele, o Monero, de maneira genial, protege a privacidade de seus usuários ao ofuscar o remetente, o destinatário e a quantia envolvida em cada operação. Em função disso, ela é considerada uma moeda não rastreável e anônima. Ele utiliza um processo de mineração de proof-of-work para criar as novas unidades da moeda, semelhante ao usado no Bitcoin. Entretanto, seu algoritmo de mineração é otimizado para ser mais eficiente em processadores comuns. Em outras palavras: minerar Monero é barato! Isso permitiu que a moeda fosse minerada de forma rentável em computadores simples, sendo o processo realizado de modo distribuído. A mineração igualitária do Monero acabou abrindo novas fontes de rendimento aos nodos da rede, tanto legítimas (em proveito dos produtores de conteúdo online) quanto maliciosas (em prol de hackers que inserem códigos de mineração em sites e aplicativos). A sua Blockchain não é 100% transparente, é opaca, pois esconde informações que são importantes para a privacidade dos usuários. Tudo isso graças à incrível tecnologia Stealth. Ela fornece a privacidade para o destinatário e para o remetente, porque evita que os endereços públicos dos usuários sejam registrados de maneira permanente na Blockchain. Por mais que as autoridades sejam contra a privacidade porque pode permitir alguma impunidade a criminosos, ela por si só é valiosa e protege os cidadãos de abusos de governos mundo a fora. A privacidade tem um valor imensurável para os desenvolvedores do Monero. Apesar de seu preço, em abril de 2020, estar em torno dos U$ 50 (cinquenta) dólares, creio eu que comprar Monero vale muito à pena. Eu tenho diversas unidades e recomendo que você tenha também. Sem a privacidade você é tão vulnerável quanto um bebê. Edward Snowden já dizia: “Não se importar com a privacidade só porque não tem nada a esconder, não é diferente de falar que não se importa com a liberdade de expressão só porque não tem nada a dizer”. Em outras palavras: Mesmo que você não tenha nada a esconder ou a falar, defenda a privacidade e a liberdade de expressão. 2.2.3. RIPPLE (XRP) Ocupando o terceiro lugar do Top 6 do Coinmarketcap, a XRP, ou Ripple tem por base um protocolo utilizado por bancos. Lançada em 2012, ela pretende permitir "transações financeiras globais seguras, instantâneas e quase gratuitas de qualquer tamanho sem rejeições". Desde 2013, o protocolo foi adotado por um número crescente de instituições financeiras como a MoneyGram e a Western Union para "oferecer uma opção alternativa de remessa" para os consumidores. A Ripple permite pagamentos sem fronteiraspara clientes de varejo, corporações e outros bancos. O site da Ripple descreve o protocolo open source como "tecnologia de infraestrutura básica para transações interbancárias - uma utilidade neutra para instituições e sistemas financeiros". Ele permite que bancos e empresas de serviços financeiros incorporem a arquitetura Ripple em seus próprios sistemas e, portanto, permitam que seus clientes usem o serviço. Por mais que os desenvolvedores queiram que não só os bancos usem a Ripple mas seus clientes também, Satoshi Nakamoto queria desenvolver um meio de pagamento legítimo, alheio ao sistema financeiro. Em outras palavras: Moedas longes das garras do estado e dos bancos. Importante lembrar que os endereços com maior número de XRP no mercado pertencem aos desenvolvedores. De outro modo: se os desenvolvedores da ripple comandassem um banco central, eles imprimiriam mais moeda e colocariam no próprio bolso. Portanto, os adeptos ideológicos das criptomoedas não utilizam a Ripple como reserva de valor, porque os criadores podem aumentar a oferta dela, reduzindo o valor de cada unidade. Por ser fiel aos princípios libertários, eu não compraria nenhuma criptomoeda criada por bancos nem para um trade ocasional. Caso você queira fazer um short, seu preço tende a cair porque seu fundamento é semelhante ao dos papéis coloridos governamentais: criação descontrolada de moeda sem lastro algum. 2.2.4. LITECOIN (LTC) Uma das mais famosas altcoins, o Litecoin foi criado em 2011, um pouco depois da criação do Bitcoin. As transações, saldos, e emissões são geridas por uma rede Peer-to-peer muito semelhante à da obra de Nakamoto, por meio da prova de trabalho. Dessa forma, as litecoins são emitidas quando é encontrado um valor hash suficientemente pequeno. A partir de então, neste ponto é criado um bloco que permite a mineração dos posteriores. Inspirado por Satoshi Nakamoto, o desenvolvedor do Litecoin, Charlie Lee, queria criar um Bitcoin melhorado. Em primeiro lugar, a rede do LTC processa um bloco a cada 2,5 minutos, em vez de a cada 10 minutos no caso dos blocos do BTC. Analisando pela economia de tempo, é uma vantagem. Segundo, a rede Litecoin irá produzir 84 milhões de unidades. Uma oferta monetária quatro vezes maior que aquela da rede do Bitcoin. Por ser quatro vezes mais inflacionária (talvez seu maior defeito), a criptomoeda de Charlie Lee, apesar de possuir ideias interessantes, não teve uma grande adoção como teve aquela criada por Satoshi Nakamoto. Por mais que tenha tentado ser melhor que o Bitcoin, o Litecoin falhou. Talvez por ter uma oferta monetária bem maior, e uma demanda muito menor, a adoção também não é lá aquelas coisas. Mas caso você queira fazer um trade ocasional, seu preço está em torno de U$ 45 (quarenta e cinco) dólares. 2.2.5. BINANCECOIN (BNB) A BNB, criada pela corretora Binance, é talvez a criptomoeda que mais se aproxima do ideal proposto pelo economista austríaco Friedrich August von Hayek. Ele afirmava que as empresas criariam suas próprias moedas e competiriam entre si no mercado por adeptos, da mesma forma que competem por consumidores quando oferecem seus produtos. Parece que o criador da Binance anda estudando escola austríaca. A BNB foi criada durante uma Initial Coin Offer em julho de 2017. A empresa ofereceu 20 milhões de BNB aos investidores anjo, 80 milhões para os criadores e os 100 milhões restantes, para os demais participantes da ICO. O objetivo da BNB é ser um token de uso restrito à própria plataforma da corretora. A sua principal função é fornecer descontos nas taxas cobradas dos que operam na Binance. Assim, os usuários além de financiar a empresa de Changpeng Zhao, ganham na valorização do próprio token. A Binance é uma das maiores exchanges de criptomoedas do planeta. Ela tem menos de 4 anos de existência e rapidamente conquistou sua fatia em um mercado com grandes concorrentes consolidados como Kraken[11], Bitfinex[12] e Bitstamp[13]. Ela foi criada por Changpeng Zhao, que já tinha experiência com sistemas de Trading e conhecimento em Blockchain. No primeiro ano após o lançamento da BNB, a Binance ofereceu um desconto de 50% nas taxas de negociação pagas com a criptomoeda da corretora. O desconto é reduzido à metade todos os anos. Em julho de 2017, o desconto era de 50%; em julho de 2018, 25%; em julho de 2019, 12,5% e assim sucessivamente até 2021. A partir daí o desconto cessa. Além de ousada, a estratégia foi inteligente. A Binance construiu sua plataforma de trade e tão logo conseguiu novos clientes por meio de um marketing agressivo e, ao mesmo tempo, dava liquidez para a BNB. O foco é o engajamento. Após a criação do token, os desenvolvedores geraram todo um círculo virtuoso que permitiu seu perfeito funcionamento e maximização de utilidade, diferente das moedas criadas em outros ICOs que viraram tokens inúteis. Ao mesmo tempo que ganhavam clientes, subia a demanda por tokens da Binance. A BNB se valorizava ainda mais, incentivando os detentores a “holdar” e até mesmo utilizar a plataforma de maneira constante. Por outro lado, a valorização do token atrai novos investidores, que acabam por ficar na plataforma. Além disso, a BNB conta com outro evento importante: Halvening de 3 em 3 meses. A cada trimestre, a Binance recompra os tokens e queima, diminuindo a oferta disponível. Eles vão continuar com esse planejamento até que 50% de todos os tokens sejam queimados. Se a demanda é mantida constante ou até mesmo aumenta, os preços são forçados para cima. No lançamento, cada token BNB estava custando dez centavos de dólar. Atualmente, ele está cotado em U$ 15 (quinze) dólares. Quem acreditou no projeto, teve um retorno de 15,000%. Isso significa que quem tivesse investido U$ 100 dólares, teria hoje um valor 150 (cento e cinquenta) vezes maior. Foram levantados U$ 15.000.000,00 (quinze milhões) de dólares no ICO, mas hoje, só a BinanceCoin tem uma capitalização de mais de quase U$ 4.000.000.000,00 (quatro bilhões) de dólares. Além do mais, o valuation da própria Binance hoje é superior ao triplo da capitalização da BNB. Pela escassez com origem no seu Halvening, a BNB continua sendo uma criptomoeda com grande potencial 2.2.6. BASIC ATTENTION TOKEN (BAT) A Basic Attention Token (BAT) é uma criptomoeda voltada para a divulgação e publicidade on-line. O objetivo é criar um ambiente de gestão para anunciantes e portais de divulgação de anúncios totalmente automatizado, por meio da tecnologia Blockchain. Hoje, o intermediário (que faz essa gestão), acaba levando cerca de 60% de todo o faturamento. O Google Adwords, por exemplo, gerencia anunciantes e espaços publicitários, mostrando para os usuários que acessam websites propagandas específicas conforme seu algoritmo determina. Entretanto, essa centralização de poder está sendo colocada em xeque com uma nova tecnologia desenvolvida pelo projeto Basic Attention Token, que permite uma gestão mais eficiente, automatizada e segura. O criador do Basic Attention Token é Brendan Eich, co-fundador do Mozilla/Firefox e também criador da linguagem de programação Javascript. Para conseguir conquistar seus objetivos, o projeto Basic Attention Token criou um navegador próprio. O Brave. Ele tem várias vantagens utilizando blockchain: bloqueia anúncios indesejados; é mais rápido que todos os outros navegadores como o Google Chrome, o Mozilla Firefox, Microsoft Edge, etc; e ainda oferece uma recompensa para os primeiros que o utilizarem. A BAT, hoje, em abril de 2020, está precificada em U$ 0,16 (dezesseis) centavos de dólar. Vale a pena comprar e guardar, mas caso não queira, faça um trade ocasional que a chance de ter alguns lucros é alta. A criptomoeda mais conhecida e com maior volume é o Bitcoin, razão pela qual os exemplos dados nesta obra serão relacionados a ele. 2.3. AFINAL, É MOEDA OU NÃO? Para entendermos o conceito e a origem da moeda, existem duas teorias que explicam essas ideias: As teorias privatista e publicista. A primeira afirma que a moeda veiodo mercado. Já a segunda diz que a moeda é originária do estado. A primeira teoria afirma que a moeda evoluiu de acordo com a sociedade. O escambo foi o primeiro meio de troca utilizado. Porém, ele possuía um limite conhecido como coincidência de desejos, porque nem sempre que o agricultor quer sapatos o sapateiro quer ovos. A partir de então foi descoberto que um meio de troca desejado por todos resolveria esse problema. Depois, foi estocado em certos armazéns que posteriormente se tornaram os bancos. O que predomina nas transações modernas é aquilo conhecido por dinheiro, mas nem sempre foi assim. Até seu surgimento, predominava o escambo, que era a troca de um bem por outro. As pessoas trocavam bens entre si, mas havia dois problemas: A “indivisibilidade” dos bens e a “coincidência dos desejos” para que houvesse a troca direta. Após diversas tentativas, o homem descobriu a solução que resolve esse quebra-cabeça: A troca indireta. Na troca indireta, você negocia seu produto não por algo que você quer, mas sim por aquilo que, no futuro, poderá ser trocado pelo que realmente você deseja. À primeira vista parece uma operação mais demorada, mas a realidade é que foi exatamente este maravilhoso e genial método que permitiu – e que segue permitindo – o desenvolvimento da civilização. Considere o caso de João, o agricultor, que quer comprar as sandálias feitas por Maria. Dado que Maria não quer ovos, João terá de descobrir o que ela realmente quer – digamos que seja manteiga. João, então, troca seus ovos pela manteiga de Pedro, e então vende a manteiga para Maria em troca das sandálias. João irá comprar a manteiga não porque quer, mas sim porque isso o permitirá adquirir as sandálias. Da mesma forma, Francisco, o dono da enxada, venderá sua enxada por uma mercadoria que ele possa com mais facilidade dividir e vender – por exemplo, manteiga. Se repetido de maneira contínua, ele trocará partes de manteiga por ovos, pães, roupas etc. Em ambos os casos, essa superioridade da manteiga é o motivo pelo qual existe uma maior demanda por ela. Essa vantagem vai além do seu mero consumo – é a sua maior comerciabilidade, ou, em ternos econômicos, sua liquidez. A enorme facilidade de ser trocada, de ser vendida, de ser comercializada. No decorrer da história, diferentes bens foram utilizados como meios de troca: açúcar, nas Índias Ocidentais; sal, na Etiópia; pregos, na Escócia; cobre, no Egito antigo; além de grãos, rosários, chá, conchas e anzóis.[14] Ao longo dos séculos, duas mercadorias, que retirando a função de troca das demais, foram espontaneamente escolhidas como dinheiro na livre concorrência do mercado: Ouro e prata. Tanto o ouro quanto a prata são altamente comerciáveis, são muito demandados para decoração, e se sobressaem em todas as outras qualidades necessárias. Em épocas recentes, a prata, por existir relativamente em maior quantidade que o ouro, se mostrou mais útil para trocas de menor quantia, ao passo que metal dourado foi mais utilizado para transações de valor mais expressivo. De qualquer maneira, o importante é que, independentemente do motivo, o livre mercado escolheu o ouro e a prata como a mais eficiente forma de dinheiro. Hoje, as moedas nacionais possuem diversos nomes: Dólar, Real, Euro, Peso e Bolívar, por exemplo. No passado, tais nomes não passavam de denominações para unidades de massa de ouro e prata. Antigamente, a Libra Esterlina era a denominação do equivalente a 1/4 (um quarto) de uma onça de ouro. O dólar, por outro lado, equivalia a 1/20 (um vinte avos) da mesma quantidade do metal. Fazendo uma simples conversão, pode-se notar que a Libra Esterlina valia 5/20 (cinco vinte avos) de ouro ou, conforme o senso comum, 5 dólares. Após estabelecido o meio de troca aceitável em sociedade, surge então um problema: De que forma o meio de troca seria guardado? Onde seria armazenado? Surgem então os “armazéns de ouro”, lugares onde as pessoas depositariam sua quantidade de ouro e, receberiam em troca um comprovante de armazenagem. Esse recibo era o documento que comprovaria que João possuía ouro no armazém do seu Zé, por exemplo. Tanto o ouro quanto a prata necessitavam de um formato para que fossem aceitas no mercado. Surge, então, a cunhagem, que é a fabricação da moeda de acordo com seu peso e sua pureza. Havia profissionais que prestavam esse serviço, mas existia uma certa desconfiança por parte das autoridades sobre a pureza dos metais usados na cunhagem. Tal pressuposto foi utilizado para o governo controlar a cunhagem e a oferta de moedas. A partir do momento em que o governo decidiu controlar esse processo, a verdadeira tragédia começou. O primeiro passo foi tomar o monopólio absoluto da cunhagem. Este era o meio indispensável para se controlar a oferta de moedas. A figura do rei ou do nobre era estampada nas moedas e, em seguida, era propagado o mito de que a cunhagem era uma prerrogativa essencial para a “soberania” real ou baronial. O monopólio da cunhagem permitia ao governo oferecer qualquer denominação de moeda que quisesse. Como resultado, a variedade de moedas no mercado foi forçadamente reduzida. Depois de ser o único a poder fabricar moedas, o governo promoveu e incentivou o uso do nome da unidade monetária. Por meio da distorção da linguagem, foram sendo separados o nome e o peso da moeda. Essa também foi uma medida extremamente importante, já que desobrigava cada governo da necessidade de aceitar um meio de pagamento comum para todo o mercado mundial. Em vez de usar grãos ou gramas de ouro e prata, cada estado promoveu seu próprio nome nacional conforme o patriotismo monetário: dólares, marcos, francos e etc. A mudança possibilitou aos governos fazer aquilo que viria a ser o principal meio de falsificação da moeda: a adulteração, também conhecida como inflação. A adulteração rápida e severa do metal foi uma tradição da Idade Média em praticamente todos os países da Europa. Por exemplo, em 1200 D.C, o livre tournois francês foi definido como sendo 98 gramas de prata pura; por volta de 1600 DC ele já estava sendo definido como apenas 11 gramas. Outro caso notável é o do dinar, a moeda dos sarracenos na Espanha. Ele consistia em 65 grãos de ouro, quando foi cunhado pela primeira vez no final do século VII. Os sarracenos, que eram altamente responsáveis, cunharam, de modo que em meados do século XII, o dinar ainda continha 60 grãos. Foi então que os reis cristãos conquistaram a Espanha e, já no início do século XIII, o dinar (agora chamado maravedí) foi reduzido a 14 grãos. Rapidamente, a moeda de ouro se tornou leve demais para circular, de forma que o termo maravedí passou a ser definido como uma moeda pesando 26 grãos de prata. Com o tempo, ela também foi diluída e, em meados do século XV, o maravedí possuía apenas 1,5 grão de prata – e, mais uma vez, pequena demais para circular.[15] Depois do monopólio da cunhagem, o governo, por meio da criação do banco central, monopolizou também a emissão dos títulos referente à posse de ouro nos armazéns. É notável que o banco central se tornou o armazém central. Agora, além de adulterar a pureza dos metais nele depositados, adultera também os títulos referentes à posse desses mesmos metais. Por mais que fosse responsável por tais práticas enganosas e nefastas à economia, o Banco Central adquiriu uma certa confiança do público por ser considerado um salvador dos outros bancos. Murray Rothbard afirma que um dos motivos utilizados para convencer o público a abandonar o ouro e migrar para as cédulas foi a grande confiança que todos tinham no Banco Central[16]. Em posse de quase todo o ouro e com respaldo psicológico das pessoas, o Banco Central foi apoiado pelo poder e prestígio do governo. Assim, não poderia cometer erros e falir. E de fato é verdade que nenhum Banco Central na história do mundo jamais foi à falência. Mas por que não? Por causa de uma regra muito clara: Não se pode deixar um Banco Central quebrar. O Banco Central, portanto, adquiriu a confiança quaseque ilimitada das pessoas. Naquela época, o público não tinha entendido que o Banco Central havia ganhado a permissão para imprimir dinheiro à vontade e permanecer imune a qualquer responsabilidade caso suas atitudes fossem contestadas. As pessoas viam o Banco Central como uma grande instituição nacional que realizava um serviço público. Além do mais, era protegido da falência por ser um braço virtual do governo. Pelo fato de as pessoas confiarem no Banco Central e o governo socorrê-lo caso algo desse errado, a instituição bancária poderia fazer o que bem entendesse. E fez. O Banco Central da Inglaterra emitiu mais títulos de posse de ouro do que realmente havia em seus armazéns. Foi criada assim a reserva fracionária. Os Bancos possuíam muito menos ouro do que diziam ter. Dessa forma, caso todas as pessoas decidissem retirar seu ouro, não teria o suficiente para todo mundo. Em outras palavras: o Banco Central havia falsificado os títulos. No século XVIII, os ingleses decidiram retirar seu ouro. O reino permitiu que o Banco Central cancelasse suas restituições e as mantivesse suspensas por mais de vinte anos. Mas não para por aí. Até 1971, o dólar era conversível em ouro. Depois do fim do acordo de Bretton Woods, a moeda americana se tornou simplesmente um pedaço de papel colorido lastreado na confiança que as pessoas tinham no governo. Dessa forma, o FED poderia deixar as impressoras ligadas a todo vapor. Mas para que imprimir dinheiro se criar dígitos é mais fácil e economiza papel? Surgia a reserva fracionária 2.0. Esse fato é tão bizarro que, se hoje todas as pessoas decidissem sacar o dinheiro da conta, não haveria cédulas para todo mundo. No Brasil, por exemplo, o Banco Central só tem 17%[17] em reservas de todo o dinheiro circulante na economia. Em outras palavras: 83% é dinheiro fictício. Toda essa violenta e bárbara intervenção do governo na economia, desde o ato de estampar o rosto do rei na moeda até a criação do banco central, abriu caminho para a criação e fama da teoria publicista. Ela afirma que a moeda tem origem na lei, posição adotada pelos Bancos Centrais mundo a fora: A análise da origem e natureza da moeda também pode ser feita sob um prisma publicístico. Nessa interpretação, o agir livre e espontâneo dos agentes econômicos perde relevância. O que importa, agora, é a atuação impositiva de um ator externo, o qual, mediante seu poder de coerção, influencia os rumos do mercado de maneira decisiva e autorizativa conforme a concepção pública, portanto, a moeda não tem um surgimento autônomo, mas condicionado à vontade do ente que tem força – seja ela política, econômica ou militar – para impô-la sobre a sociedade como tal poder tem uma manifestação jurídica, “a moeda é uma criação do direito”. [...] A afirmação de que a moeda é uma criação do Direito deve ser entendida “no sentido amplo de que é uma criação da atividade legislativa do Estado, uma criação de política legislativa”. A moeda é, assim, uma criação prática, não especulativa, do Direito. Por ser uma criação jurídica, a teoria da moeda deve justamente lidar com a História do Direito, pois o surgimento da moeda como tal é indissociável de sua regulação pelo ordenamento normativo. As alterações dos meios de pagamento ao longo do tempo, com a subsistência das relações creditícias estipuladas no padrão monetário anterior, mostram que o Estado trata a parte física da moeda – os materiais e as unidades monetárias – como apenas nomes, sem que ela se torne determinante para os contornos da relação jurídica. Dessa forma, “a alma da moeda não está no material de suas peças, mas nos preceitos legais que regulam seu uso”. (RICKEN, 2014.) Vejamos o completo absurdo: “O livre agir dos indivíduos perde força”, “...a moeda não tem surgimento autônomo, mas [o surgimento é] condicionado à vontade do ente que tem força”. Dessa forma a natureza material da moeda é totalmente desconsiderada pelo estado. O ouro e a prata são totalmente ignorados. Vale somente o papel colorido que o estado determina como moeda. Por consequência, o comerciante é obrigado a aceitar algo que inicialmente ele não quer. O motivo? O Curso legal. Por causa das mudanças legislativas e catástrofes econômicas, o Brasil teve 9 moedas durante a sua história. A partir de 1994 surgiu o Plano Real buscando colocar ordem na economia nacional. A Lei 8.880/94, que criou o Plano Real, afirma em seu artigo primeiro: “Fica instituída a Unidade Real de Valor – URV, dotada de curso legal para servir exclusivamente como padrão de valor monetário, de acordo com o disposto na Lei”[18]. Depois de a Lei 8.880/94 dar ao Real o curso legal, a Lei 9.069[19] tornou o Real a unidade monetária do Brasil e permitiu sua emissão pelo Banco Central. Além da fundamentação teórica e Legal da origem estatal da moeda, o Supremo Tribunal Federal tratou do tema da seguinte forma: [...]Ao deslinde da questão importa necessária consideração do conceito da moeda, conceito jurídico. Que aqui se trata de um conceito jurídico – não de conceito específico da Ciência Econômica – isso percebemos ao cogitar das funções básicas que a moeda desempenha na intermediação de trocas e como instrumento de reserva de valor e padrão de valor. O chamado poder liberatório da moeda permite aos seus detentos, sem limites ou condições, a exoneração de débitos de natureza pecuniária. [...]Eis aí, a moeda como padrão de valor, padrão que apenas se pode e deve utilizar nos limites e sob estritas condições definidas pelo direito positivo. [...] e as doutrinas econômicas tomam a moeda como convenção. O fenômeno da “dissolução da moeda”, na hiperinflação, não é senão expressivo do rompimento dessa convenção, rompimento que se dá quando perece a funcionalidade do ordenamento jurídico monetário. Por isso os vocábulos “lira”, “dólar”, “marco”, “real” só ganham significado quando referidos a normas integradas em determinado ordenamento jurídico, que os contemple como indicativos da unidade monetária juridicamente válida no espaço por ele abrangido. A moeda, pois, não é senão um nome sacralizado pela ordem jurídica, em 30 de junho de 1994 ano o “real” passou a ser moeda [unidade monetária] brasileira única e exclusivamente porque assim o disse, definindo-o como tal, o direito positivo brasileiro, inovado pela Medida Provisória 542/94. Todas as demais unidades monetárias como tais definidas pelos ordenamentos jurídicos de outros Estados não revestem, no quadro do direito positivo brasileiro, a qualidade de moeda. Podem, é certo, consubstanciar reserva de valor, objeto de avaliação patrimonial, coisa no sentido jurídico [elemento que se inclui no patrimônio de sujeito de direito]... [...] O primeiro – o curso legal – expressa a qualidade de valor líquido da moeda, em razão do que ela não pode ser recusada. O curso legal assegura a ampla circulação e imposição de aceitação da moeda; daí a sua caracterização como meio de pagamento. Já o curso forçado é qualidade da moeda conversível, vale dizer, de instrumento monetário que pode ser convertido em algum bem que represente o valor nela declarado [...] (BRASIL, 2010) O Relator, Ministro Eros Grau, tornou explícito o conceito publicista de moeda adotado no país que, além de presente na Lei, está também na jurisprudência da suprema corte. A maior ironia é que, segundo o Supremo Tribunal Federal, a moeda não perde o seu curso legal, mesmo em épocas que ela não vale nada. Ou seja, você é forçado a aceitar um papel colorido que se desvaloriza a cada segundo que passa. É graças ao curso legal que o estado tem a permissão de imprimir a sua moeda de forma ilimitada, gerando a hiperinflação. Afinal, as pessoas são obrigadas a aceitá-la. Caso não houvesse o curso legal, o estado pensaria duas vezes antes de ligar a impressora do banco central. Percebemos então que, conforme a suprema corte, moeda é o meio de troca emitido pelo estado e com curso legal, de acordo com a sua interpretação do texto da Lei. Por consequência, o Bitcoin pode ser consideradomeio de troca, mas não moeda, pelo fato de não ter origem no estado e muito menos ter curso legal. Ufa! Ainda bem. Bom, temos certeza que moeda não é. O que é então? Há somente três alternativas: Título de crédito, ativo financeiro ou bem. Você acha que é o quê? E, o mais importante, o que o estado acha que é? 2.4. É TÍTULO DE CRÉDITO, ATIVO FINANCEIRO OU BEM? Já que o Bitcoin não é moeda, vamos ver se ele é título de crédito, ativo financeiro ou bem. Vamos conhecer cada um deles. O primeiro é um documento que contém um direito de crédito e representa a obrigação do devedor. O cheque é um exemplo, porque o seu possuidor pode ir ao banco com ele em mão e sacar o dinheiro da conta da pessoa que o emitiu. O ativo financeiro, por sua vez, é tudo aquilo que tem a possibilidade de aumentar o patrimônio do possuidor e lhe gerar renda passiva. As ações são exemplos de ativos financeiros, porque há a possibilidade de a cota empresarial valorizar. Além disso, se a empresa obtiver lucros, haverá a distribuição de parte dos rendimentos aos acionistas, os chamados dividendos. Os bens, por outro lado são coisas que têm valor econômico e podem satisfazer uma vontade humana. Uma casa, um carro e um smartphone atendem as necessidades de moradia, deslocamento e comunicação, respectivamente. Agora, vamos verificar se o Bitcoin se encaixa em pelo menos um desses conceitos. Os títulos de crédito possuem várias características. A primeira delas é a cartularidade. Mas o que ela é? Cartularidade é a necessidade da existência física do título, ou seja, o papel. Além disso, ela não está presente no Bitcoin porque não há direito de crédito vinculado a ele. Em outras palavras: ele não é uma cédula e seu preço oscila de acordo com a vontade do mercado. Outra razão que impede o Bitcoin de ser um título de crédito é o fato de não ser um documento formal. Por não ser uma cédula, ele não é um título de apresentação e muito menos um documento com efeito executivo extrajudicial, além de não estar sujeito à legislação cambiária. Já que o Bitcoin não é considerado moeda devido ao conceito publicista e também não é título de crédito, seria a criação de Nakamoto um valor mobiliário? Para a Lei 6.385/76, não. Além de tratar do assunto, ela cria a CVM, autarquia responsável por fiscalizar o mercado de renda variável. De acordo com a Lei 6.385/76, são valores mobiliários as ações, debêntures e bônus de subscrição, por exemplo. Existem também outros bens mobiliários elencados pela norma: Recibos de subscrição; certificados de depósito; cédulas de debêntures; cotas de fundos de investimento; notas comerciais; contratos futuros de opções; e contratos de investimento coletivo, que gerem direito de participação, parceria ou remuneração.[20]. A Lei foi promulgada em 1976, portanto é impossível ela classificar o Bitcoin como valor mobiliário na data de sua edição. Por consequência, ele não pode ser tratado como tal porque não há previsão legal. É importante explicar e qualificar cada valor mobiliário presente na Lei. No Inciso I estão presentes as ações, debêntures e bônus de subscrição. As ações são cotas ou pedaços do capital social de uma empresa. A partir do momento que o indivíduo compra uma ação, ele se torna um acionista, participando da companhia. Em outras palavras: ele se torna sócio. As debêntures são empréstimos para determinada empresa. Dessa forma, o investidor se torna um credor, recebendo juros no final do período. O bônus de subscrição, por outro lado, é uma vantagem vendida ao acionista quando novas ações são emitidas. Assim, ele terá o direito de preferência para comprar as novas cotas da empresa recém disponibilizadas no mercado. Os certificados de depósito se dividem basicamente em dois: CDB e CDI. O primeiro é feito entre investidores e bancos. O segundo é realizado somente entre as instituições bancárias. Por ser um título de renda fixa, funciona como um empréstimo à organização financeira. Outro valor mobiliário também tratado na Lei 6.385/76 é a cédula de debênture. Ela é emitida por instituições financeiras atuantes no Brasil. Funciona da seguinte forma: Uma empresa de minério solicita no mercado um empréstimo de R$ 100.000,00 (cem mil reais) oferecendo além do pagamento do montante, boas taxas de retorno. O Banco aceita a oferta, tornando-se credor da companhia. Entretanto, o Banco vende esse título a você. Agora você é o credor da mineradora. O empréstimo do banco à empresa é a debênture; o que ele vende a você é a cédula, que dá direito de resgate, com juros, do valor emprestado à companhia de minério. As cotas de fundos de investimentos, presentes na Instrução 555 da Comissão de Valores Mobiliários, são definidas como um pequeno pedaço do patrimônio do fundo e confere iguais direitos e obrigações aos cotistas que fazem parte dele. Quanto ao clube de investimento, é conceituado pela Instrução Normativa 494 da CVM da seguinte forma: O Clube de Investimento é um condomínio aberto constituído por no mínimo 3 (três) e no máximo 50 (cinquenta) pessoas naturais, para aplicação de recursos em títulos e valores mobiliários” (BRASIL, 2011) As notas comerciais, presentes no inciso VI, são conhecidas também como notas promissórias, ou seja, promessas de pagamento. O contrato de derivativos é aquele em que o contratante compra uma opção de negociar um ativo em determinada data e por um preço pré-determinado. O mais comum dos contratos de derivativos é o contrato de opções. Os últimos dois incisos tratam dos contratos de investimento coletivo, que geram direitos de participação. Portanto, é um título mobiliário. Flávio Tartuce explica: Um ato jurídico bilateral, dependente de pelo menos duas declarações de vontade, cujo objetivo é a criação, a alteração ou até mesmo a extinção de direitos e deveres de conteúdo patrimonial. Os contratos são, em suma, todos os tipos de convenções que possam ser criadas pelo acordo de vontades. Dentro desse contexto, o contrato é um ato jurídico em sentindo amplo, em que há o elemento norteador da vontade humana que pretende um objeto de cunho patrimonial; constitui um negócio jurídico por excelência. (TARTUCE, 2015.) Há vários motivos para que o Bitcoin não seja considerado como valor mobiliário: O primeiro é que ele não é negociado como uma fração de determinada empresa e muito menos é um título que a representa. Outro fato curioso é que o Bitcoin também não é um título de crédito vinculado a uma empresa; e também não é considerado cédula de debênture pelo fato de não ser emitido por uma instituição financeira. Além de não ser um empréstimo empresarial e muito menos uma cédula de debêntures, não é uma cota de fundo de Investimentos porque não é fração de patrimonial de um conjunto de pessoas. Em relação às notas promissórias, notamos que o Bitcoin não constitui uma promessa de pagamento. Portanto, não pode ser enquadrado no inciso VI. No que diz respeito aos dois incisos posteriores, o Bitcoin não é um contrato futuro de opções e nem um contrato de investimento coletivo porque não possui as suas características jurídicas: declaração de vontade e criação ou alteração de direitos. Entretanto, existem criminosos que se aproveitam da ingenuidade de algumas pessoas para aplicarem golpes. Esses delinquentes apresentam o Bitcoin como um contrato de investimento coletivo, oferecendo às pessoas lucros diários absurdamente altos. Dessa forma, surgem as pirâmides financeiras. Com nomes curiosos envolvendo “miner”, “hash” e “forex” por exemplo, eles enganam as pessoas a pensarem que Bitcoin é contrato de investimento coletivo. Não é. A partir de agora sabemos que ele não é moeda, título de crédito e valor mobiliário. Afinal, o que é o Bitcoin? Pelo visto, o que nos resta é classificá-lo como uma coisa, um bem. Coisa é tudo aquilo que existe além do indivíduo. Os bens são as coisas que podem ser precificadas. O ar atmosférico é uma coisa, mas não um bem. O solo lunar é uma coisa, mas ainda não é um bem. Poderá ser se a lua for colonizada,