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Prévia do material em texto

BITCOIN E A EVASÃO DE DIVISAS
COMO AS CRIPTOMOEDAS ESCANCARAM O ATRASO DAS LEIS
NO BRASIL
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
MARCO ANTONIO COELHO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Eu penso que a Internet será uma das maiores
forças para reduzir o tamanho do governo. Uma
coisa que está faltando, mas que em breve será
desenvolvida, é uma moeda eletrônica
confiável” — Milton Friedman, Ganhador do
Prêmio Nobel de Economia prevendo o Bitcoin
em 1999
 
“O Bitcoin fará com os bancos o que o e-mail
fez com a indústria postal”. — Rick Falkvinge,
Empresário de TI e criador do 1º Partido Pirata
do mundo.
DEDICATÓRIA
Este livro é dedicado aos meus pais, que acreditaram em mim e
me estimularam a publicar esta obra.
À Maria, aquela que com seu amor me torna uma pessoa melhor a
cada dia que passa.
Àquela voz que, no meio da madrugada, ocupou meus
pensamentos e me estimulou a publicar esta obra. Deus.
Dedico também ao meu amigo Leonardo Senes por me dar
ouvidos quando eu era uma voz solitária a falar do Bitcoin.
Dedico este livro não só aos que me deram o apoio para escrevê-
lo, mas a todos que entendem as ideias libertárias por trás do Bitcoin.
Aos homens e às mulheres que defendem a liberdade acima de
tudo também dedico esta obra.
Os hodlers que me ensinaram a acreditar nos fundamentos e os
traders que fazem o mercado ser emocionante merecem também a
dedicatória.
Dedico a Frédéric Bastiat (in memoriam) pelas suas obras que me
ensinaram que a liberdade deve ser protegida e a força somente usada
contra agressores.
Ludwig Von Mises (in memoriam) merece também essa
dedicatória por defender que o progresso é tudo aquilo não previsto nas
normas e regulamentos.
A Friedrich Von Hayek (in memoriam) e Satoshi Nakamoto, o
primeiro por incentivar desestatização do dinheiro e o segundo por
colocar a ideia em prática.
Ao genial Murray N. Rothbard (in memoriam) por ensinar quão
criminoso é o banco central ao roubar o poder de compra das pessoas
quando inflaciona a moeda.
Ao grupo #tothemoon por gerar discussões interessantes e
acaloradas acerca do tema e recomendar parte da bibliografia aqui
presente.
E, por fim, dedico aos anarcocapitalistas por defenderem acima de
tudo que imposto é roubo.
AGRADECIMENTOS
Inicialmente, agradeço a Deus por me permitir chegar a tal
momento com saúde.
Agradeço aos meus pais por me darem apoio em todas as minhas
decisões mesmo não entendendo as consequências. Agradeço também
por não me internarem em um hospício quando decidi comprar “dígitos
de computador” ao invés de “investir” na “segurança” da poupança.
Um agradecimento especial aos meus amigos Eduardo Ossimas,
Leonardo Graciosa e Gabriel Cesar de Andrade por me ajudarem a ser
uma pessoa melhor intelectualmente.
A Satoshi Nakamoto agradeço por criar uma tecnologia disruptiva
que nos protege de todo o autoritarismo e barbaridades cometidas pelos
bancos centrais mundo a fora.
Agradeço a Dâniel Fraga (in memoriam?), por ensinar a ser fiel
aos ideais libertários até as últimas consequências.
Aos humoristas Danilo Gentili e Leo Lins por ridicularizarem os
autoritários com suas piadas sensacionais.
Aos familiares e demais pessoas que me chamaram de maluco,
eu agradeço pela força de vontade para provar que desde o começo
estiveram errados.
Por fim, agradeço a mim mesmo por ter acreditado, por ter
trabalhado duro, por ter dormido menos e por escrever esse livro
maravilhoso que você terá o prazer de ler.
PREFÁCIO DO AUTOR
Se eu pudesse voltar no tempo – especialmente em 2011 –, eu diria:
Compre Bitcoin! Com toda a certeza isso mudaria a minha vida. Após
ver os libertários, especialmente Dâniel Fraga, defendendo o uso do
Bitcoin não só como reserva de valor, mas sim como algo inconfiscável,
eu decidi não só comprar, mas estudar sobre o assunto.
Antes eu achava inimaginável existir um meio de troca sem o carimbo
do Banco Central. Hoje eu já não vejo a instituição com bons olhos.
O surgimento do Bitcoin na minha vida me deu uma aula de economia.
Aprendi diversos conceitos, dentre eles os de escassez e poder de
compra, e como eles são completamente ignorados pelos bancos
centrais.
Ao mesmo tempo que eu me aprofundava no estudo dos conceitos
econômicos, eu via a popularidade do Bitcoin aumentando aos poucos.
As primeiras corretoras começaram a surgir. Os primeiros p2p também.
E assim a comunidade foi se expandindo. Era fascinante.
Obviamente que fui chamado de louco (quem nunca), por familiares e
amigos quando defendi a tecnologia. Hoje se aparecer qualquer notícia
referente ao Bitcoin, eu sou o primeiro a ser perguntado por eles.
Depois de eu ver que ele possui certas semelhanças com o ouro, eu
tive um interesse muito maior. Afinal, o ouro é a mais antiga reserva de
valor e é totalmente livre das garras do estado, sempre protegendo as
pessoas nos momentos de crise.
Da mesma forma que o Bitcoin vai nos proteger no próximo apocalipse
financeiro.
Se você ainda não entende como o Bitcoin funciona, você aprenderá
nesse livro.
Além disso, o livro fala também das top 6 criptomoedas do mercado!
Não só isso: Ele mostra também o passo a passo de como declarar as
suas criptomoedas. (Se você quiser, claro!)
Aliás, quer guardar suas criptomoedas de maneira prática, rápida e
segura? O livro também ensina!
Quer saber o motivo porque os criptoanarquistas e Hodlers preferem
manter suas criptomoedas em vez de trocá-las pelo papel colorido do
estado? O livro vai te explicar!
E se você não gosta de Direito Penal, vai ficar fã graças ao que o livro
vai mostrar. Ele esclarece os conceitos iniciais com exemplos simples e
de fácil entendimento.
Além disso há um capítulo sobre o crime mais comum envolvendo
criptomoedas.
Geralmente começa com alguém chamando você para participar de
uma reunião em que uma empresa apresenta um negócio lucrativo.
É apresentado a você que esse negócio vai deixá-lo rico de maneira
rápida e fácil a ponto de dobrar o valor “investido”. Você pode não saber
do que se trata e seus familiares também não.
Mas fique tranquilo, o livro vai ensinar você a proteger seu patrimônio
desses caras.
Talvez um dos capítulos mais interessantes é aquele que trata das
investigações policiais. Foi descrito como a polícia vai agir contra os
piramideiros para leva-los à justiça!
É explicado o procedimento investigativo inteiro: a ação policial na
prática; o que vão perguntar no interrogatório e quais softwares as
autoridades estão usando para rastrear as wallets.
Além disso, pelo fato de o livro tratar dos mais variados assuntos, os
termos técnicos foram traduzidos no texto.
Dessa forma, você não vai perder seu precioso tempo procurando o
significado na internet.
Porque para entender o Bitcoin é necessário dominar os conceitos
básicos de: Economia, criptografia, redes distribuídas e teoria dos jogos.
E no caso desse livro, um pouco de Direito.
Mas pode ficar tranquilo (a), porque o livro vai explicar de uma maneira
simples e fácil graças à linguagem descomplicada utilizada pelo autor.
 
Tenha uma ótima leitura!
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
 
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas
Altcoin – Criptomoeda alternativa ao Bitcoin
Bitcoin – Criptomoeda criada por Satoshi Nakamoto
bitcoin(s) – unidades da criptomoeda
BACEN – Banco Central do Brasil
Crowdfunding – Financiamento Coletivo
CVM – Comissão de Valores Mobiliários
CMN – Conselho Monetário Nacional
COPOM – Conselho de Política Monetária
DPV – Declaração de Porte de Valores 
DCBE – Declaração de Capitais de Brasileiros no Exterior
Exchange – casa de câmbio nacional ou internacional
ENCCLA – Estratégia Nacional de Combate à corrupção e à Lavagem
de Dinheiro
FED – Federal Reserve
FATF – Financial Action Task Force
GAFI – Grupo de Ação Financeira Internacional
Halvening – redução da oferta monetária de criptomoedas com o passar
do tempo
Holder – Aquele que guarda acredita no potencial do ativo
independentemente do seu preço.
ICO – Initial Coin Offer (oferta inicial de moeda)
NSA – National Security Agency
Open Source – Software de código aberto
P2p – Peer-to-Peer (Ponto-a-Ponto)mas no momento ainda não é.
Uma outra definição para bem é, em sentido filosófico, tudo o que
satisfaz uma necessidade humana. Bens são coisas com valores,
interesse jurídico e econômico.
De acordo com os profissionais do Direito Civil, os bens se
classificam em: imóveis e móveis; substituíveis e insubstituíveis;
corpóreos e incorpóreos; consumíveis e inconsumíveis; divisíveis e
indivisíveis; singulares e coletivos; e, comercializáveis ou fora do
comércio.
Das classificações acima mencionadas, o Bitcoin é categorizado
como um bem móvel porque pode ser transacionado de onde você
estiver para qualquer lugar do mundo.
Substituível, já que pode ser trocado por qualquer outra unidade
de Bitcoin; incorpóreo, dado que é digital e não tem existência nem
forma física; inconsumível em razão de não perder sua substância, ou
seja, não é destruído.
Quanto à divisibilidade, o Bitcoin possui uma característica de ser
um número seguido de oito zeros. Esses zeros são chamados de
Satoshis, que é a sua menor unidade de medida.
De outra maneira: uma unidade de Bitcoin equivale a 100.000.000
(cem milhões de satoshis).
Já em relação à singularidade, o Bitcoin é único; possui suas
próprias características que o separam dos outros bens. Em relação à
comerciabilidade, nota-se que é alta, sendo negociado, no Brasil, em
torno de 45 mil reais[21], com compradores e vendedores em todos os
lugares do planeta.
Portanto, vemos que o Bitcoin é classificado, de acordo com a
doutrina jurídica nacional, como um bem.
 
O poder judiciário da Califórnia pensa da mesma forma:
Sob a lei estatutária da Califórnia, “a propriedade de uma
coisa é o direito de uma ou mais pessoas de possuí-la e
utilizá-la com a exclusão de outras” e “a coisa da qual pode
haver propriedade é chamada propriedade”. Consistente
Com os princípios articulados pela Suprema Corte dos EUA,
como discutido acima, os tribunais da Califórnia
descreveram a propriedade como um conceito amplo que
inclui “todos os benefícios e prerrogativas intangíveis
suscetíveis de posse ou disposição”[...] Aplicando o teste de
três partes predominante para interesses de propriedade
articulado pelo Nono Circuito, a propriedade do Bitcoin deve
ser considerada um interesse de propriedade intangível sob
a lei da Califórnia. (HANSEN; BOEHM, 2017)
 
Leonardo Oliveira[22] afirma que o conceito de bem no Brasil é
muito mais abrangente do que aquele feito pelos tribunais da Califórnia.
Na terra do Snoop Dogg, a ideia de property é limitada a bens
intangíveis.
Pelo fato de o Bitcoin ser incorpóreo[23], ele acaba sendo
intangível. Dessa forma, a característica de intangibilidade da property
não atrapalha a natureza jurídica que a criação de Nakamoto possui
tanto no estado da Califórnia, quanto no Brasil.
A property nada mais é que uma espécie do gênero “bem”[24].
Por ser um bem, o Bitcoin é amplamente negociado. Dessa forma,
são aplicadas a ele as normas do contrato de compra e venda.
 
 
O artigo 481 do Código Civil é explícito:
 
Art. 481. Pelo contrato de compra e venda, um dos
contratantes se obriga a transferir o domínio de certa coisa,
e o outro, a pagar-lhe certo preço em dinheiro. (BRASIL,
2002).
 
A compra e venda se realiza a partir do momento em que os
contratantes acertam o preço da negociação. Maria paga o dinheiro a
João que envia o Bitcoin à carteira dela por meio da rede Blockchain.
No momento em que o Bitcoin é classificado como um bem, as
operações que o envolvem podem ser regidas pelos contratos de
compra e venda. Porém, quando ele é utilizado como meio de
pagamento, a transação será considerada uma permuta.
A permuta, que é tão antiga quanto a criptografia, é uma das
modalidades utilizadas antes mesmo do desenvolvimento do sistema
legal moderno. Seu conceito consiste em um negócio em que as partes
se obrigam a entregar coisas uma para outra, que não seja dinheiro.
Portanto, o Bitcoin nos faz pensar como se iniciou o processo de
troca entre os seres humanos. No começo, era realizado o escambo.
Porém, devido à não coincidência de desejos e a dificuldade de
fracionamento dos bens, surgiu que é utilizado como o meio de troca
universal entre os demais: o dinheiro.
Nesse sentido, o Bitcoin se consolida no mercado como um bem
de enorme comerciabilidade e grande possibilidade de fracionamento.
Pelo fato de não ser caracterizado como um título de crédito e
muito menos um ativo financeiro, resta a ele ser definido como um bem.
Resumindo, bem é algo que tem valor.
O Bitcoin é um bem; portanto, tem valor.
Se tem valor, o fisco vai querer um pedaço.
A pergunta que fica é: Como a Receita Federal vê o Bitcoin?
Quais ferramentas ela usa para me rastrear? Devo declarar
minhas criptos?
A resposta será descoberta no próximo capítulo.
2.5. COMO O FISCO VÊ O BITCOIN?
 
Por ser tratado como um bem, a Receita Federal percebeu no
comércio do Bitcoin uma fonte de tributo. Não só por esse fato, mas
também pela sua consequente valorização e aumento proporcional no
patrimônio de quem tem.
Desde 2014, seu preço saltou de U$D 890,00 (oitocentos e
noventa) para mais de U$D 10.500,00 (dez mil e quinhentos) dólares,
uma valorização de 1.179% em 6 anos[25].
Outras criptomoedas tiveram uma valorização absurda em relação
ao dólar e ao próprio Bitcoin, deixando muitas pessoas com o pé-de-
meia pronto para aposentadoria. A BNB, por exemplo, é uma delas. Só
em 2019 valorizou mais de 400%, enquanto o Bitcoin valorizava só
100%.
Essas valorizações fizeram as autoridades fiscais crescerem o
olho no patrimônio do “contribuinte”[26]. Dessa forma, para fins
tributários, a Receita Federal classifica as criptomoedas como “outros
bens” a ponto de haver a cobrança de tributos sobre ganhos de capital
no Imposto de Renda.
Conforme a Lei vigente, há um “escalonamento” na cobrança de
impostos sobre ganho de capital. Vamos a ele.
15%, se a quantia não ultrapassar R$ 5.000.000,00 (cinco
milhões de reais);
17,5%, caso o montante for superior a R$ 5.000.000,00
(cinco milhões) de reais e inferior a R$ 10.000.000,00 (dez
milhões de reais);
20%, se a soma for maior que R$ 10.000.000,00 (dez
milhões de reais) e menor que R$ 30.000.000,00 (trinta
milhões de reais);
22,5% se o valor exceder R$ 30.000.000,00 (trinta milhões
de reais); [27]
O estado sempre vai querer um pedaço do bolo mesmo não sendo
convidado para sua festa.
Por mais que haja a tributação sobre esses valores, felizmente há
a isenção. O artigo 10 da Instrução Normativa 1.500 de 2014 da Receita
Federal, afirma que são isentos de Imposto de Renda os rendimentos
de ganho de capital inferiores a R$ 20.000,00 (vinte mil reais) para
ações, e R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais) nos demais casos[28],
incluindo-se aqui, as criptomoedas.
O ato de recolher impostos é, do ponto de vista tributário, a
obrigação principal. O ato de declarar suas informações e seus bens,
por outro lado, é a obrigação acessória.
Em relação a essa última, a Receita Federal editou em 2019 a
Instrução Normativa 1.888 que trata da exigência de informações por
parte de negociantes p2p (peer-to-peer) e exchanges. 
A Instrução normativa obriga os p2p e exchanges a enviarem à
Receita Federal uma gama de dados dos seus clientes. Também definiu
o que é criptoativo, exchange e quem está sujeito a ela.
Você leitor, deve estar pensando: Já vimos que Bitcoin foi
classificado como bem, por que diabos a Receita classificaria como um
criptoativo?
Tanto a Receita quanto o Banco Central são órgãos que lidam
diretamente com a contabilidade e essa ciência possui alguns termos
que merecem ser explicados aqui.
A contabilidade é a ciência social que registra, organiza e analisa
as modificações do balanço patrimonial de uma determinada empresa.
O patrimônio dela é organizado em 3 grandes grupos: Ativo, Passivo e
Patrimônio Líquido.
No ativo estão os bens e direitos da companhia. Máquinas e
contas a receber, por exemplo. Já no passivo estão basicamente as
dívidas da empresa, isto é, as obrigações.
O patrimônio líquido é o que sobra quando do ativo é reduzido o
passivo.Em outras palavras: Ativo – Passivo = Patrimônio Líquido.
Exemplo: se uma empresa tem um ativo avaliado em R$
100.000,00 (cem mil reais) e um passivo de R$ 70.000,00 (setenta mil
reais), o seu patrimônio líquido é o restante, isto é, os R$ 30.000,00
(trinta mil reais).
Como falado anteriormente, os ativos são os bens e direitos que
têm a possibilidade de gerar renda a quem os possui. Dessa forma, o
Bitcoin, devido à escassez, tem uma alta chance de se valorizar,
aumentando o patrimônio de seu proprietário.
Depois dessa breve explicação, voltamos à análise.
O texto dela é explícito: Criptomoeda “é uma representação de
valor denominada em sua própria unidade de conta, cujo preço pode ser
expresso em moeda soberana local ou estrangeira que pode ser
utilizada como investimento de transferência de valores ou acesso a
serviços e que não constitui moeda de curso legal”[29].
No que diz respeito à obrigação de prestar de informações, quem
deve fazer são as exchanges[30] e os p2p (peer-to-peer), que facilitam a
intermediação de compra e venda de criptomoedas[31].
Já em relação aos p2p, há uma certa limitação de quem deve, de
fato, fornecer esses dados ao Leão. Conforme a normativa fiscal,
somente quem movimenta mensalmente valores acima de trinta mil
reais[32] tem essa obrigação.
Quanto conteúdo das informações, são exigidos dados referentes
a: compra, venda, permuta e doação, além de outras operações que
sejam transferências de criptoativos[33]. Dessa forma, as autoridades
fiscais querem alcançar toda e qualquer transação que envolva
criptomoedas.
O fisco possui hoje uma quantidade absurda de dados. Agora quer
também as informações de quem opera com criptomoedas.
A Receita Federal, por meio da coação, obriga as corretoras a
fornecer diversos dados dos clientes. Essas informações valiosas agora
se concentram não só nas corretoras, mas também nos servidores do
Fisco, tornando-os um alvo de ataques hacker.
Com a edição da Instrução Normativa 1.888/19, é visível que a
Receita está tentando rastrear qualquer indivíduo que opere com
criptomoedas.
A gana de controle por parte do estado aumenta a cada dia.
Mas além disso, você é rastreado pelo leviatã de outras formas e
nem sabe.
Quais formas são essas?
Será que dá para escapar?
Vire a página e descubra
2.5.1 COMO A RECEITA RASTREIA SUA VIDA FINANCEIRA
 
Depois da edição das Instruções Normativas 1.888 e 1.899, a
Receita Federal apertou o cerco contra os p2p e as corretoras, exigindo
todas as informações possíveis.
Se o p2p ou a própria corretora movimentar mensalmente mais de
R$ 30.000,00 (trinta mil reais), (o que acontece facilmente), eles terão
que informar uma imensa quantidade de dados.
Dentre esses dados estão, por exemplo, a data da compra ou
venda, o nome do cliente, a criptomoeda usada, a quantidade do que foi
negociado e o valor. Só não pedem o número do WhatsApp porque
seria muita cara-de-pau.
É válido informar que a entrega de informações sobre a wallet do
usuário é obrigatória se ele receber algum tipo de intimação da Receita.
 Para receber uma intimação do fisco, deve haver divergências
entre o declarado ao órgão e o que foi realmente obtido pelo usuário.
Se você comprou ou vendeu bitcoins cujos valores sejam iguais
ou inferiores a R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais), você não vai
pagar imposto, mas deve declarar na seção do código 99 – outros bens
e direitos.
Se o valor de compra ou venda for de R$ 36.000,00 (trinta e seis
mil reais) em bitcoins, você pagará 15% sobre a diferença de R$
1.000,00 (mil reais), ou seja, R$ 150,00 (cento e cinquenta reais).
Portanto, caso você precise de dinheiro e queira vender seus
bitcoins, venda em frações de R$ 34.999,99 (trinta e quatro mil
novecentos e noventa e nove reais e noventa e nove centavos).
Já em relação a pagamentos em espécie, abra o olho. Você é
obrigado a entregar a DME (Declaração de Movimentação em Espécie)
caso os valores sejam maiores que R$ 30.000,00 (trinta mil reais).
Sendo assim, para evitar o controle das autoridades fiscais sobre
seu patrimônio, tome cuidado. Se for vender em espécie, venda
quantidades cujos valores não sejam superiores a R$ 29.999,99 (vinte e
nove mil novecentos e noventa e nove reais e noventa e nove
centavos).
Se você utiliza sua conta corrente para receber em reais o
montante referente as suas vendas de Bitcoin, sinto lhe dizer mas existe
a E-Financeira. Ela é um conjunto de informações que os bancos e
demais cooperativas de crédito devem prestar à Receita Federal.
Infelizmente, dela é quase impossível escapar: É informada à
Receita Federal a movimentação mensal de mais de R$ 2.000,00 (dois
mil reais) na conta bancária da pessoa física e R$ 6.000,00 (seis mil
reais) na da pessoa jurídica.
A não ser que você possua conta corrente laranja (o que não
recomendo), suas operações serão monitoradas pela Receita Federal.
Caso seja algo mais inovador tipo um cartão pré-pago, os valores
acima de R$ 100.000,00 (cem mil reais) são informados à UIF (Unidade
de Inteligência Financeira), antigo COAF.
Então se quiser evitar as garras do Leão, utilize cartões tipo
Advcash ou Xapo.
Já em relação aos cartões de crédito, algumas empresas como o
pague.nu geram boletos que podem ser pagos utilizando bitcoins.
Infelizmente existe a Declaração de Operações com Cartões de Crédito
(DECRED) para acabar com a festa.
Na DECRED estarão as informações sobre as operações feitas
com cartão de crédito. São identificados os usuários, os serviços e os
montantes mensalmente movimentados.
A Receita usa a DECRED para fazer o cruzamento fiscal, porque
se você decidir comprar seus bitcoins com cartão de crédito e declarar
no Imposto de Renda menos do que de fato comprou, a diferença será
tributada com multa e juros. Então muito cuidado.
Em um futuro não muito distante, vai ser comum as pessoas
comprarem imóveis pagando com criptomoedas. Porém,
lamentavelmente existe a DOI (Declaração de Operações Imobiliárias).
Dessa forma, o fisco pode comprovar a incompatibilidade
patrimonial. Em outras palavras: se o Bitcoin valorizar muito e você
decidir sair comprando mansões e carros de luxo, a Receita vai te
pegar.
Caso você seja um p2p ou outro profissional no mundo das criptos
e não quer ter seu patrimônio vigiado pelo leão faminto da Receita
Federal, mude de país ou utilize laranjas para realizar suas negociações
(o que eu não recomendo).
Porém fique ciente que se você for pego, pode responder por
falsidade ideológica, sonegação fiscal e, caso não consiga comprovar a
origem do patrimônio, lavagem de dinheiro.
Por mais que seja revoltante e doloroso pagar impostos,
infelizmente somos obrigados a declarar os bens e pagar o que a lei
determina.
Mas em relação aos Bitcoins surgem as dúvidas:
Devo declarar? Como faço?
Descubra no próximo tópico
2.5.2 DEVO DECLARAR MEUS BITCOINS?
 
A sanguessuga é um anelídeo da classe Hirudinea que vive de
parasitar e explorar o hospedeiro, semelhante ao que a Receita Federal
faz.
Diferentemente da Receita, a sanguessuga tem lá suas utilidades.
Ela combate a gangrena, descongestiona os vasos sanguíneos e
restabelece a pressão e a circulação do sangue no corpo.
Por mais que ambas sejam parasitas e tenham poucas diferenças,
a maior delas é que a sanguessuga irá embora quando sua vítima
morrer.
Infelizmente é difícil escapar da Receita que, por menor que seja o
aumento do SEU patrimônio, vai querer uma parte do SEU dinheiro.
Na época do Imposto de Renda surge a pergunta: Devo declarar
meus bitcoins? Como faço para declarar?
Em 1970, Whitfield Diffie popularizou a utilização da criptografia de
chave pública. A partir disso, ele ficou na mira da NSA, porque o uso
dessa tecnologia era considerado secreto pelo estado americano.
Depois do ocorrido, o governo americano obrigou as empresas de
tecnologia a instalarem um chip em todos os aparelhos de
comunicação. Ele permitiria a escuta das chamadas por voz.
De modo semelhante, em 2013, Edward Snowden escancarou ao
mundo o que o governo americano fazia por meio de sua Agencia
Nacional deSegurança: Vigiava tudo e todos. Inclusive os próprios
americanos.
E o detalhe: sem autorização judicial.
Posteriormente ao primeiro abuso do governo americano, Whitfield
Diffie descobriu a chave assimétrica: A divisão da chave pública em
duas. Uma pública e uma privada. A primeira poderia ser divulgada aos
4 ventos; A outra guardada a 7 chaves.
Inspirados por Diffie, surgiram os CypherPunks.
Era um grupo de indivíduos das mais variadas formações que
tinham um mesmo objetivo: a defesa da privacidade e da liberdade por
meio da criptografia.
O Manifesto CypherPunk, com intuito de difundir a ideia de
liberdade e privacidade, aparenta ter um teor bem libertário.
Um dos trechos é o seguinte:
Como desejamos privacidade, devemos garantir que cada
parte de uma transação tenha conhecimento apenas daquilo
que é diretamente necessário para essa transação;
[...]
Quando compro uma revista em uma loja e entrego dinheiro
ao funcionário, não há necessidade de saber quem eu
sou. Quando solicito ao meu provedor de correio eletrônico
que envie e receba mensagens, ele não precisa saber com
quem estou falando ou o que estou dizendo ou o que os
outros estão dizendo para mim; meu provedor só precisa
saber como receber a mensagem e quanto devo a eles em
taxas.
Além disso, tem um ideal muito semelhante ao criador do Bitcoin.
Wei dai, o criador do B-Money, foi o primeiro a ser consultado por
Satoshi Nakamoto enquanto estava desenvolvendo o Bitcoin.
 
 
Wei Dai escreve no White paper do B-Money:
Eu estou impressionado com a criptoanarquia.
Diferentemente das comunidades tradicionalmente ligadas
ao nome anarquia, em uma criptoanarquia o governo não é
temporariamente destruído, mas é permanentemente
proibido e permanentemente desnecessário. É uma
comunidade onde a ameaça de violência é impotente
porque a violência é impossível, e violência é impossível
porque seus participantes não podem ser ligados aos seus
nomes e localizações verdadeiros. (DAI, 1998)
Ele afirma que por meio da critpografia a privacidade é garantida e
o governo é proibido de acessá-la. E, devido a ela, o leviatã não poderá
promover a violência contra quem e o que não conhece.
Portanto, devemos defender nossa privacidade se esperamos ter
alguma. As pessoas vêm defendendo sua própria privacidade há
séculos com sussurros, escuridão, envelopes, portas fechadas e
apertos de mão secretos. 
As tecnologias do passado não permitiam uma privacidade forte,
mas as tecnologias do presente sim.
Caso você queira declarar suas criptomoedas, declare.
Mas saiba que você estará matando a descentralização e a
privacidade, os motivos de sua criação.
Defender qualquer ação do estado sobre as criptomoedas é uma
atitude estúpida e demonstra total desconhecimento da finalidade da
criptografia.
Respeite a história de quem arriscou a vida para defender nossa
liberdade e privacidade. Sem o escudo da privacidade, você será tão
indefeso quanto uma criança. Seus bens serão tomados e suas
mensagens serão monitoradas.
Nas próximas linhas eu mostro um miniguia de como declarar
suas criptomoedas ao Leão. Use da maneira que a sua consciência
mandar.
Se você quiser declarar seus bitcoins, faça o seguinte:
 
1º. Vá até a opção Bens e Direitos.
 
 
 
 
 
2º. Após clicar em “Novo” na parte inferior à direita da tela, aparecerá os
menus ‘código”, “localização”, “discriminação” e “situação em”
seguintes:
 
 
3º. No menu “código”, escolha o número 99 – Outros Bens e Direitos.
4º. A localização tem a ver com o país que irá colaborar com as
autoridades fiscais brasileiras para tomar seu patrimônio. Muitos
colocam Brasil e outros colocam Antártica. Decida qual o melhor para
você.
5º. No espaço chamado “descriminação”, você escreve detalhadamente
o que são criptomoedas.
A descrição ideal é: “Criptomoedas são moedas de verdade, diferente
desse papel higiênico impresso pelo Banco Central. ”
6º. Os menus inferiores representam o valor em cada ano; O da
esquerda, o valor no penúltimo e o da direita, o valor no último ano.
7º. Depois de realizada a declaração, tire um print screen da tela e
imprima.
8º. Agora compre um nariz vermelho. Tire uma selfie e fique
olhando para ela até sentir vergonha, porque quem está rindo de você
são os funcionários da Receita Federal.
2.6. AS OPERAÇÕES ENVOLVENDO O BITCOIN
 
O que leva alguém a comprar Bitcoin? Qual o objetivo em
negociá-lo? Há vários motivos.
Entre as razões, uma delas é que, atualmente, o mercado de
criptomoedas possui uma capitalização de USD 328.000.000.000
(trezentos e vinte e oito bilhões de dólares)[34].
Os objetivos que levam alguém a comprar criptomoedas são
vários. Alguns compram para guardar – conhecidos como Holders – e
esperar a sua valorização. Outros adquirem para negociar com o
objetivo de lucro – os Traders.
Os Holders compram e guardam Bitcoin por causa dos seus
fundamentos técnicos e econômicos. No que diz respeito às qualidades
técnicas, há o fato de serem inconfiscáveis e terem baixíssimas taxas
de transação; já em relação aos atributos econômicos, há a escassez
autêntica semelhante à do ouro. Os Traders compram e vendem por
causa da oscilação do preço e volatilidade.
Para comprar e vender criptomoedas, há, inicialmente, duas
formas: A transação direta com os Peer-to-Peer – conhecidos como p2p
– e a negociação em corretoras, por exemplo, no Brasil, FoxBit[35] e
MercadoBitcoin[36].
Deve-se analisar como são feitas as operações. Primeiramente,
vamos ver como é realizada a compra e venda por meio dos p2p (Peer-
to-Peer).
O comprador entra em contato com o p2p. Então o vendedor
apresenta a cotação pela qual está disposto a vender e questiona qual a
quantidade em reais o comprador pretende negociar.
A partir do momento em que a cotação é escolhida, o cliente envia
a quantidade de reais para a conta bancária do p2p, que solicita ao
cliente o endereço de sua carteira virtual. Depois, o vendedor envia a
quantidade de bitcoins à wallet do cliente.
A carteira de bitcoins pode ser de papel a chamada coldwallet
(carteira fria ou carteira offline) ou uma hotwallet, a carteira online de
aplicativo ou de corretoras.
Apesar de a transação ser realizada com segurança, fica a
pergunta: Quais as razões para uma pessoa comprar de vendedores
p2p?
O que leva o cliente a comprar dos p2p é que, além de eles não
cobrarem taxas de saque e de execução de ordem de compra/venda,
oferecem preços mais atrativos em operações de médio/grande
porte[37].
Esse é o mercado OTC (Over the Counter), também chamado
mercado de balcão. Ele existe porque as corretoras não têm bitcoins o
suficiente para atender a demanda de grandes investidores.
Ou seja, o mercado de criptomoedas é um iceberg: a ponta pode
ser vista nas corretoras, mas a maior parte do volume negociado está
fora delas. Isso é invisível para a grande parte do público.
Investidores profissionais e institucionais, fundos de investimentos
e grandes empresas se interessam cada vez mais por criptomoedas e
procuram o mercado de balcão.
Em vez de entrar nas corretoras e executar ordens no livro de
ofertas e provocar grandes movimentações no preço, eles compram de
forma discreta fora delas.
É visível, na próxima imagem, o processo de compra por meio de
p2p. Após a negociação do preço, o vendedor fornece ao cliente o
endereço da conta e depósito. Já o cliente, por sua vez, fornece a wallet
para onde as unidades de Bitcoin serão enviadas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(IMAGEM 1. Compra por p2p. Print retirado em 25 de março de 2019.)
Depois de efetuada a transação e com a posse das unidades de
Bitcoin, o cliente tem diversas alternativas: guardar; doar ou revender,
transferindo para quem quiser e para onde bem entender, desde que
possua o endereço da carteira de destino.
Da mesma forma que o p2p envia os bitcoins por meio da rede
Blockchain, o seu cliente pode transferir para a corretora do mesmo
modo, independentemente de onde esteja. A rede não reconhece
fronteiras.
Enviar bitcoins às corretoras é uma alternativa comum entre os
traders, porque operam trocando-ospor altcoins com intuito de obter
lucro.
As corretoras mais famosas são a Binance[38], a Bitmex[39] e a
Huobi[40]. A primeira tem sede da Ilha de Malta[41], a segunda em Hong
Kong[42] e a terceira, nos Estado Unidos[43].
Além de a rede ignorar fronteiras, ela permite que os participantes
realizem transferências sem limites. Uma das maiores transações já
feitas e registradas na Blockchain foi a de Laszlo Hanyecz, quando ele
decidiu comprar duas pizzas por 10 mil bitcoins.
Depois dessa, houve diversas outras de grande volume.
Uma outra grande operação foi aquela responsável pela
liquidação do patrimônio do finado Silk Road.
Os 50 mil bitcoins de Dread Pirate Roberts foram leiloados por
USD 18.000.000,00 (dezoito milhões) de dólares e enviados para a
wallet do arrematador.
Em junho de 2018, um usuário realizou uma transferência de
48.500 bitcoins[44] (quarenta e oito mil e quinhentos)[45] pagando
0.00000675 bitcoins de taxa. Em outras palavras: Ele movimentou o
equivalente a mais de um bilhão de reais pagando somente U$D 0,16
(dezesseis centavos de dólar).
Recentemente, houve uma movimentação de 94.504 bitcoins
(noventa e quatro mil e quinhentos e quatro), o equivalente a R$
4.000.000.000,00 (quatro bilhões de reais).
Apesar do alto volume, a taxa paga foi de apenas 0,06534852 btc
o equivalente a R$ 2.880,00 (dois mil oitocentos e oitenta reais).
Ela em si é muito superior a de uma transação média, mas,
considerando o valor transferido, a taxa representa menos de 0,0001%.
[46]
Após realizada a operação pela rede Blockchain, as unidades de
Bitcoin chegam à wallet da corretora. A partir daí, o usuário está apto a
realizar diversos tipos de transações: “comprar” altcoins, trocá-las por
dólares ou emprestá-las à corretora[47].
Percebe-se que, querendo aumentar seu patrimônio, o usuário
realiza diversas modalidades de operações tendo enormes margens de
lucro.
(IMAGEM 2. Oscilação FUEL. Print retirado em 9 de junho de 2019)
 
Note que a altcoin Etherparty, negociada como FUEL, valorizou
mais de 100% em relação ao Bitcoin no dia em que a imagem foi tirada.
Além disso, valorizou mais de 11% em apenas 5 minutos, o que um
título de renda fixa não valoriza em 5 anos.
Com a possibilidade de lucros altíssimos que superam facilmente
os da renda variável tradicional, o mercado de criptomoedas vai aos
poucos se tornando sólido e confiável. Dessa forma, acaba atraindo
investidores institucionais[48].
A volatilidade atrai tanto os traders iniciantes quanto os
profissionais que, com o retorno elevado, possuem grandes aumentos
patrimoniais em virtude das operações.
Veja também que quando um trader negocia outra criptomoeda,
ele a compra podendo pagar o preço em dólares ou em unidades de
Bitcoin, os meios de troca mais comuns.
Caso ele opte pela segunda opção, a partir do momento que a
criptomoeda comprada valoriza, ele aumenta seu patrimônio em Bitcoin.
A imagem serve de exemplo: Se um indivíduo realizou a compra
da criptomoeda FUEL e a vendeu depois de ela ter valorizado em
100%, o patrimônio dele aumentou na mesma proporção.
Depois de realizar o lucro, o trader possui duas alternativas: ou
transfere as unidades de Bitcoin recém lucradas da corretora
internacional para alguma corretora nacional; ou negocia com um p2p
que, após acertar o preço de venda, troca as unidades de Bitcoin por
reais.
Diferentemente dos negociantes autônomos, as corretoras
nacionais são pessoas jurídicas que fazem o intermédio entre
compradores e vendedores em sua plataforma digital[49].
Para evitar a lavagem de dinheiro, a Lei obriga as corretoras a
exigir a verificação do usuário. Dessa forma ele envia documentos e
uma selfie com a sua cédula de identidade.
Inicialmente quando você decide criar uma conta, são solicitados o
Nome Completo, CPF e Data de Nascimento. São dados que
basicamente identificam a alma do cliente.
Posteriormente é exigido o envio de duas imagens: uma foto do
documento que comprove a identidade do cliente e uma selfie dele com
o documento em mão.
A negociação se torna burocrática. Além disso, às vezes demora
muito para que os documentos sejam aprovados. Assim, o comprador
pode perder diversas oportunidades de lucrar.
Por serem enquadradas no inciso XII do artigo 9º da Lei 9.613[50],
as corretoras são obrigadas a exigir esse tipo de informação que
confirma a autenticidade do comprador.
Além dessa exigência, as corretoras mantêm sempre o registro
das transações realizadas por ele[51].
Apesar de demonstrar uma seriedade por parte da corretora, às
vezes é perigoso a presença de vários dados sobre os clientes em um
só lugar. Várias corretoras já foram hackeadas a ponto de identidades e
saldos dos clientes serem divulgados na internet[52].
Depois desse breve alerta, vamos ver como é feita a operação.
Verificados os documentos, o passo inicial do cliente é depositar reais
em uma das contas bancárias da corretora.
(IMAGEM 3. Depósito Fox. Print retirado em 4 de julho de 2019.)
Após o depósito, começam as operações. Notamos que, na
próxima imagem, é realizada uma compra de R$ 450,00 (quatrocentos e
cinquenta reais) em Bitcoin. Na parte superior à direita está a cotação
que o cliente deseja pagar, isto é, R$ 42.150,09 (quarenta e dois mil,
cento e cinquenta reais e nove centavos). Logo abaixo está a
quantidade de 0,010667613 bitcoins.
(IMAGEM 4. Compra Fox. Print retirado em 4 de julho de 2019.)
 
Posteriormente, é realizado o saque, ou seja, a transferência para
outra carteira de Bitcoin:
(IMAGEM 5. Saque Fox. Print retirado em 4 de julho de 2019.)
 
Após solicitar o saque, é necessário ter acesso ao endereço de
destino. Ele só é adquirido a partir do momento que é fornecido por
quem vai receber os bitcoins. No caso em análise, o cliente deve ter
uma conta na corretora em que as suas unidades de Bitcoin serão
trocadas por outras criptomoedas e solicitar o endereço de depósito,
conforme a figura abaixo.
(IMAGEM 6. Endereço de recebimento Bitfinex. Print retirado em 4 de julho de 2019.)
 
Depois de copiado o endereço de destino, ele é colado no espaço
solicitado pela corretora que vai enviar as unidades de Bitcoin.
(IMAGEM 7. Endereço da Bitfinex na Fox. Print retirado em 4 de julho de 2019 às 16:20)
 
A partir de então, por meio da rede Blockchain[53] a transação será
efetuada. A quantidade de Bitcoin sai do endereço da corretora nacional
e chega ao da corretora internacional. Lá o indivíduo poderá trocar seus
bitcoins pelas altcoins, que possuem grandes oscilações e enormes
margens de lucro.
Agora que você já sabe como funciona a compra e venda e de
que forma são realizados os trades, fica a pergunta: Como você vai
guardar seus bitcoins de maneira segura?
O próximo tópico vai te ajudar da melhor maneira possível.
2.7. GUARDANDO SEUS BITCOINS COM SEGURANÇA
 
Depois de comprar seus bitcoins, é a hora de transferi-los a um
local seguro. A minha recomendação é sempre utilizar uma carteira de
papel.
Primeiro porque ela é extremamente segura pelo fato de ser off-
line; segundo, você pode guardá-la onde quiser. Mas a grande questão
que fica é: como criar uma paper wallet?
Criar uma paperwallet é simples. Vou dividir em alguns passos
para facilitar.
1º – Tenha um sistema operacional livre de vírus e outros
malwares.
2º – Após se certificar de que seu sistema operacional é livre de
pragas virtuais, acesse o site https://www.bitaddress.org/;
3º – Desconecte-se da rede. Se você for um pouco paranoico com
segurança igual eu, desligue o modem.
4º – Mexa no mouse de maneira aleatória. Quando você fizer isso,
aparecerá alguns pontinhos verdes e a porcentagem do progresso.
Observe na imagem:
 
 (IMAGEM 8. Paper wallet. Print
retirado em 10 de dezembro de 2019 às 20:20)
5º – Note que os pontos não seguem nenhuma sequência lógica,
mas sim foram criados de maneira aleatória. Recomendo fazer isso
para dificultar possíveis ações de hackers ou semelhantes.
6º – Depois de atingir os 100% e ainda fora da internet,imprima a
página seguinte:
 
https://www.bitaddress.org/
(IMAGEM 8. Paper wallet. Print retirado em 10 de dezembro de 2019 às 20:21)
 
7º – Após imprimir, guarde a paperwallet em local seguro.
8º – Para receber novos bitcoins, compartilhe o endereço e/ou o
QR CODE da esquerda, isto é, a chave pública.
9º – Caso queira vendê-los, você deverá importar sua carteira de
papel para algum aplicativo que cumpra essa função.
10º – O aplicativo que uso para importar os bitcoins é da
Blockchain.com. Veja que você irá transferir seus fundos de uma paper
wallet (carteira off-line) para uma hotwallet de aplicativo (carteira on-
line). Após a transferência, você deverá descartar a carteira de papel.
 
 
Para importar seus bitcoins de uma paper wallet é fácil. Faça da
seguinte forma:
Depois de instalar o aplicativo da Blockchain.com você
deverá clicar em Painel como a imagem monstra.
Posteriormente você deverá entrar no menu Endereços:
 
 
Em seguida, clique em Endereços importados:
 
Então você utilizará a câmera do seu smartphone para
escanear a chave privada da paperwallet.
 
Após o escaneamento, os bitcoins presentes na carteira de
papel vão direto para a hotwallet do aplicativo, podendo ser
enviados para qualquer endereço.
 
Depois de realizar o procedimento, você deverá descartar a
carteira de papel anteriormente usada. Caso queira
recolocar seus bitcoins em outra carteira de papel, é só
repetir o processo presente nos pontos 1 ao 6º.
 
Agora você já sabe como comprar e guardar de maneira segura.
Mas como é classificada a operação de compra e venda de bitcoins?
 
É transação financeira?
 
Vire a página e você descobrirá a resposta.
2.8. TRANSAÇÃO DE BITCOIN É OPERAÇÃO FINANCEIRA?
 
Com o desenvolvimento da ciência, a vida humana sofreu
impactos em várias áreas. Em relação às finanças, percebe-se que a
tecnologia trouxe diversos benefícios: comodidade, segurança e
transparência nas transações.
As operações com dinheiro no mundo estão se tornando raras.
Apesar de existir certas culturas[54] que priorizam essa forma de
pagamento, o uso dinheiro em espécie está sendo extinto na Holanda,
Suécia e demais países escandinavos[55], por exemplo.
O uso das cédulas está sendo lentamente substituído por outros
meios. Na China, o Alipay é mais comum que o próprio dinheiro[56]. Em
meio a essa evolução, fica a pergunta: pagar uma conta por meio de um
aplicativo de celular é transação financeira? Aliás, o que configura uma
transação financeira?
Transação financeira é toda operação que envolve dinheiro. Um
exemplo é quando você compra um carro ou paga o aluguel com suas
cédulas ou com cartão de crédito/débito.
Por outro lado, se você compra uma casa e o “pagamento” é feito
com um veículo, você está fazendo uma permuta.
Para a Comissão de Valores Mobiliários, o Bitcoin não é um ativo
financeiro[57], mas sim um bem. Mas o que o Banco Central tem a dizer
sobre o assunto?
Em 2017, o Banco Central era avesso à tecnologia.
A instituição alertou que as criptomoedas não são supervisionadas
e nem garantidas por autoridade alguma[58].
Já em 2019 o Banco Central do Brasil se posicionou de forma
diferente. Por causa de uma recomendação do FMI, a autarquia
abordou o tema de maneira mais amigável.
Ela classificou o Bitcoin como bem para fins de balança de
pagamentos das instituições bancárias centrais. Foi categorizado como
“ativo não financeiro produzido, o que implica sua inclusão na conta de
bens da balança de pagamentos”[59].
Segundo a Contabilidade, ativo é o conjunto de bens e direitos
com a possibilidade de gerar renda para quem os possui. Devido ao seu
potencial de valorização causado pela escassez pré-programada, o
Bitcoin é classificado como um bem, no subgrupo dos ativos não
financeiros.
Conforme foi explicado no capítulo anterior, a aquisição inicial de
bitcoins é realizada quando o comprador troca sua moeda fiduciária
pelas unidades da criptomoeda. Mas o que é moeda fiduciária?
A palavra fiduciária vem de fidúcia, que significa confiança. De
outra maneira: você é obrigado (lembra do curso legal?) a confiar em
quem a emite.
A moeda fiduciária é o papel colorido emitido pelos governos:
Dólar, Real, Euro e Bolívar.
Em relação aos bitcoins, a partir da posse ele pode usufruir da
maneira que quiser: vender, doar ou utilizar para pagar dívidas. Este
último processo é conhecido como dação em pagamento[60].
Quando o indivíduo revende, ele realiza uma operação financeira
porque ele vai receber moeda fiduciária de quem compra.
Após o envio do dinheiro, são transferidos os bitcoins à carteira de
destino. Quando é doado, há somente a movimentação de uma wallet
pra outra.
Notamos que a transferência entre as carteiras se faz pela rede
Blockchain, após aprovada pelos nós[61] e por eles registradas no livro-
razão virtual.
Por meio de rede própria, um bem é transferido de um local a
outro. Dessa forma, quando o indivíduo envia seus bitcoins para outra
carteira sobre seu controle, há somente uma mudança de lugar,
semelhante ao que fazemos com os móveis da casa.
Por outro lado, quando há uma transferência de unidades de
Bitcoin da carteira de João para a carteira de Maria, ocorre a
movimentação de uma wallet a outra.
Somente será uma transação financeira quando, na negociação,
há a presença de moedas fiduciárias.
Vemos que quando as unidades de Bitcoin são enviadas à carteira
de uma corretora e são trocadas por altcoins[62], há uma permuta. Aqui
também não há transação financeira.
Desse modo, as transações envolvendo criptomoedas podem ser
de diversos tipos, financeiras ou não. No vídeo intitulado Bitcoin In
Uganda[63], é visível a utilização da rede Blockchain como um meio de
driblar as altas taxas cobradas pelas empresas especializadas em
remessas Western Union[64] e MoneyGram[65].
As taxas cobradas por essas empresas giram em torno de 10%
(dez por cento) a 20% (vinte por cento), o que é absurdamente maior ao
exigido pelos mineradores para aprovar a sua transação.
As transações realizadas por essas empresas, além de serem
caras, podem demorar cerca de dois dias[66], diferentemente do que
ocorre na Blockchain: você pode movimentar o quanto quiser, pagando
bem pouco por uma operação quase instantânea.
Como falado anteriormente, em junho de 2018 um usuário
movimentou 48.500 bitcoins[67] pagando uma taxa de 0.00000675
bitcoins. Em termos matemáticos, a taxa é inferior a 0,00000139175%
do valor da transação.
Como é mostrado no vídeo Bitcoin in Uganda, a rede Blockchain é
utilizada não só para “burlar” as altas taxas das remessas, mas também
para enviar ao jovem um bem valioso e demandado no país em que
mora.
Assim, é exibido que as unidades de Bitcoin são compradas por
Ronah Nansubuga, no Brooklyn, nos Estados Unidos. Depois, pela rede
Blockchain, são enviadas à hotwallet do celular de Ronald, seu irmão
mais novo, que mora em Makindye, Uganda.
Depois de recebidas as frações de Bitcoin, Ronald negocia com
comerciantes locais em troca de Xelins Ugandeses para realizar suas
compras diárias.
Portanto, no primeiro momento, existe uma transação financeira: a
compra de unidades de bitcoins com dólares.
Posteriormente, é feito o envio pela rede Blockchain à carteira do
celular de seu irmão mais novo, sendo uma simples movimentação de
bens de um lugar a outro.
No fim, há a venda das criptomoedas em Uganda, quando são
trocadas pela moeda local, caracterizando outra transação financeira.
Assim, só há transação financeira quando envolve moeda
fiduciária.
Em relação ao que ocorre na Blockchain, é simplesmente uma
mudança de unidades de Bitcoin de uma carteira para outra.
Por falar em moedas fiduciárias, existe uma Lei da economia que
se aplica a elas e também ao Bitcoin.
Ela está presente toda vez que você decide entre gastar, guardar
ou investir seu dinheiro.
Quer saber qual é?
No próximo tópico ela estará esperando por você
2.9 A LEI DE GRESHAM E O BITCOIN
 
 
Por mais que o Bitcoin não seja uma moeda conforme o conceito
publicista, ele reúne todas as características e funções monetáriasdo
modelo privatista. Porque, além de vir do mercado, também possui as
seguintes qualidades: é um meio de troca; é divisível; é reserva de
valor; é indestrutível; é facilmente transferível; e facilmente
transportável.
Além disso, devido à escassez pré-programada, o seu valor tende
a aumentar conforme o tempo passa. Dessa forma, o Bitcoin é
deflacionário, tornando-se uma “moeda” boa, enquanto o inflacionário
papel colorido do estado se torna uma moeda ruim.
A Lei de Gresham, por sua vez, afirma que uma moeda
artificialmente sobrevalorizada tende a tirar de circulação aquela
artificialmente subvalorizada.
Imagine que, lá no século XVIII, um comerciante possuísse 50
moedas de ouro, cada uma com a estampa governamental do número
10, o equivalente ao seu peso em gramas.
Porém, pelo fato de ele as utilizar no dia a dia, algumas delas
sofreram um desgaste muito maior que as outras, perdendo parte de
sua massa em ouro.
Por força de Lei, o estado determina que elas tenham o mesmo
valor monetário. Nesse sentido, o comerciante usará somente as
moedas desgastadas, guardando as outras mais novas e com maior
massa de ouro.
Em outras palavras: moedas ruins expulsam as boas do mercado.
A Lei de Gresham surgiu devido à criação das Leis de Curso
Forçado. Essas normas, como visto antes, instituem uma moeda como
padrão de valor monetário.
Dessa forma, o comerciante é obrigado a aceitá-la como forma de
pagamento. Caso se recuse, ele cometerá uma contravenção penal.[68].
Essa impossibilidade de recusa prejudica os vendedores e outros
comerciantes. Em países com histórico inflacionário, a Lei permite que
os devedores paguem suas dívidas com uma moeda ruim.
Por consequência, após o pagamento do débito, ela já não tem o
mesmo valor de antes.
Dez mil reais hoje não tem o mesmo poder de compra de dez mil
reais amanhã. Às vezes a moeda está tão desvalorizada que ao invés
de ser contada, ela é pesada, como ocorre com o Bolívar
Venezuelano[69].
Vemos que há um controle absurdo do governo sobre a moeda.
Por exemplo, no Brasil da década de 80, o dólar foi cotado a um preço
fixo de Cz$ 13,84 cruzados[70]. Sim, a força da caneta governamental
determinou o preço do dólar no país.
Por causa disso, tanto as pessoas comuns quanto os grandes
investidores utilizavam o cruzado para pagar pelos bens de consumo e
armazenavam dólares: Quem podia deixava seu dinheiro fora do Brasil;
quem não podia guardava a moeda americana embaixo do colchão.
O controle de preços exercido fez com que não houvesse mais
produção, estimulando a importação de bens, pagos em dólares. Como
consequência dessa saída de dólares do país, o preço disparou,
gerando um círculo vicioso.
Com o intuito de frear esse aumento e exercer o controle sobre as
moedas estrangeiras no Brasil, foi editada a Lei 7.492/86. Ela prevê o
crime de Evasão de Divisas que penaliza tal prática.
Já em relação ao Bitcoin, a Lei de Gresham também age. As
pessoas não o usam como meio de troca, mas sim como uma reserva
de valor.
Ele é visto como um ouro virtual. Quem entende seus
fundamentos não procura outro investimento fora do mundo digital.
Os “Hodlers” preferem ter todo o seu patrimônio em Bitcoin, tendo
moeda fiduciária só para seus gastos diários. A Lei de Gresham em
ação.
Os traders por sua vez, fazem as negociações sempre visando o
aumento da quantidade de bitcoins.
Já em relação à moeda, a Lei de Gresham tende a deixar no
mercado a moeda fiduciária e expulsa o Bitcoin. Dessa forma as
pessoas ignoram a característica de meio de troca para bens e serviços,
e valorizam mais a reserva de valor da criação de Satoshi Nakamoto.
Ele só é trocado realmente por outros ativos que tendem a
valorizar. Após a valorização, esses ativos são vendidos para que o
indivíduo aumente seu patrimônio em bitcoins.
Um exemplo clássico é aquelas pessoas que, por causa do
aumento patrimonial decorrente da valorização do Bitcoin, vendem os
seus bens materiais para obtê-lo em maior quantidade. Por
consequência, reduzem drasticamente seu padrão de consumo,
adotando uma vida extremamente simples e comprando mais unidades
na esperança de valorização[71].
Com isso é possível notar a aplicação prática da Lei de Gresham:
As pessoas entesouram o Bitcoin e utilizam o papel colorido do estado
somente para as despesas obrigatórias com alimentação, moradia,
saúde e etc.
É o que faz a grande maioria dos hodlers: deixam seu patrimônio
todo em Bitcoin, porque, devido à escassez, cada Satoshi fica mais
difícil de conseguir conforme o tempo passa.
Nesse mesmo sentido, o holandês Didi Taihuttu vendeu todos os
seus bens materiais para comprar a criptomoeda. Ele e sua família têm
um estilo de vida minimalista e viajam o mundo só com o que julgam
realmente necessário[72].
Dessa forma, os que possuem grandes somas de Bitcoin hoje
tendem a viver uma vida simples, sem luxos e sem ostentação. Ser
visivelmente pobre virou moda mesmo que a quantidade de bitcoins na
wallet seja capaz de comprar qualquer carro disponível no mercado,
independente do seu preço
3. AS ANÁLISES DO CRIME
 
Este capítulo faz uma avaliação do crime de Evasão de Divisas.
Do ponto de vista Legal, será feita uma leitura completa do artigo, desde
aquilo presente no caput até as práticas previstas no parágrafo único.
A doutrina, por sua vez, vai classificar o crime em relação ao que
o agente faz, o meio utilizado para cometer o crime e o potencial lesivo
ao bem protegido pela lei.
No que diz respeito à jurisprudência, várias decisões sobre o delito
serão analisadas, tanto as sentenças que abordam a prática criminosa
quanto os acórdãos que delimitam o que de fato é divisa.
 
3.1. O CRIME DE EVASÃO DE DIVISAS
 
Com o progresso da sociedade, o mercado financeiro também
evoluiu. A interligação da economia mundial permitiu a criação de
câmbios entre as moedas dos diversos estados soberanos. Essa prática
tinha como objetivo a conexão de pessoas e a fácil negociação de bens.
Conforme vimos na teoria privatista abordada no capítulo anterior,
a moeda tem origem no mercado.
Depois da monopolização da cunhagem e a criação do banco
central, o estado agora determina o que é dinheiro e emite o quanto
quiser, quando bem entender. Essa prática deu fundamento à teoria
publicista hoje adotada no mundo inteiro.
É importante lembrar o contexto histórico em que a Lei 7.492/86
foi criada. Em 1986, o Brasil vivia uma situação financeiramente caótica:
hiperinflação, controle de preços e escassez de bens e serviços. O
controle era tão grande que o dólar foi cotado, a um preço fixo de Cz$
13,84[73] (treze cruzados e oitenta e quatro centavos).
Já em relação aos bens de consumo, foi criada a tabela da
Superintendência Nacional de Abastecimento - SUNAB, publicada nos
jornais e fixada nos supermercados. Ela listava o preço que cada item
deveria custar.
As pessoas saíam com a tabela em mãos e fiscalizavam os
supermercados que praticavam preços divergentes. Surgiram assim os
fiscais do Sarney.
No começo foi tudo dando certo: As pessoas tinham um relativo
poder de compra e os mercados que praticavam preços acima da tabela
eram fechados.
Infelizmente, as consequências foram aparecendo: Ao mesmo
tempo que todas as pessoas queriam comprar por causa do preço
tabelado, ninguém queria produzir pelo mesmo motivo.
Esse controle de preços foi comum entre 1980 e 1990. Os
resultados foram prateleiras vazias, filas para compra de mantimentos e
o nome década perdida.
Os fiscais do Sarney eram os mocinhos que queriam colocar
comida na mesa mandando a polícia prender o dono do mercado. Pelo
visto na cabeça dessas pessoas tem mais vento que biscoito de
polvilho.
Por causa da ausência de bens de consumo, houve uma redução
nas exportações e um aumento nas importações. Dessa forma, as
reservas de dólares do estado brasileiro esvaziaram. Para frear a
escassez, o Congresso Nacional aprovou a Lei 7.492/86, apelidada
carinhosamente de “Lei dos Crimes de Colarinho Branco”.
A necessidade de evitar a desvalorização da moeda, controlar as
operações financeiras e conter a inflação,resultaram na ocorrência
desse expansionismo do direito penal.
Com a finalidade de impedir a saída de dólares do país, foi criado
o delito de Evasão de Divisas, presente no artigo 22[74] da Lei.
Para que seja feita uma análise ideal, vamos à definição de
crime.
De maneira resumida, crime é um fato típico, antijurídico e
culpável. Traduzindo: É toda ação ou omissão descrita pela lei, contrária
à ordem jurídica e realizada por alguém que pode ser responsável.
Para que um crime ocorra são necessários alguns requisitos:
a) a conduta (ação ou omissão) do autor, que pode ser dolosa ou
culposa; b) o nexo de causalidade, c) o resultado, e d) a tipicidade.
A conduta é o agir do indivíduo. Ela é dividida em duas: Dolosa e
culposa.
A primeira é aquela que o indivíduo quer ou assume o risco de
produzir o resultado. Já a segunda existe quando o indivíduo por
negligência, imprudência ou imperícia dá causa ao resultado sem
querer.
Quando Quico, por livre e espontânea vontade, joga a bola no
Chaves, a conduta é dolosa. No momento em que o Chaves, querendo
jogar a bola no Quico, acerta de maneira imprudente o Sr. Barriga e diz
que foi “sem querer querendo”, a conduta é culposa.
O nexo de causalidade e o resultado merecem também uma
explicação. O primeiro é o elo entre o ato de jogar a bola e a bolada
propriamente dita. O segundo é a lesão causada. O resultado pode ser
dividido em dois tipos: jurídico e material.
O resultado jurídico é aquilo desaprovado pela norma, já o
resultado material é a lesão ao bem protegido por ela. Em outras
palavras: O primeiro é a proibição de causar a lesão corporal; o
segundo é a lesão àquilo protegido pela norma, ou seja, a integridade
física do Sr. Barriga.
Já a tipicidade é o encaixe da conduta do indivíduo no que está
previsto na norma e que pode ser dividida em duas: a formal e a
material.
A tipicidade formal é o enquadramento perfeito da conduta do
indivíduo naquilo que a norma prevê. Já a material, por sua vez é ato de
causar a lesão. A primeira é a lesão corporal leve prevista no Código
Penal, a segunda é a bolada propriamente dita.
Depois dessa breve explicação, vamos à análise do crime.
Após uma leitura, nota-se que há na cabeça do artigo: Efetuar
operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover evasão de
divisas do País.
É um crime material, ou seja, além do resultado jurídico, é exigido
também um resultado material.
No furto, há a subtração do patrimônio; e na primeira modalidade
do crime de Evasão de Divisas, há a realização da operação de câmbio
não autorizada.
Por outro lado, no parágrafo único há a seguinte previsão: Incorre
na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem autorização
legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver
depósitos não declarados à repartição federal competente.[75]
Há duas modalidades de crime: o ato de promover, considerado
um crime material; e, o ato de manter, o que a doutrina classificaria
como um crime de mera conduta.
O crime formal ou de mera conduta é aquele que ocorre mesmo
não existindo resultado material. Dessa forma, o legislador dispensa a
ocorrência de um dano.
Em relação à operação de câmbio prevista no caput, nada mais é
que a simples troca de uma moeda por outra, devendo ser realizada por
meio de uma instituição financeira autorizada pelo Banco Central.
Se a negociação ocorrer sem autorização do BACEN, será
entendida como uma operação de câmbio não autorizada.
Quando se menciona operação de câmbio não autorizada é
necessário observar que a expressão não possui o mesmo sentido do
termo sem autorização legal, previsto no parágrafo único do artigo 22 da
Lei 7.492/1986.
A expressão não autorizada faz referência àquelas operações de
câmbio realizadas em desconformidade com as normas cambiais
vigentes, como aquelas feitas no mercado paralelo, por exemplo.
O crime em análise é considerado uma lei penal em branco,
porque depende de complementação de atos administrativos do
BACEN.
 O Banco Central do Brasil é uma instituição do sistema financeiro
nacional e é responsável pela execução das resoluções do Conselho
Monetário Nacional.
Em relação ao crime descrito no artigo 22 da Lei 7.492/1986,
sabemos que as operações de câmbio e as remessas de valores para o
exterior, como também o controle da declaração de valores mantidos
fora do país, são todos regulamentados pelo BACEN.
Em relação a quem pratica e quem sofre o crime, o primeiro
poderá ser qualquer pessoa maior de idade e o segundo somente será
o Estado.
Por outro lado, em relação às práticas criminosas, o artigo prevê
duas modalidades de condutas. No caput é previsto o verbo efetuar; no
parágrafo único, os verbos promover e manter. Manoel Pedro Pimentel
diz que:
 
O verbo efetuar, com o significado de tornar feito, fazer,
realizar, indica também uma ação positiva, que caracteriza
um crime comissivo, de resultado natural e, portanto, um
crime material. Na modalidade manter, o crime é de mera
conduta, de caráter permanente, requisitando a
habitualidade. (PIMENTEL, 1987, p. 157)
 
Percebemos que as palavras efetuar e promover são verbos que
exigem uma ação prática. Por outro lado, o verbo manter requer
habitualidade, não sendo suficiente para a caracterização do crime o ato
ocasional.
Outra consideração a ser feita é a presença do dolo no delito do
caput[76]. Ele indica precisamente a finalidade, ou seja, com qual
intenção o suspeito age: Com o fim de promover evasão de divisas do
país.
No momento em que o objetivo específico do indivíduo é previsto
no texto do artigo, há uma restrição enorme no campo da repressão
penal. Somente existirá crime quando ele viabilizar a saída clandestina
das divisas.
Se João comprar dólares no mercado paralelo com o intuito de
efetuar um pagamento no exterior, não existirá crime porque a finalidade
dele é diferente daquela prevista no caput do tipo penal[77].
Em outras palavras: Se o indivíduo efetuar uma operação de
câmbio não autorizada sem o intuito de promover a evasão de divisas
do país, não haverá crime.
Por outro lado, só ocorrerá o crime existente no parágrafo único se
a divisa de fato sair do país, supostamente lesando o bem protegido
pela lei.
Um outro detalhe a ser considerado é que o artigo em análise é
uma Lei Penal em branco, isto é, faz referência a uma outra norma.
As expressões não autorizada e sem autorização legal, presentes
no caput e no parágrafo único, respectivamente se referem a uma
manifestação jurídica emitida por uma autoridade competente do âmbito
econômico/financeiro, conforme o artigo 65 da Lei 9.069/95[78].
O art. 65 permite ao Banco Central dispor sobre os limites e as
condições de entrada e saída de moeda nacional e estrangeira do país.
Além disso, exige que essas operações só possam ser realizadas
exclusivamente por meio de instituição autorizada pelo BACEN, desde
que identifiquem o cliente ou beneficiário.
De forma contrária ao artigo 65 da Lei, agem os doleiros. Eles
praticam o delito de evasão de divisas em duas das três modalidades
presentes no artigo 22 da Lei 7.492/86: Realizam operação de câmbio
não autorizada com o fim de evadir divisas e promovem sem
autorização a saída de moeda do país.
O autor Leandro Bastos Nunes explica como os doleiros agem:
Podemos citar três espécies de operações típicas
complementares bastante encontradas em investigações
criminais: na primeira, um cliente entrega, em espécie ou
por transferência bancária, reais a um “doleiro” no Brasil, o
qual disponibiliza moeda estrangeira em taxa pré-ajustada,
em favor do seu cliente, no exterior, em reais ou por
transferência bancária; na segunda, o cliente recebe do
doleiro, no Brasil, em reais, recursos em moedas estrangeira
que mantinha no exterior e que disponibilizou lá fora ao
“doleiro”; a terceira, o “doleiro” aproveita a existência
simultânea de cliente nas duas posições anteriores e
determina a troca de recursos entre esses clientes, no Brasil
e no exterior, atuando como um banco de compensações,
isto é, movimentando recursos sem que nada passe por
contasde sua titularidade. (NUNES, 2017)
 
Com destaque ao delito da primeira parte do parágrafo único, a
violação da norma se dá quando o indivíduo cruza a fronteira do país
com quantia superior a R$ 10.000,00 (dez mil reais), sem a devida
Declaração de Porte de Valores, seja saindo do país ou nele entrando.
Embora seja necessária a DPV para que não haja o crime, a
existência do tipo penal dificulta a vida de viajantes e demais turistas.
Muitas pessoas viajam com dinheiro em quantidades muito superiores
ao exigido pela Lei para pequenos gastos durante a viagem, sem essa
declaração.
Outras pessoas, por residirem em países de moeda forte, vêm ao
Brasil com um numerário pequeno da moeda de seu país de origem.
Qualquer quantia razoável ultrapassa facilmente os R$ 10.000,00 (dez
mil reais).
Infelizmente, por desconhecimento, esses turistas não portam
esse documento.
No julgamento do Habeas Corpus 03069836[79], o TRF da 3ª
Região já decidiu a respeito.
O Tribunal afirma que o turista não é obrigado a submeter a
moeda que carrega consigo à fiscalização das autoridades.
Mas, se em uma revista posterior é descoberta a posse de
dinheiro que supera o determinado pela norma, existe a tentativa do
crime de Evasão de Divisas.
Por outro lado, quando indivíduo desconhece a norma e
consequentemente não sabe da obrigatoriedade do porte da DPV, ele
se enquadra em erro de proibição, uma excludente de culpabilidade.
Conceito extra para os que não são familiarizados com o Direito:
Erro de proibição é uma excludente de culpabilidade.
Em português simples, é aquilo que elimina a possibilidade de o
indivíduo ser punido.
Imagine o caso do holandês que chega ao Brasil e começa a
fumar maconha. Do ponto de vista legal, ele está cometendo um crime
previsto na Lei 11.343/06.[80]
Mas pelo fato de no seu país de origem o consumo de drogas ser
liberado, ele pensou que aqui também fosse. Ele desconhecia a
proibição. Daí vem o nome: Erro de proibição.
Caso semelhante ao do holandês ocorreu no processo
200151015396206[81]. A segunda turma do TRF da 2a Região julgou,
em 2006, um turista pela prática do crime naquela modalidade presente
na primeira parte do parágrafo único.
Por mais que seja óbvia a autoria do crime, o turista desconhecia
o porte da DPV, porque não tinha conhecimento do Direito Financeiro
brasileiro.
Por outro lado, o TRF da 2a região, no julgamento do Acr-
200202010026385[82], se posicionou de maneira diferente. Foi julgado
inexistente o erro de proibição alegado pela defesa.
O tribunal decidiu que, se o indivíduo sabe que portar muito
dinheiro e não comunicar à Receita Federal é ilícito, teoricamente
estaria praticando o crime.
Há de se analisar também a modalidade evasão-depósito,
presente na segunda parte do parágrafo único do artigo 22.
Bittencourt e Breda dizem que é crime a ação de manter no
exterior depósitos não declarados à repartição federal competente.
Segundo os autores, a conduta incriminada pode ter como objeto
um depósito feito no Brasil ou um depósito feito no exterior.
No primeiro caso, o depósito pode ter sido feito fora do Brasil com
origem em operação de câmbio autorizada. Se depois o indivíduo não
declarar à repartição federal competente a manutenção desse depósito
no exterior, será caracterizada a evasão imprópria, ou evasão-depósito.
Nesse sentido, poderá haver progressão criminosa se o depósito
realizado no Brasil tiver origem no mercado paralelo, porque o indivíduo
praticará tanto a evasão-operação quanto a evasão-depósito.
No segundo caso, quando o depósito for feito e mantido fora do
Brasil, o indivíduo continua obrigado a fazer anualmente ao Banco
Central sua declaração de bens ou valores mantidos no exterior. Além
disso, esses mesmo bens devem estar previstos na declaração de
Imposto de Renda, exigida pela Receita Federal.
Existem duas obrigações: Uma com a Receita Federal e outra com
o Banco Central. A primeira se refere ao aspecto tributário e fiscal; a
segunda, ao aspecto financeiro e cambial.
Até dezembro de 2001, ambas as obrigações eram cumpridas
com uma só repartição competente, a Receita Federal. Isso facilitava
muito a vida do “contribuinte”[83].
Mas a partir de 2002, isso mudou.
O contribuinte agora tem uma obrigação tanto com a Receita
quanto com o Banco Central[84], emitindo assim uma declaração para
cada órgão. Dessa forma, a burocracia aumenta e dificulta ainda mais a
vida de quem tem patrimônio fora do Brasil.
O Banco Central do Brasil, como autoridade competente, passou a
editar Cartas Circulares. Essas normativas estabelecem que pessoas
com patrimônio fora do Brasil devem informar à instituição bancária, por
meio da Declaração de Capitais Brasileiros no Exterior, se o montante
for superior a USD 100.000,00 (cem mil dólares)[85]
Além disso, ele também fiscaliza e regula o mercado de câmbio,
permitindo que as instituições financeiras possam operar nesse
mercado, diretamente ou por meio de seus representantes.
Por consequência, as operações devem ser registradas por essas
instituições, cujo controle é feito posteriormente pelo Banco Central, não
sendo necessária prévia autorização para que o câmbio se realize.
O BACEN define como não autorizado e ilegal o câmbio
clandestino ou fraudulento, caracterizado pela aquisição de moeda
estrangeira no mercado paralelo ou em atividades ilícitas.
Nesse sentido, se o indivíduo tiver a finalidade de promover a
evasão das divisas obtidas neste mercado paralelo, cometerá o crime
descrito no caput do artigo 22.
Além disso, existe diferença entre os tipos de dolo previstos no
artigo. Na modalidade criminosa do caput, o indivíduo precisa ter de fato
a intenção de efetuar a saída clandestina das divisas do País para que
exista o crime.
Já no parágrafo único, há a presença de um dolo genérico no
trecho a qualquer título. Ou seja: a lei pouco se importa com a intenção
do indivíduo. Se ele cruzar a fronteira do País com dinheiro acima do
permitido, estará cometendo o crime.
Nesse sentido, para ocorrer o crime não é exigida uma finalidade
específica, ao contrário do previsto no caput do artigo. Pela abrangência
do texto, diversas condutas poderiam configurar o delito, independente
da sua finalidade[86].
A rede de repressão é tão grande que pode incriminar inocentes.
Imagine que você juntou dinheiro durante o ano inteiro para viajar a
Europa. Com um mês de antecedência, decide comprar € 3.000,00 (três
mil euros) para pequenos gastos durante a viagem.
Para evitar ficar abrindo as malas quando chegar, decide carregar
essa quantia em uma pequena bolsa de mão. Infelizmente, ao passar
pelo Raio-X do aeroporto, os servidores da Receita percebem, chamam
a Polícia e você sai de lá direto para o presídio.
Triste, não? Pois é, mas a lei dá essa margem de interpretação.
Essa mesma interpretação permite que as autoridades prendam
turistas estrangeiros que decidam sair do país, como ocorreu em
Guarulhos em 2019.
Quatro israelenses estavam tentando ir para a Turquia portando
U$ 50.000,00 (cinquenta mil dólares). Talvez por desconhecimento, não
declararam a quantia ao Fisco[87].
Foram presos e encaminhados ao presídio estadual de São Paulo.
No melhor dos casos, as autoridades promoveriam revistas
vexatórias em passageiros nos aeroportos, aduanas de embarques ou
de fronteiras.
A finalidade é apreender a moeda estrangeira cujo valor
ultrapasse o limite legalmente fixado, sujeitando os faltosos a processo
criminal.
Talvez não tenha sido essa a intenção do legislador, mas o que
está escrito permite essa interpretação. Juridicamente correta, mas
moralmente injusta.
A abrangência da norma pune condutas como a do italiano Césare
Battisti, preso em outubro de 2017 quando tentava ir à Bolívia com €
1.300,00 (mil e trezentos Euros) e USD 6.000,00 (seis mil Dólares),
afirmando às autoridades que pretenderia pescar e passear no país
vizinho[88].
É fácil perceber que a norma, além de abrangente, pune condutas
aparentemente não ofensivas.
Assim, a lei permite às autoridades que, com o intuito de
investigar, causem vexames desnecessáriosa ponto de desconfiarem
de qualquer indivíduo que porte alto numerário em espécie[89].
Já no crime da segunda parte do parágrafo único, o dolo do
indivíduo também é genérico. Independentemente da finalidade, seja
ela a simples ocultação patrimonial, ou até mesmo a realização de
investimentos no exterior, a lei criminaliza a conduta se não houver a
comunicação ao BACEN, quando os valores forem superiores a U$D
100.000,00 (cem mil Dólares).
Na operação Lava Jato, ficou visível que funcionários da Petrobras
abriam contas em paraísos fiscais, em nome de empresas fantasmas –
as offshores – para o recebimento de propina.
Geralmente criadas para fins lícitos, as offshores tiveram seu uso
deturpado por criminosos. São constituídas por residentes do dito
paraíso fiscal – o laranja ou o trust – que outorgam procuração com
amplos poderes ao verdadeiro dono, isto é, aquele que infringe a lei.
Agindo de maneira fantasma, ela não realiza nenhum tipo de
atividade empresarial, possuindo não mais que um endereço fixo para o
recebimento de correspondências[90].
O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, foi
condenado por Corrupção Passiva, Lavagem de Dinheiro e Evasão de
Divisas por manter U$D 5.000.000,00 (cinco milhões de dólares) em um
banco suíço[91].
Outro condenado pelo mesmo crime é Marcelo Augusto de Barros
Sanches Ponce, cotista do Opportunity Fund, fundo de investimento
sediado nas Ilhas Cayman.
Segundo o Ministério Público Federal, ele mantinha U$D
180.900,00 (cento e oitenta mil e novecentos) dólares aplicados no
exterior entre os anos de 1997 e 2003, que não foram declarados às
autoridades, e posteriormente descobertos na operação Satiagraha.
De 60 investidores, ele foi o único condenado pela prática, por
possuir mais de U$D 100.000,00 (cem mil) dólares não declarados às
autoridades competentes.
Seu advogado afirmou que ele possuía uma cota no fundo
equivalente a U$D 80.000,00 (oitenta mil) dólares.[92] Provavelmente a
sua cota valorizou e ultrapassou o limite estipulado pelo Banco Central.
Percebemos aqui que a interpretação do termo depósito adotada
pelo Superior Tribunal de Justiça não se restringe apenas àquele feito
em uma conta no exterior.
A interpretação teleológica, adotada pelo STJ, busca extrair a
finalidade da Lei. Portanto, o termo depósito inclui também títulos de
crédito e ativos financeiros.[93]
O alcance do crime de Evasão de Divisas é intrigante pelo fato de
que é uma norma incompleta. Dessa forma, depende da edição de
textos complementares por uma instituição reguladora.
Esse fato causa uma insegurança jurídica enorme, porque é uma
norma penal que depende da vontade de uma instituição bancária.
Por não ser do seu ramo de atuação, os princípios penais são
desconhecidos pela instituição bancária. Assim, pode haver ofensa aos
princípios da lesividade e intervenção mínima.
Além do mais, o próprio legislador ofende o princípio da legalidade
ao dar essa possibilidade a uma instituição do poder executivo, porque
a criminalização de condutas deve ser feita por meio de Lei em sentido
estrito e não através de Cartas Circulares ou outros instrumentos
jurídicos.
Vemos, aliás, que a norma quis punir diversas condutas ao
abranger o dolo do crime no trecho a qualquer título, incriminando
inocentes.
Entretanto, para que uma prática seja considerada crime, ela deve
ofender ou criar perigo para um bem protegido pelo Direito.
Mas fica uma pergunta: O crime de Evasão de Divisas realmente
ofende o bem jurídico protegido pela Lei? Vire a página e descubra.
3.2. O QUE A LEI PROTEGE E COMO O SUSPEITO AGE
 
De acordo com os princípios que regem o Direito Penal, para que
haja o crime, é necessário a lesão ao bem protegido pela norma ou
simplesmente colocá-lo em perigo.
Importante também é o meio que o indivíduo usa para praticar o
crime, isto é, a moeda ou divisa enviadas modo irregular ao exterior.
O instrumento crime é a divisa, cujo significado depende da
definição de dicionários etimológicos, jurídicos e econômicos.
A expressão divisa é tratada de maneira diferente pelos
dicionários. Devido ao progresso da sociedade, o significado da palavra
foi também evoluindo.
De acordo com os glossários etimológicos, a palavra tem origem
no vocábulo “divícia”, significando riqueza[94]. Os dicionários
linguísticos, por sua vez, afirmam que a expressão trata só das moedas
estrangeiras que uma nação possui e os títulos de crédito[95].
O livro dos vocábulos econômicos apresenta definição semelhante
àquela mostrada nos glossários linguísticos. Entretanto, juridicamente o
significado de divisa é mais restrito.
 
Maria Helena Diniz afirma que Divisa é:
1.Direito internacional público a) Disponibilidade de cambiais
possuídas por uma nação em praças estrangeiras; recurso
de que dispõe um país no mercado internacional b) linha
divisória entre dois países; fronteira. 2 Direito administrativo
a) emblema ou insígnia b) linha divisória entre zonas
administrativas. 3.Direito civil Linha limítrofe entre
propriedades contíguas ou confinantes. 4. Direito militar.
Distintivo de pano, colocado no braço, que indica a posição
hierárquica das praças. 5. Direito agrário: Marca a fogo
usada pelos criadores. 6. Direito cambiário: Saque de
câmbio que pode ser emitido contra qualquer praça
estrangeira, constituindo reserva que autorize pagamento do
que ali se vier adquirir. (DINIZ, 2010,) (grifo nosso) 
 
Portanto, divisa é o que está associado ao que um país, ou
mesmo particular (pessoa física ou jurídica) possui em moedas
estrangeiras.
Essas moedas são obtidas a partir de um negócio relacionado à
sua origem[96] (exportação, empréstimo, investimento, ouro, cheques
sacados no exterior, etc.).
Nesse mesmo sentido, moedas e divisas são elementos que têm
uma natureza econômica. Dependem desse entendimento para que
haja a lesão ao bem jurídico protegido pela segunda e terceira
modalidade do crime presentes no artigo 22 da Lei 7.492/86.
Bem jurídico, de acordo com Roxin[97], é aquilo que deve ser
protegido pelo Direito para a manutenção de uma vida livre e segura, a
ponto de permitir a convivência social.
Na mesma linha de raciocínio, Bianchi, Molina e Gomes afirmam
que bem jurídico é aquele de enorme importância para o indivíduo ou
para a sociedade.
É o bem que, quando apresenta grande significado social, pode e
deve ser protegido pelo Direito. A vida, o patrimônio, a liberdade sexual,
o meio-ambiente e etc. são bens existenciais de grande relevância para
o indivíduo.
Quanto ao crime Evasão de Divisas, de acordo com Vitor Antonio
Guazzelli Peruchin, o bem protegido pelo parágrafo único do artigo 22 é
duplo: A preservação das reservas cambiais e a exação fiscal do
Estado[98].
Inicialmente é importante definir o que é a exação fiscal do
Estado. É o controle, por parte do Estado, do patrimônio tributável,
presente no exterior, de pessoas físicas ou jurídicas com residência
fiscal no Brasil[99].
Vale a pena ressaltar que a exação fiscal do estado é protegida
por outra norma, a Lei 8.137/90.
No Direito Penal existem princípios que devem ser seguidos pelo
legislador antes de elaborar uma norma incriminadora. Um deles é o da
especialidade.
O princípio afirma que a incidência da norma especial afasta a da
norma geral. Por exemplo, tanto na lei penal quanto na de trânsito estão
previstos o homicídio culposo.
Imagine que João está saindo de uma festa e decide ir para casa
de carro. No trajeto, ele atropela Maria, que estava no ponto esperando
o ônibus para ir trabalhar. Qual norma será aplicada nesse caso? O
Código de Trânsito.
É explícito quando o artigo 302 afirma: “Praticar homicídio culposo
na direção de veículo automotor”. João estava dirigindo. Portanto, a ele
não se aplica o Código Penal, mas sim o Código de Trânsito Brasileiro.
Da mesma forma aqui. A exação fiscal do estado já é protegida
pela Lei dos crimes contra a ordem tributária. Portanto, o estado não
precisa utilizar outra norma para tutelar o mesmo bem.
O mais controverso é que a Lei 8.137/90 exige um requisitopara
que haja o crime: O lançamento tributário. Já no art. 22 da Lei dos
crimes contra o sistema financeiro, essa condição não é necessária.
A Lei 8.137/90 explica no inciso I do art. 1º que “constitui crime
contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo mediante a omissão
de informação ou prestação falsa de declaração às autoridades
fazendárias”[100].
Portanto, nota-se que a exação fiscal do Estado é protegida por
uma norma específica.
Segundo Luiz Regis Prado:
O legislador, na cunhagem dos tipos contidos na lei Lei
8.137/90, tutela o Erário (patrimônio da Fazenda Pública)
não no sentido simplesmente patrimonialista (ou
individualista), mas sim como bem jurídico supra-individual
de cunho institucional. Tem por escopo proteger a política
socioeconômica do Estado, como receita estatal, para a
obtenção dos recursos necessários à realização de suas
atividades. Assim, essa concepção de Fazenda Pública
como bem jurídico protegido implica também a “diminuição
das possibilidades de o Estado levar a cabo uma política
financeira e fiscal justa” A ideia de bem jurídico mencionada
não se vincula de persi à função cumprida pelo tributo.
(PRADO, 2014)
 
Portanto, é explícito que o crime previsto na segunda parte do
parágrafo único do art. 22 da Lei 7.492/86, além de não respeitar os
princípios penais, desconsidera totalmente as garantias do
“contribuinte”[101].
A preservação das reservas cambiais, por sua vez, pode ser
representada de duas formas: A primeira faz referência ao estoque total
de divisas do Banco Central; A segunda, de modo mais amplo, refere-se
não somente ao estoque do BACEN, mas também ao patrimônio das
instituições autorizadas a operar no mercado de câmbio.
É importante deixar claro que os valores mantidos no exterior por
pessoas não residentes no Brasil, ou até mesmo moedas adquiridas no
mercado paralelo, não integram o conceito de reservas cambiais pelo
fato de não estarem dentro dos registros da instituição bancária.
A relevância das reservas cambiais[102] de uma nação tem
influência direta na confiabilidade e desenvolvimento do sistema
nacional. Qualquer instabilidade pode abalar seu funcionamento
acarretando diversos problemas a um grande número de indivíduos[103].
Dessa forma, Vitor Antonio Guazzelli Peruchin afirma:
 
Assim, entende-se que não se pode mais colocar em dúvida
a grande importância que as reservas cambiais refletem ao
patrimônio das nações, no sentido de emprestar confiança e
equilíbrio, juntamente com seu crescimento e estabilidade
econômica. São essas reservas que auxiliam no controle da
valorização da moeda nacional, pela disponibilidade de
moeda estrangeira no mercado, tendo reflexos diretos no
controle da inflação, bem como nas negociações de
importação e exportação. Por essa razão, as reservas
cambiais dos países de economia mais vulnerável alcançam
na maioria das vezes a categoria de bem jurídico.
(PERUCHIN, 2006)
 
Observamos que com a redução da taxa de juros de seus países
de origem, investidores procuram aplicar seu dinheiro em outras nações
cujos títulos públicos tenham maior retorno.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa é de 0,25% (vinte e
cinco centésimos) ao ano[104]. Por outro lado, o COPOM (Conselho de
Política Monetária) manteve a taxa de juros a 3,75% ao ano (três por
cento e setenta e cinco centésimos)[105] o que estimula o investidor
internacional a aplicar seu dinheiro no Brasil.
Porém, essa política é vista de duas maneiras diferentes.
Devido à disponibilidade maior de dinheiro estrangeiro no país, a
sua oferta aumenta.
Exemplo: se o preço do dólar no Brasil está cotado a R$ 4,00
(quatro) reais, significa que para cada unidade de moeda americana no
país, existem 4 unidades da brasileira em circulação.
Se o preço da moeda americana cai para R$ 2,00 (dois) reais,
significa que há o dobro da sua quantidade no país.
Oferta e demanda: Quanto mais dólares no Brasil, menor o seu
preço em reais.
A queda do preço do dólar prejudica as exportações criando
sequelas sociais avassaladoras: fechamento de fábricas e demissões
em massa. Este cenário é uma das consequências da globalização[106].
Como resultado dessa política caótica, o estado acaba se
tornando um motivador da utilização do mercado de câmbio paralelo.
Nesse mercado, destacamos a operação dólar-cabo. Ela é
realizada por doleiros que recebem o valor no Brasil e determinam o
pagamento fora do país, por meio de uma livre movimentação que
possuem em instituições financeiras no exterior. Assim, essas
negociações seguem à revelia do estado[107].
Vemos então que é um efeito cascata: A alta taxa de juros no país
atrai o investidor internacional. Ele traz os dólares, aumentando a oferta
da moeda americana, reduzindo seu preço no mercado oficial.
Se o preço do dólar no mercado oficial é baixo, o exportador é
prejudicado porque seu produto fica mais caro (a moeda americana fica
com um poder de compra menor) e o comprador estrangeiro reduz as
aquisições.
Com a redução nas vendas, o comerciante decide negociar no
mercado paralelo porque, pelo fato de o dólar ser escasso, o seu preço
é mais alto. Assim os compradores têm um poder de compra maior,
esvaziando o estoque dos vendedores.
Pelo fato de o vendedor negociar seus produtos no mercado
paralelo, ele acaba por cometer o crime de Evasão de Divisas, na
modalidade prevista na primeira parte do parágrafo único.
Mas há um pequeno detalhe: Ou o crime era cometido ou ele iria à
falência.
No tópico anterior foi abordado que um crime é toda ação ou
omissão descrita pela lei, contrária ao Direito e realizada por alguém
que pode ser responsável.
Alguns atos cometidos em certas situações não são contrários ao
Direito. Por exemplo, quando duas pessoas após um naufrágio
disputam a única boia em que, por infelicidade, só cabe uma pessoa.
 
Assim, Joãozinho mata Pedrinho para sobreviver. Esse é o
chamado estado de necessidade.
Podemos deduzir então que o vendedor vai negociar no mercado
paralelo, porque se comercializar seus produtos pelo preço do dólar no
mercado tradicional, o estabelecimento vai à falência.
Logo notamos que o comerciante pratica o crime em estado de
necessidade, já que essa seria a única forma de sobrevivência de seu
estabelecimento.
A conduta do vendedor se enquadra em duas excludentes: de
ilicitude e de culpabilidade. A primeira, como já vimos, é um ato
praticado em extrema necessidade, tornando-o não contrário ao Direito.
A segunda excludente, por sua vez, é a inexibilidade de conduta
diversa. Ela permite que o indivíduo pratique um crime e não seja
responsabilizado, pelo motivo de não poder agir de outra forma.
No caso da inexibilidade de conduta diversa, o vendedor se
comportou dessa forma porque não havia outro modo. Somente agiu
assim porque suas atividades comerciais poderiam ser interrompidas,
sendo um dano muito maior do que uma eventual pena por uma prática
de crime[108].
Por causa do fato de as reservas cambiais nacionais serem o
principal objeto[109] protegido pela lei, concluímos que qualquer conduta
que não lese ou não ameace sua integridade está fora do alcance da
norma penal pela ausência de lesão.[110]
Além disso, o termo evasão significa a saída clandestina do País.
Nesse sentido, divisas são as moedas estrangeiras, os títulos ou ativos
financeiros de que a nação dispõe, em poder de suas entidades
públicas ou privadas.
O estoque dessas divisas deve estar devidamente contabilizado
nos balanços do BACEN, para que a instituição realize esse controle.
As instituições privadas que atuam no país são obrigadas a
informar ao Banco Central a quantidade de moedas que possuem,
porque ele as readquire para fins de política cambial e para efeito de
controle sobre a valorização do Real.[111]
É notável que as reservas cambiais do país são importantes para
a estabilidade econômica. Porém, fica a pergunta: O Direito Penal é
hábil para protegê-las?
Outros princípios importantes presentes no Direito Penal são os
da subsidiariedade e da intervenção mínima. Os doutrinadores dizem
que o primeiro é derivadoSISBACEN – Sistema de Informações do Banco Central do Brasil
Short – operação em que o trader vende o ativo a valor presente
acreditando que comprará mais barato no futuro.
Trader – A pessoa que opera qualquer ativo financeiro com intuito de
vende-lo mais caro, ou o vende para comprar mais barato no futuro.
ÍNDICE
 
1. INTRODUÇÃO
2. O BITCOIN E AS OUTRAS CRIPTOMOEDAS
2.1. O QUE É BITCOIN?
2.2. OUTRAS CRIPTOMOEDAS PRESENTES NO MERCADO
2.2.1. ETHEREUM (ETH)
2.2.2. MONERO (XMR)
2.2.3. RIPPLE (XRP)
2.2.4. LITECOIN (LTC)
2.2.5. BINANCECOIN (BNB)
2.2.6. BASIC ATTENTION TOKEN (BAT)
2.3. AFINAL, É MOEDA OU NÃO?
2.4. É TÍTULO DE CRÉDITO, ATIVO FINANCEIRO OU BEM?
2.5. COMO O FISCO VÊ O BITCOIN?
2.5.1 COMO A RECEITA RASTREIA SUA VIDA FINANCEIRA
2.5.2 DEVO DECLARAR MEUS BITCOINS?
2.6. AS OPERAÇÕES ENVOLVENDO O BITCOIN
2.7. GUARDANDO SEUS BITCOINS COM SEGURANÇA
2.8. TRANSAÇÃO DE BITCOIN É OPERAÇÃO FINANCEIRA?
2.9 A LEI DE GRESHAM E O BITCOIN
3. AS ANÁLISES DO CRIME
3.1. O CRIME DE EVASÃO DE DIVISAS
3.2. O QUE A LEI PROTEGE E COMO O SUSPEITO AGE
4. BITCOIN E A EVASÃO DE DIVISAS
4.1. CRIPTOMOEDAS E A CONDUTA
4.2. HÁ LESÃO AO BEM JURÍDICO?
4.3. BITCOIN É DIVISA?
5. OS CRIMES MAIS COMUNS ENVOLVENDO O BITCOIN
6. COMO A POLÍCIA PRETENDE RASTREAR OS CRIMINOSOS
6.1. O PROCEDIMENTO INVESTIGATIVO
6.2. A AÇÃO POLICIAL NA PRÁTICA
6.2.1 O INTERROGATÓRIO
6.3. OS SOFTWARES UTILIZADOS
7. PALAVRAS FINAIS
8. REFERÊNCIAS
9. SOBRE O AUTOR
10. POSSO TE PEDIR UM FAVOR?
 
1. INTRODUÇÃO
 
A troca de dinheiro, bens e informações é essencial à vida
moderna. A globalização permitiu que pessoas de qualquer lugar do
mundo se comuniquem e compartilhem informações ignorando todas as
fronteiras.
Entretanto, até então era difícil o envio de dinheiro de uma
maneira totalmente digital.
Em 2008, um pseudônimo chamado Satoshi Nakamoto publicou
em um grupo de internet um paper chamado Bitcoin: A Peer-to-peer
Eletronic Cash System. Instigado não só pelos ideais libertários, ele
queria criar um meio de pagamento independente do sistema financeiro
poluído com as ações dos bancos centrais.
Afinal, o Banco Central Americano salvou os bancos ao injetar
liquidez (colocar mais dinheiro) em seus balanços, enquanto as pessoas
perdiam suas casas, poupanças e aposentadorias. Era o estímulo
perfeito para publicar o White papper do Bitcoin.
Satoshi Nakamoto mal sabia que o que tinha em mente viria a ter
um impacto colossal: Uma moeda, um sistema de pagamento global,
sem fronteiras e que funciona totalmente em uma rede descentralizada.
Além disso, é independente de governos ou bancos centrais[1]. É a
solução perfeita para o caos.
No começo, o seu uso era restrito a nichos específicos, com
destaque aos profissionais da computação e criptografia. Afinal, o
Bitcoin era pouco conhecido e muito menos usado pelo público em
geral.
A primeira transação de que se tem conhecimento foi realizada em
22 de maio de 2010, por um programador Húngaro chamado Laslo
Hanyecz, quando comprou duas pizzas por dez mil bitcoins. Sim, dez
mil.
Na cotação atual as pizzas valeriam mais ou menos R$
400.000.000 (quatrocentos milhões de reais)[2]. Se o dono da pizzaria
não vendeu os bitcoins lá atrás, hoje ele tem dinheiro suficiente para
comprar a Pizza Hut.
Entretanto, por funcionar em uma rede independente em que as
transações são dotadas de uma privacidade autêntica, a criptomoeda
também foi utilizada por supostos criminosos.
O site Silk-Road, gerenciado pelo pseudônimo Dread Pirate
Roberts, comercializava qualquer coisa que as pessoas estivessem
dispostas a negociar utilizando o Bitcoin como meio de pagamento.
Qualquer coisa mesmo. Desde as mais simples até as mais bizarras.
Free Market Society, my friend![3]
O que dá um tom internacional à criação de Satoshi Nakamoto é a
rede Blockchain. Totalmente descentralizada, ela permite que os
participantes (nodos) da rede estejam em qualquer lugar do mundo
podendo minerar bitcoins e validar as transações. Dessa forma, por
meio da internet, a criptomoeda atravessa países e ignora as fronteiras
territoriais.
Os estados procuram criar leis com o objetivo de impedir a saída
de bens e capital do seu território. Recentemente, após a eleição de
Alberto Fernandéz, foi imposta à população a limitação de compras de
200 (duzentos) dólares americanos sem a autorização da Receita
Federal Argentina. Uma memorável estupidez.
O Brasil, por exemplo, prevê na Lei 7.492/86 o crime de Evasão
de Divisas, ou seja, a saída de dinheiro ou divisas do país sem a
autorização do Banco Central e da Receita Federal. Dessa forma, há
um controle cambial e fiscal por parte do Estado.
Ciente dessa situação, o livro procurou analisar: a relação do
crime de Evasão de Divisas com o envio de criptomoedas ao exterior; o
crime mais comum que envolve o Bitcoin; e o procedimento
investigativo realizado pelas autoridades policiais.
A pesquisa para o desenvolvimento dessa obra ocorre em
diversos momentos. No primeiro, procura-se definir o que são as
criptomoedas, além de seus atributos como a criptografia, a escassez e
a oferta monetária.
Por falar em escassez e oferta monetária, o Bitcoin é considerado
moeda? Essa pergunta será respondida com ajuda das teorias privatista
e publicista da origem do dinheiro.
Também será verificado se a criação de Satoshi Nakamoto é um
título de crédito, ativo financeiro ou bem, graças ao auxílio das ciências
contábeis, jurídicas e econômicas.
Quando se trata dinheiro, ativos financeiros ou qualquer outra
coisa que possa gerar renda, o fisco vai querer a parte dele. Nesse
ponto será abordado não só como a Receita vê o Bitcoin, mas como
ela, infelizmente, rastreia a sua vida financeira, além do dilema moral da
declaração das criptomoedas no Imposto de Renda[4].
Outro ponto importante é como as operações são feitas na
criptoeconomia. Elas são negociadas tanto nas corretoras quanto fora
delas, no mercado OTC.
A fim de explicar o que acontece nesse novo mercado, serão
detalhadas as seguintes transações: O depósito bancário na conta da
corretora; A transferência instantânea pela rede Blockchain; as
operações em corretora internacional; o armazenamento em paper
wallet; e, a posterior venda.
Percebe-se que para comprar ou vender bitcoins, envolve dinheiro
em espécie. Entretanto, surge a dúvida de como as transações são
classificadas. Afinal, quando eu compro Bitcoin eu realizo uma
transação financeira ou não?
As transações financeiras são regidas por uma inegável lei não
ditada pelo Direito de cada país. Essa lei prevê que as pessoas vão
usar a moeda ruim no dia a dia e vão poupar a moeda boa. Essa é a Lei
de Gresham. Ela se aplica não só ao papel colorido emitido pelo estado,
mas também ao Bitcoin. De que forma ela age sobre as negociações?
Essa pergunta também será respondida.
Em relação à Evasão de Divisas, o crime é previsto na Lei
7.492/86. Ela foi promulgada em uma época turbulenta em que os
investidores, apavorados, tiravam daqui seus dólares de uma maneira
desesperadora. Afinal, ninguém quer deixar seu dinheiro no Brasil com
um preço cujo valor tabelado é inferior ao alto risco de investi-lo em
terras tupiniquins.
O crime será completamente detalhado, letra por letra e vírgula
por vírgula. A realização dessa façanha será com auxílio da doutrina, da
jurisprudência e do próprio texto da lei. Pode ficar tranquilo (a) porque o
juridiquês foi todo traduzido para que a leitura fique simples e fácil.
De acordo com o que é exigido pelos princípios penais, o crime
deve lesionar algo protegido pela norma. Por exemplo, matar alguém
lesa a vida, bem protegido pelo Direito.
Mas o que o crime de Evasão de Divisas protege e qual o
instrumento do crime? Aliás, o que é divisa? Essas perguntas serão
respondidas no terceiro capítulo.
A relação da prática de enviar bitcoins ao exterior com o delito de
Evasão de Divisas será feita no quarto capítulo em três tópicos: O
primeiro procura analisar se a prática de transferir criptomoedas ao
exterior se enquadra no que é previsto pelo crime; A lesão ao bem
protegido pelado segundo.
O princípio da intervenção mínima prevê que o Direito Penal deve
ser usado somente quando fracassam as outras formas de proteção
existentes nos demais ramos do Direito. Ou seja, ele deve ser usado
maneira subsidiária, só em último caso.
Partindo da análise à luz dos princípios da subsidiariedade e
intervenção mínima do Direito Penal, vemos que há meios diferentes
para a devida proteção das reservas cambiais.
Há vários exemplos: a adoção de políticas econômicas
cuidadosas, planos estratégicos de investimentos, políticas estáveis de
contenção de juros e inflação, políticas de atração de capital
estrangeiro, incentivo às exportações e etc.[112].
A fiscalização sobre a remessa de capitais ao exterior é realizada
pelo BACEN. Esse controle é feito por meio de comunicações que as
instituições financeiras devem realizar de acordo com prazos
determinados pela autarquia bancária.
Assim, elas informam ao Banco Central dados sobre os valores
envolvidos e as operações realizadas, que devem ocorrer por meio de
instituições financeiras autorizadas, o que aumenta o poder do
BACEN[113].
O Banco Central, em poder dessas informações, realiza o controle
das reservas cambiais do país, analisando a entrada e a saída de
dinheiro diariamente.
Mas será que tal controle de informações deve ser considerado
um bem jurídico a ser protegido pelo Direito Penal?
O bem jurídico deve ser o limite do poder punitivo do estado. Por
conta disso, só se deve penalizar alguém em caso de lesão àquilo
protegido pela norma. 
Dessa forma, a simples não observância de uma regra de controle
das informações sobre as operações, poderia ser, no máximo, punida
com uma sanção administrativa.
Tavares explica de maneira assertiva:
 
Não difere dessa estrutura a sanção imposta a quem deixa
de comunicar à receita federal o transporte de dinheiro para
fora do país, além de certo limite. Veja-se que a sanção é
aplicável, independentemente de que uma outra pessoa o
tenha feito, mas com relação a quantias infinitamente
superiores, quer dizer, sem levar em consideração o fato de
que quem transporta dez mil Dólares (sic.) e não faz a
comunicação deste transporte à receita federal causa, no
fundo, muito menos prejuízo do que aquele que transporta
um bilhão de Dólares, mas comunica o transporte desta
quantia. O que está em jogo, neste caso, não é o patrimônio
público, somente a função de controle de informação. A
gravidade desta última hipótese está em que a sanção, aqui,
não é meramente administrativa, mas também criminal, nos
termos da legislação vigente, sem ter havido lesão ou perigo
de lesão a um bem jurídico, quer dizer, faz-se de uma
simples função de controle um objeto de proteção penal, o
que é um absurdo e viola os pressupostos constitucionais
da incriminação.[114]
 
 
Pelo exemplo dado, notamos que o bem protegido é o controle
das informações por parte do Banco Central e não as reservas
cambiais. 
USD 10.000,00 (dez mil dólares) não comunicados à autoridade
competente causam uma lesão muitíssimo menor do que o transporte
ou transferência de USD 1.000.000.000,00 (um bilhão de dólares)
devidamente comunicados.
O Ano de 2020 é a prova disso. A saída descontrolada de dólares
do país (devidamente comunicados) fez o preço atingir seu pico desde a
criação do plano real. R$ 5,20 (cinco reais e vinte centavos) e subindo.
Nós percebemos então que a evasão de divisas é a remessa de
moeda, títulos ou ativos financeiros, de maneira clandestina, retirando-
os da contabilidade e controle exercido pelo BACEN.
A evasão é efetuada por meio do repasse de divisas não
obedecendo às regras administrativas do BACEN, justificando-se assim
como abalo às reservas cambiais. Esse abalo não acontece, mas
escancara o ímpeto controlador por parte do estado[115].
Dessa forma, não se pode considerar um bem a ser protegido pelo
Direito Penal o mero controle administrativo por parte do estado. A
fiscalização não existe por existir, mas sim por possuir uma finalidade
específica.[116]
É explícito que para alimentar a sua sanha de controle patrimonial,
o estado acabe por lesionar os princípios basilares do Direito Penal: A
intervenção mínima, a lesividade e a própria legalidade estrita.
O Direito Penal deve ser utilizado de maneira subsidiária,
criminalizando condutas que de fato lesem bem jurídicos relevantes e
não um simples controle de informações por parte de uma autarquia
estatal.
Por mais que esse delito seja contrário aos princípios do Direito,
ele existe. Mas há uma pergunta aparentemente sem resposta: Quem
envia bitcoins ao exterior pratica o crime?
Sim?
Não? 
Na próxima página você verá.
4. BITCOIN E A EVASÃO DE DIVISAS
 
O objetivo aqui é analisar se a prática de enviar bitcoins ao
exterior é considerada crime de Evasão de Divisas.
Também será verificado se a conduta ofende a exação fiscal e a
suposta preservação das reservas cambiais do estado.
Além disso, por meio da análise das decisões judiciais, será
definido se as criptomoedas são englobadas pela abrangência do termo
divisas.
4.1. CRIPTOMOEDAS E A CONDUTA
 
O mundo evoluiu e a sociedade seguiu o mesmo ritmo. Desde os
primórdios se pensava em transferir bens de um lugar a outro. Na idade
da pedra, eram transferidos alimentos; na idade média, ouro e outros
bens. Hoje são enviados documentos e mensagens com um clique e em
tempo real.
Por outro lado, o sistema financeiro foi evoluindo de uma maneira
diferenciada. Após tomar para si o monopólio da cunhagem[117], o
estado começou a controlar a oferta da moeda e, assim, interferindo de
maneira absurda no mercado.
Posteriormente, em agosto de 1971, o presidente Nixon cometeu
um do maiores erros da sua vida: anunciou o fim do acordo de Bretton
Woods[118], acabando com a convertibilidade do dólar em ouro. Em
outras palavras: a moeda americana se tornou um papel colorido sem
lastro.
Nesse período o Brasil vivia o regime militar. Foi uma época de
crescimento devido a entrada de multinacionais e dólares do FMI.
Após a crise do petróleo, conseguir a moeda americana ficou mais
difícil. Consequentemente, o crescimento do país também desacelerou.
Com o objetivo de estimular e economia, o segredo era a criação
de estatais. Para isso, as impressoras do Banco Central precisavam
estar ligadas a todo vapor.
Devido à impressão desenfreada de moeda, o papel colorido aqui
valia cada vez menos. Por consequência, o dólar se valorizava.
Depois do fim do regime militar, a conta do desenvolvimento
artificial chegou para ser paga na democracia. Em dólar.
Desesperado para pagar a conta, o governo mandou o Banco
Central imprimir mais dinheiro para comprar dólares. Infelizmente o
Cruzado se desvalorizava ainda mais. E esse ciclo vicioso se repetia
constantemente.
Assim se iniciou a década perdida, momento marcado por alta
inflação e controle de preços. Nesse período de catástrofes
econômicas, foi editada a Lei 7.492/86, conhecida carinhosamente
como Lei de Crimes de Colarinho Branco.
Depois de vigente, a norma foi sendo aplicada pelos juízes e
demais operadores do Direito. A 13ª Vara Federal de Curitiba condenou
o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, pelo crime
de Evasão de Divisas.[119]
Enquanto a norma era aplicada, no fim de 2008 o Bitcoin foi
criado. Revolucionando o mundo das finanças, a obra de Nakamoto
torna fácil o envio de bens com valor monetário para qualquer lugar do
planeta, de maneira simples e com um único clique.
Como falado anteriormente, o caput do artigo, menciona a
operação de câmbio não autorizada. O câmbio é a simples troca de
uma moeda por outra.
E, conforme a teoria publicista, moeda é aquilo que tem curso
forçado. Portanto, a aquisição de bitcoins não preenche o conceito de
operação de câmbio.
As moedas estrangeiras, como o Dólar, o Euro e a Libra, são de
curso legal forçado em determinados países. Assim, quando o Real é
trocado pelo papel colorido de outra nação ocorre uma operação de
câmbio.
Porém, o Bitcoin não é uma moeda e também não pertence a
nenhum país. Consequentemente, a trocade Reais por bitcoins não se
enquadra no mercado de câmbio regulado pelo Banco Central do Brasil.
Dessa forma, nas condições legislativas atuais, aquele que
adquirir criptomoedas estará mais próximo de uma relação comercial de
mercadorias digitais.
É verdadeira a afirmação de que assim como as moedas
fiduciárias, o Bitcoin também possibilita a compra de bens e a
contratação de serviços[120].
Mas esse argumento é insuficiente para determinar que a sua
aquisição caracteriza uma operação de câmbio.
Afinal, juridicamente Bitcoin não é moeda, mas sim um bem.
Nesse sentido, quando ele é usado como meio de pagamento,
não ocorre uma compra ou venda, e sim uma permuta entre os
negociantes.
Portanto, o ato de comprar ou vender bitcoins não preenche os
requisitos mínimos para que se caracterize o crime previsto no caput do
artigo 22 da Lei 7.492/86.
Com o propósito de explicarmos as condutas previstas no
parágrafo único do artigo[121], vamos partir do pressuposto que o Bitcoin
se enquadra no termo divisas.
Percebemos que a expressão a qualquer título apresenta um dolo
genérico. Portanto, não é exigida do indivíduo uma intenção especial
para a prática do crime, diferentemente do que ocorre no caput do
artigo.
Com o dolo genérico presente no parágrafo único, o legislador
quis incluir todas as outras práticas não incriminadas no caput. Devido a
essa ampla inclusão, inocentes podem ser vítimas de abusos ou
constrangimentos causados pelas autoridades ao aplicarem a lei.
Um dos exemplos que deixam óbvia esta prática é o caso já citado
do turista brasileiro. Ele possui moeda estrangeira adquirida de maneira
lícita e quer viajar ao exterior, mas ele está portando quantidade
superior àquela permitida pela norma.
Quando as autoridades agirem de acordo com o poder de polícia,
poderão provocar humilhantes revistas em passageiros nos aeroportos
para apreender moeda cujo valor que ultrapasse o limite legal.
Para melhor elucidar o fato e encaixá-lo no tema em análise,
imagine que o turista não carregue notas em espécie, mas sim o
registro de suas unidades de Bitcoin em um aplicativo de celular ou
computador.
Haverá revista por parte das autoridades em cada aparelho
eletrônico que o indivíduo carregue?
Entende-se (e espera-se) que não, porque qualquer revista nos
aparelhos eletrônicos quando não há a fundada suspeita[122] do
cometimento de um crime, além de ser tecnicamente inviável, viola
garantias constitucionais[123] e infralegais[124].
O Superior Tribunal de Justiça decidiu a respeito do assunto. Para
acessar os dados do celular do investigado, a autoridade policial
necessita da autorização do possuidor ou da justiça[125].
Notamos que, mesmo havendo o registro das criptomoedas no
aplicativo do celular do indivíduo, a mera violação do aparelho
eletrônico configuraria, por si só, atitude abusiva[126] das autoridades.
Há de se falar também que as unidades de Bitcoin não ficam na
carteira virtual. O aplicativo que ele possui é simplesmente o conjunto
de chaves: uma pública e outra privada.
A chave pública é aquela que permite a qualquer pessoa enviar
criptomoedas ao indivíduo. Já a chave privada é aquela que permite ao
seu possuidor acessar seus bitcoins, que ficam na rede Blockchain.
A partir do momento que percebemos a inexistência de
criptomoedas no celular do indivíduo, concluímos que estão na rede e,
por consequência, na internet, podendo ser acessadas de qualquer
lugar do planeta.
Pela facilidade de conexão da internet, notamos que um site
sediado na Inglaterra pode ser acessado por um computador no Brasil.
Dessa forma, há a saída e a chegada de informações tanto no
dispositivo que o acessa quanto no servidor que o hospeda.
Por se tratar de informações que vão de um lugar ao outro, é
importante analisar com cautela o termo exterior.
Conforme os dicionários linguísticos Aurélio[127], Michaelis[128] e o
jurídico de Maria Helena Diniz[129], exterior significa “aquilo que está fora
e é externo, fora de um limite” que, no caso em análise, é o territorial
dos países.
Percebemos que exterior é aquilo que está fora das fronteiras de
um país. E a internet respeita fronteiras? Claro que não.
O fluxo de informações é intenso, global e sem limites territoriais, a
ponto de a comunicação e o sistema bancário dependerem dessa
movimentação instantânea de dados.
A internet, como podemos analisar, fica no interior e, ao mesmo
tempo, no exterior de um país.
O acesso a ela é irrestrito, podendo ser feito de um computador no
Cazaquistão a um site hospedado no Panamá, havendo troca de
informações entre o dispositivo que acessa e aquele que hospeda a
página.
A rede do Bitcoin também é assim. Os mineradores ficam em
diversos lugares do planeta e oferecem sua força computacional por
meio da internet, descentralizando a rede.
Por meio da Blockchain, o envio de bitcoins para corretoras no
exterior não caracteriza o crime de Evasão de Divisas previsto na
modalidade da primeira parte do parágrafo único do artigo 22, já que a
verdadeira moeda, isto é, o Real, o Dólar, o papel colorido estatal
utilizado para comprá-los, não saiu do país de origem.
Percebemos que, no vídeo Bitcoin in Uganda, a irmã mais velha
compra unidades de Bitcoin nos Estados Unidos e as envia à carteira do
irmão por meio da Blockchain para ser negociado no país africano.
Isso é semelhante a enviar um e-mail e comercializar as
informações presentes nele.
Portanto, devido à Blockchain permanecer na internet e não ser
restrita a limites territoriais, acaba por estar no interior e no exterior dos
países ao mesmo tempo.
Nesse sentido, não há fundamentos que permitem o
enquadramento do envio de bitcoins na conduta prevista no tipo penal,
porque o termo exterior é inaplicável à Blockchain.
No diz respeito ao ato de promover a saída, percebemos que não
ocorre, porque as unidades de Bitcoin não saíram do país porque nele
nunca estiveram.
Além disso quando uma unidade de Bitcoin sai de uma carteira
para outra, é transferida somente a propriedade do bem, não o bem em
si.
Vimos, portanto, que enviar bitcoins ao exterior, é incompatível
com o ato de evadir divisas do país.
Mas nos resta a pergunta:
Se essa prática fosse crime, haveria de fato uma lesão ao bem
jurídico protegido pela Lei?
Sim?
Não?
Veja a próxima página e descubra
4.2. HÁ LESÃO AO BEM JURÍDICO?
 
O estado, por meio da lei, descreve as condutas que são
obrigatórias, permitidas e proibidas. A primeira é aquela que o indivíduo
é obrigado a praticar, sob ameaça de penalidade. A segunda é
simplesmente uma opção, sendo a sua prática indiferente para o
estado. Por outro lado, a terceira é a proibição de uma ação que, se
realizada, leva a uma punição.
Dessa forma, o estado age regulando a vida das pessoas. A
primeira conduta pode ser exemplificada com a declaração de Imposto
de Renda. Caso os dados enviados ao Leão não sejam exatos, o
“contribuinte[130]” cai na malha fina, pagando uma multa se não os
corrigir.
Por sua vez, a segunda tem como exemplo a celebração de um
contrato de compra e venda de um automóvel. O estado pouco se
importa se o carro tem teto solar ou não. Ele só vai querer saber do
veículo na hora de cobrar o imposto.
A terceira é a mais grave de todas. É a conduta cuja prática, além
de ofender a Lei, ataca bens protegidos por ela. Um roubo é uma
agressão à propriedade das pessoas e à norma penal.
Portanto, é uma subtração patrimonial proibida. Diferentemente
daquela que o estado faz.
Presentes nas leis penais, as condutas proibidas ofendem algo
preservado pelo Direito. Aquilo que a Lei protege é chamado de bem
jurídico.
Ele é protegido pela incriminação de ações ou omissões, que
tendem a colocá-lo em perigo ou violá-lo. A tentativa de homicídio é
punida porque coloca a vida em perigo. O homicídio em si é punido com
mais rigor porque acaba com ela.
Dessa forma, no que diz respeito ao Crime de Evasão de Divisas,
José Carlos Tórtima[131] afirma que o bem jurídico é, aparentemente, a
preservação das reservas cambiais do país.
As reservas cambiais são o conjuntode moedas estrangeiras que
o país possui para quitar suas dívidas com outras nações. Portanto, não
há dúvidas que esse estoque monetário tem uma grande importância no
mercado internacional.
Então podemos afirmar que as reservas cambiais do país podem
ser tanto as do BACEN quanto aquelas das instituições privadas
registradas no SISBACEN[132]
Dessa forma, o crime de Evasão de Divisas é a saída de capital
sem o devido controle do BACEN, não obedecendo às normas
administrativas editadas por ele, com justificativa do abalo às reservas
cambiais.
Em relação às criptomoedas, recentemente o Fundo Monetário
Internacional recomendou que o Banco Central as incluísse em sua
balança contábil[133].
Segundo o FMI, as criptomoedas são consideradas como um ativo
“não financeiro”, tratando a mineração como um processo produtivo.
De acordo com a Contabilidade, ativo é o conjunto de bens e
direitos que podem gerar renda para quem os possui.
O Banco Central, por sua vez, afirma que o país é um importador
líquido de criptomoedas[134]. Devido a esse fato, o saldo comercial na
conta de bens do balanço de pagamentos tende a ficar negativo.
Pelo fato de hoje já existirem bitcoins na balança de pagamentos
do Banco Central, o crime de Evasão de divisas estaria aparentemente
configurado.
Aparentemente.
Parte-se, agora, para a análise do vídeo inspirador da presente
obra: Bitcoin In Uganda[135].
Imagine que tal conduta praticada por Ronah Nansubuga é
realizada no Brasil.
O ato de enviar uma quantidade de bitcoins ao seu irmão em outro
continente com o objetivo de ajudá-lo, não lesa o bem jurídico pelo
seguinte fato: O Bitcoin não é moeda.
Como já explicado, o Bitcoin é um bem, classificado como um
ativo não financeiro na balança comercial do BACEN.
Mesmo que a criação de Nakamoto fosse moeda e o seu envio ao
exterior ofendesse as reservas cambiais do país, o bem jurídico
protegido pelo artigo 22 da Lei 7.492/86 não é digno de ser tutelado
pela via penal, mas, no máximo, pela via administrativa.
Porém, ainda que fosse tutelado pela via administrativa, o Banco
Central teria muita dificuldade para rastrear as transações e vincular a
wallet ao proprietário,[136] devido à privacidade fornecida pela rede
Blockchain.
Notamos que o bem jurídico protegido deve ser algo relativo à
pessoa humana e não um simples controle da informação, tutelado pela
via administrativa.
Juarez Tavares explica de maneira brilhante o bem jurídico com
dois exemplos simples: No primeiro, o indivíduo cruza a fronteira do
país portando mais de U$D10.000,00 (dez mil) dólares sem a devida
Declaração de Porte de Valores. No segundo, o indivíduo realiza uma
transferência de U$D 1.000.000.000,00 (um bilhão) de dólares,
devidamente comunicada ao BACEN[137].
Com auxílio da matemática, realizamos uma simples divisão e
notamos que a quantia do segundo exemplo é 100.000 (cem mil) vezes
maior que a do primeiro.
Vemos que a lesão às reservas cambiais do país ocorreu somente
no segundo exemplo, mesmo havendo o devido comunicado à
autoridade competente.
Infelizmente o punido é o indivíduo sem a DPV.
É explícito que o que está em jogo não é a lesão ao bem jurídico,
mas o controle da informação. A lesão às reservas cambiais é só uma
desculpa esfarrapada. Algo que literalmente ofende os princípios
basilares do Direito.
De acordo com o princípio da subsidiariedade, se outro ramo da
ciência jurídica resolver o problema, o estado não deve utilizar as forças
do Direito Penal.
O controle de informações deve ser alvo de políticas
administrativas, não criminais.
Dessa forma, não se deve fazer de uma simples função de
controle um objeto de proteção do direito penal, porque assim são
violados os princípios penais da intervenção mínima, subsidiariedade e
lesividade.
Além de violados os princípios constitucionais de incriminação.
É visível que em relação às criptomoedas, não há lesão ao bem
jurídico protegido pela lei penal, porque ele não existe. 
O Direito Administrativo deve proteger o controle de informações,
não o Direito Penal.
Mesmo que o envio de criptomoedas ao exterior fosse
supervisionado pelo BACEN, ele não fiscaliza por dois motivos: A
instituição não tem interesse em se preocupar com um mercado
aparentemente pequeno e há enorme dificuldade em vincular a carteira
virtual ao seu proprietário.
Por mais que essa associação seja difícil, esse problema está
sendo aos poucos mitigado pelas autoridades policiais. Com a adoção
de técnicas especiais de investigação[138] e uso de aplicativos
específicos, elas identificam as criptomoedas e outros dados do
proprietário.
No mercado tradicional esse esforço não é necessário. Para que
você abra uma conta em um banco, são exigidas de você suas
informações essenciais. Para não ficar distante do progresso, você as
fornece à instituição bancária.
Hoje, os bancos possuem vários dados sobre você: desde a sua
data de nascimento à quantidade de dinheiro que você possui.
Dessa forma, o terceiro intermediário abordado por Satoshi
Nakamoto, possui “mais informações do que seria de outra forma
necessária”[139].
Por outro lado, para possuir uma carteira de bitcoins, basta um
aplicativo de celular e uma senha para acessá-lo, ou um papel com o
endereço das chaves pública e privada.
A primeira para o recebimento das unidades e a segunda para o
acesso a elas.
Assim, a rede mantém em segurança quem possui criptomoedas,
garantindo a devida privacidade quase inexistente no sistema financeiro
tradicional.
Por outro lado, a mesma privacidade que dificulta a ação das
autoridades, impede os abusos governamentais.
O estado faz uso do extremo para atingir o propósito de controlar
as informações. Como diria Nicolau Maquiavel, “os fins justificam os
meios”.
De modo arbitrário e desproporcional, o Leviatã utiliza o Direito
Penal antes de qualquer outro ramo da ciência jurídica para atingir seus
objetivos.
Assim, ofende os princípios da intervenção mínima e
subsidiariedade, penalizando condutas que não ofendem bens jurídicos.
Ou seja, qualquer pessoa que ande com dinheiro no bolso se
torna suspeita, vítima de diversas humilhações causados pelas
autoridades policiais. Em suma: Os princípios do Direito são jogados no
lixo.
Já em relação às criptomoedas, o seu mero envio a uma carteira
presente em outro lugar do globo não caracteriza o crime em evidência.
No máximo será uma infração administrativa se, e somente se, o
mercado for regulado pelo BACEN.
Como ainda não é, a prática delituosa é inexistente.
Já sabemos que enviar bitcoins ao exterior não ofende as
reservas cambiais do país.
No entanto, ainda existe uma dúvida.
Bitcoin é divisa?
No próximo capítulo essa pergunta será respondida
4.3. BITCOIN É DIVISA?
 
Atualmente com a globalização da economia, enviar bens e
dinheiro ao exterior se tornou uma prática comum. Seja por meio de
transporte físico ou até mesmo pela utilização de empresas
especializadas em remessas, é cada vez mais fácil e acessível às
pessoas enviar e receber recursos de fora do país.
Exemplos dessas práticas não faltam:
Pais enviando dinheiro a filhos em universidades no
exterior;
Filhos trabalhando fora do país e enviando bens aos pais no
Brasil;
Turistas portando valores em visitas ao Brasil; e
Criminosos que enviam patrimônio ao exterior para proteger
o produto do crime de apreensões e instabilidades
econômicas do país.
O ato de enviar dinheiro e bens ao exterior se faz de diversas
formas. Quem o faz legalmente, por exemplo, um viajante ou turista,
pretende portar a DPV para que não incorra no crime de Evasão de
Divisas anteriormente abordado.
Quem possui dinheiro e bens no exterior o faz ao Banco Central
por meio da Declaração de Capitais de Brasileiros no Exterior. Por outro
lado, quem o faz de modo a contrariar a norma não se importa com as
sanções derivadas de sua violação.
Nesse sentido, notamos que a evolução da sociedade e do
mercado é anos-luz superior à evolução da norma.
A Lei 7.492, que prevê o delito de Evasão de Divisas, foi
promulgada em 1986[140]; a Constituição Federalem 1988; e o Bitcoin,
tema da presente obra, teve seu paper[141] elaborado 20 anos depois.
Como anteriormente abordado, o Bitcoin foi criado visando ser
uma alternativa ao sistema financeiro tradicional. O estopim para a sua
criação foi o fato de o Banco Central Americano imprimir mais moeda
para dar liquidez aos bancos durante a crise de 2008.
Devido à presença dirigista do governo na economia e o excesso
de informações fornecida aos bancos, o sistema financeiro nunca foi de
fato confiável por parte de Satoshi Nakamoto. Se você tem bom senso,
também não deveria confiar.
O objetivo central pretendido pelo criador do Bitcoin era eliminar o
terceiro intermediário e garantir que as transações fossem confirmadas
por meio da criptografia, não pela confiança em instituições bancárias.
Um dos propósitos do Bitcoin era facilitar o comércio na internet
por um meio de pagamentos sem a garantia de terceiros.
Nakamoto argumenta que devido à necessidade da confiança
para realizar a transação, o comerciante exigiria mais informações do
que o suficiente para a realiza-la[142].
O Bitcoin hoje, segundo a legislação nacional, não é moeda, nem
título de crédito e muito menos ativo financeiro, restando ser um bem
em si mesmo. Mas a grande pergunta é: Bitcoin é considerado divisa
para fins penais?
Inicialmente é importantíssimo destacar que o tipo penal aborda
os termos moeda ou divisa. Moeda é o meio de pagamento criado pelo
estado,[143] com o poder de liquidar contratos.
Por outro lado, o termo divisa tem um amplo significado. Segundo
o dicionário etimológico, a palavra divisa tem origem no termo
divícia[144] significando ‘riqueza’.
Por mais que a origem histórica e evolutiva da palavra demonstre
riqueza o glossário Michaelis trata divisa como disponibilidade de
câmbio que um estado possui em praças estrangeiras[145].
Já o dicionário Houaiss trata o termo mais amplamente, incluindo
os títulos de crédito[146].
O dicionário econômico de Paulo Sandroni, por sua vez, conceitua
divisas como “letras, cheques, ordens de pagamento e etc., que sejam
conversíveis em moedas estrangeiras, e as próprias moedas
estrangeiras de que uma nação dispõe, em poder de suas entidades
públicas ou privadas”.[147]
Luiz Souza Gomes afirma em seu dicionário econômico que divisa
designa diferentes categorias de papéis negociáveis, incluindo os
bancáveis e não bancáveis, incluindo saques, títulos públicos e
cheques, sofrendo as divisas os efeitos da lei da oferta e procura[148].
Abordando o significado da palavra de um modo mais restrito,
Maria Helena Diniz afirma que Divisa é:
1.Direito internacional público a) Disponibilidade de cambiais
possuídas por uma nação em praças estrangeiras; recurso
de que dispõe um país no mercado internacional b) linha
divisória entre dois países; fronteira. 2 Direito administrativo
a) emblema ou insígnia b) linha divisória entre zonas
administrativas. 3.Direito civil Linha limítrofe entre
propriedades contíguas ou confinantes. 4. Direito militar.
Distintivo de pano, colocado no braço, que indica a posição
hierárquica das praças. 5. Direito agrário: Marca a fogo
usada pelos criadores. 6. Direito cambiário: Saque de
câmbio que pode ser emitido contra qualquer praça
estrangeira, constituindo reserva que autorize pagamento do
que ali se vier adquirir. (DINIZ, 2010, p. 230) (grifo
nosso) 
 
Divisa é a disponibilidade cambial de uma nação, moeda
estrangeira na balança comercial do país. Entretanto há discussão se
outros bens são também assim considerados.
Por exemplo, na apelação criminal 200036000033096[149] é
discutido se o diamante é divisa. O TRF da 1ª Região decidiu que divisa
é somente as disponibilidades internacionais que um país possui em
função da exportação de mercadorias, serviços e títulos de crédito.
Só existe câmbio quando na operação há:
moeda nacional ou
moeda estrangeira
títulos de crédito
ativos financeiros
Por outro lado, quando são negociados bens e demais
mercadorias, não existe operação de câmbio, com exceção do ouro
quando classificado como ativo financeiro.
Portanto, no crime do art. 22 da Lei 7.492/86 não se insere o
diamante, classificado como um bem.
O diamante não é divisa pelo fato de ser um bem. O ouro, por
outro lado, pode ser classificado como divisa se for um ativo financeiro,
e um bem se for ornamento ou decoração.
Em outras palavras: Em formato de barra é ativo financeiro; em
formato de brinco, anéis e pulseiras é um bem.
Como sabemos, o Bitcoin não é moeda, nem ativo financeiro e
muito menos título de crédito.
Ele é um bem. Portanto, notamos que a criptomoeda não se
enquadra na terminologia divisa presente no crime em análise.
Para que as criptomoedas em geral sejam consideradas divisas, é
necessária a edição de uma norma classificando-as dessa forma, sob
pena de ofensa ao princípio da legalidade.
Felizmente, ainda não existem leis que equiparam as
criptomoedas a divisas, o que impossibilita a prática do crime.
No Direito Penal, não se pode admitir equiparação extensiva das
palavras com o objetivo de que certas práticas sejam inseridas em
condutas criminosas previstas na Lei. Caso contrário, haveria outra
violação ao princípio da legalidade.
De acordo com esse entendimento, destacamos que mercadoria
não é divisa quando foi discutida a possibilidade de o diamante
configurar o crime em análise.
A equiparação não pode ser realizada, porque ela é insustentável
jurídica e penalmente. Divisas não são o mesmo que mercadorias, e a
lei é taxativa ao delimitar os elementos e meios do crime, o que
confirma a inexistência de evasão de divisas quando se envia
criptomoedas ao exterior.
O que se proíbe com a previsão do crime é a saída de moedas ou
divisas do país. Dessa forma não se pode incluir nessa previsão o envio
de criptomoedas ao exterior porque haveria uma interpretação
ampliativa, inadmissível no âmbito penal.
Ao final do parágrafo único do artigo 22 da Lei 7.492/86, é
criminalizada a manutenção no exterior de depósitos não declarados.
Foi analisado que os bitcoins são guardados em carteiras digitais, que
podem estar hospedadas tanto online em servidores nacionais e
internacionais, quanto off-line em uma paper wallet.
Nesse sentido, sabemos que existem corretoras de criptomoedas
dentro e fora do país.
Por mais que um indivíduo possua bitcoins em uma carteira digital
hospedada em um servidor internacional, o crime em análise não será
configurado.
Isso ocorre porque, assim como as outras modalidades criminosas
previstas pelo artigo 22 da Lei 7.492/86, a caracterização depende da
equiparação do Bitcoin a moedas ou divisas.
Assim, notamos que é impossível o Bitcoin ser classificado como
moeda porque não está de acordo com a teoria publicista.
Além disso, o Bitcoin não possui curso forçado, característica
própria dos papéis coloridos estatais, porque, se fossem bons de fato,
não precisariam de curso forçado.
Foi provado que o crime de evasão de divisas não se comete
usando Bitcoin por diversos motivos. Primeiro, porque não é operação
de câmbio; segundo, porque não há exterior para a Blockchain; terceiro,
porque Bitcoin não é divisa.
Além disso, mesmo que seja editada uma norma que classifique o
Bitcoin e as demais criptomoedas como divisas para fins penais, o crime
não se configura devido ao apresentado nos tópicos anteriores deste
capítulo.
Mas a pergunta que fica é: Qual o crime mais comum em que são
usadas as criptomoedas?
Descubra no próximo capítulo
5. OS CRIMES MAIS COMUNS ENVOLVENDO O BITCOIN
 
Imagine que você está navegando na internet e vê uma
propaganda sobre uma grande oportunidade de ganhar dinheiro rápido.
Curioso (a), você clica para ver o que é.
Após o clique, você vê um vídeo sobre o assunto. O apresentador
mostra uma criptomoeda que vai valorizar e que você irá deixar de
ganhar dinheiro se ficar de fora.
Não para por aí: Ela ainda rende até 2% ao dia.
Você pensa: “Gostei, vou investir o dinheiro da pizza. Se eu perder
esse dinheiro, eu não saio da dieta”.
Depois de 5 dias você está com 10% de lucro sobre ovalor inicial.
Você pensa: Se com esse valor ínfimo eu já lucrei 10%, imagina o
que eu vou ganhar se investir um valor ainda maior?
Com um pouco mais de coragem, você decide colocar o dinheiro
da viagem do final de ano.
No início é uma maravilha. Todo dia você recebe seus 2%. A
ganância toma conta e você investe o dinheiro do carro novo. Afinal, em
3 meses você terá o suficiente para comprar uma camionete com o
dobro do valor.
Uma semana depois, você para de receber o dinheiro. Após uma
reclamação, um membro da empresa afirma que é um atraso temporário
e já vai ser resolvido.
Como não há nada o que fazer, você espera.
Mas você continua sem receber e começa a ficar preocupado.
Depois, fica puto da vida. Você destila sua raiva no reclameaqui e nas
redes sociais da empresa.
É completamente ignorado, junto com outros investidores iguais a
você.
Um tempo depois, um dos apresentadores afirma que a empresa
foi hackeada e não há mais como pagar os investidores. Você fica
desolado.
Mesmo não conseguindo devolver o seu dinheiro, a empresa vai
tentar diminuir os danos.
Você pensa: “Uffa! Mesmo sem dinheiro por causa desses
hackers, a empresa ainda vai me pagar! Pelo menos assim a perda é
menor.
Que bom! Obrigado, [insira aqui o nome de uma pirâmide qualquer]”.
Ela oferece a você uma outra criptomoeda que servirá como meio
de troca em vários estabelecimentos comerciais.
Você fica aliviado até descobrir que eles não existem.
Infelizmente você foi enganado, feito de trouxa e vítima da própria
ganância.
Aprendeu da pior forma que dinheiro fácil não existe.
Essa história triste acontece diariamente com milhões de pessoas.
Poderia acontecer com você, mas não vai.
Porque a partir da próxima página, o livro vai te mostrar todos os
detalhes sórdidos de como esses esquemas funcionam.
Os criminosos, conforme o tempo foi passando, foram se
adaptando às tecnologias para continuar a fazer suas vítimas.
Eles não perderam tempo e pensaram em algo para lesar pessoas
utilizando o Bitcoin: As pirâmides financeiras.
Esse tipo de esquema (também chamado de marketing multinível)
utiliza o Bitcoin para atrair suas vítimas e iludir para que invistam seu
dinheiro no “negócio do século”.
A verdade é que pouca gente sabe o que realmente é o Bitcoin.
Por consequência, ele desperta curiosidade.
Os criminosos se aproveitam e utilizam a criptomoeda como
fachada para um mascarar uma fraude, prometendo lucros de 1 a 2%
ao dia.
Ao prometer esse ganho extraordinário, eles despertam a
ganância das pessoas.
Infelizmente, quando a ganância está acordada, o bom senso está
dormindo.
As pirâmides financeiras são conhecidas como Esquema Ponzi. O
nome foi dado em homenagem ao italiano Charles Ponzi que em 1920
ficou famoso por ser o autor de uma fraude gigantesca. 
Depois de uma viagem, descobriu ao chegar nos EUA que os
selos de resposta do correio internacional poderiam ser vendidos mais
caros na terra do Tio Sam.
Conforme o rumor foi se espalhando, as pessoas começaram a
entregar dinheiro a Ponzi. Porém, por mais que estivesse recolhendo
somas astronômicas de dinheiro e houvesse filas para lhe entregar
mais, na realidade não comprou selos com o dinheiro recebido.
Ele simplesmente pagava rendimentos de até 100% em três
meses, com o capital dos novos investidores.
Com o dinheiro do lucro na mão, os investidores pouco se
importavam como o negócio funcionava. Eles só queriam mais, a ponto
de venderem seus bens para depositar o dinheiro nas mãos de Ponzi.
Em julho de 1920, Ponzi já tinha milhões de dólares. Muitas
pessoas venderam ou hipotecaram as suas casas, na esperança de
ganhar quantias maiores.
Porém, no dia 26 de julho do mesmo ano, grande parte do
esquema começou a colapsar, depois que o banco em que deixava seu
dinheiro começou a questionar as práticas da sua empresa.
Finalmente a companhia de Ponzi sofreu intervenção do Estado
que congelou todas as novas captações de dinheiro. Dessa forma,
muitas pessoas foram prejudicadas e o esquema ruiu.
O esquema Ponzi é aplicado de várias formas e utiliza qualquer
coisa para esconder a fraude, até mesmo o Bitcoin.
As pirâmides financeiras sempre terminam falindo, já que a
maioria esmagadora dos investidores perde todo o seu dinheiro.
As características típicas da propaganda para recrutar novos
investidores são:
Promessa de altos rendimentos a curto prazo. 1 a 2% diários, por
exemplo.
Dirigido a um público que desconhece a tecnologia e não é
financeiramente esclarecido.
Um único promotor ou uma única empresa. (Empresas como:
Minerworld, Midas Trend, InDeal, Dreamdiggers, UnickForex, JJ
investimentos, Grupo Bitcoin Banco, Genbit, Credminer)
Um produto que desperta curiosidade. Porém a negociação acaba
por se tornar secundária porque o foco é o recrutamento de novos
membros.
Às vezes, usam uma celebridade como embaixador ou garoto-
propaganda com o intuito de dar mais credibilidade ao esquema.
Empresa irregular: ausência de registro em órgãos como a CVM e
a Bolsa de Valores.
Após despertarem a curiosidade e a ganância, eles persuadem as
pessoas por meio da autoridade que demonstram ao encher o discurso
com terminologia técnica.
Posteriormente, eles fazem a vítima assinar um contrato
reconhecido em cartório, com o intuito de dar mais credibilidade ao
esquema.
Do ponto de vista legal, são contratos de investimento coletivo,
regidos pela Comissão de Valores Mobiliários. Mas essas empresas
nunca têm autorização da CVM para operar.
Os criminosos pouco se importam se o cliente sabe disso. A
ganância já cegou a vítima.
Dessa forma, os responsáveis pelo esquema ganham dinheiro em
cima das vítimas. Portanto, fique atento à seguinte combinação de
fatores:
Curiosidade + Ganância + discurso de autoridade + falsa credibilidade =
vítima convencida e lesada.
Para dar um ar de sustentabilidade financeira, os fundadores e
demais representantes recomendam que as vítimas atraiam novas
pessoas para o negócio.
Dessa forma, quem trouxer mais um inocente recebe 5 a 10% de
rendimentos extras no fim do mês para cada novo investidor, por
exemplo.
Após ruir o esquema, algumas empresas têm uma atitude,
digamos, muito cara-de-pau. Impossibilitada de pagar os raivosos
investidores lesados, ela decide pagá-los em uma criptomoeda ou um
“ativo digital de nicho” criado pela própria companhia, como aconteceu
com a Minerworld.
O investidor pensa que recebeu algo de valor na esperança de
recuperar o prejuízo, mas acaba por receber um token inútil que não
serve nem para nariz de palhaço.
A Lei 1.521/51 dispõe sobre crimes contra a economia popular.
Em seu artigo 2ª, inciso IX, a norma prevê o chamado crime de
“pirâmide” ou “esquema de pirâmide”.
O crime consiste em tentar ou obter ganhos ilícitos, através de
especulações ou meios fraudulentos, causando prejuízo a diversas
pessoas. A pena prevista é de 6 meses a 2 anos de detenção e multa.
Essa pena não assusta ninguém. De acordo com a Lei dos
Juizados Especiais, é considerado um crime de menor potencial
ofensivo[150], mas infelizmente, acaba causando lesões patrimoniais
enormes.
Além de a pena ser totalmente desproporcional ao dano causado,
o crime é previsto em uma lei que foi editada há 70 anos. Uma norma
antiga que deve ser atualizada para não só punir esses criminosos, mas
obriga-los a ressarcir suas vítimas.
Em certas situações, alguns promotores os acusam pelo crime de
estelionato. Por mais que a pena seja muito maior, a sensação de
impunidade ainda existe, o que estimula esses bandidos a criar uma
pirâmide após a falência da outra.
Se uma empresa com as expressões “miner”, “forex”, “trend” ou
“hash” no nome aparecer para você com propostas de investimento,
cuidado.
Confira se ela possui CNPJ e registro na CVM. Se ela não possuir,
abra o olho. Verifique também se ela possui uma das características
anteriormente citadas. Se sim, é cilada.
Um dos casos envolvendo criptomoedas é o caso da Midas Trend.
A empresa vendia licença de uso de um suposto robô que realizava
compras de bitcoins nos locais mais baratos e os vendia onde estivessemais caro, embolsando os supostos lucros.
Era maravilhoso. O esquema rendia 40% ao mês. Nem um agiota
lucra dessa forma.
As permissões para operar os robôs custavam de U$D 33,00
(trinta e três dólares) a U$D 2.000,00 (dois mil dólares) e quem as
vendesse ganhava uma porcentagem do valor.
Após adquirir essa licença, as pessoas depositavam os seus
bitcoins onde esse suposto robô operava.
Quem vendia mais dessas permissões subia no plano de carreira,
ou seja, ia em direção ao topo da pirâmide.
Os incentivos para chegar ao topo eram vários: Carros de luxo,
viagens ao exterior e até casas fora do Brasil.
Esses estímulos não foram suficientes para impedir que o
esquema ruísse.
Depois do atraso nos pagamentos, o criador da Midas Trend,
Deivanir Santos, prometeu que, no dia 13 de abril de 2020, iria fazer
uma live explicando porque os atrasos ocorreram.
Você sabe e eu também.
Mas os investidores não.
No grande dia para se explicar, o criador do esquema não
aparece.
24 horas depois ele decide fazer uma live para explicar toda a
situação. Afirmou que os bitcoins foram hackeados[151] e os
pagamentos aos investidores continuam retidos.
Como era de se esperar, ele culpou outras empresas, bancos e o
governo, afirmando que boicotam a Midas Trend.
Posteriormente foi descoberto que ele encerrou suas atividades e
fugiu para o Canadá, lesando o patrimônio dos investidores.
Alguns investidores procuraram a justiça querendo reaver o capital
investido. Mas o criador da Midas Trend, de maneira audaciosa, afirmou
que quem processá-lo não irá receber seu dinheiro.[152]
Infelizmente as pessoas não procuram informações sobre pessoas
que oferecem investimentos. Deivanir Santos era um membro da
Pirâmide BBOM[153].
A BBOM se apresentava como uma empresa que oferece
rastreadores de veículos por meio de pagamento de um valor mensal.
Os interessados se associavam mediante o pagamento de uma
taxa de cadastro, no valor de R$ 60,00 (sessenta) reais, mais uma taxa
de adesão, que variava de R$ 600,00 (seiscentos) reais a R$ 3.000,00
(três mil) reais, de acordo com o plano escolhido.
Quanto maior o número de novos integrantes, maior seria a
premiação ou bonificação que seria oferecida pela empresa.
Mas naturalmente o esquema ruiu e Deivanir decidiu criar sua
própria pirâmide[154].
Um outro esquema mais elaborado é aquele chamado de Grupo
Bitcoin Banco.
Liderado por Claudio Oliveira, o conglomerado empresarial
responde a centenas de processos judiciais e não libera saques para
investidores há seis meses.
Para dar maior credibilidade, entraram no negócio duas
corretoras: a TEMBTC e a NEGOCIECOINS. Muitos clientes, talvez por
inocência ou desconhecimento, deixaram seus bitcoins nessas
empresas.
O esquema foi à falência e muita gente perdeu suas
criptomoedas.
A cada esquema que cai, o ceticismo das pessoas vai
aumentando. Os criminosos então decidiram inovar: Para driblar essa
desconfiança, eles contratam jogadores de futebol como garoto-
propaganda para dar credibilidade ao esquema.
A 18K Ronaldinho e a Arbcrypto contrataram pentacampeões para
que o esquema conseguisse driblar o ceticismo das pessoas em relação
às pirâmides.
O astro do Barcelona aparece no vídeo da 18K elogiando os
produtos que servem de fachada: Relógios esportivos.
Realmente, a empresa não perdeu a hora para iludir seus
investidores.
Além da venda de relógios, existia um negócio que oferecia
rendimentos multinível, com base em operações de trade no mercado
de criptomoedas.
A promessa era curiosa: “Ganhos de até 2% ao dia e pagamento
de até 400% do capital investido, sem necessidade indicar ninguém. ”
A frase “sem a necessidade de indicar alguém” tenta afastar a
imagem de esquema Ponzi, mas infelizmente o funcionamento
mostrava o contrário.
Pelo fato de a 18K Ronaldinho supostamente agir como uma
pirâmide financeira, a Câmara dos Deputados chegou a convidá-lo para
depor sobre esses indícios, mas ele recusou.
Após as suspeitas ganharem corpo, Ronaldinho deixou o negócio,
e os responsáveis pela empresa passaram a dizer que a menção ao
nome dele havia sido uma mera homenagem.
A fraude foi descoberta e Ronaldinho Gaúcho virou réu em ação
que pede R$ 300 milhões.[155]
Cafu, astro do Milan e capitão da seleção pentacampeã em 2002,
é garoto-propaganda da Arbcrypto e teve 9 milhões bloqueados pela
justiça por fazer parte de um esquema fraudulento de pirâmide
financeira.
A ArbCrypto é a herdeira da base de usuários de outra pirâmide,
a FX Trading. Ela começou em um grupo de Facebook que se chamava
Fx Trading – Tirando Dúvidas.
Com a queda da Fx Trading, Alex Kwok viu uma oportunidade e
lançou a ArbCrypto, que nada mais é do que um bot de arbitragem,
semelhante àquele apresentado pela Midas Trend[156].
Como sabemos, o esquema começou a ruir e a empresa parou de
pagar seus clientes. Após o levantamento de provas, o Juiz Ernane
Fidelis Filho fundamentou que existe um esquema de pirâmide.
Ele foi categórico sobre onde as pessoas teriam os rendimentos
de 2,5% (dois e meio por cento) ao dia: “nenhum lugar do mundo, talvez
apenas no tráfico de drogas”[157].
E assim mais um jogador tem a imagem manchada por estar
relacionado a esses criminosos.
Outra pirâmide muito conhecida é aquela liderada por Leidimar
Lopes, a Unick Forex.
Ela captava “investidores” oferecendo lucro de 2% ao dia. Só
alguém cego pela própria ganância cairia em um papo furado desse.
Entretanto, a empresa captava diariamente 40 milhões de reais.
Você não leu errado. 40 MILHÕES DE REAIS eram movimentados POR
DIA, e 9 bilhões durante toda a vigência do esquema. Sim, BILHÕES.
Mesmo a CVM proibindo a Unick Forex de realizar essas práticas,
elas continuaram. A autarquia expediu uma ordem de parada de
operações e foi completamente ignorada pela empresa.
A partir de então, a Polícia Federal decidiu agir. Os 13 líderes da
empresa foram indiciados por organização criminosa. Foram
apreendidos 48 carros de luxo e R$ 53.000.000,00 (cinquenta e três
milhões) de reais em criptomoedas, já custodiadas em carteiras
controladas pela polícia.
A operação Lamanai faz referência a uma pirâmide localizada em
Belize, país onde fica um escritório da empresa.
O esquema criminoso é conhecido pelas autoridades. O Bitcoin
até então não era. Pelo fato de ser inconfiscável, os criminosos
transferem as criptomoedas dos “clientes” para uma carteira sob seu
controle e saem com o produto do crime intacto.
O que, por sorte, não aconteceu na operação Lamanai.
Esses indivíduos não possuem escrúpulos[158] e não sentem
nenhum remorso por saber que estão lesando poupanças e
aposentadorias de muitas pessoas. Usam as criptomoedas como
fachada para atrair as vítimas.
A impunidade de uma lei promulgada há 70 anos permite que
esses criminosos tenham passe livre para fundar diversas pirâmides e
iludir as pessoas que, na inocência, entregam a eles parte do seu suado
dinheiro.
Mas esses esquemas não se restringem somente a terras
tupiniquins.
A CipherTrace, empresa forense em Blockchain especializada na
investigação de crimes virtuais, afirma que é raro mas pode haver a
presença de corretoras nesses esquemas Ponzi.
Por exemplo, Clientes e usuários perderam U$D 2.900.000,00
(dois bilhões e novecentos mil) dólares numa pirâmide financeira
envolvendo a corretora Plustoken[159].
Uma outra fraude reportada pela CipherTrace foi aquela
envolvendo a QuadrigaCX. Gerald Cotten, o presidente da corretora
canadense, criou usuários fantasmas com dinheiro fiduciário que não
existia.
O dinheiro falso, existente somente na plataforma da QuadrigaCX,
foi então usado para comprar criptomoedas reais de outras pessoas.
Infelizmente elas viram depois que não havia absolutamente nada para
sacar e perceberam que foram iludidas.
Depois de procurar o presidente da empresa, as pessoas foram
informadas que ele havia perdido tudo.
Posteriormente foi descoberto que Gerald Cotten transferiu 21.501
(vinte e um mil e quinhentos e um) bitcoins para uma conta sua em uma
corretora desconhecida.
Ao longo de três anos, ele liquidou parteque foi depositado na
conta pelo equivalente a US$ 80.000.000,00 (oitenta milhões) de
dólares canadenses.
Depois disso, esses vermes inescrupulosos compram casas e
carros de luxo para passar uma imagem de empresários bem-
sucedidos. Mantêm um pouco do patrimônio em criptomoedas, para que
assim parte do produto do crime permaneça inconfiscável.
Caso alguém apresente a você uma empresa que negocie
bitcoins, tenha cuidado. Antes de tomar qualquer decisão, procure o
nome da companhia no badbitcoin.org.
Esse é o site que lista o nome dos milhares de golpes de
pirâmides existentes no mundo. Se o nome dela estiver ali, basta alertar
quem lhe apresentou essa proposta de investimento. Quem avisa amigo
é.
Um outro esquema é o chamado “pump e dump”.
Imagine que um youtuber famoso informe no canal dele sobre
uma criptomoeda com alto potencial de valorização. Não há nenhuma
empresa por trás e muito menos rendimentos diários.
Com base nessas informações você conclui que não é pirâmide.
Após uma profunda análise, você percebe que a criptomoeda está
no coinmarketcap.
Você pesquisa na internet e ela está presente em uma corretora
que você nem desconfiava que existia.
O preço dela está alto, afinal, ela valorizou 25% nos últimos 15
minutos.
Você pensa: Deve ser uma oportunidade boa, vou comprar.
Por acreditar no youtuber, você a adquire, afinal, ela pode
valorizar.
Depois que você realiza a compra, o preço dela derrete de
maneira rápida a ponto de não conseguir vendê-la o mais rápido
possível para conter prejuízos.
No fim das contas você está com uma criptomoeda que não vale
nada.
Você foi vítima de uma fraude.
Por mais que os esquemas de pirâmides sejam manjados, o
“pump e dump” ainda não é.
Com origem no mercado de ações, esse golpe acontece quando
um indivíduo lança rumores falsos com o objetivo de fazer um papel
valorizar e logo após vende-lo.
Jordan Belfort, interpretado por Leonardo Dicaprio no filme “O
Lobo de Wall Street”, deixa bem explícito:
“Às 13:00, abrimos a venda das ações por U$D 4,00 (quatro)
dólares por ação. Três minutos depois, o preço já ultrapassava os U$D
18,00 (dezoito) dólares. ”
“Das duas milhões de ações que oferecíamos, um milhão me
pertenciam, mantidas em contas falsas. Quando os preços chegavam
às alturas...quem se importa? ”
“O mais importante é isso: U$D 22.000.000,00 (vinte e dois
milhões) de dólares em 3 (três) míseras horas”
Aplicando esse conceito ao mundo das criptomoedas:
O youtuber enche o bolso com uma criptomoeda totalmente
desconhecida, pagando muito pouco.
Ele incentiva você e os milhares de inscritos no canal dele a
comprar, afinal, ele disse que a criptomoeda iria valorizar e
fazer você mudar de vida.
Quando a criptomoeda subiu seus 400%, ele vende tudo o
que tem de uma vez só, jogando o preço para baixo.
No desespero, as outras pessoas começam a vender pelo
preço que for, para conter prejuízos.
Você acaba por não conseguir vender e fica com uma
criptomoeda sem valor nenhum, além de perder dinheiro.
 
Por mais que esse golpe seja novo, há alguns indícios que
revelam parte do esquema, o suficiente para você não cair na lábia
desses “traders” estelionatários.
Vamos lista-los:
Criptomoeda totalmente desconhecida e muito mal
posicionada (abaixo do top 100) no coinmarketcap. Caso
ela nem esteja listada, pior ainda.
Presente em corretoras pequenas que ninguém conhece
Volume de negociação baixíssimo nos últimos meses.
Preço muito baixo
Pico repentino de preço
 
Vamos usar essa MCashchain como exemplo. É uma criptomoeda
que está na posição nº 983.
Em setembro de 2019, os estelionatários compraram a
criptomoeda pela barganha de 0,015 (um centavo e cinco centésimos
de dólar).
No começo do mês de outubro o rumor benéfico se espalhou por
grupos de whatsapp e telegram.
No começo do dia 24, as pessoas que acreditaram começam a
comprar.
No fim do dia, quem espalhou o rumor vendeu todas as
criptmoedas que tinha, deixando muita gente no prejuízo.
Devido à associação das criptomoedas com a prática de crimes,
qualquer indivíduo que as possua é visto como um suspeito.
Infelizmente essa visão é predominante nos membros das forças
policiais, do Ministério Público e do Poder Judiciário.
Por mais que haja essa visão negativa dos que operam com
criptomoedas, pouquíssimos são criminosos.
As pessoas que realmente conhecem o Bitcoin o utilizam como
forma de poupança e investimento, porque devido à escassez
programada e o aumento gradual da demanda, a criação de Satoshi
Nakamoto tem um potencial de valorização enorme.
Os criminosos usam esse fato para despertar a ganância nas
pessoas e mascarar um esquema fraudulento, porque ninguém em sã
consciência entregaria seu suado dinheiro para um homem chamado
Deivanir ou Leidimar.
Eles escondem a falta de credibilidade dos seus nomes criando
empresas com títulos curiosos, que oferecem oportunidade de dinheiro
rápido, fácil e sem risco. Entretanto, esses caras são na verdade
estelionatários que só querem enganar inocentes para tomar seu
dinheiro.
Portanto, esperamos que as autoridades policiais monitorem
essas empresas e pessoas que oferecem lucros diários exorbitantes.
Dessa forma, cai a sensação de impunidade e esses faraós vão pensar
duas vezes antes de querer criar uma pirâmide.
Porque, infelizmente pela demora das autoridades, piramideiros
tipo Deivanir dos Santos enganam inocentes[160], fogem do país e os
deixam sem seu suado dinheiro, que muitas vezes é a poupança ou a
aposentadoria da família.
Para conter a proliferação desses esquemas criminosos, as
autoridades policiais aprimoraram suas habilidades investigativas.
Dentre elas estão as modernas técnicas de confronto e o uso de
softwares específicos para rastreio de wallets.
Quer mais detalhes sobre como a polícia vai rastrear os faraós?
Veja no próximo tópico.
6. COMO A POLÍCIA PRETENDE RASTREAR OS
CRIMINOSOS
 
Em 2019 a quantidade de pirâmides financeiras cresceu tanto que
houve um aumento de 160% no número de vítimas em relação ao ano
anterior, de acordo com a CipherTrace, empresa forense em Blockchain
especializada na investigação de crimes virtuais.
“Percebemos um grande aumento em pessoas mal-intencionadas,
enganando vítimas inocentes ou se aproveitando de usuários por meio
de esquemas de pirâmide”, disse à Reuters Dave Jevans, presidente-
executivo da CipherTrace.
“O que mais preocupa é a proliferação desses esquemas que,
com certeza, é o crime mais comum envolvendo criptomoedas” diz Dave
Jevans.”[161]
Para que as autoridades levem os piramideiros à justiça com
intuito de restituir suas vítimas, foi elaborado recentemente um
documento chamado “Roteiro de Boas Práticas de Investigações em
Criptoativos”.
Criado pela Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à
Lavagem de Dinheiro (ENCCLA), com auxílio do Financial Action Task
Force (FATF )[162] e da EUROPOL[163].
É basicamente um guia para as polícias judiciárias (Federal e
Civil) conduzirem investigações “nas quais há suspeitas de práticas de
atividades ilícitas envolvendo ativos virtuais, em particular, lavagem de
dinheiro e financiamento de terrorismo”[164].
Como já mencionado nos tópicos anteriores, ativo é o conjunto de
bens e direitos com a possibilidade de gerar renda para quem os
possui.
Graças ao seu potencial de valorização causado pela escassez
pré-programada e pelo aumento de sua demanda, o Bitcoin é
classificado como um bem, no subgrupo dos ativos não produzidos.
Após uma leitura mais atenta, percebemos que o assunto é
abordado como se o crime organizado só fosse financiado com
criptomoedas.
É um completo absurdo.
Os faraós e demais estelionatários são financiados com Reais,
Dólares e outros papéis coloridos. Eles usam o Bitcoin para que o
produto do crime não seja confiscado pela justiça.
Outro detalhe é que o documento “é de uso restrito às autoridades
do Poder Judiciário, Membros do Ministério Público, da Polícia
Judiciária, Advogados Públicos e demais entidades autorizadas pelo
ENCCLA”[165].
O documento está disponível na internet[166]. Pelo visto, nãoé tão
restrito assim, o que permite aos piramideiros acessá-lo e estudá-lo
para criar estratégias a fim de escaparem da justiça.
Quem coordena é o Ministério Público Federal, com auxílio da
Procuradoria Geral da Fazenda Nacional. Com as informações
específicas de cada órgão, o conhecimento a ser passado às
autoridades policiais é muito mais completo e abrangente.
No documento é descrito como se adquire criptomoedas. Foram
elencadas três formas: Compra direta, por meio de Exchange e por
máquinas ATM.
Isso serve de aviso àqueles (as) quando forem comprar
Criptomoedas. Elas não são contratos de investimento coletivo que
prometem rendimentos diários exorbitantes, mas sim mercadorias
digitais negociadas entre um comprador e um vendedor.
Em relação aos vendedores P2p, as autoridades já sabem como
funciona a negociação.
O detalhe que chamou mais a atenção é a lista dos sites em que
as pessoas negociam diretamente:
https://catalogop2p.com.br/
https://liberalcoins.com/
https://paxful.com/
Também é explicado que os criptoativos não estão no dispositivo
apreendido. Com as autoridades sabendo disso, fica mais fácil levar os
faraós e demais estelionatários à justiça.
Esses criminosos sabem que o ideal é manter parte do patrimônio
em criptomoedas para que o produto do crime se torne inconfiscável.
Dessa forma, eles utilizam vários meios de guardar as criptomoedas,
fato que a polícia já sabe.
É notável o conhecimento das autoridades sobre as formas de
armazenamento, desde as mais seguras (paper wallet) até as menos
seguras (corretoras e carteiras em software).
https://catalogop2p.com.br/
https://paxful.com/
Por falar em software, muito desses estelionatários desenvolvem
supostos aplicativos como o Botmidas, um robô que compra bitcoins em
locais baratos e vende em lugares mais caros.
Mas se as autoridades tiverem o mínimo de bom senso, saberão
que esses programas não fazem absolutamente nada e só mascaram
um esquema fraudulento.
A prática de pirâmide financeira é prevista em uma lei antiga,
editada em uma época em que o crime não era tão comum. Como
explicado no capítulo anterior, é um crime cuja pena máxima não chega
a dois anos.
Porém, há a possibilidade de que seus criadores respondam
também por estelionato e associação criminosa, o que também não
intimida muito.
Por mais que a lei que trate do assunto seja antiga e não assuste
ninguém, as habilidades policiais para levar esses delinquentes egípcios
à justiça estão se aprimorando.
 
Vamos analisar o procedimento investigatório.
6.1. O PROCEDIMENTO INVESTIGATIVO
 
Para que uma investigação seja realizada, deve haver indícios.
Indício é um sinal de que um fato aconteceu, acontece ou vai acontecer.
Um galo cantando é indício que vai amanhecer. Nuvens escuras e
carregadas são indícios de chuva. Um cara de terno apresentando a
solução milagrosa para todos os problemas é um indício de que ele seja
um estelionatário.
A partir do momento que existe o indício de algo, começa a
procura por informações para transformá-lo em prova. As autoridades
buscam diversos meios para atingir esse objetivo.
De acordo com o roteiro, existem 4 categorias de informações a
serem consideradas pelos investigadores:
Registros Criminais e Inteligência: Informações coletadas
por meio de interrogatórios e pesquisa em banco de dados. Mas em
relação às criptomoedas, as autoridades devem identificar as atividades
on-line, os apelidos e os endereços físicos e eletrônicos dos suspeitos.
 
Além disso, recomendo que as autoridades analisem o histórico
criminal do suspeito para ver se ele é conhecido ou famoso no mundo
das pirâmides ou marketing multinível. Se sim, é figurinha carimbada.
 
Informações Financeiras: O cruzamento de dados do que
foi de fato declarado ao leão com os dados das operações realizadas
nas corretoras.
 
Nesse caso, é interessante que as autoridades policiais façam uma
verificação profunda se houve um alto crescimento patrimonial em um
curto espaço de tempo na declaração do imposto de renda da empresa
suspeita.
 
Além disso, é bom saber qual o ramo de atividade vinculado ao
CNPJ da instituição, para solicitar à autarquia reguladora a autorização
da empresa que atua no mercado.
 
Informações de Código Aberto: Aquelas informações
disponíveis na internet, desde o valor das criptomoedas até as
postagens em mídias sociais.
 
Os dados presentes nas redes sociais dos faraós e das empresas
suspeitas de pirâmide é de extrema importância.
 
Com o intuito de incluir mais vítimas no esquema fraudulento, os
faraós tendem a expor os seus lucros e luxos nas redes sociais para
ostentar sucesso, o que é um belo indício de prática de pirâmide
financeira.
 
Métodos tradicionais de investigação: vigilância física,
entrevistas com suspeitos, obtenção de registros por telefone, e-mail e
verificação de arquivos, por exemplo. Investigadores financeiros são
treinados para “seguir o dinheiro” e o conhecimento de todos os
sistemas de pagamento é fundamental para identificar casos em que as
criptomoedas são usadas ilicitamente[167].
 
O que seria interessante é, após a devida autorização judicial, a
infiltração de agentes policiais com o intuito de saber quem organiza e
como funciona a pirâmide. Dessa forma, depois de obtidos os dados
dos membros do esquema, é possível grampear o telefone dos
estelionatários, deixando o inquérito policial mais robusto.
De acordo com o manual, há alguns itens[168] que indicam a posse
ou o uso de criptomoedas:
Navegador Tor, para acessar serviços da deepweb que
geralmente aceitam apenas criptoativos como métodos de pagamento;
Transação com endereços de criptoativos que se conectam
a esquemas de fraude conhecidos ou a mercados na deepweb;
A presença, o uso ou a assinatura de rede virtual privada
(VPN), usada para mascarar os acessos à internet pelo usuário;
O uso de uma máquina virtual, que permite ao usuário
acessar um sistema operacional dentro do outro. Por exemplo: Acessar
um Linux dentro da plataforma Windows.
A presença de software ou hardwares específicos para
clientes de criptomoedas;
A presença de aplicativos de autenticação como o Google
Authenticator;
Sites visitados ou salvos como favoritos, relacionados aos
itens acima, principalmente fóruns de discussão de criptomoedas,
podem indicar que o investigado esteja realizando transações
E-mails enviados pelas corretoras após as transações;
Posts de usuários nas redes sociais ou fóruns públicos
(4chan, Reddit, ou Twitter).
Uso de meios de comunicação descartáveis ou
criptografados (por exemplo, vários celulares descartáveis ou aplicativos
de mensagens criptografados de ponta a ponta, especialmente aqueles
que são menos populares comercialmente ou exigem assinatura paga)
Discrepâncias entre a identificação do cliente e os
endereços IP enviados. O caso clássico de um indivíduo que cria a
conta em uma corretora fornecendo endereço no Brasil, mas acessa
com um IP vindo da China.
Criação de contas separadas sob nomes diferentes para
contornar restrições aos limites de negociação ou de retirada.
Transações de criptmoedas originadas ou destinadas a
serviços de jogos de azar on-line.
O uso de cold wallets (hardwares, papel etc) para
transportar criptomoedas através das fronteiras.
Notamos aqui um conhecimento extraordinário das autoridades
sobre o tema. Houve realmente um estudo aprofundado a fim de colocar
os faraós e demais estelionatários na cadeia.
Com o intuito de encobrir suas práticas e não serem rastreados,
eles utilizam navegadores anônimos como o TOR, além de usarem
softwares que escondem o IP do computador onde são praticados os
delitos.
O problema é que em certas situações, os piramideiros antes de
fugir do país, protegem seus computadores contra acessos não
permitidos, por meio da criptografia.
Um exemplo desse estilo de proteção foi utilizado por Marcelo
Odebrecht[169]. Em seu computador havia uma quantidade enorme de
evidências para a operação lava jato. Para acessá-lo era exigido um
token que gerava a senha de acesso do usuário. Infelizmenteesse
dispositivo eletrônico foi perdido.
O acesso às informações do computador sem esse token é
considerado ataque por força bruta. Uma de suas modalidades é o uso
de técnicas hackers.
Caso as autoridades adotarem tal modalidade, haverá o risco de
alteração das evidências. Se elas forem alteradas, não poderão ser
usadas contra os piramideiros.
Invasão por força bruta é um prato cheio para qualquer advogado
argumentar que foi feita uma injeção de provas falsas contra o cliente e
levantar o benefício da dúvida em favor dos faraós.
O interessante é que a partir do momento que os líderes de uma
empresa se tornam suspeitos da prática de pirâmide, eles serão
monitorados e terão seus hábitos e rotina catalogados. De acordo com
o próprio documento:
Observar a rotina do suspeito fornece inteligência para um
panorama geral de seus hábitos e conexões com outros
indivíduos e entidades envolvidas com ativos virtuais. Nessa
fase é preciso identificar os tipos de dispositivos eletrônicos
que um suspeito está usando, se a carteira de criptoativos
está em sua custódia ou com terceiros, as formas de
conexão eletrônica e outros meios eletrônicos que os
investigadores possam acessar. Em termos de estrutura,
uma forma bastante eficiente de organizar informações de
entrada é criando uma linha do tempo com uma sequência
de eventos, onde cada ponto do esquema representa uma
ação separada e requer evidência de apoio, que pode ser
adicionada posteriormente.
 
Além de vigiados, os faraós serão monitorados desde a
apresentação lucrativa do esquema até a posterior queda da
organização.
Nesse sentido, após a apreensão de dispositivos eletrônicos dos
estelionatários, as autoridades policiais vão direto às hotwallets com o
intuito de retomar os bitcoins das vítimas.
Caso as autoridades não saibam a senha de desbloqueio do
aplicativo, irão procurar o arquivo wallet.dat, que contém as chaves
privadas e podem ser armazenadas com ou sem criptografia.
Após ter o acesso, a polícia custodiará as criptomoedas das
vítimas para devolvê-las aos verdadeiros donos no fim do processo
judicial.[170]
Porém, antes de o juiz receber a peça acusatória com todos os
dados, eles devem ser coletados. Quem colhe essas informações é a
polícia, com todos os meios legais que a criatividade humana permite.
Quer saber quais são?
Vire a página e descubra
6.2. A AÇÃO POLICIAL NA PRÁTICA
 
Antes mesmo de iniciar o processo judicial existe um
procedimento chamado inquérito. É a fase investigativa da ação da
penal onde são levantados indícios e informações sobre o delito e o
suspeito.
Depois de concluído o inquérito, o suspeito vira indiciado. Após o
inquérito ser aceito pelo Ministério Público, o indiciado vira réu.
Tanto antes quanto depois da ação penal, a polícia age com o
intuito de buscar mais provas. Esses elementos probatórios serão
utilizados pela acusação para convencer o juiz de que o réu é culpado.
Com o intuito de coletar informações para tornar o inquérito mais
robusto, as autoridades policias tomam atitudes um pouco diferenciadas
em relação aos delitos que envolvam criptomoedas.
As empresas suspeitas de pirâmides são pessoas jurídicas.
Portanto, as autoridades policiais vão requisitar informações ao Banco
Central e à CVM sobre a existência de registro e autorização para
operar dentro do país.
Além disso, haverá pesquisa na internet e nas redes sociais de
modo a identificar o responsável pela empresa.
Ao juiz será solicitado o acesso aos relatórios da Unidade de
Inteligência Financeira, o antigo COAF.
Também ocorrerá a quebra do sigilo bancário, a fim de identificar
o destino dos valores recebidos, inclusive confirmar (ou não) o
investimento em criptomoedas ou o desvio para pessoas físicas.
Durante o mandado de busca e apreensão, o delegado de polícia
solicitará a ordem judicial para suspensão das atividades da empresa.
Dessa forma, o objetivo é prevenir novos ilícitos.
Já em relação às pessoas físicas, os mandados de busca e
apreensão cumpridos têm suas peculiaridades. Além da quebra de
sigilo fiscal, bancário e telefônico, haverá ainda o pedido de
indisponibilidade de bens e prisão temporária do suspeito.
Além disso, conforme o manual, “O agente da lei deve ter
treinamento para reconhecer dispositivos que apontem para utilização
de criptoativos, garantindo que as evidências descobertas no curso da
investigação sejam mantidas sob custódia e ou documentadas. ”[171]
O mandado de busca e apreensão conterá:
Autorização para o acesso ao dispositivo eletrônico no
próprio local. Porque há o risco de que os suspeitos possam apagar os
arquivos e transferir as criptomoedas para outros lugares.
Autorização com o objetivo de transferir as criptomoedas,
no próprio local, para uma carteira controlada pelo estado.
Posteriormente elas serão liquidadas e o valor depositado em uma
conta judicial.
Permissão para o acesso de dispositivos eletrônicos ou de
armazenamento, e-mails ou telefones vinculados para fim do duplo fator
de autenticação.
 
Se as carteiras forem custodiadas por exchanges, as
seguintes informações serão exigidas:
 
Em relação às wallets, o mandado de busca conterá o
acesso aos dados fundamentais: endereços, senhas ou chaves
privadas, transações, e-mails e números de telefones vinculados com
as respectivas senhas e a seed de recuperação da carteira virtual.
Autorização para a quebra do sigilo fiscal, com o objetivo de
verificar se a criptomoeda foi declarada.
No que diz respeito à indisponibilidade dos bens, serão
autorizados: o sequestro dos bens; o acesso aos dispositivos
eletrônicos, e-mails e telefones; a transferência das criptomoedas
custodiadas em Exchange para uma wallet controlada pelo estado;
liquidação a preço de mercado para transferência à conta judicial
atrelada aos autos do processo.
Por mais que a consulta aos dados dos piramideiros forneça
alguma prova, nada melhor do que interrogar o suspeito.
O interrogatório também foi aperfeiçoado com as novas técnicas
de confronto.
Elas estão esperando você na próxima página.
6.2.1 O INTERROGATÓRIO
 
Depois que o suspeito é levado ao interrogatório, algumas ações
são tomadas pelas autoridades policiais.
Com o surgimento das criptomoedas, foi desenvolvida uma
sequência específica de técnicas de confronto.
Para cada tipo de alegação do suspeito, uma pergunta diferente
será feita pelas autoridades policiais. Veremos com mais detalhes.
I - Alegação de que os ganhos identificados como ilícitos
tem origem na mineração de criptomoedas:
Técnicas de confronto:
Exigir a apresentação de todos os custos operacionais:
sobretudo com infraestrutura, aquisição de máquinas para mineração e
consumo de energia elétrica.
Em coleta de provas orais, esclarecer a data em que houve
a mineração, quanto foi minerado, em quais carteiras foram alocadas as
criptomoedas, se a mineração foi ininterrupta ou em quais períodos teria
sido realizada.
 
Com essa linha de raciocínio, as autoridades policias conseguirão
derrubar diversas pirâmides financeiras que dizem minerar
criptomoedas.
 
 
II - Pulverização de criptoativos em diversas carteiras
independentes e não vinculadas ao titular da carteira
inicial:
Técnicas de confronto:
A investigação realizará a análise de transações das
carteiras apontadas pelos investigados como aquelas sob seu controle.
A partir de suas alegações serão rastreadas transferências
realizadas para outras wallets através da técnica de pulverização de
criptomoedas.
 
Um dos recursos que é muito utilizado pelos faraós em geral. Eles
possuem uma carteira para que as vítimas depositem suas
criptomoedas. Posteriormente eles pulverizam as criptomoedas em
outras wallets sobre seu controle
 
III - Criação de interpostas pessoas jurídicas, no Brasil e
exterior, para justificar ganhos obtidos como se fossem
decorrentes de trading ou mineração:
Técnicas de confronto:
O uso de informações fiscais.
O acesso à base de dados de pessoas jurídicas e de seus
funcionários, como aquela mantida pelos órgãos de Previdência Social,
além de informações de constituiçãodas empresas.
 
A criação de empresas é comum entre os piramideiros e tem sido
combatida pelas técnicas de confronto em análise.
Por mais que essa técnica de confronto seja válida, eu
acrescentaria ainda a infiltração[172] de agentes nesses esquemas com
o intuito de obter o máximo de informação possível para dar um maior
suporte probatório à denúncia do Ministério Público.
 
IV - Utilização de intermediários para simular operações de
alienação de criptomoedas, de forma a justificar para
órgãos de fiscalização e controle, a venda com ganho de
capital e declarar assim patrimônio e renda:
Técnicas de confronto:
Cruzamento com informações coletadas em bases fiscais e
de antecedentes criminais.
Cruzamento com os dados coletados a partir de quebra de
sigilos fiscais e bancários autorizados.
 
A Midas Trend, por exemplo, utilizava um robô para simular
negociações de criptomoedas, que supostamente fazia diversas
transações e gerava rendimento a quem possuísse a sua licença de
operação.
Além disso, quem vendia mais dessas permissões subia no plano
de carreira, ou seja, ia em direção ao topo da pirâmide.
Por mais que o cruzamento de dados seja uma opção
interessante, a infiltração de agentes nesses esquemas de pirâmide
continua sendo uma das estratégias mais inteligentes para desmantelar
esse tipo de organização criminosa.
V - Aquisição de criptomoedas recém-mineradas, sem
histórico de transações: esquema utilizado para lavagem
do dinheiro das máfias e organizações criminosas
internacionais, que alegam que o dinheiro dos crimes que
praticam tem origem na mineração.
Técnicas de confronto:
Exigência da prova de que cada bloco alegadamente
minerado esteja vinculado a um equipamento de mineração com a
identificação do endereço IP utilizado e/ou MAC Address do dispositivo.
 
Por mais que a lavagem de dinheiro das organizações criminosas
seja feita com Bitcoin, os criminosos usam altcoins recém mineradas
para o mesmo fim.
 
Entretanto, adquirir criptomoedas recém mineradas é algo muito
utilizado por alguns youtuber que praticam “pump e dump”.
 
Eles compram a altcoin quando ela não vale absolutamente nada,
fazem um marketing agressivo prometendo Deus e o mundo e depois
vendem tudo pelo triplo do preço que compraram, deixando no prejuízo
quem acreditou neles.
 
 
VI - A Omissão de dados por Exchanges que não realizam
procedimentos de compliance e KYC.
Técnicas de confronto:
É importante salientar que a identificação KYC (Know Your
Client) implica que empresas que são ativas no setor de serviços
financeiros precisam saber quem são os clientes, a fim de conferir sua
identificação e evitar roubo de identidade, fraude, lavagem de dinheiro e
outros delitos.
 Quebra de sigilo fiscal e bancário para confronto com os
dados coletados no curso da investigação de empresas que não
apresentem qualquer tipo de ação no sentido de identificar os clientes.
 
Hoje em dia praticamente todas as exchanges fazem o KYC.
Quem não faz o KYC são as empresas envolvidas com pirâmide.
Pelo fato de não possuírem a autorização da CVM para operar,
podemos concluir que não se importam nem um pouco com a
legalidade.
 
Os piramideiros pensam: “ Por que eu vou me esforçar para fazer
o KYC se eu nem solicitei a autorização da CVM? O negócio é lucrar
em cima dos trouxas! ”
 
Dessa forma, notamos que quem age legalmente procura saber
com quem está negociando. Os estelionatários, por outro lado, não se
importam em enganar ou iludir seus clientes.
 
Afinal, quando a pirâmide der seus primeiros sinais de
inadimplência, os membros da cúpula fogem para outros países e
colocam a culpa em outras pessoas.
 
Por mais que os piramideiros tenham se adaptado à tecnologia
para esconderem seu esquema fraudulento, percebemos que as forças
policiais também fazem uso dela para solucionarem os crimes.
 
Utilizando a privacidade presente na Blockchain, os criminosos
cometem seus crimes e achavam que podem sair impunes.
 
Achavam. Mas hoje notamos que por mais que a privacidade seja
uma pedra no pé dos investigadores, há empresas e softwares
especializados a ajudá-los.
 
No próximo capítulo descobriremos quais são
6.3. OS SOFTWARES UTILIZADOS
 
Um dos maiores desafios na investigação é a vinculação de uma
wallet com seu proprietário. Partindo desse fato, os investigadores
utilizarão aplicativos web que permitem pesquisar endereços,
transações e outros detalhes a ela relacionados. Assim, fica fácil a
identificação de fluxos financeiros entre os endereços.
O ecossistema das criptomoedas permite um certo anonimato.
Você sabe quantos bitcoins saíram da carteira X para a carteira Y, mas
não sabe quem enviou e quem recebeu.
As autoridades enfrentam essa dificuldade durante as
investigações. A vinculação é realmente complicada, quase impossível.
Ainda mais quando existem os mixers/tumblers.
Serviços como o Anonymix, BitcoinMixer e Bitcoin Fog reforçam o
anonimato das transações e o “obscurecimento dos fluxos
financeiros”[173].
Para procurar criminosos virtuais e piramideiros, o estado utiliza
serviços dos especialistas. “Empresas como a Elliptic e a Chainalysis já
oferecem softwares de pesquisa diferenciada dentro do Blockchain.
Elas contam com ferramentas para análise dos registros, estabelecendo
um padrão na detecção e investigação de crimes envolvendo
criptoativos”[174].
Além das próprias pesquisas pela Blockchain, os softwares
dessas empresas têm funcionalidades específicas para rastrear as
transações.
Por meio deles é possível pesquisar endereços parciais de
criptomoedas, visualizar o histórico de transações de uma determinada
carteira, inclusive se alguma operação foi realizada na deepweb.
Geralmente, esses softwares são superiores aos de código aberto
porque oferecem uma combinação de ferramentas que aumentam o
número de entidades identificadas e melhoram o agrupamento de
endereços.
Não surpreende se as autoridades tiverem o software do Bitcoin
instalado em alguma de suas repartições. O Bitcoin Core é uma carteira
full-node, portanto vai baixar todas as transações já feitas.
Numa investigação ele é muito útil para pesquisar as operações.
O roteiro recomenda a instalação para treinamento e compreensão das
https://bit.ly/anonymix
https://cryptalker.com/bitcoinmixerorg/
https://bit.ly/bitcoinfog
informações como IP e metadados, que podem ser colhidos numa
busca e apreensão.
Depois de instalado, ele abre uma gama de informações
relevantes aos investigadores: IP, endereço e saldo.
Quando qualquer um dos endereços é selecionado, os metadados
sobre a conexão são exibidos. Ao inspecionar a carteira do suspeito, o
nó remoto com o primeiro tempo de conexão pode dar ao investigador
uma ideia de quanto tempo a carteira do suspeito estava aberta.
Exemplo:
Portanto, notamos que o conhecimento das autoridades policiais
sobre o tema aumentou muito. Por mais que ainda não seja tão
profundo, se utilizadas as ferramentas certas, grandes organizações
criminosas serão atingidas e muitas pirâmides derrubadas.
7. PALAVRAS FINAIS
 
Como você pôde ver, o livro procurou fazer um apanhado geral
dos crimes mais comuns envolvendo criptomoedas.
O problema inicial era procurar responder se a prática de enviar
bitcoins ao exterior caracteriza o crime de evasão de divisas.
Com base em diversas pesquisas e operações realizadas foi
possível apresentar algumas conclusões. Uma delas é que o Bitcoin
não é considerado moeda.
A teoria privatista afirma que a moeda teve origem no mercado. A
livre concorrência estipularia um meio de troca aceito por todos e usado
para adquirir outros bens.
Segundo ela, o Bitcoin seria moeda. Entretanto, a adotada pelos
legisladores e bancos centrais é outra: A teoria publicista.
A teoria publicista estabelece que moeda é o meio de pagamento
com origem no estado. É um conceito totalmente absurdo, já que a
moeda nasceu das trocas voluntárias entre as pessoas antes mesmo do
surgimento do Leviatã.
Em relação aos títulos de crédito, notamos algumas
características: Cartularidade, apresentabilidade elei será analisada no segundo; e, se o Bitcoin é divisa ou
não, vai ser abordado no terceiro tópico.
Depois de verificado se enviar bitcons ao exterior é crime ou não,
será analisado o delito mais comum envolvendo criptomoedas: as
pirâmides financeiras.
Os fundadores do esquema se baseiam em um método criado em
1920 que ainda ilude pessoas 100 anos depois. Além de explicar como
funcionam as pirâmides, o livro também ensina o leitor a não cair na
lábia desses faraós.
Para capturar esses criminosos, as forças policiais tiveram que
aprender a lidar com as criptomoedas. Era inevitável. Em 2017, o preço
do bitcoin disparou. A quantidade de pirâmides financeiras também.
Os membros das forças policiais, do Ministério Público e do Poder
Judiciário não sabiam como as criptomoedas funcionavam. Vários
mandados de busca e apreensão foram cumpridos sem sucesso pelo
fato de não haver o conhecimento sobre a tecnologia por parte das
autoridades.
E, para dificultar ainda mais, não existe um órgão central na rede
Blockchain para cumprir a ordem. Para quem está acostumado com
bloqueios patrimoniais feitos com auxílio do BacenJud (contas
bancárias e investimentos) e Renajud (veículos), mandar congelar
criptomoedas era algo extremamente novo e chocante.
Era chocante porque as autoridades não sabiam como a
tecnologia funcionava. As decisões são tomadas com base no consenso
de quem participa da rede. Nela não existe poder central e nenhum
membro da rede obedece ao estado.
Para entender como funciona e poder investigar os crimes que
envolvem criptomoedas, foi elaborado em 2019 o “Roteiro de Boas
Práticas de Investigações em Criptoativos”.
Essas práticas vão nortear a fase investigativa e processual.
Afinal, o objetivo é tornar qualquer indício em prova para que o suspeito
seja transformado em réu e posteriormente condenado.
O procedimento investigativo vai levar em consideração certas
informações e aplicativos específicos relacionados às criptomoedas. Por
exemplo, se o indivíduo possuir em seus dispositivos eletrônicos o
navegador TOR ou qualquer software de VPN, ele será considerado
suspeito, porque tais aplicativos são indícios de que operações são
realizadas na criptoeconomia.
Para cada tipo de suspeito, uma ação específica. Se ele for uma
pessoa jurídica, as autoridades vão requisitar informações ao Banco
Central e à CVM sobre a existência de registro e autorização para
operar dentro do país. Além disso, haverá pesquisa na internet e nas
redes sociais para identificar o responsável pela empresa.
Se o suspeito for pessoa física, serão solicitadas ao juiz
autorizações para acessar o dispositivo eletrônico no próprio local e
transferir as criptomoedas para uma wallet controlada pelo estado, por
exemplo.
Caso o suspeito tenha cadastro em corretoras, vários outros
dados serão solicitados para que haja o cruzamento de informações a
fim de tornar o inquérito um relatório mais robusto.
Além disso, o interrogatório será diferenciado. Para cada alegação
do suspeito, será feita uma série de perguntas. Além de tornar a
investigação mais inteligente, especialistas vão procurar vincular a
wallet com o suspeito.
Para realizar esse vínculo, há empresas e softwares que realizam
esse trabalho. Empresas como a Chainalysis prestam estes serviços
especializados para que as autoridades descubram, por exemplo, se a
carteira é de fato do suspeito ou se dela foram transferidos bitcoins para
outra na deepweb.
É com base na apresentação dessas ideias que o autor procura
fazer valer o subtítulo do livro: Como as criptomoedas escancaram o
atraso das leis no Brasil.
É visível que as forças policiais hoje têm um conhecimento
inegável para tentar rastrear os usuários de criptomoedas. Mas,
infelizmente, a polícia usa essas informações para combater crimes
previstos em leis antigas, elaboradas para atingir objetivos que em 2020
são motivos de piada.
Dessa forma, o livro pretende trazer um vasto e inesquecível
conhecimento ao leitor. Com base nas ciências econômicas, contábeis,
jurídicas e da computação, procura-se explicar detalhadamente ao leitor
o que são as criptomoedas e como elas têm impacto na vida de quem
as possui.
Uma parte desse conhecimento está disponível e a outra está em
segredo, restrita a somente algumas autoridades.
Mas, graças a esta obra, você terá acesso de maneira organizada
a este conhecimento e estará apto a negociar, guardar suas
criptomoedas de maneira segura, além de protegê-las tanto dos
criminosos quanto dos diversos autoritários que existem no mundo.
2. O BITCOIN E AS OUTRAS CRIPTOMOEDAS
 
Este capítulo será sobre a definição das criptomoedas. Os
atributos técnicos serão elencados com base nos livros nacionais e
internacionais sobre o tema. Com auxílio do Direito e da Economia, será
discutido se elas são de fato moedas, títulos de crédito, ativos ou bens.
Já no que diz respeito à cobrança de impostos[5], será explicado
não só como a Receita Federal vê as criptomoedas, mas também os
meios usados pelo fisco para rastrear vida do “contribuinte”[6].
Posteriormente, serão detalhadas as operações com bitcoins
baseadas naquelas realizadas pelo autor, além de como guardá-los com
segurança.
E no fim do capítulo, as leis econômicas serão aplicadas para
classificar as transações e explicar o porquê de as pessoas preferirem
manter seu patrimônio em bitcoins a trocá-lo pelas moedas fiduciárias.
 
2.1. O QUE É BITCOIN?
 
Em 2008 o mundo foi assolado pela gigantesca crise do subprime,
decorrente de irresponsabilidades de crédito por parte dos bancos
americanos. Estes atos imprudentes levaram milhares de pessoas
(pobres em sua maioria) a perderem seus imóveis, poupanças e
aposentadorias. O apocalipse financeiro havia chegado.
As instituições financeiras quebraram. Lehman Brothers, o banco
“grande demais para quebrar”, foi à falência junto com outros menores.
Após essa catástrofe e muito diferente dos cidadãos, eles foram salvos
pelo Banco Central Americano, o FED, quando o governo decidiu injetar
liquidez no mercado. Em outras palavras: imprimir mais dinheiro.
Após essa atitude inesperada do Banco Central Americano, a
desconfiança tomou conta das pessoas e da mídia. Alguns meses
depois, um pseudônimo da internet chamado Satoshi Nakamoto
escreveu um curioso white paper e publicou na internet.
O documento, com o nome Bitcoin: a Peer-to-Peer Eletronic Cash
System, criava um meio de pagamento totalmente online, sem a
necessidade dos bancos, e completamente fora do sistema financeiro
tradicional.
Fernando Ulrich, o especialista no Brasil sobre o assunto, define o
Bitcoin como uma forma de dinheiro totalmente digital cujo valor é
determinado pelas pessoas. Além disso, ele afirma que o Bitcoin fará
com o dinheiro o que o e-mail fez com as cartas:
 
Em poucas palavras, o Bitcoin é uma forma de dinheiro,
assim como o real, o dólar ou o euro, com a diferença de ser
puramente digital e não ser emitido por nenhum governo. O
seu valor é determinado livremente pelos indivíduos no
mercado. Para transações online, é a forma ideal de
pagamento, pois é rápido, barato e seguro. Você lembra
como a internet e o e-mail revolucionaram a comunicação?
Antes, para enviar uma mensagem a uma pessoa do outro
lado da Terra, era necessário fazer isso pelos correios. Nada
mais antiquado. Você dependia de um intermediário para,
fisicamente, entregar uma mensagem. Pois é, retornar a
essa realidade é inimaginável. O que o e-mail fez com a
informação, o Bitcoin fará com o dinheiro. Com o Bitcoin
você pode transferir fundos de A para B em qualquer parte
do mundo sem jamais precisar confiar em um terceiro para
essa simples tarefa. É uma tecnologia realmente inovadora.
[…] Em definitivo, o Bitcoin é a maior inovação tecnológica
desde a internet, é revolucionário, sem precedentes e tem o
potencial de mudar o mundo de uma forma jamais vista. À
moeda, ele é o futuro. Ao avanço da liberdade individual, é
uma esperança e uma grata novidade. (ULRICH, 2014,)
 
Aqui se percebe uma previsão esperançosa e surpreendente
comparando o que aexecutabilidade.
O Bitcoin não tem a característica da cartularidade pelo fato de
não ser de papel; também não possui o requisito da apresentabilidade
por ser digital e não existir direito de crédito vinculado a ele; e, por fim,
não apresenta efeito executivo.
Além de não ser um título de crédito, seu preço oscila de acordo
com a vontade do mercado e não está sujeito à legislação cambiária.
 
Ele também não é um ativo financeiro pelo fato de não estar
presente no rol do art. 2º da Lei 6.385/76, além de o mercado de
criptomoedas não ser regulado pela Comissão de Valores Mobiliários.
Entretanto, o Banco Central categorizou o Bitcoin como “ativo não
financeiro produzido, o que implica sua inclusão na conta de bens da
balança de pagamentos”
Evidenciamos que ativo é o conjunto de bens e direitos com a
possibilidade de gerar renda para quem os possui. Devido ao seu
potencial de valorização causado pela escassez, foi mostrado que o
Bitcoin é classificado como um bem, no subgrupo dos ativos não
financeiros.
O Bitcoin é assim considerado porque tem valor econômico e
satisfaz algumas necessidades humanas, como ter um patrimônio
facilmente transportável e inconfiscável, por exemplo.
Pelo que foi apresentado, concluímos que a obra de Nakamoto é
um bem móvel, incorpóreo, substituível, inconsumível, divisível e
altamente comercializável.
Pelo fato de ser comercializado, a Receita procurou observar as
operações que o envolvem. Depois da edição das Instruções
Normativas 1.888/2019, as corretoras e os p2p são obrigados a informar
o Leão quem você é e o quanto negocia.
Entretanto, por mais que haja essa coleta de informações, nem
sempre é exigido o pagamento de tributos. Se você, por exemplo, opera
mensalmente com valores abaixo de R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil
reais), está protegido pela isenção.
Ainda.
Infelizmente, as informações devem ser fornecidas à Receita
Federal. Verificamos que esse banco de dados localizado em uma
instituição central pode e será alvo de hackers. Depois de acessado, os
criminosos virtuais têm o suficiente para localizar, sequestrar e extorquir
quem possua Bitcoins[175].
E esse banco de dados não é preenchido só com dados das
transações com Bitcoin. Basicamente o fisco fica sabendo de tudo o que
você faz que envolva dinheiro.
A cada dia que passa, ao banco de dados do fisco são
acrescentadas mais informações sobre você por meio da Declaração de
Operações com Cartões de Crédito quando você decide usá-lo para
fazer compras. Se você pretende comprar um imóvel, o fisco vai
descobrir por meio da Declaração de Operações Imobiliárias.
Depois de descobrir que o fisco sabe tudo sobre sua vida,
procuramos responder à pergunta “Devo declarar meus Bitcoins? ”
Com o intuito de questionar a moralidade dos impostos,
estimulamos o debate interno na mente do leitor sobre a declaração das
criptomoedas no Imposto de Renda. Afinal, o Fisco já sabe de muita
coisa sobre você. Porém, caso o leitor quisesse declarar, bastava seguir
o guia feito no tópico.
As operações foram muito bem detalhadas. Foi relatado o
processo de compra no Brasil, negociação no exterior, envio e posterior
venda.
Depois de realizado um trade de sucesso, você geralmente
negocia ou guarda seus bitcoins. Ficou evidenciado que os traders
vendem, os Holders procuram acumular, guardando no local mais
seguro de todos: fora da internet, em uma paper wallet.
Como o próprio nome já diz, é uma carteira de papel. Além de ser
segura, foi demonstrado que criá-la é extremamente fácil: basta um
computador livre de pragas virtuais e uma simples conexão com a
internet.
Percebemos que quando uma criptomoeda é enviada de uma
carteira a outra ocorre uma simples transferência, da mesma forma que
trocar um móvel de um cômodo a outro.
Já se for comprada ou vendida ou até mesmo trocada por algo,
ocorre uma transação, como quando negociamos um veículo.
Com o auxílio da ciência econômica, percebemos que se ela for
trocada pelo papel colorido do estado, estaremos diante de uma
transação financeira; se for negociada por outra criptomoeda, o Direito
nos diz que estaremos diante de uma permuta.
Vimos que as criptomoedas são regidas pelas leis do Direito e da
Economia. Uma delas rege não só as transações que envolvem o
Bitcoin, mas toda e qualquer transação que envolva uma ou mais
moedas: A Lei de Gresham. Ela afirma que as pessoas tendem a
guardar a moeda boa e usar a ruim para as suas despesas diárias.
A sua aplicação em relação às criptomoedas é visível quando os
indivíduos realizam suas negociações com o intuito de aumentar seu
patrimônio em Bitcoin. As pessoas preferem não gastar porque sabem
do seu potencial de valorização e a dificuldade de conseguir novos
satoshis.
Já em relação ao crime de Evasão de Divisas, percebemos que
ele está presente na Lei 7.492/86, promulgada em uma época de caos
econômico, repleta de inflação alta e preços tabelados. Nenhum
investidor com bom senso pensaria em colocar seu dinheiro no Brasil e
quem já tivesse investido faria questão de tirá-lo daqui.
Por consequência, o preço das moedas estrangeiras disparava, o
que prejudicava o pagamento da dívida externa do Brasil, contraída em
dólares.
Com o intuito de frear esse aumento, o crime de Evasão de
Divisas foi criado e a norma carinhosamente apelidada de Lei dos
Crimes de Colarinho Branco.
Previsto no artigo 22 da Lei 7.492/86, o crime tem exatamente três
modalidades de Evasão: A operação, o envio e o depósito. A primeira é
a operação de câmbio não autorizada.
Ficou visível a presença do dolo específico no caput quando
vemos a expressão: “com o fim de evadir divisas”.
Em outras palavras: para que o crime exista, o indivíduo deve ter o
objetivo específico de evadir divisas do país.
Já a segunda modalidade aborda a evasão-envio. É aquela
modalidade em que o indivíduo cruza a fronteira do país com dinheiro
em quantidade superior a R$ 10.000,00 (dez mil reais) sem a devida
DPV (Declaração de Porte de Valores), seja saindo do país ou nele
entrando.
Percebemos também que na expressão “a qualquer título” está
presente o dolo genérico, ou seja, o legislador quando criou o crime
nem se importou com a verdadeira intenção do indivíduo.
Inserindo o dolo genérico no texto para englobar as outras
condutas não previstas no caput, notamos que faltou a mínima noção
ao legislador quando decidiu expandir o alcance da norma penal.
Dessa forma, qualquer pessoa que pretenda entrar no país ou
dele sair com valores acima de R$ 10.000,00 (dez mil reais) e sem a
Declaração de Porte de Valores, cometerá a segunda modalidade do
crime.
A terceira modalidade é aquela que prejudica o indivíduo que tem
patrimônio no exterior e não o declara ao Banco Central. Eduardo
Cunha, por exemplo, foi condenado pela prática do crime porque tinha 5
milhões de dólares em um banco Suíço, não informados ao BACEN.
Como já mencionado, o crime deve existir para punir quem ofende
um bem protegido pelo Direito.
O crime de Evasão de Divisas existe para proteger a exação fiscal
e as reservas cambiais do país, mas o livro permitiu concluir de maneira
diferente.
As reservas cambiais fazem referência ao estoque total de
moedas estrangeiras que o país possui. Já a exação fiscal é o controle
que o estado faz do patrimônio tributável, presente no exterior, das
pessoas com domicílio tributário no país.
A exação fiscal, um dos bens tutelados pela Lei 7.492/86, já é
protegido pela Lei dos crimes contra a ordem tributária. Essa extensão
penal demonstra a sanha do estado por arrecadar a ponto de querer
punir com duas leis distintas o mesmo delito fiscal.
Porém, o fato de a Lei 7.492/86 tutelar a exação fiscal do estado
atenta contra os princípios da especialidade e da intervenção mínima.
Ofende o princípio da especialidade porque a exação fiscal já é
protegida pela Lei 8.137/90 e o princípio da intervenção mínima é
desrespeitado porque o estado quer proteger o mesmo bem usando
outra norma.
O mais bizarro é que a Lei dos crimes contra a ordem tributária
exige um requisito para o crime ser configurado:O lançamento
tributário.
O parágrafo único do delito de Evasão de Divisas não faz essa
exigência. Além de não respeitar os princípios penais, ele desconsidera
as garantias do “contribuinte” [176].
Já em relação às reservas cambiais, elas são o estoque de moeda
estrangeira no país. Elas têm influência direta na valorização do Real,
com reflexos nas importações, exportações e na taxa de inflação. Além
disso, quanto maior as reservas de um país, maior sua confiabilidade no
mercado internacional.
Porém, há um pequeno detalhe.
O crime de Evasão de Divisas não impede a lesão às reservas
cambiais, mas sim a ofensa ao seu controle.
A bizarrice continua aqui: Quando um indivíduo atravessa a
fronteira do país com mais de U$D 10.000,00 (dez mil) dólares não
informados às autoridades, ele está praticando o crime.
Já quando o investidor retira do país a quantia USD
1.000.000.000,00 (um bilhão) de dólares devidamente comunicada, ele
não pratica o crime, mas causa uma lesão, matematicamente falando,
cem mil vezes maior às reservas de dólares do país.
Portanto, a lesão às reservas cambiais é uma desculpa para o
estado vigiar o patrimônio das pessoas, ficando explícito que uma
simples função de controle por parte do BACEN se tornou um objeto de
proteção penal. É um completo absurdo porque viola os princípios
penais da subsidiariedade e intervenção mínima.
Esses princípios preveem que o Direito Penal deve ser usado
somente quando os outros ramos do Direito não puderem resolver o
problema.
Assim sendo, em relação ao crime de Evasão de divisas,
percebemos que qualquer ofensa ao controle informacional do BACEN
deve ser abordada na esfera administrativa e não penal.
Em relação ao termo “moeda ou divisa”, vimos que é uma
expressão muito ampla. Depois de uma pesquisa profunda em diversos
dicionários jurídicos e econômicos, concluímos que a palavra
representa a disponibilidade cambial de uma nação, ou seja, o estoque
de moeda estrangeira que um país possui em sua balança comercial.
Portanto, a partir daí já começamos a notar uma incompatibilidade
de enquadramento da prática de negociar bitcoins com a conduta
criminosa, já que a teoria adotada no mundo não considera o Bitcoin
como moeda.
Ficou evidenciado também que, pelo fato de as criptomoedas não
serem moedas, a sua negociação não é uma operação de câmbio.
Câmbio é a troca de um papel colorido estatal por outro. Além
disso, o Bitcoin não é regulado por nenhum Banco Central.
Quando um indivíduo troca Reais, Dólares ou qualquer outra
moeda estatal por criptomoedas, ele realiza uma operação comercial de
mercadorias digitais. Dessa forma, percebemos que negociar bitcoins
não é compatível com a conduta prevista no caput do artigo 22.
O parágrafo único por sua vez prevê: “Incorre na mesma pena
quem, a qualquer título, promove, sem autorização legal, a saída de
moeda ou divisa para o exterior”.
Entretanto, concluímos que a sua aplicabilidade à prática de
enviar criptomoedas ao exterior é impossível por diversos fatos. Vamos
a eles.
O exemplo mais explícito da ocorrência crime de Evasão de
Divisas é quando o indivíduo atravessa a fronteira com mais dinheiro
que o permitido e sem a respectiva Declaração de Porte de Valores, isto
é, a “autorização legal”.
Mas se em vez de dinheiro ele for para outro país com
criptomoedas, o que acontece?
Inicialmente, ficou explícito que a mera revista dos dispositivos
eletrônicos viola as garantias constitucionais da privacidade, da
intimidade e do sigilo das comunicações, além de caracterizar abuso de
autoridade.
Em um outro momento, percebemos que em relação à expressão
“exterior”, a conduta do crime não se aplica à pratica do negociante de
bitcoins, já que a carteira virtual é um mero conjunto de chaves que
permite o acesso às criptomoedas presentes na Blockchain, que por
sua vez fica na internet.
Depois de uma profunda análise nos dicionários etimológicos,
concluímos que exterior significa “aquilo que está fora e é externo, fora
de um limite” que, no caso em análise, é o territorial dos países.
Todos nós sabemos que a internet não reconhece fronteiras. Sites
hospedados na Rússia podem ser acessados de um computador
presente no interior do Paraguai.
A Blockchain funciona da mesma forma: Ela pode ser acessada
de qualquer lugar do planeta.
É impossível promover a saída de um país de algo que fica
“hospedado” na internet. O Bitcoin não sai do Brasil porque ele nunca
esteve aqui. Ele é uma informação computacional com valor monetário
cujo registro fica na Blockchain, ou seja, um bem digital presente na
internet.
Semelhante a esse raciocínio, a evasão-depósito é aquela
prevista na terceira e última parte do parágrafo único: “[...] ou nele
mantiver depósitos não declarados à repartição federal competente”.
Novamente, o conceito de exterior é vital para a existência do crime.
Mesmo o indivíduo podendo transacionar bitcoins nas corretoras
presentes no mundo inteiro, as criptomoedas não se mantêm no
exterior; ficam, como dito anteriormente, na Blockchain que, por sua
vez, fica na internet.
Além disso, o Bitcoin não é considerado divisa.
Após uma pesquisa realizada nos dicionários linguísticos,
econômicos e jurídicos, notamos que o significado da palavra Divisa é
realmente abrangente.
Os dicionários econômicos afirmam que o termo engloba as
moedas estrangeiras, os títulos de crédito e os ativos financeiros.
Já os dicionários linguísticos e jurídicos conceituaram o termo
somente como disponibilidade cambial que o estado possui em países
estrangeiros.
A jurisprudência conceitua o termo de maneira um pouco
abrangente, mas nem tanto assim.
Os TRFs em suas decisões definiram o significado da palavra
divisa de acordo com os dicionários econômicos, incluindo títulos de
crédito e ativos financeiros.
Porém, há uma ressalva em relação ao ouro.
Se o ouro for utilizado para fins de reserva de valor, é divisa
porque é ativo financeiro. Caso seja utilizado em joias e demais
ornamentos como o diamante, será considerado um bem.
Assim como o Bitcoin.
Conforme já visto, o Bitcoin não é moeda, título de crédito e nem
ativo financeiro, restando-lhe ser classificado como um bem. Dessa
forma, ele não pode ser utilizado para a prática do Crime de Evasão de
Divisas.
Mas infelizmente é utilizado por criminosos que aparentam ser
empresários do ramo do Marketing Multinível. Em outras palavras: os
faraós das pirâmides financeiras.
Ficou evidente que a essência do esquema é aquela que foi criada
por Charles Ponzi em 1920: Atrair pessoas oferendo algo curioso com a
promessa de riqueza.
Elas ficam empolgadas com a ideia de participarem do negócio do
século se comprarem uma criptomoeda que rende lucros de 1 a 2% ao
dia.
Esses criminosos usam o Bitcoin para mascarar o esquema
fraudulento que remunera os investidores com o dinheiro de novos
participantes. O topo da pirâmide é mantido com os esforços da base.
Toda essa fraude ganha a credibilidade quando as pessoas
assinam um contrato reconhecido em cartório.
Juridicamente falando, esses contratos são de investimento
coletivo, considerados ativos financeiros pela Lei 6.385/76. Por
consequência, a atividade dessas empresas é regida pela Comissão de
Valores Mobiliários.
Mas essas empresas que oferecem esses contratos nunca têm
autorização da CVM para operar. Os criminosos omitem essa
informação e pouco se importam se o os participantes sabem disso. A
ganância já cegou a vítima.
 
Depois da pesquisa realizada, percebemos que a pena para “obter
ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número
indeterminado de pessoas mediante especulações ou processos
fraudulentos” é de 6 meses a 2 anos. Totalmente desproporcional pelo
dano que o crime causa.
O Delito de pirâmide financeira, está previsto na Lei 1.521/51, uma
norma antiga que deve ser atualizada para não só punir esses
criminosos com mais rigor, mas obriga-los a ressarcir suas vítimas.
Com o intuito de capturar esses delinquentes, os investigadores
aprimoraram suas técnicas. Com participação do GAFI, da EUROPOL eda ENCCLA, em 2019 foi elaborado o Roteiro de Boas Práticas de
Investigações em Criptoativos.
Esse guia policial mostrou o avanço do conhecimento das
autoridades de como funciona a criptoeconomia. É relatado, por
exemplo, como e onde são negociadas e armazenadas as
criptomoedas.
Dessa forma, os investigadores descobriram que elas não ficam
guardadas no dispositivo, mas sim na Blockchain. O software do
dispositivo eletrônico nada mais é que o conjunto de chaves que
permite o acesso a elas.
Em relação aos softwares, há alguns que indicam que o suspeito
possua criptomoedas: Navegador TOR, aplicativos de máquina virtual,
VPN e fator duplo de autenticação.
O procedimento investigativo também se tornou mais moderno e
inteligente. São observadas as informações fiscais, financeiras e de
código aberto do suspeito. A partir do conhecimento desses dados, ele
passa a ter a rotina rastreada.
Caso o suspeito seja uma pessoa jurídica, por exemplo, a ação
policial foca na requisição de informações por parte do BACEN e da
CVM, além dos dados da Unidade de Inteligência Financeira, o COAF.
Também será solicitada a quebra do sigilo bancário com o intuito
de registrar possíveis desvios a pessoas físicas. A suspensão das
atividades empresariais é importante para que a prática de novos
crimes seja evitada.
Vimos que o mandado de busca também é diferenciado: Além do
sequestro e indisponibilidade dos bens, é solicitado ao juiz a apreensão
e a transferência das criptomoedas, no local da busca, para uma
carteira controlada pela polícia.
O interrogatório também mudou. Os agentes possuem novas
técnicas de confronto para cada alegação do suspeito. Caso ele afirme
investidor em mineração de criptomoedas, a polícia exigirá a
apresentação dos custos operacionais do processo, por exemplo.
Se a pirâmide financeira for feita por meio de uma pessoa jurídica,
haverá a procura de informações em bases fiscais, além da quebra de
sigilo bancário.
Por consequência, fica muito mais fácil para as autoridades
capturarem esses delinquentes que surgem a cada dia com o intuito de
iludir as pessoas e tomar o patrimônio delas.
Notamos que no processo investigativo serão utilizados os
serviços de empresas especializadas em rastreio. Verificamos que, por
exemplo, a Elliptic e a Chainalysis auxiliam as autoridades a capturar os
criminosos virtuais.
Percebemos que o cerco aos criminosos está se fechando. Nós
torcemos muito que as autoridades policiais capturem os verdadeiros
bandidos: os piramideiros. Eles sim causam grandes lesões ao
patrimônio das pessoas, além de sujar a imagem das criptomoedas ao
redor do mundo
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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Último acesso
em 10 de novembro de 2019.
 
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compre via otc. Disponível em: https://moneytimes.com.br/nao-vale-a-
pena-comprar-bitcoin-em-exchanges-compre-via-otc/. Último acesso em
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Desembargador Federal Tourinho Neto. DJ: 07/12/2012.
 
TRF-1. Penal: ACR: 200036000033096. Relator: Ministro Mario Cesar
Ribeiro.
 
TRF-2. Penal: ACR: 3131 2002.02.01.002638-5. Relator:
Desembargador Federal Frederico Gueiros. DJ: 10/09/2002.
 
TRF-2. Penal: PROC: 200151015396206. Relator: Liliane Roriz. DJ:
05/07/2006.
 
TRF-3a. Direito Penal e processual penal: HC: 69836 sp 93.03.069836-
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TRF-4. Penal: ACR: 200370000372289. Relator: Eloy Bernst Justo. DE:
23/05/2007.
 
TRF-4. Penal: ACR: 5051606-23.2016.4.04.7000. Relator: Luiz Antonio
Bonat. DE: 10/10/2016.
 
ULRICH, Fernando. Bitcoin: a moeda na era digital. São Paulo: Instituto
Ludwig von Mises, 2014.
 
VILELA, Barbara. Dação em Pagamento. Disponível em:
https://bamandavilela.kusbrasil.com.br/artigos/395664453/dacao-em-
pagamento. Último acesso em 10 de novembro de 2019.
 
WESTERN UNION. Disponível em:
https://www.westernunion.com/br/pt/send-money/app/start. Último
acesso em 10 de novembro de 2019
9. SOBRE O AUTOR
 
 
Bacharel em Direito pela UniversidadeFederal de Santa Catarina. 
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[1] https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf
[2] https://br.cointelegraph.com/news/bitcoin-pizza-guy-laszlo-hanyecz-on-why-
bitcoin-is-still-the-only-flavor-of-crypto-for-him
[3] Sociedade do Livre Mercado, amigo!
[4] “A coisa mais difícil de compreender neste mundo é o imposto de renda”. –
Albert Einstein
[5] “A diferença entre a morte e os impostos é que a morte não piora toda vez que
Congresso se reúne”. – Wil Rogers
[6] “Me arrancam tudo à força e depois me chamam de contribuinte” – Millôr
Fernandes
[7] NAKAMOTO, 2008.
[8] https://www.bitcoinblockhalf.com/.
[9] Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/688769336737497150/
 
[10] https://coinmarketcap.com/all/views/all/
[11] https://www.kraken.com/pt-br/
[12] https://www.bitfinex.com/
[13] https://www.bitstamp.net/
[14] ROTHBARD, 2013.
[15] ROTHBARD, 2013
[16] ROTHBARD, 2013
[17]https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e
politica/noticia/2020/03/23/banco-central-reduz-aliquota-de-compulsorio-sobre-
depositos-a-prazo-de-25percent-para-17percent.ghtml
[18] Lei 8.880/94:
Art. 1º - Fica instituída a Unidade Real de Valor - URV, dotada de curso legal para
servir exclusivamente como padrão de valor monetário de acordo com o disposto
nesta Lei. (BRASIL, 1994)
[19] Art. 1º A partir de 1º de julho de 1994, a unidade do Sistema Monetário
Nacional passa a ser o REAL, que terá curso legal em todo o território nacional.
https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf
https://br.cointelegraph.com/news/bitcoin-pizza-guy-laszlo-hanyecz-on-why-bitcoin-is-still-the-only-flavor-of-crypto-for-him
https://coinmarketcap.com/all/views/all/
https://www.kraken.com/pt-br/
https://www.bitfinex.com/
https://www.bitstamp.net/
https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e%20politica/noticia/2020/03/23/banco-central-reduz-aliquota-de-compulsorio-sobre-depositos-a-prazo-de-25percent-para-17percent.ghtml
(BRASIL, 1994)
[20] Art. 2º São Valores mobiliários sujeitos ao regime desta Lei:
I - as ações, debêntures e bônus de subscrição;
II - os cupons, direitos, recibos de subscrição e certificados de desdobramento
relativos aos valores imobiliários referidos no inciso II;
III - os certificados de depósito de valores mobiliários;
IV - as cédulas de debêntures;
V - as cotas de fundos de investimento em valores mobiliários ou de clubes de
investimento em quaisquer ativos;
VI - as cotas comerciais;
VII - os contratos futuros, de opções e outros derivativos, cujos ativos subjacentes
sejam valores mobiliários;
VIII - outros contratos derivativos, independentemente dos ativos subjacentes;
IX - quando ofertados publicamente, quaisquer outros títulos ou contratos de
investimento coletivo, que gerem direito de participação, de parceria ou de
remuneração, inclusive resultante de prestação de serviços, cujos rendimentos
advêm do esforço do empreendedor ou de terceiros. (BRASIL, 1976)
[21] https://bitvalor.com/.
[22] OLIVEIRA, 2018.
[23] OLIVEIRA, 2018.
[24] OLIVEIRA, 2018.
[25] https://www.tradingview.com/symbols/BTCUSD/?exchange=BITFINEX.
[26] “Tributar as rendas mais altas com uma porcentagem maior de impostos que
as baixas se assemelha a castigar as pessoas por terem trabalhado mais duro e
terem poupado mais que seus vizinhos”. - John Stuart Mill
[27] Lei 8.981/95:
Art. 21. O ganho de capital percebido por pessoa física em decorrência da
alienação de bens e direitos de qualquer natureza sujeita-se à incidência do
imposto sobre a renda, com as seguintes alíquotas:
I - 15% (quinze por cento) sobre a parcela dos ganhos que não ultrapassar R$
5.000.000,00 (cinco milhões de reais)
II - 17,5% (dezessete inteiros e cinco décimos por cento) sobre a parcela dos
ganhos que exceder R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais) e não ultrapassar
R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais)
III - 20% (vinte por cento) sobre a parcela dos ganhos que exceder R$
10.000.000,00 (dez milhões de reais) e não ultrapassar R$ 30.000.000,00 (trinta
milhões de reais)
IV - 22,5% (vinte e dois inteiros e cinco décimos por cento) sobre a parcela dos
ganhos que ultrapassar R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais) (BRASIL, 1995)
[28] Instrução Normativa 1500/2014:
[...]
Art. 10. São isentos ou não se sujeitam ao imposto sobre a renda, os seguintes
rendimentos obtidos na alienação de bens e direitos:
I - ganho de capital auferido na alienação de bens e direitos de pequeno valor,
observado o disposto no § 1º, cujo preço unitário de alienação, no mês em que
esta se realizar, seja igual ou inferior a:
a) R$ 20.000,00 (vinte mil reais), no caso de alienação de ações negociadas no
mercado de balcão; e
b) R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais), nos demais casos; (BRASIL, 2014)
[29] Art. 5º Para fins do disposto nesta Instrução Normativa, considera-se: I -
criptoativo: a representação digital de valor denominada em sua própria unidade
de conta, cujo preço pode ser expresso em moeda soberana local ou estrangeira,
transacionado eletronicamente com a utilização de criptografia e de tecnologias de
registros distribuídos, que pode ser utilizado como forma de investimento,
instrumento de transferência de valores ou acesso a serviços, e que não constitui
moeda de curso legal; (IDEM, Ibidem)
[30] II - exchange de criptoativo: a pessoa jurídica, ainda que não financeira, que
oferece serviços referentes a operações realizadas com criptoativos, inclusive
intermediação, negociação ou custódia, e que pode aceitar quaisquer meios de
pagamento, inclusive outros criptoativos. (IDEM, Ibidem)
[31] Parágrafo único. Incluem-se no conceito de intermediação de operações
realizadas com criptoativos, a disponibilização de ambientes para a realização das
operações de compra e venda de criptoativo realizadas entre os próprios usuários
de seus serviços (IDEM, Ibidem)
[32] § 1º No caso previsto no inciso II do caput, as informações deverão ser
prestadas sempre que o valor mensal das operações, isolado ou conjuntamente,
ultrapassar R$ 30.000,00 (trinta mil reais). (IDEM, Ibidem)
[33] A obrigatoriedade de prestar informações aplica-se à pessoa física ou jurídica
que realizar quaisquer das operações com criptoativos relacionadas a seguir:
I - compra e venda; II - permuta; III - doação; IV - transferência de criptoativo para
a exchange; V - retirada de criptoativo da Exchange; VI - cessão temporária
(aluguel); VII - dação em pagamento; VIII - emissão; e IX - outras operações que
impliquem em transferência de criptoativos. (IDEM, Ibidem)
[34] https://moneytimes.com.br/capitalizacao-do-mercado-do-bitcoin-us-328-
bilhoes-de-dolares/.
[35] https://foxbit.com.br/.
[36] https://www.mercadobitcoin.com.br/.
[37] https://moneytimes.com.br/nao-vale-a-pena-comprar-bitcoin-em-exchanges-
compre-via-otc/.
[38] https://www.binance.com/en/markets.
[39] https://www.bitmex.com/.
[40] https://www.huobi.com/markets.
[41] https://criptoeconomia.com.br/apos-transferencia-da-binance-para-malta-o-
pais-europeu-quer-se-tornar-a-ilha-blockchain/.
[42] https://guiadobitcoin.com.br/bitmex-aluga-o-escritorio-mais-caro-do-mundo/.
[43] https://www.huobi.com/.
[44] https://portaldobitcoin.com/usuario-movimenta-mais-de-r-1-bilhao-em-bitcoin-e-
paga-16-centavos-de-taxa/.
[45]
https://www.blockchain.com/pt/btc/tx/4410c8d14ff9f87ceeed1d65cb58e7c7b2422b
2b7529afc675208ce2ce09ed7d.
[46] https://portaldobitcoin.com/usuario-transfere-r-4-bilhoes-em-bitcoin-em-
apenas-uma-transacao/.
[47] https://www.binance.com/en/lending.[48] https://guiadobitcoin.com.br/investidores-institucionais-comprando-bitcoin/
https://cointimes.com.br/quem-sao-os-investidores-institucionais.
[49] Instrução Normativa 1.888/2019:
Das definições
Art. 5º Para fins do dispositivo nesta Instrução Normativa, considera-se:
I - criptoativo: a representação digital de valor denominada em sua própria unidade
de conta, cujo preço pode ser expresso em moeda soberana local ou estrangeira,
transacionado eletronicamente com a utilização de criptografia e de tecnologias de
registros distribuídos, que pode ser utilizado como forma de investimento,
instrumento de transferência de valores ou acesso a serviços, e que não constitui
moeda de curso legal; e
II - exchange de criptoativo: a pessoa jurídica, ainda que não financeira, que
oferece serviços referentes a operações realizadas com criptoativos, inclusive
intermediação, negociação ou custódia, e que pode aceitar quaisquer meios de
pagamento, inclusive outros criptoativos.
Parágrafo único. Incluem-se no conceito de intermediação de operações
realizadas com criptoativos, a disponibilização de ambientes para a realização das
operações de compra e venda de criptoativo realizadas entre os próprios usuários
de seus serviços. (IDEM, Ibidem)
[50] Art. 9º Sujeitam-se às obrigações referidas nos arts. 10 e 11 as pessoas físicas
e jurídicas que tenham, em caráter permanente ou eventual, como atividade
principal ou acessória, cumulativamente ou não:
XII - as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de luxo ou de alto
valor, intermedeiem a sua comercialização ou exerçam atividades que envolvam
grande volume de recursos em espécie.
[51] Art. 10. As pessoas referidas no art. 9º:
I - identificarão seus clientes e manterão cadastro atualizado, nos termos de
instruções emanadas das autoridades competentes;
II - manterão registro de toda transação em moeda nacional ou estrangeira, títulos
e valores mobiliários, títulos de crédito, metais, ou qualquer ativo passível de ser
convertido em dinheiro, que ultrapassar limite fixado pela autoridade competente e
nos termos de instruções por esta expedidas;
III - deverão adotar políticas, procedimentos e controles internos, compatíveis com
seu porte e volume de operações, que lhes permitam atender ao disposto neste
artigo e no art. 11, na forma disciplinada pelos órgãos competentes;
IV - deverão cadastrar-se e manter seu cadastro atualizado no órgão regulador ou
fiscalizador e, na falta deste, no
Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), na forma e condições por
eles estabelecidas;
V - deverão atender às requisições formuladas pelo Coaf na periodicidade, forma
e condições por ele estabelecidas, cabendo-lhe preservar, nos termos da lei, o
https://guiadobitcoin.com.br/investidores-institucionais-comprando-bitcoin/
sigilo das informações prestadas. (BRASIL, 1998)
[52] https://livecoins.com.br/suposta-lista-com-dados-de-clientes-da-atlas-quantum-
sao-expostos-na-internet/
[53]https://www.blockchain.com/pt/btc/address/12dhPCrG2shYTQtBMFAGiyorV722YYB5zJ.
[54] https://oglobo.globo.com/economia/pesquisa-aponta-que-961-dos-brasileiros-
preferem-pagar-com-dinheiro-em-especie-22900982.
[55] https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-38131182
[56] https://meiobit.com/345160/china-alipay-sistema-de-pagamentos-digitais-da-
alibaba-e-o-lider-do-pais-e-se-torna-tao-ou-mais-presente-do-que-dinheiro-vivo/.
[57] [...] interpretação desta área técnica é de que as moedas digitais não podem
ser qualificada como ativos financeiros, para os efeitos dispostos no artigo 2º, V,
da Instrução CVM nº555/14, e por essa razão, sua aquisição direta pelos fundos
de investimento ali regulamentados não é permitida .
https://www.migalhas.com.br/arquivos/2018/art20180112-25.pdf.
[58] Considerando o crescente interesse dos agentes econômicos (sociedade e
instituições) nas denominadas moedas virtuais, o Banco Central do Brasil alerta
que estas não são emitidas nem garantidas por qualquer autoridade monetária,
por isso não têm garantia de conversão para moedas soberanas, e tampouco são
lastreadas em ativo real de qualquer espécie, ficando todo o risco com os
detentores. Seu valor decorre exclusivamente da confiança conferida pelos
indivíduos ao seu emissor.
[...]
As empresas que negociam ou guardam as chamadas moedas virtuais em nome
dos usuários, pessoas naturais ou jurídicas, não são reguladas, autorizadas ou
supervisionadas pelo Banco Central do Brasil. Não há, no arcabouço legal e
regulatório relacionado com o Sistema Financeiro Nacional, dispositivo específico
sobre moedas virtuais. O Banco Central do Brasil, particularmente, não regula
nem supervisiona operações com moedas virtuais (BRASIL, 2017, grifo nosso).
[59] O Comitê de Estatísticas de Balanço de Pagamentos, órgão consultivo sobre
metodologia das estatísticas do setor externo ao Departamento de Estatísticas do
Fundo Monetário Internacional (FMI), recomendou classificar a compra e venda de
criptoativos (especificamente aqueles para os quais não há emissor) como ativos
não financeiros produzidos, o que implica sua compilação na conta de bens do
balanço de pagamentos. A atividade de mineração de criptomoedas, portanto,
passa a ser tratada como um processo produtivo. A recomendação foi formalizada
no texto Treatment of Crypto Assets in Macroeconomic Statistics. As estatísticas
de exportação e importação dos bens passam, portanto, a incluir as compras e
vendas de criptoativos. O Brasil tem sido importador líquido de criptoativos, o que
tem contribuído para reduzir o superávit comercial. 
https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticassetorexterno.
[60] Art. 356. O credor pode consentir em receber prestação diversa da que lhe é
devida.
De acordo com o artigo 356 do Código Civil, a dação em pagamento se dá com o
consentimento do credor em receber coisa diversa da prestação que lhe é devida.
Por isso, alguns autores a entendem como uma modalidade contratual, mas, na
https://livecoins.com.br/suposta-lista-com-dados-de-clientes-da-atlas-quantum-sao-expostos-na-internet/
https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-38131182
https://meiobit.com/345160/china-alipay-sistema-de-pagamentos-digitais-da-alibaba-e-o-lider-do-pais-e-se-torna-tao-ou-mais-presente-do-que-dinheiro-vivo/
verdade, ela é uma forma indireta de pagamento, já que seu objetivo é extinguir a
obrigação https://bamandavilela.jusbrasil.com.br/artigos/395664453/dacao-em-
pagamento.
[61] Os nós dessa rede que atuam como mineradores validam se há saldo no
endereço pagador e organizam diversas transações em blocos de dados para
registrá-los na rede. Cada bloco de dados é iniciado pela chave criptográfica do
bloco anterior, produzindo um registro sequencial de transações (timestamp) que
não permite alterações nem cancelamentos de transações já registradas.
[62] Criptomoedas alternativas ao Bitcoin, tendo sua tecnologia própria, porém
semelhante à do Bitcoin.
[63]63 https://www.youtube.com/watch?v=4bJ6WBJVYjA&t=4s
[64] https://www.westernunion.com/br/pt/send-money/app/start.
[65] https://moneygram.com.br/como-enviar-dinheiro.
[66] Bitcoin in Uganda, 2:05m. (BITCOINFILM, 2014)
[67] https://portaldobitcoin.com/usuario-movimenta-mais-de-r-1-bilhao-em-bitcoin-e-
paga-16-centavos-de-taxa/.
[68]68 Art. 43. Recusar-se a receber, pelo seu valor, moeda de curso legal no país:
Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis.
[69]69 https://outline.com/jF7Jq6
[70] https://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?frame=1
[71] https://epocanegocios.globo.com/Dinheiro/noticia/2017/10/familia-investe-tudo-
em-bitcoins-para-viver-em-camping-na-holanda.html
[72] https://yolofamilytravel.com/
[73] https://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?frame=1
[74] Lei 7.492/86:
Art. 22. Efetuar operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover
evasão de divisas do País:
Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem
autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver
depósitos não declaradosà repartição federal competente. (BRASIL, 1986) 
[75] LEI 7.492/86 .
[76] Art. 22. Efetuar operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover
evasão de divisas do País:
Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.
[77] Colocando este elemento subjetivo no tipo, o legislador restringiu muito o
campo de repressão penal, pois somente haverá este crime quando o agente tiver
esta intenção especial, de promover a evasão de divisas do país. Vale dizer que,
se a intenção for a de obter vantagem de outra natureza, ou mesmo, pensamos, a
de efetuar um pagamento devido no exterior, em razão de contrato firmado, não se
caracterizará o crime, porque não estará presente a intenção de promover a
evasão de divisas do país. (PIMENTEL, 1987)
https://www.youtube.com/watch?v=4bJ6WBJVYjA&t=4s
https://outline.com/jF7Jq6
https://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?frame=1
https://epocanegocios.globo.com/Dinheiro/noticia/2017/10/familia-investe-tudo-em-bitcoins-para-viver-em-camping-na-holanda.html
https://yolofamilytravel.com/
https://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?frame=1
[78] Art. 65. O ingresso no País e a saída do País de moeda nacional e estrangeira
devem ser realizados exclusivamente por meio de instituição autorizada a operar
no mercado de câmbio, à qual cabe a perfeita identificação do cliente ou do
beneficiário.
§ 1º Excetua-se do disposto no caput deste artigo o porte, em espécie, de valores:
I - quando em moeda nacional, até R$ 10.000,00 (dez mil reais)
II - quando em moeda estrangeira, o equivalente a R$ 10.000,00 (dez mil reais)
III - quando comprovada a sua entrada no País ou sua saída do País, na forma
prevista na regulamentação pertinente.
§ 2º O Banco Central do Brasil, segundo diretrizes do Conselho Monetário
Nacional, regulamentará o disposto neste artigo, dispondo, inclusive, sobre a
forma, os limites e as condições de ingresso no País e saída do País de moeda
nacional e estrangeira.
§ 3º A não observância do contido neste artigo, além das sanções penais previstas
na legislação específica, e após o devido processo legal, acarretará a perda do
valor excedente dos limites referidos no § 1ºdeste artigo, em favor do Tesouro
Nacional. (BRASIL, 1965)
[79] DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. tentativa de evasão de moeda
estrangeira. 1. incorre no tipo previsto pelo art. 22, parágrafo único, da lei n.
7.492/86, a pessoa que tenta promover, sem autorização legal, a saída de moeda
estrangeira para o exterior. 2. se o paciente não submete espontaneamente a
moeda estrangeira a verificação e fiscalização da autoridade competente, vindo a
sobrevir a descoberta do numerário em virtude de revista pessoal que lhe e
imposta, caracteriza-se, em tese, o indigitado delito de tentativa de evasão de
moeda estrangeira. 3. ordem de “habeas corpus” denegada. (TRFf-3a - HC: 69836
SP 93.03.069836-3, relator: juiz Souza Pires, data de julgamento: 14/09/1993).
[80] Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer
consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com
determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
 
[81] PENAL. CRIME DE EVASÃO DE DIVISAS. TENTATIVA. ERRO DE
PROIBIÇÃO ESCUSÁVEL. 1. Não há dúvidas de que a conduta imputada ao réu,
consistente em tentar deixar o país portando moeda estrangeira, sem a prestação
de DPV, em montante superior ao previsto na legislação de regência, constitui em
tese o crime de evasão de divisas 2. Materialidade comprovada pelo Auto de
Apresentação e Apreensão. A Autoria é incontroversa, tendo restado patente o
dolo genérico necessário à configuração do tipo penal 3. O erro de proibição,
causa que pode impossibilitar a compreensão da ilicitude, somente isenta de pena
quando inevitável. Tem-se por escusável o erro se o agente atua ou se omite sem
a consciência da ilicitude do fato, quando não lhe era possível, nas circunstâncias,
ter ou atingir esse conhecimento 4. Na esteira da doutrina capitaneada por
Zaffaroni e Pierangelli, não há regras fixas a determinar a evitabilidade do erro,
devendo este ser aferido caso a caso, dadas as circunstâncias do caso concreto,
especialmente as de caráter pessoal 5. Cuidam os autos do crime de evasão de
divisas, tema adstrito ao Direito Penal Econômico que, excluídas aquelas pessoas
habituadas a lidar com o mercado financeiro em geral, as demais, integrantes do
corpo social, têm dificuldade em internalizar as regras de comportamento que lhes
são impingidas, aliada a circunstância de se tratar de estrangeiro não habituado a
lidar com esse ramo específico 6. Caracterizado o erro de proibição escusável,
não merece reprovação a conduta perpetrada. 7. Apelação improvida (TRF- 2a
REGIÃO, 2a TURMA ESPECIALIZADA, REL. LILIANE RORIZ, PROC.
200151015396206, 05/07/2006).
[82] PENAL DESCLASSIFICAÇÃO DO DELITO DO ART. 12 C/C O ART. 18, DA
LEI Nº 6368/76, PARA O DO ART. 16 DO MESMO DIPLOMA LEGAL.CÚMULO
COM O DELITO DE TENTATIVA DE EVASÃO DE DIVISAS. DOLO GENRICO.
INEXISTÊNCIA DE ERRO DE PROIBIÇÃO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA
FEDERAL POR CONEXÃO. SÚMULA 122 DO STJ. 1. Comprovada a semi-
imputabilidade do acusado por crime de tráfico internacional de drogas através do
laudo de exame de dependência toxicológica e inexistindo provas nos autos de
que a quantidade de cocaína encontrada em poder do acusado se destinasse à
mercância ou ao consumo de terceiros, há que ser desclassificado o delito para o
previsto no art. 16 da Lei nº 6368/76, ainda que se trate de quase quinhentas
gramas da substância, por ser possível a um viciado, no período de dois a três
meses, consumir tal quantidade de entorpecente. 2. O delito previsto no caput do
art. 22 da Lei nº 7492/86 exige o dolo específico, mas, em seu parágrafo único,
primeira parte, contenta-se o legislador com o dolo genérico. 3. Improcede a
alegação de erro de proibição se ao acusado era possível conhecer o caráter
ilícito de sua conduta, de saber que ao se retirar do território nacional portando
soma razoável de numerário, ainda que não vultuosa, deveria se reportar às
autoridades fazendárias. 4. Havendo o cúmulo do crime de porte de substância
entorpecente com o de tentativa de evasão de divisas, a competência para o
julgamento é da Justiça Federal por conexão. Inteligência da Súmula nº 122 do
STJ. (TRF-2 - ACR: 3131 2002.02.01.002638-5, Relator: Desembargador Federal
FREDERICO GUEIROS, Data de Julgamento: 10/09/2002)
[83] “Confiar nosso dinheiro ao governo é como confiar nosso pássaro a um gato
faminto”– Hans Sennholz
[84] NUNES, 2017.
[85] Carta Circular 3225/2004:
Art. 1º – Estabelecer que as pessoas físicas ou jurídicas residentes, domiciliaras
ou com sede no País, assim conceituadas na legislação tributária, devem informar
ao Banco Central do Brasil, no período de 10 de março de 2004 a 31 de maio de
2004, os valores de qualquer natureza, os ativos em moeda e os bens e direitos
detidos fora do território nacional, na data-base de 31 de dezembro de 2003, por
meio de declaração disponível na página do Banco Central do Brasil na internet,
ednereço www.bcb.gov.br.
Art. 2º – As informações solicitadas estão relacionadas às modalidades abaixo
indicadas, podendo ser agrupadas quando forem coincidentes o país, a moeda, o
tipo e a característica do ativo:
I - depósito no exterior;
II – empréstimo em moeda;
III – financiamento;
http://www.bcb.gov.br/
IV – leasing e arrendamento financeiro;
V – investimento direto;
VI – investimento em porfólio;
VII – aplicação em derivativos financeiros e
VIII outros investimentos, incluindo imóveis e outros bens.
Art. 3º – Os detentores de ativos, cujos valores somados, em 31 de dezembro de
2003, totalizem montante inferior a USD 100.000,00 (cem mil dólares dos Estados
Unidos), ou seu equivalente em outras moedas, estão dispensados de prestar a
declaração que trata esta Circular. (BRASIL, 2004)
[86] O tipo subjetivo está representadopelo dolo, consubstanciado na consciência
e vontade de efetuar operação de câmbio não autorizada, e pelo elemento
subjetivo especial do tipo, a saber: com o fim de promover evasão de divisas do
País (caput). Entretanto, quando se refere ao parágrafo único, está presente
apenas o dolo, isto é, a consciência e a vontade de promover, sem autorização
legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, a qualquer título, isto é, não
importa qual o motivo impeliu o agente a atuar, ou nele manter depósitos não
declarados à repartição federal competente. (PRADO, 2014)
[87] http://www.pf.gov.br/imprensa/noticias/2019/04/pf-prende-4-pessoas-por-
evasao-de-divisas
[88] https://www.conjur.com.br/2017-dez-12/battisti-torna-reu-evasao-divisas-usar-
tornozeleira
[89] PENAL. EVASÃO DE DIVISAS. TENTATIVA O crime de promover, sem
autorização, a saída de moeda ou divisa para o exterior (art. 22, parágrafo único,
da Lei 7.492/86: pressupõe a efetiva saída de cheques sacados contra bancos
nacionais do País. Se o agente é preso ainda no território nacional de posse de
numerário superior ao permitido pelo art. 65, II, da Lei 9.069/95, ainda que sustado
após a apreensão, impõe-se o reconhecimento da tentativa (art. 14, parágrafo
único, do CP). Precedentes (TRF- 4ª Região, ACR 200370000372289, 8ª Turma,
Rel. Eloy Bernst Justo, D.E 23/05/2007)
[90] NUNES, 2017.
[91] Ainda segundo a denúncia, em 11/04/2014, da conta em nome da Orion, foram
efetuadas duas transferências no montante de 970.261,34 francos suíços e
de22.608,37 euros para conta 4548.6752 no Banco Julius Baer (sucessor do
Merrill Lynch), em Genebra, Suíça, em nome da Netherton Investments PTE. Ltd.,
constituída em Singapura. A conta em nome da Netherton também seria, segundo
a denúncia, controlada pelo acusado Eduardo Cosentino da Cunha.USD
165.000,00 teriam sido transferidos, em 04/08/2014, da conta em nome da
Netherton para conta de nº 4547.8512, denominada de Köpek, mantida, na
mesma instituição financeira, e que seria utilizada por Cláudia Cordeiro da Cruz,
esposa de Eduardo Cosentino da Cunha. Os valores na conta Köpek teriam sido
utilizados para o pagamento de despesas de cartão de crédito do acusado e de
seus familiares, no montante de USD 156.275,49, entre 05/08/2014 a 02/02/2015.
Segundo a denúncia, o recebimento da vantagem indevida em conta secreta no
exterior, as transferências sucessivas a outras contas secretas e a ocultação
dessas contas e valores das autoridades brasileiras configurariam crimes de
lavagem de dinheiro.
http://www.pf.gov.br/imprensa/noticias/2019/04/pf-prende-4-pessoas-por-evasao-de-divisas
https://www.conjur.com.br/2017-dez-12/battisti-torna-reu-evasao-divisas-usar-tornozeleira
A denúncia também imputa a Eduardo Cosentino da Cunha o crime de evasão
fraudulenta de divisas, do art. 22, parágrafo único, da Lei nº 7.492/1986, já que o
acusado não informou a existência das contas e dos ativos nela mantidos, entre
31/12/2007 a 31/12/2014, ao Banco Central do Brasil e à Receita Federal.
Reportase a denúncia às contas em nome da Orion, da Netherton e ainda em
nome da Triumph SP, de nº 466857, também mantida no Banco Julius Baer
(sucessor do Merril Lynch Bank), em Genebra, na Suiça, cujo beneficiário final
seria Eduardo Cosentino da Cunha.
[...]
263. Essa é uma conta aberta com os recursos do Sr. Eduardo Cunha.
Ele atualmente mantém cinco milhões de dólares em quatro contas no Merril
Lynch (as principais sendo Orion e Triumph). Kopek é uma conta para cartão de
crédito do Sr. Cunha e esposa. Netherton é para os novos negócios (pouco
financiados até o momento), espera mais rendas para investimentos em 2012
quando os negócios de energia se desenvolverem.
264. Não há nenhum documento avaliando o trust Orion como algo independente do cliente
Eduardo Cosentino da Cunha.
265. A conclusão óbvia é que Eduardo Cosentino da Cunha é o titular, controlador
e beneficiário da conta em nome do trust Orion, apesar da figura jurídica utilizada
para a abertura da conta.
[92] https://exame.abril.com.br/economia/justica-abre-acao-contra-cotista-do-
opportunity-fund/
[93] https://www.conjur.com.br/dl/aplicacao-fundo-exterior-equivale.pdf
 
[94] Divícia sf. ‘riqueza’ XVI. Do Lat. Divitia -ae, por divitiae – arum de dives -itis
‘rico, opulento’. (CUNHA, 1982)
[95] Divisa s.f (sXV) emblema simbólico (animal, planta etc) acompanhado ou não
de um lema, usado em brasões; símbolo. A figura ou o corpo deste emblema. A
sentença curta que acompanha um emblema e expressa uma atitude. Qualquer
sentença breve (de partido político, clube, time desportivo etc) usado para
caracterizar um ideal. Insígnia de posto ou patente dos militares usado em suas
fardas. Traço ou linha divisória entre espaço e propriedades. Sinal feito a ferro
quente sobre o lombo dos animais para marcar a propriedade de seu criador.
Divisas ECON letras, cheques, ordens de pagamento e etc, convertíveis em
moedas estrangeiras, ou as próprias moedas usadas em transações comerciais
(HOUAISS, 2007)
[96] (NUNES, 2017).
[97] Podem-se definir os bens jurídicos como circunstâncias reais dadas ou
finalidades necessárias para uma vida segura e livre, que garanta a todos os
direitos humanos e civis de cada um na sociedade ou para o funcionamento de um
sistema estatal que se baseia nestes objetivos. (ROXIN, 2006)
[98] Constata-se ser duplo o objeto da tutela contemplado por este artigo 22.
Primeiramente, o da preservação das reservas cambiais do País. Igualmente, a
norma tutela a exação fiscal do Estado, ou seja, o controle sobre depósitos em
moedas estrangeiras mantidos clandestinamente no exterior, com origem em
recursos financeiros tributáveis no País, mas não tributados. PERUCHIN, 2006.
[99] (TÓRTIMA, 2002)
https://exame.abril.com.br/economia/justica-abre-acao-contra-cotista-do-opportunity-fund/
https://www.conjur.com.br/dl/aplicacao-fundo-exterior-equivale.pdf
[100] Art. 1° Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou
contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas:
I - omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias;
II - fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo
operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal;
III - falsificar ou alterar nota fiscal, fatura, duplicata, nota de venda, ou qualquer
outro documento relativo à operação tributável;
IV - elaborar, distribuir, fornecer, emitir ou utilizar documento que saiba ou deva
saber falso ou inexato;
V - negar ou deixar de fornecer, quando obrigatório, nota fiscal ou documento
equivalente, relativa a venda de mercadoria ou prestação de serviço, efetivamente
realizada, ou fornecê-la em desacordo com a legislação.
Pena - reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.
Parágrafo único. A falta de atendimento da exigência da autoridade, no prazo de
10 (dez) dias, que poderá ser convertido em horas em razão da maior ou menor
complexidade da matéria ou da dificuldade quanto ao atendimento da exigência,
caracteriza a infração prevista no inciso V. (BRASIL, 1990)
[101] “O poder de tributar é o poder de destruir” – John Marshall
[102] PENAL. CRIME CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL. EVASÃO
DE MOEDAS OU DIVIDAS. (ART. 22, PARÁGRAFO ÚNICO, DA LEI Nº 7.492/86).
TENTATIVA DE REMESSA DE DINHEIRO PARA O EXTERIOR. AUSÊNCIA DE
AUTORIZAÇÃO LEGAL. INAPLICABILIDADE DO PRINCÍPIO DA
INSIGNIFICÂNCIA. ERRO DE PROIBIÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. SENTENÇA
CONDENATÓRIA MANTIDA.
1. A proibição de "evasão de moedas (numerário nacional ou estrangeira) ou
divisas (ouro, créditos etc)" sem a devida autorização tem por objetividade jurídica
garantir que o Brasil tenha moeda ou divisa estrangeira para atender aos seus
compromissos de pagamento de importações, de execução de contratos de
câmbio e da dívida externa. Busca, também, evitar a lavagem de dinheiro, ou seja,
a legitimação no sistema financeiro nacional do dinheiro ganho ilicitamente,
especialmente pelas organizações criminosas.
2. Não incidência do princípio da insignificância ao crime em comento,praticado
contra o Sistema Financeiro, eis que seu objeto jurídico não é material e
patrimonial, mas garantir que o Brasil tenha moeda ou divisa estrangeira para
atender aos seus compromissos de pagamento de importações, de execução de
contratos de câmbio e da dívida externa. Busca, também, evitar a lavagem de
dinheiro, ou seja, a legitimação no sistema financeiro nacional do dinheiro ganho
ilicitamente, especialmente pelas organizações criminosas.
3. Restou comprovado que os acusados objetivavam remeter para o exterior
vultosa quantia de dinheiro, sem nenhuma autorização ou comunicação às
autoridades competentes, devendo ser mantida a sentença que os condenou pela
prática do crime previsto no art. 22, parágrafo único, da Lei 7.492/86 c/c o art. 14
do Código Penal.
3. Não ocorrência de erro de proibição quando restar suficientemente provado nos
autos que os réus tinham plena consciência da ilicitude de suas condutas.
4. A redução da pena, em razão da tentativa, deve se dar no grau mínimo, tendo
em vista que os atos praticados pelos acusados ficaram bem perto da
consumação do delito, eis que foram presos em flagrante quando tentavam
remeter para o exterior vultosa quantia de dinheiro, sem nenhuma autorização ou
comunicação às autoridades competentes”.
(ACR 0005732-43.2009.4.01.3601/MT, Rel. DESEMBARGADOR FEDERAL
TOURINHO NETO, TERCEIRA TURMA, e-DJF1 p.532 de 07/12/2012)
[103] A alta relevância das reservas cambiais influi diretamente na confiabilidade e
desenvolvimento do Sistema Financeiro Nacional. A mesma importância é
conferida aos Sistemas Financeiro de países em desenvolvimento, por possuírem
um grau de instabilidade maior em suas divisas. Por essa razão o permanente
cuidado em garantir seu estável funcionamento, diante das consequências
avassaladoras que a sua má administração e seu descontrole podem acarretar a
um sem número de nações e pessoas.
[104] https://pt.global-rates.com/taxa-de-juros/bancos-centrais/banco-central-
estados-unidos/juros-fed.aspx.
[105] https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/taxaselic.
[106] Atualmente, com a alta taxa de juros designada pelo Conselho de Política
Monetária – COPOM –, existe uma alta disponibilidade de moeda estrangeira no
País, fazendo com que haja uma valorização na moeda nacional, por conta da
busca ao sistema financeiro nacional, por parte dos investidores estrangeiros, em
negociações com o Brasil. Essa política de incentivo ao ingresso do capital
estrangeiro é vista como uma faca de dois gumes: por um lado, a moeda nacional
fica fortificada e a inflação controlada. Por outro lado, prejudica a exportação de
produtos nacionais, deixa o empréstimo interno com um custo muito elevado, e
produz conseqüências sociais avassaladoras, como fechamento de unidades
fabris e demissões em massa. Esse cenário une-se ao que expomos acerca da
globalização (PERUCHIN, 2006)
[107] Como conseqüência da adoção dessa política monetária, de sufocamento à
produção nacional, à importação e exportação, o próprio Estado impulsiona aos
usuários do mercado financeiro a utilização da via alternativa, qual seja, o
mercado de câmbio paralelo (também praticada por meio do Dólar cabo, que é a
operação executada por “doleiros”, na qual, por exemplo, recebem os valores
referente à compra aqui no Brasil e determinam o respectivo pagamento no
exterior, através de uma conta de livre movimentação que possuem em alguma
instituição financeira no exterior, geralmente nos denominados paraísos fiscais).
Através desses meios, as negociações seguem à revelia do rígido controle fiscal
do Estado. Sua utilização, em alguns casos, pode configurar a busca pela
sobrevivência nos negócios.
[108] Percebe-se que no agir delituoso do agente que pratica, em tese, o delito de
evasão de divisas, esse muitas vezes age em flagrante Estado de Necessidade,
pois esta seria sua única forma de sobrevivência à voracidade mercadológica e
fiscal. Igualmente, sugere-se que, no mesmo agir, pode ser configurado uma
excludente de culpabilidade, pela inexigibilidade de outra conduta. Nesse caso, ao
agente não havia outra maneira de agir. Somente lhe era facultado agir da forma
como efetivamente procedeu, sob pena de ter que interromper suas atividades.
Por certo, o dano do fechamento de sua empresa, por exemplo, poderia ser muito
maior do que o causado por uma eventual sonegação fiscal. PERUCHIN, 2006.
[109] as reservas cambiais nacionais serem o principal – e cremos, o único – objeto
a cuja tutela estaria voltado esse artigo 22, conclui-se, por óbvio, que as condutas
que não prejudiquem ou ameacem sua integridade encontram-se fora da coibição
da norma penal, por plena ausência de lesividade
[110] Nessa obra, o autor exulta a importância dos valores e princípios
constitucionais na experiência cultural e política do direito penal. Acerca da
lesividade, comenta que “o princípio de lesividade do delito, pelo qual o fato não
pode constituir ilícito se não for ofensivo (lesivo ou simplesmente perigoso) do
bem jurídico tutelado, responde a uma clara exigência de delimitação do direito
penal. E isso a dois níveis. A nível legislativo, o princípio da lesividade (ou
ofensividade), enquanto dotado de natureza constitucional, deve impedir o
legislador de configurar tipos penais que já hajam sido construídos, ‘in abstracto’,
como fatos ‘indiferentes’ e preexistentes à norma. Do ponto de vista, pois, do valor
e dos interesses sociais, já foram consagrados como ‘inofensivos’. A nível
jurisdicional-aplicativo, a integral atuação do ‘princípio da lesividade’ deve
comportar, para o juiz, o dever de excluir a subsistência do crime quando o fato,
no mais, em tudo se apresenta na conformidade do tipo, mas, ainda assim,
concretamente é inofensivo ao bem jurídico tutelado pela norma”.
[111] (SANDRONI, 2002).
[112] Os argumentos favoráveis à descriminalização utilizam a interpretação sobre
a conduta de evasão de divisas à luz dos princípios da subsidiariedade e da
intervenção mínima do Direito Penal. Nesse sentido, afastam a incidência da tutela
penal, aduzindo haver outras maneiras de se proteger as reservas cambiais, como
a adoção de: políticas econômicas diligentes; estancamento da fuga de capitais;
planos estratégicos de investimentos; políticas estáveis de juros e inflação;
políticas de atração do capital estrangeiro não-especulativo; incentivo à política de
exportações; maior controle nas informações de saídas de divisas; cooperação
entre os órgãos fiscalizadores bancários nacionais e internacionais, etc.
(PERUCHIN, 2006.)
[113] (PERUCHIN, 2006).
[114] (TAVARES, 2003.)
[115] A evasão de divisas, portanto, é a remessa de títulos ou ativos financeiros, de
maneira clandestina, retirando-os da contabilidade e controle exercidos pelo
BACEN. Essa remessa efetua-se por meio do repasse de divisas que integram as
posições das instituições financeiras públicas ou privadas residentes no País, não
obedecendo as regras administrativas editadas pelo BACEN, com a justificativa do
abalo às reserva cambiais nacionais, se for alto o volume dos valores envolvidos.
Essa operação ocorre, por exemplo, através da transferência de divisas por uma
pessoa física ou jurídica (ou instituição financeira pública ou privada com domicílio
fiscal no País, para uma pessoa física ou jurídica com domicílio fiscal fora do
Brasil. Isso acarretaria diminuição dos estoques de moedas estrangeiras de que
dispõe a nação.
[116] (PERUCHIN, 2006).
[117] O primeiro passo, firmemente dado por todos os governos relativamente
grandes, foi o de tomar para si próprio o monopólio absoluto da cunhagem. Este
era o meio indispensável para se controlar a oferta de moedas. A figura do rei ou
do nobre era estampada nas moedas e, em seguida, propagava-se o mito de que
a cunhagem era uma prerrogativa essencial para a “soberania” real ou baronial. O
monopólio da cunhagem permitia ao governo oferecer quaisquer denominações
de moeda que ele, e não o público, desejasse. Como resultado, a variedade de
moedas no mercado foi forçosamente reduzida. (ROTHBARD, 2013.)
[118] No dia 15 de agosto de1971, ao mesmo tempo em que impunha um
congelamento de preços e salários em uma vã tentativa de controlar a explosiva
inflação de preços, o presidente Nixon impôs um estrondoso fim ao sistema de
Bretton Woods. Como os bancos centrais europeus estavam ameaçando restituir
em ouro o máximo possível de seus inchados estoques de dólares, Nixon acabou
completamente com o que restava do padrão-ouro. Pela primeira vez na história
americana, o dólar era totalmente fiduciário, sem qualquer lastro em ouro. Mesmo
aquele tênue elo com o ouro, mantido desde 1933, estava agora definitivamente
cortado. O mundo estava novamente mergulhado no sistema fiduciário dos anos
1930, só que com um agravante: nem mesmo o dólar possuía mais qualquer
ligação com o ouro. Novamente surgia no horizonte o temível espectro dos blocos
monetários, das desvalorizações artificiais, dos conflitos econômicos e do colapso
do comércio internacional e do investimento, com a depressão mundial que tais
atitudes gerariam. (ROTHBARD, 2013.)
[119] https://www.conjur.com.br/dl/condenacao-eduardo-cunha-13-vara.pdf
[120] https://forbes.com.br/negocios/2018/01/8-estabelecimentos-brasileiros-que-
aceitam-bitcoin/#foto1
[121] [...]
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem
autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver
depósitos não declarados à repartição federal competente. (BRASIL, 1986)
[122] Requisito motivador da busca pessoal nas ações policiais.
[123] Art. 5º XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações
telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por
ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de
investigação criminal ou instrução processual penal; 
[124] Art. 240.A busca será domiciliar ou pessoal.
§1oProceder-se-á à busca domiciliar, quando fundadas razões a autorizarem,
para:
a) prender criminosos;
b) apreender coisas achadas ou obtidas por meios criminosos;
c) apreender instrumentos de falsificação ou de contrafação e objetos falsificados
ou contrafeitos;
d) apreender armas e munições, instrumentos utilizados na prática de crime ou
destinados a fim delituoso;
e) descobrir objetos necessários à prova de infração ou à defesa do réu;
f) apreender cartas, abertas ou não, destinadas ao acusado ou em seu poder,
quando haja suspeita de que o conhecimento do seu conteúdo possa ser útil à
elucidação do fato;
g) apreender pessoas vítimas de crimes;
h) colher qualquer elemento de convicção.
https://www.conjur.com.br/dl/condenacao-eduardo-cunha-13-vara.pdf
https://forbes.com.br/negocios/2018/01/8-estabelecimentos-brasileiros-que-aceitam-bitcoin/#foto1
§ 2o Proceder-se-á à busca pessoal quando houver fundada suspeita de que
alguém oculte consigo arma proibida ou objetos mencionados nas letrasb a f e
letra h do parágrafo anterior. (BRASIL, 1941)
[125] PENAL E PROCESSO PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS.
TRÁFICO DE DROGAS. APARELHO TELEFÔNICO APREENDIDO. VISTORIA
REALIZADA PELA AUTORIDADE POLICIAL SEM AUTORIZAÇÃO JUDICIAL OU
DO PRÓPRIO INVESTIGADO. VERIFICAÇÃO DE MENSAGENS ARQUIVADAS.
VIOLAÇÃO DA INTIMIDADE. PROVA ILÍCITA. ART. 157 DO CPP. RECURSO EM
HABEAS CORPUS PROVIDO. 1. Embora a situação retratada nos autos não
esteja protegida pela Lei n. 9.296/1996 nem pela Lei n. 12.965/2014, haja vista
não se tratar de quebra sigilo telefônico por meio de interceptação telefônica, ou
seja, embora não se trate violação da garantia de inviolabilidade das
comunicações, prevista no art. 5º, inciso XII, da , houve sim violação dos dados
armazenados no celular do recorrente (mensagens de texto arquivadas). 2. No
caso, deveria a autoridade policial, após a apreensão do telefone, ter requerido
judicialmente a quebra do sigilo dos dados armazenados, haja vista a garantia,
igualmente constitucional, à inviolabilidade da intimidade e da vida privada,
prevista no art. 5º, inciso X, da .Dessa forma, a análise dos dados telefônicos
constante do aparelho do recorrente, sem sua prévia autorização ou de prévia
autorização judicial devidamente motivada, revela a ilicitude da prova, nos termos
do art. 157 do CPP. 3. Recurso em habeas corpus provido, para reconhecer a
ilicitude da colheita de dados do aparelho telefônico do recorrente, sem
autorização judicial, devendo mencionadas provas, bem como as derivadas,
serem desentranhadas dos autos.
[126] Art. 33. Exigir informação ou cumprimento de obrigação, inclusive o dever de
fazer ou de não fazer, sem expresso amparo legal:
Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.
Lei nº 13.869 (BRASIL, 1965)
[127] Exterior Adj. 1 que está por fora ou da parte de fora. Que está fora de nós.
Concernente a países estrangeiros. Superficial. A parte externa. Aspecto,
aparência. As nações estrangeiras. Negócio exterior. Parte do universo não
incluída no sistema. Conjunto dos pontos exteriores a um conjunto. (AURÉLIO,
2003)
[128] Da parte ou do lado de fora. Externo, superficial. Que se manifesta ou se
produz visível ou publicamente. Relativo às nações estrangeiras, o estrangeiro.
Aparência, aspecto e exterioridade (MICHAELIS, 1998)
[129] EXTERIOR: 1 Direito internacional público. a) Estrangeiro; b) relativo aos
países estrangeiros. 2 Filosofia do Direito. Diz-se do conjunto de objetos sensíveis
que não são apresentados pela percepção (DINIZ, 2010)
[130] “O Estado se interessa pelas pessoas da mesma forma que as pulgas se
interessam pelos cães” – P. J. O’Rouke
[131] Considerando o momento histórico da edição da Lei 7.492/86, marcado por
gravíssimo desequilíbrio do nossa balança de pagamentos, pode-se considerar
que a ênfase do escopo da tutela da norma abrangida pelo art. 22 no seu
parágrafo único é a preservação das reservas cambiais do país, com todos os
seus reflexos no equilíbrio do Sistema Financeiro Nacional, em particular, e da
própria economia como um todo. Quando a última parte do disposto no parágrafo
único, que trata da manutenção clandestina de ativos no exterior, a preocupação
do legislador está também voltada a proteção do patrimônio fiscal, ameaçado pela
incógnita manutenção no exterior de recursos amealhados através de ganhos
tributáveis, mas não efetivamente oferecidos à tributação. Como já observamos
alhures, a questão das reservas cambiais como bem jurídico resguardado pelas
normas penais contidas no art. 22 e seu parágrafo único, deve se achar no centro
de qualquer discussão que se proponha a uma correta interpretação no seu
sentido teleológico.
[132] (TÓRTIMA, 2006,)
[133] http://bit.ly/ContabilidadeBC
[134] 1 . Por serem digitais, os criptoativos não tem registro aduaneiro, mas as
compras e vendas por residentes no Brasil implicam a celebração de contratos de
câmbio2 . As estatísticas de exportação e importação de bens passam, portanto, a
incluir as compras e vendas de criptoativos. O Brasil tem sido importador líquido
de criptoativos, o que tem contribuído para reduzir o superávit comercial na conta
de bens do balanço de pagamentos.
[135] https://www.youtube.com/watch?v=4bJ6WBJVYjA&t=194s
[136] É difícil, mas não impossível. As autoridades policiais e fazendárias têm hoje
conhecimento profundo de como as criptomoedas funcionam. Para mais detalhes,
veja o capítulo 7.
[137] Não difere dessa estrutura a sanção imposta a quem deixa de comunicar à
receita federal o transporte de dinheiro para fora do país, além de certo limite.
Veja-se que a sanção é aplicável, independentemente de que uma outra pessoa o
tenha feito, mas com relação a quantias infinitamente superiores, quer dizer, sem
levar em consideração o fato de que quem transporta dez mil Dólares (sic.) e não
faz a comunicação deste transporte à receita federal causa, no fundo, muito
menos prejuízo do que aquele que transporta um bilhão de Dólares, mas
comunica o transporte desta quantia. O que está em jogo, neste caso, não é o
patrimônio público, somente a função de controle de informação. A gravidade
desta última hipótese está em que a sanção, aqui, não é meramente
administrativa, mas também criminal,criptomoeda fará com o sistema financeiro ao que
o e-mail fez com a comunicação.
Vemos que hoje um dos meios de pagamento mais usados no
mundo, que facilita a transação de bens e informações, é o cartão de
crédito. Qualquer pessoa usa, por mais simples que seja.
Porém, infelizmente, há a necessidade de um terceiro
intermediário, a empresa que fornece o serviço. Por meio do modelo
Peer-to-Peer (ponto a ponto) da tecnologia do Bitcoin, a presença de
terceiros é eliminada, sendo substituída pela prova criptográfica.
Satoshi Nakamoto afirma no white paper que o necessário é um
sistema de pagamento eletrônico à prova de falhas. A tecnologia seria
baseada em prova criptográfica, permitindo que duas partes possam
transacionar diretamente entre si sem a necessidade de um terceiro
confiável.
As transações, que são computacionalmente impraticáveis de
reverter, além de tornar a negociação segura, protegem de fraude tanto
os vendedores quanto os compradores. Assim, também é apresentada
uma solução para o problema do gasto duplo.
O gasto duplo é o envio do mesmo item para destinatários
diferentes. Sabe quando você manda o mesmo documento para várias
pessoas? Isso é o gasto duplo. Imagine a tragédia que seria se isso
fosse aplicado às criptomoedas. O sistema perderia a credibilidade e
entraria em colapso.
Assim, de modo brilhante, Satoshi Nakamoto pensou em uma
forma para que esse problema não acontecesse. No white paper foi
previsto “um servidor de horas distribuído peer-to-peer para gerar prova
computacional da ordem cronológica das operações”[7].
Além da criptografia, um outro aspecto a ser analisado na
tecnologia do Bitcoin é a Blockchain. A cadeia de blocos (em tradução
literal) é o que permite o registro total e íntegro de todas as transações
realizadas, e reconhecidas pelos nós (mineradores) da rede. É o
protocolo de confiança da tecnologia que a torna segura e fascinante.
Fazendo uma simples analogia, a Blockchain é o livro-razão
público e universal, a prova de que ocorreram todas as transações nele
armazenadas. Na Blockchain, por motivo da disponibilidade irrestrita
das informações, a validade das transações pode ser verificada por
meio de uma assinatura digital.
A tecnologia Blockchain é mantida pelos chamados nós da rede.
Esses indivíduos, por meio de cálculos computacionais e taxas,
aprovam as transações e mantêm a rede funcionando, permitindo assim
que ela fique 100% on-line.
As transações armazenadas na Blockchain são um “recibo” de
transferência de propriedade de bitcoins com o “carimbo” de data e
hora. Pelo fato de ser pública, descentralizada e distribuída, a
Blockchain impede que empresas ou instituições de caráter duvidoso
centralizem e monopolizem as informações nela contidas.
A transparência na Blockchain é enorme. Não só quem transfere
bitcoins consegue acessar os dados da transação, mas também os
terceiros interessados em verificar a autenticidade dela.
Em relação à criptografia, ela não é uma tecnologia nova. O
estudo da arte de cifrar mensagens – em que só o remetente e o
destinatário podem acessar o conteúdo – remete aos tempos passados:
os primeiros registros datam ao redor de dois mil anos antes de Cristo,
no Egito.
Historicamente, a criptografia foi utilizada pelos estados em
guerras (com destaque ao Enigma, máquina de criptografia alemã
usada na segunda guerra mundial) para interceptar mensagens e
desvendar comunicações criptografadas.
Mas é na era da computação que a criptografia se destaca. Antes
do século XX, a criptografia focava somente em padrões da linguagem
e análise das mensagens, como a própria etimologia sugere
(criptografia, do grego kryptós, “escondido”, e gráphen, “escrita”).
Até a “língua do P” utilizada pelas meninas para se comunicar no
ensino fundamental, deixando os meninos desnorteados e curiosos, é
uma forma de criptografar mensagens.
Atualmente, a criptografia é também uma ramificação da
matemática, e seu uso no mundo moderno se estende a uma gama de
aplicações presentes no nosso cotidiano. Ela é usada, sem que sequer
percebamos, em sistemas de telecomunicações, proteção de sites e
comércio online. A criptografia moderna permite criar comprovações
matemáticas que oferecem um altíssimo nível de segurança.
Existem duas modalidades de criptografia. A simétrica e a
assimétrica. A utilizada pelo Bitcoin é a assimétrica, ou seja, utiliza duas
chaves: uma pública e outra privada.
A criptografia simétrica é caracterizada pela utilização de somente
uma chave para o processo de cifragem e decifragem de dados. Isso
significa que tanto o remetente quanto o destinatário da mensagem
possuem a mesma chave. Dessa forma, o conhecimento é
compartilhado somente entre os dois e mantido em segredo por eles.
 No desenvolvimento do Bitcoin, a criptografia utilizada é a
assimétrica, porque utiliza um par chaves pública e privada, em que
uma é capaz de executar a operação reversa da outra.
Como uma é o inverso da outra, significa que tudo que é cifrado
com uma chave pública é decifrado com uma chave privada, e vice-
versa.
Outro detalhe inerente à criptografia é a utilização da função hash.
Ela vai criptografar os dados de entrada e produzir um valor hash que
somente será descriptografado pelo destinatário.
Exemplo: João deseja enviar uma mensagem para Maria.
Utilizando sua chave privada, João cria um código hash e cifra o resumo
do texto. Maria usa a sua própria chave pública para abrir o resumo e
checar se ele é íntegro.
Qualquer mudança na estrutura do que foi escrito por João, a
mínima que seja, gera um hash totalmente diferente, que altera a
integridade da mensagem original. A partir do momento que Maria
percebe que o resumo da mensagem está integro e inalterado, ele
utiliza sua própria chave privada para decifrar a mensagem.
Outra genialidade da tecnologia, principalmente no que diz
respeito ao aspecto universal do Bitcoin, é a mineração. Como são
emitidos os bitcoins? De que forma eles entram no mercado?
A mineração pode ser vista de duas formas diferentes, mas ao
mesmo tempo convergentes. Inicialmente, a mineração é a resolução
de cálculos matemáticos muito complexos, isto é, a prova de trabalho,
ou proof-of-work.
Ela ocorre da seguinte forma: A cada 10 minutos um bloco é
encontrado. Nele o minerador coloca as transações coletadas. 
Para que o bloco seja registrado e validado na rede, o minerador
precisa demonstrar para todos os outros que realizou a prova de
trabalho. Ela é um cálculo matemático computacionalmente custoso de
resolver.
Um computador comum demora frações de milissegundos para
resolver uma conta simples. Agora imagine que, em diversos lugares do
planeta, existem galpões com centenas de milhares dos computadores
mais potentes do mercado dedicando toda a sua força para solucionar
um único cálculo.
E no caso do Bitcoin, é tão difícil que toda essa gigantesca força
computacional demora 10 minutos para resolver.
A prova de trabalho é um problema criptográfico com base na
função SHA-256. Essa função criptográfica possui as seguintes
variáveis: Transações do bloco; referência do bloco anterior e o Nonce,
o X da questão.
O computador fica testando até encontrá-lo. Portanto, quanto mais
força computacional, mais tentativas por segundo.
Quando o nonce é encontrado, o minerador transmite para todos
os outros nós da rede o bloco com as transações, sendo
recompensado, atualmente, em 12,5 bitcoins.
Devido à escassez pré-programada prevista no white paper e
aplicada pela rede, o retorno da mineração diminui com o passar do
tempo. Aqui, pode-se fazer um paralelo com a mineração do ouro.
Ele é naturalmente escasso e, conforme vai sendo extraído,
menos metal há para ser minerado. Percebe-se que não há tanto ouro
hoje no Brasil como no século XVIII, e atualmente o processo de
minerá-lo é muito mais difícil hoje que no período exploratório.
Com o Bitcoin é a mesma coisa: não há tantas unidades como
havia na data de sua criação. Isto se dá devido ao Halvening, evento
que ocorre a cada 210 mil novos blocos minerados, ou,
aproximadamente anos termos da legislação vigente, sem ter
havido lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico, quer dizer, faz-se de uma
simples função de controle um objeto de proteção penal, o que é um absurdo e
viola os pressupostos constitucionais da incriminação.
 
[138] Ver capítulo 7.
[139] NAKAMOTO, 2008
[140] Efetuar operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover evasão
de divisas do País:
Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem
autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver
depósitos não declarados à repartição federal competente. (BRASIL, 1986)
[141] https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf
http://bit.ly/ContabilidadeBC
https://www.youtube.com/watch?v=4bJ6WBJVYjA&t=194s
https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf
[142] O comércio na Internet tem dependido quase exclusivamente de instituições
financeiras que servem como terceiros confiáveis para processar pagamentos
eletrônicos. Enquanto o sistema funciona bem para a maioria das operações,
ainda sofre com as deficiências inerentes ao modelo baseado em confiança.
Transações completamente não-reversíveis não são possíveis, uma vez que as
instituições financeiras não podem evitar a mediação de conflitos. O custo da
mediação aumenta os custos de transação, o que limita o tamanho mínimo prático
da transação e elimina a possibilidade de pequenas transações ocasionais, e há
um custo mais amplo na perda da capacidade de fazer pagamentos não reversível
para serviços não reversíveis. Com a possibilidade de reversão, a necessidade de
confiança se espalha. Comerciantes devem ser cautelosos com os seus clientes,
incomodando-os para obter mais informações do que seria de outra forma
necessária. Uma certa percentagem de fraude é aceita como inevitável. Estes
custos e incertezas de pagamento podem ser evitados ao vivo usando moeda
física, mas não existe nenhum mecanismo para fazer pagamentos ao longo de um
canal de comunicação sem uma parte confiável. O que é necessário é um sistema
de pagamento eletrônico baseado em prova criptográfica em vez de confiança,
permitindo a quaisquer duas partes dispostas a transacionar diretamente uma com
a outra sem a necessidade de um terceiro confiável. Transações que são
computacionalmente impraticáveis de reverter protegeriam os vendedores de
fraudes e mecanismos rotineiros de disputa poderiam ser facilmente
implementados para proteger os compradores. Neste artigo, nós propomos uma
solução para o problema de gasto duplo usando um servidor de horas distribuído
peer-to-peer para gerar prova computacional da ordem cronológica das
operações. O sistema é seguro desde que nós honestos controlem coletivamente
mais poder de CPU do que qualquer grupo cooperado de nós atacantes.
[143] A análise da origem e natureza da moeda também pode ser feita sob um
prisma publicístico. Nessa interpretação, o agir livre e espontâneo dos agentes
econômicos perde relevância o que importa, agora, é a atuação impositiva de um
ator externo, o qual, mediante seu poder de coerção, influencia os rumos do
mercado de maneira decisiva e autoritativa conforme a concepção pública,
portanto, a moeda não tem um surgimento autônomo, mas condicionado à
vontade do ente que tem força – seja ela política, econômica ou militar – para
impô-la sobre a sociedade como tal poder tem uma manifestação jurídica, “a
moeda é uma criação do direito”.
[...]
A afirmação de que a moeda é uma criação do Direito deve ser entendida “no
sentido amplo de que é uma criação da atividade legislativa do Estado, uma
criação de política legislativa”. A moeda é, assim, uma criação prática, não
especulativa, do Direito. Por ser uma criação jurídica, a teoria da moeda deve
justamente lidar com a História do Direito, pois o surgimento da moeda como tal é
indissociável de sua regulação pelo ordenamento normativo. As alterações dos
meios de pagamento ao longo do tempo, com a subsistência das relações
creditícias estipuladas no padrão monetário anterior, mostram que o Estado trata a
parte física da moeda – os materiais e as unidades monetárias – como apenas
nomes, sem que ela se torne determinante para os contornos da relação jurídica.
Dessa forma, “a alma da moeda não está no material de suas peças, mas nos
preceitos legais que regulam seu uso”
[144] Divícia sf. ‘riqueza’ XVI. Do Lat. Divitia -ae, por divitiae – arum de dives -itis
‘rico, opulento’. (CUNHA, 1982)
[145] Emblema com representações simbólicas (plantas, animais etc.)
acompanhado ou não de um lema, usado comumente em armas, bandeiras ou
brasões, ou mesmo em vestimentas, túmulos, monumentos etc., representando
uma família nobre ou tradicional; símbolo. Essa frase, pensamento ou sentença de
poucas palavras, que resume o ideal, o sentimento ou a regra de conduta principal
desse emblema, lema. A figura ou corpo desse emblema. Figura e/ou lema usado
pelos nobres ou reis para caracterizar as tradicionais famílias da nobreza ou como
símbolo de um reinado. Sentença ou frase de poucas palavras que exprime o ideal
ou o sentimento predominante de um partido político, time, clube, associação, e
etc. Insígnia indicativa da posição hierárquica (posto, patente) dos militares.
Distintivo usado em uniformes escolares para identificação da escola, classe ou
ano a que pertencem os alunos. Linha divisória entre dois países, zonas
administrativas, estados, municípios etc.; fronteira, limite, demarcação. Linha que
divide um terreno, uma propriedade (em geral, marcada por algum acidente
natural); marco.Sinal feito a ferro quente no lombo do gado (bovino, equino) para
marcar a identidade de seu proprietário ou criador. Herança que foi partilhada
pelos filhos. Disponibilidade de cambiais que um Estado possui em praças
estrangeiras. (MICHAELIS, 1998)
[146] Divisa s.f (sXV) emblema simbólico (animal, planta etc) acompanhado ou não
de um lema, usado em brasões; símbolo. A figura ou o corpo deste emblema. A
sentença curta que acompanha um emblema e expressa uma atitude. Qualquer
sentença breve (de partido político, clube, time desportivo etc) usado para
caracterizar um ideal. Insígnia de posto ou patente dos militares usado em suas
fardas. Traço ou linha divisória entre espaço e propriedades. Sinal feito a ferro
quente sobre o lombo dos animais para marcar a propriedade de seu criador.
Divisas ECON letras, cheques, ordens de pagamento e etc, convertíveis em
moedas estrangeiras, ou as próprias moedas usadas em transações comerciais
(HOUAISS, 2007)
[147] (SANDRONI, 2002)
[148] DIVISAS (fr. dévises) Expressão empregada para designar diferentes
categorias de papel negociável: divisas bancáveis e não bancáveis. De um modo
geral entendem-se por divisas os valores comerciais sobre o estrangeiro: saques,
cheques, títulos provenientes de empréstimos públicos, ou de governo a governo.
As divisas estão sujeitas à lei da oferta e da procura, segundo as necessidades de
pagamento no estrangeiro, e sofrem, portanto as oscilações decorrentes dessa lei.
Num país que tem de realizar grandes pagamentos no estrangeiro, a cotação das
letras subirá acima do seu valor nominal em relação à paridade monetária. Se, ao
contrário, não existe grande procura de letras, o possuidor destes terá de se
conformar com menor soma de que lhe corresponde, feito o cálculo na base da
paridade. Nos países de padrão ouro, as oscilações de divisas são insignificantes,
podendo ser corrigidas pelo “gold-point”. Mas nos países à base de papel, não
existindo paridade monetária, o preço das divisas é regulado pela capacidade
aquisitiva da moeda do país, em relação à daquele sobre o qual são sacadas as
letras. Não havendo a base invariável do metal, as oscilações são de maior
amplitude, e estão sujeitas à situação econômica do país. Oscilações tão
profundas na cotação das divisas, alteram o preço das mercadorias estrangeiras,
com reflexos nos preços internos, devido à conexão existente entre eles. Evitar
tais alterações é a finalidade da boa políticade divisas. Medidas apropriadas
permitem regular a cotação tendo em vista as solicitações da balança de
pagamentos. (GOMES, 1983)
[149] 2. Consideram-se divisas “as disponibilidades internacionais que um país possui em
função de exportação de mercadorias, de serviços, empréstimos de capitais (venda de
tecnologia, direitos de patente etc.) e podem ser representadas por títulos de crédito
(consubstanciados em moeda estrangeira), tais como ordens de pagamento, letras de câmbio,
cheques, entre outros, resgatáveis no exterior.”
3. “Afora a própria moeda, nacional ou estrangeira e os títulos nela conversíveis, nenhuma
relação obrigacional ou mercadoria pode constituir objeto material de uma operação de câmbio,
salvo o ouro, ‘quando definido em lei como ativo financeiro cambial’ ( , art. 153, § 5º)”.
4. No limites do tipo legal em referência, não se insere a saída de diamantes para o exterior.
6.Diante desse contexto, sendo certo que a conduta dos acusados, não obstante danosa à
economia, é de tipicidade penal duvidosa, pois não há evasão de divisas, uma vez que apenas
as mercadorias, e não os valores, deixaram o país, é imperiosa a manutenção da sentença
absolutória. Isto posto, nego provimento ao recurso de apelação. (TRF 1 Apelação Criminal-
200036000033096 – Relator Ministro Mário Cesar Ribeiro).
[150] Art. 61. Consideram-se infrações penais de menor potencial ofensivo, para
os efeitos desta Lei, as contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena
máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa. (BRASIL,
1995)
[151] https://portaldobitcoin.com/o-fim-da-midas-trend-criador-da-empresa-diz-que-
foi-hackeado-mas-especialista-contradiz/
[152] https://cointimes.com.br/lider-da-midas-trend-afirma-que-quem-entrar-na-
justica-nao-vai-receber/
[153] https://criptonizando.com/2020/02/24/presidente-da-midas-trend-liderou-
outra-famosa-piramide/
[154] https://cointimes.com.br/ponzi-exposto-site-americano-detalha-como-
funcionava-a-midas-trend/
[155] https://valorinveste.globo.com/mercados/cripto/noticia/2020/02/14/ronaldinho-
gaucho-vira-reu-em-acao-que-pede-r-300-milhoes-por-piramide-de-
criptomoedas.ghtml
[156] https://cointimes.com.br/arbcrypto-para-de-pagar-clientes/
[157] N. 0706433-61.2020.8.07.0016 - PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL - Adv(s).:
DF56758 - ISABEL PEREIRA DA SILVA. Poder Judiciário da União TRIBUNAL DE
JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS 11VARCVBSB 11ª
Vara Cível de Brasília Número do processo: 0706433-61.2020.8.07.0016 Classe
judicial: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7) AUTOR: LUIZ FRANCISCO
TOLOSA RÉU: ALEXANDRE CESARIO KWOK, ENEAS DE LIMA TOMAZ
DECISÃO INTERLOCUTÓRIA Diante das especificidades da causa e de modo a
adequar o rito processual às necessidades do conflito, deixo para momento
oportuno a análise da conveniência da audiência de conciliação. (CPC, art. 139, VI
e Enunciado n. 35 da ENFAM). Há probabilidade do direito: com efeito, os autores
https://portaldobitcoin.com/o-fim-da-midas-trend-criador-da-empresa-diz-que-foi-hackeado-mas-especialista-contradiz/
https://cointimes.com.br/lider-da-midas-trend-afirma-que-quem-entrar-na-justica-nao-vai-receber/
https://criptonizando.com/2020/02/24/presidente-da-midas-trend-liderou-outra-famosa-piramide/
https://cointimes.com.br/ponzi-exposto-site-americano-detalha-como-funcionava-a-midas-trend/
https://valorinveste.globo.com/mercados/cripto/noticia/2020/02/14/ronaldinho-gaucho-vira-reu-em-acao-que-pede-r-300-milhoes-por-piramide-de-criptomoedas.ghtml
https://cointimes.com.br/arbcrypto-para-de-pagar-clientes/
informam que foram ludibriados pelos réus que, prometendo ganhos de 2,5% ao
dia, os convenceu a investir quantias no mercado de criptomoedas. Fica
evidenciada a possibilidade do conhecido esquema de pirâmede - que tem,
inacreditavelmente, amealhado gentes que caem no canto da sereia de
rendimentos que, em nenhum lugar do mundo, talvez tráfico de drogas, não são
oferecidos... Há, ademais, perigo de dano. Argumentam os autores na magnífica
petição inicial: "O "periculum in" mora é visível, o referido dano de que os
requeridos estão sujeitos é que possam ser transferir as moedas para outras
contas desconhecidas ou até mesmo para terceiros próximos aos mesmo, ficando,
portanto, a dificuldade de se resgatar os valores investidos pelos requerentes."
Defiro, portanto, a tutela cautelar para que se busquem nas contas dos autores os
valores investidos, bem como que expeça ofício para o Mercado Bitcoin (ID
55988004 - Pág. 12), para que bloqueiem contas dos réus Indefiro, no entanto,
suspensão de passaporte ou de órgão de trânsito, pois isso em nada contribuirá
para o deslinde do feito, mesmo porque, pelo andar da carruagem, os réus podem
estar, a estas alturas, já teriam tido oportunidade de fugir do país, quem sabe com
destino a Belize. Feita as diligências acima, cite(m)-se e intime(m)-se o (a) (s) Ré
(us) para contestar (em) o feito no prazo de 15 (quinze) dias úteis, a contar da
juntada do aviso de recebimento se feita a citação pelo correio ou do mandado
devidamente cumprido, se feita por oficial de justiça (art. 231 I e II do CPC).
Frustada a tentativa de citação, por não ter (em) sido encontrado (s) o (a) (s) réu
(é) (s) proceda-se à pesquisa de endereços da parte ré nos sistemas BACENJUD,
SIEL e INFOSEG. Em sendo localizado endereço diverso, expeça-se mandado de
citação inclusive se for o caso por carta precatória. Esgotadas as diligências,
intime-se a parte autora para fornecer endereço atualizado ou requerer o que
entender de direito. A ausência de contestação implicará revelia e presunção de
veracidade da matéria fática apresentada na petição inicial. Int. BRASÍLIA-DF, 3
de março de 2020 15:50:55. ERNANE FIDELIS FILHO Juiz de Direito
[158] https://cointimes.com.br/eu-nunca-falei-que-devolveria-o-dinheiro-diz-lider-da-
unick-forex/
[159] https://in.reuters.com/article/us-crypto-currencies-crime/cryptocurrency-crime-
losses-more-than-double-to-4-5-billion-in-2019-report-finds-idINKBN2051VT
[160] https://criptonizando.com/2020/04/17/midas-trend-lideres-organizam-acao-
coletiva-contra-a-empresa-e-ceo-pede-ajuda-dos-investidores/
[161] https://exame.abril.com.br/mercados/prejuizo-com-crimes-de-criptomoedas-
chegam-a-us45-bi-em-2019/
[162] FATF (2019), Guidance for a Risk-Based Approach to Virtual Assets and
Virtual Asset Service Providers, FATF, Paris, www.fatf-gafi.
org/publications/fatfrecommendations/documents/Guidance-RBA-virtual-
assets.html
[163] EC3/European Cybercrime Centre (2017): A guide for Bitcoin investigators
[164] ENCCLA, 2019, p. 3.
[165] ENCCLA, 2019, p. 3.
[166] https://pt.scribd.com/document/450472737/Guia-Bitcoin
[167] ENCCLA, 2019, p. 22
https://cointimes.com.br/eu-nunca-falei-que-devolveria-o-dinheiro-diz-lider-da-unick-forex/
https://in.reuters.com/article/us-crypto-currencies-crime/cryptocurrency-crime-losses-more-than-double-to-4-5-billion-in-2019-report-finds-idINKBN2051VT
https://criptonizando.com/2020/04/17/midas-trend-lideres-organizam-acao-coletiva-contra-a-empresa-e-ceo-pede-ajuda-dos-investidores/
https://exame.abril.com.br/mercados/prejuizo-com-crimes-de-criptomoedas-chegam-a-us45-bi-em-2019/
[168] ENCCLA, 2019, p. 23
[169] https://www.tecmundo.com.br/seguranca/120610-lava-jato-nao-consegue-
invadir-notebook-odebrecht-nao.htm
[170] ENCCLA, 2019, p. 23
[171] ENCCLA, 2019, p. 26
[172] Art. 10. A infiltração de agentes de polícia em tarefas de investigação,
representada pelo delegado de polícia ou requerida pelo Ministério Público, após
manifestação técnica do delegado de polícia quando solicitada no curso de
inquérito policial, será precedida de circunstanciada, motivada e sigilosa
autorização judicial, que estabelecerá seus limites. (BRASIL, 2013)
[173] ENCCLA, 2019, p. 29
[174] ENCCLA, 2019, p. 29
 
[175] https://gizmodo.uol.com.br/os-detalhes-do-bizarro-sequestro-que-envolveu-
criptomoedas/
[176] Não importa o quanto os políticos falem de solidariedade: jamais a tem com
os contribuintes. – Thomas Sowell
https://www.tecmundo.com.br/seguranca/120610-lava-jato-nao-consegue-invadir-notebook-odebrecht-nao.htmhttps://gizmodo.uol.com.br/os-detalhes-do-bizarro-sequestro-que-envolveu-criptomoedas/
	1. INTRODUÇÃO
	2. O BITCOIN E AS OUTRAS CRIPTOMOEDAS
	2.1. O QUE É BITCOIN?
	2.2. OUTRAS CRIPTOMOEDAS PRESENTES NO MERCADO
	2.2.1. ETHEREUM (ETH)
	2.2.2. MONERO (XMR)
	2.2.3. RIPPLE (XRP)
	2.2.4. LITECOIN (LTC)
	2.2.5. BINANCECOIN (BNB)
	2.2.6. BASIC ATTENTION TOKEN (BAT)
	2.3. AFINAL, É MOEDA OU NÃO?
	2.4. É TÍTULO DE CRÉDITO, ATIVO FINANCEIRO OU BEM?
	2.5. COMO O FISCO VÊ O BITCOIN?
	2.5.1 COMO A RECEITA RASTREIA SUA VIDA FINANCEIRA
	2.5.2 DEVO DECLARAR MEUS BITCOINS?
	2.6. AS OPERAÇÕES ENVOLVENDO O BITCOIN
	2.7. GUARDANDO SEUS BITCOINS COM SEGURANÇA
	2.8. TRANSAÇÃO DE BITCOIN É OPERAÇÃO FINANCEIRA?
	2.9 A LEI DE GRESHAM E O BITCOIN
	3. AS ANÁLISES DO CRIME
	3.1. O CRIME DE EVASÃO DE DIVISAS
	3.2. O QUE A LEI PROTEGE E COMO O SUSPEITO AGE
	4. BITCOIN E A EVASÃO DE DIVISAS
	4.1. CRIPTOMOEDAS E A CONDUTA
	4.2. HÁ LESÃO AO BEM JURÍDICO?
	4.3. BITCOIN É DIVISA?
	5. OS CRIMES MAIS COMUNS ENVOLVENDO O BITCOIN
	6. COMO A POLÍCIA PRETENDE RASTREAR OS CRIMINOSOS
	6.1. O PROCEDIMENTO INVESTIGATIVO
	6.2. A AÇÃO POLICIAL NA PRÁTICA
	6.2.1 O INTERROGATÓRIO
	6.3. OS SOFTWARES UTILIZADOS
	7. PALAVRAS FINAIS
	8. REFERÊNCIAS
	9. SOBRE O AUTOR
	10. POSSO TE PEDIR UM FAVOR?
	[1]
	[2]
	[3]
	[4]
	[5]
	[6]
	[7]
	[8]
	[9]
	[10]
	[11]
	[12]
	[13]
	[14]cada 4 anos.
Notamos então, a redução da oferta do Bitcoin conforme o tempo
passa[8]. Não é à toa que muitos adeptos o chamam de ouro digital.
 
O outro viés da mineração é a aprovação das transações pelos
nós da rede. Segundo Antonopoulos, autor de Mastering Bitcoin, esse
viés é o que sustenta a rede Peer-to-Peer:
 
Embora a mineração seja incentivada por essa recompensa,
o objetivo principal da mineração não é a recompensa da
geração de novas moedas. Se você vê a mineração apenas
como o processo pelo qual as moedas são criadas, você
está confundindo os meios (incentivos) como a meta do
processo. A mineração é o mecanismo que sustenta a
câmara de compensação descentralizada, através da qual
as transações são validadas e compensadas. A mineração é
a invenção que torna o bitcoin especial, um mecanismo de
segurança descentralizado que é a base do dinheiro digital
P2P.
 
Vamos imaginar que João decida enviar 5 unidades de Bitcoin a
Maria. Para que isso ocorra, ela deve fornecer a sua chave pública a
ele. Com acesso ao endereço, João envia os bitcoins à chave pública
dela. A operação de fato será realizada somente quando os
mineradores validarem essa transferência.
Esse é o incentivo central para que a rede se mantenha
funcionando. Dessa forma, os mineradores são remunerados cobrando
pequenas taxas para que uma transação seja aprovada.
Além disso, a mineração ocorre de forma totalmente
descentralizada porque os mineradores podem estar em qualquer lugar
do planeta.
Essa atividade não necessita de um tipo de autoridade central,
diferentemente do que ocorre no sistema financeiro tradicional, em que
os Bancos Centrais mandam e desmandam.
A mineração tem como objetivo não só gerar novos bitcoins, mas
também, processar e validar os registros das novas transações no livro-
razão da rede. Dessa forma, com esse incentivo, a rede Blockchain se
mantém 100% on-line.
A Blockchain é segura pelo fato de ser essencialmente uma
sequência de blocos, não sendo controlada por um indivíduo ou
organização. Em última instância, o poder de decisão recai sobre a
própria rede, de forma distribuída.
(Pinterest[9])
O Bitcoin é um software auditável por qualquer um. Seu banco de
dados, a Blockchain, é público e todos podem ver o que acontece.
Por conta dessa premissa, o sistema permanece incorruptível.
Não há casos de fraude ou desvios de fundos, porque tudo pode ser
auditado por todo mundo.
O Bitcoin é resultado da união de várias tecnologias já existentes.
O brilhantismo e genialidade de Satoshi Nakamoto foi unir o
conhecimento de várias ciências e desenvolver uma rede infalível com
incentivos que funciona de maneira voluntária, autônoma, 24 horas por
dia, 7 dias por semana, há mais de 10 anos.
Bitcoin é a prova cabal que a anarquia funciona. É a ordem
espontânea sem uma autoridade central.
Além dessa bela criação da humanidade, outras também foram
desenvolvidas, as chamadas altcoins.
No próximo tópico algumas delas serão abordadas.
E aí, empolgado para conhecê-las?
2.2. OUTRAS CRIPTOMOEDAS PRESENTES NO MERCADO
 
Com o intuito de dar uma liberdade maior às pessoas para que
tenham alternativa ao sistema financeiro tradicional, surgiu o Bitcoin.
Além dele, outras criptomoedas foram desenvolvidas em paralelo com
um objetivo próprio além de ser reserva de valor.
Segundo o site Coinmarketcap[10], há pelo menos 200 altcoins. As
top 6 serão analisadas nesse capítulo.
 
2.2.1. ETHEREUM (ETH)
 
Com o intuito de possuir uma Blockchain diferenciada, A
Ethereum foi criada por Vitalik Buterin em janeiro de 2014, após ser
financiada por um Crowdfunding. Sendo uma das altcoins mais
importantes, ela tem a essência semelhante à do Bitcoin.
 A criação de Vitalik Buterin utiliza a tecnologia similar à do invento
de Nakamoto. As transações publicadas na rede são verificadas e
validadas pelos próprios usuários (os nós da rede) por meio da
mineração.
Assim, o sistema pode funcionar num protocolo distribuído
recompensando seus usuários pelo seu poder computacional fornecido
à rede.
Porém, a Ethereum tem um diferencial: Os contratos inteligentes
elaborados na plataforma. Sua verificação é realizada por meio de
protocolos de computador, sem qualquer possibilidade de tempo de
inatividade, censura, fraude ou manipulação por terceiros.
Na rede Ethereum, contratos inteligentes podem ser
implementados em quatro linguagens diferentes (Sodility, Serpent,
Mutan e LLL).
Os contratos são compilados para a máquina virtual do Ethereum,
assinados digitalmente e em seguida anexados à Blockchain. A
execução das cláusulas e a mineração são pagos em Ether, a
criptomoeda da plataforma.
O ponto que torna o Ethereum diferente do Bitcoin e das outras
altcoins, é que ele leva a tecnologia dos contratos inteligentes para
"tudo" que possa ser programado.
Em abril de 2020 o Ethereum está cotado em torno de U$ 180
(cento e oitenta) dólares. Por mais que tenha um diferencial
interessante devido aos contratos inteligentes, eu não a compraria para
guardar, mas sim para realizar algumas operações ocasionais.
2.2.2. MONERO (XMR)
 
O Monero é uma criptomoeda de código aberto, criada em abril de
2014, focada em privacidade e descentralização. Seu objetivo é ser não
rastreável, oferecendo um maior grau de privacidade em relação ao
Bitcoin.
Assim como o Bitcoin, o Monero usa uma Blockchain pública para
registrar todas as transações que são realizadas na rede. No entanto,
ao contrário dele, o Monero, de maneira genial, protege a privacidade
de seus usuários ao ofuscar o remetente, o destinatário e a quantia
envolvida em cada operação. Em função disso, ela é considerada uma
moeda não rastreável e anônima.
Ele utiliza um processo de mineração de proof-of-work para criar
as novas unidades da moeda, semelhante ao usado no Bitcoin.
Entretanto, seu algoritmo de mineração é otimizado para ser mais
eficiente em processadores comuns. Em outras palavras: minerar
Monero é barato!
Isso permitiu que a moeda fosse minerada de forma rentável em
computadores simples, sendo o processo realizado de modo distribuído.
A mineração igualitária do Monero acabou abrindo novas fontes
de rendimento aos nodos da rede, tanto legítimas (em proveito dos
produtores de conteúdo online) quanto maliciosas (em prol de hackers
que inserem códigos de mineração em sites e aplicativos).
A sua Blockchain não é 100% transparente, é opaca, pois
esconde informações que são importantes para a privacidade dos
usuários. Tudo isso graças à incrível tecnologia Stealth.
Ela fornece a privacidade para o destinatário e para o remetente,
porque evita que os endereços públicos dos usuários sejam registrados
de maneira permanente na Blockchain.
Por mais que as autoridades sejam contra a privacidade porque
pode permitir alguma impunidade a criminosos, ela por si só é valiosa e
protege os cidadãos de abusos de governos mundo a fora.
A privacidade tem um valor imensurável para os desenvolvedores
do Monero.
Apesar de seu preço, em abril de 2020, estar em torno dos U$ 50
(cinquenta) dólares, creio eu que comprar Monero vale muito à pena. Eu
tenho diversas unidades e recomendo que você tenha também.
Sem a privacidade você é tão vulnerável quanto um bebê.
Edward Snowden já dizia: “Não se importar com a privacidade só
porque não tem nada a esconder, não é diferente de falar que não se
importa com a liberdade de expressão só porque não tem nada a dizer”.
Em outras palavras: Mesmo que você não tenha nada a esconder
ou a falar, defenda a privacidade e a liberdade de expressão.
2.2.3. RIPPLE (XRP)
 
Ocupando o terceiro lugar do Top 6 do Coinmarketcap, a XRP, ou
Ripple tem por base um protocolo utilizado por bancos. Lançada em
2012, ela pretende permitir "transações financeiras globais seguras,
instantâneas e quase gratuitas de qualquer tamanho sem rejeições".
Desde 2013, o protocolo foi adotado por um número crescente de
instituições financeiras como a MoneyGram e a Western Union para
"oferecer uma opção alternativa de remessa" para os consumidores. A
Ripple permite pagamentos sem fronteiraspara clientes de varejo,
corporações e outros bancos.
O site da Ripple descreve o protocolo open source como
"tecnologia de infraestrutura básica para transações interbancárias -
uma utilidade neutra para instituições e sistemas financeiros". Ele
permite que bancos e empresas de serviços financeiros incorporem a
arquitetura Ripple em seus próprios sistemas e, portanto, permitam que
seus clientes usem o serviço.
Por mais que os desenvolvedores queiram que não só os bancos
usem a Ripple mas seus clientes também, Satoshi Nakamoto queria
desenvolver um meio de pagamento legítimo, alheio ao sistema
financeiro.
Em outras palavras: Moedas longes das garras do estado e dos
bancos.
Importante lembrar que os endereços com maior número de XRP
no mercado pertencem aos desenvolvedores.
De outro modo: se os desenvolvedores da ripple comandassem
um banco central, eles imprimiriam mais moeda e colocariam no próprio
bolso.
Portanto, os adeptos ideológicos das criptomoedas não utilizam a
Ripple como reserva de valor, porque os criadores podem aumentar a
oferta dela, reduzindo o valor de cada unidade.
Por ser fiel aos princípios libertários, eu não compraria nenhuma
criptomoeda criada por bancos nem para um trade ocasional.
Caso você queira fazer um short, seu preço tende a cair porque
seu fundamento é semelhante ao dos papéis coloridos governamentais:
criação descontrolada de moeda sem lastro algum.
2.2.4. LITECOIN (LTC)
 
Uma das mais famosas altcoins, o Litecoin foi criado em 2011, um
pouco depois da criação do Bitcoin.
As transações, saldos, e emissões são geridas por uma rede
Peer-to-peer muito semelhante à da obra de Nakamoto, por meio da
prova de trabalho.
Dessa forma, as litecoins são emitidas quando é encontrado um
valor hash suficientemente pequeno. A partir de então, neste ponto é
criado um bloco que permite a mineração dos posteriores.
Inspirado por Satoshi Nakamoto, o desenvolvedor do Litecoin,
Charlie Lee, queria criar um Bitcoin melhorado. Em primeiro lugar, a
rede do LTC processa um bloco a cada 2,5 minutos, em vez de a cada
10 minutos no caso dos blocos do BTC.
Analisando pela economia de tempo, é uma vantagem. Segundo,
a rede Litecoin irá produzir 84 milhões de unidades. Uma oferta
monetária quatro vezes maior que aquela da rede do Bitcoin.
Por ser quatro vezes mais inflacionária (talvez seu maior defeito),
a criptomoeda de Charlie Lee, apesar de possuir ideias interessantes,
não teve uma grande adoção como teve aquela criada por Satoshi
Nakamoto.
Por mais que tenha tentado ser melhor que o Bitcoin, o Litecoin
falhou. Talvez por ter uma oferta monetária bem maior, e uma demanda
muito menor, a adoção também não é lá aquelas coisas. Mas caso você
queira fazer um trade ocasional, seu preço está em torno de U$ 45
(quarenta e cinco) dólares.
2.2.5. BINANCECOIN (BNB)
 
A BNB, criada pela corretora Binance, é talvez a criptomoeda que
mais se aproxima do ideal proposto pelo economista austríaco Friedrich
August von Hayek.
Ele afirmava que as empresas criariam suas próprias moedas e
competiriam entre si no mercado por adeptos, da mesma forma que
competem por consumidores quando oferecem seus produtos. Parece
que o criador da Binance anda estudando escola austríaca.
A BNB foi criada durante uma Initial Coin Offer em julho de 2017.
A empresa ofereceu 20 milhões de BNB aos investidores anjo, 80
milhões para os criadores e os 100 milhões restantes, para os demais
participantes da ICO.
O objetivo da BNB é ser um token de uso restrito à própria
plataforma da corretora. A sua principal função é fornecer descontos
nas taxas cobradas dos que operam na Binance. Assim, os usuários
além de financiar a empresa de Changpeng Zhao, ganham na
valorização do próprio token.
A Binance é uma das maiores exchanges de criptomoedas do
planeta. Ela tem menos de 4 anos de existência e rapidamente
conquistou sua fatia em um mercado com grandes concorrentes
consolidados como Kraken[11], Bitfinex[12] e Bitstamp[13].
Ela foi criada por Changpeng Zhao, que já tinha experiência com
sistemas de Trading e conhecimento em Blockchain. No primeiro ano
após o lançamento da BNB, a Binance ofereceu um desconto de 50%
nas taxas de negociação pagas com a criptomoeda da corretora.
O desconto é reduzido à metade todos os anos. Em julho de 2017,
o desconto era de 50%; em julho de 2018, 25%; em julho de 2019,
12,5% e assim sucessivamente até 2021. A partir daí o desconto cessa.
Além de ousada, a estratégia foi inteligente. A Binance construiu
sua plataforma de trade e tão logo conseguiu novos clientes por meio
de um marketing agressivo e, ao mesmo tempo, dava liquidez para a
BNB.
O foco é o engajamento. Após a criação do token, os
desenvolvedores geraram todo um círculo virtuoso que permitiu seu
perfeito funcionamento e maximização de utilidade, diferente das
moedas criadas em outros ICOs que viraram tokens inúteis.
Ao mesmo tempo que ganhavam clientes, subia a demanda por
tokens da Binance. A BNB se valorizava ainda mais, incentivando os
detentores a “holdar” e até mesmo utilizar a plataforma de maneira
constante.
Por outro lado, a valorização do token atrai novos investidores,
que acabam por ficar na plataforma. Além disso, a BNB conta com outro
evento importante: Halvening de 3 em 3 meses.
A cada trimestre, a Binance recompra os tokens e queima,
diminuindo a oferta disponível. Eles vão continuar com esse
planejamento até que 50% de todos os tokens sejam queimados. Se a
demanda é mantida constante ou até mesmo aumenta, os preços são
forçados para cima.
No lançamento, cada token BNB estava custando dez centavos de
dólar. Atualmente, ele está cotado em U$ 15 (quinze) dólares. Quem
acreditou no projeto, teve um retorno de 15,000%. Isso significa que
quem tivesse investido U$ 100 dólares, teria hoje um valor 150 (cento e
cinquenta) vezes maior.
Foram levantados U$ 15.000.000,00 (quinze milhões) de dólares
no ICO, mas hoje, só a BinanceCoin tem uma capitalização de mais de
quase U$ 4.000.000.000,00 (quatro bilhões) de dólares.
Além do mais, o valuation da própria Binance hoje é superior ao
triplo da capitalização da BNB.
Pela escassez com origem no seu Halvening, a BNB continua sendo
uma criptomoeda com grande potencial
2.2.6. BASIC ATTENTION TOKEN (BAT)
 
A Basic Attention Token (BAT) é uma criptomoeda voltada para a
divulgação e publicidade on-line. O objetivo é criar um ambiente de
gestão para anunciantes e portais de divulgação de anúncios totalmente
automatizado, por meio da tecnologia Blockchain.
Hoje, o intermediário (que faz essa gestão), acaba levando cerca
de 60% de todo o faturamento. O Google Adwords, por exemplo,
gerencia anunciantes e espaços publicitários, mostrando para os
usuários que acessam websites propagandas específicas conforme seu
algoritmo determina.
Entretanto, essa centralização de poder está sendo colocada em
xeque com uma nova tecnologia desenvolvida pelo projeto Basic
Attention Token, que permite uma gestão mais eficiente, automatizada e
segura.
O criador do Basic Attention Token é Brendan Eich, co-fundador
do Mozilla/Firefox e também criador da linguagem de programação
Javascript.
Para conseguir conquistar seus objetivos, o projeto Basic Attention
Token criou um navegador próprio. O Brave.
Ele tem várias vantagens utilizando blockchain: bloqueia anúncios
indesejados; é mais rápido que todos os outros navegadores como o
Google Chrome, o Mozilla Firefox, Microsoft Edge, etc; e ainda oferece
uma recompensa para os primeiros que o utilizarem.
A BAT, hoje, em abril de 2020, está precificada em U$ 0,16
(dezesseis) centavos de dólar. Vale a pena comprar e guardar, mas
caso não queira, faça um trade ocasional que a chance de ter alguns
lucros é alta.
A criptomoeda mais conhecida e com maior volume é o
Bitcoin, razão pela qual os exemplos dados nesta obra serão
relacionados a ele.
2.3. AFINAL, É MOEDA OU NÃO?
 
Para entendermos o conceito e a origem da moeda, existem duas
teorias que explicam essas ideias: As teorias privatista e publicista. A
primeira afirma que a moeda veiodo mercado. Já a segunda diz que a
moeda é originária do estado.
A primeira teoria afirma que a moeda evoluiu de acordo com a
sociedade. O escambo foi o primeiro meio de troca utilizado. Porém, ele
possuía um limite conhecido como coincidência de desejos, porque nem
sempre que o agricultor quer sapatos o sapateiro quer ovos.
A partir de então foi descoberto que um meio de troca desejado
por todos resolveria esse problema. Depois, foi estocado em certos
armazéns que posteriormente se tornaram os bancos.
O que predomina nas transações modernas é aquilo conhecido
por dinheiro, mas nem sempre foi assim. Até seu surgimento,
predominava o escambo, que era a troca de um bem por outro.
As pessoas trocavam bens entre si, mas havia dois problemas: A
“indivisibilidade” dos bens e a “coincidência dos desejos” para que
houvesse a troca direta. Após diversas tentativas, o homem descobriu a
solução que resolve esse quebra-cabeça: A troca indireta.
Na troca indireta, você negocia seu produto não por algo que você
quer, mas sim por aquilo que, no futuro, poderá ser trocado pelo que
realmente você deseja.
À primeira vista parece uma operação mais demorada, mas a
realidade é que foi exatamente este maravilhoso e genial método que
permitiu – e que segue permitindo – o desenvolvimento da civilização.
Considere o caso de João, o agricultor, que quer comprar as
sandálias feitas por Maria. Dado que Maria não quer ovos, João terá de
descobrir o que ela realmente quer – digamos que seja manteiga. João,
então, troca seus ovos pela manteiga de Pedro, e então vende a
manteiga para Maria em troca das sandálias.
João irá comprar a manteiga não porque quer, mas sim porque
isso o permitirá adquirir as sandálias. Da mesma forma, Francisco, o
dono da enxada, venderá sua enxada por uma mercadoria que ele
possa com mais facilidade dividir e vender – por exemplo, manteiga. Se
repetido de maneira contínua, ele trocará partes de manteiga por ovos,
pães, roupas etc.
Em ambos os casos, essa superioridade da manteiga é o motivo
pelo qual existe uma maior demanda por ela. Essa vantagem vai além
do seu mero consumo – é a sua maior comerciabilidade, ou, em ternos
econômicos, sua liquidez. A enorme facilidade de ser trocada, de ser
vendida, de ser comercializada.
No decorrer da história, diferentes bens foram utilizados como
meios de troca: açúcar, nas Índias Ocidentais; sal, na Etiópia; pregos,
na Escócia; cobre, no Egito antigo; além de grãos, rosários, chá,
conchas e anzóis.[14]
Ao longo dos séculos, duas mercadorias, que retirando a função
de troca das demais, foram espontaneamente escolhidas como dinheiro
na livre concorrência do mercado: Ouro e prata. 
Tanto o ouro quanto a prata são altamente comerciáveis, são
muito demandados para decoração, e se sobressaem em todas as
outras qualidades necessárias.
Em épocas recentes, a prata, por existir relativamente em maior
quantidade que o ouro, se mostrou mais útil para trocas de menor
quantia, ao passo que metal dourado foi mais utilizado para transações
de valor mais expressivo.
De qualquer maneira, o importante é que, independentemente do
motivo, o livre mercado escolheu o ouro e a prata como a mais eficiente
forma de dinheiro.
Hoje, as moedas nacionais possuem diversos nomes: Dólar, Real,
Euro, Peso e Bolívar, por exemplo. No passado, tais nomes não
passavam de denominações para unidades de massa de ouro e prata.
Antigamente, a Libra Esterlina era a denominação do equivalente
a 1/4 (um quarto) de uma onça de ouro. O dólar, por outro lado,
equivalia a 1/20 (um vinte avos) da mesma quantidade do metal.
Fazendo uma simples conversão, pode-se notar que a Libra
Esterlina valia 5/20 (cinco vinte avos) de ouro ou, conforme o senso
comum, 5 dólares.
Após estabelecido o meio de troca aceitável em sociedade, surge
então um problema: De que forma o meio de troca seria guardado?
Onde seria armazenado?
Surgem então os “armazéns de ouro”, lugares onde as pessoas
depositariam sua quantidade de ouro e, receberiam em troca um
comprovante de armazenagem. Esse recibo era o documento que
comprovaria que João possuía ouro no armazém do seu Zé, por
exemplo.
Tanto o ouro quanto a prata necessitavam de um formato para que
fossem aceitas no mercado. Surge, então, a cunhagem, que é a
fabricação da moeda de acordo com seu peso e sua pureza.
Havia profissionais que prestavam esse serviço, mas existia uma
certa desconfiança por parte das autoridades sobre a pureza dos metais
usados na cunhagem. Tal pressuposto foi utilizado para o governo
controlar a cunhagem e a oferta de moedas.
A partir do momento em que o governo decidiu controlar esse
processo, a verdadeira tragédia começou. O primeiro passo foi tomar o
monopólio absoluto da cunhagem. Este era o meio indispensável para
se controlar a oferta de moedas.
A figura do rei ou do nobre era estampada nas moedas e, em
seguida, era propagado o mito de que a cunhagem era uma
prerrogativa essencial para a “soberania” real ou baronial.
O monopólio da cunhagem permitia ao governo oferecer qualquer
denominação de moeda que quisesse. Como resultado, a variedade de
moedas no mercado foi forçadamente reduzida.
Depois de ser o único a poder fabricar moedas, o governo
promoveu e incentivou o uso do nome da unidade monetária. Por meio
da distorção da linguagem, foram sendo separados o nome e o peso da
moeda.
Essa também foi uma medida extremamente importante, já que
desobrigava cada governo da necessidade de aceitar um meio de
pagamento comum para todo o mercado mundial.
Em vez de usar grãos ou gramas de ouro e prata, cada estado
promoveu seu próprio nome nacional conforme o patriotismo monetário:
dólares, marcos, francos e etc.
A mudança possibilitou aos governos fazer aquilo que viria a ser o
principal meio de falsificação da moeda: a adulteração, também
conhecida como inflação.
A adulteração rápida e severa do metal foi uma tradição da Idade
Média em praticamente todos os países da Europa. Por exemplo, em
1200 D.C, o livre tournois francês foi definido como sendo 98 gramas de
prata pura; por volta de 1600 DC ele já estava sendo definido como
apenas 11 gramas.
Outro caso notável é o do dinar, a moeda dos sarracenos na
Espanha. Ele consistia em 65 grãos de ouro, quando foi cunhado pela
primeira vez no final do século VII.
Os sarracenos, que eram altamente responsáveis, cunharam, de
modo que em meados do século XII, o dinar ainda continha 60 grãos.
Foi então que os reis cristãos conquistaram a Espanha e, já no início do
século XIII, o dinar (agora chamado maravedí) foi reduzido a 14 grãos.
Rapidamente, a moeda de ouro se tornou leve demais para
circular, de forma que o termo maravedí passou a ser definido como
uma moeda pesando 26 grãos de prata.
Com o tempo, ela também foi diluída e, em meados do século XV,
o maravedí possuía apenas 1,5 grão de prata – e, mais uma vez,
pequena demais para circular.[15]
Depois do monopólio da cunhagem, o governo, por meio da
criação do banco central, monopolizou também a emissão dos títulos
referente à posse de ouro nos armazéns.
É notável que o banco central se tornou o armazém central.
Agora, além de adulterar a pureza dos metais nele depositados,
adultera também os títulos referentes à posse desses mesmos metais.
Por mais que fosse responsável por tais práticas enganosas e
nefastas à economia, o Banco Central adquiriu uma certa confiança do
público por ser considerado um salvador dos outros bancos.
Murray Rothbard afirma que um dos motivos utilizados para
convencer o público a abandonar o ouro e migrar para as cédulas foi a
grande confiança que todos tinham no Banco Central[16].
Em posse de quase todo o ouro e com respaldo psicológico das
pessoas, o Banco Central foi apoiado pelo poder e prestígio do governo.
Assim, não poderia cometer erros e falir.
E de fato é verdade que nenhum Banco Central na história do
mundo jamais foi à falência. Mas por que não? Por causa de uma regra
muito clara: Não se pode deixar um Banco Central quebrar.
O Banco Central, portanto, adquiriu a confiança quaseque
ilimitada das pessoas.
Naquela época, o público não tinha entendido que o Banco
Central havia ganhado a permissão para imprimir dinheiro à vontade e
permanecer imune a qualquer responsabilidade caso suas atitudes
fossem contestadas.
As pessoas viam o Banco Central como uma grande instituição
nacional que realizava um serviço público. Além do mais, era protegido
da falência por ser um braço virtual do governo.
Pelo fato de as pessoas confiarem no Banco Central e o governo
socorrê-lo caso algo desse errado, a instituição bancária poderia fazer o
que bem entendesse.
E fez.
O Banco Central da Inglaterra emitiu mais títulos de posse de
ouro do que realmente havia em seus armazéns. Foi criada assim a
reserva fracionária.
Os Bancos possuíam muito menos ouro do que diziam ter.
Dessa forma, caso todas as pessoas decidissem retirar seu ouro,
não teria o suficiente para todo mundo. Em outras palavras: o Banco
Central havia falsificado os títulos.
No século XVIII, os ingleses decidiram retirar seu ouro. O reino
permitiu que o Banco Central cancelasse suas restituições e as
mantivesse suspensas por mais de vinte anos.
Mas não para por aí.
Até 1971, o dólar era conversível em ouro.
Depois do fim do acordo de Bretton Woods, a moeda americana
se tornou simplesmente um pedaço de papel colorido lastreado na
confiança que as pessoas tinham no governo.
Dessa forma, o FED poderia deixar as impressoras ligadas a todo
vapor. Mas para que imprimir dinheiro se criar dígitos é mais fácil e
economiza papel?
Surgia a reserva fracionária 2.0.
Esse fato é tão bizarro que, se hoje todas as pessoas decidissem
sacar o dinheiro da conta, não haveria cédulas para todo mundo.
No Brasil, por exemplo, o Banco Central só tem 17%[17] em
reservas de todo o dinheiro circulante na economia. Em outras
palavras: 83% é dinheiro fictício.
Toda essa violenta e bárbara intervenção do governo na
economia, desde o ato de estampar o rosto do rei na moeda até a
criação do banco central, abriu caminho para a criação e fama da teoria
publicista.
Ela afirma que a moeda tem origem na lei, posição adotada pelos
Bancos Centrais mundo a fora:
 
A análise da origem e natureza da moeda também pode ser
feita sob um prisma publicístico. Nessa interpretação, o agir
livre e espontâneo dos agentes econômicos perde
relevância. O que importa, agora, é a atuação impositiva de
um ator externo, o qual, mediante seu poder de coerção,
influencia os rumos do mercado de maneira decisiva e
autorizativa conforme a concepção pública, portanto, a
moeda não tem um surgimento autônomo, mas
condicionado à vontade do ente que tem força – seja ela
política, econômica ou militar – para impô-la sobre a
sociedade como tal poder tem uma manifestação jurídica, “a
moeda é uma criação do direito”.
[...]
 A afirmação de que a moeda é uma criação do Direito deve
ser entendida “no sentido amplo de que é uma criação da
atividade legislativa do Estado, uma criação de política
legislativa”. A moeda é, assim, uma criação prática, não
especulativa, do Direito. Por ser uma criação jurídica, a
teoria da moeda deve justamente lidar com a História do
Direito, pois o surgimento da moeda como tal é indissociável
de sua regulação pelo ordenamento normativo. As
alterações dos meios de pagamento ao longo do tempo,
com a subsistência das relações creditícias estipuladas no
padrão monetário anterior, mostram que o Estado trata a
parte física da moeda – os materiais e as unidades
monetárias – como apenas nomes, sem que ela se torne
determinante para os contornos da relação jurídica. Dessa
forma, “a alma da moeda não está no material de suas
peças, mas nos preceitos legais que regulam seu uso”.
(RICKEN, 2014.)
 
Vejamos o completo absurdo: “O livre agir dos indivíduos perde
força”, “...a moeda não tem surgimento autônomo, mas [o surgimento é]
condicionado à vontade do ente que tem força”. Dessa forma a natureza
material da moeda é totalmente desconsiderada pelo estado.
O ouro e a prata são totalmente ignorados. Vale somente o papel
colorido que o estado determina como moeda. Por consequência, o
comerciante é obrigado a aceitar algo que inicialmente ele não quer. O
motivo? O Curso legal.
Por causa das mudanças legislativas e catástrofes econômicas, o
Brasil teve 9 moedas durante a sua história. A partir de 1994 surgiu o
Plano Real buscando colocar ordem na economia nacional.
A Lei 8.880/94, que criou o Plano Real, afirma em seu artigo
primeiro: “Fica instituída a Unidade Real de Valor – URV, dotada de
curso legal para servir exclusivamente como padrão de valor monetário,
de acordo com o disposto na Lei”[18].
Depois de a Lei 8.880/94 dar ao Real o curso legal, a Lei 9.069[19]
tornou o Real a unidade monetária do Brasil e permitiu sua emissão
pelo Banco Central.
Além da fundamentação teórica e Legal da origem estatal da
moeda, o Supremo Tribunal Federal tratou do tema da seguinte forma:
 
[...]Ao deslinde da questão importa necessária consideração
do conceito da moeda, conceito jurídico. Que aqui se trata
de um conceito jurídico – não de conceito específico da
Ciência Econômica – isso percebemos ao cogitar das
funções básicas que a moeda desempenha na
intermediação de trocas e como instrumento de reserva de
valor e padrão de valor. O chamado poder liberatório da
moeda permite aos seus detentos, sem limites ou
condições, a exoneração de débitos de natureza pecuniária.
[...]Eis aí, a moeda como padrão de valor, padrão que
apenas se pode e deve utilizar nos limites e sob estritas
condições definidas pelo direito positivo. [...] e as doutrinas
econômicas tomam a moeda como convenção. O fenômeno
da “dissolução da moeda”, na hiperinflação, não é senão
expressivo do rompimento dessa convenção, rompimento
que se dá quando perece a funcionalidade do ordenamento
jurídico monetário. Por isso os vocábulos “lira”, “dólar”,
“marco”, “real” só ganham significado quando referidos a
normas integradas em determinado ordenamento jurídico,
que os contemple como indicativos da unidade monetária
juridicamente válida no espaço por ele abrangido. A moeda,
pois, não é senão um nome sacralizado pela ordem jurídica,
em 30 de junho de 1994 ano o “real” passou a ser moeda
[unidade monetária] brasileira única e exclusivamente
porque assim o disse, definindo-o como tal, o direito positivo
brasileiro, inovado pela Medida Provisória 542/94. Todas as
demais unidades monetárias como tais definidas pelos
ordenamentos jurídicos de outros Estados não revestem, no
quadro do direito positivo brasileiro, a qualidade de moeda.
Podem, é certo, consubstanciar reserva de valor, objeto de
avaliação patrimonial, coisa no sentido jurídico [elemento
que se inclui no patrimônio de sujeito de direito]... [...] O
primeiro – o curso legal – expressa a qualidade de valor
líquido da moeda, em razão do que ela não pode ser
recusada.
O curso legal assegura a ampla circulação e imposição de
aceitação da moeda; daí a sua caracterização como meio de
pagamento. Já o curso forçado é qualidade da moeda
conversível, vale dizer, de instrumento monetário que pode
ser convertido em algum bem que represente o valor nela
declarado [...] (BRASIL, 2010)
 
O Relator, Ministro Eros Grau, tornou explícito o conceito publicista
de moeda adotado no país que, além de presente na Lei, está também
na jurisprudência da suprema corte.
A maior ironia é que, segundo o Supremo Tribunal Federal, a
moeda não perde o seu curso legal, mesmo em épocas que ela não
vale nada. Ou seja, você é forçado a aceitar um papel colorido que se
desvaloriza a cada segundo que passa.
É graças ao curso legal que o estado tem a permissão de imprimir
a sua moeda de forma ilimitada, gerando a hiperinflação. Afinal, as
pessoas são obrigadas a aceitá-la.
Caso não houvesse o curso legal, o estado pensaria duas vezes
antes de ligar a impressora do banco central.
Percebemos então que, conforme a suprema corte, moeda é o
meio de troca emitido pelo estado e com curso legal, de acordo com a
sua interpretação do texto da Lei.
Por consequência, o Bitcoin pode ser consideradomeio de troca,
mas não moeda, pelo fato de não ter origem no estado e muito menos
ter curso legal.
Ufa! Ainda bem.
Bom, temos certeza que moeda não é.
O que é então?
Há somente três alternativas:
Título de crédito, ativo financeiro ou bem.
Você acha que é o quê?
E, o mais importante, o que o estado acha que é?
2.4. É TÍTULO DE CRÉDITO, ATIVO FINANCEIRO OU BEM?
 
Já que o Bitcoin não é moeda, vamos ver se ele é título de crédito,
ativo financeiro ou bem.
Vamos conhecer cada um deles.
O primeiro é um documento que contém um direito de crédito e
representa a obrigação do devedor. O cheque é um exemplo, porque o
seu possuidor pode ir ao banco com ele em mão e sacar o dinheiro da
conta da pessoa que o emitiu.
O ativo financeiro, por sua vez, é tudo aquilo que tem a
possibilidade de aumentar o patrimônio do possuidor e lhe gerar renda
passiva.
As ações são exemplos de ativos financeiros, porque há a
possibilidade de a cota empresarial valorizar. Além disso, se a empresa
obtiver lucros, haverá a distribuição de parte dos rendimentos aos
acionistas, os chamados dividendos.
Os bens, por outro lado são coisas que têm valor econômico e
podem satisfazer uma vontade humana. Uma casa, um carro e um
smartphone atendem as necessidades de moradia, deslocamento e
comunicação, respectivamente.
Agora, vamos verificar se o Bitcoin se encaixa em pelo menos um
desses conceitos.
Os títulos de crédito possuem várias características. A primeira
delas é a cartularidade. Mas o que ela é?
Cartularidade é a necessidade da existência física do título, ou
seja, o papel. Além disso, ela não está presente no Bitcoin porque não
há direito de crédito vinculado a ele. Em outras palavras: ele não é uma
cédula e seu preço oscila de acordo com a vontade do mercado.
Outra razão que impede o Bitcoin de ser um título de crédito é o
fato de não ser um documento formal. Por não ser uma cédula, ele não
é um título de apresentação e muito menos um documento com efeito
executivo extrajudicial, além de não estar sujeito à legislação cambiária.
Já que o Bitcoin não é considerado moeda devido ao conceito
publicista e também não é título de crédito, seria a criação de Nakamoto
um valor mobiliário? Para a Lei 6.385/76, não.
Além de tratar do assunto, ela cria a CVM, autarquia responsável
por fiscalizar o mercado de renda variável. De acordo com a Lei
6.385/76, são valores mobiliários as ações, debêntures e bônus de
subscrição, por exemplo.
Existem também outros bens mobiliários elencados pela norma:
Recibos de subscrição; certificados de depósito; cédulas de debêntures;
cotas de fundos de investimento; notas comerciais; contratos futuros de
opções; e contratos de investimento coletivo, que gerem direito de
participação, parceria ou remuneração.[20].
A Lei foi promulgada em 1976, portanto é impossível ela classificar
o Bitcoin como valor mobiliário na data de sua edição. Por
consequência, ele não pode ser tratado como tal porque não há
previsão legal.
É importante explicar e qualificar cada valor mobiliário presente na
Lei. No Inciso I estão presentes as ações, debêntures e bônus de
subscrição. As ações são cotas ou pedaços do capital social de uma
empresa.
A partir do momento que o indivíduo compra uma ação, ele se
torna um acionista, participando da companhia. Em outras palavras: ele
se torna sócio. 
As debêntures são empréstimos para determinada empresa.
Dessa forma, o investidor se torna um credor, recebendo juros no final
do período.
O bônus de subscrição, por outro lado, é uma vantagem vendida
ao acionista quando novas ações são emitidas. Assim, ele terá o direito
de preferência para comprar as novas cotas da empresa recém
disponibilizadas no mercado.
Os certificados de depósito se dividem basicamente em dois: CDB
e CDI. O primeiro é feito entre investidores e bancos. O segundo é
realizado somente entre as instituições bancárias. Por ser um título de
renda fixa, funciona como um empréstimo à organização financeira.
Outro valor mobiliário também tratado na Lei 6.385/76 é a cédula
de debênture. Ela é emitida por instituições financeiras atuantes no
Brasil.
Funciona da seguinte forma: Uma empresa de minério solicita no
mercado um empréstimo de R$ 100.000,00 (cem mil reais) oferecendo
além do pagamento do montante, boas taxas de retorno.
O Banco aceita a oferta, tornando-se credor da companhia.
Entretanto, o Banco vende esse título a você.
Agora você é o credor da mineradora. O empréstimo do banco à
empresa é a debênture; o que ele vende a você é a cédula, que dá
direito de resgate, com juros, do valor emprestado à companhia de
minério.
As cotas de fundos de investimentos, presentes na Instrução 555
da Comissão de Valores Mobiliários, são definidas como um pequeno
pedaço do patrimônio do fundo e confere iguais direitos e obrigações
aos cotistas que fazem parte dele.
Quanto ao clube de investimento, é conceituado pela Instrução
Normativa 494 da CVM da seguinte forma:
 
O Clube de Investimento é um condomínio aberto
constituído por no mínimo 3 (três) e no máximo 50
(cinquenta) pessoas naturais, para aplicação de recursos
em títulos e valores mobiliários” (BRASIL, 2011)
 
As notas comerciais, presentes no inciso VI, são conhecidas
também como notas promissórias, ou seja, promessas de pagamento.
O contrato de derivativos é aquele em que o contratante compra
uma opção de negociar um ativo em determinada data e por um preço
pré-determinado. O mais comum dos contratos de derivativos é o
contrato de opções.
Os últimos dois incisos tratam dos contratos de investimento
coletivo, que geram direitos de participação. Portanto, é um título
mobiliário. Flávio Tartuce explica:
 
Um ato jurídico bilateral, dependente de pelo menos duas
declarações de vontade, cujo objetivo é a criação, a
alteração ou até mesmo a extinção de direitos e deveres de
conteúdo patrimonial. Os contratos são, em suma, todos os
tipos de convenções que possam ser criadas pelo acordo de
vontades. Dentro desse contexto, o contrato é um ato
jurídico em sentindo amplo, em que há o elemento
norteador da vontade humana que pretende um objeto de
cunho patrimonial; constitui um negócio jurídico por
excelência. (TARTUCE, 2015.)
 
Há vários motivos para que o Bitcoin não seja considerado como
valor mobiliário: O primeiro é que ele não é negociado como uma fração
de determinada empresa e muito menos é um título que a representa.
Outro fato curioso é que o Bitcoin também não é um título de
crédito vinculado a uma empresa; e também não é considerado cédula
de debênture pelo fato de não ser emitido por uma instituição financeira.
Além de não ser um empréstimo empresarial e muito menos uma
cédula de debêntures, não é uma cota de fundo de Investimentos
porque não é fração de patrimonial de um conjunto de pessoas.
Em relação às notas promissórias, notamos que o Bitcoin não
constitui uma promessa de pagamento. Portanto, não pode ser
enquadrado no inciso VI.
No que diz respeito aos dois incisos posteriores, o Bitcoin não é
um contrato futuro de opções e nem um contrato de investimento
coletivo porque não possui as suas características jurídicas: declaração
de vontade e criação ou alteração de direitos.
Entretanto, existem criminosos que se aproveitam da ingenuidade
de algumas pessoas para aplicarem golpes. Esses delinquentes
apresentam o Bitcoin como um contrato de investimento coletivo,
oferecendo às pessoas lucros diários absurdamente altos.
Dessa forma, surgem as pirâmides financeiras. Com nomes
curiosos envolvendo “miner”, “hash” e “forex” por exemplo, eles
enganam as pessoas a pensarem que Bitcoin é contrato de
investimento coletivo. Não é.
A partir de agora sabemos que ele não é moeda, título de crédito e
valor mobiliário. Afinal, o que é o Bitcoin?
Pelo visto, o que nos resta é classificá-lo como uma coisa, um
bem.
Coisa é tudo aquilo que existe além do indivíduo. Os bens são as
coisas que podem ser precificadas.
O ar atmosférico é uma coisa, mas não um bem. O solo lunar é
uma coisa, mas ainda não é um bem. Poderá ser se a lua for
colonizada,

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