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Os movimentos sociais Apresentação Os movimentos sociais são um importante indicador da qualidade e do equilíbrio democrático, mas também podem questionar, contestar e até insurgir, estremecendo estruturas políticas já abaladas. Eles sofreram inúmeras mudanças desde sua concepção mais clássica, de movimento combativo e de contestação até os novos movimentos sociais. Essas mudanças não indicam apenas uma alteração na forma de interagir e de propor transformações sociais, mas também uma profunda alteração no posicionamento da sociedade civil frente ao Estado. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai aprender as formas mais comuns de mobilização social nas sociedades contemporâneas e vai ter contato com as leituras de três grandes teóricos da sociologia dos movimentos sociais: Alain Toraine, Manuel Castells e Alberto Melucci. Com base em suas leituras, você ainda vai ver que um conceito extrapola os arcabouços da sociologia dos movimentos sociais, sendo importante para todo o campo sociológico: a definição de identidade individual que emerge nas sociedades modernas após a Terceira Revolução Industrial. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a mobilização social em torno de um problema social específico na formação dos movimentos sociais. • Identificar as demandas sociais de um movimento social tradicional e dos novos movimentos sociais. • Relacionar movimentos sociais, Estado e políticas públicas.• Desafio Os movimentos sociais podem ter cunho religioso, cultural, étnico, financeiro, ambiental, educacional, entre outros. Para alcançarem visibilidade, precisam sensibilizar outros setores da sociedade na qual se inserem. Algumas pautas têm, tradicionalmente, maior apelo entre a sociedade civil, enquanto outras têm menos, mas a visibilidade e a compreensão social das demandas apresentadas – e os benefícios coletivos da resolução dos problemas vivenciados – são alguns dos objetivos dos movimentos sociais para arregimentar apoio e representação política, chegando às mudanças e transformações desejadas. Com essas informações, considere o seguinte contexto: Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/b614a68f-0904-4282-b31c-5c25ecb6d81b/8c8d0b41-3bf8-4b9e-abde-fcde397ca724.png Diante dessa situação, realize as seguintes propostas: a) Crie uma proposta de movimento social para sensibilizar a sua comunidade sobre a importância do patrimônio histórico brasileiro de expressão local, ou seja, a preservação da memória histórica não apenas de monumentos ligados a ícones nacionais. b) Elabore uma ação para a defesa da casa desse artista como patrimônio. Para isso, pense: como levar mais conhecimento sobre essa causa? c) Escolha um acervo histórico ou museu de história natural de sua cidade, liste dois patrimônios materiais (prédios históricos, obras, animais, artefatos) e explique a importância deles para a manutenção e o enriquecimento da cultura brasileira. Além disso, identifique que tipos de atores fariam parte do grupo para restaurar a casa do artista e qual é a principal demanda, ou seja, qual é a pauta reivindicativa do movimento que você criou. Infográfico Na contemporaneidade, os movimentos sociais têm agendas e pautas que organizam e direcionam sua ação de forma estratégica, planejando e estabelecendo diálogos e solucionando disputas e problemas. O passo a passo da organização das agendas define, ainda, que tipos de mobilização e de diálogo serão empreendidos. A definição dessas etapas é uma tarefa de gestão dos movimentos sociais que pode resultar no melhor desempenho da divulgação da causa e da consecução dos objetivos. Isso atrai o olhar do poder público, gerando maior representação política e conquistando adesão popular. Neste Infográfico, você vai ver como é feita a criação da pauta e da agenda dos movimentos sociais. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/d6c1593b-bba9-4101-84a5-4f1a157c6d21/bba4c8cd-5c6d-401c-a977-4d2e58d6764d.png Conteúdo do livro Os movimentos sociais são parte importantíssima do legado democrático. Eles asseguram e salientam que o regime político se mantém levando em conta a liberdade de seus cidadãos. Por isso, é importante conhecer sua forma de organização e de atuação, além de buscar entender a si mesmo como possível ator de um movimento social. Afinal, é provável que se tenha algum interesse ou pertença a algum grupo social que deseja ter sua voz ouvida por outros setores da sociedade ou pelo Estado. No entanto, reconhecer as necessidades do outro é também uma forma de participação democrática e de garantir a efetividade dos direitos dos diversos grupos sociais, que enfrentam realidades sociais distintas. Por isso, os movimentos sociais dialogam não apenas com o Estado, mas também com a sociedade civil, expondo dados, conscientizando, democratizando informações e buscando apoio. No capítulo Os movimentos sociais, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai entrar em contato com alguns dos principais pensadores dos movimentos sociais contemporâneos e vai ter um vislumbre do desenrolar histórico que proporcionou às mobilizações sociais chegarem ao modelo que têm hoje, especialmente no Brasil. Você vai estudar a maneira como os movimentos sociais elaboram as formas de atuação, vai ver como diferenciar os movimentos sociais tradicionais dos contemporâneos e ainda como identificar as possibilidades de relação entre Estado e movimentos sociais na busca de novas políticas públicas. SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA Aline Michele Nascimento Augustinho Movimentos sociais Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a mobilização social em torno de um problema social específico na formação dos movimentos sociais. Identificar as demandas sociais de um movimento social tradicional e dos novos movimentos sociais. Relacionar movimentos sociais, Estado e políticas públicas. Introdução Neste capítulo, você vai ver que as mobilizações sociais em torno de um objetivo comum a um grupo de pessoas não são organizações recentes. Na verdade, a organização social em prol de uma causa é uma prática política antiga e pode levar a situações extremas, como insurgências, revoltas e até revoluções. As principais revoluções conhe- cidas se iniciaram a partir de um ideal e um objetivo compartilhado por um grupo de pessoas. Na modernidade, porém, os movimentos sociais passaram a ser elementos de diálogo entre sociedade civil e Estado, e também ele- mentos de diálogos internos aos tecidos sociais. Você vai ver que, ainda que o desejo de se agrupar por uma causa seja antigo, os modelos de atuação, associação e desenvolvimento dos movimentos sociais se alteram a partir do tipo de sociedade na qual se inserem e, essen- cialmente, a partir da combinação entre contexto político, histórico, econômico e cultural. Por isso, ao longo deste texto, você vai conhecer os aspectos his- tóricos da formação dos movimentos sociais. Também vai identificar as diferenças entre as demandas dos movimentos sociais tradicionais e as demandas dos novos movimentos sociais. Por fim, vai ver como os movimentos sociais e as suas demandas por diálogo se relacionam com o Estado na busca por políticas públicas que atendam às suas necessidades. A formação dos movimentos sociais Os movimentos sociais são hoje uma das formas mais comuns de mobilização para a visibilidade de demandas sociais específi cas. Mas você sabe como eles surgiram? A mobilização de pessoas em torno de uma demanda pode não parecer recente, mas hoje assume formas de organização e articulação diferentes das que possuía no passado. Até o início do século XX, as mobilizações sociaismuitas demissões e, especialmente, muita vio- lência contra os trabalhadores. Mas, por meio dele, alguns dos fundamentos dos direitos trabalhistas que você conhece hoje foram delineados. É o caso do benefício de folgas semanais remuneradas, do pagamento de horas extras, bem como da supressão do trabalho infantil e de trabalhos insalubres para gestantes — ao menos nos ambientes laborais urbanos. Dessa forma, observe: há um grupo social, os trabalhadores, que estabelecem uma pauta, que são melhores condições de trabalho. Após a pauta, foi estabelecida a agenda: as formas de mobilização, greves e concentração em frente às fábricas. Tudo isso se direciona ao Estado, para que observe a reivindicação do grupo e a supra. Supridas as pautas, a agenda é reorganizada, e o grupo pode se preparar para uma nova demanda, ou se direcionar à manutenção da organização. Esse é um exemplo clássico de movimento social tradicional. Nesse caso específico, preocupado com o avanço comunista na Europa, especialmente a partir da Re- volução Russa de 1919, o Estado estabeleceu que o mais seguro para garantir a estabilidade nacional e afastar a ameaça comunista era criar e manter um canal de comunicação estável e contínuo com os trabalhadores. Posteriormente, foram criados os sindicatos, para que um grupo destacado especificamente para isso assegurasse que as demandas dos trabalhadores fossem atendidas e que, uma vez assegurados os seus direitos, a ordem fosse mantida. Trata-se de um jogo em que o Estado oferece as soluções ao grupo social. Os modelos tradicionais de movimentos sociais se articulam de forma a obter uma resposta do Estado. Há um problema, e os movimentos sociais pedem que o Estado o observe. Ou seja, há aí, além do diálogo horizontalizado, um movimento que parte da sociedade para o Estado e, espera-se, do Estado para a sociedade. Os novos movimentos sociais, por sua vez, emergem a partir da década de 1970, na Europa e nos Estados Unidos. Posteriormente, atingem a porção sul do hemisfério, especialmente com o movimento feminista e o movimento ambientalista. A diferença entre o novo modelo e o tradicional é que os novos movimentos sociais articulam seu diálogo não em direção ao Estado, mas em direção aos tecidos sociais. O sentido da interação parte da sociedade e se dirige à própria sociedade. 5Movimentos sociais Isso ocorre porque, a partir dos anos 1970, as ditaduras na América Latina e na África e a Guerra no Vietnã diminuíram drasticamente o espaço que os movimentos sociais podiam ocupar. O diálogo não existia e, quando havia a possibilidade de manifestação sem repressão, não havia resposta. Assim, os movimentos sociais contestatórios dos anos 1950 e 1960 deram lugar aos movimentos sociais que buscavam dialogar com setores diferentes da socie- dade. O sociólogo Melucci (2001) explica que, nesse período, a sociedade civil se coloca na arena política como um ator dissociado do Estado. Na ausência de resposta ou impossibilidade de expressão, este deve se voltar aos atores internos. Todo cidadão seria um ator social, no sentido de que ele poderia protagonizar os caminhos de suas demandas e crenças. Os atores sociais, então, se organizariam em redes, encontrando outros atores que dividissem as mesmas expectativas e necessidades. Assim, eles tentariam sanar os problemas e necessidades, ou então conscientizar outros setores e outros atores sociais sobre determinada causa. Nesse sentido, o diálogo per- manece horizontalizado, mas não se dá mais em direção ao Estado. Ele ocorre internamente, de um grupo de atores sociais para os outros grupos. Os novos movimentos sociais buscam a conscientização e também a solução. Por isso, nesse período, surgem as organizações não governamentais (ONGs), que se destinam a promover uma causa desde a sua apresentação até as soluções possíveis. Os novos movimentos sociais também possuem características mais homo- gêneas do que as dos movimentos tradicionais, de forma que alguns se tornaram mundiais. É o caso do movimento ambientalista. Nesse movimento, setores da sociedade civil se organizaram para que os outros atores das sociedades passas- sem a ter mais consciência sobre o consumo de recursos naturais, promovendo a preservação. Mais ainda, se organizaram a fim de que a própria sociedade, independentemente da resposta do Estado, pudesse cuidar disso. Foi o que aconteceu na criação da ISO 9000, a International Standart Organization, que, na década de 1970, oferecia um selo de qualidade para as empresas que comprovadamente produzissem os menores impactos ambientais possíveis. Os novos movimentos sociais inauguraram aquilo se chama hoje de terceiro setor: organizações não estatais que surgem na sociedade civil, mas não se mantêm apenas como parte do tecido social. A partir da década de 1980, elas ganham grande visibilidade e poder. O referido selo ISO, por exemplo, ultrapassou a Europa e ganhou o mundo. Desde então, as empresas procu- ram enquadrar suas produções para obtê-lo. Além disso, alguns setores do Estado, em licitações, privilegiam a contratação de empresas que o possuam. Nesse sentido, a sociedade se torna protagonista de sua própria demanda, na medida em que o selo é produzido, aplicado e fiscalizado inteiramente por Movimentos sociais6 ela, sem intervenção do Estado. As sociedades compreenderam que podem se articular internamente, a partir de sua demanda, obtendo como resposta a fiscalização social. Nesse sentido, você pode considerar que o consumo foi um dos direcionadores para o estabelecimento desse cenário. Movimentos sociais, Estado e políticas públicas Os anos 2000 trouxeram novas formas de organização para os movimentos sociais, bem como novas formas de diálogo entre sociedade civil e Estado. Há uma emergência de novos movimentos sociais contestatórios, que se as- semelham na forma aos movimentos sociais tradicionais. No entanto, há uma série de dispositivos constitucionais que asseguram a sua existência e as pos- sibilidades de resposta pelo Estado. Por outro lado, a sociedade civil continua se articulando em movimentos sociais para si mesma, por meio das ONGs. A partir desse período, as demandas dos movimentos sociais passaram a ser utilizadas pelo Estado como parâmetros para a constituição de políticas públicas específicas. Normalmente, a partir de uma demanda específica e da organização em torno de um tema, é possível ganhar visibilidade. A partir da esfera local, é possível projetar as agendas dos movimentos a fim de que haja a resposta gover- namental. A resposta se dá por meio, principalmente, de novas políticas públicas. Você já percebeu que, cada vez mais, há a presença de intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) em instituições educacionais, entidades e repartições públicas, e até mesmo em eventos culturais, como shows, peças de teatro, etc.? A presença desses profissionais permite que pessoas surdas ou com deficiências auditivas possam se integrar socialmente, participando e transitando por todas as esferas em que uma pessoa ouvinte circula. Essa prática está ainda se estabelecendo, mas a ideia é que quem se comunica usando Libras possa ter conforto em qualquer lugar público. Por que isso acontece hoje? Porque os movimentos sociais ligados à inclusão social, especificamente os ligados à defesa de direitos da pessoa surda ou com deficiência auditiva, conseguiram estabelecer suas pautas. Assim, o Estado tomou providências e respondeu a tais demandas sob a forma de políticas públicas. Atualmente, as unidades federativas da União, ou seja, os estados, têm autonomia para definir como as suas instituições de ensino oferecerão os elementos que garantam a inclusão de pessoas com deficiência, mas é muito claro que as demandas dos movimentos pela inclusão social e educacional tiveram resultados. Para acontecerem, os movimentos sociais dependem de uma série de fatores que os tornam únicos, sem comparações com outros, embora possa haver 7Movimentossociais “precedentes”, movimentos que inspirem ou impulsionem outra mobilização no futuro. Tudo depende do cenário histórico, cultural, político e econômico. Por isso, a sociologia dos movimentos sociais não faz uma única abordagem teórica ao tema. Na verdade, não há um consenso entre os pesquisadores sobre qual leitura seria a melhor para a análise de uma mobilização importante. En- tretanto, existem alguns pesquisadores que aparecem frequentemente quando a sociologia dos movimentos sociais se propõe a analisar determinado evento. São eles: Alain Touraine, Alberto Melucci e Manuel Castells. Esses três autores trabalham o conceito de movimento social na modernidade, ou seja, estudam os movimentos formados após a década de 1970, também cha- mados de novos movimentos sociais. É importante que você perceba que existe uma diferença entre os movimentos sociais anteriores à década de 1960 e os que vieram após esse período. Até então, a ocupação dos espaços públicos para a organização civil se baseava também no conceito de classes sociais, bem como na noção de que uma classe utilizava o campo da reivindicação para questionar os privilégios de outras classes. Essa leitura clássica dos movimentos sociais está associada a uma leitura estrutural marxista de disputa de classes. Essa disputa, essa contestação de privilégios, terminaria inevitavelmente no conflito. A leitura clássica dos movimentos sociais, portanto, tem viés marxista e foco na temática contestatória (PICOLOTTO, 2007). Ela se altera a partir da década de 1960 por dois fatores essenciais: a transformação dos modos de produção pelo primeiro período da revolução da informação e a existência de grande número de regimes autoritários e/ou ditatoriais pelo mundo, espe- cialmente na América Latina, na África e na Ásia. A alteração nos modos de produção diminui o sentido de classe e comunidade. Assim, se passa a dar maior ênfase à estruturação do conceito de indivíduo. É na relação entre um conjunto de individualidades e no diálogo com o Estado na modernidade que se baseiam as leituras dos novos movimentos sociais. O sociólogo francês Touraine (2003) oferece uma leitura historicista dos movimentos sociais. Para ele, esses movimentos surgem porque os atores sociais entendem que, para alcançar um propósito ou mudar algum fator estrutural da sociedade, é preciso ter o controle das especificidades históricas que orientam e determinam aquela sociedade, ou seja, os fatores culturais que a moldam. Além disso, Touraine (2003) identifica três princípios formadores dos movimentos: a identidade, ou seja, quem é o ator no movimento social; a oposição, ou o adversário (PICOLLOTO, 2007), que limita as possibilidades de que o movimento atinja seus objetivos; e a totalidade, ou seja, o complexo esquema entre estrutura da sociedade, cultura e história que o grupo social em movimento deseja alterar. Para Touraine (2003), embora o Estado seja ainda o Movimentos sociais8 elemento integrador daquele conjunto social, é na identidade do sujeito e em suas particularidades exteriores à estrutura do Estado que está alicerçado o conceito de modernidade. Isso faz com que os chamados novos movimentos sociais sejam diferentes dos movimentos clássicos. No link a seguir, você pode assistir à entrevista do sociólogo Alain Touraine para a rede de televisão portuguesa EuroNews. Nela, ele fala sobre o conceito de identidade e ação coletiva, que é aplicado à sua leitura dos movimentos sociais, por meio do processo de recepção de imigrantes às terras europeias. https://goo.gl/wgYpvq Para Castells (1999), a perspectiva inicial sobre os movimentos sociais também se inicia pela perspectiva marxista, especialmente para que sejam salientadas as mudanças estruturais. Para ele, a revolução informacional, ou Terceira Revolução Industrial, altera não apenas os meios de produção, mas as formas de relacio- namento social, fazendo com que a oposição indivíduo-Estado se modifique. Assim, surge uma construção mais cultural dos movimentos sociais, baseada especialmente em diálogos intrassociedade, de um segmento para o outro. Há ainda um elemento influenciador para tal alteração: a crise do Estado originada pelos desequilíbrios econômicos do período, que fez com que os indivíduos se articulassem para criar soluções sem a participação integral do Estado. Ou seja, não era mais produtivo contestar o Estado e gerar um conflito se este estava em crise e não poderia resolver as demandas. Os atores sociais, articulados, traba- lhariam até que fosse possível de forma autônoma, até o momento em que fosse necessário dialogar com o Estado. Você deve perceber que essa relação entre indivíduo e Estado, embora suavizada nesse contexto, nunca foi suprimida. Mas o contexto, que imprimiu marcas únicas à modernidade, trouxe à tona um cenário sem precedentes, por isso as formas de articulação social também eram inéditas. Melucci (2001) colabora para o arcabouço teórico da área com sua concepção de redes. Para ele, a modernidade conforma uma maneira única de relacionamento e organização social, em que cada indivíduo é um ator na arena social e política. Por isso, as mobilizações sociais derivam da formação de redes de movimentos sociais. O conceito de redes emerge porque os movimentos estariam, de alguma forma, interligados. Uma vez que não há o conceito de contraposição pela dis- 9Movimentos sociais puta de classes, os interesses individuais podem cruzar as agendas de mais de um movimento, e o ator social não é apenas o ator de uma classe, mas de seus inúmeros interesses. Assim, um ator do movimento feminista pode também ser ator do movimento ambientalista, por exemplo. E esses dois movimentos podem ter pautas em comum: um movimento ambientalista que defende o manejo sus- tentável de áreas de proteção ecológica pode fomentar a produção artesanal de mulheres ribeirinhas — e este trabalho pode também ser o foco de um movimento feminista local. Assim, haveria redes de movimentos sociais dialogando também com o Estado, mas, de forma mais intensa, dialogando entre si. No Brasil, a pesquisadora mais reconhecida nas análises sobre a conjuntura e a formação dos movimentos sociais é a professora Maria da Glória Gohn. Gohn (2000) elabora um esquema de leitura e classificação dos movimentos sociais. Tal esquema também vincula a perspectiva marxista aos movimentos clássicos e relaciona os novos movimentos sociais àqueles moldados por perspectivas culturais extraclasses. Contudo, Gohn (2000) inova ao inserir a categoria dos movimentos sociais latino-americanos. Para ela, há uma especificidade nos movimentos sociais latinos, formados pela condição de dependência periférica dos Estados na América Latina. Um exemplo da relação entre Estado, movimentos sociais e políticas públicas pode ser observado nas pautas do movimento norte-americano #NeverForget (Nunca Esquecer). Em fevereiro de 2018, um jovem de 19 anos chamado Nikolas Cruz invadiu o prédio da escola Marjory Stoneman Douglas, na Flórida, Estados Unidos, onde havia estudado durante o ensino médio. O rapaz portava uma arma AR-15 e, atirando a esmo, atingiu diversas pessoas, matando 14 adolescentes e três adultos. A arma foi comprada legalmente, o jovem já havia atingido a maioridade legal e não teve dificuldades para adquirir o artefato nem para entrar na escola, já que havia sido um estudante que não ofereceu problemas à instituição. Os sobreviventes do massacre articularam um movimento de contestação, que rapi- damente se espalhou para outras cidades do país com ajuda da internet. O movimento obteve a atenção midiática de redes de televisão e jornais impressos e online, arregimen- tando milhões de pessoas no país. O movimento chamado #NeverForget se propunha a chamar a atenção dos legisladores para o comércio de armas de fogo, clamando por dispositivos que impedissem a venda livre a todos os tipos de público. No dia 24 de março de 2018, liderado por jovens entre 14 e 18 anos,o #NeverForget levou milhões de pessoas à capital federal, Washington, com outros polos de concentração ao redor do país, atingindo Europa, Ásia e América Latina. O movimento arrefeceu no tocante à ocupação dos espaços públicos a partir de abril, permanecendo nas redes sociais. Movimentos sociais10 ARENDT, H. Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008. CASTELLS, M. Sociedade em rede. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. GOHN, M. G. Teoria dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000. HABERMAS, J. O comportamento político dos estudantes comparado ao da população em geral. In: BRITTO, S. (Org.). Sociologia da juventude. Rio de Janeiro: Zahar, 1968. v. 2, p. 115-132. MELUCCI, A. A invenção do presente: movimentos sociais nas sociedades complexas. Petrópolis: Vozes, 2001. PICOLOTTO, E. L. Movimentos sociais: abordagens clássicas e contemporâneas. CSOnline: Revista Eletrônica de Ciências Sociais, Juiz de Fora, ano 1, ed. 2, p. 156-177, nov. 2007. TOURAINE, A. Poderemos viver juntos? Iguais e diferentes. Petrópolis: Vozes, 2003. Leituras recomendadas ALTHUSSER, L. A corrente subterrânea do materialismo do encontro (1982). Crítica Marxista, São Paulo, n. 9, p. 9-48, 2005. CASTELLS, M. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. 11Movimentos sociais Conteúdo: Dica do professor A revolução informacional ou revolução nas formas de comunicação social, ocorrida a partir da década de 1970, alterou também as formas de expressão dos grupos sociais. Atualmente, a internet é uma das plataformas para promoção e visibilidade das agendas e pautas dos movimentos sociais. Para além da mera exposição das demandas e pautas, a configuração das dinâmicas do ciberespaço permitiu que novas formas de interação dentro e entre os movimentos sociais e a sociedade civil se estabelecessem, agilizando comunicações e projetando informações importantes, levando os movimentos a ganharem mais adeptos e a sociedade ao conhecimento de causas menos divulgadas pelas mídias de massas. Nesta Dica do Professor, você vai ver que, nas grandes mobilizações mundiais a partir da década de 2000, a internet teve papel-chave. Todos os movimentos sociais recentes utilizam essa ferramenta em alguma escala, mas alguns se fundamentam completamente nela. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/ea7bc749e911c8d53f5ddee6fff92347 Exercícios 1) Os movimentos sociais são articulações organizadas da sociedade civil em prol de demandas ou ideias. Essa organização se direciona ao diálogo com a sociedade e com o Estado, tornando públicas as ações e democratizando as informações sobre a causa e seus impactos sociais. Considerando essas informações, responda: quais são os dois elementos que, respectivamente, modelam a estrutura e direcionam a ação dos movimentos sociais contemporâneos? A) Pauta e assunto. B) Partido e pauta. C) Agenda e pauta. D) Agenda e assunto. E) Assunto e agenda. 2) O sociólogo Alberto Melucci é um dos pensadores que mais contribuíram para a compreensão dos novos movimentos sociais nas últimas décadas do século XX. De acordo com ele, o que representam os protagonistas dos movimentos? Escolha a opção correta. A) Líderes. B) Motivadores. C) Apoiadores. D) Atores. E) Contestadores. 3) Os movimentos sociais, sua ação e a resposta a eles proveniente do Estado são indicadores das possibilidades de equilíbrio democrático em uma sociedade. Sendo assim, qual é o fluxo da mobilização, da agenda e das pautas dos movimentos sociais de contestação? Assinale a alternativa correta. A) Da sociedade civil para o Estado. B) Da sociedade civil para a ONU. C) Da sociedade civil para outros setores da mesma sociedade. D) Do Estado para a ONU. E) Da ONU para a sociedade civil. 4) No início do século XX, a ocupação dos espaços públicos na forma de movimentos sociais, especialmente nos Estados democráticos, estabelece nova forma de diálogo entre sociedade civil e Estado. Como essa relação passa a ser? Marque a opção correta. A) Verticalizada: a sociedade tem mais poder que o Estado. B) Verticalizada: o Estado tem mais poder que a sociedade civil. C) Horizontalizada: empresas e Estado têm o mesmo poder na arena de diálogo. D) Horizontalizada: Estados nacionais de um mesmo continente têm poder semelhante. E) Horizontalizada: Estado e sociedade civil dialogam de forma igualitária. 5) Os movimentos sociais podem ter como pauta a sensibilização social, na busca de empatia, aceitação e respeito de um grupo, ou ainda a obtenção de políticas públicas que resolvam determinado problema. Escolha entre as alternativas a seguir aquela que exprime uma pauta de sensibilização social, cujo movimento de diálogo se dá da sociedade civil para a sociedade civil. A) Movimento para descriminalização da cannabis para uso medicinal. B) Movimento de conscientização das potencialidades profissionais de pessoas no espectro do autismo. C) Movimento separatista de uma unidade federativa. D) Movimento ambientalista pela demarcação de território legalmente protegido no Pantanal. E) Movimento pela facilitação da legalização de imigrantes e refugiados venezuelanos no Brasil. Na prática Mobilizações sociais se dão em torno de agendas específicas, que podem ser concentradas em pauta única para que o movimento ganhe visibilidade em um espaço social específico ou ainda em uma data ou época do ano cujos apelos sociais, culturais e simbólicos possam beneficiar a causa. Dessa forma, as ações são mais orientadas e podem produzir resultados já imediatos, uma vez que os movimentos sociais requerem, algumas vezes, mudanças de comportamento também da sociedade civil e não apenas do Estado. Com a definição de ações e estratégias na agenda do movimento, é possível definir com clareza de que forma as informações e demandas chegarão tanto à sociedade civil quanto ao Estado. Assim, torna-se também possível definir ações que coadunem diálogos horizontais e verticais. Acompanhe, Na Prática, como uma pauta é desenvolvida para impactar as políticas públicas do país. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/3185bcd9-1ae0-4201-951e-7eca1bddfba2/bdd2ce11-6141-48fc-a66b-a22e2422b0f7.png Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Candidaturas coletivas: uma nova forma de interação entre movimentos sociais e partidos políticos Neste artigo, você vai ver que as candidaturas coletivas emergiram na segunda década do século XXI como uma possibilidade de movimentos sociais alcançarem representações institucionais. Essa nova possibilidade rompe com as tradicionais de vínculos entre representantes e movimentos sociais, inaugurando uma nova forma de diálogo e exposição das pautas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Controle social na cidade: a criminalização dos movimentos sociais como estratégia de gestão do espaço urbano Neste estudo, você vai ler sobre os movimentos sociais, que refletem as garantias de expressão para uma sociedade democrática. Há a construção de narrativas sociais e políticas que criminalizam os movimentos sociais, emergindo como tentativas de controle social, influenciando a opinião pública e restringindo os espaços de participação. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Identidade, diferença e reconhecimento: um olhar sobre os movimentos de mulheres indígenas no Brasil e a pauta de enfrentamento à violência de gênero Neste artigo, você vai compreender melhor os movimentos sociais, que não são homogêneos, já que seus participantestêm diferentes características que compõem sua identidade. Assim, é https://www.scielo.br/j/dados/a/9VsssQPNdJWBz7jKgxcTtLm/?format=pdf&lang=pt https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/capturacriptica/article/view/7121/6032 possível que nos movimentos sociais existam recortes que tornem mais localizados e objetivos os olhares que as demandas sociais requerem. Um exemplo são os movimentos sociais de mulheres indígenas, que integram os movimentos dos povos indígenas, mas apresentam a necessidade de especialização do olhar diante de uma realidade vivenciada por essas mulheres em busca de seus direitos elementares e efetividade de sua cidadania. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O conceito dos movimentos sociais revisitado Neste artigo, você vai ler sobre a elaboração de conceitos para a interpretação científica dos movimentos sociais a partir das temáticas contemporâneas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. As teorias dos movimentos sociais: um balanço do debate Neste link, você encontra um artigo com as três principais teorias de explicação dos movimentos sociais constituídas nos anos 1970: a teoria de mobilização de recursos, a teoria do processo político e a teoria dos novos movimentos sociais. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. História do movimento político das pessoas com deficiência no Brasil Neste site, você vai ver reportagem e vídeo sobre a trajetória histórica do movimento social com essa temática no Brasil. Identidade, diferen�a e reconhecimento: um olhar sobre os movimentos de mulheres ind�genas no Brasil e a pauta de enfrentamento � viol�ncia de g�nero https://periodicos.ufsc.br/index.php/emtese/article/view/13624/12489 https://www.scielo.br/pdf/ln/n76/n76a03.pdf Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://inclusaoja.com.br/2011/08/14/documentario-historia-do-movimento-politico-das-pessoas-com-deficiencia-no-brasil/#:~:text=O%20document%C3%A1rio%20%E2%80%9CHist%C3%B3ria%20do%20Movimento,garantia%20de%20seus%20direitos%20fundamentais.têm diferentes características que compõem sua identidade. Assim, é https://www.scielo.br/j/dados/a/9VsssQPNdJWBz7jKgxcTtLm/?format=pdf&lang=pt https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/capturacriptica/article/view/7121/6032 possível que nos movimentos sociais existam recortes que tornem mais localizados e objetivos os olhares que as demandas sociais requerem. Um exemplo são os movimentos sociais de mulheres indígenas, que integram os movimentos dos povos indígenas, mas apresentam a necessidade de especialização do olhar diante de uma realidade vivenciada por essas mulheres em busca de seus direitos elementares e efetividade de sua cidadania. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O conceito dos movimentos sociais revisitado Neste artigo, você vai ler sobre a elaboração de conceitos para a interpretação científica dos movimentos sociais a partir das temáticas contemporâneas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. As teorias dos movimentos sociais: um balanço do debate Neste link, você encontra um artigo com as três principais teorias de explicação dos movimentos sociais constituídas nos anos 1970: a teoria de mobilização de recursos, a teoria do processo político e a teoria dos novos movimentos sociais. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. História do movimento político das pessoas com deficiência no Brasil Neste site, você vai ver reportagem e vídeo sobre a trajetória histórica do movimento social com essa temática no Brasil. Identidade, diferen�a e reconhecimento: um olhar sobre os movimentos de mulheres ind�genas no Brasil e a pauta de enfrentamento � viol�ncia de g�nero https://periodicos.ufsc.br/index.php/emtese/article/view/13624/12489 https://www.scielo.br/pdf/ln/n76/n76a03.pdf Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://inclusaoja.com.br/2011/08/14/documentario-historia-do-movimento-politico-das-pessoas-com-deficiencia-no-brasil/#:~:text=O%20document%C3%A1rio%20%E2%80%9CHist%C3%B3ria%20do%20Movimento,garantia%20de%20seus%20direitos%20fundamentais.