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<p>SISTEMA DE ENSINO</p><p>DIREITO PENAL</p><p>PARTE GERAL</p><p>Teorias do Crime</p><p>Livro Eletrônico</p><p>2 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Teorias do Crime ............................................................................................................4</p><p>Introdução ......................................................................................................................4</p><p>1. Teoria Causal Clássica ou Sistema Naturalista de Ação ...............................................6</p><p>1.1. Conceito de Ação, Tipo, Tipicidade, Ilicitude e Culpabilidade na Teoria Causal</p><p>Clássica .......................................................................................................................... 7</p><p>1.2. Resumo da Teoria Causal Clássica ou Sistema Naturalista ..................................... 12</p><p>2. Teoria Causal Neoclássica ou Sistema Neokantista ................................................. 20</p><p>2.1. Conceito de Ação, Tipicidade, Ilicitude e Culpabilidade na Teoria Causal</p><p>Neoclássica ................................................................................................................. 20</p><p>2.2. Relação entre os Elementos do Injusto (Teoria da Ratio Cognoscendi, Teoria da</p><p>Ratio Essendi e Teoria dos Elementos Negativos do Tipo) ............................................24</p><p>2.3. Resumo da Teoria Causal Neoclássica ou Sistema Neokantista .............................26</p><p>3. Teoria Finalista ou Sistema do Injusto Pessoal ........................................................ 30</p><p>3.1. Conceito de Ação, Tipo, Tipicidade, Ilicitude e Culpabilidade na Teoria Finalista ...... 31</p><p>3.2. Comparações e Críticas à Dogmática Finalista ......................................................35</p><p>3.3. Finalismo no Direito Penal Brasileiro .....................................................................38</p><p>3.4. Resumo da Teoria Finalista ou Sistema do Injusto Pessoal .................................... 41</p><p>4. Teoria Social da Ação ...............................................................................................47</p><p>4.1. Conceito de Ação e Características da Tipicidade, Ilicitude e Culpabilidade na</p><p>Teoria Social da Ação .................................................................................................. 48</p><p>4.2. Resumo da Teoria Social da Ação ..........................................................................53</p><p>5. Teorias Funcionalistas Teleológica ............................................................................54</p><p>5.1. Teoria Funcionalista Teleológica .............................................................................55</p><p>5.2. Teoria Funcionalista Sistêmica ...............................................................................59</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>3 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>6. Teoria Significativa da Ação ......................................................................................72</p><p>6.1. Características da Teoria Significativa da Ação ......................................................73</p><p>6.2. Resumo da Teoria Significativa da Ação .................................................................78</p><p>Resumo ........................................................................................................................ 81</p><p>Referências ................................................................................................................. 82</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>4 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>TEORIAS DO CRIME</p><p>Introdução</p><p>Querido(a) aluno(a), é com satisfação que entregamos aos concurseiros o presente ma-</p><p>terial em PDF, com a finalidade de tornar mais claros os complexos temas do Direito Penal</p><p>cobrados em concursos das mais diversas funções públicas, ou seja, da Magistratura, Minis-</p><p>tério Público, Defensoria, AGU, Delegado de Polícia, analista de tribunais e muitos outros.</p><p>O material que ora se apresenta objetiva apontar com profundidade e clareza temas co-</p><p>brados principalmente nas provas do Ministério Público e da Magistratura. É certo que o can-</p><p>didato que estudar por este material poderá, estudando o mais complexo, preparar-se melhor</p><p>para as provas de outras carreiras jurídicas.</p><p>Não deve haver ilusão: o estudo para concursos está cada mais desafiador, por isso é</p><p>preciso melhor organização e preparação do candidato, com adequada divisão do tempo de</p><p>estudo, com o uso do material devidamente selecionado e indicado por professores que co-</p><p>nhecem a matéria e os desafios dos concursos públicos.</p><p>Depois de mais de 15 anos de experiência na atividade com candidatos a concursos pú-</p><p>blicos, na qual muitos venceram e se tornaram juízes, promotores de justiça, advogados da</p><p>União, defensores públicos, delegados de polícia, tabeliães, procuradores de estado, verifica-</p><p>mos que a correta divisão do tempo de estudos, as aulas de excelência, a leitura adequada da</p><p>doutrina, jurisprudência e leis secas, bem como a resolução constante de questões — tudo isso</p><p>em ciclo de repetições do estudo — aliadas à persistência e obstinação do candidato, fizeram</p><p>a diferença para a aprovação.</p><p>Nesse clima, o material em PDF de penal, PARTE GERAL, do Gran Cursos, da área jurídica,</p><p>surge para suprir lacuna do mercado, para oferecer aos estudantes o que há de melhor no</p><p>conteúdo doutrinário, jurisprudencial e de questões, com profundidade e clareza, sobre os</p><p>temas que mais são cobrados nos concursos e que fazem a diferença entre a aprovação e a</p><p>não aprovação dos candidatos.</p><p>Iniciaremos com o estudo das principais teorias do crime, do causalismo à teoria social</p><p>da ação, passando, portanto, pelo causalismo clássico, causalismo neoclássico, finalismo,</p><p>teoria social da ação, funcionalismo teleológico, funcionalismo sistêmico e teoria significati-</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>5 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>va da ação. Nesse cenário, trabalharemos a estrutura analítica do crime (tipicidade, ilicitude</p><p>e culpabilidade), as categorias jurídicas em cada fase das respetivas teorias e suas posições</p><p>topográficas, as quais são muito cobradas em concursos públicos.</p><p>Depois do primeiro capítulo sobre teorias do crime, outros serão apresentados: princípios</p><p>penais e jurisprudência do STF e do STJ; temas de política criminal; teoria da norma; estudo</p><p>do fato típico (conduta, sujeitos, dolo e culpa); estudo do fato típico (nexo causal; resultado);</p><p>estudo do fato típico (iter criminis, desistência, arrependimento eficaz, arrependimento pos-</p><p>terior, crime impossível); erros acidentais e erros essenciais; concurso de pessoas; ilicitude;</p><p>culpabilidade; teorias e aplicação da pena; concurso de crimes; punibilidade e efeitos da con-</p><p>denação.</p><p>A redação da doutrina será acompanhada de questões (de concursos e também elabora-</p><p>das pelo professor) e de jurisprudência, pertinentes ao tema</p><p>estabelecida no tipo de injusto, quer tendo por base o objeto de um juízo de va-</p><p>lor negativo sobre essa atividade, quer o desvio do processo causal ou defeito de congruência.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>30 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>d) A tipicidade no conceito neoclássico de delito (neokantismo) foi profundamente afetada</p><p>pelo descobrimento de elementos normativos do tipo. Os elementos subjetivos do injusto, por</p><p>sua vez, somente vieram a integrar a tipicidade com o advento do finalismo.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra d.</p><p>Os elementos normativos foram realmente descobertos no Neokantismo. Destaca-se, ainda</p><p>dessa época, que o dolo e a culpa estavam na culpabilidade. Os neokantistas, todavia, reco-</p><p>nheciam a presença de elementos subjetivos especiais no tipo, nominando os crimes com</p><p>essas características de anormais, exemplo, o furto, no qual consta o “para si ou para ou-</p><p>trem”. Os elementos subjetivos especiais, presentes em alguns tipos, faziam parte do termo</p><p>dolo específico. Ressalta-se que o dolo genérico estava na culpabilidade. Os crimes normais</p><p>não possuíam elementar normativa e/ou subjetiva especial (dolo específico), enquanto os cri-</p><p>mes anormais possuíam elementares normativas e/ou subjetivas especiais (dolo específico).</p><p>Desse modo, embora o dolo e a culpa só tenham sido transportados para o injusto quando</p><p>do finalismo, é certo que o neokantismo já reconhecia elemento subjetivo especial no tipo. De</p><p>todo modo, a questão ficou bem confusa e deveria ter sido anulada, mas não o foi. Merece</p><p>ainda destacar a letra “b” da questão, comentada no tópico sobre ratio essendi, dentro do de-</p><p>senvolvimento da teoria causal neoclássica. A letra A está correta, conforme tópico desenvol-</p><p>vido sobre a teoria causal clássica que conceitua ação como movimento corporal voluntário</p><p>que provoca mudança no mundo externo. Desse modo, a teoria causal clássica não consegue</p><p>explicar crime sem resultado naturalístico. Sobre a teoria finalista, letra “c”, é certo que Welzel</p><p>acreditava em finalidade na conduta culposa, não somente na conduta dolosa, conforme de-</p><p>senvolvido no tópico abaixo.</p><p>3. teorIa FInalIsta ou sIstema do Injusto pessoal</p><p>O finalismo de Hans Welzel não corresponde apenas a uma particular sistematização da</p><p>teoria do crime que trouxe um novo conceito de ação e que deslocou o dolo e a culpa da cul-</p><p>pabilidade para o fato típico, mas corresponde também a uma atitude epistemológica objetiva</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>31 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>que se opôs ao subjetivismo neokantiano, contra seu relativismo axiológico. Portanto, o fina-</p><p>lismo, com a valoração limitada à realidade, apresenta o método ontológico-dogmático em</p><p>substituição ao modelo axiológico do causalismo neoclássico.</p><p>3.1. ConCeIto de ação, tIpo, tIpICIdade, IlICItude e CulpabIlIdade na</p><p>teorIa FInalIsta</p><p>Parte-se, inicialmente, da teoria da natureza da coisa, ou seja, de estruturas lógico-reais</p><p>pré-concebidas.</p><p>Exemplo: o dolo pertence ao tipo.</p><p>Dessa forma, antes de tomar contato com um problema penal, o  intérprete examina a</p><p>estrutura ontológica da ação, reconhece estruturas objetivas do ser que se apresentam ao</p><p>legislador e que não podem ser modificadas. O ser – que corresponde à matéria, às coisas –</p><p>não pode receber valoração de fora. Por isso, diz-se que o dever ser é valorado no ser, o valor</p><p>que se manifesta na realidade (ORDEIG, 2002).</p><p>Nessa dinâmica, o finalismo introduz um novo conceito de ação, o conceito de ação hu-</p><p>mana passa a ser “o exercício de atividade final” (WELZEL, 2006, p.41). A ação humana se</p><p>torna um acontecer final e deixa de ser puramente causal. A finalidade se baseia na ideia de</p><p>que o ser humano, graças ao seu conhecimento de causalidade, pode prever as consequên-</p><p>cias futuras de sua atividade.</p><p>A finalidade pressupõe um atuar consciente desde o início, enquanto a causalidade não</p><p>tem direção com esse objetivo. Por isso, Hans Welzel afirmava: “a finalidade é vidente; a cau-</p><p>salidade é cega” (WELZEL, 1976, p.54). Desse modo, o Direito Penal só se ocupa de ações que</p><p>possuem o sentido desta atividade finalista.</p><p>Exemplo: por isso, ficam excluídos do Direito Penal as ações que decorrem de mera ativi-</p><p>dade mecânica, como um desmaio repentino, que são oriundas de movimentos reflexos, ou</p><p>seja, ataques de choque ou reações indomináveis de susto. Com outras palavras, ensina José</p><p>Cerezo Mir que “os movimentos corporais daquele que sofre um ataque epilético, os reflexos</p><p>em sentido estrito e os movimentos durante o sono (pense-se no sonâmbulo) não correspon-</p><p>dem ao conceito finalista de ação” (CEREZO MIR, 2010, p.954).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>32 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Com o novo conceito de ação, o dolo, que nas teorias causais, clássica e neoclássica es-</p><p>tava na culpabilidade, passa para o fato típico (dentro da conduta – ação e omissão). O tipo</p><p>constitui a descrição concreta da conduta proibida (WELZEL, 1976). No tipo doloso, segundo</p><p>a doutrina finalista, existe vontade finalisticamente dirigida a um resultado proibido pelo or-</p><p>denamento, uma vez que a finalidade está na ação.</p><p>No injusto doloso, a vontade integra o dolo. O dolo, com o finalismo, é formado por vontade</p><p>e representação do resultado, chamado de dolo natural. Abandona-se, desse modo, a cons-</p><p>ciência da ilicitude, a qual estava presente no dolo normativo causal clássico e neoclássico.</p><p>No causalismo clássico, para a tipicidade era suficiente a causação objetiva do resultado,</p><p>enquanto, no finalismo, para a existência de um injusto típico não basta que alguém tenha</p><p>causado um resultado, há de existir uma atuação da vontade do autor. A ação passa a cons-</p><p>tituir uma intervenção, guiada pela vontade, em um acontecimento causal.</p><p>Desse modo a ação de matar corresponde à ação, conduzida pela vontade, de matar uma pessoa;</p><p>ação de danificar constitui uma ação, conduzida pela vontade, de danificar uma coisa alheia (HIRS-</p><p>CH, 2010).</p><p>Da mesma forma, no injusto culposo, a vontade exerce um papel relevante. “Aqui o conte-</p><p>údo da proibição refere-se não a uma ação dirigida a um homicídio guiado pela vontade, mas</p><p>a uma ação descuidada em relação ao resultado típico” (HIRSCH, 2010, p.247). A culpa foi</p><p>transportada para a ação, já que a finalidade está na ação e, segundo a linha welzeliana, existe</p><p>finalidade na ação do crime culposo, mas não existe finalidade no resultado do crime culposo.</p><p>Esse é um resultado meramente causal. Isto é, “o tipo de injusto dos delitos culposos abrange</p><p>a produção de um resultado de modo puramente causal, cego, como consequência de uma</p><p>ação finalista que inobserva o cuidado objetivamente devido” (CEREZO MIR, 2010, p.251).</p><p>EXPLICANDO MELHOR: para o finalismo de Welzel, existe finalidade (vontade) na con-</p><p>duta culposa.</p><p>Exemplo: Caio dirige seu veículo com a finalidade de chegar a um hospital para visitar um</p><p>amigo que</p><p>se encontra doente. Essa finalidade é lícita, amparada pelo ordenamento jurídico.</p><p>Todavia, se Caio, acelerar acima da velocidade permitida e, por imprudência, atropelar um</p><p>transeunte. A finalidade lícita de chegar ao hospital não desaparece. O resultado não decorre</p><p>dessa finalidade, mas sim da inobservância de uma norma de cuidado, da violação da norma</p><p>de cuidado.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>33 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Portanto, no finalismo, o tipo é formal porque é uma mera descrição da conduta proibida.</p><p>Por outro lado, a adequação do fato à lei (tipicidade) é material, mas vinculada à realidade</p><p>concreta, ao mundo do ser, ao caso concreto sob análise. Não é uma tipicidade tão material</p><p>quanto a do neokantismo, que consistia numa valoração exclusiva do mundo do dever ser,</p><p>com o seu dualismo metodológico, já explicado no item anterior.</p><p>A antijuridicidade pode ser conceituada como a relação de contradição entre a ação e o</p><p>ordenamento jurídico; corresponde a uma característica da ação, a um juízo de valor objetivo</p><p>que recai sobre a ação; é uma só no ordenamento jurídico (civil, administrativo). A antijuridici-</p><p>dade corresponde à “contradição de uma realização típica com o ordenamento jurídico como</p><p>um todo (não apenas com uma norma isolada).” (WELZEL, 1976, p.76)</p><p>Diz Luís Greco (2000) que a antijuridicidade no finalismo deixou de ser enxergada como</p><p>dano social ao bem jurídico para ser vista como ilícito pessoal consubstanciado fundamen-</p><p>talmente no desvalor da ação que tem como núcleo a finalidade. A interpretação material da</p><p>tipicidade com o componente danosidade social se tornou difícil porque o finalismo priorizou</p><p>o desvalor da ação.</p><p>As causas de justificação ou excludentes da ilicitude passaram a ser tipos permissivos</p><p>(GRECO, 2000). Ressalta-se que os finalistas brasileiros aceitam o exame de excludentes su-</p><p>pralegais. Isso comprova que a antijuridicidade do finalismo, embora priorize o desvalor da</p><p>ação, não é cega e formalista como foi a do causalismo clássico ou, ao menos, o sistema</p><p>finalista admite uma abertura, não nos moldes neokantistas, mas, também, sem a limitação</p><p>causal naturalista (GOMES FILHO, 2019).</p><p>A antijuridicidade nada mais é do que a lesão de determinado interesse vital aferido pe-</p><p>rante as normas de cultura reconhecidas pelo Estado. A antijuridicidade material se funda-</p><p>menta em valores sociais, morais e políticos, sem um conceito específico, constituindo-se</p><p>em ofensa às normas de cultura reconhecidas e aceitas pelo Estado, um comportamento</p><p>antissocial (MIRABETE, 2006).</p><p>A culpabilidade no finalismo, por sua vez, estrutura-se no livre-arbítrio e constitui um</p><p>juízo de reprovação pessoal que tem por fundamento o poder de agir de outro modo e evitar</p><p>a prática do fato proibido. Essa possibilidade de o agente agir de outro modo é o centro da</p><p>culpabilidade do finalismo. Significa que o homem, quando capaz de agir conforme o Direito,</p><p>é responsável quando age de forma diversa.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>34 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Apesar de estar fundada na possibilidade de o agente, no caso concreto, agir de outro</p><p>modo, a culpabilidade finalista ainda exige que o agente possua capacidade de culpabilidade</p><p>– ou capacidade de motivar-se de acordo a norma (imputabilidade) – e que ainda esteja em</p><p>condições de compreender o caráter ilícito do fato, ou seja, que possua potencial consciência</p><p>da ilicitude (TAVARES, 1980).</p><p>Portanto, além da exigibilidade de conduta diversa, são elementos da culpabilidade no</p><p>finalismo a imputabilidade e a potencial consciência da ilicitude.</p><p>ATENÇÃO</p><p>Lembrar que o dolo e a culpa não fazem parte da culpabilidade, uma vez que foram transpor-</p><p>tados para a conduta, que integra o fato típico.</p><p>Com a retirada dos elementos de ânimo ou psíquicos (dolo e culpa) da culpabilidade,</p><p>o finalismo adotou a teoria normativa pura da culpabilidade sedimentada na reprovação pes-</p><p>soal. Foi abandonada a teoria psicológico-normativa do neokantismo que compreendia dolo</p><p>(normativo) e culpa como elementos da culpabilidade, ao lado da imputabilidade e da exigi-</p><p>bilidade de conduta diversa.</p><p>Ressalte-se que, embora Hans Welzel fosse partidário de uma culpabilidade do fato, ele</p><p>entendeu que o juízo de censura dessa culpabilidade incidia sobre o autor, admitiu uma cul-</p><p>pabilidade de caráter, ou da personalidade, quando se tratasse de delinquentes por tendência</p><p>e passionais no crime doloso, ou do negligente e leviano na culpa inconsciente.</p><p>Nesse aspecto, Hans Welzel “não se distancia muito do Mezger, como é fácil de ver” (TO-</p><p>LEDO, 1994, p.240), ou seja, quando este defendeu a culpabilidade pela conduta de vida para</p><p>aqueles que atuavam com cegueira jurídica. Essa ideia do delinquente por tendência, com</p><p>base na concepção da culpabilidade de caráter, por representar um retorno ao positivismo,</p><p>foi merecedora de severas críticas, pois o “homem deve ser punido pelo que concretamente</p><p>realizou, não pelo que é” (GALVÃO; GRECO, 1999, p.65).</p><p>A culpabilidade de caráter é um pressuposto perigoso porque conduz ao direito penal do</p><p>autor em detrimento do direito penal do fato. Apenas o segundo é compatível com o Estado</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>35 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Democrático de Direito consagrado na Constituição brasileira de 1988 (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Ressalte-se que Fragoso não adotou a culpabilidade de caráter quando escreveu pioneira-</p><p>mente uma parte geral do Direito Penal com a estrutura finalista no ano de 1976, com a sua</p><p>primeira edição de parte geral (TAVARES, 1980, p.106).</p><p>3.2. Comparações e CrítICas à dogmátICa FInalIsta</p><p>Enquanto o neokantismo se vinculava a uma valoração excessiva que fugia da realidade</p><p>(cada intérprete teria seu conjunto de valores, sua forma de ver o mundo), o finalismo trabalha</p><p>com um método ontológico; só admite juízo de valor ancorado na realidade. A natureza das</p><p>coisas vincula o legislador e o próprio intérprete, pois os valores residem na coisa em si, não no</p><p>sujeito.</p><p>Numa comparação de métodos, pode-se dizer que, no neokantismo, o intérprete, na so-</p><p>lução de um caso concreto, poderia utilizar juízo de valor de acordo com sua interpretação</p><p>subjetiva. Isso não ocorre na proposta finalista, pois o juízo de valor, para a solução de casos</p><p>concretos, está limitado ao objeto, não pode ser oriundo de um subjetivismo do intérprete.</p><p>Para o finalismo, “o direito não pode flutuar nas nuvens do dever ser, vez que vai regular a</p><p>realidade” (GRECO, 2000, p.27). Desse modo, toda valoração deve respeitar a lógica da coisa.</p><p>Como o homem age finalisticamente, o Direito só pode proibir ações finalistas. Nesse último</p><p>ponto, reside uma crucial diferença com os modelos causais que não compreendiam a finali-</p><p>dade no conceito de ação humana.</p><p>Cumpre advertir, entretanto, como ensina Hans Joachin Hirsch, que o finalismo,</p><p>ou teoria</p><p>do injusto pessoal, não objetivou fazer uma distinção entre o mundo do ser e o mundo do</p><p>Direito, mas estabelecer uma vinculação da dogmática, legislação e justiça às estruturas e</p><p>aos elementos pré-jurídicos pertencentes aos objetos de regulamentação do Direito Penal</p><p>(HIRSCH, 2010, p.254).</p><p>Algumas críticas positivas foram feitas ao modelo de interpretação da teoria finalista.</p><p>Claus Roxin, defensor do funcionalismo teleológico, reconhece méritos no finalismo ao dizer</p><p>que o finalismo contribuiu para o descobrimento do desvalor da ação enquanto elemento in-</p><p>tegrante do injusto penal e, ainda, possibilitou uma interpretação correta dos diversos tipos</p><p>de delito (ROXIN, 2006).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>36 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Para Cerezo Mir (2010), somente o conceito finalista de ação permite compreender o Direi-</p><p>to Penal tendo como ponto de partida o ser humano como pessoa, ou seja, apenas a conduta</p><p>finalista, por ser uma conduta especificamente humana, pode ser objeto de valoração jurídica.</p><p>Portanto, qualquer conceito de ação diferente do apresentado pelo finalismo é equivocado,</p><p>incongruente e inútil para a interpretação dos tipos de injusto.</p><p>Hans Joachim Hirsch (2010), em defesa do injusto pessoal finalista, apresenta críticas</p><p>às propostas da teoria da imputação objetiva do resultado na forma apresentada pela teoria</p><p>funcional teleológica, por não oferecer solução convincente e por tratar de problemas especí-</p><p>ficos do crime culposo e do crime qualificado pelo resultado, ou seja, de um quadro específico</p><p>de crimes e não de uma teoria geral do injusto, de modo a concluir, por essas e outras razões,</p><p>que somente “uma evolução da teoria do injusto pessoal é que oferece a sistemática do delito</p><p>mais coerente” (HIRSCH, 2010, p.256).</p><p>O próprio Figueiredo Dias (2001), defensor de uma concepção teleológico-funcional do</p><p>fato punível, reconhece que a concepção finalista do ilícito pessoal se apresenta ainda hoje</p><p>cheia de valor. Afirma o autor português que todo ilícito é um ilícito pessoal. Portanto, sem dolo</p><p>e sem culpa, um fato não pode ser contrário à ordem jurídica, não pode ser ilícito (DIAS, 2001,</p><p>p.203).</p><p>Entre as críticas negativas feitas à teoria finalista, destacam-se as seguintes: a) não con-</p><p>seguiu se aproximar da realidade concreta, ficou preso às estruturas lógico-objetivas, tor-</p><p>nou-se refém de dogmas; b) a causa de sua relativa aceitação pela doutrina e jurisprudência</p><p>clássicas no Brasil se deveu ao fato de que era possível conviver com o finalismo sem aban-</p><p>donar o positivismo legalista (GOMES, 2003); c) ao ignorar boas contribuições teleológico-va-</p><p>lorativas do neokantismo, o finalismo retornou à falácia naturalista, pois se contentou com as</p><p>proibições de ações finalistas (GRECO, 2000); d) não conseguiu explicar a razão pela qual a</p><p>finalidade não faz parte do tipo subjetivo do delito culposo, pois “não é possível sistematizar</p><p>a culpa utilizando-se do critério da finalidade, mas unicamente através das regras da imputa-</p><p>ção objetiva” (ROXIN, 2006, p.84).</p><p>Jorge Figueiredo Dias afirma que o sistema finalista precisa ser revisado e, entre outras,</p><p>aponta as seguintes falhas no sistema do injusto pessoal: a) a base ontológica faz com que</p><p>o sistema finalista seja imutável, de inflexível conceitualismo, não aberto às opções político-</p><p>-criminais. As estruturas lógico-materiais, existentes nos conceitos utilizados pelo legislador,</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>37 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>são vinculantes e livres de discussão. Nesse aspecto, o finalismo repetiu o erro do sistema</p><p>causal naturalista; b) o conceito finalista de ação decorre de um falso ontologismo, pois até</p><p>certos animais, segundo a moderna biologia, antecipam fins e escolhem os meios para alcan-</p><p>çá-los (DIAS, 2001, p.202-203).</p><p>Um debate importante, no campo da interpretação, envolve a compreensão da tipicidade</p><p>finalista. Se o modelo finalista é ontológico e não axiológico, poderia se concluir de maneira</p><p>precipitada que a tipicidade finalista seria formal e, por essa razão, o finalismo representaria</p><p>um retorno ao causalismo clássico com o seu formalismo na interpretação dos institutos do</p><p>Direito Penal.</p><p>Determinadores autores, principalmente os mais próximos da concepção teleológico-fun-</p><p>cional, fazem severas críticas ao finalismo e afirmam que a valoração, o critério axiológico,</p><p>não é compatível com a estrutura dogmática ontológica do finalismo. Assim, a análise da</p><p>tipicidade seria quase formal.</p><p>Ora, convém observar, de início, que esse dogmatismo não é absoluto ante a possibili-</p><p>dade, por EXEMPLO, de aplicação do princípio da adequação social. Conquanto o conceito</p><p>finalista de tipo seja a descrição legal da conduta proibida, Hans Welzel (1976) afirmou ser</p><p>contra a interpretação ao pé da letra e, ainda, que a adequação social afastaria o tipo de ação.</p><p>Com isso, a análise da tipicidade não é unicamente formal no modelo finalista, porquanto</p><p>as ações conformadas socialmente podem ser interpretadas como atípicas, conforme uma</p><p>perspectiva material da tipicidade, mediante um juízo de valor do intérprete, com o uso do</p><p>princípio finalista da adequação social (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Luiz Regis Prado (2007) adverte que, na trajetória da concepção finalista, são constata-</p><p>das sucessivas e malfadadas confusões que contribuem para o surgimento de conclusões</p><p>equivocadas e falsas. Sobre o finalismo, diz o autor que, para o bem da verdade científica,</p><p>convém advertir “que essa doutrina não é pura e unicamente ontológica, visto que não deixa</p><p>de considerar ainda que de forma mais tímida, o aspecto axiológico, normativo (v.g. teoria da</p><p>adequação social)” (PRADO, 2007, p.74).</p><p>Acrescente-se que, embora Hans Welzel afirmasse a necessidade de que o tipo penal</p><p>correspondesse a uma descrição mais exata possível da conduta (Direito Penal substancial),</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>38 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>reconhecia, por outro lado, certo espaço de valoração para o julgador nos casos de conduta</p><p>culposa e de omissão imprópria (WELZEL, 1976).</p><p>É certo que algumas características do finalismo, como o conceito de tipo consistente na</p><p>descrição legal da conduta proibida; a preponderância do desvalor da ação sobre o desvalor</p><p>do resultado; a visão ontológica do sistema com a impossibilidade de valoração fora do ob-</p><p>jeto em si (da realidade concreta), dificultam uma análise material da tipicidade nos moldes</p><p>neokantistas, que adotava uma interpretação subjetivista e o dualismo metodológico (GOMES</p><p>FILHO, 2019).</p><p>3.3. FInalIsmo no dIreIto penal brasIleIro</p><p>A teoria finalista foi adotada pela Reforma Penal brasileira de 1984 que alterou a parte</p><p>geral do Código Penal. Na doutrina brasileira, a primeira obra finalista só surgiu em 1970, com</p><p>o Curso de Direito Criminal (Parte Especial) de João Mestieri.</p><p>Ele iniciou o finalismo na parte</p><p>especial, enquanto Fragoso foi pioneiro na parte geral em 1976, tudo isso antes da aprovação</p><p>da Reforma Penal brasileira de 1984 (TAVARES, 1980).</p><p>A influência finalista no Brasil, no campo doutrinário e jurisprudencial, foi facilitada em</p><p>razão de seu método ontológico-dogmático. Com isso, não se afirma que o finalismo constitui</p><p>um mero retorno à falácia naturalista do positivismo formal da teoria causal clássica, mas,</p><p>sim, que a adoção do sistema finalista não implicou ruptura significativa com o método de</p><p>ensino jurídico no Brasil (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Com outras palavras, deve-se reconhecer que a adoção de modelo penal de alicerce axio-</p><p>lógico em detrimento de um modelo dogmático-ontológico teria sido mais complexa, uma vez</p><p>que exigiria muito mais alicerce filosófico no ensino jurídico nacional, bem como a sua des-</p><p>vinculação de uma plataforma de conhecimento repetidora de conceitos e classificatória nos</p><p>moldes positivistas (GOMES FILHO, 2019).</p><p>O finalismo não é, hoje, no Brasil, adotado de forma absoluta. A própria letra da Lei Penal</p><p>brasileira mitiga o finalismo, um exemplo disso é o art. 20, §1º (GRECO, 2005), no qual se ado-</p><p>tou a teoria limitada da culpabilidade, quando a proposta de Hans Welzel sempre foi a teoria</p><p>extremada ou estrita da culpabilidade.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>39 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>EXPLICANDO MELHOR: conforme itens 17 a 19 da Exposição de Motivos da PARTE GERAL</p><p>do Código Penal de 1984, a opção foi pela teoria limitada da culpabilidade no erro sobre pres-</p><p>suposto fático de uma causa de justificação (aquele que ocorre, por EXEMPLO, na legítima</p><p>defesa putativa, estado de necessidade putativo), previsto no art.20 §1º, tratado como erro</p><p>de tipo permissivo. Ou seja, o Welzel defendia a teoria extremada da culpabilidade (chama-</p><p>da também de estrita) para os três erros sobre as causas de justificação (existência, limites</p><p>e pressupostos fáticos), tratados como erros de proibição indiretos. Porém, o Código Penal</p><p>brasileiro ressalvou o terceiro erro (pressupostos fáticos) no art.20 §1º, de modo a tratá-lo</p><p>como erro de tipo permissivo.</p><p>Exemplo: desse modo, João e Carlos, após o naufrágio de um barco, durante a noite escura,</p><p>disputam uma boia de salvação que só permitiria salvar a vida de um deles. Para tanto, João</p><p>mata Carlos. Todavia, ao amanhecer, João percebe que havia uma ilha muito perto do local</p><p>do naufrágio, a  qual não foi vista em razão da escuridão. Com isso, conclui-se que tanto</p><p>ele quanto Carlos poderiam facilmente nadar até a ilha. Portanto, não estavam presentes</p><p>os requisitos do art.24 para caracterizar o estado de necessidade, uma vez que o perigo era</p><p>imaginário, pois a ilha permitiria que todos fossem salvos. A solução para o caso em apreço</p><p>se encontra no artigo 20 §1º do Código Penal, erro sobre pressuposto fático de uma causa</p><p>de justificação, ou seja, erro de tipo permissivo. Segundo a narração do texto legal referido,</p><p>tal erro, quando escusável (inevitável), isenta de pena; quando inescusável (evitável), gera</p><p>responsabilidade por crime culposo (culpa imprópria). Para a doutrina, tal erro (erro de tipo</p><p>permissivo) afasta o dolo (dolo do injusto) porque se trata de uma exceção ao finalismo do</p><p>Welzel, tendo o Código Penal brasileiro (neste aspecto, somente para o erro quanto a pressu-</p><p>posto fático de uma excludente de ilicitude) adotado a teoria limitada da culpabilidade.</p><p>Ensina André Vinicius Almeida (2010, p.201-202) que:</p><p>A teoria limitada da culpabilidade apartou as duas formas de erro, afirmando que aquele incidente</p><p>sobre a os pressupostos objetivos das causas de justificação deveria ser tratado como erro de tipo;</p><p>os demais (existência, limites) seriam erro de proibição indireto.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>40 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>ATENÇÃO</p><p>Ressalta-se que o tema erro sobre as causas de justificação são muito cobrados em provas</p><p>de concursos. O exemplo anterior caiu em itens da prova de promotor de justiça do MPDFT</p><p>de 2015/2016. Muitos candidatos erraram o item porque buscaram uma resposta conforme</p><p>o estado de necessidade do art.24 e não conforme o erro sobre pressuposto fático de uma</p><p>causa de justificação, nos termos do art.20 §1º.</p><p>Embora a presença do finalismo ainda seja relativamente forte na doutrina brasileira, per-</p><p>cebe-se uma mitigação constante do modelo ontológico, principalmente na jurisprudência</p><p>penal brasileira, que tem decidido de maneira aberta e casuística com o uso de princípios.</p><p>No finalismo, o intérprete, na solução de um caso concreto, não pode utilizar juízo de valor de</p><p>acordo com a sua análise subjetiva, pois o juízo de valor, para solução do caso concreto, está</p><p>limitado ao objeto, não pode ser oriundo do subjetivismo do intérprete, nem se alicerçar em</p><p>uma solução axiológica que se distancia da realidade fática (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Por outro lado, apesar da precisão dogmática da Parte Geral, de 1984, do Código Penal,</p><p>houve uma construção com possibilidade de abertura para a sua própria mitigação, ou seja,</p><p>ciente de que não existe uma sistemática superior no atual estágio da doutrina penal, é possí-</p><p>vel relativizar o finalismo com conceitos novos, com mais abertura axiológica na interpretação</p><p>das categorias penais, dentro de um equilíbrio que respeite a dogmática como linha argumen-</p><p>tativa racional, de modo a evitar o subjetivismo e o voluntarismo (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Na construção das decisões penais, o Supremo Tribunal Federal já afirmou a opção fina-</p><p>lista da parte geral do Código Penal. Durante o julgamento da Ação Penal 470 (2012),</p><p>em determinado debate sobre a teoria do domínio do fato feito pelos Ministro do STF,</p><p>o Ministro Gilmar Mendes aduziu que ao estabelecer o dolo na ação típica final, como se</p><p>pode depreender da definição de erro de tipo, ao adotar o erro de proibição e ao aban-</p><p>donar o rigor da teoria monística, teria reconhecido que o agente responderia na medida</p><p>de sua culpabilidade. Portanto, o legislador teria acolhido as mais relevantes teses fina-</p><p>listas.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>41 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Do mesmo modo, o Superior Tribunal de Justiça, em diversas decisões, afirmou que o</p><p>Direito Penal brasileiro se filiou à teoria finalista. Nesse sentido:</p><p>[...] “o Direito Penal pátrio adota a teoria finalista e o resultado morte, no crime de latro-</p><p>cínio, pode derivar de dolo ou culpa. Precedentes” (Habeas Corpus 367.173/SP, 2017).</p><p>Na sequência das teorias do crime, diante de algumas dificuldades enfrentadas pelo fina-</p><p>lismo, principalmente para explicar o crime culposo e a omissão culposa com o seu conceito</p><p>de ação, das respostas não convincentes dos finalistas para tais questões, surgiu a teoria</p><p>social da ação, examinada a seguir.</p><p>3.4. resumo da teorIa FInalIsta ou sIstema do Injusto pessoal</p><p>No finalismo,</p><p>a ação humana se torna um acontecer final e deixa de ser puramente causal.</p><p>A espinha dorsal da ação finalista é a vontade. Desse modo, a finalidade se baseia na ideia de</p><p>que o ser humano, graças ao seu conhecimento de causalidade, pode prever as consequên-</p><p>cias futuras de sua atividade. O finalismo formula com mais precisão a estrutura dogmática</p><p>das categorias do delito, sob a perspectiva de sua posição topográfica, conquanto o injusto</p><p>pessoal seja a sua maior conquista.</p><p>A ação consiste no exercício de atividade final, na atividade humana dirigida a um fim.</p><p>Não há, portanto, necessidade de resultado naturalístico no conceito de ação, de modo que,</p><p>POR EXEMPLO, o  conceito de ação finalista explica tanto os crimes de resultado material</p><p>(homicídio, roubo) quanto os crimes que se consumam sem resultado material (dano, porte</p><p>ilegal de arma de fogo).</p><p>A tipicidade é material, adequação do fato à letra da lei que gera lesão intolerável ao bem</p><p>jurídico. É possível essa análise no finalismo, sem a extensão subjetivista do neokantismo.</p><p>O princípio da adequação social, criado por Welzel, segundo o qual as condutas socialmente</p><p>adequadas carecem de tipicidade material, constitui a demonstração cabal de que a tipicida-</p><p>de é material. O dolo é natural, composto de vontade e representação do resultado. Tanto o</p><p>dolo quanto a culpa fazem parte da conduta, do fato típico.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>42 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>A ilicitude também é compreendida de forma material no finalismo; permite compreender</p><p>a relação de contradição entre o fato e o ordenamento jurídico, não enxergada como dano</p><p>social ao bem jurídico, mas interpretada como ilícito pessoal. Os autores finalistas brasileiros</p><p>aceitam, com esse aspecto material da ilicitude, o exame de excludentes supralegais de ilici-</p><p>tude, como ocorre com o consentimento do ofendido (bens jurídicos disponíveis e capacidade</p><p>para consentir).</p><p>O injusto (tipicidade + ilicitude) finalista é subjetivo (pessoal) e material, mas não com a</p><p>elasticidade dada pelo neokantismo, uma vez que a valoração do intérprete é condicionada</p><p>pela realidade, numa perspectiva ontológica. No finalismo, a tipicidade é um indício de ilicitu-</p><p>de, adota, portanto, a teoria da ratio cognoscendi.</p><p>Exemplo: a legítima defesa não afasta a tipicidade, mas, sim, a ilicitude.</p><p>A culpabilidade se ancora na teoria normativa pura, formada por imputabilidade, potencial</p><p>consciência da ilicitude e exigibilidade de conduta diversa. O dolo e a culpa não fazem parte</p><p>da culpabilidade. No finalismo, o dolo normativo do causalismo (clássico e neoclássico) foi</p><p>transformado em dolo natural, perdeu a consciência da ilicitude e foi levado para o fato típico.</p><p>ATENÇÃO</p><p>Sobre o conceito de crime no Brasil. Já caiu na prova de promotor de justiça do MPSP de 2015</p><p>que o crime é um fato típico e ilícito, sendo a culpabilidade um pressuposto de aplicação de</p><p>pena. CUIDADO. Esse conceito bipartido é minoritário. Faz parte da doutrina do Rene Dotti,</p><p>Damásio, Mirabete e outros. O conceito majoritário de crime, desde o causalismo clássico até</p><p>os dias atuais, é de fato típico, ilícito e culpável (conceito tripartido).</p><p>DIRETO DO CONCURSO</p><p>Questão 14 (MP-RJ/ANALISTA PROCESSUAL/2007) Acerca das teorias da culpabilidade,</p><p>é INCORRETO afirmar que:</p><p>a) para a teoria finalista da ação, dolo e culpa migram da culpabilidade para o fato típico;</p><p>b) para os defensores do conceito complexo da culpabilidade, conquanto integrem o fato típi-</p><p>co, dolo e culpa devem também operar como fator de reprovação no âmbito da culpabilidade;</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>43 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>c) segundo a teoria normativa pura da culpabilidade, o dolo não é natural, vale dizer, compre-</p><p>ende a consciência da ilicitude;</p><p>d) para a teoria psicológica, dolo e culpa são espécies de culpabilidade, esgotando, em si,</p><p>seu conteúdo;</p><p>e) para a teoria psicológico-normativa, dolo e culpa, conquanto mantidos na culpabilidade,</p><p>consubstanciam, desta última, formas, graus, requisitos ou elementos, não suas espécies.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra c.</p><p>Na teoria normativa pura do finalismo, o dolo e a culpa não fazem parte da culpabilidade,</p><p>foram deslocados para a conduta, que integra o fato típico. O dolo é natural, composto de</p><p>vontade e representação do resultado. A culpabilidade é formada no finalismo, com base na</p><p>teoria normativa pura, pelos seguintes elementos: imputabilidade; potencial consciência da</p><p>ilicitude; exigibilidade de conduta diversa. Vale destacar que as questões que pedem para</p><p>marcar a incorreta são as melhores para se estudar, uma vez que a maioria dos itens são cor-</p><p>retos e facilita a compreensão da matéria.</p><p>Questão 15 (DELEGADO/MG/2018) Com relação à culpabilidade e suas teorias, é INCORRE-</p><p>TO afirmar:</p><p>a) A teoria normativa pura, a fim de tipificar uma conduta, desloca a análise do dolo ou da</p><p>culpa para o fato típico, transformando a culpabilidade em um juízo de reprovação social in-</p><p>cidente sobre o fato típico e antijurídico e sobre seu autor.</p><p>b) O Código Penal vigente adota a teoria limitada da culpabilidade, pela qual as descriminan-</p><p>tes putativas incidentes sobre a existência ou os limites de uma causa de justificação sempre</p><p>são consideradas erro de proibição.</p><p>c) São elementos da culpabilidade, tanto para a teoria normativa quanto a limitada, a imputabi-</p><p>lidade, a consciência potencial da ilicitude e a exigibilidade de conduta diversa.</p><p>d) Segundo a teoria psicológica idealizada por Von Liszt e Beling, a imputabilidade é pressu-</p><p>posto da culpabilidade, fazendo o dolo e a culpa parte de sua análise. Por sua vez, as teorias</p><p>normativas, seja a extremada seja a limitada, excluem o dolo e a culpa de sua apreciação.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>44 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra b.</p><p>O tema foi visto no tópico sobre o finalismo, abordado nesse material. A teoria limitada da cul-</p><p>pabilidade realmente foi adotada pelo Código Penal brasileiro, na reforma de 1984, conforme</p><p>itens 17 a 19 de sua exposição de motivos. Todavia, a consequência disso se refere ao erro</p><p>sobre pressuposto fático de uma causa de justificação, artigo 20 §1º do Código Penal (pre-</p><p>sente, POR EXEMPLO, na legítima defesa putativa, no estado de necessidade putativo), o qual é</p><p>tratado como erro de tipo permissivo. A teoria limitada não interfere na solução dada aos erros</p><p>quanto à existência e quanto aos limites de uma causa de justificação, os quais continuam</p><p>sendo tratados como erros de proibição. Segundo a narração do texto legal referido, tal erro,</p><p>quando escusável (inevitável), isenta de pena; quando inescusável (evitável), gera responsa-</p><p>bilidade por crime culposo (culpa imprópria). Para a doutrina, tal erro (erro de tipo permissivo)</p><p>afasta o dolo (dolo do injusto). Os demais itens da questão estão corretos, conforme já foram</p><p>tratados nas abordagens</p><p>sobre causalismo clássico, causalismo neoclássico e finalismo.</p><p>Questão 16 (TJ-PR/JUIZ/2019) Para Welzel, a culpabilidade é a reprovabilidade de decisão</p><p>da vontade, sendo uma qualidade valorativa negativa da vontade de ação, e não a vontade em</p><p>si mesma. O autor aponta a incorreção de doutrinas segundo as quais a culpabilidade tem ca-</p><p>ráter subjetivo, porquanto um estado anímico pode ser portador de uma culpabilidade maior</p><p>ou menor, mas não pode ser uma culpabilidade maior ou menor.</p><p>Essa definição de culpabilidade está relacionada</p><p>a) à teoria psicológica.</p><p>b) à teoria normativa pura, ou finalista.</p><p>c) à teoria psicológico-normativa, ou normativa complexa.</p><p>d) ao conceito material de culpabilidade.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra b.</p><p>A culpabilidade no finalismo se livrou dos elementos subjetivos (dolo e culpa), passando a</p><p>constituir um juízo de reprovação, alicerçado na capacidade do agente (imputabilidade) de</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>45 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>entender o caráter ilícito do fato (potencial consciência da ilicitude) e agir de outro modo (exi-</p><p>gibilidade de conduta diversa).</p><p>Questão 17 (MP-PR/2016) Analise as assertivas abaixo e indique a alternativa:</p><p>I – Pode-se afirmar que a denominada “tipicidade formal” usualmente referida pela dou-</p><p>trina traz os elementos que servem para informar, de forma descritiva, o intérprete da</p><p>lei a respeito da relevância ou irrelevância da conduta para o direito. Ou seja, a corres-</p><p>pondência entre a previsão legal e a ação constatada no caso concreto recebe usual-</p><p>mente a denominação de “tipicidade formal” pela doutrina.</p><p>II – Pode-se afirmar que para Welzel o tipo penal trata-se de uma mera descrição de uma</p><p>realidade ontológica da conduta humana, portanto necessitando incorporar o direcio-</p><p>namento da vontade como um de seus elementos de constituição.</p><p>III – A “Teoria da Causalidade Adequada”, uma das espécies das chamadas “Teorias Iguali-</p><p>tárias”, afirma que ficam excluídas como causa de um resultado as ocorrências extra-</p><p>ordinárias, referentes ao caso fortuito e força maior.</p><p>IV – A “Teoria da Equivalência dos Antecedentes”, também chamada de “Teoria da conditio</p><p>sine qua non”, sendo uma das espécies das chamadas “Teorias Diferenciadoras”, pre-</p><p>coniza que causa é tudo aquilo que contribui de alguma forma para o resultado.</p><p>a) Todas as assertivas estão corretas;</p><p>b) Todas as assertivas estão incorretas;</p><p>c) Apenas as assertivas I, II e IV estão corretas;</p><p>d) Apenas as assertivas III e IV estão incorretas;</p><p>e) Apenas as assertivas I e II estão incorretas</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra d.</p><p>O item I está certo quanto ao conceito de tipicidade formal, adequação do fato à letra da lei.</p><p>O  item II está certo porque o finalismo de Welzel constitui um modelo ontológico, ou seja,</p><p>vinculado à realidade concreta na sua perspectiva valorativa, que não permite juízo de valor</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>46 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>do intérprete deslocado dessa realidade. Do mesmo modo, o finalismo trabalha com o dolo</p><p>natural (vontade + representação do resultado) na conduta. O  item III está errado, a  teoria</p><p>da causalidade adequada não é teoria igualitária. Ela é uma teoria diferenciadora na classi-</p><p>ficação das teorias do nexo causal, porque permite escolher uma causa de um resultado em</p><p>detrimento de outra causa. A teoria da causalidade adequada traz uma solução diferente da</p><p>teoria da equivalência para, por exemplo, as hipóteses de concausas relativas supervenientes</p><p>anormais, que fogem do desdobramento lógico do processo causal.</p><p>Exemplo: Caio, com a intenção de matar, feriu Francisco. A vítima foi levada ao hospital e</p><p>morreu em razão de um terremoto que derrubou o prédio do hospital. Nesse caso, Caio, com</p><p>suporte na teoria da causalidade adequada, só responde pelos atos praticados, pela tentativa</p><p>de homicídio, nos termos do art.13 § 1º do Código Penal).</p><p>O item IV está errado porque a teoria da equivalência é uma teoria igualitária, que não faz dis-</p><p>tinção entre as contribuições que antecedem a um resultado. Não é uma teoria diferenciadora.</p><p>Questão 18 (MP-PI/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2019). Em relação à estrutura analítica do cri-</p><p>me, o juízo da culpabilidade avalia:</p><p>a) a prática da conduta.</p><p>b) as condições pessoais da vítima.</p><p>c) a existência do injusto penal.</p><p>d) a reprovabilidade da conduta.</p><p>e) a contrariedade do fato ao direito.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra d.</p><p>Como o cabeçalho da questão não solicitou uma teoria específica, o candidato deveria seguir</p><p>as orientações da teoria finalista, adotada em grande medida na Parte Geral do Código Penal</p><p>de 1984. Desse modo, a culpabilidade constitui um juízo de reprovação. Dito de outro modo,</p><p>o agente praticou uma conduta típica e ilícita (injusto) quando tinha capacidade de compre-</p><p>ender o caráter ilícito do fato e agir de outro modo. Por essa razão, o juízo da culpabilidade</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>47 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>avalia a reprovabilidade da conduta do agente. Ressalta-se que, na doutrina brasileira, há dis-</p><p>cussão sobre o tema. Alguns afirmam que esse juízo incide sobre o autor. Outros dizem que</p><p>incide sobre o autor e sobre o fato.</p><p>Questão 19 (MP-MG/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2009) De acordo com a teoria finalista</p><p>da ação:</p><p>a) o injusto penal passou a ser subjetivo.</p><p>b) a culpabilidade é composta pelos elementos subjetivos e normativos.</p><p>c) a ação define-se meramente como o comportamento humano voluntário manifestado no</p><p>mundo exterior.</p><p>d) a ilicitude prescinde da análise do elemento subjetivo do agente.</p><p>e) O dolo é analisado tanto em sede de tipo penal, quanto na culpabilidade (dupla valoração</p><p>do dolo).</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra a.</p><p>O modelo finalista (Welzel) transportou o dolo e a culpa (elementos subjetivos, psicológicos)</p><p>da culpabilidade para o fato típico. Com isso, o  injusto (tipicidade + ilicitude), mais preci-</p><p>samente, a tipicidade, passou a constar com os elementos subjetivos (dolo e culpa). Antes</p><p>disso, no causalismo (clássico e neoclássico), o injusto era apenas objetivo, não possuía os</p><p>elementos subjetivos, dolo e culpa, que estavam na culpabilidade (o neokantismo reconhecia</p><p>apenas a figura do dolo específico em alguns tipos penais, que não se confunde com o dolo</p><p>genérico que estava na culpabilidade do sistema causal neoclássico). A letra “b” está errada</p><p>porque traz elementos da culpabilidade do neokantismo, enquanto a letra “c” traz o conceito</p><p>de ação do causalismo clássico. Na letra “d”, o termo correto seria é imprescindível (necessá-</p><p>rio). E a letra “e”, por fim, se refere à teoria social da ação.</p><p>4. teorIa soCIal da ação</p><p>Ao lado do finalismo, houve o desenvolvimento da teoria social da ação cujas raízes, se-</p><p>gundo Juarez Tavares (2003), encontram-se em Eb.Schmidt ao definir a ação como fenômeno</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada,</p><p>por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>48 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>social. Em seguida, com fundamento no conceito social de ação, surgiram sistemas próprios,</p><p>com destaque para o modelo social de Hans-Heinrich Jescheck e, ainda, o de Johannes Wes-</p><p>sels (GALVÃO; GRECO, 1999).</p><p>É certo que a teoria social surgiu com o intuito de ajustar o causalismo às exigências sis-</p><p>temáticas de ordem jurídica e de superar polêmicas entre finalistas e causalistas com relação</p><p>às categorias da estrutura analítica do delito, depois se transformou em uma teoria da ação</p><p>com elementos próprios, englobando aspectos do causalismo e do finalismo no seu conceito</p><p>de ação (WESSELS, 1976).</p><p>4.1. ConCeIto de ação e CaraCterístICas da tIpICIdade, IlICItude e</p><p>CulpabIlIdade na teorIa soCIal da ação</p><p>Observa-se uma preocupação em atribuir ao conceito de ação um conteúdo valorativo</p><p>para lhe afastar da natureza ontológica presente no modelo de conceituação finalista. A pro-</p><p>posta buscava se distanciar do âmbito do ser e, a partir disso, encontrar uma solução para os</p><p>problemas do conceito de ação finalista, ou seja, uma melhor explicação à conduta omissiva</p><p>e à conduta culposa.</p><p>Ou seja, a ideia de que a ação deve ser compreendida como a conduta socialmente rele-</p><p>vante, dominada ou dominável pela vontade humana, explicaria, principalmente, a omissão</p><p>culposa, porquanto abrangeria as condutas comissiva e omissiva. Ademais, o aspecto va-</p><p>lorativo indicaria a relevância social da omissão nos casos concretos (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Ao tratar do conceito de ação, após discorrer sobre as propostas causal e final, Johannes</p><p>Wessels manifesta preferência de forma direta quanto à proposta da teoria social da ação,</p><p>porque apresenta uma solução conciliadora entre a posições ontológica e normativa, conside-</p><p>rando a ação como uma conduta socialmente relevante, dominada ou dominável pela vontade</p><p>humana. O conceito associa a expressão vontade à estrutura pessoal da conduta, com os da-</p><p>dos ontológicos e ainda apresenta a possibilidade de compreender o sentido social do acon-</p><p>tecimento, com a expectativa normativa de conduta da comunidade jurídica (WESSELS, 1976).</p><p>Com outras palavras, para a teoria social da ação, a  conduta possui relevância social</p><p>quando a ação ou omissão do agente afeta o meio social ou, ainda, a conduta relevante so-</p><p>cialmente é a que admite um juízo de valor. “Socialmente relevante é toda conduta que afeta</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>49 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>a relação do indivíduo com o meio e, segundo suas consequências, ambicionadas ou não</p><p>desejadas, constitui, no campo social, elemento de um juízo de valor” (WESSELS, 1976, p.22).</p><p>A ação, desse modo, deixaria de existir nas situações de ausência de vontade, em estados</p><p>de inconsciência, nos movimentos reflexos ou instintivos. Até aqui, nesse aspecto, há uma</p><p>coincidência com o que ocorre no causalismo e no finalismo. A novidade é que deixaria de</p><p>existir ação quando faltasse o componente da relevância social.</p><p>Importa ainda destacar que, em relação ao modelo de Hans-Heinrich Jescheck, Johannes</p><p>Wessels (1976) inovou no tocante ao dolo e à culpa, defendeu a chamada dupla função ou</p><p>dupla posição do dolo e da culpa. Dolo e culpa, para esse autor, são examinados no fato típico</p><p>e também na culpabilidade. Na culpabilidade, dolo e culpa atuam como elementos especiais.</p><p>Nessa proposta, o dolo faz parte do tipo de injusto subjetivo, como também da culpa-</p><p>bilidade; assim, o tipo doloso possui uma culpabilidade dolosa. O dolo do tipo comporta o</p><p>sentido jurídico-social da ação, abrange as relações psíquicas do agente para com o aconte-</p><p>cimento externo e fático, é um indício para a culpabilidade dolosa.</p><p>O dolo da culpabilidade consiste no desvalor do ânimo do sujeito para com a ordem ju-</p><p>rídica ou deficiente ânimo jurídico especificamente relacionado à realização dolosa do tipo.</p><p>Portanto, o dolo da culpabilidade corresponde a um fator de reprovação e serve para medir o</p><p>grau de censura que incide sobre o autor.</p><p>Exemplo: o motivo torpe seria um elemento da culpabilidade do crime doloso porque repre-</p><p>sentaria o reprovável ânimo do autor. Da mesma forma, a má fé e a falta de consideração.</p><p>Com relação à estrutura do delito, a teoria social da ação trata a tipicidade e a ilicitude ora</p><p>com os critérios teleológicos do Neokantismo e ora com o modelo ontológico do finalismo.</p><p>O tipo constitui o indício da antijuridicidade (ratio cognoscendi).</p><p>O conceito de delito na teoria social, assim como nos sistemas anteriores (causalismo, fi-</p><p>nalismo), é composto de tipicidade, ilicitude e culpabilidade. Além da dupla valoração do dolo</p><p>e da culpa que faz surgir uma teoria complexo-psicológica normativa da culpabilidade, vale</p><p>anotar que a consciência do injusto possui lugar na culpabilidade como elemento autônomo.</p><p>Enquanto a culpabilidade dolosa se caracteriza pela adversa ou indiferente posição do</p><p>agente diante das normas de direito, a culpabilidade culposa consiste “na descuidada posi-</p><p>ção do autor em face das exigências de cuidado da ordem jurídica” (WESSELS, 1976, p.89).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>50 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Algumas críticas são feitas à teoria social da ação quanto à imprecisão da expressão</p><p>relevância social e a imprestabilidade desse juízo de valor no conceito de ação, “pois isto faz</p><p>esvaziar cada vez mais os componentes do delito, a ponto de tudo compreender-se na ação”.</p><p>(TAVARES, 1980, p.94). Dito de outra forma, esse conceito de ação esvazia a tipicidade, a ili-</p><p>citude e a culpabilidade.</p><p>Para Muñoz Conde (1988), o conceito de relevância social proposto pela teoria social da</p><p>ação se apresenta com excesso de ambiguidade, constituindo-se em um dado pré-jurídico</p><p>que não interessa de forma direta ao jurista, pois, para o intérprete do Direito, o que importa,</p><p>de maneira definitiva, é a relevância típica.</p><p>Ainda se pode dizer que a omissão é mais do que mera relevância social, ela exige uma</p><p>previsão jurídica, uma relevância normativa. Logo, o mero conceito social de ação não solu-</p><p>ciona de maneira imediata o problema dogmático da conduta omissiva, como propusera os</p><p>autores da teoria social.</p><p>De forma mais otimista, Rogério Greco e Fernando Galvão, em obra conjunta, ao tratarem</p><p>do conceito de ação, apontam a dificuldade de reunião, numa mesma categoria, das manifes-</p><p>tações dolosas, culposas e omissivas dos agentes. Porém, reconhecem que a teoria social,</p><p>nesse aspecto, “consegue alcançar essa meta reunindo todas essas formas de manifestação</p><p>humana sob um único ponto comum: a relevância jurídico-penal da conduta no ambiente so-</p><p>cial em que se verifica” (1999, p.68).</p><p>Uma vantagem, segundo Juarez Tavares (1980), da proposta do Wessels de análise do</p><p>dolo, tanto no tipo (dolo natural) quando na culpabilidade (desvalor do ânimo do agente), é a</p><p>solução para o erro sobre os pressupostos fáticos de uma causa de justificação, previsto no</p><p>art. 20, §1º, do Código Penal</p><p>brasileiro, ou seja, com a manutenção do dolo do tipo e o afasta-</p><p>mento da culpabilidade dolosa.</p><p>No Brasil, há muita discussão sobre esse erro, que incide sobre um pressuposto fático de</p><p>uma causa de justificação, pois o Código Penal brasileiro o tratou como erro de tipo permis-</p><p>sivo, com base na teoria limitada da culpabilidade. De outro lado, parte da doutrina, adepta da</p><p>teoria extremada da culpabilidade, contesta essa solução porque o dolo não é afastado nesse</p><p>erro, logo não poderia ser erro de tipo.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>51 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Exemplo: a título de ilustração, aponta-se o caso dos dois inimigos jurados de morte; um</p><p>mata o outro quando acreditava numa iminência de agressão ao ver o desafeto retirando uma</p><p>arma do bolso, que, por sua vez, não era arma, mas, sim, um celular. A solução é encontrada</p><p>no §1º do art. 20 do Código Penal, que indica um erro de tipo permissivo, que afasta o dolo</p><p>diante de um erro sobre pressuposto fático de uma causa de justificação, conforme já visto</p><p>no item 1.3 da presente pesquisa.</p><p>Na concepção da dupla posição do dolo (no tipo e na culpabilidade), o erro sobre o pres-</p><p>suposto fático de uma causa de justificação afastaria o dolo da culpabilidade e o agente não</p><p>responderia por crime algum se o erro, no caso concreto, fosse inevitável. No caso de erro evi-</p><p>tável, afasta-se o dolo da culpabilidade, mas o agente responde por crime culposo se houver</p><p>previsão legal (ALMEIDA, 2010).</p><p>Outro ponto para destaque que poderia transparecer em um pequeno uso da referida te-</p><p>oria diz respeito ao duplo uso do dolo e da culpa feito pelos Tribunais, embora não pareça a</p><p>melhor proposta, quando analisam dolo ou culpa na conduta e, novamente, intensidade de</p><p>dolo ou grau de culpa, na dosimetria da pena-base, no exame da culpabilidade como uma das</p><p>circunstancias judiciais da primeira fase de aplicação da pena.</p><p>Nesse sentido, JURISPRUDÊNCIA do STF e do STJ:</p><p>Supremo Tribunal Federal. Primeira Turma. Habeas Corpus 100.902/MS. Penal e Pro-</p><p>cessual Penal. Habeas Corpus. Dosimetria. Fundamentação bastante para fixação da</p><p>pena-base acima do mínimo legal. Observância do disposto no art. 59 do Código Penal.</p><p>Impossibilidade admitir-se o writ constitucional como sucedâneo de revisão criminal.</p><p>Ausência de nulidade flagrante. Ordem denegada. I - A culpabilidade deve ser anali-</p><p>sada em sua intensidade quando se trata de verificar a profundidade e extensão do dolo,</p><p>segundo autoriza o caput do art.  59 do Código Penal. II - Não se mostra carente de</p><p>fundamentação a dosimetria que descreve exaustivamente as circunstâncias do fato</p><p>delituoso na própria sentença. III - Inexistindo nulidade ou ilegalidade flagrante a ser</p><p>sanada, não se pode admitir o habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, ante</p><p>a verificação do trânsito em julgado do acórdão que tornou definitiva a condenação. IV -</p><p>Ordem denegada. PACTE.: Joedi de Souza Barbosa. IMPTE.: Defensoria Pública da União.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>52 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Relator Ministro Ricardo Lewandowski. Julgado em 09/03/2010. Disponível em: . Acesso em: 4</p><p>jun. 2018.</p><p>Superior Tribunal de Justiça. Sexta Turma. Agravo Regimental no Recurso Especial</p><p>1.689.368/RN. Agravo Regimental no Recurso Especial. Penal. Dosimetria. Pena-base.</p><p>Tribunal que negativou a culpabilidade. Pleito pelo afastamento. Fundamentação com</p><p>base em elementos concretos. 1. A circunstância de um dos réus ser segurança da ins-</p><p>tituição financeira demanda maior compromisso por parte dele em dar segurança e não</p><p>em burlar a segurança, razão pela qual se encontra justificada a negativação da culpabi-</p><p>lidade. 2. Ademais, o fato de os demais réus se utilizarem de conta-corrente sediada em</p><p>estado diverso evidencia a maior intensidade do dolo em conseguir o intento criminoso,</p><p>autorizando, mais uma vez, a negativação dessa vetorial.3. Agravo regimental impro-</p><p>vido. Agravante: Jose Edson Soares de Souza; Luiz Carlos Jose Roque. Agravado: Minis-</p><p>tério Público Federal. Relator Ministro Sebastião Reis Júnior. Julgado em 28/11/2017.</p><p>Disponível em: . Acesso em: 4 jun. 2018.</p><p>O dolo e a culpa, considerando o modelo jurídico da parte geral do Código Penal brasileiro</p><p>de 1984, devem ser analisados somente na conduta, que integra o juízo de tipicidade, sem</p><p>qualquer referência no campo da dosimetria da pena, sob o risco de se incorrer em um fla-</p><p>grante bis in idem (GOMES FILHO, 2019).</p><p>O tema é controvertido na doutrina. Nucci (2009), com acerto, não concorda com a análise de</p><p>intensidade de dolo e de culpa na culpabilidade da pena base. De forma diversa, apoia a iniciativa</p><p>dos tribunais o doutrinador Ricardo Augusto Schmitt (2008), ao afirmar que a culpabilidade do</p><p>artigo 59 do Código Penal está ligada a intensidade do dolo ou o grau de culpa do agente.</p><p>A teoria social da ação não gerou outras considerações de impacto na doutrina e na juris-</p><p>prudência brasileira, tendo sido criticada por alargar o conceito de ação e pela dupla posição</p><p>do dolo e da culpa, tentando conciliar ideias causalistas e finalistas em um mesmo lugar.</p><p>Suas premissas não foram suficientes para impactar os alicerces do finalismo, o que somen-</p><p>te se concretizou com o surgimento das propostas funcionalistas, que serão analisadas nos</p><p>itens seguintes.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>53 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>4.2. resumo da teorIa soCIal da ação</p><p>A teoria social da ação surgiu com o intuito de ajustar o causalismo às exigências sis-</p><p>temáticas de ordem jurídica; depois se transformou em uma teoria da ação com elementos</p><p>próprios e que engloba aspectos do causalismo e do finalismo. Com outras palavras, no que</p><p>diz respeito ao injusto (tipicidade + ilicitude), uniu contribuições do finalismo e do causalismo</p><p>A teoria social da ação ampliou o alcance do conceito de ação, que consiste na conduta</p><p>socialmente relevante, dominada ou dominável pela vontade. Buscava-se, desse modo, expli-</p><p>car a omissão culposa, não resolvida pelo finalismo. De outro lado, examina dolo e culpa tanto</p><p>na tipicidade quanto na culpabilidade, trazendo uma teoria complexa, normativa e psicológica</p><p>da culpabilidade.</p><p>DIRETO DO CONCURSO</p><p>Questão 20 (UERR/SOLDADO DA POLÍCIA MILITAR EM RORAIMA) Analise as afirmações</p><p>abaixo e assinale a resposta CORRETA sobre o tema Teoria da Conduta:</p><p>I – No que concerne a Teoria Naturalista, também denominada causal, mecanicista ou</p><p>clássica, a conduta - segundo o postulado de Franz von Liszt - representaria tão só</p><p>uma produção de resultado mediante o emprego de força física. Melhor explicando,</p><p>a conduta seria o comportamento humano voluntário</p><p>que produz um resultado modi-</p><p>ficativo do mundo exterior.</p><p>II – A Teoria Finalista, cujo maior expoente foi Hanz Welzel, rechaçou a idéia de que a con-</p><p>duta era um mero acontecimento causal e trouxe para a ciência penal algo que era</p><p>inatingível para os naturalistas, o fato de que a conduta é a ação humana, voluntária e</p><p>consciente, dirigida a um fim.</p><p>III – Para a Teoria Social da Ação, a conduta é o comportamento humano socialmente re-</p><p>levante, ou seja, somente há que se considerar a conduta humana para efeitos penais,</p><p>quando atingir o meio social em que vive o agente de forma relevante. Ao contrário do que</p><p>possa parecer ao estudioso mais incauto, a teoria social da ação não exclui os postulados</p><p>naturalistas e finalistas, mas sim acrescenta a estes o conceito de relevância social.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>54 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>a) Apenas I e II estão corretas.</p><p>b) Apenas II e III estão corretas.</p><p>c) Apenas I e III estão corretas.</p><p>d) Todas estão corretas.</p><p>e) Todas estão incorretas.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra d.</p><p>Com relação ao item III, a teoria social da ação conceitua ação como conduta humana so-</p><p>cialmente relevante, dominada ou dominável pela vontade. E essa análise de relevância social</p><p>é feita de forma valorativa com o meio social. Nesse aspecto, segundo crítica que será vista</p><p>mais adiante, a teoria se confunde com a proposta da teoria significativa da ação. Ressalta-se</p><p>que a teoria social, no que diz respeito ao injusto (tipicidade + ilicitude), uniu contribuições do</p><p>finalismo e do causalismo, conforme anotamos no desenvolvimento do tópico sobre a teoria</p><p>social da ação. Quanto aos itens I e II, os conceitos de ação, tanto da teoria causal clássica</p><p>(naturalista) quanto do finalismo, estão corretos, conforme já vistos na exposição dos tópicos</p><p>relativos a cada teoria.</p><p>5. teorIas FunCIonalIstas teleológICa</p><p>Os funcionalismos teleológico e sistêmico surgiram na segunda metade do século XX e</p><p>representam, para efeito do presente estudo, duas linhas distintas que impactaram a inter-</p><p>pretação do Direito Penal, com reflexos na análise das categorias dogmáticas, tanto no menor</p><p>significado atribuído aos elementos da estrutura analítica do crime, quanto na desconstitui-</p><p>ção do papel de determinados institutos, bem como no transporte do olhar principal do injus-</p><p>to para a função da pena, para as consequências produzidas pelo Direito Penal.</p><p>A preocupação reside na interpretação do sistema jurídico penal e não na criação de dog-</p><p>mas. O mais importante não é definir conceitos dentro da estrutura analítica do delito, mas</p><p>estabelecer como ponto de partida a solução quanto à questão relativa à finalidade do Direito</p><p>Penal, principalmente no tocante às suas consequências, ou seja, à pena.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>55 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>É sabido que não existe somente uma única corrente funcionalista. As duas linhas apre-</p><p>sentadas, embora divergentes em vários aspectos, denotam certo consenso no sentido de</p><p>que o sistema jurídico penal deve ser construído e guiado pelos fins do Direito Penal, não se</p><p>deve vincular a dados ontológicos prévios, como ação, causalidade e outros. Nesse aspecto,</p><p>ambas são opostas ao finalismo</p><p>Nos itens seguintes, constam, do ponto de vista da interpretação penal e sua relação</p><p>com a dogmática, as características principais dos modelos funcionais de Claus Roxin e de</p><p>Günther Jakobs. Ambos os modelos constituem objeto de estudo da doutrina brasileira, apre-</p><p>sentam propostas opostas entre si e, ainda, contrárias ao modelo finalista. Com a exposição,</p><p>buscar-se-á verificar, mais adiante, no que diz respeito ao funcionalismo teleológico, certas</p><p>semelhanças, em determinada medida, com a linha jurisprudencial penal do STF.</p><p>5.1. teorIa FunCIonalIsta teleológICa</p><p>O funcionalismo penal teleológico apareceu na década de 1960 e foi anunciado, principal-</p><p>mente, com a obra Política Criminal e Sistema Jurídico-Penal de Claus Roxin, publicada em</p><p>1970. Nesse modelo, verifica-se uma oposição às ideias ontológicas dogmáticas do finalismo</p><p>penal, apresenta-se uma proposta de política criminal consubstanciada em princípios penais</p><p>constitucionais, como guia do Direito Penal dogmático, com o método axiológico e maior</p><p>possibilidade de o intérprete construir soluções no exame do caso concreto, com amparo na</p><p>finalidade político-criminal do Direito Penal.</p><p>5.1.1. Características da Teoria Funcionalista Teleológica</p><p>Embora reconheça méritos do finalismo, entre eles o desvalor da ação como elemento</p><p>integrante do injusto pessoal, o funcionalismo penal teleológico busca superá-lo, com a com-</p><p>preensão de que o finalismo, com seus dados ontológicos, “levou a desenvolvimentos em</p><p>parte corretos, em parte errôneos, juízo esse que corresponde à opinião atualmente dominan-</p><p>te” (ROXIN, 2006, p.61).</p><p>Para o funcionalismo teleológico, o finalismo deu importância à estrutura do crime, ao mo-</p><p>delo lógico-sistemático, sem se importar com a justiça da aplicação do Direito Penal, de modo</p><p>que a crença na solução de casos apenas com o método ontológico-dogmático representaria</p><p>um retorno à falácia naturalista (GOMES FILHO, 2019).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>56 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>São retomadas contribuições do Neokantismo: a construção teleológica de conceitos</p><p>com a finalidade de alcançar consequências justas e adequadas dentro do sistema; a análise</p><p>material das categorias do delito; a ordenação de valores político-criminais, sem a desordem</p><p>dos valores culturais do Neokantismo, com o objetivo de cumprir a missão constitucional do</p><p>Direito Penal, ou seja, preservação de bens jurídicos, com o uso da pena, no sentido positivo</p><p>de prevenção geral ou especial (GRECO, 2000).</p><p>No modelo funcional teleológico: compete ao tipo a concretização do princípio de que não</p><p>há crime sem lei; a solução dos conflitos sociais se encontra na antijuricidade; a responsa-</p><p>bilidade significa uma valoração que torna o sujeito penalmente responsável, formada por</p><p>culpabilidade e necessidade preventiva da sanção penal (ROXIN, 1997).</p><p>São propostas mudanças na interpretação do modelo penal com uma perspectiva teleoló-</p><p>gico-racional que, segundo os defensores da proposta roxiniana, supera o modelo ontológico,</p><p>o qual esteve presente tanto no causalismo quanto no finalismo. Os fins da pena adquirem</p><p>grande valor no sistema funcionalista. No modelo teleológico, considera-se o caráter positivo</p><p>da pena, tanto na prevenção geral quanto na prevenção especial. A norma deve ser observada</p><p>não por medo, mas por ser importante para a vida em sociedade.</p><p>Desse modo, quanto à pena, Claus Roxin (2004) defende um modelo unificador dialético</p><p>no qual a prevenção positiva se destaca, mas está vinculada à proteção subsidiária de bens</p><p>jurídicos, bem como ao objetivo de preservar a individualidade do sujeito que recebe a pena,</p><p>como consequência da função de prevenção especial.</p><p>Com base no modelo unificador dialético: no momento da construção do preceito se-</p><p>cundário pelo legislador (cominação penal), destaca-se a prevenção geral; no momento da</p><p>dosimetria da pena, aparece a função de retribuição e de prevenção geral; por fim, na fase da</p><p>execução da pena, surge a prevenção especial positiva (BUSTOS RAMÍREZ, 1992).</p><p>O referido autor, ainda, aponta a necessidade de uma terceira via, que significa a reparação</p><p>de danos à vítima por meio da decisão penal, podendo ser utilizada, nos casos de pequena e</p><p>média criminalidade, para substituir a pena e, nos casos de crimes mais graves, para suspender</p><p>ou atenuá-la. A reparação de danos da terceira via está legitimada pelo princípio da subsidiarie-</p><p>dade, enquanto a pena, segunda via, legitima-se pelo princípio da culpabilidade (ROXIN, 1997).</p><p>Das ideias do funcionalismo penal teleológico, pode-se inferir que:</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>57 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>• a ação é conceituada como manifestação da personalidade, tudo que se pode atribuir a</p><p>um ser humano como centro anímico-espiritual da ação (ROXIN, 1997);</p><p>• a ação típica penal constitui a realização de um risco não permitido. A ação típica não</p><p>decorre unicamente de um dado prévio ontológico (sistemas causal e final), mas é</p><p>compreendida também como produto de uma valoração legislativa. Com isso, a sis-</p><p>tematização da culpa só é alcançada com a teoria da imputação objetiva, não sendo</p><p>possível tal objetivo com o critério da finalidade;</p><p>• a tipicidade e a ilicitude formam o injusto e devem ser examinados na perspectiva da</p><p>teoria da imputação objetiva;</p><p>• a culpabilidade e a necessidade de pena, com suporte na teoria da prevenção, pas-</p><p>sam a integrar a segunda categoria do fato punível que se denomina responsabilidade.</p><p>É uma proposta direcionada a atender aos fins da pena. “Tanto a culpabilidade quanto a</p><p>necessidade preventiva são condições determinantes, e de maneira conjunta, da pena”</p><p>(CHAMON JUNIOR, 2004, p.48).</p><p>• nos tipos culposos, a sua essência indica que “o resultado deve representar uma reali-</p><p>zação do risco não permitido que o dever de cuidado consubstanciado no tipo pretende</p><p>prevenir” (ROXIN, 2001, p.18).</p><p>A dimensão do risco, nesse modelo, ultrapassa a dogmática penal e possibilita a introdu-</p><p>ção no Direito Penal de indagações político-criminais, alicerçadas em princípios, e empíricas,</p><p>com grupos de casos. Dessa forma, as dogmáticas fechadas do finalismo e do causalismo</p><p>clássico se abririam para a realidade.</p><p>Com essa construção, o pensamento funcionalista possibilita compreender que o Direito</p><p>Penal não deve se alicerçar em realidades ontológicas prévias, mas deve ser guiado pela fina-</p><p>lidade (missão constitucional), que consiste na proteção dos bens jurídicos mais relevantes.</p><p>Para os defensores do modelo, não há ofensa à legalidade, porque se analisa o que se preten-</p><p>de com a lei e busca-se explicar a sua finalidade, o que orientou o legislador do Direito Penal.</p><p>Portanto, o pensamento funcionalista roxiniano permite a flexibilização do sistema com</p><p>base em valores de política criminal consubstanciados em princípios penais constitucionais</p><p>explícitos e implícitos, que possibilitam ao intérprete construir soluções axiológicas para os</p><p>casos concretos.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>58 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>5.1.2. O Funcionalismo Teleológico e os Princípios Político-criminais</p><p>Para o funcionalismo roxiniano, o Direito Penal é o Direito Constitucional aplicado, com</p><p>valorações político-criminais extraídas da ordem constitucional do Estado Democrático de</p><p>Direito, que constituem o único limite do intérprete, o qual passa a não depender da dogmáti-</p><p>ca para solucionar os casos penais (GRECO, 2000).</p><p>Fica claro que o modelo funcional teleológico contribuiu para modificar a forma de inter-</p><p>pretação do Direito Penal, ancorado, a partir de agora, em princípios político-criminais extra-</p><p>ídos do texto constitucional, com os olhos na finalidade da pena, e não mais numa proposta</p><p>dogmática ontológica influenciada pelo positivismo formalista (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Desse modo, os  princípios penais constitucionais orientam e formam a política crimi-</p><p>nal, constituem o guia da dogmática penal, devendo sempre ser utilizados, numa perspectiva</p><p>axiológica do sistema, de modo a possibilitar soluções penais de acordo com cada caso con-</p><p>creto apresentado (ROXIN, 2006).</p><p>Dito de outro modo, no funcionalismo teleológico, todas as categorias do Direito Penal</p><p>devem se alicerçar em princípios reitores normativos político-criminais. Os casos concretos</p><p>deverão ser resolvidos com esses princípios que não possuem solução pré-concebida. Assim,</p><p>para essa corrente, a missão constitucional do Direito Penal é a proteção de bens jurídicos por</p><p>meio da prevenção geral ou especial.</p><p>A proposta de Roxin, segundo Luís Greco (2000), indica uma junção entre o pensamento</p><p>dedutivo (valorações político-criminais) e o indutivo (composição de grupos de casos), o que</p><p>revela conteúdo capaz de satisfazer as exigências de segurança e de justiça, garantindo a aber-</p><p>tura e dinamismo do sistema. Afirma-se que esse sistema não incorre no erro do normativismo</p><p>extremo do neokantismo e nem no culto às estruturas lógico-reais do finalismo ortodoxo.</p><p>Do mesmo modo, possibilita compreender que o Direito Penal não pode ser vinculado a</p><p>realidades ontológicas prévias, mas deve ser guiado pela finalidade (missão constitucional)</p><p>que consiste na proteção dos bens jurídicos mais relevantes, diante de ofensas não solucio-</p><p>nadas por outros ramos do ordenamento jurídico (proteção subsidiária), em razão de ataques</p><p>concretos (natureza fragmentária do Direito Penal).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>59 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Não obstante tenha obtido uma aceitação de parcela da doutrina, não há como negar que</p><p>o manto político criminal proposto por Roxin não evita subjetivações extremas nas decisões</p><p>judiciais, com o risco da abertura desordenada que existiu no neokantismo, diante da possi-</p><p>bilidade de conduzir a solução de casos penais com a ferramenta dos princípios, renegando</p><p>os alicerces dogmáticos (GOMES FILHO, 2019).</p><p>5.1.3. Resumo do Funcionalismo Teleológico</p><p>O funcionalismo teleológico propõe uma abertura à interpretação axiológica do Direito</p><p>Penal, busca romper com o modelo ontológico do finalismo e propõe um reducionismo da</p><p>dogmática penal, em razão da preponderância dos princípios político-criminais na constru-</p><p>ção das soluções penais.</p><p>No funcionalismo teleológico, a ação é a manifestação da personalidade. A tipicidade e a</p><p>ilicitude formam o injusto, o qual deve ser interpretado com suporte na teoria da imputação</p><p>objetiva. O crime é o injusto responsável. A responsabilidade é formada pela culpabilidade e</p><p>pela necessidade de pena. Desse</p><p>desenvolvido em cada capítulo.</p><p>Ao mesmo tempo, serão apresentados resumos, quadros sinópticos, quando necessários, di-</p><p>cas e destaques sobre pontos específicos de cada instituto jurídico de Direito Penal, de modo</p><p>a facilitar a compreensão e, por consequência, o acerto em provas de concursos.</p><p>Quanto ao conteúdo do primeiro capítulo, o estudo das teorias do crime é essencial para</p><p>o candidato a concursos públicos de alta complexidade no que diz respeito ao Direito Penal.</p><p>Nessa parte da matéria, é preciso compreender um pouco dos aspectos históricos e filosófi-</p><p>cos do final do século XVIII e do século XIX, como as correntes que inspiraram mudanças es-</p><p>senciais no estudo e na construção do Direito Penal liberal e, ainda, na elaboração das teorias</p><p>do crime, respectivamente.</p><p>Para efeito de provas de concursos, é essencial compreender os conceitos de ação, tipi-</p><p>cidade, ilicitude e culpabilidade em cada teoria do crime, tal qual a compreensão do dolo e da</p><p>culpa, sua posição topográfica e sua configuração em cada etapa das teorias do delito. Não</p><p>se pode deixar de lado também a análise das teorias que explicam a relação entre a tipicidade</p><p>e a ilicitude: ratio cognoscendi; ratio essendi; e teoria dos elementos negativos do tipo (estu-</p><p>dadas dentro do tópico teoria causal neoclássica ou neokantista.</p><p>Por fim, o estudo das teorias da culpabilidade, nas fases psicológica, psicológica norma-</p><p>tiva, complexo-psicológica normativa e normativa pura também são fundamentais, uma vez</p><p>que são muito cobrados nos concursos públicos, como se verá nas diversas questões que</p><p>foram selecionadas e inseridas no presente material de estudos.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>6 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>A divisão do material que se segue obedecerá a seguinte ordem, de modo a facilitar a</p><p>leitura e a compreensão do conteúdo: doutrina das teorias do crime; questões temáticas ao</p><p>fim de cada abordagem; jurisprudência, quando houver, de cada tema; resumos; e quadros</p><p>sinópticos.</p><p>Acrescenta-se, ainda, o uso de exemplos para ajudar na compreensão de temas áridos,</p><p>o uso do termo explicação melhor, para esclarecer com palavras mais simples os complexos</p><p>temas da dogmática da teoria do crime, bem como o uso da jurisprudência do STF e do STJ,</p><p>quando existentes sobre o conteúdo abordado em cada tópico da divisão proposta.</p><p>Uma observação inicial ao primeiro capítulo do material (teorias do crime) se faz neces-</p><p>sária: não se trata de um tema simples. Muitos manuais não apontam a ordem cronológica</p><p>exata do causalismo (clássico), causalismo (neoclássico), finalismo, teoria social da ação,</p><p>funcionalismo teleológico, funcionalismo sistêmico e teoria significativa da ação.</p><p>Ademais, os institutos dogmáticos de cada teoria somente são assimilados, pelo estudan-</p><p>te de concursos, com muita leitura e releitura. Portanto, é preciso ter paciência e obstinação</p><p>nos estudos para conseguir, no momento do concurso, marcar as assertivas mais corretas,</p><p>eliminar os enunciados errados. Isso é possível como muito estudo e disciplina.</p><p>Como importância para o estudo, o presente capítulo parte da perspectiva de que a ade-</p><p>quada interpretação das categorias do Direito Penal depende do alicerce teórico das teorias</p><p>da ação penal, como ponto de partida para a compreensão da estrutura analítica do delito,</p><p>bem como para elucidar os alicerces filosóficos históricos de cada teoria, que influenciam nas</p><p>escolhas de suas metodologias de solução de casos, com resultados diversos, dependendo</p><p>da linha adotada (GOMES FILHO, 2019, p. 49).</p><p>1. teorIa Causal ClássICa ou sIstema naturalIsta de ação</p><p>No final do século XIX e início do século XX, as ideias da teoria causal clássica floresceram</p><p>na Alemanha. Os maiores expoentes do sistema causal-naturalista foram Franz von Liszt e</p><p>Ernst von Belling. É o primeiro sistema penal com a estrutura analítica do crime, ou seja, com</p><p>a sistematização da tipicidade, ilicitude e culpabilidade, que trouxe uma proposta formalista</p><p>de interpretação dessas categorias jurídico-penais (CABRAL, 2017).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>7 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>1.1. ConCeIto de ação, tIpo, tIpICIdade, IlICItude e CulpabIlIdade na</p><p>teorIa Causal ClássICa</p><p>Releva anotar, para melhor identificação do modelo de interpretação da teoria causal clás-</p><p>sica, a sua base filosófica estruturada no positivismo reinante do século XIX. Naquele período,</p><p>a influência da Escola Positiva foi marcante na produção do conhecimento, de modo que, nas</p><p>ciências naturais, os fenômenos científicos eram explicados por meio de regras de observa-</p><p>ção empírica da realidade. Esse método, físico e mecânico, foi utilizado na sistematização</p><p>do Direito Penal do período causal, como também nas demais ciências humanas do período</p><p>histórico (TOLEDO, 1994).</p><p>O Direito do período teve dificuldade para se afirmar como ciência. Isso porque a priorida-</p><p>de voltava-se para o estudo das ciências naturais que contribuíam para o desenvolvimento</p><p>da produção industrial. Ademais, o Direito deveria ser alicerçado no modelo de Direito natural</p><p>racionalista, no método analítico de decomposição do todo em partes (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Para o positivismo naturalista, a ciência somente poderia ser construída com o conheci-</p><p>mento oriundo do método empírico, indutivo, experimental e causal-explicativo. Por isso, “o</p><p>direito precisava livrar-se das referências metafísicas e de adotar conceitos e padrões pró-</p><p>prios das ciências da natureza” (BUSATO, 2010, p.217).</p><p>O método positivista das ciências naturais, de decomposição dos elementos para o co-</p><p>nhecimento do todo, influenciou o desenvolvimento da estrutura classificatória e analítica</p><p>do crime em tipicidade, ilicitude e culpabilidade no final do século XIX e início do século XX.</p><p>Desse modo, o conceito de crime foi dividido em partes com o objetivo de conhecimento do</p><p>todo, enquanto a análise dos elementos oriundos do todo – e agora conjugados – permitiu a</p><p>conclusão de que existe um fato criminoso que deverá ser imputado e gerar consequências</p><p>penais (TOLEDO, 1994).</p><p>Nesse período, as categorias jurídicas que explicam o fato criminoso foram construídas</p><p>e interpretadas mediante a observação da realidade naturalística, sem relação com o conhe-</p><p>cimento dos valores. Conforme leciona Luís Greco (2000, p.122): “o sistema naturalista, tam-</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>8 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>bém chamado sistema clássico do delito, foi construído sob a influência do positivismo, para</p><p>o qual a ciência é somente aquilo que se pode apreender através dos sentidos”.</p><p>Os institutos da estrutura analítica do crime foram interpretados de maneira formal, sem</p><p>a possibilidade de o intérprete fazer juízo de valor. O crime foi dividido em duas partes: parte</p><p>objetiva, formada por tipicidade e ilicitude, denominada injusto; e parte subjetiva, formada</p><p>modo, para punir uma pessoa, não basta o cometimento de</p><p>um fato típico, ilícito e culpável. É preciso demonstrar a necessidade de pena.</p><p>5.2. teorIa FunCIonalIsta sIstêmICa</p><p>Günther Jakobs, em 1983, na primeira edição de seu tratado de Direito Penal, defendeu</p><p>que a elaboração das categorias dogmáticas do Direito Penal não deveria seguir o modelo</p><p>ontológico do Direito. Ao comentar o significado dessas categorias na obra de Jakobs, Eduar-</p><p>do Montealegre leciona no sentido de que a proposta se vincula aos fins e funções do Direito</p><p>Penal, “consistentes em garantir a identidade de uma sociedade. Isto significa, então, que se</p><p>trata de conceitos normativos edificados com total independência da natureza das coisas”</p><p>(MONTEALEGRE LYNETT, 2005, p.11).</p><p>5.2.1. Características da Teoria Funcionalista Sistêmica</p><p>O funcionalismo sistêmico se ancora nas ideias de Günther Jakobs. Sua obra tem raiz na</p><p>parcela que lhe interessa da teoria dos sistemas sociais desenvolvida pelo sociólogo alemão</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>60 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Niklas Luhmann. Segundo esta linha de pensamento, dentro da sociedade, cada ser humano es-</p><p>pera uma reação do seu semelhante, se a expectativa não é correspondida, há uma frustração.</p><p>Desse modo:</p><p>São as expectativas e as expectativas de expectativas que orientam o agir e o interagir dos homens</p><p>em sociedade, reduzindo a complexidade, tornando a vida mais previsível e menos insegura (GRE-</p><p>CO, 2000, p.139).</p><p>E são as comunicações que possibilitam a existência de expectativas, ou seja, “cada ges-</p><p>to tem um sentido, cada protagonista sabe o que pode esperar do curso da ação conseguinte”</p><p>(GARCÍA AMADO, 2006, p.238).</p><p>Ressalte-se a necessidade de compreender o termo complexidade, conquanto não apa-</p><p>reça a sua menção na obra de Günther Jakobs. Complexidade pode ser definido como o con-</p><p>junto de todos os eventos possíveis. Numa sociedade constituída pela comunicação, é pos-</p><p>sível reduzir tal complexidade. Mas a redução da complexidade também faz surgir novos</p><p>problemas, mais complexidade. Isso vai exigir comunicações especializadas para resolver os</p><p>diferentes âmbitos do problema.</p><p>Dentro da complexidade da sociedade, estão as expectativas sociais “no sentido de que</p><p>eu posso esperar algo de alguém e, por sua vez, essa pessoa pode esperar algo de mim”</p><p>(MONTEALEGRE LYNETT, 2005, p.14).</p><p>Os sistemas sociais, portanto, existem para assegurar essas expectativas. Tais sistemas</p><p>fornecem aos homens modelos de condutas, mostrando-lhes as expectativas que podem ter</p><p>em face dos outros.</p><p>As expectativas seriam de duas espécies: cognitivas e normativas. As primeiras dizem</p><p>respeito à relação do homem com a natureza e, quando violadas, fazem o expectador se</p><p>adaptar à realidade, ou seja, o expectador não a espera mais.</p><p>Exemplo: um senhor construiu, durante anos, uma casa de madeira que, após o término da</p><p>obra, foi arrastada por uma forte enchente. Resta ao senhor construir a casa no mesmo lugar</p><p>ou mudar de lugar, ele não pode manter a expectativa. Esse conflito se resolve com a mudança</p><p>de conduta.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>61 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Entretanto, a expectativa normativa é mantida mesmo quando violada. Nesse segundo</p><p>caso, o expectador exige que a realidade (fato que violou a expectativa) se adapte à expecta-</p><p>tiva. Assim, a expectativa normativa continua a valer contrafaticamente, porquanto o errado é</p><p>a realidade, não a expectativa.</p><p>Desse modo, as expectativas normativas não podem sempre gerar decepções, senão cai-</p><p>rão em descrédito. Por isso, a frustração da expectativa (crime) abre espaço para a reafirma-</p><p>ção da validade da norma, exigindo uma reação com sanção. Nessa linha, o Direito também é</p><p>um sistema social composto de normas. Essas, quando violadas, geram decepções. A situa-</p><p>ção só é restaurada com a aplicação da pena por meio do Direito Penal, porque a sanção é a</p><p>demonstração de vigência da norma (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Com essa premissa, no modelo funcionalista sistêmico, o  bem jurídico deixa de ser o</p><p>principal objeto de tutela do Direito Penal ou o centro da proteção. Assim, na concepção de</p><p>Günther Jakobs, com a aplicação da pena, o Direito Penal possui a função de garantir a vigên-</p><p>cia da norma e, com isso, estabilizar as expectativas sociais, mantendo a identidade de uma</p><p>sociedade. Ele nega, portanto, a ideia de um Direito Penal que possui como função a tutela</p><p>dos bens jurídicos principais (JAKOBS, 1997).</p><p>A função do Direito Penal, no funcionalismo sistêmico, constitui primariamente a manu-</p><p>tenção da identidade da sociedade. Por sua vez, a sociedade se constitui a partir de normas,</p><p>das quais se alcança a identidade dos sujeitos individuais. O Direito Penal, nesse modelo,</p><p>vela pela parte mais essencial de tais normas, pela subsistência das normas que estruturam</p><p>a base do social (GARCÍA AMADO, 2006).</p><p>Exemplo: no homicídio, a vida é o bem jurídico em sentido estrito, enquanto a expectativa de</p><p>que não se atentará contra a integridade de seus membros é o bem jurídico em sentido penal.</p><p>No tocante à ação, compreende-a como a causação de um resultado individualmente evi-</p><p>tável, como um supraconceito que abrange o atuar doloso e o atuar culposo (JAKOBS, 1997).</p><p>É a interpretação social do fato, com base na teoria da imputação objetiva, que vai denotar a</p><p>relevância da ação com a análise proposta do risco permitido, do princípio da confiança, das</p><p>ações de próprio risco e da proibição de regresso. Assim, a imputação objetiva complementa</p><p>e realiza a ação.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>62 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>O funcionalismo sistêmico desenvolve o conceito normativo de competência em substitui-</p><p>ção ao modelo da causalidade ontológica reinante no causalismo e no finalismo. Parte da ideia</p><p>de que a vida em sociedade faz com que cada pessoa seja portadora de determinado papel.</p><p>Exemplo: pedestre, motorista e esportista devem atuar de acordo com um conjunto de expec-</p><p>tativas. Compete a cada um deles organizar seu relacionamento social de modo a não infrin-</p><p>gir as normas penais.</p><p>Como consequência, o  ser humano garante agir da maneira esperada (expectativa de</p><p>comportamento positivo). Se não age, pratica delito por competência institucional. Entretanto,</p><p>também garante não agir da forma a gerar decepção (expectativa de comportamento negati-</p><p>vo). Se age, nesse caso, pratica o delito por competência organizacional.</p><p>Dessa forma, a discussão sobre a forma de realização da conduta, por ação ou omissão,</p><p>perde a relevância, é superficial (JAKOBS, 2003). O importante é saber se a pessoa cumpriu ou</p><p>não com os deveres de sua posição de garante. A função de garantia não se aplica somente à</p><p>omissão imprópria, é de todos os integrantes do corpo social que possuem o dever de cumprir</p><p>com as expectativas positivas e negativas.</p><p>O próprio Günther</p><p>Jakobs desmerece o conceito de ação no arranjo do Direito Penal, tor-</p><p>nando-o um mero conceito auxiliar. Em caso de fato criminoso, constata-se que “o delinquente</p><p>careceu, de acordo com uma medida objetiva, de suficiente fidelidade ao ordenamento jurídi-</p><p>co” (JAKOBS, 2003, p.7).</p><p>O funcionalismo sistêmico compreende certos institutos dogmáticos da seguinte forma:</p><p>dolo é o conhecimento do risco, enquanto a culpa é a cognoscibilidade do risco; autoria e par-</p><p>ticipação possuem diferença quantitativa e não qualitativa. Os conceitos dogmáticos (causa-</p><p>lidade, capacidade, culpabilidade etc.) constituem etapas de competência, “são construídos</p><p>em função da própria tarefa do Direito Penal” ZAFFARONI; PIERANGELI, 2006, p.347). A teoria</p><p>do delito transforma-se em uma teoria de imputação.</p><p>Enquanto a exigibilidade de conduta diversa sustenta a culpabilidade do finalismo, na</p><p>teoria funcionalista sistêmica, a culpabilidade é guiada pela função da pena. É compreendida</p><p>como mera necessidade social de prevenção geral, o que é verdadeiramente criticável.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>63 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>A prevenção geral positiva fundamentadora recebe destaque no sistema funcional sis-</p><p>têmico (DUEK, 2008), no sentido de que a pena busca reavivar a confiança da sociedade na</p><p>vigência fática das normas e dos bens jurídicos. Foi na segunda fase de divulgação de suas</p><p>ideias que Günther Jakobs defendeu a prevenção geral positiva fundamentadora (BUSATO,</p><p>2013), segundo a qual a pena é aplicada com a finalidade de reafirmar a confiança normati-</p><p>va, de reforçar a fidelidade jurídica e de exercitar a aceitação das consequências, como um</p><p>modelo de “prevenção geral por meio do exercício do reconhecimento normativo” (JAKOBS,</p><p>1997).</p><p>Günther Jakobs ainda desenvolveu a ideia do Direito Penal do inimigo por volta de 1985,</p><p>quando se apresentava como um narrador, apontando sob uma perspectiva histórica o trata-</p><p>mento diferenciado entre cidadão e inimigo. Após isso, no início dos anos 2000, apresenta-se</p><p>como um defensor do Direito Penal do inimigo, que na verdade é um Direito Penal contra o</p><p>sujeito classificado como inimigo (GRECO, 2005).</p><p>Nessa proposta, o cidadão é aquele que possui direitos fundamentais, que não pode ser</p><p>condenado sem respeito às garantias processuais constitucionais e legais, uma vez que não</p><p>possui habitualidade criminosa, mas eventualmente pode chegar a praticar um crime. O ini-</p><p>migo é o não pessoa, é o indivíduo que não oferece expectativa cognitiva positiva sobre o seu</p><p>comportamento no meio social, que pode ser punido sem respeito às garantias processuais</p><p>constitucionais e legais.</p><p>Dessa forma, Günther Jakobs distingue o direito penal do cidadão do direito penal do ini-</p><p>migo e ainda afirma que não há novidade em tal distinção, uma vez que jusfilósofos do passa-</p><p>do já tinham percebido isso, ou seja, reconheciam essas duas classes de humanos. Afirmou</p><p>que Hobbes e Kant conheciam um direito penal do cidadão – contra pessoas que não cometia</p><p>crimes de modo habitual, persistente – e um direito penal do inimigo contra quem se desviava</p><p>por princípio. “Este exclui e aquele deixa incólume o status de pessoa” (JAKOBS, 2008, p.29).</p><p>Nessa perspectiva, o direito penal do cidadão mantém a vigência da norma, enquanto o</p><p>direito penal do inimigo combate perigos. O cidadão não pode ser abandonado pelo ordena-</p><p>mento jurídico, pois possui o direito de se ajustar com a sociedade. Por outro lado, o inimigo</p><p>passa a não merecer o direito do cidadão, pois se tornou um mero indivíduo e, portanto, o “Es-</p><p>tado não deve tratá-lo como pessoa, já que do contrário vulneraria o direito à segurança das</p><p>demais pessoas” (JAKOBS, 2008, p.42).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>64 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>O sujeito deixa de ser cidadão e se torna inimigo com a reincidência, a habitualidade, a de-</p><p>linquência profissional e, por fim, o envolvimento com a criminalidade organizada. A transição</p><p>do cidadão para o inimigo faz surgir um ser altamente perigoso, sujeito às medidas de segu-</p><p>rança com aparência formal de penas (SILVA SÁNCHEZ, 2011).</p><p>O tratamento do inimigo com a eliminação do perigo deve ser feito com a antecipação da</p><p>tutela penal (pena para impedir fatos futuros), com uma legislação de combate, com medida</p><p>de segurança para o delinquente de condutas duradoras no âmbito da criminalidade econô-</p><p>mica, do terrorismo, das organizações criminosas, dos crimes sexuais, do tráfico de drogas e</p><p>de outras infrações penais graves (JAKOBS, 2008).</p><p>Günther Jakobs (2008) reconhece que a proposta do direito penal do inimigo deve ser vis-</p><p>ta com equilíbrio e afirma que situações mais extremas só deverão existir diante dos riscos</p><p>terroristas, quando não se fala em processo penal, mas em procedimento de guerra, que ele</p><p>denomina processo penal do inimigo, referindo-se, inclusive, ao episódio ocorrido em 11 de</p><p>setembro de 2001, com derrubada das torres gêmeas por terroristas na cidade de Nova Ior-</p><p>que, denominando autor por tendência.</p><p>Conquanto aponte dúvidas sobre a legitimidade da proposta, Silva Sanchez (2011) escla-</p><p>rece que, no âmbito dos inimigos, caracterizados por ausência da segurança cognitiva míni-</p><p>ma das condutas, observa-se uma negação frontal dos princípios políticos de convivência,</p><p>bem como indica certa dificuldade de persecução e de prova no que se refere ao terrorismo</p><p>e à criminalidade organizada, admitindo a discussão relativa ao uso da pena privativa com</p><p>relativização de garantias penais e processuais.</p><p>ATENÇÃO</p><p>No que concerne à eventual modelo de direito penal do inimigo na legislação pátria, não se</p><p>pode afirmar que o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) previsto no art. 52 da Lei de Exe-</p><p>cução Penal (LEP) tenha inspiração no modelo do direito penal do inimigo, examinado acima,</p><p>uma vez que a decisão judicial que aplica o RDD segue o devido processo legal, com garantia</p><p>de ampla defesa para o preso provisório ou definitivo, que se enquadre em alguma das hipó-</p><p>teses legais previstas no referido artigo.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>65 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Em sentido contrário, Bruno Seligman (2006) aponta uma relação entre o direito penal do</p><p>inimigo e o Regime Disciplinar diferenciado (RDD). Do mesmo modo, Elisangela Melo (2006)</p><p>aponta semelhanças entre o RDD e o direito penal do inimigo.</p><p>Infere-se que o modelo funcional sistêmico constitui um sistema vinculado de forma ab-</p><p>soluta aos fins, sem uma preocupação com os meios legítimos. A crítica que se faz a Günther</p><p>Jakobs é que seu sistema é observado pela eficiência, sendo o fim de toda a estabilidade da</p><p>sociedade. Há, nesse caso, o risco de utilização de meios ilegítimos, podendo ferir até direitos</p><p>individuais consagrados no Estado Democrático de Direito, porquanto “abre-se uma via para</p><p>justificar qualquer tipo de sistema penal em</p><p>nome da manutenção da coletividade” (GARCÍA</p><p>AMADO, 2006, p.236).</p><p>Todavia, há quem lhe renda críticas positivas. Para Marta Rodriguez (2010), a dogmática</p><p>tradicional se mostra insuficiente para regular as situações novas, havendo uma crise geral da</p><p>teoria do delito. Nesse cenário, mereceria elogio a proposta do funcionalismo sistêmico de</p><p>se preocupar com uma teoria da imputação, de romper com todas as teorias tradicionais do</p><p>delito, deslocando os olhos para o processo de imputação, respondendo a um diagnóstico de</p><p>crise da dogmática que abala os seus pilares fundamentais.</p><p>Desse modo, a teoria da imputação objetiva, com seus critérios normativos, mostra-se</p><p>mais preparada do que a teoria da causalidade naturalística para imputar responsabilidade</p><p>penal nas áreas, por exemplo, de meio ambiente, relação de consumo, mercado financeiro,</p><p>omissões culposas no Direito Penal econômico. Por fim, Marta Rodriguez (2010) defende que</p><p>a teoria da imputação do Günther Jakobs constitui uma proposta independente de suas ideias</p><p>sobre o direito penal do inimigo.</p><p>Com a ressalva de aplicação de alguns critérios da teoria da imputação objetiva, com os</p><p>critérios apresentados pelo Jakobs, em julgados isolados (EXEMPLO STJ HC 46.525), o mode-</p><p>lo funcional sistêmico ainda não repercutiu de maneira mais profunda na jurisprudência penal</p><p>brasileira.</p><p>(caso já cobrado em prova do TJSC). HC 46525. PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS.</p><p>HOMICÍDIO CULPOSO. MORTE POR AFOGAMENTO NA PISCINA. COMISSÃO DE FORMA-</p><p>TURA. INÉPCIA DA DENÚNCIA. ACUSAÇÃO GENÉRICA. AUSÊNCIA DE PREVISIBILIDADE,</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>66 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>DE NEXO DE CAUSALIDADE E DA CRIAÇÃO DE UM RISCO NÃO PERMITIDO. PRINCÍPIO</p><p>DA CONFIANÇA. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. ATIPICIDADE DA CONDUTA. ORDEM</p><p>CONCEDIDA.</p><p>1. Afirmar na denúncia que “a vítima foi jogada dentro da piscina por seus colegas, assim</p><p>como tantos outros que estavam presentes, ocasionando seu óbito” não atende satisfa-</p><p>toriamente aos requisitos do art. 41 do Código de Processo Penal, uma vez que, segundo</p><p>o referido dispositivo legal, “A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso,</p><p>com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos</p><p>quais se possa identificá-lo, a classificação do crime e, quando necessário, o  rol das</p><p>testemunhas”.</p><p>2. Mesmo que se admita certo abrandamento no tocante ao rigor da individualização</p><p>das condutas, quando se trata de delito de autoria coletiva, não existe respaldo jurispru-</p><p>dencial para uma acusação genérica, que impeça o exercício da ampla defesa, por não</p><p>demonstrar qual a conduta tida por delituosa, considerando que nenhum dos membros</p><p>da referida comissão foi apontado na peça acusatória como sendo pessoa que jogou a</p><p>vítima na piscina.</p><p>3. Por outro lado, narrando a denúncia que a vítima afogou-se em virtude da ingestão de</p><p>substâncias psicotrópicas, o que caracteriza uma autocolocação em risco, excludente</p><p>da responsabilidade criminal, ausente o nexo causal.</p><p>4. Ainda que se admita a existência de relação de causalidade entre a conduta dos acu-</p><p>sados e a morte da vítima, à luz da teoria da imputação objetiva, necessária é a demons-</p><p>tração da criação pelos agentes de uma situação de risco não permitido, não-ocorrente,</p><p>na hipótese, porquanto é inviável exigir de uma Comissão de Formatura um rigor na fis-</p><p>calização das substâncias ingeridas por todos os participantes de uma festa.</p><p>5. Associada à teoria da imputação objetiva, sustenta a doutrina que vigora o princípio</p><p>da confiança, as pessoas se comportarão em conformidade com o direito, o que não</p><p>ocorreu in casu, pois a vítima veio a afogar-se, segundo a denúncia, em virtude de ter</p><p>ingerido substâncias psicotrópicas, comportando-se, portanto, de forma contrária aos</p><p>padrões esperados, afastando, assim, a responsabilidade dos pacientes, diante da ine-</p><p>xistência de previsibilidade do resultado, acarretando a atipicidade da conduta.</p><p>6. Ordem concedida para trancar a ação penal, por atipicidade da conduta, em razão da</p><p>ausência de previsibilidade, de nexo de causalidade e de criação de um risco não permitido, em</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>67 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>relação a todos os denunciados, por força do disposto no art. 580 do Código de Pro-</p><p>cesso Penal. Impetrante: Dalila de Oliveira Matos. Impetrado: Primeira Câmara Criminal</p><p>do Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso. Paciente: Marcelo André de Matos.</p><p>Relator Ministro Arnaldo Esteves de Lima. Julgado em 21/03/2006. Disponível em:</p><p>.</p><p>Acesso em: 18 jan. 2018.</p><p>Sob o aspecto doutrinário, em razão da função atribuída ao Direito Penal de reafirmar a</p><p>expectativa normativa, bem como na diminuição do papel do bem jurídico penal e, por fim,</p><p>em decorrência da defesa do direito penal do inimigo, o funcionalismo sistêmico costuma ser</p><p>alvo de severas críticas pelos defensores das propostas teóricas já abordadas e, ainda, pelos</p><p>expoentes da teoria da ação significativa.</p><p>5.2.2. Resumo da Teoria Funcionalista Sistêmica</p><p>O funcionalismo sistêmico compreende a ação como a causação de um resultado indi-</p><p>vidualmente evitável, como um supraconceito que abrange o atuar doloso e o atuar culposo.</p><p>O Direito Penal, com a sanção, reafirma a vigência da norma, com a teoria da prevenção geral</p><p>positiva fundamentadora.</p><p>Tanto no cometimento do crime comissivo quanto do omissivo, o agente é tratado como</p><p>garante. O dolo é o conhecimento do risco, enquanto a culpa é a cognoscibilidade do risco.</p><p>Os conceitos dogmáticos (causalidade, capacidade, culpabilidade etc.) constituem etapas de</p><p>competência.</p><p>Enquanto a exigibilidade de conduta diversa sustenta a culpabilidade do finalismo, na</p><p>teoria funcionalista sistêmica a culpabilidade é guiada pela função da pena. É compreendida</p><p>como mera necessidade social de prevenção geral.</p><p>Jakobs ainda desenvolve a ideia do direito penal do inimigo, na qual o inimigo é o não pes-</p><p>soa, é o indivíduo que não oferece expectativa cognitiva positiva sobre o seu comportamento no</p><p>meio social, que pode ser punido sem respeito às garantias processuais constitucionais e legais.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>68 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>DIRETO DO CONCURSO</p><p>Questão 21 (MP-MT/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2014) No que concerne às propostas preco-</p><p>nizadas pelo funcionalismo penal, é INCORRETO afirmar:</p><p>a) O funcionalismo da Escola de Munique, liderada por Claus Roxin, apregoa que a teoria do</p><p>delito não pode ficar alheia aos postulados político-criminais que norteiam o Direito Penal e</p><p>descreve a necessidade da penetração da política criminal na dogmática.</p><p>b) O funcionalismo da Escola de Frankfurt, dirigida por Winfried Hassemer,</p><p>sustenta a redução</p><p>do Direito Penal ao que qualifica como direito penal nuclear, ficando uma zona intermediária</p><p>entre este direito e as contravenções, denominada direito de intervenção.</p><p>c) O funcionalismo da Escola de Bonn, encabeçada por Günther Jakobs, está orientado a ga-</p><p>rantir a identidade normativa. O crime será uma falta de lealdade ao direito e a pena será o</p><p>recurso necessário para estabilizar o sistema.</p><p>d) O Direito Penal do Inimigo combate preponderantemente perigos (retrospectivos), enquan-</p><p>to o Direito Penal do Cidadão, segundo o modelo funcionalista de Günther Jakobs, pautado</p><p>pela prevenção geral negativa, mantém a vigência da norma (prospectivo).</p><p>e) O objetivo de um sistema penal está em estruturar os elementos fundamentais que integram</p><p>o conceito de crime. O funcionalismo penal avança um pouco mais e propõe a construção de</p><p>uma estrutura conceitual que atenda à função do Direito Penal.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra d.</p><p>Conforme visto no tópico sobre funcionalismo sistêmico, o direito penal do inimigo constitui</p><p>uma forma de tutela preventiva, que antecipa resposta penal, sem processo, por considerar</p><p>o inimigo um não pessoa, que não oferece expectativa cognitiva positiva sobre seu compor-</p><p>tamento no meio social. O direito penal do inimigo é prospectivo, enquanto o direito penal do</p><p>cidadão é retrospectivo.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>69 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Questão 22 (MP-MG/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2009) Modernamente, o  chamado direito</p><p>penal do inimigo pode ser entendido como um direito penal de:</p><p>a) primeira velocidade.</p><p>b) garantias.</p><p>c) segunda velocidade.</p><p>d) terceira velocidade.</p><p>e) quarta geração</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra d.</p><p>Na classificação de Jesus-Maria Silva Sanchez, o direito penal do inimigo é situado na tercei-</p><p>ra velocidade do Direito Penal. Ressalta-se que a terceira velocidade é representada pela pena</p><p>de prisão acompanhada de relativização das garantias político-criminais, regras de imputa-</p><p>ção e critérios processuais. Essa terceira velocidade se faz presente atualmente no direito</p><p>penal socioeconômico, mas deveria ser reformulada para regredir à primeira ou à segunda</p><p>velocidade, segundo diz Sánchez (2010). Acrescenta-se que a segunda velocidade do Direi-</p><p>to Penal se caracteriza pela flexibilização das regras de imputação, garantias processuais e</p><p>princípios político-criminais, com tutela de novos riscos sociais, ou seja, proteção principal</p><p>de bens jurídicos supraindividuais, com antecipação da tutela penal com a tipificação dos cri-</p><p>mes de perigo presumido e crimes de acumulação, com o uso de penas restritivas de direitos</p><p>e pecuniárias- sem possibilidade de pena de prisão. Fala-se aqui em zona periférica (Direito</p><p>Penal periférico). Enquanto a primeira velocidade, destaca-se pela pena de prisão, seguida</p><p>por regras rígidas de imputação, de garantias processuais e de respeito aos princípios po-</p><p>lítico-criminais. Com outras palavras, é a fase inicial do Direito Penal liberal marcada pelo</p><p>respeito aos princípios penais e processuais, tutela principal de bens jurídicos individuais, uso</p><p>da pena privativa de liberdade. Denomina-se núcleo duro (Direito Penal nuclear). Uma quarta</p><p>velocidade não presente na obra de Sanchez, mas mencionada por outros setores da doutri-</p><p>na, consistente no modelo de Direito Penal, usado pelo TPI (Tribunal Penal Internacional) no</p><p>julgamento ex-chefes de Estado que praticaram crimes de lesa humanidade.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>70 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Questão 23 (MP-PR/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2016) A frase “há sujeitos que têm uma me-</p><p>nor possibilidade de autodeterminação, condicionados dessa maneira por causas sociais”,</p><p>está ligada à:</p><p>a) Ideia do conceito de causa supralegal exculpante;</p><p>b) Ideia do conceito de culpabilidade no funcionalismo teleológico;</p><p>c) Ideia do conceito normativo puro da culpabilidade;</p><p>d) Ideia do conceito psicológico-normativo de culpabilidade;</p><p>e) Ideia do conceito de coculpabilidade.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra e.</p><p>A coculpabilidade significa corresponsabilidade social. Isso significa dizer que a ausência de</p><p>concretização de direitos fundamentais na vida das pessoas pode ter relação com a prática</p><p>de crimes. Quando isso ocorre, o Estado falhou e a sociedade deve suportar. Ou seja, deve-se,</p><p>em tais casos, ao menos atenuar a resposta penal, com uma atenuante inominada (artigo 66</p><p>do Código Penal).</p><p>Questão 24 (CESPE/TJ-SC/JUIZ/2019) Constitui uma das características do direito penal</p><p>do inimigo</p><p>a) a legislação diferenciada.</p><p>b) a punição a partir de atos executórios.</p><p>c) a não utilização de medidas de segurança.</p><p>d) a observância das garantias processuais penais.</p><p>e) o abrandamento das penas na antecipação da tutela penal.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra a.</p><p>Conforme visto no tópico sobre funcionalismo sistêmico, o Jakobs, além de desenvolver uma</p><p>teoria do crime, chamada de funcionalismo sistêmico, também construiu a ideia do direito</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>71 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>penal do inimigo, o qual é oposto ao direito penal do cidadão. O inimigo é o não pessoa, o in-</p><p>divíduo, que habitualmente se envolve em atividades criminosas (organizações criminosas,</p><p>terrorismo etc.), para o qual é possível antecipar a resposta penal, sem a obediência ao devido</p><p>processo legal, aos princípios penais e garantias processuais. Alguns países têm construído</p><p>legislação específica, diferenciada, para combater o terrorismo (exemplo: EUA). O cidadão,</p><p>por sua vez, se vier a praticar um crime, tem direito a ser julgado com o respeito a todos os</p><p>princípios e a todas as garantias e, após a condenação e cumprimento da pena, voltará a viver</p><p>em sociedade normalmente.</p><p>Questão 25 (MP-MG/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2007) Com relação às propostas dogmáti-</p><p>cas de caráter funcional, assinale a alternativa INCORRETA.</p><p>a) Trata-se de uma tentativa de racionalizar a intervenção penal através de uma densificação</p><p>de elementos axiológicos e teleológicos.</p><p>b) Trata-se de uma proposta que descarta a busca dos fundamentos da legitimidade do Direi-</p><p>to Penal em um a priori calcado na natureza das coisas.</p><p>c) Trata-se de propostas tendencialmente abertas à penetração, na construção de uma teoria</p><p>do delito, das chamadas ciências sociais.</p><p>d) Na concepção de Gunther Jakobs, trata-se de uma busca de adaptação de uma “metodo-</p><p>logia ontológica” de construção de conceitos às necessidades do Direito Penal, preservando-</p><p>-se, em sua essência, sua vinculação às estruturas lógico-objetivas.</p><p>e) Na perspectiva de Claus Roxin, trata-se de flexibilizar a análise de conceitos de molde a</p><p>adaptá-los às mudanças valorativas ocorridas no âmbito social.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra d.</p><p>O modelo funcional sistêmico de Jakobs faz uso de uma metodologia axiológica, valorativa,</p><p>não se prende à realidade concreta, às estruturas lógico-objetivas, como ocorre em mo-</p><p>delos ontológicos (exemplo:</p><p>finalismo). Os demais itens estão corretos e são importantes</p><p>para a compreensão de ideias do funcionalismo teleológico (Roxin) e do funcionalismo sis-</p><p>têmico (Jakobs).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>72 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Questão 26 (MP-GO/2010) Segundo definição de Günter Jakobs e Manuel Cancio Meliá sobre</p><p>o direito penal do inimigo, “quem não presta uma segurança cognitiva suficiente de um com-</p><p>portamento pessoal, não só não pode esperar ser tratado ainda como pessoa, mas o Estado</p><p>não deve tratá-lo, como pessoa, já que do contrário vulneraria o direito à segurança das demais</p><p>pessoas” […] “Como já se tem indicado, Kant exige a separação deles, cujo significado é de</p><p>que deve haver proteção frente aos inimigos”. (in: Direito Penal do Inimigo: Noções e críticas.</p><p>Organização e tradução de André Luis Callegari e Nereu José Giacomolli. Porto Alegre: livraria</p><p>do advogado, 2005). A partir da noção de direito penal do inimigo, marque a alternativa correta:</p><p>a) A instituição do regime disciplinar diferenciado foi baseada no direito penal do inimigo, per-</p><p>feitamente admissível no Brasil, já que não ofende a dignidade da pessoa humana.</p><p>b) A noção de inimigo dada por Jakobs e Cancio Meliá não pode servir de fundamento para</p><p>a edição de lei penal que viole o princípio da dignidade da pessoa humana, já que o Brasil o</p><p>previu no artigo 1º da Constituição da República de 1988.</p><p>c) Para a defesa social (Estado Social) é possível restringir-se a dignidade de alguns indi-</p><p>víduos que não possuem o status de pessoa humana, daí não se poder falar em ofensa ao</p><p>princípio da dignidade da pessoa humana.</p><p>d) O direito penal do inimigo não ofende o paradigma do Estado Democrático de Direito.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra b.</p><p>Item correto, no sentido de que o direito penal do inimigo, tal qual proposto por Jakobs, com a</p><p>possibilidade de aplicar a sanção penal de forma antecipada, sem seguir os princípios penais</p><p>e garantias processuais, contraria as disposições do texto constitucional brasileiro. Vale des-</p><p>tacar a letra A, dada como errada, conforme sustentamos ao longo da exposição sobre direito</p><p>penal do inimigo, ou seja, o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) não se trata de direito pe-</p><p>nal do inimigo, porque segue o devido processo legal.</p><p>6. teorIa sIgnIFICatIva da ação</p><p>Os estudantes de concurso já observaram que as teorias do crime constituem um assunto</p><p>bem complexo. Todavia, a próxima teoria, significativa da ação, ainda é mais complexa do que</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>73 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>as anteriores para quem se prepara para concursos públicos. Vale ressaltar que o tema já foi</p><p>cobrado em algumas provas, como a do MPGO (Promotor de Justiça).</p><p>Como ponto de partida, importa salientar que, na sequência das teorias do delito, obser-</p><p>vou-se uma mudança do eixo central da discussão do conceito ontológico de ação penal,</p><p>como primeiro elemento da discussão da solução de casos penais, para a ideia do tipo como</p><p>base, com a organização da teoria do delito.</p><p>No finalismo, houve uma proposta de aproximação entre essas duas categorias, fato que</p><p>se repete na teoria significativa da ação, com o termo tipo de ação como categoria fundamen-</p><p>tal, que pretende identificar a situação concreta relevante para o Direito Penal, considerando</p><p>que a norma deve realizar uma pretensão de justiça, sem desprezar o componente humano</p><p>(BUSATO, 2010).</p><p>6.1. CaraCterístICas da teorIa sIgnIFICatIva da ação</p><p>Nesse sentido, Tomás Salvador Vives Antón (2011) propõe um conceito significativo de</p><p>ação. A partir de uma mudança do fundamento filosófico do sistema penal, isto é, com uma</p><p>abordagem do sistema penal a partir da filosofia da linguagem de Wittgenstein e com certa</p><p>influência da teoria da ação comunicativa de Habermas, entende os seus defensores que o</p><p>conceito significativo de ação constitui a melhor ferramenta para um direito penal moderno,</p><p>que responda aos objetivos de uma nova dogmática, com propostas político-criminais per-</p><p>meáveis, que apresente proteção para os direitos e as garantias fundamentais do ser humano.</p><p>Os defensores da teoria significativa da ação apresentam críticas quanto rendimento dos</p><p>modelos anteriores, tanto ao modelo finalista quanto ao modelo funcionalista: ao primeiro em</p><p>razão da centralidade e insuficiência da proposta ontológica de exame das categorias penais;</p><p>ao segundo, no que diz respeito à proposta teleológica-funcional, afirma-se que não conseguiu</p><p>limitar a expansão do direito penal com o alicerce de princípios político-criminais, enquanto o</p><p>modelo sistêmico apresenta o defeito da normativização extrema e uma insuficiência episte-</p><p>mológica (VIVES ANTÓN, 2011).</p><p>A ação é vista como o sentido que lhe é atribuído, de modo que todas as condutas (ação,</p><p>omissão), tipificadas nas diferentes normas penais, possuem um significado, e somente a gramática</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>74 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>delimita o que pode ser dito. Portanto, o significado e o simbólico não só podem ser conside-</p><p>rados como pressupostos da ação, mas a própria ação, do mesmo modo, constitui um senti-</p><p>do (RAMOS VÁZQUEZ, 2008).</p><p>Por isso, na proposta de um conceito significativo de ação (significado de um fato, inter-</p><p>pretação do comportamento humano segundo regras sociais), o primeiro plano, mais desta-</p><p>cado, passa a ser ocupado pela interpretação, que é de ordem social. Não se trata de processo</p><p>físico, mas de casos de interpretação da conduta, de extrair o sentido daquilo que é feito pelo</p><p>ser humano e não se concentrar no algo que foi realizado. No segundo plano, reside a inten-</p><p>ção, que é subjetiva e pertence ao indivíduo.</p><p>Segundo Paulo César Busato (2010), o critério da ação significativa não é ontológico, por-</p><p>quanto não está fundamentado no ser, e nem é, de forma exclusiva, axiológico, pois não está</p><p>totalmente situado no campo do dever ser. Para Vives Antón (2011), a ideia de ação como o</p><p>significado de um fato prescinde de um aspecto valorativo, ou seja, não há necessidade de</p><p>apelar à valoração alguma.</p><p>A ação, desse modo, como categoria do Direito Penal, não constitui um evento, mas cor-</p><p>responde a interpretações que podem ser atribuídas ao comportamento, tendo como parâ-</p><p>metro os diferentes tipos de regras sociais. Os fenômenos psicológicos e internos, como a</p><p>vontade, são deixados de lado na construção do conceito significativo de ação. Não se im-</p><p>porta com o que quer o ser humano que atua, mas se concentra no sentido (ideia) transmitida</p><p>por sua conduta. A “ação deve ser identificada através de sua interpretação social, através</p><p>da comunicação, da linguagem, em definitivo, do sentido que possui” (BUSATO, 2010, p.149).</p><p>A partir dessa perspectiva, a distinção entre fato doloso e fato culposo não se situa no</p><p>campo da intenção psicológica nem na valoração jurídica, mas na capacidade de</p><p>o fato co-</p><p>municar a intenção e o seu significado jurídico-valorativo. O significado de cada ação depen-</p><p>de das práticas sociais (regras e normas) que identificam uma conduta humana diante de</p><p>outras, que especifica o que o sujeito fez (VIVES ANTÓN, 2011, p.278-279).</p><p>Isso porque a ação é percebida e não determinada; transmite significado e a sua essência</p><p>está na comunicação, não corresponde a uma mera expressão de fatores psicológicos ou</p><p>normativos, mas constitui um “fenômeno que se relaciona com a comunicação mais do que</p><p>com determinação objetivas ou subjetivas. A ação é uma expressão que se produz da inter-</p><p>-relação do sujeito com o meio” (BUSATO, 2010, p.152).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>75 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>A ação aparece como o sentido de tipo (tipo de ação), com o seu significado produzindo</p><p>impacto na configuração normativa. A dogmática penal deixa de ser uma ciência, passa a ser</p><p>vista como uma forma de argumentação, sem condicionantes ontológicos, com a elaboração</p><p>de categorias jurídicas, com o objetivo de controle social direcionado à proteção de bens jurí-</p><p>dicos, em uma estrutura argumentativa que acredita ser coerente e segura, porquanto enrai-</p><p>zada em um sistema aberto (BUSATO, 2010).</p><p>No que concerne à organização dogmática da teoria do delito, a  teoria significativa da</p><p>ação, com suporte na liberdade de ação como condição para a construção da dogmática</p><p>jurídico-penal, seguido de um destaque dado à razão prática, propõe um modelo no qual as</p><p>normas devem realizar uma pretensão de justiça, destacando duas premissas: a norma não</p><p>possui validez pelo simples fato de constituir uma norma, uma vez que não poderá desprezar</p><p>o componente humano; há necessidade de que a norma seja racionalmente fundamentada.</p><p>Ressalte-se que, na construção desse modelo sistemático, há uma ligação muito próxima</p><p>entre ação, norma, liberdade e razão prática. Em seguida, a estrutura jurídica da teoria do de-</p><p>lito passa a ser classificada segundo pretensões normativas, considerando que a norma deve</p><p>realizar uma pretensão de justiça do ponto de vista concreto. A primeira pretensão normativa</p><p>constitui uma pretensão de relevância que se desmembra em uma pretensão conceitual de re-</p><p>levância (presença do tipo de ação) e em uma pretensão de ofensividade (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Quanto à pretensão do tipo de ação, ocorre quando se analisa a previsão normativa de</p><p>relevância da ação para o Direito Penal. Para tanto, é preciso compreender a ação, conforme</p><p>o tipo de ação definido na lei, não se esquecendo de que a ação é vista como expressão de</p><p>sentido, de modo que todos os elementos descritos no tipo (objetivos, subjetivos especiais,</p><p>normativos) são interpretados a partir da transmissão de sentido da ação.</p><p>Por sua vez, ao lado de uma pretensão conceitual de relevância existe uma pretensão de</p><p>ofensividade, isto é, a conduta é relevante porque constitui uma ação que lesionou ou colocou</p><p>em perigo um bem jurídico protegido. A ofensividade ao bem jurídico corresponde à antiju-</p><p>ridicidade material (VIVES ANTÓN, 2011). A norma, portanto, pretende ser relevante, por isso</p><p>não haverá relevância e, portanto, não existirá delito diante de conduta que não corresponda</p><p>a uma ofensa grave ao bem jurídico (BUSATO, 2010).</p><p>O segundo momento da pretensão normativa, que compõe o objetivo de validez da norma,</p><p>reside na pretensão de ilicitude, que é composta da antijuricidade formal com os acréscimos</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>76 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>dos aspectos subjetivos do injusto. Nessa fase, a norma afirma que a conduta é ilícita quando</p><p>contraria o sistema jurídico, tanto presente na realização de algo proibido quanto na deso-</p><p>bediência a um mandado, ou seja, a uma norma que manda fazer algo (VIVES ANTÓN, 2011).</p><p>Ressalte-se que, no modelo da teoria significativa da ação, analisa-se os elementos sub-</p><p>jetivos do injusto (dolo e culpa) dentro da pretensão de ilicitude. Entende-se que, sem a verifi-</p><p>cação de dolo ou culpa, não é possível chegar à ideia de ilicitude, em razão da limitação dada</p><p>pelo princípio da culpabilidade em uma de suas funções (BUSATO, 2010).</p><p>Tendo em conta a norma como diretiva de conduta, o dolo, como compromisso de atuar</p><p>do autor, encontra-se na pretensão de ilicitude. Por sua vez, a culpa (ação impudente) cons-</p><p>titui a ausência desse compromisso, presente tanto na forma comissiva quanto na omissiva.</p><p>A culpa e o dolo são juízos normativos, representam instâncias de imputação da antinorma-</p><p>tividade de uma ação ou de uma omissão (RAMOS VÁZQUEZ, 2008).</p><p>A pretensão de ilicitude depende, por conseguinte, da existência de um compromisso do</p><p>agente com a violação de um bem jurídico, que corresponde ao tipo subjetivo (dolo e culpa).</p><p>Não se trata aqui de uma intenção do agente relacionada ao tipo de ação. Acrescente-se que</p><p>as excludentes de ilicitude (permissões fortes ou causas de justificação) e as causas de ex-</p><p>clusão de responsabilidade pelo fato (permissões fracas) são examinadas nesse momento.</p><p>Dito de outra forma, tanto as causas de justificação quanto as de exculpação são analisadas</p><p>no contexto da afirmação da ilicitude (VIVES ANTÓN, 2011).</p><p>Enquanto as pretensões de relevância e de ilicitude destinam-se à ação, a terceira fase</p><p>da pretensão normativa, chamada de pretensão de reprovação, dirige-se ao autor, que rea-</p><p>lizou a ação ilícita, quando poderia comportar-se de outro modo, mas afirma-se que não se</p><p>parte da premissa do livre arbítrio, uma vez que a ação corresponde a um atuar incondicio-</p><p>nado pelo meio.</p><p>A pretensão de reprovação, conhecida na doutrina tradicional como juízo de culpabilida-</p><p>de, possui duas condições no modelo da teoria significativa da ação: a imputabilidade, que</p><p>consiste na capacidade de o agente ser reprovado; e a consciência da ilicitude de sua ação.</p><p>As três primeiras pretensões (relevância, ilicitude e reprovabilidade) formam o conteúdo ma-</p><p>terial da infração penal.</p><p>Como última etapa do processo de pretensão de validade normativa, surge a pretensão</p><p>de necessidade de pena, com a proposta de uma visão da punibilidade em sentido amplo.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>77 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Faz-se, ainda nessa fase, uma análise com o princípio da proporcionalidade, no sentido de</p><p>que toda pena desnecessária é injusta, logo não seria possível concluir pela existência de</p><p>um crime quando a aplicação da pena resultasse na produção de uma injustiça. A pena só é</p><p>necessária dentro da ideia de ultima ratio, para controle social do intolerável.</p><p>Ingressam, ainda, no momento da pretensão de necessidade de pena, a análise da presen-</p><p>ça ou ausência das condições objetivas de punibilidade, das causas pessoais de exclusão, de</p><p>anulação ou suspensão da pena e dos demais institutos que afastam a punibilidade, incluindo</p><p>as causas supralegais.</p><p>Observa-se</p><p>que a proposta significativa da ação traz muitas novidades para a teoria do</p><p>delito, tanto sob a base filosófica quanto sob o aspecto da interpretação das categorias dog-</p><p>máticas. Como destaque crítico, a presença de elementos subjetivos (dolo e culpa) no exame</p><p>da pretensão de ilicitude, a não compreensão de exigibilidade de conduta diversa como ele-</p><p>mento da pretensão de reprovação, embora esteja aparentemente no conceito de ação, geram</p><p>algumas dificuldades iniciais, ainda não passiveis de convencimento, diante das explicações</p><p>apontadas na proposta da presente pesquisa, mais interessada em alguma contribuição ju-</p><p>risprudencial por parte da referida teoria.</p><p>De forma mais aguda, outras críticas foram apresentadas por Daniel Lagier (2013) no sen-</p><p>tido de: comparar a teoria significativa como uma nova versão da teoria social da ação; serem</p><p>exageradas as analogias entre ação e linguagem, quando se outorga à linguagem uma impor-</p><p>tância que esta não possui, pois o que se chama de significado, no campo da linguagem, inclui</p><p>muitas coisas distintas; o conceito de ação significativa negar a própria ação, uma vez que,</p><p>para Vives Antón, o significado não existe, pelo menos, em um sentido forte.</p><p>A crítica mais contundente aparece na compreensão do elemento intencional. Isso porque</p><p>Vives Antón insiste que o significado das ações é independente da intenção do agente (estado</p><p>mental subjetivo), o que importa é o sentido atribuído às ações segundo as regras sociais (in-</p><p>tencionalidade externa, objetiva). Para Daniel Lagier (2013), a teoria significativa da ação, ali-</p><p>cerçada em regras sociais e na intenção objetiva, é parcial e incompleta, uma vez que as regras</p><p>e convenções sociais não indicam a um observador, com certeza, o significado de uma ação.</p><p>As convenções linguísticas cumprem somente a tarefa de auxiliar na interpretação. Desse</p><p>modo, o julgador incorreria em grave contradição se condenasse um acusado que praticou</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>78 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>o fato x, com base na ideia de uma intenção objetiva (sentido dado por regras sociais), se</p><p>estivesse convencido de que o acusado não teve a intenção (sentido subjetivo) de praticar o</p><p>fato x.</p><p>6.2. resumo da teorIa sIgnIFICatIva da ação</p><p>A proposta da teoria significativa da ação envolve uma crítica aos modelos finalista e fun-</p><p>cional-teleológico, de modo que a dogmática pura ou a ideia de princípios político-criminais</p><p>somados aos limites do bem jurídico não oferecem segurança para uma adequada interpre-</p><p>tação penal.</p><p>Com suporte na filosofia da linguagem e na teoria da ação comunicativa, apresenta um</p><p>conceito de ação com um sentido de realidade social, marcado por uma interpretação dinâ-</p><p>mica, com uma perspectiva aberta, que admite uma permanente oxigenação. Constitui uma</p><p>teoria ainda nova na doutrina nacional.</p><p>A estrutura jurídica da teoria do delito no modelo da teoria significativa da ação passa</p><p>a ser classificada segundo pretensões normativas, considerando que a norma deve realizar</p><p>uma pretensão de justiça do ponto de vista concreto.</p><p>As pretensões de relevância e de ilicitude destinam-se à ação. A ação é compreendida</p><p>como categoria do direito penal, não constitui um evento, mas corresponde a interpretações</p><p>que podem ser atribuídas ao comportamento, tendo como parâmetro os diferentes tipos de</p><p>regras sociais.</p><p>No modelo da teoria significativa da ação, analisa-se os elementos subjetivos do injusto</p><p>(dolo e culpa) dentro da pretensão de ilicitude. A terceira fase da pretensão normativa, cha-</p><p>mada de pretensão de reprovação, dirige-se ao autor, que realizou a ação ilícita, quando pode-</p><p>ria comportar-se de outro modo, mas afirma-se que não se parte da premissa do livre arbítrio,</p><p>uma vez que a ação corresponde a um atuar incondicionado pelo meio.</p><p>A pretensão de reprovação, conhecida na doutrina tradicional como juízo de culpabilidade,</p><p>possui duas condições no modelo da teoria significativa da ação: a imputabilidade, que con-</p><p>siste na capacidade de o agente ser reprovado e a consciência da ilicitude de sua ação.</p><p>As três primeiras pretensões (relevância, ilicitude e reprovabilidade) formam o conteúdo</p><p>material da infração penal. Como última etapa do processo de pretensão de validade norma-</p><p>tiva, surge a pretensão de necessidade de pena, com a proposta de uma visão da punibilidade</p><p>em sentido amplo.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>79 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>QUESTÃO INÉDITA</p><p>Questão 27 (INÉDITA/2020) Com relação à culpabilidade nas teorias do crime, marque a as-</p><p>sertiva correta:</p><p>a) na teoria causal clássica, guiada pela teoria psicológica-pura, a culpabilidade é formada pelos</p><p>elementos dolo, culpa e imputabilidade;</p><p>b) na teoria causal neoclássica, com base na teoria psicológica-normativa, a culpabilidade apre-</p><p>senta os seguintes elementos: dolo, culpa; potencial consciência da ilicitude; exigibilidade de</p><p>conduta diversa;</p><p>c) no funcionalismo sistêmico, a culpabilidade e a necessidade de penal integram o conceito de</p><p>responsabilidade;</p><p>d) na teoria finalista, com base na teoria normativa pura, a culpabilidade apresenta os seguin-</p><p>tes elementos: imputabilidade; dolo, culpa; potencial consciência da ilicitude; exigibilidade de</p><p>conduta diversa;</p><p>e) na teoria significativa da ação, a pretensão de reprovação, conhecida na doutrina tradicional</p><p>como juízo de culpabilidade, possui duas condições no modelo da teoria significativa da ação: a</p><p>imputabilidade, que consiste na capacidade de o agente ser reprovado; e a consciência da ilici-</p><p>tude de sua ação.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra e.</p><p>Conforme visto no tópico sobre teoria significativa da ação, a culpabilidade faz parte, nessa</p><p>teoria, da pretensão de reprovação, sendo formada por imputabilidade e potencial consciên-</p><p>cia da ilicitude. Não existe, portanto, na culpabilidade da teoria significativa da ação a cate-</p><p>goria jurídica exigibilidade de conduta diversa. A letra “a” está errada, uma vez que, na teoria</p><p>causal clássica, a culpabilidade está ancorada na teoria psicológica pura e é formada pelos</p><p>elementos dolo e culpa, sendo a imputabilidade mero pressuposto. A letra “b” está errada por-</p><p>que a culpabilidade da teoria causal neoclássica, alicerçada na teoria psicológica-normativa,</p><p>não possui potencial consciência da ilicitude, mas possui imputabilidade, dolo (normativo),</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>80 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>culpa e exigibilidade de conduta diversa. A letra “c” está errada porque a definição dada é de</p><p>funcionalismo teleológico e não de funcionalismo sistêmico. A letra “d” está errada porque</p><p>dolo e culpa não fazem parte da culpabilidade do finalismo, mas integram a conduta, estão</p><p>dentro da tipicidade.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a</p><p>sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>81 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>RESUMO</p><p>TEORIAS</p><p>DO CRIME</p><p>AÇÃO TIPICIDADE ILICITUDE CULPABILIDADE</p><p>Causalismo</p><p>Clássico ou Sis-</p><p>tema Naturalista</p><p>Movimento corpo-</p><p>ral voluntário que</p><p>modifica a reali-</p><p>dade exterior.</p><p>Formal. Formal. Tipicidade</p><p>e ilicitude forma-</p><p>vam o injusto obje-</p><p>tivo.</p><p>Teoria Psicológica pura. Cul-</p><p>pabilidade formada por dolo</p><p>e culpa. A imputabilidade</p><p>é mero pressuposto. Dolo</p><p>normativo</p><p>Causalismo</p><p>Neoclássico ou</p><p>Sistema Neokan-</p><p>tista</p><p>Conduta humana</p><p>voluntária que</p><p>modifica a reali-</p><p>dade exterior.</p><p>Material. Sistema</p><p>axiológico.</p><p>Material. Análise de</p><p>relevância social.</p><p>Tipicidade e ilici-</p><p>tude formavam o</p><p>injusto objetivo.</p><p>Teoria psicológica norma-</p><p>tiva. Culpabilidade formada</p><p>por dolo e culpa, imputabili-</p><p>dade e exigibilidade de con-</p><p>duta diversa. Dolo normativo.</p><p>Finalismo Exercício de ati-</p><p>vidade final ou</p><p>atividade humana</p><p>dirigida a um fim.</p><p>Material (não na</p><p>mesma extensão do</p><p>neokantismo). Sis-</p><p>tema ontológico-dog-</p><p>mático.</p><p>Material. Rela-</p><p>cionada ao ilícito</p><p>pessoal.</p><p>Teoria normativa pura. Culpa-</p><p>bilidade formada por imputa-</p><p>bilidade, potencial consciên-</p><p>cia da ilicitude e exigibilidade</p><p>de conduta diversa.</p><p>Teoria Social</p><p>da Ação</p><p>Conduta humana</p><p>socialmente rele-</p><p>vante dominada</p><p>ou dominável pela</p><p>vontade.</p><p>Material (contribui-</p><p>ções do causalismo</p><p>e do finalismo). Dolo</p><p>e culpa na tipicidade</p><p>e na culpabilidade</p><p>(dupla função)</p><p>Material (contribui-</p><p>ções do causalismo</p><p>e do finalismo)</p><p>Teoria complexo-normativa</p><p>psicológica da culpabilidade,</p><p>formada pelos elementos</p><p>do finalismo, mais o dolo e a</p><p>culpa.</p><p>Funcionalismo</p><p>Teleológico</p><p>Manifestação da</p><p>personalidade.</p><p>Material. Sistema</p><p>axiológico. Chama</p><p>o fato criminoso de</p><p>injusto responsável.</p><p>Material. Sistema</p><p>axiológico.</p><p>Responsabilidade é igual a</p><p>soma de culpabilidade mais</p><p>a necessidade de pena.</p><p>Funcionalismo</p><p>Sistêmico</p><p>Causação de um</p><p>resultado individu-</p><p>almente evitável.</p><p>Conceito negativo</p><p>de ação.</p><p>Não há uma preocu-</p><p>pação exata com o</p><p>conceito de tipicidade.</p><p>A teoria do delito</p><p>transforma-se em uma</p><p>teoria de imputação.</p><p>Não há uma pre-</p><p>ocupação exata</p><p>com o conceito de</p><p>ilicitude.</p><p>A culpabilidade é guiada pela</p><p>função da pena (prevenção</p><p>geral positiva fundamenta-</p><p>dora, que busca reafirmar a</p><p>vigência da norma)</p><p>Teoria Significativa</p><p>da Ação</p><p>Interpretação do</p><p>comportamento</p><p>humano segundo</p><p>regras sociais.</p><p>A primeira pretensão</p><p>normativa constitui</p><p>uma pretensão de</p><p>relevância que se des-</p><p>membra em preten-</p><p>são do tipo de ação e</p><p>pretensão de ofensivi-</p><p>dade.</p><p>Segundo momento,</p><p>pretensão de ili-</p><p>citude, composta</p><p>da antijuricidade</p><p>formal com os</p><p>acréscimos dos</p><p>aspectos subjetivos</p><p>do injusto.</p><p>Pretensão de reprovação,</p><p>conhecida como juízo de</p><p>culpabilidade. Elementos:</p><p>imputabilidade e potencial</p><p>consciência da ilicitude.</p><p>Existe ainda uma pretensão</p><p>de pena que não faz parte da</p><p>culpabilidade.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>82 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALMEIDA, André Vinicus. Erro e concurso de pessoas no Direito Penal. Curitiba: Juruá, 2010.</p><p>AMORIM, Maria Carolina de Melo. A inexigibilidade de conduta diversa: o fundamento para a</p><p>aplicação das causas supralegais no Direito Penal brasileiro. Belo Horizonte: Del Rey, 2014.</p><p>BELING, Ernst von. 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São Paulo: Saraiva, 2015.</p><p>MONTEALEGRE LYNETT, Eduardo. Introdução à obra de Günther Jakobs. In: CALLEGARI, André</p><p>Luís Callegari et al. (Coords.). Direito Penal e funcionalismo. Trad. André Luís Callegari, Nereu</p><p>José Giacomolli e Lúcia Kalil. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2005.</p><p>MUÑOZ CONDE, Francisco. Dogmática penal afortunada y sin consecuencias. In: MUÑOZ</p><p>CONDE, Francisco (Coord.). La ciencia del Derecho penal ante el nuevo milenio. Valencia: Ti-</p><p>rant lo Blanch, 2004.</p><p>_______. Teoria geral do delito. Tradução Juarez Tavares e Luiz Regis Prado. Porto Alegre: Fa-</p><p>bris, 1988.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>87 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal. 35. ed. atual. por Adalberto José Q. T. de Camargo</p><p>Aranha. São Paulo: Saraiva, 2000.</p><p>NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado. 8. ed. São Paulo: RT, 2008..</p><p>_______. Individualização da pena. 3. ed. São Paulo: RT, 2009.</p><p>_______. Princípios constitucionais penais e processuais penais. 2. ed. São Paulo: RT, 2012.</p><p>NUÑEZ, Ricardo C. Bosquejo de la culpabilidad. In: GOLDSCHMIDT, James. La concepción</p><p>normativa de la culpabilidad. Traducción de Margarethe de Goldschmidt e Ricardo C Nuñez.</p><p>2. ed. Montevideo: Editorial B de F, 2002.</p><p>ORDEIG, Gimbernat Enrique. Conceito e método da ciência do Direito Penal. Trad. José Carlos</p><p>Gobbis Pagliuca. São Paulo: RT, 2002.</p><p>PIERANGELI, José Henrique. Códigos penais do Brasil: Evolução história. 2. ed. São Paulo:</p><p>RT, 2004.</p><p>PRADO, Luís Regis. Bem jurídico-penal e Constituição. 5. ed. São Paulo: RT, 2011.</p><p>_______. Curso de Direito Penal brasileiro. 7. ed., rev., atual. e ampl. São Paulo: RT, 2007.</p><p>PUPPE, Ingeborg. A distinção entre dolo e culpa. Tradução, introdução e notas: Luis Greco.</p><p>Barueri, São Paulo: Manole, 2004.</p><p>QUEIROZ, Paulo. Direito Penal: Parte Geral. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2006.</p><p>_______. Direito Penal: parte geral. 7. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juiris, 2011.</p><p>RADBRUCH, Gustav. Filosofia do Direito. Tradução e prefácios do prof. L. Cabral de Moncada.</p><p>6. ed. Coimbra: Arménio Amado Editor, 1997.</p><p>REALE JUNIOR, Miguel. Instituições de Direito Penal. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia,</p><p>divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>88 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>RAMOS VÁZQUEZ, José Antonio. Concepción significativa de la acción y teoría jurídica del</p><p>delito. Valencia: Tirant lo Blanch, 2008.</p><p>ROXIN, Claus. Derecho Penal: parte general: fundamentos: la estructura de la teoría del delito.</p><p>Trad. de la 2. edición alemana y notas por Diego-Manuel Luzón Peña, Miguel Díaz y Garcia</p><p>Conlledo, Javier de Vicente Remesal. Madrid: Civitas, 1997.</p><p>_______. Estudos de Direito Penal. Trad. Luís Greco. Rio de Janeiro: Renovar, 2006.</p><p>_______. Política criminal y sistema del derecho penal. Traducción e introducción de Francisco</p><p>Muñoz Conde. 2. ed. Buenos Aires: Hammurabi, 2006.</p><p>_______. Política criminal e sistema jurídico-penal. Trad. Luís Greco. Rio de Janeiro: Reno-</p><p>var, 2000.</p><p>_______. Problemas fundamentais de Direito Penal. Trad. Ana Paula dos Santos Luís Natshe-</p><p>radetz. 3. ed. Lisboa: Vega, 2004.</p><p>_______. Sobre a fundamentação político-criminal do sistema jurídico-penal. Revista Brasilei-</p><p>ra de Ciências Criminais, São Paulo, ano, 9, n.35, 13-27, jul./set. 2001.</p><p>SCHMITT, Ricardo Augusto. Sentença penal condenatória. 3. ed. Salvador: Jus Podivm, 2008.</p><p>SCHÜNEMANN, Bernd. Estudos de Direito Penal, direito processual penal e filosofia do direito.</p><p>Coord. Luís Greco. São Paulo: Marcial Pons, 2013.</p><p>_______. Consideraciones críticas sobre la situación espiritual de la ciencia jurídico-penal ale-</p><p>mana. Trad. Manuel Cancio Meliá. Bogotá: Universidad del Externado de Colombia, 1996.</p><p>_______. La relación entre ontologismo y normativismo en la dogmática jurídico-penal. In:</p><p>FRANCO, Alberto Silva; NUCCI, Franco (Orgs.). Direito Penal. São Paulo: Editora dos Tribunais,</p><p>2010. (Doutrinas Essenciais).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>89 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>SILVA SÁNCHEZ, Jesús-Maria. A expansão do Direito Penal: aspectos da política criminal nas</p><p>sociedades pós-industriais. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.</p><p>TAVARES, Juarez. Teorias do delito: variações e tendências. São Paulo: Revista do Tribu-</p><p>nais, 1980.</p><p>_______. Teoria do injusto penal. 3. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2003.</p><p>TOLEDO, Francisco de Assis. Princípios básicos de Direito Penal. 5. ed. São Paulo: Sarai-</p><p>va, 1994.</p><p>VIVES ANTÓN, Tomás Salvador. Fundamentos del sistema penal: acción significativa y dere-</p><p>chos constitucionales. 2. ed. Valencia: Tirant lo Blanch, 2011.</p><p>WELZEL, Hans. Derecho Penal aleman: Parte general. Trad. da 11. ed. Santiago: Editorial Ju-</p><p>ridica de Chile, 1976.</p><p>_______. Direito Penal. Trad. Afonso Celso Resende. Campinas: Romana, 2003.</p><p>_______. El nuevo sistema del Derecho Penal: una introducción a la doctrina de la acción fina-</p><p>lista. Trad. José Cerezo Mir. Montevideo: Editorial B de F, 2006.</p><p>WESSELS, Johannes. Direito Penal: parte geral: aspectos fundamentais. Tradução do original</p><p>alemão e notas por Juarez Tavares. Porto Alegre: Fabris, 1976.</p><p>ZAFFARONI, Eugênio Raúl; PIERANGELI, José Henrique. Manual de Direito Penal brasileiro:</p><p>Parte Geral. 6. ed. São Paulo: RT, 2006.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>90 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>91 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>Teorias do Crime</p><p>Introdução</p><p>1. Teoria Causal Clássica ou Sistema Naturalista de Ação</p><p>1.1. Conceito de Ação, Tipo, Tipicidade, Ilicitude e Culpabilidade na Teoria Causal Clássica</p><p>1.2. Resumo da Teoria Causal Clássica ou Sistema Naturalista</p><p>2. Teoria Causal Neoclássica ou Sistema Neokantista</p><p>2.1. Conceito de Ação, Tipicidade, Ilicitude e Culpabilidade na Teoria Causal Neoclássica</p><p>2.2. Relação entre os Elementos do Injusto (Teoria da Ratio Cognoscendi, Teoria da Ratio Essendi e Teoria dos Elementos Negativos do Tipo)</p><p>2.3. Resumo da Teoria Causal Neoclássica ou Sistema Neokantista</p><p>3. Teoria Finalista ou Sistema do Injusto Pessoal</p><p>3.1. Conceito de Ação, Tipo, Tipicidade, Ilicitude e Culpabilidade na Teoria Finalista</p><p>3.2. Comparações e Críticas à Dogmática Finalista</p><p>3.3. Finalismo no Direito Penal Brasileiro</p><p>3.4. Resumo da Teoria Finalista ou Sistema do Injusto Pessoal</p><p>4. Teoria Social da Ação</p><p>4.1. Conceito de Ação e Características da Tipicidade, Ilicitude e Culpabilidade na Teoria Social da Ação</p><p>4.2. Resumo da Teoria Social da Ação</p><p>5. Teorias Funcionalistas Teleológica</p><p>5.1. Teoria Funcionalista Teleológica</p><p>5.2. Teoria Funcionalista Sistêmica</p><p>6. Teoria Significativa da Ação</p><p>6.1. Características da Teoria Significativa da Ação</p><p>6.2. Resumo da Teoria Significativa da Ação</p><p>Resumo</p><p>Referências</p><p>AVALIAR 5:</p><p>Página 92:</p><p>pela culpabilidade, dentro da qual estavam o dolo e a culpa, funcionando a imputabilidade</p><p>como mero pressuposto.</p><p>O conceito de ação consistia no movimento corporal voluntário causador de mudança no</p><p>mundo físico — no mundo exterior (LISZT, 2006). Portanto, o crime deveria produzir um resul-</p><p>tado com alteração do mundo exterior, pois “o conceito causal de ação não pode reconhecer</p><p>crime sem resultado” (TAVARES, 2003, p.132). Essa conclusão explicava o crime material,</p><p>mas trazia dificuldade de análise para o crime formal e, ainda, para o crime de mera conduta.</p><p>O tipo, cujo estudo foi desenvolvido com maior precisão na obra de Ernst von Belling, foi</p><p>compreendido de forma autônoma dentro da teoria do delito, composto de elementos com</p><p>função unicamente descritiva, sem prejuízo de seu exame como tipo causal clássico formado</p><p>de elementos objetivos e descritivos (BELING, 1944).</p><p>O tipo causal clássico era objetivo, neutro, avalorado, acrítico, mera descrição do aspec-</p><p>to externo da conduta. Ernst von Belling demonstrava preocupação com as funções do tipo</p><p>penal, ou seja, função garantia e função limitadora, ao afirmar que não bastava uma ação</p><p>antijurídica para se chegar à etapa da sanção penal, mas era preciso, para tanto, uma ação</p><p>tipicamente antijurídica e culpável (BELING, 1944).</p><p>A tipicidade, por sua vez, consistia na adequação do fato à letra da lei, em um juízo de ade-</p><p>quação do fato concreto ao tipo legal. Por isso, a tipicidade causal clássica era formal, uma</p><p>vez que significava a subsunção do fato à forma da lei, sem conteúdo valorativo. “Por essa</p><p>razão, não era possível, nessa época, aceitar o método axiológico, no exame da tipicidade,</p><p>com análise do grau de ofensa ao bem jurídico tutelado” (GOMES FILHO, 2019, p.55).</p><p>Exemplo: desse modo, não era possível nessa época desenvolver o princípio da insignificân-</p><p>cia, uma vez que a tipicidade causal clássica era formal, não possibilitando a análise de grau</p><p>de ofensa ao bem jurídico, somente possível em modelos de tipicidade material.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>9 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>O conceito de ilicitude (antijuridicidade) não se desenvolveu de forma concomitante com o</p><p>de tipicidade. Até o final do século XVIII, a ilicitude se confundia com a culpabilidade e, apenas,</p><p>eram feitas ressalvas sobre as excludentes de ilicitude (causas de justificação). Foi Ihering</p><p>quem desenvolveu a ideia de antijuridicidade objetiva para o Direito Civil em 1867 (TAVARES,</p><p>2003).</p><p>Após isso, contribuíram, para o desenvolvimento do conceito da antijuridicidade formal e</p><p>criação de seus contornos, os estudos de Franz von Liszt, a ideia de Binding de que o delito era</p><p>um ato contrário à norma, mas não à lei, bem como a contribuição de Merkel com sua teoria</p><p>dos elementos negativos do tipo (TAVARES, 2003).</p><p>A ilicitude causal clássica era formal, portanto consistia na relação de contradição entre</p><p>o fato típico e uma norma do ordenamento jurídico. Dito com outras palavras: “a antijuridici-</p><p>dade é definida formalmente, como contrariedade da ação típica a uma norma do direito, que</p><p>se fundamenta simplesmente na ausência de causas de justificação” (GRECO, 2000, p.122).</p><p>Ressalta-se que “mais tarde, Von Liszt enuncia o conceito de antijuridicidade material: antiju-</p><p>rídico é o fato que ofende ou põe em perigo um bem jurídico” (TAVARES, 2003, p.147).</p><p>Por sua vez, o injusto – que constitui a valoração da tipicidade e da ilicitude, a junção va-</p><p>lorativa dos dois primeiros elementos da estrutura analítica do delito – era objetivo-formal.</p><p>Isso porque era composto de elementos objetivos, descritivos e formais, constantes somente</p><p>na lei, analisados de forma ontológica e não axiológica. Não se analisava no injusto os ele-</p><p>mentos subjetivos (dolo e culpa). A lesão ao bem jurídico seria antijurídica independente do</p><p>ânimo do agente. O injusto era a parte externa da estrutura do crime (parte objetiva), enquan-</p><p>to a culpabilidade era a parte interna (parte subjetiva).</p><p>A culpabilidade na teoria causal clássica se ancorava numa teoria psicológica pura, for-</p><p>mada unicamente pelo dolo no crime doloso e pela culpa no crime culposo. Por isso, fora</p><p>compreendida como a parte subjetiva do crime, registrada como culpabilidade psicológica,</p><p>pois significava o vínculo psíquico que ligava o agente ao fato por ele praticado.</p><p>A presença da consciência da ilicitude no dolo foi combatida por Franz von Liszt (2006),</p><p>por entender que tal classificação paralisaria a administração da justiça, pois haveria ne-</p><p>cessidade de provar que o agente em cada caso concreto conhecia o preceito violado. Por</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>10 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>sua vez, Ernst von Belling (1944) afirmava que, para a existência do dolo, o autor deveria ter</p><p>conhecido as circunstâncias do fato que pertence ao tipo, bem como a consciência da antiju-</p><p>ridicidade, destacando que se tratava de uma concepção dominante na ciência de seu tempo.</p><p>Prevalece o entendimento de que o dolo causal clássico era normativo, formado por co-</p><p>nhecimento das circunstâncias do fato, vontade de realizar o resultado representado e cons-</p><p>ciência da ilicitude. O dolo do sistema clássico também era psicológico, com espaços de va-</p><p>loração, incorporados em estados mentais do agente, e exigia a consciência da ilicitude, que</p><p>constitui um elemento axiológico, que se conectava à concepção de dolus malus do direito</p><p>romano (CABRAL, 2017).</p><p>Além das críticas dogmáticas relacionadas à estrutura analítica do crime, o modelo for-</p><p>mal, fechado e avalorado, impedia a construção de soluções supralegais e dava uma aparente</p><p>sensação de segurança jurídica, que era desmascarada na concretização do Direito Penal</p><p>diante das peculiaridades dos casos concretos.</p><p>É certo, ainda, que o conceito de ação humana na teoria causal clássica, marcado pela</p><p>influência do momento histórico, com o pensamento de causa e efeito da física newtoniana,</p><p>vinculava-se à realização de um resultado naturalístico e, por isso, não possibilitava uma</p><p>adequada explicação quanto aos crimes que se consumam sem a necessidade de modifica-</p><p>ção do mundo externo.</p><p>Com isso, o modelo causal desconhecia ações humanas que não fossem meros proces-</p><p>sos causais, pois não se examinava a finalidade (conteúdo da vontade) no conceito de ação.</p><p>A finalidade não era ignorada pelo modelo causal, porém só aparecia como objeto de valor no</p><p>âmbito da culpabilidade (MUÑOZ VONDE, 1988), uma vez que o dolo estava na culpabilidade.</p><p>O “dolo e a culpa eram considerados as duas espécies possíveis de culpabilidade” (PUPPE,</p><p>2004, p.03).</p><p>Do mesmo modo, o conceito mecânico de omissão como retração dos músculos não con-</p><p>seguia solucionar, com argumentação jurídica convincente, os  crimes omissivos, uma vez</p><p>que tais crimes só podem ser explicados na perspectiva de uma omissão jurídica, com um</p><p>nexo normativo e de evitação, e não de forma mecânica.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>11 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Pode-se dizer, dessa forma, que o intérprete estava moldado em um modelo formalista</p><p>que dificultava a valoração das categorias jurídico-penais. Acreditava-se que todos os pro-</p><p>blemas poderiam ser solucionados na ótica do ser. Não se deu crédito ao dever ser. Soma-se</p><p>a isso o caráter classificatório e formalista do sistema causal clássico, que foi etiquetado</p><p>como uma falácia naturalista.</p><p>Dessa forma, o critério ontológico de interpretação das categorias penais, alinhado à tipi-</p><p>cidade formal e neutra, na solução de casos práticos, faziam com que, a título de ilustração,</p><p>o furto de uma dúzia de ovos caipira ou o furto de um quilo de ouro fossem interpretados com</p><p>tipicidade, sem necessitar de exame do grau de ofensa maior ou menor ao bem jurídico tu-</p><p>telado. Portanto, o princípio da insignificância, que exige uma análise material da tipicidade,</p><p>não poderia ser desenvolvido nesse sistema penal.</p><p>Ressalte-se que o terceiro Código Penal brasileiro, ou seja, o de 1940, seguiu uma linha</p><p>positivista, influenciado tanto por ideias do causalismo clássico quanto pelo conteúdo do</p><p>Código italiano de 1930 (Código Rocco) e pelo Código suíço de 1937 (PIERANGELI, 2004) com</p><p>os seguintes aspectos: sistema do duplo binário, com a possibilidade de aplicar pena e medi-</p><p>da de segurança ao imputável; responsabilidade penal objetiva em diversas passagens; bem</p><p>como se alicerçou nas formulações iniciais de Liszt e Beling, malgrado tal período do Direito</p><p>Penal brasileiro, com raríssimas exceções, tenha sido marcado por uma pobreza doutrinária</p><p>(TAVARES, 1980).</p><p>Para Magalhães Noronha (2000), embora tivesse sido produzido dentro de um cenário</p><p>político totalitário, o Código de 1940 teve uma orientação liberal, merecendo elogios e críticas,</p><p>uma vez que, no segundo caso, não fugiu totalmente da responsabilidade penal objetiva. Sob</p><p>o aspecto filosófico, o referido autor dizia que o Código era eclético, que acendia uma vela a</p><p>Carrara e outra a Ferri.</p><p>Antes desse período, o  Direito Penal brasileiro do século XIX foi marcado pelo Código</p><p>Criminal de 1830 e pelo Código Penal de 1890. O primeiro repetiu a previsão do princípio da</p><p>legalidade e seu corolário reserva legal, previstos na Constituição de 1824. O Código de 1830</p><p>apresentava uma mistura contraditória entre ideias liberais e retrógadas, revogou o livro V</p><p>das Ordenações Filipinas e trouxe novidades na pena de multa, ou seja, a dosimetria em dias-</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>12 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>-multa, mas não conseguiu se desvencilhar de uma ideologia ruralista e escravagista, uma</p><p>vez que manteve a pena de morte sob o argumento de que seria a única medida para conter</p><p>os escravos. Por sua vez, o Código Penal de 1890 constituiu um documento apressado, sem</p><p>correspondência com as ideias penais no cenário mundial, e foi alvo de constantes alterações</p><p>legislativas, até ser substituído pelo Código Penal de 1940.</p><p>1.2. resumo da teorIa Causal ClássICa ou sIstema naturalIsta</p><p>A teoria causal clássica foi marcada por uma orientação positivista. Destaca-se: o con-</p><p>ceito de ação causal consiste no movimento corporal voluntário que provoca mudança no</p><p>mundo exterior. O referido conceito não conseguia explicar adequadamente os crimes sem</p><p>resultado naturalístico ou que consumam antes de eventual resultado naturalístico (crime de</p><p>mera conduta e crime formal).</p><p>O injusto (tipicidade + ilicitude) no causalismo clássico era formal e objetivo, com isso</p><p>impedia uma interpretação penal material das categorias penais da tipicidade e da ilicitude.</p><p>Exemplo: não era possível, nessa época, criar o princípio da insignificância, o qual depende</p><p>de tipicidade material.</p><p>A culpabilidade era psicológica, formada pelos elementos subjetivos dolo e culpa, e cons-</p><p>tituía o vínculo psíquico que ligava o agente ao fato por ele cometido. A imputabilidade era</p><p>mero pressuposto dessa culpabilidade.</p><p>O modelo causal clássico foi etiquetado como uma falácia naturalista porque acreditava</p><p>em soluções prontas e fechadas para os problemas penais, ou seja, com respostas em padrão</p><p>classificatório e formalista. Enfatiza-se que constituiu a primeira teoria com uma sistematiza-</p><p>ção tripartite do crime, com rigor científico em seus conceitos (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Por fim, verifica-se que o modelo de interpretação do Direito Penal, oriundo da teoria cau-</p><p>sal clássica, em razão da influência do método positivista, que consistiu na sua plataforma de</p><p>desenvolvimento, estava alicerçado em estruturas prontas e fechadas, sem alicerce jurídico</p><p>para a construção de decisões penais valorativas e supralegais. Esse modelo foi combatido</p><p>pelas ideias neokantistas que surgiram na sequência (GOMES FILHO, 2019).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>13 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>DIRETO DO CONCURSO</p><p>Questão 1 (MP-SP/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2015) Após a leitura dos enunciados abaixo,</p><p>assinale a alternativa correta:</p><p>I – A teoria finalista, no conceito analítico de crime, o define como um fato típico e antijurí-</p><p>dico, sendo a culpabilidade pressuposto da pena.</p><p>II – A teoria clássica, no conceito analítico de crime, o define como um fato típico, antijurí-</p><p>dico e culpável.</p><p>III – A teoria clássica entende que a culpabilidade consiste em um vínculo subjetivo que liga</p><p>a ação ao resultado, ou seja, no dolo ou na culpa em sentido estrito.</p><p>IV – A teoria finalista entende que, por ser o delito uma conduta humana e voluntária que</p><p>tem sempre uma finalidade, o dolo e a culpa são abrangidos pela conduta.</p><p>V – A teoria finalista entende que pode existir crime sem que haja culpabilidade, isto é,</p><p>censurabilidade ou reprovabilidade da conduta, inexistindo, portanto, a condição indis-</p><p>pensável à imposição e pena.</p><p>a) Somente o II e o III são verdadeiros.</p><p>b) Somente o I e o IV são verdadeiros.</p><p>c) Somente o I, IV e V são verdadeiros.</p><p>d) Somente o I e II são verdadeiros.</p><p>e) Todos são verdadeiros.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra e.</p><p>Os itens II e III, sobre a teoria causal clássica não merecem reparos, pois estão corretos, con-</p><p>forme explicamos no tópico sobre a teoria causal clássica. Os itens I e V não deveriam ser</p><p>objeto de cobrança em uma prova objetiva, uma vez que o tema divide a doutrina brasileira</p><p>(conceito bipartido x conceito tripartido), conforme veremos no tópico sobre o finalismo. E,</p><p>além disso, a corrente dominante é a de que o crime é um fato típico, ilícito e culpável. O item</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>14 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>IV aborda tema que será visto no tópico mais adiante sobre o finalismo. De antemão, não</p><p>merece reparo.</p><p>Questão 2 (MP-PR/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2014) Quanto às teorias a respeito do con-</p><p>ceito de culpabilidade é correto afirmar:</p><p>a) A teoria psicológica da culpabilidade nasceu na segunda metade</p><p>do século XIX, início do</p><p>XX, estando vinculada a ideia de livre-arbítrio, qualidade esta distintiva do ser humano na</p><p>concepção do domínio da vontade, ou seja, a possibilidade de agir conforme os ditames da</p><p>própria consciência e tendo como pressupostos da culpabilidade a potencial consciência de</p><p>ilicitude e a imputabilidade;</p><p>b) Para a teoria psicológica - conceito influenciado pelo pensamento positivista -, a culpa-</p><p>bilidade não possuía qualquer elemento normativo, sendo uma relação psicológica entre o</p><p>agente e o fato, sendo a imputabilidade considerada como pressuposto;</p><p>c) Para a teoria psicológico-normativa, apesar de ainda estarem integrados ao conceito de</p><p>culpabilidade elementos puramente psicológicos (dolo e a culpa), diferentemente da teoria</p><p>psicológica, a culpabilidade passou a ser também constituída por elementos normativos, ou</p><p>seja a imputabilidade, a exigibilidade de conduta diversa e a potencial consciência da ilicitude;</p><p>d) A teoria psicológico-normativa surgiu em contraponto ao conceito de culpabilidade da te-</p><p>oria psicológica, deslocando o dolo e a culpa para o tipo penal, mantendo apenas no conceito</p><p>de culpabilidade os elementos normativos da imputabilidade e da exigibilidade de conduta</p><p>diversa, e o elemento psicológico da potencial consciência da ilicitude;</p><p>e) A teoria normativa pura manteve no conceito de culpabilidade os elementos normativos</p><p>da imputabilidade e da a exigibilidade de conduta diversa, sendo que o elemento psicológico</p><p>da potencial consciência da ilicitude foi incluído na análise do dolo, que foi deslocado para o</p><p>conceito de tipicidade penal.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra b.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>15 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Conforme explicado no tópico sobre a teoria causal clássica, a sua culpabilidade se ancora</p><p>em teoria psicológica pura ou psicológica, de modo que a culpabilidade consiste no vinculo</p><p>psicológico que liga o agente ao fato, composta por dolo (crime doloso) e culpa (crime culpo-</p><p>so). A imputabilidade é mero pressuposto. Nessa fase ainda não havia surgido a exigibilidade</p><p>de conduta diversa.</p><p>Questão 3 (TJ-PR/ASSESSOR JURÍDICO/2013) Acerca das teorias da ação, assinale a al-</p><p>ternativa correta.</p><p>a) Para a teoria finalista da ação, crime é um fato típico, antijurídico e culpável, consistindo a</p><p>culpabilidade no elo subjetivo que liga a ação ao resultado.</p><p>b) Para a teoria finalista da ação, a conduta é um comportamento humano dirigido a um fim</p><p>predeterminado pelas causas anteriores.</p><p>c) Para a teoria causalista ou naturalista da ação, a conduta é um comportamento humano</p><p>voluntário no mundo exterior, consistindo em fazer ou não fazer.</p><p>d) Para a teoria finalista da ação, a conduta é um comportamento humano simplesmente causal.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra c.</p><p>Conforme explicado, o conceito de ação da teoria causal clássica é o seguinte: conduta hu-</p><p>mana voluntária que modifica o mundo exterior. A referida teoria explica, inclusive, a omissão</p><p>de forma naturalista. Beling dizia que a omissão correspondia à retração dos músculos. Hoje,</p><p>no finalismo ou em teorias normativas, a omissão é explicada de forma normativa e não de</p><p>forma naturalista.</p><p>Questão 4 (PROMOTOR DE JUSTIÇA SUBSTITUTO RN/2009) Acerca das teorias que regem</p><p>o direito penal e os seus institutos, assinale a opção correta.</p><p>a) A teoria final da ação foi elaborada por Von Liszt no final do século XIX, tendo sido de-</p><p>senvolvida também por Beling e Radbruch, resultando na estrutura mundialmente conhecida</p><p>como sistema Liszt-Beling- Radbruch.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>16 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>b) A teoria causal da ação teve por mérito superar a taxativa separação dos aspectos obje-</p><p>tivos e subjetivos da ação e do próprio injusto, transformando, assim, o injusto naturalístico</p><p>em injusto pessoal.</p><p>c) Para a teoria constitucional do direito penal, a verificação da ocorrência do fato típico do-</p><p>loso não se resume ao aspecto formal-objetivo, dependendo, ainda, da ocorrência de outros</p><p>elementos de índole material-normativa e subjetiva.</p><p>d) Para a teoria social da ação, um fato considerado normal, correto, justo e adequado pela co-</p><p>letividade, ainda que formalmente enquadrável em um tipo incriminador, pode ser considerado</p><p>típico pelo ordenamento jurídico, devendo, no entanto, ser excluída a culpabilidade do agente.</p><p>e) A teoria funcional da conduta está estruturada em duas vertentes: para a primeira, que tem</p><p>Claus Roxin como principal defensor, a função da norma é a reafirmação da autoridade do direi-</p><p>to; a segunda, cujo principal representante é Günther Jakobs, sustenta que um moderno direito</p><p>penal deve estar estruturado teleologicamente, isto é, atendendo a finalidades valorativas.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra c.</p><p>Sobre a teoria constitucionalista do delito, essa classificação não possui uma estrutura ana-</p><p>lítica do delito que compete com o causalismo ou com o finalismo, mas trata-se de um termo</p><p>utilizado, por pequena parcela da doutrina nacional, para se referir ao Direito Penal consti-</p><p>tucional, ancorado em princípios penais, em categorias materiais e valorativas, na proteção</p><p>de bens jurídicos principais, com a ideia de intervenção mínima. O termo ainda é usado para</p><p>tratar, no exame da tipicidade penal, das teorias da imputação objetiva e da tipicidade con-</p><p>globante. Ressalta-se que, ao tratar da teoria constitucional do delito, o candidato a concur-</p><p>sos deve sempre pensar em um sistema penal valorativo, de institutos materiais (tipicidade,</p><p>ilicitude), de intervenção mínima, de tutela de bens jurídicos penais dentro de um modelo de</p><p>ultima ratio. A letra A está errada porque Lizst, Beling e Radbruch são expoentes do causalis-</p><p>mo clássico e não do finalismo. A letra B está errada porque as características apresentadas</p><p>do item dizem respeito ao finalismo, não se trata de causalismo. A teoria social da ação não</p><p>corresponde ao item D. A letra E está errada porque trocou os nomes de lugar, Jakobs é autor</p><p>do funcionalismo sistêmico, que defende a reafirmação de validade da norma com a aplica-</p><p>ção da sanção penal, enquanto Roxin é o autor do funcionalismo teleológico.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>17 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Questão 5 (CESPE/TRF-5ª/JUIZ FEDERAL/2006) A tipicidade formal, que faz parte do con-</p><p>ceito de tipicidade, consiste em averiguar se uma conduta formalmente típica causou ofensa</p><p>intolerável ao objeto jurídico penalmente protegido.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Errado.</p><p>O item está incorreto, uma vez que o conceito dado na questão corresponde ao conteúdo da tipi-</p><p>cidade material. Isso porque somente na tipicidade material é possível analisar o grau de ofensa</p><p>ao bem jurídico e, inclusive, analisar a possibilidade de incidência, conforme os requisitos jurispru-</p><p>denciais do princípio da insignificância. Já a tipicidade formal constitui a mera adequação do fato</p><p>à letra da lei. Não permite</p><p>fazer juízo de valor do grau de ofensa ao bem jurídico.</p><p>Questão 6 (CESPE/TRF-5ª/JUIZ FEDERAL/2006) A teoria psicológica da culpabilidade reti-</p><p>ra o dolo da culpabilidade e o coloca no tipo penal.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Errado.</p><p>O item está incorreto porque a teoria que retira o dolo e a culpa da culpabilidade e os trans-</p><p>porta para o tipo é a teoria normativa pura do finalismo, que será vista mais adiante. A teoria</p><p>psicológica é a do causalismo clássico, que conceituava a culpabilidade como o vínculo psi-</p><p>cológico que ligava o agente ao fato por ele praticado, e era formada por dolo e culpa.</p><p>Questão 7 (CESPE/AGU/PROCURADOR FEDERAL) De acordo a doutrina naturalista da</p><p>ação, o dolo tem caráter normativo, sendo necessário que o agente, além de ter consciência e</p><p>vontade, saiba que a conduta praticada é ilícita.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Certo.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>18 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>O item está correto porque, tanto no causalismo clássico quanto no causalismo neoclássico, o dolo</p><p>é normativo, formado por vontade, representação do resultado (ou consciência do resultado) e</p><p>consciência da ilicitude. E o causalismo clássico também é chamado de sistema naturalista.</p><p>Questão 8 (CESPE/DELEGADO FEDERAL/2013) Segundo a teoria causal, o dolo causalista</p><p>é conhecido como dolo normativo, pelo fato de existir, nesse dolo, juntamente com os ele-</p><p>mentos volitivos e cognitivos, considerados psicológicos, elemento de natureza normativa</p><p>(real ou potencial consciência sobre a ilicitude do fato)</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Certo.</p><p>O item está correto porque, conforme ressaltado na questão anterior, tanto no causalismo</p><p>clássico quanto no causalismo neoclássico, o dolo é normativo, formado por vontade, repre-</p><p>sentação do resultado (ou consciência do resultado) e consciência da ilicitude. E o causa-</p><p>lismo clássico também é chamado de sistema naturalista. O elemento volitivo é a vontade.</p><p>O elemento cognitivo é a representação do resultado. E o elemento normativo é a consciência</p><p>da ilicitude, que somente passou a ser compreendida como potencial a partir da teoria da</p><p>cegueira jurídica do Mezger (tema estudado no material sobre erros essenciais, quando se</p><p>estuda as teorias do dolo, dentre elas a teoria limitada do dolo).</p><p>Questão 9 (TRF-1ª/JUIZ FEDERAL/2006) A respeito das teorias do delito, pode-se afirmar:</p><p>a) o dolo e a culpa, sem dúvida alguma, fazem parte do tipo, segundo a teoria causalista;</p><p>b) de acordo com a teoria constitucionalista do delito, só há crime quando a ofensa for grave,</p><p>intolerável;</p><p>c) para muitos estudiosos, o erro da teoria finalista criada por Hans Welzel, foi não ter deslo-</p><p>cado o dolo e a culpa para o injusto, mantendo-os na culpabilidade;</p><p>d) segundo a doutrina de Claus Roxin, o agente do delito deve ser considerado como inimigo</p><p>e assim tratado, existindo, deste modo, o direito penal do cidadão, com garantias, e o direito</p><p>penal do inimigo, sem garantias.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>19 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra b.</p><p>Sobre a teoria constitucionalista do delito, conforme já salientado, a referida teoria analisa os</p><p>institutos penais de forma valorativa, de modo que a tipicidade é material, de forma a não se</p><p>contentar com a mera adequação formal do fato à letra da lei. É necessário analisar o grau</p><p>de ofensa da conduta ao bem jurídico. A letra A está incorreta porque, no causalismo, dolo e</p><p>culpa fazem parte da culpabilidade, não integram o fato típico. A letra C está errada porque</p><p>não foi erro, mas sim acerto de a teoria finalista deslocar o dolo e a culpa da culpabilidade</p><p>para o injusto, mais precisamente para a conduta que integra o fato típico. A letra D está er-</p><p>rada porque o direito penal do inimigo constitui uma teoria desenvolvida pelo Jakobs, não foi</p><p>desenvolvida pelo Roxin.</p><p>Questão 10 (MP-GO/2005) Penalmente, durante o séc. 20 foram elaborados vários concei-</p><p>tos de crime: causalista, neokantista, finalista, funcionalista. No Brasil, até a década de 1970</p><p>predominou a teoria causalista; depois, a teoria finalista que ainda é predominante, embora</p><p>cambaleante. Neste início do séc. 21, no Brasil, está sendo elaborado um novo conceito de</p><p>crime com a teoria constitucionalista do delito. Segundo essa teoria, a imputação objetiva da</p><p>conduta e do resultado são elementos da:</p><p>a) tipicidade.</p><p>b) antijuridicidade.</p><p>c) culpabilidade.</p><p>d) punibilidade.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra a.</p><p>Para os defensores da ideia de uma teoria constitucionalista do delito, a tipicidade compre-</p><p>ende: adequação do fato à letra da lei, que gera lesão intolerável ao bem jurídico; a análise de</p><p>condutas não fomentadas e não autorizadas por outros ramos do ordenamento jurídico (ti-</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>20 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>picidade conglobante) e análise do risco proibido que se materializa em um resultado lesivo,</p><p>abrangido pela finalidade protetiva da norma (imputação objetiva).</p><p>2. teorIa Causal neoClássICa ou sIstema neokantIsta</p><p>O sistema penal neokantista, denominado ainda de teoria teleológica do delito, surgiu no</p><p>início do século XX, dominou a discussão penal por três décadas (SCHÜNEMANN, 2010) e</p><p>teve um objetivo claro, qual seja o de transformar as categorias jurídico-penais com a inser-</p><p>ção de critérios axiológicos.</p><p>2.1. ConCeIto de ação, tIpICIdade, IlICItude e CulpabIlIdade na teorIa</p><p>Causal neoClássICa</p><p>A filosofia dos valores de origem neokantiana foi a base metodológica para a interpreta-</p><p>ção do sistema causal neoclássico, que pretendeu retirar o direito do mundo naturalista do</p><p>ser e “o situar numa zona intermediária entre aquele mundo e o do puro dever-ser” (DIAS,</p><p>2007, p.242).</p><p>No alicerce do modelo neokantista, duas escolas se destacaram: Escola de Marbugo, pro-</p><p>fundamente racionalista, orientada no sentido de uma filosofia do conhecimento, influenciada</p><p>pelo pensamento naturalista do século XIX; e a Escola sudocidental de Baden, orientada no</p><p>sentido de uma filosofia da cultura, em que os valores deveriam reger o pensamento e lhe</p><p>permitir alcançar a objetividade (RADBRUCH, 1997).</p><p>Na plataforma neokantista, as  ciências culturais estavam orientadas a valores. Desse</p><p>modo, o Direito deveria ser interpretado de forma axiológica. Nessa fase da teoria do delito,</p><p>são lançadas as bases para a construção teleológica de conceitos; surge a classificação ma-</p><p>terial (valorativa) dos elementos integrantes da estrutura analítica do delito em substituição</p><p>ao modelo formal e neutro da teoria clássica; e a interpretação dessas categorias passa a ser</p><p>conduzida pela inserção de carga valorativa na análise dos institutos (GOMES FILHO, 2019).</p><p>Houve mudança pequena no conceito de ação. Foram propostos “inúmeros arranjos, defi-</p><p>nindo-se a ação simplesmente como conduta volitiva, realização de vontade, conduta volun-</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS</p><p>SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>21 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>tária ou conduta humana” (TAVARES, 1980, p.42), permanecendo a necessidade de modifica-</p><p>ção do mundo exterior (DIAS, 2007).</p><p>A introdução de conduta humana no conceito de ação, defendida por Edmund Mezger, foi a</p><p>que obteve maior aceitação (GALVÃO; GRECO, 1999). Todavia, o conceito de ação do neokan-</p><p>tismo, assim como o do naturalismo, reduz-se a um processo causal, não possui finalidade.</p><p>A análise da finalidade fica deslocada para a culpabilidade (MUÑOZ CONDE, 1988).</p><p>A tipicidade formal do período causalista clássico passou a ser material no neokantismo.</p><p>Com isso, a tipicidade podia ser compreendida como a adequação do fato à letra lei que pro-</p><p>vocava lesão intolerável ao bem jurídico tutelado (GOMES FILHO, 2019). Dito de outro modo,</p><p>a tipicidade passou a ser considerada:</p><p>Não apenas como uma descrição formal-externa de comportamentos, mas materialmente como</p><p>uma unidade de sentido socialmente danoso, como comportamento lesivo de bens judicialmente</p><p>protegidos. (DIAS, 2007, p.242-243).</p><p>Dessa forma, os elementos formais descritivos foram transformados em elementos natu-</p><p>rais normativos, passíveis de “juízo de valor, tendo em vista o objetivo visado pelo legislador,</p><p>que tanto podia ser a proteção de bens jurídicos, quanto de qualquer outra situação estatal de</p><p>conveniência” (TAVARES, 2003, p.135).</p><p>Portanto, a título de esclarecimento, o princípio da insignificância não foi criado em tal</p><p>época, mas havia espaço para a sua construção, já que o método do sistema era valorativo e</p><p>a tipicidade era compreendida como categoria material, de modo que o julgador possuía liber-</p><p>dade para construir uma solução diversa da mera subsunção formal do fato à norma (GOMES</p><p>FILHO, 2019).</p><p>No causalismo clássico, a ilicitude constituía a mera relação de contradição entre o fato</p><p>e a lei, enquanto no causalismo neoclássico a ilicitude passou a ser material e consistia na</p><p>relação de antagonismo entre o fato e a lei geradora de danosidade social, possibilitando o</p><p>surgimento de excludentes supralegais, ou seja, não previstas na lei (BITENCOURT, 2000).</p><p>Quanto à culpabilidade, dentro da visão neokantista, Reinhard Frank rechaçava a concep-</p><p>ção psicológica de culpabilidade que se reduzia a uma relação psíquica entre o autor e o fato</p><p>(AMORIM, 2014). O referido autor, com a introdução na culpabilidade da reprovabilidade do</p><p>ato praticado, criou a teoria normativa da culpabilidade em 1907 (GOLDSCHMIDT, 2002).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>22 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Para que uma pessoa tivesse a reprovação de seu comportamento, segundo Frank, have-</p><p>ria a necessidade de: uma aptidão normal do autor, conhecida por imputabilidade; uma certa</p><p>e concreta relação psíquica do autor com o fato (dolo, culpa) e uma normalidade das circuns-</p><p>tâncias em que o autor atua. Desse modo, o autor não poderia ser reprovado quando realizas-</p><p>se ações sob circunstâncias que revelasse um quadro de anormalidade (FRANK, 2011).</p><p>A teoria normativa nasceu na Alemanha diante da necessidade prática de resolver com</p><p>justiça determinadas situações concretas, quando a não exigibilidade significava autorizar o</p><p>agente a agir contra a determinação da norma objetiva do Direito, uma vez que no âmbito da</p><p>referida norma não se encontrava a solução justa (C. NUÑEZ, 2002).</p><p>Dessa forma, a culpabilidade passou a ser um juízo de reprovação, de censura, que incide</p><p>sobre o agente por ter atuado de forma contrária ao Direito. Contudo, não era uma valoração</p><p>pura, pois não se abandonou os dados psicológicos, já que o juízo de valor incidiria sobre uma</p><p>“situação fática de ordinário psicológica” (TOLEDO, 1994, p.223).</p><p>Da ideia valorativa de reprovação, surgiu um novo requisito para a culpabilidade, denomi-</p><p>nado exigibilidade de conduta diversa. Portanto, a reprovação, na culpabilidade, só poderia</p><p>existir se fosse possível ao agente atuar de forma diversa; caso contrário, estaria afastado o</p><p>juízo de culpabilidade.</p><p>No modelo neokantista, a culpabilidade foi alterada na composição de seus elementos.</p><p>Nessa fase, a imputabilidade deixou de ser pressuposto e foi transformada em um elemento.</p><p>O dolo e a culpa deixaram de ser espécies de culpabilidade e se transformaram em elementos</p><p>da culpabilidade. Por fim, o terceiro e novo elemento, como já dito, passou a ser a exigibilida-</p><p>de de conduta diversa (GOMES FILHO, 2019). Esse contorno definitivo foi dado por Edmund</p><p>Mezger (TOLEDO, 1994).</p><p>A culpabilidade se alicerçava na teoria psicológico-normativa que acolheu o dolo norma-</p><p>tivo (dolus malus) e, desse modo, a consciência da ilicitude fazia parte do dolo. No contexto</p><p>dessa teoria, o dolo normativo estava dentro da culpabilidade e era composto de: representa-</p><p>ção da realidade fática (elemento intelectual), vontade dos efeitos e não do processo causal</p><p>(elemento intencional, volitivo) mais a consciência atual da ilicitude (elemento normativo).</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>23 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Críticas positivas e negativas podem ser feitas ao sistema neokantista. A permanência</p><p>com o conceito causal de ação é uma delas. Nesse período, tentou-se alocar a omissão den-</p><p>tro do conceito de ação. Isso era praticamente impossível já que a omissão não pode ser tra-</p><p>tada como mera causalidade física. Hoje, a omissão é compreendida normativamente.</p><p>Sob o olhar da posição dos elementos da estrutura analítica do crime, bem como no que</p><p>diz respeito ao conceito de ação, pode-se afirmar que o sistema neokantista, também cha-</p><p>mado de causalismo neoclássico, ou normativista ou teleológico, “não implicou, finalmente,</p><p>alteração radical da concepção Liszt-Beling” (TAVARES, 2003, p.46).</p><p>Conforme ensina Muñoz Conde, referindo-se ao conceito de ação no causalismo clássico</p><p>de Ernst von Liszt e, no neoclássico, de Edmund Mezger:</p><p>Com isso, desconhece a realidade das ações humanas, que não são simples processos causais</p><p>(pois, neste caso, não poderiam ser delas diferenciados os simples fenômenos da natureza), mas</p><p>processos causais dirigidos a um fim. (MUÑOZ CONDE, 1988, p.13)</p><p>O outro aspecto de fraqueza dos sistemas causais diz respeito à manutenção do dolo na</p><p>culpabilidade. Ora, o dolo não pode ocupar posição setorial diversa dos demais elementos</p><p>subjetivos do tipo. Essa posição equivocada do dolo tornava complicada a explicação do</p><p>crime tentado, havendo necessidade de examinar a culpabilidade e regredir à tipicidade para</p><p>a subsunção em casos, por exemplo, de dúvida entre lesão corporal e tentativa de homicídio</p><p>(GOMES FILHO, 2019).</p><p>Da mesma forma, a posição da culpa na culpabilidade, e não na conduta, tornava dificul-</p><p>tosa a tarefa de separação do crime culposo e do crime doloso: primeiro se investigava se</p><p>era dolo ou culpa na culpabilidade, depois se retornava ao injusto (tipicidade e ilicitude) para</p><p>análise dos demais elementos.</p><p>Do mesmo modo, no estudo do erro sobre a consciência</p><p>da ilicitude, a adoção do dolus</p><p>malus (dolo normativo) “levava a consequências insuportáveis, benéficas especialmente para</p><p>o agente insensível às exigências do direito, que, por desconhecer a ilicitude de seu agir, ja-</p><p>mais possuiria dolo” (GRECO, 2000, p.126), uma vez que até então a consciência da ilicitude</p><p>era elemento do dolo.</p><p>Noutra ótica, Luís Greco aduz que o sistema neokantista merece aplausos ao fugir do</p><p>formalismo do sistema causal-naturalista. A construção teleológica de conceitos, o método</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>24 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>referido a valores, a materialização das categorias “compõem justamente o legado perma-</p><p>nente do neokantismo, que hoje não cessa de ser valorizado pelo funcionalismo” (GRECO,</p><p>2000, p.126).</p><p>De forma quase consensual, é criticado o neokantismo quanto ao seu normativismo ex-</p><p>tremo, ou seja, isolou a realidade do mundo dos valores, esqueceu-se de fazer a adequada</p><p>interpenetração entre direito e realidade. Não havia relação entre o mundo da realidade e o</p><p>mundo dos valores, entre o mundo do ser e o mundo do dever ser, aquilo que se chamou du-</p><p>alismo metodológico (RADBRUCH, 1997).</p><p>Houve desordem dos pontos de vista axiológicos, consequência do relativismo valorati-</p><p>vo, quando o dever ser prevaleceu e não se comunicou com o mundo do ser (GRECO, 2000,</p><p>p.126). Desse modo, o  intérprete, no neokantismo, na análise de um caso concreto, podia</p><p>fazer valorações subjetivas sem correlação com o fato sob exame. Isso permitiu surgir um</p><p>normativismo acentuado que não se importava com a realidade fática. Tal fenômeno foi ob-</p><p>jeto de severa crítica por parte dos finalistas (GOMES FILHO, 2019).</p><p>O neokantismo, exerceu influência no alicerce do funcionalismo teleológico com os ajustes</p><p>apregoados que serão examinados mais adiante. Conquanto superado pelo modelo finalista,</p><p>que reconstruiu a estrutura ontológico-dogmática do Direito Penal, o método neokantista pa-</p><p>rece que fora ressuscitado na jurisprudência penal atual no âmbito do Supremo Tribunal Fede-</p><p>ral, com críticas às decisões marcadas por um dualismo metodológico (GOMES FILHO, 2009).</p><p>2.2. relação entre os elementos do Injusto (teorIa da Ratio</p><p>CognosCendi, teorIa da Ratio essendi e teorIa dos elementos negatIvos</p><p>do tIpo)</p><p>A relação entre os elementos do injusto, segundo Juarez Tavares, constitui o dado mais</p><p>significativo da reformulação neokantiana (TAVARES, 2003). Na visão de Max Ernst Mayer,</p><p>a tipicidade e a antijuricidade deveriam ser compreendidas de maneira separada, porquanto</p><p>se comportam como a fumaça e o fogo e, desse modo, a tipicidade constitui um indício de</p><p>ilicitude (MAYER, 2011). Por conseguinte, o vínculo entre a tipicidade e a ilicitude denomina-</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>25 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>-se ratio cognoscendi, o tipo passa a ser o elemento identificador da ilicitude. O delito, assim</p><p>como no período causal clássico, foi definido como uma ação típica, ilícita e culpável.</p><p>Exemplo: segundo Ernst Mayer, para ilustrar a separação entre tipicidade e ilicitude, o con-</p><p>denado que foge da penitenciária pratica um ato ilícito, pois está obrigado a cumprir a pena.</p><p>No entanto, ele não realiza, por ausência de previsão legal, uma conduta típica. E, de forma</p><p>inversa, os soldados de um corpo de engenheiros militares que, numa situação de guerra,</p><p>destroem a ponte de uma cidade, para preparar a sua defesa, realizam uma conduta típica</p><p>que, todavia, não é antijurídica (MAYER, 2011).</p><p>De outra forma, para Edmund Mezger, o delito (parte objetiva) deveria ser compreendido</p><p>como uma ação tipicamente antijurídica (MEZGER, 1955). O tipo (leia-se tipicidade) perderia</p><p>qualquer autonomia e se tornava fundamento da antijuridicidade, passando a constituir a</p><p>antijuridicidade tipificada, deixando a categoria isolada de tipo e se transformando em um</p><p>tipo de injusto. Passa a existir uma visão conjunta de tipicidade e ilicitude, que corresponde a</p><p>ratio essendi. Por conseguinte, a antijuridicidade se tornou o principal elemento do delito que</p><p>passou a ser visto como uma antijuridicidade típica (TAVARES, 2003).</p><p>Destaca-se, ainda, a teoria dos elementos negativos do tipo, a qual foi criada por Adolf Merkel</p><p>a partir de 1889. Depois foi desenvolvida, entre outros, por Reinhard Frank. Nesse contexto:</p><p>A distinção entre tipo e antijuridicidade perde sua importância, florescendo em alguns autores a te-</p><p>oria dos elementos negativos do tipo, que vê na ausência de causa de justificação um pressuposto</p><p>da própria tipicidade. (GRECO, 2000, p.125).</p><p>Desse modo, no primeiro caso (ratio cognoscendi), o tipo constitui um indício de ilicitude;</p><p>no segundo caso (ratio essendi), a antijuridicidade conteria o tipo; no terceiro caso (teoria</p><p>dos elementos negativos do tipo), o tipo conteria a antijuridicidade. Nos dois últimos casos,</p><p>antijuridicidade e tipo não são vistos como elementos autônomos, “mas sim, como um todo</p><p>normativo unitário” (TAVARES, 1980, p.45).</p><p>Exemplo: legítima defesa afasta a própria tipicidade, no caso da teoria dos elementos nega-</p><p>tivos do tipo.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>26 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>Dentro da teoria dos elementos negativos do tipo, desenvolveu-se um conceito de tipo to-</p><p>tal de injusto, dividido em duas partes: parte positiva (tipo positivo) composta dos elementos</p><p>objetivos, subjetivos e normativos; parte negativa (tipo negativo) que significa a ausência de</p><p>causas excludentes da ilicitude.</p><p>Portanto, as excludentes de ilicitude, dentro da teoria dos elementos negativos do tipo,</p><p>são os requisitos negativos do tipo de injusto. “Tomando em conta, por EXEMPLO, o art.121</p><p>do Código Penal, na visão da teoria em destaque, o tipo total deste injusto seria: matar al-</p><p>guém, salvo em legítima defesa, estado de necessidade etc.” (GOMES, 2001, p.82). Da mesma</p><p>forma, ao tratar da referida teoria, Hassemer (2005, p.285) expõe: “A injúria será punida com</p><p>[...] a não ser que ela ocorra em defesa de interesse legítimo”.</p><p>Winfried Hassemer faz severa crítica à teoria dos elementos negativos do tipo, pois não</p><p>se pode, ao mesmo tempo, censurar positivamente (tipo positivo) e justificar negativamente</p><p>(tipo negativo). Diz que a referida teoria trata a excludente de ilicitude como capaz de afastar</p><p>a relevância da conduta jurídico-penal.</p><p>Exemplo: matar alguém em legítima defesa seria o mesmo que tomar um café, pois, quanto</p><p>ao resultado, nenhum dos dois fatos é um injusto penal. Ora, matar uma pessoa em legítima</p><p>defesa é uma lesão a um ser humano. O fato de ser justificada não afasta a natureza de lesão,</p><p>“é uma transgressão à barreira do tabu (Tabuschranke) que co-determina a nossa cultura</p><p>jurídica” (HASSEMER, 2005, p.285).</p><p>A teoria dos elementos negativos é aceita na Itália. No Brasil, é minoritária a doutrina que</p><p>lhe rende aceitação. Além de Paulo Queiroz (2006),</p><p>destaca-se Miguel Reale Junior (2009),</p><p>que compreende, num momento único, os juízos de tipicidade e de antijuridicidade, e não vis-</p><p>lumbra separação e nem autonomia entre esses institutos.</p><p>2.3. resumo da teorIa Causal neoClássICa ou sIstema neokantIsta</p><p>Na teoria causal neoclássica, a ação corresponde à conduta humana que altera a realida-</p><p>de exterior. O injusto (tipicidade + ilicitude) é material, ou seja, a tipicidade é material, a ilicitude é</p><p>material. A culpabilidade se ancora em uma teoria normativo-psicológica, formada pelos ele-</p><p>mentos: imputabilidade, dolo e culpa (elementos subjetivos e psicológicos), exigibilidade de</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>27 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>conduta diversa. O dolo da culpabilidade é normativo, formado por três elementos: vontade;</p><p>representação do resultado; consciência da ilicitude. A teoria causal neoclássica (neokantis-</p><p>ta) é marcada por um dualismo metodológico, com total preponderância do dever ser sobre</p><p>o ser.</p><p>O alicerce filosófico do neokantismo constituiu a ferramenta para a interpretação das</p><p>categorias penais da estrutura analítica do delito no ambiente causal neoclássico, com a pre-</p><p>missa de uma filosofia da cultura, segundo a qual os valores deveriam reger o pensamento,</p><p>no sentido de que as ciências culturais estão orientadas a valores. Rompeu-se, portanto, com</p><p>o formalismo causal clássico positivista e abriu-se espaço para a construção de soluções</p><p>penais materiais no âmbito do injusto penal.</p><p>A ausência de limite ao intérprete no uso do método axiológico, com um acentuado subjeti-</p><p>vismo na interpretação dos casos penais, constitui a principal crítica à teoria causal neoclássica.</p><p>DIRETO DO CONCURSO</p><p>Questão 11 (CESPE/TJ-RR/JUIZ/2013) No que se refere às teorias do crime, assinale a</p><p>opção correta.</p><p>a) Com base na teoria constitucionalista do delito, seriam inconstitucionais os dispositivos do</p><p>Código Penal que protegem outros bens jurídicos além dos direitos fundamentais constitu-</p><p>cionalmente previstos, únicos bens que merecem proteção na seara criminal, de acordo com</p><p>essa teoria.</p><p>b) Conforme a teoria causal-naturalista, ou concepção clássica positivista naturalista, o deli-</p><p>to constitui-se apenas de elementos objetivos, que são o fato típico e a ilicitude.</p><p>c) De acordo com a teoria causal-valorativa ou neokantista, a tipicidade não deve ser conce-</p><p>bida apenas como descrição formal de comportamentos, devendo ser considerada também</p><p>materialmente, como uma unidade de sentido socialmente danoso, o que implica, em muitos</p><p>casos, a análise de elementos subjetivos, como a intenção de apropriação no tipo de furto.</p><p>d) De acordo com a teoria finalista, a ação típica deve ser concebida como ato de vontade com</p><p>conteúdo, figurando como elementos da culpabilidade o dolo, a culpa, a potencial consciência</p><p>da ilicitude, a imputabilidade e a exigibilidade de conduta.</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>28 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>e) Conforme o funcionalismo moderado de Roxin, sendo o direito um instrumento de estabi-</p><p>lização social, o indivíduo deve ser um centro de imputação e responsabilidade, de modo que</p><p>a violação da norma é considerada socialmente disfuncional porque questiona a violação do</p><p>sistema, e não porque viola bem jurídico.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra c.</p><p>Conforme explicado no tópico anterior, a teoria causal neoclássica (neokantista), com a fi-</p><p>losofia da cultura, transformou as categorias formais do causalismo clássico em institutos</p><p>materiais. Isso ocorreu com a tipicidade e a ilicitude, por exemplo. Ademais, no neokantismo,</p><p>havia uma divisão entre crimes normais, aqueles que não possuem elementar normativa e/</p><p>ou subjetiva (exemplo: homicídio-matar alguém) e crimes anormais, aqueles que possuem</p><p>elementar normativa e/ou subjetiva especial (exemplo: furto-subtrair para si ou para outrem</p><p>coisa alheia móvel). A letra B está errada (vimos isso durante a exposição da teoria causal</p><p>clássica) porque na teoria causal clássica (ou sistema naturalista) o crime é um fato típico,</p><p>ilícito e culpável. As demais letras trazem conteúdo do finalismo e do funcionalismo, que se-</p><p>rão desenvolvidos mais adiante. Sobre a teoria constitucionalista do delito, vale destacar que</p><p>não possui uma estrutura analítica do delito concorrente com o finalismo ou causalismo, mas</p><p>trata-se de um termo utilizado para se referir tanto a direito penal constitucional, ancorado</p><p>em princípios penais, em categorias materiais e valorativas, na proteção de bens jurídicos</p><p>principais, com a ideia de intervenção mínima. O termo ainda é usado para se referir ao uso,</p><p>no exame da tipicidade penal, das teorias da imputação objetiva e da tipicidade conglobante.</p><p>Questão 12 (MP-PR/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2018) A forma pela qual ocorreu a estrutura-</p><p>ção da teoria do delito nem sempre foi uniforme, sendo variável segundo um perfil de evolução</p><p>de conceitos do que é o direito. Assim, na medida em que ocorreram mudanças nas teorias</p><p>basilares que influenciaram a estruturação do Direito Penal, a forma de apresentação e de es-</p><p>tudo do delito igualmente foram mudando. Tendo isto em mente, a afirmação de que “o direito</p><p>positivo não possui uma valoração intrínseca e objetiva, sendo que as normas jurídicas aparecem</p><p>O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para AMANDA WILDHAGEN CORREA DOS SANTOS - 05633688708, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título,</p><p>a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal.</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>https://www.grancursosonline.com.br</p><p>29 de 92www.grancursosonline.com.br</p><p>Dermeval Farias</p><p>Teorias do Crime</p><p>DIREITO PENAL – PARTE GERAL</p><p>determinadas por valores prévios e que contaminam, além de sua edição, também os próprios</p><p>autores de sua elaboração, sendo que uma pretensa ‘verdade jurídica’ vem influenciada pela</p><p>cultura”, se mostra ajustada à definição de:</p><p>a) causalismo.</p><p>b) neokantismo.</p><p>c) finalismo.</p><p>d) pós-finalismo.</p><p>e) funcionalismo.</p><p>COMENTÁRIO</p><p>Letra b.</p><p>Conforme explicado no tópico anterior, a teoria causal neoclássica (neokantista), com a fi-</p><p>losofia da cultura, transformou as categorias formais do causalismo clássico em institutos</p><p>materiais. Isso ocorreu com a tipicidade e a ilicitude, por exemplo. A Escola sudocidental de</p><p>Baden, orientada no sentido de uma filosofia da cultura, influenciou a concepção neokantista</p><p>— indicava que os valores deveriam reger o pensamento e lhe permitir alcançar a objetividade</p><p>(RADBRUCH, 1997).</p><p>Questão 13 (MP-MG/PROMOTOR DE JUSTIÇA/2019). No tocante à teoria do delito, marque</p><p>a alternativa incorreta:</p><p>a) Para a teoria causal, o resultado, como parte integrante da ação causal, deve estar contido</p><p>necessariamente em todos os delitos, pois o conceito causal não pode reconhecer crimes</p><p>sem resultado;</p><p>b) A reformaluação neokantista na teoria do delito tem profunda repercussão na relação tipo-</p><p>-antijuridicidade, e com Mezger a perda da autonomia do tipo atinge seu clímax, ao ser conce-</p><p>bido como um momento de antijuridicidade. O delito é assim definido como ação tipicamente</p><p>antijurídica e culpável.</p><p>c) Característica básica da postura finalista é tratar o delito culposo segundo a condução da ati-</p><p>vidade humana</p>

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