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<p>A EDUCAÇÃO E A PAZ</p><p>Maria Montessori</p><p>Tradução da publicação em francês</p><p>Sonia Maria Alvarenga Braga</p><p>>></p><p>http://www.papirus.com.br/</p><p>http://www.papirus.com.br/</p><p>SUMÁRIO</p><p>PREFÁCIO DA EDIÇÃO FRANCESA</p><p>APRESENTAÇÃO DA EDIÇÃO ITALIANA</p><p>PEQUENA INTRODUÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>I. ALICERCES PARA A PAZ</p><p>1. A PAZ</p><p>2. PELA PAZ</p><p>3. EDUCAR PARA A PAZ</p><p>II. EDUCAR PARA A PAZ:</p><p>SEXTO CONGRESSO INTERNACIONAL MONTESSORI</p><p>4. CONFERÊNCIA DE ABERTURA DO CONGRESSO</p><p>5. PODE A EDUCAÇÃO HOJE EXERCER INFLUÊNCIA</p><p>SOBRE O MUNDO, E POR QUÊ?</p><p>6. SEGUNDA CONFERÊNCIA</p><p>7. PARA QUE A EDUCAÇÃO AJUDE NOSSO MUNDO ATUAL</p><p>8. O NECESSÁRIO ACORDO UNIVERSAL PARA QUE</p><p>O HOMEM ESTEJA MORALMENTE ARMADO PARA</p><p>DEFENDER A HUMANIDADE</p><p>9. QUINTA CONFERÊNCIA</p><p>10. CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO DO CONGRESSO</p><p>11. MEU MÉTODO</p><p>III. A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO NA EDIFICAÇÃO DA PAZ</p><p>12. PRIMEIRA CONFERÊNCIA</p><p>13. SUPERNATUREZA E NAÇÃO ÚNICA</p><p>14. A EDUCAÇÃO DO INDIVÍDUO</p><p>IV. DISCURSO NA FRATERNIDADE MUNDIAL DAS CRENÇAS</p><p>15. EDUCAR PARA A PAZ</p><p>NOTAS</p><p>SOBRE A AUTORA</p><p>REDES SOCIAIS</p><p>CRÉDITOS</p><p>PREFÁCIO DA EDIÇÃO FRANCESA</p><p>1932-1939: entre essas duas datas, Maria Montessori pronuncia</p><p>uma série de conferências sobre as ligações entre a educação e a paz.</p><p>Há 60 anos, a Europa, como o resto do mundo industrial, está em</p><p>crise econômica. Conhece-se a resposta alegada: o desdobrar da</p><p>identidade, da ordem, do nacionalismo; a quebra do crescimento</p><p>econômico por causa da preparação da guerra. De que nos falam ainda</p><p>essas conferências, 60 anos depois, com uma Europa que se refez no</p><p>curso dos anos? O que nos conta esta obra que as reuniu neste fim de</p><p>século? Coisas de extrema atualidade; basta transpor a situação da</p><p>Europa de há 60 anos para a situação do planeta neste final de século. O</p><p>modelo produtivista, que trouxe o desenvolvimento do Ocidente e</p><p>estruturou o crescimento econômico após a guerra, chega a um impasse,</p><p>por ter seu crescimento material baseado no consumo de bens raros. Ou</p><p>bem ele procura reservar a prosperidade econômica àqueles que</p><p>atualmente beneficiam os recursos da terra e supõe, então, o</p><p>estabelecimento de um verdadeiro apartheid político e social; ou</p><p>estende o modelo à parte mais importante da população da Terra, e isso</p><p>conduz a pressões insuportáveis sobre o equilíbrio ecológico de nosso</p><p>planeta. Em face do crescimento da Ásia, os privilégios do Ocidente já</p><p>estão ameaçados. Em resposta, os demônios nacionalistas acordam.</p><p>Diante da reviravolta das ciências e técnicas e da mundialização em que</p><p>resultam: em toda parte, convulsões de identidade. Progressivamente, o</p><p>mundo desenvolvido pode ser, ao mesmo tempo, um mundo onde é</p><p>proibido proibir a circulação de mercadorias e um mundo onde é</p><p>proibido autorizar a circulação dos homens.</p><p>Ideias e imagens circulam pelo planeta com a velocidade da luz.</p><p>Pode nascer uma melhor compreensão entre os homens? Nada é menos</p><p>certo. As capacidades de manipulação da informação se multiplicam. As</p><p>capacidades críticas dos homens, sua capacidade de análise e</p><p>compreensão, de apreensão das riquezas e da complexidade do mundo,</p><p>crescem na mesma velocidade? Nada é menos certo.</p><p>É precisamente esse paralelo entre a Europa dos anos 30 e o mundo</p><p>dos anos 90 que dá à mensagem de Maria Montessori sua atualidade</p><p>estarrecedora.</p><p>Mais que nunca a paz precisa ser feita. Mais que nunca, talvez, ela</p><p>será nos próximos decênios um investimento de sobrevivência da</p><p>humanidade. Mais que nunca, ela se forjará na cabeça dos homens,</p><p>porque a paz, como bem a compreendeu Maria Montessori, não é a não</p><p>guerra. Não é apenas assunto de diplomacia, de forças armadas e de</p><p>cessar-fogo. Sabemos bem que, frequentemente, os povos que ganham a</p><p>guerra perdem a paz que se segue, porque os valores necessários para</p><p>ganhar a guerra – simplificação, obediência às ordens, clareza da</p><p>distinção entre amigos e inimigos etc. – nada têm a ver com os valores</p><p>necessários para construir uma paz duradoura – a capacidade de</p><p>cooperar com o outro, o espírito crítico, o sentido de compromisso, a</p><p>percepção aguçada da unidade e da diversidade simultânea do mundo.</p><p>Sim, a paz não é o resultado de negociações; é uma construção.</p><p>Maria Montessori falava de redefinir o conceito de paz. Ela o religava</p><p>ao progresso da razão e não hesitava em falar em ciência da paz. Que</p><p>fazemos nós, 60 anos depois, sublinhando que não basta invocar a paz</p><p>de forma mágica para que ela apareça; dizendo que é urgente construir</p><p>uma arte da paz e que isso implica um trabalho rigoroso de confronto</p><p>das experiências vindas dos quatro cantos da Terra e com todos os</p><p>ventos da história; que um dos dramas de nossa época é que o homem</p><p>cresceu em poder mais rápido que em sabedoria? A paz é uma ciência,</p><p>uma arte, uma cultura. A paz se aprende. Ela se aprende ainda mais que,</p><p>e eis aí uma das intuições de Maria Montessori, a construção da paz não</p><p>é uma coisa pequena e de pequena escala. Ela sublinhava que a</p><p>construção da paz começava pela construção da harmonia entre a</p><p>criança e o adulto. Ela havia compreendido o caráter profundamente</p><p>fractal, diríamos para parecermos modernos, da questão da paz: aquilo</p><p>que acontece entre mulheres e homens, entre crianças e adultos, entre as</p><p>próprias crianças, na família, na classe, no bairro, encontra-se na escala</p><p>das relações entre as nações. A tolerância, a capacidade de reconhecer</p><p>que o outro é, ao mesmo tempo, parecido comigo e digno de minha</p><p>consideração e radicalmente diferente e digno do mesmo respeito,</p><p>coloca-se na escala das referências interindividuais assim como na</p><p>escala entre civilizações e religiões. Não há uma pequena escala para</p><p>aprender a harmonia, não há pequena escala para aprender a tolerância.</p><p>Aqueles que, com oito anos, no ensino fundamental, aprendem a ser</p><p>mediadores entre seus colegas serão certamente os que, amanhã, numa</p><p>outra escala, aprenderão a ser mediadores entre os povos.</p><p>Mas a mensagem de Maria Montessori vai mais longe ainda,</p><p>quando sublinha a questão da educação. Estou, com milhares de outros</p><p>de todos os continentes, engajado na dinâmica da construção de uma</p><p>“aliança por um mundo responsável e solidário”. Acreditamos que,</p><p>diante dos modelos de desenvolvimento e de nossos sistemas de</p><p>pensamento desse final de século XX, as instituições públicas e</p><p>políticas, estruturadas na escala dos Estados e nas lógicas</p><p>frequentemente herdadas do passado, não estão à altura de</p><p>verdadeiramente tomarem as iniciativas que se impõem. A sucessão de</p><p>conferências das Nações Unidas, desde a Eco-Rio 1992 até a</p><p>conferência Habitat II em 1996 em Istambul, tem, desse ponto de vista,</p><p>qualquer coisa de sublime e de derrisório. Sublime, porque aí se</p><p>exprime a tomada de consciência de uma entidade mundial, de uma</p><p>gestão do planeta ainda por nascer. Derrisório, porque essas</p><p>conferências revelam a crise profunda da gestão da comunidade</p><p>internacional, a asfixia do sistema das Nações Unidas, evidenciada pelo</p><p>ardor de Franklin Roosevelt pelos vencedores da Segunda Guerra</p><p>Mundial, mas que já não corresponde ao estado atual do mundo. As</p><p>negociações diplomáticas entre Estados parecem bastante derrisórias em</p><p>relação aos desafios que são colocados à humanidade. Disso todo</p><p>mundo está consciente; de onde nasce um profundo sentimento de</p><p>impotência, de desordem. Como enfrentar? Em que ponto tomar as</p><p>coisas? A Aliança para um Mundo Responsável e Solidário parte da</p><p>constatação de que as instituições públicas e políticas atuais não podem</p><p>empreender, isso cabe aos simples cidadãos do planeta, unindo-se para</p><p>colocarem-se em movimento. E quando começamos a refletir sobre as</p><p>condições a reunir para que a gestão do planeta, nos próximos decênios</p><p>e nos próximos séculos, seja responsável e solidária, somos</p><p>imediatamente remetidos aos sistemas de valores, às representações, aos</p><p>reflexos. O mundo muda na nossa mente antes de mudar materialmente,</p><p>inscrevamo-nos na plataforma por um mundo responsável e solidário. É</p><p>necessária uma tomada de consciência da cidadania mundial. É preciso</p><p>aprender a cooperação no lugar da competição. É preciso transformar as</p><p>relações entre o homem e seu meio. Mas nos</p><p>e oceanos já</p><p>não são barreiras para ele, ele pode atingir o mais escondido recanto do</p><p>planeta sobrevoando-o.</p><p>Quem soará a trombeta para acordá-lo?</p><p>O homem hoje dorme na superfície da Terra que está prestes a</p><p>engoli-lo.</p><p>O que vai fazer?</p><p>2</p><p>PELA PAZ[5]</p><p>Estão aqui reunidos os melhores homens do mundo. Eles</p><p>responderam a um apelo convocando-os a se dedicar a um problema de</p><p>importância vital dos mais urgentes.</p><p>A paz só pode resultar de um acordo comum. Para realizar essa</p><p>unanimidade em favor da paz, devemos trabalhar em duas direções ao</p><p>mesmo tempo: em primeiro lugar, devemos despender imediatamente</p><p>toda a nossa energia para que os conflitos sejam resolvidos sem recurso</p><p>à força, isto é, para impedir a guerra; a seguir, temos de empreender um</p><p>esforço enorme para estabelecer uma paz durável entre os homens.</p><p>A responsabilidade de evitar os conflitos cabe aos políticos; a de</p><p>estabelecer uma paz durável, aos educadores. Devemos convencer o</p><p>mundo da urgência de um esforço coletivo universal para estabelecer os</p><p>fundamentos sobre os quais poderemos construir a paz.</p><p>A educação para a paz não se reduziria a um ensinamento dado nas</p><p>escolas. É uma tarefa que exige esforços de toda a humanidade. Seu</p><p>objetivo, com efeito, é nada menos que uma reforma universal, que</p><p>permitirá o desenvolvimento interior da pessoa humana, que dará a cada</p><p>um uma consciência mais clara da missão da humanidade e que</p><p>favorecerá a melhoria da situação social. Esses objetivos se impõem não</p><p>apenas porque o homem se mantém largamente ignorante de sua própria</p><p>natureza, como também porque a maior parte das pessoas ignora todos</p><p>os mecanismos sociais de que dependem seus próprios interesses, para</p><p>não falar de sua sobrevivência imediata.</p><p>O fenômeno mais característico da vida moderna é a evolução</p><p>brutal das condições de nossa vida em sociedade. O aspecto exterior</p><p>dessa mudança é evidente: as descobertas científicas e suas aplicações</p><p>concretas provocaram modificações estupendas em nosso mundo</p><p>material. Menos evidente é a mudança num nível mais profundo e mais</p><p>importante e que comanda essas modificações externas de nossa</p><p>civilização. Esse segundo nível de mudança é essencial: graças ao</p><p>desenvolvimento das comunicações e à complexidade dos mecanismos</p><p>econômicos, a humanidade atingiu uma solidariedade de fato no plano</p><p>de seus interesses materiais.</p><p>Isso significa o surgimento de novos objetivos nesse domínio. Os</p><p>homens precisam ser educados para atingi-los, porque, se continuam a</p><p>se comportar como grupos nacionais motivados por interesses</p><p>divergentes, correm o risco de se destruírem. Esse ponto está no cerne</p><p>de todas as questões relacionadas com a paz.</p><p>Por causa da imposição das mudanças, não há motivo para a guerra</p><p>e ela não traz nenhuma vantagem material. Já a Primeira Guerra</p><p>Mundial mostrou, na Europa, que os vencedores não obtinham nenhuma</p><p>vantagem sobre sua vitória, como era o caso antigamente. Um</p><p>fenômeno totalmente novo se produziu: os povos vencidos se tornaram</p><p>um perigo, um fardo, um obstáculo para os vencedores. Estes tiveram</p><p>de assisti-los e ajudá-los a se reerguer. Uma nação vencida é hoje como</p><p>um homem doente cuja situação incomoda toda a humanidade. O</p><p>empobrecimento de um país não torna os demais mais ricos, ao</p><p>contrário, diminui a riqueza de todas as nações. Destruir uma nação é</p><p>como cortarmos uma das mãos na esperança de que a outra ficará duas</p><p>vezes mais forte.</p><p>Tornamo-nos um organismo único, uma só nação. Isso</p><p>acontecendo, finalmente realizamos a aspiração espiritual e religiosa</p><p>inconsciente da alma humana e podemos proclamá-lo diante do</p><p>universo. Nasceu “a humanidade como organismo”. A estruturação que</p><p>requereu todos os esforços do homem desde o início de sua história</p><p>agora foi atingida. Vivemos atualmente essa nova realidade. Temos a</p><p>prova disso no poder extraordinário que tem o homem, hoje em dia, de</p><p>elevar-se acima de sua condição natural. O homem é agora capaz de</p><p>voar, mais alto e de forma mais segura que a águia; ele domina os</p><p>segredos da energia invisível no universo; pode observar os céus e o</p><p>infinito; sua voz pode atravessar os oceanos; ele pode ouvir todas as</p><p>músicas do mundo; possui agora o poder de transformar a matéria. Em</p><p>uma palavra, o homem contemporâneo se tornou um cidadão do mundo,</p><p>um cidadão dessa grande nação que é a humanidade.</p><p>Não é absurdo imaginar que esse homem, dotado de poderes</p><p>superiores desse gênero, seja holandês, francês, inglês ou italiano? Ele é</p><p>cidadão desse mundo novo, cidadão do universo.</p><p>Dessa forma, já não é possível insistir na existência de nações</p><p>separadas com interesses divergentes. Nações distintas, com suas</p><p>fronteiras, suas alfândegas, seus direitos exclusivos, não têm mais razão</p><p>de existir. Certamente, haverá sempre grupos, famílias humanas com</p><p>sua língua e suas tradições, mas isso não seria razão suficiente para</p><p>manter as nações no sentido tradicional da palavra. Elas devem unir-se</p><p>como os elementos constitutivos de um organismo ou morrer. A grande</p><p>trombeta chamando os homens a se reunirem sob a mesma bandeira de</p><p>humanidade nos dirige uma convocação da qual depende nossa própria</p><p>vida. Hoje, todos os homens estão em contato uns com os outros.</p><p>Graças ao rádio, as ideias circulam de uma ponta a outra da Terra, não</p><p>considerando fronteiras nacionais. Grupos que compartilham as mesmas</p><p>ideias se formam pelo mundo. Os homens já não podem, então, bater-se</p><p>em lutas de clãs medievais, análogas às que, em Florença, opuseram os</p><p>partidários e os adversários dos Médicis.</p><p>Grupos de interesses particulares tentam atualmente controlar esses</p><p>imensos poderes, que devem, a partir de agora, pertencer à humanidade</p><p>em seu conjunto.</p><p>Dois caminhos apenas nos são oferecidos: ou nos mostramos à</p><p>altura de nossas magníficas descobertas, ou elas nos farão desaparecer</p><p>da face da Terra. É absurdo batermo-nos uns contra os outros, seja por</p><p>nosso bem-estar material ou em nome da defesa nacional, ou ainda em</p><p>vista do triunfo de um sistema social sobre outro.</p><p>Nossa época atravessa uma fase de ajuste de nossas condições</p><p>materiais de existência, que se transformaram profundamente.</p><p>Dominamos o ambiente material e ultrapassamos nossos limites</p><p>puramente naturais. Dominamos poderes invisíveis e tomamos o lugar</p><p>de Júpiter e dos outros deuses gregos. Mas ainda não estamos</p><p>completamente conscientes e é exatamente isso que nos impede de nos</p><p>considerarmos irmãos e de transformarmos este mundo em um Reino</p><p>dos Céus.</p><p>Os homens devem ser educados para tomar consciência de sua</p><p>grandeza e se tornarem dignos dos poderes que agora são seus. Já na</p><p>Roma antiga, as pessoas tinham de ser educadas para tomar consciência</p><p>de sua dignidade de cidadãs romanas. Não é essa uma necessidade ainda</p><p>mais imperiosa para os cidadãos desse império universal de hoje?</p><p>Infelizmente, a personalidade humana permaneceu o que era no</p><p>passado. Em caráter e em mentalidade, o homem não mudou. Ele não</p><p>compreende seu destino e as responsabilidades que agora são suas, em</p><p>virtude dos novos poderes materiais que estão agora a sua disposição.</p><p>Enfim, o homem não cresceu no ritmo do progresso que atingiu em seu</p><p>mundo material. Ele está desorientado, tímido, temeroso e capaz de se</p><p>submeter cegamente às autoridades, de voltar ao paganismo e até à</p><p>barbárie, pois se sente ultrapassado por este mundo no qual vive.</p><p>Psicólogos modernos falaram dos perigos que ameaçam o indivíduo</p><p>vítima do complexo de inferioridade; que diremos, então, dos perigos</p><p>que ameaçam toda a humanidade? Porque o homem, rei do universo,</p><p>treme de medo e se sente tão deprimido que fica tentado a se destruir.</p><p>Nossa principal preocupação deve ser educar a humanidade ou,</p><p>principalmente, os seres humanos de todos os países, para guiá-los e</p><p>ajudá-los a perseguir objetivos comuns. Devemos arregaçar as mangas e</p><p>fazer da criança nossa principal preocupação. Os esforços da ciência</p><p>devem centrar-se sobre ela, porque ela é a fonte e a chave dos enigmas</p><p>da humanidade. A criança é dotada de poderes, de uma sensibilidade e</p><p>de um instinto criador que ainda não foram reconhecidos nem</p><p>utilizados. Para</p><p>se desenvolver, ela precisa de um campo de</p><p>possibilidades bem mais vasto do que o que lhe foi oferecido até agora.</p><p>Não nos é necessário modificar toda a estrutura educativa para atingir</p><p>esse objetivo? Nossa sociedade deve reconhecer plenamente os direitos</p><p>sociais da criança e construir, para ela e para o adolescente, um mundo</p><p>que lhes permita desenvolverem-se espiritualmente.</p><p>Para chegar lá, todos os países devem conseguir se entender,</p><p>declarar uma espécie de trégua que permita a cada um se consagrar ao</p><p>desenvolvimento de seu próprio povo, para encontrar soluções</p><p>concretas para os problemas que parecem agora insolúveis.</p><p>Então, fazer a paz talvez nos pareça fácil como uma brincadeira de</p><p>criança. A paz estará a nossa disposição. Será como se acordássemos de</p><p>um sonho, como se nos libertássemos de um feitiço.</p><p>3</p><p>EDUCAR PARA A PAZ[6]</p><p>Hoje, neste período particular da história, a educação assume uma</p><p>importância considerável. Insistimos cada vez mais sobre sua utilidade</p><p>prática, que podemos resumir em uma frase: a educação é a melhor</p><p>arma para a paz.</p><p>Vejam o terrível poder e a perfeição técnica dos armamentos nos</p><p>quais as pessoas se fiam para se proteger em caso de guerra! Essa</p><p>realidade nos obriga a dizer: a educação só será uma arma capaz de</p><p>assegurar a segurança e o progresso dos povos do mundo inteiro quando</p><p>tiver incorporado os progressos da ciência e atingir o mesmo nível de</p><p>excelência.</p><p>Não pretendo aqui abordar a questão de saber se é preciso adotar</p><p>armamentos, porque me recuso a tratar de questões políticas. Digo</p><p>simplesmente que a verdadeira defesa da humanidade não pode se</p><p>basear nas armas. Enquanto não confiarmos na grande “arma pela paz”</p><p>que é a educação, as guerras continuarão a se suceder e tanto a</p><p>segurança como a prosperidade dos homens não estarão asseguradas.</p><p>A educação sendo o único caminho de salvação para a civilização e</p><p>a humanidade, ela não poderia se confinar nos limites atuais nem</p><p>conservar sua forma presente. A educação de hoje está muito distante</p><p>das necessidades de nossos contemporâneos. Para ilustrar nossa</p><p>preocupação, poderíamos dizer que, em comparação aos armamentos</p><p>modernos, a educação ficou no nível do arco e das flechas. Como</p><p>podemos nos defender contra o poder dos canhões e dos bombardeios</p><p>aéreos com um arco e flechas? É por isso que precisamos desenvolver e</p><p>aperfeiçoar essa arma que é a educação.</p><p>É evidente que a educação, pedra angular da paz, não pode apenas</p><p>consistir em tentar evitar a fascinação das crianças pela guerra. Não</p><p>basta impedir as crianças de se divertirem com brinquedos</p><p>representando armas e parar de lhes ensinar a história da humanidade</p><p>como uma sucessão de grandes feitos de exércitos e de lhes apresentar</p><p>as vitórias alcançadas nos campos de batalha como uma grande honra.</p><p>Não basta tampouco lhes inculcar o amor e o respeito a todos os seres</p><p>vivos e a tudo o que os homens construíram ao longo dos séculos.</p><p>Seria este o papel de um ensino ao qual acrescentaríamos uma</p><p>tarefa bem mais nobre: fazer campanha contra a guerra em si mesma.</p><p>Mas poderíamos classificar esse papel apenas de negativo, pois ele se</p><p>satisfaz em afastar a ameaça de um conflito iminente sem desenvolver</p><p>os esforços indispensáveis para fazer a paz surgir no mundo.</p><p>Não é evidente que as guerras não podem ser simplesmente</p><p>evitadas por uma educação desse tipo? Se isso fosse possível, como</p><p>poderíamos, então, explicar que, no passado, as guerras não puderam</p><p>ser evitadas, apesar da educação dispensada pelas sociedades</p><p>civilizadas, que proclama que a vida e a liberdade do homem são</p><p>sagradas, e apesar da influência das religiões, que se esforçam há</p><p>milhares de anos a ensinar ao homem a amar seus irmãos?</p><p>Os homens não desencadeiam guerras porque estão sedentos de</p><p>sangue ou ávidos para utilizar suas armas. Eles prefeririam não fazer a</p><p>guerra, mas são impulsionados para isso. Todos ficam terrificados por</p><p>essa miséria que é a guerra, todos gostariam de evitá-la e são</p><p>necessários muitos constrangimentos morais e materiais para obrigá-los</p><p>a abandonar a segurança de seus lares e aqueles que lhes são caros.</p><p>Os homens não participam das guerras porque, crianças, divertiram-</p><p>se com brinquedos imitando armas. E o ensino da história baseado na</p><p>memorização de fatos e datas não é certamente o método ideal para que</p><p>as crianças sejam tomadas do desejo de se transformar em heróis.</p><p>Está claro que a guerra é um fenômeno complexo que precisamos</p><p>analisar e compreender, principalmente em nossa época. A humanidade,</p><p>hoje, está submersa em acontecimentos que afetam o mundo inteiro e</p><p>que a educação ainda não abordou. A humanidade é como uma criança</p><p>que se encontra só, perdida numa floresta, à mercê da mínima sombra</p><p>que vê em seu caminho ou do menor ruído que escuta na escuridão.</p><p>O homem não compreende os acontecimentos que o acabrunham e</p><p>é completamente incapaz de se proteger deles. A sociedade evoluiu num</p><p>plano puramente material, criando imensos mecanismos e meios</p><p>sofisticados de comunicação, mas, durante esse tempo, a humanidade</p><p>permaneceu ignorante e desorganizada. Sim, os povos do mundo são</p><p>desorganizados e cada indivíduo só pensa em seu próprio bem-estar</p><p>imediato.</p><p>A educação, tal como habitualmente é praticada, incita o indivíduo</p><p>a seguir seu próprio caminho e a se preocupar exclusivamente com seus</p><p>interesses pessoais. O que a criança aprende na escola? A não ajudar aos</p><p>outros, a não soprar para seus amigos as respostas que eles</p><p>desconhecem e a se preocupar somente com duas coisas: no final do</p><p>ano, ser promovido para uma classe superior e obter os prêmios que lhe</p><p>angariarão vitórias na competição com seus colegas. E essas crianças,</p><p>transformadas em pequenos pobres egoístas, essas crianças que a</p><p>psicologia experimental provou que eram mentalmente comprometidas,</p><p>encontram-se mais tarde na vida como grãos de areia no deserto, sem</p><p>ligação umas com as outras, isoladas de seus próprios vizinhos e</p><p>estéreis. Se uma tempestade surgir, essas pequenas partículas humanas</p><p>que não possuem nenhuma generosidade espiritual serão pegas pelas</p><p>rajadas de vento e se transformarão num turbilhão mortal!</p><p>Uma educação capaz de salvar a humanidade não é coisa simples.</p><p>Ela implica o desenvolvimento espiritual do homem e o reforço de seu</p><p>valor pessoal. Ela supõe que tornemos os jovens capazes de</p><p>compreender a época em que vivem.</p><p>Qual o segredo de tal educação? Tornar o homem capaz de domar o</p><p>ambiente mecânico que hoje o oprime. O homem, reduzido agora a ser</p><p>um produtor, deve se tornar o mestre da produção. Ciências e técnicas</p><p>permitiram o crescimento do volume dessa produção e provocaram uma</p><p>atividade altamente organizada em todo o mundo. Tornou-se, portanto,</p><p>necessário utilizar a ciência para reforçar os dinamismos do homem e,</p><p>consequentemente, para organizar a humanidade. Os homens já não</p><p>podem ficar na ignorância de sua própria natureza e da do mundo em</p><p>que vivem. A verdadeira calamidade que os ameaça atualmente é</p><p>exatamente esse tipo de ignorância. Devemos organizar nossos esforços</p><p>para a paz e prepará-la cientificamente por uma educação que indique o</p><p>novo mundo a conquistar: o do espírito humano.</p><p>Em nossa própria experiência com crianças, observamos que o filho</p><p>do homem é um embrião espiritual dotado de uma misteriosa</p><p>sensibilidade que o guia, e de um dinamismo criativo que tem por</p><p>finalidade construir em sua alma uma espécie de instrumento</p><p>maravilhoso. Como a estação de rádio que pode receber ondas curtas ou</p><p>longas transmitidas pelo ar, o instrumento que a criança constrói</p><p>progressivamente em sua alma é destinado a receber ondas sagradas,</p><p>que transmitem o amor divino através das esferas infinitas da</p><p>eternidade. E é essa receptividade que dá ao homem seu valor único: o</p><p>homem é grande porque pode receber as emanações do divino.</p><p>A criança é capaz de se desenvolver e de nos dar provas tangíveis</p><p>da possibilidade de uma humanidade melhor. Nela, pudemos perceber o</p><p>processo de edificação do ser humano normal. Vimos crianças mudarem</p><p>totalmente, adquirir amor pelos objetos e desenvolver um sentido de</p><p>ordem e de</p><p>disciplina e uma perfeita tranquilidade diante das</p><p>circunstâncias, em resposta à total liberdade que lhes fora dada. Nós as</p><p>vimos trabalhar regularmente, apoiando-se em seu próprio dinamismo e</p><p>desenvolvendo-o com seu trabalho.</p><p>A criança é, para a humanidade, ao mesmo tempo uma esperança e</p><p>uma promessa. Tomando cuidado com esse embrião como nosso mais</p><p>precioso tesouro, trabalharemos para fazer a humanidade crescer. Os</p><p>homens que educarmos dessa maneira estarão capacitados a usar seus</p><p>poderes divinos para ultrapassar os homens de agora, que confiaram sua</p><p>sorte às máquinas. O que nos é indispensável é a fé na grandeza e na</p><p>superioridade do homem. Já que os homens conseguiram controlar as</p><p>energias cósmicas que atravessam a atmosfera, serão realmente capazes</p><p>de acabar compreendendo que o fogo do gênio, a perspicácia da</p><p>inteligência e a luz da consciência são também energias que devem ser</p><p>organizadas, reguladas, valorizadas e utilizadas para o progresso da vida</p><p>social. Hoje, essas energias estão dispersas ou, antes, reprimidas e</p><p>desviadas pelos erros perpetuados pelo gênero de educação que ainda</p><p>mantém o mundo debaixo da palmatória. O adulto não compreende a</p><p>criança. Os pais, inconscientemente, lutam contra seus filhos em vez de</p><p>ajudá-los na sua missão divina. Pais e filhos não se compreendem. Um</p><p>abismo os separa desde o nascimento da criança. E essa incompreensão</p><p>causa a perdição do homem. Ela entristece o homem, afasta-o,</p><p>empobrece-o e impede-o de desenvolver seu potencial. A</p><p>incompreensão dos adultos contra as crianças carrega em si a tragédia</p><p>do coração humano, que posteriormente se manifesta na insensibilidade,</p><p>na preguiça ou até na criminalidade. Os que foram humilhados têm</p><p>vergonha de si mesmos; os tímidos se escondem em suas conchas; os</p><p>medrosos procuram seu conforto pessoal. Toda a riqueza potencial da</p><p>personalidade humana fica reduzida a nada.</p><p>A educação deve tirar partido do valor dos instintos secretos que</p><p>guiam o homem para construir sua própria vida. Um dos mais</p><p>poderosos é o dinamismo social. Nossa experiência nos mostrou que, se</p><p>a criança e o adolescente não têm a chance de se engajar numa</p><p>verdadeira vida social, eles não desenvolvem seu senso moral nem seu</p><p>senso de disciplina. Nesse caso, essas virtudes são apenas resultado de</p><p>uma montagem, de uma imposição e não manifestações da liberdade.</p><p>A personalidade humana se forma por experiências contínuas. Cabe</p><p>a nós recriar para as crianças, os adolescentes e os jovens um ambiente,</p><p>um mundo que permita essas experiências formadoras. A personalidade</p><p>do jovem só deve entrar em contato com o mundo da produção após</p><p>uma aprendizagem pela experiência. O jovem deve ser guiado para a</p><p>tomada de consciência de suas responsabilidades tendo em vista a</p><p>organização social. Desde a primeira infância, o ser humano deve ter</p><p>experiência concreta do que seja uma associação; só depois disso,</p><p>poderá descobrir, progressivamente, os segredos da evolução técnica da</p><p>sociedade.</p><p>Hoje, temos uma organização de máquinas. O que é necessário são</p><p>homens capazes de usar as máquinas para executar a elevada missão de</p><p>que cada um deles terá consciência e pela qual se sentirá responsável.</p><p>É absolutamente certo que o segredo da força futura do homem</p><p>permanece nele durante seu desenvolvimento, que reside no coração dos</p><p>jovens.</p><p>Os países que querem a guerra chegaram a descobrir o poder</p><p>escondido nas crianças e nos jovens, a lhes dar toda a sua dimensão, a</p><p>organizá-los socialmente e a torná-los uma força ativa na sociedade para</p><p>servir a seus interesses. E aí começa nossa tragédia: essas verdades, até</p><p>aqui, só foram reconhecidas pelas potências que preparam a guerra.</p><p>Mas uma verdadeira e poderosa organização da humanidade não se</p><p>improvisa da noite para o dia. Eis aí um fato de grande importância</p><p>prática. O trabalho de base necessário para tal organização deve</p><p>começar na infância, no início mesmo da vida. Em resumo, a sociedade</p><p>só pode se organizar se a educação oferecer ao ser humano uma série de</p><p>experiências sociais progressivas à medida que passa de um estágio a</p><p>outro da vida.</p><p>Os países que querem a guerra preparam os jovens para a guerra,</p><p>mas os que querem a paz negligenciaram as crianças e os adolescentes,</p><p>porque são incapazes de se organizar para a paz.</p><p>A paz é um princípio prático da civilização humana e da</p><p>organização social que está fundamentada na própria natureza do</p><p>homem. A paz não escraviza o homem, pelo contrário, ela o exalta. Não</p><p>o humilha, muito ao contrário, ela o torna consciente de seu poder no</p><p>universo. E porque está baseada na natureza humana, ela é um princípio</p><p>universal e constante que vale para todo ser humano. É esse princípio</p><p>que deve ser nosso guia na elaboração de uma ciência da paz e da</p><p>educação dos homens para a paz.</p><p>II</p><p>EDUCAR PARA A PAZ:</p><p>SEXTO CONGRESSO</p><p>INTERNACIONAL</p><p>MONTESSORI</p><p>4</p><p>CONFERÊNCIA DE ABERTURA DO</p><p>CONGRESSO[7]</p><p>A cerimônia solene de hoje, na presença de sua excelência, o senhor</p><p>ministro da educação da Dinamarca, marca a abertura de nosso Sexto</p><p>Congresso Internacional. Não é um colóquio pedagógico no sentido</p><p>estrito da palavra. O objetivo de nosso congresso é tomar a defesa da</p><p>criança. O objetivo que nos impusemos foi o de ajudar o mundo dos</p><p>adultos a conhecer, amar e melhor servir a criança e, assim, ajudar toda</p><p>a humanidade a progredir em seu desenvolvimento.</p><p>A criança não deve ser considerada como um ser frágil e impotente</p><p>cujas únicas necessidades seriam ser protegida e ajudada, mas como um</p><p>embrião espiritual, possuidor de uma vida psíquica ativa desde o dia de</p><p>seu nascimento, guiado por instintos sutis que lhe permitem construir</p><p>ativamente sua personalidade humana. E, uma vez que a criança se</p><p>tornará adulta, devemos considerá-la como a verdadeira construtora da</p><p>humanidade e reconhecê-la como nosso pai. O grande segredo de nossa</p><p>origem dormita secretamente nela. As leis que lhe permitem se tornar</p><p>um indivíduo único se manifestam unicamente nela. Nesse sentido, a</p><p>criança é o mestre que nos ensina. Os adultos devem, antes de tudo, ser</p><p>educados para reconhecer essa verdade a fim de poderem mudar seu</p><p>comportamento em vista das gerações que lhes sucedem.</p><p>Considerando a criança como uma tabula rasa passiva, desprovida</p><p>de orientações interiores, seus pais a constrangem, de fato, a se dobrar à</p><p>sua vontade e a se adaptar ao universo dos adultos. O adulto reprime</p><p>dessa forma as tendências receptivas naturais da criança e as pisoteia,</p><p>criando nela defesas e resistências instintivas, irredutíveis, suscetíveis</p><p>de degenerarem em verdadeiras doenças espirituais.</p><p>A vida do homem, então, começa por uma luta inconsciente entre o</p><p>adulto e a criança e, as gerações se sucedendo, o homem permanece um</p><p>ser mal desenvolvido, deformado, uma pessoa distanciada do ideal do</p><p>homem normal, que é dotado de uma personalidade equilibrada nos</p><p>planos afetivo e intelectual.</p><p>Nossa sociedade tem de reconhecer a importância da criança como</p><p>construtora da humanidade. Deve descobrir as estruturas psíquicas que</p><p>impulsionam o adulto a perseguir objetivos, sejam eles negativos ou</p><p>positivos.</p><p>A criança, hoje, é um “cidadão esquecido”. A sociedade deve,</p><p>atualmente, voltar sua atenção para ela e criar um ambiente que possa</p><p>responder a suas necessidades vitais e facilitar sua libertação espiritual.</p><p>A grande missão social que consiste em garantir à criança justiça,</p><p>harmonia e amor ainda está por terminar. Essa tarefa importante volta</p><p>para a educação. É nossa única forma de edificar um mundo novo e de</p><p>construir a paz.</p><p>Abordar o assunto da educação para a paz num momento tão crítico</p><p>como o atual, em que a sociedade está sob uma permanente ameaça de</p><p>guerra, pode parecer a demonstração do ideal mais ingênuo. Creio, no</p><p>entanto, que lançar as fundações da paz pela educação é a maneira mais</p><p>eficaz e mais construtiva de se opor à guerra. Com efeito, as simples</p><p>necessidades dos homens não podem de forma alguma justificar, hoje,</p><p>um combate armado, e a guerra não lhes pode oferecer qualquer</p><p>esperança de algum tipo de melhoria de sua sorte.</p><p>A humanidade caiu em</p><p>tal estado de barbárie e desordem espiritual</p><p>que o indivíduo é apenas um minúsculo grão de areia num deserto</p><p>árido. Cada um permanece inconsciente da verdadeira face de sua</p><p>época, e não faz ideia dos perigos escondidos que ela guarda até o dia</p><p>em que se transforma em vítima impotente dos acontecimentos.</p><p>Em tal situação, só pode haver algum progresso ou qualquer</p><p>esperança de paz se for desencadeada uma ação poderosa e rápida,</p><p>orientada para a própria humanidade.</p><p>Dirigir nossa ação para a humanidade significa, antes de tudo,</p><p>dirigi-la para a criança. A criança, esse “cidadão esquecido”, deve ser</p><p>apreciada em seu real valor. Seus direitos como ser humano que modela</p><p>a humanidade inteira devem tornar-se sagrados e as leis secretas de seu</p><p>desenvolvimento psíquico normal devem iluminar nosso caminho em</p><p>direção à civilização.</p><p>Se toda era da história humana caracterizada por guerras</p><p>incessantes pode ser classificada de “Idade do Adulto”, então, o período</p><p>que começaremos a construir será a “Idade da Criança”.</p><p>A lei da força bruta triunfou no passado. Hoje, as leis da vida</p><p>devem triunfar, por sua vez. Essa aspiração tão complexa não pode ser</p><p>mais bem expressa do que pela palavra educação.</p><p>Vossa Excelência, a generosa hospitalidade oferecida a nosso Sexto</p><p>Congresso pelo governo da Dinamarca é um presságio feliz de paz para</p><p>nós e para o mundo, porque vosso país, hoje, como sempre no passado,</p><p>honra a paz e os tesouros da inteligência humana.</p><p>A Dinamarca está preparada para examinar a questão da criança e</p><p>para promover a educação como principal meio de construir a paz.</p><p>Posso acrescentar que nossa primeira conferência sobre os</p><p>problemas da criança foi também proferida neste país, há oito anos, em</p><p>Elsinore, próximo ao castelo cuja lenda inspirou Shakespeare. Nos anos</p><p>pós-guerra, todas as esperanças de paz foram permitidas e nós, os</p><p>defensores da criança, escolhêramos nos reunir na pátria do gênio que</p><p>foi Hans-Christian Andersen, cujos escritos continuam a encantar as</p><p>crianças do mundo todo. Infelizmente, a guerra não é a realidade de um</p><p>passado esquecido. A humanidade só parará de desencadear batalhas</p><p>quando houver empreendido uma verdadeira reconstrução espiritual.</p><p>Convocamos o mundo a tomar consciência da importância da</p><p>criança no desenvolvimento espiritual da humanidade e nosso apelo se</p><p>dirige, como um lamento, a todos os movimentos intelectuais que se</p><p>interessam apenas pelo adulto. Somos, portanto, particularmente gratos</p><p>a todos os que aqui vieram nos oferecer seu apoio oficial. Estamos</p><p>honrados em ver que muitas autoridades oficiais e muitos governos nos</p><p>trazem sua colaboração e que participantes vindos de 25 países se</p><p>reuniram aqui para este congresso, para escutar a voz tênue da criança,</p><p>que mal começou a se fazer escutar no mundo. Em nome de nossa</p><p>Associação Internacional, quero dirigir todos os nossos agradecimentos</p><p>ao colega Wilhelm Rasmussen, diretor do Instituto para a Formação</p><p>Avançada de Professores de Copenhague, que quis assumir a tarefa de</p><p>organizar este congresso.</p><p>Vossa Excelência, desejo igualmente endereçar o testemunho de</p><p>meu caloroso agradecimento pelo apoio oficial que nos ofereceu desde</p><p>o início.</p><p>Gostaria, também, de expressar minha profunda gratidão a Suas</p><p>Excelências, os senhores Stauning, primeiro-ministro, e Ludvig</p><p>Christensen, ministro dos assuntos sociais, que de bom grado</p><p>apadrinharam a organização deste congresso, aceitando o título de</p><p>presidentes de honra, e também a Sua Excelência, o doutor Munch,</p><p>ministro dos assuntos estrangeiros, que aceitou honrar este congresso</p><p>tomando pessoalmente a palavra. Dirigindo-me aos senhores em nome</p><p>das crianças de todos os países, desejo afirmar, do fundo de meu</p><p>coração: “Viva a Dinamarca! Que ela seja louvada pela nobre e</p><p>generosa hospitalidade que oferece à causa da paz no mundo!”</p><p>Numerosos governos demonstraram seu apoio a este congresso,</p><p>cujo tema é quase uma ordem: “Educar para a Paz”. Bélgica, Catalunha,</p><p>Chile, Checoslováquia, França, Grécia, Haiti, Cantão de Ticino,</p><p>Letônia, México, Romênia, Rússia, Estados Unidos da América e Egito</p><p>enviaram delegações oficiais ou pediram ao representante diplomático</p><p>estabelecido nesta capital para honrar este congresso assistindo</p><p>pessoalmente à sessão de abertura.</p><p>5</p><p>PODE A EDUCAÇÃO HOJE EXERCER</p><p>INFLUÊNCIA SOBRE O MUNDO, E POR QUÊ?</p><p>O assunto sobre o qual me pediram para falar hoje assume um</p><p>significado particular pelo fato de se apresentar na forma de uma</p><p>interrogação: pode a educação hoje exercer uma influência no mundo, e</p><p>por quê?</p><p>Essa formulação demonstra que não estamos certos de que a</p><p>educação exerça uma grande influência em todas as épocas e em todas</p><p>as circunstâncias. De fato, se a educação tivesse tal impacto, se</p><p>conseguisse se opor eficazmente à mobilização das potências armadas,</p><p>poderíamos perguntar por que não pode atingir essa meta no passado. O</p><p>cristianismo há dois mil anos e, antes dele, as grandes filosofias da</p><p>Antiguidade apelaram para os sentimentos de amor e fraternidade</p><p>escondidos na alma humana. No entanto, os homens continuaram a</p><p>guerrear, como se fossem empurrados por uma força irresistível a</p><p>encetar lutas bem diferentes da que Darwin diz que opõe as diversas</p><p>espécies.</p><p>Talvez encontremos pessoas que digam que assim caminha o</p><p>mundo, que sempre foi assim e assim sempre será. Mas, hoje, somos</p><p>forçados a constatar um fenômeno sem precedente. A guerra tem, com</p><p>efeito, assumido formas tão inusitadas que temos boas razões para</p><p>sustentar a seguinte opinião: em nossa época, a história tomou um novo</p><p>rumo e, daqui em diante, desenrola-se num plano muito diferente do do</p><p>passado. O estudo das guerras do passado mostra que elas eram</p><p>consequência da necessidade clara que alguns povos tinham de vencer</p><p>outros ou mesmo de se defender. Outras soluções para os problemas</p><p>humanos teriam sido possíveis, mas, pelo menos, essas guerras traziam</p><p>vantagens a uns, mesmo que em detrimento de outros. E mais, essas</p><p>guerras opunham às vezes uma civilização à outra e constituíam talvez,</p><p>nesse caso, um meio eficaz de seleção. Em alguns casos, provocavam</p><p>importantes misturas de populações e permitiam a propagação da</p><p>civilização, mesmo que, como eu dizia, tais resultados pudessem ser</p><p>alcançados de outras maneiras que não por meio da guerra.</p><p>Atualmente, somos incapazes de ver a menor vantagem que teria</p><p>uma guerra. Alguns poderiam dizer que a conquista de um outro país</p><p>constitui uma vantagem. Mas podemos contestar seriamente tal</p><p>afirmativa. A Dinamarca, por exemplo, atingiu um alto nível de</p><p>civilização sem sentir a necessidade de vencer outros povos! Por que,</p><p>então, deveria ter tal necessidade? Para dispor de mais fontes</p><p>alimentícias? Mas, para atingir esse objetivo, tudo o que um país</p><p>necessita é comprar e produzir gêneros alimentícios! Ou, talvez, para</p><p>facilitar seu desenvolvimento cultural, apoderando-se de melhores</p><p>meios de transporte? Mas, para isso, tudo o que um país precisa é</p><p>comprar veículos e construir estradas. Nada há no mundo o que não</p><p>possa ser fabricado e depois utilizado! Parece-me evidente que seria</p><p>bem mais fácil viver sem todas essas agonias mortais, comprando os</p><p>bens de que temos necessidade onde são produzidos, do que fazer a</p><p>guerra a outros povos para obter esses bens materiais pela força. Ou,</p><p>ainda, as nações recorrem à guerra para se apropriar das descobertas de</p><p>um gênio que vive no país vencido e explorá-las? Mas não há a menor</p><p>descoberta, nenhum progresso intelectual, mesmo que suas origens</p><p>estejam no país mais distante do mundo, que não se propague</p><p>rapidamente de um ponto a outro da Terra, como um líquido circulante</p><p>em vasos comunicantes, que se espalha por toda parte no mesmo nível.</p><p>As velhas razões para fazer a guerra são, então, sem valor. Todavia,</p><p>um fato chocante persiste: uma evolução do ambiente social se</p><p>produziu, sobretudo ao longo dos últimos anos, evolução rápida e</p><p>miraculosa devida a um punhado de homens apenas. Não se faz</p><p>necessário citar seus nomes, porque o que importa é que eles</p><p>representam as forças da inteligência, essa formidável dinâmica, esse</p><p>tesouro inestimável que pode trazer benefícios ao mundo inteiro mesmo</p><p>que brilhe apenas num único indivíduo.</p><p>Mas todas as descobertas e todas as invenções que possamos crer</p><p>serem devidas a um só indivíduo são, de fato, dependentes de uma</p><p>trama subjacente, ignorada, mas sempre presente, constituída por</p><p>trabalhadores que criam alguma coisa que ninguém pode conquistar ou</p><p>se apropriar pela força. A obra deles não é propriedade de país algum,</p><p>ela é mais ou menos um bem comum a todos. Ela é como um estrato</p><p>supernatural que criou um mundo supernatural, a civilização que se</p><p>propagou por toda parte.</p><p>A sociedade se transformou em razão desses sucessos. Mas não</p><p>estamos conscientes dessa mudança, e é isso que caracteriza nossa</p><p>época. A capacidade impressionante do homem de vencer a força da</p><p>gravidade e seu poder sobre elementos antes inacessíveis são a marca</p><p>distintiva de nossa época.</p><p>E mais ainda, todos os homens enriquecem. Direi mesmo que estão</p><p>tão ricos que são vítimas da abundância de bens. Se compararmos nossa</p><p>época com o passado, podemos dizer que é a idade das riquezas. Todas</p><p>as nossas residências têm água corrente e eletricidade. Todos os homens</p><p>têm meios de transporte à sua disposição. Que sorte teve a humanidade</p><p>de atingir tal nível de prosperidade universal!</p><p>Aliás, a humanidade está tão rica que os homens às vezes ficam</p><p>tentados a retomar um modo mais simples de vida. Sentem a</p><p>necessidade de recorrer aos rigores que antigamente eram considerados</p><p>penitência: hoje, por exemplo, muitas pessoas pensam que é bastante</p><p>desejável comer sobriamente e dormir em suas barracas.</p><p>Usufruímos igualmente de uma grande abundância de riquezas</p><p>financeiras. No entanto, mesmo que alguns busquem uma forma de vida</p><p>em certos aspectos mais sã e mais simples, estão habituados a seu</p><p>conforto e não estariam prontos a abandoná-lo. Pregaríamos no deserto</p><p>se tivéssemos a ideia de recomendar o abandono das vantagens</p><p>materiais que a civilização nos oferece. Ninguém negará que os bens de</p><p>que usufruímos hoje – novos meios de transporte, eletricidade, rádio e</p><p>outros – representam uma forma de progresso muito interessante.</p><p>Se disséssemos a um de nossos contemporâneos: “Observe a</p><p>civilização que produziu Demóstenes e Cícero e essas outras figuras do</p><p>passado que tinham uma vida espiritual intensa! Vivamos como eles!</p><p>Abandonemos o progresso de nossa civilização, privemo-nos da</p><p>iluminação elétrica!”, ele protestaria, porque ninguém quer voltar ao</p><p>passado. Todos pensariam que tal sacrifício seria absurdo. E se</p><p>propuséssemos: “Abandone-mos nossos banheiros que nos oferecem</p><p>água corrente e busquemos água nos poços!”, todos protestariam: “Mas</p><p>isso não seria um progresso!”. E se alguém dissesse: “Amigos, é melhor</p><p>dispensar todos esses novos meios de transporte que são os aviões, os</p><p>carros, os ônibus. Andemos a pé ou desloquemo-nos a cavalo!</p><p>Retornando a esses velhos modos de deslocamento nos tornaremos um</p><p>povo mais nobre!”, todos ririam dessa ladainha e a achariam absurda,</p><p>porque tomamos consciência de que o progresso técnico não é inimigo</p><p>do progresso intelectual, mas caminha junto com ele. Estou certa de</p><p>que, se um heroico franciscano, animado por uma vontade de ferro,</p><p>tivesse de se consagrar a anunciar tal mensagem, não teria discípulos</p><p>hoje.</p><p>Como é que pode, então, o nível moral humano ter recuado</p><p>enquanto a civilização progredia? Quando alguém prega que é preciso</p><p>matar os outros, como é que consegue tantos adeptos? Como é que nos</p><p>pedem que nos tornemos heróis, exatamente como no passado, se</p><p>nossas ideias de heroísmo não mudaram nada no mundo? Quanto a nós,</p><p>nossa resposta é a seguinte: a humanidade fez grandes progressos no</p><p>plano material, mas não fez progresso nenhum no plano espiritual. O</p><p>homem ignora totalmente um aspecto dos problemas com que se</p><p>defronta. Nada se empreendeu para fazer progredir seu</p><p>desenvolvimento interior. Sua personalidade permaneceu exatamente a</p><p>mesma que nos séculos passados, mesmo que uma série de mudanças</p><p>no contexto social o obrigue, hoje, a viver num ambiente artificial. Por</p><p>essa razão, os homens se sentem fracos e impotentes diante das</p><p>sugestões vindas de outrem e de seu ambiente material. Não têm</p><p>confiança nos próprios julgamentos e sua personalidade está dividida.</p><p>Eis o que são nossos contemporâneos, e falando gentilmente! Isso</p><p>porque os que estudaram cientificamente o homem moderno têm</p><p>palavras bem mais duras. Eles nos dizem que a luta desesperada do</p><p>homem para se adaptar a seu ambiente, já que não está preparado a</p><p>fazê-lo, provoca modificações da personalidade que podem ser</p><p>qualificadas de patológicas. É o problema mais curioso de nossa época:</p><p>sentimo-nos gratificados por sermos um pouco anormais!</p><p>As estatísticas provam que as instituições psiquiátricas e as clínicas</p><p>para doentes do sistema nervoso estão superlotadas e que quase todas as</p><p>pessoas, num momento ou outro da vida, sentem necessidade de</p><p>consultar um especialista de distúrbios psíquicos, por ter tomado</p><p>consciência de seus problemas.</p><p>Se hoje não somos os únicos a dizer que algumas crianças</p><p>consideradas normais não o são verdadeiramente, fomos realmente os</p><p>primeiros a tomar consciência disso. Fomos os primeiros a ver que esse</p><p>flagelo psíquico é ainda mais devastador hoje do que no passado, pelo</p><p>fato de a criança se encontrar atualmente em uma situação sem</p><p>precedente. Essa situação não pode ser descrita brevemente. Ficaremos</p><p>satisfeitos em dizer que não há lugar para a criança no mundo moderno.</p><p>O mundo da criança é como um cone cuja base se estreita sem parar,</p><p>não lhe deixando espaço. Dizendo que não há espaço em nosso mundo</p><p>para a criança, quero dizer que não há para ela nem espaço físico nem</p><p>espaço no espírito e no coração dos adultos. Estes criam suas leis e as</p><p>fazem evoluir para eles mesmos. E a situação da criança se deteriora na</p><p>proporção que a do adulto melhora. Mesmo os pais, tendo muito a fazer,</p><p>parecem negligenciar seus filhos. Ora, a humanidade está hoje tão fraca,</p><p>tão doente, vítima de tantas tentações, que não tem mais força para</p><p>modificar sua trajetória. É a própria humanidade o maior problema de</p><p>nossa época.</p><p>O desequilíbrio entre o nível de desenvolvimento de nosso</p><p>ambiente exterior e o de desenvolvimento espiritual é chocante. É um</p><p>fenômeno curioso, que tem mais contradições do que o fenômeno da</p><p>guerra. Os homens fizeram tantas coisas e poderiam estar tão ricos! No</p><p>entanto, estão pobres e infelizes. No momento, todos se perguntam</p><p>como fazer para continuar a viver. Tudo evolui, tudo se modifica. A</p><p>humanidade produz muitas riquezas – demais, para falar a verdade – e é</p><p>esse excesso que nos faz, às vezes, querer desesperadamente voltar ao</p><p>passado.</p><p>Uma confusão total reina no mundo! Nossos contemporâneos se</p><p>transformaram em homúnculos, cheios de contradições. Eles nem</p><p>sequer sabem se são ricos ou pobres, doentes ou saudáveis. São vítimas</p><p>das ansiedades, da angústia típica dos muito doentes. Perguntam-se</p><p>como vão poder suportar o golpe. “Como vou me manter?” é a pergunta</p><p>que todos se fazem, neste mundo maravilhoso, cheio de recursos e de</p><p>novas formas de viver. Muitos estariam prontos a sacrificar tudo para se</p><p>livrar dessa angústia, que se assemelha em muito com a ansiedade dos</p><p>pacientes que sofrem de neuroses patológicas. Os homens da</p><p>Antiguidade eram mais simples. Diziam a si mesmos: “Deus proverá!”.</p><p>No mundo deles, havia lugar para o pobre, no meio dos outros que eram</p><p>também pobres, e o indivíduo estava pronto a fazer sacrifícios para</p><p>ajudar um de seus companheiros. Atualmente, nossas ansiedades</p><p>relativas à vida parecem um pouco com a tentativa desesperada de</p><p>alguém que se esforça para sair vivo de um imóvel em chamas. O</p><p>homem está prestes a abandonar praticamente tudo, mesmo sua</p><p>consciência, mesmo seus princípios; está prestes a abandonar sua</p><p>humanidade civilizada, pensando: “Se pelo menos isso me permitisse</p><p>continuar a viver!”.</p><p>Observem, então, o que acontece com o tipo de educação dada</p><p>pelos pais e professores. Eles dizem à criança: “Vamos, você tem de se</p><p>concentrar em seus estudos! Você tem de obter um diploma!</p><p>Você tem</p><p>de conseguir este ou aquele emprego! De outra forma, como você</p><p>viverá?”. Pais e professores de hoje esquecem de dizer as palavras que</p><p>foram a pedra de toque da educação: “Todos os homens são irmãos”.</p><p>Nossos contemporâneos seguem seus caminhos, mas estão secos e</p><p>isolados uns dos outros. Tais homens, ressecados e solitários, não</p><p>podem, mesmo quando reunidos, chegar a formar uma verdadeira</p><p>sociedade, certamente não, em todo caso, uma sociedade fecunda no</p><p>seio da qual o homem possa elevar-se e progredir moralmente. Tais</p><p>homens são como os grãos de areia do deserto. Mesmo reunidos,</p><p>permanecem solitários. O terreno de sua vida social é estéril; a menor</p><p>brisa pode derrubá-los e destruí-los. Uma pequena fonte espiritual, no</p><p>entanto, seria suficiente para transformá-los em terra mais firme e</p><p>menos árida. Seria suficiente que um pouco de vida se desenvolvesse</p><p>para trazer uma mudança benéfica, porque é a vida que muda a areia em</p><p>terra fértil. A verdadeira ameaça que recai sobre a humanidade hoje não</p><p>é tanto a guerra, mas essa aridez desesperada, essa estagnação do</p><p>desenvolvimento. Nossos contemporâneos são infelizes e é esse o traço</p><p>mais inquietante da realidade de nossa época. Eles já não experimentam</p><p>a alegria autêntica. Estão aterrorizados. Sentem-se inferiorizados por</p><p>razões internas. Escondem um vazio em si mesmos. Ora, a natureza tem</p><p>horror ao vazio e trata de preenchê-lo, de uma forma ou de outra.</p><p>O verdadeiro perigo que ameaça a humanidade é a vacuidade da</p><p>alma humana. Tudo o mais é apenas consequência.</p><p>É significativo que seja nessa época de progresso que o homem</p><p>tenha descoberto em si essa forma de doença psíquica que chamamos de</p><p>complexo de inferioridade. O homem, essa criatura que voa pelo céu,</p><p>que capta a música das esferas celestes, que conquistou um poder</p><p>infinito, lamenta sentir-se fraco, impotente e infeliz.</p><p>O problema fundamental é, então, curar a humanidade e adotar o</p><p>conceito elevado de “realeza do homem no universo” como ponto de</p><p>partida do desenvolvimento da personalidade humana. Esse ser humano</p><p>que colocou a seu serviço todas as formas de poder físico deve agora</p><p>domar esses poderes interiores e fazer um apelo a eles, tornar-se mestre</p><p>de si mesmo e soberano deste período da história. Para atingir isso, o</p><p>que valoriza a pessoa deve ser liberado e oferecido como contribuição.</p><p>O poder da personalidade humana deve ser experimentado. É preciso</p><p>ensinar os homens a ver o mundo em toda sua grandeza, a ampliar os</p><p>limites de suas vidas, a permitir que sua personalidade individual se</p><p>expanda até que faça contato com a dos outros.</p><p>Rei do universo, rei do céu e da terra, mestre das coisas visíveis e</p><p>das energias invisíveis, esse é o tipo de homem que deve reinar! A Terra</p><p>toda é incontestavelmente seu domínio, mas seu verdadeiro reino é</p><p>aquele que existe nele mesmo.</p><p>Quero concluir com uma parábola, que pode parecer muito</p><p>frustrante, mas que poderá, apesar de tudo, ilustrar o que eu disse até</p><p>aqui.</p><p>Imaginemos um príncipe, num palácio magnífico, cheio de</p><p>soberbas obras de arte, de tapetes do Oriente, de objetos preciosos e de</p><p>outras belas coisas. Esse príncipe se casa com uma mulher simples,</p><p>originária do povo. Essa brava mulher é acolhida como princesa no</p><p>palácio. Mas ela não presta atenção nos tapetes, sequer imaginando seu</p><p>valor. Ela não sabe nem admirar nem apreciar as obras de arte. O</p><p>príncipe percebe que não é suficiente casar-se com uma mulher simples</p><p>para torná-la uma verdadeira princesa; é necessário que ela receba uma</p><p>educação. Ele, então, providencia sua educação e essa mulher retorna ao</p><p>palácio como uma verdadeira princesa, exultante de tudo o que seu</p><p>destino lhe oferece.</p><p>O mundo civilizado é como o palácio do príncipe e a humanidade,</p><p>como essa mulher do povo. A princesa precisa receber uma educação.</p><p>Eis o verdadeiro problema. Não precisamos de nada mais. O palácio, a</p><p>classe, o título estão à nossa disposição; a única coisa que nos falta é a</p><p>educação.</p><p>A educação é de uma importância imensa atualmente, porque o</p><p>homem possui muito mais do que imagina, bem mais do que pode</p><p>usufruir. Ele tem tudo! Deve apenas aprender a apreciar o que tem, a</p><p>aproveitar o que já possui.</p><p>6</p><p>SEGUNDA CONFERÊNCIA</p><p>Hoje, gostaria de lhes apresentar uma ideia cuja importância me</p><p>parece decisiva: o gênero de educação de que temos necessidade para</p><p>fazer avançar a causa da paz é, forçosamente, complexo e difere</p><p>completamente do que se compreende geralmente pela palavra</p><p>educação.</p><p>A educação, tal como a praticamos habitualmente, não representa</p><p>qualquer papel na resolução das questões sociais importantes e</p><p>estimamos que ela não tenha nenhum efeito na situação da humanidade</p><p>tomada como um todo. Em suma, consideramos que seu impacto seja</p><p>muito restrito. Se desejamos que a educação concorra para a paz, é</p><p>necessário, universalmente, considerá-la um fator indispensável e</p><p>fundamental da paz, um ponto de partida, uma questão de interesse vital</p><p>para o conjunto da humanidade.</p><p>Quando analisamos as questões sociais, vemos que a criança é</p><p>totalmente ignorada, como se não fosse membro da sociedade. No</p><p>entanto, se consideramos a influência que a educação pode ter sobre a</p><p>edificação da paz mundial, fica claro que a criança e sua educação</p><p>devem tornar-se nossa preocupação prioritária, porque concluímos que a</p><p>educação pode ter uma influência decisiva sobre a humanidade e é</p><p>exatamente por essa razão que dizemos que a educação é muito</p><p>importante.</p><p>A educação já não pode ser vista como algo que serve apenas para</p><p>transmitir um ensinamento às crianças, ela é uma questão social da mais</p><p>alta importância. É uma causa que diz respeito a toda a humanidade.</p><p>Todas as outras questões sociais concernem apenas a um ou outro grupo</p><p>de adultos, que têm um número relativamente restrito de seres humanos,</p><p>ao passo que a questão social da criança compete, absolutamente, a</p><p>todos os homens, onde quer que estejam.</p><p>Frequentemente, deparamo-nos com questões sociais que trazem</p><p>problemas aparentemente insolúveis. Estou convencida de que nossa</p><p>incapacidade de resolvê-las vem da nossa inaptidão de tomar</p><p>consciência de um fator crucial: o ser humano que é a criança.</p><p>Debatemos abundantemente fatos sociais graves, mas são sempre</p><p>ligados ao adulto. Ora, esse adulto que já refletiu tanto sobre si mesmo,</p><p>que se esforçou para tornar sua vida mais agradável, esqueceu uma</p><p>grande parte dele mesmo, pois nenhum homem nasceu adulto. Com que</p><p>idade, então, tornamo-nos seres humanos, transformamo-nos nesse ser</p><p>social que proclama ter direitos?</p><p>O homem é um ser humano desde o dia de seu nascimento e até</p><p>mesmo desde o dia de sua concepção. Até bem pouco tempo, a</p><p>sociedade só se preocupava com a criança para lhe oferecer o mínimo</p><p>de instrução indispensável. Hoje, inquietamo-nos, também, com a saúde</p><p>física da criança, mas trata-se aí de higiene, e não de educação.</p><p>Podemos dizer que, nos primeiros anos da vida da criança, apenas nos</p><p>preocupamos do ponto de vista físico, vemos a criança apenas como um</p><p>corpo. A partir de que idade começamos a considerá-la um ser humano</p><p>à parte e completo?</p><p>Fica claro que damos prova de uma deplorável falta de lucidez ao</p><p>não reconhecer a criança como uma pessoa de grande valor humano,</p><p>com direitos sociais sagrados. Essa afirmação vai, sem dúvida,</p><p>surpreender muitas pessoas, que a acharão enormemente exagerada,</p><p>talvez absurda. Imediatamente, objetarão: “Como podemos ser acusados</p><p>de não reconhecer a criança, sendo ela a menina de nossos olhos, nossa</p><p>esperança? Acusados de não nos preocuparmos com ela, nós que somos</p><p>pais tão conscienciosos, tão conscientes de nossas responsabilidades?”.</p><p>Certamente, amamos as crianças, amamos muito mesmo, mas não as</p><p>reconhecemos pelo que são realmente. Amamos nossas crianças, ou</p><p>pensamos amá-las, mas não as compreendemos. Não fazemos o que</p><p>deveríamos fazer, exatamente porque não temos a menor ideia do que</p><p>deveríamos fazer para elas nem do lugar que deveriam ocupar na</p><p>sociedade.</p><p>Há algum tempo, começou-se a fazer uma pergunta muito</p><p>importante sobre o papel das mulheres na sociedade. Ora, não</p><p>se fez</p><p>sobre esse assunto o mesmo questionamento que hoje se faz sobre as</p><p>crianças e seu papel na sociedade?</p><p>Das mulheres, os homens diziam que era absurdo pretender que</p><p>elas fossem seres humanos esquecidos. “Vocês ousam dizer que</p><p>negligenciamos as mulheres!”, escutava-se falar. “Não veem que</p><p>fazemos o possível por elas, que as amamos muito, que as protegemos,</p><p>que estamos prontos para morrer por elas, que trabalhamos toda nossa</p><p>vida para elas?” Não era menos verdade que a questão do lugar da</p><p>mulher na sociedade estava colocada. Da mesma forma como está</p><p>colocada a questão do lugar da criança na sociedade.</p><p>Já faz algum tempo que afirmamos que a concepção que os adultos</p><p>têm da criança é errônea. O adulto comete um grave erro quando se</p><p>coloca como criador da criança e crê que ela lhe deva tudo. O adulto</p><p>considera a criança mais ou menos como um receptáculo vazio que ele</p><p>deve preencher.</p><p>O adulto crê que é o criador da criança e, no entanto, normalmente,</p><p>ele deveria ser apenas o servidor de sua criação. E tudo o que consegue</p><p>fazer é ser um ditador cujos desejos a criança deve obedecer cegamente.</p><p>O adulto viu essa espécie de ditadura como um de seus próprios</p><p>problemas sociais, sem jamais perceber que é o problema social das</p><p>crianças.</p><p>O problema não se resolve tão facilmente, como muitos pedagogos</p><p>modernos creem, quando afirmam: “Permitamos às crianças fazer tudo</p><p>o que querem! Demos-lhes total liberdade e inclinemo-nos diante dessa</p><p>parcela da humanidade!”. Se os seguíssemos, o mundo ficaria de cabeça</p><p>para baixo e haveria uma revolução das crianças. O que é realmente</p><p>necessário é tomar consciência de que há um problema autêntico a ser</p><p>resolvido, um problema de educação.</p><p>Felizmente, a própria criança nos ajuda a resolver esse problema.</p><p>Evidentemente, ela não pode resolvê-lo por nós, mas, revelando-nos sua</p><p>verdadeira natureza, ela pode ajudar a mudar radicalmente nossas ideias</p><p>sobre o que seja educação, permitindo-nos adotar em relação a ela um</p><p>caminho fundamentalmente prático, experimental e científico.</p><p>Como quase todo mundo sabe, os primeiros anos da vida de uma</p><p>criança são os mais importantes do ponto de vista de seu</p><p>desenvolvimento corporal. Nós mesmos descobrimos que isso é</p><p>igualmente verdadeiro em relação ao seu desenvolvimento psíquico.</p><p>Assim, se quisermos fazer da educação uma preparação para a vida e</p><p>um meio de reforçar o valor da vida, é desde o nascimento que devemos</p><p>iniciar a educação de uma criança. O período mais importante na</p><p>educação é o primeiro, pelo fato de, nessa fase, a personalidade da</p><p>criança ser ainda simples. Ela se desenvolve progressivamente, passo a</p><p>passo. As leis do crescimento do psiquismo humano podem, então, ser</p><p>percebidas bem claramente, como na embriologia podemos ver o</p><p>desenvolvimento de organismos complexos em seus estados iniciais.</p><p>Como deve ser, então, a educação nos primeiros anos da vida de</p><p>uma criança? Para nós, a educação não é uma instrução, no sentido</p><p>habitual dessa palavra, que consiste em transmitir um conjunto de</p><p>saberes à criança durante sua escolaridade; para nós, a educação é uma</p><p>forma de proteção, de ajuda dada, respeitando as leis da vida.</p><p>A educação deve ajudar o psiquismo da criança se desenvolver</p><p>desde o nascimento, porque, desde o nascimento, a criança tem uma</p><p>vida psíquica. Numerosos dados científicos que confirmam essa visão</p><p>começam a ser publicados. Os estudos sobre a consciência do recém-</p><p>nascido e os resultados de testes realizados neles com apenas duas horas</p><p>de vida estão entre os documentos mais impressionantes de nossa</p><p>época. Desde o instante de seu nascimento, a criança nos aparece como</p><p>um verdadeiro mistério, como um ser que pode ser qualificado como</p><p>embrião espiritual.</p><p>Em meu livro A criança,[8] abordei brevemente esses fatos</p><p>importantes. A criança é inteligente e pode ver e reconhecer objetos a</p><p>partir de uma idade em que seu espírito era antes considerado</p><p>totalmente vazio. Com quatro meses, um bebê já viu tudo o que se</p><p>encontra à sua volta e pode até reconhecer as imagens dos objetos. Com</p><p>um ano, já viu tanta coisa que os objetos mais comuns já não lhe</p><p>interessam, ele procura coisas menos evidentes. Quando entra no</p><p>segundo ano, já é esnobe: são-lhe necessárias coisas mais interessantes,</p><p>invisíveis, por exemplo, para chamar sua atenção; de outra forma, ele se</p><p>aborrece. Isso é tão verdadeiro que costumamos dizer “ele ainda não</p><p>entende”. Tudo isso torna a acontecer mais tarde, e os professores</p><p>sabem como é difícil entretê-lo. Coisa estranha, no entanto verdadeira,</p><p>poderíamos dizer que a criança é a criatura que mais se aborrece no</p><p>mundo desde os primeiros meses de vida, é um ser infeliz, que chora</p><p>muito. Berra tanto que se chegou a pensar que precisava gritar para</p><p>exercitar a voz. A criança, de fato, tem grandes capacidades, uma viva</p><p>sensibilidade interior; ela gosta muito de observar e de agir. Todos esses</p><p>traços nos levaram a concluir que a criança é um ser animado por</p><p>paixões intensas. Sim, a criança tem uma grande paixão por aprender.</p><p>Se não fosse esse o caso, como poderia encontrar seus pontos de</p><p>referência? A criança tem tendências naturais – que podemos chamar de</p><p>instintos, impulsos vitais ou dinâmicas interiores – que lhe dão uma</p><p>grande faculdade de observação e uma paixão por certas coisas e não</p><p>por outras. Ela pode despender tal energia no que lhe interessa que não</p><p>há outra explicação a não ser uma espécie de instinto.</p><p>Tomemos, por exemplo, seu sentido de ordem. Os objetos que estão</p><p>sempre no mesmo lugar lhe servem de referência, permitindo-lhe</p><p>orientar-se observando o ambiente mais próximo. O simples fato de</p><p>encontrar um objeto fora de seu lugar habitual pode mexer com ela e</p><p>provocar uma violenta crise de choro, que comumente chamamos de</p><p>“acesso de raiva”. Esse gênero de sensibilidade, de que geralmente não</p><p>temos a mínima ideia e que frequentemente se expressa violentamente,</p><p>ajuda-a a adquirir certos comportamentos.</p><p>Esses acessos de sensibilidade, nós os nomeamos de “períodos</p><p>sensíveis”.[9] Num determinado momento, esses períodos sensíveis</p><p>terminam e, se um comportamento não é perfeitamente adquirido</p><p>durante essa fase, ficará sempre imperfeitamente desenvolvida. As</p><p>formas de desenvolvimento, não apenas das crianças mas também dos</p><p>animais, foram estudadas e parece que todos os seres vivos têm essa</p><p>espécie de períodos sensíveis particulares durante o desenvolvimento.</p><p>Essas sensibilidades desaparecem mais tarde, mas geram</p><p>comportamentos específicos que são definitivamente adquiridos se</p><p>aprendidos durante essas fases.</p><p>Uma das mais importantes aquisições da criança é o uso da palavra.</p><p>Um bebê de seis meses consegue distinguir o som da voz humana em</p><p>meio a numerosos outros barulhos do ambiente e começa a agrupar</p><p>esses sons. Se fosse apenas um mecanismo que se contentasse em</p><p>registrar os ruídos e imitá-los indistintamente, um bebê que vivesse</p><p>próximo à linha férrea se poria a assobiar como uma locomotiva e</p><p>continuaria a fazê-lo por toda a vida! Ora, isso não acontece nunca.</p><p>Parece, então, que alguma coisa no interior da criança lhe permite</p><p>distinguir o som da voz humana de todos os demais barulhos e faz com</p><p>que ela fique tão fascinada pela palavra humana que começa a falar. Se</p><p>há uma coisa que não podemos negar é que só se pode aprender</p><p>perfeitamente uma língua na primeira infância. Se um adulto e uma</p><p>criança pequena vão morar em um outro país, a criança aprenderá</p><p>rapidamente a falar a língua como um nativo, ao passo que o adulto terá</p><p>sempre um sotaque “estrangeiro”.</p><p>A criança possui grandes capacidades que nós, adultos, perdemos.</p><p>Ela é, portanto, um ser diferente de nós. Também temos grandes</p><p>capacidades, evidente. Podemos raciocinar logicamente, por exemplo.</p><p>Mas a criança tem um poder que não possuímos, o de construir o</p><p>homem. O que deve o adulto fazer diante desse embrião espiritual?</p><p>Deve apenas permitir que ele empreenda suas próprias conquistas.</p><p>Se a criança não tem a possibilidade de usar sua inteligência, esta se</p><p>atrofia. A criança precisa ter alguma coisa para fazer, dispor de objetos</p><p>sobre os quais possa</p><p>agir. Colocar tais objetos a seu alcance é criar um</p><p>ambiente em que ela possa atuar. Quando esse ambiente deve ser criado</p><p>à sua volta? Desde que a criança começa a se mover. Geralmente, os</p><p>adultos impedem a criança de ser ativa e pensam que assim eles a</p><p>“formam”. O adulto é um ditador. Um ditador quer que os outros</p><p>obedeçam à sua vontade e se recusa a lhes reconhecer a personalidade.</p><p>O problema principal, para o adulto, é fazer a criança obedecer. É</p><p>preciso tratá-la com gentileza ou severidade? O adulto nada sabe e, por</p><p>isso, é ora indulgente, ora rigoroso, mas, num caso como no outro, não</p><p>consegue se fazer obedecer e a criança não muda sua maneira de agir.</p><p>Portanto, o problema não reside na forma como a criança deve ser</p><p>tratada pelos adultos. A verdadeira questão é o ambiente que</p><p>oferecemos às crianças. Devemos construir um ambiente para a criança</p><p>em que ela possa ser ativa!</p><p>É por isso que afirmo que não é coisa pequena colocar em prática</p><p>um tipo de educação apta a favorecer o desenvolvimento da</p><p>humanidade. Precisamos edificar um universo especialmente concebido</p><p>para as crianças e os jovens, um mundo de que, hoje, ainda não vimos</p><p>sequer um sinal precursor.</p><p>As crianças são normais na medida em que podem se dedicar a</p><p>atividades características de sua idade e toda criança que não o pode</p><p>fazer se torna anormal. É por isso que temos aí um problema social</p><p>fundamental.</p><p>Esses pequeninos seres humanos, que não podem se exprimir por si</p><p>mesmos, dizem-nos, no entanto: “Nós temos o direito a um mundo só</p><p>nosso”.</p><p>A educação deve começar no dia do nascimento da criança. Ela tem</p><p>de poder viver num ambiente idealizado para ela, um ambiente que</p><p>responda a suas necessidades.</p><p>Uma nova ciência deve ser criada, graças à qual daremos os</p><p>primeiros passos no caminho da edificação de um mundo pacífico.</p><p>Estabelecer a harmonia entre a criança e o adulto e dar um lugar no</p><p>mundo a esses pequenos seres humanos que, atualmente, não o têm, são</p><p>os nossos objetivos. Eles nos mostram a extensão da obra de</p><p>reconstrução que precisamos empreender.</p><p>7</p><p>PARA QUE A EDUCAÇÃO AJUDE NOSSO</p><p>MUNDO ATUAL</p><p>Qual é a tarefa que toca à educação? Antes de mais nada, é a de</p><p>fechar as brechas, de preencher as lacunas e isso não é trabalho simples.</p><p>Os objetivos fundamentais são a tomada de consciência do valor da</p><p>pessoa humana e o desenvolvimento da humanidade.</p><p>Qualquer um que se fixe esses dois objetivos pode ficar tentado a</p><p>crer que o progresso da humanidade depende da criação de uma pessoa</p><p>humana pacífica e que a massa dos indivíduos educados dessa forma</p><p>terminará por fundar uma sociedade pacífica.</p><p>Se acrescentarmos que o esforço de tomar consciência do valor do</p><p>homem deve estar baseado em sua própria natureza e adotar as</p><p>tendências naturais da criança como ponto de partida, podemos ficar</p><p>tentados a pensar que, inicialmente, é preciso determinar a atividade ou</p><p>a profissão futura da criança. Mas não penso que possamos atingir</p><p>nosso objetivo seguindo esse caminho. Ele só nos conduziria a vãs</p><p>especulações sobre a orientação profissional, em vez de atacar a</p><p>reforma fundamental da organização social. Por outro lado, cada vez</p><p>que se tentou descobrir a verdadeira natureza da criança, oferecendo-lhe</p><p>a possibilidade de revelar suas tendências interiores, fizeram-se</p><p>surpreendentes descobertas. A criança mostrou algo completamente</p><p>inesperado e deu provas tão flagrantes disso que estamos diante de algo</p><p>incontestável. A criança diz: “Não me ajude! Não me atrapalhe! Deixe-</p><p>me tranquila!”.</p><p>Todos os adultos tiveram essa experiência, mas não prestaram</p><p>atenção nela, ou melhor, não quiseram dobrar-se ao pedido da criança,</p><p>porque parecia simplista.</p><p>De fato, assim que damos à criança a liberdade de movimentar-se</p><p>num mundo de objetos, ela tem, naturalmente, a tendência de executar</p><p>por si mesma a tarefa de seu desenvolvimento. Digamos de maneira</p><p>bem clara: a criança quer fazer tudo por si mesma. Mas o adulto não a</p><p>compreende e uma luta cega se inicia. A criança não gosta nem de ficar</p><p>à toa nem de fazer coisas inúteis, como a maioria das pessoas pensa. Ela</p><p>persegue um objetivo bem preciso e, instintivamente, vai direto ao</p><p>ponto. Esse instinto que a obriga a fazer as coisas por si mesma nos dá a</p><p>responsabilidade de preparar um ambiente que lhe permita</p><p>verdadeiramente se desenvolver. Quando se libera dos adultos</p><p>opressores que agem em seu lugar, a criança realiza seu segundo</p><p>objetivo, trabalhar positivamente rumo a sua autonomia.</p><p>Afirmar que a criança deve ser livre é enunciar um lugar-comum.</p><p>Mas que liberdade realmente lhe demos? A única verdadeira liberdade</p><p>para um indivíduo é a de ter a possibilidade de agir de forma autônoma.</p><p>É a condição sine qua non da individualidade. Não pode haver</p><p>individualidade se a pessoa não pode agir por si mesma. O instinto</p><p>impulsionador da criança para conquistar sua autonomia nos leva,</p><p>então, a tomar consciência de tudo o que a natureza demonstra, a saber,</p><p>que toda associação, de qualquer natureza, é fundamentada sobre</p><p>individualidades distintas. De outra forma, não haveria sociedades, mas</p><p>apenas colônias animais.</p><p>Na natureza, observamos um nível inferior, constituído por colônias</p><p>animais, nas quais os indivíduos são apenas corporalmente distintos,</p><p>mas não são autônomos, e um nível superior, no qual cada indivíduo é</p><p>distinto e autônomo e funciona por si mesmo. O indivíduo é a unidade</p><p>base, elemento constitutivo de uma sociedade. Esta é composta por</p><p>numerosos indivíduos, cada um funcionando de forma autônoma,</p><p>porém, associando-se aos demais para um fim comum. Encontramos</p><p>muitos exemplos na natureza. Muitos membros de uma mesma espécie</p><p>cumprem, juntos, uma função específica para a manutenção do</p><p>equilíbrio da economia global da Terra. Suas ações podem ser</p><p>ilimitadas, ao passo que a função cumprida pelas colônias é sempre</p><p>restrita. Raramente, o indivíduo vive uma vida inteira isolado dos</p><p>outros. Ele é feito, ao contrário, para associar-se a muitos outros. Tal</p><p>tipo de associação pode ser organizada ou não. Neste último caso, não</p><p>constitui uma sociedade, mas uma agregação de indivíduos, cada um</p><p>funcionando isoladamente.</p><p>Podemos agora ver mais claramente o que esses dois conceitos</p><p>implicam. A educação tem de promover simultaneamente o</p><p>desenvolvimento do indivíduo e o da sociedade. A sociedade não pode</p><p>se desenvolver se a autonomia das pessoas não progride. Podemos</p><p>verificá-lo observando as crianças, que cedo utilizam sua independência</p><p>recém-adquirida para agir no ambiente social. A maior parte de nossas</p><p>ações não teria sentido se não houvesse outros homens ao nosso redor e</p><p>se apenas as empreendêssemos porque vivemos em associação com os</p><p>outros. A partir do momento em que a criança começa a se desenvolver</p><p>num ambiente concebido para ela e consegue agir por si mesma,</p><p>independentemente dos adultos, ela estabelece rapidamente uma</p><p>harmonia não exclusivamente entre ela e seu ambiente, mas ainda entre</p><p>ela e o adulto.</p><p>Esse processo de liberação é extremamente importante, porque a</p><p>criança que é livre para agir se cura de todas as suas deformações</p><p>psíquicas, libera-se completamente e torna-se mestra de seus próprios</p><p>dinamismos. O fato de que tal transformação só possa provir de uma</p><p>atividade livre demonstra, a contrario, que uma criança privada de tal</p><p>atividade é uma criança deformada.[10]</p><p>É interessante observar como alguns comportamentos –</p><p>considerados normais e constatados em crianças de todas as raças e de</p><p>todos os meios sociais –, tais como a mentira, a desordem, os acessos de</p><p>mau humor, a preguiça, a atitude sonhadora etc., desaparecem em tal</p><p>ambiente e são substituídos por comportamentos completamente</p><p>diferentes. Pode-se facilmente mudar o comportamento da criança,</p><p>oferecendo-lhe uma atividade construtiva, calma, que estimule sua</p><p>inteligência.</p><p>A educação deve se preocupar com o desenvolvimento da</p><p>individualidade da criança e permitir-lhe que fique independente, não</p><p>apenas ao longo de seus primeiros anos, mas ainda em todas as etapas</p><p>de seu desenvolvimento. É também necessário desenvolvermos a</p><p>individualidade da criança enquanto</p><p>a fazemos participar de uma</p><p>verdadeira vida social. Essas duas dimensões tomarão, certamente,</p><p>formas diferentes nas diversas etapas da infância e da adolescência. Mas</p><p>o princípio permanecerá ao longo de todas essas fases: é preciso</p><p>oferecer à criança, a todo momento, os meios dos quais ela precisa para</p><p>agir e fazer experiências. Sua vida de ser social se desenvolverá, então,</p><p>ao longo dos anos formadores, tornando-se cada vez mais complexa</p><p>conforme ela crescer.</p><p>A criança não pode se desenvolver se não tem a seu redor objetos</p><p>que lhe permitam agir. Até o momento, acreditava-se que a forma de</p><p>ensino mais eficaz era aquela em que os conhecimentos fossem</p><p>ensinados diretamente pelos professores. Mas, na verdade, é o ambiente</p><p>o melhor mestre. A criança precisa de objetos para agir; eles funcionam</p><p>como um alimento para seu espírito.</p><p>Se refletirmos sobre tudo o que os homens construíram no mundo e</p><p>sobre as fabulosas melhorias que trouxeram a seu ambiente físico,</p><p>somos levados a pensar que a missão da humanidade no cosmo é</p><p>transformar a natureza.</p><p>Já foi dito que o maior prazer do homem é possuir. Qual nada! O</p><p>maior prazer do homem é usar as coisas! Usá-las para seu progresso e</p><p>ao mesmo tempo melhorar seu ambiente.</p><p>Há uma interação constante entre o indivíduo e seu meio. A</p><p>utilização dos objetos transforma o homem e o homem transforma os</p><p>objetos. Essa ação recíproca é uma manifestação do amor do homem</p><p>por seu ambiente. A interação harmoniosa – tal como a constatamos, por</p><p>exemplo, na criança – constitui a relação normal que deve existir entre o</p><p>indivíduo e seu meio. E essa relação é uma relação amorosa. O amor</p><p>atrai a criança não para os objetos, mas para o trabalho que eles lhe</p><p>proporcionam. E, quando ela se dedica a um trabalho num certo</p><p>ambiente, também se empenha numa associação com os colegas, porque</p><p>ninguém pode trabalhar sozinho. E é assim que evolui a vida: uma</p><p>forma interessante de trabalho aparece; ela promove a individualidade,</p><p>o que, por sua vez, reforça a personalidade. Mas, se isso não acontece,</p><p>se, por exemplo, o indivíduo está impedido de agir, ele começa a querer</p><p>possuir tudo o que está à sua volta. Em vez de trabalhar com os outros,</p><p>ele briga. Sua relação com os outros não é mais de colaboração, mas de</p><p>conflito.</p><p>Essa importante revelação, nós a devemos à criança. No</p><p>desenvolvimento da personalidade, dois caminhos são possíveis: um</p><p>conduz ao homem que ama, o outro ao homem que possui. Um conduz</p><p>ao homem que conquistou sua independência e trabalha</p><p>harmoniosamente com os outros, o outro, ao homem subjugado, que se</p><p>torna escravo de suas próprias posses ao tentar libertar-se, e que acaba</p><p>por odiar seus companheiros. Esses dois caminhos podem ser chamados</p><p>caminho do Bem e caminho do Mal. O primeiro conduz ao céu, o outro,</p><p>ao inferno; um conduz o homem à sua perfeição supernatural, o outro o</p><p>faz descer abaixo de sua condição natural.</p><p>Não é por livre escolha que o homem se serve de um desses</p><p>caminhos. O rumo que ele toma depende da possibilidade que teve ou</p><p>não de se desenvolver normalmente.</p><p>Quando os indivíduos se desenvolvem normalmente, sentem</p><p>profundamente o amor não apenas pelas coisas, mas também por todos</p><p>os seres vivos. Esse tipo de amor não pode resultar de um ensinamento</p><p>recebido; ele resulta naturalmente da existência correta que se leva.</p><p>Podemos dizer que, se o amor aparece, estamos no domínio do normal,</p><p>caso contrário, estamos no domínio do anormal.</p><p>O amor não é a causa, mas o efeito do desenvolvimento normal do</p><p>indivíduo. Certas situações na vida oferecem o mesmo tipo de</p><p>experiência. O que chamamos de amor entre um homem e uma mulher,</p><p>por exemplo, só é possível quando as pessoas atingiram um certo nível</p><p>de desenvolvimento, o mesmo acontece no que se refere ao amor de</p><p>uma mãe por seu filho.</p><p>Podemos aprender a amar, por exemplo? Como isso poderia ser</p><p>possível se a causa da qual o amor é efeito estivesse ausente? Podemos,</p><p>ao menos, ensinar o amor fraternal, o amor pela humanidade, propondo-</p><p>o como um ideal abstrato? Se queremos realizar esse ideal, devemos,</p><p>inicialmente, organizar a humanidade corretamente, de acordo com as</p><p>leis da humanidade. Para ser capaz de falar desse amor, de experimentá-</p><p>lo, devemos antes obedecer às leis da natureza humana, ou melhor, da</p><p>supernatureza humana. Temos inúmeras provas de que esse amor pode</p><p>existir. Muitos homens demonstraram esse gênero de amor pela</p><p>humanidade que é mesmo a essência de cada pessoa. Alguns homens se</p><p>“salvaram” do naufrágio da humanidade e viveram uma vida ativa e</p><p>simples, a vida, de fato, das crianças. Esses homens que ganharam sua</p><p>própria salvação e que chamamos de santos deram ao mundo a prova de</p><p>um amor que pode ser aproveitado por toda a humanidade.</p><p>A criança que desenvolve um amor forte por seu meio e por todos</p><p>os seres vivos, que descobre a alegria e o entusiasmo no trabalho, dá-</p><p>nos motivo para esperar que a humanidade possa se orientar numa nova</p><p>direção. Nossa esperança de paz para o futuro não repousa sobre os</p><p>conhecimentos formais que o adulto pode transmitir à criança, mas</p><p>sobre o desenvolvimento do homem novo.</p><p>Eis precisamente o que nos permite acreditar que grandes</p><p>possibilidades existem, que temos ainda uma esperança de salvação: um</p><p>desenvolvimento normal dos homens que, felizmente, não depende do</p><p>que tentamos ensinar à criança.</p><p>O que podemos fazer é estudar esse fenômeno com a objetividade</p><p>do cientista – quer dizer, estudar os fatos que o determinam e descobrir</p><p>as condições necessárias para sua realização – e continuar a seguir a via</p><p>que leva à normalidade. O que podemos e devemos fazer é empreender</p><p>a construção de um ambiente que oferecerá as condições adequadas</p><p>para um desenvolvimento normal das crianças.</p><p>A dinâmica psíquica da criança, uma vez revelada, desenvolve-se</p><p>segundo suas próprias leis e tem um efeito benéfico até mesmo sobre</p><p>nós. O simples contato com um jovem ser humano se desenvolvendo</p><p>renova nossas próprias energias. A criança se desenvolvendo</p><p>harmonicamente e o adulto melhorando, por sua vez, não</p><p>encontraremos aí uma imagem muito emocionante e completamente</p><p>motivadora?</p><p>Eis a maravilha que precisamos atingir: ajudar a criança a se tornar</p><p>independente de nós e a seguir seu próprio caminho, para receber de</p><p>volta seus tesouros de esperança e de luz.</p><p>Nessa nova imagem, o adulto aparece não apenas como o</p><p>construtor do mundo exterior, mas sobretudo como o protetor das forças</p><p>morais e espirituais que não param de surgir em cada novo ser humano</p><p>que nasce.</p><p>8</p><p>O NECESSÁRIO ACORDO UNIVERSAL PARA</p><p>QUE O HOMEM ESTEJA</p><p>MORALMENTE ARMADO PARA DEFENDER A</p><p>HUMANIDADE</p><p>O título desta conferência indica a necessidade que temos de</p><p>realizar um acordo moral unânime entre todos os homens para perseguir</p><p>os objetivos da educação.</p><p>Quando falamos de paz, não falamos de uma trégua parcial entre</p><p>nações tomadas separadamente, mas de um modo de vida permanente</p><p>para toda a humanidade. Esse objetivo não pode ser atingido pela</p><p>assinatura de tratados pelas nações isoladamente. O problema, para nós,</p><p>não reside na ação política para salvar uma ou outra nação. Não, nossos</p><p>esforços devem se consagrar à resolução de um problema de</p><p>desenvolvimento mental que envolve toda a humanidade e, em</p><p>consequência, à conquista de um conceito claro do tipo de moral</p><p>necessária para a defesa da sociedade toda, pois, hoje, não é apenas uma</p><p>nação que está ameaçada de destruição, mas toda a humanidade, de um</p><p>lado ao outro da Terra, com seus diferentes povos, qualquer que seja o</p><p>estágio de civilização atingido por cada um.</p><p>Quando um perigo ameaça uma nação, todos os seus cidadãos se</p><p>unem em sua defesa e, frequentemente, a ameaça mesma do perigo une</p><p>um país até então dividido em facções políticas ou religiosas rivais. O</p><p>perigo que nos ameaça hoje talvez nos tenha sido enviado pelo destino,</p><p>para que toda a humanidade se una em sua própria defesa.</p><p>Se essa ameaça criou o contexto psicológico necessário para a</p><p>adoção por todos de uma atitude comum, é evidente que não podemos</p><p>nos defender contra essa situação perigosa pela força das armas,</p><p>a única</p><p>defesa possível é de ordem mental. Ela deve estar fundamentada no</p><p>conhecimento do funcionamento da sociedade e na formação moral.</p><p>Talvez nos perguntemos: “O que é a moral? Quando ela se torna</p><p>uma arma para a defesa da humanidade?”.</p><p>Não podemos tomar essa palavra “moral” no seu sentido estrito</p><p>usado comumente. Nossa concepção da moral, hoje, expressa-se em</p><p>certo número de preceitos: não prejudicar os outros, promover a justiça,</p><p>amar nosso próximo como a um irmão. Mas, se queremos utilizar a</p><p>moral como um meio de defesa de toda a humanidade, não podemos</p><p>nos contentar com um ideal vago; é preciso que haja um fundamento</p><p>concreto e positivo.</p><p>Inicialmente, devemos conhecer bem a condição humana e os</p><p>fenômenos que a governam. Ora, esses não são completamente</p><p>evidentes. Em vão, procuraríamos descobrir no passado da humanidade</p><p>a menor lição que pudesse nos ajudar a encontrar nosso caminho neste</p><p>período crítico de nossa história social. Há uma grande quantidade de</p><p>fenômenos obscuros à nossa volta, sendo a guerra o mais obscuro.</p><p>Vou expor alguns exemplos concretos, ilustrando a que ponto</p><p>tateamos no que se refere ao estado mental da humanidade que ameaça</p><p>destruí-la. Entre os remédios sugeridos para combater o espírito</p><p>guerreiro, fala-se em ensinar a história às crianças de um novo ângulo.</p><p>Mas é evidente que a forma habitual de ensinar a história em nossas</p><p>escolas não tem qualquer ligação direta com os fenômenos</p><p>contemporâneos. Nossa análise não deve ser precipitada, porque se, na</p><p>nossa tentativa de remediar nossa situação pela educação, introduzimos</p><p>alguma coisa inútil, tomaremos um falso caminho.</p><p>As guerras não começam por causa dos ressentimentos inculcados</p><p>nas crianças pelo ensino da história. Hoje, não é o ódio que leva os</p><p>homens à guerra. A humanidade começou, há muito tempo, a tentar</p><p>ultrapassar o que chamamos comumente de “nacionalismo”, a tal ponto</p><p>que, justamente nos dias de hoje, lamentamos profundamente a falta de</p><p>patriotismo.</p><p>A nova visão que os homens têm do mundo os dispôs a pensar nas</p><p>regiões que há além das fronteiras de seus próprios países e eles</p><p>continuam a ter essa atitude. Hoje, onde quer que estejam, querem saber</p><p>o que acontece nos cantos mais recônditos do planeta e até constatá-lo</p><p>com os próprios olhos; cada vez mais, as pessoas querem viajar,</p><p>percorrer as estradas e os caminhos do mundo; cada vez mais, as</p><p>pessoas exprimem uma necessidade de aprender outras línguas, até</p><p>mesmo de aprender uma língua universal que lhes permita</p><p>comunicarem-se mais eficazmente com as pessoas de todos os outros</p><p>países e entrar em contato mais estreito com os outros povos do mundo.</p><p>Mais que nunca, os homens estão fascinados pelos povos que</p><p>vivem em regiões distantes: japoneses, chineses, indianos. E cada vez</p><p>mais as pessoas são capazes de satisfazer esse desejo de ver o mundo,</p><p>porque os novos meios de deslocamento permitiram ao homem vencer</p><p>formidáveis barreiras geográficas. Há algum tempo, os homens</p><p>manifestam claramente o desejo de se misturar a outras populações, de</p><p>ver como os outros vivem. As medidas tomadas para encorajar os</p><p>intercâmbios e as viagens ao estrangeiro são uma resposta a essas novas</p><p>aspirações. O apego arcaico à “região de onde venho” e à “minha</p><p>região” deu lugar a um intenso desejo de visitar todas as regiões do</p><p>globo.</p><p>Por que, então, tentou-se de forma orquestrada, fechar fronteiras,</p><p>estabelecer controles aduaneiros e impedir a troca de moedas, com a</p><p>única finalidade de entravar a liberdade de deslocamento entre os</p><p>países? Refletindo sobre tal absurdo, tomamos consciência de que nos</p><p>defrontamos com um enorme problema, que comporta fatos que</p><p>provocam ruínas terríveis e permanecem misteriosos.</p><p>A organização social de hoje implica, de fato, mecanismos sobre os</p><p>quais a maior parte da humanidade não tem qualquer ideia. Os homens</p><p>são apenas vagamente conscientes da existência de fatores econômicos</p><p>que determinam alguns fatos. Mas, se esses fatores e outros ainda</p><p>desconhecidos existem, então, devemos saber do que se trata e explicá-</p><p>lo.</p><p>Mudar a maneira como a história é ensinada nas escolas não é de</p><p>importância primordial. É muito menos importante do que analisar a</p><p>estrutura atual de nossa sociedade, uma estrutura da qual o resto da</p><p>humanidade é completamente ignorante, já que a educação não permite</p><p>aos homens compreenderem os acontecimentos contemporâneos. A</p><p>criação de uma ciência que estude nossa época, uma ciência da paz, é a</p><p>grande urgência atual.</p><p>Essa ciência deveria, na minha opinião, ter por finalidade analisar</p><p>duas realidades e nos mostrar como tirar partido delas. A primeira é a</p><p>seguinte: há atualmente um novo tipo de criança. Obtivemos resultados</p><p>apenas oferecendo às crianças os meios necessários para seu</p><p>desenvolvimento normal. Graças a isso, descobrimos leis que mostram</p><p>que o homem é completamente diferente do que críamos que fosse. A</p><p>segunda realidade é a evolução recente da humanidade: de muitos</p><p>modos, ela se tornou uma nação única. Temos inumeráveis provas da</p><p>unidade do conjunto da sociedade do ponto de vista tanto econômico</p><p>como intelectual.</p><p>A interdependência dos diversos povos da Terra os uniu, o que,</p><p>aliás, demonstram as guerras dos tempos modernos. A vitória, hoje,</p><p>longe de enriquecer os vencedores, coloca sobre eles o pesado fardo que</p><p>são os vencidos. Uma outra prova da unidade da humanidade? As</p><p>nações que retomaram o nacionalismo foram obrigadas a romper</p><p>numerosos laços que as uniam a outras nações.</p><p>Por seus princípios, os nacionalistas sentiram a necessidade de</p><p>impedir que seus concidadãos deixassem o país, de impor restrições aos</p><p>intercâmbios, de promover uma fixação exagerada e artificial dos</p><p>cidadãos a suas pátrias, habituando-os, desde o nascimento, a seguir</p><p>interesses nacionais essencialmente limitadores.</p><p>Como tal fenômeno de coerção brutal pode se produzir em tantos</p><p>países? Porque os laços entre as nações foram estabelecidos apenas por</p><p>mecanismos superficiais, sem qualquer fundamento moral para</p><p>sustentá-los. O internacionalismo político foi fundado apenas sobre os</p><p>interesses de uma fração da população, tendendo a promover uma</p><p>unidade baseada na negação dos direitos do resto da população e sobre a</p><p>destruição de seus valores morais específicos.</p><p>É, no entanto, um fato que, quando tanto nacionalistas como</p><p>internacionalistas se esforçam por guiar uma nação em determinada</p><p>direção, não o fazem da mesma maneira que no passado. Antigamente,</p><p>tentavam influenciar os adultos e não se ocupavam das crianças. Hoje,</p><p>nacionalistas e internacionalistas se esforçam igualmente em doutrinar</p><p>tanto crianças como adultos.</p><p>Esses dois movimentos são poderosos e cada um deles tem</p><p>partidários animados por ideias novas, que parecem surgir de um</p><p>abismo como torrentes que brotam de profundezas insondáveis. Nos</p><p>países em que nenhuma dessas duas correntes ideológicas é</p><p>predominante, seus adeptos representam um perigo que obriga,</p><p>imperativamente, a tomarem-se medidas defensivas adequadas.</p><p>Esses dois movimentos, que se abrem para objetivos opostos, e no</p><p>entanto se parecem, tendem a se propagar como uma epidemia e tornam</p><p>as pessoas extremamente temerosas. O medo de uma vitória durável</p><p>dessas ideologias é tamanho que a maior parte das pessoas se resigna a</p><p>ficar sob o domínio de uma ou de outra. Elas se perguntam, então, qual</p><p>é preferível, à qual devem aderir. Um como outro, esses movimentos</p><p>foram lançados para corrigir erros sociais, mas suas tentativas para</p><p>remediar esses erros são tão excessivas que eles devem ser, os dois,</p><p>reconhecidos como doenças sociais graves e perigosas. Escolher entre</p><p>os dois é como escolher entre a peste e a cólera. Mesmo que a peste</p><p>possa afastar a cólera e vice-versa, o melhor seria, indubitavelmente,</p><p>retomar a boa saúde.</p><p>A humanidade ter chegado hoje a essa situação é sinal de que as</p><p>circunstâncias atuais não têm nada em comum com os eventos do</p><p>passado e isso mostra que a estrutura social de nossa época merece ser</p><p>estudada como um fenômeno totalmente novo.</p><p>A cumplicidade de interesses que existe entre os homens e a</p><p>unidade que se</p><p>dizemos: o homem pode</p><p>mudar? A natureza humana pode mudar? Não foi o homem feito para a</p><p>cobiça, a conquista, o domínio, a irresponsabilidade, a simplificação, o</p><p>gosto pelas bandeiras e pelos slogans, a acumulação? E todas essas</p><p>questões remetem certamente à questão da educação. Maria Montessori</p><p>escrevia há 60 anos: “A criança tem um poder que não temos: o de</p><p>construir o homem por ela mesma”. E, 60 anos depois, Jacques Delors,</p><p>apresentando o relatório da comissão internacional da Unesco sobre a</p><p>educação para o século XXI, com o título “A educação, um tesouro a</p><p>descobrir”, não diz outra coisa, pois clama por uma nova “utopia</p><p>necessária”...</p><p>Mudar a representação do mundo, construir a fraternidade mundial</p><p>das crenças, aprender a interdependência que nos une e a diversidade</p><p>que nos enriquece, aprender a responsabilidade: tudo isso se faz na</p><p>educação. É certamente em nossas escolas que se constrói o mundo de</p><p>amanhã. E, lá ainda, nos próprios métodos de educação, as ideias de</p><p>Maria Montessori estão cada vez mais atuais.</p><p>Ela já havia entendido essa realidade que nos é agora</p><p>particularmente tangível e evidente: vivemos uma tríplice crise neste</p><p>fim de século, a das relações dos homens entre si, das sociedades entre</p><p>elas e dos homens em seus ambientes. Essas crises são inseparáveis.</p><p>Não se pode esperar, contrariamente ao que parecem crer os defensores</p><p>da ecologia profunda, construir relações harmoniosas entre os homens e</p><p>seus ambientes sem construir, ao mesmo tempo, a harmonia das</p><p>relações entre os homens. Como as crianças poderiam ter uma</p><p>compreensão respeitosa de suas relações com o meio natural, se não</p><p>tivessem o mesmo respeito pelos colegas?</p><p>Assim, ela compreendeu como, no mundo a construir, a capacidade</p><p>de gerar a complexidade era decisiva. Ora, essa capacidade repousa</p><p>sobre uma abordagem experimental do mundo. Ela supõe o vaivém</p><p>entre a experiência e sua análise, entre a reflexão e a ação. Nossas</p><p>formações intelectuais e universitárias estão cristalizadas em</p><p>escolásticas, disciplinas e laboratórios. Edgard Pisani[1] observou que</p><p>há dois níveis de síntese: o terreno – a realidade local – e a filosofia. E</p><p>isso supõe novas relações entre experiência e reflexão; “dar à criança</p><p>um trabalho para fazer com as mãos enquanto trabalha com a mente”,</p><p>dizia Maria Montessori.</p><p>E concluía: “O homem deve conquistar a Terra. Se ele não se</p><p>desenvolve normalmente, ele o faz pela violência e pelo ódio”. Edgard</p><p>Morin, 60 anos depois, fala, por sua vez, de “civilizar a Terra”. A ideia é</p><p>a mesma. A amplitude dos impactos da ação humana sobre o planeta,</p><p>decuplicada pelo crescimento da população e pelo desenvolvimento</p><p>econômico e técnico, está agora no mesmo patamar dos grandes</p><p>equilíbrios ecológicos. Essa mudança quantitativa é uma mudança</p><p>qualitativa. É uma transformação radical do espírito humano. Desde</p><p>sempre, o homem estava acostumado a pensar que era um pequeno ser</p><p>diante da natureza imensa, frequentemente hostil, revirada por imensas</p><p>forças tectônicas, oceânicas, climáticas, imensuráveis em relação a ele.</p><p>E havia aprendido a nela se movimentar como num sistema aberto,</p><p>infinito. Com a mudança da escala do impacto do homem sobre o</p><p>planeta, a mudança é radical. A Terra não é apenas conquistada, ela</p><p>pode ser destruída, não mais por cataclismos militares, mas pela soma</p><p>das imprevidências e ganância civis. O homem conquistou a Terra.</p><p>Desse fato, ele se tornou corresponsável. Onde se aprenderá essa</p><p>responsabilidade?</p><p>Pierre Calame</p><p>APRESENTAÇÃO DA EDIÇÃO ITALIANA</p><p>Em seus incessantes esforços para destacar novas perspectivas,</p><p>Maria Montessori, qual uma força da natureza, parecia irresistível.</p><p>Médica, foi encaminhada pelos acasos da existência a tratar de</p><p>crianças física e mentalmente anormais.[2] Dedicou-se a elas de corpo e</p><p>alma. Sete anos mais tarde, a providência a colocou em contato com um</p><p>grupo de crianças normais de idade pré-escolar. Para elas, Maria</p><p>Montessori criou em Roma, em 6 de janeiro de 1907, sua primeira Casa</p><p>dei Bambini (Casa das Crianças). Essas crianças lhe revelaram</p><p>comportamentos que não tinham sido considerados até então, porque os</p><p>métodos coercitivos de educação, tanto em casa como na escola,</p><p>haviam-nos impedido de se manifestar. No contato com essas crianças,</p><p>Maria Montessori descobriu verdades que ignorávamos totalmente. Ela</p><p>validou suas descobertas com múltiplas experiências e um paciente</p><p>trabalho com crianças de diferentes meios sociais e culturais do mundo</p><p>inteiro. Com sabedoria, foi capaz de expor claramente suas descobertas</p><p>intuitivas. Tendo estabelecido solidamente suas teorias sobre a base de</p><p>sua experiência prática, desenvolveu uma verdadeira filosofia da</p><p>educação e traçou perspectivas novas, que, com o tempo, iriam</p><p>progressivamente revelar seu valor excepcional.</p><p>Em todos os seus escritos, Maria Montessori esforça-se para propor</p><p>uma nova compreensão das potencialidades e das necessidades das</p><p>crianças, especialmente nos primeiros anos. Formula também uma</p><p>crítica aprofundada dos erros e preconceitos do passado, crítica que não</p><p>é estéril nem negativa.</p><p>Desde 1932, torna-se difícil prosseguir seu trabalho na Itália e, em</p><p>1934, ela viu fecharem-se as portas de seu próprio país. Mas, a contar</p><p>desse ano, seu nome, que parecia empalidecer na Itália, tornou-se</p><p>conhecido em outros países do mundo.</p><p>A guerra ameaçava a Europa e todos a temiam. Maria Montessori já</p><p>não estava na Itália, mas permanecia extremamente inquieta em razão</p><p>não de problemas políticos impostos pela guerra, mas dos dramas</p><p>humanos que inevitavelmente a guerra engendra. Ela estava angustiada</p><p>com essa preocupação, como estivera com a questão da educação das</p><p>crianças pequenas. Ela apelou, mais uma vez, a seus extraordinários</p><p>poderes mentais. E, da mesma forma que a experiência advinda do</p><p>contato com as crianças lhe permitira descobrir as leis do</p><p>desenvolvimento humano, a realidade dos preparativos para a guerra a</p><p>fez se engajar numa nova pesquisa apaixonada das novas verdades</p><p>humanas. Apoiando-se na sua convicção de que a criança tem muito a</p><p>nos ensinar e partindo de suas ideias sobre os benefícios de um</p><p>desenvolvimento livre, harmonioso e equilibrado da pessoa humana, ela</p><p>se pôs a estudar a questão do desenvolvimento social e humano e se</p><p>lançou numa cruzada em favor da educação: “O estabelecimento de</p><p>uma paz duradoura é o objeto mesmo da educação, a responsabilidade</p><p>da política não é mais do que nos preservar da guerra”.</p><p>Suas ideias, tão fulgurantes, traziam esperança aos países da</p><p>Europa. Associações e grupos políticos se aliavam a ela, adotando sua</p><p>fé na educação e na salvação, cujo caminho as crianças poderiam</p><p>indicar. Maria Montessori lançou as grandes palavras guerra e paz.</p><p>Essas noções se transformaram na base de um novo espírito crítico que</p><p>atacava maneiras tradicionais e antigas de concebê-las. Surgiam novas</p><p>verdades, mais bem adaptadas ao pensamento moderno. Ela mesma</p><p>examinava esse novo problema com a atenção penetrante e a</p><p>honestidade que sempre marcaram sua busca da verdade.</p><p>Em 1932, ela expôs sua análise do problema da paz num discurso</p><p>de grande importância, pronunciado no Escritório Internacional de</p><p>Educação de Genebra, que, naquele momento, era o centro do</p><p>movimento europeu pela paz. O leitor encontrará esse texto na presente</p><p>coletânea.</p><p>Em 1936, aconteceu em Bruxelas um congresso europeu pela paz,</p><p>consagrado aos aspectos políticos da questão. Maria Montessori nele fez</p><p>várias conferências sobre a paz. Figuravam, também, entre os</p><p>palestrantes, vários eminentes dirigentes políticos europeus. Quando a</p><p>guerra civil eclodiu na Espanha, ela se refugiou em Londres, onde fez</p><p>vários discursos importantes sobre a paz.</p><p>Em 1937, o governo dinamarquês ofereceu ao movimento</p><p>Montessori a própria sala do parlamento, em Copenhague, para seu</p><p>importante congresso “Educar para a paz!”. Dirigindo-se à assembleia,</p><p>a doutora Montessori desenvolveu, numa série de conferências, as</p><p>ideias inerentes à defesa moral da humanidade.</p><p>Sob os auspícios da Sociedade Científica de Utrecht, em dezembro</p><p>de 1937, ela fez três conferências</p><p>forjou entre eles provém, antes de mais nada, do</p><p>progresso científico, das descobertas, das invenções e da proliferação de</p><p>novas máquinas. Sob a influência desses fatores, os interesses da</p><p>humanidade se unificaram, ao passo que, ao mesmo tempo, brechas</p><p>enormes surgiam no psiquismo do homem e os erros, provocando o</p><p>confronto entre os homens, perpetuavam-se e nem sempre eram</p><p>corrigidos pela educação.</p><p>O homem contemporâneo, vítima de sua época, deve tornar-se o</p><p>mestre. Se os homens estivessem preparados para suas condições de</p><p>vida, estariam à altura de controlar os eventos em lugar de serem</p><p>vítimas impotentes e estariam no caminho da boa saúde social em vez</p><p>de estarem acabrunhados por uma série de crises e de catástrofes. A</p><p>humanidade, em vez de estar paralisada pelo medo, como está hoje,</p><p>estaria consciente de sua força. Ela teria a coragem e a capacidade de se</p><p>organizar para concretizar seus próprios objetivos.</p><p>Para atingir esse objetivo, novas ciências precisam ser criadas,</p><p>novas disciplinas capazes de evidenciar os novos ideais e de disseminá-</p><p>los da maneira como as ideologias em conflito fizeram sua propaganda.</p><p>Como disse anteriormente, há duas realidades que podem servir de</p><p>pedras angulares para uma nova organização da humanidade: a</p><p>totalmente nova união do gênero humano e a nova criança.</p><p>Uma nação única e um ser humano melhor: são essas as duas</p><p>grandes realidades de hoje. O novo ser humano deve nos mostrar como</p><p>manter o conjunto da humanidade consciente de sua unidade. Os seres</p><p>humanos que devem criar esse mundo novo são diferentes de nós. Tal</p><p>novo mundo já está se estabelecendo, sem que o percebamos. Podemos</p><p>verificar os presságios dele quase que por toda parte. Em meio às</p><p>sombras das dúvidas e dos temores que pairam sobre o gênero humano,</p><p>podemos desde já entrever a luz que as dissipará, porque uma nova</p><p>sociedade surge. A humanidade nova que edifica um novo mundo já</p><p>existe!</p><p>9</p><p>QUINTA CONFERÊNCIA</p><p>A educação que permitirá caminhar em direção a uma nova</p><p>humanidade tem uma única finalidade: conduzir o indivíduo e a</p><p>sociedade a um estado superior de desenvolvimento. Esse conceito</p><p>implica numerosos fatores e pode parecer obscuro, mas torna-se mais</p><p>claro se tomarmos consciência de que a humanidade tem uma missão</p><p>coletiva a cumprir na Terra, uma missão que envolve toda a humanidade</p><p>e, portanto, cada ser humano. Esse conceito pode nos permitir</p><p>estabelecer um objetivo preciso para nossos esforços. Mas qual pode</p><p>ser, afinal, essa missão da humanidade?</p><p>Essa missão é a predominância de uma nação sobre outra? Será a de</p><p>dar ao povo o poder? Será ela o progresso industrial ou cultural? E o</p><p>indivíduo, que missão considerará como sua? Assegurar para si e para</p><p>os outros seus meios de subsistência? Garantir a possibilidade de dar</p><p>uma educação a seus filhos? Parece que, bem além desses objetivos,</p><p>que se referem aos interesses do indivíduo ou de determinados grupos,</p><p>há alguma coisa que tange a toda a humanidade, e talvez até o universo</p><p>em seu conjunto, a criação, a harmonia cósmica.</p><p>Poderíamos considerar que essa “alguma coisa” implica um ideal</p><p>religioso. Mas o que gostaria de debater com vocês é a ideia de que a</p><p>ciência poderia desempenhar um papel predominante ao nos permitir</p><p>descobrir essa missão universal única.</p><p>É possível considerar a vida de todas as criaturas da Terra de um</p><p>ponto de vista único e gostaria de fazer algumas considerações sobre as</p><p>pesquisas modernas no domínio da geologia e da evolução.</p><p>O fato mais interessante, um fato verdadeiramente impressionante</p><p>que se destaca dessas pesquisas, é que a Terra é uma criação da vida.</p><p>Foi a vida que criou o solo e é a vida que mantém o equilíbrio da Terra.</p><p>Sim, a Terra é obra de seres vivos. O equilíbrio químico dos oceanos é</p><p>mantido constante por seres vivos e são seres vivos que mantêm a</p><p>pureza do ar.</p><p>Todas as criaturas que vivem sobre a Terra têm uma função cósmica</p><p>a desempenhar. A manutenção da vida sobre a Terra depende de</p><p>numerosas espécies, das quais cada uma tem uma função específica. Os</p><p>animais se alimentam, vivem e se reproduzem; cada um tem um ciclo</p><p>de vida que tem determinada relação com a vida de outras espécies.</p><p>Todos sabem que o desaparecimento de uma espécie num lugar</p><p>qualquer modifica o equilíbrio global, porque todas as espécies</p><p>interagem. A vida pode, então, ser considerada uma dinâmica</p><p>automantenedora.[11]</p><p>Gostaria agora de propor uma pergunta: o homem também não tem</p><p>uma missão cósmica a cumprir na Terra? É concebível que esse ser,</p><p>dotado de tal inteligência, trabalhador por excelência, não tenha</p><p>nenhum papel a desempenhar no funcionamento do cosmo?</p><p>A dinâmica humana também apareceu na Terra para empreender e</p><p>concretizar uma missão específica.</p><p>Que o homem tenha uma missão parece-me bastante evidente e vou</p><p>tentar mostrá-la. O homem extraiu das entranhas da Terra suas riquezas</p><p>escondidas e suas energias fantásticas e criou um supermundo ou, mais</p><p>precisamente, uma supernatureza. À medida que construía essa</p><p>supernatureza, ele ia se aprimorando e, de homem natural, transformou-</p><p>se em homem supernatural. A natureza existe há milênios. A</p><p>supernatureza, essa é uma nova realidade que o homem elaborou</p><p>progressivamente.</p><p>O homem contemporâneo já não vive no seio da natureza, mas no</p><p>seio dessa supernatureza. Um animal pode retirar seu alimento</p><p>diretamente da terra, o homem depende dos outros homens. Para que o</p><p>pão que comemos chegue a nossas mãos, quantos homens tiveram que</p><p>penar? E esses frutos, de regiões distantes que saboreamos, que vasta e</p><p>rigorosa organização humana, unindo toda a sociedade, é necessária</p><p>para que eles cheguem até nós!</p><p>É preciso que tenhamos consciência dessa organização se queremos</p><p>eliminar certas ideias, errôneas mas frequentemente divulgadas, que são</p><p>expressas por jargões como “voltemos à natureza!” ou “fundamo-nos</p><p>com a natureza!”.</p><p>A vida que levamos e que alguns classificam como “artificial” é</p><p>nada mais que a vida supernatural da humanidade. Nosso modo de vida</p><p>não é artificial, ele resulta simplesmente de nosso trabalho. Se não</p><p>fizéssemos essa distinção, seríamos tentados a dizer que até mesmo o</p><p>modo de vida de alguns animais é artificial, o das abelhas, por exemplo,</p><p>que produzem “artificialmente” o mel. O homem é um grande operário,</p><p>capaz de criar uma supernatureza com seu trabalho.</p><p>Poderíamos perguntar: se os animais trabalham com tanto</p><p>empenho, por que os homens não encontram prazer em trabalhar? O</p><p>homem não deveria ser mais feliz que os animais? Sua infelicidade é a</p><p>prova de que ele tem vícios intrínsecos à organização da sociedade</p><p>humana e da supernatureza que a humanidade construiu.</p><p>O homem deve penar não apenas para atender a suas necessidades e</p><p>às de sua família, mas também para se transformar no instrumento de</p><p>alguma coisa grandiosa e impressionante, servir não exclusivamente a</p><p>seus interesses particulares, mas ainda aos da humanidade toda. Desse</p><p>ponto de vista, a história da humanidade torna-se muito interessante.</p><p>Estudando o homem dessa perspectiva, somos testemunhas de seus</p><p>esforços, a princípio, para explorar a terra e extrair suas riquezas,</p><p>depois, para explorar o céu e domar energias invisíveis, infinitas,</p><p>ilimitadas. Uma conquista humana imensa, fantástica! E, no entanto, o</p><p>homem hoje considera sua simples sobrevivência física como um</p><p>problema!</p><p>O homem não está consciente de sua missão nem das alturas que</p><p>atingiu. A humanidade está doente, como um organismo que sofre de</p><p>uma doença circulatória. O homem está fraco e infeliz. No entanto,</p><p>continua a perseguir sua missão irresistível e a humanidade está agora</p><p>unida como uma nação única.</p><p>E o homem, essa pobre criatura franzina, pode ser curado se o</p><p>desejar. Basta-lhe abrir os olhos, retificar seus erros e tomar consciência</p><p>de seus poderes. Quando afirmamos que os homens devem desenvolver</p><p>os meios de comunicação e troca que se lhes oferecem, apontamos uma</p><p>finalidade que não podem alcançar imediatamente. A humanidade</p><p>precisa, antes, estar convencida da urgência desse objetivo. Os homens</p><p>devem ser educados. É verdade que a educação</p><p>pode criar um tipo de</p><p>homem melhor, mas esse é um grande empreendimento. É um trabalho</p><p>que pode levar tempo, mas será pouco tempo em comparação com o</p><p>que foi necessário para todo o trabalho que o homem já concretizou.</p><p>A primeira coisa a ser feita é construir um ambiente que responda</p><p>às necessidades do jovem. O que foi feito, até aqui, para esse período da</p><p>vida humana que precede a idade adulta? O que foi feito pelas crianças,</p><p>pelos jovens? Praticamente nada, ou muito pouco! Ao contrário dos</p><p>animais, que fazem muito por seus filhotes, o homem, ser inteligente</p><p>que trabalha com suas mãos, não chegou a construir para seus</p><p>descendentes em escala comparável. Nesse mundo, com toda sua</p><p>abundância de grandes construções, com todo o seu conforto, o que ele</p><p>fez pelas crianças? Não basta amá-las de forma abstrata; é necessário</p><p>começar a empreender para elas alguma coisa de concreto, de prático,</p><p>começar a construir a supernatureza indispensável a suas vidas de</p><p>crianças e adolescentes.</p><p>Permitam-me dizer, brevemente, o que, no nosso caso, fizemos</p><p>dessa perspectiva. Construímos, de início, um ambiente que oferece</p><p>todos os pequenos objetos necessários à vida das crianças. Elas não nos</p><p>agradeceram, mas nos revelaram o tesouro escondido da alma humana.</p><p>E esse conhecimento da alma humana, da sua grandiosidade e de suas</p><p>capacidades, constitui, a nosso ver, ao mesmo tempo, uma advertência e</p><p>uma esperança.</p><p>Continuemos, então, nossos esforços! Construamos um ambiente</p><p>para as crianças e os jovens; a gratidão que receberemos será a luz de</p><p>que precisamos para ver os erros intrínsecos da supernatureza que nós,</p><p>adultos, criamos exclusivamente para nós. Devemos erigir alguma coisa</p><p>nova e não oferecer aos maiores os mesmos objetos que aos mais</p><p>jovens. Os pequenos utensílios e as miniaturas não interessam mais às</p><p>crianças depois dos 7 anos. Elas precisam de outras coisas. Os grandes</p><p>sufocam entre as quatro paredes de uma “casa”.[12] Eles precisam sair e</p><p>explorar o mundo. Precisam de um horizonte social mais amplo. O ser</p><p>humano sente, de forma intensa, a necessidade de despender esforços</p><p>autênticos, que lhe permitam avaliar seu próprio valor. O movimento</p><p>dos escoteiros respondeu parcialmente a essa necessidade. A ideia de</p><p>organização para os jovens não é errada. O erro é não responder às</p><p>exigências mais pessoais dos jovens.</p><p>É mais do que hora de corrigir essas falhas, de suscitar uma grande</p><p>reforma, de oferecer aos jovens os meios necessários para seu</p><p>desenvolvimento e a afirmação de sua personalidade.</p><p>Essa tarefa não pode exclusivamente recair sobre as iniciativas</p><p>privadas; é toda a sociedade que é chamada a cumpri-la. É vital que a</p><p>organização da vida dos jovens seja tomada como responsabilidade da</p><p>coletividade. A criança, a partir dos 12 anos, já deveria tomar parte ativa</p><p>na vida social; deveria trabalhar, produzir e vender, não para aprender</p><p>um ofício, mas porque o trabalho é uma forma de entrar em contato com</p><p>a vida, uma participação na edificação da supernatureza. Esses jovens</p><p>deveriam poder efetuar transações econômicas, aprender o valor do</p><p>dinheiro e tomar parte, conscientemente, em atividades produtivas.</p><p>Os objetos feitos cuidadosamente à mão foram hoje substituídos</p><p>por artigos produzidos em massa pelas máquinas, mudança que se fez</p><p>necessária pela cadência acelerada da vida dos homens. Mas o</p><p>artesanato, que produz belos objetos e que a sociedade tenta reviver,</p><p>poderia perfeitamente ser confiado aos jovens. Esperemos que o</p><p>artesanato artístico não se tenha perdido pelo simples fato de existirem</p><p>as máquinas. Possam os jovens ter a possibilidade de continuar a</p><p>produzir amorosamente belas coisas! O espírito criativo dos jovens</p><p>pode, aliás, realizar muitas outras coisas. A botânica, por exemplo,</p><p>precisa de um olhar atento e de um bom julgamento. Os jovens podem</p><p>fazer, com paixão, na calma e na serenidade, um belo trabalho, que</p><p>permita à jovem personalidade se desenvolver e encontrar objetivos</p><p>dignos dela. Se os jovens são, em dado momento, chamados a participar</p><p>ativamente da vida da humanidade, devem antes perceber que têm uma</p><p>grande missão a realizar e preparar-se para ela. E devem ter a</p><p>possibilidade de meditar um pouco sobre ela. Chamamos esse período</p><p>de “período do deserto”. O próprio Cristo, logo que saiu da infância,</p><p>isolou-se no deserto antes de iniciar sua altíssima missão. O homem</p><p>preparado dessa forma realizará sua missão fiel e conscienciosamente.</p><p>Hoje, exortamos o jovem a estudar, a redobrar seus esforços, a não</p><p>perder seu tempo, a se lançar no mundo. Pobre jovem! Quando termina</p><p>seus estudos, não conhece nada da vida social e se sente perdido. Por</p><p>que foi necessário trabalhar tão duro? Por que teve de estudar se os</p><p>livros não têm, agora, mais importância?</p><p>Mas não posso avançar nesse tema. Diria apenas que, tal como</p><p>vemos, o homem precisa ser incitado a buscar a universalidade até o dia</p><p>de sua morte. O homem assim preparado, consciente de sua missão no</p><p>cosmo, será capaz de construir um mundo novo, um mundo pacífico.</p><p>10</p><p>CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO DO</p><p>CONGRESSO</p><p>Da parte de todos os membros do congresso, gostaria de agradecer</p><p>calorosamente à cidade de Copenhague pela hospitalidade tão generosa</p><p>que nos ofereceu, da mesma forma que aos membros do governo</p><p>dinamarquês, que quiseram participar do congresso, trazendo assim seu</p><p>apoio à grande questão social de nossa época, o problema social da</p><p>criança.</p><p>Gostaria também de agradecer aos governos dos países que</p><p>enviaram uma delegação a esse congresso para manifestar seu apoio</p><p>moral à causa sagrada da criança.</p><p>Gostaria de agradecer, enfim, a todos os membros dessa</p><p>assembleia, que vieram de países longínquos e que assistem todos os</p><p>anos às nossas reuniões, provando assim, regularmente, por seus</p><p>exemplos, a determinação de todos de permanecermos unidos nesse</p><p>esforço para salvar a humanidade. Vieram de numerosos países</p><p>distantes, mesmo da América, e sua presença, repito, demonstra como é</p><p>importante, hoje, liberar os valores humanos das sombras ameaçadoras</p><p>que pairam sobre eles.</p><p>O tema de nosso congresso era “Educar para a Paz”. Os que</p><p>tomaram parte nele vieram em razão, certamente, de seu interesse pela</p><p>educação, mas também foram atraídos pelo objetivo que fixamos para a</p><p>educação, a saber, a edificação da paz. Vindo, deram prova de sua boa</p><p>vontade e, da perspectiva do objetivo que nos fixamos, esperamos que</p><p>estejam prontos não apenas a aderir às ideias propostas, mas ainda a</p><p>tomar decisões concretas para colocá-las em prática, porque a paz só</p><p>poderá ser estabelecida por uma ação construtiva.</p><p>Como podemos, então, unir nossos esforços e trabalhar juntos para</p><p>realizar esses objetivos concretos?</p><p>A primeira e mais importante etapa, para cada um de nós, deve ser a</p><p>de fazer um exame de consciência, descobrir falhas e deficiências e</p><p>tentar corrigi-las.</p><p>Pensamos que colocar fim às injustiças é um passo para a paz?</p><p>Então, devemos começar por reconhecer a maior de nossas injustiças,</p><p>aquela em relação às crianças, injustiça que não se restringe a um grupo</p><p>social ou a um país, mas que é universal.</p><p>Achamos que o progresso social é o caminho para a paz? Nesse</p><p>caso, não devemos esquecer que um esforço radical está por se fazer</p><p>para libertar uma imensa fração da humanidade, as crianças.</p><p>Estamos obcecados pela necessidade de cooperação entre os povos</p><p>do mundo para chegar a paz? Então, primeiro é necessário estabelecer</p><p>uma colaboração com as crianças. Os adultos trabalharam arduamente</p><p>para si mesmos. Já fizeram bastante para tentar pôr fim à injustiça.</p><p>Buscaram ativamente desenvolver cooperações, mas em vão, porque</p><p>falta alguma coisa fundamental. É inútil despender tanto esforço quando</p><p>não há fundações sobre as quais construir.</p><p>Todos os nossos esforços não levarão a nada enquanto não tivermos</p><p>remediado a grande injustiça feita às crianças, e isso cooperando com</p><p>elas. Se pertencemos ao grupo dos homens de boa vontade que desejam</p><p>ardentemente a paz, devemos estabelecer seus fundamentos trabalhando</p><p>pela questão social da criança.</p><p>A imagem da criança deve ser um símbolo</p><p>luminoso que sinalize</p><p>para nós, um símbolo que nos mostre não apenas o objetivo a atingir</p><p>como também a única via que nos permite alcançá-lo.</p><p>A criança é geralmente considerada um ser frágil que necessita de</p><p>assistência, que deve ser ajudada quando sofre, consolada quando chora,</p><p>cuidada quando está doente. Mas Cristo nos mostrou o que realmente</p><p>ela é, vendo nela algo de novo e de surpreendente: um guia para o</p><p>adulto em direção ao reino dos céus, um modelo que o adulto deve</p><p>imitar para se modificar.</p><p>Essa concepção talvez esteja ainda muito elevada, muito distante</p><p>das preocupações práticas que continuam a limitar a visão de muitas</p><p>pessoas do que realmente é uma criança. Uma prova concreta de sua</p><p>natureza precisa lhes ser dada. E é exatamente porque existe tal prova,</p><p>experimental, concreta, precisa, que ousamos proclamar essa concepção</p><p>da criança. Nossa experiência com crianças revelou coisas que eram</p><p>antes totalmente ignoradas, coisas que devemos considerar se queremos</p><p>avançar no caminho da paz.</p><p>Mesmo que não desejássemos levar em conta essa dimensão</p><p>espiritual e quiséssemos nos limitar a considerações práticas, seríamos</p><p>obrigados a ver a criança de um novo foco.</p><p>Desejamos que a criança seja reconhecida, socialmente falando,</p><p>como cidadã, com a dignidade do ser humano e o direito de viver e ser</p><p>protegida. Qualquer que seja seu contexto social, qualquer que seja sua</p><p>origem étnica, qualquer que seja seu lugar de nascimento, a criança</p><p>deve ser reconhecida como cidadã.</p><p>Consideremos por um instante os avanços sociais recentes</p><p>alcançados pelo homem. Várias frações do gênero humano adquiriram,</p><p>há relativamente pouco tempo, direitos e liberdade: os escravos, depois</p><p>os operários, depois as mulheres. Mas esses progressos se referiram</p><p>diretamente apenas aos adultos. Mesmo que numerosos avanços tenham</p><p>sido alcançados e muitas leis novas promulgadas, a criança permanece</p><p>um cidadão esquecido e nada foi feito por ela. A infância não passa de</p><p>uma etapa a vencer para atingir a idade adulta e a criança não foi ainda</p><p>reconhecida como uma pessoa independente com direitos próprios.</p><p>A Revolução Francesa proclamou a Declaração dos Direitos do</p><p>Homem. Dentre eles, figura o direito à educação. Mas o que aconteceu</p><p>com esse direito? Tudo o que resultou é que a criança é sobrecarregada</p><p>de todo o trabalho necessário para que o adulto seja cultivado. Os</p><p>sofrimentos e os desejos da criança não são levados em conta; a única</p><p>coisa que conta é assegurar ao adulto o prazer de usufruir de um direito</p><p>que ele reclamou apenas para si.</p><p>Necessitaria de muito mais tempo para apresentar um quadro</p><p>completo da situação que resulta de nossa trágica falta de compreensão</p><p>das crianças. No entanto, o mundo começa agora a tomar consciência de</p><p>que a criança é oprimida, que sua vida é cheia de injustiças. É para isso</p><p>que se precisa de remédio.</p><p>A principal mensagem que tentamos passar é a necessidade de</p><p>construir um ambiente apropriado às crianças. Não se trata de uma ideia</p><p>materialista. Ela tem sólidos fundamentos na alma humana e leva em</p><p>consideração algo profundamente escondido nela. Esse ambiente social</p><p>para a criança é destinado a protegê-la não em sua fraqueza, mas em sua</p><p>grandeza intrínseca, pois ela possui enormes energias potenciais que são</p><p>promissoras para a humanidade inteira.</p><p>Esse trabalho de protegê-la, que implica educar e reeducar os</p><p>adultos, constitui o esforço que nos cabe de velar pelo maior dos</p><p>tesouros que possuímos, um tesouro que pode nos guiar em direção a</p><p>uma luz que podemos resumir numa palavra: a paz.</p><p>Debater sobre os sofrimentos da criança ou meditar sobre eles não</p><p>nos adiantaria de nada. O que precisamos é de um novo passo, que</p><p>implique uma nova forma de pensar. Assim, o caminho torna-se claro e</p><p>fácil de seguir. Não há mulher ou homem que não tenha sido criança,</p><p>que não admita voluntariamente ter adquirido na infância todas as</p><p>aptidões que possui. A sociedade, como tal, deve ser levada a descobrir</p><p>que isso também é verdade em relação a suas capacidades. A ação que</p><p>virá da humanidade não pode ser unilateral. Nada pode ser realizado no</p><p>mundo do adulto que não tenha sido antes realizado no mundo da</p><p>criança.</p><p>Devemos, então, seguir uma pista dupla, identificando as duas</p><p>partes da humanidade: a que se forma e a que trabalha a formação da</p><p>outra. Cada ato que o adulto executa no domínio social deve igualmente</p><p>ser praticado na vida social das crianças. Cada lei para os adultos deve</p><p>ser acompanhada de uma lei correspondente para as crianças. Cada</p><p>nova descoberta que melhora a vida dos adultos deve também ser</p><p>utilizada em benefício da vida das crianças: são necessárias não apenas</p><p>casas para os adultos, mas também para as crianças, objetos não apenas</p><p>para os adultos, mas também para as crianças, direitos não apenas para</p><p>os adultos, mas também para as crianças.</p><p>Além disso, penso que as crianças deveriam ter representantes nas</p><p>assembleias legislativas de seus países. Essas assembleias, onde as leis</p><p>são debatidas e onde os interesses materiais e morais dos homens são</p><p>considerados, deveriam ter representações que defendessem os</p><p>interesses dessa imensa fração da humanidade constituída pelas</p><p>crianças. Deveria haver, igualmente, um ministério da infância, como há</p><p>um para cada grande setor de interesse geral. Deveria haver um ministro</p><p>encarregado da proteção da humanidade; quer dizer, um ministro das</p><p>crianças.</p><p>É certo que há em cada país um ministro da educação, mas não é</p><p>suficiente. Tal ministro só se ocupa de um problema específico; só se</p><p>interessa pelas crianças quando atingem um certo grau de</p><p>desenvolvimento e têm idade para frequentar a escola. A questão social</p><p>da criança deve ser considerada de um ponto de vista tanto prático</p><p>quanto jurídico, e deveríamos nos preocupar com a criança desde o</p><p>instante em que nasce, e até mesmo desde o dia em que foi concebida.</p><p>No momento em que fechamos esse congresso, gostaria de lançar um</p><p>grande movimento social pela criança, propondo um ato concreto: a</p><p>fundação do partido da criança.</p><p>Convocamos todos, particularmente os que estão aqui presentes,</p><p>mas também os que não estão. Nós os convidamos a participar desse</p><p>trabalho em favor da defesa da civilização e do gênero humano. Vista</p><p>dessa perspectiva, a proteção à criança é um empreendimento</p><p>formidável, que, ao liberar os valores de uma parte da humanidade,</p><p>permitirá a todos melhorar o mundo. É esse o caminho que conduz à</p><p>paz.</p><p>O primeiro objetivo desse partido social da criança será fazer</p><p>reconhecer a dignidade das crianças e dos jovens e de lhes assegurar o</p><p>lugar na sociedade que deveriam legitimamente ter nesta era das luzes.</p><p>Para atingir esse objetivo, desejamos apelar não apenas aos educadores,</p><p>mas ainda ao grande público e, sobretudo, a todos os que estão</p><p>conscientes de seus deveres de pais, porque cabe aos pais defender os</p><p>direitos de seus filhos. Na verdade, a criança não é lançada impotente</p><p>sobre a Terra pela natureza, ela é confiada aos bons cuidados de um pai</p><p>e de uma mãe cuja missão é amá-la e acarinhá-la. Essa união entre pais</p><p>e filhos pode nos fazer avançar no caminho da civilização, dando novas</p><p>responsabilidades sociais às duas gerações, pois os homens de todas as</p><p>raças e de todos os países da Terra têm filhos e a criança pode se tornar</p><p>uma finalidade e um centro de interesses universais. O objetivo do</p><p>partido social da criança será, então, não exclusivamente proteger a</p><p>sociedade dos numerosos males atuais como também criar uma esfera</p><p>de ação que permitirá a toda a humanidade trabalhar unida.[13]</p><p>11</p><p>MEU MÉTODO[14]</p><p>Vendo diante de mim uma assembleia tão numerosa e tão distinta,</p><p>estou profundamente emocionada, porque sei que os que vieram me</p><p>escutar não o fizeram em consideração à minha pessoa, mas porque o</p><p>tema que devo abordar se refere a crianças. Isso me toca</p><p>profundamente, porque me inclina a acreditar que o mundo desperta e</p><p>quer aprender alguma coisa sobre este novo rei que nasceu: a criança.</p><p>O tema dessa noite, “Meu método”, é um daqueles sobre os quais</p><p>não me sinto muito à vontade. Poderia até afirmar, mesmo</p><p>que meus</p><p>ouvintes não acreditem, que, para mim, é o assunto mais difícil de todos</p><p>sobre os quais faço conferências, porque, propriamente falando, não</p><p>desenvolvi um método de educação. Na verdade, quando tento explicar</p><p>esse método em termos concretos, devo falar de psicologia infantil,</p><p>porque foi ela que, progressivamente, ditou o que poderíamos chamar</p><p>de uma pedagogia e um método de educação. Meu método de educação,</p><p>se se pode dizer que eu tenha um, está fundamentado no</p><p>desenvolvimento psíquico da criança normal.</p><p>Todos os outros métodos de educação basearam-se em trabalhos de</p><p>adultos e procuraram educar ou ensinar a criança em função de</p><p>programas ditados por adultos. Quanto a mim, estou persuadida de que</p><p>é a própria criança que deve ser o pivô de sua educação. Ao dizer</p><p>criança, não estou me referindo à criança como as pessoas a veem</p><p>habitualmente, mas principalmente a sua alma profunda, vista de uma</p><p>perspectiva sem precedente antes do advento do que se chamou método</p><p>Montessori.</p><p>Uma pequena parábola pode ilustrar a ideia que tento exprimir.</p><p>Peguem um diamante escondido na ganga informe e retirem toda a</p><p>matéria que o envolve para revelar a joia brilhante. Vendo essa joia,</p><p>alguns se perguntarão: “Como você fez para obter essa pedra preciosa</p><p>que reflete perfeitamente a luz?”. A isso responderemos não sermos os</p><p>criadores dessa joia maravilhosa; ela já existia profundamente</p><p>escondida na matéria que a envolvia. Pois bem, podemos dizer o mesmo</p><p>da criança. Ela nos mostrou como deveria ser tratada e nos revelou seu</p><p>esplendor.</p><p>Consagrando todos os seus cuidados à criança, o adulto deve, antes</p><p>de tudo, tomar consciência de que sua tarefa é revelar a alma da criança.</p><p>Se assim o faz, as etapas que atingirá sucessivamente e a ajuda que a</p><p>criança lhe oferecerá serão de grande importância; se o faz de outra</p><p>forma, todo o seu trabalho de nada valerá. Esse trabalho deve ter um</p><p>duplo objetivo: construir um ambiente apropriado e provocar uma</p><p>mudança de atitude dos adultos em relação às crianças.</p><p>Dois fatores devem ser levados em conta se desejamos que a</p><p>criança se desenvolva. Inicialmente, é preciso criar para a criança um</p><p>contexto que responda a suas necessidades, tanto do ponto de vista da</p><p>saúde física quanto da vida espiritual.</p><p>Em seguida, a criança deve ter a possibilidade de agir livremente</p><p>nesse ambiente. Ela deve encontrar nele as motivações para se dedicar</p><p>às atividades construtivas correspondentes a suas necessidades de</p><p>desenvolvimento. Deve ficar em contato com um adulto que esteja</p><p>familiarizado com as leis que governam sua vida, e que não a entrave,</p><p>superprotegendo-a, determinando suas atividades ou forçando-a a agir</p><p>sem levar em conta suas necessidades.</p><p>Em tal ambiente, a criança revela ser completamente diferente da</p><p>imagem que se tem dela, um moleque que adora perder tempo e só se</p><p>interessa em brincar. Ela se torna um indivíduo que trabalha</p><p>assiduamente, muito observador e respeitoso com os objetos. Revela-se</p><p>inacreditavelmente meticulosa, muito mais que nós, os adultos; cumpre</p><p>suas tarefas escrupulosamente; é capaz de grande concentração; está</p><p>apta a controlar os movimentos de seu corpo; enfim, é alguém que gosta</p><p>muito do silêncio. É pontual na obediência; obedece prontamente e fica</p><p>feliz em obedecer. Ela trabalha muito bem sozinha e não sente qualquer</p><p>necessidade de competição com as demais crianças. Tudo isso é</p><p>resultado de uma interação entre a criança e seu ambiente, a criança e</p><p>seu trabalho. Isso não ocorre porque há um adulto para guiá-la a cada</p><p>passo, um adulto que a comanda. Ao contrário, o adulto que está em</p><p>estreito contato com essas crianças toma consciência das novas e</p><p>misteriosas sensações que nele surgem e se coloca um pouco de lado.</p><p>Ele conquista uma certa humildade ao constatar: “Essa criança pode</p><p>fazer muitas coisas sem minha ajuda direta, sem que eu a exorte a fazê-</p><p>las!”.</p><p>A conduta da criança é, assim, ditada pelas maravilhosas diretrizes</p><p>que lhe vêm do interior e desse ambiente social que foi criado para ela.</p><p>Isso foi provado inúmeras vezes. Veem-se 30 ou 40 crianças</p><p>trabalharem juntas num ambiente simpático, especialmente criado para</p><p>elas. Se o professor precisa deixar a sala, as crianças continuam a</p><p>trabalhar. Suas atividades normais prosseguem como antes; todas</p><p>continuam seus trabalhos sozinhas. E surpreendemos fragmentos de</p><p>conversas tais como:</p><p>– Quem te ensinou isso?</p><p>– Aprendi sozinho!</p><p>– Qual de vocês fez isso?</p><p>– Achei que conseguiria fazer isso.</p><p>Esse desenvolvimento se produz porque a criança teve a</p><p>possibilidade de trabalhar e de estar em contato direto com a realidade.</p><p>Não foi por acaso que aprendemos com a criança. É um processo</p><p>criador preciso, um fenômeno natural que acontece assim que se oferece</p><p>à criança a chance de despender seus próprios esforços e de se dedicar a</p><p>um trabalho que seja seu, sem intermediários.</p><p>Pensa-se que a criança fique feliz quando brinca, mas, na verdade, é</p><p>quando trabalha que ela fica mais feliz.</p><p>Para os que não conhecem bem nosso método, vou descrever o que</p><p>fizemos para os pequeninos. Quando atingem a idade de cerca de 3</p><p>anos, oferecemo-lhes um ambiente em que se encontram artigos</p><p>domésticos úteis: vassoura nas dimensões das crianças, louça, mesas</p><p>etc. A grande alegria dessas crianças é fazer as tarefas com perfeição;</p><p>elas se ocupam e sempre encontram o que fazer. Além disso, o</p><p>comportamento das crianças, em casa, muda muito e seus familiares</p><p>vêm nos perguntar: “Explique-nos como é que nossos filhos agora se</p><p>comportam tão bem e se mostram tão trabalhadores!”. Isso parece</p><p>estranho, mas frequentemente algumas doenças como a anemia, os</p><p>distúrbios digestivos etc. desaparecem, o que prova que as crianças, em</p><p>seus contextos habituais, sofrem quando não têm nenhuma</p><p>possibilidade de se desenvolver estando ativas. Nas primeiras escolas</p><p>que criamos, as crianças eram de famílias muito pobres. O primeiro</p><p>grupo com que trabalhamos era composto de filhos de operários</p><p>diaristas, que precisavam sair todas as manhãs para procurar trabalho e</p><p>deixavam seus filhos completamente sozinhos na rua. As crianças eram</p><p>tímidas e tinham todas as características de crianças abandonadas. Mas,</p><p>mesmo tendo sofrido graves traumas psicológicos, essas crianças se</p><p>tornavam progressivamente felizes e serenas no ambiente específico que</p><p>criamos para elas. Além disso, as crianças de famílias ricas, que têm</p><p>sempre muitas pessoas à sua volta, que não têm jamais um momento de</p><p>liberdade e são habitualmente mais difíceis de disciplinar nas escolas</p><p>tradicionais, tornavam-se aos poucos como as outras.</p><p>O caráter de todas as crianças muda nesse ambiente onde podem</p><p>trabalhar sem serem incomodadas, elas se tornam calmas e capazes de</p><p>se concentrar.</p><p>Longe de mim querer que vocês acreditem que esse tipo de</p><p>ambiente produza milagres por si só e que o adulto não tenha nenhum</p><p>papel a desempenhar nele! Claro que o adulto tem uma função a</p><p>desempenhar! Ele deve mostrar à criança como usar os objetos</p><p>corretamente. Deve mostrar, por exemplo, como polir um metal. Para</p><p>isso, deve ter tudo o que é necessário preparado: retalhos de tecido,</p><p>polidor de metal etc., e deve ser bastante “detalhista”, se podemos dizer</p><p>assim, sobre a maneira de proceder, porque é exatamente essa</p><p>meticulosidade que desperta o interesse da criança. Ela olha de forma</p><p>metódica e atenta o adulto trabalhar, depois, repete seus gestos, de</p><p>maneira também metódica e atenta. Mas tão logo a criança dê um brilho</p><p>perfeito ao objeto metálico e nenhum traço de sujeira exista, ela faz uma</p><p>coisa espantosa, que nós, adultos, certamente jamais faríamos: ela</p><p>continua a polir e geralmente recomeça uma segunda, terceira e, às</p><p>vezes, até uma quarta vez.</p><p>O que motiva a criança não é o objetivo traçado pelo adulto, mas</p><p>seu próprio impulso que a empurra para a perfeição. A criança se</p><p>aprimora em contato com a realidade, na atividade que absorve toda a</p><p>sua atenção.</p><p>A criança tem sua maneira própria de trabalhar, diferente da nossa,</p><p>que devemos compreender e respeitar. Nós, adultos, poderíamos pensar</p><p>que a criança só deveria polir o</p><p>objeto metálico uma vez; poderíamos</p><p>ficar tentados a impedi-la de recomeçar muitas vezes. Mas é exatamente</p><p>essa repetição que provoca na criança um desenvolvimento interior que</p><p>se manifestará mais tarde de forma surpreendente.</p><p>A criança pode repetir uma determinada atividade um grande</p><p>número de vezes. Uma experiência de psicologia o demonstrou, dando</p><p>às crianças tarefas a serem cumpridas. Tínhamos, por exemplo,</p><p>oferecido a uma criança de 3 anos uma placa perfurada e parafusos: ela</p><p>ajustou os 10 parafusos nos buracos mais de 40 vezes, esquecendo tão</p><p>completamente o ambiente que não prestava atenção às solicitações</p><p>exteriores. Essa concentração é incontestavelmente um meio de</p><p>desenvolvimento.</p><p>É sempre necessário dar à criança um trabalho a desempenhar com</p><p>as mãos enquanto ela trabalha com a cabeça, porque a personalidade da</p><p>criança tem uma unidade funcional. Nas classes tradicionais, não lhe</p><p>damos, infelizmente, tarefas que exijam uma atividade motora</p><p>simultânea ao esforço mental. Nosso princípio de unidade funcional nos</p><p>permitiu atingir um ponto extremamente importante na educação:</p><p>oferecer à criança a possibilidade de estar em contato direto com a</p><p>realidade. O fato de uma criança de 3 anos ser capaz de se concentrar</p><p>em objetos durante longos períodos de tempo nos provou que a criança</p><p>tem capacidades bem maiores do que comumente acreditamos. Nas</p><p>escolas tradicionais, damos-lhes tarefas que não lhes interessam, porque</p><p>são muito fáceis. Devemos estudar e descobrir os limites de dificuldade</p><p>da criança e descobrir o nível de dificuldade que melhor mantém seu</p><p>interesse.</p><p>Descobrimos um outro fato intrigante. As crianças têm grande</p><p>dificuldade de se concentrar em enunciados orais, mas não em objetos.</p><p>Isso sugere imediatamente o motivo de duas grandes dificuldades que</p><p>os professores das escolas tradicionais precisam enfrentar. A primeira,</p><p>geralmente reconhecida, é a de comunicar conhecimentos oralmente; a</p><p>segunda é manter desperta a atenção das crianças. Não é dispondo de</p><p>bons manuais nem conseguindo que um professor diga à turma o que é</p><p>necessário sobre os objetos que ela não vê que se pode resolver esse</p><p>problema, mas oferecendo à criança um ambiente que contenha objetos</p><p>que representem concretamente as coisas que ela deve aprender. Essa</p><p>questão está agora sendo atentamente estudada e os novos métodos de</p><p>ensino utilizam cada vez mais objetos materiais como ferramenta</p><p>educativa. No entanto, geralmente, ainda não se admite que as crianças</p><p>morram de enfado nas escolas tradicionais, porque os professores lhes</p><p>dão tarefas muito fáceis e não conseguem captar seu interesse.</p><p>O ser humano sente uma grande necessidade de conhecimentos e</p><p>sua capacidade de aprender espontaneamente é bem maior do que</p><p>supomos. No entanto, é bem verdade que, se a inteligência de uma</p><p>criança não for estimulada, ela se fecha em si mesma e o interesse</p><p>desaparece. Assim, as crianças, infelizmente, em sua grande maioria,</p><p>estão condenadas a perder sua infância e não poderão jamais realizar</p><p>seu potencial.</p><p>Um outro fator muito importante determina o interesse da criança.</p><p>Seus centros de interesse evoluem à medida que ela atinge as diversas</p><p>fases do desenvolvimento, que não é linear. Resumindo, o que é</p><p>interessante para uma criança hoje não a interessará mais quando ela</p><p>crescer. Se tentarmos ensinar a mesma coisa a uma criança de 5 anos e a</p><p>uma de 8, esta última não aprenderá tão rápido. Isso acontece porque,</p><p>repito, o que desperta o interesse de uma criança em certa idade não tem</p><p>o mesmo efeito em outra época.</p><p>Um dos problemas do ensino é, então, descobrir os assuntos mais</p><p>adaptáveis às crianças de diferentes idades, ou melhor, os mais</p><p>adequados aos seus diferentes centros de interesse. Nossa experiência</p><p>mostrou, por exemplo, que as crianças estão muito mais interessadas em</p><p>aprender o alfabeto com 4 anos do que em outra idade. As crianças</p><p>dessa idade gostam tanto de escrever que chamamos a esse fenômeno</p><p>de “explosão da escrita”. Se lhes ensinamos a escrever mais tarde, por</p><p>volta dos 6 anos, essa explosão não vai acontecer. Os problemas que</p><p>geralmente as crianças encontram estudando matemática ou gramática</p><p>são facilmente eliminados se problemas difíceis nesses domínios forem</p><p>apresentados num bom momento. Nos meus dois últimos livros,</p><p>Psicoaritmética e Psicogeometria, descrevi essas experiências com</p><p>crianças de 7 anos. Elas se mostraram capazes de fazer exercícios de</p><p>álgebra e de aritmética avançados, que, habitualmente, só são dados aos</p><p>alunos do ensino médio. Isso vem do fato de que a aritmética e a</p><p>geometria apresentam verdadeiras dificuldades quando ensinadas</p><p>oralmente. Mas essas dificuldades são facilmente superadas quando</p><p>utilizamos materiais que ilustram concretamente as abstrações</p><p>matemáticas. Esses materiais permitem à criança aprender de acordo</p><p>com as leis de seu desenvolvimento mental. Observando as crianças,</p><p>vimos que elas se exercitam muito para aprender alguma coisa.</p><p>Repetem um exercício até 100 ou 200 vezes sem se aborrecer. De fato,</p><p>acham tal repetição calmante e tranquilizadora. Está claro que o</p><p>processo psíquico da aprendizagem que acontece com as crianças é de</p><p>tal natureza que nos é impossível considerar seu espírito como um</p><p>simples espelho que reflete passivamente as imagens.</p><p>Aprender significa trabalhar assídua e longamente. Há crianças que</p><p>fazem cálculos muito longos, porque os acham verdadeiramente</p><p>fascinantes. Uma vez, vi uma criança multiplicar um número de 32</p><p>algarismos por um outro de 20. Tais operações são tão fastidiosas que</p><p>nós, adultos, as consideramos penosas, mas a criança as faz pelo</p><p>simples prazer de fazê-las, espontaneamente. A criança, tanto a pequena</p><p>quanto a grande, sente necessidade de fazer exercícios repetidamente e</p><p>de seguir seu próprio caminho de desenvolvimento por seus próprios</p><p>meios.</p><p>Por outro lado, a escola parece o local onde o homem se desenvolve</p><p>adquirindo cultura. Mas a cultura é um meio e não um fim. Se</p><p>compreendêssemos melhor essa verdade, o trabalho de professores e</p><p>pais seria muito mais fácil e suas concepções de educação mudariam</p><p>completamente.</p><p>O fato, para a criança, de aprender por si mesma e de poder superar</p><p>sozinha tantas dificuldades sem dúvida lhe dá uma satisfação interior</p><p>que fortalece seu sentimento de dignidade pessoal. A possibilidade de</p><p>escolher suas próprias atividades a ajuda também a reforçar</p><p>comportamentos que habitualmente pensamos não serem característicos</p><p>da criança, o sentido de autonomia e de iniciativa, por exemplo.</p><p>A cultura não pode ser a única razão da vida do homem. O homem</p><p>não é uma inteligência desencarnada e a instrução não pode satisfazer</p><p>todas as suas necessidades.</p><p>Acredito que devemos fazer muito mais pela educação das crianças</p><p>e dos jovens. Assim como construímos um ambiente que responde às</p><p>necessidades dos pequeninos, devemos igualmente preparar um</p><p>ambiente no mundo exterior que melhore a educação social dos</p><p>maiores. A classe tradicional não é suficiente. Uma criança pode</p><p>aprender muito, mais até que seus colegas, e, no entanto, não conhecer</p><p>coisa alguma do mundo e demonstrar falta de caráter.</p><p>Não podemos elevar o nível da humanidade apenas pela cultura. O</p><p>problema é muito mais complexo e é imperioso que o resolvamos o</p><p>mais rápido possível. É necessário construir um ambiente social, um</p><p>novo mundo para a criança e o adolescente, de tal forma que sua</p><p>consciência individual possa se desenvolver. É por isso que uma vasta</p><p>reforma educacional e uma enorme reforma social se impõem hoje.</p><p>III</p><p>A IMPORTÂNCIA DA</p><p>EDUCAÇÃO</p><p>NA EDIFICAÇÃO DA PAZ</p><p>12</p><p>PRIMEIRA CONFERÊNCIA[15]</p><p>O professor Jordan me pediu para fazer essas conferências como se</p><p>não estivéssemos numa sala de conferências, para aproveitar a ocasião</p><p>de minha vinda aqui para estabelecer um contato aprofundado entre nós</p><p>e para lhes dizer o que sinto quando trabalho com as crianças.</p><p>Pois bem, quando estou entre as crianças, não me vejo como uma</p><p>cientista, uma teórica. Na realidade, quando estou com elas, não sou</p><p>ninguém e meu grande privilégio quando as abordo é até mesmo</p><p>esquecer</p><p>que existo; privilégio, porque isso me permitiu descobrir</p><p>coisas que, quando somos alguém, não vemos – pequenas coisas,</p><p>verdades simples, porém, preciosas. Não é sempre necessário descobrir</p><p>grandes coisas, mas é de importância capital descobrir os princípios.</p><p>Nas origens, veem-se as primeiras luzes. Distinguimo-las assim que</p><p>alguma coisa nova aparece. Depois, essas luzes se tornam um grande</p><p>foco luminoso que nos traz melhor compreensão do labirinto complexo</p><p>que é a vida social dos adultos.</p><p>A criança é um embrião espiritual que se desenvolve</p><p>espontaneamente e, acompanhando-a desde os primórdios de sua vida,</p><p>podemos aprender muito. Com efeito, a vida social de hoje é difícil de</p><p>apreender, porque extremamente complexa, cheia de enganos e de</p><p>contradições incompreensíveis. Estamos numa época de trevas, de</p><p>obscuridade espiritual. Não profetiza a Bíblia: “dia virá em que vós</p><p>sereis devorados pelas trevas”?. Infelizmente, essa profecia se realiza.</p><p>Os acontecimentos a nosso redor nos são impenetráveis. Já não</p><p>compreendemos as origens das coisas nesse mundo exterior que, no</p><p>entanto, os próprios homens construíram ou estão construindo. Estamos</p><p>agora num mundo que, certamente, é maravilhoso em virtude das</p><p>descobertas da ciência. Mas, banhados pela luz dessas realizações</p><p>exteriores, estamos envolvidos por trevas espirituais.</p><p>Apesar de o homem ter capacidades que ultrapassam a natureza e</p><p>vão muito além dela, apesar de poder percorrer longas distâncias, apesar</p><p>de ter se tornado mestre nas energias do universo, ele não passa de uma</p><p>pobre criatura assustada, tomada pelo pânico. Nossos contemporâneos</p><p>são como uma criança que tem medo, não do que pode ver ou de</p><p>animais escondidos à sua volta, mas de coisas insignificantes: um</p><p>barulho de folhas que se agitam ou um eco de passos fantasmagóricos.</p><p>Ele está, de fato, terrificado por coisas que não existem.</p><p>O homem tem necessidade de tranquilidade espiritual e de paz; ele</p><p>precisa de luz. Quem, então, poderá lhe oferecer um pouco de luz?</p><p>Mesmo a leitura dos livros mais recentes não nos esclarece. Na</p><p>pesquisa das causas dos acontecimentos que lhe concernem, os homens</p><p>têm, evidentemente, aprendido muito sobre seus ambientes.</p><p>Aprenderam a tornarem-se mestres dos segredos da natureza e de todas</p><p>as suas energias. Mas uma coisa lhes permanece escondida: o próprio</p><p>homem.</p><p>Seria cansativo fazer a lista de todas as descobertas do homem</p><p>sobre o mundo físico. Mas que descobertas fez ele sobre si mesmo,</p><p>sobre sua vida, suas finalidades ou sobre o erro e a verdade?</p><p>O homem contentou-se em seguir incessantemente sua intuição. O</p><p>mundo mudou, mas o que mudou no homem? Qual de seus</p><p>sentimentos? Qual de seus preconceitos?</p><p>O homem permanece um mistério, como diz o título de um livro, O</p><p>homem, esse desconhecido.[16] A alma do homem é um enigma. Ela</p><p>continua a ser uma desconhecida situada numa zona obscura. A própria</p><p>psicologia não foi capaz de nos esclarecer, de nos trazer a mínima luz</p><p>sobre esse mistério.</p><p>A psicologia só levou em conta os fenômenos descontínuos do</p><p>subconsciente e não viu sua essência, sua verdade. A interpretação dos</p><p>fenômenos descontínuos não consegue decifrar o enigma do homem.</p><p>Sendo assim, está o homem condenado por sua própria natureza a</p><p>permanecer um mistério para nós?</p><p>Penso que não ou, pelo menos, não necessariamente. Mas devo</p><p>acrescentar que, se o homem é reprimido, ele pode permanecer estranho</p><p>para si mesmo eternamente.</p><p>Em todo caso, não somos esses que podem mostrar ao homem o</p><p>que ele é. Apenas a criança pode revelar os segredos da vida espiritual</p><p>do homem, essa é uma verdade que é preciso repetir sem cessar. E, para</p><p>que recebamos essa revelação, nós, os adultos, devemos deixar de</p><p>existir como tais, ignorar a nós mesmos, para que a criança possa entrar</p><p>nesse vazio e preenchê-lo.</p><p>A criança, embrião espiritual, revela-se a nós, adultos, para guiar-</p><p>nos no labirinto. A criança nos encaminha para a luz em meio às</p><p>sombras que nos envolvem.</p><p>Algo análogo aconteceu em biologia. É realmente difícil</p><p>compreender um organismo quando ele é estudado apenas quando já</p><p>está completamente desenvolvido. Foi apenas quando os biólogos</p><p>começaram a estudar os organismos em seus processos de</p><p>desenvolvimento, assim que a invenção do microscópio tornou possível</p><p>a observação da divisão celular, que eles verdadeiramente</p><p>compreenderam o que é um organismo. A embriologia iluminou toda a</p><p>biologia.</p><p>A simplicidade revela importantes verdades, porque habitualmente</p><p>a verdade é simples. É difícil compreender essa sociedade complexa</p><p>organizada por homens oprimidos, cuja natureza foi desviada desde o</p><p>nascimento, cuja vida está condenada desde a raiz.</p><p>O que então nos ensinou a criança? Quando a criança vive numa</p><p>atmosfera adaptada a suas necessidades vitais, ela revela</p><p>comportamentos muito diferentes dos que estamos habituados a lhe</p><p>atribuir. Ela nos traz a prova viva de que os homens podem mudar e</p><p>melhorar desde o nascimento. Mas, para ver isso, o mundo dos adultos</p><p>precisa mudar. Devemos nos unir; devemos estar em contato com a</p><p>criança, acreditar nela, construir uma atmosfera que lhe convenha, e nos</p><p>modificarmos.</p><p>A criança, então, promete-nos a salvação da humanidade. Essa</p><p>verdade é simbolizada pelo mistério da Natividade.[17] A criança não</p><p>deve mais ser considerada o filho do homem, mas o criador e pai do</p><p>homem, um pai capaz de criar uma humanidade melhor. Cabe-nos criar,</p><p>pois, uma atmosfera que possa satisfazer suas necessidades. Se lhe</p><p>oferecermos tal ambiente, poderemos ver como ela se desenvolve.</p><p>Gostaria aqui de evocar alguns pontos que se referem diretamente à</p><p>nossa própria vida. A criança provou que tem instintos cuja existência</p><p>não pode ser colocada em dúvida e notadamente um instinto</p><p>surpreendentemente fundamental: o desejo de trabalhar, termo que não</p><p>emprego aqui em seu sentido habitual. A criança ensina que o trabalho</p><p>não é uma virtude, um esforço que o homem é obrigado a fazer; não se</p><p>trata da necessidade de ganhar a vida. O trabalho é o instinto mais</p><p>fundamental do homem.</p><p>O homem pode se curar de perturbações psíquicas pelo trabalho.</p><p>Trabalhando, ele consegue engajar-se em uma vida espiritual autêntica.</p><p>O trabalho é o meio de remediar todas as nossas carências. Numerosos</p><p>comportamentos que observamos nas crianças não são típicos nos</p><p>adultos comuns. Na realidade, o homem nasceu para trabalhar. O</p><p>instinto que o impulsiona a trabalhar é sua característica mais</p><p>extraordinária. Mas, para vê-lo, precisamos mudar nosso olhar, porque</p><p>muito do que consideramos habitualmente como bom ou mau, em</p><p>realidade, não o são.</p><p>Por exemplo, consideramos que o afeto demonstrado por uma</p><p>criança é uma coisa boa; a obediência, nós a consideramos a virtude por</p><p>excelência; vemos com bons olhos a criança que se senta</p><p>tranquilamente para se pôr a sonhar. Pois bem, todos esses</p><p>comportamentos desaparecem assim que a criança trabalha. Além disso,</p><p>a distração, a preguiça, a revolta e a mentira também desaparecem. O</p><p>que resta, então?</p><p>O que resta é o homem novo, que não tem nenhum de nossos</p><p>defeitos, o ser humano que, trabalhando com diligência, restabelece-se</p><p>de todos os males.</p><p>Esse homem tem qualidades autênticas: o amor, que é diferente de</p><p>apego; a disciplina, que é bem diferente da submissão cega; a</p><p>capacidade de entrar em contato com a realidade, que é oposta à fuga</p><p>pela imaginação. A criança nos traz a luz; ela nos mostra o novo</p><p>homem, o homem moral, e nos ensina o valor de hábitos simples e</p><p>regulares, porque a simplicidade e a regularidade são as chaves do bem-</p><p>estar.</p><p>Falei de amor. Sobre esse ponto, a criança nos ensinou coisas</p><p>fundamentais. Quando observamos a vida animal num ambiente natural,</p><p>vemos manifestações de amor maternal e de amor familiar. Estamos</p><p>conscientes de algumas formas de amor, mas outras permanecem</p><p>completamente desconhecidas para nós a menos que alguém as tenha</p><p>manifestado.</p><p>A criança ofereceu-nos manifestações marcantes de diferentes tipos</p><p>de amor, todos ligados ao trabalho. A maioria de nós tem a experiência</p><p>do tipo de amor que nos liga profundamente aos outros,</p><p>mas trata-se aí</p><p>de um amor passivo. De fato, há várias razões para pensar que o espírito</p><p>humano é capaz de um outro tipo de amor, que não seja transitório, que</p><p>não mude, que não morra. Exprimimos isso, por exemplo, quando</p><p>dizemos que amamos alguma coisa que transcende a família, falando do</p><p>amor pelo seu país ou do amor a Deus.</p><p>O homem tem alguma ideia dessa forma superior de amor, porque</p><p>tem em sua consciência a intuição de todas as verdades, mesmo que não</p><p>as siga e não as aplique em sua vida cotidiana. As crianças demonstram</p><p>naturalmente esse amor superior, esse é até um de seus comportamentos</p><p>característicos.</p><p>Esse amor é, no homem, como uma chama essencial, sem a qual ele</p><p>não pode viver. E não é apenas uma terna afeição. Asseguro-lhes que</p><p>constatei esse amor. Fui tocada por ele e o chamei de “amor do homem</p><p>por seu ambiente”. O que, então, entendo por isso? Com que se parece</p><p>esse amor?</p><p>A criança, supostamente, gosta de cores vivas e de objetos bonitos.</p><p>Mas, quando vê cores brilhantes e coisas bonitas, ela apenas</p><p>experimenta sensações, não sente amor. Trata-se de fenômenos</p><p>sensoriais, acompanhados de desejos de posse, porque as sensações</p><p>levam não apenas a reações nervosas como também a reações psíquicas.</p><p>Habitualmente, assim que vemos uma coisa, temos o desejo de</p><p>possuí-la. Mas, quanto mais uma pessoa possui, mais deseja possuir.</p><p>Muitos homens, ricos ou pobres, querem possuir coisas. Mas esses</p><p>homens, não devemos considerá-los pessoas normais, e sim doentes.</p><p>Alguns movimentos sociais visam espoliar os outros do que eles</p><p>têm. A sociedade se organizou para canalizar a necessidade do homem</p><p>de possuir. No adulto desencaminhado, constatamos uma tendência à</p><p>posse e uma sede de poder que o fazem um ser completamente diferente</p><p>do homem normal. Na criança anormal,[18] vemos manifestações</p><p>evidentes dessa necessidade de possuir. Essa criança não para de pedir</p><p>coisas e, quanto mais lhe damos, mais ela experimenta a necessidade de</p><p>ter. É uma criança que não trabalha, que tem sensações, mas que não</p><p>ama.</p><p>O amor pelo ambiente é o segredo de todo o progresso do homem e</p><p>da evolução social. Esse amor se manifesta nas pessoas que</p><p>sobreviveram às vicissitudes da vida e que foram capazes de</p><p>salvaguardar suas integridades ou de redescobri-las em seu íntimo. O</p><p>amor pelo ambiente impulsiona o homem para aprender, estudar,</p><p>trabalhar.</p><p>O que diferencia o tipo de amor que conduz o homem à posse e</p><p>aquele que o conduz ao saber? O amor, em sua forma superior, incita o</p><p>homem a aprender. Ele provoca um contato estreito entre o objeto</p><p>amado e o espírito humano, que, por sua vez, leva o homem a produzir.</p><p>O trabalho, a vida e o desenvolvimento são suas consequências. O amor</p><p>pode conduzir os seres humanos a estudar coisas que parecem</p><p>repugnantes à maioria de nós. Nos Estados Unidos, por exemplo,</p><p>descobriu-se um homem que tinha amor por um determinado tipo de</p><p>serpente e que dedicou a vida a estudar seus hábitos. De fato, o objeto</p><p>desse tipo de amor pouco importa. O que importa é que o amor estimula</p><p>o homem a utilizar sua mente para trabalhar e produzir. Todos os</p><p>produtos da civilização são resultado do trabalho do homem. Todas as</p><p>coisas novas são criadas por homens que amam seus ambientes. O pão,</p><p>as casas, os móveis etc., tudo à nossa volta é fruto de uma ou outra</p><p>forma de trabalho.</p><p>Os homens que tiveram a experiência do amor ao ambiente são</p><p>privilegiados. Quando existe uma troca entre um objeto e o espírito</p><p>humano, alguma coisa desperta no mais íntimo deste último: a</p><p>dignidade humana.</p><p>O amor é o instinto que guia nossos atos, um instinto de que até os</p><p>animais são dotados. Se esse instinto não é estimulado no homem, ele</p><p>não terá uma vida normal. Em vez de achar o trabalho absorvente, ele o</p><p>achará desgastante e sentirá ódio e não amor. Cansaço e ódio, eis as</p><p>sombras que levam os homens a possuir e que obscurecem seu espírito.</p><p>E os erros do homem têm raízes no ódio.</p><p>As pessoas tentam ensinar boas maneiras às crianças. Mas as</p><p>crianças que permitimos desenvolverem-se são seres ternos,</p><p>naturalmente gentis e educados uns com os outros. As regras</p><p>tradicionais da boa educação são superficiais tão logo surja uma</p><p>sensibilidade espiritual afinada. Ao contrário, se esta está ausente, a</p><p>conduta “conveniente” deve ser ensinada. Regras exteriores de</p><p>comportamento só são necessárias quando o homem é insensível. Nesse</p><p>caso, tudo lhe deve ser ensinado, tudo se torna um fardo para ele. Ele é</p><p>apenas um escravo. Devemos ensiná-lo a amar os outros e isso é, para</p><p>ele, objeto de grande esforço. O amor mútuo é impossível num clima de</p><p>ódio.</p><p>A sede de poder e de posse torna os homens escravos e, em vez de</p><p>termos uma sociedade fundamentada no amor e na justiça, temos uma</p><p>sociedade em que os homens têm de se esconder atrás de máscaras para</p><p>poderem viver. O trabalho, que deveria ser fonte de alegria, torna-se um</p><p>fardo. Lembremo-nos da condenação de Adão: “Ganharás teu pão com</p><p>o suor de teu rosto!”.</p><p>Se o adulto não tomou o caminho errado, por ter sido uma criança</p><p>negligenciada ou maltratada, ele amará seu ambiente e seu trabalho.</p><p>Será um homem normal. O amor é um fim a ser atingido, não um ponto</p><p>de partida. Os sermões sobre o amor de nada valem nesse caso, porque</p><p>não é pelo constrangimento que podemos suscitar o amor, que é a base</p><p>da saúde moral. Alguns homens excepcionais provaram que tal amor é</p><p>possível, São Francisco de Assis, por exemplo.</p><p>Agora que temos uma percepção do que deve ser o homem normal,</p><p>temos boas razões para acreditar que toda a humanidade poderá um dia</p><p>vir a ser melhor, ser, enfim, normal.</p><p>O amor pelo ambiente é um sentimento espiritual que o homem</p><p>experimenta, uma força que o eleva, que lhe oferece momentos de</p><p>glória. Esse despertar divino o impulsiona em direção a um fim místico:</p><p>a criação da supernatureza.</p><p>O homem deve conquistar a Terra. Se ele não se desenvolveu</p><p>normalmente, ele o faz pela violência e com ódio. Se desenvolveu-se</p><p>como um homem verdadeiramente normal, encontra a felicidade de uma</p><p>vida saudável com seu esforço. O homem deve obedecer às leis que</p><p>governam sua vida e, já que elas estão ocultas, deve procurá-las.</p><p>13</p><p>SUPERNATUREZA E NAÇÃO ÚNICA</p><p>O estudo da natureza e a observação do desenvolvimento animal</p><p>nos fornecem um quadro global para explicar alguns fenômenos sociais.</p><p>A teoria de Darwin, tal como está expressa em seus escritos, como</p><p>luta pela sobrevivência do mais adaptado, ajudou-nos a compreender os</p><p>grandes acontecimentos da história mundial. Em seus vários trabalhos,</p><p>Darwin apresentou a ideia de que o homem é uma espécie privilegiada,</p><p>o que indica a natureza dos conflitos humanos, e mostrou o destino dos</p><p>que se revelam fracos na luta pela sobrevivência.</p><p>Mas há outros fenômenos essenciais na vida humana. E alguns</p><p>dentre eles – particularmente os que têm ligação com a infância e com</p><p>as criaturas impotentes, que ainda não são capazes de lutar por sua</p><p>sobrevivência – não podem ser explicados pela teoria de Darwin. Um</p><p>outro fator intervém, e a teoria darwiniana não chega a explicá-lo de</p><p>modo convincente: é a proteção que o adulto dedica ao recém-nascido</p><p>quando este começa a enfrentar a vida a fim de adquirir as principais</p><p>características da espécie em seu conjunto.</p><p>Reencontramos esse fenômeno no reino animal. Quando os animais</p><p>atingem o estágio adulto em que devem proteger seus filhotes, uma</p><p>transformação radical se opera em seu instinto agressivo. Suas relações</p><p>com os outros animais mudam completamente; eles já não lutam entre</p><p>si e até animais ferozes ficam calmos.</p><p>Podem-se observar essas mudanças importantes até mesmo entre os</p><p>insetos. Em seus esforços para preparar um ambiente protetor para os</p><p>filhotes, eles se engajam, mesmo antes do nascimento das crias, num</p><p>verdadeiro trabalho para construir abrigos. O instinto protetor guia suas</p><p>ações.</p><p>O que há de curioso entre os seres humanos, eles que são</p><p>construtores por excelência, é que não mostram tal instinto, forte e</p><p>consciente, de proteger seus rebentos. Se compararmos os seres</p><p>humanos com as abelhas, veremos que esses insetos trabalham de</p><p>forma</p><p>desinteressada a serviço de sua espécie, já os homens não se preocupam</p><p>em construir para seus descendentes. Quando e onde o homem</p><p>demonstra o instinto de construir alguma coisa bela e útil para a</p><p>proteção do indivíduo? Quando os adultos abandonam seus interesses</p><p>egoístas para fazer alguma coisa que facilite a sobrevivência da espécie?</p><p>Pois não é o indivíduo que conta, mas a sobrevivência das gerações</p><p>futuras.</p><p>Em nossa sociedade, há apenas a religião – em que encontramos o</p><p>resumo de alguns mistérios, de fatores antes ignorados – para</p><p>demonstrar uma preocupação elevada pela espécie humana. É a razão</p><p>pela qual frequentemente sentimos necessidade de recorrer a ela para</p><p>nos ajudar.</p><p>É comum fazer, nos instintos animais, uma distinção nítida que os</p><p>divide em dois grupos, conforme se refiram à sobrevivência da espécie</p><p>ou à do indivíduo.</p><p>Em nossa vida social, em nossas atividades sociais, o único instinto</p><p>que vemos operar é o que leva o homem a proteger o bem-estar físico</p><p>de seu filho. A criança, em si mesma e por ela mesma, fica esquecida.</p><p>Nós esquecemos de lhe oferecer o que lhe é necessário para se</p><p>desenvolver normalmente. Ora, para que tal desenvolvimento se</p><p>produza, a influência dos comportamentos do adulto é insuficiente. Para</p><p>explicar de maneira satisfatória a sobrevivência da espécie e a</p><p>existência do indivíduo, é preciso analisar como esses dois tipos de</p><p>instintos cooperam.</p><p>Falhas fundamentais foram cometidas na organização da vida</p><p>humana. Necessidades fundamentais foram negligenciadas e todos os</p><p>homens sofrem de uma carência: não foram suficientemente orientados</p><p>desde o nascimento. Uma grande falta foi cometida. Ensinava-se que a</p><p>criança, esse pequeno ser impotente, não dispondo ainda do poder da</p><p>razão, não tinha importância, porque se pensava, habitualmente, que a</p><p>única coisa que conta verdadeiramente é a vontade humana orientada</p><p>para uma finalidade exterior. Por isso, a criança, que é incapaz de</p><p>perseguir um objetivo de forma consciente e deliberada num mundo</p><p>hostil e desconhecido, não tem realmente grande importância aos olhos</p><p>dos adultos.</p><p>É curioso notar o lugar que a religião em geral dedica à veneração à</p><p>mãe de Jesus, à santa Mãe da Criança. Não poderíamos ver aí a</p><p>expressão de uma verdade intuitiva que não conseguiu encontrar seu</p><p>espaço na vida cotidiana?</p><p>Os biólogos, hoje, consideram que a vida em seu conjunto está</p><p>estreitamente ligada à existência da Terra, tomada como um todo. Esse</p><p>conceito pode esclarecer a necessidade de uma ordem social. De fato,</p><p>essa visão da vida está mais próxima da verdade que a ideia largamente</p><p>difundida segundo a qual os seres vivos devem se conformar à natureza</p><p>e, em seus esforços para atingir esse fim, provocam modificações em</p><p>sua espécie, falsa verdade em que acreditam os que só pensam em</p><p>termos de luta pela sobrevivência. De fato, existe uma outra visão da</p><p>vida que nos conduz a outras conclusões.</p><p>A que ambiente devemos nos adaptar? À Terra, ao solo, ao</p><p>continente em que vivemos! Ora, a ciência mostra que esta Terra, tal</p><p>como está agora, resulta do trabalho da vida vegetal e animal. O solo,</p><p>por exemplo, resulta da ação de inumeráveis formas de vida. E a</p><p>atmosfera e os oceanos? Como mantêm uma composição química</p><p>constante? Por que os oceanos não se transformam em carbonato de</p><p>cálcio sob o efeito da descarga constante dos rios? É a vida das plantas</p><p>que mantém o equilíbrio da atmosfera e é a vida animal que mantém o</p><p>equilíbrio dos oceanos. Diversos corais extraem o carbonato de cálcio</p><p>da água dos mares e o utilizam para criar os atóis.</p><p>São criaturas vivas que mantêm o equilíbrio universal. Os animais e</p><p>as plantas não são formas de vida destacadas de seu ambiente, que se</p><p>adaptam mecanicamente a ele. Poderíamos dizer que a vida é a força</p><p>que cria nosso planeta.</p><p>A vida mantém a vida. Os animais são trabalhadores que criam,</p><p>purificam e mantêm seus ambientes. Eles não o fazem para si mesmos;</p><p>o objetivo que perseguem não é preservar a própria espécie por si só,</p><p>mas preservar o planeta. Seguramente, o objetivo imediato de suas</p><p>ações é a preservação de sua espécie, e eles são movidos por instintos</p><p>de preservação do indivíduo e da espécie. Mas isso não os impede de</p><p>estar a serviço de uma finalidade mais elevada. Os animais não se</p><p>contentam em preservar sua espécie, na realidade, fazem muito mais:</p><p>criam o mundo vivo.</p><p>Algumas funções parecem absolutamente necessárias à</p><p>sobrevivência do indivíduo. Alguns animais comem constantemente,</p><p>alimentando-se às vezes de coisas repugnantes. A minhoca, por</p><p>exemplo, alimenta-se de lixo. Se a meta da minhoca é só adaptar-se a</p><p>seu ambiente, por que não poderia comer outra coisa? Se ela consome</p><p>lixo continuamente, não é por ela mesma, mas para transformar a terra,</p><p>produzir o solo.</p><p>As vacas pastam continuamente, absorvendo grandes quantidades</p><p>de pasto. Elas estão na Terra desde os tempos mais remotos e</p><p>precisaram, para se adaptar a esse tipo de alimento, desenvolver órgãos</p><p>específicos, nada menos que quatro estômagos. Não poderiam comer</p><p>outra coisa? Essa espécie animal pode ser comparada a uma espécie de</p><p>laboratório químico. A vaca é uma máquina que funciona</p><p>constantemente e, com poucos esforços, produz leite em quantidade. É</p><p>um trabalho necessário na economia da Terra. Indo buscar o néctar das</p><p>flores, os insetos espalham o pólen. O instinto de preservação de sua</p><p>espécie conduz as abelhas a edificar obras surpreendentes. Alguns</p><p>animais comem carniça, desempenhando assim uma função de limpeza</p><p>do ambiente. Sua atividade benéfica se aproxima da do escaravelho e</p><p>tem o mesmo fim.</p><p>É interessante notar que os homens veneraram esses animais. Os</p><p>povos da Índia consideram as vacas sagradas e os antigos egípcios</p><p>veneravam o escaravelho. Intuitivamente, os homens perceberam que</p><p>esses animais tinham uma função sagrada. Como pode, então, o homem</p><p>– esse ser inteligente, esse ser que possui uma mão que é uma</p><p>verdadeira ferramenta à sua livre disposição e um órgão de comando em</p><p>sua mente – não ter uma função a executar no mundo?</p><p>Diz-se que o destino do homem é usufruir da criação, mas ele não</p><p>pode! Usufruir do quê? Do mundo? Não é essa sua natureza! O que ele</p><p>procura, de fato, não é o prazer, mas o trabalho e o sacrifício. O homem</p><p>tem uma meta elevada, que não é nem o gozo do bem-estar material</p><p>nem mesmo a sobrevivência de sua espécie. Se a meta final dos animais</p><p>não é estritamente limitada, como o homem poderia se satisfazer de um</p><p>objetivo restrito? Essa verdade, ele incontestavelmente a percebeu</p><p>intuitivamente nas profundezas de sua alma, mesmo que a tenha banido</p><p>de sua vida cotidiana e a rejeitado no domínio da religião.</p><p>A finalidade fundamental da existência humana não é nem a</p><p>sobrevivência do indivíduo nem a da espécie. Os esforços do adulto</p><p>para assegurar sua própria subsistência e a da espécie são apenas um</p><p>meio e uma parte da tarefa que ele deve assumir para completar sua</p><p>missão, para realizar sua meta essencial, para justificar sua razão de ser,</p><p>a saber, a criação do ambiente.</p><p>O homem talvez esteja destinado a usufruir a vida, nascido para ser</p><p>o rei do universo, mas não chegará lá se se contentar em ser uma das</p><p>criaturas que habitam a Terra. Ele deve encaminhar sua vida para</p><p>realizar sua meta, uma finalidade que não é visível neste mundo nem</p><p>evidente na natureza. Ele avança em direção a esse alvo sem perceber.</p><p>Esse alvo de que não está consciente é a edificação de algo que é</p><p>superior à natureza. É exatamente para a realização dessa meta que o</p><p>homem, de fato, trabalha, mas sem estar consciente disso, e é essa</p><p>inconsciência que lhe provoca sentimentos de pavor, uma impressão de</p><p>inutilidade e de vazio. Ele faz seu trabalho no cosmos sofrida e</p><p>arduamente, e não com alegria e satisfação. Ninguém pode exonerá-lo</p><p>dessa imensa tarefa que a vida lhe atribui. A única escolha que temos é</p><p>concretizá-la na alegria ou na dor. Se o homem compreende sua missão</p><p>e obedece consciente e sabiamente às leis de sua própria existência,</p><p>descobre rapidamente que pode mudar sua vida e experimentar alegria</p><p>onde experimenta grandes dificuldades.</p><p>Como disse, foi nossa observação das crianças que nos fez tomar</p><p>consciência de que o trabalho é o instinto fundamental do homem.</p><p>Descobrimos que a criança pode trabalhar da manhã à noite sem se</p><p>cansar, como se o trabalho fizesse parte de sua natureza.</p><p>A preguiça não é natural. Ela não resulta do trabalho, mas do fato</p><p>de que não trabalhamos corretamente. A criança faz seu trabalho sem se</p><p>cansar e nos prova que possuímos enormes reservas de energia que não</p><p>utilizamos.</p><p>É evidente que o homem nasceu para trabalhar, tanto com as mãos</p><p>como com a cabeça. Isso faz do homem um criador único, cujas mãos e</p><p>cuja mente devem trabalhar juntas, numa unidade funcional. Temos</p><p>provas de que o homem trabalha desde que a vida humana começou.</p><p>Em comparação com as outras espécies animais, o homem tem</p><p>diferentes maneiras de trabalhar. Ele jamais faz sempre a mesma coisa.</p><p>Diferentemente dos corais, por exemplo, ele não tem um ciclo fixo de</p><p>vida e de trabalho.</p><p>O homem pode, de fato, empreender todas as tarefas imagináveis</p><p>no mundo, as atividades de todos os animais e até mesmo aquelas dos</p><p>seres inanimados, da água e do ar. O homem é capaz de se adaptar a</p><p>todas as formas de trabalho e pode transformá-las para que se tornem</p><p>suas. Ele é capaz de dividir o trabalho a ser feito entre um grande</p><p>número de indivíduos.</p><p>Seu amor pelo ambiente lhe sugere qual trabalho escolher. Alguma</p><p>coisa o chama a cumprir sua missão. O homem, então, trabalha num</p><p>verdadeiro espírito de sacrifício e, com seu trabalho, transforma o</p><p>ambiente, criando um outro mundo que penetra toda a natureza. Esse</p><p>mundo é mais que a natureza, porque para construí-lo o homem usa</p><p>tudo o que há nela. O homem cria uma supernatureza e essa</p><p>supernatureza do homem é diferente da natureza comum.</p><p>Por que as colmeias são qualificadas como obra da natureza e as</p><p>estradas construídas não? Por que uma vaca faz parte da natureza e uma</p><p>usina química, que é a réplica dela, não? Por que a maneira como nosso</p><p>ambiente se purifica é qualificada de “natural”? Porque o homem vai</p><p>mais longe. Ele cria coisas artificiais na natureza. Ele faz brotar água do</p><p>deserto e a canaliza para os seres vivos. Ele retira da terra o ferro, o</p><p>carvão, o ouro e as pedras preciosas e as traz para a superfície.</p><p>O homem é o criador de uma supernatureza. Ele se tornou mestre</p><p>da matéria. Hoje, ele até pode retirar do universo o que a natureza</p><p>jamais lhe deu. Ele aprendeu a explorar fontes de energia escondidas</p><p>abaixo da superfície da Terra e a usá-las para a criação da</p><p>supernatureza. Tornou-se mestre da luz e produziu milagres. Ele começa</p><p>a conquistar o céu acima de nós. Mas está consciente apenas de</p><p>fenômenos particulares; seu espírito não os alcança na essência. Ele não</p><p>percebe a intenção maior de sua conquista: a criação de uma</p><p>supernatureza.</p><p>Graças a seus esforços para conseguir isso tudo, o homem se</p><p>transformou. Particularmente nos últimos tempos, alguma coisa nova</p><p>pareceu no homem. Ele está agora mais inteligente, mas os sentimentos</p><p>que deveriam acompanhar esse desenvolvimento de sua inteligência</p><p>ainda lhe faltam. Eles não podem florescer nele, porque seu modo de</p><p>vida é falso. Ele está dominado pelo ódio e não obedece às leis da</p><p>natureza. Sentimentos mais nobres – a consciência da unidade de todos</p><p>os seres vivos, por exemplo – estão longe de aparecer nele e a harmonia</p><p>ainda se faz esperar.</p><p>O homem é o mestre de toda a Terra. Ele transforma seu ambiente e</p><p>o coloca sob seu controle. Ele se assegurou dessa vitória, desde o início,</p><p>criando uma cultura e uma civilização humanas. A personalidade</p><p>humana, ela também muda, e somos testemunhas do nascimento de um</p><p>espírito de heroísmo, de sacrifício e de devotamento. Enquanto a</p><p>supernatureza se constrói, a evolução da humanidade também acontece.</p><p>Não se trata apenas de uma nova evolução da natureza, mas de um</p><p>desenvolvimento da personalidade humana. Essas conquistas foram</p><p>obra de um punhado de homens. A escrita, por exemplo, esse dom</p><p>supernatural, foi transmitida por alguns homens a outros, o que permitiu</p><p>à humanidade registrar as produções da inteligência humana e transmiti-</p><p>las através das eras. A ciência matemática é, também, essencial. Sem</p><p>ela, o progresso dificilmente seria concebível.</p><p>A criança deve, então, beneficiar-se de um mestre capaz de</p><p>desenvolver seus instintos superiores. Nesse sentido, a educação é uma</p><p>troca entre a natureza humana e a supernatureza. Deveríamos levar em</p><p>conta o fato de que o homem, atualmente, não é simplesmente o homem</p><p>biológico da natureza. Ele se desenvolve graças às elaborações da</p><p>inteligência humana que progride.</p><p>Não poderíamos mais viver na natureza, mesmo que quiséssemos</p><p>andar a pé e apenas observá-la com nossos olhos. Dependemos, daqui</p><p>em diante, de nossas possibilidades de ir além de nossos limites</p><p>naturais. É preciso uma preparação para essa nova ordem de vida e é</p><p>por isso que a educação é necessária.</p><p>O homem da supernatureza já não é o homem da natureza. Tendo</p><p>descoberto como recorrer a imensas energias, ele deve aprender a</p><p>utilizá-las, a discipliná-las para as necessidades de sua vida, a colocá-las</p><p>em funcionamento. Ele criou uma supernatureza miraculosa usando e</p><p>dispondo das forças da natureza. E essa criação transformou o homem</p><p>em um ser prodigioso que vê e escuta além da matéria e se eleva acima</p><p>dela.</p><p>O homem produziu um outro milagre, que está na base de tudo e é a</p><p>chave de tudo. É o maior dos milagres, mas é o único de que ele não</p><p>está consciente. O homem elevou o nível da inteligência humana. Os</p><p>homens podem se comunicar com uma facilidade espantosa. Ao longo</p><p>da história humana, os homens se organizaram em grupos cada vez mais</p><p>importantes, de tal sorte que hoje a humanidade forma um único</p><p>conjunto. Os homens não estão conscientes disso, mas é</p><p>indiscutivelmente a realidade. Toda a humanidade, atualmente,</p><p>compartilha uma mesma função. Os diferentes grupos de seres humanos</p><p>que existiam antigamente não existem mais. Um interesse único os une</p><p>e os faz funcionar como um único organismo vivo. Nenhum</p><p>acontecimento pode afetar um grupo humano sem afetar todos os</p><p>demais ou, melhor dizendo, o interesse do menor grupo se tornou</p><p>interesse de todos. Já não podemos falar, hoje, de regiões civilizadas,</p><p>pois a civilização se expandiu por toda parte e não há como fugir disso.</p><p>O ladrão já não pode se esconder e já não há exilados. Toda a</p><p>humanidade forma um só organismo, mas o homem continua a viver</p><p>num universo afetivo ultrapassado. A humanidade de hoje constitui um</p><p>todo único e indivisível, uma só nação.</p><p>Essa nação única se abriu para o mundo inteiro e reuniu todos os</p><p>homens. As riquezas da Terra agora pertencem a todos os homens. O</p><p>medo da pobreza deve agora desaparecer e, liberado desse medo, o</p><p>homem deve tomar consciência de que, daqui em diante, as riquezas</p><p>não devem ser procuradas na superfície da Terra ou em suas</p><p>profundezas. O verdadeiro tesouro do homem, a matéria-prima que</p><p>promete tudo trazer para o homem, é sua inteligência, riqueza</p><p>inesgotável.</p><p>É por isso que a educação deve se preocupar não apenas em</p><p>proteger a pessoa como também a guiar o homem na direção do tesouro</p><p>que lhe assegurará uma vida feliz, a saber, a inteligência e a</p><p>personalidade humana normal. Não devemos desperdiçar um grama</p><p>sequer; devemos acumulá-la, como fizemos no passado, acumulando as</p><p>riquezas da Terra.</p><p>A inteligência, o equilíbrio da personalidade e a unidade de toda a</p><p>humanidade num organismo único, eis as riquezas do homem. O que</p><p>precisamos, então, hoje, é de uma educação que conduza a pessoa</p><p>humana a reconhecer sua própria grandeza.</p><p>14</p><p>A EDUCAÇÃO DO INDIVÍDUO</p><p>Uma das características de nossa época é a lacuna que separa o alto</p><p>nível alcançado por nossa civilização material, que evoluiu rapidamente</p><p>nos últimos anos, e o baixo nível do desenvolvimento humano, que</p><p>pouco se elevou desde a aurora da humanidade.</p><p>Para restabelecer o equilíbrio indispensável, a humanidade deve se</p><p>engajar num esforço comum para reforçar a dignidade da pessoa</p><p>humana a fim de que ela atinja o mesmo nível avançado pelo ambiente</p><p>criado pelo trabalho</p><p>e pela inteligência do homem.</p><p>A educação passou, então, a ter uma grande importância e seu papel</p><p>não deve mais se limitar a favorecer os progressos da civilização</p><p>material, que talvez já seja bastante avançada.</p><p>Devemos empreender um esforço coletivo imediato para favorecer</p><p>o desenvolvimento da pessoa humana. Tal esforço não deve ser feito</p><p>simplesmente porque os educadores o pedem. Toda a humanidade deve,</p><p>subconscientemente, ser incitada a progredir. A educação atual ainda é</p><p>praticada em toda parte de forma antiga, consagrada pelo uso; ela segue</p><p>um caminho estreito e único que não permite o desabrochar da</p><p>personalidade humana.</p><p>O que se precisa fazer?</p><p>Evidentemente, é menos fácil responder a essa pergunta do que</p><p>fazê-la. De fato, não existe nada parecido com uma unicidade de</p><p>objetivo, porque não temos uma visão clara do trabalho a desenvolver.</p><p>Comecemos, então, a tentar esclarecer algumas ideias</p><p>fundamentais. O que, exatamente, é a personalidade? As descrições</p><p>habituais são vagas. De fato, é necessário fazer uma distinção clara</p><p>entre dois conceitos: individualidade e personalidade. As premissas</p><p>fundamentais não estão bem definidas e o principal problema é saber o</p><p>que precisa ser desenvolvido.</p><p>Aqui, como em muitos outros casos, devemos recorrer à criança e</p><p>lhe pedir que esclareça o que tentamos entender. Esse esclarecimento,</p><p>só poderemos obtê-lo se nos voltarmos para o início de sua vida, a um</p><p>ponto próximo do nada. Somente a criança pode nos guiar, e ela só o</p><p>pode fazer se estivermos prontos, em nosso íntimo, para segui-la. Ela</p><p>nos conduzirá do nada ao início e, depois, do início ao desenvolvimento</p><p>que o segue. A criança nos ensina alguma coisa importante, a saber, que</p><p>a educação, de maneira geral, não conseguiu entendê-la. A criança nos</p><p>mostrou o fundamento da totalidade do desenvolvimento da</p><p>personalidade do homem, esse indivíduo superior, cujo potencial parece</p><p>quase ilimitado e cujo desenvolvimento interior, incontestavelmente,</p><p>não tem limite predeterminado. Isso porque o fator responsável por essa</p><p>abertura indefinida da personalidade humana é seu desenvolvimento,</p><p>que acontece independentemente da influência dos outros seres</p><p>humanos.</p><p>A criança nos mostrou o princípio básico subjacente a todo o</p><p>processo de educação. Ela mesma o indicou, dizendo: “Ensine-me a</p><p>fazer as coisas por mim mesma!”. A criança resiste à ajuda dos adultos</p><p>quando eles tentam substituir a atividade dela pela deles. O adulto deve</p><p>ajudar a criança a fazer as coisas inteiramente por ela mesma, porque, se</p><p>a criança não atingir o ponto em que não mais se apoiará na ajuda do</p><p>adulto para se tornar autônoma, ela jamais alcançará a maturidade</p><p>intelectual e moral.</p><p>A psicanálise confirma esse fato e indica a necessidade de uma</p><p>nova abordagem psicológica. Os psicanalistas dizem, por exemplo, que</p><p>uma pessoa muito apegada a outra, e dependente dela, adota o</p><p>sentimento de que nada pode fazer sem a ajuda da outra e pode ser</p><p>vítima de numerosas alterações psíquicas extremamente perturbadoras.</p><p>Essa pessoa não pode se curar enquanto não superar essa dependência</p><p>psicológica.</p><p>A liberdade individual é, de fato, a base de tudo o mais. Sem essa</p><p>liberdade, é impossível à pessoa se desenvolver plenamente. A liberdade</p><p>é a chave de todo o processo do desenvolvimento e o primeiro passo é</p><p>dado assim que o indivíduo seja capaz de agir sem a ajuda dos outros e</p><p>se torne consciente de si mesmo como um ser autônomo. Aí está uma</p><p>definição rudimentar da liberdade, que parece estar em contradição com</p><p>a natureza social do homem e com o funcionamento da coletividade</p><p>humana. Como poderemos, então, conciliar a ideia de liberdade</p><p>individual com a da vida em sociedade, sendo esta plena de restrições</p><p>que obrigam o indivíduo a obedecer às leis da coletividade? O mesmo</p><p>problema, a mesma aparente contradição, parece caracterizar nossa vida</p><p>cotidiana em sociedade. No entanto, a liberdade é o fundamento</p><p>obrigatório da vida em sociedade e a personalidade individual não</p><p>poderia se desenvolver sem a liberdade individual.</p><p>Temos a impressão, aqui, de estarmos perdidos num labirinto de</p><p>contradições. Somente a criança pode nos abrir um caminho. A criança</p><p>é o único guia que pode nos permitir saber como deve ser a educação.</p><p>Somente ela pode nos ajudar a compreender a complexidade da vida</p><p>social e a aspiração inconsciente do homem de ser livre para poder</p><p>construir uma ordem social melhor, pois o homem procura a liberdade</p><p>para construir uma sociedade supernatural. Ele não procura a liberdade</p><p>para agir a seu bel-prazer, mas para viver.</p><p>Devemos, agora, apelar para a biologia – que nos revelou</p><p>numerosos segredos da vida, por muito tempo escondidos – se</p><p>queremos uma imagem mais precisa da relação entre o indivíduo e a</p><p>sociedade. Reflitamos sobre a evolução da vida animal. As espécies</p><p>primitivas formam colônias nas quais um grande número de indivíduos</p><p>funciona como um único organismo. Um exemplo são os cnidários.</p><p>Alguns membros da colônia desempenham a função de digestão, outros</p><p>a defendem contra os inimigos externos. Nesse filo, então, unidades não</p><p>individualizadas em grande número funcionam como um só organismo,</p><p>como uma só unidade viva.</p><p>A evolução se inicia quando os indivíduos começam a viver sua</p><p>própria vida. Somente indivíduos podem formar uma sociedade. As</p><p>formigas, por exemplo, formam uma sociedade composta por um</p><p>número enorme de indivíduos, o que é impossível no caso das formas</p><p>de vida animal mais primitivas.</p><p>Os indivíduos, animados por uma vida distinta, são complexos e</p><p>capazes de se agrupar em grande número. Eles podem formar não</p><p>apenas um agregado, mas uma verdadeira associação fundada na</p><p>divisão do trabalho necessário para cumprir funções sociais. Uma</p><p>associação existe tão logo um grupo se engaje em atividades coletivas,</p><p>assim como os pássaros empreendem grandes migrações. Eles se</p><p>reúnem em bando e constituem uma associação de indivíduos livres.</p><p>A liberdade fundamental, a saber, a liberdade da pessoa individual,</p><p>é necessária para a evolução do gênero humano por dois motivos:</p><p>primeiramente, ela dá aos indivíduos possibilidades infinitas de</p><p>crescimento e de melhoria e constitui o ponto de partida do</p><p>desenvolvimento completo do homem; em segundo lugar, ela torna</p><p>possível a formação de uma sociedade, porque a liberdade é a base da</p><p>sociedade humana.</p><p>Devemos, portanto, tornar possíveis a liberdade e a autonomia do</p><p>indivíduo. A chave desse problema complexo é a seguinte: é preciso</p><p>oferecer os meios necessários para o desenvolvimento de</p><p>personalidades livres. Toca-se aí na questão do ambiente das crianças.</p><p>Ele deve permitir não apenas a liberdade do indivíduo, mas também a</p><p>formação de uma sociedade.</p><p>A educação da humanidade deve repousar em fundamentos</p><p>científicos e desenvolvê-los em cada etapa. A primeira etapa se</p><p>desenvolve, por exemplo, em nossas escolas, que dão à criança a</p><p>possibilidade de nos ensinar essa grande lição tão esclarecedora e de</p><p>nos ajudar a perseguir essa finalidade cientificamente. Essa primeira</p><p>etapa, da qual tudo o mais é decorrente, consiste em ajudar a criança a</p><p>desenvolver todas as suas funções como um indivíduo livre e em</p><p>reforçar o desenvolvimento da personalidade que comanda a</p><p>organização social.</p><p>O instinto de liberdade, a necessidade inerente do indivíduo de que</p><p>o deixemos em paz para agir por si mesmo, determina o que chamamos</p><p>de “nível de educação”. De fato, trata-se aqui do primeiro nível. A</p><p>nossos olhos, esse nível está no domínio da escola, dos primeiros anos</p><p>escolares, porque é preciso fornecer os materiais que gerem uma</p><p>atividade livremente organizada da criança.</p><p>O segundo nível conduz à sociedade, à organização social do</p><p>adulto. A educação fundamental deve permitir a passagem a esse nível,</p><p>o do desenvolvimento da personalidade e da organização social.</p><p>Estão aí os dois primeiros níveis, ou planos, do desenvolvimento da</p><p>vida humana, se o objetivo da educação é realmente contribuir para a</p><p>formação do homem e de sua personalidade e elevar a humanidade ao</p><p>ponto em que ela poderá fazer autênticos progressos e salvar o gênero</p><p>na Escola Internacional de Filosofia.</p><p>Em julho de 1939, o céu da Europa ainda encoberto, ela fez uma</p><p>conferência na Fraternidade Mundial dos Crentes, uma organização</p><p>religiosa internacional.</p><p>Maria Montessori trouxe uma nova e autêntica luz ao pensamento</p><p>social, político, científico e religioso. As universidades, as organizações</p><p>e associações de numerosos países, unidas na vontade de reformar a</p><p>sociedade humana, propuseram sua candidatura ao prêmio Nobel da Paz</p><p>em 1949 e 1950.</p><p>A partir de 1939, ela se consagrou sem entraves à sua obra na Índia.</p><p>Chegou a dar uma base científica a seu pensamento sobre a paz e a</p><p>reforma da sociedade, e a construir essa filosofia coerente e sólida que</p><p>apresentou em sua obra definitiva, A mente absorvente.</p><p>Reunimos nesta obra as conferências em que ela tratou do grande</p><p>problema do futuro da humanidade. Foi nelas que exprimiu de forma</p><p>apaixonada e pela primeira vez suas visões dessa questão.</p><p>Quem quiser entender por que Maria Montessori foi indicada para o</p><p>prêmio Nobel da Paz e por que ela recebeu votos do mundo inteiro,</p><p>poderá descobrir, nesta coletânea de discursos, os trajetos de seu</p><p>pensamento, assim como a ação que ela empreendeu, identificando,</p><p>desse modo, os primeiros traços do legado profundo deixado por seu</p><p>espírito poderoso.</p><p>Os responsáveis pela edição italiana</p><p>PEQUENA INTRODUÇÃO À EDIÇÃO</p><p>BRASILEIRA</p><p>Esta obra, de que podemos dispor hoje em nossa língua, foi</p><p>publicada pela primeira vez no ano de 1949. Passada a Segunda Guerra</p><p>Mundial – que motivou o tema das conferências reunidas aqui, todas</p><p>lembrando a necessidade de um grandioso investimento na educação</p><p>das crianças, não investimento material, mas sobretudo moral –, a obra</p><p>A educação e a paz permanece atual, já que o homem ainda não</p><p>conseguiu concretizar a paz verdadeira, embora já estejamos vivendo o</p><p>terceiro milênio.</p><p>Uma educação que possibilite o desenvolvimento do que há de</p><p>melhor em cada indivíduo é o que apregoa Maria Montessori em todo o</p><p>seu trabalho, e o faz de forma mais enfática nesta obra. O homem ainda</p><p>não conseguiu conhecer seu potencial de bondade ao qual se refere a</p><p>autora em uma das palestras aqui registradas. Ele ainda está em busca</p><p>de soluções relacionadas a ideologias políticas, a ciências econômicas,</p><p>mas se esqueceu de buscá-las em uma educação que priorize o</p><p>indivíduo harmonizado consigo mesmo e com o universo, a solução</p><p>definitiva para a construção da paz.</p><p>A Unesco, em sua proposta de educação para o século XXI, traçou</p><p>os quatro pilares que devem nortear a transformação do panorama da</p><p>sociedade: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser,</p><p>aprender a conviver. Ao tomarmos conhecimento desses quatro pilares</p><p>podemos afirmar, com tranquilidade, que a doutora Montessori anteviu</p><p>essa educação quando expressou suas ideias sobre como se poderia</p><p>construir a paz por meio da educação.</p><p>Os pilares da educação para o século XXI nos remetem à proposta</p><p>de Educação Cósmica delineada pela insigne doutora italiana em seu</p><p>livro Para educar o potencial humano (Papirus, 2ª ed., 2004). A criança</p><p>e o jovem que são atendidos em sua curiosidade sobre o que os cerca, e</p><p>que aprendem que tudo está conectado como numa enorme rede,</p><p>percebem sua função como agentes poderosos no intercâmbio cósmico.</p><p>A primeira fase da educação, a que corresponde aos pilares aprender a</p><p>conhecer e aprender a fazer, permite ao ser humano tomar contato com</p><p>sua realidade, com os meios de interagir com ela. A seguir, os dois</p><p>outros pilares: aprender a ser e aprender a conviver são o caminho da</p><p>valorização das qualidades positivas de cada um, abandonando a</p><p>priorização da posse material, de modo que, ao estar bem consigo</p><p>mesmo, o indivíduo possa conviver melhor com os demais, respeitando</p><p>todas as diferenças – de raça, de credo, de situação social, dos que</p><p>portem alguma deficiência –, enfim, que ele saiba conviver com</p><p>qualquer ser humano.</p><p>Esta obra é um documento que busca auxiliar na concretização</p><p>dessa proposta educacional, a qual há de provocar uma grande</p><p>transformação na fisionomia da Terra, no sentido de que os homens se</p><p>compreendam e se amem como irmãos.</p><p>Por este trabalho magnífico em prol de uma educação construtora</p><p>da paz, foram merecidas sua indicação ao prêmio Nobel da Paz e a</p><p>forma carinhosa como o então diretor-geral da Unesco, Jaime Torres</p><p>Bodet, se referiu à doutora Montessori, ao introduzi-la na reunião</p><p>plenária de 1950, em Florença, na Itália: “Temos entre nós alguém que</p><p>se transformou no símbolo de nossas esperanças para a educação e a paz</p><p>no mundo!”.</p><p>Sonia Maria Alvarenga Braga</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Não podemos tratar a questão da paz limitando-nos ao ponto de</p><p>vista, estreito e negativo, infelizmente muito frequente em política, que</p><p>consiste em procurar como evitar a guerra, como resolver os conflitos</p><p>entre países sem recorrer à violência.</p><p>Na própria palavra paz, há a ideia positiva de uma reforma social</p><p>construtiva. Dizer que, para construir uma sociedade nova, é preciso</p><p>criar um homem novo, é enunciar um lugar-comum, mas isso não passa</p><p>de uma abstração. Se é mesmo verdade que a pessoa humana pode</p><p>progredir e que a sociedade pode estar fundamentada em princípios de</p><p>justiça e de amor, sabemos bem, pelo que somos, que esses objetivos</p><p>não são uma realidade na nossa estrutura, eles revelam, antes, uma</p><p>aspiração, cuja realização só pode se situar num futuro mais distante.</p><p>No entanto, um fato imediato e concreto deve ser considerado do</p><p>ângulo da paz: a sociedade humana ainda não colocou em prática a</p><p>forma de organização que lhe é indispensável para fazer face às</p><p>necessidades atuais. Somos, então, obrigados a não nos contentarmos</p><p>em sonhar com a organização de um futuro melhor e de manter nossa</p><p>atenção nas necessidades do presente.</p><p>A sociedade de hoje não prepara suficientemente o homem para sua</p><p>vida de cidadão. Não existe nenhuma “organização moral” das grandes</p><p>massas humanas. Os homens estão habituados, por sua educação, a se</p><p>considerar indivíduos isolados, em concorrência uns com os outros para</p><p>a satisfação de suas necessidades imediatas. Uma formidável campanha</p><p>de opinião seria necessária para permitir aos homens compreender e</p><p>transformar os fenômenos sociais, para definir e perseguir objetivos</p><p>coletivos e, assim, permitir um progresso social organizado.</p><p>Hoje, então, dispomos de uma organização das coisas e não de uma</p><p>organização dos homens, da humanidade. Até aqui, apenas soubemos</p><p>organizar nosso ambiente material. O progresso técnico desenvolveu</p><p>uma formidável “maquinaria” que atrai os indivíduos, como um ímã a</p><p>limalha de ferro, e os mói em suas engrenagens. E isso vale tanto para</p><p>os intelectuais como para os trabalhadores manuais. Cada um está</p><p>isolado do outro por seus próprios interesses particulares; cada um se</p><p>contenta em procurar um tipo de trabalho que lhe permita satisfazer</p><p>suas necessidades materiais; cada um é atraído pelas engrenagens de um</p><p>mundo burocratizado e mecanizado e por ele se deixa envolver. É</p><p>evidente que os mecanismos não podem, por si mesmos, fazer progredir</p><p>o homem, porque o progresso só pode vir do homem.</p><p>Virá o dia, enfim, em que a humanidade será capaz de assumir o</p><p>controle do progresso para lhe dar um sentido. Ora, estamos</p><p>precisamente nesse momento crucial da história humana: ou bem a</p><p>humanidade em conjunto controla o mundo mecânico para organizá-lo,</p><p>ou esse mundo mecânico vai destruir o gênero humano.</p><p>A humanidade deve se organizar para alcançar um objetivo</p><p>extraordinariamente difícil: a cooperação universal necessária para a</p><p>busca do progresso. É imperativo que todos os homens cooperem para</p><p>remediar uma falta que compromete a existência mesma da civilização.</p><p>A humanidade deve se organizar, porque a fronteira mais vulnerável – a</p><p>que pode ceder em primeiro lugar e permitir ao inimigo, quer dizer, à</p><p>guerra, de entrar – não é o limite geográfico que separa dois países, mas</p><p>o despreparo do homem e o isolamento dos indivíduos. É preciso</p><p>desenvolver a vida espiritual dos homens e organizar a humanidade para</p><p>a paz. O aspecto positivo da paz se encontra na reforma</p><p>humano.</p><p>O objetivo de nosso raciocínio é elevar a humanidade ao mesmo</p><p>nível de desenvolvimento que seu ambiente material e, com isso,</p><p>eliminar o desequilíbrio entre os dois. A educação é indispensável não</p><p>para acelerar o progresso material, mas para salvar a humanidade, e</p><p>todos os nossos esforços devem convergir para esse objetivo: ajudar o</p><p>homem interior a se formar e não a lutar contra o mundo exterior.</p><p>Devemos refletir longa e seriamente sobre isso e trabalhar no</p><p>aprofundamento de nossos conhecimentos da psicologia e da educação</p><p>para que esta possa realmente ajudar os homens. O objetivo da</p><p>educação não deveria ser, então, ensinar como utilizar as energias</p><p>humanas para o progresso do ambiente, porque começamos, finalmente,</p><p>a tomar consciência de que a pedra de toque da educação é o</p><p>desenvolvimento da personalidade humana e que, desse ponto de vista,</p><p>a educação é de importância vital imediata para a salvação da</p><p>humanidade.</p><p>Sendo exatamente isso a educação, nossa primeira preocupação não</p><p>deve mais ser a administração das escolas, o desenvolvimento de cursos</p><p>etc. O currículo escolar será sempre útil na educação, mas não deve ser</p><p>imposto às crianças à força, em nome de algum objetivo inconsciente. O</p><p>gênero humano deve tornar-se plenamente consciente da finalidade da</p><p>educação e afirmá-la claramente. Hoje, o sistema educativo não leva em</p><p>conta a personalidade e não a desenvolve. Ele está motivado por um</p><p>ponto de vista não apenas errôneo, mas também perigoso, porque está</p><p>fundamentado em uma falsa premissa, que representa um verdadeiro</p><p>perigo para a humanidade. Hoje, o homem não presta atenção à</p><p>personalidade humana e considera a sociedade humana uma “colônia”,</p><p>que não seria composta por individualidades livres. Ele só conhece a</p><p>dependência e a submissão, que matam a personalidade. As ideias são</p><p>mesmo tão confusas que alguns creem ver uma contradição entre a</p><p>liberdade da pessoa e a participação dela na sociedade. E vemos pessoas</p><p>se perguntarem: “Já que teremos pessoas livres, o que acontecerá com a</p><p>sociedade?”.</p><p>Devemos recusar essa ideia errônea, porque ela nos coloca em</p><p>perigo iminente. Tudo isso acontece porque não temos uma ideia clara</p><p>do que é, na realidade, uma sociedade organizada. Ora, da ideia falsa</p><p>que fazemos da sociedade, decorre toda uma trama de erros que gera</p><p>tantas dificuldades na via do progresso da humanidade e que faz pesar</p><p>ameaças talvez até mesmo sobre a simples sobrevivência.</p><p>Estamos tomando consciência de que devemos dar aos homens sua</p><p>liberdade, que devemos educar as massas, que devemos educar todos os</p><p>homens. Um grito inarticulado soou para nos chamar a ver claramente</p><p>as coisas tais como realmente são, um grito surgido para defender o</p><p>homem.</p><p>Os níveis da educação devem ter um fundamento e um objetivo</p><p>humano: o desenvolvimento progressivo da personalidade da criança,</p><p>essa personalidade que nossa experiência fez descobrir sob uma luz</p><p>inteiramente nova. Isso porque a criança que deixamos livre para agir,</p><p>sem tentar influenciá-la com nossas sugestões adultas, mostra-nos as</p><p>verdadeiras leis da vida humana.</p><p>Vou abordar, agora, sucessivamente, os quatro níveis da educação</p><p>que podemos distinguir até o adulto desenvolvido. Não fui eu quem</p><p>encontrou essa distinção, nem tampouco a criança. Ela está baseada</p><p>simplesmente no modelo ordenado do desenvolvimento humano.</p><p>Os adultos vivem em tal confusão que conseguiram fazer de um</p><p>caos assustador a base da organização social. O ser humano revela ter</p><p>uma necessidade fundamental de ordem desde os primeiros anos de sua</p><p>vida. Ele tem sede de viver em um meio organizado e se disciplina</p><p>assim que pode agir livremente e seguir os imperativos de sua natureza.</p><p>Não é o adulto que lhe ensina, porque o adulto não tem sequer ideia</p><p>desse tipo de disciplina, já que seu próprio desenvolvimento foi</p><p>entravado. Deveríamos nos lembrar do que diz a Bíblia: “Pudemos</p><p>encontrar grandes coisas entre os homens: reis e poderosos, mas o que</p><p>jamais vimos foi a disciplina interior”. Foi isso que ocasionou a ruína de</p><p>numerosas civilizações.</p><p>A disciplina é um instinto fundamental do homem, como prova a</p><p>criança. Ela é uma necessidade normal da natureza humana, quando esta</p><p>está preservada e não desviada de seu curso natural.</p><p>Quando falamos do homem livre, devemos, antes de qualquer</p><p>coisa, corrigir algumas ideias falsas. Não é exato que a liberdade do</p><p>homem esteja em contradição com a sociedade, com a ordem, com a</p><p>disciplina social. Se ajudarmos o homem a seguir o fluxo de seu</p><p>desenvolvimento normal e as leis de sua própria natureza, permitiremos</p><p>a criação de uma sociedade mais perfeita que a de hoje. Certamente que</p><p>somos contra os programas de doutrinação que fazem do homem um</p><p>escravo. Mas isso não significa, necessariamente, que sejamos contra a</p><p>ordem e a disciplina que são as verdadeiras leis do gênero humano. Falo</p><p>em nome de meu mestre, a criança.</p><p>A criança, ser humano livre, pode ensinar a nós e à sociedade a</p><p>ordem, a calma, a disciplina e a harmonia. Quando a ajudamos, o amor</p><p>floresce, um amor de que temos a maior necessidade para unir todos os</p><p>homens e criar uma vida feliz.</p><p>O objetivo da educação não é ensinar fatos; a educação permaneceu</p><p>em um nível absurdamente baixo em comparação com os progressos</p><p>que o homem fez em outros domínios. Creio que, em um futuro</p><p>próximo, parecerá inconcebível que a educação seja tão estreitamente</p><p>limitada e torne impossível a resolução dos problemas sociais. Há boas</p><p>razões para considerar a educação de hoje uma coerção tirânica e</p><p>ditatorial exercida sobre todos os aspectos da vida das crianças. Ora,</p><p>esse poder tirânico não tem sentido e nem beneficia ninguém. Tem</p><p>menos sentido ainda nessa época em que o homem experimenta um</p><p>desejo tão intenso de liberdade. É mesmo difícil imaginar essa</p><p>escravidão que impede a criança de ser ela mesma, que fere, na raiz, a</p><p>sua personalidade, da qual necessitamos desesperadamente. A verdade</p><p>pura e simples, como nossa experiência demonstrou amplamente, é que</p><p>os constrangimentos a que a criança está submetida são arbitrários e que</p><p>devemos parar de impô-los, se quisermos que as leis da vida guiem seu</p><p>desenvolvimento. Os programas podem ser modificados, as leis da vida</p><p>são imutáveis. Se basearmos a educação nas leis da vida, criaremos</p><p>autênticos níveis de educação e não apenas simples currículos escolares.</p><p>A autonomia individual, então, é a base do primeiro nível de</p><p>educação. Nossa meta, nesse nível, deve ser tornar a criança capaz de</p><p>agir por si mesma, como já indicamos. O adulto deve representar para a</p><p>criança uma fonte de ajuda, e não um obstáculo. O adulto deve ajudar a</p><p>criança e jamais fazê-la vítima impotente de uma autoridade cega, que</p><p>não tem noção de seu verdadeiro objetivo. Devemos lealmente permitir</p><p>a satisfação das verdadeiras necessidades da criança. Devemos deixá-la</p><p>fazer as coisas por si mesma, porque sua vida dependerá de sua</p><p>capacidade de agir de forma autônoma. Devemos permitir que ela</p><p>funcione livremente. Um ser humano que não pode exercer suas</p><p>funções vitais fica doente e vemos, frequente e infelizmente, crianças</p><p>sofrendo de perturbações psíquicas, porque não permitimos que se</p><p>desenvolvam livremente.</p><p>Não devemos nos contentar em oferecer uma ajuda pessoal às</p><p>crianças, devemos também lhes oferecer um ambiente adequado, porque</p><p>seu desenvolvimento normal depende da atividade vital que</p><p>desempenham em seu espaço e da ação que podem exercer sobre ele. A</p><p>ciência nos ensina que o objetivo da nova pedagogia deve ser criar o</p><p>ambiente apropriado para o progresso da criança. Nossa opinião é bem</p><p>distinta da que muitas pessoas têm, de que o adulto deveria se contentar</p><p>em nada fazer pela criança. Seria possível que deixássemos a criança</p><p>por si mesma e a abandonássemos?</p><p>Vivemos na supernatureza e não podemos mais viver na natureza.</p><p>Infelizmente, nada fizemos para criar uma supernatureza para a criança,</p><p>mesmo vendo as formas inferiores de vida animal fazerem muito por</p><p>seus descendentes. O jovem ser humano que não estragamos</p><p>psicologicamente tem exigências às quais devemos responder se</p><p>quisermos que ele desenvolva sua personalidade livre. No entanto, nós o</p><p>mantemos fechado em casa e fazemos toda sorte de coisas em seu lugar,</p><p>embora devêssemos lhe fornecer os meios de fazê-las por si mesmo.</p><p>Devemos criar o ambiente supernatural necessário às crianças e aos</p><p>adolescentes, até que eles próprios participem da vida social dos</p><p>adultos. É a nós que cabe construir esse espaço para proteger nossos</p><p>herdeiros.</p><p>É essa a missão da educação. Unamos, portanto, nossos esforços</p><p>para construir um ambiente que permita à criança e ao adolescente viver</p><p>uma vida individual independente e assim atingir a meta que todos</p><p>perseguimos: o desenvolvimento da personalidade, a formação de uma</p><p>ordem supernatural e a criação de uma sociedade melhor. A alma</p><p>humana deve forjar-se no meio supernatural.</p><p>A criança deve, então, ter seu ambiente específico e o adulto deve</p><p>ajudá-la. Isso abre as portas do domínio concreto da educação. Que</p><p>devemos fazer? O que os adultos devem fazer? Parar de contar</p><p>historinhas para as crianças? Impedi-las de se divertir e de praticar</p><p>esportes? Às vezes, vemos pessoas afirmarem que a liberdade que se</p><p>precisa oferecer à criança é a de levar uma vida terrivelmente séria.</p><p>Não, e o objetivo da educação moderna é exatamente impedir tal erro.</p><p>Mas a vida não é um negócio sério? De fato, a vida livre não é nada</p><p>frívola, como nos ensina, mais uma vez, a criança, ela, que tenta fazer</p><p>coisas concretas difíceis e sérias, coisas construtivas, fica feliz assim</p><p>que pode fazer coisas úteis, porque o ser humano busca ir cada vez mais</p><p>alto, perseguindo uma meta precisa.</p><p>Uma instrução vasta e um ambiente que responda a suas</p><p>necessidades, eis o que é preciso para o desenvolvimento da alma e da</p><p>inteligência da criança, para toda a vida.</p><p>Como pudemos ser acusados, muitas vezes, de querer privar a</p><p>criança da alegria? Nossa intenção não é nem lhe dar alegria nem tirá-</p><p>la. Muito pelo contrário.</p><p>De fato, no ambiente que organizamos, a criança não brinca: ela</p><p>trabalha. Ela trabalha e a cobiça desaparece; ela trabalha e a preguiça</p><p>desaparece. Ela quer fazer tudo. É um ser precoce em relação aos</p><p>demais. O ser humano demonstra, assim, uma tendência ao trabalho de</p><p>forma independente para desenvolver seu espírito. Então, o amor</p><p>aparece e conduz a uma sociedade feliz.</p><p>O homem não encontra a felicidade no jogo, se o vemos como uma</p><p>atividade separada da vida, e os que conseguem apenas se divertir caem</p><p>rapidamente em depressão. Nossas escolas, cuja meta é tornar possível a</p><p>vida feliz, que é condição humana natural, devem oferecer à criança um</p><p>ambiente apropriado a suas necessidades – prédios e móveis concebidos</p><p>para sua estatura – e, ao mesmo tempo, propor grandes ideias, grandes</p><p>descobertas do espírito humano, oferecendo-lhe objetos materiais que</p><p>concretizem as abstrações, que sejam o produto típico do intelecto</p><p>adulto, de tal maneira que seu espírito possa ser tocado pelas mais altas</p><p>criações da inteligência humana.</p><p>A criança pode elevar-se à categoria mais alta do espírito por meio</p><p>de materiais concretos. Assim que lhe apresentamos as maiores ideias e</p><p>descobertas do espírito humano, ela fica estimulada e entusiasmada. Ela</p><p>demonstra uma magnífica perseverança em seu trabalho e não sente</p><p>cansaço. Está claro que o indivíduo é capaz de trabalhar assiduamente</p><p>para desenvolver sua personalidade. Cada ser humano tem sempre seus</p><p>próprios interesses em mente, mesmo que não seja de forma consciente;</p><p>cada indivíduo age em seu próprio favor. Pensa-se que a criança seja um</p><p>ser egoísta nesse sentido. O verdadeiro egoísmo só surge quando entram</p><p>em jogo a posse e a conquista do poder. O egoísmo da criança</p><p>corresponde, simplesmente, à atitude de uma pessoa que tenta afastar-se</p><p>da sociedade e a permanecer isolada dos outros como eremita e cultivar</p><p>sua alma.</p><p>Como podemos cultivar a individualidade sem isolá-la</p><p>provisoriamente?</p><p>O primeiro período da vida é aquele em que o indivíduo deve se</p><p>desenvolver por si mesmo, de forma autônoma. É o período da</p><p>autoeducação. As crianças se sentem naturalmente impotentes num</p><p>mundo hostil que está muito além de sua compreensão. Elas têm</p><p>necessidade de proteção, mas não de tirania. Frequentemente, quando os</p><p>adultos dão alguma coisa à criança, fazem-no para obter alguma</p><p>vantagem para si mesmos. E isso constitui uma forma de tirania.</p><p>Mesmo sendo livre, a criança necessita de proteção. Ela precisa de</p><p>encorajamento e o procura; ela não tem orgulho falso e vai aos adultos</p><p>para lhes mostrar seu trabalho. Ela fica contente se o fez bem e fica feliz</p><p>de admirar o que conseguiu. Ela precisa de encorajamento para</p><p>continuar sua difícil tarefa, o desenvolvimento de sua personalidade, o</p><p>trabalho vital do embrião que ela é.</p><p>A característica da educação dada à criança nessa fase da vida deve</p><p>ser a salvaguarda de sua liberdade. Pelo fato de que a criança vive num</p><p>ambiente artificial, ela deve estar rodeada de coisas feitas para suas</p><p>necessidades. Tudo deve estar de acordo com sua estatura, mas não no</p><p>sentido de uma redução mecânica de escala física dos objetos adultos.</p><p>Todo um mundo na sua dimensão deve ser criado.</p><p>Podemos ilustrar esse conceito pela forma como se deveria ensinar</p><p>a religião às crianças, se desejamos lhes dar uma educação religiosa</p><p>nessa idade. A religião deveria ser apresentada como uma proteção de</p><p>Deus para o indivíduo. A criança tem um anjo da guarda que vela</p><p>sempre por ela, um anjo que não é um tirano. A criança ora a Deus para</p><p>velar por ela e por todos os que ama. Ela ora por sua proteção pessoal.</p><p>A criança sabe que tem Alguém que vela por ela, que a ama e a protege.</p><p>Para uma criança, essa é uma visão natural de Deus, porque é um</p><p>reflexo de sua vida de criança. Certamente, quando essa percepção</p><p>persiste no adulto, quando ele só busca na religião uma proteção, é</p><p>porque ele não alcançou um desenvolvimento intelectual pleno. No</p><p>adulto, isso revela uma forma de desenvolvimento estacionado.</p><p>Se, no segundo nível, a educação segue os preceitos dessa primeira</p><p>fase, isso vai contra a natureza, porque, desde que a criança tenha</p><p>passado da idade em que forma sua individualidade, ela precisa se</p><p>dedicar à formação de sua personalidade.</p><p>É preciso, nesse momento, mudar o nível da educação. A formação</p><p>social dos adolescentes deve começar e é preciso dar ao indivíduo uma</p><p>experiência social.</p><p>O ensino médio e as universidades, infelizmente, não são uma</p><p>preparação para a vida social. Todas as escolas, de fato, são hoje</p><p>obstáculos a uma boa formação para a vida social.</p><p>Como a educação social seria possível se os adolescentes estão</p><p>fechados numa espécie de prisão coletiva? O jovem não tem coisa</p><p>alguma que se pareça com uma vida social. Temos aí uma enorme</p><p>contradição. As escolas não preparam os jovens para a vida social, mas</p><p>para ganhar a vida. Elas formam os jovens num ofício ou numa</p><p>profissão. E todos praticarão seus ofícios ou exercerão suas profissões</p><p>como escravos. Isso significa que, em vez de uma verdadeira vida</p><p>social, oferecemos aos jovens uma caricatura degradante dela. Como</p><p>poderemos salvar uma sociedade que ameaça arruinar-se com homens</p><p>cuja única formação terá sido a aprendizagem de um ofício que lhes</p><p>permita ganhar a vida? O que precisamos é de homens completos.</p><p>Certamente que esses homens serão capazes de ganhar a vida numa</p><p>sociedade melhor.</p><p>É necessário transmitir diretamente aos jovens um vasto corpo de</p><p>conhecimentos, porque o espírito humano é muito receptivo ao longo</p><p>dos anos de formação. Infelizmente, só lhes damos um mínimo de saber,</p><p>que é muito pouco. É um grave erro. Devemos modificar nossa maneira</p><p>de agir.</p><p>Os jovens, atualmente, não podem adquirir uma experiência social,</p><p>porque são obrigados a dedicar todo seu tempo aos estudos. Para que os</p><p>adolescentes adquiram uma experiência social, a sociedade deve criar</p><p>para eles um ambiente conveniente, uma supernatureza adaptada a suas</p><p>necessidades, onde possam ter uma experiência efetiva e concreta de</p><p>todos os aspectos da vida social.</p><p>Nessa idade, uma autonomia de outro nível é necessária, porque a</p><p>autonomia é também necessária</p><p>na vida social. Os jovens devem</p><p>assumir funções sociais de forma independente, trabalhar, ganhar a vida.</p><p>A sociedade deve lhes oferecer um meio particular no qual possam</p><p>ganhar a vida. Devemos lhes oferecer essa oportunidade, porque terão,</p><p>um dia, de participar da construção da supernatureza. Devemos lhes dar</p><p>a possibilidade de passar um tempo a desenvolver e colocar em prática</p><p>seus talentos, tanto manuais quanto intelectuais. Eles não devem ser</p><p>obrigados a estudar sem parar, porque essa é uma forma de tortura que</p><p>provoca distúrbios mentais. A personalidade humana deve ter a</p><p>possibilidade de colocar em prática cada um de seus dons. Os homens,</p><p>hoje, são obrigados a escolher ou um ofício artesanal ou uma profissão</p><p>intelectual. Poderíamos dizer que aqueles que só trabalham com a</p><p>mente são homens mutilados e os que trabalham unicamente com as</p><p>mãos são homens decapitados. Tentamos, certamente, criar uma</p><p>harmonia entre os que trabalham com a mente e os que trabalham com</p><p>as mãos, recorrendo a seus sentimentos, mas o que precisamos é de</p><p>homens completos. Cada pedaço da personalidade humana deve</p><p>representar um papel. Um jovem pode ter aptidões específicas numa</p><p>direção, mas é ele, individualmente, que deve escolher as aptidões que</p><p>vai privilegiar. Haverá sempre diferenças individuais, mas elas não são</p><p>de importância capital. O objetivo do desenvolvimento humano deve ser</p><p>uma expressão total da vida, uma vida superior à nossa atualmente.</p><p>Depois, abordamos um nível mais elevado. É o terceiro nível,</p><p>caracterizado pela preparação da alma humana para o trabalho, função</p><p>vital e pedra angular da experiência social. Quando entram no mundo</p><p>dos adultos, os jovens devem estar conscientes, antes de qualquer coisa,</p><p>de sua responsabilidade social. Se eles não estão, teremos homens não</p><p>apenas sem cabeça ou sem mãos como também egoístas e desprovidos</p><p>de consciência. Serão membros irresponsáveis da sociedade. Numa</p><p>sociedade como a nossa, cheia de complexidades e de perigos, a</p><p>responsabilidade social é enorme. É, então, necessário formar os jovens</p><p>para que estejam conscientes dela e preparados a assumi-la.</p><p>As universidades conferem diplomas tão logo os estudantes tenham</p><p>passado nos exames, mas, às vezes, isso é uma questão de sorte. A</p><p>sociedade admite em suas fileiras homens de quem ela sabe pouco e que</p><p>não têm consciência. Os verdadeiros exames deveriam ser espirituais.</p><p>Deveríamos pedir ao estudante para demonstrar suas capacidades</p><p>mostrando o trabalho que pode desempenhar. Os candidatos deveriam</p><p>provar seu valor e serem reconhecidos como homens de valor para a</p><p>sociedade. Eles teriam, então, o senso de sua responsabilidade e a</p><p>tomariam como guia de sua vida.</p><p>Abandonamos agora as salas de aula e abrimos as portas da vida,</p><p>porque o quarto nível é a própria vida. Não se trata mais da escola, do</p><p>ensino, que mantém os jovens sob seu controle, que os conduz sem que</p><p>eles mesmos saibam para onde vão, e que os abandona após um número</p><p>determinado de anos, jogando-os na sociedade sem mais se preocupar</p><p>com eles. Onde aprenderão as coisas que não sabem? Que garantias</p><p>podem oferecer à sociedade, que fabrica diariamente homens de</p><p>consciência cega, homens mutilados?</p><p>Toda a humanidade deve se unir e se manter unida para sempre,</p><p>porque as massas devem ser educadas e a educação deve ser oferecida</p><p>permanentemente. Nesse quarto estágio, a sociedade deve ajudar cada</p><p>ser humano e fazer todo o gênero humano elevar-se ao nível superior</p><p>atingido pelo nosso ambiente em plena evolução, depois, elevar o</p><p>homem acima do meio, para que ele possa aperfeiçoá-lo ao mesmo</p><p>tempo em que se aprimora.</p><p>IV</p><p>DISCURSOS NA</p><p>FRATERNIDADE</p><p>MUNDIAL DAS CRENÇAS</p><p>15</p><p>EDUCAR PARA A PAZ[19]</p><p>Um princípio fundamental da paz está sendo trabalhado aqui</p><p>mesmo nesta reunião, hoje, na associação de vocês, porque a paz não é</p><p>fruto, eu diria, da racionalidade humana, mas de um esforço de criação.</p><p>As forças que criam o mundo são precisamente aquelas que devem criar</p><p>a paz.</p><p>Toda a humanidade, trabalhando para o bem comum, está, mesmo</p><p>não o fazendo conscientemente, criando um mundo novo que deve ser o</p><p>mundo da paz. Os imensos esforços dos homens que penaram, fizeram</p><p>descobertas, estudaram e sofreram, em uma palavra, fizeram todo o</p><p>trabalho da humanidade, serão vistos como os que tiveram uma única</p><p>meta, a criação de um mundo pacífico.</p><p>Todos os homens, mesmo tendo lutado uns contra os outros, mesmo</p><p>que tenham feito guerras e se defrontado em campos de batalha, mesmo</p><p>que guerreiem ainda hoje, terão, apesar de tudo, trabalhado ao longo da</p><p>história pela edificação de um mundo que será o da paz.</p><p>Os homens são, na verdade, melhores do que aparentam. Em</p><p>verdade, os seres humanos me impressionam por sua extrema bondade e</p><p>imensa caridade. Mas sua bondade e sua caridade são tão inconscientes</p><p>que eles nem sequer percebem que possuem essas virtudes. Poderíamos</p><p>dizer que as lutas dos homens e a incapacidade de compreenderem-se</p><p>são fenômenos superficiais e que, sob essa aparência, em todos os</p><p>tempos, escondem-se em seu coração profundezas imensuráveis de</p><p>bondade e espírito de sacrifício que a história nos esconde e de que a</p><p>humanidade não tem consciência.</p><p>A verdade parece, às vezes, tecida por aparentes contradições. Se</p><p>não houvesse essas aparentes contradições, a verdade seria mais fácil de</p><p>alcançar. Todos procuram a verdade porque ela está escondida, porque</p><p>ela existe. A certeza do homem de que a verdade que ele procura existe</p><p>realmente impede-o de soçobrar no desespero.</p><p>Nesta Terra em que os adultos comandam e controlam a</p><p>distribuição dos bens materiais, os homens aparecem como se se</p><p>engalfinhassem uns com os outros. Mesmo num domínio em que os</p><p>interesses pessoais estão presumivelmente em segundo plano e onde os</p><p>homens deveriam sentir-se próximos da verdade e da realidade, quero</p><p>dizer, na prática da religião, os homens estão em desacordo. E é</p><p>justamente o objetivo e a missão de sua associação tentar uma harmonia</p><p>interconfessional, para mostrar que todas as crenças desejam a mesma</p><p>coisa e amam da mesma maneira. É, aliás, porque suas preces</p><p>emprestaram palavras a todas as religiões do mundo e porque essas</p><p>palavras revelaram sintonizarem-se perfeitamente.</p><p>Um outro objetivo de sua associação é fazer com que todos os</p><p>homens da Terra tomem consciência, quaisquer que sejam suas crenças</p><p>religiosas, suas doutrinas e suas práticas, de que estão intimamente</p><p>unidos e que poderiam se chamar de irmãos ou amigos.</p><p>Quanto a mim, estou consciente dessa verdade e dessa unidade.</p><p>Quem não está? Há muito tempo, filósofos, homens que sabiam elevar-</p><p>se acima de suas pequenas preocupações pessoais, estavam certos de</p><p>que todos os homens podiam se chamar de amigos, que podiam se ouvir</p><p>e estarem em paz uns com os outros. Devemos, portanto, perguntar:</p><p>como é que, quanto mais os homens estudam e seu espírito progride,</p><p>descobrindo ou criando coisas cada vez mais belas, mais lutas há entre</p><p>eles? Isso é um mistério. Por que, então, em seu coração, os homens são</p><p>conscientes da unidade e por que, na superfície, há essas discordâncias</p><p>entre eles? Alguns poderiam responder: é porque os homens devem</p><p>viver a vida diária e dobrar-se a suas exigências. Não podemos negar</p><p>que os homens são diferentes, de um lado a outro do mundo, que têm</p><p>tradições muito arraigadas, diferentes de acordo com o lugar. E,</p><p>infelizmente, não há prece poderosa o suficiente nem argumento lógico</p><p>convincente o bastante para que os homens consigam entender-se.</p><p>Mas não poderíamos tomar outro caminho? Não haveria um novo</p><p>ente em quem pudéssemos colocar nossas esperanças? Minha resposta é</p><p>positiva! É a criança. Do ponto de vista religioso, a criança é o ser mais</p><p>poderoso do mundo. Não podemos colocar em dúvida a existência de</p><p>uma comunicação entre ela e o Criador. Ela é sua obra mais evidente. E</p><p>podemos afirmar que a criança é o ser humano mais religioso.</p><p>Se procurarmos um ser puro, um ser sem ideias filosóficas</p><p>preconcebidas ou ideologia política, e igualmente afastado das duas,</p><p>encontraremos esse indivíduo neutro que é a criança. E se acreditamos</p><p>que os homens são diferentes porque falam diferentes línguas, devemos</p><p>reconhecer, na criança, um ser que, por não falar língua alguma, está</p><p>pronto para aprender qualquer uma delas.</p><p>A criança deve, por isso, estar no centro de nossas preocupações, já</p><p>que procuramos caminhos para a paz. Por que não recorremos a ela?</p><p>Por que bandos de crianças triunfantes não aparecem nas reuniões em</p><p>que se fala da paz? Se fileiras de crianças surgissem entre nós, bandos</p><p>desses seres humanos que representam uma viva possibilidade de paz,</p><p>deveríamos acolhê-los e inclinarmo-nos diante deles com respeito. A</p><p>criança apareceria entre nós como quem pode nos ensinar a paz.</p><p>Precisamos nos reunir em volta dela para descobrir o mistério da</p><p>humanidade, para nela encontrar o mistério da bondade fundamental do</p><p>homem, que nossa visão exterior refuta. É ela a fonte do conhecimento</p><p>que interessa à maioria de nós. Se desejamos ardentemente a</p><p>fraternidade e a compreensão entre os homens, devemos, igualmente,</p><p>instaurar a fraternidade e a compreensão entre os adultos e as crianças!</p><p>Se quisermos transformar a criança no mestre que nos ensina o</p><p>amor, não precisamos ir muito longe para encontrá-la. Em cada família,</p><p>não há crianças? Em cada família, o princípio do amor não está em</p><p>desenvolvimento? Quando, em uma família, uma criança nasce, a mãe</p><p>se torna uma mulher mais bela e o pai, um homem melhor. Se a criança</p><p>já cria nesse momento uma atmosfera de amor, simplesmente vindo ao</p><p>mundo, não poderia ela manifestar, aos olhos dos que a observam</p><p>atentamente, as leis do crescimento, as raízes da personalidade humana</p><p>e a grandeza do homem? A inteligência da criança possui imensas</p><p>aptidões e capacidades inimagináveis. Seu coração é tão sensível à</p><p>necessidade de justiça que devemos chamá-la, como fez Emerson,[20]</p><p>“o Messias que volta constantemente entre os homens decaídos para</p><p>conduzi-los ao Reino dos Céus”.</p><p>Estou convencida de que a criança pode fazer muito por nós, mais</p><p>do que podemos fazer por ela. Nós, os adultos, somos rígidos.</p><p>Permanecemos como se estivéssemos plantados no mesmo lugar. A</p><p>criança é apenas movimento. Ela vai e vem e tenta nos elevar acima da</p><p>Terra. Uma vez, tive essa impressão muito forte, mais profundamente</p><p>que antes, e fiz uma promessa – devo dizer um voto? – de me tornar</p><p>discípula desse mestre que é a criança. Tive, então, uma visão da</p><p>criança, visão essa que agora é compreendida e compartilhada pelos que</p><p>estão à minha volta. Não é a imagem que a maioria faz da criança, a de</p><p>um pequeno ser impotente, imóvel, de braços cruzados, o corpo</p><p>estendido pela fraqueza. Não, é a imagem de uma criança de pé, de</p><p>braços abertos, convidando a humanidade a segui-la.</p><p>NOTAS</p><p>[1] Edgard Pisani (Tunísia, 1918-...) – Doutor em Letras, político e escritor. (N.T.)</p><p>[2] Hoje, dizemos “crianças portadoras de deficiências”. (N.T.)</p><p>[3] Discurso proferido no Escritório Internacional da Educação (Genebra, 1932).</p><p>[4] Sheila Radice. Nouveaux enfants. S.l.: Fréderick A. Chauffe & Co., 1920.</p><p>[5] Conferência proferida no Congresso Europeu pela Paz (Bruxelas, 3 de setembro de</p><p>1936).</p><p>[6] Conferência proferida em Copenhague em 22 de maio de 1937.</p><p>[7] Esta conferência e as seguintes foram proferidas no Sexto Congresso Internacional</p><p>Montessori (Copenhague, 1937).</p><p>[8] M. Montessori. A criança. Rio de Janeiro: Nórdica, 1983, capítulos 3 a 7,</p><p>principalmente. (N.T.)</p><p>[9] Ver M. Montessori. Mente absorvente. Rio de Janeiro: Nórdica, 1987, cap. 3. (N.T.)</p><p>[10] É importante lembrar o que já está comprovado hoje sobre o valor do movimento no</p><p>desenvolvimento humano. Quanto maior for o número de experiências que a criança possa</p><p>vivenciar desde tenra idade, muito melhor será seu desenvolvimento global. A criança que</p><p>não passa por cada etapa de seu desenvolvimento motor – rastejar, engatinhar, andar em</p><p>quatro apoios – demonstra num dado momento de seu futuro as sequelas deixadas pela</p><p>ausência dessas experiências. Usar as mãos e os sentidos para conhecer o mundo a seu</p><p>redor, explorar tudo o que esteja ao seu alcance, é garantia de um perfeito</p><p>desenvolvimento. Por isso, nos dias de hoje, tornou-se tão importante o trabalho</p><p>psicomotor na idade infantil. (N.T.)</p><p>[11] Maria Montessori desenvolveu amplamente a ideia da interdependência entre os seres</p><p>vivos, seus papéis na dinâmica e no equilíbrio da vida na Terra e no universo em seu livro</p><p>Para educar o potencial humano. Campinas: Papirus, 2003. (N.T.)</p><p>[12] O ambiente Montessori para crianças de 2 anos e meio a 6 anos é chamado de “A Casa</p><p>das Crianças”.</p><p>[13] Nota Bene: Nesse capítulo observamos que Maria Montessori faz referência à casa</p><p>construída pelos adultos para os adultos. É importante lembrar que a ilustre doutora fez</p><p>uma pesquisa meticulosa em vários países sobre a possível existência de mobiliário</p><p>adequado para as crianças. Em correspondência com estudiosos conceituados da época</p><p>(dentre eles, Dewey), ela constatou a inexistência de qualquer peça projetada ou construída</p><p>para as crianças, que respeitasse suas necessidades anatômicas. A partir de então, começou</p><p>a criar o mobiliário infantil que hoje podemos ver nas escolas de educação infantil. Criou</p><p>mesinhas, cadeirinhas, pequenas poltronas, bancadas com pias etc. Tudo de que uma</p><p>criança necessitava para executar suas tarefas com conforto. (N.T.)</p><p>[14] Palestra proferida na Sala do Parlamento Dinamarquês (Copenhague, 1937).</p><p>[15] Esta conferência e as seguintes foram proferidas na Escola Internacional de Filosofia</p><p>(Amersfoort, 28 de dezembro de 1937).</p><p>[16] Obra de Aléxis Carrel (França, 1873-1944), médico-cirurgião, biólogo, que desenvolveu</p><p>técnicas de sutura vascular. Prêmio Nobel de Psicologia e Medicina em 1912. (N.T.)</p><p>[17] Montessori, como cristã, refere-se ao nascimento de Jesus Cristo, que veio para mostrar</p><p>o caminho da salvação dos homens. (N.T.)</p><p>[18] Montessori, quando fala de criança “anormal”, está se referindo a traços psicológicos,</p><p>aos comportamentos extremamente possessivos que algumas crianças apresentam, como a</p><p>necessidade de possuir tudo o que veem, uma forma de compensação para dificuldades</p><p>emocionais. (N.T.)</p><p>[19] Discurso proferido na Fraternidade Mundial das Crenças (Londres, 28 de julho de 1939).</p><p>[20] Ralph Waldo Emerson (1803-1882, Boston, EUA), filósofo fundador do</p><p>transcendentalismo, que sustentava que a solução dos problemas humanos estaria no</p><p>desenvolvimento das emoções individuais. Uma das principais fontes de Emerson foi</p><p>Immanuel Kant. (N.T.)</p><p>SOBRE A AUTORA</p><p>Maria Montessori (1870-1952), psiquiatra e educadora, é natural de Chiaravalle</p><p>(Itália). À frente de seu tempo em muitos aspectos, foi a primeira mulher a obter o</p><p>diploma de Medicina em seu país.</p><p>Profunda observadora da criança e do jovem, voltou-se para os estudos</p><p>pedagógicos e estruturou o Sistema Montessori de Educação, colocando em prática</p><p>uma visão de educação apoiada em seus estudos e nos trabalhos de grandes</p><p>pesquisadores da pedagogia e da psicologia. Propõe um método educacional</p><p>baseado no conhecimento científico sobre o modo de aprender do educando. Suas</p><p>ideias se concretizaram por intermédio das Casas dei Bambini que rapidamente se</p><p>espalharam pelo mundo, exigindo que a doutora Montessori viajasse para vários</p><p>países onde desenvolveu cursos sobre seu sistema educacional. Além disso,</p><p>participou de numerosos congressos em que defendeu a criança e uma educação</p><p>com vistas a um mundo melhor. A busca da paz por meio da educação foi uma de</p><p>suas bandeiras.</p><p>Entre as obras de Maria Montessori, destacamos: The Montessori method; The</p><p>advanced Montessori method; The secret of childhood; The child in the family;</p><p>Education to a new world; What you should know about your child e From</p><p>childhood to adolescence. No Brasil, A criança (Nórdica, 1983), Mente absorvente</p><p>(Nórdica, 1987), Para educar o potencial humano (Papirus, 2ª ed. 2004).</p><p>Siga-nos nas redes sociais:</p><p>>> >> >> >></p><p>Acesse também nosso catálogo on-line</p><p>http://www.facebook.com/PapirusEditora</p><p>http://www.twitter.com/PapirusEditora</p><p>http://papiruseditora.blogspot.com.br/</p><p>http://www.youtube.com/editorapapirus</p><p>http://issuu.com/papiruseditora</p><p>Capa: Fenando Cornacchia</p><p>Foto de capa: Rennato Testa</p><p>Coordenação: Beatriz Marchesini</p><p>Copidesque: Mônica Saddy Martins</p><p>Revisão: Maria Lúcia Almeida Maier, Solange F. Penteado e Taís Gasparetti</p><p>ePUB</p><p>Coordenação: Ana Carolina Freitas</p><p>Produção: DPG Editora e Papirus Editora</p><p>Revisão: Edimara Lisboa</p><p>eISBN 978-85-308-1138-9</p><p>Exceto no caso de citações, a grafia deste livro está atualizada segundo o Acordo</p><p>Ortográfico da Língua Portuguesa adotado no Brasil a partir de 2009.</p><p>Proibida a reprodução total ou parcial da obra de acordo com a lei 9.610/98. Editora afiliada</p><p>à Associação Brasileira dos Direitos Reprográficos (ABDR).</p><p>DIREITOS RESERVADOS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA:</p><p>© M.R. Cornacchia Livraria e Editora Ltda. – Papirus Editora</p><p>editora@papirus.com.br | www.papirus.com.br</p><p>mailto:%20editora@papirus.com.br</p><p>http://www.papirus.com.br/</p><p>A EDUCAÇÃO E A PAZ</p><p>SUMÁRIO</p><p>PREFÁCIO DA EDIÇÃO FRANCESA</p><p>APRESENTAÇÃO DA EDIÇÃO ITALIANA</p><p>PEQUENA INTRODUÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>I. ALICERCES PARA A PAZ</p><p>1. A PAZ</p><p>2. PELA PAZ</p><p>3. EDUCAR PARA A PAZ</p><p>II. EDUCAR PARA A PAZ: SEXTO CONGRESSO INTERNACIONAL MONTESSORI</p><p>4. CONFERÊNCIA DE ABERTURA DO CONGRESSO</p><p>5. PODE A EDUCAÇÃO HOJE EXERCER INFLUÊNCIA SOBRE O MUNDO, E POR QUÊ?</p><p>6. SEGUNDA CONFERÊNCIA</p><p>7. PARA QUE A EDUCAÇÃO AJUDE NOSSO MUNDO ATUAL</p><p>8. O NECESSÁRIO ACORDO UNIVERSAL PARA QUE O HOMEM ESTEJA MORALMENTE ARMADO PARA DEFENDER A HUMANIDADE</p><p>9. QUINTA CONFERÊNCIA</p><p>10. CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO DO CONGRESSO</p><p>11. MEU MÉTODO</p><p>III. A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO NA EDIFICAÇÃO DA PAZ</p><p>12. PRIMEIRA CONFERÊNCIA</p><p>13. SUPERNATUREZA E NAÇÃO ÚNICA</p><p>14. A EDUCAÇÃO DO INDIVÍDUO</p><p>IV. DISCURSOS NA FRATERNIDADE MUNDIAL DAS CRENÇAS</p><p>15. EDUCAR PARA A PAZ</p><p>NOTAS</p><p>SOBRE A AUTORA</p><p>REDES SOCIAIS</p><p>CRÉDITOS</p><p>da sociedade</p><p>humana, sobre uma base científica, porque a harmonia e a paz social só</p><p>podem ter um fundamento: o próprio homem.</p><p>A reforma – quer dizer, a colocação em prática de uma ordem social</p><p>estável e bem estruturada – não é visível quando só consideramos a</p><p>sociedade sobre um plano prático, porque essa é uma abordagem</p><p>fundamentalmente conservadora. É evidente que mudanças</p><p>incrivelmente rápidas aconteceram ao longo da última metade de século</p><p>na organização do ambiente material do homem, do aspecto das</p><p>descobertas científicas que radicalmente modificaram as condições de</p><p>vida dos homens. É por isso que agora é indispensável refletir</p><p>seriamente sobre o aspecto humano das coisas se quisermos permitir</p><p>que os homens melhorem eles mesmos sua situação.</p><p>Está aí a tarefa da educação.</p><p>A educação está ainda hoje confinada nos limites de uma ordem</p><p>social ultrapassada. Ela não apenas vai de encontro às leis da ciência,</p><p>mas ainda é contrária às carências sociais de nossa época. Não podemos</p><p>deixá-la de lado, fingindo acreditar que represente um papel menor na</p><p>vida das pessoas, que seja apenas um meio de ensinar os rudimentos da</p><p>cultura aos jovens. Devemos, antes de tudo, vê-la do prisma do</p><p>desenvolvimento dos valores, particularmente morais, em cada pessoa.</p><p>Deve-se, a seguir, ver nela a possibilidade de organizar as pessoas</p><p>animadas por esses valores numa sociedade consciente de seu destino.</p><p>Uma nova forma de moral deve acompanhar essa nova forma de</p><p>civilização. A ordem e a disciplina devem visar à realização da</p><p>harmonia humana. Todo ato que represente um obstáculo à</p><p>transformação de toda a humanidade numa comunidade autêntica deve</p><p>ser considerado imoral, uma ameaça à vida da sociedade.</p><p>Esse objetivo não pode ser atingido sem esforços concretos e</p><p>práticos. Não basta pregar um princípio abstrato ou tentar persuadir os</p><p>outros. É para uma “grande obra” que somos chamados. Eis aí a grande</p><p>tarefa social que nos espera: colocar em funcionamento o valor</p><p>potencial do homem, permitir-lhe atingir o desenvolvimento máximo de</p><p>seus dinamismos, prepará-lo verdadeiramente para mudar a sociedade</p><p>humana, fazê-la mudar para um patamar superior.</p><p>Certamente que o homem social não pode ser criado de um só golpe</p><p>a partir do nada. Os homens de hoje se tornaram adultos depois de</p><p>terem sido, em sua infância e adolescência, reprimidos, isolados e</p><p>incitados a perseguir unicamente interesses pessoais. Foram colocados</p><p>sob a palmatória de adultos cegos. Estes, muito inclinados a</p><p>negligenciar os valores da vida, fixaram nas crianças que lhes foram</p><p>confiadas apenas o objetivo, egoísta e mesquinho, de obterem um bom</p><p>emprego na sociedade.</p><p>A educação hoje embrutece o indivíduo e atrofia seus valores</p><p>morais. Ele se torna um número, uma engrenagem da máquina cega que</p><p>é seu ambiente material. Tal preparação para a vida sem dúvida foi</p><p>absurda em todas as épocas, mas hoje constitui um crime, um pecado.</p><p>Uma educação que reprime e rejeita as sugestões da consciência moral,</p><p>que impõe obstáculo ao desenvolvimento da inteligência, que condena</p><p>partes inteiras da população à ignorância, é um crime. Todas as nossas</p><p>riquezas resultam do trabalho do homem, é absurdo não considerá-lo a</p><p>mais fundamental de nossas riquezas. Devemos investigar, cultivar e</p><p>colocar em ação os dinamismos do homem, sua inteligência, seu</p><p>espírito criativo, sua força moral, para que nada seja perdido. O</p><p>dinamismo moral do homem, particularmente, deve ser considerado,</p><p>porque ele não é apenas um produtor. Ele também é chamado a</p><p>responsabilizar-se por uma missão no universo e a cumpri-la. A</p><p>produção do homem deve ser orientada em direção a uma finalidade</p><p>que podemos chamar de civilização ou, em outras palavras, a criação de</p><p>uma supernatureza, obra da humanidade! Para isso, o homem deve</p><p>tomar consciência de sua própria grandeza; ele deve se tornar, de forma</p><p>consciente, mestre do mundo exterior e dos eventos humanos.</p><p>O domínio específico da moral é a relação entre as pessoas; é a</p><p>própria base da vida social. A moral deve ser vista como a ciência da</p><p>organização de uma sociedade de homens cujo valor supremo deve ser,</p><p>na verdade, a personalidade de seus membros e não a eficácia de suas</p><p>máquinas. Os homens devem aprender como participar conscientemente</p><p>da disciplina social que comanda todas as suas funções na sociedade e a</p><p>manutenção do equilíbrio entre essas diversas funções.</p><p>O cerne da questão da paz e da guerra não reside na necessidade</p><p>que os homens podem ter de armas materiais para defender as fronteiras</p><p>geográficas que separam seus países. A primeira verdadeira linha de</p><p>defesa contra a guerra é o próprio homem, porque, lá onde o homem é</p><p>desvalorizado e onde reina a desordem social, o inimigo universal está</p><p>pronto para aproveitar da brecha criada.</p><p>I</p><p>ALICERCES PARA A PAZ</p><p>1</p><p>A PAZ[3]</p><p>Pode parecer curioso e, de certa forma, fora do espírito de nossa</p><p>época de especialização que me tenham pedido para vir falar da paz. Se</p><p>a paz se tornasse uma disciplina totalmente à parte, seria a mais nobre</p><p>de todas, porque a vida da humanidade dela depende. O risco talvez seja</p><p>o destino de nossa civilização: está ela em fase de evolução ou de</p><p>desaparecimento?</p><p>É de fato bastante estranho que uma tal ciência de paz ainda não</p><p>esteja constituída, porque a ciência da guerra parece bastante avançada,</p><p>pelo menos nos domínios bastante concretos do armamento e da</p><p>estratégia. Contrariamente, como fenômeno coletivo, a própria guerra</p><p>tem uma face de mistério: todos os povos da Terra que proclamam o</p><p>desejo de banir a guerra como o pior dos flagelos não contribuem eles</p><p>mesmos para sua deflagração, eles que estão prontos a portar armas e</p><p>partir para o combate? Confrontados com as catástrofes naturais contra</p><p>as quais o homem é impotente, muitos universitários se consagram a</p><p>estudar suas causas encobertas. A guerra é uma realidade bastante</p><p>humana. Nosso espírito humano não deveria ser capaz de analisá-la?</p><p>Infelizmente, certifica-se que não é o caso. Somos forçados a concluir</p><p>que a conquista de uma paz mundial pela humanidade depende de</p><p>fatores complexos e indiretos. Estes merecem, sem contestação, ser</p><p>objeto de uma pesquisa. Devem tornar-se a matéria de uma ciência</p><p>maior.</p><p>Só se pode ficar chocado com a seguinte contradição: de um lado, o</p><p>homem, impulsionado por seu instinto de preservação da vida e,</p><p>sobretudo, pelo impulso de aprender, pela sede de conhecimento,</p><p>mostrou-se capaz de desvelar numerosos mistérios do universo e de</p><p>descobrir energias escondidas para colocá-las a seu serviço. Por outro</p><p>lado, suas pesquisas sobre suas próprias energias interiores deixam um</p><p>vácuo: seu domínio sobre elas é praticamente nulo. Esse mestre do</p><p>mundo exterior não conseguiu domá-las. Elas se acumularam ao longo</p><p>dos séculos e não foram domesticadas nos diversos grupos humanos. Se</p><p>perguntássemos às pessoas as razões desse paradoxo, talvez fossem</p><p>incapazes de fornecer uma mínima resposta clara. Verdadeiramente, a</p><p>paz nunca foi objeto de uma empreitada coerente de pesquisa que</p><p>pudesse levar o nome de ciência, muito ao contrário. No conjunto das</p><p>inumeráveis ideias que enriquecem a consciência humana, seria</p><p>bastante difícil encontrar um conceito claro correspondente à palavra</p><p>paz.</p><p>A guerra e a paz</p><p>O que entendemos em geral pela palavra paz é simplesmente a</p><p>cessação da guerra. Mas esse conceito negativo não permite uma</p><p>descrição adequada da paz autêntica. E, sobretudo, vendo o objetivo</p><p>aparente das guerras, a paz, vista por esse ângulo, representa</p><p>principalmente triunfo permanente e final da guerra.</p><p>A causa primeira das guerras da Antiguidade era a conquista de</p><p>territórios e, por isso, a subjugação de povos inteiros. Hoje, o ambiente</p><p>do homem não é constituído basicamente por seu território concreto,</p><p>físico, mas principalmente pela organização social, que repousa sobre</p><p>estruturas econômicas. No entanto, o domínio territorial continua sendo</p><p>considerado a verdadeira razão pela qual se fazem guerras, inflamam-se</p><p>multidões, mobilizam-se tropas, apenas evocando uma conquista a ser</p><p>feita.</p><p>Por que, então, as massas humanas</p><p>se colocam em marcha para</p><p>afrontar a morte quando sua pátria está ameaçada pelo espectro de uma</p><p>invasão? E por que, então, não apenas os homens, mas também as</p><p>mulheres e até as crianças, apressam-se em defender seu país?</p><p>Simplesmente por temer a situação que vai receber o nome de paz</p><p>quando a guerra estiver terminada.</p><p>A história humana nos mostra que, assim que o invasor consolida</p><p>sua vitória, a paz significa, para os vencidos, a submissão forçada, a</p><p>perda de tudo o que mais lhes importa e a impossibilidade de usufruir</p><p>dos frutos de seu trabalho e de seus sucessos. Os vencidos são</p><p>constrangidos a sacrifícios, como se, do único fato de terem sido</p><p>vencidos, fossem os únicos culpados, como se merecessem uma</p><p>punição. Por seu lado, os vencedores fazem alarde de direitos que</p><p>estimam ter ganhado sobre os povos vencidos, condenados a se tornar</p><p>vítimas do desastre. Essa situação pode marcar, então, o fim do combate</p><p>material, mas certamente não pode ser classificada como paz. O</p><p>verdadeiro flagelo moral se enraíza, de fato, nesse conjunto de</p><p>circunstâncias.</p><p>Se eu ousasse uma imagem, diria que a guerra pode ser comparada</p><p>ao incêndio de um palácio repleto de obras de arte e de tesouros</p><p>preciosos. Quando, do palácio, restar somente um amontoado de brasas</p><p>e de cinzas e uma fumaça acre, o desastre material é total; mas podemos</p><p>comparar as brasas e a fumaça que impedem as pessoas de respirar às</p><p>circunstâncias da paz como a compreendemos comumente.</p><p>É o tipo de paz que surge assim que um homem morre de uma</p><p>moléstia: uma guerra teria sido declarada em seu corpo entre suas forças</p><p>vitais e as bactérias que o invadiram e, finalmente, ele perdeu a batalha.</p><p>De forma bastante apropriada, exprimimos a esperança de que esse</p><p>homem morto descanse em paz. Mas essa paz é bem diferente daquela</p><p>que é o resultado da boa saúde.</p><p>O fato de chamarmos injustamente “paz” o triunfo permanente dos</p><p>objetivos de uma guerra nos impede de reconhecer a via da salvação, o</p><p>caminho que poderia nos conduzir à verdadeira paz. De fato, a história</p><p>de todos os povos da Terra é marcada por ondas sucessivas de tais</p><p>triunfos e formas de injustiça, o que permite compreender a existência</p><p>desse mal-entendido. Mas, enquanto isso persistir, a paz não poderá</p><p>entrar no campo das possibilidades humanas. Não evoco aqui somente o</p><p>passado: atualmente, a vida dos povos que não estão em guerra consiste</p><p>em aceitar uma situação que foi criada por seus conquistadores. Estes</p><p>satisfazem sua impiedosa vingança, seus vencidos só podem maldizer</p><p>seus destinos como os diabos e os demônios do Inferno de Dante. Tanto</p><p>uns como outros estão distantes da influência divina do amor; são</p><p>criaturas desiludidas, para as quais a harmonia universal foi quebrada</p><p>em milhares de pedaços. E essa corrente de acontecimentos continua a</p><p>se repetir, porque todos os povos foram alternadamente vencedores e</p><p>vencidos e consumiram suas forças nesse fluxo e refluxo de fortuna e</p><p>infortúnio, na maré indefinida dos séculos.</p><p>É preciso, então, que esclareçamos a profunda diferença que existe</p><p>entre os objetivos morais contraditórios da guerra e da paz. De outra</p><p>forma, erraremos como cegos e, vítimas de nossas ilusões,</p><p>encontraremos na nossa busca pela paz apenas miséria e armas</p><p>mortíferas. Para nos colocarmos na perspectiva da paz verdadeira, é</p><p>preciso que orientemos nossa reflexão em direção ao triunfo da justiça e</p><p>do amor entre os homens, em direção à construção de um mundo</p><p>melhor onde reine a harmonia. Nosso único ponto de partida possível é</p><p>focalizar no que distingue claramente a guerra da paz. Para esclarecer a</p><p>questão, como qualquer outra, é indispensável uma tentativa de</p><p>pesquisa positiva. Mas onde, no mundo, existe um laboratório no qual o</p><p>espírito humano tenha tentado descobrir algum fragmento da verdade,</p><p>ressaltar o menor fator positivo dessa questão da paz?</p><p>Certamente, algumas reuniões inspiradas pelos sentimentos mais</p><p>elevados e os votos mais nobres pela paz foram mantidos. Mas jamais</p><p>descobriremos os conceitos sobre os quais fundamentar uma pesquisa</p><p>que permita identificar e compreender as razões desse enigma</p><p>impressionante, se não tomarmos consciência de que estamos hoje</p><p>diante de uma verdadeira desordem moral. Não há outra expressão para</p><p>descrever nossa situação espiritual atual. Aquele que descobre um</p><p>micróbio virulento e a vacina preventiva que pode salvar numerosas</p><p>vidas humanas é vivamente aplaudido, mas aquele que descobre</p><p>técnicas de destruição e dirige todas as suas faculdades mentais para o</p><p>aniquilamento de povos inteiros é mais honrado ainda. A ideia que se</p><p>faz do valor da vida e os princípios morais em que nos inspiramos</p><p>nesses dois casos são diametralmente opostos, e devemos nos</p><p>interrogar, seriamente, se a personalidade coletiva da humanidade não</p><p>sofre de uma misteriosa forma de esquizofrenia.</p><p>Evidentemente, restam capítulos inteiros da psicologia humana a</p><p>serem escritos, com urgência, porque as forças que ainda não</p><p>conseguimos domar fazem planar sobre a humanidade perigos imensos.</p><p>Esses fatos desconhecidos devem ser objeto de um estudo</p><p>científico. A ideia mesma de pesquisa implica a existência de fatores</p><p>escondidos verdadeiramente duvidosos, muito distantes de seus efeitos</p><p>finais. As causas da guerra não podem ser encontradas nos fenômenos</p><p>bem conhecidos, e inteiramente estudados, ligados às injustiças sociais</p><p>sofridas pelos operários no sistema de produção, ou nas consequências</p><p>de guerras impiedosas. Esses fatos sociais são muito aparentes e</p><p>facilmente reconhecidos à luz da lógica mais elementar para serem</p><p>considerados como as causas misteriosas ou profundamente enraizadas</p><p>da guerra. São, antes, o estopim, o elemento que finalmente se inflama e</p><p>provoca a explosão que a guerra representa.</p><p>A título de ilustração, consideremos a história de um fenômeno</p><p>análogo, no domínio da medicina, que oferece paralelos chocantes com</p><p>as guerras. Quero falar das epidemias de peste: um desastre capaz de</p><p>dizimar e mesmo de varrer povos inteiros, uma doença que era terrível,</p><p>porque não se podia colocar um freio em sua devastação, pela</p><p>ignorância total que tínhamos sobre ela. A peste só foi vencida quando</p><p>suas causas desconhecidas foram cientificamente estudadas.</p><p>Como as guerras, as epidemias espocavam esporadicamente e eram</p><p>totalmente imprevisíveis. E mais, a peste desaparecia por si mesma, sem</p><p>intervenção dos homens. Eles não faziam a menor ideia do que a</p><p>provocava e a temiam como a um terrível castigo desejado por Deus.</p><p>Causava tamanha devastação que essas epidemias, assim como as</p><p>guerras, marcaram a história. De fato, essas epidemias de peste</p><p>causaram muito mais mortes e desastres econômicos que as guerras.</p><p>Assim como as guerras, elas carregam o nome de uma figura histórica</p><p>da época. Os anais registraram a peste de Péricles, a de Marco Aurélio,</p><p>a de Constantino, a de Gregório, o Grande. No século XIV, uma</p><p>epidemia de peste causou, na China, a morte de dez milhões de pessoas.</p><p>Essa terrível epidemia propagou-se pela Rússia, pela Ásia Menor, pelo</p><p>Egito e pela Europa, ameaçando destruir a humanidade toda.</p><p>Welles cita a estimativa de Hecker: o número de total de mortos</p><p>teria sido da ordem de 25 milhões, uma hecatombe mais considerável</p><p>que a de qualquer guerra, mesmo a de 1914-1918. Esses períodos</p><p>lamentáveis, em que o trabalho produtivo era reduzido quase à nulidade,</p><p>engendravam vários períodos sucessivos de sofrimentos horríveis. O</p><p>flagelo da fome seguia o da peste e era acompanhado por uma onda de</p><p>demência, porque um grande número dos que tinham sobrevivido ficava</p><p>mentalmente desorientado e essa calamidade tornava a retomada da</p><p>vida normal mais difícil e mais lenta. Ela detinha, por um tempo, o</p><p>trabalho construtivo necessário ao progresso social.</p><p>É interessante descobrir as interpretações que foram dadas a esse</p><p>desastre gigantesco e os meios que foram empregados para se defender</p><p>contra isso que podemos qualificar de guerra infligida aos homens pela</p><p>natureza. Em Homero e Tito Lívio e nas crônicas latinas da Idade</p><p>Média, encontramos sempre a mesma interpretação: pensa-se que as</p><p>epidemias</p><p>de peste são causadas por homens maus que espalham</p><p>venenos. Descrevendo a peste do ano 189 de nossa era, Cássio diz que</p><p>os malfeitores eram recrutados e pagos para picar as pessoas com</p><p>agulhas envenenadas em todo o Império Romano. Na época do papa</p><p>Clemente VI, foi massacrado um grande número de judeus, acusados de</p><p>propagar a peste. Durante o sítio de Nápoles, a peste levou 400 mil</p><p>habitantes, assim como três quartos da tropa que sitiava a cidade. Os</p><p>napolitanos estavam convencidos de que os franceses os haviam</p><p>envenenado, e vice-versa.</p><p>Ainda mais interessantes são os documentos conservados na</p><p>biblioteca ambrosiana de Milão. Eles descrevem a formação de um</p><p>tribunal extraordinário para o processo penal dos dois homens supostos</p><p>de serem envenenadores, os quais foram executados como exemplo para</p><p>a população. É um dos raros casos em que se vê um processo formal,</p><p>que foi decidido para evitar que a população, enraivecida pela</p><p>hecatombe, praticasse ela mesma uma justiça sumária. As minutas do</p><p>processo, bem conservadas nos arquivos nacionais, foram examinadas</p><p>por numerosos escritores e interpretadas de todas as maneiras.</p><p>Hoje, é difícil para nós imaginar como o que era evidentemente</p><p>uma doença contagiosa podia ser considerado uma verdadeira matança</p><p>e como seus presumíveis autores puderam ser levados a um tribunal. A</p><p>acusação feita contra esses dois homens de serem os responsáveis por</p><p>tal grandiosa quantidade de mortos, na verdade vítimas da epidemia,</p><p>choca por seu absurdo. No entanto, mesmo que esse processo nos</p><p>pareça insano hoje, não temos atitudes análogas sobre a guerra? Muitas</p><p>pessoas se apressam a imputar esse flagelo universal que é a guerra a</p><p>esse ou aquele indivíduo: o kaiser, a czarina, o monge Rasputim, o</p><p>assassino do arquiduque de Sarajevo ou outros.</p><p>Nesses períodos em que a peste devastava, as pessoas se reuniam</p><p>em grandes multidões compactas nas igrejas ou nas praças públicas na</p><p>esperança de encontrar a saúde, sem saber que, assim, aceleravam a</p><p>difusão da moléstia. E assim que a epidemia acabava, os sobreviventes</p><p>começavam a viver alegremente e se convenciam de que o mal que</p><p>haviam sofrido era uma prova necessária para a humanidade, talvez</p><p>mesmo a última a que seriam submetidos. Os remédios a que</p><p>recorremos hoje na esperança de livrarmo-nos da guerra não nos</p><p>lembram as esperanças e os falsos remédios desses dias do passado?</p><p>As alianças de guerra de 1914 foram consideradas, entre as grandes</p><p>potências da Europa, um equilíbrio que impediria a guerra. Mas essas</p><p>alianças, ao contrário, não prepararam o terreno para um desastre</p><p>formidável, encaminhando numerosos países para o conflito por causa</p><p>das promessas que fizeram a outros? Mesmo que todas as nações da</p><p>Terra pudessem, hoje, formar uma aliança para evitar um conflito</p><p>armado, elas permaneceriam cegas às causas primeiras da guerra. E</p><p>mais, poderia acontecer um conflito armado de escala planetária, os</p><p>homens esperando, mais uma vez, estabelecer a paz autêntica, chegar a</p><p>uma solução final, engajados nessa guerra, julgando outra vez ser ela a</p><p>última.</p><p>Sem os métodos da pesquisa científica, quem poderia encontrar</p><p>realmente as causas diretas da peste, o micro-organismo responsável por</p><p>ela, e seus propagadores, os ratos, esses culpados insuspeitados e por</p><p>isso invulneráveis?</p><p>Quando suas causas foram descobertas, a peste pôde ser</p><p>considerada um dos numerosos males infecciosos que se desenvolvem</p><p>nos meios insalubres e ameaçam continuamente a saúde do homem.</p><p>Ignorando isso, as populações medievais viviam em condições</p><p>deploráveis e disso nem sequer desconfiavam. Viviam na sujeira</p><p>existente nos lugares públicos, dormiam na obscuridade de peças não</p><p>arejadas, não tinham água para se banhar e evitavam até a luz do sol.</p><p>Essas condições de vida eram muito favoráveis ao desenvolvimento de</p><p>germes, não apenas do da peste, mas também de inumeráveis outras</p><p>doenças endêmicas. Estas últimas eram menos visíveis nas suas</p><p>manifestações, porque atingiam somente indivíduos ou famílias e não</p><p>preocupavam a vida cotidiana de grupos inteiros da humanidade.</p><p>Quando a maneira de lutar contra a peste foi descoberta, pudemo-</p><p>nos dedicar igualmente a todas as outras moléstias infecciosas, seguindo</p><p>todas as providências elementares para prevenir todas as doenças:</p><p>sanear todo o ambiente privado e público das populações, tanto casas</p><p>como cidades. A luta contra a peste foi o primeiro capítulo da história</p><p>dos homens protegendo-se contra os minúsculos e invisíveis seres vivos</p><p>que ameaçam sua existência.</p><p>A higiene pessoal, que foi o resultado final dessa longa batalha, foi</p><p>baseada num conceito fundamentalmente diferente: a saúde pessoal do</p><p>homem é, de fato, o fator decisivo, porque o indivíduo com saúde</p><p>perfeita, com um corpo sólido e bem desenvolvido, pode ficar exposto</p><p>aos germes de doenças sem ser contaminado. A saúde pessoal está</p><p>estreitamente ligada ao controle que o indivíduo tem de si mesmo e ao</p><p>respeito que demonstra à vida e a todas as belezas naturais. O objetivo</p><p>já não é somente lutar contra a doença, mas estar saudável e se proteger</p><p>contra as moléstias em geral. Quando essa ideia foi formulada, ela</p><p>pareceu revolucionária. Na época, os homens raramente gozavam de</p><p>saúde vigorosa. Eram ou superalimentados ou subnutridos, e seu corpo</p><p>era infestado de venenos ou, antes, acabamos por compreender, eram os</p><p>próprios homens que se intoxicavam conscientemente. Eles adoravam</p><p>fazer-se mal, ver-se morrer. Adoravam se superalimentar, beber álcool,</p><p>levar uma vida indolente. Era o prazer deles, seu privilégio, recusar os</p><p>dons da natureza que poderiam cuidar deles: o sol, o ar puro, o</p><p>exercício.</p><p>A revelação mais surpreendente ligada a esse novo conceito de</p><p>higiene não foi a de que a subnutrição e a pobreza em geral trazem</p><p>perigos. Isso se sabia muito bem e havia preocupação com isso desde a</p><p>Idade Média, mais exatamente, desde a Antiguidade. Não, a verdadeira</p><p>revelação foi a de que aquilo por que todas as pessoas se apaixonam, o</p><p>que buscam como um privilégio almejado, é veículo da morte. Privar-se</p><p>de festins empanzinadores durante horas e dos vinhos mais deliciosos,</p><p>renunciar à ociosidade e à indolência era, até aí, considerado sacrifício,</p><p>penitência, não meio de obter uma boa saúde. Isso representava a</p><p>renúncia às satisfações imediatas, o abandono dos prazeres da vida. Mas</p><p>essas satisfações provocavam de fato uma degradação da qual as</p><p>pessoas não faziam ideia. Eram os prazeres de homens preguiçosos que</p><p>haviam perdido sua energia vital. Exércitos de microorganismos podiam</p><p>facilmente invadir esses organismos enfraquecidos, talvez até</p><p>moribundos. Assim que o homem retomou o gosto pela vida, começou a</p><p>temer as consequências de suas próprias fraquezas, de suas indulgências</p><p>censuráveis. Os homens se apressaram a expor-se ao sol e retomaram o</p><p>gosto pelas atividades físicas, que lhes dava a sensação feliz de uma</p><p>liberação. O epicurista de hoje, aquele que quer viver mais tempo e não</p><p>ficar doente, leva uma vida frugal: come apenas o que lhe é necessário,</p><p>adota um regime à base de frutas, legumes e alimentos crus, faz</p><p>exercício e se dedica a atividades naturais boas para a saúde.</p><p>Assim, o conceito de higiene de vida mudou completamente os</p><p>antigos conceitos: as satisfações que antigamente levavam à morte</p><p>foram abandonadas em proveito das que são favoráveis à vida, o que</p><p>um santo de outra época certamente consideraria como relevante numa</p><p>vida de perfeita penitência!</p><p>No entanto, no domínio da moral, não avançamos sequer uma</p><p>migalha. Nesse plano, estamos tão atrasados como estavam as pessoas</p><p>da Idade Média em relação à higiene. Continuamos a ignorar totalmente</p><p>a ameaça sub-reptícia que pesa sobre nossa vida moral e só aceitamos</p><p>trazer-lhe mudanças paliativas. O enfraquecimento da moral é</p><p>considerado um progresso, uma expressão da liberdade moderna.</p><p>Combatem-se as velhas exigências morais que se mantiveram desde</p><p>épocas em que levar uma vida saudável era considerado o maior dos</p><p>sacrifícios. Trabalhar menos e fazer trabalhar as máquinas em nosso</p><p>lugar, essa é a grande meta de nossa época!</p><p>Na base dessa vida moral</p><p>dissoluta, encontra-se a ambição desmedida de ganhar grandes</p><p>quantidades de dinheiro. Essa ambição expõe a existência desse</p><p>irresistível vício que nomeamos de cobiça, equivalente, na esfera moral,</p><p>à preguiça no domínio corporal, porque, tanto num caso como no outro,</p><p>trata-se de acumulação e de prazer ilusório. Mas o homem fraqueja,</p><p>porque esse gênero de prazeres tem raízes no vício. O vasto mundo que</p><p>se lhe abriria como um desafio se ele vivesse uma vida saudável</p><p>permanece fechado. Sem ter consciência, ele se isola e se consome na</p><p>busca insatisfatória de prazeres.</p><p>Para usar, aqui ainda, uma analogia na patologia, essa situação</p><p>moral pode ser comparada às devastações silenciosas e mortais da</p><p>tuberculose. Na sua primeira fase, essa doença leva, com efeito, suas</p><p>vítimas a perseguir freneticamente o prazer. O mal, então, passa</p><p>despercebido; durante um longo período, não há sequer desconfiança</p><p>dele. A peste explode bruscamente e se torna imediatamente um flagelo</p><p>catastrófico, ao passo que a tuberculose age gradualmente, provocando</p><p>a destruição progressiva de um organismo enfraquecido.</p><p>Resumindo, coletivamente, vivemos num estado de paralisia moral,</p><p>numa obscuridade sufocante, deixando-nos embalar por afirmações</p><p>mentirosas que alimentam nossas ilusões. Muitos moralistas repetem</p><p>sem parar que nosso erro, hoje, consiste em tudo querer basear na razão</p><p>humana, ao passo que muitos outros estão convencidos de que o</p><p>progresso não pode estar apoiado apenas na razão humana e em sua</p><p>exigência imperiosa de governar toda a nossa vida. Enfim, apesar de sua</p><p>contradição, tanto uns como outros estão convencidos de que a razão é</p><p>soberana e triunfante atualmente. A triste verdade, infelizmente, é que a</p><p>razão, hoje em dia, está obscurecida por sombras e quase desfeita. De</p><p>fato, nossa desordem moral é apenas um dos aspectos de nosso declínio</p><p>psíquico; o outro é a perda do poder de raciocínio. A característica</p><p>essencial de nossa situação atual é uma loucura insidiosa e nossa</p><p>necessidade mais imediata de retornar à razão.</p><p>A batalha entre o adulto e a criança</p><p>Para podermos nos ater à função do restabelecimento do psiquismo</p><p>humano, é necessário tomar a criança como ponto de partida.</p><p>Precisamos reconhecer que ela é mais que nossa simples descendência,</p><p>mais do que esse pequeno ser que constitui nossa maior</p><p>responsabilidade. Precisamos estudá-la não como um ser dependente,</p><p>mas como uma pessoa autônoma, que deve ser considerada em razão de</p><p>sua personalidade individual própria. Devemos acreditar na criança</p><p>como num messias, como num salvador capaz de regenerar a raça</p><p>humana e a sociedade. Para aceitar essa ideia, temos de nos controlar e</p><p>nos tornar humildes. Somente nós podemos caminhar em direção à</p><p>criança, como os reis magos, carregados de poder e de presentes e</p><p>confiantes na estrela da esperança.</p><p>Rousseau tentou descobrir na criança as características naturais e</p><p>puras do homem antes que fossem desviadas e degradadas pela</p><p>influência da sociedade. É um problema teórico respeitável. Graças à</p><p>sua imaginação fértil, ele foi capaz de compor um romance sobre esse</p><p>assunto. Se um psicólogo fosse tratar o assunto sobre um plano teórico,</p><p>não há dúvida de que o veria em termos de embriologia do espírito</p><p>humano.</p><p>Quanto a nós, assim que estudamos o recém-nascido, que revelava</p><p>ter características psíquicas insuspeitadas e surpreendentes,</p><p>encontramos mais que um espírito embrionário. Ficamos</p><p>profundamente emocionados pela descoberta de um terrível e</p><p>verdadeiro conflito. Vimos uma guerra incessante que assola a criança</p><p>desde o dia de seu nascimento e faz parte de sua vida durante todos os</p><p>anos de sua formação. Esse conflito confronta o adulto e a criança, o</p><p>forte e o fraco e, devemos acrescentar, o cego e o vidente.</p><p>O adulto é verdadeiramente cego diante da criança, pois ela é</p><p>dotada de uma visão real, de uma pequena chama luminosa que nos traz</p><p>como presente. Mas tanto o adulto como a criança ignoram suas</p><p>próprias naturezas. Lutam um contra o outro num combate secreto que</p><p>se desenrola através das gerações e que se tornou mais violento hoje,</p><p>nessa cultura complexa e desafiadora que é a nossa. Infelizmente, o</p><p>adulto consegue vencer a criança e, logo que a criança chega à idade</p><p>adulta, ela guarda, para o resto de sua vida, os sinais característicos de</p><p>uma paz que nada mais é do que um pós-guerra: destruições e ajustes</p><p>dolorosos.</p><p>A criança não chega a despertar o velho homem caído emprestando-</p><p>lhe sua própria força, completamente fresca e cheia de vitalidade,</p><p>porque o adulto se apresenta para ela como um adversário cujo primeiro</p><p>gesto é sufocá-la.</p><p>Nesse plano, a situação é bem mais grave em nossa época do que</p><p>em qualquer outra. Construindo um ambiente cada vez mais distante da</p><p>natureza e, portanto, cada vez mais inadequado à criança, o adulto</p><p>ampliou seus poderes e, dessa forma, aumentou seu controle sobre a</p><p>criança. Nenhuma sensibilidade moral surgiu para libertar os adultos do</p><p>egoísmo que os cega e seu espírito não alcançou a compreensão das</p><p>numerosas transformações desfavoráveis às crianças impostas pela</p><p>situação humana. A velha ideia superficial de que o desenvolvimento do</p><p>indivíduo é progressivo e uniforme continua intacta. A ideia errônea</p><p>segundo a qual o adulto deve fazer a criança entrar no molde desejado</p><p>pela sociedade continua a reinar. Esse desprezo grosseiro, consagrado</p><p>pelo tempo, é a fonte do conflito fundamental e da guerra entre os seres</p><p>humanos que, com toda justiça, deveriam se amar e querer bem uns aos</p><p>outros, particularmente quando se trata de pais e filhos ou de</p><p>professores e alunos.</p><p>A chave do problema reside no seguinte fato: a personalidade</p><p>humana das crianças e a dos adultos são dotadas de características e de</p><p>um objetivo que diferem profundamente. A criança não é um adulto em</p><p>miniatura. Ela é, em primeiro lugar e antes de tudo, detentora de uma</p><p>vida pessoal que tem características e finalidade específicas. O objetivo</p><p>da criança poderia ser resumido na palavra encarnação. A encarnação</p><p>da personalidade humana deve se realizar nela.</p><p>O trabalho da criança totalmente orientado para essa encarnação</p><p>tem ritmos e características vitais completamente diferentes daqueles do</p><p>adulto. É por isso que ela é a grande transformadora de seu meio e um</p><p>ser social por excelência.</p><p>Refletindo um instante sobre o embrião, compreenderemos melhor</p><p>essa ideia. O único objetivo do embrião na sua matriz é atingir o estado</p><p>de recém-nascido. É a fase pré-natal da vida humana. O recém-nascido</p><p>é vigoroso se o feto pode se desenvolver nas melhores condições que</p><p>uma mãe sadia possa oferecer, apenas se preocupando em permitir à</p><p>nova criatura viver dentro dela.</p><p>A gestação ulterior da criança já não é tão rápida quanto a que teve</p><p>lugar no seio de sua mãe. No mundo exterior, é realmente uma nova</p><p>forma de gestação que ela empreende para encarnar um espírito do qual</p><p>as sementes estão latentes e inconscientes nela.</p><p>Ao longo desse trabalho, de que ela só toma consciência</p><p>progressivamente e que realiza através de suas experiências no mundo</p><p>exterior, a criança precisa de cuidados delicados. Ela cumpre sua tarefa</p><p>com uma sabedoria interior, guiada por leis análogas às que guiam toda</p><p>outra tarefa na natureza, seguindo ritmos de atividade que não têm</p><p>qualquer semelhança com os do adulto agressivo inclinado à conquista.</p><p>Esse conceito de trabalho de encarnação, ou de gestação espiritual,</p><p>que implica para a criança uma atividade totalmente diferente da que o</p><p>adulto desempenha na sociedade, não é uma ideia nova, muito ao</p><p>contrário. Ela foi solene e eloquentemente celebrada durante séculos e</p><p>retorna com toda força de um ritual sagrado. A maioria dentre nós</p><p>celebra duas festas: Natal e Páscoa. Nessas ocasiões, os cristãos se</p><p>felicitam, fazem feriados e muitos participam de serviços religiosos.</p><p>Essas festas bastante antigas, o que comemoram? Uma única e mesma</p><p>Pessoa. Mas celebram separada e distintamente a encarnação e a missão</p><p>social dessa Pessoa.</p><p>Na história da vida de Jesus, sua encarnação dura até a puberdade,</p><p>até a idade</p><p>de mais ou menos 13 anos, quando o jovenzinho diz a seus</p><p>pais: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo me ocupar das</p><p>coisas de meu Pai?”. É uma criança que fala. Ele não se sujeita à</p><p>sabedoria dos adultos, mas os espanta e desconcerta. Somente depois é</p><p>que entendemos a vida obscura desse rapaz que obedecia a seus pais,</p><p>que fazia o melhor para aprender o ofício de seu pai e entrar na</p><p>sociedade dos homens entre os quais tinha sua missão a cumprir.</p><p>Suponhamos agora que as características e as finalidades da vida</p><p>independente da criança não sejam reconhecidas e que o adulto tome</p><p>essas características, diferentes das suas, como erros da criança e se</p><p>apresse em corrigi-las. Então, uma luta vai se travar entre o mais fraco e</p><p>o mais forte, luta crucial para a humanidade, porque a boa ou a má</p><p>saúde psíquica do homem, sua força ou sua fraqueza de caráter, a luz ou</p><p>a obscuridade de seu espírito dependem da possibilidade de a criança ter</p><p>ou não uma vida espiritual calma e perfeita.</p><p>Se durante esse período precioso e delicado de sua vida, a criança</p><p>sofre uma espécie de submissão sacrílega, os germes da vida que nela</p><p>existem se tornarão estéreis e não lhe será possível, mais tarde quando</p><p>adulta, concretizar bem as grandes obras de que a vida a encarregará.</p><p>Atualmente, a luta entre adultos e crianças acontece no seio da</p><p>família e na escola, ao longo do processo que continuamos a qualificar</p><p>com a palavra educação, consagrada pelo uso.</p><p>Temos, quanto a nós, levado em conta a personalidade da criança,</p><p>considerada em si mesma e por ela mesma, e lhe oferecemos, em nossas</p><p>escolas, todas as possibilidades para que se desenvolva, criando um</p><p>ambiente que responda às necessidades de seu desenvolvimento</p><p>espiritual. Ora, ela nos revelou uma personalidade inteiramente</p><p>diferente da que era até então levada em consideração, tendo até</p><p>características completamente opostas às que lhe tinham sido atribuídas</p><p>por outros. Com sua paixão pela ordem e pelo trabalho, a criança,</p><p>colocada em tal contexto, demonstra capacidades intelectuais muito</p><p>superiores às que lhe são imputadas. Claro é que, nos sistemas</p><p>tradicionais de educação, a criança recorre instintivamente à</p><p>dissimulação, com o objetivo de esconder suas aptidões e se moldar às</p><p>expectativas dos adultos que a sufocam.</p><p>A criança se dobra à cruel necessidade de ter de se esconder,</p><p>guardando em seu subconsciente uma força de vida que tenta se</p><p>exprimir e que, inevitavelmente, é frustrada. Carregando esse fardo</p><p>secreto, ela também acabará por perpetuar os numerosos erros da</p><p>humanidade.</p><p>O laço entre a educação e a questão da paz e da guerra aí se</p><p>encontra, e não no impacto do conteúdo da cultura transmitida à</p><p>criança, pois, sendo o problema da guerra abordado ou não com a</p><p>criança, sendo a história da humanidade apresentada a ela de uma forma</p><p>ou de outra, isso não muda em nada o destino da sociedade humana.</p><p>Enfim, a deficiência, a fraqueza, o servilismo e a anulação da</p><p>personalidade são sempre o resultado de uma educação que é apenas um</p><p>embate cego entre o forte e o fraco.</p><p>O fato de a criança ter traços de caráter bem diferentes do que se</p><p>acreditou por muito tempo foi irrefutavelmente provado por um quarto</p><p>de século de trabalho assíduo de nossas equipes, não apenas em quase</p><p>todos os países que compartilham nossa herança ocidental, mas ainda</p><p>em numerosos grupos étnicos bastante diferentes, como ameríndios,</p><p>africanos, indochineses, javaneses e lapões. Após nossas primeiras</p><p>experiências, falou-se com entusiasmo desse método de educação capaz</p><p>de produzir resultados surpreendentes e, rapidamente, muitas pessoas</p><p>tomaram consciência da realidade e da importância desse fenômeno.</p><p>Um dos primeiros livros sobre o assunto, Nouveaux enfants,[4] foi</p><p>publicado na Inglaterra.</p><p>Temos o vislumbre de um novo tipo de humanidade. Ressuscitamos</p><p>a esperança em um homem melhor, a esperança de eliminar os erros que</p><p>paralisam as crianças em seus anos de formação e de substituí-los por</p><p>um processo normal de desenvolvimento e, enfim, a esperança de</p><p>permitir ao homem alcançar a saúde psíquica.</p><p>Os homens dotados de um psiquismo sadio são tão raros</p><p>atualmente, que é difícil encontrá-los. O que acontecia, também, até</p><p>pouco tempo, para os homens fisicamente saudáveis: eram muito</p><p>poucos antes que o conceito de higiene pessoal permitisse à humanidade</p><p>conhecer as bases de uma boa saúde corporal. No domínio moral, o</p><p>homem continua a encontrar prazer nos venenos sutis e anseia por</p><p>privilégios que dissimulam os perigos mortais para o espírito. O que</p><p>chamamos virtude, dever e honra são apenas máscaras para os pecados</p><p>capitais que a educação transmite de geração a geração. As aspirações</p><p>insatisfeitas da criança de ontem têm efeito sobre o adulto em que se</p><p>transformou e se traem em formas diversas de parada do</p><p>desenvolvimento mental, em defeitos morais, em inumeráveis</p><p>anomalias psíquicas que enfraquecem a personalidade e a tornam</p><p>instável.</p><p>A criança que jamais aprendeu a trabalhar por si só, a estabelecer</p><p>objetivos para sua própria ação ou a ser mestra de si mesma e de sua</p><p>vontade é reconhecível no adulto que deixa aos outros o cuidado de</p><p>guiá-lo e tem constantemente a necessidade de ser aprovado pelos</p><p>outros.</p><p>À criança em idade escolar frequentemente desencorajada e</p><p>reprimida faltará a autoconfiança. Ela sofre de um sentimento de pânico</p><p>que traz o nome de timidez, de falta de confiança em si mesma, que nos</p><p>adultos toma a forma de frustração, de submissão e de incapacidade de</p><p>resistir ao que é moralmente ruim. A obediência imposta à criança, em</p><p>casa e na escola, uma obediência que não leva em conta os direitos da</p><p>razão e da justiça, prepara um adulto que se resignará a qualquer coisa e</p><p>a tudo. A prática disseminada em instituições educacionais que consiste</p><p>em exibir à desaprovação pública a criança que comete erros, de alguma</p><p>forma a expô-la ao ridículo, inculca-lhe um terror irracional e</p><p>incontrolável da opinião pública, tão injusta ou errônea quanto ela possa</p><p>ser. Essa prática, bem como outros tipos de condicionamentos que</p><p>conduzem a um sentimento de inferioridade, abre caminho a uma</p><p>atitude irrefletida de respeito, quase idolatria, entre os adultos,</p><p>paralisados diante dos dirigentes públicos, que se transformam em</p><p>substitutos do pai e do educador, figuras que a criança foi obrigada a ver</p><p>como perfeitas e infalíveis. Logo, a disciplina imposta se transforma em</p><p>servilismo.</p><p>A criança, até aqui, foi privada da possibilidade de se aventurar</p><p>pelas vias morais que o impulso vital latente procura ansiosamente</p><p>explorar num mundo completamente novo para ela. Ela jamais esteve</p><p>em condições de testar suas energias criativas; jamais pôde estabelecer</p><p>nela o gênero de ordem interior cuja primeira consequência é um senso</p><p>seguro e infalível de disciplina.</p><p>Nas suas tentativas de aprender o que é a justiça, a criança é</p><p>desmoralizada e enganada. É até mesmo castigada por tentar,</p><p>caridosamente, ajudar seus companheiros que estão menos à vontade e</p><p>são menos vivos que ela. Se, ao contrário, copiou os outros ou</p><p>denunciou colegas, ela é tratada com tolerância. A virtude mais</p><p>encorajada e mais recompensada? Que a criança faça melhor que seus</p><p>colegas, que seja a primeira e que passe triunfalmente pelos exames</p><p>efêmeros que regulam sua monótona vida escrava. Os homens que</p><p>foram educados dessa forma não foram preparados para buscar a</p><p>verdade e considerá-la como parte integrante de sua vida, nem a serem</p><p>caridosos com os outros, nem a cooperar com eles para criar um mundo</p><p>melhor para todos. Pelo contrário, a educação que receberam os</p><p>preparou para o que pode ser considerado apenas um intermédio na vida</p><p>coletiva, a saber, a guerra, pois a verdade nessa questão é que a guerra</p><p>não é provocada pelas armas, mas pelo homem.</p><p>Se o homem fosse um ser perfeitamente adulto, dotado de um</p><p>psiquismo são, se tivesse desenvolvido um caráter forte e um espírito</p><p>claro, não toleraria em si a existência de princípios morais</p><p>diametralmente opostos, não seria capaz de vangloriar-se ao mesmo</p><p>tempo de dois tipos de justiça que visam, uma, desenvolver</p><p>a vida e, a</p><p>outra, destruí-la. Não cultivaria em seu coração duas forças morais</p><p>antagônicas, o amor e o ódio. Não teria criado dois tipos de conduta,</p><p>uma engajando as energias humanas na construção, outra na destruição</p><p>do que foi construído. Um homem forte não suporta ter uma consciência</p><p>dividida, muito menos agir alternadamente de duas maneiras</p><p>exatamente opostas. Dessa forma, se a realidade humana é diferente</p><p>dessa que parece existir na vida cotidiana, é porque os homens se</p><p>abandonam à passividade e se deixam levar como folhas mortas.</p><p>A guerra hoje não provém da raiva de um inimigo. Como poderia</p><p>ser assim, se atualmente os homens combatem um dia contra um país e,</p><p>no dia seguinte, contra um outro, se o aliado de amanhã será o inimigo</p><p>de ontem? O homem ocidental que se vangloria de ser altamente</p><p>civilizado não vale nada, moralmente, além do que valem os exércitos</p><p>de mercenários do passado, cujos soldados se batiam por qualquer um,</p><p>desde que recebessem seus soldos. Nada mudou, apenas, hoje em dia,</p><p>os homens destroem suas próprias obras, seus tesouros, sofrem misérias</p><p>simplesmente porque receberam ordens. Os egípcios estavam bastante à</p><p>vontade para distinguir o trabalho efetuado para construir sua</p><p>civilização e a guerra. Eles pagavam, então, soldados fenícios para</p><p>desenvolver suas batalhas, enquanto seu próprio povo cultivava a terra e</p><p>fazia trabalhos públicos. Nós, “países” civilizados, confundimos tudo.</p><p>Diante dos problemas sociais difíceis de nossa época, que</p><p>provocam uma grave inquietude, os melhores dentre nós gostaríamos de</p><p>usar nossa inteligência e as vitórias arduamente conquistadas por nossos</p><p>antepassados para encetar a batalha atual: tornarmo-nos suficientemente</p><p>civilizados para encontrar outras soluções em lugar da guerra. De outra</p><p>forma, para que o homem seria dotado de inteligência? De que nos</p><p>serviria possuir as riquezas acumuladas pela sabedoria de nossos</p><p>antepassados? Para um homem melhor, a guerra nem seria um</p><p>problema, seria uma prática bárbara, diametralmente oposta à vida</p><p>civilizada, um absurdo completamente incompreensível. Cabe ao</p><p>homem escolher seu destino e o dia em que as armas caírem de suas</p><p>mãos marcará o início de um futuro radioso para a humanidade.</p><p>A terceira dimensão</p><p>Eis uma verdade que é tão evidente que poderia parecer ingênua,</p><p>mas não menos clara: duas coisas são necessárias para a paz no mundo,</p><p>em primeiro lugar, um homem novo, o surgimento de um homem</p><p>melhor, e depois a construção de um ambiente que não deve mais fixar</p><p>os limites às aspirações infinitas do homem.</p><p>É necessário que as fontes sejam igualmente accessíveis a todos e</p><p>não patrimônio de um só país. Como podemos garantir que as diversas</p><p>nações do mundo permitam aos cidadãos de outros países viajar</p><p>livremente pelas estradas que elas construíram e explorar as riquezas</p><p>escondidas em seus subsolos? Para unir todos os homens como irmãos,</p><p>devemos abolir todas as barreiras, de maneira que todos os seres</p><p>humanos do mundo sejam como crianças brincando num mesmo jardim.</p><p>As leis e os tratados não são suficientes; o que é preciso é um mundo</p><p>novo, cheio de milagres.</p><p>Milagres? A criança parece realizá-los bem! Basta ver a maneira</p><p>como ela procura avidamente a autonomia e a possibilidade de</p><p>trabalhar, é suficiente constatar os imensos tesouros de entusiasmo e de</p><p>amor que ela demonstra.</p><p>Um mundo novo para um homem novo, é essa nossa necessidade</p><p>mais urgente. Se fosse uma utopia, ou uma espécie de brincadeira, seria</p><p>sacrilégio falar da sorte neste momento em que a humanidade vive à</p><p>beira de um abismo, ameaçada por uma catástrofe total. Mas não temos</p><p>as fulgurações de um mundo de milagres desde o início deste século?</p><p>Não vimos o homem começar a voar pelo céu? Por esse fato, as</p><p>barreiras geográficas já não podem separar os países uns dos outros e o</p><p>homem pode ir a qualquer lugar da Terra sem precisar construir estradas</p><p>nem invadir o território dos outros.</p><p>Tendo o homem conseguido superar a gravidade e viajar livremente</p><p>e rapidamente no céu, que país estará, a partir de agora, em condições</p><p>de reivindicar os direitos territoriais sobre esta ou aquela parte da Terra?</p><p>Que país ousará reivindicar direitos exclusivos sobre a gravidade da</p><p>Terra ou sobre o espaço além da atmosfera terrestre? Quem poderá ter</p><p>direitos exclusivos sobre as ondas curtas ou longas, causas invisíveis de</p><p>uma comunicação que transporta a voz do homem e os pensamentos de</p><p>toda humanidade através do espaço? Quem poderá usar totalmente essa</p><p>grande liberdade e esse grande poder?</p><p>A energia solar permitirá assar o pão e aquecer as habitações dos</p><p>homens. Que país poderá reivindicar direitos sobre ela? Não há limites</p><p>nem entraves geográficos para as novas riquezas que o homem está</p><p>conquistando, deslocando-se em direção à estratosfera, em direção ao</p><p>infinito do céu, em direção ao coração estrelado da criação. Com o que</p><p>se parece o homem ao estar se defrontando com outro?</p><p>Antes os homens lutaram por coisas concretas, mas descobriram</p><p>que na origem dos fenômenos materiais se encontrava a energia.</p><p>Depois, o homem domou as causas escondidas infinitas, muito mais que</p><p>seus efeitos limitados. O homem as dominou como se fosse um deus.</p><p>Essa proeza mudou completamente sua vida social. A rápida e</p><p>maravilhosa conquista da esfera que envolve a Terra trouxe conquistas</p><p>ao homem além da superfície terrestre. Até aí, a Terra tinha apenas duas</p><p>dimensões para o homem, mas ele conquistou a terceira dimensão. A</p><p>história da humanidade num mundo de duas dimensões agora acabou.</p><p>Uma era terminou, uma era que durou milhares de anos, que é tão</p><p>velha quanto a história humana, pois começou em idades lendárias e</p><p>mesmo antes, em épocas de que temos apenas alguns traços escondidos</p><p>no solo. Um capítulo imenso da história, que se desenrolou durante</p><p>milênios, está agora concluído.</p><p>Até nossa época, o homem tinha de ganhar o pão cotidiano com o</p><p>suor de seu rosto, cultivando os campos como um condenado. Escravo,</p><p>tinha de esconder sua nobreza. Embora filho do amor, era constrangido</p><p>a carregar as correntes da troca dos bens materiais. Mas, a partir de</p><p>agora, o homem, tendo conquistado o universo das estrelas, pode se</p><p>elevar em toda a sua grandeza, enfrentar o universo como uma criatura</p><p>nova. A criança, a nova criança está predestinada a se lançar na</p><p>conquista do infinito.</p><p>Essa conquista abre um horizonte tão vasto que ela necessita da</p><p>cooperação de toda a humanidade. Mas o que forjará realmente a</p><p>unidade da humanidade é o amor.</p><p>É essa a visão da realidade de nosso tempo. Nós, os últimos</p><p>homens ligados à Terra, devemos fazer o esforço de elevar bem alto</p><p>nossos olhos e nosso coração para compreendê-la. Estamos engajados</p><p>numa crise, divididos entre o velho mundo que acaba e um novo mundo</p><p>que já começou e já deu provas de todas as coisas positivas que pode</p><p>nos oferecer. A crise que vivemos não corresponde ao gênero de</p><p>mudança que marca a passagem de um período histórico a outro. Ela só</p><p>pode ser comparada a uma dessas eras geológicas ou biológicas nas</p><p>quais formas de vida novas, superiores, mais perfeitas, apareceram, no</p><p>momento em que a Terra oferecia condições de vida totalmente novas.</p><p>Se não somos capazes de dar à nossa situação seu justo valor, nós</p><p>nos confrontaremos a um cataclismo universal que há de nos fazer</p><p>lembrar as profecias do Apocalipse. Se o homem se mantém fixado à</p><p>Terra e permanece inconsciente das novas realidades, se emprega as</p><p>energias do espaço com a finalidade de se destruir, ele rapidamente</p><p>atingirá seu objetivo, porque as energias, a partir de agora à sua</p><p>disposição, são imensuráveis e acessíveis a qualquer um, a todo</p><p>momento, não importa em que ponto do globo.</p><p>O homem que soube descobrir o segredo dos contágios, pode se</p><p>apropriar de seus agentes e, em seus laboratórios, multiplicar à vontade</p><p>os germes de inumeráveis doenças. Se, em lugar de usar esses meios</p><p>para salvar vidas, ele os utilizar para propagar epidemias devastadoras</p><p>que envenenem a Terra, ele poderá, sem a menor dificuldade, atingir seu</p><p>objetivo.</p><p>Não há obstáculos em seu caminho hoje. Montanhas</p>

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