Prévia do material em texto
<p>© Tarcísio Meirelles Padilha</p><p>Direitos de edição em língua portuguesa no Brasil adquiridos por Editora Batel www.editorabatel.com.br</p><p>Direitos reservados</p><p>2ª Edição - 1ª Impressão</p><p>Outubro 2019</p><p>Curadoria da Obra Reunida de Tarcísio Padilha</p><p>Heloísa Padilha</p><p>Julio Lellis</p><p>Coordenação editorial</p><p>Carlos Barbosa</p><p>Revisão</p><p>Charles Mourão</p><p>Denise Scofano Moura</p><p>Projeto gráfico de capa e miolo</p><p>Julio Lapenne</p><p>Editoração final</p><p>Solange Trevisan zc</p><p>Texto estabelecido segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde</p><p>2009</p><p>CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE</p><p>SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ</p><p>P134h</p><p>2. ed.</p><p>Padilha, Tarcísio</p><p>História e filosofia : reflexões sobre a condição humana / Tarcísio Padilha. 2. ed. - Rio de Janeiro :</p><p>Batel, 2019.</p><p>288 p. ; 21 cm.</p><p>ISBN 978-85-7174-032-7</p><p>1. Filosofia - Crônicas. 2. Crônicas brasileiras. I. Título.</p><p>19-59988</p><p>CDD: 869.8</p><p>CDU: 82-94(81)</p><p>18/09/2019 - 24/09/2019</p><p>Sumário</p><p>Prefácio – Mary Del Priore</p><p>Tempo de Reflexão – Antonio Olinto</p><p>Algumas opiniões sobre a Filosofia de Tarcísio Padilha</p><p>SOCIEDADE</p><p>O espaço público</p><p>Meninos de rua</p><p>Expulsão do “paraíso</p><p>Contraste pedagógico</p><p>O reino da insegurança</p><p>Sinais dos tempos</p><p>Nada pelo social</p><p>O futuro dos direitos humanos</p><p>Um percurso sombrio</p><p>Condição humana</p><p>O valor da palavra</p><p>O novo modelo francês</p><p>EDUCAÇÃO E CULTURA</p><p>Educação e trabalho</p><p>Escola para todos</p><p>Níveis de profundidade</p><p>Riqueza desperdiçada</p><p>Paraíso Perdido</p><p>O despertar da Latinidade</p><p>A Latinidade e o prefácio da Cimeira</p><p>ECONOMIA E POLÍTICA</p><p>Economia de mão única</p><p>Alíquotas humanas</p><p>Custo e valor</p><p>Presidencialismo onipotente</p><p>Exigências da sociedade</p><p>Recorde histórico</p><p>A lógica do imprevisível</p><p>Aos políticos: meditação e humildade</p><p>Digressão ética</p><p>Divórcio auspicioso</p><p>Com a palavra, o Poder Legislativo: uma festa do Direito</p><p>Cinquentenário do Estado de Israel</p><p>FILOSOFIA E CIÊNCIAS</p><p>História e Filosofia</p><p>Filosofia e Literatura</p><p>O desafio do mal na Tragédia Burguesa</p><p>Maturidade científica</p><p>O especialista</p><p>Arrogância científica</p><p>P</p><p>Prefácio</p><p>Mary Del Priore</p><p>ara que servem Filosofia e História senão para nos ensinar a pensar o</p><p>mundo de hoje? Tarcísio Padilha coloca sua pena a serviço de ambas</p><p>as disciplinas em preciosa obra de perspectiva humanista. De um</p><p>humanismo que leva em conta a imperfeição do indivíduo e nos convida a ser</p><p>misericordiosos com aqueles com quem compartilhamos nossa humana</p><p>condição. Figura de proa de uma geração ávida de ação e de inflamados debates</p><p>filosóficos, Padilha não é um pensador encouraçado em uma torre de marfim.</p><p>Mas alguém que assume posições frente à vida, enquanto abraça um mundo em</p><p>convulsões: o nosso. Fortaleza de resistência às ideias préconcebidas e aos</p><p>conformismos, sua trajetória o levou da cátedra à Justiça do Trabalho, da</p><p>Filosofia à Academia Brasileira de Letras. Sua experiência nacional e</p><p>internacional o conduziu de importantes think tanks., como o Centro Dom</p><p>Vital e o IEL. Instituto Euvaldo Lodi, ao Vaticano. onde integra o Pontifício</p><p>Conselho para a família, ao Collegium Academicum Universale Philosophiae, à</p><p>Metaphysical International Society, à Sociedad Interamericana de Filosofía, à</p><p>Asociación Interamericana de Filósofos Católicos, da qual foi vice-presidente, à</p><p>Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos, que presidiu, e a Association Louis</p><p>Lavelle, da qual é conselheiro e membro honorário. Eis o retrato de uma vida</p><p>dedicada ao pensamento e à ação em favor de valores e dos direitos dos</p><p>indivíduos, vida que propõe a cultura do diálogo e da cooperação para</p><p>responder aos desafios de nosso tempo. É preciso, como diz Padilha, “viver</p><p>convivendo”. É necessária “a abertura da alma para o Outro”.</p><p>A beleza de História e Filosofia reside na sua atualidade. Coletânea de</p><p>ensaios redigidos entre 1998 e 1999, o livro é também um espelho que Padilha</p><p>nos estende. Nele, vemos a inércia de nossos políticos, mas, também a nossa,</p><p>cidadãos pouco afeitos a nos engajar em compromissos coletivos. Cidadãos que</p><p>carecem de renovação espiritual. Brasileiros que deveriam investir na associação</p><p>entre humanismo e tecnologia, entre ética e ativismo. E a pergunta que não</p><p>quer calar: em vinte anos, o que mudou no Brasil? Pouco ou nada. O que nos</p><p>falta? Padilha responde. Quase tudo: educação, transparência nos gastos</p><p>públicos, governança, saúde, empregos, combate à violência, ajuste fiscal,</p><p>direitos humanos, melhores indicadores sociais - como demonstra em vários</p><p>ensaios de terrível e constrangedora atualidade. O espelho se multiplica em</p><p>imagens porque, mestre do conhecimento interdisciplinar, o autor sabe nos dar</p><p>a ver em palavras o que não estamos enxergando: o tempo passou envolto na</p><p>inércia de indivíduos ou da nação. Pois, numa visão premonitória, há mais de</p><p>vinte anos, ele cravou: “De toda a parte, vozes autorizadas se levantam para</p><p>clamar por justiça social, para despertar a consciência governamental de seu</p><p>sono letárgico. Tudo parece inútil, pois a nave do Estado segue tranquila a sua</p><p>rota de colisão com o Brasil real.”</p><p>“Só na fé e no trabalho, os brasileiros sobrevivem”, instrui Padilha. Essa é a</p><p>receita do Bem maior. Bem que é sinônimo de livre arbítrio, justiça social,</p><p>cooperação. Pois espiritualidade e fé em Deus são mediadoras de uma</p><p>sabedoria. Sabedoria que busca a verdade, a caridade e o perdão. Valores que</p><p>devem impregnar as leis, as instituições e os sistemas sociais, mas, também, as</p><p>atitudes e o caráter de cada um de nós. Se as questões filosóficas o agitam,</p><p>Padilha é bem um autor de nosso tempo, ciente de que filosofar é pensar a vida</p><p>e, ao mesmo tempo, viver seu pensamento. Neste belo História e Filosofia,</p><p>conjunto de ensaios clássicos, Tarcísio Padilha nos convida a refletir sobre quem</p><p>fomos no passado, para melhor decidir o que seremos no futuro.</p><p>S</p><p>Tempo de reflexão</p><p>Antonio Olinto</p><p>erá o ensaio a mais abrangente forma de literaturajamais tentada?</p><p>Desde que “messire Michel, seigneur de Montaigne” (1533-1592)</p><p>publicou seus Essais na França em 1580 - e Francis Bacon (1561-</p><p>1626) lançou, no outro lado da Mancha, seus Essays em 1597 - que o gênero se</p><p>tornou a atração maior para os que leem pelo prazer da leitura inteligente, pelo</p><p>desejo de conhecimento e pelo anseio de que as coisas fiquem melhores do que</p><p>são. Escrito em geral com propósito moral, no amplo significado do adjetivo,</p><p>pode-se dizer que sua tendência é mais “edificar” do que “entreter”, mais</p><p>“ensinar” do que “distrair”. Antes de Montaigne e Bacon, não se deve esquecer</p><p>que Erasmo, em seu Elogio da loucura, lançara um tipo de ensaio longo,</p><p>dosado com o sal da ironia, contrariando um sir inglês, Sir William Emry</p><p>Williams, que, numa “definição mínima” do gênero, estabeleceu: “Ensaio é</p><p>uma obra literária curta, em prosa não-narrativa.” O ensaísta seria,</p><p>preferencialmente, um filósofo social, analista, crítico da sociedade, dos</p><p>costumes, da política. Foi natural que o ensaio se unisse ao jornalismo, outro</p><p>gênero que também analisa o homem e seus aglomerados. Desde o começo do</p><p>século até morrer, em 1936, G. K. Chesterton usou o jornal para zombar da</p><p>sociedade de seu tempo e das loucuras de seus contemporâneos. Antes dele,</p><p>Joseph Addison (1672-1719) fora o mais jornalístico dos ensaístas, tendo</p><p>escrito cerca de quatrocentos ensaios curtíssimos sobre os mais diversos temas,</p><p>sempre com uma análise um tanto sorridente. Entre nós, do ensaio promanaria</p><p>a brasileiríssima crônica, gênero que, de Machado de Assis a Rubem Braga,</p><p>dominaria o nosso jornalismo.</p><p>As qualidades do ensaio propriamente brasileiro estão, inteiras, no modo</p><p>como Tarcísio Padilha pratica o gênero. Antes de tudo, numa prosa límpida e</p><p>no estilo adequado a cada assunto. O que mais chama sua atenção é a Filosofia,</p><p>a que dedicou toda a sua vida. E, como parte do desenvolvimento natural do</p><p>homo philosophicus, cultiva a história, sem a qual nenhum conhecimento se</p><p>mantém de pé. Com exceção de alguns capítulos, sobre a poesia de Dom</p><p>Marcos Barbosa e o discurso de posse</p><p>Nietzsche asseverou que “eu não desespero de encontrar</p><p>um dia um caminho que conduz a algum lugar”. É o pressentimento do</p><p>Encontro que se dará quando o ouvido humano ficar atento à Palavra. Pois é de</p><p>palavra que se trata sempre que perseguimos a finalidade última de nosso</p><p>destino.</p><p>No limiar da palavra, o ser humano se percebe acima de quanto o circunda.</p><p>Conscientiza a sua condição de rei da criação, de timoneiro da nave que cifra o</p><p>seu caminhar, no meio das borrascas que emergirem em seu itinerário. E só</p><p>pela palavra ele se afirmará, a partir do nome que portar e da mensagem que</p><p>ousar transmitir ou receber, nesse lusco-fusco que encobre aqui e ali a</p><p>luminosidade prestes a se manifestar.</p><p>Nascido da Palavra, o homem, pela palavra, reencontra a Palavra que selará o</p><p>seu caminho como luz e amor.</p><p>Jornal de Letras, nº 7.</p><p>NOTA</p><p>1 Ernst Cassirer (1874-1945): filósofo alemão.</p><p>É</p><p>O novo modelo francês</p><p>“Todo poder humano é um misto de paciência e de tempo.”</p><p>HONORÉ DE BALZAC</p><p>comum atribuir-se aos franceses, nomeadamente ao parisiense, uma</p><p>permanente dose de impaciência. Em parte, há uma explicação para o fato:</p><p>sessenta milhões de turistas cruzam os espaços da velha Gália todos os anos. E é</p><p>fácil imaginar o desalento de ter de indicar ruas, lojas, museus a uma enorme</p><p>massa de estrangeiros, muitos dos quais claudicantes na bela língua de Molière.</p><p>Eis senão quando um novo fator determinou uma súbita e auspiciosa</p><p>mudança de comportamento local. A antiga impaciência desapareceu e, em seu</p><p>lugar, emergiu um novo perfil pleno de acolhida e de simpatia. Parece que deu</p><p>certo o veemente apelo que precedeu a Copa do Mundo, solicitando aos nativos</p><p>a abertura de alma e de coração aos torcedores dos cinco continentes, com seus</p><p>costumes, vestimentas até exóticas, extroversão por vezes excessiva. Enfim, aos</p><p>franceses se pedia irrestrita paciência. E o milagre sobreveio a atestar o quanto</p><p>pode mudar a atitude dos homens quando está emjogo um valor ou um</p><p>interesse de vulto.</p><p>A França viria a ser o palco iluminado do maior espetáculo da terra e não</p><p>poderia deixar de corresponder à escolha da FIFA senão com um</p><p>comportamento altamente civilizado e à altura da notável tradição cultural que o</p><p>mundo inteiro lhe reconhece.</p><p>Regressando de viagem ao Vaticano para participar de um colóquio, com</p><p>extensão para a França, surpreendi-me agradavelmente com a mudança.</p><p>Surpresa diferente aguardava-me ao voltar, com as nuvens cinzentas que vim</p><p>encontrar no Brasil. O governador Itamar a negar a possibilidade de pagar os</p><p>débitos do Estado à União. O Presidente a reagir com veemência. Enfim, uma</p><p>dura troca de farpas, ainda resultantes de antigas rixas pessoais, enorme saldo</p><p>devedor de caráter político a ser cobrado abruptamente. Como consequência, as</p><p>finanças sofreram sério abalo, e a credibilidade do país no exterior desceu</p><p>alguns degraus.</p><p>Não pretendo avaliar a razão de um ou de outro na refrega política. Limito-</p><p>me a indagar: não seria cabível implantar o novo comportamento gaulês, com a</p><p>abertura de um diálogo genuíno entre ambos os líderes políticos? Um certo</p><p>savoir-faire não faria mal algum ao país. Até porque quem diz que não vai pagar</p><p>sabe que a União dispõe de meios para forçá-lo a cumprir o acordo</p><p>anteriormente assumido. Daí se concluir que tudo não passa de uma bem</p><p>encenada peça teatral, com fins nimiamente políticos, de que o país em nada se</p><p>beneficia.</p><p>E patente a dimensão dos desafios com que se defronta o Brasil e que muitos</p><p>pretendem confinar à área econômico-financeira. Neste domínio, a gastança</p><p>tem sido a norma nos três níveis de administração pública. Não há inocentes</p><p>neste particular. Todos contribuíram para o descalabro atual. Mas não é o</p><p>momento de se buscar bodes expiatórios, nem de deixar que proliferem os</p><p>amuos oriundos de episódios políticos quejá deveriam estar peremptos. Ao</p><p>contrário, a responsabilidade de administrar resultante das urnas há de ter o</p><p>condão de ampliar a faixa de diálogo, sem o que nos assemelharemos às</p><p>republiquetas imaturas cujos representantes atravancam os corredores da ONU</p><p>com seus problemas insolúveis, por força dos radicalismos em que se inspiram.</p><p>Ingressamos inevitavelmente no processo prenhe de interrogações da era</p><p>globalizada. Esta realidade nos enfraquece a autonomia, mas também permite</p><p>que os fatos negativos aqui ocorridos deixem de apenas nos penalizar. Há uma</p><p>tendência à comunhão de acertos e desacertos. Assim, os egoísmos nacionais</p><p>tendem a respeitar certos limites nascidos da interação crescente dos interesses</p><p>em jogo. Cabe à criatividade dos homens a modelagem de um sistema de</p><p>convivência que mais diretamente contribua para aparar as arestas dos</p><p>desnivelamentos gigantescos que teimam em ameaçar a sobrevivência digna de</p><p>muitos povos. E não de julgarem que a desprezível manipulação financeira em</p><p>escala mundial deve ser respeitada, como se fora mero exercício natural de</p><p>atividade econômica de cunho produtivo.</p><p>Os franceses se valem com frequência do verbo patienter, que indica, ao</p><p>mesmo tempo, ter paciência e esperar com paciência. Parece haver chegado o</p><p>nosso momento de patienter no dealbar de novos governos que devem cumprir</p><p>seus compromissos com o povo que os elegeu, sem voltar as costas ao interesse</p><p>nacional. A sábia sincronia entre as legítimas aspirações locais e a superior</p><p>finalidade de assegurar a estabilidade da moeda, e encontrar os caminhos da</p><p>retornada do desenvolvimento, é o que mais desejam os brasileiros, bem atentos</p><p>aos passos a serem dados no tabuleiro do xadrez nacional.</p><p>Duas linhas de ação devem ser adotadas, em princípio: firmeza e coerência</p><p>nas decisões de alto nível, fazendo sempre prevalecer o interesse maior do país</p><p>sobre os corporativismos de todos os matizes, e respeito ao cidadão na</p><p>formulação de todas as políticas setoriais, com ênfase no enfrentamento dos</p><p>desafios da área social. Um governo que fale a verdade e não remanesça na</p><p>retórica de pronunciamentos amiudados estará cumprindo o seu papel, e aos</p><p>governantes de menor jurisdição cabe compatibilizar as suas metas à difícil</p><p>situação por que passa o país. E mais uma crise das numerosas que a esta se hão</p><p>de seguir, pois é próprio do homem gerar as crises para delas emergir com</p><p>criatividade. A história o comprova sobejamente.</p><p>Jornal do Commercio, 14.01.1999.</p><p>Educação e cultura</p><p>I</p><p>Educação e trabalho</p><p>nstituto Euvaldo Lodi (IEL), órgão de estudos e pesquisas da</p><p>Confederação Nacional da Indústria, está completando trinta anos de</p><p>profícua existência. É o momento adequado para uma disquisição sobre o</p><p>seu significado e ainda relativamente aos dois universos que o IEL pretende</p><p>conciliar, os domínios do saber e do fazer.</p><p>Para muitos, à harmonia entre ambos os campos se opõe patentemente um</p><p>obstáculo visceral. Assim, os que se devotam à ingente tarefa de ampliar a esfera</p><p>do conhecimento não poderiam - segundo esta visão míope - ajustar-se ao</p><p>diapasão do mundo laboral. Como se o pensar, o pesquisar também não se</p><p>estruturassem pelo esforço dos estudiosos. Como se a especulação, a teoria</p><p>fossem sinônimos de inação, quando não de desperdício.</p><p>Hodiernamente, a dicotomia entre conhecimento e produção não deve ser</p><p>entendida em sentido radical. É certo que características distintivas emergem</p><p>meridianamente da análise espectral das duas esferas. Impõe-se precatar-nos</p><p>contra a absolutização da tese e considerar que é da observação atenta dos</p><p>fenômenos que se parte para os grandes sistemas científicos e filosóficos.</p><p>Da mesma sorte que da especulação muita vez promana o sopro vivificador</p><p>da realidade diuturna com a qual nos defrontamos. Isto é, sua compreensão</p><p>teórica alumia o percurso táctico com que convivemos.</p><p>Descendo ao nível conjuntural, registra-se um aumento expressivo de ofertas</p><p>de vagas nas universidades sem que surjam postos de trabalho na mesma</p><p>proporção. O desemprego de profissionais até mesmo altamente qualificados</p><p>constitui desafio de monta para a sociedade. E os empresários, que fundaram o</p><p>IEL,</p><p>têm plena consciência desta realidade. O IEL nasceu para vincular o</p><p>espaço universitário ao mundo empresarial, de maneira a ensejar a formação de</p><p>mão de obra necessária ao desenvolvimento econômico. As relações entre</p><p>educação superior e o trabalho põem em relevo, porém, questões que</p><p>ultrapassam a simples realização do equilíbrio quantitativo no mercado de</p><p>trabalho para profissionais de nível universitário. A universidade persiste em</p><p>criar o saber, e dela se espera primacialmente a consecução deste desideratum1.</p><p>Cabe ao empresariado divisar na potencialidade universitária o filão de</p><p>habilitação para o mundo do trabalho, mercê de formação especializada. Isto</p><p>deve ocorrer sem prejuízo da destinação maior de prover ao humanismo</p><p>inspirador dos passos de qualquer civilização destinada a durar.</p><p>O excessivo pragmatismo empresarial poderia comprometer a dinâmica da</p><p>evolução científica e mesmo tecnológica. Da mesma sorte que o encastelamento</p><p>universitário sempre conduz a uma cisão entre o saber e a vida em sua pujança</p><p>cotidiana.</p><p>O desenvolvimento humano é a grande meta, que passa frequentemente pela</p><p>atividade produtiva, que não pode ser olvidada. Certa feita, um cientista-filósofo</p><p>alemão contemporâneo, Carl Friedrich von Weizsacker, assentiu: “Não há por</p><p>que escolher entre o plano e o homem, não há pois por que refugiarmo-nos</p><p>numa racionalidade pura e geométrica de um lado e, de outro, na pura</p><p>subjetividade.”</p><p>Além da capacitação profissional, cabe preparar o cidadão para o seu</p><p>desenvolvimento pleno, abrindo-lhe o espaço para a autorrealização. É bem de</p><p>ver que o aprendizado se estende por toda a vida. É chegado o momento de</p><p>superarmos a era dos diplomas, e iniciarmos o período dos certificados, que</p><p>devem traduzir o contínuo aprimoramento do ser humano. Volver sempre ao</p><p>espaço do saber é o imperativo da hora presente. Imaginar a existência de uma</p><p>formação fechada é ignorar a emergência da aceleração do tempo histórico e da</p><p>rapidez das transformações oriundas do progresso do conhecimento humano.</p><p>Um livro teve como título Se funciona, já é obsoleto, a configurar a contínua</p><p>superação dos patamares do saber sempre em evolução ascensional.</p><p>O filósofo Georges Gusdorf2 afirmou que “num futuro próximo, somente</p><p>permanecerão disponíveis para a atividade humana as tarefas de supervisão e de</p><p>controle, de direção e de criação, nas quais a iniciativa pessoal desempenha um</p><p>papel indispensável.” Na França, a legislação compele as empresas a promover</p><p>cursos teóricos e estágios de aperfeiçoamento com um centésimo de seu</p><p>orçamento.</p><p>Felizmente, as relações entre o saber e produzir deixaram de receber</p><p>tratamento meramente ideológico. Hoje, caminham com mais objetividade</p><p>visando à sua necessária harmonia, quando não integração.</p><p>Os milhões de jovens estagiários que frequentam as universidades e se</p><p>adestram nas empresas constituem testemunho eloquente de que a</p><p>complementaridade das duas faces leva a sociedade a se beneficiar desta aliança.</p><p>Sem a passagem fecunda por estágios, a formação da juventude padeceria de</p><p>um vício letal à sua plena maturação.</p><p>Humanismo e tecnologia - eis mais um dos falsos dilemas da modernidade.</p><p>É mais do que chegada a hora de conciliá-los, a fim de que a sociedade do</p><p>futuro - que já começou - se abra de par em par à participação de todos no</p><p>projeto comum de humanizar o trabalho e de produzir mais e melhor para o</p><p>proveito de todos.</p><p>Que os empresários esmoreçam suas desconfianças em relação à</p><p>universidade e esta reduza seu teor de arrogância sapiencial e teremos aplainado</p><p>as arestas para um futuro mais próspero, mais justo e mais humano para os</p><p>brasileiros.</p><p>Jornal do Commercio, 06.05.1999.</p><p>NOTAS</p><p>1 Desideratum: desiderato; aquilo que se deseja ou a que se aspira.</p><p>2 Georges Gusdorf (1912-2000): filósofo e epistemólogo francês.</p><p>T</p><p>Escola para todos</p><p>eve início esta semana a implantação de um programa que já tardava</p><p>inexplicavelmente. No Estado de São Paulo, crianças ejovens entre 8 e</p><p>18 anos serão cadastrados para sua automática matrícula em escolas</p><p>públicas próximas de seu domicílio. O governo Mário Covas resolveu enfrentar</p><p>a questão de forma objetiva, simples e efetiva. Não haverá mais o exército de</p><p>jovens sem escola, expostos às tentações decorrentes da ociosidade.</p><p>Há muitas décadas se fala na falta de vagas nas escolas, em evasão escolar,</p><p>sem que hajam surgido sequer esboços de solução ao grande desafio. Na</p><p>Inglaterra, as crianças são automaticamente matriculadas nas escolas existentes</p><p>num raio de três quilômetros de sua casa. Isto reduz substancialmente o</p><p>desgaste com deslocamentos inúteis e tem ainda o condão de diminuir o tráfego</p><p>das cidades, na proximidade das escolas e colégios.</p><p>Espera-se que a organização do projeto suprima realmente o escândalo das</p><p>filas à porta das escolas, com toda a coorte de sacrifícios para os pais, que se</p><p>esforçam por oferecer educação aos seus filhos. Designadamente hoje, quando</p><p>se sabe que sem um mínimo de escolaridade, a marginalização constituirá um</p><p>consectário natural e espontâneo.</p><p>Frequentemente, lemos sugestões bem intencionadas de pessoas que</p><p>sugerem novos conteúdos curriculares visando dar às crianças conhecimentos</p><p>relativos a problemas específicos, como os perigos das drogas, orientação no</p><p>trânsito etc. Parece-nos não ser este o melhor caminho. Estaríamos atulhando</p><p>de disciplinas a carga por vezes excessiva de conteúdos programáticos oferecidos</p><p>aos estudantes. Cremos mais adequada a solução de atividades</p><p>transdisciplinares, que permeariam o processo educacional, sem a burocracia</p><p>do convencionalismo de matérias específicas.</p><p>Felizmente, convergem os educadores em superar a fase formal e perempta</p><p>do vestibular. Ainda agora, perdura a primazia do vestibular sobre a formação</p><p>do educando. Tanto é verdade que, num determinado momento, não parece</p><p>haver outro objetivo na prática pedagógica senão a preparação dos jovens para o</p><p>ingresso na universidade. Perde-se aí o fim mesmo de toda a educação, feita</p><p>para colher o potencial de cada educando e fazê-lo emergir, mercê da</p><p>ministração de conhecimentos havidos como indispensáveis à formação do ser</p><p>humano, e não do simples futuro profissional.</p><p>De resto, quando se realça o ensino profissional, a ponto de referi-lo como</p><p>prioridade em face do mercado de trabalho, duas observações nos acodem. A</p><p>primeira é de que a educação suplanta o nível medíocre do adestramento</p><p>laboral. A segunda concerne à evidência de que o mercado de trabalho mudará</p><p>com celeridade cada vez maior, do que resultarão levas de jovens sem a</p><p>formação ajustada às emergências de profissões hoje ainda inexistentes. Mais e</p><p>mais se há de atentar para a base a partir da qual toda e qualquer nova atividade</p><p>poderá ser exercida mediante simples preparação próxima e não remota. Ou se</p><p>quisermos, a preparação remota será sempre o fundamento de qualquer</p><p>aperfeiçoamento exigido pelo novo mercado de trabalho.</p><p>Experiênciasjá demonstraram que bons alunos do liceu de humanidades da</p><p>Itália obtiveram melhor desempenho em cursos científicos do que os egressos</p><p>de ensino médio voltado para as ciências. Como também se atestou o valor de</p><p>jogos intelectuais, como o xadrez, para a formação geral. Neste sentido, pode</p><p>registrar-se o livro A filosofia do xadrez, de um professor austríaco.</p><p>Importa levar em conta uma maior flexibilidade na elaboração dos currículos</p><p>e mesmo do calendário escolar. Aspectos regionais hão de ser considerados na</p><p>urdidura da trama curricular, como não há por que se insistir em manter um</p><p>calendário rígido quando se sabe que, em nosso hinterland, prevalece a</p><p>necessidade de colher a produção em períodos bem demarcados, que nem</p><p>sempre coincidem com o calendário oficial.</p><p>Além do horizonte nacional, o momento nos convida a mirar bem longe, a</p><p>meditarmos sobre a dramática situação de Timor Leste, ligado ao nosso país</p><p>pela língua portuguesa. Lá, reina a destruição e não existe clima para o</p><p>funcionamento das instituições e, portanto, das escolas.</p><p>Apesar de toda</p><p>a violência, após o desligamento de Portugal resultante da</p><p>Revolução dos Cravos, o pequeno território encravado na Indonésia caminhou</p><p>com dificuldades para o plebiscito que lhe assegurou a independência. Que</p><p>independência! Saques, massacres, populações em fuga, aterrorizadas pelas</p><p>milícias indonésias. O Brasil não pode deixar de caminhar em socorro do novo</p><p>país. Primeiro, por razões humanitárias. Em segundo lugar, pela preservação da</p><p>língua portuguesa, hoje falada por duzentos milhões de pessoas em todo o</p><p>mundo. Portugal e Brasil têm responsabilidades de liderar o processo de efetiva</p><p>independência de Timor Leste, oferecendo toda a ajuda possível, aí se</p><p>incluindo a colaboração pedagógica, com a reabertura das escolas, no firme</p><p>intento de preservação de nossa língua no continente asiático.</p><p>Escola para todos, em São Paulo e, se possível, em todo o país. Escolas em</p><p>Timor Leste, para que a semente da cultura lusitana, que é a nossa, não murche</p><p>e feneça no distante e pequeno país.</p><p>Jornal do Commercio, 16.09.1999.</p><p>C</p><p>Níveis de profundidade</p><p>andido Mendes certa feita me declarou serem míopes os que situam a</p><p>educação como o centro nevrálgico da crise nacional. Ponho-me de</p><p>acordo com ele: o fulcro da crise do homem hodierno, aqui e alhures,</p><p>se assenta numa dimensão espiritual de rara profundidade. Mas o que fazer até</p><p>que se abram as mentes para a profundidade bem maior dos desafios da pós-</p><p>modernidade? Remanescendo no limiar da resposta, diremos que atalhar os</p><p>descompassos educacionais é uma das pré-condições para o enfrentamento,</p><p>posterior e em profundidade, da crise do humanismo. E é óbvio que a resposta</p><p>não se encontra no simplismo das fórmulas orçamentárias de cunho</p><p>educacional.</p><p>Pesquisa divulgada pelo Ministério da Educação revela-nos as enormes</p><p>deficiências que teimam em nos envergonhar nesta área vital para o país. Mas os</p><p>que realçam a relevância dos aspectos humanos em sua visão da sociedade se</p><p>veem quase sempre atropelados pelos tecnocratas, que desfilam ante nosso olhar</p><p>impotente suas receitas para a superação de nossas vulnerabilidades, hoje</p><p>observadas facilmente, mesmo a olhos desarmados.</p><p>É patente o antagonismo entre os dois domínios: o do humanismo e o do</p><p>dogmatismo governamental. Isto porque o sadio fermento da dúvida não parece</p><p>assaltar as inteligências more geometrico dos pequenos estadistas que, no fundo,</p><p>são os nossos governantes. Os pigmeus de plantão apresentam os pratos feitos à</p><p>chancela do poder maior, na essência dependente dos “estudos” dos</p><p>especialistas, prontos a dar seu parecer em obediência aos critérios vigentes da</p><p>chamada eficiência e da eficácia.</p><p>Às vezes chegamos a sentir um certo fastio em ler o noticiário que timbra em</p><p>dar ênfase apenas à economia, e se contenta em apresentar mazelas sociais, sem</p><p>tentar apontar fórmulas capazes de lhes pôr cobro. E muito menos revelam</p><p>sensibilidade ante o sofrimento da maioria da população.</p><p>As verbas alocadas a certos órgãos dos três poderes atestam de forma</p><p>irrefragável o descaso votado aos problemas humanos. Basta conhecer os</p><p>padrões salariais dos professores dos três graus de ensino em comparação com o</p><p>de servidores para os quais nenhuma habilitação se exige, e muito menos suas</p><p>funções apresentam a relevância social dos mestres.</p><p>E que se depreende da pesquisa oficial? Em primeiro lugar, a repetência e a</p><p>evasão. Para tais fenômenos bem tristes há fatores sociais e econômicos bem</p><p>presentes. A concomitância dos estudos com o fardo laboral anemia as energias</p><p>e as motivações de crianças ejovens, não lhes ensejando unia formação básica.</p><p>Ficam no meio da estrada ao desamparo educacional e, em consequência,</p><p>confinados em sua ignorância mutiladora de seus projetos existenciais. Não</p><p>ultrapassam o nível da consciência ingênua. A rigor não são verdadeiros</p><p>cidadãos, mas rostos endurecidos pelo abandono e opacos, sem a possibilidade</p><p>de acalentar ideais.</p><p>Vamos aos dados: 46,7% dos alunos matriculados no ensino fundamentaljá</p><p>repetiram o ano, no mínimo, uma vez. Há considerável atraso na escola,</p><p>revelando-se, por exemplo, que no Pará 89,9% dos alunos claudicam em seu</p><p>rendimento, aumentando o exército dos repetentes e dos aparentemente</p><p>ineducáveis.</p><p>E os salários dos mestres? A média salarial em São Paulo é de R$ 767,34,</p><p>caindo para R$ 347,33 no Piauí. Os maiores níveis se encontram no Distrito</p><p>Federal, R$ 1.466,97, e no Amapá, R$ 1.153,46. Considerando-se a média</p><p>salarial de alguns privilegiados servidores, os chamados marajás, tem-se uma</p><p>ideia de que a injustiça social viceja entre nós como em terra nativa. Mestres dos</p><p>dois primeiros graus de ensino recebem até R$ 1.400,00, enquanto outros</p><p>servidores atingem cifras de trinta a cinquenta mil reais por mês.</p><p>Continua ainda bem distante a escolaridade desejável para os professores dos</p><p>dois primeiros níveis. Assim, dos 1,8 milhão de docentes, cerca de 54,6% têm</p><p>apenas formação de nível médio. Nas áreas rurais, o descalabro clama aos céus:</p><p>são somente 14,1 %.</p><p>Para “resolver” tal situação perduram os cursos de Pedagogia a gerar</p><p>especialistas divorciados da realidade, pois os currículos ainda contemplam o</p><p>beletrismo, servido por uma terminologia arrogante e vazia, em total</p><p>descompasso com os reclamos da cultura moderna e pós-moderna.</p><p>Neste quadro de carência estrutural damo-nos ao luxo de financiar os</p><p>estudos superiores dos jovens provenientes das classes alta e média. Em outro</p><p>estudo do MEC, colhe-se a surpreendente cifra de que mais de 70% dos alunos</p><p>das universidades públicas têm condições de pagar os seus estudos. Enquanto</p><p>isto, R$ 4,4 bilhões são despendidos para o pagamento do pessoal das</p><p>universidades oficiais, limitando os recursos do MEC para as outras áreas e</p><p>níveis. Dir-se-á que os dois outros níveis concernem aos estados e municípios.</p><p>Sabemos todos que se trata de um imperativo legal, mas a dura realidade é que</p><p>a participação da União no financiamento da educação nos três níveis acaba por</p><p>se constituir numa permanente suplementação, direta ou indiretamente.</p><p>Caso os que podem pagar dessem a suajusta e ética contribuição ao erário, é</p><p>fácil ver-se a consequência prática: milhares de jovens totalmente</p><p>impossibilitados de frequentar o terceiro grau veriam assim suas lídimas</p><p>aspirações se transformar em radiosa realidade. Hoje, a sociedade fecha as</p><p>portas aos estudantes pobres e bem-dotados, porquanto para eles a gratuidade</p><p>do ensino seria até insuficiente. Careceriam de um auxílio para a sua</p><p>sobrevivência, uma bolsa especial.</p><p>E a tese da gratuidade continua a ser uma cláusula pétrea nas consciências</p><p>empedernidas de jovens envelhecidos antes do tempo, porque perderam a</p><p>dimensão ética na avaliação de seu injusto privilégio.</p><p>Ter a coragem de arrostar o bombardeio dos “inconformados” com o fim do</p><p>privilégio seria uma decisão sábia e corajosa, de que resultariam maiorjustiça</p><p>educacional com a possibilidade de acesso dos jovens mais pobres e talentosos</p><p>ao ensino superior, e mais recursos para a educação advindos do pagamento dos</p><p>que têm condições de arcar com o ônus de sua própria formação.</p><p>Jornal do Commercio, 26.11.1998.</p><p>P</p><p>Riqueza desperdiçada</p><p>rovérbio alemão consagra uma verdade fecunda: “Cada dom implica</p><p>uma missão.” Todos os seres humanos são portadores de dotes</p><p>especiais. Na mesma família, no mesmo ambiente social coexistem</p><p>pacificamente pessoas até semelhantes em suas características, mas certamente</p><p>distintas em sua marcante individualidade. E as virtudes criativas com que</p><p>algumas são aquinhoadas geram compromissos éticos especiais. Não lhes é dado</p><p>viver a rotina da mediania, quando a natureza lhes foi pródiga em dotá-las de</p><p>benesses particulares que as distinguem da mediocridade dominante. Sem</p><p>dúvida, a tais seres incumbe a decisão de dar curso aos talentos recebidos. A</p><p>liberdade está, é claro, plenamente à sua disposição, mas não a liberdade ética,</p><p>que lhes adstringe os passos, indicando-lhes o caminho da doação.</p><p>Lamentavelmente, as comunidades nem sempre parecem atentas ao estuário</p><p>de valores humanos que lhes percorrem os espaços, e a insensibilidade geral</p><p>estiola no nascedouro energias criativas de escol.</p><p>Estudo recente registra um percentual de 4% de pessoas superdotadas. É a</p><p>média mundial. Estima-se que o Brasil possui 4 milhões de superdotados.</p><p>Considerando-se o cálculo das probabilidades, é na base da pirâmide</p><p>populacional que se concentram tais expoentes. É lá precisamente que também</p><p>se adensa a população desatendida, abandonada, gritante pecado social a nos</p><p>atormentar a consciência.</p><p>Vale a insistência. Como aceitar passivamente a prontidão com que se</p><p>oferecem soluções-relâmpago às premências econômicas e se relega a total</p><p>ostracismo a matéria-prima criativa e primordial de qualquer país? A atual crise</p><p>internacional, gerada pela emergência de uma contabilidade volátil e impiedosa,</p><p>mantida pelos novos donos da civilização, conserva abertos os olhos dos</p><p>governantes de todos os quadrantes do planeta.</p><p>É fácil imaginar que estamos perdendo legiões de valores, escritores,</p><p>pintores, cientistas do nível de Euclides da Cunha, Machado de Assis, Carlos</p><p>Chagas, Oswaldo Cruz, Candido Portinari. São os Superdotados que</p><p>entregamos à matroca, quando bem poderiam aumentar o núcleo de talentos a</p><p>enriquecer nossa cultura, nossa história.</p><p>Longe de nós imiscuirmo-nos nessa seara quase sagrada do mundo das</p><p>finanças. Mas perguntar não ofende. Por que os mesmos governantes se abstêm</p><p>de dar tratamento condigno à educação do povo, aí se incluindo, como capítulo</p><p>especial, a educação dos superdotados?</p><p>Ninguém ignora que o superdotado ultrapassa em tempo exíguo as barreiras</p><p>do conhecimento que demandam tempo infindo aos estudantes normais. E por</p><p>esta razão eles se desinteressam totalmente da escola e da forma com que ela</p><p>modela seu processo de ensino e aprendizagem. Não condiz com a velocidade</p><p>intelectual com que os superdotados se adentram nos páramos densos do</p><p>conhecimento. É explicável o seu desalento, nomeadamente quando até o</p><p>subtraem, em virtude da pobreza, aos estímulos mínimos de ordem familiar e</p><p>social.</p><p>Quatro milhões de brasileiros poderiam oferecer sua contribuição criativa ao</p><p>país, e este lhe volta as costas, por estar apenas interessado no capital fugidio,</p><p>perseguido sem sucesso pelos países emergentes. Tragédia que vivemos sem as</p><p>lágrimas do desconforto, mas também da tomada de consciência de que</p><p>descabe continuar a trilhar a senda do desperdício dos talentos.</p><p>O tempo corre célere e muitas nações atribuem inquestionável prioridade à</p><p>educação e ainda oferecem ensino de alta qualidade aos superdotados. No</p><p>Brasil, os superdotados murcham e fenecem fora da escola ou em escolas</p><p>inadequadas para o seu talento. Aliás, as escolas e, especialmente, as</p><p>universidades teimam em formar profissionais para um mercado de trabalho</p><p>que não mais existe. Não há empregos novos, e sim trabalho diversificado pelas</p><p>novas exigências de uma civilização que se impõe mais e mais por seu perfil</p><p>discrepante do rosto passivo dos superados construtores da sociedade, que não</p><p>despertaram para o futuro que já chegou.</p><p>Uma massa de jovens bate às portas das empresas buscando postos de</p><p>trabalho. Ocorre que as indústrias insistem em modernizar seus parques</p><p>industriais. O que significa que haverá cada vez menos empregos. E não se</p><p>explora aquilo que constitui nossa riqueza maior: o homem. É o homem</p><p>brasileiro a riqueza maior, havendo que pinçar os 4 milhões de superdotados, a</p><p>receberem tratamento pedagógico condizente com sua criatividade.</p><p>O Criador nos presenteou com um significativo número de seres de exceção,</p><p>que poderão e muito acelerar o passo para a implantação de uma ordem social</p><p>mais justa e digna de nossa condição de reis da criação. Cumpre não os deixar à</p><p>própria sorte e cuidar para que seus talentos se desenvolvam, proporcionando-</p><p>lhes uma vida digna de seus dons, e ainda fonte de um país mais próspero e</p><p>justo.</p><p>Usualmente imaginamos que o processo educacional se revela fecundo</p><p>quando o professor comunica ao aluno o seu saber. A verdade é bem diversa.</p><p>Como salientou com profundidade Louis Lavelle: “O maior benefício com que</p><p>podemos aquinhoar os outros homens não consiste em lhes comunicar as</p><p>nossas riquezas, mas em lhes descobrir as deles.”</p><p>Assim, mestres haverão de captar, com suas antenas educacionais, os alunos</p><p>que revelarem dose superior de talento. Eles hão de frequentar outras escolas,</p><p>especialmente preparadas para responder às suas aspirações.</p><p>E aos mestres cabe uma nova tarefa: a de despertar a paixão pelo</p><p>conhecimento. Chegou ao fim da linha a escola da memória cristalizadora do</p><p>saber. Ideias criativas e não prédios suntuosos nos esperam na esquina do porvir</p><p>educacional, quando jovens e também idosos buscarãojuntos a fonte da</p><p>criatividade, nesta constante e desafiadora aventura do conhecimento, com a</p><p>possível curiosidade com que a criança abre os olhos extasiados para o mundo</p><p>circundante.</p><p>Jornal do Commercio, 03.09.1998.</p><p>E</p><p>Paraíso Perdido</p><p>m 1963, havia 123.000 universitários no país. A década seguinte</p><p>marcou a escalada do aumento expressivo das oportunidades</p><p>educacionais, a partir da famosa crise dos</p><p>excedentes de 68. O quadro se alterou rapidamente, e as vagas foram se</p><p>ampliando de maneira a atender à demanda crescente, atingindo em alguns</p><p>anos o patamar de 1.800.000 estudantes de nível superior. Investimentos</p><p>maciços geraram uma multidão de instituições particulares, que hoje</p><p>respondem por praticamente dois terços do alunado de nível superior.</p><p>Com a reviravolta, multiplicaram-se os debates atinentes à tensão entre os</p><p>ensinos público e particular. Extremaram-se os defensores desta ou daquela</p><p>corrente de opinião, sem atentar para o fato de que educação não é, nem será</p><p>jamais, matéria de puro interesse privado. A fonte de financiamento é diversa,</p><p>mas a finalidade precípua se insere plenamente no domínio público. Daí a</p><p>fiscalização, o longo elenco de exigências, a penosa tramitação dos pedidos de</p><p>autorização e reconhecimento dos cursos superiores e dos processos de</p><p>credenciamento dos cursos de pós-graduação.</p><p>É bem de ver que o diploma universitário tinha o sabor de status social e</p><p>mesmo, em muitos casos, se traduzia em significativa melhoria de padrão de</p><p>vida. Não se tratava apenas de uma ascensão subjetiva, de um massagear do ego</p><p>juvenil. Isto explicou a afluência de uma verdadeira multidão de jovens e</p><p>mesmo de menos jovens às portas das universidades e das instituições isoladas</p><p>ou integradas de ensino superior, tudo marcado pelo sinete da angústia</p><p>pardacenta, de que falava o poeta Manuel Bandeira.</p><p>Os meios de comunicação nos vêm narrando os sofrimentos dos que se</p><p>aventuram nesta corrida em perseguição a um lugar privilegiado na sociedade.</p><p>Houve, porém, uma alteração do quadro. Sobreveio o desemprego e com ele</p><p>a desesperança de frequentar os bancos universitários, pela impossibilidade de</p><p>custear os estudos. Mesmo no caso do ensino público gratuito, há despesas</p><p>inevitáveis e ainda a necessidade de dispor do tempo para assistir às aulas e para</p><p>estudar.</p><p>Emergiu a depressão educacional. E começou a se opulentar o exército da</p><p>evasão, da fuga à luta porfiada pela independência econômica e afirmação</p><p>social. Tudo passou a sinalizar para a solução imediata de inserir-se no exíguo</p><p>corredor que leva (?) ao emprego, à sobrevivência. Com isso, numerosos</p><p>talentos se perdem anualmente nas ruas tortuosas do marasmo de tarefas</p><p>menores a absorver contingentes destinados a misteres mais complexos à altura</p><p>de seus dons. O capital humano se esvai nas noites escuras da carência de</p><p>oportunidades, no estreitamento dos caminhos possíveis a uma juventude</p><p>descrente de encontrar o seu lugar na sociedade. Vivemos educacionalmente a</p><p>era do Paraíso Perdido.</p><p>Secreta-se o desalento, e nada permite se entreabram as portas à esperança</p><p>num futuro próximo, com um quadro promissor. Ao contrário, o predomínio</p><p>inquestionável do fator econômico-financeiro retira do espectro qualquer laivo</p><p>de visão humanista e assim adia</p><p>sine die a volta às prioridades autenticamente</p><p>humanas. Aos timoneiros da barca governamental não parecem sensibilizar os</p><p>sinais evidentes do quase desespero gerado pelo desemprego e, em</p><p>consequência, pela evasão educacional de largo fôlego.</p><p>Em artigo no Jornal do Brasil, a jornalista Rosângela Bittar assevera haver</p><p>hoje, aproximadamente, 124.000 vagas ociosas no ensino superior. E</p><p>minudentemente menciona as áreas mais atingidas pela borrasca: a engenharia,</p><p>a medicina, a administração. Os dados são alarmantes e atestam os desacertos</p><p>do modelo econômico vigente, com todo o seu cortejo de olvido dos problemas</p><p>sociais do país. Desmantela-se o ensino público, sendo de realçar-se que o</p><p>reitor da maior universidade federal, a UFRJ, declarou recentemente que está</p><p>em marcha batida o sucateamento daquela instituição, cuja importância no</p><p>cenário educacional e científico não se pode legitimamente ignorar.</p><p>Fica ainda no ar uma pergunta: não haverá também que se falar de</p><p>responsabilidade das universidades pelo quadro reinante? Entendemos que</p><p>parcela não pequena pelas dificuldades atuais se deve às próprias universidades.</p><p>Elas sempre se bateram pela autonomia e jamais souberam se valer desta</p><p>prerrogativa para inovar, indo ao encontro da modernidade. Acaso faz sentido</p><p>manter um jovem ao longo de quatro anos numa universidade quando ele se</p><p>destina, por exemplo, a lecionar matemática para estudantes da primeira série</p><p>do ensino médio? É irrealístico este regime, até porque está à espreita a solução,</p><p>ainda não explorada, do ensino à distância de que vem se ocupando,</p><p>amiudadamente e com proficiência, Arnaldo Niskier. Bem estruturado, tal</p><p>sistema dará ao país muitos recursos humanos aprimorados para o desempenho</p><p>de variadas profissões e carreiras. As experiências da Inglaterra e da Espanha</p><p>são, no particular, alentadoras.</p><p>Reunir um núcleo de professores competentes e criativos, oferecendo-lhes</p><p>salários expressivos para bem preparar textos, exercícios, experiências a</p><p>milhares de universitários, prevendo-se periódica verificação da aprendizagem e</p><p>mesmo alguns encontros havidos como indispensáveis, constituiria um</p><p>gigantesco passo em direção ao necessário preparo de gerações inteiras. A</p><p>serviço da implantação da urgente inovação estará disponível a rica tecnologia</p><p>educacional, ainda por explorar.</p><p>Parece que a universidade parou no tempo e não se deu conta das novas</p><p>exigências da sociedade no relativo a esses reclamos e às carências individuais,</p><p>nos complexos e múltiplos domínios do saber, e mui especialmente nas artes,</p><p>letras, ciências humanas e filosofia.</p><p>O éden surgiu no horizonte acenando com um futuro promissor para os</p><p>jovens brasileiros. Subitamente, uma globalização sequiosa de absorver as</p><p>riquezas dos povos mais pobres ou em desenvolvimento tisnou o quadro</p><p>mundial e impossibilitou a vida no paraíso que, perdido, cancelou os</p><p>compromissos dajuventude com a esperança. É o momento de a criatividade</p><p>universitária se exercer em favor dos anseios e aspirações da mocidade, sempre</p><p>desejosa de se abrir para o futuro. Atentar para tais anseios, ir ao encontro do</p><p>futuro que os jovens antecipam é caminhar em direção ao próprio destino do</p><p>país.</p><p>Jornal do Commercio, 17.06.1999.</p><p>N</p><p>O despertar da Latinidade</p><p>o próximo dia 27, a Académie Française e a Academia Brasileira de</p><p>Letras conferirão ao escritor mexicano Carlos Fuentes o Prêmio da</p><p>Latinidade. A sessão solene contará com a presença dos Presidentes</p><p>Jacques Chirac, da França, Ernesto Zedillo, do México, e Fernando Henrique</p><p>Cardoso, do Brasil, atestando a importância de que se reveste o galardão</p><p>literário.</p><p>A ideia partiu do secretário perpétuo da Académie Française, Maurice</p><p>Druon1, bisneto de um escritor maranhense. Em discurso proferido ao ensejo</p><p>da homenagem que a ABL prestou à sua congênere francesa em 14 de julho de</p><p>1998, Maurice Druon lançou a ideia da criação, pelas duas academias, de um</p><p>prêmio a ser conferido a escritores de uma das línguas latinas.</p><p>Em Paris, membros das duas academias, reunidos no mês de março último,</p><p>entenderam que o escritor Carlos Fuentes, portador do prêmio Nobel de</p><p>literatura, deveria ser o primeiro agraciado.</p><p>As duas academias revelaram um agudo senso histórico, ao se unirem na</p><p>missão de resgatar a cultura latina. Isto porque, nos dias de hoje, o Ocidente</p><p>vem sendo bombardeado por uma subcultura de massa nas emissões de</p><p>televisão, nos jornais, nas rádios, nos cinemas. Hoje, não se deixa outra opção</p><p>aos consumidores senão os enlatados de baixa categoria importados do vizinho</p><p>do Norte, país com inegáveis riquezas culturais. Há que se falar numa falta de</p><p>ética, quando nos cerceiam a liberdade de escolher outros caminhos culturais,</p><p>outros hábitos até mais consentâneos com a nossa formação.</p><p>Da França emergiu o grito de alerta de que não se trata de disputar ao inglês</p><p>a primazia como língua quase universal. Tratar-se-ia de um dom-quixotismo</p><p>cultural injustificável. O de que se cogita, na verdade, é de recuperar o prestígio</p><p>das culturas latinas, sufocadas por uma avalanche tecnológica aparentemente</p><p>invencível.</p><p>Na Europa, cabe à França a missão de difundir sua rica cultura pelo mundo</p><p>latino, e ao Brasil desempenhar papel de relevo no continente, por maneira a</p><p>reduzir a asfixia de que somos todos alvo, após a Segunda Guerra Mundial.</p><p>Sexo e violência formam a temática nada criativa dos romances de segunda</p><p>categoria e dos filmes com que nos agridem a sensibilidade. Isto ocorre no</p><p>momento em que películas de diversa procedência poderiam enriquecer-nos,</p><p>como é o caso do cinema francês. Literatura, ciências humanas e filosofia nos</p><p>vêm revelando o quanto poderiam lucrar o país e nossos vizinhos com a</p><p>contribuição gaulesa. Paul Ricoeur2, Jean d’Ormesson3, Jean Guitton4, Edgar</p><p>Morin5 são exemplos frisantes de uma cultura que nos encanta.</p><p>O Brasil, culturalmente falando, muito deve à França. Profunda foi a</p><p>influência do pensamento francês em nossa cultura. No século passado,</p><p>filósofos, como Domingos Gonçalves de Magalhães, que recebeu influxo de</p><p>Maine de Biran, publicou livros em Paris, fenômeno frequente à época. Victor</p><p>Cousin, Malebranche, Auguste Comte foram outros filósofos franceses que</p><p>inspiraram cultores da filosofia no Brasil. A rigor, não se poderá explicar a</p><p>implantação da República sem recorrer às ideias do positivismo francês, da</p><p>mesma sorte que a Revolução Francesa está na raiz dos movimentos que</p><p>plasmaram a nossa independência.</p><p>Condorcet, Laplace, Saint-Simon, Joseph de Maistre, Louis de Bonald são</p><p>outras presenças em nossa formação.</p><p>Em nosso século, Henri Bergson, Maurice Blondel, Louis Lavelle, Jean-Paul</p><p>Sartre, Gabriel Marcel, Jacques Maritain, Gaston Bachelard, Derrida, Deleuze,</p><p>Jean-Luc Marion, Foucault, Lévi-Strauss, Lacan são citados com frequência</p><p>nos meios acadêmicos como numes tutelares do nosso pensar.</p><p>Esta é a face um tanto oculta da lua cultural, porquanto a visível nos fala do</p><p>empirismo e do pragmatismo, do consumismo e da mídia devoradora da</p><p>liberdade cultural.</p><p>No momento em que a França e o Brasil se dão as mãos com uma</p><p>consciência mais robusta de suas responsabilidades na salvaguarda dos valores</p><p>comuns da cultura latina, cumpre ampliar a esfera de ação dos protagonistas do</p><p>mundo latino, à frente dos quais se impõe a presença da França. A ponte</p><p>cultural entre os dois países constitui um passaporte para a autonomia cultural,</p><p>para a liberdade de expressão dos valores que vicejam, desde os albores de sua</p><p>fundação, na bela pátria de Descartes, Pascal, Racine, Molière, Proust, Balzac,</p><p>Anatole France, Baudelaire, Victor Hugo, Paul Claudel e tantos outros. Sem</p><p>falar em Rousseau que igualmente integra a cultura francesa.</p><p>Há que referir a rica contribuição dos impressionistas Cézanne, Monet,</p><p>Manet, Renoir; cabendo mencionar o escultor Rodin, os compositores Débussy,</p><p>Bizet. Tais referências são endereçadas às novas gerações, bem distantes do</p><p>contexto cultural gaulês.</p><p>A França exprime para nós uma presença espiritual, um</p><p>sopro vivificador a</p><p>unir o conteúdo e a forma clara, escorreita, aberta às modulações do</p><p>pensamento e da imagem, verdadeiro latim dos tempos modernos, na palavra</p><p>de Rivarol.</p><p>As duas academias deram o primeiro passo. Claude Allègre, ministro da</p><p>Educação, lucidamente realçou a sua estratégia de preservação do patrimônio</p><p>da língua francesa, sem arreganhos infrutíferos contra a língua de Shakespeare.</p><p>Aos intelectuais de todos os países de cultura latina se destina a mensagem</p><p>das academias irmãs, a fim de que não venhamos a desfigurar a nossa</p><p>identidade com importações caricatas.</p><p>Jornal do Commercio, 24.06.1999.</p><p>NOTAS</p><p>1 Maurice Druon (1918-2009): o bisavô brasileiro deste escritor francês foi o também escritor Odorico</p><p>Mendes (1799-1864), que se notabilizou como tradutor de obras de Homero.</p><p>2 Paul Ricoeur (1913-2005): filósofo e pensador francês.</p><p>3 Jean Bruno Wladimir François-de-Paule Lefèvre d’Ormesson (1925-2017): escritor e filósofo francês.</p><p>4 Jean Guitton (1901-1999): filósofo e escritor francês.</p><p>5 Edgar Morin (1921- ): pseudônimo de Edgar Nahoum; antropólogo, sociólogo e filósofo francês.</p><p>A</p><p>A Latinidade e o prefácio da Cimeira</p><p>s luzes da ribalta apontam para o mundo globalizado. Estadistas de</p><p>quase meia centena de países entendem chegado o momento de</p><p>buscar posições menos desconfortáveis para conviver com o</p><p>fenômeno que parece ameaçar as nações política e economicamente mais</p><p>vulneráveis. De um lado, os Estados Unidos com seu imenso poder dominam a</p><p>cena mundial. Sabemos todos os perigos do monólogo, seja ele político,</p><p>econômico ou cultural. Conscientes de tal risco, imaginou-se possível um</p><p>compromisso válido entre a União Europeia e a América Latina, visando a um</p><p>novo equilíbrio de poder no Ocidente. Isto, recordando Euclides da Cunha,</p><p>“por maneira a debelar-se o perigo máximo”.</p><p>A rica agenda evidencia a nítida visão prospectiva que anima os chefes de</p><p>Estado na Cimeira, e nada melhor do que um prefácio ajustado aos anseios</p><p>maiores dos povos do nosso continente, herdeiros de uma fecunda tradição</p><p>histórico-cultural.</p><p>As manchetes dos dias nos hão de falar de decisões políticas de relevo que</p><p>terão o condão de deixar no olvido o que sinalizou para o futuro com vínculos</p><p>profundos no passado cultural que nos une e nos redime. Foi a Cimeira cultural</p><p>que abriu com chave de ouro essa nova fase que se pretende gerar para esta</p><p>parte do novo mundo.</p><p>A Academia Brasileira de Letras e a Academia Francesa, em solenidade que</p><p>contou com a presença dos Presidentes Jacques Chirac, Ernesto Zedillo e</p><p>Fernando Henrique Cardoso, conferiram por primeira vez o Prêmio da</p><p>Latinidade, graças ao empenho de Maurice Druon e Arnaldo Niskier. O</p><p>vencedor foi o escritor mexicano Carlos Fuentes. As duas instituições culturais</p><p>mais expressivas da França e do Brasil se uniram no recado que a Latinidade</p><p>estava a dever ao planeta atônito com a voracidade das mudanças e a quase</p><p>impossibilidade de se contornarem os imensos óbices à justiça social que</p><p>ameaçam a identidade das nações latinas.</p><p>Cabia realçar a singularidade de cada nação, ao mesmo passo que cumpria</p><p>sublinhar a emergência de um mundo multicultural, com patente</p><p>reconhecimento do pluralismo que lhe é inerente.</p><p>Eduardo Portella, em lúcida síntese, percorreu a trilha romanesca de Carlos</p><p>Fuentes e lhe revelou o vinco do recado da Latinidade em suas raízes e em seu</p><p>significado. A obra de Fuentes é para Portella a síntese da Latinidade. Outro</p><p>mexicano, Octavio Paz, detentor do Prêmio Nobel de Literatura, captou</p><p>igualmente a essência da obra de arte de Fuentes, ao assentir que os diversos</p><p>signos dos romances de Fuentes o levou a sustentar que “escrever é a incessante</p><p>interrogação que os signos fazem a um signo: o homem; e que esse signo faz aos</p><p>signos: a linguagem”.</p><p>A ideia do prêmio se deve ao secretário perpétuo da Academia Francesa, o</p><p>escritor Maurice Druon. Em seu discurso, o autor de O menino do dedo verde</p><p>avaliou o caráter histórico da sessão da ABL para acrescentar que “a nova</p><p>civilização, a civilização nascente, deverá ser a da vitória sobre a miséria”. Druon</p><p>realçou a universalidade e a particularidade das culturas. Sem a presença das</p><p>culturas latinas, concluiu, “há o risco de a humanidade deslizar para uma</p><p>uniformidade cultural esterilizante”.</p><p>A afirmação da Latinidade obedece à sábia assertiva de Alain1 que, em seu</p><p>Propos sur Péducation, legou-nos o recado: “Ser culto é (...) voltar à fonte e</p><p>beber no côncavo da mão, e não num copo emprestado.”</p><p>Quando se extremam governantes e a mídia em enfatizar a prioridade da</p><p>economia, por vezes com patente menoscabo pela cultura, que tudo inspira e</p><p>concorre para a compreensão global dos problemas do homem e da sociedade,</p><p>é auspicioso que a Cimeira seja efetivamente inaugurada com a palavra dos</p><p>humanistas e não dos tecnocratas. É certo que estamos bem longe da sentença</p><p>de Cícero de que “cultura animi philosophia est”2. Hoje, a cultura é bem mais</p><p>complexa e ampla. Em seu estuário nos abeberamos das múltiplas dimensões</p><p>humanas para captar a linguagem recôndita dos fenômenos com que nos</p><p>defrontamos.</p><p>A globalização e os desníveis socioeconômicos que ela vem aprofundando</p><p>estão a reclamar uma mensagem humanista. Maurice Druon vislumbra na</p><p>Cimeira “um ato fundador do futuro”. E o lastro da mensagem aparentemente</p><p>literária do encontro da ABL mal encobre a riqueza de um pensamento que se</p><p>faz linguagem e agir comunicativo. E o apelo ao mais-ser de homens e</p><p>sociedades nacionais, cada vez mais expostos à voracidade de um capital sem</p><p>ética a dominar o cenário planetário.</p><p>A fala de Carlos Fuentes revelou sua visão de mundo nascida do</p><p>reconhecimento da abertura à diversidade, a partir da consciência adquirida na</p><p>identidade. Fuentes disse um sonoro non possumus à exclusão. A riqueza</p><p>cultural promana da inclusão, do reconhecimento das personalidades culturais.</p><p>Aos que preveem o fim da História, o laureado com o prêmio da Latinidade</p><p>obtempera: “Enquanto houver vida, haverá narrativa. Haverá narravida”</p><p>A Cimeira começou por onde devia principiar: pelo começo, pelo</p><p>fundamento. Abriu-se a cortina do palco da História para uma peça encenada</p><p>com os atores adequados à mensagem endereçada a todos os continentes. Aqui,</p><p>na América Latina, pulsa um humanismo genuíno, aberto às modulações da</p><p>conjuntura, mas fiel aos valores fundantes de nossa cultura plural. Cultura sem</p><p>preconceitos e destinada a gerar a verdadeira exportação axiológica de que o</p><p>mundo mais carece.</p><p>Que o recado da ABL se espraie e encontre a acolhida que merece por parte</p><p>dos que detêm os cordões do processo decisório e a esperança que se aninha</p><p>nas dobras de nosso ser latino, talvez o recanto aprazível do humanismo do</p><p>século vindouro.</p><p>Jornal do Commercio, 01.07.1999.</p><p>NOTAS</p><p>1 Alain: pseudônimo do escritor e filósofo francês Émile-Auguste Chartier (1868-1951).</p><p>2 Cultura animi philosophia est: a cultura é a filosofia da alma.</p><p>Economia e política</p><p>E</p><p>Economia de mão única</p><p>conomia e finanças. Nada mais parece existir neste diversificado e</p><p>rico país, cuja cultura multirracial é fonte de admiração e de</p><p>expectativas positivas. Domina soberana a economia e, com exceção</p><p>das catástrofes diárias, apenas sobrevivem no noticiário os desafios de nossa</p><p>economia.</p><p>Cruzam os céus da capital projetos, planos, medidas provisórias de caráter</p><p>econômico, e até leis em gestação no próprio Poder Legislativo. O que, na</p><p>atualidade, tem sabor de novidade.</p><p>O ajuste fiscal é a manchete obrigatória do noticiário avassalador, e teima em</p><p>nele ser invariavelmente o figurante principal, ainda que a pobreza e a miséria</p><p>insistam em pedir passagem. Inúteis os justos reclamos por mais e melhor</p><p>educação, por níveis mais humanos de atendimento nos ambulatórios e</p><p>hospitais. A indigência de meios sufoca no nascedouro os pruridos éticos dos</p><p>profissionais destas duas áreas relevantes, acabando por se entregarem a um</p><p>justificado desânimo que, no passado, até os conduzia maviosamente à adoção</p><p>de ideologias extremistas.</p><p>Era o recurso último deste aplacar da consciência,</p><p>quando tudo parecia fugir ao controle ético desses artesãos da boa vontade.</p><p>Agora, surgem em fila indiana levas de impostos, a sugar os cidadãos ativos,</p><p>inativos e pensionistas. A CPMF, nascida com o firme intento de pôr cobro às</p><p>imperiosas necessidades sanitárias, mordeu o bridão e caminhou serenamente</p><p>em outra direção, desmentindo a finalidade que lhe ditou a criação. E agora,</p><p>sem qualquer cerimônia, se assente que ele cairá na vala comum das verbas da</p><p>União, podendo servir a outro senhor, no fundo, o único e voraz senhor de</p><p>todas as verbas: o poder público configurado no Estado pantagruélico.</p><p>Não pretendemos analisar tecnicamente a natureza dos impostos e sua</p><p>adequação à nossa realidade. Aterra-nos apenas a perplexidade de jamais ouvir</p><p>das autoridades nada que se refira ao homem brasileiro. Aumentar impostos,</p><p>sim. Melhorar os serviços públicos, para quê? As eleições já constituem páginas</p><p>viradas. Assim, somente daqui a quatro anos, veremos os homens públicos se</p><p>lembrarem que existimos, quando com sorrisos cosmeticamente aprimorados</p><p>nos pedirem novamente o voto sagrado.</p><p>O panorama induz-nos a crer que, para os cidadãos, só existem deveres. Os</p><p>direitos mais parecem flatus vocis1, palavras vazias que o vento expulsa</p><p>facilmente de nosso convívio. É certo que timbramos em realçar a força</p><p>incoercível dos direitos humanos. Meio século decorreu desde aquele então em</p><p>que os povos acordaram não ser mais tolerável o império do arbítrio capaz de</p><p>ferir a dignidade essencial do ser humano.</p><p>Ao celebrar a Declaração dos Direitos do Homem, de 10 de dezembro de</p><p>1948, o preclaro jurista e filósofo social Oscar Dias Corrêa proferiu importante</p><p>conferência na UERJ. Na ocasião, o mestre do direito e da economia, ao</p><p>discernir os direitos políticos, de um lado, e os direitos sociais e econômicos, de</p><p>outro, revelou acendrada preocupação com a ênfase dada aos primeiros, e o</p><p>esquecimento dos segundos, que somente viriam a ter efetiva caracterização após</p><p>a Constituição dos Estados Mexicanos, 1917, e na Constituição de Weimar, em</p><p>1919.</p><p>É bem de ver que nenhum homem é uma ilha. Assim, as liberdades</p><p>individuais se compreendem enlaçadas com a sociedade.</p><p>A ninguém seria lícito admitir hoje limitações à privacidade, ao direito de</p><p>expressar-se, de fixar domicílio de qualquer cidadão no pleno gozo de seus</p><p>direitos. No campo social e econômico, o reconhecimento é bem menos nítido.</p><p>Por isso se fala com a maior sem-cerimônia na castração dos direitos</p><p>trabalhistas, que demandaram um esforço hercúleo para sua inserção nos textos</p><p>legais. Há que se falar, alto e bom som, no direito essencial ao trabalho, a</p><p>condições equitativas de trabalho e a um salário justo.</p><p>É curial em qualquer país civilizado falar-se em direitos adquiridos. Há</p><p>sempre tácito ou implícito um pacto social entre os membros da comunidade e</p><p>os poderes constituídos. Vantagens legalmente concedidas por lei formam um</p><p>tecido único com os seus beneficiários, por maneira a que não se lhes possa</p><p>retirar conquistas ética e juridicamente legítimas. Contudo, em certos círculos</p><p>governamentais e, em parte, da própria imprensa, a simples menção a direitos</p><p>adquiridos soa hoje como uma palavra nefanda, em tudo predisposta a aceitar o</p><p>anátema definitivo.</p><p>Este é o clima reinante no país. A economia pervade todos os espaços dos</p><p>cidadãos, onera-lhes a vida, cumula-os de novos deveres. Os governantes em</p><p>nenhum momento parece se darem conta do quão profundamente vêm</p><p>tisnando suas administrações com medidas ilegais e atentatórias aos mais</p><p>elementares princípios de direito, sem os quais a estabilidade das relações</p><p>sociais entraria em colapso.</p><p>Entre nós, viceja crescentemente a economia de mão única, costurada apenas</p><p>em benefício do Estado. Para os cidadãos, a regra é o tratamento distante e</p><p>indiferente, até que a consciência da cidadania venha um dia a despertar de seu</p><p>sono letárgico e a proclamar a verdadeira maioridade do país, ao fazer prevalecer</p><p>definitivamente o Estado de Direito.</p><p>Jornal do Commercio, 03.12.1998.</p><p>NOTA</p><p>1 Flatus vocis: é uma expressão muito conhecida da área de Letras, que significa “mera emissão de</p><p>voz”. Em filosofia, quer dizer “discurso sem conteúdo” e seu significado literal é “um sopro de voz”.</p><p>H</p><p>Alíquotas humanas</p><p>á bem mais de meio século ouço dizer que o Brasil está à beira do</p><p>abismo. Carpideiras de todos os matizes se juntam num coro de</p><p>lamentações que se sucedem, sem nenhuma originalidade. Chego a</p><p>pensar que o tom patético com que nos julgamos promana do caráter</p><p>ciclotímico que nos marca e mesmo nos escraviza. Ora a euforia pueril nos</p><p>domina, ora ficamos paralisados por um medo indefinível em seus contornos.</p><p>Só se fala em crise, como se esta estivesse à nossa porta a nos apontar para um</p><p>futuro sem nenhuma perspectiva. E quando os governantes nos dirigem a</p><p>palavra, falam de cifras aterradoras, a ameaçar os últimos bastiões de nossa</p><p>esperança vacilante.</p><p>Desde outubro do ano findo, as vagas da catástrofe financeira cobrem nossas</p><p>praias e invadem nossos lares, aumentando o estresse da população, gerando</p><p>novos pacientes para os cardiologistas... E as medidas adotadas não nos</p><p>trouxeram de volta a credibilidade. E os dólares continuam a migrar para outros</p><p>países mais confiáveis.</p><p>Ao lado do noticiário negativo, emergem tais como monstros as severas</p><p>medidas contra os cidadãos, nomeadamente os funcionários públicos, que</p><p>cometeram o crime de optar pelo serviço à população, muitas vezes</p><p>renunciando a profissões liberais e empresariais, bem mais atraentes</p><p>financeiramente. Por que esta carga tão cerrada contra os servidores públicos?</p><p>Como houve manifesto exagero na dose de vencimentos de alguns, a imensa</p><p>maioria vem sofrendo com vencimentos congelados e ainda por cima corroídos</p><p>pela inflação (que ainda sobrevive, embora em escala bem menor) e com a sua</p><p>redução, mercê da nova exigência de desconto previdenciário em bases</p><p>superiores às atuais. E o escândalo da anunciada dedução de uma quota</p><p>destinada à Previdência que irá recair sobre aqueles que já deram tudo de si à</p><p>sociedade e desfrutam de aposentadorias módicas? Quando a idade mostra os</p><p>seus sinais, as doenças emergem e a frequência aos médicos, a aquisição de</p><p>remédios consomem parte expressiva dos proventos dos aposentados. Não há</p><p>justificação ética possível para a medida drástica de acrescer mais sofrimentos a</p><p>esta fatia da população.</p><p>Diz-se que estamos em tempos de guerra. Ocorre que há quatro anos se fala</p><p>em reformas e elas foram atropeladas pela ânsia de ver aprovada uma emenda</p><p>constitucional a assegurar aos atuais governantes o direito à reeleição. Por que</p><p>tal empenho não se manifestou com igual energia e devoção no</p><p>encaminhamento e votação das reformas havidas como a salvação da pátria?</p><p>É a hora de a Oposição mostrar ao que veio, apresentando propostas</p><p>concretas e deixando de lado o lulismo vazio e retrógrado. Sem uma oposição</p><p>inteligente e firme, a democracia se transforma num regime inodoro e incolor.</p><p>Não se trata de advogar a tese do quanto pior, melhor. Ao contrário, impõe-se a</p><p>consolidação dos partidos com nítidas propostas de solução para os, sem</p><p>dúvida, difíceis momentos por que passamos, sem o frenesi de uma oposição</p><p>infantil e inócua.</p><p>Cuidamos que a redução da taxa de desperdício e a venda e a gestão de</p><p>milhares de terrenos e imóveis dos governos (que atingem a cifra de 3 milhões),</p><p>em seus três níveis, muito minoraria o radicalismo das providências destinadas a</p><p>debelar a crise anunciada com tamanha dramaticidade. Isto sem falar na</p><p>aceleração do processo de privatizações. Aqui cabe uma observação: saúde e</p><p>educação não podem ter seus recursos reduzidos. Com melhor educação e</p><p>saúde, os brasileiros adotarão outras modalidades de comportamento e, então</p><p>sim, haverá mudanças substantivas de cunho ético e também financeiro. Pensar</p><p>em amesquinhar ainda mais os índices vergonhosos nestas duas áreas, em que</p><p>pese o reconhecimento de que algo vem sendo</p><p>feito, seria um contrassenso.</p><p>Quando se abusa do economês com a proliferação de tantas alíquotas, não</p><p>será igualmente a hora de volvermos nossas vistas para as alíquotas humanas</p><p>que, ao contrário das outras, só fazem diminuir? Será que não sobrou nas elites</p><p>dirigentes nenhum resquício de concepção humanista, restando apenas a</p><p>mediocridade do monopólio dos tecnocratas, cuja insensibilidade já deu</p><p>mostras da magnitude do estrago que eles podem produzir, quando o país a eles</p><p>é confiado?</p><p>Sanear as finanças de forma drástica, com o total sacrifício do lado humano</p><p>da população, constituirá aventura com elevados custos para o futuro do país.</p><p>O ajuste fiscal anunciado pelo governo, ainda em suas grandes linhas,</p><p>precisa de ampla e profunda discussão. O Congresso Nacional, em nome da</p><p>sociedade, deve exercer o seu papel, com coragem e autonomia. É um momento</p><p>especial em que o Parlamento poderá resgatar o seu prestígio, em parte perdido.</p><p>Cabe-lhe reagir ao império das medidas provisórias, que conferem ao Poder</p><p>Executivo uma supremacia atentatória do regime representativo.</p><p>É a hora do reencontro dos poderes, respeitados os limites constitucionais</p><p>que lhes definem as atribuições. Já se pagou preço não pequeno à hipertrofia do</p><p>Poder Executivo. E o resultado aí está: uma crise perigosa, que ameaça até a</p><p>nossa soberania.</p><p>Jornal do Commercio, 05.11.1998.</p><p>A</p><p>Custo e valor</p><p>única maneira de despertar o interesse dos donos do poder por qualquer</p><p>problema é exibir-lhes os resultados econômico-financeiros dos fenômenos</p><p>que permeiam a realidade social. Se assim há de ser, vamos seguir a única trilha</p><p>que se nos oferece para atestar o descaso com que os cidadãos são tratados pelo</p><p>Estado insensível.</p><p>A ninguém passa despercebido o estado de violência endêmica de nossa</p><p>sociedade. O noticiário nos angustia e revela o crescimento exponencial desta</p><p>escalada que carrega em seu bojo consequências penosas (muitas das quais de</p><p>caráter econômico) para os homens e as instituições.</p><p>A violência tem várias caras. Aparece ostensivamente nos crimes brutais que</p><p>sacodem a sociedade, tornada de um terror permanente ante a incompetência</p><p>dos dispositivos de segurança.</p><p>Muitas vezes, ela se entremostra na arrogância com que os donos do poder</p><p>assestam seus golpes contra certas camadas da população ou determinadas</p><p>instituições escolhidas a dedo para lhes transferir a culpa pelas mazelas</p><p>governamentais.</p><p>Bem grave também é a maneira solerte com que a violência atinge a</p><p>sociedade, envolvendo-se medidas governamentais em papel celofane, para</p><p>melhor atingir o alvo. E o caso dos servidores públicos, que somente são</p><p>lembrados para pôr em evidência a sua ineficiência, o seu número excessivo, e</p><p>os absurdos vencimentos de marajás. Ocorre que a União, os Estados e os</p><p>Municípios é que geraram em seu útero as mazelas citadas. São sempre os</p><p>donos do poder que criam obstáculos à justiça social e que, adiante, propõem</p><p>medidas drásticas contra segmentos da sociedade que em nada contribuíram</p><p>para as sangrias generosas dos escassos recursos de que dispõe o país.</p><p>O Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER) realizou pesquisa sobre</p><p>a violência, financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e</p><p>divulgada pelo Jornal do Brasil, em que se revelou o custo elevado da violência.</p><p>Mais de 5% do Produto Interno Bruto do Estado do Rio de Janeiro são</p><p>perdidos em virtude da violência que nos assola. São cerca de dois bilhões de</p><p>reais perdidos anualmente pelo nosso estado. Quase metade desta cifra</p><p>concerne à área da saúde, pois as vítimas da violência se situam nas faixas mais</p><p>carentes da população. Assim, sempre envolvem o sistema público de saúde no</p><p>esforço de salvar vidas e tratá-las após a agressão que as vitimaram.</p><p>Quase um bilhão de reais são reduzidos do montante de recursos postos à</p><p>disposição da saúde. Isto sem falar na incapacitação de levas inteiras de jovens</p><p>que deixarão de prestar sua colaboração à economia do Estado, como</p><p>consequência da violência de que foram vítimas.</p><p>A pesquisa atesta que 87% das mortes violentas são causadas por armas de</p><p>fogo. Assim, além dos custos diretos com pessoal e material hospitalar, registra-</p><p>se esta verdadeira hemorragia nos recursos humanos praticamente perdidos.</p><p>Enquanto o custo da violência nos Estados Unidos representa 4% do PIB,</p><p>no Brasil a cifra sobe assustadoramente para 10%, o equivalente a cinquenta</p><p>bilhões de reais. Esta soma certamente daria para erradicar muitas doenças, o</p><p>analfabetismo e ainda para aparelhar escolas, colégios e hospitais públicos, entre</p><p>muitas outras medidas de largo alcance social.</p><p>É a hora de perguntar o porquê de tanta violência. Em primeiro lugar, cabe</p><p>asseverar que o fenômeno não é local. O mundo inteiro se pergunta a razão da</p><p>ascensão da violência em franca progressão.</p><p>A humanidade vive a braços com desafios inéditos, como a aceleração do</p><p>tempo histórico. As mudanças ocorrem num rimo que vem superando a</p><p>capacidade humana de adaptação à realidade emergente. Habitamos uma aldeia</p><p>eletrônica, com novas modalidades de convívio, mercê de delirante progresso</p><p>tecnológico. As comunicações ganharam em espaço o que perderam em</p><p>qualidade humana. A linguagem vem sofrendo sucessivas agressões,</p><p>emperrando os dutos da comunicação genuinamente intersubjetiva.</p><p>As relações interfamiliares expressam uma perda substantiva da unidade</p><p>primitiva, transformando-se num mero locas de uma débil convivência entre</p><p>pessoas. Trata-se de uma relação interessada para propiciar a simples</p><p>sobrevivência econômica do grupo.</p><p>A moral atravessa séria crise de identidade, por maneira a nos perguntarmos</p><p>se podemos falar efetivamente de uma ética a direcionar o comportamento</p><p>humano, ou antes estaremos em face tão somente de uma moral social haurida</p><p>do frágil princípio das decisões supostamente majoritárias dos agrupamentos</p><p>humanos.</p><p>Verifica-se que o custo da violência é que vem revelando o fracasso das</p><p>instituições básicas da sociedade. As pesquisas, as reflexões não nascem (como</p><p>deveriam) do exame da perda de valores, mas simplesmente da análise do</p><p>desperdício econômico-financeiro. O que revela a falência dos valores fundantes</p><p>da vida pessoal e social.</p><p>Já é hora de volvermos a pensar no homem como centro de nossas</p><p>preocupações prioritárias. A eleição do fator econômico como quase o único a</p><p>merecer nossas complacências tem sido responsável pela queda qualitativa da</p><p>ambiência humana nas sociedades. Que o PIB substituamos pelo PIV, produto</p><p>interno dos valores, e o custo financeiro pelo custo axiológico: então as</p><p>sociedades se reencontrarão consigo mesmas, com seus fundamentos, com tudo</p><p>aquilo que dá sentido à vida dos homens e das instituições sociais.</p><p>Jornal do Commercio, 29.07.1999.</p><p>D</p><p>Presidencialismo onipotente</p><p>izem os entendidos que a equipe econômica tem revelado apreciável</p><p>grau de competência e que, não fora a sua atuação, estaríamos no</p><p>fundo do poço ante as investidas solertes do capital predatório que</p><p>circula pelo mundo em alta velocidade. Sem dúvida, os novos deuses do</p><p>Olimpo passam para a população seriedade e discrição inerentes aos técnicos</p><p>efetivamente à altura de suas responsabilidades.</p><p>Assim é que, em cada patamar da grande crise econômica que vem</p><p>selecionando países para neles penetrar, sugando-lhes o cerne, os tecnocratas</p><p>respondem com medidas eficazes, daí resultando a superação, pelo menos</p><p>momentânea, dos impactos indesejáveis que vêm ameaçando, quando não</p><p>afundando, até países de grande porte, como o Japão e a Rússia.</p><p>Imediatamente instalada a crise russa, o ministro da Fazenda anunciou</p><p>medidas necessárias para logo após as eleições. O que parece revelar</p><p>sensibilidade, ao detectar a gravidade do acontecimento que abalou a Rússia.</p><p>Assim, providências já estão estruturadas para espocar no pós-eleição. E com</p><p>certeza afetarão ainda mais os bolsos dos brasileiros, e não o Estado brasileiro.</p><p>Além disso, o anúncio é extremamente farisaico, porque se as medidas são</p><p>urgentes e necessárias, por que</p><p>não as adotar imediatamente?</p><p>A credibilidade do governo perde pontos ao se patentear a contradição entre</p><p>a suposta urgência e relevância de providências na área econômica e o seu</p><p>adiamento para o fim do ano, quando as urnas já terão dado o seu recado.</p><p>Parece-nos chegado o momento de um diálogo aberto, franco entre o</p><p>governo e o povo. Isto porque o povo já vem manifestando as suas apreensões a</p><p>respeito do desemprego, das carências educacionais e de saúde, de habitação,</p><p>da nunca enfrentada questão agrária, e a ação governamental não encontra</p><p>respostas satisfatórias em tais domínios.</p><p>O diálogo pressupõe franqueza e destemor de apontar mazelas e de discutir</p><p>seu enfrentamento. E aqui praticamente se identificam os dois domínios, o</p><p>governamental e o eleitoral. Como governo, cabe ao candidatojá com reeleição</p><p>praticamente garantida assegurar aos brasileiros as metas a serem atingidas no</p><p>curto, no médio e no longo prazos. E tudo numa linguagem clara, olho no olho.</p><p>E, além disso, pondo em realce aquilo que foi feito, em função das promessas</p><p>da última campanha. Tendo a sinceridade de apontar os eventuais fracassos, a</p><p>fim de que os eleitores acreditem nos compromissos novos assumidos nesta</p><p>campanha.</p><p>Aqui e ali, surgem as críticas do Presidente ao Congresso Nacional, que não</p><p>aprova as reformas necessárias. Às vezes, nos pomos de acordo com os reparos</p><p>endereçados aos congressistas, sem embargo também da estranheza decorrente</p><p>da simples observação de que o governo vem editando medidas provisórias e,</p><p>assim, praticamente ignora a função do legislativo e a ele se sobrepõe. Portanto,</p><p>os excepcionais poderes de que está investido o Presidente reduzem</p><p>substancialmente o acerto de suas críticas ao legislativo, como aojudiciário, cuja</p><p>lentidão anda de mãos dadas com a pletora de novas leis, a gerarem ações que</p><p>pipocam e abarrotam osjuízos e tribunais. Hoje se sabe que 80% das ações</p><p>intentadas nascem de ofensas a direitos ou pretensos direitos decorrentes de leis</p><p>que alteram leis no cotidiano da atual administração.</p><p>É fácil concluir-se que o Presidente dispõe de um poder quase absoluto,</p><p>dando-se ao luxo de criticar as demais instituições, esquecendo-se de que a</p><p>maior fatia de responsabilidade pelos destinos do país está em suas mãos. Não</p><p>há como escapar pela tangente.</p><p>Vivemos uma era de presidencialismo onipotente. E é o momento de</p><p>começarmos a questionar o modelo, aliás os modelos, o político e o econômico.</p><p>Isto porque, de um lado, se promovem as privatizações que falam a linguagem</p><p>de um suposto absenteísmo governamental, e de outro, cabe ao Presidente a</p><p>iniciativa de leis que regulam o funcionamento das instituições políticas e</p><p>econômicas.</p><p>É um excesso de poder que está a evidenciar o imperativo de uma reflexão</p><p>crítica, a permitir um efetivo equilíbrio entre os três poderes. Após anos de</p><p>acerbos reparos à atuação do Poder Legislativo, a bola da vez é o Poder</p><p>Judiciário. E o que ocorre, de fato, nessa esfera fundamental para a</p><p>sobrevivência das instituições democráticas? Carências de juízes, pletora de leis,</p><p>falta de recursos para a indispensável informatização do sistema. Milhares de</p><p>vagas de juízes estão a revelar que a remuneração da carreira desceu a níveis</p><p>irrisórios. Pois ninguém irá renunciar às possibilidades que se entreabrem a</p><p>outras carreiras que deixam espaço para acumulações e rendimentos mais</p><p>expressivos para se fechar numa carreira que tudo proíbe aos seus titulares.</p><p>Logo, a fonte, a matriz das mazelas do Judiciário é o próprio Poder Executivo,</p><p>que lhe nega tudo o de que ele carece para bem desempenhar suas funções. E,</p><p>ainda assim, a credibilidade do Poder Judiciário suplanta a dos dois outros</p><p>poderes da República, como revela recente pesquisa de opinião.</p><p>Ninguém ignora, muito menos nega as elevadas qualidades pessoais do</p><p>Presidente. Nem seu intento de promover o bem comum. Mas Brasília tem o</p><p>seu vírus particular, que isola os governantes do povo. Parece chegada a hora de</p><p>o Presidente acreditar que os áulicos só desservem ao país, quando apenas</p><p>segredam no ouvido presidencial os benefícios de seu governo, e sonegam os</p><p>reclamos do sofrido povo a clamar por uma vida mais digna de sua condição de</p><p>cidadãos prestantes da nação brasileira, ávidos por aplaudir e não, com razão,</p><p>opor reparos a decisões de seu talentoso Presidente.</p><p>Jornal do Commercio, 27.08.1998.</p><p>A</p><p>Exigências da sociedade</p><p>o longo de anos, tentam convencer-nos de que a economia detém os</p><p>cordéis da vida das sociedades. Os tecnocratas não costumam ter</p><p>dúvidas. No máximo, eles se permitem acolher opiniões de outros</p><p>tecnocratas. E assim la nave va... A verdade é que não apenas no Brasil, mas</p><p>mesmo nos chamados países do Primeiro Mundo, são patentes os sinais de que</p><p>algo não vai bem. Haja vista o nível da taxa de desemprego e o desalento</p><p>detectado com facilidade mesmo lá onde a fartura é a regra. E a ninguém de</p><p>bom senso ocorreria dar de ombros e concluir que, por exemplo, o desemprego</p><p>é uma consequência inelutável do progresso.</p><p>Por falar em progresso, acode-nos à memória uma historinha narrada por</p><p>Rubem Alves. Dois ursos se situavam nos extremos opostos do rendimento</p><p>“mental”. O de Q.I. elevado sabia com perfeição sustentar no focinho bolas que</p><p>lhe eram arremessadas, enquanto o urso “burro” ficava amuado, sem se sentir</p><p>bem no circo, que lhe tolhia a vida espontânea dos espaços naturais. Adiante, o</p><p>circo faliu, do que resultou a alegria do urso burro, que reencontrou o seu</p><p>habitat, e com ele logo se identificou. Recuperou toda a riqueza vital de que</p><p>queriam forçá-lo a desdenhar. O outro, porém, continuou a fazer a única coisa</p><p>que lhe ensinaram teimosamente: equilibrar no focinho as bolas que geraram o</p><p>seu novo modo de vida. Moral da história: o urso burro não seguiu as pegadas</p><p>do outro e se deu bem, porque jamais abandonou a sua origem, a natureza. Os</p><p>tecnocratas se assemelham ao urso de Q.I. mais alto. Isto porque a chamada</p><p>inteligência consiste em ver o real por dentro, em lê-lo em seu interior. Mas os</p><p>homens por vezes encaram a inteligência somente como razão pura, apta a</p><p>articular ideias sem compromissos com a realidade. É o abstracionismo</p><p>triunfante, ao qual ficamos sempre a dever os efeitos perversos desta crença</p><p>desmedida na geometria do espírito.</p><p>A tradicional Europa captou os sinais de que alguma coisa não caminhava</p><p>bem na estrada real da economia e atribuiu adequada prioridade aos problemas</p><p>sociais, de que constituem prova eloquente os últimos resultados eleitorais na</p><p>Inglaterra, na França e na Alemanha. Não se trata de aplaudir os novos</p><p>governantes, mas de abrir os olhos para as sociedades democráticas, que se</p><p>valem do voto para retificar rumos, fazendo prevalecer a vontade popular, e não</p><p>o absoluto predomínio das elites. Elites que, entre nós, nasceram e vicejam</p><p>ainda no clima patrimonialista em que estavam mergulhadas, desde o dealbar</p><p>da vida nacional, nos idos do Brasil-Colônia.</p><p>É mais do que chegada a hora de opormos um non possumus1 ao crescente</p><p>domínio dos sacerdotes da nova religião sem deuses e ao seu culto: a</p><p>economolatria.</p><p>O homem é multidimensional. Circunscrevê-lo a um de seus aspectos</p><p>constitui rematada insensatez. Sua complexidade desafia os esquemas tendentes</p><p>a cingi-lo a uma dimensão. É certo que o homem busca um centro de</p><p>irradiação ao qual pode recorrer para se beneficiar do equilíbrio que lhe deve</p><p>presidir à vida. Este centro primário de harmonia emerge de uma visão do</p><p>arquétipo do homem interior, da consulta ao que Bergson chamou o eu</p><p>profUndo.</p><p>Na verdade, o de que se trata é de uma busca da simplicidade perdida. O</p><p>espaço, o tempo, a história não são simples. Simples é o espírito, a consciência.</p><p>Num único conhecimento captamos uma multidão de dados que se unem para</p><p>a formação do todo percebido intuitivamente. Daí podermos falar do elogio da</p><p>simplicidade, título do sugestivo livro de Ramon Panikkar2, talvez a maior</p><p>autoridade no estudo das fronteiras culturais do oriente com o ocidente.</p><p>Os especialistas</p><p>ignoram a virtude da simplicidade, porquanto a</p><p>complexidade em que se enredam oferece a visão de que eles detêm a</p><p>sabedoria. O hermetismo terminológico esmaga o homem comum, ao qual</p><p>apenas presenteiam com as consequências negativas de seu agir pretensioso.</p><p>A mídia os procura com avidez, o que só lhes aumenta a impressão de saber</p><p>e de poder. Seus títulos acadêmicos parecem ofuscar tudo à sua volta, e marcá-</p><p>los com sinal indelével da sabedoria absoluta.</p><p>Vivemos a síndrome do Primeiro Mundo. Cercado de “notáveis”, os</p><p>governantes mais e mais se encastelam e se alheiam do povo que, em seu dia a</p><p>dia, não pode deter-se nos altiplanos das discussões dos novos deuses do</p><p>Olimpo. O Presidente culto e educado se afasta da população e teima em culpar</p><p>terceiros pelos erros patentes de sua administração. Só lhe resta o caminho</p><p>saudável do mea culpa e da conversa ao pé do ouvido com cada brasileiro.</p><p>Conversa particularmente endereçada aos trinta milhões de miseráveis. As filas</p><p>do INSS, o cortejo dos pais à porta das escolas em busca de vagas, as</p><p>madrugadas aflitas dos carentes de toda a sorte estão a exigir o enfrentamento</p><p>de suas necessidades. Pouco surge no noticiário governamental que nos fale do</p><p>povo como povo. Somos todos consumidores à mão ou potenciais, presas fáceis</p><p>de uma publicidade invasora que nos tolhe os passos e nos arranca da alma as</p><p>réstias de esperança a que todo o ser humano faz jus para prosseguir sua</p><p>caminhada.</p><p>A sociedade já está farta da retórica amiudadamente secretada pelos donos</p><p>do poder. Chegou a hora de a sociedade exigir respeito aos elementares direitos</p><p>inerentes à cidadania.</p><p>Jornal do Commercio, 11.02.1999.</p><p>NOTAS</p><p>1 Nonpossumus: não podemos.</p><p>2 Ramon Panikkar (1918-2010): filósofo e sacerdote espanhol.</p><p>O</p><p>Recorde histórico</p><p>atual governo suplantou todos os seus antecessores na tenebrosa estatística</p><p>da edição de medidas provisórias. E para os responsáveis pela direção dos</p><p>negócios do Estado, nada mais definitivo do que o provisório. Até agora, foram</p><p>editadas 192 medidas provisórias, que se reeditam ad nauseam, daí resultando o</p><p>desvirtuamento de seu uso e o amesquinhamento do Poder Legislativo.</p><p>O instituto jurídico das medidas provisórias nasceu da necessidade da</p><p>adoção de providências governamentais, cuja urgência tornaria impossível</p><p>aguardar o ritmo normal da tramitação legislativa.</p><p>Ocorre que há imperiosa precisão de vigilância e participação do Poder</p><p>Legislativo como condição de possibilidade de vigência democrática. Descartar-</p><p>se da presença constante do parlamento conduzirá a uma autêntica anemia do</p><p>sistema representativo. Cabe mesmo perguntar para que escolhemos</p><p>representantes que não têm senão oportunidades diminutas de oferecer a sua</p><p>experiência e a sua contribuição ao aprimoramento de nossas leis e ao</p><p>encaminhamento e discussão das medidas de iniciativa do Poder Executivo.</p><p>A crise mundial que se abateu sobre o Brasil está a compelir o governo a</p><p>recorrer a medidas urgentes e consistentes. Acontece que o caminho que</p><p>possivelmente será o escolhido pela equipe econômica terá como alvo supremo</p><p>o bolso do cidadão. Nada se fez, ao longo dos últimos anos, por exemplo, para</p><p>pôr cobro aos abusos dos marajás. E agora mesmo o que se vê é a inconsistente</p><p>discussão sobre o teto para os servidores públicos que, consoante determina a</p><p>Constituição, deverá ser o padrão de vencimentos dos ministros do Supremo</p><p>Tribunal Federal. E o que faz o governo? Anuncia que se impõe a aprovação de</p><p>uma lei para fixar o tal teto, como se este fora inexistente. E assim aqueles que</p><p>percebem salários astronômicos continuam a sugar os cofres públicos, onerando</p><p>indevidamente o país. Trata-se de um debate hilariante e destituído de qualquer</p><p>sentido jurídico e, muito menos, ético.</p><p>E assim la nave va...</p><p>Agora, se anunciam medidas terríveis! Aumenta-se a alíquota da CPMF de</p><p>0,2 para 0,3. Consequência: empobrecimento geral da população e aumento de</p><p>apertura para os empresários, que formam a grande massa produtiva do país,</p><p>junto com a classe trabalhadora. E o governo remanesce impávido, como se não</p><p>tivesse nada a ver com os corolários do grande teorema da mediocridade de</p><p>aumentar impostos como única solução mágica para a solução dos nossos</p><p>problemas.</p><p>Entre as providências alvitradas, uma é de pasmar: os inativos passarão a</p><p>contribuir para a previdência. Aqueles que já contribuíram a vida toda para</p><p>assegurar o seu direito à aposentadoria - que está longe de ser condigna e que se</p><p>encontram usualmente em difícil situação financeira, passarão a financiar o</p><p>governo para solver problemas, como se fossem os corifeus do exército</p><p>responsável pela débâcle em que nos encontramos. Trata-se de solução</p><p>simplista e patentemente desumana.</p><p>Quanto aos servidores em atividade, que também não recebem aumento há</p><p>mais de quatro anos, exige-se que sofram um desconto de 15% de seus</p><p>vencimentos. Assim, eles não só não terão nenhum aumento, como ainda terão</p><p>seus vencimentos reduzidos com o aumento da dedução para fins</p><p>previdenciários. Parece que, para o governo, os servidores formam um cortejo</p><p>de inimigos públicos...</p><p>O item referente às grandes fortunas certamente nasceu do intento de atrair</p><p>as oposições que não ignoram que as tentativas feitas neste sentido em outros</p><p>países infelizmente não produziram resultados. No Reino Unido, por exemplo,</p><p>a ideia surgiu para equilibrar os padrões salariais e de vencimentos. Isto não</p><p>ocorreu e se desistiu da ideia. A medida em si seria justa, mas, ao que parece,</p><p>inócua.</p><p>Pinçamos alguns exemplos apenas com o intuito de profligar o hábito que</p><p>tomou conta dos últimos governos de simplesmente voltar as costas para o Poder</p><p>Legislativo. É certo que sejustificam muitos dos reparos feitos à sua atuação.</p><p>Mas não é menos verdade que já experimentamos a sua anulação do processo</p><p>político e não nos demos bem. É indispensável a presença de um Poder</p><p>Legislativo, com partidos fortes e bem definidos em seus programas, com uma</p><p>legislação que imponha a fidelidade partidária e ainda adote o sistema alemão</p><p>do voto misto. Cabe fortalecer a instituição e não amesquinhá-la, ignorá-la e</p><p>dela valer-se apenas para homologar as decisões dos tecnocratas, que nunca têm</p><p>compromisso com o futuro.</p><p>Quanto aos cortes, que eles não incidam nas áreas da saúde e da educação.</p><p>Seria retirar ao governo o mínimo de compromisso com o humanismo e o</p><p>domínio definitivo da tecnocracia arrogante.</p><p>O país, que vem perseguindo com vigor recordes desportivos, não tem por</p><p>que se orgulhar de vencer a corrida das medidas provisórias, que vêm para se</p><p>eternizar e, assim, relegar o Poder Legislativo a um plano secundário. Ao bater o</p><p>recorde histórico, o país se empobrece institucionalmente e compromete o seu</p><p>futuro.</p><p>Jornal do Commercio, 22.10.1998.</p><p>A</p><p>A lógica do imprevisível</p><p>campanha eleitoral em curso oscila ao sabor dos ventos que sopram sobre o</p><p>eleitorado. As propostas dos candidatos representam uma espécie de cartão</p><p>de visitas que, o mais das vezes, não se ajusta às políticas a serem</p><p>implementadas, quando os distintos ocupantes dos cargos políticos se virem em</p><p>face da realidade fugidia da política.</p><p>A credibilidade de um político deve resultar menos das afirmações feitas em</p><p>comícios do que de seu itinerário pessoal. É o percurso do candidato que</p><p>legitima a confiança do eleitor em seu futuro desempenho. Daí poderia seguir-</p><p>se que o candidato não se afine invariavelmente com as suas promessas? Seriam</p><p>elas necessariamente falazes? Não é bem o caso. Em primeiro lugar, o discurso</p><p>eleitoral é sempre otimista. Quem votará num candidato que elegeu o anúncio</p><p>dos fracassos para nele depositar o seu voto? Em segundo lugar, a realidade</p><p>sócio-político-econômica acaba por impor suas tenazes ao político no exercício</p><p>do poder. O eleitor deve compreender sobretudo o que o seu candidato muito</p><p>provavelmente não fará, mais do que aquilo que ele efetivamente poderá fazer.</p><p>São os imperativos das circunstâncias que explicam politicamente certas</p><p>alianças que</p><p>no Instituto Histórico e Geográfico</p><p>Brasileiro, todos os outros ensaios saíram em jornal. Mais uma vez, constata-se,</p><p>aí, a necessária ligação entre o efêmero e o permanente. O jornal satisfaz ao</p><p>desejo do comentário imediato, inadiável, sobre o que, naquele preciso</p><p>momento, interessa, abala ou comove uma comunidade. Pois é para ela que se</p><p>escreve. Ou melhor, é para o “outro”. E o outro - que vemos como num espelho</p><p>nosso próximo e nosso irmão - vive exatamente as mesmas perplexidades que,</p><p>por ângulos diversos, cercam a sociedade inteira. Assim, de Guitton a Dom</p><p>Marcos Barbosa, não só as figuras de nosso tempo que disseram ao que vieram,</p><p>mas também o modo como infundiram seu pensamento e sua ação em tudo o</p><p>que fizeram, aparecem neste volume de Tarcísio Padilha como indicadores de</p><p>um caminho e de uma direção. Henri Bergson insistia na diferença, ao afirmar</p><p>que nem sempre se busca precisamente o caminho, mas deseja-se uma direção.</p><p>Todos os que sentimos a influência de Jean Guitton, como um talvez</p><p>existencialista do cristianismo, veremos, nas palavras de Padilha, a confirmação</p><p>da abrangência da posição desse pensador diante da morte. É curiosa a</p><p>tendência para uma espécie de existencialismo surgida no Norte da África ao</p><p>longo de mais de um milênio, de Santo Agostinho a Albert Camus, ambos ali</p><p>nascidos. Tanto no caso do Santo como no de Guitton, a fé servia de chão ao</p><p>mesmo tempo em que pairava sobre eles. Terá Camus tido esses dois</p><p>sustentáculos?</p><p>Falo apenas de um dos ensaios do livro, o primeiro, e em todos eles Tarcísio</p><p>Padilha nos faz pensar e, com isso, nos edifica e nos ensina. No ensaio sobre</p><p>Octavio de Faria, a obra do autor da Tragédia burguesa surge iluminada por</p><p>uma compreensão acima da literatura, como deve acontecer em todo escrito</p><p>atingido pelo mistério da condição humana. Para Octavio de Faria, o Mal, com</p><p>maiúscula, é tudo, é o Demônio, “Senhor do Mundo”; como no título de um</p><p>de seus romances, está presente a muitos dos desacertos de cada tempo.</p><p>A política baixa nos ensaios de Padilha com a força de quem pensa em</p><p>termos de Filosofia. Assim, fala do excesso de poder de um presidencialismo</p><p>onipotente, num alerta de que somos incumbidos todos os que escrevemos. Aí,</p><p>os temas de educação e saúde se sobrepõem aos outros. Como a raiz do autor de</p><p>História e Filosofia é, antes de tudo, ética, e não pode haver ética sem diálogo,</p><p>seus ensaios mantêm um diálogo com todos os que mandam e desmandam,</p><p>inclusive pregando um diálogo real entre o governo e o povo. Note-se que todos</p><p>os assuntos do momento aparecem nos ensaios de Tarcísio Padilha: os mísseis</p><p>que atravessam os Bálcãs, o exagero das medidas provisórias que se</p><p>transformam em permanentes, a presença de Alain Touraine no Brasil, a</p><p>existência de 4% de pessoas superdotadas no país, o fenômeno dos serial killers,</p><p>o futuro dos direitos humanos, os caminhos da globalização, cada tema ganha</p><p>uma análise, um estudo, entra num foco diferente. Cita escritores e frases -</p><p>como a de Eduardo Portella, que falou na urgência de termos uma “cesta básica</p><p>de valores” -, transcreve poemas de Dom Marcos Barbosa, discute a</p><p>“ontoética”, uma ética do ser, única forma de chegarmos ao “viver-convivendo”.</p><p>Os ensaios deste livro levam-nos a uma necessária e inadiável reflexão.</p><p>Precisamos refletir sobre o que somos, sobre o que está acontecendo, sobre o</p><p>que pode acontecer, sobre o que fazemos no sentido de tornar a vida e a</p><p>convivência mais humanas e significantes. Junto com a reflexão, chegamos à</p><p>meditação. Lembro-me da disciplina de seminário católico, em que me formei,</p><p>quando, antes das seis horas da manhã, ficávamos sentados na capela, durante</p><p>meia hora, no mais completo silêncio, meditando.</p><p>Um livro como História e Filosofia, de Tarcísio Padilha, que nos põe em</p><p>estado de Reflexão e Meditação - relevem-me as maiúsculas - merece respeito.</p><p>Mais do que isso, merece leitura.</p><p>Rio de Janeiro, 7 de julho de 1999.</p><p>S</p><p>Algumas opiniões sobre a Filosofia de</p><p>Tarcísio Padilha</p><p>obre sua tese de doutorado, A ontologiaaxiológicadeLouis Lavelle,</p><p>manifestaram-se, entre outros, Henri Gouhier, Luigi Stefanini, Michele</p><p>Federica Sciacca, Bernard Delfgaauw, Régis Jolivet eJean École. Henri</p><p>Gouhier, da Académie Française, assim se pronunciou: “Este belo livro é sem</p><p>dúvida a obra mais importante já consagrada à obra de Louis Lavelle.”</p><p>Eduardo de Soveral, da Universidade do Porto, pondera: “Constitui de fato</p><p>essa obra uma introdução notável à filosofia lavelliana, que mais parecia ter</p><p>saído da pena de um investigador experimentado do que ser fruto do labor de</p><p>um jovem que ia ainda a caminho dos trinta anos.”</p><p>Jean-Marc Gabaude, da Universidade de Toulouse-Le-Mirail, resume os</p><p>objetivos da filosofia de Padilha, em sua obra Tarcísio Padilha: une ontothéo-</p><p>axiologie de Uespérance, nos seguintes termos: “Valorizar a participação</p><p>existencial dos seres humanos no mundo, preservar a dignidade da pessoa</p><p>humana, salvar o homem moderno de sua angústia, promover o espaço e o</p><p>tempo da intersubjetividade dialogai e considerá-las como vetor de</p><p>democratização.”</p><p>Jean-Luc Marion, da Sorbonne, sustenta que Padilha é um “filósofo de</p><p>tradição e de vocação, formado na escola de um humanismo rigoroso e aberto”.</p><p>Wolfgang Strobl, de Salamanca, afirma: “É um sinal de esperança de que</p><p>numa grande nação como o Brasil se levantou a voz de um filósofo de autêntica</p><p>vocação - Tarcísio Padilha - que defende a primazia da pessoa acima de todas as</p><p>coisas.”</p><p>Battista Mondin, de Roma, assevera que “Tarcísio Padilha, em seu ensaio</p><p>magistral Umafilosofia da esperança, tem o mérito de haver desvendado</p><p>claramente as bases metafísicas da esperança humana”.</p><p>Georges Gusdorf, de Strasburg, escreveu: “ele suscitou, ao lado dos</p><p>brasileiros satelitizados pela cultura europeia, uma nova espécie de europeus</p><p>sensibilizados pela cultura brasileira, numa certa medida, satélites do fascinante</p><p>Brasil.”</p><p>Sobre a filosofia de Padilha, assim se manifestou Alain Guy, conhecido</p><p>especialista em Filosofia ibero-americana: “seu espiritualismo implica em</p><p>consequências éticas muito firmemente expressas, no seio de um humanismo</p><p>democrático, que repele inteiramente o capitalismo dos monopólios e o</p><p>totalitarismo estatolátrico.”</p><p>Antonio Carlos Vilaça escreveu que Padilha “(...) soube unir como poucos</p><p>teoria e práxis, ação e contemplação, vida e pensamento, razão e emoção,</p><p>filosofia e eficácia, tempo e eternidade. O homem moderno e o homem eterno.”</p><p>Newton Sucupira resumiu a filosofia de Padilha, ao proclamar:</p><p>“Transcendência, participação e esperança são categorias-chaves da metafísica</p><p>humanista de Padilha.”</p><p>Paul Albert Simon conclui estar patente em sua obra “(...) a fidelidade do</p><p>autor aos compromissos que caracterizam constantemente sua atuação e seu</p><p>pensamento: o compromisso com uma filosofia inseparável das realidades da</p><p>existência, o compromisso com a fé cristã que o leva a procurar filosoficamente</p><p>as razões que a humanidade tem de esperar”.</p><p>Antonio Houaiss, prefaciando Uma ética do cotidiano, escreve que o filósofo</p><p>brasileiro “não busca a lisonja dos poderosos nem dos impoderosos, não</p><p>silenciando as mazelas do mundo e do Brasil”.</p><p>Aquiles Cortes Guimarães, em sua resenha sobre Umafilosofia da esperança,</p><p>assente que “o grande esforço do Autor é dirigido à superação do negativismo</p><p>subjacente ou explícito nas filosofias da existência. Isso nos parece inegável.</p><p>Como inegável parece também o fato de ser a filosofia da esperança de Tarcísio</p><p>Padilha uma forma original de redescoberta do sentido da existência, como</p><p>projeto de inserção na positividade”.</p><p>Volvendo aos idos de 1947, assim se externou o sociólogo Nelson Mello e</p><p>Souza: (Padilha) “Continha em si o paradoxo de uma juventude que já</p><p>apresentava o signo dos tempos nela impresso. Era sereno, como o é até hoje. A</p><p>serenidade se mostrava com mais vigor em seu sorriso simples e compreensivo.</p><p>Sempre atento e humilde, ouvindo mais do que falando, Padilha se impôs</p><p>silenciosamente ao respeito de todos,</p><p>o comum dos mortais entende serem totalmente imorais, quando</p><p>na verdade elas fluem da própria dinâmica da trepidante vida pública. Sem</p><p>falar nas mudanças de rumo a surpreender o eleitor, que persegue uma lógica</p><p>pura num campo da ciência e sobretudo da arte em que impera soberana a</p><p>lógica da imprevisibilidade.</p><p>É certo que há limites para a mudança de barco e que é mesmo desejável se</p><p>estabeleça o sadio princípio da fidelidade partidária. Mas impedir que partidos</p><p>diversos venham a se aliar para vencer um adversário comum é prova infalível de</p><p>indigência na avaliação da política e de sua sinuosidade natural.</p><p>Tanto os homens como as instituições estão inseridos na história. Padecem</p><p>das vicissitudes inerentes ao fluir dos fatos que emolduram o amplo estuário de</p><p>um saber que funciona como um ponto de encontro entre os saberes. As</p><p>ciências, as artes, as letras, a filosofia, a religião se mesclam para formar o</p><p>complexo sumo da História. E a política também aí se mistura a fatores que</p><p>aparentemente nada têm a ver com a realidade considerada específica do</p><p>domínio histórico.</p><p>Ocorre que a complexidade dos fatos históricos e suas oscilações</p><p>imprevisíveis formam o clima diuturno do percurso dos homens e das</p><p>instituições em que cuidam prolongar o seu existir e delas se valem para a</p><p>própria proteção ante os arreganhos do poder.</p><p>A manchete eleitoral é a eleição para presidente da República. O presidente,</p><p>no pleno exercício do poder, é também o candidato a angariar votos. É difícil a</p><p>empreitada de tocar a nau do Estado e postular o nosso voto. Particularmente</p><p>durante a severa crise da economia mundial. Constituiria erro palmar submeter</p><p>a nossa escolha às promessas concretas e minuciosas contidas num programa de</p><p>governo. Não que o presidente candidato esteja a escamotear o seu propósito de</p><p>descumprir as promessas, mas porque o imperativo da realidade sempre lhe</p><p>suplantará a energia posta na escolha dos roteiros governamentais.</p><p>Nomeadamente na era da globalização em que, com receio justificado,</p><p>penetramos, alongando o olhar para o desconhecido. Nesta era inédita na</p><p>história, por sua amplitude de abrangência, as decisões seguramente irão</p><p>obedecer às imposições das circunstâncias mais do que aos anseios do</p><p>candidato e do povo que lhe sufragar o nome.</p><p>No último sábado, no majestoso edifício do Real Gabinete Português, Mário</p><p>Soares e Fernando Henrique Cardoso apresentaram o livro Um mundo em</p><p>português, resultante de uma lúcida conversa entre ambos. O texto denso e</p><p>espontâneo revelou dois homens públicos realmente experimentados e abertos</p><p>ao mundo atual. Inteligências que não se cristalizaram no cotidiano da política,</p><p>mas forjaram visões de mundo adequadas aos desafios da modernidade. Daí</p><p>serem ambos altamente admirados no grand monde da política e merecerem o</p><p>respeito da comunidade internacional.</p><p>Agora que se aproxima o dia 4 de outubro, quando o dever cívico nos</p><p>convoca para a escolha ditada pela nossa consciência, convida ler o livro-diálogo</p><p>dos dois presidentes.</p><p>Os presidentes realçaram os laços que unem os dois povos e o permanente</p><p>empenho em preservar e ampliar a presença da língua, hoje falada por duzentos</p><p>milhões de pessoas.</p><p>No livro, o eleitor brasileiro encontrará o nível ajustado ao múnus de</p><p>governar um país que bem merece um presidente que possamos respeitar e</p><p>admirar, ainda que por vezes venhamos a criticá-lo pontualmente em algumas</p><p>decisões. Mas o valor intelectual e moral do presidente o situa num patamar que</p><p>é motivo de orgulho para a nação.</p><p>Jornal do Commercio, 24.09.1998.</p><p>O</p><p>Aos políticos: meditação e humildade</p><p>s garis recolheram os destroços da propaganda eleitoral. Os cidadãos</p><p>retornaram aos seus afazeres. A apuração quantitativa de votos</p><p>terminou. Remanesce intacta a qualidade buscada pelos eleitores. Os</p><p>números já desempenharam o seu papel. Chegou a hora da verdade das urnas,</p><p>da adequação entre as promessas, os compromissos e a lisura do futuro</p><p>comportamento político.</p><p>A algaravia da campanha é sempre fugaz. Fica o sabor da vitória ou o travo</p><p>da amargura pela rejeição. Todos prestaram o seu serviço à democracia vacilante</p><p>sobre a qual se assenta o país. É um passo a mais nesta sofrida perseguição a um</p><p>modelo de cidadania que não se cinja à manifestação periódica pelo voto, mas</p><p>traduza o sentir e o pulsar diuturno pela presença e pela participação no</p><p>processo político. Pela fiscalização e acompanhamento da retidão ou das</p><p>sinuosidades indesejáveis do percurso da vida pública.</p><p>Nos estados em que a eleição foi devidamente apurada e, sobretudo no plano</p><p>nacional, é o momento da meditação. Não se trata, é claro, de conotação</p><p>religiosa da palavra. Em seu Elogio da filosofia, Pierre Hadot1 sublinhou que “o</p><p>exercício da razão é meditação”. É desta que cuidamos, bastando volver a</p><p>Descartes e às suas famosas Meditationes metaphysicae.</p><p>Meditação é recolhimento e supõe o silêncio. Silêncio interior que persegue</p><p>o inexprimível, o inefável. É feito mais de intuição do que de puro raciocínio.</p><p>Neste sentido, cabe um reparo a Ludwig Wittgenstein2, quando concluiu o seu</p><p>Tractatus logico-philosophicus3 assentindo que “o que não pode ser dito, é</p><p>preciso calar-se”. É negar a riqueza do inexprimível, daquilo que somente a</p><p>meditação profunda pode colher, sem efetivamente verbalizar em linguagem</p><p>corrente. Aí estão os poetas, os artistas de todas as artes, os místicos de todos os</p><p>matizes a nos mostrarem o quanto é revelador o mundo inalcançável pelo</p><p>discurso.</p><p>Para os políticos que venceram as eleições e aos quais incumbem novas</p><p>responsabilidades, seria desejável que não se deixassem ceder aos rogos dos</p><p>aplausos fugazes e episódicos para melhor se aperceberem da magnitude dos</p><p>desafios que os esperam.</p><p>É imperioso que o frenesi da ação não leve os futuros governantes e</p><p>parlamentares à perigosa dispersão a que os conduzem facilmente os áulicos de</p><p>plantão. Há uma certa sacralidade na vida política, que não pertencendo a</p><p>ninguém, na verdade a todos alcançam em seus efeitos e, portanto, a todos</p><p>pertence. A política é uma das nobres atividades do cidadão. É missão para cujo</p><p>desempenho correto o homem público há de limar as suas virtudes peregrinas e</p><p>pô-las inteiramente a serviço da causa maior para a qual foi convocado.</p><p>Não se trata de se servir das benesses do poder, mas de compenetrar-se do</p><p>sentido maior da tarefa, com unção cívica e nunca olvidando o capital de</p><p>esperança que despertaram em seus eleitores.</p><p>O mais difícil de uma vitória é saber ser digno dela após a sua decretação. E</p><p>compreender o seu peso, o seu valor, a sua responsabilidade. É capacitar-se de</p><p>que lhe exigem uma superação permanente de suas vulnerabilidades, de suas</p><p>vacilações.</p><p>É superar-se a si mesmo, transformar-se nos milhares ou milhões que lhe</p><p>deram o grande aval para a não menor empreitada.</p><p>O cumprimento do mandato popular levado a bom termo exige</p><p>primacialmente a virtude da humildade. Segundo Cervantes, “os humildes são</p><p>como a água que, quanto mais desce, mais alto pode subir”. A humildade nos</p><p>fala, antes de tudo, da atitude do crente diante de Deus. Mas São Paulo, além</p><p>de sublinhar este aspecto, ressalta o seu sentido e alcance sociais, isto é, deve-se</p><p>pensar nos outros, deixando-lhes espaço, e pensando em seu bem. Longe de</p><p>nós considerarmos a humildade como um fracasso. Esta atitude leva ao</p><p>desprezo de si mesmo. O verdadeiro temor de Deus não conduz à</p><p>desvalorização de si mesmo. Trata-se, antes, de uma exigência universal e</p><p>necessária de aprimorar crescentemente as condições de um genuíno progresso</p><p>interior.</p><p>É nesta acepção positiva de humildade que cuidamos devam inspirar-se os</p><p>vitoriosos do pleito de 4 de outubro último, dia de São Francisco de Assis. Foi</p><p>mera coincidência, mas colhamos o símbolo e o transformemos na mensagem</p><p>que nós, eleitores, endereçamos aos vitoriosos das urnas concitando-os a sorver</p><p>a lição ética e cívica de serviço ao bem comum, sem o qual os resultados</p><p>positivos do pleito resultarão em pura perda para a cidadania</p><p>nascente no país.</p><p>Jornal do Commercio, 09.10.1998.</p><p>NOTAS</p><p>1 Pierre Hadot (1922-2010): filósofo francês.</p><p>2 Ludwig Joseph Johann Wittgenstein (1889-1951): filósofo austríaco, naturalizado britânico.</p><p>3 Tractatus logico-philosophicus: Tratado lógico-filosófico.</p><p>M</p><p>Digressão ética</p><p>uita tinta se vem gastando a respeito da posição oficial ou oficiosa</p><p>do ministro da Saúde a respeito do corte de verbas previsto para o</p><p>setor. Nota divulgada por</p><p>órgão do ministério deu conta de críticas ao planejado corte, sem a chancela</p><p>direta do titular da pasta, José Semi. Daí adveio um chorrilho de comentários a</p><p>propósito do caráter antiético da nota, uma vez que o ministro é depositário da</p><p>confiança pessoal do Presidente.</p><p>O capítulo da longa novela da saúde merece ser analisado à luz do histórico</p><p>da momentosa questão. Durante meses a fio o ex-ministro Adib Jatene</p><p>defendeu ardorosa e valentemente a criação de um imposto exclusivamente</p><p>destinado a dotar o país de maiores recursos para a saúde. A matéria foi</p><p>ventilada em sucessivas entrevistas do então ministro e em frequentes visitas</p><p>empreendidas ao Parlamento para captar o apoio indispensável dos</p><p>congressistas.</p><p>Adib Jatene representou à época uma parcela da consciência ética do Brasil,</p><p>uma vez que se imolou totalmente em sua luta tenaz em favor da saúde dos</p><p>nossos patrícios, nomeadamente os menos favorecidos e mais sofridos.</p><p>Sabemos todos que a CPMF foi desviada para tapar buracos, o que em todos</p><p>nós causou profunda ejusta revolta, pois uma vez mais sentimos o quanto os</p><p>governantes entendem que os recursos são postos à disposição de objetivos</p><p>meramente conjunturais deles e não da nação.</p><p>Agora, de outra maneira, repete-se a história. Sentindo que haveria cortes na</p><p>sua área, o ministro ardilosamente fez publicar uma nota que valeu como um</p><p>aviso aos navegantes: há sim aviso, não cortem os recursos destinados à saúde.</p><p>Serra deu o seu recado de forma indireta. Sim, poder-se-á dizer que ele teria</p><p>violado o dever da solidariedade para com o Presidente a quem, em última</p><p>instância, cabe a sua manutenção no cargo.</p><p>Vejo de outra forma o episódio. Os governantes faltaram, eles sim, com a</p><p>ética ao desviarem recursos vultosos que nós lhes confiamos para uma</p><p>determinada finalidade, e por sua iniciativa irresponsavelmente os destinaram a</p><p>outros fins, traindo a nossa confiança. Os bolsos de pessoas físicas e jurídicas se</p><p>esvaziaram, na falsa presunção de melhor atender aos justos reclamos das</p><p>populações que trazem para as imensas filas dos hospitais o seu desamparo, a</p><p>sua desesperança. Abid Jatene antes, e agora José Serra conviveram com os</p><p>dramas de milhões de brasileiros e se condoeram com o seu sofrimento</p><p>indizível. Fizeram-se porta-vozes de seus direitos inalienáveis e caminharam</p><p>firmemente em defesa dos mais frágeis. Foram fiéis ao compromisso ético maior</p><p>de defender os humildes e forcejar por dar o mínimo de atendimento às suas</p><p>mazelas intermináveis. Ao fazer malograr a redução do percentual orçamentário</p><p>destinado à saúde, o ministro acolheu o apelo silencioso de milhões de</p><p>brasileiros, e certamente terá poupado a vida de muitos.</p><p>Aplica-se aqui o princípio moral minima de malis (dos males o menor), isto</p><p>é, o que vale mais: solidarizar-se com a imensa maioria da população ou fingir</p><p>que não se está vendo a sua miséria sem perspectivas de superação? A Sagrada</p><p>Escritura se refere claramente à esperteza dos bons, que há de ser superior à dos</p><p>maus. Serra agiu por impulso de sua consciência e ficou no poder, para desta</p><p>forma minorar o sofrimento de patrícios que clamam por um mínimo de</p><p>atenção para com a sua dignidade de seres humanos. Se alguém faltou à ética</p><p>foram os tecnocratas, mestres do aulicismo, sempre prontos a dizer amém a</p><p>quaisquer medidas, desde que permaneçam em seus cargos, com todas as</p><p>mordomias a eles “inerentes”.</p><p>Neste momento de patentes dificuldades por que passa o país e se pede</p><p>sacrifício ainda maior à população, cumpre sublinhar a sadia reação a</p><p>providências oficiais que ainda punam mais os já marginalizados, aos quais se</p><p>estende o braço protetor do ministro. Sua consciência está em paz e não a dos</p><p>que incluíram cortes profundos nas áreas da saúde e da educação. Nenhuma</p><p>crise econômica poderia afetar domínios tão vitais para os brasileiros. São áreas</p><p>a serem sempre preservadas da faca aguda da pantagruélica voracidade com que</p><p>os governantes se atiram ao banquete inglório de ampliar a faixa de privações da</p><p>imensa maioria de nossos irmãos.</p><p>E certo que incumbe aos ocupantes de cargos de confiança fidelidade a</p><p>quem os nomeia. Momentos há, porém, em que um dever maior os conclama a</p><p>que, permanecendo nos postos, ofereçam à nação o exemplo de sua fidelidade</p><p>maior ao conjunto social, lutando, dentro do governo, para realizar a ansiada</p><p>justiça social. Somente em tais casos sejustifica comportamento apenas</p><p>aparentemente divorciado de normas éticas.</p><p>Certa feita, um respeitado homem público, Gustavo Capanema, do velho</p><p>PSD, conversava com um grupo de parlamentares da UDN. Profligava o seu</p><p>oposicionismo feroz e dizia: “Vocês deveriam compreender que, num país que</p><p>ainda engatinha em sua democracia vacilante, é no governo que se consegue</p><p>realizar alguma coisa em benefício do país. Fora do governo, só há retórica.”</p><p>Capanema era, sabidamente, um homem de valor intelectual e moral. Mas</p><p>entendia, e muito, de sociologia da civilização brasileira. Chego a pensar que,</p><p>do outro mundo, ele conversou com o ministro José Serra.</p><p>Jornal do Commercio, 12.11.1998.</p><p>O</p><p>Divórcio auspicioso</p><p>Estado brasileiro nasceu bem antes da consolidação da sociedade. Teve a</p><p>marcá-lo o sinal inequívoco do artificialismo. Aliás, o faz de conta vem</p><p>configurando o nosso perfil, por maneira a tornar sempre difícil falar a verdade,</p><p>julgar os fatos, sem que tal atitude não seja visualizada como sinal de pouca</p><p>civilidade. A verdade simples, direta, patente, evidente há de ocultar-se nos</p><p>eufemismos com que, aqui e ali, timidamente, buscamos definir situações. É o</p><p>campo aberto aos elogios gratuitos e exagerados e às críticas acerbas que</p><p>palmilham o nosso solo.</p><p>Nos meios intelectuais então, em que a vaidade paroxística é a norma, há</p><p>que ser insincero, ampliando os espaços dos juízos de valor plenos de encômios</p><p>a alimentar voracidades pessoais insaciáveis.</p><p>A consequência de tal atitude estrutural é a ciclotimia valorativa. Assim,</p><p>quando o dardo da crítica é lançado, nada remanesce do trabalho apreciado,</p><p>tudo é jogado na fornalha da destruição irrecorrível. Assim funciona a nova lei</p><p>da gravitação: ou somos uns gênios, ou medíocres oficiais da arte de pensar, de</p><p>escrever, de produzir o que quer que seja.</p><p>Este sobe e desce da gangorra judicatória nos vem afastando crescentemente</p><p>da isenção com que os fatos e atos hão de ser devidamente avaliados. Os meios</p><p>de comunicação contribuem às vezes para que o público viva as vicissitudes dos</p><p>extremos que lhe são apresentados, ora envoltos em papel celofane, ora em</p><p>papel de jornal.</p><p>No momento, a nação se vê manietada pelo noticiário desencontrado a</p><p>respeito de escutas telefônicas, de cheques internacionais. A apuração dos fatos</p><p>é tarefa das autoridades da polícia e da justiça. É relevante notar, porém, que</p><p>não se levou na devida conta a majestade da Presidência da República. Parece</p><p>por vezes que se confunde um ex-presidente impedido1 com o atual ocupante</p><p>do Palácio do Planalto2.</p><p>É absolutamente indispensável preservar a figura do Presidente de supostas</p><p>ligações com grupos dominados por interesses subalternos. As críticas</p><p>endereçadas a políticas setoriais do atual governo são bem-vindas na medida em</p><p>que vierem a contribuir para o aprimoramento de nossas instituições</p><p>democráticas. Misturar o sagrado direito da imprensa com o caráter subalterno</p><p>de algumas insinuações desconfortáveis para quem se situa no ápice do poder</p><p>constitui atitude leviana a merecer severo reparo. O atual Presidente desenhou o</p><p>seu perfil de modo a não autorizar dúvidas sobre a sua honradez pessoal.</p><p>Seu</p><p>percurso, ao longo de quase setenta anos, responde pela sua dignidade.</p><p>A verdade é que se sucedem os escândalos e a população tende a acreditar</p><p>nas acusações que emergem do noticiário, parecendo adotar o equívoco</p><p>princípio de que alguém é culpado até provar a sua inocência.</p><p>Felizmente se observa uma consistente reação às nossas mazelas por força de</p><p>uma importante mobilização da sociedade. Em toda a parte se detectam sinais</p><p>inequívocos de que as pessoasjá se aperceberam de que não cabe só ao Estado a</p><p>tarefa de zelar pelos cidadãos, nomeadamente os menos favorecidos.</p><p>Multiplicam-se as iniciativas particulares, de caráter religioso ou não, voltadas</p><p>para o atendimento dos marginalizados de toda a sorte.</p><p>Meninos de rua, mães solteiras abandonadas, idosos desamparados,</p><p>drogados e dependentes de toda a natureza, doentes sem assistência encontram</p><p>aqui e ali a mão fraterna a lhes oferecer o auxílio necessário. As paróquias estão</p><p>regurgitando de pessoas prontas a ajudar. Ao visitar algumas fiquei</p><p>agradavelmente surpreendido com a riqueza humana da total disponibilidade</p><p>em ofertar o tempo e o trabalho em prol de irmãos isolados dos benefícios</p><p>mínimos da civilização. Pessoas idosas vêm se devotando aos seus irmãos</p><p>desamparados, seja mercê de trabalho voluntário, seja mesmo criando</p><p>instituições beneficentes.</p><p>Tal situação é reveladora de um descompasso entre o poder e a comunidade.</p><p>O poder se mantém isolado de sua fonte primacial, o povo. Este acordou para o</p><p>exercício efetivo da solidariedade. Isto no instante em que o poder se vem</p><p>revelando bem menos sensível do que o desejável para os desafios configurados</p><p>na iníqua situação de milhões de brasileiros. Neste sentido, o divórcio é</p><p>auspicioso, com a sociedade mordendo o bridão e caminhando distante do</p><p>Estado ainda indolente ante a magnitude dos desafios. O ideal seria a soma das</p><p>forças. Até que tal ocorra o divórcio é desejável que se prolongue.</p><p>A sociedade deu a partida para a superação da injustiça social gritante em</p><p>que vivemos. Os índices recentemente revelados no relativo à distribuição de</p><p>renda nos situa em posição inferior à da Bolívia e do Paraguai. Não é preciso</p><p>dizer mais no tocante à vergonhosa posição em que nos encontramos.</p><p>Os meios de comunicação não cessam de nos bombardear com informações</p><p>sobre a crise financeira que se abateu sobre nós que, de resto, tem contornos</p><p>mundiais. Não há como obliterar sua importância. Mas será que em nome desta</p><p>crise cabe ao país o total abandono das grandes prioridades humanas com que</p><p>nos defrontamos?</p><p>As crises são fecundas em oportunidades para a busca de alternativas mais</p><p>elevadas para a vida dos homens e das instituições. Elas nos convidam à</p><p>meditação que, há três séculos, Pascal nos advertia ser bem difícil para o</p><p>comum dos mortais. Hoje, quando somos massacrados pela mídia, impõe-se o</p><p>resguardo mínimo para descermos ao nosso interior e aí encontrarmos as forças</p><p>recônditas com que sempre saberemos enfrentar as dificuldades e vencê-las.</p><p>Filosofia, artes, letras, música, religiões devem ser conclamadas para dar o seu</p><p>recado, ao lado das medidas econômicas que o momento impõe. Neste dia</p><p>compreenderemos que somos maiores do que as crises financeiras, em tudo</p><p>superiores aos pseudovalores traduzidos em moeda corrente. É a marcha</p><p>vitoriosa do humanismo que, no seio dos homens, há de superar as mazelas</p><p>fugazes e passageiras que em demasia nos atormentam, quando bem alhures</p><p>residem os desafios lançados à nossa face.</p><p>Jornal do Commercio, 19.11.1998.</p><p>NOTAS</p><p>1 Ex-presidente impedido: referência ao ex-presidente Fernando Collor de Mello, que governou o</p><p>Brasil de 1990 até 1992, quando sofreu impeachment.</p><p>2 Atual ocupante do Palácio do Planalto: referência ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que</p><p>governou o Brasil de 1995 a 2003.</p><p>H</p><p>Com a palavra, o Poder Legislativo:</p><p>uma festa do Direito</p><p>á 2.500 vagas de juízes no país. No entanto, não faltam faculdades</p><p>de Direito. A ilação que se impõe é de que carecemos de</p><p>instituições que ministrem um ensino das letras jurídicas de</p><p>qualidade e a função não mais atrai candidatos de melhor nível em face dos</p><p>baixos vencimentos em vigor. Cabe, pois, festejar a criação, no último dia 23 de</p><p>agosto, de um novo centro de Direito da Universidade Gama Filho, em plena</p><p>Candelária, com um corpo docente de primeira categoria.</p><p>Para inaugurar o novo polo de irradiação do Direito, realizou-se solenidade,</p><p>que contou com a presença de expoentes dos vários ramos da ciência do</p><p>Direito, dentre os quais destacamos os antigos ministros do Supremo Tribunal</p><p>Federal Célio Borja e Oscar Dias Corrêa. A fala principal coube ao ministro</p><p>Carlos Magno da Silva Veloso, presidente do Supremo Tribunal Federal.</p><p>Partindo do exame da situação da justiça em termos quantitativos, o</p><p>renomado jurista referiu cifras preocupantes. Funcionam no país 11.500juízes</p><p>de primeira instância, cerca de 2.000 desembargadores e 100 ministros do</p><p>Supremo e dos Tribunais Superiores. A permanência do déficitjá indicado</p><p>atesta a fragilidade dos cursos jurídicos que, em grande número, deixam muito</p><p>a desejar, levando os magistrados a reprovar em massa os candidatos à carreira,</p><p>por total insuficiência de competência.</p><p>A relação entre o número de juízes e os jurisdicionados varia de país a país e</p><p>de região para região. A média internacional é de 1 juiz para 7.000 habitantes.</p><p>Entre nós, em Minas, por exemplo, esta média ascende à casa dos 25.000,</p><p>sendo de 22.000 habitantes por juiz a média nacional. Na Alemanha, a relação</p><p>é de 1 para cada 3.000 habitantes.</p><p>O aumento desmesurado do número de ações decorreu da nova cidadania</p><p>bosquejada pela Constituição de 1988 e ainda da pletora de medidas</p><p>provisórias emitidas pelo Poder Executivo.</p><p>A situação bem grave se torna ainda mais crítica se examinarmos o número</p><p>de feitos submetidos a cada magistrado e aos tribunais. O Supremo Tribunal</p><p>Federal julgou 30.000 processos em 1998, mas remanescem à espera</p><p>dejulgamento mais 45.000, uma vez que 22.000 novos processos se somaram</p><p>aos que ainda não puderam ser julgados até o fim do ano passado. É um</p><p>exemplo cujo perfil se estende a toda a justiça, em seus diversos níveis.</p><p>E qual a razão de tamanho descompasso? O Ministro Veloso alinhou uma</p><p>série de causas da tragédia configurada na lentidão nunca desmentida da</p><p>tramitação dos feitos submetidos ao Poder Judiciário. Em vez de buscar evasivas</p><p>de caráter corporativista, o presidente do Supremo cuidou mais avisado falar</p><p>francamente sobre as mazelas por todos apontadas e reconhecidas, visando</p><p>também indicar as vulnerabilidades do fluxo na distribuição da justiça. E</p><p>pregou com propriedade uma revisão da atual cisão entre as fases de cognição e</p><p>de execução dos feitos.</p><p>A formação dos juízes deveria pressupor estudos específicos, mercê de</p><p>frequência às escolas da magistratura, à semelhança do que ocorre com os</p><p>diplomatas. Para seguir os condignos e, vencida a fase de preparação,</p><p>ingressariam automaticamente na carreira. Assim, teríamos juízes moldados,</p><p>tudo à feição das superiores atribuições inerentes à relevante tarefa de que tanto</p><p>esperam as sociedades.</p><p>De resto, o formalismo excessivo das leis processuais, e mesmo sua</p><p>irracionalidade, se alinha, em primeiro plano, no elenco de dificuldades com</p><p>que se defronta o Poder Judiciário. Basta seguir o curso de uma simples ação de</p><p>despejo. Com relativa facilidade, ela poderá ocupar todas as instâncias. Da</p><p>sentença do juiz do cível, haveria interposição de apelação para o tribunal de</p><p>justiça ou de alçada (quando houver); a via crucis do vencedor da ação não</p><p>pararia aí; embargos de declaração seriam eventualmente interpostos. De</p><p>ocasional denegação de seguimento de novo recurso especial ou constitucional,</p><p>poderia haver agravo de instrumento, respectivamente, para o Superior Tribunal</p><p>de Justiça e para o Supremo Tribunal Federal. E, ainda, novos embargos</p><p>declaratórios... Este longo percurso nos levaria a volver à necessidade imperiosa</p><p>do robustecimento do efeito</p><p>vinculante da jurisprudência do Supremo Tribunal</p><p>Federal e dos tribunais superiores. Seria, aliás, a solução para o respeito devido</p><p>ao princípio de isonomia, impossibilitando decisões conflitantes sobre idênticas</p><p>situações de fato e de direito.</p><p>É de advogar-se ainda a adoção do ônus para a sucumbência recursal, com a</p><p>absorção dos honorários advocatícios a serem pagos pelo perdedor na sentença</p><p>de primeira instância, por exemplo.</p><p>O competente ministro do STF propôs dois instrumentos a mais: a arguição</p><p>de relevância e o recurso constitucional. Sem falar numa ideia reveladora de sua</p><p>sensibilidade cultural, ao reconhecer a imperiosa necessidade de</p><p>jurisprudências regionais, que bem atenderiam às peculiaridades de cada</p><p>região, em que a cultura local teria preeminência nas decisões de cortes de</p><p>unificação da jurisprudência que a tanto valeriam os tribunais de justiça.</p><p>No relativo ao Conselho Nacional da Magistratura, o ministro Veloso</p><p>defendeu a sua criação, sem interferências indébitas na autonomia do</p><p>PoderJudiciário. Assim, o órgão seria integrado por ministros do Supremo e de</p><p>tribunais superiores, desembargadores, juízes de primeira instância e</p><p>representantes da Ordem dos Advogados do Brasil. Um corregedor-geral teria</p><p>por assim dizer carta branca para intervir onde quer que se fizesse indispensável</p><p>sua atuação para a plena normalização dos serviços judiciários.</p><p>É a hora de atentarmos para as lições que um douto magistrado oferece à</p><p>consideração do Poder Legislativo, ao qual incumbe constitucionalmente a</p><p>tarefa de dotar o país das leis que obviarão os inconvenientes apontados, que</p><p>muito afligem a cidadania brasileira.</p><p>Está com a palavra o Poder Legislativo, não fazendo sentido delimitar-se a</p><p>cobrança ao Poder Judiciário, vítima maior da perplexidade do Poder</p><p>Legislativo, aparentemente inativo ante a urgência da adoção das medidas</p><p>legislativas aptas a solver o grande desafio. Seria o caso de aqui recordar a</p><p>palavra de um filósofo: “O pessimismo cessa sempre que encetamos a ação.”</p><p>Jornal do Commercio, 26.08.1999.</p><p>A</p><p>Cinquentenário do Estado de Israel*</p><p>cademia Brasileira de Letras se engalana para celebrar o</p><p>cinquentenário do Estado de Israel. Qual a especificidade desta data</p><p>histórica? Em que sentido cabe</p><p>destacar o nascimento de um Estado e lhe festejar a efeméride quando já se</p><p>eleva a quase duas centenas o número de países que moldam o colar desta</p><p>geografia mutável com que convivemos?</p><p>Cuidamos que Brasil e Israel marcaram sua presença na história de maneiras</p><p>opostas. Nosso país inverteu a ordem natural das coisas ao deixar emergir em</p><p>seu itinerário os primeiros vagidos do Estado antes que a nação se houvesse</p><p>estruturado. Os primeiros sinais da civilização mal se haviam manifestado e já o</p><p>Estado, pressuroso, se viu embrionariamente implantado com a vinda do</p><p>primeiro governador-geral.</p><p>Síntese de nossa evolução às avessas encontramos no pensamento do</p><p>Senador Vergueiro: “Todos sabemos bem que as agitações que têm havido entre</p><p>nós (...) procedem de havermos antecipado a nossa organização política à</p><p>social.”</p><p>Só o tempo, que dá consistência às civilizações, irá modelando a formação</p><p>nacional.</p><p>Israel percorreu outro caminho. Como nação, a história lhe registra a</p><p>presença há quase quatro milênios. E os judeus se espalharam pelo planeta na</p><p>diversidade de seus idiomas, de suas culturas, de suas geografias. Mas eles se</p><p>reconhecem como judeus. Como salientou Golda Meir1, “não é apenas uma</p><p>questão (...) de prática e observância religiosas. Para mim, ser judeu significou</p><p>ter orgulho de ser parte de um povo que manteve sua identidade distinta por</p><p>mais de 2.000 anos, a despeito de toda dor e tormento que lhe foram infligidos.</p><p>Aqueles que foram incapazes de aguentar e que tentaram abandonar seu</p><p>judaísmo fizeram-no, acredito, à custa de sua própria identidade básica”. Não</p><p>se trata de um vínculo acidental, de uma qualidade aposta ao sujeito. É um</p><p>sinete ontológico. É o mesmo tecido que os assimila e que se encontra na</p><p>identidade de cultura, de religião, de nação. Reconheceu-o Montesquieu, ao</p><p>assentir que “nada se parece mais a um judeu da Ásia do que um judeu</p><p>europeu”.</p><p>Mas o que é uma nação? Assentiu Renan que “uma nação é uma alma, um</p><p>princípio espiritual. Duas coisas que, na verdade, são uma coisa que constituem</p><p>essa alma, esse princípio espiritual. Uma está no passado, a outra no presente.</p><p>Uma é a posse em comum de rico legado de lembranças; a outra é o</p><p>consentimento atual, o desejo de viver em comum, a vontade de continuar a</p><p>fazer valer a herança que recebemos indivisa”.</p><p>A nação judaica sobreviveu a todas as hecatombes, venceu óbices havidos</p><p>como intransponíveis. A discriminação que colheu ao longo do tempo não lhe</p><p>arrefeceu o ânimo de teimar em manter a personalidade, em sustentar a sua</p><p>cultura.</p><p>Cumpre registrar nas páginas da história a presença injustificável do</p><p>antissemitismo. Em parte, a hostilidade decorreu do entrechoque entre uma</p><p>religião monoteísta e as confissões pagãs marcadamente politeístas. Assinale-se</p><p>ainda que o povo judeu se vem caracterizando por uma união acendrada que</p><p>oferece, por vezes, a ideia de um intento de viver uma vida própria e isolada.</p><p>Mas a questão se explica mais adequadamente em virtude dos séculos de</p><p>preconceito alimentado em diversos meios não cristãos e mesmo cristãos ao</p><p>povo judeu.</p><p>No Século das Luzes, o século XVIII, é que as comunidades cristãs antes</p><p>impregnadas de sectarismo se deram conta da injustiça de que vitimavam os</p><p>judeus. Neste particular, a França oferece-nos um exemplo especial, com a obra</p><p>célebre do abade Henri Grégoire2, Essai sur la régénération physique et morale</p><p>des juifs3, premiada pela Academia de Metz, em 1788.</p><p>Mais tarde, surgirão as teorias racistas, a volver ao processo discriminatório.</p><p>A emergência do darwinismo social é, em grande parte, responsável pelo surto</p><p>de racismo na cultura do século XIX, e sua ação negativa se fará sentir de forma</p><p>trágica em nosso século, que levou tal ideário ao paroxismo. A luta pela</p><p>existência como princípio conduziu à justificação do direito do mais forte. Tais</p><p>ideias se viram absorvidas pela direita e pela esquerda. Autores como Georges</p><p>Vachet de Lapouge, Madison Grant, Ludwig Gumplowicz e Otto Animon</p><p>difundiram as novas ideias, cujo caráter antidemocrático era patente. Assim</p><p>sejustificavam todas as formas de imperialismo, servidas por uma ideologia</p><p>nitidamente burguesa. O liberalismo, o parlamentarismo, as ideias igualitárias</p><p>ou o internacionalismo, reza Joachim Fest, consideravam-se verdadeiros</p><p>atentados à lei natural e espontâneas consequências da mistura de raças.</p><p>A obra pioneira dessa corrente anti-humanista se deve ao Conde Gobineau</p><p>que, em 1853, lançaria seu Essai sur 1’inégalité des races humaines4. Segundo</p><p>ele, somente a raça branca teria o predomínio da força criadora. Negros,</p><p>amarelos e mestiços em geral passaram a ser havidos como sub-raças, produtos</p><p>da perda gradativa e crescente do ímpeto original da raça superior. Em estudo</p><p>muito recente, L. Beaulne define o racismo como “uma doutrina, teoria ou</p><p>ideia segundo a qual diferenças raciais determinam diferenças culturais e sociais</p><p>ejustificam as desigualdades sociais”. É o paralelismo ou mesmo um liame</p><p>causal que se reconhece entre dados tipicamente hereditários de marca racial e</p><p>modelos de personalidade, de comportamentos culturais e sociais. Segundo o</p><p>mesmo ensaísta, podemos detectar nomeadamente três teses basilares do</p><p>racismo: 1º) os agrupamentos humanos podem ser discernidos cultural, social e</p><p>psicologicamente com fulcro nas configurações genéticas; 2º) os fatores</p><p>genéticos em tela se classificam por maneira a identificar raças puras; 3º) o</p><p>comportamento individual é determinável pelos caracteres hereditários rígidos e</p><p>estáveis inerentes à raça pura. É a assertiva dogmática que vincula o</p><p>comportamento cultural e social às características físicas inatas e imutáveis.</p><p>Em 1899, Houston Stewart Chamberlain, inglês que se naturalizou alemão,</p><p>publicará</p><p>a famosa obra nuclear do racismo europeu: Die Grundlagen des 19</p><p>Jahrhunderts5. Para ele, a história europeia apenas será compreendida à luz da</p><p>batalha racial. Em minuciosa pesquisa busca explicar os eventos históricos e as</p><p>fases decisivas do evolver humano com fundamento num racismo delirante. Por</p><p>exemplo, a decadência do império romano resultou, para o citado escritor, da</p><p>mistura de raças. Esta senda foi trilhada em doses maciças de paranoia por</p><p>Alfred Rosenberg, o medíocre ideólogo do nazismo.</p><p>A antropologia e a etnologia nos ensinam, com Wilton Marion Krogman,</p><p>que “não há raças puras; não há raças superiores ou inferiores. Sabemos pela</p><p>história que todos os povos, ao entrarem em contato, cruzaram seus traços</p><p>físicos de base genética. Sabemos pela anatomia humana que em sua estrutura</p><p>fundamental todos os povos são idênticos”.</p><p>Ninguém ignora o elevado preço em vidas humanas, em mutilações, em</p><p>torturas de toda espécie que a humanidade pagou às teorias raciais e suas</p><p>brutais consequências. Particularmente o povo judeu, disperso pelo mundo,</p><p>constituiu uma de suas vítimas prediletas. Milhões se viram arrancados de seus</p><p>lares, na calada da noite, e deportados como gado para levar a cabo a solução</p><p>final, concebida nas oficinas da malignidade em que se transformou o regime</p><p>que atormentou o planeta em seus doze anos de vigência absoluta. A ponto de</p><p>gerar a palavra de Theodor Adorno, filósofo alemão da Escola de Frankfurt,</p><p>para quem, depois de Auschwitz, não se poderia mais idoneamente falar em</p><p>Filosofia. É o grito de desespero que deram Dietrich Bohnhoeffer, Paul</p><p>Landsberg, Alfred Delp, antes de aquietarem suas almas para a libertação final</p><p>com fé e confiança. Exemplos de heroísmo de judeus, de cristãos sulcaram o</p><p>teatro da catástrofe e hoje nos revelam que, inversamente à maldade</p><p>institucionalizada pelo bárbaro regime, surgiu uma plêiade de seres humanos</p><p>que, morrendo, nos legaram imortais lições de fé e de esperança. Maximiliano</p><p>Kolbe, Edith Stein escreveram com seu sangue páginas memoráveis ante o</p><p>horror que então manchava a civilização e poluía a cultura.</p><p>No Leste, o Gulag por igual punha em realce, com os famosos expurgos, a</p><p>mesma dialética evidenciando que os totalitarismos se encontram na esquina da</p><p>histórica com métodos idênticos e visando unicamente o poder absoluto.</p><p>Karl Lowith sentencia que a ideia de progresso, base das concepções</p><p>filosóficas da história, surge da esperança bíblica no cumprimento das</p><p>promessas divinas, no eschaton6. O sentido dado aos eventos humanos</p><p>promanou da fé na salvação. A opacidade do fato histórico se transmudou em</p><p>dinamismo teológico. A Weltgeschichte7 se viu substituída pela</p><p>Heilsgeschichte8.</p><p>Poucas civilizações podem ufanar-se de haver ultrapassado tantos obstáculos,</p><p>no fluir de milênios. Os passos tímidos dos judeus, nos primórdios de sua</p><p>história, nos falam de perseguições, de exílios, de expulsões. Enfim, de</p><p>sofrimentos inauditos, a cinzelar um pugilo de homens e mulheres, que</p><p>timbraram em sustentar sua cultura e, quando os fados o permitiram,</p><p>retornaram à terra prometida e lhe deram o respaldo de sua fé religiosa e do</p><p>reconhecimento explícito de sua identidade.</p><p>À primeira vista, discernimos a religião e a política como se foram domínios</p><p>distantes que não guardam qualquer relação entre si. Para realçar o elo entre</p><p>ambas cumpre volver a Schopenhauer que, em seu opusMagnum9, Die Welt als</p><p>Wille und Vorstellung10, sustenta que “o corpo não é senão a vontade</p><p>objetivada, tornada perceptível (...) Eu o chamarei a objetividade da vontade”.</p><p>Aplicando o mesmo pensamento à fronteira entre religião e política, poderíamos</p><p>repetir com Yves Ledure que “o poder político se torna a objetividade da</p><p>consciência religiosa”.</p><p>Muitas perplexidades no estudo da densa problemática de demarcação de</p><p>limites entre os dois campos perderiam seu ímpeto caso atentássemos para o</p><p>conceito de objetivação. Mas a universalidade de uma religião resultará</p><p>precisamente da superação de seu espaço geográfico, ao se radicar no tecido</p><p>mesmo do homem e na abertura à Transcendência que o espreita.</p><p>Há três momentos a serem pinçados na rica trilha histórica do judaísmo.</p><p>Remontando a quase 4 mil anos, registra-se a presença do grande patriarca</p><p>Abraão, acolhendo a visão histórica de longo percurso do povo eleito. Em 1250</p><p>a.C. emerge a figura de Moisés, a quem os judeus devem sua libertação das</p><p>garras da escravidão e o reencontro com a terra prometida. Abraão firmara a</p><p>Aliança com Deus, de que decorreu a legião de seres humanos que pervadem os</p><p>espaços do planeta há muitos séculos. No Êxodo, Moisés ora a Iahweh para</p><p>assegurar o futuro do povo judeu: “Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaac e</p><p>Israel, aos quais juraste por ti mesmo dizendo: Multiplicarei a vossa</p><p>descendência como as estrelas do céu, e toda a terra que vos prometi, dá-la-ei a</p><p>vossos filhos para que a possuam para sempre.”</p><p>No ano 135 d.C., houve a diáspora, depois da destruição do templo de</p><p>Salomão, ocorrida no ano 70. E ela se estende pelos séculos afora, germinando</p><p>a cultura judaica por todos os recantos do planeta, e modelando uma civilização</p><p>que insistia em perdurar. Foi-se evidenciando que osjudeus se adestravam pelo</p><p>saber a marcar presença. Em todos os domínios da atividade humana reconhece</p><p>a história o peso cultural do judaísmo e a sua marcante contribuição ao</p><p>progresso científico, literário, artístico e tecnológico. Basta lembrar alguns</p><p>nomes, que alinhamos assistematicamente, apenas para sublinhar que, sem o</p><p>apport da culturajudaica, o mundo ficaria bem mais pobre e, provavelmente, a</p><p>velocidade do progresso teria o seu ritmo acentuadamente reduzido. O povo</p><p>judeu vem oferecendo à humanidade, ao longo do tempo, vultos notáveis que só</p><p>engrandeceram o patrimônio cultural comum. Cientistas, artistas, literatos,</p><p>filósofos, teólogos de alto coturno vincaram sua passagem pela cultura graças à</p><p>sua genialidade ou às virtudes excepcionais que ostentaram. Não nos</p><p>arreceamos de sustentar que a ausência de tais expoentes judeus empobreceria</p><p>significativamente o teor de criatividade da humanidade como um todo.</p><p>Bastaria citar, na filosofia, Moisés Maimônides, Baruch Spinoza, Henri</p><p>Bergson, Edmund Husserl, Karl Popper, Narina Arendt, Martin Buber,</p><p>Emmanuel Lévinas, Ludwig Wittgenstein, Max Scheler; na medicina, Albert</p><p>Sabin; na psicanálise, Sigmund Freud, Alfred Adler, Viktor Frankl; na música,</p><p>Gustav Mahler, Arnold Schenberg, George Gershwin; na pintura, Marc Chagall</p><p>e Amedeo Modigliani; na literatura, Saul Bellow, Franz Kafka; nas ciências</p><p>sociais, Lévi-Strauss e Émile Durkheim; na linguística, Noam Chomsky; na</p><p>física, Albert Einstein. Cite-se ainda Walter Benjamin, disputado por vários</p><p>domínios, e Trotsky, o rebelde russo, e teremos oferecido uma pequena mostra</p><p>da contribuição expressiva dos judeus em diversificados domínios da cultura.</p><p>Volvendo aos quase 4 mil anos que nos separam de Abraão, ao ano 1250</p><p>a.C., com a presença marcante de Moisés, a 135 d.C. com a diáspora e ao dia</p><p>14 de maio de 1948, dia da criação do Estado de Israel e estaremos marcando</p><p>as datas que formam a moldura histórica da evolução de uma nação ao encontro</p><p>com o Estado que haveria de cinzelar, a fim de corporificar um elo que se</p><p>tramara nas curvas sinuosas da historicidade de cada judeu e na história comum</p><p>de sofrimento que lhes consolidou a crença religiosa e a fé no porvir da terra</p><p>que lhes deu origem.</p><p>No cinquentenário do Estado de Israel, assim se pronunciou, o Rabino</p><p>Henry I. Sobel: “Israel não só tirou o judeu do exílio, como também tirou o</p><p>trauma do exílio de dentro do judeu.”</p><p>Se no dia 14 de maio de 1948 foi criado o Estado de Israel, a Casa de</p><p>Machado de Assis não pode obliterar que, em 10 de dezembro do mesmo ano,</p><p>um de seus numes tutelares, o ínclito e saudoso presidente Austregésilo de</p><p>Athayde, discursou em Paris, antes de apor a sua assinatura à famosa carta dos</p><p>direitos humanos. É sobre tais princípios que repousa o reconhecimento do</p><p>Estado de Israel,</p><p>pelo que se nos afigurou indispensável a menção ao papel</p><p>desempenhado pelo nosso confrade na consolidação filosófico jurídica da</p><p>convivência entre os homens e as nações.</p><p>Os judeus têm uma tradição de trabalho. Reconheceu-o Balzac: “Está no</p><p>espírito das pessoas provenientes do campo jamais abandonar o seu ganha-pão,</p><p>e nisso se assemelham aos judeus.”</p><p>Nada os detém nesta longajornada aparentemente sem fim, antes do</p><p>reencontro com a terra de origem. Disse-o George Sorel: “A lenda do judeu</p><p>errante é o símbolo das mais altas aspirações da humanidade, condenada a</p><p>caminhar sempre semjamais conhecer o repouso.”</p><p>O percurso histórico do povo judeu viveu um momento especial, quando da</p><p>emergência do sionismo. Tratava-se do anseio de regresso ao lar, à terra de</p><p>Israel. O movimento iniciou-se na segunda metade do século passado.</p><p>Chamou-se Chibat Tzion. Efetivamente, viria a ganhar consistência em 1897,</p><p>graças à ação vigorosa de Theodor Herzl, jornalista vienense. Forjado no final</p><p>do século passado, o termo sionismo concerne ao escopo de restabelecer uma</p><p>vida judaica autônoma na velha pátria bíblica, isto é, em Jerusalém. Não se</p><p>tratou de umjudaísmo religioso. Seu objetivo era nitidamente voltado para os</p><p>elementos nacionais, como reconhecimento de que os judeus formam um povo.</p><p>É a normalização da vida dos judeus por meios políticos.</p><p>Não cuida o sionismo clássico de dar curso ao profetismo judaico, ao seu</p><p>caráter messiânico, mas de dotar os judeus de uma terra, a Eretz Israel, para</p><p>fazer cessar o nomadismo gerado nas oficinas das perseguições religiosas e</p><p>étnicas.</p><p>Theodor Herzl sorveu a experiência do affaire Dreyfas, como jornalista, e,</p><p>em Viena, irá amadurecer a ideia basilar de sua vida, a criação do Estado de</p><p>Israel como lastro geográfico e político do povo judeu. O I Congresso Sionista</p><p>teve lugar na Basileia, em 1897, e se firmou em torno de alguns princípios. 1º)</p><p>o princípio do judaísmo nacional: a questão judaica é uma questão nacional;</p><p>2º) o princípio da negação da Galút (exílio): a questão judaica não pode ser</p><p>solucionada no exílio; 3º) o princípio do esforço coletivo: “um povo não pode</p><p>ser ajudado senão por si mesmo; se ele se revela incapaz, ninguém pode ajudá-</p><p>lo” (Herzl); 4º) o princípio da continuidade histórica: o lugar da concentração</p><p>territorial não pode ser senão a terra histórica dos judeus, a Palestina.</p><p>Já durante a I Guerra Mundial, os corifeus do sionismo haviam logrado</p><p>importante apoio mercê da declaração oficial do Reino Unido, Lord A.L.</p><p>Balfour, que afirmou: “O governo de Sua Majestade (britânico) considera com</p><p>boa vontade a criação de um lar nacional na Palestina para o povo judeu e</p><p>desenvolverá todos os esforços para a realização deste objetivo.”</p><p>A aspiração ao retorno à terra original se revelou pela primeira vez pelos</p><p>judeus exilados na Babilônia há 2.500 anos. Rezam os Salmos: ‘Junto aos rios</p><p>da Babilônia nos assentamos e choramos, lembrando-nos de Sion.”</p><p>Somente em 14 de maio de 1948, a Organização das Nações Unidas, então</p><p>sob a presidência do brasileiro Oswaldo Aranha, decretou a genuína</p><p>independência de Israel, ao declarar: “A terra de Israel é a terra natal do povo</p><p>judeu. Aqui se formou sua identidade espiritual, religiosa e política. Foi aqui</p><p>que, pela primeira vez, os judeus se constituíram em um estado, criaram valores</p><p>culturais de significação nacional e universal e deram ao mundo o eterno Livro</p><p>dos Livros.”</p><p>Em seu diário, escreveu Theodor Herzl: “Em Basileia, fundei o Estado</p><p>judeu. Se eu disser isso hoje, serei alvo de risos. Mas talvez daqui a cinco anos, e</p><p>certamente daqui a cinquenta, todos o verão.” Meio século depois, Ben Gurion,</p><p>depois de pigarrear, disse tranquilamente: “Lerei agora o Pergaminho da</p><p>Independência.” E adiante, leu o parágrafo fundamental: “(...) Nós, membros</p><p>do Conselho Nacional, representando o povo judeu na Terra de Israel e o</p><p>movimento sionista mundial, reunidos em solene assembleia hoje, dia do</p><p>término do Mandato britânico para a Palestina, e em virtude dos direitos natural</p><p>e histórico do povo judeu, e da resolução da Assembleia Geral das Nações</p><p>Unidas, proclamamos, por meio desta, o estabelecimento de um Estado</p><p>judeu na Terra de Israel - o Estado de Israel.” Comentando este momento</p><p>histórico, Golda Meir, em autobiografia, escreveu: “O que quer que acontecesse</p><p>agora, qualquer que fosse o preço que qualquer um de nós teria de pagar por</p><p>isso, havíamos recriado o lar nacional judaico.” O desdobramento, por vezes</p><p>cruento e penoso, iria atestar a verdade das palavras da grande líder de Israel.</p><p>Depois de forçado a exilar-se de sua terra, o povo judeu lhe permaneceu fiel</p><p>em todos os países de sua dispersão, nunca deixando de orar e de ter esperança</p><p>de a ela regressar e restabelecer sua liberdade política.</p><p>Sionismo não é conceito unívoco. Desdobra-se em correntes múltiplas de</p><p>pensamento, salientando os diversos escaninhos de compreensão de sua riqueza</p><p>conceitual. Conforme sustentou Moisés Hess em sua obra Roma e Jerusalém,</p><p>editada em 1844, “dois períodos forjaram o desenvolvimento da civilização</p><p>judaica: o primeiro, após a libertação do Egito, e o segundo, o retorno da</p><p>Babilônia. O terceiro ocorrerá com a redenção do terceiro exílio”.</p><p>O surgimento do sionismo político se deveu ao fracasso da Hascalá, o</p><p>iluminismo judaico. Isto porque a garantia das questões da emancipação e da</p><p>igualdade individuais pressupunham o nascimento de emancipação e igualdade</p><p>entre as nações. Em outras palavras, para o sionismo político a</p><p>autodeterminação judaica passou a se constituir no objetivo central do povo</p><p>judeu disperso e perseguido.</p><p>A oposição árabe ao projeto do sionismo se acentuou na última década antes</p><p>da decretação do Estado de Israel. Daí a recomendação da ONU, de 29 de</p><p>novembro de 1947, de que dois estados seriam estabelecidos - um judeu, outro</p><p>árabe.</p><p>Há que se falar num sionismo liberal, outro socialista e um terceiro,</p><p>religioso. O que explica as correntes políticas e culturais que permeiam ainda</p><p>hoje a vida de Israel.</p><p>O pai do sionismo sempre entendeu que a vinda pura e simples dos judeus</p><p>ao território que historicamente lhes cabia há séculos, como preconizou o</p><p>movimento pré-sionista Chabat Tzion, não resolveria o problema global dos</p><p>judeus. Impunha-se uma carta assecuratória para a entidade judaica nacional na</p><p>terra de Israel. Para Theodor Herzl, a utopia socialista seria a solução para o</p><p>desafio do paradoxo de um pequeno território em face de milhões de judeus</p><p>espalhados por todos os quadrantes do planeta.</p><p>O antissemitismo grassava, nomeadamente na Europa. Herzl contrapõe ao</p><p>mesmo o seu Judenstaat, publicado em 1896, em que sustentou que o</p><p>antissemitismo somente seria vencido pelo estabelecimento de um Estado</p><p>judeu. O imaginário do escritor austríaco casou-se com a realidade meio século</p><p>mais tarde.</p><p>David Ben Gurion, horas antes do término do mandato britânico, proclama</p><p>alto e bom som a consecução do sonho da volta dos judeus à terra prometida,</p><p>agora o Estado de Israel, que se torna o 59º membro da ONU. Estrutura-se o</p><p>novo Estado, Ben Gurion torna-se chefe do governo de coalizão e Chaim</p><p>Weizmann é eleito primeiro Presidente. Acordos de armistícios são assinados</p><p>com o Egito, Jordânia, Síria e Líbano. Instala-se o Parlamento, o Knesset. A</p><p>população orça pelos 872.700 habitantes, dos quais 156.000 não judeus.</p><p>Muitas guerras vêm marcando o itinerário ainda sofrido do povo judeu,</p><p>cercado de milhões de árabes, no meio dos quais pululam grupos terroristas.</p><p>Gradativamente, o mundo se vai habituando à nova realidade da criação do</p><p>Estado de Israel e Pio XI,já em 1937, assevera que “nós somos espiritualmente</p><p>semitas”; em 1964, o Papa Paulo VI visita Israel. O diálogo político e religioso</p><p>se aprofunda com João Paulo II, que timbrou em repisar que os judeus são os</p><p>nossos irmãos mais velhos.</p><p>As manchas do passado de discriminação vão se apagando das páginas da</p><p>história e Israel é uma exuberante realidade política a unir cidadãos do mundo,</p><p>antes dispersos graças</p><p>à incompreensão de muitos estados poderosos e, na</p><p>modernidade, em virtude da brutalidade da “solução final” decretada pela</p><p>paranoia nazista.</p><p>Ao assimilar a massa de imigrantes, Israel adotou uma política impeditiva do</p><p>pós-modernismo. Após a guerra dos seis dias, o país se aproximará do modelo</p><p>ocidental de democracia liberal.</p><p>Papel saliente desempenhou a volta do hebraico nas escolas como grande</p><p>fator de unidade nacional.</p><p>A população da Diáspora judaica está se reduzindo e a populaçãojudaica</p><p>israelense aumentando. Hoje, dos 17 milhões de judeus do mundo, um em</p><p>cada três vive em Israel, com uma apreciável renda per capita de 17.000</p><p>dólares. A esta altura, o país se vai consolidando crescentemente, mas a</p><p>identidade se manifesta de forma surpreendente quando se pergunta, no meio</p><p>da disputa entre ortodoxos e leigos, como cada judeu se define. 34%</p><p>responderam “judeu”; 30%, “israelense”; e 30% se consideram “judeu e</p><p>israelense”.</p><p>O Estado de Israel persiste em seu seguro processo de afirmação nacional,</p><p>mesmo havendo vencido os óbices resultantes da Guerra Fria. Para sustentar-se,</p><p>teve de suportar os efeitos perversos da luta entre as então superpotências, bem</p><p>assim os arreganhos oriundos das nações árabes. Sua força reside na união</p><p>indefectível de seus irmãos de ideal nacional e religioso. O Estado de Israel não</p><p>tem o direito de ser frágil. Seu destino é a vigilância permanente.</p><p>O pequenino território de Israel, de superfície semelhante ao do estado de</p><p>Sergipe, se afirma na história do século XX e nos promete presença</p><p>crescentemente pujante no século vindouro, pois a riqueza da cultura judaica é</p><p>patrimônio da humanidade. O Estado de Israel vem resistindo aos seus</p><p>adversários, com fé e determinação de ocupar o espaço geográfico que lhe foi</p><p>prometido há milênios. Este espaço recebeu para os judeus o condimento do</p><p>sagrado e persiste sempre no ar a pergunta: “Qual o perigo menor a enfrentar?”</p><p>A nossa esperança é que sobrevenha o dia em que judeus e palestinos se</p><p>deem as mãos e vivam no Oriente Próximo a aventura de uma vida de plena</p><p>conciliação e de harmonia. Que os extremistas de ambos os lados percam a</p><p>batalha do radicalismo são os votos de todos os homens de boa vontade.</p><p>O sacrifício do povojudaico, especialmente retratado no Holocausto, legou-</p><p>nos um acervo histórico de luta pela sobrevivência dos valores em que se lastreia</p><p>a Terra Prometida, da qual o mundo espera novas luzes que dela advirão na</p><p>direção da paz, da concórdia e da riqueza espiritual pelas quais todos ansiamos.</p><p>Amém! Shalom!</p><p>* Conferência proferida na Academia Brasileira de Letras, em 17.09.1998, na sessão solene em</p><p>homenagem aos 50 anos da criação do Estado de Israel.</p><p>NOTAS</p><p>1 Golda Meir (1898-1978): primeira-ministra do Estado de Israel de 1969 a 1974.</p><p>2 Henri Grégoire (1750-1831): sacerdote e político francês.</p><p>3 Essai sur la régénérationphysique et morale des juifs: Ensaio sobre a regeneração física e moral dos</p><p>judeus.</p><p>4 Essai sur Einégalité des races humaines: Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas.</p><p>5 Die Grundlagen des 19 Jahrhunderts: Os fundamentos do século XIX.</p><p>6 Eschaton: Dia do Juízo Final.</p><p>7 Weltgeschichte: história do mundo.</p><p>8 Heilsgeschichte: história da Salvação.</p><p>9 Seu opus Magnum: sua grande obra.</p><p>10 Die Welt als Wille und Vorstellung: O Mundo como Vontade e Representação.</p><p>Filosofia e Ciências</p><p>A</p><p>História e Filosofia*</p><p>vida apenas inaugurou o meu itinerário e já a História ocupou um lugar</p><p>privilegiado, nomeadamente a História do Brasil. Rocha Pombo, João</p><p>Ribeiro, Max Fleuiss eram devassados pelo olhar ainda imaturo da minha</p><p>puberdade. Outros mais marcaram presença em minha curiosidade incipiente e</p><p>como “on revient toujours au premier amour”1, o percurso filosófico encetado</p><p>haveria de fixar adiante as amarras na história das ideias.</p><p>Vi-me surpreendido pela eleição para sócio honorário deste tradicional</p><p>Instituto. Ao aceitar a distinção, cuido necessário sublinhar que não me filio aos</p><p>apologistas da humildade fenomênica. A surpresa promanou da larga e profícua</p><p>tradição da Casa no âmbito da pesquisa histórica de elevado corte, domínio a</p><p>que em princípio não me venho devotando.</p><p>O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro não é apenas a casa de tradição</p><p>quase bissecular. É sobretudo o locus da preservação do patrimônio cultural do</p><p>País, sem com isto se apegar ao tradicionalismo dos filósofos franceses Louis de</p><p>Bonald, de Lamennais e de Joseph de Maistre. Antes, forceja a instituição maior</p><p>dos estudos históricos em vitalizar os data, fazendo reviver o acervo amealhado,</p><p>para bem delinear o retrato do Brasil em seus contornos mais expressivos.</p><p>Aquiesci em me juntar a tão ilustre família de historiadores e geógrafos graças</p><p>à competência suasória de seu presidente, o brilhante e devotado historiador</p><p>Arno Wehling, a quem particularmente agradeço a oração com que</p><p>generosamente me abre de par em par as portas da Casa do Barão do Rio</p><p>Branco, de Pedro Calmon e de Américo Lacombe, para citar apenas três dentre</p><p>os muitos eminentes patrícios que dirigiram e honraram o Instituto e lhe</p><p>apontaram rumos prenhes de um porvir glorioso. Tive o privilégio de integrar o</p><p>corpo docente da Pontifícia Universidade Católica e o Conselho Federal de</p><p>Cultura, ao tempo em que Pedro Calmon e Américo Lacombe em ambos</p><p>espargiam munificentemente sua vasta cultura.</p><p>Aojustificar a escolha, ponderou o atual timoneiro da instituição que</p><p>cientistas sociais, filósofos e especialistas de outras áreas do conhecimento</p><p>poderiam oferecer contribuição destinada a ampliar o horizonte dos estudos</p><p>empreendidos. Minha anuência se deveu nomeadamente à consciência</p><p>crescente de que o conhecimento interdisciplinar pede insistentemente</p><p>passagem como imperativo do desmesurado progresso a que todos, atônitos,</p><p>assistimos.</p><p>Talvez a razão maior de aqui ter convosco se deva à minha trilha de cultor da</p><p>filosofia. Havendo mergulhado no universo sem limites do pensamento</p><p>humano, pude colher os frutos da criação no plano especulativo, dedicando-me</p><p>com pertinácia durante décadas à História da Filosofia e à Metafísica. A vivência</p><p>contribuiu para atestar a relevância das ideias que, no entendimento de</p><p>Bochenski2, governam o mundo.</p><p>Cumpre dirigir-vos uma palavra de agradecimento ante a significação do ato</p><p>fidalgo. Agradecimento é vinco de perfil humano voltado para o exercício</p><p>diuturno da intersubjetividade, da reciprocidade das consciências. É sinete de</p><p>sentimento consistente acrisolado nos silêncios da reflexão solitária e</p><p>prospectivamente solidária. Vislumbro no plenário rostos conhecidos e</p><p>fraternos, preludiando a sensação de familiaridade que me envolve no instante</p><p>em que cruzo o limiar deste egrégio Instituto, palmilhado em seu itinerário de</p><p>glórias por numes tutelares da nacionalidade.</p><p>O vínculo da Casa ao País e à sua identidade lhe marcaram o retrato</p><p>institucional, por maneira a aqui vicejar o patriotismo como semente</p><p>desenvolvida em terra nativa. Este traço por demais me atraiu sempre a atenção</p><p>para a entidade e antecipou a edificação da ponte cultural e afetiva como</p><p>Instituto.</p><p>O momento que hoje vivemos é de transição histórica. Após o registro de</p><p>baixa estima que domina o cenário nacional, com surtos de euforia, numa</p><p>comprovação de nossa ciclotimia estrutural, o horizonte nos há de acenar</p><p>adiante com nova fase do processo evolutivo de afirmação do País, situado em</p><p>patamar mais consentâneo com o amadurecimento de nossa autoconfiança. No</p><p>caso, trata-se de conquista que se insinua nas dobras da alma pátria, em que a</p><p>cidadania nos promete dias de maior presença no mais fundo da consciência.</p><p>Não se poderá idoneamente delinear o quadro que nos antecipa um futuro</p><p>mais denso e promissor sem que cuidemos de lastrear a cidadania no regaço</p><p>acolhedor do conceito de pessoa. Somos cidadãos porque somos seres pessoais</p><p>que, suplantando o nível dos instintos e automatismos, vemos se nos</p><p>entreabrirem os caminhos de um possibilismo ontológico sem o qual nos</p><p>cingiríamos</p><p>a seres regidos pelas leis necessitastes da natureza.</p><p>Cabe sublinhar que a historicidade de cada homem configura</p><p>frequentemente uma tensão entre a subjetividade e os impactos oriundos do</p><p>convívio social. Homens e instituições se defrontam a cada passo com esta</p><p>dialética constitutiva da realidade do ego e das entidades que lhe prolongam a</p><p>presença. Os capítulos que ornam o itinerário pessoal não obedecem a um</p><p>ritmo ditado pela logicidade previsível. Deixam-se visualizar na sinuosidade que</p><p>assinala simultaneamente a liberdade individual e as forças criativas da</p><p>sociedade.</p><p>No mapa dos saberes, a História se situa num centro de captação e de</p><p>irradiação. É uma espécie de Treffpunkt3 de múltiplas ciências e artes, uma vez</p><p>que, ao que parece, a disciplina privilegiada se abre maviosamente a quase</p><p>todos os domínios do humano conhecimento. Já a Historiografia revela a</p><p>riqueza metodológica e hermenêutica de seu percurso.</p><p>Parece-nos necessário acrescer uma palavra sobre o ensino de História.</p><p>Qualquer que seja a visão pedagógica em que nos firmemos, a História</p><p>contribuirá para a formação da criança e dojovem. É infelizmente demasiado</p><p>frequente em nossos dias tisnados de imediatismo indagar: “Para que serve a</p><p>História?” A pergunta guarda semelhança com a que se formula na antessala da</p><p>filosofia. Ocorre que já Aristóteles nos ensinou que estamos em face de uma</p><p>pseudoquestão.</p><p>Não basta nos refugiarmos no biombo da indiferença ante a magnitude do</p><p>problema. Impende encará-lo como desafio constante a merecer adequada</p><p>resposta. A criança e o jovem preservam a espontaneidade da admiração que</p><p>Platão situa na raiz do filosofar. E como conceituar a própria educação senão</p><p>como o cultivo da espontaneidade e da criatividade? Pela História, podem eles</p><p>maravilhar-se ante o presente e o passado e tomar consciência da herança que</p><p>lhes foi legada. Não basta a compreensão. Urge coroá-la com a expressão para</p><p>que se consolide o edifício histórico.</p><p>Há que realçar o caráter pedagógico da História. Como magistra vitae4, ela se</p><p>revela na riqueza e variedade de suas escolas.</p><p>A propósito, assinala Diderot5 que “instruir uma nação, é civilizá-la”. E</p><p>mais: “a ignorância é a partilha do escravo e do selvagem, a instrução dá</p><p>dignidade ao homem.” E nenhum outro saber abarca o horizonte complexo e</p><p>diversificado da história a fim de oferecer ao homem o claro perfil de seu evolver</p><p>na temporalidade em que está inserido.</p><p>A História nos remete ao passado, selando o nosso espaço com o aceno da</p><p>nacionalidade. Inculca-nos o sentimento pátrio, a que se adicionam por vezes</p><p>pitadas de chauvinismo. É indispensável pelo menos certa dose deste veio um</p><p>tanto egocêntrico dos habitantes de um país, para se manter a identidade</p><p>nacional. Forçoso é convir que se impõe, particularmente num mundo sulcado</p><p>de globalização, uma abertura a outras culturas para que o confronto lance mais</p><p>luz sobre o evolver dos homens em sua marcha ascensional em direção de seus</p><p>destinos.</p><p>É bem de ver que o passado, segundo Henri Gouhier6, é o presente sem</p><p>presença. O passado da humanidade há de ser revivido nos limites da</p><p>possibilidade de subtraí-lo ao império absoluto do presente. A reconstituição</p><p>dos fatos e das suas circunstâncias se impõe a quantos se abalançam à</p><p>nobilitante tarefa de, revivendo o caminhar dos homens, das instituições e das</p><p>nações, tomar consciência da continuidade dentro da descontinuidade</p><p>histórica.</p><p>Constitui esforço louvável, mas nem sempre bem-sucedido, o de volvermos o</p><p>olhar para o passado. Ocorre que o polígrafo italiano Benedetto Croce não crê</p><p>na viabilidade de um retorno nos dias que se foram definitivamente. Para ele, o</p><p>passado não pode constituir objeto da História: “toda história verdadeira é</p><p>história contemporânea”, para acrescentar: “a contemporaneidade não constitui</p><p>caráter de uma classe de histórias (...) mas caráter intrínseco de toda e qualquer</p><p>história”.</p><p>Não faltaria razão ao pensador peninsular caso perseguíssemos o ideal de</p><p>uma reconstituição do passado como pasmado, numa reedificação de seu viver,</p><p>de seu pensar, de seu sentir. A tarefa seria inglória, uma vez que, na acertada</p><p>opinião de Paul Ricoeur, “a história não tem por ambição de fazer reviver, mas</p><p>de recompor, de reconstituir, isto é, de compor, de constituir um encadeamento</p><p>retrospectivo”.</p><p>A História é “o passado tão distante quanto o conhecemos”, sentenciou V.H.</p><p>Galbraith. Comentando a assertiva, obtemperou Henri-Irénée Marrou: “Toda</p><p>meditação sobre o destino da humanidade é ilegítima se ela não é acompanhada</p><p>de um esforço de reflexão sobre as condições nas quais foi obtido o</p><p>conhecimento sobre o qual se edifica esta meditação.”</p><p>À História incumbe muito especialmente a missão de ensinar à juventude a</p><p>distinguir a verdade de seus simulacros, a não ceder ante os rogos por vezes</p><p>insistentes da mera propaganda ou aos acenos das ideologias, a tomar</p><p>consciência do valor inestimável das heranças com que fomos aquinhoados. E é</p><p>na mocidade que se encontram as raízes do desempenho maior dos que se</p><p>afirmaram na história dos homens. É o que nos ensina Alfred de Vigny7: “O</p><p>que é uma grande vida? Um pensamento da mocidade, vivido na idade</p><p>madura.” Ciências, artes, letras e filosofia se defrontam no limiar da História</p><p>para lhe compor o cenário global. Sim, a História é uma ciência da totalidade,</p><p>não enquanto reflexão voltada para uma cosmovisão, mas perquirição a salientar</p><p>os meandros em que o homem evolveu ao longo do tempo, com suas cicatrizes e</p><p>pegadas plantadas no solo do real fugidio.</p><p>A História propicia o encontro dos homens com a alma nacional, ensejando,</p><p>outrossim, a compreensão das conexões entre nações e povos, civilizações e</p><p>culturas, neste caleidoscópio que assinala indelevelmente a riqueza e diversidade</p><p>das explicitações humanas na duração temporal.</p><p>O conteúdo histórico deve ser discernido da obra histórica. Nele, a realidade</p><p>fala por si mesma, ensejando uma distinção entre descrição e explicação. O elo</p><p>entre o fato e sua interpretação pode levar-nos a um envolvimento sistemático</p><p>que, em estado puro, nos conduz a um abstracionismo histórico totalmente</p><p>indesejável. Isto porque, quanto mais nos adentramos num sistema para</p><p>explicar os fatos históricos, corremos o risco de esvaziar a essência da realidade</p><p>histórica e nos quedarmos perplexos ante a rigidez da compreensão que nada</p><p>tem a ver com a complexidade e leveza dos fatos na sua singularidade. Mas</p><p>igualmente cingirmo-nos à lembrança simplória do passado asfixiaria a riqueza</p><p>de captação de seu conteúdo, consoante o assenso de Gotthold Ephraim</p><p>Lessing8: “A história não deve limitar-se à memória, mas deve iluminar o</p><p>intelecto.”</p><p>Registre-se que o dado histórico se situa invariavelmente no âmbito do</p><p>humano, pois apenas o ser humano dispõe do atributo histórico. Sendo</p><p>humana, a história não pode cingir-se a uma logicidade plena, cabendo-lhe a</p><p>tarefa de acompanhar as oscilações do comportamento do homem e as</p><p>modulações das conjunturas sociais que lhe são conaturais.</p><p>Há uma aparente contradição entre a singularidade do fato histórico e a</p><p>universalidade perseguida pela razão. A rigor se trata de uma antinomia a ser</p><p>captada, pois se é verdade que não pode haver ciência de indivíduo, não é</p><p>menos verdade que os fatos registrados nos arquivos históricos gozam de</p><p>atributos que os discernem dos demais não incrustados no patrimônio da</p><p>História. Isto porque a emergência da história se dá nos limites dos actus</p><p>humani, suplantando obviamente a esfera restrita dos actus hominis. E a</p><p>universalidade perseguida se radica na natureza humana. A rigor, inexiste</p><p>história sem a ontologia da pessoa.</p><p>A História não se sustém, caso não a encaremos em seus fundamentos. E</p><p>falar em fundamentos é acenar para o fértil domínio da história da filosofia.</p><p>Contudo, há que se falar de um paradoxo da história, como asseverou Hegel: “A</p><p>ideia que, a respeito de uma história da filosofia, não pode de pronto</p><p>apresentar-se a nós, é que desde logo este próprio objeto</p><p>comporta uma</p><p>contradição interna. Pois a filosofia se propõe conhecer o que é imutável, eterno,</p><p>em si e por si. Seu escopo é a verdade. Mas a história narra o que ocorreu num</p><p>determinado tempo, desapareceu num outro, e foi alcançado por um outro. Se</p><p>nós partimos então do fato de que a verdade é eterna, então ela não cabe no</p><p>domínio do que passa, e ela não tem história. Mas se ela tem uma história, e</p><p>portanto esta história consiste em nos expor uma sequência de formas passadas</p><p>do conhecimento, então não se pode nela encontrar a verdade; pois a verdade</p><p>não é algo que ocorreu.” Daí poderia decorrer a indagação: acaso a história da</p><p>filosofia não é uma escola de ceticismo? Sabemos que Hegel ultrapassou a</p><p>dificuldade, afiançando que a distinção entre os sistemas de filosofia há de ser</p><p>concebida “num sentido totalmente diverso daquele da oposição abstrata entre</p><p>a verdade e o erro”.</p><p>Cuidamos haver uma imbricação entre a história e a filosofia. Ao ventilarmos</p><p>a problemática histórica não podemos fugir dos problemas filosóficos, ao</p><p>mesmo passo que, filosofando em obediência aos parâmetros da temporalidade</p><p>em que estamos inseridos, não nos seria lícito descartarmo-nos da história.</p><p>A história é o referencial necessário à compreensão da presença humana no</p><p>frágil planeta em que nos foi dado viver. Nosso século apreendeu a prioridade</p><p>da compreensão da história para a captação do real humano. Daí porque os</p><p>sistemas especulativos do século passado porejavam história. Salienta com razão</p><p>o historiador italiano Enrico de Michelis que “as grandes filosofias do século</p><p>XIX estão profUndamente compenetradas do pensamento da historicidade do</p><p>ser”.</p><p>As “res gestae” (as realizações) não se confundem com a “historia rerum</p><p>gestorum” (história das realizações), de caráter descritivo ou narrativo. E</p><p>também nos cumpre diferençar a narração histórica do jornalismo. Frisou</p><p>André Gide: “Eu chamo jornalismo tudo aquilo que será menos interessante</p><p>amanhã do que hoje.”</p><p>Francis Bacon distinguia três tipos de história: a natural, a humana e a</p><p>sagrada. A história humana é que terminou por se impor como a história. A</p><p>distinção entre as duas primeiras, a natural e a humana, poderia conduzir-nos a</p><p>negar a natureza humana. O homem passaria a ser o resultado de um processo,</p><p>sem que se lhe reconhecesse um núcleo ontológico capaz de resistir às</p><p>flutuações do devir histórico. A história se adstringiria às “res gestae”, enquanto</p><p>por História entenderíamos a Historiografia, domínio que ultrapassa o</p><p>empirismo absoluto que foge a qualquer interpretação ou hermenêutica.</p><p>Considerada como disciplina, a História abrange domínio vasto e</p><p>diversificado. Consoante o sentir de Juan Zaragüeta9, há que discernir a</p><p>Historiografia que se vota ao estudo da realidade para “descobri-la e descrevê-</p><p>la”, a Historiologia “para explicá-la pelas leis fisio-psicossociológicas (...) sem</p><p>excluir a causalidade transcendente ou teológica” e a Historiosofia “na dupla</p><p>condição de processos imanentes e de pretensões transcendentes no passado”,</p><p>nela inspirando o comportamento voltado para o porvir.</p><p>Para o historiador Wilhelm Bauer, cumpre apartar a historiografia narrativa,</p><p>que se prende à poesia, mercê da forma de comunicar os memorabilia; a</p><p>historiografia pragmática, que Tucídides desenvolveu, suplantando o desenho</p><p>histórico de Heródoto; a historiografia genética e mesmo orgânica; e a</p><p>historiografia sociológica, que ensejou uma visão global do fenômeno histórico.</p><p>As múltiplas perspectivas de encarar a realidade histórica enriqueceram</p><p>sobremodo a disciplina, que atravessou o Rubicon da anemia hermenêutica</p><p>para pervadir o campo da compreensão.</p><p>A complexidade histórica encerra em seu bojo os protagonistas e os</p><p>epígonos, os modelos e os chefes, título de uma obra de Max Scheler. Todos</p><p>portam a condição de seres pessoais. A noção de pessoa se insere plenamente no</p><p>tecido da história que é, antes de tudo, a história dos homens. Como indivíduo</p><p>ou como pessoa, o ser humano se adentra na floresta diversificada da história.</p><p>Como ser autônomo ou como ser dependente do todo social, caminhamos</p><p>todos na senda da história desenhando a nossa historicidade.</p><p>Cabe aqui segregar o mundo das coisas do mundo das pessoas. O primeiro</p><p>merecerá registro como referencial advindo da passagem dos homens na terra</p><p>firme do real. Sinais de presença humana, os objetos que habitam os museus</p><p>somente colhem seu sentido na medida em que refletem o ciclo evolutivo dos</p><p>passos do homem na configuração da realidade humana cunhada nas brumas</p><p>da duração temporal e, portanto, da História.</p><p>Se a História consigna, antes de mais nada, o roteiro do homem em sua</p><p>singularidade, não há como descartar a imperiosa presença das instituições em</p><p>seu desenvolvimento. Até porque o homem se projeta nas instituições,</p><p>consolida-se quando as cria e se perpetua em seu seio. As instituições acolhem</p><p>pressurosas o anseio de perenidade do homem, assegurando-lhe a continuidade</p><p>temporal que os limites da vida biológica interditam. Para as modalidades de</p><p>paroxismo individualista, o papel das instituições na tessitura da trama histórica</p><p>é relegado ao ostracismo. Consultando os arcanos da vida humana, que se fixam</p><p>na descrição histórica, as instituições emergem espontaneamente como</p><p>corolários naturais e consectários da inserção institucional no tecido da história.</p><p>Isto porque o anelo humano de seguir existindo, com a consciência da finitude</p><p>existencial, impele o homem a se projetar numa instituição. Pelo que ela parece</p><p>amparar-lhe a imortalidade que a biologia nega peremptoriamente. Não há</p><p>como estruturar a senda histórica sem recurso às instituições de toda espécie</p><p>com que se emoldura o quadro referencial da história in genere.</p><p>No plano jurídico, bem se percebe a relevância da instituição como ideia de</p><p>obra vinculada a uma finalidade, servida por um patrimônio. É o</p><p>institucionalismo de Maurice Hauriou10 e Georges Renard11. O patrimônio</p><p>histórico é integrado pelos bens duráveis de caráter humano, enquanto</p><p>prolongam o agir dos homens e lhes desenham o perfil existencial.</p><p>A história, a partir de meados do século passado, pareceu lastrear-se</p><p>convictamente nos textos, nos documentos. Sua análise se apresentava com</p><p>consistência científica. Era manifesto o seu caráter romântico. Fustel de</p><p>Coulanges12 envereda por esta trilha: “A história é uma ciência; ela não imagina,</p><p>ela vê (...) ela consiste como qualquer outra ciência em verificar os fatos, em</p><p>analisá-los, em aproximá-los, em lhes descobrir o encadeamento. O historiador</p><p>(...) procura e atinge os fatos pela observação minuciosa dos textos como o</p><p>químico encontra os seus em experiências cuidadosamente conduzidas.” Em</p><p>síntese: “O método histórico é o mesmo que o das outras ciências da</p><p>observação.” O texto se transformou na matéria-prima do historiar. O que levou</p><p>Langlois e Seignobos a assentirem que “a história se faz com documentos”.</p><p>Notória é a perplexidade ante tal paroxismo, uma vez que o passadojá nos</p><p>permitia conviver com a numismática e com a arqueologia. Por igual o gosto</p><p>pela arquitetura medieval se acentuara desde os irmãos Boisserée, na Alemanha,</p><p>Mérimée e Viollet-le-Duc, na França Emergiu a impressão de carência de</p><p>harmonia entre os saberes no âmbito da história. Particularmente na França se</p><p>irá cimentando estreita aproximação com as letras, em face da formação</p><p>intelectual advinda da École Normale Supérieure.</p><p>Os fatos que constituem o núcleo central da empiria histórica distanciarão a</p><p>história da filosofia. Gabriel Monod13, em 1876, irá precatar a história do</p><p>apriorismo possível dos sistemas eventualmente inspiradores do seu métier. O</p><p>que importa em adentrar-se na heurística. A crítica interna e externa</p><p>transparecem do quehacer histórico e cifram a sua área de abrangência.</p><p>O questionamento da delimitação do campo histórico não poderia tardar. E</p><p>foi na Alemanha que se partiu para esta empreitada, com Georg Simmel,</p><p>Wilhelm Dilthey e Max Weber. Na França, com Raymond Aron se buscou</p><p>a</p><p>fronteira da objetividade histórica. A opacidade dos fatos não resistiu à</p><p>perquirição do filósofo. O que levou Roger Mehl14 a afirmar que “como não há</p><p>matéria propriamente histórica, porque a história não é definida por um</p><p>conteúdo próprio, mas todo o passado da humanidade pertence à história, o</p><p>historiador tem que renunciar a atribuir ao fato histórico outra especificação que</p><p>não seja a sua singularidade temporal (...) no historiador uma tendência que</p><p>nem sempre é suficientemente posta em evidência: é a afirmação não</p><p>homogênea das partes do tempo”.</p><p>A rigor, havemos de reconhecer que os fatos acabam por se escoar nas</p><p>aparências que afinal nos conduzem suavemente a uma imagem do mundo.</p><p>Não há como negar que os “fatos” constituem escolhas do historiador, que os</p><p>pinça levado por uma forma sub-reptícia de visualizar a realidade em seu</p><p>conjunto. É o ponto de encontro entre a objetividade com que se defronta o</p><p>historiador e o campo aberto de seu pensamento inspirados. O a priori e o a</p><p>posteriori se apropinquam nesta ingente tarefa de reconstruir o passado sob a</p><p>égide de um pensamento assimilado e que problematiza e totaliza os meandros</p><p>de uma realidade diversificada e rica. Raymond Aron15 insiste em afiançar que</p><p>a realidade histórica é equívoca e inesgotável.</p><p>O historicismo ameaça a consistência do edifício histórico. Confirma-o</p><p>Aron: “O evolucionismo se transmudou em historicismo no dia em que os dois</p><p>valores sobre os quais se lastreia a confiança do século XIX, a ciência positiva e</p><p>a democracia, e no fundo o racionalismo, perderam seu prestígio e autoridade.</p><p>O irracionalismo arrastou consigo o pessimismo: a História não tem um fim,</p><p>por isso é que o homem não tem destinação e que, sempre semelhante a si</p><p>mesmo, ela cria vãmente obras efêmeras.”</p><p>Lucien Febvre16 foi um dos responsáveis pela desmitificação da história. E</p><p>Aron sintetiza esta vertente fecunda: “O conhecimento histórico já não consiste</p><p>em contar o que se passou segundo os documentos escritos que foram</p><p>conservados por acaso, mas sabendo o que queremos descobrir e quais são os</p><p>principais aspectos de toda a coletividade, põe-nos em busca de documentos</p><p>que nos abrirão as portas do passado.”</p><p>Muito da originalidade da história em nosso século promanou da Nouvelle</p><p>histoire, nascida em 1929, com um grupo que editou a revista Annales17. Dele</p><p>participaram Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel, Georges Duby,</p><p>Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie.</p><p>A história narrativa se viu substituída pela história-problema. Ampliou seu</p><p>território para as atividades humanas, não se cingindo à história política. A visão</p><p>global levou o grupo a receber o apport de outros saberes, como a geografia, a</p><p>sociologia, a psicologia, a economia, a linguística, a antropologia social e assim</p><p>por diante. Braudel chegou a sustentar que lhe cumpria “provar que a história</p><p>pode fazer mais do que estudar jardins murados”.</p><p>No fundo, a história almejou escapar da visão pura do poder. Tratou-se de</p><p>descobrir as amplas camadas complexas do existir humano. O homem e suas</p><p>virtualidades.</p><p>Na evolução em três fases de sua existência, a Escola dos Anais, partindo da</p><p>verdadeira guerra contra a história tradicional, a história política, a história dos</p><p>eventos, passando por uma reformulação conceitual, com Fernand Braudel e a</p><p>vigência das ideias de estrutura e conjuntura e ainda de história serial, chega a</p><p>1968, nitidamente fragmentada.</p><p>Eric Hobsbawm18 se refere a uma nouvelle vague da historiografia francesa,</p><p>o período em que primou a orientação advinda do grupo dos Annales. A escola</p><p>atribuía caráter científico à história, visualizada como uma ciência infieri. Daí</p><p>decorreu o debate crítico com as ciências sociais, a exportadora de métodos,</p><p>estruturas, conceitos e técnicas. A história mira o itinerário das ciências sociais,</p><p>mas essas descuram a história.</p><p>Sem dúvida, houve a ambição de se chegar a uma global síntese histórica do</p><p>social. As figuras exponenciais cederam seu posto. É a era das mentalidades</p><p>coletivas. Além disso, a fonte documental perdeu a quase exclusividade, com a</p><p>emergência do recurso à tradição oral. É faceta da escola a pluralidade dos</p><p>níveis de temporalidade, porque o plano mental evolui mais lentamente do que</p><p>o econômico.</p><p>A Escola dos Annales encarava o passado como ensejo à sua interrogação, a</p><p>partir do presente. A história-problema tende a iluminar o presente. Pierre</p><p>Chaunu critica a vertente cara a Fernand Braudel, por entender que ele criou</p><p>uma história quase imóvel. É a história de longo alcance ou de larga duração.</p><p>Talvez se possa recordar aqui a ideia agostiniana do tempo. O bispo de</p><p>Hipona traça o perfil da história, ao ventilar a complexa e aliciante questão do</p><p>tempo. Disse o mestre cristão: “Nós não dispomos senão deste instante para o</p><p>passado, para o futuro, para o presente e para a eternidade.” Configura-se</p><p>nitidamente o desafio de refletir hic et nunc sobre o ontem e o amanhã e o</p><p>sempre. É partindo da categoria do instante, como encruzilhada entre os planos</p><p>contingente e necessário, que colhemos a riqueza do real fugidio que intenta</p><p>escapar à nossa compreensão de homens do sempre hoje.</p><p>As últimas décadas volvem à história socioeconômica e à história</p><p>sociocultural. Uma análise pretensamente mais profunda da história conduz-</p><p>nos inevitavelmente à história da filosofia. E bem de ver que ela se nos apresenta</p><p>na multiplicidade de seus enfoques parciais. Inicialmente, vemo-la como um</p><p>emaranhado de sistemas que, no fundo, sustentam as mesmas ideias, mercê de</p><p>roupagens distintas. É um mesmo conjunto, apenas explicitado em modulações</p><p>que oferecem a aparência de uma unicidade sistemática. No fundo, se trata de</p><p>uma forma nada lógica de admitir a similitude até dos contrários, uma vez que</p><p>não se reconhecem as peculiaridades dos sistemas em suas afirmações</p><p>peremptórias de individualidade. É o sincretismo delirante que transforma a</p><p>história numa colcha de retalhos para melhor visualizá-la como uma pretensa</p><p>unidade sistêmica.</p><p>Para o sincretismo, todos os sistemas filosóficos, se retirarmos a película</p><p>terminológica que os encobre, apresentarão as mesmas ideias. É atitude idêntica</p><p>à dos que, no domínio da teologia, asseveram que todas as religiões dizem a</p><p>mesma coisa e, a esse título, negam especificidade, menos ainda prioridade, a</p><p>qualquer delas.</p><p>Perguntaríamos, porém, como compaginar esta tese com a realidade</p><p>diferencial dos sistemas e escolas filosóficas? Então não há diferença entre o</p><p>espiritualismo e o materialismo, entre um sistema que reconhece no homem um</p><p>princípio superior a toda a matéria e um outro que delimita o ser humano às</p><p>conjunturas espaço-temporais deste mundo? Acaso se pode identificar o</p><p>determinismo e o fatalismo de um lado, com todo o cortejo de vinculações da</p><p>vontade, seja à necessidade inexorável do destino, seja à onipotência do último</p><p>juízo prático da inteligência, seja à lenta evolução da matéria em sua marcha</p><p>inexorável e imprevisível, com o indeterminismo, também chamado livre-</p><p>arbitrismo, quando postula a capacidade humana de se inclinar livremente por</p><p>uma alternativa, sem outra razão que não seja a existência desse mesmo poder</p><p>de optar?</p><p>Opera-se com a emergência do sincretismo um modo de escapismo</p><p>filosófico, que nos permite manter uma alienação especulativa sob o disfarce</p><p>mal costurado de uma geleia real das ideias. Quem sabe não se evidencia a</p><p>presença de um eu que se refugia excessivamente em sua subjetividade, a negar</p><p>o convívio, a romper as amarras do comércio com o outro? Cuido que seria o</p><p>caso de se falar numa patologia do dom, da gratuidade, da oferta de si mesmo à</p><p>intersubjetividade. Seria o convite, não à ascese filosófica, bosquejada para o</p><p>amadurecimento e o aprofundamento da subjetividade, para adiante melhor</p><p>conviver e compreender o outro. O pretenso denominador comum obliteraria as</p><p>nuanças, os matizes diferenciais e propiciaria a superficialidade da assimilação</p><p>das ideias, sem discriminar-lhes as diferenças.</p><p>não porque quisesse fazê-lo, mas porque</p><p>não seria possível outra reação. Seus conhecimentos ultrapassavam os nossos</p><p>limites de idade e o fazia penetrar no círculo fechado dos intelectuais adultos.”</p><p>Hanns Ludwig Lippmann assim se expressou sobre a filosofia de Padilha:</p><p>“(...) ele não se contenta jamais com abordagens parciais de temas filosóficos,</p><p>mas engloba em sua visão metafísica toda a realidade acessível. Destarte, mesmo</p><p>o conceito de subjetividade parte de uma perspectiva do homem, concebido</p><p>como um todo integrado, que transcende a visão limitada de um feixe de</p><p>respostas aos acenos diversos, ditadas pelas exigências vitais do ser humano.”</p><p>Sociedade</p><p>O</p><p>O espaço público</p><p>homem não pode desvincular-se do tempo e do espaço, condições de</p><p>possibilidade de seu desabrochar e de seu realizar-se. São as coordenadas</p><p>de seu existir, as vertentes de seu percurso. Há sempre que discernir-se a</p><p>privacidade da ambiência comum. A primeira traduziria o espaço particular,</p><p>mesmo singular, de cada ser humano, levando a legislação a assegurar, por todas</p><p>as formas, a manutenção de um cordão de isolamento que a todos garanta a</p><p>circulação privatizada de seu evolver.</p><p>Os dias correm céleres em direção oposta. Hoje, até as chamadas classes</p><p>dominantes são, em parte, dominadas, uma vez que sua privacidade é invadida</p><p>pelos decibéis que lhes retiram o sossego, pela poluição de todos os tipos que</p><p>lhes interditam a possibilidade de saborear as suas próprias benesses. Isto se</p><p>deve à falta de um espaço público, que permita a todos indistintamente fruir a</p><p>natureza e os benefícios da área urbano-social. Em outras palavras, cresce</p><p>desmesuradamente uma terra de ninguém, geralmente ocupada pela</p><p>marginalidade criminosa, que detém os cordéis do poder, chegando a criar as</p><p>normas da nova forma de convivência, que ignora as leis que supostamente</p><p>teriam todos os cidadãos como destinatários.</p><p>Tudo se deve à falência da cidadania, cuja emergência é o sinal ansiado para</p><p>superar os gritantes desníveis entre as classes sociais, a gerar um clima de guerra</p><p>surda em que os poucos que tudo possuem se fecham em seu pequeno-grande</p><p>mundo aos que nada ou quase nada amealham ao longo da vida.</p><p>A sociedade está nitidamente dividida. E o que é pior, não há contato entre</p><p>os protagonistas dos dois lados da moeda social. O direito e o avesso se</p><p>ignoram. Este distanciamento cria o caldo de cultura para que o outro seja visto</p><p>como estranho, mais ainda do que estrangeiro. A desconfiança se opulenta com</p><p>o correr do tempo e planta as sementes de destruição de que todos acabarão</p><p>vítimas.</p><p>Em recente seminário promovido pela UNESCO e pela Universidade</p><p>Candido Mendes, realçou-se o crescimento do trabalho informal. O setor de</p><p>serviços estaria esmagando as indústrias, daí emergindo com plena potência o</p><p>desemprego, que passa a ser estrutural. E mais, o processo de identificação das</p><p>classes se desprende da própria cultura original e caminha na direção de uma</p><p>identificação com classes geograficamente distantes.</p><p>Número crescente de brasileiros tem como ponto de referência Miami. É a</p><p>terra prometida da vida mais à larga e do reino da fantasia. O processo de</p><p>desnacionalização se acentua perigosamente e tende ainda mais a afastar as</p><p>minorias das classes menos abonadas do conjunto da população. Os mundos</p><p>continuam a se segregar, a ponto de, adiante, ameaçar a unidade cultural do</p><p>país.</p><p>O dirigente da UNESCOJerôme Bindé sustenta que “em várias cidades do</p><p>mundo, surge um apartheid urbano-social. A geografia desse apartheid se</p><p>diferencia de uma grande cidade para outra, mas a separação está lá. Pode ser</p><p>provinda de um muro, como no Rio, em que há condomínios muito próximos</p><p>de favelas. Ou da distância, como nos Estados Unidos, em que os subúrbios</p><p>ficam muito longe.”</p><p>O antropólogo Arjun Apadurai, da Universidade de Chicago, refere a</p><p>“tremenda pressão social em direção à violência” que o adensamento da</p><p>população miserável representa. E recorda o exemplo emblemático de</p><p>Bombaim em que dez milhões de pessoas vivem nas mais precárias condições,</p><p>perambulando pelas ruas, sem qualquer tipo de assistência da sociedade.</p><p>A globalização apenas vem agravar tal estado de coisas, pois se abre a todas as</p><p>formas de domínio pela via do capital e alui as bases axiológicas das</p><p>comunidades que ficam assim sem referenciais normativos para o seu agir</p><p>coletivo. Daí a sangria do individualismo exacerbado, em que cada qual se</p><p>“defende” como pode. Os desmandos detectados em órgãos do poder refletem</p><p>simplesmente as tradições predatórias de nossas origens, o nepotismo estrutural,</p><p>mas também a terra de ninguém em que vivemos. É que não existe um espaço</p><p>público para a livre circulação das pessoas, para o seu trabalho e o seu lazer. O</p><p>espaço público tornou-se o espaço perigoso, em que não se reconhecem os</p><p>direitos da cidadania.</p><p>Já é hora de absorvermos as lições da história, que atestam irrefragavelmente</p><p>a necessidade de tratamento igualitário entre os membros da coletividade, sob</p><p>pena de sua desagregação. O reconhecimento da igualdade ontológica de todos</p><p>os seres humanos deve prevalecer sobre interesses globais ou não.</p><p>A magnitude das cidades tende a olvidar o valor-pessoa. Só a volta à</p><p>simplicidade do viver dos bairros dentro da megalópole terá o condão de</p><p>esvaziar a bomba-relógio em que a grande cidade se transformou. E tal escopo</p><p>somente poderá ser atingido no momento em que a cidadania deixar de</p><p>constituir um flatus vocis, mera palavra vazia de sentido, para a todos impor</p><p>limites ético-jurídicos em que o respeito ao outro prevalece.</p><p>Evitar que as pessoas sejam esmagadas pelos processos de globalização e de</p><p>adensamento populacional das megalópoles é um dos magnos desafios deste fim</p><p>de milênio.</p><p>Jornal do Commercio, 20.05.1999.</p><p>O</p><p>Meninos de rua</p><p>olhar de uma criança equivale a uma recriação do mundo. Fala-nos da</p><p>pureza e da espontaneidade que estão na raiz da harmonia e do avanço da</p><p>humanidade. Pois sem a admiração e a curiosidade infantis, ausentes amiúde</p><p>das mentes amadurecidas e endurecidas pelo tempo, o ser humano teria o seu</p><p>itinerário cristalizado em categorias lógicas.</p><p>É chocante verificar-se o grau de insensibilidade das elites ante o drama</p><p>diuturno de centenas de crianças totalmente entregues a si mesmas, quando</p><p>ainda não lhes foi ofertada a oportunidade de assimilar valores fundantes de</p><p>suas personalidades em pleno desabrochar.</p><p>Cumpre um aceno de alívio ante a providência tomada pelo juizado de</p><p>menores de expedir carteiras de identidade para 932 menores de rua, dos quais</p><p>cerca de 70% têm pai e mãe, apenas biológicos, com certeza. Prevê-se punição</p><p>para os responsáveis maiores por essas crianças que, como enxames, percorrem</p><p>as ruas como vadios, nômades. Nada se fez para educá-los. Neles prevalece a</p><p>única lei que conhecem: a lei da selva. A reportagem de O Globo informa que,</p><p>além da carteira de identidade, “os menores cadastrados receberam cartões</p><p>eletrônicos, que têm no verso telefones de instituições de assistência à infância e</p><p>à adolescência, caso precisem de algum socorro”.</p><p>A notícia é acompanhada por uma estatística macabra: em seis meses, 247</p><p>meninos foram assassinados; e de 1991 até agora, 4.844 meninos morreram de</p><p>forma violenta. E nós continuamos dormindo o sono dos justos(?).</p><p>É certo que aqui e ali pessoas de boa vontade nos oferecem exemplos</p><p>extraordinários de devoção à causa dos pequeninos. Há dois anos, realizou-se</p><p>um congresso internacional a respeito da momentosa questão. E então nos</p><p>vimos confrontados com edificantes testemunhos de dedicação e amor às</p><p>crianças abandonadas. Bastaria citar o caso de um padre italiano que, na Bahia,</p><p>fez construir uma fábrica de móveis e nela deu ocupação aos menores. Mais</p><p>tarde, entregou-lhes igualmente a direção do estabelecimento, para estupor dos</p><p>baianos. O resultado foi surpreendente: as crianças se recuperaram totalmente e</p><p>ainda revelaram tino empresarial.</p><p>Outro caso se deu em Medelín, na Colômbia. Lá, um engenheiro percebeu</p><p>Não menos temerária é a posição do ecletismo. Não encontrando uma</p><p>sistemática coerente, capaz de resistir à corrosão da dialética impenitente, certos</p><p>pensadores buscam uma conciliação entre asseverações antagônicas no</p><p>ecletismo.</p><p>Cada erro contém uma parcela de verdade - eis o postulado da escola. Há,</p><p>porém, uma ressalva importante - a verdade como tal é indivisível. Em outras</p><p>palavras, se os aspectos de uma mesma realidade suscitam anátemas e aplausos,</p><p>a ilação que se impõe é a de que tais aspectos, quando assinalados, representam</p><p>ideias distintas e, a esse título, verdades ou erros independentes.</p><p>Assim entendido, o ecletismo facilmente se transforma num caleidoscópio a</p><p>serviço da identificação das contraditórias e da dissolução do pensamento.</p><p>Reconheça-se a existência de um ecletismo sadio, equidistante das posições</p><p>extremas, menos escola ou sistema que atitude franca em prol da verdade. Tal</p><p>ecletismo corresponde ao dito de Aristóteles no seu famoso elogio a Platão:</p><p>“Amicus Plato, magis amica veritas’”19 e constitui veemente repúdio do critério</p><p>de evidência extrínseca propugnado pelo pitagorismo em seu célebre lema</p><p>“Magister dixit”.</p><p>O ecletismo verdadeiro, o único capaz de dinamizar o pensamento filosófico,</p><p>deve, pois, consistir na apreciação dos sistemas enquanto suscetíveis de</p><p>apresentar real contribuição para o indispensável progresso da filosofia. Buscar a</p><p>verdade em cada sistema, venha de onde vier, porquanto o argumento de</p><p>autoridade é, de todos, o mais frágil: “Locus ex auctoritate quae fundatur super</p><p>ratione humana infirmissimus est”20 - diz Santo Tomás de Aquino.</p><p>A escola veio a lume com Antiochus de Ascalon (século I a.C.), para quem</p><p>Platão e Aristóteles, a rigor, estariam de acordo quanto ao essencial. A mesma</p><p>linha foi trilhada por Simplicius, da Escola de Alexandria.</p><p>Em carta a Rémond, de 10 dejaneiro de 1714, Leibniz assentiu: “Cuidei</p><p>que a maior parte das seitas têm razão no que afirmam, mas não no que negam.</p><p>‘ Ampliando o espectro do ecletismo, J. Lefranc sustenta que “para os filósofos</p><p>das Luzes o ecletismo implica tolerância, livre exame por oposição ao espírito</p><p>de sistema ou ao fanatismo’.</p><p>Foi com Victor Cousin que o ecletismo ganhou foros de cidadania. O</p><p>filósofo perseguiu as migalhas de verdades nos sistemas, visualizando-os como</p><p>complementares. Em Portugal, o ecletismo se apresentou como mitigado, em</p><p>sua crítica à Segunda Escolástica. A escola ganhou força na implantação das</p><p>reformas pombalinas, que, no sentir de Ricardo Vélez, buscavam “incorporar a</p><p>ciência aplicada ao esforço de modernização despótica do Estado português”.</p><p>É o caráter pessoal da filosofia que constitui a um tempo sua fraqueza e sua</p><p>força. Sua fraqueza, porquanto a dependência em face de circunstâncias</p><p>fortuitas, invariavelmente presentes na urdidura com que os pensadores tecem a</p><p>própria cultura, traz-lhe, evidentemente, um matiz de contingência, bem</p><p>distante, ao menos aparentemente, do objetivo sempre confessado de apresentar</p><p>a verdade tout court. Acresce ainda salientar que muitos sistemas filosóficos não</p><p>são senão o resultado da complexidade dos fatos, das Erlebnisse21 peculiares a</p><p>cada autor.</p><p>Essa fragilidade, contudo, é oriunda somente de uma impressão superficial.</p><p>Uma visão menos perfunctória do problema concernente às vinculações</p><p>subterrâneas entre a vida e as ideias de um pensador autoriza plenamente a</p><p>conclusão de que a história da filosofia não é um repositório morto de ideias,</p><p>mas a continuidade nunca interrompida de um pensamento fecundo a serviço</p><p>da verdade. É bem de ver que os céticos de todas as épocas, testemunhas</p><p>perenes do desamor à verdade, peças obrigatórias da destruição do pensamento,</p><p>eternos iconoclastas de todas as tentativas de construção de uma autêntica</p><p>cosmovisão, atiram-se à tarefa de menosprezar o saber de que nos ocupamos,</p><p>atribuindo-lhe um vício de estrutura, uma doença letal às suas lídimas</p><p>aspirações. Obtemperam, afoitamente, que as contradições assinaladas com</p><p>frequência no mappa mundi das ideias dão azo a que se afirme a incapacidade</p><p>visceral do intelecto humano de penetrar no segredo, ou no mistério do ser, para</p><p>nos servirmos de uma expressão tão cara a Gabriel Marcel.</p><p>Esta atitude inicial tem sido objeto das mais severas críticas através da</p><p>história da cultura. Não só a história da filosofia, senão que a própria história da</p><p>cultura se sente ameaçada de soçobrar ao impacto do ceticismo. No entanto,</p><p>essa descrença quase ontológica no valor da razão como instrumento hábil do</p><p>filosofar encontrou, já num passado longínquo em Agostinho, um tenaz</p><p>demolidor. “Qui se dubitantem intelligit, verum intelligit, et de hac re quam</p><p>intelligit, certus est”22, e acrescenta incisivamente: “Quod si, allor, sum.” Se eu</p><p>me engano, existo; se duvido, se quero, se penso, se ajo, se quero acertar, é sinal</p><p>de que subsiste algo a sobrenadar dos destroços de um pensamento corrosivo.</p><p>Mais. Os princípios da razão, testemunhos silenciosos e eloquentes de nossa</p><p>real capacidade cognoscitiva, depõem invariavelmente em favor da inteligência.</p><p>Com efeito, quem nega a legitimidade da razão no trato com o real, admite ipso</p><p>facto que nega e que esta negação está nas antípodas da afirmação que se lhe</p><p>opõe. Com isso, reconhece prontamente um critério distintivo do sim e do não,</p><p>da afirmação e da negação e, assim, dá testemunho da verdade. Outros, porém,</p><p>mais sutis, refugiam-se numa atitude intermediária, quando instauram o</p><p>probabilismo. Se é certo que a extremada posição do ceticismo encontra pronta</p><p>réplica do dogmatismo, não menos certo é que há lugar para uma atitude</p><p>intermediária, feita da sabedoria do relativismo, que consiste em aceitar o</p><p>critério da verossimilhança, por descobrir nele aposição ideal. Não obstante, a</p><p>argumentação oposta mantém ainda o mesmo poder, ao estigmatizar o</p><p>probabilismo da Nova Academia no domínio por ele mesmo escolhido. É que o</p><p>provável não se situa no plano da absoluta indiferença de juízo, mas se</p><p>pronuncia, embora não atribua segurança alguma ao próprio pronunciamento.</p><p>Logo, há ainda critério de distinção e, assim, eis-nos de novo nos braços do</p><p>realismo.</p><p>Os sistemas filosóficos podem ser vistos ainda à luz de um critério</p><p>pessimista, expresso claramente no pensamento de Theodor Lessing e Ludwig</p><p>Klages e, feitas as necessárias ressalvas, também na filosofia agostiniana.</p><p>Agostinho viveu numa época em que a perspectiva histórico-cultural oferecia</p><p>o espetáculo deprimente de uma Grécia decadente. Quase dez séculos</p><p>separavam o grande bispo de Hipona dos luminares representantes da idade de</p><p>ouro da filosofia helênica. Este intervalo propiciou o nascimento de escolas e</p><p>não de sistemas, como mostra Friedrich Klimke, cujos corifeus em nada podiam</p><p>competir com a majestosa construção de Sócrates, Platão e Aristóteles. É que</p><p>infelizmente os grandes gênios têm discípulos e estes jamais enriquecem, senão</p><p>que diminuem a pujança original das ideias. Os epígonos, declara Nicolai</p><p>Hartmann, esquematizam os sistemas, preparando-os para a crítica fácil dos</p><p>autores superficiais.</p><p>É bem de ver, portanto, que Agostinho, precário conhecedor dos grandes</p><p>socráticos, sofresse a vertigem da mediocridade da época que precedia</p><p>imediatamente aquela em que viveu, daí resultando o extraordinário desencanto</p><p>que dele se apossou e de que emanou o que chamaríamos o pessimismo</p><p>agostiniano.</p><p>Agostinho, no entanto, vislumbrou uma perspectiva salvadora em seu</p><p>iluminismo, tese que tem sido objeto de longas polêmicas e interpretações.</p><p>Assim, por exemplo, Johannes Hessen descobre o ontologismo em sua</p><p>plenitude. Já Étienne Gilson interpreta o iluminismo como uma espécie de</p><p>manifestação de categorias do espírito, escoimando o agostinianismo de</p><p>quaisquer laivos de ontologismo. Maurice Blondel assevera tratar-se de um</p><p>intelectualismo exigente, interpretação bem distante das que habitualmente se</p><p>propõem. A ele ficaremos para sempre devedores de sua teoria do conhecimento</p><p>e de sua filosofia da história, com a distinção</p><p>rica e fecunda das duas cidades.</p><p>Talvez também possamos visualizar o seu opus magnum da matéria cuidando</p><p>tratar-se igualmente de uma teologia da história.</p><p>Menção necessária há de fazer-se a Giovanni Battista Vico, que intentou criar</p><p>uma nova ciência. Para ele, o conhecimento humano deve adstringir-se ao que o</p><p>próprio homem edificou. O fim deste novo conhecimento é a construção de</p><p>“uma história ideal eterna, descrita segundo a lei da Providência, segundo a</p><p>qual discorrem nos tempos todas as histórias particulares das nações em suas</p><p>aparições, progressos, estados, decadências e fins”.</p><p>Outra posição é a que se convencionou denominar de progressismo.</p><p>Condorcet, Turgot, Hegel e Augusto Comte são seus corifeus. Veem no</p><p>pensamento uma continuidade obediente à lei fundamental do progresso. O</p><p>espírito humano, dizem, progride sempre, conquistando cada vez mais</p><p>explicações sobre a natureza das coisas. Seja através do ideal acalentado pelo</p><p>Iluminismo, seja na lei sociológica dos três estados de Comte, em que o positivo</p><p>se imporá da superação dos estados teológico e metafísico, expressões</p><p>respectivas da humanidade em geral e de cada homem em particular na marcha</p><p>ascensional de conquista da natureza, seja nos lineamentos da dialética</p><p>hegeliana da contradição, em que o Espírito Objetivo caminhará perenemente</p><p>através das manifestações coartadas da Natur e do Geist, o progressismo nega a</p><p>realidade do espírito como expressão de liberdade, isto é, como capacidade de</p><p>autonomia em face da História.</p><p>Todas as concepções históricas de totalidade, que busquem nas formas</p><p>rígidas de expressão progressista a manifestação do espírito humano, esbarram</p><p>nesta realidade incontrovertível e inconcussa de um espírito imprevisível em</p><p>suas arremetidas de autoafirmação.</p><p>Na mesma linha, embora reconhecidamente superando o historicismo</p><p>estreito, vislumbramos os pensadores alemães Wilhelm Windelband e Heinrich</p><p>Rickert, verdadeiras molas propulsoras da metodologia histórica aplicada ao</p><p>domínio da filosofia.</p><p>Cumpre-nos, agora, apresentar uma tentativa de solução ao problema da</p><p>delimitação metodológica de história da filosofia em sua convivência com os</p><p>sistemas. Acreditando que, fugindo ao acriticismo de Reinhold e Tennemann e</p><p>aderindo ao conceito etiológico e crítico tão brilhantemente defendido por</p><p>Kuno Fisher, por Victor Delbos e, até certo ponto, por Ernst Bernheim, isso</p><p>sem falar no mestre francês Henri Gouhier, teremos fixado a posição ideal nesta</p><p>disciplina.</p><p>O conceito etiológico e crítico, como o próprio nome o está indicando,</p><p>traduz a ideia verdadeiramente fecunda de inventariar em ingente esforço as</p><p>ligações e nexos lógicos e históricos dos diversos sistemas e criticá-los tendo em</p><p>vista a contribuição positiva que tiverem apresentado, bem assim o saldo</p><p>desfavorável das aporias porventura existentes.</p><p>A história da filosofia deve situar-se equidistante das exagerações de uma</p><p>história e de uma filosofia pura. Há mesmo que se falar numa ambiguidade</p><p>desta disciplina, traduzida aliás de forma incisiva por Hegel. O filósofo superou</p><p>a dificuldade ao estabelecer uma dialética capaz de situar a história da filosofia</p><p>longe da oposição entre a verdade e o erro. A concepção hegeliana da filosofia,</p><p>suscitando o contínuo werden, possibilitou a formação do progressismo</p><p>histórico que acabou por exorcizar o relativismo radical da história. Hegel</p><p>concebeu uma espécie de circularidade entre verdade e liberdade, repensada</p><p>por João Paulo II, em sua encíclica Veritatis splendor. Assentiu o filósofo de</p><p>Stuttgart que “a verdade faz o espírito livre - como já Cristo dissera; a liberdade</p><p>o faz verdadeiro”.</p><p>Quando, porém, nos recusamos a admitir o caráter necessário dos sistemas</p><p>na temática de sua incessante evolução, de imediato nos devemos precaver</p><p>contra o ceticismo em história da filosofia. O confronto dos sistemas e das</p><p>escolas subordinado a um critério absoluto de uma verdade inconcussa,</p><p>usualmente anemia o organismo do pensamento filosófico, reduzindo-o a um</p><p>universo de erros.</p><p>O grande mestre francês Émile Boutroux cataloga uma série de concepções</p><p>possíveis de história da filosofia. Acaso se trata, pergunta ele, de reunir e de</p><p>classificar geográfica e cronologicamente os fatos considerados filosóficos? E</p><p>depois de operada esta triagem, cogitar-se-ia de ligar cada um desses fatos às</p><p>peculiaridades do meio em que se produziram, às suas condições ou causas?</p><p>Ou, então, estaremos em face de uma realidade filosófica com existência e</p><p>desenvolvimento próprios, verdadeiro organismo infenso às interferências</p><p>individuais? Ou limita-se a tarefa do historiador da filosofia à porfia de estudar,</p><p>não a filosofia, mas os filósofos, através da evolução de suas ideias no</p><p>condicionamento espaço-temporal de suas vidas?</p><p>Já Devivaise enquadra entre as possibilidades de uma construção histórico-</p><p>filosófica um fim propriamente histórico, obtido através de uma reconstituição</p><p>exata do pensamento do autor, ou ainda a apresentação da história das ideias</p><p>em função de um objetivo sistemático que, de forma alguma, se cingiria ao</p><p>conhecimento do passado. Finalmente, as filosofias podem constituir apenas o</p><p>material temático de meditações, por vezes até bem distantes do contexto que</p><p>lhes serviu de base. Esta última modalidade de estruturação da história da</p><p>filosofia vem ao encontro do pensamento de Henri Bergson de que o poder</p><p>criador é de certo modo incompatível com a fidelidade histórica. O</p><p>bergsonismo é, aliás, extremamente fecundo em sua concepção de que o escopo</p><p>do historiador reside no encontro com o ponto único em torno do qual tudo</p><p>gravita, como expressões heterogêneas de uma perfeita e fundamental</p><p>homogeneidade. Poderiamos repetir, a propósito, a ideia de Henri Gouhier -</p><p>“do ponto de vista bergsoniano, a única filosofia da história da filosofia</p><p>considerada legítima é aquela que recusa toda e qualquer filosofia da história da</p><p>filosofia”.</p><p>A verdade é que todas as tentativas de minimizar o valor filosófico da história</p><p>da filosofia terminam por se exteriorizar em dogmatismos estreitos. Muitos</p><p>sistemas parecem temer os diálogos, esquecidos de que a história da filosofia é o</p><p>lugar apropriado à necessária decantação das ideias no que elas têm de</p><p>perecível. As ideias não se desgastam com o atrito, senão que se opulentam e</p><p>consolidam na libertação proveniente da apreciação do historiador arguto,</p><p>sempre pronto a buscar a linguagem recôndita do implícito e cotejá-la com o</p><p>manancial voluntariamente apresentado pelo pensador para o final julgamento.</p><p>Acreditamos, destarte, que a história da filosofia é indispensável à própria</p><p>filosofia. Joseph Moreau chega a asseverar que a história da filosofia é uma</p><p>dimensão essencial da filosofia. É que o pensamento humano oscila</p><p>permanentemente dando azo a uma manifesta descontinuidade. Renova-se a</p><p>cada passo, constituindo as novas conquistas aspectos inéditos ventilados por</p><p>estruturas lógicas anteriores ou por sugestões do passado. Daí Émile Bréhier</p><p>reconhecer que “descontinuidade e renascença são complementares uma da</p><p>outra”.</p><p>Ninguém se pode substituir a quem quer que seja na tarefa personalíssima</p><p>de cogitar a respeito dos temas dominantes da filosofia. Os filósofos como seres</p><p>humanos não podem também excluir o aspecto contingente de que suas vidas</p><p>se revestem. Foi o que compreendeu Marcel de Corte, acompanhando o</p><p>pensamento de Georg Simmel, ao obtemperar: se a metafísica é uma obra</p><p>humana, fácil é compreender-se que ela depende da condição concreta do</p><p>metafísico, não sendo possível considerá-la um pensamento puro. Esta é a razão</p><p>pela qualjulgamos que todas as grandes filosofias, em vez de nos fornecerem</p><p>soluções perfeitas e definitivas aos muitos problemas que nos angustiam, são</p><p>antes de tudo apelos que nos dirigem no sentido de que sigamos as veredas por</p><p>elas abertas e alcancemos as eventuais cumeadas que então se lhes tornaram</p><p>familiares.</p><p>Mas o que é a rigor o filósofo? H. Glockner responde: “O filósofo não é um</p><p>padre, um poeta,</p><p>um profeta, ele é talvez professor.” O filósofo percorre um</p><p>itinerário; e que mais lhe podemos exigir inicialmente senão a autenticidade da</p><p>empresa a que se abalançou? Acaso lhe podemos impor sempre uma absoluta</p><p>coerência lógica? Quer-nos parecer mesmo que uma tal coerência, desejável em</p><p>si, é indispensável sempre que a filosofia se apresenta de forma sistemática. Por</p><p>vezes, graças ao artificialismo secretado, muitos sistemas se veem esvaziados das</p><p>suas mais sublimes riquezas. Uma fecunda perplexidade, ou mesmo a</p><p>contradição, salvaguardam eventualmente alguns tesouros com que nos</p><p>presenteiam os filósofos. Nicolai Hartmanri nos propõe uma distinção</p><p>extremamente lúcida entre intelecções e sistemas. Diz ele que, embora o ideal</p><p>dos filósofos seja quase sempre o sistema fechado, invulnerável em sua estrutura</p><p>lógica, o que na verdade subsiste do trabalho corrosivo da crítica são as</p><p>intelecções, vale dizer, as visadas geniais que os projetam definitivamente na</p><p>História da Filosofia. Mesmo certos desvios do pensamento oferecem, com suas</p><p>contradições, genuínas lições preventivas de futuras arremetidas da inteligência.</p><p>Impende preservar o racionalismo em seus limites, em seu possibilismo</p><p>gnosiológico. Sem a presença prioritária da razão, a filosofia volveria a ver sua</p><p>validade universal contestada. Filosofia se identificaria com mitologia. O que</p><p>criticamos não é o exercício primordial da atividade especulativa, e sim o</p><p>abstracionismo infértil, divorciado do real vivo, complexo e aliciante.</p><p>É indispensável considerar quejamais devemos ceder aos rogos de um</p><p>passadismo asfixiante. Quantas vezes nos atraem as belezas do passado,</p><p>convidando o nosso espírito para um convívio permanente? Cumpre-nos,</p><p>porém, situarmo-nos no século XX, alongando o olhar para o século XXI,</p><p>enfrentando as vicissitudes da época com as armas do pensamento duradouro</p><p>da humanidade. O passado cede ao presente sua seiva perene, possibilitando</p><p>com isso a continuidade da cultura e, portanto, a subsistência do espírito</p><p>humano. O necessário e o contingente entrosam-se deste modo à tessitura das</p><p>doutrinas, pois se é verdade que não há nem jamais haverá um sistema</p><p>definitivo, não é menos verdade que a filosofia vive das contribuições trazidas</p><p>pelos sistemas, ainda que a priori saibamos que eles padecem das limitações da</p><p>natureza humana. Voltando sempre, pois, às fontes imperecíveis da cultura do</p><p>passado, o filósofo deve caminhar para a encruzilhada em que se defrontam as</p><p>questões reiteradamente propostas e as peculiaridades de seu tempo, certo de</p><p>que só este encontro poderá proporcionar a solução equilibrada dos problemas</p><p>de sua época.</p><p>Não vemos nos sistemas unicamente um conjunto de ideias mais ou menos</p><p>vinculadas a um princípio diretor. Nem nos cingimos a constatar o grau de</p><p>coerência interna que possam apresentar. Por vezes ocorre que a organicidade</p><p>das teses provém até de uma rigidez excessiva que malbarata o real na</p><p>concretude de sua realidade, tirando-lhe a exuberância de sua riqueza, que se vê</p><p>assim substituída pelo apriorismo das ideias.</p><p>Os grandes sistemas constituem, a rigor, mensagens que nos são dirigidas</p><p>individualmente, quase diria convites a que repitamos o itinerário do filósofo. É</p><p>este caráter eminentemente pessoal da filosofia que aqui queremos ressaltar, pois</p><p>a nosso ver a sua simples consideração tem o condão de alijar definitivamente</p><p>todas as objeções céticas da comparação entre a ciência e a filosofia.</p><p>O que assegura a riqueza do pensamento é que a ninguém é dado o direito</p><p>de assinar o atestado de óbito das ideias. Elas fenecem por vezes, ocultam-se</p><p>durante um certo tempo para retornarem de forma inovada e cobertas com um</p><p>outro manto protetor. A roda da História humana gira com a incorporação de</p><p>novos saberes que destroem somente os conhecimentos hauridos da empiria.</p><p>Em sentido diverso, surge a observação de Michel Foucault de que a História é</p><p>o “modo de ser fundamental das empiricidades”. Já no plano das ideias,</p><p>persiste a atmosfera da sobrevivência, com a inevitável e desejável aragem da</p><p>renovação.</p><p>O ontem e o hoje se cruzam sempre que a História pede passagem, pois ela</p><p>será invariavelmente a ponte entre ambos, a preludiar o porvir com que o</p><p>horizonte nebuloso ou radioso do amanhã se entremostrará às nossas</p><p>consciências ávidas de esperança.</p><p>* Discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 18.11.1998.</p><p>NOTAS</p><p>1 On revient toujours aupremier amour: sempre voltamos ao primeiro amor.</p><p>2 Józef Maria Bochenski (1902-1995): religioso e filósofo polonês.</p><p>3 Treffpunkt: ponto de encontro.</p><p>4 Magistra vitae: mestra da vida.</p><p>5 Denis Diderot (1713-1784): filósofo iluminista e escritor francês.</p><p>6 Henri Gouhier (1898-1994): filósofo francês.</p><p>7 Alfred Victor de Vigny (1797-1863): poeta romântico francês.</p><p>8 Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781): poeta alemão.</p><p>9 Juan Zaragüeta (1883-1974): filósofo e sacerdote espanhol.</p><p>10 Maurice Hauriou (1856-1929): jurista francês.</p><p>11 Georges François Renard (1847-1930): jurista e frade francês.</p><p>12 Numa Denis Fustel de Coulanges (1830-1889): historiador francês.</p><p>13 Gabriel Monod (1844-1912): historiador francês.</p><p>14 Roger Mehl (1912-1997): sociólogo e teólogo protestante francês.</p><p>15 Raymond Claude Ferdinand Aron (1905-1983): filósofo, sociólogo e comentarista político francês.</p><p>16 Lucien Paul Victor Febvre (1878-1956): historiador modernista francês.</p><p>17 Annales é um movimento historiográfico do século XX, fundado por Lucien Febvre e Marc Bloch</p><p>em 1929.</p><p>18 Eric John Ernest Hobsbawm (1917-2012): historiador britânico.</p><p>19 Amicus Plato, magis amica veritas: Platão é amigo, mas a verdade é ainda mais amiga.</p><p>20 Locus ab auctoritate quae fundatur super ratione humana infirmissimus est: O argumento oriundo</p><p>de uma autoridade que está fundada sobre a razão humana é fragilíssimo.</p><p>21 Erlebnisse: experiências.</p><p>22 Qui se dubitantem intelligit, ver intelligit, et de hac re quam intelligit, certus est: Quem se entende</p><p>como alguém que duvida entende-se verdadeiramente, e aquilo sobre o que ele entende está certo.</p><p>U</p><p>Filosofia e Literatura</p><p>sualmente cuidamos que a literatura e a filosofia devem manter uma</p><p>distância regulamentar, a fim de lhes garantir a especificidade. É certo</p><p>que alguns sistemas se vinculam tão rigidamente à sua logicidade que</p><p>a literatura permanece à soleira da porta, por timidez de se defrontar com uma</p><p>atmosfera, não direi hostil, mas possivelmente impenetrável.</p><p>Ocorreu-nos repensar a filosofia de Henri Bergson como um exemplo típico</p><p>da abertura do pensamento à imaginação literária. Para se captar a originalidade</p><p>e o impacto do bergsonismo na cultura da primeira metade deste século,</p><p>impende uma viagem pelos escaninhos do seu pensamento e de sua alma.</p><p>No momento, vigiam no ocidente o kantismo e o positivismo. O primeiro,</p><p>conduzia a um relativismo gnosiológico, a uma desconfiança no poder da razão.</p><p>O segundo cingia a realidade a um universo bem delimitado porquanto</p><p>aparentasse superar a realidade assimilada de forma direta, mais pelos sentidos,</p><p>do que pela inteligibilidade.</p><p>Bergson representou uma sadia reação aos dois polos de atração ora em</p><p>fastígio e cinzelou uma filosofia de cunho espiritualista, que conduziu o</p><p>pensamento para o dinamismo do ser. Sua filosofia nos fala de abertura, de</p><p>fluxo do real fugidio, de intuição. Seu distanciamento de qualquer forma de</p><p>cristalização intelectual o afastou para sempre de qualquer vínculo com o mero</p><p>essencialismo à outrance. Disse ele: “A inteligência é caracterizada por uma</p><p>incompreensão natural da vida.” Daí haver Bergson descartado a dependência</p><p>da filosofia do mundo físico-matemático para aproximá-lo das ciências</p><p>biológicas que, segundo ele, falam do fluxo do real, do deslizamento do tempo</p><p>nas curvas da historicidade e da história dos homens. A inteligência de cunho</p><p>geométrico fotografa o real; a intuição o percebe em seu dinamismo, em sua</p><p>vitalidade permanente.</p><p>Bergson, como Lavelle, jamais se deixou arrebanhar pelo viés</p><p>polemista que</p><p>malbarata tantas inteligências de escol. Assentiu ele: “Tenho para mim que o</p><p>tempo consagrado à refutação em filosofia, geralmente é tempo perdido.”</p><p>Seu estudo sobre os místicos, que consumiram vinte e cinco anos, levou-o a</p><p>uma conversão moral ao catolicismo, não havendo sido batizado para não</p><p>abandonar os irmãos de raça, no momento em que o antissemitismo grassava na</p><p>Europa. No testamento de Bergson lê-se: “Minhas reflexões me conduziram</p><p>mais e mais perto do catolicismo no qual vejo o coroamento pleno do</p><p>judaísmo.” Manifestou então o desejo de que um padre católico ou um rabino</p><p>viesse rezar a seu lado. Quando o padre chegou, Bergsonjá havia partido.</p><p>Sertillanges comenta: “A prece da Igreja não faltou em seu túmulo e sabemos</p><p>que há um batismo de desejo.” E concluiu: “Eu não duvido de que Deus</p><p>possua esta alma.”</p><p>Bergson foi um literato na plenitude do termo. Na Academia Francesa,</p><p>reconheceu-o Paul Valéry, para quem o gênio do filósofo e o valor de seu</p><p>pensamento consistiu em expressar a vida interior. “Ele ousou tomar de</p><p>empréstimo à poesia suas armas encantadas. As imagens, as metáforas mais</p><p>felizes obedeceram ao seu desejo de reconstituir na consciência do outro as</p><p>descobertas que ele fazia na própria, e os resultados de suas experiências</p><p>internas.”</p><p>Não foi sem razão que poetas como Charles Péguy e críticos literários como</p><p>Charles Du Bos proclamaram a presença bergsoniana em suas obras.</p><p>O bergsonismo se reconhece pela libertação que o define. Daí o influxo</p><p>sobre a poesia, a música. Débussy busca expressar o indizível, numa prospecção</p><p>do mundo interior. A literatura se distancia do romance realista, à maneira de</p><p>Balzac e de Zola. Aqui avulta a figura exponencial de Marcel Proust, que adota</p><p>a filosofia bergsoniana e seu método, perseguindo a vida em sua mobilidade. É</p><p>de Bergson que Proust recebe a revelação de si próprio. Seu biógrafo Léon</p><p>Pierre-Quint afiança que Proust parece “haver vivido, sentido, experimentado</p><p>pessoalmente toda a psicologia de Bergson”.</p><p>O tempo, a duração estão na raiz da filosofia de Bergson, como nos</p><p>romances de Proust. O tempo que corre célere e desenha o horizonte do existir</p><p>e cinzela as nossas perplexidades.</p><p>O tempo que é a matéria com a qual o eu desdobra o seu projeto de ser. A</p><p>dimensão temporal bosqueja o retrato dinâmico do sujeito, muitas vezes</p><p>fundindo o passado e o presente, mercê da memória voluntária, ou mais</p><p>particularmente, involuntária. Esta nos traz o sumo de experiências sensoriais</p><p>que, para Proust, falam bem alto de seu empirismo. Talvez se possa dizer que</p><p>Bergson atirou a barra mais longe e produziu um empirismo radical. Isto</p><p>porque ampliou o conceito de experiência superando a visão estreita do mero</p><p>empirismo.</p><p>Proust introduz em sua obra a duração viva, revivendo a “durée pure1 ” de</p><p>Bergson e assim gerando um radioso amplexo da filosofia com a literatura.</p><p>Henri Clouard2 avança-nos a afirmação de que “a fraternidade da obra</p><p>bergsoniana com a literatura é comovente”.</p><p>As análises de Bergson soam como música aos que afinaram sua</p><p>sensibilidade no convívio com os grandes escritores. O filósofo arredio, que mal</p><p>suportava a fútil popularidade de suas conferências no Collège de France, muito</p><p>frequentadas também pela sociedade elegante de Paris, sorveu o cálice da</p><p>perfeição do estilo, e assim se transformou num traço de união entre a filosofia e</p><p>a literatura, dando também a esta o respaldo de seu conceito fecundo de tempo</p><p>e de duração pura, matéria que tece a trama de nossa existência fugaz e</p><p>prospectivamente transtemporal.</p><p>Jornal de Letras, nº 13.</p><p>NOTAS</p><p>1 Durée pure: duração pura.</p><p>2 Henri Clouard (1889-1974): crítico francês.</p><p>O</p><p>O desafio do mal na Tragédia</p><p>Burguesa</p><p>s quinze alentados volumes da Tragédia Burguesa de Octavio de</p><p>Faria, constituem um marco em nossa literatura. Não apenas pela</p><p>densa trama romanceada, nem certamente pela beleza do estilo.</p><p>Transparece das suas milhares de páginas a condição humana, nomeadamente</p><p>em seu aspecto agonístico.</p><p>É surpreendente que um escritor quejamais cuidou da pureza do estilo</p><p>houvesse conseguido estruturar uma complexa ficção tão atraente e aliciante. É</p><p>impossível deixar de acompanhar com sofrida emoção os itinerários das</p><p>personagens que se sucedem em dramas pungentes, em que avulta, antes de</p><p>tudo, o mistério existencial com todo o seu cortejo de sofrimentos inauditos, a</p><p>dizer o indizível da tragédia que se abate sobre almas entregues à borrasca do</p><p>pecado. Pois é da culpa recôndita ou expressa que cuida o romancista a afinar o</p><p>seu diapasão pelas ondas tortuosas em que se debate o coração dos homens.</p><p>Não é sem contido sentimento de pesar que Octavio acompanha os dramas</p><p>pessoais dos que encarnam o bem e daqueles em que o mal parece haver posto</p><p>suas complacências. Basta recordar o percurso de Branco, cujo nome vale por</p><p>uma legenda de pureza, com seu ideal altaneiro de virtude e retidão. E que irá</p><p>desaguar adiante, nas tormentas da consciência, que vive o limiar de sua própria</p><p>negação, ao caminhar para o crime, a fim de preservar o bem da lama moral de</p><p>Pedro Borges, a encarnação do próprio mal. É de maniqueísmo que se trata na</p><p>ciclópica obra romanceada de Octavio de Faria. O mal merece as cores vivas</p><p>que sua presença marcante exige, restando ao bem o desespero de não</p><p>prevalecer no entrecortar das biografias agonísticas que sulcam o solo dominado</p><p>pelas sementes de destruição.</p><p>Octavio poderia facilmente nos remeter ao leito de morte do filósofo Charles</p><p>Renouvier1, que assentiu em seu supremo momento do viver-morrer, como</p><p>assinala Heidegger, ser o problema do mal o único desafio insuperável da</p><p>filosofia. A atmosfera octaviana nos fala de Pascal, de Kierkegaard, e mesmo de</p><p>Nietzsche, pensadores que se adentraram na floresta existencial, aí cedendo à</p><p>atração pelo seu mistério. Mas avulta no percurso de Octavio a figura singular</p><p>de Léon Bloy2. O romancista brasileiro bebeu na fonte a lição de um</p><p>cristianismo angustiado pela tristeza de não atingir a santidade. Assim, suas</p><p>personagens Branco e o Padre Luís, forjados nas oficinas da virtude e da reta</p><p>intenção, nem por isso puderam ou souberam contrapor-se vitoriosamente às</p><p>arremetidas do Senhor do Mundo. Os vultos que se sucedem nos romances da</p><p>Tragédia Burguesa partilham a trilha de uma subjetividade dominada pela</p><p>eterna luta entre o bem e o mal.</p><p>Parecem frágeis os acenos ao bem sintetizados no itinerário trágico do Padre</p><p>Luís, mera casca de noz na voragem dos ventos e das tempestades humanas que</p><p>lhe batem à porta. Sua alma é pura, mas ele se sente perdido sem o</p><p>instrumental da espiritualidade necessário a impedir a marcha aparentemente</p><p>inexorável do mal no cerne das almas jovens que se perdem nos caminhos da</p><p>vida.</p><p>Em certos momentos de sua obra, o romancista se apieda de tal forma por</p><p>suas personagens golpeadas pela negatividade que chega a se imiscuir em sua</p><p>ficção para mais de perto sorver maviosamente os gemidos exalados pelas bocas</p><p>sangrentas de dor. Fala ao lado dos que mais profundamente se agitam nas</p><p>noites de sua perdição, quase diria que reza com elas para melhor se identificar</p><p>com o seu sofrimento indescritível. Mescla-se à dor incontida e que</p><p>irremediavelmente irá acompanhar os destinos marcados pela fragilidade da</p><p>condição humana.</p><p>Octavio de Faria, o escritor que pouco atentou para a beleza da forma,</p><p>buscou ultrapassar os obstáculos da patente complexidade do humano existir</p><p>para nos oferecer um relato amplo e abrangente das dores do mundo. Ao fazê-</p><p>lo, ele paradoxalmente revela sua profunda fé na transcendência, a nos dizer</p><p>que, apesar de tudo, há lugar para a esperança.</p><p>Jornal de Letras, nº 4.</p><p>NOTAS</p><p>1 Charles Bernard Renouvier (1815-1903): filósofo francês.</p><p>2 Léon Henri Marie Bloy (1846-1917): escritor francês.</p><p>C</p><p>Maturidade científica</p><p>ientistas que alcançaram o trono sueco dos prêmios Nobel atestaram</p><p>que suas descobertas provieram da escolha radical de novos caminhos</p><p>na contramão das “evidências”. Descobrir algo revolucionário</p><p>pressupõe a coragem de remar contra tudo e contra todos, não pelo prazer de</p><p>contrariar opiniões arraigadas, mas pela irresistível atração exercida por uma</p><p>inata curiosidade de buscar um novo mundo encoberto pelas “verdades” por</p><p>todos aceita. A ciência não mais se encastela nas certezas e nas invariantes</p><p>epistemológicas. Antes, reconhece no processo de aproximações sucessivas a clef</p><p>de voute de seu caminhar em direção a um progresso crescente de suas</p><p>descobertas, de suas conclusões provisórias.</p><p>A espantosa evolução das ciências gerou o paradoxo de sua constante</p><p>superação. Ela própria se afeiçoou à ideia basilar de que a verdade de hoje é</p><p>apenas um patamar momentâneo ofertado munificentemente pela</p><p>fenomenalidade e pela riqueza do pensamento formal com que nos</p><p>defrontamos, na firme convicção de que nada nos autoriza a lhe atribuir foros</p><p>definitivos de cidadania. Como salienta Karl Popper, “não pode haver</p><p>explicação que não precise de maior explicação”.</p><p>Poderiamos ser tentados a segregar em demasia o domínio da empiria e do</p><p>mundo suprassensível. Em verdade, o desenvolvimento científico e tecnológico</p><p>enriqueceu a visão das antropologias, aí se incluindo a filosófica. Assim, não há</p><p>que se falar numa separação irremediável entre ciência e metafísica. A revolução</p><p>tecnológica interfere na visão do homem e de seu destino. O espaço e o tempo,</p><p>como condições inerentes ao humano existir, sofreram alterações vitais em seus</p><p>conceitos, resultando consequências não raro profundas no dimensionamento</p><p>do ser humano.</p><p>Em vez de ideologizar a ciência, cumpre respeitar-lhe as novas contribuições,</p><p>dando-lhes o relevo consentâneo ao seu nível de valor epistemológico, sem</p><p>autorizar conclusões radicais no concernente à antropologia filosófica e à</p><p>teologia natural ou teodiceia. A ciência não deve ultrapassar os seus próprios</p><p>limites, mantendo-se fiel à sua estrutura metodológica e aos conteúdos de que</p><p>se ocupa.</p><p>Uma das conquistas marcantes da história moderna foi o surgimento de</p><p>autonomias reivindicadas por domínios do saber. Na era cristã, a razão natural</p><p>primava sobre as demais potências do eu, buscando sua harmonia com o</p><p>fecundo território da fé.</p><p>Modernamente, avultou a autonomia da ciência com Galileu, da política</p><p>com Maquiavel e da economia com Adam Smith. Este esgarçamento do tecido</p><p>científico gerou grande desenvolvimento específico de cada ciência, mas</p><p>empobreceu e, por vezes, deu a ideia de que inviabilizou quaisquer tentativas de</p><p>conceber-se uma visão de totalidade. Pareceu então que as ciências e a filosofia</p><p>não teriam mais como nem por que dialogar, tal a separação em que pareciam</p><p>viver seu divórcio irremediável.</p><p>É bem de ver que a atomização do saber, necessária ao progresso de cada</p><p>ramo do conhecimento, não afogou os reclamos de unidade do saber, as</p><p>exigências de um pensar abrangente, de uma totalidade possível. É, aliás, o que</p><p>discerne (entre outros aspectos) a filosofia da ideologia. Esta é um pensamento</p><p>total de uma parcialidade, ao passo que a filosofia é um pensamento parcial de</p><p>uma totalidade possível. É mais um aceno, uma caminhada em direção a, do</p><p>que um porto seguro em que ancoramos com nossas dúvidas solvidas</p><p>irremissivelmente.</p><p>A ciência deve ser entendida em sua amplitude como ciência especulativa ou</p><p>teórica e ciência prática ou aplicada. É nesta última que emerge nitidamente seu</p><p>influxo sobre a ética. Anteriormente, se falava numa absoluta neutralidade da</p><p>ciência, cuidando-se que os juízos de valor se situavam bem distante do escopo</p><p>científico. Hoje, é patente a interferência do desenvolvimento científico em</p><p>questões ligadas à filosofia prática, designadamente as ciências que direta ou</p><p>indiretamente se ocupam do ser humano. A biologia, a psicologia, a sociologia,</p><p>a linguística, a comunicação provocam novas reflexões que facilmente pervadem</p><p>o território antes sacrossanto da filosofia, nomeadamente da filosofia moral.</p><p>Hoje, é inquestionável que cumpre espraiar o domínio da ética com as</p><p>perguntas que promanam da caminhada da ciência. Eutanásia, engenharia</p><p>genética, aborto, definição científica de morte, limites possíveis para a</p><p>experimentação de novas drogas, ingerência na intimidade da vida humana,</p><p>com medicamentos mais agressivos de efeitos diretos ou colaterais de monta, o</p><p>repensar de conceitos como corpo, mente e espírito, o avanço na sondagem do</p><p>universo sideral se alinham como novos desafios lançados à face da ciência e da</p><p>filosofia teórica e prática.</p><p>A pletora de campos do conhecimento também propiciou o desdobramento</p><p>metodológico, com a edificação de epistemologias diversas a recobrir o espaço</p><p>ampliado e diversificado dos saberes. Paralelamente, alarga-se o esforço de</p><p>buscar uma convergência das epistemologias. Daí a presença da</p><p>interdisciplinaridade, como novo maestro a reger a orquestra dos</p><p>conhecimentos. Trata-se de um simples começo de um diálogo mais profUndo</p><p>capaz de obviar os inconvenientes da multiplicidade de saberes que vivem como</p><p>se foram compartimentos estanques. Chegada é a hora de filósofos e cientistas</p><p>aportarem em uma epistemologia das convergências, a exprimir, por detrás da</p><p>indispensável autonomia dos saberes, a sua vinculação nas camadas mais fundas</p><p>de sua origem comum, todas nascidas desse curiosum ingenium com que a</p><p>natureza nos dotou, a perquirir e sondar o mistério do ser e a densidade do</p><p>humano existir.</p><p>Jornal do Commercio, 23.09.1999.</p><p>N</p><p>O especialista</p><p>o dealbar da cultura ocidental, o conhecimento humano se continha</p><p>nos limites da Filosofia. Gradativamente, os saberes se foram</p><p>desligando da matriz original e adquiriram sua autonomia de</p><p>conteúdo e também metodológica. O mundo dos corpos siderais, o domínio</p><p>dos seres vivos, a complexa realidade do homem impuseram-se à totalidade do</p><p>saber que cifrava a ânsia humana de sondar os arcanos do ser em todas as suas</p><p>dimensões.</p><p>Hoje, é bem diverso o panorama gnosiológico. Houve uma crescente</p><p>atomização do conhecimento, ainda por cima tisnado pela pletora desnecessária</p><p>de dados, de informações irrelevantes. Uma multidão de fatos passou a vigiar a</p><p>nossa atenção, impedindo-nos de aprofundar o núcleo dos seres, ofuscando-nos</p><p>a face da realidade em si mesma, sem os adornos capazes de ocultá-la de nossa</p><p>percepção. O excesso de informações com que diariamente nos bombardeiam</p><p>constitui agressão à seriedade do pensar e pode mesmo ser considerada uma</p><p>autêntica poluição do saber. Cabe delinear uma ecologia do conhecimento, apta</p><p>a superar a ausência das mediações indispensáveis à estruturação de sistemas</p><p>coerentes e calcados no solo firme do real. Ecologia que elimine os dados</p><p>fugazes e demasiados que buscam diuturnamente atrair-nos para o nada, o vazio</p><p>de seus desdobramentos.</p><p>É certo que se impõe uma formação especial para o exercício de cada</p><p>atividade humana. Mesmo os bem-dotados sabem que existem técnicas que</p><p>lhes ampliam o grau de perfeição de suas obras, nascidas da espontaneidade de</p><p>seus talentos. Não se trata de advogar a geração espontânea na arte, na ciência,</p><p>na filosofia. Cuidamos fundamental a sedimentação dos conhecimentos</p><p>específicos e das técnicas respectivas a balizar os passos profissionais do homem.</p><p>Em nossos dias, ganha cada vez mais força a perseguição ao ápice da</p><p>especialização como fonte de garantia de emprego ou de trabalho, e ainda como</p><p>origem de realização. É evidente que o encontro entre a vocação e a atividade</p><p>traduz anelo justificado e mesmo desejável. É mesmo o seguro contra o</p><p>marasmo em qualquer atividade laboral.</p><p>John Kenneth Galbraith sustenta que “uma das aberrações surpreendentes e</p><p>pouco examinadas da vida acadêmica, profissional ou dos negócios é o prestígio</p><p>conferido sem refletir ao especialista”. Na verdade, o especialista descarta todo o</p><p>saber que não se contenha nos limites de sua opção pessoal. E comodismo</p><p>pernicioso, pois as lacunas de cultura geral - a única que molda a visão</p><p>abrangente da realidade - geram inconsistência em muitas teses oriundas das</p><p>universidades e dos escritórios</p><p>especializados em que se comprazem os “donos</p><p>do saber”.</p><p>Está em marcha um processo acelerado de fragmentação do saber, que gera</p><p>espaço para o desconhecimento das múltiplas facetas de cada problema. Isto</p><p>ocorre no momento em que filósofos e cientistas começam a despertar para a</p><p>imperiosa necessidade de se desenvolver o conhecimento interdisciplinar.</p><p>A evolução metodológica operada entre as ciências conduziu-nos por vezes a</p><p>uma segregação menos saudável dos saberes. A filosofia alemã, designadamente</p><p>com Wilhelm Dilthey1, discerniu as ciências da natureza e as ciências do</p><p>espírito. A dicotomia teve o mérito de distinguir domínios havidos como</p><p>independentes, mas também trouxe em seu bojo uma rígida separação que se</p><p>revelou, em certos casos, pouco lúcida. Assim, houve ciências que mereceram o</p><p>pomposo e pretensioso nome de exatas. Outras, mais tímidas, formaram o</p><p>complexo mosaico das ciências humanas. A imprevisibilidade do</p><p>comportamento humano emergiu como um divisor de águas entre as duas</p><p>esferas do saber. Hoje, com mais cuidado, já percebemos um certo artificialismo</p><p>na dicotomia. A precisão havida como mola mestra das ciências que se</p><p>denominam exatas se vê frequentemente superada por novas teorias que, em</p><p>ritmo alucinante, se sobrepõem ao conhecimento dogmaticamente aceito como</p><p>verdadeiro. A rigor, são ciências aproximativas, e as revistas e livros científicos</p><p>diariamente contradizem, hoje, os resultados de pesquisas publicadas ontem. E</p><p>é natural que assim seja, pois a inteligência caminha sem a abrangência própria</p><p>da intuição. Raciocinar é viajar por labirintos, em que cada curva enseja uma</p><p>nova perspectiva. Intuir é ver diretamente o real em toda a sua pureza. Não foi</p><p>outro motivo pelo qual, mais e mais, distinguimos inteligência de razão, pois a</p><p>primeira abarca, além da razão, a intuição e seu campo infindo de conquistas</p><p>possíveis.</p><p>Parece que as ciências humanas são órfãs de uma epistemologia sólida. A</p><p>verdade é bem outra. A riqueza deste tipo de ciência promana da multiplicidade</p><p>de enfoques com que encaramos o homem em suas diversas dimensões. Daí</p><p>porque se impõe a construção de uma nova antropologia, a partir dos conteúdos</p><p>e métodos que enriquecem o mundo humano. Enquanto não atingirmos este</p><p>desideratum, cuidamos necessário escapar da excessiva atomização. Esta emerge</p><p>das certezas setoriais que preenchem o claro das inteligências especializadas. O</p><p>papel do filósofo a respeito consiste em questionar a relevância do especialista,</p><p>em apontar para a urgência do diálogo interdisciplinar. Como bem frisou</p><p>Georges Gusdorf2: “O especialista se persuade de que o homem é um conjunto</p><p>de pedaços, e que uma adição final reconstituirá o homem em sua integridade.</p><p>Só que o homem, uma vez cortado em pedaços, não será jamais um homem,</p><p>pela simples razão de que já se começou a matá-lo.”</p><p>Uma racionalidade unilateral é um mal, pois não se tem o direito de</p><p>absolutizar nenhum conhecimento setorial.</p><p>O especialista é aquele que parece saber tudo sobre muito pouco. Dia</p><p>chegará em que saberá tudo sobre nada. É o destino dos que se arrogam, com o</p><p>saber que ostentam, o poder que muitas vezes tentam esconder. Daí para a</p><p>tecnocracia é um passo. O Brasil parece ensaiar os primeiros passos nesta trilha</p><p>infecunda. O resultado está à vista de todos. Mas ainda há tempo para vencer os</p><p>óbices atuais e retomar a via do desenvolvimento humano pelo qual toda a</p><p>nação tanto anseia, como merece.</p><p>Jornal do Commercio, 25.02.1999.</p><p>NOTAS</p><p>1 Charles Bernard Renouvier (1815-1903): filósofo francês.</p><p>2 Léon Henri Marie Bloy (1846-1917): escritor francês.</p><p>O</p><p>Arrogância científica</p><p>Conselho Federal de Medicina acaba de aprovar resolução em que proíbe</p><p>os 207 mil médicos brasileiros de se valerem dos recursos da medicina</p><p>alternativa.</p><p>Consoante esclarecimento de um dos signatários da decisão, cerca de 100</p><p>terapias estarão excluídas do arsenal médico até então à disposição dos</p><p>pacientes.</p><p>Não nos cabe analisar as razões invocadas em cada caso para se</p><p>desembaraçar desta ou daquela terapia. É tarefa para os especialistas. Nosso</p><p>intento consiste em discutir as bases filosóficas da recente atitude adotada pelo</p><p>Conselho Federal de Medicina. Isto porque, desde logo, se patenteia um</p><p>estreitamento do gargalo especulativo em que se posicionou o importante órgão</p><p>da classe médica.</p><p>Devemos recordar que as experiências, as hipóteses e mesmo as</p><p>aparentemente absurdas teses de hoje poderão ser as verdades científicas de</p><p>amanhã. A acupuntura sempre foi havida como ineficaz e mesmo descartável.</p><p>Hoje, a medicina a incorporou ao seu acervo estratégico de tratamento. Cumpre</p><p>ainda realçar a visão limitada que mal se encobre por detrás da surpreendente</p><p>decisão. Isto porque mais e mais hoje se busca ampliar o conceito de</p><p>experiência. Um sadio empirismo aberto às possibilidades de comprovação</p><p>possível se impõe às inteligências abertas às oscilações e progressos do</p><p>conhecimento. De resto, o conhecimento interdisciplinar veio para ficar. As</p><p>ciências exatas perderam muito de seu dogmatismo. Hodiernamente, cabe</p><p>estabelecer vínculos profundos entre as humanidades e a ciência, entre a</p><p>inteligência e a sensibilidade. Assim, em nome da rigidez de supostos resultados</p><p>insuficientes não se poderá idoneamente desprezar alternativas para o alívio ou a</p><p>cura de muitas patologias.</p><p>O conhecimento que se fecha em si mesmo estiola-se e murcha. A abertura</p><p>para outras áreas fronteiriças do saber amplia o espaço de compreensão do real,</p><p>enriquecendo o patrimônio geral do conhecimento humano.</p><p>A decisão do Conselho Federal de Medicina nos faz volver ao século XIX,</p><p>quando já aponta no horizonte o século XXI. Isto porque, à época, vicejava uma</p><p>concepção de ciência extremamente rígida. Era a fase do cientificismo, de</p><p>braços dados com o positivismo que grassava em nossa cultura. A lei dos três</p><p>estados ainda resplendia e a ciência se tornou a palavra final dos conflitos</p><p>intelectuais, fossem filosóficos ou científicos.</p><p>Com o fluir do tempo, viu-se que a ciência não poderia sobreviver sem a</p><p>verificabilidade e sem o apelo a hipóteses ousadas. É bom lembrar a lúcida</p><p>abertura da visão filosófica de Karl Popper no relativo ao papel e à amplitude da</p><p>verificabilidade científica. A estreiteza do cientificismo levou-o ao patamar</p><p>medíocre de sua ideologização, que atribui valor absoluto à ciência. A ciência,</p><p>como qualquer modalidade de conhecimento, se faz por aproximações</p><p>sucessivas, pela firme convicção de que não há que se falar em verdades</p><p>absolutas. Existem, isto sim, as invariantes científicas. E é neste terreno nada</p><p>criativo que se inspirou a pretensa corrida do Conselho de Medicina para a sua</p><p>decolagem injustificável.</p><p>É claro que existe o charlatanismo triunfante, que se vale da boa-fé de</p><p>pessoas pouco preparadas e bem à mão para aceitar passivamente as terapias</p><p>calcadas nas crendices. Mas não pode ser em nome das falsificações que se hão</p><p>de cortar pela raiz as árvores que demonstraram ao que vieram, as terapias que,</p><p>ao longo do tempo, comprovaram a sua valia, ou ainda demandam algum</p><p>tempo para sua plena pertinência. De resto, no início de sua caminhada, todas</p><p>as futuras verdades se assemelham a erros ou desvios da rota científica. Se a</p><p>aparência de imperfeição de uma terapia constituísse óbice absoluto à sua</p><p>experimentação, a ciência ainda estaria na sua pré-história.</p><p>A medicina brasileira pagou todos os seus tributos à experimentação. Houve</p><p>uma evolução muito lenta, desde a medicina indígena, em que a riqueza das</p><p>ervas desempenhou o seu papel mesclado a princípios sobrenaturais. A seguir,</p><p>emergiu a medicina jesuítica, menos afeita ao misticismo, e mais pragmática.</p><p>Nela se refletia a presença da medicina europeia. Adiante, podemos falar de</p><p>uma medicina africana ou negra, em virtude do aumento do quadro nosológico.</p><p>Magia e feitiçaria preponderam. O domínio dos holandeses gera o primeiro</p><p>tratado sobre patologia e terapêutica nacional, de autoria de Willem Piso, em</p><p>1648. A formação dos profissionais</p><p>é superior, mas não houve acentuado</p><p>progresso nos resultados concretos da ação dos médicos, em sua maioria de</p><p>origem hebraica. Adicione-se a medicina ibérica, que desempenhou papel de</p><p>relevo no quadro médico brasileiro.</p><p>Foi somente em 1808, quando da criação das escolas médicas de Salvador e</p><p>do Rio de Janeiro, que encontramos médicos aqui formados, em obediência ao</p><p>modelo francês. É a medicina pré-científica, na classificação de Licurgo Santos</p><p>Filho.</p><p>É a partir de então que a medicina se vai desenvolver e atingir o período</p><p>fecundo da medicina científica. É de data recente, mas já fez história, com</p><p>vultos de elevado porte, como Oswaldo Cruz, Adolfo Lutz, Carlos Chagas, Vital</p><p>Brazil, Pirajá da Silva e outros.</p><p>Todo o acervo científico acumulado pelos médicos brasileiros não</p><p>poderájamais negar a importância da riqueza vegetal de nosso território na</p><p>descoberta de remédios eficazes contra diversas patologias. Assim, o abandono</p><p>das terapias alternativas, operado de forma radical, poderá coarctar a</p><p>criatividade científica e bloquear no nascedouro novos caminhos valiosos para a</p><p>medicina pátria, em flagrante descompasso com a interdisciplinaridade em</p><p>vigor e seu ilimitado campo de investigação do saber.</p><p>Jornal do Commercio, 10.09.1998.</p><p>Capa</p><p>Folha de Rosto</p><p>Página de Créditos</p><p>Sumário</p><p>Prefácio – Mary Del Priore</p><p>Tempo de Reflexão – Antonio Olinto</p><p>Algumas opiniões sobre a Filosofia de Tarcísio Padilha</p><p>SOCIEDADE</p><p>O espaço público</p><p>Meninos de rua</p><p>Expulsão do “paraíso</p><p>Contraste pedagógico</p><p>O reino da insegurança</p><p>Sinais dos tempos</p><p>Nada pelo social</p><p>O futuro dos direitos humanos</p><p>Um percurso sombrio</p><p>Condição humana</p><p>O valor da palavra</p><p>O novo modelo francês</p><p>EDUCAÇÃO E CULTURA</p><p>Educação e trabalho</p><p>Escola para todos</p><p>Níveis de profundidade</p><p>Riqueza desperdiçada</p><p>Paraíso Perdido</p><p>O despertar da Latinidade</p><p>A Latinidade e o prefácio da Cimeira</p><p>ECONOMIA E POLÍTICA</p><p>Economia de mão única</p><p>Alíquotas humanas</p><p>Custo e valor</p><p>Presidencialismo onipotente</p><p>Exigências da sociedade</p><p>Recorde histórico</p><p>A lógica do imprevisível</p><p>Aos políticos: meditação e humildade</p><p>Digressão ética</p><p>Divórcio auspicioso</p><p>Com a palavra, o Poder Legislativo: uma festa do Direito</p><p>Cinquentenário do Estado de Israel</p><p>FILOSOFIA E CIÊNCIAS</p><p>História e Filosofia</p><p>Filosofia e Literatura</p><p>O desafio do mal na Tragédia Burguesa</p><p>Maturidade científica</p><p>O especialista</p><p>Arrogância científica</p><p>que crianças habitavam a canalização de esgotos da cidade. Com muito tato,</p><p>deles se aproximou, pois a polícia os eliminava quando os surpreendia fora das</p><p>tocas. Com amor e determinação, o engenheiro vestiu-se como escafandrista e</p><p>penetrou nos labirintos infectos onde “viviam” as crianças. Deu-lhes agasalhos,</p><p>proteção e, afinal, emprego. A recuperação foi plena.</p><p>Não se trata de romance, de mera ficção piegas, mas do exercício da</p><p>caridade e da cidadania por parte de homens e mulheres que, no mundo</p><p>inteiro, simplesmente não se postaram inertes ante o desafio, nem esperaram as</p><p>benesses do poder público, mas saíram de seu comodismo e deram as mãos aos</p><p>menores desamparados. Tais pessoas robustecem em nós a fé no ser humano e</p><p>abrem as portas para a recuperação de milhares de crianças e adolescentes, até</p><p>então relegados a absoluto ostracismo.</p><p>Na outra ponta, encontramos órfãos de pais vivos, crianças e adolescentes</p><p>das classes média e alta totalmente descartados pelo egoísmo de quem lhes</p><p>deveria prover a outras necessidades básicas na dimensão do ser. Vemo-los</p><p>perambulando pela vida a experimentar de tudo pela absoluta carência afetiva a</p><p>que foram relegados. Muitos desistem de existir responsavelmente e se</p><p>transformam em soldados da rebeldia e da destruição, primeiro de si mesmos, e</p><p>depois da sociedade que os desamparou radicalmente.</p><p>Felizmente, há dias pudemos colher uma bela experiência. Dezenas de</p><p>crianças e adolescentes se postaram numa sala de aula para nos ouvir sobre o</p><p>tema: “Como caracterizar de filosófica uma questão?” Durante uma hora, na</p><p>Escola Dínamis, em Botafogo, deixamo-nos penetrar pela acolhida generosa dos</p><p>ouvintes com os quais nos confundimos, ao lhes apresentar, em linguagem</p><p>apropriada à faixa etária, um primeiro esboço de uma reflexão filosófica.</p><p>A subjetividade, a liberdade, o mundo, Deus, o nada, a morte, as diversas</p><p>formas de conhecimento emergiram espontaneamente do diálogo mutuamente</p><p>enriquecedor. A atestar que os jovens apenas carecem de estímulos construtivos.</p><p>Tão logo lhes apresentemos com simplicidade e sinceridade os problemas que</p><p>mais de perto concernem ao ser humano, a resposta será invariavelmente</p><p>positiva.</p><p>Ao contrário, fechar os olhos para o menor em situação de risco é permitir o</p><p>seu adestramento no radicalismo da criminalidade.</p><p>A decisão do juizado de menores de identificar as crianças e jovens de rua e</p><p>responsabilizar-lhes os pais pelo abandono não terá o condão de, num toque de</p><p>mágica, solver o grande desafio; mas seguramente constitui o início de uma</p><p>caminhada no sentido da recuperação dessas vítimas do nosso egoísmo, da</p><p>nossa indiferença.</p><p>O Criador concedeu ao homem o privilégio de nomear os seres que habitam</p><p>a natureza. Nomeá-los é dar-lhes vida. É reconhecer-lhes a identidade.</p><p>Inconcebível seria a perpetuação desse criminoso anonimato dos meninos de</p><p>rua, expostos à tortura e à morte que os espreita no silêncio das noites trágicas</p><p>da cidade maravilhosa.</p><p>Jornal do Commercio, 17.09.1998.</p><p>“D</p><p>Expulsão do “paraíso</p><p>eixai vir a mim as criancinhas”, disse o Mestre, há quase dois milênios. “Afastai-as de</p><p>nós”, respondem alguns ingleses, hoje. O contraste é flagrante e revela o surgimento das</p><p>sementes de destruição a que se referia Thomas Merton num livro célebre. A atenção do</p><p>Mestre para com as crianças traduziu o pulsar de uma concepção ético-religiosa da vida humana. A</p><p>iniciativa de um grupo de ingleses representou a face de uma visão reducionista do homem, feita apenas</p><p>para viver o seu egocentrismo triunfante, marcado por um dogmatismo do desejo, sobretudo do desejo de</p><p>criar um paraíso terrestre.</p><p>Hoje, as crianças constituem o alvo e sua exclusão configura uma total</p><p>descrença em relação ao futuro. Amanhã, serão os idosos, os deficientes, os</p><p>insanos e os encarcerados. Até onde prosseguirá esta escalada de</p><p>desumanização? Custa a crer que este primeiro passo, tão comum aos</p><p>totalitarismos, haja sido dado numa das matrizes dos direitos humanos e da</p><p>cidadania. Por detrás de iniciativas como a adotada na Inglaterra, sempre será</p><p>fácil detectar a vigência de uma secularização da sociedade, que vive e respira o</p><p>clima de um laicismo paroxístico; e o falso pressuposto de que os adultos detêm</p><p>o monopólio do bom senso, da sabedoria e ainda o privilégio da vida.</p><p>A ideia de que a religião é um estigma a ser evitado nasce da incompreensão</p><p>de que a dimensão religiosa como que coroa e unifica o ser humano e lhe dá</p><p>consistência. Rui Barbosa, que capitaneou o laicismo da Constituição de 1891,</p><p>em sua Oração aos Moços, já encanecido, volveu sobre os próprios passos.</p><p>Foi quando assentiu: “Eu não conheço nada capaz de produzir na criatura</p><p>humana em geral esse estado interior (de equilíbrio, de fibra, de consciência do</p><p>seu destino moral), senão o influxo religioso.”</p><p>A chamada moral leiga, quando nos oferece o espetáculo de uma plena</p><p>correção ética, dimana, não raro, de um fundamento cultural ancorado no</p><p>ideário cristão.</p><p>Tudo se explica pela simplificação do conceito de natureza humana.</p><p>Somente podemos abarcá-la mercê da consciência nítida de que o homem tem</p><p>múltiplas dimensões e de que o seu atendimento não autoriza a eliminação</p><p>desta ou daquela dentre as facetas de seu perfil ontológico. O homem é um ser</p><p>social, moral, político, religioso, econômico.</p><p>O que falta à civilização atual? Basicamente, poderíamos responder: família,</p><p>ética e religião. A família parece estar vivendo os seus minutos de agonia. Com a</p><p>desvalorização no mercado, a ética patina a olhos vistos. E a religião se</p><p>transforma num ideal distante do homem, abstração quase inatingível pelo</p><p>comum dos mortais. E os nossos governantes continuam a se fiar no êxito</p><p>econômico-financeiro como condição de possibilidade do equilíbrio social e da</p><p>felicidade humana.</p><p>Em artigo recente, o Cardeal Eugenio Sales analisa a importante questão do</p><p>ensino religioso nas escolas. O laicismo impenitente insiste em apresentar a</p><p>problemática religiosa apenas sob o prisma cultural. Exime-se de estabelecer</p><p>conteúdos específicos. A constituição assegura que “ninguém poderá ser</p><p>compelido a associar-se ou permanecer associado”. Ora, a nova lei 9.475/97</p><p>intenta compelir os credos a se associarem para a fixação dos conteúdos</p><p>curriculares. Cabe unicamente às famílias escolher o credo que ditará a</p><p>orientação religiosa de seus filhos menores e às igrejas modelar os conteúdos</p><p>programáticos e garantir a capacitação dos docentes. O ensino de religião</p><p>concebido como expressão meramente cultural retira-lhe o vigor que promana</p><p>da fé do homem num Deus, cujos mistérios suplantam e muito os limites das</p><p>análises racionalistas em que os querem constranger. Conteúdos programáticos</p><p>hão de ser estruturados a partir de uma religião determinada - católica,</p><p>protestante, islâmica, judaica, etc. - em obediência ao seu corpo doutrinário.</p><p>Os ingleses que proibiram a presença de crianças e adolescentes em seu</p><p>condomínio estão a comprovar que, sem família, ética e religião dificilmente se</p><p>poderá suster a sociedade. Ela fica entregue às flutuações dos egoísmos e,</p><p>portanto, condenada à desumanização. E nem se diga que é um caso isolado,</p><p>pois a sua aceitação atesta a introdução do vírus no tecido social. Caso</p><p>contrário, seria repelida a ideia em seu nascedouro. Os ingleses, tradicionais</p><p>colecionadores de silêncio, neste caso não souberam haurir do silêncio interior e</p><p>da reflexão mais funda a inspiração para evitar a indefensável decisão de não</p><p>admitir crianças em seu espaço privilegiado.</p><p>Certamente, os ingleses do condomínio fechado cuidaram que haviam</p><p>edificado o paraíso. Ao não permitir nele a presença de crianças, os donos da</p><p>esdrúxula construção na verdade a expulsaram, não do paraíso, mas do</p><p>“paraíso”.</p><p>Jornal do Commercio, 05.08.1999.</p><p>O</p><p>Contraste pedagógico</p><p>ex-governador de Brasília, Cristovam Buarque, fez importante sugestão ao</p><p>governo federal, no momento em que as infantilidades políticas povoam</p><p>soberanamente os noticiários. Um ex-presidente ateou fogo às vestes</p><p>do Estado</p><p>que governa, fazendo do ressentimento a mola propulsora de sua atuação</p><p>política e mesmo a atmosfera psicológica de seu viver. Já Max Scheler1 nos havia</p><p>advertido que este sentimento é altamente devastador. Conclusão: o país vive em</p><p>estado de alerta ante a guerrinha inglória com que nos presenteiam, quando</p><p>tínhamos o direito de esperar seriedade, sobriedade, competência e espírito</p><p>público por parte dos que nos governam nos três níveis.</p><p>E o que nos propõe Cristovam Buarque? Que da astronômica cifra de 29</p><p>bilhões de dólares, que os estados pretendem renegociar com a União, apenas 2</p><p>bilhões se destinem a alforriar todas as crianças do Brasil que trabalham, contra</p><p>todas as sadias prescrições da psicologia, da pedagogia e da medicina. Suas</p><p>famílias receberiam R$ 40,00 por mês para manterem os seus filhos menores</p><p>nas escolas.</p><p>Em 10 de dezembro último, celebramos o cinquentenário da Declaração dos</p><p>Direitos Humanos. Acaso terá sido apenas um intervalo retórico, com a</p><p>imediata retomada do anti-humanismo? A dignidade humana se impõe,</p><p>designadamente neste instante da vida nacional, quando se aguçam as armas</p><p>com que se pretende enfrentar o desafio econômico-financeiro, com total</p><p>esquecimento dos valores que estão sendo esmagados ou, pelo menos,</p><p>inteiramente obliterados pelo poder público. E certo que a vida é incerteza e</p><p>risco, como sublinhou Peter Wust2, em famoso ensaio com este título. E como</p><p>ainda Shakespeare nos ensina em Macbeth (“Andyou allknowsecurity is</p><p>mortals’chiefestenemy”)3. Hoje, repontam em várias partes do mundo os sinais</p><p>trágicos de abandono da inquestionável prioridade do ser humano no conjunto</p><p>dos seres.</p><p>Uma judiciosa avaliação do teor ético de uma sociedade se processa pela</p><p>simples observação de como ela se ocupa das minorias, dos deficientes, dos</p><p>enfermos, das crianças e jovens. Assim, a proposta do ex-governador de Brasília</p><p>deve ser considerada com a seriedade que o dramático abandono das crianças</p><p>impõe. Que país é este, que estende os tapetes vermelhos para os donos do</p><p>dinheiro e relega a total ostracismo o tratamento condigno a ser exigido para o</p><p>grande, este sim, o incomensurável capital humano que constitui a numerosa</p><p>população dos futuros construtores do destino do país?</p><p>Em outra entrevista, Antonio Carlos Magalhães condena, com sua conhecida</p><p>veemência, cortes na área social. Assim, dois homens públicos de tendências</p><p>ideológicas opostas se encontram, momentaneamente, para defender os mais</p><p>vulneráveis, os mais frágeis entre os brasileiros.</p><p>Instituições religiosas de elevado porte, como a CNBB e a Confederação</p><p>Israelita do Brasil, se manifestaram no mesmo sentido, visando à preservação de</p><p>uma vida digna para os segmentos mais pobres da população.</p><p>Agora, se fala de um manifesto dos juristas, advertindo a nação com respeito</p><p>à ameaça patente à nossa soberania, ao esvaziamento do Poder Legislativo pela</p><p>emissão de medidas provisórias, em flagrante desrespeito à finalidade com que</p><p>foi criada pela Constituição de 1988, e assim por diante.</p><p>No momento da crise, as paixões se exacerbam e bodes expiatórios emergem</p><p>inopinadamente. A bola da vez é o Poder Judiciário, grande vítima da pletora de</p><p>leis a gerarem milhões de processos impossíveis de serem digeridos com o</p><p>mesmo número de juízes e com sua infraestrutura insuficiente. Em vez de</p><p>moderar a edição de leis que se sobrepõem, e ensejam a procrastinação dos</p><p>feitos mercê de interpretações díspares aos seus dispositivos, culpa-se o poder</p><p>como tal, e até se advoga a extinção de tribunais e das justiças especializadas.</p><p>Há mais de meio século, a Justiça do Trabalho representa um lenitivo para as</p><p>classes trabalhadoras. No sentido de que é um poder isento ante o qual não há a</p><p>usual superioridade do capital sobre o trabalho, e sim a possibilidade de, em</p><p>igualdade de condições, empregados e empregadores buscarem os limites de</p><p>seus direitos. Se há juízes de fato que oneram o orçamento dessa Justiça</p><p>especializada, a quem cabe a culpa? À própria Justiça do Trabalho ou ao</p><p>governo e ao parlamento que não podam o que, hoje, é admitido por todos: a</p><p>desnecessidade dajustiça paritária?</p><p>Assim, há, de um lado, iniciativas corajosas e oportunas para preservar a área</p><p>social dos cortes álgidos e indiferentes dos tecnocratas sempre à mão para</p><p>adotarem políticas anti-humanas. De outro, homens e instituições que</p><p>perseguem o grande objetivo de lutar em prol dos menos favorecidos. Enfim,</p><p>em favor da preservação, a qualquer título, da dignidade do ser humano.</p><p>O contraste é evidente e altamente pedagógico, pois nos mostra de que lado</p><p>se situa a legítima defesa do sofrido homem brasileiro, que contempla sem</p><p>entender como um país tão rico pode lançar ao desespero milhões de patrícios,</p><p>sem lhes abrir sequer uma janela no horizonte da esperança.</p><p>Jornal do Commercio, 04.03.1999.</p><p>NOTAS</p><p>1 Max Ferdinand Scheler (1874-1928): filósofo alemão.</p><p>2 Peter Wust (1884-1940): filósofo existencialista alemão.</p><p>3 Andyou all know security is mortals’ chiefest enemy: E vocês todos sabem que a segurança é o maior</p><p>inimigo de todos os mortais.</p><p>D</p><p>O reino da insegurança</p><p>esfilam ante nossos olhos cansados - pela reiteração da negatividade</p><p>que teima em rechear as manchetes da mídia - estatísticas sobre a</p><p>violência no Rio de Janeiro.</p><p>O jovem governador1 se ufana de proclamar a queda vertiginosa do</p><p>fenômeno que responde seguramente pela elevada taxa de problemas</p><p>emocionais e por distúrbios de saúde de boa parte da população. Os crimes</p><p>estariam em baixa, assevera o alegre timoneiro do Estado. Estupros, latrocínios,</p><p>roubos de carros, sequestros, tudo estaria declinando nas estatísticas oficiais.</p><p>Mas a crítica veio a cavalo: o ex-governador resolveu sair de seu sono letárgico e</p><p>sustentou que houve manipulação de dados para beneficiar a imagem (sempre a</p><p>imagem) do jovem político.</p><p>Não se trata de um debate sério destinado a pôr cobro à chaga da violência</p><p>no Estado. E sim de marcar posição no xadrez eleitoral vindouro. Enfim,</p><p>seríamos manipulados por eventuais fabricantes de estatísticas e por críticos</p><p>nada desinteressados em lhes mostrar a fragilidade. De um lado e de outro, a</p><p>mesma gritante realidade do desapreço pela inteligência e do desrespeito pela</p><p>dignidade dos governados.</p><p>Timbramos em atribuir prioridade absoluta a tudo o que se manifesta</p><p>exteriormente, ao que nos agride os sentidos ou as emoções. Cumpre atirar a</p><p>barra mais longe e vislumbrar no núcleo das pessoas realidades que escapam a</p><p>um olhar perfunctório.</p><p>Realidades que suplantam a fenomenalidade com que as coisas usualmente</p><p>nos atingem e nos despertam a atenção.</p><p>Cuidamos indispensável realçar o papel de um outro tipo de violência, mais</p><p>perigosa, por vezes, do que a violência física, do que a agressão material, porque</p><p>nos divide interiormente, aniquila no nascedouro todo o potencial de esperança</p><p>que se aninha nas dobras de nossa alma.</p><p>Nada mais funesta para o humano existir do que a falência da esperança. O</p><p>sulco nascido de sua ausência transborda das feridas do corpo para anular o</p><p>sentido do existir. Sabemos todos o quanto avultam em nossos dias as</p><p>desarmonias psíquicas, os descarrilamentos do espírito. Nas curvas de nossa</p><p>historicidade pululam as esperas do vazio, e não as expectativas de um porvir</p><p>prenhe de afirmação espiritual. Perdemos o contato com o real mais profundo,</p><p>porque o mundo da superfície sobrenada na corrente inexorável do tempo</p><p>finito, a desafiar a densidade do eu e sua prospectiva.</p><p>A vida é insegurança e risco, sentenciou Peter Wust. A busca de sucesso, de</p><p>êxito a qualquer preço, de exibição de conhecimentos, de tirania do ego não se</p><p>ajusta ao escopo primacial de diuturno enriquecimento pessoal. Em que pese a</p><p>presença ofuscante do mal, da dor, de todas as formas de amesquinhamento do</p><p>homem sobreleva a força interior, de que promana a única segurança possível: a</p><p>segurança da insegurança (securitas insecuritatis), de que fala S. Agostinho.</p><p>Embarcar nas águas tormentosas do espírito, acolhendo-lhe</p><p>a força recôndita e</p><p>a linguagem profunda, constitui a única atitude capaz de obviar os</p><p>inconvenientes da violência ostensiva que degrada o homem e lhe amesquinha a</p><p>vida.</p><p>Os governantes que congelam salários durante anos, no mesmo período em</p><p>que a inflação ainda arreganha os dentes, que aumentam impostos</p><p>desmesuradamente, que massacram os aposentados, que oferecem escolas e</p><p>hospitais de baixa qualidade de atendimento a revelar insensibilidade e ausência</p><p>de imaginação, que não se sensibilizam com os milhões de famintos, de</p><p>analfabetos e de desempregados, que não aceitam qualquer crítica, que se</p><p>arrogam o poder de divisar sempre a verdade contra uma população que sabe</p><p>que ela não se contém nas falas oficiais, tudo isto nos atesta uma forma de</p><p>violência contra o cidadão.</p><p>De resto, não há sociedade sem a estabilidade nas relações humanas. E esta</p><p>provém do império do direito e da lei. E o que vemos? A legislação ceder aos</p><p>rogos do arbítrio, pois a tanto equivalem as medidas “provisórias” que se</p><p>eternizam, a esvaziar a atuação essencial do Poder Legislativo. A segurança</p><p>inexiste sempre que um só poder ditar as regras do jogo. Ela se liquefaz, se</p><p>estiola, murcha.</p><p>O homem deverá ser sempre encarado como fim, nunca como meio,</p><p>obtemperou Kant há dois séculos. É um imperativo a nos orientar a conduta.</p><p>Mais do que aos cidadãos em sua individualidade, o princípio deve valer para os</p><p>que detêm os cordéis do poder. A eles também é endereçada a mensagem do</p><p>filósofo alemão. Iludir, manipular as consciências não se insere entre as</p><p>prerrogativas ou tarefas confiadas aos governantes. Ao contrário, a transparência</p><p>se impõe, uma vez que nós somos a fonte de sua legitimidade. Nós cidadãos,</p><p>sempre a esperar e crer que dias melhores virão, mas que se veem forçados a pôr</p><p>entre parênteses a esperança, até que a consciência acorde os nossos governantes</p><p>de seu sono dogmático, impelindo-os para uma era de plena sintonia com as</p><p>bases de sua sustentação. Ao reino da insegurança, por acreditar no ser</p><p>humano, teimamos em confiar venha a suceder uma fase de crença axiológica e</p><p>esperança existencial.</p><p>Jornal do Commercio, 08.07.1999.</p><p>NOTA</p><p>1 O jovem governador: referência a Anthony Garotinho, que ocupou o cargo de governador do Estado</p><p>do Rio de Janeiro de 1999 a 2002.</p><p>O</p><p>Sinais dos tempos</p><p>s mísseis cruzam os ares nos Bálcãs, com escassa precisão. Um</p><p>enfermeiro, antecipando-se ao Criador, ceifa vidas de doentes</p><p>terminais. Uma médica é assassinada, ao visitar sua genitora no dia</p><p>das mães. Jovens estudantes assestam as baterias de sua violência endêmica</p><p>contra colegas.</p><p>O noticiário é desolador e até tende a anestesiar as consciências, dada a sua</p><p>reiteração. Tornaram-se fatos do nosso cotidiano. A vida humana, o maior dom</p><p>com que fomos aquinhoados, se esvai nas franjas da duração, encurtado pelos</p><p>sinais dos tempos, pela negatividade aparentemente vitoriosa.</p><p>A fenomenologia da violência nos aponta o seu paroxismo e dificulta</p><p>sobremodo os caminhos novos a trilhar, nesta senda obscura em que tudo se</p><p>torna obstáculo a nossos passos trôpegos.</p><p>Emergem então as receitas para todos os gostos e sabores. Desigualdades</p><p>sociais, economia predatória ou insegura, educação e saúde deficientes,</p><p>individualismo galopante.</p><p>Em obediência ao programa denominado Agenda do Milênio, a UNESCO e</p><p>a Universidade Candido Mendes vêm realizando com invulgar êxito uma</p><p>sucessão de eventos de elevada significação no relativo à análise dos desafios da</p><p>modernidade e à prospectiva para indivíduos e grupos sociais.</p><p>O tema desta semana foi “A construção do tempo e os fUturos possíveis”. Na</p><p>abertura, após suculenta e talentosa síntese do Reitor Candido Mendes, fomos</p><p>brindados com ricas exposições de Eduardo Portella1, Jerôme Bindé2 e Alain</p><p>Touraine3.</p><p>Desde sempre, o tempo vem figurando entre os maiores óbices à</p><p>compreensão do real em sua senda de fugacidade. Já Santo Agostinho se</p><p>perguntara: “Se não me perguntarem o que é o tempo, eu sei o que ele é; ai de</p><p>mim se me indagarem o que ele efetivamente é.” A rigor, o tempo é a areia</p><p>movediça que molda o décor existencial, a dimensão desencorajadora da</p><p>previsibilidade, a fluência dinâmica do porvir pleno de interrogações. Realçou-</p><p>se o papel do instante, sem as culminâncias de um presenteísmo de duvidosa</p><p>perspectiva, como sublinhou Portella. Urge captar a tensão entre presente e</p><p>passado, configurando o futuro como a terra prometida da esperança.</p><p>Jerôme Bindé deixou patente que atravessamos o círculo polar do fim das</p><p>certezas e da afirmação do pluralismo. É também a crise da temporalidade</p><p>vivida e, sobretudo, a tirania da urgência. Podemos mesmo falar de uma lógica</p><p>da urgência a gerir o cotidiano de homens e de sociedades. Há que se falar</p><p>mesmo num desvario, segundo poema popular. Enfim, no tempo abolido pelo</p><p>instante.</p><p>A reconstrução do tempo só haverá de operar-se com o retorno ao sentido de</p><p>um presente calcado num passado, sem passadismo e num futuro como</p><p>almoxarifado, da esperança dos homens e das sociedades.</p><p>Alain Touraine insistiu na inexistência do presente como dimensão singular,</p><p>já que o passado é presente e o futuro foi antecipado. Distinguiu com meridiana</p><p>clareza os que vivem no tempo e os que se situam fora dele, delineando a</p><p>segregação medular que se apossou da maioria silenciosa e sofrida. Em sua</p><p>análise sociológica, afiançou que 30% da economia advêm da criminalidade. E</p><p>imagina o dia em que a maioria maligna predominar. Hoje, não se fala mais de</p><p>produção, e sim de comércio, comércio de capitais.</p><p>A estabilidade desapareceu do convívio social. O capitalismo teria abolido as</p><p>leis e as instituições. A fluidez da vida social até nos nega o que Eduardo</p><p>Portella com razão denomina “a cesta básica de valores”. O absenteísmo</p><p>axiológico atingiu perigoso patamar, que constrange o homem a navegar sem</p><p>bússola em seu mar interior, sepultando a convivência como valor vital para o</p><p>seu próprio desabrochar. O tempo coletivo se desestrutura, no momento em</p><p>que o individualismo arregaça as mangas para as aventuras desligadas de</p><p>compromissos com a coletividade e mesmo predatórias do tecido social.</p><p>Parece faltar-nos um aceno mais bem bosquejado ao valor-pessoa, que diz</p><p>melhor da sinceridade de si para consigo mesmo e se alça ao plano da</p><p>intersubjetividade e da reciprocidade das consciências. É a ênfase posta na</p><p>pessoa que ensejará a atitude ética fundamental do respeito, ponto de partida de</p><p>qualquer edificação normativa da conduta humana, nos dois níveis da</p><p>singularidade e da conviviabilidade.</p><p>É o momento de reforçarmos o que denominamos ontoética, como retrato</p><p>existencial que se constrói mercê de instantes privilegiados, realmente</p><p>constitutivos de nosso ser pessoal. Não se trata de mero apelo a uma essência</p><p>abstrata, mas sim de uma espécie de essência que se concretiza na construção</p><p>de cada ser pessoal, e assim se abre ao possibilismo do viver-convivendo - meta</p><p>de nossos passos, nas modulações diuturnas de nossa peripécia como existentes,</p><p>num mundo tisnado pela negatividade e pela violência larvar.</p><p>Somente a consciência de nossa condição de seres pessoais voltados para a</p><p>comunidade como espelho de nosso próprio ser ensejará a emergência de uma</p><p>sociedade mais humana e maisjusta, em que os anseios mais recônditos de</p><p>nossa alma encontrarão a resposta ao mais-ser que nos aguarda numa próxima</p><p>curva de nossa historicidade. Então, a historicidade de cada um de nós</p><p>desempenhará o seu papel na grande história dos homens, das instituições e das</p><p>nações, ávidos todos por um trino de paz e de justiça, temperados pelo inefável</p><p>e indefectível amor, a pervadir a terra dos homens.</p><p>Jornal do Commercio, 13.05.1999.</p><p>NOTAS</p><p>1 Eduardo Portella (1932-2017): professor e escritor brasileiro, membro da Academia Brasileira de</p><p>Letras.</p><p>2 Jerôme Bindé (1951- ): escritor e futurista francês.</p><p>3 Alain Touraine (1925- ): sociólogo francês, pai da expressão “sociedade pós-industrial”.</p><p>A</p><p>Nada pelo social</p><p>ONU acaba de divulgar uma nova estatística</p><p>relativa aos níveis sociais dos</p><p>países dos cinco continentes. O Brasil foi presenteado com uma queda no</p><p>desempenho huma no, descendo do 62º lugar para o 79º. Acudiram,</p><p>pressurosos, funcionários do governo brasileiro acusando a ONU de haver</p><p>alterado a metodologia que a levou a tal “disparate”, tachando-a de</p><p>esquizofrênica.</p><p>Lamento não me alinhar entre os fiéis servidores que, lutando sempre por</p><p>um lugar ao sol no banquete governamental, não se aperceberam do triste papel</p><p>que representaram. Então, a suposta décima economia mundial ostenta no</p><p>desempenho social - seja o ridículo 62º, seja o 79º lugar - num universo de</p><p>cerca de duzentos países? Ou seja, nossos servidores parece estarem felizes com</p><p>o sexagésimo segundo lugar que uma das estatísticas nos reservou. Ser o 62º</p><p>país, tudo bem. É o 79º lugar que seria desonroso?! Cabe a pergunta: de que</p><p>lado está a esquizofrenia? Aqui e ali, buscam governantes locais cobrir com</p><p>peneira resultados negativos em áreas vitais para a sociedade, como educação,</p><p>saúde, moradia, segurança. É um tal de apelar para eventuais e inexpressivos</p><p>crescimentos vegetativos, como se a população não compreendesse a</p><p>maquilagem que lhe é exibida com astúcia nada criativa.</p><p>Positivamente, está bem caracterizada a era do “nada pelo social”, de tal</p><p>maneira se cuida da economia, num sentido talvez predominantemente</p><p>contábil, e não de uma economia como seiva vivificadora do país, a fecundar o</p><p>desenvolvimento humano.</p><p>Para se proceder a uma avaliação de padrões humanos numa dada</p><p>sociedade, cumpre inventariar os seus indicadores sociais. Basta mencionar o</p><p>perfil demográfico, aí referindo as taxas de natalidade, de mortalidade geral e</p><p>infantil, a distribuição espacial; a família, sua estrutura e sua harmonia interna,</p><p>se alinha também como indicador relevante; cultura e educação, com a</p><p>especificação dos níveis de escolaridade e de evasão, condições de trabalho dos</p><p>docentes, estímulo à cultura por todas as formas; ecologia, com realce nas</p><p>questões de desmatamento e reflorestamento, índices de poluição ambiental;</p><p>trabalho, com menção especial à população economicamente ativa, aos níveis de</p><p>emprego e de desemprego, de renda individual e familiar, lazer; saúde e</p><p>nutrição e saneamento, com a expectativa de vida, endemias, estado nutricional</p><p>da população, água, esgoto, lixo e poluentes; habitação, qualidade, número de</p><p>moradores por unidade; urbanização, vida nas favelas e serviços que lhes são</p><p>oferecidos; previdência e assistência social, segurados e seus dependentes,</p><p>auxílios, benefícios, assistência aos carentes; mobilidade social, ascensão social;</p><p>segurança individual e coletiva, cuja falta clama aos céus; comunicação social - a</p><p>mídia e seu papel; opinião pública, levantamento da mesma e seus efeitos nas</p><p>decisões políticas; religiosidade, as religiões e seus adeptos, seu papel inspirador</p><p>do comportamento social.</p><p>A simples leitura do elenco dos indicadores sociais atesta à saciedade o</p><p>quanto nos afastamos de padrões eticamente compatíveis com o avanço do país</p><p>no cenário internacional. O confronto de nossa economia como peso dos países</p><p>do Primeiro Mundo revela a disparidade flagrante entre nossa riqueza natural e</p><p>humana e nossa pobreza social, realçando ainda mais a insensibilidade</p><p>governamental, que timbra em organizar as finanças, mas nem por um</p><p>momento cuida do homem brasileiro, deste ser de carne e osso que trabalha,</p><p>luta, produz, sofre com mazelas que já deveriam ter sido superadas e que</p><p>teimam em atormentar a vida de nossos patrícios.</p><p>De toda a parte vozes autorizadas se levantam para clamar por justiça social,</p><p>para despertar a consciência governamental, intui de seu sono letárgico. Tudo</p><p>parece inútil, pois a nave do Estado segue tranquila a sua rota de colisão com o</p><p>Brasil real.</p><p>Seria de desejar-se que nossos governantes nos exibissem metas sociais</p><p>quantificadas, com referência expressa aos prazos de sua implementação, a</p><p>permitir que se insinuassem na alma dos brasileiros as sementes de uma</p><p>esperança menos teórica e mais consistente.</p><p>Paralelamente à inação oficial, milhões de brasileiros se aprimoram</p><p>diuturnamente, frequentando escolas, colégios e universidades, labutando nos</p><p>escritórios e nas fábricas, cortando os espaços no transporte de nossas riquezas.</p><p>Fatigados da inércia governamental, seguem o seu caminho no esforço</p><p>continuado e persistente de construir o seu lugar ao sol, e também de edificar a</p><p>pátria que a todos nos serviu de berço, na firme certeza de que o país é maior</p><p>do que os seus governantes. É este espetáculo de fé e de labor que nos estimula</p><p>a prosseguir na caminhada em prol de um Brasil mais justo e mais humano,</p><p>malgrado a música desafinada que promana dos escritórios de Brasília, esta ilha</p><p>distante e indiferente aos reclamos mais justos do sofrido povo brasileiro.</p><p>Só nos resta depositarmos as nossas esperanças no povo. É nele que repousa</p><p>a nossa convicção de que dias melhores estão por vir e abrirão de par em par as</p><p>portas de nossa melhor esperança. O Brasil, ao que tudo indica, parece não</p><p>merecer os governantes que lhe dirigem os destinos.</p><p>Jornal do Commercio, 15.07.1999.</p><p>H</p><p>O futuro dos direitos humanos</p><p>oje, faz meio século que foi promulgada a Declaração dos Direitos</p><p>Humanos, em Paris. O Brasil lá esteve presente, pois um dos</p><p>signatários da carta de princípios foi o saudoso presidente da</p><p>Academia Brasileira de Letras Austregésilo de Athayde, cujo centenário de</p><p>nascimento o país, reconhecido, celebra este ano.</p><p>Os afluentes da grande caudal dos direitos humanos demandaram muitos</p><p>séculos até se constituírem num elenco imperativo de princípios, que não mais</p><p>está a exigir severa dialética em sua defesa. Fazem parte da paisagem humana</p><p>das legislações, e mais e mais ganham espaço nas consciências.</p><p>Forçoso é convir que a sua aplicação não vem obedecendo aos reclamos da</p><p>eticidade universal. Reiteradas vezes, a violência contra pessoas, instituições e</p><p>povos prossegue também sua caminhada, em total descompasso com as nobres</p><p>aspirações que ditaram os termos da Carta Magna dos direitos humanos.</p><p>Não se poderá falar em direitos humanos sem bosquejar o perfil ontológico</p><p>da pessoa. Pessoa que, no sentir de Tomás de Aquino, significa o que existe de</p><p>mais perfeito em toda a natureza. Assim, por detrás das peculiaridades de cada</p><p>cultura, há um núcleo comum que resiste a todas as falácias tendentes a</p><p>dissolver o ser humano numa massa amorfa. No plano racional, no domínio</p><p>volitivo e na esfera da sensibilidade detectam-se sinais comuns às diversas</p><p>culturas. As dessemelhanças concernem aos aspectos extrínsecos, jamais</p><p>pervadindo a natureza humana. Esta remanesce intocada pela evolução e pelas</p><p>mutações do mundo sensível e pelo evolver das culturas.</p><p>Não se pode obscurecer a realidade mutável com a qual hoje nos</p><p>defrontamos. Tudo parece fugidio, e mesmo descartável. Esta impressão de</p><p>volatilidade conspira contra princípios e valores duradouros. Cabe a pergunta:</p><p>ainda tem validade a carta de direitos humanos, ou sua significação já se exauriu</p><p>pela velocidade vertiginosa das transformações sociais, políticas e econômicas?</p><p>Afigura-se-nos inquestionável que a mudança e a permanência têm lugar</p><p>cativo na história dos homens. Cumpre sempre proceder a revisões que</p><p>traduzem os ajustes dos princípios à realidade cambiante. Concretamente, existe</p><p>hoje uma exigência insopitável de se assegurarem, de maneira imediata, direitos</p><p>humanos concernentes à vida e à morte. A chamada morte tecnológica, por</p><p>exemplo, não é humana; ela suplanta o ciclo vital e pede passagem, quando o</p><p>fim de uma vida já fora decretado pela penúria da sobrevivência artificial. A</p><p>discussão em torno do direito a uma vida digna se aproxima do mesmo direito a</p><p>uma morte compatível com a dignidade do ser humano.</p><p>A privacidade se vê ameaçada. Devassa-se o interior dos lares, gravam-se</p><p>conversas íntimas, fotografa-se sem qualquer resquício de respeito à privacidade.</p><p>Lady Diana foi a vítima emblemática da sofreguidão com que certos</p><p>meios de</p><p>comunicação se apossam de vidas humanas, como se fossem seus proprietários.</p><p>A família por igual carece de novo amparo. A longevidade crescente faz</p><p>prever a convivência intergeracional. Num futuro breve, quatro gerações</p><p>poderão habitar o mesmo lar, daí decorrendo novas formas de convivência a</p><p>balizar o comportamento dos membros de uma mesma família.</p><p>Vivemos um momento de transição da realidade para a emergência da</p><p>virtualidade. A sociedade respira a atmosfera do conhecimento que lhe vai</p><p>comandar o processo de ajuste. Em consequência, a educação continuada se</p><p>imporá de modo a acentuar a inelutável necessidade de uma permanente</p><p>atualização, sem o que os homens se verão descartados do mundo do trabalho.</p><p>Isto porque os empregos se evaporam e o que resta de espaço laboral será</p><p>ocupado por aqueles que se compenetraram da urgência do conhecimento</p><p>captado no instante de sua elaboração. Se funciona, já é obsoleto, é o título</p><p>perfeito para o livro do amanhã que já chegou.</p><p>A grande ameaça da nova era é a possibilidade ampliada da manipulação das</p><p>consciências e a invasão do recôndito do ser humano.</p><p>No plano internacional, surge com força inaudita a globalização,</p><p>nomeadamente da economia. Mas no plano do direito sua força se vem</p><p>revelando ante os crimes contra a humanidade. Se os direitos humanos se</p><p>impuseram como princípios mundialmente aceitos pelas consciências</p><p>(conquanto discutível seja a sua vigência no dia a dia das pessoas, das</p><p>instituições e das nações), é o momento de se fixarem as leis que levem ao</p><p>extremo a investigação dos crimes hediondos com os quais, decididamente, a</p><p>humanidade não quer conviver. Analisada neste aspecto, a globalização é</p><p>realmente um bem a ser ampliado.</p><p>A globalização não pode funcionar em mão única, a traduzir a avassaladora</p><p>primazia da economia dos sete grandes sobre o restante da humanidade. Parece</p><p>estar com os dias contados a afluência de poucos em detrimento de quase todos.</p><p>A sobrevivência dos países do Primeiro Mundo pende, hoje, de padrões dignos</p><p>prevalecendo em todo o planeta. Esta é a direção, não apenas ética, mas até</p><p>pragmática.</p><p>O futuro dos direitos humanos passa pela universalidade da ética no</p><p>cotidiano da vida dos homens, das instituições e dos governos. Sua vigência terá</p><p>de ultrapassar a fronteira dos princípios para se impor universalmente às</p><p>consciências. Nossa esperança é de que ingressemos numa era de globalização</p><p>da solidariedade.</p><p>N</p><p>Um percurso sombrio</p><p>o mais recente caso de serial killer a imprensa vem desempenhando</p><p>um papel importante. Alerta-se a consciência do país para que casos</p><p>similares sejam evitados, nomeadamente levando em conta as jovens</p><p>adolescentes atraídas pelas promessas de sucesso.</p><p>Há contudo uma reflexão que ainda não veio à baila e que merece especial</p><p>ponderação. Quando a perversidade atinge níveis paroxísticos cumpre indagar</p><p>que eventuais sinais foram emitidos pelo criminoso em seu percurso sombrio.</p><p>Não é crível que ao longo do tempo não se hajam captado indícios de</p><p>malignidade ou de patologia psíquica. Onde estavam os pais e parentes? Os</p><p>professores? Seguramente o convívio afetivo dos pais e a dedicação educacional</p><p>dos mestres haveriam de detectar manifestações incomuns a merecerem</p><p>correções de rumo e assistência especializada.</p><p>É curial refugiar-se a sociedade na cômoda posição de assentir que sempre</p><p>haverá crimes, alguns dos quais tisnados de excessiva perversidade. Não é do</p><p>conformismo, da passividade que podemos esperar dias melhores para a saúde</p><p>moral e psíquica da população.</p><p>Há toda uma atmosfera que propicia a emergência de desvalores a atravancar</p><p>o fluxo sadio das ações humanas marcadas com o sinete da compreensão e da</p><p>reciprocidade das consciências. No epicentro do terremoto parece situar-se a</p><p>desagregação familiar. E, no particular, os poderosos do mundo insistem em</p><p>negar a dignidade do homem, a ponto de se afiançar nas conferências</p><p>internacionais sobre população, sexualidade, e temas afins, que tal expressão é</p><p>singularmente cristã e, assim, inadequada para expressar o sentir da</p><p>humanidade.</p><p>O respeito à vida e o reconhecimento do valor da instituição familiar</p><p>integram o núcleo da ética particular: Hoje há que ventilar a momentosa</p><p>matéria no bojo da ética pública, especialmente no mundo globalizado em que</p><p>vivemos.</p><p>As atuais políticas populacionais com grande peso no cenário mundial têm</p><p>variadas raízes, no sentir do demógrafo belga Michel Schooyans1. Malthus</p><p>ainda está presente no espírito dos que ainda temem o predomínio da</p><p>população sobre a produção de alimentos. Caso fosse confirmada a sua teoria,</p><p>não teríamos como explicar a expansão populacional do século XIX ao atual,</p><p>passando dos 900 milhões aos quase seis bilhões de habitantes dos nossos dias.</p><p>Superados os exageros das teses malthusianas, sobreveio o neomalthusianismo</p><p>de Margaret Sanger2 e de Mary Stones3, que trouxe um colorido hedonista às</p><p>teses basilares do pastor anglicano e lhes adicionou o sabor utilitarista</p><p>dominante.</p><p>Some-se a esse quadro doutrinário referencial um elenco de posições</p><p>ambientalistas. Parte dessa visão pretende atribuir aos pobres a degradação do</p><p>planeta. Em vez de erradicar a pobreza, preconiza-se sub-repticiamente, como</p><p>sugere Maurice King4, a eliminação dos pobres.</p><p>Vivemos uma era marcada por um paradoxo de grande corte: de um lado,</p><p>acentua-se o individualismo, que tende à criação das próprias regras do convívio</p><p>social, sem aparentemente respeitar o outro; avulta, por outro lado, a prioridade</p><p>do social sobre o individual, e quem lixa as fronteiras normativas é o poder, hoje</p><p>em mãos de uns poucos.</p><p>Em nossa década, acentuaram-se os traços de uma concepção sobre a família</p><p>tendente a desvalorizá-la. Não surpreende assim que a criminalidade se</p><p>expanda e se adentre nas faixas etárias infantis, com total estupor da sociedade.</p><p>Fala-se numa nova família, como se a instituição não fosse natural, mas</p><p>artifício a ser alterado ao talante das imposições do “você decide”. Direitos</p><p>reprodutivos são apregoados, a significar que a vida não tem mais a protegê-la o</p><p>manto sagrado de seu peso próprio.</p><p>As magnas conferências do Rio, em 1992, sobre meio ambiente, de Viena,</p><p>em 1993, sobre os direitos do homem, a do Cairo, em 1994, sobre população, a</p><p>de Copenhague, em 1995, sobre desenvolvimento social, a de Pequim, em</p><p>1995, sobre a mulher, a de Istambul, em 1996, sobre moradia, a de Roma, em</p><p>1996, sobre segurança alimentar; e as de menor porte, de 97, em Nova York e</p><p>no Rio de Janeiro, representam, em alguns aspectos, sérias tentativas de negar a</p><p>fundamental dignidade do homem e da família, e privilegiar os fatores</p><p>econômicos, por vezes camuflados aqui e ali por uma suposta consciência</p><p>ecológica. Certamente há ecologistas efetivamente interessados em assegurar o</p><p>futuro da espécie humana, mercê da preservação do meio ambiente. Cuidamos</p><p>que muitos outros apenas se servem deste novo valor para atingir o cerne do</p><p>humanismo, a dignidade do homem e da família. Trata-se de uma sistemática,</p><p>bem articulada, e altamente profissionalizada conspiração contra os valores</p><p>essenciais do homem e da família, acenando-nos com uma “nova era”.</p><p>Agora fica mais fácil explicar o porquê de tantos crimes hediondos, de tantos</p><p>crimes infanto-juvenis, de tanta violência gratuita e aparentemente inexplicável.</p><p>A família, fragilizada e mesmo muitas vezes desagregada, se exime do dever</p><p>de educar. Transfere-o para a escola, hoje entregue a profissionais muitas vezes</p><p>dedicados, mas mal remunerados, e alguns até sem a necessária formação. Neste</p><p>jogo de empurra, oriundo do individualismo consumista e irresponsável,</p><p>crescem as crianças e não têm como captar sólidos valores que lhes sirvam de</p><p>inspiração para trilhar uma vida digna e fecunda. Aqui e ali repontam as pontas</p><p>do monstruoso iceberg e a sociedade, numa demonstração de farisaísmo, se</p><p>surpreende e clama aos céus. Mas é ela a matriz do descalabro, ao ignorar os</p><p>seus valores básicos, e preferir a senda do facilitário ético,</p><p>hoje tão convidativo.</p><p>Há no cenário sombras que nos ameaçam até a própria vida. Sombras que se</p><p>adensaram nos desvalores da sociedade hedonista. Sombras que um dia se</p><p>confundiram com as florestas desertas em que vidas preciosas foram ceifadas,</p><p>sem que o seu grito final encontrasse eco em nossas consciências complacentes.</p><p>E a vida continua para todos nós, ainda não fulminados pessoalmente pela</p><p>malignidade que parece permear crescentemente o tecido social.</p><p>Jornal do Commercio, 20.08.1998.</p><p>NOTAS</p><p>1 Michel Schooyans (1930- ): além de demógrafo, padre jesuíta, teólogo e filósofo belga.</p><p>2 Margaret Higgins Sanger (1879-1996): ativista de controle de natalidade, escritora e enfermeira norte-</p><p>americana.</p><p>3 Mary Stones (1953- ): médica americana.</p><p>4 Maurice King (1934-2007): ex-jogador de basquete norte-americano.</p><p>É</p><p>Condição humana</p><p>conhecida a frase de Ortega y Gasset: “Eu sou eu e as minhas</p><p>circunstâncias.” Vivemos entre a realidade pessoal, que se afirma a</p><p>cada instante em seu desdobramento operacional, e os contextos</p><p>históricos que nos são dados viver. É necessário contextualizar tudo o que se</p><p>refere à história dos homens, da mesma sorte que não se há de olvidar o ser</p><p>pessoal que se entremostra na permanente busca de si mesmo.</p><p>A observação ganha em relevo num mundo em que se oferecem, a todos,</p><p>padrões estereotipados de comportamento, de valores, de crenças, de consumo,</p><p>enfim, do humano viver.</p><p>Estamos emparedados num universo pré-fabricado nas oficinas de uma</p><p>espécie de determinismo larvar que teima em tolher os passos do homem em</p><p>sua esfera mais íntima das decisões essenciais.</p><p>Tudo conspira contra a forma mais efetiva de fugir à massificação, à inserção</p><p>capitulada numa sociedade amorfa conquanto ambiciosa em nos moldar à sua</p><p>semelhança, isto é, em nos configurar uma existência marcada pela vacuidade</p><p>de sentido, pela ausência de um significado apto a lhe oferecer consistência</p><p>ontológica.</p><p>Diversas constituem as modalidades de sadio escapismo à maré montante da</p><p>estandardização que nos é munificentemente ofertada. Avultam entre elas a</p><p>leitura e a oração. O verbo legere (ler, em latim) guarda um vínculo estreito com</p><p>a ideia de escolha, ou seja, ler é um ato de vontade, é uma opção que nos</p><p>entreabre as portas à ampliação de nosso horizonte. Pela leitura, o mundo se</p><p>agiganta ante nossos olhos atônitos, e revela a sua riqueza que o cotidiano da</p><p>vida nos impede de visualizar. Não há leitura genuína sem meditação, razão</p><p>assistindo a Ravignan1, quando obtempera que “a solidão é a pátria dos fortes,</p><p>o silêncio sua oração”. Não se trata de uma fuga efetiva do viver, pois o agir bem</p><p>sobreleva a própria esfera da reflexão. Disse-o com propriedade Maine de</p><p>Biran2: “Não devemos acreditar que o único e melhor emprego do tempo</p><p>consiste num trabalho de espírito regrado, persistente e tranquilo. Sempre que</p><p>procedemos bem, conforme a nossa situação atual, fazemos bom uso da vida.”</p><p>É relevante compreender que o aprofundamento de uma só questão</p><p>pressupõe um mergulho em todas as coisas. Há uma unidade no mais</p><p>abscôndito dos nossos conhecimentos, há uma travação, uma urdidura silente e</p><p>expectante. Claude Bernard o captou: “Para compreender a fundo uma só coisa</p><p>seria preciso compreendê-las todas.” Para tanto, é mister ler, mas ler com</p><p>critério, uma vez que a leitura apaixonada e excessiva pode acabar por devorar o</p><p>nosso silêncio interior, sem o qual a reflexão não terá guarida.</p><p>Delineia-se o papel do intelectual mesmo ante uma realidade que timbra em</p><p>atomizar o saber e o agir, numa dispersão flagrantemente atentatória à</p><p>meditação. Mas quem é intelectual senão aquele em cuja existência prima a vida</p><p>do espírito? Não importa a profissão, a atividade predominante, e sim a</p><p>prioridade do espírito que perpassa toda a vida dos intelectuais.</p><p>Falar na condição humana é encarar os homens e as instituições que deles</p><p>dimanam com todo o acervo de virtudes e vícios, de grandezas e de misérias.</p><p>Para obviar os inconvenientes que podemos arrostar emergem a reflexão e a</p><p>prece como meios capazes de alçar nossos voos mais elevados.</p><p>Pressentindo a morte que então se avizinhava, o filósofo alemão Peter Wust</p><p>escreveu uma carta de despedida aos seus alunos e alunas. Sorvendo o longo</p><p>sofrimento a que foi submetido, encontrou forças para indicar roteiros</p><p>existenciais para os jovens estudantes. E escreveu: “Se me perguntarem se acaso</p><p>eu possuo, antes que me vá definitivamente, uma chave mágica capaz de abrir a</p><p>última porta da sabedoria da vida, eu lhes respondo: sim, eu a possuo, e esta</p><p>chave mágica é a oração.” Para acrescentar, “as melhores coisas da existência</p><p>humana são reveladas apenas aos espíritos que oram”.</p><p>Tal mensagem não nos autoriza a descurar do pensamento, da reflexão.</p><p>Aponta-nos tão-somente o momento privilegiado em que a prece sobreleva a</p><p>meditação ou é dela a máxima expressão. Esta certamente terá sido a razão pela</p><p>qual Henri Bergson assentiu que os místicos cristãos são seres dotados de um</p><p>bom senso superior.</p><p>A leitura tem seu lugar privilegiado na vida de quantos pretendem viver além</p><p>da epiderme da alma. Seu hábito enriquece o cotidiano dos homens e lhes</p><p>alimenta o espírito, abrindo-o de par em par para a compreensão da densidade</p><p>do mistério de existir. No ápice da pirâmide da inteligibilidade situa-se a prece</p><p>como forma de dialogar com o Alto, vínculo do relativo com o plano superior</p><p>do puro espírito.</p><p>Daí não se infere que a inteligência, a volição e a sensibilidade superior não</p><p>ocupem o lugar que lhes cabe no conjunto diversificado e complexo do</p><p>possibilismo da inserção pessoal. A dificuldade de se captar o mistério da</p><p>pessoa promana precisamente da multiplicidade de ângulos de visualização do</p><p>real e da carência de uma delimitação nítida entre a subjetividade e a</p><p>objetividade, entre o mundo polimórfico do eu e a variedade infinda dos seres</p><p>que à nossa volta moldam o colar deste verdadeiro décor de nossas vidas.</p><p>Viver a condição humana é aceitar maviosamente os acenos ao ser-mais,</p><p>sabendo embora que a lei da gravidade também pode permear nossos passos</p><p>nesta caminhada em que todo esforço é válido na direção da consistência</p><p>existencial.</p><p>Nesta atmosfera de aprofundamento do existir o homem aguça as potências</p><p>do eu e se prepara para o grande Encontro.</p><p>Jornal do Commercio, 22.07.1999.</p><p>NOTAS</p><p>1 Gustave François Xavier Delacroix de Ravignan (1795-1858): pastor e escritor jesuíta francês.</p><p>2 Marie-François-Pierre Gonthier de Biran (1766-1824): filósofo francês.</p><p>O</p><p>O valor da palavra</p><p>evolucionismo plantou na cultura ocidental a semente de um processo</p><p>inexorável de degraus que culminariam no homo sapiens. Inseriu-se de</p><p>forma nítida numa concepção paradeterminista, que praticamente selou o</p><p>destino da liberdade humana. Há uma distinção inegável entre o mundo dos</p><p>animais e o universo humano. E o que caracteriza o ser humano é a palavra. A</p><p>vida nos abriu de par em par para o domínio da palavra, o que nos situa num</p><p>plano transcendente.</p><p>É certo que muitos animais se comunicam claramente, permutando</p><p>informações úteis ao seu desempenho biológico, designadamente na esfera da</p><p>sobrevivência e no atendimento de suas necessidades básicas.</p><p>Somente o homem suplanta os sinais para pervadir o espaço dos signos. Ele</p><p>é autenticamente um animal. Simbólico. Consoante o assente Ernst Cassirer1:</p><p>“Sem o simbolismo, a vida do homem assemelhar-se-ia à dos prisioneiros da</p><p>caverna na famosa imagem de Platão. A vida do homem confinar-se-ia aos</p><p>limites das suas necessidades biológicas e dos seus interesses práticos; não</p><p>poderia encontrar qualquer acesso ao ‘mundo ideal’ que lhe é aberto de</p><p>diferentes lados pela religião, a arte, a filosofia, a ciência.”</p><p>Ao vir ao mundo, o homem como que pede a palavra, a fim de dizer ao que</p><p>veio, ao explicitar os seus pensamentos, desejos, volições. A expansão da</p><p>personalidade se prende à ampliação do espaço concedido à palavra.</p><p>O homem persegue o sentido. O desespero lhe vem da aparente inutilidade</p><p>da busca. Até mesmo</p>