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<p>1</p><p>2</p><p>SUMÁRIO</p><p>1 INTRODUÇÃO ..................................................................................... 3</p><p>2 CIDADANIA ENTRE O CÉU E A TERRA ............................................ 4</p><p>3 O CONCEITO DE CIDADANIA ............................................................ 5</p><p>4 UMA TEOLOGIA DA CIDADANIA COMO TEOLOGIA PÚBLICA ..... 11</p><p>4.1 BASES DE UMA TEOLOGIA DA CIDADANIA ............................ 11</p><p>4.2 TEOLOGIA TRINITÁRIA PARA A CIDADANIA .......................... 13</p><p>5 REFLEXÃO TEOLÓGICA COM UMA ABERTURA DIALÓGICO-</p><p>CRÍTICA A OUTROS SABERES .......................................................................... 16</p><p>6 PERSPECTIVAS DE UMA ANTROPOLOGIA INTEGRADA QUE</p><p>RESPEITA AS DIFERENÇAS ............................................................................... 20</p><p>7 O SENTIDO DA ESPIRITUALIDADE NA VIDA HUMANA ................ 23</p><p>8 UMA TEOLOGIA PÚBLICA DA CIDADANIA: CONTEXTUAL E</p><p>CATÓLICA.. .......................................................................................................... 26</p><p>9 CIDADANIA ....................................................................................... 27</p><p>10 CIDADANIA E EDUCAÇÃO ........................................................... 30</p><p>11 RELIGIÃO E CULTURA ................................................................. 33</p><p>12 NOVAS PERSPECTIVAS PARA O ENSINO RELIGIOSO NAS</p><p>ESCOLAS PÚBLICAS ........................................................................................... 39</p><p>13 RELACIONAMENTO HUMANO ..................................................... 43</p><p>13.1 SOLIDARIEDADE COMO BASE DO HUMANISMO CRISTÃO .. 43</p><p>13.2 COLABORAÇÃO E SUBSIDIARIEDADE ................................... 45</p><p>13.3 SOLIDARIEDADE E PROGRESSO ........................................... 46</p><p>14 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................... 49</p><p>3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Prezado aluno!</p><p>O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é</p><p>semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase</p><p>improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor</p><p>e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado.</p><p>O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos</p><p>ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar,</p><p>as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão</p><p>respondidas em tempo hábil.</p><p>Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da</p><p>nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à</p><p>execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da</p><p>semana e a hora que lhe convier para isso.</p><p>A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser</p><p>seguida e prazos definidos para as atividades.</p><p>Bons estudos!</p><p>4</p><p>2 CIDADANIA ENTRE O CÉU E A TERRA</p><p>A cidadania é um assunto central da convivência humana. Ela tem um local</p><p>proeminente no terceiro livro da Política, do filósofo grego Aristóteles, em que define</p><p>o cidadão (polites) da cidade (polis) com sua constituição específica (politeia)</p><p>(RUDOLF, 2012).</p><p>O apóstolo Paulo fixa que ele é “judeu, natural de Tarso, cidade importante</p><p>da Cilícia” (Atos 21,39) e reivindica, ao mesmo tempo, ser cidadão romano (Atos</p><p>16,38; 22,25-28), invocando direitos e privilégios específicos implícitos. O autor da</p><p>carta aos Efésios enfatiza que vale para os judeus e os gregos em Cristo: “(…) já</p><p>não sois estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e familiares de</p><p>Deus” (Ef 2,19). O autor da carta aos Hebreus destaca o caráter precário da</p><p>cidadania terrena: “Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas estamos</p><p>à procura da que está por vir” (Hb 13.14). A visão do livro do Apocalipse é uma</p><p>cidade, a Jerusalém celestial, curiosamente uma cidade sem templo (Ap 21,22). No</p><p>fim dos tempos, o profano e o espiritual, o secular e o religioso coincidem na</p><p>presença de Deus (RUDOLF, 2012).</p><p>Agostinho escreveu proeminentemente sobre a relação entre a cidade de</p><p>Deus e a cidade terrena. De tal modo, pode-se afirmar que a cidadania é um assunto</p><p>cristão que está presente desde os primórdios do cristianismo. A cidade humana é</p><p>sempre precária, mas é a localização adequada dos cristãos em sua vida. Os</p><p>cristãos são fiéis à cidade de Deus, que deve ser revelada e instalada em sua</p><p>plenitude, e que já está presente na cidade humana com todas as suas</p><p>ambiguidades (RUDOLF, 2012).</p><p>Atualmente, as questões da cidadania nacional, e especialmente a luta pela</p><p>inclusão em um sentido mais amplo pela moradia, pelo “direito de ter direitos”</p><p>(ARENDT, 2012, p.296), de pertencer a algum espaço e deter propriedade desse</p><p>lugar são questões autênticas e centrais. Além disso, se pode mencionar aqui os</p><p>fluxos de migrantes e refugiados que o mundo acompanha e enfrenta hoje. Estas</p><p>realidades mostram o desafio do desarraigamento e do deslocamento. Cristãos</p><p>sabem que nunca estão totalmente “em casa” neste mundo, e sua fidelidade não</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>5</p><p>pode ficar ininterrupta com relação a um lugar específico, um povo específico, uma</p><p>nação específica. O Evangelho transcende os limites estabelecidos pelos seres</p><p>humanos. Entretanto, pessoas cristãs são chamadas a dar sua contribuição</p><p>precisamente em um contexto e num momento específicos, para ajudar seus pares</p><p>a se sentirem em casa onde quer que estejam. Isso implica que devam trabalhar</p><p>para os direitos da cidadania para todas as pessoas em todos os lugares. Na</p><p>medida em que a teologia reflete sobre seu devido lugar e sua incidência na</p><p>sociedade, na esfera pública, trata-se de uma teologia pública, que aqui formulamos</p><p>como uma teologia pública da cidadania (RUDOLF, 2012).</p><p>3 O CONCEITO DE CIDADANIA</p><p>“Cidadania” significa antes um campo conceitual do que de um conceito</p><p>claramente definido, devido à crescente multiplicidade de assuntos, questões,</p><p>objetivos e políticas relacionados. Foi historicamente forjado no Ocidente, tendo</p><p>como referência inicial Atenas e Roma e passando pelas revoluções do século XVIII</p><p>nos Estados Unidos e na França. No entanto, não se deve esquecer que a primeira</p><p>pessoa a falar de “direitos humanos” foi Bartolomé de Las Casas (1484-1566), que</p><p>desencadeou uma importante discussão sobre o status humano dos povos</p><p>indígenas (RUDOLF, 2012).</p><p>Thomas Janoski determina a cidadania como “ser membro passivo e ativo</p><p>de indivíduos em um Estado-Nação com direitos e obrigações universais em um</p><p>nível específico de igualdade” (1998, p.9). Muitos autores referem-se às três</p><p>categorias de direitos do sociólogo britânico Thomas H. Marshall (1893-1981) –</p><p>civis, políticos e sociais –, conquistados nesta ordem entre os séculos XVIII e XX</p><p>(cf. CARVALHO, 2001). O advogado brasileiro Darcísio Corrêa introduz sua</p><p>definição destacando aspectos econômicos e sociais da cidadania: “A cidadania</p><p>(…) constitui a realização democrática de uma sociedade, compartilhada por todos</p><p>os indivíduos ao ponto de garantir a todos o acesso ao espaço público e condições</p><p>de sobrevivência digna, tendo como valor-fonte a plenitude da vida”(2006, p.217).</p><p>É evidente que tal definição ultrapassa a questão dos direitos (e deveres) previstos</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>6</p><p>na lei, introduzindo uma dimensão utópica e escatológica quando se fala da</p><p>“plenitude da vida” (ver João 10,10, texto comumente citado por movimentos sociais</p><p>e ONGs ligadas a igrejas). “Acesso ao espaço público” aponta para as necessárias</p><p>garantias a serem</p><p>que funciona como a gramática de uma língua, com suas palavras,</p><p>estruturas, regras, sintaxe, que dão unidade e lógica de sentido. Como tal, explica</p><p>e orienta a vida humana em seu conjunto sendo a matriz a partir da qual é possível</p><p>enriquecê-la, incorporar elementos estranhos e criar novos para responder às</p><p>necessidades de cada momento histórico. Poder-se-ia considerar como a fonte que</p><p>nutre e vivifica a vida de um povo (BOSI, 2003).</p><p>Estas estruturas mentais, fantasias coletivas, rede de significados e</p><p>sistemas simbólicos, de acordo com os diversos nomes com que se indica este</p><p>momento da elaboração de uma cultura, são o que filosoficamente se denominou</p><p>com o termo “cosmovisão”, como a consciência coletiva própria de um grupo</p><p>humano, cujo objeto é o mundo em sua totalidade. Orienta-se a descobrir e mostrar</p><p>a razão de ser e o significado que tem o mundo como um todo, e as partes e</p><p>elementos dentro dele. (GEERTZ, 1978, p. 26-27)</p><p>As diferentes culturas constróem suas cosmovisões mediante operações</p><p>básicas que pode-se designar como lógicas, racionais ou processos</p><p>epistemológicos (GEERTZ, 1978, p. 30) que vêm a ser como os caminhos ante os</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>35</p><p>quais vão entendendo, explicando e ordenando coerentemente seu mundo e a</p><p>totalidade da vida e classificam todos os fenômenos, sejam estes naturais ou</p><p>sociais. Mediante esses processos, o ser humano integra, logicamente, o conjunto</p><p>de seres nos quais crê encontrar alguma afinidade. Cada grupo se define em função</p><p>de uma característica que se atribui aos componentes que o integram (SEEHABER,</p><p>2000).</p><p>A religião está entre um dos mais conhecidos sistemas de significação e</p><p>classificação das culturas. Ela é um componente constitutivo de toda cultura, mais</p><p>que isso, é através dela que se compreende e se vive a realidade e a totalidade da</p><p>vida em relação a divindade, com “outra” realidade além do mundo. Pode-se dizer</p><p>que a religião, como núcleo da cosmovisão e da cultura, significa compreender a</p><p>totalidade com uma visão superior, de religação com o divino, com o sagrado. A</p><p>religião, "acontece dentro de um universo cultural, ora influenciando, ora sendo</p><p>influenciada pela cultura, por isso é impossível querermos entender a religião sem</p><p>nos remeter à cultura". (ALVES, 2002, p. 224)</p><p>A religião, dentro de uma cultura é um sistema de símbolos que atua para</p><p>estabelecer disposições e motivações no indivíduo com a finalidade de ordenar a</p><p>existência (GEERTZ, 1978, p. 104-105). Este sistema de símbolos e significados</p><p>disponibiliza às pessoas orientações para compreender o universo e as</p><p>experiências da vida e para orientar os atos e atividades dando-lhes um sentido</p><p>profundo e extremo a todas elas. Chegar ao fator religioso das culturas significa</p><p>penetrar até sua "alma", a mais extrema fonte de entendimento. Ou seja, o homem</p><p>religioso olhará o mundo segundo as lentes da própria cultura e da própria religião</p><p>e seu comportamento será orientado sempre pela sua visão de mundo. (ALVES,</p><p>2002, p. 235)</p><p>Compreender, as produções materiais, as formas de configuração e</p><p>organização social, os sistemas interpretativos e comunicativos como códigos</p><p>simbólicos de construções culturais que se referem às experiências e à prática que</p><p>estão estreitamente ligados à realidade é compreender e articular organicamente a</p><p>vida cotidiana. Assim posto, deve-se definitivamente deixar de falar de “cultura no</p><p>singular”. A cultura só existe em “plural” e "a admissão do seu caráter plural é um</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>36</p><p>passo decisivo para compreendê-la como um efeito de sentido, resultado de um</p><p>processo de múltiplas interações e oposições no tempo e no espaço" (BOSI, 2003,</p><p>p. 7). É impositivo, então, repelir o “monoculturalismo”, o etnocentrismo, e a</p><p>homogeneização cultural e, com maior razão, opor-se à atitude arrogante e</p><p>narcisista, própria dos povos ou nações colonialistas ou imperialistas, que falam de</p><p>culturas superiores ou inferiores ou de povos sem cultura (SEEHABER, 2000).</p><p>A pluralidade cultural leva, ao mesmo tempo, a reconhecer a alteridade</p><p>cultural e a valorizar ao outro como diferente, com o qual se pode travar um diálogo</p><p>em termos de igualdade e reciprocidade. Andrade infere neste contexto dizendo</p><p>que,</p><p>Neste rico e complexo processo, quando as identidades afloram, há uma</p><p>maior visibilidade da pluralidade cultural existente, o que tende a debilitar</p><p>identidades nacionais fortes e estáveis. É nesse contexto que as culturas</p><p>se tencionam. Portanto a situação vivida em cada país no processo de</p><p>desenvolvimento ou sobrevivência faz emergir as necessidades e</p><p>reivindicações de cada grupo e o embate entre eles. A emergência das</p><p>pluralidades culturais vem realçar a importância da tolerância e da</p><p>democracia, onde a "negociação" tem papel fundamental. Assim,</p><p>acreditamos que a sociedade poderá construir um caminho para resolver</p><p>suas tensões e conflitos. (ANDRADE, 2002, p. 40)</p><p>A cultura é o lugar onde cada grupo social constrói coletivamente sua vida</p><p>resistindo e transformando permanentemente o mundo da natureza, repelindo</p><p>relações e estruturas sociais geradoras de injustiças, sofrimento e morte e lutando</p><p>para consolidar, defender e promover a vida, na busca de alcançar uma “qualidade</p><p>de vida” sempre maior, uma vida digna para todo ser humano, lugar de identidade</p><p>e de diferença e materialização de seu verdadeiro projeto global de vida contra as</p><p>estruturas de morte (SEEHABER, 2000).</p><p>Portanto, deve-se reconhecer e firmar o caráter histórico e dinâmico das</p><p>culturas, diferente de uma concepção arqueológica e romântica ou fundamentalista</p><p>das mesmas. Enquanto históricas deve-se olhá-las em constante construção,</p><p>enraizadas no passado, firmadas no presente ante as novas realidades, portadoras</p><p>de futuro, respondendo aos múltiplos desafios que se lhe apresentam. Assim como</p><p>os povos são herdeiros e portadores de uma cultura, igualmente são sujeitos</p><p>criadores dela. Todavia, é clara a necessidade de pensar a dimensão sociocultural</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>37</p><p>a partir de uma conceituação mais humana e mais dinâmica onde a pluralidade seja</p><p>valorizada como prioridade e não apenas como mais um fator a ser considerado</p><p>(SEEHABER, 2000).</p><p>Toda sociedade possuidora de uma cultura tem certos mecanismos através</p><p>dos quais a transmite e recria. Este fenômeno é denominado pela antropologia</p><p>como “enculturação”. Pode-se entender a enculturação como o processo educativo,</p><p>de ensino – aprendizagem, transmissão e recepção parcialmente consciente e que</p><p>dura toda a vida, através do qual um grupo humano induz as novas gerações a</p><p>adotar os modos de pensar e os estilos de vida tradicionais favorecendo, desta</p><p>maneira, uma continuidade cultural e salvaguardando-a da alienação. (LARAIA,</p><p>2004, p. 98)</p><p>Este fenômeno é realizado pelos atores sociais de geração em geração e é</p><p>entendido como um processo de socialização. Segundo Laraia (2004), esse</p><p>processo consegue criar uma personalidade grupal pela qual se reconhece a um</p><p>indivíduo como integrante dela e este se considera como seu membro.</p><p>Assim, o termo “enculturação” expressa, pois, o processo de transmissão,</p><p>assimilação e participação no projeto cultural de uma comunidade. Através dele, o</p><p>passado cultural de um povo se faz presente e, ao mesmo tempo que o modifica,</p><p>projeta-o em direção ao futuro. É um processo de assimilação criativa que procede</p><p>dentro da própria cultura. É necessário entender a dinâmica de mudanças no</p><p>sistema cultural pois,</p><p>[....] entender esta dinâmica é importante para atenuar o choque entre as</p><p>gerações e evitar comportamentos preconceituoso. Da mesma forma que</p><p>é fundamental para a humanidade a compreensão das diferenças entre os</p><p>povos de culturas diferentes, é</p><p>necessário saber entender as diferenças</p><p>que ocorrem dentro do mesmo sistema. Este é o único procedimento que</p><p>prepara o homem para enfrentar serenamente este constante e admirável</p><p>mundo novo do porvir. (LARAIA, 2004, p. 101)</p><p>As mudanças culturais se produzem também pelo encontro, penetração ou</p><p>inclusão de elementos culturais de uma sociedade em outra através de um contato</p><p>direto que é identificado como aculturação. O termo designa o processo e os</p><p>fenômenos resultantes do contato permanente entre dois grupos sociais, e as</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>38</p><p>conseqüências que se seguem para os modelos culturais de cada um deles. Trata-</p><p>se do intercâmbio que pode dar-se de elementos culturais próprios de uma cultura</p><p>em outra, quer seja em forma de absorção acrítica e passiva ou a maneira de</p><p>síntese seletiva e criativa (SEEHABER, 2000).</p><p>Laraia (2004, p. 95-96) citando o Manifesto sobre aculturação afirma que,</p><p>"qualquer sistema cultural está num contínuo processo de modificação. Logo, a</p><p>mudança que é inculcada pelo contato, não representa um salto de um estado</p><p>estático para um dinâmico, mas antes, a passagem de uma espécie de mudança</p><p>para outra". Segue dizendo, que existem dois tipos de mudança cultural: a interna,</p><p>que resulta da dinâmica do próprio sistema cultural. Esta mudança é lenta; porém o</p><p>ritmo pode ser alterado por eventos históricos como catástrofe ou uma grande</p><p>inovação tecnológica. E outra externa, que é o resultado do contato de um sistema</p><p>cultural com outro. Esta mudança é mais rápida e brusca (SEEHABER, 2000).</p><p>Por processo de aculturação deve-se entender, então, o fenômeno de</p><p>mudanças culturais ocasionadas pelo contato de duas ou mais culturas, o qual dá</p><p>lugar a transmissão e adoção de elementos culturais de uma sociedade a outra, que</p><p>pode levar à integração e à adaptação de alguns deles, ou ainda pode possibilitar o</p><p>surgimento de um novo grupo social com os elementos das culturas que entram em</p><p>contato (SEEHABER, 2000).</p><p>Quando o contato se dá em termos desiguais entre uma cultura etnocêntrica</p><p>que se impõe violentamente sobre outras mais frágeis em relações de poder, quase</p><p>as desmantelando desde seus fundamentos, fala-se de “transculturação”. Andrade</p><p>nos diz que</p><p>[...] o prefixo "trans", de origem latina, significa "posição além de ",</p><p>"através". Essa perspectiva ressalta que alguns componentes culturais "</p><p>atravessam", "vão além" das particularidades de manifestações culturais</p><p>isoladas, estando presentes em todas. [...] o respeito às culturas não é</p><p>possível a não ser que não se esteja encerrado em nenhuma, isto é, se</p><p>existe a capacidade de um pensamento verdadeiramente "trascultural".</p><p>(ANDRADE, 2002, p. 76)</p><p>Com esse termo designa-se a assimilação por parte de um povo ou grupo</p><p>social, de formas culturais procedentes de outro, que substituem, de uma maneira</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>39</p><p>mais ou menos completa as próprias formas. Esse processo ocorre quando uma</p><p>cultura original é suplantada ou absorvida por outra que se implanta de fora para</p><p>dentro. Podem ocorrer também, casos de subsistência de culturas e ou de</p><p>expressões culturais que mantêm, mediante mecanismos de resistência, sua</p><p>própria identidade cultural (SEEHABER, 2000).</p><p>Quando duas ou mais culturas se encontram em termos de alteridade,</p><p>igualdade e reciprocidade reconhecendo e valorizando identidade e diferença de</p><p>cada uma, possibilita um diálogo fecundo, interação, uma influência e um</p><p>enriquecimento mútuos, fala-se de interculturalidade ou diálogo intercultural.</p><p>[…] a interculturalidade orienta processos que têm por base o</p><p>reconhecimento do direito à diversidade e a luta contra todas as formas de</p><p>discriminação e desigualdade social e tentam promover relações</p><p>dialógicas e igualitárias entre as pessoas e grupos que pertencem a</p><p>universos culturais diferentes. Neste sentido, trata-se de uma processo</p><p>permanente, sempre inacabado, marcado por uma deliberada intenção de</p><p>promover uma relação dialógica e democrática entre as culturas e os</p><p>grupos involucrados e não unicamente de uma coexistência pacífica num</p><p>mesmo território. Esta seria a condição fundamental para qualquer</p><p>processo ser qualificado de intercultural. (ANDRADE, 2002, p. 40-41)</p><p>Então para que a interculturalidade aconteça é necessário que o encontro</p><p>ou inter-relação se faça de uma maneira consciente e intenção real a partir da</p><p>consciência e valorização da própria identidade e autonomia cultural, e que a</p><p>comunidade, seja de verdade, sujeito histórico e, por conseguinte, sujeito cultural.</p><p>Por outro lado, os elementos originados exteriormente não serão assumidos de</p><p>maneira passiva e imitativa, mas serão sim redefinidos a partir de sua própria</p><p>identidade (SEEHABER, 2000).</p><p>12 NOVAS PERSPECTIVAS PARA O ENSINO RELIGIOSO NAS ESCOLAS</p><p>PÚBLICAS</p><p>O FONAPER - Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso, fundado</p><p>em 1995 em Florianópolis, constitui-se um espaço de discussão de ideias,</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>40</p><p>propostas e ideais para a construção de propostas para a operacionalização do</p><p>Ensino Religioso nas escolas (TEIXEIRA, 2013).</p><p>O Fórum estabeleceu cinco eixos organizadores dos conteúdos do Ensino</p><p>Religioso e seus objetivos principais que vem contribuir para uma prática</p><p>pedagógica no Ensino Religioso para a formação cidadã, a propagação da cultura</p><p>de paz e respeito à diversidade (TEIXEIRA, 2013).</p><p>Os eixos organizadores são os seguintes:</p><p>1. Culturas e Tradições Religiosas;</p><p>2. Escrituras Sagradas e/ou Tradições Orais;</p><p>3. Teologias;</p><p>4. Ritos;</p><p>5. Ethos.</p><p>O primeiro eixo trata da filosofia, sociologia, psicologia e história da tradição</p><p>religiosa. No segundo eixo, dá-se prioridade à história das narrativas sagradas, ao</p><p>contexto cultural, à revelação e exegese religiosa. No eixo das Teologias, deve-se</p><p>estudar as divindades, verdades de fé e como cada religião vê a vida após a morte.</p><p>Os rituais, símbolos e a espiritualidade estão presentes no quarto eixo. E,</p><p>finalmente, o Ethos estuda a alteridade, os valores e limites (TEIXEIRA, 2013).</p><p>Através dessa organização dos conteúdos de Ensino Religioso, ou de outra</p><p>similar, é possível trabalhar com respeito à diversidade, desenvolvendo temas de</p><p>cultura e tradições religiosas diversas, conhecendo e analisando as diferentes</p><p>concepções de Transcendência presentes nas religiões, entendendo como e</p><p>porque se dá as diversas práticas ritualísticas, conhecendo o significado dos textos</p><p>religiosos e colocando-os nos diferentes tempos e espaços como também</p><p>relacionando o comportamento humano a partir das tradições religiosas adotadas</p><p>em cada comunidade (TEIXEIRA, 2013).</p><p>Para isso, é importante que o educador de Ensino Religioso tenha uma</p><p>formação teórica que contemple o conhecimento necessário para conduzir as</p><p>discussões dentro de sala de aula, mantendo sempre a atenção e o respeito às</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>41</p><p>diferentes concepções religiosas, uma vez que vivemos em “[...] um mundo das</p><p>'religiões e religiosidades' porque, se queremos compreender melhor a realidade</p><p>religiosa em nossas sociedades, não podemos limitar nosso enfoque às religiões</p><p>instituídas, por mais diversificadas que sejam” (SOUZA, p.34). É preciso lembrar</p><p>que, no mundo atual, muitas pessoas, apesar de não seguirem os preceitos e</p><p>códigos de uma religião em particular, tem um modo particular de expressar sua</p><p>religiosidade e também precisam ser respeitados e ouvidos, ainda que não estejam</p><p>vinculados à</p><p>nenhuma religião convencionalmente reconhecida como tal</p><p>(TEIXEIRA, 2013).</p><p>Cruz (2012, p.7) adverte que “é importante que o amor tão exigido em cada</p><p>religião não se transforme em rejeição quando religiões diferentes entram em</p><p>contato”. É preciso respeito com o relacionamento de cada um com o Sagrado e a</p><p>percepção de que cada um à sua própria maneira deve contribuir para a construção</p><p>de um mundo mais fraterno, onde a Paz esteja presente em todos os níveis de</p><p>relacionamento, seja interpessoal ou entre credos, raças ou países.</p><p>O Ensino Religioso só poderá servir aos propósitos de fomentar a cultura</p><p>de paz e respeito à diversidade quando conseguirmos criar uma identidade</p><p>pedagógica que contemple a formação humana em uma amplitude holística.</p><p>Só através do conhecimento de suas concepções religiosas poderemos</p><p>entender e respeitar o outro, livres de preconceito e de intolerância, ainda mais</p><p>vivendo em um país tão rico em diversidade étnica, cultural e religiosa (TEIXEIRA,</p><p>2013).</p><p>Além disso, quanto mais conhecermos das diversas religiões e filosofias de</p><p>vida, mais aptos estaremos para a convivência com as mesmas, pois segundo</p><p>Barros, “o aprender a conviver com diferentes tradições religiosas […] dará ao</p><p>educando uma maior abertura para o conhecimento das mesmas, e para o</p><p>entendimento de suas múltiplas manifestações” (TEIXEIRA, 2013).</p><p>O educador de Ensino Religioso precisa ser capaz de abordar aspectos de</p><p>todas as religiões sem privilegiar nenhuma delas, daí a necessidade de que este</p><p>possua uma formação que contemple o conhecimento teórico necessário para fazer</p><p>tais abordagens (TEIXEIRA, 2013).</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>42</p><p>Apesar de todas as religiões do mundo apregoarem o “Amor ao Próximo”,</p><p>e da Paz ser o sonho da humanidade, a religião é um dos aspectos culturais que</p><p>mais provocam hostilidades entre as pessoas. Muitas guerras ainda hoje são</p><p>empreendidas em nome de um Deus – que só prega o Amor (TEIXEIRA, 2013).</p><p>O Ensino Religioso nesse contexto configura-se como um importante</p><p>instrumento dentro da educação humana, assegurando o cultivo de valores éticos,</p><p>morais e espirituais que contribuam para a formação plena de cidadãos</p><p>democráticos, mais participativos, menos preconceituosos e intolerantes às</p><p>diferenças de qualquer espécie (TEIXEIRA, 2013).</p><p>Segundo Silveira et alli, “historicamente, há muitas religiões e grupos</p><p>religiosos que guardam aproximações entre si, entretanto, o desconhecimento a</p><p>respeito dessas afinidades é uma das fontes da intolerância” (TEIXEIRA, 2013).</p><p>O aprofundamento do conhecimento da história, tradições, divindades e dos</p><p>rituais, ajudaria o aluno a um fundamento mais sólido dos significados dos valores</p><p>arraigados em cada religião e, quem sabe, a descobrir o complexo sentido da vida</p><p>no mundo, favorecendo o respeito à diversidade e à cultura de Paz (TEIXEIRA,</p><p>2013).</p><p>Entretanto, como afirma Messender (2009, p.13) , “a dúvida do 'como fazer'</p><p>continua sendo crucial”. E complementa: “É certo que a sala de aula não existe com</p><p>o propósito de ser um ambiente de fé ou mesmo de egrégoras religiosas, mas um</p><p>espaço privilegiado de reflexão sobre limites e superações”. Partindo desses</p><p>pressupostos, entendemos que uma nova pedagogia do ensino religioso precisa ser</p><p>construída, favorecendo a prática da cidadania e evitando os choques decorrentes</p><p>das pulsões religiosas de cada um nesses espaços de celebração do conhecimento</p><p>e do respeito à diversidade (TEIXEIRA, 2013).</p><p>Para Rodrigues e Junqueira (2009, p.25), o desafio na formação de</p><p>professores está “pautada nos diversos aspectos da condição humana e suas</p><p>potencialidades e que considere dialeticamente a realização pessoal do sujeito e de</p><p>seu contexto social”.</p><p>Evidentemente essa formação deve se realizar processualmente, durante</p><p>todo o período de atuação docente, para que este profissional esteja de fato</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>43</p><p>habilitado a articular nesses espaços de atuação a promoção de valorização da vida</p><p>e dos conhecimentos e crenças de todos os sujeitos envolvidos no processo</p><p>(TEIXEIRA, 2013).</p><p>13 RELACIONAMENTO HUMANO</p><p>13.1 SOLIDARIEDADE COMO BASE DO HUMANISMO CRISTÃO</p><p>Didaticamente, vamos olhar primeiro para o humanismo cristão e, depois,</p><p>para a solidariedade (CIGOGNINI, 2020).</p><p>O humanismo tem o seu início no período conhecido como Renascença. A</p><p>Renascença ocupa os séculos de XIV a XVI. Por ser um período relativamente</p><p>curto, é uma espécie de transição de duas grandes épocas: a medieval e a</p><p>moderna. De acordo com Vaz (2014, p. 80), a Renascença é chamada também de</p><p>idade do humanismo; “[...] esse termo tem uma conotação peculiar: indica ao</p><p>mesmo tempo uma nova sensibilidade em face do homem e a redescoberta e</p><p>exaltação da literatura clássica” (CIGOGNINI, 2020).</p><p>É o renascer da cultura clássica que traz à luz uma visão da altíssima</p><p>dignidade do homem na sua humanidade (homo humanus). Aqui, surge a primeira</p><p>geração de pensadores do livro, isto é, autores que já operam conceitualmente de</p><p>posse da maravilhosa tecnologia de impressão inventada por Johannes Gutenberg</p><p>(1400–1468) (CIGOGNINI, 2020).</p><p>Um autor que marca esse período é o cardeal alemão Nicolau de Cusa</p><p>(1401–1464). Na sua obra, dois conceitos são fundamentais, do ponto de vista</p><p>antropológico: a dignidade humana e a ideia do homem universal, conforme leciona</p><p>Vaz (2014). Há uma dignidade inalienável no ser humano, e isso implica liberdade</p><p>e uma dimensão que transcende a particularidade (CIGOGNINI, 2020).</p><p>De acordo com Bedouelle (2004), o humanismo cristão se apoia em uma</p><p>visão teológica mediada pela encarnação, reconhecendo, dessa maneira, a</p><p>dignidade e liberdade do ser humano criado por Deus. Disso resulta que o ser</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>44</p><p>humano deve ser encaminhado à caridade, que é o fundamento da paz</p><p>(CIGOGNINI, 2020).</p><p>A Igreja, por meio de seu Magistério, passa a utilizar o conceito</p><p>solidariedade, sempre vinculado à noção de caridade, desde o pontificado de Pio II</p><p>(1939–1958). Originalmente, o termo fora utilizado em âmbito jurídico e também</p><p>filosófico. A partir do século XIX, a solidariedade “[...] foi considerada não mais como</p><p>um fato, mas como valor, objeto de um dever [...] e substituto secular da caridade</p><p>cristã, depois como base da moral”, conforme leciona Sesboüé (2004, p. 1.683). O</p><p>emprego desse termo implica uma compreensão bastante precisa, manifesta no</p><p>Catecismo da Igreja Católica (CAIC) (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS</p><p>DO BRASIL, 2005), em que se afirma ser a solidariedade um princípio e uma</p><p>exigência da fraternidade humana e da fraternidade cristã (CIGOGNINI, 2020).</p><p>Assim, o CAIC se refere da seguinte forma à solidariedade humana: “[...] se</p><p>manifesta antes de mais nada na distribuição dos bens e na remuneração do</p><p>trabalho. Supõe também o esforço em favor de uma ordem social mais justa [...]”</p><p>(CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, 2005, p. 1940). Os bens</p><p>aqui referidos não são apenas os bens materiais, compreendendo, também, os bens</p><p>espirituais (CIGOGNINI, 2020).</p><p>Para que você tenha uma ideia mais precisa sobre a importância da</p><p>solidariedade na perspectiva do humanismo cristão, veja o que afirma o CAIC:</p><p>Os problemas sócio econômicos só podem ser resolvidos com o auxílio de</p><p>todas as formas de solidariedade: solidariedade dos pobres entre si, dos</p><p>ricos e dos pobres, dos trabalhadores entre si, dos empregadores e dos</p><p>empregados na empresa, solidariedade entre as nações e entre os povos.</p><p>A solidariedade internacional é uma exigência de ordem moral. Em parte,</p><p>é da solidariedade que depende a paz mundial (CONFERÊNCIA</p><p>NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, 2005, p. 1941).</p><p>Nessa perspectiva, a solidariedade é o caminho para</p><p>a superação de muitos</p><p>dos conflitos e problemas humanos. Na esteira de toda a tradição cristã, é possível</p><p>afirmar que só é possível viver doando a própria vida, não no sentido de uma</p><p>negação de si mesmo, mas na doação livre e consciente pela vida de todos</p><p>(CIGOGNINI, 2020).</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>45</p><p>13.2 COLABORAÇÃO E SUBSIDIARIEDADE</p><p>Quando você pensa que todos os seres humanos são iguais; quando, de</p><p>uma vista aérea percebe, que o mapa não está dividido como aprendeu na escola;</p><p>quando se dá conta de que o planeta é redondo e que parece estranho que as</p><p>pessoas continuem falando de “para baixo” e “para cima” — essas questões</p><p>aparentemente simples impõem o problema das relações entre famílias, grupos,</p><p>cidades, estados e nações (CIGOGNINI, 2020).</p><p>Dada a solidariedade, como as pessoas podem auxiliar os seus</p><p>semelhantes em questões de dificuldade? Nessa linha, o que mais comumente é</p><p>feito é a distribuição de alimentos e roupas por ocasião de alguma calamidade. Será</p><p>mesmo que essa solidariedade precisa ficar apenas no âmbito do socorro em</p><p>situações limites? Será que a humanidade não deveria compartilhar tecnologia para</p><p>que a vida de todos seja um pouco melhor? (CIGOGNINI, 2020).</p><p>Eis apenas algumas questões genéricas que conduzem ao tema da</p><p>colaboração internacional. Não é que ela não exista, entretanto, na maior parte das</p><p>vezes, está alicerçada em valores monetários. Se você parar para pensar, é</p><p>inadmissível que pessoas morram por não ter o que comer. Não se trata de uma</p><p>defesa da ideia de que todos devam ter diárias perpétuas em hotéis estrelados —</p><p>trata-se, antes de mais nada, de prover o básico para poder sobreviver</p><p>(CIGOGNINI, 2020).</p><p>Ao longo dos anos, muitos países têm exercido entre si ações de</p><p>cooperação. É verdade que muitas vezes essa cooperação é bélica. A partir do</p><p>exposto até aqui, a colaboração poderia se estender para muito além das armas.</p><p>No que que tange à cooperação entre países, é possível utilizar um critério que</p><p>serve, também, para uma série de relações entre pessoas, setores de uma</p><p>empresa, organizações, cidades, estados e nações — trata-se do princípio da</p><p>subsidiariedade. Mas, o que é subsidiariedade? (CIGOGNINI, 2020).</p><p>O termo passou a ter lugar na literatura do Magistério da Igreja a partir da</p><p>reflexão do papa Leão XIII com a carta encíclica Rerum novarum (RN), na qual o</p><p>pontífice aborda a situação dos operários (LEÃO XIII, 1891). João Paulo II, ao</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>46</p><p>celebrar o centenário da carta de seu predecessor, escreve a Centesimus annus</p><p>(CA), na qual, retomando os temas de Leão XIII, defende o uso do princípio da</p><p>subsidiariedade:</p><p>Para a realização destes objetivos, o Estado deve concorrer tanto direta</p><p>como indiretamente. Indiretamente e segundo o princípio de</p><p>subsidiariedade, criando as condições favoráveis ao livre exercício da</p><p>atividade econômica, que leve a uma oferta abundante de postos de</p><p>trabalho e de fontes de riqueza. Diretamente e segundo o princípio de</p><p>solidariedade, pondo, em defesa do mais débil, algumas limitações à</p><p>autonomia das partes, que decidem as condições de trabalho, e</p><p>assegurando em todo o caso um mínimo de condições de vida ao</p><p>desempregado (JOÃO PAULO II, 1991, documento on-line).</p><p>A preocupação de João Paulo II é que o Estado intervenha para melhorar a</p><p>situação de vida dos trabalhadores. O princípio da subsidiariedade é amplo e pode</p><p>ser aplicado a outras situações concretas da vida humana. De acordo com João</p><p>Paulo II, o princípio da subsidiariedade se explicita da seguinte maneira:</p><p>[...] uma sociedade de ordem superior não deve interferir na vida interna</p><p>de uma sociedade de ordem inferior, privando-a das suas competências,</p><p>mas deve antes apoiá-la em caso de necessidade e ajudá-la a coordenar</p><p>a sua ação com a das outras componentes sociais, tendo em vista o bem</p><p>comum (JOÃO PAULO II, 1991, documento on-line).</p><p>Assim, muitas intervenções internacionais são imposições bélicas,</p><p>econômicas e culturais, e não um auxílio para que essas nações mais fracas</p><p>possam crescer e resolver seus próprios problemas. A partir do conceito</p><p>apresentado, é possível perceber uma perspectiva de autonomia, liberdade e</p><p>humanidade, que pode perpassar as relações internacionais (CIGOGNINI, 2020).</p><p>13.3 SOLIDARIEDADE E PROGRESSO</p><p>Conforme você pôde acompanhar e perceber, há um lugar especial para a</p><p>solidariedade. Ela passa a ser vista como virtude. A virtude, é uma excelência de</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>47</p><p>caráter e marca as ações humanas. O ser humano nasce com potencialidade para</p><p>se tornar virtuoso. O cultivo adequado, os meios disponíveis e as influências</p><p>externas podem auxiliar bastante no desenvolvimento da solidariedade</p><p>(CIGOGNINI, 2020).</p><p>Não se nasce solidário. O ser humano nasce carente, necessitado da</p><p>solidariedade alheia. Por isso, precisa aprender a desenvolver uma das</p><p>capacidades que o torna ainda mais humano: a solidariedade. A ideia de a</p><p>solidariedade ser pensada como virtude tem raízes, também, na Rerum novarum,</p><p>de Leão XIII, e na Populorum progressio (PP), de Paulo VI, que chega a falar em</p><p>dever de solidariedade (n. 48), especialmente a partir da Sollicitudo rei socialis</p><p>(SRS), de João Paulo II, na qual o sumo pontífice assume a dimensão de virtude</p><p>(LEÃO, XIII, 1891; PAULO VI, 1967; JOÃO PAULO II, 1987). Assim, ele escreve: “A</p><p>solidariedade é indubitavelmente uma virtude cristã. [...] já foi possível entrever</p><p>numerosos pontos de contato entre ela e a caridade, sinal distintivo dos discípulos</p><p>de Cristo” (JOÃO PAULO II, 1987, p. 40). Nessa perspectiva, ela entra no campo</p><p>da educação catequética da própria igreja.</p><p>Mais pontualmente, afirma João Paulo II:</p><p>À luz da fé, a solidariedade tende a superar-se a si mesma, a revestir as</p><p>dimensões especificamente cristãs da gratuidade total, do perdão e da</p><p>reconciliação. O próximo, então, não é só um ser humano com os seus</p><p>direitos e a sua igualdade fundamental em relação a todos os demais; mas</p><p>torna-se a imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus</p><p>Cristo e tornada objecto da ação permanente do Espírito Santo (JOÃO</p><p>PAULO II, 1987, p. 40).</p><p>Desse modo, é possível perceber o trato dado à solidariedade. Mas você</p><p>pode estar se perguntando: o que a solidariedade pode trazer de benefício para a</p><p>coletividade? Em poucas palavras, a ação dessa virtude, além de promover a</p><p>fraternidade universal, conduz os povos ao desenvolvimento (CIGOGNINI, 2020).</p><p>Quando em antropologia teológica se fala em progresso, há uma ideia muito</p><p>peculiar sobre o seu conceito e como ele pode ser representado. Uma boa</p><p>interpretação pode ser recolhida da conclusão da Populorum progressio, do papa</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>48</p><p>Paulo VI: “Combater a miséria e lutar contra a injustiça, é promover não só o bem-</p><p>estar, mas também o progresso humano e espiritual de todos e, portanto, o bem</p><p>comum da humanidade” (PAULO VI, 1967, p. 76). Assim, fica evidente que o fruto</p><p>da solidariedade deve ser o bem comum. Não se trata apenas de ideias, mas,</p><p>especialmente, de ações que podem tornar o mundo um lugar melhor para todos os</p><p>que aqui estão e os que aqui vierem a viver (CIGOGNINI, 2020).</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>49</p><p>14 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>____. Public Theology as a Theology of Citizenship. In: KIM, Sebastian;</p><p>DAY, Katie (Orgs.). A Companion to Public Theology. Leiden; Boston: Brill, 2017.</p><p>p.231-250.</p><p>_____. Citizenship</p><p>in South Africa Today: some insights from</p><p>Christian ecclesiology. Missionalia, p.425-37, 2015.</p><p>_____. Teologia pública no Brasil: um primeiro balanço. In: JACOBSEN,</p><p>Eneida; SINNER, Rudolf von; ZWETSCH, Roberto E. (Orgs.). Teologia</p><p>pública: desafios éticos e teológicos. São Leopoldo: Sinodal; EST, 2012b. p.13-38.</p><p>Teologia Pública v.3.</p><p>_____. Paz no meio da violência: subsídios para a compreensão e o</p><p>exercício da cidadania cristã. São Leopoldo: Sinodal, 2019.</p><p>_____. Teologia pública num estado laico: ensaios e análises. São</p><p>Leopoldo: Sinodal; EST, 2018. Teologia pública v.7.</p><p>ALONSO, Luiza K. Movimentos sociais e cidadania: a contribuição da</p><p>psicologia social. In: SPINK, Mary Jane Paris (Org.). A cidadania em construção:</p><p>uma reflexão transdisciplinar. 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Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.</p><p>fornecidas pelo sistema político e jurídico, bem como para a</p><p>esfera pública como espaço discursivo, de formação de uma opinião pública,</p><p>enquanto a “sobrevivência digna” indica que as necessidades básicas devem ser</p><p>adequadamente atendidas (RUDOLF, 2012).</p><p>O uso frequente, na literatura e advocacia brasileiras, de “conquista”,</p><p>“participação”, “emancipação” e “cidadania ativa” recomendam a esperança e, de</p><p>fato, a expectativa de muitas pessoas ativas na sociedade civil para construir uma</p><p>sociedade nova, uma sociedade “de baixo”, com mais ênfase dada ao social do que</p><p>ao individual. Para o sociólogo Pedro Demo, a cidadania é “um processo histórico</p><p>de conquista popular, pelo qual a sociedade contrai, progressivamente, condições</p><p>de se tornar um sujeito histórico consciente e organizado, com capacidade para</p><p>conceber e tornar efetivo um projeto próprio” (1992, p. 17).</p><p>Um modelo disso pode ser o chamado Orçamento Participativo, uma</p><p>invenção brasileira hoje praticada em muitas partes do mundo e que faz parte desta</p><p>nova visão: parte da execução do orçamento municipal é decidida em assembleias</p><p>populares, sendo as prioridades estabelecidas para a aplicação do orçamento</p><p>público pela participação popular e democrática (RUDOLF, 2012).</p><p>As consultas populares são outro meio de uma “cidadania ativa”</p><p>(BENEVIDES, 2003) previstas na Constituição de 1988 (Art. 14), mas ainda pouco</p><p>usadas, ao menos enquanto voto oficial. Seriam outro avanço importante da</p><p>participação popular na política. Contudo, como sempre na democracia, o voto da</p><p>maioria precisa ser contracenado com a garantia dos direitos humanos e,</p><p>principalmente, a proteção de minorias. Questões como a pena de morte</p><p>sabiamente não foram postas à votação, porque o direito à vida é um direito</p><p>fundamental (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988, Art. 5º, inciso XLVII) que, por</p><p>início, não está sujeito a mudanças. De acordo com pesquisas de opinião, no</p><p>entanto, é bastante provável que uma votação popular encontraria uma maioria a</p><p>favor (RUDOLF, 2012).</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>7</p><p>Na definição de formação para a cidadania e exercício de participação do</p><p>povo de Deus, as igrejas podem exercer um papel de escolas de democracia, onde</p><p>são testadas formas de alistar a motivação, a análise e a ação a uma discussão e</p><p>ação participativa, tanto para dentro quanto para fora dos muros das igrejas. Isto</p><p>pode ser o caso mesmo onde armações hierárquicas e patriarcais, a princípio, não</p><p>dão muito espaço para a participação e liderança cidadã (RUDOLF, 2012).</p><p>Ainda em tais ambientes, capacitações necessárias como a de mulheres</p><p>como lideranças comunitárias podem ocorrer e incidir sobre a vida comunitária da</p><p>igreja e da comunidade local. Além disto, motivações cidadãs devem acontecer</p><p>mesmo em igrejas com autoridade centralizadora. Além disso, amplamente falando,</p><p>a cultura cívica, ou seja, o significado atribuído à cidadania e às atitudes de (des)</p><p>crença dos cidadãos em relação à sua cidadania, tem controle direto no grau em</p><p>que a cidadania pode ser efetiva e participativa, principalmente porque o poder e o</p><p>trabalho na máquina pública também são realizados por pessoas cidadãs e suas</p><p>deficiências refletem o seu potencial e as suas limitações (RUDOLF, 2012).</p><p>Resumindo, a cidadania não pode ser diminuída a direitos e deveres em um</p><p>Estado nacional. Por um lado, a lei escrita precisa basear-se em algo que é anterior</p><p>a ela, ao qual as pessoas, pelo menos, concordam e se sentem comprometidas. A</p><p>moral e a normatividade entram aqui, assim como os direitos humanos, que, por</p><p>definição, ultrapassam as fronteiras nacionais. Em segundo lugar, a lei é inútil, a</p><p>menos que esteja efetivamente disponível para as pessoas, que implica tanto como</p><p>é tratada pelas autoridades instituídas quanto como é percebida pelos cidadãos</p><p>(RUDOLF, 2012).</p><p>Em terceiro lado, a cidadania é formada pelo discurso e a prática na esfera</p><p>pública, em que a sociedade civil (inclusive as igrejas que, hoje, pertencem a esta</p><p>esfera) tem uma tarefa específica como a parte organizada baseada, como eu</p><p>defino, na iniciativa privada envolvida na promoção da cidadania na esfera pública</p><p>para promover o bem comum para toda a sociedade. É na esfera pública nacional</p><p>que as pessoas podem efetivamente lutar pela melhoria de suas vidas e por maior</p><p>participação. Ainda assim, é preciso destacar que a sociedade civil está interagindo</p><p>em redes no todo o mundo, a exemplo do Fórum Social Mundial que começou em</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>8</p><p>Porto Alegre/RS. Existem realidades e concepções de uma cidadania global. Uma</p><p>economia globalizada, bem como meios de comunicação cada vez mais rápidos,</p><p>parecem não fazer sentido em relação às fronteiras nacionais. Mas a fragmentação,</p><p>as questões étnicas, a migração com reações frequentes de xenofobia, e o</p><p>fechamento das fronteiras também criaram novas fronteiras e reforçaram antigas.</p><p>Em todo caso, é a configuração nacional que coloca em prática direitos concretos e</p><p>direitos de livre manifestação (RUDOLF, 2012).</p><p>Voltando a função de igrejas na luta pela cidadania. Não há dúvida de que</p><p>as igrejas contribuíram e continuam contribuindo de forma importante para a</p><p>democracia e a cidadania (cf. SINNER, 2012a; 2018; 2019). No Brasil, notadamente</p><p>a Igreja Católica Romana se tornou grandemente reconhecida por fornecer uma</p><p>espécie de incubadora para a sociedade civil emergente no final dos anos 1960 e</p><p>1970. A contribuição e presença das igrejas protestantes históricas, entre elas a</p><p>Igreja Evangélica da Confissão Luterana no Brasil, é menos visível. Muitas vezes</p><p>essa foi criticada por seu quietismo ou até mesmo por dar apoio indireto ao regime</p><p>militar. Entretanto, vem desenvolvendo importantes trabalhos educacionais e</p><p>diaconais, além de ter se pronunciado, desde 1970, acerca de temáticas candentes</p><p>na sociedade (SINNER, 2019, p.111-133).</p><p>Agora as igrejas pentecostais como as Assembleias de Deus, o segmento</p><p>de igrejas de mais rápido crescimento no Brasil, bem como na América Latina, África</p><p>e partes da Ásia, são, muitas vezes, eficazes no firmamento de um sentido mais</p><p>importante da dignidade humana entre os seus crentes (MARIZ, 1994; CORTEN,</p><p>1996; MAJEWSKI, 2008). Elas promovem a autoestima, proporcionando</p><p>oportunidades para qualificação pessoal e profissional, e o resgate de muitos</p><p>prisioneiros e pessoas viciadas em drogas. Ao mesmo tempo, muitas igrejas do</p><p>segmento pentecostal e neopentecostal “nomeiam” e apoiam candidatos</p><p>específicos para cargos políticos, buscando influência pública e até hegemonia. No</p><p>geral, a imagem desse setor é bastante ambígua, o que ficou notadamente visível</p><p>nas eleições brasileiras de 2018 e no governo que as seguiu (RUDOLF, 2012).</p><p>Quatro aspectos devem ser particularmente admiráveis em relação a uma</p><p>potencial contribuição de igrejas cristãs para a cidadania: (1) a prática das igrejas;</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>9</p><p>(2) seu papel pedagógico; (3) sua ação no espaço público e (4) sua reflexão</p><p>teológica. Explico essas quatro dimensões brevemente e, como indicado acima,</p><p>alerto pela enorme diversidade de igrejas, posições e práticas em relação à</p><p>cidadania (RUDOLF, 2012).</p><p>1) A prática das igrejas:</p><p>O jeito como se dá a prática de fé nas igrejas, seja na adoração, na</p><p>catequese, nos retiros, nos grupos de leitura da Bíblia, nos programas sociais e</p><p>similares, refletirá sobre como irão se comportar os cidadãos conscientes de seus</p><p>direitos e deveres.</p><p>Tal prática abrange as atividades desenvolvidas pelas igrejas e</p><p>pode incluir membros da igreja ou até mesmo a população além de sua membresia.</p><p>As atividades, em muitos lugares, contam com membros batizados e não batizados,</p><p>colaboradoras e não colaboradoras, até porque muitas igrejas não hão um sistema</p><p>de registro confiável. De uma ou outra forma, as igrejas contribuem para o bem-</p><p>estar da população em geral baseadas em sua fé, independentemente da afiliação</p><p>religiosa ou ausência dela (RUDOLF, 2012).</p><p>2) O papel pedagógico das igrejas:</p><p>Em muitos lugares, as igrejas alcançam mais pessoas do que alguma outra</p><p>organização, tendo uma capilaridade incomparável. diversas de suas atividades</p><p>incluem algum tipo de educação, seja diretamente – através de sermões, palestras,</p><p>catequese, retiros – ou indiretamente, através do desenvolvimento das habilidades</p><p>práticas, organizacionais e de lideranças. De jeito explícito ou implícita, as questões</p><p>da cidadania podem ser parte de tais processos educacionais. Outro item são as</p><p>escolas vinculadas às igrejas, já que muitas delas são consideradas as melhores</p><p>escolas dentre as privadas – embora muitas vezes exclusivas – em vários países,</p><p>e também existem universidades confessionais com excelentes padrões de ensino</p><p>(RUDOLF, 2012).</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>10</p><p>3) A ação das igrejas na esfera pública:</p><p>As igrejas, pelo meio de seus membros e/ou suas lideranças,</p><p>congregações, mídias ou organizações e ministérios específicos, colaboram com a</p><p>sociedade civil e com o governo em todos os níveis e fazem suas contribuições</p><p>críticas e construtivas através da busca de soluções. Dada a crescente competição</p><p>entre igrejas em muitos lugares, apesar disso, não são apenas parte da solução,</p><p>mas também do problema, em termos de tendências corporativas e concorrentes</p><p>que refletem na sua forma de ser e o desenvolvimento de suas ações. Além do</p><p>grande desgaste da imagem pública das igrejas, que torna difícil ou quase</p><p>impossível a colaboração entre diferentes igrejas, muito mais ainda entre diferentes</p><p>religiões, embora existam exemplos do contrário. A crescente busca por formação</p><p>e qualificação por parte das igrejas mais recentes oferece uma chance ímpar de</p><p>superar a competição e descobrir possíveis sinergias (RUDOLF, 2012).</p><p>4) Reflexão teológica:</p><p>Conquanto nem sempre sejam explícitas, as reflexões teológicas sustentam</p><p>a ação das igrejas, tanto ad intra como extra, às vezes chamadas de teologia</p><p>confessional e teologia pública, respectivamente (cf. SOARES; PASSOS, 2011). Os</p><p>documentos oficiais das igrejas normalmente carregam com eles um fundamento</p><p>teológico de seu argumento, mesmo que seja afirmado, em vez de desenvolvido,</p><p>ou implícito e não explícito. Ao mesmo tempo, eles se relacionam com questões do</p><p>debate mais amplo sobre democracia, cidadania, política, espaço público, pobreza</p><p>e outros (RUDOLF, 2012).</p><p>Portanto, não há dúvida de que as igrejas desenvolvem, de fato, um papel</p><p>público. Isso se dá por sua presença numérica, sua influência na vida das pessoas,</p><p>bem como, no sistema político, nas inúmeras instituições e projetos educacionais e</p><p>sociais, gozando ainda de notável veracidade entre a população.(RUDOLF, 2012).</p><p>Ismael Santos DE Araujo</p><p>11</p><p>4 UMA TEOLOGIA DA CIDADANIA COMO TEOLOGIA PÚBLICA</p><p>4.1 BASES DE UMA TEOLOGIA DA CIDADANIA</p><p>Conforme citado anteriormente, a cidadania celestial das pessoas cristãs</p><p>em sua relação com a cidadania mundana é uma questão que vem acompanhando</p><p>o cristianismo desde o seu surgimento. O intuito aqui, no contexto brasileiro e latino-</p><p>americano, é explorar o patrimônio da Teologia da Libertação e suas recentes</p><p>inovações. Um dos ensaios mais desafiadores da Teologia da Libertação na década</p><p>de 1990 foi um artigo do teólogo católico romano e professor de educação Hugo</p><p>Assmann (1933-2007).</p><p>Assmann reivindicou exatamente a continuação da Teologia da Libertação</p><p>como uma “teologia da cidadania e da solidariedade”. Sua crítica à Teologia da</p><p>Libertação clássica compreendeu a falta de percepção de quem são os pobres e de</p><p>que ela tenha mantido uma visão idealizada destes como sujeitos de sua própria</p><p>libertação enquanto não percebeu seus genuínos desejos. Assim, ele conta entre</p><p>os desafios pendentes “uma teologia do direito a sonhar, ao prazer, à fraternura,</p><p>ao criativiver, à felicidade” (ASSMANN, 1994, p.30 et seq.), resumida na noção de</p><p>corporeidade. Ao mesmo período, como os pobres tornaram-se perfeitamente</p><p>dispensáveis para o capitalismo de mercado neoliberal dominante, eles são vistos</p><p>apenas por aqueles “convertidos à solidariedade” (ASSMANN, 1994, p.31). De tal</p><p>modo, o autor trabalhou consistentemente na educação para a solidariedade,</p><p>insistindo que é necessário “conjugar valores solidários com direitos efetivos de</p><p>cidadania” (ASSMANN, 1994, p.33).</p><p>Implicando a vista duradoura de uma economia de mercado, há</p><p>necessidade de compensar a lógica dos efeitos da exclusão, combinando medidas</p><p>de mercado e sociais por instituições instaladas democraticamente. Assmann critica</p><p>a ênfase exagerada dada pelos cristãos aos relacionamentos comunitários, como</p><p>se fossem suficientes para tornar a solidariedade efetiva em sociedades grandes,</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>12</p><p>complexas e urbanizadas. Existe necessidade de um (novo) pacto social que não</p><p>fique apenas na retórica. Denuncia Assmann que “(…) há um perigoso descuido do</p><p>uso da lei como arma dos mais fracos (…), sobretudo um falacioso viés anti-</p><p>institucional” (1994, p.33). Enquanto Assmann situa seu argumento mais na esfera</p><p>econômica, pode-se acrescentar que a situação democrática pós-regime militar</p><p>permitiu novas formas de participação política, o que tornou necessário e oportuno</p><p>um novo tipo de teologia, precisamente uma teologia centrada na cidadania. Isto é</p><p>válido mesmo com os retrocessos recentes, com uma política de direita que não</p><p>valoriza os direitos humanos. No tempo em que o sistema democrático se mostrar</p><p>estável, pode – e deve – se utilizar os ambientes existentes para articulação e</p><p>participação política. Sem dúvida isto significa, mais do que nunca, uma situação</p><p>conflitiva e de resistência, mas não de abstinência (RUDOLF, 2012).</p><p>O teólogo metodista Clovis Pinto de Castro (2000) cultivou um estudo</p><p>importante ao tema da cidadania, no qual reivindicou uma pastoral da cidadania</p><p>(“ação pastoral para a cidadania”) como “dimensão pública da igreja”. Seu conceito</p><p>central é o de uma “cidadania ativa e emancipada”, que ele desenvolve com base</p><p>no conceito de vita activa de Hannah Arendt, nas reflexões da filósofa política</p><p>brasileira Marilena Chauí sobre o mito fundacional do Brasil – que promoveu o</p><p>paternalismo e o messianismo, ao adverso de uma noção democrática e</p><p>participativa de cidadania ) e na crítica de Pedro Demo, de uma cidadania</p><p>paternalista (cidadania tutelada, como em um estado liberal) ou de assistência</p><p>social (cidadania assistida, como em um estado de bem-estar), a favor de uma</p><p>cidadania emancipada, na qual a participação efetiva das pessoas é fundamental</p><p>para a democracia (RUDOLF, 2012).</p><p>Teologicamente, Castro baseia a pastoral da cidadania em Deus como</p><p>aquele que ama a justiça e o direito, no mandamento de amar o próximo, na prática</p><p>de boas obras e na justiça de acordo com o testemunho do Novo Testamento;</p><p>também no conceito de shalom (“paz”) como bem-estar compreensiva e, finalmente,</p><p>na perspectiva do Reino de Deus. A partir daí ele deduz o mandato da igreja de</p><p>viver não só no privado, mas na sua dimensão pública (pastoral), orientada para os</p><p>seres humanos em sua vida diária e real, e não apenas para os seus membros. A</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>13</p><p>fé consciente da cidadania (fé cidadã) é orientada pelas três dimensões da fé –</p><p>como confissão (conhecer Deus), como confiança (amar Deus) e como ação (servir</p><p>a Deus). O último contém a formação de assuntos de cidadania (sujeito cidadão) e</p><p>participação de cristãos na administração democrática das cidades (RUDOLF,</p><p>2012).</p><p>A cidadania, assim, ocorreu pelo menos de forma inicial pela teologia. Vejo</p><p>isso como uma possível e pertinente recontextualização de ideias centrais da</p><p>Teologia da Libertação, especialmente a opção preferencial pelos pobres e a</p><p>importância teológica da práxis. Uma insistência semelhante pode ser identificada</p><p>em outros contextos (cf. BUTTELLI; LE BRUYNS; SINNER, 2014; SINNER, 2017).</p><p>Koopman, do ponto de vista de um diálogo Sul-Sul entre a África do Sul e o Brasil,</p><p>insiste que:</p><p>Sociedades estão famintas por pessoas de virtude pública e cívica:</p><p>sabedoria pública em contextos de complexidade, ambivalência,</p><p>ambiguidade, paradoxalidade, tragédia e aporia (becos sem saída); justiça</p><p>pública em contexto de desigualdades e injustiças nos níveis local e</p><p>mundial; temperança pública em contexto de ganância e consumismo em</p><p>meio à pobreza e à alienação; valentia pública em situações de impotência</p><p>e inércia; fé pública em meio a sentimentos de desorientação e de</p><p>desarraigo nas sociedades contemporâneas; esperança pública em meio</p><p>a situações de desespero e melancolia; amor público em sociedades onde</p><p>a solidariedade pública e a compaixão estão ausentes. (KOOPMAN, 2015,</p><p>p. 434; tradução própria)</p><p>4.2 TEOLOGIA TRINITÁRIA PARA A CIDADANIA</p><p>Na sua conferência inaugural realizada na Universidade Stellenbosch em</p><p>2009, Koopman (2009) defendeu uma “antropologia teológica da relacionalidade,</p><p>vulnerabilidade e interdependência que se baseia principalmente no chamado</p><p>pensamento trinitário econômico”. Destaca a Trindade econômica consentiu que</p><p>Koopman discuta a antropologia “em relação a desafios públicos concretos, como</p><p>pessoas com deficiência, relações de gênero, discursos ubuntu, identidade social,</p><p>dignidade humana e violência” (KOOPMAN, 2009, p.6).</p><p>Em suas teologias trinitárias, Jürgen Moltmann e Leonardo Boff admitiram</p><p>uma posição crítica em relação ao que eles chamam de “monoteísmo” – em vez</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>14</p><p>disso, deveria ser o monarquismo – na abrangência de Deus que, segundo eles,</p><p>deu lugar a possíveis analogias do tipo “um Deus – um Império – um Imperador”,</p><p>uma linha de pensamento que Erik Peterson denunciou notoriamente em uma tese</p><p>histórica como crítica contemporânea contra o nazismo crescente na Alemanha.</p><p>Positivamente, eles sugeriram uma analogia social da Trindade através da</p><p>pericorese (interconexão) que poderia sustentar uma comunhão igualitária tanto</p><p>dentro da igreja como na sociedade. Boff, além disso, apresenta a visão de uma</p><p>comunidade planetária da natureza e da humanidade, dos humanos entre si, da</p><p>humanidade e de Deus; para ele, a cidadania é cidadania (nacional), cocidadania e</p><p>cidadania da Terra (RUDOLF, 2012).</p><p>A questão é como essa “inspiração” trinitária pode ser aplicada à formação</p><p>de estruturas na sociedade e na igreja. O próprio Boff não vai além de reivindicar,</p><p>em termos gerais, a necessidade de uma “democracia fundamental”:</p><p>A democracia fundamental visa a maior igualdade possível entre as</p><p>pessoas mediante processos cada vez mais abrangentes de participação</p><p>em tudo o que concernir à existência humana pessoal e social. Além da</p><p>igualdade e participação intenciona a comunhão com os valores</p><p>transcendentes, aqueles que definem o sentido supremo da vida e da</p><p>história (BOFF, 1987, p.190).</p><p>Tentando acordar a função crítica e construtiva de uma doutrina trinitária</p><p>pericorética e os desafios da sociedade brasileira, gostaria de enfatizar quatro</p><p>aspectos que considero serem aspectos fundamentais para a contribuição das</p><p>igrejas motivadas pela fé para a democracia (RUDOLF, 2012).</p><p>Um 1° feitio central é a alteridade. A maioria implica a diversidade e a</p><p>comunidade, em uma democracia, é impensável sem reconhecer a singularidade</p><p>de cada membro da sociedade. Portanto, o respeito à alteridade, o reconhecimento</p><p>da diferença e o direito de ser diferente é essencial. Na teologia latino-americana,</p><p>isso se originou entre aqueles que estavam em relação direta com os povos</p><p>indígenas, mas recebeu uma atenção mais ampla nos últimos tempos. Uma</p><p>hermenêutica sensível do outro é imprescindível para preservar a singularidade de</p><p>cada pessoa e seu direito à diferença, incluindo a diferença religiosa. A alteridade</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>15</p><p>preserva o mistério e busca a entendimento, como acontece na teologia tentando</p><p>desvendar e, ao mesmo tempo, respeitar o mistério de Deus como tri-uno, unidade</p><p>na diferença (RUDOLF, 2012).</p><p>Um 2° feitio é a cooperação. Este conceito é fundamental para o discurso</p><p>sobre a cidadania. O aspecto da participação efetiva do cidadão vem à tona, assim</p><p>como a cultura política pela qual essa participação é encorajada ou prejudicada. As</p><p>igrejas, como parte da sociedade civil, têm um papel formidável a desempenhar</p><p>nesse encorajamento da participação cidadã, e de fato, de maneiras diferentes,</p><p>como apontei acima. Em muitos lugares, as igrejas podem contar com participação</p><p>muito maior de pessoas do que outros tipos de organizações de voluntários. Em</p><p>termos de teologia trinitária, o aspecto da participação constitui uma analogia</p><p>apropriada da ideia de interconexão, pericorese (RUDOLF, 2012).</p><p>Um 3° feitio é a inevitabilidade de confiança. Numa sociedade democrática,</p><p>torna-se necessário confiar nas pessoas de forma bastante abstrata, porque nunca</p><p>conheço a maioria dos meus concidadãos. Para que a democracia funcione, tenho</p><p>que pressupor que outros tenham um interesse semelhante no funcionamento da</p><p>democracia. Se esse interesse comum não pode ser dado por certo, e se um bom</p><p>número de cidadãos, especialmente aqueles que detêm mais poder do que eu,</p><p>falhar na confiança, é necessário um motivo mais profundo para ainda estar pronto</p><p>para investir na confiança. Essa razão pode ser dada pela fé, que essencialmente</p><p>significa confiança – não em si mesmo, mas em Deus (RUDOLF, 2012).</p><p>Principalmente pessoas cristãs luteranas estão acostumadas a pensar no</p><p>ser humano como simultaneamente justo e pecador. Elas sabem que os seres</p><p>humanos não podem confiar em si mesmos e uns aos outros por seu próprio bem</p><p>e mérito, mas pelo amor e mérito de Deus, porque ele prova ser confiável, mesmo</p><p>na ambiguidade da vida. Deus visto como tri-uno preserva a continuidade em meio</p><p>a situações históricas diferentes, altamente ambíguas, onde ele se manifesta, mais</p><p>centralmente na cruz em Gólgota, mas também na criação e na presença do</p><p>Espírito, e capacita as pessoas para viverem suas vidas (RUDOLF, 2012).</p><p>Por fim, um quarto elemento necessário é a coerência: ter um projeto para</p><p>toda a sociedade e não apenas para si próprio ou para o grupo de pares, ou mesmo</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>16</p><p>para a igreja. Isso depende de uma percepção específica da sociedade e da fé,</p><p>sendo necessária uma hermenêutica de coerência. O mercado religioso altamente</p><p>competitivo emergente em muitos lugares do mundo, especialmente na África e na</p><p>América Latina, com uma desigualdade cada vez maior de igrejas e movimentos</p><p>religiosos, está dando um testemunho muito triste dessa (in)coerência.</p><p>Teologicamente falando, insistir em Deus como Trindade pode ajudar a prevenir</p><p>mal-entendidos restritivos, como se Deus fosse somente o Espírito Santo e não</p><p>apenas o Filho, feito humano em Jesus Cristo e Pai, como criador. Este equilíbrio</p><p>de unidade e diversidade em Deus é propenso a promover a koinonia, a palavra</p><p>ecumênica para a comunidade entre os diferentes membros do Corpo de Cristo. Em</p><p>termos da sociedade como um todo, essa integração da unidade e da diversidade</p><p>poderia, se bem-sucedida, ser uma formidável contribuição das igrejas para uma</p><p>sociedade pluralista. Isso pressupõe que os cristãos e as igrejas não busquem</p><p>principalmente obter vantagens para as respectivas igrejas, mas ver sua missão</p><p>como testemunho de serviço (diakonia) para toda a sociedade (RUDOLF, 2012).</p><p>5 REFLEXÃO TEOLÓGICA COM UMA ABERTURA DIALÓGICO-CRÍTICA A</p><p>OUTROS SABERES</p><p>A reflexão teológica requer uma abertura dialógico-crítica aos saberes das</p><p>demais áreas de conhecimento. O contato da Teologia com as demais áreas de</p><p>conhecimento enriquece não apenas as outras áreas, mas também a própria</p><p>Teologia, por meio do compartilhamento de conhecimentos e experiências e da</p><p>análise interdisciplinar de alguns casos e situações. Nesse contexto, esse diálogo</p><p>interdisciplinar se torna também libertador e permite uma aproximação com as</p><p>pessoas leigas, que, muitas vezes, não estão próximas da Igreja e pouco ou nada</p><p>compreendem acerca da Teologia e da própria reflexão teológica (MÖBBS, 2020).</p><p>Como você sabe, a separação por áreas de saberes é uma invenção da</p><p>Modernidade. Até o período Moderno, não havia tais separações, motivo pelo qual,</p><p>no Medievo, por exemplo, os filósofos abordavam temas de filosofia, teologia,</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>17</p><p>educação e saúde, todos ao mesmo tempo, sem se ocuparem de distinguir quando</p><p>falavam de uma área ou de outra (MÖBBS, 2020).</p><p>É importante destacar que, embora a reflexão teológica esteja em diálogo</p><p>com outros saberes, ela não deixa de estar centrada na vida, a serviço dela e,</p><p>portanto, realmente disponível para dialogar acerca dela, conforme leciona Avelar</p><p>(2007). A reflexão teológica, pensada como uma abertura dialógico- -crítica para</p><p>outros saberes, pode ser pensada a partir do movimento dialético proposto pelo</p><p>filósofo francês Paul Ricœur (1913–2005). A partir desse movimento, coloca-se em</p><p>diálogo — muitas vezes — opiniões ou conhecimentos contrários e, ao fazê-los</p><p>dialogar, produz-se algo novo (oposição produtiva), saindo, assim, do paradoxo</p><p>(que aqui é compreendido como duas ideias opostas e incompatíveis entre si) e</p><p>produzindo algo novo a partir das ideias iniciais (MÖBBS, 2020).</p><p>O diálogo entre os saberes permite o enriquecimento da Teologia e das</p><p>outras áreas. A Teologia é enriquecida pelos saberes ad extra, mas também ad</p><p>intra, pois, quando colocada em diálogo com as demais áreas, há uma autorreflexão</p><p>e autoavaliação da própria área, revendo paradigmas e ideias. O caráter</p><p>pedagógico do diálogo não pode ser desprezado, já que o diálogo propicia novas</p><p>aprendizagens, sendo possível aprender com o outro por meio do diálogo (MÖBBS,</p><p>2020).</p><p>Desde os séculos XIX e XX, a reflexão teológica tem dialogado com outras</p><p>áreas do saber, como a Filosofia, a Antropologia, a Psicologia, entre outras. Esse</p><p>diálogo tem promovido a compreensão dessas áreas pela reflexão teológica e, ao</p><p>mesmo tempo, a compreensão da reflexão teológica por essas áreas, conforme</p><p>aponta Pádua (2007). Trata-se, portanto, de uma via de mão dupla, da qual todas</p><p>as áreas em diálogo saem beneficiadas (MÖBBS, 2020).</p><p>Entre os diálogos possíveis, vamos tratar do diálogo entre a reflexão</p><p>teológica e a Filosofia, no que tange ao problema do mal e de que forma ambas as</p><p>áreas contribuem para o debate e contribuem uma com a outra. Contudo, como</p><p>você deve saber, é necessário delimitar de que tipo de mal estamos falando, a fim</p><p>de facilitar o nosso diálogo. Logo, vamos abordar o diálogo entre a reflexão teológica</p><p>e a Filosofia na tentativa de explicar de que forma ambos os saberes contribuem</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>18</p><p>para a compreensão do mal sofrido, ou seja, o mal que nos interpela e pelo qual</p><p>não podemos responsabilizar ninguém — aquele mal que não possui, portanto,</p><p>agente causador. Trata-se do mal como sofrimento imerecido, aquele que atinge</p><p>inclusive o homem supostamente justo, como no caso de Jó (MÖBBS, 2020).</p><p>Paul Ricœur (1988), em sua obra O mal — um desafio à filosofia e a</p><p>teologia, aborda esse diálogo entre os saberes, a fim de compreender de que forma</p><p>ambos podem auxiliar nessa compreensão. Segundo Ricœur (1988), o enigma do</p><p>mal surge justamente da discordância entre o mal moral (mal cometido) e o mal</p><p>sofrido (mal imerecido). Assim, para Ricœur, o mal sofrido é aquele que não pode</p><p>se dar a partir da retribuição, nem mesmo pelo livre-arbítrio. É aquele mal que nos</p><p>interpela — por exemplo, uma doença que nos atinge, um desastre natural —, sem</p><p>que seja possível a responsabilização de alguém (MÖBBS, 2020).</p><p>Nesse sentido, a pergunta que não quer calar é: por que o justo também</p><p>sofre? É Deus que permite que o justo seja afetado pelo mal? Essa resposta será</p><p>dada por Ricœur em 1988, em uma palestra em homenagem a Lévinas, intitulada</p><p>“O escândalo do mal”. Ricœur afirma a necessidade de separarmos a experiência</p><p>do mal e a responsabilidade divina, pois só assim seremos capazes de recusar</p><p>qualquer tipo de moralismo recriminador ou legitimador do mal, fugindo também da</p><p>lógica da retribuição. O mal sofrido mostra que a origem do mal não está na</p><p>retribuição, pois o sofrimento de Jó nos revela que qualquer um pode ser atingido</p><p>pelo mal. Afinal, não é porque cremos em Deus e somos justos que não seremos</p><p>afetados pelo mal; mas, se o mal nos interpelar, ainda assim, é preciso crer em</p><p>Deus (MÖBBS, 2020).</p><p>Você, talvez, esteja se perguntando: diante do mal, do sofrimento imerecido,</p><p>só nos resta o silêncio? Não. Segundo Möbbs (2013, p. 60):</p><p>[...] ao contrário, segundo Ricœur, cabe à linguagem o dever de fazer</p><p>memória das vítimas do mal e, desta forma, cabe a ela desocultar e narrar</p><p>o seu sofrimento. Deste modo, por essa via, compete à linguagem resgatá-</p><p>la de um mau silêncio: o silêncio que voltaria a fazer vítimas, apagando o</p><p>escândalo do seu sofrimento da memória das culturas.</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>19</p><p>Nesse momento da discussão, o diálogo não é mais apenas entre Filosofia</p><p>e Teologia; agora, Ricœur acresce a História. Nesse sentido, a Teologia, a Filosofia</p><p>e a História se unem na tentativa de elucidar a questão do sofrimento do justo.</p><p>Ricœur vai fazer com que esses saberes dialoguem, a fim de fornecer alguma luz</p><p>acerca desse problema que, como ele próprio admite, desafia e escandaliza ambas</p><p>as áreas (MÖBBS, 2020).</p><p>Como defende Rubio (2007), tudo isso só é possível porque o diálogo é</p><p>guiado pelo desejo de apresentar a proposta de humanização integral que está</p><p>contida na revelação bíblico-cristã. Isso se deve ao fato de que, junto com a abertura</p><p>dialógico-crítica a outros saberes, está presente a resistência aos reducionismos e</p><p>à fragmentação dos saberes, que acabam empobrecendo a salvação cristã. Rubio</p><p>(2007, p. 8) ainda afirma: “De maneira especial, preocupa o aparecimento e a rápida</p><p>expansão de movimentos e orientações religiosas que apresentam uma visão</p><p>imediatista, individualista e egocêntrica da salvação cristã” (MÖBBS, 2020).</p><p>De acordo com Rubio (2007), principalmente no âmbito católico, era</p><p>esperado, a partir do Concílio Vaticano II, o desenvolvimento na Igreja de uma</p><p>espiritualidade e uma pastoral alicerçadas na visão integrada do ser humano.</p><p>Contudo, essa compreensão integrada do ser humano não é compatível com uma</p><p>reflexão teológica enclausurada em</p><p>si mesma, que não dialoga com os outros</p><p>saberes, uma vez que é necessária a compreensão do sujeito de forma integral, e</p><p>isso só será possível mediante a integração dos saberes.</p><p>O Papa Paulo VI (1965, documento on-line), na Gaudium et Spes, afirma:</p><p>É mais difícil hoje do que outrora fazer uma síntese dos vários ramos do</p><p>saber e das artes. Porque ao mesmo tempo que aumenta a multidão e</p><p>diversidade dos elementos que constituem a cultura, diminui para cada</p><p>homem a possibilidade de os compreender e organizar; a figura do</p><p>“homem universal” desaparece assim cada vez mais. No entanto, cada</p><p>homem continua a ter o dever de salvaguardar a integridade da pessoa</p><p>humana, na qual sobressaem os valores da inteligência, da vontade, da</p><p>consciência e da fraternidade, valores que se fundam em Deus Criador e</p><p>por Cristo foram admiravelmente restaurados e elevados.</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>20</p><p>Assim, é necessário que se promova o diálogo entre os saberes, mesmo</p><p>diante das dificuldades encontradas, no sentido de garantir essa perspectiva</p><p>antropológica integrada. E, para isso, é necessário que se integre sem diminuir ou</p><p>eliminar as diferenças entre os elementos constitutivos do ser humano, como</p><p>veremos na próxima seção (MÖBBS, 2020).</p><p>6 PERSPECTIVAS DE UMA ANTROPOLOGIA INTEGRADA QUE RESPEITA</p><p>AS DIFERENÇAS</p><p>Uma antropologia integrada é aquela que pensa o ser humano em sua</p><p>integralidade, a partir de todas as suas capacidades e lateralidades. Essa</p><p>perspectiva e abordagem integral do ser humano dissipa de certa forma algumas</p><p>das dicotomias existentes, ainda que reconheça as diferenças entre esses</p><p>elementos constitutivos do próprio ser humano, como: essência versus existência,</p><p>corpo versus alma, natureza versus cultura, etc (MÖBBS, 2020).</p><p>Um exemplo é a dicotomia entre o vitalismo e o mecanicismo, abordada por</p><p>Mondin (2014) em seu livro O homem, quem é ele?. Sobre o vitalismo e o</p><p>mecanicismo, Mondin (2014, p. 47) afirma:</p><p>Ora, se se leva em conta que vitalismo e mecanicismo são antes de tudo</p><p>e sobretudo dois diferentes pontos de vista e que esses dois pontos de</p><p>vista não são tão incompatíveis entre si como comumente se crê (tratando-</p><p>se de visões parciais, ao menos no caso do ponto de vista científico), então</p><p>é legítimo concluir que o próprio estudioso tem a possibilidade de ser</p><p>mecanicista (quando assume o ponto de vista científico) e vitalista, quando</p><p>ultrapassa o ponto de vista científico e busca uma explicação exaustiva do</p><p>fenômeno da vida.</p><p>Veja que nem mesmo essas dicotomias sustentam uma separação</p><p>estanque. Há sempre uma certa compatibilidade entre elas, principalmente pelo fato</p><p>de que se referem ao humano, e o humano não pode ser pensado de forma</p><p>separada — o ser humano é um ser integral (MÖBBS, 2020).</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>21</p><p>Embora a antropologia e os próprios filósofos tenham dedicado muito tempo</p><p>à investigação acerca do que nos caracteriza e nos distingue das demais espécies,</p><p>em certa medida, cada um enfatizou uma das dimensões do ser humano. Tais</p><p>abordagens contribuem para que possamos pensar o ser humano não mais de</p><p>forma fragmentada, focando nessa ou naquela dimensão, mas, ao contrário,</p><p>focando em todas elas. Um exemplo disso é o homem vitruviano, criação de</p><p>Leonardo Da Vinci, com base nas dimensões apontadas por Mondin (Figura 1).</p><p>Figura 1 - O homem vitruviano de Leonardo Da Vinci com as dimensões</p><p>apontadas por Mondin: Homo religiosus, Homo vivens, Homo volens, Homo</p><p>socialis, Homo faber, Homo ludens, Homo culturalis, Homo loquens, Homo</p><p>somaticus, Homo sapiens</p><p>Fonte: MysticaLink/Shutterstock.com.</p><p>A reflexão proposta pela antropologia integrada difere das demais porque</p><p>propõe uma reflexão acerca de todas as dimensões do ser humano, em vez de dar</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>22</p><p>ênfase a uma ou outra dimensão, uma vez que o ser humano é um ser dotado de</p><p>todas essas dimensões. Soma-se a isso o fato de que a antropologia integral não</p><p>desconhece as diferenças entre essas dimensões, contudo, esclarece que uma</p><p>dimensão não se sobrepõe a outra e, tampouco, é melhor ou mais eficiente. O</p><p>reconhecimento das diferenças entre as dimensões permite que o debate enriqueça</p><p>ainda mais. Elas são diferentes, mas estão integradas em um só sujeito, conforme</p><p>mostra o Quadro 1.</p><p>Quadro 1 - Manifestações do fenômeno humano</p><p>Fonte: Adaptado de Mondin (2014)</p><p>Em uma proposta de integralidade antropológica, Ricœur (2006) propõe</p><p>uma reflexão acerca das capacidades do homem capaz, que são: o “poder falar”, o</p><p>“poder fazer”, o “poder narrar” e o “poder narrar-se” e, também, o “poder imputar” e</p><p>o “poder imputar-se”. Veja que temos um sujeito com múltiplas dimensões e com</p><p>várias capacidades que funcionam de forma articulada (MÖBBS, 2020).</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>23</p><p>A antropologia integral é uma visão do sujeito que vai além do dualismo</p><p>corpo e alma. Ela vê um sujeito que é uno — embora existam dimensões distintas</p><p>nesse mesmo sujeito, elas se complementam e coadunam em um só sujeito. Ou</p><p>seja, a antropologia teológica defende a integração e o pensamento acerca do</p><p>sujeito enquanto um ser uno, mas também promove tal integração (MÖBBS, 2020).</p><p>Segundo Rubio (2007, p. 275), “[...] o mais importante para quem está</p><p>interessado na visão integrada do ser humano é que, na visão sistêmica de vida,</p><p>abre-se a possibilidade da superação das dicotomias entre mente e corpo (matéria)</p><p>e entre sujeito e objeto”. Assim, vemos a antropologia teológica promover também</p><p>essa importante visão integrada e a superação desse dualismo entre mente e corpo,</p><p>ainda que respeitando as suas diferenças. Afinal, pensá-los de forma integrada não</p><p>significa pensá-los como uma mesma coisa, estão integrados, mas cada um com</p><p>suas características específicas (MÖBBS, 2020).</p><p>Essa perspectiva de pensar o ser humano enquanto ser integrado, a</p><p>proposta de uma antropologia integral, possibilita-nos perceber que estamos, de</p><p>fato, falando de um ser humano, do homem, e não de um ser humano hipotético ou</p><p>idealizado, mas desse sujeito que pode ser você e pode ser eu. Afinal, de que</p><p>adiantam anos e anos de reflexão acerca de um ser que é hipotético, que não existe.</p><p>Assim, a antropologia teológica cristã, de fato, volta-se para o ser humano e está</p><p>disposta a dialogar acerca desse humano integrado, não apenas enquanto um</p><p>sujeito integrado, mas integrado com os outros, tudo isso mediado por um diálogo</p><p>entre saberes integrados (MÖBBS, 2020).</p><p>7 O SENTIDO DA ESPIRITUALIDADE NA VIDA HUMANA</p><p>Ao pensar no ser humano de forma integral, pressupõe-se considerá-lo</p><p>além das suas dimensões biológica, psicológica, social e espiritual. Contudo, você</p><p>deve estar se perguntando acerca da dimensão da espiritualidade. Assim, cabe a</p><p>pergunta: o que é a espiritualidade? A Filosofia possui uma compreensão do que é</p><p>espiritualidade, como afirma Zilles (2004, p. 11):</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>24</p><p>Para os filósofos, em geral, trata-se mais de uma qualidade que de uma</p><p>entidade. Contrapõe-se à materialidade. Refere-se a uma qualidade que</p><p>transcende toda materialidade. Assim Deus, os anjos, a alma, são</p><p>exemplos perfeitos de seres espirituais. Neste caso emprega-se espiritual</p><p>como negação de material. Espiritual então é a qualidade que convém a</p><p>seres situados fora do espaço e do tempo. Via de regra aí para a</p><p>eloquência dos filósofos.</p><p>Essa busca por sentido é cada vez mais atual, pois, na sociedade em que</p><p>vivemos, percebemos um distanciamento entre as pessoas. Embora vivamos na era</p><p>da comunicação e das redes sociais virtuais, há, sem dúvida, um distanciamento e</p><p>um afastamento cada vez maior entre as pessoas, o que faz emergir cada vez mais</p><p>o vazio, o oco. Nesse contexto, é natural que os sujeitos estejam</p><p>cada vez mais</p><p>buscando o sentido da vida, um propósito para viver. Mas esse momento exige</p><p>cuidado, pois não podemos cair na confusão — embora a espiritualidade seja uma</p><p>relação com o transcendente, ela deve ser passível de ser vivida na sua concretude;</p><p>do contrário, cabe o alerta de Pádua (2007, p. 182):</p><p>Vivemos tempo de intensa busca espiritual. Busca que, conjugada a um</p><p>imediatismo cultural, característico da pós-modernidade, pode levar à</p><p>ilusão de que a espiritualidade se reduz a um momento mágico de oração,</p><p>em que todos os dualismos e mesmo contradições humanas</p><p>desaparecem, quer pela experiência unitiva do espírito, quer pela</p><p>sensação de bem-estar trazida pela oração ou por vivências espirituais</p><p>extraordinárias. Neste sentido, o realismo da integração do humano fica</p><p>camuflado em frágil fantasia, e a mensagem cristã, fundamentada na</p><p>Encarnação, não pode fazer-se carne na humanidade real e muitas vezes</p><p>contraditória de quem crê.</p><p>É nesse sentido que Pádua (2007) cita o exemplo de Santa Teresa de</p><p>Jesus, na intenção de demonstrar que é possível a integração entre uma</p><p>antropologia integral e uma espiritualidade igualmente integrada e integradora e,</p><p>sobretudo, que pode ser testemunhada. Para Pádua (2007, p. 182):</p><p>Teresa de Jesus nos mostra que o caminho da integração é possível e</p><p>fascinante, mas processual, histórico e sempre inacabado. Trata-se de um</p><p>horizonte, necessário para que se dê o movimento integrador dinâmico. A</p><p>obra e a vida de Santa Teresa revelam notável equilíbrio, nem sempre fácil,</p><p>entre as plurais dimensões de sua existência, de suas preocupações e de</p><p>suas relações sociais. Teresa foi mulher da experiência de Deus, das</p><p>grandes transformações interiores, de grandes integrações.</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>25</p><p>Contudo, a espiritualidade é, segundo McIntosh (1988), a descoberta de si</p><p>que se dá precisamente no encontrar-se com o outro humano e divino. Portanto, é</p><p>possível compreender a espiritualidade a partir do encontro, não apenas com si</p><p>mesmo, mas principalmente com o divino, com o transcendente. Trata-se, portanto,</p><p>da dimensão da espiritualidade, que faz com que o ser humano busque</p><p>compreender-se e compreender o sentido da vida (MÖBBS, 2020).</p><p>A espiritualidade pensada enquanto encontro nos possibilita compreender</p><p>com maior facilidade essa busca e essa necessidade emergente. O fato é que,</p><p>ainda que as pessoas não tenham uma religião, possuem espiritualidade e buscam</p><p>uma conexão com o transcendente, independentemente da compreensão que</p><p>tenham do que esse transcendente seja. É por isso que, se integrada à antropologia</p><p>cristã integral, a espiritualidade se torna uma busca pelo sentido da vida e o</p><p>encontro com Deus (MÖBBS, 2020).</p><p>Acerca dessa relação entre a Teologia e a espiritualidade, Boff (2015,</p><p>documento on-line) afirma que: “Em verdade, a desejada conexão entre teologia e</p><p>espiritualidade não é apenas algo circunstancial ou epocal. É, antes e mais</p><p>precisamente, uma exigência intrínseca da própria teologia. Ela é posta, e mesmo</p><p>imposta, por seu objeto próprio: o Deus revelado”. Assim, o objeto próprio da</p><p>espiritualidade é o Deus revelado. A espiritualidade é essa busca por sentido e, ao</p><p>mesmo tempo, o encontro com o Deus revelado (MÖBBS, 2020).</p><p>Trata-se, portanto, da perspectiva de uma antropologia integrada e aberta</p><p>ao diálogo com os saberes, na qual a espiritualidade cristã está no escopo. Ir ao</p><p>encontro do sentido da vida, ao encontro do Deus revelado, é, ao mesmo tempo,</p><p>desvelar a espiritualidade cristã presente em cada sujeito. Cabe salientar que, para</p><p>o cristão, a espiritualidade “[...] relaciona, antes de mais nada, o homem finito com</p><p>a realidade divina, com Deus que se revela na obra da criação e no mistério de</p><p>Cristo”; contudo, trata-se de uma espiritualidade que é “[...] passível de ser vivida,</p><p>na concretude da nossa história”, como afirma Rubio (2007, p. 17).</p><p>É necessário, sobretudo, cuidado, pois a espiritualidade, como é vista</p><p>atualmente, é especialmente sensível à integração entre corpo, mente e espírito,</p><p>mas com uma maior ênfase sobre a corporeidade, que chega ao cúmulo com a</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>26</p><p>idolatria da imagem e do corpo — na “era da selfie”. Esse tipo de reducionismo pode</p><p>ser um dos motivos da busca por espiritualidade, conforme sugere Pádua (2007).</p><p>Talvez essa busca e esse anseio emergente pela espiritualidade não revele sua real</p><p>motivação. Há, sobretudo, a necessidade de seguir um outro caminho, que, para</p><p>Pádua (2007), será demonstrado por Teresa de Jesus.</p><p>Teresa de Jesus é vista como um exemplo, que pode nos favorecer na</p><p>busca do enriquecimento da subjetividade e do aprofundamento do mundo interior.</p><p>Santa Teresa de Jesus concebe a espiritualidade como uma integração entre corpo,</p><p>mente e espírito. Essa integração é um processo verdadeiro, profundo, corajoso,</p><p>curativo e ultrapassa o horizonte da realização pessoal, mas não o exclui. Pádua</p><p>(2007, p. 207) destaca:</p><p>A experiência da gratuidade e da oração, do autoconhecimento que</p><p>descortina um mundo de riqueza insuspeitada, de afetos e racionalidade,</p><p>de vida e solidão com Deus, traz consigo a ação histórica comprometida,</p><p>o viver com os demais, traçando objetivos e sentidos compartilhados, e a</p><p>coragem de assumir suas próprias contradições e dispor-se continuamente</p><p>à conversão.</p><p>A proposta, portanto, de uma reflexão dialógico-crítica com os outros</p><p>saberes, bem como uma antropologia integrada, não tem razão de ser sem uma</p><p>espiritualidade igualmente integrada e integradora.</p><p>8 UMA TEOLOGIA PÚBLICA DA CIDADANIA: CONTEXTUAL E CATÓLICA</p><p>A disputa sobre teologia pública, como desenvolvido no Brasil e,</p><p>internacionalmente, na Rede Global de Teologia Pública e seu</p><p>periódico International Journal of Public Theology, mostra a diversidade de</p><p>entendimentos e implicações do conceito (cf. SINNER, 2012b). Já as primeiras</p><p>questões da revista trataram explicitamente do projeto geral e as implicações do</p><p>conceito. Vários autores afirmaram que a teologia pública não era uniforme nem</p><p>monolítica, não tinha um único significado e que não havia uma teologia pública</p><p>universal. No entanto, existe uma articulação global em torno do termo. Eu chamaria</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>27</p><p>isso de “conceito agregador”, isto é, uma maneira de expressar uma dimensão</p><p>intrínseca à igreja, ao mesmo tempo em que incorpora uma diversidade de aspectos</p><p>e focos. É mais uma extensão do que uma linha de pensamento específica, além</p><p>de denotar um campo – a esfera pública. Embora isso ofereça uma ampla abertura</p><p>para a contextualização, mostra certa imprecisão e flexibilidade do conceito</p><p>(RUDOLF, 2012).</p><p>No contexto brasileiro, uma – note-se o consciente uso do artigo indefinido</p><p>– teologia pública pode ser adequadamente qualificada como teologia da cidadania</p><p>(cf. ZEFERINO, 2018), o que mostra concretamente como as igrejas – e a teologia</p><p>que sobre sua prática reflete – contribuem para uma dimensão profundamente</p><p>necessária e ainda desejável da vida humana. Não se trata de um básico</p><p>oportunismo, mas posturas e ações arraigadas em suas convicções teológicas.</p><p>Uma teologia pública persevera em formas de comunicação além das igrejas, na</p><p>esfera pública. Como bem disse David Tracy, a pessoa teóloga atende à igreja, à</p><p>academia e à sociedade, cada uma com seus discursos e linguajar específicos. É,</p><p>portanto, uma teologia desenvolvida de dentro para fora, comunicando a missão da</p><p>igreja na fé, na vida e na ação (catolicidade). Ao mesmo tempo, é desenvolvida a</p><p>partir e dentro de um assunto específico, com seus públicos e sua esfera pública</p><p>específicos (contextualidade). Isso torna necessária uma análise apurada e um</p><p>diálogo interdisciplinar. Metodologicamente, portanto, tanto a contextualidade</p><p>quanto a catolicidade da teologia pública devem sempre ser levadas em</p><p>consideração e explicitadas quanto ao seu significado específico (RUDOLF, 2012).</p><p>9 CIDADANIA</p><p>O “preparo para o exercício da cidadania” (BRASIL, 1996 art. 2), segundo</p><p>a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) é uma das finalidades da</p><p>Educação Brasileira. Dessa forma, a cidadania está inclusa em um dos objetivos</p><p>apresentados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), o qual destaca a</p><p>necessidade dos alunos serem preparados para o exercício da cidadania.</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>28</p><p>Cidadania que aponta o sujeito como titular de direitos e deveres e coloca todos os</p><p>indivíduos como iguais perante a lei. Então, cidadão é aquele que mediante suas</p><p>ações busca sua inserção efetiva na sociedade (SEEHABER, 2000).</p><p>Sendo a escola uma instituição que possibilita a formação deste cidadão e</p><p>local de aprendizagem e de convivência social, promover ações que fomentem</p><p>relações éticas e democráticas de respeito à diferenças e a diversidade, é sua</p><p>função. Por esta razão se faz necessário que os agentes envolvidos com a</p><p>educação compreendam a</p><p>[...] cidadania como participação social e política, assim como exercício de</p><p>direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia-a dia, atitudes</p><p>de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro</p><p>e exigindo para si o mesmo respeito. (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO</p><p>FUNDAMENTAL, 2000, p. 107)</p><p>Hoje, abordar o tema cidadania significa estar atento às mudanças</p><p>ocorridas na sociedade, nos valores, na educação e na cultura, fruto da influência</p><p>do capitalismo e da evolução tecnocientífica. Mudanças estas, que causam</p><p>disparidades entre os grupos humanos e geram a divisão de classes (SEEHABER,</p><p>2000).</p><p>As diferenças de classe sempre atuaram como obstáculos para a efetivação</p><p>da cidadania, limitando o acesso aos direitos (SEEHABER, 2000).</p><p>Atualmente, a noção de cidadania ainda permanece diretamente</p><p>associada à idéia de ter direitos, uma característica que não parece</p><p>suficiente para exprimi-la, uma vez que, em termos legais, os direitos não</p><p>são mais privilégios de determinadas classes ou grupos sociais. Um</p><p>documento fundamental no balizamento de tal generalização é a</p><p>Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), adotada e</p><p>proclamada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de</p><p>dezembro de 1948. (MACHADO, 1997, p. 95, grifo do autor)</p><p>Porém, a dialética inclusão/exclusão sempre esteve presente, desde a</p><p>origem da cidadania. Hoje, a questão dos direitos civis, políticos e sociais é que</p><p>equaciona a cidadania, ou seja, é medindo a inclusão ou exclusão do indivíduo a</p><p>determinados direitos que se avalia o quanto ele está tendo acesso à cidadania,</p><p>além dos deveres de cada indivíduo para o bom andamento da vida em sociedade</p><p>(SEEHABER, 2000).</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>29</p><p>Ser cidadão é responsabilizar-se por si mesmo e pelos outros, é ter</p><p>consciência de seus direitos e deveres. Ser cidadão é ter espírito de solidariedade</p><p>e de partilha, é saber viver em comunidade, participar, indignar-se, diante da</p><p>injustiça e do errado, é ter vontade de melhorar, de servir ao próximo, é agir.</p><p>Cidadania não é um modelo absoluto de felicidade, liberdade e</p><p>necessidade, expurgado de todos os elementos particulares em nome da</p><p>igualdade. Ela é potencialidade de ação coletiva e individual em prol do</p><p>bem comum e do gozo particular. Para tanto, pressupõe a existência de</p><p>comunidades livremente escolhidas, onde os homens discutem, escolhem</p><p>e planejam formas plurais de vida. (SAWAIA, 1994, p. 153)</p><p>O ser humano convive com outras pessoas com os mesmos direitos e</p><p>deveres, porém, com características totalmente diferentes. É nesse contexto que a</p><p>cidadania se instala como ferramenta primordial para a vida em sociedade, na busca</p><p>pela harmonia com os demais. Direitos e deveres de um cidadão devem fazer parte</p><p>do contexto social, devem ser ensinados desde a infância, devem ser</p><p>compreendidos como respeito mútuo e como necessidade da existência de regras</p><p>e limites como pressuposto básico para o convívio social (SEEHABER, 2000).</p><p>No Brasil, a cidadania atual foi garantida pela Constituição Brasileira de</p><p>1988, que traz a compreensão de cidadania expressa na carta dos Direitos do</p><p>Homem e do Cidadão de 1789 e na Declaração Universal dos Direitos Humanos de</p><p>1948 (JUNQUEIRA, 2002, p. 19), ampliando os direitos da cidadania. É considerada</p><p>a mais democrática da história do país, conhecida como a "constituição cidadã",</p><p>pois foram ampliados os direitos em todas as dimensões: civil, política, social e</p><p>cultural.</p><p>No Brasil, os movimentos sociais fazem parte de um processo social e</p><p>histórico de luta de classes no âmbito das demandas sociais – movimentos</p><p>pela saúde, pela educação, por transportes, por moradia – através dos</p><p>quais as classes subalternas buscam reafirmar ou construir a sua</p><p>identidade cultural, e a identidade de seus membros como cidadãos, a</p><p>partir da postulação de condições dignas de existência, colocando em</p><p>evidência um novo plano de conflito: a ampliação dos direitos do cidadão</p><p>reconhecidos pelo Estado, e a reivindicação de autonomia, pleiteando</p><p>aumento de seus direitos e contestando a forma de atendimento do estado</p><p>que busca o controle da população. (ALONSO, 1994, p. 77)</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>30</p><p>Todavia, essa concepção acaba por homogeneizar todos os cidadãos</p><p>colocando-os em pé de igualdade, suplantando as diferenças e desigualdades</p><p>implantando uma política neoliberal, que dificultou o fortalecimento da cidadania e</p><p>da democracia, pois:</p><p>[...] incorpora o discurso democrático e favorece a democracia e a</p><p>cidadania de baixa intensidade. Promove mudança estrutural com</p><p>reformas econômicas e políticas e exclui e compromete direitos sociais</p><p>conquistados. Reconhece a importância da educação básica, mas assume</p><p>um enfoque técnico-científico de seu tratamento e não valoriza o</p><p>profissional da educação. (CANDAU et al., 1998, p. 11)</p><p>Mas a conscientização do indivíduo favorece a cidadania e, com isso, a</p><p>concretização dos direitos fundamentais. Ser cidadão é participar da vida em</p><p>comunidade, é integrar-se na sociedade, é participar das decisões políticas, é</p><p>condição de dignidade e isso deve ser ensinado também na escola (SEEHABER,</p><p>2000).</p><p>10 CIDADANIA E EDUCAÇÃO</p><p>Exercer a cidadania é uma atitude que depende da cultura e está</p><p>relacionado aos conceitos econômicos, sociais e políticos de uma sociedade. Para</p><p>que o indivíduo possa lutar por seus direitos, ele precisa, primeiramente, conhecê-</p><p>los. Para o exercício de uma cidadania ativa é necessário educar os indivíduos para</p><p>a liberdade de pensamento, para o senso crítico, para a não passividade diante das</p><p>informações, para a não repetição daquilo que é imposto, para a construção de</p><p>novos conceitos. Para tanto a educação media a construção para a cidadania, pois</p><p>proporciona aos indivíduos “instrumentos para a plena realização desta participação</p><p>motivada e competente, desta simbiose entre interesses pessoais e sociais, desta</p><p>disposição para sentir em si as dores do mundo”. (MACHADO, 1997, p. 106-107).</p><p>Assim a educação para a cidadania deve possibilitar primeiro o igual acesso</p><p>ao direito (o conhecimento das leis por parte de todos os sujeitos) e posteriormente</p><p>a formação das consciências dos sujeitos sociais para a necessidade de sua</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>31</p><p>afirmação no nível dos fatos, no nível da vida real.</p><p>Educar para a cidadania é</p><p>preocupar-se com uma educação de qualidade.</p><p>[...] concebida como um processo ordenado a realizar o ser humano como</p><p>um todo, onde o educar é ajudar ao desenvolvimento e afirmação do</p><p>caráter próprio na humanidade e em cada um, implica favorecer que cada</p><p>pessoa se educa a si mesma a medida em que torna consciente e</p><p>responsável por si mesma, para tais fatores como família, escola e outros</p><p>contribuem na estruturação desta aprendizagem. (MACHADO;</p><p>NASCIMENTO; JUNQUEIRA, 2004, p. 34)</p><p>A formação integral do ser humano compreende, educar para a ética, para</p><p>a solidariedade, para a vida em comunidade, para a participação ativa na sociedade,</p><p>para o desenvolvimento do pensamento crítico, criativo e reflexivo. A cidadania</p><p>desenvolve-se e estimula-se, desde a infância. Faz parte da cultura de uma</p><p>sociedade e prepara indivíduos a priorizarem o bem comum, pessoas que vivam de</p><p>maneira fraterna e solidária, com hábitos de solidariedade, justiça, partilha, verdade</p><p>e respeito às diferenças (SEEHABER, 2000).</p><p>Portanto a escola possui todas as ferramentas para iniciar e estimular essa</p><p>educação cidadã, ela deve ter projetos que eliminem a miséria e a pobreza ao invés</p><p>de apenas debater diversos assuntos e formar opinião, ela deve combater os</p><p>preconceitos e conscientizar seus agentes da necessidade de promover ações</p><p>concretas em busca de uma participação ativa de seus membros nas organizações</p><p>sociais e na sociedade. A teoria pode surgir dos debates estabelecidos, a partir das</p><p>experiências práticas (SEEHABER, 2000).</p><p>[...] criar situações de aprendizagem interdisciplinar; desencadear</p><p>situações para a acção em situações reais que ponham os alunos em</p><p>contacto com o processo de resolução de problemas – estratégia</p><p>privilegiada na identificação e formulação de soluções para os problemas;</p><p>relevar aspectos éticos, econômicos, sociais e políticos dos problemas</p><p>tratados; trazer para o ensino das ciências valores relacionados com os</p><p>contextos da acção [...] (SANTOS, 2002, p. 60)</p><p>A educação para a cidadania deve moldar a cultura de uma sociedade. Para</p><p>isso, é necessário que haja uma conscientização coletiva onde os indivíduos sejam</p><p>sensibilizados a proteger a sua vida e também a de seu próximo. Além disso, devem</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>32</p><p>ser incentivados a irem contra a manipulação e a repressão e a lutarem pela</p><p>vivência da solidariedade, pela comunidade, pela cooperação e pela</p><p>responsabilidade social (SEEHABER, 2000).</p><p>Dessa forma, é necessário elencar quais aspectos devem ser priorizados</p><p>para que se tenha acesso ao conhecimento, à cultura e à informação para que a</p><p>democracia e a solidariedade sejam garantidas. Segundo Freire (1993), a educação</p><p>da maneira como ela é concebida atualmente, não é neutra, ela carrega em suas</p><p>entranhas a missão de sustentar o poder burguês.</p><p>Tenho dito várias mas não é mal repetir agora que não foi a educação</p><p>burguesa que criou a burguesia mas a burguesia que, emergindo,</p><p>conquistou sua hegemonia e, derrocando a aristocracia, sistematizou ou</p><p>começou a sistematizar sua educação que, na verdade vinha se gerando</p><p>na luta da burguesia pelo poder. A escola burguesa teria de ter,</p><p>necessariamente, como tarefa precípua dar sustentação ao poder burguês</p><p>[…] (FREIRE, 1993, p. 53)</p><p>Assim, mesmo que ela oportunize o acesso ao conhecimento, vai estar, da</p><p>maneira como esta estruturada, sempre a favor da classe dominante. Corroborando</p><p>para a formação do cidadão, com vistas a defender seus interesses (SEEHABER,</p><p>2000).</p><p>Daí a necessidade fundamental de formar profissionais da educação que</p><p>optem por uma educação popular e que compreendam e valorizem as formas de</p><p>resistências das classes, sua cultura e seus interesses, suas formas de expressão,</p><p>a fim de despertar para uma consciência livre, autonoma e participativa. Isto</p><p>significa contribuir para que a aprendizagem seja significativa e contextualizada</p><p>(SEEHABER, 2000).</p><p>Assim, a cidadania vai estar ligada a qualidade da educação que pode ser</p><p>aprendida no contexto da cultura criada pela sociedade, sendo ao mesmo tempo</p><p>produzida e reproduzida por ela. Mas para Freire (1993) há qualidades e qualidades,</p><p>como a escola não é neutra e esta sempre a serviço, defendendo um ou outro lado.</p><p>"Um elitista compreende a expressão como uma prática educativa centrando-se em</p><p>valores das elites e na negação implícita dos valores populares” (FREIRE, 1993, p.</p><p>42).</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>33</p><p>Portanto, o professor não pode ser neutro, deve optar, romper, querer</p><p>decidir, de escolher. Isso requer coerência e segundo Freire (1993) jamais pode ser</p><p>absoluto, ela deve crescer no aprendizado que se dá através da percepção e</p><p>constatação das incoerências em que nos surpreendemos, "se realmente humildes</p><p>e comprometidos com sermos coerentes, avançamos no sentido de diminuir a</p><p>incoerência" (FREIRE, 1993, p. 40). Tanto mais, a educação desenvolver no sujeito</p><p>a consciência de que deve considerar a si e a seus pares como cidadãos, mais será</p><p>coerente a prática de uma educação etico-democrática comprometida com a defesa</p><p>da vida e da dignidade humana.</p><p>11 RELIGIÃO E CULTURA</p><p>Na proposição de Otto (1992) a religião deve ser compreendida sob o</p><p>aspecto racional, o qual possui características que podem ser definidas pelo</p><p>pensamento conceitual, passível de objetivação; e sentimental onde prevalece</p><p>elementos subjetivos, não racionais. Portanto a religião engloba a dimensão grupal</p><p>e social dos valores morais e culturais do homem que vive e convive em sociedade.</p><p>Assim, o processo histórico da religião é desenvolvido no indivíduo em dupla</p><p>dimensão: objetiva e subjetiva. A primeira está constituída pelo conjunto de criações</p><p>e transformações do mundo mediante a prática humana. A dimensão subjetiva é o</p><p>processo de transformações e desenvolvimento do sujeito da cultura: a pessoa, o</p><p>grupo, a comunidade, a humanidade em seu conjunto (SEEHABER, 2000).</p><p>Segundo Geertz (1978), a posição do ser humano no mundo não é de</p><p>simples inclusão, mas de relação dialética e criadora. Através da ação com a qual</p><p>cria a cultura, o ser humano faz-se também um ser cultural. Não existe como</p><p>natureza imutável, uma essência dada no mundo, mas como um ser que vai se</p><p>fazendo, humanizando, ao longo do tempo, e em uma geografia determinada,</p><p>mediante a cultura; é o único ser cultural no mundo. Neste aspecto, a cultura é um</p><p>fenômeno especificamente humano que distingue o homem do animal e demais</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Sublinhado</p><p>Positivo</p><p>Riscado</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>Positivo</p><p>Realce</p><p>34</p><p>seres vivos, porque se realiza, não por simples necessidade biológica, mas pelo</p><p>exercício de sua consciência, de sua liberdade e de sua prática (SEEHABER, 2000).</p><p>Contudo Geertz (1978) descreve a cultura como "semiótica" e não</p><p>simplesmente simbólico, pois sua preocupação está nas questões de significado,</p><p>de simbolismo e de interpretação, definindo a cultura como subjetiva, que vai além</p><p>do "simples transformar a natureza". Para ele, cultura é um "esforço de criação, de</p><p>crítica e de aperfeiçoamento", cuja utilidade consiste em interpretar os significados</p><p>inerentes aos espaços geográficos, sociais e históricos, nas orientações e</p><p>tendências de uma determinada sociedade.</p><p>Diante disso, são os sistemas simbólicos que tornam as experiências</p><p>humanas compreensíveis, significativas e comunicáveis. Isso "Vêm a ser como a</p><p>planta de uma casa que indica com poucas linhas os elementos integrantes à</p><p>construção, sua função e a relação entre todas e cada uma das partes" (ibidem);</p><p>por isso se chama sistema (SEEHABER, 2000).</p><p>A designação da cultura como “sistema” refere-se a essa ordenação</p><p>invisível</p>