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<p>Introdução</p><p>A percepção nos faz ver um cubo, embora na realidade ele não exista.</p><p>O que é a percepção? Os sentidos fornecem-nos as informações necessárias para</p><p>construirmos o nosso conhecimento do entorno, sendo nossas janelas para o</p><p>mundo. Mas seria simplista uma consideração da percepção enquanto mero registro</p><p>de sensações. A percepção envolve uma interpretação das informações que</p><p>chegam até nós por meio dos sentidos, na qual influi nosso conhecimento, crenças,</p><p>objetivos e expectativas.</p><p>O que você vê nesta fotografia? A maioria das pessoas verá um cubo, mas ele</p><p>realmente não existe. Cada ponto preto tem três linhas brancas dentro. Portanto, a</p><p>percepção não é apenas o que vemos, mas também a interpretação que fazemos</p><p>(exemplo retirado de Smith e Kosslyn, 2008).</p><p>Bases neuroanatômicas da percepção</p><p>Obter informações do entorno e dar sentido a elas é a finalidade da percepção,</p><p>composta por cinco modalidades sensoriais (visão, audição, paladar, olfato e tato)</p><p>dependentes de algumas estruturas neuroanatômicas. Vamos nos concentrar nas</p><p>vias visuais, auditivas e somatossensoriais</p><p>Bases neuroanatômicas do sistema visual</p><p>O sistema visual é um complexo cabeamento neural que conecta uma série</p><p>hierárquica de áreas cerebrais. Na retina existem vários tipos de células</p><p>(fotorreceptoras, bipolares e ganglionares) responsáveis por funções significativas,</p><p>como a intensidade da luz, margens, visão diurna, visão periférica, cor, dentre</p><p>outras. Ao percebermos uma cena, as células fotorreceptoras provocam alterações</p><p>neuroquímicas nas células bipolares e estas geram alterações no potencial de ação</p><p>das células ganglionares, as quais transmitem a informação ao cérebro por meio</p><p>dos nervos ópticos formados por um feixe de fibras longas de axônios. Os axônios</p><p>atingem o quiasma óptico e decompõem suas fibras no hemisfério contralateral,</p><p>estabelecendo sinapses com o núcleo geniculado lateral do tálamo. A partir daí,</p><p>axônios de neurônios do núcleo geniculado lateral enviarão sinais para o córtex</p><p>visual primário (V1), que se encarregará de fornecer informações tanto para outras</p><p>áreas visuais quanto para aquelas que não possuam apenas função visual.</p><p>Funções das áreas visuais</p><p>● V1:</p><p>Área primária da visão, localizada ao longo da fissura calcarina heterogênea.</p><p>Realiza um primeiro processamento das feições elementares, que</p><p>posteriormente culminarão na percepção da forma, cor e movimento. Lesões</p><p>nesta área podem causar cegueira cortical, hemianopsias homônimas,</p><p>quadrantopsias ou escotomas paracentrais, dentre outros.</p><p>● V2:</p><p>Poucas diferenças com a V1, também heterogênea e com projeções para</p><p>outras áreas. Mas oferece um segundo nível de análise da informação visual,</p><p>favorecendo a análise especializada subsequente. Lesões na V2 provocam</p><p>diminuição da sensibilidade ao contraste na discriminação de orientações e</p><p>déficit na discriminação de formas complexas.</p><p>● V3:</p><p>Vinculada à forma dos objetos em movimento. Nesta área, as lesões</p><p>produzem um déficit na capacidade de identificar objetos em movimento, mas</p><p>mantêm a capacidade de identificar que algo está se movendo.</p><p>● V4:</p><p>Área dedicada ao processamento das cores e formas. Lesões nesta área</p><p>produzem déficit na identificação das cores, que não podem ser percebidas,</p><p>lembradas ou imaginadas. A percepção é reduzida a sombras e tons cinzas.</p><p>● V5:</p><p>É responsável por perceber objetos em movimento, independentemente da</p><p>forma. Quando ocorre uma lesão nesta área, os objetos podem ser</p><p>identificados enquanto estão parados, mas seu reconhecimento diminui</p><p>quando eles começam a se mover.</p><p>lembre-se</p><p>V2, V3, V4 e V5 são áreas de associação secundárias.</p><p>Tabela 9. Principais funções e áreas visuais</p><p>Áreas</p><p>visuales</p><p>Função principal</p><p>V1 Primeiro processamento das características elementares que</p><p>terminará na percepção da forma, cor e movimento.</p><p>V2 Oferece um segundo nível de análise da informação visual que</p><p>favorece a posterior análise especializada.</p><p>V3 Vinculada à forma dos objetos em movimento.</p><p>V4 Dedicada ao processamento de cores e formas</p><p>V5 Encarregada de perceber objetos em movimento.</p><p>O funcionamento visual não se limita ao lóbulo occipital. Existem duas vias</p><p>principais que passam pelo córtex visual primário em direção às regiões parietal e</p><p>temporal:</p><p>1. Via dorsal ou corrente occipitoparietal: estende-se em direção aos lóbulos</p><p>parietais e é importante para o processamento da informação sobre onde se</p><p>localizam os objetos. Atua como guia visual do movimento (como pegar um</p><p>objeto).</p><p>2. Via ventral ou corrente occipitotemporal: estende-se em direção aos lóbulos</p><p>temporais e é importante para o processamento da informação que leva ao</p><p>reconhecimento e à identificação dos objetos. É o caminho do quê.</p><p>A percepção é o resultado dos processamentos de baixo para cima e de cima para</p><p>baixo. Os primeiros são guiados por informações sensíveis que vêm do ambiente</p><p>físico. Os últimos extraem informações sensíveis e são guiados por nossos</p><p>conhecimentos, experiências, crenças e objetivos.</p><p>Bases neuroanatômicas do sistema auditivo</p><p>A percepção dos sinais sonoros é um processo complexo que envolve diferentes</p><p>fases, começando pela captura e processamento mecânico do som, sua</p><p>transformação e transmissão em impulsos nervosos, culminando no processamento</p><p>neural. Até chegar ao córtex auditivo primário, o som passa por diferentes</p><p>estruturas: ouvido externo, médio e interno, nervo vestibular, oliva superior, colículo</p><p>inferior e núcleo geniculado. Este último projeta seus axônios para o córtex auditivo</p><p>primário.</p><p>● Córtex auditivo primário (A1): localizado na parte superior do giro temporal</p><p>superior, circundado pelas áreas de associação auditiva. Junto às estruturas</p><p>mencionadas anteriormente, esta área é responsável pelo processamento</p><p>das propriedades acústicas simples (frequência, intensidade, início), mas</p><p>também participa de processamentos um pouco mais complexos. Lesões no</p><p>córtex auditivo primário podem causar dificuldade para discriminar os sons da</p><p>fala e sua ordem temporal.</p><p>● Áreas auditivas secundárias e de associação: circundam o córtex auditivo</p><p>primário e são responsáveis por funções de processamento mais complexas,</p><p>como a temporalidade dos estímulos (na qual o córtex auditivo primário</p><p>também desempenha seu papel) e suas propriedades semânticas.</p><p>Assim como no sistema visual, o sistema auditivo possui uma rota auditiva dorsal</p><p>(se estende até o córtex parietal posterior com função espacial) e uma rota auditiva</p><p>ventral (chega até o córtex temporal com uma função importante, a semântica).</p><p>Ambas contam com extensões para diferentes partes do lóbulo frontal. O</p><p>reconhecimento auditivo parece depender de três sistemas: sons ambientes, fala e</p><p>música. Embora tenha sido inicialmente enfatizada a dicotomia hemisfério direito =</p><p>música e hemisfério esquerdo = linguagem, pesquisas recentes sugerem que o</p><p>processamento dos sons da fala e da música compartilham áreas determinadas.</p><p>Bases neuroanatômicas do sistema somatossensorial</p><p>Há várias submodalidades dentro do sistema encarregado de receber e interpretar</p><p>as informações sensoriais da superfície da pele, músculos, tendões e articulações: o</p><p>tato, a propriocepção, a notiocepção e a temperatura. Os receptores</p><p>somatossensoriais enviam a informação (pela via neural somatossensorial) ao</p><p>sistema nervoso central. O tato e a propriocepção o farão pela via dorsal; enquanto</p><p>a temperatura e a notiocepção pela via ventral. Após atingir o tálamo, a informação</p><p>é enviada ao córtex somatossensorial, composto por áreas primárias e secundárias.</p><p>No córtex somatossensorial primário está localizado o homúnculo de Penfield, figura</p><p>humana distorcida dependendo da área ocupada por suas projeções</p><p>somatossensoriais. A organização cortical em relação ao corpo é cruzada, de forma</p><p>que as lesões no hemisfério esquerdo vão repercutir no hemisfério direito.</p><p>Como nos demais sistemas perceptivos, as áreas de associação (em colaboração</p><p>com outras áreas, como a região parietal ou a ínsula) serão as encarregadas de</p><p>analisar as propriedades mais complexas, como a localização espaço-temporal do</p><p>estímulo, a detecção do movimento e da velocidade, o movimento intencional ou a</p><p>localização de objetos por uma perspectiva tridimensional.</p><p>Reflexão</p><p>O tato pode ser compreendido sem o ato de tocar?</p><p>Agnosias</p><p>Ocasionalmente encontramos nas consultas pessoas que são incapazes de</p><p>identificar desenhos por confronto visual ou de identificar rostos de pessoas</p><p>conhecidas, apresentando dificuldades para reconhecer objetos pelo tato, mas com</p><p>suas áreas sensoriais primárias preservadas. Tais pessoas sofrem de agnosia.</p><p>Agnosia é um sintoma neuropsicológico referente a um déficit/falha no</p><p>reconhecimento visual que não pode ser atribuído a distúrbios sensoriais</p><p>elementares, a problemas de atenção, a alterações na linguagem ou a deficiências</p><p>mentais graves. A maioria das agnosias geralmente ocorre como consequência de</p><p>lesões nas áreas V2 e V3 (além de envolver outras regiões).</p><p>Tabela 10. Classificação das agnosias</p><p>Agnosias visuales</p><p>Agnosias</p><p>aperceptivas</p><p>Embora o sujeito mantenha a acuidade visual e identifique</p><p>cores, luz e movimento, ele não é capaz de perceber o</p><p>objeto. As pessoas que sofrem com isso são incapazes de</p><p>reconhecer, copiar ou reproduzir graficamente e relacionar</p><p>formas simples. Geralmente é consequência de lesões</p><p>bilaterais dos lobos occipitais. Dentro deste grupo podemos</p><p>encontrar:</p><p>● Agnosias da forma: Incapacidade de organização</p><p>sensorial da forma quando sobreposta a outras</p><p>● Agnosias de transformação: Incapacidade de</p><p>identificar objetos colocados em uma posição não</p><p>canônica.</p><p>● Agnosias de integração perceptiva: Incapacidade de</p><p>apreender a relação global entre as partes de um</p><p>objeto (simultagnosia).</p><p>Agnosias</p><p>associativas</p><p>O sujeito é incapaz de reconhecer objetos de forma</p><p>significativa. Não pode nomeá-lo, nem imitar seu uso. Pode</p><p>copiar uma figura, mas não é capaz de dar um significado a</p><p>ela. É capaz de descrever os detalhes do objeto e até</p><p>mesmo percebê-lo através de outras vias sensoriais. As</p><p>lesões que produzem esse tipo de agnosia geralmente</p><p>estão localizadas nas áreas occipitotemporais do hemisfério</p><p>esquerdo. As submodalidades deste tipo de agnosia são:</p><p>● Agnosia associativa em sentido estrito: Erros</p><p>morfológicos prioritários na denominação visual.</p><p>● Agnosia associativa multimodal (polimodal): Erros</p><p>semânticos e perseverativos na denominação.</p><p>Afasia óptica O sujeito reconhece objetos e imagens, mas não pode</p><p>nomeá-los. Não é agnosia porque o objeto é reconhecido e</p><p>também não é anomia porque pode nomear o objeto se for</p><p>apresentado por outro canal sensorial.</p><p>Agnosias</p><p>categoriais</p><p>Ela afeta certas categorias e preserva as demais, de modo</p><p>que pode haver uma agnosia apenas para os seres vivos</p><p>que preserve o reconhecimento de objetos inanimados, ou</p><p>vice-versa.</p><p>Prosopagnosia Consiste na dificuldade de um sujeito em identificar rostos,</p><p>inclusive o seu. No entanto, o sujeito é capaz de reconhecer</p><p>e identificar o rosto com base em um detalhe dele, como um</p><p>determinado brinco, uma cicatriz ou uma marca de</p><p>nascença.</p><p>Agnosia de</p><p>cores ou</p><p>acromatopsia</p><p>É a incapacidade de perceber as cores, de modo que o</p><p>mundo é visto em tons de cinza. O sujeito não pode nomear</p><p>as cores quando lhe são mostradas ou identificá-las quando</p><p>são nomeadas. No entanto, eles podem responder</p><p>corretamente a tarefas verbais.</p><p>Acinetopsia O indivíduo não é capaz de perceber objetos em</p><p>movimento, apenas quando estão parados. Isso faz com</p><p>que os objetos apareçam repentinamente em seu campo</p><p>visual em diferentes posições, pois só são percebidos se</p><p>estiverem estáticos.</p><p>Agnosias auditivas</p><p>Agnosia para</p><p>sons de</p><p>conteúdo não</p><p>verbal</p><p>Consiste na dificuldade em reconhecer sons no ambiente.</p><p>Eles não conseguem diferenciar um do outro, pois os</p><p>percebem de maneira muito semelhante.</p><p>Agnosia para</p><p>sons de</p><p>conteúdo</p><p>verbal</p><p>É a alteração na percepção dos estímulos auditivos</p><p>linguísticos. Entre eles estão surdez cortical e distúrbios</p><p>auditivos corticais (dificuldade em perceber e identificar</p><p>informações auditivas verbais e não verbais) e surdez verbal</p><p>pura (incapacidade de compreender a linguagem falada, com</p><p>preservação da compreensão escrita).</p><p>Amusia Alteração da habilidade musical, seja produção,</p><p>compreensão ou leitura, ou escrita musical.</p><p>Transtornos sensitivos centrais</p><p>Astereoagnosi</p><p>a</p><p>Termo que se refere à alteração no reconhecimento de</p><p>objetos pelo toque ao mesmo tempo em que há uma certa</p><p>afetação das capacidades sensoriais elementares.</p><p>Agnosia tátil Reconhecimento prejudicado de objetos pelo toque</p><p>(preservando habilidades perceptivas básicas).</p><p>Autotopagnosi</p><p>a</p><p>Dificuldade em identificar e localizar partes do próprio corpo.</p><p>Agnosia digital Déficits na identificação dos dedos, os acometidos não</p><p>conseguem nomear os dedos, mostrá-los no comando verbal</p><p>ou identificá-los em tarefas não verbais. Tem sido</p><p>considerada como uma forma de autotopagnosia leve.</p><p>reflexão</p><p>Que medidas você tomaria se detectasse que uma criança é incapaz de</p><p>associar tarefas visuo-verbais? (dificuldades em associar imagens ao seu</p><p>nome).</p><p>Déficits visuais</p><p>A capacidade visual refere-se a todos os processos que constituem a visão e a</p><p>tornam possível: acuidade visual, campo visual, visão binocular, reflexos de fixação</p><p>e seguimento, movimentos de distâncias, visão cromática, atenção e percepção</p><p>visual. A alteração em qualquer um destes componentes é considerada um déficit</p><p>visual.</p><p>As consequências das limitações visuais na criança podem ser um atraso na</p><p>aquisição da aprendizagem de intensidade variável e que será influenciada por uma</p><p>intervenção precoce e adequada.</p><p>A origem dos déficits visuais pode ser hereditária, congênita, viral, traumática,</p><p>recorrente de outra doença ou consequência de um processo degenerativo devido à</p><p>idade.</p><p>Podemos dividir os déficits visuais entre aqueles que envolvem as funções básicas</p><p>da visão e os que envolvem as mais complexas. Com relação aos primeiros,</p><p>existem diferentes graus de perda da visão, que variam desde a perda parcial até a</p><p>cegueira total. Para a OMS, uma deficiência visual (perda parcial) é aquela que</p><p>apresenta visão inferior a 20/400 ou 0,05 (sempre levando em consideração o</p><p>melhor olho, com a melhor correção). Se a visão for inferior a 20/200 ou 0,01, ou se</p><p>o campo visual for inferior a 10° falamos de cegueira legal.</p><p>Este último termo, cegueira legal, é geralmente usado para fins sociais e legais. Na</p><p>Espanha, são consideradas subsidiárias de benefícios econômicos e serviços</p><p>educacionais especiais (despacho de 8 de maio de 1979) aquelas pessoas cegas</p><p>com acuidade visual inferior a 20/200. O termo baixa visão se refere à visão</p><p>insuficiente para realizar atividades, embora exista um resquício visual suficiente</p><p>para ver a luz, orientar-se por meio dela e utilizá-la para fins funcionais. A acuidade</p><p>visual seria situada em 0,3 na percepção da luz ou em campo visual menor que 10°.</p><p>No campo educacional é comum a classificação feita por Barraga, que divide as</p><p>pessoas com deficiência visual em: cegos, parcialmente cegos, pessoas com baixa</p><p>visão e pessoas com limitação visual.</p><p>Mas como os déficits visuais influenciam o desenvolvimento da criança?</p><p>Sabemos que a visão começa a se desenvolver após o nascimento. O</p><p>recém-nascido apresenta um funcionamento visual incompleto (com acuidade visual</p><p>de 0,03). Deduzimos que o aprendizado visual dependerá tanto do olho quanto de</p><p>sua sintonia com o cérebro e da forma como ele processa as informações.</p><p>Para que ocorra um desenvolvimento normal da visão é necessário exercitá-la e</p><p>fazê-la funcionar em suas diferentes modalidades (visão binocular, sensibilidade às</p><p>cores e ao contraste, campo visual, dentre outras).</p><p>O desenvolvimento normal da visão ocorre principalmente no primeiro ano de vida e</p><p>continua até os 7 anos de idade. Crianças com baixa visão devem começar a</p><p>trabalhar em suas funções visuais o quanto antes e maximizar o seu potencial</p><p>visual. Fatores como desenvolvimento cognitivo, idade, habilidades sociais, ritmo da</p><p>doença (progressiva ou não), deficiências associadas, atitude familiar, problemas</p><p>perceptivos e motivação da criança influenciarão no maior ou menor aproveitamento</p><p>de seu potencial visual.</p><p>Tabela 11. Anomalias visuais com maior incidência na população escolar</p><p>e doenças que afetam</p><p>A retina Acromatopsia, degeneração macular, descolamento</p><p>da retina, fibroplasia retrolental, retinopatia</p><p>diabética, retinite pigmentosa.</p><p>O nervo óptico Ambliopia, atrofia óptica</p><p>O cristalino Afacia cirúrgica, estiopia do cristalino.</p><p>A úvea Albinismo, aniridia, coriorinite, colobone, glaucoma.</p><p>A córnea Edema da córnea</p><p>Mobilidade e</p><p>refração</p><p>Nistagmo, miopia progressiva.</p><p>Transtornos do</p><p>processamento</p><p>visual</p><p>Dislexia.</p><p>Nas crianças com deficiência visual será necessária a intervenção e a supervisão de</p><p>diversas áreas, en tre as quais se destacam a linguagem e o plano motor:</p><p>● Linguagem</p><p>O relacionamento com adultos e um ambiente enriquecido estimularão o</p><p>desenvolvimento da linguagem. A deficiência visual provoca impacto</p><p>marcante no estabelecimento do vínculo mãe-filho e na forma como irão se</p><p>comunicar, afetando os comportamentos pré-linguísticos (gestos do rosto,</p><p>mãos, corpo). Posteriormente, isto repercutirá nos níveis cognitivos</p><p>necessários para a aquisição da linguagem. O momento no qual ocorre a</p><p>perda da visão também é importante: quanto mais tarde, mais experiências</p><p>vividas e maior o desenvolvimento verbal.</p><p>● Desenvolvimento motor</p><p>Ocorre mais lentamente do que em crianças sem dificuldades visuais. Como</p><p>não há motivação pelos objetos (eles não os veem), não existe</p><p>motivação/interesse em iniciar uma ação motora e direcioná-la para eles. Vão</p><p>depender de pessoas que os motivem a começar o movimento em busca dos</p><p>objetos. Isto acarretará dificuldades no seu desenvolvimento sensório-motor,</p><p>sendo necessário enfatizar o reconhecimento do próprio corpo, a</p><p>estruturação e organização espacial, o comportamento motor imitativo, o</p><p>controle das execuções motoras e a aquisição de habilidades motoras.</p><p>É necessário criar ambientes ricos em estímulos para potencializar as possibilidades</p><p>visuais de crianças com deficiência visual. Existem programas que visam a</p><p>reabilitação ou a estimulação de crianças com tal deficiência.</p><p>Os déficits visuais (perceptivos) de funções complexas da visão alteram a</p><p>capacidade do cérebro para compreender e interpretar o que nossos olhos veem: a</p><p>forma dos objetos, sua cor, orientação, etc. Habilidades que funcionam</p><p>corretamente são partícipes de muitas das atividades realizadas pela criança:</p><p>alfabetização, operações matemáticas, quebra-cabeças. Assim, os déficits visuais</p><p>(perceptivos) estão presentes em alguns transtornos de aprendizagem.</p><p>A detecção precoce, o planejamento e a implementação de um programa de</p><p>reabilitação, por sua vez, são fundamentais para o posterior desenvolvimento da</p><p>criança</p><p>● Transtorno da aprendizagem não verbal:</p><p>Síndrome caracterizada por déficits primários na percepção visual e tátil, nas</p><p>habilidades de coordenação psicomotora e na destreza em lidar com novos</p><p>materiais ou circunstâncias. Apresentam problemas de aprendizagem</p><p>(memória tátil e visual) e de funções executivas (resolução de problemas,</p><p>abstração). Preservam a percepção, atenção e memória auditiva, além das</p><p>habilidades motoras simples.</p><p>○ Nos estágios iniciais do desenvolvimento Se mostram passivos, com</p><p>pouca tendência a explorar o ambiente, interagem menos com os</p><p>adultos. O desenvolvimento das habilidades motoras e o início da</p><p>caminhar apresentam um ligeiro atraso. Sua coordenação motora é</p><p>pobre e eles tendem a sofrer quedas. O diagnóstico de hiperatividade</p><p>é frequente devido à equivocada interpretação de sua pouca</p><p>capacidade para julgamento social e de sua impropriedade motora</p><p>enquanto comportamentos impulsivos. As habilidades pré-acadêmicas</p><p>são alcançadas com retardo (colorir e recortar) e tendem a mostrar</p><p>pouco interesse em completar quebra-cabeças, blocos de construção</p><p>ou quaisquer outros materiais apropriados ao desenvolvimento.</p><p>○ No início da fase escolar apresentam dificuldades na aquisição das</p><p>competências acadêmicas. Entre os problemas mais comuns estão o</p><p>reconhecimento e a cópia de letras e números, dificuldades na</p><p>numeração e problemas nas áreas mais manipulativas (desenho e</p><p>pintura). Apresentam dificuldades em matemática, leitura e escrita (se</p><p>a atividade estiver associada ao reconhecimento de números e letras),</p><p>pois no início a aquisição destas tarefas depende dos aspectos</p><p>visoespaciais. Este tipo de dificuldade é evidente na resolução de</p><p>problemas e nos cálculos operacionais (especialmente se envolver um</p><p>conteúdo de representação viso-espacial). Outros problemas</p><p>observados são: dificuldades na interpretação linguística do espaço,</p><p>diferenciação entre a parte e o todo, dificuldades para dizer as horas,</p><p>os dias da semana ou os meses, aquisição do conceito do dinheiro e</p><p>das medidas métricas.</p><p>○ No ensino médio os problemas são visíveis naquelas atividades que</p><p>dependem de uma linguagem verbal mais complexa, baseada em</p><p>processos não verbais, como relações espaciais, classificação e</p><p>sequenciamento lógico.</p><p>● Déficit visual e ortográfico na leitura:</p><p>Refere-se à dificuldade para acessar as características ortográficas ou</p><p>visuais das palavras escritas. A ordem de sequência da leitura passa por</p><p>fases sucessivas, começando pela fase logográfica (análise visual ou gráfica</p><p>das letras ou palavras - sistema lexical -, na qual a memória visual</p><p>desempenha um papel importante), fase alfabética (caracterizada pela</p><p>decodificação fonológica das palavras mediante conversão, de grafema em</p><p>fonema - sistema fonológico) e fase ortográfica (uso de unidades de</p><p>morfemas maiores, com decodificação mais rápida). A dislexia é geralmente</p><p>associada a um distúrbio do sistema fonológico.</p><p>● Dificuldades de aprendizagem em matemática: Relacionam-se ao</p><p>funcionamento ineficaz de diferentes processos cognitivos (memória de</p><p>trabalho, atenção, organização viso-espacial, linguagem) envolvidos na</p><p>resolução de problemas, como fazer cálculos e operações com números.</p><p>Foram propostos três subtipos:</p><p>○ Subtipo processual:</p><p>As habilidades são semelhantes às de um retardo no desenvolvimento</p><p>e geralmente tendem a melhorar.</p><p>○ Subtipo de memória semântica:</p><p>Mostram problemas de memória, leitura e lembrança dos</p><p>conhecimentos em matemática que persistem.</p><p>○ Subtipo viso-espacial:</p><p>Dificuldades nas representações espaciais, alinhamento de colunas,</p><p>compreensão das relações entre números e quantidades e na</p><p>percepção.</p><p>+ info</p><p>No site do Instituto Nacional de Tecnologias Educacionais e Formação de</p><p>Professores (Espanha) você poderá encontrar informações adicionais sobre como</p><p>intervir, no âmbito educacional, em crianças com deficiência (visual e auditiva).</p><p>Link: https://www.ite.educacion.es/</p><p>O site ONCE oferece recursos para tornar os materiais acessíveis à sala de aula.</p><p>https://www.once.es/servicios-sociales/educacion-inclusiva/recursos-educativos</p><p>https://www.ite.educacion.es/</p><p>https://www.once.es/servicios-sociales/educacion-inclusiva/recursos-educativos</p><p>Déficits auditivos</p><p>Da mesma forma que explicamos na seção anterior, a capacidade auditiva se refere</p><p>a todos os processos que compõem a audição, os quais podemos dividir em</p><p>sistema auditivo periférico (ouvido externo, médio e interno) e sistema auditivo</p><p>central (neurônios que formar os nervos auditivos e regiões cerebrais envolvidas,</p><p>especialmente a região temporal). A audição é a principal via de desenvolvimento</p><p>da linguagem e da fala, de modo que qualquer distúrbio na percepção auditiva da</p><p>criança em idade precoce afetará seu desenvolvimento linguístico e comunicativo,</p><p>seus processos cognitivos e, consequentemente, sua posterior integração escolar,</p><p>social e profissional.</p><p>Tabela 12. Classificação auditiva</p><p>Classificação</p><p>audiológica</p><p>Classificação otológica Classificação de</p><p>aparecimento</p><p>É classificada pela</p><p>localização da lesão e</p><p>se divide em:</p><p>● Audição normal</p><p>(0-20 dB).</p><p>● Perda auditiva</p><p>leve (20-49 dB).</p><p>● Perda auditiva</p><p>moderada (40-</p><p>70 dB).</p><p>● Perda auditiva</p><p>severa (79-90</p><p>dB).</p><p>● Perda auditiva</p><p>profunda ou</p><p>surdez (mais de</p><p>90 dB).</p><p>● Copose ou</p><p>anacusia (perda</p><p>total da</p><p>audição).</p><p>É classificada pela localização</p><p>da lesão e se divide em:</p><p>● Perda auditiva condutiva</p><p>ou por transmissão:</p><p>alteração no ouvido</p><p>externo ou médio (otite</p><p>serosa, perfuração,</p><p>tímpano esclerótico).</p><p>● Surdez neurossensorial</p><p>ou perceptiva: quando a</p><p>cóclea (órgão de Corti)</p><p>está danificada.</p><p>● Surdez central: perda de</p><p>reconhecimento do</p><p>estímulo auditivo devido a</p><p>lesões nas vias auditivas</p><p>centrais (agnosia</p><p>auditiva).</p><p>● Surdez mista:</p><p>comprometimento da via</p><p>de condução e</p><p>percepção.</p><p>● Perda auditiva</p><p>prélingual:</p><p>perda auditiva</p><p>presente no</p><p>nascimento ou</p><p>anterior à</p><p>aquisição da</p><p>linguagem.</p><p>● Perda auditiva</p><p>póslingual:</p><p>surge após a</p><p>aquisição da</p><p>linguagem.</p><p>As perdas auditivas severas provocam consequências importantes para o</p><p>desenvolvimento cognitivo e socioafetivo da criança:</p><p>Clique sobre cada opção para ver mais informações:</p><p>● A nível cognitivo</p><p>● O déficit nas informações e a falta de aproveitamento das experiências</p><p>diminuirão sua motivação para aprender; a informação reduzida afetará sua</p><p>compreensão; mostrarão dificuldade para planejar suas ações e realizar</p><p>tarefas abstratas ou racionais; escassez ou ausência de linguagem interna, o</p><p>que limita o desenvolvimento e a estruturação do pensamento; problemas na</p><p>compreensão leitora devido à dificuldade de codificação fonológica e sua</p><p>pobre memória sequencial temporal.</p><p>● A nível sensorial e motor</p><p>● Haverá um desequilíbrio na sua estruturação espaço-temporal, dificuldade</p><p>para estruturar o tempo e apreciar o ritmo, talvez alterações no aparelho</p><p>vestibular.</p><p>● A nível socioafetivo</p><p>● Uma explicação insuficiente dos fatos, por ter um código de comunicação</p><p>reduzido, pode causar comportamentos inadequados; maior permissividade</p><p>por parte dos pais; dificuldade em perceber emoções a partir do tom,</p><p>intensidade e ritmo da linguagem. Podem ser mais egocêntricos ou</p><p>desconfiados pela falta de informação derivada de sua surdez e apresentam</p><p>baixa tolerância à frustração devido ao controle limitado que os agentes</p><p>externos (família, professores) exercem sobre seu comportamento.</p><p>Dentre as deficiências auditivas, a seguir mencionamos alterações relacionadas às</p><p>áreas centrais do sistema auditivo:</p><p>1. Transtorno do processamento auditivo central:crianças que têm dificuldades</p><p>significativas e mensuráveis em ambientes ruidosos, tais como a sala de</p><p>aula, mas apresentam acuidade auditiva normal. Os sintomas mais evidentes</p><p>(e que podem aparecer em outros transtornos, como o TDAH) são:</p><p>○ Problemas auditivos na segregação figura-fundo. Não podem ser</p><p>considerados em ambientes barulhentos.</p><p>○ Problemas de memória auditiva.</p><p>○ Problemas de discriminação auditiva.</p><p>○ Dificuldade para distinguir entre sons ou palavras semelhantes.</p><p>○ Problemas auditivos de atenção.</p><p>○ Problemas de coesão auditiva.</p><p>2. Zumbido: é a experiência consciente de um som que se origina</p><p>involuntariamente na cabeça do ouvinte.</p><p>3. Agnosias auditivas: já descritas na seção sobre agnosias.</p><p>Déficits somatossensoriais</p><p>Assim como os sistemas sensoriais anteriores, as alterações somatossensoriais são</p><p>classificadas em:</p><p>● Alterações dependentes da via periférica: patologias caracterizadas por</p><p>alterações na condução nervosa dentro do nível periférico, como as</p><p>chamadas neuropatias periféricas, que geralmente levam à perda da</p><p>sensibilidade local ou mais generalizada.</p><p>● Alterações dependentes da via central: alterações que envolvem as áreas</p><p>somatossensoriais do córtex e as vias de conexão. Reúne aquelas</p><p>dependentes da via de reconhecimento (agnosia tátil, alterações na imagem</p><p>corporal) e as demais associadas à via reguladora da ação (distorções no</p><p>esquema corporal e apraxias). Lesões na área somatossensorial secundária</p><p>têm sido associadas às alterações na percepção da dor (assimetria da dor),</p><p>enquanto lesões nas áreas associativas somatossensoriais podem causar</p><p>asterognosia, apoestesia, ataxia óptica e anomia tátil.</p><p>Na intervenção em crianças com alterações somatossensoriais é imprescindível a</p><p>estimulação sensorial, o uso de ambientes altamente enriquecidos e controlados e a</p><p>utilização de jogos que requerem resposta adaptativa.</p><p>Algumas características que podem ser perceptíveis em crianças com alterações</p><p>nos sistemas proprioceptivo e/ou vestibular são:</p><p>● Desajeitamento e inquietação motora e falta de habilidade na execução de</p><p>tarefas bimanuais.</p><p>● Relações espaciais deficitárias.</p><p>● Tônus muscular diminuído.</p><p>● Dificuldade para usar ferramentas.</p><p>● Problemas de planejamento da ação motora.</p><p>● Alteração no equilíbrio.</p><p>● Pobre integração bilateral.</p><p>● Transtornos emocionais e comportamentais.</p>