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<p>Wonderfall</p><p>by mrayssalimaa</p><p>"Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto</p><p>buscar o infinito." Os amores impossíveis são o caminho mais curto para alcançar o</p><p>infinito e elas sabiam disso. Camila queria alcançar o infinito. Lauren queria ser o</p><p>infinito. Camila queria sentir o maior amor de todos os tempos. Lauren queria ser o</p><p>maior amor de todos os tempos de alguém. Elas passaram a querer ser o infinito uma</p><p>da outra.</p><p>Infatuated With</p><p>Lauren's Pov</p><p>Wonderfall (n.): alguém sobre quem você se encontra pensando o tempo inteiro.</p><p>Alguém por quem você está completamente apaixonado. Alguém por quem é</p><p>maravilhoso sentir-se caindo.</p><p>O ar quente saía de seus pulmões e tocava meu rosto, acariciando minha pele e ao</p><p>mesmo tempo, corroendo-a, como enxofre. Nossos peitos subiam e desciam</p><p>ritmadamente, quase como uma dança de respirações pesadas. O meu corpo, em</p><p>cima do dela, ainda se contraía em pesados espasmos que contorciam meus</p><p>músculos, fazendo com que os encaixes do meu corpo se apertassem ainda mais</p><p>dentro das curvas do corpo dela. O líquido que escorria entre minhas pernas,</p><p>misturava-se ao dela, denunciando momento de êxtase que sentíamos juntas.</p><p>Abri os olhos para ver suas bochechas rosadas e os cabelos desgrenhados espalhados</p><p>pela cama. Era sempre uma cena adorável e que eu fazia questão de admirar. Meu</p><p>sexo sensível encostou no dela e senti-a pressionar o quadril contra o meu, buscando</p><p>por mais alguns instantes derradeiros de prazer. Em resposta, fiz o mesmo. Ela</p><p>mordeu o lábio inferior, mas cedeu ao cansaço e deixou escapar pesadamente o ar e</p><p>deixando o corpo amolecer no colchão.</p><p>- Pare de me olhar. - Ela disse docemente, ainda de olhos fechados, com a voz</p><p>levemente rouca.</p><p>Não era segredo que ela sempre sabia o que eu estava fazendo ou pensando. Ela</p><p>sempre sabia como ler o meu olhar, meus movimentos, a ausência dos meus</p><p>movimentos, o meu silêncio... E não era segredo também que eu adorava olhá-la. Em</p><p>qualquer circunstância. Eu a olhava o tempo inteiro. Eu não podia parar de olhá-la.</p><p>Eu não conseguia parar de olhá-la. Eu não queria parar.</p><p>- Impossível. - Sussurrei.</p><p>Era impossível. De todas as maneiras conhecidas; havia tanta impossibilidade naquela</p><p>ação que a simples menção daquilo me causava horror. Parar de olhá-la seria como</p><p>parar de comer. O alimento que dava vida à minha existência era ela e eu a ingeria</p><p>através do olhar. Parar de fazer aquilo me mataria gradativamente. Me consumiria de</p><p>tal forma que em algum momento, não existiria mais nada de mim.</p><p>Era tão impossível quanto nós duas ali. Nós duas não estávamos dentro do universo</p><p>das coisas prováveis. Mas ao contrário das impossibilidades que existiam nas</p><p>possibilidades de eu não poder mais olhá-la, lá estávamos nós, vivendo a nossa</p><p>improbabilidade. Lá estávamos nós, sendo impossíveis. "As coisas impossíveis são</p><p>realizáveis através do amor. E é exatamente o que sentimos. Nós somos o</p><p>impossível.", ela me disse certa vez.</p><p>A mulher mais velha, cujo corpo quente se encaixava ao meu, sempre fora admirável</p><p>para mim. Nutria, por ela, tanto encantamento e admiração que, talvez por isso,</p><p>aquela situação atual antes, fosse considerada impossível para mim. Eu nunca</p><p>imaginaria estar com ela, em sua cama, ambas entregues aos prazeres do corpo, da</p><p>carne e da alma. Nunca imaginara que poderia sequer beijá-la, quanto mais possuí-la</p><p>em meu corpo ou me deixar possuir por ela. Mas, sobre uma coisa (além de tantas</p><p>outras) ela estava certa:</p><p>"Nós éramos o impossível".</p><p>Rhinotillexomania</p><p>Rhinotillexomania. (n.): o incontrolável desejo de ser amado.</p><p>A mesa de madeira escura, trabalhada em detalhes milimetricamente desenhados,</p><p>estendia-se à minha frente, imponente. Completando o ambiente ao redor dela,</p><p>móveis renascentistas se espalhavam, dando um ar aristocrático para a sala. E lá</p><p>estava eu, brincando de ser importante, chefe de uma grande empresa, reunida com</p><p>funcionários dos quais eu sempre estava chamando a atenção por não serem</p><p>eficientes. Isso não é uma metáfora ou uma descrição sutil da minha vida. Eu</p><p>realmente estava brincando daquelas coisas. Afinal, aos nove anos de idade não dava</p><p>para, realmente, ser chefe em uma grande empresa.</p><p>Àquela altura, com nove anos de idade, um dos meus passatempos favoritos era</p><p>brincar de ser como o meu pai. Imitava todas as coisas que o via fazer quando se</p><p>reunia em reuniões em casa, com seus funcionários. Talvez por isso, ele esperasse</p><p>que eu fosse seguir a mesma carreira que ele e assumir um cargo de executiva em</p><p>sua exportadora e, posteriormente, o seu cargo. Talvez por isso, o fato de eu ter</p><p>escolhido uma área completamente diferente para seguir carreira, o tenha</p><p>decepcionado tanto.</p><p>Aos dezessete anos, em uma excursão da escola para visitar universidades e termos</p><p>contato com alunos de cursos de graduação, visitamos a Harvard Graduate School of</p><p>Design (HGSD), a escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Harvard. Um</p><p>instrutor nos acompanhou pelo campus, nos mostrando as salas e laboratórios que os</p><p>alunos do curso usavam para o seu desenvolvimento durante o curso. Passamos por</p><p>salas habituais, tradicionalmente dispostas com mesa de professores e mesas para</p><p>alunos; seguindo para as posteriores salas de pranchetas, onde havia mesas muito</p><p>maiores, que se elevavam em posição vertical e tinham equipamentos para desenho</p><p>técnico anexadas à elas. Em seguida, seguimos para as salas de maquete, onde à</p><p>primeira vista, havia uma enorme maquete do campus da HGSD, disposta para</p><p>observação dos alunos, bem na entrada. Logo atrás, estavam dispostas ao longo da</p><p>sala, mesas largas, com maquetes inacabadas dos alunos, cheias de materiais para a</p><p>construção daqueles mini projetos que algum dia se tornariam algo concreto.</p><p>O instrutor nos pediu que não tocássemos nas maquetes, pois eram trabalhos dos</p><p>alunos e faziam parte de sua avaliação, então, qualquer dano, seria prejudicial a eles;</p><p>mas ainda assim, pediu que nos aproximássemos das maquetes e as observássemos</p><p>com atenção. Assim, todos da classe se aproximaram de algumas maquetes por ali.</p><p>Eu e mais três garotas da minha sala nos aproximamos de uma maquete de uma</p><p>casa, muito bem feita. Observei que até as portas tinham detalhes e na fechadura</p><p>minúscula da porta que eu observava, estavam até mesmo os parafusos. Naquele</p><p>ponto, eu me sentia apaixonada por tudo o que via.</p><p>"Vocês estão vendo sonhos. Os olhos de vocês estão contemplando o sonho de</p><p>alguém e esse sonho um dia se tornará realidade. Esse é o trabalho do arquiteto.</p><p>Arquitetos materializam sonhos.", o instrutor falou, enquanto admirávamos aquele</p><p>mini mundo à nossa frente. Enquanto ele falava, minha mente mergulhou em</p><p>divagações e projeções sobre como as pessoas viveriam naquela casa, quem seriam</p><p>aquelas pessoas, quem havia sonhado com uma casa como aquela e em como</p><p>deveria ser maravilhoso para um arquiteto construir, materializar, realizar o sonho de</p><p>alguém. Foi nesse exato momento em que eu caí de amores pela arquitetura.</p><p>Depois do nosso intervalo para almoço, o instrutor nos levou para uma palestra com</p><p>um arquiteto mundialmente famoso, chamado Frank Gehry. Ele estava lá para</p><p>palestrar para os alunos do último período do curso e tivemos a sorte de ver. Até o</p><p>momento, meu coração estava dividido entre ceder aos meus recentes sentimentos</p><p>pela arquitetura ou continuar querendo seguir os passos de meu pai, mas naquele</p><p>instante, eu decidi: eu seria arquiteta.</p><p>"Arthur Shopenhauer disse uma vez: a arquitetura é música solidificada", disse o</p><p>homem à nossa frente. Suas palavras me soaram como música e depois daquele dia,</p><p>eu passei a sentir todos os ambientes dentro de mim, da mesma forma que eu sentia</p><p>a música em meus ouvidos.</p><p>Aos dezoito anos, me inscrevi na faculdade de arquitetura da Universidade</p><p>de Harvard e fui aceita. Quando os papéis chegaram à minha casa, meu pai abriu por</p><p>mim, entusiasmado, esperando ler a minha admissão no curso de administração de</p><p>Engoli o nó que se formou em</p><p>minha garganta, pelo constrangimento de ter meu desenho humilhado na frente de</p><p>toda a turma. Entretanto, não me deixei abalar do lado de fora e tentei agir de</p><p>maneira madura diante da crítica.</p><p>- Como posso melhorar professora? - Perguntei, minha voz saindo tão baixa que eu</p><p>mesma mal pude ouvir.</p><p>- Seu traços retos parecem linhas curvas e suas linhas curvas parecem minhocas de</p><p>tão mal feitas. Se quer continuar neste curso, pelo menos aprenda a fazer linhas</p><p>retas e curvas da maneira correta. Refaça isso, porque tudo o que está me fazendo</p><p>sentir é horror. - Ela concluiu e me deu as costas.</p><p>Toda a turma me olhava com um ar de pena e tudo o que eu queria fazer era sair</p><p>correndo dali. A humilhação foi tanta que eu a senti se manifestando em lágrimas em</p><p>meus olhos. De repente, eu era a aluna com o pior traço da sala e a quem a</p><p>professora, aparentemente, mais odiava.</p><p>Normani me mostrou o desenho dela e seus traços eram visivelmente mais tortos que</p><p>os meus. Eu sempre tive mão boa para desenho e meu traço não era torto, eu sabia.</p><p>- Não entendi porque ela fez isso com você. De todos os desenhos que eu consegui</p><p>enxergar até agora o seu é de longe o melhor. - Keana sussurrou do outro lado.</p><p>Ainda faltavam vinte minutos para o fim do nosso prazo para entregar o desenho.</p><p>Olhei fixamente para os traços e riscos à minha frente e decidi deixar aquela folha de</p><p>lado. Peguei uma folha totalmente em branco em minha pasta e a coloquei em cima</p><p>de minha mesa. A encarei por longos minutos que pareceram uma eternidade. Já se</p><p>haviam ido sete minutos do eu tempo para acabar o desenho e em treze minutos eu</p><p>provavelmente não conseguiria fazer nada realmente impressionante.</p><p>Então, as palavras da professora Camila voltaram à minha mente. "O que eu quero de</p><p>vocês agora é que usando toda a sua criatividade, alma e amor, desenhem qualquer</p><p>coisa, livremente. Vocês podem desenhar tudo ou nada. O desafio de vocês é ME</p><p>fazer sentir o que vocês estão sentindo ao desenhar", e então eu tive a minha</p><p>primeira grande ideia.</p><p>Pelos próximos treze minutos eu encarei a folha de papel sem fazer um traço sequer.</p><p>Apenas encarei a folha como se ela fosse Camila Cabello e se olhar queimasse, aquela</p><p>folha teria virado cinzas.</p><p>O tempo para desenhar acabou e cada aluno foi chamado até a frente da sala para</p><p>apresentar para a turma e para a professora a razão do que havia desenhado. Camila</p><p>parecia entediada, mas não falava absolutamente nada para os alunos que, pelo que</p><p>eu vi, tinham traços muito mais iniciantes do que os meus. Por último, como eu</p><p>suspeitava, ela me chamou.</p><p>- Senhorita Jauregui, venha até a frente apresentar aquilo que você chama de</p><p>desenho. - Ela falou sem humor nenhum, encarando-me exatamente da mesma</p><p>forma que havia feito exatamente uma semana atrás enquanto conversávamos, mas</p><p>dessa vez, havia um tom prepotente em seu olhar. Quase desafiador.</p><p>- Claro, professora Cabello. - levantei e fui até a frente da turma, sem nem ao menos</p><p>olhar para ela. Todo o meu constrangimento havia se convertido em raiva, em</p><p>mágoa. Ela me tratava com rudeza sem motivo algum.</p><p>Virei a minha folha em branco para a turma e fiquei calada. Não dei uma palavra. O</p><p>silêncio ficou incômodo de tal forma que Camila levantou a cabeça para me olhar,</p><p>para entender a razão de meu silêncio. Continuei calada, segurando a folha para a</p><p>turma, sem ao menos olhar para ela.</p><p>- Senhorita Jauregui, já pode começar a explicar o seu desenho. - ela falou com</p><p>seriedade e olhou para a minha folha em branco. - Pode me explicar porque não</p><p>desenhou nada, Senhorita Jauregui?</p><p>Neste momento, caminhei até a mesa dela, entregando-lhe a folha.</p><p>- O que sente quando vê o meu trabalho professora? - Perguntei enquanto ela olhava</p><p>a folhar em branco.</p><p>- Absolutamente nada, minha querida. - Ela falou, ironicamente, como se provasse</p><p>que estava certa sobre a incapacidade que ela insinuara que eu tinha, quando falou</p><p>do meu desenho.</p><p>Dei-lhe o sorriso mais curto e desprovido de emoções que eu conseguia e encarei-a</p><p>nos olhos, exatamente como ela fazia comigo.</p><p>- É exatamente o que eu estava sentindo ao fazer isso. Nada. Então eu acho que</p><p>consegui fazer exatamente o que a senhora pediu. - falei, destacando a palavra</p><p>senhora e voltei para a minha mesa.</p><p>Todos os alunos olhavam-me boquiabertos e no exato momento em que sentei, o</p><p>alarme para o almoço tocou.</p><p>Se ela queria sentir exatamente o que eu estava sentindo quando "desenhei", ela</p><p>havia sentido. Havia sentido ainda além disso. Havia sentido tudo o que a minha</p><p>admiração por ela havia se tornado: nada.</p><p>Opia</p><p>Lauren's pov</p><p>Opia (n.) A intensidade ambígua de olhar alguém nos olhos, o que pode fazer se</p><p>sentir simultaneamente invasivo e vulnerável.</p><p>É absolutamente incrível como a vida é imprevisível, como tudo se transforma tão</p><p>rapidamente. Em um momento você olha ao seu redor e vê as coisas de um jeito,</p><p>mas não precisa de mais do que apenas um piscar de olhos para que tudo o que você</p><p>viu segundos atrás já tenha mudado completamente.</p><p>- Sério, eu quis pular da cadeira quando você falou aquilo pra professora. - Normani</p><p>tagarelava com toda a empolgação do mundo enquanto andávamos a caminho do The</p><p>Village. - Garota, você precisava ver a cara da Cabello! Você nem viu, né? -</p><p>Perguntou, segurando meu braço e quase me sacudindo.</p><p>- Eu vi! - Keana apareceu totalmente do nada ao nosso lado, intrometendo-se na</p><p>conversa. - Cara, ela foi uma bruxa com você.</p><p>- Quem foi uma bruxa com ela? - foi a vez de Drew se juntar a nós, passando o braço</p><p>pelo pescoço de Normani que, tenho certeza, se segurou muito para não desmaiar. -</p><p>Ah, não, espere. Camila Cabello, posso apostar!</p><p>- Isso mesmo! - Normani respondeu, seu tom era um misto de indignação com a</p><p>professora e empolgação pela presença de Drew. - Bem que você avisou.</p><p>- Avisei mesmo. - Drew concordou, cheio de si. - O que "a frozen" fez dessa vez?</p><p>- Frozen? - Finalmente eu tive vontade de falar alguma coisa, mas imediatamente</p><p>quis me bater por perguntar algo a respeito dela.</p><p>- É! É assim que chamam ela por aqui. "Frozen". A mulher mais fria da qual já se teve</p><p>notícias em Harvard. - o garoto loiro explicou, enquanto passava a mão,</p><p>cuidadosamente pelo topete cuidadosamente arrumado para parecer despenteado. -</p><p>O que ela fez com você, afinal?</p><p>Fria? Por um lado aquele adjetivo pareceu cair muito bem para descrever a minha</p><p>professora, a mulher que menos de meia hora atrás praticamente humilhara-me na</p><p>frente de toda a minha turma, mas por outro lado aquilo não fazia o menor sentido; o</p><p>lado no qual ela havia sido absolutamente encantadora e educada uma semana atrás.</p><p>Eu não sabia o que me incomodava mais: o fato de ela ser totalmente contraditória</p><p>ou o fato de que esse comportamento contraditório estava me deixando intimamente</p><p>incomodada. Afinal, ela era só uma professora que tinha um comportamento</p><p>estranho.</p><p>- Ah, nada. - respondi, tentando cortar o assunto, mas é óbvio que Normani iria falar</p><p>por mim.</p><p>- Nada? Nada?! - Normani me olhou indignada. - Ela humilhou a Lauren no meio da</p><p>aula, sem mais nem menos. Disse que o traço dela era horrível. "Seus traços retos</p><p>parecem linhas curvas e suas linhas curvas parecem minhocas de tão mal feitas". -</p><p>Normani repetiu exatamente a mesma frase que Camila havia usado comigo,</p><p>tentando imitar o tom irritante da professora, mas saindo muito mais como</p><p>indignação do que qualquer outra coisa.</p><p>Eu preferia que ela não o tivesse feito. A mera repetição da frase já me fazia sentir</p><p>todo o constrangimento e a humilhação que eu havia sentido na hora da aula. Senti-</p><p>me irritada com a repetição exagerada do assunto. Tudo bem, eu já sabia que ela era</p><p>uma bruxa, que tratava mal os alunos mesmo depois de ter sido um amor uma</p><p>semana antes e...</p><p>- Caramba! - Drew exclamou. - Ela fez isso SÓ com a Lauren? - ele exclamou, pela</p><p>primeira vez parecendo realmente surpreso.</p><p>- Foi, só com a Lauren. Ninguém entendeu, cara. O desenho da Lauren era o melhor</p><p>da sala. Eu vi o de quase todo mundo. Não</p><p>tô conseguindo entender porque ela fez</p><p>isso. Mas a Lauren saiu por cima. Quase fiquei de pés para bater palmas. - Ponderou</p><p>Keana, animando-se no final.</p><p>"Nem eu", pensei.</p><p>- Ela sempre é rude com a turma inteira, mas com um só aluno, nunca se teve</p><p>notícia. - Drew falou, usando um tom misterioso.</p><p>- Foi assim...</p><p>Pelos próximos cinco minutos Normani contou absolutamente tudo o que tinha</p><p>acontecido e eu só fizera questão de acelerar o passo para chegar mais rápido ao The</p><p>Village, comer e ir para a próxima aula. Mas quanto mais rápido eu queria andar,</p><p>mais interessados eles pareciam ficar no assunto Camila Cabello e menos queriam</p><p>apressar o que deveríamos fazer.</p><p>- Uau! Lauren, eu queria ter visto isso. Não é todo mundo que tem coragem de</p><p>enfrentar a "frozen" desse jeito. - Drew disse, ajeitando a mochila nas costas e ao</p><p>mesmo tempo empurrando a porta do The Village para que nós entrássemos.</p><p>- Ela é só uma professora. - Falei sem muito humor, passando por ele e assim,</p><p>entrando no restaurante.</p><p>O primeiro lugar para onde meus olhos foram, involuntariamente e muito contra a</p><p>minha própria vontade, foi a mesa onde a professora Cabello sentara-se da última</p><p>vez em que a tinha visto no The Village. Provavelmente ela havia estado ali na quinta</p><p>feira da semana anterior, mas eu não havia ido almoçar lá, por insistência de Normani</p><p>que fez todas as birras do mundo para que acompanhássemos Drew até um novo</p><p>restaurante que havia sido inaugurado e ele queria experimentar. Nos outros dias ela</p><p>não ia para Harvard, portanto, as únicas chances de encontrar Camila Cabello no The</p><p>Village eram às terças e quintas.</p><p>Inconscientemente eu achava que ela ainda não estaria no restaurante e que tudo</p><p>aconteceria como da última vez em que ela chegou depois de nós, mas ao mesmo</p><p>tempo eu tinha a esperança de vê-la. Esperança esta que não me parecia muito real,</p><p>por isso que, talvez, o fato de que ela realmente já estava lá tenha me deixado tão</p><p>surpresa e consequentemente, desnorteada.</p><p>Eu travei na porta do The Village assim que o meu cérebro processou a imagem de</p><p>Camila Cabello sentada em sua mesa, olhando fixamente o iPad em suas mãos.</p><p>Fisicamente, tudo nela dizia exatamente o oposto do que o que ela realmente era.</p><p>Antes eu me recusara a acreditar que um exterior tão pacífico poderia armazenar um</p><p>interior tão duro e mesmo eu já havendo provado do veneno congelante de Camila</p><p>Cabello, ainda tinha dificuldades em acreditar que aquele comportamento era</p><p>realmente dela. Uma coisa não condizia com a outra.</p><p>- Calma, Lauren, ela não vai fazer nada com você. Ela só é Lúcifer dentro da sala. -</p><p>Drew percebeu que eu estava estática e tentou me tranquilizar, concluindo que minha</p><p>estática se devia a um eventual medo da minha professora.</p><p>Eu não estava com medo de Camila Cabello. Eu estava confusa com o</p><p>comportamento bipolar dela e magoada com sua rudeza. Mas, medo? Nem de longe.</p><p>- Não estou com medo dela. - Respondi calmamente. - Só foi um susto momentâneo.</p><p>- Mas não se preocupa não, Lauren, qualquer coisa, a gente defende você. - Keana</p><p>tentou me tranquilizar, obviamente não acreditando que eu realmente não estava</p><p>com medo. - Eu tenho um bom cruzado direito. - Ela falou, dando um soquinho no ar.</p><p>Eu ri.</p><p>Eu queria conseguir explicar o que estava sentindo, o que estava pensando em</p><p>relação àquilo tudo, mas se meus pensamentos soavam estranhos até mesmo para</p><p>mim, imagina para eles! Talvez a única capaz de ouvir e entender o que nem eu</p><p>mesma entendia fosse Normani.</p><p>"Preciso conversar com Normani", anotei mentalmente enquanto caminhava para</p><p>uma mesa próxima demais da mesa de Camila Cabello. Fiz questão de focar o olhar</p><p>na cadeira onde eu sentaria, para não correr o risco de olhar para ela sem querer.</p><p>Escolhi sentar de costas, o que ao mesmo tempo que foi bom, porque me impedia de</p><p>olhar para ela, foi péssimo, porque me impedia de olhar para ela.</p><p>- Se olhar matasse, você estaria morta. - Normani falou baixinho, com o queixo</p><p>encostado em meu ombro enquanto colocava o guardanapo em suas pernas.</p><p>- Ou nua. - Keana disse em um tom igual ao de Normani.</p><p>Eu e Normani arregalamos os olhos para ela, assustadas com o comentário. Drew</p><p>estava concentrado digitando no celular, então pareceu não dar muita atenção. O que</p><p>ela estava querendo dizer?</p><p>- Oi? - perguntei, fazendo uma careta.</p><p>Keana fez sinal para que nos aproximássemos e Normani quase se jogou por cima da</p><p>mesa.</p><p>- Eu tenho uma amiga lésbica e toda vez que ela olha pra uma garota que ela quer,</p><p>ela olha do jeito que Camila Cabello olhou pra você. - Keana falou baixinho, vez ou</p><p>outra olhando em direção à mesa de Camila. - Pode ser só impressão, porque eu,</p><p>particularmente, não sou lésbica, pelo menos não que eu saiba, então não sei</p><p>reconhecer, eu acho. Mas pra mim, foi igualzinho a Britt quando olha as meninas</p><p>querendo tirar a calcinha delas. - concluiu, como se estivesse falando a coisa mais</p><p>normal do mundo.</p><p>- KEANA!! - eu e Normani exclamamos ao mesmo tempo.</p><p>Tenho certeza que enrubesci. Tentei disfarçar, mas minha cor não ajudava muito a</p><p>esconder quando eu estava envergonhada, o que foi percebido rapidamente por</p><p>Keana.</p><p>- Lauren, você... - Keana estava começando a perguntar algo quando Drew largou o</p><p>celular e pareceu voltar para o mundo e a interrompeu.</p><p>- Até que faz sentido. Nunca ninguém viu ela com nenhum homem, ela sempre está</p><p>sozinha. Dois anos atrás um professor se declarava apaixonado por ela e o cara tinha</p><p>presença, era arrumado, sabe como é... - Drew coçou a barba. - Tá, o cara era</p><p>bonito. - Ele admitiu, parecendo envergonhado por fazer isso e todas nós rimos. - Ah,</p><p>qual é... o cara tinha presença, vocês já entenderam. Corria atrás da professora</p><p>Camila parece cachorrinho, mas ela nem ligava pra ele. Muito estranho. Talvez ela</p><p>seja lésbica mesmo.</p><p>- Ah, mas o fato de ela não ligar pra um cara bonito não significa que ela seja lésbica.</p><p>- falei, pegando o guardanapo e colocando-o sobre minhas coxas.</p><p>- É, concordo com a Lauren! - Normani se manifestou. - Se bem que depende do nível</p><p>de "boniteza" desse professor.</p><p>- Eu concordo também, mas depois do olhar que eu vi ela dando pra Lauren, tenho</p><p>minhas dúvidas. - Keana disse, olhando de novo para a mesa de Camila. - Ai</p><p>caramba, ela me pegou olhando pra lá. - A garota falou, olhando para frente e depois</p><p>para o próprio prato, completamente envergonhada.</p><p>Quem havia sido pega no flagra olhando para ela, era Keana, mas eu senti como se</p><p>tivesse sido eu. Por minha sorte, estava sentada de costas para ela e não podia ver a</p><p>sua reação, mas ainda assim, queria sair correndo dali. Ela era inteligente demais</p><p>para não concluir que estávamos falando dela.</p><p>- Disfarcem, ela está vindo pra cá. - Drew anunciou falando tão rápido que mal</p><p>consegui entender.</p><p>Foi difícil processar a informação e ao mesmo tempo "disfarçar", como Drew havia</p><p>pedido. Enquanto eles começavam a conversar sobre uma fofoca inventada a respeito</p><p>de alguém chamado "Bob", que provavelmente também era uma pessoa inventada,</p><p>eu tentava digerir a informação de que ela estava vindo, mas tudo aconteceu rápido</p><p>demais e menos de dez segundos depois, Camila Cabello estava parada ao meu lado</p><p>e eu estava paralisada, sem conseguir esboçar uma reação sequer.</p><p>- Olá. - Ela cumprimentou todos na mesa, simpaticamente, o que me deixou</p><p>levemente chocada.</p><p>- E aí, professora. - Drew cumprimentou-a, informal e leve.</p><p>- Olá, Drew. - ela respondeu da mesma maneira informal. - Olá meninas. - Ela</p><p>cumprimentou todas, mas olhou somente para Keana e Normani.</p><p>- Oi professora. Adorei a blusa. - Normani respondeu, usando um tom absolutamente</p><p>normal e eu me perguntei se eu conseguiria usar um tom tão tranquilo, caso ela</p><p>resolvesse falar comigo.</p><p>Camila apenas sorriu simpaticamente para ela, mas foi impedida de</p><p>responder por Drew, que se apressou em falar.</p><p>- Quer se juntar a nós para o almoço? - Drew perguntou, sendo cavalheiro e eu</p><p>arregalei os olhos para ele, mas</p><p>logo me contive, muito embora fosse difícil Camila</p><p>ter visto a minha expressão já que estava em pé ao meu lado e...</p><p>- Obrigada, Drew, mas eu vim aqui para roubar a senhorita Jauregui por cinco</p><p>minutos de vocês. Se incomodam?</p><p>- Nããããão. - Os meus três companheiros de almoço responderam em uníssono.</p><p>- Imagina! - Keana completou, em um tom que me pareceu muito malicioso.</p><p>Àquela altura meu estômago já havia congelado e pela primeira vez eu me sentia</p><p>receosa em relação a Camila. Em menos de um segundo todos os cenários de</p><p>conversa possíveis passaram pela minha cabeça e eu pude sentir o olhar dela sobre</p><p>mim. Institivamente olhei para cima.</p><p>- Pode me acompanhar até a minha mesa, Lauren? - Ela disse usando um tom</p><p>extremamente simpático.</p><p>Qual era o problema dela afinal? Ela precisava de um psicólogo pra tratar toda aquela</p><p>bipolaridade.</p><p>- Posso(?) - respondi afirmando, mas saiu muito mais em tom de dúvida.</p><p>- Muito bem. - ela continuou com o mesmo tom e se dirigiu de volta à mesa dela.</p><p>Eu levantei e a segui, mas antes de me distanciar o suficiente da mesa onde estavam</p><p>meus mais novos amigos, escutei Keana dizer: "eu disse".</p><p>Eu revirei os olhos porque aquela ideia de lesbianismo estava totalmente fora de</p><p>cogitação. Camila Cabello não era lésbica e muito menos eu. O fato era que ela não</p><p>havia gostado muito de mim e por isso estava, provavelmente, me "perseguindo".</p><p>Nossa conversa na terça feira anterior havia sido vista de maneira diferente para ela.</p><p>Provavelmente havia me considerado uma garotinha de dezoito anos completamente</p><p>idiota e havia me chamado naquele momento para me dar um sermão e me colocar</p><p>no meu lugar, depois do que havia acontecido na sala, naquela manhã.</p><p>- Sente-se, por favor. - Ela disse, logo depois de sentar-se no lugar que ocupada</p><p>comumente.</p><p>Sentei de frente para ela, sem falar absolutamente nada.</p><p>- Como você está hoje? - Ela perguntou, usando o mesmo tom brando que usara</p><p>antes, na mesa com meus amigos.</p><p>- Bem(?) - Respondi usando o mesmo tom de dúvida que havia usado antes.</p><p>- Por que está usando esse tom em tudo o que me responde? - Ela perguntou,</p><p>apoiando os cotovelos em cima da mesa e colocando as os dedos fechados para</p><p>apoiar o queixo.</p><p>Desviei o olhar do detalhe de sua mão, que por algum motivo me agradava</p><p>excessivamente e olhei para o seu rosto, só para me amaldiçoar por ter feito isso, já</p><p>que ela estava me olhando exatamente da mesma forma que me olhara uma semana</p><p>atrás. Aquele olhar que tentava me desvendar, me entender. Aquele olhar que</p><p>estendia para mim uma placa em neon dizendo: somos iguais.</p><p>Quase me deixei levar por isso, mas imediatamente me lembrei do que havia</p><p>acontecido mais cedo na aula e recolhi todos os pensamentos que me levassem a crer</p><p>que eu poderia ter qualquer tipo de aproximação AMISTOSA (destaquei mentalmente)</p><p>com ela.</p><p>- Porque eu não estou entendendo o motivo de a senhora ter me chamado aqui. -</p><p>respondi a verdade.</p><p>- Camila. - Ela me corrigiu. - Eu quero lhe falar uma coisa.</p><p>- O que a senhora quer me falar, professora? - fiz questão de usar a palavra senhora</p><p>outra vez.</p><p>Seu olhar expressou claramente que ela havia ficado intrigada com a minha resposta,</p><p>mas tão rápido quanto ficou, tão rápido se desfez.</p><p>A jovem professora à minha frente abriu o zíper da pasta que estava ao seu lado, em</p><p>cima da mesa e puxou de lá uma folha de papel com uma casa desenhada</p><p>perfeitamente à mão. Ela colocou a folha em cima da mesa e empurrou-a para mim.</p><p>Pude ver o quanto aquilo era realmente perfeitamente desenhado e harmônico e</p><p>quase real, mesmo que fosse um desenho. Eu quase podia enxergar cores e luzes</p><p>naquele desenho a grafite. As linhas eram perfeitas. Suaves. Pareciam projetar-se do</p><p>papel. Era impressionante.</p><p>Olhei para ela depois de algum tempo olhando para o desenho no papel e o</p><p>admirando.</p><p>- O que é isso? - Perguntei.</p><p>Obviamente eu estava perguntando porque ela estava me mostrando aquilo e não o</p><p>que era aquilo, porque era óbvio que eu sabia o que era. E era óbvio que ela havia</p><p>entendido.</p><p>- É o seu trabalho de casa para esta semana.</p><p>- O que? Como assim? - perguntei, realmente sem entender.</p><p>- Eu quero que você reproduza esse desenho cem vezes e me entregue todas as cem</p><p>reproduções na próxima aula. Não use réguas. - Ela falou, com tranquilidade</p><p>enquanto fechava o zíper da pasta. Em seguida, voltou a olhar para mim.</p><p>- O que?! CEM VEZES? A senhora deve estar ficando maluca! Isso tudo é por causa do</p><p>meu traço? Quer me punir porque não achou bom o suficiente? Aliás, qual o seu</p><p>problema comigo, professora? Era óbvio que o meu traço era de longe o melhor</p><p>daquela turma.</p><p>- Está questionando os meus métodos de avaliação, senhorita Jauregui? - Ela</p><p>perguntou, usando um tom absurdamente sério.</p><p>- Não, eu...</p><p>- Ótimo. Faça o que eu mandei. Se não me entregar isto até terça feira, não precisa</p><p>mais ir à minha aula. Terá que fazer a matéria no semestre que vem. - ela declarou</p><p>impassível. A gentileza que usara minutos atrás havia sumido.</p><p>- Isso não é justo! Por que está passando isso só para mim?! - Eu perguntei</p><p>indignada.</p><p>No mesmo momento o garçom chegou com o prato dela e assim que se retirou, ela</p><p>me respondeu, apoiando novamente os cotovelos na mesa e encarando-me</p><p>friamente.</p><p>- Por que eu sou a sua professora e eu posso fazer o que eu bem entender se</p><p>considerar válido para o seu aproveitamento em sala. Faça ou estará dispensada da</p><p>minha aula, senhorita Jauregui. Agora, se me dá licença... - ela olhou para o próprio</p><p>prato.</p><p>- Tudo bem, professora. - eu falei entre dentes, segurando-me para não explodir com</p><p>ela ali, no meio do restaurante. - O que mandou, será feito.</p><p>E assim, levantei da cadeira, voltando para a mesa com meus amigos.</p><p>Eu não podia simplesmente deixar de fazer o que ela dissera, eu precisava porque eu</p><p>não podia reprovar na matéria dela assim, sem mais nem menos. Se eu reprovasse,</p><p>meus pais me tirariam de Harvard e jamais entenderiam que foi tudo fruto da mente</p><p>louca de uma professora que me odiava gratuitamente. Eu não sabia o que estava e</p><p>deixando com mais raiva naquele momento, se era o comportamento dúbio da minha</p><p>professora à quem eu tanto admirara e agora tanto odiava ou se era o fato de que eu</p><p>estava absolutamente ferrada por precisar desenhar cem vezes aquela maldita casa</p><p>desenhada em minhas mãos.</p><p>Mas de uma coisa eu sabia: eu podia perder todas as minhas noites de sono, mas na</p><p>terça feira, Camila Cabello teria cem reproduções desenhadas em suas mãos e seriam</p><p>as melhores do mundo.</p><p>Ineffable</p><p>Lauren's pov</p><p>Ineffable (adj.) : Incrível demais para ser expresso em palavras.</p><p>Eu já não sentia a minha mão. Durante a semana inteira havia passado todo o meu</p><p>tempo livre fazendo réplicas do desenho que Camila havia me ordenado que fizesse,</p><p>caso quisesse permanecer em sua turma.</p><p>Na terça feira, assim que chegara da aula do professor Newton, havia feito o trabalho</p><p>que o próprio nos dissera para fazer e depois de duas horas trabalhando no resumo</p><p>crítico de um artigo a respeito da obra de Piet Mondrian, comecei a fazer o primeiro</p><p>desenho de cem.</p><p>Já eram quase uma hora da manhã quando terminei o primeiro desenho. No início eu</p><p>achara que meus traços sairiam retíssimos, exatamente como os do desenho que</p><p>havia me sido entregue, mas o resultado final estava horroroso. Nem se aproximava</p><p>do desenho original, muito embora eu devesse reconhecer que eu havia feito de certa</p><p>forma um bom trabalho, não era, nem de longe, um trabalho excepcional como o que</p><p>eu tinha em mãos e alguma coisa dentro de mim me dizia que se eu não entregasse</p><p>desenhos perfeitos para a professora Cabello, seria penalizada por isso de alguma</p><p>forma. Àquela altura eu já não sabia mais o que esperar dela, mas era previsível que</p><p>coisas boas nunca seriam.</p><p>No sábado daquela mesma semana, trinta e oito desenhos depois, com a mão direita</p><p>ardendo de dor nos músculos e no pulso, com uma bolsa de gelo quase que</p><p>constantemente sendo colocada em minha mão e um leve desespero por achar que,</p><p>definitivamente, não</p><p>conseguiria acabar os cem desenhos até a aula de terça feira, eu</p><p>me encontrava debruçada em minha prancheta, dentro do dormitório, com a mão</p><p>enrolada em um pano gelado, com lágrimas nos olhos, pensando em desistir da vida</p><p>e de tudo, acompanhada por Normani que desde a terça feira decidira que ficaria</p><p>acordada comigo para não me deixar sozinha e que naquele momento estava deitada</p><p>em sua cama resolvendo os cinquenta exercícios de matemática aplicada que o</p><p>professor Solomon havia nos passado para entregar na segunda feira.</p><p>- Você deveria ir reclamar com o coordenador, Laur. Eu sei que não quer, mas eu</p><p>ainda acho que resolveria alguma coisa. - Normani falou, pela milésima vez.</p><p>Levantei a cabeça e olhei para ela.</p><p>- É sério Laur, eu vou com você. E se quiser, podemos chamar Keana, tenho certeza</p><p>que ela vai também. - Ela disse, tirando os óculos do rosto e colocando-os na cama.</p><p>- Não, Mani. - respondi, sem me dar ao trabalho de explicar de novo o motivo.</p><p>Já havíamos tido aquela conversa muito mais que dez vezes. Eu não iria reclamar da</p><p>professora Cabello para o coordenador. Ele até poderia resolver a questão dos cem</p><p>desenhos e me dispensar daquilo, mas só pioraria o fato de que ela me perseguiria</p><p>ainda mais nas aulas. Além do fato de que, no fundo, eu achava que ele não faria</p><p>realmente nada, porque ela era professora e tinha total autonomia para avaliar os</p><p>alunos como bem entendesse durante as aulas. Talvez houvesse um pouco de orgulho</p><p>da minha parte em não querer fracassar... Talvez.</p><p>- Tudo bem, tudo bem, mas pelo menos dê um tempo disso, você ainda não parou de</p><p>desenhar desde terça feira. Mal dorme. - Normani argumentou, tentando me</p><p>convencer, outra vez a parar de desenhar feito uma louca.</p><p>- Se eu não continuar, não vou conseguir acabar. - Disse simplesmente, desenrolando</p><p>a toalha gelada de minha mão e em seguida, secando-a com uma toalha seca.</p><p>- Você é uma teimosa. - Normani bufou, largando a lista de exercícios do professor</p><p>Solomon em cima de sua cama e caminhando até mim, parando exatamente às</p><p>minhas costas. - Nossa, isso tá incrível! - falou, olhando para o meu desenho.</p><p>- Mas não tão incrível quanto isso. - Apontei para o desenho que eu estava</p><p>reproduzindo.</p><p>Normani revirou os olhos.</p><p>- Está incrível à sua maneira. - Ela argumentou.</p><p>- Precisa ficar incrível à esta maneira. - Eu retruquei.</p><p>- Você é uma chata, Jauregui. - Ela falou, rindo e me deu um beijo no alto da cabeça.</p><p>- Vou fazer um lanche, você precisa comer se não daqui a pouco vai ficar tão magra</p><p>quanto é branca e aí sim teríamos um grande problema.</p><p>- Ei! Eu não sou tão branca assim. - resmunguei, pegando a lapiseira novamente.</p><p>Normani já se afastava em direção à cozinha e só deu uma gargalhada alta.</p><p>No decorrer daquela semana, Normani se mostrara uma pessoa ainda melhor do que</p><p>eu já a havia julgado. Se preocupava com minhas refeições, preocupando-se em</p><p>preparar ela mesma, porque sabia que eu não comeria se fosse depender de mim.</p><p>Estava concentrada demais em acabar os desenhos. Além de tudo, ficava acordada</p><p>até mais tarde junto comigo, para que eu não me sentisse sozinha. Fazia meus</p><p>trabalhos das outras matérias, que não eram poucos e de hora em hora me obrigava</p><p>a fazer uma pausa de dez minutos para colocar gelo na mão. Uma das razões para eu</p><p>não ter desistido, com certeza era Normani e seu zelo comigo. Havíamos criado uma</p><p>conexão instantânea, que só se aprofundava mais e mais do decorrer dos dias. Em</p><p>duas semanas, eu já não me lembrava mais de como era a vida sem a presença dela.</p><p>Quando uma pessoa parece sempre ter estado lá, quando você não se lembra mais</p><p>dos seus dias sem a presença dela, quando até as suas memórias insistem em colocar</p><p>aquela pessoa em situações que ela não estava, quando suas emoções se tornam tão</p><p>ligadas àquela pessoa que todas as suas lembranças de emoções também se</p><p>conectam à ela, é assim que a gente sabe quando encontrou alguém que vai ficar na</p><p>nossa vida para sempre. E era exatamente assim que eu me sentia em relação a</p><p>Normani Kordei.</p><p>- Eu não entendo por que ela age dessa forma. Em um momento ela é totalmente</p><p>adorável e digna de toda a admiração que eu tinha por ela e no outro é uma víbora</p><p>horripilante e sem coração. - pensei em voz alta enquanto voltava a desenhar o trinta</p><p>e nove.</p><p>- Talvez ela seja lésbica, como Keana disse e está fazendo tudo isso porque acha você</p><p>perturbadoramente linda e no final das contas só quer irritar você pra te dar uns</p><p>pegas no elevador da HGSD. - Normani falou, fazendo um movimento obsceno</p><p>quando mencionou a parte em que Camila queria me agarrar no elevador.</p><p>Fiz uma careta instantânea para a ideia, mas a verdade é que minha mente</p><p>imaginativa projetou aquela cena na minha cabeça e os meus pensamentos a respeito</p><p>daquilo foram completamente embaraçosos.</p><p>- Você e Keana tem uma mente muito fértil. Ela nem tem jeito de lésbica. Não sei de</p><p>onde tiraram isso. De qualquer forma... - fiz uma pausa, colocando a lapiseira na</p><p>boca, enquanto apagava um traço errado. - Não importa se ela for lésbica porque EU</p><p>não sou.</p><p>- Tem certeza? - Normani perguntou naturalmente enquanto passava geléia de</p><p>morango em duas fatias de pão. Levantei a sobrancelha, olhando para ela, duvidando</p><p>de que ela realmente havia me feito aquela pergunta. Ela levantou as mãos em</p><p>posição de defesa e riu. - Você também duvidaria de si própria se visse a cor das suas</p><p>bochechas quando mencionei ela agarrando você no elevador.</p><p>Revirei os olhos.</p><p>- Qualquer pessoa sentiria vergonha ao ouvir uma coisa dessas, Normani. -</p><p>Argumentei, embora eu mesma duvidasse de mim.</p><p>- Eu não. - Ela falou, convicta de sua resposta.</p><p>"Mas eu sim e nem por isso sou lésbica", pensei comigo mesma. Quer dizer, eu nunca</p><p>havia beijado uma mulher e nem havia olhado para uma mulher pensando em casar</p><p>com ela ou algo assim. Eu só admirava muitas mulheres, mas não porque as queria</p><p>de uma forma romântica e sim porque queria, de alguma forma, absorver um pouco</p><p>delas, porque as admirava como pessoas, compartilhava de suas ideias... Isso não</p><p>significava que eu era lésbica, definitivamente não.</p><p>- Mas você é um caso diferente. - respondi, já usando um tom brincalhão,</p><p>para começar a cortar o assunto.</p><p>- Tá, vamos conversar sobre isso. - Ela disse, trazendo um prato com dois sanduíches</p><p>de geleia de morango para cada uma e o colocou em cima de sua cama, chamando-</p><p>me até lá.</p><p>Minha resposta não havia surtido o efeito que eu gostaria ou simplesmente Normani</p><p>havia ignorado meu sinal de que não queria dar continuidade ao assunto, porque ela</p><p>queria mesmo falar sobre aquilo. Suspirei e desci da banqueta da prancheta para ir</p><p>até a cama com ela.</p><p>- Não tem o que conversar, Mani. - Peguei um dos sanduíches e antes de morder</p><p>completei a frase. - Eu não sou lésbica. Aliás, eu nem sei de onde você tirou essa</p><p>ideia.</p><p>- Tá, tá... Mas como você tem tanta certeza que não é lésbica? - Ela perguntou,</p><p>cruzando as pernas em cima de sua cama.</p><p>- Ah... - acabei de mastigar e engoli antes de responder. - Eu simplesmente sei, ora.</p><p>- Tá, mas como sabe? - Normani insistiu, falando de boca cheia.</p><p>- Não sei! Eu só sei que não sou. Eu nunca me apaixonei por uma garota, nunca nem</p><p>olhei mulheres com vontade de beijá-las ou algo assim.</p><p>- Nem a Lana Del Rey? - ela perguntou, instigando-me.</p><p>- O que ela tem a ver com isso? Ela é minha ídola, todo mundo quer beijar sua ídola.</p><p>- Me defendi.</p><p>- Eu não quero beijar a Beyoncé. Isso não significa que eu não beijaria, mas eu não</p><p>sinto vontade. Falando sinceramente, você não sente vontade de beijar a Lana? - ela</p><p>perguntou, fazendo-me sentir segura para falar do assunto com ela.</p><p>- Não exatamente. Mas de qualquer forma, não conta. - Não neguei, nem assumi.</p><p>Não podia negar que a ideia de ter um romance com Lana Del Rey era muito atraente</p><p>e excitante na minha cabeça, mas era exclusivamente porque ela era um gênio da</p><p>música e qualquer mulher hétero desse mundo cederia à ideia de ter um romance</p><p>com ela.</p><p>- Claro que conta.</p><p>O fato de você nunca ter tido vontade de ficar com uma mulher por</p><p>motivos "físicos", tipo a beleza, etc... Não significa que você não se sinta atraída por</p><p>mulheres. Por exemplo, quem chamou mais a sua atenção nessas duas semanas em</p><p>Harvard, Drew ou Camila Cabello? - Ela perguntou enquanto prendia o cabelo.</p><p>Como Normani conseguia discutir aquilo com tanta tranquilidade? Aquele assunto era</p><p>extremamente incômodo para mim. Eu não era lésbica. Pra que ficar discutindo sobre</p><p>isso?</p><p>- Camila, mas só porque...</p><p>- Viu? Sua atenção é despertada mais intensamente por mulheres. - Ela mordeu mais</p><p>um pedaço de seu sanduíche e fez sinal para que eu fizesse o mesmo com o meu,</p><p>que eu já havia esquecido. Assim o fiz. - E nem adianta dizer que é porque ela está</p><p>sendo estúpida com você porque durante a primeira semana de aulas, depois da terça</p><p>feira com a primeira aula dela, você só conseguia falar sobre o quanto ela era incrível</p><p>e repetiu tantas vezes a sua conversa com ela quando foi buscar os seus livros na</p><p>HGSD que eu mesma já decorei. Uma garota hétero estaria pouco se importando para</p><p>o fato de o pulso da professora Cabello ser fino e bonito ou para o fato de o relógio</p><p>dela combinar com o pulso e muito menos iria reparar na tatuagem que ela esconde</p><p>debaixo do anel. Eu, por exemplo, nunca teria visto se você não tivesse repetido mil</p><p>vezes.</p><p>O pedaço de sanduíche que eu havia engolido ficou entalado na minha garganta</p><p>enquanto eu ouvia as coisas que Normani falava. Cada palavra estava sendo jogada</p><p>sobre mim como um tijolo bem no meio do meu rosto.</p><p>- É só admiração pelo que ela é. - tentei me defender mais uma vez.</p><p>- Nem vem, Laur. Eu também admiro muito ela, fico babando nas roupas dela, ficou</p><p>louca com as combinações maravilhosas que ela faz mas nem chego perto de analisar</p><p>ela tão profundamente quanto você. Quer dizer, eu não estou dizendo que você está</p><p>a fim da professora Cabello, mas eu acho que você deveria pensar sobre isso. Pode</p><p>responder suas perguntas sobre o por que de nenhum garoto mexer tanto assim com</p><p>você...</p><p>Deixei o sanduíche no prato, sentindo-me muito bagunçada para conseguir</p><p>comer ou para conseguir falar qualquer coisa. Suspirei e olhei para baixo.</p><p>- Oh, Lauren... Me perdoe, eu não queria ter ido longe demais no assunto e de</p><p>repente nem é isso, eu só estava tentando explorar as possibilidades e... - Normani</p><p>começou a tagarelar, desculpando-se, quando percebeu que o assunto havia me</p><p>atingido de alguma forma.</p><p>Eu não estava chateada pelas coisas que ela havia me dito. Eu estava confusa. Tudo</p><p>o que Normani me dissera fazia todo sentido e ao mesmo tempo me parecia</p><p>completamente surreal. Eu não era lésbica. Não havia jeito de aquilo se encaixar na</p><p>minha personalidade. Definitivamente, não. Mas, por que os argumentos de Normani</p><p>faziam tanto sentido? Por que suas palavras explicavam tudo o que eu sentia de uma</p><p>maneira tão clara?</p><p>- Está tudo bem, Mani. Você só me deixou...pensativa. - Eu disse, levantando de sua</p><p>cama.</p><p>- Por favor, não fique chateada comigo! - ela exclamou em um tom que me deu</p><p>vontade de correr para abraçá-la e foi quase isso o que fiz.</p><p>Andei até ela e lhe dei um abraço.</p><p>- Não estou chateada! Prometo! - beijei sua bochecha. - Eu só preciso de um</p><p>momento sozinha, preciso pensar sobre isso.</p><p>Ela acenou positivamente com a cabeça.</p><p>- Tudo bem, vou ficar calada e se você quiser conversar é só abrir a boca. Vou estar</p><p>aqui do outro lado do quarto. - Ela respondeu, usando um tom, novamente calmo.</p><p>- Hummm... Na verdade, eu acho que vou dar uma volta. Vou aproveitar e levar o</p><p>meu material de desenho e tentar desenhar na rua, com outros ares. Talvez eu</p><p>funcione melhor ao ar livre. - Disse-lhe sorrindo.</p><p>- Você está chateada. - Ela fez bico, supondo que eu sairia porque estava chateada</p><p>com ela.</p><p>- Garanto que não! - Dei um beijo em sua testa e fui até a minha prancheta pegar o</p><p>meu material.</p><p>- Vai voltar para o almoço? - Ela perguntou ainda com o mesmo tom tristonho.</p><p>- Eu ligo pra você e a gente se encontra no The Village, certo?</p><p>- Okay, vou esperar.</p><p>Coloquei tudo o que precisava dentro da mochila e saí.</p><p>Disse à Normani que iria para a rua pensar, mas a verdade é que eu queria ir para o</p><p>laboratório de pranchetas da HGSD, desenhar sem interferências e parar de pensar</p><p>no assunto incômodo e descabido que ela havia insinuado.</p><p>Cambridge era uma cidadezinha muito charmosa. Não era atoa que Harvard estava</p><p>ali. Ou não era atoa que Cambridge havia sido construída. Tudo ao redor era muito</p><p>suave, muito calmo. As coisas pareciam se encaixar perfeitamente, tudo parecia ter</p><p>estado ali desde sempre. Tudo parecia correto. Definitivamente, Cambridge era um</p><p>completo acerto arquitetônico.</p><p>Tomei um caminho diferente até a HGSD, um caminho mais longo e livrei a minha</p><p>mente de todos os pensamentos incômodos para focar na composição arquitetônica</p><p>daquele lugar. Era singelo, mas impressionante em sua singeleza. Até o cheiro de pão</p><p>e café fresco que saia das padarias e corria pelas ruas parecia querer contribuir para</p><p>que tudo a respeito daquelas ruas fosse agradável.</p><p>Dobrei a última esquina do novo caminho que escolhera e dei de frente com a HGSD,</p><p>agora, vislumbrando-a por um outro ângulo. Definitivamente, aquele era um dos</p><p>edifícios mais lindos que eu já vira. A sensação de familiaridade com ele nunca</p><p>passava.</p><p>Eram 9:30am quando entrei no laboratório de pranchetas. Estava completamente</p><p>vazio e eu agradeci mentalmente por isso. Sentei-me em uma prancheta quase</p><p>escondida da sala, transparecendo completamente o meu espírito recluso naquele dia.</p><p>Organizei o meu material rapidamente em cima da régua da prancheta e com calma,</p><p>com fita, colei o meu desenho e o desenho da professora Cabello na prancheta.</p><p>Respirei fundo, coloquei os fones de ouvido e mergulhei a minha atenção e toda a</p><p>minha mente no desenho.</p><p>Não havia percebido o tempo se passando enquanto desenhava, mas só</p><p>desviei a atenção do papel quando fiz o último traçado do desenho trinta e nove.</p><p>Estiquei as costas e encarei os dois desenhos terminados à minha frente.</p><p>O primeiro (o que Camila havia me entregue) era suave e quase real. O segundo (o</p><p>desenho trinta e nove dos meus cem) ainda parecia com traços feitos por um</p><p>dinossauro. Pelo menos em comparação àquela perfeição que era o primeiro desenho.</p><p>Me sentia incomodada com tanta perfeição.</p><p>Estiquei o braço para pegar a minha bolsa que estava na banqueta da outra</p><p>prancheta e assim, pegar os outros trinta e oito desenhos que eu já havia feito. O</p><p>trinta e nove era de longe o melhor de todos. Eu evoluíra significativamente se</p><p>comparasse o desenho número um e o desenho número trinta e nove. Mas isso não</p><p>fazia com que o trinta e nove estivesse perto do desenho que eu precisava reproduzir.</p><p>Ao invés de sentir-me confortada, senti-me irritada por não ter evoluído tanto quanto</p><p>poderia ter evoluído, fazendo trinta e nove desenhos da mesmíssima coisa.</p><p>Guardei o desenho trinta e nove com os outros e colei uma folha nova na prancheta.</p><p>Perfeitamente branca. Respirei fundo e sem me dar pausa alguma, mergulhei</p><p>novamente a minha atenção no desenho. Minha mente estava extremamente focada</p><p>em fazer um desenho perfeito, com traços leves, mas expressivos. A minha atenção</p><p>no papel era tanta que nem percebi a aproximação de uma pessoa, até que ela</p><p>apareceu ao meu lado, quase atrás de mim.</p><p>- Ai meu Deus, que susto! - Exclamei, tirando os fones de ouvido e virando o rosto</p><p>para olhar quem estava ao meu lado.</p><p>- Desculpe. - Ela disse sem olhar para mim, encarando a folha na qual eu desenhava.</p><p>Seu olhar era contemplativo.</p><p>Minha frequência cardíaca entrou em total descompasso quando meus olhos definiram</p><p>a imagem da professora Cabello, parada ao meu lado. Ela usava calças sociais em um</p><p>tom de azul claro quadriculado, blusa social de mangas cumpridas da mesma cor,</p><p>porém lisa e seus cabelos estavam presos em um coque despretensioso no alto da</p><p>cabeça, o que revelava as curvas de seu pescoço sendo delineadas pelo delicado</p><p>colar</p><p>de ouro branco e o brinco de pérolas que lhe dava um ar extremamente elegante.</p><p>"Você repara profundamente nela", a voz de Normani invadiu a minha cabeça como</p><p>um alerta e eu pisquei fortemente para afastar os pensamentos de minha mente.</p><p>- O que está fazendo aqui? - perguntei, sendo mais rude do que pretendia.</p><p>- Eu trabalho aqui. - Ela respondeu usando um tom delicado, ignorando totalmente o</p><p>meu comportamento claramente incomodado com a presença dela. Seu olhar não se</p><p>desviara de meu desenho.</p><p>- Só às terças e quintas. - Retruquei. - E hoje é sábado. - É claro que meu argumento</p><p>era totalmente ridículo. Ela poderia estar ali por uma infinidade de motivos...</p><p>- Quantos já fez? - Ela perguntou, ignorando-me mais uma vez.</p><p>Bufei mentalmente, não queria parecer infantil.</p><p>"Por que estou me importando em não parecer infantil?", pensei.</p><p>- Trinta e nove. Esse é o quarenta. - respondi, virando-me de frente para a prancheta</p><p>outra vez.</p><p>Ela acenou positivamente com a cabeça, como quem concordasse consigo mesma em</p><p>algum pensamento.</p><p>- Continue... - ela falou, sentando-se na banqueta à minha direita.</p><p>- Com a senhora aqui? - Eu perguntei, sentindo-me intimidada.</p><p>- Pare com isso de senhora. - Ela colocou a banqueta encostada à minha. - Continue.</p><p>- De jeito nenhum. Pra senhora me humilhar outra vez? - falei, de certa forma</p><p>desabafando sobre como ela havia me feito sentir.</p><p>Camila virou o rosto para me olhar, finalmente tirando os olhos do papel. Ela parecia</p><p>intrigada com o que eu havia dito. Seu olhar parecia surpreso.</p><p>- Humilhar? - Ela perguntou, claramente controlando o tom de voz.</p><p>- Exatamente. Eu não vou ficar aqui desenhando na sua frente pra ser humilhada</p><p>mais uma vez. Vou deixar a humilhação para a próxima aula quando lhe entregar os</p><p>seus malditos cem desenhos. - Falei, exaltando-me levemente, mas muito mais por</p><p>ter prestado atenção demais aos detalhes do rosto dela do que por realmente estar</p><p>chateada com as humilhações recentes às quais ela havia me submetido. Não que eu</p><p>não estivesse irritada com as humilhações, mas naquele momento eu estava muito</p><p>mais irritada com a voz de Normani na minha cabeça e com a minha insistente</p><p>atenção exagerada nos detalhes do rosto da minha professora.</p><p>Ela franziu levemente o cenho e apenas ficou me encarando por algum tempo, sem</p><p>dizer nada. Quando eu estava começando a me sentir incomodada e invadida com o</p><p>silêncio e olhar dela e já estava prestes a falar novamente, ela se manifestou.</p><p>- Continue desenhando, Lauren. - falou em um tom ameno. - Eu só vou olhar.</p><p>- Não. - respondi friamente, mas algo em seu olhar me fez ter vontade de continuar</p><p>desenhando e ao mesmo tempo sentir-me culpada por ter sido rude. - Tá, tudo bem.</p><p>Peguei novamente a minha lapiseira e respirei fundo antes de me concentrar no</p><p>desenho outra vez. Sentia-me nervosa com a presença dela ao meu lado, mas seu</p><p>silêncio me ajudou a concentrar no papel. Não completamente, mas quarenta por</p><p>cento de mim estava focada no desenho. Os outros sessenta por cento estavam</p><p>variando entre a conversa com Normani e o cheiro de Camila, a posição que ela</p><p>estava sentada, a mecha fina de cabelo que havia se desprendido do coque, a</p><p>tatuagem no dedo...</p><p>E de repente, enquanto eu traçava mais uma linha da reprodução número quarenta,</p><p>Camila levantou-se de sua banqueta e se colocou atrás de mim. Sem avisou algum,</p><p>segurou a minha mão e a lapiseira, de uma forma muito sútil cruzando nossos dedos</p><p>e torceu meu pulso levemente para cima e para baixo, o que instantaneamente fez</p><p>minha mão parecer mais leve, quando segundos atrás eu parecia ter chumbo no</p><p>pulso e entre os dedos. Ela ajeitou os óculos de grau em seus olhos e aproximou seu</p><p>rosto da prancheta, de tal forma que sua bochecha estava lado a lado com a minha.</p><p>Deixei a minha mão completamente solta para que ela a guiasse, já que,</p><p>aparentemente era isso o que ela queria fazer. E assim foi. Camila colocou nossas</p><p>mãos apoiadas na pranchetas e com toda a leveza que eu jamais conseguiria sozinha,</p><p>ela começou a traçar algumas linhas em minha reprodução. Eu podia sentir como se a</p><p>lapiseira fizesse parte da minha mão, como se todo traço leve fosse o suficiente.</p><p>- As linhas de um desenho tem que sair de dentro de você, Lauren. - Ela falou</p><p>suavemente, enquanto fazia mais um traçado perfeito, usando a minha mão para</p><p>isso. - Como se fossem o seu sangue. - E novamente, mais um traçado. - Seus</p><p>sentimentos, sua essência precisa estar escrita nas linhas que você desenha. - Ela</p><p>continuava falando suavemente e a cada palavra, meus sentimentos pesados e</p><p>sobrecarregados se tornavam leves como uma pluma. - E a sua essência... - ela</p><p>terminou um detalhe de uma porta. - é leve e linda. - completou, virando o rosto para</p><p>mim de tal maneira que seus olhos perfuraram os meus, de tão perto.</p><p>Perdi o ar. O oxigênio terrestre havia sido roubado, eu tinha certeza. Mas por que é</p><p>que só eu sentia náuseas por causa da ausência de ar?</p><p>Ela sorriu e se afastou de mim.</p><p>- Lembre-se disso. - o sorriso continuava em seus lábios enquanto ela se afastava. -</p><p>Vejo você e seus cem desenhos na terça.</p><p>E assim como está dito, aconteceu. Ela nem me deu tempo para assimilar e</p><p>responder o que havia acontecido. Talvez agradecer... Se retirou da sala de</p><p>pranchetas enquanto falava, quase que propositalmente para não me deixar falar.</p><p>Para me deixar lidar com meus pensamentos presos na ponta da língua.</p><p>Qual era o problema dela, afinal? Dias antes me tratara com desprezo, dias depois</p><p>me tratava como se se importasse. Ela parecia querer me esticar aos limites das</p><p>minhas emoções, por algum motivo desconhecido ou porque ela era, simplesmente,</p><p>completamente maluca.</p><p>- "Vejo você e seus cem desenhos na terça". - a imitei, sentindo-me um pouco</p><p>irritada com tudo, novamente.</p><p>"Vejo você na terça"... Aquela frase me fizera sentir ainda mais ansiosa pela terça</p><p>feira, mas por algum motivo aquela ansiedade nova era boa.</p><p>- Vejo você na terça, Camila Cabello. - Falei em voz baixa, olhando para os traços</p><p>perfeitos que ela havia feito comigo em meu desenho. - Vejo você na terça.</p><p>Perspective</p><p>Lauren's pov</p><p>Perspective (n.): Nós olhamos para as mesmas coisas, mas vemos coisas</p><p>grandemente diferentes.</p><p>Até a metade do processo do desenho de reprodução número quarenta eu já havia</p><p>desistido da ideia de conseguir atingir o mesmo grau de perfeição do desenho</p><p>original, não esperava fazer grandes avanços até o desenho de número cem,</p><p>principalmente considerando que o meu grau de avanço do número um ao número</p><p>trinta e nove havia sido pouco e talvez por isso eu estivesse sentindo uma emoção</p><p>tão grande ao ver o desenho de número cem terminado, colado à minha prancheta,</p><p>às onze horas e trinta e quatro minutos da noite da segunda feira anterior ao dia em</p><p>que eu deveria entregar os meus cem desenhos à professora Cabello.</p><p>A minha reprodução de número cem estava exatamente igual ao desenho original.</p><p>- Uau. - Normani estava parada ao meu lado, com o queixo caído. Seu estado de</p><p>espírito era de tanto choque que sua voz quase não saiu.</p><p>Eu não conseguia falar absolutamente nada a respeito daquele desenho, na realidade,</p><p>mal podia acreditar que eu mesma o havia feito e mal podia acreditar que eu havia</p><p>conseguido terminar.</p><p>A contemplação do desenho cem me causava tantas emoções misturadas que de tão</p><p>enormes, ficaram entaladas no meio da minha garganta. Eu sentia orgulho de mim</p><p>mesma por ter conseguido acabar, por ter conseguido fazer os cem desenhos; sentia</p><p>muito mais orgulho de mim mesma por ter conseguido ter uma evolução tão</p><p>significativa e impressionante no que dizia respeito aos meus traços para desenho;</p><p>sentia-me preenchida por ter conseguido ser determinada por alguma coisa que eu</p><p>amava apaixonadamente e por fim, paradoxalmente me sentia grata por Camila</p><p>Cabello ter me desafiado daquela maneira, por ter me feito sentir a forma como</p><p>deveria desenhar para ter um traço próximo à perfeição, por ter tocado a minha mão</p><p>e guiado meus traços e assim me feito entender que o desenho</p><p>perfeito estava dentro</p><p>de mim e eu só precisava colocá-lo para fora; mas ao mesmo tempo, sentia-me</p><p>irritada com todo o resto que dizia respeito à ela e eu mal podia esperar pelo</p><p>momento em que eu poderia entregar aqueles desenhos e provar que eu era capaz</p><p>de fazer aquilo que ela provavelmente achara que eu não podia.</p><p>- Uma coisa você não pode negar, Laur... - Normani continuava parada ao meu lado</p><p>falando em um tom altamente contemplativo e pasmo. - Camila Cabello pode ser uma</p><p>bruxa, mas olha só como seus desenhos estão por causa do que ela mandou você</p><p>fazer... - A garota negra aproximou o rosto do desenho, ajeitando os óculos modelo</p><p>gatinho no rosto. - Ainda estou obcecada com os detalhes na maçaneta. Nem acredito</p><p>que isso tudo foi feito à mão. Você tem que ter usado alguma régua, não é possível. -</p><p>Ela falava, com o rosto quase colado no papel para enxergar melhor os detalhes e</p><p>assim, invadindo todo o meu espaço.</p><p>- Também não podemos negar que ela me deve uma mão nova. - falei, tentando</p><p>aparentar indiferença no assunto Camila Cabello.</p><p>Desde o sábado anterior, Normani nunca mais falara a respeito do assunto</p><p>"lesbianismo" comigo. Tampouco eu falara de Camila Cabello outra vez. Não que uma</p><p>coisa estivesse relacionada à outra... Ela havia percebido que o assunto era delicado</p><p>para mim e que eu não me sentia nada confortável em falar a respeito e assim,</p><p>respeitou isso. Essa era apenas uma das coisas maravilhosas sobre Normani Kordei:</p><p>ela sempre respeitava o meu espaço.</p><p>Girei na banqueta e pulei para fora e Normani prontamente sentou-se onde eu</p><p>estava, continuando com o rosto colado no desenho.</p><p>- É incrível como está exatamente igual. Parece que você tirou uma cópia, garota. -</p><p>Ela não cansava de falar do desenho. - Se eu não tivesse visto com meus próprios</p><p>olhos você fazendo isso, duvidaria que fosse verdade.</p><p>Eu me sentia feliz e realizada com o desenho de número cem, mas o noventa e nove</p><p>não estava tão diferente dele e tampouco o noventa e oito. A verdade é que desde o</p><p>meu momento com Camila Cabello na manhã de sábado, na sala da pranchetas da</p><p>HGSD, os desenhos começaram a fluir de mim com uma facilidade enorme.</p><p>Podia ser que aquela facilidade tivesse surgido pelo entendimento que ela</p><p>me fez ter sobre o movimento correto do meu pulso, sobre a maneira que eu deveria</p><p>guiar a lapiseira no papel, sobre as linhas serem expressões dos meus sentimentos,</p><p>da minha essência, mas também podia ser que aquela facilidade tivesse surgido do</p><p>sentimento pacífico que a presença dela me causara. A leveza de sua influência física</p><p>havia dado "start" em mim à uma vontade de fazer os sessenta desenhos que ainda</p><p>faltavam por puro prazer e não porque eu era obrigada a fazê-los para não ser</p><p>reprovada na matéria dela.</p><p>Ela me despertara, naquela manhã de sábado, um desejo espontâneo de desenhar</p><p>por puro amor ao fato de que a minha mão expressava a minha mente. Havia aberto</p><p>a torneira por onde vazava o meu amor pela arquitetura que antes apenas pingava e</p><p>agora poderia submergir cidades inteiras. Podia ser que fossem as duas coisas e</p><p>provavelmente o era. O que realmente interessa é que, não importavam quais eram</p><p>os motivos, se eram todos ou se era somente um, ELA estava presente naquilo. A</p><p>minha professora havia entupido o meu corpo ao limite com amor pela arquitetura.</p><p>Ela não havia me ensinado a desenhar. Ela havia me feito descobrir sozinha que eu</p><p>mesma podia me ensinar a desenhar. Ela havia dado nome à todos os sentimentos</p><p>que eu tinha em relação à minha escolha profissional. Ela havia aberto os meus olhos</p><p>para o tamanho imensurável do meu amor pela arquitetura e isso era de todas as</p><p>maneiras... impagável.</p><p>- Eu quero ver a cara dela quando eu entregar esses desenhos amanhã. - falei,</p><p>segurando a porta da geladeira com o pé, enquanto colocava água em um copo. -</p><p>Acho que todas essas noites mal dormidas vão ser recompensadas.</p><p>- Você quer ver a cara dela de "estou.chocada.porque.você.conseguiu.acabar" ou</p><p>você quer ver a cara dela de "estou.orgulhosa.porque.você.conseguiu.acabar" ? -</p><p>Nomani perguntou, tirando os óculos e finalmente se afastando do desenho.</p><p>Aquele tipo de assunto não era mencionado há dias e ouvir uma insinuação que</p><p>remetia aos meus supostos sentimentos exagerados em relação à minha professora</p><p>quase me fez cuspir a água que eu estava tomando. Normani percebeu e deu um</p><p>sorriso malicioso.</p><p>- Nem precisa mais responder. - Ela riu e eu revirei os olhos, tomando o resto da</p><p>água de uma vez só.</p><p>- Não importa, o que importa é que eu acabei. - falei, colocando o copo na bancada. -</p><p>E você não comece com isso de novo.</p><p>- Começar com o que? - seu tom era completamente irônico.</p><p>Normani pulou da banqueta e caminhou para perto de mim.</p><p>- Se eu não tivesse tomado toda a água desse copo, eu juro que dava um banho em</p><p>você agora, Normani Kordei. - Falei, semicerrando os olhos.</p><p>É claro que era brincadeira. Talvez nem tanto. Normani gargalhou.</p><p>- Você fica nervosa demais quando o assunto é distantemente mencionado, é muito</p><p>engraçadinho. - A garota passou ao meu lado apertando a minha bochecha.</p><p>- E você fica uma chatinha insistindo em um assunto sem nenhum sentido. - Falei,</p><p>saindo da cozinha que era um espaço muito pequeno para nós duas dividirmos por</p><p>muito tempo.</p><p>- Será? - Ela perguntou me olhando com desdém e virou o copo ingerindo em uma</p><p>golada só a água que havia colocado ali.</p><p>Ignorei, voltando à minha prancheta e organizando minhas lapiseiras e borrachas</p><p>dentro da pasta que levaria para a aula do dia seguinte.</p><p>- Eu sei que você acha que não tem nada a ver, mas considere pelo menos como uma</p><p>hipótese. Dê uma chance hipotética ao "se". "SE" a professora Camila fosse lésbica e</p><p>quisesse ficar com você, você ficaria? - Normani perguntou enquanto voltava para sua</p><p>cama e se jogava sob os lençóis bagunçados. - Ela não mexe nenhum pouquinho com</p><p>você?</p><p>"CLARO!", a palavra saiu como um grito em meus pensamentos.</p><p>A resposta da minha mente chegou incontrolável e antes mesmo que eu pudesse</p><p>pensar conscientemente. O meu inconsciente se manifestou e me deixou em estado</p><p>de alerta máximo. Arregalei os olhos involuntariamente em resposta ao susto que</p><p>aquele pensamento gritado me causara. Normani viu.</p><p>- Sua expressão disse tudo. - Ela falou, me olhando com ar de vencedora.</p><p>Suspirei e caminhei até a cama de Normani, sentando-me ao seu lado. Suspirei de</p><p>novo.</p><p>- Toda vez que falamos da professora Cabello você suspira mais que o normal. -</p><p>Normani assinalou.</p><p>Eu fiz uma careta. Tudo bem que era verdade e que ela tinha uma enorme vocação</p><p>pra psicologia porque vivia analisando o meu comportamento, mas ela não precisava</p><p>expressar isso em voz alta todas as vezes.</p><p>- Você precisa parar de me analisar tanto assim, estou ficando com medo. - Falei</p><p>brincando, enquanto encostava-me ao lado dela e deitava a cabeça em seu ombro.</p><p>- É involuntário. Cresci ouvindo a minha mãe dar uma de vidente toda vez que me</p><p>via. Tal mãe, tal filha... você sabe como funciona. - ela falou, cobrindo nossas pernas</p><p>com o edredom vermelho de Harvard.</p><p>Fiquei em silêncio, catando migalhas de palavras que eu não aceitava como</p><p>verdadeiras, tentando organizá-las pra finalmente pode-las dizer para Normani.</p><p>Desde o sábado anterior eu me recusara a pensar objetivamente no acontecimento</p><p>com Camila. Todas as minhas reações àquela aproximação eu enterrei no mais</p><p>profundo de mim no exato momento em que ela havia saído do laboratório de</p><p>pranchetas. Eu fugia dos meus próprios pensamentos conscientes, mas a verdade é</p><p>que a sensação da mão dela tocando e guiando a minha, não saía da minha mente</p><p>nem por um segundo se quer. Todas as vezes que eu movimentava a minha mão</p><p>para fazer um novo traço, conseguia sentir o toque suave de sua pele na minha.</p><p>A minha mente era um emaranhado extremamente confuso de pensamentos. Alguns</p><p>eu me forçava a pensar para não dar espaço aos que eu pensava involuntariamente.</p><p>Toda aquela conversa sobre a minha sexualidade com Normani e o momento</p><p>com</p><p>Camila haviam me deixado completamente bagunçada.</p><p>Afinal de contas, o que eu era?</p><p>Fato é que, não importava o quanto eu estivesse tentando fugir das minhas</p><p>sensações, não importava o quanto eu estivesse bloqueando as memórias daquela</p><p>manhã de sábado, elas estavam inquietas dentro de mim, como lava a ponto de</p><p>explodir de dentro de um vulcão.</p><p>- Aconteceu uma coisa... - falei baixinho, depois de fechar os olhos, ainda com a</p><p>cabeça apoiada no ombro de Normani.</p><p>- Que tipo de coisa? - a minha amiga perguntou cautelosamente, percebendo que</p><p>aquele era o momento que eu havia escolhido para conversar seriamente.</p><p>- No sábado... quando eu saí de manhã, depois daquela nossa...conversa... lembra? -</p><p>Normani fez "uhum", confirmando que sim e eu continuei. - Bem, eu fui para o</p><p>laboratório de pranchetas da HGSD. Eu estava lá, desenhando o "quarenta" quando,</p><p>de repente a professora Cabello apareceu ao meu lado e eu quase tive uma síncope,</p><p>porque me assustei, é claro. E ela foi tão...</p><p>- Lúcifer? - Normani supôs.</p><p>- Jesus. - Respondi.</p><p>- Jesus? - ela perguntou, alterando o tom de voz. - Como assim, Jesus?!</p><p>- É... tipo... Jesus. - respondi e no mesmo momento abri os olhos e me virei na cama,</p><p>sentando-me de frente para Normani que me olhava expressando todo o seu choque</p><p>e curiosidade. Estava tão estupefata que nem falou nada, apenas esperou que eu</p><p>continuasse. - Ela me ajudou a desenhar. Foi gentil comigo. Eu que fui um pouco</p><p>rude, pra falar a verdade, mas é porque nunca se sabe o que esperar dela, no final</p><p>das contas. - Eu estava contornando o H de "Harvard" escrito no edredom, com a</p><p>ponta do dedo, olhando para baixo. Não conseguia, por algum motivo, olhar para</p><p>Normani. - E bem... ela me mandou continuar desenhando e no início eu me recusei,</p><p>mas ela foi tão adorável... - os olhos da minha amiga se arregalaram quando ouviu a</p><p>palavra "adorável". Suspirei e prossegui. - E eu continuei a desenhar. No início ela só</p><p>observou, mas depois ela ficou atrás de mim... - nesse momento eu não consegui</p><p>mais segurar a avalanche de pensamentos e sentimentos que eu estava segurando</p><p>desde o sábado. Tudo saiu da minha boca como um carro sem freio a 400</p><p>quilômetros por hora. - ficou muito próxima...muito... Segurou a minha mão e me</p><p>mostrou como fazer os traços, desenhou comigo, falou algumas coisas que eu não sei</p><p>se foram no meu ouvido propositalmente ou só porque ela estava perto demais...</p><p>- Que coisas?! - Normani me interrompeu e seu tom revelou toda a</p><p>excitação que ela sentia pelo que estava escutando de mim.</p><p>- Coisas sobre o desenho. Sobre o desenho estar dentro de mim e que as linhas de</p><p>um desenho tem que ser uma expressão dos meus sentimentos. E depois disso ela,</p><p>simplesmente foi embora. Assim, exatamente desse jeito. Ela se afastou de mim</p><p>enquanto falava e foi embora. Eu fiquei lá, olhando pra ela com sei lá que expressão,</p><p>mas eu estava extasiada. E a pior parte de tudo não foi isso que eu acabei de contar.</p><p>A pior parte de tudo é que eu não conseguia parar de observar os detalhes dela, a</p><p>linha da clavícula onde o cordão se encaixa com perfeição, o pulso, o cheiro, o colar,</p><p>as mechas de cabelo soltas do coque, a elegância como se senta, como se move e a</p><p>SUA maldita voz, Normani Kordei, me dizendo que eu reparava demais nessas coisas</p><p>e que por causa disso sou... - travei e mordi o lábio inferior, sentindo meu coração</p><p>sem oxigenação.</p><p>- Lésbica. - Normani completou, usando um tom natural. - Uau! - Ela falou, relaxando</p><p>seu corpo que havia estado tenso enquanto eu falava e jogando-se para trás na</p><p>cama. - Lauren, eu não queria dizer o que vou dizer agora, mas eu acho que você</p><p>está mesmo a fim da professora.</p><p>- Eu não estou a f...</p><p>- Lauren. - ela sentou-se novamente na cama. - Você não precisa dizer essas coisas</p><p>para mim. Não faz diferença para mim se você está apaixonada pelo professor de</p><p>oitenta anos, por um elefante ou por Camila Cabello. Você vai continuar sendo a</p><p>mesma Lauren pra mim. É pra você que você precisa dizer as coisas, mas precisa</p><p>fazer isso com clareza e honestidade. É pra você que algumas coisas vão mudar. -</p><p>Normani segurou as minhas mãos. - Ser homossexual ou heterossexual não é uma</p><p>questão de caráter, é uma questão de amor e o amor está acima de todas as coisas.</p><p>É como se você preferisse comer banana ao invés de laranja. Não muda quem você é.</p><p>Só muda quem você ama, quem você prefere. Não é uma questão de gênero, é</p><p>questão de humanidade. - Ela fez um carinho breve no meu rosto. - Pode ser que</p><p>você não seja realmente lésbica e pode ser que todas as coisas que eu estou falando</p><p>sejam um monte de baboseiras que eu estou falando só porque estou desesperada</p><p>pra que você se sinta confortável com a vida, mas o que eu estou querendo dizer é</p><p>que você, sendo heterossexual ou não, não tem que explicar ou afirmar isso pra</p><p>ninguém, só pra você mesma.</p><p>"Sendo heterossexual ou não, você não tem que explicar ou afirmar isso pra</p><p>ninguém, só pra você mesma", repeti mentalmente o que Normani acabara de dizer e</p><p>dei à ela um sorriso de gratidão por ser tão compreensiva e por, de alguma forma,</p><p>dar algum entendimento para os meus sentimentos confusos.</p><p>- Eu estou tão confusa... - admiti fazendo um carinho em sua mão. - Quer dizer, eu</p><p>nunca havia pensando sobre isso. Eu nem sei falar sobre isso! Eu nunca havia</p><p>considerado a ideia de ser lésbica e de repente essa hipótese caiu na minha cabeça</p><p>feito um trator. E... - mordi o lábio inferior, fazendo uma força mental enormíssima</p><p>para conseguir completar a frase. - De repente toda essa hipótese faz sentido. Se eu</p><p>for mesmo lésbica eu vou estar perdida, Normani. Meus pais nunca vão aceitar e..</p><p>- Êpa, êpa, êpa. - Normani me interrompeu usando um tom de completa indignação.</p><p>- Lauren, se, por acaso, você entender que na verdade você gosta de beijar</p><p>mulheres, você não tem motivo algum pra ir até os seus pais e informar que você é</p><p>homossexual. Eventualmente eles vão saber e você vai precisar lidar com isso. Mas</p><p>não é como se você estivesse descobrindo que está grávida.</p><p>- Bem, não importa. Se, por acaso, eu entender que gosto de beijar mulheres, -</p><p>"Camila Cabello", o nome dela apareceu em neon na minha mente. - e falar agora ou</p><p>falar daqui a vinte anos, você pode ter certeza que no outro dia estarei morta. Isso</p><p>sendo muito otimista. Eu não sei lidar com isso. Não sei pensar no mundo a partir</p><p>dessa perspectiva. Não. Eu não posso ser lésbica. Eu estou só sugestionada pelas</p><p>coisas que você fala. É isso.</p><p>Normani me olhava com cara de tédio.</p><p>- Tá, tudo bem. Então vamos fazer um teste. Na verdade, você vai fazer um teste</p><p>consigo mesma. Amanhã, na aula dela, tente observar a maneira como você se sente</p><p>em relação a ela de uma maneira mais clara, mais objetiva. Tente pensar em si</p><p>mesma como lésbica. Dê uma chance ao "se". Você não precisa me dizer o que</p><p>pensou e o que concluiu, mas você precisa fazer isso para si mesma. O que acha?</p><p>- Acho que não entendi direito... - confessei. - O que quer que eu faça?</p><p>- Quero que você finja que é lésbica e veja como se sente em relação à Camila</p><p>Cabello. - Ela falou claramente.</p><p>Pensei um pouco sobre aquilo e embora eu me sentisse incomodada com a ideia,</p><p>achei que seria válido tentar.</p><p>- Humm.. Eu vou tentar, mas não sei se consigo. - falei, por fim.</p><p>- Tentar é o primeiro passo para o sucesso.</p><p>- Garota, você parece um livro de auto ajuda com essas frases feitas. - falei, rindo.</p><p>- Créditos à Andrea Hamilton, querida.</p><p>Eu sorri e Normani me puxou para um abraço.</p><p>- Aceitar quem a gente é de verdade é uma das partes mais difíceis da vida, Lauren,</p><p>mas no final é recompensador. Não tenha medo de ser você, seja lá o que você</p><p>descobrir que é. - falou em um tom amoroso que tocou meu coração como um colo</p><p>de mãe e depois soltou-me.</p><p>- Você já passou por isso? - Perguntei, querendo algum conforto, querendo ouvir de</p><p>alguém próximo dizer que poderia me ajudar a entender quem eu sou.</p><p>- É muito difícil ser negra em uma sociedade que segrega tudo. - ela respondeu,</p><p>mas</p><p>não pareceu incomodada com o assunto. - Grande parte do meu tempo na escola eu</p><p>estava sempre tentando ser como as garotas brancas. Só queria bonecas brancas e</p><p>coisas rosas, porque as garotas brancas usavam coisas rosas. Depois eu vi que eu</p><p>não podia ser branca porque eu tenho a pele escura. Sou negra. Então, me auto</p><p>segreguei mais uma vez. Comecei a me comportar como as garotas negras da minha</p><p>escola. Usava mil cores, só escutava o mesmo tipo de música que as garotas negras</p><p>escutavam e ainda assim eu não estava feliz. Foi então que eu percebi que eu não</p><p>precisava ser como as garotas brancas, nem como as garotas negras. Eu só precisava</p><p>ser eu e foi assim que eu me senti feliz com a vida. Comecei a usar coisas que EU</p><p>gostava de usar e não importava se eram coisas de negras ou brancas, eram coisas</p><p>MINHAS. E isso é tudo. - ela completou, segurando as minhas duas mãos com as</p><p>suas. - Foi um processo difícil, não foi nada fácil, mas no final é...libertador. -</p><p>Normani abriu aquele enorme sorriso e meu coração se encheu de conforto.</p><p>Eu sentira uma agonia horrível enquanto a escutara falar, porque desde cedo naquele</p><p>sentido que ela sofrera tanto eu sempre fora muito bem resolvida. Gostava do que</p><p>queria gostar e ponto. A minha cruz de aceitação era outra.</p><p>Suspirei antes de falar.</p><p>- Estou orgulhosa por você ser você, Mani. Espero um dia me encontrar do mesmo</p><p>jeito. - falei, apertando levemente seus dedos.</p><p>- Você vai, Laur. - a minha amiga me puxou para mais um abraço e em seguida me</p><p>deu um beijo no rosto. - Agora vamos dormir, temos aula da sua paix... - ela freou a</p><p>língua e se interrompeu. - da professora Camila muito cedo.</p><p>Eu ri.</p><p>- Você não tem jeito, Normani. - falei em um tom risonho. Ela riu.</p><p>Levantei da cama de Normani e desliguei a luz do quarto antes de deitar na minha</p><p>cama. Sentei-me à beira da minha cama e tirei a regata que vestia, trocando pelo</p><p>moletom cinza de "I LOVE NY" e deitei, cobrindo-me.</p><p>- Laur... - A voz de Normani soou através do silêncio escuro do quarto.</p><p>- Hum? - murmurei, agarrando o travesseiro de lado.</p><p>- Obrigada por confiar em mim. - Ela falou com a voz sonolenta. - Eu amo você.</p><p>Eu tinha certeza que o sorriso que eu abri no escuro do quarto poderia ter iluminado</p><p>aquele quarto. Era a primeira vez que trocávamos aquelas palavras e eu me sentia</p><p>feliz por ouvi-las porque sabia que eram verdadeiras.</p><p>- Também amo você, Mani. - falei, fechando os olhos em seguida para me entregar</p><p>ao sono mais tranquilo que eu tivera em uma semana.</p><p>Era de se esperar que a minha ansiedade fosse me fazer acordar antes da hora que</p><p>eu realmente precisava acordar, por isso, não me senti irritada quando abri os olhos,</p><p>despertando completamente e vi no celular que eram 5:30am.</p><p>Levantei, tentando não fazer barulho para não acordar Normani e fui para o banheiro.</p><p>Demorei mais que o normal debaixo do chuveiro e durante aquele tempo, repassei</p><p>toda a conversa com Normani, desde o sábado anterior até a da noite anterior, assim</p><p>como as minhas emoções em relação à Camila.</p><p>Depois de muito tentar organizar as ideias, cheguei à conclusão de que a sugestão de</p><p>Normani era uma boa alternativa para conseguir começar o processo de me entender</p><p>ou pelo menos, de entender o que estava acontecendo comigo naquele específico</p><p>momento da minha vida.</p><p>Preparei um café da manhã mais caprichado que o normal, para mim e para Normani,</p><p>principalmente, que havia se preocupado em fazer aquilo durante a semana que se</p><p>passara. Ela merecia todos os mimos do mundo da minha parte.</p><p>Para aquele dia eu estava tão especialmente bem disposta e com o espírito leve que</p><p>decidi ir com o visual mais caprichado para a aula. Peguei minha calça jeans clara</p><p>preferida, que eu adorava como me vestia, especialmente pelos rasgados da perna.</p><p>Calcei botas pretas e vesti uma blusa de manga comprida cinza escura que caía em</p><p>meu ombro. Por cima, antes de sair, usaria uma jaqueta de couro para não sofrer</p><p>com um eventual vento frio. Quando Normani acordou eu já estava completamente</p><p>arrumada e aproveitei o tempo que ela usou para se arrumar e comer, para ler, coisa</p><p>que eu não havia conseguido fazer decentemente desde que havia chegado em</p><p>Harvard.</p><p>- Fiu, fiu. - um assobio atrás de nós nos chamou atenção enquanto caminhávamos</p><p>rumo à HGSD, naquela manhã. - Nossa, Lauren, hoje você acordou mais inspirada do</p><p>que seus pais quando fizeram você.</p><p>Era Alec james e seu sotaque britânico soltando a pior cantada de todos os tempos. O</p><p>garoto inglês passou os braços pelo meu ombro e pelo de Normani, enfiando-se</p><p>forçadamente no espaço entre nós duas.</p><p>- Sua cantada não conquistaria nem um poste, Alec. - Normani o avisou, sorrindo</p><p>para ele.</p><p>Eu ri.</p><p>- Vocês, garotas, não tem piedade alguma com um pobre garoto sem amigos. - Alec</p><p>fez a expressão mais cinicamente triste de todos os tempos e depois riu.</p><p>Estávamos entrando na terceira semana de aula e já tínhamos notícias de que Alec</p><p>havia ficado com quase todas as calouras de Harvard.</p><p>- Acho que pelo menos 90% das calouras de Harvard teve muita piedade de você,</p><p>Alec. - falei em um tom brincalhão e ele riu.</p><p>- Assim parece que eu sou um garanhão, Lauren.</p><p>Paramos de andar automaticamente quando chegamos na esquina em que o caminho</p><p>dele se diferenciava do nosso. Alec se despediu com dois beijinhos de bochecha em</p><p>mim e em Normani e depois seguiu o seu caminho para o prédio de engenharia de</p><p>Harvard.</p><p>- Não gosto desse Alec. - Normani falou, assim que voltamos a andar. -</p><p>Não gosto mesmo.</p><p>- Por que? O que há de errado? - perguntei, realmente curiosa porque eu não via</p><p>nada de errado em Alec, exceto pelo fato de que ele era um galinha.</p><p>- Intuição...só intuição. - ela respondeu, encerrando o assunto.</p><p>Chegamos à sala no mesmo horário de sempre e encontramos as mesmas pessoas de</p><p>sempre, já reunidas e tendo a mesma conversa de sempre. Era incrível como as</p><p>pessoas repetiam comportamentos que as faziam se sentir confortáveis.</p><p>Como de costume, exatamente às 8am a professora Camila entrou pela porta e</p><p>talvez, somente talvez, a chance hipotética que eu havia resolvido dar ao "se eu fosse</p><p>lésbica", tenha sido levada à sério demais pelo meu organismo. A visão que tive dela</p><p>me tomou por tal arrebatamento que os pelos escassos do meu braço se arrepiaram e</p><p>a minha nuca, refletindo na minha espinha e o processo todo foi tão forte, mexeu</p><p>tanto com meu corpo que eu tive que me movimentar na cadeira para voltar a</p><p>encontrar uma posição confortável.</p><p>Os cabelos dela estavam mais lisos que de costume e mais brilhosos. Seus olhos</p><p>pareciam mais claros, mas isso era somente porque ao entrar na sala a luz do sol</p><p>refletiu diretamente em sua íris. A blusa social de manga cumprida azul turquesa</p><p>havia lhe caído tão bem que meus joelhos ficaram fracos. A calça social em cotton</p><p>satim em cor bege estava tão perfeitamente delineada em seu corpo que suas curvas</p><p>eram mais visíveis do que o normal. O salto alto que era também bege estava tão</p><p>bonito em seus pés que me tomou de tal sensação como se as pontas do salto</p><p>tivessem perfurado meus pulmões.</p><p>"Fecha a boca", dizia o bilhete que Normani havia jogado em cima da minha mesa.</p><p>Por algum motivo, naquele momento eu não liguei nenhum pouco para o fato de estar</p><p>de boca aberta para Camila Cabello.</p><p>Respirei profundamente, mas de maneira disfarçada e abaixei a cabeça no exato</p><p>momento em que ela encostou-se na mesa, como sempre fazia depois de colocar a</p><p>sua pasta preta, modelo PRADA, em cima da mesa.</p><p>"Desse jeito ela não está me ajudando a concluir que não sou lésbica", pensei,</p><p>passando a mão pela testa, ainda olhando para baixo.</p><p>- Bom dia. - Ela falou em um tom natural. - Hoje eu vou precisar da paciência de</p><p>vocês. Nossa aula será inteiramente teórica. Precisamos disso para vencer o</p><p>conteúdo. Caso queiram um tempo para descansar o cérebro, por favor, me avisem e</p><p>fazemos uma pause de cinco ou dez minutos. Sugiram que apenas anotem o que eu</p><p>falar e vocês acharem importante. Não anotem o que</p><p>for passado nos slides porque</p><p>esse material está disponibilizado online para vocês, portanto, não se preocupem. -</p><p>Ela se desencostou da mesa. - Alguma dúvida? Alguém quer falar alguma coisa? - Ela</p><p>perguntou, mexendo no cabelo, jogando-o cuidadosamente para o lado. Ninguém</p><p>respondeu. - Se tiverem dúvidas... E, por favor, tenham! Me interrompam e</p><p>perguntem. - Ela ajeitou a manga da camisa. - Muito bem, vamos lá.</p><p>Pelas próximas três horas de aula, Camila Cabello deu uma aula de brilhantismo para</p><p>a turma ARCH201501, a minha turma. Não houve uma pessoa sequer que tenha</p><p>pedido pausa, porque a sua didática era tão impressionantemente incrível que todas</p><p>as suas palavras entravam em nosso cérebro e pareciam ter estado ali desde sempre.</p><p>Durante a aula, algumas dúvidas surgiram, alguns pontos foram levantados e quando</p><p>se esperava que ela fosse arrogante em suas respostas, Camila Cabello ensinava,</p><p>explicava, explicava outra vez e explicava de novo. Não haviam limites para que seus</p><p>alunos aprendessem. Ela nos fazia pensar, nos fazia concluir, nos fazia entender e</p><p>aprender. Sua aula era tão cheia de brilhantismo que era quase um show de</p><p>purpurina intelectual.</p><p>- Eu quero que peguem esse livro na biblioteca, - ela estava segurando o livro para</p><p>toda a turma ver. - e leiam ele todo, é curto e cheio de imagens, como todo arquiteto</p><p>gosta, não é mesmo? - Toda a turma riu e ela se divertiu. - Ao final, tem uma</p><p>proposta de trabalho. Eu não vou dizer à vocês. Nem adianta ir logo pro final do livro</p><p>porque terão que ler pra realizar, de qualquer forma. Façam o passo 1. O passo 2</p><p>faremos na próxima aula, em sala. Estão dispensados.</p><p>Naquele dia, os alunos demoraram para sair porque de tão absortos que</p><p>estavam na aula, esqueceram-se da hora e não recolheram as coisas minutos antes</p><p>de acabar, como era de costume. Isso se aplicava à mim também.</p><p>Eu estava colocando algumas coisas dentro da mochila quando a professora Camila</p><p>me chamou em sua mesa.</p><p>- Senhorita Jauregui, pode vir até aqui, por favor? - Ela chamou-me, e depois voltou</p><p>o olhar para a tela do computador, onde voltou a digitar alguma coisa.</p><p>Como eu já sabia o que ela queria, peguei os cem desenhos de dentro da pasta e</p><p>caminhei até sua mesa.</p><p>- Estão aqui, professora. - Falei, colocando os desenhos em cima da mesa.</p><p>Ela olhou para os desenhos com um olhar de estranhamento e em seguida sua</p><p>expressão mudou para algo como "ah! Agora lembrei". Os pegou de cima da mesa e</p><p>olhou o desenho número um, analisando-o e depois fez o mesmo com o desenho de</p><p>número cem. Colocou os dois lado a lado em cima de sua mesa. Depois, colocou o</p><p>desenho de número um embaixo de volta na pilha de desenhos e ficou olhando para o</p><p>cem. Sua cabeça balançou levemente em algum tipo de afirmação e depois ela sorriu.</p><p>Era um sorriso de satisfação. Um sorriso de satisfação que fez meu estômago gelar</p><p>com uma emoção que eu não sabia nomear. E de repente, a pergunta de Normani</p><p>estava respondida: eu estava ansiosa para ver a cara dela de</p><p>"estou.orgulhosa.porque.você.conseguiu.acabar".</p><p>- Muito bem, senhorita Jauregui. - ela falou com ar de satisfação e olhou para cima,</p><p>me dando um sorriso tão doce, tão doce... Em seguida, colocou o desenho cem no</p><p>monte de desenhos e empurrou em cima da mesa em minha direção. - Seus</p><p>desenhos estão significantemente melhores, acredito que a senhorita tenha percebido</p><p>isto. Estou contente que tenha terminado.</p><p>- Obrigada... - agradeci timidamente. O elogio dela havia me feito sentir ainda mais</p><p>orgulhosa do meu trabalho. - Mas, a senhora não vai ficar com eles? - Perguntei, já</p><p>que ela os havia empurrado de volta para mim.</p><p>- Não. - ela respondeu, enquanto fechava o computador e o guardava na pasta. - A</p><p>senhorita fez esses desenhos para si mesma, não para mim. - Concluiu fechando o</p><p>zíper e em seguida, levantando-se. - Eu gostaria que a senhorita me acompanhasse</p><p>agora, é possível que se atrase para o almoço com seus colegas. É assunto de</p><p>máxima importância.</p><p>- Fiz algo errado? - Perguntei, sentindo-me completamente apavorada. Nunca se</p><p>pode confiar nas emoções que Camila Cabello faz você sentir.</p><p>- De forma alguma. Esperarei você na porta da sala. - ela disse e se encaminhou para</p><p>onde havia dito.</p><p>Eu segui de volta para a minha cadeira e contei brevemente para Normani o que ela</p><p>havia dito sobre os desenhos e que havia me dito para acompanhá-la. Normani ficou</p><p>histérica, mas eu não dei à ela tempo para me fazer mais perguntas, coloquei a</p><p>minha mochila nas costas e segui para fora da sala.</p><p>Camila estava olhando o relógio quando eu parei ao seu lado.</p><p>- Podemos ir? - perguntou.</p><p>- Sim, mas para onde vamos? - eu estava com medo, estava nervosa, estava</p><p>apreensiva.</p><p>Todas as possibilidades de coisas erradas que eu pudesse ter feito estavam passando</p><p>pela minha cabeça, mas deixar de arrumar a minha cama de manhã com certeza não</p><p>era o motivo para Harvard mandar a professora Cabello me dar algum tipo de</p><p>punição. Tudo bem que estava nas regras dos dormitórios de Harvard que ninguém</p><p>podia deixar o dormitório sem antes arrumar a cama, mas todo mundo fazia isso e</p><p>com certeza não era o motivo para a minha professora estar me levando sabe-se lá</p><p>para onde.</p><p>- Vamos para o meu carro. - Ela falou enquanto já andávamos por entre os alunos</p><p>apressados nos corredores da HGSD.</p><p>- Para o seu carro?! - Perguntei, exclamando.</p><p>- Sim, senhorita Jauregui. - Ela disse, passando à minha frente para poder</p><p>passar por um corredor estreito de alunos e eu fui logo atrás.</p><p>- Por que a senhora está me levando para o seu carro? - perguntei assim que voltei a</p><p>andar ao lado dela.</p><p>- Porque vamos pegar uma coisa. - ela respondeu no exato momento em que a porta</p><p>automática de saída se abriu e nós passamos por ela.</p><p>- Que coisa? - Perguntei, curiosa, mas ainda a acompanhando.</p><p>- Você sempre pergunta demais assim? - Ela me olhou com uma expressão divertida</p><p>e um sorriso fofo nos lábios.</p><p>Dei um sorriso sem graça e fiz uma careta.</p><p>- Só quando estou nervosa. - respondi, mordendo o lábio inferior timidamente</p><p>enquanto andávamos até o BMW 428i preto safira.</p><p>- E você está nervosa agora? - ela perguntou, tirando as chaves do carro da bolsa.</p><p>- Sim. - confessei em um tom baixo.</p><p>- Por que? - ela perguntou, destravando a porta do carro.</p><p>- Por que a senhora me pediu para lhe acompanhar e o assunto era de máxima</p><p>importância. - respondi com sinceridade e esperava obter alguma resposta.</p><p>Ela apenas sorriu e abriu a porta do carro.</p><p>- Pare com isso de "senhora". - ela disse. - Entre, vamos dar uma volta rapidamente.</p><p>- completou, entrando no carro e fechando a porta em seguida.</p><p>Eu não tive escolha senão dar a volta e abrir a porta do carro.</p><p>- Como assim, dar uma volta rapidamente? - perguntei antes de entrar no carro.</p><p>Ela suspirou e riu.</p><p>- Você pergunta demais. - disse.</p><p>- E você fala de menos. - retruquei, cedendo e entrando no carro.</p><p>- Evoluímos aqui. Já usou um pronome para falar comigo e entrou no carro. Estamos</p><p>indo bem. - Ela falou, dando a partida no carro.</p><p>- Tá, mas para onde vamos? - insisti.</p><p>- Vamos almoçar e depois faremos um trabalho. - Ela respondeu, dando o sinal de</p><p>que ia dobrar para a direita, quando saíamos do estacionamento da HGSD.</p><p>- O The Village fica para lá. - apontei para a esquerda, direção para onde ela deveria</p><p>ter dobrado. - E eu não posso fazer um trabalho, tenho aula do professor Newton,</p><p>não posso faltar.</p><p>- Não vamos ao The Village e o professor Newton já está avisado de que você está</p><p>fazendo um trabalho comigo. - ela respondeu, finalmente olhando para mim,</p><p>enquanto dirigia na direção oposta ao The Village.</p><p>"O que?! Como assim?!", a pergunta gritou em minha cabeça, mas decidi fazer</p><p>perguntas por tópicos e a mais importante não era sobre o professor Newton naquele</p><p>momento.</p><p>- Para onde vamos então? - a interpelei, sentindo-me três vezes mais curiosas.</p><p>Por que ela não podia falar logo tudo de uma vez?</p><p>- Vamos ao Deuxave. - Ela respondeu, ligando o som enquanto estávamos</p><p>empresas, mas quando leu que eu havia sido aceita na escola de arquitetura, seus</p><p>olhos caíram. Primeiro achou que havia algo errado, que Harvard havia cometido</p><p>algum engano e foi um tanto quanto difícil fazê-lo me ouvir dizer que não havia</p><p>engano nenhum, que eu realmente havia me inscrito na faculdade de arquitetura. A</p><p>decepção dele foi tanta que ficou quase um mês sem falar comigo normalmente. Se</p><p>dirigia à mim trivialmente.</p><p>Meu curso começaria depois das férias de verão, então fiquei cerca de cincos meses</p><p>sem nada realmente útil para fazer. Então, decidi ocupar meu tempo fazendo tantos</p><p>cursos quanto podia. Vendo o meu empenho e crescente amor pelo que estava</p><p>fazendo, meu pai começou a ceder e a se interessar pelo curso. Não demorou muito</p><p>para que visse que as oportunidades de ganhar dinheiro eram enormes e logo estava</p><p>planejando negócios da área, comigo. Meu pai se entusiasmava com a paixão que as</p><p>pessoas demonstravam pelo que faziam. "O segredo do sucesso é ser apaixonado</p><p>pelo que se faz", ele dizia sempre. Quando me viu mais apaixonada pela arquitetura</p><p>do que pela ideia de ser como ele, amoleceu o coração para a minha escolha.</p><p>Eu mal podia para esperar pelo início das aulas e quando o dia 3 de setembro chegou,</p><p>eu acordei três horas antes do que era realmente necessário e estava pronta uma</p><p>hora antes de ter que sair de casa. Não aguentei de ansiedade e fui para a sala</p><p>esperar por meus pais, que me levariam para a universidade.</p><p>Estava sentada no sofá, com minhas malas ao meu lado quando minha mãe desceu</p><p>as escadas.</p><p>- Está tão ansiosa assim para me abandonar? - Ela perguntou, dando-me um beijo na</p><p>testa e ajeitando a manga da camisa social que usava.</p><p>- Não, você sabe que não. Só estou ansiosa para começar algo que é só meu e...</p><p>- Eu sei querida. - Ela me interrompeu, dando-me um sorriso amável.</p><p>Minha mãe costumava ser uma pessoa doce e carinhosa, com exceção aos momentos</p><p>em que era contrariada. Ou as coisas caminhavam como ela queria, ou você teria um</p><p>mini apocalipse na sua vida. Eu sempre caminhava como ela queria, então, até</p><p>aquele ponto em minha vida, não havia sofrido de drásticos momentos com ela. Até</p><p>aquele momento...</p><p>- Papai já acordou? - perguntei, observando-a jogar os cabelos para trás.</p><p>- Seu pai, provavelmente está mais ansioso que você. Está acordado há horas. - Ela</p><p>respondeu, dando a volta no sofá e encaminhando-se para a cozinha.</p><p>- Você ao menos já comeu? - ela perguntou, parando rapidamente.</p><p>Respondi fazendo um movimento afirmativo com a cabeça e ela desapareceu cozinha</p><p>à dentro.</p><p>Deixar a minha casa e ir para a faculdade não era a coisa mais fácil que eu estava</p><p>fazendo. A minha vida inteira eu havia vivido grudada em meus pais e pensar que</p><p>não os veria por longos períodos de tempo me deixava com o coração do tamanho de</p><p>um grão de areia. Apesar de serem controladores e manipuladores e excessivamente</p><p>protetores, eles me davam todo o amor do mundo e por isso, eu costumava tentar</p><p>lidar da melhor forma possível com o comportamento sufocante deles. Para não me</p><p>entregar às fraquezas do meu coração molenga, estava focando minha mente na</p><p>minha ansiedade para começar o curso, além do fato de que poderia começar a</p><p>respirar um pouco mais, longe dos meus pais.</p><p>- Você poderia pelo menos fingir que não está ansiosa para nos deixar. - Meu pai</p><p>falou com um tom birrento e dengoso, enquanto descia as escadas.</p><p>Sorri para ele do sofá e quis levantar para abraçá-lo, mas achei melhor não</p><p>transformar tudo aquilo em um show dramático de lágrimas.</p><p>- Estou ansiosa para ir para a faculdade. Quanto a deixar vocês, minha vontade é de</p><p>colar meus pés nos chão. - respondi, dando-lhe um sorriso.</p><p>Ele aproximou-se do sofá e passou a mão pela minha cabeça,</p><p>permanecendo em um silêncio de ponderação. Falou depois de um suspirou</p><p>nostálgico.</p><p>- Lembro do seu primeiro dia de escola. Foi difícil deixar você lá, sozinha, sem estar</p><p>debaixo dos meus olhos e exposta a certos perigos. Eu achei que fosse ser a coisa</p><p>mais difícil que eu faria, mas a coisa mais difícil que eu estou fazendo é ir deixar você</p><p>na faculdade. Na escola, você voltava para casa, para os meus cuidados e ao sair da</p><p>escola, você era sempre a minha menininha. Mas na faculdade, você ficará por um</p><p>longo tempo e sairá de lá uma mulher.</p><p>Os olhos dele estavam cheios de lágrimas e aquele discurso todo estava me fazendo</p><p>sentir culpada por estar crescendo. Como se eu estivesse tirando dele o direito de</p><p>cuidar de mim, de ser meu pai.</p><p>- Pai... - falei baixinho e me levantei para abraçá-lo.</p><p>Ele fez sinal para que eu não falasse nada, mas me abraçou apertado, de forma que</p><p>eu tive bastante dificuldade para respirar. Me soltou dois minutos depois, limpando</p><p>uma lágrima em seu olho.</p><p>- Vou tomar o café da manhã e sairemos em seguida. - ele anunciou, depois sumiu</p><p>cozinha a dentro.</p><p>Às 7 am estávamos saindo de Boston, onde eu havia morado a vida inteira, rumo à</p><p>Cambridge, a cerca de 7 km de distância através do Charles River. Assim, cerca de 20</p><p>minutos depois, estávamos circulando a entrada dos dormitórios da Universidade de</p><p>Harvard, na St Oxford. Meu pai parou o carro exatamente na frente do edifício</p><p>Greenough, um dos quatro dormitórios de Harvard para calouros.</p><p>Um silêncio mortal instalou-se no carro. Era hora de dar adeus. Ninguém ousava</p><p>falar. Pelo menos eu não seria a primeira a falar alguma coisa. Agora que estava de</p><p>frente para o meu novo "lar", um certo medo estava materializado em bola de boliche</p><p>no meio da minha garganta. Minha mãe foi a primeira a falar.</p><p>- Eu sei que já recomendei mil vezes e que já fiz mil "palestras" para você sobre</p><p>como deve se comportar longe de nós. Nada de álcool, drogas, sexo ou qualquer</p><p>coisa que você não faria na presença de seu pai e eu. Você está aqui para estudar e</p><p>não para se tornar uma garota sem futuro que reprovou em todas as matérias da</p><p>faculdade e desperdiçou uma chance que poucas pessoas tem. Se você vacilar, eu e</p><p>seu pai tiramos você de Harvard. - ela me alertou e eu apenas concordei com a</p><p>cabeça, até porque não tinha intenções de fazer nada daquilo. Pelo menos não muito.</p><p>- Tudo bem mãe. - respondi simplesmente.</p><p>- Ligue-nos pelo menos uma vez no dia. Se você não der sinal de vida pelo menos</p><p>uma vez no dia, lembre-se que estamos somente a vinte minutos de distância e você</p><p>não vai querer dois pais desesperados de preocupação caçando você por Harvard. -</p><p>meu pai disse sério, mas eu ri.</p><p>- Não se preocupe, pai, ligarei todos os dias. - fui sucinta mais uma vez.</p><p>- Tudo bem, vamos levá-la até seu quarto. - disse meu pai.</p><p>Dez minutos depois, estávamos no sexto andar, abrindo a porta do quarto HA01, que</p><p>ainda estava vazio. Uma parte de mim gostou que não houvesse ninguém para</p><p>presenciar eu chegando com meus pais. Outra parte de mim não gostou de não ter</p><p>visto ainda a minha colega de quarto.</p><p>Seu nome era Normani Kordei, tinha a mesma idade que eu, era filha única, morara a</p><p>vida toda em New York e também estudaria arquitetura. Já sabia algumas</p><p>informações sobre ela, porque um mês antes de começarem as aulas, éramos</p><p>obrigados preencher um formulário enorme dizendo suas preferências, hábitos, com</p><p>quantas pessoas gostaria de morar e as características que gostaria que seus</p><p>roommates tivessem. De acordo com Harvard, Normani Kordei era a colega de quarto</p><p>perfeita para mim. Não que eu não confiasse nos julgamentos de Harvard, mas eu</p><p>estava com medo de que eu e ela acabássemos nos odiando.</p><p>Meus pais me ajudaram com as malas no quarto, mas quando tentaram</p><p>começar a arrumar as coisas por mim, os adverti dizendo que queria fazer aquilo</p><p>sozinha. Pude ver em seus olhos uma tristeza repentina, mas que logo se dissipou</p><p>quando eu os abracei conjuntamente e disse que os amava. Eles quase não saíram do</p><p>quarto, esforçando-se para encontrar algo que justificasse um pouco mais sua</p><p>permanência, mas em determinado momento não houve mais jeito e foram obrigados</p><p>a partir, fazendo-me sentir de novo o sentimento de culpa por estar</p><p>paradas</p><p>esperando o semáforo abrir.</p><p>- Mas isso fica em Boston! - destaquei, sentindo-me realmente surpresa com a</p><p>informação.</p><p>- Eu sei. - ela respondeu calmamente. - Se estou indo pra lá, é porque sei onde fica,</p><p>Lauren. - ela deu um sorriso que expressou todo o seu divertimento com a situação.</p><p>- Ah, sério?! Não diga... - revirei os olhos. - Por que está me levando para almoçar</p><p>em Boston, professora? - perguntei. - E que tipo de trabalho vamos fazer depois do</p><p>almoço?!</p><p>- Vou levar você para almoçar em Boston porque o que vamos fazer é em</p><p>Boston. - ela respondeu, virando a cabeça completamente para me olhar.</p><p>Seu olhar estava leve e divertido, mas ainda havia aquele ar de quem me</p><p>desvendava, de quem me despia.</p><p>- E o que vamos fazer? - perguntei e ela deu uma gargalhada.</p><p>- Você parece uma criança de dez anos que pergunta o por quê de tudo. - respondeu,</p><p>acelerando pela auto estrada que levava à ponte sobre o Rio Charles, à caminho para</p><p>Boston.</p><p>Pelos próximos vinte minutos, atravessamos a ponte, partindo de Cambridge para</p><p>Boston e pegamos o caminho para o Deuxave, um dos melhores restaurantes da</p><p>cidade.</p><p>Camila parou o carro na frente do restaurante e nem desligou o carro, apenas desceu</p><p>e eu a segui.</p><p>- Olá, senhorita Camila. - O manobrista a cumprimentou, segurando a mão dela para</p><p>ajuda-la a subir a calçada. - Como está hoje? - perguntou educadamente.</p><p>- Muito bem Edgar, e você? - Ela foi extremamente educada com ele.</p><p>Já era claro para mim que ela o conhecia e era frequentadora assídua do lugar.</p><p>- Melhor agora com a sua presença, senhorita Camila. Tenha um bom almoço.</p><p>- Obrigada. - ela disse, encaminhando-se para a porta de entrada. - Venha Lauren,</p><p>não temos muito tempo.</p><p>A acompanhei e fomos tão bem recebidas quanto jamais havia sido naquele</p><p>restaurante. Eu já havia estado lá uma centena de vezes porque adorava a</p><p>arquitetura do lugar, tudo deixava as pessoas muito mais próximas, era um ambiente</p><p>extremamente agradável, mas nunca havia tido um tratamento tão polido quanto tive</p><p>quando estava com ela.</p><p>- O que quer comer? - ela perguntou, ignorando o próprio cardápio.</p><p>- Vou comer Coq au vin (galo ao vinho). - disse também sem olhar o cardápio. Eu</p><p>sempre comia coq au vin quando ia ao Deuxave.</p><p>Ela me olhou surpresa.</p><p>- Já veio aqui? - perguntou, curiosa.</p><p>- Quase sempre, quando morava em Boston.</p><p>- Como nunca lhe vi aqui? - franziu o cenho.</p><p>- Não sei... - respondi sem realmente saber como responder. - Por que? Deveria?</p><p>- Estou sempre aqui, a probabilidade de eu não ter lhe visto é mínima. - ela falou,</p><p>usando um tom disfarçadamente intrigado.</p><p>- Você vem sempre aqui? - perguntei apenas por perguntar, já que era óbvio que sim.</p><p>- Sim. - respondeu rapidamente, já que o garçom estava perto para fazer nossos</p><p>pedidos.</p><p>- Senhorita Camila! - O garçom exclamou, sorridente. - O mesmo de sempre?</p><p>- O mesmo de sempre, Frank. - respondeu gentilmente.</p><p>- E para a senhorita? - ele se dirigiu à mim da mesma maneira simpática.</p><p>- Coq au vin, por favor. - respondi do mesmo modo.</p><p>- Seu pedido será entregue em minutos. - Ele disse, retirando-se.</p><p>O nosso momento no Deuxave foi breve. O pedido realmente demorou apenas alguns</p><p>minutos e não demoramos para comer. Tivemos diálogos triviais com mais alguns por</p><p>quês sendo respondidos, mas nada com grande relevância. Apenas o suficiente para</p><p>eu reafirmar o quanto Camila Cabello era impressionante.</p><p>Não havia nenhum tema sobre o qual ela não soubesse conversar profundamente à</p><p>respeito. Não havia nada pelo que ela não parecia se interessar. Particularmente à</p><p>arquitetura, ela demonstrava tanta devoção que apenas algumas palavras dela à</p><p>respeito me deixaram em completo êxtase.</p><p>Quando estávamos no carro, indo para qualquer lugar que ela não havia</p><p>me dito ainda, observei uma lembrança para a qual eu não havia dado importância no</p><p>momento em que aconteceu. Havíamos saído do Deuxave sem pagar a conta.</p><p>- Oh meu Deus! Não pagamos a conta! - exclamei e percebei que Camila foi tomada</p><p>por um sobressalto, mas logo em seguida riu e relaxou. - Por que está rindo?</p><p>- Porque você me assustou. - explicou, atenta à rua e depois olhou para mim.</p><p>- Mas não pagamos a conta! - ressaltei a informação mais importante novamente.</p><p>- Eu sei. - ela disse, parando o carro no acostamento de uma estrada quase sem</p><p>movimento. - Mas não se preocupe com isso. - falou e depois saiu do carro.</p><p>Fiz o mesmo e à segui até a mala, para onde ela havia ido.</p><p>- O que estamos fazendo aqui? - perguntei, apoiando-me de lado no carro enquanto</p><p>ela recolhia algumas coisas dali de dentro.</p><p>- Será que algum dia vou conseguir ensinar você a ser mais paciente? - ela virou o</p><p>rosto para mim, ainda um pouco abaixada por estar mexendo na mala de seu carro e</p><p>abriu o sorriso mais amável que eu já vira.</p><p>Até aquele exato momento eu estivera ansiosa demais para me lembrar ou dar</p><p>atenção às minhas emoções, mas aquela imagem reacendeu meus sentimentos como</p><p>um vulcão. Eu estivera camuflando para mim mesma, durante todo o tempo em que</p><p>passara com Camila, as sensações que ela me causava. O nervosismo pela situação</p><p>estranha, a tensão por não saber o que iria fazer com ela e para onde ela estava me</p><p>levando me fizeram desfocar do motivo pelo qual eu estava me deixando ser levada</p><p>por ela para onde quer que ela estivesse me levando: a bagunça emocional que ela</p><p>me causava.</p><p>O sol, pela segunda vez no dia, estava contribuindo para que fosse difícil eu ter um</p><p>comportamento heterossexual. Era impressionante como o sol combinava com ela,</p><p>como a luz solar deixava a pele dela com uma cor vibrante, com uma textura</p><p>atraente. Senti um formigamento subir pelo meu peito e o ar faltar.</p><p>- Eu... - tentei falar qualquer coisa enquanto me forçava a lembrar o que ela havia</p><p>falado, mas seja lá o que fosse, eu já havia esquecido completamente. - Eu...</p><p>- Está tudo bem? - ela perguntou, entregando para mim uma prancheta com folhas e</p><p>carregando consigo mesma uma outra prancheta e um estojo técnico.</p><p>- Sim. Vamos desenhar? - a indaguei, curiosa com todo o material de desenho.</p><p>- Vamos. - ela respondeu, fechando a mala do carro e travando o mesmo com o</p><p>alarme da chave.</p><p>Caminhamos por cinco minutos por um estreito caminho que acabou bem às margens</p><p>do Rio Charles. Do outro lado podíamos ver Cambridge, à direita a enorme The</p><p>Leonard P. Zakim Bunker Hill Bridge, a ponte sobre o Rio Charles, que liga Boston à</p><p>Cambridge. É a maior ponte suspensa por cabos do mundo. Mesmo de longe era</p><p>grandiosa.</p><p>À direita, havia um pequeno banco, pintado em branco, onde Camila sentou e fez</p><p>sinal para que eu fizesse o mesmo e assim, o fiz. Entregou-me uma lapiseira e uma</p><p>borracha.</p><p>- Vamos desenhar a ponte Zakim. - ela disse, simplesmente.</p><p>- Isso faz parte da minha avaliação? - perguntei.</p><p>Não que eu não fosse fazer se não fosse. Eu já estava ali e me sentia muito inspirada</p><p>à desenhar, mas eu queria entender o motivo de ela ME levar para aquele lugar para</p><p>desenhar comigo.</p><p>- Com toda certeza. - Camila respondeu, com um sorriso cínico no rosto.</p><p>Sua boca ficava particularmente bonita quando ela dava aquele sorriso que eu havia</p><p>conhecido tão recentemente, mas já me parecia muito familiar. Revelava um lado</p><p>diferente da minha professora. Um lado que eu desconfiava que nunca veria dentro</p><p>dos muros de Harvard.</p><p>Acenei positivamente com a cabeça enquanto a olhava. De perfil ela</p><p>conseguia ser tão bonita quanto de frente. Seu rosto era tão bem desenhado que eu</p><p>quase podia jurar que aquela imagem que eu via era um desenho detalhista.</p><p>"Perfeita", a palavra surgiu em minha cabeça e ao invés de expulsá-la como havia</p><p>feito outras vezes, sempre que alguma palavra inoportuna sobre ela surgia em minha</p><p>cabeça, eu apenas me permiti concordar com aquele pensamento inconsciente.</p><p>"É...ela é perfeita".</p><p>- Por que está me olhando assim? - Ela perguntou sem nem sequer virar o rosto. Ela</p><p>havia percebido o meu olhar.</p><p>Seus olhos estavam</p><p>variando entre a ponte ao horizonte e o papel em suas pernas.</p><p>Alguns traços já surgiam aleatoriamente.</p><p>- Você está perguntando muitos por quês, professora. - falei, desviando o olhar para</p><p>a minha folha de papel.</p><p>Percebi um sorriso surgir nos lábios dela quando olhei para a ponte. Comecei a traçar</p><p>algumas linhas, dando a leveza que já me era natural depois dos cem desenhos que</p><p>eu havia feito.</p><p>- Não é incrível o que 78 horas e 42 minutos de convivência podem fazer? - ela disse,</p><p>com o olhar fixo na ponte, riscando mais um traço no papel, dessa vez sem olhar,</p><p>mas saindo tão perfeito quanto se tivesse olhado.</p><p>- 78 horas e 42 minutos? Como sabe disso? Você contou? - Perguntei, parando de</p><p>desenhar por alguns segundos. Estava chocada.</p><p>- Acabei de contar, na verdade. - Ela disse, como se fosse a coisa mais simples do</p><p>mundo.</p><p>- É verdade o que dizem, então? - Perguntei mais para mim mesma do que para ela.</p><p>- É. - Ela respondeu sem dar muita importância, concentrada demais em desenhar.</p><p>Camila nem precisou me perguntar a respeito do que eu estava falando. Ela era</p><p>esperta, era perspicaz demais para não saber que os alunos comentavam a respeito</p><p>dela.</p><p>- Agora vamos parar de conversar. - ela disse. - Trouxe você aqui para desenhar. -</p><p>virou para mim e sorriu. - Conversamos depois, okay?</p><p>- Ok. - disse-lhe, retribuindo o sorriso.</p><p>E assim como ela quis, assim foi. Pelas próximas quatro horas, desenhamos</p><p>ininterruptamente. Além da ponte, apenas por necessidade mútua de nossas almas</p><p>envolvidas pelo momento, desenhamos todo o cenário que estava ao alcance de</p><p>nossas vistas.</p><p>Já estava escurecendo quando entreguei-me ao cansaço e finalizei meu desenho. O</p><p>resultado ficara melhor do que eu esperara. Camila terminava o detalhe da ponta</p><p>mais alta do edifício de engenharia de Harvard, que era visível de onde estávamos.</p><p>Ela não percebeu que eu havia terminado e eu fiz questão de não deixar claro que</p><p>estava apenas olhando para ela, com os olhos colados no papel.</p><p>Ela, a lapiseira, o papel e a paisagem pareciam parte de uma coisa só. Eu não</p><p>imaginava que vê-la desenhando me deixaria em um estado de tanta contemplação.</p><p>Quando ela desenhava, ela fazia parte do que desenhava. Sua atenção estava tão</p><p>fortemente fixa no ato de desenhar, que ela mesma parecia um desenho vivo. Ela fez</p><p>um último risco e se desconectou. Olhou para mim e naquele momento eu vi Camila</p><p>Cabello, a arquiteta, a professora, a gênio, a mulher, o ser humano, tudo de uma vez</p><p>só, e não fragmentada como costumava vê-la. Naquele sorriso, Camila Cabello estava</p><p>exposta. Absolutamente exposta.</p><p>- Por que você me olha desse jeito? - ela perguntou, inclinando levemente a cabeça</p><p>de lado, olhando-me séria.</p><p>Desviei o olhar para baixo e procurei uma resposta que justificasse o que quer que</p><p>fosse que ela havia visto na maneira como eu a olhava. Busquei uma resposta</p><p>verdadeira, ainda que não fosse 100% verdadeira.</p><p>- É que a senhora...</p><p>- Você. - ela me corrigiu.</p><p>- Você... - me corrigi e continuei. - É admirável. Quando você estava desenhando eu</p><p>vi todos os motivos pelos quais eu escolhi estudar arquitetura. É como se a</p><p>arquitetura ganhasse vida em você. - apertei um pouco os olhos, me atrapalhando</p><p>com as palavras. - Desculpe, estou parecendo uma louca, mas... é que... eu queria</p><p>que as pessoas vissem a arquitetura em mim, algum dia, como eu vejo em você.</p><p>Ela estava extremamente séria, com o olhar fixo no meu. Parecia querer abrir o meu</p><p>corpo e estudar cada célula minha. Senti um frio subir subitamente pela minha</p><p>espinha e gelar a minha nuca. Não consegui encará-la de volta por muito tempo,</p><p>então desviei o olhar.</p><p>- Você não está parecendo uma louca. - ela falou, convicta. - Venha, vamos! - Ela</p><p>levantou e nem me esperou, começou a andar, carregando suas coisas de volta para</p><p>o carro.</p><p>- Ainda vamos em outro lugar? - Perguntei, seguindo-a.</p><p>- Vamos, mas é a caminho de Cambridge, não se preocupe.</p><p>Eu não me preocuparia mesmo que ela não me dissesse para onde iríamos. Naquele</p><p>ponto, eu estava tão envolvida com a ideia de admirá-la que não me importava mais</p><p>com as questões lógicas das coisas. Nem a chance hipotética ao "se", sugerida por</p><p>Normani, estava sendo lembrada. Eu estava simplesmente vivendo o "se". E o "se",</p><p>talvez não fosse mais tão "se" assim.</p><p>Estávamos cruzando a ponte Zakim, voltando para Cambridge, quando Camila parou</p><p>o carro no acostamento, bem embaixo do eixo de sustentação dos cabos, no meio da</p><p>ponte.</p><p>- Por que paramos? Deu problema no carro? - perguntei, antes de perceber ela</p><p>descendo do carro.</p><p>Ela nem se deu ao trabalho de me responder, apenas caminhou para a extremidade</p><p>da ponte e me esperou lá. O sol já estava quase desaparecendo e de um lado da</p><p>ponte já estava escuro, do outro, o sol dava adeus. Saí do carro e fui até ela,</p><p>apoiando as minhas mãos no parapeito da ponte.</p><p>- Feche os olhos. - ela falou, olhando para cima.</p><p>- Por que? Vai me jogar da ponte? - perguntei em um tom brincalhão.</p><p>Ela virou o rosto para mim e seu olhar foi tão profundo que minhas pernas</p><p>enfraqueceram. Segurei-me, apertando as mãos no parapeito da ponte e Camila</p><p>desviou o olhar para as minhas mãos e depois para os meus olhos, outra vez.</p><p>- Feche os olhos, Lauren. - sua voz era suave, mas imperativa.</p><p>Eu fechei.</p><p>- Você desenhou essa ponte por quatro horas. Agora eu quero que você a sinta. Cada</p><p>pedaço construído é um mundo. Isto aqui é o seu mundo agora. Sinta isto como um</p><p>organismo vivo. Sinta as vibrações da ponte. Sinta-a como se ela fosse uma extensão</p><p>do seu corpo. - ela disse e mesmo de olhos fechados eu pude sentir o peso do seu</p><p>olhar sobre mim.</p><p>Eu não sabia por que, mas cada palavra dela fazia o meu coração pulsar na boca com</p><p>mais força e mais força. Minha mente foi absorvida por um êxtase tão leve que eu</p><p>quase podia sentir os cabos e toda matéria prima que constituía aquela ponte</p><p>atravessar o meu corpo, como se fosse o meu próprio sangue. Levantei a cabeça e</p><p>respirei profundamente o ar que corria e junto com ele, tudo o que estava naquele</p><p>ambiente se entranhou no meu corpo, como se fosse oxigênio. Ainda que</p><p>completamente absorvida por sensações completamente pulsantes dentro de mim,</p><p>ainda que tomada pelas emoções de estar aprendendo a sentir o mundo e não só a</p><p>vê-lo, eu sentia-me envolvida pelo olhar de Camila.</p><p>Em meio ao silêncio de nossas bocas e ao barulho distante dos carros, a voz dela</p><p>soou muito peculiar em meu ouvido quando ela colocou-se atrás de mim e sussurrou</p><p>em meu ouvido:</p><p>- Eu vejo a arquitetura em você tanto quanto vê em mim, Lauren.</p><p>E foi exatamente neste momento em que eu escancarei o meu coração para Camila</p><p>Cabello.</p><p>Alexithymia</p><p>Lauren's pov</p><p>Alexithymia (n.): A dificuldade em descrever sentimentos para outra pessoa.</p><p>- NORMANI! - gritei, jogando-me de costas na porta do quarto com todo o meu peso,</p><p>fazendo-a bater com muita força e consequentemente fazendo muito barulho.</p><p>Normani foi tomada por um susto tão grande que virou-se na cama em desespero e</p><p>acabou caindo no chão.</p><p>- EU SOU LÉSBICA. - dei outro grito abafado, sem nem me importar com o fato de</p><p>que minha amiga estava caída no chão, me olhando como se eu fosse um espírito do</p><p>mal, pronto para possuir seu corpo.</p><p>A minha respiração estava pesada e eu sentia meus joelhos cada vez mais fracos. A</p><p>minha cabeça estava girando tanto quanto as lâminas de um liquidificador ligado na</p><p>potência máxima. Eu não conseguia formar pensamentos coerentes. Tudo estava</p><p>passando pela minha consciência como um raio e eu não conseguia entender</p><p>nenhuma vírgula do que se passava na minha cabeça. O único pensamento que era</p><p>claro era: "eu sou lésbica". A sensação que eu tinha era de estar vomitando aquele</p><p>pensamento, como se estivesse engatado em mim e fosse tão grande que eu não</p><p>conseguia parar de colocar para fora.</p><p>Minhas pernas cederam à fraqueza e ao desespero emocional que emanavam por</p><p>todo o meu corpo e eu escorreguei, porta abaixo, batendo o bumbum no chão com</p><p>força, tal foi o tamanho do peso com que deixei meu corpo</p><p>cair.</p><p>Por instinto, Normani levantou-se em um pulo e correu até mim quase sem realmente</p><p>levantar-se completamente.</p><p>- OH MEU DEUS, LAUREN! - ela exclamou, ajoelhando-se no chão com tanta pressa e</p><p>falta de zelo com o próprio corpo que o som do choque de seu joelho com o piso foi</p><p>um estalo. - O que aconteceu?! - a minha amiga perguntou-me, segurando o meu</p><p>rosto com as duas mãos e me forçando a olhá-la. - Eu achei que tivesse desmaiado!</p><p>Meu Deus! - seu tom melhorou quando percebeu que eu estava de olhos abertos,</p><p>mas ainda havia tanta preocupação em sua voz que por um momento eu consegui</p><p>sentir alguma coisa além do congelamento causado pelo pânico: culpa por ter</p><p>assustado tanto a minha amiga.</p><p>Passou tão rápido quanto veio. O pensamento avassalador que tomava conta de cada</p><p>molécula minha veio outra vez, como um tsunami: destruidor, impiedoso, enorme,</p><p>consumidor.</p><p>- Eu sou lésbica. - minha voz saiu tremida e baixinha. Meus dentes chocavam-se uns</p><p>nos outros a cada tentativa fracassada de emitir um som coerente.</p><p>Todo o meu corpo tremia. A origem dos tremores eu não sabia se era o meu coração</p><p>ou o meu estômago, mas àquela altura eu desconfiava que os dois fossem uma só</p><p>coisa. Não duvidaria nada se tivessem se unido.</p><p>- Você está muito gelada, Lauren! - Normani exclamou outra vez, ignorando o que eu</p><p>havia dito, tocando em minha mão e em seguida, em minha testa.</p><p>Seu olhar era alarmado em preocupação e eu queria dizer à ela que eu estava bem,</p><p>que ela não precisava se preocupar, mas a verdade é que eu não estava nada bem.</p><p>Eu tinha um terremoto, abalando todas as minhas estruturas, acontecendo dentro de</p><p>mim naquele exato instante.</p><p>- Olhe para mim, Laur. - Normani falou em um tom mais ameno, segurando o meu</p><p>rosto com as duas mãos e assim, eu a olhei. Ela estava tentando se acalmar para me</p><p>acalmar, eu percebi em seu olhar. - Você precisa respirar fundo e se acalmar. Eu não</p><p>sei o que aconteceu pra você ficar assim, mas antes de qualquer coisa, você precisa</p><p>amenizar esse turbilhão dentro de você. Certo? - ela disse, olhando no fundo dos</p><p>meus olhos. Eu apenas concordei com a cabeça. - Okay, eu vou buscar um copo de</p><p>água para você e eu quero que enquanto eu faço isso, você respire fundo e tente não</p><p>pensar no que está pensando agora, seja lá o que for. - o polegar da minha amiga</p><p>deslizou pela minha bochecha. - Acha que consegue fazer isso? - ela perguntou e eu</p><p>acenei positivamente com a cabeça outra vez. - Ótimo, muito bem. Eu já volto.</p><p>E assim, Normani se levantou e andou até a cozinha tão rápido que eu mal</p><p>a vi sair de perto de mim. Ou foi só a minha mente turbulenta que não estava me</p><p>deixando prestar atenção coerente às coisas.</p><p>Eu não precisei nem dos vinte segundos que Normani levou indo à cozinha e</p><p>enchendo um copo com água, para lembrar o que acabara de acontecer, poucos</p><p>minutos atrás, com Camila Cabello, na frente do prédio de dormitórios dos freeshman</p><p>de Harvard.</p><p>A lembrança voltou como um raio: rápida, mas destruidora.</p><p>'Flashback - Acostamento da ponte Zakim - Quarenta minutos antes.'</p><p>- Eu vejo a arquitetura em você tanto quanto vê em mim, Lauren. - Camila sussurrou</p><p>em meu ouvido, depois de colocar-se atrás de mim.</p><p>Abri os olhos imediatamente, como resposta ao meu coração que explodiu dentro da</p><p>minha caixa torácica no exato momento em que meu cérebro deu significado àquelas</p><p>palavras. Eu não sabia qual era o motivo de o meu coração estar em processo de</p><p>ebulição naqueles exatos vinte segundos em que permaneci calada. Não sabia se o</p><p>motivo era o fato de que a minha professora mais brilhante havia dito que via a</p><p>arquitetura em mim tanto quanto eu via nela ou se o motivo era o fato de ela estar</p><p>tão perto de mim. Tão perto que...</p><p>- Você só precisa ver a arquitetura em você, também. - ela concluiu, usando o</p><p>mesmo tom de voz calmo. - Então o mundo será seu.</p><p>O vento que batia em meu rosto deu forma quase que física, quase que palpável ao</p><p>som da voz dela, que beijou a minha pele e cobriu a minha euforia de calmaria.</p><p>Eu estava quase pronta para formular uma frase com o mínimo de coerência quando</p><p>ela passou o braço em volta de mim e segurou a minha mão direita, tirando-a do</p><p>parapeito da ponte. Fosse o que fosse o que ela pretendia fazer, foi impedida pelo</p><p>meu gemido de dor, quando levantou a minha mão.</p><p>- Ai... - reclamei baixinho, sentindo o meu pulso doer.</p><p>Eu não queria ter reclamado. Queria tê-la deixado fazer o que ia fazer com a minha</p><p>mão, mas o incômodo foi repentino e muito grande para que eu tivesse tempo de</p><p>assimilar e "engolir" a dor.</p><p>- Está doendo muito? - ela perguntou, franzindo o cenho levemente.</p><p>Fez-me virar de frente para ela e analisou mais minuciosamente e com cuidado, o</p><p>meu pulso.</p><p>- Um pouco... - menti.</p><p>Meu pulso estava latejando por causa dos cem desenhos que ela havia me mandado</p><p>fazer e naquele momento, um pouco mais por causa das quatro horas desenhando a</p><p>ponte Zakim.</p><p>- Sei bem o quanto é esse pouco. - Ela respondeu, desacreditando totalmente.</p><p>É claro que ela já havia feito a mesma coisa que me dissera, então é claro que ela</p><p>sabia que meu pulso estava doendo pra caramba.</p><p>- Deixe-me... - ela segurou meu pulso com as duas mãos, colocando os dois</p><p>polegares na palma da minha mão e apoiando os outros dedos na parte do outro</p><p>lado, entre os meus dedos. - Tentar ajudar... - ela torceu o meu pulso para frente e</p><p>para trás, forçando-o até que o fez estalar.</p><p>"CRACK", foi o barulho que fez o meu pulso.</p><p>"AI", foi o grito que eu dei pelo susto e dor repentina que aquilo me causou. Mas tão</p><p>rápido quanto doeu, tão rápida a dor se dissipou e de repente o incômodo que eu</p><p>sentia antes era mínimo.</p><p>Mexi o pulso em círculos e a surpresa foi eu ter conseguido fazer aquele movimento,</p><p>que antes me parecia impossível.</p><p>- Como fez isso?! - perguntei-lhe, intercalando o olhar entre ela e o meu pulso,</p><p>enquanto o rodava.</p><p>- Tenho alguma experiência com pulsos travados. - Ela disse, dando um</p><p>sorriso tímido.</p><p>- Graças a você eu tive a minha primeira. - Eu disse em um tom brincalhão, tentando</p><p>fazê-la sentir-se "culpada".</p><p>- Graças a mim você consegue desenhar melhor que alunos do último período de</p><p>Harvard. - Ela retrucou, usando o mesmíssimo tom que eu acabara de usar.</p><p>- Isso é sério? - perguntei, sentindo-me um pouco chocada com a informação.</p><p>Ela acenou positivamente com a cabeça e começou a caminhar de volta ao BMW 428i,</p><p>cruzando os braços para proteger-se do frio que já começava a incomodar àquela</p><p>altura.</p><p>- Hoje em dia os profissionais da área estão completamente dependentes de</p><p>programas de computador, são poucos os que conseguem desenhar linhas realmente</p><p>retas e precisas à mão livre, o que é uma lástima. - ela disse, parando ao lado da</p><p>porta do carona de seu carro. - A nossa profissão não é só técnica. Arquitetura é arte.</p><p>Arte onde se vive e se convive e eu não me lembro de obras de arte serem feitas em</p><p>computadores. - Concluiu e abriu a porta do carro para mim.</p><p>Eu não disse nenhuma palavra, apenas entrei no carro e esperei que ela desse a volta</p><p>e fizesse o mesmo. Aproveitei para pensar em algo para dizer. Mas não havia nada a</p><p>ser dito. Ela era tão genial e sensível que roubava as minhas palavras e capacidade</p><p>de raciocínio. Sentia-me completamente absorvida por tudo o que ela era.</p><p>- Professora...</p><p>- Camila. - ela me corrigiu instantaneamente, enquanto colocava o cinto de</p><p>segurança.</p><p>Olhei para ela e congelei quando encontrei o seu olhar em mim. Aquilo não deveria</p><p>me deixar daquele jeito. Por que meu coração estava acelerado? Por que o ar não</p><p>estava passando corretamente para os meus pulmões? Por que haviam tantas</p><p>borboletas no meu estômago? Por que eu estava tão mais atenta ao movimento dos</p><p>lábios dela? Por que eu queria sent...</p><p>- Você ia dizer alguma coisa? - ela perguntou, ainda olhando para mim, desviando o</p><p>olhar rapidamente apenas para alcançar a ignição e ligar o carro.</p><p>- Eu... - O que eu ia dizer?</p><p>- Você...? - Ela usou o mesmo tom que eu e esperou que eu completasse</p><p>a frase,</p><p>pegando de volta a estrada à caminho de Cambridge.</p><p>Franzi o cenho, na tentativa de que aquilo fosse forçar fisicamente os meus</p><p>pensamentos a se tornarem coerentes. O resultado não foi cem por cento, mas</p><p>ajudou-me a concentrar alguma lógica para dar uma resposta e não parecer uma</p><p>louca.</p><p>- É que você disse que as pessoas estão muito dependentes de programas de</p><p>computador e bom, eu concordo com isso, mas você não acha que os programas</p><p>ajudam a tornar o trabalho mais rápido, mais ágil e menos complicado? - perguntei,</p><p>tomando ar profundamente de maneira disfarçada e agradecendo por ter conseguido</p><p>concluir o meu pensamento.</p><p>Por que eu estava sentindo o meu corpo fora de controle? Por que, de repente, as</p><p>minhas emoções pareciam ser um imã de polaridade oposta à Camila? Por que eu</p><p>estava sentindo tanta vontade de... de... Do que eu estava sentindo vontade, afinal?</p><p>- É uma boa colocação, Lauren. - Ela disse, sem me olhar, atenta somente ao trânsito</p><p>que era intenso àquela hora. Ela era tão linda de perfil quanto de frente. Não</p><p>importava a posição, ela sempre parecia se encaixar em todos os cenários. - Mas, me</p><p>responda uma coisa... - ela falou, jogando o alerta para dobrar e fazendo a curva</p><p>para a direita, assim que saímos da ponte Zakim. Me olhou brevemente. - Você acha</p><p>que consegue "criar" de maneira mais sensitiva e intuitiva usando um papel ou um</p><p>computador? Você acha que se conecta mais à sua criação usando uma lapiseira ou</p><p>um mouse? - perguntou, parando no semáforo perto do dormitório dos freeshman. -</p><p>É claro que o computador, hoje em dia, é uma excelente ferramenta para tornar mais</p><p>preciso e ágil o trabalho técnico, mas não o processo criativo. O processo criativo é</p><p>sentimento. É uma parte de você se tornando o sonho de alguém ou o seu próprio.</p><p>Esse é o momento onde, particularmente, eu acho um erro misturar homem e</p><p>máquina.</p><p>Mais dois quarteirões e eu estaria entregue à minha casa. Fim de rota.</p><p>Estranhamente, eu queria que aquele semáforo nunca abrisse. Eu poderia ficar</p><p>ouvindo-a falar pelo resto da semana e jamais me cansaria. O seu brilhantismo era</p><p>claramente perceptível quando começava a falar da arquitetura. Não havia nada que</p><p>ela amasse ou preservasse mais e eu nem precisei de mais que 96 horas para</p><p>descobrir isso.</p><p>Abaixei a cabeça, mordendo o lábio inferior.</p><p>- O que foi? Discorda de algo que eu disse? - Ela perguntou, partindo do semáforo em</p><p>direção ao dormitório e eu a olhei.</p><p>- Não, muito pelo contrário. - Respondi, sentindo-me intimidada.</p><p>Seu olhar desviava-se da rua para mim com cautela, mas repetidas vezes e eu não</p><p>conseguia controlar o que quer que fosse que estava acontecendo dentro de mim.</p><p>Assim, o meu olhar ficou absorvido pela imagem dela e o congelamento do meu</p><p>pensamento racional se refletiu no meu corpo. O certo era olhar para frente e dizer</p><p>qualquer coisa que parecesse inteligente, mas eu não queria fazer outra coisa senão</p><p>olhá-la infinitamente.</p><p>A vida é engraçada. Ela nos mostra quem somos em momentos como esse, em que</p><p>nosso próprio corpo não atende a nossa racionalidade; em momentos como esse, em</p><p>que a nossa natureza se manifesta, roubando a cena de toda a bagagem racional que</p><p>nos foi ensinada; em momentos como esse, em que não nos sobra opção a não ser</p><p>sermos nós mesmos.</p><p>Camila parou o carro na frente da entrada do edifício dos freeshman e pela primeira</p><p>vez, desde que havíamos entrado no carro, ela parou o olhar em mim.</p><p>"OLHA PRA OUTRO LUGAR", um lampejo de sobriedade passou pela minha mente.</p><p>"Mas ela é tão bonita...", pensei exatamente em seguida, por algum motivo, tentando</p><p>afastar a sobriedade da minha mente. Eu não queria ser racional naquele momento.</p><p>É o que dizem por aí... existem coisas incontroláveis.</p><p>- Por que você me olha assim, Lauren? - Camila perguntou-me, usando um tom doce</p><p>e atencioso. Ela parecia intrigada com a minha forma de olhá-la, ou incomodada. -</p><p>Acha que há algo de errado em mim?</p><p>Por que eu a olhava daquela forma? Por que?!</p><p>Franzi o cenho, pensando no quão ridículo era ela pensar que havia algo de errado</p><p>com ela e aquele pensamento gerou uma bolsa de ar enorme em meu peito, que</p><p>comprimia a minha garganta e tornava ainda mais difícil respirar. Todo o oxigênio do</p><p>meu corpo pareceu concentrar-se na minha caixa torácica e estava cada vez mais</p><p>difícil pensar com clareza.</p><p>- Não! - exclamei, sendo objetiva, para mascarar a minha exasperação.</p><p>- Então por que está me olhando assim? - sua expressão ficou séria, mas não havia</p><p>rudeza.</p><p>Sua cabeça pendeu levemente para o lado enquanto me olhava com curiosidade. Seu</p><p>olhar estava me analisando outra vez, estava cavando fundo dentro de mim atrás de</p><p>uma resposta. Ela estava me perfurando com o olhar. Ao contrário das outras vezes</p><p>que ela me olhara assim, eu não estava apenas curiosa para entender o motivo.</p><p>Daquela vez eu estava completamente e infinitamente vulnerável e eu não sei o que</p><p>intensificou mais ainda essa vulnerabilidade a ponto de apagar a minha consciência e</p><p>deixar-me a mercê dos meus instintos: os olhos dela e seu perfeito delineado que</p><p>tornava o olhar dela cortante e profundo ou os lábios dela, expostos, pulsantes,</p><p>carnudos e desejáveis.</p><p>"Desejáveis?".</p><p>O meu cérebro apagou, adormeceu completamente e empurrou toda a</p><p>responsabilidade de ação para o meu coração e foi com ele que a respondi.</p><p>- Porque...</p><p>Desisti de usar as palavras. Deixei meu corpo livre para fazer o que queria e os meus</p><p>sentimentos eram imãs tão fortes de atração para ela que antes que eu pudesse</p><p>entender, minhas mãos estavam no rosto dela, puxando-a ao encontro da minha</p><p>boca, que era tão urgente em senti-la que deixou-se ir. No meio do espaço confuso</p><p>das minhas ações, nossos lábios se encontraram em um toque intenso, mas doce, e</p><p>as estrelas caíram do céu para o meu estômago e explodiram dentro de mim,</p><p>chocando-se umas contra as outras, criando todo um universo novo dentro do meu</p><p>corpo. O universo, Camila Cabello.</p><p>As minhas mãos tremiam, mas não o suficiente para que eu não notasse</p><p>sua pele quente. Meus lábios eram urgentes em sugar os dela, mas não o suficiente</p><p>para que eu não sentisse que ela sugava os meus de volta. O meu ar era escasso,</p><p>mas não o suficiente para que eu não percebesse que a respiração dela estava em</p><p>total descompasso. A maciez de seus lábios consumia os meus desejos. A minha nuca</p><p>se comprimia e se expandia, como se expulsasse todos os meus sentimentos</p><p>escondidos de uma vez só. Mordi o lábio inferior de Camila e me permiti sentir o</p><p>gosto de sua boca... gosto de veneno doce, embriagante e viciante, escorrendo para</p><p>dentro de mim.</p><p>Não me lembrava de já ter sentido lábios tão deliciosos tocando os meus. Não me</p><p>lembrava de já ter sentido tantas sensações com um só beijo, mas ali estava eu,</p><p>beijando a minha professora e sentindo tudo o que eu achava que não existia,</p><p>sentindo com uma mulher, tudo o que jamais havia sentido no beijo de um homem.</p><p>"Eu sou lésbica", o pensamento veio calmo em minha cabeça, apenas o suficiente</p><p>para me despertar para a consciência. E foi crescendo, crescendo, crescendo,</p><p>crescendo...</p><p>"EU SOU LÉSBICA", dessa vez, veio como um grito interno e ensurdecedor. "OH MEU</p><p>DEUS, EU SOU LÉSBICA".</p><p>Nesse exato instante, as mesmas mãos que seguraram o rosto de Camila para trazê-</p><p>la para perto, a afastaram. Eu segurei o rosto dela e com mais dificuldade do que</p><p>achei ser possível, afastei o meu rosto do dela.</p><p>Os olhos dela se abriram, arregalando-se e eu percebi seu peito esvaziar, soltando</p><p>uma respiração pesada. Ela parecia estar em choque.</p><p>- Lauren... - falou meu nome com a voz fraca, olhando-me estupefata.</p><p>Naquele momento, eu não sabia mais distinguir o que estava sentindo. Haviam tantos</p><p>sentimentos correndo desenfreados dentro de mim, que eu mal pude ouvir quando</p><p>ela disse o meu nome. Senti-me zonza e explosiva, ao mesmo tempo e, totalmente</p><p>incontrolável, abri a porta do carro e corri para fora, sem dizer uma única palavra.</p><p>Nem me dei ao trabalho de esperar o elevador,</p><p>corri em direção às escadas e subi os</p><p>seis andares até o meu quarto correndo. Tropecei durante o caminho, esbarrando as</p><p>pernas nos degraus, o que provavelmente me renderia alguns roxos, mas as dores</p><p>repentinas não acalmavam o pensamento devastador que tomava conta da minha</p><p>mente: "EU SOU LÉSBICA".</p><p>- Caramba. - Normani falou quase que num sussurro, sentada ao meu lado,</p><p>encostada na porta do quarto, depois de me ouvir contar o que havia acontecido. -</p><p>Você beijou a professora Cabello. - Ela falou mais para si mesma do que para mim.</p><p>Eu ainda tentava acalmar um pouco mais as minhas emoções aturdidas e a minha</p><p>respiração descontrolada pela correria desenfreada que eu tinha feito até o sexto</p><p>andar. A água que Normani me dera havia ajudado, mas contar à ela o que havia</p><p>acontecido não havia contribuído para o meu processo de ficar calma.</p><p>- E você está, definitivamente, surtando com isso. - Ela falou, constatando o meu</p><p>desespero.</p><p>- Estou! - falei, batendo a testa contra o joelho.</p><p>- E como foi beijar a professora Cabello? - Normani perguntou, falhando em esconder</p><p>a excitação com aquele assunto.</p><p>- Como foi?! - Olhei para ela, indignada. - Como foi?!! - repeti a pergunta, destacando</p><p>a minha indignação com aquela pergunta dela.</p><p>Normani arregalou os olhos, me olhando meio de lado sem entender o meu tom.</p><p>- Sim... Como foi? - ela perguntou, como se não entendesse o motivo da minha</p><p>indignação.</p><p>- Eu cheguei aqui gritando que sou lésbica e você me pergunta como foi?! - Eu</p><p>exclamei feito uma louca, como se a resposta para a pergunta dela fosse óbvia. E era.</p><p>- Foi maravilhoso, Normani! Foi inebriante, gostoso, muito gostoso e gostoso de novo.</p><p>Parecia que eu estava fazendo sexo com os lábios. Eu me senti uma virgem tendo a</p><p>melhor primeira vez da história dos virgens. Eu nem sei como explicar o tamanho da</p><p>maravilha que foi beijar a boca dela. Eu quase senti um orgasmo labial. - Eu falei,</p><p>contraindo os músculos das pernas e dos braços como resposta às lembranças das</p><p>sensações que beijar Camila haviam me causado. - Eu nem consigo acreditar no</p><p>quanto beijar pode ser tão gos-to-so. Eu nunca mais vou ter um beijo tão bom quanto</p><p>esse. - falei, passando as mãos pelos cabelos. - Meu Deus e isso é HORRÍVEL! - falei,</p><p>batendo a testa contra o meu joelho outra vez.</p><p>- Horrível?! - Foi a vez de Normani perguntar com indignação. - Você</p><p>acaba de dizer que deu o melhor beijo da sua vida e isso é horrível? Como isso pode</p><p>ser horrível?</p><p>Olhei para ela de olhos arregalados, como se ela estivesse me fazendo a pergunta</p><p>mais imbecil do mundo. E estava.</p><p>- Normani, eu gostei de beijar Camila Cabello, mais do que gostei de fazer sexo com</p><p>o cara que eu mais amei na vida. Isso só pode significar que eu sou lésbica! -</p><p>Expliquei o óbvio e afundei o rosto entre os joelhos outra vez, pressionando meus</p><p>joelhos nas têmporas.</p><p>- Ainda não consegui entender por que isso é horrível. - Ela falou, calmamente.</p><p>Suspirei. Como ela podia não ter entendido ainda?!</p><p>- Isso significa que eu sou lés bi ca. - Falei pausadamente, tentando fazê-la entender.</p><p>- E eu, DEFINITIVAMENTE, não posso ser lésbica. Não posso!</p><p>- Como assim, não pode, Lauren? - Normani usou um tom mais sério.</p><p>- Não podendo! É simples, não existe complicação. Ser lésbica é o meu atestado de</p><p>morte prematura. E não, eu não estou exagerando. Se eu for lésbica, eu vou querer</p><p>viver uma vida lésbica, vou querer "sair do armário" em algum momento e vai ser</p><p>exatamente nesse momento em que a minha mãe vai me matar. - expliquei a lógica</p><p>simples de eu não poder ser lésbica.</p><p>- Você está sendo "tragimática". - Normani disse, encostando-se na porta.</p><p>- Essa palavra não existe. - falei, enfiando as duas mãos por entre os meus cabelos e</p><p>depois esfregando o meu próprio rosto.</p><p>- Assim como não existe essa parte de você morrer por ser lésbica. - Normani usou a</p><p>psicologia dela, mais uma vez. - Você precisa primeiro se entender de verdade. O fato</p><p>de estar se sentindo assim pode não significar nada...</p><p>A fuzilei com o olhar. É claro que significava alguma coisa. Na verdade, significava</p><p>tudo.</p><p>- Okay, okay... - ela levantou as mãos em posição de rendição e logo em seguida</p><p>abaixou. - É, isso definitivamente significa alguma coisa. - Ela ponderou. - Mas pode</p><p>significar somente que você está caidinha por Camila Cabello e não que é lésbica no</p><p>sentido geral da coisa, se é que me entende.</p><p>Nada disse, apenas afirmei com a cabeça, mesmo não tendo prestado muita atenção</p><p>ao que ela falou. Minha cabeça não me permitia absorver muita coisa, tudo saia com</p><p>a mesma rapidez que entrava.</p><p>- Fora a parte em que você está em pânico por causa da sua mãe, como está se</p><p>sentindo com a ideia de ser lésbica? - Normani perguntou, depois de alguns segundos</p><p>de silêncio.</p><p>Ponderei sobre aquilo, mas não encontrei resposta alguma. A verdade é que nem eu</p><p>sabia o que estava sentindo. Era uma mistura de desespero com vergonha.</p><p>Desespero por receber um bloco de concreto sobre a minha cabeça com a informação</p><p>de que eu era lésbica. Vergonha por ter beijado a minha professora.</p><p>Em meio à tempestade de pensamentos que cortavam a minha mente naquele</p><p>momento, um dos mais fortes e que mais me comiam viva era: o que será que</p><p>Camila estava pensando?</p><p>Camila's pov</p><p>O oxigênio ainda estava escasso mesmo depois de cinco minutos sozinha no carro.</p><p>Lauren havia saído correndo em disparada edifício à dentro, deixando-me com os</p><p>lábios dormentes, o coração acelerado, a mente confusa e o pulmão falhando.</p><p>"Por que ela me beijou? Por que ela me beijou? Por que ela me beijou? Por que ela</p><p>me beijou? Por que ela me beijou? Por que ela me beijou? Por que ela me beijou?", a</p><p>pergunta se repetia continuamente na minha cabeça e não parava, ainda que eu</p><p>tentasse mudar a direção dos meus pensamentos. "Por que ela me beijou?", não</p><p>havia resposta.</p><p>Lauren Jauregui sempre havia sido figura intrigante para mim. Do começo</p><p>ao fim de si. A primeira vez que a percebi havia sido nos corredores das salas de</p><p>pranchetas da Harvard Graduate School of Design, em uma noite de terça feira,</p><p>enquanto a garota passeava e olhava com um encantamento absorto e profundo o</p><p>que os alunos do último semestre estavam fazendo.</p><p>A reconheci da turma de calouros para a qual eu havia dado aula na manhã daquele</p><p>dia. Ela passara ao meu lado, enquanto caminhava pelo corredor, mas não havia me</p><p>notado, por estar olhando na direção contrária.</p><p>Assim que a vi, questionei-me sobre o motivo para uma caloura jovem e realmente</p><p>bonita estar carregando livros, no meio dos corredores de Harvard, na sua primeira</p><p>noite da universidade. Ela deveria estar nas festas de calouros. Era assim que</p><p>funcionava. Não era?</p><p>Naquela noite eu percebi o quanto Lauren Jauregui tinha o que eu não conseguia</p><p>enxergar dentro da maioria dos outros alunos: uma mistura de sensibilidade e amor</p><p>profundo pelo que havia escolhido fazer. Ela sentia os ambientes ao redor de si como</p><p>poucas pessoas no mundo eram capazes de fazer. Ela se tornava parte do que lhe</p><p>tocava as emoções e isso era raríssimo. O mais intrigante, para mim, foi o fato de ela</p><p>não ter absolutamente consciência nenhuma sobre isso. Ela simplesmente era aquilo</p><p>e não forçava ou tentava alcançar de alguma forma não natural. Lauren Jauregui</p><p>abraçava o mundo com a sua sensibilidade e assim como se tornava parte das coisas,</p><p>as coisas tornavam-se partes dela.</p><p>Então, naquela noite de terça feira, eu decidi que faria por ela o que haviam feito por</p><p>mim. Eu ensinaria Lauren Jauregui a perceber o mundo. A ensinaria a ser o mundo.</p><p>Eu não contava com o fato de que ensiná-la seria um processo tão estranhamente</p><p>instigante. A presença dela era irritantemente agradável, mesmo quando a garota</p><p>mostrava-se irritada com alguma atitude minha que não entendia. Eu me divertia</p><p>com seu comportamento afoito e curioso. Era como um diamante belíssimo a ser</p><p>lapidado.</p><p>Não contava também que fosse desejar a companhia dela depois de ensiná-la a traçar</p><p>corretamente as linhas em um sábado</p><p>de manhã, quando acidentalmente entrei na</p><p>sala errada e a vi, empenhada em fazer um trabalho que eu havia designado à ela.</p><p>Não contava muito menos com o fato de que ela era lésbica e que acabaria em algum</p><p>momento me beijando. Ela, definitivamente, não tinha um estereótipo lésbico, mas</p><p>isso não significava nada. Mas de todas as coisas com as quais eu não contava e a</p><p>que eu menos poderia supor ou sequer imaginar era que eu gostaria daquele beijo.</p><p>A minha mente havia desligado e dado lugar a um tremor exagerado do meu corpo</p><p>no exato segundo em que as mãos dela tocaram meu rosto e em seguida, seus lábios</p><p>os meus. E depois, antes que qualquer palavra pudesse ser trocada e qualquer</p><p>situação pudesse ser esclarecida, Lauren Jauregui, a minha aluna, havia sumido de</p><p>dentro do meu carro. E assim eu estava, estática, dentro do meu carro, lidando com</p><p>aquele momento repentino quando uma pequena e decisiva frase se destacou na</p><p>minha mente: "minha aluna".</p><p>Não precisei de mais nenhum segundo de auto entendimento das minhas emoções.</p><p>Estiquei-me por cima do banco do carona e fechei a porta que ela havia deixado</p><p>aberta.</p><p>"Por que ela me beijou?", o pensamento impertinente surgiu novamente na minha</p><p>mente, mas eu tratei de dissipa-lo e dei partida no carro rumo à Boston, onde eu</p><p>morava.</p><p>Lauren's pov</p><p>De todas as coisas óbvias que podiam acontecer, a mais óbvia de todas era que eu</p><p>faria de tudo para não encontrar Camila Cabello de jeito nenhum, na quinta feira,</p><p>quando eu sabia que ela daria aula em Harvard novamente. Portanto, assim que a</p><p>aula de Composição de Forma da professora Hadid acabou, eu corri para o meu</p><p>quarto no dormitório, fazendo o caminho mais distante possível do The Village, lugar</p><p>onde eu sempre almoçava e onde Camila Cabello estaria.</p><p>"Ela não está aqui", a mensagem de Normani apareceu na tela do meu</p><p>celular poucos minutos depois de eu ter jogado a minha chave em cima da pequena</p><p>bancada da cozinha.</p><p>Ao invés de sentir alívio, senti uma pontada de angústia no fundo do estômago. Por</p><p>que ela não estava no The Village se ela sempre estava lá? Será que não havia ido à</p><p>Harvard também ou era só ao The Village que não tinha ido?</p><p>No fundo, eu esperava que Normani me dissesse que quando chegou ao restaurante,</p><p>Camila havia ido urgentemente até ela e perguntado por mim e quando a ideia foi</p><p>destruída, pela mensagem da minha amiga que avisava que minha professora não</p><p>estava lá, eu me senti desapontada.</p><p>Então, por alguma lógica feminina reversa e incompreensível eu decidi que, por</p><p>aquele motivo, eu não iria mais fugir de situações em que pudesse encontrá-la e isso</p><p>incluiu ir para Harvard domingo de manhã para uma palestra de Ótica e Percepção</p><p>Visual, onde um dos nomes a palestrar para os alunos de mestrado de Harvard era</p><p>Camila Cabello.</p><p>No início da palestra, entretanto, avisaram que a professora Camila não compareceria</p><p>ao evento "por motivos pessoais familiares e inadiáveis". A pessoa mal havia</p><p>completado a frase e eu já havia saído do Centro de Convenções de Arquitetura de</p><p>Harvard.</p><p>Fiz o caminho todo de volta até o dormitório pensando no motivo para Camila Cabello</p><p>não ter ido à Harvard participar de uma palestra tão importante na qual ela era uma</p><p>das convidadas mais ilustres. No início eu achara que Camila não havia ido ao The</p><p>Village para não me encontrar, mas agora que sabia que ela não havia ido à uma</p><p>palestra por motivos familiares aparentemente sérios, senti-me, outra vez,</p><p>desapontada por não ser o motivo da professora Cabello estar "sumida" das minhas</p><p>vistas.</p><p>Era exatamente nisso que eu estava pensando enquanto esperava o semáforo abrir,</p><p>bem frente do restaurante The Edges, ainda perto da HGSD, quando o BMW 428i</p><p>parou no semáforo que acabara de fechar.</p><p>Meus pés perderam o chão e eu caminhei para a faixa de pedestres por puro instinto.</p><p>Meu pescoço se virou contra a minha vontade e pelo para-brisas do carro, atrás da</p><p>forte película, Camila Cabello me encarava, segurando o volante de seu carro com as</p><p>duas mãos. Acabei de atravessar a faixa e virei de frente para o carro dela, apenas</p><p>para ver o carro preto safira avançar pela rua, até sumir das minhas vistas.</p><p>"O que ela estava fazendo ali?", perguntei-me, intrigada.</p><p>Voltei para o dormitório e tentei concentrar-me em ler o livro que ela havia passado</p><p>como trabalho para a próxima aula, mas a minha mente não conseguia assimilar</p><p>nenhuma frase que eu lia. O resto do domingo se resumiu em tentar fazer os meus</p><p>trabalhos, mas fracassar terrivelmente porque Camila Cabello não saía da minha</p><p>cabeça.</p><p>A segunda feira pareceu arrastar-se, como se o tempo estivesse querendo me</p><p>torturar. Não houvera um dia em que eu tivesse me sentido mais ansiosa para uma</p><p>terça feira do que aquela segunda. Não houvera em toda a minha vida um dia em que</p><p>eu tivesse me sentido tão ansiosa assim.</p><p>Normani não se surpreendeu quando me viu completamente arrumada quando se</p><p>levantou de sua cama. Não se surpreendeu com o fato de eu ter andado mais rápido</p><p>que o normal e não se surpreendeu com o fato de que eu não tirava os olhos da porta</p><p>da nossa sala.</p><p>Às oito horas, em ponto, a porta da sala se abriu e Camila Cabello entrou, usando um</p><p>vestido branco de finas litras prestas horizontais, de gola alta e mangas que cobriam</p><p>seus braços até o cotovelo. O vestido beijava seu corpo até pouco acima da altura dos</p><p>joelhos, chamando a atenção para as curvas proeminentes de seu corpo. Seus</p><p>cabelos estavam lisos, mas não tanto quanto da última vez que a vira, o que lhe dava</p><p>um ar totalmente natural. Os óculos de grau já estavam no rosto, dando-lhe um</p><p>charme estupidamente enlouquecedor.</p><p>Ela atravessou a sala, colocou a pasta em cima da mesa, exatamente como de</p><p>costume e encostou-se em sua mesa, com as mãos cruzadas na frente de seu corpo.</p><p>Esperou que todos da turma se calassem para poder falar.</p><p>- Bom dia. Coloquem seu blocos de folhas tamanho A3 em cima de suas mesas. Hoje</p><p>vocês aprenderão a fazer croquis. Croquis são os esboços iniciais de um projeto.</p><p>Antes de fazerem qualquer coisa de um projeto, vocês farão croquis, ou seja,</p><p>colocarão as ideias de vocês em um papel. Temos três horas de aula e vocês tem três</p><p>horas para me entregar dez croquis diferentes. É um trabalho avaliativo, portanto,</p><p>concentrem-se e terminem, caso queiram passar na minha matéria. - ela concluiu e</p><p>dirigiu-se ao quadro, onde escreveu algumas instruções.</p><p>Durante todo aquele momento ela não havia olhado para mim uma vez sequer. Nem</p><p>de relance. Durante as próximas três horas de aula, ela continuou sem olhar para</p><p>mim. Sentou-se na cadeira de sua mesa e focou o olhar na tela de seu computador e</p><p>de lá não desviou a atenção por nenhum segundo por exatas três horas, exceto</p><p>quando algum aluno ia até a sua mesa tirar alguma dúvida.</p><p>Era como se eu não existisse. Era como se eu não estivesse ali, como se os olhos dela</p><p>não fossem capazes de me ver. Decidi ir até a mesa dela para tirar uma dúvida que</p><p>na realidade eu não tinha.</p><p>- Professora... - falei, parando ao lado dela em sua mesa.</p><p>Ela desviou o olhar do computador com certa relutância e olhou para mim.</p><p>- Sim? Diga. - Falou simplesmente, em um tom aparentemente normal, mas que para</p><p>mim era cheio de frieza.</p><p>- Como eu faço essa parte aqui? - perguntei, apontando para o papel, algo que ela</p><p>sabia que eu sabia como fazer.</p><p>- É assim. - Ela pegou a minha lapiseira e fez para mim com simplicidade e rapidez.</p><p>- Ah... - Eu falei, sem realmente saber o que dizer.</p><p>Eu esperava que ela me desse uma resposta rude, que dissesse que eu já sabia fazer</p><p>aquilo, mas ela simplesmente me tratou como tratava todos os outros alunos.</p><p>- Mais alguma dúvida? - Perguntou, fria como o ártico.</p><p>- Não... - Respondi, pegando a minha lapiseira que ela segurava estendida para mim.</p><p>- Ótimo. Volte a fazer, você não tem todo tempo do mundo. - Ela disse simplesmente</p><p>e voltou a olhar para o computador, como se eu tivesse desaparecido.</p><p>- Certo, professora Cabello. - Eu respondi com tanta frieza quando ela havia usado</p><p>comigo.</p><p>Ela apenas olhou</p><p>para mim e deu um sorriso usando apenas os lábios.</p><p>Um sorriso frio, gelado. Um sorriso típico de Camila Cabello.</p><p>Sophrosyne</p><p>Camila's pov</p><p>Sophrosyne (n.): um estado de mente saudável caracterizado por auto controle,</p><p>moderação e uma profunda consciência do seu verdadeiro eu, que resulta em</p><p>verdadeira felicidade.</p><p>O quarto estava quase completamente escuro e não fosse pela luz fraca da luminária</p><p>de piso, bem ao lado da minha cama, o ambiente estaria um verdadeiro breu e</p><p>embora o meu espírito estivesse soturno naqueles últimos dias, eu não gostava do</p><p>escuro.</p><p>- O que está fazendo no escuro? - a garota entrou no quarto, deixando a porta</p><p>aberta, o que fez o quarto ganhar um pouco mais de iluminação e caminhou até mim,</p><p>dando-me um beijo na testa. - Está trabalhando em algum novo projeto taciturno,</p><p>gótico, ou...? - perguntou, usando um tom levemente sarcástico.</p><p>- Só estava pensando. - respondi, dando-lhe um sorriso e apertando-lhe, levemente,</p><p>a mão que eu havia segurado assim que ela se aproximou de mim.</p><p>- Pensando em que? - perguntou, jogando-se atravessada na cama, bem em cima</p><p>dos meus pés.</p><p>"Lauren", a voz dentro da minha cabeça gritou.</p><p>- Em nada demais. - respondi, retirando meus pés de baixo de suas costas.</p><p>- Normalmente você já pensa em coisas demais, meu amor, imagine agora, que você</p><p>parou, literalmente, para pensar em alguma coisa. Não duvido que em uma semana</p><p>tenhamos um projeto genial saindo dessa cabeça. - ela disse, esticando o corpo</p><p>preguiçosamente na cama.</p><p>"Um projeto genial", isso definia bem Lauren Jauregui. Talvez ela fosse o meu projeto</p><p>mais genial. Será que era errado considerar um ser humano como um projeto? Quer</p><p>dizer, eu só queria ajuda-la a ser o que ela queria ser.</p><p>- Talvez seja mesmo o meu projeto mais genial. - respondi simplesmente, deixando</p><p>que as palavras saíssem da minha boca sem antes realmente pensar sobre elas, mais</p><p>como uma ponderação para mim mesma do que como uma resposta para a garota.</p><p>- Está mesmo pensando em algum projeto? - ela se virou de lado na cama, ficando de</p><p>frente para mim.</p><p>- Não exatamente. - disse, tirando os óculos do rosto.</p><p>- Odeio quando você fica monossilábica. - a garota bufou e revirou os olhos.</p><p>Eu ri e me aproximei dela, deitando com a cabeça na curva de sua cintura.</p><p>- Você pergunta demais. - falei, segurando sua mão com carinho.</p><p>- E você responde de menos, Camila Cabello. - ela respondeu usando o mesmo tom</p><p>que eu e colocou a mão em minha cabeça por onde foi, gradativamente, deslizando</p><p>os dedos pelos meus cabelos.</p><p>- Respondo o necessário, Sofia Cabello. - falei, mantendo o tom da conversa e Sofia</p><p>riu.</p><p>Eu não costumava ser tão evasiva em assunto nenhum quando se tratava da minha</p><p>irmã, mas a realidade era que naquele assunto específico eu não sabia nem por onde</p><p>começar a falar, não sabia sequer o que falar.</p><p>- Tá, mas falando sério aqui, o que você tem? - perguntou, usando um tom mais</p><p>sério. - Já fazem dias que você está assim...</p><p>- Assim como? - perguntei, curiosa para saber que tipo de impressão a minha</p><p>bagunça interna causava ao mundo externo.</p><p>- Não sei... - ela disse pensativa e ajeitou seu corpo, deitando-se de peito para cima,</p><p>de tal forma que minha cabeça foi parar em cima da barriga dela. - Está estranha,</p><p>distante, com o pensamento longe. Quer dizer, não que você não esteja sempre com</p><p>o pensamento longe, porque normalmente você parece estar com a mente em</p><p>saturno, mas ultimamente a sua mente está em plutão.</p><p>Eu ri e mordi sua cintura com carinho.</p><p>- Não há nada de estranho comigo, só estou mais cansada que o normal. - falei,</p><p>usando a justificativa mais óbvia para encerrar o assunto. - Vamos falar de você.</p><p>Como foi na escola?</p><p>- Ah, foi normal, você sabe, as mesmas pessoas, as mesmas aulas, o mesmo tudo.</p><p>Não aguento mais o ensino médio. Não sei como você gostava de ir pra escola. -</p><p>minha irmã falou, levantando ligeiramente a cabeça para desprender o rabo de cavalo</p><p>em seu cabelo.</p><p>- Eu gostava de estudar, é diferente. A escola era indiferente pra mim. - respondi,</p><p>concentrando-me em esticar os pés para me livrar da cãibra por ter ficado muito</p><p>tempo na mesma posição.</p><p>- Ah é, às vezes esqueço que você é um gênio. - Sofia falou em um tom brincalhão.</p><p>- Genialidade é uma questão de ponto de vista, Sofi.</p><p>- Você tenta ser modesta, mas as coisas que você faz não deixam, Camila. Aceite,</p><p>você é um gênio. - ela decretou.</p><p>Minha irmã tinha todo o jeito da minha mãe. Em tudo o que falava, em tudo o que</p><p>fazia, Sofia me lembrava nossa mãe. Sempre mandona, sempre cheia de razão. Ter</p><p>só quinze anos não a impedia de se posicionar diante do mundo e das coisas que</p><p>queria e nas quais acreditava.</p><p>- Tudo bem, tudo bem. - concordei, apenas para encerrar uma discussão que, por</p><p>mais "gênio" que eu fosse, nunca ganharia, porque a satisfação de Sofia era sempre</p><p>mais importante do que qualquer coisa para mim.</p><p>- Quer comer? Eu estou azul de fome! - minha irmã perguntou, mas já estava me</p><p>empurrando de cima de si e levantando da cama.</p><p>- Eu já comi, Sofi, não estou com fome. - falei, quase me deitando novamente, mas</p><p>ela me segurou pelo braço, fazendo-me ficar sentada na cama.</p><p>- Quando eu perguntei se estava com fome, na verdade estava querendo dizer</p><p>"vamos pra cozinha comigo, eu não quero ficar sozinha". - ela disse, escancarando</p><p>um sorriso mais do que convencido no rosto.</p><p>Sorri para ela e sua juventude e concordei com um aceno de cabeça.</p><p>- Tudo bem, vamos lá.</p><p>Eu mal havia acabado de falar e Sofia estava me puxando quarto a fora, segurando-</p><p>me pela mão.</p><p>Sofia e eu éramos tão unidas quanto qualquer pai e mãe gostaria que seus filhos</p><p>fossem. Ela havia nascido quando eu tinha doze anos e desde o momento em que</p><p>meus olhos se encontraram com os dela, no exato instante em que meu pai abriu a</p><p>porta do quarto da maternidade, ela se tornou o meu mundo. Meus sentimentos por</p><p>ela eram tão intensos e genuínos que com toda facilidade do mundo eu daria a minha</p><p>vida por ela.</p><p>Quando eu tinha quinze anos e estava fazendo os testes para admissão em Harvard,</p><p>perdemos nosso pai em uma tragédia que Sofia jamais tivera conhecimento e desde</p><p>então, embora nossa mãe ainda estivesse presente e tentando ser forte em nossas</p><p>vidas, eu assumira, ainda que internamente, toda a responsabilidade sobre minha</p><p>irmã.</p><p>Sofia nunca soubera a realidade sobre a perda de nosso pai, pensava que ele havia</p><p>sofrido um acidente de carro, mas a verdade era que...</p><p>- Você tem certeza que não quer comer? Eu vou preparar macarrão ao molho de</p><p>queijos. - Sofia disse, largando a minha mão assim que entramos na cozinha.</p><p>- Que golpe baixo o seu, Sofia Cabello! - Falei, indignada. - Você sabe que venero</p><p>massas demais para me dar ao luxo de não comer.</p><p>- Você venera COMIDA demais para se dar ao luxo de não comer qualquer coisa,</p><p>maninha. - ela falou com um sorriso irônico nos lábios.</p><p>Fiz uma careta e sentei-me em um dos bancos de aço escovado que</p><p>ficavam à beira da ilha, bem no meio da cozinha.</p><p>- Não tem lugar nessa casa que eu ame mais do que essa cozinha! - Sofia falou com</p><p>um ar sonhador, enquanto abria os armários de panelas.</p><p>- Não tem lugar no mundo que você ame mais do que qualquer cozinha. - Falei,</p><p>puxando a fruteira de mesa para perto de mim.</p><p>- Essa eu amo mais que todas. Você fez ela pra mim. - respondeu, concentrada em</p><p>procurar alguma coisa.</p><p>Desde cedo minha irmã soube o que queria ser em sua vida. Nunca havia visto tanta</p><p>convicção quanto à profissão em uma menina de cinco anos. "Quero ser cozinheira",</p><p>ela dizia enquanto via nossa mãe cozinhando.</p><p>O que sempre me chamara atenção no discurso de Sofia e me dava plena certeza de</p><p>que aquilo jamais mudaria, era o fato de minha pequena irmã usar o verbo "ser" e</p><p>não o verbo "fazer" quando se referia ao rumo que queria seguir profissionalmente.</p><p>Foi aí que eu despertei para o fato de que eu deveria "ser" e não simplesmente</p><p>"fazer" algo em minha vida. Foi assim que eu me tornei</p><p>a arquitetura. Foi assim que</p><p>"sendo" a arquitetura eu consegui "fazer" a arquitetura.</p><p>Aos quinze anos, Sofia ainda queria "ser" cozinheira.</p><p>- Você está mais do que certa. - ela falou, com a cabeça quase enfiada dentro de uma</p><p>gaveta. - Você viu aquele garfão grandão? - sua voz saiu abafada.</p><p>- Um de cabo preto, de três pontas que você comprou em uma loja de antiguidades</p><p>quando tinha treze anos? - falei, colocando para fora, instantaneamente, todas as</p><p>informações que meu cérebro conseguiu coletar a respeito daquele garfo.</p><p>Sofia levantou a cabeça e me encarou com os olhos levemente arregalados.</p><p>- Não sei por que ainda fico impressionada com o seu cérebro. - ela falou, divagando.</p><p>- Nem eu lembrava que tinha comprado esse garfo aos treze anos. Daqui a pouco</p><p>você sabe até o preço. - ela falou, voltando a se abaixar para procurar o garfo.</p><p>"Vinte dólares e cinquenta e cinco centavos", a voz surgiu na minha mente com a</p><p>lembrança do preço, que Sofia mencionara com excitação quando o comprou, mas eu</p><p>tranquei a língua e fiquei calada, olhando para os desenhos aleatórios da bancada de</p><p>mármore.</p><p>- Seu silêncio me contou que você também lembra o preço! - ela exclamou,</p><p>levantando-se e empurrando a gaveta com a perna. - Desisto de procurar. - declarou.</p><p>- Meu silêncio estava querendo lhe dizer para procurar na terceira gaveta do armário</p><p>ao seu lado esquerdo.</p><p>Sofia rapidamente abriu a gaveta que eu havia indicado e me olhou boquiaberta.</p><p>- Sério, como você sabia que estava aqui?! - perguntou, retirando o utensílio da</p><p>gaveta. - É mais uma dessas coisas de gênio?</p><p>- É muito simples. Eu sou arquiteta e tudo nessa casa tem o seu devido lugar, exceto</p><p>quando VOCÊ bagunça. Não é mais uma dessas coisas de gênio. - falei, ocultando a</p><p>parte em que eu vira Doroteia, a diarista, guardando o garfo ali, meses atrás.</p><p>Aos dois anos de idade, eu já sabia ler palavras e eventualmente uma frase ou outra.</p><p>Foi assim que me intitularam como "prodígio". Aos quatorze anos, quando eu</p><p>desenvolvi uma solução para aumentar a maleabilidade do concreto em um projeto</p><p>de ciências da minha escola, me intitularam como "gênio".</p><p>Eu não concordava com aqueles rótulos. Eu era uma pessoa normal, meu cérebro era</p><p>tão capaz de absorver informações e transformá-las em algo maior quanto o cérebro</p><p>de qualquer outro ser humano. Talvez, a única diferença que havia em mim era o fato</p><p>de que eu realmente gostava de estudar e não havia nada que eu gostasse de fazer</p><p>mais do que isso, mas essa era uma característica que podia ser desenvolvida por</p><p>qualquer pessoa. Era uma questão de prática.</p><p>Eu queria poder explicar isso aos psicólogos que me rotulavam como</p><p>gênio, mas a sua predisposição em separar as pessoas em grupos diferentes era</p><p>quase doentia, então, eu desisti. Talvez o meu cérebro também tivesse vindo com</p><p>algum tipo de defeito em que as coisas que parecem muito difíceis para a maioria das</p><p>pessoas, para mim, eram simples, mas eu não era mais ou menos genial que</p><p>ninguém.</p><p>Eu via genialidade em quase tudo ao meu redor. Nas pessoas, nem tanto, mas</p><p>haviam lá as suas exceções, como Lauren...</p><p>Lauren era o tipo de pessoa que, para mim, facilmente se encaixaria nos conceitos de</p><p>genialidade que eu considerava como válidos. Seu cérebro e coração eram conectados</p><p>às suas células e suas células eram conectadas com o mundo, o que me dava a</p><p>constante percepção de que Lauren sempre se encaixava nos ambientes em que</p><p>estava.</p><p>Ela fazia parte de tudo.</p><p>"Desculpe, estou parecendo uma louca, mas... é que... eu queria que as pessoas</p><p>vissem a arquitetura em mim, algum dia, como eu vejo em você", a voz de Lauren,</p><p>com todos os tons de timidez que ela usou para falar, ecoaram mais uma vez em</p><p>minha cabeça, entorpecendo o meu cérebro, pela milionésima vez em dias.</p><p>Depois daquela terça feira, não houve um dia em que eu não tivesse,</p><p>exaustivamente, pensado nela. Havia passado o resto daquela semana inteira</p><p>pensando em todos os detalhes da minha curta convivência com Lauren Jauregui e</p><p>quase todas as coisas se encaixavam. Quase.</p><p>O seu interesse genuíno pela arquitetura se encaixava na minha decisão de ajuda-la a</p><p>ser tão "genial" quanto a pessoa que havia construído o edifício da Havard Graduate</p><p>School of Design. A sua forte personalidade que não a deixava desistir ou se entregar</p><p>às dificuldades, se encaixava com o fato de eu pressioná-la aos limites de suas</p><p>habilidades. A sua entrega bruta à arquitetura se encaixava à minha própria entrega</p><p>bruta à arquitetura. O que não se encaixava era o fato de eu me sentir tão</p><p>desconsertada com a forma como ela me olhava; o que não se encaixava era o fato</p><p>de aquele olhar me agradar; o que não se encaixava era o beijo que ela havia me</p><p>dado repentinamente, dentro do meu carro, quando havia ido deixa-la de volta à</p><p>Havard, sobretudo, o que menos se encaixava era o fato de aquilo ter me agradado.</p><p>Não havia jeito, por mais que eu tentasse não pensar em Lauren Jauregui, ela estava</p><p>ali, dentro da minha mente, consumindo toda a minha quietude, consumindo todo o</p><p>meu pensamento racional. No início eu havia tentado afastá-la dos meus</p><p>pensamentos, mas tudo a respeito dela me arrastava como um mar furioso que não</p><p>se cansava de me engolir para o fundo.</p><p>- Ela está abalando a minha sophrosyne. - falei, concluindo em voz alta os meus</p><p>pensamentos à respeito de Lauren, com o olhar fixo na única maçã da fruteira.</p><p>- O que?! - Sofia perguntou, olhando-me por cima do ombro, enquanto carregava</p><p>uma panela cheia de água até o fogão.</p><p>- Sophrosyne. - repeti a palavra. - o meu estado de mente saudável, o meu auto</p><p>controle, a minha modera...</p><p>- Camila, eu sou sua irmã! - ela exclamou, me interrompendo e ligando o fogo do</p><p>fogão com o acendedor elétrico. O barulhinho me incomodava, então fechei os olhos</p><p>rapidamente, tentando me concentrar em outra coisa, para não ouvir. - É claro que</p><p>eu sei o que é sophrosyne. Eu quero saber quem é "ela"? - minha jovem irmã</p><p>perguntou, intercalando o olhar entre mim e a panela com água, onde despejava um</p><p>fio de azeite.</p><p>- Lauren Jauregui. - respondi sua pergunta.</p><p>"Lauren Jauregui", ouvi em minha cabeça a voz dela dizendo o próprio nome quando</p><p>se apresentara para a turma em minha aula. Eu costumava lembrar dos detalhes de</p><p>tudo, era uma das coisas sobre ter uma memória perfeita e "genial", mas sobre ela,</p><p>eu lembrava até mesmo das falhas roucas de sua voz e aquilo me deixava</p><p>embaraçada.</p><p>- Ah! Agora sim, explicou tudo. - Sofia respondeu ironicamente.</p><p>- Minha aluna. - expliquei novamente.</p><p>- Sua aluna? - Sofia pareceu interessar-se ainda mais no tema e pulou em cima da</p><p>bancada, sentando-se.</p><p>Respirei fundo ao ver a cena.</p><p>- Minha aluna. - falei rapidamente. - Eu sei que eu sou a irmã mais velha mais legal</p><p>de todo o mundo e que deixo você fazer quase tudo o que quer, mas eu ainda sou a</p><p>irmã mais velha, arquiteta, de vinte e sete anos que fica horrorizada com você</p><p>pulando numa bancada de mármore. - falei no tom mais calmo possível.</p><p>Sofia riu e pulou para fora da bancada, sentando-se em uma cadeira.</p><p>- Fiz de propósito, adoro ver sua cara de desespero quando faço algo do tipo.</p><p>- Vou adorar cortar sua mesada da próxima vez que fizer isso. - tentei ser</p><p>convincente.</p><p>Sofia riu outra vez.</p><p>- Até parece. - desdenhou de mim e deu aquele sorriso doce de menina enquanto</p><p>prendia o cabelo, o que me fez sorrir junto. - Tá, mas agora me conta, por que sua</p><p>aluna está abalando a sua sophrosyne?</p><p>"Por que Lauren Jauregui estava abalando a minha sophrosyne?", a pergunta ficou</p><p>colada na minha mente como um outdoor brilhando, em neon. "Por que?".</p><p>- Isso não é assunto pra você. - Desconversei, levantando-me do banco e caminhei</p><p>até a geladeira. - Quer que eu ajude você? - perguntei, pegando uma garrafa</p><p>pequena de suco de laranja concentrada.</p><p>- Não, tudo bem. Eu estou por dentro do quanto você "adoooooora" cozinhar. - Sofia</p><p>disse, tamborilando os dedos na bancada.</p><p>- Se você tivesse sido um pouco mais irônica, entraria para o livro dos</p><p>recordes.</p><p>Sentei-me outra vez onde estava, tomando um gole do suco enquanto colocava a</p><p>tampinha em cima da pedra de mármore.</p><p>- Mila, um dia eu vou ser chefe do Deuxave. - minha irmã tentou afirmar, mas sua</p><p>frase saiu cheia de insegurança, quase como uma dúvida.</p><p>- É claro que você vai, Sofi. - respondi o óbvio.</p><p>- Não, mas não por ser sua irmã. Eu não quero ser chefe de lá porque pertence à</p><p>você e você pode colocar o chefe que quiser. Eu quero ser chefe de lá por ser</p><p>realmente boa.</p><p>A observei atentamente enquanto falava. Ela era sempre tão impressionante para</p><p>mim. Não se passava um dia sem que eu me encantasse um pouco mais por minha</p><p>irmã. Ela tinha uma maturidade precoce, que era reflexo do fato de se espelhar em</p><p>mim e desejar agir como eu em muitas partes de sua vida e isso era bom, de certa</p><p>forma, porque ela não se permitia influenciar pelas regalias que eventualmente teria</p><p>se quisesse ter.</p><p>Tomei mais um gole de suco e repousei calmamente a pequena garrafa sobre a</p><p>bancada.</p><p>- Se eu lhe colocasse em um curso de dois meses com um grande chefe, amanhã e</p><p>depois disso lhe desse o cargo de chefe do Deuxave, você aceitaria? - perguntei,</p><p>olhando-a firmemente.</p><p>Minha irmã me olhou com estranheza, mas ponderou sobre o assunto.</p><p>- Um curso de dois meses? E depois o cargo seria meu? - ela perguntou e eu fiz que</p><p>sim com a cabeça, analisando-a. - Sim, eu aceitaria, com toda certeza do mundo. -</p><p>respondeu, convicta.</p><p>- Mas eu não lhe daria o cargo de chefe do Deuxave, mesmo você sendo minha irmã.</p><p>- disse-lhe com clareza. - Sabe por que? - ela fez que não com a cabeça. - Porque</p><p>você não está preparada e nem estaria preparada com dois meses de curso. Você é</p><p>boa Sofia. Você tem o dom, mas precisa desenvolvê-lo, precisa estudar e ser a</p><p>melhor no que faz. O cargo de chefe do Deuxave vai ser seu quando você merecê-lo.</p><p>- completei, tomando mais um pouco do suco.</p><p>Sofia veio até mim repentinamente e me abraçou.</p><p>- Você é a melhor irmã do mundo, Mila. Obrigada por cuidar de mim. - ela segurou</p><p>meu rosto e beijou minha bochecha com carinho.</p><p>Meu coração derreteu-se como sempre acontecia em cada uma das demonstrações</p><p>inesperadas de carinho que Sofia me dava. Não eram raras, mas sempre me enchiam</p><p>o peito de mais amor do que eu podia suportar. Então, meus olhos enchiam de</p><p>lágrimas.</p><p>- Ah, pare! Lá vai você chorar outra vez! - Sofia riu, passando a mão pelos meus</p><p>olhos.</p><p>- Shhhhh. Vá fazer seu macarrão, menina. - falei, dando-lhe um tapa carinhoso no</p><p>braço.</p><p>- Já vou, já vou. - minha irmã falou, rindo e se afastou de mim, indo de volta para a</p><p>beira do fogão. - Ah... e não deixe essa "ela" atrapalhar a sua sophrosyne. - falou,</p><p>observando a panela.</p><p>"Não deixar?" Eu não me lembrava onde eu havia perdido o controle sobre deixar ou</p><p>não deixar Lauren atrapalhar a minha sophrosyne, mas o fato era que eu havia</p><p>perdido e não fazia a menor ideia de como encontrar. Fato é que eu não tinha mais</p><p>controle sobre as coisas que eu gostaria de pensar ou não, pelo menos não no que</p><p>dizia respeito à Lauren Jauregui.</p><p>Já era a segunda feira depois do ocorrido no meu carro e tudo o que eu estava</p><p>conseguindo fazer era não agir como uma mulher de vinte e sete anos. Não havia ido</p><p>ao The Village para o almoço na quinta, mas havia ficado à espreita observando-a não</p><p>ir para o restaurante, mas sim para o seu dormitório. Eu queria analisa-la, mas</p><p>quanto mais eu me esforçava para compreender tudo o que envolvia ela e aquele</p><p>beijo repentino, mais confusa eu ficava e quanto mais confusa eu ficava, menos a</p><p>situação me agradava e mais eu pensava sobre aquilo. Eu não suportava não ter</p><p>respostas.</p><p>Depois do jantar com Sofia, decidi voltar para o meu quarto para decidir o que fazer e</p><p>como eu deveria agir em relação ao que havia acontecido e depois de alguns minutos</p><p>de considerações, a solução mais correta me pareceu ser: chamar Lauren Jauregui</p><p>para conversar e esclarecer as coisas. Eu tinha perguntas e ela tinha as respostas e a</p><p>única maneira de eu obtê-las de maneira madura e coerente era perguntando à ela.</p><p>Eu tinha aula em sua turma no dia seguinte e estava decidida a tomar o seu tempo</p><p>de almoço para termos a conversa que eu gostaria.</p><p>No dia seguinte, como me era habitual, entrei na sala às oito horas em ponto. Fingi</p><p>que não vi, mas vi, Lauren Jauregui fixar o olhar em mim como se fosse me engolir.</p><p>Evitei olhar para ela durante todo o tempo da aula, mas como era sua professora, era</p><p>inevitável em alguns momentos e de toda forma, eu precisava instruí-la caso ela</p><p>precisasse da minha ajuda para qualquer coisa durante a aula. Não me incomodava</p><p>ensinar.</p><p>- Professora... - ouvi sua voz ao meu lado e meu corpo reagiu a isso travando.</p><p>Eu estava atenta demais ao que estava lendo e não havia percebido ela se</p><p>aproximando. Seu cheiro era leve, como se misturasse água e plantas suaves. Cheiro</p><p>de mar e verde. Cheiro de cascatas.</p><p>"Por que estou prestando atenção ao cheiro dela?", travei a mandíbula quando a</p><p>dúvida me ocorreu. "Por que é um cheiro tão agradável?"</p><p>- Sim? Diga. - Falei simplesmente, mantendo em mente que a garota era minha</p><p>aluna.</p><p>- Como eu faço essa parte aqui? - ela me perguntou, apontando para o papel, em</p><p>uma pequena parte de seu desenho.</p><p>Semicerrei levemente os olhos, intrigada com a pergunta. Era evidente que ela sabia</p><p>como fazer aquilo. Era tão simples quanto desenhar a letra A.</p><p>"Ela está me provocando?", perguntei-me e senti-me incomodada com a ideia.</p><p>- É assim. - peguei a lapiseira de sua mão e fiz, ao invés de explicar-lhe como fazer.</p><p>Não havia me sentido a vontade com aquela provocação. Ela sabia que eu sabia que</p><p>ela sabia fazer aquela parte do desenho com mais perfeição do que qualquer outro</p><p>aluno naquela sala, então, por que ela estava me perguntando aquilo?</p><p>- Ah... - ela falou, mas não dei muita atenção, tentando processar a</p><p>informação anterior.</p><p>- Mais alguma dúvida? - perguntei, olhando-a friamente e estendendo-lhe de volta</p><p>sua lapiseira.</p><p>- Não... - ela pegou a lapiseira de volta e antes que pudesse falar outra vez, eu falei.</p><p>- Ótimo. Volte a fazer, você não tem todo tempo do mundo. - falei, tentando parecer</p><p>imparcial.</p><p>- Certo, professora Cabello. - a garota respondeu friamente.</p><p>"Por que ela estava agindo assim?", perguntei-me mais uma vez.</p><p>Olhei para ela e lhe dei o sorriso mais rápido e frio que conseguia, desejando que ela</p><p>se afastasse o mais rápido possível da minha mesa.</p><p>E de repente, toda a minha mente estava consumida pelos pensamentos a respeito</p><p>de Lauren Jauregui outra vez. Eu não conseguia mais me concentrar nos textos que</p><p>estava lendo. Tudo o que eu desejava era conversar com a garota e obter "porquês"</p><p>para as minhas dúvidas.</p><p>Lauren's pov</p><p>O resto da aula passou a passos de lesma. Cada vez que eu olhava o meu relógio e</p><p>achava que já havia se passado pelo menos meia hora, na realidade, eram só cinco</p><p>minutos. Assim, desisti da ideia de esperar a aula acabar e me concentrei em</p><p>terminar os croquis que a professora Cabello havia pedido.</p><p>A minha concentração fez o tempo passar mais rápido e quando eu menos esperava o</p><p>alarme do fim da aula soou e todos começaram a recolher seus materiais e levar seus</p><p>croquis até a mesa da professora Cabello.</p><p>Eu ainda precisava terminar uma pequena parte do meu último desenho, mas teria</p><p>tempo suficiente até que todos os alunos tivessem entregado os seus.</p><p>- Eu espero você lá fora, ok? - Normani falou, levantando-se com a bolsa pendurada</p><p>no antebraço e segurando os seus croquis.</p><p>- Ok, não vou demorar. - falei, voltando a atenção ao meu desenho, vendo de relance</p><p>Normani se encaminhar para o final da fila de alunos.</p><p>"Só mais um pouco e eu acabo", pensei, enquanto traçava uma das últimas linhas.</p><p>- Cara, não dou mais que duas semanas pra professora Cabello tirar sua calcinha com</p><p>os olhos. - a voz de Keana soou repentinamente, de muito perto.</p><p>Virei o rosto para ela, com os olhos arregalados de tão assustada que eu estava por</p><p>sua presença repentina e pelo que ela</p><p>havia falado.</p><p>- Sério, ela está muito na sua. - A garota declarou outra vez. - E pelo jeito que você</p><p>está vermelha, está na dela também.</p><p>Se eu estava vermelha, naquele momento eu virei a personificação de tudo o que é</p><p>vermelho.</p><p>- Você me assustou. - me defendi.</p><p>- Mas só falei verdades. - Keana disse rindo e se afastou da minha mesa, deixando-</p><p>me de olhos arregalados e rosto vermelho.</p><p>Revirei os olhos, tentando fazer parecer que não havia nada de verdadeiro no que ela</p><p>dizia e embora realmente não houvesse verdade alguma sobre Camila Cabello tirando</p><p>minha calcinha com os olhos em duas semanas, não era como se meu corpo não</p><p>tivesse reagido à ideia.</p><p>Pisquei com força para tentar afastar o pensamento de minha cabeça e terminei os</p><p>últimos traços do desenho, à tempo de olhar para a mesa da professora e vê-la</p><p>falando em particular com Normani que apenas concordava com a cabeça.</p><p>Segui para a fila, sendo a última da sala e acompanhei Normani saindo da sala com o</p><p>olhar. Estava impaciente para entregar de uma vez os meus croquis para Camila</p><p>Cabello e ir atrás de Normani para saber o que ela havia lhe dito.</p><p>Quando chegou a minha vez, Camila focou o olhar no computador outra vez,</p><p>mexendo em qualquer coisa que eu não conseguia ver.</p><p>- Quero entregar meus croquis. - falei e ela nem me olhou.</p><p>Seus olhos desviaram-se para a porta, onde ainda haviam dois alunos do lado de</p><p>dentro, conversando. Eu olhei junto e depois olhei novamente para ela.</p><p>- A senhora não vai pegar meus croquis? - perguntei, impaciente com o fato de estar</p><p>sendo ignorada.</p><p>Camila levantou-se e fechou o computador, colocando-o em seguida dentro de sua</p><p>pasta preta.</p><p>- Professora?! - a chamei, um pouco mais impaciente.</p><p>Ela se levantou, pegou os croquis da minha mão e os guardou junto com os dos</p><p>outros alunos. Eu estava estática demais para reagir a tanta frieza. Ela nem sequer</p><p>olhava mais para mim, era isso?</p><p>- Me acompanhe. - ela declarou, tirando a pasta de cima da mesa e dando um passo</p><p>à minha frente. Olhou-me por cima do ombro. - Eu acredito que nem preciso explicar</p><p>o por que, não é, senhorita Lauren? - disse impassível e caminhou para fora da sala.</p><p>Eu estava congelada e nada disse, apenas a segui em total silêncio e com um certo</p><p>pavor que eu não sabia de onde havia surgido.</p><p>De repente, todo o medo e toda a vontade de fugir que haviam sumido quando eu</p><p>considerara que Camila estava fugindo de mim, reapareceram e tudo o que eu queria</p><p>era sair correndo dali.</p><p>Caminhamos lado a lado, em total silêncio, até o seu carro e dessa vez ela não</p><p>precisou me dizer para entrar, simplesmente entrei e cruzei os braços, como uma</p><p>resposta inconsciente do meu corpo ao meu desejo de me proteger de fosse lá o que</p><p>fosse que estava me causando medo.</p><p>Camila nada dizia, apenas dirigia e eu não tinha coragem nem de olhá-la para</p><p>analisar o que a sua expressão revelava. Eu estava com medo da conversa que ela</p><p>provavelmente queria ter. Eu estava com medo das perguntas que ela iria me fazer e</p><p>das respostas que eu teria que dar, porque eu não fazia a menor ideia de como</p><p>respondê-la. Já era suficiente ter que lidar com tudo aquilo acontecendo dentro de</p><p>mim. Falar com a pessoa que me despertara para todas aquelas confusões estava me</p><p>deixando em pânico.</p><p>Seguimos caminhos muito diferentes do que eu estava acostumada e Camila parou o</p><p>carro no acostamento de uma rua cercada por árvores dos dois lados e sem</p><p>movimento algum. Desligou a ignição e virou-se de frente para mim.</p><p>- Nós precisamos conversar. - ela declarou e eu concordei com a cabeça sem</p><p>conseguir olhá-la. - Você está abalando a minha sophrosyne.</p><p>"Hã? O que?!", exclamei mentalmente. "Estou abalando o que?!".</p><p>Olhei para ela sem me preocupar em esconder a minha expressão de quem não havia</p><p>entendido o que ela havia falado. Levantei a sobrancelha, ao mesmo tempo que as</p><p>uni, franzindo a boca.</p><p>- O que?! - decidi expressar verbalmente, para deixar mais claro que eu não havia</p><p>entendido.</p><p>- Você está abalando a minha sophrosyne. Você está abalando o meu estado de</p><p>mente saudável, o meu auto controle e a minha moderação.</p><p>A minha expressão suavizou-se bem pouco, porque eu ainda estava chocada e</p><p>processando o que ela havia acabado de dizer.</p><p>- Eu estou abalando o seu estado de mente saudável? - perguntei, repetindo o que</p><p>ela havia dito apenas para ter certeza de que havia escutado corretamente.</p><p>Um frio na espinha me subiu congelando-me as costas e depois o corpo inteiro bem</p><p>no momento em que seus olhos esfomeados grudaram-se aos meus. Meus dentes</p><p>trancaram minha mandíbula quando seus olhos tornaram-se mais profundos e</p><p>intensos.</p><p>"O que está acontecendo com meu corpo?", pensei, ao me dar conta dos meus</p><p>músculos se contraindo em resposta ao olhar invasor de Camila.</p><p>- Droga. - sua voz soou baixa e fraca. - Você arruinou a minha sophrosyne.</p><p>Então, o mundo se calou.</p><p>Selcouth</p><p>Lauren's pov</p><p>Selcouth (adv.) : desconhecido, raro, estranho e maravilhoso.</p><p>"O que está acontecendo com meu corpo?", pensei ao me dar conta dos meus</p><p>músculos se contraindo em resposta ao olhar invasor de Camila.</p><p>- Droga. - sua voz soou baixa e fraca. - Você arruinou a minha sophrosyne.</p><p>Então, o mundo se calou.</p><p>Sua mão tocou o meu rosto e instantaneamente meus sentidos desligaram-se para o</p><p>resto mundo, só funcionavam para ela. Meus olhos só enxergavam Camila, meu</p><p>olfato só distinguia seu cheiro, meu tato só sentia seu toque.</p><p>"Eu preciso me controlar. Eu não posso ser lésbica. Isso é errado. Eu não posso</p><p>ser...", pensei. "Não importa, a mão dela é tão...tão...".</p><p>Seus dedos tocaram tão delicadamente meu rosto que em qualquer outra situação, se</p><p>fosse qualquer outra pessoa me tocando daquele jeito, eu mal poderia sentir.</p><p>Entretanto, o toque de Camila, embora fosse suave, estava-me fazendo tremer.</p><p>Seus olhos não desgrudavam-se dos meus e por mais que a minha vontade de</p><p>desviar o olhar fosse grande, maior ainda era a minha vontade de olhar eternamente</p><p>o seu rosto, seus traços profundos e suaves... seus láb...</p><p>- Por que está tremendo? - Ela perguntou, retirando a mão do meu rosto e eu olhei</p><p>para baixo imediatamente, cedendo à timidez.</p><p>- Eu não sei... - confessei, ouvindo a minha própria voz sair fraca demais e</p><p>amaldiçoando-me por isso. - O que quis dizer sobre eu estar abalando a sua</p><p>sophro...so.. - fiz uma careta tentando pronunciar a palavra que ela havia dito.</p><p>- Sophrosyne. - ela me ajudou.</p><p>- Isso, sophrosyne. - repeti, tentando memorizar a pronúncia daquilo.</p><p>Camila continuava a me olhar da mesma maneira que me olhara da primeira vez em</p><p>que conversamos, nos corredores das salas de pranchetas da HGSD. Parecia querer</p><p>me engolir, parecia querer me partir ao meio e mergulhar dentro de mim. E eu</p><p>continuava a sentir estrelas se chocando e explodindo no meu peito cada vez que ela</p><p>me olhava.</p><p>A mulher soltou algo parecido com um suspiro e com o olhar intrigado, como se</p><p>discutisse com ela mesma, ainda me olhando, respondeu.</p><p>- Eu quis dizer, literalmente, que você está destruindo a minha paz de espírito. - ela</p><p>disse em um tom ameno. - Eu tenho perguntas a seu respeito e não consigo</p><p>respondê-las. Eu preciso das respostas e só você pode me dar essas respostas.</p><p>"Merda!", exclamei mentalmente. "Como eu vou dar à ela respostas que eu ainda não</p><p>consegui dar nem para mim mesma?".</p><p>Era evidente que eu tinha total consciência de que eu devia respostas para a minha</p><p>professora, afinal, eu havia lhe dado um beijo sem mais nem menos e da mesma</p><p>forma eu havia desaparecido de seu carro cinco segundos depois. Eu sabia que lhe</p><p>devia respostas, mas eu não tinha resposta alguma.</p><p>- Eu não sei se... - tentei começar a falar a respeito.</p><p>- Por que você me beijou, Lauren? - ela me interrompeu, ignorando totalmente a</p><p>minha intenção de falar.</p><p>Foi direta. Objetiva. Foi mulher.</p><p>A tempestade de pensamentos que vieram à minha cabeça como resposta à pergunta</p><p>dela foi tão intensa e tão cheia de fatos que eu não queria aceitar como verdades que</p><p>eu travei outra vez. Apertei os</p><p>crescendo. Me</p><p>perguntei se eu era a única a me sentir assim em relação aos pais enquanto encarava</p><p>o corredor por onde eles já haviam desaparecido.</p><p>Fechei a porta vagarosamente e encostei-me nela, olhando para dentro do meu novo</p><p>quarto. O espaço era amplo. Maior do que eu imaginava. Havia três janelas, uma em</p><p>cada parede do quarto, com exceção da que eu estava. Sob cada janela, em paredes</p><p>opostas, estavam duas camas de casal em tamanho médio, uma de frente para a</p><p>outra. Os emblemas de Harvard estavam pendurados em quadros nas paredes sobre</p><p>as camas. A universidade não permitia que tirássemos os emblemas. Ao lado de cada</p><p>cama, entre a parede da terceira janela e as camas, haviam mesas de estudo,</p><p>ligeiramente largas, com cadeiras e luminárias. Os armários ficavam em um cômodo</p><p>ao lado do banheiro. Um mini closet dividido em: lado direito para uma, lado</p><p>esquerdo para a outra. Havia também uma pequena cozinha, na parede ao lado da</p><p>porta onde eu estava encostada. Era um ambiente confortável, no final das contas.</p><p>Como as camas eram exatamente iguais e o tudo sobre elas eram iguais, achei que</p><p>não haveria problema se eu escolhesse a minha cama primeiro. Assim, escolhi a cama</p><p>ao lado direito, porque eu era um pouco supersticiosa. Não muito.</p><p>Sentei-me na cama e olhei o relógio no visor do celular, antes de decidir o que fazer.</p><p>Eram 8:30 e às 9 deveríamos estar no edifício da HGSD, que ficava a algumas ruas</p><p>dali, para termos as cerimônias de apresentação e algumas instruções a respeito da</p><p>universidade. Decidi esperar a minha colega de quarto até 8:45. Entretanto, ela não</p><p>apareceu até o momento em que abri a porta para sair do dormitório e ela estava</p><p>olhando para um papel e para a porta do quarto.</p><p>- Você é a Lauren? - Ela perguntou, esbaforida.</p><p>- Sim! - Respondi, abrindo-lhe um sorriso.</p><p>- Por Deus, que bom ver você! - ela avançou uns passos e me abraçou.</p><p>Demorei para retribuir o abraço porque achei aquilo estranho. Ela falou como se já</p><p>nos conhecêssemos.</p><p>- É um prazer conhecer você! - respondi, retribuindo o abraço.</p><p>- Ai, você deve estar me achando uma louca! - ela exclamou, rindo de si própria e eu</p><p>tentei não confirmar com a expressão. - No meu papel estava quinto andar. Então eu</p><p>meio que estava procurando pelo andar certo desde a hora que cheguei. Eles tem</p><p>quartos HA01 em TODOS os andares e TODOS eles ficam no final do corredor. - ela</p><p>me informou e eu ri, entendendo então, porque ela estava tão feliz em me ver.</p><p>- Ah!! - Exclamei. - Mas agora você encontrou. Deixe-me ajudar você com as suas</p><p>coisas. - Eu disse, pegando uma das malas dela, ajuda essa que ela aceitou de bom</p><p>grado e me seguiu para dentro do quarto.</p><p>- Espero que não se incomode por eu ter escolhido a cama antes de você chegar, é</p><p>que...</p><p>- Não, tudo bem. É tudo igual, não faz a menor diferença e mesmo que fizesse, você</p><p>chegou primeiro e tem todo o direito. - ela falou, largando uma mochila vertical que</p><p>parecia muito pesada, em cima da cama.</p><p>Eu sorri e afirmei com a cabeça. Ela olhou o relógio e depois para mim.</p><p>- Acho que não dá tempo de tomar um banho, né?</p><p>- Com certeza, não. Estamos mais do que atrasadas. - Eu respondi, fazendo uma</p><p>careta.</p><p>- Tudo bem, vamos logo então! A gente se apresenta direito no caminho.</p><p>Chegamos à tempo do início da cerimônia de apresentação que foi extremamente</p><p>exaustiva e cheia de discursos sobre os objetivos e a moral de Harvard. Saímos de lá</p><p>às quatro horas da tarde, exaustas e famintas.</p><p>- Quer comer? - Perguntei para Normani.</p><p>- Não só quero, como preciso. Se eu ficar mais um minuto sem comer, é capaz de eu</p><p>comer meu próprio braço.</p><p>Fiz uma careta e ri. Depois de oito horas ao lado de Normani, ouvindo as</p><p>intermináveis palestras e discursos dos dirigentes de Harvard, eu já havia percebido</p><p>que ela era o tipo de pessoa que tinha a comédia na alma e mesmo quando não</p><p>queria, fazia piadas ou comentários sarcásticos que acabavam sendo engraçados.</p><p>- Então vamos, não quero uma colega de quarto perdendo o braço no primeiro dia de</p><p>aula.</p><p>Fomos comer no The Urban Shed, um café/bar/restaurante a poucas quadras de onde</p><p>estávamos. Normani comeu mais do que eu havia comido a vida inteira e eu me</p><p>contentei com dois sanduiches de frango e suco de laranja para acompanhar. Depois,</p><p>demos algumas voltas pelas ruas perto do dormitório e conhecemos alguns outros</p><p>calouros que estavam passeando também. Alec James, um calouro vindo de Londres</p><p>que estudaria engenharia civil; Dinah Hansen, uma caloura vinda da Califórnia para</p><p>estudar, também, engenharia civil; Path Mosser, um calouro que havia nascido em</p><p>Boston, mas morara a vida inteira no Brasil e estava ali para estudar engenharia</p><p>mecatrônica e Keana, uma caloura vinda de Miami para estudar arquitetura.</p><p>Conversamos um pouco na praça em frente ao edifício de nossos dormitórios e às</p><p>nove, decidimos subir. No par ou ímpar, ganhei de Normani e fui a primeira a tomar</p><p>banho, assim, às dez, já estava na cama, pronta para dormir.</p><p>No dia seguinte, Normani acordou antes de mim e foi tomar banho. Provavelmente</p><p>com medo de perder no par ou ímpar novamente. Saímos juntas do dormitório a</p><p>tempo de chegarmos quarenta minutos antes de a aula começar.</p><p>Entramos na sala juntas, achando que seríamos as primeiras a chegar, entretanto, já</p><p>haviam algumas pessoas ali. Uma garota com estilo alternativo, sentada na última</p><p>mesa, no canto da sala, encarava a janela, como se não existisse nada além daquilo</p><p>no mundo. Um grupo de alunos conversavam, sentados bem no meio da sala,</p><p>provavelmente se conhecendo. Espalhados por algumas outras carteiras estavam</p><p>outros alunos com uma expressão que denunciava muito sono. Me perguntei o que</p><p>teriam feito na noite anterior. Bem à frente, sentada na mesa ao lado da mesa</p><p>central, estava uma garota de cabelo preso em trança para o lado, de camisa social</p><p>branca e calça azul listrada. Usava um cinto vermelho fino e saltos pretos de ponta</p><p>fina. "Elegantérrima", pensei. "Elegante até demais para uma aluna". Seus traços</p><p>eram latinos e rosados. Tinha os lábios carnudos e usava um perfume doce que eu</p><p>conseguia sentir mesmo ali, da porta da sala.</p><p>Sentei-me na mesa ao lado da dela, muito porque estava interessada em conhecê-la</p><p>e muito porque eu tinha problemas de vista e realmente precisava sentar o mais</p><p>próxima possível do professor. Normani sentou-se ao meu lado e começou a</p><p>organizar algumas coisas em sua mesa. Virei-me para outra garota ao meu lado,</p><p>tentando ser simpática e puxar conversa. Entretanto, ela nem se moveu. Não tirou os</p><p>olhos do livro que segurava nas mãos. Imediatamente, arrependi-me por ter</p><p>considerado a hipótese de conhecê-la, diante daquele comportamento rude. Era uma</p><p>garota extremamente mal educada. Virei-me de frente para a porta, para esperar o</p><p>professor entrar na sala e enquanto fazia isso, olhei meu celular para me distrair.</p><p>Exatamente às 8 horas da manhã, o alarme soou. Esperava que o professor entrasse</p><p>pela porta a qualquer momento, entretanto, o que aconteceu foi totalmente inusitado.</p><p>A garota ao meu lado, levantou-se e caminhou até a frente da sala, o que fez com</p><p>que todos arregalassem os olhos e se virassem de frente para ela.</p><p>- Bom dia, calouros. - Ela nos cumprimentou em um tom amigável, dando um sorriso.</p><p>- Eu sou Camila Cabello, professora de vocês na disciplina... - caminhou até o quadro</p><p>e escreveu enquanto falava. - Teoria da Percepção. Sou formada pela universidade de</p><p>Harvard em arquitetura e urbanismo, tenho mestrado em engenharia civil e sou PhD</p><p>em Perspectiva e Linguagem arquitetônica. A instituição me designou para apresentar</p><p>vocês às perspectivas da linguagem arquitetônica. Sem a minha disciplina, vocês não</p><p>serão bons arquitetos. - ela parou um pouco e sorriu novamente. - A minha missão é</p><p>ensinar vocês a sentirem o mundo ao redor de vocês. A minha missão é ensinar à</p><p>vocês a sentirem os sonhos das pessoas. Sejam bem vindos à Harvard.</p><p>Ela virou-se novamente para o quadro e tudo o que eu conseguia pensar, além do</p><p>fato de ela ser incrivelmente nova e linda, era: "que mulher foda!".</p><p>Concupiscient</p><p>dentes com força uns nos outros, tentando dissipar</p><p>aquela enxurrada de palavras e frases que eu me recusava a dar como resposta para</p><p>ela e principalmente, para mim.</p><p>"Lésbica", "Normani! Eu sou lésbica", "boca desejável", "os sentimentos</p><p>mais descontrolados que já tive", "porque você é linda", "porque seus olhos são</p><p>arrebatadores", "porque sou lésbica", "porque minha boca estava pulsando de</p><p>vontade de beijar a sua", "porque eu me sinto atraída por você".</p><p>Apertei os dentes com ainda mais força e soltei um suspiro profundo e quase raivoso,</p><p>na tentativa de afastar aqueles pensamentos inoportunos.</p><p>- Eu não sei... - respondi vagamente.</p><p>Eu realmente não sabia... Ou não queria aceitar o que eu sabia.</p><p>- Não sabe?! - ela perguntou, exclamando levemente e seu tom que, ainda que</p><p>delicado, saiu mais duvidoso do que deveria.</p><p>- Não sei. - respondi simplesmente.</p><p>Todos os meus pensamentos, de repente, estavam concentrados em querer</p><p>desaparecer. Ainda assim, mesmo com todos os meus pavores interiores do</p><p>momento, mesmo com o enjoo que se acumulava e crescia no meu estômago,</p><p>mesmo com a minha cabeça entorpecida, eu me permiti olhar para Camila outra vez.</p><p>Seu olhar continuava fixo em mim, sua expressão era intensa e a sensação de ser</p><p>invadida nunca havia sido tão forte. Os pelos escassos dos meus braços se</p><p>arrepiaram em reflexo ao frio que subiu rasgando pela minha espinha e eu me senti</p><p>levemente zonza. Sua expressão se suavizou e eu desviei outra vez o olhar.</p><p>- Lauren... - sua voz soou mais tranquila do que sua expressão dizia que ela estava. -</p><p>Não se intimide em me dizer que é lésbica. - ela começou, usando um tom de muita</p><p>compreensão. - Isso não vai mudar em nada a minha forma de avaliar você. Eu</p><p>respeito a sua opção sexu...</p><p>- Eu não sou lésbica! - falei deixando transparecer mais nervosismo do que eu</p><p>gostaria.</p><p>"Eu sou lésbica sim", o pensamento surgiu na minha cabeça como resposta à mentira</p><p>que eu contara não somente para ela, mas para mim própria.</p><p>- O que? - ela pareceu confusa e ajeitou-se no banco do carro, sentando-se melhor. -</p><p>Como assim? Você não é lésbica? - ela perguntou em um tom bastante inconformado.</p><p>"Sou", pensei. "Droga Lauren, você NÃO é lésbica."</p><p>- Não. - eu disse, encarando a mão dela que estava apoiada na própria coxa.</p><p>A tatuagem em forma de cruz fina não estava coberta por nenhum anel naquele dia e</p><p>só naquele momento eu reparara naquilo. Como tudo a respeito dela, a tatuagem se</p><p>encaixava perfeitamente em tudo o que ela era, como se sempre tivesse sido parte</p><p>de seu corpo, mesmo que fosse uma coisa que eu vira poucas vezes, mesmo que</p><p>fosse algo novo para mim. Seus dedos finos tinham curvas sinuosas, sem desníveis.</p><p>"Como ela pode ser tão perfeita até em detalhes tão ínfimos?", o pensamento surgiu</p><p>involuntariamente, sem controle. "Por que diabos eu não paro de olhar para os</p><p>malditos detalhes de perfeição dessa mulher?".</p><p>- Então, por que me beijou? - ela perguntou, deixando a cabeça pender levemente</p><p>para o lado, como se seu corpo expressasse a interrogação de sua dúvida.</p><p>Engoli o nó que se formou em minha garganta, esperando que se aquele nó fosse</p><p>engolido, respostas coerentes para a pergunta de Camila surgiriam, mas tudo o que</p><p>aconteceu foi: nada.</p><p>- Eu não sei... - suspirei. - Eu agi por impulso. Estávamos tendo todo aquele</p><p>momento durante a tarde e, eu não sei pra você, mas aquilo foi bastante intenso pra</p><p>mim e eu não sei... - eu estava formulando uma resposta convincente, que de certa</p><p>forma fazia sentido e tinha pontos de verdade, mas que ao mesmo tempo não era a</p><p>verdade completa. Eu estava adaptando a verdade. - Eu meio que me deixei levar.</p><p>Foi impulso. Como eu disse, eu vejo a arquitetura em você e eu estava tão</p><p>preenchida de amor pela arquitetura naquele momento que acabei... "colocando pra</p><p>fora" - fiz aspas com os dedos. - em você.</p><p>- "Colocando pra fora" em mim? - ela fez aspas com os dedos também.</p><p>- É... - eu respondi vagamente.</p><p>Não era como se aquilo não fosse parte da verdade. Eu a havia beijado em partes</p><p>porque a admirava, então eu não estava sendo totalmente desonesta.</p><p>Ela se manteve calada por alguns instantes, sem nunca tirar os olhos de mim e ao</p><p>mesmo tempo em que eu me sentia intimidada pela constância de seu olhar, eu</p><p>gostava que o seu foco fosse eu. Porque quando Camila me olhava, parecia que só eu</p><p>existia no mundo.</p><p>- Por que sua boca diz uma coisa e seus olhos dizem outra? - ela perguntou, de</p><p>repente.</p><p>Seu tom era sempre ameno e curioso. Meus sentimentos eram sempre nervosos e</p><p>descompensados.</p><p>- Meus olhos não estão dizendo nada. - falei repentinamente, pensando que minha</p><p>rapidez em responder fosse motivo suficiente para convencê-la de que meus olhos</p><p>diziam a mesma coisa que minha boca.</p><p>Ela me analisou outra vez e eu virei-me de frente para o para-brisa do carro,</p><p>sentando-me corretamente no banco do passageiro.</p><p>- Tudo bem... - ela disse, mantendo-se na mesma posição. - Se esta é a sua resposta</p><p>eu a aceito e a entendo. Não preciso me preocupar quanto a acontecer novamente,</p><p>correto?</p><p>"Precisa!".</p><p>- Não. - eu disse para ela e para a minha cabeça.</p><p>- Você é uma boa aluna, Lauren. Eu gosto de ensinar você. Fui sincera quanto ao que</p><p>lhe disse na ponte. Não é atoa que tenho lhe dado certa atenção no que diz respeito</p><p>às suas habilidades de desenho e de percepção do mundo ao seu redor. - ela falou,</p><p>tocando o meu rosto, fazendo-me virar de frente para ela. - O que aconteceu na terça</p><p>feira passada, eu entendo. - seu olhar estava fixo no meu, carregado de compreensão</p><p>e amabilidade e eu a agradeci por estar agindo daquela forma. - Não pense que estou</p><p>chateada com você. Eu estava intrigada. - ela falou, tirando a mão do meu rosto. -</p><p>Tudo bem?</p><p>Eu fiz que sim com a cabeça, olhando para ela.</p><p>Ao mesmo tempo em que sentia alívio pela maneira delicada que ela escolhera para</p><p>lidar com a situação eu me sentia angustiada por ela não ter percebido que...</p><p>- Bom, então agora eu vou lhe devolver à Harvard. - ela disse, dando-me um sorriso</p><p>agradável e sentando-se corretamente.</p><p>- Eu tenho uma pergunta. - falei, tentando manter o clima tranquilo que estava</p><p>começando a surgir, mesmo que por dentro eu estivesse no meio de um terremoto.</p><p>- Faça. - ela disse, ligando o carro e ajeitando-se para sentar-se melhor no banco.</p><p>- Por que você disse que eu destruí a sua Sophrosyne? - perguntei.</p><p>- Já lhe disse... - ela falou, dando a partida no carro, pegando de volta o caminho</p><p>para Harvard. - Por que eu queria respostas e não conseguia encontrá-las sozinha.</p><p>Estava perturbando a minha...</p><p>- Não, não. - a interrompi. - Você disse que eu destruí a sua paz de espírito. -</p><p>destaquei a palavra para que ela entendesse. - Por que?</p><p>Ela virou ligeiramente a cabeça de lado para me olhar e semicerrou os olhos</p><p>levemente, arrastando depois um lábio no outro, em seguida dando-me um sorriso</p><p>curto e envenenante.</p><p>O efeito do veneno daquele sorriso foi a paralisia imediata do meu pulmão. A</p><p>dificuldade de respirar foi tanta que eu não tive alternativa a não ser respirar fundo.</p><p>O sorriso dela aumentou ligeiramente e ela voltou a olhar para a rua.</p><p>- A resposta para essa pergunta é a mesma resposta para a pergunta que lhe fiz. -</p><p>ela disse, intercalando o olhar entre mim e a rua.</p><p>- Qual pergunta? - a indaguei. Ela havia me feito mais de uma pergunta, afinal.</p><p>- "Por que você me beijou?". - ela respondeu.</p><p>- Então a sua resposta é "Eu não sei?". - perguntei, usando as mesmas palavras que</p><p>eu havia usado para respondê-la.</p><p>Ela me olhou de lado novamente e seu sorriso envenenante voltou aos lábios. Voltou</p><p>a olhar para frente.</p><p>- Não a resposta que você me deu com a boca, Lauren. A resposta que você me deu</p><p>com os olhos. - ela falou, com o olhar fixo na rua.</p><p>Então, um sopro gelado se espalhou pelo meu corpo, congelando meus sentidos e</p><p>minha razão.</p><p>As horas começaram a passar lentas depois daquela tarde com Camila. Eu queria que</p><p>a quinta feira chegasse</p><p>logo, para vê-la no restaurante, mas o tempo se arrastava,</p><p>como se quisesse testar a minha resistência. Eu não tinha motivo nenhum para</p><p>querer vê-la, senão, simplesmente vê-la. As coisas não estavam mais em uma ordem</p><p>de conexão lógica na minha cabeça.</p><p>Eu queria ver Camila e só.</p><p>Os meus desesperos pessoais foram sendo empurrados para dentro de qualquer</p><p>canto escondido dentro de mim. Eu não estava mais consumida pelo medo de pensar</p><p>em mim mesma como lésbica. O medo ainda existia, mas foi como se tivesse</p><p>percebido que não era o seu momento para entrar em cena e se retirou, dando</p><p>espaço para Camila que àquela altura, dominava os meus pensamentos ainda mais do</p><p>que antes, se é que isso era possível.</p><p>Camila dominava-me a mente furiosamente. Não havia um espaço dos meus</p><p>pensamentos que não estivesse sendo impiedosamente ocupado por ela.</p><p>Eu estava eufórica pela quinta feira, quando eu, finalmente, poderia vê-la outra vez.</p><p>- Você está parecendo nervosa, Lauren. - Normani falou, escovando os dentes,</p><p>encostada na porta do banheiro, olhando para mim. - Por que está assim?</p><p>Eu havia contado para Normani quase tudo o que havia acontecido na terça feira,</p><p>quando Camila havia me levado para conversar. Eu omiti a parte em que ela disse</p><p>que eu havia destruído a paz de espírito dela pelo mesmo motivo pelo qual eu a havia</p><p>beijado. Omiti, não porque eu não confiava em Normani, mas porque eu não sabia</p><p>como interpretar aquela informação, principalmente quando ela estava me fazendo</p><p>sentir coisas tão descontroladas.</p><p>- Não estou nervosa. - falei, colocando alguns livros dentro da mochila. - Só estou...</p><p>Normani estava segurando a escova de dentes quase pendurada em sua boca,</p><p>olhando-me com uma expressão de tédio total. Ela nem precisou dizer "pare de</p><p>mentir", eu li em seu rosto.</p><p>Suspirei e sentei-me pesadamente na cama.</p><p>- É que hoje é quinta feira... - falei, deixando no ar, tendo certeza que Normani</p><p>facilmente entenderia.</p><p>Joguei-me de costas na cama, vendo de reflexo quando Normani voltou para dentro</p><p>do banheiro sem falar nada. Fechei os olhos e tentei dar um pouco de calma à minha</p><p>mente, mas de nada adiantou. A minha agonia era tanta que meus olhos estavam</p><p>pesados. Tentei concentrar meus pensamentos no barulho da água da torneira, mas</p><p>tudo o que eu pensava, vinha acompanhado do nome dela.</p><p>"Água da torneira... Os olhos da Camila são lindos.", "Aula da professora Hadid... Não</p><p>vejo a hora de ter aula com a Camila.", "Vou comer pão com geléia... Camila tem a</p><p>voz tão bonita.".</p><p>Tudo levava os meus pensamentos à ela e eu estava enlouquecendo, mas</p><p>curiosamente, eu não queria parar.</p><p>Era estranho... Estar enlouquecendo e gostar disso.</p><p>- Laur... - Normani falou, sentando-se ao meu lado na cama e eu abri os olhos, vendo</p><p>sua silhueta bem perto de mim. - Você está assim por causa da professora Cabello?</p><p>Vocês já não conversaram? - ela perguntou, usando o mesmo tom carinhoso e</p><p>atencioso de sempre.</p><p>Inspirei profundamente e soltei o ar da mesma forma. Apertei os olhos e</p><p>impulsionei meu corpo para cima, sentando-me ao lado de Normani.</p><p>- Conversamos, Mani. - falei, olhando para as minhas mãos, meio caídas entre</p><p>minhas coxas. - Mas não é como se a minha explicação pra ela fosse verdade... Você</p><p>sabe... Eu... - mordi o lábio inferior, sentindo-me envergonhada em repetir aquilo.</p><p>Era mais fácil falar dos meus sentimentos quando eu não estava "calma". - Eu não a</p><p>beijei por causa do momento... Não foi só por isso. Eu a beijei porque senti vontade.</p><p>Meu corpo estava todo na minha boca e a minha boca estava desejando ela. - falei,</p><p>ainda que com dificuldade.</p><p>- Mas o que está deixando você assim? Por que está tão ansiosa? - Ela perguntou,</p><p>ainda sem entender.</p><p>- É que eu quero ver ela. - respondi, sem pensar.</p><p>- Pra que? - Normani levantou uma das sobrancelhas. - Vai falar alguma coisa para</p><p>ela?</p><p>- Não... - olhei para baixo outra vez. - Eu só quero vê-la mesmo. - confessei,</p><p>baixinho.</p><p>- Tipo, só ver por ver?</p><p>- É... - confirmei, usando o mesmo tom.</p><p>- Caramba, Lauren... - Normani falou, ponderando algo mentalmente.</p><p>- O que? O que foi? - perguntei, olhando-a e arregalando brevemente os olhos.</p><p>- Você está apaixonada pela professora Camila. - ela declarou.</p><p>- É CLARO QUE NÃO! - exclamei, sentindo um sopro fortíssimo no meu estômago e</p><p>levantei da cama em um pulo. - É claro que eu não estou apaixonada por ela! -</p><p>repeti, mais para mim mesma do que para Normani. - Você está interpretando as</p><p>coisas de forma errada.</p><p>- Calma, Laur... - Normani tentou falar, mas de nada adiantou.</p><p>- Uma coisa é eu descobrir que gosto de beijar mulheres ou que eu gostei muito mais</p><p>de beijar a professora Cabello do que de beijar qualquer outro homem e que por isso</p><p>eu, provavelmente sou lésbica e estou perdida na vida, outra coisa SOU EU ESTAR</p><p>APAIXONADA PELA MINHA PROFESSORA. - exclamei, quase gritando, alterando</p><p>bastante o tom de voz para concluir a fala.</p><p>Eu estava andando de um lado para o outro, sentindo-me consternada com a</p><p>suposição de Normani.</p><p>A minha amiga se levantou calmamente da cama e segurou nos meus dois braços,</p><p>fazendo-me parar de andar feito uma louca. Eu a olhava com certo desespero,</p><p>tentando encontrar qualquer tipo de porto seguro em seu olhar, qualquer coisa que</p><p>acalmasse aquele turbilhão dentro de mim.</p><p>- Respire fundo, Laur. Você precisa se calmar, garota. - Normani falou, encarando-me</p><p>firmemente, passando-me toda confiança que existia dentro de si. - Não adianta</p><p>surtar. Não tem por que surtar. Eu só fiz uma suposição, tudo bem? Respire e se</p><p>acalme...</p><p>Ela começou a respirar fundo e a soltar lentamente e eu a imitei, esperando,</p><p>sinceramente que aquilo desse certo. Eu não ousava desviar os olhos dos dela e</p><p>tampouco ela desviava os olhos dos meus.</p><p>Ficamos repetindo aquilo por alguns minutos, até que eu estivesse suficiente calma</p><p>para conversar sem ter um surto outra vez.</p><p>- Está melhor? - Normani perguntou, deslizando as duas mãos pelos meus braços.</p><p>- Sim...</p><p>- Laur... toda essa situação com a professora Cabello está fazendo você pirar. -</p><p>Normani falou, puxando-me delicadamente pelo braço, para sentarmos na cama</p><p>novamente. - Eu sei que você não gosta de falar sobre isso e que não gosta nem de</p><p>pensar sobre isso, mas o fato é que você precisa arranjar um meio de descobrir,</p><p>organizar ou sei lá... fazer qualquer coisa para entender o que está acontecendo com</p><p>você em relação à professora e em relação a você mesma.</p><p>- Eu sei, eu sei... - concordei, movimentando a cabeça em afirmação. - É</p><p>só que... eu não sei como fazer isso, Normani. Eu não sei como acalmar as coisas</p><p>dentro de mim. Não sei organizar o que eu estou sentindo, entende?</p><p>- Você nem precisava ter dito, isso está estampado na sua testa.</p><p>- O que eu faço? Como eu faço pra isso parar? - perguntei, quase suplicando por uma</p><p>resposta que me ajudasse.</p><p>- A questão é: você quer que isso pare, Lauren? - ela perguntou, segurando as</p><p>minhas duas mãos, olhando-me com atenção. - Porque, sinceramente, pra mim não</p><p>parece que você quer que isso pare. Você fica fugindo das coisas com as quais precisa</p><p>lidar, só pra ficar pensando exaustivamente na professora Cabello. Você não se</p><p>permite pensar sobre tudo isso com clareza. Você está afastando seus pensamentos e</p><p>deixando só o que você não consegue controlar, que é justamente: Camila Cabello.</p><p>- E o que você sugere que eu faça? - perguntei, deixando o peso dos meus ombros se</p><p>refletirem nas costas, curvando-me ligeiramente para frente.</p><p>- Enfrente você mesma, Lauren. Pare de fugir. - Ela decretou e levantou-se da cama.</p><p>- É o que você deve fazer. E agora vamos! - ela disse, puxando-me pela mão. -</p><p>Temos que ir pra aula da professora Hadid e você sabe que ela "não tolera atrasos". -</p><p>Normani disse, imitando o sotaque israelense da professora.</p><p>Eu ri.</p><p>- Você me faz recuperar o senso de humor nos momentos mais grotescos. - Eu disse,</p><p>levantando-me e pegando a minha mochila.</p><p>- Você me faz ter senso de humor sempre, sua perdedora. - ela disse, puxando-me</p><p>para um abraço. - Tente organizar esses sentimentos. Você é boa demais para sofrer</p><p>por algo só porque não tem coragem de pensar sobre isso.</p><p>A apertei em meus braços, agradecendo mentalmente por ter conhecido Normani em</p><p>um momento tão propício.</p><p>- Obrigada por estar aqui, Mani. - eu disse, apertando-a um pouco mais.</p><p>Ela beijou-me a bochecha e se afastou, segurando os meus braços outra vez.</p><p>- Não agradeça. Não estou lhe fazendo um favor. Amizade se trata de reciprocidade e</p><p>você me dá tanto quanto lhe dou.</p><p>Concordei com a cabeça e depois ri.</p><p>- Você anda mais filósofa que o normal.</p><p>A garota negra ajeitou charmosamente os óculos no rosto, jogou o cabelo por cima do</p><p>ombro.</p><p>- Faz parte do meu charme, você sabe.</p><p>Eu ri outra vez.</p><p>- E o que, nesse mundo, não faz parte do seu charme? - perguntei, abrindo a porta</p><p>do quarto.</p><p>- Nada. - ela disse rindo.</p><p>Era a pura verdade, tudo no mundo fazia parte do charme de Normani Kordei.</p><p>A aula da professora Hadid sempre começava às oito horas em ponto e não foi</p><p>diferente naquela quinta feira. A mulher de expressões pesadas, traços fortemente</p><p>judeus no rosto, vestida cheia de adornos que, embora combinassem, eram pesados</p><p>para os olhos, entrou pela sala trazendo toda a sua imponência e arrogância.</p><p>- Bom dia, turma. - ela disse. O sotaque israelense estava mais pesado do que em</p><p>todos os outros dias.</p><p>Colocou a bolsa que parecia extremamente pesada em cima da cadeira e foi para o</p><p>quadro. A turma ficou em silêncio total, enquanto esperava pela professora. A mulher</p><p>retirou o tablet da bolsa e o conectou ao cabo de projeção. Alguns segundos depois,</p><p>a imagem da tela inicial de seu tablet estava sendo reproduzida na tela de projeção</p><p>da sala. Ela colocou o aparelho em cima da mesa e voltou-se para a turma.</p><p>- Hoje vamos falar de uma arquiteta muito conhecida de todos nós. - Ela pigarreou,</p><p>denunciando que havia fumado antes de entrar na sala. - Para mim, é um orgulho</p><p>falar desta arquiteta, porque, talvez vocês não saibam, mas ela foi minha aluna aqui</p><p>em Harvard. - ela falou e encostou-se na mesa. - Não que eu seja velha, longe</p><p>disso... Ela que é nova demais. - falou em um tom zombeteiro e todos na classe</p><p>riram. - Hoje vamos estudar as obras de... - ela passou o dedo pelo tablet, revelando</p><p>uma fotografia. - Camila Cabello.</p><p>Ouvir o nome dela me deixou em alerta total. Senti tanta excitação com o tema da</p><p>aula que meu coração disparou.</p><p>- Ela tem vinte e sete anos, nasceu em Boston e faz uma das arquiteturas mais</p><p>instigantes da atualidade. Acreditem vocês ou não, Camila Cabello é a mais jovem</p><p>arquiteta a ganhar o prêmio Pritzker.</p><p>Todos da sala arregalaram os olhos com a informação. O prêmio pritzker era como o</p><p>Nobel da arquitetura!</p><p>A professora Hadid soltou uma risada ao ver nossas expressões.</p><p>- Eu sei, estão assustados não é? - ela falou, olhando o tablet. - Mas acreditem, o</p><p>prêmio dela foi um dos mais merecidos de todos os que já foram dados. Camila</p><p>ganhou o prêmio por esse obra... - ela passou o dedo pelo aparelho, revelando uma</p><p>nova imagem. - O Walt Disney Concert Hall.</p><p>O edifício era... era... estupendo! Não se parecia com nada que eu já tivesse visto</p><p>antes. Desafiava o cérebro a encontrar um forma que lembrasse aquilo, mas,</p><p>definitivamente, não se parecia com nada. Era uma forma inusitada e bela. Era</p><p>magnífico.</p><p>Meu coração virou um balão de ar, tal foi o tamanho da minha exasperação com a</p><p>arquitetura daquele lugar. Era belo e parecia dialogar com o céu. Era perfeito.</p><p>Causava-me exatamente as mesmas sensações que Camila Cabello me causava.</p><p>O Walt Disney Concert Hall causava-me exatamente as mesmas sensações que</p><p>Camila Cabello me causava.</p><p>- Ela é genial... - Keana falou em voz alta, ao meu lado, olhando tão fixamente para a</p><p>tela que estava a ponto de babar.</p><p>- Sim, senhorita Keana. Ela é genial. Camila Cabello revolucionou a arquitetura do</p><p>século vinte de um. Vocês tem sorte por serem alunos dela. Desfrutem o máximo que</p><p>puderem. - ela falou e em seguida, passou novamente o dedo pelo tablet, revelando</p><p>agora uma imagem do edifício da Harvard Graduate School of Design, o edifício onde</p><p>estávamos naquele exato momento. - O lugar onde vocês estão agora, também foi</p><p>projetado por Camila Cabello, então, se vocês apreciam qualquer coisa aqui, os</p><p>créditos são dela. - ela disse, e depois continuou mostrando e analisando muitas</p><p>obras já construídas pela professora Cabello.</p><p>Eu sabia que Camila era impressionante, sabia que ela conseguia fazer coisas</p><p>brilhantes, mas estava tão absorta nos sentimentos confusos que ela me causava que</p><p>nunca parara realmente para procurar a respeito de sua vida e obras. Ela havia</p><p>construído aquele edifício. Ela havia construído o lugar que me causara tantas</p><p>impressões reconfortantes de uma vez só.</p><p>"Camila Cabello é a mulher mais impressionante que existe.", o pensamento surgiu</p><p>em minha cabeça e eu sorri sozinha para a imensidão do significado de ela ser</p><p>impressionante. "Sim... Camila Cabello é impressionante e eu a quero para mim.".</p><p>Occhiolism</p><p>Lauren's pov</p><p>Occhiolism (n.) : a consciência da pequenez da sua perspectiva.</p><p>Eu sempre achei que a parte mais difícil da vida fosse "crescer", ter responsabilidades</p><p>adultas e priorizá-las. Entretanto, um mês em Harvard havia cravado na minha</p><p>essência, uma placa de letras gigantes com a revelação de que a parte mais difícil da</p><p>vida é aceitar a si mesmo.</p><p>Uma das fases mais difíceis do processo de ser um ser humano é aquela onde você</p><p>tem que se aceitar. Magro, alto, gordo, baixo, infantil, maduro, mentiroso, sincero</p><p>demais, insuportável, escrachado, "maria vai com as outras", inteligente, não tão</p><p>inteligente assim, preguiçoso, não comprometido, comprometido demais, fofoqueiro,</p><p>omisso, "furão", atrasado, "certinho", desleixado, filhinha de papai, não gosta de</p><p>academia, "come mais do que deveria", medroso, gay, "bicha pão com ovo", "mulher</p><p>macho", lésbica.</p><p>As coisas sempre haviam sido muito fáceis, muito claras, para mim. Eu era Lauren</p><p>Jauregui, fruto da união de um empresário bem sucedido com uma filha de pastor. Eu</p><p>ia à igreja todos os domingos, ia à uma boa escola, tinha "paixonites" pelo capitão do</p><p>time de futebol, estudava (porque gostava) e estava tudo muito confortável para</p><p>mim. Eu não tinha consciência alguma dessa parte complicada da vida. Chegou para</p><p>mim como uma bala perdida, um terremoto sem aviso, uma erupção espontânea, um</p><p>telão gigantesco de led no meio da quinta avenida, estampando a notícia: "Lauren</p><p>Jauregui, você é lésbica", acompanhada de explicações para tudo o que eu ainda não</p><p>entendia em mim.</p><p>Era como se eu estivesse sendo jogada na minha própria cara, com força; como se</p><p>houvesse um outro lado de mim despertando apenas naquele momento e estivesse</p><p>gritando com a boca colada no meu ouvido: "é isso o que você é, está na hora de</p><p>viver de verdade". Então era de se esperar que nesse ponto específico eu estivesse</p><p>entrando em estado de pânico. Era de se esperar que, como todo mundo faz, eu</p><p>tenha tentado fugir.</p><p>O magro tenta engordar porque todo mundo diz que ele está magro demais. O gordo</p><p>diz que vive de dieta porque todo mundo diz que ele come demais. O baixo dá</p><p>desculpas hormonais para sua estatura, o alto faz o mesmo. O infantil tenta ser</p><p>maduro, o maduro esconde sua maturidade pra não ser taxado como chato. O</p><p>preguiçoso finge que não é preguiçoso, porque estamos na "geração saúde" e a moda</p><p>é a disposição. O filho desleixado finge ser aplicado, mas na verdade odeia estudar. O</p><p>gay, tenta não ser gay. A lésbica tenta não ser lésbica. E no final, tá todo mundo</p><p>tentando ser exatamente quem não é. E eu, por um momento, afundei-me em negar</p><p>o que brilhou instantaneamente como verdade dentro de mim, desde a primeira vez</p><p>em que o assunto havia surgido na minha mente: eu era lésbica.</p><p>"Tá, e agora? O que eu faço?", perguntei-me mentalmente, mexendo as pontas dos</p><p>dedos entre a testa e o cabelo, enquanto estava de cabeça baixa, olhando para o livro</p><p>sobre a mesa, mas sem realmente ler sequer uma vírgula do que estava escrito ali.</p><p>O clima em Cambridge começara a esfriar</p><p>mais do que as roupas de outono</p><p>costumavam suportar e o aquecedor daquela biblioteca, com certeza, não estava</p><p>ligado, ou eu estava com algum desequilíbrio na minha temperatura corporal. O dia</p><p>estava nublado, o que, brilhantemente, combinava com a iluminação da biblioteca,</p><p>criando uma sensação tão forte de aconchego que, ainda que estivesse frio, eu não</p><p>sentia a mínima vontade de sair dali. Camila havia sido absolutamente brilhante na</p><p>construção daquele edifício, até mesmo em detalhes como aquele, que usualmente</p><p>passavam desapercebidos da atenção da maioria dos arquitetos.</p><p>"Mas para ela, nada passa desapercebido", pensei, dando um sorriso para as letras do</p><p>livro aberto abaixo de mim.</p><p>- Normani... - falei em voz baixa, levantando o olhar do livro.</p><p>Antes de me olhar, Normani terminou uma anotação rapidamente e colocou a</p><p>lapiseira em cima da mesa de madeira da biblioteca da HGSD.</p><p>Naquela quinta feira, havíamos decidido ir para a biblioteca antes de irmos ao The</p><p>Village, para adiantar alguns trabalhos, já que a professora Hadid havia acabado a</p><p>aula quase duas horas antes do tempo correto, depois de receber uma ligação</p><p>inesperada.</p><p>Normani usou o tempo para estudar. Eu usei o tempo para "tentar</p><p>estu.pensar.em.camila". Não era como se eu não me sentisse intimamente culpada</p><p>por não estar dando atenção a um trabalho importante da faculdade, mas também</p><p>não era como se minha mente estivesse permitindo que qualquer outro pensamento</p><p>fosse tão agradável quanto ela.</p><p>"Como uma coisa pode ser tão incrivelmente boa e perturbadora ao mesmo tempo?",</p><p>pensei, observando Normani largar a lapiseira em cima da mesa.</p><p>- Oi? - Normani perguntou, olhando-me através dos óculos modelo gatinho, relutando</p><p>em tirar os olhos no livro, mas cedendo em seguida.</p><p>- Eu não consigo parar de pensar nela... - admiti, desviando o olhar para baixo e</p><p>mordendo o interior da minha boca.</p><p>Admitir aquela verdade era como se eu estivesse libertando de uma jaula o monstro</p><p>que tinha o poder de me engolir inteira. Ainda assim, eu não tinha mais forças para</p><p>lidar com aquele assunto sozinha. Eu me sentia fraca. Meus sentimentos eram tão</p><p>fortes que estavam consumindo as minhas forças físicas.</p><p>"É exaustivo ficar fugindo de mim mesma.", pensei, considerando que aquilo poderia</p><p>confortar-me do incômodo de falar abertamente sobre o assunto.</p><p>- Olhe para mim, Lauren. - Normani disse, tirando os óculos do rosto.</p><p>A olhei e ao mesmo tempo, Normani empurrou para o lado o livro que eu "lia" e</p><p>segurou as minhas mãos, olhando-me fixamente.</p><p>- Repita o que disse. - Ela falou, passando os polegares pelos meus dedos,</p><p>carinhosamente.</p><p>- Eu não consigo parar de pensar nela. - repeti, desviando mais uma vez o olhar para</p><p>baixo.</p><p>- Lauren... - Normani apertou os meus dedos, o que me fez olhá-la. - Você não</p><p>precisa desviar o olhar do meu para dizer isso. Olhe nos meus olhos. - ela realçou o</p><p>olhar que se prendia ao meu em confiança. - Não há nada de errado em você estar</p><p>pensando nela. - ela, como sempre fazia quando falávamos naquele assunto, não</p><p>desviava os olhos dos meus por nenhum segundo. - Não há nada vergonhoso nisso. -</p><p>ela sorriu com certo humor, como se risse de algo que acabara de pensar. - E, de</p><p>qualquer forma, não é como se eu já não soubesse disso. - seu sorriso se abriu mais</p><p>ainda.</p><p>Era incrível a capacidade que Normani tinha de tornar puro e leve tudo o que era</p><p>rarefeito e pesado. Sua maneira de reagir às situações me dava tal sentimento de</p><p>conforto que seus sorrisos, que sempre finalizavam suas palavras doces, eram como</p><p>o êxtase de uma droga que me curava.</p><p>A encarei por algum tempo, sentindo-me grata por ela, antes de respondê-la. Sorri,</p><p>porque Normani se tratava de sorrisos.</p><p>- É só que...eu não sei o que fazer. Sabe? - falei, olhando-a nos olhos. - Quer dizer,</p><p>eu não sei se sou lésbica, não sei se não sou, mas tenho quase certeza que sou. - uni</p><p>as sobrancelhas, fazendo uma careta e quase soltando a respiração pesadamente de</p><p>tanta frustração por não saber como expressar-me.</p><p>- Lauren, Lauren. - Normani apertou minhas mãos, interrompendo-me. - A questão</p><p>aqui não é a sua sexualidade. Ninguém é uma coisa só nessa vida. A questão aqui são</p><p>os seus sentimentos pela professora Cami...</p><p>- SHHHHHH. - exclamei, colocando a mão na boca dela e quase me jogando por cima</p><p>da mesa. - Você está maluca? - sussurrei em completa exasperação. - Não fale o</p><p>nome dela, pelo amor de Deus. As pessoas escutam demais.</p><p>Normani arregalou os olhos e levantou as mãos em posição de rendição. Eu tirei a</p><p>mão de sua boca e respirei profundamente.</p><p>- Enfim, a questão não é a sua sexualidade, Lauren. A questão são os seus</p><p>sentimentos por ela. - ela disse, sentando-se melhor na cadeira. - Não interessa por</p><p>"quem" você sente. Importa "o que" você sente. - Normani declarou.</p><p>"Não importa por 'quem' você sente. Importa 'o que' você sente.", repeti</p><p>mentalmente, preocupando-me em deixar o que minha amiga havia dito em destaque</p><p>para mim mesma.</p><p>- Tá, mas o que eu faço com isso? - perguntei, sentindo-me inquieta e frustrada. - O</p><p>que eu faço com o fato de um poder descrever o cheiro dela com perfeição, mesmo</p><p>eu nem tendo notado que havia prestado tanta atenção assim ao cheiro dela? O que</p><p>eu faço com o fato de que toda vez que eu a vejo, acontece uma explosão nuclear no</p><p>meio peito. Sinceramente, meus joelhos até ficam fracos! - exclamei, sentindo leves</p><p>reflexos daqueles sentimentos a partir das lembranças deles próprios. - O que eu faço</p><p>com o pulso dela que fica se movimentando em câmera lenta na minha mente, toda</p><p>vez que eu fecho os olhos. E repete, repete, repete. Eu até sei das marcas do dedo</p><p>dela, se você quer saber. - Todas as palavras saíam de mim como o jato mais forte</p><p>de uma mangueira impulsionada à bomba. Meu pulmão parecia ter diminuído de</p><p>tamanho e eu tinha dificuldades em respirar. - O que eu faço com o maldito fato de</p><p>que toda vez que eu falo dela eu fico parecendo uma asmática em crise?! - joguei-me</p><p>para trás, encostando-me pesadamente na cadeira. Tudo aquilo estava me deixando</p><p>exausta.</p><p>Normani manteve-se calada por alguns instantes, fitando-me com atenção. Pela</p><p>milionésima vez em semanas, eu suspirei, sentindo-me entrar em combustão, como</p><p>se cada suspiro fosse um aviso da explosão atômica que estava por mim de dentro de</p><p>mim.</p><p>- O que as pessoas fazem quando estão apaixonadas. - Normani disse, como se fosse</p><p>a coisa mais natural do mundo. - É o que tem que fazer.</p><p>- Quem está apaixonada aqui? - a voz de Drew surgiu atrás de mim e o susto foi tão</p><p>grande que dei um salto na cadeira e meu rosto provavelmente havia perdido todo o</p><p>sangue.</p><p>Enchi os pulmões de ar e soltei devagar, para que ele não percebesse minha</p><p>inquietação. Falhei.</p><p>- iiii, nem precisa dizer... - Drew disse, sorrindo com aqueles enormes dentes</p><p>desconfortavelmente brancos e sentando-se ao meu lado. - sua expressão denunciou</p><p>tudo, pequena Jauregui. - completou, colocando a mochila bege na cadeira ao lado.</p><p>Drew costumava ser bonito e charmoso, mas naquele dia, ele estava particularmente</p><p>atraente. Usava calças chino azul marinho, camisa xadrez branca e azul, e tênis</p><p>listrados brancos. O olhei por algum tempo, achando-o 100% bonito e charmoso e</p><p>sentindo 0% de atração.</p><p>"Se Drew não é atraente, quem nesse mundo é?", pensei, zombando de mim mesma</p><p>e imediatamente a resposta me foi gritada mentalmente. "CAMILA".</p><p>- Não tem ninguém apaixonada aqui, Chadwick. - falei, tentando soar natural. - Você</p><p>está ouvindo demais. Deve ser a idade, está velho, sabe como é... - falei em um tom</p><p>brincalhão, tentando desviar o assunto.</p><p>- Ah, qual é?! Não precisa ficar com vergonha. Eu ajudo. - Drew fez uma expressão</p><p>de quem podia fazer qualquer coisa que quisesse, colocando as mãos na nuca para</p><p>apoiar a cabeça. - Quem é o sortudo que levou o coração da garota mais difícil de</p><p>Harvard?</p><p>- Acho que dessa vez você não pode ajudar, Drew. - Normani falou, dando o mesmo</p><p>olhar apaixonado de sempre para garoto.</p><p>- Ué, por que? - Drew exclamou,</p><p>provavelmente desacreditando da sua incapacidade</p><p>de ajudar em qualquer situação. - Conheço todos os caras por aqui e os que eu não</p><p>conheço, posso conhecer facilmente. Qual é? Eu ajudo.</p><p>A curiosidade de Drew estava me deixando inquieta e a minha mente já começara a</p><p>trabalhar alguma desculpa para eu poder me retirar e além de me livrar do peso da</p><p>conversa, aproveitaria para deixar Drew e Normani sozinhos.</p><p>- Não pode ajudar porque não tem ninguém apaixonada aqui. - falei, dando-lhe um</p><p>sorriso que dizia "vamos encerrar esse assunto agora".</p><p>- Tudo bem, tudo bem... - ele falou, sacudindo as pernas e tamborilando os dedos na</p><p>mesa. - Mas quando precisar de ajuda, pode contar comigo, mesmo que o cara seja</p><p>eu. - Ele falou o final da frase olhando fixamente para Normani que inicialmente o</p><p>olhou da mesma forma, mas em seguida desviou o olhar em total desespero.</p><p>Eu ri.</p><p>- Por que está rindo, Jauregui? É tão difícil assim ser eu? - ele falou sarcasticamente,</p><p>tentando soar ofendido.</p><p>Eu continuava trancando um sorriso nos lábios, mas quase tremendo de tanto rir da</p><p>cara de Normani por dentro. Levantei as sobrancelhas, para tentar amenizar a</p><p>expressão de riso, mas provavelmente aquilo só piorara tudo.</p><p>- Claro que não, é muito fácil ser você. Isso, considerando que existe alguém</p><p>apaixonado aqui, coisa que não existe. - falei, começando a recolher as minhas coisas</p><p>para colocar dentro da mochila.</p><p>- Já vão almoçar? - Drew perguntou.</p><p>- Vamos sim, já está na hora. - Normani falou, recolhendo também as suas próprias</p><p>coisas. - Se não, vamos nos atrasar pra aula do professor Newton.</p><p>- Então eu vou com vocês. - ele falou e os olhos da minha amiga quase viraram</p><p>estrelas de tanto que brilharam. - Vou mandar mensagem pra uma "mina" de</p><p>engenharia, pra ela ir com a gente. - ele completou, levantando-se e pegando o</p><p>celular do bolso dianteiro da bermuda.</p><p>- Estão ficando? - Normani perguntou, tentando parecer natural e pode até ter</p><p>parecido para Drew, mas para mim era claro o medo que ela tinha da resposta.</p><p>- O que? Com ela? - Ele tirou o olhar do celular, rapidamente olhando para Normani e</p><p>voltou a olhar a tela, digitando enquanto caminhávamos através das filas de mesas e</p><p>cadeiras da biblioteca. - Nãaao. - ele falou, rindo um pouco. - Bem que eu quis, mas</p><p>a "mina" nem me deu moral, daí a gente virou "parceiro".</p><p>- Ah... - Normani e eu nos expressamos ao mesmo tempo e da mesma forma, no</p><p>exato momento em que atravessamos a porta automática da biblioteca.</p><p>Caminhamos pelos corredores da HGSD juntos. Drew entre mim e Normani, com os</p><p>braços em nossos ombros, com um ar protetor demais. Era fácil estar perto de Drew,</p><p>sua companhia era como um entardecer na praia, em um dia sem nuvens e com</p><p>muito vento.</p><p>Durante as semanas anteriores eu o vira apenas rapidamente, apesar de suas</p><p>tentativas de estar sempre perto de mim e de Normani. Ele estava ocupado com seus</p><p>infinitos trabalhos do curso e nem sempre podia nos acompanhar nas horas de</p><p>almoço, mas todo tempo livre que tinha, nos dava toda a atenção do mundo.</p><p>- Como estão com os trabalhos? Estão tendo dificuldade em alguma coisa? - Ele</p><p>perguntou, atencioso, enquanto caminhávamos pelas calçadas frias de Cambridge,</p><p>rumo ao The Village.</p><p>- Estamos bem com as matérias. - falei, tendo instantaneamente uma ideia. - Exceto</p><p>por Normani que está tendo dificuldade em matemática... - menti e percebi Normani</p><p>arregalando os olhos e olhando para mim. - Você sabe, essa coisa de derivada e</p><p>integral é bem chatinha...</p><p>Drew olhou para Normani no mesmo momento, o que a fez arregalar ainda mais os</p><p>olhos.</p><p>- Está mesmo com dificuldade? - Drew perguntou, sendo "homem" demais para</p><p>perceber a comunicação oculta que estava acontecendo entre mim e minha amiga.</p><p>- Não exatamente...</p><p>- Ah, Normani, não tenha vergonha. - a interrompi. - Drew é nosso amigo e ele é</p><p>muito bom em matemática.</p><p>Ela também era muito boa em matemática, era quase um gênio da matemática, mas</p><p>Drew não precisava saber daquela parte da informação.</p><p>- Isso! - o garoto exclamou. - Eu posso mesmo ajudar. Vamos marcar um dia e eu</p><p>vou lhe ajudar com isso.</p><p>- Tá... Tudo bem. - Normani concordou, olhando para mim como se fosse me matar.</p><p>Eu sorri largamente para ela e, como resposta, recebi um revirar de olhos que</p><p>somente me fez sorrir ainda mais.</p><p>O The Village estava mais vazio do que na maioria das vezes em que havia</p><p>estado ali. Talvez a minha percepção de vazio fosse muito mais pelo fato de que eu</p><p>não vira Camila Cabello, sentada em sua mesa habitual, do que pelo espaço estar</p><p>realmente vazio. Talvez, a sensação de frustração por não vê-la tenha aumentado</p><p>ainda mais a impressão de que não havia mais ninguém além de nós, ali.</p><p>O meu estômago inflado de borboletas pela ânsia em vê-la murchou tão</p><p>instantaneamente quando os meus olhos distinguiram a ausência dela naquele</p><p>espaço. De repente, as cores ficaram menos coloridas, as luzes do The Village ficaram</p><p>menos brilhantes e o meu apetite foi embora.</p><p>"Mas que droga está acontecendo comigo?!", exclamei mentalmente, sentindo-me</p><p>irritada com a minha falta de controle sobre os meus sentimentos e minhas sensações</p><p>em tudo o que dizia respeito à ela. "Por que eu não posso simplesmente deixar isso</p><p>pra lá? Por que ela tem que fazer falta até em um maldito restaurante?", eu estava</p><p>pensando, quando Drew puxou a cadeira para que eu sentasse e assim o fiz, evitando</p><p>olhar de novo para onde ela deveria estar, mas não estava.</p><p>Eu não dava atenção alguma para o que Normani e Drew conversavam, absorta</p><p>demais em mim mesma para conseguir distinguir qualquer palavra do que eles</p><p>diziam, pelo menos até ouvir o nome dela.</p><p>- ...que a professora Camila é gata demais. - Drew falou, largando-se, desleixado na</p><p>cadeira.</p><p>"Gata demais?! Pelo amor de Deus, ela é maravilhosa, ela é incrível, ela é...ela".</p><p>- Sobre o que estão falando? - perguntei, colocando minha mochila encostada ao lado</p><p>da minha cadeira.</p><p>- Drew estava dizendo que "apesar de ser chata e um demônio na face da terra, a</p><p>professora Camila é gata demais". - Normani repetiu, fazendo aspas com os dedos.</p><p>- Ah, você são mulheres, não vão entender. - ele falou, encarando um ponto fixo</p><p>atrás de mim. - Mas olha aquilo... olha aquele corpo... - Drew falou e antes que eu</p><p>me virasse, Normani fez um sinal com a cabeça, indicando que eu olhasse para trás.</p><p>Eu olhei.</p><p>Meu coração disparou. Meu pulmão explodiu. Minha cabeça rodou.</p><p>Camila Cabello estava encostada no balcão de pedidos do The Village, de costas para</p><p>nós, com o cotovelo apoiado na pedra de mármore e os dedos da mão apoiando a</p><p>testa, enquanto lia algum papel e como se ela já não fosse suficientemente</p><p>estonteante em todos os outros dias de sua vida, naquele, particularmente, ela</p><p>estava exalando exuberância, feminilidade, imponência e tantas outras coisas que</p><p>meu cérebro não conseguia expressar em palavras, mas meu corpo se encarregava</p><p>de sentir. Como se as coisas que ela era, estivessem sendo faladas pelo meu corpo e</p><p>não pela minha boca.</p><p>Seus cabelos estavam presos em um coque frouxo, mas que havia sido claramente</p><p>planejado para compor o seu visual. Blusas de manga cumprida em um tom de rosa</p><p>claro cobriam o seu busto e os seus braços até os pulsos. Uma saia de cintura alta</p><p>quadriculada em pequenos detalhes de branco e preto, beijava seu corpo, bumbum e</p><p>coxas, até os joelhos, com uma leve abertura na parte de trás, que eu via</p><p>perfeitamente, deixando parte de suas pernas à mostra. Nos pés, saltos delicados de</p><p>tiras finas, combinavam com a cor da blusa que ela escolhera.</p><p>O resultado de toda aquela combinação foi o meu coração sendo escutado à</p><p>quilômetros de distância. Eu tinha certeza que todos estavam escutando o meu</p><p>coração batendo feito louco dentro do peito.</p><p>"Pare de olhá-la. Pare de... Esse brincos de pérola ficam tão delicados nela... deixam</p><p>a orelha dela tão atraente... O pescoço parece...".</p><p>- Calma, Jauregui, não vai babar. - Drew disse com humor, jogando o guardanapo de</p><p>pano em cima</p><p>de mim.</p><p>Dei um pulo, virando-me de frente para Drew e Normani outra vez.</p><p>- A roupa dela está maravilhosa!!! - falei, exasperada demais, tentando</p><p>disfarçar meu comportamento descompensado.</p><p>- Ma ra vi lho sa. - Normani concordou, usando o mesmo tom que eu, apenas para</p><p>me ajudar, embora fosse verdade que a roupas dela estava maravilhosa.</p><p>- Mulheres... - Drew disse, balançando a cabeça negativamente, dando um sorriso de</p><p>inconformidade.</p><p>- Ah, nos deixe! - Normani disse, batendo nele com o seu próprio guardanapo e os</p><p>dois entraram em algum tipo de discussão a respeito da forma como mulheres</p><p>enxergam mulheres.</p><p>Eu estava com a mente mergulhada demais em Camila para conseguir prestar</p><p>atenção a qualquer coisa que não fosse ela. Todos os meus esforços estavam sendo</p><p>empreendidos em conseguir me manter na mesma posição e não virar para trás para</p><p>olhá-la novamente.</p><p>Senti o meu corpo se auto retesar, sem explicação alguma, acompanhado por um</p><p>corte gelado, que subiu pelas minhas costas e perfurou minha nuca, fazendo-me</p><p>arrepiar. A única explicação para aquele calafrio inesperado era o frio do outono, mas</p><p>somente até perceber a presença de Camila ao meu lado e entender que meu corpo</p><p>estava somente reagindo instintivamente à sua aproximação.</p><p>- Olá. - Ela cumprimentou educadamente todos na mesa, apoiando a mão esquerda</p><p>no encosto da minha cadeira.</p><p>- Olá professora. - Drew e Normani responderam, um seguido do outro.</p><p>- Olá... - Eu disse, olhando para cima, para poder cumprimentá-la educadamente,</p><p>mas arrependendo-me quase que instantaneamente, quando encontrei o seu rosto</p><p>voltado para mim, carregando um sorriso que delineava seus lábios que me</p><p>pareceram especialmente mais vermelhos naquele dia.</p><p>Ela alargou levemente o sorriso e continuou olhando para mim, parecendo não se</p><p>importar nenhum pouco com a presença dos meus amigos.</p><p>- Olá, Lauren. - ela falou. - Eu gostaria de falar com você. - Pode me acompanhar? -</p><p>completou, perguntando, mas me soou mais como uma ordem.</p><p>- Comigo? - perguntei o óbvio, precisando expressar externamente o meu espanto</p><p>para poder ter algum tempo de lidar com aquilo.</p><p>- Sim... você. - Ela repetiu, deixando a cabeça pender um pouco de lado, dando um</p><p>sorriso quase maquiavélico, cavando os meus olhos com os seus. - Preciso conversar</p><p>com você a respeito do seu trabalho da aula passada. - Ela explicou.</p><p>- Fiz algo errado? - perguntei, variando entre o desespero por ela estar perto demais</p><p>de mim e o desespero de talvez ter feito algo muito errado em sua aula.</p><p>- A senhorita pode, simplesmente, me acompanhar? - ela falou, levantando uma</p><p>sobrancelha e mexendo petulantemente a cabeça.</p><p>- Sim... - falei, afastando a cadeira um pouco para trás, para poder levantar e segui-</p><p>la.</p><p>- Obrigada. - Ela falou, seguindo para a mesa onde costumava sentar.</p><p>Caminhei logo atrás dela, exatamente como da última vez em que ela me chamara</p><p>para conversar em sua mesa.</p><p>- Sente-se. - ela falou, logo depois de sentar-se em seu lugar de costume.</p><p>Obedeci, puxando a mesma cadeira na qual eu havia sentado da última vez.</p><p>Ela nada disse, apenas afastou a sua bolsa que estivera ali desde sempre, mas fora</p><p>um detalhe que me passara desapercebido no momento em que havia sido impactada</p><p>pela sua ausência física no restaurante. De perto, eu podia distinguir melhor seu</p><p>cheiro e, como se eu já não tivesse aquele cheiro decorado e decifrado na minha</p><p>memória o suficiente, meus pulmões absorveram mais ainda as partículas do cheiro</p><p>dela.</p><p>Inspirei o ar por mais tempo do que precisava, somente para me</p><p>preencher do cheiro dela. Prendi a respiração para não deixar que a sensação que</p><p>aquele aroma doce e envenenante não saísse de mim.</p><p>Os olhos dela não saíam dos meus e os meus não saíam dos dela. Eu estava tão</p><p>consumida pela imagem dela formada na frente dos meus olhos que nem o nem todo</p><p>o nervosismo que fazia meus músculos se contraírem foi capaz de me fazer tirar os</p><p>olhos dos dela e ela, por algum motivo, tampouco tirava os seus olhos dos meus.</p><p>Ela cruzou os dedos em cima da mesa e deixou a cabeça pender levemente para o</p><p>lado e semicerrou os olhos tão sutilmente que se eu não estivesse tão atenta a todos</p><p>os movimentos que seu corpo fazia, não teria percebido. Sua postura era tão reta e</p><p>intimidadora quanto seu olhar, o que me fazia sentir encolhida diante de toda a</p><p>presença exuberante de Camila.</p><p>Seus olhos semicerraram-se um pouco mais e ao mesmo tempo percebi seu lábio</p><p>inferior sendo levemente mordido. Meus dentes se apertaram em resposta àquilo e</p><p>apertei o apoio de braço da cadeira, o que não passou desapercebido pela minha</p><p>professora, que deu um sorriso quase que malicioso e finalmente decidiu falar, coisa</p><p>pela qual agradeci mentalmente, porque ao mesmo tempo eu lembrei que precisava</p><p>respirar e soltei o ar preso do pulmão.</p><p>- Por que está me olhando assim, Lauren? - ela perguntou.</p><p>O ar ficou preso em meu pulmão outra vez. Aquela respiração travada e irregular</p><p>constante por causa de Camila Cabello estava me deixando zonza.</p><p>- Eu... - tentei responder com rapidez, para não parecer mais idiota do que</p><p>provavelmente já estava parecendo, mas a minha mente congelada me fez fracassar.</p><p>- Eu...</p><p>- Você...? - ela levantou ligeiramente a sobrancelha e passou os dentes pelos lábios,</p><p>mordendo-os quase que em câmera lenta.</p><p>- Eu nada... - respondi, sentindo uma pontada de desespero na cabeça. - O que a</p><p>senhora quer falar comigo? - perguntei, apertando as mãos embaixo da mesa.</p><p>- Responda-me uma coisa... - ela falou, passando a ponta do dedo indicador pelo</p><p>cabo da faca, mantendo o olhar em mim. Engoli seco. - Por que você insiste em me</p><p>chamar de "senhora" mesmo depois de ter me beijado? - Ela perguntou, direta, sem</p><p>rodeios.</p><p>Levantei as duas sobrancelhas e abri ligeiramente a boca para responder qualquer</p><p>coisa, mas o número de palavras que veio à minha boca foi igual ao número de</p><p>controle que eu tinha perto dela: zero.</p><p>Ela sorriu, docemente, aliviando a expressão extremamente profunda com a qual me</p><p>olhava e tomou um pouco da água que estava em sua taça.</p><p>- Bom, eu quero falar com você a respeito dos seus croquis da aula passada. - ela</p><p>falou, puxando o pequeno bloco de folhas com meus croquis de dentro de sua pasta</p><p>preta, que estava na cadeira ao seu lado.</p><p>- Há algo de errado? - perguntei, esforçando-me para controlar o tom de voz.</p><p>Ela desviou seu olhar da pasta para mim pelo canto dos olhos e seus lábios subiram</p><p>levemente em um sorriso que eu não soube decifrar. Virou-se de frente novamente, e</p><p>colocou os croquis em cima da mesa.</p><p>- Pelo contrário, Lauren. Seus desenhos estão excelentes. - Ela os deixou na mesa,</p><p>exatamente no espaço entre nós.</p><p>- Então, por que quer falar sobre eles? - perguntei novamente, concentrando meus</p><p>esforços em prever do que se tratava aquilo para poder reagir corretamente.</p><p>- Quero dizer que estão muito bons. Os analisei milimetricamente e estou contente</p><p>com o resultado que encontrei em seus traços. Estão muito satisfatórios. - ela disse,</p><p>olhando para a folha com um dos meus desenhos.</p><p>- Ah... obrigada... - eu disse, sem saber exatamente o que responder. - Quer dizer,</p><p>vindo de você, esse é um elogio que eu mal posso medir o tamanho da minha alegria</p><p>por receber.</p><p>Ela sorriu e balançou a cabeça positivamente.</p><p>- Estou tão alegre por lhe dar o elogio quanto você, provavelmente, está por receber.</p><p>- disse em um tom ameno.</p><p>A expressão dela estava amena, quase como um entardecer de verão, o que me fez</p><p>sorrir em reação à beleza de seu rosto. Seus olhos estavam castanhos, quase cor de</p><p>mel, delineados perfeitamente em um contorno preto que acentuava a profundidade</p><p>de seu olhar.</p><p>Olhar que me cortava ao meio.</p><p>- O seu sorriso é bonito. Devia sorrir mais. - ela falou, voltando a encarar-me nos</p><p>olhos.</p><p>Involuntariamente sorri e senti meu rosto queimar.</p><p>- Ammm... Porque fiquei desconsertada. - deixei a verdade sair de mim, ao invés de</p><p>tentar achar desculpas para respondê-la.</p><p>- Fique desconsertada</p><p>mais vezes. - ela falou, e eu voltei a olhar para ela, somente</p><p>para me arrepender.</p><p>Seus olhos me devoravam, me mastigavam inteira. Engoli a bola de ar que se formou</p><p>em minha garganta.</p><p>- Você não me chamou aqui só para falar dos meus desenhos... Não é? - perguntei,</p><p>variando o olhar entre o rosto dela e a sua mão, fazendo e refazendo o contorno</p><p>circular da taça de vidro em cima da mesa.</p><p>- Definitivamente, não. - ela disse e seus olhos desviaram-se dos meus para outro</p><p>ponto do meu rosto.</p><p>"Ela está olhando a minha boca?!", a dúvida surgiu nervosamente em minha mente.</p><p>- Então, por que me chamou?</p><p>"Ela está olhando a minha boca.", afirmei mentalmente.</p><p>- Porque queria conversar com você. - ela respondeu, simplesmente, apoiando o</p><p>cotovelo sobre a mesa e depois o seu rosto, sem parar de me olhar nem por um</p><p>segundo sequer.</p><p>- Conversar sobre o que? - perguntei, intrigada, observando sua tatuagem do dedo</p><p>indicador sumir e reaparecer a cada volta que seu dedo dava na taça.</p><p>- Sobre qualquer coisa. - ela disse.</p><p>- Sobre qualquer coisa? - perguntei, repetindo para ter certeza de que ouvira direito.</p><p>- Sim. Sobre qualquer coisa. - Camila respondeu, como se estivesse falando a coisa</p><p>mais normal do mundo.</p><p>- Desculpe, não estou entendendo exatamen...</p><p>- Eu queria a sua companhia, Lauren. É simples. - ela disse, desapoiando-se da mesa</p><p>e pegando a taça paga tomar mais um gole de água.</p><p>- Queria a minha companhia? - perguntei, sentindo meu coração variar entre</p><p>profunda euforia e choque de susto.</p><p>Camila riu e seus olhos quase se fecharam de tão gostoso que foi aquele sorriso.</p><p>Poderia comê-lo e sentir toda a doçura do mundo.</p><p>- Você sempre pergunta tanto... - ela constatou novamente.</p><p>- Por que queria a minha companhia, professora? - perguntei, focada demais no</p><p>assunto para me deixar desviar.</p><p>"Por que ela queria a minha companhia?! Por que?!".</p><p>Camila ficou séria, seus olhos vacilaram entre os meus e o copo de água, mas o</p><p>vacilo não demorou mais que um instante, logo pareceu vencer algum tipo de conflito</p><p>interno e levantou os olhos, transpassando os meus, como se fosse um tiro.</p><p>Meu corpo reagiu àquele olhar com o tremer de meus lábios e o comprimir</p><p>desesperado do meu estômago.</p><p>- Porque eu gosto da maneira como você me olha, Lauren. - Camila disse, com seus</p><p>olhos intensos invadindo a minha alma.</p><p>Minhas pernas se contraíram e um frio ártico subiu pelo meu corpo, quase</p><p>congelando-me inteira.</p><p>- Como eu olho você? - perguntei com a voz baixinha, quase sem fôlego para falar.</p><p>Seus olhos ganharam uma mistura de intensidade e doçura. Olhava-me como se...</p><p>como se...</p><p>- Como se eu fosse a única pessoa no mundo.</p><p>Aeipathy</p><p>Lauren's pov</p><p>Aeipathy (n.) : uma duradoura e consumidora paixão.</p><p>- Como eu olho você? - perguntei com a voz baixinha, quase sem fôlego para falar.</p><p>Seus olhos ganharam uma mistura de intensidade e doçura. Olhava-me como se...</p><p>como se...</p><p>- Como se eu fosse a única pessoa no mundo.</p><p>O meu corpo reagiu àquilo muito mais do que minha mente, que havia paralisado.</p><p>Minha carne se manifestou àquela verdade como se eu estivesse levando seguidos</p><p>choques de mil voltz. Meus músculos pareciam auto mastigar-se e o frio que subiu</p><p>pelas minhas pernas, congelando meus ossos e pele, até o pescoço, arrepiou todo o</p><p>meu corpo.</p><p>Camila olhou para os pelos arrepiados dos meus braços e para as minhas mãos</p><p>apertadas em punho, que estavam em cima da mesa. Meu primeiro instinto foi tirar</p><p>os braços de cima da mesa, mas eles não me obedeceram. Eu estava paralisada.</p><p>"Como se eu fosse a única pessoa do mundo", pensei, reproduzindo mentalmente o</p><p>que Camila havia acabado de me dizer.</p><p>Aquela afirmação havia sido jogada sobre mim como uma caixa de mil verdades.</p><p>"Quando eu olho para ela, ela é a única pessoa do mundo", pensei, tentando abrir a</p><p>boca para falar algo que não fosse o que eu estava pensando, mas não importava o</p><p>que eu fosse falar, nenhuma palavra saía.</p><p>Camila me olhava cuidadosamente, com os olhos enterrados em mim, buscando,</p><p>provavelmente, alguma resposta que minha boca ainda não dera e apesar de não</p><p>conseguir controlar todo o meu desespero, eu não conseguia controlar meus olhos</p><p>para tirá-los dos dela e assim, quem sabe, poder pensar.</p><p>- Lauren... - Camila disse, suavemente e, antes de voltar a falar, apertou a mandíbula</p><p>e seu olhar curioso se tornou profundamente sério. - Você não precisa falar nada,</p><p>seus olhos falam mais e melhor do que sua boca. - ela disse, sem tirar aqueles olhos</p><p>devastadores de dentro dos meus.</p><p>Eu não tinha mais saída. Não haviam caminhos onde eu pudesse encontrar</p><p>justificativas plausíveis para me esquivar da percepção de Camila a meu respeito. Só</p><p>me restava a verdade e a verdade era que eu... eu... eu estava... eu...</p><p>Apenas balancei a cabeça para concordar com ela, sobre eu não precisar dizer nada.</p><p>Ela balançou a cabeça junto comigo e deu um sorriso apenas com os lábios,</p><p>semicerrando levemente os olhos enquanto sorria.</p><p>Ficamos em silêncio pelo que me pareceu uma eternidade, mas foram apenas quinze</p><p>segundos, nos olhando e quando o meu corpo já estava tendo dificuldades em</p><p>oxigenar o meu cérebro, como resposta ao olhar invasivo de Camila, ela decidiu falar.</p><p>- O que fará esta noite, Lauren? - perguntou, pegando naturalmente a sua taça de</p><p>água e tomando outro gole curto do conteúdo, como se não tivesse acabado de dar</p><p>uma martelada nas minhas estruturas.</p><p>Uni as sobrancelhas e apertei os lábios em reação àquela pergunta aleatória, mas</p><p>forcei-me a falar, depois de engolir o nó que atravessava a minha garganta.</p><p>- Estudar. - respondi, simplesmente, optando pela segurança de palavras curtas.</p><p>Um breve sorriso se formou em seus lábios enquanto ela olhava a taça que estava</p><p>colocando sobre a mesa outra vez. A taça mal havia encostado na mesa e Camila</p><p>desviou seu olhar para o meu e, como se tivesse jogado seus olhos em mim com</p><p>muita força, meu corpo foi para trás, assim, encostei-me na cadeira e ao mesmo</p><p>tempo em que eu me sentia exausta por estar sendo bombardeada por tantos</p><p>sentimentos, eu também me sentia sendo levada por uma brisa leve.</p><p>- Você aceita ir à um lugar comigo hoje à noite? - Ela perguntou, deslizando o polegar</p><p>e o indicador pela base circular da taça de vidro.</p><p>- O que?! Como assim? - perguntei rapidamente, sentindo as emoções voltarem ao</p><p>meu corpo, descongelando-me da paralisia, como se fosse lava derretendo gelo.</p><p>- Você aceita ir à um lugar comigo hoje à noite? - Ela repetiu, levantando</p><p>as duas sobrancelhas levemente e em seguida mordeu o lábio inferior.</p><p>- Aceito. - minha boca respondeu antes que meu cérebro sequer processasse a</p><p>pergunta dela racionalmente. - Quer dizer, pra onde? - tentei consertar, sacudindo</p><p>levemente a cabeça, sentindo-me embaraçada.</p><p>Camila soltou um riso que fez seus olhos quase fecharem e balançou a cabeça</p><p>positivamente.</p><p>- Você pergunta demais. - Ela disse, com um sorriso leve, mas mantendo os olhos</p><p>sempre nos meus. - Estarei na frente do seu dormitório às oito em ponto.</p><p>- Tudo bem, mas como vou saber o que vestir se não me disser para onde vamos? -</p><p>perguntei, inquieta, mais como uma tentativa de descobrir para onde iríamos do que</p><p>por estar realmente preocupada com o que iria vestir.</p><p>- Você sempre sabe o que vestir, Lauren. Vista o que quiser. - Ela disse e sorriu. -</p><p>Agora eu acho melhor você voltar para os seus amigos. Eles não param de olhar para</p><p>cá, devem estar preocupados com você. - Ela falou, sem sequer ter olhado para o</p><p>lado.</p><p>Olhei para a mesa onde estavam Drew e Normani e os dois olhavam para onde</p><p>estávamos pelo canto dos olhos. Voltei o meu olhar para Camila outra vez.</p><p>- Como sabe que eles estão olhando para cá se nem os olhou? - perguntei,</p><p>levantando a sobrancelha.</p><p>Camila sorriu.</p><p>- Foi só intuição. - ela respondeu com um ar sorridente, mas sem sorrir realmente. -</p><p>Agora vá. Às oito estarei lá.</p><p>- Não vai me dizer para onde vamos? - perguntei novamente, tentando obter alguma</p><p>resposta.</p><p>- Você saberá</p><p>quando formos.</p><p>- Tudo bem... - levantei vagarosamente, mas antes que desse o primeiro passo para</p><p>ir, virei-me para ela, com a intenção de tentar, novamente, obter alguma resposta.</p><p>Antes que eu pudesse falar alguma coisa, Camila fez que não com a cabeça e sorriu.</p><p>- Às oito você saberá. - ela falou, respondendo um pergunta que eu nem havia feito.</p><p>Suspirei e acenei positivamente com a cabeça, seguindo de volta para a mesa onde</p><p>estavam os meus amigos.</p><p>Não precisei olhar para trás para sentir o peso dos seus olhos sobre mim. Não</p><p>precisei olhar para trás, para me sentir tão afetada por eles quanto se tivesse</p><p>realmente olhado.</p><p>- E aí? Dessa vez foram 200 desenhos de reprodução ou...? - Drew perguntou,</p><p>apoiando os dois braços em cima da mesa, jogando o corpo para a frente, enquanto</p><p>eu sentava.</p><p>Sentei com força na cadeira e deixei o ar sair pesadamente dos meus pulmões,</p><p>ignorando completamente a pergunta de Drew.</p><p>- Meu Deus, pela sua cara, devem ter sido 500... - Drew falou, encarando-me como</p><p>se eu fosse um extra terrestre prestes a falar com ele.</p><p>- Ela... - tentei falar qualquer coisa. - Ela... - minha mente não estava trabalhando,</p><p>meus pensamentos não passavam de fumaça. - Ela...</p><p>- Era sobre aquilo? - Normani perguntou, chutando minha perna, levemente, por</p><p>baixo da mesa.</p><p>A olhei para tentar entender do que ela estava falando e seus olhos diziam "apenas</p><p>concorde", então foi o que eu fiz, balançando a cabeça positivamente, confiando em</p><p>minha amiga para me tirar do problema de estar extasiada demais, sobrecarregada</p><p>demais, eufórica demais, para poder inventar qualquer resposta que convencesse a</p><p>Drew.</p><p>- É que na aula passada a professora Camila nos pediu pra fazer alguns croquis e</p><p>pegou um pouco no pé da Lauren de novo. - Normani falou, virando-se para Drew,</p><p>inventando uma explicação absolutamente do nada. - Ela foi bem chata e Lauren ficou</p><p>mexida com as coisas que ela falou. Ela não foi nada amigável. Pelo jeito, deve ter</p><p>repetido... - Normani falou, teatralmente, olhando-me com "preocupação".</p><p>- Ahhhhhhhh. - Drew exclamou, variando o olhar entre mim e Normani. -</p><p>Eu avisei que ela era lúcifer.</p><p>"Lúcifer?! Camila é algum tipo de deusa que hipnotiza as pessoas e faz elas ficarem</p><p>de quatro", pensei.</p><p>- E é! - concordou Normani.</p><p>Parte da minha mente prestava uma atenção superficial à Normani e Drew</p><p>conversando sobre Camila e depois, sobre outros professores. Uma pequena parte. A</p><p>maior parte estava atenta à mulher atrás de mim, sentada a poucos metros de</p><p>distância.</p><p>Minha percepção estava tão atenta à ela que eu quase podia ver o seu dedo indicador</p><p>movimentar-se na tela do tablet. Olhei-a por cima do ombro, não resistindo ao desejo</p><p>de vê-la mais uma vez. O corpo estava ereto, as pernas cruzadas e os cabelos, ainda</p><p>presos em coque, cobriam quase toda a lateral de seu rosto, de tal forma que o</p><p>máximo que eu podia ver eram as linhas de seu nariz, queixo e metade de sua boca,</p><p>o suficiente para lembrar da maciez daqueles lábios e ser consumida pela vontade de</p><p>beijá-la outra vez.</p><p>"Os lábios dela são tão...tão...quentes", pensei e imediatamente virei o rosto para</p><p>frente outra vez, constrangida com meu próprio pensamento.</p><p>- Lauren, você tá vermelha. Isso tudo é raiva da frozen? - Drew perguntou,</p><p>interrompendo a conversa com Normani, assim que viu meu rosto.</p><p>"Raiva por ela ser tão atraente. Raiva por ela me fazer querer beijá-la.", respondi</p><p>mentalmente.</p><p>Respirei fundo e me obriguei a falar.</p><p>- Você nem faz ideia. - falei, pegando o guardanapo para colocar sobre a perna. -</p><p>Vocês já pediram o almoço? - perguntei, tentando manter um tom irritado e mudando</p><p>de assunto drasticamente.</p><p>- Sim, eu pedi o seu. Você sempre come o mesmo, de qualquer forma. - Normani</p><p>respondeu.</p><p>"Ela também sempre come o mesmo", pensei imediatamente, lembrando do prato de</p><p>Camila. "POR QUE EU TENHO QUE RELACIONAR TUDO À ELA?!", gritei mentalmente</p><p>para mim mesma, esticando o guardanapo com força em cima da perna.</p><p>- Não vai contar pra gente o que foi que aconteceu? - o garoto loiro insistiu em querer</p><p>saber.</p><p>- Não. - respondi, simplesmente, sentindo um leve pavor apenas com a vaga ideia de</p><p>que ele pudesse saber o teor da minha conversa com Camila.</p><p>"Você aceita ir à um lugar comigo hoje à noite?", a voz de Camila repetia mil vezes a</p><p>frase em minha cabeça e cada vez que se repetia, meus pensamentos se clareavam,</p><p>a consciência da situação se tornava mais clara e eu ficava à um passo mais perto da</p><p>loucura.</p><p>O nervosismo que antes estava bloqueado pela presença dela, agora quebrava toda a</p><p>auto negação da realidade à qual eu estava entregue.</p><p>"Você aceita ir à um lugar comigo hoje à noite?", o pensamento se repetiu outra vez e</p><p>meus pulmões deram um espasmo. A falha foi tão grande que meu coração acelerou,</p><p>reagindo à ausência de oxigênio.</p><p>"ELA ME CHAMOU PARA SAIR!!!!!!!!", o grito foi tão alto na minha mente que eu</p><p>podia, facilmente, ter ficado surda se aquele som fosse externo. "ELA ME CHAMOU</p><p>PRA SAIR HOJE A NOITE. ELA ME CHAMOU PRA SAIR HOJE A NOITE. ELA ME</p><p>CHAMOU PRA SAIR HO..."</p><p>- Lauren, está tudo bem? - Normani perguntou, olhando-me com atenção e um leve</p><p>ar de preocupação. - Você ficou pálida de repente.</p><p>- Eu... - tentei falar, mas minha voz não saiu. Não sentia uma gota de sangue no meu</p><p>corpo.</p><p>- Eu acho que você precisa voltar pro dormitório, Laur. - Normani disse, mas soou</p><p>mais como uma certeza que ela concretizaria.</p><p>- Eu também acho que preciso. - concordei, passando a mão pela minha própria</p><p>testa, que estava dormente.</p><p>- Vão pro dormitório, deixem que eu pago tudo aqui e levo o almoço de</p><p>vocês lá. - Drew falou, sendo sério pela primeira vez no dia.</p><p>O agradeci com um sorriso curto no rosto e levantei-me, pegando minha mochila do</p><p>chão. Segui para a saída do The Village, entretanto, antes de sair, virei-me para trás,</p><p>achando que seria convincente eu olhar para ver se Normani estava atrás de mim,</p><p>mas meus olhos correram para a mesa de Camila que me olhava tão intensamente</p><p>que senti novamente o meu sangue se esvair do corpo.</p><p>Normani parou atrás de mim, empurrando-me para frente, de forma que eu fui</p><p>obrigada a sair pela porta, virando o rosto para frente apenas quando os meus olhos</p><p>não podiam mais ver os de Camila.</p><p>- O QUE FOI QUE ACONTECEU?! - Normani perguntou, mais eufórica por saber o</p><p>motivo do meu evidente desespero do que realmente preocupação com meu estado</p><p>de saúde.</p><p>"ELA ME CHAMOU PARA SAIR HOJE A NOITE!", exclamei mentalmente, mas era mais</p><p>fácil pensar naquilo do que por em palavras, então, eu apenas fiquei encarando</p><p>Normani com a boca meio aberta, tentando fazer as palavras saírem.</p><p>- FALE DE UMA VEZ, LAUREN! - A garota negra exclamou, quase tremendo em</p><p>curiosidade.</p><p>- Eu preciso sentar. - respondi, simplesmente, tentando ganhar tempo com a parte de</p><p>falar o que eu, necessariamente, teria que falar à Normani.</p><p>- Tudo bem, tudo bem, vamos pro quarto e quando você se acalmar você me fala. -</p><p>Minha amiga concordou, entendendo que aquele não era o momento certo para me</p><p>cobrar algum tipo de explicação.</p><p>Andar de volta ao dormitório nunca havia sido tão difícil. Minhas pernas pareciam ter</p><p>uma tonelada, ao passo que minha mente parecia não ter peso algum. Meus</p><p>pensamentos pesavam no meu corpo, não na minha cabeça, de tal forma que quando</p><p>vi a entrada do edifício dos freeshman de Harvard, senti uma alegria maior do que o</p><p>normal.</p><p>- Você quer um copo de água? - Normani perguntou-me, depois de fechar a porta,</p><p>jogando a chave em cima do balcão da pequena cozinha do nosso quarto.</p><p>Sentei-me na cama, sentindo-me zonza.</p><p>- Mani... - falei seu nome baixinho. Meu peito se contraía, como se o que eu ia falar</p><p>fosse maior do que minha garganta. - Camila me chamou para sair hoje a noite. -</p><p>falei de uma vez, sentindo meu corpo reagir imediatamente àquilo, de tal forma que</p><p>meus músculos se contraíram repetidas vezes.</p><p>- O QUE?! - Normani falou, cuspindo toda a água que bebia.</p><p>Arregalei os olhos quando percebi</p><p>minha amiga cuspindo e por um breve momento,</p><p>meus pensamentos desesperadamente nervosos se dissiparam.</p><p>- ELA CHAMOU VOCÊ PRA SAIR?! - Ela praticamente gritou, colocando o copo em</p><p>cima da bancada e apoiou-se, como se precisasse daquilo para não cair.</p><p>"Ela me chamou pra sair.", repeti o pensamento, pela milésima vez em menos de</p><p>uma hora e todo o nervosismo desesperado voltou instantaneamente.</p><p>Afirmei com a cabeça, evitando falar porque de repente, falar era mais difícil que</p><p>piscar.</p><p>- Tá, calma. - Normani falou para si mesma, dando a volta na bancada e caminhando</p><p>até mim. - Estamos falando de que tipo de saída? - sentou-se ao meu lado. - Tipo,</p><p>encontrou ou só sair?</p><p>- EU NÃO SEI! - Exclamei, dando um pulo da cama, finalmente permitindo minhas</p><p>emoções serem expressadas pela minha boca. - Ela não me disse! Só disse "Você</p><p>aceita ir à um lugar comigo hoje à noite?" e nada mais!</p><p>- Ela disse, literalmente, só isso? - Normani perguntou, cruzando as pernas e</p><p>apoiando-se com as mãos atrás do corpo, na cama.</p><p>- Literalmente só isso! E disse que vai estar aqui às oito. - Falei, andando de um lado</p><p>para o outro. - Em ponto. - Completei, levando as mãos à cabeça, enfiando os dedos</p><p>pelos cabelos e apertando levemente.</p><p>- Claro que é "em ponto". - Normani zombou.</p><p>Joguei-me na cama novamente e soltei um suspiro pesado.</p><p>- O que eu faço? - perguntei, quase suplicando por uma resposta, colocando as duas</p><p>mãos no rosto.</p><p>Foi a vez de Normani suspirar, permitindo-se um breve silêncio, que provavelmente</p><p>usara para ponderar sobre toda a situação.</p><p>- Temos uma situação incomum aqui. Não sabemos se você terá um encontro, um</p><p>semi encontro ou uma daquelas situações que são encontro, mas não são porque</p><p>ninguém quer admitir que é um encontro. - Normani continuou falando em voz alta o</p><p>que pensava. - Isso significa que você não pode ser o lado que acha claramente que é</p><p>um encontro. Não! Isso, de jeito nenhum. - Minha amiga exclamou mais para si</p><p>mesma do que para mim. - Você tem que estar bem vestida, mas não muito, afinal, é</p><p>só "uma coisa que não sabemos se é um encontro" ou não. - Normani virou-se em</p><p>sobressalto para mim, como se tivesse se dado conta de alguma coisa</p><p>repentinamente. - OH MEU DEUS, VOCÊ VAI SAIR COM A NOSSA PROFESSORA!</p><p>Arregalei os olhos junto com ela e apertei meus rosto, usando as duas mãos, em sinal</p><p>de total e completo desespero.</p><p>- Tudo bem, sem pânico, mas... - Normani virou-se de frente para mim, sentando-se</p><p>sobre a própria perna. - Como você se sente sobre isso?</p><p>- O que você acha? - perguntei, deixando todo o meu desespero ser expressado pelo</p><p>meu tom de voz. - Eu estou em pânico, Normani! Em pânico! - levantei-me da cama</p><p>outra vez, retomando meu caminho de andar de um lado para o outro no quarto. - E</p><p>se eu beijar ela de novo?! - perguntei, desesperada. - Eu já entendi que, pelo menos</p><p>por ela, eu sou completamente, absurdamente lésbica. Eu tenho vontade de beijar ela</p><p>toda vez que a olho. - falei, apoiando-me nos meus próprios joelhos, bem de frente</p><p>para Normani. - O QUE EU PRECISO FAZER PRA MINHA SANIDADE VOLTAR E EU</p><p>CONSEGUIR AGIR NORMALMENTE PERTO DELA? - perguntei, alterada comigo mesma</p><p>em toda aquela situação. Inconformada com meu descontrole emocional e físico em</p><p>relação à Camila Cabello.</p><p>Normani me olhava contemplativamente, como se eu tivesse acabado de dizer à ela a</p><p>coisa mais óbvia do mundo.</p><p>- Caramba, Lauren... - Normani falou, usando o mesmo tom de sabedoria que usava</p><p>quando chegava à uma conclusão sobre a qual tinha absoluta certeza. - Você está</p><p>absurdamente apaixonada pela professora Cabello. - ela decretou.</p><p>"Você está absurdamente apaixonada pela professora Cabello", a voz de Normani</p><p>soou repetidamente como um eco em minha cabeça. Um nó desceu arrastado pela</p><p>minha garganta. "Apaixonada não! Sou encantada por ela! Só encantada!", repreendi-</p><p>me mentalmente pela reação do meu corpo ao que Normani dissera. "Apaixonada</p><p>s...", cortei o pensamento antes que ele prosseguisse.</p><p>- Encantada. - impulsionei meu corpo para cima, fazendo força com as duas mãos nos</p><p>joelhos. - E eu não quero falar sobre isso.</p><p>- Tudo bem, tudo bem... - Normani se deu por vencida e esticou o pescoço de um</p><p>lado para o outro, enquanto falava. - Você já sabe o que vestir?</p><p>- NÃO! - exclamei exasperada. - Eu nem sei que tipo de "sair comigo" é esse, como</p><p>vou escolher uma roupa?! - sentei-me no banco da prancheta e deixei os ombros</p><p>caírem. - Quando um garoto me chamava pra sair era mais fácil.</p><p>- Sim, porque você não se importava em agradá-los. - Normani disse, simplesmente,</p><p>levantando da cama e caminhando até o meu lado do closet. - Mas se importa e</p><p>muito em agradar Camila.</p><p>Ponderei sobre aquilo por alguns segundos, antes de pular do banco e seguir Normani</p><p>até o closet.</p><p>- Verdade. Mas por que isso acontece? - perguntei, parando ao seu lado, observando-</p><p>a encarar as minhas roupas.</p><p>- Porque você está apaixo...</p><p>Normani foi interrompida pela minha mão em sua boca.</p><p>- Não, eu não estou! - decretei, ainda com a mão em sua boca.</p><p>A garota deu de ombros, mas obviamente discordando do que eu acabara de dizer.</p><p>Eu mal acabara de retirar a mão da boca de Normani quando três batidas na porta</p><p>anunciaram a provável chegada de Drew.</p><p>- Vá você abrir a porta pra ele. Estou ocupada escolhendo a sua roupa. - minha amiga</p><p>decretou e eu não pude sequer questionar, porque não tinha a menor ideia do que</p><p>vestir e a ajuda dela era essencial.</p><p>Sem dizer uma palavra, fui até a porta para Drew que estava esperando do lado de</p><p>fora com um olhar preocupado.</p><p>- Laur, tá melhor? - Drew perguntou, entregando-me duas embalagens do The Village</p><p>com o meu almoço e o de Normani, encostando-se no batente da porta, enquanto</p><p>ajeitava a mochila no ombro.</p><p>- Estou bem melhor. Acho que eu fiquei assim porque não tinha comido nada de</p><p>manhã. - falei a justificativa mais óbvia e rápido que me veio à cabeça.</p><p>- Acho melhor você não voltar pra aula hoje. - Ele falou, olhando o relógio. - Mas,</p><p>infelizmente, eu preciso ir. Se precisar de mim, você liga? - perguntou, dando uns</p><p>passos dentro do quarto, apenas o suficiente para me dar um beijo na testa.</p><p>- Ligo! Eu ligo sim, mas não se preocupe, eu estou bem mesmo, Drew... - falei,</p><p>expressando gratidão por seu tratamento atencioso comigo. - Obrigada por ter</p><p>trazido o almoço. - levantei levemente as embalagens e sorri.</p><p>- Não foi nada. - Drew começou a se afastar no corredor, apressado. - Ligue mesmo</p><p>se precisar! - falou, antes de começar a descer as escadas apressadamente.</p><p>- Ligo. - falei mais para o nada do que para ele antes de fechar a porta.</p><p>- Já sei que roupa você vai vestir! - Normani apareceu com três cabides do meu</p><p>closet, mostrando-me as roupas que havia escolhido para mim.</p><p>Não precisei olhar muito para aprovar, o que ficou muito claro para Normani pelo</p><p>sorriso que dei.</p><p>- Isso! Sabia que você ia aceitar. - Ela falou, respondendo ao sorriso afirmativo que</p><p>eu havia dado e eu sorri de novo.</p><p>Pelas próximas sete horas que se passaram, Normani e eu conversamos sobre todas</p><p>as coisas sobre as quais eu não conseguia falar a respeito antes. Quase todas. E ao</p><p>cair da noite, o nervosismo exagerado, que fora brevemente aliviado por estar</p><p>envolvida em uma conversa sobre ela, o que me permitiu falar exaustivamente sobre</p><p>o assunto e não acabar surtando, voltou com toda a força.</p><p>- Meu Deus, eu não quero ir! - falei para a minha amiga, que estava sentada na</p><p>bancada da cozinha, mastigando um sanduíche de pasta de frango, o seu preferido.</p><p>- Você quer sim. - Ela disse, simplesmente. - Você não se arrumou toda assim porque</p><p>queria ficar em casa.</p><p>- Sem altas filosofias nesse momento de tensão, Mani. - Falei, observando a minha</p><p>imagem no espelho que tomava quase toda a altura da parede.</p><p>- Não estou filosofando, só estou constatando fatos. - Normani falou, balançando as</p><p>pernas, em meio a mais uma mordida em seu sanduíche.</p><p>A encarei pelo espelho, olhando para mim e para ela ao mesmo tempo, sem fazer</p><p>esforço algum para esconder a minha insegurança quanto a minha aparência.</p><p>- Laur, você está maravilhosa. - a garota falou, dando um pulo da bancada onde</p><p>estava sentada. - Não há nada que não esteja maravilhoso em você.</p><p>- Eu só... - olhei-me mais uma vez no espelho, vendo pelo reflexo Normani</p><p>se aproximar.</p><p>- Shhh. - ela fez o barulho com a boca. - Você está linda. - abraçou-me por trás,</p><p>dando-me um beijo carinhoso na bochecha.</p><p>Novamente olhei para o espelho, tentando sentir-me satisfeita com a roupa que</p><p>usava. Aquela sensação de insatisfação com a roupa era quase tão nova quanto todas</p><p>as outras sensações recentes que eu sentia.</p><p>A saia preta solta ia até a minha cintura, onde prendia por dentro a blusa de linho</p><p>com decote em "v", de manga cumprida, que Normani achara melhor enrolar até o</p><p>cotovelo. Meias pretas cobriam minhas pernas e nos pés, sapatos da mesma cor.</p><p>Respirei fundo e analisei mais uma vez o que vestia.</p><p>"Tudo bem, Lauren, está tudo bem. Você está apropriada.", pensei, tentando ter</p><p>alguma atitude positiva em meio ao mar de insegurança que me jogava de um lado</p><p>para outro.</p><p>- São 07:55, acho que está na hora de você descer. - ela disse, olhando as horas no</p><p>visor do celular.</p><p>Respirei profundamente uma vez, duas vezes, três vezes.</p><p>- Okay. Vou descer. - expirei todo o ar do pulmão e deixei os ombros caírem.</p><p>- Tente ficar calma, vai dar tudo certo, Laur.</p><p>Concordei com a cabeça, sentindo-me enjoada demais para falar qualquer coisa.</p><p>Três minutos depois, eu estava saindo do elevador no piso térreo do edifício dos</p><p>freeshman de Harvard. Caminhei lentamente até a porta de saída, buscando alguma</p><p>calma durante o processo de ter que andar até lá, mas fracassando drasticamente no</p><p>exato momento em que pisei o espaço em frente à porta de vidro do edifício e dei de</p><p>cara com o BMW 428i parado à do outro lado da rua. Eu não podia vê-la, mas a mera</p><p>ideia de que ela estava dentro daquele carro fez meus joelhos desaparecerem, o que</p><p>tornou quase impossível caminhar normalmente até o carro.</p><p>Antes de atravessar a porta, respirei fundo rapidamente, por seguidas vezes,</p><p>fechando os olhos para tentar afastar o turbilhão em minha mente.</p><p>"Calma, Lauren, não seja covarde, é só a sua professora.", pensei, respirando fundo</p><p>mais uma vez, mantendo os olhos fechados, parada do lado de dentro. "Ela é só a</p><p>sua professora linda, que tem a mente mais incrivelmente inteligente que existe, que</p><p>tem os sentidos mais apurados que você já conheceu, que tem os detalhes do corpo</p><p>mais detalhadamente belos que você já viu, que tem a boca sedosa, os olhos que</p><p>profundos que arrastam você para dentro dela, que...", apertei os olhos para mandar</p><p>os pensamentos para o espaço. "Pare com isso!", briguei mentalmente comigo</p><p>mesma e abri os olhos, somente para morrer mais um pouco.</p><p>Camila atravessava a rua, caminhando em direção ao edifício, exatamente para onde</p><p>eu estava, no exato momento em que eu abri os olhos. Meu coração explodiu feito</p><p>uma bomba nuclear quando a vi caminhando, bem na minha frente. Meus olhos</p><p>paralisaram, meus joelhos quase foram ao chão, não fosse o pingo de razão que</p><p>ainda circulava por minha mente.</p><p>Seu corpo estava sendo beijado, quase que literalmente, de tão bela que era a</p><p>composição de roupas que ela usava, por uma saia de cor salmão de cintura alta que</p><p>cobria somente até o seu umbigo e descia até os joelhos, com pequenos detalhes</p><p>redondos vazados, que se repetiam também na blusa de mesma cor, que cobria</p><p>somente o seu busto. Os cabelos pendiam livres e levemente ondulados pelos dois</p><p>ombros, dando-lhe um ar tão... sensual, que eu... eu... Enquanto caminhava, Camila</p><p>não tirava os olhos dos meus, através do vidro e eu me sentia sendo comida.</p><p>"Os olhos dela estão me comendo", pensei, desesperada com a sensação de estar</p><p>sendo mastigada por um olhar.</p><p>Minha boca estava seca e meu corpo inteiramente paralisado quando ela parou do</p><p>lado de fora da porta, esperando-me sair. Engoli, pela quinhentésima vez, a bola de</p><p>ar em minha garganta e forcei-me a caminhar até o lado de fora.</p><p>- Olá, Lauren. - Camila sorriu, sem se dar ao trabalho de olhar o que eu</p><p>vestia. Seus olhos estavam fixos nos meus.</p><p>- Olá profe...</p><p>- Camila. - ela me corrigiu, sem tirar os olhos dos meus.</p><p>- Camila. - me corrigi, permitindo-me encará-la de volta com a mesma intensidade.</p><p>- Isso. - ela disse, acenando quase imperceptivelmente com a cabeça. - Podemos ir?</p><p>- Sim. - falei e ao mesmo tempo afirmei com a cabeça.</p><p>Caminhamos lado a lado em silêncio até seu carro, parando somente à porta do</p><p>carona.</p><p>- Vai me dizer para onde vamos? - perguntei, segurando a porta do carro, já aberta,</p><p>antes que ela desse a volta no carro, mas isso não a impediu de continuar andando</p><p>até o outro lado.</p><p>Entrei no carro e imediatamente virei-me de frente para ela, que estava sentando no</p><p>banco no exato momento em que eu virei. Seu rosto estava com um ar risonho.</p><p>- Vai me dizer? - Insisti.</p><p>- Com uma condição. - Ela disse, fechando a porta do carro. Em seguida, colocando a</p><p>chave na ignição e olhando-me brevemente de lado.</p><p>Cada olhar que Camila me dava, era como uma espada enfiada no meio do meu</p><p>peito. Como uma bola de demolição atingindo-me bem na garganta.</p><p>- Qual...? - perguntei com a voz mais fraca do que gostaria.</p><p>- Você precisa me prometer que se lembrará que só sou sua professora dentro de</p><p>sala. - ela falou, parando para me olhar.</p><p>Como em todas as vezes que eu me deparara com seu olhar, naquela vez também,</p><p>seus olhos me retorciam.</p><p>- Tudo bem... - falei com a voz fraca, outra vez.</p><p>"Pare de agir como idiota, fale como uma pessoa normal!", briguei mentalmente</p><p>comigo mesma.</p><p>- Muito bem. - ela respondeu, dando um sorriso complacente enquanto dobrava por</p><p>algumas ruas de Cambridge, fazendo um caminho conhecido para mim, em direção à</p><p>Boston.</p><p>- Para onde vamos? Você disse que me diria. - falei, ajeitando-me no banco, tentando</p><p>encontrar uma posição confortável para as minhas mãos que não paravam quietas.</p><p>- Vamos ao Museu de Belas artes de Boston. - Ela respondeu, entrando na auto</p><p>estrada que dava acesso à ponte Zakim.</p><p>- Fazer o que? - perguntei, curiosa e ao mesmo tempo feliz por ter escolhido uma</p><p>roupa adequada.</p><p>- Vamos à exposição de um amigo meu. "Karma". - ela falou, olhando-me</p><p>rapidamente para sorrir.</p><p>- Por que está me levando à uma exposição de um amigo seu? - perguntei, sentindo-</p><p>me aturdida com a informação, sem saber exatamente como interpretar o fato de</p><p>estar indo à exposição de um amigo da minha professora.</p><p>- Porque quero que você veja o tipo de arte que ele faz.</p><p>- Por que? - perguntei.</p><p>Camila olhou-me de lado e deu um sorriso que exalava com humor.</p><p>- Por que tem estrelas no céu? Por que é impossível pregar gelatina com um prego</p><p>em uma parede? Por que o sol é amarelo? Por que? Por que? Por que? - Ela</p><p>perguntou várias vezes, fazendo-me ficar envergonhada, mas riu por fim, fazendo-me</p><p>rir também.</p><p>- Você pergunta muitos "por ques", Camila. - falei, envergonhada.</p><p>- É o resultado de seis terças feiras com você. - Ela abriu um sorriso enorme. - E uma</p><p>quinta feira.</p><p>- Cinco terças feiras. - repeti, virando-me para ela enquanto sorria e mais</p><p>uma vez, nossos olhos se encontraram.</p><p>Ela sorria para mim e eu para ela, com os olhos, com a boca, com o coraç...</p><p>- Cinco terças feiras e você já arrastou a minha sophrosyne e metade da minha</p><p>aeipathy.</p><p>Fiz uma careta, unindo as sobrancelhas.</p><p>- Aeipa... - tentei pronunciar a última palavra que ela havia dito, dispensando</p><p>explicações para a primeira, que eu já sabia o que significava. - O que?</p><p>Camila sorriu e olhou para mim rapidamente.</p><p>- Logo lhe explicarei o que é. - falou, simplesmente, enquanto voltava a atenção para</p><p>a o cruzamento de carros, assim que atravessamos a ponte Zakim.</p><p>- Por que não explica agora? - Perguntei, observando o movimento que os músculos</p><p>de suas pernas faziam enquanto ela dirigia. Desviei rapidamente os olhos de volta</p><p>para o seu</p><p>Lauren's pov</p><p>Concupiscient (adj.): preenchida com forte sensualidade.</p><p>- Alguém sabe, tem alguma ideia ou simplesmente quer tentar dizer o que é a</p><p>Gestalt? - perguntou a professora Cabello, logo após escrever a palavra "GESTALT"</p><p>no quadro.</p><p>Àquela altura, já havíamos tido quase todo o tempo da aula, que fora completamente</p><p>utilizada para dar início ao conteúdo. A professora tirara somente vinte minutos no</p><p>início para que todos nos apresentássemos e assim, pudéssemos começar a criar</p><p>vínculos. As outras duas horas de aula haviam sido preenchidas com a unidade I do</p><p>conteúdo da disciplina.</p><p>Como ninguém levantou a mão, ela apontou para Normani, que estava sentada ao</p><p>meu lado.</p><p>- Senhorita Kordei, você tem alguma ideia do que é a Gestalt? - Ela perguntou,</p><p>aproximando-se da mesa de Normani.</p><p>A minha colega de quarto empalideceu. Ela se revelou muito tímida naquele</p><p>momento, ou era simplesmente a vergonha por não saber a resposta para uma</p><p>pergunta que ela, provavelmente, presumira ser algo que deveríamos saber, já que</p><p>nos estava sendo perguntado. Resolvi ajudá-la.</p><p>- Professora... - levantei a lapiseira em minha mão e ela me olhou. - Posso tentar</p><p>responder? - perguntei, antes de simplesmente responder, já que ela não havia</p><p>perguntado para mim.</p><p>- Naturalmente, senhorita Jauregui. - ela sorriu e andou para a minha frente,</p><p>apoiando o punho na minha mesa, enquanto fixava o olhar em mim, esperando que</p><p>eu começasse a responder.</p><p>Antes de começar a respondê-la, entretanto, meus olhos a percorreram dos pés à</p><p>cabeça e alguns detalhes chamaram a minha atenção, como se houvessem lâmpadas</p><p>de neon apontando para determinadas partes dela. De perto, ela era extremamente</p><p>delicada e delicadamente sensual. Particularmente, o seu pulso fino, com uma</p><p>pulseira dourada de um pingente só (um pequeno globo terrestre feito de cristal), de</p><p>onde exalava um perfume doce, me chamou a atenção. O primeiro pensamento que</p><p>me veio foi: "queria ter o pulso assim". A segunda coisa que eu pensei foi...</p><p>- Senhorita Jauregui? - Ela chamou meu nome, despertando-me do breve devaneio. -</p><p>Prefere desistir de tentar explicar?</p><p>- Não, não! - exclamei em um tom moderado, sentando-me um pouco mais reta na</p><p>cadeira.</p><p>De repente, o meu corpo estava em alerta para que eu me comportasse de maneira</p><p>que os meus movimentos e o meu próprio corpo chamassem a atenção dela, tanto</p><p>quanto ela chamava a minha. Eu queria que aquela professora incrível olhasse para</p><p>mim com admiração; não por meus méritos acadêmicos, como eu olhava para ela, já</p><p>que a minha vida na universidade havia acabado de começar, mas como uma aluna</p><p>que poderia orgulhá-la ou como...</p><p>- Então prossiga, por favor... - Ela apoiou o pé direito no descanso da minha cadeira e</p><p>continuou a me olhar. Não somente ela, mas toda a classe.</p><p>- Bem, primeiramente, a Gestalt é também chamada de psicologia da forma, que é</p><p>um "ramo" da psicologia comportamental, ou seja, estuda o comportamento do</p><p>cérebro em relação às maneiras como percebemos as formas que vemos ou sentimos.</p><p>Algumas pessoas traduzem Gestalt, que é uma palavra em alemão, como,</p><p>literalmente "forma", mas isso não é exatamente correto, porque a tradução literal</p><p>para Gestalt é algo como... "integração das partes em oposição à soma das partes" -</p><p>falei em um tom de dúvida, porque não tinha certeza se essa era a tradução correta e</p><p>a professora acenou positivamente com a cabeça, olhando-me fixamente. - E isso</p><p>remete à forma, por isso se costuma traduzir como forma, justamente porque a</p><p>Gestalt surgiu para estudar porque entendemos ou percebemos as formas de</p><p>maneiras diferentes. Eu não sei muita coisa a respeito, professora, mas li algo assim</p><p>para um trabalho da escola e...</p><p>- Não! - ela exclamou. - Você falou tudo corretamente. É exatamente isso</p><p>o que você falou e mais um pouco.</p><p>Depois disto, a professora Cabello voltou para a frente da sala e explicou</p><p>maravilhosamente bem o que é a Gestalt, dando um banho de conhecimento na</p><p>minha explicação furreca de minutos atrás. Tudo o que ela falava era claro como água</p><p>para mim e eu tinha a impressão de que o resto da turma pensava da mesma forma.</p><p>- Muito bem, vocês tem um trabalho para fazer. - Ela anunciou, puxando um pequeno</p><p>bloco de papel de dentro de sua pasta.</p><p>- Ahhhhhhhhh - A turma inteira reclamou em uníssono.</p><p>- Ahhh... - ela nos imitou e depois sorriu. - Não reclamem. Considerem isso como um</p><p>treino para a vida acadêmica de vocês.</p><p>Ela falava enquanto colocava o numero certo de folhas em cada primeira cadeira de</p><p>cada fileira, para que os alunos passassem para trás.</p><p>- Vocês tem até a segunda feira da semana que vem para me entregar. Vale ponto,</p><p>mas eu não direi quanto. Estão dispensados. - Ela falou, virando-se de costas para</p><p>nós.</p><p>A sala esvaziou rapidamente. Eu tinha esperanças de conseguir falar com a</p><p>professora depois que todos os alunos tivessem deixado a sala, mas ela saiu tão</p><p>rápido quanto a maioria dos meus novos colegas de classe.</p><p>- Lauren... - Normani me chamou, já em pé, ao lado da minha mesa. - Vamos?</p><p>- Vamos.</p><p>- Estava com a cabeça aonde? - perguntou-me, enquanto caminhávamos para fora da</p><p>sala.</p><p>- Em lugar nenhum, só estava tentando lembrar de uma das coisas que a professora</p><p>falou. - respondi, ajeitando a mochila no ombro.</p><p>- Falando nisso, obrigada por ter me salvado hoje na aula. Eu não fazia a menor ideia</p><p>do que é esse negócio de Gestalt. Pra mim, parece nome de marca de carro.</p><p>Eu ri de sua comparação. Até que fazia sentido.</p><p>- Não há de que. Mas você me deve cinquenta dólares por essa. - falei em um tom</p><p>sério.</p><p>Normani se virou para mim e arregalou os olhos. Eu ri de sua expressão e logo ela</p><p>entendeu que eu estava brincando.</p><p>- Garota, eu jurava que você estava mesmo me cobrando por ter me ajudado. - ela</p><p>riu, mostrando-se aliviada.</p><p>- Que tipo de pessoa eu seria se cobrasse cinquenta dólares por ter ajudado você na</p><p>aula? - perguntei, ironicamente, porque, sinceramente, ninguém cobrava por ajudar</p><p>alguém na aula.</p><p>- O tipo de pessoa que pode pagar por uma mensalidade em Harvard. - ela falou com</p><p>muita seriedade.</p><p>- Co-como assim? - perguntei, parando de caminhar no meio do corredor.</p><p>- É... eu sou bolsista. - ela falou, parecendo um pouco envergonhada.</p><p>- O QUE?! - exclamei um pouco alto demais.</p><p>- O que? Vai dar piti porque sou bolsista? Você é mais uma daquelas riquinhas</p><p>preconceituosas que...</p><p>Imediatamente a puxei para um abraço, para que ela calasse a boca, apertando-a</p><p>firmemente.</p><p>- Caramba, Normani! Parabéns! Você é demais, meu Deus! Você conseguiu uma bolsa</p><p>de estudos em uma das melhores universidades do mundo e, caramba! - beijei a</p><p>bochecha dela. - Estou muito honrada por estudar com você.</p><p>- Garota... - seus olhos estavam arregalados e a velha expressão risonha estava de</p><p>volta. - Você, definitivamente, não é uma riquinha preconceituosa.</p><p>- Nem riquinha, nem preconceituosa. - eu disse, beliscando seu quadril.</p><p>- Riquinha sim vai... - ela falou, zombando, enquanto voltávamos a andar pelo</p><p>corredor a caminho do restaurante ao lado do HGSD.</p><p>- Não. - neguei.</p><p>Eu não era riquinha. Vivia com conforto e poucas coisas me faltavam, mas tudo o que</p><p>minha família tinha era fruto do trabalho árduo do meu pai em sua exportadora.</p><p>Tínhamos dinheiro suficiente para que eles pagassem a minha mensalidade em</p><p>Harvard, mas não tínhamos dinheiro suficiente para termos um avião, por exemplo.</p><p>- Ei! - a voz de um garoto atrás de nós soou, pouco antes de ele tocar nossos</p><p>ombros.</p><p>Normani e eu viramos de sobressalto, olhando-o assustadas.</p><p>- Desculpem. - ele disse, abrindo um sorriso. - Eu estou procurando por duas alunas</p><p>da classe de calouros de arquitetura e me disseram que essas duas alunas são vocês.</p><p>Lauren e Normani? Certo? - ele perguntou, abrindo um sorriso que brilhou tanto que</p><p>quase fiquei cega.</p><p>O garoto era alto, muito mais alto que eu e minha colega de quarto, brando, loiro, de</p><p>olhos verdes, cabelo perfeitamente penteado e ao mesmo tempo, perfeitamente</p><p>embaraçado.</p><p>rosto, mas não a tempo suficiente para ela não perceber meu olhar.</p><p>A mulher me olhou novamente, agora com muito mais atenção, enquanto estávamos</p><p>paradas no semáforo.</p><p>- Por que decidiu estudar arquitetura, Lauren? - ela perguntou, com seus olhos presos</p><p>aos meus, dando um tom mais sério à conversa.</p><p>Pensei em insistir no assunto anterior, mas cedi ao desejo de falar sobre arquitetura.</p><p>- Eu sempre me senti muito conectada aos ambientes, às construções, à tudo o que</p><p>expressava as pessoas através dos lugares. Faz sentido? - perguntei e ela fez que sim</p><p>com a cabeça, voltando a dirigir, mas completamente atenta à mim. - Quer dizer, por</p><p>trás de cada tijolo que se constrói, por trás de cada detalhe decorativo que se coloca,</p><p>existe uma pessoa e suas emoções. Eu quero ser a pessoa que está se expressando</p><p>através dos ambientes. Eu quero que as pessoas me sintam através do que eu</p><p>construir... - fiz uma pausa, ponderando se deveria, ou não, dizer o que meu coração</p><p>gritava para que eu dissesse. - Exatamente como as pessoas sentem você através do</p><p>que você faz.</p><p>- A mim? - Camila perguntou, sem surpresa, mas com curiosidade, provavelmente</p><p>para saber o meu ponto de vista.</p><p>- Sim... - respondi com timidez, mas a driblei para continuar falando o que eu tinha</p><p>vontade de dizer há dias. - Você. As pessoas olham as coisas que você constrói e se</p><p>comovem. Não sou só eu que me sinto assim, são todas as pessoas que veem o que</p><p>você faz. Às vezes eu tenho a impressão de que suas veias correm entre as vigas do</p><p>que constrói. Não existe nada seu que não seja reconhecível, porque tudo o que é</p><p>seu, tem você. Tem suas emoções. Tem seu ar misterioso e genial. Você usa o</p><p>concreto ou qualquer material que esteja usando como se fossem lápis e você escreve</p><p>os mais belos poemas em forma de construções. É esplêndido e magnífico - as</p><p>palavras simplesmente saíam da minha boca. - como você.</p><p>- Eu já ouvi muitas coisas bonitas a respeito do meu trabalho, Lauren. - Camila falou,</p><p>olhando-me com atenção. - Mas nunca uma pessoa me viu com olhos tão puramente</p><p>generosos quanto você está me vendo. Obrigada... - ela falou, deixando escapar, pela</p><p>primeira vez em cinco terças feiras, um leve tom de timidez.</p><p>- Não precisa agradecer, não é como se eu não estivesse falando a verdade. - falei,</p><p>olhando-a firmemente nos olhos pelo máximo de tempo que consegui, que não foi</p><p>muito. - E você, por que decidiu estudar arquitetura?</p><p>- Você já observou que tudo ao seu redor é a respeito de arquitetura? - ela perguntou</p><p>e eu ponderei rapidamente sobre aquilo, mas antes que eu desse qualquer resposta,</p><p>ela continuou. - Tudo o que você olha está relacionado à arquitetura. Toda sociedade</p><p>se desenvolve a partir de cidades e digo isto no sentido mais amplo. Você não tem</p><p>sociedade se não tiver, ao menos, algum tipo de edificação que represente que em</p><p>determinado local, existem pessoas vivendo em sociedade, nem que seja ao menos,</p><p>uma tenda, por exemplo. - ela falou, enquanto guiava o carro pelo estacionamento do</p><p>Museu de Belas Artes, à procura de uma local para estacionar. - Tudo o que</p><p>conhecemos, absolutamente tudo, se desenvolveu a partir da arquitetura. A união de</p><p>várias pessoas, vivendo em comunidades, construindo padrões de construções de</p><p>acordo com seus padrões emocionais como sociedade, gerou a necessidade de novas</p><p>profissões, de novas áreas do conhecimento a serem desenvolvidas para tornar a vida</p><p>nas cidades possível. Quando decidi estudar arquitetura, eu queria conhecer tudo,</p><p>queria estar em tudo, queria fazer parte de tudo. - ela parou de falar, depois de</p><p>alguns segundos que havia parado o carro. - Mas acima de tudo, percebi que o</p><p>mundo era um aglomerado de sonhos construídos, às vezes transformados e</p><p>modificados, mas eram sonhos e eu queria dar sonhos às pessoas.</p><p>Eu a olhava com tal admiração que nenhuma palavra no mundo poderia expressar.</p><p>Quando seus olhos encontraram os meus outra vez, não fiz questão alguma de</p><p>desviar ou de mudar a expressão. Queria que ela enxergasse nos meus olhos todo o</p><p>encantamento que eu sentia por ela, toda a p...</p><p>- Por que está me olhando assim? - ela perguntou, pendendo levemente a cabeça</p><p>para o lado.</p><p>- Porque você é impressionante. - falei, simplesmente deixando que as palavras</p><p>saíssem da minha boca, sentindo-me completamente absorvida pela maneira como</p><p>ela me comovia e sem a menor disposição para lutar contra aquela onda enorme que</p><p>me arrastava para depois, me jogar contra a areia.</p><p>Os olhos profundos e curiosos de Camila tornaram-se rasos, perfeitamente legíveis</p><p>para mim, pela primeira vez e eu vi nos olhos dela exatamente o que ela via nos</p><p>meus.</p><p>"Ela está me olhando como se eu fosse a única pessoa no mundo".</p><p>Sorri para o pensamento e para o seu olhar, abaixando levemente a cabeça, para</p><p>esconder a timidez do meu sorriso.</p><p>- Olhe para mim. - ela falou, com a voz quase rouca.</p><p>E como se ela tivesse total controle sobre as minhas ações, eu a olhei.</p><p>Os olhos dela abraçaram os meus em um aperto quase sufocante que, embora me</p><p>matasse, me afogasse, eu não queria e não conseguia soltar. Não desviei o olhar do</p><p>dela e nem ela desviou o olhar do meu.</p><p>- Lauren... - Camila falou o meu nome quase inaudivelmente.</p><p>Sua mão subiu até que tocou o meu rosto, com tanta leveza que, não fosse o seu</p><p>toque quente e quase ácido, eu não teria sentido. Não pude controlar-me e fechei os</p><p>olhos, para sentir as minhas células absorverem o calor que saía das mãos de Camila.</p><p>O arrepiou começou no meio das costas e corroeu os meus braços, pernas, rosto, o</p><p>corpo inteiro, quando os dedos de Camila deslizaram pela minha pele. Sua mão</p><p>desceu até o meu pescoço e com a ponta do dedo, Camila fez alguns desenhos</p><p>aleatórios pela minha pele. Abri os olhos para, finalmente, olhá-la, mas antes que eu</p><p>pudesse abri-los completamente, Camila prendeu a mão na minha nuca e puxou-me</p><p>pelo pescoço, quase que instantaneamente colocando a outra mão no meu rosto,</p><p>pressionando a minha pele sob suas mãos, afundando o meu peito em um calor</p><p>excruciante.</p><p>Segurando-me em suas mãos, como se fosse sua posse, encostou nossas testas e</p><p>nossos narizes, de tal forma que seus olhos rasgavam os meus e sua respiração</p><p>corroía a minha pele, queimando a minha boca.</p><p>- Lauren eu... - sua voz estava falhada, rouca, baixa, quase como um sussurro.</p><p>Meu corpo estava sendo dominado por uma onda de arrepios intermináveis, como se</p><p>meu corpo estivesse na frente de um forno à mil e quinhentos graus. Minha boca</p><p>estava mole e meu corpo à total mercê da vontade da mulher que segurava-me o</p><p>rosto com tanta posse.</p><p>Antes que eu pudesse lembrar de respirar, Camila apertou um pouco mais a mão na</p><p>minha nuca e pressionando também o meu rosto, colou os nossos lábios, invadindo-</p><p>me a boca logo em seguida, com uma onde interminável de calor escorrendo dos</p><p>lábios dela para os meus. Segurei-me em seus dois braços, quase cravando as unhas</p><p>em sua pele, puxando-a para mais perto e ao mesmo tempo, tentando encontrar algo</p><p>para me manter presa ao mundo. Camila soltou e apertou novamente a minha nuca,</p><p>beijando-me tão avidamente que meu corpo estava incendiando. Apertei novamente</p><p>as unhas nos braços dela, apertando os olhos, tamanhas eram as emoções que me</p><p>invadiam.</p><p>E no meio daquele beijo ardido, queimante e devastador, um único pensamento</p><p>explodia em minha mente, como se o próprio sol explodisse dentro de mim:</p><p>Eu estava inequivocamente, irrevogavelmente, loucamente, vergonhosamente e</p><p>desesperadamente apaixonada por Camila Cabello.</p><p>Mamihlapinatapei</p><p>Camila's pov</p><p>Mamihlapinatapei (n.): "o ato de olhar nos olhos do outro, na esperança de que o</p><p>outro inicie o que ambos desejam, mas ninguém tem coragem de começar".</p><p>"Quente, doce, úmido, gostoso, invasor, delicioso...", minha mente se afogava em</p><p>palavras que descreviam a sensação de ter os lábios de Lauren Jauregui enrolados</p><p>aos meus, tão profundamente que nossas bocas pareciam ser uma coisa só.</p><p>"Desfrutável, entorpecente, viciante, provocante".</p><p>Sua boca quente queimava a minha, mordendo-me quase que desesperadamente os</p><p>lábios e sob minhas mãos, sua pele</p><p>parecia desintegrar-se. Eu podia sentir os</p><p>minúsculos pelos de seu rosto eriçados sob a pele sensível de minhas mãos. As</p><p>sensações que eu percebia em Lauren deixavam-me em completo estado de êxtase,</p><p>como se todo movimento ou reação da garota fosse capaz de me levar à loucura, ao</p><p>completo delírio.</p><p>Como se Lauren fizesse minha alma gozar.</p><p>Meu coração, mero arquiteto de emoções alheias até aquele ponto, corria</p><p>desenfreadamente por todo o meu corpo, fazendo cada milímetro da minha pele</p><p>pulsar em um desejo ardente de me afogar nos lábios da garota que eu tinha sob</p><p>meus toques; sendo, pela primeira vez, arquitetado pelo destino para um estado de</p><p>profunda paixão.</p><p>"Paixão?!", a pergunta surgiu em minha mente e teve como resposta o ritmo</p><p>desenfreado do meu coração que chutava o meu peito. "Paixão...", afirmei</p><p>mentalmente para mim mesma, sentindo o meu peito incendiado, arder.</p><p>Apertei-lhe a nuca, puxando-a mais para dentro de mim, como se o ato de aperta-la</p><p>fosse fazê-la se fundir ao meu corpo. Suas unhas apertaram os meus braços com</p><p>mais força que antes, fazendo meu corpo reagir à dor prazerosa com um arrepio, que</p><p>resultou em minha boca sugando ferozmente seu lábio inferior.</p><p>Quando o ar nos faltou, juntas, em perfeita sincronia, inspiramos oxigênio, mas sem</p><p>descolar nossas bocas. Lauren ainda apertava meus braços e eu não podia e nem</p><p>queria tirar as mãos de seu rosto e nuca. Como se tivéssemos combinado, nossos</p><p>peitos subiam e desciam em um perfeito compasso, acelerados, denunciando o</p><p>desespero resultante de um beijo devastador.</p><p>Sentia-me invadida, como se Lauren tivesse rasgado minha mente, corpo e coração</p><p>ao meio, fazendo de mim, seu objeto de manipulação livre.</p><p>Nos dois dias anteriores, eu havia decidido que a trataria como fazia com todos os</p><p>outros alunos e nada além disso. A minha ideia de ajudá-la em seus desejos com</p><p>relação à arquitetura havia tomado proporções maiores do que eu esperava para mim</p><p>mesma. Meus planos não passavam de ajudar uma aluna que, visivelmente, merecia</p><p>atenção por ter os olhos tão sensíveis à profissão que escolhera, mas no final das</p><p>contas, me encontrei com a mente absorvida, vinte e quatro horas por dia e todos os</p><p>seus minutos, segundos e milésimos de segundo, por Lauren Jauregui e seu beijo</p><p>repentino e gostoso; por Lauren Jauregui e seu olhar possessivo sobre mim; por</p><p>Lauren Jauregui e seu cheiro de cachoeira em um dia ensolarado; por Lauren Jauregui</p><p>e sua pele branca e delicada; por Lauren Jauregui e eu, Camila Cabello, que de</p><p>repente, pareceu-me ser o desejo mais consumidor, enlouquecedor e arrebatador que</p><p>eu já tivera em toda a minha vida.</p><p>Todo o meu pensamento lógico e racional havia sido mandado para o espaço. Depois</p><p>de cinco terças feiras e dois dias, não havia lógica ou razão que não cedessem à doce</p><p>irracionalidade que era Lauren, dentro de mim. Todos os meus esforços em agir</p><p>maduramente com a garota eram destruídos no exato momento em que eu punha</p><p>meus olhos nela. Nela e em seus olhos que me prendiam em correntes, como se eu</p><p>fosse dela. Seus olhos eram como marretadas estrondosas nas minhas estruturas.</p><p>E ali, estava eu, caída aos pés de Lauren, entregue aos seus lábios e emoções,</p><p>entregue aos seus medos e confusões que tanto me intrigavam, que tanto me</p><p>confundiam.</p><p>- Você... me beijou. - ela falou, com a voz saindo fraquinha.</p><p>Senti seus lábios movimentarem-se nos meus enquanto falava e a sensação de ter</p><p>sua boca movendo-se suavemente pela minha, fez-me sorrir com os lábios colados</p><p>nos dela e receber de volta um sorriso que, depois de tocar meus lábios, se espalhou</p><p>por todo o meu rosto.</p><p>- Sim... - falei, deslizando apenas o meu lábio inferior sutilmente pelo dela, tentando</p><p>controlar a vontade de sorrir, mas fracassando, como sempre fracassava todas as</p><p>vezes que tentava controlar as minhas emoções sobre Lauren. - Eu beijei você. -</p><p>falei, meu tom saindo mais fraco do que desejava, denunciando a dificuldade de ar</p><p>nos meus pulmões.</p><p>Suas mãos apertaram os meus braços mais uma vez e no mesmo instante que abri</p><p>meus olhos, Lauren fez o mesmo, fazendo-me sentir puxada com força para dentro</p><p>dela, de tal forma que não podia parar de olhar os detalhes de sua íris, o contorno</p><p>quase escuro de seus olhos, os cílios bem marcados por rímel, a pupila dilatada...</p><p>- Isso quer dizer que... - ela deixou no ar, para que eu lhe desse alguma explicação.</p><p>"Isso quer dizer que estou louca", pensei, com certo humor. "Completamente louca</p><p>por v...".</p><p>Dei-lhe um sorriso, afastando-me um pouco e aliviando a tensão de minhas mãos em</p><p>seu rosto. Passei o polegar por seu queixo, o que a fez sorrir e fechar os olhos</p><p>rapidamente. Sorri para a sensação que a cena me causou: meu coração escorreu</p><p>para o chão, passando por todo o meu corpo, impregnando cada átomo da minha</p><p>essência com... com... com...</p><p>- Você é linda, Lauren. - Falei, tentando cortar o pensamento que eu não queria ter.</p><p>"Paixão", a palavra brilhou feito o sol em minha mente.</p><p>A garota deu um sorriso tímido, unindo as sobrancelhas e negando com a cabeça</p><p>rapidamente, como se discordasse da verdade mais óbvia que eu já dissera na vida.</p><p>- Por que me beijou? - ela perguntou, tentando disfarçar a vergonha que já estava</p><p>expressa no tom avermelhado que suas bochechas ganharam, desviando a minha</p><p>atenção, como sempre tentava fazer.</p><p>"Ela sempre pergunta tanto...", pensei com humor, afastando-me mais de Lauren.</p><p>"Ela é sempre tão..."</p><p>- Desesperadoramente linda. - completei o pensamento em voz alta, enquanto</p><p>buscava novamente, agarrar o seu olhar com o meu.</p><p>"Desde quando você acha mulheres desesperadoramente lindas, Camila?", perguntei-</p><p>me mentalmente, tentando buscar dentro de mim mesma, respostas. Como se</p><p>fossem o caminho para a resposta, meus olhos cravaram-se em Lauren. "Desde que</p><p>você a viu".</p><p>A olhei por alguns instantes e deixei descer, rasgando, garganta adentro, a vontade</p><p>de agarrar-lhe o rosto outra vez e beijá-la eternamente.</p><p>- Vamos entrar, a exposição já começou e vamos acabar nos atrasando. - falei,</p><p>abrindo a porta do carro e saindo em seguida, sem ao menos lhe dar tempo para</p><p>dizer qualquer coisa.</p><p>- Você nunca me responde as perguntas que faço. - Lauren falou, em seu costumeiro</p><p>tom de timidez, mas com uma leve irritação misturada, enquanto fechava a porta do</p><p>carro depois de sair.</p><p>Fiquei em silêncio enquanto dava a volta no carro, indo até o seu encontro. Parei ao</p><p>seu lado rapidamente, antes de voltarmos a andar pelo estacionamento, em direção à</p><p>entrada do Museu de Belas Artes de Boston.</p><p>- Porque eu senti vontade. - disse simplesmente, falando a verdade na ausência de</p><p>palavras escusas que me livrassem do peso de ter que dizer à ela o que eu sentia.</p><p>As vezes, os sentimentos chegam a tal ponto que não há saída, senão, se entregar</p><p>aos seus desejos. Eles nos amassam, nos pisam, nos envergonham, nos intimidam,</p><p>nos sufocam e ainda assim, ainda assim, ainda assim... nos dão todo o prazer do</p><p>mundo.</p><p>Lauren virou o rosto para mim, no exato momento em que eu a olhei e</p><p>paramos bem à entrada do Museu. Seus olhos eram demasiadamente verdes até</p><p>mesmo no escuro, o que dava a impressão de uma constante iluminação em seu</p><p>rosto. Não resisti ao impulso de tocar-lhe a face outra vez e sorri quando seus olhos</p><p>se fecharam em reação ao meu toque.</p><p>Sob o céu escuro de Boston, à entrada do Museu de Belas Artes, Lauren Jauregui</p><p>colocou os dois pés para dentro de toda a minha essência, tornando-me outra,</p><p>tornando-me mais eu mesma do que eu era antes, tornando-me sua. Não haviam</p><p>mais caminhos para onde eu pudesse correr. Todas as dúvidas haviam ganhado</p><p>respostas contundentes, quase como se fossem respostas do universo, no instante</p><p>em que nossos lábios haviam se tocado. Eu havia chegado a um ponto onde não</p><p>havia mais retorno. Não havia mais saída. Eu a queria e ela seria minha.</p><p>"Nunca houve saída, Camila", o pensamento surgiu em minha mente enquanto eu</p><p>encarava o rosto da garota que permanecia de olhos fechados. "Por que é tão difícil</p><p>resistir à você, Lauren?", me questionei mentalmente, sem me preocupar com o meu</p><p>corpo agindo como queria e cedendo à atração que o corpo dela exercia sobre o meu.</p><p>Colei minha boca em sua bochecha e inspirei o cheiro de sua pele enquanto sentia</p><p>meus lábios adormecerem na troca de calor entre nossas peles.</p><p>- Seu cheiro entorpece meu corpo. - falei com a boca quase colada em sua orelha,</p><p>apenas deixando as palavras saírem livremente.</p><p>- Você faz meus ventrículos gritarem por você. - ela sussurrou, soltando pesadamente</p><p>o ar em meio à sua voz fraca. - Quer dizer... é que... - ela tentou consertar,</p><p>afastando o rosto do meu.</p><p>- Eu sei o que são ventrículos, Lauren. - disse-lhe, olhando-a intrigada por tentar</p><p>entender o motivo de ter se afastado tão bruscamente.</p><p>"Por que ela se afastou?", perguntei-me internamente, franzindo o cenho enquanto a</p><p>olhava e esperando por qualquer resposta para uma pergunta que eu nem sequer</p><p>fizera.</p><p>- Não, eu sei, é que... Quer dizer, é claro que você sabe. - ela revirou rapidamente os</p><p>olhos, como se estivesse achando a si própria idiota. Eu sorri internamente e</p><p>continuei a observá-la. - Você sabe de tudo, quer dizer...você é um gênio e tudo</p><p>mais... Ai, é que... O que eu falei... Tipo... - ela falava rapidamente, dando pausas</p><p>quando as explicações lhe faltavam.</p><p>Eu sorri balancei a cabeça positivamente.</p><p>- Você entendeu. - Ela falou, exausta de tentar explicar e eu sorri para ela</p><p>novamente, tentando fazer-lhe entender que estava tudo bem e concordei outra vez</p><p>com um aceno positivo. - Tem alguma coisa que você não entenda?</p><p>Ponderei a respeito daquilo brevemente, sem tirar meus olhos dela, repassando em</p><p>minha cabeça todas as coisas que eu conhecia. Eu entendia todas. Sempre as entendi</p><p>sem nenhuma dificuldade, era para isso que servia ter uma mente de "gênio", para</p><p>entender coisas e pessoas. Exceto, Lauren.</p><p>- Você. - respondi, simplesmente.</p><p>- Eu? - Lauren levantou a sobrancelha esquerda, expressando sua curiosidade.</p><p>- Você. - disse-lhe, tocando em seu braço para que voltássemos a andar.</p><p>- Por que eu? - ela perguntou, andando lado a lado comigo até a enorme porta que</p><p>dava acesso ao salão principal do museu.</p><p>Paramos à porta.</p><p>- Porque você faz meus ventrículos gritarem por você.</p><p>O segurança abriu a porta e o ar gelado do ambiente interno tocou minha pele,</p><p>acompanhado pelo cheiro de flores e comida, que se espalhava pelo ar.</p><p>- E eu nem sabia que meus ventrículos podiam reagir emocionalmente até você</p><p>aparecer. - completei, virando-me para a porta, já aberta.</p><p>- Boa noite, senhorita Camila. - Cumprimentou o segurança, que eu não fazia a</p><p>menor ideia de quem era, mas rapidamente identifiquei o seu nome em uma pequena</p><p>plaquetinha, presa em seu paletó.</p><p>"Oliver", memorizei seu nome e rosto mais rapidamente do que uma</p><p>câmera tira uma foto.</p><p>- Boa noite, Oliver, como vai? - perguntei, adentrando o espaço e olhando para uma</p><p>Lauren estática e de olhos arregalados, fazendo sinal para que me seguisse.</p><p>- Bem, senhorita. - Ele respondeu cordialmente, fechando a porta do salão, assim que</p><p>Lauren passou. - A senhorita vai acompanha-la? - O homem perguntou-me</p><p>educadamente bem humorado, referindo-se à Lauren.</p><p>- Sim, ela irá me acompanhar.</p><p>- Tudo bem, senhorita Camila. A exposição está no salão A, sabe como chegar? - o</p><p>homem perguntou.</p><p>- Sei. Boa noite, Oliver. - o cumprimentei e ao mesmo passo de Lauren, caminhei em</p><p>direção ao corredor que dava acesso ao salão A.</p><p>- Você sempre conhece todos os seguranças dos lugares aonde vai? - Lauren</p><p>perguntou, enquanto caminhávamos pelo largo corredor, repleto de obras de artes</p><p>com valores milionários, sua voz, sempre em um tom a menos do que o normal.</p><p>Antes de respondê-la minha mente se obrigou a fazer uma rápida busca para o</p><p>motivo de ela estar me fazendo aquela pergunta e imediatamente o meu almoço com</p><p>ela no Deuxave me veio à memória.</p><p>"Eles é que sempre me conhecem", respondi primeiro para mim.</p><p>- Não, eu...</p><p>- Camila, querida! - a voz feminina com pesado sotaque britânico soou alta atrás de</p><p>nós, interrompendo-me de responder Lauren.</p><p>Virei o rosto para trás, para, não surpreendentemente, encontrar Mary James, que</p><p>segurou-me pelos dois braços e, sem que eu tivesse qualquer reação, deu-me dois</p><p>beijos, um em cada bochecha.</p><p>Mary James tinha quase sessenta anos, mascarados com muitas plásticas e excesso</p><p>de botox. Seu rosto tinha tanta simetria que chegava a incomodar. Seu cabelo loiro</p><p>curto, estava sempre bem penteado para o alto, dando uma clara visão de seu rosto</p><p>artificial. A mulher era rica como poucas mulheres algum dia chegariam a ser. Mary</p><p>James era o tipo de pessoa que gostava de se adequar aos ambientes em que estava</p><p>e por isso, se estava nos Estados Unidos, agia como uma norte americana, mesmo</p><p>que aquilo fosse totalmente adverso às suas origens comportamentais britânicas.</p><p>Mary James era o tipo de pessoa sobre a qual eu precisava me esforçar muito para</p><p>encontrar o lado positivo.</p><p>- Olá, Mary. Como vai? - Falei, devolvendo-lhe o cumprimento, mantendo-me séria,</p><p>mas cordial.</p><p>- Estaria melhor se você já tivesse aceitado fazer aquele nosso projetinho. - ela falou,</p><p>exuberantemente alegre, apertando meu braço como se fosse a bochecha de um</p><p>bebê.</p><p>"Então ficará eternamente assim", pensei.</p><p>Olhei lentamente do meu braço para ela, mantendo o olhar sério. Forcei um sorriso</p><p>curto na boca.</p><p>- Um dia conversaremos sobre isso. - respondi friamente, esforçando-me para manter</p><p>a polidez.</p><p>- Espero que esse dia chegue logo, não vejo a hora de ter seu nome em um</p><p>empreendimento meu. - ela falou, mantendo o ar exuberante e exagerado. - Quem é</p><p>essa bonitinha aqui, hein? - Perguntou com certo ar de superioridade, como se Lauren</p><p>estivesse abaixo dela ou de mim.</p><p>- Sou Lauren Jauregui, alu... - Lauren começou a falar, mas a interrompi.</p><p>- Minha companheira essa noite. - respondi, mantendo a expressão séria e olhei para</p><p>Lauren que estava com os olhos levemente arregalados postos em mim. - E por</p><p>muitas outras, possivelmente. - sorri brevemente para Lauren que engoliu seco e</p><p>ganhou um incêndio nas bochechas.</p><p>Sorri mais ainda para ela que devolveu o sorriso muito timidamente.</p><p>- Ahhhhh! - Mary James deu um sorriso malicioso, semicerrando os olhos enquanto</p><p>sua boca ofídica sorria. - Entendi... Entendi...</p><p>Sorri sem humor, recusando-me a deferir qualquer outra palavra à ela.</p><p>- Agora vou entrar, porque uma mulher como eu não pode se atrasar tanto assim,</p><p>imagina? - ela falou mais para si própria e seu ego inflado, do que para mim. -</p><p>Hello!!! - exclamou, como se o mundo se estivesse chamando a atenção do mundo</p><p>inteiro.</p><p>- Claro. - falei simplesmente.</p><p>- Beijinhos queridas.</p><p>Mary James empurrou a porta branca de modelo renascentista, com maçanetas</p><p>redondas e douradas, adentrando o salão A do Museu de Belas Artes.</p><p>Respirei fundo e me virei para a garota ao meu lado que me encarava com um olhar</p><p>que eu não podia definir.</p><p>- "Sua companheira"? - ela perguntou, exibindo uma expressão que eu nunca havia</p><p>lido em seu rosto antes.</p><p>- Sim. - afirmei, sem tirar os olhos dos dela para conseguir capturar alguma resposta.</p><p>Seus olhos se tornaram imensos e me disseram tantas coisas que demorei a</p><p>organizar em frases lógicas, em pensamentos que fizessem realmente algum sentido,</p><p>mas quando eu encontrei, eu vi dentro de Lauren exatamente o que via dentro de</p><p>mim: nós. Entretanto, além disso, eu vi incômodo.</p><p>- O que houve? - perguntei, ainda focada em analisar cada pequeno movimento de</p><p>seu rosto.</p><p>Sua boca se abriu como se fosse dizer algo, mas nada saiu. Suas sobrancelhas se</p><p>uniram repetidas vezes e por fim, suspirou, cedendo à algo que eu não compreendia.</p><p>- Você sempre leva companheiras aonde vai? - ela perguntou baixinho, olhando para</p><p>o tapete vermelho sob nossos pés.</p><p>- Não. - respondi simplesmente, tendo certa dificuldade em entender o motivo da</p><p>pergunta. - Nunca levei ninguém.</p><p>- Não? - ela levantou o olhar para mim, deixando expressa toda</p><p>a sua confusão que</p><p>até aquele momento eu não entendia.</p><p>- Não. - disse outra vez. - Nunca tive alguém para "levar por aí".</p><p>- Não? - ela perguntou, alterando mais ainda o seu ar estupefato.</p><p>Eu dei uma risada, entendendo, a partir dali, o motivo da pergunta de Lauren.</p><p>- Garota interrogação! - exclamei com humor, mas sem tirar os olhos dela e ela</p><p>tampouco tirava os olhos dos meus.</p><p>Lauren deu uma risada quase alta, o que fez seu corpo se mover e expressar toda a</p><p>alegria que ela se esforçava em segurar. Suas formas se moveram curvilineamente e</p><p>imediatamente meu cérebro transformou aquelas formas em traçados curvos que se</p><p>estendiam por qualquer cenário imaginário para mim. Minha cabeça explodiu em</p><p>traçados infinitos que poderiam expressar o movimentar sorridente do corpo daquela</p><p>garota.</p><p>- Por que disse isso àquela mulher, então? - ela perguntou.</p><p>- Que você é minha companheira? - perguntei, para ter certeza a qual parte ela se</p><p>referia.</p><p>- Sim... - ela falou, mordendo um cantinho discreto e quase imperceptível de seu</p><p>lábio, fazendo-me sentir o peito pesar. - Quer dizer, você não se importa de dizer que</p><p>está sendo acompanhada por uma mulher? - Ela perguntou e, outra vez, fez uma</p><p>careta para si mesma. Eu sorri. - O que eu quero dizer é que você disse isso em um</p><p>outro sentido e...</p><p>- Eu sei em qual sentido eu disse. - Falei, olhando sua boca se movimentar e depois</p><p>suas narinas inflarem. - E... por que eu me importaria? - devolvi a pergunta.</p><p>Lauren enfiou os olhos nos meus, como se os agarrasse com as unhas e meu corpo</p><p>reagiu à isso com fortes espasmos musculares em todos os espaços escondidos de</p><p>mim.</p><p>- Porque as pessoas se importam com isso. - Ela falou.</p><p>- Você se importa?</p><p>Lauren olhou para o chão e em seguida para mim outra vez e depois de longos</p><p>segundos encarando-me com a expressão séria, balançou a cabeça negativamente.</p><p>- Então eu não me importo.</p><p>Os olhos de Lauren sorriram para mim.</p><p>- Vamos entrar... - disse-lhe carinhosamente. - Preciso cumprimentar meu amigo. Eu</p><p>prometo que não vamos demorar.</p><p>- Não me importo em demorar. - ela respondeu rapidamente e arregalou os olhos. - É</p><p>que...é seu amigo e...</p><p>Empurrei a porta e olhei para Lauren, dizendo apenas com o olhar e um curto aceno</p><p>de cabeça "você não precisa se desculpar" e a deixei entrar antes de mim no salão.</p><p>Mal a porta se abriu e duas pessoas que eu não me lembrava de ter visto em lugar</p><p>algum, o que era estranho, porque eu sempre me lembrava de absolutamente tudo,</p><p>me cumprimentaram simpaticamente, dizendo o quanto estavam felizes por me ver</p><p>ali.</p><p>- As pessoas são sempre assim com você? - ela perguntou, enquanto atravessávamos</p><p>o salão, indo ao encontro de Louis, que estava atento a uma repórter que variava o</p><p>celular entre sua boca e a do meu amigo, enquanto ele respondia.</p><p>- Nem sempre... - respondi vagamente, olhando-a de lado.</p><p>Lauren era impressionantemente bela. Eu nunca falhava em descrições, mas com ela</p><p>era muito fácil cair em erros linguísticos que eram adjetivos que não lhe faziam a</p><p>menor justiça.</p><p>"Linda, bela, natural", pensei, observando-a movimentar a boca enquanto falava</p><p>comigo, compreendendo o que dissera por ler seus lábios, mas não por realmente</p><p>escutá-la. "Belíssima".</p><p>- ...porque parece que você... -</p><p>- Belíssima. - falei meu pensamento em voz alta, interrompendo-a.</p><p>- O que? - Ela perguntou, olhando ao redor, procurando por algum fotografia sobre a</p><p>qual eu estivesse me referindo. - Qual? - Ela perguntou, olhando para a gravuras ao</p><p>seu lado.</p><p>- Você. - eu disse, sem parar de olhá-la.</p><p>Lauren olhou para mim e suspirou pesadamente.</p><p>- Você. - ela falou em um tom suave, açucarado.</p><p>- Camila, mi amor!!!! - Louis exclamou, interrompendo sua entrevista assim que me</p><p>viu, caminhando ao meu encontro e dando-me dois beijos em cada bochecha, os</p><p>quais eu, com prazer, retribui.</p><p>- Louis! - Falei, dando-lhe um beijo em cada bochecha, enquanto tocava em seus</p><p>cotovelos.</p><p>- Como estou feliz por vê-la senhorita "ganhei.um.pritzcker"! - Ele falava com todo o</p><p>seu tom escrachado e exuberante, olhando-me nos olhos e com um sorriso sincero.</p><p>Louis havia sido meu colega de faculdade durante os dois primeiros anos do curso,</p><p>que decidira abandonar para se dedicar à fotografia, seu verdadeiro amor. Desde</p><p>então, nunca mais deixamos a amizade de lado. Não fosse por Louis, eu jamais teria</p><p>suportado a morte de minha mãe.</p><p>- Estou feliz por vê-lo senhor "estou.expondo.nos.melhores.salões.de.arte.do.mundo".</p><p>- falei, fazendo-lhe um carinho no braço.</p><p>- AI MEU DEUS! - Louis exclamou desesperado, quando olhou rapidamente para o</p><p>lado e viu Lauren. - AI MEU DEUS, QUEM É ESSA OBRA DE ARTE? - ele exclamou,</p><p>largando o meu braço e tocando o dela.</p><p>Lauren arregalou os olhos e mesmo vermelha como um tomate, sorriu para Louis.</p><p>- Essa é Lauren Jauregui. - olhei para ela, sentindo-me tão "ai meu Deus" sobre a sua</p><p>beleza quanto Louis. - Ela está me acompanhando.</p><p>- O QUE?! - o homem exclamou, arregalando os olhos para mim, mas sem</p><p>tirar as mãos de Lauren. - Você está saindo com alguém que não é Sofia? É o</p><p>apocalipse. Preciso me arrepender de toda maconha que já fumei. - ele falava,</p><p>deixando claro todo o seu choque.</p><p>"De toda heroína que injetou e de todo o pó que cheirou", pensei e ri internamente.</p><p>- A exceção vale muito a pena, pode acreditar. - falei e percebi os olhos de Lauren</p><p>sobre mim, engolindo-me.</p><p>- Louis, pode vir aqui por favor? - a assessora de Louis, com seu fone de ouvido e</p><p>prancheta em mãos, o chamou, interrompendo a conversa.</p><p>- Só um minuto. - Ele disse, voltando-se para mim e Lauren outra vez. - Garota, você</p><p>é linda e eu não vou morrer sem antes fotografar você! - Ele declarou. - Isso não foi</p><p>um pedido implícito, foi um fato constatado.</p><p>- Eu não sou linda. - Lauren respondeu polidamente e sorriu para Louis com carinho.</p><p>- Mas adoraria ser fotografada por você.</p><p>- Então está feito! - Ele exclamou, soltando os braços da garota ao meu lado. -</p><p>Amanhã vou almoçar com a Camila, você vai junto. - Louis decretou e eu sorri com a</p><p>ideia de ter os dois como companhia para um almoço. - Agora eu vou lá, se não</p><p>aquela drácula da minha assessora me corta a cabeça. - o rapaz despediu-se de</p><p>Lauren e depois de mim, saindo feito uma bala até onde estava a sua assessora.</p><p>- Ele é sempre assim? - Lauren perguntou, virando de frente para mim.</p><p>- S e m p r e. - respondi pausadamente e a garota deu-me um sorriso. - Tudo bem</p><p>pra você almoçar conosco amanhã?</p><p>- Tudo bem pra mim almoçar com você, amanhã. - ela falou, olhando fixamente meus</p><p>lábios.</p><p>Sorri vagarosamente acompanhando o movimento de seus olhos seguir o da minha</p><p>boca, sentindo meu peito pulsar descompassadamente com o olhar de Lauren.</p><p>- Quer... passear pela exposição? - perguntei, sentindo certa dificuldade em manter</p><p>minha respiração ritmada.</p><p>"O que ela está fazendo comigo?!".</p><p>- Adoraria.</p><p>Pelos próximos trinta minutos eu e Lauren caminhamos pelos corredores do salão A,</p><p>conversando a respeito das fotos incríveis de Louis, sobre sua sensibilidade extrema</p><p>como fotografo e uma infinidade de outros assuntos que me deixaram surpresa, por</p><p>Lauren conseguir falar tão bem a respeito. Sua propriedade em discorrer os vários</p><p>temas que surgiam era impressionante para mim, que, quase sempre entediava-me</p><p>com a maneira rasa que as pessoas comumente usavam para falar.</p><p>Vez ou outra, pessoas nos paravam para me cumprimentar e dizer o quanto</p><p>gostariam de um projeto meu.</p><p>- Você não se incomoda com isso? - Lauren perguntou, depois que o sétimo casal</p><p>que nos parara sumiu no corredor ao lado.</p><p>- Não sempre. - falei, parando ao lado da fotografia que eu mais gostava de Louis. -</p><p>Depende da pessoa que está falando comigo. Às vezes é extremamente agradável,</p><p>outra vezes é só... - pensei na palavra apropriada para descrever. - comum.</p><p>- Você não gosta de coisas comuns? - Lauren perguntou, apoiando o ombro na parede</p><p>ao seu lado.</p><p>- Gosto. - respondi-lhe. - Há tanta beleza no comum quanto há no</p><p>raro.</p><p>- Então por que se incomoda quando é "comum"? - ela perguntou, pendendo</p><p>levemente a cabeça de lado.</p><p>- Não é o fato de ser comum que me desagrada. É o fato de que aquelas pessoas me</p><p>cumprimentam porque sou Camila Cabello, porque meu nome saiu em todas as</p><p>revistas depois do Pritzcker, e não porque realmente sentem o que eu faço. - tentei</p><p>explicar com o máximo de exatidão possível. - Como você sentiu, por exemplo. -</p><p>completei, sentindo-me desconsertada com o olhar de Lauren sobre mim.</p><p>- Mas as pessoas cumprimentam Camila Cabello porque sentem o seu</p><p>trabalho, porque veem o quão incrível você é no que faz, quer dizer, é só olhar para</p><p>os projetos que tem o seu nome e tudo emite tanto sentimento, tanto de você. Não</p><p>dá pra não sentir você em cada linha, em cada curva. Não é como se as pessoas</p><p>tivessem a opção de não sentir. - Lauren falou, demonstrando estar consternada com</p><p>o que eu acabara de lhe dizer.</p><p>- Lauren, pessoas compram pessoas. - falei, olhando em seus olhos, para que ela</p><p>jamais esquecesse. - Essas pessoas que me param, que vão ao meu escritório, que</p><p>querem o "meu nome" em suas casas ou edifícios, não fazem isso porque confiam</p><p>que eu posso realizar os sonhos deles; eles fazem isso porque eu sou Camila Cabello</p><p>e ganhei um Pritzcker. Eu posso fazer o pior projeto do mundo, mas se for meu, eles</p><p>vão gostar. Eles não compram o sonho, eles ME compram. E é por isso que, nesse</p><p>caso, o comum me "irrita", vez ou outra, mas não é nada com o que eu não possa</p><p>lidar.</p><p>- Eu discordo... - Lauren falou baixinho, por algum motivo, sentindo-se envergonhada</p><p>por discordar de mim. A olhei com curiosidade. - Você dá sonhos às pessoas, é por</p><p>isso que elas procuram por você, é por isso que elas querem o seu nome em suas</p><p>casas... Se elas procuram você porque compram o seu nome, elas falam de você com</p><p>encantamento depois porque você deu à elas o paraíso. É por isso que você é o que</p><p>é, você dá o paraíso às pessoas, Camila. Você torna tudo belo e familiar.</p><p>- Você me vê com olhos bondosos, Lauren. - expus o primeiro pensamento que</p><p>explicava para mim mesma o fato de aquela garota se expressar sobre mim de uma</p><p>maneira tão doce, mesmo quando a realidade não era tão doce assim.</p><p>- Eu a vejo com olhos realistas. - Lauren falou, quase que "batendo os pés" com as</p><p>palavras e eu sorri.</p><p>Lauren deu um passo à frente e pôs a mão carinhosamente em meu rosto, ajeitando</p><p>uma mecha bagunçada do meu cabelo, e meus olhos acompanharam os seus que</p><p>queimavam a minha pele. Senti o calor de seu toque invadir o meu sangue e em uma</p><p>batida ensurdecedora do meu coração, se espalhar por todo o meu corpo. Apertei os</p><p>dentes em resposta ao sentimento desenfreado que fazia-me tremer internamente e</p><p>segurei a mão de Lauren que ainda estava em meu rosto, trazendo-a até a minha</p><p>boca. A pressionei levemente contra os meus lábios, mantendo os olhos costurados</p><p>ao da garota à minha frente, que variava o olhar entre meus olhos e minha boca em</p><p>sua mão. Lauren aproximou-se um pouco mais, como se seu corpo fosse tão fraco</p><p>quanto o meu em resistir à atração que nos sugava, uma para a outra.</p><p>- Quero lhe mostrar uma coisa. - falei em um tom baixo, quase rouco, sentindo o</p><p>peso de sua presença falhar a minha voz.</p><p>A virei de costas para mim e de frente para o quadro. Na imagem, havia apenas o</p><p>rosto de uma senhora extremamente idosa, com a pele toda enrugada, os cabelos</p><p>bagunçados e mal cuidados. Os dentes eram amarelados e quebrados. A figura em</p><p>um todo não era realmente agradável à olhos que procuram beleza.</p><p>- O que vê? - perguntei, com a boca quase encostada no ouvido de Lauren. Senti o</p><p>corpo da garota se retesar, seus músculos dançaram encostados aos meus que</p><p>praticamente abraçaram os dela.</p><p>Inspirei profundamente o cheiro de sua nuca e cabelo, sentindo aquele cheiro</p><p>impregnar os poros do meu pulmão, tornando-se parte de mim.</p><p>- Vejo... - a voz de Lauren saiu fraca. - Uma senhora, maltrapilha... - arrastei o nariz</p><p>pela parte de trás da orelha da garota, incapaz de controlar o desejo de ter o seu</p><p>cheiro cada vez mais dentro de mim. Lauren falava com dificuldade. - Com um sorriso</p><p>alegre, mas não muito bonito por causa dos dentes... - Lauren suspirou</p><p>pausadamente. - maltratados.</p><p>Encostei novamente os lábios em sua orelha, com delicadeza, quando percebi que já</p><p>havia acabado de falar o que via.</p><p>- Não veja o óbvio, Lauren... - falei calmamente. - Não veja o todo, porque o todo</p><p>nem sempre é belo. Veja os detalhes. - segurei a sua mão e levei a ponta de seus</p><p>dedos até os olhos da mulher, na fotografia. - Veja como os olhos dela sorriem. Veja</p><p>as linhas bonitas de sua boca. - continuei, fazendo a ponta do dedo de Lauren</p><p>circularem as linhas da boca, na fotografia. - Veja o formato do rosto. Tudo nela é</p><p>belo e único. Você só precisa VER. Não olhe, veja. - completei, levando a mão da</p><p>garota para o seu próprio rosto. - E sinta. - passei a ponta dos seus dedos por seus</p><p>olhos, fazendo-os fechar. - Veja-os com beleza em sua mente. - falei, arrastando os</p><p>lábios por sua orelha. - Veja somente o belo, Lauren. O mundo já está cheio demais</p><p>de pessoas enxergando o feio.</p><p>Lauren virou-se de frente para mim com rapidez e agilmente passou os braços em</p><p>volta da minha cintura, segurando o meu corpo contra o seu com mais força do que</p><p>eu achava que fosse possível. Meu peito afundou em um desejo incontrolável de tê-la</p><p>ainda mais perto do meu corpo, ainda mais perto da minha pele.</p><p>A respiração ofegante e pesada de Lauren beijava a minha pele como ácido, corrosivo</p><p>e letal. Seu peito se chocava contra o meu que denunciava a fraqueza do meu corpo</p><p>com a proximidade repentina e carnal do dela. Lauren nada dizia, apenas me olhava,</p><p>com os lábios tão ardentes que chegavam a tremer.</p><p>Tomei uma leve puxada de fôlego.</p><p>- Quer sair daqui? - perguntei quase sem voz.</p><p>- Por favor. - Lauren disse, apertando os braços em volta do meu corpo mais uma</p><p>vez, fazendo-me escorrer para fora de mim.</p><p>Camren</p><p>A/N: POR FAVOR, ESCUTEM A MUSICA DESDE O INICIO DO CAPITULO.</p><p>(drunk in love - the weekend)</p><p>Lauren's pov</p><p>Camren (n.): uma voz que não usa palavras. Apenas se sente. Apenas se escuta.</p><p>Êxtase. Suas mãos puxaram-me pelo quadril fazendo nossos corpos se chocarem em</p><p>meio a escuridão daquele quarto. Meu sexo manifestou toda a luxúria quente e</p><p>molhada que corria pelo meu corpo.</p><p>"Oh...", gemi mentalmente, mordendo os lábios, que tremiam junto com todo o meu</p><p>corpo em resposta à excitação que me mastigava viva.</p><p>Agarrei com as unhas nos cabelos de sua nuca, tentando buscar algum ponto de</p><p>equilíbrio além de seus braços que envolviam possessivamente o meu corpo. Seus</p><p>dentes e lábios prenderam-se ao meu pescoço, chupando deliciosamente a minha</p><p>pele e como se a sensação de sucção fosse de fora para dentro, todas as minhas</p><p>moléculas vibraram, fazendo-me sentir toda a minha pele arder, como se cada espaço</p><p>de mim estivesse consumido por um incêndio impossível de ser apagado.</p><p>Nossas roupas haviam sido deixadas pelo caminho até o quarto e só nos sobravam no</p><p>corpo as peças íntimas, de tal forma que quando suas unhas desceram fortemente</p><p>pelas minhas costas, minha pele ferveu em desespero. Joguei a cabeça para trás,</p><p>mas as mãos de Camila logo subiram de volta e senti seus dedos serem enfiados nos</p><p>cabelos da minha nuca pouco antes de sentir a dor prazerosa e viciante de sentir seus</p><p>dedos puxarem os fios que ela segurava para trás, ao mesmo tempo, puxando minha</p><p>cabeça para si e sem ao menos me dar tempo para respirar ou raciocinar os</p><p>movimentos que meu corpo fazia, sugou minha boca inteira, dando-me um beijo</p><p>lascivo e incendiário.</p><p>A pouca luz que ainda havia no quarto desapareceu quando ela esticou o braço e</p><p>fechou a porta ao nosso lado sem ao menos olhar. Antes que eu pudesse raciocinar</p><p>que a porta estava fechada, senti meu corpo se chocar contra a porta e o corpo de</p><p>Camila encaixar-se ao meu. Nossas peles se beijavam tão ardentemente quanto</p><p>nossas bocas. O quadril de Camila estava pressionado ao meu e sua coxa</p><p>deslizava</p><p>sutilmente entre as minhas, provocando-me, fazendo-me escorrer enlouquecidamente</p><p>a cada centímetro de pele dela que se arrastava pela minha.</p><p>- Eu quero você. - Camila falou baixo em meu ouvido, em um sussurro libidinoso e</p><p>impregnado de excitação.</p><p>Ou a frase ou a sua rouquidão fizeram meu sexo pulsar e empurrei o meu corpo</p><p>contra o dela, que respondeu pressionando a coxa contra a umidade entre minhas</p><p>pernas. Apertei as unhas ferozmente em suas costas, mordendo os lábios ao mesmo</p><p>tempo, tentando, fracassadamente omitir o gemido que me veio à garganta, quando</p><p>ela mordeu minha orelha e a chupou vagarosamente.</p><p>- Oh...Camila... - eu gemi o nome dela, apertando os olhos com força, tentando</p><p>prolongar a sensação de sua coxa pressionando-me excitantemente o sexo.</p><p>Camila pressionou mais ainda a coxa em mim, fazendo-me sentir os lábios do meu</p><p>sexo abrirem-se e meus dentes se chocarem com a sensação enlouquecedora que</p><p>subiu pela minha carne. Meu corpo só respondia à ela, sendo totalmente maleável aos</p><p>desejos que ela manifestava. Nossos corpos dançavam em uma dança enlouquecida</p><p>de toques desesperados. Como se tivessem um imã, nossos quadris se moviam</p><p>juntos, procurando um ao outro; e assim, nossas pernas, pés, coxas, se buscavam</p><p>com urgência, nunca deixando um milímetro sequer de pele se desencostar.</p><p>A mulher que me possuía, virou-me para o outro lado, devorando-me a pele</p><p>enquanto guiava o meu corpo mole através do quarto, até que senti minhas pernas</p><p>baterem na cama e seu corpo empurrar-me intensamente para trás.</p><p>Meu corpo se chocou contra o colchão no mesmo momento em que o corpo de Camila</p><p>se chocou contra o meu e a sensação de tê-la pesando sobre mim foi</p><p>enlouquecedora. Meu corpo se consumiu por um desejo desesperado de ter mais dela</p><p>e sem pudor algum, forcei meu corpo para cima, na tentativa de virá-la para baixo de</p><p>mim.</p><p>- Tch tch. - Camila fez um barulho de negação com a boca, balançando a</p><p>cabeça da mesma forma e pesando o quadril no meu, enquanto prendia os meus</p><p>braços pesadamente com suas mãos, acima da minha cabeça.</p><p>O olhar afrodisíaco de Camila fez-me sentir outra vez o líquido quente e denunciante</p><p>escorrer, dando-me uma sensação gostosa de prazer. A puxei com força pelos</p><p>cabelos, para mim, levantando o meu corpo para alcança-la mais rápido e, apertando</p><p>as duas mãos em seu rosto, suguei seus lábios com tanto tesão que minhas pernas</p><p>tremeram, manifestando a vontade de senti-la me tocar. Camila gemeu baixinho com</p><p>a boca presa na minha e movimentou seu quadril no meu de tal forma que nossos</p><p>sexos, ainda cobertos deslizaram um pelo outro. Ela prendeu minha língua em sua</p><p>boca e a sugou deliciosamente, mexendo vagorosamente e dolorosamente seu sexo</p><p>sobre o meu, fazendo-me sentir a sensação de ter tido a minha alma sugada para</p><p>dentro de Camila e todas as minhas veios pulsarem e incharem, implorando por mais.</p><p>Camila mordeu-me o lábio, puxando-o quase a ponto de arrancar e quando a dor já</p><p>estava ultrapassando os limites do prazer, ela soltou, dando um sorriso lascivo ao ver</p><p>a minha expressão de desespero. As mordidas continuaram pelo meu pescoço,</p><p>seguindo para baixo e antes que eu pudesse me preparar para aquilo, Camila deslizou</p><p>a língua quente pela parte exposta do meu seio, fazendo um caminho excitante por</p><p>alguns centímetros adentro. Sua língua fazia um caminho corrosivo pela minha pele,</p><p>derretendo-me toda para dentro. Meus pulmões pararam no exato instante em que</p><p>Camila, com uma das mãos abaixou um dos lados do meu sutiã e deslizou lentamente</p><p>a língua pelo meu mamilo, olhando-me em como se estivesse a ponto de me devorar.</p><p>Cravei as minhas unhas em seu ombro, tentando manter os olhos abertos, mas</p><p>entregando-me ao prazer de sentir sua língua venenosa chupando o meu seio com</p><p>desespero e urgência.</p><p>Segurar-lhe o ombro não era mais suficiente, então rapidamente coloquei as duas</p><p>mãos em sua cabeça, apertando com certa força em sua nuca, puxando-a para que</p><p>ela consumisse todo o meu seio, para me absorvesse. Em resposta, Camila prendeu o</p><p>meu mamilo entre sua língua e o céu de sua boca, sugando com mais intensidade,</p><p>fazendo-me sentir um prazer tão intenso que não pude me conter e gemi</p><p>vergonhosamente. O corpo de Camila tremeu sobre o meu e sua língua vacilou,</p><p>soltando-me. Ela soltou o meu sutiã, deixando os meus seios expostos e antes de</p><p>olhar para os meus olhos outra vez, parou o olhar no meu corpo nu por alguns</p><p>instantes.</p><p>Camila subiu a mão direita pelo meu corpo, agarrando o meu seio outra vez e dessa</p><p>vez, arrastou os dentes e a língua, mordendo-me enquanto eu gemia cada vez mais</p><p>alto, cada vez mais descontrolada, cada vez mais...dela. A mulher que tanto me</p><p>enlouquecia, com as mãos segurando o meu seio, subiu o rosto até a altura do meu e</p><p>colou seu ouvido em minha boca, enquanto pressionada seu sexo contra o meu.</p><p>- Geme baixinho pra mim, Lauren... - ela pediu, descendo a mão pela minha barriga e</p><p>afastando parte da minha calcinha para o lado.</p><p>Seu dedo desceu vagarosamente pelo meu sexo, abrindo-me, rasgando-me, tal era a</p><p>quentura que havia em mim. Eu gemi com a boca colada no ouvido de Camila,</p><p>sentindo seus dedos invadirem o meu sexo, lentamente, como lava que queima tudo</p><p>onde toca. Camila arrastou o seu próprio sexo pelo meu quadril no exato instante em</p><p>que gemi roucamente em seu ouvido. Ela alcançou o ponto de entrada e com a</p><p>mesma lentidão dolorosa começou a colocar o dedo para dentro de mim.</p><p>"Homossexualidade é pecado", a voz de minha mão gritou em minha cabeça no exato</p><p>instante em que o dedo de Camila chegou ao fundo de mim, fazendo-me sentir tanto</p><p>prazer e dor ao mesmo tempo que eu gritei em seu ouvido. Ela repetiu o gesto e,</p><p>incontrolável, o meu corpo foi para trás. "Eu prefiro uma filha morta a uma filha</p><p>lésbica", a voz de minha mãe voltou à minha mente.</p><p>- Para. - falei ofegante. - Por favor, para. - repeti e Camila parou imediatamente,</p><p>retirando o dedo de dentro de mim e tomando alguma distância para me olhar.</p><p>- O que houve? - Ela perguntou, fixando o olhar no meu e eu jamais vira o seu olhar</p><p>tão penetrante quanto naquele momento.</p><p>Baixei o olhar, desviando do dela e fiz um sinal negativo com a cabeça.</p><p>- Eu... - as palavras estavam engatadas na minha garganta. - Eu...</p><p>- Shhhhh. - ela fez um barulho com a boca, colocando a ponta do dedo na minha</p><p>boca, carinhosamente. - Está tudo bem. - Ela disse, com um olhar infinitamente</p><p>compreensivo fixo ao meu.</p><p>Eu a olhei profundamente por alguns segundos, sem saber o que dizer ou porque eu</p><p>não conseguia, quando o meu coração estava totalmente entregue à ela.</p><p>- Me desculpe... - eu falei, sentindo o meu peito pesar e todas as emoções do mundo</p><p>misturadas no meu corpo.</p><p>Felicidade por estar com ela, euforia por estar com aquela mulher incrível em um</p><p>momento tão íntimo, tão pessoal. Eu estava tão entregue a alguém quanto jamais</p><p>estivera em toda a minha vida, mas havia algo...havia algo...</p><p>- Lauren... - Camila falou com a voz suave. - Está tudo bem. - ela aproximou o rosto</p><p>do meu e beijou-me a testa com delicadeza.</p><p>Como de costume, meu corpo reagiu com exasperação ao contato dela e eu a puxei</p><p>para um abraço, esquecendo-me completamente do quanto tocá-la me parecia</p><p>sempre algo inalcançável. Camila retribuiu o abraço e depois afastou-se de mim,</p><p>saindo de cima do meu corpo e sentando-se na cama.</p><p>- Você se incomoda se eu lhe levar para casa ou quer que eu chame um táxi? - Ela</p><p>perguntou, sem um pingo de chateação na voz, mas sem um pingo de nenhuma</p><p>outra emoção aparente.</p><p>- Por que eu iria querer um táxi? - perguntei, sem entender, levantando-me depois de</p><p>fechar o meu sutiã, sentando-me ao lado dela na beira da cama.</p><p>- Porque eu suponho que não queira mais ficar perto de mim. - Ela disse,</p><p>simplesmente e percebi ela engolindo em seco, um nó que descia por sua garganta e</p><p>eu não entendia o motivo.</p><p>- Não! - Exclamei exasperada, sentindo um leve desespero invadir o meu peito</p><p>somente com a menção da ideia de não ficar mais perto dela. - Por que acha isso? -</p><p>perguntei, atrevendo-me</p><p>a tocar seu queixo e fazê-la virar o rosto para mim.</p><p>- Porque você... - ela parou, mas não vacilou o olhar do meu, apenas encaixou seus</p><p>olhos o suficiente nos meus para que pudesse ler alguma coisa. - não me quis...</p><p>- Eu quis! Eu quero! - exclamei da mesma forma, sem controlar o meu tom de voz ou</p><p>o que eu dizia. - É só que... - olhei para baixo. - Eu não consigo...</p><p>- Por que? - Camila perguntou, simplesmente.</p><p>- Eu nem sabia que gostava de mulheres até você aparecer. - falei com a mesma</p><p>franqueza que ela, aceitando que não era o momento para rodeios.</p><p>Camila uniu as sobrancelhas, encarando-me com certa seriedade e em seguida, tocou</p><p>o meu rosto com carinho, deslizando o polegar pela minha bochecha.</p><p>- Talvez você goste só de mim. - Ela disse, colando a boca no meu ouvido e</p><p>deslizando o nariz carinhosamente por ali. - Do mesmo jeito que eu só gosto de você.</p><p>Meu corpo encheu-se de leveza e doçura. O tremor repentino consumiu-me mais uma</p><p>vez, fazendo-me arrepiar o corpo inteiro. Fechei os olhos, aproveitando a sensação de</p><p>ter seu rosto tão perto do meu.</p><p>- Você gosta de mim? - perguntei, com os olhos fechados, desfrutando do carinho que</p><p>sua boca fazia na lateral do meu rosto.</p><p>Inspirei profundamente, tentando manter-me atenta, depois que era prendeu minha</p><p>orelha entre os lábios e soltou. Ela sorriu com a boca colada na pele da minha</p><p>bochecha.</p><p>- Demasiadamente, Lauren. - Ela falou e eu senti seus lábios fazendo desenhos em</p><p>mim.</p><p>Camila descolou o rosto do meu e afastou-se apenas o suficiente para que pudesse</p><p>me olhar. Seus olhos estavam intensos e minuciosos, como se estivessem atentos até</p><p>às linhas dos meus.</p><p>- Eu quero você, Camila. - Falei, olhando rapidamente para baixo e mordendo o lábio,</p><p>sentindo minhas bochechas pegarem fogo.</p><p>Ouvi a respiração profunda que Camila tomou e percebi seu peito subir e descer</p><p>pesadamente. Seu dedo tocou o meu queixo, forçando levemente o meu rosto para</p><p>cima, para que eu pudesse olhá-la e quando o fiz, meu mundo despencou aos pés de</p><p>Camila Cabello.</p><p>- Eu também quero você, Lauren. - ela disse e um universo novo explodiu dentro de</p><p>mim, com milhões de estrelas brilhando e brilhavam para ela.</p><p>Solasta</p><p>A/N: Escutem "I was made for loving you - Tori Kelly", do começo do</p><p>capitulo até a musica acabar.</p><p>Lauren's pov</p><p>Solasta (adj.): Luminoso. Brilhante.</p><p>As luzes de Boston eram sempre muito intensas durante a noite. Pontos amarelos</p><p>brilhavam por todos os lados de uma perspectiva distante, mas não o amarelo pálido</p><p>que se vê por aí e sim um amarelo brilhante, intenso, combinando perfeitamente com</p><p>o meu estado de espírito inflamado. Havia luz a todo o alcance dos olhos, como uma</p><p>selva de vagalumes brilhando constantemente no meio da escuridão profunda da</p><p>noite.</p><p>"A dangerous plan, just this time... A stranger's hand clutched in mine.", a música</p><p>soava baixinho vinda do som do carro que estava sintonizado em uma rádio local. "I'll</p><p>take this chance, so call me blind. I've been waiting all my life", desviei os olhos das</p><p>luzes que brilhavam do lado de fora da janela do carro para a luz que brilhava ao meu</p><p>lado: Camila Cabello.</p><p>Seu cabelo estava levemente bagunçado, resultado ainda das minhas mãos</p><p>desesperadas atacando-a uma hora antes. Ela segurava o volante com a mão</p><p>esquerda, dirigindo em linha reta pela auto estrada que levava à ponte de acesso à</p><p>Cambridge e com a direita, segurava carinhosamente a minha mão, deslizando o</p><p>polegar carinhosamente por meus dedos. Seus lábios estavam infinitamente mais</p><p>vermelhos do que de costume e levemente inchados, em consequência dos beijos</p><p>descontrolados e intensos que havíamos trocado.</p><p>"Por que não a deixou continuar, Lauren? Por que parou?", perguntei a mim mesma,</p><p>observando-a dirigir, discretamente. "Você gosta dela, você sabe que gosta", meu</p><p>coração falava mansamente comigo, como uma brisa suava soprando em minha</p><p>mente.</p><p>Enchi os pulmões de ar e soltei lentamente, tentando buscar algum outro alívio para o</p><p>meu coração recentemente desordenado. Meus olhos, meus inimigos por tantas</p><p>vezes, fixaram-se nas linhas bem desenhadas da mandíbula de Camila, que, do meu</p><p>ponto de vista, pareciam ter uma iluminação própria, quase como de houvessem</p><p>minúsculas luzes escondidas em seu rosto.</p><p>"Please, don't scar this young heart, just take my hand", música continuava soando</p><p>em um volume forte apenas o suficiente para que eu e Camila a escutássemos</p><p>intimamente. O trecho fixou-se em minha mente, como um alerta para mim mesma,</p><p>de que aquele era um pedido do meu coração, sobre o qual eu não tinha consciência</p><p>até aquele momento.</p><p>"Por favor, não deixe cicatrizes nesse jovem coração, apenas segure a minha mão",</p><p>pensei e involuntariamente suspirei, enquanto encarava o rosto perfeito de Camila.</p><p>Como se tivesse escutado os meus pensamentos, Camila apertou os dedos em minha</p><p>mão.</p><p>Não trocamos nenhuma palavra no caminho de volta ao meu dormitório. Não</p><p>precisávamos de sílabas quando o silêncio nos falava com tanta clareza. Nossos</p><p>corações conversavam em completo entendimento, usando apenas o que sentíamos.</p><p>Camila parou o carro exatamente no mesmo lugar onde o havia feito quando fora me</p><p>buscar, sete horas antes. Ela diminuiu o volume do som até o zero e virou-se para</p><p>mim.</p><p>- Desculpe-me por lhe trazer tão tarde. - ela falou, com extrema educação e um leve</p><p>pingo de doçura. - A intenção era lhe devolver às onze. - falou, justificando-se.</p><p>Franzi o cenho, sem entender exatamente porque ela estava dizendo aquelas coisas,</p><p>sem entender porque ela estava se justificando por algo que, definitivamente, não</p><p>necessitava nem de desculpas, nem de justificativas.</p><p>- Eu pensei que a intenção fosse não me devolver... - falei quase baixo, mas</p><p>conseguindo manter um tom de voz razoável.</p><p>Camila arregalou levemente os olhos e negou com a cabeça.</p><p>- A intenção estava longe disso. - ela disse, em um tom mais sério. - Eu</p><p>jamais tive em mente qualquer planejamento para o que... aconteceu hoje... -</p><p>completou, olhando fixamente, passando-me mais certeza do que era necessário.</p><p>Jamais havia passado por minha mente a ideia de que Camila tivesse me chamado</p><p>para sair com ela, tendo em mente um encontro sexual. As coisas que aconteceram,</p><p>aconteceram por si só e não foram, nem de longe, uma manifestação unilateral da</p><p>parte dela. Eu havia caminhado até o carro dela por livre e espontânea vontade. Eu</p><p>havia caminhado até o quarto dela, por livre e espontâneo desejo que me corroía. Eu</p><p>a havia deixado tirar a minha roupa e morder meu corpo e me tocar intimamente</p><p>porque eu quis. Porque eu a queria ardentemente.</p><p>- E eu jamais achei que tivesse. - falei, tocando a sua mão que estava apoiada na</p><p>própria perna, àquela altura. - Camila..</p><p>- Me desculpe, Lauren. - Ela falou, interrompendo-me. - Fui longe demais e não</p><p>queria ter ultrapassado os seus limites.</p><p>- Não ultrapassou. - Afirmei, antes que ela continuasse a dizer qualquer coisa. - Eu</p><p>não pedi para parar porque não estava me sentindo confortável ou porque não estava</p><p>gostando. Eu pedi para parar porque eu... É confuso... - fiz uma careta para mim</p><p>mesma e para a minha falta de eloquência em explicar e até mesmo entender o que</p><p>acontecia comigo. Soltei um suspiro cansado, cedendo à ausência de palavras que</p><p>explicassem com dignidade de estilo e disse apenas o que estava em minha mente. -</p><p>Eu senti medo.</p><p>- Medo? - Camila perguntou, pendendo levemente a cabeça para o lado. Balancei a</p><p>cabeça positivamente, incapaz de falar. - De que?</p><p>- De tudo... - respondi simplesmente.</p><p>- Até de mim? - ela perguntou, sendo específica somente no ponto em que mais lhe</p><p>interessava no momento.</p><p>Balancei a cabeça positivamente outra vez, resignando-me ao conforto do silêncio.</p><p>- Não sinta medo de mim, Lauren.</p><p>"Não é de você que eu tenho medo. Eu tenho medo do que eu estou sentindo por</p><p>você", pensei, encarando a pele de sua barriga que estava à mostra. Subi o olhar</p><p>para encontrar o dela.</p><p>- Eu estou tentando. - falei, omitindo o pensamento que acabara</p><p>de ter.</p><p>Camila semicerrou os olhos e uniu as sobrancelhas, deixando expressivamente claro</p><p>que tentava entender algo que não conseguia. Engoli em seco depois de alguns</p><p>segundos encarando aquele mar intenso e devorador que eram seus olhos e desviei o</p><p>olhar, sentindo-me bagunçada demais para continuar olhando.</p><p>- Eu acho melhor você ir... - Camila falou, usando um tom que eu não consegui</p><p>identificar. - Está muito tarde e eu já tomei bastante do seu tempo por hoje. - ela</p><p>disse e, não aguentando a ausência de expressão levantei o olhar para procurar algo</p><p>em seu rosto.</p><p>Havia uma mistura de nada com compreensão e.... "Tristeza", a palavra surgiu em</p><p>minha mente e imediatamente procurei algum sinal de tristeza no rosto de Camila.</p><p>Nada. Ou tudo?</p><p>- Lauren... - ela falou o meu nome e a minha mente saiu do transi de procurar algo</p><p>em seu rosto. - É melhor você ir... - repetiu, usando o mesmo tom inexplicável de</p><p>antes.</p><p>- Ah... Tudo bem. - falei, ajeitando-me e virando de frente, no carro. Destravei a</p><p>porta do carro e olhei rapidamente para ela. - Obrigada pela noite, não consigo me</p><p>lembrar de nada que não tenha sido absolutamente incrível. - disse-lhe e depois</p><p>empurrei a porta, de forma que se abriu e o vento gelado entrou, congelando-me.</p><p>Camila sorriu curtinho, mas com doçura. A mulher mais velha tocou a minha mão</p><p>esquerda e a pegou, levando-a até a altura de sua boca. Mais gelado do que o vento</p><p>da noite de outono foi o frio que envolveu a minha espinha, de cima para baixo, como</p><p>consequência do toque sutil dos lábios dela em minha pele. Ela soltou a minha mão</p><p>com a mesma delicadeza que a havia pegado.</p><p>- Tudo o que consigo lembrar é de momentos belos. - Ela disse e sorrimos</p><p>uma para a outra. - Tenha uma noite excelente e um dia tão excelente quanto,</p><p>amanhã.</p><p>- Você também! - falei, saindo do carro e parando rapidamente à porta do mesmo,</p><p>olhando para dentro. - Vejo você amanhã? - perguntei, entretanto, senti-me</p><p>impertinente e atirada no mesmo segundo. - Quer dizer... Louis... o almoço... -</p><p>perguntei, um tanto quanto atrapalhada.</p><p>- Ah! - Camila exclamou, mas sem muita empolgação. - Eu lhe mando uma</p><p>mensagem de texto confirmando ou, até mesmo, ligarei.</p><p>- Tudo bem... - falei, tendo, de repente, a quase absoluta e dolorosa certeza de que</p><p>ela não ligaria.</p><p>Camila acenou com a cabeça e sorriu com o cantinho da boca, colocando as duas</p><p>mãos no volante.</p><p>- Boa noite, Lauren. - ela disse, amenizando levemente a expressão.</p><p>- Boa noite... Camila. - respondi, quase fechando a porta do carro, mas hesitando.</p><p>Por alguma razão, meus braços estavam travados e eu não conseguia dar um fim</p><p>àquela despedida. Eu não queria e não conseguia fechar a porta do carro de Camila. A</p><p>mulher me olhou mais uma vez, questionando-me com o olhar o motivo de eu ainda</p><p>estar ali, parada, segurando a porta de seu carro ao invés de já estar andando para o</p><p>meu dormitório. Dei-lhe um sorriso e, engolindo a sensação horrorosa e indefinida</p><p>que me consumia, sorria para ela e fechei a porta do carro, encarando, por fim, o</p><p>vidro escuro.</p><p>Por um breve momento, supus que Camila baixaria o vidro e me daria boa noite mais</p><p>uma vez, mas o momento foi tão breve quanto o tempo que ela teve para passar a</p><p>marcha e pisar no acelerador. Dez segundos depois, o BMW 428i já estava dobrando</p><p>a esquina mais próxima e tudo o que eu via, era a praça que se estendia à minha</p><p>frente.</p><p>Não fosse o frio da madrugada, eu teria ficado ali até que meus pensamentos fossem</p><p>completamente explicados para mim própria, até que se esgotassem todas as</p><p>perguntas a serem respondias; até que se extinguissem todos os medos que eu</p><p>estava sentindo.</p><p>Cruzei os braços, para aliviar a sensação de se abraçada tão bruscamente pelo frio,</p><p>mas muito mais para tentar amenizar o buraco que havia surgido, sem explicação, no</p><p>meu estômago. Atravessei a rua, contando numericamente quantos passos eu estava</p><p>dando até que chegasse à entrada do edifício e concentrando a minha mente em algo</p><p>que talvez dissipasse a sensação de perda que eu estava tendo. De nada adiantou.</p><p>"Um...", contei o primeiro passo. "Por que ela ficou tão distante depois que eu disse</p><p>que tinha medo dela? Dois...", contei o segundo passo, olhando para o meu sapato,</p><p>tentando concentrar-me nos detalhes dele. "Três...". E assim, foram-se vinte e oito</p><p>passos até que eu estivesse dentro do elevador. Vinte oito passos e vinte e oito</p><p>perguntas que me inquietavam.</p><p>Às três e trinta e quatro da manhã, certa de que Normani estaria dormindo, abri a</p><p>porta do quarto HA01 e dei de cara com a minha amiga, sentada em sua cama,</p><p>acordada, encarando-me com uma expressão tão exultante que eu quase podia vê-la</p><p>pulando. Nem precisei cumprimenta-la e perguntar o motivo de ainda estar acordada.</p><p>- Você vai sentar nessa cama... - Normani apontou para o espaço vazio ao seu lado,</p><p>usando um tom totalmente mandão. - E me contar tudo o que aconteceu, do começo</p><p>ao fim, sem esquecer nenhuma vírgula e nenhum ponto. - Minha amiga decretou e</p><p>eu, sedenta por qualquer opinião de fora que talvez me ajudasse a entender os</p><p>acontecimentos daquela noite, apenas concordei com a cabeça, antes de fechar a</p><p>porta atrás de mim e caminhar até a cama de Normani, onde sentei. - Pode começar</p><p>a contar.</p><p>Suspirei pesadamente e puxei novamente o ar, para ajudar-me a ter alguma</p><p>concentração na hora de falar e lembrar os detalhes.</p><p>Contei-lhe tudo, cada detalhe do que havia acontecido, desde o momento em que eu</p><p>havia entrado no carro de Camila, na porta do edifício dos freeshman, até o momento</p><p>em que estávamos no museu. Normani ouvia-me com demasiada atenção, fazendo-</p><p>me perguntas vez ou outra, as quais eu respondia rapidamente e continuava a</p><p>contar.</p><p>- Então, ela me perguntou se eu queria sair dali e bem...eu estava com os</p><p>nervos à flor da pele e eu disse que sim... - falei, deixando no ar o duplo sentido do</p><p>"sair dali".</p><p>- O que?! Sair do museu para ir pra onde?! - Normani exclamou, atônita enquanto eu</p><p>abaixa-me até o alcance dos pés e retirava os sapatos. Sentei-me de frente para ela,</p><p>cruzando as pernas em posição de borboleta e arrumando a saia entre as pernas. -</p><p>Para onde, Lauren?! - ela insistiu, sendo cautelosa em perguntar, apesar de suas</p><p>suposições.</p><p>- Para o apartamento dela. - Respondi, mordendo o canto direito da boca e olhando</p><p>para baixo, sentindo mais vergonha do que poderia esconder.</p><p>- O QUE?! - Normani deixou, literalmente, o queixo cair e arregalou tanto os olhos</p><p>que tive medo que lhes saltassem do rosto. - Você e ela...? - ela deixou no ar a</p><p>pergunta.</p><p>- É........... - prolonguei a tonalidade para responder, deixando um vazio que</p><p>completei balançando a cabeça para um lado e para o outro, olhando para os lados,</p><p>desconfiada.</p><p>- Como assim, "é...."? - Normani perguntou-me, unindo as sobrancelhas. Seu rosto</p><p>estava um misto de expressões desesperadas. - Ou é ou não é.</p><p>- Deixe-me contar tudo de uma vez. - Falei, sentindo-me transbordar com as</p><p>lembranças que eu ainda não havia colocado para fora.</p><p>Flashback. - Sete horas antes.</p><p>- Quer sair daqui? - Camila perguntou, quase sem voz.</p><p>- Por favor. - eu respondi, apertando os braços em volta do meu corpo dela, mais</p><p>uma vez, sentindo o meu próprio corpo derreter com o contato extremamente</p><p>próximo.</p><p>Camila deu-me um beijo carinhoso e molhado no meu pescoço e segurou a minha</p><p>mão, andando comigo pelo salão. Despedimo-nos rapidamente de Louis que não se</p><p>preocupou em ser discreto e não tirou os olhos de nossas mãos entrelaçadas.</p><p>Eu não entendia o por que, mas a cada passo que dávamos em direção ao carro dela,</p><p>o desejo aumentava, crescia absurdamente e quando eu pensava que meu coração</p><p>não podia mais acelerar, ele desregulava-se desenfreado em uma corrida louca e</p><p>perigosa pelo meu corpo. O toque da mão dela na minha não me acalmava. A minha</p><p>mente estava consumida com a ideia de tê-la, seja lá o que isso significasse.</p><p>Caminhamos lentamente demais até o carro, quando o desejo mais imediato do meu</p><p>corpo era correr até lá e</p><p>ter as mãos dela me tocando inteiramente, mas Camila era</p><p>prudente e, apesar de sua respiração pesada, coisa que eu havia percebido apenas</p><p>por estar exatamente igual a minha, sua expressão não dizia quase nada. Exceto por</p><p>seus olhos que ardiam, exatamente como os meus.</p><p>Camila abriu a porta de seu carro, mas antes que se afastasse, meu corpo entrou em</p><p>completo descontrole e a segurei pelo rosto, beijando-a com tanta urgência de senti-</p><p>la que esqueci-me de respirar. Ela me puxou contra si, cruzando os braços em volta</p><p>da minha cintura que tão ardentemente desejava por aquele toque. Minhas costelas</p><p>sentiram o calor de seus braços e eu estremeci em alívio e excitação por, finalmente,</p><p>ter o corpo dela próximo ao meu outra vez.</p><p>Não havia um membro do meu corpo, não havia um pedaço de mim sobre o qual eu</p><p>tivesse o mínimo de controle. Meu corpo respondia somente aos seus próprios</p><p>impulsos e desejos. Meu cérebro estava desligado para qualquer coisa que não fosse</p><p>memorizar o gosto da boca de Camila, o cheiro particular de seu pescoço, cabelos...</p><p>Consumida pelos gritos de luxúria do meu corpo, enfiei as mãos nos cabelos da nuca</p><p>de Camila e apertei, puxando-a para mim de tal forma que o beijo se tornou mais</p><p>intenso e não somente a minha alma estava sendo sugada por ela, mas os meus</p><p>lábios, o meu gosto, a minha língua...com força, com desejo, com tanta vontade de</p><p>me ter mais para ela que todo o meu corpo respondia em fortes beliscadas de desejo</p><p>de jogar-me para dentro dela. De ser dela.</p><p>O ar nos faltou e não houve jeito se não, afastarmos nossos rostos e</p><p>termos algum momento de raciocínio que resultou em Camila, evidentemente,</p><p>chegando primeiro ao ponto mais óbvio.</p><p>- Você... - ela falou com a voz baixinha e a boca colada à minha - gostaria de ir ao</p><p>meu apartamento? - perguntou-me algo que me parecia ter uma resposta muito</p><p>óbvia.</p><p>Nada lhe disse, apenas peguei sua mão direita e coloquei em cima do meu peito, para</p><p>que sentisse meu coração. Resposta melhor eu não poderia dar, principalmente</p><p>quando pouco raciocínio me sobrava e quando eu tanto queria dar a resposta correta.</p><p>"Sim, eu quero ir para o seu apartamento.", respondi mentalmente e assim também,</p><p>respondeu o meu coração desenfreado à Camila que afastou-se de mim e me deu</p><p>espaço para entrar no carro, coisa que rapidamente o fiz e ela, também.</p><p>Enquanto Camila dirigia até o seu apartamento, senti-me levemente menos ardente,</p><p>como o gás que, segundos antes de explodir, suga a faísca para dentro de si, para</p><p>depois engole ao seu redor, com uma chama azul, a mais quente de todas.</p><p>- Você gosta de Sam Smith, Lauren? - Camila perguntou, provavelmente tentando</p><p>preencher o vazio tenso que se formou no carro, à caminho de seu apartamento.</p><p>"These nights never seem to go to plan", a voz do cantor britânico soava baixinho no</p><p>som do carro, o que me fez compreender o motivo da pergunta.</p><p>- Bastante. - falei, depois de contrair a barriga para controlar o tremor insistente em</p><p>meu estômago e não acabar tremendo na fala. - E você?</p><p>- Também gosto muito. - Ela respondeu, diminuindo a velocidade do carro e dando</p><p>sinal para a entrada da garagem de um dos prédios mais esteticamente bonitos de</p><p>Boston.</p><p>Olhei para ele através da janela, alcançando o máximo que minha visão conseguia e</p><p>eu via tanto de Camila ali que no mesmo instante tive a certeza de que aquele era</p><p>mais um de seus projetos.</p><p>- Você o construiu, não é? - perguntei, enquanto ela estacionava o carro em sua vaga</p><p>depois de descermos uma rampa íngreme.</p><p>- Sou tão óbvia assim? - ela perguntou, dando-me um sorriso de lado, logo após</p><p>parar o carro e desliga-lo.</p><p>- Óbvia não. Você é única. - respondi, simplesmente.</p><p>Camila encarou-me por alguns segundos e seus olhos foram ficando rasos</p><p>gradativamente, de forma que eu pude ver toda a doçura que ela sentiu. A mulher</p><p>tomou fôlego rapidamente e sorriu para mim.</p><p>- Quer mesmo subir? - ela perguntou, antes de sinalizar qualquer movimento para</p><p>sair do carro.</p><p>Sua pergunta foi o suficiente para a combustão dentro de mim reaparecer. Não lhe</p><p>respondi com palavras, apenas saí do carro e a esperei do lado de fora. Caminhamos</p><p>em silêncio até o elevador e não esperamos nem trinta segundos até que a porta do</p><p>mesmo se abriu e entramos. Camila digitou no painel digital o número 40 e depois</p><p>pressionou o polegar, para a identificação por digital e a porta se fechou.</p><p>Camila e eu ficamos uma ao lado da outra, encarando a porta do elevador por alguns</p><p>segundos que pareceram algumas eternidades, mas, como se nossos corpos</p><p>estivessem em perfeita sincronia, nos viramos ao mesmo tempo de frente uma para a</p><p>outra e Camila me empurrou contra a parede do elevador, capturando os meus lábios</p><p>outra vez e com a mão pressionando a lateral do meu rosto, segurava-me com tanta</p><p>força, como se eu estivesse a ponto de escapar de suas mãos.</p><p>Eu prendi as mãos em seus cabelos e apertei com força, fazendo-a morder o meu</p><p>lábio inferior com mais força do que provavelmente pretendia, causando-me uma dor</p><p>prazerosa e que fez o meu sexo pulsar.</p><p>De repente, a porta do elevador se abriu diretamente no apartamento de</p><p>Camila do qual eu pouco vi. Nossas mãos se buscavam enlouquecidamente e antes</p><p>que eu me desse conta, Camila a minha blusa estava sendo jogada no chão e meu</p><p>corpo sendo pressionado contra a parede outra vez. Forcei o braço para baixo,</p><p>soltando-me das mãos dela e deslizei fortemente as unhas pela sua pele nua, de</p><p>baixo para cima, alcançando a barra de sua blusa e puxando-a, em seguida, para</p><p>cima, deixando-a apenas com a lingerie preta exposta.</p><p>As linhas de entrada da clavícula de Camila seguiam para o início do contorno de seus</p><p>seios, tão delicadamente sensual que meu primeiro impulso foi enfiar o rosto ali e</p><p>explorar cada centímetro de pele exposta e expor o que estava escondido, mas</p><p>Camila foi mais rápida e antes que eu completasse o meu raciocínio de adoração por</p><p>seu corpo, sua língua quente e corrosiva tocou levemente a pele exposta dos meus</p><p>seios. Contorci-me na parede.</p><p>Camila Cabello estava me enlouquecendo.</p><p>Todos os detalhes, do início ao fim, foram contados minuciosamente à Normani que</p><p>me encarava variando entre choque, excitação e curiosidade.</p><p>- Aí, eu fiquei olhando pra ela com cara de idiota, querendo voltar pra dentro daquele</p><p>carro, mas acabei fechando a porta e ela foi embora. - Completei todo o meu discurso</p><p>e soltei um suspiro que misturava cansaço e frustração.</p><p>Normani estava com uma expressão completamente indefinida. Eu não conseguia</p><p>entender o que seu rosto estava dizendo.</p><p>- O que foi? Por que está me olhando assim? - perguntei-lhe, quase chorando de</p><p>ansiedade para ouvir qualquer coisa que não fossem meus próprios pensamentos.</p><p>- Tipo... - Normani começou e pareceu procurar as palavras. - Ela estava com o dedo</p><p>lá...tipo, já estava lá, lá? - ela perguntou e eu fiquei vermelha instantaneamente. Fiz</p><p>que sim com a cabeça e engoli seco. A expressão da minha amiga revelava completo</p><p>choque. - E você mandou ela P A R A R? - ela perguntou novamente, destacando a</p><p>última palavra. - COMO ASSIM VOCÊ MANDOU ELA PARAR? VOCÊ É TIPO A MULHER</p><p>DE FERRO? IRON WOMAN?</p><p>Suspirei pesadamente pela milionésima vez naquele dia e até sorri com a indignação</p><p>de Normani.</p><p>- Sim, Mani... - respondi simplesmente, afirmando com a cabeça ao mesmo tempo,</p><p>sem conseguir olhar para Normani, de tão envergonhada. - De todas as coisas que eu</p><p>falei, você prestou atenção só nisso? - perguntei baixinho, tentando fazê-la sentir-se</p><p>culpada por não ter comentado algo de maior relevância.</p><p>- Desculpe, Lauren, mas é que NÃO dá para simplesmente ignorar o fato de que você</p><p>mandou Camila Cabello parar. - Ela falou, demonstrando toda a sua indignação com</p><p>aquela informação. - Você tem ideia disso? Eu nem sou lésbica e queria Camila</p><p>Cabello na minha vagina.</p><p>Arregalei os olhos e ela fez um sinal displicente com a mão.</p><p>- Ah, qual é, Camila Cabello é linda e sexy demais pra ficar pensando em</p><p>heterossexualidade...</p><p>- Eu sei, eu</p><p>sei... - admiti que ela tinha razão em destacar aquela parte específica. -</p><p>Mas eu não quero falar sobre isso agora. Na verdade, eu acho que não quero falar</p><p>sobre nada disso agora, eu só preciso tomar um banho e dormir. - falei, levantando-</p><p>me da cama de Normani e dando-lhe um beijo na testa.</p><p>- Eu só não vou questionar isso porque se até eu estou precisando de um tempo pra</p><p>digerir isso, imagine você... - ela disse, retribuindo o beijo. - Mas não pense que</p><p>escapará de mim amanhã, Jauregui.</p><p>Acenei positivamente com a cabeça e segui para o banheiro.</p><p>Não mais que trinta minutos depois, eu estava na minha cama, olhando para o fio de</p><p>luz, que vinha da rua, que transpassava a lateral da cortina, lutando contra os meus</p><p>pensamentos agitados para conseguir dormir, até que foquei minha mente em</p><p>lembranças de Camila, de seus olhos profundos, de sua boca macia, de seus dedos</p><p>habilidosos, ágeis e gentis, de seu gosto, de seu corpo, dela inteira...</p><p>Camila's pov</p><p>O caminho de Cambridge à Boston costumava ter um trânsito pesado de carros e,</p><p>sendo aquela a primeira vez em que eu dirigia de madrugada por aquele trajeto,</p><p>encontrei repouso para os meus pensamentos inflamados, focando-os em pensar na</p><p>estranha calma daquela auto estrada às três e quarenta da manhã.</p><p>Em menos de quinze minutos eu estava em casa. No elevador, ainda haviam marcar</p><p>do rosto de Lauren. Aquilo, provavelmente eram restos de sua maquiagem que</p><p>borrara enquanto estávamos entregues à loucura dentro daquele elevador.</p><p>Meus olhos compenetraram-se em analisar as linhas marcadas no espelho e em</p><p>decorar as formas que faziam. As formas da pele de Lauren.</p><p>"Pin!", o elevador alertou que chegara ao meu andar e eu saí, entrando no meu</p><p>apartamento.</p><p>Tão instantâneo quanto dar o primeiro passo para dentro, foram as memórias das</p><p>horas anteriores invadindo a minha mente. O caminho para o meu quarto estava</p><p>absolutamente, completamente e irremediavelmente marcado pela presença e</p><p>memórias de Lauren.</p><p>"Ela enlouqueceu você, Camila", o pensamento surgiu em minha cabeça e eu sorri</p><p>para a ideia da doce loucura que Lauren Jauregui era. Doce, mas ainda assim,</p><p>loucura.</p><p>"Medo? Até de mim?", a minha própria pergunta para ela surgiu em minha mente</p><p>enquanto fazia o caminho até o meu quarto. A imagem de sua cabeça balançando em</p><p>afirmação surgiu como um flash em minha mente, no exato momento em que avistei</p><p>um objeto caído no chão, ao lado da imensa parede de vidro que dava claridade ao</p><p>corredor que estava com as luzes completamente desligadas.</p><p>Abaixei-me devagar e peguei o objeto do chão.</p><p>"Ela e esse crucifixo...", pensei, encarando o cordão com pingente de cruz de Lauren</p><p>em minha mão. O apertei e encarei a rua. "Você não pode ser minha, mas terei algo</p><p>seu, Lauren".</p><p>Na manhã seguinte, fui despertada, uma hora antes do meu horário habitual de</p><p>acordar com uma ligação do reitor Uhlmann.</p><p>"Camila, desculpe por acordá-la", ele falou do outro lado da linha.</p><p>- Tudo bem, Robert. Por que está me ligando? - perguntei, com mais sono do que de</p><p>costume, por ter dormido apenas poucas horas antes de ter sido acordada.</p><p>Aquele não era dia de dar aula em Harvard e eu iria para o escritório dar continuidade</p><p>a um projeto que precisava ser acabado com urgência; ainda assim, meus planos</p><p>eram dormir, pelo menos, até o horário normal.</p><p>"Você poderia cobrir a professora Hadid hoje? Ela teve um problema familiar muito</p><p>grave ontem e não vai poder dar aula hoje", ele explicou.</p><p>- Ela está bem? O que houve? - perguntei, preocupada com Zaha, minha colega de</p><p>profissão e eterna professora com quem eu havia aprendido muito.</p><p>"O marido dela enfartou, mas aparentemente já está tudo bem. Pode dar aula no</p><p>lugar dela hoje?", perguntou outra vez.</p><p>- É claro que sim, é claro que posso. Qual a turma? - perguntei.</p><p>"Os calouros de arquitetura. A mesma turma para a qual você dá aula às terças</p><p>feiras", o reitor Uhlmann falou e meu coração errou a batida e eu esqueci de</p><p>respondê-lo. "Posso contar com você?", ele insistiu, diante do meu silêncio.</p><p>- É claro que sim, Robert.</p><p>"Obrigado, Camila. Vou lhe deixar descansar um pouco mais. Tenha um bom dia", ele</p><p>agradeceu cordialmente e desligou logo depois de eu me despedir.</p><p>A ligação me despertara completamente e não havia mais nenhum resquício de sono</p><p>em meu corpo. Sentei-me na cama e encarei o vazio escuro do meu quarto,</p><p>ocasionado pelo isolamento total das cortinas. Já eram seis da manhã e o dia, com</p><p>certeza já estava claro.</p><p>De repente, como um insight, ocorreu-me uma ideia que, didaticamente,</p><p>pareceu-me excelente para fazer com os alunos da turma de calouros.</p><p>Peguei o telefone e disquei o segundo número da discagem rápida.</p><p>"Alô?", a voz sonolenta da minha melhor amiga e sócia no escritório soou do outro</p><p>lado da linha.</p><p>- Você dá aula em Harvard hoje, não dá? - perguntei, sem me importar com</p><p>formalidades.</p><p>"Aham", ela respondeu simplesmente, dispensando também as formalidades</p><p>desnecessárias entre nós.</p><p>- Vou substituir Zaha hoje, terei que ir também. Estava pensando em juntar nossas</p><p>turmas e fazermos uma aula interativa entre os dois cursos.</p><p>"Você vai para Harvard?", ela perguntou, para reafirmar algo que eu já tinha dito.</p><p>- Sim. - respondi simplesmente.</p><p>"Quer unir minha turma com a sua?", perguntou outra vez, com a voz completamente</p><p>sonolenta.</p><p>- Sim.</p><p>"Certo. No auditório?", perguntou.</p><p>- Sim. Encontro você lá. - confirmei e desliguei em seguida.</p><p>Naquela manhã, havia algo diferente em mim e que, embora eu tivesse total</p><p>consciência do que se tratava, desviava a minha mente em busca de respostas mais</p><p>racionais, entretanto, intimamente eu sabia que o que havia de diferente em mim</p><p>era: Lauren.</p><p>Levantei-me da cama no exato instante em que o pensamento me ocorreu, admitindo</p><p>que o gesto brusco fosse afastar aquilo de minha mente. Eu estava errada.</p><p>Uma hora mais cedo do habitual, saí do quarto completamente arrumada, vestindo</p><p>blazer azul marinho por cima de uma blusa branca e calça branca. Como Sofia não</p><p>estava em casa, eu podia sair antes do horário em que costumava, para levá-la à</p><p>escola. Sequer pensei em tomar café da manhã, apenas segui direto para o elevador.</p><p>Estava distraída checando a bolsa enquanto esperava o elevador quando...</p><p>- Não vai me esperar? - A voz de Sofia soou atrás de mim, vinda do corredor.</p><p>Todo o sangue do meu corpo desceu no espaço de um segundo e eu fiquei pálida.</p><p>Segurei-me na parede e encarei Sofia, ainda de pijamas, com o cabelo bagunçado e o</p><p>rosto amassado. Meu coração acelerou tanto em resposta ao susto e ao consequente</p><p>nervosismo por vê-la ali, que eu podia senti-lo bater no peito.</p><p>Sofia encarava-me com a expressão cínica e um sorriso quase que maquiavélico no</p><p>rosto.</p><p>- O.. o que você tá... tá fazendo aqui, Sofia? - Consegui completar a minha pergunta.</p><p>- Por que, maninha? - ela perguntou, cinicamente. - Eu não deveria estar na minha</p><p>própria casa?</p><p>- Você disse que dormiria na casa da Taylor ontem e... Afinal, por que está aqui? -</p><p>Perguntei firmemente.</p><p>- Por que está nervosa, Mila? - minha irmã perguntou, mantendo o tom sarcástico e</p><p>atravessou o corredor, passando por mim e andando em direção à cozinha, para onde</p><p>ela sabia que eu a seguiria.</p><p>- Não estou nervosa. - respondi, tentando fazer com que aquilo fosse verdade. -</p><p>Responda-me, por que está aqui?</p><p>- Ah... Resolvi vir pra casa. Não queria deixar você dormir sozinha... - ela falou,</p><p>deixando um pensamento no ar, que eu entendera completamente.</p><p>Mais forte do que a ideia de que ela havia escutado qualquer coisa entre mim e</p><p>Lauren, foi a dúvida: "Como ela veio para casa?".</p><p>- Como você veio para casa, Sofia? - perguntei, deixando a bolsa em cima da</p><p>bancada da cozinha, observando-a pegar um copo de água.</p><p>- Ah... - sua expressão mudou para desconfiança e eu tive certeza de que</p><p>não gostaria nenhum pouco da resposta que ela me daria.</p><p>- Sofia...</p><p>- Eu e Taylor queríamos andar até o Boston Common e...</p><p>-</p><p>- Sim. - Normani confirmou. - Somos nós, por que?</p><p>Ele abriu de novo o sorriso florescente e eu desviei o olhar. Anotei mentalmente a</p><p>ideia de perguntar se o dentista dele havia errado na hora do clareamento.</p><p>- Ah! Nossa, finalmente! - ele ajeitou a mochila no ombro e estendeu a mão para</p><p>Normani. - Eu sou Drew. Drew Chadwick. - Depois estendeu a mão para mim.</p><p>- Sou Lauren. - Sorri sem mostrar os dentes, me sentindo um pouco neurótica com</p><p>toda aquela situação bizarra com os dentes dele.</p><p>- Por que estava nos procurando? - Normani perguntou simpaticamente, passando a</p><p>mão pelos cabelos, mostrando claramente, pelo menos para mim, que estava</p><p>interessada no garoto.</p><p>- Então, eu sou o veterano de vocês. - ele declarou, como se fosse o orgulho do</p><p>século. Até tufou o peito levemente.</p><p>Os corações explodiram nos olhos de Normani e eu segurei o riso.</p><p>- E isso significa que...? - perguntei.</p><p>- Significa que vocês podem usar e abusar de mim. - ele respondeu, claramente</p><p>tentando dar um duplo sentido à resposta.</p><p>Arregalei os olhos e não pude me conter e acabei soltando uma gargalhada de leve.</p><p>- Não, é sério. - ele falou, rindo também. - Estou aqui pra ajudar vocês em tudo o</p><p>que precisarem. Desde restaurantes que precisem saber até ajuda com trabalhos nos</p><p>quais estejam tendo dificuldade. Basicamente, temos que ser amigos, de acordo com</p><p>Harvard. Eu, particularmente, não tenho problemas em ser amigo de mulheres</p><p>bonitas. Vocês tem problemas em serem amigas de um pobre e feio rapaz que está</p><p>implorando pela amizade de vocês? - ele usou um tom tão ironicamente fofo que eu</p><p>quase fiz "awn" junto com Normani, que com certeza estava fazendo "awn"</p><p>mentalmente.</p><p>- Eu não me importo. Você se importa, Lauren? - Normani perguntou, mas sem olhar</p><p>pra mim.</p><p>- Não, claro que não. Não é todo dia que a gente tem um cara feio assim</p><p>acompanhando à nossa disposição. - respondi, tentando ser simpática.</p><p>- Você não precisa concordar que sou feio, pô. - ele falou, fingindo-se ofendido.</p><p>- Você precisa aceitar a realidade. Somos amigos agora, é meu dever ser realista com</p><p>você.</p><p>Ele riu e apontou pra mim.</p><p>- Cheque mate. - ele respondeu, dando-se por vencido.</p><p>Mas era claro que ele tinha total consciência de que de feio não tinha nada. Apesar</p><p>dos dentes florescentes.</p><p>- Então, vocês já tem lugar pra almoçar? - ele perguntou, jogando a mecha de cabelo</p><p>que estava em sua testa para o lado e consequentemente arrancando um suspiro de</p><p>Normani.</p><p>- Ah, a gente estava pensando em ir no The Edges, aqui do lado. -</p><p>Normani comentou.</p><p>- iiiiiiii, não, não. A comida de lá é mais barata, mas é horrível. Nunca comam no The</p><p>Edges. Ano passado um cara ficou vomitando por três dias depois de comer um</p><p>hambúrguer de lá.</p><p>- Três dias? - perguntei, incrédula.</p><p>- Três dias.</p><p>- Onde você sugere que a gente vá, então? - perguntei, contente por ter um</p><p>veterano pra nos ajudar a não vomitar por três dias.</p><p>- Vamos no The Village. É o melhor lugar pra comer o almoço aqui. Não é muito caro</p><p>e até os professores frequentam lá.</p><p>- Onde fica? - foi a vez de Normani perguntar.</p><p>- Fica a duas quadras daqui. Eu vou com vocês até lá, também preciso almoçar. E</p><p>sim, tô me convidando.</p><p>Eu dei uma gargalhada.</p><p>- Não é como se você não fosse ser convidado. - Normani falou, se derretendo para</p><p>Drew.</p><p>O The Village ficava a duas quadras do edifício da HGSD e o espaço era maravilhoso.</p><p>Não havia muita gente ou talvez o ambiente amplo desse a impressão de não haver</p><p>muita gente. Drew parecia frequentar o lugar com frequência, pois quando chegamos,</p><p>o garçom o cumprimentou amigavelmente e imediatamente nos levou para uma mesa</p><p>muito bem localizada por ali.</p><p>Os cardápios não demoraram a chegar até nós e eu pedi um filé ao molho de vinho</p><p>branco, acompanhado por batata sauté, arroz branco com molho de queijo e suco de</p><p>abacaxi com hortelã. Normani pediu, exatamente, a mesma coisa que eu. Desconfiei</p><p>que ela não sabia lidar muito bem com aquele tipo de lugar e por isso a ajudei com</p><p>alguns pedidos. Drew pediu "o de sempre, Alan", que descobrimos depois ser frango</p><p>na grelha com muita batata frita, cenoura cozida e arroz até dizer chega. Drew tinha</p><p>um apetite e tanto.</p><p>- Então, vocês tiveram aula com quem hoje? - Drew perguntou, encostando-se na</p><p>cadeira.</p><p>- Camila Cabello. - respondi animada. Animada até demais.</p><p>Drew deu um sorriso de lado, um tanto quanto sarcástico.</p><p>- O que? - perguntei. - O que foi?</p><p>- Todo mundo fica empolgado assim com ela no primeiro dia de aula. - ele falou</p><p>vagamente.</p><p>- E isso é errado? - aquele assunto, estranhamente, me interessava demais.</p><p>- Você nem imagina o quanto. - ele respondeu vagamente outra vez e desviou o olhar</p><p>para a porta e em seguida, para mim outra vez. - Falando nela...</p><p>Olhei em direção à porta de entrada do The Village e Camila Cabello estava cruzando</p><p>o corredor entre as mesas, vindo em nossa direção. Seu corpo movimentava-se com</p><p>tanta elegância e leveza que não pude tirar os olhos dela. Havia tanta singeleza</p><p>naquela mulher. Tanta sensualidade implícita. Eu me sentia completamente</p><p>encantada por ela. Não demorou muito para que ela cruzasse a nossa mesa e eu,</p><p>prontamente, abri um sorriso educado para ela; sorriso este que foi completamente</p><p>ignorado. Fiquei repentinamente e inexplicavelmente abalada e nervosa com o fato de</p><p>ter sido tão brutalmente ignorada. Tentei melhorar a expressão antes de me voltar</p><p>para Drew e Normani novamente, esperando que eles não tivessem percebido.</p><p>- Wow... - Normani exclamou. - Que mal educada ela foi.</p><p>Eles haviam percebido.</p><p>- Ah, tudo bem... - respondi, tentando fazer parecer que não havia me sentido mal</p><p>com a situação.</p><p>- E começam as decepções. - Drew falou, pensativo de novo.</p><p>Aquele tom misterioso dele estava me deixando curiosamente irritada.</p><p>- Fale de uma vez o que quer falar sobre ela, Drew. - o interpelei.</p><p>O garoto se desencostou de sua cadeira, debruçando-se na mesa, fazendo sinal para</p><p>que eu e Normani fizéssemos o mesmo. Fizemos.</p><p>- Camila Cabello é o demônio. Essa mulher é mais fria que o ártico. No início ela</p><p>aparenta ser toda fofinha e todo mundo fica encantado com todas as coisas que ela</p><p>é... tipo, doutora em eng. Civil, phd em percepção... ela é genial e a aula dela é a</p><p>melhor, mas nas provas e nos trabalhos, ela é Lúcifer. - ele sussurrava para nós,</p><p>como se aquilo fosse um segredo de estado. - Ano passado, ela reprovou toda a</p><p>minha turma de desenho técnico, porque disse que com os nossos traços, poderíamos</p><p>competir com crianças de três anos e perderíamos. Uma garota das Filipinas ia perder</p><p>a bolsa se ela reprovasse, ela chorou na frente da srta. Cabello e mesmo assim foi</p><p>reprovada. Acho que ela pensa que todo mundo tem que ser "mini gênio" como ela. -</p><p>ele completou, em um tom de tanto suspense que por um momento cheguei a ficar</p><p>com medo de Camila Cabello.</p><p>Olhei por cima do ombro para trás, tentando encontrá-la e logo a avistei em sua</p><p>mesa, fazendo o pedido para o mesmo garçom que nos atendera. Nem de longe,</p><p>aquela mulher parecia com o "demônio" que Drew havia descrito. Ela me parecia</p><p>extremamente doce.</p><p>- Como assim "mini gênio"? - Normani perguntou, com uma voz que parecia estar</p><p>hipnotizada com a história de Drew. Voltei a prestar atenção imediatamente.</p><p>- A professora Camila se formou em Harvard com 18 anos. Ela fez o teste de</p><p>admissão aos 15 e foi aprovada com honras e méritos. Ela podia ter estudado</p><p>qualquer coisa, mas escolheu arquitetura porque era a profissão do pai que morreu</p><p>assassinado. Bom, pelo menos é o que dizem...</p><p>- Ela se formou em Harvard com d e z o i t o anos? - perguntei, estupefata.</p><p>- Isso aí é certeza. O livro de formandos dela está na biblioteca. Ela pode ser um</p><p>demônio como professora, mas é muito genial como arquiteta e como pessoa. Acho</p><p>que ela é tipo uma enciclopédia. Acho que antes dos quarenta ela já vai ser uma</p><p>lenda da arquitetura. - Drew falava agora com admiração.</p><p>- Caramba... - Normani falou.</p><p>- Caramba... - Eu repeti.</p><p>Olhei novamente para trás, por cima do ombro</p><p>Você atravessou o Boston Common com a Taylor andando, sozinhas, a noite? -</p><p>perguntei, tentando manter toda a serenidade do mundo, embora a pergunta me</p><p>apavorasse.</p><p>- A boa notícia é que estou viva e perfeitamente bem. - ela respondeu, tomando um</p><p>gole de sua água e olhando-me desconfiada.</p><p>Olhei para ela por alguns segundos, ponderando racionalmente em alguma solução</p><p>para aquele problema de sua desobediência que poderia coloca-la em risco.</p><p>- Se você fizer isso outra vez, se eu sequer imaginar que você está pensando em</p><p>andar pelo Boston Common sozinha com a Taylor outra vez, você vai ficar sem a sua</p><p>mesada por seis meses e eu não estou brincando. - declarei, usando um tom sério.</p><p>- Desculpe... - ela falou baixinho, deixando o copo de água dentro da pia.</p><p>- Só não repita. Eu vou enlouquecer se algo de ruim acontecer com você. - falei,</p><p>sendo mais leve com ela.</p><p>- Igual você estava enlouquecida ontem com aquela garota? - ela perguntou e eu</p><p>imediatamente senti como se tivesse levado um chute na garganta.</p><p>- Do... do que você está falando? - perguntei, sabendo exatamente do que ela estava</p><p>falando.</p><p>- Ah... Você sabe. - ela falou, colocando suco de laranja em um copo e o empurrando</p><p>para mim. - Aquela garota que tirou a sua roupa no meio do corredor.</p><p>- Sofia!!! - exclamei, segurando no copo com muita força e arregalando os olhos e</p><p>deixando meu corpo ceder à fraqueza do nervosismo e apreensão, sentando-me no</p><p>banco de aço.</p><p>- Ué, suas roupas - ela falou no intervalo entre um gole do seu próprio suco e outro -</p><p>e as dela, estavam no chão. Você sabe como é, eu tive que sair do quarto pra ter</p><p>certeza que aqueles "gritinhos" - ela fez aspas com os dedos - não eram uma</p><p>tentativa de assassinato.</p><p>Abrir a boca cerca de oito vezes, tentando emitir algum som, mas eu estava</p><p>paralisada.</p><p>- Tudo bem, Mila. - ela falou, compreensiva. - Não é como se eu não soubesse que</p><p>você faz sexo e essas coisas... - ela tomou outro gole de seu suco e continuou falando</p><p>naturalmente, mas sempre mantendo o sarcasmo na voz. - Só não sabia que fazia</p><p>sexo com mulheres. - Outro gole de Sofia em seu suco. Outra bola de boliche</p><p>descendo pela minha garganta. - Essa é aquela que abalou sua sophrosyne? - ela</p><p>perguntou, disparando em falar. - Porque pelo que eu percebi, sua sophrosyne nem</p><p>existe mais, né? - Sofia pousou o copo vazio na pedra de mármore e eu continuava</p><p>segurando o meu próprio copo, como se fosse o meu único ponto de equilíbrio no</p><p>mundo.</p><p>Dei uma risada envergonhada, mas ao mesmo tempo conformada e alegre. Balancei a</p><p>cabeça negativamente.</p><p>- Por que você não vai tomar banho e se arrumar para a escola antes que eu deixe</p><p>você aqui e faça você ir de ônibus? - ameacei-a, usando uma das coisas que Sofia</p><p>menos gostava na vida: andar no ônibus da escola.</p><p>- Nem estou mais aqui, já estou tomando banho. - Ela falou, passando correndo por</p><p>mim em direção ao seu quarto. - Mas que você não tem mais sophrosyne, não tem</p><p>mesmo. - ela gritou de longe.</p><p>- Vai tomar banho, Sofia Cabello. - falei alto o suficiente para que ela escutasse.</p><p>Uma hora e meia depois, às sete e trinta da manhã, depois de ter deixado Sofia na</p><p>escola e feito o caminho de Boston à Cambridge, eu estava sentada, na sala dos</p><p>professores, separando algumas imagens a serem usadas na aula daquele dia,</p><p>quando minha melhor amiga abriu a porta, vestindo sua saia preta com quadrados</p><p>feitos em linhas brancas, presa por um cinto preto e blusa social branca de manga</p><p>3/4. Os óculos escuros cobriam quase todo o seu rosto.</p><p>- Da próxima vez que você me acordar de madrugada, eu deixo uma viga cair na sua</p><p>cabeça, Camila. - a mulher falou, aproximando-se de mim e dando-me um beijo no</p><p>alto da cabeça.</p><p>- Seu bom humor me comove. - sorri e a observei sentar-se ao meu lado.</p><p>- O que dizer do seu... - ela falou, colocando a bolsa em cima da mesa.</p><p>Pelos próximos trinta minutos, discutimos como desenvolveríamos a aula conjunta</p><p>das turmas de arquitetura e engenharia. Em seguida, caminhamos juntas pelo edifício</p><p>da HGSD, a caminho do auditório 03, para onde os alunos já haviam sido instruídos</p><p>para ir.</p><p>Quando entramos juntas no auditório, todos os alunos calaram-se e nos observaram</p><p>caminhar até o centro do auditório. Calmamente repousei a minha bolsa em cima da</p><p>mesa de centro que havia ali e encostei-me, esperando que a minha amiga fizesse o</p><p>mesmo. A loira retirou os óculos de grau da bolsa e os colocou no rosto, virando-se</p><p>de frente para a turma, junto comigo.</p><p>- Bom dia, alunos. - falei, percebendo que a mulher ao meu lado havia me dado a</p><p>palavra. - A turma de arquitetura já me conhece, sou Camila Cabello, arquiteta e</p><p>urbanista... - os alunos de engenharia começaram a fazer burburinhos quando</p><p>ouviram o meu nome e eu sorri. - Já percebi que minha amiga engenheira aqui andou</p><p>dizendo que meus projetos são particularmente de difícil execução. - Constatei com</p><p>bom humor, tendo total ciência das pequenas brigas que aconteciam entre</p><p>engenheiros e arquitetos. - Bem, a parte boa é que a arquitetura desafia vocês,</p><p>engenheiros, a fazerem o que parece ser impossível, portanto, agradeçam à nós pela</p><p>genialidade construtiva da engenharia. - Falei com orgulho, mantendo o bom humor.</p><p>- Bem, o fato é que arquitetura e engenharia precisam uma da outra. Minha colega</p><p>aqui - falei, olhando para a mulher ao meu lado. - é a prova viva de que engenheiros</p><p>são os construtores do impossível.</p><p>Ela sorriu para mim, com o típico sorriso que eu já conhecia, que dizia "pare de puxar</p><p>o meu saco, seus projetos ainda são muito difíceis de construir e eu sempre vou</p><p>reclamar". Ela se adiantou um passo à frente e começou a falar.</p><p>- Bom dia à todos. Aos que não me conhecem, muito prazer, me chamo Allyson</p><p>Brooke, engenheira civil, phd em dimensionamento avançado em concreto protendido</p><p>e armado, professora em Harvard e sócia da nossa querida, Camila Cabello. Sejam</p><p>bem vindos à nossa aula. Espero que saiam lúcidos daqui.</p><p>Airtibak</p><p>Camila's Pov</p><p>Airtibak (n.) : A súbita compreensão de não estar entendendo algo.</p><p>- Certo, senhoritas, estão dispensadas. Receberão a avaliação final do projeto de</p><p>vocês na próxima aula. Lauren e Normani na minha aula e Dinah na aula da</p><p>professora Brooke. – falei, depois de ouvir a conclusão do trabalho delas e de fazer</p><p>alguns comentários a respeito, assim como Ally.</p><p>As três garotas levantaram-se, despedindo-se educadamente. Exceto Lauren, que, ao</p><p>contrário de antes, não me olhava mais. Senti-me intrigada e quase deixei que minha</p><p>mente mergulhasse em um mar profundo de questionamentos, mas fui interrompida</p><p>por Allyson.</p><p>- Estou tentando entender o motivo da sua rudeza com aquela aluna. – Ally</p><p>perguntou baixinho, de forma que somente eu pudesse ouvir, com os braços apoiados</p><p>na mesa, olhando-me meio de lado.</p><p>- Quem? Lauren? – perguntei, tentando soar casual.</p><p>- Sim! – ela exclamou. – De longe, o croqui dela foi o melhor e o projeto delas foi o</p><p>melhor. Arrisco dizer que isso aqui – ela falou, pegando o croqui de Lauren. – pelo</p><p>menos conceitualmente falando, está melhor do que os dos nossos alunos do último</p><p>ano. Não há muita técnica, mas Camila, você tem que admitir que isto está incrível. –</p><p>Allyson falava com um tom levemente indignado e eu desconfiei que minha amiga</p><p>não estava gritando somente porque as três ainda estavam no auditório.</p><p>- Eu sei. – falei, levantando-me, colocando todos os projetos dentro da pasta. – É por</p><p>isso mesmo que eu ajo assim com ela. – expliquei o óbvio.</p><p>- Ah não... – Allyson exclamou, levantando-se também e fechando sua bolsa. – Você</p><p>não vai...</p><p>- Sim, eu vou. – a interrompi, respondendo a pergunta que ela nem havia feito, mas</p><p>eu havia entendido.</p><p>- Por que?! – Ela perguntou, quando começamos a caminhar em direção à saída.</p><p>- Não é óbvio? – Eu ia continuar a explicar, mas fui interrompida por meu celular,</p><p>tocando.</p><p>O retirei da bolsa e vi o nome de Louis no visor. Allyson também viu.</p><p>- Louis! Ah quanto tempo não o vejo. – minha amiga falou, com um ar saudoso ao</p><p>citar nosso velho amigo da faculdade.</p><p>esquerdo e fiquei encarando-a mais</p><p>do que deveria. Antes que eu pudesse disfarçar, a professora Cabello virou o rosto na</p><p>minha direção e fixou o olhar no meu. Enrubesci e desviei o olhar rapidamente.</p><p>Eu não sabia se Camila Cabello era realmente como Drew havia descrito. Talvez</p><p>houvesse um pouco de exagero naquilo; mas se era verdade que ela queria que os</p><p>seus alunos fossem tão geniais quanto ela, eu seria tão genial quanto ela.</p><p>Eu seria ainda mais genial do que Camila Cabello.</p><p>Meraki</p><p>Lauren's pov</p><p>Meraki (v.): Fazer alguma coisa com a alma, criatividade ou amor.</p><p>- Quantos anos você acha que ela tem? - soltei a pergunta aleatoriamente enquanto</p><p>caminhava com Normani de volta ao bloco de arquitetura de Harvard.</p><p>- Quem? - Perguntou de volta, sem entender de quem eu falava.</p><p>- A professora... - ela continuou me olhando sem entender. - Camila Cabello...</p><p>- Ah! - exclamou, como se agora entendesse do que eu falava.</p><p>- Em que mundo você tá? Só tivemos uma aula até agora e foi com Camila Cabello.</p><p>- Desculpe, eu estava totalmente pensando em outra coisa. Minha mente estava em</p><p>outro lugar. - ela admitiu e pareceu sentir-se envergonhada, como se eu pudesse ler</p><p>os seus pensamentos.</p><p>Naquele caso eu realmente podia.</p><p>- Ou-tro-lu-gar-cha-ma-do-Drew. - falei fingindo uma tosse, o que me rendeu um</p><p>beliscão no braço. - Ai!!</p><p>- Mas ele não é lindo de morrer? - Perguntou-me em um tom de súplica, quase como</p><p>se estivesse implorando para eu também estar caidinha por ele, para que ela não se</p><p>sentisse tão boba.</p><p>Eu precisava concordar que Drew era realmente muito bonito. Era lindo. Mas eu não</p><p>me sentia caidinha por ele. Nem perto disso.</p><p>- Ele é realmente muito lindo. Dá pra entender porque está assim. - Comentei</p><p>enquanto subíamos as escadas.</p><p>- Ele é quase um Deus! - ela exclamou, exagerando em todas as formas possíveis.</p><p>Ri de seu comportamento embaraçoso e lhe dei um tapinha no ombro.</p><p>- O lado bom de tudo isso é que ele vai ficar grudado em nós o semestre inteiro.</p><p>Chance pra você é o que não vai faltar.</p><p>- Ué! - Normani exclamou, imitando um sotaque sulista. - Pra você também não.</p><p>- Acabo de repassar, oficialmente, todas as minhas chances para você. - Fingi colocar</p><p>uma coroa na cabeça dela. Ela entrou na brincadeira e fingiu fazer reverência. Rimos</p><p>juntas.</p><p>Era fácil estar com Normani. Ela era uma pessoa, em todos os sentidos, muito leve.</p><p>Sua presença emanava pureza e divertimento. Nos conhecíamos a pouco menos de</p><p>dois dias e as coisas eram tão fáceis que eu podia jurar que a havia conhecido a vida</p><p>inteira.</p><p>- Não, sério... Você não está nenhum pouquinho interessada nele? - ela perguntou,</p><p>agora em um tom mais sério, querendo uma resposta realmente sincera, sem tons de</p><p>brincadeira.</p><p>- Seríssimo. Meu interesse nele é o mesmo interesse que tenho por uma porta. -</p><p>Falei, observando de relance as portas das salas pelas quais passávamos, todas muito</p><p>bonitas, com design moderno e ao mesmo tempo com um toque de antiguidade.</p><p>Aquilo era de longe obra de algum arquiteto ou designer muito sensível ao mundo e</p><p>genial. - Não, espere! Eu tenho muito interesse em portas, mas em Drew eu não</p><p>tenho nenhum.</p><p>Normani soltou uma gargalhada muito alta, o que fez todos os alunos que estavam</p><p>por ali, olharem para nós. Ela logo se recompôs e ignorou os olhares.</p><p>- Se ele for um cara egocêntrico e tivesse escutado seu comentário, teria mexido com</p><p>o ego dele. - Ela assinalou. - Porque essa doeu até em mim.</p><p>- Ainda bem que ele não ouviu então...</p><p>- Eu tenho uma dúvida. - Normani disse, encostando-se de lado nas portas dos</p><p>armários enquanto eu colocava o código que haviam me dado, no pequeno cadeado</p><p>vermelho com o H de Harvard cravado nele.</p><p>- Qual? - perguntei, questionando-me mentalmente qual a necessidade de</p><p>tantos números em um cadeado.</p><p>- Se Drew, que é o supra sumo dos caras gatos não chama a sua atenção, que tipo de</p><p>cara te atrai? - perguntou, olhando-me atentamente.</p><p>Aquela pergunta me pegara desprevenida e talvez eu não tivesse deixado a chave</p><p>cair se eu soubesse como respondê-la. Talvez eu não tivesse deixado meus livros</p><p>caírem, se eu soubesse como respondê-la. Talvez eu não tivesse ficado tão</p><p>desconsertada com a pergunta de Normani. Talvez eu ainda estivesse namorando</p><p>Wesley Stromberg, se eu sobesse como respondê-la. Talvez eu tivesse aceitado</p><p>namorar algum cara que tivesse me pedido em namoro até aquele ponto, se eu</p><p>soubesse como respondê-la. Talvez...</p><p>- Meu Deus, Lauren. Está se sentindo bem? - Ela perguntou, abaixando-se para me</p><p>ajudar a juntar meus livros, minhas chaves e meu papel com o código de meu</p><p>cadeado.</p><p>- Estou! Eu só me desequilibrei. Se tem uma coisa certa sobre mim, essa coisa é que</p><p>eu sou muito atrapalhada. - Falei, tentando usar o tom mais natural possível.</p><p>Normani me ajudou com as coisas e voltei a tentar abrir o meu cadeado com oito</p><p>números.</p><p>- Caramba, pensei que você estivesse passando mal, garota. Quase passei mal junto.</p><p>Sou logo dessas. Se eu ver alguém desmaiando, desmaio junto logo. - ela falou,</p><p>parecendo um pouco alarmada.</p><p>Eu ri, finalmente conseguindo abrir o cadeado e colocando os livros lá dentro.</p><p>- Fique calma, eu não estava desmaiando. - falei, fechando a porta novamente,</p><p>trancando o cadeado que automaticamente perdeu o código que eu havia colocado. A</p><p>mensalidade de Harvard era explicada por esses pequenos detalhes.</p><p>- Certo... Mas você não respondeu que tipo de cara te agrada. - Ela deixou o assunto</p><p>anterior de lado e voltou para o que realmente lhe interessava.</p><p>Suspirei, cedendo à minha falta de resposta e fiquei em silêncio. Eu realmente não</p><p>sabia como responder aquilo.</p><p>- O que?! - Normani exclamou em um tom exasperado. - Você é lésbica? - ela</p><p>perguntou baixinho, com os olhos quase grudados em mim, de tão perto que veio.</p><p>- O que?! - exclamei da mesma forma, arregalando os olhos para ela. - Não! Claro</p><p>que não! Eu não...</p><p>- Então por que suspirou? Você nunca beijou um cara? - Normani continuava</p><p>tentando concluir, supondo coisas absurdas, o que me dava vontade de rir e ao</p><p>mesmo tempo me deixava chocada com a mente imaginativa da minha colega de</p><p>quarto.</p><p>Revirei os olhos.</p><p>- É que eu não sei como responder essa pergunta. Eu não sei que tipo de cara me</p><p>atrai... Se eu olhasse só o físico, talvez Drew fosse o tipo de cara que me atrai. Mas</p><p>eu sempre quero algo a mais, algo que nenhum dos garotos com quem fiquei até</p><p>agora tem, o que é bastante estranho, porque nem eu sei o que é essa "coisa" que</p><p>está faltando. Acho que eu só preciso me apaixonar. Mas eu acho que já me</p><p>apaixonei antes, quer dizer, teve toda aquela coisa de borboletas no meu estômago,</p><p>eu morria pra ir para a escola só para vê-lo. Quando ele me beijou pela primeira vez</p><p>então... Eu faltei morrer. Mas durante o relacionamento, sempre estava faltando</p><p>alguma coisa. Então eu acho que não estive realmente apaixonada. Porque estar</p><p>apaixonada é como uma fogueira e talvez eu tenha sentido uma faísca disso vez</p><p>outra. É muito confuso. Eu não consigo me sentir assim como você se sente pelo</p><p>Drew, por nenhum garoto. Eu até já tentei achar toda essa euforia dentro de mim,</p><p>quando vejo algum cara realmente bonito, mas simplesmente não existe. As vezes eu</p><p>acho que vim com defeito de fábrica. - concluí.</p><p>Normani me encarava, obviamente analisando-me. Estava claro que ela havia me</p><p>escutado com real interesse e que o assunto não seria tratado com desmazelo por</p><p>ela. Era um conflito interno meu e ela havia entendido.</p><p>- Você SERIAMENTE olha muito além do físico e por isso é tão exigente em</p><p>relação aos garotos. O físico não é o que chama a sua atenção logo de cara, o que é</p><p>MUITO raro, porque a maioria dos seres humanos é estimulado pelos olhos, logo de</p><p>cara. É um fenômeno da psicologia. Minha mãe é psicóloga, ela me falou sobre isso.</p><p>Pode ser por isso que você não se sente da mesma forma que eu e a maioria das</p><p>garotas quando vê algum cara obviamente muito gato. - Paramos na porta da sala e</p><p>Normani</p><p>fez uma pausa antes de abri-la. - Ou talvez, simplesmente, você seja</p><p>lésbica.</p><p>E assim, Normani abriu a porta e seguiu para dentro da aula de Análise e Composição</p><p>da forma, deixando-me totalmente estática, olhando a janela do outro lado da sala.</p><p>A segunda aula do dia passou se arrastando. O professor Newton era um cara de</p><p>meia idade, com pós doutorado em duas áreas e conceituado no mundo inteiro. Estar</p><p>na frente dele era como estar na frente de uma lenda viva. Era um cara leve, como</p><p>todo bom e velho arquiteto, mas também era egocêntrico, o que, de certo modo, era</p><p>até compreensível para um cara que aos cinquenta e oito anos já tinha obras</p><p>espalhadas por todos os cantos do mundo. Apesar de toda essa genialidade como</p><p>arquiteto, como professor, era entediante.</p><p>Normani e eu saímos das quase quatro horas de aula do professor Newton quase</p><p>dormindo e pouco falamos no caminho de volta para nosso quarto. Nem ela queria</p><p>falar, nem eu. Estávamos completamente exaustas e para um primeiro dia de aula,</p><p>aquilo não era esperado, definitivamente.</p><p>Mal abri a porta do quarto e Normani desabou de bruços em sua cama.</p><p>- Vamos ter aulas de 8 da manhã até 6 da tarde todos os dias? - Ela perguntou em</p><p>tom de reclamação, mesmo sabendo que era desse jeito mesmo que funcionava.</p><p>- Bem vinda à Harvard! - falei, ironicamente, imitando o tom que nos disseram quase</p><p>todos os professores, enquanto tirava os sapatos, na porta do quarto.</p><p>- Tô pensando seriamente em vender arte na praia. - Normani falou com bochecha e</p><p>metade da boca apertadas contra o colchão.</p><p>Sentei-me em minha cama e joguei a mochila no chão. Estiquei o pescoço de um lado</p><p>para o outro, tentando livrar-me do incômodo de ter os músculos tensos.</p><p>- Uma compradora você já tem. - falei, deixando meu corpo desabar sobre a cama</p><p>também.</p><p>- É um grande incentivo. - Ela riu. - Me sinto a maior preguiçosa do mundo por não</p><p>querer ir tomar banho agora e simplesmente dormir do jeito que estou.</p><p>- Engraçado...Estou cansada mas não estou com sono. Estava pensando em fazer o</p><p>trabalho da professora Camila. Pelo menos começar. Não quero deixar nada para</p><p>depois.</p><p>- Que aplicada... - Normani falou, quase inaudível, em meio a um bocejo. Ela já</p><p>estava a ponto de dormir.</p><p>- Eu vou tomar banho, comer alguma coisa e começar a fazer o trabalho. Quer que eu</p><p>acorde você mais tarde? Não pode dormir sem comer nada. - falei, forçando-me a</p><p>levantar.</p><p>- U-hum... - Ela murmurou, afirmando que sim.</p><p>Obriguei meu corpo a responder as minhas vontades e segui para o banheiro.</p><p>Demorei mais no banho do que pretendia, mas não dava para negar ao meu corpo</p><p>todo o relaxamento que aquilo estava me proporcionando. A água quente estava</p><p>acalmando toda a tensão do meu corpo depois de um primeiro dia tão intenso. O</p><p>cansaço já havia me abandonado e eu me sentia perfeitamente disposta para fazer as</p><p>coisas que desejava.</p><p>Saí do banheiro sentindo-me outra e com a fome de um dragão. Tanta era a fome</p><p>que nem fiz questão de colocar uma roupa antes de comer, fui para a cozinha de</p><p>roupão mesmo e de toalha enrolada no cabelo, sentei à bancada e devorei dois</p><p>sanduíches de pasta de atum com alface e queijo e de sobremesa, comi um sanduíche</p><p>de geleia de morango.</p><p>Tentando fazer o mínimo de barulho possível para não acordar Normani,</p><p>procurei algumas roupas na mala que ainda não havia desfeito e decidi pelas calças</p><p>de moletom cinzas e a regata branca que apareceu primeiro, que inclusive, era a</p><p>regata que Harvard enviava para os alunos dias antes, com mais alguns itens, como</p><p>boné, gorro, canetas, tudo com o símbolo da instituição. Assim, já devidamente</p><p>vestida, deitei na cama e puxei a mochila para o meu lado.</p><p>Não precisei abrir muito a mochila para descobrir que meus livros da aula da</p><p>professora Cabello não estavam lá e consequentemente, as folhas do trabalho</p><p>também não estavam.</p><p>"Isso, Lauren, muito esperta você por ter deixado os livros no armário", pensei</p><p>comigo mesma, sentindo-me nada inteligente por não ter recolhido os livros do</p><p>armário antes de voltar para o dormitório.</p><p>Lembrei-me imediatamente das orientações do primeiro dia: "Nunca deixem o seu</p><p>material de estudo no armário. Eles servem, exclusivamente para que vocês guardem</p><p>seus materiais entre uma aula e outra. Sempre que deixarem o prédio, levem seu</p><p>material para os dormitórios. É lá que vocês estudam". Senti-me mais idiota ainda</p><p>por não ter lembrado disso quando saí da aula do professor Newton. Intimamente o</p><p>culpei por meu esquecimento, já que minha mente estava muito cansada da aula dele</p><p>para lembrar de qualquer outra coisa.</p><p>Suspirei, deixando a mochila de lado. Olhei as horas no celular e eram 8:15pm, o que</p><p>significava que ainda dava tempo de ir até o campus de arquitetura e pegar meus</p><p>livros e assim, adiantar meus trabalhos. O campus ficava aberto até as 10pm, pelo</p><p>que me constava, então ainda havia tempo suficiente.</p><p>Levantei-me da cama, decidida a ir do jeito que estava, mas antes, ponderei que</p><p>àquela hora o campus ainda estava cheio de gente, alunos de pós graduação e</p><p>professores, então não seria adequado ir de regata e calça de moletom. Assim, antes</p><p>de sair, vesti o moletom de Harvard e jeans que, só depois de pegar e vestir, percebi</p><p>que eram colados demais. Mas assim estava, assim ficaria. Estava mais apresentável,</p><p>pelo menos.</p><p>Coloquei o celular no bolso de trás da calça e saí sem fazer barulho. O caminho até o</p><p>campus de arquitetura, felizmente, não era longo. Não passava de atravessar uma</p><p>praça e duas quadras, em diagonal e assim, surgia o edifício pomposo da HGSD. De</p><p>dia era maravilhoso e a luz natural o deixava maravilhoso, mas à noite, todo</p><p>estrategicamente iluminado, aquele edifício parecia ter sido enviado diretamente de</p><p>alguma civilização altamente desenvolvida que sabia como conectar sentimentos a</p><p>estruturas. Aquilo parecia ser um organismo vivo, capaz de transmitir emoções e até</p><p>mesmo de senti-las.</p><p>Subi as infinitas escadas que levavam até a entrada do edifício, quase sem tirar os</p><p>olhos da construção, fazendo-o apenas quando já estava dentro. Visto de dentro, era</p><p>como se tudo ali dialogasse com o espaço. Cada pessoa se locomovendo em</p><p>atividades particulares e individuais, parecia na verdade apenas um pequeno ser que</p><p>trabalhava para o funcionamento da grande estrutura. Tudo se encaixava</p><p>perfeitamente ali dentro. Até mesmo eu, que nunca me sentia encaixada em lugar</p><p>nenhum.</p><p>Fiz todo o caminho até o meu armário, observando atentamente cada detalhe que</p><p>antes eu não havia conseguido observar, dado o enorme fluxo de pessoa por ali</p><p>durante a manhã. Cada detalhe que eu olhava me conectava ainda mais com o</p><p>ambiente e tive vontade de ficar ali para sempre.</p><p>Peguei meus livros no armário, mais uma vez me atrapalhando para abrir o cadeado</p><p>de oito números e ao invés de voltar imediatamente para o meu dormitório, decidi</p><p>andar mais um pouco pela HGSD. Passei pelos corredores das salas de projeções e</p><p>maquetes e o que não faltavam eram alunos concentrados em seus projetos.</p><p>Provavelmente, alunos do último ano, preocupados em concluírem o curso</p><p>honrosamente. Observei, andando lentamente entre os boxes dos alunos, cada um de</p><p>seus projetos e cada coisa ali me parecia absolutamente genial.</p><p>- O que faz aqui a esta hora, caloura? - A voz da mulher surgiu tão</p><p>repentinamente atrás de mim que com o susto, quase deixei meus livros caírem, mas</p><p>com a ajuda dela, que rapidamente apoiou os livros em meu braço, não caíram.</p><p>- Pro-professora Cabello... - falei, ainda um pouco assustada, parando de respondê-</p><p>la, simplesmente por haver congelado de susto.</p><p>Ela usava um moletom de cashmere azul escuro, por cima de um delicado vestido de</p><p>tecido leve, branco, que terminava pouco acima de seus joelhos. Os pés estavam</p><p>calçados com sapatilhas brancas e detalhes dourados. O cabelo estava preso em um</p><p>coque mal feito no alto da cabeça e no rosto havia pouca maquiagem ou nenhuma.</p><p>Me olhava com um ar de dúvida e havia certa "inocência" em sua expressão. De</p><p>repente, senti-me</p><p>incomodada com a roupa que escolhera usar. Ela era</p><p>impressionante.</p><p>- Sim... sou eu, sua professora. O que faz aqui a esta hora? - Ela perguntou em um</p><p>tom ainda amigável, apenas parecendo curiosa em saber o que eu fazia ali, quando</p><p>obviamente deveria estar em meu dormitório ou em alguma festa de boas vindas aos</p><p>calouros.</p><p>- Ah! Eu... Eu esqueci meus livros no armário e vim buscá-los. - Expliquei, mostrando</p><p>os livros em meus braços, para ela.</p><p>Ela olhou os livros e pelo que percebi, os analisou, concluindo que eram os livros da</p><p>aula dela.</p><p>- Você poderia tê-los pegado amanhã. - Ela assinalou, duvidando um pouco do que eu</p><p>havia dito.</p><p>- Eu queria fazer o trabalho que a senhora passou logo, para adiantar e não deixar</p><p>acumular nada e a folha do trabalho estava dentro dos livros... - expliquei e ela</p><p>levantou a sobrancelha, duvidando mais ainda, mesmo que fosse totalmente verdade.</p><p>- E aproveitei para dar mais uma olhada aqui do campus.</p><p>- Fazer o trabalho logo? - Ela perguntou, analisando-me.</p><p>Senti-me incomodada com a maneira como ela me olhava. Não parecia acreditar em</p><p>nenhuma palavra do que eu dizia.</p><p>- Sim, professora. - Respondi objetivamente. Estava ficando constrangida com aquele</p><p>excesso de perguntas.</p><p>- Isto é inusitado, senhorita...? - Ela deixou o espaço vago, não lembrava meu nome.</p><p>- Lauren. Lauren Jauregui. - informei-lhe.</p><p>- Pois então, isto parece muito inusitado senhorita Lauren Jauregui. - Ela respondeu,</p><p>amenizando a expressão que antes estava extremamente séria.</p><p>- A senhora acha? Por que? - Perguntei, sentindo-me estranhamente intimidada pela</p><p>presença dela, por todas as coisas que eu já sabia que ela era, por toda a admiração</p><p>que instantaneamente criara por ela.</p><p>Era estranho porque embora ela fosse tudo o que era (mestre em engenharia civil,</p><p>phd em percepção, gênio, arquiteta renomada internacionalmente... e todas as mil</p><p>coisas que nem dez por cento da população mundial seria na idade dela), ela ainda</p><p>parecia uma garota. Suas feições eram muito jovens e nada a respeito dela</p><p>expressava o que Drew havia dito. De todas as formas conscientes e racionais, ela</p><p>parecia um ser humano inalcançável, mas de alguma forma irracional, ela parecia</p><p>uma garota da minha idade à quem eu poderia ter fácil acesso e me tornar amiga.</p><p>- Senhora não. - Ela me corrigiu, abrindo um sorriso amigável. - Professora em sala,</p><p>mas fora de sala, pode me chamar de Camila.</p><p>- Tudo bem... - concordei, sentindo minhas bochechas esquentarem. Sem motivo</p><p>algum, sentia-me envergonhada.</p><p>Ela pareceu perceber e sorriu.</p><p>- Eu não sou tão mais velha que você assim. - Ela continuava encarando-me,</p><p>analisando-me.</p><p>Seus olhos eram escuros e profundos, principalmente à noite, e tê-los grudados em</p><p>mim, me analisando tão minuciosamente, deixava-me desconfortável.</p><p>- Dá pra perceber! - exclamei imediatamente, mas me senti tão</p><p>envergonhada que quase me joguei no chão.</p><p>Ela sorriu docemente outra vez.</p><p>- Obrigada! Tomei isto como um elogio, senhorita Lauren.</p><p>- Lauren, apenas Lauren. - disse-lhe, tentando sentir-me mais confortável mesmo em</p><p>meio a tanto embaraço.</p><p>- Tudo bem, "Apenas Lauren". - ela sorriu. - Você deveria voltar para o seu</p><p>dormitório, Lauren. Daqui a pouco já são nove da noite. - ela disse, olhando o relógio.</p><p>- Quase isso!</p><p>- É... Eu ainda vou fazer o seu trabalho. Então é melhor eu ir mesmo. - respondi,</p><p>ajeitando os livros que eu abraçava.</p><p>- Não vai dormir? Deixe o trabalho para o final de semana, a primeira semana de aula</p><p>é sempre desgastante, os calouros sempre sofrem com o ritmo intenso de Harvard.</p><p>- Não, eu me sinto bem disposta e prefiro deixar tudo adiantado. - expliquei-lhe mais</p><p>uma vez, recebendo um olhar, novamente um tanto quanto incrédulo. - A senhora</p><p>passa... - ela me encarou como se eu tivesse dito algo errado e logo me corrigi. -</p><p>Você passa o dia inteiro aqui?</p><p>- Somente às terças e quintas. São os dias que tenho tempo para dar aula aqui.</p><p>Então dou aulas de manhã, a tarde e a noite. Tenho que dar a minha contribuição à</p><p>instituição que me formou. - Ela respondeu-me, explicando seus motivos sem nem</p><p>mesmo eu ter perguntando.</p><p>- Isso é muito generoso. - Ponderei em voz alta, mais para mim do que para ela.</p><p>A professora Camila apenas concordou com a cabeça, sorrindo docemente, mais uma</p><p>vez. O olhar de análise nunca saia de sua expressão e eu não entendia o motivo</p><p>daquilo. Sentia-me incomodada com o fato de os detalhes a respeito dela serem tão</p><p>vivos aos meus olhos, como seus olhos escuro e profundos, que pareciam comer toda</p><p>a essência que havia em volta e ao mesmo tempo, dar vida a tudo. Ou como seu</p><p>pulso fino e a tatuagem em forma de cruz em seu dedo indicador direito que estava</p><p>sutilmente escondida debaixo de um anel dourado que combinava perfeitamente com</p><p>a combinação de roupas que ela escolhera. Ou nas sobrancelhas perfeitamente</p><p>desenhadas que se ajustavam perfeitamente ao que seu olhar expressava, seja lá o</p><p>que fosse.</p><p>- Bem, eu já vou indo. - Declarei, despertando-me de meu devaneio, tentando</p><p>esconder o quando sentia-me aturdida.</p><p>- Eu acompanho você. Já estou indo para o estacionamento. - Ela disse, sem desviar</p><p>aquele olhar entorpecente do meu.</p><p>Sentia-me incomodada, mas ao mesmo tempo não queria que ela parasse de me</p><p>olhar.</p><p>- Tudo bem, me parece ótimo. - eu disse, mordendo o lábio inferior, tentando</p><p>controlar a ansiedade que estava sentindo por estar tendo um contato tão próximo</p><p>com alguém tão digno de admiração.</p><p>Ela caminhou até um box ali perto e pegou a sua bolsa e uma pasta onde carregava o</p><p>computador.</p><p>- Vamos? - Chamou-me e eu segui até ela.</p><p>- Você mora aqui em Cambridge mesmo, professora? - Perguntei, enquanto</p><p>caminhávamos pelos corredores que levavam para fora do campus.</p><p>- Camila. - Ela me corrigiu. - E não, eu moro em Boston. Venho para Cambridge</p><p>apenas às terças e quintas, para dar aula. E você, morava onde antes de vir para</p><p>Harvard?</p><p>- Em Boston também. Meus pais moram lá.</p><p>- Ah, é mesmo? E por que não quis continuar morando lá? Por que quis vir para cá?</p><p>Boston é tão perto. - Ela perguntou, soltando o cabelo exatamente no momento em</p><p>que passamos pelas portas automáticas da saída.</p><p>O vento bateu em seu cabelo e o cheiro veio diretamente em meu rosto, cobrindo</p><p>minha face. Se era possível que cheiros podiam queimar a pele, então o cheiro dela</p><p>havia queimado a minha. Demorei mais a responder do que deveria, ainda tentando</p><p>lidar com aquele cheiro. Eu admirava aquela professora de todas as maneira possíveis</p><p>agora e nada do que Drew dissera me parecia verdadeiro. Queria ser como ela em</p><p>algum momento da minha vida.</p><p>- Eu quero ter uma experiência sozinha, quero ter que fazer as coisas por</p><p>mim mesma. Quero precisar ser responsável mesmo quando eu não quero ser</p><p>responsável. Eu acho que essa é a única maneira de crescer e ser um ser humano</p><p>que realmente está contribuindo para a humanidade. - acabei de responder,</p><p>arrependendo-me imediatamente por ter sido tão explícita em minhas filosofias</p><p>jovens de dezoito anos.</p><p>Neste ponto, já havíamos parado perto de seu carro, que estava estacionado muito</p><p>próximo às escadas do edifício e Camila me olhava da mesma forma de antes,</p><p>analisando-me, cercando-me.</p><p>- Então você veio morar sozinha porque quer ser responsável? - ela perguntou,</p><p>usando novamente o tom de dúvida de antes.</p><p>- Exatamente. Não vou ter meus pais para fazerem tudo por mim a vida inteira. Eu</p><p>preciso aprender a lavar as minhas próprias roupas, a cuidar da minha própria</p><p>alimentação, das contas a pagar, e todas essas coisas que a gente precisa fazer pra</p><p>ser adulto.</p><p>A expressão de análise dela sobre mim era tão intensa que até mesmo o dedo</p><p>indicador ela havia colocado sobre os lábios.</p><p>- Você é uma jovem intrigante, "apenas Lauren". - ela disse em um tom sério, mas eu</p><p>ri.</p><p>- Eu sei, eu sei... vou me arrepender muito disso, não é? - perguntei rindo e de certa</p><p>forma admitindo algo que quase todo mundo consideraria como certo.</p><p>- De forma alguma. Acho a sua decisão muito</p><p>madura, principalmente pelos motivos</p><p>que escolheu. - ela falou, finalmente abrindo a porta do carro e guardando as suas</p><p>coisas organizadamente no banco de trás.</p><p>- Obrigada... - respondi, achando melhor não falar mais muitas coisas.</p><p>Permaneci calada, encarando o edifício impressionante da HGSD imperativo à nossa</p><p>frente.</p><p>Ela fechou a porta do carro e encostou-se, encarando o mesmo ponto que eu.</p><p>- O que acha deste edifício, Lauren? - ela perguntou e imediatamente senti-me</p><p>nervosa por precisar comentar com um gênio da arquitetura sobre a arquitetura</p><p>daquele edifício. Ela, provavelmente, queria me testar.</p><p>- Não sei falar tecnicamente sobre esse edifício ainda, professora. - falei timidamente,</p><p>sem tirar os olhos do ponto mais alto dele.</p><p>- Não quero que fale tecnicamente. Só quero saber da sua percepção a respeito dele.</p><p>- ela disse, outra vez, em um tom amigável, me fazendo sentir confortável em</p><p>responde-la.</p><p>- Bom, tudo bem... Quando eu estava chegando aqui, hoje à noite, eu percebi o</p><p>quanto esse edifício dialoga bem com tudo o que está dentro e fora dele. É como se</p><p>tudo estivesse funcionando para ele e ao mesmo tempo é como se ele surgisse de</p><p>tudo. Faz sentido? - perguntei e ela apenas assinalou com a cabeça. - Quando eu</p><p>estou lá dentro, me sinto parte de algo, me sinto encaixada e acolhida e quando</p><p>estou aqui fora, me sinto grande e pequena, o que é paradoxal, mas é o que ele me</p><p>faz sentir. A iluminação, pra mim, é absolutamente perfeita e as formas geométricas</p><p>dele me comovem. É isso! Esse edifício é absolutamente comovente. Ouvi dizer que é</p><p>novo. Não tem nem cinco anos desde a inauguração, mas para mim, dá a sensação</p><p>de que sempre esteve aí. O arquiteto que fez isso é um gênio.</p><p>Camila riu e em seguida abriu um sorriso largo que eu não entendi, mas ignorei.</p><p>- Sua percepção é muito sensível, Lauren. É bom saber que é minha aluna. - Ela</p><p>disse, simplesmente.</p><p>Fiquei sem resposta para aquilo e imediatamente todas as coisas que Drew havia dito</p><p>me vieram à cabeça. "Ela é Lúcifer. Ela reprovou toda a minha turma.". Aquilo,</p><p>simplesmente não se encaixava ao que eu estava vivenciando. Talvez ele estivesse</p><p>simplesmente exagerando ou talvez a turma dele fosse realmente um horror. Ou</p><p>talvez...</p><p>- Eu não sei, só quero ser tão boa quanto quem projetou este edifício. Eu</p><p>quero comover as pessoas. Eu quero que as pessoas percebam as minhas emoções</p><p>através das formas.</p><p>- Você acha que sente as emoções do arquiteto que projetou isso? - Ela perguntou,</p><p>curiosa.</p><p>- Não sei... Mas eu sinto emoções e eu gostaria que fossem as mesmas emoções que</p><p>ele sentiu. Um dia serei tão boa quanto ele! - declarei, deixando-me levar por minha</p><p>mente sonhadora.</p><p>- Tenho certeza que sim. - Ela sorriu e lançou-me um olhar doce. - Bom, eu preciso</p><p>ire você precisa...estudar(?). - Ela sorriu e eu sorri também, confirmando com a</p><p>cabeça. - Até a próxima aula, Lauren.</p><p>- Até mais, professora. - Ela lançou-me um olhar repreensivo, já dentro do carro. -</p><p>Camila. - corrigi-me.</p><p>A semana passou feito um raio. Ao passo que as aulas pareciam se arrastar, os dias</p><p>pareciam correr. Em um piscar de olhos já era segunda feira novamente e eu mal</p><p>havia dormido e já era terça feira. Eu estaria sendo hipócrita se dissesse que não</p><p>estava ansiosa pela aula da professora Camila, mas tentava me concentrar em todas</p><p>as outras tarefas que eu deveria realizar. A aula dela, de todas, era a melhor. Eu mal</p><p>podia esperar, tanto que na terça feira a minha disposição era quase mil.</p><p>- Você está parecendo criança de pré-escola, doida pra ver a professora. - Normani</p><p>disse, tomando um gole de seu café, enquanto saíamos da Starbucks.</p><p>O dia estava frio, o clima de verão já estava sumindo e o frio ameno do outono já</p><p>começava a se manifestar. A tonalidade das folhas nas árvores já estava ficando</p><p>desbotada, algo entre o verde e o caramelo queimado, típico de outono. Tomei um</p><p>gole do meu próprio café, antes de respondê-la.</p><p>- Eu só gosto muito da aula dela. Ela é uma professora e tanto. Uma inspiração. Você</p><p>não acha?</p><p>- Hum...sei. - ela falou, com aquele ar de incredulidade e eu revirei os olhos. Sabia</p><p>muito bem o que estava implícito em seu comentário, por isso, resolvi não responder</p><p>mais.</p><p>Chegamos à sala meia hora antes e ficamos conversando por ali com alguns colegas</p><p>da classe, com os quais já havíamos feito amizade. Exatamente às oito horas, no</p><p>exato momento em que o alarme soou, a porta se abriu e Camila entrou na sala.</p><p>Virei-me para frente, dando-lhe um sorriso que foi completamente ignorado. A</p><p>professora Cabello me encarou, viu o meu sorriso, virou o rosto e seguiu andando</p><p>para a sua mesa. Criou-se um vácuo em meu estômago. Uma sensação tão ruim que</p><p>inicialmente achei que estivesse passando mal, que tivesse comido algo errado.</p><p>- Bom dia à todos. - Ela nos cumprimentou, encostando-se em sua mesa.</p><p>Ela estava incrível. Era impressionante o fato de ela nunca errar a roupa, estava</p><p>sempre no ponto certo. Dessa vez, vestia calça social azul marinho, perfeitamente</p><p>ajustada ao seu corpo, sapatos pretos elegantérrimos e blusa social de linho branco e</p><p>mangas cumpridas, com detalhes dourados no ombro. O cabelo estava mais liso e a</p><p>maquiagem era leve.</p><p>- Bom dia. - o coro de alunos respondeu.</p><p>- Senhorita... - ela apontou para a garota sentada ao meu lado.</p><p>- Keana. - A garota respondeu.</p><p>- Sim, senhorita Keana, recolha os trabalhos de seus colegas para mim, por favor.</p><p>Ela ordenou e seguiu para o quadro magnético em vidro, onde escreveu:</p><p>"MERAKI: FAZER ALGUMA COISA COM A ALMA, CRIATIVIDADE OU AMOR."</p><p>Em seguida, encostou-se novamente em sua mesa e ficou observando a turma,</p><p>enquanto Keana recolhia os trabalhos. Seu olhar nem sequer passou por mim. Ela</p><p>estava ignorando completamente a minha existência. Keana levou até ela os</p><p>trabalhos e os entregou.</p><p>- Muito bem. Alguém pode ler o que está escrito no quadro para mim?</p><p>Eu ia ler, mas seu olhar de desprezo foi tão intenso que meu estômago pareceu estar</p><p>em queda livre. Um aluno atrás de mim leu.</p><p>- Peguem uma folha A4 em branco e coloquem em cima de suas mesas. - ela ordenou</p><p>e começou a caminhar de um lado para o outro da sala, segurando o pincel</p><p>magnético atrás de si.</p><p>Quando todos os alunos já estavam com suas folhas em cima da mesa, ela voltou a</p><p>falar.</p><p>- Você serão arquitetos e urbanistas. Tudo o que surge no cérebro de vocês, - ela</p><p>circulou a palavra criatividade com pincel vermelho, no quadro - precisa se misturar à</p><p>essência de vocês, - foi a vez de a palavra alma ser circulada - e ser expresso pela</p><p>mão de vocês com todo o sentimento - circulou a palavra amor - pelas mãos de</p><p>vocês, para os outros. Vocês não farão a arquitetura para vocês mesmos. O que eu</p><p>quero de vocês agora é que usando toda a sua criatividade, alma e amor, desenhem</p><p>qualquer coisa, livremente. Vocês podem desenhar tudo ou nada. O desafio de vocês</p><p>é ME fazer sentir o que vocês estão sentindo ao desenhar, ao pensar o que estão</p><p>desenhando. Vocês tem uma hora.</p><p>Durante os primeiros trinta minutos eu me empenhei em desenhar todas as formas</p><p>geométricas possíveis. Combinei-as de várias maneiras e nada expressava o que eu</p><p>queria. Até que, por fim, cheguei a uma forma que ao mesmo tempo que para mim</p><p>dizia muito, não dizia absolutamente nada. Comecei a trabalhar nisto e pelos vinte</p><p>minutos seguintes eu havia conseguido um resultado que eu considerava</p><p>suficientemente expressivo e bom. Não era nada profissional, mas estava chegando</p><p>lá.</p><p>Durante o meu processo de criação a professora Cabello começou a andar pela sala,</p><p>analisando os desenhos de todos os alunos e não falou absolutamente nada. Apenas</p><p>olhava e seguia para a próxima mesa. Por último, veio à minha mesa.</p><p>- Isso está um desastre. - Ela disse em um tom de voz que todos puderam escutar.</p><p>Levantei a cabeça para olhá-la na esperança de que ela dissesse que estava</p><p>brincando, mas sua expressão era terrivelmente séria, quase como se eu tivesse</p><p>acabado de fazer alguma coisa muito ruim para ela.</p>