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OUVI DIZER QUE ERA VOCÊ
 
Copyright © 2023 Bruna Souza
Ilustrações: Eduarda Oliveira (@arda.arts) 
Diagramação: Bruna Souza 
Betagem: João V., Lavinia, Leticia, M. Victoria, Marcos e Mikaela 
Leitura sensível: M. Victoria 
Esta é uma obra de ficção. Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes,
pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. 
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida ou
transmitida, sejam quaisquer forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos,
fotográficos, gravação ou quaisquer outros, sem autorização por escrito da autora. 
Para aqueles que já acharam que tinham se 
quebrado para sempre, mas encontraram 
forças o bastante para se reconstruírem.
“Me fale em quantos pedaços você foi partida antes que eu te
encontrasse, quero saber quantas versões suas terei que
amar.”
— FERNANDO MACHADO
SINOPSE
Melina sempre foi doce, companheira e carinhosa. Jogava
vôlei desde pequena, até que um trauma a impediu de praticar o
esporte durante um período e mudou totalmente sua vida. Mesmo
se sentindo completamente quebrada, ela tentava continuar sendo
alegre e espirituosa, ignorando o peso constante em seu peito.
Enquanto Santiago cresceu praticamente sozinho e isso o
fez se fechar para o mundo. Ranzinza, calado e frio, com todos que
não fossem seus primos, ele não fazia esforço nenhum para tentar
ser agradável e pouco se importava com o que pensavam a seu
respeito, mas ainda assim era um dos melhores bailarinos de sua
idade.
Em uma tentativa de o destino mostrar que polos opostos se
atraem, a vida dos dois é mais uma vez cruzada de forma
inesperada e entre colégios rivais, personalidades totalmente
distintas e pessoas próximas que não conseguem conviver de forma
civilizada, ambos notam que as diferenças são gritantes demais.
Talvez eles se odeiem, mas é um fato que existe uma
atração entre os dois. E o resultado não pode ser diferente de um
desastre quando a convivência passa a ser contínua.
AVISOS
Olá, querido leitor, antes de qualquer coisa quero agradecer
por dar uma chance a Melina e Santiago e espero que possa se
divertir e se emocionar lendo a história de uma jogadora
traumatizada e um bailarino ranzinza que acreditam se odiar, mas
descobrem que talvez possam precisar um do outro.
Esse livro é classificado como +18 e possuí os seguintes
gatilhos: crise de ansiedade, relação abusiva familiar, abandono
afetivo, agressão, luto e conteúdo sexual. Caso não se sinta
confortável com algo, priorise sua saúde mental.
Espero que faça uma boa leitura.
Você também pode me encontrar aqui:
Instagram/Twitter = @bsouzaautora
CAPÍTULO 1
Sábado, 28 de agosto de 2021
 
“Tudo bem não estar bem
Quando você está para baixo e se sente cansado
Tudo bem não estar bem”
— Ok Not To Be Okay, Mashmello (feat. Demi Lovato)
 
O barulho das máquinas ligadas era uma cacofonia,
enquanto eu tentava suportar a dor excruciante que começava a
despontar com o fim do efeito da medicação.
Tudo naquele lugar me sufocava, a cama do hospital, o olhar
de compaixão das enfermeiras que passavam para checar se
estava tudo bem, até mesmo as flores brancas que minhas colegas
do vôlei trouxeram e que, naquele momento, estavam em cima da
mesinha ao meu lado, como se fosse mudar algo e não servisse
apenas como um lembrete de que eu nunca seria a mesma.
Sempre me vi como um tipo de pessoa que não sentia medo
de muitas coisas. Estava constantemente disposta a assumir o risco
das minhas ações e lidar com as consequências depois,
enfrentando tudo de frente.
Porém, nesse dia tudo o que eu acreditava desmoronou. O
medo passou a ser um sentimento constante dentro de mim, me
deixando sem ação, como se estivesse congelada, porque naquele
momento quando tentei fazer alguma coisa… bem, foi um desastre.
Minha vida terminou naquele instante, não de forma literal,
mas meu coração se partiu de formas que eu nem imaginava serem
possíveis e eu já não via mais solução alguma para conseguir
reconstruir cada parte minha que tinha se quebrado. Era como se
aquela garota alegre e esportiva tivesse sido abduzida e substituída
por uma versão cabisbaixa, insegura e medrosa, que se esforçava
até demais para fingir que tudo continuava bem.
— Melina. — A voz totalmente familiar da minha terapeuta
ecoou pelo consultório, me tirando de meus pensamentos e me
trazendo de volta a sua sala com paredes brancas e de tamanho
considerável. Além de dois sofás bem posicionados, para que eu
escolhesse em qual desejava me sentar para falar sobre como
andava infeliz, existiam luminárias quadradas que desciam do teto,
uma poltrona de frente para mim, onde a psicóloga me observava e
uma enorme janela que dava uma visão perfeita dos outros prédios
grandes do centro de Vila dos Anjos.
Encarei a mulher, tentando me lembrar do que exatamente
ela tinha perguntado, mas passar tempo demais lembrando do que
aconteceu tinha me distraído.
— Desculpa, acho que não estava prestando atenção —
falei, evitando fitar Jaqueline diretamente, já que ela tinha um olhar
estreito, que acabava tornando seus olhos, de tom quase amarelo,
um pouco assustadores. — Pode repetir por favor?
— Perguntei como está — respondeu, suspirando
levemente.
Claro, aquela pergunta clássica do início de toda sessão há
quase um ano.
— Estou ótima — menti, forçando um sorriso que Jaqueline
sabia bem que não era sincero.
— Faz praticamente um ano que estamos nessa, Melina. Por
que não tenta… colocar um pouco para fora?
Suspirei, verdadeiramente cansada. Talvez desabafar com a
mulher que conseguia ficar uma hora apenas olhando para a minha
cara há meses, fosse uma opção boa. Ela era simpática, de toda
forma, além de literalmente formada para escutar meus problemas.
E eu já não aguentava mais lidar com tudo sozinha.
— Ainda não consegui jogar, se é isso que quer perguntar.
— Como se sente quando tenta ir para a quadra?
— Sufocada — admiti, antes mesmo de notar as palavras
escapando de meus lábios.
— Bom, chegamos a algum lugar. — Ela deu um sorriso
vitorioso.
A avaliei durante alguns segundos, antes de soltar mais um
suspiro e apenas ignorar o alerta de silêncio em minha cabeça.
Retomar aquele assunto, sempre me levava novamente para o
fatídico dia e a cada momento eu me sentia pior.
— Sinceramente, sei que meu pai só quer o melhor para
mim, mas é meio cansativo ele colocar tanta expectativa. Minha
perna está melhor, mas… Eu não quero, não consigo ir jogar.
— Já pensou que talvez você não precise necessariamente
voltar para o vôlei?
— Como assim? — questionei, me ajeitando no sofá e
cruzando as pernas.
— Você quer voltar? — Jaqueline perguntou, dando ênfase.
Parei por um minuto, considerando o que ela havia dito. Eu
queria voltar? Mesmo que eu amasse jogar, parecia algo errado…
Como se isso fizesse parte de outra pessoa, como se a Melina de
antes não fosse a mesma de atualmente.
— Não sei — respondi suspirando, sentindo um peso sair
das minhas costas.
Jaqueline me olhou com atenção, talvez tentando decifrar o
que aquele novo suspiro significava. Provavelmente se lembrando
de algum artigo da faculdade “As Cinco Linguagens do Suspiro
Comportamental” ou algo assim. Esse pensamento quase me fez rir,
se não fossem os olhos amarelos me observando, como se cada
movimento mínimo revelasse um pouco da minha alma.
— Você poderia avaliar outras opções, pelo menos até se
sentir pronta para voltar a jogar.
— Como o quê?
— Talvez dança? Música? Lembro que comentou que gosta
disso.
— Eu fazia Jazz, mas não danço desde os quinze anos.
— São apenas opções para considerar, pode pensar em
outra coisa também.
Aquela frase me deixou um pouco pensativa. Talvez o meu
grande erro tenha sido tentar com tanto afinco voltar para uma coisa
que eu já não me sentia bem, só por ser algo que eu fazia antes.
Encontrar uma nova atividade poderia até ser uma ideia boa,
embora eu não soubesse se estava realmente pronta e nem por
onde começar, considerando que existiam grandes chances do meu
pai não lidar muito bem comuma coisa nova. Suspirei pensando na
reação dele, não queria decepcioná-lo e, por mais que eu tentasse
ser positiva, sabia que não seria fácil.
Mas depois de tudo o que aconteceu… Eu precisava de algo
para me distrair, para me sentir eu mesma de novo, não uma
sombra da pessoa que eu já fui. Por mais que a ideia me revirasse o
estômago, minha melhor opção era fazer em segredo, pelo menos
até saber que meu pai estaria pronto para lidar com minhas
escolhas.
Continuei a sessão durante mais longos minutos, contando
sobre coisas da minha semana e recebendo observações
cautelosas de Jaqueline.
Saí da sala assim que terminou, me deparando com uma
das minhas pessoas favoritas, Theodoro, sentado na cadeira bege
da sala de espera. Por mais que eu tivesse insistido veementemente
que ele não precisava me acompanhar na sessão, não resultou em
nada, no final ele ainda estava ali, sentado por uma hora na cadeira
dura. Embora eu fingisse que não tinha gostado, no fundo, era legal
ter alguém para fazer companhia depois de um longo tempo
revivendo o passado.
Theodoro — ou apenas Theo, para qualquer pessoa
existente, já que ele odiava seu nome inteiro — era meu primo mais
velho. Ele não morava na cidade, mas estava me visitando, como
fazia regularmente. Às vezes eu me sentia mais como outra irmã
mais nova dele do que realmente prima, pelo tanto que me protegia.
— E aí, como foi hoje? — ele questionou, enquanto se
levantava lentamente. — Ai! Alguém deveria trocar essas cadeiras,
não vou conseguir andar o dia inteiro agora — reclamou, colocando
a mão nas costas enquanto se alongava.
Dei um sorriso debochado e cruzei os braços diante da cena.
Os olhos castanhos escuros de Theo se semicerraram em minha
direção, como se me desafiassem a rir.
Soltei uma gargalhada ruidosa, mesmo não sendo tão
engraçado assim, mas parecia com o sentimento de quando alguém
fala: “se você rir, você está mentindo”, mesmo dizendo a verdade da
vontade de rir.
— Eu poderia ficar descadeirado e você ainda ri da minha
cara? — ele reclamou, dramaticamente, disfarçando um sorriso.
— Fazer o que, você poderia ter ficado lá em casa deitado
na minha cama confortável e espaçosa, mas seu impulso de
curiosidade foi maior, não é? — respondi sarcasticamente — Você
escutou atrás da porta? — perguntei baixinho, como se estivesse
confidencializando um segredo.
— Até tentei, mas a moça da recepção não tirava os olhos
de mim, não consegui fazer muita coisa. — Deu de ombros com um
olhar sofrido. — Essa é a maldição que eu carrego por ser
irresistível desse jeito.
Revirei os olhos, Theo era realmente lindo, seu cabelo
castanho levemente bagunçado e seu corpo atlético eram o sonho
de qualquer um, o que normalmente incluía a maioria das pessoas
que andavam comigo e viviam babando pelo meu primo. Porém, eu
não o deixaria saber disso tão facilmente.
— Coitada, a mulher deve ser cega.
— Com ciúmes, priminha? — meu primo questionou
enquanto bagunçava meu cabelo, do mesmo jeito que fazia quando
éramos pequenos.
Senti minhas bochechas esquentarem enquanto tirava a
mão dele da minha cabeça, sabendo que meu cabelo deveria estar
uma bela bagunça no momento.
— Theo! Quantas vezes eu disse que não gosto que você
faça isso? — reclamei, tentando bater em seu braço e falhando
miseravelmente.
— Olha que brava, cuidado para não se machucar, priminha
— ele disse, rindo. A cada minuto meu rosto ficava mais vermelho,
principalmente após perceber o olhar questionador da recepcionista
em nossa direção.
— Alguém já te contou que você é insuportável?
— Eu também te amo, Memelzinha — Theo replicou,
colocando o braço em meus ombros enquanto íamos para o
elevador.
— Não me chame assim! — exclamei e ele deu uma risada,
provavelmente se divertindo ao me ver irritada. Bufei e revirei os
olhos enquanto entrávamos no elevador, o peso do braço do Theo
ainda nos meus ombros, mesmo irritada não quis tirá-lo, me
sentindo estranhamente reconfortada pelo gesto.
Sabia que ele só estava me irritando por uma tentativa de
me tirar dos pensamentos que me assombravam, e que esse era o
jeito dele de tentar fazer com que eu me sentisse melhor.
— Você não me respondeu — Theo falou, retirando o braço
dos meus ombros e pressionando o botão do subsolo.
— O que exatamente?
— Como foi hoje? — perguntou com cuidado, como se
estivesse com medo da minha reação. — Sabe que pode falar
comigo, sobre qualquer coisa.
Suspirei, olhando para a parede cinza brilhante do elevador,
lembrando das palavras de Jaqueline. Você poderia avaliar outras
opções, pelo menos até se sentir pronta para voltar a jogar.
— Meio que sempre é a mesma coisa, mas recebi uma
perspectiva interessante — falei simplesmente, deixando de fora o
que a terapeuta havia proposto, mesmo sabendo que eu poderia
contar se quisesse… não era nada certo ainda, nem tinha certeza
se realmente faria isso, então não queria dar esperanças a ele.
— Ah, isso é bom. — Theo ajeitou a parte da frente de seu
cabelo castanho.
— Precisa mesmo voltar para Monte Sul amanhã? —
perguntei, mostrando um beicinho e agarrando o braço
exageradamente musculoso dele, enquanto encarava seu rosto,
coberto por aquele bigode que não combinava tanto com meu
primo, embora ele alegasse ter se inspirado no Caio Castro.
— Vim só para o fim de semana, você sabe que as longas
doze horas para chegar aqui de carro matam qualquer um e eu
preciso estar descansado na terça-feira, mas prometo que nas férias
eu venho para passar um tempo com você.
Eu sabia que era um esforço enorme da parte dele, até
porque se aquelas cadeiras podiam deixar as costas travadas, nada
se comparava a doze horas sentado em um carro dirigindo. Teve
uma época que eu me questionava o motivo para ele não vir de
avião, mas depois entendi que Theo gostava de estar com o carro
para poder me levar para todos os cantos, por mais longe que fosse,
como se pudesse aliviar um pouco da minha tristeza e tinha dias
que ele realmente conseguia.
— Vou cobrar. — O soltei e sorri para ele, que colocou a
mão na porta, assim que ela abriu, para eu sair.
Logo entramos no carro e Theo começou a dirigir em
silêncio. Eu nunca falava quando era Theodoro no volante, ou as
consequências poderiam ser um tanto desastrosas, considerando
que meu primo não era exatamente o melhor dos motoristas e até
Ariella — irmã mais nova dele e minha prima favorita —, com todo
seu desastre e impaciência conseguia dirigir melhor, mesmo
odiando.
O que mais temíamos era quando ele vinha para Vila dos
Anjos sozinho, porque um rapaz desastrado dirigindo por horas em
uma estrada não era a melhor das opções, mas no fim, tudo sempre
ficava bem, desde que ele estivesse focado.
— Pode me deixar no Museu Municipal? — questionei,
segurando firme no banco apenas por garantia.
— De novo? Não tinha dito que estava lá semana passada?
— Você sabe que adoro museus — respondi, dando de
ombros. Ninguém entendia essa minha paixão, como se fosse algo
realmente estranho, mas para mim era libertador.
— Certo, mas quando quiser ir embora me manda
mensagem que vou te buscar.
— Pode deixar, priminho — eu disse, no mesmo tom que ele
usou comigo na sala de espera e sorri quando Theo revirou os
olhos.
✽ ✽ ✽
Eu andava pelos corredores, admirando cada uma das
exposições lentamente. Eu amava arte, qualquer tipo de arte. Para
mim era como uma espécie de história contada de maneiras
diferentes e eu constantemente parava para as admirar, observando
a técnica, a beleza por trás de cada jogo de sombras ou pincelada,
às vezes até inventava cenários e histórias na minha cabeça sobre
o que via. Eu poderia passar horas olhando somente uma peça,
mas nunca seria o suficiente, como se em cada minuto eu
encontrasse visões diferentes para analisar.
Talvez um dos únicos problemas em passar tanto tempo do
fim de semana em museus, vendo várias obras repetidas, mas
ainda assim continuar apaixonada, fosse o fato que eu ficava ainda
mais distraída que o normal, embora nem acreditasse que isso
fosse possível, já que na maior parte do tempo eu estava
navegando dentro da minhamente e esquecendo de viver no
mundo real.
E por culpa da minha distração, não reparei que tinha uma
pessoa parada no meio do caminho, dando de cara com o corpo
alto, que parecia mais uma parede naquele momento, considerando
os músculos rígidos.
Senti as mãos do indivíduo pegarem a minha cintura para
evitar que eu caísse de costas no chão, e provavelmente me
machucasse toda. Mas infelizmente minha testa não teve a mesma
sorte, já que ela colidiu em cheio com o peitoral do homem à minha
frente.
— Eu sinto muito — sussurrei, abrindo os olhos que eu tinha
fechado de modo automático e ficando um tanto paralisada ao me
deparar com ele.
Alguns consideráveis centímetros mais alto que eu, o cabelo
loiro e cacheado inconfundível e seus olhos de um azul profundo,
tão profundo como uma pintura pincelada com maestria. A cada vez
que eu o via, concluía como o mundo era injusto.
— Olhe por onde anda, ou pode acabar matando alguém. —
A voz dele soou rouca de uma maneira que eu já estava bastante
acostumada, mas, mesmo assim, tive que evitar dar um salto por
conta da surpresa de escutá-la, tentando me recuperar rapidamente
para que ele não ganhasse motivo para me perturbar depois.
Se controle, Melina!
— Foi um acidente… — respondi, cruzando os braços
defensivamente, contra o tom do rapaz.
— Percebi — ele me interrompeu, tirando as mãos da minha
cintura. Não pude deixar de arquear as sobrancelhas, sem acreditar
que eu ainda me esforçava para tentar ser minimamente civilizada.
Todas as vezes em que nos encontramos aquele garoto me
olhou de um jeito que fazia parecer que eu tinha cometido um crime,
além do tom grosseiro presente em sua voz constantemente.
Tensionei a mandíbula, tentando ficar tranquila e não armar
uma cena no meio do museu, porque eu ainda tinha que manter a
classe, mesmo que estivesse lidando com Santiago.
— Com licença — pedi, recebendo um olhar que se
assemelhava ao desprezo.
Soltei um suspiro, me desviando do rapaz e tentando com
vigor ignorar o que quer que tivesse acabado de acontecer. Minha
vida andava sendo muito mais fácil sem encontrar com ele.
Me assustei ao sentir um cutucão no ombro, que fez eu me
virar de imediato e ficar ainda mais acanhada ao ver que ele
segurava um celular idêntico ao meu. Instintivamente coloquei a
mão no bolso do casaco xadrez, mas não havia nada ali.
Fechei os olhos, mortificada ao perceber que Santiago
segurava meu celular, que provavelmente tinha caído quando
havíamos nos esbarrado.
Tem como isso ficar pior?
— Acho que além de desastrada, também é meio distraída
— falou, dando de ombros.
Eu quis tanto xingar ele e arrancar o olhar presunçoso do
meio daquele rosto perfeitinho, mas me controlei e apenas peguei o
celular, querendo sair dali o mais rápido possível. Santiago, como
sempre, não mostrou nenhuma expressão diferente e sem dizer
nada, apenas desviou de mim e continuou andando.
Maldito robô sem emoção!
Revirei os olhos, o que eu queria ter feito assim que o idiota
abriu a boca. Balancei a cabeça, e liguei meu celular, me
assustando com o horário, já que estava quase na hora do jogo de
basquete e eu não queria me atrasar. Então acabei mandando
mensagem para o Theo antes de colocar o celular no bolso e seguir
para o último corredor de exposições. Comecei a rir assim que
entrei na conversa dele, porque Theo tinha mudado o nome de seu
contato.
Melina: Quem deixou você mudar seu nome?
Melina: Prepara a carruagem que já deu meia-noite e a
Cinderela tem que ir pro baile.
Primo Mais Lindo: Esse nome passa mais verdade.
Primo Mais Lindo: E eu virei fada madrinha agora, menina?
Primo Mais Lindo: Acho que você tá falando do filme errado…
Primo Mais Lindo: Desde quando a Fiona vira Cinderela? Se
perdeu toda.
Melina: Anda abusado, hein?
Melina: Acho que vou ter que comer sozinha o bolo de
chocolate que comprei pra você.
Primo Mais Lindo: Não precisa exagerar, princesa linda do meu
coração!
Primo Mais Lindo: Já tô pegando as chaves.
Primo Mais Lindo: Não se esqueça que eu te amo e você é a prima
mais linda desse mundo.
Melina: O que um bolo de chocolate não faz, né?
Primo Mais Lindo: Infelizmente eu sou um neném que precisa de
alimentos e cuidados.
Melina: Ok, neném, vou esperar no portão 1.
Primo Mais Lindo: Chego em dez
 
CAPÍTULO 2
Sábado, 28 de agosto de 2021
 
“Eu me pergunto se estou sendo realista
Eu falo o que eu penso ou eu filtro como me sinto?
Eu me pergunto, não seria bom?
Viver em um mundo que não é preto e branco?”
— Wonder, Shawn Mendes
 
Existiam dias em que eu me perguntava o que estava
fazendo fora da cama, ou até mesmo acordado. A única coisa que
eu desejava era desaparecer e isso era uma bosta.
Eu sabia que minha casa nunca estava vazia, todos os dez
empregados contratados pelo meu genitor passeando de um lado
pelo outro me provavam isso, mas ainda assim, a solidão se
alastrava em meu peito e eu me perguntava quando exatamente
viver tinha se tornado sinônimo a uma infelicidade eterna.
Não era novidade para ninguém que eu via o mundo de
forma diferente, tudo parecia cinza e tedioso durante cada segundo
de cada dia. E talvez se meu tom de voz irritado não fosse o
bastante para demonstrar isso, minha expressão constante de tédio
provavelmente era.
Sentei em uma das poltronas pretas que ficavam próximas
da entrada da casa, esperando sem muita paciência por David, meu
primo, também conhecido como a criatura mais folgada já nascida.
— Santiago, veio mesmo me buscar? — A voz de David
ecoou pelo ambiente, me fazendo observar sua espécie de entrada
dramática.
Meu primo descia a escada do lado direito, fingindo estar em
câmera lenta e jogando o cabelo castanho-claro para o lado. Foi um
dos momentos em que mais me questionei porque eu ainda me
esforçava para levantar dos meus lençóis quentinhos.
— Não, é só um delírio da sua cabeça — retruquei, me
levantando de supetão e soltando um suspiro cansado.
Ele terminou de descer as escadas, parando na minha frente
e me encarando com aqueles olhos exageradamente verdes, que se
estreitavam levemente.
— Onde está a Ana? — perguntou, enquanto desviava os
olhos do meu rosto para olhar o cômodo, em busca de sua irmã. —
Se eu me atrasar, o treinador vai me fritar e não posso decepcionar
todas as gatas que vão estar lá para me ver.
Revirei tantos os olhos, que cogitei seriamente que a
qualquer momento eles saltariam para fora do meu rosto e senti a
mesma irritação diária invadindo o meu corpo, como se por acaso
eu fosse o guarda costas da minha prima para saber onde ela anda
a cada hora do dia, pensei
Talvez eu precisasse de terapia.
— Como vou saber onde a sua irmã está, David? —
questionei, cruzando os braços.
— Talvez porque ela é sua prima?
— Quase dezenove anos e vocês não param de brigar
nunca? — Ana Carolina perguntou, me fazendo dar um pulinho pelo
susto causado por sua presença repentina.
— Vai ser assombração lá na puta que pariu, Carol — David
falou, mostrando o dedo do meio para a irmã.
— Cala a boca, David, vamos logo para esse jogo — a
menina retrucou, revirando os olhos na direção de seu irmão.
— Contra quem vão jogar mesmo? — perguntei, encarando
meu primo, esperando que aquela tortura acabasse de uma vez e
eu pudesse voltar para minha cama e dormir.
— São Sebastião, para o desespero de todos os presentes.
— Ah minha nossa, por que não me avisaram que seria uma
guerra e não um jogo? — Ana dramatizou, se jogando na poltrona
que eu estava sentado há poucos minutos.
Encarei meus dois primos, tentando com afinco não sentir
vontade de esganar eles. Qual era a dificuldade de parar de
enrolação e ir direto para o carro?
Infelizmente, nós não nos desgrudávamos desde pequenos
e isso só ficou ainda mais intenso depois que meus tios e os dois se
mudaram para a minha casa quando eu tinha dez anos. Mas não
era como se eu não quisesse jogar eles — principalmente David —
pela janela do segundo andar em praticamente todos os dias.
— Não ia se atrasar? — questionei David, que arregalou os
olhos quando viu que se continuasse com aquela conversa iria
chegar emcima da hora no jogo.
— Vamos logo, tenho que encontrar uma pessoa antes do
jogo começar — meu primo falou e eu tive que me controlar, mais
uma vez, para não revirar meus olhos.
— Quem? — Ana perguntou, ficando em pé e olhando para
o irmão severamente.
Chegava a ser cômico a expressão brava da garota,
considerando que ela tinha cerca de 1,50 de altura e parecia uma
criança, mesmo já tendo dezessete anos. Seus cabelos crespos,
volumosos e escuros estavam presos em um rabo de cavalo, os
olhos castanhos se encontravam totalmente destacados pelos cílios
enormes, que me fizeram questionar se ela tinha feito algum tipo de
alongamento. E sua pele preta retinta estava tão absurdamente
hidratada que chegava a brilhar com a luz do lustre bem acima de
nós três.
— Não é da sua conta, Ana Carolina — David pronunciou
irritadiço.
— Você é meu irmão e um puta de um irresponsável, óbvio
que é da minha conta. — Minha prima cruzou os braços, cerrando
os olhos e o rapaz a imitou.
Tinha horas que aqueles dois eram tão absurdamente
parecidos que eu me questionava se Ana era realmente adotada.
— Preciso me encontrar com uma mina, sua imbecil — ele
falou, chocando um total de zero pessoas já que, assim que disse
que iria encontrar uma pessoa, eu e Ana já havíamos entendido o
que David iria fazer.
— Você e essas garotinhas… tenho pena delas. — Ana
abaixou os braços, apenas direcionando uma careta de
desaprovação para seu irmão.
Talvez criticar cada movimento do meu primo fosse uma
espécie de hobby para Carol, e eu não poderia negar que era meu
também em certos dias.
— Garotinha é você, nem saiu da adolescência ainda, toma
vergonha — David reclamou, mostrando a língua como uma criança.
— Para ver como as coisas estão feias para o seu lado, eu
nem saí da adolescência e já sou mais responsável que você.
— Calem a boca — pedi, suspirando raivosamente, cada vez
mais impaciente. — Vamos nos atrasar e se eu escutar alguém
reclamando de atrasos hoje, juro que não me responsabilizo por
meus atos.
— Ai que medo, você é tão assustador, Santiago — Ana
debochou, levantando uma das sobrancelhas para mim e eu
semicerrei meus olhos em sua direção.
— Vai para a merda, Carol. Estou indo para o carro e vou
ligar ele em dois minutos, se não estiverem lá, vocês vão andando
para a porra do ginásio — respondi e sem esperar por eles, comecei
a ir em direção ao lugar onde eu havia deixado o carro.
David se encolheu levemente e pegou a mochila que estava
jogada na outra poltrona, me seguindo em direção a porta preta e
gigante da entrada, assim como a Ana, que andava de forma
apressada, provavelmente para acompanhar os passos do irmão,
fazendo o barulho dos saltos ecoarem pelo piso.
O sentido de ir de salto para um ginásio? Eu realmente não
sabia, mas não seria eu que começaria a cuidar do vestuário de
uma adolescente.
Rapidamente nós três estávamos no carro, partindo em
direção a mais uma porra de jogo em que teria que ficar com a
bunda doendo para mostrar apoio ao meu primo.
✽ ✽ ✽
Eu estava puto. Era algo nítido em meu rosto. Minha bunda
realmente doía graças aquele banco desconfortável do ginásio,
assim como eu já imaginava que aconteceria e ainda Ana Carolina
tinha feito a gentileza de decidir ir embora mais cedo, para encontrar
só Deus sabe quem.
O time do meu colégio estava perdendo por dois pontos e
faltava menos de cinco minutos para acabar a partida, o que
significava que era o fim e teríamos que aguentar os imbecis do São
Sebastião se gabando por longas semanas.
Eu não era do tipo que comprava brigas, muito menos
quando se tratava de disputas entre jogadores adolescentes e
revoltados, mas o capitão do São Sebastião já tinha mexido com
Ana e isso era uma coisa que eu nunca perdoaria.
Tinham dias em que eu queria matá-la? Sim. Jogá-la em um
rio porque não sabia nadar? Provavelmente. Arremessá-la de um
carro em movimento? Sempre. Ou dar amendoim para ela comer
considerando que era alérgica? Com certeza. Mas Carol ainda era
como uma irmã mais nova e ninguém, além de mim e David, poderia
fazer nada com ela.
Me levantei de supetão para xingar mentalmente um dos
jogadores que fez um passe ridículo e foi nesse momento, que
acabei visualizando o que eu tentava constantemente ignorar.
Aquele maldito cabelo castanho com sutis ondulações que
eu conhecia bem até demais, a ponto que seria impossível não
reconhecer, estava na arquibancada do outro lado, a uma distância
considerável de mim. A observei com atenção enquanto falava
alguma coisa com Nina, a melhor amiga, e quase consegui escutar
aquela voz inconfundível e insuportável ecoando na minha cabeça.
O apito, avisando que o jogo tinha terminado invadiu meus
tímpanos, fazendo com que a atenção que eu tinha direcionado para
ela fosse interrompida e eu focasse na expressão irritada de David,
que parecia prestes a socar o ar, enquanto os treinadores saiam da
quadra por qualquer motivo que fosse.
Dois dos jogadores do time do meu colégio se aproximaram
do meu primo, que era o capitão, fazendo algum comentário que
não consegui escutar e rapidamente começando a olhar na direção
da arquibancada do outro lado.
Isso foi o suficiente para que Nicolas, o capitão brutamontes
do São Sebastião se aproximasse, falando alguma coisa que deixou
David vermelho, me surpreendendo, já que meu primo, embora
debochado, costumava ser quase calmo. Isso claro, se não o
provocasse, ou não fosse um de seus dias ruins, porque se fosse o
caso, o rapaz era como uma bomba.
— REPETE ISSO E EU JURO QUE ARREBENTO ESSA
SUA CARA — David gritou, erguendo o dedo na direção do Nicolas
e isso foi o suficiente para iniciar uma espécie de guerra no ginásio.
Consegui ver Melina pulando a grade da arquibancada,
acompanhada da Nina, e correndo na direção dos dois capitães
descontrolados, mas minha visão se limitou a isso quando uma
enorme aglomeração se formou em volta do meu primo e Nicolas.
Comecei a descer tranquilamente os degraus, andando até a
porta da arquibancada, porque eu me recusava a sujar meu casaco
pulando aquele negócio apenas para livrar meu primo de mais uma
das suas confusões.
Demorei alguns minutos para chegar no lugar que eles
estavam e David tinha desaparecido. O único rastro daquela briga
era a Melina, segurando o rosto do Nicolas de maneira próxima
demais, o que me obrigou a lembrar que eles namoravam e como
isso era o ponto-chave de todo o ranço que eu sentia por ela. Era
simplesmente impossível alguém decente ser próximo daquele
bosta.
Quando Melina o soltou, consegui escutar o rapaz dizer:
— Me desculpa, Mattos.
Não entendi o que ela respondeu depois de abraçá-lo, mas
foi o bastante para Nicolas sair da quadra, em direção ao vestiário.
A encarei de costas por alguns segundos, ficando um pouco
enojado pela situação que tinha acabado de presenciar. Talvez por
isso, eu tenha acabado soando ainda mais grosso quando
perguntei:
— Onde está o David?
Acabei recebendo um olhar franzido e avaliativo em minha
direção, conforme me fitava de cima a baixo e eu precisei prender a
respiração para manter minha expressão indiferente, que
normalmente era extremamente fácil e natural, mas que naquele
momento parecia ser impossível por tanta irritação que eu sentia.
CAPÍTULO 3
Sábado, 28 de agosto de 2021
Deveria agradecer aos céus por Theo ser tão paciente, já
que tinha me deixado no ginásio sem nem ao menos questionar
alguma coisa e ainda informando que se precisasse, ele me
buscaria novamente. Mesmo temendo pela minha vida quando
estávamos no carro, era ótimo ter uma espécie de motorista.
Comecei a descer as escadas da arquibancada, procurando
por minha melhor amiga que, provavelmente, já tinha chegado,
considerando toda sua pontualidade. O que, com certeza, não era
uma qualidade que eu possuía, levando em consideração meu
superpoder de me atrasar em praticamente todos os compromissos
que eu tinha.
— Melina! — Nina gritou e eu sorri ao avistar seus longos
cabelos castanhos e cacheados na primeira fileira da arquibancada.
Andei até ela, lhe dando um abraço rápido assim que a
alcancei.Nina usava uma blusa azul que combinava absurdamente
com sua pele preta em um tom amendoado.
— Você quase perdeu o começo do jogo, amiga — Nina me
avisou, cruzando os braços e curvando os lábios cheios e
pontiagudos em uma espécie de careta de reprovação.
— Eu sei, por sorte o Theo foi me buscar.
— Seu primo está na cidade? — A jovem começou a olhar
em volta com curiosidade e interesse, provavelmente procurando
por Theo.
Levantei as sobrancelhas e dei uma risada de escárnio.
Theo arrasava corações por onde passava, coitado. Não havia
dúvidas que em algum lugar tinham criado um grupo, onde
fofocavam sobre ele em mensagens de texto.
— Toma vergonha, meu primo é sete anos mais velho que a
gente — falei, mas meu tom bem-humorado estragou qualquer
repreensão que pretendia dar.
— Melina, olhar não exige idade, não é minha culpa se você
tem um primo gato. — Nina levantou as mãos em sinal de rendição
enquanto se defendia.
— Gato e com o coração comprometido, pare de gracinha —
a lembrei e ela fez um beicinho como se aquela notícia a deixasse
triste, o que eu sabia que era brincadeira.
Antes que Nina pudesse me responder, os gritos vindos de
algumas garotas do outro lado da arquibancada ecoaram pelo
ginásio, nos informando que os jogadores estavam chegando.
Aquele era um dos jogos de basquete mais esperados dos
últimos meses, nosso colégio contra o Santana. Aqueles riquinhos
mimados estavam merecendo serem totalmente acabados pelo
nosso time.
O ódio entre os dois colégios era tão claro, que o ginásio
estava lotado, mesmo sendo um sábado e adolescentes terem
coisas muito mais interessantes para fazer no fim de semana do que
assistir a um jogo. Mas basquete e vôlei eram tão importantes em
Vila dos Anjos que acabavam ganhando até mais destaque que o
futebol, o que chamava a atenção até mesmo dos jovens. Vários
jogadores daqui já tinham ido para nacionais e coisas do tipo, então
isso acabava aumentando ainda mais a rivalidade entre nossas
escolas.
O primeiro time entrando era o do colégio Santana, o que
explicava o motivo de ser a arquibancada do outro lado gritando,
considerando que nós tínhamos que ficar separados. Quando
deixavam as torcidas rivais se juntarem nunca terminava bem, pelo
simples fato de que somos competitivos.
Observei com uma expressão de desgosto quando os atletas
entravam na quadra, ansiando pela hora em que aquele momento
acabaria e seria a vez dos jogadores do meu colégio.
Não demorou para isso acontecer e os gritos da nossa
torcida que, sem querer me gabar, com toda certeza foram muito
mais altos do que os da equipe adversária, ecoaram na quadra.
Assisti com gosto quando as pessoas do outro lado nos olhavam
com raiva.
Acenei de forma animada assim que vi Nicolas entrando e
ele sorriu para mim, me mandando um beijo que eu fingi pegar no
ar.
— Vocês são tão… Ridículos, juro que não entendo o motivo
de terem terminado — Nina falou, ganhando minha atenção. —
Principalmente se considerarmos que vocês ainda se tratam como
namorados, só não se beijam. Pelo menos até onde eu saiba.
Não segurei uma risada, balançando a cabeça em negação.
Eu e Nicolas namoramos por aproximadamente uns cinco
meses, mas percebemos que realmente não daria certo entre nós e,
por conta disso, acabamos terminando há duas semanas. Mas
mesmo assim, continuamos amigos, já que éramos antes e parecia
simplesmente errado nos afastarmos só por termos dado uns beijos
e transado.
— Eu e ele não damos certo como qualquer coisa além de
amigos, foi burrice pensar diferente — respondi, dando de ombros.
— Então pare de iludir o coitado, na cabeça dele vocês
ainda vão casar e ter filhos.
— Claro que sim. — Soltei uma risada sarcástica, que fez
Nina saber que eu não acreditava naquilo. — Eu não o iludo.
Minha amiga balançou a cabeça e um apito soou pela
quadra, sinalizando que o jogo tinha começado, então acabei
decidindo focar minha atenção totalmente nos rapazes.
✽ ✽ ✽
Assim que o jogo acabou, foi possível sentir todo o clima
pesado invadindo o ginásio. Nosso time só ganhou por dois pontos,
mas foi o suficiente para aumentar o ego dos jogadores em um nível
extremamente absurdo.
Os jogadores estavam organizando suas coisas para deixar
o ginásio quando eu pude ver de maneira privilegiada Nicolas
decidindo fazer algum tipo de comentário, irritando o capitão do
Santana, David, e fazendo o rapaz olhar meu melhor amigo de uma
maneira extremamente ameaçadora.
David costumava ser até calmo, um verdadeiro exemplo de
capitão — o que, mesmo amando muito Nicolas, não poderia dizer
que ele era, considerando todos os problemas de raiva — e nunca
se deixava levar pelas provocações do nosso time. Mas de alguma
forma, que eu não consegui escutar, Nicolas acertou qual era o
ponto fraco do capitão e o irritou tanto que o rapaz de pele branca
ficou tão vermelho quanto um tomate.
— REPETE ISSO E EU JURO QUE ARREBENTO ESSA
SUA CARA — David gritou, apontando o dedo na frente do rosto de
Nicolas.
Grande erro, foi o que passou imediatamente na minha
cabeça, já sabendo que ia dar ruim e me preparando para a merda
acontecer.
Nicolas cerrou o punho e foi questão de um segundo para
estar levantando o braço, não me dando tempo de impedir, mesmo
já saindo do meu lugar de imediato para tentar pará-lo, seguida por
Nina.
O punho do meu melhor amigo acertou o rostinho perfeito de
playboy de David, deixando uma marca considerável e um pouco de
sangue escorrendo do lábio dele. O capitão do Santana inclinou a
cabeça de lado, lançando um olhar debochado na direção de
Nicolas, antes de o socar de volta.
Aquilo foi o suficiente para iniciar uma espécie de disputa de
força entre os jogadores. E para o nosso azar, os treinadores tinham
saído para resolver alguma coisa, nos deixando completamente
sozinhos no meio daquela bagunça.
Nina e eu pulamos a grade que dividia a arquibancada da
quadra e rapidamente corremos na direção de Nicolas. Se eles
parassem, todos parariam, ou pelo menos era o que eu queria
acreditar.
Embora a briga fosse o menor dos nossos problemas,
considerando que o soco que Nicolas deu em David, mesmo que
revidado, provavelmente causaria a suspensão do nosso capitão.
— NICOLAS! — gritei assim que cheguei perto para que ele
me escutasse.
Notei quando olhou na minha direção, mas decidiu me
ignorar e continuar socando David.
— NICOLAS! — Nina fez o mesmo que eu, tomando a
iniciativa de se aproximar.
A acompanhei, começando a tentar segurar o braço de
Nicolas, mas era um pouco difícil considerando a nossa diferença de
altura e porte físico. Eles eram não só mais altos, mas também
muito mais musculosos do que eu. Nina decidiu ir para o outro lado,
tentando parar David enquanto eu tentava minhas chances com
meu amigo. Assim que Nicolas hesitou por um instante, eu consegui
segurar seu braço, entrando na frente dos dois e fazendo o rapaz,
que tinha um semblante descontrolado, parecer relaxar um pouco.
Antes que eu notasse, Nina já estava tirando David dali, o
levando para algum lugar que eu não fazia nem ideia de qual seria e
muito menos o motivo, mas eu não poderia parar para pensar
naquilo, precisava focar em Nicolas, antes que ele fosse atrás do
garoto e desse a louca novamente.
— Ei — chamei, colocando as mãos no rosto dele. Ele
tentou se desvencilhar do meu toque, mas segurei seu rosto mais
forte com medo de que fizesse alguma besteira. E olhando
firmemente em seus olhos, falei: — Calma Nicolas, não vale a pena.
O rapaz respirou fundo tentando se acalmar. Ele fechou os
olhos com força e em seguida me olhou profundamente. Soltei um
suspiro aliviado ao ver que havia se acalmado o suficiente para não
socar a cara do adversário. Soltei seu rosto lentamente e desviei a
atenção de seu olhar penetrante.
— Me desculpa, Mattos.
Ele tinha me chamado pelo sobrenome, o que com toda
certeza queria dizer que estava absurdamente arrependido e foi
suficiente para eu o abraçar, sentindo as batidas descompassadas
do coração dele — provavelmente pelo estresse — relaxarem.
— Vai para o vestiário, se te pegarem aqui no meio daconfusão vai levar uma suspensão — falei para Nicolas quando o
soltei e o rapaz rapidamente concordou, começando a andar para
fora da quadra.
— Onde está o David? — Uma voz em tom grosseiro
estranhamente familiar soou logo atrás de mim.
Assim que me virei, fiquei com o cenho franzido por me
deparar com Santiago.
Os garotos em volta estavam parando de brigar, cansados e
roxos demais para continuar com aquele circo. Eles começaram a
andar em direção ao vestiário também, mas Santiago me encarava
daquela mesma maneira de mais cedo, como se eu fosse um inseto.
As íris azuis focadas em minha direção, como duas pedras de gelo,
tão frias que eu poderia jurar que um arrepio subiu pela minha
espinha enquanto aquele rapaz me fitava.
Ele não fazia parte dos jogadores, o que se eu não soubesse
acabaria sendo bem notável já que Santiago continuava com a
mesma roupa de mais cedo, uma calça escura, um moletom branco
e um sobretudo preto por cima, que o fazia parecer saído
diretamente de algum filme.
— Como eu vou saber? — questionei, cruzando os braços e
o fitando desafiadoramente, sem me dar o trabalho de soar
agradável.
— Talvez porque seu namoradinho tenha começado a briga
e metido um soco no rosto dele — respondeu em tom igualmente
desafiador que me fez semicerrar os olhos em resposta.
— Bom, suponho que David seja grandinho o suficiente para
cuidar de si mesmo e não precisa que eu, uma pessoa que ele nem
mesmo conhece tão bem, monitore sua vida e saiba onde está —
falei ríspida, pronta para desviar dele e sair andando, mas Santiago
entrou na minha frente assim que eu dei um passo para o lado. —
Com licença — disse, esperando que ele saísse da frente, o que
não aconteceu.
Sério, esse garoto só pode estar brincando comigo.
— Eu vi você e a Nina se aproximando dos dois, para onde
ele foi? — Novamente grosseiro, de uma forma que fazia meu
sangue ferver, já sentia minhas bochechas aderirem a um tom
vermelho, algo que sempre acontecia quando estava com raiva.
Era palhaçada um cara tão idiota ser bonito, o mundo
definitivamente era injusto.
— Olha aqui, não tenho obrigação nenhuma com você, nem
com o David, só fui separar para diminuir os problemas, não sou
obrigada a aguentar você dando uma de doido e me cobrando, ou
sei lá.
— Para alguém distraída, foi bem rápida se livrando do
David para seu namorado não levar a culpa.
Aquele idiota realmente estava me acusando de me “livrar”
do capitão fresquinho do Santana? Foi o suficiente para eu perder a
pouca paciência que me restava e — como Theo costumava dizer
— dar uma de Ariella.
— Vai se foder, eu não fiz bosta nenhuma. Se os dois
arrumaram uma briga, ambos mereciam uma merda de suspensão,
agora se o seu capitão saiu correndo como a porra de um covarde
para nada acontecer com ele, eu não tenho nada a ver com isso. Só
tentei diminuir o problema, cacete.
Eu sabia que estava sendo hipócrita, principalmente
considerando que as chances de Nina ter arrastado David para o
convencer de não se queixar de Nicolas eram gigantes, e também o
fato que mandei meu melhor amigo sair dali.
— Uau — o rapaz resmungou, cerrando levemente os olhos
e me encarando. — Parece que alguém tem uma boca suja.
— Eu vou te mostrar a boca suja… — Apontei o dedo na
direção dele, mas fui rapidamente interrompida, já que Santiago
segurou meu braço com certa delicadeza que me surpreendeu,
considerando que ele era um idiota.
— Não gosto que apontem o dedo na minha cara — falou,
me encarando de maneira intensa. Ah sinceramente, o que ele
estava querendo?
— E eu não gosto de quem age como um babaca — rebati,
a irritação correndo livremente em minhas veias enquanto o garoto
ainda encarava meus olhos, como se estivéssemos em algum
concurso para ver quem cederia primeiro.
Vendo que sua mão ainda segurava delicadamente meu
braço, o balancei de forma brusca, fazendo ele me soltar na mesma
hora.
— Precisa aprender a controlar sua raiva, raio de sol — ele
disse, colocando suas mãos nos bolsos da frente de sua calça.
Simplesmente odiava quando Santiago me chamava
daquele jeito, porque eu sabia bem que fazia aquilo apenas para me
provocar.
Já teve uma época que eu não conseguia entender como
praticamente todas as vezes que nos víamos acabava da mesma
forma: nós dois discutindo, mas considerando tudo… meio que fazia
total sentido.
— E você sua grosseria e esse arzinho superior. — Levantei
a cabeça de maneira desafiadora.
Ele deu uma risada, não do tipo sincera, ou que mostrasse
os dentes, mais como um risinho debochado.
— Só perguntei onde o David está. — Deu de ombros,
fazendo uma mecha de seu cabelo loiro cair em seu rosto.
— De maneira grossa, e logo começou a me acusar de
coisas sem sentido.
— Se ficou tão ofendida, talvez tenham sentido. — Aquele
olhar, a merda do olhar superior tinha voltado, me deixando ainda
mais irritada.
Se existia alguém naquele mundo que eu conseguia sentir
um completo desgosto, esse alguém era Santiago.
— Vai se foder — falei de forma ríspida.
— Olha a boca suja voltando — rebateu, encarando meus
lábios, como se ainda conseguisse ver as palavras saindo de minha
boca.
— Como você consegue ser tão insuportável?
— É um dom natural — ele respondeu, dando de ombros e
cruzando os braços.
Revirei os olhos com raiva. Realmente era.
— Notei, por que não vai procurar o David e me deixa em
paz? — perguntei, apontando para o resto do ginásio. — Não é
como se essa conversa fosse resultar em algo.
— É a primeira coisa sensata que escuto saindo da sua boca
em meses — Santiago falou, olhando em volta e me encarando
mais uma vez.
— Então vai — eu disse, acenando com a mão e dando um
sorriso cínico, que o fez dilatar as narinas. — Foi um prazer te
encontrar, Santiago.
— Gostaria de dizer o mesmo.
— É só fazer que nem eu… — respondi docemente. —
Mentir.
Sem esperar que ele respondesse revirei os olhos e lhe dei
as costas, antes de ir em direção ao vestiário para procurar Nicolas.
Esperei na porta com os braços cruzados, irritada com todos
os acontecimentos. Brava por Nicolas ter causado aquela briga, com
raiva daquele idiota que saia falando o que lhe dava na telha e raiva
de mim mesma por ainda continuar sempre indo limpar a bagunça
do meu melhor amigo e, no final, acabar sobrando para mim.
— Oi, Lina — Nicolas falou, assim que saiu do vestiário e
olhou para mim.
Minha respiração saiu entrecortada com o choque. Seu
rosto, de pele preta em um tom amendoado extremamente parecido
com o de Nina, agora estava colorido com diversos roxos, que eu
sabia que demorariam dias para sair. Não queria nem imaginar quão
machucado David tinha saído daquela briga.
Ele passou a mão pelo cabelo raspado, como se aquilo
pudesse demonstrar que sentia certa culpa. Às vezes me dava raiva
por Nicolas ser tão absurdamente gato e irresponsável na mesma
medida.
— No que estava pensando? — perguntei, cruzando os
braços. — Já tínhamos ganhado deles, não precisava começar uma
briga.
— Melina, eu tive meus motivos, não iria começar uma briga
do nada — respondeu, me fazendo parar um minuto para analisá-lo.
— Meio que é a sua cara começar do nada, mas vamos lá
então, por favor, me diga os motivos, Nicolas.
— Escutei o David e os outros dois caras falando de você.
Aquilo me fez franzir o cenho, o que diabos os jogadores do
Santana poderiam estar falando de mim?
— Falando o que exatamente? — questionei, sem tirar a
postura séria, talvez por Nicolas ser muito maior que eu e manter
aquela pose me deixasse com um ar mais confiante.
— Ah, Lina…
— Nicolas. — O encarei seriamente, mostrando que não iria
deixar aquilo passar. Ficamos nos olhando por alguns minutos, até
que meu amigo soltou um suspiro cansado e coçou a cabeça
desviando o olhar para o chão, como se não conseguisse me
encarar.
— Porra, estavam falando que você é “gostosa demais e era
uma pena ser do São Sebastião” — ele falou, fazendo aspas com os
dedos.
Aquilo só me deixou mais irritada. Não pelo comentário dos
imbecis, mas por ser sempre a mesma história. O ciúme ridículo do
Nicolas foi um dos motivos para eu concluirque nunca daríamos
certo.
— Quem liga para o que eles falam? É motivo para sair
socando os outros? O que você falou para o capitão engomadinho?
— Lina.
— Nicolas — retruquei, olhando teimosamente para seus
olhos castanhos.
Mais uma vez me recusei a desviar o olhar, porque eu não
iria sair de lá sem uma explicação. Eu costumava ser uma pessoa
muito tranquila, mas aquele não era um dos meus bons-dias, então
tudo estava me deixando absurdamente irritada. Afinal, também
tinha direito de ficar mal.
— Ele tem uma irmã, provoquei usando isso — ele disse,
dando um suspiro cansado.
— Cacete, Nicolas.
Era um golpe baixo. Envolver família, em qualquer
circunstância era ridículo e pela reação de David, eu até conseguia
imaginar o que ele tinha dito.
Suspirei e fiz um sinal para que Nicolas me seguisse, ainda
tinha que dar carona para ele e encontrar a Nina. Para o meu alívio,
pelo menos não precisei procurar, já que minha amiga estava
andando em nossa direção, com um sorriso tranquilo no rosto.
Nina parou em nossa frente, com seu nariz arrebitadinho
demais, as sobrancelhas finas sendo complementadas por seus
olhos fundos e castanhos, que faziam fofas dobrinhas na parte
inferior, além de seu queixo pontudinho, que a deixava com um
charme único.
— David fez um grande estrago nesse rosto, hein — Nina
falou, olhando para Nicolas. — Alguém chamou os treinadores, eles
estão esperando por você — minha amiga terminou de explicar,
dando espaço para Nick, que apenas suspirou e começou a andar
na direção da quadra.
Eu e Nina o seguimos, ficando apenas um pouco para trás
quando ele chegou perto dos treinadores.
David estava parado de frente para ele, com o olho esquerdo
inchado, bem como o lado direito de sua boca. Pouco atrás dele,
estava o idiota do Santiago, me encarando de braços cruzados, o
que me fez o imitar, cerrando levemente os olhos em sua direção.
— Quem começou a briga? — o treinador do Santana
perguntou, olhando de Nicolas para David seguidas vezes,
esperando uma resposta.
— Foi uma briga coletiva, senhor — David respondeu, me
deixando surpresa e ganhando minha atenção por um momento.
Olhei na direção de Nina, que deu de ombros, mas eu sabia
que ela tinha feito algo, principalmente considerando o sorrisinho
que a garota provavelmente imaginava ser discreto estampado em
seus lábios.
— Como existe uma briga coletiva? — foi a vez de nosso
treinador questionar, confuso.
— Os dois times começaram a brigar ao mesmo tempo,
ambos têm culpa igualmente — o capitão engomadinho explicou.
Não sabia ao certo o motivo para darem aquele apelido para
ele. Embora David fosse rico, como a maioria do colégio dele, ele
não era exatamente engomadinho como os outros rapazes do
Santana. Enquanto os outros — mesmo os jogadores — andavam
de camisas e gravatas, ou então moletons de marca que custavam
mais do que meu celular, ele estava sempre de jaqueta de couro ou
regatas se estivesse quente, andando despretensiosamente, sem
aquele ar superior e pilotando sua moto desde que tinha feito
dezoito anos. Eu sabia demais daquele garoto, mas isso era culpa
total de Nicolas que só reclamava de David há mais de dois anos.
Porém, lá no fundo, bem no fundo mesmo — principalmente
considerando que se alguém de fora do meu time de vôlei
descobrisse eu estaria ferrada —, eu o achava charmoso. David
tinha um ar de bad boy saído diretamente dos livros, de forma que
podia mexer com o coração de uma garota só dando um sorriso e
olhando em sua direção.
— Isso está de acordo, Mendonça? — o homem perguntou
para Nicolas, que balançou a cabeça positivamente.
Ambos os treinadores se olharam, em seguida soltando um
suspiro sincronizado.
— Não vamos suspender vocês, mas se acontecer de novo,
esqueçam sobre jogar profissionalmente no próximo ano — o
treinador do Santana falou.
Provavelmente eles já tinham combinado como resolver a
situação para não ficarem sem o capitão de seu respectivo time.
Ambos eram amigos, então não pareciam ter dificuldade para entrar
em consenso.
— Sim, senhor — Nick e David responderam ao mesmo
tempo.
— Liberados — nosso treinador avisou, fazendo um sinal
para eles saírem.
Nicolas veio em nossa direção e nós começamos a sair do
ginásio, mas não antes de eu dar uma última olhada para trás, que
me possibilitou visualizar Santiago me encarando. Minha vontade
era despertar meu lado infantil e mostrar a língua, mas apenas virei
para a frente e continuei andando com meus amigos, sentindo os
olhos azuis atentos em minhas costas.
CAPÍTULO 4
Sábado, 28 de agosto de 2021
Eu estava encostado na porta do carro, esperando sem
muita paciência, David terminar de se despedir dos jogadores, que
se encontravam em grande parte suados, roxos e sangrando por
conta da briga ridícula de mais cedo.
— Qual é priminho, por que essa cara de bunda? — meu
primo perguntou, assim que se afastou do restante do time e chegou
perto de mim, segurando uma bolsa de gelo em cima do hematoma
do olho esquerdo, que com toda certeza ficaria horrível.
Senti vontade de responder que deveria ser graças a dor
que eu sentia lá, mas ignorei meu instinto debochado e questionei o
que realmente importava.
— Onde você se meteu quando a briga parou? — Tentei
ignorar o quanto tinha ficado irritado com a Melina. Apenas queria
saber onde tinham levado David e ela encarou aquilo como um tipo
de ato de guerra, até mesmo tinha tido a coragem de apontar o
dedo na minha cara.
Era muita tortura ver aquela garota duas vezes no mesmo
dia, e nos dois momentos seus olhos castanhos encararem os meus
com um brilho de ingenuidade e irritação, que me deixaram
completamente… irritado, como um olho poderia ser tão
expressivo? Não podia ser possível.
— Uma garota de cabelo cacheado me puxou, foi uma vibe
meio aqueles filmes onde dizem tipo “venha comigo se quiser viver”.
— A Nina? — questionei.
David me olhou, franzindo levemente o cenho e mostrando
uma espécie de careta de desaprovação para mim, que me deixou
desorientado por um momento.
— Não me diga que está pegando ela.
— Porra, não David, não estou pegando ela. — Revirei os
olhos diante da afirmação do meu primo.
— Que alívio, se fosse o caso, teríamos que dividir ou algo
do tipo. — Um sorriso quase malandro surgiu nos lábios dele, me
deixando confuso.
— Acho que estamos falando de garotas diferentes.
Era a única resposta, considerando que eu estava pensando
na melhor amiga da namorada do principal rival do meu primo, que
pensei ter feito alguma coisa com David, justificando seu sumiço no
meio daquele circo.
— Não está falando da Nina, aquela bonitona do São
Sebastião que saiu junto ao pavio curto e a gata da Melina?
Gata? Aquilo era um pouco demais. Melina era sem noção e
eu desgostava tanto dela de uma forma que nem sabia que era
possível. Ela era um conjunto de coisas péssimas, voz doce demais,
cabelo comprido demais, aqueles olhos exageradamente profundos
e julgadores de uma forma que parecia que ela seria capaz de ler
minha alma, além da boca, cacete, a boca dela ser tão… tão… ah,
era como uma ofensa para alguém visivelmente insuportável.
Quando estava quieta, ou não apontando dedos na minha cara, eu
conseguia enxergar que ela era absurdamente gata, de uma forma
até um pouco ridícula, mas não era mais o caso há alguns meses.
— Santiago?! — David me chamou, me tirando daquela
chuva de pensamentos.
— Desculpa — resmunguei, balançando a cabeça, tentando
dissipar a memória das íris castanhas brilhantes me encarando com
uma raiva adorável, que só era ainda mais irritante. — Sim, eu
estava falando dela.
— Alguma coisa errada com ela? — ele perguntou e eu dei
de ombros.
— Ela é amiga do Nicolas e deve ter feito alguma lavagem
cerebral em você, porque perdeu a oportunidade de denunciar ele
para os treinadores.
— Relaxa, ela só me levou na enfermaria e limpou meu
machucado, nada de lavagem cerebral.
— Já se conheciam? — Fiquei confuso por um momento,
não me lembrava do meu primo ter mencionado a garota antes.
— Não, só tinha visto de longe algumas vezes, prestava
atenção porque você e a Melinasempre brigam. — David logo
cerrou os olhos. — Por que tantas perguntas, Santiago? Costuma
se interessar menos pelas minhas brigas.
— No geral elas não me envolvem — rebati, dando de
ombros indiferentemente.
Meu primo me olhou sem entender, fazendo um sinal para
que entrássemos no carro, que eu assenti. Abri a porta e sentando
no banco do motorista, esperando que ele ocupasse seu lugar no
carona. Assim que o fez, David passou a mão no assento de couro
cor de café, e me olhou com uma expressão apreciativa em seu
rosto.
— Já disse o quanto acho esse carro um tesão? O tio
mandou demais te dando ele.
Me segurei para não revirar os olhos, qualquer menção ao
meu genitor já era um tanto torturante, mas mencioná-lo fazendo um
elogio conseguia ser ainda pior.
— Bom, alguma coisa tem que fazer, não é? E
sinceramente, eu não precisava de um carro tão chamativo, acabei
de tirar a carteira, morro de medo de bater essa banheira.
— Não é qualquer um que ganha um BMW assim que tira
carteira, você foi privilegiado. — David deu de ombros, enquanto
colocava uma garrafa no porta-copos. — Mas mudei totalmente de
assunto. Por que exatamente essa briga te envolve?
— Basicamente tive uma discussão com a Melina mais uma
vez. — Seu rosto me veio à mente, assim que a mencionei, como se
a imagem tivesse surgido das profundezas do inferno somente para
me perturbar. 
— Você brigou com ela mais uma vez? Acho que você não
consegue chegar perto de garotas bonitas sem arrumar treta. Poxa
priminho, assim não dá para te defender.
Fitei David com irritação, logo arrancando uma risada dele.
Apenas suspirei, uma coisa que aprendi durante anos de
convivência com meu primo era que quanto mais eu me importava
com suas provocações, pior ficava, então liguei o carro e saí da
vaga, com um medo exagerado de bater. Mesmo que quisesse dizer
o contrário, o carro era muito bonito, de um branco brilhante, além
de espaçoso, e batê-lo significaria precisar sair para consertá-lo, ou
pior ainda, ter que comprar um novo e lidar com vendedores. Eu
sabia que o carro tinha sensor, além da câmera, mas era caro
demais para eu não pensar em ter o máximo de cuidado possível.
— Por que brigou com a pobre garota? Ela saiu chorando?
Terminei de sair da vaga, suspirando aliviado por aquele feito
vitorioso e só pensei na pergunta do David quando já estava na rua,
pronto para dirigir até em casa.
— Fui perguntar onde você estava, pensei que tivesse se
livrado de você para que não reclamasse do pavio curto.
— Como exatamente ela teria se livrado de mim, Santiago?
— David deu uma gargalhada, só então me fazendo refletir, de
forma que me arrependi em um segundo, porque só de imaginar a
garota com meu primo foi o suficiente para me causar uma onda de
desgosto. David nunca perdia uma oportunidade de flertar com
qualquer jovem, e pensar nele com a Melina… Nem mesmo aquele
sem juízo merecia um destino tão cruel. — Você inventa cada coisa
para brigar com ela, coitada.
— Olha, não tenho nem ideia, mas no momento fiquei bem
irritado.
— Aposto que foi grosseiro, não é à toa que ela te odeia.
O olhei de soslaio, logo focando a atenção no trânsito
novamente. Não tinha realmente pensado sobre ter sido ou não
grosseiro, apenas reagi da forma que o momento estava solicitando.
— Não propositalmente, mas ela apontou o dedo na minha
cara logo depois. Também me chamou de babaca e disse que eu
tinha um arzinho superior.
— Puta merda! — David gargalhou, em seguida mostrando
uma careta, provavelmente por seu rosto ter doido, o fazendo
lembrar de colocar o gelo. — Queria ter visto essa cena. As brigas
de vocês são sempre cômicas.
— De que lado está afinal? — questionei, levemente
ofendido com a falta de apoio.
— Em uma briga eu sempre fico do lado da mina gata, é
inevitável. — Meu primo sorriu, me fazendo revirar os olhos, mesmo
que nem um pouco surpreso com suas palavras.
— Você é ridículo — falei, soltando um suspiro cansado por
conta de toda aquela interação social, só querendo me trancar no
meu quarto e dormir, ou ler um livro e esquecer da realidade por
algumas horas, onde não haveria brigas desnecessárias, primos
chatos e principalmente, jovens com olhos perturbadoramente
profundos me deixando puto até a medula.
— Faz parte do meu charme. — Nesse momento eu me
perguntei como o ego do meu primo poderia caber dentro do meu
carro.
Dirigi o resto do caminho em silêncio, apenas aproveitando
um momento tranquilo.
✽ ✽ ✽
Assim que chegamos em minha casa, eu entreguei a chave
do carro para que Macedo, meu motorista, pudesse guardá-lo na
garagem. David foi correndo para a cozinha para pedir de forma
dramática para Agatha o ajudar com os seus ferimentos. Às vezes
eu sentia pena da mulher, mesmo trabalhando com esforço na casa
para deixar tudo em ordem, tinha dias em que o que realmente dava
trabalho era o meu primo.
— Senhor Santiago, desculpe incomodá-lo — Agatha falou
assim que entrou na sala de estar, onde eu estava esparramado no
sofá aproveitando o conforto do móvel contra minha bunda dolorida.
Eu não sei o porquê eu ainda vou para esses jogos,
considerando que só servem para me deixar descadeirado.
Com o tempo, aquela casa tinha realmente se tornado o meu
lar, já que eu morava lá desde pequeno e praticamente sozinho,
considerando que minhas únicas companhias eram meus tios e
meus primos, que se mudaram dali logo que fiz dezoito anos alguns
meses atrás, tirando David, que decidiu ficar morando comigo.
Meu genitor resolveu passar a casa para o meu nome, talvez
só por não se importar com ela — e nem comigo — o suficiente. Eu
não tinha ficado surpreso, considerando que Archibald tinha
decidido voltar para a minha cidade natal, Manchester, na Inglaterra,
quando eu ainda tinha dez anos. Se não fosse pelos meus tios,
ficando bastante felizes por morar de graça naquela casa enorme,
acredito que eu teria crescido de forma muito diferente.
Mas o que importava era que atualmente a casa era
totalmente minha, o que fez eu e meu primo redecorá-la quase que
completamente.
Por isso, a antiga sala de estar em estilo vitoriano, tinha se
tornado praticamente uma sala de cinema, com uma televisão
enorme cobrindo um terço da parede, um sofá que preenchia o
outro lado completamente, um frigobar instalado no canto, além das
luzes de led que brilhavam no chão e no gesso do teto.
— Aconteceu alguma coisa, Agatha? — perguntei
preocupado, soltando meu Kindle no braço do sofá e endireitando a
postura enquanto olhava para a mulher, tentando descobrir o motivo
para ela me procurar.
— Acredito que o senhor Ross deveria ir ao médico, o olho
dele está bastante inchado.
Escutar aquele sobrenome fez uma parte minha estremecer.
Eu não odiava meu suposto pai, nem nada do tipo, não mais,
apenas deixei de me importar, tentando esquecer a sua existência
medíocre, mas, ainda assim, falar dele era uma coisa que me
deixava incomodado, mesmo que fosse apenas uma breve menção
ao sobrenome que infelizmente eu e meus primos carregamos.
— Não entendo como ele continua se metendo em briga,
mas se acha que ir ao hospital é o ideal, vou levá-lo.
— Não quer que eu solicite que o Macedo o leve, senhor
Santiago? Parece cansado — Ela tinha um tom preocupado, que
acabou me arrancando um sorriso leve e disfarçado.
A mulher trabalhava na mansão desde que eu era pequeno
e praticamente tinha me criado depois que meu pai foi embora,
considerando que a minha tia ainda tinha mais dois filhos para
cuidar e não possuía exatamente tempo para dar atenção a um
quase órfão.
— Peça para que ele prepare o carro, não quero dirigir, mas
prefiro levar meu primo.
— Como quiser, senhor Santiago — a mulher, que possuía
os cabelos pretos presos em um coque alto e uma estatura baixa,
que se comparada a minha altura, seria considerada menor ainda
que de costume, falou, rapidamente saindo da sala e me deixando
sozinho.
A ideia de alguém que tinha idade para ser minha mãe me
chamar de senhor era esquisita, mas mesmo eu pedindo inúmeras
vezes para parar, Agatha nunca parou, então passei a apenas
relevar.
Suspirei pesadamente,pegando o Kindle para colocar no
bolso, me levantando do sofá e descendo os dois degraus que
separavam o lugar que eu mais apreciava ficar deitado — depois da
minha cama — e o chão, logo calçando meu tênis branco e saindo
da sala. Comecei a andar pelos corredores compridos e bem
iluminados, demorando alguns minutos para chegar na cozinha,
onde David estava com a cabeça deitada no balcão de forma
dramática.
— Vamos ao médico — eu disse sem cerimônia.
David levantou o rosto, me olhando sério e em seguida
soltando algum xingamento inaudível, que me fez respirar fundo,
buscando a minha paciência interior, que sinceramente já não
existia.
— Não quero — David resmungou, como uma criança
birrenta.
— Não tem que querer, ninguém mandou se meter em briga,
a Agatha está preocupada porque seu rosto inchou muito.
— Inchou nada, ela se preocupa demais.
— Cala a boca e vamos para o carro — eu disse, sem deixar
espaço para reclamações.
David xingou mais uma vez, se levantando todo estressado
do banco e parando ao meu lado. Graças aos deuses ele já tinha
tomado um banho e aquele fedor de suor tinha saído. Meu primo
passou a mão por seus cabelos, mais escuros e mais curtos que o
meu, além de lisos, que estavam molhados e bagunçados, algumas
mechas caiam em seu olho que possuía uma coloração roxa em
volta que ia ficando mais escura e inchada a cada segundo.
Nós saímos pela porta dos fundos, porque seria bem mais
rápido do que atravessar a casa inteira apenas para usar a porta da
frente, e nos deparamos com Macedo nos aguardando, ao lado do
Mercedes preto.
Entramos no carro sem trocar nenhuma palavra, sabia que
ele estava bravo por ser obrigado a ir ao médico, mas eu não me
importava.
✽ ✽ ✽
Quando voltamos para o carro e nos sentamos no banco,
David cruzou os braços, completamente irritado, mais até do que
quando estávamos no caminho.
— Eu disse que não precisava da porra de um médico, só
serviu para eu virar quase uma múmia — ele reclamou, apontando
para o próprio rosto, que estava coberto por curativos.
Respirei fundo e controlei minha vontade de revirar os olhos.
Eu não era exatamente um tipo de pessoa paciente e ter o meu
primo me perturbando por basicamente cuidarem dele me deixava
mais puto que o normal.
— Pelo menos não quebrou nada para ter que passar por
uma reconstrução facial ou algo do tipo, aposto que aí sim teria
motivos para reclamar.
— Eu já sou lindo demais, meu rosto é intocável, Santiago.
Revirei os olhos e desviei o olhar para o lado de fora,
observar a cidade parecia bem mais interessante do que suportar a
merda do ego de David.
✽ ✽ ✽
Domingo, 29 de agosto de 2021
Domingo era o único dia da semana que eu não odiava. De
segunda a sexta era obrigado a ir para o colégio, com um bando de
adolescentes insuportáveis, o que me fazia ter raiva desses dias,
mesmo que de tarde fosse até aceitável, já que eu ia para a
academia de ballet. No sábado, constantemente precisava ir para
algum jogo do David e embora suportasse meu primo o suficiente
para nunca recusar, era irritante ter que aguentar os amigos dele e
fingir apreciar qualquer tipo de contato humano.
Por isso, os domingos eram excelentes, eu vivenciava
alguns dos únicos momentos em que um sentimento de felicidade
ficava presente, quando escutava a música e dançava, me
entregando completamente a melodia e aos movimentos da
coreografia.
Eu amava o ballet contemporâneo e com toda certeza era a
única coisa que me fazia sentir vivo. Se não fosse por isso, eu já
teria entrado em estado de loucura há muito tempo.
Por isso, o primeiro dia da semana era o que eu me trancava
no estúdio de dança da minha casa e aproveitava para ensaiar sem
ter ninguém para me incomodar.
— Santiago — David cantarolou, parando no batente da
porta e me fazendo o fitar.
Isso, claro, quando meu primo não decidia me interromper.
Olhei para ele, impaciente, esperando que desistisse ao
notar minha irritação, mas como não aconteceu, eu suspirei.
— Alexa, desligue a música — falei para a assistente virtual,
que rapidamente interrompeu a melodia que tocava pela sala.
Caminhei até o canto onde tinha deixado minha garrafa de
água e a peguei para beber, aproveitando para usar a toalha e secar
um pouco o rosto.
— O que foi, David? — questionei, olhando na direção do
meu primo.
— Você só fica enfurnado nesse estúdio, vamos sair fazer
alguma coisa — David pediu, entrando na sala.
— Não, obrigado.
— Qual é, Santiago, vai morrer se sair com seu primo um
dia?
A sensação era de que eu iria. Sair de casa parecia como
um dos maiores castigos. Estava ótimo bem quieto em meu canto,
com ar condicionado e sem pessoas me perturbando.
— Vou, li em algum lugar que a convivência contínua com
parentes irritantes mata.
— Vai à merda. Toma um banho logo para sairmos.
— Porra — xinguei, me dando por vencido já que conclui
que não valeria a pena continuar tentando fazer David mudar de
ideia. — Então eu escolho aonde vamos.
— Fechado, te espero na sala.
Fiz um sinal para que ele saísse e meu primo deixou meu
estúdio, me fazendo suspirar de forma irritada, antes de me
direcionar até a porta da lateral, que dava diretamente para o
banheiro da minha suíte.
Uma das vantagens de ter uma casa totalmente minha e um
estúdio mais meu ainda, era poder deixar uma ligação direta com
meu quarto, já que ninguém mais ficaria por ali. Claro que apenas
na teoria.
Entrei no banheiro e fui diretamente tomar um banho, ser
obrigado a sair não estava na porra dos meus planos, mas quando
se tratava dos meus primos, às vezes eu cedia um pouco demais.
✽ ✽ ✽
David estava quase colado ao meu lado, com uma
expressão emburrada e os braços cruzados conforme andávamos.
— Quando eu disse para sairmos, imaginei tomar um chopp,
até um sorvete, sabe e não… vir aqui — meu primo falou, olhando
em volta com certo desgosto.
O fitei e em seguida a livraria onde estávamos, revirando os
olhos com seu comentário.
— Você me deixou escolher o lugar — eu afirmei, voltando a
observar os livros nas estantes. — Agora lide com isso.
— Não era como se eu estivesse com opções, mas não
achei que fosse me arrastar para um antro de leitores e nerds.
Não pude evitar mostrar uma careta, encarando David de
forma reprovadora que o fez limpar a garganta.
Desviei o olhar mais uma vez, prestando atenção no que eu
realmente queria e finalmente encontrando o livro que eu procurava.
Peguei ele de maneira ligeira, tentando escondê-lo do olhar curioso
do meu primo e acelerando um pouco o passo para encontrar os
outros que desejava.
Porém, por culpa da pressa, esbarrei em alguém,
derrubando o pobre livro. Me senti como a pior pessoa do mundo,
derrubar um livro era doloroso, porque o risco de danificá-lo se
tornava enorme.
Comecei a me abaixar, pronto para pegá-lo, mas a pessoa
que eu tinha esbarrado fez o mesmo, colidindo nossas cabeças e só
então me fazendo olhá-la, o que verdadeiramente me surpreendeu,
considerando que era a mesma doida que eu tive que ver no dia
anterior.
Ainda desastrada, ainda perturbadoramente bonita.
Nos levantamos ao mesmo tempo, Melina com o livro em
uma mão e esfregando a testa com a outra e eu apenas com o
semblante fechado. A garota me fitou e foi como se o brilho sumisse
de seu rosto, o sorriso discreto que estava ali se fechou e ela me
olhou de forma irritada, antes de desviar a atenção para o livro em
sua mão. Foi como, se por um segundo, a jovem quisesse sorrir,
mas controlasse com afinco sua vontade.
— Nunca imaginaria que você fosse do tipo romântico — ela
falou, fazendo um bico enquanto erguia um pouco o livro, mostrando
a capa para mim.
— Não nos conhecemos o suficiente para você imaginar
nada — respondi, soando bastante ríspido.
A garota revirou os olhos.
— Devo agradecer aos céus por isso.
Talvez existisse algum tipo de reciprocidade da parte dela
envolvendo a forma como eu me sentia completamente incomodado
com a sua presença. Conseguia acreditar com convicção que nós
dois éramos como polos opostos, atraindo um ao outro para um
completo desastre. E continuar sendo indiferentecom ela bem ali,
era difícil demais.
— Acho que você se sairia bem como uma stalker, em todo
lugar que vou, começou a aparecer — eu disse.
— Se eu fosse stalkear alguém, com toda certeza não seria
você, por mim nem veria essa sua cara bonitinha.
— Então você admite que sou bonito? — provoquei, tendo
que me esforçar para não permitir que ficasse nítido em meu rosto
como tinha gostado daquilo.
— Vai se foder! — ela exclamou.
Emiti um som de reprovação, balançando levemente a
cabeça em negação e inevitavelmente dando dois passos para
frente, encarando os lábios dela, antes de dizer:
— Que boca suja, senhorita Mattos.
— Não me chame pelo meu sobrenome. — Melina cerrou os
olhos para mim, passando a língua pela boca antes de morder o
lábio inferior, me obrigando a engolir em seco.
Antes de eu soltar alguma resposta ácida e divertida, Nina
apareceu, me fazendo dar um passo para trás.
— Encontrei a edição que eu queria, quase precisei bater em
um garotinho, mas deu tudo certo — a garota falou, parando ao lado
dela e interrompendo seja lá o que estivesse sendo discutido entre
nós dois.
— Oi, Nina — David disse com aquele tom de voz que eu só
escutava quando ele estava flertando e normalmente me dava
náusea.
— David? — Ela fitou meu primo e então eu, só nesse
momento nos percebendo ali no ambiente. — Ah, não tinha visto
vocês.
— Está lendo quadrinhos? — meu primo perguntou, olhando
para a HQ na mão dela, que só dava para enxergar a parte de trás,
onde o Asa Noturna estava desenhando.
— Sim, eu adoro o Dick Grayson — a jovem respondeu,
parecendo animada com o interesse de David.
Já me preparei para o que estava por vir, desejando ser
teletransportado para fora daquele lugar e evitar passar vergonha
com meu primo.
— O Arqueiro Verde é ótimo mesmo. — David sorriu e Nina
franziu o cenho, soltando uma risada baixa.
O encarei com um olhar totalmente reprovador, ele nem
precisava ler HQs para saber que o Arqueiro Verde não era o Dick
Grayson.
— Acho que os curativos fizeram mal para o seu cérebro —
a garota falou, dando um sorriso solidário.
— Errei tudo?
— Vem aqui. — Nina segurou o braço dele, o arrastando
para algum canto e me largando sozinho com a presença da Melina
Estava ocupado demais sentindo vergonha de ser parente
de alguém que confundia o Dick com o Oliver para notar um cara
apressado passando do nosso lado, de forma que quase derrubou a
garota desastrada.
Dei um passo para frente de maneira instintiva, não sabendo
ao certo o que eu pretendia fazer caso Melina caísse. Deixá-la no
chão era uma opção agradável demais para meu corpo cogitar
automaticamente levanta-la.
— Sinto muito — o homem falou, segurando o ombro dela.
— Não tem problema — ela sorriu para ele que, assim que
constatou que não havia a machucado, continuou seu caminho.
Como aquela garota aguentava ser tão insuportavelmente
adorável com todos? Não era possível alguém ter tanta simpatia
sem ter algum tom de falsidade. Talvez isso fosse uma das coisas
que me fizesse sentir irritação com sua presença, a forma como ela
exalava a energia de alguém que apreciava a vida.
Melina ajeitou o corpo, olhando para o livro que permanecia
em sua mão e apontando o dedo para a capa.
— Uma Dama Fora dos Padrões, esse da Julia Quinn eu
ainda não li.
Fiquei em silêncio, apenas observando como seus olhos
deslizavam pela capa, sem desviar por um segundo. Se lia Julia
Quinn, pelo menos tinha bom gosto, o que deveria ser o único ponto
totalmente positivo sobre ela.
— Pode devolver?
— Quer tanto assim? — Melina esboçou um sorriso, que eu
conseguia perceber que não era sincero.
— É, eu quero.
— Peguei seu frappuccino — um rapaz, que eu
definitivamente nunca tinha visto falou, entregando um copo de café
gelado para a senhorita desastre.
Ele era um pouco mais alto que eu, parecia ser mais velho
também e assim que olhou para mim, abriu um sorriso.
— Não conheço seu amigo, priminha — o rapaz,
aparentemente primo dela falou, apontando na minha direção. — Ou
seria o Shrek da Fiona?
A garota o fuzilou, de uma forma que realmente parecia que
estava prestes a matar o homem, se assemelhava a maneira como
ela me olhou alguns minutos antes e aquilo me fez dar um passo
para trás.
— Ah, ele realmente é um ogro — ela disse, revirando os
olhos.
Não tive tempo de associar o que eles estavam falando
antes de ver meu primo voltando com Nina.
— Entendeu agora? — a jovem perguntou.
— Sinceramente, não. Por que existem mais de um? —
David parecia prestes a chorar, ficando engraçado com aquela
quantidade exagerada de curativo no rosto.
— Bruce Wayne tem obsessão por adolescentes
problemáticos. — Nina deu de ombros, sorrindo assim que olhou na
direção do rapaz e pegou o outro café na mão dele. — Ah meu
Deus, Theo, você realmente é um anjo, obrigada.
Senhorita desastre a olhou com reprovação e Nina apenas
riu para ela, fazendo um sinal de negação.
Era por coisas assim que eu odiava sair de casa, se tivesse
ficado no conforto do meu estúdio, nunca esbarraria com essas
pessoas e não seria obrigado a tentar interpretar as reações de
ninguém.
— É sempre um prazer ter a companhia de moças tão
bonitas — David começou a falar, fazendo uma pausa ao ver o tal
Theo. — E rapazes também, mas precisamos ir embora.
— Claro, um prazer — eu resmunguei, estendendo a mão
para a garota, esperando que me desse o livro.
— Parece que alguém aprendeu a mentir — Melina falou, o
entregando para mim.
Senti minha boca querendo se curvar em um sorriso, assim
que me lembrei do dia anterior, mas não permiti que acontecesse,
segurando mais uma vez a respiração para manter indiferença,
saindo rapidamente de lá e caminhando com meu primo em direção
ao caixa. Compraria o resto dos livros que eu queria online, era
muito melhor do que ter que passar mais algum momento naquele
lugar.
— Achei que tinham brigado mais uma vez, não criado uma
espécie de tensão nova — David falou, se aproximando de mim,
com as mãos nos bolsos. — Que diabos foi aquilo ali?
— Tensão? — perguntei confuso, levantando uma
sobrancelha, nem entendendo ao certo sobre o que ele estava
falando. — Que porra de tensão, David?
— Começamos uma peça por aqui? — David deu um sorriso
de canto, cerrando levemente os olhos.
— Peça?
— É, já peguei o papel da múmia e agora você faz a
egípcia? — Ele riu, me fazendo ficar ainda mais sério e querendo
socar sua cara.
— Isso nem faz sentido, vai se foder — resmunguei, não lhe
dando mais chance nenhuma de abrir a boca.
CAPÍTULO 5
Segunda-feira, 30 de agosto de 2021
Eu já conseguia ver a quadra de onde estava, mas
continuava me enrolando para ir até lá.
Não sabia dizer o que parecia sempre estar me segurando,
mas era quase como se um grande sinal de alerta me implorasse
para apenas sair correndo. Mesmo me esforçando diariamente
desde que eu fui liberada pelo médico, meus olhos se enchiam de
lágrimas a cada passo que eu dava em direção àquele lugar quando
o objetivo era participar de um treino.
Antes que eu notasse, minhas pernas fizeram o trabalho
sozinhas, me obrigando a ir até o banheiro, eu sentia o ar faltando
em meu corpo e uma pressão horrível no peito. Abri a porta da
cabine e me sentei no chão, pouco me importando se poderia ter
alguma sujeira ali.
Lágrimas embaçaram minha visão e a única coisa que
desejei, em meio ao piso gelado e as paredes de azulejo, foi que
toda a dor que eu sentia desaparecesse e talvez, que eu estivesse
incluída no pacote de sumiço.
Minhas mãos tremiam e eu sentia o suor começando a
aparecer ali, como se a cada tentativa de recuperar o fôlego
aumentasse a quantidade de umidade em minha palma.
— Mel? — A voz de Nina ecoou pelo banheiro e a jovem
rapidamente abriu a porta da cabine que eu estava, me olhando de
forma tão preocupada que fez minha vontade de sumir aumentar.
Não consegui responder, nem pedir para ela sair dali,
apenas continuei chorando e com falta de ar.
— Ah, meu Deus, as crises voltaram? — Nina se abaixou
junto comigo, me tomando em um abraço. — Desculpa, não precisa
responder, estou aqui por você.
Ela seafastou um pouco, assim que percebeu minha
dificuldade para respirar e começou a pedir para que eu inspirasse e
expirasse. Depois de algum tempo, meu peito parou de doer e a
respiração voltou ao normal, embora eu ainda chorasse, mais por
vergonha do que realmente por dor.
Minha melhor amiga percebeu isso e me abraçou, tentando
trazer algum tipo de conforto em meio ao meu mar de desespero.
Longos minutos depois eu parei de chorar, fazendo Nina se
afastar, antes de inclinar um pouco a cabeça para o lado e estreitar
levemente os olhos. Não estávamos em uma situação nem um
pouco interessante.
— Quer falar sobre isso? — ela perguntou, com aquelas íris
castanhas observando cada movimento meu.
— Eu estou bem — menti, forçando um sorriso.
— Melina.
— Nina, eu só não estou em um bom dia, mas logo volto a
ficar cem por cento — falei, mostrando uma positividade que eu já
não tinha de verdade.
— Vamos almoçar no shopping então? Isso costuma te
animar. — Eu queria muito dizer que não, apenas ir para minha casa
e aproveitar a solidão do meu quarto escutando música e fingindo
que ainda sabia dançar como quando tinha quinze anos, mas ver a
expressão pidona da minha melhor amiga foi o suficiente para eu
ignorar meus instintos de me isolar do mundo e balançar a cabeça
positivamente para sua proposta. — Oba! Podemos aproveitar e
fazer umas comprinhas, você nem pegou o livro que queria ontem.
— Acabei esquecendo por culpa daqueles dois —
resmunguei, me lembrando do encontro estranho do dia anterior.
Esbarrar em uma pessoa uma vez era um acaso, mas três
vezes em uma questão de dois dias tinha se tornado demais para
meu cérebro processar. Não sabia se aguentaria mais um encontro
ao acaso que fosse, porque ver a cara daquele idiota do Santiago
estava acabando com a sanidade mental que eu já não possuía há
tempos.
Nina apenas riu do meu comentário, se levantando e
oferecendo as mãos para que eu me levantasse também.
Soltei um suspiro cansado e aceitei sua ajuda, andando até
a pia para lavar o rosto e observar, no reflexo do espelho. Era nítido
o quão cansada eu estava.
Existiam dias em que eu sentia como se a vida aos poucos
me deixasse e eu precisava tirar lá do fundo uma falsa animação
para fingir que não estava totalmente acabada. Por quatro meses
depois daquele dia tive que tomar antidepressivos, mas eles me
deixavam ainda pior e a ideia de depender daquilo era assustadora,
o que me obrigou a passar a fingir que eu estava melhorando.
Durante o dia, quase morria de tanto esforço para
permanecer com o teatro, fazendo acreditarem que eu estava bem e
de noite… apenas deitava e chorava como se o mundo estivesse
desabando, porque o meu, de fato, estava.
Atualmente as coisas tinham melhorado um pouco, talvez
quase dois anos para lidar com um trauma fizesse isso, mas ainda
existiam dias ruins, dias em que eu queria desaparecer, dias em que
mal conseguia levantar da cama e dias em que tudo que eu queria
era me afundar em algum lugar até deixar de existir.
Peguei a bolsa com maquiagem que estava em minha
mochila e arrumei a parte do meu rosto que tinha borrado.
Assim que terminei, afastei qualquer outro pensamento e
caminhei até o lado de Nina, saindo do banheiro e dando de cara
com Nicolas encostado em uma das colunas brancas que ficavam
de frente para a porta. Ele parecia irritado, segurando o celular com
uma firmeza fora do comum, como se fosse fazer algum tipo de
declaração que mudaria tudo, mas sua postura mudou
completamente quando nossos olhares se encontraram, talvez ele
tivesse percebido que não era o momento ideal para dizer seja lá o
que queria inicialmente.
— Você está bem, Mattos? — ele perguntou, limpando a
garganta conforme se aproximava.
— Sim, só me senti um pouco mal, mas a Nina me ajudou —
falei, tentando acabar com os questionamentos o mais rápido
possível.
Uma parte minha ainda estava um pouco decepcionada por
Nick ter provocado o time do Santana no jogo de sábado, mas, ao
mesmo tempo, também entendia que nossos rivais não eram
exatamente anjos.
— Tem certeza? — Nicolas tinha o tom de quando estava
praticamente forçando a barra, mas preferi focar na parte em que
aquilo era graças a sua preocupação comigo.
— Absoluta. — Forcei mais um sorriso, inclinando um pouco
meu corpo, como se estivesse prestes a apenas sair correndo. —
Nós estamos indo almoçar, quer ir junto?
— Na verdade, preciso ir para a quadra, o treinador quer que
os jogadores fiquem mais unidos, então estamos sendo obrigados a
ver os treinos do vôlei masculino essa semana.
Balancei a cabeça em afirmação, lembrando que tinha
apagado aquela informação, considerando que eu estava indo para
lá pelo mesmo motivo, já que todas as jogadoras do vôlei feminino
também tinham que estar presentes e embora eu não jogasse há
mais de um ano, minha presença tinha sido requisitada por
acreditarem que voltaria em breve.
— Você não tinha que ir também? — Nicolas questionou,
franzindo o cenho, de forma que suas sobrancelhas grossas ficavam
quase unidas e o deixava bonito demais para alguém com uma
expressão tão séria.
— Ela ia, mas hoje está tão quente que a pressão caiu —
Nina falou, abanando o próprio rosto e em seguida o meu. — Avisa
a treinadora do time que assim que estiver melhor ela aparece.
Agora nós vamos embora, porque se não, chegamos tarde no
shopping, o que também faz voltarmos tarde e o tio Heitor não vai
ficar nada feliz.
Controlei a vontade de sorrir e apenas balancei a cabeça em
concordância, ficando na ponta do pé para dar um beijo na
bochecha de Nicolas e rapidamente me despedindo. Nina fez o
mesmo, para não dar tempo de nosso melhor amigo questionar
nada.
E assim, finalmente começamos a andar pela rua. Deveria
agradecer aos céus por estudar em um colégio tão perto de tantas
coisas, o que incluía um dos maiores shoppings de Vila dos Anjos,
que ficava a apenas quinze minutos de distância andando.
Eu e Nina caminhamos em silêncio, e eu sabia bem que isso
só estava acontecendo porque minha melhor amiga tentava
respeitar meu espaço, mas não saberia dizer se era realmente bom
ficar sem dizer ou escutar uma única palavra.
Logo estávamos de frente para o Shopping Angeles, subindo
as enormes escadas brancas da entrada com portas de vidro e
finalmente entrando. Fiquei surpresa pela quantidade de gente,
considerando que era uma segunda-feira, mas, provavelmente
deveria ser graças ao horário de almoço e ao fato de que existiam
mais alguns colégios próximos, fora o meu.
— O que quer almoçar? — Nina perguntou, me
surpreendendo pela quebra do silêncio quase eterno.
— Qualquer coisa considerada não-saudável? — sugeri,
arrancando uma risadinha da minha melhor amiga, que rapidamente
jogou os fios encaracolados de seu cabelo castanho para trás, em
seguida enganchando seu braço ao meu.
Andamos pelo corredor de pisos brancos, subindo uma das
escadas rolantes que levava até o segundo andar do shopping,
saindo bem em frente da livraria, que me trouxe lembranças do dia
anterior.
Eu estava preparada para subir a próxima escada, quando
cachos loiros e arrumadinhos invadiram meu campo de visão e
olhos azuis me encararam de forma que eu não saberia definir,
parecia até mesmo com raiva. Mais do que o normal.
O rapaz andou em minha direção com uma determinação
que quase fez com que eu me encolhesse. Precisei olhar um pouco
para cima quando ele parou exageradamente perto de mim. David
chegou segundos depois, parecendo tão confuso quanto eu e
acenando discretamente para Nina, que acenou de volta.
— Eu e você não vai rolar — Santiago falou em um tom
ácido, inclinando um pouco o corpo na minha direção.
Meu rosto que estava até tranquilo foi moldado por uma
expressão absurdamente confusa e questionadora.
— Decidiu sair por aí dizendo fatos? — perguntei, cruzando
os braços.
— Não se faça de desentendida. — Ele cerrou mais os olhos
e foi como se estivesse prestes a se aproximar mais.
— Querido, eu nem sonharia com isso — eu disse,
levantando uma das sobrancelhas.
— Sonhar comigo seria um privilégio para você. — Santiago
quase sorriue a breve menção de um sorriso em seu rosto, me fez
perder o ar por um segundo de tanta irritação.
— No caso, seria um pesadelo.
— Eu não teria tanta certeza disso. — Ele curvou levemente
os lábios, me fazendo ficar confusa se estava com uma expressão
sarcástica, ou apenas raivosa.
O encarei com tanta seriedade que foi como se o ar tivesse
ficado pesado, nenhum de nós dois nem piscávamos e era quase
como se estivéssemos iniciando algum tipo de brincadeira, ou
desafio.
— Acha que não saquei o seu jogo, Mattos? — Meu
sobrenome saiu demoradamente de seus lábios, como se ele
estivesse me provocando ao dizê-lo e soubesse que aquilo iria me
irritar.
— Que jogo?
Enruguei o nariz de forma irritada e — pelo menos na minha
cabeça — completamente ameaçadora.
— Não sou do tipo que vai atrás só porque uma coisa é
difícil.
Minha expressão se fechou ainda mais com seu comentário,
não conseguia entender do que diabos ele estava falando, mas
esbocei o sorriso mais debochado que consegui, antes de exclamar:
— Meu querido, para você eu sou impossível.
— Não é exatamente o que está parecendo — o jovem
argumentou, fazendo um beicinho, que não combinava nada com
sua feição rabugenta.
— De que porra está falando? — perguntei, já irritada com
seja lá o que aquela conversa significava.
— Não tem celular? Perdeu de novo? — Seus olhos ardiam
com deboche.
— Pare de agir como se me conhecesse — falei, subindo
meu tom de voz e colocando o dedo indicador no peito dele, ficando
um pouco surpresa com a rigidez por baixo de sua blusa cinza, o
que me distraiu por um segundo.
— Talvez você só seja muito fácil de decifrar. — Ele deu de
ombros.
— Vai se foder, babaca. — Me descontrolei completamente e
quando vi, tinha sido explosiva mais uma vez.
— Boca suja — o rapaz resmungou, fitando minha boca com
os olhos brilhando com um tipo estranho de irritação.
— Acho que essa se tornou sua frase preferida.
Me arrependi de ter dito aquilo assim que eu vi sua boca se
curvar em um sorriso de canto, de uma forma que conseguiu deixar
aquele idiota ainda mais bonito e me fez me perguntar o motivo para
o universo me odiar tanto.
— É culpa totalmente sua.
— Nossa, uma garota que você quase nem vê consegue
causar tanto efeito em você? Que influenciável!
— Só aquelas que me estressam muito, tipo você. — Ele
segurou minha mão, só então me lembrando que ela ainda
permanecia no peitoral dele.
— Os sentimentos são recíprocos, idiota — resmunguei,
balançando meu braço para que soltasse.
— É um imenso desprazer, princesa.
— Não me chame de princesa, seu ogro.
Eu estava quase bufando como um animal, quando a voz de
David me tirou daquele transe, fazendo com que eu me lembrasse
de que nem ao menos deveria estar discutindo com aquele rapaz.
— Sabiam que coisas assim costumam dar casamento? —
ele perguntou.
Eu e Santiago o olhamos ao mesmo tempo e por algum
acaso do destino, dissemos juntos:
— Cala a boca.
— Que lindos, já estão sintonizados — Nina provocou, me
fazendo a olhar irritada e dar alguns passos para trás, na intenção
de me afastar do garoto, que pareceu confuso com minha atitude.
— Eu shippo — David exclamou, sorrindo. — Já existe até
um fã clube.
— Do que está falando? — perguntei, tendo um certo
desgosto estampado na voz.
— Ah, vamos fingir que você não sabe — o loiro murmurou,
mas não baixo o suficiente para que eu não escutasse.
— Se eu soubesse não estaria perguntando, mas seu
cérebro limitado talvez não entenda isso.
Foi perceptível David tentando segurar uma risada, em
seguida falando:
— São os produtos de cabelo que ele usa, acho que afeta,
de que outro jeito brilharia tanto assim?
Seu comentário me fez olhar para o rapaz, observando por
mais tempo do que gostaria de admitir seus cachos loiros. David
tinha razão, realmente o cabelo dele brilhava muito.
— David, era para estar do meu lado — Santiago falou, com
o mesmo tom hostil que sempre usava.
— Já expliquei meu posicionamento — o capitão do Santana
disse, dando de ombros.
— Estou esperando alguém me explicar do que estavam
falando — eu interrompi, seja qual fosse a discussão que se
formava.
— Não viu a foto? — David perguntou.
— Que foto?
— Ué, a foto que já circulou pelo Santana inteiro de vocês
dois juntos, aposto que no São Sebastião não está muito diferente
— o rapaz respondeu, como se fosse totalmente óbvio.
Só então Nina suspirou e caminhou até o meu lado, me
entregando o celular de forma receosa e finalmente me permitindo
ver a tal foto, que basicamente era eu e o babaca na livraria, no
exato momento em que eu sorri de forma debochada por alguma
coisa que ele tinha dito. Ali parecia que eu estava sorrindo para ele
e se não estivesse presente no momento, poderia afirmar que
aquele era quase um sorriso bobo de alguém encantada pelo que
estava vendo, o que era, no mínimo, ridículo.
A foto estava no grupo do terceirão e várias pessoas
estavam dizendo que deveríamos estar ficando às escondidas,
enquanto outras afirmavam que eu tinha terminado com o Nicolas
por estar o traindo com um garoto do colégio rival.
— Esses imbecis estão falando merda? Como se eu fosse
ficar com esse ogro — resmunguei, verdadeiramente irritada, mas
segurando com afinco a minha vontade de chorar.
Embora eu constantemente tentasse fingir o contrário, eu
andava em um período sensível e ver tantos comentários maldosos
de uma vez só, era demais.
— Eu que não ficaria com você — Santiago retrucou.
— Ninguém está te perguntando porcaria nenhuma.
— Não precisam se desestabilizar assim, não passou de um
mal-entendido e também não seria nenhum pecado — David falou,
como se tentasse apaziguar a situação, ou apenas livrar o outro
rapaz daquilo. — O que há de errado em serem de colégios
diferentes? Em que mundo estamos? Viramos os Montéquios e
Capuletos?
— Está realmente fazendo uma analogia a Romeu e Julieta?
— Nina perguntou, tentando disfarçar o sorriso que eu captei
facilmente.
— Sou um cara romântico, o que posso dizer? — David
sorriu galanteador, focando a atenção em minha amiga.
— Romeu e Julieta está mais para um drama, é
extremamente trágico — minha melhor amiga afirmou.
— Nina, podemos ir embora? — perguntei, segurando as
lágrimas com toda a força de vontade existente em meu corpo —
Ainda estou com fome.
— Sabe quem também está com fome? — David indagou,
como se estivesse prestes a revelar uma coisa extremamente
incrível. — Nós dois. — Ele apontou para si mesmo e Santiago. —
Vamos almoçar juntos?
— Nós já almoçamos — o senhor estressadinho resmungou
para David.
— Eu quero almoçar, não participar de uma carnificina —
Nina negou rapidamente.
— Ei, eu nunca faria algo do tipo — argumentei, nem
sabendo ao certo o motivo para dizer aquilo.
— Não posso garantir o mesmo, a existência dela perto de
mim é um perigo — Santiago afirmou, apontando na minha direção
e me arrancando um sorriso debochado, que me fez esquecer da
vontade de chorar por alguns momentos.
— Medo de se apaixonar? — Estalei a língua.
— Nem nos meus maiores pesadelos.
— Sonhar comigo seria um privilégio para você — eu imitei o
que ele tinha me dito há minutos atrás e por um momento, mesmo
que breve, vi ele controlar um sorriso, que ainda ficou um pouco
aparente.
Santiago era tão sério, que fazê-lo sorrir parecia até mesmo
um desafio e eu já tinha quase conseguido duas vezes, deveria me
considerar incrível, principalmente levando em conta que não
gostava nada dele e aquele sentimento era totalmente recíproco.
— Não íamos almoçar? — Nina perguntou, me fazendo focar
em seu rosto.
— Agora mesmo — respondi, cerrando um pouco os olhos
antes de desviar dos dois, pronta para subir a escada rolante.
Nina se despediu deles e rapidamente chegou ao meu lado.
A última coisa que eu tinha cogitado para o dia de hoje era
encontrar aquele grosso mais uma vez e muito menos que fossem
pensar estar rolando alguma coisa entre nós dois. Não queria nem
imaginar a confusão que estaria em meu colégio amanhã e muito
menos a reação de Nicolas ao ver aquilo, provavelmente eu teria
que dar explicações, o que,sinceramente, era irritante demais.
✽ ✽ ✽
Entrei no saguão do meu prédio e cumprimentei o porteiro,
andando até o elevador para chegar no vigésimo andar, onde ficava
a cobertura que eu morava com meu pai.
Assim que cheguei no andar, me deparei com as duas
únicas portas dali e caminhei até a porta branca do meu
apartamento, animada por finalmente poder deitar na cama.
Assim que entrei no apartamento, minha visão foi preenchida
pela sala de paredes bege, com uma televisão fazendo presença na
parede ao lado da porta, assim como um vaso de plantas e um sofá
cinza do lado oposto, recheado de almofadas rosas e pretas, que
eram as preferidas da minha mãe.
— Melina? — meu pai chamou da cozinha, me fazendo
desfocar do sofá e soltar um suspiro.
Caminhei lentamente pelo corredor curto, chegando com
rapidez onde seu Heitor estava, próximo do cooktop, logo atrás da
bancada de mármore branco. Me sentei em uma das banquetas
pretas que ficavam na frente e observei atentamente meu pai.
Ele parecia cansado e sua feição, que era normalmente
coberta por um sorriso carinhoso, estava carrancuda. Os olhos azuis
— que eu sentia uma certa raiva por não ter puxado — carregavam
algum tipo de irritação e os cabelos castanho-claros quase raspados
estavam despenteados, como se ele tivesse passado a mão ali
muitas vezes.
Heitor Mattos era um homem bonito ao ponto de metade das
pessoas que eu conhecia fazerem piadinhas como: “seu pai está
solteiro?”.
— Onde foi ontem quando saiu com a Nina? — ele
perguntou, com sua voz grossa me fazendo focar completamente no
que dizia.
Estiquei um pouco o braço, pegando uma maçã na pequena
fruteira de cima do balcão e alcançando para ele lavar para mim,
com um sorrisinho no rosto. Meu pai soltou um suspiro, pegando a
fruta e enxaguando na pia, antes de me entregar novamente,
voltando a guardar a louça.
— No shopping, o Theo queria ver se na livraria daqui tinha
os livros da faculdade que ele precisava, também ia aproveitar para
comprar algum novo — falei, mordendo a minha fruta e ficando um
pouco triste por lembrar que meu primo já tinha voltado para Monte
Sul.
— E encontrou alguém por lá? — Heitor me olhou de
soslaio, e eu parei a mão no ar, com a boca um pouco aberta, já que
estava prestes a dar mais uma mordida na maça.
Aquela era a tática do meu pai, ele sutilmente questionava
coisas até chegar em um assunto central e naquele momento, eu
soube que o assunto era a tal foto.
— Esbarrei em dois garotos do Santana — eu disse,
tentando manter a indiferença na minha voz.
Meu pai soltou um suspiro, deixando o pano ao lado da pia e
se virando completamente para mim. Do jeito que estava agindo,
parecia até mesmo que eu tinha matado alguém.
— Melina, evite se envolver com rapazes daquele colégio —
seu tom de voz era preocupado enquanto falava. — Apoio
completamente os colégios se unirem, mas por enquanto não é uma
realidade e isso só vai atrair atenção indesejada para você.
Eu sabia do esforço do meu pai, como diretor do São
Sebastião, para tentar acabar com as rixas intensas entre nosso
colégio e o Santana. Ele e Myrian — diretora dos nossos rivais — já
não aguentavam mais apaziguar situações e lidar com brigas.
— Não me envolvi com ninguém pai — respondi,
controlando minha vontade de resmungar. — Eu até conheço os
dois, porque sempre estão nos jogos, David é o capitão, mas foi um
total acaso eu esbarrar com eles lá. E a foto estava totalmente fora
de contexto, só entreguei um livro para o loiro babaca.
— Acredito em você, querida. Só fique o mais longe que
conseguir, principalmente pelos próximos dias, o colégio vai estar
uma loucura.
— Por isso eu odeio adolescentes — reclamei, enquanto
terminava de comer minha fruta.
Meu pai deu uma risada fraca, balançando a cabeça e me
fazendo sorrir.
— Vou subir para o quarto — falei, andando até a lixeira para
jogar fora o lixo. — Vamos pedir pizza depois?
— Virou a segunda da pizza?
— Nova tradição. — Dei de ombros. — Ou você pode
cozinhar.
— Quem não gosta de pizza?! — Meu pai franziu as
sobrancelhas. — Vamos fazer a segunda-feira da pizza.
Balancei a cabeça e soltei uma risadinha baixa, deixando a
cozinha para subir as escadas e finalmente chegar ao meu quarto.
Abri a porta branca e suspirei aliviada assim que vi minha
cama de casal, com as almofadas peludas bem colocadas e minhas
cobertas confortáveis estendidas. As pequenas luzes desciam pelas
paredes, bem como os ramos de folhas falsas, que decoravam todo
o quarto de uma maneira que eu achava adorável.
Soltei minha mochila no chão, observando com atenção meu
reflexo no espelho, que ficava no canto do quarto, quase de frente
para a minha cama. Olhando rapidamente, daria para dizer que
ainda era a mesma Melina de um tempo atrás, mas se observasse
com atenção, o inchado na parte debaixo dos meus olhos, bem
como as olheiras disfarçadas com maquiagem mostravam
claramente o quão acabada eu me encontrava. Meu uniforme
estava um pouco amassado e isso se devia graças ao fato de que
seu Heitor era um ótimo pai, mas péssimo para cuidar de
praticamente qualquer coisa da casa.
Andei até a cama e me joguei lá com um pequeno impulso,
sentindo meu corpo quase agradecer por finalmente descansar.
Peguei meu celular no bolso do moletom aberto, pela
primeira vez em horas e assim que desbloqueei, fui atolada pela
chuva de notificações no grupo do colégio.
Eu sabia o que encontraria ali, mas, mesmo assim, abri as
mensagens. Gente falando que eu tinha traído o Nicolas era o que
mais tinha e também reclamando sobre eu continuar no time mesmo
não jogando há tanto tempo.
Senti vontade de mandar todo mundo para a merda? Com
certeza. Mas apenas saí da conversa em grupo e abri a de Nina.
Melina: Cheguei bem em casa.
Melina: Chegou também?
Nini Meu Amor: Cheguei, mas já tive que sair, minha mãe queria
companhia para o mercado.
Melina: Guerreira.
Nini Meu Amor: Não vai ficar se preocupando com as mensagens,
hein.
Soltei uma risada abafada, Nina me conhecia bem demais.
Melina: Já li e ignorei.
Melina: Minha consciência está limpa e amanhã tento me
resolver com o Nicolas.
Nini Meu Amor: Ele provavelmente não acreditou em nada, nem se
preocupe.
Melina: Que horas vai sair do mercado?
Melina: Vou pedir pizza.
Nini Meu Amor: Oba! Durmo aí, ainda tenho roupa, né?
Melina: Tem, sua pilha segue intacta.
Nini Meu Amor: Ótimo!
Nini Meu Amor: Até mais tarde.
Melina: Até!
Tudo que eu queria era dormir um pouco antes da Nina
chegar e ignorar qualquer coisa em minha vida, por isso soltei o
celular na pequena mesinha ao lado da cama, e me ajeitei para
deitar nos travesseiros.
— Alexa, toque música — pedi para a assistente virtual.
— Aqui está uma estação que talvez você goste — o
aparelho me respondeu, rapidamente começando a tocar Hooked
do Why Don’t We, me deixando bastante satisfeita.
E enquanto cantarolava a música, acabei adormecendo.
CAPÍTULO 6
Segunda-feira, 30 de agosto de 2021
Minha cama estava confortável demais, em um nível que
levantar se tornava uma missão impossível. O teto escuro era o que
ganhava minha atenção, já que eu não tirava o foco de lá desde que
tinha aberto os olhos.
A luz já entrava pelas janelas logo atrás da minha cama,
tudo culpa de eu ter largado a persiana sem fechar por ter ido deitar
com pressa e dormido enquanto lia em meu Kindle.
Escutei o barulho da porta se abrindo e tudo que eu desejei
foi que tivesse sido apenas coisa da minha cabeça, mas assim que
o corpo alto de meu primo apareceu nas escadas, que ficavam de
frente para minha cama, eu soube que, para o meu desespero, era
David ali e não minha imaginação.
— Um bom dia para o melhor primo do mundo — David
falou, se aproximando lentamente da minha cama e sentando na
beirada.
O encarei por cerca de dois segundos e virei meu corpo para
o lado, olhando a parede, como se dissesse: suma daqui, praga.
Mas era de David que eu estava falando e nem mesmo se
eu gritasse seria o bastante para aquela criatura inconveniente ir
embora.
— O que você quer? — resmunguei, ainda sem olhá-lo.
— Posso usar seu carrodepois da aula? — ele perguntou.
Foi o suficiente para ganhar minha atenção, me obrigando
até a sentar na cama. Não pude evitar pressionar meus lábios e
respirar fundo.
— O que pretende fazer com ele? — questionei, mostrando
um tom sério, que fez David sorrir de verdade, mostrando suas
marcas de expressão nos cantos dos lábios.
— Vou sair com uma gata e ela não curte motos — ele
explicou, como se fosse realmente um ótimo motivo.
Não consegui evitar revirar os olhos. Tinham momentos em
que David parecia um babaca, mas ainda era meu primo e uma das
únicas pessoas que eu realmente mantinha em minha vida, então
talvez por isso, as palavras saíram automaticamente de minha boca:
— Se bater, arranhar, ou qualquer coisa do tipo, se
considere um homem morto — avisei, ficando extremamente sério.
— Se transar nele também.
— Sem sexo! E vou cuidar dele como se fosse minha moto,
Santiago.
— Você destruiu sua moto mês passado e eu tive que te dar
outra — o lembrei do pequeno acidente que ninguém entendia como
ele tinha saído sem nenhum arranhão.
— Certo, tinha esquecido desse detalhe, mas juro para você
que vou cuidar, tenho que impressionar a gata. — Ele piscou,
apontando os dedos como uma arminha e eu não resisti em fazer
uma careta.
Quanto mais David convivia com os jogadores do Santana,
pior ele ficava e eu acreditava com convicção que já tinha chegado
em um estado grave de falta de sanidade, principalmente depois
daquele gesto.
— Depois da aula você me leva para almoçar, me deixa na
academia de ballet e aí pode usar meu carro.
— Combinado, valeu primo — ele falou, comemorando,
antes de levantar da cama. — Só se arruma logo, senão vamos nos
atrasar e hoje é dia que a Ana vai com a gente.
Aquilo foi o suficiente para eu esboçar uma expressão de
sofrimento. Aguentar Ana Carolina às oito horas da manhã de uma
segunda-feira era tortura e depois ainda achavam ruim eu odiar dias
de semana.
— Inferno — resmunguei, tirando a coberta de cima do meu
corpo e me levantando.
— Cacete, Santiago — David exclamou, me assustando um
pouco por ele já estar praticamente descendo a escada, mas ter
parado para me encarar.
— Que foi, porra?
— Onde anda malhando? Quero ir também. A academia
daqui de casa não está me dando esse efeito.
Olhei para baixo involuntariamente, tentando entender sobre
o que ele falava, mas nada parecia diferente.
— Tá de parabéns, viu, priminho? Mas bem que poderia
fazer uso do monumento que o ballet te deu, aposto que muitas
moças ficariam felizes.
Peguei uma das almofadas cinzas da minha cama e
arremessei em sua direção, fazendo David rir.
— Estou dizendo verdades — ele falou, já descendo mais
um pouco as escadas.
Me debrucei na grade ao lado da cama, que me dava uma
visão completa do primeiro andar do meu quarto.
— Some da minha frente! — exclamei para ele, que riu mais
um pouco enquanto olhava para cima e por fim saia do cômodo.
Soltei um suspiro e entrei em meu closet, colocando uma
bermuda de moletom, pegando minha chave na prateleira e indo
descer as escadas. Ainda eram sete horas e eu deveria pedir aos
céus que Carol chegasse apenas umas sete e cinquenta.
Corri pelos corredores por longos minutos, saindo para o
jardim da minha casa. Passei pela piscina de forma apressada,
assim como pelo lounge e a quadra, finalmente chegando no
caminho de pedras que levava até o meu lugar preferido no mundo:
a estufa da minha mãe.
Parecia um mini palácio de vidro, com algumas árvores
pequenas em volta. Me aproximei da porta, que só eu e Agatha
tínhamos acesso e destranquei, entrando rapidamente e trancando
por dentro.
Os ramos de planta desciam do teto de maneira quase
mágica e todas as rosas que minha mãe tanto amava estavam
belíssimas. Caminhei até o centro, me sentando no banco e
observando a glicínia, com as flores lilases penduradas.
— Oi, mamãe — falei, para nada em específico. — Me
desculpa por sumir uns dias, acho que o David está me deixando
maluco. — E ele realmente estava. — Lembra quando você pegava
nós dois no colo para contar histórias? Acho que crescemos
bastante desde aquele tempo.
Soltei uma risada abafada, mexendo em minhas mãos.
— Desculpa também por não estar vestido direito, é que eu
tinha pouco tempo. Consigo até escutar você dizendo: “se continuar
correndo por aí sem blusa, vai pegar um resfriado”. — Mordi o lábio
inferior, tentando controlar as lágrimas que queriam se formar. —
Sei que faz muito tempo, mas sinto tanto a falta das suas broncas.
Engoli em seco, olhando para cima, os pequenos pontos de
luz no teto pareciam estrelas e isso me fez sorrir por um momento.
— Não sei se você gostaria de quem sou atualmente, mãe
— admiti, respirando fundo. — Acho que não consigo encarar o
mundo como você me ensinou, tem sido difícil.
Muito difícil.
— Imagino que ele não esteja falando muito com você
atualmente, mas eu sei que mesmo sendo um imbecil, Archibald
nunca deixou de te amar, daquele jeito escroto dele, mas ainda
assim.
Enxuguei a lágrima que escorreu pela minha bochecha e
fiquei em pé.
— Eu preciso ir para a aula, mas prometo que venho te
atualizar logo — falei, mesmo sabendo que não teria resposta
alguma. — Eu te amo e sinto muito a sua falta.
Sorri para a árvore e comecei a caminhar para fora da
estufa, a trancando assim que saí e me direcionando para o quarto,
já que ainda precisava colocar o uniforme e lidar com mais um dia
naquele hospício.
✽ ✽ ✽
O intervalo era sinônimo de momentos de pura insanidade.
Um bando de adolescentes malucos andava pelos corredores,
dominando as cantinas, falando exageradamente alto e me fazendo
ter vontade de cavar um buraco e sumir.
Mas eu tinha finalmente conseguido um momento de paz,
sentado em uma das enormes poltronas da área de interação, com
um fone em cada ouvido e meu Kindle na mão, preparado para
achar alguma coisa para ler.
Porém, eu tinha esquecido que o universo me odiava e
minha prima arrancando meus fones foi o suficiente para eu lembrar,
ficando muito puto por sua atitude.
— Que porra é essa, Ana? Devolve meus fones.
— Vai emprestar o carro para o David? — ela perguntou,
cruzando os braços.
Naquele momento estávamos praticamente na mesma
altura, o que foi o bastante para a encarar diretamente nos olhos.
— Vou, o que tem a ver com você?
— Você sabe que ele é um puta irresponsável, o tio
Archibald te deu o carro faz pouquíssimo tempo — Carol falou. —
Se ele fizer bosta vai fazer o que? Comprar outro igual a moto?
Você nem tem tanto dinheiro. Porra, Santiago, tem que parar de
passar tanto pano para o David.
— Eu sei, Ana, mas ele me prometeu que vai cuidar — eu
disse, completamente sério. — E se não cuidar, vai levar um murro
e fazer milagre para me pagar. Agora não estou com saco para ficar
discutindo com você sobre o seu irmão, devolve a porra do meu
fone.
Minha prima revirou os olhos, dando de ombros e colocando
os dois pequenos fones na minha mão estendida.
— Que seja! Não me responsabilizo — ela falou, mostrando
certa revolta e começando a caminhar para longe.
— Ninguém pediu para se responsabilizar, cacete —
resmunguei, pronto para colocar os fones de volta, mas novamente
impedido, graças ao meu nome ecoando pela sala.
— É o Santiago? — alguém perguntou.
— Óbvio que é — outra pessoa respondeu.
Me virei lentamente, tentando descobrir de onde vinha aquilo
e me deparei com duas garotas, que olhavam os celulares e só
então me encararam, parecendo surpresas por me ver ali e
rapidamente saindo. Fiquei confuso, mas não estava com saco
nenhum para entender que merda aquilo significava.
— Ora, ora, ora, se não é o Santiago — a voz inconfundível
do Vitor ecoou pela sala e minha boca se curvou em uma expressão
de desgosto. De todos os amigos imbecis do meu primo, aquele era
o que eu menos suportava.
— Impressionante — observei, pegando a caixinha do meu
fone no bolso e os guardando, antes de olhar para sua cara, coberta
pelo sorriso debochado. — Aprendeu a formar uma frase inteira,
suas aulas particulares estão fazendo milagres.
Vitor riu sem mostrar os dentes, estalando a língua e meencarando.
— Todo mundo sabe que você é quietão, mas ninguém
imaginava que fosse do tipo disposto a trair seus colegas por uma
foda. — O garoto emitiu um som de reprovação.
— De que porra está falando agora? Pensar apenas com as
partes baixas está fazendo tanto mal que a cabeça de cima parou
de funcionar?
Eu estava pronto para ser a minha pior versão, quando
David chegou, franzindo o cenho para mim e parando em minha
frente, como se fosse uma mãe raivosa prestes a defender os
filhotes.
— O que quer aqui, Vitor? Já não disse para não perturbar
meu primo? — David cruzou os braços, encarando o rapaz.
Meu primo podia ter um péssimo gosto para as companhias,
mas não importava o quanto aqueles babacas eram próximos dele,
nada superava a forma como — mesmo quase nos matando —
cuidávamos um do outro.
— Desculpa, capitão — Vitor pediu, revirando os olhos e
sorrindo para David. — Só vim elogiar seu primo.
— Elogiar?! — David questionou.
— Sim, ele está comendo a princesinha do São Sebastião.
Arregalei meus olhos e senti a raiva consumindo meu corpo,
da mesma forma que meu rosto começou a queimar. Eu sabia muito
bem de quem ele estava falando. No caso, da Melina, que
chamavam assim por ser filha do diretor.
Não importava se eu odiava aquela garota por ela ser
namorada justo do cara que tinha sido babaca com a minha prima,
nós brigarmos há meses, além de parecer só ser grossa comigo,
Vitor não tinha o direito de falar daquela forma sobre menina
nenhuma.
— Que porra você falou? — perguntei, afastando David e
parando bem na frente do Vitor.
— O que foi? Não compartilha com seus amigos com quem
anda fodendo? — Seu olhar cínico se direcionou para mim.
Eu não sabia o motivo para ele estar falando dela, ou qual
era o contexto para começar aquele assunto do nada, mas fiquei
puto, puto pra caralho.
Dei um sorriso sarcástico para Vitor, em seguida falando:
— Sempre soube que sua vida era um tédio, mas não sabia
que estava feio ao ponto de precisar inventar historinhas sobre com
quem eu transo ou não para suprir suas necessidades. — E fechei
completamente a cara.
O rapaz de cabelos castanhos riu, balançando a cabeça em
negação.
— Está tentando enganar quem, Santiago? — Vitor
perguntou, suspirando. — Virou do tipo que come quieto? Tem que
aprender a compartilhar, ainda mais quando se trata de uma
gostosa.
— Deixa eu te falar… Mesmo que fosse o caso, o que não é,
diferente de você, não preciso usar mulheres como troféus.
Cansado daquela conversa imbecil e sabendo que o tempo
do intervalo estava acabando, eu apenas passei por ele, saindo da
sala e me sentindo orgulhoso por manter minha sanidade o
suficiente para não socar a cara dele.
David me seguiu, segurando meu braço e me impedindo de
continuar andando.
— Desculpa por isso, você sabe como o Vitor é — meu
primo falou.
— É, sei bem — respondi, ríspido. — Você tem ótimos
amigos, David.
Balancei meu braço, para que ele me soltasse e continuei
andando, pegando o meu celular que não parava de vibrar e ficando
totalmente surpreso com a foto que estava no grupo da minha turma
de babacas.
Era eu e a garota na livraria, em um momento que ela tinha
sorrido, de maneira totalmente debochada para mim. Realmente
tinham concluído que estávamos tendo alguma coisa por aquela
foto? Adolescentes tinham problemas mentais graves. Dava para
ver claramente o quanto Melina me odiava pela forma que me
encarava.
— Santiago! — Ana exclamou, correndo em minha direção,
sorrindo. — Seu safado, sempre achei que odiava ela. Quero
detalhes, agora mesmo, priminho.
— Ficou maluca?
— Quer enganar quem? Olha o jeito que estão se olhando,
— ela mostrou a foto para mim — pelo amor de Deus, Santiago, não
tem quem não diga que seja lá o que estava rolando, era intenso.
— Ana, não que seja da sua conta, mas nós dois
literalmente estávamos nos xingando.
Ana fez uma careta, olhando para o celular e para mim
repetidas vezes.
— Jura? Que merda, achei que você finalmente ia
desencalhar e alguém tinha rompido sua barreira gelada.
— Vou continuar andando antes que eu te mande ir para um
lugar que não bate sol — falei, voltando a andar pelo corredor, mas
Ana não me deixou em paz.
— Para ser sincera, até estou feliz que não esteja rolando
nada — minha prima disse, mostrando um beicinho. — Ouvi dizer
que ela é meio metida e é ex-namorada do Nicolas.
Aquela informação me fez parar, de forma que Ana não
esperava e precisou dar praticamente uma ré para ficar ao meu lado
novamente.
— O que foi? — ela perguntou, com uma sobrancelha
levantada.
— Nada — resmunguei, voltando a andar.
— Santiago… — Eu a interrompi rapidamente.
— Boa aula, Ana.
Foi o suficiente para minha prima não me seguir e eu
finalmente conseguir chegar em paz em minha sala, guardando o
Kindle na mochila e ficando puto por não ter lido nada.
✽ ✽ ✽
Desci as escadas rolantes que davam para o
estacionamento do shopping, refletindo sobre o que tinha acabado
de acontecer.
Eu não saberia explicar o que tinha dado em mim, mas no
momento exato em que vi aquele maldito cabelo comprido e bonito,
foi como se uma força externa tomasse conta de mim e quando
notei, já estava parado de frente para ela dizendo:
— Eu e você não vai rolar.
Por que disse aquilo? Não tinha a menor ideia, mas quando
Melina me retrucou, eu não resisti e rapidamente começamos uma
disputa verbal que fez meu coração até se acelerar pela raiva.
— Parece que virou algum tipo de rotina encontrar a Nina e
a Melina, né? — David interrompeu minha lembrança, só então me
fazendo me recordar que ele estava ali.
Castiguei meu primo por escolher almoçar no shopping, se
não tivéssemos ido lá, não teria encontrado com aquela garota e
não teria me estressado mais.
— Rotina ou karma? Acho que devo ter cometido algum
pecado grave na outra vida — falei, suspirando enquanto abria a
porta do carro, para dirigir até a academia de ballet e entregar meu
BMW nas mãos desastradas de David.
— Aposto que é porque você é muito mau, está recebendo o
troco — David disse, andando até o lado do carona e entrando lá.
Assim que me sentei no banco, encarei severamente meu
primo e admiti:
— David, você é um primo horrível, sabia?
— Sim e você me ama, por isso continua me bancando. —
Neguei com a cabeça, não tendo argumento algum para discordar
dele, apenas dando partida no carro e aceitando a derrota.
✽ ✽ ✽
Me joguei no sofá, tendo vontade de afundar nas almofadas
e ser engolido. Meu corpo doía graças ao ensaio intenso de ballet e
talvez a irritação que eu sentia estivesse colaborando um pouco
com a minha dor.
Tinha levado uma bronca, graças a porra da minha parceira
de dança. Odiava coreografias em dupla, porque exigia um tipo de
confiança que eu não conseguia proporcionar a ninguém e isso
tornava tudo mais difícil, principalmente por conta da garota que
dançava comigo não ser exatamente a melhor dupla. Sentia ainda
menos vontade de me conectar com ela.
Minha coreógrafa me mandou ajustar nossa sincronia, ou eu
seria retirado da apresentação do final do ano e nada nesse mundo
me deixava mais puto do que a ideia de todo o meu esforço não
servir para merda nenhuma graças a minha incapacidade de deixar
pessoas se aproximarem.
Se Yasmin, minha dupla, não fosse tão… sem graça, minha
vida seria muito mais fácil, mas eu teria que de alguma forma
descobrir como resolver meu problema de falta de conexão, ou
estaria fodido.
Minha irritação, que já estava bastante alta, só piorou
quando escutei a porta se abrindo e os passos inconfundíveis de
David invadirem o local.
Senti o sofá balançando assim que meu primo se sentou ao
meu lado, mas não me dei o trabalho de mudar minha posição,
continuando de bunda para cima e a cara enfiada no sofá.
— Encontro ruim para voltar tão cedo? — perguntei,
levantando o rosto apenas o suficiente para que David me
escutasse.
— Não, só não estava com vontade de chegar tarde. —
David deu de ombros, chutando os tênis dos próprios pés e
bagunçando os cabelos.
— Você? — Se estivesse com forças o bastante, teria feito
uma careta.
— Me deixa em paz, garoto,que implicância. — Meu primo
acertou uma almofada na minha bunda. — Quando começou a
querer cuidar da minha vida?
— Desde que comecei a pagar suas contas — resmunguei,
vendo uma falsa expressão ofendida brincar em seu rosto.
— Credo, Santiago, não sabia que fazia o tipo que joga as
coisas na cara.
— Sou surpreendente. — Dei uma piscadinha.
— Acho que está convivendo muito comigo, melhor parar —
David falou, fazendo um beicinho e jogando o corpo para trás.
— Se quer ficar sentado aqui, pelo menos cala a boca —
pedi. — Estou exausto e pretendo começar a ler, assim que meu
corpo parar de pedir socorro.
— O que vai ler?
— Vai acrescentar alguma coisa na sua vida? — perguntei, o
encarando.
— Responde logo, babaca.
— Qual o problema de todo mundo que decidiu me chamar
de babaca? — pensei em voz alta, me lembrando da Melina.
— Todo mundo seria eu e a Melina? — Um sorriso
brincalhão fez presença no rosto de David. — Acho que começamos
a enxergar tudo com clareza.
— Vai para a merda.
— Tão sensível, fico emocionado. — David colocou a mão
no peito. — Diz logo que porra de livro quer ler.
— O Jogo do Amor/Ódio — falei de uma vez, esperando que
ele calasse a boca.
— Ah, para se inspirar? — Meu primo sorriu, me olhando
com atenção e eu apenas franzi o cenho.
— Perdão?
— Você… Melina, sabe?
Me dei o trabalho de levantar meu corpo o bastante para
pegar uma almofada e arremessar na cara do David.
— Anda falando muita bosta, sabe que não suporto ela, nós
só brigamos.
— Para alguém que lê tanto, está mal-informado sobre
enemies to lovers.
— Some da minha frente antes que eu te bata — eu
exclamei, me sentando no sofá e ignorando o cansaço presente em
meu corpo.
— As verdades pesam, né, primo?
Levantei uma almofada, fazendo David erguer os dois
braços, como se estivesse se rendendo.
— Se acalma, vou ficar quietinho, sem um pio.
Suspirei, agradecendo aos céus por me darem alguma
ajuda, mas rapidamente retirando meu agradecimento ao escutar a
voz de David novamente.
— Mas sobre o que é o livro?
— Não ia ficar quieto? — questionei, o olhando com
reprovação.
— Estou querendo me envolver mais na sua vida — ele
explicou.
— Sabendo o que eu leio?
— É ué, vai que se torna útil para alguma coisa? — David
cerrou os olhos. — Ouvi dizer que tem altas coisas de livros que dá
para usar na redação do Enem, preciso de nota, primo, conta mais.
Foi o suficiente para me arrancar uma careta. Meu primo
nem estava pensando em fazer vestibular, muito menos procurando
conteúdo sociocultural para o Enem.
— Meu Deus, David, some logo daqui.
— Boa noite para você também, senhor ogro — ele
provocou, dando um sorrisinho debochado.
Arremessei todas as quatro almofadas que estavam perto de
mim na direção dele, fazendo meu primo sair pulando.
Encostei confortavelmente no sofá e aproveitei o silêncio
para fechar meus olhos. Até queria ler, mas o cansaço consumiu
meu corpo e eu nem notei quando acabei dormindo ali mesmo.
CAPÍTULO 7
Quarta-feira, 01 de setembro de 2021
Dois dias e eu ainda escutava gente falando sobre aquela
foto, murmurando e apontando para mim pelos corredores, como se
eu tivesse cometido algum tipo de crime imperdoável, ou matado o
ídolo deles. Ok, eu sabia que a rivalidade entre o Santana e o São
Sebastião era uma coisa palpável, mas quando exatamente estar no
mesmo ambiente que alguém daquele colégio de gente metida tinha
virado pecado? Eu nem ao menos gostava daquele garoto. Odiava
ele para ser bem exata, mas estava sendo condenada por esbarrar,
por puro acidente, em um robô estressadinho.
Queria ter conversado com meu melhor amigo sobre o
incidente, porque os comentários acabavam, em grande parte, o
envolvendo, mas por algum motivo não me sentia com forças o
suficiente, o que fez evitar Nicolas se tornar minha tarefa diária, mas
percebi que não teria mais escapatória assim que vi o rapaz parado
exatamente na porta da minha sala.
— Nick! — exclamei, sorrindo sinceramente para ele e
notando o momento em que seu olhar se encontrou com o meu, já
que Nicolas sorriu de volta.
— Dei um jeito de não poder me evitar hoje — ele provocou,
me deixando envergonhada por aquela atitude imatura.
— Me desculpa, eu não…
— Mattos — Nicolas me interrompeu, negando com a
cabeça. — Não se esquenta com isso, sei que o povo botou uma
pressão em você. Eu só estava brincando.
— Sim, mas não foi certo te evitar, deveria ter falado com
você, até porque você é meu melhor amigo.
— Relaxa, Melina, não vim te cobrar, só queria ver se estava
bem. — Nick sorriu, me trazendo um completo alívio.
— Estou sim. — Sorri de volta. — Nick, sobre a foto, eu e a
Nina fomos na livraria e esbarramos com os garotos do Santana,
não tinha nada acontecendo.
Eu sabia que não precisava dar uma explicação, porém eu
sentia que deveria. Em partes porque tínhamos terminado há menos
de um mês, mas também porque não era justo eu excluir meu
melhor amigo da minha vida.
— Eu tinha imaginado. — Ele deu de ombros. — Você nunca
ficaria próxima daqueles merdas, sei disso.
Forcei um sorriso e concordei, segurando um suspiro. Tinha
dias em que aquela rivalidade parecia muito ridícula para mim. Nos
dias de jogos, eu ficava até pior do que eles, porque sempre fui
competitiva e isso acabava sendo inevitável, ainda mais na época
em que eu jogava, mas não conseguia entender o motivo de
levarem a rivalidade para fora da quadra com tanta intensidade.
— Não que tenha a ver com o que estamos falando, mas
como está meu sogrinho? — Nicolas perguntou, cruzando os braços
musculosos na frente do corpo.
— Ele não é seu sogrinho. — Mostrei uma careta.
— Infelizmente, mas eu ainda considero, até porque só
terminamos por culpa sua. — Ele descruzou os braços e tocou o
dedo em meu ombro duas vezes seguidas, sorrindo.
— Terminamos porque nós dois como casal não funciona,
amor.
— Aí. — Nicolas colocou a mão no peito. — Quando me
chama de amor, eu repenso isso.
— Vai se ferrar. — Dei um tapa no braço dele, enquanto
deixava uma gargalhada escapar da minha garganta.
— Ainda não sei porque não funcionamos.
— Você concordou comigo quando terminamos — o lembrei,
levantando uma sobrancelha.
— Mas eu não disse que discordo, realmente não funcionava
nossa dinâmica de casal, eu só não entendo o motivo.
Desviei o olhar por um momento, notando que poucas
pessoas permaneciam pelo corredor, apenas alguns alunos
entrando em suas salas, coisa que eu também deveria estar
fazendo.
— Nem eu, mas acho que você é muito ciumento, era um
pouco irritante. — Dei de ombros, voltando a encará-lo.
— Eu tinha um ciúme normal, ainda tenho em situações
específicas. Aqueles babacas sempre ficam fazendo comentários,
me incomodava desde quando éramos só amigos, e ainda
incomoda.
— Acho que é coisa da sua cabeça, mas tudo bem.
Sabia que discutir sobre o ciúme de Nicolas nunca chegava
a lugar algum e eu não estava com forças o bastante para iniciar
uma disputa verbal, então apenas deixei uma lufada de ar escapar,
antes de falar:
— Outra coisa, para de ligar para o meu pai. Toda hora vejo
vocês conversando, faz ele achar que a gente vai voltar.
— Quem disse que não vamos? Coitada, você vai casar
comigo.
— De novo com esse papo, Nick? — A voz de Nina fez
presença no local, enquanto minha melhor amiga passava o braço
pelo meu pescoço. — Supera.
Nicolas mostrou a língua para ela, que riu da cara dele.
Eu amava aqueles dois, nos conhecíamos desde que eu
tinha me mudado para Vila dos Anjos, há quase oito anos. Minha
mãe queria jogar no time da cidade e meu pai tinha conseguido o
emprego como diretor do colégio, então fomos morar na tranquila,
porém grande, cidade perto de Curitiba.
Acabou que logo no primeiro dia de aula eu conheci Nina,
quando ela derrubou meu lanche e desde então não nos largamos.
O Nicolas já era um de seus amigos, ela só nos apresentou e assim
nos tornamos inseparáveis, tudo era nós três. O que foi bem
aliviante na época, já que em Monte Sul eu praticamente só tinha
meus primos como amigos. Tudo culpa da timidez que eu
costumava ter antes.
Nina olhou parao relógio branco e delicado no pulso,
mostrando para Nicolas que faltava apenas cinco minutos para a
porta das salas fecharem e, para o desespero do meu melhor
amigo, sua sala ficava no outro bloco.
— Puta merda, preciso ir, mas nos falamos no intervalo —
ele avisou, dando um beijo na bochecha de cada uma de nós duas.
Viramos para ele conforme o garoto andou pelo corredor e
nós três nos despedimos, um pouco dramáticos demais, acenando e
dizendo que jamais nos esqueceríamos. Era possível ver meu
professor, dentro da sala, apenas balançando a cabeça e soltando
uma risada baixa, já que estava acostumado, nós sempre éramos
assim. E eu acreditava fielmente que nunca mudaríamos. Seríamos
eu, Nina e Nicolas para o resto da vida, quase como uma promessa
escrita em nossos fios do destino.
✽ ✽ ✽
Existiam dias ruins e eu estava cansada de perceber isso,
mas também existiam dias péssimos e ter Jéssica Bueno fazendo
um trabalho comigo e com Nina, era sinônimo de horrível.
Há cerca de quatro anos, nós éramos amigas. Nada
comparado a minha amizade com Nina, mas nos dávamos bem.
Porém, quando Jéssica ganhou um pouco mais de força nos braços,
começou a fazer um bom saque e a treinadora cometeu o erro de
dizer: “Jéssica, se continuar assim pode ser capitã um dia”, tudo
virou um inferno. Eu era sua principal rival para o posto de capitã
quando chegássemos na época de assumir o time e isso foi o
suficiente para Jessica decidir que tornaria minha vida um inferno.
Ela também tentava tomar meu lugar como levantadora, mesmo
sendo péssima para armar os ataques e jogando mil vezes melhor
como central.
Para mim, o time sempre foi como uma segunda família, era
isso que minha mãe tinha me ensinado. Precisávamos cuidar uma
das outras e dar nosso máximo, mas sem competições internas. Só
que a Bueno não entendia esse conceito.
Eu virei a substituta da capitã quando entramos no primeiro
ano do ensino médio e comecei a ser treinada para liderar o time,
virando a capitã quando a hora chegou, cerca de um ano depois,
mas Jéssica nunca aceitou isso muito bem.
Há cerca de um ano e meio, quando tudo aconteceu, talvez
tenha sido o momento de glória de Jéssica, já que, como eu não
conseguia jogar, ela me substituiu e ficou durante todo esse tempo
sendo a capitã. Ela amava isso, amava mandar em todo mundo e
ser cruel sempre que possível e era algo notável demais.
— Melina, querida, todas sentimos sua falta nos treinos,
quando vai voltar? — A voz de Jessica me atingiu, me tirando
daquela reflexão sobre sua maldade. — Sabe, a treinadora está
sendo um amor em segurar sua vaga, mas temos tantas jovens que
querem participar do nosso time.
— Você sabe porque ela não está jogando — Nina
resmungou, suspirando, sem tirar os olhos do livro.
— Qual é, faz um tempão que o pé dela melhorou, fica
saltitando alegremente para todos os cantos, estava até namorando,
mas não tem ânimo para jogar?
— Jes, já conversei com a treinadora, mas agradeço sua
preocupação — falei, forçando um sorriso.
A garota sorriu largo, estourando a bola de chiclete que tinha
formado na boca e enrolando uma das mechas encaracoladas de
seu cabelo castanho no dedo indicador.
— Claro, querida, é para isso que servem as amigas. — Ela
piscou exageradamente os olhos escuros, que eram pequenos e
perfeitinhos, além de repuxados nos cantos, enquanto os cílios,
alongados, davam um destaque enorme neles.
Falsa, foi o primeiro pensamento que passou pela minha
cabeça. Ela só estava preocupada com seu posto imaginário de
dona do vôlei, considerando que o nosso era o melhor time juvenil
do estado e isso subia para a sua cabeça.
Talvez, por algum milagre, um anjo tenha escutado minhas
preces e os treinadores entraram na sala, interrompendo qualquer
conversa.
— Bom dia, alunos! — a treinadora Paula falou, sorrindo de
orelha a orelha.
— Bom dia! — respondemos em uníssono.
— Queremos a presença de todos os jogadores de vôlei e
basquete no pátio, imediatamente para um recado geral — o
treinador Enzo disse com firmeza.
Rapidamente os jogadores se levantaram, começando a sair
da sala na frente dos treinadores, o que incluía Jessica, para o meu
alívio.
— Melina — meu nome, em um tom sério vindo de Paula fez
com que eu ficasse atenta e encarasse a mulher. — Que eu saiba,
você também é jogadora.
— Mas eu… — fui tentar explicar que não estava jogando,
embora fosse óbvio, mas a treinadora do vôlei me interrompeu.
— Melina, para o pátio.
Contrariada, eu me levantei, fitando Nina com um pedido de
socorro estampado no rosto, mas ela não poderia fazer nada para
me ajudar.
Caminhei pelo corredor, até o pátio, seguida pelos dois
treinadores e assim que cheguei lá, foi impossível não notar todo
mundo me encarando. Eu já não saberia dizer se era pela foto, ou
pelo fato de que era a primeira vez em um ano e meio que eu ia
para alguma coisa dos times. E para o meu azar, Nicolas estava do
outro lado, o que me impossibilitava de chegar perto do meu melhor
amigo sem atrapalhar todo mundo e gerar ainda mais atenção.
— Muito bem, só faltava aquela sala, agora podemos
começar — Paula anunciou, parando na frente, onde recebeu a
atenção de todos os jogadores de vôlei e basquete, me fazendo
agradecer aos céus por parar de ter toda a atenção em cima de
mim.
— Sabemos que a situação de rivalidade entre vocês e os
times do Santana andam pior a cada momento — disse Enzo,
causando alguns burburinhos, que foram cessados assim que a
expressão dura atingiu o rosto do homem de meia-idade,
extremamente alto. — Por isso, eu, a Paula e o Mateus decidimos
fazer uma partida amistosa, com o intuito de promover uma
interação não competitiva entre vocês.
Caos, essa era a única palavra que poderia definir o
resultado daquela ideia estúpida. Como três treinadores, que vem o
alvoroço em todo maldito jogo nos últimos quatro anos, decidem
juntar o motivo do alvoroço sem ser por obrigação?
— Treinador, por que caralhos vamos fazer isso? — Nicolas
perguntou, se levantando.
— Mais respeito, Nicolas — o homem chamou a atenção
dele.
— Desculpe, senhor, mas por que precisamos jogar com
eles? Os jogos normais já são mais que suficientes.
— Seriam se vocês agissem como gente, mas parecem um
bando de animais. O rosto do capitão deles ainda está todo roxo,
graças a você, Mendonça. — O treinador lançou um olhar duro para
Nicolas, que abaixou a cabeça.
— Não queremos balbúrdia, apenas que consigam aprender
a jogarem juntos, tanto que os times vão ser misturados. — Paula
sorriu e aquela frase foi o suficiente para fazer dez garotos
musculosos, altos e nervosos se levantarem, falando coisas
incompreensíveis.
Dois minutos, esse foi o tempo até o treinador Enzo perder a
paciência e gritar para todo mundo calar a boca.
Eu apenas me encostei em uma das pilastras do pátio,
decidindo que ficar quieta era uma opção maravilhosa.
— Não estamos pedindo a opinião de vocês, estamos
avisando o que vai acontecer. — O homem tinha uma veia saltando
da testa, de tanta irritação. — Quanto ao time de vôlei feminino, as
garotas vão dar apoio a vocês, mas como lá não tem um time
feminino, não vão treinar.
— Treinador — Jéssica disse, se levantando. — Como
capitã — ela me olhou, antes de continuar, com um tom ácido,
voltando a olhar o homem —, eu acredito que jogar com os garotos
seja muito bom para treinarmos, podemos revezar durante o vôlei
deles também. Mulheres não são tão sensíveis.
— Não estava falando no sentido de que vocês não
poderiam treinar com homens, Bueno, mas sim porque só vão
treinar basquete. A não ser que queira jogar como pivô, mesmo não
tendo altura para isso, sugiro que se sente em seu lugar — Enzo
respondeu, claramente irritado, o que fez Jéssica apenas concordar
e se sentar novamente, me obrigando a segurar uma risada. — O
mesmo que serve para as garotas, serve para os rapazes que só
jogam vôlei.
— O treino vai ser no Ginásio de Esportes Cristina Santana
Santiago Ross, mesmo local em que sediamos os jogos, graças à
generosidade do senhor Ross, dono de lá e do colégio Santana, que
forneceu o lugar — Paula falou,dando um sorriso. — Esperamos
vocês lá às duas em ponto, caso não consigam ir sozinhos, me
avisem que nos ajeitamos para dar carona. Estão dispensados.
Aquilo foi o suficiente para todos começarem a se levantar,
andando para as salas e eu rapidamente me virei para ir até a
minha também, mas o universo não estava ao meu favor.
— Melina — a treinadora Paula me chamou, me fazendo a
fitar.
— Oi, treinadora.
— Sei que ainda é difícil para você, mas tente ir hoje, por
favor. — A mulher sorriu. — É um ambiente novo, você não vai
precisar jogar, imagine que vai dar um apoio ao Nicolas.
— Tem problema se a Nina for comigo? — perguntei,
sabendo que aquela resposta seria o que me faria escolher.
— Claro que não, é importante ter o apoio dos amigos, ela
pode ir também.
Eu suspirei, mesmo querendo continuar evitando qualquer
coisa relacionada ao vôlei, eu ainda era do time e não morreria se
aparecesse em um treinamento que nem precisaria jogar.
— Tudo bem, vou estar lá.
— Fico muito feliz, querida. — Paula colocou a mão em meu
braço, me dando um sorriso fraternal que eu retribuí, em seguida
indo para a minha sala.
No fim das contas, aquele seria um longo dia.
✽ ✽ ✽
Eu estava no Uber, junto de Nina, indo para o Ginásio
Cristina Santana Santiago Ross, sentindo todo o nervoso me
consumir.
Já tinha ido várias vezes ao ginásio, em literalmente todos
os jogos e mesmo depois do incidente, continuei frequentando,
então não entendia exatamente o motivo para parecer que eu
estava prestes a entrar em um abatedouro.
Nina desceu em minha frente, logo depois de pagar,
pegando a mochila e fazendo um sinal para que eu acelerasse os
movimentos. Entramos no ginásio e assim que vi minha equipe, a
familiaridade me atingiu como um soco.
— Melina, vamos — minha melhor amiga falou, descendo as
escadas e indo se sentar onde normalmente nos sentávamos.
Eu a segui, mesmo que receosa e me acomodei no banco.
— Não quer sentar com o time? Se quiser, podemos ir para
lá também — Nina sugeriu, mas eu rapidamente neguei, vendo ela
concordar em silêncio.
Peguei meu celular no bolso, me lembrando que precisava
mandar mensagem para o meu avô.
Melina: Oi, vovô!
Melina: Como o senhor está?
Melina: Me desculpe por não ter ido aí domingo, o Theo estava na
cidade.
Não demorou nem um minuto para eu ver o digitando
aparecer na tela, mas demorou cerca de cinco para uma resposta
chegar. Meu avô digitava bem devagar.
Vovô: Oi, minha netinha!
Vovô: Tudo bem, graças a Deus, até fui dar uma caminhada hoje.
Vovô: E você, minha querida? Tudo bem?
Vovô: Por que não trouxe o Theodoro aqui? Sabe que seu primo é
meu neto de consideração.
Melina: Que bom que está bem, vô.
Melina: Eu estou ótima, vim para um treino agora.
Melina: Devia ter levado, mesmo.
Melina: Prometo que da próxima vez que o Theo vier, levo ele aí.
Melina: Quero ver o senhor domingo, hein.
Vovô: Vai vir almoçar com seu pai? Que aí eu faço uma lasanha de
frango, que ele gosta.
Melina: Não sei se ele vai, vô.
Melina: Tem sido meio difícil para ele fazer programas que
costumávamos.
Vovô: Então venha você e a minha outra neta.
Melina: Que neta, vô?
Vovô: A Nina.
Melina: KKKKKKK ela vai adorar, vô.
Melina: Vamos domingo sim.
— Mattos, venha aqui — a treinadora me chamou, me
obrigando a levantar o olhar.
— Tô indo — respondi, digitando uma última mensagem.
Melina: Preciso ir agora, estão me chamando.
Melina: Se cuida, vô.
Desliguei o celular e entreguei para Nina, andando até a
grade e a pulando para chegar à treinadora, que estava cercada dos
jogadores enormes dos dois colégios. O que incluía David, que
estava me encarando com certa curiosidade.
— A Melina vai fazer a divisão dos times. — Paula sorriu
para mim, fazendo um sinal de beleza.
E assim que me virei para a frente, me deparei com o olhar
atento de vinte e quatro garotos, que pareciam armários de tão
altos.
— Treinadora — eu chamei a mulher, que me encarou, ainda
sorrindo. — Por que eu vou dividir?
— Imparcialidade, Melina, você não sabe quem são os
melhores, então apenas faça a divisão, misturando os times.
Se alguma coisa pudesse definir a minha expressão naquele
momento, seria desespero. Engoli em seco, notando que eles
começavam a ficar impacientes.
— Eu não sei o nome deles — sussurrei para Paula.
— Não tem problema, aponte e diga se são da equipe um ou
dois.
Analisei aqueles garotos, eu acompanhava tantos jogos,
mas no fim, Paula estava certa, eu não prestava atenção o
suficiente para saber quem eram os melhores.
Porém, era uma chance de tentar fazer o que aquele dia
estava proporcionando: uma trégua.
— David, time um — falei, olhando para o garoto, que
concordou, parecendo surpreso por eu o chamar pelo nome.
Apontei para um dos rapazes do Santana que não conhecia
e mandei para o time dois e em seguida tomei o que se tornaria
talvez a pior decisão no futuro, mas parecia totalmente certa ali.
— Nicolas, time um.
Meu melhor amigo/ex-namorado me olhou com tanta raiva,
que cogitei seriamente que me agarraria pelos cabelos e
arremessaria ginásio afora, mas ele apenas cerrou os punhos e
caminhou para o lado de David.
Se eles não conseguiam agir como civis, ficar no mesmo
time os obrigaria a trabalhar em equipe, além de ganhar uma nova
liderança.
Quando terminei de separar os times, os jogadores se
encararam e em seguida olharam para mim. Talvez eles fossem, de
fato, se unir, mas para me matar ao invés de jogar. Pelo menos
minha missão de trégua estaria concluída.
— Obrigada, Melina, pode voltar para o seu lugar — a
treinadora falou, me dando um sorriso carinhoso e fazendo um sinal
para que eu fosse para a arquibancada.
Suspirei, ignorando os olhares raivosos em cima de mim e
voltei para o meu lugar, ao lado de Nina.
— Você está bem? — ela perguntou, provavelmente
reparando meu olhar um tanto perdido.
— Sim, é só que foi meio estranho. — Dei de ombros.
Separar times me trouxe uma certa nostalgia dos tempos de
capitã e talvez essa fosse exatamente a intenção de Paula.
✽ ✽ ✽
Finalmente o treino havia terminado e o alívio me preencheu
por não ter tido nenhuma briga. Aquilo era um recorde e todos
estavam completamente surpresos. O que incluía os três
treinadores, que tinham ido pegar as garrafas de água no carro para
os jogadores, já que os bebedouros ficavam desligados durante a
semana.
Eu e Nina paramos ao lado de Nicolas, que estava
absurdamente suado. Ele me deu um sorrisinho.
— Parece que você só é incompetente quando não tem
nosso time te ajudando, não é, Nicolas? — um dos garotos que eu
não sabia o nome perguntou, se aproximando de nós e ganhando a
atenção de Nick.
— Falou o cara que não conseguiu defender nenhum dos
meus passes no último jogo — Nicolas disse, inflando o peito. —
Não é, Vitor?
O tal do Vitor deu um sorriso, completamente debochado
para o meu melhor amigo, em seguida começando a caminhar na
direção de Nicolas, até estarem frente a frente. Eles eram
praticamente do mesmo tamanho e perto deles, eu parecia um
cisco.
— Posso te superar a qualquer momento, capitão — ele
debochou.
— Jura? Me diga a hora e o lugar, aí descobrimos se é
verdade.
— Ei, parem com isso — David pediu, parando ao lado
deles. — Passamos um dia tranquilo, precisamos mesmo brigar
agora?
— Cala a boca, David — Nicolas mandou, fazendo uma
pequena veia saltar na testa do capitão do Santana. — Ninguém te
chamou para a conversa.
— Cacete, Nicolas, não pode dar um segundo de paz?
Porra, depois quando falam que não controla a merda do seu
temperamento ainda acha ruim.
Eu suspirei, sabendo que aquilo não pararia tão cedo, mas
sinceramente, não imaginei em momento algum qual seria a
resposta que Nicolas daria, até ele falar:
— Quando a sua irmã estava sentada em mim, não vi ela
reclamar do meu temperamento.
Meus olhos se arregalaram de forma automática e eu
encarei Nicolas com um tipo de desprezo que eu nunca pensei que
sentiria por ele. Aquilo era baixo, muito baixo, e eu sabia que ele
tinha descido todo e qualquer nível.
— Nicolas… — fui falar alguma coisa, mas perdi as palavras
assimque o som estridente da mão de uma garota acertando o
rosto dele soou.
— Vai tomar no seu cu, babaca — a jovem disse, o
encarando com um tipo de raiva que cintilava e foi ali que conclui
que ela era a irmã de David.
Só então me lembrei da presença do capitão do Santana e
seu rosto não estava vermelho, mas sim roxo, e ele bufava como
um animal prestes a atacar, mas estava se segurando porque
aquele era o momento de sua irmã.
Eu não sabia se deveria fazer alguma coisa, talvez bater em
Nicolas também, jogar uma bola de basquete nas partes baixas
dele, ou apenas sair correndo. Tinha me perdido em meio as
palavras que nunca imaginei escutar dele.
Nina colocou a mão em meu ombro e eu não soube se era
uma tentativa de apoio, ou de me conter.
— Porque não volta para sua vadiazinha e deixa meu irmão
em paz? — a garota perguntou, apontando para mim.
Se eu já estava com os olhos arregalados, naquele momento
eles quase saltaram para fora. Senti uma dor no peito, como se
tivesse sido atingida por um soco enorme.
— Quem você está chamando de vadia? — Nina questionou,
dando um passo à frente e ficando como uma barreira entre mim e
aquela briga.
— Oh, se ofendeu porque xinguei sua igual? Além de vadia
tem dificuldade de entender?
Aquilo foi o bastante, me ofender era uma coisa, mas
ninguém falava da Nina. Tirei delicadamente minha amiga da minha
frente e andei pisando firme no chão, até parar de frente para a
garota.
Sinceramente, eu não diria que ela tinha mais de quinze
anos se considerasse sua altura, já que ela estava com um salto
enorme e ainda conseguia ser menor que eu.
— Porque não pega essa sua hipocrisia e enfia no seu cu? A
única vadia e desmiolada aqui é você.
Sim, eu tinha perdido a linha. Xingar uma mulher de vadia,
sendo que ela também era uma vítima naquela situação não era
uma coisa que eu faria normalmente, mas quando escutei ela
dizendo aquilo para Nina, não me controlei.
Ariella estaria orgulhosa e isso era o suficiente para eu saber
que tinha feito uma cagada.
Já estava pronta para pedir desculpa, mesmo não estando
errada, quando senti uma mão em minha cintura e em seguida me
girando, fazendo com que eu tivesse que apoiar minhas mãos no
ombro do garoto.
Era ele. Com aquelas íris azuis me olhando de forma tão fria
que me fez sentir um arrepio subindo a espinha. Ele estava perto
demais e eu o odiava por isso.
— Repete o que você disse — o rapaz murmurou, com os
olhos cerrados em direção a minha boca, como se esperasse o que
eu ia dizer e a respiração se encontrava a centímetros do meu rosto.
— O-o quê? — perdi a fala e quis me enterrar por gaguejar.
— É surda? Repete. O. Que. Você. Disse.
Minha respiração ficou ofegante e conforme seus lábios se
moviam com aquelas palavras carregadas de ódio, eu me senti
perdida. Não sabia porque suas mãos me seguravam daquele jeito.
— Eu nem sei do que você está falando — admiti, vendo que
a raiva que Santiago carregava no olhar, apenas aumentou.
— Sei que seu cérebro é pequeno demais para
compreender, mas antes de sair falando que a Ana é uma vadia
desmiolada deveria se enxergar no espelho, princesinha. Ou sua
torre encantada, com a familiazinha perfeita está limitando sua
visão?
— Não fale de coisas que você não sabe — respondi com
firmeza, segurando as lágrimas que fizeram questão de querer
aparecer em meus olhos e aproveitando que segurava seus ombros
para o empurrar para longe.
O garoto deu uma risada seca e me encarou com a mesma
gelidez de todos os momentos em que nos encontramos.
— Eu só falo o que está muito óbvio, vai correr para a
mamãe e chorar?
Eu levantei minha mão, apontando o dedo para ele, mas o
garoto segurou meu pulso e aquele ódio em seu olhar se
transformou em alguma coisa que eu não soube definir, mas foi o
bastante para eu prender a respiração.
— O que está acontecendo aqui? — A voz da treinadora
ecoou por todo o ginásio e eu olhei para o lado, vendo a mulher
irritada e todos os jogadores que observavam aquele circo em
silêncio, como se não soubessem o que fazer. Incluindo Nina e Ana.
Eu quis chorar ali mesmo, deitar no chão e me afundar, mas
mantive a postura, tentando afastar todas as memórias dolorosas
que aquele imbecil tinha feito questão de desbloquear. A dor me
deixava quase sem ar e foi absurdamente difícil controlar o que
poderia se tornar um ataque de pânico.
Encarei o rapaz mais uma vez, me forçando a não
demonstrar minha dificuldade para manter a respiração e puxei meu
braço, que ele soltou, parecendo só então se lembrar que estava
segurando.
Assim que observei Paula e seu olhar irritado me atingiu, eu
soube que tinha me ferrado e a situação só piorou quando
enxerguei meu pai atrás dela.
CAPÍTULO 8
Quarta-feira, 01 de setembro de 2021
Não demorou nem cinco minutos para os treinadores terem
nos cercado, tentando impedir que tudo piorasse.
Alguns dos jogadores ainda estavam com os rostos
machucados por conta do jogo do final de semana e se aquilo
tivesse continuado, talvez ficassem ainda mais.
Eu não fazia a menor ideia de como aquela briga tinha
começado, mas cheguei no momento exato em que a princesinha
do São Sebastião chamou minha prima de vadia e foi o bastante
para eu perder completamente a linha.
Se eu tinha quase perdido o foco quando a girei e aqueles
olhos perdidos me encararam? Com certeza. Mas eu não podia
permitir que alguém tratasse minha prima daquela maneira.
— No que estava pensando? — A voz de David, direcionada
para Ana me interrompeu do meu transe, enquanto andávamos até
o escritório, a mando dos treinadores.
— O que foi, David?
— As duas não tinham nada a ver com o que o idiota do
Nicolas disse, só são amigas dele, mas isso já é castigo o bastante
— ele resmungou, fazendo minha prima franzir a sobrancelha. — Eu
ia dar um soco na cara dele e tudo se resolveria, você sabe que ele
não falou para você, era só para me irritar.
— Ele insinuou coisas, David.
— Ana, ele estava tentando provocar, é o que ele faz, por
que se doeu por uma mentira?
Ana arregalou um pouco os olhos, acelerando levemente o
passo para ficar em nossa frente.
— Ana! — David chamou, correndo até o lado da irmã.
O corredor era extenso demais e nós estávamos como os
últimos do grupo, bastante longe.
— É mentira, não é? — meu primo perguntou e eu vi minha
prima suspirar, me fazendo arregalar os olhos.
Eu nem estava entendendo aquela conversa, mas seja lá o
que o Nicolas tinha dito, aquela expressão que Ana fazia confirmava
que era verdade.
— Ana, porra, você transou com o Nicolas? — David
sussurrou, olhando para ela, sério demais.
— Foi uma vez, ok? Já me arrependi o suficiente.
— Cacete! — exclamei inevitavelmente, me surpreendendo
por demonstrar alguma reação.
— Olha isso, Ana, chocou até o Santiago — David reclamou.
— Quando foi isso? Ele namorava a Mattos até algumas semanas
pelo que eu saiba.
Já estávamos perto da porta do escritório, então reduzimos a
velocidade do passo, para terminar aquela conversa.
— Eles tinham terminado fazia alguns dias, não sou tão
otária.
— Então por que caralhos xingou ela e a Nina de vadias?
— O quê? — perguntei, completamente surpreso e com os
olhos arregalados.
— Santiago, você está demonstrando muitas emoções, por
favor, pare, é estranho — David pediu, fazendo uma careta como se
fosse chorar. — Tinha esquecido que não estava lá no começo.
Basicamente, o Nicolas foi babaca insinuando coisas, Ana deu um
tapa na cara dele, ofendeu a Mattos e depois ofendeu a Nina, aí a
Mattos retrucou e nisso você chegou.
Foi o suficiente para eu piscar repetidas vezes. Tinha
entendido tudo errado e se ela já me odiava, naquele momento
deveria estar querendo me matar.
— Santiago? — Ana chamou, parecendo um pouco
preocupada.
— O quê? — perguntei, ríspido.
— Você parece pálido, está se sentindo bem? — minha
prima perguntou.
— Ótimo — resmunguei.
David me encarou com seriedade, como se pela primeira vez
pudesse entender o que estava se passando pela minha cabeça.
— Vai indo para a sala, já te alcançamos — meu primo falou
para ela, que concordou.
Assim que Anase afastou, David se aproximou mais de mim.
— Por que me deixou dizer aquilo? — perguntei, cruzando
os braços.
— Perdão?
— Melina.
— Ah, você meio que faz isso sempre, achei que fosse mais
um dia de normalidade. — David deu de ombros.
Pisquei mais algumas vezes, me sentindo um pouco afetado.
Ele achava que eu era tão babaca assim?
— Eu a chamei de vadia, David, porque pensei que tivesse
dito isso para a Ana.
— Acontece.
— David!
— Calma, calma. — David levantou a mão em minha
direção. — Não foi o que eu quis dizer, é só que não tinha nada para
fazer naquela situação, todo mundo foi super babaca. Meio que a
coitada da Melina caiu de paraquedas. Na verdade, foi um pouco
extremo o que você disse.
— Como assim?
— Você falou da mãe dela.
— O que tem a ver? — Franzi o cenho, mas quando David
fez uma careta foi como se minha cabeça tivesse um estalo. — Ah,
merda.
O diretor do São Sebastião não tinha esposa e ninguém nem
citava uma ex-mulher, então ou ela tinha falecido, ou ido embora e
as duas opções eram horríveis para eu jogar na cara dela.
— Por que não fez nada para parar a Ana? Se ela foi babaca
— perguntei, nem sabendo o motivo para aquilo me incomodar
tanto.
— Santiago, você está meio estranho. Sabe como as brigas
funcionam? Não dava para eu passar fita isolante na boca de todo
mundo.
— É, eu sei. — Balancei a cabeça, um pouco confuso. — Só
não queria ter sido tão babaca com ela, não sabia que a Ana tinha
começado.
— Na real quem começou foi o Vitor. Olha, não se culpa. —
David colocou uma mão em meu ombro. — E pensa pelo lado bom.
— Tem um lado bom?
— Claro! Ela vai achar que você só foi você, vocês brigam
todas as vezes que se encontram mesmo.
— Isso é horrível, David. — Eu franzi o cenho, encarando
meu primo.
— Mas você nem costuma ligar para isso, o que você tem?
— Isso o quê?
— O que os outros pensam de você. Costuma viver com o
foda-se ligado.
— Viver com o foda-se ligado não é igual a ser
extremamente imbecil com quem não fez nada de errado.
— Ela xingou sua prima. Foi para se defender? Foi, mas
xingou. Ninguém ficou inocente lá, Santiago.
Mas aparentemente minha prima tinha praticamente roubado
o namorado sem vergonha dela e ainda a chamado de vadia
primeiro.
— Você anda meio estranho — David murmurou.
— Vai se foder, David.
— Agora sim, esse é meu primo. Vamos logo tomar bronca.
David saiu andando na minha frente e eu não consegui
evitar que uma lufada de ar deixasse meus lábios. Ele não me
entendia e eu sabia que era culpa completamente minha. Ser frio
por tanto tempo tinha consequências e talvez, para mim, viesse
como uma crença de que eu não ligava para nada, como um maldito
narcisista.
Caminhei atrás dele e notei o olhar de desaprovação da
nossa diretora e do homem que eu tinha quase certeza que era o
diretor do São Sebastião.
— Agora que finalmente estão todos aqui, vamos falar sobre
o que aconteceu lá na quadra — o homem falou, cruzando os
braços em frente ao corpo.
Ele era alto e musculoso, de forma que sua postura séria se
tornava quase assustadora. Mas eu não estava ligando muito para o
diretor, porque minha atenção tinha sido dominada por Melina,
sentada em uma cadeira no canto da sala, com os braços cruzados
e uma expressão desanimada, como se estivesse se esforçando
muito para ficar ali.
Se até o momento ainda não tinha me sentido mal, foi ali que
me senti horrível. Não estava acostumado com o sentimento de
arrependimento e muito menos com ligar, mesmo que minimamente,
para aquela garota, mas saber que tinha alguém ali chateado e
provavelmente por minha culpa, sendo que eu tinha me equivocado,
foi o bastante para aparecer aquela sensação desconfortável.
Como eu tinha me permitido ser babaca o suficiente para
chamar uma garota de vadia sem nem saber o que estava
acontecendo? E mesmo que soubesse, e ela estivesse errada, que
direito me dava de falar alguma coisa? Não conseguia acreditar que
tinha sido impulsivo naquele nível. Muito menos que tinha falado
sobre a mãe dela.
Não prestei atenção em uma única palavra do que disseram,
perdido demais em meio aos meus pensamentos, que só foram
interrompidos quando escutei a diretora Myrian falando com meu
primo.
— Estou extremamente decepcionada, vocês deveriam ser
exemplos, são capitães — ela disse, apontando para David e
Nicolas.
— Eu sugiro trabalho voluntário para aprenderem a lição —
o diretor falou, recebendo uma confirmação da mulher.
— A biblioteca municipal está em busca de voluntários
durante o fim de semana para uma organização dos livros doados,
acho que inscrever todos vocês, seria uma ótima forma de
aprenderem.
Os resmungos e reclamações rapidamente preencheram a
sala, cheia com todos os jogadores dos dois times e algumas
garotas que não eram do meu colégio e eu não sabia porque
estavam ali, o que incluía Melina e Nina.
— Silêncio! — a mulher pediu, cruzando os braços. — Vocês
erraram, agora tem que receber as consequências. Mas se não
quiserem que todos se encrenquem, podem contar quem brigou e
apenas esses vão para o trabalho voluntário.
Uma garota, do São Sebastião, ficou de pé e levantou a
mão, recebendo a atenção de ambos os diretores.
— Diga, Jéssica — o homem pediu e a garota endireitou a
postura, de uma forma estranha.
— Quem começou a briga foi aquele rapaz — ela apontou
para Vitor, que a encarou com muita raiva. — Mas o Nicolas, a
Mattos e a Nina também se envolveram.
— Só eles? — o diretor perguntou, encarando mais Melina
do que os outros, fazendo a garota abaixar a cabeça.
Considerando que o diretor do São Sebastião era pai dela,
provavelmente a garota estaria encrencada em dobro.
— Na verdade, aqueles ali do Santana também — Jéssica
apontou para mim e David, em seguida encarando Ana. — Ah e ela.
— Obrigado, Jéssica — o homem agradeceu, encarando
minha diretora, como se esperasse uma decisão vindo dela.
— Bom, todos os que não foram citados estão liberados e
espero que não fiquem tão perto de confusões novamente — Myrian
falou e não demorou nem cinco minutos para a sala ficar
praticamente vazia. — Quanto a vocês, quero todos se inscrevendo
no trabalho voluntário pelo site da prefeitura e entregando o
comprovante para mim, quem é do Santana e para o senhor Mattos
os alunos do São Sebastião. Quem não fizer o trabalho voluntário,
vai ganhar uma suspensão de duas semanas, como consequência
por todas as brigas descontroladas que andam acontecendo.
O diretor Mattos apenas assentiu, encarando todos com
seriedade. Ele estava fazendo o papel ameaçador e Myrian a que
passava informações.
— Dispensados, espero os comprovantes amanhã de manhã
— a mulher anunciou.
Vitor, Nicolas, Nina, Ana e David saíram rapidamente e eu
me surpreendi por Melina também ter ficado, considerando que eu
só estava ali porque precisava falar com Myrian.
— Pai, eu vou ver o vovô domingo, não posso fazer trabalho
voluntário — escutei a garota dizendo, mesmo que baixo.
— Pensasse nisso antes, senhorita Mattos, aqui sou seu
diretor e o castigo é o mesmo para todos. — O homem desencostou
da mesa que estava apoiado e soltou um suspiro, olhando para a
diretora. — Tenha uma boa tarde, Myrian.
— Você também, Heitor.
E assim, ele saiu da sala passando por mim. Melina foi o
seguir, mas parou assim que me olhou, cerrando um pouco os
olhos, com a raiva completamente evidente em cada milímetro de
seu rosto exageradamente bonito. Precisei me esforçar muito para
manter a postura indiferente e o olhar frio em sua direção, porque
uma parte minha queria pedir desculpa, mas talvez eu fosse
orgulhoso demais para isso. Pude relaxar um pouco quando ela
caminhou, acertando o ombro em meu braço e seguindo seu
caminho. Definitivamente eu a tinha levado ao limite da irritação e se
já não tivesse concluído isso com sua tentativa de apontar dedos na
minha cara, teria naquele momento.
— Santiago, por que está parado aí? Seus primos já foram
— a mulher observou, me encarando e me lembrando o motivo para
estar parada.
— Tem como… — eu hesitei, não queria que aquilo soasse
como uma ordem, porque tinha momentos em queMyrian apenas
aceitava o que eu dizia, por eu ser o herdeiro do colégio e ela temer
isso, mesmo que eu nunca fosse usar algo do tipo ao meu favor. —
Eu estou perto de uma apresentação importante e os ensaios estão
mais rígidos, não teria como eu não fazer o trabalho voluntário?
— Me desculpe, querido, queria poder ajudá-lo, mas foi uma
decisão conjunta dos dois colégios, não posso passar por cima
disso e te liberar, seria injusto com os outros — Myrian disse, me
dando um sorriso carinhoso, parecendo não se importar tanto por eu
ter me metido em confusão também.
— Certo — concordei, desistindo da minha tentativa de
livramento e caminhando para fora da sala, vendo meus primos
parados, visivelmente apenas me esperando.
David parecia incomodado, enquanto Ana se encontrava
emburrada demais. Preferi não questionar nada, porque minha
paciência do dia já tinha ido embora e perder meu domingo por
defender minha prima, que nem merecia minha defesa, havia me
deixado puto.
✽ ✽ ✽
Deixei Ana na casa dos meus tios sem dizer uma palavra.
Assim que cheguei na minha e entreguei as chaves do meu
carro para Macedo guardar, subi diretamente para o meu quarto,
ignorando as tentativas de David me chamar.
Me joguei na cama, pronto para ler um livro, mas meu primo
abriu a porta, subindo as escadas e me olhando com certa irritação.
— Porra, está se fingindo de surdo? — ele perguntou e eu
lhe ofereci um olhar indiferente.
— Não estou para papo, David. Graças a você sempre se
meter em confusões com o Nicolas, vou ter que fazer trabalho
voluntário e lidar com pessoas. Tudo que eu queria era sossego —
eu falei, a que provavelmente foi a maior frase que disse nos últimos
tempos.
— Ah, Santiago, você só está bravinho porque chateou sua
namorada — David provocou, fazendo uma careta.
Foi o suficiente para a paciência inexistente desaparecer,
considerando que ele estava parecendo um dos imbecis que
andavam com ele. Então eu apenas o olhei com raiva, antes de
dizer:
— Vai para a merda, David.
— Sinceramente, já cansei da sua grosseria.
— É, eu também cansei de você ser um folgado, mas olha
só, não estou reclamando.
Quando eu vi, já tinha falado e minha garganta quase se
fechava por conta da raiva. Consegui ver uma veia saltando na testa
de David, o que sempre acontecia quando ele chegava no máximo
de sua irritação.
— Você anda um bosta ultimamente — ele falou, me
fuzilando com o olhar e eu não pude controlar minha língua.
— Aprendi com você e seus amigos.
David deu uma risada sem mostrar os dentes e andou pelo
quarto batendo os pés, quase quebrando minha porta ao sair.
Inevitavelmente, resmunguei uma chuva de xingamentos
que eu não diria para ele, mas bem que estava com vontade. Talvez
as diferenças entre nós dois estivessem começando a se tornar
perceptíveis demais para nos aguentarmos.
✽ ✽ ✽
Na manhã de quinta-feira David não olhou na minha cara,
até optando por ir de moto para o colégio e eu, sinceramente, não
tinha vontade nenhuma de ficar atrás dele para tentar conversar.
Imprimi meu comprovante de inscrição no trabalho voluntário
e entrei em meu carro que Macedo já tinha deixado preparado,
jogando a mochila no banco do carona, normalmente preenchido
por meu primo, e pronto para ir até o colégio, quando Agatha bateu
no vidro e eu abaixei para escutar a mulher.
— Santiago, o senhor não tomou seu café, mas fiz um
lanchinho para poder comer no caminho — ela disse, me
entregando um pote com salada de frutas.
— Obrigado, Agatha — agradeci, me obrigando a dar um
sorriso, mesmo que mínimo, para a mulher saber que agradecia
com sinceridade e assim que ela se afastou, eu arranquei o carro,
dirigindo até meu colégio e inferno pessoal.
Assim que deixei o carro no estacionamento dos alunos e
andei até a entrada do colégio, pude ver Ana parada, como se
esperasse alguém e bastou apenas um segundo de contato visual
para ela caminhar até o meu lado.
— Por que parece que o David dormiu com a bunda
descoberta? — ela perguntou, me forçando a soltar um suspiro.
— Tivemos uma discussão — respondi sem cerimônias,
andando para dentro e sendo seguido por minha prima.
— Não me diga que foi por conta da Melina, vi que você
ficou incomodado por ter xingado ela, mas fala sério, Santiago,
brigar com seu primo por uma garota que você nem conhece tão
bem e é uma idiota…
— Ana — a interrompi, parando de andar e a encarando,
com a mesma expressão indiferente de todos os dias. — Não estou
com saco para te aguentar no momento.
— Porra, você é um imbecil, não acredito que vai ficar com
raiva de mim por aquilo. — Ana me deu as costas, saindo pisando
firme, da mesma forma que David na noite anterior.
Massageei minhas têmporas, tentando manter a calma.
Tinha irritado meus dois primos e as únicas duas pessoas
com quem eu conversava, o que significava que eu terminaria
aquele dia como bem no fundo sempre me sentia: sozinho.
CAPÍTULO 9
Sábado, 04 de setembro de 2021
Eu estava em um sono absurdamente gostoso, quando
escutei a Alexa começando a tocar música, me comunicando que o
tempo de paz havia acabado e eu precisava ir para a biblioteca,
porque era sábado e tinha trabalho voluntário.
— Melina, essa música está me deixando surdo e já deu a
hora de você acordar — Heitor falou, abrindo a porta do quarto. —
Alexa, por favor, desligue.
E assim minha assistente virtual, que estava no volume
máximo, parou de tocar Amores e Flores, do Melim.
— Pai — resmunguei, fazendo um barulho de choro.
— Ninguém mandou se meter em briga, sua treinadora está
completamente chateada com você, porque pensou que agora iria
voltar, mas aprontou essa.
Queria dizer que a culpa não tinha sido minha e que aquela
garota que havia me xingando, mas quando olhei para ele, tudo que
enxerguei foi decepção e isso fez meu peito doer.
As palavras de Santiago me atingiram em cheio, como um
eco:
Vai correr para a mamãe e chorar?
Como eu queria que minha mãe estivesse ali para eu poder
fazer isso.
— Pense pelo lado bom, é uma biblioteca, você vai se sentir
no paraíso.
Mostrei uma careta, tentando não deixar claro o quando
minha vontade de chorar estava presente e como eu a segurava
desde quarta, já que ele tinha me mandado direto para o quarto
depois que chegamos, mas eu evitei por saber que me escutaria
caso realmente chorasse. Não queria dar ainda mais preocupação.
— Você pode desmarcar minha psicóloga? — pedi, vendo os
olhos azuis cansados me encararem. — Eu esqueci.
— Claro, vai se vestir — ele concordou, fechando a porta do
quarto.
Eu me levantei da cama, cambaleando levemente por ter
feito isso rápido demais e minha pressão ser horrenda.
Assim que me recuperei, fui até o banheiro do corredor e
tomei um banho, já que estava um dia estranhamente quente para
setembro.
Voltei para o quarto quando terminei, optando por um short
soltinho de moletom e uma camiseta cropped preta. Calcei meu
tênis e desci as escadas. Um brilho preencheu meus olhos assim
que vi o que tinha em cima da bancada da cozinha.
Meu pai tinha comprado café gelado e donut da minha
cafeteria preferida, a Café Literário, que ficava na frente do meu
prédio e, além de cafés e comidas maravilhosas, ainda tinham livros
por ser, de fato, uma livraria.
Peguei o copo, tomando um pouco e dei uma mordida no
doce, sentindo o bom-humor me preencher. Foi o bastante para eu
esquecer minha raiva por ter que aguentar aquele loiro arrogante.
— Sua mochila — meu pai falou, me dando uma pequena
mochila de glitter prata, que provavelmente tinha comida e água. —
Vai comendo no caminho, já está atrasada
Agradeci e concordei, saindo saltitante apartamento afora,
pegando o elevador e logo deixando o prédio.
A biblioteca ficava há apenas cinco quadras do meu prédio,
então eu não demoraria muito para chegar lá, o que me deixava até
animada. Principalmente por ter tempo para mandar mensagem
para o meu avô.
Melina: Bom dia, vovô!
Melina: Sei que combinamos que eu ia almoçar aí amanhã, mas
acabou que eu estou de castigo no colégio e fui obrigada a fazer
trabalho voluntário hoje e amanhã o dia todo.Vovô: Bom dia, minha netinha!
Vovô: Que pena, minha querida, deixamos para quando você
conseguir.
Melina: Pode deixar, vô. Aviso o senhor.
Desliguei o celular e o guardei no bolso de fora da mochila,
feliz por já estar quase na porta da biblioteca.
Porém, toda a animação acabou assim que eu cheguei no
portão e vi o garoto parado lá como uma parede, encarando a
biblioteca com certa curiosidade. Ele estava impedindo a passagem,
o que era suficiente para me irritar exorbitantemente.
— Com licença, tem pessoas precisando entrar aí — eu falei,
sem chegar perto demais.
O rapaz se virou na minha direção e por um segundo, eu
poderia jurar que a frieza em sua expressão e nos olhos azuis se
modificou para outra coisa, que rapidamente sumiu.
— Não foi minha intenção impedir o caminho da realeza —
ele disse, abrindo o braço esquerdo como um sinal para eu passar.
Minha atenção se prendeu por tempo demais nas tatuagens
espalhadas por ali, o sol, o que parecia um cisne, um coração
humano e mãos quase se tocando, tais quais a pintura de
Michelangelo.
Mas só quando desviei o olhar que foquei em sua fala.
Santiago tinha realmente acabado de ser debochado comigo?
Aquilo me fez suspirar e forçar um sorriso, antes de passar em sua
frente, notando que me seguia.
Entramos quase juntos na biblioteca e todos os outros
alunos já estavam lá, incluindo Nina, que não tinha me avisado que
iria tão cedo.
— Que bom, agora que todos os voluntários chegaram,
vocês podem ver em qual equipe caíram na lista com seus
sobrenomes e cumprir a tarefa. Os diretores de vocês me
informaram que para o caso de qualquer briga, é para chamar a
polícia, então eu não aconselharia isso — a mulher, que não devia
ter mais de trinta anos falou, dando um sorriso.
Eu suspirei, caminhando até o lado de Nina para
cumprimentá-la.
— Animada? — minha melhor amiga perguntou.
— Pareço animada?! — retruquei, em seguida rindo e
mostrando um beicinho. — Espero que tenham colocado nós duas
juntas.
— Tomara. — Nina cruzou os dedos.
Mas nosso sonho acabou antes mesmo de começar, já que
David, que estava olhando a lista, falou:
— Nina, você é Rodrigues, né?
— Sou sim. — Nina sorriu para ele.
Me perguntei como diabos David sabia o sobrenome de
Nina, mas não tive tempo suficiente para pensar sobre isso.
— Então estamos juntos, no setor B — ele disse, mostrando
animação demais para quem iria guardar livros e parecia ter mais
músculos do que cérebro. — Aqui diz A. Ross e Mendonça, então
Ana e Nicolas são da outra equipe, vocês ficaram com os livros do
setor C, lá no segundo andar. E por último, Santiago, Mattos e Vitor
com o setor A, que fica aqui embaixo para a direita.
Encarei eles, não acreditando que tinha caído no mesmo
grupo que ele.
— E aí, Santiago?! Parece que caímos no mesmo grupo — o
Vitor falou, assim que os dois se aproximaram de mim.
Encarei Santiago por um segundo, observando os cachos
perfeitamente arrumados, que sinceramente, eu nunca tinha visto
um único fio fora do lugar. Embora o rapaz fosse grosso, sua
aparência não demonstrava tanto aquilo, se eu não o tivesse visto
ser um bosta, apostaria que tinha a personalidade de um golden
retriever. Eu sabia que aquele nome não tinha nada a ver com ele
visualmente, eu cogitaria algum muito mais… Fofo, se considerasse
apenas o exterior.
— Incrível, meu dia não poderia ser melhor. — A voz grossa
dele me alcançou, me obrigando a parar de encará-lo e focar em
minha frente.
Precisava engolir a raiva que sentia e apreciar o lugar em
que iríamos passar o dia inteiro. Dei as costas para os dois e andei
até o setor que estávamos responsáveis, vendo os cinco carrinhos
de livros bagunçados que precisávamos organizar nas prateleiras
praticamente cheias.
Seria um longo dia.
— E, aí, é Mattos, certo? — Vitor perguntou, parando em
minha frente e apoiando uma mão nas estantes, impedindo minha
passagem para frente, já que o corredor era estreito.
— Sim — respondi, tentando desviar dele.
— Você está solteira? — o garoto questionou, sorrindo.
— O que exatamente isso tem a ver com nosso trabalho? —
indaguei, levantando uma sobrancelha.
— Podemos aproveitar para nos conhecermos melhor.
Franzi o cenho, encarando o garoto e tentando, com muito
afinco, manter minha paciência. Talvez uma das aulas extras do
colégio deles fosse: Como Tirar Alguém do Sério.
— Com licença — pedi, tentando tirar o braço dele do
caminho, mas Vitor tinha força o bastante para o manter ali. — Por
favor.
— Ah, vamos lá, Mattos, vai ser divertido.
— Vitor, por que não sai da porra da frente, todo mundo
precisa trabalhar para podermos ir embora — Santiago falou, de
forma tão bruta que eu notei que em algumas vezes onde
discutimos, o rapaz poderia ser considerado adorável.
— Você é tão estressadinho, Santiago — Vitor resmungou,
tirando o braço e cruzando na frente do corpo, ainda impedindo a
passagem e encarando o rapaz, que se encontrava ao meu lado
naquele momento. — Está tentando defender ela? — Ele apontou
para mim. — Tem a ver com aquilo do outro dia?
— Cala essa boca, porra — Santiago disse, a voz carregada
de raiva. — Vai fazer sua parte.
— Está ofendido? Santiago, conversamos sobre isso,
egoísmo não cai bem em você. — Vitor sorriu de orelha a orelha,
encarando o rapaz.
Eu olhei para o loiro, notando seu rosto completamente
vermelho e o olhar estreito na direção do outro garoto. Talvez fosse
algum tipo de discussão entre amigos, e eu sinceramente não
queria ficar no meio.
— Se você não sumir da minha frente… — Santiago foi
interrompido.
— Vai fazer o quê? Você e o David brigaram e nós dois
sabemos bem o motivo. — Vitor olhou para mim e em seguida
voltou a encarar Santiago. — Não vai ter ele para bater em seu
lugar, e Santiago, palavras combinam mais com você do que
punhos.
— Ei, parem seja lá o que for isso — pedi, ganhando a
atenção dos dois. — Estamos aqui para fazer o trabalho voluntário
por culpa de uma briga, querem ser expulsos? Não que tenha a ver
comigo também, mas esperem pelo menos eu estar longe, não
quero ficar no meio.
— O que quiser, gata — Vitor falou, sorrindo para mim e me
dando as costas, para ver um dos carrinhos.
Tentei evitar mostrar desgosto e encarei Santiago, que
parecia estar me analisando antes de nossos olhares se
esbarrarem, o que foi suficiente para ele balançar a cabeça e andar
para frente, também focando em um carrinho.
Soltei um suspiro e apenas aceitei que estava em uma
enorme maré de azar, colocando minha mochila no chão e
começando a ver quais livros se encontravam ali.
✽ ✽ ✽
Eu estava faminta, não tinha outra palavra. O sanduíche que
meu pai fez para mim de almoço e os dois pacotes de bolacha não
foram nada suficientes para alimentar o dragãozinho dentro do meu
estômago.
— Ei — Nina chamou, com David ao seu lado. — Quer ir lá
para casa? Já falei com o tio Heitor.
Olhei para o meu relógio, notando que já eram seis horas da
tarde e nós estávamos lá desde às oito da manhã.
— Quero, mas só se você pedir comida. — Fiz um beicinho.
David e Nina sorriram ao mesmo tempo, e por um segundo,
eu pensei que eles ficavam bonitos juntos, afastando rapidamente
aquela hipótese da minha mente, antes que eu começasse a ir
longe demais.
— Estão liberados — a mesma mulher de mais cedo
anunciou e todos nós começamos a juntar nossas coisas.
— Vão embora como? — David perguntou para Nina.
— Acho que andando, não é tão longe e ainda não está tão
escuro. — Minha amiga deu de ombros, passando a mão pelo
braço, já que um vento começava a ser presente e ela estava de
regata, provavelmente com frio.
— Eu dou uma carona — o rapaz ofereceu, colocando a
jaqueta por cima do ombro dela, que sorriu em agradecimento.
— Não precisa se preocupar, David — ela negou, me
encarando como um sinal para irmos rápido.
Por sorte, Nicolas não estava lá perto, já que ainda não tinha
voltado do andar de cima com a garota, porque eu não queria ver a
cara dele e não teria forças suficientes caso surtasse por estarmos
falando com o capitão do Santana.
— Eu insisto. — David fez um sinal para esperarmos,
correndona direção de Santiago, que não estava tão longe e
falando alguma coisa, que o fez concordar apenas com um
movimento, deixando a biblioteca antes que David voltasse para
perto. — Tudo certo, vamos.
Olhei para Nina, que também me encarou e nós duas demos
de ombros. Uma carona com David não era uma ideia tão ruim e
pelo menos eu não teria que andar. Já estava exausta. Nós
seguimos o garoto até o lado de fora, onde Santiago estava parado.
— A Ana não vai? — David perguntou para Santiago.
— Não está falando comigo, então não. — O loiro afirmou,
parecendo completamente indiferente.
Eu não fazia a menor ideia de como Santiago e David eram
tão próximos, mas isso provavelmente acabava deixando Ana
incluída no pacote, considerando de quem era irmã.
— Eu também não estava — David pareceu lembrar o
garoto, que o encarou e revirou os olhos.
Não entendi o que eles estavam falando, mas lembrei de
Vitor comentando que os dois estavam brigados e tudo o que pude
observar era que não pareciam brigados naquele momento.
Andamos um pouco, até David parar na frente de um BMW
que devia custar quase a minha casa e abrir a porta de trás, fazendo
um sinal para Nina e eu entrarmos. Tentei não arregalar os olhos.
Eu sabia que os estudantes do Santana eram ricos, mas aquilo
entrava em outro nível. Que tipo de adolescente que devia ter tirado
a carteira há meses andava com um BMW?
— Mattos, na verdade, porque não vai na frente? — David
sugeriu, abrindo a porta do carona para mim e me fazendo franzir o
cenho. — Por favorzinho.
Ali naquele momento aquele rapaz parecia simpático demais
e talvez por isso e por ele já estar nos dando carona que me deixei
levar, entrando no banco da frente. Dei de cara com Santiago
sentado no banco do motorista e tive que me segurar para não pular
de susto, principalmente quando David fechou a porta ao meu lado
e entrou no banco de trás com pressa.
— Onde? — Santiago perguntou, olhando David pelo
retrovisor.
— Nina? — o garoto questionou minha amiga.
— É só você ir reto nessa rua mesmo, aí vira à direita
quando chegar no mercado, continua reto por mais ou menos uns
quatro quilômetros, vira de novo e eu moro em um sobrado quase
no final da rua — Nina explicou.
Eu não tinha refletido quão longe era a casa da minha
melhor amiga até ela fazer aquela explicação. O que me fez pensar
que tipo de ideia tínhamos tido de cogitar ir andando ao invés de
pedir um Uber.
— Entendeu, Santiago? — David encarou o rapaz.
— Não — Santiago resmungou e eu prendi a respiração
quando seu olhar se direcionou para mim, só nesse momento me
lembrando que eu o encarava. — Você sabe onde é? — Eu assenti
e ele usou seu mesmo tom ríspido que me deixava tão irritada para
dizer: — Então me avise o caminho.
O rapaz ligou o carro e logo estávamos na rua. Eu me
encontrava quase imóvel no banco de couro, como se ainda não
tivesse associado o que fazia ali e muito menos que aquele babaca
estava ao meu lado. Nina e David conversavam baixinho no banco
de trás e eu queria desaparecer.
— Vira aqui — falei, apontando para a direita assim que
passamos no mercado. Ele fez a curva e me olhou por um segundo.
— Agora é reto — expliquei, cruzando os braços em uma tentativa
falha de me proteger daquelas rápidas encaradas totalmente
carregadas de ódio.
— Santiago, ali na frente tem um Burger King, faz uma
parada para eu comprar comida. A Mattos está com fome — David
pediu, apontando para o fast food na esquina da quadra em que
estávamos.
Eu quis me enterrar ali e não sair nunca mais de tanta
vergonha, provavelmente tinha ficado vermelha. Não acreditava que
eu estava no banco do carona de um carro que o dono e motorista
era o mesmo que tinha me chamado de vadia e me tratado mal em
todas as vezes que nos encontramos, menos naquele momento e
se encontrava entrando no Burger King porque um outro garoto, que
sempre brigava com meu ex, disse que eu estou com fome.
— O que você quer comer? — A voz de Santiago me fez
olhar para ele mais uma vez, me surpreendendo já que a pergunta
estava direcionada para mim.
— Dois Cheddar Duplo e uma batata grande — respondi,
assim que olhei no cardápio acima de nós.
O rapaz repetiu o que eu disse para a moça que estava
anotando os pedidos ainda na fila do Drive Thru, em seguida
olhando para os dois no banco de trás, que falaram diretamente o
pedido para a mulher.
— Não vai comer, Santiago? — David questionou.
— Dieta — o rapaz respondeu, pegando a carteira do bolso
do casaco.
— Espera que eu pago — eu falei, abrindo minha mochila.
— Eu pago — Santiago resmungou, já entregando o cartão
para a mulher.
— Não precisa, você já… — Fui interrompida.
— Eu pago — ele reafirmou.
A moça devolveu o cartão e ele avançou o carro em direção
ao caixa de retirada.
— Me deixa te dar o dinheiro do meu e do da Nina, você não
precisa pagar — repeti, abrindo minha carteira.
O garoto soltou um suspiro e me encarou.
— Eu já paguei.
— Eu sei, mas… não é justo.
— Considere um presente, já que todos estão fazendo
trabalho voluntário por culpa do David — Santiago disse, apontando
para o garoto no banco de trás.
Acho que aquela foi a primeira frase comprida sem ser um
xingamento que já escutei ele dizer e isso me deixou sem palavras,
mesmo que a culpa não fosse completamente de David.
Santiago pegou os lanches, entregando cada pacote para o
seu dono e saindo em direção à rua.
— Se eu virar aqui, dá para voltar para a rua? — ele
perguntou.
Pisquei repetidas vezes, não estava acostumada com o tom
ríspido fora de sua voz.
— Volta, a rua é mão dupla — respondi, fazendo um sinal de
beleza como confirmação.
Ele assentiu em silêncio e eu segurei meu lanche com
bastante firmeza. Até o momento, não estava prestando atenção na
música que tocava, mas começou uma que eu nem conhecia e a
melodia era absurdamente chata. Foi como se eu me esquecesse
de onde estava e automaticamente minha mão foi até o painel,
pronta para mudar a música, mas se chocando com outro dedo, que
eu descobri ser de Santiago assim que nossos olhares se cruzaram,
ambos confusos e perdidos.
Nenhum de nós dois desviou o olhar, como se tivéssemos
entrado em um jogo de quem piscava primeiro, ou no meu caso, de
quem teria um infarto. Aquele olhar me causava tanta raiva, que
meu ar se perdia no caminho e meu coração se acelerava.
Uma buzinada foi o suficiente para que ele desviasse e por
alguns segundos, eu quis comemorar por sentir que tinha vencido,
até olhar para frente, onde um outro carro estava a centímetros do
de Santiago e o cara tinha colocado a mão para fora, mostrando o
dedo do meio.
David pegou alguma coisa, abrindo o teto solar do carro, que
eu não tinha notado até o momento e saindo ali.
— Vai para a porra, caralho — ele falou para o homem. —
Você que está na contramão, seu verme, tirou a carteira ontem?
Comprou? Imbecil! Vai mostrar o dedo do meio para a sua mãe e sai
da merda da rua.
Foi ali que uma coisa que Vitor tinha dito fez sentido, David
era quem partia para cima e aparentemente quem tinha mais raiva
dentro de si também, mesmo que eu nunca tivesse visto ele fazer
algo do tipo antes.
— Sossega — Santiago pediu. — Senta a bunda no banco.
O carro que quase tinha nos acertado deu a ré e entrou na
pista certa, fazendo David aplaudir.
— Isso, otário, aprendeu a dar a ré pelo menos, dê parabéns
ao seu instrutor de merda por ter feito uma coisa direito — o garoto
terminou de falar, se sentando no banco e fechando o teto solar,
colocando de volta o controle que ele tinha usado, ou seja lá o que
fosse aquilo. — Pronto, Santiago, minha bunda já voltou a aquecer o
banco. Podemos continuar o caminho, só por favor, pare de olhar a
senhorita Mattos e dirija.
Eu senti meu rosto esquentando a escutei a risada baixa de
Nina, que só me fez querer me afundar mais. Santiago não pareceu
se abalar, mantendo a mesma expressão e apenas voltando a
dirigir.
— Viro aqui? — perguntou para mim.
— O quê?
— Preciso virar? — Ele abriu um pouquinho os olhos, como
se esperasse uma resposta, parado na esquina.
— Ah, sim, virar, é.
— Isso é um sim?
— Sim?!— Melina, estou indo deixar vocês em casa.
Eu pisquei, o encarando e desviando para olhar a rua.
— Casa — falei, me sentindo uma imbecil, mas me
obrigando a balançar a cabeça e associar meus pensamentos. —
Quero dizer, vira à direita.
— Vocês são tão comunicativos — David observou,
colocando o rosto no meio dos dois bancos.
— Cala a boca, David — Santiago murmurou.
— Cala a boca, David — o garoto repetiu, fazendo uma voz
fina. — Essa é sua frase preferida.
— Não, não é — Santiago disse, clicando para mudar de
música.
Começou a tocar Imaturo, do Jão e antes que eu notasse,
estava cantando baixinho, o que mais uma vez me fez querer
morrer, já que Santiago me encarou.
Agradeci aos céus, porque antes da música terminar
tínhamos finalmente chegado na frente da casa de Nina, coisa que
avisei quase dando um salto e começando a pegar minhas coisas
que eu tinha derrubado da mochila.
— Obrigada pela carona — agradeci, para quem quisesse
escutar, só notando que Santiago não estava no banco do motorista
quando levantei o corpo e quase tive outra morte ao vê-lo na janela,
ao meu lado.
O rapaz abriu a porta para mim e eu o encarei por mais
tempo do que a minha sanidade permitia. Estava tendo que fazer
um esforço muito grande para minha mente não apagar todas as
vezes que ele foi babaca, o que incluía alguns dias atrás quando
chegou no topo da babaquice, só por Santiago estar quase
simpático naquele momento.
— Quer ajuda? — ele ofereceu e eu neguei rapidamente,
balançando as mãos de forma exagerada e me fazendo me
perguntar o que tinha de errado comigo.
Mas eu já tinha concluído que aquele era mais um dia ruim e
o universo queria me mostrar que era a mais pura verdade, porque
eu tropecei assim que fui descer e Santiago precisou me segurar.
Eu estava olhando para baixo e desejei apenas me abaixar o
suficiente para sair dali rastejando.
— Aí — ele resmungou, me fazendo notar que minhas unhas
tinham se afundado no braço dele.
Me ajeitei rapidamente, soltando dele e arrumando meu
cabelo que tinha caído na frente do rosto.
— Além de desastrada e distraída, decidiu virar assassina?
Que unhas doloridas — Santiago reclamou, franzindo demais
aquele rosto torturantemente bonito.
Aquilo me fez lembrar do museu e toda a raiva que eu quase
esqueci voltou, me deixando pronta para o responder torto, mas
Santiago deu alguns passos para frente, praticamente me
prensando contra o carro e eu arregalei mais os olhos do que
gostaria de admitir. Seu cheiro lembrava sabonete de bebê, mas de
uma forma muito mais deliciosa e eu descobri que aquele era o
perfume que me causava uma onda de sufocamento. Estava pronta
para o arremessar no chão, chutar sua perna e arrastar aquele
cabelo perfeito pela calçada, quando alguma coisa fez sombra
acima da minha cabeça e assim que olhei na direção, vi o pacote do
Burger King que eu tinha esquecido no carro.
— Também é esquecida, pelo jeito — o garoto observou.
Peguei o pacote de sua mão e o encarei, com um tipo
diferente de irritação me preenchendo e me dominando. Eu queria
acertar o rosto dele com força para que a sensação sumisse.
Aqueles olhos azuis me observavam com uma espécie de raiva que
eu não conhecia, não era como na quarta-feira, era quase primitivo
e eu senti meu coração se acelerando mais.
— Mel… — Nina começou a falar, parando sua frase.
Desviei o olhar dele, encarando Nina, que estava comendo o
lanche com David atrás do carro até o momento, mas tinha saído
dali para dizer alguma coisa e naquele instante me fitava de boca
aberta.
— Vou terminar meu lanche — ela avisou, voltando para o
lado de David, que tinha a mesma expressão que ela.
Eu olhei para frente, vendo aquelas íris uma última vez,
antes de o empurrar sem delicadeza nenhuma, quase fazendo o
rapaz perder o equilíbrio.
— Obrigada… — sussurrei. — Pela carona.
Ele apenas balançou a cabeça em afirmação, fechando a
porta que permanecia aberta e umedecendo os lábios, me fazendo
perder o ar por um momento, totalmente hipnotizada pelo
movimento, antes de andar até o lado do motorista.
— Tchau, David — falei, acenando e dando as costas para
eles, passando pelo portão da casa de Nina, que pela bênção dos
céus estava aberto.
Não prestei atenção se Nina tinha se despedido, apenas
entrei na casa dela de forma automática, não olhando para nada, só
seguindo uma linha reta até a escada que daria até o quarto da
minha melhor amiga, onde me joguei na cama, soltando meu lanche
ali.
— Melina? — Nina me chamou, me obrigando a encará-la e
notei que a jaqueta de David ainda estava nela. — O que… foi
aquilo?
— Tentativa de assassinato? — perguntei, colocando a mão
no peito e tendo certeza de que Santiago queria me matar de raiva.
— Ficou doida? Eu estou falando do Santiago… O que
vocês… Você não… Foda-se, não entendi mais nada.
— Ele foi pegar o lanche para mim — falei, apontando para o
pacote.
— Nossa, estou precisando de alguém para pegar um
lanche para mim. — Nina tinha um sarcasmo no tom de voz, que me
fez franzir o cenho.
— Você… — falei, meio hesitante. — Você notou que ele
parecia estar me provocando? Nina, acho que a arma daquele
desgraçado é a beleza, eu fiquei com tanta raiva.
— Raiva? Você parecia com… — Nina parou assim que eu a
olhei brava, sorrindo. — Quero dizer, ele foi legal hoje, não?
— Ele me chamou de vadia, Nina — a lembrei, ficando
incomodada por acabar me lembrando também.
— É verdade — minha amiga concordou. — Mas olha,
quando estamos com raiva nem sempre analisamos o que falamos.
— Não importa, Nina. Eu já odiava a estupidez dele e ele
ainda me xingou, não posso perdoar isso — falei, me sentando na
cama e começando a respirar mais devagar para controlar as
batidas frenéticas do meu coração. — Eu o odeio e eu nunca tinha
odiado alguém.
— Por que não come seu lanche? — Nina sugeriu,
apontando para o pacote. — Só com o tempo que o Santiago
demorou para te entregar, já deve ter esfriado.
Eu peguei o travesseiro e joguei na direção dela, fazendo
minha melhor amiga rir, mas concordei e comecei a comer, com
meu estômago agradecendo por ser finalmente preenchido.
— Ele é um babaca — sussurrei para mim mesma, em meio
as mordidas. — Um babaca com cabelo de anjo e olhos bonitos,
mas um babaca.
— Cabelo de anjo, Melina? — Nina perguntou, sentada na
cadeira rosa que ficava de frente para sua escrivaninha branca.
Não era para ela ter escutado.
— Você tem olhos? — perguntei, com a boca um pouco
cheia, de forma que precisei colocar uma mão na frente.
— Ele é gato, se é isso que está perguntando.
— Não era — resmunguei.
— Por que não assistimos a um filme e você para de
reclamar do Santiago?
— Ideia perfeita. — Fiz um sinal positivo com a mão, e Nina
riu. — Aliás, nada a ver com o que estamos falando, mas como o
David sabia seu sobrenome e por que vocês parecem tão próximos?
Nina me encarou, com os olhos arregalados e um sorriso
forçado no rosto, que rapidamente foi substituído por um suspiro.
— Conversamos às vezes, desde o jogo — ela explicou,
dando de ombros. — Ele não é um babaca como o Nicolas sempre
alegava.
— Meio que depois de quarta, o Nicolas não tem moral para
chamar ninguém de babaca — falei, bufando um pouco, porque
mesmo a curta lembrança já me deixava absurdamente estressada.
— Sabe, não falamos disso, mas… Como você ficou?
— Decepcionada com ele.
— Não, foda-se o Nicolas, Melina, quero saber o que está
sentindo, a Ana foi babaca com você.
— E eu com ela — admiti, tentando relevar um pouco toda
aquela situação e focar na minha comida. — E depois o Santiago
comigo, então virou uma grande bola de neve.
— Ele… — Nina hesitou, engolindo em seco. — Falou da
sua mãe.
— Eu sei.
— Você sabe que pode conversar comigo sempre, né? —
Minha melhor amiga se aproximou, segurando minha mão que por
sorte estava vazia já que eu tinha acabado de terminar o lanche.
— Sei, obrigada. — Sorri, batendo as mãos para tirar o sal
da batata e encarando Nina. — O que quer assistir?
Antes que ela pudesse responder, meu celular tocou no
bolso e eu peguei, imaginando que poderia ser meu pai,mas quase
soltando um grito de tanta animação, quando vi a foto de Ariella na
tela.
Atendi rapidamente a chamada de vídeo e não demorou
para a melhor prima do mundo estar na tela, com seus cabelos
loiros curtinhos.
— Ariella! — falei animada, apoiando o celular na cama e
ficando de bruços para falar com ela.
— Oi, prima! — Ariella acenou e eu consegui notar que ela
estava no quarto de Violeta, já que as paredes estavam cobertas de
pôsteres de um cara que não reconheci, mas definitivamente não
seriam de Ari.
— Como você está?
— Um lixo, cada dia é uma bosta diferente. — Ela deu de
ombros.
— Quanto amor no coração.
— Sempre. Como está por aí? Uma porra também?
— Você nem imagina. Estou tendo que fazer trabalho
voluntário porque me meti em uma briga — falei, fazendo um
beicinho triste e Ariella arregalou os olhos, batendo duas palmas e
rindo.
— Puta que pariu, Melina! Não imaginaria que minha
priminha ia se tornar rebelde. O que você fez? Chutou as bolas de
alguém? Ou deu um soco no peito?
— Não, eu xinguei uma garota de vadia — disse, com o
desgosto estampado na voz.
— Cacete!
— E as novidades?
— Tudo na mesma, eu durmo o dia inteiro, o Theo um gado
como sempre e a Violeta a cada dia está ficando mais obcecada.
— Melina, você pode me culpar? — Minha outra prima
apareceu na tela, com os cabelos compridos e castanho, além dos
olhos enormes e bochechas fofas. — O Thomas não é lindo?
— Quem é Thomas? — eu perguntei, ficando um pouco
assustada com a possibilidade de Violeta estar namorando.
— Thomas Jung — Violeta respondeu, dando gritinhos
animados.
— É aquele ator que ela gosta, lembra? — Ariella revirou os
olhos, apontando para a parede atrás delas, o que me fez concluir
ser a mesma pessoa.
— O que você não suporta? — Minha prima assentiu e eu
inevitavelmente ri.
Ariella tinha ficado com um ranço absurdo do cara após ver
um filme em que o personagem dele era babaca e algumas
entrevistas que deu, onde parecia esnobe demais. O bode piorou
quando Violeta não parou de falar do cara por semanas, irritando
até mesmo meu pai, que recebia vídeos diariamente no TikTok,
porque minha priminha queria compartilhar o filme que o tal Thomas
estava fazendo.
— Ele é bonitinho, mas por experiência própria posso dizer
que homens bonitos e babacas estão na moda — admiti, soltando
um suspiro.
Minhas duas primas olharam uma para a outra e em seguida
me encararam.
— O que o imbecil do Nicolas fez? Eu vou para Vila dos
Anjos quebrar a cara desse merda agora mesmo, quem ele pensa
que é para magoar a minha prima? — Ariella perguntou, ficando um
pouco vermelha enquanto falava.
Minha prima era um pouco explosiva demais, por isso em
momentos de raiva, costumávamos dizer que estávamos dando
uma de Ariella.
— Não estava falando dele. — Eu ri. — Mas esqueci de te
contar que a gente terminou, tem umas três semanas.
— Aleluia! — Ariella comemorou, ficando séria ao ver minha
expressão indignada. — Vamos combinar, Melina, ele é um gato,
mas também é um mala.
— A Melina gosta do tipo — Nina falou, só então se deitando
ao meu lado e acenando para minhas primas.
— O que quer dizer? — Ariella deu um sorrisinho.
— Ela está brigando praticamente todos os dias com um
garoto e gato é apelido carinhoso. — Minha melhor amiga riu e
Ariella bateu palminhas.
— Depois quero mais detalhes. Agora eu preciso ir porque o
idiota o Theo decidiu dirigir e vocês sabem como é ele uma merda
dirigindo de noite, ou em qualquer horário, a Violeta vai junto para
garantir que ele não morra, mas preciso passar a lista de coisas
para pegar no mercado.
— Eu? — Violeta perguntou.
— Sim, ou vou te deixar sem celular e aí não vai poder
stalkear o Thomas.
Violeta arregalou os olhos e apenas jogou um beijo para
mim, me fazendo entender que ela tinha ido.
— Se cuidem. — Ariella acenou e eu acenei de volta.
A ligação foi encerrada e eu senti a saudade me
preenchendo. Às vezes eu me lembrava de como era a vida em
Monte Sul e desejava estar lá mais uma vez, com meus primos
todos os dias.
— Agora podemos ver filme? — Nina perguntou, se
ajeitando para pegar o controle.
— Podemos, o que você quer ver?
— Pode escolher.
— Shrek — respondi, extremamente animada e vendo a
careta de desaprovação de Nina.
— Sério? Pela milésima vez?
— Nina — pedi, com um beicinho.
Foi o suficiente para Nina suspirar, ligando a TV que ficava
de frente para a cama de lençóis amarelos e colocando no primeiro
Shrek. Me senti satisfeita e permiti que meu corpo relaxasse na
cama da minha melhor amiga.
Estava tão cansada, que eu apenas dormi, mesmo que
ainda estivesse passando o filme. Dormir com desenhos ou música
era uma coisa que eu acabava fazendo com frequência, porque me
sentia menos sozinha se algum barulho fazia presença no quarto.
CAPÍTULO 10
Domingo, 05 de setembro de 2021
“Ela tinha aqueles olhos solitários
Eu só sei porque os tenho também”
— Lonely Eyes, Lauv
 
O dia nem tinha começado direito e eu já estava irritado.
A iluminação exagerada do quarto, em conjunto com o
enorme relógio de frente para a cama, me alertava que, em pleno
domingo — o meu dia de paz e sem pessoas — já estava na hora
de sair para o trabalho voluntário. Por culpa de David, durante mais
um primeiro dia da semana, minha vida seria caótica e eu teria que
lidar com gente chata.
E com gente chata, eu queria dizer Vitor. Como exatamente
meu primo tinha conseguido ficar com tão pouco cérebro a ponto de
acreditar que Vitor Vasconcelos era uma boa companhia? Isso era
realmente uma coisa que eu não entendia.
E tinha Melina. Eu já não sabia definir como me sentia com a
presença dela. Uma parte minha ainda estava irritada por todas as
vezes que ela tratou todo mundo bem e foi estranha comigo, isso
desde que nos conhecemos há meses atrás, principalmente por
apontar o dedo na minha cara mais de uma vez. E ainda tinha a
briga, por mais que Ana tivesse falado primeiro, Melina não se
manteve inocente e xingou a minha prima também. No final das
contas, a garota ainda era quem chamou alguém da minha família
de vadia, porém, nada me dava o direito de citar a mãe dela, mesmo
que tivesse me esquecido que a mulher não estava presente por
qualquer que fosse o motivo.
— Bom dia, Santiago! — David gritou, abrindo
exageradamente a porta do quarto, de forma que mesmo do andar
de cima eu consegui escutar o movimento em alto e bom som. —
Anda logo que já estamos quase atrasados.
Eu o encarei com curiosidade. Embora meu primo tivesse
me obrigado a dar carona para Melina e Nina, ele ainda não tinha
conversado comigo diretamente desde a nossa pequena discussão
na quarta-feira.
— Bom dia — sussurrei, um pouco hesitante, enquanto
David se aproximava e se jogava na minha cama, se deitando ao
meu lado.
Deveria agradecer por ter uma cama king size, porque
aquele rapaz era exageradamente espaçoso.
— Olha, me desculpa pelo que falei na quarta — ele pediu,
olhando para o teto.
Eu soltei um suspiro, engolindo o meu orgulho e me
lembrando que David era praticamente a única família que eu tinha
de verdade.
— Me desculpa também.
Ele se apoiou no próprio cotovelo, levantando um pouco o
corpo e me fitando.
— Você acabou de pedir desculpa? — David perguntou, com
a sobrancelha direita erguida.
— Eu errei, é o mínimo, não? — devolvi sua pergunta.
— Certo. — O rapaz se deitou novamente. — Posso
perguntar uma coisa sem você ficar irritadinho?
— Eu nunca fico irritadinho e você já está perguntando.
— Você… — David hesitou, soltando um suspiro. — Está
rolando alguma coisa com a Melina e por isso ficou tão chateado
depois do jogo?
Quem levantou o corpo naquele momento fui eu, encarando
seriamente David, antes de revirar os olhos.
— Não está rolando nada, eu nem conheço ela direito,
David.
Meu primo me imitou, também ficando praticamente sentado
e cerrando os olhos na minha direção.
— Então que porra foi aquela ontem? — ele questionou,
avaliando demais a minha expressão, como se estivesse tentando
encontrar algum segredo em meu rosto.
— Do que você está falando agora, cacete? — Me sentei
completamente,cruzando os braços enquanto o fitava e David me
imitou.
— Na porta do carro, logo que chegamos na casa da Nina,
vocês pareciam prestes a arrancar as roupas ali mesmo.
Eu pisquei mais vezes do que consegui contar e tive que
engolir em seco assim que a lembrança da exata cena invadiu meus
pensamentos. Só tinha ido pegar o maldito lanche, mas não parei
para refletir que Melina estava bem na frente, o que não gerou uma
situação exatamente confortável e lembrar do olhar assassino que
ela lançou para mim, me causava arrepios na espinha.
— Você viu coisas — consegui responder, mostrando uma
expressão de descontentamento.
— Vou fingir que acredito em você, priminho. — David sorriu,
olhando no relógio da parede. — Porra, estamos atrasados para
valer.
— Desde quando você é pontual? — perguntei, observando
meu primo se levantar, calçando os sapatos que nem reparei que
ele tinha tirado e entrando no meu closet.
— Desde que a Nina pediu para que eu ir mais cedo para
terminarmos antes — David falou alto lá de dentro, saindo com
minha jaqueta de couro na mão. — Vou usar, a sua é mais bonita
que as minhas e você nem usa.
Me lembrei que a jaqueta preferida dele estava com Nina no
dia anterior e já que não me recordava dela ter devolvido, conclui
que provavelmente tinha ficado com ela, mas meu primo não queria
dizer isso.
— Tanto faz. — Dei de ombros, tirando a coberta do corpo e
me levantando também. — Vou tomar um banho antes de sairmos.
— Não vai não. — David balançou o dedo indicador em
negação. — Não dá tempo, você tomou ontem de noite, se veste
logo e vamos.
— Mas…
— Anda, Santiago — meu primo falou, me puxando para
dentro do closet.
Nunca tinha o visto tão mandão, muito menos tão decidido, o
que me fez concordar mais por estar perdido do que por realmente
aceitar.
Peguei uma calça cáqui e uma blusa cinza, porque era a
opção mais rápida para David parar de me olhar com irritação e
vesti rapidamente, calçando meu tênis branco.
— Ótimo, vamos — David disse, fazendo um sinal positivo.
— Calma, eu ainda preciso arrumar meu cabelo — eu avisei,
apontando para os fios loiros em minha cabeça. — E sabe, lavar o
rosto, passar um hidratante, protetor solar, escovar os dentes, dá
uma relaxada aí.
— Então anda logo — meu primo resmungou, vestindo a
jaqueta de couro, que ficava muito melhor nele.
Eu suspirei, concordando e descendo as escadas para ir ao
banheiro no primeiro andar do quarto.
✽ ✽ ✽
Já estávamos no carro e eu dirigia em direção a biblioteca,
pensando que deveria ter dado um jeito de passar para falar com a
minha mãe antes de sair.
— Ei, Santiago — David chamou, ganhando minha atenção.
Olhei na direção dele por dois segundos, o que foi o
suficiente para meu primo compreender que poderia falar porque eu
estava escutando.
— Queria saber se posso levar uma amiga na sua
apresentação de sexta.
— Você nunca me pediu isso, começou a namorar? —
perguntei, abaixando um pouco o volume do rádio para escutar
melhor.
— Não, é minha amiga — David respondeu, me fazendo o
encarar rapidamente, logo voltando a atenção no trânsito.
— Desde quando você tem amigas?
— Amiga, no singular — meu primo enfatizou, coçando o
nariz por um momento. — E faz um tempo curto, ela é legal.
— Ok, então leva, depois te dou outro convite.
Era surpreendente meu primo estar convivendo com
qualquer garota sem ser por estar ficando com ela, então eu não
poderia deixar de apoiar sua amizade.
— Na verdade, me dá mais dois?
Ergui uma sobrancelha, um pouco confuso, mesmo que ele
não pudesse ver.
— Vai levar sua amiga e quem mais?
— A amiga dela, elas são bem grudadas.
— Que seja, dois convites então — concordei, balançando a
mão como se não importasse.
David ficou visivelmente animado, até mesmo me
agradecendo e eu apenas continuei o caminho.
Assim que chegamos na biblioteca e descemos, não
consegui ver Melina do lado de fora, apenas Vitor encostado em
uma das pilastras, o que me fez automaticamente soltar uma lufada
de ar, irritado por já ter que aguentá-lo.
— Boa sorte — David murmurou, entrando na minha frente.
Andei até o Vitor, me castigando mentalmente por ter que
fazer isso e mais ainda por conta da pergunta que saiu da minha
boca:
— A Mattos já chegou?
— Não sabe onde está sua namorada? — Vitor debochou.
Conclui que não responder era a melhor opção e entrei na
biblioteca, procurando por qualquer sinal da garota. Afinal, nós
tínhamos muito trabalho para fazer. Assim que vi Nina, decidi
arriscar e perguntar para ela. Eu definitivamente não estava no meu
juízo perfeito.
— Oi — falei, mesmo que hesitante. A garota pareceu
surpresa, antes de me encarar.
— Oi.
— Por acaso sua amiga já chegou? Nós temos que fazer
nosso setor. — Que porra eu estava fazendo? Foi a primeira coisa
que passou pela minha cabeça.
— Ainda não, dormiu demais, então eu vim e ela ficou
terminando de se arrumar, mas… — Nina parou de falar, olhando
para a porta e apontando para lá com um sorriso. — Ah, já chegou.
Me virei, notando a garota entrar ali e por um segundo idiota,
eu prendi o ar. Nem sabia o motivo para fazer aquilo, mas apenas
tinha acontecido.
— Bom dia — Melina disse, assim que se aproximou,
olhando para mim e para Nina.
— Bom dia — a garota e eu respondemos ao mesmo tempo.
— Vamos para o nosso setor? — Mattos perguntou e eu
concordei, a seguindo assim que começou a caminhar para lá.
A expressão da garota estava um pouco estranha, como se
ela não soubesse o que estava fazendo, ou se sentisse perdida.
— Mattos! — A voz de Vitor nos fez parar.
— Bom dia, Vitor — ela respondeu, fitando o rapaz.
— Com certeza é um bom dia, você é um colírio para os
olhos.
Tive que inclinar um pouco meu rosto para o lado, apenas
para garantir que não vomitaria. Como ainda tinha gente que caia no
papo desse imbecil?
Melina não chegou a responder, apenas o dando as costas e
voltando a caminhar, comigo atrás dela e Vitor logo atrás de mim.
Fomos exatamente para os carrinhos que tínhamos parado
no dia anterior e eu comecei a separar por ordem alfabética.
— Sabe, Mattos, não me respondeu ontem se está solteira
— Vitor afirmou e assim que olhei na direção, pude ver que o rapaz
me encarava, como se estivesse tentando me provocar.
— Porque não tem nada a ver com o trabalho — ela
respondeu, ainda sem olhá-lo.
— Podíamos sair depois daqui então, o que acha?
— Desculpe, já tenho compromisso — Melina falou, e eu
notei os lábios se curvando levemente, com desgosto.
— Aposto que vai se divertir muito mais comigo — ele disse,
aproximando os dedos do braço dela e começando a deslizar.
Melina enrijeceu a postura, claramente incomodada e foi o bastante
para que eu parasse de só observar a cena.
— Mattos — chamei e a garota me olhou, parecendo
totalmente surpresa. — Vamos para os últimos corredores, assim
terminamos mais rápido, o Vitor finaliza esse e depois passa para o
cinco, não é, Vitor?
Vitor ficou praticamente vermelho, como se estivesse
fervendo, mas antes que ele abrisse a boca, Melina pegou sua
mochila e foi até o meu lado. Andamos para o último corredor em
silêncio e assim que chegamos, a garota colocou a pequena coisa
brilhante no chão e me olhou. Eu apenas comecei a mexer no
carrinho de livros que estava ali, fingindo não me importar com sua
presença.
— Não imaginei que diria isso para você novamente tão
cedo, mas obrigada.
— Por que está me agradecendo? — perguntei, tentando
passar a ideia de que não entendia sobre o que ela falava.
— Eu não sou idiota, sei que inventou uma desculpa porque
viu que seu amigo estava me incomodando. Confesso que é
surpreendente ter feito isso, já que, sabe, você é um babaca e tudo
mais.
A encarei, com um sorriso cínico querendo brincar em meu
rosto.
— Está certa sobre quase tudo em sua frase — falei,
voltando a focar no carrinho.
— Ah é? Sobre o que eu errei? Você ser um babaca? — ela
questionou com um tom debochado.
— Não, Melina — neguei rapidamente, sem olhar em sua
direção. — Sobre eu ser amigo do Vitor.
A garota riu, não uma risada falsa, mas riu de verdade,
gargalhando e só pareceunotar o que tinha feito quando seus olhos
encontraram os meus, com um brilho divertido, que foi rapidamente
mudado para uma expressão séria, quando mordeu o lábio inferior.
Ela era bonita, eu não conseguia negar isso, nem tentando,
mas eu continuava incomodado com todas as situações passadas e
isso era suficiente para eu ficar com um pé atrás. Beleza nenhuma
poderia ser mais importante do que seguir com o que eu acreditava
ser correto, embora já nem tivesse certeza sobre o que pensar.
— Quer dizer que admite ser um babaca? — Melina levantou
uma sobrancelha, me fitando.
— Vai mudar sua percepção se eu disser que não sou?
— Não.
— Então por que perderia meu tempo? — Cerrei meus olhos
em sua direção.
— Grosso — ela resmungou. — Mas até que você pensa.
— E até que você se enrola — eu reclamei, em seguida
forçando um sorriso. — Volta a trabalhar, Mattos, se eu perder outro
final de semana nessa biblioteca por sua culpa, sou capaz de
derrubar uma estante em sua cabeça.
— Não me chame de Mattos — a garota pediu.
— Quer que eu fique te chamando de garota?
— Preferia que não me chamasse — Melina disse, fechando
um pouquinho os olhos quando me deu um sorriso debochado.
— Acredite, eu também, mas estamos sendo obrigados a
trabalhar juntos — expliquei, apontando em volta.
Senti seu olhar em cima de mim, antes de bufar, visivelmente
irritada.
— Então pelo menos me chame pelo nome.
Maldito ar, pensei, assim que senti falta dele.
— Como quiser, raio de sol — debochei. — Agora, por favor,
Melina, cale a boca para eu me concentrar.
— Palerma — a garota murmurou.
E foi suficiente para eu rir baixo, porque ela ficava fofa
dizendo xingamentos que talvez minha avó usasse.
Começamos a arrumar o mesmo carrinho, para podermos
terminar de uma vez e guardar os livros. Depois de um longo tempo
ali, notei Melina cantarolando alguma música e por um segundo,
não consegui controlar minha língua, que normalmente ficava bem
quieta.
— Quer escutar música? — perguntei e ela me encarou,
parecendo bastante confusa.
— Estamos em uma biblioteca — Melina disse, como se eu
fosse burro o bastante para não saber o que isso significava.
— Não sou idiota — resmunguei. — Tenho fone.
— E como exatamente vamos escutar em um fone e
trabalhar ao mesmo tempo?
Franzi o cenho, um pouco incerto sobre sua pergunta e tirei
meus Airpods do bolso, mostrando para ela.
Melina fez uma careta engraçada, que eu sinceramente não
saberia descrever, mas balançou a cabeça positivamente.
— É claro — ela sussurrou. — Bom, não sou eu que vou
negar uma música, só espero que seu gosto não seja péssimo.
— Não te vi reclamar ontem enquanto cantava no meu carro.
— Que coisa feia, Santiago. — Melina fez um barulhinho de
reprovação com a boca. — Virou do tipo que joga as coisas na
cara?
— Fazer o quê. — Dei de ombros. — David costuma
reclamar pela mesma coisa.
Ela deu uma risada baixa, sem mostrar os dentes, mas o
bastante para ficar sorrindo durante curtos segundos que pareceram
uma vida, um gostinho do que seria o paraíso.
Precisei me esforçar para desviar o olhar e focar no fone em
minha mão, que rapidamente entreguei um para a garota, colocando
o outro no ouvido, logo pegando meu celular para entrar no Spotify e
deixar no aleatório.
Lonely Eyes do Lauv começou a tocar e Melina me encarou,
dando um sorrisinho mais uma vez.
— Meu Deus! Eu adoro essa música — ela falou, parecendo
até mais leve enquanto arrumava os livros, como se a música a
acalmasse e eu não poderia julgá-la, pois tinha a mesma sensação.
— Eu também — respondi baixinho, prestando atenção em
meu trabalho e nos livros que guardava na estante.
Não demorou nem um segundo para Melina começar a
cantar baixo, não se importando nem um pouco com a minha
presença ali. Era como se um brilho novo tivesse aparecido nela e
aquele corredor se tornado o seu palco. Mesmo tentando, não
consegui desviar a atenção de cada movimento que fazia e
exatamente no instante em que começou a cantar o refrão, Melina
me encarou, e nossos olhares pareciam não querer se separar.
Tinha alguma coisa que nos conectava e naquele momento eu
soube que estava ficando maluco, além de doente, considerando o
quanto estava prestes a ter um ataque cardíaco.
— Oi, pombinhos — David disse, fazendo nós dois o
encarar, um pouco perdidos pela forma repentina pelo qual ele
apareceu.
— David?! — perguntei, soando um pouco irritado e nem
entendendo o porquê.
— Já é meio-dia, eu e a Nina estamos morrendo de fome e
vamos almoçar em uma cafeteria que ela conhece aqui perto,
querem ir junto?
— Com certeza! — Melina respondeu, se abaixando para
pegar sua mochila e eu fiquei mais surpreso do que gostaria de
admitir quando ela me olhou, inclinando um pouco a cabeça para o
lado e disse: — Você vem, Santiago?
Concordei e nós dois andamos até onde David estava. Ela
seguiu o caminho para encontrar com Nina e eu fiquei parado ao
lado do meu primo.
— Você vem, Santiago? — David repetiu, piscando os olhos
exageradamente. — Não eram vocês que quase saíram no tapa no
meio do shopping há uma semana?
— Bibliotecas são lugares neutros, David, se eu cometesse
um assassinato aqui, poderia manchar os livros.
— Está certo, prioridades, priminho. — O garoto me deu dois
tapinhas nas costas e nós caminhamos até Melina e Nina, que
estavam na porta nos esperando.
Embora eu tivesse respondido tranquilamente, a pergunta do
meu primo me fez pensar. Quando exatamente saímos de dedos
apontados na cara, brigas no shopping e xingamentos no ginásio
para pessoas que escutavam músicas juntos e tinham uma
conversa quase normal sem querer bater na cara do outro? Isso,
claro, falando por mim. Talvez Melina ainda estivesse com algum
instinto assassino para o meu lado e eu distraído demais para
perceber.
— Santiago — Melina chamou, me tirando do meio dos
meus pensamentos e me deixando com os olhos arregalados
quando ela segurou minha mão. Mas que porra ela está fazendo? —
Seu fone.
Demorei alguns segundos para olhar para baixo e notar que
segurava minha mão porque tinha colocado o fone ali. Dei um
sorriso, que deveria ter parecido uma careta e apenas assenti,
limpando a garganta e guardando os Airpods na caixinha.
— É longe essa cafeteria? — perguntei. — Podemos ir de
carro.
— Santiago, andar faz bem — David disse, balançando a
cabeça em negação para mim. — Sei que é difícil, mas acredito em
você.
— Vai se foder — murmurei, para apenas ele escutar e meu
primo sorriu.
— Para qual lado vamos, senhoritas? — o garoto perguntou.
E foi Melina que apontou o lado, fazendo com que
rapidamente estivéssemos os quatro seguindo para chegar na
cafeteria.
✽ ✽ ✽
Estávamos voltando, cada um com seu lanche em mãos, já
que não podíamos demorar mais do que vinte minutos por conta do
horário da biblioteca. Então assim que chegamos lá na frente, nos
sentamos na escadaria da entrada, prontos para comer.
Para o meu desespero, a cafeteria tinha uma quantidade
absurda de comidas que pareciam deliciosas, mas eu não poderia
comer nada até o dia da apresentação, então fui obrigado pela
minha consciência a escolher um sanduíche natural e um suco de
morango.
David e Nina devoraram o lanche deles e não demoraram
praticamente nada para entrarem novamente na biblioteca, restando
apenas Melina e eu.
— Posso perguntar uma coisa? — ela questionou, tomando
um pouco do café gelado que tinha comprado.
Eu apenas concordei, porque estava mastigando.
— Por que você me xingou aquele dia? Quero dizer, na
quadra, nós normalmente nos insultamos, mas nunca tão além.
Aquela pergunta me pegou de surpresa, eu realmente não
esperava que ela fosse puxar um assunto sobre quarta. Terminei de
mastigar, bebendo quase metade do meu suco e a olhando.
— Porque você xingou a Ana — expliquei.
— Ela me xingou primeiro — Melina resmungou.
Eu concordei, soltando um suspiro.
— Isso não invalida seu xingamento, mas eu só descobri
depois — falei sinceramente, observando a garota bufar um
pouquinho.
— É irritante.
— O quê?
— Nada — ela falou rapidamente, parecendo se arrepender
de ter dito aquilo,enquanto balançava a cabeça.
— Melina… — tentei dizer alguma coisa, mas a garota me
interrompeu, se levantando irritada.
— Não foi nada, Santiago! — Melina exclamou, um pouco
grosseira e eu fiquei sem ter uma reação, enquanto ela entrava na
biblioteca.
Era por isso que eu evitava falar com outras pessoas.
Odiava gente confusa, por me deixar confuso e se tornava o tipo de
coisa que me fazia ficar um pouco puto.
Caminhei até a lixeira e joguei o resto da minha comida,
irritado demais para continuar comendo e entrei na biblioteca,
voltando para o meu carrinho, onde Melina não estava.
Decidi que apenas ignoraria, eu nem convivia tanto com ela
de toda forma e sempre que criava uma nova impressão, a garota
parecia fazer questão de me mostrar que eu estava equivocado, já
tinha cansado daquilo, então eu voltaria a agir do mesmo jeito que
com todos: indiferente pra caralho.
CAPÍTULO 11
Segunda-feira, 06 de setembro de 2021
“Eu tinha boas intenções
E as maiores esperanças
Mas agora eu sei
Que isso, provavelmente, nem fica aparente”
— Easy On Me, Adele
 
Eu tentava, mas não conseguia prestar atenção no que Nina
estava dizendo, porque involuntariamente meus pensamentos
paravam no dia anterior.
Santiago não estava sendo grosseiro comigo, na verdade,
estava absurdamente gentil, mas aí eu simplesmente resolvi surtar
por não estar sentindo raiva, mesmo tendo me chamado de vadia.
Aquilo nem fazia sentido, porém era como se uma parte minha
desejasse que pedisse desculpa e quando notei que o rapaz não
tinha pedido, mas era como se eu já tivesse o perdoado, foi o
bastante para eu ser estúpida, o deixando claramente irritado.
Sua explicação tinha sido válida e eu poderia ter apenas
aceitado, porque ele não estava errado, eu tinha realmente xingado
Ana também. Porém, quando percebi isso e meus ânimos se
acalmaram, eu tentei voltar a arrumar os livros com ele, mas o
garoto estava com a cara tão fechada que não tive coragem, indo
para outra prateleira. E quando tentei falar alguma coisa, ele foi
grosso, assim como em todos os momentos antes daquele fim de
semana.
Talvez Santiago tivesse vestido uma máscara de rapaz
bonzinho por aqueles dois dias e quando eu o irritei, a máscara caiu.
Era isso, no final das contas, ele ainda era um babaca.
— Melina, escutou alguma parte do que eu falei? — Nina
chamou minha atenção, cruzando os braços e me fitando com os
olhos cerrados.
— Desculpe, estava pensando.
— No quê? — Minha melhor amiga pareceu curiosa.
— Ontem eu quase cogitei que o Santiago fosse gente boa,
acredita nisso? — perguntei, fazendo um beicinho irritado.
— Não só acredito, como concluí o mesmo.
— Ele me evitou a tarde inteira e ainda foi grosso comigo —
falei, exasperada, me deixando afetar mais do que gostaria de
admitir por aquilo.
— Melina, você mesma me disse ontem que foi estúpida,
mesmo depois dele ser sincero.
Mexi o nariz, fazendo uma careta. Sabia que Nina tinha
razão, mas isso não mudava a forma como estava me sentindo
incomodada.
— O que você estava falando? — perguntei, concluindo que
mudar de assunto era a opção mais agradável.
— Ah, então, quero te chamar para uma coisa. — Nina
sorriu, endireitando o corpo no puff que estava deitada, ao lado do
meu.
Estávamos no pátio do colégio e o lugar se encontrava
praticamente vazio, provavelmente por já ter passado do horário da
saída.
— O quê? — questionei, sentindo uma certa animação,
normalmente eu amava qualquer coisa que Nina propunha.
— Quero que vá comigo na apresentação de ballet sexta-
feira que o David me chamou.
Automaticamente uma careta surgiu em meu rosto. Ir com
David em qualquer lugar, poderia significar que Santiago também
estaria presente. E por mais que eu amasse dança, aquela
possibilidade não me deixava contente.
— Ah, Nina… — fui resmungar, mas minha melhor amiga me
interrompeu.
— Eu não quero ficar sozinha, Lina — ela falou, fazendo um
beicinho.
— Você não vai estar sozinha, David vai estar com você —
eu disse, tentando forçar um sorriso.
— Melina. — Nina ficou séria.
— Ah qual é, nem sabia que ele fazia a linha que gostava de
ballet — resmunguei, me jogando para trás e deitando no puff,
totalmente dramática.
— O primo dele dança, não o conheço, mas David disse que
ele é bom. — Nina tentou puxar meu braço para eu me sentar
novamente, mas eu joguei meu peso para trás, a impedindo.
— Primos são puxa-sacos — admiti, sabendo que eu era
uma dessas primas puxa-saco.
— Credo, Mel, você já foi mais simpática — Nina reclamou,
acertando um tapa na minha coxa, que me fez resmungar um aí.
— É que aquele garoto vive grudado no David, e se ele
estiver lá? — perguntei, evitando dizer o nome dele.
— Que garoto?
Era um péssimo momento para Nina fazer a linha
desentendida, porque dizer seu nome poderia acabar funcionando
como uma invocação.
— Santiago, eu estou o odiando no momento — expliquei,
como se fosse suficientemente óbvio.
— Para de frescura, você não engana ninguém — Nina
negou, se deitando no puff dela também.
— Ai Nina!
— Melina, eu invoco o poder da amizade e exijo que você vá
comigo.
— Apelação — resmunguei, suspirando por saber que não
tinha opção. — Que horas vai ser?
— Às sete.
— Ok, mas nada de confraternização depois, vemos a
apresentação e direto para casa — falei, como uma condição que
não poderia ser mudada.
— Combinado, você é a melhor — ela exclamou, pulando do
puff para me abraçar e fazendo nós duas cairmos no chão,
gargalhando.
Enquanto me levantava, pude ver Nicolas subindo as
escadas e por um segundo eu quis conversar com ele, já que não
nos falávamos desde quarta, mas parecia tão errado que assim que
o rapaz me encarou, eu desviei o olhar, voltando a prestar atenção
em Nina.
✽ ✽ ✽
Finalmente tinha chegado em casa, depois de muito tempo
aguentando Nina saracotear de um lado para o outro do colégio
porque não queria ir embora, o que acabou me fazendo passar a
tarde toda lá, mesmo que fosse o dia de folga do meu pai e ele
nunca me buscasse naquele dia em específico.
Olhei em volta da sala, procurando por qualquer sinal de
Heitor, mas apenas quando escutei sua voz que descobri que ele
estava na cozinha. Soltei minha mochila no sofá e andei até lá para
pegar alguma comida e cumprimentar meu pai.
— Sim, o acampamento vai ser ótimo, acho que eles vão
adorar — o homem falou e quando cheguei na porta, notei ser ao
telefone. — Obrigado por tudo, tenha uma boa noite.
Heitor se virou, soltando o celular e sorrindo assim que me
viu encostada no batente da porta.
— Oi, querida! Quando chegou?
— Agora. Estava falando com quem? — perguntei curiosa e
animada, andando para me sentar na banqueta e dando uma olhada
em volta para tentar visualizar alguma coisa que pudesse comer.
— Com a Myrian — meu pai explicou, pegando um copo
térmico que estava atrás dele, acompanhado de uma caixinha da
Café Literário, que foi rapidamente colocado na minha frente. —
Comprei para você.
Por um segundo, me distraí com o donut de cobertura rosa
em minha frente, mas logo foquei na parte que era realmente
importante.
— Por que estava falando com a Myrian sobre o
acampamento?
Meu pai deu um sorriso, apontando para o copo, como se
esperasse eu tomar o café, o que eu fiz depois de um suspiro,
deixando que o líquido quentinho preenchesse minha garganta,
apreciando o sabor.
— Lembra do acampamento do terceiro ano que estava
agendado para o mês que vem? — ele me questionou, assim que
eu enchi minha boca de café.
Eu apenas assenti em resposta, já que estava ocupada
tomando o líquido.
— Então, os alunos do Santana vão para o mesmo
acampamento, só que na próxima semana. — Heitor pegou o outro
café que estava na bancada, olhando para o copo por longos
segundos, antes de voltar a me encarar. — Myrian e eu
concordamos que seria uma ótima oportunidade de os colégios
confraternizarem em um ambiente neutro, então liguei para os pais
hoje o dia todo para ver se aceitavam a troca. Como todos acharam
uma boa oportunidade, já que constantemente temos problemas,
nós estamos realocando nossa data. Sorte que o acampamentotem
estrutura suficiente para os dois colégios.
Eu fiquei apenas paralisada. Eram informações demais ao
mesmo tempo. Ir para o acampamento com o Colégio Santana,
significava uma semana inteira tendo que ver o Santiago o dia
inteiro e pior ainda: tendo que evitar Nicolas e sua onda de
confusão. Tínhamos acabado de ficar estranhos um com o outro, eu
não estava pronta para um acampamento tão cedo.
— Vou anunciar no colégio amanhã, embora os pais já
saibam.
— Pai…
— Melina, querida, não tente me convencer do contrário. —
Ele sorriu, tocando meu nariz. — Estou fazendo pelo bem do
colégio, sei que não gosta dos alunos de lá, mas dessa vez não
pode ser sobre você.
Minha boca até se fechou depois daquela resposta. Meu pai
havia realmente dado a entender que eu fazia as coisas serem
sobre mim? Eu literalmente passei o último ano inteiro sendo a
Melina que ele queria e me comportando. Até tentando voltar para a
droga do vôlei eu estava, tudo para vê-lo feliz.
— Claro, diretor Mattos — eu debochei, terminando de tomar
o último gole do meu café e dando uma mordida no donut. — Vou
ver o vovô — avisei, saindo da cozinha e nem dando chance de ele
responder, só pegando minha bolsa que por sorte estava jogada no
sofá e saindo pela porta, suficientemente irritada.
Entrei no elevador e peguei meu celular, digitando a
mensagem para Nina com tanta raiva que parecia que o celular
sairia voando da minha mão.
Melina: Você não vai acreditar!
Por sorte a resposta veio rapidamente, evitando que minha
irritação aumentasse.
Nini Meu Amor: No quê?
Melina: O nosso acampamento vai ser adiantado.
Melina: E os alunos do Santana vão junto.
Nini Meu Amor: Jura????
Nini Meu Amor: Aí que incrível.
Melina: Incrível?
Nini Meu Amor: Péssimo**
Nini Meu Amor: Esse corretor é uma bosta.
Isso me arrancou uma risada, mesmo que Nina estivesse
falando besteira. Sai do elevador, parando na entrada, apenas para
pedir um Uber e terminar de responder enquanto esperava.
Melina: Tentei falar com meu pai e ele disse que eu não poderia
fazer as coisas serem sobre mim dessa vez.
Nini Meu Amor: Oxi.
Nini Meu Amor: Mas você sempre fica na sua.
Melina: Pois é.
Melina: Tô cansada de me esforçar demais.
Vi o carro com a placa que estava no aplicativo e fiz um
sinal, começando a andar para entrar no veículo.
Melina: Vou ver meu avô, nos falamos depois.
Nini Meu Amor: Manda um beijo para o vovô.
Nini Meu Amor: E se cuida.
Melina: Pode deixar!
Confirmei meu nome com o motorista do Uber e parti para a
casa do meu avô, esperando que ele estivesse lá, já que eu nem
tinha ligado.
✽ ✽ ✽
Assim que o carro encostou na frente da casa amarela do
meu avô e eu paguei o motorista, não demorou muito para eu estar
pegando minha chave e entrando no quintal.
Caminhei diretamente até os fundos, onde meu avô cuidava
das plantas dele e normalmente passava grande parte dos dias.
Passei pelo caminho de tijolinhos brancos, observando as pequenas
árvores, que ele deveria ter plantado recentemente, e logo vi o
homem idoso sentado de frente para uma enorme mesa branca de
madeira.
— Melina! — ele exclamou assim que me viu, abrindo um
sorriso e se levantando, pronto para andar até mim.
Eu sorri também, caminhando em direção ao homem de
cabelos brancos, que um dia tinham sido tão escuros quanto os
meus. Seus olhos pareciam bolas de gude pretas, cobertas pelos
óculos de grau retangular.
Vovô me deu um abraço forte, que eu retribuí. Tínhamos
praticamente a mesma altura, já que eu era poucos centímetros
mais alta.
— Quanto tempo não vem aqui — ele falou, assim que se
afastou de mim, fazendo um sinal para que eu o seguisse.
— Queria ter vindo ontem, mas o senhor sabe… — Não
completei minha frase, apenas me sentando de frente para ele
assim que chegamos na mesa.
— Seu pai não devia ter te deixado de castigo — o idoso
disse, cruzando os braços.
— Ah, vovô, eu mereci, me meti em confusão — expliquei,
colocando minha mochila ao meu lado.
— O que importa é admitir seu erro, querida. — Ele sorriu. —
Está com fome? Comprei uma torta hoje.
— Claro — concordei, dando uma risadinha.
Não demorou muito para ele voltar com a torta e nós ficamos
ali mesmo, com a iluminação das lanternas do jardim, enquanto
vovô me contava algumas histórias de quando era mais novo, como
sempre fazia e me mostrava as novas suculentas que tinha
comprado com um rapaz que sempre comentava ter feito amizade e
acabava indo nas feiras acompanhado. Mesmo não o conhecendo,
era grata por fazer companhia para meu avô às vezes.
CAPÍTULO 12
Quinta-feira, 09 de setembro de 2021
Eu estava com tédio. A semana tinha passado correndo, o
que significava que era quinta-feira e tínhamos aula com o professor
de biologia, que por ser praticamente o último dia de aula antes do
acampamento, decidiu que nós deveríamos apenas aproveitar para
fazermos as lições. O que significava que ele não passaria nenhum
conteúdo e eu já tinha feito todas as atividades em casa.
— Santiago, a diretora está te chamando na sala dela. — A
voz do homem de meia-idade jogado na cadeira me atingiu, me
deixando surpreso pela informação.
Levantei, caminhando pela sala e ignorando os burburinhos.
Eu odiava tanto adolescentes. Andei pelos corredores apagados do
colégio e atravessei o pátio, descendo os poucos degraus e
chegando na sala da diretoria. Dei duas batidas na porta e esperei.
— Pode entrar — Myrian falou, de dentro da sala.
Eu abri a porta, fechando assim que passei e me sentando
de frente para ela.
— Santiago. — A diretora sorriu.
— Mandou me chamar? — perguntei, embora soubesse que
sim, a intenção real era descobrir o que ela queria.
— Sim, o senhor Ross quer falar com você.
Franzi o cenho assim que escutei o sobrenome do meu
genitor, que infelizmente também me pertencia e fiquei
completamente confuso. Se ele queria falar comigo, por que ao
invés de avisar a diretora do colégio, não me mandava uma
mensagem como um pai normal? Talvez porque de pai ele já não
tinha nada, muito menos de normal.
Enrijeci a postura e encarei a mulher com mais atenção, me
surpreendendo quando ela virou o notebook para mim e eu
consegui ver a cara velha de Archibald Ross na tela.
— Oi, filho — o homem falou, forçando uma voz para tentar
parecer um pai carinhoso, que só me fez mostrar uma careta como
se estivesse prestes a vomitar.
— O que aconteceu? — questionei diretamente, sem muita
paciência.
— Você se lembra do Jung Hyeon? — ele perguntou,
cruzando os braços na frente do corpo e me encarando.
Ergui uma sobrancelha, tentando me recordar, mas não
demorou para a imagem de um garoto me vir à mente. Hyeon era
filho de uma das melhores amigas da minha mãe e nós éramos
muito próximos quando pequenos.
— Lembro.
— Ótimo, ele vai passar um tempo no Brasil e a pedido da
mãe dele, que não quer o garoto solto por aí, ele vai morar com
você.
— Perdão?! — falei, mais exasperado do que gostaria de
parecer, mas aquilo era ridículo.
— Modos, Santiago — Archibald pediu.
— Ah, me desculpe, papai — debochei, irritado o bastante
para não ligar para o que a diretora pensaria, ela conhecia meu
genitor o suficiente para saber o tipo de pessoa que era. — Vou
mandar uma pessoa para a sua casa sem sua autorização e pedir
para ter modos, aí veremos como vai reagir.
— Santiago, estou lhe pedindo um favor. — O homem
revirou os olhos, massageando as têmporas, como se eu estivesse
lhe dando dor de cabeça. — Faça isso pela sua mãe, ela e a
senhora Jung eram muito amigas.
Fechei os olhos, respirando fundo e me segurando para não
xingar. Usar minha mãe era baixo, até para ele. O encarei com
seriedade, antes de dizer:
— É a última vez que aceito um pedido seu e só vou fazer
isso pela senhora Jung, mas não pense em mandar mais pessoas
para a minha casa — falei, me inclinando para desligar a ligação,
pouco me importando se ainda teria algo para dizer.
Respirei fundo, controlando minha raiva e olhei para a
mulher em minha frente, que parecia preocupada.
— O Hyeon está na sala de espera, se não for um incomodo,
poderia apresentar o colégio para ele? —a diretora Myrian
perguntou, mesmo que hesitante.
Ela não tinha culpa pelas merdas que Archibald fazia e muito
menos por cumprir com o trabalho dela, então eu concordei. Se teria
que aguentar Hyeon em minha casa, o que seria uma volta pela
escola?
— Claro. — Forcei um sorriso e saí daquele lugar, abrindo a
porta da sala de espera que ficava ao lado da diretoria.
Olhei em volta, logo vendo um rapaz com duas malas de
viagem, sem uniforme e um olhar perdido. Se aquilo não deixasse
óbvio que era o Hyeon, os traços asiáticos com certeza deixaram.
— Hyeon? — chamei, me perguntando se precisava dizer
mais alguma coisa e se deveria falar em coreano, porque não tinha
certeza se ainda sabia português. Poderia ter esquecido durante
aqueles nove anos.
— Oi! — o garoto exclamou, se levantando e se curvando
um pouco em minha direção, em seguida finalizando o movimento
com uma careta. — Esqueci que estou no Brasil.
Hyeon sorriu, de orelha a orelha e andou em passos largos
até ficar de frente para mim. Pelo menos realmente sabia português.
— Nossa, você lembra muito a sua mãe — ele falou, me
deixando com os olhos arregalados.
Por um segundo, me senti paralisado. Fazia muito tempo
que eu não escutava alguém falando da minha mãe sem ter um
motivo e aquela observação de Hyeon fez meu olho lacrimejar, mas
rapidamente eu disfarcei.
— Vamos logo. — Apontei para a porta.
— Ainda se lembra de mim? — ele perguntou e eu apenas
assenti. — Você está bem diferente, F… — o interrompi, balançando
o dedo em negação para que ficasse em silêncio.
— Santiago — eu disse. — É só Santiago faz um tempo.
— Certo — ele concordou. — Fico feliz que não tenha usado
meu nome inteiro, gosto da informalidade do Brasil.
— Melhor irmos. — Fiz mais um sinal na direção da porta,
mas dessa vez Hyeon concordou.
O cabelo castanho dele estava penteado para o lado e com
alguns fios cobrindo a testa e ele sorria tanto, que até seus olhos
escuros e finos com os cantos puxadinhos pareciam sorrir junto.
O garoto pegou suas duas malas, colocando a mochila nas
costas e andando ao meu lado de forma que parecia prestes a
saltitar. Sua animação me causava gastura, então apenas fiz um
sinal para que ele passasse na frente e fechei a sala, antes de
começar a mostrar o colégio para Hyeon. O rapaz se animava
extremamente fácil e a cada coisa, por mais boba ou insignificante
que eu mostrava, ele parecia prestes a explodir de emoção.
— O que tem feito por esses anos? — ele perguntou, com a
curiosidade extremamente explícita na voz.
— Nada. — Dei de ombros.
— Como nada? — Hyeon franziu o cenho e eu desviei o
olhar para frente, já que estava o guiando até a nossa sala. — Não
dá para ficar nove anos fazendo nada.
— Evitar perguntas conta como alguma coisa? — perguntei,
o encarando com certa irritação, o que fez o garoto gargalhar.
— Seu senso de humor sempre foi ótimo, F… — Fiz uma
careta assim que escutei sua suposta tentativa de me chamar de
outro jeito. — Desculpe. Santiago, ainda é um pouco estranho — ele
se explicou.
— Você se acostuma — eu murmurei.
— Estou ansioso para você me contar tudo. — Hyeon sorriu
e eu parei, apontando para uma das portas do corredor.
— Aqui é nossa sala — expliquei, abrindo a porta e olhando
para o professor, que ainda não tinha se movido nem mesmo um
centímetro do lugar. — Aluno novo — falei para o homem que
assentiu, fazendo um sinal para nós entrarmos.
Eu passei para dentro tranquilamente, mas Hyeon teve um
pouco de dificuldade para entrar com as duas malas, o que atraiu a
atenção de todos que ainda não o encaravam.
— Não se curve — sussurrei, sabendo que ele poderia se
esquecer e adolescentes eram babacas o suficiente para decidirem
zoar Hyeon por isso.
Caminhei até o meu lugar, me sentando tranquilamente e
encarando o rapaz.
— Qual seu nome? — o professor perguntou e o garoto
sorriu animado.
— Jung Hyeon, senhor — ele respondeu.
— Certo, Jung, pode se sentar atrás do David — o homem
apontou para o meu primo, que rapidamente levantou o braço para
Hyeon saber onde era.
— Na verdade, senhor, é Hyeon. Jung é meu sobrenome —
o garoto explicou, fazendo o professor franzir o cenho.
— É que você disse Jung Hyeon.
— Eu sou sul-coreano — o rapaz falou, dando mais um
sorriso e puxando as malas até o seu lugar.
— Novato, está se mudando para o colégio? — Vitor
perguntou baixo, rindo e fazendo Hyeon olhar para ele, talvez não
entendendo o sarcasmo.
Eu com certeza odiava brigas e até mesmo discussões, mas
odiava ainda mais o Vitor.
— Por que você não preserva o pouco de cérebro que te
resta e fica quieto? — questionei, o encarando irritado.
— Que bonitinho, Santiago, já está defendendo seu novo
namorado? — O garoto sorriu debochado.
— Sabe o que é interessante, Vitor? — indaguei, notando a
testa do garoto ficar totalmente franzida. — Você é tão imbecil que
nem consegue pensar em outras coisas para tentar me provocar.
Deve ser porque ninguém aguenta te ter por perto durante muito
tempo, aí decidiu começar a dizer que eu namoro todo mundo. É
algum tipo de tentativa de suprir suas necessidades? Ou tem um
crush em mim e bem no fundo isso é ciúme?
Vitor ficou tão vermelho, que eu jurei que ele estava prestes
a explodir, principalmente após se levantar e bater o caderno na
mesa, parecendo prestes a voar em minha direção.
— Senhor Vasconcelos! — o professor chamou a atenção
dele. — Esse tipo de comportamento deve ser colocado para fora
durante sua terapia, não no meio das aulas, por favor, vá para a
diretoria.
O garoto saiu da sala bufando. A melhor forma de irritar um
garoto de masculinidade frágil é dar a entender que duvida da
heterossexualidade dele.
— Foi o maior conjunto de palavras seguidas que escutei
você dizer nos últimos anos — David falou, chamando minha
atenção e me fazendo olhar na direção dele, dando de ombros e
notando que Hyeon já tinha se sentado e colocado as malas no
fundo da sala.
— Ele andou me irritando muito nesse final de semana —
expliquei, voltando a olhar para frente, ignorando o início de uma
animada conversa entre Hyeon e David sobre como fazia tempo que
eles não se viam e o quanto estavam diferentes.
✽ ✽ ✽
Sexta-feira, 10 de setembro de 2021
Sexta-feira costumava ser um dia caótico, porque no geral
eu acabava tendo que buscar um David muito alcoolizado em algum
canto, mas essa em específico, seria caótica por motivos diferentes.
Finalmente o dia da apresentação tinha chegado e se eu falasse
que não estava nervoso, estaria mentindo absurdamente.
Por sorte, consegui acordar cedo o bastante para dar tempo
de conversar com a minha mãe antes de sair para o colégio, então
abri animadamente a porta, levando um susto por dar de cara com
Hyeon no corredor. Durante alguns minutos, tinha apagado da
minha mente que o garoto estava em minha casa e não sairia tão
cedo.
— Bom dia! — ele disse, sorrindo exageradamente de uma
forma que ficava bastante claro sua animação. Não entendia
pessoas que conseguiam ser tão felizes logo cedo.
— Bom dia — respondi, saindo do meu quarto e fechando a
porta.
— Eu não disse isso ontem, mas quero que saiba que estou
muito grato por você me deixar ficar aqui — Hyeon falou, andando
ao meu lado conforme eu caminhava pelo corredor.
Inevitavelmente, comecei a olhar para as paredes,
observando os quadros que estavam ali e precisei me esforçar para
não chorar. Era revoltante que a maioria ainda ficasse com meu pai,
mas os poucos que preenchiam as paredes eram o suficiente para
me deixar nostálgico.
— Claro, não foi nada — eu assegurei, com a voz um pouco
falha.
Para o meu azar, o garoto ao meu lado era observador
demais, o que acabou fazendo com que ele notasse o que eu
olhava e parasse repentinamente. Eu me detive também, mesmo
sem saber o motivo para estar parando. Encarei Hyeon e percebi
que seus olhos se encheram de lágrimas.
— Ela era ótima — ele murmurou, observando o quadro que
estava em nossa frente.
— Ela era — concordei, deixando que um sorriso escapasse
dos meus lábios enquanto admirava cada pincelada.
— O que estão olhando? — Davidperguntou, me
assustando, já que não tinha percebido sua presença. Meu primo
olhou para o quadro e também sorriu. — Às vezes esqueço que os
quadros da tia Cristina eram tão bonitos.
Engoli em seco por escutar o nome dela e dei dois passos
para trás, pronto para continuar o caminho de onde pretendia.
— O que vai fazer, Santiago? — Hyeon perguntou.
— Não se preocupem, volto antes do horário de entrada —
informei, não dando a chance de me fazerem mais perguntas, já que
rapidamente desci as escadas para ir até o lado de fora.
✽ ✽ ✽
Deveria agradecer aos céus, considerando que a aula tinha
finalmente acabado e David, Hyeon e eu andávamos pelo
estacionamento para irmos até em casa.
— Hyeon, você vai ao acampamento? — meu primo
perguntou, só então me fazendo lembrar do que minha mente tinha
tentado evitar durante toda a semana.
Teríamos um acampamento em conjunto com o Colégio São
Sebastião, o que significava que seria uma semana longa e
exaustiva, tentando evitar conflitos e a Melina. Não queria continuar
com toda a confusão que estava sentindo, principalmente depois da
forma como ela havia ficado grosseira do nada no domingo, então
tinha concluído que a decisão mais sábia era apenas fingir que nós
nunca tínhamos nos conhecido. De toda forma, nem faria muita
diferença para nenhum de nós dois, especialmente considerando
que só nos víamos ocasionalmente.
— Vou, o senhor Ross cuidou para eu poder participar —
Hyeon falou, com clara animação na voz.
Mesmo convivendo com o garoto há pouco mais de um dia,
era impossível não notar o quanto ele se animava facilmente e com
praticamente tudo.
— Que bom, vai ser divertido. — David sorriu.
— Divertido? — resmunguei para mim mesmo, revirando os
olhos.
— Ah, acabei de me lembrar que tenho um compromisso
agora — meu primo disse, olhando na direção da entrada do
colégio, onde uma garota ruiva estava nos observando. — Nos
vemos mais tarde?
— Se divirta — Hyeon falou, acenando enquanto David se
afastava.
Caminhei até o carro e o garoto entendeu que era para me
seguir, entrando no carona assim que abri a porta do motorista.
Não liguei o carro de imediato, porque alguma parte minha
paralisou durante poucos instantes. Talvez o nervosismo estivesse
me consumindo mais do que eu imaginava. Escutei Hyeon
perguntando se eu estava bem, mas não respondi, apenas ligando o
carro de modo automático e começando a dirigir, sem nem saber
para onde estava indo. O garoto no banco do carona ficou
visivelmente preocupado, me chamando repetidas vezes, mas era
como se naquele momento eu fosse uma máquina, uma espécie de
robô e minha programação não me permitisse prestar atenção.
Assim que estacionei o carro, foi como se eu despertasse
novamente e voltasse a consciência. Balancei a cabeça, ficando
surpreso por parar em frente a casa amarela que eu já não visitava
fazia pouco mais de um mês.
— Eu estou bem — falei para Hyeon, que pareceu relaxar
um pouco no banco. — Só queria vir aqui antes de ir para casa.
— Você parecia em choque, foi um pouco assustador — ele
admitiu.
Eu desci do carro e o rapaz me seguiu, enquanto eu tocava
a campainha e logo avistava os cabelos grisalhos do senhor Gomes.
— Santiago! — o homem idoso exclamou, com os olhos
escuros brilhando, mesmo que cobertos pelos óculos de grau, assim
que abriu o portão e me viu. — Quanto tempo, garoto.
— Como o senhor está? — perguntei, enquanto entrava com
Hyeon me seguindo.
— Estou ótimo, mais saudável do que nunca. — Ele fez um
sinal positivo com as mãos, me arrancando uma risada baixa.
Nós andamos pelo jardim da casa, chegando até o final,
onde tinha uma mesa de madeira que nos sentamos.
— Ah, esse é o Hyeon — expliquei, apontando para o
garoto. — Espero que não se importe dele ter vindo junto.
— É claro que não, adoro uma visita. — Seu Marcos deu
uma risadinha. — Veio ver as plantas? Chegou uma suculenta linda
essa semana.
Não teria como eu dizer que estava ali apenas porque meu
cérebro se desligou e me levou até lá, embora eu não tivesse um
motivo, então concordei, vendo a animação dele, enquanto
caminhava para pegar as plantinhas.
Eu conheci o senhor Gomes em uma feira de plantas, há
dois anos, nós fomos comprar a mesma — e última — muda de lírio
e entramos em uma disputa verbal, já que os dois queriam ceder a
planta. Acabou que ele aceitou ficar com a muda e passamos o
resto da feira conversando, porque ele era um senhor muito
simpático. Sempre trocávamos informações sobre feiras e aos
poucos se tornou o avô que eu nunca tive, considerando que minha
família era tudo, menos próxima.
— Quem é esse senhor? — Hyeon perguntou baixinho.
— Meu avô — respondi, notando o rapaz levantar uma
sobrancelha, provavelmente confuso, considerando que conhecia
meus avós biológicos.
Logo o senhor voltou, segurando um vaso com uma
suculenta que eu nunca tinha visto. Seu formato se assemelhava a
uma lança e as folhas tinham uma borda mais clara, além de ter
pequenas flores roxas no final da haste longa.
— Essa é uma Espironema — ele explicou.
Admirei a plantinha por alguns segundos e foi impossível
não lembrar da minha mãe. Ela amaria aquela suculenta.
— É linda mesmo — concordei, e vi o sorriso do senhor se
aumentar.
Meu celular começou a tocar, me fazendo pegá-lo no bolso
rapidamente e arregalar os olhos ao ver o nome da minha dupla de
ballet estampado na tela. Yasmin nunca me ligava, então atendi com
pressa.
— Onde você está, Santiago? — a garota perguntou, do
outro lado da linha.
— Por quê?
— A senhora Fontaine quer que treinemos mais a
apresentação de natal, antes do último ensaio para hoje — ela
explicou, a voz em um timbre feliz demais para quem teria que
ensaiar o dobro.
— Que horas? Não estou em casa.
— Meio que agora, eu estou te esperando.
Massageei minhas têmporas, tentando com afinco não
xingar a menina, já que ela só estava seguindo ordens da
coreógrafa.
— Que seja, vou demorar uns trinta minutos — respondi,
esperando que ela não me questionasse, ou eu ficaria ainda mais
irritado.
Era para eu ter um descanso antes da apresentação e não
ser obrigado a ensaiar para uma que ainda faltava três meses para
acontecer.
— Santiago, precisa chegar agora.
— Já falei que não estou em casa. — Segurei minha
vontade de falar um palavrão porque estava de frente para o vovô.
— Se queriam que eu fosse mais cedo tinham que ter me avisado
antes, agora esperem porque ainda não inventaram um
teletransporte. Nos vemos em trinta minutos, Yasmin.
Desliguei o telefone, sem paciência nenhuma para escutar a
menina falar mais alguma coisa e suficientemente puto com a
situação.
— Está tudo bem? — Hyeon perguntou, me olhando com
atenção, assim como o vovô.
— Sim, eles adiantaram meu ensaio para agora — expliquei,
tentando respirar fundo e olhando para o senhor. — Vou ter que ir
embora, vô, mas prometo que depois que voltar do acampamento
venho ver o senhor.
— Também vai para um acampamento? — o senhor
perguntou, se levantando do banco, e assim que notou minha
confusão deu uma risadinha, pronto para explicar. — Minhas netas
vão na próxima semana. Aliás, temos que marcar um almoço para
vocês se conhecerem, anos e nunca se viram, acho isso uma
barbaridade.
— Vamos marcar sim — eu afirmei, também me levantando
e cutucando Hyeon para que fizesse o mesmo. — Preciso mesmo ir
agora, vô.
— Tudo bem, meu garoto. — Ele suspirou, se aproximando
com os braços abertos e eu rapidamente o abracei, gostando de
sentir a familiaridade do carinho. — Só vê se não vai sumir tanto
assim de novo.
Mesmo mandando mensagens com uma certa frequência,
eu tinha realmente deixado de ir lá como antes, porque os ensaios
estavam me consumindo.
— Pode deixar. — Eu sorri, o soltando.
— Boa sorte na sua apresentação hoje — vovô disse, me
dando dois tapinhas nas costas.
— Obrigado, vô.
Tinha o chamado para ir, mas o senhor ia viajar justamente
naquela noite, o que impossibilitou sua presença.
Nós passamos pelo jardim novamente e eu me permiti
observar os tijolos brancos do caminho conforme andávamos para
chegar no portão. Nos despedimose esperamos que o senhor
voltasse para dentro.
— Acho que vi você sorrir mais nesses quinze minutos do
que durante todas as horas que passamos juntos entre ontem e hoje
— Hyeon falou, me fazendo segurar uma risada e dar de ombros. —
Aliás, posso ir na sua apresentação hoje?
— Você quer ir? — perguntei, erguendo uma sobrancelha
para o avaliar, enquanto saímos de frente do portão.
— Sim, parece que vai ser divertido.
— Certo, então você vai — eu disse, encostando no muro e
colocando a mão no bolso do moletom, retirando a caixinha de
cigarros e meu isqueiro.
Já fazia longos meses que eu não colocava um cigarro na
boca, mas naquele momento eu me sentia tão estressado com a
apresentação chegando e o ensaio não planejado que foi como se
fosse certo, mesmo que por apenas um instante.
Prendi o cigarro no dente e o acendi, o segurando para
tragar com paciência, sentindo um alívio quando a fumaça deixou
meus lábios.
— Você sabe que fumar faz mal para a saúde, certo? — A
voz de Hyeon tirou minha concentração, me fazendo o encarar e
assentir. — Então por que está fumando?
Não respondi, apenas encarei o pequeno cigarro e me fiz a
mesma pergunta. Eu deveria parar com aquilo, já tinha conseguido
parar, mas a autossabotagem era um caminho sem volta e eu
constantemente acabava seguindo por ele.
Joguei o cigarro no chão e pisei para apagar, o pegando e
colocando na lixeira que tinha ali na frente. Olhei de soslaio para
Hyeon que estava com uma sobrancelha levantada, me avaliando.
— Um vício antigo — expliquei, mesmo que não precisasse.
— Às vezes eu faço escolhas terríveis.
— Ah, isso é notável. — Hyeon assentiu, me deixando
confuso. — Usar esse moletom com a camisa do uniforme foi a pior
decisão que você tomou nos últimos tempos.
Olhei para baixo, reparando no moletom desgastado
cobrindo a camisa polo e tive que concordar, estava horrível.
— Melhor corrermos, preciso comer alguma coisa e trocar de
roupa antes de ir para a academia. — Fiz um sinal para que ele
entrasse no carro e o garoto compreendeu, abrindo a porta do
carona.
De forma surpreendente, eu não detestava ficar na presença
dele, porque era como se Hyeon fosse uma espécie de lembrete de
quem eu costumava ser antes de tudo se tornar caótico e eu
gostava de poder me lembrar, mesmo que por um segundo.
✽ ✽ ✽
A hora tinha chegado e se eu pensava que tinha atingido
meu ápice de estresse em qualquer momento da minha vida, nada
se comparava àquele. Era como se todas as minhas células
estivessem agitadas, aguardando o momento em que eu fosse
dançar para se sentirem livres.
Caminhei até a mesa e não acreditei que tinha acabado as
garrafas de água.
— O que foi, Santiago? — a senhora Fontaine perguntou.
— Eu queria tomar um pouco de água antes de entrar —
expliquei, observando os olhos claros da mulher concentrados em
mim.
— Vai pegar lá na frente, acabou a que tinha aqui, só não
demore porque precisa entrar em dez minutos — ela apontou para a
porta que levava diretamente a entrada do teatro e eu assenti, antes
de começar a acelerar o passo na direção.
Andei apressado por todo o caminho, tão apressado que mal
via o que se passava ao meu arredor, de forma que acabei
derrubando alguém.
— Eu… — fui falar que sentia muito, mas assim que a garota
levantou a cabeça e os olhos de Melina se encontraram com os
meus, eu congelei. Não tinha mais a visto desde domingo e naquele
momento, ela estava absurdamente bonita, mesmo com pipoca
derramada no vestido por minha culpa.
— Porra, não acredito nisso! — Melina exclamou e mesmo
congelado, eu estava pronto para ajudar, até olhar para o relógio e
notar que eu só tinha seis minutos para tomar água, terminar de me
arrumar e estar em posição para subir no palco, o que me fez largar
a garota caída e sair correndo, pegando uma garrafa com o rapaz
responsável e voltando para dentro dos bastidores, nem olhando
para ver se ela tinha saído dali.
Me senti mal por ter feito aquilo, considerando que evitá-la a
todo custo e voltar a ser indiferente não incluía derrubar toda a
comida que segurava e largá-la jogada no chão, mas eu não tinha
opções e muito menos tempo.
Cheguei na frente da entrada do palco terminando de tomar
o gole de água e a senhora Fontaine parecia prestes a me socar,
antes de dizer:
— Que demora, Santiago, termina de se aprontar logo, sorte
que nos programamos com tempo sobrando.
Eu concordei, tirando o meu casaco, jogando em uma
cadeira e pegando a última peça que fazia parte do meu figurino,
rapidamente entrando no palco que tinha as cortinas fechadas e
ficando em posição. Não demorou nem trinta segundos para as
cortinas se abrirem, as luzes azuis e discretas se acenderem no
palco e a música começar a tocar. Naquele instante, nada mais
tinha importância, apenas focar em dançar.
CAPÍTULO 13
Sexta-feira, 10 de setembro de 2021
“Você me mostra uma porta aberta,
E aí vai e bate ela na minha cara”
— Mercy, Shawn Mendes
 
Depois do anúncio do adiantamento do acampamento, foi
como se o caos se instaurasse por todo o São Sebastião, tanto que
se tornou possível observar muitos adolescentes reclamando por
termos que aturar nosso colégio rival por uma semana inteira.
Eu compartilhava da opinião deles e Nina com certeza
poderia confirmar isso, já que tinha passado os últimos três dias
apenas me aguentando reclamar sobre como provavelmente
acabaria tendo que esbarrar no Santiago e como isso me deixava
completamente brava. Minha melhor amiga não entendia ao certo o
motivo para que eu ainda estivesse tão irritada com aquele garoto,
mas era como se nem eu soubesse, talvez só tivesse começado a
ter algum tipo de ranço com os meses que se passaram desde o dia
em que nos conhecemos, o que era completamente normal.
Evitei meu pai durante a semana toda, mesmo quando
tentava puxar algum assunto. Suas palavras tinham
verdadeiramente me machucado, porque eu dediquei a minha vida a
fazer tudo que ele quisesse para que Heitor saísse do fundo do
poço que tinha se jogado depois do incidente.
Existiam dias em que meu pai agia como se fosse o único
que sofresse, o único que tinha lidado com tudo, o único que ainda
possuía problemas e o único injustiçado. Eu sabia que a dor havia o
deixado um pouco cego com o mundo ao redor dele, mas era
doloroso ter que vestir uma máscara feliz, fingir que eu estava bem,
que não doía, que eu tinha seguido em frente e poderia voltar a ser
quem eu era, porque eu sabia com toda certeza do mundo que
nunca seria a mesma e estava cansada de perceber isso a cada vez
que me olhava no espelho, tendo que admitir isso para mim mesma.
Mais de um ano. Ainda era um pouco irreal, e eu esperava
que magicamente tudo se consertasse, ou que eu apenas abrisse
os olhos e descobrisse que não passava de um maldito pesadelo.
Só que isso nunca aconteceu e talvez encarar a realidade fosse
ainda mais complicado ao perceber que finais felizes são apenas
nos contos de fadas e, no fundo, não passa de uma mentira.
Porém, eu não poderia reclamar de cada ponto da minha
vida, já que eu ainda tinha algumas coisas boas, como meus
primos, meu avô, a Nina e meu pai — quando ele não achava que o
mundo girava ao redor do umbigo dele —. Se não fosse o apoio
deles, acho que eu teria me afundado completamente, já que eles
eram as únicas coisas que me davam forças e vontade de viver.
Eles eram minha alegria, minha luz e minha esperança.
— Você está meio estranha hoje — Nina falou, colocando a
mão no meu braço e me fazendo voltar a prestar atenção na
televisão à nossa frente, que passava um episódio de Miraculous. —
Na verdade, a semana toda. O que está acontecendo, Lina?
Olhei em volta da sala da minha casa, que já não tinha
nenhum vestígio do passado, nem mesmo as fotos, apenas aquelas
almofadas no sofá, principalmente considerando que nos mudamos
depois de toda a loucura.
— Estou cansada — admiti para Nina, me inclinando para
deitar em seu colo e recebendo um carinho no cabelo, logo depois
dela pausar o desenho.
— Tem a ver com o que o tio Heitor te disse segunda? —
Uma parte minha sentiu vontade de sorrirpor perceber que minha
melhor amiga realmente me conhecia bem demais. — Sabe, acho
que ele não falou por mal, só está com muita coisa na cabeça.
— Eu sei — falei, cutucando a cutícula do meu dedo
indicador.
— Mas também não é justo dizer aquilo para você — Nina
continuou ao perceber que eu não diria mais nada. — Pense que
hoje vamos sair e nos divertir, o que é bom para você se distrair.
Aquela informação tinha sido praticamente deletada da
minha cabeça, mas assim que Nina falou sobre sair, eu me lembrei
que iríamos para a apresentação de ballet do primo desconhecido
do David, o que deveria me deixar animada, se não fosse por minha
completa vontade de deitar na cama e parar de me esforçar a ser
positiva.
— Eu esqueci de comprar alguma roupa — lamentei,
passando a mão pelo rosto de forma cansada. — O que se usa em
uma apresentação de ballet?
— Sem pira — Nina pediu, fazendo um sinal de pare para
mim e me obrigando a levantar a cabeça de seu colo. — Roupa
normal de sair, amiga.
— Posso ir de moletom? — debochei, vendo a garota ao
meu lado mostrar uma careta.
— Amiga, aquele seu vestido que comprou mês passado,
mas não usou ainda — Nina sugeriu, me fazendo lembrar do vestido
de cor verde menta clarinho.
— Ótima ideia — concordei, dando um sorrisinho.
— Agora vamos terminar de ver esse episódio de Miraculous
porque daqui a pouco já precisamos nos arrumar — a garota avisou,
olhando no relógio e mostrando que já eram quatro horas, me
lembrando que nós ainda precisávamos tomar banho e David nos
buscaria às seis e meia.
Concordei e rapidamente voltamos a assistir.
✽ ✽ ✽
Eu estava bonita e sabia que devia tudo isso a minha ótima
genética, além das mãos perfeitas de Nina que tinham feito uma
maquiagem básica em meu rosto, já que eu não conseguia nem
passar um delineador direito sozinha.
O vestido que cobria meu corpo era bastante fofo, com uma
saia mais soltinha, mangas de sopro e um cinto discreto na cintura
alta. Minha melhor amiga tinha me emprestado uma sandália branca
de tira fina e eu deixei que meu cabelo ficasse praticamente natural,
apenas com as ondulações mais definidas.
— Você está muito gata — Nina falou assim que entrou em
meu quarto, batendo palmas como se eu estivesse em um desfile de
moda, o que me fez rir.
Se eu estava gata não existiam nem palavras para descrever
a garota. Ela não era do tipo que usava vestidos com frequência,
mas tinha optado por um tubinho de alcinha glitteroso e cinza-
escuro, que a deixava com todas as curvas absurdamente
acentuadas, complementado por um tênis branco, porque Nina
nunca usava salto.
— Olha quem fala — eu disse, apontando para ela. — Você
ficou muito linda nesse vestido.
— Obrigada. — Nina sorriu, pegando a bolsa que estava
jogada em cima da minha cama. — Vamos?
Olhei para o relógio da minha mesinha de cabeceira e
concordei, já que David deveria estar chegando.
Saímos do meu quarto e fomos para a cozinha falar com
meu pai, que nos elogiou e disse para termos juízo, o que sempre
fazia quando íamos para algum lugar de noite. Prometi que não
voltaria muito tarde, mas avisei que estava levando a chave e assim
Nina e eu fomos para o elevador, rapidamente chegando na
entrada, onde o carro nos esperava. O que me surpreendeu foi ver o
mesmo BMW que tínhamos andado dias atrás, me fazendo
questionar se Santiago estava junto ou se David tinha um carro
igual, embora a maioria das vezes que eu o tinha visto, ele estivesse
de moto.
Nina me puxou pelo braço ao perceber que eu estava
parada e assim que nos aproximamos do carro, o vidro foi abaixado,
revelando um David sorridente.
— Uau, meninas, vocês estão muito gatas — o rapaz
elogiou, dando um sorriso de lado que faria qualquer uma se
derreter, e sinceramente, eu não era cega para não me derreter
também.
A única parte da roupa de David que dava para ver, era sua
jaqueta de couro preta, que me fazia questionar o motivo para
jaquetas de couro sempre acabarem sendo a marca de garotos com
pinta de bad boy.
Nina agradeceu, sorrindo e encarando o rapaz por mais
tempo do que eu julgaria normal, em seguida abrindo a porta do
carona para entrar e eu fiz o mesmo no banco de trás, vendo que
outro garoto estava ali.
Eu nunca tinha o visto, pelo menos, não que eu me
lembrasse, mas o rapaz estava com um sorriso simpático no rosto,
que deixava suas feições bastante adoráveis, além de acabar
parecendo que seus olhos sorriam também. Seu cabelo era em um
tom de chocolate e estava totalmente arrumadinho naquele
momento.
Me sentei ao lado dele e sorri, fazendo com que o garoto
estendesse a mão para mim, que eu segurei.
— Eu sou o Hyeon — o jovem se apresentou, me encarando
como se esperasse que eu dissesse meu nome também.
— Melina — falei, vendo o rapaz parecer satisfeito. — É um
prazer.
Soltamos nossas mãos e Nina também se apresentou para o
Hyeon, o que fez David finalmente dar partida no carro e começar a
dirigir em direção ao teatro.
— Você estuda no Santana? — perguntei para Hyeon,
tentando puxar algum assunto, já que silêncio não era exatamente
uma coisa que me agradava.
— Sim, comecei essa semana, porque decidi voltar da
Coreia do Sul — o garoto falou, sorrindo mais uma vez.
— Ai que incrível! — eu disse, verdadeiramente empolgada.
— Sempre quis conhecer a Coreia. Você morava onde?
— Daechi-dong, em Seul.
— Você gostava?
— Muito. — Hyeon balançou a cabeça positivamente. —
Mas eu sentia saudade do tempo que morei no Brasil, então quis
voltar.
— Ah, deve ser por isso que seu português é excelente.
— Obrigado.
Nós ficamos conversando, enquanto ele me contava coisas
sobre Seul e perguntava se comidas que ele se lembrava ainda
existiam.
— Ah, David — Nina chamou o rapaz, fazendo com que
Hyeon e eu nos voltássemos na direção dela para prestar atenção
no que diria. — Onde está seu primo?
— Ele teve que ir bem mais cedo, porque adiantaram o
horário, coitado — David lamentou. — E ainda sobrou para mim,
porque tive que encontrar com ele para pegar o carro e buscar o
Hyeon em casa. Quase nos atrasamos para pegar vocês.
— Que bom que deu tudo certo — minha amiga falou,
sorrindo e o rapaz ao seu lado concordou, também sorrindo
enquanto olhava rapidamente para ela.
Porém, não demorou para a atenção de David ser roubada
pela entrada chique do estacionamento.
O Teatro Municipal ficava no bairro mais nobre de Vila dos
Anjos, o São Jorge, onde basicamente só as pessoas podres de
ricas podiam morar, porque só as contas de luz dos condomínios
enormes e luxuosos, deveriam custar três meses de salário do meu
pai.
Nós quatro descemos do carro e finalmente pude ter uma
visão completa da roupa dos garotos.
Hyeon usava uma camisa de listras azuis e brancas em
vertical, que parecia ser mais larguinha e estava com um lado preso
por dentro da calça preta, complementada pelos tênis brancos da
Fila. Ele parecia até um modelo com todo aquele estilo,
principalmente se considerasse toda a altura dele, eu não daria
menos do que 1,90.
Já David estava todo de preto. Do tênis que pareciam botas,
das calças justas, da camiseta um pouco mais solta até a jaqueta.
Hyeon me ofereceu o braço, que eu aceitei, notando que
David fazia o mesmo com Nina. Nós quatro caminhamos até a
entrada, onde uma mulher alta de terninho pediu os convites, que
foram rapidamente entregues.
Assim que cruzamos a entrada, meu queixo foi ao chão.
Parecia um daqueles teatros dos filmes norte-americanos, com uma
escadaria enorme em nossa frente, coberta ao centro por um tapete
vermelho e com duas enormes estátuas, uma de cada lado. A
estrutura era composta por várias colunas que lembravam um estilo
medieval. Aquilo era como arte em arquitetura.
— É por aqui — a voz de David nos informando o caminho
me tirou daquele devaneio, me obrigando a parar de prestar atenção
em tudo.
Nós entramos em uma das portas maiores e eu fiquei ainda
mais encantada ao me deparar com o palco. Era um teatro enorme,
o que me fez perceber que aquela não era uma simples
apresentação, já que o lugar se encontrava praticamente lotado.
Continuei segurando o braço deHyeon enquanto seguíamos
David pelas escadas, para garantir que eu não caísse. Não demorou
para que parássemos em uma das fileiras da plateia, praticamente
de frente para o palco.
— Meu primo queria que ficássemos no camarote, mas eu
acho que aqui é bem mais emocionante — o garoto de jaqueta
avisou e nós quatro nos sentamos. David na primeira cadeira, Nina
na segunda, eu na terceira e Hyeon na quarta.
Olhando em volta, era impossível não reparar como todo
mundo parecia exageradamente arrumado, quase como se
estivessem em um casamento e não em uma apresentação de
ballet.
— Vai lotar hoje — David afirmou. — Tirando a apresentação
do final de ano, essa é uma das mais importantes, porque os
diretores dos principais conservatórios vêm assistir.
— Nossa, seu primo deve estar bastante nervoso — Nina
falou, parecendo até preocupada com o primo desconhecido.
— Se estava, ele não demonstrou. Digamos que duas das
características marcantes do meu priminho é o excesso de
confiança unido à total capacidade de fingir não ligar para nada.
Hyeon balançou a cabeça em afirmativa, se inclinando para
frente para olhar David.
— Não sei como ele consegue — o garoto admitiu.
— Nem ele sabe, se duvidar.
— Acabei de perceber. — Hyeon franziu o cenho, olhando
em volta. — A Ana não vem?
Aquela pergunta me fez ficar um pouco incomodada. Eu
tinha me preocupado tanto com não encontrar com Santiago — que
era apenas amigo de David —, que esqueci completamente que
Ana poderia estar ali, principalmente considerando que eles eram
irmãos e o primo também era dela.
— Não, ela anda estranha desde que começou a sair com o
cara misterioso — o rapaz informou, me trazendo certo alívio. —
Mas melhor do que ela me estressar, porque está brigada com o
senhor azedume.
Hyeon sorriu em concordância e nossa atenção acabou
sendo voltada para a luz que se acendeu no palco e uma mulher
desejou uma boa noite, em seguida fazendo um tipo de discurso
que eu acabei ficando distraída e não prestei atenção. Alguns
minutos depois, as apresentações começaram e eu fiquei
completamente hipnotizada. Aquilo era lindo. A forma como cada
bailarino parecia estar entregando a alma no palco era encantador e
eu não conseguia desviar o olhar.
Ballet contemporâneo me lembrava um pouco a época que
eu fazia jazz e aquilo me trouxe uma certa saudade e até nostalgia.
Pelo menos, até sentir muita sede.
— Trouxe água? — perguntei baixinho para Nina, que
negou, me falando para ir comprar uma na entrada, porque ainda
teria muitas apresentações e ficar com sede não fazia bem.
— Me traz uma pipoca — David pediu e eu concordei,
pegando minha bolsa e avisando Hyeon, que se ofereceu para me
acompanhar, mas eu neguei.
Subi as escadas calmamente e fui até a parte da frente do
teatro, onde ficava a bomboniere, pedindo duas garrafas de água e
uma pipoca grande, já que eu acabaria comendo junto. Paguei e
agradeci assim que o atendente me entregou, caminhando
tranquilamente para voltar ao meu lugar.
Só que meus planos foram estragados, assim que senti
alguma coisa me empurrando. Uma dor atingiu minha bunda quando
eu colidi com o chão.
— Eu… — escutei uma voz familiar dizendo, e fiquei
surpresa ao levantar o olhar e ver Santiago parado ali, com os olhos
arregalados, o cabelo bonito de sempre e aqueles olhos azuis com a
frieza sendo substituída por confusão, provavelmente a mesma que
estava nos meus.
Olhei para baixo, notando a pipoca jogada por toda a minha
roupa e minhas garrafas de água caídas no chão.
— Porra, não acredito nisso! — eu falei, um pouco irritada
por ter me sujado.
Quando o encarei novamente esperei alguma reação, que
ele me ajudasse, que se desculpasse e para variar não fosse
estúpido, mas contra tudo que eu imaginei, Santiago desviou o
olhar, correndo em direção a bomboniere e em seguida sumindo,
sem dizer uma única palavra. Se eu tinha cogitado que em algum
momento eu senti raiva dele, nenhum superou aquele. Além de
derrubar minha comida e não se desculpar, ele ainda tinha me
largado no chão, coberta de pipoca e com algumas pessoas me
olhando como se eu fosse maluca.
Me levantei, com meu rosto queimando de raiva e vergonha,
joguei fora a balde vazio de pipoca e limpei o que tinha caído no
meu vestido, passando pela porta para chegar no meu lugar,
segurando apenas minhas garrafas de água.
— Cadê minha pipoca? — foi a primeira coisa que escutei
David perguntar assim que me sentei.
— Um idiota derrubou — resmunguei, abrindo a garrafa com
certa brutalidade e tomando um gole longo demais.
— Ok, por favor não me bata, eu mesmo vou lá buscar — o
rapaz falou, levantando os braços como um sinal de rendição. —
Vou até te trazer um docinho.
Ignorei seu comentário, tomando minha água e olhando a
cortina fechada que se abriu, deixando o palco iluminado por uma
luz azul direcionada discretamente para o rapaz que se
apresentaria. Ele usava uma roupa totalmente preta e seu rosto
estava coberto por uma máscara. Era a primeira apresentação solo
da noite.
A música começou a tocar e imediatamente eu reconheci
Mercy do Shawn Mendes. O bailarino estava parado, com as duas
mãos atrás do pescoço, encarando o chão, mas foi uma questão de
segundos para começar a dançar. Na primeira estrofe, ele já estava
dando uma pirueta que quase me fez pular, era como se cada um
de seus movimentos fosse feito com precisão para se encaixar na
melodia. O rapaz sentia a música e se entregava e isso era visível
para qualquer um que estivesse assistindo. Ele girou mais duas
vezes e eu não consegui evitar que gritinhos animados saíssem da
minha garganta. Acho que em toda a minha vida, nunca tinha me
sentido tão envolvida em uma apresentação. Quando chegou no
refrão, ele rodopiou seguidas vezes, arrancando diversos gritos e
aplausos da plateia, o que incluía os meus.
Sem notar, comecei a bater no braço de Nina, como se
pedisse para ela conferir se estava vendo o mesmo que eu.
— Eu também estou vendo, se acalma — Nini disse, dando
uma risadinha.
Porém, quando o rapaz fez um salto, parecendo que
mergulharia no palco e finalizou firmando as mãos no chão e dando
uma cambalhota, cogitei que além de deixar minha amiga surda, eu
ficaria sem ar, de tanto que comecei a surtar. Ele terminou a dança
com um último rodopio preciso, voltando à posição inicial.
Aquilo era arte, arte viva e palpável de uma forma que eu
nunca tinha visto, mas tinha me deixado completamente
apaixonada.
As cortinas se fecharam e todo mundo aplaudiu com
vontade, de forma que o teatro foi preenchido por gritos e assovios.
Talvez eu não fosse a única que tinha me sentido daquela forma.
Meu coração estava até mesmo acelerado, como se tivesse ingerido
adrenalina.
— Ele foi ótimo — Hyeon falou ao meu lado.
— Ótimo?! — perguntei. — Aquilo foi perfeito, eu estou
arrepiada — eu disse, mostrando meu braço que se encontrava
realmente com os pelinhos arrepiados.
David chegou nesse momento, segurando dois baldes de
pipocas e duas barras de chocolate, se sentando em seu lugar.
— David, você perdeu a coisa mais linda que já vi na minha
vida — informei, apontando para o palco.
O rapaz olhou na direção e em seguida para mim.
— O quê? Bailarino gato? Ou bailarina? Vai da sua escolha.
— Não, David — neguei, apontando mais uma vez, me
perdendo as palavras.
— Teve uma apresentação solo de um rapaz, foi de arrepiar
e a Melina ficou totalmente encantada — Nina explicou, tirando as
palavras da minha boca.
— Se quiser, peço para o meu primo descobrir se o solista é
solteiro. — David me deu uma piscadinha, que só me fez revirar os
olhos.
— Teve a ver com a dança — falei, como se fosse óbvio,
porque realmente era.
— Claro, vocês podem dançar bastante, vou conseguir o
contato para você. — O rapaz me fez um sinal positivo, me
entregando um dos baldes de pipoca e uma barra de chocolate,
dando a outra para Nina.
Percebi que David ainda não tinha entendido, mas desisti
por notar que a cortina já se abriria para a próxima apresentação,
então apenas agradeci a comida e voltei a prestar atenção, dividindo
a pipoca com Hyeon.
— Fiqueisurpreso com como o humor dela melhorou rápido
— David falou para Nina, alto o bastante para que eu também
escutasse.
— Essa é a Melina de verdade, o mau-humor dura pouco. —
Minha amiga deu uma risadinha.
Fiz uma careta, mas preferi não comentar nada, focando nas
apresentações e na pipoca.
✽ ✽ ✽
As apresentações tinham acabado e embora todas tivessem
sido lindas, nenhuma tinha superado a do primeiro solista. Era como
se de alguma forma a dança tivesse conversado comigo e me fez
até sentir vontade de dançar com o rapaz.
Estávamos plantados próximos da escadaria enorme,
esperando pelo primo ainda desconhecido do David, quando eu vi
Santiago se aproximando e imediatamente fechei a cara.
— Santiago! — Hyeon exclamou, se aproximando para dar
um abraço no rapaz, o que me fez me perguntar se todos naquele
colégio se conheciam.
Santiago já era consideravelmente alto, provavelmente
passando de 1,80, mas ele ainda era menor que Hyeon, o que só
me fazia perceber que o sul-coreano era realmente alto.
— As coreografias estavam lindas, parabéns — o rapaz
complementou.
— Arrasou, priminho! — David o abraçou também.
Foi ali que eu arregalei meus olhos e tudo fez sentido.
Santiago estava ali porque ele era um dos bailarinos, o carro igual
ao dele lá fora era provavelmente o dele mesmo e, se ele era primo
de David e David era irmão de Ana, isso queria dizer… Merda. Eu
tinha xingado a prima dele, por isso ele tinha ficado tão bravo no dia
do treino.
Santiago agradeceu, parecendo um pouco perdido e sua
expressão foi modificada para completa surpresa quando seu olhar
se encontrou com o meu. Ele franziu o cenho, encarando David e
voltando a olhar para mim, repetindo o movimento algumas vezes,
antes de olhar para Nina.
— O que acham de comermos alguma coisa? Vamos
comemorar — David pediu, com Hyeon o apoiando.
— Na verdade, eu precisava ir… — comecei a falar, mas o
rapaz me interrompeu.
— Qual é, gata. — O apelido me fez franzir o cenho e notar
Santiago o encarando com desgosto. — Ainda está super cedo,
aposto que você está com fome e eu vou deixar vocês em casa
depois.
— Não posso ir, eu tenho a dieta… — Santiago disse,
também sendo interrompido.
— Vamos naquele restaurante que tem comida vegana,
pronto, tudo resolvido. — David bateu duas palmas, como se
estivesse nos mandando segui-lo.
— E eu pago — Hyeon complementou, fazendo um high five
com o rapaz que tinha tido a ideia.
— Bom, vou avisar o tio Heitor que vamos voltar um pouco
mais tarde — Nina informou, já pegando o celular e me obrigando a
lhe lançar um olhar de súplica, que foi ignorado completamente. Ela
tinha me prometido que não teríamos confraternizações depois e,
aparentemente, se esqueceu disso.
Santiago bufou e nós cinco começamos a andar para fora do
teatro, indo até o estacionamento pegar o carro. Quando chegamos
ao lado do BMW, David jogou a chave para o primo, que fez uma
careta antes de pegar.
— Hyeon e Nina, comigo no banco de trás — o rapaz
informou, abrindo o banco do carona e fazendo um sinal positivo
para eu entrar.
Antes que eu pudesse argumentar, ou inventar alguma
desculpa, os três já tinham se acomodado atrás, me restando
apenas o mesmo lugar do outro dia, o banco ao lado de Santiago.
Naquele momento, eu concluí que quem eu mais odiava ali não era
o loiro, mas sim David por me fazer passar por aquilo.
Me dei por vencida e sentei no banco, fechando a porta com
certa delicadeza e notei que Santiago estava me encarando.
Eu não costumava ser ríspida com a maioria das pessoas,
mas depois de todos os momentos esquisitos em que tínhamos nos
encontrado e todo aquele clima horrível que ficava entre nós dois,
eu sempre acabava sendo assim com ele.
— Perdeu alguma coisa na minha cara? — perguntei,
fazendo o rapaz endireitar a postura, parecendo confuso.
— Estava procurando a sua educação — ele retrucou, me
arrancando uma risada sarcástica.
— Falou o idiota que me largou jogada no chão coberta de
pipoca.
— Isso que dá ser desastrada — Santiago resmungou, me
fazendo bufar.
Ele me empurrava e a desastrada ainda era eu?
— A culpa foi sua, seu babaca — acusei, sentindo meu rosto
esquentar.
— Se você não estivesse no meu caminho, eu não teria
esbarrado em você.
— Se você não estivesse tão focado no próprio umbigo, teria
notado que tinha alguém no caminho, cacete — falei, erguendo
instintivamente o dedo acusatório em direção do seu rosto. — Então
vai para a porra.
Santiago segurou meu dedo, puxando um pouco para frente
e fazendo com que eu ficasse exageradamente perto dele, já que
nós dois tínhamos nos inclinado enquanto brigávamos. Ele fez um
som reprovador com os lábios, que soava como: tsc tsc tsc e me
encarou, os olhos revelando toda a raiva que sentia, parecendo ser
a mesma que me deixava até sem ar.
— Já cansei de pedir para não apontar o dedo para mim —
ele disse, com o tom de voz baixo.
— Não seja um imbecil e isso não será necessário. — Forcei
um sorriso, me afastando dele e olhando para frente.
— Ah… — Hyeon parecia hesitante, embora só tivesse me
feito lembrar de sua existência naquele momento. — Podemos ir
jantar?
— Hyeon — David o repreendeu, baixinho.
— Estamos indo — Santiago falou, dando partida no carro.
— Posso perguntar uma coisa? — Hyeon questionou para
mim e eu assenti, olhando um pouco para o banco de trás. — Por
que vocês dois parecem não se gostar? — ele apontou para mim e
em seguida para Santiago, fazendo com que nós dois nos
olhássemos, antes de voltar o foco para Hyeon.
Eu poderia dar uma resposta longa, mas não valeria a pena,
então eu apenas falei:
— Porque ele é um idiota.
E fiquei verdadeiramente surpresa por Santiago ter dito no
mesmo segundo:
— Porque ela é uma idiota.
Nos encaramos, talvez um pouco surpresos e olhamos para
frente, parecendo que não tínhamos coragem para nos provocarmos
naquele curto instante.
O caminho até o restaurante foi silencioso e durante o jantar,
todos conversamos, mas a cada vez que meu olhar se encontrava
com o do loiro, era como se alguma coisa estranha e oculta
estivesse ali. Eu não sabia dizer o que era e não pretendia pensar
nisso, enquanto fosse possível evitar.
CAPÍTULO 14
Sábado, 11 de setembro de 2021
Minhas costas doíam, graças a forma como eu tinha dormido
completamente torta na noite anterior, já que Nina e eu chegamos
quase meia-noite, então para não acordar meu pai, acabamos não
enchendo o colchão inflável.
Dormir com Nina — mesmo que em uma cama de casal —
era um desafio, porque minha melhor amiga não conseguia parar
quieta, de um jeito que em certo momento, as pernas dela foram
parar em cima da minha barriga e sua cabeça no pé da cama.
Basicamente, era uma tortura. Se eu não amasse aquela garota
com todo meu coração, aquela teria sido uma ótima oportunidade
para jogá-la pela janela por atrapalhar totalmente meu sono sagrado
e contribuir com a minha dor na coluna.
Me alonguei, apoiando na bancada da cozinha, enquanto a
garota andava de um lado para o outro cozinhando alguma coisa.
Eu nunca me envolvia em suas invenções culinárias,
principalmente porque tirando café, coisas prontas ou macarrons, eu
não sabia fazer nada.
— Vai tomar café? — ela perguntou, já pegando o filtro para
café, porque Nina odiava os de máquina.
— Vou, mas o meu está no freezer — avisei, enquanto
tocava as mãos nos pés e sentia aquela clássica pontada na perna
que só aparecia quando iria chover. — Vai chover, você trouxe
jaqueta ou guarda-chuva?
Quando ergui o corpo novamente e encarei minha melhor
amiga, que tinha um cabelo perfeito demais para uma pessoa que
estava de pé às oito da manhã, notei a confusão estampada em seu
rosto.
— Primeiro, vou pegar a bandeja para você então — Nina
informou, já abrindo o freezer e tirando minha bandeja de cubos de
café. — Segundo, o que raios a chuva tem a ver?
— Minha perna doeu. — Apontei para baixo.
— Tá parecendo a minha vó.
Eu dei uma risada baixa e decidi ignorar, pegando o
liquidificador e as coisas que faltavam para fazer meu café gelado,
enquanto Nina finalizava uma crepioca e montava um prato
arrumadodemais, que continha até mirtilos — o que eu nem sabia
que tinha ali em casa.
— Por que arrumar tanto o prato se vai parar tudo na barriga
de qualquer jeito? — eu perguntei, enquanto colocava os cubos de
café congelado no copo do liquidificador.
— Porque preciso postar no Instagram — ela explicou,
apontando para o próprio celular. — Estão reclamando da minha
ausência.
Aquilo foi bastante explicativo, já que Nina tinha uma
quantidade considerável de seguidores e poderia ser vista como
uma influenciadora, constantemente postando rotinas fitness, dicas
de maquiagem e mais outras coisas, dependendo de qual fase ela
estava.
— Faz sentido — concordei, enquanto procurava a essência
da baunilha que eu tinha acabado de pegar, a encontrando e
colocando com os outros ingredientes.
— O que achou da apresentação ontem? Foi divertida, não?
— Nina perguntou, me olhando antes de voltar a tirar fotos de seu
prato.
Foi o suficiente para minha amiga ganhar toda a minha
atenção, eu só estava esperando uma oportunidade para aquilo.
Comecei a falar sobre a apresentação do solista mascarado,
descrevendo os detalhes ainda presos em minha mente como se a
garota não estivesse lá também. Pude notar os sorrisos que Nina
enviava em minha direção, provavelmente pensando o mesmo que
eu: já fazia muito tempo que eu não me empolgava daquela forma
com nada.
— Quem te escuta falar assim, vai achar que se apaixonou
pelo garoto — minha amiga brincou, me fazendo revirar os olhos.
— Pelo garoto não, mas pela dança… — Suspirei,
verdadeiramente encantada.
Foi naquele momento que uma ideia passou pela minha
cabeça. Eu sempre gostei de dança, sempre amei música e eu
ainda precisava encontrar alguma atividade para fazer parte da
minha rotina e tirar a atenção das minhas falhas tentativas de jogar
vôlei. Talvez começar a aprender ballet contemporâneo fosse uma
ótima ideia.
— Nina — chamei minha amiga, permitindo que um sorriso
preenchesse meu rosto de um canto ao outro.
— Oi. — Nini ergueu uma sobrancelha, enquanto mordia um
pedaço de sua comida e me oferecia o prato, que eu neguei, ligando
o liquidificador, em partes porque precisava bater logo meu café,
mas também para evitar que meu pai escutasse nossa conversa, já
que ele ainda estava no quarto.
— Lembra que te contei sobre a ideia da minha psicóloga de
eu fazer outras coisas? — perguntei e a garota concordou, ainda
confusa. — E se eu fizesse ballet?
— Eu amei! — Nina bateu palminhas animadas, mas logo
pareceu murchar sua animação, fazendo com que fosse a minha
vez de ficar confusa. — Mas como você iria? É caro e você não quer
contar para o tio Heitor — ela sussurrou, me fazendo refletir.
Realmente ir para uma academia não era uma opção, então
eu teria que arrumar algum jeito de aprender sozinha.
Ou alguém para me ensinar…
— Nina! — exclamei, o que causou um olhar um pouco
assustado na garota. — E se eu descobrir quem era aquele garoto
da máscara e ver para ele me ensinar?
Nina fez uma careta de forma imediata e eu desliguei o
liquidificador, pegando um copo grande no armário do alto.
— Por que uma pessoa desconhecida, que deve ter um
monte de coisa para fazer te ensinaria ballet de graça? — ela
questionou para mim, me fazendo refletir que realmente era uma
péssima ideia, mas eu não gostava de abrir mão das coisas.
— Nunca se sabe, eu posso tentar, no máximo levo um não
— falei, dando de ombros.
— Acho uma ideia estranha, mas se quiser mesmo eu falo
com o David para ele descobrir quem é e ver a possibilidade de
você fazer um pedido esquisito. — Nina me mostrou um sinal
positivo, que me fez lembrar de David fazendo o mesmo ao alegar
que conseguiria o contato do bailarino, por achar que eu tinha
desenvolvido um crush, ou qualquer coisa que tivesse se passado
pela cabeça maluca daquele rapaz. No final das contas, o contato
seria útil, mas para uma finalidade diferente.
Eu agradeci, enquanto finalmente despejava meu café no
copo e pegava um canudo para tomar aquela bebida dos deuses.
Meu pai apareceu na cozinha, usando uma roupa arrumada
demais para um sábado de manhã, desejando um bom dia para nós
duas, seguido de um beijo na testa de cada uma. Ele perguntou se
eu iria à psicóloga, o que confirmei rapidamente. Após tomar uma
xícara do café que Nina tinha feito, Heitor deixou nosso
apartamento, alegando precisar resolver algumas coisas.
Preferi não me preocupar com o que ele fosse resolver,
principalmente considerando que era grandinho o bastante para
cuidar de si mesmo.
✽ ✽ ✽
Segunda-feira, 13 de setembro de 2021
Atrasada: a palavra que fazia constantemente parte da
minha rotina, o que incluía aquela manhã de segunda-feira.
Depois da minha psicóloga no sábado, Nina e eu fomos
visitar meu avô e ficamos até tarde lá, comendo todos os biscoitos
que ele tinha assado e uma enorme lasanha na janta. Foi o
suficiente para eu não sair do sofá no domingo, assim como minha
amiga, que acabou ficando na minha casa o final de semana inteiro.
Aproveitei a oportunidade para obrigá-la a assistir a primeira
temporada toda de Modern Family.
Nos poucos momentos em que minha atenção não se
encontrava focada em Nina, eu estava conversando com Hyeon.
Acabamos trocando nosso número na sexta porque ele foi a única
pessoa que tornou minha noite menos desconfortável, conversando
comigo sempre que possível e sobre coisas que eu também
gostava. O garoto era extremamente simpático e era como se nossa
energia fosse compatível, de forma que parece aquele tipo de
pessoa que traz a sensação de que você conhece a vida toda.
Também tive que passar o domingo ignorando as vinte e oito
mensagens, cinco ligações e quatro directs de Nicolas, já que falar
com ele não estava nos meus planos tão cedo, mesmo que já
fizesse uma semana e meia que eu o evitava. E claro que eu só
lembrei disso porque meu celular estava com a foto dele estampada
em uma ligação pela segunda vez no dia, mesmo sendo sete horas
da manhã.
— Se ele continuar me ligando, eu vou atender e dar uma de
Ariella — falei para Nina, que estava sentada na beirada da cama,
com a mochila pronta e um olhar de compaixão na minha direção,
porque eu estava quase morrendo para apertar tudo na minha.
— Desliga o celular — ela sugeriu. — É direito seu não
querer falar com ele.
— Você… — hesitei, porque não era da minha conta. Eu
tinha escolhido evitar Nicolas, mas Nina não tinha a obrigação de
fazer o mesmo.
— Ele me mandou mensagem ontem também, pedindo para
eu falar para você responder, mas eu ignorei. — Minha amiga deu
de ombros. — Também evitei ele desde o treino caótico.
Suspirei, não sabendo se deveria dizer mais alguma coisa,
mas soltando um gritinho animado quando finalmente consegui
fechar o zíper da mochila.
— Pronto, vamos logo, porque já estamos atrasadas.
Era para todo mundo estar na frente do colégio às sete, para
sairmos às oito, mas eram sete e cinco e eu ainda estava saindo do
quarto, olhando com raiva para a foto de Nicolas na tela do celular,
que no momento se encontrava em minha mão. Pelo menos já tinha
tomado café da manhã.
— Aleluia, meninas! — meu pai falou, andando até o meu
lado com um estojo que ficava a caneta de epinefrina.
— Para que isso, pai? — perguntei, franzindo o cenho.
— Sua alergia, nunca se sabe.
Foi informação o suficiente para eu fazer uma careta. Eu
tinha alergia a frutos do mar, em que tipo de acampamento ele
achava que eu estava indo para correr o risco de comer camarão,
ou algo do estilo?
— Pai, é um acampamento — o lembrei.
— Eu sei, mas segurança nunca é demais, Melina. — Ele fez
um sinal para que me virasse e colocou o estojo no bolso de fora da
mochila, que era o único lugar que ainda cabia alguma coisa. —
Agora vamos.
Notei que Nina segurava a risada, provavelmente por achar
aquilo tão absurdo quanto eu achava.
Descemos pelo elevador, com nossas pequenas malas que
já tinham ficado perto da porta, além da mochila nas costas, até o
subsolo e entramos os três no carro. Não demorou para chegarmos
no colégio, com a treinadora Paula — que nos acompanharia no
acampamento — me lançandoum olhar reprovador, provavelmente
por saber que eu que tinha causado nosso atraso. Era a parte ruim
de todos os meus professores me conhecerem bem demais e eu
poderia culpar meu pai por isso.
Fomos informados sobre a organização dos ônibus e a
treinadora passou recolhendo as autorizações de quem não tinha
entregue durante a semana. Agradeci aos céus por Nina ter ficado
no mesmo ônibus que eu e graças ao meu atraso nem vi Nicolas.
Assim que nos sentamos em nossos lugares, eu olhei para
minha melhor amiga. Refletindo sobre como teria que aguentar duas
pessoas: meu ex/melhor amigo e o Santiago.
— Essa vai ser uma longa semana — afirmei, permitindo que
uma lufada de ar saísse de meus lábios.
CAPÍTULO 15
Segunda-feira, 13 de setembro de 2021
Eu estava naquele estágio do sono entre estar sonhando e
realmente despertar, quando fui obrigado a acordar por escutar uma
quantidade absurda de barulho no meu quarto, mesmo que fosse
completamente proibido qualquer pessoa entrar ali sem minha
autorização prévia.
Abri os olhos, os cerrando em direção a luz e conforme
minha visão desembaçou, eu consegui ver com clareza David e
Hyeon sentados na minha cama, me observando, o que só me
deixou puto por ser acordado no meio do sonho.
A sensação de saber que estava sonhando com algo bom,
mas não exatamente o que era, me preencheu e só consegui sentir
ainda mais insatisfação por estar acordado.
Eu não conseguia acreditar que tinha cogitado que ter Hyeon
ali não era ruim, porque além de David, eu agora tinha o Jung, o que
significava que seria o dobro de incômodo.
— E aí, Santiago?! Animado? — David perguntou, se
remexendo na cama e encostando no travesseiro ao lado do meu.
— Pareço animado? — devolvi a pergunta, o encarando.
— Prestes a jogar confetes em mim — meu primo falou,
revelando um sorriso travesso no rosto.
Odiava quando ele ficava com aquela expressão, nunca
terminava bem.
— Desembucha — resmunguei, sabendo que teria alguma
coisa a ser dita.
David olhou para Hyeon, que parecia segurar uma risada,
não disfarçando nem um pouco sua animação. Eu não sabia dizer
se era pelo acampamento, ou por alguma ideia idiota do meu primo,
mas ela estava presente.
— Me diz, como está esse coraçãozinho sabendo que vai
ver a Mattos todos os dias essa semana? — David piscou os olhos,
como naquelas cenas de desenhos animados em que os cílios ficam
maiores, ou pelo menos, foi assim que se pareceu na minha cabeça
sonolenta.
— Onde quer chegar, David? — perguntei, sentindo o sono
misturado com minha irritação, o que nunca resultava em coisas
boas.
— Queria te irritar. — Meu primo deu de ombros. — Mas, na
real, tenho outra coisa para perguntar.
— Fala logo — pedi, observando no relógio da parede que
ainda eram seis horas e não tinha nenhuma necessidade de eu já
estar acordado, porque tinha deixado minhas coisas arrumadas e a
roupa separada.
— Quem era o solista na apresentação sexta? — David
questionou, com uma expressão no rosto que eu não sabia decifrar.
Ergui uma sobrancelha, o encarando com certa confusão, já
que só tinham dois solistas, eu e um rapaz mais velho que eu não
tinha muito contato.
— O de máscara — Hyeon complementou, me fazendo
concluir que era eu.
— Eu — respondi, olhando para os dois, mas no final
focando em David. — Por quê? Não reconheceu a coreografia que
você ficou espiando por semanas?
Meu primo olhou para Hyeon, que nesse momento nem
tentou disfarçar sua vontade de rir, logo soltando uma gargalhada, o
que fez David revirar os olhos de maneira divertida.
— Eu perdi sua apresentação — meu primo começou a
explicar, me fazendo pensar se ele estava se agarrando com
alguém nesse momento. — E antes que pensamentos equivocados
sobre a minha pessoa passem pela sua cabeça, foi porque eu fui
buscar pipoca, já que alguém derrubou a que a Melina tinha
comprado para mim.
Queria perguntar o motivo para Melina buscar pipoca para
ele, mas me contive, focando no que realmente importava.
— Por que queria saber quem era? — perguntei, enquanto
me sentava na cama e pegava minha garrafa de água para tomar
um pouco.
— Ah… — David hesitou, olhando novamente para Hyeon.
— Parem com esses olhares. — Apontei para os dois. — E
falem logo.
— Olha, é que o David queria conseguir o contato do solista
— Hyeon explicou, o que fez meu primo concordar.
— Por quê?
— Ele acha que a Melina ficou interessada no solista, aí
disse para ela que ia arrumar o contato — o rapaz falou, como se
fosse o porta-voz de David.
Aquela informação foi o bastante para eu cerrar os olhos e
franzir o cenho. A Melina tinha ficado interessada em um cara
aleatório mascarado, que nunca viu de perto e pediu para o meu
primo arrumar o contato para ela? A mesma Melina que apontava o
dedo na minha cara, não parecia ter muita paciência comigo e mais
importante, era próxima do capitão rival de David?
Considerei aquilo uma piada, o que me fez rir, não tinha o
menor sentido.
— Por que está rindo? — David perguntou, me olhando com
desgosto.
— Porque vocês decidiram me acordar às seis horas da
manhã para inventar coisas que nem fazem sentido — expliquei,
tirando a coberta de cima das minhas pernas e ficando de pé. Se já
estava acordado, pelo menos iria me vestir.
— Porra, Santiago — meu primo resmungou. — Eu não
sabia que era você, quando voltei com as pipocas o solo tinha
acabado e a Melina basicamente ficou falando sobre o bailarino, aí
eu disse que arrumaria o contato, foi simples.
— Ela elogiou bastante a dança — Hyeon complementou,
fazendo David assentir.
— Pelo menos vai ser mais fácil, já tenho seu contato para
passar para ela — o rapaz acrescentou, animado, enquanto pegava
o celular.
Foi o bastante para eu quase voar em cima dele, tomando o
celular da sua mão.
— Que isso? — ele perguntou, me olhando com um misto de
surpresa e hesitação.
— Não manda meu contato para ela, ficou louco? — me
exasperei, jogando as mãos para o alto.
— Ué, ela gostou do solista, vou dar o solista para ela, ser
você é só uma coincidência. — David deu de ombros, ficando de pé
para pegar o celular da minha mão, mas eu deveria agradecer aos
meus dois centímetros a mais e pés treinados, que me permitiram
ficar na ponta dos dedos, impedindo que meu primo alcançasse o
celular. Estava pronto para uma risada vitoriosa, quando Hyeon
parou ao meu lado e pegou o aparelho com facilidade. Odiei seu
1,90 naquele momento.
— Hyeon, você também não — pedi, o olhando de forma
avaliativa e o rapaz deu um sorriso tranquilo.
— Fazemos o seguinte, vamos passar a semana toda
convivendo com ela, certo? — Hyeon perguntou, recebendo um
aceno afirmativo meu. — Ela é legal e acho que vocês implicam um
com o outro por besteira. Trata ela bem e o David não manda seu
contato, deixando sua identidade de solista mascarado em segredo.
— Eu vou matar vocês — murmurei, fuzilando Hyeon com o
olhar.
— Concordo — meu primo afirmou. — Se tratar ela bem, eu
não conto que é você e digo que não consegui descobrir.
— Por que você também quer que eu a trate bem? —
questionei, esperando que ele entendesse as entrelinhas de: ela
xingou a Ana.
— Nem falar com você ela está falando, cansei de tomar as
dores da minha irmã, ela nem merece que a gente faça isso, então
supera — David disse, revirando os olhos e eu não soube se era
para mim, ou para Ana. Não fazia ideia do que ele queria dizer, mas
se tinha ficado sabendo de alguma coisa que o fez concluir aquilo,
eu notei que nem queria ter ciência do que era.
Foi informação o bastante para eu dar de ombros. Ainda
tinha que lidar com a estupidez direcionada apenas para mim e com
o instinto de colocar o dedo na minha cara, mas não ser grosso com
Melina seria minha meta semanal para que David não passasse
meu número para ela, embora nem fosse fazer alguma diferença a
garota ter ele ou não. Aposto que me xingaria ao descobrir que eu
era o bailarino.
— Que seja! Uma semana evitando a Melina e se acontecer
de precisar falar com ela, não vou ser grosso — falei, levantando as
mãos em rendição. De qualquer forma, evitar Melina já estava nos
meusplanos e se eu não ficasse perto dela, nem precisaria ser
grosso. Tudo seria facilmente resolvido.
David assentiu, animado, pegando seu celular da mão de
Hyeon e falando para eu me arrumar logo, enquanto pediria para
Macedo arrumar o carro para nos levar. Os dois deixaram meu
quarto, me dando privacidade para tomar um banho e me arrumar.
✽ ✽ ✽
Hyeon acabou no banco do meu lado no ônibus, já que
David tinha aberto mão de seu lugar para que o rapaz não ficasse
sozinho.
Dez minutos que o ônibus tinha saído e dez minutos que
Hyeon não fechava a boca. Eu sabia que estava animado por ser
seu primeiro acampamento, já que ele tinha falado isso oito vezes
no caminho até o colégio. Chegou em certa altura que sua
animação foi tanta, que ele começou a misturar o português e o
coreano enquanto falava, de forma que me castiguei por saber falar
sua língua materna, já que se não soubesse, pelo menos não
estaria entendendo e poderia ficar em paz.
— Aish! — ele exclamou, mais uma vez confundindo o que
dizia. — Como demora para chegar.
— Michyeosseo? — perguntei baixo se ele estava ficando
doido, em coreano. — Faz dezesseis minutos que saímos, Hyeon —
expliquei, assim que olhei a hora em meu relógio de pulso.
— Chincha? — Hyeon arregalou os olhos, realmente
surpreso e eu confirmei que era sério, fazendo um sinal positivo
para ele, esperando que fosse o bastante e coloquei meus fones,
encostando no banco e desejando que conseguisse dormir.
✽ ✽ ✽
Senti algo me inclinando para frente e para trás, como um
chacoalhão. Assim que me esforcei para abrir os olhos, me deparei
com Hyeon, com um sorriso exageradamente exposto e uma
animação sincera.
— Chegamos! — ele cantarolou e eu soube que precisava
descer do ônibus.
O inferno só estava começando e eu ainda precisava ligar
para a senhora Fontaine, avisando que faltaria uma semana inteira
de ensaios. Ela me mataria, por isso adiei até o último momento.
Minha expressão deveria ser de puro descontentamento,
porque era exatamente como eu me sentia enquanto descia do
ônibus com Hyeon na minha frente, indo até à parte de trás onde
estavam nossas malas. Ninguém tinha autorização de levar mais do
que uma mochila e uma mala pequena de mão, o que deveria ser
uma tortura para todas as garotas mimadas do meu colégio. Ana
deveria agradecer por ainda estar no segundo ano, ou
provavelmente teria um colapso.
Hyeon se encontrava falando alguma coisa sobre como a
lista de atividades estava completa pelo folheto que tinham
entregue, mas eu não consegui prestar verdadeiramente atenção,
porque vi ela. Melina estava longe o bastante para que eu não
precisasse começar a pensar no que fazer para evitá-la, mas perto o
suficiente para sua presença atrair o meu olhar.
A jovem começou a andar, parecendo completamente
focada em sua conversa com Nina. E para o meu desespero, as
duas estavam indo na direção em que eu e Hyeon permanecíamos
parados.
O rapaz, talvez notando toda a minha distração, olhou para o
mesmo lugar que eu encarava fixamente e depois me fitou, como se
estivesse avaliando o que eu pensava.
— Você odeia a Melina, ou é afim dela? — ele perguntou,
me fazendo olhá-lo com certa indignação. — Sinceramente, não
está dando para diferenciar, já que você a olha desse jeito.
— Eu não odeio e nem gosto, só não faz diferença para mim
e sempre acabamos discutindo, acho que não temos nada a ver um
com o outro — expliquei, dando de ombros.
— Mas ela gostou de uma parte sua — Hyeon disse e eu
sabia que estava se referindo a minha apresentação.
— Aposto que se soubesse que era eu, tinha jogado alguma
coisa na minha cabeça e não elogiado — falei com sinceridade, o
que me fez o rapaz rir.
Quando olhei novamente para frente, pronto para descobrir
onde ela estava, senti uma colisão com meu corpo, me molhando.
Água.
E assim que meu olhar se encontrou com o dela, eu soube
quem tinha acertado a água em mim, de forma que minha camiseta
ficou consideravelmente molhada.
— Puta merda — reclamei. — Você nunca olha para onde
anda.
Melina me encarou com irritação, inclinando um pouco seu
queixo para cima, como se isso a fizesse me enxergar melhor.
— Você que sempre fica na minha frente, que coisa chata,
está me perseguindo?
— Por que eu estaria te perseguindo, Mattos? — perguntei,
dando uma risada abafada.
— Não sou eu quem deveria responder essa pergunta — ela
disse, revirando os olhos, mas assim que olhou para o lado, um
sorriso sincero apareceu em seu rosto, o que me fez querer saber o
que a fazia sorrir daquela forma e fiquei surpreso por ser Hyeon. —
Hyeon! — a garota exclamou animada e o rapaz abriu os braços
para que Melina o abraçasse, o que ela fez, enquanto o rapaz a
erguia já que a diferença de altura não permitia um abraço normal.
Me vi obrigado a levantar as duas sobrancelhas. Em que momento
eles ganharam tanta intimidade para estarem se abraçando?
Olhei para Nina, esperando que dissesse alguma coisa,
embora eu nem a conhecesse o bastante para ela me falar. A garota
pareceu notar minha confusão e disse baixinho:
— Melina gosta muito de abraços e eles ficaram
conversando durante o fim de semana.
Queria dizer que eu não tinha perguntado nada, mas seria
ridículo, já que minha expressão tinha me entregado e eu não
precisava ser grosso com Nina por nada.
— Entendi — murmurei para ela, apenas para não ficar um
silêncio estranho.
— O David não veio para o acampamento? — a garota
perguntou, o que me fez encará-la ainda mais.
Eles pareciam verdadeiramente próximos, já que David até
tinha a levado na minha apresentação, e ela aparentemente era a
única garota que meu primo ficava perto por mais tempo do que
uma noite, mas eu não tinha tido a oportunidade de perguntar para
ele se tinha alguma coisa acontecendo e também não sabia se
perguntaria.
— Veio — afirmei, olhando em volta e o enxergando perto de
Vitor, o que me fez revirar os olhos e apontar na direção. — Está
com o grupo dos amigos babacas dele.
— Ah… — Nina exclamou. — Achei que ele andava mais
com você, já que sempre vejo vocês grudados.
— No geral, sim — concordei. — Mas acho que está um
clima estranho no grupo porque eu e Vitor não nos suportamos.
David fica meio dividido.
— Entre a família e um bando de otários? — Nina perguntou,
o que me fez querer rir.
— Talvez faça parte das dificuldades de ser popular. — Dei
de ombros.
No final das contas, Nina não era uma pessoa ruim e eu
entendia porque David tinha ficado amigo dela, mesmo em uma
questão de cinco minutos, já tinha a achado muito sensata.
Talvez Melina fosse como ela, mas nossas pequenas brigas
idiotas tinham impedido que qualquer aproximação acontecesse e,
pela primeira vez, eu me arrependi por sempre ser tão estupido.
Quem sabe não fosse tão difícil agir de forma gentil com ela se eu
realmente quisesse. Não me mataria interagir com outras pessoas
que não fossem meus primos e agora Hyeon. E, por mais que eu
achasse difícil, talvez pudéssemos virar amigos.
Fomos chamados para recebermos as informações, o que
fez Melina e Hyeon, que estavam conversando ao nosso lado sobre
como ela tinha obrigado Nina a assistir Modern Family, focarem no
que diziam. Nós quatro andamos até perto do pequeno palco que
tinha logo na entrada do acampamento e observamos o cara que
estava vestido com uniforme, ao lado da treinadora do São
Sebastião e do treinador do meu colégio.
O homem explicou que seríamos divididos em duas cores:
azul e vermelho, mas dentro de cada cor ainda teriam equipes e em
cada equipe duplas, o que era bastante confuso, mesmo que todos
tivessem concordado. Começaram a nos dividir, de forma que era
notável os dois colégios estarem misturados.
Eu fiquei na equipe azul, assim como Hyeon e Melina. O
rapaz quase me esmagou quando comemorou por ficar com duas
pessoas que ele conhecia, mas Nina pareceu bastante triste por
acabar na vermelha e desconfortável quando anunciaram o nome
de Nicolas na cor dela.
— Estou feliz por ele não cair com você, mas não estava
afim de aguentá-lo — a garota falou para Melina, que colocou a mão
no ombro dela.
— Se eletentar te forçar a conversar, chuta as bolas dele —
Melina falou baixo, mas ela estava perto o bastante para eu escutar,
o que me fez colocar a mão na frente da boca para disfarçar a
risada.
Não sabia o que tinha feito a garota que o namorava e o
acalmou de forma desesperada na quadra acabar falando para a
amiga chutar as bolas do cara, em uma questão de duas semanas,
mas aquilo me deixou mais satisfeito do que deveria.
— Oi, meninas — David disse, aparecendo repentinamente
com o tom de voz que ele imaginava ser galanteador e era apenas
direcionado a quem flertava.
— Oi, David — as duas responderam juntas, dando
sorrisinhos para ele.
Continuamos escutando o anúncio de cada equipe, mas
David parecia bastante concentrado em empurrar o ombro de Nina
com delicadeza para chamar a atenção dela, o que acabava
fazendo a garota sorrir. Definitivamente tinha algo ali e se ainda não
tinha… acabaria tendo, porque era de David que estávamos
falando.
Assim que terminaram de nos dividir, nos mandaram para
nossas respectivas cores, logo à frente das bandeiras. Nina se
despediu e saiu conversando com David, enquanto eu, Hyeon e
Melina nos direcionamos para a bandeira azul.
— Melina — uma garota falou, com a voz um pouco
arrastada. Ela tinha um cabelo ondulado e castanho iluminado pelas
mechas caramelo, um rosto fino e os olhos escuros bem
desenhados eram puxadinhos nos cantos. Se eu fosse chutar, diria
que tinha alguma descendência asiática. Me lembrava vagamente
dela da quarta-feira em que aquela briga tinha rolado.
— Oi, Jéssica — Melina respondeu, de forma que se tornou
impossível não perceber o claro desconforto.
— Parece que caímos na mesma cor, querida. — Jéssica
sorriu, mas foi absurdamente perceptível como tinha um tom de voz
falso. — Espero que aqui pelo menos você não fique faltando as
atividades. — Ela sorriu ainda mais e saiu, como uma cobra que
tinha acabado de despejar o veneno.
Melina suspirou, não olhando na direção da garota, apenas
observando a bandeira e parecendo tentar encontrar algum tipo de
tranquilidade.
Começaram a anunciar as equipes e fiquei surpreso por
Melina, Hyeon e eu ficarmos na mesma. Porém, não gostei nada
quando notei quem era a quarta pessoa.
— Olha só, acho que vamos passar muito tempo juntas essa
semana — Jessica, nossa quarta integrante disse assim que chegou
perto, quase ao lado de Melina e a encarou.
Eu entrei no meio das duas de forma instintiva e encarei a
Mattos, que parecia não entender o que eu estava fazendo. Nem eu
entendia, se fosse sincero. Hyeon me deu um sorriso de aprovação,
talvez percebendo, assim como eu, que Melina estava
desconfortável com Jéssica.
Depois das equipes, vinham as duplas e eu me peguei
pensando que seria estranho para Mattos ficar junto a outra garota,
porém meus pensamentos foram cortados assim que escutei:
— Equipe quatro da cor azul, Bueno e Hyeon são uma
dupla, Mattos e Ross outra.
Mais uma vez confundiram o nome do rapaz com o
sobrenome, além de errar a pronúncia completamente, o que me
deixou incomodado e fez Hyeon revirar os olhos, provavelmente
acostumado.
Porém, eu acabei focando na última parte e olhei para
Melina, que me encarava com os olhos brilhando de uma forma que
não sabia definir. Talvez fosse um olhar do tipo: eu quero te matar e
finalmente tenho a oportunidade.
CAPÍTULO 16
Segunda-feira, 13 de setembro de 2021
Muitos momentos da vida são completamente propícios a
fazer você acreditar em karma e ultimamente eu estava vivenciando
uma série interminável deles. Ou pelo menos essa foi a primeira
coisa que se passou pela minha cabeça quando eu caí na mesma
equipe da Jéssica e logo em seguida como dupla do Santiago.
Nenhum de nós estava esperando por aquilo e ficou bastante
evidente quando passamos quase cinco minutos um olhando para a
cara do outro.
Não demorou quase nada para os monitores avisarem que a
primeira atividade logo se iniciaria, mas não antes de cada campista
ser direcionado para seu respectivo alojamento, então, enquanto
eles buscavam as listas e nós aproveitávamos para nos misturamos,
o tempo pareceu passar de forma absurdamente rápida.
Eu estava junto a Nina, David, Santiago e Hyeon,
aguardando pacientemente que nossos nomes fossem chamados.
Graças aos céus, Jéssica tinha se afastado, porque naquele
momento lidar com o estúpido do Santiago era uma opção muito
mais agradável. Após poucos minutos parados, ele e Hyeon foram
chamados, caminhando em direção ao local que foi indicado,
restando apenas nós três.
— Melina — David chamou, me fazendo olhar para ele. —
Sei que meu primo é uma pessoa um pouco difícil, mas tente ter
paciência com ele enquanto vocês estiverem como dupla, adoraria
que voltássemos inteiros para casa.
Forcei uma risada e balancei a cabeça em negação, antes
de respondê-lo:
— Relaxa, David, não vou tentar matar seu primo.
— Se ela está dizendo, não vai mesmo! — Nina me apoiou,
arrancando um sorriso enorme de David.
O olhar que deu para ela em seguida foi o suficiente para
que minha melhor amiga desviasse sua atenção, como se estivesse
constrangida e eu me perguntei se alguma coisa poderia estar
acontecendo, porque, honestamente, se estivesse eles eram muito
lindos juntos.
— Fico bastante aliviado. — Antes que ele pudesse
continuar dizendo qualquer coisa, seu nome foi chamado.
— David Santiago Ross — um dos monitores gritou, me
fazendo franzir o cenho assim que escutei por inteiro.
— Seu outro nome é igual ao do seu primo? — perguntei ao
rapaz.
— O quê? — Ele parou, antes que fosse até o lugar onde foi
chamado, me olhando com atenção para responder. — Ah… Não, é
que nossas mães e nossos pais são irmãos, então nossos
sobrenomes são idênticos.
— Aí deram nomes iguais para vocês? — questionei, sem
entender ao certo que tipo de ideia tinha sido aquela.
— Santiago Ross é nosso sobrenome.
— Então seu primo é Santiago Santiago Ross?
Mais estranho a cada segundo, como alguém dava para o
filho um nome igual ao sobrenome?
— Não. — David riu. — O nome dele não é Santiago, ele
prefere ser chamado só pelo sobrenome, então respeitamos,
ninguém usa o primeiro nome desde que éramos crianças.
— Qual é o nome dele então? — eu indaguei antes mesmo
de conseguir pensar sobre, apenas deixando que a curiosidade me
dominasse, porque eu não acreditava que estava há meses
chamando uma pessoa pelo sobrenome sem saber o real nome
dela.
— Desculpa, mas não tenho autorização para contar, a
maioria das pessoas nem sabe e ele prefere que se mantenha
assim. — O garoto deu de ombros. — Pergunta para ele, duvido que
te diga, mas tem mais chances do que comigo. Aprecio demais ter
meu rosto bonito inteiro para arriscar.
— David Santiago Ross — chamaram novamente e David
acenou para nós duas, indo sem que eu pudesse fazer mais
perguntas, ou criticar o ego dele.
— Que cara é essa? — Nina questionou e assim que olhei
em sua direção, pude dar de cara com uma expressão de completa
confusão. — Você ficou com aquele olhar de quem está em crise
por dentro, ou pensando muito.
— Segunda opção — respondi, fazendo um número dois
com os dedos e em seguida balançando a cabeça. — Por que o
Santiago não conta o nome dele? Isso não é estranho? Quero dizer,
passei meses achando que o nome dele era um, quando fui
enganada e até o David poderia ser Santiago.
— Ah, Mel, todo mundo tem passado, às vezes ele não
gosta do nome por algum motivo, pode ser, sei lá, super feio. Não
fica torrando a cabeça com isso. Nem os monitores o chamaram
pelo primeiro nome. — Minha melhor amiga deu um sorriso
compassivo, mas cerrou rapidamente os olhos, ficando séria, como
se fosse me dar uma bronca, antes de completar: — E não faça
perguntas invasivas para o garoto.
— Não vou falar nada — resmunguei, cruzando os braços.
Eu sentia vontade de chegar diretamente e perguntar para o
Santiago, mas sabia que seria estranho, ele provavelmente me daria
alguma patada, eu sentiria ódio e voltaríamos para o ciclo sem fim
de nos odiarmos. Basicamente, minha curiosidade não valia a pena.
— Nina Rodrigues. — Assim que escutei chamaremo nome
dela, torci para que chamassem o meu também e acabássemos no
mesmo alojamento. E por algum acaso do destino, o universo
decidiu que não me odiaria tanto, então enquanto minha melhor
amiga caminhava na direção do monitor, ele falou as palavras que
eu tanto queria escutar: — Melina Gomes Mattos.
✽ ✽ ✽
Durante a última hora eu tinha repassado mentalmente
regras básicas de sobrevivência em acampamentos:
1 - Tenha bons equipamentos para garantir sua segurança
durante as atividades;
2 - Se assegure de ter uma barraca, ou local apropriado para
dormir;
3 - Planeje suas refeições;
4 - Não faça dupla com alguém que claramente te odeia e
pode usar o acampamento como uma forma de te assassinar e
esconder seu corpo com facilidade no meio do mato.
Ps: a regra número quatro é a mais importante.
Nossa primeira atividade consistia em uma trilha em dupla, o
que significava que eu estava andando há cerca de quarenta
minutos em completo silêncio ao lado do Santiago e se eu dissesse
que não me assustei quando escutei a voz dele pela primeira vez
durante aquele trajeto, estaria mentindo.
— Precisamos ir para a direita ou para a esquerda? — o
rapaz perguntou, enquanto tomava um pouco de água, que tinha
tirado da mochila. Eu observei o movimento com mais atenção do
que gostaria de admitir e engoli em seco antes de olhar para frente,
notando que estávamos em uma bifurcação.
Observei o mapa, um pouco perdida sobre onde exatamente
nos encontrávamos, mas eu não contaria aquele simples detalhe
para o senhor irritadinho ao meu lado.
— Esquerda — respondi após uma conferência não muito
confiável do caminho e ele concordou, talvez acreditando mais em
minha resposta do que eu mesma.
Andamos pelo que pareceu uma eternidade, antes de
Santiago parar, me encarando com aqueles olhos exageradamente
azuis com mais raiva do que de costume.
— Tem certeza de que esse é o caminho? — ele perguntou,
o brilho da luz vinda diretamente do pôr do sol iluminava o rosto dele
de uma forma quase angelical e, minha nossa senhora, se eu não
soubesse de sua personalidade horrível e diabólica, poderia jurar
que Santiago tinha descido diretamente dos céus naquele minuto.
— Claro que tenho — afirmei, não conseguindo parar de
encará-lo, quase como se estivesse algum tipo de feitiço que atraia
meu olhar diretamente para aquele rostinho.
Eu não tinha certeza de nada, principalmente porque me
encontrava um pouco distraída.
— Considerando que está olhando mais para mim do que
para o mapa nesse momento, estou tendo minhas dúvidas. — O
garoto cruzou os braços e eu tive que me esforçar para desviar
minha atenção.
— Impressão sua — murmurei, começando a olhar o mapa e
tentando entender onde estávamos.
— Melina, não me diga que estamos perdidos.
— Se não quer que eu diga, não vou dizer. — Precisei forçar
um sorriso, porque eu sabia que ele deveria estar querendo me
matar, mas eu não tinha exatamente culpa do meu senso de direção
ser horrível.
— Puta merda, Mattos! — ele exclamou, jogando as mãos
para o alto e virando de costas para mim, provavelmente tão irritado
que nem conseguia me encarar. — Me dá esse mapa, deixa eu
tentar descobrir onde estamos.
Eu poderia me recusar e dizer que daria um jeito, mas
precisava ser honesta e não existia a menor possibilidade de
encontrar o caminho, porque eu não estava nem entendendo o lado
que olhava aquele negócio. Deveria ter aceitado que eu não servia
para aquilo e lhe dado o mapa desde o início, só que era meio difícil
encarar a derrota quando sua dupla se tratava de alguém que seu
santo não batia.
Mesmo indo contra meu instinto de discordar, eu estendi o
mapa, que ele pegou de uma forma não bruta, o que já foi bastante
surpreendente.
Santiago começou a olhar o mapa e as árvores, dando
algumas voltinhas próximo de onde estávamos, enquanto eu apenas
observava, esperando pacientemente por alguma conclusão. O
rapaz parecia um pouco irritado, como se a ideia de que aquela
folha não fizesse sentido fosse absurda.
— Resumindo… — ele murmurou, se aproximando de mim
depois de bufar algumas vezes. — Estamos perdidos. Realmente
perdidos.
— Será que ficamos muito longe das cabanas? — perguntei,
ficando mais perto dele e tentando me esticar para enxergar a folha
por cima do seu ombro.
— Estamos andando há mais de uma hora e ficamos
praticamente o tempo todo seguindo reto — o rapaz afirmou, me
mostrando no mapa onde era os alojamentos e traçando uma linha
imaginária até o centro da floresta. — Provavelmente estamos em
algum lugar por aqui.
— E se tentarmos seguir reto ao contrário? Apenas voltando
para onde começamos — eu sugeri, porque, honestamente, já não
tinha mais nenhuma ideia.
— Podemos acabar ainda mais perdidos — ele sussurrou,
soltando o ar e me encarando, parecendo só então notar minha
proximidade e dando um passo para o lado, como se ficar perto de
mim pudesse ser considerado um crime. — Está quase
anoitecendo, acho que nossa melhor chance é encontrar algum
lugar que dê para fazer uma fogueira e esperar que eles nos
encontrem. Vão sentir nossa falta.
— Como tem tanta certeza disso? — questionei, olhando em
volta e imaginando como seria passar a noite ali e essa
possibilidade me dava arrepios na espinha.
— Simples — o rapaz disse, apontando para mim. — Filha
do diretor e filho do dono do colégio.
Arregalei um pouco os olhos com aquela informação, porque
depois de ver aquele carro gigante, eu imaginava que Santiago tinha
dinheiro, mas não que o pai dele fosse dono do colégio mais caro e
elitizado de Vila dos Anjos. Tinha muita gente que acabava
mandando os filhos para lá, mesmo sendo de fora da cidade, porque
o ensino era extremamente superior.
— Não sabia que seu pai era o dono — admiti e Santiago
deu de ombros, quase como se não tivesse importância.
— Se parar para pensar, no fundo, não sabemos muito um
do outro. — Ele estava certo. — Vamos, precisamos achar algum
lugar.
E assim eu apenas comecei a seguir Santiago, tentando
enxergar qualquer coisa à nossa frente, mesmo com a luz do sol
desaparecendo aos poucos, considerando que o céu já estava
naquele tom alaranjado que indica como em breve só restará o
escuro. Talvez por conta da minha distração, eu não notei a raiz de
uma das árvores até que tivesse acertado meu pé lá.
— Ah, porra — resmunguei assim que minha bunda colidiu
com o chão e o rapaz virou na minha direção, se abaixando de uma
forma meio instintiva, que me fez cogitar que talvez ele tivesse
encontrado sua oportunidade para me matar.
— Tropeçou? — Santiago perguntou e eu assenti, sentindo
meu tornozelo latejar e querendo sumir por conta disso.
— Sim, eu não vi essa merda de árvore — exclamei,
apontando para a raiz que eu colidi com meu pé.
— Olha essa boca suja, raio de sol — o rapaz murmurou,
pegando meu pé para dar uma olhada. — Já inchou.
Estiquei um pouco para olhar, comprovando o que o rapaz
tinha dito. Tinha sido justamente a minha perna lesionada, o que
sempre significava que seria dez vezes pior do que se fosse a outra.
— Consegue levantar? — ele perguntou, me avaliando.
— Acho que sim — concordei com a cabeça, apoiando uma
mão no chão e me erguendo primeiro com a perna boa, mas bastou
a outra tocar a grama que soltei um grito de dor, quase caindo, isso,
claro, se Santiago não tivesse sido rápido o bastante para me firmar.
Ele era bastante ágil.
Santiago me colocou em pé devidamente, me segurando
enquanto eu não apoiava a perna direita no chão.
— Estou começando a achar que você não vai conseguir
andar — o rapaz murmurou e eu gostaria de poder discordar, mas a
minha dor não permitia.
— Bom, você pode realizar o seu sonho de me ver
desaparecer e me largar aqui para morrer — sugeri e de forma
automática os lábios de Santiago se curvaram rapidamente, mesmo
que tivesse sido um instante curto o bastante para eu pensar que
tinha apenas imaginado.
— Você é meio dramática, talvez em vez do vôlei devesse
tentar teatro — ele sugeriu, tirando a mochila e colocando para
frente, em seguida virando de costas para mim. — Anda, sobe. Não
temos muito tempo.
—Não, mas… — eu queria argumentar e dizer que
aguentaria, que ele não iria conseguir andar comigo nas costas, que
não queria ser um incômodo, mas antes que conseguisse, Santiago
apenas bufou, dando um passo para trás e firmando as minhas
coxas em suas mãos, de modo que fui obrigada a abraçar seus
ombros para não cair e ele me ergueu com uma facilidade que eu
nem imaginava ser possível. Me ajeitei um pouco, talvez aceitando
que suas costas seriam meu meio de transporte.
Não abri a boca enquanto ele andava, observando com
bastante atenção a floresta e não parecendo hesitar nem por um
segundo, além de nem demonstrar que eu estava pesando, como se
ele apenas carregasse uma bolsinha e não uma pessoa.
— Vamos parar aqui, está seco o suficiente — ele falou, se
abaixando um pouco para eu descer e me ajudando a sentar,
enquanto começava a pegar alguns galhos.
— Você sabe acender fogo? — perguntei, um pouco curiosa,
mas ficando parada, porque com o estado do meu pé eu iria mais
atrapalhar do que ajudar.
— Sim, fui escoteiro.
— Sério? — questionei, imaginando um pequeno Santiago
com aquelas roupinhas fofas andando pela floresta.
— Não — ele disse, destruindo toda a minha imaginação,
antes de mexer na mochila que tinha soltado no chão e me mostrar
um isqueiro.
O rapaz terminou de empilhar devidamente os gravetos, de
forma que realmente parecia uma fogueira e acendeu rapidamente
com o pequeno objeto. Abracei meu corpo, sentindo o frio da noite
me atingindo, mesmo com o fogo aceso, e Santiago se aproximou,
colocando um moletom nos meus ombros. Seus braços ficaram
descobertos, revelando as tatuagens, normalmente cobertas por
conta dos dias frios que faziam. Eram várias, me eu não me permiti
prestar muita atenção, o fitando diretamente nos olhos.
— Você vai ficar com frio — eu disse, pronta para devolver,
mas ele apenas revirou os olhos, me encarando com certo deboche
enquanto se sentava ao meu lado.
— Relaxa, Lia.
Lia, que diabos era aquilo?
— Lia?
— Considere que estou te dando um apelido por conta da
experiência — ele explicou, dando de ombros.
— Às vezes você não é insuportável — admiti em voz alta e
aquilo pegou nós dois de surpresa, o que eu comprovei quando os
olhos de Santiago me encararam de perto.
— Posso dizer o mesmo — ele afirmou. — Mas é realmente
só às vezes.
Nós dois demos uma risada fraca, como se naquele instante
tivesse alguma coisa realmente tranquila no ar, talvez os instintos de
sobrevivência falassem mais alto e aquela fosse a situação que nós
dois precisávamos para agir como pessoas normais perto um do
outro.
— Sinceramente, se fosse para morrer assim, eu não queria
que fosse com alguém que eu vivo brigando e claramente não vai
com a minha cara.
— Relaxa, você vai sobreviver para não ter que passar por
isso — Santiago garantiu, dando dois tapinhas na minha coxa, que
estava mais perto das mãos dele do que eu me lembrava.
Queria dizer que não me sentia estranha com a sua
presença, mas seria mentira. Eu não gostava dele e isso era um
fato, mas tinha alguma coisa naquele rapaz que me atraía de um
jeito que nem conseguia explicar.
Conversamos mais um pouco, falando sobre a natureza e às
vezes deixando que o silêncio predominasse, até que o frio ficou
mais intenso e o sono começou a me atingir. Santiago estendeu no
chão um saco de dormir que tinha levado na mochila e eu imaginei
que ele dormiria ali, enquanto eu ficaria no frio, mas jamais cogitei
as palavras que saíram da boca dele.
— Vem, precisa dormir comigo — ele afirmou, apontando
para a cama improvisada.
— Você comeu bosta? — perguntei, antes mesmo de
conseguir controlar minha língua e foi o bastante para ele soltar um
suspiro.
— Está frio para cacete e logo vai ficar ainda mais, a não ser
que queira morrer congelada, eu sugiro que a gente parta para a
nossa única opção: um deixar o outro quente.
Nem que eu quisesse poderia vencer aquela discussão, até
porque eu não estava com muita moral, considerando que só nos
perdemos por minha culpa e mesmo assim ele nem tinha jogado
isso na minha cara. Talvez fosse a magia da floresta, ou algum
milagre. Por isso, eu apenas assenti e Santiago me ajudou a
caminhar até o saco de dormir, se deitando ao meu lado. Era um
espaço pequeno e precisamos ficar de conchinha, mas pelo menos
estava quente o bastante para que eu não me preocupasse tanto
com uma hipotermia.
Só esperava que nos encontrassem logo.
CAPÍTULO 17
Terça-feira, 14 de setembro de 2021
Assim que acordei senti meu braço esquerdo amortecido,
mas quando fui me mexer, tentando aliviar aquela sensação, um
peso desconhecido me deixou confuso. Abri meus olhos com
dificuldade, associando a claridade e só então me tocando que eu
estava no meio da floresta e o peso em cima da área já dormente se
tratava de nada mais, nada menos que Melina.
Para que tivesse mais espaço e permanecesse mais quente,
eu a deixei ficar na parte interna no saco de dormir, o que significava
que eu estava com metade do meu corpo quase encostando na
grama e a garota dormia confortavelmente em cima do meu braço,
agarrada a mim como um bichinho e seria mentira se eu dissesse
que não hesitei em me mexer, pensando que provavelmente o
movimento a acordaria.
Porém, barulhos de passos se tornaram o único incentivo
necessário para que eu removesse meu braço de uma forma meio
bruta, escutando um palavrão saindo da boca de Melina assim que
sua cabeça colidiu com o chão, a forçando a abrir os olhos.
Não tive tempo de focar a minha atenção nela o suficiente,
porque a treinadora e um dos caras vestindo o uniforme do
acampamento entraram no meu campo de visão, parecendo respirar
mais aliviados assim que seus olhares colidiram conosco.
— Graças aos céus, vocês estão bem! — a mulher
exclamou, andando até uma Melina ainda sonolenta, que estava
deitada ao lado de onde me sentei. — Por que não voltaram?
— Nos perdemos — respondi rapidamente e a treinadora
arregalou os olhos, antes de apertar o rosto da garota, talvez
conferindo de uma forma meio exagerada se estava inteira. — Ela
acabou de acordar — resmunguei, como um pedido indireto para
ser mais delicada.
— Treinadora… — Melina murmurou, logo arregalando os
olhos, parecendo associar tudo aquilo, enquanto o coitado que
trabalhava no acampamento permanecia parado, talvez confuso
demais para fazer alguma coisa.
Me levantei, esperando que a garota saísse de cima do saco
de dormir para eu poder guardá-lo. A mulher se afastou um pouco,
talvez notando minha impaciência e Melina apoiou a mão no chão,
tentando se levantar, mas assim que seu pé colidiu com o chão uma
careta de dor tomou conta de seu rosto e instintivamente eu fui em
sua direção, a segurando para que não caísse. Os olhos
completamente confusos dela se encontraram com os meus e por
um segundo me perguntei que merda eu estava fazendo, antes,
obviamente, da treinadora se oferecer para ajudar, dobrando nossa
cama improvisada enquanto eu segurava Melina, que tinha o
tornozelo ainda mais inchado do que eu me lembrava.
Guardamos tudo na minha mochila e eu a entreguei para o
cara do acampamento, que segurou, mesmo parecendo um pouco
confuso, enquanto a treinadora que eu não sabia o nome colocava a
de Melina nas costas.
— Acho que ela consegue andar — a mulher disse e eu a
encarei com certo tédio, parando de costas para Melina e me
abaixando o suficiente para que a garota subisse nas minhas
costas, o que ela fez sem muita dificuldade ou teimosia, diferente do
dia anterior, facilitando meu serviço de firmá-la pelas coxas cobertas
por uma legging escura. — Ou você pode carregá-la, o que acharem
melhor — ela afirmou, depois de notar que eu não deixaria a garota
andando com o tornozelo naquele estado.
A caminhada foi longa, principalmente porque
constantemente Melina dizia que poderia andar e eu a mandava
calar a boca, notando que nossa dinâmica, embora um pouco
diferente, ainda se mantinha.
Quando, depois de mais ou menos duas horas, nós
finalmente chegamos ao acampamento, consegui ver Hyeon, David
e Nina se levantando do banco em que estavam sentadose
correndo em nossa direção, parecendo verdadeiramente aliviados.
Melina desceu das minhas costas e nós a colocamos
sentada, enquanto a treinadora, que eu descobri ser Paula e o tal
Pedro do acampamento, avisaram que deixariam nossas mochilas
nos alojamentos e chamariam a enfermeira para a garota com o
tornozelo ferido.
Me abaixei para ver seu pé, girando um pouquinho e
notando que Melina segurou o resmungo de dor quando toquei.
— Quanto está doendo? — perguntei e ela soltou um
suspiro, parecendo pensar por um momento.
— O suficiente para eu deixar você me carregar e agora
tocar em mim.
Assenti, porque aquela resposta fazia bastante sentido e
Melina realmente deveria estar com muita dor.
— O que aconteceu com vocês? — David perguntou, se
sentando ao lado da garota.
— Melina estava olhando o mapa — respondi, como se
aquilo fosse uma ótima justificativa e meu primo pareceu confuso,
isso, claro, até Nina soltar uma gargalhada.
— Agora faz total sentido terem se perdido.
— Ei! — Melina exclamou, ofendida e se esticando para
tentar acertar a melhor amiga, falhando nisso e de brinde
esbarrando o pé no meio do meu rosto por conta do movimento
desajeitado. — Ai, desculpa!
— Para quieta — pedi, ficando com a expressão séria e a
garota assentiu.
— Como passaram a noite? — Hyeon questionou e eu o fitei
rapidamente, notando que quando eu ficava abaixado sua altura
parecia absurda. — Digo, estava muito frio.
— Santiago me esquentou — Melina respondeu rapidamente
e isso fez com que os três a encarassem com os olhos arregalados
e eu os acompanhasse. — Ele fez uma fogueira! — ela exclamou,
tentando corrigir a estranha forma como tinha falado e o alívio
preencheu a expressão de todos.
— Por um segundo eu juro que cogitei que vocês tivessem
transado no meio da floresta — David admitiu e eu o fitei com
desgosto.
— Eu acho que até faria sentido — Nina disse, me obrigando
a mais uma vez arregalar os olhos, mas dessa vez para ela. — Qual
é, o clima de estarem perdidos, a chance de não serem
encontrados, a adrenalina pelo lugar diferente… — A garota parou
quando notou nossas expressões. — Ok, camas são melhores,
parem de me olhar assim.
Eu normalmente escutava muita bosta vindo do meu primo,
então ficar surpreso com aquilo era mais por ser uma pessoa nova
dizendo do que realmente pelo assunto que estava sendo discutido.
Aqueles dois eram a dupla perfeita.
— Melina! — uma voz aguda exclamou e quando me
obriguei a descobrir de quem era, notei a garota que
complementava nosso grupo do acampamento. — Fiquei tão
preocupada com você, a treinadora comentou que machucou o
tornozelo, logo agora que sua lesão tinha parado de ser uma
desculpa para você fugir das suas obrigações — a garota disse,
fazendo um biquinho tão falso que eu só soube esboçar desgosto.
— É uma pena, querida, mas pode deixar que vou continuar
cuidando de tudo, como faço há mais de um ano, já que você está
impossibilitada.
Eu vi a boca de Melina se abrir, como se fosse dar uma
resposta e considerando a expressão em seu rosto, provavelmente
seria bem torta, porém, fui mais rápido.
— Acho que já te vi antes — comentei, ganhando a atenção
de Jéssica, que até mesmo sorriu. Cínica do caralho. — Ah, claro, a
boca grande que foi falar quem tinha brigado.
— Revoltado porque te dedurei, docinho? — ela perguntou,
me obrigando a soltar uma risada bastante falsa.
— Acredita mesmo que causa tanto impacto assim? —
questionei, erguendo uma sobrancelha. — Pelo que eu soube, você
é apenas a substituta, então vá lá e continue fazendo seu único
trabalho, aquecendo bem o lugar da Melina para ela poder se
recuperar.
Forcei um sorriso assim que terminei de falar e consegui
visualizar o semblante dela se transformando em puro horror, como
se o que eu tivesse dito fosse uma maldição e não apenas a
verdade. Me dei ao trabalho de no dia anterior perguntar ao meu
primo quem era a tal Jéssica e ele rapidamente descobriu que ela
estava cobrindo a Melina como capitã, depois de alguma lesão que
a garota tinha tido e ninguém sabia explicar direito.
Jéssica se afastou, parecendo envergonhada demais para
continuar ali e assim que eu virei para frente, voltando a examinar o
tornozelo e o massageando em uma tentativa de aliviar o provável
incômodo da Mattos, completa surpresa dominava sua feição.
— O que foi? — indaguei, sabendo que me fitava, mesmo
que eu não fosse desviar a atenção do que fazia.
— Você acabou de me defender?
Isso fez com que eu a olhasse, ignorando os três que
prestavam extrema atenção em nossa rápida conversa.
— A única pessoa aqui que pode reclamar sobre você, sou
eu.
A garota piscou seguidas vezes, parecendo processar o que
eu tinha dito, mas quando notei que estava prestes a falar alguma
coisa, a enfermeira finalmente chegou, me pedindo licença para
poder olhar o pé machucado da Melina e eu permiti, deixando o
lugar com Hyeon logo atrás de mim, perguntando o que tinha
acontecido tantas vezes, que me obriguei a resumir os
acontecimentos das últimas horas, fazendo ele dizer como estava
orgulhoso de mim por ter controlado minha estupidez, o que foi
suficiente para que o mandasse a merda e saísse andando sozinho.
CAPÍTULO 18
Quarta-feira, 15 de setembro de 2021
Se eu tivesse que definir o dia anterior com alguma palavra
seria: estranho.
Depois de Santiago me carregar pela floresta, cuidar do meu
tornozelo e de brinde, ser estúpido com a Jéssica — mesmo que ela
merecesse — apenas para me defender, o dia ainda não tinha
chegado ao fim. Durante a tarde aconteceu um jogo de queimada e
eu teimei com certa convicção que conseguiria jogar, o que acabou
fazendo o rapaz argumentar comigo que era melhor eu ficar
sentada. Eu sabia que era, mas quando ele tentou me dizer o que
fazer meus neurônios confusos deixaram de funcionar e nós
iniciamos uma disputa verbal que acabou comigo o acertando na
queimada, o que foi um pouco — muito — idiota, considerando que
éramos do mesmo time. Terminamos os dois sentados no banco por
cerca de quarenta minutos por punição pela briga, observando o
restante das pessoas jogando sem nem abrir a boca.
— Estão mandando todo mundo se reunir na fogueira —
Jéssica avisou ao abrir a porta, me obrigando a me levantar.
Já tínhamos tomado café e estávamos vestidas, mas a
preguiça tinha me dominado e eu preferi deitar na cama novamente
até a próxima atividade. Graças a uma pomada milagrosa da
enfermeira meu pé já estava ótimo e a dor era praticamente
inexistente, o que significava que eu poderia pelo menos fazer
alguma coisa.
— Vamos, Lina? — Nina perguntou, ganhando minha
atenção enquanto eu amarrava o tênis e concordava, ficando em pé.
Andamos em passos largos até o lugar onde a maioria dos
campistas já estava, mas eu demorei um pouco para enxergar
Hyeon e Santiago, puxando Nina para o lado deles até que tivesse
que ir com seu time.
— Bom dia, meninos — cumprimentei, porque não tínhamos
nos visto no café da manhã.
— Bom dia! — Hyeon respondeu, abrindo um sorriso enorme
e apontando para o meu pé. — O tornozelo melhorou bem?
— Sim, já está quase cem por cento.
Hyeon sorriu com a informação e nossa atenção foi voltada
para um dos monitores, que começou a pedir que olhassem para
ele, na intenção de explicar a próxima atividade.
Consistia em um caça ao tesouro em dupla, o que
significava que mais uma vez estaríamos eu e Santiago no meio da
floresta, minha nova conclusão era apenas que o mapa seria todo
dele.
✽ ✽ ✽
Depois de muitos avisos do monitor que tinha nos ajudado e
da treinadora sobre como deveríamos prestar atenção no mapa, eu
e Santiago saímos em direção a floresta, procurando pelas
bandeiras que precisávamos para completar a atividade.
— Meu único alívio é saber que estou com o mapa — ele
falou repentinamente, quebrando todo o silêncio.
— Rá, tão engraçadinho, Santiago — resmunguei, notando a
presunção dominando aquele rosto.
— Acho que a primeira bandeira está logo à frente — o
garoto afirmou, dando alguns passos que eu não acompanhei,
porque embora meu tornozelo não estivesse doendo como no dia
anterior,ainda incomodava.
Porém, ele foi na direção de um riacho pouco a frente e por
um segundo sumiu do meu campo de visão.
— Santiago! — exclamei, desviando de algumas pedras e
virando na mesma árvore que vi ele passar, notando o garoto
sentado no chão, com a mochila ao lado do seu corpo. — Veio mais
rápido para fazer um descanso? — debochei, porém, quando me
encarou, o pescoço dele estava extremamente vermelho e o rapaz
parecia quase sem ar.
Arregalei os olhos, sentindo o desespero me dominando e
corri até ele, ignorando a dor no meu pé e me abaixando, o puxando
para perto de mim.
— O que aconteceu? — perguntei, com todo o nervosismo
estampado na minha voz.
— Alergia… a abelha — ele murmurou, apontando para o
pescoço que eu notei ter um furinho, parecendo uma picada.
— Merda, como você vem para o mato se é alérgico?
Era uma pergunta idiota, mas foi o bastante para que eu me
lembrasse que meu pai era exagerado e eu tinha epinefrina na
mochila. A respiração de Santiago começou a ficar mais sufocada e
eu tirei a bolsa das costas com desespero, procurando como uma
louca pela caneta e sentindo todo o alívio me preenchendo quando
a encontrei.
— Tira as calças — pedi, vendo o garoto arregalar os olhos e
notando que até seu rosto tinha começado a inchar, com manchas
vermelhas ficando espalhadas. — Anda logo, porra, eu preciso
aplicar a epinefrina.
Santiago pareceu finalmente entender, tirando as calças de
moletom com urgência e eu o fiz sentar, destravando o gatilho no
topo da caneta e retirando a tampa que guardava a agulha para
pressionar contra a parte externa da coxa dele e clicando,
esperando o tempo necessário para tirar a injeção e notando que
ele me encarava com atenção. Após os dez segundos mais longos
da minha vida, removi a caneta, a jogando no chão e massageando
a região, esperando que aquilo funcionasse
— O ideal era você se deitar com as pernas na altura do
peito — eu disse e o rapaz apenas deitou normalmente, olhando
para cima, com a respiração tranquila, diferente de segundos atrás,
como se sentisse a calmaria o atingindo. — Respire um pouco e
quando estiver melhor nós voltamos para ser atendido na
enfermaria.
— Acho que somos uma péssima dupla, cada dia um vai
para lá — ele resmungou e foi o bastante para eu saber que estava
realmente melhorando.
— Pelo menos tentamos — afirmei, dando de ombros e
Santiago assentiu.
Eu queria dizer que conseguia controlar a minha língua, mas
a curiosidade vinha me matando e a oportunidade estava bem ali,
enquanto o garoto nem iria se mexer o suficiente para fugir da
minha pergunta.
— Qual é o seu nome? — questionei, cerrando um
pouquinho os olhos e ele ergueu uma sobrancelha, me dando sua
atenção.
— Que pergunta é essa? Você sabe que é Santiago.
— Não, esse é seu sobrenome, qual seu nome de verdade?
— expliquei minha dúvida e isso fez ele parecer surpreso.
— Como você… David! Aquele maldito.
— Não fique bravo com ele, eu descobri porque o chamaram
pelo nome inteiro — defendi o garoto, que realmente não tinha muita
culpa, além de ter me revelado que aquele não era o nome do meu
praticamente inimigo.
— Não vou te contar meu nome, Lia.
— É Melina — o corrigi e isso fez uma expressão engraçada
tomar conta daquele rosto cansado, mas, ainda assim, bonito.
— Eu sei, Lia.
— Eu salvei sua vida, acho que o mínimo era me dizer seu
nome — falei, usando o argumento mais válido que eu tinha naquele
momento, porque se não fosse por meu pai ser neurótico, Santiago
poderia estar em uma situação muito pior e considerando seu
tamanho e meu pé machucado, não acho que eu seria capaz de
carregá-lo como fez comigo.
— Vai mudar alguma coisa você saber? Já disse que é
Santiago.
— Eu sou curiosa — admiti e isso fez o garoto revirar os
olhos.
— Uma pena.
— Se eu chutar certo você me fala? — tentei, porque o não
eu já tinha de qualquer jeito.
— Não.
— Por favor — implorei, juntando as mãos e fazendo um
beicinho, sendo suficiente para o rapaz soltar um suspiro cansado,
levando a mão ao rosto como se isso fosse o bastante para clarear
sua mente.
— Três tentativas, nada mais que isso.
— Felipe? — arrisquei, torcendo para chegar perto.
— Não.
— Gustavo?
— Muito longe.
— Fala sério! — resmunguei, porque eu só tinha mais uma
chance de descobrir. — Seu nome é brasileiro?
— Nada de pistas.
— Por favorzinho — pedi, apelando para o beicinho mais
uma vez.
— Você é insuportável. — Ele revirou os olhos, parecendo
irritado o bastante para enterrar minha cara na terra, mas nós dois
sabíamos que não tinha forças para isso.
— Eu sei, me fala logo.
— Não é.
— Seu primo chama David — disse o óbvio e ele assentiu,
tentando acompanhar minha linha de raciocínio. — Então você é…
Joshua?
— Você está… — Santiago fez suspense e por um segundo
cogitei que talvez tivesse acertado, até ele me jogar um balde de
água fria. — Completamente errada.
— Mas que porra.
— Controle a boca suja, Lia, tem feridos no recinto — o
rapaz disse, fechando os olhos como se estivesse fraco e eu tive
que mostrar uma careta para ele. — Acho que consigo voltar ao
acampamento — Santiago afirmou e eu o ajudei a ficar em pé,
batendo sua calça para sair a sujeira, antes de entregá-la para que
vestisse novamente.
Enquanto ele se ajeitava, acabei prestando mais atenção do
que gostaria de admitir em como suas pernas eram musculosas,
como se passasse muito tempo fazendo exercícios e torci para que
não tivesse notado, além de quase implorar para que a minha
cabeça parasse de imaginar como seria o restante de seu corpo.
— Por que está vermelha? — a voz dele perguntando me
tirou daquele transe e eu arregalei os olhos, só então notando que
prendi a respiração.
— Calor — resmunguei. — Preciso de água — falei,
pegando a garrafa na minha mochila, que já estava no lugar e lhe
dando as costas, enquanto ele colocava sua bolsa nos ombros e
parava ao meu lado, pronto para voltarmos a andar.
Santiago mostrou o mapa e por sorte nós só estávamos há
pouca distância do acampamento e mesmo em passos lentos,
chegamos lá em quinze minutos, atraindo a curiosidade de todos.
Explicamos o que aconteceu e rapidamente levaram o garoto para a
enfermaria, ficando um pouco nervosos com a situação,
considerando que em dois dias, tínhamos sumido, machucado um
tornozelo e quase tido um choque anafilático.
Fiquei esperando até que terminassem de examiná-lo, lhe
dando alguns remédios antes de fazerem a liberação e como
acabou demorando, nós dois fomos até o refeitório, prontos para
comer qualquer coisa.
— Eu acho que eu mataria por mais um sanduíche desse —
admiti, apontando para o pão com queijo que eu dava uma mordida.
— Você gosta de me ameaçar a todo instante, não? —
Santiago perguntou, mas antes que eu pudesse questionar o que
dizia, o garoto me estendeu o sanduíche dele.
— Não estava querendo te obrigar a dar o seu — eu afirmei,
balançando as mãos em recusa, porque realmente não era aquilo e
foi suficiente para o rapaz segurar um riso.
— Melina, foi brincadeira — ele disse, colocando o pão na
minha bandeja. — Mas você realmente pode ficar, eu nem tenho
autorização para comer muito. Minha coreógrafa já quer me matar
por faltar ensaios uma semana inteira, se descobrir que tenho
comido tanto pão, acho que ela se teletransporta para me
esfaquear.
Ok, eu precisava admitir que escutar um conjunto tão grande
de palavras saindo da boca dele me deixou um pouco chocada,
principalmente porque era praticamente um desabafo e qualquer
coisa minimamente longa ou pessoal vindo de Santiago era como
uma bomba explodindo perto de você: assustador, aterrorizante e
provavelmente te atingiria.
— Ela é exigente? — perguntei, tentando manter aquela
conversa, porque era uma das poucas vezes que nos falamos como
pessoas totalmente normais.
— Para dizer o mínimo — o rapaz deu de ombros, tomando
o suco de cor verde que tinha em seu copo. — Bailarinos não
podem entregar nada além da perfeição.
— Bom, eu não lembro de ter te visto dançando, mas posso
dizer que considerando quão chato e sério você é com tudo, aposto
que deve fazer bem sua parte— admiti, antes de saborear o pão
que ele me deu.
— Você me viu dançando — o garoto murmurou e eu o fitei,
cerrando um pouco os olhos.
— Quis dizer que não prestei atenção exclusivamente em
você, só percebi que era um dos bailarinos no final.
O garoto tomou o que faltava do seu suco e se levantou,
parecendo pronto para sair, mas não antes de se aproximar um
pouco de mim e dizer:
— Eu estava de máscara.
Duas reações aconteceram naquele momento: meus olhos
se arregalaram — com a possibilidade de o solista ser ele,
considerando que poderia ser isso, ou só tinha participado das
outras danças com máscaras — e Santiago me deu as costas,
andando com tanta confiança que fiquei perplexa.
Não era possível que justo ele fosse o responsável por me
deixar tão encantada, então apenas foquei em terminar de comer,
tentando eliminar aquela hipótese da minha cabeça, antes de ir para
o alojamento.
CAPÍTULO 19
Sexta-feira, 17 de setembro de 2021
“Talvez eu tenha sido destinado
A terminar neste lugar, yeah
Eu não quero dizer para parecer egoísta,
mas eu quero isso”
— Prisoner, The Weeknd (feat. Lana Del Rey)
 
Depois de todos os incidentes no acampamento, o último dia
lá tinha sido tranquilo, com apenas algumas atividades de
interações, onde eu e Melina — por algum milagre — não nos
matamos e lidamos um com o outro como pessoas normais.
Finalmente eu estava em casa e pude tomar um banho
relaxante no meu banheiro, gostando de toda a familiaridade do
lugar e tentando não pensar no fato de que David era sem noção e
tinha chamado um monte de gente para a minha casa naquela noite,
para uma festinha, segundo ele.
— Santiago! — a voz de Hyeon invadiu meu quarto e eu abri
a porta do banheiro no mesmo instante, observando o rapaz que
olhava alguma coisa na mesinha de centro de vidro.
Fechei o banheiro, mexendo um pouco nos fios molhados do
cabelo e o barulho atraiu a atenção do garoto.
— Ah, não sabia que você estava tomando banho — ele
disse em coreano, se sentando em um dos sofás brancos que
preenchiam o centro da parte de baixo do meu quarto. — Seu
quarto parece um loft, sempre fico reparando isso.
Olhei em volta, pensando sobre como eu tinha solicitado
aquele lugar de uma forma funcional em que eu só precisasse sair
dali para me alimentar, considerando que até mesmo meu estúdio e
a biblioteca tinham ligação direta com o quarto.
— É intencional — admiti, já me direcionando para as
escadas metálicas que levavam ao mezanino. — Meu canto dentro
de casa, embora ultimamente todo mundo tenha decido que é uma
boa ideia ficar entrando aqui.
Assim que cheguei no meu closet, escutei os passos do
rapaz subindo as escadas e encostei a porta para poder me vestir.
— David disse que ficou feliz por você não brigar com a
Melina — Hyeon falou alto o bastante para que eu o escutasse
mesmo de dentro do local fechado.
Vesti minha calça preta e coloquei a camiseta branca por
dentro do cós, cobrindo as peças com uma camisa de manga curta
que combinava com a parte de baixo. Abri a porta novamente, antes
de calçar minhas pantufas e encarar o rapaz.
— Estou em trégua, ela me salvou — expliquei, passando
creme no cabelo e indo até o espelho para arrumar corretamente
meus cachos.
— Que ótimo! — o garoto exclamou, se sentando na minha
cama. — Ela vem hoje.
Isso foi o bastante para eu encará-lo com certa irritação.
— David chamou a Melina para a minha casa? — perguntei
e Hyeon rapidamente balançou a cabeça em negação.
— David chamou a Nina e eu convidei a Melina. Gosto dela,
ela é fofa.
Melina poderia ser muitas coisas, mas eu jamais usaria fofa
para descrevê-la.
— Nina comentou que vocês passaram o final de semana
conversando depois da apresentação.
— Sim, temos muito em comum. — Ele deu de ombros e eu
me sentei no espaço que o rapaz não ocupava da cama,
encostando no travesseiro e pegando meu celular, deixando que o
tédio dominasse minha feição, embora uma parte minha estivesse
curiosa sobre aquela relação.
— Sua tentativa de me fazer ser simpático tem alguma
relação com você morar aqui atualmente e querer ela mais
presente? — perguntei, erguendo o olhar do aparelho para observar
o rosto dele, tentando decifrar qualquer coisa que ele deixasse
escapar, mas Hyeon apenas deu uma risada.
— Não estou afim dela se é o que quer perguntar.
— Não perguntei isso — eu afirmei e o rapaz sorriu ainda
mais.
— Mas está quase escrito na sua testa que ficou curioso —
ele explicou, me fazendo revirar os olhos e voltar a atenção para o
Instagram aberto. — O gostar dela se aplica a um sentido
totalmente de amizade.
— Só cuidado para não iludir a menina, você faz o tipo de
muita gente — murmurei, bloqueando o celular porque até aquela
rede social parecia um tédio.
— Aposto que ela está ocupada demais pensando em outra
pessoa para se iludir — Hyeon disse e quando o encarei mais uma
vez, um sorriso cínico brincava em seu rosto. — Talvez os
pensamentos sejam formas de te matar, mas ainda assim…
— Idiota — resmunguei.
— Vocês estão aí? — David perguntou do andar de baixo.
— Aqui em cima! — Hyeon exclamou e logo meu primo
subiu.
Ele usava calças jeans escuras e uma regata branca que
fazia sua tatuagem de dragão no antebraço ficar exposta, o que se
devia ao clima agradável que fazia naquela semana, mesmo sendo
setembro.
— A galera começou a chegar, vim chamar vocês para
descerem — meu primo explicou e eu bufei, sentindo zero vontade
de ter que lidar com um bando de pessoas na minha casa e ser
obrigado a socializar.
Hyeon prontamente se levantou, perguntando se eu também
iria, o que me fez avisar que talvez em breve desceria. Eles sabiam
bem que significava que eu ficaria trancado no quarto até todo
mundo ir embora, mas fingiram acreditar e saíram de lá, alegando
que me esperariam.
Peguei o Kindle e comecei a ler, porém, não consegui
manter minha concentração depois de cinquenta páginas, porque
imaginei aquelas pessoas pulando na minha piscina. Porra, só de
pensar a bagunça que ficaria eu já queria matar David. Me levantei
da cama um pouco irritado, descendo as escadas com pressa e
saindo para o corredor, onde paralisei assim que consegui enxergar
Melina. Ela estava com os cabelos soltos, mas algumas mechas se
prendiam para trás. O corpo coberto por uma regata preta e um
shortinho da mesma cor tão curto que eu quase conseguia visualizar
a parte de baixo da sua bunda, além de uma camisa xadrez por
cima de tudo.
Cacete.
Gostaria que outra coisa passasse pela minha cabeça
naquele instante, mas nada parecia ocupar meus pensamentos
além do fato de que ela realmente estava muito gostosa.
Melina abriu a porta em sua frente, entrando na minha
biblioteca como se não fosse nada demais e isso obrigou minhas
pernas a funcionarem, adentrando o local logo depois dela.
— Por que você está aqui? — perguntei e foi suficiente para
ela dar um pulo, me encarando com a mão no peito.
— Porra, você não sabe chegar sem assustar os outros? —
ela questionou, me olhando com raiva.
— Você que está invadindo meu canto — argumentei,
cruzando os braços na frente do corpo.
Melina cerrou um pouco os olhos, me avaliando e soltando
um suspiro cansado quando terminou.
— Só queria fugir daquela música — a garota explicou, se
aproximando da estante que cobria toda a parede esquerda e
passando o dedo por alguns livros. — E do Nicolas.
Aquele era um dos meus lugares preferidos, porque
consistia em dois andares com paredes cheias de estantes, como
uma perfeita biblioteca. Eu já nem saberia dizer quantos livros tinha
ali, mas com certeza conseguia afirmar que não tinha lido todos. Às
vezes meu consumismo era maior que meu tempo para ler.
— Você poderia não ter vindo — afirmei, pois, embora fosse
a minha casa e eu não tivesse como fugir, a garota tinha opções.
— Puta merda, eu achava que você tinha dado uma
melhorada depois de tudo — ela reclamou, se afastando da estante
e me encarando.
— Que porra você está falando? — perguntei, sentindo uma
lufada de ar deixar meus lábios e foi o bastante para a garota revirar
os olhos.
— Não sei porque às vezes aindapenso que você pode ser
outra coisa além de um babaca.
Uma risada sarcástica deixou minha garganta, simplesmente
nada do que ela dizia fazia sentido algum.
— E eu não entendo como posso acreditar que você merece
a minha atenção — admiti, soltando os braços e pronto para lhe dar
as costas, porém, um barulho alto vindo do lado de fora me fez
parar.
Notei que Melina focou no mesmo que eu e nós dois
arregalamos os olhos, saindo da biblioteca e descendo as escadas
para o primeiro andar em passos acelerados, cruzando a porta dos
fundos que dava diretamente para a piscina.
Procurei pelo que poderia ter sido responsável pelo som e
assim que notei um dos vasos de planta quebrado perto de David e
Nicolas, a situação pareceu fazer muito sentido. A música tinha sido
desligada e a maioria ali estava paralisado, ao mesmo tempo que
outros saiam da piscina.
— Por que caralhos você apareceu na porra da minha casa
para ser um merda? — David perguntou, jogando os braços para
cima enquanto Nicolas se direcionava para mais perto dele.
Não acreditava que teria que intervir em uma briga, mas dei
um passo para frente, apenas parando quando Melina segurou meu
braço. Meu olhar foi até ela, que parecia implorar para eu não entrar
no meio.
— Vai ficar tudo bem — garanti, não sabendo ao certo o
motivo para uma espécie de preocupação brilhar em seus olhos,
talvez ela quisesse proteger o ex-namorado e imaginasse que eu
poderia feri-lo.
Seus dedos hesitaram antes de deixar meu pulso, mas
assim que me soltou eu caminhei até os dois encrenqueiros,
empurrando David o suficiente para entrar no meio dos dois.
— Quer ficar parecendo uma múmia mais uma vez, cacete?
— perguntei para o meu primo, que pareceu surpreso por me ver ali.
Eu nunca me metia, geralmente deixava tudo acabar e
chegava apenas para limpar a bagunça final, mas eles estavam na
minha casa e tinham quebrado um vaso que provavelmente era
caro.
— Sai daqui, cachinhos dourados — Nicolas disse e quando
o encarei, foi impossível não notar como parecia bêbado. — A
conversa é entre os adultos.
Me dei ao trabalho de me virar na direção dele, mas antes
que conseguisse dizer alguma coisa, Melina entrou na minha frente,
me fazendo olhar para baixo, fitando o cabelo dela e sentindo um
pouco de nervoso, porque eles não pareciam muito conscientes e
ela poderia acabar se machucando.
— Por que está armando uma confusão, Nicolas? — Melina
perguntou, cruzando os braços e ganhando toda a atenção do
garoto alcoolizado.
— Você está me evitando por culpa daquele merda — ele
exclamou, apontando para David, que tentou me empurrar para
brigar, mas eu me mantive firme, pensando que se não estivesse
mais ali, Melina ainda continuaria entre seu objetivo
— Estou te evitando porque você é um merda — a garota
afirmou, me deixando realmente surpreso. Eu notei durante o
acampamento que eles não estavam conversando e ela mesma
disse que vinha fugindo dele, mas não achava que as coisas tinham
chegado naquele nível. — Não quero você atrás de mim, porra, me
dá espaço.
— Melina. — Nicolas esticou a mão, tentando tocar nela,
mas eu segurei seu pulso, o impedindo. — Quem você pensa que
é? — ele questionou, me fuzilando com o olhar.
— Não ouse tentar encostar nela — murmurei, sentindo a
irritação me preenchendo. — Ela já disse que quer você longe.
— Seu cachorrinho vai ficar falando por você, Mattos? —
Nicolas perguntou para a garota, apontando para mim e isso foi o
bastante para David sair de onde estava com uma velocidade
absurda e tentar dar um soco na cara do garoto, que segurou o
braço dele, impedindo o movimento e fazendo com que o cotovelo
do meu primo acertasse o rosto de Melina.
Vários sons de surpresa foram emitidos pelo restante do
povo que observava a cena e eu arregalei os olhos, virando-a para
mim e notando que tinha atingido o supercílio, o que causou um leve
corte ali. Se eu cogitei que estava um pouco irritado, naquele
momento fiquei puto pra caralho.
— Todo mundo para fora! — exclamei. — AGORA.
Todas as pessoas presentes na festa começaram a sair e
Nina se aproximou de mim e da Melina.
— Melina, olha o que estão fazendo, você tem que vir
comigo — Nicolas pediu, tentando se aproximar dela e isso fez uma
raiva fora do comum subir até a minha garganta.
— Nina, leva esse cara embora, ou eu juro que sou capaz de
quebrar a cara dele — falei e a garota concordou, enquanto eu
examinava o rosto da Melina, que parecia um pouco zonza, o que
era totalmente justificado considerando a força que foi colocada no
golpe que a acertou.
— Mas e a Melina? — Nina perguntou e eu a fitei, antes de
pegar a garota no colo.
— Vou cuidar dela, depois te mando mensagem.
Nina concordou, parecendo um pouco confusa pela situação,
mas arrastando Nicolas para fora, mesmo com as tentativas de
intervenção do garoto.
— Santiago — David me chamou e eu fiz muito esforço para
engolir a raiva.
— A culpa disso é sua, então nem venha com Santiago. Se
quer que eu não fique ainda mais puto, pelo menos vai ajudar a
Nina e pede para o motorista levar eles, porque aquele imbecil do
Nicolas está bêbado — pedi, lhe dando as costas. — Hyeon, chame
a Agatha e venha com ela para o meu quarto, vou levar a Melina lá.
Hyeon passou para dentro junto comigo e se direcionou para
a cozinha, enquanto eu subia as escadas com Melina.
— Eu acho que estou bem, posso ir embora — ela falou,
com a mão na testa.
— É culpa do David, o mínimo que posso fazer é cuidar do
seu machucado — eu disse, entrando no quarto e a colocando no
sofá.
— É do Nicolas também, todo mundo falou para ele não
aparecer — Melina murmurou.
— Fique quietinha — pedi, porque se continuasse falando
sobre aqueles dois, meu nível de irritação apenas aumentaria mais.
Melina realmente ficou quieta e logo Agatha chegou no
quarto, examinando a garota e começando a limpar o machucado,
que não parecia grave, só tinha sido um pequeno corte. A mulher já
foi enfermeira, então quando disse que não precisaria de pontos, eu
confiei completamente, ficando bastante aliviado. Hyeon
permaneceu junto no quarto enquanto Agatha cuidava de Melina e
saiu apenas quando o curativo foi concluído, deixando nós dois em
completo silêncio, apenas um encarando o outro.
CAPÍTULO 20
Sexta-feira, 17 de setembro de 2021
“Às vezes eu odeio cada palavra estúpida que você diz
Às vezes eu quero bater na sua cara
Não há ninguém como você”
— True Love, Lily Allen (feat. Pink)
 
Aquele quarto era gigante e parecia mais um apartamento
dentro da casa de Santiago do que realmente só o lugar em que ele
dormia.
Minha cabeça estava um pouco dolorida pela colisão com o
cotovelo de David, mas a atenção parecia tão focada no garoto à
minha frente que eu quase poderia ignorar o incômodo.
Santiago estava com uma das pernas completamente em
cima do sofá e o corpo todo direcionado para mim, me observando
enquanto o cotovelo se firmava no encosto. Aqueles olhos azuis
pareciam fazer um raio-x em cada pedaço meu e a bolsa de gelo
que eu segurava sob o machucado estava começando a me
incomodar.
— Por que essa careta? Está doendo mais? — ele
perguntou e eu fiquei surpresa por escutar sua voz depois dos
longos minutos de silêncio que se estenderam desde que a mulher
super querida que cuidou de mim e Hyeon deixaram o quarto.
— Não — neguei, me ajeitando um pouco para segurar
melhor a bolsa de gelo e cruzando minhas pernas.
O olhar de Santiago se direcionou para baixo, fitando
descaradamente as minhas coxas e eu imaginei que deveria estar
alucinando quando percebi que ele engoliu em seco, desviando a
atenção para as paredes do quarto.
— Já avisei a Nina que não foi nada grave, o Hyeon pegou o
número dela com o David — ele avisou e eu observei as palavras
saindo lentamente de seus lábios.
A boca dele sempre tinha sido vermelha daquela forma?
Acho que passei tempo demais pensando sobre aquilo,
porque apenas desviei o olhar quando escutei ele perguntando:
— No que você está pensando, raio de sol? — Santiago se
aproximou, me fazendo inclinar o corpo para trás pela forma
repentina que o movimentodele aconteceu, segurando meu pulso e
afastando a bolsa de gelo do machucado, observando com atenção
a região.
— Em nada.
Ele sorriu, talvez sabendo que eu estava mentindo e
arrumou o curativo que tinha soltado um pouquinho, posicionando
minha mão com o gelo novamente em cima do machucado e dando
dois tapinhas na minha coxa, como se isso fosse o bastante para
sinalizar que ele tinha terminado, porém, meu olhar se prendeu
onde seus dedos me tocaram e eu senti uma coisa estranha, como
se aquela rápida colisão fosse capaz de fazer minhas vias
respiratórias se trancarem.
Engoli em seco.
— Quer que eu peça para o motorista te levar agora? —
Santiago perguntou, me obrigando a tentar focar nele. — Hyeon
falou que ele já voltou.
— Eu posso pedir um Uber, não se preocupe.
— Não existe essa opção, Lia. Ou o Macedo te leva, ou… —
ele hesitou.
— Ou o quê? — perguntei, depois de perceber existir algo
não dito, principalmente quando Santiago encarou minha boca,
engolindo em seco assim como eu, antes de voltar a atenção nos
meus olhos, que se perderam por um segundo com aquela
intensidade azulada.
— Ou você passa a noite aqui.
Arregalei os olhos, imaginando o que ele estava sugerindo e
ficando um pouco chocada quando notei que eu provavelmente
aceitaria.
Ok, quando tínhamos passado de ódio mútuo para seja lá o
que fosse aquilo?
— Eu tenho muitos quartos de hóspedes — ele disse,
limpando a garganta. — Embora possa te garantir que nenhuma
cama daqui é mais confortável do que a minha.
— Está sugerindo que eu durma com você? — questionei,
erguendo a sobrancelha que não tinha sido ferida.
— Não estou sugerindo nada, só estava comentando, você
está interpretando da forma que quer.
— Não quero dormir com você — afirmei, abrindo um sorriso
falso.
Porém, foi muito fácil notar a mentira estampada em minha
voz, me fazendo ficar um pouco surpresa por saber que queria
aquilo. Talvez a possibilidade tivesse começado a surgir aos poucos
durante aquela semana e naquele instante a bomba explodisse,
como se aquela raiva toda se transformasse, momentaneamente,
em uma espécie de tensão, um imã que me atraia diretamente para
ele.
— Deveria parar de encarar tanto a minha boca então — ele
sugeriu, sorrindo de uma forma debochada que fez com que meu
olhar se atraísse justamente para onde não deveria. Desviei o rosto,
segurando uma risada.
— Não tente brincar comigo, Santiago — avisei.
— Você não gosta?
— Odeio joguinhos — admiti, o fitando novamente.
Santiago me olhou de um jeito que até mesmo aquele lugar
gigante pareceu minúsculo e o calor dominou minhas bochechas.
— Não estou jogando com você — o rapaz murmurou,
aproximando seu corpo em direção ao meu. — Só tentando
descobrir onde podemos chegar, ou se isso é apenas a minha
imaginação.
— O que seria isso? — perguntei.
— Meus pensamentos estão em conflito, é como se eu não
gostasse de você, mas, ao mesmo tempo, meu corpo todo
implorasse para te ter. — A forma como aquilo saiu demoradamente
de seus lábios me fez prender a respiração. — Faz algum sentido
para você, raio de sol?
Fazia, porque ele vinha tendo presença em meus
pensamentos com uma certa frequência e mesmo custando admitir,
não tinha como negar. Primeiro que existia a possibilidade de ele ser
o bailarino que me fez ficar tão encantada e a ideia de que Santiago
fosse capaz de demonstrar tanta... Paixão, era, minimamente,
interessante. Uma parte minha ainda não gostava dele, existia um
histórico de implicância muito grande entre nós para que eu apenas
apagasse tudo de uma hora para a outra, mas era como se depois
do meu término com Nicolas eu estivesse notando coisas que antes
pareciam inexistentes, tanto no rapaz em minha frente quanto em
David, que também não era uma pessoa tão ruim quanto meu ex-
namorado alegava.
— Se eu disser que faz, talvez seja o momento para
declararmos insanidade — eu falei, recebendo um sorriso de lado
como resposta.
Porra. Ele já era lindo sempre que estava sério — o que
poderia ser visto como praticamente o tempo todo — de uma forma
tão angelical que quase se tornava diabólica, mas quando dava
aqueles sorrisinhos, principalmente nos instantes em que eram
direcionados para mim… Cacete… Santiago simplesmente ficava
absurdamente gato.
— Não faz isso — pedi, o fitando e foi o bastante para que
ele franzisse o cenho, começando a me avaliar.
— O que exatamente, Lia? — sua voz estava manhosa,
como um gatinho brincando com a presa, enquanto ele inclinava o
corpo mais um pouco para frente.
— Me olhar desse jeito — eu disse, cerrando os olhos e
tentando manter o controle para que minha atenção não fosse
desviada para a sua boca. — E dar esses sorrisinhos.
— Por quê? — ele indagou, mais uma vez aquele sorriso
fazendo presença e meu olhar sendo atraído diretamente para os
seus lábios. — Vai perder o controle? Eu adoraria ver isso
acontecer.
Soltei uma risada abafada, tentando engolir em seco
discretamente, tirando o gelo da testa e colocando na mesinha,
antes de voltar para o mesmo lugar e notar que ele não tinha nem
sequer desviado o olhar de mim.
— Não quero perder o controle com você — murmurei e isso
fez Santiago quase rir.
— Por você me odiar? — ele perguntou, se aproximando
ainda mais.
Merda, seu rosto estava a centímetros do meu e de perto
aquele rapaz conseguia ficar ainda mais atraente.
— Exatamente.
— Pode acabar sendo ainda mais divertido.
— Ou a gente pode terminar se matando — falei, dando um
sorrisinho sugestivo, que fez ele apoiar um dos braços ao lado da
minha coxa, ficando realmente próximo, de forma que nossas
respirações se mesclaram, ambas aceleradas. O olhar de Santiago
desceu até a minha boca e ele umedeceu os lábios, antes de voltar
a me fitar diretamente.
— Estou disposto a arriscar — o rapaz sussurrou, enquanto
a mão que continuava livre se direcionava para a minha mandíbula,
em uma carícia lenta, antes dele segurar meu queixo com o
indicador e o polegar, erguendo meu rosto para ficar na mesma
direção do seu e tocar nossos narizes, falando sob a minha boca: —
Por favor, se for me bater por isso, seja gentil.
Antes que meus pensamentos se alinhassem, seus lábios
colidiram com os meus e foi como uma explosão deliciosa. Será que
odiar alguém fazia esse tipo de coisa se tornar mais gostoso? Era a
única explicação possível para a forma como aquele beijo tinha
perfeitamente se encaixado.
Os dedos que estavam em meu queixo foram para a minha
nuca, segurando meus cabelos de uma forma que me fez quase
gemer baixinho, enquanto seu braço que tinha se mantido ao lado
da minha coxa se direcionou agilmente para a minha cintura e em
seguida até a minha bunda, me puxando para o seu colo e me
encaixando perfeitamente. Segurei seu rosto com uma das mãos,
deslizando a outra até seus cabelos, ignorando todo o alerta que
soava em minha cabeça, pedindo para que a gente parasse. Era
impossível querer qualquer outra coisa enquanto a língua dele
estava na minha boca, me deixando experimentar seu gosto e
adorar a experiência. Eu estava fodida e sabia disso.
De todos os cenários possíveis, acho que não cogitei em
momento algum com seriedade que acabaria aquele dia sentada em
Santiago na porra do quarto dele, o beijando.
Suas mãos apertaram minha bunda, antes de começarem a
subir por dentro da regata, explorando meu corpo e me causando
faíscas em cada lugar que tocava, principalmente quando segurou
minha cintura e me aproximou mais ainda, mesmo que eu nem
achasse que fosse possível. Santiago afastou nossos lábios,
beijando minha bochecha e em seguida descendo pelo meu
pescoço, afastando sutilmente a camisa xadrez azul dos meus
ombros aos poucos, a tirando completamente e continuando a trilha
de beijos. Minha cabeça apenas se inclinou para trás, aproveitando
cada segundo.
Movi meu quadril, causando uma fricção entre nós e isso fez
Santiago se distrair dos beijos que deixava no meu colo.
— Cacete… — ele murmurou e eu continuei, vendo sua
expressão se modificar um pouco. Aqueles olhos azuis,
normalmente tão frios quanto gelo, estavam com um tipo de brilho,
quasecomo se estivessem em chamas e eu seria uma grande
mentirosa se não admitisse que adorei causar essa mudança nele.
— Você é tão gostosa.
O rapaz voltou a me beijar e seus dedos foram até a barra
da minha regata, puxando o tecido para cima e eu apenas segui
seus movimentos, permitindo que ele retirasse, deixando a minha
pele realmente exposta, com apenas o sutiã de renda branca
cobrindo meus seios. Conforme meu quadril se movimentava, eu
conseguia senti-lo ficando bastante animadinho embaixo de mim e
porra, toda aquela brincadeirinha me fazia querer pedir para que me
fodesse de uma vez.
Movi minhas mãos por baixo de sua camiseta branca,
sentindo sua pele quente sob meus dedos conforme eu deslizava o
indicador por suas tatuagens, ficando um pouco impressionada com
como seus músculos eram firmes. Santiago afastou nossos lábios,
me fazendo quase sentir falta do contato durante os segundos em
que observei ele tirar a camisa preta que cobria sua peça principal,
a jogando no chão sem muita cerimônia. Aproveitei a posição em
que minhas mãos se encontravam e subi a camiseta branca
também, arrancando um sorrisinho dele, enquanto eu removia a
peça, recebendo a visão completa daquele corpinho muito bem
esculpido. Puta merda. Além de gato, ele era absurdamente
gostoso. Passei minhas unhas levemente pelo seu abdômen e isso
fez com que o rapaz prendesse a respiração rapidamente, antes de
espalmar a mão nas minhas costas e me puxar, tomando minha
boca e não tendo nenhum receio antes de colidir nossas línguas.
Seu gosto era inebriante e eu sabia que estava viciada assim que
longos minutos depois ele parou, me fazendo soltar um resmungo
frustrado.
Santiago me segurou com agilidade, ficando em pé
enquanto minhas pernas rodeavam sua cintura e meus braços seu
pescoço. Ele subiu as escadas, me jogando na cama de uma forma
tão agitada que eu até me surpreendi, antes de ficar por cima de
mim.
— Sabe, raio de sol — ele murmurou com a voz rouca, antes
de beijar a parte exposta do meu colo. — Eu normalmente
mantenho tudo que faço sob o meu controle, mas neste momento
estou ignorando qualquer alerta.
— Eu também — admiti, soltando um gemido baixinho
quando Santiago apertou meus seios e mesmo sob o tecido, era
fácil perceber como suas mãos se encaixavam perfeitamente ali.
Eu arqueei as costas, dando espaço suficiente para que ele
tirasse a peça que impedia o contato direto e o rapaz entendeu,
removendo meu sutiã com uma agilidade inexplicável e
aproveitando a exposição para levar a boca diretamente em um dos
meus mamilos, enquanto sua mão desceu até o cós do meu shorts,
abrindo o botão e o zíper, antes de passear por dentro da peça, me
tocando por cima da calcinha e me arrancando uma arfada. Porra,
ele sabia como me torturar. Seus dedos deslizaram para dentro da
peça que separava minha pele de colidir com a dele e assim que
chegou perto do meu clitóris foi como se meu corpo todo
respondesse aquilo e eu soltei um gemido alto. Santiago me
acariciou, provocando uma eletricidade surreal em cada parte
minha, antes que movesse seus dedos para dentro, entrando e
saindo de mim, ao mesmo tempo em que lambia e mordiscava
meus seios. Ele queria me enlouquecer.
Eu estava fazendo tanto barulho que já nem sabia como me
controlar, embora o receio de que alguém escutasse fosse grande.
— Lia… — ele sussurrou, afastando a boca da minha pele e
eu tentei me concentrar no que dizia. — Não tente se controlar. —
Santiago parecia estar lendo meus pensamentos. — Pode gritar o
quanto quiser, meu quarto tem isolamento acústico.
Senti meu rosto esquentando, mas não sabia se era por
vergonha ou porque ele continuava me fazendo ficar ainda mais
excitada.
— Quero escutar você gemendo para mim enquanto eu te
fodo, porque nós dois sabemos que isso não vai se repetir.
Santiago tirou os dedos de dentro de mim, os direcionando,
mais uma vez, para o cós do meu shorts, o retirando junto a
calcinha.
— Não vai — afirmei, com a voz tão fraca e cheia de
excitação que eu mal a reconheci.
Normalmente a ideia de ficar totalmente exposta era uma
coisa assustadora para mim, tanto que a única pessoa com quem
eu já tinha chegado nesse nível tinha sido com Nicolas, que eu
conhecia há anos e confiava, mas ali, com Santiago simplesmente
tudo parecia certo, mesmo não gostando nada dele. Era uma coisa
nova e estranha, que me fazia ficar mais curiosa do que eu
imaginava para entender o motivo.
Senti sua língua deslizando pela minha barriga e um arrepio
percorreu meu corpo, conforme ele descia, afastando minhas coxas
e beijando ali, antes de subir até o meio das minhas pernas, levando
a língua até o meu clitóris, me obrigando a morder o lábio inferior e
me segurar aos lençóis conforme todos os espasmos, causados
pelas suas investidas, percorriam meu corpo. Minha mão envolveu
seus cabelos, como um pedido para que continuasse e Santiago foi
com ainda mais vontade, me causando sons tão ofegantes que eu
nem imaginava ser possível.
Nunca tinha sentido nada assim e era simplesmente
delicioso.
Santiago continuou até meus gemidos se tornarem ainda
mais altos e ele notou que eu já estava perto de me entregar
completamente, afastando sua boca e subindo com alguns beijos
por todo o meu tórax, antes de alcançar meus lábios novamente, os
tomando para si, enquanto apertava levemente meu pescoço, de
uma forma que só me fazia querer de implorar para que fosse mais
rápido.
— Você fica tão, mas tão deliciosa me olhando assim — ele
sussurrou sob minha boca. — Consigo até esquecer o quanto não
gosto de você.
Soltei uma risada fraca e deslizei minhas mãos até sua
calça, o encarando como se pedisse permissão para retirar e
Santiago me ajudou, se livrando das únicas duas peças que se
mantinham em seu corpo.
Ele se inclinou mais, pressionando a ereção contra mim e
me fazendo sentir quão duro estava.
— Está sentindo o que consegue fazer comigo? Cacete,
você anda me deixando louco.
— Te afeto tanto assim? — brinquei, erguendo meu quadril o
bastante para que nós dois colidíssemos e ele mordeu o lábio
inferior.
— Não faz ideia do quanto.
O rapaz se esticou um pouco, abrindo a gaveta da
escrivaninha e pegando uma camisinha, se afastando o suficiente
para ter espaço para colocar, antes de deitar por cima de mim e se
impulsionar para dentro com cautela.
— Não precisa ir com calma — murmurei, fitando aqueles
olhos azuis.
E foi o bastante para Santiago estocar com força dentro de
mim, me fazendo gemer tão alto que daria para me escutarem por
aquela casa inteira, mesmo eu sabendo que era enorme. Meu corpo
se movimentava no mesmo ritmo que o dele e nós permanecemos
em perfeita sincronia, tão entregues que era como se fôssemos
feitos um para o outro. Cada sensação nova que ele me causava,
me fazia questionar minha sanidade, mas eu já não estava muito
preocupada naquele momento, enquanto seu nome deixava a minha
boca de uma forma tão diferente e ele entrava e saia de dentro de
mim com velocidade e precisão, me fodendo com vontade e
gemendo também. Aquele som era uma das melhores coisas que
eu já tinha escutado.
Levei minhas mãos até suas costas rígidas, o puxando para
mim, como se tivesse uma forma de ficar ainda mais perto e minhas
mãos desceram até sua bunda, a apertando e fazendo ele ofegar,
talvez surpreso, antes que eu passasse minhas pernas pelo seu
quadril. Eu subi meus braços para o seu pescoço e Santiago
segurou minha cintura, me erguendo um pouco para me firmar pela
bunda, com os dedos pressionando a região conforme ele se
impulsionava mais para dentro de mim.
Senti meu corpo se entregando de vez e os meus músculos
se contorcendo, avisando que eu estava muito perto de ter um
orgasmo. Minhas pálpebras pesaram e eu fechei os olhos, me
permitindo aproveitar. Cada segundo com ele era inebriante e eu
queria poder guardar aquelas sensações para sempre,
principalmente porque sabíamos que aquela era a primeira e última
vez. Nenhum de nós poderia se dispor a perder o controle daquela
forma novamente. Ainda nos odiávamos e depois de tanto tempo,
era difícil se livrar do sentimento.— Porra, Santiago… — exclamei, me desfazendo nele,
enquanto o rapaz estocava mais algumas vezes, nos fazendo gemer
alto juntos, antes de gozar assim como eu e sair de dentro de mim.
Ele me deu um selinho e se jogou ao meu lado na cama,
ambos estávamos completamente ofegantes.
O que tinha sido aquilo?
Talvez a mesma coisa se passasse por sua cabeça.
Santiago ergueu o corpo, retirando a camisinha e jogando no
lixo, enquanto eu virava de bruços, praticamente pronta para tirar
um cochilo, porque aquilo tinha me deixado acabada.
— Cacete — ele murmurou, assim que girou o corpo na
minha direção, eu virei meu rosto para encará-lo e notei seu olhar
focado na minha bunda. — Essa bunda ainda vai ser a minha
perdição — Santiago disse e isso me causou uma risada baixa,
antes que ele se inclinasse e desse uma mordida na região, me
fazendo rir ainda mais alto e tentasse virar para que não
conseguisse morder novamente.
— Idiota! — exclamei.
— Ah, você não me achava um idiota enquanto estava
gemendo o meu nome — ele provocou, beijando meu pescoço e se
deitando ao meu lado novamente.
— Continuei achando o tempo todo, mas relaxa, é quase
impossível hoje em dia um cara gato não ser um babaca, se tornou
uma espécie de regra.
— Então... Eu sou um gato? — Santiago questionou, com
uma expressão brincalhona em seu rosto.
Eu gostava quando ele ficava daquele jeito, o que andava
acontecendo com certa frequência nas vezes em que ficávamos
sozinhos.
— E um babaca — acrescentei e isso fez ele rir.
— Posso lidar com isso — afirmou, virando de lado e
mexendo em mim para que ficássemos de conchinha, assim como
quando nos perdemos no acampamento.
A ideia de odiar alguém, mas ficar confortável o bastante
para deitar de conchinha seguia sendo estranha, mas eu só tinha
que aceitar que nada nunca era normal com Santiago de qualquer
forma.
CAPÍTULO 21
Sábado, 18 de setembro de 2021
“Conversa de travesseiro
Meu inimigo, meu aliado
Prisioneiros
Então estamos livres, é excitante”
— Pillowtalk, Zayn
 
Me remexi um pouco na cama, estranhando a falta do calor
de Melina e deslizando a mão pelo lençol em sua procura, abrindo
os olhos quando não consegui encontrá-la, notando que não estava
mesmo ali.
Será que ela tinha ido embora enquanto eu dormia?
Me levantei, vendo seu sutiã jogado no chão e concluindo
que então talvez ela não tivesse partido sem aviso. Vesti a cueca
boxer que encontrei jogada perto da mesinha e desci as escadas,
dando uma olhada e tentando perceber se Melina estava ali,
considerando que sua bolsa continuava no canto do sofá, dava para
saber que sim.
— Fiz muito barulho? — ela perguntou, fazendo meu corpo
se virar em direção de onde sua voz tinha vindo e quase caí para
trás quando minha visão foi preenchida pela garota usando uma
camiseta minha.
A vontade que senti foi ignorar meu próprio aviso sobre nada
daquilo se repetir e foder com ela ali mesmo. Talvez tudo tivesse
sido um erro, porque enquanto estava apenas na minha cabeça,
não tinha como eu imaginar nem minimamente o que foi a realidade
e isso me livrava do fardo de querer repetir e saber que não
aconteceria.
— Está tudo bem? — Melina questionou, me avaliando e me
trazendo para a realidade.
— Sim — resmunguei. — Achei que tivesse ido embora —
confessei, desviando o olhar do dela e fingindo estar observando
meu próprio quarto.
— Estou indo fazer isso agora, na verdade — ela disse, me
deixando um pouco surpreso. — Só peguei sua camiseta para ir ao
banheiro.
— Por quê? — a pergunta deixou meus lábios antes que eu
me impedisse.
— Eu disse para o meu pai que ia em uma festa, mas não
que dormiria fora.
— Ah tá — falei, despreocupado já que o motivo era esse. —
Relaxa, está tudo resolvido.
Foi o bastante para Melina erguer uma sobrancelha, me
obrigando a explicar.
— Pedi para a Nina dizer que você ia dormir lá.
— O quê? — Ela arregalou os olhos.
— Ué, eu sabia o que queria, precisava me livrar dos
empecilhos. — Dei de ombros, girando meus calcanhares e
caminhando até a escada, subindo os degraus e parando no
parapeito. — Vem dormir, a Nina falou que você tem consulta
amanhã, então precisa descansar.
— Mas que porra… — ela começou, mas eu a impedi.
— Vamos lá, Mattos, amanhã você volta a me odiar de uma
forma mortal, agora foque no quanto você estava tranquila depois
que eu te fiz gozar e durma comigo de uma vez.
Isso fez Melina me fuzilar com o olhar e seria mentira se eu
não admitisse que ela puta da cara me deixava com…
Interrompi meu próprio pensamento, balançando a cabeça e
me direcionando até a cama, deitando e esperando que a garota
subisse as escadas, batendo os pés. Um beicinho irritado fazia
presença em seus lábios, me divertindo. Peguei o celular e notei
que era uma e vinte da manhã, o que justificava meus olhos
pesando e não mexi em mais nada, colocando o aparelho em cima
da mesinha novamente. Ela se deitou, virando de costas para mim e
empinando aquela bunda na minha direção, me atentando.
Filha da puta.
Provavelmente Melina sabia que estava conseguindo me
afetar e tentava usar isso contra mim, como um plano diabólico para
me deixar maluco.
— Nem tente vir me abraçar — ela resmungou, se
encolhendo na cama de forma que a camiseta subiu, deixando a
calcinha aparecendo.
Aquela garota queria me matar.
Me levantei, abrindo o armário e pegando uma coberta,
jogando em cima dela. Melina me encarou com os olhos cerrados,
parecendo confusa.
— Cobre essas pernas, mulher — pedi, segurando meu
edredom e me deitando novamente, cobrindo meu corpo e ficando
com a expressão séria.
— Eu não estou com frio — Melina afirmou, me fitando com
o cenho franzido e eu apenas bufei, me inclinando o bastante para
pegar a coberta e colocar por cima do corpo dela.
— Fica frio de madrugada, eu não quero que você me passe
um resfriado — dei uma justificativa ridícula, que fez a garota me
olhar com desprezo.
— E depois ainda me perguntam o porquê eu te odeio — ela
resmungou, fazendo um beicinho e se virando para o outro lado,
não me deixando mais ver seu rosto.
Acho que aquela era a nossa dinâmica: sentir ódio, ficar
numa boa, implicar um com o outro, querer se pegar, voltar a sentir
ódio. Um ciclo sem fim e totalmente vicioso.
Me ajeitei no travesseiro, arrumando o tecido que naquele
momento fazia peso em meu corpo e fechei os olhos, pronto para
voltar a dormir.
✽ ✽ ✽
— Puta merda — um resmungo baixinho de uma voz que eu
conhecia bem me despertou, me obrigando a abrir os olhos.
Eu estava abraçado a Melina e honestamente não fazia a
menor ideia de como paramos naquela posição, considerando que
dormimos cada um em seu canto, porém, a voz em questão não era
da garota, mas sim de Hyeon.
O encarei e o rapaz segurava o sutiã da Mattos entre os
dedos, com uma expressão horrorizada dominando seu rosto, me
afastei dela com cautela, tirando a coberta que tínhamos passado a
dividir e a cobrindo novamente, antes de segurar Hyeon pelo braço
e o arrastar até o andar de baixo.
— Que porra está fazendo no meu quarto? — perguntei em
um sussurro, tirando a peça íntima que estava na mão dele e
colocando no sofá.
— Eu vim perguntar em que quarto a Melina estava porque
queria saber se ela tinha melhorado, mas pelo visto, está ótima —
Hyeon murmurou, demonstrando estar animado demais com aquilo.
— Finalmente perceberam que se gostam?
— Ficou maluco? — questionei, com uma careta dominando
meu rosto.
— Vocês estavam dormindo abraçadinhos, eu poderia até ter
tirado uma foto e seria um lindo registro de início de namoro.
— Cala a boca — pedi. — Não existe namoro e nunca vai
existir.
— Então por que você está quase pelado e com ela na sua
cama? — Hyeon citou sua dúvida, apontando para baixo, onde
apenas a cueca boxer cobria meu corpo.
— Ela acabou dormindo aqui — falei, tentando transparecer
apenas indiferença.
— Então não aconteceu nada? Tiraram a roupa só por
diversão? — A sobrancelha dele se ergueu e quando eu estava
prestes a afirmar mais uma vez e deixar totalmente entendido que
nada tinha acontecido, mesmo que fosse mentira, uma voz ecoou
peloquarto.
— Santiago! — era Melina, soando manhosa como quem
tinha acabado de acordar. — Depois de ter acabado comigo noite
passada, acho que o mínimo é você me dar um café da manhã, me
diga que… — Ela parou assim que se debruçou no parapeito,
arregalando os olhos ao se deparar com Hyeon, que estava com a
boca aberta a encarando.
O olhar dele se direcionou para mim, revelando toda a
indignação por eu ter mentido.
— Vocês transaram! — ele exclamou em coreano.
— Só aconteceu dessa vez, nunca mais vai se repetir —
respondi na mesma língua.
Melina, que descia as escadas em passos acelerados, parou
ao nosso lado, olhando para cima para encarar Hyeon.
— Por favor, não fale nada para ninguém — ela pediu,
segurando o braço dele e fazendo uma expressão pidona
acompanhada de um beicinho, enquanto balançava o garoto.
Senti vontade de jogá-la no chão por isso.
— Ele não vai falar — eu afirmei, mantendo a expressão
irritada presente. — Nem é da conta dele.
— Não seja grosso — Melina me repreendeu, me obrigando
a revirar os olhos, enquanto ela voltava sua atenção para Hyeon. —
Hyeon, por favorzinho.
— Não vou falar nada — ele disse, estendendo a mão com o
mindinho erguido e a garota abriu um sorriso tão grande para o
rapaz ao entrelaçar seus dedinhos que parecia até que Hyeon tinha
comprado um carro para ela.
Isso meio que me fez ficar ainda mais sério.
— Quanto ao café da manhã, é só descermos para tomar —
eu falei para Melina, me lembrando do que tinha dito. — Você só
precisa encontrar suas roupas para descer, estão bem espalhadas
— provoquei, enquanto caminhava até o pé da escada. — Mas acho
que se for usando só a minha camiseta e essa calcinha, David
facilmente vai ficar sabendo também, além de ter a visão
privilegiada da sua bunda.
Notei a expressão de puro choque em Hyeon e fiquei curioso
para saber o motivo dela, até que ele abriu a boca.
— Onde você tinha escondido esse lado que usa um humor
estranho para ficar sexy? — Hyeon perguntou, me obrigando a
ignorar.
Ele e Melina ficaram conversando sobre alguma coisa,
enquanto o rapaz a ajudava a pegar as peças de roupa, me
fazendo, mais uma vez, revirar os olhos enquanto me vestia no
closet, escutando ecos de todo aquele falatório que tinha se voltado
para alguma série que eles estavam assistindo.
Logo, ficamos vestidos e nós três descemos até a cozinha,
prontos para tomar café.
✽ ✽ ✽
— Eu já disse que você não precisa me levar — Melina
afirmou pela quinta vez durante o caminho do meu quarto até o
carro.
— E eu já falei que estou indo — eu disse, também pela
quinta vez.
Ela tinha psicóloga naquela tarde e não ficava tão longe da
minha casa, então não me custava nada dar uma carona,
principalmente considerando que eu já teria que sair para comprar
um computador para Hyeon, visto que prometi isso em algum
momento de falta de sanidade.
— Relaxa, Melina — David disse, logo ao nosso lado,
porque tinha decidido que nos faria companhia durante a compra. —
Nós já temos que sair, te deixamos lá bem tranquila e tudo fica bem.
Sua testa está melhor? Nem sei como posso pedir seu perdão.
Por sorte não tinha sido nada grave e quando eu limpei seu
machucado após o café, quase nem era tão perceptível a marca,
isso, claro, se não considerássemos que ficou levemente roxo. Ela
continuava bonita mesmo com aquele hematoma, então não faria
muita diferença de qualquer forma.
— Eu sei que foi um acidente — ela falou, dando um sorriso
para o meu primo.
Melina sorria muito, isso, claro, para qualquer pessoa que
não fosse eu.
— Mesmo assim me sinto mal — David admitiu, soltando um
suspiro.
— Já passou, só vamos deixar isso para trás.
Meu primo concordou e se sentou no banco de trás do carro
com Hyeon, deixando o carona livre para Melina, que foi para lá
rapidamente, como se já fosse de costume. Entrei no lado do
motorista, notando que ela digitava alguma mensagem de uma
forma concentrada e dei partida, começando a dirigir, tentando focar
minha atenção na rua e não na garota que estava começando a
atrapalhar minha concentração, principalmente com aquele short
curto maldito, que nem mesmo a minha camiseta que pegou
emprestada foi capaz de cobrir.
Assim que estacionei em frente ao consultório, Melina
agradeceu pela carona, se despedindo de nós três.
— Te devolvo sua blusa qualquer dia — ela disse, com os
braços apoiados no vidro aberto do carona, naquele momento
ocupado por David, que quis ir para frente. — Pega meu número
com a Nina que combinamos para eu conseguir te entregar.
Melina acenou, caminhando até a entrada do prédio e
sumindo assim que passou pelas portas giratórias.
— Olha só, Santiago — meu primo disse, fazendo uma
expressão cômica, para não dizer ridícula. — Parece que você está
conseguindo ganhar a fera. Quem ver vocês assim nem vai ser
capaz de dizer que se odeiam.
Apenas ignorei seu comentário, dando partida no carro e
indo em direção a um dos lugares que eu menos gostava em um
sábado, devido à quantidade de pessoas: o shopping.
CAPÍTULO 22
Domingo, 19 de setembro de 2021
Nina tinha ido para a minha casa na noite anterior e ter ela
pulando em cima de mim logo cedo me fez lembrar disso.
— Bom dia, Mel! — Nina gritou, me obrigando a resmungar,
antes de abrir um pouco os olhos, observando meu relógio e
notando que eram oito horas. De um domingo!
Minha melhor amiga deveria ser presa por atrapalhar o
soninho dos outros em pleno final de semana.
— O que foi? — perguntei, um pouco sonolenta, enquanto
ela tirava a coberta de cima do meu corpo.
— Puta merda! — Nina exclamou e eu a fitei, confusa.
— O quê?
— O que é essa marca na sua bunda?
Me curvei o suficiente para tentar enxergar que marca ela
poderia estar falando e arregalei os olhos ao perceber o quase
hematoma que se fazia presente na lateral da minha bunda.
Ah, merda, eu mataria aquele desgraçado.
— Devo ter batido em algum lugar — respondi, tentando
parecer indiferente. — Você sabe que sou desastrada.
— Faz sentido. Sinceramente, achei que fosse uma mordida,
a marca está meio estranha — Nina disse e minha expressão se
modificou, formando um sorriso tenso em meus lábios. — Ah, eu
descobri uma coisa!
— O quê? — questionei, me sentando na cama e a fitando,
totalmente aliviada por termos desviado daquele assunto.
— Lembra do bailarino mascarado?
Meio que não tinha como eu esquecer, porque durante dias
aquela dança ficou presa na minha cabeça e quando finalmente me
distraí, Santiago soltou a bomba sobre existir a possibilidade de ser
ele, o que depois de sexta-feira ficou presente em meio aos meus
pensamentos com ainda mais frequência do que gostaria.
— Sim.
— Era o Santiago!
Eu não estava surpresa, na verdade, acho que praticamente
tinha certeza desde que disse “eu estava de máscara” e saiu
andando, não teria bem um motivo para soltar essa informação se
não fosse por David possivelmente ter aberto a boca, e Santiago
acreditar que seria uma boa oportunidade para mexer com a minha
cabeça.
— Você não parece surpresa — Nina falou, me tirando
daqueles pensamentos conturbados.
— Meio que ele tinha levantado essa possibilidade no
acampamento, você só confirmou — expliquei, pegando meu celular
que estava no carregador ao lado da cama.
— Olha, mas agora a sua ideia absurda de tentar ter aulas
com o bailarino pode funcionar, considerando que não é um
desconhecido, mas sim o Santiago.
Soltei uma risada fraca, desbloqueando o aparelho e
revezando minha atenção entre a minha melhor amiga, sentada de
pernas cruzadas em minha frente e a tela brilhando em minhas
mãos.
— Acho que eu tinha uma chance maior de receber ajuda de
um desconhecido. Não nos damos bem, Nina.
Se nem nossas duas péssimas experiências no
acampamento, onde fomos obrigados a um ajudar o outro, foram
capazes de apagar completamente o quanto não nos entendíamos,
com certeza não seria o acontecimento inesperado de sexta que
mudaria alguma coisa, embora o clima entre Santiago e eu
estivesse até aceitável no dia anterior.
— Mas Melina, pense na oportunidade.
— Se nem vendo ele com tanta frequência, nós já brigamos,imagina se tivéssemos que nos encontrar para aulas, isso nunca
funcionaria.
Desviei minha atenção para a mensagem que meu celular
notificou.
Hyeon: Bom dia.
Hyeon: Quer sair para tomar um café?
Hyeon: Santiago acordou estressado hoje.
Melina: Bom dia.
Melina: Um cafezinho sempre cai bem, com certeza.
Melina: Existem dias em que ele não é estressado?
Hyeon: Você tem um ponto.
Melina: Tem motivo pelo menos?
Hyeon: Tomou uma bronca da coreógrafa.
Hyeon: E ela disse que se ele não ensaiar o dobro nas próximas
semanas, estará fora da apresentação de Natal.
Hyeon: Pelo que entendi, ele e a dupla não conseguem se conectar
direito, porque ele costuma dançar sozinho.
Hyeon: Porém, eu só sei disso tudo porque escutei durante a
ligação, Santiago não conta nada.
Melina: A mulher ligou em um domingo para dar bronca?
Hyeon: Pois é.
— Por que está tão atenta? — Nina perguntou, desviando
minha atenção, revelando um sorriso sugestivo. — Com quem está
conversando?
— Hyeon, ele quer sair para tomar café.
— Ui ui ui, com o Hyeon — minha melhor amiga disse,
piscando os olhos demoradamente e em seguida pressionando os
indicadores contra a minha perna, como uma cosquinha sutil. —
Está rolando algo? Achei que era com o Santiago, me enganei?
Revirei os olhos, deixando que uma lufada de ar escapasse
pelos meus lábios, enquanto encarava Nina com certo deboche.
— Hyeon está se tornando um ótimo amigo, nos falamos
com bastante frequência e ele meio que tem me dado muitos
conselhos sobre o Nicolas.
— Isso é ótimo, no último ano você se limitou a ter apenas
Nicolas e eu em seu círculo de amizades, fico feliz que Hyeon esteja
fazendo parte, ele parece ser uma boa pessoa.
Hyeon: O café perto da sua casa é uma boa, né?
Hyeon: Aquele que você gosta.
— Eu também acho — falei depois de ler as últimas
mensagens dele. — Vamos ao Café Literário? Hyeon está
chamando.
— Sim, vou colocar uma roupa — Nina concordou, já indo
até o meu guarda-roupa, onde ela sempre deixava algumas peças.
— David vai também?
Melina: Combinado.
Melina: Nina perguntou se David também vai.
Hyeon: Ele não dormiu em casa.
Melina: Certo.
Hyeon: Passo encontrar com vocês em trinta minutos.
Melina: Até.
Me levantei, parando ao lado de Nina e pegando a primeira
calça que vi ali, uma pantalona rosa, que foi complementada por um
cropped branco.
— Não vai, Hyeon disse que dormiu fora de casa —
expliquei, respondendo sua pergunta.
Por um segundo, pude jurar que os olhos de Nina se
arregalaram, antes dela soltar uma risada.
— Não me surpreende — Nina afirmou, se afastando e
colocando as peças que tinha separado em cima da cama. — Eu já
tomei banho, você vai também?
Assenti, erguendo minha toalha que peguei no armário para
que ela visse e sai do quarto em direção ao banheiro.
✽ ✽ ✽
Fiquei na frente do prédio com Nina, esperando por qualquer
sinal de Hyeon, que tinha dito que estava virando a minha rua. Após
alguns minutos, consegui ver o carro de Santiago, me fazendo
pensar se o rapaz também estava ali, o que se confirmou assim que
o BMW parou e Hyeon, que estava no banco da frente, abaixou o
vidro, acenando e revelando um Santiago emburrado fazendo o
papel de motorista.
— Oi, querem estacionar aqui dentro? — perguntei, mais
para Santiago do que Hyeon. — Na rua não tem vaga essa hora.
— Tem como? — Santiago me encarou pela primeira vez
desde que coloquei os olhos nele e eu assenti.
— Sim, tem três vagas, entra aqui na garagem que vou falar
com o porteiro pra liberar seu carro.
Nina entrou comigo no prédio e em poucos minutos, o carro
já estava liberado, Santiago estava estacionando e eu e minha
melhor amiga esperávamos pelo rapaz e Hyeon, novamente na
calçada.
Notei a chegada deles quando Hyeon apoiou o braço em
meus ombros e eu o fitei, dando um sorriso. Ao olhar para o lado,
me deparando com a expressão surpresa de Nina, percebi que
David também se encontrava ali.
— Ele chegou quando estávamos saindo — Hyeon explicou
baixinho, como se percebesse que eu estava confusa assim como
minha melhor amiga, e eu assenti.
Nós cinco atravessamos a rua, entrando na cafeteria e
procurando por um lugar para sentar. A decoração do local era toda
em tons pastéis, trazendo uma vibe extremamente fofa e
aconchegante. O lugar tinha dois andares, sendo o segundo um
mezanino repleto de estantes com livros e bancadas para estudo,
enquanto o primeiro atendia os pedidos e ficava as mesas normais.
Achamos uma mesa que era suficiente para acomodar todos
nós e nos sentamos, dando uma olhada no cardápio que uma das
atendentes trazia. Ela provavelmente deveria ter sido contratada nas
últimas semanas, enquanto deixei de ir até lá, porque não a
reconheci.
Fizemos nossos pedidos após algumas análises e então
escutei a voz de David mais rouca do que o normal, perguntando:
— Melina, a Nina já comentou que temos a solução para
todos os seus problemas?
— Como assim? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.
David, que estava sentado de frente para mim, colocou os
cotovelos em cima da mesa, fitando Santiago, que permanecia
imóvel na cadeira colada à minha desde que tinha dito o que queria
comer.
— Isso serve para você também, priminho — David apontou,
em seguida encarando Nina, que estava ao seu lado, com um
sorriso sugestivo estampado nos lábios.
— Caso não tenha percebido, eu não acordei com o melhor
dos humores, então não tente me irritar — Santiago disse, ríspido e
impaciente.
— Me deixe explicar! — David pediu, fazendo um beicinho.
— Melina quer um professor de ballet e você precisa treinar com
outras pessoas. É perfeito.
— Não sei se isso vai dar certo — Santiago falou o óbvio,
parecendo pensativo.
— Mal nos suportamos, como vamos ensaiar juntos? —
questionei, cruzando os braços e me encostando na cadeira,
esperando por alguma explicação de David.
— Qual é, você me suportou quando…
Eu imaginava como ele terminaria aquela frase e poderia
matá-lo por isso, mas me contive a apenas dar um beliscão discreto
na sua perna por baixo da mesa. Claro que discreto para Nina e
David que não estavam do mesmo lado, mas não a Hyeon, que
segurou a risada, encarando a minha mão, já que seu lugar lhe dava
uma perfeita visão do que eu tinha acabado de fazer.
— Quero dizer que acho que até que não é uma má ideia —
Santiago falou, limpando a garganta e me obrigando a arregalar os
olhos, o fitando com certo choque. Ele realmente estava dizendo
aquilo? — Se eu conseguir me adaptar a dançar com você, consigo
com qualquer um.
— E o que isso significa?
Era meio ofensivo ele dizer aquilo.
— Se nem nos suportamos, demonstrar conexão durante a
dança vai ser um desafio, logo, é um bom treinamento — ele
afirmou e eu poderia estar ficando maluca, mas até que fazia
sentido.
— Você realmente está dizendo que vai me ensinar ballet?
— questionei, apenas por garantia e durante um curto segundo, os
lábios dele se curvaram em um sorrisinho, que sumiu antes de
responder:
— Sim, vamos treinar juntos, raio de sol.
E simples assim, ganhei alguém para fazer o que tanto
queria e provavelmente um enorme problema, porque eu e Santiago
juntos não poderia resultar em nada diferente de uma catástrofe.
CAPÍTULO 23
Segunda-feira, 20 de setembro de 2021
Minha sanidade tinha se esvaído.
Foi a minha conclusão assim que tirei meu carro do
estacionamento da casa da Melina no dia anterior e refleti sobre o
que exatamente eu tinha aceitado. Talvez ficar perto dela estivesse
me deixando maluco ultimamente e nem mesmo dois neurônios se
esforçassem para funcionar em sua presença. Essa era a única
explicação plausível.
Desci as escadas, com uma sensação estranha fazendo
presença conforme eu caminhava até a porta de entrada, onde,
através do vidro, eu já notava que Melina me esperava.
— Oi — ela disse assim que eu abri a porta e nossos olhares
se cruzaram.
Seus cabelos compridos estavam presos em um rabo de
cavalo, mas algumas mechas se mantinham presentes em sua
testa. A jaqueta preta cobria metade de suas coxas e também tinha
uma mochila nas costas.
Estava um dia frio em Vila dos Anjos, então eu

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