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OUVI DIZER QUE ERA VOCÊ Copyright © 2023 Bruna Souza Ilustrações: Eduarda Oliveira (@arda.arts) Diagramação: Bruna Souza Betagem: João V., Lavinia, Leticia, M. Victoria, Marcos e Mikaela Leitura sensível: M. Victoria Esta é uma obra de ficção. Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida ou transmitida, sejam quaisquer forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros, sem autorização por escrito da autora. Para aqueles que já acharam que tinham se quebrado para sempre, mas encontraram forças o bastante para se reconstruírem. “Me fale em quantos pedaços você foi partida antes que eu te encontrasse, quero saber quantas versões suas terei que amar.” — FERNANDO MACHADO SINOPSE Melina sempre foi doce, companheira e carinhosa. Jogava vôlei desde pequena, até que um trauma a impediu de praticar o esporte durante um período e mudou totalmente sua vida. Mesmo se sentindo completamente quebrada, ela tentava continuar sendo alegre e espirituosa, ignorando o peso constante em seu peito. Enquanto Santiago cresceu praticamente sozinho e isso o fez se fechar para o mundo. Ranzinza, calado e frio, com todos que não fossem seus primos, ele não fazia esforço nenhum para tentar ser agradável e pouco se importava com o que pensavam a seu respeito, mas ainda assim era um dos melhores bailarinos de sua idade. Em uma tentativa de o destino mostrar que polos opostos se atraem, a vida dos dois é mais uma vez cruzada de forma inesperada e entre colégios rivais, personalidades totalmente distintas e pessoas próximas que não conseguem conviver de forma civilizada, ambos notam que as diferenças são gritantes demais. Talvez eles se odeiem, mas é um fato que existe uma atração entre os dois. E o resultado não pode ser diferente de um desastre quando a convivência passa a ser contínua. AVISOS Olá, querido leitor, antes de qualquer coisa quero agradecer por dar uma chance a Melina e Santiago e espero que possa se divertir e se emocionar lendo a história de uma jogadora traumatizada e um bailarino ranzinza que acreditam se odiar, mas descobrem que talvez possam precisar um do outro. Esse livro é classificado como +18 e possuí os seguintes gatilhos: crise de ansiedade, relação abusiva familiar, abandono afetivo, agressão, luto e conteúdo sexual. Caso não se sinta confortável com algo, priorise sua saúde mental. Espero que faça uma boa leitura. Você também pode me encontrar aqui: Instagram/Twitter = @bsouzaautora CAPÍTULO 1 Sábado, 28 de agosto de 2021 “Tudo bem não estar bem Quando você está para baixo e se sente cansado Tudo bem não estar bem” — Ok Not To Be Okay, Mashmello (feat. Demi Lovato) O barulho das máquinas ligadas era uma cacofonia, enquanto eu tentava suportar a dor excruciante que começava a despontar com o fim do efeito da medicação. Tudo naquele lugar me sufocava, a cama do hospital, o olhar de compaixão das enfermeiras que passavam para checar se estava tudo bem, até mesmo as flores brancas que minhas colegas do vôlei trouxeram e que, naquele momento, estavam em cima da mesinha ao meu lado, como se fosse mudar algo e não servisse apenas como um lembrete de que eu nunca seria a mesma. Sempre me vi como um tipo de pessoa que não sentia medo de muitas coisas. Estava constantemente disposta a assumir o risco das minhas ações e lidar com as consequências depois, enfrentando tudo de frente. Porém, nesse dia tudo o que eu acreditava desmoronou. O medo passou a ser um sentimento constante dentro de mim, me deixando sem ação, como se estivesse congelada, porque naquele momento quando tentei fazer alguma coisa… bem, foi um desastre. Minha vida terminou naquele instante, não de forma literal, mas meu coração se partiu de formas que eu nem imaginava serem possíveis e eu já não via mais solução alguma para conseguir reconstruir cada parte minha que tinha se quebrado. Era como se aquela garota alegre e esportiva tivesse sido abduzida e substituída por uma versão cabisbaixa, insegura e medrosa, que se esforçava até demais para fingir que tudo continuava bem. — Melina. — A voz totalmente familiar da minha terapeuta ecoou pelo consultório, me tirando de meus pensamentos e me trazendo de volta a sua sala com paredes brancas e de tamanho considerável. Além de dois sofás bem posicionados, para que eu escolhesse em qual desejava me sentar para falar sobre como andava infeliz, existiam luminárias quadradas que desciam do teto, uma poltrona de frente para mim, onde a psicóloga me observava e uma enorme janela que dava uma visão perfeita dos outros prédios grandes do centro de Vila dos Anjos. Encarei a mulher, tentando me lembrar do que exatamente ela tinha perguntado, mas passar tempo demais lembrando do que aconteceu tinha me distraído. — Desculpa, acho que não estava prestando atenção — falei, evitando fitar Jaqueline diretamente, já que ela tinha um olhar estreito, que acabava tornando seus olhos, de tom quase amarelo, um pouco assustadores. — Pode repetir por favor? — Perguntei como está — respondeu, suspirando levemente. Claro, aquela pergunta clássica do início de toda sessão há quase um ano. — Estou ótima — menti, forçando um sorriso que Jaqueline sabia bem que não era sincero. — Faz praticamente um ano que estamos nessa, Melina. Por que não tenta… colocar um pouco para fora? Suspirei, verdadeiramente cansada. Talvez desabafar com a mulher que conseguia ficar uma hora apenas olhando para a minha cara há meses, fosse uma opção boa. Ela era simpática, de toda forma, além de literalmente formada para escutar meus problemas. E eu já não aguentava mais lidar com tudo sozinha. — Ainda não consegui jogar, se é isso que quer perguntar. — Como se sente quando tenta ir para a quadra? — Sufocada — admiti, antes mesmo de notar as palavras escapando de meus lábios. — Bom, chegamos a algum lugar. — Ela deu um sorriso vitorioso. A avaliei durante alguns segundos, antes de soltar mais um suspiro e apenas ignorar o alerta de silêncio em minha cabeça. Retomar aquele assunto, sempre me levava novamente para o fatídico dia e a cada momento eu me sentia pior. — Sinceramente, sei que meu pai só quer o melhor para mim, mas é meio cansativo ele colocar tanta expectativa. Minha perna está melhor, mas… Eu não quero, não consigo ir jogar. — Já pensou que talvez você não precise necessariamente voltar para o vôlei? — Como assim? — questionei, me ajeitando no sofá e cruzando as pernas. — Você quer voltar? — Jaqueline perguntou, dando ênfase. Parei por um minuto, considerando o que ela havia dito. Eu queria voltar? Mesmo que eu amasse jogar, parecia algo errado… Como se isso fizesse parte de outra pessoa, como se a Melina de antes não fosse a mesma de atualmente. — Não sei — respondi suspirando, sentindo um peso sair das minhas costas. Jaqueline me olhou com atenção, talvez tentando decifrar o que aquele novo suspiro significava. Provavelmente se lembrando de algum artigo da faculdade “As Cinco Linguagens do Suspiro Comportamental” ou algo assim. Esse pensamento quase me fez rir, se não fossem os olhos amarelos me observando, como se cada movimento mínimo revelasse um pouco da minha alma. — Você poderia avaliar outras opções, pelo menos até se sentir pronta para voltar a jogar. — Como o quê? — Talvez dança? Música? Lembro que comentou que gosta disso. — Eu fazia Jazz, mas não danço desde os quinze anos. — São apenas opções para considerar, pode pensar em outra coisa também. Aquela frase me deixou um pouco pensativa. Talvez o meu grande erro tenha sido tentar com tanto afinco voltar para uma coisa que eu já não me sentia bem, só por ser algo que eu fazia antes. Encontrar uma nova atividade poderia até ser uma ideia boa, embora eu não soubesse se estava realmente pronta e nem por onde começar, considerando que existiam grandes chances do meu pai não lidar muito bem comuma coisa nova. Suspirei pensando na reação dele, não queria decepcioná-lo e, por mais que eu tentasse ser positiva, sabia que não seria fácil. Mas depois de tudo o que aconteceu… Eu precisava de algo para me distrair, para me sentir eu mesma de novo, não uma sombra da pessoa que eu já fui. Por mais que a ideia me revirasse o estômago, minha melhor opção era fazer em segredo, pelo menos até saber que meu pai estaria pronto para lidar com minhas escolhas. Continuei a sessão durante mais longos minutos, contando sobre coisas da minha semana e recebendo observações cautelosas de Jaqueline. Saí da sala assim que terminou, me deparando com uma das minhas pessoas favoritas, Theodoro, sentado na cadeira bege da sala de espera. Por mais que eu tivesse insistido veementemente que ele não precisava me acompanhar na sessão, não resultou em nada, no final ele ainda estava ali, sentado por uma hora na cadeira dura. Embora eu fingisse que não tinha gostado, no fundo, era legal ter alguém para fazer companhia depois de um longo tempo revivendo o passado. Theodoro — ou apenas Theo, para qualquer pessoa existente, já que ele odiava seu nome inteiro — era meu primo mais velho. Ele não morava na cidade, mas estava me visitando, como fazia regularmente. Às vezes eu me sentia mais como outra irmã mais nova dele do que realmente prima, pelo tanto que me protegia. — E aí, como foi hoje? — ele questionou, enquanto se levantava lentamente. — Ai! Alguém deveria trocar essas cadeiras, não vou conseguir andar o dia inteiro agora — reclamou, colocando a mão nas costas enquanto se alongava. Dei um sorriso debochado e cruzei os braços diante da cena. Os olhos castanhos escuros de Theo se semicerraram em minha direção, como se me desafiassem a rir. Soltei uma gargalhada ruidosa, mesmo não sendo tão engraçado assim, mas parecia com o sentimento de quando alguém fala: “se você rir, você está mentindo”, mesmo dizendo a verdade da vontade de rir. — Eu poderia ficar descadeirado e você ainda ri da minha cara? — ele reclamou, dramaticamente, disfarçando um sorriso. — Fazer o que, você poderia ter ficado lá em casa deitado na minha cama confortável e espaçosa, mas seu impulso de curiosidade foi maior, não é? — respondi sarcasticamente — Você escutou atrás da porta? — perguntei baixinho, como se estivesse confidencializando um segredo. — Até tentei, mas a moça da recepção não tirava os olhos de mim, não consegui fazer muita coisa. — Deu de ombros com um olhar sofrido. — Essa é a maldição que eu carrego por ser irresistível desse jeito. Revirei os olhos, Theo era realmente lindo, seu cabelo castanho levemente bagunçado e seu corpo atlético eram o sonho de qualquer um, o que normalmente incluía a maioria das pessoas que andavam comigo e viviam babando pelo meu primo. Porém, eu não o deixaria saber disso tão facilmente. — Coitada, a mulher deve ser cega. — Com ciúmes, priminha? — meu primo questionou enquanto bagunçava meu cabelo, do mesmo jeito que fazia quando éramos pequenos. Senti minhas bochechas esquentarem enquanto tirava a mão dele da minha cabeça, sabendo que meu cabelo deveria estar uma bela bagunça no momento. — Theo! Quantas vezes eu disse que não gosto que você faça isso? — reclamei, tentando bater em seu braço e falhando miseravelmente. — Olha que brava, cuidado para não se machucar, priminha — ele disse, rindo. A cada minuto meu rosto ficava mais vermelho, principalmente após perceber o olhar questionador da recepcionista em nossa direção. — Alguém já te contou que você é insuportável? — Eu também te amo, Memelzinha — Theo replicou, colocando o braço em meus ombros enquanto íamos para o elevador. — Não me chame assim! — exclamei e ele deu uma risada, provavelmente se divertindo ao me ver irritada. Bufei e revirei os olhos enquanto entrávamos no elevador, o peso do braço do Theo ainda nos meus ombros, mesmo irritada não quis tirá-lo, me sentindo estranhamente reconfortada pelo gesto. Sabia que ele só estava me irritando por uma tentativa de me tirar dos pensamentos que me assombravam, e que esse era o jeito dele de tentar fazer com que eu me sentisse melhor. — Você não me respondeu — Theo falou, retirando o braço dos meus ombros e pressionando o botão do subsolo. — O que exatamente? — Como foi hoje? — perguntou com cuidado, como se estivesse com medo da minha reação. — Sabe que pode falar comigo, sobre qualquer coisa. Suspirei, olhando para a parede cinza brilhante do elevador, lembrando das palavras de Jaqueline. Você poderia avaliar outras opções, pelo menos até se sentir pronta para voltar a jogar. — Meio que sempre é a mesma coisa, mas recebi uma perspectiva interessante — falei simplesmente, deixando de fora o que a terapeuta havia proposto, mesmo sabendo que eu poderia contar se quisesse… não era nada certo ainda, nem tinha certeza se realmente faria isso, então não queria dar esperanças a ele. — Ah, isso é bom. — Theo ajeitou a parte da frente de seu cabelo castanho. — Precisa mesmo voltar para Monte Sul amanhã? — perguntei, mostrando um beicinho e agarrando o braço exageradamente musculoso dele, enquanto encarava seu rosto, coberto por aquele bigode que não combinava tanto com meu primo, embora ele alegasse ter se inspirado no Caio Castro. — Vim só para o fim de semana, você sabe que as longas doze horas para chegar aqui de carro matam qualquer um e eu preciso estar descansado na terça-feira, mas prometo que nas férias eu venho para passar um tempo com você. Eu sabia que era um esforço enorme da parte dele, até porque se aquelas cadeiras podiam deixar as costas travadas, nada se comparava a doze horas sentado em um carro dirigindo. Teve uma época que eu me questionava o motivo para ele não vir de avião, mas depois entendi que Theo gostava de estar com o carro para poder me levar para todos os cantos, por mais longe que fosse, como se pudesse aliviar um pouco da minha tristeza e tinha dias que ele realmente conseguia. — Vou cobrar. — O soltei e sorri para ele, que colocou a mão na porta, assim que ela abriu, para eu sair. Logo entramos no carro e Theo começou a dirigir em silêncio. Eu nunca falava quando era Theodoro no volante, ou as consequências poderiam ser um tanto desastrosas, considerando que meu primo não era exatamente o melhor dos motoristas e até Ariella — irmã mais nova dele e minha prima favorita —, com todo seu desastre e impaciência conseguia dirigir melhor, mesmo odiando. O que mais temíamos era quando ele vinha para Vila dos Anjos sozinho, porque um rapaz desastrado dirigindo por horas em uma estrada não era a melhor das opções, mas no fim, tudo sempre ficava bem, desde que ele estivesse focado. — Pode me deixar no Museu Municipal? — questionei, segurando firme no banco apenas por garantia. — De novo? Não tinha dito que estava lá semana passada? — Você sabe que adoro museus — respondi, dando de ombros. Ninguém entendia essa minha paixão, como se fosse algo realmente estranho, mas para mim era libertador. — Certo, mas quando quiser ir embora me manda mensagem que vou te buscar. — Pode deixar, priminho — eu disse, no mesmo tom que ele usou comigo na sala de espera e sorri quando Theo revirou os olhos. ✽ ✽ ✽ Eu andava pelos corredores, admirando cada uma das exposições lentamente. Eu amava arte, qualquer tipo de arte. Para mim era como uma espécie de história contada de maneiras diferentes e eu constantemente parava para as admirar, observando a técnica, a beleza por trás de cada jogo de sombras ou pincelada, às vezes até inventava cenários e histórias na minha cabeça sobre o que via. Eu poderia passar horas olhando somente uma peça, mas nunca seria o suficiente, como se em cada minuto eu encontrasse visões diferentes para analisar. Talvez um dos únicos problemas em passar tanto tempo do fim de semana em museus, vendo várias obras repetidas, mas ainda assim continuar apaixonada, fosse o fato que eu ficava ainda mais distraída que o normal, embora nem acreditasse que isso fosse possível, já que na maior parte do tempo eu estava navegando dentro da minhamente e esquecendo de viver no mundo real. E por culpa da minha distração, não reparei que tinha uma pessoa parada no meio do caminho, dando de cara com o corpo alto, que parecia mais uma parede naquele momento, considerando os músculos rígidos. Senti as mãos do indivíduo pegarem a minha cintura para evitar que eu caísse de costas no chão, e provavelmente me machucasse toda. Mas infelizmente minha testa não teve a mesma sorte, já que ela colidiu em cheio com o peitoral do homem à minha frente. — Eu sinto muito — sussurrei, abrindo os olhos que eu tinha fechado de modo automático e ficando um tanto paralisada ao me deparar com ele. Alguns consideráveis centímetros mais alto que eu, o cabelo loiro e cacheado inconfundível e seus olhos de um azul profundo, tão profundo como uma pintura pincelada com maestria. A cada vez que eu o via, concluía como o mundo era injusto. — Olhe por onde anda, ou pode acabar matando alguém. — A voz dele soou rouca de uma maneira que eu já estava bastante acostumada, mas, mesmo assim, tive que evitar dar um salto por conta da surpresa de escutá-la, tentando me recuperar rapidamente para que ele não ganhasse motivo para me perturbar depois. Se controle, Melina! — Foi um acidente… — respondi, cruzando os braços defensivamente, contra o tom do rapaz. — Percebi — ele me interrompeu, tirando as mãos da minha cintura. Não pude deixar de arquear as sobrancelhas, sem acreditar que eu ainda me esforçava para tentar ser minimamente civilizada. Todas as vezes em que nos encontramos aquele garoto me olhou de um jeito que fazia parecer que eu tinha cometido um crime, além do tom grosseiro presente em sua voz constantemente. Tensionei a mandíbula, tentando ficar tranquila e não armar uma cena no meio do museu, porque eu ainda tinha que manter a classe, mesmo que estivesse lidando com Santiago. — Com licença — pedi, recebendo um olhar que se assemelhava ao desprezo. Soltei um suspiro, me desviando do rapaz e tentando com vigor ignorar o que quer que tivesse acabado de acontecer. Minha vida andava sendo muito mais fácil sem encontrar com ele. Me assustei ao sentir um cutucão no ombro, que fez eu me virar de imediato e ficar ainda mais acanhada ao ver que ele segurava um celular idêntico ao meu. Instintivamente coloquei a mão no bolso do casaco xadrez, mas não havia nada ali. Fechei os olhos, mortificada ao perceber que Santiago segurava meu celular, que provavelmente tinha caído quando havíamos nos esbarrado. Tem como isso ficar pior? — Acho que além de desastrada, também é meio distraída — falou, dando de ombros. Eu quis tanto xingar ele e arrancar o olhar presunçoso do meio daquele rosto perfeitinho, mas me controlei e apenas peguei o celular, querendo sair dali o mais rápido possível. Santiago, como sempre, não mostrou nenhuma expressão diferente e sem dizer nada, apenas desviou de mim e continuou andando. Maldito robô sem emoção! Revirei os olhos, o que eu queria ter feito assim que o idiota abriu a boca. Balancei a cabeça, e liguei meu celular, me assustando com o horário, já que estava quase na hora do jogo de basquete e eu não queria me atrasar. Então acabei mandando mensagem para o Theo antes de colocar o celular no bolso e seguir para o último corredor de exposições. Comecei a rir assim que entrei na conversa dele, porque Theo tinha mudado o nome de seu contato. Melina: Quem deixou você mudar seu nome? Melina: Prepara a carruagem que já deu meia-noite e a Cinderela tem que ir pro baile. Primo Mais Lindo: Esse nome passa mais verdade. Primo Mais Lindo: E eu virei fada madrinha agora, menina? Primo Mais Lindo: Acho que você tá falando do filme errado… Primo Mais Lindo: Desde quando a Fiona vira Cinderela? Se perdeu toda. Melina: Anda abusado, hein? Melina: Acho que vou ter que comer sozinha o bolo de chocolate que comprei pra você. Primo Mais Lindo: Não precisa exagerar, princesa linda do meu coração! Primo Mais Lindo: Já tô pegando as chaves. Primo Mais Lindo: Não se esqueça que eu te amo e você é a prima mais linda desse mundo. Melina: O que um bolo de chocolate não faz, né? Primo Mais Lindo: Infelizmente eu sou um neném que precisa de alimentos e cuidados. Melina: Ok, neném, vou esperar no portão 1. Primo Mais Lindo: Chego em dez CAPÍTULO 2 Sábado, 28 de agosto de 2021 “Eu me pergunto se estou sendo realista Eu falo o que eu penso ou eu filtro como me sinto? Eu me pergunto, não seria bom? Viver em um mundo que não é preto e branco?” — Wonder, Shawn Mendes Existiam dias em que eu me perguntava o que estava fazendo fora da cama, ou até mesmo acordado. A única coisa que eu desejava era desaparecer e isso era uma bosta. Eu sabia que minha casa nunca estava vazia, todos os dez empregados contratados pelo meu genitor passeando de um lado pelo outro me provavam isso, mas ainda assim, a solidão se alastrava em meu peito e eu me perguntava quando exatamente viver tinha se tornado sinônimo a uma infelicidade eterna. Não era novidade para ninguém que eu via o mundo de forma diferente, tudo parecia cinza e tedioso durante cada segundo de cada dia. E talvez se meu tom de voz irritado não fosse o bastante para demonstrar isso, minha expressão constante de tédio provavelmente era. Sentei em uma das poltronas pretas que ficavam próximas da entrada da casa, esperando sem muita paciência por David, meu primo, também conhecido como a criatura mais folgada já nascida. — Santiago, veio mesmo me buscar? — A voz de David ecoou pelo ambiente, me fazendo observar sua espécie de entrada dramática. Meu primo descia a escada do lado direito, fingindo estar em câmera lenta e jogando o cabelo castanho-claro para o lado. Foi um dos momentos em que mais me questionei porque eu ainda me esforçava para levantar dos meus lençóis quentinhos. — Não, é só um delírio da sua cabeça — retruquei, me levantando de supetão e soltando um suspiro cansado. Ele terminou de descer as escadas, parando na minha frente e me encarando com aqueles olhos exageradamente verdes, que se estreitavam levemente. — Onde está a Ana? — perguntou, enquanto desviava os olhos do meu rosto para olhar o cômodo, em busca de sua irmã. — Se eu me atrasar, o treinador vai me fritar e não posso decepcionar todas as gatas que vão estar lá para me ver. Revirei tantos os olhos, que cogitei seriamente que a qualquer momento eles saltariam para fora do meu rosto e senti a mesma irritação diária invadindo o meu corpo, como se por acaso eu fosse o guarda costas da minha prima para saber onde ela anda a cada hora do dia, pensei Talvez eu precisasse de terapia. — Como vou saber onde a sua irmã está, David? — questionei, cruzando os braços. — Talvez porque ela é sua prima? — Quase dezenove anos e vocês não param de brigar nunca? — Ana Carolina perguntou, me fazendo dar um pulinho pelo susto causado por sua presença repentina. — Vai ser assombração lá na puta que pariu, Carol — David falou, mostrando o dedo do meio para a irmã. — Cala a boca, David, vamos logo para esse jogo — a menina retrucou, revirando os olhos na direção de seu irmão. — Contra quem vão jogar mesmo? — perguntei, encarando meu primo, esperando que aquela tortura acabasse de uma vez e eu pudesse voltar para minha cama e dormir. — São Sebastião, para o desespero de todos os presentes. — Ah minha nossa, por que não me avisaram que seria uma guerra e não um jogo? — Ana dramatizou, se jogando na poltrona que eu estava sentado há poucos minutos. Encarei meus dois primos, tentando com afinco não sentir vontade de esganar eles. Qual era a dificuldade de parar de enrolação e ir direto para o carro? Infelizmente, nós não nos desgrudávamos desde pequenos e isso só ficou ainda mais intenso depois que meus tios e os dois se mudaram para a minha casa quando eu tinha dez anos. Mas não era como se eu não quisesse jogar eles — principalmente David — pela janela do segundo andar em praticamente todos os dias. — Não ia se atrasar? — questionei David, que arregalou os olhos quando viu que se continuasse com aquela conversa iria chegar emcima da hora no jogo. — Vamos logo, tenho que encontrar uma pessoa antes do jogo começar — meu primo falou e eu tive que me controlar, mais uma vez, para não revirar meus olhos. — Quem? — Ana perguntou, ficando em pé e olhando para o irmão severamente. Chegava a ser cômico a expressão brava da garota, considerando que ela tinha cerca de 1,50 de altura e parecia uma criança, mesmo já tendo dezessete anos. Seus cabelos crespos, volumosos e escuros estavam presos em um rabo de cavalo, os olhos castanhos se encontravam totalmente destacados pelos cílios enormes, que me fizeram questionar se ela tinha feito algum tipo de alongamento. E sua pele preta retinta estava tão absurdamente hidratada que chegava a brilhar com a luz do lustre bem acima de nós três. — Não é da sua conta, Ana Carolina — David pronunciou irritadiço. — Você é meu irmão e um puta de um irresponsável, óbvio que é da minha conta. — Minha prima cruzou os braços, cerrando os olhos e o rapaz a imitou. Tinha horas que aqueles dois eram tão absurdamente parecidos que eu me questionava se Ana era realmente adotada. — Preciso me encontrar com uma mina, sua imbecil — ele falou, chocando um total de zero pessoas já que, assim que disse que iria encontrar uma pessoa, eu e Ana já havíamos entendido o que David iria fazer. — Você e essas garotinhas… tenho pena delas. — Ana abaixou os braços, apenas direcionando uma careta de desaprovação para seu irmão. Talvez criticar cada movimento do meu primo fosse uma espécie de hobby para Carol, e eu não poderia negar que era meu também em certos dias. — Garotinha é você, nem saiu da adolescência ainda, toma vergonha — David reclamou, mostrando a língua como uma criança. — Para ver como as coisas estão feias para o seu lado, eu nem saí da adolescência e já sou mais responsável que você. — Calem a boca — pedi, suspirando raivosamente, cada vez mais impaciente. — Vamos nos atrasar e se eu escutar alguém reclamando de atrasos hoje, juro que não me responsabilizo por meus atos. — Ai que medo, você é tão assustador, Santiago — Ana debochou, levantando uma das sobrancelhas para mim e eu semicerrei meus olhos em sua direção. — Vai para a merda, Carol. Estou indo para o carro e vou ligar ele em dois minutos, se não estiverem lá, vocês vão andando para a porra do ginásio — respondi e sem esperar por eles, comecei a ir em direção ao lugar onde eu havia deixado o carro. David se encolheu levemente e pegou a mochila que estava jogada na outra poltrona, me seguindo em direção a porta preta e gigante da entrada, assim como a Ana, que andava de forma apressada, provavelmente para acompanhar os passos do irmão, fazendo o barulho dos saltos ecoarem pelo piso. O sentido de ir de salto para um ginásio? Eu realmente não sabia, mas não seria eu que começaria a cuidar do vestuário de uma adolescente. Rapidamente nós três estávamos no carro, partindo em direção a mais uma porra de jogo em que teria que ficar com a bunda doendo para mostrar apoio ao meu primo. ✽ ✽ ✽ Eu estava puto. Era algo nítido em meu rosto. Minha bunda realmente doía graças aquele banco desconfortável do ginásio, assim como eu já imaginava que aconteceria e ainda Ana Carolina tinha feito a gentileza de decidir ir embora mais cedo, para encontrar só Deus sabe quem. O time do meu colégio estava perdendo por dois pontos e faltava menos de cinco minutos para acabar a partida, o que significava que era o fim e teríamos que aguentar os imbecis do São Sebastião se gabando por longas semanas. Eu não era do tipo que comprava brigas, muito menos quando se tratava de disputas entre jogadores adolescentes e revoltados, mas o capitão do São Sebastião já tinha mexido com Ana e isso era uma coisa que eu nunca perdoaria. Tinham dias em que eu queria matá-la? Sim. Jogá-la em um rio porque não sabia nadar? Provavelmente. Arremessá-la de um carro em movimento? Sempre. Ou dar amendoim para ela comer considerando que era alérgica? Com certeza. Mas Carol ainda era como uma irmã mais nova e ninguém, além de mim e David, poderia fazer nada com ela. Me levantei de supetão para xingar mentalmente um dos jogadores que fez um passe ridículo e foi nesse momento, que acabei visualizando o que eu tentava constantemente ignorar. Aquele maldito cabelo castanho com sutis ondulações que eu conhecia bem até demais, a ponto que seria impossível não reconhecer, estava na arquibancada do outro lado, a uma distância considerável de mim. A observei com atenção enquanto falava alguma coisa com Nina, a melhor amiga, e quase consegui escutar aquela voz inconfundível e insuportável ecoando na minha cabeça. O apito, avisando que o jogo tinha terminado invadiu meus tímpanos, fazendo com que a atenção que eu tinha direcionado para ela fosse interrompida e eu focasse na expressão irritada de David, que parecia prestes a socar o ar, enquanto os treinadores saiam da quadra por qualquer motivo que fosse. Dois dos jogadores do time do meu colégio se aproximaram do meu primo, que era o capitão, fazendo algum comentário que não consegui escutar e rapidamente começando a olhar na direção da arquibancada do outro lado. Isso foi o suficiente para que Nicolas, o capitão brutamontes do São Sebastião se aproximasse, falando alguma coisa que deixou David vermelho, me surpreendendo, já que meu primo, embora debochado, costumava ser quase calmo. Isso claro, se não o provocasse, ou não fosse um de seus dias ruins, porque se fosse o caso, o rapaz era como uma bomba. — REPETE ISSO E EU JURO QUE ARREBENTO ESSA SUA CARA — David gritou, erguendo o dedo na direção do Nicolas e isso foi o suficiente para iniciar uma espécie de guerra no ginásio. Consegui ver Melina pulando a grade da arquibancada, acompanhada da Nina, e correndo na direção dos dois capitães descontrolados, mas minha visão se limitou a isso quando uma enorme aglomeração se formou em volta do meu primo e Nicolas. Comecei a descer tranquilamente os degraus, andando até a porta da arquibancada, porque eu me recusava a sujar meu casaco pulando aquele negócio apenas para livrar meu primo de mais uma das suas confusões. Demorei alguns minutos para chegar no lugar que eles estavam e David tinha desaparecido. O único rastro daquela briga era a Melina, segurando o rosto do Nicolas de maneira próxima demais, o que me obrigou a lembrar que eles namoravam e como isso era o ponto-chave de todo o ranço que eu sentia por ela. Era simplesmente impossível alguém decente ser próximo daquele bosta. Quando Melina o soltou, consegui escutar o rapaz dizer: — Me desculpa, Mattos. Não entendi o que ela respondeu depois de abraçá-lo, mas foi o bastante para Nicolas sair da quadra, em direção ao vestiário. A encarei de costas por alguns segundos, ficando um pouco enojado pela situação que tinha acabado de presenciar. Talvez por isso, eu tenha acabado soando ainda mais grosso quando perguntei: — Onde está o David? Acabei recebendo um olhar franzido e avaliativo em minha direção, conforme me fitava de cima a baixo e eu precisei prender a respiração para manter minha expressão indiferente, que normalmente era extremamente fácil e natural, mas que naquele momento parecia ser impossível por tanta irritação que eu sentia. CAPÍTULO 3 Sábado, 28 de agosto de 2021 Deveria agradecer aos céus por Theo ser tão paciente, já que tinha me deixado no ginásio sem nem ao menos questionar alguma coisa e ainda informando que se precisasse, ele me buscaria novamente. Mesmo temendo pela minha vida quando estávamos no carro, era ótimo ter uma espécie de motorista. Comecei a descer as escadas da arquibancada, procurando por minha melhor amiga que, provavelmente, já tinha chegado, considerando toda sua pontualidade. O que, com certeza, não era uma qualidade que eu possuía, levando em consideração meu superpoder de me atrasar em praticamente todos os compromissos que eu tinha. — Melina! — Nina gritou e eu sorri ao avistar seus longos cabelos castanhos e cacheados na primeira fileira da arquibancada. Andei até ela, lhe dando um abraço rápido assim que a alcancei.Nina usava uma blusa azul que combinava absurdamente com sua pele preta em um tom amendoado. — Você quase perdeu o começo do jogo, amiga — Nina me avisou, cruzando os braços e curvando os lábios cheios e pontiagudos em uma espécie de careta de reprovação. — Eu sei, por sorte o Theo foi me buscar. — Seu primo está na cidade? — A jovem começou a olhar em volta com curiosidade e interesse, provavelmente procurando por Theo. Levantei as sobrancelhas e dei uma risada de escárnio. Theo arrasava corações por onde passava, coitado. Não havia dúvidas que em algum lugar tinham criado um grupo, onde fofocavam sobre ele em mensagens de texto. — Toma vergonha, meu primo é sete anos mais velho que a gente — falei, mas meu tom bem-humorado estragou qualquer repreensão que pretendia dar. — Melina, olhar não exige idade, não é minha culpa se você tem um primo gato. — Nina levantou as mãos em sinal de rendição enquanto se defendia. — Gato e com o coração comprometido, pare de gracinha — a lembrei e ela fez um beicinho como se aquela notícia a deixasse triste, o que eu sabia que era brincadeira. Antes que Nina pudesse me responder, os gritos vindos de algumas garotas do outro lado da arquibancada ecoaram pelo ginásio, nos informando que os jogadores estavam chegando. Aquele era um dos jogos de basquete mais esperados dos últimos meses, nosso colégio contra o Santana. Aqueles riquinhos mimados estavam merecendo serem totalmente acabados pelo nosso time. O ódio entre os dois colégios era tão claro, que o ginásio estava lotado, mesmo sendo um sábado e adolescentes terem coisas muito mais interessantes para fazer no fim de semana do que assistir a um jogo. Mas basquete e vôlei eram tão importantes em Vila dos Anjos que acabavam ganhando até mais destaque que o futebol, o que chamava a atenção até mesmo dos jovens. Vários jogadores daqui já tinham ido para nacionais e coisas do tipo, então isso acabava aumentando ainda mais a rivalidade entre nossas escolas. O primeiro time entrando era o do colégio Santana, o que explicava o motivo de ser a arquibancada do outro lado gritando, considerando que nós tínhamos que ficar separados. Quando deixavam as torcidas rivais se juntarem nunca terminava bem, pelo simples fato de que somos competitivos. Observei com uma expressão de desgosto quando os atletas entravam na quadra, ansiando pela hora em que aquele momento acabaria e seria a vez dos jogadores do meu colégio. Não demorou para isso acontecer e os gritos da nossa torcida que, sem querer me gabar, com toda certeza foram muito mais altos do que os da equipe adversária, ecoaram na quadra. Assisti com gosto quando as pessoas do outro lado nos olhavam com raiva. Acenei de forma animada assim que vi Nicolas entrando e ele sorriu para mim, me mandando um beijo que eu fingi pegar no ar. — Vocês são tão… Ridículos, juro que não entendo o motivo de terem terminado — Nina falou, ganhando minha atenção. — Principalmente se considerarmos que vocês ainda se tratam como namorados, só não se beijam. Pelo menos até onde eu saiba. Não segurei uma risada, balançando a cabeça em negação. Eu e Nicolas namoramos por aproximadamente uns cinco meses, mas percebemos que realmente não daria certo entre nós e, por conta disso, acabamos terminando há duas semanas. Mas mesmo assim, continuamos amigos, já que éramos antes e parecia simplesmente errado nos afastarmos só por termos dado uns beijos e transado. — Eu e ele não damos certo como qualquer coisa além de amigos, foi burrice pensar diferente — respondi, dando de ombros. — Então pare de iludir o coitado, na cabeça dele vocês ainda vão casar e ter filhos. — Claro que sim. — Soltei uma risada sarcástica, que fez Nina saber que eu não acreditava naquilo. — Eu não o iludo. Minha amiga balançou a cabeça e um apito soou pela quadra, sinalizando que o jogo tinha começado, então acabei decidindo focar minha atenção totalmente nos rapazes. ✽ ✽ ✽ Assim que o jogo acabou, foi possível sentir todo o clima pesado invadindo o ginásio. Nosso time só ganhou por dois pontos, mas foi o suficiente para aumentar o ego dos jogadores em um nível extremamente absurdo. Os jogadores estavam organizando suas coisas para deixar o ginásio quando eu pude ver de maneira privilegiada Nicolas decidindo fazer algum tipo de comentário, irritando o capitão do Santana, David, e fazendo o rapaz olhar meu melhor amigo de uma maneira extremamente ameaçadora. David costumava ser até calmo, um verdadeiro exemplo de capitão — o que, mesmo amando muito Nicolas, não poderia dizer que ele era, considerando todos os problemas de raiva — e nunca se deixava levar pelas provocações do nosso time. Mas de alguma forma, que eu não consegui escutar, Nicolas acertou qual era o ponto fraco do capitão e o irritou tanto que o rapaz de pele branca ficou tão vermelho quanto um tomate. — REPETE ISSO E EU JURO QUE ARREBENTO ESSA SUA CARA — David gritou, apontando o dedo na frente do rosto de Nicolas. Grande erro, foi o que passou imediatamente na minha cabeça, já sabendo que ia dar ruim e me preparando para a merda acontecer. Nicolas cerrou o punho e foi questão de um segundo para estar levantando o braço, não me dando tempo de impedir, mesmo já saindo do meu lugar de imediato para tentar pará-lo, seguida por Nina. O punho do meu melhor amigo acertou o rostinho perfeito de playboy de David, deixando uma marca considerável e um pouco de sangue escorrendo do lábio dele. O capitão do Santana inclinou a cabeça de lado, lançando um olhar debochado na direção de Nicolas, antes de o socar de volta. Aquilo foi o suficiente para iniciar uma espécie de disputa de força entre os jogadores. E para o nosso azar, os treinadores tinham saído para resolver alguma coisa, nos deixando completamente sozinhos no meio daquela bagunça. Nina e eu pulamos a grade que dividia a arquibancada da quadra e rapidamente corremos na direção de Nicolas. Se eles parassem, todos parariam, ou pelo menos era o que eu queria acreditar. Embora a briga fosse o menor dos nossos problemas, considerando que o soco que Nicolas deu em David, mesmo que revidado, provavelmente causaria a suspensão do nosso capitão. — NICOLAS! — gritei assim que cheguei perto para que ele me escutasse. Notei quando olhou na minha direção, mas decidiu me ignorar e continuar socando David. — NICOLAS! — Nina fez o mesmo que eu, tomando a iniciativa de se aproximar. A acompanhei, começando a tentar segurar o braço de Nicolas, mas era um pouco difícil considerando a nossa diferença de altura e porte físico. Eles eram não só mais altos, mas também muito mais musculosos do que eu. Nina decidiu ir para o outro lado, tentando parar David enquanto eu tentava minhas chances com meu amigo. Assim que Nicolas hesitou por um instante, eu consegui segurar seu braço, entrando na frente dos dois e fazendo o rapaz, que tinha um semblante descontrolado, parecer relaxar um pouco. Antes que eu notasse, Nina já estava tirando David dali, o levando para algum lugar que eu não fazia nem ideia de qual seria e muito menos o motivo, mas eu não poderia parar para pensar naquilo, precisava focar em Nicolas, antes que ele fosse atrás do garoto e desse a louca novamente. — Ei — chamei, colocando as mãos no rosto dele. Ele tentou se desvencilhar do meu toque, mas segurei seu rosto mais forte com medo de que fizesse alguma besteira. E olhando firmemente em seus olhos, falei: — Calma Nicolas, não vale a pena. O rapaz respirou fundo tentando se acalmar. Ele fechou os olhos com força e em seguida me olhou profundamente. Soltei um suspiro aliviado ao ver que havia se acalmado o suficiente para não socar a cara do adversário. Soltei seu rosto lentamente e desviei a atenção de seu olhar penetrante. — Me desculpa, Mattos. Ele tinha me chamado pelo sobrenome, o que com toda certeza queria dizer que estava absurdamente arrependido e foi suficiente para eu o abraçar, sentindo as batidas descompassadas do coração dele — provavelmente pelo estresse — relaxarem. — Vai para o vestiário, se te pegarem aqui no meio daconfusão vai levar uma suspensão — falei para Nicolas quando o soltei e o rapaz rapidamente concordou, começando a andar para fora da quadra. — Onde está o David? — Uma voz em tom grosseiro estranhamente familiar soou logo atrás de mim. Assim que me virei, fiquei com o cenho franzido por me deparar com Santiago. Os garotos em volta estavam parando de brigar, cansados e roxos demais para continuar com aquele circo. Eles começaram a andar em direção ao vestiário também, mas Santiago me encarava daquela mesma maneira de mais cedo, como se eu fosse um inseto. As íris azuis focadas em minha direção, como duas pedras de gelo, tão frias que eu poderia jurar que um arrepio subiu pela minha espinha enquanto aquele rapaz me fitava. Ele não fazia parte dos jogadores, o que se eu não soubesse acabaria sendo bem notável já que Santiago continuava com a mesma roupa de mais cedo, uma calça escura, um moletom branco e um sobretudo preto por cima, que o fazia parecer saído diretamente de algum filme. — Como eu vou saber? — questionei, cruzando os braços e o fitando desafiadoramente, sem me dar o trabalho de soar agradável. — Talvez porque seu namoradinho tenha começado a briga e metido um soco no rosto dele — respondeu em tom igualmente desafiador que me fez semicerrar os olhos em resposta. — Bom, suponho que David seja grandinho o suficiente para cuidar de si mesmo e não precisa que eu, uma pessoa que ele nem mesmo conhece tão bem, monitore sua vida e saiba onde está — falei ríspida, pronta para desviar dele e sair andando, mas Santiago entrou na minha frente assim que eu dei um passo para o lado. — Com licença — disse, esperando que ele saísse da frente, o que não aconteceu. Sério, esse garoto só pode estar brincando comigo. — Eu vi você e a Nina se aproximando dos dois, para onde ele foi? — Novamente grosseiro, de uma forma que fazia meu sangue ferver, já sentia minhas bochechas aderirem a um tom vermelho, algo que sempre acontecia quando estava com raiva. Era palhaçada um cara tão idiota ser bonito, o mundo definitivamente era injusto. — Olha aqui, não tenho obrigação nenhuma com você, nem com o David, só fui separar para diminuir os problemas, não sou obrigada a aguentar você dando uma de doido e me cobrando, ou sei lá. — Para alguém distraída, foi bem rápida se livrando do David para seu namorado não levar a culpa. Aquele idiota realmente estava me acusando de me “livrar” do capitão fresquinho do Santana? Foi o suficiente para eu perder a pouca paciência que me restava e — como Theo costumava dizer — dar uma de Ariella. — Vai se foder, eu não fiz bosta nenhuma. Se os dois arrumaram uma briga, ambos mereciam uma merda de suspensão, agora se o seu capitão saiu correndo como a porra de um covarde para nada acontecer com ele, eu não tenho nada a ver com isso. Só tentei diminuir o problema, cacete. Eu sabia que estava sendo hipócrita, principalmente considerando que as chances de Nina ter arrastado David para o convencer de não se queixar de Nicolas eram gigantes, e também o fato que mandei meu melhor amigo sair dali. — Uau — o rapaz resmungou, cerrando levemente os olhos e me encarando. — Parece que alguém tem uma boca suja. — Eu vou te mostrar a boca suja… — Apontei o dedo na direção dele, mas fui rapidamente interrompida, já que Santiago segurou meu braço com certa delicadeza que me surpreendeu, considerando que ele era um idiota. — Não gosto que apontem o dedo na minha cara — falou, me encarando de maneira intensa. Ah sinceramente, o que ele estava querendo? — E eu não gosto de quem age como um babaca — rebati, a irritação correndo livremente em minhas veias enquanto o garoto ainda encarava meus olhos, como se estivéssemos em algum concurso para ver quem cederia primeiro. Vendo que sua mão ainda segurava delicadamente meu braço, o balancei de forma brusca, fazendo ele me soltar na mesma hora. — Precisa aprender a controlar sua raiva, raio de sol — ele disse, colocando suas mãos nos bolsos da frente de sua calça. Simplesmente odiava quando Santiago me chamava daquele jeito, porque eu sabia bem que fazia aquilo apenas para me provocar. Já teve uma época que eu não conseguia entender como praticamente todas as vezes que nos víamos acabava da mesma forma: nós dois discutindo, mas considerando tudo… meio que fazia total sentido. — E você sua grosseria e esse arzinho superior. — Levantei a cabeça de maneira desafiadora. Ele deu uma risada, não do tipo sincera, ou que mostrasse os dentes, mais como um risinho debochado. — Só perguntei onde o David está. — Deu de ombros, fazendo uma mecha de seu cabelo loiro cair em seu rosto. — De maneira grossa, e logo começou a me acusar de coisas sem sentido. — Se ficou tão ofendida, talvez tenham sentido. — Aquele olhar, a merda do olhar superior tinha voltado, me deixando ainda mais irritada. Se existia alguém naquele mundo que eu conseguia sentir um completo desgosto, esse alguém era Santiago. — Vai se foder — falei de forma ríspida. — Olha a boca suja voltando — rebateu, encarando meus lábios, como se ainda conseguisse ver as palavras saindo de minha boca. — Como você consegue ser tão insuportável? — É um dom natural — ele respondeu, dando de ombros e cruzando os braços. Revirei os olhos com raiva. Realmente era. — Notei, por que não vai procurar o David e me deixa em paz? — perguntei, apontando para o resto do ginásio. — Não é como se essa conversa fosse resultar em algo. — É a primeira coisa sensata que escuto saindo da sua boca em meses — Santiago falou, olhando em volta e me encarando mais uma vez. — Então vai — eu disse, acenando com a mão e dando um sorriso cínico, que o fez dilatar as narinas. — Foi um prazer te encontrar, Santiago. — Gostaria de dizer o mesmo. — É só fazer que nem eu… — respondi docemente. — Mentir. Sem esperar que ele respondesse revirei os olhos e lhe dei as costas, antes de ir em direção ao vestiário para procurar Nicolas. Esperei na porta com os braços cruzados, irritada com todos os acontecimentos. Brava por Nicolas ter causado aquela briga, com raiva daquele idiota que saia falando o que lhe dava na telha e raiva de mim mesma por ainda continuar sempre indo limpar a bagunça do meu melhor amigo e, no final, acabar sobrando para mim. — Oi, Lina — Nicolas falou, assim que saiu do vestiário e olhou para mim. Minha respiração saiu entrecortada com o choque. Seu rosto, de pele preta em um tom amendoado extremamente parecido com o de Nina, agora estava colorido com diversos roxos, que eu sabia que demorariam dias para sair. Não queria nem imaginar quão machucado David tinha saído daquela briga. Ele passou a mão pelo cabelo raspado, como se aquilo pudesse demonstrar que sentia certa culpa. Às vezes me dava raiva por Nicolas ser tão absurdamente gato e irresponsável na mesma medida. — No que estava pensando? — perguntei, cruzando os braços. — Já tínhamos ganhado deles, não precisava começar uma briga. — Melina, eu tive meus motivos, não iria começar uma briga do nada — respondeu, me fazendo parar um minuto para analisá-lo. — Meio que é a sua cara começar do nada, mas vamos lá então, por favor, me diga os motivos, Nicolas. — Escutei o David e os outros dois caras falando de você. Aquilo me fez franzir o cenho, o que diabos os jogadores do Santana poderiam estar falando de mim? — Falando o que exatamente? — questionei, sem tirar a postura séria, talvez por Nicolas ser muito maior que eu e manter aquela pose me deixasse com um ar mais confiante. — Ah, Lina… — Nicolas. — O encarei seriamente, mostrando que não iria deixar aquilo passar. Ficamos nos olhando por alguns minutos, até que meu amigo soltou um suspiro cansado e coçou a cabeça desviando o olhar para o chão, como se não conseguisse me encarar. — Porra, estavam falando que você é “gostosa demais e era uma pena ser do São Sebastião” — ele falou, fazendo aspas com os dedos. Aquilo só me deixou mais irritada. Não pelo comentário dos imbecis, mas por ser sempre a mesma história. O ciúme ridículo do Nicolas foi um dos motivos para eu concluirque nunca daríamos certo. — Quem liga para o que eles falam? É motivo para sair socando os outros? O que você falou para o capitão engomadinho? — Lina. — Nicolas — retruquei, olhando teimosamente para seus olhos castanhos. Mais uma vez me recusei a desviar o olhar, porque eu não iria sair de lá sem uma explicação. Eu costumava ser uma pessoa muito tranquila, mas aquele não era um dos meus bons-dias, então tudo estava me deixando absurdamente irritada. Afinal, também tinha direito de ficar mal. — Ele tem uma irmã, provoquei usando isso — ele disse, dando um suspiro cansado. — Cacete, Nicolas. Era um golpe baixo. Envolver família, em qualquer circunstância era ridículo e pela reação de David, eu até conseguia imaginar o que ele tinha dito. Suspirei e fiz um sinal para que Nicolas me seguisse, ainda tinha que dar carona para ele e encontrar a Nina. Para o meu alívio, pelo menos não precisei procurar, já que minha amiga estava andando em nossa direção, com um sorriso tranquilo no rosto. Nina parou em nossa frente, com seu nariz arrebitadinho demais, as sobrancelhas finas sendo complementadas por seus olhos fundos e castanhos, que faziam fofas dobrinhas na parte inferior, além de seu queixo pontudinho, que a deixava com um charme único. — David fez um grande estrago nesse rosto, hein — Nina falou, olhando para Nicolas. — Alguém chamou os treinadores, eles estão esperando por você — minha amiga terminou de explicar, dando espaço para Nick, que apenas suspirou e começou a andar na direção da quadra. Eu e Nina o seguimos, ficando apenas um pouco para trás quando ele chegou perto dos treinadores. David estava parado de frente para ele, com o olho esquerdo inchado, bem como o lado direito de sua boca. Pouco atrás dele, estava o idiota do Santiago, me encarando de braços cruzados, o que me fez o imitar, cerrando levemente os olhos em sua direção. — Quem começou a briga? — o treinador do Santana perguntou, olhando de Nicolas para David seguidas vezes, esperando uma resposta. — Foi uma briga coletiva, senhor — David respondeu, me deixando surpresa e ganhando minha atenção por um momento. Olhei na direção de Nina, que deu de ombros, mas eu sabia que ela tinha feito algo, principalmente considerando o sorrisinho que a garota provavelmente imaginava ser discreto estampado em seus lábios. — Como existe uma briga coletiva? — foi a vez de nosso treinador questionar, confuso. — Os dois times começaram a brigar ao mesmo tempo, ambos têm culpa igualmente — o capitão engomadinho explicou. Não sabia ao certo o motivo para darem aquele apelido para ele. Embora David fosse rico, como a maioria do colégio dele, ele não era exatamente engomadinho como os outros rapazes do Santana. Enquanto os outros — mesmo os jogadores — andavam de camisas e gravatas, ou então moletons de marca que custavam mais do que meu celular, ele estava sempre de jaqueta de couro ou regatas se estivesse quente, andando despretensiosamente, sem aquele ar superior e pilotando sua moto desde que tinha feito dezoito anos. Eu sabia demais daquele garoto, mas isso era culpa total de Nicolas que só reclamava de David há mais de dois anos. Porém, lá no fundo, bem no fundo mesmo — principalmente considerando que se alguém de fora do meu time de vôlei descobrisse eu estaria ferrada —, eu o achava charmoso. David tinha um ar de bad boy saído diretamente dos livros, de forma que podia mexer com o coração de uma garota só dando um sorriso e olhando em sua direção. — Isso está de acordo, Mendonça? — o homem perguntou para Nicolas, que balançou a cabeça positivamente. Ambos os treinadores se olharam, em seguida soltando um suspiro sincronizado. — Não vamos suspender vocês, mas se acontecer de novo, esqueçam sobre jogar profissionalmente no próximo ano — o treinador do Santana falou. Provavelmente eles já tinham combinado como resolver a situação para não ficarem sem o capitão de seu respectivo time. Ambos eram amigos, então não pareciam ter dificuldade para entrar em consenso. — Sim, senhor — Nick e David responderam ao mesmo tempo. — Liberados — nosso treinador avisou, fazendo um sinal para eles saírem. Nicolas veio em nossa direção e nós começamos a sair do ginásio, mas não antes de eu dar uma última olhada para trás, que me possibilitou visualizar Santiago me encarando. Minha vontade era despertar meu lado infantil e mostrar a língua, mas apenas virei para a frente e continuei andando com meus amigos, sentindo os olhos azuis atentos em minhas costas. CAPÍTULO 4 Sábado, 28 de agosto de 2021 Eu estava encostado na porta do carro, esperando sem muita paciência, David terminar de se despedir dos jogadores, que se encontravam em grande parte suados, roxos e sangrando por conta da briga ridícula de mais cedo. — Qual é priminho, por que essa cara de bunda? — meu primo perguntou, assim que se afastou do restante do time e chegou perto de mim, segurando uma bolsa de gelo em cima do hematoma do olho esquerdo, que com toda certeza ficaria horrível. Senti vontade de responder que deveria ser graças a dor que eu sentia lá, mas ignorei meu instinto debochado e questionei o que realmente importava. — Onde você se meteu quando a briga parou? — Tentei ignorar o quanto tinha ficado irritado com a Melina. Apenas queria saber onde tinham levado David e ela encarou aquilo como um tipo de ato de guerra, até mesmo tinha tido a coragem de apontar o dedo na minha cara. Era muita tortura ver aquela garota duas vezes no mesmo dia, e nos dois momentos seus olhos castanhos encararem os meus com um brilho de ingenuidade e irritação, que me deixaram completamente… irritado, como um olho poderia ser tão expressivo? Não podia ser possível. — Uma garota de cabelo cacheado me puxou, foi uma vibe meio aqueles filmes onde dizem tipo “venha comigo se quiser viver”. — A Nina? — questionei. David me olhou, franzindo levemente o cenho e mostrando uma espécie de careta de desaprovação para mim, que me deixou desorientado por um momento. — Não me diga que está pegando ela. — Porra, não David, não estou pegando ela. — Revirei os olhos diante da afirmação do meu primo. — Que alívio, se fosse o caso, teríamos que dividir ou algo do tipo. — Um sorriso quase malandro surgiu nos lábios dele, me deixando confuso. — Acho que estamos falando de garotas diferentes. Era a única resposta, considerando que eu estava pensando na melhor amiga da namorada do principal rival do meu primo, que pensei ter feito alguma coisa com David, justificando seu sumiço no meio daquele circo. — Não está falando da Nina, aquela bonitona do São Sebastião que saiu junto ao pavio curto e a gata da Melina? Gata? Aquilo era um pouco demais. Melina era sem noção e eu desgostava tanto dela de uma forma que nem sabia que era possível. Ela era um conjunto de coisas péssimas, voz doce demais, cabelo comprido demais, aqueles olhos exageradamente profundos e julgadores de uma forma que parecia que ela seria capaz de ler minha alma, além da boca, cacete, a boca dela ser tão… tão… ah, era como uma ofensa para alguém visivelmente insuportável. Quando estava quieta, ou não apontando dedos na minha cara, eu conseguia enxergar que ela era absurdamente gata, de uma forma até um pouco ridícula, mas não era mais o caso há alguns meses. — Santiago?! — David me chamou, me tirando daquela chuva de pensamentos. — Desculpa — resmunguei, balançando a cabeça, tentando dissipar a memória das íris castanhas brilhantes me encarando com uma raiva adorável, que só era ainda mais irritante. — Sim, eu estava falando dela. — Alguma coisa errada com ela? — ele perguntou e eu dei de ombros. — Ela é amiga do Nicolas e deve ter feito alguma lavagem cerebral em você, porque perdeu a oportunidade de denunciar ele para os treinadores. — Relaxa, ela só me levou na enfermaria e limpou meu machucado, nada de lavagem cerebral. — Já se conheciam? — Fiquei confuso por um momento, não me lembrava do meu primo ter mencionado a garota antes. — Não, só tinha visto de longe algumas vezes, prestava atenção porque você e a Melinasempre brigam. — David logo cerrou os olhos. — Por que tantas perguntas, Santiago? Costuma se interessar menos pelas minhas brigas. — No geral elas não me envolvem — rebati, dando de ombros indiferentemente. Meu primo me olhou sem entender, fazendo um sinal para que entrássemos no carro, que eu assenti. Abri a porta e sentando no banco do motorista, esperando que ele ocupasse seu lugar no carona. Assim que o fez, David passou a mão no assento de couro cor de café, e me olhou com uma expressão apreciativa em seu rosto. — Já disse o quanto acho esse carro um tesão? O tio mandou demais te dando ele. Me segurei para não revirar os olhos, qualquer menção ao meu genitor já era um tanto torturante, mas mencioná-lo fazendo um elogio conseguia ser ainda pior. — Bom, alguma coisa tem que fazer, não é? E sinceramente, eu não precisava de um carro tão chamativo, acabei de tirar a carteira, morro de medo de bater essa banheira. — Não é qualquer um que ganha um BMW assim que tira carteira, você foi privilegiado. — David deu de ombros, enquanto colocava uma garrafa no porta-copos. — Mas mudei totalmente de assunto. Por que exatamente essa briga te envolve? — Basicamente tive uma discussão com a Melina mais uma vez. — Seu rosto me veio à mente, assim que a mencionei, como se a imagem tivesse surgido das profundezas do inferno somente para me perturbar. — Você brigou com ela mais uma vez? Acho que você não consegue chegar perto de garotas bonitas sem arrumar treta. Poxa priminho, assim não dá para te defender. Fitei David com irritação, logo arrancando uma risada dele. Apenas suspirei, uma coisa que aprendi durante anos de convivência com meu primo era que quanto mais eu me importava com suas provocações, pior ficava, então liguei o carro e saí da vaga, com um medo exagerado de bater. Mesmo que quisesse dizer o contrário, o carro era muito bonito, de um branco brilhante, além de espaçoso, e batê-lo significaria precisar sair para consertá-lo, ou pior ainda, ter que comprar um novo e lidar com vendedores. Eu sabia que o carro tinha sensor, além da câmera, mas era caro demais para eu não pensar em ter o máximo de cuidado possível. — Por que brigou com a pobre garota? Ela saiu chorando? Terminei de sair da vaga, suspirando aliviado por aquele feito vitorioso e só pensei na pergunta do David quando já estava na rua, pronto para dirigir até em casa. — Fui perguntar onde você estava, pensei que tivesse se livrado de você para que não reclamasse do pavio curto. — Como exatamente ela teria se livrado de mim, Santiago? — David deu uma gargalhada, só então me fazendo refletir, de forma que me arrependi em um segundo, porque só de imaginar a garota com meu primo foi o suficiente para me causar uma onda de desgosto. David nunca perdia uma oportunidade de flertar com qualquer jovem, e pensar nele com a Melina… Nem mesmo aquele sem juízo merecia um destino tão cruel. — Você inventa cada coisa para brigar com ela, coitada. — Olha, não tenho nem ideia, mas no momento fiquei bem irritado. — Aposto que foi grosseiro, não é à toa que ela te odeia. O olhei de soslaio, logo focando a atenção no trânsito novamente. Não tinha realmente pensado sobre ter sido ou não grosseiro, apenas reagi da forma que o momento estava solicitando. — Não propositalmente, mas ela apontou o dedo na minha cara logo depois. Também me chamou de babaca e disse que eu tinha um arzinho superior. — Puta merda! — David gargalhou, em seguida mostrando uma careta, provavelmente por seu rosto ter doido, o fazendo lembrar de colocar o gelo. — Queria ter visto essa cena. As brigas de vocês são sempre cômicas. — De que lado está afinal? — questionei, levemente ofendido com a falta de apoio. — Em uma briga eu sempre fico do lado da mina gata, é inevitável. — Meu primo sorriu, me fazendo revirar os olhos, mesmo que nem um pouco surpreso com suas palavras. — Você é ridículo — falei, soltando um suspiro cansado por conta de toda aquela interação social, só querendo me trancar no meu quarto e dormir, ou ler um livro e esquecer da realidade por algumas horas, onde não haveria brigas desnecessárias, primos chatos e principalmente, jovens com olhos perturbadoramente profundos me deixando puto até a medula. — Faz parte do meu charme. — Nesse momento eu me perguntei como o ego do meu primo poderia caber dentro do meu carro. Dirigi o resto do caminho em silêncio, apenas aproveitando um momento tranquilo. ✽ ✽ ✽ Assim que chegamos em minha casa, eu entreguei a chave do carro para que Macedo, meu motorista, pudesse guardá-lo na garagem. David foi correndo para a cozinha para pedir de forma dramática para Agatha o ajudar com os seus ferimentos. Às vezes eu sentia pena da mulher, mesmo trabalhando com esforço na casa para deixar tudo em ordem, tinha dias em que o que realmente dava trabalho era o meu primo. — Senhor Santiago, desculpe incomodá-lo — Agatha falou assim que entrou na sala de estar, onde eu estava esparramado no sofá aproveitando o conforto do móvel contra minha bunda dolorida. Eu não sei o porquê eu ainda vou para esses jogos, considerando que só servem para me deixar descadeirado. Com o tempo, aquela casa tinha realmente se tornado o meu lar, já que eu morava lá desde pequeno e praticamente sozinho, considerando que minhas únicas companhias eram meus tios e meus primos, que se mudaram dali logo que fiz dezoito anos alguns meses atrás, tirando David, que decidiu ficar morando comigo. Meu genitor resolveu passar a casa para o meu nome, talvez só por não se importar com ela — e nem comigo — o suficiente. Eu não tinha ficado surpreso, considerando que Archibald tinha decidido voltar para a minha cidade natal, Manchester, na Inglaterra, quando eu ainda tinha dez anos. Se não fosse pelos meus tios, ficando bastante felizes por morar de graça naquela casa enorme, acredito que eu teria crescido de forma muito diferente. Mas o que importava era que atualmente a casa era totalmente minha, o que fez eu e meu primo redecorá-la quase que completamente. Por isso, a antiga sala de estar em estilo vitoriano, tinha se tornado praticamente uma sala de cinema, com uma televisão enorme cobrindo um terço da parede, um sofá que preenchia o outro lado completamente, um frigobar instalado no canto, além das luzes de led que brilhavam no chão e no gesso do teto. — Aconteceu alguma coisa, Agatha? — perguntei preocupado, soltando meu Kindle no braço do sofá e endireitando a postura enquanto olhava para a mulher, tentando descobrir o motivo para ela me procurar. — Acredito que o senhor Ross deveria ir ao médico, o olho dele está bastante inchado. Escutar aquele sobrenome fez uma parte minha estremecer. Eu não odiava meu suposto pai, nem nada do tipo, não mais, apenas deixei de me importar, tentando esquecer a sua existência medíocre, mas, ainda assim, falar dele era uma coisa que me deixava incomodado, mesmo que fosse apenas uma breve menção ao sobrenome que infelizmente eu e meus primos carregamos. — Não entendo como ele continua se metendo em briga, mas se acha que ir ao hospital é o ideal, vou levá-lo. — Não quer que eu solicite que o Macedo o leve, senhor Santiago? Parece cansado — Ela tinha um tom preocupado, que acabou me arrancando um sorriso leve e disfarçado. A mulher trabalhava na mansão desde que eu era pequeno e praticamente tinha me criado depois que meu pai foi embora, considerando que a minha tia ainda tinha mais dois filhos para cuidar e não possuía exatamente tempo para dar atenção a um quase órfão. — Peça para que ele prepare o carro, não quero dirigir, mas prefiro levar meu primo. — Como quiser, senhor Santiago — a mulher, que possuía os cabelos pretos presos em um coque alto e uma estatura baixa, que se comparada a minha altura, seria considerada menor ainda que de costume, falou, rapidamente saindo da sala e me deixando sozinho. A ideia de alguém que tinha idade para ser minha mãe me chamar de senhor era esquisita, mas mesmo eu pedindo inúmeras vezes para parar, Agatha nunca parou, então passei a apenas relevar. Suspirei pesadamente,pegando o Kindle para colocar no bolso, me levantando do sofá e descendo os dois degraus que separavam o lugar que eu mais apreciava ficar deitado — depois da minha cama — e o chão, logo calçando meu tênis branco e saindo da sala. Comecei a andar pelos corredores compridos e bem iluminados, demorando alguns minutos para chegar na cozinha, onde David estava com a cabeça deitada no balcão de forma dramática. — Vamos ao médico — eu disse sem cerimônia. David levantou o rosto, me olhando sério e em seguida soltando algum xingamento inaudível, que me fez respirar fundo, buscando a minha paciência interior, que sinceramente já não existia. — Não quero — David resmungou, como uma criança birrenta. — Não tem que querer, ninguém mandou se meter em briga, a Agatha está preocupada porque seu rosto inchou muito. — Inchou nada, ela se preocupa demais. — Cala a boca e vamos para o carro — eu disse, sem deixar espaço para reclamações. David xingou mais uma vez, se levantando todo estressado do banco e parando ao meu lado. Graças aos deuses ele já tinha tomado um banho e aquele fedor de suor tinha saído. Meu primo passou a mão por seus cabelos, mais escuros e mais curtos que o meu, além de lisos, que estavam molhados e bagunçados, algumas mechas caiam em seu olho que possuía uma coloração roxa em volta que ia ficando mais escura e inchada a cada segundo. Nós saímos pela porta dos fundos, porque seria bem mais rápido do que atravessar a casa inteira apenas para usar a porta da frente, e nos deparamos com Macedo nos aguardando, ao lado do Mercedes preto. Entramos no carro sem trocar nenhuma palavra, sabia que ele estava bravo por ser obrigado a ir ao médico, mas eu não me importava. ✽ ✽ ✽ Quando voltamos para o carro e nos sentamos no banco, David cruzou os braços, completamente irritado, mais até do que quando estávamos no caminho. — Eu disse que não precisava da porra de um médico, só serviu para eu virar quase uma múmia — ele reclamou, apontando para o próprio rosto, que estava coberto por curativos. Respirei fundo e controlei minha vontade de revirar os olhos. Eu não era exatamente um tipo de pessoa paciente e ter o meu primo me perturbando por basicamente cuidarem dele me deixava mais puto que o normal. — Pelo menos não quebrou nada para ter que passar por uma reconstrução facial ou algo do tipo, aposto que aí sim teria motivos para reclamar. — Eu já sou lindo demais, meu rosto é intocável, Santiago. Revirei os olhos e desviei o olhar para o lado de fora, observar a cidade parecia bem mais interessante do que suportar a merda do ego de David. ✽ ✽ ✽ Domingo, 29 de agosto de 2021 Domingo era o único dia da semana que eu não odiava. De segunda a sexta era obrigado a ir para o colégio, com um bando de adolescentes insuportáveis, o que me fazia ter raiva desses dias, mesmo que de tarde fosse até aceitável, já que eu ia para a academia de ballet. No sábado, constantemente precisava ir para algum jogo do David e embora suportasse meu primo o suficiente para nunca recusar, era irritante ter que aguentar os amigos dele e fingir apreciar qualquer tipo de contato humano. Por isso, os domingos eram excelentes, eu vivenciava alguns dos únicos momentos em que um sentimento de felicidade ficava presente, quando escutava a música e dançava, me entregando completamente a melodia e aos movimentos da coreografia. Eu amava o ballet contemporâneo e com toda certeza era a única coisa que me fazia sentir vivo. Se não fosse por isso, eu já teria entrado em estado de loucura há muito tempo. Por isso, o primeiro dia da semana era o que eu me trancava no estúdio de dança da minha casa e aproveitava para ensaiar sem ter ninguém para me incomodar. — Santiago — David cantarolou, parando no batente da porta e me fazendo o fitar. Isso, claro, quando meu primo não decidia me interromper. Olhei para ele, impaciente, esperando que desistisse ao notar minha irritação, mas como não aconteceu, eu suspirei. — Alexa, desligue a música — falei para a assistente virtual, que rapidamente interrompeu a melodia que tocava pela sala. Caminhei até o canto onde tinha deixado minha garrafa de água e a peguei para beber, aproveitando para usar a toalha e secar um pouco o rosto. — O que foi, David? — questionei, olhando na direção do meu primo. — Você só fica enfurnado nesse estúdio, vamos sair fazer alguma coisa — David pediu, entrando na sala. — Não, obrigado. — Qual é, Santiago, vai morrer se sair com seu primo um dia? A sensação era de que eu iria. Sair de casa parecia como um dos maiores castigos. Estava ótimo bem quieto em meu canto, com ar condicionado e sem pessoas me perturbando. — Vou, li em algum lugar que a convivência contínua com parentes irritantes mata. — Vai à merda. Toma um banho logo para sairmos. — Porra — xinguei, me dando por vencido já que conclui que não valeria a pena continuar tentando fazer David mudar de ideia. — Então eu escolho aonde vamos. — Fechado, te espero na sala. Fiz um sinal para que ele saísse e meu primo deixou meu estúdio, me fazendo suspirar de forma irritada, antes de me direcionar até a porta da lateral, que dava diretamente para o banheiro da minha suíte. Uma das vantagens de ter uma casa totalmente minha e um estúdio mais meu ainda, era poder deixar uma ligação direta com meu quarto, já que ninguém mais ficaria por ali. Claro que apenas na teoria. Entrei no banheiro e fui diretamente tomar um banho, ser obrigado a sair não estava na porra dos meus planos, mas quando se tratava dos meus primos, às vezes eu cedia um pouco demais. ✽ ✽ ✽ David estava quase colado ao meu lado, com uma expressão emburrada e os braços cruzados conforme andávamos. — Quando eu disse para sairmos, imaginei tomar um chopp, até um sorvete, sabe e não… vir aqui — meu primo falou, olhando em volta com certo desgosto. O fitei e em seguida a livraria onde estávamos, revirando os olhos com seu comentário. — Você me deixou escolher o lugar — eu afirmei, voltando a observar os livros nas estantes. — Agora lide com isso. — Não era como se eu estivesse com opções, mas não achei que fosse me arrastar para um antro de leitores e nerds. Não pude evitar mostrar uma careta, encarando David de forma reprovadora que o fez limpar a garganta. Desviei o olhar mais uma vez, prestando atenção no que eu realmente queria e finalmente encontrando o livro que eu procurava. Peguei ele de maneira ligeira, tentando escondê-lo do olhar curioso do meu primo e acelerando um pouco o passo para encontrar os outros que desejava. Porém, por culpa da pressa, esbarrei em alguém, derrubando o pobre livro. Me senti como a pior pessoa do mundo, derrubar um livro era doloroso, porque o risco de danificá-lo se tornava enorme. Comecei a me abaixar, pronto para pegá-lo, mas a pessoa que eu tinha esbarrado fez o mesmo, colidindo nossas cabeças e só então me fazendo olhá-la, o que verdadeiramente me surpreendeu, considerando que era a mesma doida que eu tive que ver no dia anterior. Ainda desastrada, ainda perturbadoramente bonita. Nos levantamos ao mesmo tempo, Melina com o livro em uma mão e esfregando a testa com a outra e eu apenas com o semblante fechado. A garota me fitou e foi como se o brilho sumisse de seu rosto, o sorriso discreto que estava ali se fechou e ela me olhou de forma irritada, antes de desviar a atenção para o livro em sua mão. Foi como, se por um segundo, a jovem quisesse sorrir, mas controlasse com afinco sua vontade. — Nunca imaginaria que você fosse do tipo romântico — ela falou, fazendo um bico enquanto erguia um pouco o livro, mostrando a capa para mim. — Não nos conhecemos o suficiente para você imaginar nada — respondi, soando bastante ríspido. A garota revirou os olhos. — Devo agradecer aos céus por isso. Talvez existisse algum tipo de reciprocidade da parte dela envolvendo a forma como eu me sentia completamente incomodado com a sua presença. Conseguia acreditar com convicção que nós dois éramos como polos opostos, atraindo um ao outro para um completo desastre. E continuar sendo indiferentecom ela bem ali, era difícil demais. — Acho que você se sairia bem como uma stalker, em todo lugar que vou, começou a aparecer — eu disse. — Se eu fosse stalkear alguém, com toda certeza não seria você, por mim nem veria essa sua cara bonitinha. — Então você admite que sou bonito? — provoquei, tendo que me esforçar para não permitir que ficasse nítido em meu rosto como tinha gostado daquilo. — Vai se foder! — ela exclamou. Emiti um som de reprovação, balançando levemente a cabeça em negação e inevitavelmente dando dois passos para frente, encarando os lábios dela, antes de dizer: — Que boca suja, senhorita Mattos. — Não me chame pelo meu sobrenome. — Melina cerrou os olhos para mim, passando a língua pela boca antes de morder o lábio inferior, me obrigando a engolir em seco. Antes de eu soltar alguma resposta ácida e divertida, Nina apareceu, me fazendo dar um passo para trás. — Encontrei a edição que eu queria, quase precisei bater em um garotinho, mas deu tudo certo — a garota falou, parando ao lado dela e interrompendo seja lá o que estivesse sendo discutido entre nós dois. — Oi, Nina — David disse com aquele tom de voz que eu só escutava quando ele estava flertando e normalmente me dava náusea. — David? — Ela fitou meu primo e então eu, só nesse momento nos percebendo ali no ambiente. — Ah, não tinha visto vocês. — Está lendo quadrinhos? — meu primo perguntou, olhando para a HQ na mão dela, que só dava para enxergar a parte de trás, onde o Asa Noturna estava desenhando. — Sim, eu adoro o Dick Grayson — a jovem respondeu, parecendo animada com o interesse de David. Já me preparei para o que estava por vir, desejando ser teletransportado para fora daquele lugar e evitar passar vergonha com meu primo. — O Arqueiro Verde é ótimo mesmo. — David sorriu e Nina franziu o cenho, soltando uma risada baixa. O encarei com um olhar totalmente reprovador, ele nem precisava ler HQs para saber que o Arqueiro Verde não era o Dick Grayson. — Acho que os curativos fizeram mal para o seu cérebro — a garota falou, dando um sorriso solidário. — Errei tudo? — Vem aqui. — Nina segurou o braço dele, o arrastando para algum canto e me largando sozinho com a presença da Melina Estava ocupado demais sentindo vergonha de ser parente de alguém que confundia o Dick com o Oliver para notar um cara apressado passando do nosso lado, de forma que quase derrubou a garota desastrada. Dei um passo para frente de maneira instintiva, não sabendo ao certo o que eu pretendia fazer caso Melina caísse. Deixá-la no chão era uma opção agradável demais para meu corpo cogitar automaticamente levanta-la. — Sinto muito — o homem falou, segurando o ombro dela. — Não tem problema — ela sorriu para ele que, assim que constatou que não havia a machucado, continuou seu caminho. Como aquela garota aguentava ser tão insuportavelmente adorável com todos? Não era possível alguém ter tanta simpatia sem ter algum tom de falsidade. Talvez isso fosse uma das coisas que me fizesse sentir irritação com sua presença, a forma como ela exalava a energia de alguém que apreciava a vida. Melina ajeitou o corpo, olhando para o livro que permanecia em sua mão e apontando o dedo para a capa. — Uma Dama Fora dos Padrões, esse da Julia Quinn eu ainda não li. Fiquei em silêncio, apenas observando como seus olhos deslizavam pela capa, sem desviar por um segundo. Se lia Julia Quinn, pelo menos tinha bom gosto, o que deveria ser o único ponto totalmente positivo sobre ela. — Pode devolver? — Quer tanto assim? — Melina esboçou um sorriso, que eu conseguia perceber que não era sincero. — É, eu quero. — Peguei seu frappuccino — um rapaz, que eu definitivamente nunca tinha visto falou, entregando um copo de café gelado para a senhorita desastre. Ele era um pouco mais alto que eu, parecia ser mais velho também e assim que olhou para mim, abriu um sorriso. — Não conheço seu amigo, priminha — o rapaz, aparentemente primo dela falou, apontando na minha direção. — Ou seria o Shrek da Fiona? A garota o fuzilou, de uma forma que realmente parecia que estava prestes a matar o homem, se assemelhava a maneira como ela me olhou alguns minutos antes e aquilo me fez dar um passo para trás. — Ah, ele realmente é um ogro — ela disse, revirando os olhos. Não tive tempo de associar o que eles estavam falando antes de ver meu primo voltando com Nina. — Entendeu agora? — a jovem perguntou. — Sinceramente, não. Por que existem mais de um? — David parecia prestes a chorar, ficando engraçado com aquela quantidade exagerada de curativo no rosto. — Bruce Wayne tem obsessão por adolescentes problemáticos. — Nina deu de ombros, sorrindo assim que olhou na direção do rapaz e pegou o outro café na mão dele. — Ah meu Deus, Theo, você realmente é um anjo, obrigada. Senhorita desastre a olhou com reprovação e Nina apenas riu para ela, fazendo um sinal de negação. Era por coisas assim que eu odiava sair de casa, se tivesse ficado no conforto do meu estúdio, nunca esbarraria com essas pessoas e não seria obrigado a tentar interpretar as reações de ninguém. — É sempre um prazer ter a companhia de moças tão bonitas — David começou a falar, fazendo uma pausa ao ver o tal Theo. — E rapazes também, mas precisamos ir embora. — Claro, um prazer — eu resmunguei, estendendo a mão para a garota, esperando que me desse o livro. — Parece que alguém aprendeu a mentir — Melina falou, o entregando para mim. Senti minha boca querendo se curvar em um sorriso, assim que me lembrei do dia anterior, mas não permiti que acontecesse, segurando mais uma vez a respiração para manter indiferença, saindo rapidamente de lá e caminhando com meu primo em direção ao caixa. Compraria o resto dos livros que eu queria online, era muito melhor do que ter que passar mais algum momento naquele lugar. — Achei que tinham brigado mais uma vez, não criado uma espécie de tensão nova — David falou, se aproximando de mim, com as mãos nos bolsos. — Que diabos foi aquilo ali? — Tensão? — perguntei confuso, levantando uma sobrancelha, nem entendendo ao certo sobre o que ele estava falando. — Que porra de tensão, David? — Começamos uma peça por aqui? — David deu um sorriso de canto, cerrando levemente os olhos. — Peça? — É, já peguei o papel da múmia e agora você faz a egípcia? — Ele riu, me fazendo ficar ainda mais sério e querendo socar sua cara. — Isso nem faz sentido, vai se foder — resmunguei, não lhe dando mais chance nenhuma de abrir a boca. CAPÍTULO 5 Segunda-feira, 30 de agosto de 2021 Eu já conseguia ver a quadra de onde estava, mas continuava me enrolando para ir até lá. Não sabia dizer o que parecia sempre estar me segurando, mas era quase como se um grande sinal de alerta me implorasse para apenas sair correndo. Mesmo me esforçando diariamente desde que eu fui liberada pelo médico, meus olhos se enchiam de lágrimas a cada passo que eu dava em direção àquele lugar quando o objetivo era participar de um treino. Antes que eu notasse, minhas pernas fizeram o trabalho sozinhas, me obrigando a ir até o banheiro, eu sentia o ar faltando em meu corpo e uma pressão horrível no peito. Abri a porta da cabine e me sentei no chão, pouco me importando se poderia ter alguma sujeira ali. Lágrimas embaçaram minha visão e a única coisa que desejei, em meio ao piso gelado e as paredes de azulejo, foi que toda a dor que eu sentia desaparecesse e talvez, que eu estivesse incluída no pacote de sumiço. Minhas mãos tremiam e eu sentia o suor começando a aparecer ali, como se a cada tentativa de recuperar o fôlego aumentasse a quantidade de umidade em minha palma. — Mel? — A voz de Nina ecoou pelo banheiro e a jovem rapidamente abriu a porta da cabine que eu estava, me olhando de forma tão preocupada que fez minha vontade de sumir aumentar. Não consegui responder, nem pedir para ela sair dali, apenas continuei chorando e com falta de ar. — Ah, meu Deus, as crises voltaram? — Nina se abaixou junto comigo, me tomando em um abraço. — Desculpa, não precisa responder, estou aqui por você. Ela seafastou um pouco, assim que percebeu minha dificuldade para respirar e começou a pedir para que eu inspirasse e expirasse. Depois de algum tempo, meu peito parou de doer e a respiração voltou ao normal, embora eu ainda chorasse, mais por vergonha do que realmente por dor. Minha melhor amiga percebeu isso e me abraçou, tentando trazer algum tipo de conforto em meio ao meu mar de desespero. Longos minutos depois eu parei de chorar, fazendo Nina se afastar, antes de inclinar um pouco a cabeça para o lado e estreitar levemente os olhos. Não estávamos em uma situação nem um pouco interessante. — Quer falar sobre isso? — ela perguntou, com aquelas íris castanhas observando cada movimento meu. — Eu estou bem — menti, forçando um sorriso. — Melina. — Nina, eu só não estou em um bom dia, mas logo volto a ficar cem por cento — falei, mostrando uma positividade que eu já não tinha de verdade. — Vamos almoçar no shopping então? Isso costuma te animar. — Eu queria muito dizer que não, apenas ir para minha casa e aproveitar a solidão do meu quarto escutando música e fingindo que ainda sabia dançar como quando tinha quinze anos, mas ver a expressão pidona da minha melhor amiga foi o suficiente para eu ignorar meus instintos de me isolar do mundo e balançar a cabeça positivamente para sua proposta. — Oba! Podemos aproveitar e fazer umas comprinhas, você nem pegou o livro que queria ontem. — Acabei esquecendo por culpa daqueles dois — resmunguei, me lembrando do encontro estranho do dia anterior. Esbarrar em uma pessoa uma vez era um acaso, mas três vezes em uma questão de dois dias tinha se tornado demais para meu cérebro processar. Não sabia se aguentaria mais um encontro ao acaso que fosse, porque ver a cara daquele idiota do Santiago estava acabando com a sanidade mental que eu já não possuía há tempos. Nina apenas riu do meu comentário, se levantando e oferecendo as mãos para que eu me levantasse também. Soltei um suspiro cansado e aceitei sua ajuda, andando até a pia para lavar o rosto e observar, no reflexo do espelho. Era nítido o quão cansada eu estava. Existiam dias em que eu sentia como se a vida aos poucos me deixasse e eu precisava tirar lá do fundo uma falsa animação para fingir que não estava totalmente acabada. Por quatro meses depois daquele dia tive que tomar antidepressivos, mas eles me deixavam ainda pior e a ideia de depender daquilo era assustadora, o que me obrigou a passar a fingir que eu estava melhorando. Durante o dia, quase morria de tanto esforço para permanecer com o teatro, fazendo acreditarem que eu estava bem e de noite… apenas deitava e chorava como se o mundo estivesse desabando, porque o meu, de fato, estava. Atualmente as coisas tinham melhorado um pouco, talvez quase dois anos para lidar com um trauma fizesse isso, mas ainda existiam dias ruins, dias em que eu queria desaparecer, dias em que mal conseguia levantar da cama e dias em que tudo que eu queria era me afundar em algum lugar até deixar de existir. Peguei a bolsa com maquiagem que estava em minha mochila e arrumei a parte do meu rosto que tinha borrado. Assim que terminei, afastei qualquer outro pensamento e caminhei até o lado de Nina, saindo do banheiro e dando de cara com Nicolas encostado em uma das colunas brancas que ficavam de frente para a porta. Ele parecia irritado, segurando o celular com uma firmeza fora do comum, como se fosse fazer algum tipo de declaração que mudaria tudo, mas sua postura mudou completamente quando nossos olhares se encontraram, talvez ele tivesse percebido que não era o momento ideal para dizer seja lá o que queria inicialmente. — Você está bem, Mattos? — ele perguntou, limpando a garganta conforme se aproximava. — Sim, só me senti um pouco mal, mas a Nina me ajudou — falei, tentando acabar com os questionamentos o mais rápido possível. Uma parte minha ainda estava um pouco decepcionada por Nick ter provocado o time do Santana no jogo de sábado, mas, ao mesmo tempo, também entendia que nossos rivais não eram exatamente anjos. — Tem certeza? — Nicolas tinha o tom de quando estava praticamente forçando a barra, mas preferi focar na parte em que aquilo era graças a sua preocupação comigo. — Absoluta. — Forcei mais um sorriso, inclinando um pouco meu corpo, como se estivesse prestes a apenas sair correndo. — Nós estamos indo almoçar, quer ir junto? — Na verdade, preciso ir para a quadra, o treinador quer que os jogadores fiquem mais unidos, então estamos sendo obrigados a ver os treinos do vôlei masculino essa semana. Balancei a cabeça em afirmação, lembrando que tinha apagado aquela informação, considerando que eu estava indo para lá pelo mesmo motivo, já que todas as jogadoras do vôlei feminino também tinham que estar presentes e embora eu não jogasse há mais de um ano, minha presença tinha sido requisitada por acreditarem que voltaria em breve. — Você não tinha que ir também? — Nicolas questionou, franzindo o cenho, de forma que suas sobrancelhas grossas ficavam quase unidas e o deixava bonito demais para alguém com uma expressão tão séria. — Ela ia, mas hoje está tão quente que a pressão caiu — Nina falou, abanando o próprio rosto e em seguida o meu. — Avisa a treinadora do time que assim que estiver melhor ela aparece. Agora nós vamos embora, porque se não, chegamos tarde no shopping, o que também faz voltarmos tarde e o tio Heitor não vai ficar nada feliz. Controlei a vontade de sorrir e apenas balancei a cabeça em concordância, ficando na ponta do pé para dar um beijo na bochecha de Nicolas e rapidamente me despedindo. Nina fez o mesmo, para não dar tempo de nosso melhor amigo questionar nada. E assim, finalmente começamos a andar pela rua. Deveria agradecer aos céus por estudar em um colégio tão perto de tantas coisas, o que incluía um dos maiores shoppings de Vila dos Anjos, que ficava a apenas quinze minutos de distância andando. Eu e Nina caminhamos em silêncio, e eu sabia bem que isso só estava acontecendo porque minha melhor amiga tentava respeitar meu espaço, mas não saberia dizer se era realmente bom ficar sem dizer ou escutar uma única palavra. Logo estávamos de frente para o Shopping Angeles, subindo as enormes escadas brancas da entrada com portas de vidro e finalmente entrando. Fiquei surpresa pela quantidade de gente, considerando que era uma segunda-feira, mas, provavelmente deveria ser graças ao horário de almoço e ao fato de que existiam mais alguns colégios próximos, fora o meu. — O que quer almoçar? — Nina perguntou, me surpreendendo pela quebra do silêncio quase eterno. — Qualquer coisa considerada não-saudável? — sugeri, arrancando uma risadinha da minha melhor amiga, que rapidamente jogou os fios encaracolados de seu cabelo castanho para trás, em seguida enganchando seu braço ao meu. Andamos pelo corredor de pisos brancos, subindo uma das escadas rolantes que levava até o segundo andar do shopping, saindo bem em frente da livraria, que me trouxe lembranças do dia anterior. Eu estava preparada para subir a próxima escada, quando cachos loiros e arrumadinhos invadiram meu campo de visão e olhos azuis me encararam de forma que eu não saberia definir, parecia até mesmo com raiva. Mais do que o normal. O rapaz andou em minha direção com uma determinação que quase fez com que eu me encolhesse. Precisei olhar um pouco para cima quando ele parou exageradamente perto de mim. David chegou segundos depois, parecendo tão confuso quanto eu e acenando discretamente para Nina, que acenou de volta. — Eu e você não vai rolar — Santiago falou em um tom ácido, inclinando um pouco o corpo na minha direção. Meu rosto que estava até tranquilo foi moldado por uma expressão absurdamente confusa e questionadora. — Decidiu sair por aí dizendo fatos? — perguntei, cruzando os braços. — Não se faça de desentendida. — Ele cerrou mais os olhos e foi como se estivesse prestes a se aproximar mais. — Querido, eu nem sonharia com isso — eu disse, levantando uma das sobrancelhas. — Sonhar comigo seria um privilégio para você. — Santiago quase sorriue a breve menção de um sorriso em seu rosto, me fez perder o ar por um segundo de tanta irritação. — No caso, seria um pesadelo. — Eu não teria tanta certeza disso. — Ele curvou levemente os lábios, me fazendo ficar confusa se estava com uma expressão sarcástica, ou apenas raivosa. O encarei com tanta seriedade que foi como se o ar tivesse ficado pesado, nenhum de nós dois nem piscávamos e era quase como se estivéssemos iniciando algum tipo de brincadeira, ou desafio. — Acha que não saquei o seu jogo, Mattos? — Meu sobrenome saiu demoradamente de seus lábios, como se ele estivesse me provocando ao dizê-lo e soubesse que aquilo iria me irritar. — Que jogo? Enruguei o nariz de forma irritada e — pelo menos na minha cabeça — completamente ameaçadora. — Não sou do tipo que vai atrás só porque uma coisa é difícil. Minha expressão se fechou ainda mais com seu comentário, não conseguia entender do que diabos ele estava falando, mas esbocei o sorriso mais debochado que consegui, antes de exclamar: — Meu querido, para você eu sou impossível. — Não é exatamente o que está parecendo — o jovem argumentou, fazendo um beicinho, que não combinava nada com sua feição rabugenta. — De que porra está falando? — perguntei, já irritada com seja lá o que aquela conversa significava. — Não tem celular? Perdeu de novo? — Seus olhos ardiam com deboche. — Pare de agir como se me conhecesse — falei, subindo meu tom de voz e colocando o dedo indicador no peito dele, ficando um pouco surpresa com a rigidez por baixo de sua blusa cinza, o que me distraiu por um segundo. — Talvez você só seja muito fácil de decifrar. — Ele deu de ombros. — Vai se foder, babaca. — Me descontrolei completamente e quando vi, tinha sido explosiva mais uma vez. — Boca suja — o rapaz resmungou, fitando minha boca com os olhos brilhando com um tipo estranho de irritação. — Acho que essa se tornou sua frase preferida. Me arrependi de ter dito aquilo assim que eu vi sua boca se curvar em um sorriso de canto, de uma forma que conseguiu deixar aquele idiota ainda mais bonito e me fez me perguntar o motivo para o universo me odiar tanto. — É culpa totalmente sua. — Nossa, uma garota que você quase nem vê consegue causar tanto efeito em você? Que influenciável! — Só aquelas que me estressam muito, tipo você. — Ele segurou minha mão, só então me lembrando que ela ainda permanecia no peitoral dele. — Os sentimentos são recíprocos, idiota — resmunguei, balançando meu braço para que soltasse. — É um imenso desprazer, princesa. — Não me chame de princesa, seu ogro. Eu estava quase bufando como um animal, quando a voz de David me tirou daquele transe, fazendo com que eu me lembrasse de que nem ao menos deveria estar discutindo com aquele rapaz. — Sabiam que coisas assim costumam dar casamento? — ele perguntou. Eu e Santiago o olhamos ao mesmo tempo e por algum acaso do destino, dissemos juntos: — Cala a boca. — Que lindos, já estão sintonizados — Nina provocou, me fazendo a olhar irritada e dar alguns passos para trás, na intenção de me afastar do garoto, que pareceu confuso com minha atitude. — Eu shippo — David exclamou, sorrindo. — Já existe até um fã clube. — Do que está falando? — perguntei, tendo um certo desgosto estampado na voz. — Ah, vamos fingir que você não sabe — o loiro murmurou, mas não baixo o suficiente para que eu não escutasse. — Se eu soubesse não estaria perguntando, mas seu cérebro limitado talvez não entenda isso. Foi perceptível David tentando segurar uma risada, em seguida falando: — São os produtos de cabelo que ele usa, acho que afeta, de que outro jeito brilharia tanto assim? Seu comentário me fez olhar para o rapaz, observando por mais tempo do que gostaria de admitir seus cachos loiros. David tinha razão, realmente o cabelo dele brilhava muito. — David, era para estar do meu lado — Santiago falou, com o mesmo tom hostil que sempre usava. — Já expliquei meu posicionamento — o capitão do Santana disse, dando de ombros. — Estou esperando alguém me explicar do que estavam falando — eu interrompi, seja qual fosse a discussão que se formava. — Não viu a foto? — David perguntou. — Que foto? — Ué, a foto que já circulou pelo Santana inteiro de vocês dois juntos, aposto que no São Sebastião não está muito diferente — o rapaz respondeu, como se fosse totalmente óbvio. Só então Nina suspirou e caminhou até o meu lado, me entregando o celular de forma receosa e finalmente me permitindo ver a tal foto, que basicamente era eu e o babaca na livraria, no exato momento em que eu sorri de forma debochada por alguma coisa que ele tinha dito. Ali parecia que eu estava sorrindo para ele e se não estivesse presente no momento, poderia afirmar que aquele era quase um sorriso bobo de alguém encantada pelo que estava vendo, o que era, no mínimo, ridículo. A foto estava no grupo do terceirão e várias pessoas estavam dizendo que deveríamos estar ficando às escondidas, enquanto outras afirmavam que eu tinha terminado com o Nicolas por estar o traindo com um garoto do colégio rival. — Esses imbecis estão falando merda? Como se eu fosse ficar com esse ogro — resmunguei, verdadeiramente irritada, mas segurando com afinco a minha vontade de chorar. Embora eu constantemente tentasse fingir o contrário, eu andava em um período sensível e ver tantos comentários maldosos de uma vez só, era demais. — Eu que não ficaria com você — Santiago retrucou. — Ninguém está te perguntando porcaria nenhuma. — Não precisam se desestabilizar assim, não passou de um mal-entendido e também não seria nenhum pecado — David falou, como se tentasse apaziguar a situação, ou apenas livrar o outro rapaz daquilo. — O que há de errado em serem de colégios diferentes? Em que mundo estamos? Viramos os Montéquios e Capuletos? — Está realmente fazendo uma analogia a Romeu e Julieta? — Nina perguntou, tentando disfarçar o sorriso que eu captei facilmente. — Sou um cara romântico, o que posso dizer? — David sorriu galanteador, focando a atenção em minha amiga. — Romeu e Julieta está mais para um drama, é extremamente trágico — minha melhor amiga afirmou. — Nina, podemos ir embora? — perguntei, segurando as lágrimas com toda a força de vontade existente em meu corpo — Ainda estou com fome. — Sabe quem também está com fome? — David indagou, como se estivesse prestes a revelar uma coisa extremamente incrível. — Nós dois. — Ele apontou para si mesmo e Santiago. — Vamos almoçar juntos? — Nós já almoçamos — o senhor estressadinho resmungou para David. — Eu quero almoçar, não participar de uma carnificina — Nina negou rapidamente. — Ei, eu nunca faria algo do tipo — argumentei, nem sabendo ao certo o motivo para dizer aquilo. — Não posso garantir o mesmo, a existência dela perto de mim é um perigo — Santiago afirmou, apontando na minha direção e me arrancando um sorriso debochado, que me fez esquecer da vontade de chorar por alguns momentos. — Medo de se apaixonar? — Estalei a língua. — Nem nos meus maiores pesadelos. — Sonhar comigo seria um privilégio para você — eu imitei o que ele tinha me dito há minutos atrás e por um momento, mesmo que breve, vi ele controlar um sorriso, que ainda ficou um pouco aparente. Santiago era tão sério, que fazê-lo sorrir parecia até mesmo um desafio e eu já tinha quase conseguido duas vezes, deveria me considerar incrível, principalmente levando em conta que não gostava nada dele e aquele sentimento era totalmente recíproco. — Não íamos almoçar? — Nina perguntou, me fazendo focar em seu rosto. — Agora mesmo — respondi, cerrando um pouco os olhos antes de desviar dos dois, pronta para subir a escada rolante. Nina se despediu deles e rapidamente chegou ao meu lado. A última coisa que eu tinha cogitado para o dia de hoje era encontrar aquele grosso mais uma vez e muito menos que fossem pensar estar rolando alguma coisa entre nós dois. Não queria nem imaginar a confusão que estaria em meu colégio amanhã e muito menos a reação de Nicolas ao ver aquilo, provavelmente eu teria que dar explicações, o que,sinceramente, era irritante demais. ✽ ✽ ✽ Entrei no saguão do meu prédio e cumprimentei o porteiro, andando até o elevador para chegar no vigésimo andar, onde ficava a cobertura que eu morava com meu pai. Assim que cheguei no andar, me deparei com as duas únicas portas dali e caminhei até a porta branca do meu apartamento, animada por finalmente poder deitar na cama. Assim que entrei no apartamento, minha visão foi preenchida pela sala de paredes bege, com uma televisão fazendo presença na parede ao lado da porta, assim como um vaso de plantas e um sofá cinza do lado oposto, recheado de almofadas rosas e pretas, que eram as preferidas da minha mãe. — Melina? — meu pai chamou da cozinha, me fazendo desfocar do sofá e soltar um suspiro. Caminhei lentamente pelo corredor curto, chegando com rapidez onde seu Heitor estava, próximo do cooktop, logo atrás da bancada de mármore branco. Me sentei em uma das banquetas pretas que ficavam na frente e observei atentamente meu pai. Ele parecia cansado e sua feição, que era normalmente coberta por um sorriso carinhoso, estava carrancuda. Os olhos azuis — que eu sentia uma certa raiva por não ter puxado — carregavam algum tipo de irritação e os cabelos castanho-claros quase raspados estavam despenteados, como se ele tivesse passado a mão ali muitas vezes. Heitor Mattos era um homem bonito ao ponto de metade das pessoas que eu conhecia fazerem piadinhas como: “seu pai está solteiro?”. — Onde foi ontem quando saiu com a Nina? — ele perguntou, com sua voz grossa me fazendo focar completamente no que dizia. Estiquei um pouco o braço, pegando uma maçã na pequena fruteira de cima do balcão e alcançando para ele lavar para mim, com um sorrisinho no rosto. Meu pai soltou um suspiro, pegando a fruta e enxaguando na pia, antes de me entregar novamente, voltando a guardar a louça. — No shopping, o Theo queria ver se na livraria daqui tinha os livros da faculdade que ele precisava, também ia aproveitar para comprar algum novo — falei, mordendo a minha fruta e ficando um pouco triste por lembrar que meu primo já tinha voltado para Monte Sul. — E encontrou alguém por lá? — Heitor me olhou de soslaio, e eu parei a mão no ar, com a boca um pouco aberta, já que estava prestes a dar mais uma mordida na maça. Aquela era a tática do meu pai, ele sutilmente questionava coisas até chegar em um assunto central e naquele momento, eu soube que o assunto era a tal foto. — Esbarrei em dois garotos do Santana — eu disse, tentando manter a indiferença na minha voz. Meu pai soltou um suspiro, deixando o pano ao lado da pia e se virando completamente para mim. Do jeito que estava agindo, parecia até mesmo que eu tinha matado alguém. — Melina, evite se envolver com rapazes daquele colégio — seu tom de voz era preocupado enquanto falava. — Apoio completamente os colégios se unirem, mas por enquanto não é uma realidade e isso só vai atrair atenção indesejada para você. Eu sabia do esforço do meu pai, como diretor do São Sebastião, para tentar acabar com as rixas intensas entre nosso colégio e o Santana. Ele e Myrian — diretora dos nossos rivais — já não aguentavam mais apaziguar situações e lidar com brigas. — Não me envolvi com ninguém pai — respondi, controlando minha vontade de resmungar. — Eu até conheço os dois, porque sempre estão nos jogos, David é o capitão, mas foi um total acaso eu esbarrar com eles lá. E a foto estava totalmente fora de contexto, só entreguei um livro para o loiro babaca. — Acredito em você, querida. Só fique o mais longe que conseguir, principalmente pelos próximos dias, o colégio vai estar uma loucura. — Por isso eu odeio adolescentes — reclamei, enquanto terminava de comer minha fruta. Meu pai deu uma risada fraca, balançando a cabeça e me fazendo sorrir. — Vou subir para o quarto — falei, andando até a lixeira para jogar fora o lixo. — Vamos pedir pizza depois? — Virou a segunda da pizza? — Nova tradição. — Dei de ombros. — Ou você pode cozinhar. — Quem não gosta de pizza?! — Meu pai franziu as sobrancelhas. — Vamos fazer a segunda-feira da pizza. Balancei a cabeça e soltei uma risadinha baixa, deixando a cozinha para subir as escadas e finalmente chegar ao meu quarto. Abri a porta branca e suspirei aliviada assim que vi minha cama de casal, com as almofadas peludas bem colocadas e minhas cobertas confortáveis estendidas. As pequenas luzes desciam pelas paredes, bem como os ramos de folhas falsas, que decoravam todo o quarto de uma maneira que eu achava adorável. Soltei minha mochila no chão, observando com atenção meu reflexo no espelho, que ficava no canto do quarto, quase de frente para a minha cama. Olhando rapidamente, daria para dizer que ainda era a mesma Melina de um tempo atrás, mas se observasse com atenção, o inchado na parte debaixo dos meus olhos, bem como as olheiras disfarçadas com maquiagem mostravam claramente o quão acabada eu me encontrava. Meu uniforme estava um pouco amassado e isso se devia graças ao fato de que seu Heitor era um ótimo pai, mas péssimo para cuidar de praticamente qualquer coisa da casa. Andei até a cama e me joguei lá com um pequeno impulso, sentindo meu corpo quase agradecer por finalmente descansar. Peguei meu celular no bolso do moletom aberto, pela primeira vez em horas e assim que desbloqueei, fui atolada pela chuva de notificações no grupo do colégio. Eu sabia o que encontraria ali, mas, mesmo assim, abri as mensagens. Gente falando que eu tinha traído o Nicolas era o que mais tinha e também reclamando sobre eu continuar no time mesmo não jogando há tanto tempo. Senti vontade de mandar todo mundo para a merda? Com certeza. Mas apenas saí da conversa em grupo e abri a de Nina. Melina: Cheguei bem em casa. Melina: Chegou também? Nini Meu Amor: Cheguei, mas já tive que sair, minha mãe queria companhia para o mercado. Melina: Guerreira. Nini Meu Amor: Não vai ficar se preocupando com as mensagens, hein. Soltei uma risada abafada, Nina me conhecia bem demais. Melina: Já li e ignorei. Melina: Minha consciência está limpa e amanhã tento me resolver com o Nicolas. Nini Meu Amor: Ele provavelmente não acreditou em nada, nem se preocupe. Melina: Que horas vai sair do mercado? Melina: Vou pedir pizza. Nini Meu Amor: Oba! Durmo aí, ainda tenho roupa, né? Melina: Tem, sua pilha segue intacta. Nini Meu Amor: Ótimo! Nini Meu Amor: Até mais tarde. Melina: Até! Tudo que eu queria era dormir um pouco antes da Nina chegar e ignorar qualquer coisa em minha vida, por isso soltei o celular na pequena mesinha ao lado da cama, e me ajeitei para deitar nos travesseiros. — Alexa, toque música — pedi para a assistente virtual. — Aqui está uma estação que talvez você goste — o aparelho me respondeu, rapidamente começando a tocar Hooked do Why Don’t We, me deixando bastante satisfeita. E enquanto cantarolava a música, acabei adormecendo. CAPÍTULO 6 Segunda-feira, 30 de agosto de 2021 Minha cama estava confortável demais, em um nível que levantar se tornava uma missão impossível. O teto escuro era o que ganhava minha atenção, já que eu não tirava o foco de lá desde que tinha aberto os olhos. A luz já entrava pelas janelas logo atrás da minha cama, tudo culpa de eu ter largado a persiana sem fechar por ter ido deitar com pressa e dormido enquanto lia em meu Kindle. Escutei o barulho da porta se abrindo e tudo que eu desejei foi que tivesse sido apenas coisa da minha cabeça, mas assim que o corpo alto de meu primo apareceu nas escadas, que ficavam de frente para minha cama, eu soube que, para o meu desespero, era David ali e não minha imaginação. — Um bom dia para o melhor primo do mundo — David falou, se aproximando lentamente da minha cama e sentando na beirada. O encarei por cerca de dois segundos e virei meu corpo para o lado, olhando a parede, como se dissesse: suma daqui, praga. Mas era de David que eu estava falando e nem mesmo se eu gritasse seria o bastante para aquela criatura inconveniente ir embora. — O que você quer? — resmunguei, ainda sem olhá-lo. — Posso usar seu carrodepois da aula? — ele perguntou. Foi o suficiente para ganhar minha atenção, me obrigando até a sentar na cama. Não pude evitar pressionar meus lábios e respirar fundo. — O que pretende fazer com ele? — questionei, mostrando um tom sério, que fez David sorrir de verdade, mostrando suas marcas de expressão nos cantos dos lábios. — Vou sair com uma gata e ela não curte motos — ele explicou, como se fosse realmente um ótimo motivo. Não consegui evitar revirar os olhos. Tinham momentos em que David parecia um babaca, mas ainda era meu primo e uma das únicas pessoas que eu realmente mantinha em minha vida, então talvez por isso, as palavras saíram automaticamente de minha boca: — Se bater, arranhar, ou qualquer coisa do tipo, se considere um homem morto — avisei, ficando extremamente sério. — Se transar nele também. — Sem sexo! E vou cuidar dele como se fosse minha moto, Santiago. — Você destruiu sua moto mês passado e eu tive que te dar outra — o lembrei do pequeno acidente que ninguém entendia como ele tinha saído sem nenhum arranhão. — Certo, tinha esquecido desse detalhe, mas juro para você que vou cuidar, tenho que impressionar a gata. — Ele piscou, apontando os dedos como uma arminha e eu não resisti em fazer uma careta. Quanto mais David convivia com os jogadores do Santana, pior ele ficava e eu acreditava com convicção que já tinha chegado em um estado grave de falta de sanidade, principalmente depois daquele gesto. — Depois da aula você me leva para almoçar, me deixa na academia de ballet e aí pode usar meu carro. — Combinado, valeu primo — ele falou, comemorando, antes de levantar da cama. — Só se arruma logo, senão vamos nos atrasar e hoje é dia que a Ana vai com a gente. Aquilo foi o suficiente para eu esboçar uma expressão de sofrimento. Aguentar Ana Carolina às oito horas da manhã de uma segunda-feira era tortura e depois ainda achavam ruim eu odiar dias de semana. — Inferno — resmunguei, tirando a coberta de cima do meu corpo e me levantando. — Cacete, Santiago — David exclamou, me assustando um pouco por ele já estar praticamente descendo a escada, mas ter parado para me encarar. — Que foi, porra? — Onde anda malhando? Quero ir também. A academia daqui de casa não está me dando esse efeito. Olhei para baixo involuntariamente, tentando entender sobre o que ele falava, mas nada parecia diferente. — Tá de parabéns, viu, priminho? Mas bem que poderia fazer uso do monumento que o ballet te deu, aposto que muitas moças ficariam felizes. Peguei uma das almofadas cinzas da minha cama e arremessei em sua direção, fazendo David rir. — Estou dizendo verdades — ele falou, já descendo mais um pouco as escadas. Me debrucei na grade ao lado da cama, que me dava uma visão completa do primeiro andar do meu quarto. — Some da minha frente! — exclamei para ele, que riu mais um pouco enquanto olhava para cima e por fim saia do cômodo. Soltei um suspiro e entrei em meu closet, colocando uma bermuda de moletom, pegando minha chave na prateleira e indo descer as escadas. Ainda eram sete horas e eu deveria pedir aos céus que Carol chegasse apenas umas sete e cinquenta. Corri pelos corredores por longos minutos, saindo para o jardim da minha casa. Passei pela piscina de forma apressada, assim como pelo lounge e a quadra, finalmente chegando no caminho de pedras que levava até o meu lugar preferido no mundo: a estufa da minha mãe. Parecia um mini palácio de vidro, com algumas árvores pequenas em volta. Me aproximei da porta, que só eu e Agatha tínhamos acesso e destranquei, entrando rapidamente e trancando por dentro. Os ramos de planta desciam do teto de maneira quase mágica e todas as rosas que minha mãe tanto amava estavam belíssimas. Caminhei até o centro, me sentando no banco e observando a glicínia, com as flores lilases penduradas. — Oi, mamãe — falei, para nada em específico. — Me desculpa por sumir uns dias, acho que o David está me deixando maluco. — E ele realmente estava. — Lembra quando você pegava nós dois no colo para contar histórias? Acho que crescemos bastante desde aquele tempo. Soltei uma risada abafada, mexendo em minhas mãos. — Desculpa também por não estar vestido direito, é que eu tinha pouco tempo. Consigo até escutar você dizendo: “se continuar correndo por aí sem blusa, vai pegar um resfriado”. — Mordi o lábio inferior, tentando controlar as lágrimas que queriam se formar. — Sei que faz muito tempo, mas sinto tanto a falta das suas broncas. Engoli em seco, olhando para cima, os pequenos pontos de luz no teto pareciam estrelas e isso me fez sorrir por um momento. — Não sei se você gostaria de quem sou atualmente, mãe — admiti, respirando fundo. — Acho que não consigo encarar o mundo como você me ensinou, tem sido difícil. Muito difícil. — Imagino que ele não esteja falando muito com você atualmente, mas eu sei que mesmo sendo um imbecil, Archibald nunca deixou de te amar, daquele jeito escroto dele, mas ainda assim. Enxuguei a lágrima que escorreu pela minha bochecha e fiquei em pé. — Eu preciso ir para a aula, mas prometo que venho te atualizar logo — falei, mesmo sabendo que não teria resposta alguma. — Eu te amo e sinto muito a sua falta. Sorri para a árvore e comecei a caminhar para fora da estufa, a trancando assim que saí e me direcionando para o quarto, já que ainda precisava colocar o uniforme e lidar com mais um dia naquele hospício. ✽ ✽ ✽ O intervalo era sinônimo de momentos de pura insanidade. Um bando de adolescentes malucos andava pelos corredores, dominando as cantinas, falando exageradamente alto e me fazendo ter vontade de cavar um buraco e sumir. Mas eu tinha finalmente conseguido um momento de paz, sentado em uma das enormes poltronas da área de interação, com um fone em cada ouvido e meu Kindle na mão, preparado para achar alguma coisa para ler. Porém, eu tinha esquecido que o universo me odiava e minha prima arrancando meus fones foi o suficiente para eu lembrar, ficando muito puto por sua atitude. — Que porra é essa, Ana? Devolve meus fones. — Vai emprestar o carro para o David? — ela perguntou, cruzando os braços. Naquele momento estávamos praticamente na mesma altura, o que foi o bastante para a encarar diretamente nos olhos. — Vou, o que tem a ver com você? — Você sabe que ele é um puta irresponsável, o tio Archibald te deu o carro faz pouquíssimo tempo — Carol falou. — Se ele fizer bosta vai fazer o que? Comprar outro igual a moto? Você nem tem tanto dinheiro. Porra, Santiago, tem que parar de passar tanto pano para o David. — Eu sei, Ana, mas ele me prometeu que vai cuidar — eu disse, completamente sério. — E se não cuidar, vai levar um murro e fazer milagre para me pagar. Agora não estou com saco para ficar discutindo com você sobre o seu irmão, devolve a porra do meu fone. Minha prima revirou os olhos, dando de ombros e colocando os dois pequenos fones na minha mão estendida. — Que seja! Não me responsabilizo — ela falou, mostrando certa revolta e começando a caminhar para longe. — Ninguém pediu para se responsabilizar, cacete — resmunguei, pronto para colocar os fones de volta, mas novamente impedido, graças ao meu nome ecoando pela sala. — É o Santiago? — alguém perguntou. — Óbvio que é — outra pessoa respondeu. Me virei lentamente, tentando descobrir de onde vinha aquilo e me deparei com duas garotas, que olhavam os celulares e só então me encararam, parecendo surpresas por me ver ali e rapidamente saindo. Fiquei confuso, mas não estava com saco nenhum para entender que merda aquilo significava. — Ora, ora, ora, se não é o Santiago — a voz inconfundível do Vitor ecoou pela sala e minha boca se curvou em uma expressão de desgosto. De todos os amigos imbecis do meu primo, aquele era o que eu menos suportava. — Impressionante — observei, pegando a caixinha do meu fone no bolso e os guardando, antes de olhar para sua cara, coberta pelo sorriso debochado. — Aprendeu a formar uma frase inteira, suas aulas particulares estão fazendo milagres. Vitor riu sem mostrar os dentes, estalando a língua e meencarando. — Todo mundo sabe que você é quietão, mas ninguém imaginava que fosse do tipo disposto a trair seus colegas por uma foda. — O garoto emitiu um som de reprovação. — De que porra está falando agora? Pensar apenas com as partes baixas está fazendo tanto mal que a cabeça de cima parou de funcionar? Eu estava pronto para ser a minha pior versão, quando David chegou, franzindo o cenho para mim e parando em minha frente, como se fosse uma mãe raivosa prestes a defender os filhotes. — O que quer aqui, Vitor? Já não disse para não perturbar meu primo? — David cruzou os braços, encarando o rapaz. Meu primo podia ter um péssimo gosto para as companhias, mas não importava o quanto aqueles babacas eram próximos dele, nada superava a forma como — mesmo quase nos matando — cuidávamos um do outro. — Desculpa, capitão — Vitor pediu, revirando os olhos e sorrindo para David. — Só vim elogiar seu primo. — Elogiar?! — David questionou. — Sim, ele está comendo a princesinha do São Sebastião. Arregalei meus olhos e senti a raiva consumindo meu corpo, da mesma forma que meu rosto começou a queimar. Eu sabia muito bem de quem ele estava falando. No caso, da Melina, que chamavam assim por ser filha do diretor. Não importava se eu odiava aquela garota por ela ser namorada justo do cara que tinha sido babaca com a minha prima, nós brigarmos há meses, além de parecer só ser grossa comigo, Vitor não tinha o direito de falar daquela forma sobre menina nenhuma. — Que porra você falou? — perguntei, afastando David e parando bem na frente do Vitor. — O que foi? Não compartilha com seus amigos com quem anda fodendo? — Seu olhar cínico se direcionou para mim. Eu não sabia o motivo para ele estar falando dela, ou qual era o contexto para começar aquele assunto do nada, mas fiquei puto, puto pra caralho. Dei um sorriso sarcástico para Vitor, em seguida falando: — Sempre soube que sua vida era um tédio, mas não sabia que estava feio ao ponto de precisar inventar historinhas sobre com quem eu transo ou não para suprir suas necessidades. — E fechei completamente a cara. O rapaz de cabelos castanhos riu, balançando a cabeça em negação. — Está tentando enganar quem, Santiago? — Vitor perguntou, suspirando. — Virou do tipo que come quieto? Tem que aprender a compartilhar, ainda mais quando se trata de uma gostosa. — Deixa eu te falar… Mesmo que fosse o caso, o que não é, diferente de você, não preciso usar mulheres como troféus. Cansado daquela conversa imbecil e sabendo que o tempo do intervalo estava acabando, eu apenas passei por ele, saindo da sala e me sentindo orgulhoso por manter minha sanidade o suficiente para não socar a cara dele. David me seguiu, segurando meu braço e me impedindo de continuar andando. — Desculpa por isso, você sabe como o Vitor é — meu primo falou. — É, sei bem — respondi, ríspido. — Você tem ótimos amigos, David. Balancei meu braço, para que ele me soltasse e continuei andando, pegando o meu celular que não parava de vibrar e ficando totalmente surpreso com a foto que estava no grupo da minha turma de babacas. Era eu e a garota na livraria, em um momento que ela tinha sorrido, de maneira totalmente debochada para mim. Realmente tinham concluído que estávamos tendo alguma coisa por aquela foto? Adolescentes tinham problemas mentais graves. Dava para ver claramente o quanto Melina me odiava pela forma que me encarava. — Santiago! — Ana exclamou, correndo em minha direção, sorrindo. — Seu safado, sempre achei que odiava ela. Quero detalhes, agora mesmo, priminho. — Ficou maluca? — Quer enganar quem? Olha o jeito que estão se olhando, — ela mostrou a foto para mim — pelo amor de Deus, Santiago, não tem quem não diga que seja lá o que estava rolando, era intenso. — Ana, não que seja da sua conta, mas nós dois literalmente estávamos nos xingando. Ana fez uma careta, olhando para o celular e para mim repetidas vezes. — Jura? Que merda, achei que você finalmente ia desencalhar e alguém tinha rompido sua barreira gelada. — Vou continuar andando antes que eu te mande ir para um lugar que não bate sol — falei, voltando a andar pelo corredor, mas Ana não me deixou em paz. — Para ser sincera, até estou feliz que não esteja rolando nada — minha prima disse, mostrando um beicinho. — Ouvi dizer que ela é meio metida e é ex-namorada do Nicolas. Aquela informação me fez parar, de forma que Ana não esperava e precisou dar praticamente uma ré para ficar ao meu lado novamente. — O que foi? — ela perguntou, com uma sobrancelha levantada. — Nada — resmunguei, voltando a andar. — Santiago… — Eu a interrompi rapidamente. — Boa aula, Ana. Foi o suficiente para minha prima não me seguir e eu finalmente conseguir chegar em paz em minha sala, guardando o Kindle na mochila e ficando puto por não ter lido nada. ✽ ✽ ✽ Desci as escadas rolantes que davam para o estacionamento do shopping, refletindo sobre o que tinha acabado de acontecer. Eu não saberia explicar o que tinha dado em mim, mas no momento exato em que vi aquele maldito cabelo comprido e bonito, foi como se uma força externa tomasse conta de mim e quando notei, já estava parado de frente para ela dizendo: — Eu e você não vai rolar. Por que disse aquilo? Não tinha a menor ideia, mas quando Melina me retrucou, eu não resisti e rapidamente começamos uma disputa verbal que fez meu coração até se acelerar pela raiva. — Parece que virou algum tipo de rotina encontrar a Nina e a Melina, né? — David interrompeu minha lembrança, só então me fazendo me recordar que ele estava ali. Castiguei meu primo por escolher almoçar no shopping, se não tivéssemos ido lá, não teria encontrado com aquela garota e não teria me estressado mais. — Rotina ou karma? Acho que devo ter cometido algum pecado grave na outra vida — falei, suspirando enquanto abria a porta do carro, para dirigir até a academia de ballet e entregar meu BMW nas mãos desastradas de David. — Aposto que é porque você é muito mau, está recebendo o troco — David disse, andando até o lado do carona e entrando lá. Assim que me sentei no banco, encarei severamente meu primo e admiti: — David, você é um primo horrível, sabia? — Sim e você me ama, por isso continua me bancando. — Neguei com a cabeça, não tendo argumento algum para discordar dele, apenas dando partida no carro e aceitando a derrota. ✽ ✽ ✽ Me joguei no sofá, tendo vontade de afundar nas almofadas e ser engolido. Meu corpo doía graças ao ensaio intenso de ballet e talvez a irritação que eu sentia estivesse colaborando um pouco com a minha dor. Tinha levado uma bronca, graças a porra da minha parceira de dança. Odiava coreografias em dupla, porque exigia um tipo de confiança que eu não conseguia proporcionar a ninguém e isso tornava tudo mais difícil, principalmente por conta da garota que dançava comigo não ser exatamente a melhor dupla. Sentia ainda menos vontade de me conectar com ela. Minha coreógrafa me mandou ajustar nossa sincronia, ou eu seria retirado da apresentação do final do ano e nada nesse mundo me deixava mais puto do que a ideia de todo o meu esforço não servir para merda nenhuma graças a minha incapacidade de deixar pessoas se aproximarem. Se Yasmin, minha dupla, não fosse tão… sem graça, minha vida seria muito mais fácil, mas eu teria que de alguma forma descobrir como resolver meu problema de falta de conexão, ou estaria fodido. Minha irritação, que já estava bastante alta, só piorou quando escutei a porta se abrindo e os passos inconfundíveis de David invadirem o local. Senti o sofá balançando assim que meu primo se sentou ao meu lado, mas não me dei o trabalho de mudar minha posição, continuando de bunda para cima e a cara enfiada no sofá. — Encontro ruim para voltar tão cedo? — perguntei, levantando o rosto apenas o suficiente para que David me escutasse. — Não, só não estava com vontade de chegar tarde. — David deu de ombros, chutando os tênis dos próprios pés e bagunçando os cabelos. — Você? — Se estivesse com forças o bastante, teria feito uma careta. — Me deixa em paz, garoto,que implicância. — Meu primo acertou uma almofada na minha bunda. — Quando começou a querer cuidar da minha vida? — Desde que comecei a pagar suas contas — resmunguei, vendo uma falsa expressão ofendida brincar em seu rosto. — Credo, Santiago, não sabia que fazia o tipo que joga as coisas na cara. — Sou surpreendente. — Dei uma piscadinha. — Acho que está convivendo muito comigo, melhor parar — David falou, fazendo um beicinho e jogando o corpo para trás. — Se quer ficar sentado aqui, pelo menos cala a boca — pedi. — Estou exausto e pretendo começar a ler, assim que meu corpo parar de pedir socorro. — O que vai ler? — Vai acrescentar alguma coisa na sua vida? — perguntei, o encarando. — Responde logo, babaca. — Qual o problema de todo mundo que decidiu me chamar de babaca? — pensei em voz alta, me lembrando da Melina. — Todo mundo seria eu e a Melina? — Um sorriso brincalhão fez presença no rosto de David. — Acho que começamos a enxergar tudo com clareza. — Vai para a merda. — Tão sensível, fico emocionado. — David colocou a mão no peito. — Diz logo que porra de livro quer ler. — O Jogo do Amor/Ódio — falei de uma vez, esperando que ele calasse a boca. — Ah, para se inspirar? — Meu primo sorriu, me olhando com atenção e eu apenas franzi o cenho. — Perdão? — Você… Melina, sabe? Me dei o trabalho de levantar meu corpo o bastante para pegar uma almofada e arremessar na cara do David. — Anda falando muita bosta, sabe que não suporto ela, nós só brigamos. — Para alguém que lê tanto, está mal-informado sobre enemies to lovers. — Some da minha frente antes que eu te bata — eu exclamei, me sentando no sofá e ignorando o cansaço presente em meu corpo. — As verdades pesam, né, primo? Levantei uma almofada, fazendo David erguer os dois braços, como se estivesse se rendendo. — Se acalma, vou ficar quietinho, sem um pio. Suspirei, agradecendo aos céus por me darem alguma ajuda, mas rapidamente retirando meu agradecimento ao escutar a voz de David novamente. — Mas sobre o que é o livro? — Não ia ficar quieto? — questionei, o olhando com reprovação. — Estou querendo me envolver mais na sua vida — ele explicou. — Sabendo o que eu leio? — É ué, vai que se torna útil para alguma coisa? — David cerrou os olhos. — Ouvi dizer que tem altas coisas de livros que dá para usar na redação do Enem, preciso de nota, primo, conta mais. Foi o suficiente para me arrancar uma careta. Meu primo nem estava pensando em fazer vestibular, muito menos procurando conteúdo sociocultural para o Enem. — Meu Deus, David, some logo daqui. — Boa noite para você também, senhor ogro — ele provocou, dando um sorrisinho debochado. Arremessei todas as quatro almofadas que estavam perto de mim na direção dele, fazendo meu primo sair pulando. Encostei confortavelmente no sofá e aproveitei o silêncio para fechar meus olhos. Até queria ler, mas o cansaço consumiu meu corpo e eu nem notei quando acabei dormindo ali mesmo. CAPÍTULO 7 Quarta-feira, 01 de setembro de 2021 Dois dias e eu ainda escutava gente falando sobre aquela foto, murmurando e apontando para mim pelos corredores, como se eu tivesse cometido algum tipo de crime imperdoável, ou matado o ídolo deles. Ok, eu sabia que a rivalidade entre o Santana e o São Sebastião era uma coisa palpável, mas quando exatamente estar no mesmo ambiente que alguém daquele colégio de gente metida tinha virado pecado? Eu nem ao menos gostava daquele garoto. Odiava ele para ser bem exata, mas estava sendo condenada por esbarrar, por puro acidente, em um robô estressadinho. Queria ter conversado com meu melhor amigo sobre o incidente, porque os comentários acabavam, em grande parte, o envolvendo, mas por algum motivo não me sentia com forças o suficiente, o que fez evitar Nicolas se tornar minha tarefa diária, mas percebi que não teria mais escapatória assim que vi o rapaz parado exatamente na porta da minha sala. — Nick! — exclamei, sorrindo sinceramente para ele e notando o momento em que seu olhar se encontrou com o meu, já que Nicolas sorriu de volta. — Dei um jeito de não poder me evitar hoje — ele provocou, me deixando envergonhada por aquela atitude imatura. — Me desculpa, eu não… — Mattos — Nicolas me interrompeu, negando com a cabeça. — Não se esquenta com isso, sei que o povo botou uma pressão em você. Eu só estava brincando. — Sim, mas não foi certo te evitar, deveria ter falado com você, até porque você é meu melhor amigo. — Relaxa, Melina, não vim te cobrar, só queria ver se estava bem. — Nick sorriu, me trazendo um completo alívio. — Estou sim. — Sorri de volta. — Nick, sobre a foto, eu e a Nina fomos na livraria e esbarramos com os garotos do Santana, não tinha nada acontecendo. Eu sabia que não precisava dar uma explicação, porém eu sentia que deveria. Em partes porque tínhamos terminado há menos de um mês, mas também porque não era justo eu excluir meu melhor amigo da minha vida. — Eu tinha imaginado. — Ele deu de ombros. — Você nunca ficaria próxima daqueles merdas, sei disso. Forcei um sorriso e concordei, segurando um suspiro. Tinha dias em que aquela rivalidade parecia muito ridícula para mim. Nos dias de jogos, eu ficava até pior do que eles, porque sempre fui competitiva e isso acabava sendo inevitável, ainda mais na época em que eu jogava, mas não conseguia entender o motivo de levarem a rivalidade para fora da quadra com tanta intensidade. — Não que tenha a ver com o que estamos falando, mas como está meu sogrinho? — Nicolas perguntou, cruzando os braços musculosos na frente do corpo. — Ele não é seu sogrinho. — Mostrei uma careta. — Infelizmente, mas eu ainda considero, até porque só terminamos por culpa sua. — Ele descruzou os braços e tocou o dedo em meu ombro duas vezes seguidas, sorrindo. — Terminamos porque nós dois como casal não funciona, amor. — Aí. — Nicolas colocou a mão no peito. — Quando me chama de amor, eu repenso isso. — Vai se ferrar. — Dei um tapa no braço dele, enquanto deixava uma gargalhada escapar da minha garganta. — Ainda não sei porque não funcionamos. — Você concordou comigo quando terminamos — o lembrei, levantando uma sobrancelha. — Mas eu não disse que discordo, realmente não funcionava nossa dinâmica de casal, eu só não entendo o motivo. Desviei o olhar por um momento, notando que poucas pessoas permaneciam pelo corredor, apenas alguns alunos entrando em suas salas, coisa que eu também deveria estar fazendo. — Nem eu, mas acho que você é muito ciumento, era um pouco irritante. — Dei de ombros, voltando a encará-lo. — Eu tinha um ciúme normal, ainda tenho em situações específicas. Aqueles babacas sempre ficam fazendo comentários, me incomodava desde quando éramos só amigos, e ainda incomoda. — Acho que é coisa da sua cabeça, mas tudo bem. Sabia que discutir sobre o ciúme de Nicolas nunca chegava a lugar algum e eu não estava com forças o bastante para iniciar uma disputa verbal, então apenas deixei uma lufada de ar escapar, antes de falar: — Outra coisa, para de ligar para o meu pai. Toda hora vejo vocês conversando, faz ele achar que a gente vai voltar. — Quem disse que não vamos? Coitada, você vai casar comigo. — De novo com esse papo, Nick? — A voz de Nina fez presença no local, enquanto minha melhor amiga passava o braço pelo meu pescoço. — Supera. Nicolas mostrou a língua para ela, que riu da cara dele. Eu amava aqueles dois, nos conhecíamos desde que eu tinha me mudado para Vila dos Anjos, há quase oito anos. Minha mãe queria jogar no time da cidade e meu pai tinha conseguido o emprego como diretor do colégio, então fomos morar na tranquila, porém grande, cidade perto de Curitiba. Acabou que logo no primeiro dia de aula eu conheci Nina, quando ela derrubou meu lanche e desde então não nos largamos. O Nicolas já era um de seus amigos, ela só nos apresentou e assim nos tornamos inseparáveis, tudo era nós três. O que foi bem aliviante na época, já que em Monte Sul eu praticamente só tinha meus primos como amigos. Tudo culpa da timidez que eu costumava ter antes. Nina olhou parao relógio branco e delicado no pulso, mostrando para Nicolas que faltava apenas cinco minutos para a porta das salas fecharem e, para o desespero do meu melhor amigo, sua sala ficava no outro bloco. — Puta merda, preciso ir, mas nos falamos no intervalo — ele avisou, dando um beijo na bochecha de cada uma de nós duas. Viramos para ele conforme o garoto andou pelo corredor e nós três nos despedimos, um pouco dramáticos demais, acenando e dizendo que jamais nos esqueceríamos. Era possível ver meu professor, dentro da sala, apenas balançando a cabeça e soltando uma risada baixa, já que estava acostumado, nós sempre éramos assim. E eu acreditava fielmente que nunca mudaríamos. Seríamos eu, Nina e Nicolas para o resto da vida, quase como uma promessa escrita em nossos fios do destino. ✽ ✽ ✽ Existiam dias ruins e eu estava cansada de perceber isso, mas também existiam dias péssimos e ter Jéssica Bueno fazendo um trabalho comigo e com Nina, era sinônimo de horrível. Há cerca de quatro anos, nós éramos amigas. Nada comparado a minha amizade com Nina, mas nos dávamos bem. Porém, quando Jéssica ganhou um pouco mais de força nos braços, começou a fazer um bom saque e a treinadora cometeu o erro de dizer: “Jéssica, se continuar assim pode ser capitã um dia”, tudo virou um inferno. Eu era sua principal rival para o posto de capitã quando chegássemos na época de assumir o time e isso foi o suficiente para Jessica decidir que tornaria minha vida um inferno. Ela também tentava tomar meu lugar como levantadora, mesmo sendo péssima para armar os ataques e jogando mil vezes melhor como central. Para mim, o time sempre foi como uma segunda família, era isso que minha mãe tinha me ensinado. Precisávamos cuidar uma das outras e dar nosso máximo, mas sem competições internas. Só que a Bueno não entendia esse conceito. Eu virei a substituta da capitã quando entramos no primeiro ano do ensino médio e comecei a ser treinada para liderar o time, virando a capitã quando a hora chegou, cerca de um ano depois, mas Jéssica nunca aceitou isso muito bem. Há cerca de um ano e meio, quando tudo aconteceu, talvez tenha sido o momento de glória de Jéssica, já que, como eu não conseguia jogar, ela me substituiu e ficou durante todo esse tempo sendo a capitã. Ela amava isso, amava mandar em todo mundo e ser cruel sempre que possível e era algo notável demais. — Melina, querida, todas sentimos sua falta nos treinos, quando vai voltar? — A voz de Jessica me atingiu, me tirando daquela reflexão sobre sua maldade. — Sabe, a treinadora está sendo um amor em segurar sua vaga, mas temos tantas jovens que querem participar do nosso time. — Você sabe porque ela não está jogando — Nina resmungou, suspirando, sem tirar os olhos do livro. — Qual é, faz um tempão que o pé dela melhorou, fica saltitando alegremente para todos os cantos, estava até namorando, mas não tem ânimo para jogar? — Jes, já conversei com a treinadora, mas agradeço sua preocupação — falei, forçando um sorriso. A garota sorriu largo, estourando a bola de chiclete que tinha formado na boca e enrolando uma das mechas encaracoladas de seu cabelo castanho no dedo indicador. — Claro, querida, é para isso que servem as amigas. — Ela piscou exageradamente os olhos escuros, que eram pequenos e perfeitinhos, além de repuxados nos cantos, enquanto os cílios, alongados, davam um destaque enorme neles. Falsa, foi o primeiro pensamento que passou pela minha cabeça. Ela só estava preocupada com seu posto imaginário de dona do vôlei, considerando que o nosso era o melhor time juvenil do estado e isso subia para a sua cabeça. Talvez, por algum milagre, um anjo tenha escutado minhas preces e os treinadores entraram na sala, interrompendo qualquer conversa. — Bom dia, alunos! — a treinadora Paula falou, sorrindo de orelha a orelha. — Bom dia! — respondemos em uníssono. — Queremos a presença de todos os jogadores de vôlei e basquete no pátio, imediatamente para um recado geral — o treinador Enzo disse com firmeza. Rapidamente os jogadores se levantaram, começando a sair da sala na frente dos treinadores, o que incluía Jessica, para o meu alívio. — Melina — meu nome, em um tom sério vindo de Paula fez com que eu ficasse atenta e encarasse a mulher. — Que eu saiba, você também é jogadora. — Mas eu… — fui tentar explicar que não estava jogando, embora fosse óbvio, mas a treinadora do vôlei me interrompeu. — Melina, para o pátio. Contrariada, eu me levantei, fitando Nina com um pedido de socorro estampado no rosto, mas ela não poderia fazer nada para me ajudar. Caminhei pelo corredor, até o pátio, seguida pelos dois treinadores e assim que cheguei lá, foi impossível não notar todo mundo me encarando. Eu já não saberia dizer se era pela foto, ou pelo fato de que era a primeira vez em um ano e meio que eu ia para alguma coisa dos times. E para o meu azar, Nicolas estava do outro lado, o que me impossibilitava de chegar perto do meu melhor amigo sem atrapalhar todo mundo e gerar ainda mais atenção. — Muito bem, só faltava aquela sala, agora podemos começar — Paula anunciou, parando na frente, onde recebeu a atenção de todos os jogadores de vôlei e basquete, me fazendo agradecer aos céus por parar de ter toda a atenção em cima de mim. — Sabemos que a situação de rivalidade entre vocês e os times do Santana andam pior a cada momento — disse Enzo, causando alguns burburinhos, que foram cessados assim que a expressão dura atingiu o rosto do homem de meia-idade, extremamente alto. — Por isso, eu, a Paula e o Mateus decidimos fazer uma partida amistosa, com o intuito de promover uma interação não competitiva entre vocês. Caos, essa era a única palavra que poderia definir o resultado daquela ideia estúpida. Como três treinadores, que vem o alvoroço em todo maldito jogo nos últimos quatro anos, decidem juntar o motivo do alvoroço sem ser por obrigação? — Treinador, por que caralhos vamos fazer isso? — Nicolas perguntou, se levantando. — Mais respeito, Nicolas — o homem chamou a atenção dele. — Desculpe, senhor, mas por que precisamos jogar com eles? Os jogos normais já são mais que suficientes. — Seriam se vocês agissem como gente, mas parecem um bando de animais. O rosto do capitão deles ainda está todo roxo, graças a você, Mendonça. — O treinador lançou um olhar duro para Nicolas, que abaixou a cabeça. — Não queremos balbúrdia, apenas que consigam aprender a jogarem juntos, tanto que os times vão ser misturados. — Paula sorriu e aquela frase foi o suficiente para fazer dez garotos musculosos, altos e nervosos se levantarem, falando coisas incompreensíveis. Dois minutos, esse foi o tempo até o treinador Enzo perder a paciência e gritar para todo mundo calar a boca. Eu apenas me encostei em uma das pilastras do pátio, decidindo que ficar quieta era uma opção maravilhosa. — Não estamos pedindo a opinião de vocês, estamos avisando o que vai acontecer. — O homem tinha uma veia saltando da testa, de tanta irritação. — Quanto ao time de vôlei feminino, as garotas vão dar apoio a vocês, mas como lá não tem um time feminino, não vão treinar. — Treinador — Jéssica disse, se levantando. — Como capitã — ela me olhou, antes de continuar, com um tom ácido, voltando a olhar o homem —, eu acredito que jogar com os garotos seja muito bom para treinarmos, podemos revezar durante o vôlei deles também. Mulheres não são tão sensíveis. — Não estava falando no sentido de que vocês não poderiam treinar com homens, Bueno, mas sim porque só vão treinar basquete. A não ser que queira jogar como pivô, mesmo não tendo altura para isso, sugiro que se sente em seu lugar — Enzo respondeu, claramente irritado, o que fez Jéssica apenas concordar e se sentar novamente, me obrigando a segurar uma risada. — O mesmo que serve para as garotas, serve para os rapazes que só jogam vôlei. — O treino vai ser no Ginásio de Esportes Cristina Santana Santiago Ross, mesmo local em que sediamos os jogos, graças à generosidade do senhor Ross, dono de lá e do colégio Santana, que forneceu o lugar — Paula falou,dando um sorriso. — Esperamos vocês lá às duas em ponto, caso não consigam ir sozinhos, me avisem que nos ajeitamos para dar carona. Estão dispensados. Aquilo foi o suficiente para todos começarem a se levantar, andando para as salas e eu rapidamente me virei para ir até a minha também, mas o universo não estava ao meu favor. — Melina — a treinadora Paula me chamou, me fazendo a fitar. — Oi, treinadora. — Sei que ainda é difícil para você, mas tente ir hoje, por favor. — A mulher sorriu. — É um ambiente novo, você não vai precisar jogar, imagine que vai dar um apoio ao Nicolas. — Tem problema se a Nina for comigo? — perguntei, sabendo que aquela resposta seria o que me faria escolher. — Claro que não, é importante ter o apoio dos amigos, ela pode ir também. Eu suspirei, mesmo querendo continuar evitando qualquer coisa relacionada ao vôlei, eu ainda era do time e não morreria se aparecesse em um treinamento que nem precisaria jogar. — Tudo bem, vou estar lá. — Fico muito feliz, querida. — Paula colocou a mão em meu braço, me dando um sorriso fraternal que eu retribuí, em seguida indo para a minha sala. No fim das contas, aquele seria um longo dia. ✽ ✽ ✽ Eu estava no Uber, junto de Nina, indo para o Ginásio Cristina Santana Santiago Ross, sentindo todo o nervoso me consumir. Já tinha ido várias vezes ao ginásio, em literalmente todos os jogos e mesmo depois do incidente, continuei frequentando, então não entendia exatamente o motivo para parecer que eu estava prestes a entrar em um abatedouro. Nina desceu em minha frente, logo depois de pagar, pegando a mochila e fazendo um sinal para que eu acelerasse os movimentos. Entramos no ginásio e assim que vi minha equipe, a familiaridade me atingiu como um soco. — Melina, vamos — minha melhor amiga falou, descendo as escadas e indo se sentar onde normalmente nos sentávamos. Eu a segui, mesmo que receosa e me acomodei no banco. — Não quer sentar com o time? Se quiser, podemos ir para lá também — Nina sugeriu, mas eu rapidamente neguei, vendo ela concordar em silêncio. Peguei meu celular no bolso, me lembrando que precisava mandar mensagem para o meu avô. Melina: Oi, vovô! Melina: Como o senhor está? Melina: Me desculpe por não ter ido aí domingo, o Theo estava na cidade. Não demorou nem um minuto para eu ver o digitando aparecer na tela, mas demorou cerca de cinco para uma resposta chegar. Meu avô digitava bem devagar. Vovô: Oi, minha netinha! Vovô: Tudo bem, graças a Deus, até fui dar uma caminhada hoje. Vovô: E você, minha querida? Tudo bem? Vovô: Por que não trouxe o Theodoro aqui? Sabe que seu primo é meu neto de consideração. Melina: Que bom que está bem, vô. Melina: Eu estou ótima, vim para um treino agora. Melina: Devia ter levado, mesmo. Melina: Prometo que da próxima vez que o Theo vier, levo ele aí. Melina: Quero ver o senhor domingo, hein. Vovô: Vai vir almoçar com seu pai? Que aí eu faço uma lasanha de frango, que ele gosta. Melina: Não sei se ele vai, vô. Melina: Tem sido meio difícil para ele fazer programas que costumávamos. Vovô: Então venha você e a minha outra neta. Melina: Que neta, vô? Vovô: A Nina. Melina: KKKKKKK ela vai adorar, vô. Melina: Vamos domingo sim. — Mattos, venha aqui — a treinadora me chamou, me obrigando a levantar o olhar. — Tô indo — respondi, digitando uma última mensagem. Melina: Preciso ir agora, estão me chamando. Melina: Se cuida, vô. Desliguei o celular e entreguei para Nina, andando até a grade e a pulando para chegar à treinadora, que estava cercada dos jogadores enormes dos dois colégios. O que incluía David, que estava me encarando com certa curiosidade. — A Melina vai fazer a divisão dos times. — Paula sorriu para mim, fazendo um sinal de beleza. E assim que me virei para a frente, me deparei com o olhar atento de vinte e quatro garotos, que pareciam armários de tão altos. — Treinadora — eu chamei a mulher, que me encarou, ainda sorrindo. — Por que eu vou dividir? — Imparcialidade, Melina, você não sabe quem são os melhores, então apenas faça a divisão, misturando os times. Se alguma coisa pudesse definir a minha expressão naquele momento, seria desespero. Engoli em seco, notando que eles começavam a ficar impacientes. — Eu não sei o nome deles — sussurrei para Paula. — Não tem problema, aponte e diga se são da equipe um ou dois. Analisei aqueles garotos, eu acompanhava tantos jogos, mas no fim, Paula estava certa, eu não prestava atenção o suficiente para saber quem eram os melhores. Porém, era uma chance de tentar fazer o que aquele dia estava proporcionando: uma trégua. — David, time um — falei, olhando para o garoto, que concordou, parecendo surpreso por eu o chamar pelo nome. Apontei para um dos rapazes do Santana que não conhecia e mandei para o time dois e em seguida tomei o que se tornaria talvez a pior decisão no futuro, mas parecia totalmente certa ali. — Nicolas, time um. Meu melhor amigo/ex-namorado me olhou com tanta raiva, que cogitei seriamente que me agarraria pelos cabelos e arremessaria ginásio afora, mas ele apenas cerrou os punhos e caminhou para o lado de David. Se eles não conseguiam agir como civis, ficar no mesmo time os obrigaria a trabalhar em equipe, além de ganhar uma nova liderança. Quando terminei de separar os times, os jogadores se encararam e em seguida olharam para mim. Talvez eles fossem, de fato, se unir, mas para me matar ao invés de jogar. Pelo menos minha missão de trégua estaria concluída. — Obrigada, Melina, pode voltar para o seu lugar — a treinadora falou, me dando um sorriso carinhoso e fazendo um sinal para que eu fosse para a arquibancada. Suspirei, ignorando os olhares raivosos em cima de mim e voltei para o meu lugar, ao lado de Nina. — Você está bem? — ela perguntou, provavelmente reparando meu olhar um tanto perdido. — Sim, é só que foi meio estranho. — Dei de ombros. Separar times me trouxe uma certa nostalgia dos tempos de capitã e talvez essa fosse exatamente a intenção de Paula. ✽ ✽ ✽ Finalmente o treino havia terminado e o alívio me preencheu por não ter tido nenhuma briga. Aquilo era um recorde e todos estavam completamente surpresos. O que incluía os três treinadores, que tinham ido pegar as garrafas de água no carro para os jogadores, já que os bebedouros ficavam desligados durante a semana. Eu e Nina paramos ao lado de Nicolas, que estava absurdamente suado. Ele me deu um sorrisinho. — Parece que você só é incompetente quando não tem nosso time te ajudando, não é, Nicolas? — um dos garotos que eu não sabia o nome perguntou, se aproximando de nós e ganhando a atenção de Nick. — Falou o cara que não conseguiu defender nenhum dos meus passes no último jogo — Nicolas disse, inflando o peito. — Não é, Vitor? O tal do Vitor deu um sorriso, completamente debochado para o meu melhor amigo, em seguida começando a caminhar na direção de Nicolas, até estarem frente a frente. Eles eram praticamente do mesmo tamanho e perto deles, eu parecia um cisco. — Posso te superar a qualquer momento, capitão — ele debochou. — Jura? Me diga a hora e o lugar, aí descobrimos se é verdade. — Ei, parem com isso — David pediu, parando ao lado deles. — Passamos um dia tranquilo, precisamos mesmo brigar agora? — Cala a boca, David — Nicolas mandou, fazendo uma pequena veia saltar na testa do capitão do Santana. — Ninguém te chamou para a conversa. — Cacete, Nicolas, não pode dar um segundo de paz? Porra, depois quando falam que não controla a merda do seu temperamento ainda acha ruim. Eu suspirei, sabendo que aquilo não pararia tão cedo, mas sinceramente, não imaginei em momento algum qual seria a resposta que Nicolas daria, até ele falar: — Quando a sua irmã estava sentada em mim, não vi ela reclamar do meu temperamento. Meus olhos se arregalaram de forma automática e eu encarei Nicolas com um tipo de desprezo que eu nunca pensei que sentiria por ele. Aquilo era baixo, muito baixo, e eu sabia que ele tinha descido todo e qualquer nível. — Nicolas… — fui falar alguma coisa, mas perdi as palavras assimque o som estridente da mão de uma garota acertando o rosto dele soou. — Vai tomar no seu cu, babaca — a jovem disse, o encarando com um tipo de raiva que cintilava e foi ali que conclui que ela era a irmã de David. Só então me lembrei da presença do capitão do Santana e seu rosto não estava vermelho, mas sim roxo, e ele bufava como um animal prestes a atacar, mas estava se segurando porque aquele era o momento de sua irmã. Eu não sabia se deveria fazer alguma coisa, talvez bater em Nicolas também, jogar uma bola de basquete nas partes baixas dele, ou apenas sair correndo. Tinha me perdido em meio as palavras que nunca imaginei escutar dele. Nina colocou a mão em meu ombro e eu não soube se era uma tentativa de apoio, ou de me conter. — Porque não volta para sua vadiazinha e deixa meu irmão em paz? — a garota perguntou, apontando para mim. Se eu já estava com os olhos arregalados, naquele momento eles quase saltaram para fora. Senti uma dor no peito, como se tivesse sido atingida por um soco enorme. — Quem você está chamando de vadia? — Nina questionou, dando um passo à frente e ficando como uma barreira entre mim e aquela briga. — Oh, se ofendeu porque xinguei sua igual? Além de vadia tem dificuldade de entender? Aquilo foi o bastante, me ofender era uma coisa, mas ninguém falava da Nina. Tirei delicadamente minha amiga da minha frente e andei pisando firme no chão, até parar de frente para a garota. Sinceramente, eu não diria que ela tinha mais de quinze anos se considerasse sua altura, já que ela estava com um salto enorme e ainda conseguia ser menor que eu. — Porque não pega essa sua hipocrisia e enfia no seu cu? A única vadia e desmiolada aqui é você. Sim, eu tinha perdido a linha. Xingar uma mulher de vadia, sendo que ela também era uma vítima naquela situação não era uma coisa que eu faria normalmente, mas quando escutei ela dizendo aquilo para Nina, não me controlei. Ariella estaria orgulhosa e isso era o suficiente para eu saber que tinha feito uma cagada. Já estava pronta para pedir desculpa, mesmo não estando errada, quando senti uma mão em minha cintura e em seguida me girando, fazendo com que eu tivesse que apoiar minhas mãos no ombro do garoto. Era ele. Com aquelas íris azuis me olhando de forma tão fria que me fez sentir um arrepio subindo a espinha. Ele estava perto demais e eu o odiava por isso. — Repete o que você disse — o rapaz murmurou, com os olhos cerrados em direção a minha boca, como se esperasse o que eu ia dizer e a respiração se encontrava a centímetros do meu rosto. — O-o quê? — perdi a fala e quis me enterrar por gaguejar. — É surda? Repete. O. Que. Você. Disse. Minha respiração ficou ofegante e conforme seus lábios se moviam com aquelas palavras carregadas de ódio, eu me senti perdida. Não sabia porque suas mãos me seguravam daquele jeito. — Eu nem sei do que você está falando — admiti, vendo que a raiva que Santiago carregava no olhar, apenas aumentou. — Sei que seu cérebro é pequeno demais para compreender, mas antes de sair falando que a Ana é uma vadia desmiolada deveria se enxergar no espelho, princesinha. Ou sua torre encantada, com a familiazinha perfeita está limitando sua visão? — Não fale de coisas que você não sabe — respondi com firmeza, segurando as lágrimas que fizeram questão de querer aparecer em meus olhos e aproveitando que segurava seus ombros para o empurrar para longe. O garoto deu uma risada seca e me encarou com a mesma gelidez de todos os momentos em que nos encontramos. — Eu só falo o que está muito óbvio, vai correr para a mamãe e chorar? Eu levantei minha mão, apontando o dedo para ele, mas o garoto segurou meu pulso e aquele ódio em seu olhar se transformou em alguma coisa que eu não soube definir, mas foi o bastante para eu prender a respiração. — O que está acontecendo aqui? — A voz da treinadora ecoou por todo o ginásio e eu olhei para o lado, vendo a mulher irritada e todos os jogadores que observavam aquele circo em silêncio, como se não soubessem o que fazer. Incluindo Nina e Ana. Eu quis chorar ali mesmo, deitar no chão e me afundar, mas mantive a postura, tentando afastar todas as memórias dolorosas que aquele imbecil tinha feito questão de desbloquear. A dor me deixava quase sem ar e foi absurdamente difícil controlar o que poderia se tornar um ataque de pânico. Encarei o rapaz mais uma vez, me forçando a não demonstrar minha dificuldade para manter a respiração e puxei meu braço, que ele soltou, parecendo só então se lembrar que estava segurando. Assim que observei Paula e seu olhar irritado me atingiu, eu soube que tinha me ferrado e a situação só piorou quando enxerguei meu pai atrás dela. CAPÍTULO 8 Quarta-feira, 01 de setembro de 2021 Não demorou nem cinco minutos para os treinadores terem nos cercado, tentando impedir que tudo piorasse. Alguns dos jogadores ainda estavam com os rostos machucados por conta do jogo do final de semana e se aquilo tivesse continuado, talvez ficassem ainda mais. Eu não fazia a menor ideia de como aquela briga tinha começado, mas cheguei no momento exato em que a princesinha do São Sebastião chamou minha prima de vadia e foi o bastante para eu perder completamente a linha. Se eu tinha quase perdido o foco quando a girei e aqueles olhos perdidos me encararam? Com certeza. Mas eu não podia permitir que alguém tratasse minha prima daquela maneira. — No que estava pensando? — A voz de David, direcionada para Ana me interrompeu do meu transe, enquanto andávamos até o escritório, a mando dos treinadores. — O que foi, David? — As duas não tinham nada a ver com o que o idiota do Nicolas disse, só são amigas dele, mas isso já é castigo o bastante — ele resmungou, fazendo minha prima franzir a sobrancelha. — Eu ia dar um soco na cara dele e tudo se resolveria, você sabe que ele não falou para você, era só para me irritar. — Ele insinuou coisas, David. — Ana, ele estava tentando provocar, é o que ele faz, por que se doeu por uma mentira? Ana arregalou um pouco os olhos, acelerando levemente o passo para ficar em nossa frente. — Ana! — David chamou, correndo até o lado da irmã. O corredor era extenso demais e nós estávamos como os últimos do grupo, bastante longe. — É mentira, não é? — meu primo perguntou e eu vi minha prima suspirar, me fazendo arregalar os olhos. Eu nem estava entendendo aquela conversa, mas seja lá o que o Nicolas tinha dito, aquela expressão que Ana fazia confirmava que era verdade. — Ana, porra, você transou com o Nicolas? — David sussurrou, olhando para ela, sério demais. — Foi uma vez, ok? Já me arrependi o suficiente. — Cacete! — exclamei inevitavelmente, me surpreendendo por demonstrar alguma reação. — Olha isso, Ana, chocou até o Santiago — David reclamou. — Quando foi isso? Ele namorava a Mattos até algumas semanas pelo que eu saiba. Já estávamos perto da porta do escritório, então reduzimos a velocidade do passo, para terminar aquela conversa. — Eles tinham terminado fazia alguns dias, não sou tão otária. — Então por que caralhos xingou ela e a Nina de vadias? — O quê? — perguntei, completamente surpreso e com os olhos arregalados. — Santiago, você está demonstrando muitas emoções, por favor, pare, é estranho — David pediu, fazendo uma careta como se fosse chorar. — Tinha esquecido que não estava lá no começo. Basicamente, o Nicolas foi babaca insinuando coisas, Ana deu um tapa na cara dele, ofendeu a Mattos e depois ofendeu a Nina, aí a Mattos retrucou e nisso você chegou. Foi o suficiente para eu piscar repetidas vezes. Tinha entendido tudo errado e se ela já me odiava, naquele momento deveria estar querendo me matar. — Santiago? — Ana chamou, parecendo um pouco preocupada. — O quê? — perguntei, ríspido. — Você parece pálido, está se sentindo bem? — minha prima perguntou. — Ótimo — resmunguei. David me encarou com seriedade, como se pela primeira vez pudesse entender o que estava se passando pela minha cabeça. — Vai indo para a sala, já te alcançamos — meu primo falou para ela, que concordou. Assim que Anase afastou, David se aproximou mais de mim. — Por que me deixou dizer aquilo? — perguntei, cruzando os braços. — Perdão? — Melina. — Ah, você meio que faz isso sempre, achei que fosse mais um dia de normalidade. — David deu de ombros. Pisquei mais algumas vezes, me sentindo um pouco afetado. Ele achava que eu era tão babaca assim? — Eu a chamei de vadia, David, porque pensei que tivesse dito isso para a Ana. — Acontece. — David! — Calma, calma. — David levantou a mão em minha direção. — Não foi o que eu quis dizer, é só que não tinha nada para fazer naquela situação, todo mundo foi super babaca. Meio que a coitada da Melina caiu de paraquedas. Na verdade, foi um pouco extremo o que você disse. — Como assim? — Você falou da mãe dela. — O que tem a ver? — Franzi o cenho, mas quando David fez uma careta foi como se minha cabeça tivesse um estalo. — Ah, merda. O diretor do São Sebastião não tinha esposa e ninguém nem citava uma ex-mulher, então ou ela tinha falecido, ou ido embora e as duas opções eram horríveis para eu jogar na cara dela. — Por que não fez nada para parar a Ana? Se ela foi babaca — perguntei, nem sabendo o motivo para aquilo me incomodar tanto. — Santiago, você está meio estranho. Sabe como as brigas funcionam? Não dava para eu passar fita isolante na boca de todo mundo. — É, eu sei. — Balancei a cabeça, um pouco confuso. — Só não queria ter sido tão babaca com ela, não sabia que a Ana tinha começado. — Na real quem começou foi o Vitor. Olha, não se culpa. — David colocou uma mão em meu ombro. — E pensa pelo lado bom. — Tem um lado bom? — Claro! Ela vai achar que você só foi você, vocês brigam todas as vezes que se encontram mesmo. — Isso é horrível, David. — Eu franzi o cenho, encarando meu primo. — Mas você nem costuma ligar para isso, o que você tem? — Isso o quê? — O que os outros pensam de você. Costuma viver com o foda-se ligado. — Viver com o foda-se ligado não é igual a ser extremamente imbecil com quem não fez nada de errado. — Ela xingou sua prima. Foi para se defender? Foi, mas xingou. Ninguém ficou inocente lá, Santiago. Mas aparentemente minha prima tinha praticamente roubado o namorado sem vergonha dela e ainda a chamado de vadia primeiro. — Você anda meio estranho — David murmurou. — Vai se foder, David. — Agora sim, esse é meu primo. Vamos logo tomar bronca. David saiu andando na minha frente e eu não consegui evitar que uma lufada de ar deixasse meus lábios. Ele não me entendia e eu sabia que era culpa completamente minha. Ser frio por tanto tempo tinha consequências e talvez, para mim, viesse como uma crença de que eu não ligava para nada, como um maldito narcisista. Caminhei atrás dele e notei o olhar de desaprovação da nossa diretora e do homem que eu tinha quase certeza que era o diretor do São Sebastião. — Agora que finalmente estão todos aqui, vamos falar sobre o que aconteceu lá na quadra — o homem falou, cruzando os braços em frente ao corpo. Ele era alto e musculoso, de forma que sua postura séria se tornava quase assustadora. Mas eu não estava ligando muito para o diretor, porque minha atenção tinha sido dominada por Melina, sentada em uma cadeira no canto da sala, com os braços cruzados e uma expressão desanimada, como se estivesse se esforçando muito para ficar ali. Se até o momento ainda não tinha me sentido mal, foi ali que me senti horrível. Não estava acostumado com o sentimento de arrependimento e muito menos com ligar, mesmo que minimamente, para aquela garota, mas saber que tinha alguém ali chateado e provavelmente por minha culpa, sendo que eu tinha me equivocado, foi o bastante para aparecer aquela sensação desconfortável. Como eu tinha me permitido ser babaca o suficiente para chamar uma garota de vadia sem nem saber o que estava acontecendo? E mesmo que soubesse, e ela estivesse errada, que direito me dava de falar alguma coisa? Não conseguia acreditar que tinha sido impulsivo naquele nível. Muito menos que tinha falado sobre a mãe dela. Não prestei atenção em uma única palavra do que disseram, perdido demais em meio aos meus pensamentos, que só foram interrompidos quando escutei a diretora Myrian falando com meu primo. — Estou extremamente decepcionada, vocês deveriam ser exemplos, são capitães — ela disse, apontando para David e Nicolas. — Eu sugiro trabalho voluntário para aprenderem a lição — o diretor falou, recebendo uma confirmação da mulher. — A biblioteca municipal está em busca de voluntários durante o fim de semana para uma organização dos livros doados, acho que inscrever todos vocês, seria uma ótima forma de aprenderem. Os resmungos e reclamações rapidamente preencheram a sala, cheia com todos os jogadores dos dois times e algumas garotas que não eram do meu colégio e eu não sabia porque estavam ali, o que incluía Melina e Nina. — Silêncio! — a mulher pediu, cruzando os braços. — Vocês erraram, agora tem que receber as consequências. Mas se não quiserem que todos se encrenquem, podem contar quem brigou e apenas esses vão para o trabalho voluntário. Uma garota, do São Sebastião, ficou de pé e levantou a mão, recebendo a atenção de ambos os diretores. — Diga, Jéssica — o homem pediu e a garota endireitou a postura, de uma forma estranha. — Quem começou a briga foi aquele rapaz — ela apontou para Vitor, que a encarou com muita raiva. — Mas o Nicolas, a Mattos e a Nina também se envolveram. — Só eles? — o diretor perguntou, encarando mais Melina do que os outros, fazendo a garota abaixar a cabeça. Considerando que o diretor do São Sebastião era pai dela, provavelmente a garota estaria encrencada em dobro. — Na verdade, aqueles ali do Santana também — Jéssica apontou para mim e David, em seguida encarando Ana. — Ah e ela. — Obrigado, Jéssica — o homem agradeceu, encarando minha diretora, como se esperasse uma decisão vindo dela. — Bom, todos os que não foram citados estão liberados e espero que não fiquem tão perto de confusões novamente — Myrian falou e não demorou nem cinco minutos para a sala ficar praticamente vazia. — Quanto a vocês, quero todos se inscrevendo no trabalho voluntário pelo site da prefeitura e entregando o comprovante para mim, quem é do Santana e para o senhor Mattos os alunos do São Sebastião. Quem não fizer o trabalho voluntário, vai ganhar uma suspensão de duas semanas, como consequência por todas as brigas descontroladas que andam acontecendo. O diretor Mattos apenas assentiu, encarando todos com seriedade. Ele estava fazendo o papel ameaçador e Myrian a que passava informações. — Dispensados, espero os comprovantes amanhã de manhã — a mulher anunciou. Vitor, Nicolas, Nina, Ana e David saíram rapidamente e eu me surpreendi por Melina também ter ficado, considerando que eu só estava ali porque precisava falar com Myrian. — Pai, eu vou ver o vovô domingo, não posso fazer trabalho voluntário — escutei a garota dizendo, mesmo que baixo. — Pensasse nisso antes, senhorita Mattos, aqui sou seu diretor e o castigo é o mesmo para todos. — O homem desencostou da mesa que estava apoiado e soltou um suspiro, olhando para a diretora. — Tenha uma boa tarde, Myrian. — Você também, Heitor. E assim, ele saiu da sala passando por mim. Melina foi o seguir, mas parou assim que me olhou, cerrando um pouco os olhos, com a raiva completamente evidente em cada milímetro de seu rosto exageradamente bonito. Precisei me esforçar muito para manter a postura indiferente e o olhar frio em sua direção, porque uma parte minha queria pedir desculpa, mas talvez eu fosse orgulhoso demais para isso. Pude relaxar um pouco quando ela caminhou, acertando o ombro em meu braço e seguindo seu caminho. Definitivamente eu a tinha levado ao limite da irritação e se já não tivesse concluído isso com sua tentativa de apontar dedos na minha cara, teria naquele momento. — Santiago, por que está parado aí? Seus primos já foram — a mulher observou, me encarando e me lembrando o motivo para estar parada. — Tem como… — eu hesitei, não queria que aquilo soasse como uma ordem, porque tinha momentos em queMyrian apenas aceitava o que eu dizia, por eu ser o herdeiro do colégio e ela temer isso, mesmo que eu nunca fosse usar algo do tipo ao meu favor. — Eu estou perto de uma apresentação importante e os ensaios estão mais rígidos, não teria como eu não fazer o trabalho voluntário? — Me desculpe, querido, queria poder ajudá-lo, mas foi uma decisão conjunta dos dois colégios, não posso passar por cima disso e te liberar, seria injusto com os outros — Myrian disse, me dando um sorriso carinhoso, parecendo não se importar tanto por eu ter me metido em confusão também. — Certo — concordei, desistindo da minha tentativa de livramento e caminhando para fora da sala, vendo meus primos parados, visivelmente apenas me esperando. David parecia incomodado, enquanto Ana se encontrava emburrada demais. Preferi não questionar nada, porque minha paciência do dia já tinha ido embora e perder meu domingo por defender minha prima, que nem merecia minha defesa, havia me deixado puto. ✽ ✽ ✽ Deixei Ana na casa dos meus tios sem dizer uma palavra. Assim que cheguei na minha e entreguei as chaves do meu carro para Macedo guardar, subi diretamente para o meu quarto, ignorando as tentativas de David me chamar. Me joguei na cama, pronto para ler um livro, mas meu primo abriu a porta, subindo as escadas e me olhando com certa irritação. — Porra, está se fingindo de surdo? — ele perguntou e eu lhe ofereci um olhar indiferente. — Não estou para papo, David. Graças a você sempre se meter em confusões com o Nicolas, vou ter que fazer trabalho voluntário e lidar com pessoas. Tudo que eu queria era sossego — eu falei, a que provavelmente foi a maior frase que disse nos últimos tempos. — Ah, Santiago, você só está bravinho porque chateou sua namorada — David provocou, fazendo uma careta. Foi o suficiente para a paciência inexistente desaparecer, considerando que ele estava parecendo um dos imbecis que andavam com ele. Então eu apenas o olhei com raiva, antes de dizer: — Vai para a merda, David. — Sinceramente, já cansei da sua grosseria. — É, eu também cansei de você ser um folgado, mas olha só, não estou reclamando. Quando eu vi, já tinha falado e minha garganta quase se fechava por conta da raiva. Consegui ver uma veia saltando na testa de David, o que sempre acontecia quando ele chegava no máximo de sua irritação. — Você anda um bosta ultimamente — ele falou, me fuzilando com o olhar e eu não pude controlar minha língua. — Aprendi com você e seus amigos. David deu uma risada sem mostrar os dentes e andou pelo quarto batendo os pés, quase quebrando minha porta ao sair. Inevitavelmente, resmunguei uma chuva de xingamentos que eu não diria para ele, mas bem que estava com vontade. Talvez as diferenças entre nós dois estivessem começando a se tornar perceptíveis demais para nos aguentarmos. ✽ ✽ ✽ Na manhã de quinta-feira David não olhou na minha cara, até optando por ir de moto para o colégio e eu, sinceramente, não tinha vontade nenhuma de ficar atrás dele para tentar conversar. Imprimi meu comprovante de inscrição no trabalho voluntário e entrei em meu carro que Macedo já tinha deixado preparado, jogando a mochila no banco do carona, normalmente preenchido por meu primo, e pronto para ir até o colégio, quando Agatha bateu no vidro e eu abaixei para escutar a mulher. — Santiago, o senhor não tomou seu café, mas fiz um lanchinho para poder comer no caminho — ela disse, me entregando um pote com salada de frutas. — Obrigado, Agatha — agradeci, me obrigando a dar um sorriso, mesmo que mínimo, para a mulher saber que agradecia com sinceridade e assim que ela se afastou, eu arranquei o carro, dirigindo até meu colégio e inferno pessoal. Assim que deixei o carro no estacionamento dos alunos e andei até a entrada do colégio, pude ver Ana parada, como se esperasse alguém e bastou apenas um segundo de contato visual para ela caminhar até o meu lado. — Por que parece que o David dormiu com a bunda descoberta? — ela perguntou, me forçando a soltar um suspiro. — Tivemos uma discussão — respondi sem cerimônias, andando para dentro e sendo seguido por minha prima. — Não me diga que foi por conta da Melina, vi que você ficou incomodado por ter xingado ela, mas fala sério, Santiago, brigar com seu primo por uma garota que você nem conhece tão bem e é uma idiota… — Ana — a interrompi, parando de andar e a encarando, com a mesma expressão indiferente de todos os dias. — Não estou com saco para te aguentar no momento. — Porra, você é um imbecil, não acredito que vai ficar com raiva de mim por aquilo. — Ana me deu as costas, saindo pisando firme, da mesma forma que David na noite anterior. Massageei minhas têmporas, tentando manter a calma. Tinha irritado meus dois primos e as únicas duas pessoas com quem eu conversava, o que significava que eu terminaria aquele dia como bem no fundo sempre me sentia: sozinho. CAPÍTULO 9 Sábado, 04 de setembro de 2021 Eu estava em um sono absurdamente gostoso, quando escutei a Alexa começando a tocar música, me comunicando que o tempo de paz havia acabado e eu precisava ir para a biblioteca, porque era sábado e tinha trabalho voluntário. — Melina, essa música está me deixando surdo e já deu a hora de você acordar — Heitor falou, abrindo a porta do quarto. — Alexa, por favor, desligue. E assim minha assistente virtual, que estava no volume máximo, parou de tocar Amores e Flores, do Melim. — Pai — resmunguei, fazendo um barulho de choro. — Ninguém mandou se meter em briga, sua treinadora está completamente chateada com você, porque pensou que agora iria voltar, mas aprontou essa. Queria dizer que a culpa não tinha sido minha e que aquela garota que havia me xingando, mas quando olhei para ele, tudo que enxerguei foi decepção e isso fez meu peito doer. As palavras de Santiago me atingiram em cheio, como um eco: Vai correr para a mamãe e chorar? Como eu queria que minha mãe estivesse ali para eu poder fazer isso. — Pense pelo lado bom, é uma biblioteca, você vai se sentir no paraíso. Mostrei uma careta, tentando não deixar claro o quando minha vontade de chorar estava presente e como eu a segurava desde quarta, já que ele tinha me mandado direto para o quarto depois que chegamos, mas eu evitei por saber que me escutaria caso realmente chorasse. Não queria dar ainda mais preocupação. — Você pode desmarcar minha psicóloga? — pedi, vendo os olhos azuis cansados me encararem. — Eu esqueci. — Claro, vai se vestir — ele concordou, fechando a porta do quarto. Eu me levantei da cama, cambaleando levemente por ter feito isso rápido demais e minha pressão ser horrenda. Assim que me recuperei, fui até o banheiro do corredor e tomei um banho, já que estava um dia estranhamente quente para setembro. Voltei para o quarto quando terminei, optando por um short soltinho de moletom e uma camiseta cropped preta. Calcei meu tênis e desci as escadas. Um brilho preencheu meus olhos assim que vi o que tinha em cima da bancada da cozinha. Meu pai tinha comprado café gelado e donut da minha cafeteria preferida, a Café Literário, que ficava na frente do meu prédio e, além de cafés e comidas maravilhosas, ainda tinham livros por ser, de fato, uma livraria. Peguei o copo, tomando um pouco e dei uma mordida no doce, sentindo o bom-humor me preencher. Foi o bastante para eu esquecer minha raiva por ter que aguentar aquele loiro arrogante. — Sua mochila — meu pai falou, me dando uma pequena mochila de glitter prata, que provavelmente tinha comida e água. — Vai comendo no caminho, já está atrasada Agradeci e concordei, saindo saltitante apartamento afora, pegando o elevador e logo deixando o prédio. A biblioteca ficava há apenas cinco quadras do meu prédio, então eu não demoraria muito para chegar lá, o que me deixava até animada. Principalmente por ter tempo para mandar mensagem para o meu avô. Melina: Bom dia, vovô! Melina: Sei que combinamos que eu ia almoçar aí amanhã, mas acabou que eu estou de castigo no colégio e fui obrigada a fazer trabalho voluntário hoje e amanhã o dia todo.Vovô: Bom dia, minha netinha! Vovô: Que pena, minha querida, deixamos para quando você conseguir. Melina: Pode deixar, vô. Aviso o senhor. Desliguei o celular e o guardei no bolso de fora da mochila, feliz por já estar quase na porta da biblioteca. Porém, toda a animação acabou assim que eu cheguei no portão e vi o garoto parado lá como uma parede, encarando a biblioteca com certa curiosidade. Ele estava impedindo a passagem, o que era suficiente para me irritar exorbitantemente. — Com licença, tem pessoas precisando entrar aí — eu falei, sem chegar perto demais. O rapaz se virou na minha direção e por um segundo, eu poderia jurar que a frieza em sua expressão e nos olhos azuis se modificou para outra coisa, que rapidamente sumiu. — Não foi minha intenção impedir o caminho da realeza — ele disse, abrindo o braço esquerdo como um sinal para eu passar. Minha atenção se prendeu por tempo demais nas tatuagens espalhadas por ali, o sol, o que parecia um cisne, um coração humano e mãos quase se tocando, tais quais a pintura de Michelangelo. Mas só quando desviei o olhar que foquei em sua fala. Santiago tinha realmente acabado de ser debochado comigo? Aquilo me fez suspirar e forçar um sorriso, antes de passar em sua frente, notando que me seguia. Entramos quase juntos na biblioteca e todos os outros alunos já estavam lá, incluindo Nina, que não tinha me avisado que iria tão cedo. — Que bom, agora que todos os voluntários chegaram, vocês podem ver em qual equipe caíram na lista com seus sobrenomes e cumprir a tarefa. Os diretores de vocês me informaram que para o caso de qualquer briga, é para chamar a polícia, então eu não aconselharia isso — a mulher, que não devia ter mais de trinta anos falou, dando um sorriso. Eu suspirei, caminhando até o lado de Nina para cumprimentá-la. — Animada? — minha melhor amiga perguntou. — Pareço animada?! — retruquei, em seguida rindo e mostrando um beicinho. — Espero que tenham colocado nós duas juntas. — Tomara. — Nina cruzou os dedos. Mas nosso sonho acabou antes mesmo de começar, já que David, que estava olhando a lista, falou: — Nina, você é Rodrigues, né? — Sou sim. — Nina sorriu para ele. Me perguntei como diabos David sabia o sobrenome de Nina, mas não tive tempo suficiente para pensar sobre isso. — Então estamos juntos, no setor B — ele disse, mostrando animação demais para quem iria guardar livros e parecia ter mais músculos do que cérebro. — Aqui diz A. Ross e Mendonça, então Ana e Nicolas são da outra equipe, vocês ficaram com os livros do setor C, lá no segundo andar. E por último, Santiago, Mattos e Vitor com o setor A, que fica aqui embaixo para a direita. Encarei eles, não acreditando que tinha caído no mesmo grupo que ele. — E aí, Santiago?! Parece que caímos no mesmo grupo — o Vitor falou, assim que os dois se aproximaram de mim. Encarei Santiago por um segundo, observando os cachos perfeitamente arrumados, que sinceramente, eu nunca tinha visto um único fio fora do lugar. Embora o rapaz fosse grosso, sua aparência não demonstrava tanto aquilo, se eu não o tivesse visto ser um bosta, apostaria que tinha a personalidade de um golden retriever. Eu sabia que aquele nome não tinha nada a ver com ele visualmente, eu cogitaria algum muito mais… Fofo, se considerasse apenas o exterior. — Incrível, meu dia não poderia ser melhor. — A voz grossa dele me alcançou, me obrigando a parar de encará-lo e focar em minha frente. Precisava engolir a raiva que sentia e apreciar o lugar em que iríamos passar o dia inteiro. Dei as costas para os dois e andei até o setor que estávamos responsáveis, vendo os cinco carrinhos de livros bagunçados que precisávamos organizar nas prateleiras praticamente cheias. Seria um longo dia. — E, aí, é Mattos, certo? — Vitor perguntou, parando em minha frente e apoiando uma mão nas estantes, impedindo minha passagem para frente, já que o corredor era estreito. — Sim — respondi, tentando desviar dele. — Você está solteira? — o garoto questionou, sorrindo. — O que exatamente isso tem a ver com nosso trabalho? — indaguei, levantando uma sobrancelha. — Podemos aproveitar para nos conhecermos melhor. Franzi o cenho, encarando o garoto e tentando, com muito afinco, manter minha paciência. Talvez uma das aulas extras do colégio deles fosse: Como Tirar Alguém do Sério. — Com licença — pedi, tentando tirar o braço dele do caminho, mas Vitor tinha força o bastante para o manter ali. — Por favor. — Ah, vamos lá, Mattos, vai ser divertido. — Vitor, por que não sai da porra da frente, todo mundo precisa trabalhar para podermos ir embora — Santiago falou, de forma tão bruta que eu notei que em algumas vezes onde discutimos, o rapaz poderia ser considerado adorável. — Você é tão estressadinho, Santiago — Vitor resmungou, tirando o braço e cruzando na frente do corpo, ainda impedindo a passagem e encarando o rapaz, que se encontrava ao meu lado naquele momento. — Está tentando defender ela? — Ele apontou para mim. — Tem a ver com aquilo do outro dia? — Cala essa boca, porra — Santiago disse, a voz carregada de raiva. — Vai fazer sua parte. — Está ofendido? Santiago, conversamos sobre isso, egoísmo não cai bem em você. — Vitor sorriu de orelha a orelha, encarando o rapaz. Eu olhei para o loiro, notando seu rosto completamente vermelho e o olhar estreito na direção do outro garoto. Talvez fosse algum tipo de discussão entre amigos, e eu sinceramente não queria ficar no meio. — Se você não sumir da minha frente… — Santiago foi interrompido. — Vai fazer o quê? Você e o David brigaram e nós dois sabemos bem o motivo. — Vitor olhou para mim e em seguida voltou a encarar Santiago. — Não vai ter ele para bater em seu lugar, e Santiago, palavras combinam mais com você do que punhos. — Ei, parem seja lá o que for isso — pedi, ganhando a atenção dos dois. — Estamos aqui para fazer o trabalho voluntário por culpa de uma briga, querem ser expulsos? Não que tenha a ver comigo também, mas esperem pelo menos eu estar longe, não quero ficar no meio. — O que quiser, gata — Vitor falou, sorrindo para mim e me dando as costas, para ver um dos carrinhos. Tentei evitar mostrar desgosto e encarei Santiago, que parecia estar me analisando antes de nossos olhares se esbarrarem, o que foi suficiente para ele balançar a cabeça e andar para frente, também focando em um carrinho. Soltei um suspiro e apenas aceitei que estava em uma enorme maré de azar, colocando minha mochila no chão e começando a ver quais livros se encontravam ali. ✽ ✽ ✽ Eu estava faminta, não tinha outra palavra. O sanduíche que meu pai fez para mim de almoço e os dois pacotes de bolacha não foram nada suficientes para alimentar o dragãozinho dentro do meu estômago. — Ei — Nina chamou, com David ao seu lado. — Quer ir lá para casa? Já falei com o tio Heitor. Olhei para o meu relógio, notando que já eram seis horas da tarde e nós estávamos lá desde às oito da manhã. — Quero, mas só se você pedir comida. — Fiz um beicinho. David e Nina sorriram ao mesmo tempo, e por um segundo, eu pensei que eles ficavam bonitos juntos, afastando rapidamente aquela hipótese da minha mente, antes que eu começasse a ir longe demais. — Estão liberados — a mesma mulher de mais cedo anunciou e todos nós começamos a juntar nossas coisas. — Vão embora como? — David perguntou para Nina. — Acho que andando, não é tão longe e ainda não está tão escuro. — Minha amiga deu de ombros, passando a mão pelo braço, já que um vento começava a ser presente e ela estava de regata, provavelmente com frio. — Eu dou uma carona — o rapaz ofereceu, colocando a jaqueta por cima do ombro dela, que sorriu em agradecimento. — Não precisa se preocupar, David — ela negou, me encarando como um sinal para irmos rápido. Por sorte, Nicolas não estava lá perto, já que ainda não tinha voltado do andar de cima com a garota, porque eu não queria ver a cara dele e não teria forças suficientes caso surtasse por estarmos falando com o capitão do Santana. — Eu insisto. — David fez um sinal para esperarmos, correndona direção de Santiago, que não estava tão longe e falando alguma coisa, que o fez concordar apenas com um movimento, deixando a biblioteca antes que David voltasse para perto. — Tudo certo, vamos. Olhei para Nina, que também me encarou e nós duas demos de ombros. Uma carona com David não era uma ideia tão ruim e pelo menos eu não teria que andar. Já estava exausta. Nós seguimos o garoto até o lado de fora, onde Santiago estava parado. — A Ana não vai? — David perguntou para Santiago. — Não está falando comigo, então não. — O loiro afirmou, parecendo completamente indiferente. Eu não fazia a menor ideia de como Santiago e David eram tão próximos, mas isso provavelmente acabava deixando Ana incluída no pacote, considerando de quem era irmã. — Eu também não estava — David pareceu lembrar o garoto, que o encarou e revirou os olhos. Não entendi o que eles estavam falando, mas lembrei de Vitor comentando que os dois estavam brigados e tudo o que pude observar era que não pareciam brigados naquele momento. Andamos um pouco, até David parar na frente de um BMW que devia custar quase a minha casa e abrir a porta de trás, fazendo um sinal para Nina e eu entrarmos. Tentei não arregalar os olhos. Eu sabia que os estudantes do Santana eram ricos, mas aquilo entrava em outro nível. Que tipo de adolescente que devia ter tirado a carteira há meses andava com um BMW? — Mattos, na verdade, porque não vai na frente? — David sugeriu, abrindo a porta do carona para mim e me fazendo franzir o cenho. — Por favorzinho. Ali naquele momento aquele rapaz parecia simpático demais e talvez por isso e por ele já estar nos dando carona que me deixei levar, entrando no banco da frente. Dei de cara com Santiago sentado no banco do motorista e tive que me segurar para não pular de susto, principalmente quando David fechou a porta ao meu lado e entrou no banco de trás com pressa. — Onde? — Santiago perguntou, olhando David pelo retrovisor. — Nina? — o garoto questionou minha amiga. — É só você ir reto nessa rua mesmo, aí vira à direita quando chegar no mercado, continua reto por mais ou menos uns quatro quilômetros, vira de novo e eu moro em um sobrado quase no final da rua — Nina explicou. Eu não tinha refletido quão longe era a casa da minha melhor amiga até ela fazer aquela explicação. O que me fez pensar que tipo de ideia tínhamos tido de cogitar ir andando ao invés de pedir um Uber. — Entendeu, Santiago? — David encarou o rapaz. — Não — Santiago resmungou e eu prendi a respiração quando seu olhar se direcionou para mim, só nesse momento me lembrando que eu o encarava. — Você sabe onde é? — Eu assenti e ele usou seu mesmo tom ríspido que me deixava tão irritada para dizer: — Então me avise o caminho. O rapaz ligou o carro e logo estávamos na rua. Eu me encontrava quase imóvel no banco de couro, como se ainda não tivesse associado o que fazia ali e muito menos que aquele babaca estava ao meu lado. Nina e David conversavam baixinho no banco de trás e eu queria desaparecer. — Vira aqui — falei, apontando para a direita assim que passamos no mercado. Ele fez a curva e me olhou por um segundo. — Agora é reto — expliquei, cruzando os braços em uma tentativa falha de me proteger daquelas rápidas encaradas totalmente carregadas de ódio. — Santiago, ali na frente tem um Burger King, faz uma parada para eu comprar comida. A Mattos está com fome — David pediu, apontando para o fast food na esquina da quadra em que estávamos. Eu quis me enterrar ali e não sair nunca mais de tanta vergonha, provavelmente tinha ficado vermelha. Não acreditava que eu estava no banco do carona de um carro que o dono e motorista era o mesmo que tinha me chamado de vadia e me tratado mal em todas as vezes que nos encontramos, menos naquele momento e se encontrava entrando no Burger King porque um outro garoto, que sempre brigava com meu ex, disse que eu estou com fome. — O que você quer comer? — A voz de Santiago me fez olhar para ele mais uma vez, me surpreendendo já que a pergunta estava direcionada para mim. — Dois Cheddar Duplo e uma batata grande — respondi, assim que olhei no cardápio acima de nós. O rapaz repetiu o que eu disse para a moça que estava anotando os pedidos ainda na fila do Drive Thru, em seguida olhando para os dois no banco de trás, que falaram diretamente o pedido para a mulher. — Não vai comer, Santiago? — David questionou. — Dieta — o rapaz respondeu, pegando a carteira do bolso do casaco. — Espera que eu pago — eu falei, abrindo minha mochila. — Eu pago — Santiago resmungou, já entregando o cartão para a mulher. — Não precisa, você já… — Fui interrompida. — Eu pago — ele reafirmou. A moça devolveu o cartão e ele avançou o carro em direção ao caixa de retirada. — Me deixa te dar o dinheiro do meu e do da Nina, você não precisa pagar — repeti, abrindo minha carteira. O garoto soltou um suspiro e me encarou. — Eu já paguei. — Eu sei, mas… não é justo. — Considere um presente, já que todos estão fazendo trabalho voluntário por culpa do David — Santiago disse, apontando para o garoto no banco de trás. Acho que aquela foi a primeira frase comprida sem ser um xingamento que já escutei ele dizer e isso me deixou sem palavras, mesmo que a culpa não fosse completamente de David. Santiago pegou os lanches, entregando cada pacote para o seu dono e saindo em direção à rua. — Se eu virar aqui, dá para voltar para a rua? — ele perguntou. Pisquei repetidas vezes, não estava acostumada com o tom ríspido fora de sua voz. — Volta, a rua é mão dupla — respondi, fazendo um sinal de beleza como confirmação. Ele assentiu em silêncio e eu segurei meu lanche com bastante firmeza. Até o momento, não estava prestando atenção na música que tocava, mas começou uma que eu nem conhecia e a melodia era absurdamente chata. Foi como se eu me esquecesse de onde estava e automaticamente minha mão foi até o painel, pronta para mudar a música, mas se chocando com outro dedo, que eu descobri ser de Santiago assim que nossos olhares se cruzaram, ambos confusos e perdidos. Nenhum de nós dois desviou o olhar, como se tivéssemos entrado em um jogo de quem piscava primeiro, ou no meu caso, de quem teria um infarto. Aquele olhar me causava tanta raiva, que meu ar se perdia no caminho e meu coração se acelerava. Uma buzinada foi o suficiente para que ele desviasse e por alguns segundos, eu quis comemorar por sentir que tinha vencido, até olhar para frente, onde um outro carro estava a centímetros do de Santiago e o cara tinha colocado a mão para fora, mostrando o dedo do meio. David pegou alguma coisa, abrindo o teto solar do carro, que eu não tinha notado até o momento e saindo ali. — Vai para a porra, caralho — ele falou para o homem. — Você que está na contramão, seu verme, tirou a carteira ontem? Comprou? Imbecil! Vai mostrar o dedo do meio para a sua mãe e sai da merda da rua. Foi ali que uma coisa que Vitor tinha dito fez sentido, David era quem partia para cima e aparentemente quem tinha mais raiva dentro de si também, mesmo que eu nunca tivesse visto ele fazer algo do tipo antes. — Sossega — Santiago pediu. — Senta a bunda no banco. O carro que quase tinha nos acertado deu a ré e entrou na pista certa, fazendo David aplaudir. — Isso, otário, aprendeu a dar a ré pelo menos, dê parabéns ao seu instrutor de merda por ter feito uma coisa direito — o garoto terminou de falar, se sentando no banco e fechando o teto solar, colocando de volta o controle que ele tinha usado, ou seja lá o que fosse aquilo. — Pronto, Santiago, minha bunda já voltou a aquecer o banco. Podemos continuar o caminho, só por favor, pare de olhar a senhorita Mattos e dirija. Eu senti meu rosto esquentando a escutei a risada baixa de Nina, que só me fez querer me afundar mais. Santiago não pareceu se abalar, mantendo a mesma expressão e apenas voltando a dirigir. — Viro aqui? — perguntou para mim. — O quê? — Preciso virar? — Ele abriu um pouquinho os olhos, como se esperasse uma resposta, parado na esquina. — Ah, sim, virar, é. — Isso é um sim? — Sim?!— Melina, estou indo deixar vocês em casa. Eu pisquei, o encarando e desviando para olhar a rua. — Casa — falei, me sentindo uma imbecil, mas me obrigando a balançar a cabeça e associar meus pensamentos. — Quero dizer, vira à direita. — Vocês são tão comunicativos — David observou, colocando o rosto no meio dos dois bancos. — Cala a boca, David — Santiago murmurou. — Cala a boca, David — o garoto repetiu, fazendo uma voz fina. — Essa é sua frase preferida. — Não, não é — Santiago disse, clicando para mudar de música. Começou a tocar Imaturo, do Jão e antes que eu notasse, estava cantando baixinho, o que mais uma vez me fez querer morrer, já que Santiago me encarou. Agradeci aos céus, porque antes da música terminar tínhamos finalmente chegado na frente da casa de Nina, coisa que avisei quase dando um salto e começando a pegar minhas coisas que eu tinha derrubado da mochila. — Obrigada pela carona — agradeci, para quem quisesse escutar, só notando que Santiago não estava no banco do motorista quando levantei o corpo e quase tive outra morte ao vê-lo na janela, ao meu lado. O rapaz abriu a porta para mim e eu o encarei por mais tempo do que a minha sanidade permitia. Estava tendo que fazer um esforço muito grande para minha mente não apagar todas as vezes que ele foi babaca, o que incluía alguns dias atrás quando chegou no topo da babaquice, só por Santiago estar quase simpático naquele momento. — Quer ajuda? — ele ofereceu e eu neguei rapidamente, balançando as mãos de forma exagerada e me fazendo me perguntar o que tinha de errado comigo. Mas eu já tinha concluído que aquele era mais um dia ruim e o universo queria me mostrar que era a mais pura verdade, porque eu tropecei assim que fui descer e Santiago precisou me segurar. Eu estava olhando para baixo e desejei apenas me abaixar o suficiente para sair dali rastejando. — Aí — ele resmungou, me fazendo notar que minhas unhas tinham se afundado no braço dele. Me ajeitei rapidamente, soltando dele e arrumando meu cabelo que tinha caído na frente do rosto. — Além de desastrada e distraída, decidiu virar assassina? Que unhas doloridas — Santiago reclamou, franzindo demais aquele rosto torturantemente bonito. Aquilo me fez lembrar do museu e toda a raiva que eu quase esqueci voltou, me deixando pronta para o responder torto, mas Santiago deu alguns passos para frente, praticamente me prensando contra o carro e eu arregalei mais os olhos do que gostaria de admitir. Seu cheiro lembrava sabonete de bebê, mas de uma forma muito mais deliciosa e eu descobri que aquele era o perfume que me causava uma onda de sufocamento. Estava pronta para o arremessar no chão, chutar sua perna e arrastar aquele cabelo perfeito pela calçada, quando alguma coisa fez sombra acima da minha cabeça e assim que olhei na direção, vi o pacote do Burger King que eu tinha esquecido no carro. — Também é esquecida, pelo jeito — o garoto observou. Peguei o pacote de sua mão e o encarei, com um tipo diferente de irritação me preenchendo e me dominando. Eu queria acertar o rosto dele com força para que a sensação sumisse. Aqueles olhos azuis me observavam com uma espécie de raiva que eu não conhecia, não era como na quarta-feira, era quase primitivo e eu senti meu coração se acelerando mais. — Mel… — Nina começou a falar, parando sua frase. Desviei o olhar dele, encarando Nina, que estava comendo o lanche com David atrás do carro até o momento, mas tinha saído dali para dizer alguma coisa e naquele instante me fitava de boca aberta. — Vou terminar meu lanche — ela avisou, voltando para o lado de David, que tinha a mesma expressão que ela. Eu olhei para frente, vendo aquelas íris uma última vez, antes de o empurrar sem delicadeza nenhuma, quase fazendo o rapaz perder o equilíbrio. — Obrigada… — sussurrei. — Pela carona. Ele apenas balançou a cabeça em afirmação, fechando a porta que permanecia aberta e umedecendo os lábios, me fazendo perder o ar por um momento, totalmente hipnotizada pelo movimento, antes de andar até o lado do motorista. — Tchau, David — falei, acenando e dando as costas para eles, passando pelo portão da casa de Nina, que pela bênção dos céus estava aberto. Não prestei atenção se Nina tinha se despedido, apenas entrei na casa dela de forma automática, não olhando para nada, só seguindo uma linha reta até a escada que daria até o quarto da minha melhor amiga, onde me joguei na cama, soltando meu lanche ali. — Melina? — Nina me chamou, me obrigando a encará-la e notei que a jaqueta de David ainda estava nela. — O que… foi aquilo? — Tentativa de assassinato? — perguntei, colocando a mão no peito e tendo certeza de que Santiago queria me matar de raiva. — Ficou doida? Eu estou falando do Santiago… O que vocês… Você não… Foda-se, não entendi mais nada. — Ele foi pegar o lanche para mim — falei, apontando para o pacote. — Nossa, estou precisando de alguém para pegar um lanche para mim. — Nina tinha um sarcasmo no tom de voz, que me fez franzir o cenho. — Você… — falei, meio hesitante. — Você notou que ele parecia estar me provocando? Nina, acho que a arma daquele desgraçado é a beleza, eu fiquei com tanta raiva. — Raiva? Você parecia com… — Nina parou assim que eu a olhei brava, sorrindo. — Quero dizer, ele foi legal hoje, não? — Ele me chamou de vadia, Nina — a lembrei, ficando incomodada por acabar me lembrando também. — É verdade — minha amiga concordou. — Mas olha, quando estamos com raiva nem sempre analisamos o que falamos. — Não importa, Nina. Eu já odiava a estupidez dele e ele ainda me xingou, não posso perdoar isso — falei, me sentando na cama e começando a respirar mais devagar para controlar as batidas frenéticas do meu coração. — Eu o odeio e eu nunca tinha odiado alguém. — Por que não come seu lanche? — Nina sugeriu, apontando para o pacote. — Só com o tempo que o Santiago demorou para te entregar, já deve ter esfriado. Eu peguei o travesseiro e joguei na direção dela, fazendo minha melhor amiga rir, mas concordei e comecei a comer, com meu estômago agradecendo por ser finalmente preenchido. — Ele é um babaca — sussurrei para mim mesma, em meio as mordidas. — Um babaca com cabelo de anjo e olhos bonitos, mas um babaca. — Cabelo de anjo, Melina? — Nina perguntou, sentada na cadeira rosa que ficava de frente para sua escrivaninha branca. Não era para ela ter escutado. — Você tem olhos? — perguntei, com a boca um pouco cheia, de forma que precisei colocar uma mão na frente. — Ele é gato, se é isso que está perguntando. — Não era — resmunguei. — Por que não assistimos a um filme e você para de reclamar do Santiago? — Ideia perfeita. — Fiz um sinal positivo com a mão, e Nina riu. — Aliás, nada a ver com o que estamos falando, mas como o David sabia seu sobrenome e por que vocês parecem tão próximos? Nina me encarou, com os olhos arregalados e um sorriso forçado no rosto, que rapidamente foi substituído por um suspiro. — Conversamos às vezes, desde o jogo — ela explicou, dando de ombros. — Ele não é um babaca como o Nicolas sempre alegava. — Meio que depois de quarta, o Nicolas não tem moral para chamar ninguém de babaca — falei, bufando um pouco, porque mesmo a curta lembrança já me deixava absurdamente estressada. — Sabe, não falamos disso, mas… Como você ficou? — Decepcionada com ele. — Não, foda-se o Nicolas, Melina, quero saber o que está sentindo, a Ana foi babaca com você. — E eu com ela — admiti, tentando relevar um pouco toda aquela situação e focar na minha comida. — E depois o Santiago comigo, então virou uma grande bola de neve. — Ele… — Nina hesitou, engolindo em seco. — Falou da sua mãe. — Eu sei. — Você sabe que pode conversar comigo sempre, né? — Minha melhor amiga se aproximou, segurando minha mão que por sorte estava vazia já que eu tinha acabado de terminar o lanche. — Sei, obrigada. — Sorri, batendo as mãos para tirar o sal da batata e encarando Nina. — O que quer assistir? Antes que ela pudesse responder, meu celular tocou no bolso e eu peguei, imaginando que poderia ser meu pai,mas quase soltando um grito de tanta animação, quando vi a foto de Ariella na tela. Atendi rapidamente a chamada de vídeo e não demorou para a melhor prima do mundo estar na tela, com seus cabelos loiros curtinhos. — Ariella! — falei animada, apoiando o celular na cama e ficando de bruços para falar com ela. — Oi, prima! — Ariella acenou e eu consegui notar que ela estava no quarto de Violeta, já que as paredes estavam cobertas de pôsteres de um cara que não reconheci, mas definitivamente não seriam de Ari. — Como você está? — Um lixo, cada dia é uma bosta diferente. — Ela deu de ombros. — Quanto amor no coração. — Sempre. Como está por aí? Uma porra também? — Você nem imagina. Estou tendo que fazer trabalho voluntário porque me meti em uma briga — falei, fazendo um beicinho triste e Ariella arregalou os olhos, batendo duas palmas e rindo. — Puta que pariu, Melina! Não imaginaria que minha priminha ia se tornar rebelde. O que você fez? Chutou as bolas de alguém? Ou deu um soco no peito? — Não, eu xinguei uma garota de vadia — disse, com o desgosto estampado na voz. — Cacete! — E as novidades? — Tudo na mesma, eu durmo o dia inteiro, o Theo um gado como sempre e a Violeta a cada dia está ficando mais obcecada. — Melina, você pode me culpar? — Minha outra prima apareceu na tela, com os cabelos compridos e castanho, além dos olhos enormes e bochechas fofas. — O Thomas não é lindo? — Quem é Thomas? — eu perguntei, ficando um pouco assustada com a possibilidade de Violeta estar namorando. — Thomas Jung — Violeta respondeu, dando gritinhos animados. — É aquele ator que ela gosta, lembra? — Ariella revirou os olhos, apontando para a parede atrás delas, o que me fez concluir ser a mesma pessoa. — O que você não suporta? — Minha prima assentiu e eu inevitavelmente ri. Ariella tinha ficado com um ranço absurdo do cara após ver um filme em que o personagem dele era babaca e algumas entrevistas que deu, onde parecia esnobe demais. O bode piorou quando Violeta não parou de falar do cara por semanas, irritando até mesmo meu pai, que recebia vídeos diariamente no TikTok, porque minha priminha queria compartilhar o filme que o tal Thomas estava fazendo. — Ele é bonitinho, mas por experiência própria posso dizer que homens bonitos e babacas estão na moda — admiti, soltando um suspiro. Minhas duas primas olharam uma para a outra e em seguida me encararam. — O que o imbecil do Nicolas fez? Eu vou para Vila dos Anjos quebrar a cara desse merda agora mesmo, quem ele pensa que é para magoar a minha prima? — Ariella perguntou, ficando um pouco vermelha enquanto falava. Minha prima era um pouco explosiva demais, por isso em momentos de raiva, costumávamos dizer que estávamos dando uma de Ariella. — Não estava falando dele. — Eu ri. — Mas esqueci de te contar que a gente terminou, tem umas três semanas. — Aleluia! — Ariella comemorou, ficando séria ao ver minha expressão indignada. — Vamos combinar, Melina, ele é um gato, mas também é um mala. — A Melina gosta do tipo — Nina falou, só então se deitando ao meu lado e acenando para minhas primas. — O que quer dizer? — Ariella deu um sorrisinho. — Ela está brigando praticamente todos os dias com um garoto e gato é apelido carinhoso. — Minha melhor amiga riu e Ariella bateu palminhas. — Depois quero mais detalhes. Agora eu preciso ir porque o idiota o Theo decidiu dirigir e vocês sabem como é ele uma merda dirigindo de noite, ou em qualquer horário, a Violeta vai junto para garantir que ele não morra, mas preciso passar a lista de coisas para pegar no mercado. — Eu? — Violeta perguntou. — Sim, ou vou te deixar sem celular e aí não vai poder stalkear o Thomas. Violeta arregalou os olhos e apenas jogou um beijo para mim, me fazendo entender que ela tinha ido. — Se cuidem. — Ariella acenou e eu acenei de volta. A ligação foi encerrada e eu senti a saudade me preenchendo. Às vezes eu me lembrava de como era a vida em Monte Sul e desejava estar lá mais uma vez, com meus primos todos os dias. — Agora podemos ver filme? — Nina perguntou, se ajeitando para pegar o controle. — Podemos, o que você quer ver? — Pode escolher. — Shrek — respondi, extremamente animada e vendo a careta de desaprovação de Nina. — Sério? Pela milésima vez? — Nina — pedi, com um beicinho. Foi o suficiente para Nina suspirar, ligando a TV que ficava de frente para a cama de lençóis amarelos e colocando no primeiro Shrek. Me senti satisfeita e permiti que meu corpo relaxasse na cama da minha melhor amiga. Estava tão cansada, que eu apenas dormi, mesmo que ainda estivesse passando o filme. Dormir com desenhos ou música era uma coisa que eu acabava fazendo com frequência, porque me sentia menos sozinha se algum barulho fazia presença no quarto. CAPÍTULO 10 Domingo, 05 de setembro de 2021 “Ela tinha aqueles olhos solitários Eu só sei porque os tenho também” — Lonely Eyes, Lauv O dia nem tinha começado direito e eu já estava irritado. A iluminação exagerada do quarto, em conjunto com o enorme relógio de frente para a cama, me alertava que, em pleno domingo — o meu dia de paz e sem pessoas — já estava na hora de sair para o trabalho voluntário. Por culpa de David, durante mais um primeiro dia da semana, minha vida seria caótica e eu teria que lidar com gente chata. E com gente chata, eu queria dizer Vitor. Como exatamente meu primo tinha conseguido ficar com tão pouco cérebro a ponto de acreditar que Vitor Vasconcelos era uma boa companhia? Isso era realmente uma coisa que eu não entendia. E tinha Melina. Eu já não sabia definir como me sentia com a presença dela. Uma parte minha ainda estava irritada por todas as vezes que ela tratou todo mundo bem e foi estranha comigo, isso desde que nos conhecemos há meses atrás, principalmente por apontar o dedo na minha cara mais de uma vez. E ainda tinha a briga, por mais que Ana tivesse falado primeiro, Melina não se manteve inocente e xingou a minha prima também. No final das contas, a garota ainda era quem chamou alguém da minha família de vadia, porém, nada me dava o direito de citar a mãe dela, mesmo que tivesse me esquecido que a mulher não estava presente por qualquer que fosse o motivo. — Bom dia, Santiago! — David gritou, abrindo exageradamente a porta do quarto, de forma que mesmo do andar de cima eu consegui escutar o movimento em alto e bom som. — Anda logo que já estamos quase atrasados. Eu o encarei com curiosidade. Embora meu primo tivesse me obrigado a dar carona para Melina e Nina, ele ainda não tinha conversado comigo diretamente desde a nossa pequena discussão na quarta-feira. — Bom dia — sussurrei, um pouco hesitante, enquanto David se aproximava e se jogava na minha cama, se deitando ao meu lado. Deveria agradecer por ter uma cama king size, porque aquele rapaz era exageradamente espaçoso. — Olha, me desculpa pelo que falei na quarta — ele pediu, olhando para o teto. Eu soltei um suspiro, engolindo o meu orgulho e me lembrando que David era praticamente a única família que eu tinha de verdade. — Me desculpa também. Ele se apoiou no próprio cotovelo, levantando um pouco o corpo e me fitando. — Você acabou de pedir desculpa? — David perguntou, com a sobrancelha direita erguida. — Eu errei, é o mínimo, não? — devolvi sua pergunta. — Certo. — O rapaz se deitou novamente. — Posso perguntar uma coisa sem você ficar irritadinho? — Eu nunca fico irritadinho e você já está perguntando. — Você… — David hesitou, soltando um suspiro. — Está rolando alguma coisa com a Melina e por isso ficou tão chateado depois do jogo? Quem levantou o corpo naquele momento fui eu, encarando seriamente David, antes de revirar os olhos. — Não está rolando nada, eu nem conheço ela direito, David. Meu primo me imitou, também ficando praticamente sentado e cerrando os olhos na minha direção. — Então que porra foi aquela ontem? — ele questionou, avaliando demais a minha expressão, como se estivesse tentando encontrar algum segredo em meu rosto. — Do que você está falando agora, cacete? — Me sentei completamente,cruzando os braços enquanto o fitava e David me imitou. — Na porta do carro, logo que chegamos na casa da Nina, vocês pareciam prestes a arrancar as roupas ali mesmo. Eu pisquei mais vezes do que consegui contar e tive que engolir em seco assim que a lembrança da exata cena invadiu meus pensamentos. Só tinha ido pegar o maldito lanche, mas não parei para refletir que Melina estava bem na frente, o que não gerou uma situação exatamente confortável e lembrar do olhar assassino que ela lançou para mim, me causava arrepios na espinha. — Você viu coisas — consegui responder, mostrando uma expressão de descontentamento. — Vou fingir que acredito em você, priminho. — David sorriu, olhando no relógio da parede. — Porra, estamos atrasados para valer. — Desde quando você é pontual? — perguntei, observando meu primo se levantar, calçando os sapatos que nem reparei que ele tinha tirado e entrando no meu closet. — Desde que a Nina pediu para que eu ir mais cedo para terminarmos antes — David falou alto lá de dentro, saindo com minha jaqueta de couro na mão. — Vou usar, a sua é mais bonita que as minhas e você nem usa. Me lembrei que a jaqueta preferida dele estava com Nina no dia anterior e já que não me recordava dela ter devolvido, conclui que provavelmente tinha ficado com ela, mas meu primo não queria dizer isso. — Tanto faz. — Dei de ombros, tirando a coberta do corpo e me levantando também. — Vou tomar um banho antes de sairmos. — Não vai não. — David balançou o dedo indicador em negação. — Não dá tempo, você tomou ontem de noite, se veste logo e vamos. — Mas… — Anda, Santiago — meu primo falou, me puxando para dentro do closet. Nunca tinha o visto tão mandão, muito menos tão decidido, o que me fez concordar mais por estar perdido do que por realmente aceitar. Peguei uma calça cáqui e uma blusa cinza, porque era a opção mais rápida para David parar de me olhar com irritação e vesti rapidamente, calçando meu tênis branco. — Ótimo, vamos — David disse, fazendo um sinal positivo. — Calma, eu ainda preciso arrumar meu cabelo — eu avisei, apontando para os fios loiros em minha cabeça. — E sabe, lavar o rosto, passar um hidratante, protetor solar, escovar os dentes, dá uma relaxada aí. — Então anda logo — meu primo resmungou, vestindo a jaqueta de couro, que ficava muito melhor nele. Eu suspirei, concordando e descendo as escadas para ir ao banheiro no primeiro andar do quarto. ✽ ✽ ✽ Já estávamos no carro e eu dirigia em direção a biblioteca, pensando que deveria ter dado um jeito de passar para falar com a minha mãe antes de sair. — Ei, Santiago — David chamou, ganhando minha atenção. Olhei na direção dele por dois segundos, o que foi o suficiente para meu primo compreender que poderia falar porque eu estava escutando. — Queria saber se posso levar uma amiga na sua apresentação de sexta. — Você nunca me pediu isso, começou a namorar? — perguntei, abaixando um pouco o volume do rádio para escutar melhor. — Não, é minha amiga — David respondeu, me fazendo o encarar rapidamente, logo voltando a atenção no trânsito. — Desde quando você tem amigas? — Amiga, no singular — meu primo enfatizou, coçando o nariz por um momento. — E faz um tempo curto, ela é legal. — Ok, então leva, depois te dou outro convite. Era surpreendente meu primo estar convivendo com qualquer garota sem ser por estar ficando com ela, então eu não poderia deixar de apoiar sua amizade. — Na verdade, me dá mais dois? Ergui uma sobrancelha, um pouco confuso, mesmo que ele não pudesse ver. — Vai levar sua amiga e quem mais? — A amiga dela, elas são bem grudadas. — Que seja, dois convites então — concordei, balançando a mão como se não importasse. David ficou visivelmente animado, até mesmo me agradecendo e eu apenas continuei o caminho. Assim que chegamos na biblioteca e descemos, não consegui ver Melina do lado de fora, apenas Vitor encostado em uma das pilastras, o que me fez automaticamente soltar uma lufada de ar, irritado por já ter que aguentá-lo. — Boa sorte — David murmurou, entrando na minha frente. Andei até o Vitor, me castigando mentalmente por ter que fazer isso e mais ainda por conta da pergunta que saiu da minha boca: — A Mattos já chegou? — Não sabe onde está sua namorada? — Vitor debochou. Conclui que não responder era a melhor opção e entrei na biblioteca, procurando por qualquer sinal da garota. Afinal, nós tínhamos muito trabalho para fazer. Assim que vi Nina, decidi arriscar e perguntar para ela. Eu definitivamente não estava no meu juízo perfeito. — Oi — falei, mesmo que hesitante. A garota pareceu surpresa, antes de me encarar. — Oi. — Por acaso sua amiga já chegou? Nós temos que fazer nosso setor. — Que porra eu estava fazendo? Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. — Ainda não, dormiu demais, então eu vim e ela ficou terminando de se arrumar, mas… — Nina parou de falar, olhando para a porta e apontando para lá com um sorriso. — Ah, já chegou. Me virei, notando a garota entrar ali e por um segundo idiota, eu prendi o ar. Nem sabia o motivo para fazer aquilo, mas apenas tinha acontecido. — Bom dia — Melina disse, assim que se aproximou, olhando para mim e para Nina. — Bom dia — a garota e eu respondemos ao mesmo tempo. — Vamos para o nosso setor? — Mattos perguntou e eu concordei, a seguindo assim que começou a caminhar para lá. A expressão da garota estava um pouco estranha, como se ela não soubesse o que estava fazendo, ou se sentisse perdida. — Mattos! — A voz de Vitor nos fez parar. — Bom dia, Vitor — ela respondeu, fitando o rapaz. — Com certeza é um bom dia, você é um colírio para os olhos. Tive que inclinar um pouco meu rosto para o lado, apenas para garantir que não vomitaria. Como ainda tinha gente que caia no papo desse imbecil? Melina não chegou a responder, apenas o dando as costas e voltando a caminhar, comigo atrás dela e Vitor logo atrás de mim. Fomos exatamente para os carrinhos que tínhamos parado no dia anterior e eu comecei a separar por ordem alfabética. — Sabe, Mattos, não me respondeu ontem se está solteira — Vitor afirmou e assim que olhei na direção, pude ver que o rapaz me encarava, como se estivesse tentando me provocar. — Porque não tem nada a ver com o trabalho — ela respondeu, ainda sem olhá-lo. — Podíamos sair depois daqui então, o que acha? — Desculpe, já tenho compromisso — Melina falou, e eu notei os lábios se curvando levemente, com desgosto. — Aposto que vai se divertir muito mais comigo — ele disse, aproximando os dedos do braço dela e começando a deslizar. Melina enrijeceu a postura, claramente incomodada e foi o bastante para que eu parasse de só observar a cena. — Mattos — chamei e a garota me olhou, parecendo totalmente surpresa. — Vamos para os últimos corredores, assim terminamos mais rápido, o Vitor finaliza esse e depois passa para o cinco, não é, Vitor? Vitor ficou praticamente vermelho, como se estivesse fervendo, mas antes que ele abrisse a boca, Melina pegou sua mochila e foi até o meu lado. Andamos para o último corredor em silêncio e assim que chegamos, a garota colocou a pequena coisa brilhante no chão e me olhou. Eu apenas comecei a mexer no carrinho de livros que estava ali, fingindo não me importar com sua presença. — Não imaginei que diria isso para você novamente tão cedo, mas obrigada. — Por que está me agradecendo? — perguntei, tentando passar a ideia de que não entendia sobre o que ela falava. — Eu não sou idiota, sei que inventou uma desculpa porque viu que seu amigo estava me incomodando. Confesso que é surpreendente ter feito isso, já que, sabe, você é um babaca e tudo mais. A encarei, com um sorriso cínico querendo brincar em meu rosto. — Está certa sobre quase tudo em sua frase — falei, voltando a focar no carrinho. — Ah é? Sobre o que eu errei? Você ser um babaca? — ela questionou com um tom debochado. — Não, Melina — neguei rapidamente, sem olhar em sua direção. — Sobre eu ser amigo do Vitor. A garota riu, não uma risada falsa, mas riu de verdade, gargalhando e só pareceunotar o que tinha feito quando seus olhos encontraram os meus, com um brilho divertido, que foi rapidamente mudado para uma expressão séria, quando mordeu o lábio inferior. Ela era bonita, eu não conseguia negar isso, nem tentando, mas eu continuava incomodado com todas as situações passadas e isso era suficiente para eu ficar com um pé atrás. Beleza nenhuma poderia ser mais importante do que seguir com o que eu acreditava ser correto, embora já nem tivesse certeza sobre o que pensar. — Quer dizer que admite ser um babaca? — Melina levantou uma sobrancelha, me fitando. — Vai mudar sua percepção se eu disser que não sou? — Não. — Então por que perderia meu tempo? — Cerrei meus olhos em sua direção. — Grosso — ela resmungou. — Mas até que você pensa. — E até que você se enrola — eu reclamei, em seguida forçando um sorriso. — Volta a trabalhar, Mattos, se eu perder outro final de semana nessa biblioteca por sua culpa, sou capaz de derrubar uma estante em sua cabeça. — Não me chame de Mattos — a garota pediu. — Quer que eu fique te chamando de garota? — Preferia que não me chamasse — Melina disse, fechando um pouquinho os olhos quando me deu um sorriso debochado. — Acredite, eu também, mas estamos sendo obrigados a trabalhar juntos — expliquei, apontando em volta. Senti seu olhar em cima de mim, antes de bufar, visivelmente irritada. — Então pelo menos me chame pelo nome. Maldito ar, pensei, assim que senti falta dele. — Como quiser, raio de sol — debochei. — Agora, por favor, Melina, cale a boca para eu me concentrar. — Palerma — a garota murmurou. E foi suficiente para eu rir baixo, porque ela ficava fofa dizendo xingamentos que talvez minha avó usasse. Começamos a arrumar o mesmo carrinho, para podermos terminar de uma vez e guardar os livros. Depois de um longo tempo ali, notei Melina cantarolando alguma música e por um segundo, não consegui controlar minha língua, que normalmente ficava bem quieta. — Quer escutar música? — perguntei e ela me encarou, parecendo bastante confusa. — Estamos em uma biblioteca — Melina disse, como se eu fosse burro o bastante para não saber o que isso significava. — Não sou idiota — resmunguei. — Tenho fone. — E como exatamente vamos escutar em um fone e trabalhar ao mesmo tempo? Franzi o cenho, um pouco incerto sobre sua pergunta e tirei meus Airpods do bolso, mostrando para ela. Melina fez uma careta engraçada, que eu sinceramente não saberia descrever, mas balançou a cabeça positivamente. — É claro — ela sussurrou. — Bom, não sou eu que vou negar uma música, só espero que seu gosto não seja péssimo. — Não te vi reclamar ontem enquanto cantava no meu carro. — Que coisa feia, Santiago. — Melina fez um barulhinho de reprovação com a boca. — Virou do tipo que joga as coisas na cara? — Fazer o quê. — Dei de ombros. — David costuma reclamar pela mesma coisa. Ela deu uma risada baixa, sem mostrar os dentes, mas o bastante para ficar sorrindo durante curtos segundos que pareceram uma vida, um gostinho do que seria o paraíso. Precisei me esforçar para desviar o olhar e focar no fone em minha mão, que rapidamente entreguei um para a garota, colocando o outro no ouvido, logo pegando meu celular para entrar no Spotify e deixar no aleatório. Lonely Eyes do Lauv começou a tocar e Melina me encarou, dando um sorrisinho mais uma vez. — Meu Deus! Eu adoro essa música — ela falou, parecendo até mais leve enquanto arrumava os livros, como se a música a acalmasse e eu não poderia julgá-la, pois tinha a mesma sensação. — Eu também — respondi baixinho, prestando atenção em meu trabalho e nos livros que guardava na estante. Não demorou nem um segundo para Melina começar a cantar baixo, não se importando nem um pouco com a minha presença ali. Era como se um brilho novo tivesse aparecido nela e aquele corredor se tornado o seu palco. Mesmo tentando, não consegui desviar a atenção de cada movimento que fazia e exatamente no instante em que começou a cantar o refrão, Melina me encarou, e nossos olhares pareciam não querer se separar. Tinha alguma coisa que nos conectava e naquele momento eu soube que estava ficando maluco, além de doente, considerando o quanto estava prestes a ter um ataque cardíaco. — Oi, pombinhos — David disse, fazendo nós dois o encarar, um pouco perdidos pela forma repentina pelo qual ele apareceu. — David?! — perguntei, soando um pouco irritado e nem entendendo o porquê. — Já é meio-dia, eu e a Nina estamos morrendo de fome e vamos almoçar em uma cafeteria que ela conhece aqui perto, querem ir junto? — Com certeza! — Melina respondeu, se abaixando para pegar sua mochila e eu fiquei mais surpreso do que gostaria de admitir quando ela me olhou, inclinando um pouco a cabeça para o lado e disse: — Você vem, Santiago? Concordei e nós dois andamos até onde David estava. Ela seguiu o caminho para encontrar com Nina e eu fiquei parado ao lado do meu primo. — Você vem, Santiago? — David repetiu, piscando os olhos exageradamente. — Não eram vocês que quase saíram no tapa no meio do shopping há uma semana? — Bibliotecas são lugares neutros, David, se eu cometesse um assassinato aqui, poderia manchar os livros. — Está certo, prioridades, priminho. — O garoto me deu dois tapinhas nas costas e nós caminhamos até Melina e Nina, que estavam na porta nos esperando. Embora eu tivesse respondido tranquilamente, a pergunta do meu primo me fez pensar. Quando exatamente saímos de dedos apontados na cara, brigas no shopping e xingamentos no ginásio para pessoas que escutavam músicas juntos e tinham uma conversa quase normal sem querer bater na cara do outro? Isso, claro, falando por mim. Talvez Melina ainda estivesse com algum instinto assassino para o meu lado e eu distraído demais para perceber. — Santiago — Melina chamou, me tirando do meio dos meus pensamentos e me deixando com os olhos arregalados quando ela segurou minha mão. Mas que porra ela está fazendo? — Seu fone. Demorei alguns segundos para olhar para baixo e notar que segurava minha mão porque tinha colocado o fone ali. Dei um sorriso, que deveria ter parecido uma careta e apenas assenti, limpando a garganta e guardando os Airpods na caixinha. — É longe essa cafeteria? — perguntei. — Podemos ir de carro. — Santiago, andar faz bem — David disse, balançando a cabeça em negação para mim. — Sei que é difícil, mas acredito em você. — Vai se foder — murmurei, para apenas ele escutar e meu primo sorriu. — Para qual lado vamos, senhoritas? — o garoto perguntou. E foi Melina que apontou o lado, fazendo com que rapidamente estivéssemos os quatro seguindo para chegar na cafeteria. ✽ ✽ ✽ Estávamos voltando, cada um com seu lanche em mãos, já que não podíamos demorar mais do que vinte minutos por conta do horário da biblioteca. Então assim que chegamos lá na frente, nos sentamos na escadaria da entrada, prontos para comer. Para o meu desespero, a cafeteria tinha uma quantidade absurda de comidas que pareciam deliciosas, mas eu não poderia comer nada até o dia da apresentação, então fui obrigado pela minha consciência a escolher um sanduíche natural e um suco de morango. David e Nina devoraram o lanche deles e não demoraram praticamente nada para entrarem novamente na biblioteca, restando apenas Melina e eu. — Posso perguntar uma coisa? — ela questionou, tomando um pouco do café gelado que tinha comprado. Eu apenas concordei, porque estava mastigando. — Por que você me xingou aquele dia? Quero dizer, na quadra, nós normalmente nos insultamos, mas nunca tão além. Aquela pergunta me pegou de surpresa, eu realmente não esperava que ela fosse puxar um assunto sobre quarta. Terminei de mastigar, bebendo quase metade do meu suco e a olhando. — Porque você xingou a Ana — expliquei. — Ela me xingou primeiro — Melina resmungou. Eu concordei, soltando um suspiro. — Isso não invalida seu xingamento, mas eu só descobri depois — falei sinceramente, observando a garota bufar um pouquinho. — É irritante. — O quê? — Nada — ela falou rapidamente, parecendo se arrepender de ter dito aquilo,enquanto balançava a cabeça. — Melina… — tentei dizer alguma coisa, mas a garota me interrompeu, se levantando irritada. — Não foi nada, Santiago! — Melina exclamou, um pouco grosseira e eu fiquei sem ter uma reação, enquanto ela entrava na biblioteca. Era por isso que eu evitava falar com outras pessoas. Odiava gente confusa, por me deixar confuso e se tornava o tipo de coisa que me fazia ficar um pouco puto. Caminhei até a lixeira e joguei o resto da minha comida, irritado demais para continuar comendo e entrei na biblioteca, voltando para o meu carrinho, onde Melina não estava. Decidi que apenas ignoraria, eu nem convivia tanto com ela de toda forma e sempre que criava uma nova impressão, a garota parecia fazer questão de me mostrar que eu estava equivocado, já tinha cansado daquilo, então eu voltaria a agir do mesmo jeito que com todos: indiferente pra caralho. CAPÍTULO 11 Segunda-feira, 06 de setembro de 2021 “Eu tinha boas intenções E as maiores esperanças Mas agora eu sei Que isso, provavelmente, nem fica aparente” — Easy On Me, Adele Eu tentava, mas não conseguia prestar atenção no que Nina estava dizendo, porque involuntariamente meus pensamentos paravam no dia anterior. Santiago não estava sendo grosseiro comigo, na verdade, estava absurdamente gentil, mas aí eu simplesmente resolvi surtar por não estar sentindo raiva, mesmo tendo me chamado de vadia. Aquilo nem fazia sentido, porém era como se uma parte minha desejasse que pedisse desculpa e quando notei que o rapaz não tinha pedido, mas era como se eu já tivesse o perdoado, foi o bastante para eu ser estúpida, o deixando claramente irritado. Sua explicação tinha sido válida e eu poderia ter apenas aceitado, porque ele não estava errado, eu tinha realmente xingado Ana também. Porém, quando percebi isso e meus ânimos se acalmaram, eu tentei voltar a arrumar os livros com ele, mas o garoto estava com a cara tão fechada que não tive coragem, indo para outra prateleira. E quando tentei falar alguma coisa, ele foi grosso, assim como em todos os momentos antes daquele fim de semana. Talvez Santiago tivesse vestido uma máscara de rapaz bonzinho por aqueles dois dias e quando eu o irritei, a máscara caiu. Era isso, no final das contas, ele ainda era um babaca. — Melina, escutou alguma parte do que eu falei? — Nina chamou minha atenção, cruzando os braços e me fitando com os olhos cerrados. — Desculpe, estava pensando. — No quê? — Minha melhor amiga pareceu curiosa. — Ontem eu quase cogitei que o Santiago fosse gente boa, acredita nisso? — perguntei, fazendo um beicinho irritado. — Não só acredito, como concluí o mesmo. — Ele me evitou a tarde inteira e ainda foi grosso comigo — falei, exasperada, me deixando afetar mais do que gostaria de admitir por aquilo. — Melina, você mesma me disse ontem que foi estúpida, mesmo depois dele ser sincero. Mexi o nariz, fazendo uma careta. Sabia que Nina tinha razão, mas isso não mudava a forma como estava me sentindo incomodada. — O que você estava falando? — perguntei, concluindo que mudar de assunto era a opção mais agradável. — Ah, então, quero te chamar para uma coisa. — Nina sorriu, endireitando o corpo no puff que estava deitada, ao lado do meu. Estávamos no pátio do colégio e o lugar se encontrava praticamente vazio, provavelmente por já ter passado do horário da saída. — O quê? — questionei, sentindo uma certa animação, normalmente eu amava qualquer coisa que Nina propunha. — Quero que vá comigo na apresentação de ballet sexta- feira que o David me chamou. Automaticamente uma careta surgiu em meu rosto. Ir com David em qualquer lugar, poderia significar que Santiago também estaria presente. E por mais que eu amasse dança, aquela possibilidade não me deixava contente. — Ah, Nina… — fui resmungar, mas minha melhor amiga me interrompeu. — Eu não quero ficar sozinha, Lina — ela falou, fazendo um beicinho. — Você não vai estar sozinha, David vai estar com você — eu disse, tentando forçar um sorriso. — Melina. — Nina ficou séria. — Ah qual é, nem sabia que ele fazia a linha que gostava de ballet — resmunguei, me jogando para trás e deitando no puff, totalmente dramática. — O primo dele dança, não o conheço, mas David disse que ele é bom. — Nina tentou puxar meu braço para eu me sentar novamente, mas eu joguei meu peso para trás, a impedindo. — Primos são puxa-sacos — admiti, sabendo que eu era uma dessas primas puxa-saco. — Credo, Mel, você já foi mais simpática — Nina reclamou, acertando um tapa na minha coxa, que me fez resmungar um aí. — É que aquele garoto vive grudado no David, e se ele estiver lá? — perguntei, evitando dizer o nome dele. — Que garoto? Era um péssimo momento para Nina fazer a linha desentendida, porque dizer seu nome poderia acabar funcionando como uma invocação. — Santiago, eu estou o odiando no momento — expliquei, como se fosse suficientemente óbvio. — Para de frescura, você não engana ninguém — Nina negou, se deitando no puff dela também. — Ai Nina! — Melina, eu invoco o poder da amizade e exijo que você vá comigo. — Apelação — resmunguei, suspirando por saber que não tinha opção. — Que horas vai ser? — Às sete. — Ok, mas nada de confraternização depois, vemos a apresentação e direto para casa — falei, como uma condição que não poderia ser mudada. — Combinado, você é a melhor — ela exclamou, pulando do puff para me abraçar e fazendo nós duas cairmos no chão, gargalhando. Enquanto me levantava, pude ver Nicolas subindo as escadas e por um segundo eu quis conversar com ele, já que não nos falávamos desde quarta, mas parecia tão errado que assim que o rapaz me encarou, eu desviei o olhar, voltando a prestar atenção em Nina. ✽ ✽ ✽ Finalmente tinha chegado em casa, depois de muito tempo aguentando Nina saracotear de um lado para o outro do colégio porque não queria ir embora, o que acabou me fazendo passar a tarde toda lá, mesmo que fosse o dia de folga do meu pai e ele nunca me buscasse naquele dia em específico. Olhei em volta da sala, procurando por qualquer sinal de Heitor, mas apenas quando escutei sua voz que descobri que ele estava na cozinha. Soltei minha mochila no sofá e andei até lá para pegar alguma comida e cumprimentar meu pai. — Sim, o acampamento vai ser ótimo, acho que eles vão adorar — o homem falou e quando cheguei na porta, notei ser ao telefone. — Obrigado por tudo, tenha uma boa noite. Heitor se virou, soltando o celular e sorrindo assim que me viu encostada no batente da porta. — Oi, querida! Quando chegou? — Agora. Estava falando com quem? — perguntei curiosa e animada, andando para me sentar na banqueta e dando uma olhada em volta para tentar visualizar alguma coisa que pudesse comer. — Com a Myrian — meu pai explicou, pegando um copo térmico que estava atrás dele, acompanhado de uma caixinha da Café Literário, que foi rapidamente colocado na minha frente. — Comprei para você. Por um segundo, me distraí com o donut de cobertura rosa em minha frente, mas logo foquei na parte que era realmente importante. — Por que estava falando com a Myrian sobre o acampamento? Meu pai deu um sorriso, apontando para o copo, como se esperasse eu tomar o café, o que eu fiz depois de um suspiro, deixando que o líquido quentinho preenchesse minha garganta, apreciando o sabor. — Lembra do acampamento do terceiro ano que estava agendado para o mês que vem? — ele me questionou, assim que eu enchi minha boca de café. Eu apenas assenti em resposta, já que estava ocupada tomando o líquido. — Então, os alunos do Santana vão para o mesmo acampamento, só que na próxima semana. — Heitor pegou o outro café que estava na bancada, olhando para o copo por longos segundos, antes de voltar a me encarar. — Myrian e eu concordamos que seria uma ótima oportunidade de os colégios confraternizarem em um ambiente neutro, então liguei para os pais hoje o dia todo para ver se aceitavam a troca. Como todos acharam uma boa oportunidade, já que constantemente temos problemas, nós estamos realocando nossa data. Sorte que o acampamentotem estrutura suficiente para os dois colégios. Eu fiquei apenas paralisada. Eram informações demais ao mesmo tempo. Ir para o acampamento com o Colégio Santana, significava uma semana inteira tendo que ver o Santiago o dia inteiro e pior ainda: tendo que evitar Nicolas e sua onda de confusão. Tínhamos acabado de ficar estranhos um com o outro, eu não estava pronta para um acampamento tão cedo. — Vou anunciar no colégio amanhã, embora os pais já saibam. — Pai… — Melina, querida, não tente me convencer do contrário. — Ele sorriu, tocando meu nariz. — Estou fazendo pelo bem do colégio, sei que não gosta dos alunos de lá, mas dessa vez não pode ser sobre você. Minha boca até se fechou depois daquela resposta. Meu pai havia realmente dado a entender que eu fazia as coisas serem sobre mim? Eu literalmente passei o último ano inteiro sendo a Melina que ele queria e me comportando. Até tentando voltar para a droga do vôlei eu estava, tudo para vê-lo feliz. — Claro, diretor Mattos — eu debochei, terminando de tomar o último gole do meu café e dando uma mordida no donut. — Vou ver o vovô — avisei, saindo da cozinha e nem dando chance de ele responder, só pegando minha bolsa que por sorte estava jogada no sofá e saindo pela porta, suficientemente irritada. Entrei no elevador e peguei meu celular, digitando a mensagem para Nina com tanta raiva que parecia que o celular sairia voando da minha mão. Melina: Você não vai acreditar! Por sorte a resposta veio rapidamente, evitando que minha irritação aumentasse. Nini Meu Amor: No quê? Melina: O nosso acampamento vai ser adiantado. Melina: E os alunos do Santana vão junto. Nini Meu Amor: Jura???? Nini Meu Amor: Aí que incrível. Melina: Incrível? Nini Meu Amor: Péssimo** Nini Meu Amor: Esse corretor é uma bosta. Isso me arrancou uma risada, mesmo que Nina estivesse falando besteira. Sai do elevador, parando na entrada, apenas para pedir um Uber e terminar de responder enquanto esperava. Melina: Tentei falar com meu pai e ele disse que eu não poderia fazer as coisas serem sobre mim dessa vez. Nini Meu Amor: Oxi. Nini Meu Amor: Mas você sempre fica na sua. Melina: Pois é. Melina: Tô cansada de me esforçar demais. Vi o carro com a placa que estava no aplicativo e fiz um sinal, começando a andar para entrar no veículo. Melina: Vou ver meu avô, nos falamos depois. Nini Meu Amor: Manda um beijo para o vovô. Nini Meu Amor: E se cuida. Melina: Pode deixar! Confirmei meu nome com o motorista do Uber e parti para a casa do meu avô, esperando que ele estivesse lá, já que eu nem tinha ligado. ✽ ✽ ✽ Assim que o carro encostou na frente da casa amarela do meu avô e eu paguei o motorista, não demorou muito para eu estar pegando minha chave e entrando no quintal. Caminhei diretamente até os fundos, onde meu avô cuidava das plantas dele e normalmente passava grande parte dos dias. Passei pelo caminho de tijolinhos brancos, observando as pequenas árvores, que ele deveria ter plantado recentemente, e logo vi o homem idoso sentado de frente para uma enorme mesa branca de madeira. — Melina! — ele exclamou assim que me viu, abrindo um sorriso e se levantando, pronto para andar até mim. Eu sorri também, caminhando em direção ao homem de cabelos brancos, que um dia tinham sido tão escuros quanto os meus. Seus olhos pareciam bolas de gude pretas, cobertas pelos óculos de grau retangular. Vovô me deu um abraço forte, que eu retribuí. Tínhamos praticamente a mesma altura, já que eu era poucos centímetros mais alta. — Quanto tempo não vem aqui — ele falou, assim que se afastou de mim, fazendo um sinal para que eu o seguisse. — Queria ter vindo ontem, mas o senhor sabe… — Não completei minha frase, apenas me sentando de frente para ele assim que chegamos na mesa. — Seu pai não devia ter te deixado de castigo — o idoso disse, cruzando os braços. — Ah, vovô, eu mereci, me meti em confusão — expliquei, colocando minha mochila ao meu lado. — O que importa é admitir seu erro, querida. — Ele sorriu. — Está com fome? Comprei uma torta hoje. — Claro — concordei, dando uma risadinha. Não demorou muito para ele voltar com a torta e nós ficamos ali mesmo, com a iluminação das lanternas do jardim, enquanto vovô me contava algumas histórias de quando era mais novo, como sempre fazia e me mostrava as novas suculentas que tinha comprado com um rapaz que sempre comentava ter feito amizade e acabava indo nas feiras acompanhado. Mesmo não o conhecendo, era grata por fazer companhia para meu avô às vezes. CAPÍTULO 12 Quinta-feira, 09 de setembro de 2021 Eu estava com tédio. A semana tinha passado correndo, o que significava que era quinta-feira e tínhamos aula com o professor de biologia, que por ser praticamente o último dia de aula antes do acampamento, decidiu que nós deveríamos apenas aproveitar para fazermos as lições. O que significava que ele não passaria nenhum conteúdo e eu já tinha feito todas as atividades em casa. — Santiago, a diretora está te chamando na sala dela. — A voz do homem de meia-idade jogado na cadeira me atingiu, me deixando surpreso pela informação. Levantei, caminhando pela sala e ignorando os burburinhos. Eu odiava tanto adolescentes. Andei pelos corredores apagados do colégio e atravessei o pátio, descendo os poucos degraus e chegando na sala da diretoria. Dei duas batidas na porta e esperei. — Pode entrar — Myrian falou, de dentro da sala. Eu abri a porta, fechando assim que passei e me sentando de frente para ela. — Santiago. — A diretora sorriu. — Mandou me chamar? — perguntei, embora soubesse que sim, a intenção real era descobrir o que ela queria. — Sim, o senhor Ross quer falar com você. Franzi o cenho assim que escutei o sobrenome do meu genitor, que infelizmente também me pertencia e fiquei completamente confuso. Se ele queria falar comigo, por que ao invés de avisar a diretora do colégio, não me mandava uma mensagem como um pai normal? Talvez porque de pai ele já não tinha nada, muito menos de normal. Enrijeci a postura e encarei a mulher com mais atenção, me surpreendendo quando ela virou o notebook para mim e eu consegui ver a cara velha de Archibald Ross na tela. — Oi, filho — o homem falou, forçando uma voz para tentar parecer um pai carinhoso, que só me fez mostrar uma careta como se estivesse prestes a vomitar. — O que aconteceu? — questionei diretamente, sem muita paciência. — Você se lembra do Jung Hyeon? — ele perguntou, cruzando os braços na frente do corpo e me encarando. Ergui uma sobrancelha, tentando me recordar, mas não demorou para a imagem de um garoto me vir à mente. Hyeon era filho de uma das melhores amigas da minha mãe e nós éramos muito próximos quando pequenos. — Lembro. — Ótimo, ele vai passar um tempo no Brasil e a pedido da mãe dele, que não quer o garoto solto por aí, ele vai morar com você. — Perdão?! — falei, mais exasperado do que gostaria de parecer, mas aquilo era ridículo. — Modos, Santiago — Archibald pediu. — Ah, me desculpe, papai — debochei, irritado o bastante para não ligar para o que a diretora pensaria, ela conhecia meu genitor o suficiente para saber o tipo de pessoa que era. — Vou mandar uma pessoa para a sua casa sem sua autorização e pedir para ter modos, aí veremos como vai reagir. — Santiago, estou lhe pedindo um favor. — O homem revirou os olhos, massageando as têmporas, como se eu estivesse lhe dando dor de cabeça. — Faça isso pela sua mãe, ela e a senhora Jung eram muito amigas. Fechei os olhos, respirando fundo e me segurando para não xingar. Usar minha mãe era baixo, até para ele. O encarei com seriedade, antes de dizer: — É a última vez que aceito um pedido seu e só vou fazer isso pela senhora Jung, mas não pense em mandar mais pessoas para a minha casa — falei, me inclinando para desligar a ligação, pouco me importando se ainda teria algo para dizer. Respirei fundo, controlando minha raiva e olhei para a mulher em minha frente, que parecia preocupada. — O Hyeon está na sala de espera, se não for um incomodo, poderia apresentar o colégio para ele? —a diretora Myrian perguntou, mesmo que hesitante. Ela não tinha culpa pelas merdas que Archibald fazia e muito menos por cumprir com o trabalho dela, então eu concordei. Se teria que aguentar Hyeon em minha casa, o que seria uma volta pela escola? — Claro. — Forcei um sorriso e saí daquele lugar, abrindo a porta da sala de espera que ficava ao lado da diretoria. Olhei em volta, logo vendo um rapaz com duas malas de viagem, sem uniforme e um olhar perdido. Se aquilo não deixasse óbvio que era o Hyeon, os traços asiáticos com certeza deixaram. — Hyeon? — chamei, me perguntando se precisava dizer mais alguma coisa e se deveria falar em coreano, porque não tinha certeza se ainda sabia português. Poderia ter esquecido durante aqueles nove anos. — Oi! — o garoto exclamou, se levantando e se curvando um pouco em minha direção, em seguida finalizando o movimento com uma careta. — Esqueci que estou no Brasil. Hyeon sorriu, de orelha a orelha e andou em passos largos até ficar de frente para mim. Pelo menos realmente sabia português. — Nossa, você lembra muito a sua mãe — ele falou, me deixando com os olhos arregalados. Por um segundo, me senti paralisado. Fazia muito tempo que eu não escutava alguém falando da minha mãe sem ter um motivo e aquela observação de Hyeon fez meu olho lacrimejar, mas rapidamente eu disfarcei. — Vamos logo. — Apontei para a porta. — Ainda se lembra de mim? — ele perguntou e eu apenas assenti. — Você está bem diferente, F… — o interrompi, balançando o dedo em negação para que ficasse em silêncio. — Santiago — eu disse. — É só Santiago faz um tempo. — Certo — ele concordou. — Fico feliz que não tenha usado meu nome inteiro, gosto da informalidade do Brasil. — Melhor irmos. — Fiz mais um sinal na direção da porta, mas dessa vez Hyeon concordou. O cabelo castanho dele estava penteado para o lado e com alguns fios cobrindo a testa e ele sorria tanto, que até seus olhos escuros e finos com os cantos puxadinhos pareciam sorrir junto. O garoto pegou suas duas malas, colocando a mochila nas costas e andando ao meu lado de forma que parecia prestes a saltitar. Sua animação me causava gastura, então apenas fiz um sinal para que ele passasse na frente e fechei a sala, antes de começar a mostrar o colégio para Hyeon. O rapaz se animava extremamente fácil e a cada coisa, por mais boba ou insignificante que eu mostrava, ele parecia prestes a explodir de emoção. — O que tem feito por esses anos? — ele perguntou, com a curiosidade extremamente explícita na voz. — Nada. — Dei de ombros. — Como nada? — Hyeon franziu o cenho e eu desviei o olhar para frente, já que estava o guiando até a nossa sala. — Não dá para ficar nove anos fazendo nada. — Evitar perguntas conta como alguma coisa? — perguntei, o encarando com certa irritação, o que fez o garoto gargalhar. — Seu senso de humor sempre foi ótimo, F… — Fiz uma careta assim que escutei sua suposta tentativa de me chamar de outro jeito. — Desculpe. Santiago, ainda é um pouco estranho — ele se explicou. — Você se acostuma — eu murmurei. — Estou ansioso para você me contar tudo. — Hyeon sorriu e eu parei, apontando para uma das portas do corredor. — Aqui é nossa sala — expliquei, abrindo a porta e olhando para o professor, que ainda não tinha se movido nem mesmo um centímetro do lugar. — Aluno novo — falei para o homem que assentiu, fazendo um sinal para nós entrarmos. Eu passei para dentro tranquilamente, mas Hyeon teve um pouco de dificuldade para entrar com as duas malas, o que atraiu a atenção de todos que ainda não o encaravam. — Não se curve — sussurrei, sabendo que ele poderia se esquecer e adolescentes eram babacas o suficiente para decidirem zoar Hyeon por isso. Caminhei até o meu lugar, me sentando tranquilamente e encarando o rapaz. — Qual seu nome? — o professor perguntou e o garoto sorriu animado. — Jung Hyeon, senhor — ele respondeu. — Certo, Jung, pode se sentar atrás do David — o homem apontou para o meu primo, que rapidamente levantou o braço para Hyeon saber onde era. — Na verdade, senhor, é Hyeon. Jung é meu sobrenome — o garoto explicou, fazendo o professor franzir o cenho. — É que você disse Jung Hyeon. — Eu sou sul-coreano — o rapaz falou, dando mais um sorriso e puxando as malas até o seu lugar. — Novato, está se mudando para o colégio? — Vitor perguntou baixo, rindo e fazendo Hyeon olhar para ele, talvez não entendendo o sarcasmo. Eu com certeza odiava brigas e até mesmo discussões, mas odiava ainda mais o Vitor. — Por que você não preserva o pouco de cérebro que te resta e fica quieto? — questionei, o encarando irritado. — Que bonitinho, Santiago, já está defendendo seu novo namorado? — O garoto sorriu debochado. — Sabe o que é interessante, Vitor? — indaguei, notando a testa do garoto ficar totalmente franzida. — Você é tão imbecil que nem consegue pensar em outras coisas para tentar me provocar. Deve ser porque ninguém aguenta te ter por perto durante muito tempo, aí decidiu começar a dizer que eu namoro todo mundo. É algum tipo de tentativa de suprir suas necessidades? Ou tem um crush em mim e bem no fundo isso é ciúme? Vitor ficou tão vermelho, que eu jurei que ele estava prestes a explodir, principalmente após se levantar e bater o caderno na mesa, parecendo prestes a voar em minha direção. — Senhor Vasconcelos! — o professor chamou a atenção dele. — Esse tipo de comportamento deve ser colocado para fora durante sua terapia, não no meio das aulas, por favor, vá para a diretoria. O garoto saiu da sala bufando. A melhor forma de irritar um garoto de masculinidade frágil é dar a entender que duvida da heterossexualidade dele. — Foi o maior conjunto de palavras seguidas que escutei você dizer nos últimos anos — David falou, chamando minha atenção e me fazendo olhar na direção dele, dando de ombros e notando que Hyeon já tinha se sentado e colocado as malas no fundo da sala. — Ele andou me irritando muito nesse final de semana — expliquei, voltando a olhar para frente, ignorando o início de uma animada conversa entre Hyeon e David sobre como fazia tempo que eles não se viam e o quanto estavam diferentes. ✽ ✽ ✽ Sexta-feira, 10 de setembro de 2021 Sexta-feira costumava ser um dia caótico, porque no geral eu acabava tendo que buscar um David muito alcoolizado em algum canto, mas essa em específico, seria caótica por motivos diferentes. Finalmente o dia da apresentação tinha chegado e se eu falasse que não estava nervoso, estaria mentindo absurdamente. Por sorte, consegui acordar cedo o bastante para dar tempo de conversar com a minha mãe antes de sair para o colégio, então abri animadamente a porta, levando um susto por dar de cara com Hyeon no corredor. Durante alguns minutos, tinha apagado da minha mente que o garoto estava em minha casa e não sairia tão cedo. — Bom dia! — ele disse, sorrindo exageradamente de uma forma que ficava bastante claro sua animação. Não entendia pessoas que conseguiam ser tão felizes logo cedo. — Bom dia — respondi, saindo do meu quarto e fechando a porta. — Eu não disse isso ontem, mas quero que saiba que estou muito grato por você me deixar ficar aqui — Hyeon falou, andando ao meu lado conforme eu caminhava pelo corredor. Inevitavelmente, comecei a olhar para as paredes, observando os quadros que estavam ali e precisei me esforçar para não chorar. Era revoltante que a maioria ainda ficasse com meu pai, mas os poucos que preenchiam as paredes eram o suficiente para me deixar nostálgico. — Claro, não foi nada — eu assegurei, com a voz um pouco falha. Para o meu azar, o garoto ao meu lado era observador demais, o que acabou fazendo com que ele notasse o que eu olhava e parasse repentinamente. Eu me detive também, mesmo sem saber o motivo para estar parando. Encarei Hyeon e percebi que seus olhos se encheram de lágrimas. — Ela era ótima — ele murmurou, observando o quadro que estava em nossa frente. — Ela era — concordei, deixando que um sorriso escapasse dos meus lábios enquanto admirava cada pincelada. — O que estão olhando? — Davidperguntou, me assustando, já que não tinha percebido sua presença. Meu primo olhou para o quadro e também sorriu. — Às vezes esqueço que os quadros da tia Cristina eram tão bonitos. Engoli em seco por escutar o nome dela e dei dois passos para trás, pronto para continuar o caminho de onde pretendia. — O que vai fazer, Santiago? — Hyeon perguntou. — Não se preocupem, volto antes do horário de entrada — informei, não dando a chance de me fazerem mais perguntas, já que rapidamente desci as escadas para ir até o lado de fora. ✽ ✽ ✽ Deveria agradecer aos céus, considerando que a aula tinha finalmente acabado e David, Hyeon e eu andávamos pelo estacionamento para irmos até em casa. — Hyeon, você vai ao acampamento? — meu primo perguntou, só então me fazendo lembrar do que minha mente tinha tentado evitar durante toda a semana. Teríamos um acampamento em conjunto com o Colégio São Sebastião, o que significava que seria uma semana longa e exaustiva, tentando evitar conflitos e a Melina. Não queria continuar com toda a confusão que estava sentindo, principalmente depois da forma como ela havia ficado grosseira do nada no domingo, então tinha concluído que a decisão mais sábia era apenas fingir que nós nunca tínhamos nos conhecido. De toda forma, nem faria muita diferença para nenhum de nós dois, especialmente considerando que só nos víamos ocasionalmente. — Vou, o senhor Ross cuidou para eu poder participar — Hyeon falou, com clara animação na voz. Mesmo convivendo com o garoto há pouco mais de um dia, era impossível não notar o quanto ele se animava facilmente e com praticamente tudo. — Que bom, vai ser divertido. — David sorriu. — Divertido? — resmunguei para mim mesmo, revirando os olhos. — Ah, acabei de me lembrar que tenho um compromisso agora — meu primo disse, olhando na direção da entrada do colégio, onde uma garota ruiva estava nos observando. — Nos vemos mais tarde? — Se divirta — Hyeon falou, acenando enquanto David se afastava. Caminhei até o carro e o garoto entendeu que era para me seguir, entrando no carona assim que abri a porta do motorista. Não liguei o carro de imediato, porque alguma parte minha paralisou durante poucos instantes. Talvez o nervosismo estivesse me consumindo mais do que eu imaginava. Escutei Hyeon perguntando se eu estava bem, mas não respondi, apenas ligando o carro de modo automático e começando a dirigir, sem nem saber para onde estava indo. O garoto no banco do carona ficou visivelmente preocupado, me chamando repetidas vezes, mas era como se naquele momento eu fosse uma máquina, uma espécie de robô e minha programação não me permitisse prestar atenção. Assim que estacionei o carro, foi como se eu despertasse novamente e voltasse a consciência. Balancei a cabeça, ficando surpreso por parar em frente a casa amarela que eu já não visitava fazia pouco mais de um mês. — Eu estou bem — falei para Hyeon, que pareceu relaxar um pouco no banco. — Só queria vir aqui antes de ir para casa. — Você parecia em choque, foi um pouco assustador — ele admitiu. Eu desci do carro e o rapaz me seguiu, enquanto eu tocava a campainha e logo avistava os cabelos grisalhos do senhor Gomes. — Santiago! — o homem idoso exclamou, com os olhos escuros brilhando, mesmo que cobertos pelos óculos de grau, assim que abriu o portão e me viu. — Quanto tempo, garoto. — Como o senhor está? — perguntei, enquanto entrava com Hyeon me seguindo. — Estou ótimo, mais saudável do que nunca. — Ele fez um sinal positivo com as mãos, me arrancando uma risada baixa. Nós andamos pelo jardim da casa, chegando até o final, onde tinha uma mesa de madeira que nos sentamos. — Ah, esse é o Hyeon — expliquei, apontando para o garoto. — Espero que não se importe dele ter vindo junto. — É claro que não, adoro uma visita. — Seu Marcos deu uma risadinha. — Veio ver as plantas? Chegou uma suculenta linda essa semana. Não teria como eu dizer que estava ali apenas porque meu cérebro se desligou e me levou até lá, embora eu não tivesse um motivo, então concordei, vendo a animação dele, enquanto caminhava para pegar as plantinhas. Eu conheci o senhor Gomes em uma feira de plantas, há dois anos, nós fomos comprar a mesma — e última — muda de lírio e entramos em uma disputa verbal, já que os dois queriam ceder a planta. Acabou que ele aceitou ficar com a muda e passamos o resto da feira conversando, porque ele era um senhor muito simpático. Sempre trocávamos informações sobre feiras e aos poucos se tornou o avô que eu nunca tive, considerando que minha família era tudo, menos próxima. — Quem é esse senhor? — Hyeon perguntou baixinho. — Meu avô — respondi, notando o rapaz levantar uma sobrancelha, provavelmente confuso, considerando que conhecia meus avós biológicos. Logo o senhor voltou, segurando um vaso com uma suculenta que eu nunca tinha visto. Seu formato se assemelhava a uma lança e as folhas tinham uma borda mais clara, além de ter pequenas flores roxas no final da haste longa. — Essa é uma Espironema — ele explicou. Admirei a plantinha por alguns segundos e foi impossível não lembrar da minha mãe. Ela amaria aquela suculenta. — É linda mesmo — concordei, e vi o sorriso do senhor se aumentar. Meu celular começou a tocar, me fazendo pegá-lo no bolso rapidamente e arregalar os olhos ao ver o nome da minha dupla de ballet estampado na tela. Yasmin nunca me ligava, então atendi com pressa. — Onde você está, Santiago? — a garota perguntou, do outro lado da linha. — Por quê? — A senhora Fontaine quer que treinemos mais a apresentação de natal, antes do último ensaio para hoje — ela explicou, a voz em um timbre feliz demais para quem teria que ensaiar o dobro. — Que horas? Não estou em casa. — Meio que agora, eu estou te esperando. Massageei minhas têmporas, tentando com afinco não xingar a menina, já que ela só estava seguindo ordens da coreógrafa. — Que seja, vou demorar uns trinta minutos — respondi, esperando que ela não me questionasse, ou eu ficaria ainda mais irritado. Era para eu ter um descanso antes da apresentação e não ser obrigado a ensaiar para uma que ainda faltava três meses para acontecer. — Santiago, precisa chegar agora. — Já falei que não estou em casa. — Segurei minha vontade de falar um palavrão porque estava de frente para o vovô. — Se queriam que eu fosse mais cedo tinham que ter me avisado antes, agora esperem porque ainda não inventaram um teletransporte. Nos vemos em trinta minutos, Yasmin. Desliguei o telefone, sem paciência nenhuma para escutar a menina falar mais alguma coisa e suficientemente puto com a situação. — Está tudo bem? — Hyeon perguntou, me olhando com atenção, assim como o vovô. — Sim, eles adiantaram meu ensaio para agora — expliquei, tentando respirar fundo e olhando para o senhor. — Vou ter que ir embora, vô, mas prometo que depois que voltar do acampamento venho ver o senhor. — Também vai para um acampamento? — o senhor perguntou, se levantando do banco, e assim que notou minha confusão deu uma risadinha, pronto para explicar. — Minhas netas vão na próxima semana. Aliás, temos que marcar um almoço para vocês se conhecerem, anos e nunca se viram, acho isso uma barbaridade. — Vamos marcar sim — eu afirmei, também me levantando e cutucando Hyeon para que fizesse o mesmo. — Preciso mesmo ir agora, vô. — Tudo bem, meu garoto. — Ele suspirou, se aproximando com os braços abertos e eu rapidamente o abracei, gostando de sentir a familiaridade do carinho. — Só vê se não vai sumir tanto assim de novo. Mesmo mandando mensagens com uma certa frequência, eu tinha realmente deixado de ir lá como antes, porque os ensaios estavam me consumindo. — Pode deixar. — Eu sorri, o soltando. — Boa sorte na sua apresentação hoje — vovô disse, me dando dois tapinhas nas costas. — Obrigado, vô. Tinha o chamado para ir, mas o senhor ia viajar justamente naquela noite, o que impossibilitou sua presença. Nós passamos pelo jardim novamente e eu me permiti observar os tijolos brancos do caminho conforme andávamos para chegar no portão. Nos despedimose esperamos que o senhor voltasse para dentro. — Acho que vi você sorrir mais nesses quinze minutos do que durante todas as horas que passamos juntos entre ontem e hoje — Hyeon falou, me fazendo segurar uma risada e dar de ombros. — Aliás, posso ir na sua apresentação hoje? — Você quer ir? — perguntei, erguendo uma sobrancelha para o avaliar, enquanto saímos de frente do portão. — Sim, parece que vai ser divertido. — Certo, então você vai — eu disse, encostando no muro e colocando a mão no bolso do moletom, retirando a caixinha de cigarros e meu isqueiro. Já fazia longos meses que eu não colocava um cigarro na boca, mas naquele momento eu me sentia tão estressado com a apresentação chegando e o ensaio não planejado que foi como se fosse certo, mesmo que por apenas um instante. Prendi o cigarro no dente e o acendi, o segurando para tragar com paciência, sentindo um alívio quando a fumaça deixou meus lábios. — Você sabe que fumar faz mal para a saúde, certo? — A voz de Hyeon tirou minha concentração, me fazendo o encarar e assentir. — Então por que está fumando? Não respondi, apenas encarei o pequeno cigarro e me fiz a mesma pergunta. Eu deveria parar com aquilo, já tinha conseguido parar, mas a autossabotagem era um caminho sem volta e eu constantemente acabava seguindo por ele. Joguei o cigarro no chão e pisei para apagar, o pegando e colocando na lixeira que tinha ali na frente. Olhei de soslaio para Hyeon que estava com uma sobrancelha levantada, me avaliando. — Um vício antigo — expliquei, mesmo que não precisasse. — Às vezes eu faço escolhas terríveis. — Ah, isso é notável. — Hyeon assentiu, me deixando confuso. — Usar esse moletom com a camisa do uniforme foi a pior decisão que você tomou nos últimos tempos. Olhei para baixo, reparando no moletom desgastado cobrindo a camisa polo e tive que concordar, estava horrível. — Melhor corrermos, preciso comer alguma coisa e trocar de roupa antes de ir para a academia. — Fiz um sinal para que ele entrasse no carro e o garoto compreendeu, abrindo a porta do carona. De forma surpreendente, eu não detestava ficar na presença dele, porque era como se Hyeon fosse uma espécie de lembrete de quem eu costumava ser antes de tudo se tornar caótico e eu gostava de poder me lembrar, mesmo que por um segundo. ✽ ✽ ✽ A hora tinha chegado e se eu pensava que tinha atingido meu ápice de estresse em qualquer momento da minha vida, nada se comparava àquele. Era como se todas as minhas células estivessem agitadas, aguardando o momento em que eu fosse dançar para se sentirem livres. Caminhei até a mesa e não acreditei que tinha acabado as garrafas de água. — O que foi, Santiago? — a senhora Fontaine perguntou. — Eu queria tomar um pouco de água antes de entrar — expliquei, observando os olhos claros da mulher concentrados em mim. — Vai pegar lá na frente, acabou a que tinha aqui, só não demore porque precisa entrar em dez minutos — ela apontou para a porta que levava diretamente a entrada do teatro e eu assenti, antes de começar a acelerar o passo na direção. Andei apressado por todo o caminho, tão apressado que mal via o que se passava ao meu arredor, de forma que acabei derrubando alguém. — Eu… — fui falar que sentia muito, mas assim que a garota levantou a cabeça e os olhos de Melina se encontraram com os meus, eu congelei. Não tinha mais a visto desde domingo e naquele momento, ela estava absurdamente bonita, mesmo com pipoca derramada no vestido por minha culpa. — Porra, não acredito nisso! — Melina exclamou e mesmo congelado, eu estava pronto para ajudar, até olhar para o relógio e notar que eu só tinha seis minutos para tomar água, terminar de me arrumar e estar em posição para subir no palco, o que me fez largar a garota caída e sair correndo, pegando uma garrafa com o rapaz responsável e voltando para dentro dos bastidores, nem olhando para ver se ela tinha saído dali. Me senti mal por ter feito aquilo, considerando que evitá-la a todo custo e voltar a ser indiferente não incluía derrubar toda a comida que segurava e largá-la jogada no chão, mas eu não tinha opções e muito menos tempo. Cheguei na frente da entrada do palco terminando de tomar o gole de água e a senhora Fontaine parecia prestes a me socar, antes de dizer: — Que demora, Santiago, termina de se aprontar logo, sorte que nos programamos com tempo sobrando. Eu concordei, tirando o meu casaco, jogando em uma cadeira e pegando a última peça que fazia parte do meu figurino, rapidamente entrando no palco que tinha as cortinas fechadas e ficando em posição. Não demorou nem trinta segundos para as cortinas se abrirem, as luzes azuis e discretas se acenderem no palco e a música começar a tocar. Naquele instante, nada mais tinha importância, apenas focar em dançar. CAPÍTULO 13 Sexta-feira, 10 de setembro de 2021 “Você me mostra uma porta aberta, E aí vai e bate ela na minha cara” — Mercy, Shawn Mendes Depois do anúncio do adiantamento do acampamento, foi como se o caos se instaurasse por todo o São Sebastião, tanto que se tornou possível observar muitos adolescentes reclamando por termos que aturar nosso colégio rival por uma semana inteira. Eu compartilhava da opinião deles e Nina com certeza poderia confirmar isso, já que tinha passado os últimos três dias apenas me aguentando reclamar sobre como provavelmente acabaria tendo que esbarrar no Santiago e como isso me deixava completamente brava. Minha melhor amiga não entendia ao certo o motivo para que eu ainda estivesse tão irritada com aquele garoto, mas era como se nem eu soubesse, talvez só tivesse começado a ter algum tipo de ranço com os meses que se passaram desde o dia em que nos conhecemos, o que era completamente normal. Evitei meu pai durante a semana toda, mesmo quando tentava puxar algum assunto. Suas palavras tinham verdadeiramente me machucado, porque eu dediquei a minha vida a fazer tudo que ele quisesse para que Heitor saísse do fundo do poço que tinha se jogado depois do incidente. Existiam dias em que meu pai agia como se fosse o único que sofresse, o único que tinha lidado com tudo, o único que ainda possuía problemas e o único injustiçado. Eu sabia que a dor havia o deixado um pouco cego com o mundo ao redor dele, mas era doloroso ter que vestir uma máscara feliz, fingir que eu estava bem, que não doía, que eu tinha seguido em frente e poderia voltar a ser quem eu era, porque eu sabia com toda certeza do mundo que nunca seria a mesma e estava cansada de perceber isso a cada vez que me olhava no espelho, tendo que admitir isso para mim mesma. Mais de um ano. Ainda era um pouco irreal, e eu esperava que magicamente tudo se consertasse, ou que eu apenas abrisse os olhos e descobrisse que não passava de um maldito pesadelo. Só que isso nunca aconteceu e talvez encarar a realidade fosse ainda mais complicado ao perceber que finais felizes são apenas nos contos de fadas e, no fundo, não passa de uma mentira. Porém, eu não poderia reclamar de cada ponto da minha vida, já que eu ainda tinha algumas coisas boas, como meus primos, meu avô, a Nina e meu pai — quando ele não achava que o mundo girava ao redor do umbigo dele —. Se não fosse o apoio deles, acho que eu teria me afundado completamente, já que eles eram as únicas coisas que me davam forças e vontade de viver. Eles eram minha alegria, minha luz e minha esperança. — Você está meio estranha hoje — Nina falou, colocando a mão no meu braço e me fazendo voltar a prestar atenção na televisão à nossa frente, que passava um episódio de Miraculous. — Na verdade, a semana toda. O que está acontecendo, Lina? Olhei em volta da sala da minha casa, que já não tinha nenhum vestígio do passado, nem mesmo as fotos, apenas aquelas almofadas no sofá, principalmente considerando que nos mudamos depois de toda a loucura. — Estou cansada — admiti para Nina, me inclinando para deitar em seu colo e recebendo um carinho no cabelo, logo depois dela pausar o desenho. — Tem a ver com o que o tio Heitor te disse segunda? — Uma parte minha sentiu vontade de sorrirpor perceber que minha melhor amiga realmente me conhecia bem demais. — Sabe, acho que ele não falou por mal, só está com muita coisa na cabeça. — Eu sei — falei, cutucando a cutícula do meu dedo indicador. — Mas também não é justo dizer aquilo para você — Nina continuou ao perceber que eu não diria mais nada. — Pense que hoje vamos sair e nos divertir, o que é bom para você se distrair. Aquela informação tinha sido praticamente deletada da minha cabeça, mas assim que Nina falou sobre sair, eu me lembrei que iríamos para a apresentação de ballet do primo desconhecido do David, o que deveria me deixar animada, se não fosse por minha completa vontade de deitar na cama e parar de me esforçar a ser positiva. — Eu esqueci de comprar alguma roupa — lamentei, passando a mão pelo rosto de forma cansada. — O que se usa em uma apresentação de ballet? — Sem pira — Nina pediu, fazendo um sinal de pare para mim e me obrigando a levantar a cabeça de seu colo. — Roupa normal de sair, amiga. — Posso ir de moletom? — debochei, vendo a garota ao meu lado mostrar uma careta. — Amiga, aquele seu vestido que comprou mês passado, mas não usou ainda — Nina sugeriu, me fazendo lembrar do vestido de cor verde menta clarinho. — Ótima ideia — concordei, dando um sorrisinho. — Agora vamos terminar de ver esse episódio de Miraculous porque daqui a pouco já precisamos nos arrumar — a garota avisou, olhando no relógio e mostrando que já eram quatro horas, me lembrando que nós ainda precisávamos tomar banho e David nos buscaria às seis e meia. Concordei e rapidamente voltamos a assistir. ✽ ✽ ✽ Eu estava bonita e sabia que devia tudo isso a minha ótima genética, além das mãos perfeitas de Nina que tinham feito uma maquiagem básica em meu rosto, já que eu não conseguia nem passar um delineador direito sozinha. O vestido que cobria meu corpo era bastante fofo, com uma saia mais soltinha, mangas de sopro e um cinto discreto na cintura alta. Minha melhor amiga tinha me emprestado uma sandália branca de tira fina e eu deixei que meu cabelo ficasse praticamente natural, apenas com as ondulações mais definidas. — Você está muito gata — Nina falou assim que entrou em meu quarto, batendo palmas como se eu estivesse em um desfile de moda, o que me fez rir. Se eu estava gata não existiam nem palavras para descrever a garota. Ela não era do tipo que usava vestidos com frequência, mas tinha optado por um tubinho de alcinha glitteroso e cinza- escuro, que a deixava com todas as curvas absurdamente acentuadas, complementado por um tênis branco, porque Nina nunca usava salto. — Olha quem fala — eu disse, apontando para ela. — Você ficou muito linda nesse vestido. — Obrigada. — Nina sorriu, pegando a bolsa que estava jogada em cima da minha cama. — Vamos? Olhei para o relógio da minha mesinha de cabeceira e concordei, já que David deveria estar chegando. Saímos do meu quarto e fomos para a cozinha falar com meu pai, que nos elogiou e disse para termos juízo, o que sempre fazia quando íamos para algum lugar de noite. Prometi que não voltaria muito tarde, mas avisei que estava levando a chave e assim Nina e eu fomos para o elevador, rapidamente chegando na entrada, onde o carro nos esperava. O que me surpreendeu foi ver o mesmo BMW que tínhamos andado dias atrás, me fazendo questionar se Santiago estava junto ou se David tinha um carro igual, embora a maioria das vezes que eu o tinha visto, ele estivesse de moto. Nina me puxou pelo braço ao perceber que eu estava parada e assim que nos aproximamos do carro, o vidro foi abaixado, revelando um David sorridente. — Uau, meninas, vocês estão muito gatas — o rapaz elogiou, dando um sorriso de lado que faria qualquer uma se derreter, e sinceramente, eu não era cega para não me derreter também. A única parte da roupa de David que dava para ver, era sua jaqueta de couro preta, que me fazia questionar o motivo para jaquetas de couro sempre acabarem sendo a marca de garotos com pinta de bad boy. Nina agradeceu, sorrindo e encarando o rapaz por mais tempo do que eu julgaria normal, em seguida abrindo a porta do carona para entrar e eu fiz o mesmo no banco de trás, vendo que outro garoto estava ali. Eu nunca tinha o visto, pelo menos, não que eu me lembrasse, mas o rapaz estava com um sorriso simpático no rosto, que deixava suas feições bastante adoráveis, além de acabar parecendo que seus olhos sorriam também. Seu cabelo era em um tom de chocolate e estava totalmente arrumadinho naquele momento. Me sentei ao lado dele e sorri, fazendo com que o garoto estendesse a mão para mim, que eu segurei. — Eu sou o Hyeon — o jovem se apresentou, me encarando como se esperasse que eu dissesse meu nome também. — Melina — falei, vendo o rapaz parecer satisfeito. — É um prazer. Soltamos nossas mãos e Nina também se apresentou para o Hyeon, o que fez David finalmente dar partida no carro e começar a dirigir em direção ao teatro. — Você estuda no Santana? — perguntei para Hyeon, tentando puxar algum assunto, já que silêncio não era exatamente uma coisa que me agradava. — Sim, comecei essa semana, porque decidi voltar da Coreia do Sul — o garoto falou, sorrindo mais uma vez. — Ai que incrível! — eu disse, verdadeiramente empolgada. — Sempre quis conhecer a Coreia. Você morava onde? — Daechi-dong, em Seul. — Você gostava? — Muito. — Hyeon balançou a cabeça positivamente. — Mas eu sentia saudade do tempo que morei no Brasil, então quis voltar. — Ah, deve ser por isso que seu português é excelente. — Obrigado. Nós ficamos conversando, enquanto ele me contava coisas sobre Seul e perguntava se comidas que ele se lembrava ainda existiam. — Ah, David — Nina chamou o rapaz, fazendo com que Hyeon e eu nos voltássemos na direção dela para prestar atenção no que diria. — Onde está seu primo? — Ele teve que ir bem mais cedo, porque adiantaram o horário, coitado — David lamentou. — E ainda sobrou para mim, porque tive que encontrar com ele para pegar o carro e buscar o Hyeon em casa. Quase nos atrasamos para pegar vocês. — Que bom que deu tudo certo — minha amiga falou, sorrindo e o rapaz ao seu lado concordou, também sorrindo enquanto olhava rapidamente para ela. Porém, não demorou para a atenção de David ser roubada pela entrada chique do estacionamento. O Teatro Municipal ficava no bairro mais nobre de Vila dos Anjos, o São Jorge, onde basicamente só as pessoas podres de ricas podiam morar, porque só as contas de luz dos condomínios enormes e luxuosos, deveriam custar três meses de salário do meu pai. Nós quatro descemos do carro e finalmente pude ter uma visão completa da roupa dos garotos. Hyeon usava uma camisa de listras azuis e brancas em vertical, que parecia ser mais larguinha e estava com um lado preso por dentro da calça preta, complementada pelos tênis brancos da Fila. Ele parecia até um modelo com todo aquele estilo, principalmente se considerasse toda a altura dele, eu não daria menos do que 1,90. Já David estava todo de preto. Do tênis que pareciam botas, das calças justas, da camiseta um pouco mais solta até a jaqueta. Hyeon me ofereceu o braço, que eu aceitei, notando que David fazia o mesmo com Nina. Nós quatro caminhamos até a entrada, onde uma mulher alta de terninho pediu os convites, que foram rapidamente entregues. Assim que cruzamos a entrada, meu queixo foi ao chão. Parecia um daqueles teatros dos filmes norte-americanos, com uma escadaria enorme em nossa frente, coberta ao centro por um tapete vermelho e com duas enormes estátuas, uma de cada lado. A estrutura era composta por várias colunas que lembravam um estilo medieval. Aquilo era como arte em arquitetura. — É por aqui — a voz de David nos informando o caminho me tirou daquele devaneio, me obrigando a parar de prestar atenção em tudo. Nós entramos em uma das portas maiores e eu fiquei ainda mais encantada ao me deparar com o palco. Era um teatro enorme, o que me fez perceber que aquela não era uma simples apresentação, já que o lugar se encontrava praticamente lotado. Continuei segurando o braço deHyeon enquanto seguíamos David pelas escadas, para garantir que eu não caísse. Não demorou para que parássemos em uma das fileiras da plateia, praticamente de frente para o palco. — Meu primo queria que ficássemos no camarote, mas eu acho que aqui é bem mais emocionante — o garoto de jaqueta avisou e nós quatro nos sentamos. David na primeira cadeira, Nina na segunda, eu na terceira e Hyeon na quarta. Olhando em volta, era impossível não reparar como todo mundo parecia exageradamente arrumado, quase como se estivessem em um casamento e não em uma apresentação de ballet. — Vai lotar hoje — David afirmou. — Tirando a apresentação do final de ano, essa é uma das mais importantes, porque os diretores dos principais conservatórios vêm assistir. — Nossa, seu primo deve estar bastante nervoso — Nina falou, parecendo até preocupada com o primo desconhecido. — Se estava, ele não demonstrou. Digamos que duas das características marcantes do meu priminho é o excesso de confiança unido à total capacidade de fingir não ligar para nada. Hyeon balançou a cabeça em afirmativa, se inclinando para frente para olhar David. — Não sei como ele consegue — o garoto admitiu. — Nem ele sabe, se duvidar. — Acabei de perceber. — Hyeon franziu o cenho, olhando em volta. — A Ana não vem? Aquela pergunta me fez ficar um pouco incomodada. Eu tinha me preocupado tanto com não encontrar com Santiago — que era apenas amigo de David —, que esqueci completamente que Ana poderia estar ali, principalmente considerando que eles eram irmãos e o primo também era dela. — Não, ela anda estranha desde que começou a sair com o cara misterioso — o rapaz informou, me trazendo certo alívio. — Mas melhor do que ela me estressar, porque está brigada com o senhor azedume. Hyeon sorriu em concordância e nossa atenção acabou sendo voltada para a luz que se acendeu no palco e uma mulher desejou uma boa noite, em seguida fazendo um tipo de discurso que eu acabei ficando distraída e não prestei atenção. Alguns minutos depois, as apresentações começaram e eu fiquei completamente hipnotizada. Aquilo era lindo. A forma como cada bailarino parecia estar entregando a alma no palco era encantador e eu não conseguia desviar o olhar. Ballet contemporâneo me lembrava um pouco a época que eu fazia jazz e aquilo me trouxe uma certa saudade e até nostalgia. Pelo menos, até sentir muita sede. — Trouxe água? — perguntei baixinho para Nina, que negou, me falando para ir comprar uma na entrada, porque ainda teria muitas apresentações e ficar com sede não fazia bem. — Me traz uma pipoca — David pediu e eu concordei, pegando minha bolsa e avisando Hyeon, que se ofereceu para me acompanhar, mas eu neguei. Subi as escadas calmamente e fui até a parte da frente do teatro, onde ficava a bomboniere, pedindo duas garrafas de água e uma pipoca grande, já que eu acabaria comendo junto. Paguei e agradeci assim que o atendente me entregou, caminhando tranquilamente para voltar ao meu lugar. Só que meus planos foram estragados, assim que senti alguma coisa me empurrando. Uma dor atingiu minha bunda quando eu colidi com o chão. — Eu… — escutei uma voz familiar dizendo, e fiquei surpresa ao levantar o olhar e ver Santiago parado ali, com os olhos arregalados, o cabelo bonito de sempre e aqueles olhos azuis com a frieza sendo substituída por confusão, provavelmente a mesma que estava nos meus. Olhei para baixo, notando a pipoca jogada por toda a minha roupa e minhas garrafas de água caídas no chão. — Porra, não acredito nisso! — eu falei, um pouco irritada por ter me sujado. Quando o encarei novamente esperei alguma reação, que ele me ajudasse, que se desculpasse e para variar não fosse estúpido, mas contra tudo que eu imaginei, Santiago desviou o olhar, correndo em direção a bomboniere e em seguida sumindo, sem dizer uma única palavra. Se eu tinha cogitado que em algum momento eu senti raiva dele, nenhum superou aquele. Além de derrubar minha comida e não se desculpar, ele ainda tinha me largado no chão, coberta de pipoca e com algumas pessoas me olhando como se eu fosse maluca. Me levantei, com meu rosto queimando de raiva e vergonha, joguei fora a balde vazio de pipoca e limpei o que tinha caído no meu vestido, passando pela porta para chegar no meu lugar, segurando apenas minhas garrafas de água. — Cadê minha pipoca? — foi a primeira coisa que escutei David perguntar assim que me sentei. — Um idiota derrubou — resmunguei, abrindo a garrafa com certa brutalidade e tomando um gole longo demais. — Ok, por favor não me bata, eu mesmo vou lá buscar — o rapaz falou, levantando os braços como um sinal de rendição. — Vou até te trazer um docinho. Ignorei seu comentário, tomando minha água e olhando a cortina fechada que se abriu, deixando o palco iluminado por uma luz azul direcionada discretamente para o rapaz que se apresentaria. Ele usava uma roupa totalmente preta e seu rosto estava coberto por uma máscara. Era a primeira apresentação solo da noite. A música começou a tocar e imediatamente eu reconheci Mercy do Shawn Mendes. O bailarino estava parado, com as duas mãos atrás do pescoço, encarando o chão, mas foi uma questão de segundos para começar a dançar. Na primeira estrofe, ele já estava dando uma pirueta que quase me fez pular, era como se cada um de seus movimentos fosse feito com precisão para se encaixar na melodia. O rapaz sentia a música e se entregava e isso era visível para qualquer um que estivesse assistindo. Ele girou mais duas vezes e eu não consegui evitar que gritinhos animados saíssem da minha garganta. Acho que em toda a minha vida, nunca tinha me sentido tão envolvida em uma apresentação. Quando chegou no refrão, ele rodopiou seguidas vezes, arrancando diversos gritos e aplausos da plateia, o que incluía os meus. Sem notar, comecei a bater no braço de Nina, como se pedisse para ela conferir se estava vendo o mesmo que eu. — Eu também estou vendo, se acalma — Nini disse, dando uma risadinha. Porém, quando o rapaz fez um salto, parecendo que mergulharia no palco e finalizou firmando as mãos no chão e dando uma cambalhota, cogitei que além de deixar minha amiga surda, eu ficaria sem ar, de tanto que comecei a surtar. Ele terminou a dança com um último rodopio preciso, voltando à posição inicial. Aquilo era arte, arte viva e palpável de uma forma que eu nunca tinha visto, mas tinha me deixado completamente apaixonada. As cortinas se fecharam e todo mundo aplaudiu com vontade, de forma que o teatro foi preenchido por gritos e assovios. Talvez eu não fosse a única que tinha me sentido daquela forma. Meu coração estava até mesmo acelerado, como se tivesse ingerido adrenalina. — Ele foi ótimo — Hyeon falou ao meu lado. — Ótimo?! — perguntei. — Aquilo foi perfeito, eu estou arrepiada — eu disse, mostrando meu braço que se encontrava realmente com os pelinhos arrepiados. David chegou nesse momento, segurando dois baldes de pipocas e duas barras de chocolate, se sentando em seu lugar. — David, você perdeu a coisa mais linda que já vi na minha vida — informei, apontando para o palco. O rapaz olhou na direção e em seguida para mim. — O quê? Bailarino gato? Ou bailarina? Vai da sua escolha. — Não, David — neguei, apontando mais uma vez, me perdendo as palavras. — Teve uma apresentação solo de um rapaz, foi de arrepiar e a Melina ficou totalmente encantada — Nina explicou, tirando as palavras da minha boca. — Se quiser, peço para o meu primo descobrir se o solista é solteiro. — David me deu uma piscadinha, que só me fez revirar os olhos. — Teve a ver com a dança — falei, como se fosse óbvio, porque realmente era. — Claro, vocês podem dançar bastante, vou conseguir o contato para você. — O rapaz me fez um sinal positivo, me entregando um dos baldes de pipoca e uma barra de chocolate, dando a outra para Nina. Percebi que David ainda não tinha entendido, mas desisti por notar que a cortina já se abriria para a próxima apresentação, então apenas agradeci a comida e voltei a prestar atenção, dividindo a pipoca com Hyeon. — Fiqueisurpreso com como o humor dela melhorou rápido — David falou para Nina, alto o bastante para que eu também escutasse. — Essa é a Melina de verdade, o mau-humor dura pouco. — Minha amiga deu uma risadinha. Fiz uma careta, mas preferi não comentar nada, focando nas apresentações e na pipoca. ✽ ✽ ✽ As apresentações tinham acabado e embora todas tivessem sido lindas, nenhuma tinha superado a do primeiro solista. Era como se de alguma forma a dança tivesse conversado comigo e me fez até sentir vontade de dançar com o rapaz. Estávamos plantados próximos da escadaria enorme, esperando pelo primo ainda desconhecido do David, quando eu vi Santiago se aproximando e imediatamente fechei a cara. — Santiago! — Hyeon exclamou, se aproximando para dar um abraço no rapaz, o que me fez me perguntar se todos naquele colégio se conheciam. Santiago já era consideravelmente alto, provavelmente passando de 1,80, mas ele ainda era menor que Hyeon, o que só me fazia perceber que o sul-coreano era realmente alto. — As coreografias estavam lindas, parabéns — o rapaz complementou. — Arrasou, priminho! — David o abraçou também. Foi ali que eu arregalei meus olhos e tudo fez sentido. Santiago estava ali porque ele era um dos bailarinos, o carro igual ao dele lá fora era provavelmente o dele mesmo e, se ele era primo de David e David era irmão de Ana, isso queria dizer… Merda. Eu tinha xingado a prima dele, por isso ele tinha ficado tão bravo no dia do treino. Santiago agradeceu, parecendo um pouco perdido e sua expressão foi modificada para completa surpresa quando seu olhar se encontrou com o meu. Ele franziu o cenho, encarando David e voltando a olhar para mim, repetindo o movimento algumas vezes, antes de olhar para Nina. — O que acham de comermos alguma coisa? Vamos comemorar — David pediu, com Hyeon o apoiando. — Na verdade, eu precisava ir… — comecei a falar, mas o rapaz me interrompeu. — Qual é, gata. — O apelido me fez franzir o cenho e notar Santiago o encarando com desgosto. — Ainda está super cedo, aposto que você está com fome e eu vou deixar vocês em casa depois. — Não posso ir, eu tenho a dieta… — Santiago disse, também sendo interrompido. — Vamos naquele restaurante que tem comida vegana, pronto, tudo resolvido. — David bateu duas palmas, como se estivesse nos mandando segui-lo. — E eu pago — Hyeon complementou, fazendo um high five com o rapaz que tinha tido a ideia. — Bom, vou avisar o tio Heitor que vamos voltar um pouco mais tarde — Nina informou, já pegando o celular e me obrigando a lhe lançar um olhar de súplica, que foi ignorado completamente. Ela tinha me prometido que não teríamos confraternizações depois e, aparentemente, se esqueceu disso. Santiago bufou e nós cinco começamos a andar para fora do teatro, indo até o estacionamento pegar o carro. Quando chegamos ao lado do BMW, David jogou a chave para o primo, que fez uma careta antes de pegar. — Hyeon e Nina, comigo no banco de trás — o rapaz informou, abrindo o banco do carona e fazendo um sinal positivo para eu entrar. Antes que eu pudesse argumentar, ou inventar alguma desculpa, os três já tinham se acomodado atrás, me restando apenas o mesmo lugar do outro dia, o banco ao lado de Santiago. Naquele momento, eu concluí que quem eu mais odiava ali não era o loiro, mas sim David por me fazer passar por aquilo. Me dei por vencida e sentei no banco, fechando a porta com certa delicadeza e notei que Santiago estava me encarando. Eu não costumava ser ríspida com a maioria das pessoas, mas depois de todos os momentos esquisitos em que tínhamos nos encontrado e todo aquele clima horrível que ficava entre nós dois, eu sempre acabava sendo assim com ele. — Perdeu alguma coisa na minha cara? — perguntei, fazendo o rapaz endireitar a postura, parecendo confuso. — Estava procurando a sua educação — ele retrucou, me arrancando uma risada sarcástica. — Falou o idiota que me largou jogada no chão coberta de pipoca. — Isso que dá ser desastrada — Santiago resmungou, me fazendo bufar. Ele me empurrava e a desastrada ainda era eu? — A culpa foi sua, seu babaca — acusei, sentindo meu rosto esquentar. — Se você não estivesse no meu caminho, eu não teria esbarrado em você. — Se você não estivesse tão focado no próprio umbigo, teria notado que tinha alguém no caminho, cacete — falei, erguendo instintivamente o dedo acusatório em direção do seu rosto. — Então vai para a porra. Santiago segurou meu dedo, puxando um pouco para frente e fazendo com que eu ficasse exageradamente perto dele, já que nós dois tínhamos nos inclinado enquanto brigávamos. Ele fez um som reprovador com os lábios, que soava como: tsc tsc tsc e me encarou, os olhos revelando toda a raiva que sentia, parecendo ser a mesma que me deixava até sem ar. — Já cansei de pedir para não apontar o dedo para mim — ele disse, com o tom de voz baixo. — Não seja um imbecil e isso não será necessário. — Forcei um sorriso, me afastando dele e olhando para frente. — Ah… — Hyeon parecia hesitante, embora só tivesse me feito lembrar de sua existência naquele momento. — Podemos ir jantar? — Hyeon — David o repreendeu, baixinho. — Estamos indo — Santiago falou, dando partida no carro. — Posso perguntar uma coisa? — Hyeon questionou para mim e eu assenti, olhando um pouco para o banco de trás. — Por que vocês dois parecem não se gostar? — ele apontou para mim e em seguida para Santiago, fazendo com que nós dois nos olhássemos, antes de voltar o foco para Hyeon. Eu poderia dar uma resposta longa, mas não valeria a pena, então eu apenas falei: — Porque ele é um idiota. E fiquei verdadeiramente surpresa por Santiago ter dito no mesmo segundo: — Porque ela é uma idiota. Nos encaramos, talvez um pouco surpresos e olhamos para frente, parecendo que não tínhamos coragem para nos provocarmos naquele curto instante. O caminho até o restaurante foi silencioso e durante o jantar, todos conversamos, mas a cada vez que meu olhar se encontrava com o do loiro, era como se alguma coisa estranha e oculta estivesse ali. Eu não sabia dizer o que era e não pretendia pensar nisso, enquanto fosse possível evitar. CAPÍTULO 14 Sábado, 11 de setembro de 2021 Minhas costas doíam, graças a forma como eu tinha dormido completamente torta na noite anterior, já que Nina e eu chegamos quase meia-noite, então para não acordar meu pai, acabamos não enchendo o colchão inflável. Dormir com Nina — mesmo que em uma cama de casal — era um desafio, porque minha melhor amiga não conseguia parar quieta, de um jeito que em certo momento, as pernas dela foram parar em cima da minha barriga e sua cabeça no pé da cama. Basicamente, era uma tortura. Se eu não amasse aquela garota com todo meu coração, aquela teria sido uma ótima oportunidade para jogá-la pela janela por atrapalhar totalmente meu sono sagrado e contribuir com a minha dor na coluna. Me alonguei, apoiando na bancada da cozinha, enquanto a garota andava de um lado para o outro cozinhando alguma coisa. Eu nunca me envolvia em suas invenções culinárias, principalmente porque tirando café, coisas prontas ou macarrons, eu não sabia fazer nada. — Vai tomar café? — ela perguntou, já pegando o filtro para café, porque Nina odiava os de máquina. — Vou, mas o meu está no freezer — avisei, enquanto tocava as mãos nos pés e sentia aquela clássica pontada na perna que só aparecia quando iria chover. — Vai chover, você trouxe jaqueta ou guarda-chuva? Quando ergui o corpo novamente e encarei minha melhor amiga, que tinha um cabelo perfeito demais para uma pessoa que estava de pé às oito da manhã, notei a confusão estampada em seu rosto. — Primeiro, vou pegar a bandeja para você então — Nina informou, já abrindo o freezer e tirando minha bandeja de cubos de café. — Segundo, o que raios a chuva tem a ver? — Minha perna doeu. — Apontei para baixo. — Tá parecendo a minha vó. Eu dei uma risada baixa e decidi ignorar, pegando o liquidificador e as coisas que faltavam para fazer meu café gelado, enquanto Nina finalizava uma crepioca e montava um prato arrumadodemais, que continha até mirtilos — o que eu nem sabia que tinha ali em casa. — Por que arrumar tanto o prato se vai parar tudo na barriga de qualquer jeito? — eu perguntei, enquanto colocava os cubos de café congelado no copo do liquidificador. — Porque preciso postar no Instagram — ela explicou, apontando para o próprio celular. — Estão reclamando da minha ausência. Aquilo foi bastante explicativo, já que Nina tinha uma quantidade considerável de seguidores e poderia ser vista como uma influenciadora, constantemente postando rotinas fitness, dicas de maquiagem e mais outras coisas, dependendo de qual fase ela estava. — Faz sentido — concordei, enquanto procurava a essência da baunilha que eu tinha acabado de pegar, a encontrando e colocando com os outros ingredientes. — O que achou da apresentação ontem? Foi divertida, não? — Nina perguntou, me olhando antes de voltar a tirar fotos de seu prato. Foi o suficiente para minha amiga ganhar toda a minha atenção, eu só estava esperando uma oportunidade para aquilo. Comecei a falar sobre a apresentação do solista mascarado, descrevendo os detalhes ainda presos em minha mente como se a garota não estivesse lá também. Pude notar os sorrisos que Nina enviava em minha direção, provavelmente pensando o mesmo que eu: já fazia muito tempo que eu não me empolgava daquela forma com nada. — Quem te escuta falar assim, vai achar que se apaixonou pelo garoto — minha amiga brincou, me fazendo revirar os olhos. — Pelo garoto não, mas pela dança… — Suspirei, verdadeiramente encantada. Foi naquele momento que uma ideia passou pela minha cabeça. Eu sempre gostei de dança, sempre amei música e eu ainda precisava encontrar alguma atividade para fazer parte da minha rotina e tirar a atenção das minhas falhas tentativas de jogar vôlei. Talvez começar a aprender ballet contemporâneo fosse uma ótima ideia. — Nina — chamei minha amiga, permitindo que um sorriso preenchesse meu rosto de um canto ao outro. — Oi. — Nini ergueu uma sobrancelha, enquanto mordia um pedaço de sua comida e me oferecia o prato, que eu neguei, ligando o liquidificador, em partes porque precisava bater logo meu café, mas também para evitar que meu pai escutasse nossa conversa, já que ele ainda estava no quarto. — Lembra que te contei sobre a ideia da minha psicóloga de eu fazer outras coisas? — perguntei e a garota concordou, ainda confusa. — E se eu fizesse ballet? — Eu amei! — Nina bateu palminhas animadas, mas logo pareceu murchar sua animação, fazendo com que fosse a minha vez de ficar confusa. — Mas como você iria? É caro e você não quer contar para o tio Heitor — ela sussurrou, me fazendo refletir. Realmente ir para uma academia não era uma opção, então eu teria que arrumar algum jeito de aprender sozinha. Ou alguém para me ensinar… — Nina! — exclamei, o que causou um olhar um pouco assustado na garota. — E se eu descobrir quem era aquele garoto da máscara e ver para ele me ensinar? Nina fez uma careta de forma imediata e eu desliguei o liquidificador, pegando um copo grande no armário do alto. — Por que uma pessoa desconhecida, que deve ter um monte de coisa para fazer te ensinaria ballet de graça? — ela questionou para mim, me fazendo refletir que realmente era uma péssima ideia, mas eu não gostava de abrir mão das coisas. — Nunca se sabe, eu posso tentar, no máximo levo um não — falei, dando de ombros. — Acho uma ideia estranha, mas se quiser mesmo eu falo com o David para ele descobrir quem é e ver a possibilidade de você fazer um pedido esquisito. — Nina me mostrou um sinal positivo, que me fez lembrar de David fazendo o mesmo ao alegar que conseguiria o contato do bailarino, por achar que eu tinha desenvolvido um crush, ou qualquer coisa que tivesse se passado pela cabeça maluca daquele rapaz. No final das contas, o contato seria útil, mas para uma finalidade diferente. Eu agradeci, enquanto finalmente despejava meu café no copo e pegava um canudo para tomar aquela bebida dos deuses. Meu pai apareceu na cozinha, usando uma roupa arrumada demais para um sábado de manhã, desejando um bom dia para nós duas, seguido de um beijo na testa de cada uma. Ele perguntou se eu iria à psicóloga, o que confirmei rapidamente. Após tomar uma xícara do café que Nina tinha feito, Heitor deixou nosso apartamento, alegando precisar resolver algumas coisas. Preferi não me preocupar com o que ele fosse resolver, principalmente considerando que era grandinho o bastante para cuidar de si mesmo. ✽ ✽ ✽ Segunda-feira, 13 de setembro de 2021 Atrasada: a palavra que fazia constantemente parte da minha rotina, o que incluía aquela manhã de segunda-feira. Depois da minha psicóloga no sábado, Nina e eu fomos visitar meu avô e ficamos até tarde lá, comendo todos os biscoitos que ele tinha assado e uma enorme lasanha na janta. Foi o suficiente para eu não sair do sofá no domingo, assim como minha amiga, que acabou ficando na minha casa o final de semana inteiro. Aproveitei a oportunidade para obrigá-la a assistir a primeira temporada toda de Modern Family. Nos poucos momentos em que minha atenção não se encontrava focada em Nina, eu estava conversando com Hyeon. Acabamos trocando nosso número na sexta porque ele foi a única pessoa que tornou minha noite menos desconfortável, conversando comigo sempre que possível e sobre coisas que eu também gostava. O garoto era extremamente simpático e era como se nossa energia fosse compatível, de forma que parece aquele tipo de pessoa que traz a sensação de que você conhece a vida toda. Também tive que passar o domingo ignorando as vinte e oito mensagens, cinco ligações e quatro directs de Nicolas, já que falar com ele não estava nos meus planos tão cedo, mesmo que já fizesse uma semana e meia que eu o evitava. E claro que eu só lembrei disso porque meu celular estava com a foto dele estampada em uma ligação pela segunda vez no dia, mesmo sendo sete horas da manhã. — Se ele continuar me ligando, eu vou atender e dar uma de Ariella — falei para Nina, que estava sentada na beirada da cama, com a mochila pronta e um olhar de compaixão na minha direção, porque eu estava quase morrendo para apertar tudo na minha. — Desliga o celular — ela sugeriu. — É direito seu não querer falar com ele. — Você… — hesitei, porque não era da minha conta. Eu tinha escolhido evitar Nicolas, mas Nina não tinha a obrigação de fazer o mesmo. — Ele me mandou mensagem ontem também, pedindo para eu falar para você responder, mas eu ignorei. — Minha amiga deu de ombros. — Também evitei ele desde o treino caótico. Suspirei, não sabendo se deveria dizer mais alguma coisa, mas soltando um gritinho animado quando finalmente consegui fechar o zíper da mochila. — Pronto, vamos logo, porque já estamos atrasadas. Era para todo mundo estar na frente do colégio às sete, para sairmos às oito, mas eram sete e cinco e eu ainda estava saindo do quarto, olhando com raiva para a foto de Nicolas na tela do celular, que no momento se encontrava em minha mão. Pelo menos já tinha tomado café da manhã. — Aleluia, meninas! — meu pai falou, andando até o meu lado com um estojo que ficava a caneta de epinefrina. — Para que isso, pai? — perguntei, franzindo o cenho. — Sua alergia, nunca se sabe. Foi informação o suficiente para eu fazer uma careta. Eu tinha alergia a frutos do mar, em que tipo de acampamento ele achava que eu estava indo para correr o risco de comer camarão, ou algo do estilo? — Pai, é um acampamento — o lembrei. — Eu sei, mas segurança nunca é demais, Melina. — Ele fez um sinal para que me virasse e colocou o estojo no bolso de fora da mochila, que era o único lugar que ainda cabia alguma coisa. — Agora vamos. Notei que Nina segurava a risada, provavelmente por achar aquilo tão absurdo quanto eu achava. Descemos pelo elevador, com nossas pequenas malas que já tinham ficado perto da porta, além da mochila nas costas, até o subsolo e entramos os três no carro. Não demorou para chegarmos no colégio, com a treinadora Paula — que nos acompanharia no acampamento — me lançandoum olhar reprovador, provavelmente por saber que eu que tinha causado nosso atraso. Era a parte ruim de todos os meus professores me conhecerem bem demais e eu poderia culpar meu pai por isso. Fomos informados sobre a organização dos ônibus e a treinadora passou recolhendo as autorizações de quem não tinha entregue durante a semana. Agradeci aos céus por Nina ter ficado no mesmo ônibus que eu e graças ao meu atraso nem vi Nicolas. Assim que nos sentamos em nossos lugares, eu olhei para minha melhor amiga. Refletindo sobre como teria que aguentar duas pessoas: meu ex/melhor amigo e o Santiago. — Essa vai ser uma longa semana — afirmei, permitindo que uma lufada de ar saísse de meus lábios. CAPÍTULO 15 Segunda-feira, 13 de setembro de 2021 Eu estava naquele estágio do sono entre estar sonhando e realmente despertar, quando fui obrigado a acordar por escutar uma quantidade absurda de barulho no meu quarto, mesmo que fosse completamente proibido qualquer pessoa entrar ali sem minha autorização prévia. Abri os olhos, os cerrando em direção a luz e conforme minha visão desembaçou, eu consegui ver com clareza David e Hyeon sentados na minha cama, me observando, o que só me deixou puto por ser acordado no meio do sonho. A sensação de saber que estava sonhando com algo bom, mas não exatamente o que era, me preencheu e só consegui sentir ainda mais insatisfação por estar acordado. Eu não conseguia acreditar que tinha cogitado que ter Hyeon ali não era ruim, porque além de David, eu agora tinha o Jung, o que significava que seria o dobro de incômodo. — E aí, Santiago?! Animado? — David perguntou, se remexendo na cama e encostando no travesseiro ao lado do meu. — Pareço animado? — devolvi a pergunta, o encarando. — Prestes a jogar confetes em mim — meu primo falou, revelando um sorriso travesso no rosto. Odiava quando ele ficava com aquela expressão, nunca terminava bem. — Desembucha — resmunguei, sabendo que teria alguma coisa a ser dita. David olhou para Hyeon, que parecia segurar uma risada, não disfarçando nem um pouco sua animação. Eu não sabia dizer se era pelo acampamento, ou por alguma ideia idiota do meu primo, mas ela estava presente. — Me diz, como está esse coraçãozinho sabendo que vai ver a Mattos todos os dias essa semana? — David piscou os olhos, como naquelas cenas de desenhos animados em que os cílios ficam maiores, ou pelo menos, foi assim que se pareceu na minha cabeça sonolenta. — Onde quer chegar, David? — perguntei, sentindo o sono misturado com minha irritação, o que nunca resultava em coisas boas. — Queria te irritar. — Meu primo deu de ombros. — Mas, na real, tenho outra coisa para perguntar. — Fala logo — pedi, observando no relógio da parede que ainda eram seis horas e não tinha nenhuma necessidade de eu já estar acordado, porque tinha deixado minhas coisas arrumadas e a roupa separada. — Quem era o solista na apresentação sexta? — David questionou, com uma expressão no rosto que eu não sabia decifrar. Ergui uma sobrancelha, o encarando com certa confusão, já que só tinham dois solistas, eu e um rapaz mais velho que eu não tinha muito contato. — O de máscara — Hyeon complementou, me fazendo concluir que era eu. — Eu — respondi, olhando para os dois, mas no final focando em David. — Por quê? Não reconheceu a coreografia que você ficou espiando por semanas? Meu primo olhou para Hyeon, que nesse momento nem tentou disfarçar sua vontade de rir, logo soltando uma gargalhada, o que fez David revirar os olhos de maneira divertida. — Eu perdi sua apresentação — meu primo começou a explicar, me fazendo pensar se ele estava se agarrando com alguém nesse momento. — E antes que pensamentos equivocados sobre a minha pessoa passem pela sua cabeça, foi porque eu fui buscar pipoca, já que alguém derrubou a que a Melina tinha comprado para mim. Queria perguntar o motivo para Melina buscar pipoca para ele, mas me contive, focando no que realmente importava. — Por que queria saber quem era? — perguntei, enquanto me sentava na cama e pegava minha garrafa de água para tomar um pouco. — Ah… — David hesitou, olhando novamente para Hyeon. — Parem com esses olhares. — Apontei para os dois. — E falem logo. — Olha, é que o David queria conseguir o contato do solista — Hyeon explicou, o que fez meu primo concordar. — Por quê? — Ele acha que a Melina ficou interessada no solista, aí disse para ela que ia arrumar o contato — o rapaz falou, como se fosse o porta-voz de David. Aquela informação foi o bastante para eu cerrar os olhos e franzir o cenho. A Melina tinha ficado interessada em um cara aleatório mascarado, que nunca viu de perto e pediu para o meu primo arrumar o contato para ela? A mesma Melina que apontava o dedo na minha cara, não parecia ter muita paciência comigo e mais importante, era próxima do capitão rival de David? Considerei aquilo uma piada, o que me fez rir, não tinha o menor sentido. — Por que está rindo? — David perguntou, me olhando com desgosto. — Porque vocês decidiram me acordar às seis horas da manhã para inventar coisas que nem fazem sentido — expliquei, tirando a coberta de cima das minhas pernas e ficando de pé. Se já estava acordado, pelo menos iria me vestir. — Porra, Santiago — meu primo resmungou. — Eu não sabia que era você, quando voltei com as pipocas o solo tinha acabado e a Melina basicamente ficou falando sobre o bailarino, aí eu disse que arrumaria o contato, foi simples. — Ela elogiou bastante a dança — Hyeon complementou, fazendo David assentir. — Pelo menos vai ser mais fácil, já tenho seu contato para passar para ela — o rapaz acrescentou, animado, enquanto pegava o celular. Foi o bastante para eu quase voar em cima dele, tomando o celular da sua mão. — Que isso? — ele perguntou, me olhando com um misto de surpresa e hesitação. — Não manda meu contato para ela, ficou louco? — me exasperei, jogando as mãos para o alto. — Ué, ela gostou do solista, vou dar o solista para ela, ser você é só uma coincidência. — David deu de ombros, ficando de pé para pegar o celular da minha mão, mas eu deveria agradecer aos meus dois centímetros a mais e pés treinados, que me permitiram ficar na ponta dos dedos, impedindo que meu primo alcançasse o celular. Estava pronto para uma risada vitoriosa, quando Hyeon parou ao meu lado e pegou o aparelho com facilidade. Odiei seu 1,90 naquele momento. — Hyeon, você também não — pedi, o olhando de forma avaliativa e o rapaz deu um sorriso tranquilo. — Fazemos o seguinte, vamos passar a semana toda convivendo com ela, certo? — Hyeon perguntou, recebendo um aceno afirmativo meu. — Ela é legal e acho que vocês implicam um com o outro por besteira. Trata ela bem e o David não manda seu contato, deixando sua identidade de solista mascarado em segredo. — Eu vou matar vocês — murmurei, fuzilando Hyeon com o olhar. — Concordo — meu primo afirmou. — Se tratar ela bem, eu não conto que é você e digo que não consegui descobrir. — Por que você também quer que eu a trate bem? — questionei, esperando que ele entendesse as entrelinhas de: ela xingou a Ana. — Nem falar com você ela está falando, cansei de tomar as dores da minha irmã, ela nem merece que a gente faça isso, então supera — David disse, revirando os olhos e eu não soube se era para mim, ou para Ana. Não fazia ideia do que ele queria dizer, mas se tinha ficado sabendo de alguma coisa que o fez concluir aquilo, eu notei que nem queria ter ciência do que era. Foi informação o bastante para eu dar de ombros. Ainda tinha que lidar com a estupidez direcionada apenas para mim e com o instinto de colocar o dedo na minha cara, mas não ser grosso com Melina seria minha meta semanal para que David não passasse meu número para ela, embora nem fosse fazer alguma diferença a garota ter ele ou não. Aposto que me xingaria ao descobrir que eu era o bailarino. — Que seja! Uma semana evitando a Melina e se acontecer de precisar falar com ela, não vou ser grosso — falei, levantando as mãos em rendição. De qualquer forma, evitar Melina já estava nos meusplanos e se eu não ficasse perto dela, nem precisaria ser grosso. Tudo seria facilmente resolvido. David assentiu, animado, pegando seu celular da mão de Hyeon e falando para eu me arrumar logo, enquanto pediria para Macedo arrumar o carro para nos levar. Os dois deixaram meu quarto, me dando privacidade para tomar um banho e me arrumar. ✽ ✽ ✽ Hyeon acabou no banco do meu lado no ônibus, já que David tinha aberto mão de seu lugar para que o rapaz não ficasse sozinho. Dez minutos que o ônibus tinha saído e dez minutos que Hyeon não fechava a boca. Eu sabia que estava animado por ser seu primeiro acampamento, já que ele tinha falado isso oito vezes no caminho até o colégio. Chegou em certa altura que sua animação foi tanta, que ele começou a misturar o português e o coreano enquanto falava, de forma que me castiguei por saber falar sua língua materna, já que se não soubesse, pelo menos não estaria entendendo e poderia ficar em paz. — Aish! — ele exclamou, mais uma vez confundindo o que dizia. — Como demora para chegar. — Michyeosseo? — perguntei baixo se ele estava ficando doido, em coreano. — Faz dezesseis minutos que saímos, Hyeon — expliquei, assim que olhei a hora em meu relógio de pulso. — Chincha? — Hyeon arregalou os olhos, realmente surpreso e eu confirmei que era sério, fazendo um sinal positivo para ele, esperando que fosse o bastante e coloquei meus fones, encostando no banco e desejando que conseguisse dormir. ✽ ✽ ✽ Senti algo me inclinando para frente e para trás, como um chacoalhão. Assim que me esforcei para abrir os olhos, me deparei com Hyeon, com um sorriso exageradamente exposto e uma animação sincera. — Chegamos! — ele cantarolou e eu soube que precisava descer do ônibus. O inferno só estava começando e eu ainda precisava ligar para a senhora Fontaine, avisando que faltaria uma semana inteira de ensaios. Ela me mataria, por isso adiei até o último momento. Minha expressão deveria ser de puro descontentamento, porque era exatamente como eu me sentia enquanto descia do ônibus com Hyeon na minha frente, indo até à parte de trás onde estavam nossas malas. Ninguém tinha autorização de levar mais do que uma mochila e uma mala pequena de mão, o que deveria ser uma tortura para todas as garotas mimadas do meu colégio. Ana deveria agradecer por ainda estar no segundo ano, ou provavelmente teria um colapso. Hyeon se encontrava falando alguma coisa sobre como a lista de atividades estava completa pelo folheto que tinham entregue, mas eu não consegui prestar verdadeiramente atenção, porque vi ela. Melina estava longe o bastante para que eu não precisasse começar a pensar no que fazer para evitá-la, mas perto o suficiente para sua presença atrair o meu olhar. A jovem começou a andar, parecendo completamente focada em sua conversa com Nina. E para o meu desespero, as duas estavam indo na direção em que eu e Hyeon permanecíamos parados. O rapaz, talvez notando toda a minha distração, olhou para o mesmo lugar que eu encarava fixamente e depois me fitou, como se estivesse avaliando o que eu pensava. — Você odeia a Melina, ou é afim dela? — ele perguntou, me fazendo olhá-lo com certa indignação. — Sinceramente, não está dando para diferenciar, já que você a olha desse jeito. — Eu não odeio e nem gosto, só não faz diferença para mim e sempre acabamos discutindo, acho que não temos nada a ver um com o outro — expliquei, dando de ombros. — Mas ela gostou de uma parte sua — Hyeon disse e eu sabia que estava se referindo a minha apresentação. — Aposto que se soubesse que era eu, tinha jogado alguma coisa na minha cabeça e não elogiado — falei com sinceridade, o que me fez o rapaz rir. Quando olhei novamente para frente, pronto para descobrir onde ela estava, senti uma colisão com meu corpo, me molhando. Água. E assim que meu olhar se encontrou com o dela, eu soube quem tinha acertado a água em mim, de forma que minha camiseta ficou consideravelmente molhada. — Puta merda — reclamei. — Você nunca olha para onde anda. Melina me encarou com irritação, inclinando um pouco seu queixo para cima, como se isso a fizesse me enxergar melhor. — Você que sempre fica na minha frente, que coisa chata, está me perseguindo? — Por que eu estaria te perseguindo, Mattos? — perguntei, dando uma risada abafada. — Não sou eu quem deveria responder essa pergunta — ela disse, revirando os olhos, mas assim que olhou para o lado, um sorriso sincero apareceu em seu rosto, o que me fez querer saber o que a fazia sorrir daquela forma e fiquei surpreso por ser Hyeon. — Hyeon! — a garota exclamou animada e o rapaz abriu os braços para que Melina o abraçasse, o que ela fez, enquanto o rapaz a erguia já que a diferença de altura não permitia um abraço normal. Me vi obrigado a levantar as duas sobrancelhas. Em que momento eles ganharam tanta intimidade para estarem se abraçando? Olhei para Nina, esperando que dissesse alguma coisa, embora eu nem a conhecesse o bastante para ela me falar. A garota pareceu notar minha confusão e disse baixinho: — Melina gosta muito de abraços e eles ficaram conversando durante o fim de semana. Queria dizer que eu não tinha perguntado nada, mas seria ridículo, já que minha expressão tinha me entregado e eu não precisava ser grosso com Nina por nada. — Entendi — murmurei para ela, apenas para não ficar um silêncio estranho. — O David não veio para o acampamento? — a garota perguntou, o que me fez encará-la ainda mais. Eles pareciam verdadeiramente próximos, já que David até tinha a levado na minha apresentação, e ela aparentemente era a única garota que meu primo ficava perto por mais tempo do que uma noite, mas eu não tinha tido a oportunidade de perguntar para ele se tinha alguma coisa acontecendo e também não sabia se perguntaria. — Veio — afirmei, olhando em volta e o enxergando perto de Vitor, o que me fez revirar os olhos e apontar na direção. — Está com o grupo dos amigos babacas dele. — Ah… — Nina exclamou. — Achei que ele andava mais com você, já que sempre vejo vocês grudados. — No geral, sim — concordei. — Mas acho que está um clima estranho no grupo porque eu e Vitor não nos suportamos. David fica meio dividido. — Entre a família e um bando de otários? — Nina perguntou, o que me fez querer rir. — Talvez faça parte das dificuldades de ser popular. — Dei de ombros. No final das contas, Nina não era uma pessoa ruim e eu entendia porque David tinha ficado amigo dela, mesmo em uma questão de cinco minutos, já tinha a achado muito sensata. Talvez Melina fosse como ela, mas nossas pequenas brigas idiotas tinham impedido que qualquer aproximação acontecesse e, pela primeira vez, eu me arrependi por sempre ser tão estupido. Quem sabe não fosse tão difícil agir de forma gentil com ela se eu realmente quisesse. Não me mataria interagir com outras pessoas que não fossem meus primos e agora Hyeon. E, por mais que eu achasse difícil, talvez pudéssemos virar amigos. Fomos chamados para recebermos as informações, o que fez Melina e Hyeon, que estavam conversando ao nosso lado sobre como ela tinha obrigado Nina a assistir Modern Family, focarem no que diziam. Nós quatro andamos até perto do pequeno palco que tinha logo na entrada do acampamento e observamos o cara que estava vestido com uniforme, ao lado da treinadora do São Sebastião e do treinador do meu colégio. O homem explicou que seríamos divididos em duas cores: azul e vermelho, mas dentro de cada cor ainda teriam equipes e em cada equipe duplas, o que era bastante confuso, mesmo que todos tivessem concordado. Começaram a nos dividir, de forma que era notável os dois colégios estarem misturados. Eu fiquei na equipe azul, assim como Hyeon e Melina. O rapaz quase me esmagou quando comemorou por ficar com duas pessoas que ele conhecia, mas Nina pareceu bastante triste por acabar na vermelha e desconfortável quando anunciaram o nome de Nicolas na cor dela. — Estou feliz por ele não cair com você, mas não estava afim de aguentá-lo — a garota falou para Melina, que colocou a mão no ombro dela. — Se eletentar te forçar a conversar, chuta as bolas dele — Melina falou baixo, mas ela estava perto o bastante para eu escutar, o que me fez colocar a mão na frente da boca para disfarçar a risada. Não sabia o que tinha feito a garota que o namorava e o acalmou de forma desesperada na quadra acabar falando para a amiga chutar as bolas do cara, em uma questão de duas semanas, mas aquilo me deixou mais satisfeito do que deveria. — Oi, meninas — David disse, aparecendo repentinamente com o tom de voz que ele imaginava ser galanteador e era apenas direcionado a quem flertava. — Oi, David — as duas responderam juntas, dando sorrisinhos para ele. Continuamos escutando o anúncio de cada equipe, mas David parecia bastante concentrado em empurrar o ombro de Nina com delicadeza para chamar a atenção dela, o que acabava fazendo a garota sorrir. Definitivamente tinha algo ali e se ainda não tinha… acabaria tendo, porque era de David que estávamos falando. Assim que terminaram de nos dividir, nos mandaram para nossas respectivas cores, logo à frente das bandeiras. Nina se despediu e saiu conversando com David, enquanto eu, Hyeon e Melina nos direcionamos para a bandeira azul. — Melina — uma garota falou, com a voz um pouco arrastada. Ela tinha um cabelo ondulado e castanho iluminado pelas mechas caramelo, um rosto fino e os olhos escuros bem desenhados eram puxadinhos nos cantos. Se eu fosse chutar, diria que tinha alguma descendência asiática. Me lembrava vagamente dela da quarta-feira em que aquela briga tinha rolado. — Oi, Jéssica — Melina respondeu, de forma que se tornou impossível não perceber o claro desconforto. — Parece que caímos na mesma cor, querida. — Jéssica sorriu, mas foi absurdamente perceptível como tinha um tom de voz falso. — Espero que aqui pelo menos você não fique faltando as atividades. — Ela sorriu ainda mais e saiu, como uma cobra que tinha acabado de despejar o veneno. Melina suspirou, não olhando na direção da garota, apenas observando a bandeira e parecendo tentar encontrar algum tipo de tranquilidade. Começaram a anunciar as equipes e fiquei surpreso por Melina, Hyeon e eu ficarmos na mesma. Porém, não gostei nada quando notei quem era a quarta pessoa. — Olha só, acho que vamos passar muito tempo juntas essa semana — Jessica, nossa quarta integrante disse assim que chegou perto, quase ao lado de Melina e a encarou. Eu entrei no meio das duas de forma instintiva e encarei a Mattos, que parecia não entender o que eu estava fazendo. Nem eu entendia, se fosse sincero. Hyeon me deu um sorriso de aprovação, talvez percebendo, assim como eu, que Melina estava desconfortável com Jéssica. Depois das equipes, vinham as duplas e eu me peguei pensando que seria estranho para Mattos ficar junto a outra garota, porém meus pensamentos foram cortados assim que escutei: — Equipe quatro da cor azul, Bueno e Hyeon são uma dupla, Mattos e Ross outra. Mais uma vez confundiram o nome do rapaz com o sobrenome, além de errar a pronúncia completamente, o que me deixou incomodado e fez Hyeon revirar os olhos, provavelmente acostumado. Porém, eu acabei focando na última parte e olhei para Melina, que me encarava com os olhos brilhando de uma forma que não sabia definir. Talvez fosse um olhar do tipo: eu quero te matar e finalmente tenho a oportunidade. CAPÍTULO 16 Segunda-feira, 13 de setembro de 2021 Muitos momentos da vida são completamente propícios a fazer você acreditar em karma e ultimamente eu estava vivenciando uma série interminável deles. Ou pelo menos essa foi a primeira coisa que se passou pela minha cabeça quando eu caí na mesma equipe da Jéssica e logo em seguida como dupla do Santiago. Nenhum de nós estava esperando por aquilo e ficou bastante evidente quando passamos quase cinco minutos um olhando para a cara do outro. Não demorou quase nada para os monitores avisarem que a primeira atividade logo se iniciaria, mas não antes de cada campista ser direcionado para seu respectivo alojamento, então, enquanto eles buscavam as listas e nós aproveitávamos para nos misturamos, o tempo pareceu passar de forma absurdamente rápida. Eu estava junto a Nina, David, Santiago e Hyeon, aguardando pacientemente que nossos nomes fossem chamados. Graças aos céus, Jéssica tinha se afastado, porque naquele momento lidar com o estúpido do Santiago era uma opção muito mais agradável. Após poucos minutos parados, ele e Hyeon foram chamados, caminhando em direção ao local que foi indicado, restando apenas nós três. — Melina — David chamou, me fazendo olhar para ele. — Sei que meu primo é uma pessoa um pouco difícil, mas tente ter paciência com ele enquanto vocês estiverem como dupla, adoraria que voltássemos inteiros para casa. Forcei uma risada e balancei a cabeça em negação, antes de respondê-lo: — Relaxa, David, não vou tentar matar seu primo. — Se ela está dizendo, não vai mesmo! — Nina me apoiou, arrancando um sorriso enorme de David. O olhar que deu para ela em seguida foi o suficiente para que minha melhor amiga desviasse sua atenção, como se estivesse constrangida e eu me perguntei se alguma coisa poderia estar acontecendo, porque, honestamente, se estivesse eles eram muito lindos juntos. — Fico bastante aliviado. — Antes que ele pudesse continuar dizendo qualquer coisa, seu nome foi chamado. — David Santiago Ross — um dos monitores gritou, me fazendo franzir o cenho assim que escutei por inteiro. — Seu outro nome é igual ao do seu primo? — perguntei ao rapaz. — O quê? — Ele parou, antes que fosse até o lugar onde foi chamado, me olhando com atenção para responder. — Ah… Não, é que nossas mães e nossos pais são irmãos, então nossos sobrenomes são idênticos. — Aí deram nomes iguais para vocês? — questionei, sem entender ao certo que tipo de ideia tinha sido aquela. — Santiago Ross é nosso sobrenome. — Então seu primo é Santiago Santiago Ross? Mais estranho a cada segundo, como alguém dava para o filho um nome igual ao sobrenome? — Não. — David riu. — O nome dele não é Santiago, ele prefere ser chamado só pelo sobrenome, então respeitamos, ninguém usa o primeiro nome desde que éramos crianças. — Qual é o nome dele então? — eu indaguei antes mesmo de conseguir pensar sobre, apenas deixando que a curiosidade me dominasse, porque eu não acreditava que estava há meses chamando uma pessoa pelo sobrenome sem saber o real nome dela. — Desculpa, mas não tenho autorização para contar, a maioria das pessoas nem sabe e ele prefere que se mantenha assim. — O garoto deu de ombros. — Pergunta para ele, duvido que te diga, mas tem mais chances do que comigo. Aprecio demais ter meu rosto bonito inteiro para arriscar. — David Santiago Ross — chamaram novamente e David acenou para nós duas, indo sem que eu pudesse fazer mais perguntas, ou criticar o ego dele. — Que cara é essa? — Nina questionou e assim que olhei em sua direção, pude dar de cara com uma expressão de completa confusão. — Você ficou com aquele olhar de quem está em crise por dentro, ou pensando muito. — Segunda opção — respondi, fazendo um número dois com os dedos e em seguida balançando a cabeça. — Por que o Santiago não conta o nome dele? Isso não é estranho? Quero dizer, passei meses achando que o nome dele era um, quando fui enganada e até o David poderia ser Santiago. — Ah, Mel, todo mundo tem passado, às vezes ele não gosta do nome por algum motivo, pode ser, sei lá, super feio. Não fica torrando a cabeça com isso. Nem os monitores o chamaram pelo primeiro nome. — Minha melhor amiga deu um sorriso compassivo, mas cerrou rapidamente os olhos, ficando séria, como se fosse me dar uma bronca, antes de completar: — E não faça perguntas invasivas para o garoto. — Não vou falar nada — resmunguei, cruzando os braços. Eu sentia vontade de chegar diretamente e perguntar para o Santiago, mas sabia que seria estranho, ele provavelmente me daria alguma patada, eu sentiria ódio e voltaríamos para o ciclo sem fim de nos odiarmos. Basicamente, minha curiosidade não valia a pena. — Nina Rodrigues. — Assim que escutei chamaremo nome dela, torci para que chamassem o meu também e acabássemos no mesmo alojamento. E por algum acaso do destino, o universo decidiu que não me odiaria tanto, então enquanto minha melhor amiga caminhava na direção do monitor, ele falou as palavras que eu tanto queria escutar: — Melina Gomes Mattos. ✽ ✽ ✽ Durante a última hora eu tinha repassado mentalmente regras básicas de sobrevivência em acampamentos: 1 - Tenha bons equipamentos para garantir sua segurança durante as atividades; 2 - Se assegure de ter uma barraca, ou local apropriado para dormir; 3 - Planeje suas refeições; 4 - Não faça dupla com alguém que claramente te odeia e pode usar o acampamento como uma forma de te assassinar e esconder seu corpo com facilidade no meio do mato. Ps: a regra número quatro é a mais importante. Nossa primeira atividade consistia em uma trilha em dupla, o que significava que eu estava andando há cerca de quarenta minutos em completo silêncio ao lado do Santiago e se eu dissesse que não me assustei quando escutei a voz dele pela primeira vez durante aquele trajeto, estaria mentindo. — Precisamos ir para a direita ou para a esquerda? — o rapaz perguntou, enquanto tomava um pouco de água, que tinha tirado da mochila. Eu observei o movimento com mais atenção do que gostaria de admitir e engoli em seco antes de olhar para frente, notando que estávamos em uma bifurcação. Observei o mapa, um pouco perdida sobre onde exatamente nos encontrávamos, mas eu não contaria aquele simples detalhe para o senhor irritadinho ao meu lado. — Esquerda — respondi após uma conferência não muito confiável do caminho e ele concordou, talvez acreditando mais em minha resposta do que eu mesma. Andamos pelo que pareceu uma eternidade, antes de Santiago parar, me encarando com aqueles olhos exageradamente azuis com mais raiva do que de costume. — Tem certeza de que esse é o caminho? — ele perguntou, o brilho da luz vinda diretamente do pôr do sol iluminava o rosto dele de uma forma quase angelical e, minha nossa senhora, se eu não soubesse de sua personalidade horrível e diabólica, poderia jurar que Santiago tinha descido diretamente dos céus naquele minuto. — Claro que tenho — afirmei, não conseguindo parar de encará-lo, quase como se estivesse algum tipo de feitiço que atraia meu olhar diretamente para aquele rostinho. Eu não tinha certeza de nada, principalmente porque me encontrava um pouco distraída. — Considerando que está olhando mais para mim do que para o mapa nesse momento, estou tendo minhas dúvidas. — O garoto cruzou os braços e eu tive que me esforçar para desviar minha atenção. — Impressão sua — murmurei, começando a olhar o mapa e tentando entender onde estávamos. — Melina, não me diga que estamos perdidos. — Se não quer que eu diga, não vou dizer. — Precisei forçar um sorriso, porque eu sabia que ele deveria estar querendo me matar, mas eu não tinha exatamente culpa do meu senso de direção ser horrível. — Puta merda, Mattos! — ele exclamou, jogando as mãos para o alto e virando de costas para mim, provavelmente tão irritado que nem conseguia me encarar. — Me dá esse mapa, deixa eu tentar descobrir onde estamos. Eu poderia me recusar e dizer que daria um jeito, mas precisava ser honesta e não existia a menor possibilidade de encontrar o caminho, porque eu não estava nem entendendo o lado que olhava aquele negócio. Deveria ter aceitado que eu não servia para aquilo e lhe dado o mapa desde o início, só que era meio difícil encarar a derrota quando sua dupla se tratava de alguém que seu santo não batia. Mesmo indo contra meu instinto de discordar, eu estendi o mapa, que ele pegou de uma forma não bruta, o que já foi bastante surpreendente. Santiago começou a olhar o mapa e as árvores, dando algumas voltinhas próximo de onde estávamos, enquanto eu apenas observava, esperando pacientemente por alguma conclusão. O rapaz parecia um pouco irritado, como se a ideia de que aquela folha não fizesse sentido fosse absurda. — Resumindo… — ele murmurou, se aproximando de mim depois de bufar algumas vezes. — Estamos perdidos. Realmente perdidos. — Será que ficamos muito longe das cabanas? — perguntei, ficando mais perto dele e tentando me esticar para enxergar a folha por cima do seu ombro. — Estamos andando há mais de uma hora e ficamos praticamente o tempo todo seguindo reto — o rapaz afirmou, me mostrando no mapa onde era os alojamentos e traçando uma linha imaginária até o centro da floresta. — Provavelmente estamos em algum lugar por aqui. — E se tentarmos seguir reto ao contrário? Apenas voltando para onde começamos — eu sugeri, porque, honestamente, já não tinha mais nenhuma ideia. — Podemos acabar ainda mais perdidos — ele sussurrou, soltando o ar e me encarando, parecendo só então notar minha proximidade e dando um passo para o lado, como se ficar perto de mim pudesse ser considerado um crime. — Está quase anoitecendo, acho que nossa melhor chance é encontrar algum lugar que dê para fazer uma fogueira e esperar que eles nos encontrem. Vão sentir nossa falta. — Como tem tanta certeza disso? — questionei, olhando em volta e imaginando como seria passar a noite ali e essa possibilidade me dava arrepios na espinha. — Simples — o rapaz disse, apontando para mim. — Filha do diretor e filho do dono do colégio. Arregalei um pouco os olhos com aquela informação, porque depois de ver aquele carro gigante, eu imaginava que Santiago tinha dinheiro, mas não que o pai dele fosse dono do colégio mais caro e elitizado de Vila dos Anjos. Tinha muita gente que acabava mandando os filhos para lá, mesmo sendo de fora da cidade, porque o ensino era extremamente superior. — Não sabia que seu pai era o dono — admiti e Santiago deu de ombros, quase como se não tivesse importância. — Se parar para pensar, no fundo, não sabemos muito um do outro. — Ele estava certo. — Vamos, precisamos achar algum lugar. E assim eu apenas comecei a seguir Santiago, tentando enxergar qualquer coisa à nossa frente, mesmo com a luz do sol desaparecendo aos poucos, considerando que o céu já estava naquele tom alaranjado que indica como em breve só restará o escuro. Talvez por conta da minha distração, eu não notei a raiz de uma das árvores até que tivesse acertado meu pé lá. — Ah, porra — resmunguei assim que minha bunda colidiu com o chão e o rapaz virou na minha direção, se abaixando de uma forma meio instintiva, que me fez cogitar que talvez ele tivesse encontrado sua oportunidade para me matar. — Tropeçou? — Santiago perguntou e eu assenti, sentindo meu tornozelo latejar e querendo sumir por conta disso. — Sim, eu não vi essa merda de árvore — exclamei, apontando para a raiz que eu colidi com meu pé. — Olha essa boca suja, raio de sol — o rapaz murmurou, pegando meu pé para dar uma olhada. — Já inchou. Estiquei um pouco para olhar, comprovando o que o rapaz tinha dito. Tinha sido justamente a minha perna lesionada, o que sempre significava que seria dez vezes pior do que se fosse a outra. — Consegue levantar? — ele perguntou, me avaliando. — Acho que sim — concordei com a cabeça, apoiando uma mão no chão e me erguendo primeiro com a perna boa, mas bastou a outra tocar a grama que soltei um grito de dor, quase caindo, isso, claro, se Santiago não tivesse sido rápido o bastante para me firmar. Ele era bastante ágil. Santiago me colocou em pé devidamente, me segurando enquanto eu não apoiava a perna direita no chão. — Estou começando a achar que você não vai conseguir andar — o rapaz murmurou e eu gostaria de poder discordar, mas a minha dor não permitia. — Bom, você pode realizar o seu sonho de me ver desaparecer e me largar aqui para morrer — sugeri e de forma automática os lábios de Santiago se curvaram rapidamente, mesmo que tivesse sido um instante curto o bastante para eu pensar que tinha apenas imaginado. — Você é meio dramática, talvez em vez do vôlei devesse tentar teatro — ele sugeriu, tirando a mochila e colocando para frente, em seguida virando de costas para mim. — Anda, sobe. Não temos muito tempo. —Não, mas… — eu queria argumentar e dizer que aguentaria, que ele não iria conseguir andar comigo nas costas, que não queria ser um incômodo, mas antes que conseguisse, Santiago apenas bufou, dando um passo para trás e firmando as minhas coxas em suas mãos, de modo que fui obrigada a abraçar seus ombros para não cair e ele me ergueu com uma facilidade que eu nem imaginava ser possível. Me ajeitei um pouco, talvez aceitando que suas costas seriam meu meio de transporte. Não abri a boca enquanto ele andava, observando com bastante atenção a floresta e não parecendo hesitar nem por um segundo, além de nem demonstrar que eu estava pesando, como se ele apenas carregasse uma bolsinha e não uma pessoa. — Vamos parar aqui, está seco o suficiente — ele falou, se abaixando um pouco para eu descer e me ajudando a sentar, enquanto começava a pegar alguns galhos. — Você sabe acender fogo? — perguntei, um pouco curiosa, mas ficando parada, porque com o estado do meu pé eu iria mais atrapalhar do que ajudar. — Sim, fui escoteiro. — Sério? — questionei, imaginando um pequeno Santiago com aquelas roupinhas fofas andando pela floresta. — Não — ele disse, destruindo toda a minha imaginação, antes de mexer na mochila que tinha soltado no chão e me mostrar um isqueiro. O rapaz terminou de empilhar devidamente os gravetos, de forma que realmente parecia uma fogueira e acendeu rapidamente com o pequeno objeto. Abracei meu corpo, sentindo o frio da noite me atingindo, mesmo com o fogo aceso, e Santiago se aproximou, colocando um moletom nos meus ombros. Seus braços ficaram descobertos, revelando as tatuagens, normalmente cobertas por conta dos dias frios que faziam. Eram várias, me eu não me permiti prestar muita atenção, o fitando diretamente nos olhos. — Você vai ficar com frio — eu disse, pronta para devolver, mas ele apenas revirou os olhos, me encarando com certo deboche enquanto se sentava ao meu lado. — Relaxa, Lia. Lia, que diabos era aquilo? — Lia? — Considere que estou te dando um apelido por conta da experiência — ele explicou, dando de ombros. — Às vezes você não é insuportável — admiti em voz alta e aquilo pegou nós dois de surpresa, o que eu comprovei quando os olhos de Santiago me encararam de perto. — Posso dizer o mesmo — ele afirmou. — Mas é realmente só às vezes. Nós dois demos uma risada fraca, como se naquele instante tivesse alguma coisa realmente tranquila no ar, talvez os instintos de sobrevivência falassem mais alto e aquela fosse a situação que nós dois precisávamos para agir como pessoas normais perto um do outro. — Sinceramente, se fosse para morrer assim, eu não queria que fosse com alguém que eu vivo brigando e claramente não vai com a minha cara. — Relaxa, você vai sobreviver para não ter que passar por isso — Santiago garantiu, dando dois tapinhas na minha coxa, que estava mais perto das mãos dele do que eu me lembrava. Queria dizer que não me sentia estranha com a sua presença, mas seria mentira. Eu não gostava dele e isso era um fato, mas tinha alguma coisa naquele rapaz que me atraía de um jeito que nem conseguia explicar. Conversamos mais um pouco, falando sobre a natureza e às vezes deixando que o silêncio predominasse, até que o frio ficou mais intenso e o sono começou a me atingir. Santiago estendeu no chão um saco de dormir que tinha levado na mochila e eu imaginei que ele dormiria ali, enquanto eu ficaria no frio, mas jamais cogitei as palavras que saíram da boca dele. — Vem, precisa dormir comigo — ele afirmou, apontando para a cama improvisada. — Você comeu bosta? — perguntei, antes mesmo de conseguir controlar minha língua e foi o bastante para ele soltar um suspiro. — Está frio para cacete e logo vai ficar ainda mais, a não ser que queira morrer congelada, eu sugiro que a gente parta para a nossa única opção: um deixar o outro quente. Nem que eu quisesse poderia vencer aquela discussão, até porque eu não estava com muita moral, considerando que só nos perdemos por minha culpa e mesmo assim ele nem tinha jogado isso na minha cara. Talvez fosse a magia da floresta, ou algum milagre. Por isso, eu apenas assenti e Santiago me ajudou a caminhar até o saco de dormir, se deitando ao meu lado. Era um espaço pequeno e precisamos ficar de conchinha, mas pelo menos estava quente o bastante para que eu não me preocupasse tanto com uma hipotermia. Só esperava que nos encontrassem logo. CAPÍTULO 17 Terça-feira, 14 de setembro de 2021 Assim que acordei senti meu braço esquerdo amortecido, mas quando fui me mexer, tentando aliviar aquela sensação, um peso desconhecido me deixou confuso. Abri meus olhos com dificuldade, associando a claridade e só então me tocando que eu estava no meio da floresta e o peso em cima da área já dormente se tratava de nada mais, nada menos que Melina. Para que tivesse mais espaço e permanecesse mais quente, eu a deixei ficar na parte interna no saco de dormir, o que significava que eu estava com metade do meu corpo quase encostando na grama e a garota dormia confortavelmente em cima do meu braço, agarrada a mim como um bichinho e seria mentira se eu dissesse que não hesitei em me mexer, pensando que provavelmente o movimento a acordaria. Porém, barulhos de passos se tornaram o único incentivo necessário para que eu removesse meu braço de uma forma meio bruta, escutando um palavrão saindo da boca de Melina assim que sua cabeça colidiu com o chão, a forçando a abrir os olhos. Não tive tempo de focar a minha atenção nela o suficiente, porque a treinadora e um dos caras vestindo o uniforme do acampamento entraram no meu campo de visão, parecendo respirar mais aliviados assim que seus olhares colidiram conosco. — Graças aos céus, vocês estão bem! — a mulher exclamou, andando até uma Melina ainda sonolenta, que estava deitada ao lado de onde me sentei. — Por que não voltaram? — Nos perdemos — respondi rapidamente e a treinadora arregalou os olhos, antes de apertar o rosto da garota, talvez conferindo de uma forma meio exagerada se estava inteira. — Ela acabou de acordar — resmunguei, como um pedido indireto para ser mais delicada. — Treinadora… — Melina murmurou, logo arregalando os olhos, parecendo associar tudo aquilo, enquanto o coitado que trabalhava no acampamento permanecia parado, talvez confuso demais para fazer alguma coisa. Me levantei, esperando que a garota saísse de cima do saco de dormir para eu poder guardá-lo. A mulher se afastou um pouco, talvez notando minha impaciência e Melina apoiou a mão no chão, tentando se levantar, mas assim que seu pé colidiu com o chão uma careta de dor tomou conta de seu rosto e instintivamente eu fui em sua direção, a segurando para que não caísse. Os olhos completamente confusos dela se encontraram com os meus e por um segundo me perguntei que merda eu estava fazendo, antes, obviamente, da treinadora se oferecer para ajudar, dobrando nossa cama improvisada enquanto eu segurava Melina, que tinha o tornozelo ainda mais inchado do que eu me lembrava. Guardamos tudo na minha mochila e eu a entreguei para o cara do acampamento, que segurou, mesmo parecendo um pouco confuso, enquanto a treinadora que eu não sabia o nome colocava a de Melina nas costas. — Acho que ela consegue andar — a mulher disse e eu a encarei com certo tédio, parando de costas para Melina e me abaixando o suficiente para que a garota subisse nas minhas costas, o que ela fez sem muita dificuldade ou teimosia, diferente do dia anterior, facilitando meu serviço de firmá-la pelas coxas cobertas por uma legging escura. — Ou você pode carregá-la, o que acharem melhor — ela afirmou, depois de notar que eu não deixaria a garota andando com o tornozelo naquele estado. A caminhada foi longa, principalmente porque constantemente Melina dizia que poderia andar e eu a mandava calar a boca, notando que nossa dinâmica, embora um pouco diferente, ainda se mantinha. Quando, depois de mais ou menos duas horas, nós finalmente chegamos ao acampamento, consegui ver Hyeon, David e Nina se levantando do banco em que estavam sentadose correndo em nossa direção, parecendo verdadeiramente aliviados. Melina desceu das minhas costas e nós a colocamos sentada, enquanto a treinadora, que eu descobri ser Paula e o tal Pedro do acampamento, avisaram que deixariam nossas mochilas nos alojamentos e chamariam a enfermeira para a garota com o tornozelo ferido. Me abaixei para ver seu pé, girando um pouquinho e notando que Melina segurou o resmungo de dor quando toquei. — Quanto está doendo? — perguntei e ela soltou um suspiro, parecendo pensar por um momento. — O suficiente para eu deixar você me carregar e agora tocar em mim. Assenti, porque aquela resposta fazia bastante sentido e Melina realmente deveria estar com muita dor. — O que aconteceu com vocês? — David perguntou, se sentando ao lado da garota. — Melina estava olhando o mapa — respondi, como se aquilo fosse uma ótima justificativa e meu primo pareceu confuso, isso, claro, até Nina soltar uma gargalhada. — Agora faz total sentido terem se perdido. — Ei! — Melina exclamou, ofendida e se esticando para tentar acertar a melhor amiga, falhando nisso e de brinde esbarrando o pé no meio do meu rosto por conta do movimento desajeitado. — Ai, desculpa! — Para quieta — pedi, ficando com a expressão séria e a garota assentiu. — Como passaram a noite? — Hyeon questionou e eu o fitei rapidamente, notando que quando eu ficava abaixado sua altura parecia absurda. — Digo, estava muito frio. — Santiago me esquentou — Melina respondeu rapidamente e isso fez com que os três a encarassem com os olhos arregalados e eu os acompanhasse. — Ele fez uma fogueira! — ela exclamou, tentando corrigir a estranha forma como tinha falado e o alívio preencheu a expressão de todos. — Por um segundo eu juro que cogitei que vocês tivessem transado no meio da floresta — David admitiu e eu o fitei com desgosto. — Eu acho que até faria sentido — Nina disse, me obrigando a mais uma vez arregalar os olhos, mas dessa vez para ela. — Qual é, o clima de estarem perdidos, a chance de não serem encontrados, a adrenalina pelo lugar diferente… — A garota parou quando notou nossas expressões. — Ok, camas são melhores, parem de me olhar assim. Eu normalmente escutava muita bosta vindo do meu primo, então ficar surpreso com aquilo era mais por ser uma pessoa nova dizendo do que realmente pelo assunto que estava sendo discutido. Aqueles dois eram a dupla perfeita. — Melina! — uma voz aguda exclamou e quando me obriguei a descobrir de quem era, notei a garota que complementava nosso grupo do acampamento. — Fiquei tão preocupada com você, a treinadora comentou que machucou o tornozelo, logo agora que sua lesão tinha parado de ser uma desculpa para você fugir das suas obrigações — a garota disse, fazendo um biquinho tão falso que eu só soube esboçar desgosto. — É uma pena, querida, mas pode deixar que vou continuar cuidando de tudo, como faço há mais de um ano, já que você está impossibilitada. Eu vi a boca de Melina se abrir, como se fosse dar uma resposta e considerando a expressão em seu rosto, provavelmente seria bem torta, porém, fui mais rápido. — Acho que já te vi antes — comentei, ganhando a atenção de Jéssica, que até mesmo sorriu. Cínica do caralho. — Ah, claro, a boca grande que foi falar quem tinha brigado. — Revoltado porque te dedurei, docinho? — ela perguntou, me obrigando a soltar uma risada bastante falsa. — Acredita mesmo que causa tanto impacto assim? — questionei, erguendo uma sobrancelha. — Pelo que eu soube, você é apenas a substituta, então vá lá e continue fazendo seu único trabalho, aquecendo bem o lugar da Melina para ela poder se recuperar. Forcei um sorriso assim que terminei de falar e consegui visualizar o semblante dela se transformando em puro horror, como se o que eu tivesse dito fosse uma maldição e não apenas a verdade. Me dei ao trabalho de no dia anterior perguntar ao meu primo quem era a tal Jéssica e ele rapidamente descobriu que ela estava cobrindo a Melina como capitã, depois de alguma lesão que a garota tinha tido e ninguém sabia explicar direito. Jéssica se afastou, parecendo envergonhada demais para continuar ali e assim que eu virei para frente, voltando a examinar o tornozelo e o massageando em uma tentativa de aliviar o provável incômodo da Mattos, completa surpresa dominava sua feição. — O que foi? — indaguei, sabendo que me fitava, mesmo que eu não fosse desviar a atenção do que fazia. — Você acabou de me defender? Isso fez com que eu a olhasse, ignorando os três que prestavam extrema atenção em nossa rápida conversa. — A única pessoa aqui que pode reclamar sobre você, sou eu. A garota piscou seguidas vezes, parecendo processar o que eu tinha dito, mas quando notei que estava prestes a falar alguma coisa, a enfermeira finalmente chegou, me pedindo licença para poder olhar o pé machucado da Melina e eu permiti, deixando o lugar com Hyeon logo atrás de mim, perguntando o que tinha acontecido tantas vezes, que me obriguei a resumir os acontecimentos das últimas horas, fazendo ele dizer como estava orgulhoso de mim por ter controlado minha estupidez, o que foi suficiente para que o mandasse a merda e saísse andando sozinho. CAPÍTULO 18 Quarta-feira, 15 de setembro de 2021 Se eu tivesse que definir o dia anterior com alguma palavra seria: estranho. Depois de Santiago me carregar pela floresta, cuidar do meu tornozelo e de brinde, ser estúpido com a Jéssica — mesmo que ela merecesse — apenas para me defender, o dia ainda não tinha chegado ao fim. Durante a tarde aconteceu um jogo de queimada e eu teimei com certa convicção que conseguiria jogar, o que acabou fazendo o rapaz argumentar comigo que era melhor eu ficar sentada. Eu sabia que era, mas quando ele tentou me dizer o que fazer meus neurônios confusos deixaram de funcionar e nós iniciamos uma disputa verbal que acabou comigo o acertando na queimada, o que foi um pouco — muito — idiota, considerando que éramos do mesmo time. Terminamos os dois sentados no banco por cerca de quarenta minutos por punição pela briga, observando o restante das pessoas jogando sem nem abrir a boca. — Estão mandando todo mundo se reunir na fogueira — Jéssica avisou ao abrir a porta, me obrigando a me levantar. Já tínhamos tomado café e estávamos vestidas, mas a preguiça tinha me dominado e eu preferi deitar na cama novamente até a próxima atividade. Graças a uma pomada milagrosa da enfermeira meu pé já estava ótimo e a dor era praticamente inexistente, o que significava que eu poderia pelo menos fazer alguma coisa. — Vamos, Lina? — Nina perguntou, ganhando minha atenção enquanto eu amarrava o tênis e concordava, ficando em pé. Andamos em passos largos até o lugar onde a maioria dos campistas já estava, mas eu demorei um pouco para enxergar Hyeon e Santiago, puxando Nina para o lado deles até que tivesse que ir com seu time. — Bom dia, meninos — cumprimentei, porque não tínhamos nos visto no café da manhã. — Bom dia! — Hyeon respondeu, abrindo um sorriso enorme e apontando para o meu pé. — O tornozelo melhorou bem? — Sim, já está quase cem por cento. Hyeon sorriu com a informação e nossa atenção foi voltada para um dos monitores, que começou a pedir que olhassem para ele, na intenção de explicar a próxima atividade. Consistia em um caça ao tesouro em dupla, o que significava que mais uma vez estaríamos eu e Santiago no meio da floresta, minha nova conclusão era apenas que o mapa seria todo dele. ✽ ✽ ✽ Depois de muitos avisos do monitor que tinha nos ajudado e da treinadora sobre como deveríamos prestar atenção no mapa, eu e Santiago saímos em direção a floresta, procurando pelas bandeiras que precisávamos para completar a atividade. — Meu único alívio é saber que estou com o mapa — ele falou repentinamente, quebrando todo o silêncio. — Rá, tão engraçadinho, Santiago — resmunguei, notando a presunção dominando aquele rosto. — Acho que a primeira bandeira está logo à frente — o garoto afirmou, dando alguns passos que eu não acompanhei, porque embora meu tornozelo não estivesse doendo como no dia anterior,ainda incomodava. Porém, ele foi na direção de um riacho pouco a frente e por um segundo sumiu do meu campo de visão. — Santiago! — exclamei, desviando de algumas pedras e virando na mesma árvore que vi ele passar, notando o garoto sentado no chão, com a mochila ao lado do seu corpo. — Veio mais rápido para fazer um descanso? — debochei, porém, quando me encarou, o pescoço dele estava extremamente vermelho e o rapaz parecia quase sem ar. Arregalei os olhos, sentindo o desespero me dominando e corri até ele, ignorando a dor no meu pé e me abaixando, o puxando para perto de mim. — O que aconteceu? — perguntei, com todo o nervosismo estampado na minha voz. — Alergia… a abelha — ele murmurou, apontando para o pescoço que eu notei ter um furinho, parecendo uma picada. — Merda, como você vem para o mato se é alérgico? Era uma pergunta idiota, mas foi o bastante para que eu me lembrasse que meu pai era exagerado e eu tinha epinefrina na mochila. A respiração de Santiago começou a ficar mais sufocada e eu tirei a bolsa das costas com desespero, procurando como uma louca pela caneta e sentindo todo o alívio me preenchendo quando a encontrei. — Tira as calças — pedi, vendo o garoto arregalar os olhos e notando que até seu rosto tinha começado a inchar, com manchas vermelhas ficando espalhadas. — Anda logo, porra, eu preciso aplicar a epinefrina. Santiago pareceu finalmente entender, tirando as calças de moletom com urgência e eu o fiz sentar, destravando o gatilho no topo da caneta e retirando a tampa que guardava a agulha para pressionar contra a parte externa da coxa dele e clicando, esperando o tempo necessário para tirar a injeção e notando que ele me encarava com atenção. Após os dez segundos mais longos da minha vida, removi a caneta, a jogando no chão e massageando a região, esperando que aquilo funcionasse — O ideal era você se deitar com as pernas na altura do peito — eu disse e o rapaz apenas deitou normalmente, olhando para cima, com a respiração tranquila, diferente de segundos atrás, como se sentisse a calmaria o atingindo. — Respire um pouco e quando estiver melhor nós voltamos para ser atendido na enfermaria. — Acho que somos uma péssima dupla, cada dia um vai para lá — ele resmungou e foi o bastante para eu saber que estava realmente melhorando. — Pelo menos tentamos — afirmei, dando de ombros e Santiago assentiu. Eu queria dizer que conseguia controlar a minha língua, mas a curiosidade vinha me matando e a oportunidade estava bem ali, enquanto o garoto nem iria se mexer o suficiente para fugir da minha pergunta. — Qual é o seu nome? — questionei, cerrando um pouquinho os olhos e ele ergueu uma sobrancelha, me dando sua atenção. — Que pergunta é essa? Você sabe que é Santiago. — Não, esse é seu sobrenome, qual seu nome de verdade? — expliquei minha dúvida e isso fez ele parecer surpreso. — Como você… David! Aquele maldito. — Não fique bravo com ele, eu descobri porque o chamaram pelo nome inteiro — defendi o garoto, que realmente não tinha muita culpa, além de ter me revelado que aquele não era o nome do meu praticamente inimigo. — Não vou te contar meu nome, Lia. — É Melina — o corrigi e isso fez uma expressão engraçada tomar conta daquele rosto cansado, mas, ainda assim, bonito. — Eu sei, Lia. — Eu salvei sua vida, acho que o mínimo era me dizer seu nome — falei, usando o argumento mais válido que eu tinha naquele momento, porque se não fosse por meu pai ser neurótico, Santiago poderia estar em uma situação muito pior e considerando seu tamanho e meu pé machucado, não acho que eu seria capaz de carregá-lo como fez comigo. — Vai mudar alguma coisa você saber? Já disse que é Santiago. — Eu sou curiosa — admiti e isso fez o garoto revirar os olhos. — Uma pena. — Se eu chutar certo você me fala? — tentei, porque o não eu já tinha de qualquer jeito. — Não. — Por favor — implorei, juntando as mãos e fazendo um beicinho, sendo suficiente para o rapaz soltar um suspiro cansado, levando a mão ao rosto como se isso fosse o bastante para clarear sua mente. — Três tentativas, nada mais que isso. — Felipe? — arrisquei, torcendo para chegar perto. — Não. — Gustavo? — Muito longe. — Fala sério! — resmunguei, porque eu só tinha mais uma chance de descobrir. — Seu nome é brasileiro? — Nada de pistas. — Por favorzinho — pedi, apelando para o beicinho mais uma vez. — Você é insuportável. — Ele revirou os olhos, parecendo irritado o bastante para enterrar minha cara na terra, mas nós dois sabíamos que não tinha forças para isso. — Eu sei, me fala logo. — Não é. — Seu primo chama David — disse o óbvio e ele assentiu, tentando acompanhar minha linha de raciocínio. — Então você é… Joshua? — Você está… — Santiago fez suspense e por um segundo cogitei que talvez tivesse acertado, até ele me jogar um balde de água fria. — Completamente errada. — Mas que porra. — Controle a boca suja, Lia, tem feridos no recinto — o rapaz disse, fechando os olhos como se estivesse fraco e eu tive que mostrar uma careta para ele. — Acho que consigo voltar ao acampamento — Santiago afirmou e eu o ajudei a ficar em pé, batendo sua calça para sair a sujeira, antes de entregá-la para que vestisse novamente. Enquanto ele se ajeitava, acabei prestando mais atenção do que gostaria de admitir em como suas pernas eram musculosas, como se passasse muito tempo fazendo exercícios e torci para que não tivesse notado, além de quase implorar para que a minha cabeça parasse de imaginar como seria o restante de seu corpo. — Por que está vermelha? — a voz dele perguntando me tirou daquele transe e eu arregalei os olhos, só então notando que prendi a respiração. — Calor — resmunguei. — Preciso de água — falei, pegando a garrafa na minha mochila, que já estava no lugar e lhe dando as costas, enquanto ele colocava sua bolsa nos ombros e parava ao meu lado, pronto para voltarmos a andar. Santiago mostrou o mapa e por sorte nós só estávamos há pouca distância do acampamento e mesmo em passos lentos, chegamos lá em quinze minutos, atraindo a curiosidade de todos. Explicamos o que aconteceu e rapidamente levaram o garoto para a enfermaria, ficando um pouco nervosos com a situação, considerando que em dois dias, tínhamos sumido, machucado um tornozelo e quase tido um choque anafilático. Fiquei esperando até que terminassem de examiná-lo, lhe dando alguns remédios antes de fazerem a liberação e como acabou demorando, nós dois fomos até o refeitório, prontos para comer qualquer coisa. — Eu acho que eu mataria por mais um sanduíche desse — admiti, apontando para o pão com queijo que eu dava uma mordida. — Você gosta de me ameaçar a todo instante, não? — Santiago perguntou, mas antes que eu pudesse questionar o que dizia, o garoto me estendeu o sanduíche dele. — Não estava querendo te obrigar a dar o seu — eu afirmei, balançando as mãos em recusa, porque realmente não era aquilo e foi suficiente para o rapaz segurar um riso. — Melina, foi brincadeira — ele disse, colocando o pão na minha bandeja. — Mas você realmente pode ficar, eu nem tenho autorização para comer muito. Minha coreógrafa já quer me matar por faltar ensaios uma semana inteira, se descobrir que tenho comido tanto pão, acho que ela se teletransporta para me esfaquear. Ok, eu precisava admitir que escutar um conjunto tão grande de palavras saindo da boca dele me deixou um pouco chocada, principalmente porque era praticamente um desabafo e qualquer coisa minimamente longa ou pessoal vindo de Santiago era como uma bomba explodindo perto de você: assustador, aterrorizante e provavelmente te atingiria. — Ela é exigente? — perguntei, tentando manter aquela conversa, porque era uma das poucas vezes que nos falamos como pessoas totalmente normais. — Para dizer o mínimo — o rapaz deu de ombros, tomando o suco de cor verde que tinha em seu copo. — Bailarinos não podem entregar nada além da perfeição. — Bom, eu não lembro de ter te visto dançando, mas posso dizer que considerando quão chato e sério você é com tudo, aposto que deve fazer bem sua parte— admiti, antes de saborear o pão que ele me deu. — Você me viu dançando — o garoto murmurou e eu o fitei, cerrando um pouco os olhos. — Quis dizer que não prestei atenção exclusivamente em você, só percebi que era um dos bailarinos no final. O garoto tomou o que faltava do seu suco e se levantou, parecendo pronto para sair, mas não antes de se aproximar um pouco de mim e dizer: — Eu estava de máscara. Duas reações aconteceram naquele momento: meus olhos se arregalaram — com a possibilidade de o solista ser ele, considerando que poderia ser isso, ou só tinha participado das outras danças com máscaras — e Santiago me deu as costas, andando com tanta confiança que fiquei perplexa. Não era possível que justo ele fosse o responsável por me deixar tão encantada, então apenas foquei em terminar de comer, tentando eliminar aquela hipótese da minha cabeça, antes de ir para o alojamento. CAPÍTULO 19 Sexta-feira, 17 de setembro de 2021 “Talvez eu tenha sido destinado A terminar neste lugar, yeah Eu não quero dizer para parecer egoísta, mas eu quero isso” — Prisoner, The Weeknd (feat. Lana Del Rey) Depois de todos os incidentes no acampamento, o último dia lá tinha sido tranquilo, com apenas algumas atividades de interações, onde eu e Melina — por algum milagre — não nos matamos e lidamos um com o outro como pessoas normais. Finalmente eu estava em casa e pude tomar um banho relaxante no meu banheiro, gostando de toda a familiaridade do lugar e tentando não pensar no fato de que David era sem noção e tinha chamado um monte de gente para a minha casa naquela noite, para uma festinha, segundo ele. — Santiago! — a voz de Hyeon invadiu meu quarto e eu abri a porta do banheiro no mesmo instante, observando o rapaz que olhava alguma coisa na mesinha de centro de vidro. Fechei o banheiro, mexendo um pouco nos fios molhados do cabelo e o barulho atraiu a atenção do garoto. — Ah, não sabia que você estava tomando banho — ele disse em coreano, se sentando em um dos sofás brancos que preenchiam o centro da parte de baixo do meu quarto. — Seu quarto parece um loft, sempre fico reparando isso. Olhei em volta, pensando sobre como eu tinha solicitado aquele lugar de uma forma funcional em que eu só precisasse sair dali para me alimentar, considerando que até mesmo meu estúdio e a biblioteca tinham ligação direta com o quarto. — É intencional — admiti, já me direcionando para as escadas metálicas que levavam ao mezanino. — Meu canto dentro de casa, embora ultimamente todo mundo tenha decido que é uma boa ideia ficar entrando aqui. Assim que cheguei no meu closet, escutei os passos do rapaz subindo as escadas e encostei a porta para poder me vestir. — David disse que ficou feliz por você não brigar com a Melina — Hyeon falou alto o bastante para que eu o escutasse mesmo de dentro do local fechado. Vesti minha calça preta e coloquei a camiseta branca por dentro do cós, cobrindo as peças com uma camisa de manga curta que combinava com a parte de baixo. Abri a porta novamente, antes de calçar minhas pantufas e encarar o rapaz. — Estou em trégua, ela me salvou — expliquei, passando creme no cabelo e indo até o espelho para arrumar corretamente meus cachos. — Que ótimo! — o garoto exclamou, se sentando na minha cama. — Ela vem hoje. Isso foi o bastante para eu encará-lo com certa irritação. — David chamou a Melina para a minha casa? — perguntei e Hyeon rapidamente balançou a cabeça em negação. — David chamou a Nina e eu convidei a Melina. Gosto dela, ela é fofa. Melina poderia ser muitas coisas, mas eu jamais usaria fofa para descrevê-la. — Nina comentou que vocês passaram o final de semana conversando depois da apresentação. — Sim, temos muito em comum. — Ele deu de ombros e eu me sentei no espaço que o rapaz não ocupava da cama, encostando no travesseiro e pegando meu celular, deixando que o tédio dominasse minha feição, embora uma parte minha estivesse curiosa sobre aquela relação. — Sua tentativa de me fazer ser simpático tem alguma relação com você morar aqui atualmente e querer ela mais presente? — perguntei, erguendo o olhar do aparelho para observar o rosto dele, tentando decifrar qualquer coisa que ele deixasse escapar, mas Hyeon apenas deu uma risada. — Não estou afim dela se é o que quer perguntar. — Não perguntei isso — eu afirmei e o rapaz sorriu ainda mais. — Mas está quase escrito na sua testa que ficou curioso — ele explicou, me fazendo revirar os olhos e voltar a atenção para o Instagram aberto. — O gostar dela se aplica a um sentido totalmente de amizade. — Só cuidado para não iludir a menina, você faz o tipo de muita gente — murmurei, bloqueando o celular porque até aquela rede social parecia um tédio. — Aposto que ela está ocupada demais pensando em outra pessoa para se iludir — Hyeon disse e quando o encarei mais uma vez, um sorriso cínico brincava em seu rosto. — Talvez os pensamentos sejam formas de te matar, mas ainda assim… — Idiota — resmunguei. — Vocês estão aí? — David perguntou do andar de baixo. — Aqui em cima! — Hyeon exclamou e logo meu primo subiu. Ele usava calças jeans escuras e uma regata branca que fazia sua tatuagem de dragão no antebraço ficar exposta, o que se devia ao clima agradável que fazia naquela semana, mesmo sendo setembro. — A galera começou a chegar, vim chamar vocês para descerem — meu primo explicou e eu bufei, sentindo zero vontade de ter que lidar com um bando de pessoas na minha casa e ser obrigado a socializar. Hyeon prontamente se levantou, perguntando se eu também iria, o que me fez avisar que talvez em breve desceria. Eles sabiam bem que significava que eu ficaria trancado no quarto até todo mundo ir embora, mas fingiram acreditar e saíram de lá, alegando que me esperariam. Peguei o Kindle e comecei a ler, porém, não consegui manter minha concentração depois de cinquenta páginas, porque imaginei aquelas pessoas pulando na minha piscina. Porra, só de pensar a bagunça que ficaria eu já queria matar David. Me levantei da cama um pouco irritado, descendo as escadas com pressa e saindo para o corredor, onde paralisei assim que consegui enxergar Melina. Ela estava com os cabelos soltos, mas algumas mechas se prendiam para trás. O corpo coberto por uma regata preta e um shortinho da mesma cor tão curto que eu quase conseguia visualizar a parte de baixo da sua bunda, além de uma camisa xadrez por cima de tudo. Cacete. Gostaria que outra coisa passasse pela minha cabeça naquele instante, mas nada parecia ocupar meus pensamentos além do fato de que ela realmente estava muito gostosa. Melina abriu a porta em sua frente, entrando na minha biblioteca como se não fosse nada demais e isso obrigou minhas pernas a funcionarem, adentrando o local logo depois dela. — Por que você está aqui? — perguntei e foi suficiente para ela dar um pulo, me encarando com a mão no peito. — Porra, você não sabe chegar sem assustar os outros? — ela questionou, me olhando com raiva. — Você que está invadindo meu canto — argumentei, cruzando os braços na frente do corpo. Melina cerrou um pouco os olhos, me avaliando e soltando um suspiro cansado quando terminou. — Só queria fugir daquela música — a garota explicou, se aproximando da estante que cobria toda a parede esquerda e passando o dedo por alguns livros. — E do Nicolas. Aquele era um dos meus lugares preferidos, porque consistia em dois andares com paredes cheias de estantes, como uma perfeita biblioteca. Eu já nem saberia dizer quantos livros tinha ali, mas com certeza conseguia afirmar que não tinha lido todos. Às vezes meu consumismo era maior que meu tempo para ler. — Você poderia não ter vindo — afirmei, pois, embora fosse a minha casa e eu não tivesse como fugir, a garota tinha opções. — Puta merda, eu achava que você tinha dado uma melhorada depois de tudo — ela reclamou, se afastando da estante e me encarando. — Que porra você está falando? — perguntei, sentindo uma lufada de ar deixar meus lábios e foi o bastante para a garota revirar os olhos. — Não sei porque às vezes aindapenso que você pode ser outra coisa além de um babaca. Uma risada sarcástica deixou minha garganta, simplesmente nada do que ela dizia fazia sentido algum. — E eu não entendo como posso acreditar que você merece a minha atenção — admiti, soltando os braços e pronto para lhe dar as costas, porém, um barulho alto vindo do lado de fora me fez parar. Notei que Melina focou no mesmo que eu e nós dois arregalamos os olhos, saindo da biblioteca e descendo as escadas para o primeiro andar em passos acelerados, cruzando a porta dos fundos que dava diretamente para a piscina. Procurei pelo que poderia ter sido responsável pelo som e assim que notei um dos vasos de planta quebrado perto de David e Nicolas, a situação pareceu fazer muito sentido. A música tinha sido desligada e a maioria ali estava paralisado, ao mesmo tempo que outros saiam da piscina. — Por que caralhos você apareceu na porra da minha casa para ser um merda? — David perguntou, jogando os braços para cima enquanto Nicolas se direcionava para mais perto dele. Não acreditava que teria que intervir em uma briga, mas dei um passo para frente, apenas parando quando Melina segurou meu braço. Meu olhar foi até ela, que parecia implorar para eu não entrar no meio. — Vai ficar tudo bem — garanti, não sabendo ao certo o motivo para uma espécie de preocupação brilhar em seus olhos, talvez ela quisesse proteger o ex-namorado e imaginasse que eu poderia feri-lo. Seus dedos hesitaram antes de deixar meu pulso, mas assim que me soltou eu caminhei até os dois encrenqueiros, empurrando David o suficiente para entrar no meio dos dois. — Quer ficar parecendo uma múmia mais uma vez, cacete? — perguntei para o meu primo, que pareceu surpreso por me ver ali. Eu nunca me metia, geralmente deixava tudo acabar e chegava apenas para limpar a bagunça final, mas eles estavam na minha casa e tinham quebrado um vaso que provavelmente era caro. — Sai daqui, cachinhos dourados — Nicolas disse e quando o encarei, foi impossível não notar como parecia bêbado. — A conversa é entre os adultos. Me dei ao trabalho de me virar na direção dele, mas antes que conseguisse dizer alguma coisa, Melina entrou na minha frente, me fazendo olhar para baixo, fitando o cabelo dela e sentindo um pouco de nervoso, porque eles não pareciam muito conscientes e ela poderia acabar se machucando. — Por que está armando uma confusão, Nicolas? — Melina perguntou, cruzando os braços e ganhando toda a atenção do garoto alcoolizado. — Você está me evitando por culpa daquele merda — ele exclamou, apontando para David, que tentou me empurrar para brigar, mas eu me mantive firme, pensando que se não estivesse mais ali, Melina ainda continuaria entre seu objetivo — Estou te evitando porque você é um merda — a garota afirmou, me deixando realmente surpreso. Eu notei durante o acampamento que eles não estavam conversando e ela mesma disse que vinha fugindo dele, mas não achava que as coisas tinham chegado naquele nível. — Não quero você atrás de mim, porra, me dá espaço. — Melina. — Nicolas esticou a mão, tentando tocar nela, mas eu segurei seu pulso, o impedindo. — Quem você pensa que é? — ele questionou, me fuzilando com o olhar. — Não ouse tentar encostar nela — murmurei, sentindo a irritação me preenchendo. — Ela já disse que quer você longe. — Seu cachorrinho vai ficar falando por você, Mattos? — Nicolas perguntou para a garota, apontando para mim e isso foi o bastante para David sair de onde estava com uma velocidade absurda e tentar dar um soco na cara do garoto, que segurou o braço dele, impedindo o movimento e fazendo com que o cotovelo do meu primo acertasse o rosto de Melina. Vários sons de surpresa foram emitidos pelo restante do povo que observava a cena e eu arregalei os olhos, virando-a para mim e notando que tinha atingido o supercílio, o que causou um leve corte ali. Se eu cogitei que estava um pouco irritado, naquele momento fiquei puto pra caralho. — Todo mundo para fora! — exclamei. — AGORA. Todas as pessoas presentes na festa começaram a sair e Nina se aproximou de mim e da Melina. — Melina, olha o que estão fazendo, você tem que vir comigo — Nicolas pediu, tentando se aproximar dela e isso fez uma raiva fora do comum subir até a minha garganta. — Nina, leva esse cara embora, ou eu juro que sou capaz de quebrar a cara dele — falei e a garota concordou, enquanto eu examinava o rosto da Melina, que parecia um pouco zonza, o que era totalmente justificado considerando a força que foi colocada no golpe que a acertou. — Mas e a Melina? — Nina perguntou e eu a fitei, antes de pegar a garota no colo. — Vou cuidar dela, depois te mando mensagem. Nina concordou, parecendo um pouco confusa pela situação, mas arrastando Nicolas para fora, mesmo com as tentativas de intervenção do garoto. — Santiago — David me chamou e eu fiz muito esforço para engolir a raiva. — A culpa disso é sua, então nem venha com Santiago. Se quer que eu não fique ainda mais puto, pelo menos vai ajudar a Nina e pede para o motorista levar eles, porque aquele imbecil do Nicolas está bêbado — pedi, lhe dando as costas. — Hyeon, chame a Agatha e venha com ela para o meu quarto, vou levar a Melina lá. Hyeon passou para dentro junto comigo e se direcionou para a cozinha, enquanto eu subia as escadas com Melina. — Eu acho que estou bem, posso ir embora — ela falou, com a mão na testa. — É culpa do David, o mínimo que posso fazer é cuidar do seu machucado — eu disse, entrando no quarto e a colocando no sofá. — É do Nicolas também, todo mundo falou para ele não aparecer — Melina murmurou. — Fique quietinha — pedi, porque se continuasse falando sobre aqueles dois, meu nível de irritação apenas aumentaria mais. Melina realmente ficou quieta e logo Agatha chegou no quarto, examinando a garota e começando a limpar o machucado, que não parecia grave, só tinha sido um pequeno corte. A mulher já foi enfermeira, então quando disse que não precisaria de pontos, eu confiei completamente, ficando bastante aliviado. Hyeon permaneceu junto no quarto enquanto Agatha cuidava de Melina e saiu apenas quando o curativo foi concluído, deixando nós dois em completo silêncio, apenas um encarando o outro. CAPÍTULO 20 Sexta-feira, 17 de setembro de 2021 “Às vezes eu odeio cada palavra estúpida que você diz Às vezes eu quero bater na sua cara Não há ninguém como você” — True Love, Lily Allen (feat. Pink) Aquele quarto era gigante e parecia mais um apartamento dentro da casa de Santiago do que realmente só o lugar em que ele dormia. Minha cabeça estava um pouco dolorida pela colisão com o cotovelo de David, mas a atenção parecia tão focada no garoto à minha frente que eu quase poderia ignorar o incômodo. Santiago estava com uma das pernas completamente em cima do sofá e o corpo todo direcionado para mim, me observando enquanto o cotovelo se firmava no encosto. Aqueles olhos azuis pareciam fazer um raio-x em cada pedaço meu e a bolsa de gelo que eu segurava sob o machucado estava começando a me incomodar. — Por que essa careta? Está doendo mais? — ele perguntou e eu fiquei surpresa por escutar sua voz depois dos longos minutos de silêncio que se estenderam desde que a mulher super querida que cuidou de mim e Hyeon deixaram o quarto. — Não — neguei, me ajeitando um pouco para segurar melhor a bolsa de gelo e cruzando minhas pernas. O olhar de Santiago se direcionou para baixo, fitando descaradamente as minhas coxas e eu imaginei que deveria estar alucinando quando percebi que ele engoliu em seco, desviando a atenção para as paredes do quarto. — Já avisei a Nina que não foi nada grave, o Hyeon pegou o número dela com o David — ele avisou e eu observei as palavras saindo lentamente de seus lábios. A boca dele sempre tinha sido vermelha daquela forma? Acho que passei tempo demais pensando sobre aquilo, porque apenas desviei o olhar quando escutei ele perguntando: — No que você está pensando, raio de sol? — Santiago se aproximou, me fazendo inclinar o corpo para trás pela forma repentina que o movimentodele aconteceu, segurando meu pulso e afastando a bolsa de gelo do machucado, observando com atenção a região. — Em nada. Ele sorriu, talvez sabendo que eu estava mentindo e arrumou o curativo que tinha soltado um pouquinho, posicionando minha mão com o gelo novamente em cima do machucado e dando dois tapinhas na minha coxa, como se isso fosse o bastante para sinalizar que ele tinha terminado, porém, meu olhar se prendeu onde seus dedos me tocaram e eu senti uma coisa estranha, como se aquela rápida colisão fosse capaz de fazer minhas vias respiratórias se trancarem. Engoli em seco. — Quer que eu peça para o motorista te levar agora? — Santiago perguntou, me obrigando a tentar focar nele. — Hyeon falou que ele já voltou. — Eu posso pedir um Uber, não se preocupe. — Não existe essa opção, Lia. Ou o Macedo te leva, ou… — ele hesitou. — Ou o quê? — perguntei, depois de perceber existir algo não dito, principalmente quando Santiago encarou minha boca, engolindo em seco assim como eu, antes de voltar a atenção nos meus olhos, que se perderam por um segundo com aquela intensidade azulada. — Ou você passa a noite aqui. Arregalei os olhos, imaginando o que ele estava sugerindo e ficando um pouco chocada quando notei que eu provavelmente aceitaria. Ok, quando tínhamos passado de ódio mútuo para seja lá o que fosse aquilo? — Eu tenho muitos quartos de hóspedes — ele disse, limpando a garganta. — Embora possa te garantir que nenhuma cama daqui é mais confortável do que a minha. — Está sugerindo que eu durma com você? — questionei, erguendo a sobrancelha que não tinha sido ferida. — Não estou sugerindo nada, só estava comentando, você está interpretando da forma que quer. — Não quero dormir com você — afirmei, abrindo um sorriso falso. Porém, foi muito fácil notar a mentira estampada em minha voz, me fazendo ficar um pouco surpresa por saber que queria aquilo. Talvez a possibilidade tivesse começado a surgir aos poucos durante aquela semana e naquele instante a bomba explodisse, como se aquela raiva toda se transformasse, momentaneamente, em uma espécie de tensão, um imã que me atraia diretamente para ele. — Deveria parar de encarar tanto a minha boca então — ele sugeriu, sorrindo de uma forma debochada que fez com que meu olhar se atraísse justamente para onde não deveria. Desviei o rosto, segurando uma risada. — Não tente brincar comigo, Santiago — avisei. — Você não gosta? — Odeio joguinhos — admiti, o fitando novamente. Santiago me olhou de um jeito que até mesmo aquele lugar gigante pareceu minúsculo e o calor dominou minhas bochechas. — Não estou jogando com você — o rapaz murmurou, aproximando seu corpo em direção ao meu. — Só tentando descobrir onde podemos chegar, ou se isso é apenas a minha imaginação. — O que seria isso? — perguntei. — Meus pensamentos estão em conflito, é como se eu não gostasse de você, mas, ao mesmo tempo, meu corpo todo implorasse para te ter. — A forma como aquilo saiu demoradamente de seus lábios me fez prender a respiração. — Faz algum sentido para você, raio de sol? Fazia, porque ele vinha tendo presença em meus pensamentos com uma certa frequência e mesmo custando admitir, não tinha como negar. Primeiro que existia a possibilidade de ele ser o bailarino que me fez ficar tão encantada e a ideia de que Santiago fosse capaz de demonstrar tanta... Paixão, era, minimamente, interessante. Uma parte minha ainda não gostava dele, existia um histórico de implicância muito grande entre nós para que eu apenas apagasse tudo de uma hora para a outra, mas era como se depois do meu término com Nicolas eu estivesse notando coisas que antes pareciam inexistentes, tanto no rapaz em minha frente quanto em David, que também não era uma pessoa tão ruim quanto meu ex- namorado alegava. — Se eu disser que faz, talvez seja o momento para declararmos insanidade — eu falei, recebendo um sorriso de lado como resposta. Porra. Ele já era lindo sempre que estava sério — o que poderia ser visto como praticamente o tempo todo — de uma forma tão angelical que quase se tornava diabólica, mas quando dava aqueles sorrisinhos, principalmente nos instantes em que eram direcionados para mim… Cacete… Santiago simplesmente ficava absurdamente gato. — Não faz isso — pedi, o fitando e foi o bastante para que ele franzisse o cenho, começando a me avaliar. — O que exatamente, Lia? — sua voz estava manhosa, como um gatinho brincando com a presa, enquanto ele inclinava o corpo mais um pouco para frente. — Me olhar desse jeito — eu disse, cerrando os olhos e tentando manter o controle para que minha atenção não fosse desviada para a sua boca. — E dar esses sorrisinhos. — Por quê? — ele indagou, mais uma vez aquele sorriso fazendo presença e meu olhar sendo atraído diretamente para os seus lábios. — Vai perder o controle? Eu adoraria ver isso acontecer. Soltei uma risada abafada, tentando engolir em seco discretamente, tirando o gelo da testa e colocando na mesinha, antes de voltar para o mesmo lugar e notar que ele não tinha nem sequer desviado o olhar de mim. — Não quero perder o controle com você — murmurei e isso fez Santiago quase rir. — Por você me odiar? — ele perguntou, se aproximando ainda mais. Merda, seu rosto estava a centímetros do meu e de perto aquele rapaz conseguia ficar ainda mais atraente. — Exatamente. — Pode acabar sendo ainda mais divertido. — Ou a gente pode terminar se matando — falei, dando um sorrisinho sugestivo, que fez ele apoiar um dos braços ao lado da minha coxa, ficando realmente próximo, de forma que nossas respirações se mesclaram, ambas aceleradas. O olhar de Santiago desceu até a minha boca e ele umedeceu os lábios, antes de voltar a me fitar diretamente. — Estou disposto a arriscar — o rapaz sussurrou, enquanto a mão que continuava livre se direcionava para a minha mandíbula, em uma carícia lenta, antes dele segurar meu queixo com o indicador e o polegar, erguendo meu rosto para ficar na mesma direção do seu e tocar nossos narizes, falando sob a minha boca: — Por favor, se for me bater por isso, seja gentil. Antes que meus pensamentos se alinhassem, seus lábios colidiram com os meus e foi como uma explosão deliciosa. Será que odiar alguém fazia esse tipo de coisa se tornar mais gostoso? Era a única explicação possível para a forma como aquele beijo tinha perfeitamente se encaixado. Os dedos que estavam em meu queixo foram para a minha nuca, segurando meus cabelos de uma forma que me fez quase gemer baixinho, enquanto seu braço que tinha se mantido ao lado da minha coxa se direcionou agilmente para a minha cintura e em seguida até a minha bunda, me puxando para o seu colo e me encaixando perfeitamente. Segurei seu rosto com uma das mãos, deslizando a outra até seus cabelos, ignorando todo o alerta que soava em minha cabeça, pedindo para que a gente parasse. Era impossível querer qualquer outra coisa enquanto a língua dele estava na minha boca, me deixando experimentar seu gosto e adorar a experiência. Eu estava fodida e sabia disso. De todos os cenários possíveis, acho que não cogitei em momento algum com seriedade que acabaria aquele dia sentada em Santiago na porra do quarto dele, o beijando. Suas mãos apertaram minha bunda, antes de começarem a subir por dentro da regata, explorando meu corpo e me causando faíscas em cada lugar que tocava, principalmente quando segurou minha cintura e me aproximou mais ainda, mesmo que eu nem achasse que fosse possível. Santiago afastou nossos lábios, beijando minha bochecha e em seguida descendo pelo meu pescoço, afastando sutilmente a camisa xadrez azul dos meus ombros aos poucos, a tirando completamente e continuando a trilha de beijos. Minha cabeça apenas se inclinou para trás, aproveitando cada segundo. Movi meu quadril, causando uma fricção entre nós e isso fez Santiago se distrair dos beijos que deixava no meu colo. — Cacete… — ele murmurou e eu continuei, vendo sua expressão se modificar um pouco. Aqueles olhos azuis, normalmente tão frios quanto gelo, estavam com um tipo de brilho, quasecomo se estivessem em chamas e eu seria uma grande mentirosa se não admitisse que adorei causar essa mudança nele. — Você é tão gostosa. O rapaz voltou a me beijar e seus dedos foram até a barra da minha regata, puxando o tecido para cima e eu apenas segui seus movimentos, permitindo que ele retirasse, deixando a minha pele realmente exposta, com apenas o sutiã de renda branca cobrindo meus seios. Conforme meu quadril se movimentava, eu conseguia senti-lo ficando bastante animadinho embaixo de mim e porra, toda aquela brincadeirinha me fazia querer pedir para que me fodesse de uma vez. Movi minhas mãos por baixo de sua camiseta branca, sentindo sua pele quente sob meus dedos conforme eu deslizava o indicador por suas tatuagens, ficando um pouco impressionada com como seus músculos eram firmes. Santiago afastou nossos lábios, me fazendo quase sentir falta do contato durante os segundos em que observei ele tirar a camisa preta que cobria sua peça principal, a jogando no chão sem muita cerimônia. Aproveitei a posição em que minhas mãos se encontravam e subi a camiseta branca também, arrancando um sorrisinho dele, enquanto eu removia a peça, recebendo a visão completa daquele corpinho muito bem esculpido. Puta merda. Além de gato, ele era absurdamente gostoso. Passei minhas unhas levemente pelo seu abdômen e isso fez com que o rapaz prendesse a respiração rapidamente, antes de espalmar a mão nas minhas costas e me puxar, tomando minha boca e não tendo nenhum receio antes de colidir nossas línguas. Seu gosto era inebriante e eu sabia que estava viciada assim que longos minutos depois ele parou, me fazendo soltar um resmungo frustrado. Santiago me segurou com agilidade, ficando em pé enquanto minhas pernas rodeavam sua cintura e meus braços seu pescoço. Ele subiu as escadas, me jogando na cama de uma forma tão agitada que eu até me surpreendi, antes de ficar por cima de mim. — Sabe, raio de sol — ele murmurou com a voz rouca, antes de beijar a parte exposta do meu colo. — Eu normalmente mantenho tudo que faço sob o meu controle, mas neste momento estou ignorando qualquer alerta. — Eu também — admiti, soltando um gemido baixinho quando Santiago apertou meus seios e mesmo sob o tecido, era fácil perceber como suas mãos se encaixavam perfeitamente ali. Eu arqueei as costas, dando espaço suficiente para que ele tirasse a peça que impedia o contato direto e o rapaz entendeu, removendo meu sutiã com uma agilidade inexplicável e aproveitando a exposição para levar a boca diretamente em um dos meus mamilos, enquanto sua mão desceu até o cós do meu shorts, abrindo o botão e o zíper, antes de passear por dentro da peça, me tocando por cima da calcinha e me arrancando uma arfada. Porra, ele sabia como me torturar. Seus dedos deslizaram para dentro da peça que separava minha pele de colidir com a dele e assim que chegou perto do meu clitóris foi como se meu corpo todo respondesse aquilo e eu soltei um gemido alto. Santiago me acariciou, provocando uma eletricidade surreal em cada parte minha, antes que movesse seus dedos para dentro, entrando e saindo de mim, ao mesmo tempo em que lambia e mordiscava meus seios. Ele queria me enlouquecer. Eu estava fazendo tanto barulho que já nem sabia como me controlar, embora o receio de que alguém escutasse fosse grande. — Lia… — ele sussurrou, afastando a boca da minha pele e eu tentei me concentrar no que dizia. — Não tente se controlar. — Santiago parecia estar lendo meus pensamentos. — Pode gritar o quanto quiser, meu quarto tem isolamento acústico. Senti meu rosto esquentando, mas não sabia se era por vergonha ou porque ele continuava me fazendo ficar ainda mais excitada. — Quero escutar você gemendo para mim enquanto eu te fodo, porque nós dois sabemos que isso não vai se repetir. Santiago tirou os dedos de dentro de mim, os direcionando, mais uma vez, para o cós do meu shorts, o retirando junto a calcinha. — Não vai — afirmei, com a voz tão fraca e cheia de excitação que eu mal a reconheci. Normalmente a ideia de ficar totalmente exposta era uma coisa assustadora para mim, tanto que a única pessoa com quem eu já tinha chegado nesse nível tinha sido com Nicolas, que eu conhecia há anos e confiava, mas ali, com Santiago simplesmente tudo parecia certo, mesmo não gostando nada dele. Era uma coisa nova e estranha, que me fazia ficar mais curiosa do que eu imaginava para entender o motivo. Senti sua língua deslizando pela minha barriga e um arrepio percorreu meu corpo, conforme ele descia, afastando minhas coxas e beijando ali, antes de subir até o meio das minhas pernas, levando a língua até o meu clitóris, me obrigando a morder o lábio inferior e me segurar aos lençóis conforme todos os espasmos, causados pelas suas investidas, percorriam meu corpo. Minha mão envolveu seus cabelos, como um pedido para que continuasse e Santiago foi com ainda mais vontade, me causando sons tão ofegantes que eu nem imaginava ser possível. Nunca tinha sentido nada assim e era simplesmente delicioso. Santiago continuou até meus gemidos se tornarem ainda mais altos e ele notou que eu já estava perto de me entregar completamente, afastando sua boca e subindo com alguns beijos por todo o meu tórax, antes de alcançar meus lábios novamente, os tomando para si, enquanto apertava levemente meu pescoço, de uma forma que só me fazia querer de implorar para que fosse mais rápido. — Você fica tão, mas tão deliciosa me olhando assim — ele sussurrou sob minha boca. — Consigo até esquecer o quanto não gosto de você. Soltei uma risada fraca e deslizei minhas mãos até sua calça, o encarando como se pedisse permissão para retirar e Santiago me ajudou, se livrando das únicas duas peças que se mantinham em seu corpo. Ele se inclinou mais, pressionando a ereção contra mim e me fazendo sentir quão duro estava. — Está sentindo o que consegue fazer comigo? Cacete, você anda me deixando louco. — Te afeto tanto assim? — brinquei, erguendo meu quadril o bastante para que nós dois colidíssemos e ele mordeu o lábio inferior. — Não faz ideia do quanto. O rapaz se esticou um pouco, abrindo a gaveta da escrivaninha e pegando uma camisinha, se afastando o suficiente para ter espaço para colocar, antes de deitar por cima de mim e se impulsionar para dentro com cautela. — Não precisa ir com calma — murmurei, fitando aqueles olhos azuis. E foi o bastante para Santiago estocar com força dentro de mim, me fazendo gemer tão alto que daria para me escutarem por aquela casa inteira, mesmo eu sabendo que era enorme. Meu corpo se movimentava no mesmo ritmo que o dele e nós permanecemos em perfeita sincronia, tão entregues que era como se fôssemos feitos um para o outro. Cada sensação nova que ele me causava, me fazia questionar minha sanidade, mas eu já não estava muito preocupada naquele momento, enquanto seu nome deixava a minha boca de uma forma tão diferente e ele entrava e saia de dentro de mim com velocidade e precisão, me fodendo com vontade e gemendo também. Aquele som era uma das melhores coisas que eu já tinha escutado. Levei minhas mãos até suas costas rígidas, o puxando para mim, como se tivesse uma forma de ficar ainda mais perto e minhas mãos desceram até sua bunda, a apertando e fazendo ele ofegar, talvez surpreso, antes que eu passasse minhas pernas pelo seu quadril. Eu subi meus braços para o seu pescoço e Santiago segurou minha cintura, me erguendo um pouco para me firmar pela bunda, com os dedos pressionando a região conforme ele se impulsionava mais para dentro de mim. Senti meu corpo se entregando de vez e os meus músculos se contorcendo, avisando que eu estava muito perto de ter um orgasmo. Minhas pálpebras pesaram e eu fechei os olhos, me permitindo aproveitar. Cada segundo com ele era inebriante e eu queria poder guardar aquelas sensações para sempre, principalmente porque sabíamos que aquela era a primeira e última vez. Nenhum de nós poderia se dispor a perder o controle daquela forma novamente. Ainda nos odiávamos e depois de tanto tempo, era difícil se livrar do sentimento.— Porra, Santiago… — exclamei, me desfazendo nele, enquanto o rapaz estocava mais algumas vezes, nos fazendo gemer alto juntos, antes de gozar assim como eu e sair de dentro de mim. Ele me deu um selinho e se jogou ao meu lado na cama, ambos estávamos completamente ofegantes. O que tinha sido aquilo? Talvez a mesma coisa se passasse por sua cabeça. Santiago ergueu o corpo, retirando a camisinha e jogando no lixo, enquanto eu virava de bruços, praticamente pronta para tirar um cochilo, porque aquilo tinha me deixado acabada. — Cacete — ele murmurou, assim que girou o corpo na minha direção, eu virei meu rosto para encará-lo e notei seu olhar focado na minha bunda. — Essa bunda ainda vai ser a minha perdição — Santiago disse e isso me causou uma risada baixa, antes que ele se inclinasse e desse uma mordida na região, me fazendo rir ainda mais alto e tentasse virar para que não conseguisse morder novamente. — Idiota! — exclamei. — Ah, você não me achava um idiota enquanto estava gemendo o meu nome — ele provocou, beijando meu pescoço e se deitando ao meu lado novamente. — Continuei achando o tempo todo, mas relaxa, é quase impossível hoje em dia um cara gato não ser um babaca, se tornou uma espécie de regra. — Então... Eu sou um gato? — Santiago questionou, com uma expressão brincalhona em seu rosto. Eu gostava quando ele ficava daquele jeito, o que andava acontecendo com certa frequência nas vezes em que ficávamos sozinhos. — E um babaca — acrescentei e isso fez ele rir. — Posso lidar com isso — afirmou, virando de lado e mexendo em mim para que ficássemos de conchinha, assim como quando nos perdemos no acampamento. A ideia de odiar alguém, mas ficar confortável o bastante para deitar de conchinha seguia sendo estranha, mas eu só tinha que aceitar que nada nunca era normal com Santiago de qualquer forma. CAPÍTULO 21 Sábado, 18 de setembro de 2021 “Conversa de travesseiro Meu inimigo, meu aliado Prisioneiros Então estamos livres, é excitante” — Pillowtalk, Zayn Me remexi um pouco na cama, estranhando a falta do calor de Melina e deslizando a mão pelo lençol em sua procura, abrindo os olhos quando não consegui encontrá-la, notando que não estava mesmo ali. Será que ela tinha ido embora enquanto eu dormia? Me levantei, vendo seu sutiã jogado no chão e concluindo que então talvez ela não tivesse partido sem aviso. Vesti a cueca boxer que encontrei jogada perto da mesinha e desci as escadas, dando uma olhada e tentando perceber se Melina estava ali, considerando que sua bolsa continuava no canto do sofá, dava para saber que sim. — Fiz muito barulho? — ela perguntou, fazendo meu corpo se virar em direção de onde sua voz tinha vindo e quase caí para trás quando minha visão foi preenchida pela garota usando uma camiseta minha. A vontade que senti foi ignorar meu próprio aviso sobre nada daquilo se repetir e foder com ela ali mesmo. Talvez tudo tivesse sido um erro, porque enquanto estava apenas na minha cabeça, não tinha como eu imaginar nem minimamente o que foi a realidade e isso me livrava do fardo de querer repetir e saber que não aconteceria. — Está tudo bem? — Melina questionou, me avaliando e me trazendo para a realidade. — Sim — resmunguei. — Achei que tivesse ido embora — confessei, desviando o olhar do dela e fingindo estar observando meu próprio quarto. — Estou indo fazer isso agora, na verdade — ela disse, me deixando um pouco surpreso. — Só peguei sua camiseta para ir ao banheiro. — Por quê? — a pergunta deixou meus lábios antes que eu me impedisse. — Eu disse para o meu pai que ia em uma festa, mas não que dormiria fora. — Ah tá — falei, despreocupado já que o motivo era esse. — Relaxa, está tudo resolvido. Foi o bastante para Melina erguer uma sobrancelha, me obrigando a explicar. — Pedi para a Nina dizer que você ia dormir lá. — O quê? — Ela arregalou os olhos. — Ué, eu sabia o que queria, precisava me livrar dos empecilhos. — Dei de ombros, girando meus calcanhares e caminhando até a escada, subindo os degraus e parando no parapeito. — Vem dormir, a Nina falou que você tem consulta amanhã, então precisa descansar. — Mas que porra… — ela começou, mas eu a impedi. — Vamos lá, Mattos, amanhã você volta a me odiar de uma forma mortal, agora foque no quanto você estava tranquila depois que eu te fiz gozar e durma comigo de uma vez. Isso fez Melina me fuzilar com o olhar e seria mentira se eu não admitisse que ela puta da cara me deixava com… Interrompi meu próprio pensamento, balançando a cabeça e me direcionando até a cama, deitando e esperando que a garota subisse as escadas, batendo os pés. Um beicinho irritado fazia presença em seus lábios, me divertindo. Peguei o celular e notei que era uma e vinte da manhã, o que justificava meus olhos pesando e não mexi em mais nada, colocando o aparelho em cima da mesinha novamente. Ela se deitou, virando de costas para mim e empinando aquela bunda na minha direção, me atentando. Filha da puta. Provavelmente Melina sabia que estava conseguindo me afetar e tentava usar isso contra mim, como um plano diabólico para me deixar maluco. — Nem tente vir me abraçar — ela resmungou, se encolhendo na cama de forma que a camiseta subiu, deixando a calcinha aparecendo. Aquela garota queria me matar. Me levantei, abrindo o armário e pegando uma coberta, jogando em cima dela. Melina me encarou com os olhos cerrados, parecendo confusa. — Cobre essas pernas, mulher — pedi, segurando meu edredom e me deitando novamente, cobrindo meu corpo e ficando com a expressão séria. — Eu não estou com frio — Melina afirmou, me fitando com o cenho franzido e eu apenas bufei, me inclinando o bastante para pegar a coberta e colocar por cima do corpo dela. — Fica frio de madrugada, eu não quero que você me passe um resfriado — dei uma justificativa ridícula, que fez a garota me olhar com desprezo. — E depois ainda me perguntam o porquê eu te odeio — ela resmungou, fazendo um beicinho e se virando para o outro lado, não me deixando mais ver seu rosto. Acho que aquela era a nossa dinâmica: sentir ódio, ficar numa boa, implicar um com o outro, querer se pegar, voltar a sentir ódio. Um ciclo sem fim e totalmente vicioso. Me ajeitei no travesseiro, arrumando o tecido que naquele momento fazia peso em meu corpo e fechei os olhos, pronto para voltar a dormir. ✽ ✽ ✽ — Puta merda — um resmungo baixinho de uma voz que eu conhecia bem me despertou, me obrigando a abrir os olhos. Eu estava abraçado a Melina e honestamente não fazia a menor ideia de como paramos naquela posição, considerando que dormimos cada um em seu canto, porém, a voz em questão não era da garota, mas sim de Hyeon. O encarei e o rapaz segurava o sutiã da Mattos entre os dedos, com uma expressão horrorizada dominando seu rosto, me afastei dela com cautela, tirando a coberta que tínhamos passado a dividir e a cobrindo novamente, antes de segurar Hyeon pelo braço e o arrastar até o andar de baixo. — Que porra está fazendo no meu quarto? — perguntei em um sussurro, tirando a peça íntima que estava na mão dele e colocando no sofá. — Eu vim perguntar em que quarto a Melina estava porque queria saber se ela tinha melhorado, mas pelo visto, está ótima — Hyeon murmurou, demonstrando estar animado demais com aquilo. — Finalmente perceberam que se gostam? — Ficou maluco? — questionei, com uma careta dominando meu rosto. — Vocês estavam dormindo abraçadinhos, eu poderia até ter tirado uma foto e seria um lindo registro de início de namoro. — Cala a boca — pedi. — Não existe namoro e nunca vai existir. — Então por que você está quase pelado e com ela na sua cama? — Hyeon citou sua dúvida, apontando para baixo, onde apenas a cueca boxer cobria meu corpo. — Ela acabou dormindo aqui — falei, tentando transparecer apenas indiferença. — Então não aconteceu nada? Tiraram a roupa só por diversão? — A sobrancelha dele se ergueu e quando eu estava prestes a afirmar mais uma vez e deixar totalmente entendido que nada tinha acontecido, mesmo que fosse mentira, uma voz ecoou peloquarto. — Santiago! — era Melina, soando manhosa como quem tinha acabado de acordar. — Depois de ter acabado comigo noite passada, acho que o mínimo é você me dar um café da manhã, me diga que… — Ela parou assim que se debruçou no parapeito, arregalando os olhos ao se deparar com Hyeon, que estava com a boca aberta a encarando. O olhar dele se direcionou para mim, revelando toda a indignação por eu ter mentido. — Vocês transaram! — ele exclamou em coreano. — Só aconteceu dessa vez, nunca mais vai se repetir — respondi na mesma língua. Melina, que descia as escadas em passos acelerados, parou ao nosso lado, olhando para cima para encarar Hyeon. — Por favor, não fale nada para ninguém — ela pediu, segurando o braço dele e fazendo uma expressão pidona acompanhada de um beicinho, enquanto balançava o garoto. Senti vontade de jogá-la no chão por isso. — Ele não vai falar — eu afirmei, mantendo a expressão irritada presente. — Nem é da conta dele. — Não seja grosso — Melina me repreendeu, me obrigando a revirar os olhos, enquanto ela voltava sua atenção para Hyeon. — Hyeon, por favorzinho. — Não vou falar nada — ele disse, estendendo a mão com o mindinho erguido e a garota abriu um sorriso tão grande para o rapaz ao entrelaçar seus dedinhos que parecia até que Hyeon tinha comprado um carro para ela. Isso meio que me fez ficar ainda mais sério. — Quanto ao café da manhã, é só descermos para tomar — eu falei para Melina, me lembrando do que tinha dito. — Você só precisa encontrar suas roupas para descer, estão bem espalhadas — provoquei, enquanto caminhava até o pé da escada. — Mas acho que se for usando só a minha camiseta e essa calcinha, David facilmente vai ficar sabendo também, além de ter a visão privilegiada da sua bunda. Notei a expressão de puro choque em Hyeon e fiquei curioso para saber o motivo dela, até que ele abriu a boca. — Onde você tinha escondido esse lado que usa um humor estranho para ficar sexy? — Hyeon perguntou, me obrigando a ignorar. Ele e Melina ficaram conversando sobre alguma coisa, enquanto o rapaz a ajudava a pegar as peças de roupa, me fazendo, mais uma vez, revirar os olhos enquanto me vestia no closet, escutando ecos de todo aquele falatório que tinha se voltado para alguma série que eles estavam assistindo. Logo, ficamos vestidos e nós três descemos até a cozinha, prontos para tomar café. ✽ ✽ ✽ — Eu já disse que você não precisa me levar — Melina afirmou pela quinta vez durante o caminho do meu quarto até o carro. — E eu já falei que estou indo — eu disse, também pela quinta vez. Ela tinha psicóloga naquela tarde e não ficava tão longe da minha casa, então não me custava nada dar uma carona, principalmente considerando que eu já teria que sair para comprar um computador para Hyeon, visto que prometi isso em algum momento de falta de sanidade. — Relaxa, Melina — David disse, logo ao nosso lado, porque tinha decidido que nos faria companhia durante a compra. — Nós já temos que sair, te deixamos lá bem tranquila e tudo fica bem. Sua testa está melhor? Nem sei como posso pedir seu perdão. Por sorte não tinha sido nada grave e quando eu limpei seu machucado após o café, quase nem era tão perceptível a marca, isso, claro, se não considerássemos que ficou levemente roxo. Ela continuava bonita mesmo com aquele hematoma, então não faria muita diferença de qualquer forma. — Eu sei que foi um acidente — ela falou, dando um sorriso para o meu primo. Melina sorria muito, isso, claro, para qualquer pessoa que não fosse eu. — Mesmo assim me sinto mal — David admitiu, soltando um suspiro. — Já passou, só vamos deixar isso para trás. Meu primo concordou e se sentou no banco de trás do carro com Hyeon, deixando o carona livre para Melina, que foi para lá rapidamente, como se já fosse de costume. Entrei no lado do motorista, notando que ela digitava alguma mensagem de uma forma concentrada e dei partida, começando a dirigir, tentando focar minha atenção na rua e não na garota que estava começando a atrapalhar minha concentração, principalmente com aquele short curto maldito, que nem mesmo a minha camiseta que pegou emprestada foi capaz de cobrir. Assim que estacionei em frente ao consultório, Melina agradeceu pela carona, se despedindo de nós três. — Te devolvo sua blusa qualquer dia — ela disse, com os braços apoiados no vidro aberto do carona, naquele momento ocupado por David, que quis ir para frente. — Pega meu número com a Nina que combinamos para eu conseguir te entregar. Melina acenou, caminhando até a entrada do prédio e sumindo assim que passou pelas portas giratórias. — Olha só, Santiago — meu primo disse, fazendo uma expressão cômica, para não dizer ridícula. — Parece que você está conseguindo ganhar a fera. Quem ver vocês assim nem vai ser capaz de dizer que se odeiam. Apenas ignorei seu comentário, dando partida no carro e indo em direção a um dos lugares que eu menos gostava em um sábado, devido à quantidade de pessoas: o shopping. CAPÍTULO 22 Domingo, 19 de setembro de 2021 Nina tinha ido para a minha casa na noite anterior e ter ela pulando em cima de mim logo cedo me fez lembrar disso. — Bom dia, Mel! — Nina gritou, me obrigando a resmungar, antes de abrir um pouco os olhos, observando meu relógio e notando que eram oito horas. De um domingo! Minha melhor amiga deveria ser presa por atrapalhar o soninho dos outros em pleno final de semana. — O que foi? — perguntei, um pouco sonolenta, enquanto ela tirava a coberta de cima do meu corpo. — Puta merda! — Nina exclamou e eu a fitei, confusa. — O quê? — O que é essa marca na sua bunda? Me curvei o suficiente para tentar enxergar que marca ela poderia estar falando e arregalei os olhos ao perceber o quase hematoma que se fazia presente na lateral da minha bunda. Ah, merda, eu mataria aquele desgraçado. — Devo ter batido em algum lugar — respondi, tentando parecer indiferente. — Você sabe que sou desastrada. — Faz sentido. Sinceramente, achei que fosse uma mordida, a marca está meio estranha — Nina disse e minha expressão se modificou, formando um sorriso tenso em meus lábios. — Ah, eu descobri uma coisa! — O quê? — questionei, me sentando na cama e a fitando, totalmente aliviada por termos desviado daquele assunto. — Lembra do bailarino mascarado? Meio que não tinha como eu esquecer, porque durante dias aquela dança ficou presa na minha cabeça e quando finalmente me distraí, Santiago soltou a bomba sobre existir a possibilidade de ser ele, o que depois de sexta-feira ficou presente em meio aos meus pensamentos com ainda mais frequência do que gostaria. — Sim. — Era o Santiago! Eu não estava surpresa, na verdade, acho que praticamente tinha certeza desde que disse “eu estava de máscara” e saiu andando, não teria bem um motivo para soltar essa informação se não fosse por David possivelmente ter aberto a boca, e Santiago acreditar que seria uma boa oportunidade para mexer com a minha cabeça. — Você não parece surpresa — Nina falou, me tirando daqueles pensamentos conturbados. — Meio que ele tinha levantado essa possibilidade no acampamento, você só confirmou — expliquei, pegando meu celular que estava no carregador ao lado da cama. — Olha, mas agora a sua ideia absurda de tentar ter aulas com o bailarino pode funcionar, considerando que não é um desconhecido, mas sim o Santiago. Soltei uma risada fraca, desbloqueando o aparelho e revezando minha atenção entre a minha melhor amiga, sentada de pernas cruzadas em minha frente e a tela brilhando em minhas mãos. — Acho que eu tinha uma chance maior de receber ajuda de um desconhecido. Não nos damos bem, Nina. Se nem nossas duas péssimas experiências no acampamento, onde fomos obrigados a um ajudar o outro, foram capazes de apagar completamente o quanto não nos entendíamos, com certeza não seria o acontecimento inesperado de sexta que mudaria alguma coisa, embora o clima entre Santiago e eu estivesse até aceitável no dia anterior. — Mas Melina, pense na oportunidade. — Se nem vendo ele com tanta frequência, nós já brigamos,imagina se tivéssemos que nos encontrar para aulas, isso nunca funcionaria. Desviei minha atenção para a mensagem que meu celular notificou. Hyeon: Bom dia. Hyeon: Quer sair para tomar um café? Hyeon: Santiago acordou estressado hoje. Melina: Bom dia. Melina: Um cafezinho sempre cai bem, com certeza. Melina: Existem dias em que ele não é estressado? Hyeon: Você tem um ponto. Melina: Tem motivo pelo menos? Hyeon: Tomou uma bronca da coreógrafa. Hyeon: E ela disse que se ele não ensaiar o dobro nas próximas semanas, estará fora da apresentação de Natal. Hyeon: Pelo que entendi, ele e a dupla não conseguem se conectar direito, porque ele costuma dançar sozinho. Hyeon: Porém, eu só sei disso tudo porque escutei durante a ligação, Santiago não conta nada. Melina: A mulher ligou em um domingo para dar bronca? Hyeon: Pois é. — Por que está tão atenta? — Nina perguntou, desviando minha atenção, revelando um sorriso sugestivo. — Com quem está conversando? — Hyeon, ele quer sair para tomar café. — Ui ui ui, com o Hyeon — minha melhor amiga disse, piscando os olhos demoradamente e em seguida pressionando os indicadores contra a minha perna, como uma cosquinha sutil. — Está rolando algo? Achei que era com o Santiago, me enganei? Revirei os olhos, deixando que uma lufada de ar escapasse pelos meus lábios, enquanto encarava Nina com certo deboche. — Hyeon está se tornando um ótimo amigo, nos falamos com bastante frequência e ele meio que tem me dado muitos conselhos sobre o Nicolas. — Isso é ótimo, no último ano você se limitou a ter apenas Nicolas e eu em seu círculo de amizades, fico feliz que Hyeon esteja fazendo parte, ele parece ser uma boa pessoa. Hyeon: O café perto da sua casa é uma boa, né? Hyeon: Aquele que você gosta. — Eu também acho — falei depois de ler as últimas mensagens dele. — Vamos ao Café Literário? Hyeon está chamando. — Sim, vou colocar uma roupa — Nina concordou, já indo até o meu guarda-roupa, onde ela sempre deixava algumas peças. — David vai também? Melina: Combinado. Melina: Nina perguntou se David também vai. Hyeon: Ele não dormiu em casa. Melina: Certo. Hyeon: Passo encontrar com vocês em trinta minutos. Melina: Até. Me levantei, parando ao lado de Nina e pegando a primeira calça que vi ali, uma pantalona rosa, que foi complementada por um cropped branco. — Não vai, Hyeon disse que dormiu fora de casa — expliquei, respondendo sua pergunta. Por um segundo, pude jurar que os olhos de Nina se arregalaram, antes dela soltar uma risada. — Não me surpreende — Nina afirmou, se afastando e colocando as peças que tinha separado em cima da cama. — Eu já tomei banho, você vai também? Assenti, erguendo minha toalha que peguei no armário para que ela visse e sai do quarto em direção ao banheiro. ✽ ✽ ✽ Fiquei na frente do prédio com Nina, esperando por qualquer sinal de Hyeon, que tinha dito que estava virando a minha rua. Após alguns minutos, consegui ver o carro de Santiago, me fazendo pensar se o rapaz também estava ali, o que se confirmou assim que o BMW parou e Hyeon, que estava no banco da frente, abaixou o vidro, acenando e revelando um Santiago emburrado fazendo o papel de motorista. — Oi, querem estacionar aqui dentro? — perguntei, mais para Santiago do que Hyeon. — Na rua não tem vaga essa hora. — Tem como? — Santiago me encarou pela primeira vez desde que coloquei os olhos nele e eu assenti. — Sim, tem três vagas, entra aqui na garagem que vou falar com o porteiro pra liberar seu carro. Nina entrou comigo no prédio e em poucos minutos, o carro já estava liberado, Santiago estava estacionando e eu e minha melhor amiga esperávamos pelo rapaz e Hyeon, novamente na calçada. Notei a chegada deles quando Hyeon apoiou o braço em meus ombros e eu o fitei, dando um sorriso. Ao olhar para o lado, me deparando com a expressão surpresa de Nina, percebi que David também se encontrava ali. — Ele chegou quando estávamos saindo — Hyeon explicou baixinho, como se percebesse que eu estava confusa assim como minha melhor amiga, e eu assenti. Nós cinco atravessamos a rua, entrando na cafeteria e procurando por um lugar para sentar. A decoração do local era toda em tons pastéis, trazendo uma vibe extremamente fofa e aconchegante. O lugar tinha dois andares, sendo o segundo um mezanino repleto de estantes com livros e bancadas para estudo, enquanto o primeiro atendia os pedidos e ficava as mesas normais. Achamos uma mesa que era suficiente para acomodar todos nós e nos sentamos, dando uma olhada no cardápio que uma das atendentes trazia. Ela provavelmente deveria ter sido contratada nas últimas semanas, enquanto deixei de ir até lá, porque não a reconheci. Fizemos nossos pedidos após algumas análises e então escutei a voz de David mais rouca do que o normal, perguntando: — Melina, a Nina já comentou que temos a solução para todos os seus problemas? — Como assim? — perguntei, erguendo uma sobrancelha. David, que estava sentado de frente para mim, colocou os cotovelos em cima da mesa, fitando Santiago, que permanecia imóvel na cadeira colada à minha desde que tinha dito o que queria comer. — Isso serve para você também, priminho — David apontou, em seguida encarando Nina, que estava ao seu lado, com um sorriso sugestivo estampado nos lábios. — Caso não tenha percebido, eu não acordei com o melhor dos humores, então não tente me irritar — Santiago disse, ríspido e impaciente. — Me deixe explicar! — David pediu, fazendo um beicinho. — Melina quer um professor de ballet e você precisa treinar com outras pessoas. É perfeito. — Não sei se isso vai dar certo — Santiago falou o óbvio, parecendo pensativo. — Mal nos suportamos, como vamos ensaiar juntos? — questionei, cruzando os braços e me encostando na cadeira, esperando por alguma explicação de David. — Qual é, você me suportou quando… Eu imaginava como ele terminaria aquela frase e poderia matá-lo por isso, mas me contive a apenas dar um beliscão discreto na sua perna por baixo da mesa. Claro que discreto para Nina e David que não estavam do mesmo lado, mas não a Hyeon, que segurou a risada, encarando a minha mão, já que seu lugar lhe dava uma perfeita visão do que eu tinha acabado de fazer. — Quero dizer que acho que até que não é uma má ideia — Santiago falou, limpando a garganta e me obrigando a arregalar os olhos, o fitando com certo choque. Ele realmente estava dizendo aquilo? — Se eu conseguir me adaptar a dançar com você, consigo com qualquer um. — E o que isso significa? Era meio ofensivo ele dizer aquilo. — Se nem nos suportamos, demonstrar conexão durante a dança vai ser um desafio, logo, é um bom treinamento — ele afirmou e eu poderia estar ficando maluca, mas até que fazia sentido. — Você realmente está dizendo que vai me ensinar ballet? — questionei, apenas por garantia e durante um curto segundo, os lábios dele se curvaram em um sorrisinho, que sumiu antes de responder: — Sim, vamos treinar juntos, raio de sol. E simples assim, ganhei alguém para fazer o que tanto queria e provavelmente um enorme problema, porque eu e Santiago juntos não poderia resultar em nada diferente de uma catástrofe. CAPÍTULO 23 Segunda-feira, 20 de setembro de 2021 Minha sanidade tinha se esvaído. Foi a minha conclusão assim que tirei meu carro do estacionamento da casa da Melina no dia anterior e refleti sobre o que exatamente eu tinha aceitado. Talvez ficar perto dela estivesse me deixando maluco ultimamente e nem mesmo dois neurônios se esforçassem para funcionar em sua presença. Essa era a única explicação plausível. Desci as escadas, com uma sensação estranha fazendo presença conforme eu caminhava até a porta de entrada, onde, através do vidro, eu já notava que Melina me esperava. — Oi — ela disse assim que eu abri a porta e nossos olhares se cruzaram. Seus cabelos compridos estavam presos em um rabo de cavalo, mas algumas mechas se mantinham presentes em sua testa. A jaqueta preta cobria metade de suas coxas e também tinha uma mochila nas costas. Estava um dia frio em Vila dos Anjos, então eu