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Olivia Uviplais, 2024. Todos os direitos reservados. Este ebook ou qualquer parte dele não pode ser reproduzido ou usado de forma alguma sem autorização expressa, por escrito, do autor ou editor, exceto pelo uso de citações breves em uma resenha do ebook. Obra protegida pela Lei 9.610 de 1998. Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência Não recomendado para menores de dezoito anos. Capa: Sarah Libna Revisão: Juliana Mangi e Ana Luiza Tinovo Leitura sensível: Evelyn Fernandes Aviso de conteúdo Alcoolismo, perda de ente querido. Prossiga dentro dos seus limites. Sumário Aviso de conteúdo Sinopse Prólogo 01 | Quer ser profissional? É melhor comer boceta Prólogo 02 | Uma mentira contada muitas vezes vira um pai embaixador Capítulo 01 | O clube do livro das intelectuais safadas apresenta: Crepúsculo Capítulo 02 | Ele é a noite. Ele é a vingança. Ele é o cara lendo os quadrinhos do Batman! Capítulo 03 | “Eu sou descolado?” Você tem saúde e é isso que importa Capítulo 04 | O não você já tem, agora corra atrás da humilhação discussão Capítulo 05 | Cinderela, se Cinderela fosse filha de um bêbado e sobrinha de lésbicas bondosas Capítulo 06 | Por favor, seja um stalker maluco, eu te imploro! Capítulo 07 | O carisma de uma porta (com todo respeito a porta) Capítulo 08 | É como se uma chaleira dissesse: ei, estou em um fake dating Capítulo 09 | Aquilo é uma agente da CIA disfarçada? Não, é só minha namorada falsa Capítulo 10 | Um corte de cabelo ou um afrodisíaco misterioso? Capítulo 11 | Homens ricos, carros potentes e… não é uma visita para conhecer os pais Capítulo 12 | Tomas, Tomas Guaraná, Tomas! O melhor! Tomas Guaraná, o sabor brasileiro Capítulo 13 | Marcar gols, aparecer nos stories da garota, o negócio da família Capítulo 14 | De vestido vermelho, tirando foto com seu namorado falso, ótimo momento para sentir tesão Capítulo 15 | Namorados falsos que mentem juntos, permanecem juntos Capítulo 16 | Milkshakes compartilhados com namorados falsos são mais gostosos Capítulo 17 | Crepúsculo, dirigido por Catherine Hardwicke, [01:03:28]. Essa é a vibe. Capítulo 18 | Por que o livro de matemática ficou triste? Não sei! Me beija Capítulo 19 | Essas são minhas amigas e elas estão protegendo sua virgindade Capítulo 20 | Traumatismo craniano? Não! Ellie Davis Capítulo 21 | Um acordo em cima de outro acordo por causa de outro acordo. Simples assim Capítulo 22 | Higienize seu telefone depois dessa Capítulo 23 | Beijos na sorveteria e lâminas de neve. O que quer que isso seja Capítulo 24 | O homem sem alma. Não pergunte como ela saiu Capítulo 25 | Não preciso do que está no seu quarto… eu tenho as minhas próprias Capítulo 26 | Namorados falsos não deveriam fazer isso. Mas eles fazem. Muitas vezes Capítulo 27 | Victoria não está nos olhando pela janela, mas Flightless Bird Capítulo 28 | Não me lambe porque eu sou casado, sua maluca Capítulo 29 | Carlisle Cullen, se Carlisle fosse um grande X9 Capítulo 30 | Ela precisa dele, mas ele precisa dela tanto quanto Capítulo 31 | Um homem sem sua mulher quer guerra com todo mundo Capítulo 32 | Florence + The Leitoras Capítulo 33 | Coloque aquelas três idiotas no lugar dela — na sua gaveta de currículos Capítulo 34 | Taylor Swift muito provavelmente vai processar Tomas McKinley Capítulo 35 | A parte mais difícil é aceitar que eles te amam Capítulo 36 | Pai fora de si vs ex-virgem apaixonado, em quem você coloca seu dinheiro? Capítulo 37 | Temporada de Farsa & Gelo Epílogo | What? Like it’s hard? Agradecimentos Conheça o próximo livro da série: Temporada de Segredos & Gelo Outros livros da autora Desta vez, estou pronto para partir Escapar da cidade e seguir o sol Pois eu quero ser seu Você quer ser minha? Não quero me perder na escuridão da noite Ready To Run - One Direction Para o meu pai, que lutou batalhas sozinho em nome da sua sobriedade. Para toda leitora que ama clichês invertidos em que os mocinhos estão ávidos para aprender. Nesse aqui temos bastante... aulas. Aproveite. Sinopse Todo mundo conhece os quadrigêmeos do hóquei. O perfeitinho, o carismático, o super inteligente e... o outro. Tomas McKinley é esse o outro. Criado à sombra dos irmãos, ele precisa se destacar porque as chances de que um time de hóquei o procure depois da formatura são baixas. Tom precisa ser mais do que o quarto irmão geek, virgem e que talvez um dia seja um profissional. E uma garota pode ajudá-lo com isso. Ellie Davis é a sensação do campus. Todo mundo a conhece. Pelo menos todo mundo pensa que a conhece porque, na verdade, a garota vive uma farsa. Nada de pai embaixador que viaja muito, nada de estágio em uma empresa privada. Ellie é filha de um bêbado inveterado, trabalha como garçonete fora do campus e tem o peso do mundo — e da mentira — sobre suas costas. Mas agora o jogador de hóquei tímido sabe seu segredo. E um acordo nasce desse encontro. Ellie vai ajudar Tom a se transformar no golden boy do momento, se ele a ajudar a manter sua mentira. E como eles farão isso? Com um namoro falso. Prólogo 01 | Quer ser profissional? É melhor comer boceta Enquanto o treinador falava, tudo que eu conseguia pensar era naquela frase: "Eu sei que sexo é bom porque se fosse ruim, já teria acontecido comigo." Por que essa era a minha vida. Uma sucessão de coisas ruins, pelo menos boa parte dela era. Abandonado com os três irmãos pelos pais biológicos: ruim. Adotado por um casal de ricaços amorosos: bom. Dos quatro filhos ser o que mais tem dificuldade em formar laços com os pais: ruim. Ter uma mãe obcecada com a ideia de sermos jogadores de hóquei: bom. Nunca conseguir se destacar: ruim. E todos esses fatores combinados levaram ao momento mais constrangedor da minha vida. — Talvez você esteja muito focado no jogo e precise... extravasar, sabe? Encontrar uma garota legal e… — a voz morreu, constrangida. Em sua defesa, pelo menos as bochechas de Devon Adams estavam vermelhas enquanto ele tentava me dar um sermão nada puritano. Os olhos se fixaram em um ponto invisível sobre meu ombro, comprimindo os lábios de forma desconfortável. O que só podia significar uma coisa. Eu realmente estava uma merda no time. — Não quero ser invasivo, Tom — suspirou mudando a prancheta de uma mão para a outra, dessa vez fitando as páginas que continham dados sobre o desempenho do time. — Mas… parece que tem uma… trava em você. Conheço seu potencial, vejo seus irmãos jogarem. Você pode mais. Me encolhi ouvindo as palavras que conhecia tão bem. “Seus irmãos são ótimos, logo… você também é”. Sabia que as pessoas não faziam isso por mal, me colocar no mesmo saco que Tyler, Holden e Travis. Todo mundo nos enxergar como uma parte de um conjunto, pedaços de um todo. — Vou me esforçar mais. — Prometi abaixando a cabeça e aceitando humildemente o que o técnico recém-chegado tinha a dizer. Era um desses momentos em que o Naruto dizia para o Neji que o trabalho duro vencia o talento. No entanto, minha afirmação não pareceu convencê-lo. — Tomas — chamou, usando o nome ao invés do apelido pelo qual o time inteiro me chamava. — Tenho medo de que seja mais do que só se esforçar. Franzi o cenho, voltando a olhá-lo. — Hóquei não é mais talento e esforço há muito tempo — disse sábio, coçando a nuca com um desconforto claro. — Os times querem rostos carismáticos que vão aparecer em seus videozinhos na internet e sustentar as marcas patrocinadoras. É mais do que só esporte, é marketing. Ele não estava errado. A época dos ogros desdentados com o carisma de um chinelo havia passado. O esporte agora era parte de uma lógica de mercado. E os quadrigêmeos do hóquei eram o produto perfeito. Exceto pelo fato de que eu vim com defeito. Um caso crônico de cabacice aguda. — Então, tente… — deixou a mão livre correr pelo ar. — destravar. Se destacar como o cara legal que você é. Talvez sair, conhecer alguém e… relaxar. Treinador Adams havia chegado em Harvard há apenas alguns meses, mas sua preocupação com cadajuntou suas coisas e foi um dos primeiros a escapar da sala, enquanto um grupo se uniu ao redor de Ellie, incluindo a idiota que votou contra ela e a menina que me empurrou para dentro da sala. Era como se fosse o meet and greet da maior estrela de debates que já existiu. O mais engraçado foi que Ellie se comportou como se realmente fosse. Respondendo cada pergunta, consideração e ouvindo os pontos da plateia ao seu redor. Cara… eu queria ser assim. Queria ter aquele magnetismo, aquela força, o carisma quase palpável que atraísse as pessoas ao meu redor. E talvez… ela pudesse me ensinar. Não era uma grande loucura, certo? Seria como pedir dicas de oratória. Só precisava encontrar as palavras certas. “Oi, pode me ajudar a não ser um perdedor completo? E a propósito, ninguém é mais fenomenal falando do que você”, não aprecia muito promissor. O grupo se dissipou e Samuel passou por mim sem me perceber, apesar de estarmos no mesmo curso e termos estudado juntos durante a graduação inteira. Me levantei, ajeitando o casaco enquanto ela caminhava para a porta, respirei fundo, passando as mãos pelos cabelos, tentando parecer mais apresentável. Ela não me derrotaria no argumento, não é? Nicholas podia ser um oponente muito melhor do que eu, que provavelmente choraria. Se bem que… era meio… legal a ideia de uma garota bonita me colocando no meu lugar. E Ellie realmente me pôs. Porque ela passou reto por mim, sem nem me ver. — O quê? — perguntei baixinho para mim mesmo quando fui deixado sozinho na sala. Como assim? Ela devia ter um metro e setenta no máximo o que, em comparação a mim, era quase nada. Mas mesmo assim, suas perninhas curtas me superaram em alguns metros. — Ellie — chamei por impulso e ela se virou com uma sobrancelha erguida me vendo sair como um fantasma da sala de debates. Ela podia me enxergar, não é? Não era um daqueles pesadelos em que eu ficava invisível. — Oi… — cumprimentou, parando curiosa, a mochila pesada deslizando do seu ombro. Algo quase defensivo cruzou seu rosto. Eu estava dando uma de esquisito? Ela se sentia ameaçada? Jesus, eu não queria nada daquilo. — Meu nome é… Tomas Mckinley — seus olhos se arregalaram um pouquinho, com certeza reconhecendo meu sobrenome e não a mim. Entendia muito bem aquela expressão que dizia: tem mais um? — Oi, Tomas — disse educada, o vinco em sua testa dizendo: “tá? E daí?” Parei perto dela, sentindo minhas bochechas esquentarem ainda mais. Que ideia idiota tinha sido cumprimentá-la. Eu, com quase dois metros de altura, mal conseguia controlar o próprio corpo num corredor estreito, e ela ali, pequena e bonita, olhando pra mim como se eu fosse algum tipo de maluco. Meu Deus, o que eu estava pensando? Estava começando a ficar incoerente ao redor dela. — Só queria dizer que você fez um debate incrível… e eu adoraria aprender com você — continuei tentando parecer mais confiante do que realmente estava. Ellie, no entanto, não parecia tão interessada. Ela olhou por cima do seu ombro, um pouco mais a frente, onde a dupla de loiras caminhava juntas, devagar. Elas estavam esperando. E eu estava no caminho. — Obrigada, Tomas. — Ela disse de forma educada, mas sem nenhuma empolgação, já começando a se mover novamente. — Eu realmente aprecio. Você pode vir aos debates, acontece toda sexta nesse mesmo horário. — Finalmente olhou para mim de novo, parecendo voltar a me ver e não gostar nada do que enxergava. — Ah, claro. — Respondi, tentando esconder a frustração na minha voz. Não podia deixá-la ir assim. Ellie Davis era uma chance real de aprender como me destacar, ela tinha o brilho que o técnico me pediu para alcançar. Senti meu corpo inteiro revirar de vergonha quando tentei pressionar: — É só que… eu pensei que poderia… As duas loiras mais adiante estavam visivelmente sem paciência. E Ellie correspondeu. — É… a gente se vê por aí. — Me interrompeu, sem fazer esforço e começou a se afastar novamente, apertando o passo para encontrar as amigas. Fiquei parado, vendo-a sair, o peso da decepção me atingindo. O que eu esperava? Que ela simplesmente parasse tudo o que estava fazendo para se concentrar em mim? Meus olhos a seguiram até que Ellie se juntou às outras duas, saindo juntas do prédio. O magnetismo que eu admirava nela não se estendia a mim, e a realidade de que ela não se importava foi como um balde de água fria. Se eu não conseguia fazer uma garota que literalmente se inscrevia em projetos para debater, conversar comigo por dois minutos, não havia muito mais que pudesse ser feito por mim. Era isso? Estava tudo perdido? Capítulo 05 | Cinderela, se Cinderela fosse filha de um bêbado e sobrinha de lésbicas bondosas Odiava voltar para casa. Mas mesmo assim, todos os sábados às seis da manhã, colocava minhas coisas numa mochila, saia bem cedo para ninguém me ver no caminho e pegava a estrada de volta para Norwich pelo ônibus intermunicipal. Quando era adolescente e me imaginava voltando para casa depois de estudar a semana inteira em Harvard, a imagem mental que eu criava era sempre cheia de conversas empolgantes, memórias compartilhadas com meus pais e novidades de casa que seriam contadas na mesa do almoço. Eu diria para eles como era legal ser uma estudante da Ivy League e eles me contariam sobre orgulho que sentiam de mim. Lindo. Perfeito. Muito longe da realidade. Primeiro de tudo, eu não voltava para a cidade porque estava com saudades, retornava porque precisava do dinheiro que minhas tias me pagavam pelo emprego aos sábados e domingos. Quando conversava com meus pais nunca era na mesa do almoço, mas sobre uma lápide ou diante de uma garrafa de cerveja. Você tem que convir que não era exatamente o cenário ideal. Mas mesmo assim, eu voltava e, se fosse sincera, quando a espiral de culpa me tomava, diria que nunca deveria ter saído dali para começo de conversa. Cada vez que chegava mais perto de casa a sensação que me tomava era que estava negligenciado os problemas da minha família pequena e disfuncional. Pelo menos o que restou dela. Não toquei a campainha quando o ônibus me deixou em frente da casa, peguei a chave reserva debaixo do tapete e destranquei a porta, sabendo o que encontraria. Nada de um café da manhã de boas-vindas ou a casa arrumada pela visita. O que achei foi meu pai muito bêbado no sofá da sala, desmaiado com uma garrafa nas mãos como sempre. O cheiro de álcool me atingiu antes mesmo de eu atravessar o hall de entrada onde as paredes decoradas com nossas fotos de família pareciam uma piada de mal gosto. Olhei ao redor, percebendo as garrafas vazias espalhadas pelo chão, empilhadas sobre a mesinha de centro. O tapete estava torto, manchado de algo que eu nem queria identificar, e as cortinas, sempre fechadas, bloqueavam a pouca luz da manhã. Respirei fundo, engolindo a sensação de desânimo que me sufocava. Lar doce lar. A cena era tão familiar que já nem doía mais, ou pelo menos era o que eu tentava me convencer. Andei em direção ao sofá, observando meu pai apagado, o rosto afundado nas almofadas e a garrafa equilibrada precariamente na ponta dos dedos. Ele era muito diferente de como era antes da mamãe falecer. Sua pele branca agora tinha um tom pálido, sem saúde, o corpo musculoso se tornou franzino, frágil e o cabelo loiro estava opaco, sem vida. Nada parecido com o herói que eu mais admirava na infância. Suspirei e estendi a mão, pegando a garrafa antes que ela caísse. Não era a recepção calorosa que eu costumava ver nas histórias de amigas voltando para casa; não havia abraços apertados, sorrisos ou perguntas sobre como tinha sido o semestre. Não era sequer parecido com a história que eu contava para elas. Nada de conversas estimulantes sobre política internacional, nada de jantares elaborados por nós mesmos. Eu me abaixei para ajeitar o tapete e endireitar a mesinha, deixando a garrafa vazia junto às outras. Olhei para ele por mais alguns segundos, talvez esperando algum sinal de que aquela visita não seria como as outras. Mas ele continuou imóvel, preso em umsono embriagado. — Pai? — chamei, mas ele continuou imóvel, seu peito subindo e descendo, apesar da aparência nada saudável. Nenhuma resposta. Suspirei, passando as mãos pelo rosto, decidindo ignorá-lo mais uma vez. Com sorte, passaríamos o final de semana todo sem nos ver, de novo. Mas, mesmo dizendo isso a mim mesma, a culpa rastejava, inevitável. Era como se toda vez que eu ia embora, ele afundasse ainda mais. A realidade era que eu sabia muito bem que ele não cuidava de si quando eu não estava ali. E, talvez, uma parte de mim se perguntava se não era minha responsabilidade estar por perto, se eu não o tivesse deixado sozinho... Talvez ele tivesse encontrado uma razão para levantar do sofá, para sair daquela névoa de autopiedade que o consumia desde que a mamãe se fora. Sentei-me na beirada do sofá, fitando seu rosto envelhecido e cansado. Era doloroso lembrar do homem vibrante que ele tinha sido, da força que ele tinha antes de tudo desmoronar. A sensação de abandono era mútua, eu percebia isso agora — ele havia me abandonado em sua tristeza, mas eu também o havia deixado. As coisas seriam melhores se eu ficasse em casa? — Pelo menos eu não te deixaria beber no sofá — resmunguei para mim mesma, me levantando meio sem forças. Segui para as escadas, evitando olhar como a sujeira se acumulava nos cantos, parecendo muito mais uma casa abandonada do que um lugar em que uma pessoa morava. Tentava fazer a casa funcionar a medida do possível, mas estando a semana toda no campus complicava minha rotina de limpeza e eu era a única a tentar estabelecer uma. No segundo andar tínhamos apenas o quarto deles — que agora era só do meu pai —, os banheiros e meu próprio quarto, o único lugar que eu sabia que era de fato intocável. Sempre que eu entrava ali, me sentia meio sem lugar. As paredes rosa pálido, a escrivaninha cheia de anotações das minhas noites e mais noites de estudo pareciam tão… distantes. Era como se o quarto tivesse ficado congelado no tempo, enquanto o resto da casa desmoronava lentamente ao redor. A cama de solteiro ainda tinha a colcha floral que minha mãe havia escolhido anos atrás, e as prateleiras estavam lotadas de livros que foram meus primeiros passos para os textos complicados. Em cima da escrivaninha, um porta-retratos desgastado exibia uma foto nossa: eu, meu pai e minha mãe, abraçados e sorrindo em um parque de diversões no verão. Parecíamos tão felizes, tão completos. Ver aquilo agora só fazia a saudade pesar ainda mais, como uma âncora me puxando para o passado. Deixei minha mochila sobre a cama e segui para o pequeno closet, puxando o uniforme da sorveteria que consistia numa espécie de fantasia da década de 70, um vestido azul curtinho com mangas e um avental branco, como se eu tivesse saído do musical Waitress. Usava uma blusa de cashmere por baixo para conter o frio e meia alça grossa como o clima de Massachusetts mandava. Me vesti e amarrei os cabelos num rabo de cavalo justo, os fios rebeldes contornando meu rosto, ajeitei o baby hair com gel e separei os cachos com os dedos para dar mais volume. Troquei meus livros de lugar, tirando-os da mochila para a bolsa, sabendo que tia Syl sempre me deixava tirar umas horas para estudar. Era mais do que grata pela irmã do meu pai e sua esposa serem tão prestativas conosco. Sylvia e Josephine podiam seguir suas vidas sem se preocupar, mas sempre davam um jeito de estender a mão. Embora fossem ocupadas com o próprio negócio, onde o movimento não parava, nunca hesitavam em me dar o apoio que eu precisava — mesmo quando meu pai, em suas fases mais difíceis, se afastava de todos. Terminei de arrumar a bolsa e a joguei pelo ombro, descendo as escadas em direção da cozinha que não era uma bagunça muito diferente de garrafas vazias e embalagens velhas. Lavei a louça acumulada, limpei o balcão como podia e recolhi o material para reciclagem. Esvaziei as bebidas restantes da geladeira e as coloquei no fundo do saco de lixo, mas sabia que aquilo não seria o suficiente. Quando não encontrasse sua bebida, meu pai sairia para procurar mais. Fiz um café forte, sabendo que a ressaca que ele teria seria homérica, mas também sabia que era em vão. Sua estratégia era beber mais antes que os efeitos da abstinência — ou da saudade da minha mãe — pudesse abatê-lo. Antes de sair, dei uma última olhada para o sofá, onde ele ainda estava largado, o rosto amassado contra as almofadas, e o café forte esfriando na mesa ao lado. Ele não parecia ter se mexido, e por um segundo, a ideia de apenas… deixar tudo para trás passou pela minha cabeça. Era o que qualquer pessoa normal faria, certo? Cuidar da própria vida, seguir em frente. Mas não era tão simples. Podia seguir o resto do curso de Ciências Políticas sem dizer uma palavra sobre familiares, parar de vir a Norwich até que as coisas desaparecessem. Era uma possibilidade, não era? Parecia que não. As duas vontades tinham espaço similar no meu peito. Ficar e enfrentar, sumir e fugir. Por hora, o que eu podia fazer era trabalhar. Suspirei, ajustando a bolsa no ombro, e saí pela porta da frente, fechando-a com cuidado. O vento frio da manhã me envolveu, mas estava tão acostumada com o clima que aquilo não me preocupou, pelo contrário, era uma sensação bem-vinda. A caminhada até a sorveteria não era longa, mas eu já conhecia cada detalhe do trajeto: as mesmas lojas, as mesmas esquinas. Tudo estava como sempre, exceto eu. A Sonhos Gelados era um ponto de encontro popular na cidade. Mesmo no inverno o movimento nunca parava, minhas tias reinventavam os produtos para atrair os clientes, criando novos sabores de sorvete que combinavam com a estação. O sino da porta tilintou suavemente quando passei por ela, encontrando tia Syl já no balcão, com seu sorriso acolhedor e o avental amarrado firme, já servindo os primeiros clientes, famílias reunidas para o menu de café da manhã. Ela ergueu os olhos e me lançou um olhar cúmplice, como quem sabe exatamente o que deixei para trás em casa. — Bom dia, Ellie! — disse com um tom carinhoso, ela se parecia muito com meu pai, o antigo sorriso acolhedor, os olhos castanhos. — Pronta para enfrentar o movimento? Eu retribuí, mesmo que não fosse um sorriso completo. — Sempre, tia. — Dei uma piscadinha, indo até o balcão para deixar minha bolsa. O cheiro de café fresco e de waffles quentes preenchia o ar, criando uma atmosfera acolhedora que sempre me lembrava do calor da infância. Ter uma tia dona de sorveteria ainda era tão legal quanto foi naquela época. Me coloquei em ação, ajustando o avental que me deixava ainda mais parecida com ela. O movimento começava a crescer, e eu logo me perdi na dança de atender pedidos, misturando sabores e montando receitas com cuidado. Meus dedos se moviam rapidamente, pegando as colheres e os copos, enquanto o álbum mais recente do Harry Styles — a mais nova obsessão da tia Jo — tocava suave ao fundo, criando o clima perfeito para o ritmo frenético da sorveteria. Ali, era fácil fingir que toda a loucura em que me meti não era real. Não havia mentiras sobre pai embaixador, não precisava me esquivar de comentários engrandecedores sobre como toda minha inteligência devia vir daquele background intelectual em que cresci. Aqui, eu não era Ellie Davis, a suposta filha do embaixador; eu era apenas Ellie, a atendente da sorveteria, mergulhada em um mundo sem mentiras. — Aqui está nossa menina de Harvard — tia Jo apareceu saída da cozinha quando a hora do almoço foi se aproximando e as pessoas foram atrás de comida ao invés de sobremesa — Como você está, pequenina? — deu um aperto leve no meu ombro enquanto eu arrumava o caixa, organizando as notas por valor. — Estou bem — sorri de leve, com educação e sua expressão caiu um pouco. Tinha acabado de chegar em Norwich e visto meu pai bêbado, Jo sabia que bem não era a palavra que mais me descrevia no momento. — E as aulas? — questionou, maternal, colocando uma mecha dos cabelos ruivos atrás da orelha, seus olhos de águia me seguindo. Meu pai conseguia trabalhar.Seu empreendimento de limpeza de neve funcionava a duras penas, os clientes não o deixavam, mas nada novo aparecia. Os lucros da empresa de limpeza de neve estavam diminuindo e Michael não era exatamente a pessoa mais responsável com dinheiro. Bebidas, bebidas e mais bebidas viraram seu investimento principal. Sylvia e Josephine se tornaram minhas grandes apoiadoras financeiras. Me pagando mais do que eu merecia pelo emprego de dois dias na semana e garantindo que eu tivesse todo o material que precisasse na faculdade que a bolsa não cobria. — Tá tudo bem — garanti — estou participando do grupo de debates e minha equipe está ganhando de lavada — seu sorriso cresceu para algo verdadeiro e meio convencido. — Sabia que seria assim — deu de ombros vaidosa — você puxou isso da sua tia, ela não perde uma discussão — falou alto o suficiente para que Sylvia ouvisse do balcão e desse uma risadinha apaixonada. — Ou pelo menos é isso que ela pensa — sussurrou performática. — Está no sangue, querida — minha tia comentou, se virando para nós duas. Gargalhei, sentindo meu peito inflar com o orgulho delas. Eu amava minha família. Nunca, nem por um momento, tive vergonha dela, a mentira sobre o pai embaixador não era uma forma de camuflá-la. Se as coisas fossem mais fáceis, gostaria que Harvard inteira soubesse que aquelas duas eram minha maior inspiração. A pessoa que meu pai era — que ele foi — e a força da minha mãe também estavam em mim. Mas às vezes as coisas eram mais complicadas do que os laços de sangue podiam prever. O horário do almoço foi parado, comi a salada que tia Sylvia fez para a gente e me sentei numa mesa do canto depois de lavar nossos pratos para estudar um pouco. Aproveitei o tempo para adiantar a leitura de “A Condição Humana” de Hannah Arendt, me perdendo em seus relatos sobre como a ação e a política moldam a existência humana. Ainda era meio estranho o fato de que eu lia os autores que passei o ensino médio inteiro ouvindo que eram complexos demais para mim. Aos poucos a sorveteria foi enchendo e tive que deixar meus cadernos no balcão. Uma da tarde era o momento em que a sorveteria mais enchia, todo mundo queria a sobremesa clássica de Norwich, o affogato, uma bola de sorvete de baunilha "afogada" com café expresso quente, aconchegante e delicioso para o clima em janeiro. O período da tarde passou num piscar de olhos. Meus braços estavam doendo pela quantidade infinita de milkshakes que tive que fazer mesmo no inverno, mas não tinha medo do cansaço. Limpei as mesas, varri o chão, lavei as louças e organizei os utensílios na cozinha. Nos intervalos, troquei algumas palavras com os clientes, sorrindo para as crianças que se deliciavam com as sobremesas e ouvindo os pais compartilharem histórias sobre seus feitos, orgulhosos. Meu coração ainda se apertava vendo aquelas interações, mas eu mantinha o sorriso no lugar apesar da saudade do tempo em que minha própria família era assim. Quando a demanda começou a diminuir, aproveitei para revisar a lista de ingredientes, checando o estoque e fazendo anotações sobre o que precisávamos reabastecer. O trabalho braçal fez minha mente vagar. Comecei a rever meu desempenho no debate do dia anterior, Nicholas ficando cada vez mais apreensivo e com argumentos menos coerentes, Carol votando a favor dele apesar de estar claro que eu tinha feito uma apresentação melhor. — Idiota — resmunguei para mim mesma, enquanto passava o mop com desinfetante pelo chão. Só que aquela não foi a coisa mais inusitada da noite. Tomas McKinley foi. Pensar no cara fez meu peito dar um salto esquisito e eu respirei fundo, forçando a limpeza com mais vigor. Eu nem vi quando ele entrou na sala, o jogador se materializou atrás de mim para me parabenizar pelo debate me deixando meio desconcertada. Havia algo… diferente em sua felicitação. Talvez fosse aqueles olhos castanhos expressivos ou o rosto tão inocente que me fez querer gritar de frustração. Não precisei me apresentar, mas ele disse o próprio nome, alheio ao fato de que eu já o conhecia. Sabia que ele era um problema. O patinho feio dos quadrigêmeos do hóquei — apesar de ser um dos homens mais bonitos que já vi pessoalmente — conversando comigo enquanto Carol e Brittany me olhavam julgadoras. — O que o irmão do Tyler queria com você? — Britt questionou quando me aproximei delas, as pernas ainda meio tremendo pela forma como ele me olhou, como se conseguisse me enxergar lá no fundo. — Hum… me parabenizar pelo debate — ajeitei a mochila me controlando para não olhar para trás. — Estranho. Mas esse não seria o adjetivo que eu usaria para descrevê-lo. O cara lendo quadrinhos na biblioteca, tão diferente do resto dos outros jogadores, mas que não parecia agradar em nada o ABC do nepotismo. Amber, Brittany e Carol disseram que ele era estranho, isso devia bastar para mim. Só que… eu não o descreveria assim. Autêntico era a palavra que cabia mais. E insanamente bonito. Não ajudaria em nada se eu começasse uma fascinação por Tomas McKinley. Esse tipo de curiosidade não me ajudaria no meu caminho até o Juris Doctor de Harvard. Tinha estabelecido para mim mesma que nada de garotos durante a graduação e estava firme naquele propósito. Não me desviaria dos meus planos só porque de repente um homem qualquer parecia mais interessante que os outros. Jamais. Eu já tinha problemas demais, não estava pronta para isso. — Ellie — tia Syl chamou e só então percebi que estava parada no meio da sorveteria, segurando um mop enquanto olhava para o horizonte. — Oi? — chamei, ajeitando a mecha de cabelo caindo no meu rosto. — Pode atender a mesa oito? — pediu e só então vi que Josephine voltou para cozinha e só tinha nós duas para os clientes. — Claro. — falei, deixando a vassoura no canto, limpando as mãos no avental para pegar meu caderninho no bolso. A mesa oito era a última no canto, afastada de todo o resto. Geralmente tinha casais de adolescentes se pegando ali, por isso evitava o espaço pelo bem dos meus olhos não verem coisas indecentes. Fui até lá, ajeitando a postura e preparando o sorriso educado no rosto, mas assim que cheguei perto, meu coração deu um salto, ameaçando me fazer enfartar. Sentado no canto, de cabeça baixa e mexendo no celular, não era um casal de jovens se beijando. Era muito pior. Porque Tomas McKinley em pessoa havia saído dos meus pensamentos e se materializado na Sonhos Gelados. Capítulo 06 | Por favor, seja um stalker maluco, eu te imploro! Ele parecia ter visto uma assombração. E talvez tivesse mesmo porque a única explicação para aquilo estar acontecendo era eu ter morrido e vindo parar direto no inferno. Havia uma razão pela qual eu ainda voltava para Norwich para trabalhar. Além de ajudar minhas tias e ficar de olho no meu pai, a cidadezinha era o cenário perfeito para eu nunca ver nenhum dos meus colegas de Harvard. Os alunos preferiam a vida social de Cambridge, seus bares badalados, eventos universitários e aquela aura cosmopolita, nunca cruzavam a interestadual para se aventurar por um lugar tão pacato e familiar como Norwich. E mesmo assim Tomas McKinley tinha parado ali de todos os lugares no mundo. Ficamos nos encarando, seu cenho franzido como se ele ainda estivesse se convencendo de que eu era real ali. Não era uma covarde. Já tinha repassado na minha cabeça milhares de vezes o que faria se um dia alguém descobrisse sobre a mentira. Ergueria a cabeça e admitiria, contaria a verdadeira história da minha vida e não teria vergonha. Nunca. A sociedade levava mulheres negras aos seus limites, não dava margem para erros, nem para segundas chances. Eu fazia o que precisava para ser mais do que uma sobrevivente e não me culpava por isso. Um lindo discurso. Um discurso real. Mas mesmo assim cogitei me esconder debaixo da mesa. Foi Tomas a fazer o primeiro movimento, me impedindo de engatinhar para fora da Sonhos Gelados. No entanto, sua frase super articulada não ajudou em nada a minha situação. — Ellie… é você? — perguntou, piscando, meio chocado.Se até então eu o tinha considerado um cara autêntico e bonito demais para o meu próprio bem, ali aquilo evaporou. Naquele momento, eu o odiava. Inferno! O jogador podia ajudar, fingindo não me reconhecer, saindo correndo na direção oposta a Harvard e desaparecendo para sempre, talvez sendo atropelado por um carro e sofrendo ferimentos leves, mas uma amnésia terrível. Qualquer coisa que me ajudasse. Mas não, minha sorte não era tão boa. O idiota continuou parado lá como se vir parar em Norwich, de todos os lugares do mundo, fosse comum. Ele tinha esse jeito de se materializar em lugares inapropriados, como a sorveteria que eu trabalhava, apesar de mentir sobre ser a filha de um embaixador e meu clube de debates onde eu mantinha a farsa. A imagem dele na noite anterior me chamando depois da sessão fez um estalo sacudir minha cabeça? As palavras saíram antes que eu pudesse impedir: — Você está me seguindo? Foi como se eu tivesse jogado formigas no banco em que ele estava sentado. Tomas se levantou em um pulo, as mãos diante do corpo num gesto de rendição, o rosto assombrado. Comprimi os olhos em sua direção. Essa era exatamente a expressão que um stalker faria ao ser pego em delito. — Não! Claro que não! — seu rosto estúpido e inocente me fez querer socá-lo porque, de fato, Tomas parecia muito surpreso. O que não era a coisa mais confiável do mundo. Assassinos podiam mentir a vida toda e nunca serem pegos. Eu queria mentir a vida toda e não ser pega, então… Olha, eu não me orgulho da coisa que saiu da minha boca a seguir. Gaslighting não era minha forma de resolver as coisas, só que eu estava desesperada. — Tomas… — chamei com toda a experiência em convencimento que eu tinha e ele me fitou meio embasbacado, piscando como um idiota. — Você me seguiu até aqui. — falei com confiança, esperando poder convencê- lo e tornar o crime dele maior do que o meu. Infelizmente não funcionou. O jogador de hóquei pareceu ultrajado. — Não, eu juro que não te segui! — suplicou e, se eu não estivesse tão na merda, teria me comovido. — Estava chateado… olha, sei que não é da sua conta, mas o draft está chegando e tem grandes chances de um time não me escolher depois da formatura. O treinador Adams disse que hoje em dia o hóquei é mais do que só esporte e eu não sou o tipo de cara que as pessoas vão querer olhar e comprar Gatorade então preciso me destacar mais. E posso ter ido ontem até o clube de debates para ver você falar e ter ficado impressionado com sua desenvoltura, posso ter te pedido conselhos, mas não te segui até aqui. Eu juro! Uau. Não estava esperando por uma justificativa tão grande e dita tão rápido, em um único fluxo de palavras. A ocupação de assassino/stalker estava vetada para Tomas. Ele confessava rápido demais. Tentei absorver suas palavras para entender onde, no meio de toda aquela mistureba de informações, estava a ameaça ao meu segredo. O jogador interpretou minha pausa como julgamento. — Meus irmãos estavam certos… vou acabar sendo preso assim — murmurou para si mesmo. Aquilo só me deixou mais confusa. — Então você estava me stalkeando? Ufa! Ainda bem. — Não! — praticamente gritou. Que merda. — Eu não sabia que você… — apontou para meu uniforme com uma ruga confusa na testa — trabalhava aqui. Pensei que você era filha de um embaixador. É isso que todo mundo pensa em Harvard. Você não é estagiária na embaixada? — A pior parte foi que Tomas soou sincero questionando aquilo. Era oficial, eu o odiava. — Sim, trabalho na embaixada e faço freela numa sorveteria para completar a renda. — Não consegui conter a ironia que pingava de mim e o grandalhão se encolheu, como se as palavras doessem. Para alguém que tinha a cara esfregada no gelo semanalmente, Tomas parecia muito sensível. — Não estou entendendo — admitiu, enfiando as mãos no bolso do seu casaco vermelho com a logotipo da faculdade. Olhei para trás. Tia Syl estava alheia a nossa conversa, trabalhando no caixa. O movimento tinha parado, os poucos clientes que ainda estavam lá dentro estavam terminando seus pedidos, não seria um problema se eu desaparecesse por alguns minutos. Não dava para convencer Tomas McKinley que ele era um stalker — infelizmente — então eu precisava garantir que ele entendesse as circunstâncias que me levaram até ali. — Vem comigo — falei, mas não era um pedido. Agarrei a manga de seu casaco e o puxei em direção a porta lateral que só era usada por nós, funcionários, porque dava para um beco entre a sorveteria e o petshop. Empurrei a maçaneta, dando uma última olhada por cima do ombro para garantir que tia Syl não estava me vendo. Tomas me seguiu, obediente. O vento frio do começo da noite poderia me fazer tremer, mas naquele momento a adrenalina enchia minhas veias, fazendo com que arrastar um dos jogadores de hóquei do time da universidade não parecesse uma tarefa tão difícil. As luzes dos postes mais distantes mal chegavam ali, deixando o espaço envolto em sombras que dançavam nas paredes de tijolos desgastados. Um gato magro passou correndo por nós, desaparecendo na escuridão, e o barulho de um latido distante ecoou pela rua. Quase me senti como uma criminosa barra pesada prestes a ameaçar e coagir uma vítima. Exceto pelo fato de que minha vítima em questão tinha o triplo do meu tamanho. Parei quando a porta se fechou atrás de nós, finalmente soltando o casaco de Tomas que me olhava com aquele misto enlouquecedor de curiosidade e inocência, as sobrancelhas grossas franzidas enquanto esperava por alguma explicação. Ali, debaixo da luz fraca e longe dos olhares de Amber, Brittany e Carol me permiti olhá-lo mais de perto. O rosto de Tomas parecia esculpido com precisão, mas não de um jeito perfeito e impecável como os modelos que estampavam revistas. Havia algo mais cru e real, como as linhas de expressão sutis ao redor de seus olhos, que provavelmente ficavam mais evidentes quando ele ria ou sorria e pelo vinco ali, parecia que o jogador o fazia muito. A sombra de seus cílios longos criava pequenos pontos de luz e sombra em suas bochechas, algo que eu nunca havia notado até aquele momento. Seus ombros eram tão largos que faziam eu me sentir diminuta só de estar ao lado dele, a forma como o casaco se ajustava revelando a força latente por baixo do tecido. Quando ele respirava, o zíper de seu casaco se movia ligeiramente, seguindo o ritmo de seu peito largo. Tomas tinha uma energia serena, quase desarmante, algo que eu nunca percebi antes, talvez por estar ocupada demais tentando não me impressionar por ele. O detalhe mais curioso eram suas mãos. Eu não devia estar reparando nelas, devia estar convencendo-o a não abrir o bico sobre meu segredo, mas mesmo assim, me peguei fitando-o. Mãos de um jogador, sim, com calos que mostravam a prática e o trabalho duro, mas também mãos que pareciam fortes o suficiente para esmagar qualquer coisa se ele quisesse, mesmo que seu toque provavelmente fosse cuidadoso. O nó do dedão tinha uma pequena cicatriz, fina e quase imperceptível, o tipo de marca que só se notava se olhasse com muita atenção. Naquele momento, não importava o quanto eu quisesse manter minhas defesas; eu não podia negar que Tomas McKinley era impressionante. Não apenas pelo físico ou pela altura avassaladora, mas por aquela… aura que ele emanava. E sua tendência a fazer as perguntas erradas. — Então… aquela coisa sobre o pai embaixador… não é verdade? Eu sabia exatamente o que fazer se alguém um dia descobrisse sobre toda aquela cama de gata em que me enfiei. Mas se as pessoas a descobrirem fossem como Amber, Brittany e Carol, não como Tomas. Soltei um suspiro, sentindo o peso das mentiras apertarem meu peito. — Olha, McKinley — comecei tentando manter o tom firme apesar do nó na garganta —, todo mundo acredita na história da embaixada porque é mais fácil, porque faz sentido para eles. Mas a verdade... — minha voz quase falhou, mas eu me recuperei, encarando seus olhos escuros que brilhavam sob a luz fraca — ... a verdade é que a vida nem sempre é o que parece.E eu precisei fazer escolhas. — Então é mentira? Aparentemente, Tomas McKinley não era um homem de meias palavras. — Sim — suspirei. A confissão pairou entre nós e o peso dela me oprimiu mais do que eu imaginei que aconteceria. Quando pensava em ser desmascarada, acontecia diante de todas aquelas pessoas que eu sabia que eram tão fúteis e mesquinhas quanto eu. Mais até. Em comparação a elas, minha mentira não era tão terrível, era um mecanismo de defesa, mas diante de Tomas parecia… injusto. Minha vida era difícil, mas existiam coisas piores. Eu ainda tinha um teto sob a minha cabeça, pessoas como minhas tias para me apoiar, o vício do meu pai não o deixava agressivo e violento como poderia acontecer. Ainda conseguia frequentar a faculdade, podia me esforçar sem mentiras. A garota pobre mentindo por status. Era horrível. — Por que você faz isso? — seu tom me pegou de surpresa. Não havia indignação, raiva ou ironia como previ que poderia ter. Pelo contrário. Tomas parecia… preocupado? Cruzei os braços, virando de costas, sentindo a necessidade de criar uma barreira entre nós. Com o ódio eu podia lidar, mas com empatia, não. — Isso não é da sua conta. — resmunguei. — Tá, mas… você pode me dizer se alguma coisa ruim estiver acontecendo, se alguém estiver… sei lá. Te ameaçando ou uma maluquice dessas. — disse convicto, sem uma gota de dúvida em sua voz. Foi então que eu percebi. Fiz uma leitura errada sobre Tomas McKinley. O que julguei ser inocência, na verdade era outra coisa. Bondade. Tomas era bom no sentido mais primitivo da palavra. Ele não era ingênuo, nem estúpido por acreditar em mim. Ele era alguém que, apesar de todas as intrigas e fingimentos que corriam pelo campus, ainda escolhia se preocupar. Meu peito apertou, e eu odiei como essa constatação me abalou mais do que qualquer julgamento severo poderia ter feito. Era fácil ser cínica, ver todos como rivais ou oponentes em uma competição sem fim. Mas Tomas transmitia uma sinceridade tão genuína que quase me fazia desmoronar. Era diferente. Ele não estava tentando me pegar em uma mentira, não estava buscando falhas para me expor. Ele só queria saber se eu estava bem. — Não estou sendo ameaçada, não é nada assim. — Minha voz soou rouca, e eu engoli em seco. — Só… a vida às vezes é complicada. Mais do que você imagina. Ele ficou em silêncio por um momento, absorvendo minhas palavras sem pressa, me oferecendo algo que eu não esperava: compreensão. E isso me assustava mais do que qualquer acusação poderia. — Estou mentindo porque é Harvard, ok? — falei, me virando em sua direção apenas para ver seu rosto impassível — As pessoas precisam se destacar lá. Um sorriso irônico nasceu em seu rosto quando ele enfiou as mãos no bolso do jeans preto. — Acho que consigo compreender. — A parte que deu para entender do seu discurso mostrava que Tomas também estava tendo problemas em se encaixar. Aquela informação bagunçou algo dentro de mim. Se o cara que ficava preocupado comigo ao me ver trabalhando numa sorveteria apesar de eu mentir sobre ser filha de um embaixador, não se encaixava, quem era eu para me adequar? Uma mentirosa oportunista, tão alpinista social quanto o resto dos alunos bajuladores no curso de Ciências Políticas. — Você vai contar para todo mundo? — perguntei, apesar de prever sua resposta. Eu não o conhecia, mas sentia que sim. — Não, não vou, por que eu faria isso? — franziu o cenho, sem conseguir ver a lógica por trás daquilo. — Porque é a fofoca que vai te fazer ser o assunto do momento, nem Harvard é imune a isso. — Apontei o óbvio e assisti a bomba atômica cair em seu cérebro. As sobrancelhas de Tomas se ergueram, a constatação o atingindo, os detalhes que provavelmente nunca haviam passado por sua cabeça até agora. O assombro que passou por sua expressão me fez entrar em pânico. Merda! Não! Não! Não! Ele estava considerando a hipótese. Capítulo 07 | O carisma de uma porta (com todo respeito a porta) Voltei para mim mesmo quando senti uma dor lancinante no peito. Sabia que não devia ter seguido a garota para um beco escuro porque eu tomei um tiro. Olhei para baixo, esperando ver sangue e um buraco de bala, mas tudo que encontrei foi a mãozinha de Ellie Davis bem no meio do meu osso esterno o que me fez perceber que não fui vítima de uma bala perdida, mas dela. — Ai! — reclamei, dando um passo para trás e esfregando o lugar que ela socou. Meu Deus, como alguém tão menor que eu podia ser tão forte? Era calejado de todas as vezes que eu e meus irmãos caímos na porrada, mas aquilo era inesperado. E com certeza bem mais doloroso do que as chaves de braço de Holden. — Não pense nisso! — Ellie ameaçou, o cenho franzido, o punho ainda no ar como se estivesse se preparando para me dar outro soco. Definitivamente muito mais assustadora do que os meus irmãos. E meio sexy também… Esfreguei meu peito dolorido, provavelmente ela tinha quebrado algum osso e ele tinha ido se alojar no cérebro, me causando um desarranjo mental que fazia uma garota me ameaçar e eu achar sensual. — Eu não estava pensando em contar! Mentira, eu estava sim. Apesar de não querer pensar. — Isso não é verdade — ela cruzou os braços, parecendo dolorosamente traída. — Foi você quem sugeriu que eu contasse — contrariei, tentando me defender. Não gostei nada do fato de que ela estava chateada. O que nem fazia sentido já que foi ela quem me deu um soco. Nem queria saber o que aconteceria se ela conseguisse alcançar meu nariz. — E você cogitou! — acusou, os olhos castanhos faiscando de raiva, como se eu tivesse cometido o pior dos crimes. Ela tinha aquele jeito intenso, que deixava claro que cada palavra carregada de teimosia. Era muito mais forte — sem trocadilhos — do que sua postura altiva no clube de debates. Ali, me acusando, Ellie parecia mais… real? Ela não estava errada, mas nem totalmente certa. Não queria ser um delator, ainda mais um que dedurava Ellie Davis de todas as pessoas. Crescer sendo quadrigêmeo me ensinou muito sobre lealdade porque, na maior parte do tempo, eu tinha um irmão para acobertar de alguma besteira e vice versa. O troféu de melhor jogador, comprado em um leilão exclusivo do meu pai que o diga. Eu ergui as mãos em um gesto de rendição, ainda massageando o ponto onde seu soco havia me atingido. Quem diria que uma garota aparentemente tão pequena poderia ser tão forte? — Tá bom, tá bom! Eu cogitei, mas foi por um segundo! — admiti, porque mentir parecia inútil. Ela tinha um olhar que parecia atravessar as pessoas, como se pudesse ver direto através de qualquer fachada. — Não é como se eu fosse realmente fazer isso! Ellie estreitou os olhos, desconfiada, e ficou na ponta dos pés, tentando me encarar de igual para igual. Hilário. E de novo, um pouco assustador. Se a garota quisesse ser advogada como os boatos diziam, ela seria ótima naquilo. — Você não entende — ela disse, sua voz ainda severa. — Isso é mais do que só uma mentira. É... é minha vida. E eu não posso arriscar. Não havia nenhuma fraqueza ali, apesar da clara admissão de vulnerabilidade. Ellie não estava protegendo uma farsa caprichosa; estava protegendo a si mesma. — Nunca quis invadir seu espaço, nem teria vindo para cá se soubesse… — Suspirei, coçando a têmpora, me sentindo meio idiota. — Não percebi que estava vindo para Norwich até estar aqui. Peguei a moto e sai dirigindo meio sem rumo. A garota continuou em silêncio, os braços cruzados e o queixo levemente erguido, até deixar escapar as palavras que parecia tentar conter: — O que aconteceu? — Percebi que não vai dar certo — admiti. Ellie, mesmo que sem querer, havia me dado uma parte da vida dela, nada mais justo que eu também fizesse uma confissão. Mas era mais que isso, algo em seu jeito protetor, me compeliu a falar. — Tentar me destacar, parecer um rosto comercial para as marcas patrocinadoras dos times não vai adiantar. — Olha, com todo respeito, você parece um rosto bem comercial para mim — apontou com o queixo em minha direção e senti minhas bochechasesquentarem para o comentário feito tão sem malícia. Não pareceu grande coisa para Ellie, mas para mim… meu coração ainda pulsava descontrolado quando tentei contornar a situação. — É mais do que isso, preciso movimentar minha imagem, os times de hóquei não são mais só talento, tem que ter carisma e eu… — minha voz morreu, mas a garota completou. Sem nenhuma pena. — Tem a presença de uma porta — falou indiferente, pacífica, sem nenhuma intenção de machucar. Era melhor ter levado um tiro. — Isso ofende, sabia? — perguntei, meio magoado, apesar de ter que admitir que era engraçado. Tirando a clara humilhação, era divertido ouvir aquela Ellie Davis, sem edição, os pequenos cortes conscientes para ser uma garota típica de Harvard. — Você queria sinceridade, certo? — retrucou, o olhar afiado, apesar de sereno. — Sincera como a filha de um embaixador. — Ela desviou o olhar, mordendo o lábio inferior e eu imediatamente me arrependi de falar aquilo. Eu era um idiota mesmo. Podia apostar que lendas como Connor Parker não saiam por aí dizendo coisas ridículas assim para garotas. Era por isso que ele fechava contratos milionários e eu não. No entanto, para minha surpresa, Ellie deixou escapar uma risadinha. O que deveria me fazer sentir um perdedor por ter uma garota bonita rindo de mim. Mas a sensação era justamente o oposto. Sua risada era leve, como o toque de uma brisa inesperada em um dia quente, e por um momento, me perguntei se eu tinha tropeçado em algum tipo de mágica. Ellie balançou a cabeça, ainda sorrindo, e me lançou um olhar que parecia menos crítico, mais humano. Nunca tinha a visto mais bonita do que naquele momento, usando um uniforme brega de sorveteria e meio encolhida por causa do frio. Ela não era a Ellie Davis que andava pelo campus de Harvard com passos firmes, a cabeça erguida, vestida em blazers impecáveis e sapatos elegantes, exalando uma confiança quase inacessível. A Ellie que todos conheciam parecia esculpida pelo ambiente perfeito de Harvard, cada detalhe meticulosamente ajustado para se encaixar no molde da garota brilhante, suposta filha de um embaixador, integrante de comitês importantes, vencedora dos clubes de debate. A Ellie sem uma única aresta desalinhada. Mas ali era diferente. Usando o uniforme brega de sorveteria que fazia Ellie parecer quase pequena, o vento frio fazia com que ela encolhesse os ombros, o vento soltando algumas mechas do cabelo cacheado. Seus olhos castanhos, sempre tão expressivos, tinham um brilho mais suave sob a iluminação da rua, e as sardas sutis que o sol deixava na ponta de seu nariz eram mais visíveis. Eu gostava mais dessa versão dela. A Ellie sem filtros, com o riso sincero escapando sem controle e a perfeição cuidadosamente moldada um pouco desfeita. Enquanto eu a analisava como um idiota, sua expressão se fechou, tornando-se obstinada, como se calculasse alguma equação difícil na sua cabeça. Mordeu o lábio inferior, e seus olhos voltaram a brilhar com uma determinação que eu conhecia bem. Era o mesmo olhar que ela usava para encarar um adversário em um debate, medindo o próximo movimento, formulando uma resposta impossível de refutar. — O que foi? — perguntei, tentando ignorar o nervosismo crescente no meu estômago. Até onde eu sabia, ela podia me dar mais um soco. — Sabe o que ajudaria a sua presença? Estar perto de alguém popular. — Sussurrou. — Não com seus irmãos, com as pessoas se esforçando para lembrar quem é quem, mas… com alguém de fora. Ela me lançou um olhar afiado, como se estivesse esperando que eu captasse sua sugestão imediatamente. — O que você quer dizer? — Minha voz saiu quase como um sussurro, sem confiança, e me xinguei mentalmente por soar tão ridículo. — Não acredito que estou prestes a sugerir isso, mas se você não contar que eu trabalho aqui eu posso… fingir ser sua namorada. — Espera, o quê? — Talvez estivesse com problema de audição. Ela deu uma risadinha baixa, nervosa, e pareceu se divertir com a própria proposta. — Isso mesmo. Um namoro falso. Uma jogada clássica para melhorar sua imagem. — disse como se aquilo fosse um conceito fechado. “Namoro falso”, isso nem existia. Quem em sã consciência tinha uma ideia daquelas? Dei a única resposta que poderia. — Não… obrigado. — O quê?! — aquilo pareceu pegar a rainha dos debates de surpresa. Foi a minha vez de erguer o queixo, metido. — Eu prefiro ficar conhecido por contar a fofoca do século no campus de Harvard. — Dei de ombros convencido, esperando que ela gostasse da revanche por comparar meu carisma ao de uma porta. No entanto, tinha que aprender logo que Ellie Davis era muito mais rápida no gatilho do que eu. — É, porque isso vai realmente te ajudar a brilhar, não é? — Ela cruzou os braços, uma mistura de incredulidade e diversão no olhar. — Olha, eu sei que a ideia parece maluca, mas pensa bem. Ser “Tomas, o namorado da Ellie” é muito mais interessante do que ser “Tomas, o cara que sempre está na sombra dos irmãos quadrigêmeos”. Foi minha vez de fuzilá-la com o olhar. — Você é má, Ellie Davis — apontei o óbvio. Ela sorriu daquele jeito verdadeiro, natural. — Não me teste, Tomas McKinley — meu nome nos lábios dela pareceu especial, como se eu tivesse acabado de ganhar um título que nem sabia que queria. Eu hesitei, a atmosfera entre nós agora carregada de um tipo de tensão que nunca havia experimentado antes. Namoro falso… coisinha mais esquisita. — E se der errado? — insisti, embora uma parte de mim já estivesse pensando em como isso poderia funcionar. — E se der certo? — ela repetiu, jocosa, sua expressão determinada. — Olha, não estou dizendo que vai ser fácil. Pode ser um desafio, mas você não tem nada a perder. E eu também. Vamos encarar como uma experiência. De repente uma picada dolorosa tomou meu peito — e dessa vez não tinha nada a ver com o fato de que ela provavelmente quebrou minhas costelas. Era culpa. — Você não precisa fazer isso… eu não vou contar para ninguém. — Prometi, não gostando da ideia de Ellie se sujeitar a algo estúpido como fingir ser minha namorada por medo. Se ela quisesse, na segunda-feira voltaríamos a ser como éramos: dois desconhecidos. — Sei que não contaria. — disse unicamente. — Então… por quê? Ellie suspirou, olhando de novo para longe, fitando o fim do beco atrás de mim. — Porque eu sou boa demais em fingir, Tomas. Não podia imaginar qual era o verdadeiro peso daquelas palavras para Ellie. — Vai topar ou não? — perguntou. Aparentemente só tinha uma resposta para aquela questão. — Trato feito. Capítulo 08 | É como se uma chaleira dissesse: ei, estou em um fake dating A parte ruim de entrar em um fake dating desavisado era ter que contar para suas amigas. Não sabia onde estava com a cabeça quando fiz aquela sugestão maluca para Tomas McKinley. Era uma mistura de medo — afinal de contas, ele podia abrir o bico — e algo que eu ainda não sabia identificar. Pena? Duvidava. Não tinha muita dó de caras brancos, ricos e milionários. Empatia? Minha boa ação do ano depois de meses de uma mentira deslavada? Ainda não tinha certeza da motivação, mas fato era que na segunda- feira, querendo ou não, as coisas mudariam entre nós. Trocamos números rapidamente ali no beco, Tomas saiu sem fazer um pedido e minhas tias não repararam quando voltei para dentro, pronta para limpar o resto da sorveteria. Voltei para casa com a mente ainda presa naquele acordo maluco, no entanto, quando cheguei, não achei meu pai em lugar algum, o que só podia significar que ele estava em algum bar da cidade, bebendo o mundo em forma de uísque e cerveja. Aquela constatação me tirou um pouco do conto de fadas da Disney que era fingir ser namorada de um jogador de hóquei. A realidade me atingiu com força. Joguei a mochila no sofá rasgado da sala, sentindo o peso familiar da decepção. A casa estava quieta demais, como sempre ficava quando ele sumia. E mesmo que eu quisesse negar, a preocupação me corroía por dentro. Respirei fundo e esfreguei as mãos no rosto. Não tinha tempo para sentimentoscomplicados agora. Eu tinha responsabilidades, segredos para guardar e um acordo com um cara que não fazia ideia da bagunça que era minha vida fora do campus. Naquele momento, tomei uma decisão. A farsa com Tomas McKinley teria data de validade. Um mês. E logo eu me concentraria totalmente no que importava de verdade: o foco nos meus estudos. Direito em Harvard era a única forma de unir todas as partes confusas da minha vida. Não era apenas uma questão de prestígio; era sobre propósito, sobre dar significado a tudo que a minha família havia perdido. Desde o dia em que o juiz absolveu o motorista responsável pelo acidente que tirou a vida da minha mãe — porque o assassino podia pagar pelos melhores advogados, enquanto nós só podíamos chorar pela perda —, eu soube que queria fazer algo diferente. Queria lutar por famílias como a minha, aquelas que não tinham o privilégio de um sistema de justiça que funcionasse a seu favor. Cada aula, cada tema que eu estudava me aproximava dessa missão. Se me formar em Harvard significava ter as ferramentas para enfrentar de frente os injustos, então eu iria até o fim. E, ao mesmo tempo, eu precisava garantir que meu pai, cuja vida se afundava cada vez mais nas garrafas de uísque, tivesse uma chance de cura e dignidade. Ele não era apenas o homem quebrado que eu via todos os finais de semana; era meu pai, alguém que a dor consumiu, mas que eu ainda acreditava ser capaz de ser salvo. Ser uma boa advogada não era apenas um sonho ambicioso, era a única forma que eu via para reescrever nossa história. Por isso, só teria um mês para viver aquela maluquice. E precisava começar acionando minha rede de apoio da mentira. Não me importei quando Roxy sugeriu que nossa primeira reunião da leitura coletiva fosse naquele domingo, em uma das salas de leitura aquecidas da biblioteca Widener. Preferia ficar o fim de semana inteiro em casa, mas quando meu pai chegou às cinco da manhã trôpego e resmungando coisas sem sentido, sabia que permanecer em casa era tempo perdido. Minhas tias me liberaram e voltei para o campus, tomando cuidado em pegar o primeiro ônibus, sem deixar ninguém me ver. Meu último ato em casa foi pegar a cópia da minha mãe de Crepúsculo na estante empoeirada. — Oi, Ellie! — Roxy me cumprimentou, tirando os óculos escuros em formato de gatinho do rosto, quando entrou na sala. A nossa it girl estava vestida de maneira única: um suéter cinza claro, oversized, com as mangas cobrindo suas mãos, e um cachecol multicolorido de lã quadriculado, que adicionava um toque vibrante ao visual. Ela usava calças jeans de corte reto e sapatos baixos bege, que equilibravam o conjunto. Em comparação, meu tricô cinza e a calça de alfaiataria preta pareciam muito sem graça, mas essa era Roxy. — Oi! — me levantei para cumprimentá-la com um beijo na bochecha. As salas de leitura eram aquecidas e disputadas a tapas pelos estudantes durante a semana no inverno, mas aos fins de semana podíamos escolher onde ficaríamos. O ambiente era aconchegante, com grandes janelas que deixavam entrar a luz suave do sol, iluminando as estantes repletas de livros clássicos e contemporâneos. As mesas de madeira escura, polidas pelo uso, eram cercadas por cadeiras confortáveis, algumas com estofados em tons de verde e azul, que convidavam a longas horas de leitura. O lugar perfeito para falar sobre vampiros que brilhavam. E fake dating da vida real. Roxy se sentou ao meu lado por apenas um segundo antes de Priya e Maddison entrarem juntas, rindo em uma conversa amena vestindo seus casacos pesados. As duas não seriam o que um olhar desatento chamaria de uma dupla simpática. Ex-atletas de alta performance em seus respectivos esportes, frustradas por motivos diferentes e hiper focadas. Se eu cresci tendo como meta Harvard, elas nasceram para os altos dos pódios, forjadas em condições físicas e mentais muito mais extremas do que as minhas. Podia imaginar que tipo de sacrifício as duas tiveram que fazer, abdicando de suas vidas sociais, e até mesmo de momentos familiares para se dedicarem inteiramente aos treinos e competições. Todo mundo tinha frases motivacionais para garotas batalhadoras, “corra atrás de seus sonhos”, “não desista nunca”, mas ninguém contava de todas as renúncias que aconteciam conosco. Mas, pelo menos, tínhamos o Clube. E umas às outras. — Ei, meninas! — chamei, enquanto elas se aproximavam de nós. — Desculpa o atraso! A fila no café estava enorme — explicou Maddy, segurando um copo de café fumegante. Para ela, o dia só começava depois de sua dose de cafeína. E o meu iniciaria quando eu contasse a novidade para elas. Respirei fundo, tentando conter o nervosismo. Não haviam formas muito saudáveis de dizer “estou em um namoro falso” para três das suas melhores amigas — que provavelmente eram suas únicas amigas de verdade. — Vocês conseguiram chegar até o capítulo doze? — Priya se sentou ao lado de Roxy quando formamos um meio círculo ao redor de uma pequena mesa de estudos. — Li tudo ontem à noite e… — Maddy riu, tirando seu 2 da bolsa, alheia a verdadeira confusão que estava acontecendo na minha cabeça. Me sentia como uma chaleira fervendo no fogão, apesar de saber que precisava ir com calma e… — Estou namorando — explodi. Três cabeças chicotearam em minha direção. — Oi? — O quê? — Tá falando sério? Engoli seco, finalmente me encostando na poltrona, percebendo que eu estava dura e reta como um pedaço de pau. Geralmente eu era muito boa sobre pressão, era fácil entrar no personagem da debatedora calma e articulada. A máscara era quase uma segunda natureza para mim, tão simples de entrar quanto de sair. Contanto que não fosse com pessoas que eu amava e confiava. Uma coisa era tentar convencer uma multidão a concordar comigo em um debate acalorado, outra muito diferente era tentar fazer minhas amigas acreditarem em uma mentira idiota. E eu não faria isso. — É um namoro... complicado — continuei tentando usar o tom certo, como se a história fizesse algum sentido. — É meio que... falso. A última palavra saiu embolada, sem dicção, o que não era nada do meu feitio. Roxy franziu o cenho confusa como se eu tivesse começado a falar grego. — Desculpe, Ellie, mas eu não entendi. Nem eu entendia, para falar a verdade. Um namoro falso com Tomas McKinley pareceu muito mais fácil de explicar no beco do lado da sorveteria. De volta a Harvard, minha proposta para mantê-lo calado se tornava mais e mais estúpida a cada segundo. — Um namoro falso — suspirei por fim, mas foi a vez de Maddison parecer confusa. — Não tem isso em Crepúsculo — constatou e eu afundei ainda mais na cadeira, querendo desaparecer. Claro que elas julgariam que eu estava falando de um livro. Quem em sã consciência aceitaria ser namorada de mentira de um jogador de hóquei? Só alguém muito idiota. Mais especificamente, eu. — O meu namoro… é falso — falei. Silêncio. O tipo de silêncio que fazia o ar parecer denso quando suas amigas não querem te julgar, mas elas meio que precisam. — Ah, não! — Roxy sussurrou, sua expressão era uma mistura de surpresa e diversão. — Você não pode simplesmente jogar isso na nossa cara assim! Como assim falso? Com quem? Essa era a parte complicada. Sabia que Maddy, Roxy e Priya não eram nada como Amber, Brittany e Carol. Minhas amigas não eram mesquinhas e fúteis, viam mais do que só a casca tão valorizada em Harvard, mas mesmo assim, não queria que elas julgassem Tomas. Ou me julgassem. Pensando bem, era melhor que elas julgassem ele. — Começa do começo — Priya sugeriu, apreensiva. — Ontem à tarde, eu estava trabalhando na sorveteria — comecei em tom baixo, apesar de sermos só nós quatro na sala, sabia que as paredes tinham ouvidos — e alguém do campus aparece na Sonhos Gelados. As três congelaram ao mesmo tempo. Sabiam quais eram as implicações da minha mentira ser exposta assim. — Ele é um dos quadrigêmeos, os irmãos Tesão — não precisava de muito mais do que aquilo para explicar de quem se tratava. — Ele tem outros três irmãos e, aparentemente,isso é um problema. — Ter outros três irmãos é a definição de ser quadrigêmeo — Roxy disse, o cenho franzido, sem saber que o buraco era mais embaixo. — Cite o nome dos quatro — pedi e ela bufou, cruzando as pernas na poltrona e erguendo os dedos para enumerar. — Holden, Tyler, Travis e… — a ruga no meio da sua testa só aumentou. — Não lembro o nome do quarto. — Confessou, parecendo afetada. Meu coração se apertou um pouco. Tomas não estava mentindo quando disse que precisava se destacar. Para ser sincera, eu mesma sabia que eles eram quatro e podia nomear três deles — apesar de não saber apontar quem era quem —, mas não conseguia dizer com confiança o nome do quarto. De repente, ele parecer tão perdido fazia sentido. — Esse é o meu ponto. — É o Tomas — Maddy interveio, ainda parecendo confusa — Ele é legal, só é meio… na dele. Maddison não era a garota mais sociável na terra. Pelo que eu sabia, nós éramos suas amigas mais próximas e, fora do Clube do Livro Hot, Tyler McKinley era seu laço mais forte. O fato de os dois serem unha e carne e mesmo assim a garota não saber muito sobre Tomas não me surpreendia. Haviam quatro deles por aí e a ex-patinadora era ocupada demais para algo além das pessoas que realmente importavam para ela. Apesar de eu não entender o motivo pelo qual ela escolheria Tyler ao invés de Tomas. — Ele apareceu na sorveteria e percebeu que eu obviamente não estava fazendo um estágio numa embaixada, uma coisa levou a outra e eu… soquei o peito dele e depois sugeri que ele fosse meu namorado de mentira — Você deu um soco em um jogador de hóquei e em seguida se ofereceu para um fake dating — Priya tentou sumarizar os fatos, mas em sua voz não parecia fazer muito sentido. — Quando você coloca assim, parece loucura. — Acusei e a garota revirou os olhos. — Ele te ameaçou ou algo assim? Porque se tiver feito isso, Tyler vai… — Maddy começou a dizer, séria, mas a cortei. — Não, claro que não — parecia muito errado deixar que elas pensassem que Tomas fez algo além de ser um perfeito cavalheiro e se deixar levar um soco bem no meio do peito. — Sugeri porque vai ajudá-lo a ficar de bico calado se eu oferecer algo em troca. O treinador disse que se ele não começar a se destacar… socialmente tem chances de nenhum time querer draftá-lo no final da temporada. Minha mãe acompanhava hóquei religiosamente antes de falecer. Esse não era um hobby que tínhamos juntas porque nunca me interessei sobre o assunto, mas sabia o quanto o draft era sério, a oportunidade de os jogadores irem para os grandes times. No entanto, fiquei calada sobre a única pergunta que eu não saberia responder: por que aquilo era da minha conta? — Meu pai falou isso? — Roxy perguntou, quase assustada. — Não estou muito por dentro do mundinho hóquei, mas parece que essas contratações estão cada dia mais difíceis. Apesar de ser uma nepobaby do esporte, minha amiga estava do meu lado sobre não querer se envolver muito com as temporadas no gelo. — Então você vai ajudá-lo a se tornar mais popular? — Maddy resumiu a ópera com um sorrisinho — Tipo o básico do fake dating em comédias românticas? Para minha surpresa, as três deram risadinhas safadas. O quê? Não era esse tipo de relacionamento falso! — É o oposto disso — contrariei, mas o trio continuou com aquelas expressões debochadas. — Estou vivendo mais um experimento antropológico, como uma futura advogada tendo uma experiência… num centro de reabilitação juvenil. Fazia todo o sentido. Mas só fez as três rirem mais. Amber, Brittany e Carol podiam ser muito chatas, mas a essa altura já teriam entrado em uma discussão sobre qual marca de grife tinha maior impacto social. E às vezes essa mudança de tema era um mal necessário. Apesar de que a ideia de contar para elas sobre meu suposto namoro me dava arrepios. Sabia a opinião delas sobre Tomas e aquilo não me agradava em nada. — E Tom está sendo reabilitado do que exatamente? — Maddy provocou jogando o cabelo ruivo pelos ombros, seu sorriso só aumentando. Aquela era uma resposta fácil. — De ser um espanta bocetas — brinquei, apesar de haver uma mentira naquela piada. Eu não me sentia nada repelida por Tomas McKinley, pelo contrário. Comprimi os lábios antes que acabassem fazendo aquela confissão também. Era fácil demais falar quando estava com aquelas três. Um silêncio confortável caiu sobre nós à medida que as nossas risadas cessaram. Delicadamente, Priya se inclinou um pouquinho em minha direção, os olhos gentis quando fez a pergunta que sempre acontecia no começo das nossas reuniões do Clube das Safadas Leitoras. — Como o seu pai está, Ellie? — Maddy e Roxy se voltaram para mim, a mesma delicadeza que havia em Priya passou para as outras duas. Não era só o gosto por livros que nos unia. A perda também era algo que todas nós tínhamos em comum e lidávamos diariamente com as consequências dela. Talvez por isso nos déssemos tão bem. Garotas quebradas encontravam outras garotas quebradas e se remendavam juntas. — É o de sempre — dei de ombros tentando não parecer afetada, mas com certeza falhando — minhas tias estão segurando a barra, mas não posso dizer que ele está melhorando. — Tinha medo de admitir em voz alta que era muito mais ao contrário. Meu pai piorava. — Me sinto culpada por não estar perto para ajudar. Roxy puxou a poltrona um pouco mais para perto, enquanto Maddy se inclinou em minha direção, deixando que seus olhos verdes me mostrassem toda a verdade em suas palavras. — Ellie, você não pode se culpar por isso — Maddy disse suavemente. — Talvez se eu ficasse em Norwich, pudesse estar de olho nele. — Cruzei os braços, olhando para a dobra interna do meu cotovelo, com medo de ouvir ambas as respostas, que eu estava certa ou errada. Porque se ficar fosse a opção, como eu poderia deixar minha vida para trás? E se continuar em Harvard era a resposta, o que ajudaria meu pai? Nenhuma das duas hipóteses era fácil. — Ele é um adulto, Ellie — Roxy lembrou. — Um adulto com um vício — ao longo do tempo, percebi que as duas coisas pareciam se anular. A bebida transformava meu pai em alguém que era ao mesmo tempo autônomo o suficiente para alimentar o alcoolismo, e ainda assim dependente do cuidado de outras pessoas. — E você não pode carregar esse peso sozinha — Priya interveio, suas palavras cheias de compaixão quando esticou a mão para tirar a mecha de cabelo solta diante do meu rosto e prendê-la atrás da minha orelha. Em um gesto muito delicado, Roxy deitou a cabeça no meu ombro, me fazendo sorrir, agradecida pelo contato. — Sabe o que te deixaria feliz? — Maddy perguntou, dando um sorrisinho, erguendo seu kindle. — Discutir o capítulo um de Crepúsculo. — A garota indo morar com seu pai nada bêbado — brinquei de leve, irônica, fazendo elas rirem, voltando às suas posições originais, a acidez quebrando o clima. — E sem um namorado falso — Priya provocou e eu revirei os olhos. Não havia nada mágico como vampiros brilhando no acordo que firmei com Tomas, era mais como… negócios. E eu era uma expert na arte da mentira. Capítulo 09 | Aquilo é uma agente da CIA disfarçada? Não, é só minha namorada falsa O primeiro passo era o de reconhecimento do território. Digitei o nome Tomas McKinley na barra de pesquisa do Instagram. Obtive como resposta seis perfis, dos quais só um tinha foto de perfil, uma imagem de corpo inteiro de alguém usando uniforme vermelho no meio de um ringue de patinação, erguendo o taco de hóquei nas mãos. Cliquei em mckinleytomas10 e, para minha surpresa, o perfil era aberto, com poucos seguidores e mais de mil contas seguidas. Deitei na cama do meu quarto no dormitório, já usando pijama quentinho para compensar a queda de temperatura a noite e de banho tomado. Geralmente, usava esses momentos antes de dormir para revisar um pouco dos conteúdos que tinham sido aplicados durante a semana ou para estudar a história do país que eu representaria na simulação da ONU, no entanto as coisas tinham mudado. Aceitei uma proposta de namoro falso com um jogador de hóqueinada expressivo no time e isso teria consequências na minha própria reputação, algo que não podia sair do meu controle. Tinha que me preparar para o namoro falso com Tomas como treinava para os debates. E pelo visto, o trabalho seria longo. — Foto na porta do cinema para assistir Vingadores, foto de um tabuleiro de RPG, foto de uma vitória em uma partida de League of Legends — comecei a nomear, sozinha, cada uma das pequenas coisas que passavam enquanto eu rolava. Ele não conhecia o conceito de story? Precisava postar tudo no feed? Nada bom. Tomas McKinley tinha a personalidade de um nerdola estampada em cada detalhe do seu feed. Era um contraste gritante com o estereótipo de jogador popular e charmoso que todos esperavam. Se íamos convencer o campus de que estávamos namorando, precisávamos de uma reformulação urgente. Eu teria que transformar aquela imagem sem vida em algo que as pessoas notassem, no melhor sentido possível. Como alguém que sabia que a tecnologia era a maior aliada das pessoas, também entendia que as redes sociais não eram mais espaço de compartilhar coisas bobas sobre si mesmo, mas de montar cuidadosamente uma estética. Amber, Brittany e Carol, posavam para fotos em seus modelitos mais sociais, escreviam legendas grandes e vez ou outra, posts que mostravam sua posição no mundo. Quem as tivesse numa entrevista de emprego, veria as visitas ao museu do Holocausto, o incentivo ao voto nas eleições e os discursos apaixonados sobre causas sociais que reforçavam a imagem de jovens conscientes e engajadas. Era uma estratégia bem pensada, uma espécie de branding pessoal que mostrava ao mundo — ou, pelo menos, à bolha universitária — que elas eram mais do que estudantes; eram influenciadoras de opinião, líderes em potencial. Tomas, por outro lado, ainda tratava seu perfil como um diário despretensioso, cheio de referências nerds e conquistas de videogame que só importavam para seu círculo restrito de amigos. Era muito mais orgânico, parecia até… divertido. O rapaz sorria largo ao lado da estrela na calçada da fama de Stan Lee, olhos brilhando na Comic Con, uma careta animada ao lado de um PS5 novinho em folha. Eu mesma tomava cuidado com o que postava. Minha própria conta era um reflexo calculado da imagem que eu queria projetar: sorrisos ensaiados, momentos de estudos, eventos importantes, e sempre uma legenda cuidadosamente redigida que mostrava equilíbrio entre ambição e responsabilidade social. Podia ser uma idealista, mas ainda seria uma advogada formada em Harvard. Minhas tias e o meu pai não tinham Instagram então não seguia mais nenhum Davis e tomava cuidado para não postar fotos deles. Pelo bem da mentira, omitia as visitas a Norwich, meu emprego de verdade ou a casa para onde retornava no final do semestre. Era com certeza bem menos feliz que o perfil de Tomas. No entanto, para a nossa farsa funcionar, teríamos que jogar conforme as regras: criar uma narrativa que as pessoas comprassem e admirassem, que fizessem garotinhos pelos Estados Unidos afora quererem tê-lo como ídolo, que as marias patins o cobiçassem. — E, para começar, nada de foto vestido de Batman no dia das bruxas — falei para mim mesma franzindo o cenho para a foto de 2019 e percebendo que, pelo amor de Deus, não havia nenhuma decoração de Halloween atrás dele. Era melhor que Tomas não fosse um desses caras que se fantasiava de herói e saia por aí nos dias normais querendo bancar o Robert Pattinson da cidade. Apesar de estar me contorcendo um pouco de vergonha alheia, era interessante ver como ele era quando era mais novo, antes da faculdade. Estranho perceber que Tomas se manteve basicamente o mesmo cara do ensino médio. Só mais alto e mais forte. Muito mais forte. Na maioria das fotos, ele posava ao lado de um dos irmãos, não tinha muitos outros amigos. Esse detalhe me pegou de surpresa. Era fácil esquecer que, por trás da fachada de jogador de hóquei universitário, Tomas ainda carregava as marcas de um garoto que talvez nunca tivesse se sentido parte de algo maior. Devia ser doloroso ver que seus irmãos, que pareciam ser seu porto seguro, não eram mais um espelho para refletir. Tomas precisava ser visto como alguém que podia andar com confiança com as próprias pernas, sem a sombra do milagre dos McKinley. E, de preferência, parar de postar tudo. Era a terceira caixa de cereal Froot Loops que aparecia em seu perfil. Já tinha chegado em 2018 na máquina do tempo de Tomas McKinley quando parei em uma foto dele bem mais novo, ao lado dos três irmãos e com uma mulher pequena e sorridente junto deles. Ela usava um lenço amarelo na cabeça, sua pele era pálida apesar da expressão de felicidade genuína. Os McKinley posavam ao lado de um sino no que deveria ser em um hospital, a legenda era: “hoje mamãe venceu o câncer”. Aquela imagem me pegou de jeito, um soco inesperado no estômago. A alegria nos rostos dos quatro meninos, todos abraçados ao redor da mãe, era tão palpável quanto a luta que tinham enfrentado. Era um raro vislumbre de vulnerabilidade, um momento que explicava, em parte, por que a família McKinley era tão unida. Aquela era uma batalha que tinham vencido juntos, e cada sorriso naquela foto carregava o peso de um alívio que poucos poderiam entender. De repente, os hábitos simples de Tomas — suas postagens sobre cereais coloridos e as pequenas vitórias nerds — fizeram mais sentido. Talvez ele estivesse sempre tentando encontrar alegria nas coisas mais mundanas porque sabia como era perder, como era ver a vida de alguém que ama por um fio. Você não precisava se destacar quando tinha tanta gratidão pela vida, pelas coisas simples. Bloqueei a tela do celular, me virando na cama, encarando meus posters de decoração. As fotos de Louis Tomlinson, as frases de efeito em imagens preto e branco, as pequenas polaroides que tirei no último verão com minha mãe viva. Eu nunca postaria nada daquilo no Instagram e mesmo assim, cada uma daquelas coisas me fazia muito feliz. Suspirei, sentindo um nó se formar na garganta. Talvez isso explicasse o motivo pelo qual, mesmo sabendo o quanto era arriscado, eu tinha aceitado o acordo com Tomas. Havia algo de intrigante nele, algo que despertava em mim um misto de curiosidade e… inveja? Mas também havia o compromisso: eu tinha prometido ajudar o McKinley a se transformar porque no final das contas, performar era a melhor escolha para ele. Era a melhor escolha para mim. Rolei o perfil de volta até o topo e cliquei no pequeno ícone azul de “seguir” e apertei o botão de mensagem. Ellie: “Me encontra amanhã na biblioteca?” Só demorou alguns segundos antes da resposta aparecer. Tomas: OMG! Tomas: Alguém famoso está me seguindo Revirei os olhos, sentindo meu coração martelar mais rápido enquanto tentava conter um sorriso. Que homem hétero usava OMG? Aparentemente, Tomas McKinley, o idiota genuíno e bobo. Tomas: Claro. Que horas? Ellie: “Sete” Antes das aulas, com tempo o suficiente para que ninguém me visse zanzando por aí ao lado dele antes que eu pudesse repagina-lo. Tomas: Combinado Bloqueei a tela do celular, me impedindo de começar alguma outra conversa, bater papo, porque descobrir mais sobre ele não me ajudaria na empreitada de transformá-lo no golden boy do campus. Não podia cair no erro de gostar das características que eu mesma precisaria lapidar para criar um Frankenstein que era metade playboy de Harvard, metade astro do gelo. Fechei os olhos, suspirando. Eu tinha que focar. Eu era boa no que fazia. Eu sabia como manipular imagens, como moldar a percepção das pessoas. E Tomas precisava ser moldado. Ele precisaria deixar de ser o cara fofo e desajeitado e se transformar no astro confiante que todos esperavam. E, para isso, eu estava disposta a me arriscar. Afinal de contas, era meu próprio segredo que estava em jogo. Acordei antes das seis, ansioso para o que quer que Ellie Davis queria comigo na biblioteca. Nossa conversa no beco da sorveteria ainda não parecia muito real. A sugestão de um namoro de mentira era inusitada demaispara que fizesse qualquer sentido. Não admitiria em voz alta, mas, assim que cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi procurar por “namoro falso” na internet. O fiz escondido, quase como um adolescente procurando pornografia, mas o que eu achei foi bizarro. Alguns artigos especulando se famosos como Luna Blackwood e Zad Coefild namoraram por uma jogada de relações públicas — o que achei por si só uma maluquice — e outras fofocas de tabloides insinuando sobre a sexualidade de atores que tinham namoros e casamentos de fachada. Mas o que mais me impressionou foram as dezenas e mais dezenas de… livros. Fui sugado para um universo novo. Havia romances inteiros sobre isso, histórias de jovens que entravam em acordos improváveis, mas que, no fim, acabavam vendo seus sentimentos mudarem à medida que o tempo passava. Não era só um negócio de ficar perto do outro por razões estratégicas — como era entre Ellie e eu — os artigos estavam cheios de referências a “falsos sentimentos que se tornam reais” e “a transformação de um contrato em amor verdadeiro”. Eu parei de rolar a página quando vi um título específico: Como transformar um namoro falso em uma história real de amor. Fechei o notebook imediatamente, sentindo o coração disparar no peito. Não era disso que eu estava atrás. Óbvio que não. A mera ideia disso fazia meu peito doer e nem estava falando de sentimentos, estava falando do soco que Ellie me deu. Se eu sabia o que era melhor para mim, me manteria estritamente profissional. Não importava o quanto ela era bonita, inteligente, carismática, divertida ou… era melhor não fazer listas. Não estaria acontecendo nada na vida real. Fui dormir com isso na cabeça. Talvez por isso… sonhei com o que sonhei. Com Ellie. Era a biblioteca, mas não havia ninguém lá, apenas nós, as estantes de livros e uma mesa. E coisas foram feitas naquela mesa. Coisas que não deveriam acontecer numa biblioteca. No sonho, suas mãos estavam em mim e as minhas nela, por todo lugar. Ela estava tão perto que eu podia sentir seu hálito quente no meu pescoço, e o toque dela era… bem, era o tipo de toque que eu nunca recebi. Eu deveria parar de assistir pornografia porque a Ellie dos meus sonhos disse: — Você quer ser popular? — perguntou, mordiscando minha orelha. — Sim — gemi, meus dedos cravados em sua cintura. — Você deveria ser popular com isso aqui — sua mão agarrou lugares que não deveriam ser agarrados por uma namorada falsa. No final, o sonho se transformou em uma confusão de sensações e imagens desconexas. Não sei se terminamos entre os livros ou debaixo da mesa. Acordei ofegante, sentindo meu corpo quente e vibrante, uma sensação estranha se espalhando pela pele. O sonho ainda estava nítido na minha mente, a imagem de Ellie, tão próxima, tão real, e o que fizemos… Era melhor não entrar em detalhes. Pulei para um banho frio que acalmou um pouco as coisas no meu sabre de luz. Me recusava tratar daquela situação entre as minhas pernas com Ellie Davis em minha cabeça. Era errado. Não era assim que os “namoros de mentira” deveriam funcionar. Nosso acordo era estritamente profissional, tão técnico quanto a relação que eu tinha com o treinador Adams. Exceto pelo fato de que eu nunca tive sonhos eróticos com o treinador. E não teria mais com Ellie Davis. Nunca mais. Foi um lapso hormonal esquisito, só isso. Vesti minha melhor roupa — a camisa nova de One Punch Man, casaco, jeans e converse — e desci já arrumado para a cozinha. A casa estava vazia, os meninos ainda dormindo. Apesar das festas que eles curtiam semanalmente, ainda éramos regrados com coisas como alimentação e horários para exercícios. O problema no coração de Holden e o câncer da nossa mãe nos deixou muito atentos para a saúde uns dos outros. Mais do que nos policiar para manter uma vida saudável, ainda nos cuidávamos . Talvez por isso percebemos tão rápido o problema de Travis com a bebida e os remédios depois de sua lesão. Estávamos juntos durante todo o processo de sua recuperação, vimos quando o fentanil se tornou mais do que só um analgésico. Foi uma luta, com momentos de tensão, frustrações e recaídas, mas, aos poucos, Travis começou a entender que estávamos ali. Que queríamos ele de volta. Ele não estava sozinho. Meus irmãos e eu tínhamos um laço muito mais forte do que apenas um útero compartilhado quando bebês. Crescemos sendo o apoio uns dos outros, a régua moral quando tínhamos dúvidas. Por isso, estava com medo de contar para eles o acordo esquisito em que me meti. Podíamos nos amparar, mas contar sobre namoros falsos parecia ultrapassar a linha. Enquanto comia a barrinha de cereal, decidi que a ignorância às vezes era uma benção. Travis, Tyler e Holden saberiam sobre Ellie tanto quanto as outras pessoas. Para todos os efeitos, ela seria minha namorada. Queria só ver a cara deles quando descobrissem. Terminei de comer rapidamente e voltei para o segundo andar para escovar os dentes e pegar meus materiais para as aulas do dia. Apesar de estar quase me formando em Economia, a rotina ainda era intensa e, claro, cheia de expectativas. Os professores já esperavam o máximo dos alunos, e meus irmãos, por mais que fossem meu apoio, nunca escondiam o quanto me zoavam quando eu deixava escapar alguma nota abaixo da média. Ah, as dores e as delícias de ter três cópias de mim mesmo, todos prontos para rir e julgar cada passo em falso. Saí no corredor de novo com a mochila no ombro, pronto para partir, mas dei de cara com Tyler em sua porta, o rosto sonolento, coçando os olhos, ainda sem camisa e descalço. Ele levantou uma sobrancelha, me olhando da cabeça aos pés. — Se vestiu pra impressionar alguém, Tom? — perguntou, contendo um bocejo. Entre nós ele era o que mais tinha dificuldade em acordar cedo. E o mais perspicaz também. Brinquei com a alça da minha mochila, desviando o olhar. — Só pra impressionar meu professor de Economia, claro. Vai que ele me dá uns pontos extras, né? — apesar de, na última semana, o senhor Truby ter perguntado se eu era um novato transferido de outra faculdade, mesmo eu estando desde o começo do semestre em sua turma de Econometria Avançada. Duvidava que ele se lembraria de mim pelas minhas roupas. — Nenhuma garota chamando sua atenção por aí, então? — não da maneira que você estava imaginando, mano. — Acho que é mais sobre eu chamar a atenção delas — retruquei com um sorrisinho que o fez revirar os olhos. Tyler se aproximou de mim, apenas para bagunçar meus cabelos do jeito que sempre fazia quando queria me irritar. — Você é especial, maninho, mas um dia alguma garota vai te colocar no seu devido lugar, e eu vou rir muito — ele disse, com aquele seu sorriso fácil que era ao mesmo tempo irritante e reconfortante. Revirei os olhos. Só porque ele nasceu alguns minutos antes de mim, o idiota se achava o senhor da razão. — Tá aí uma coisa que eu duvido — rebati, tentando ajeitar o cabelo que ele desfez. Ele soltou uma risada breve, quase como se soubesse de algo que eu não sabia. — Vou guardar essas suas palavras pra quando você aparecer aqui todo apaixonado, bancando o bobo. Aí a gente conversa. — Pode guardar. Vai juntar pó — resmunguei, o deixando para trás, afinal de contas ainda tinha uma reunião de negócios para fazer. — É o que veremos, maninho. — Tão cheio de si. — Até mais. — Até mais! — gritei já do último degrau da escada, indo até o gancho que organizava nossas chaves. No caminho até o campus, a ansiedade começou a me tomar. Eu tentava me convencer de que não estava nervoso. Não era como se fosse um encontro; Ellie Davis e eu tínhamos um acordo puramente estratégico. Era tudo profissional. Sonhos eróticos à parte. Mas, ainda assim, a ideia de me encontrar com ela, de falar sobre o nosso “relacionamento” — mesmo que falso — fazia minhas mãos suarem. A lembrança do nosso último encontro, no beco da sorveteria, voltou à minha cabeça. O jeito que ela me olhou, a intensidade na voz dela ao propor o plano… era difícil tirar essa imagem da mente. Quando cheguei ao campus,um de nós individualmente era surpreendente. Mesmo quando estava falando que eu precisava afogar o ganso para me destacar. O que não era uma mentira. Ter 22 anos e ser virgem era algo, no mínimo, inusitado. Não inédito entre mim e meus irmãos, mas com certeza inesperado. Tyler também nunca havia transado, o que nos deixava com uma porcentagem de 50% de experiência com partes femininas e 50% com total desconhecimento. Por motivos diferentes, é claro. Meu irmão estava — e jamais diga que eu contei isso — se guardando para a garota certa. Uma especificamente. Sua melhor amiga. Lindo, não é? Emocionante. Os créditos sobem e a plateia aplaude essa linda história de amor. Eu também estava, de certa forma, me guardando para a garota certa. Que configurava qualquer uma que quisesse transar comigo. Mas, aparentemente, eu ainda não tinha cruzado o caminho dela. Não que eu fosse um otário espanta bocetas esquisito. Eu era apenas um otário espanta bocetas, nada esquisito. As garotas pareciam ter uma predileção clara. Se elas pudessem transar com um dos irmãos Tesão — como descobri que éramos chamados —, elas por escolhiam Tanner — nome pelo qual Holden jamais era chamado— ou Travis. Às vezes os dois. Nunca eu. O que não era um problema. Não estava desesperado, não entraria num fórum de ódio a mulheres e começaria a culpar a sociedade pela minha clara falta de destreza com o sexo oposto. Aconteceria no tempo certo. Um dia. Só que o treinador não precisava saber disso. — Vou tentar, senhor — sentia minhas bochechas coradas, metade pela vergonha, metade pelo fato de que ainda estávamos no ringue de gelo. Ele não podia esperar até estar quentinho no vestiário? — Obrigado por se preocupar. — Você e seus irmãos são excepcionais, quero garantir que cheguem onde merecem. — Deu um tapinha no meu ombro que não ajudou muito a me consolar antes de se virar em direção ao vestiário pronto para dar mais um discurso para algum jogador desavisado. Afastei os cabelos úmidos da testa, secando o suor com a mão livre do taco. Mas pelo menos não dava para ficar mais caótico do que isso, não é? Errado! Sempre dava. Prólogo 02 | Uma mentira contada muitas vezes vira um pai embaixador Antes que você pense que eu sou uma mentirosa, saiba que eu estava em pânico. E às vezes, o pânico levava a gente a fazer coisas estúpidas. Como mentir para sua turma inteira em Harvard. A garota na minha frente estava há uns cinco minutos falando sobre como Ciências Políticas era apenas um passo para o verdadeiro sonho de se formar em Direito em Harvard. De onde eu estava, na cadeira atrás dela, conseguia ver a etiqueta do seu casaco milionário da Miu Miu e a forma como os olhos da professora brilhavam ao ouvir Amber Kurtz contar que seu sonho era ser advogada como seus pais eram. E meu pânico só aumentava porque… a próxima era eu. A turma de Teoria Política Clássica estava muito bem dividida. Havia uma linha quase invisível partindo a turma no meio. De um lado, os sonhadores idealistas que queriam se tornar pesquisadores das ciências políticas, e do outro os alpinistas acadêmicos que queriam pegar seu diploma apenas para aplicar para o Juris Doctor[1] de Harvard. E eu estava do lado daqueles que queriam ser advogados, mas nunca me senti tão destoante em toda minha vida. Os aspirantes a direito eram… impressionantes. A maioria já se vestia como se estivéssemos em um grande escritório em Nova Iorque, usando cores sóbrias, tecidos caros e, por debaixo das mesas, até conseguia ver um scarpin preto de uma garota que era tão caloura quanto eu. Um garoto ruivo à minha direita usava blazer. Blazer! Enquanto eu estava de mom jeans, All star, uma blusa preta de mangas compridas e decote em V. Simples, normal. Nada impressionante. Inferno, se soubesse o dresscode, teria me esforçado mais. Não que eu tivesse roupas de grife, mas minha mãe era bem vestida o suficiente para que eu herdasse algumas coisas de seu guarda-roupas post mortem. Não me encaixava nem do lado dos cientistas políticos de verdade porque as meninas usavam saias com padrões bonitos e os caras ostentavam camisas com frases icônicas de filósofos como Karl Marx e Rosa Luxemburgo. Amber Kurtz terminou seu longo monólogo sobre como sua tataravó foi uma das primeiras advogadas mulher dos Estados Unidos e ela queria seguir seu legado de luta. Tudo isso enquanto usava um casaco caríssimo da Miu Miu. Que legado não era continuado quando se tinha uns três mil dólares para dar em uma peça de roupa? Impossível. — Isso é lindo — a senhora Bradbury, a professora mais gentil do departamento e que era conhecida por incentivar os calouros falou, cuidadosa, os olhos ainda brilhando para a aluna eloquente quando se virou para mim. — E você é a… A garota que não era tataraneta da primeira advogada dos EUA. — Ellie Davis — meu nome saiu meio mole quando a voz falhou um pouco pela ansiedade. — Conta pra gente por que você escolheu ciências políticas. — Sorriu, de pé em frente ao quadro, seu cabelo loiro chanel, roupas muito mais parecidas com a de Amber do que as minhas. Assisti todos os meus colegas — os que queriam ser advogados e os que queriam ser cientistas políticos — se virarem para mim. Alguns com curiosidade e outros me medindo como uma oponente. E pelas expressões condescendentes eu devia ser uma oponente muito ruim. Era uma bolsista em Harvard, entrei pelo meu histórico impecável na escola, mas sabia que a carta contando sobre como meu pai alcoolista fez com que eu me criasse sozinha depois da morte da minha mãe ajudou muito. Todo mundo gostava de histórias tristes em processos seletivos. Mas no campo minado que era a sala de aula, contar que eu ainda tinha um emprego de meio período em Norwich fazendo milkshakes na sorveteria das minhas tias não serviria para nada. — Estou no curso porque… — minha mãe foi vítima de uma injustiça jurídica, faleceu e agora eu quero me tornar advogada. — Meu pai… — se tornou bêbado desde a perda de sua esposa. Minha casa nunca mais foi a mesma. Triste história. A minha história. E mesmo assim o que saiu da minha boca foi: — Meu pai é um embaixador do governo. — o quê? De onde eu tinha tirado aquilo? — Ele também se formou em… Direito e é daí que vem minha vontade de me especializar na área depois de terminar o curso de Ciências Políticas. — Mentira das grandes. Meu pai operava máquinas de limpeza de neve, quando o inverno acabava, ele ficava sem trabalho por pelo menos mais seis meses. Não havia diploma em sua função. Ele sequer entrou na faculdade. A senhora Bradbury arregalou os olhos, parecendo finalmente me enxergar ali. Ao meu redor, os olhares condescendentes caíram, se transformando naquela encarada letal que assisti os aspirantes a advogados darem uns para os outros. Inferno, até os que queriam seguir carreira na área política estavam me fitando com admiração. Meus lábios se separaram enquanto esperava ser desmentida pela professora ou alguém apontar a inconsistência na minha história. Esperei que eu mesma dissesse algo. “Estou brincando, na verdade cresci em Norwich e meu pai provavelmente está bêbado nesse momento” No entanto, nada saiu. — É muito bom te conhecer, Ellie. Sua presença vai ser muito apreciada esse semestre. — A professora disse, erguendo o queixo, me dando um sorriso orgulhoso, como se naquele momento, eu tivesse entrado em alguma alta sociedade invisível. — E você? atrás da senhorita Davis. Se apresente. Não ouvi o que o colega com a camisa “A história de todas as sociedades até aqui é a história das lutas de classes” se apresentar, nos meus ouvidos o que rodava era a mentira descarada que eu contei. A espiral de culpa apertou meu peito. Deveria gritar, parar as apresentações e dizer: menti! Menti! Me desculpem. Nunca nem conheci um embaixador. Não me odeiem. — Ei, Ellie. — Amber Kurtz, tataraneta da primeira advogada estadunidense, chamou com um sorriso gelado. Seus olhos ainda me mediam. — Muito bom ter na sala alguém que entende. — Esticou a mão em minha direção, me cumprimentando.estacionei a moto e fui em direção à biblioteca, me perguntando se Ellie também estava ansiosa. Será que ela tinha dúvidas? Será que achava tão estranho quanto eu? Ou, pior, será que estava arrependida? Aceitaria com dignidade se ela tivesse marcado aquele horário para dizer que era uma péssima ideia ter um namoro de mentira. Deixaria para chorar no banho por ser um perdedor tão grande que nem por um acordo alguém queria ser minha namorada. Sacudi a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Nada disso importava. Nós tínhamos um acordo, um propósito. Eu só precisava me lembrar disso. Assim que entrei na biblioteca, percebi que era cedo demais mesmo para os padrões de Harvard. O lugar ainda estava vazio, as mesas de estudos não tinham ninguém, poucos funcionários se dividiam pelo espaço e as estantes ainda estavam intocadas. A única coisa atípica era uma sombra fora do lugar no canto mais afastado da entrada, perto da porta do banheiro. Um ser pequeno, com moletom escuro, ombros inclinados para frente, óculos escuros tapando quase todo rosto e… Não era possível. Espremi os olhos para ter certeza de que não estava tendo uma miragem. Mas era verdade. — Ellie? — chamei alto o suficiente para minha voz ecoar por todo o primeiro piso. A garota virou o rosto em minha direção, fazendo o movimento de aproximação com as mãos freneticamente, me chamando para mais perto. Andei até ela meio entorpecido. Que cena era aquela? Antes que eu pudesse dizer uma palavra, a garota saiu atirando: — Ninguém pode nos ver — declamou, olhando para os lados como uma fugitiva. Me sentei na cadeira diante dela, tirando a mochila das costas e colocando entre nós no meio da mesa, criando uma distância entre nossos corpos. Não admitiria em voz alta, mas Ellie estava me assustando. — Vamos fingir ser namorados, qual o problema de sermos vistos? — era uma pergunta válida. Pelo menos sua estética de fugitiva ajudou a controlar minha ereção. Não dava para se animar com alguém que parecia estar se escondendo da CIA. — Shiu! — pediu, levando o indicador em direção aos lábios. — Ninguém pode saber do acordo. É assim que as coisas dão errado nos livros. Tentei não rir. Ellie Davis, aquela força da natureza, estava ali sentada na biblioteca, de moletom e óculos escuros, como se fosse uma espiã em uma missão super secreta. — Ellie… você leu muitos livros de romance, né? — provoquei, arqueando uma sobrancelha. Ela bufou, mas percebi que sua expressão suavizou um pouco, ainda que os olhos continuassem inquietos, varrendo o ambiente. — Isso aqui é sério, Tomas — ela sussurrou, se inclinando na minha direção. — Já vi gente perder a mão em esquemas como o nosso. Começa inocente e… — Ela fez uma pausa dramática, apertando os lábios. — E aí as coisas desandam. Promete que vai seguir as minhas instruções? Inclinei a cabeça, tentando decifrar se ela estava brincando ou se realmente acreditava que nosso acordo secreto era digno de uma operação da CIA. — Certo, agente Davis. Eu prometo — respondi, fazendo um juramento exagerado com a mão sobre o peito. — Mas vamos combinar uma coisa: se alguém desconfiar, nós só... continuamos agindo como casal, não? Sem paranoia de esconder o que não é real. Ellie hesitou, como se estivesse ponderando seriamente sobre o meu ponto, e então assentiu. — Tá bom, tá bom. Mas se alguém perguntar sobre nós, deixa que eu conduzo. Se tem uma coisa que eu sei fazer é mentir sobre minha vida pessoal — murmurou, mas eu podia ouvir a confissão ali. — Tudo bem, senhora Smith. Só… me avise da próxima vez que for aparecer vestida de agente secreta, assim eu venho de smoking. — James Bond virgem, podia apostar que faria sucesso. Ela finalmente relaxou e riu, tirando os óculos escuros e se encostando na cadeira, como se tivesse vencido alguma batalha interna. — Você pode fazer piada, Tomas, mas lembre-se: no minuto em que algo parecer fora do controle, quem vai encarar as consequências somos nós dois. — Apontou para seu próprio peito e depois para mim. Engoli em seco, endireitando as costas. Parecia sério demais quando Ellie colocava assim. — Vamos começar pelo óbvio, o que você precisa com esse namoro falso? Aquela resposta era fácil. — Ser mais interessante socialmente, fazer com que os times me enxerguem como alguém que vale a pena investir porque vou atrair patrocinadores. — Quando minha mãe nos colocou nas aulas de hóquei antes mesmo de sabermos andar, a coitada não podia prever que um dia carisma seria um impeditivo para seus filhos na carreira profissional. — Ok — meditou, batendo o indicador contra o queixo, pensativa — vamos ter que trabalhar algumas coisas em você. — Tipo o quê? — franzi o cenho, curioso. — Ah, só básico. Ufa! Não seria tão difícil assim. — Não deve ser tão difícil — concordei com ela. — Novo corte de cabelo, comprar roupas, um novo Instagram, aula de carisma, treino social, treino de flerte, uns acessórios masculinos, atualização de hobbies, novo perfume, carro novo ou moto. — perdeu o fôlego, mas rapidamente o recuperou — Está disponível para fazer uma tatuagem? Tombei na cadeira, me sentindo fraco. — Eu sou tão um perdedor assim? Até a minha moto é ruim? Ellie soltou uma risadinha, mas quando lancei um olhar sujo em sua direção, a desgraçada teve coragem de fingir uma tosse. — Olha, Tomas… não quero te assustar, mas a sua moto tem aquele charme… de quando meu pai conta histórias dos anos 90. Ela é praticamente vintage. Isso pode ser bom… ou péssimo, dependendo de como você conduz o visual. Revirei os olhos, tentando me recuperar do choque inicial. Aparentemente eu era péssimo. — Tá, e você realmente acha que tudo isso vai fazer alguém… me notar? Ou só fazer parecer que eu tô desesperado pra mudar? Ela deu de ombros, me olhando com aquele brilho analítico. — O segredo é não parecer forçado. Você não quer ser outra pessoa, só uma versão sua com um upgrade. Tipo… Tomas 2.0. E, para isso, a gente vai precisar de confiança e estilo. A última coisa que você quer é parecer uma cópia malfeita de alguém. — E como você vai me transformar nessa versão melhorada? — perguntei, meio cético, mas rindo. Ellie se inclinou, cruzando os braços com um sorriso conspirador. — Primeiro, confiança. Depois, estilo. No final, ninguém vai saber se é real ou atuação — deu de ombros como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Então, eu sou um perdedor — constatei, escondendo o rosto atrás das mãos. — Não, Tom… eu que sou legal demais e você precisa chegar ao meu nível. — O jeito como ela disse o apelido e não meu nome, de repente apagou a apatia vergonhosa que eu sentia. — Mentirosa demais, você quer dizer? — provoquei, mas aquilo não pareceu assustar Ellie Davis. Pelo contrário, seu sorriso apenas cresceu. Ela era mesmo brilhante. — No nosso caso, é a mesma coisa. — Deu uma piscadinha, mas logo se tornou séria, erguendo a mão em minha direção. — Está pronto para fazer negócios, McKinley? Não precisava pensar duas vezes antes de capturar seus dedos. — Acordo fechado. Capítulo 10 | Um corte de cabelo ou um afrodisíaco misterioso? — Oi, Ellie — Carol chamou quando eu recolhia as minhas coisas no final da simulação da ONU — bom desempenho hoje — soou muito mais como uma admissão do que um elogio. Modéstia à parte, eu tinha arrasado. Calouros nunca atuavam como Conselho de Segurança e mesmo assim, representei a China e consegui dominar a discussão sobre proliferação nuclear na Península Coreana. Foi bom ver até os veteranos prestando atenção em cada palavra minha, com aqueles olhares surpresos, como se se perguntassem de onde eu tinha vindo. A resposta era: dos seus mais doces pesadelos. Pelo jeito até Carol, que raramente admitia a vitória de outra pessoa, teve que reconhecer. — Valeu — respondi, com um sorriso satisfeito, enquanto colocava o último livro na bolsa. — Você também não foi nada mal — acrescentei, embora soubesse que meu desempenho tinha sido o destaque da vez. Apesar de ser muito eloquente, dessa vez a garota foi o inexpressivo Chile, um país importante,mas definitivamente não uma potência nuclear ou dono de uma influência direta na Ásia Oriental. Ainda podia sentir o olhar dela tentando me perfurar. Carol arqueou uma sobrancelha, ainda com aquele ar de competição no olhar. — Obrigada — engoliu o elogio como se fosse veneno e, de verdade, não era minha intenção. Não estava ali para competir com ninguém além de mim mesma — Você não respondeu a mensagem sobre sair com a gente para um café — apontou com o polegar para o grupo de estudantes atrás dela. Era a tradição do grupo de simulação da ONU; logo depois de cada sessão saíamos para um café para discutir nossas próprias atuações. Na maior parte do tempo, rasgávamos seda uns para os outros, só que o projeto era coordenado por alunos do JD de Harvard, então era nossa melhor chance de networking. Mas, infelizmente, estava fora do meu cronograma. Tinha algo muito mais sério a fazer. Ajudar Tomas McKinley. — Tenho outro compromisso — sorri, colocando a mochila nas costas, esperando que aquilo fosse informação o suficiente, mas era de Carol Harrington que estávamos falando. — Sério? — sua sobrancelha loira continuou arqueada — tipo o quê? Era ali que o caminho se dividia em dois. Podia mentir sobre ter que estudar, me preparar para a próxima prova de Teoria Política Contemporânea ou… dizer a verdade. Pelo menos, uma parte dela. Respirei fundo, calculando a rota da melhor estratégia. — Tenho um encontro… — sorri, pegando o cacho solto que havia escapado do rabo de cavalo e colocando-o de novo atrás da orelha. Sua expressão competitiva se desfez, dando lugar a curiosidade pura e genuína. — Um encontro? — Sim. — Com quem? Meu sorriso apenas aumentou. — Se der certo, eu te conto — garanti, me virando em direção a porta — nos vemos depois! Não dei espaço para que ela fizesse mais perguntas e escapei para fora do auditório. Provavelmente, atrás de mim, meu suposto date já estava virando história, se espalhando. No corredor, o burburinho do fim das aulas já começava, mas eu me misturei facilmente, cabeça erguida e passos firmes. Parte da mentira — a minha e, em breve, a de Tomas — envolvia deixar que as que pessoas criassem suas narrativas sobre mim. Eu não tinha problemas com isso. Afinal, sempre estive acostumada a ser observada, a ser parte do cenário de Harvard. Só que, dessa vez, era um jogo diferente. Não só queria que as pessoas acreditassem na mentira, eu queria que elas se sentissem envolvidas nela, que se convencessem de que aquilo tinha um significado real. O tipo de narrativa que faria com que o "encontro" fosse ainda mais real na cabeça de todos, transformando Tomas McKinley no epicentro das fofocas. No começo, foi estranho pensar que histórias assim fossem tão importantes em uma universidade de renome como Harvard. Mas parecia que a lógica do “quem não é visto, não era lembrado” também se fazia real na academia. Dependentes de networking, acabávamos alimentando essa lógica que, aparentemente, também havia chegado no esporte. Segui para o estacionamento norte, o mais vazio naquele horário do meio da tarde e, no canto, embaixo de uma árvore, Tomas estava parado lá, encostado em sua moto com certeza muito cara, mas ainda assim sem graça. Em sua defesa, ele não estava usando nenhuma camisa de personagem, mas sim um casaco preto simples, um jeans escuro e botas de couro, o que até fazia sentido, dado o frio. Quando me aproximei, ele deu sorriso tímido, me encolhi, sentindo um arrepio subir pela minha coluna. O clima era típico de janeiro, mas meu tremor não tinha nada a ver com a temperatura, e sim com o que eu estava prestes a fazer. — Ei — ele disse, tentando parecer descontraído, embora a voz um pouco mais tensa do que o normal. — Olá — respondi, sorrindo e me aproximando dele. — Está pronto? — E com muito medo — completou e eu revirei os olhos. — Já assisti “ O Diário de Uma Princesa”, seu como essa coisa de makeover funciona. — Parecia uma acusação. Não consegui controlar a risada. Quem ele pensava que era? O príncipe da Genóvia? — Não é bem isso, Tomas, mas fico feliz com o entusiasmo. — Se ele aceitasse uma transformação tão radical quanto Anne Hathaway sofreu teríamos um problema. No filme, apenas alisaram o cabelo da protagonista, tiraram seu aparelho e deram lentes de contato. O jogador precisava bem mais do que isso. E cachos não mereciam uma chapinha sobre eles. Não que Tomas-cabelo-escorrido precisasse de uma. De repente, ele se virou, puxando um segundo capacete de trás dele, sobre o banco, preto e simples, diferente do vermelho sangue pendurado em seu guidão e esticou em minha direção. Dei um passo para trás, horrorizada. Não raciocinei que encontrá-lo implicaria usar o meio de transporte de Tomas para nos locomover. Eu preferia sair correndo atrás dele. — Ah, não — falei, nervosamente. Ele arqueou uma sobrancelha, o jogo virando em seu rosto claramente divertido. — É uma moto, Ellie — lembrou, mas balancei a cabeça, ainda resistente. — Oitenta por cento dos acidentes envolvendo motocicletas resultam em lesões ou mortes — despejei o dado que tinha decorado logo depois da morte da minha mãe. No mês que seguiu seu acidente passei horas e mais horas debruçada em estatísticas mortais no trânsito. Descobri que a maior parte dos acidentes fatais acontecia em estradas secundárias, onde a falta de visibilidade e a velocidade excessiva se combinavam para aumentar o risco. Sua sobrancelha se franziu, o humor se perdendo. — De onde tirou isso? — Senso comum — minha voz falhou quando desviei o olhar, focando na árvore que ainda tinha neve acumulada em suas extremidades. — Você sabe que eu nunca deixaria nada acontecer com você, não é? — Sua voz baixou para um tom solene, os olhos castanhos procurando os meus enquanto tentava me desviar. Mais do que ninguém, eu sabia que não era uma questão de confiar. Acidentes aconteciam. Homens bêbados e poderosos saiam por aí em alta velocidade e acabavam envolvendo motoristas pacientes e responsáveis em acidentes fatais. A combinação era mortal. Respirei fundo, soltando o ar devagar pela boca. Não queria fazer uma cena. Já conseguia entrar em ônibus e carros, e com muita terapia fornecida por tia Syl, superei o medo de andar a noite e sabia que podia fazer mais. Ergui minha mão, pegando o capacete de Tomas, que deu um sorriso não mais provocador, mas sim relaxante. — Não avance sinais, não corte os carros, não vá acima da velocidade permitida — falei cada uma das minhas condições e ele balançou a cabeça, obediente, a expressão se tornando séria. — Nunca deixaria nada acontecer, Ellie — prometeu de novo e eu respirei fundo, tomando coragem. Coloquei o capacete na cabeça, não gostando nada do que a fricção causaria nos meus cachos, mas era o preço a se pagar por não ter combinado de fazer com que abandonar a moto fosse o primeiro passo da repaginação de Tomas. Prendi a fivela debaixo do meu queixo e assisti ele subir na moto e se ajeitar, o que foi meio impressionante. Homens em motos nunca foram um atrativo interessante para mim, mas Tomas McKinley era diferente de todo o resto. Estendeu a mão com um sorriso tímido. — Preparada? — perguntou, o sorriso apertado entre suas bochechas por causa do capacete. Ele ligou a moto, e o ronco do motor me fez saltar o coração para a garganta. Ideia horrível, ideia muito, muito ruim. — Você pode segurar minha cintura — falou e só então percebi que estava agarrada ao banco, o que era uma péssima ideia. Circulei o tronco de Tomas, apoiando a lateral do rosto em suas costas. Seu perfume leve invadiu minhas narinas, fazendo com que, de repente, meu coração sossegasse. Falei que ele deveria trocar de fragrância porque sabia que homens gostavam de coisas mais poderosas e marcantes como Armani ou Hugo Boss, mas o jogador tinha um cheiro leve, uma mistura confortável de âmbar e lavanda. Silenciosamente, cortei da minha lista a ideia de comprar um outro perfume para ele. Tomas saiu do estacionamento com cuidado, a aceleração foi suave no começo, como se tentassenão me assustar mais do que eu já estava, mas conforme a estrada se abriu diante de nós, a sensação de velocidade foi inebriante. Ele se manteve dentro do limite — de vez em quando abaixava a cabeça para checar o velocímetro — e a sensação de segurança que eu tinha começado a sentir foi se intensificando. Não me importava com o vento gelado que cortava minha pele ou com o fato de que estava em cima de uma moto — o fato de que Tomas estava sendo responsável me tranquilizava de uma forma que eu não esperava. Com o movimento suave, ele foi tomando a dianteira da estrada, o som do motor sendo o único ruído que quebrava o silêncio da tarde. Eu me segurei mais firme nele, os braços em volta de sua cintura, me sentindo estranhamente protegida, apesar de tudo. A paisagem ao nosso redor se desdobrava, nos afastando cada vez mais do campus e adentrando na cidade, seguindo o endereço que tinha enviado mais cedo. — Estamos quase lá — disse ele, sua voz abafada pelo vento, mas ainda nítida o suficiente para eu entender. A moto virou em uma rua tranquila e logo estacionou em frente a um salão de aparência simples, mas com aquele charme despretensioso que indicava um lugar de confiança. O nome, "Barber & Co.", estava escrito em letras grandes e douradas na vitrine como vi nas minhas pesquisas no Instagram. A barbearia era uma das mais bem avaliadas da cidade, o tipo de lugar que os homens tinham tratamento VIP e com certeza custava os olhos da cara, mas Tomas tinha orçamento para suas mudanças radicais. Desci primeiro, sentindo minhas pernas meio moles, mas dando um espaço entre o jogador e eu. Já tinha me aconchegado demais para o meu gosto. Tomas saiu da moto, desligando-a e guardando a chave no bolso do seu jeans, o cenho franzido já sem o capacete enquanto olhava para a fachada com aquela estética vintage que todas as barbearias superfaturadas tinham. — Preparado? — perguntei, usando sua própria expressão contra ele. Parecia que era eu quem o tinha convencido a subir numa armadilha mortal. — Vamos nessa — disse, pegando o capacete da minha mão e equilibrando-o na moto junto com o seu, mas me deixou tomar a dianteira. Empurrei a porta de vidro, um sininho soando sobre a minha cabeça quase abafado pelo rock clássico que tocava ao fundo. A barbearia estava impregnada com aquele visual retrô que minhas tias também amavam. Cadeiras de couro escuro e espelhos grandes que refletiam o ambiente que transpirava masculino porque o pau de qualquer homem cairia se cortassem seu cabelo com uma tesoura rosa. Os olhares dos barbeiros que estavam atrás dos balcões e nas cadeiras com outros clientes já estavam em Tomas, que causava um impacto com sua altura e presença. Ou talvez pelo fato de que ele tinha o pior corte de cabelo do mundo. Ele parecia um pouco deslocado no ambiente, mas sua postura confiante dava a impressão de que era exatamente o tipo de lugar em que ele deveria estar. — Isso vai ser divertido — murmurei para mim mesma, me aproximando da recepção onde uma mulher de cabelos curtos e escuros estava organizando uma ficha. Ela sorriu ao ver Tomas entrar, seus olhos nunca parando em mim. — Boa tarde! Você já tem um horário agendado, certo? — ela perguntou, sua voz suave até demais. Tomas fez um leve aceno com a cabeça, mas sua expressão séria como se estivesse prestes a assinar uma confissão. Comprimi os lábios, me divertindo com seu drama. Era só um corte de cabelo. — Pode se acomodar ali. Seu barbeiro está a caminho. — Ela finalmente virou-se para mim com um sorriso amistoso, mas menos interessado. — E você, vai acompanhar? — Claro — respondi com um sorriso, observando Tomas se dirigir à cadeira com um passo hesitante. Ele olhou para mim mais uma vez, como se quisesse garantir que não estava fugindo. Eu o segui até a cadeira, o som do rock ao fundo preenchendo o espaço entre nós. Ao sentar-se, Tomas continuou duro sem encostar no estofado, analisando a bancada cheia de tesouras, pentes e tomadas como se estivesse na cadeira elétrica. Antes que eu pudesse perguntar se ele já tinha atropelado o gato de alguém dali o barbeiro finalmente chegou. Era um homem alto e musculoso, com um estilo impecável, que parecia ter saído de um filme dos anos 70, com cabelo bem penteado e uma barba espessa, perfeitamente aparada. O escolhi no catálogo porque ele não tinha um bigodinho virado para cima. — Oi, amigo — disse ele, com um sorriso amigável, mas o tipo de sorriso que sabia que tinha o poder de acalmar ou intimidar, dependendo de como você estivesse disposto a reagir. — Tomas, certo? Sou o Eliezer. Tomas ergueu os olhos para ele, a tensão ainda visível. A resposta foi um aceno de cabeça quase imperceptível, o que fez o barbeiro soltar uma pequena risada. — Primeira vez? — perguntou dando um leve aperto em seu ombro. Tomas quase não cabia na cadeira, mas ainda estava travado nela. — Sim. — Olha, não se preocupe, não vamos fazer nenhuma grande mudança se você não quiser. Isso eu não podia deixar. — Ele vai querer — intervi, fazendo com que Eliezer risse e Tomas me fuzilasse com o olhar. — É, cara, são as namoradas que mandam — o barbeiro puxou uma capa preta da bancada, cobrindo Tomas, deixando seus braços para dentro e só o pescoço e a cabeça de fora — Mas relaxa, nada muito radical. Vamos só… ajeitar isso aqui. — Quero algo mais moderno e que me destaque — pediu e eu senti uma pontinha de orgulho se espalhando por mim. — Sério? O que você pensou? — o barbeiro questionou, olhando-o através do espelho. — Um moicano — disse certeiro, com um sorriso decidido. Fechei os olhos, desejando poder me enfiar em um buraco. Meu orgulho desceu por água abaixo. Eliezer o fitou mortificando, mas pagou a máquina de cortar cabelo em cima da bancada, prestes a cometer o maior crime capilar do mundo. — Não, não, ele está brincando — intervi dando uma risadinha sem graça e um tapa no ombro de Tomas, esperando que doesse. — Bobinho — falei entredentes. — Olha, um moicano, não é a melhor opção para… — ninguém, eu diria, mas o barbeiro foi mais gentil — o seu tipo de rosto. — Algo menos descolado então? — precisaríamos ter uma aula de gírias. Tomas falava como se tivesse saído de uma pista de skate em 2005. O barbeiro fez uma careta, mas logo a escondeu com um sorriso. — É uma definição. — Algo… Justin Bieber? — Tomas sugeriu, olhando para trás, dessa vez procurando pela minha aprovação. E não a encontrou. — Não estamos em 2012 — lembrei e o jogador bufou. — Tá, então escolhe você — pude ver o alivio de Eliezer quando ele se voltou para mim. — Um corte mais clean, com um leve fade nas laterais, mas o topo um pouco mais longo. Algo elegante, mas ainda assim versátil. — falei, tentando visualizar minha sugestão. Seguia cabeleireiros demais no TikTok então sabia do que estava falando. Tomas me olhou com uma expressão desconfiada, como se quisesse saber se eu estava falando sério ou brincando, o que vindo do cara que queria fazer um moicano, foi uma verdadeira ofensa. — Isso vai funcionar, vai dar um bom formato ao seu rosto. — Eliezer disse a ele com um sorriso simpático, mais relaxado com o fato de que não teria que fazer uma atrocidade na cabeça de um cliente. — Vamos nessa então — respondeu com um suspiro. Eliezer pegou a tesoura, um pente e começou a cortar. Os fios de cabelo de To mas foram suavemente caindo ao redor dele, cada pedaço moldando uma nova versão do jogador. — Corto meu próprio cabelo, sabia? — o jogador tentou puxar assunto enquanto o barbeiro cuidava da sua nuca. — Dá para perceber — Eliezer resmungou. E eu tossi para disfarçar uma risada, caminhando pela barbearia para que Tomas não conseguisse me ver tendo um ataque de riso diante dele. Enquanto o barbeiro ajeitava o topo do cabelo, McKinley foi ficando mais tranquilo. Seus olhos, antes desconfiados, agora pareciam mais curiosos, observando cada movimento de Eliezer. Achava meio absurdo um garoto milionário estudando em Harvard cortar o próprio cabelo, mas fazia bem o tipo de Tomas. Ele não se importava muito comaparência — e, sendo sincera, ele nem precisava —, em qualquer outro ambiente se destacaria naturalmente com cabelo esquisito ou não. Mas Harvard o atraiu para o ambiente mais competitivo da terra. Quando estava quase terminando, Eliezer aplicou uma toalha quente sobre o rosto de Tomas, cobrindo seus olhos, o que fez o jogador se virar em minha direção como se estivesse participando de uma roleta russa, mas balancei a cabeça o incentivando a continuar. Me afastei, me recostando contra uma das paredes enquanto observava o cuidado do barbeiro. Teve direito a pomada modeladora no cabelo, hidratante no rosto e uma massagem que supostamente ajudava tonificar os músculos da face. Balela ou não, Tomas se deixou ser cuidado em cada passo. E aos poucos, consegui ver a transformação acontecendo. — Acabou — Eliezer quase comemorou, tirando a capa de Tomas e sacudindo-a para que os últimos fios caíssem no chão. Não prestei atenção na bagunça, meus olhos fixos no cara renovado na cadeira. Aquilo era… demais. Como um simples corte de cabelo o tirou de um dos homens mais bonitos que já vi nada vida para um dos homens mais bonitos que já pisou na face da Terra? A mudança era visível, não muito exagerada, como se seu rosto estivesse mais visível, mais limpo. Irresistivelmente mais bonito. Ele se virou para mim, ainda em dúvida sobre o quanto gostava da transformação, mas havia uma leve apreciação em seu olhar. — Não está tão ruim, né? — disse ele, mais para si mesmo. Assenti, meio sem palavras. Tomas girou o rosto diante do espelho, olhando em cada direção, analisando como o novo corte se comportava e um pequeno sorriso foi nascendo em seus lábios. — Gosto disso — concluiu e eu não podia contrariar — Então, agora qual é o próximo passo? — perguntou, satisfeito, se virando para mim. Não consegui responder. Porque, aparentemente, a etapa seguinte do nosso acordo era me impedir de querer transar com Tomas McKinley. Capítulo 11 | Homens ricos, carros potentes e… não é uma visita para conhecer os pais — Qual a etapa agora? — Tomas perguntou quando saímos do salão e eu parei no meio do caminho, analisando seu rosto. Jesus. Um corte de cabelo, um mísero corte de cabelo, foi o suficiente para me desmontar inteira. Ninguém devia ficar tão insuportavelmente gostoso tendo apenas algumas pontinhas aparadas. Mas aquele era Tomas McKinley, uma caixinha de surpresa de 1,92 de altura. Uma caixinha que eu não me importaria em nada de ter em cima de mim, embaixo de mim, de lado ou… Não, não, não, não! Nada disso. Esse não era o tipo de acordo que teríamos. Nunca. — Ellie? — Só então percebi, a mão de Tomas balançando diante do meu rosto e dei um passo para trás. — Quê? — Senti a vergonha se espalhar pelas minhas bochechas. Ele estava tão saboroso que me colocou no mundo da lua. Dei um passo para trás, enfiando as mãos nos bolsos da minha jaqueta, criando um pouco de espaço entre nós porque além de um gato de cabelo cortado, ele tinha aquele perfume bom que eu descobri ser apenas o cheiro dele. — Você parou e ficou me encarando do nada — franziu o cenho, como se ele tivesse motivos para estar envergonhado. — Perguntei qual era a próxima etapa? É tanta coisa assim que você até esqueceu? — Nada disso — balancei a cabeça, tentando voltar para mim — hum… a moto? — Não gostou mesmo dela, né? — Sorriu e só então eu percebi o pior. Tomas tinha covinhas. Aquele dia não tinha como ficar mais complicado. — Não é isso, é só que… — dei um passo para o lado, vendo a motocicleta. — Tenho certeza de que ela custou uma fortuna, mas é tão…. básica. — É uma BMW R nineT — disse ofendido, colocando a mão no peito teatralmente. — Poderia ser uma bicicleta e ninguém nem iria perceber — dei de ombros, gostando de alfinetá-lo um pouco. Talvez a acidez o impedisse de sorrir com covinhas para mim. Não funcionou. Seu sorriso só se tornou mais largo. Ele não conseguia parar? — É uma sorte então que meu pai tenha uma coleção de carros muito maneiros lá em casa — seus olhos brilharam — vamos lá! — Oi? O que aquilo queria dizer? — Lá em casa, vamos? — O quê? — Ellie, estou começando a desconfiar que todo esse papo de você ser uma garota super intelectual é balela — provocou, mas não tinha tempo para enfiar aquelas palavras de volta na sua garganta. Eu era super intelectual sim, muito obrigada, mas isso não explicava porque as palavras “vamos lá” e “casa do meu pai” estavam juntas numa mesma frase que me envolvia. — Olha, Tomas, não vamos ter esse tipo de acordo. Não vai me apresentar para os seus pais como sua namorada ou me convidar para jantares de família — era melhor deixar claro do que ter que corrigir as coisas quando elas ficassem confusas. Aquilo não pareceu perturbar Tomas. — Eu estava falando dos carros, Ellie. Só os carros. — Prometeu suave — só meu pai deve estar em casa e ele sabe que você é muita areia para o meu caminhãozinho, então vou te apresentar como uma amiga e depois isso… você vai sumir — deu de ombros. Mordi o lado interno da bochecha, ponderando suas palavras. Parecia real, sem nenhuma segunda intenção. — Só pensei que você ia gostar de ver a coleção. Mas, se você não quiser… — fez um biquinho, seus lábios se voltando para baixo de um jeito teatral. Talvez Tomas devesse trabalhar no circo. — Você só quer que eu fique impressionada — retruquei, cruzando os braços. — É, pode ser. E, olha, se for para impressionar alguém, prefiro que seja você, já que... — ele se inclinou, me lançando aquele sorriso doce, os olhos brilhando — você é a única garota com quem eu fiz um acordo tão… complicado. Engoli em seco, desviando o olhar para disfarçar. A ideia de ver uma coleção particular de carros era tentadora, mas a última coisa que eu queria era dar o braço a torcer. Tinha limites rígidos, aquilo não se tornaria um romance real. Nem perto disso. — Está bem, mas sem drama, ok? — resmunguei, tentando não demonstrar o quanto estava animada. — E não ache que isso significa que eu vou ficar impressionada com qualquer coisa, McKinley. Ele riu, claramente satisfeito, as covinhas idiotas voltando. — Aí é que está, Ellie. Eu nem preciso que você finja isso. — Dessa vez a covinha só apareceu na sua bochecha esquerda quando ele teve a coragem de me dar um sorriso de lado. O ignorei, percebendo que um simples corte de cabelo o deixou com a língua mais solta. Tomas pegou nossos capacetes de volta, entregando o meu e ajustando o dele em seguida. Me permiti observá-lo só por mais um momento, notando como o novo corte realçava suas feições. Ele parecia mais confiante, mais à vontade consigo mesmo, como se aquele pequeno ajuste na aparência tivesse desbloqueado uma nova versão dele. Mas, de algum jeito, ainda era o cara usando camisas de quadrinho e fazendo piadinhas idiotas. Ele subiu na moto com facilidade, o motor roncando em um som grave e encorpado que ecoou pela rua. Coloquei o capacete e subi na garupa, tentando manter uma distância segura, mas não me sentia pronta o suficiente para segurar no banco ao invés de segurar nele então, de novo, abracei sua cintura, me espremendo contra suas costas. Senti o calor do corpo dele através da jaqueta, e um arrepio inesperado percorreu minha espinha. Obviamente porque estava muito frio. Uma brisa gelada batia no meu rosto, mesmo com a proteção do capacete, e o vento parecia entrar pelos meus ossos enquanto Tomas acelerava pelas ruas do centro. As calçadas estavam cobertas por uma leve camada de neve que começava a derreter, transformando as bordas das ruas em poças de água suja. Ele guiou a moto com uma segurança que me surpreendia, desviando de placas de gelo e de pedestres apressados que se protegiam do frio com cachecóis e gorros. Sempre amei o inverno em Norwich, e Cambridge não era muito diferente. Neve significava que meu pai teria muito trabalho, mas sempre terminávamos o dia juntos na sala, tomando o chocolate quente da mamãe e contando sobre nossos dias. Vez ou outra, papai achava alguns tesouros soterrados no gelo e trazia para casa. Coisaspequenas como brincos, chaveiros, ou até moedas antigas, que ele encontrava enquanto limpava as calçadas e calçadões cobertos pela neve. Era como se o inverno escondesse pequenos segredos, e meu pai tinha um talento especial para desenterrá-los. Depois da morte da minha mãe, as tradições se quebraram e eu senti que nunca mais foi inverno de novo. À medida que nos afastávamos, o cenário urbano deu lugar a ruas mais tranquilas e arborizadas, onde as árvores estavam desfolhadas, seus galhos secos estendendo-se como dedos longos e nus contra o céu cinzento. Qualquer pessoa que se adequasse mais ao clima do verão acharia aquilo quase assustador, mas eu amava a estação. Saímos do centro da cidade e seguimos para a rodovia em direção a Boston. A cidade não ficava longe, apenas alguns minutos de moto pela ponte que atravessava o Charles River. Era impressionante como duas cidades tão próximas podiam ter atmosferas tão distintas. Saímos de Cambridge com seu ar acadêmico e silencioso, entrando em Boston, onde o ritmo de vida parecia mais acelerado, mas com um charme próprio, especialmente nas áreas mais antigas e sofisticadas. Para mim, Cambridge era o lugar perfeito para estudos, mas sabia que um dia, formada em Direito, acabaria seguindo para a capital ou alguma cidade muito parecida. Ou pelo menos era o que eu me permitia sonhar. O cenário foi mudando rapidamente à medida que nos aproximávamos de um dos bairros mais nobres da cidade. Os prédios de tijolos deram lugar a ruas arborizadas e largas, onde as mansões se escondiam atrás de altos portões de ferro e cercas vivas ainda cobertas pelo gelo. As calçadas eram impecavelmente limpas, o que eu sabia ser fruto de algum trabalhador como o meu pai que não ganhava o suficiente para fazer com que a neve tivesse sido magicamente varrida para longe. Sentia uma mistura de “eat the riches”[3] com “quando crescer quero ser assim”. Tomas diminuiu a velocidade ao entrar em uma dessas ruas exclusivas, ladeadas por árvores desfolhadas que balançavam ao vento gelado. Ele finalmente parou em frente a uma entrada que parecia ter saído diretamente de uma revista de arquitetura. O portão de ferro forjado começou a se abrir automaticamente, revelando um caminho ladeado por altos pinheiros que levava até uma casa grandiosa ao fundo. — Bem-vinda ao paraíso dos carros — ele disse, com um tom divertido, virando a cabeça para me lançar um sorriso animado, sem segundas intenções, o mesmo que eu daria se tivesse a oportunidade de apresentar minha casa de antes, com orgulho e amor. Apesar de que a minha casa não se parecia em nada com aquela ali. O portão se abriu mesmo que eu não pudesse ver ninguém para fazê-lo, nos dando a visão completa da mansão em estilo colonial, de dois andares, e janelas enormes, misturando as paredes creme com o telhado azul escuro, além dos pilares de madeira maciça. O tipo de casa que só se via em filmes. E mesmo assim, era o lar dos McKinley. Nunca mensurei o quanto de dinheiro eles deviam ter, mas devia imaginar que era algo entre podres de rico e milionários. Quatro filhos em Harvard ao mesmo tempo, não era para qualquer um. Tomas continuou na moto, atravessando o caminho de tijolinhos e ladeando a casa, seguindo para o que deveria ser a garagem. De novo, sem que ninguém acertasse nenhum botão, o portão levantou como se estivéssemos na Batcaverna. As luzes se acenderam automaticamente e Tomas estacionou a moto no canto, perto da parede. Não tive tempo de me conter antes que meus lábios se separassem em choque. Aquilo não era apenas uma coleção de carros. Não mesmo. Deviam ter mais automóveis ali do que em uma concessionária. Enfileirados lado a lado estavam Rolls-Royce, Ferrari, Lamborghini e um Bentley novinho em folha, reluzindo diante das luzes brancas do teto. Desci da moto meio hipnotizada. Não entendia muito de carros, mas meu pai era um grande apreciador então sabia reconhecer as marcas e, mais do que isso, sabia reconhecer os preços. Nada ali custava menos do que cem mil dólares. Em meio ao meu total choque diante de todos aqueles carros, não percebi o homem sentado numa cadeira perto de um enorme balcão de ferramentas. — Oi, pai — Tomas cumprimentou, tirando o capacete e o homem rodou na cadeira, se voltando com um sorriso em nossa direção. Fingi não ver suas sobrancelhas se arquearem de susto quando me viu. Me chutei mentalmente por não ter escolhido uma roupa melhor antes de sair de casa. O homem — que era uma cópia menos grisalha do Patrick Dempsey — se levantou, os olhos azuis brilhando em direção ao filho. — Garoto! — cumprimentou e então engoliu o filho em um abraço — que surpresa te ter aqui — deu dois tapinhas nas costas de Tomas, parecendo de fato emocionado. — Ele nos chama assim quando não sabe qual de nós é — o jogador retrucou, a voz abafada pelo abraço. — Deixa de bobagem — cover do marido de Meredith Grey estalou a língua antes de soltá-lo — você é o… Taylor? — Nem tem um Taylor, pai — disse, mas teve suas bochechas amassadas. — Você está diferente — falou, segurando o queixo do filho e investigou cada lado do seu rosto — mais bonito… com cara de quem quer contar qual de vocês quebrou meu troféu. — Larga o osso, Scott McKinley, isso já faz dez anos — revirou os olhos quando o pai finalmente a soltou. — Talvez a bela garota ao seu lado saiba — disse com um tom quase galanteador e ergueu a mão em minha direção para me cumprimentar. Reagi meio no automático, segurando sua palma — Sou Scott e você é a… — Ellie, senhor, Ellie Davis. — Nosso senhor está no céu, Ellie Davis — gracejou exatamente como um pai deveria fazer — Muito bom te conhecer. Tom nunca traz amigas para casa. — A forma como ele disse a palavra “amigas” me fez congelar o sorriso no rosto e fuzilar o jogador com um olhar. Pensei que seria uma visita sem dramas. — Estou precisando de um carro emprestado, pai — surpreendentemente, Tomas não soou como um garoto mimado enquanto pedia o favor. Pelo contrário, ele parecia quase… desconfortável? Será que Scott negaria? Não parecia porque sua resposta foi: — Escolhe um enquanto converso com a Ellie — pediu, batendo no ar quase como se seu filho fosse uma mosca. Não. Era melhor Tomas não sair do meu lado. — Ok — deu de ombros e saiu do meu lado. É… estava muito claro que o jogador não trazia muitas amigas em casa. — Você e Tom estudam juntos? — questionou, o sorriso permanecendo educado quando o filho se afastou para analisar os carros. — Não, se… — comecei a chamá-lo de senhor, mas me detive. — Não, Scott, sou caloura em Ciências Políticas. — Deixa eu adivinhar — riu — quer tentar aplicar para o Juris Doctor? Era tão óbvio assim? — É meu desejo — confirmei, sem saber se me sentia envergonhada ou envaidecida por ficar evidente que esse era meu sonho. — Tenho muitos amigos, advogados formados em Harvard, curiosamente, um hospital precisa de muita ajuda jurídica — deu uma piscadinha. — Quando você conseguir entrar no curso, me procure, tenho certeza de que um deles terá um espacinho para você em seus escritórios. Pisquei, atônita. Nunca uma oportunidade foi tão fácil em toda minha vida. Era assim que os nepobabies se sentiam? Mas eu não podia aceitar. Não quando parte de todo meu currículo incluía mentir sobre um pai embaixador. Apesar de todo dinheiro e a clara influência no mundo jurídico, Scott McKinley ainda parecia um homem bom, o tipo que ofereceria ajuda para a garota que seu filho trazia para casa. Eu deveria aceitar. Mesmo que fosse uma oferta da boca para fora. Tinha prometido para mim mesma que eu agarraria cada oportunidade que caísse no meu colo, independente de qual seria o custo, mas enganar aquele desconhecido parecia… cruzar uma linha. — Obrigada, senhor — falei, mas deixando no ar sua sugestão. Em silêncio, fiz uma promessa. Não tiraria proveito de Tomas ou de sua família. Capítulo 12 | Tomas, Tomas Guaraná, Tomas! O melhor! Tomas Guaraná, o sabor brasileiro — Mãe, para! — pedi, mas ela estava quase passando por cima de mim para chegar até aporta. — Seu pai está conversando com ela então também tenho esse direito — disse em português o que só provava que Teresa McKinley estava muito investida com o que quer que estivesse acontecendo na garagem. Minha mãe era pequena e fofa. Pele branca e bronzeada, cabelos castanhos e curtos, olhos castanhos e amorosos, que viu quatro bebês abandonados e percebeu que aquela seria sua família, seus filhos. Uma querida. Menos quando tinha uma garota que me acompanhava em sua garagem. — Mãe! — chamei e ela cruzou os braços, fazendo biquinho. — É só uma amiga. — Você nunca teve amigas — voltou a falar inglês, num tom magoado que eu sabia muito bem que era proposital. Holden não aprendeu seus olhinhos de gato de botas sozinho. — Já tive um monte de amigas — contrariei e ela revirou os olhos. — Garotos que usam personagens femininas em jogos online não contam como amigas. — Por trás de seu rostinho angelical tinha uma mulher feroz. E um pouco debochada. — Isso é cruel, dona Teresa McKinley — acusei e ela deu de ombros, fazendo com que o sobretudo azul e verde sacudisse ao redor do seu corpo. Mamãe podia ser uma esposa exemplar e cheia de classe nos jantares de negócios do hospital, mas em casa se vestia como se fosse Sofia Vergara em seu episódio mais maluco de Modern Family. — Me deixa falar com ela — implorou, agarrando meu rosto. — Vou me comportar, não vou mostrar fotos de você pelado quando bebê ou contar que aos doze anos você tentou fazer a gente te chamar de Tomas Guaraná por causa do comercial de Dolly Guaraná no Brasil. — Mãe! — falei sobressaltado, sentindo as bochechas arderem. Apenas imaginar Ellie ouvindo algo assim me deixava mortificado. — Só de você sugerir uma coisa dessas já não quero que você vá até lá. — Ordinário! — disse em português, me soltando. Eu podia não saber conjugar os verbos muito bem no idioma brasileiro, mas tinha aprendido um monte de adjetivos como esse. — Posso pelo menos saber como ela é? — Linda — a palavra escapou antes que eu pudesse me conter. Num segundo ela estava perto do armário da cozinha e no outro estava em cima de mim, os braços ao meu redor. — Meu bebê vai desencalhar — sua voz estava tão aguda que feriu meus ouvidos. — Só uma amiga, mamãe — lembrei, mas ela ignorou. — E uma amiga te faria querer cortar o cabelo assim? — sugeriu, erguendo o rosto apoiado em meu peito com um sorriso largo. — Seus irmãos também começaram a se cuidar mais quando amigas apareceram em seus caminhos. Não lembra o banho de perfume que Tyler passava quando a Maddy visitava? Apesar que… demorou um pouco para você achar uma amiga assim. — Não é como Maddy e Tyler — definitivamente não. Meu irmão e sua melhor amiga nunca tinham entrado em um namoro falso para começo de conversa — Te juro que ela é só uma amiga, mamãe. — Jura por São Sebastião? — Perguntou, me soltando, seu olhar sério. — Juro por São Sebastião — respondi e ela espremeu os olhos em minha direção. Os juramentos ao padroeiro dos esportes eram levados muito a sério em casa. — Ok… — balançou a cabeça, mas um sorriso travesso nasceu em seus olhos. — Não vou te encher mais o saco, pegue as chaves do carro e vá encontrar sua amiga. — Seu tom ainda era sugestivo apesar da minha promessa ao santo. — Obrigado — falei finalmente, apesar de ainda manter o corpo entre ela e a porta porque haviam chances reais dela sair correndo em direção a garagem. — Nananinanão — estalou a língua no céu da boca quando meus dedos pairaram sobre as chaves do Rolls-Royce. — Pega a Ferrari, vai impressionar mais a amiga. Pensei em retrucar, dizer mais uma vez que entre Ellie e eu era apenas amizade, mas… no último segundo peguei a chave amarela com o cavalo preto. — Até mais, mãe — falei e ela sorriu, se debruçando no balcão da ilha da cozinha. — Até mais, bebê — desejou, apesar de eu saber que demoraria um pouco para que eu voltasse para casa. Amava meus pais, obviamente. Teresa e Scott me deram tudo que alguém poderia desejar: uma família, um lar, estabilidade. E, mesmo assim, havia uma parte de mim que sempre se sentia deslocada, como se eu estivesse vivendo uma vida emprestada. Todos os luxos que eles nos davam, as escolas caras, os cursos de idiomas, os esportes… tudo fazia parte do pacote que eles acreditavam ser o melhor para mim e meus irmãos. No fundo, sempre senti que não merecia aquilo, afinal de contas, eu era a criança que genitores adolescentes colocaram no mundo e não quiseram. Holden, Tyler, Travis e eu encaramos a rejeição muito cedo. Eles lidavam com aquilo muito melhor do que eu porque nunca deixei de me perguntar se merecia tudo aquilo. Uma coisa idiota como pedir meu pai para me emprestar um dos seus vários carros parecia demais. Se Ellie não tivesse sugerido, nunca teria pedido. Eu sabia, racionalmente, que eles eram os únicos pais que tive de verdade, mas, emocionalmente, essa conexão parecia sempre um pouco mais difícil do que era para meus irmãos. Talvez fosse o fato de eu nunca ter conhecido meus genitores — uma ausência que se traduzia em um vazio inexplicável. Teresa e Scott faziam de tudo para preencher esse vazio, e eu apreciava o esforço. Mas havia uma barreira invisível que nunca consegui transpor por completo, uma sensação de que, por mais que eu tentasse, nunca conseguiria corresponder ao amor incondicional que eles me davam e que eu sentia de volta. Abracei minha mãe rapidamente, sentindo o conforto familiar de seu perfume, e me despedi antes que essas emoções pudessem transparecer. No fundo, eu sabia que eles entendiam, mesmo que nunca falássemos sobre isso. Afinal, o amor que tínhamos não precisa ser perfeito para ser verdadeiro. Quando voltei para a garagem, meu pai e Ellie ainda estavam no mesmo lugar perto da porta. A garota tinha a mão tapando a boca enquanto seus ombros sacudiam num riso incontrolável. Mal sinal. — Pronto — ergui a chave e os dois tentaram se recompor, apesar das risadinhas ainda escaparem. Péssimo sinal. — Deveria trazer a Ellie em casa mais vezes, filho — meu pai falou, enfiando as mãos nos bolsos da calça jeans escura. Em casa ele preferia roupas mais informais do que os ternos do hospital — Vovó Dorothy iria amá-la. Tentei conter uma careta e falhei miseravelmente. Não por causa da vovó, mas porque Ellie deixou muito claro que esse não era o tipo de relacionamento falso que teríamos. — Sim, iria — tentei ser vago e a garota relaxou, talvez com medo de que eu quebrasse nossa regra e a chamasse para um chá da tarde com a mãe do meu pai. — Vamos? Tenho que deixá-la no dormitório, pai. — Sim, claro — num gesto que só um estadunidense casado com uma brasileira podia ter, papai abraçou Ellie como fazia conosco, pegando-a de surpresa. — Volte sempre, querida. E aqueles advogados estão te esperando. Aquilo fez com que sua expressão caísse, quando meu pai a soltou, Ellie parecia… triste? — Vou deixar a moto aqui, tudo bem? — Falei, uma sensação incompreensível me tomando. Queria poder estar a sós com ela e perguntar o que a tinha chateado. Apesar de saber que ela não era do tipo que compartilhava, me sentia meio protetor sobre ela. Ellie era muito mais do que as pessoas enxergavam na superfície. — Sem problemas, filho. Boa escolha de carro. — Deu uma piscadinha que me fez revirar os olhos. Meus pais estavam sendo meio malucos sobre eu trazer uma garota para casa. — Muito bom conhecê-lo, Scott — a garota sorriu, educada, mas lançando um olhar travesso no último segundo. — Vamos, Tomas Guaraná? — seu sotaque estadunidense quase perdeu a piada, mesmo assim consegui entender. Infelizmente. — Não acredito — resmunguei, abrindo a porta do carona, a garota entrou, tirando sua mochila das costas e a apoiando no colo com uma risadinha. Depois dessa, duvidava que ela quisesse continuar nosso acordo. Era impossível que um cara que teve como ídolo um personagem de refrigerante brasileiro conseguisse se destacar. Lancei um último olhar sujo para o meu pai. — Sabe quem quebrou seu troféu? — perguntei, erguendo o queixo. Os olhos dele brilharam.— Não. — E vai continuar assim — disse e entrei no carro. A última coisa que ouvi antes de arrancar foi sua risada. Criar quadrigêmeos malucos fez com que Scott McKinley nunca ficasse magoado de verdade. — O que quer que meu pai tenha te contado, ele inventou — falei quando atravessamos o portão da propriedade. Meu coração se apertou um pouquinho porque sabia que devia visitá- los mais vezes. Quando o draft acontecesse — e eu estava trabalhando dentro e fora da quadra para que acontecesse — podia ir para qualquer lugar do país e meus pais não estariam mais a vinte minutos de distância. Ainda assim era difícil. — Ele é legal — Ellie deu um sorriso e então olhou para a janela, como se quisesse se esconder. As palavras fluíram de mim, antes que eu pudesse perceber. — Posso perguntar uma coisa? — Não — disse e se voltou para mim, dessa vez seus lábios se esticaram de forma mais verdadeira. Ela era muito linda. Sob a luz do começo da noite os contornos de seu rosto eram iluminados de forma quase etérea. O brilho das luzes distantes criava sombras delicadas, destacando seus traços e a forma como seus olhos pareciam capturar e refletir tudo ao redor. Mesmo naquele momento em que ela me dava um olhar desafiador, algo nela parecia simultaneamente distante e irresistível, como uma estrela que você sabe que nunca poderá alcançar, mas não consegue parar de admirar. Engoli seco, voltando-me para a estrada. Aquele pensamento não era muito namoro falso da minha parte. — Por que você faz isso? — Isso o quê? — questionou, seu queixo se erguendo um pouquinho, em desafio. — Essa coisa toda de… mentir — falei e virei o rosto, para ver se ela tinha se ofendido, mas Ellie continuava impassível. — Não me entenda mal, mas… você é muito mais legal do que o resto das pessoas em Harvard. A garota brincou com o zíper de sua mochila, um cacho caindo em seu rosto quando ela baixou a cabeça. — Por que não mentir? — desconversou, brincando. O silêncio que caiu sobre o carro foi desconfortável. Quis me bater com um taco de hóquei por dizer algo tão insensível, mas o questionamento pareceu acionar algo nela. Depois de um minuto inteiro com apenas o som do motor enchendo a Ferrari, Ellie respondeu: — É um ambiente super competitivo e não quero ser vista como carta fora do baralho, por isso… — sorriu, mas a alegria não chegou até seus olhos — minta até você conseguir. Era uma lógica absurda para mim, Ellie não precisava daquilo. — Não é a forma mais ética de começar uma carreira no Direito — apontei, não querendo julgá-la, mas entender a lógica por trás de suas escolhas. — As pessoas acham que advogados são bastiões da moral — ela começou, sua voz baixa, quase um sussurro. — Mas, na verdade, tudo se resume a convencer. Convencer um júri, um juiz, até a si mesmo às vezes. Seus olhos fitaram o vidro diante dela, mas pareciam enxergar quilômetros de distância. Ou anos no passado. — E eu sou boa nisso, em convencer as pessoas. Preciso ser. — completou, dando de ombros. O resto do caminho foi silencioso, as palavras de Ellie rodando na minha cabeça. O que a garota prodígio de Harvard, uma das alunas mais promissoras de toda a universidade, não podia ter, falando a verdade? Ela era tudo o que Harvard valorizava — brilhante, articulada, segura de si. Talvez fosse por isso que a garota se impregnou tanto no meu cérebro. Era um mistério que eu ainda não conseguia decifrar, uma contradição viva entre autenticidade e artifício. Quando chegamos no campus, sua coluna se endireitou e, ao invés de olhar curiosa pela janela como fez durante todo o caminho, Ellie ergueu o queixo, fitando a frente de si. Parei perto do dormitório e ela se voltou para mim, inclinando-se em minha direção. A atmosfera se tornou mais pesada ao meu redor. De repente era como no meu sonho indecente de novo, algo invisível vibrando ao meu redor. O calor de sua proximidade fazia meu coração bater mais rápido, e o jeito como seus olhos brilhavam, mesmo na penumbra, me deixava inquieto. Ellie piscou, se afastando e tecendo um sorriso gelado. — O corte de cabelo ficou legal — disse, quase carinhosa. — Minha mãe também gostou — falei e ela revirou os olhos. — Você é tão você, Tom — usou o mesmo apelido que minha família usava e aquilo não devia me agradar tanto. Mas agradou. — De um jeito bom ou ruim? Ellie pensou por alguns segundos antes de responder. — Bom. Mas antes que eu pudesse perguntar, ela abriu a porta e saiu, deixando- me com um milhão de perguntas sem resposta e uma sensação de que, por mais que tentasse, nunca conseguiria desvendar totalmente Ellie Davis. Assisti ela partir e a observei até que fechasse a porta atrás de si. Fiz o caminho de volta para minha casa meio entorpecido, perdido em todos os segredos e mentiras que pareciam tão verdadeiros sobre minha namorada falsa. Agradeci mentalmente a Holden quando ele escolheu um lugar com muito espaço na garagem para todos nós morarmos e ainda fez questão de configurar todos os carros dos nossos pais para abrirem automaticamente o portão. Quatro cabeças pensavam melhor do que uma. Estacionei ao lado do Chevy 67 de Travis e guardei a chave no meu bolso. Não admitiria, mas já estava sentindo falta da minha moto. Ou talvez de ter os braços de Ellie ao meu redor. Ignorei os pensamentos. Subi os degraus até a porta e encontrei meus irmãos sentados nos bancos ao redor da ilha da cozinha, cada um deles tinha um bowl de salada com proteína, equilibrados com as latas de Coca zero diante deles. Mas, o que mais me chamou atenção, foi como eles pareciam ter visto um fantasma ao me olhar. Virei o pescoço, tentando enxergar atrás de mim. A Cuca — a bruxa jacaré que minhas tias brasileiras sempre diziam ter vindo nos pegar — estava atrás de mim? Aparentemente não. Eu era a assombração. — Você tá diferente. — Travis avisou. — Mudou alguma coisa — Holden completou. — Fez harmonização facial — Tyler chutou. Revirei os olhos. — Só troquei o corte de cabelo. — falei mostrando para eles todas as direções do meu novo look, mexendo a cabeça para que eles pudessem ver. Três olhos de águia me analisaram e esperei, ansioso. Uma coisa era Eliezer, o barbeiro, achar que meu novo cabelo era legal, outra bem diferente eram meus irmãos. Se eles detestassem, eu viraria a piada do século. Tyler ainda ficava puto quando o chamávamos de PiuPiu maluco por causa da franja que ele tentou emplacar aos quinze e a gente sempre relembrava. Sempre. No entanto, Holden resumiu para eles: — Com essa cara… — se levantou com o bowl vazio em suas mãos e me deu um tapinha no ombro — você vai pegar geral, maninho. Geral era muita gente. Mas conseguia pensar em uma pessoa. Capítulo 13 | Marcar gols, aparecer nos stories da garota, o negócio da família Aquela porcaria de corte de cabelo não ajudou em nada. Se alguém conseguisse ver meu rosto por baixo do capacete de hóquei, veria o quanto eu estava puto. Em defesa do treinador, a nossa equipe estava ganhando de lavada contra os caras metidos de Yale, com um oferecimento de duas defesas históricas de Travis que adorava chutar a bunda de riquinhos mimados. Apesar de, tecnicamente, nós também sermos riquinhos mimados. O ditado “em time que está ganhando não se mexe”, podia ser real para quem jogava no time que estava ganhando, mas no banco, o que mais se queria era umas mexidas. Tirei o capacete, me sentindo meio idiota por acreditar que um simples corte de cabelo me tiraria do banco dos reservas, ainda mais quando o time todo estava estraçalhando. Passei os dedos pelos fios castanhos e, de repente, gritos da plateia começaram a chamar minha atenção. Um bando de calouras — usando os uniformes mais recentes do time então só poderiam ser calouras — começou a pular e gritar, coisas desconexas saindo das suas bocas no meio da multidão vibrando. Uma ruiva usando rabo de cavalo apontou em minha direção e olhei ao redor, procurando o que estava causando tanta histeria. — Tá fazendo sucesso, McKinley — Sullivan, o cara que mais ficava no banco, comentou, umar de desprezo em sua voz. O tio dele foi um fenômeno do hóquei canadense e pagava os estudos do sobrinho esperando que ele fosse a próxima lenda do esporte, mas Sullivan mostrava que seria no máximo a próxima nota de rodapé. Com todo respeito. Porque talvez eu fosse apenas um bilhete na história do hóquei. — Elas estão gritando por causa de você. Franzi o cenho. Estavam? Me virei de novo na direção do grupo de garotas e dei um tchauzinho, ainda com a luva nas mãos e seus gritos só aumentaram. Voltei para frente em câmera lenta. Puta. Que. Pariu. Aquilo nunca tinha acontecido comigo. Já tinha visto mulheres virem de fora do campus para verem jogos por causa dos meus irmãos? Sim. Uma vez uma estudante de Cornell me fez tirar foto dela com os três porque era a única oportunidade dela de ver os quadrigêmeos do hóquei, mas não se tocou que eu era o quarto dos quadri também. Mas ninguém nunca gritou por mim. Ainda mais quando eu estava no banco. Olhei o jogo diante de mim e, de repente, o 3 x 0 nem era tão legal assim. Eu era mais. — Não fica com essa cara de idiota — Sullivan disse, meio enojado — você nem tá jogando. — Você também não está e não tem ninguém gritando por você — falei, vaidoso, talvez deixando a animação da galera ganhar de mim. — Babaca — o outro reserva cuspiu e se levantou do banco, indo em direção ao cooler com os copinhos plásticos de água. Será que era assim que os profissionais se sentiam? Devia ser esse o motivo pelo Killian Di’Angelis não parava de sorrir nas fotos que saiam de paparazzi. Ou por causa da loira que sempre estava ao seu lado. Legal. Bem legal. Ter calouras gritando meu nome era divertido, mas imaginar uma estudante em específico fez meu rosto esquentar. Ellie viria até os jogos? O simples pensamento sacudiu meu corpo inteiro. A ideia de ela estar ali, assistindo, me deixou inquieto de um jeito que me fez perder o fôlego. Mas imaginá-la na arquibancada gritando meu nome era muito melhor do que um grupo de calouras. Melhor que cem calouras. Apesar de eu saber que ela nunca faria isso. — McKinley, porra, estou falando com você — o rosto do treinador apareceu de repente diante de mim e me inclinei para trás no banco, assustado. Quando ele tinha chegado ali? — Desculpe, treinador — pedi, sabendo que ele não aceitaria como justificativa um “estava pensando na minha namorada falsa”. — Kovalenko vai sair, coloca o equipamento, você vai entrar. — Arregalei os olhos, pensando que meus ouvidos estavam me pregando uma peça. — Você ouviu bem, McKinley, vai entrar agora — repetiu o treinador Adams, os olhos estreitos de quem estava sem paciência para dar duas vezes as mesmas ordens. Meu cérebro levou um segundo para processar aquelas palavras. Eu? Entrar no jogo no final? No meio de um clássico contra Yale? — Sim, senhor! — respondi, quase derrubando meu capacete enquanto o colocava de volta. O sangue latejava nos meus ouvidos, e um misto de euforia e pânico me invadiu. Essa era minha chance, a oportunidade que eu estava esperando no último mês inteiro. Sullivan soltou um riso debochado de volta ao meu lado, mas eu não tinha tempo para suas provocações. Minhas mãos tremiam enquanto ajustava as luvas, os gritos das calouras agora um ruído distante, quase inaudível perto da pressão que crescia dentro de mim. Por um segundo, minha mente vagou até Ellie de novo. Será que ela estava assistindo? Talvez estivesse em algum lugar no alto da arquibancada. Será que ela veria que eu estava finalmente sendo convocado para o gelo? Sacudi a cabeça. Precisava de foco. Essa era a minha chance de mostrar para todo mundo — inclusive para mim mesmo — que eu podia ser muito mais do que o quarto McKinley. Entrei no ringue, me sentindo ansioso, mas pronto. Travis e Holden eram defensores titulares no time, enquanto Tyler, Kovalenko e Dalton faziam parte do time de atacantes, juntamente com Garrett no gol. Eles eram afiados juntos — apesar de eu ter minhas ressalvas sobre o espírito de equipe de Dalton — e eu precisava me destacar se quisesse um lugar junto com eles. Os jogadores de Yale estavam ferozes naqueles minutos finais, lutando para diminuir a diferença entre eles, mas foi em vão. O jogo já estava dominado por Harvard. O placar de 3 x 0 para nós era seguro, mas o treinador Adams queria me testar e eu me sentia pronto para mostrar o que podia. Numa jogada ensaiada, Holden conseguiu desarmar os atacantes de Yale e jogou o puck em minha direção, tudo ao meu redor pareceu ficar em câmera lenta. Eu tinha apenas uma fração de segundo para reagir. Patinei rápido, desviando de um defensor adversário com um movimento que quase me derrubou, mas mantive o equilíbrio. Eles podiam ser fortes, mas não eram dois. Os gritos da torcida se intensificaram quando apontei para o gol. Faltavam apenas alguns minutos para o fim e, se não fosse naquele momento, não aconteceria mais. Era a minha chance de deixar uma marca. Respirei fundo, o som abafado do gelo sob meus patins misturado com o rugido da multidão e o martelar do meu coração dentro dos meus próprios ouvidos. Eu sabia que ninguém esperava nada de mim naquele jogo — mas era exatamente por isso que eu tinha que surpreender. Acertei o puck com força, mirando um canto impossível para o goleiro adversário. Ele mergulhou, mas o disco passou por ele como um foguete, balançando as redes. A explosão da torcida foi ensurdecedora. Um mundo de mãos, luvas e tacos bateram nas minhas costas e, quando me virei, encontrei os rostos dos meus irmãos, sorridentes comemorando. — Porra, porra! É disso que eu estou falando! — Holden gritou, sacudindo meus ombros enquanto eu gargalhava. Recebi os olhares frios dos adversários e não me importei. Só uma equipe saia vencedora essa noite e, por mais que eu respeitasse o trabalho deles, era melhor que fosse o nosso time a vencer. O apito final soou e o ringue foi tomado por gritos eufóricos. Travis, Tyler e os outros estavam me puxando para um abraço em grupo, mas tudo o que eu conseguia pensar era que eu finalmente fizera algo que me destacava. O sentimento era intoxicante. Era por isso que eu faria qualquer coisa para ser draftado. Hóquei era meu oxigênio, a razão pela qual eu levantava todos os dias e me esforçava, treinando, cuidando do corpo e da mente. Não havia nada que eu quisesse ser mais do que um jogador profissional. Aos poucos, fomos nos afastando do gelo, patinando de volta para o banco, meio agarrados uns aos outros, os sons das comemorações abafados pelo grito da plateia. O treinador Adams estava com um sorriso satisfeito no rosto, algo raro vindo dele, mas que um 4 x 0 tão limpo arrancaria de qualquer um. — Bom trabalho, McKinley — ele disse simplesmente, com um aceno de cabeça. Era o tipo de elogio que eu esperava ouvir há semanas desde que passei a ficar mais tempo no banco do que no gelo. No corredor estreito que levava ao vestiário, os barulhos externos foram abafados, e a adrenalina começou a ceder, deixando em seu lugar um cansaço pesado, mas satisfatório. Os poucos minutos que corri dentro da quadra cobraram seu preço, minhas pernas doíam e o peito ardia, sem fôlego por causa de toda a correria. Mesmo entrando nos momentos finais, o suor já tinha minado por todo meu peito, fazendo com que o uniforme se agarrasse a minha pele. Precisava de um banho, mas também queria sair correndo e gritando de felicidade por aí. Fui o último a entrar, e o som de palmas e gritos explodiu assim que empurrei a porta. Meus companheiros de time estavam ali, batendo os capacetes uns nos outros, todos ainda eufóricos com a vitória. Estávamos mais e mais perto do Frozen Four. Garrett estava liderando um coro de comemoração, e Travis jogou uma toalha na minha cara antes de me puxar para o centro do vestiário. — Olha só, o herói da noite — meu irmão riu, mas eu revirei os olhos, dando um toque em seu punho erguido para cumprimentá-lo. — Vocês já estavam ganhando de 3 x 0 — lembrei porque apesar de ter gostado do meu desempenho, ainda não fui decisivo como gostariade ser. Aumentei o placar, mas não foi tão significante como o primeiro gol. — Curte o momento, maninho. — pediu dando um último tapinha em meu ombro. Eu sorri, mas sabia que precisava esfriar a cabeça antes que toda aquela adrenalina me consumisse. Fui direto para o chuveiro. A água quente era uma bênção, lavando o suor, a tensão, e deixando no lugar um alívio tão profundo que eu mal conseguia segurar um sorriso. Enquanto a água caía sobre mim, a lembrança dos gritos da torcida ecoava na minha mente, especialmente aquele momento em que percebi que, pela primeira vez, eles estavam torcendo por mim. No entanto, o pensamento patético voltou. Será que Ellie tinha assistido? A ideia de ela estar ali, vendo meu gol, fez meu coração bater mais rápido do que deveria. Ela não era desse tipo. Se tivesse que adivinhar, chutaria que ela estava em alguma reunião de algum projeto de extensão complicado que nem aceitava calouros, mas mesmo assim abriu uma exceção para a garota. Terminei o banho, desliguei o chuveiro e, com a toalha enrolada na cintura, voltei para o vestiário. A maioria dos jogadores já tinha saído, provavelmente indo para alguma festa numa fraternidade. O lugar estava quase vazio, com exceção de alguns reservas que ainda riam e brincavam no fundo. Peguei meu celular no bolso da mochila, pronto para dar uma olhada rápida antes de ir embora, quando vi a notificação. Ellie: Oi, pode me encontrar na biblioteca? Ellie: Tive o dia cheio hoje e é o único horário que tenho livre. Sorri, segurando a toalha ao perceber que tinha acertado seu cronograma, já eram mais de nove da noite quando ela finalmente terminou suas obrigações. Mas o sorriso logo morreu quando percebi que ela não tinha visto meu desempenho no jogo. Não tinha problema. Isso nem deveria ser uma questão para mim. Tom: Oi, posso sim! Estou saindo da arena, chego em dez minutos. Me vesti rápido, embolando todas as minhas coisas na mochila do time e saindo ainda de cabelos molhados apesar do frio que fazia lá fora. Será que eu poderia de alguma forma trazer casualmente o fato de que eu marquei um gol para a conversa? Duvidava que sim. O que meu jogo pareceria em oposição a todas as coisas incríveis que Ellie Davis com certeza fez ao longo do seu dia? A biblioteca e o Bright-Landry Hóquei Center eram relativamente perto então deixei minhas coisas no carro — que eu precisava admitir que era bem mais prático do que minha moto — e segui a pé. O ar frio me mordeu assim que saí, e o vapor escapou dos meus lábios em uma nuvem. A caminhada me deu tempo para acalmar a adrenalina e me fazer relaxar depois de um jogo tão emocionante. Ao chegar ao prédio iluminado da biblioteca, avistei Ellie do lado de fora, o rosto iluminado pela luz do celular enquanto digitava rápido na tela. Ela estava usando um casaco preto de couro, suéter branco, cachecol bege e uma calça preta um pouco mais larga, além de botas. Os cachos estavam soltos ao seu redor, caindo em cascata pelos ombros. Ela era… bonita demais. Esse era um pensamento inocente de se ter, não é? O tipo de coisa platônica que namorados falsos podiam pensar. Mas, além disso, era tão óbvio o quanto ela era bonita que só sendo muito idiota para não conseguir enxergar. Senti aquele nervosismo voltando com tudo. O tipo de nervosismo que eu nunca tinha sentido com nenhuma outra garota antes. Como se cada segundo ao lado dela fosse uma chance de estragar tudo. Ou talvez, uma chance de algo… diferente. — Oi, desculpe a demora — falei, tentando parecer mais calmo do que me sentia. Ela olhou para cima, seus olhos castanhos se encontrando com os meus, e sorriu, guardando o celular no bolso. Um sorriso genuíno que fez todo o frio da noite desaparecer. — Sem problemas, McKinley. Vamos entrar? — Ela indicou a entrada com um movimento da cabeça. Apenas assenti, sentindo aquela mistura estranha de alívio e empolgação. O placar do jogo ou os gritos da torcida ficaram em segundo plano. A segui para dentro da biblioteca quando ela se dirigiu para uma mesa logo no saguão de entrada e se sentou, indicando a cadeira diante dela para mim. A imitei, assumindo meu lugar. Não haviam mais muitos estudantes por ali, a biblioteca fecharia em meia hora então fiquei mais relaxado, sabendo que, independentemente da loucura que ela sugerisse, ninguém nos escutaria. — Nova etapa do seu plano de transformação — falou, um sorrisinho atravesso aparecendo em seus lábios. Já estava com medo. — Mal posso esperar — ironizei e ela revirou os olhos. — Redes sociais — disse, desbloqueando o celular e me mostrando meu próprio Instagram. — Você precisa ter um bom perfil porque em breve, ele vai ser seu ponto de contato com seus novos fãs. — disse novos como se eu já tivesse algum velho. — O que tem de errado? — perguntei, um pouco ofendido, pegando seu IPhone e rolando pela minha página. Parecia muito bom para mim. — Para começar, você tem fotos desde 2014 quando nem era permitido que você tivesse uma rede social — dei de ombros. Era verdade. Fui o primeiro dos meus irmãos a fazer um perfil e mostrei para eles todas as funções quando finalmente se renderam. Em duas semanas eles tinham o dobro de seguidores que eu. — Vou ter que apagar as fotos? — perguntei, receoso. Tinha um mundo de memórias ali. Minha primeira visita a Comic Con, o cosplay meio improvisado de "Star Wars" que fiz no Halloween, todas as nossas viagens ao Brasil. Era coisa demais para me livrar assim. — Que saco! — Ellie gemeu, parecendo contrariada por algo que estava acontecendo dentro da sua mente — ok, não precisa apagar, é meio fofo. Mas você vai melhorar a curadoria das fotos. — O que tem de errado com as minhas fotos? — podia não ser o melhor em enquadramento, mas tinha meus talentos com os filtros. — Tem quatro caixas de cereal no seu perfil, Tom — Eu gosto de Froot Loops — me defendi e ela espremeu os olhos em minha direção. — Deu para perceber — era uma crítica muito explícita. Eu também dei uma stalkeada no perfil dela, tinha com certeza bem menos fotos que o meu. E as fotos eram melhores. E mais bonitas. E mais interessantes. Mas cada um com seu gosto — Mas vamos começar coisas novas: nada de heróis, nada de cereais matinais, nada de jogos, a não ser que seja sexy. — E como jogar pode ser sensual? — Aquilo era loucura. Eu passava grande parte do meu tempo dentro do gelo, com caras suados, batendo uns nos outros e se xingando. — Você nem faz ideia — ela cochichou e eu franzi o cenho. Eu a observei com a dúvida clara estampada no rosto. Ellie tinha uma maneira estranha de me deixar pensando demais nas coisas mais simples, e aquela parecia ser mais uma dessas situações. Mas antes que eu pudesse responder, vi seu sorriso travesso e comecei a desconfiar que ela tinha um ponto. — Para começar — pegou seu celular, erguendo-o em minha direção — vou te marcar num story. Dei um sorriso, erguendo a mão, fazendo um sinal de joia. Ellie baixou o celular, nada satisfeita. — Não faça pose. — Mas é uma foto — lembrei. — Só abaixa as mãos em cima da mesa, olha para o lado e finge que está vendo algo bem distante — comandou e eu o fiz, meio sem entender. Esperei alguns segundos e ouvi seus cliques na tela quando ela deve ter tirado umas mil fotos minhas observando o horizonte como um idiota. Quando me voltei para Ellie, seu rosto estava em branco os lábios levemente separados enquanto ela fitava a tela do seu celular parecendo perdida em pensamentos. — Ficou boa? — perguntei e ela piscou, parecendo se lembrar de que eu estava ali. — Uhum — sua voz estava mais aguda e ela desviou o olhar, clicando pela última vez em sua tela. — Postei no meu story e te marquei, depois reposta. — O que foi? — será que ela estava envergonhada? — Ainda não me acostumei com o cabelo — disse meio sem fôlego e eu franzi o cenho. — Tá ruim? — mexi nos fios com os dedos, jogando-os para trás, mas ainda não estava habituado e as mechas caíram para frente. Aquilo não pareceu ajudar em seu estado de… sei lá o que estava acontecendo. — Definitivamentenão — sussurrou e então olhou para as estantes de livros, respirando fundo algumas vezes antes de se voltar para mim. — Agora é só esperar a mágica. — Uma foto minha nos seus stories vai me deixar mais popular? — É o que vamos ver. — disse, quase enigmática. Nossa tarefa do dia tinha acabado então. Cada um iria para o seu lado. Boa noite. Não consegui evitar de falar. — Marquei um gol hoje — despejei como um idiota, esperando que ela revirasse os olhos ou dissesse como eu era absurdo. Mas Ellie não fez nada disso. Ela pareceu surpresa, um sorriso genuíno nasceu em seus lábios. — Não sabia que tinha jogo hoje, parabéns! — Ela tinha provavelmente participado de uns cem projetos que tinham potencial de mudar o mundo e mesmo assim parecia feliz com minha grande conquista que consistia em chutar um puck no gol. Agora sim nós iríamos embora. Tchau. Até mais. Mais palavras saíram da minha boca. — E você… como foi seu dia? Ellie franziu as sobrancelhas por um segundo, confusa. Só então percebi que seu lábio superior era levemente mais cheio que o inferior, mas o superior tinha um desenho delicado que… Meu Deus por que eu estava olhando para a boca dela? — Foi bom — meditou, alheia aos meus pensamentos — fui selecionada para a assistência de pesquisa e tive minha primeira reunião, vai ser bastante trabalho e será voluntário por alguns meses, então… — suspirou, passando a mão pelos olhos. — Eles não vão te pagar? — Até onde eu sabia, esse tipo de atividade contava como estágio remunerado na faculdade. — É tão concorrido que eles nem precisam oferecer uma bolsa imediata — Ellie sorriu, mas consegui ouvir o leve desagrado — é uma grande oportunidade, os últimos seis assistentes entraram para o Juris Doctor então estou empolgada. Se eu bem conseguia contar, essa era a milésima atividade extracurricular que Ellie fazia. — Não vai ser muito cansativo… com o seu trabalho e tudo? — falei a última parte em voz baixa. A garota desviou o olhar e apenas deu de ombros. Os fragmentos do que eu sabia dela quase não se encaixavam na minha cabeça. O questionamento pulou da minha boca antes que eu pudesse perceber. — Por que você continua no seu trabalho em Norwich? — Nem todos nós temos sete carros de luxo em suas garagens esperando para serem usados — apesar de não a conhecer muito bem, já conseguia ver que aquilo era uma evasiva. Esperei pacientemente até que ela suspirou, derrotada. Da mesma forma como eu já tinha aprendido algumas coisas sobre ela, Ellie também já tinha descoberto que eu não desistia fácil. — Tenho um pai bêbado para cuidar — despejou. — Não volto para Norwich porque quero viver uma fantasia suburbana, mas porque ele precisa de mim. Controlei minha expressão, sem deixar que a surpresa transparecesse. De repente, a imagem da garota perfeita, esforçada e que não tinha limites para atingir seus objetivos deu espaço a alguém mais humana. Podia sentir o peso da responsabilidade nela, daquelas palavras. Ela não queria ser vista como alguém que dependia de outros, mas, de alguma forma, ainda estava lutando com tudo o que sua vida exigia. No entanto, para mim, ela não pareceu menos perfeita. Quando Travis se afundou na bebida e nos remédios, vi minha própria família fazer de tudo para ajudá-lo, cuidar dele. Nós também nos entregamos até que meu irmão estivesse sóbrio e saudável de novo. — Consigo entender. — falei, solene. — Duvido — rebateu, olhando de volta para as estantes e se levantando de forma abrupta — Nos vemos depois? Dessa vez não tinha mais como postergar. — Até mais. Pegou seu celular de volta na mesa e saiu pelo menos caminho que fizemos minutos antes. Enquanto a observava partir, uma parte de mim queria ir atrás, perguntar mais, garantir que ela soubesse que eu estava ali. Mas, ao mesmo tempo, senti que ela precisava de espaço. Desejei que, em algum momento no futuro, a garota cheia de segredos pudesse confiar em mim. Capítulo 14 | De vestido vermelho, tirando foto com seu namorado falso, ótimo momento para sentir tesão Eu sabia que não deveria atender, mas mesmo assim o fiz. — Alô? — Oi, filha — meu pai cumprimentou e eu fechei os olhos, saindo do Littauer Center[4]. — Está ocupada? Uma parte de mim quis dizer que sim, que não podia atender, mas já estava expert em descobrir pelo tom de sua voz se ele tinha bebido ou não. E, naquele momento, Michael Davis estava sóbrio. Não haviam muitas outras oportunidades como aquela. — Estou entre uma aula e outra — menti de leve. — Só queria dizer que… — sua voz estava sufocada e eu respirei fundo, evitando emitir qualquer som — esse fim de semana vai ser diferente. Não quero mais estar bêbado o tempo todo, Ellie. Quero poder conversar com minha filha. Eu queria acreditar, mas não conseguia. Já ouvi essas palavras antes — promessas vazias que sempre terminavam em decepção. Estava desde os quatorze anos escutando aqueles mesmos juramentos e já era grandinha o suficiente para saber que não aconteceria. Mesmo assim, parte de mim se agarrava à ideia de que, talvez, desta vez fosse verdade. — Ah, é? — Tentei manter minha voz firme, mas não consegui evitar que uma pontinha de esperança escapasse. — O que mudou agora, pai? Do outro lado da linha, o silêncio se arrastou por tempo demais, como se ele estivesse escolhendo cada palavra com cuidado. Atravessei a rua, indo cegamente até o local combinado. — Eu só… não quero mais te desapontar, Ellie. Você é a única coisa boa que me resta, e eu sei que venho falhando com você. — Ele parecia engasgar, e eu podia praticamente vê-lo, os ombros curvados e os olhos vermelhos de arrependimento. — Isso já aconteceu antes, pai — murmurei, minha voz quase sumindo. — Você sempre diz que vai mudar, e eu acabo me machucando mais. A respiração dele soou pesada e cansada, ecoando no meu ouvido como um lamento distante. — Eu sei, eu sei. Mas… estou tentando, Ellie. Vou procurar ajuda desta vez. Só preciso que você acredite em mim. Parei ao lado de um banco vazio, os vestígios da neve da noite anterior se juntando ao redor dos meus pés. Eu queria tanto acreditar, mas a dor das vezes anteriores em que ele falhou em cumprir suas promessas ainda pesava demais em mim. — Eu… eu não sei, pai. — Minha voz quebrou, e apertei os olhos, tentando segurar as lágrimas. — Talvez seja melhor a gente conversar pessoalmente, tá? — Claro, claro — ele respondeu rápido, quase ansioso demais. — Vou estar te esperando amanhã em casa, tá bom? Hesitei, meu coração dividido entre o medo de acreditar de novo e o desejo desesperado de que ele finalmente estivesse falando a verdade. Eu sabia o que ia acontecer. Quando eu chegasse em Norwich, ele não estaria em casa, já teria partido para o primeiro bar — ou ainda estaria se despedindo do último da madrugada — sem conseguir me encarar. Mas… e se fosse diferente? Só dessa vez. Por favor. — Tudo bem — cedi, sentindo a contragosto a esperança renascer. — Nos vemos então, filha — sussurrou — eu te amo. E era justamente por isso que doía tanto. — Também te amo, pai. A ligação ficou muda e eu respirei fundo uma vez. Duas. Três. Quatro. Não podia deixar aquilo me abalar porque tinha uma tarefa a cumprir. Era boa nisso, em compartimentalizar as coisas. Por isso, enfiei todo aquele misto conhecido de esperança e desapontamento para dentro de mim. Eu tinha aprendido a sobreviver assim. Dividindo tudo em compartimentos pequenos, controláveis. Lá estava o meu pai, com suas promessas quebradas e aquele sorriso que eu sempre quis acreditar. E aqui estava eu, Ellie Davis, a estudante brilhante que todos admiravam — sem que ninguém soubesse o quanto eu lutava para manter tudo de pé. Respirei fundo novamente, guardando o telefone na bolsa e ajustando a alça no ombro. Não podia perder tempo. No estacionamento diante de mim, a Ferrari prata parou e, dentro dela, assisti um rapaz de sorriso largo acenar em minha direção. Contra minha própria vontade, um sorriso nasceu. Desde a conversa esquisita na quarta-feira, Tomas e eu não nos falamos mais. Além de Priya, RoxyApertei seus dedos me sentindo meio anestesiada, dando um aperto mole. Alguém que entende. O que em outras palavras queria dizer: muito bom ter na sala alguém que pertence a alta sociedade do direito estadunidense. Amber se virou para frente, cruzando as pernas, voltando a prestar atenção na professora. Mas pelo menos não dava para ficar mais caótico do que isso, não é? Errado! Sempre dava. Capítulo 01 | O clube do livro das intelectuais safadas apresenta: Crepúsculo Algumas semanas depois Ironicamente, muito mais do que ciências políticas, a coisa mais importante que aprendi naquele primeiro semestre em Harvard foi: quer mentir? Minta. Mas tenha uma rede de apoio. Depois que eu sem querer dei a entender que eu fazia parte de uma elite jurídica estadunidense, fiquei esperando o momento em que minha farsa seria exposta e o reitor da universidade em pessoa me expulsaria jogando tomate em minhas costas. Vergonha! Vergonha! Vergonha! No entanto, foi muito mais fácil do que imaginei. Para perguntas como “qual o nome do seu pai?”, a resposta era simples: “prefiro não falar muito sobre ele publicamente, ele gosta de manter a vida pessoal mais privada, especialmente devido à exposição política”; oh, sério?! Uau! Era o suficiente para ter olhos brilhando em minha direção. Era fácil me esquivar, as pessoas se contentavam com qualquer coisa dita com confiança. Amber, Brittany e Carol — ABC do nepotismo, como eu as chamava secretamente — eram minhas “amigas” mais próximas no curso de Ciências Políticas e as garotas mais competitivas de toda turma, só que elas eram uma mão na roda na hora de perpetuar as mentiras. Sempre competindo comigo, não tinha espaço para as minhas histórias inventadas quando elas precisavam se gabar da tataravó primeira advogada dos EUA, o pai neurologista e a mãe multimilionária. Tenha seus amigos por perto e as três invejosas favoritas mais perto ainda. No entanto, elas não eram a rede de apoio da minha mentira, eram mais como uma mudança de assunto conveniente toda vez que alguém se aproximava querendo saber por que eu não sabia outras línguas se morei fora do país (resposta: meu pai embaixador priorizou escolas bilíngues com foco no inglês. Fácil.) Aquelas outras três garotas eram. As conheci na primeira semana de aula. Estávamos numa das milhares de palestras de apresentação obrigatória para todo o campus calouros e veteranos —, sentadas lado a lado como se os deuses dos romances eróticos nos tivessem nos alinhado ali. — O clube do livro de Harvard tem mais de vinte anos de existência. — O cara com voz fina e uma clara calvície precoce falou no palco do auditório, sua voz ecoando pelo microfone. Meus ouvidos se apuraram para a informação. Um clube do livro? Aquilo era muito legal. Um verdadeiro refúgio para uma mentirosa como eu. Steve Brown, o carequinha lá em cima, deu uma risadinha sem graça, desconfortável para todo mundo ouvindo. — Claro que nós lemos livros de verdade, nada dessa bobajada Kindle Unlimited — deu de novo uma mistura de ronco e gargalhada, parecendo um vilão caricato. — Apenas os livros bons. Ao meu lado alguém bufou. — Pode acreditar nisso? — a garota de pele marrom, cara de veterena e cabelos presos num coque severo perguntou para si mesma ao meu lado. Priya. O começo da nossa revolução hot. — Livros de verdade? — questionou para si mesma. Ao lado dela, outra voz feminina respondeu: — Todo ano essa mesma ladainha. E no Kindle Unlimited tem o quê? Livros falsos? Parece bem real para mim. — A ruiva fatal que depois eu saberia ser Maddy concordou. Não consegui ficar calada. — Aposto que ele nunca fez na vida real o que tem escrito ali. — Resmunguei baixinho e as duas garotas à minha direita concordaram com uma risadinha. Para completar o caos, do meu outro lado, à esquerda, a baixinha de cabelos curtos e castanhos se inclinou para olhar para nós três. — Sabe o que seria muito engraçado? — Quem eu descobriria ser Roxy, perguntou num sussurro risonho enquanto o idiota ainda continuava a tagarelar. — Se alguém fundasse um clube de livros safados. Foi como se uma lampadazinha se acendesse nas nossas quatro cabecinhas conspiradoras. Nos olhamos como se nossas vidas inteiras tivessem convergido para aquilo. Trocamos contato antes mesmo do calvo ordinário sair do palco e criamos um grupo de mensagens instantaneamente. Desde então, não houve um dia em que não compartilhamos pelo menos um trecho de alguma história apaixonante que uma de nós estivesse lendo. Quatro garotas lendo romances que caras como Steve Brown considerariam livros de quinta categoria. Quatro garotas amando cada momento. A gente se encontrava como dava, quando dava, mas religiosamente uma vez por mês, por pelo menos uma hora para discussão, além das centenas de mensagens no nosso grupo. Cada uma de nós tinha suas próprias ocupações. E eu… estava em tudo que poderia estar. Era do Comitê de Assuntos Jurídicos da Graduação de Harvard, ajudando a organizar debates sobre questões legais e colaborando em projetos de consultoria para ONGs. Participava do Modelo das Nações Unidas em simulações de negociações diplomáticas — e fui considerada a melhor representante dos Países Baixos na história da simulação em Harvard. Obrigada, de nada. Na Equipe de Debates, meu time estava vencendo de lavada porque eu treinava arduamente, carregando os nepo babies nas costas, sempre defendendo pontos de vista em competições acirradas. E, claro, nos Julgamentos Simulados, estava lá como assistente da advogada de defesa ou promotora, praticando cada argumento jurídico que conseguia com tanto êxito que, se dependesse da minha assessoria jurídica, Israel já teria sido condenado pelos seus crimes de guerra. Tinha aplicado na semana passada para a assistência de pesquisa, mas ainda aguardava o resultado de dedos cruzados. Ufa! Era coisa demais, sabia que sim, tinha um planner preenchido com horários certos para comer ou tomar banho porque cinco minutos de atraso se tornavam um furacão em que tarefas não eram cumpridas, mas garotas que queriam fazer Direito em Harvard cumpriam suas tarefas. Inclusive aquelas do Clube do Livro das Safadas Leitoras — ou qualquer que fosse o nome que Roxy tivesse dado naquela semana. Mas, diferente de todos os outros projetos, as meninas não eram uma obrigação, eram mais… um descanso. A ideia de ter uma fada artística, duas ex-atletas frustradas a nível olímpico e uma obcecada por estudos, trancadas discutindo livros hot parecia ruim no papel, mas era uma verdadeira diversão na realidade. Não admitiria em voz alta porque não fazia meu estilo, mas eu amava aquelas garotas. Principalmente porque elas eram minha rede de apoio da mentira. Maddy, Roxy e Priya sabiam sobre o pai beberrão, sabiam da mãe morta e o luto que não passava. Conheciam a pequena inverdade que contei no primeiro dia de aula. Elas entendiam. Não julgavam. Nem por um momento. E de quebra ainda tinham o mesmo gosto literário que eu. — Ok, terminamos “Book Lovers” — Priya declarou quando nós quatro estávamos sentadas na mesa do canto no Café Harvard, Maddy era a única com uma bebida superfaturada diante de si, mas havia uma profusão de kindles, cópias físicas e post its diante de nós. — Cinco estrelas e favoritado. — Declarei, recebendo olhares tortos. — Três estrelas, no máximo! Nunca mais aceitaremos indicações suas. — Roxy reclamou. — Foi o slowburn mais sloooooow desse mundo. — Prolongou a palavra com desgosto. — Foi perfeito! — contrariei, ofendida. — Foi demorado — Maddy escolheu seu próprio adjetivo. — Nesse clube temos uma regra: não falem mal da Emily Henry na minha presença — pedi, recebendo revirada de olhos e risinhos safados. — Foi bom, Ellie — Priya estava do meu lado, por isso ela era minha favorita — Só não foi cinco estrelas. — Pronto, ela não era mais minha favorita. Aquelas traíras. — Eu li um harém reverso de X-Men por vocês no mês passado. — Lembrei e foi a vez de Maddison soar ofendida. Omiti a parte em que amei cada segundo. — Broken Bonds nasceu comoe Maddy ninguém mais sabia sobre minhas verdadeiras condições de família. Agora ele estava nessa equação. Ainda não sabia como me sentir sobre isso. Mandei uma mensagem marcando nossa terceira etapa de trabalho e ele aceitou prontamente. E pelo que eu podia ver… era bem necessário. Num gesto bem educado, o jogador saiu do carro, circulando-o apenas para abrir a porta do carona para mim. Mas a cortesia quase se perdeu porque ele estava usando uma camisa com os dizeres “Coma. Durma. Seja Geek. Repita Tudo”. Precisávamos mesmo do próximo passo. — Olá — cumprimentei quando me sentei no banco da Ferrari, sentindo o aroma de couro novo e um toque de baunilha que não combinava em nada com o visual desleixado dele. Tomas voltou para o lado do motorista, passando o cinto ao redor do seu corpo antes de ligar o carro. — Animada? — perguntou com um sorriso de lado, a covinha maldita aparecendo para me perturbar. — Sério mesmo, McKinley? Vamos te dar um banho de loja e é assim que você se veste? — apontei para a camisa cinza e ele teve a coragem de olhar para si mesmo parecendo confuso. — Essa é nova — disse, soando quase ofendido. — Tem as palavras “seja geek” escritas nela — apontei o óbvio, mas Tomas não pareceu entender meu ponto. Ele me olhou como se eu tivesse falado grego. Tínhamos um longo caminho pela frente. Ele deu partida no carro, saindo do estacionamento antes de apertar o som e deixar que uma música pop calma enchesse o ambiente. Soltei a bolsa no meu colo, afundando um pouquinho mais no banco do carro, me sentindo confortável de um jeito estranho. Não deveria ser assim. Em tese, Tomas e eu nem nos conhecíamos direito. Por mais que eu estivesse relutante em aceitar aquela constatação, havia algo surpreendentemente fácil em estar ao lado dele. — Sabe, não vejo problema em ser geek — ele comentou, lançando-me um olhar rápido antes de voltar a atenção para a estrada. — Na verdade, me dá um certo charme, não acha? Revirei os olhos, mas não pude evitar um sorriso. Aquele idiota sabia exatamente como me desarmar. — Talvez, se o seu objetivo fosse conquistar o coração de algum fã de Star Wars, você estaria no caminho certo — retruquei, cruzando os braços e tentando ignorar o quão bem ele ficava com aquela expressão despreocupada. Tomas riu, parando no sinal de trânsito quando ainda estava amarelo, emitindo aquele som grave e genuíno que fazia o peito dele vibrar. — Você ficaria surpresa com quantas vezes essa estratégia já funcionou. — Gracejou e eu ergui uma sobrancelha. — Funcionou mesmo? Tomas fez biquinho antes de responder: — Não, nunca — suspirou, mas animação voltou a suas feições — mas poderia. — Com certeza — concordei, apesar de saber que não. Em Harvard as garotas não levariam a sério um cara com camiseta nerd. Nenhuma garota. Exceto… por mim mesma. Se o cara em questão fosse o próprio Tomas McKinley. A estética combinava com ele. Mas não estávamos procurando naturalidade e sim a aprovação, transformá-lo na sensação do campus. — Tudo bem, professora. Me diga o que devo fazer. — Sua voz soava meio resignada, mas havia um sorriso escondido ali, como se ele estivesse realmente animado para o desafio. Por que tudo parecia tão fácil para ele? Eu não podia negar, era divertido ter alguém tão disposto a me deixar brincar de “Queer Eye" na vida real. — Primeiro passo — comecei virando uma página do meu caderno com um floreio dramático — vamos te levar às lojas certas. Nada de camisetas com frases engraçadas, nada de tênis surrados. Só o melhor do melhor. Ele revirou os olhos, mas não resistiu. — Espero que isso não signifique calças apertadas demais. — Foi seu único resmungo. — Só se você quiser mostrar esses músculos, McKinley — provoquei, piscando. Ele corou, o que era surpreendentemente adorável para um cara do tamanho dele. Era impossível que ele não fosse consciente do quão… bem ele estava. Para não dizer coisas mais baixas. Gostoso. O quanto ele era gostoso. Tomas devia saber… não é? Quando entramos na Brattle Street[5] seu carro desacelerou e comecei a fitar as vitrines chiques, procurando pelo que seria mais interessante para seu novo estilo. Havia boutiques elegantes em cada esquina, exalando um ar sofisticado que eu sabia que Tomas precisava incorporar, se realmente quisesse ser a nova sensação do campus. — Vamos começar por ali — apontei para uma loja com manequins usando ternos sob medida, camisas polo estilosas e vestidos chiques. Era o tipo de lugar que gritava “elite”, mas ainda com um toque jovem e moderno. Justamente o que precisávamos. A julgar pelo fato de que estávamos dentro de uma Ferrari, dinheiro não seria um problema também, o que seria de grande ajuda. Quando precisei reformular meu guarda-roupas para parecer mais uma filha de embaixador estudando em Harvard, tive que me virar com garimpos em brechós e peças básicas da Target. Com um cartão black, a tarefa seria bem menos trabalhosa. Tomas olhou para a vitrine e fez uma careta. — Sério? Você acha que eu preciso de um terno para ir pra faculdade? — Ele arqueou uma sobrancelha, o tom claramente provocador. — Você não está entendendo, McKinley. Isso não é só sobre o que você veste para aula. Estamos falando de elevar seu status, transformar você no cara que todo mundo quer conhecer. — Cruzei os braços, mantendo meu olhar firme no dele. — Confia em mim, ok? Ele suspirou, mas estacionou o carro no primeiro espaço disponível. — Tudo bem, mas se eu acabar parecendo um modelo de revista, a culpa é toda sua. Não que isso fosse difícil. Saímos do carro e atravessamos a calçada, entrando logo na loja que tinha aquele cheiro de roupas caras. Tomas não estava tentando interpretar o cara legal ali, olhava cada manequim como se fosse sua primeira vez vendo roupas novas na vida. Provavelmente estranhando o fato de nenhuma camisa ter algum bordão de série de ficção científica. — Olá! — Um homem loiro, alto, usando um blazer com a logo da loja nos cumprimentou com um sorriso largo. — Em que posso ajudá-los? — Estou renovando o guarda-roupas do… — precisava manter a mentira ali? Devia falar a verdade? — dele — optei pelo mais fácil. O vendedor olhou Tomas de cima a baixo, uma leve ruga nascendo entre suas sobrancelhas apesar do sorriso nunca vacilar. Sim, pobre vendedor, eu podia te entender. — E o que o senhor está procurando? — além de uma lata de lixo para essa camiseta horrível? — Algo mais jovem, mais urbano — disse e eu me virei para olhá-lo, surpresa. Aquilo era bem coerente na verdade. Tomas não era uma causa tão perdida. — Umas bermudas de skatistas, uns tênis com luzinhas e uma jaqueta de couro, estilo bad boy. E um boné de aba reta, você tem? E tipo, uma corrente de ouro com o nome "Tomas" pendurado. Eu estava pensando em algo bem “rapper”, sabe? Pra dar aquele toque de superstar. — disse, com um entusiasmo que só ele parecia sentir, enquanto gesticulava com os braços como se estivesse desenhando o look perfeito no ar. Talvez aquela fosse mesmo a primeira vez que ele estava entrando numa loja na vida porque ele entrou numa máquina do tempo em 1980 e caiu ali no presente. — É brincadeira — falei dando uma cotovelada em suas costelas, mas ele desviou, continuando a olhar educado para o vendedor, seus lábios estavam apertados, tentando esconder um sorriso. Impossível. Aquele merdinha estava me provocando. — O que ele quer dizer é que… estamos buscando algo mais moderno, mais sofisticado — expliquei com um sorriso nervoso, mas tentando manter a calma. O vendedor piscou, aparentemente aliviado pela mudança de direção, e assentiu, dando uma risada tensa, mas mantendo a postura profissional. — Claro, claro — disse, ainda com um sorriso educado, embora o olhar que ele lançou para Tomas mostrasse que ele não tinha certeza se estava lidando com alguma pegadinha. — Talvez começamos com algo mais casual, mas com um toque de sofisticação. Temos algumas opções de roupas que são versáteis, mas ainda assim elegantes. Nos indicou uma arara com suéteres, puxando uma peça azulescura de mangas compridas e tecido canelado além de uma gola dobrada que trazia elegância. Era disso que eu estava falando. — Gosto bastante — afirmei e o funcionário estendeu o cabide para Tomas segurar. — Parece o tipo de coisa que Holden usaria — reclamou baixinho, mas segurou a camisa. — Camisas de linho estão super em alta e podemos montar um conjunto mais informal com a… jaqueta de couro estilo bad boy — usou as palavras de Tomas, apesar de parecer doer fisicamente. Para alguém que ganhava a vida montando looks, o jogador de hóquei devia ser um público muito difícil. E mal vestido. — Perfeito — Tomas sorriu e eu revirei os olhos. Vendo a aprovação, o vendedor se tornou um pouco… obsessivo. — Calça de alfaiataria preta, um clássico — pegou a peça e colocou nos braços do jogador — camisa polo básica, jeans bag para trazer essa coisa mais street, calça sarja cinza que combina com tudo, camiseta oversized, e claro, um suéter de cashmere para aquele toque de sofisticação casual, perfeito para o fim de semana. Ah, e temos também essa jaqueta bomber de nylon, super moderna, vai dar um contraste bacana com a… jaqueta de couro que você gosta. Tinha que admitir que até eu estava um pouco… superestimulada com tanta informação. Quando olhei para trás, Tomas tinha desaparecido atrás da pilha de roupas que carregava em seus braços. Não dava para transformá-lo no golden boy do campus se ele morresse numa avalanche de tecidos. — Acho que é o suficiente por agora. — O socorri, impedindo que o vendedor trouxesse mais uma peça. — Vamos experimentar e ver o que vai ficar melhor. — Ok — disse satisfeito — se precisarem de algo me avisem. Sorri agradecendo, e o funcionário se afastou, indo até a sessão de roupas femininas onde uma dupla de mulheres mais velhas esperavam por atendimento. — Não consigo enxergar, Ellie, você vai ter que me guiar até o provador. — Claro, claro — respondi, tentando não rir ao ver Tomas quase entocado entre a montanha de roupas que ele antes parecia tão entusiasmado em experimentar. A vingança era um prato que se comia frio — Vamos lá. O conduzi, me sentindo quase responsável por sua transformação, como se fosse uma missão digna de uma superprodução de Hollywood. Sentei no sofá de couro vermelho em frente a longa fila de pequenos cubículos cobertos com cortinas azuis e ele esticou o pescoço com uma expressão de quem estava prestes a encarar o maior desafio da sua vida. — Se eu ficar parecendo um idiota me avisa, tá? — disse, com um sorriso meio nervoso. Dei uma risadinha. — Não se preocupe, McKinley. Só não coloque tudo ao mesmo tempo. Vamos com calma. Para alguém que queria um moicano e boné de aba reta, às vezes o óbvio precisava ser dito. O jogador entrou, fechando a cortina atrás de si e eu ouvi o som dos tecidos se misturando. — Ganhei mil seguidores desde quarta — disse em voz alta e ouvi um zíper ser aberto. Tentei não pensar no que estava acontecendo ali dentro. E daí que Tomas estava só de cueca a apenas alguns metros de mim? Aquilo não era nada demais. — Isso é bom — falei meio sem fôlego, tentando não pensar muito nas imagens que passavam pela minha cabeça enquanto ele se trocava do outro lado da cortina. O som do zíper foi seguido de um murmúrio abafado, e por um segundo, pensei que ele fosse falar mais alguma coisa. Mas então, Tomas continuou, sem perceber o quanto eu estava à beira de um ataque. — Algumas pessoas que eu seguia desde o começo do curso me seguiram de volta, o que foi meio engraçado, já que tem alguns anos que a gente se conhece. — Ele fez uma pausa, e eu ouvi o som de mais tecidos sendo mexidos. Me ajeitei no sofá, cruzando as pernas e tentando não olhar para o provador. Era só um cara com quem eu tinha um acordo se trocando, não eram grandes coisas. Mas talvez fosse. Grandes. Enormes. Nada disso! Não era como se uma roupa fosse transformá-lo num pecado irresistível. A cortina se afastou, levando todos os meus pensamentos para o caralho. — O que você achou? — perguntou, graças a Deus olhando para si mesmo e me dando a chance de controlar minha expressão boquiaberta. Tomas colocou a calça de alfaiataria preta com o suéter canelado azul saindo de um nerd fofinho para… um pecado irresistível. Se antes, ao lado dos seus irmãos, o jogador parecia apagado, irrelevante, naquele momento, vestido assim, nem daria para perceber que haviam outros três deles. Os tecidos que pareciam tão simples na arara, se ajustavam perfeitamente ao seu corpo, acentuando seus ombros largos e os músculos, mas sem se agarrar, deixando uma forma despojada, elegante. Respirei fundo, tentando esconder a surpresa que estava estampada no meu rosto. — Você... — comecei, a voz um pouco mais tensa do que eu gostaria, — parece... bem. Tomas sorriu, uma expressão de confiança tomando conta de seu rosto quando finalmente olhou para mim. — Acha que devo tirar uma foto no provador para postar nos stories? — perguntou, o rosto brilhando como se uma iluminação divina tivesse caído sobre ele. Eu achava que ele devia fazer um OnlyFans. Ganharia milhões. — Hum… claro. — Pigarreei, tentando agir normal — ótima ideia. — Concordei sem nem conseguir registrar suas palavras. — Pega um vestido para você — apontou para o outro lado da loja. — Veste e vamos tirar uma foto juntos. Aquilo foi o suficiente para me fazer retomar a consciência. — Hum… o quê? Para alguém que ficou tão surpreso com o conceito de namoro falso, Tomas parecia um grande especialista. Ele já não estava me ouvindo. — Senhor? — chamou o vendedor que atravessou a loja em um segundo quando suas outras clientes olhavam as araras — pode buscar um vestido para ela experimentar? — O que você procura? — o loiro se voltou para mim com um sorriso solícito. Nada. Procurava nada. Mas antes que pudesse falar, Tomas interrompeu: — Algo vermelho — disse unicamente, sem me olhar e o rosto do funcionário brilhou. — Tenho o modelo perfeito — O vendedor se apressou em dizer, a empolgação de quem sabia que estava prestes a fazer uma venda fácil. Se afastou rapidamente, indo em direção à seção de vestidos, enquanto Tomas dava aquele sorriso animado, como se fosse o dono da ideia do século. — Não sei se... — comecei a protestar, mas ele já estava tão envolvido na ideia de tirar fotos e postá-las que não parecia me ouvir. Em segundos, o vendedor voltou com um vestido vermelho vibrante em um tecido parecido com veludo que parecia brilhar sob a luz da loja. Era um modelo justo no busto, decote profundo, mas solto a partir da cintura, com uma saia que ia até os tornozelos. Tomas esticou a mão, pegando o cabide e entregando-o para mim. — Sua vez — o sorriso que ele deu foi tão genuíno, tão despretensioso que tudo que pude fazer foi pegar o vestido e deixar minha bolsa no sofá. Segui meio mortificada para a outra cabine, saindo das minhas roupas de inverno e entrando no vestido vermelho que abraçou meu corpo de um jeito enervante. Não olhei a etiqueta, mas sabia que alguns milhares de dólares deveriam estar envolvidos na jogada. Me fitei no espelho, os cabelos caindo ao redor do meu rosto em choque. Aquele vestido era tudo o que eu normalmente evitaria. O tipo de peça que Amber, Brittany e Carol escolheriam. Não eu. Mesmo no ápice da farsa. Mas meu reflexo era tão… bonito. E não se parecia em nada comigo. Respirei fundo, saindo do provador, esperando encontrar o vendedor para apaziguar um pouco a situação, mas como todo azar era pouco, Tomas estava sozinho. E quando seus olhos caíram sobre mim, pareceu perder o fôlego tanto quanto eu. A boca ligeiramente aberta, seus olhos se fixaram em mim de uma maneira que me fez me sentir tanto desconfortável quanto… como se eu estivesse sendo vista pela primeira vez. Não gostei nada daquela situação. — Vamos tirar essa foto logo — pedi, olhando para os meus pés ainda cobertos pelas botas. — Claro — afastou a cortina de seu próprio provador, me convidado para entrar. De repente, éramos só nós dois em um espaço minúsculo e tomei consciência do quão próximaestava dele quando seu peito bateu em minhas costas. No espelho podia ver nossas expressões gêmeas, um misto de surpresa com… algo mais. Não importava que lá fora estivesse nevando porque ali dentro, o calor corria dentro das minhas veias. E ele também podia sentir. Tomas engoliu seco, pegando o celular em cima da pilha de roupas no canto do provador, e o ergueu, se aproximando mais de mim, sua respiração pesada em meu pescoço. Virei a cabeça de lado, posando para a foto quando sua mão livre tocou minha cintura em um gesto que era muito natural para casais de verdade, mas que ali era só uma mentira. Podia sentir o calor de seus dedos irradiando para a minha pele quando ele finalmente tirou a foto. Me transformei numa massa maleável naquele instante. Só tinha uma palavra para tudo aquilo: atração. Indo de um lado para o outro, transformando a cabine em uma tortura luxuriosa. Engoli em seco, tentando não prestar atenção na sensação da sua proximidade antes de sussurrar o aviso: — Tomas, se você entrou nisso para me pegar… desista agora. Não vai rolar. — Soou menos inflexível porque minha voz tremeu. — Nunca entrei em nada para pegar ninguém — disse de pronto, mas então espremeu os lábios juntos, dando um passo para trás, quase caindo do provador. Aquilo foi… inesperado. Me virei para olhá-lo, a curiosidade falando mais alto do que a atração. — O que você quer dizer? — Nada… vou postar a foto, todo mundo vai pensar que… — Não muda de assunto, McKinley. Suas bochechas estavam da cor do meu vestido. — Não quero falar. — Se vamos fingir um namoro, você precisa me dizer o que está acontecendo. Tomas fechou olhos, parecendo estar sob tortura. O que era tão insuportável assim? — Eu sou… virgem. — A última palavra soou como um sussurro. — Não é um esquema para te pegar, nunca houve esquema nenhum na minha vida. Fiquei esperando a revelação bombástica, mas ela nunca veio. Até que percebi o óbvio. Aquela era a revelação bombástica. — Ah! — tentei parecer surpresa para não o abalar mais. — Agora você sabe o perdedor que eu sou. — disse martirizado consigo mesmo e eu fiz uma careta. Aquilo era tão injusto e cruel consigo mesmo que não consegui elaborar direito antes de dizer: — Não, claro que não, Tomas… — se bem que eu nem sabia as condições daquilo — Você é alguma coisa de seita religiosa que te obriga a fazer isso? Suas bochechas só se tornaram mais vermelhas. — Óbvio que não, Ellie Dei de ombros, satisfeita. Menos mal. — Então você não é um perdedor, só está… fazendo as coisas no seu tempo. — Aquilo não pareceu convencê-lo ainda. Respirei fundo, tentando não deixar que o silêncio se arrastasse. Não sabia como lidar com aquela revelação. Esperava uma foto e ganhei tesão incomparável e uma revelação inusitada. — Tudo bem — finalmente disse, quebrando o silêncio. — Vou me trocar e a gente vai, ok? Você vai levar tudo. Ele me olhou, parecendo um pouco mais aliviado, mas ainda tenso. — Claro — respondeu com um suspiro, aliviado. Saí do provador rapidamente, voltando para a outra cabine e vestindo minhas próprias roupas, sentindo a mudança no ar à medida que a realidade tomava forma. A sensação abrasadora da proximidade com Tomas foi me deixando e, aos poucos, voltei aos meus pensamentos mais racionais. Para amenizar as coisas para ele, não o esperei no balcão. Dei um sorriso sem graça para o vendedor que eu esperava que ganhasse uma boa comissão com toda aquela loucura e saí, para esperar do lado de fora, perto do carro. Me obriguei a não pensar no que estava acontecendo. Não lembrar da mão de Tomas segurando firme a minha cintura, não pensar em sua respiração pesada no meu pescoço, não pensar… e falhar nessa tarefa. Fechei os olhos, deixando o vento gelado bater no meu rosto, esperando que aquilo lavasse meus pensamentos. Aquilo não era nada bom. Demorou algum tempo para que Tomas finalmente saísse, de cabeça baixa carregando várias sacolas e ele abriu a porta da Ferrari me deixando entrar, sem dizer nenhuma palavra. O jogador deixou as dezenas de bolsas no banco de trás e saiu da rua ainda devagar, tendo cuidado com as regras de trânsito tanto quanto antes, mas em absoluto silêncio. Senti que se eu não quebrasse o gelo, tirando o elefante branco da sala, talvez ele nunca mais falasse uma palavra de novo em sua vida. — Tomas? Ele não respondeu e eu revirei os olhos. — Não é grande coisa assim. — Você agora pensa que eu sou um perdedor. — Por ser virgem? Claro que não! Não sou esse tipo de garota. Mais um minuto de silêncio se passou entre nós até ele dizer: — Não foi por falta de interesse — sussurrou e eu engoli em seco. Das outras garotas? Isso eu podia apostar que sim porque, no momento, eu mesma estava muito interessada. Foi minha vez de fechar a boca porque tinha medo de dizer a coisa errada e aquele acordo já estava complicado demais sem que eu dissesse uma palavra. Tomas dirigiu de volta para o campus, o mais rápido que conseguia sem ultrapassar os limites de velocidade e, quando estacionou perto do dormitório, pareceu finalmente relaxar. Tirei o cinto de segurança, pegando minha própria bolsa, pronta para sair correndo e esquecer que aquela tarde aconteceu quando, de repente, Tomas se inclinou para pegar algo no banco de trás e puxou uma sacola de lá. — Para você — disse, olhando para as próximas mãos ao invés de para mim — o vestido… ficou bem bonito. Aquelas quatro palavras não deviam ter me afetado tanto, mas afetaram. Por que ele tinha que se importar em pegar algo para mim? Tomas McKinley não estava facilitando as coisas. — Olha… não é esse tipo de relacionamento — falei, sem fazer menção a pegar a sacola. Seus olhos finalmente encontraram os meus e, para minha surpresa, o jogador sorriu. — Só aceite o presente, ok? — peguei a sacola com o vestido que devia ser uns três meses do meu salário. Mas não foi o valor que me surpreendeu. Foi o gesto. — Obrigada — sussurrei e saí do carro, fechando a porta atrás de mim. Tomas continuou me olhando pela janela aberta, sua expressão satisfeita. Aquele idiota com suas confissões virginais, os olhos castanhos brilhantes e as covinhas idiotas, me motivou a me abaixar e dizer: — Da próxima vez que nos virmos, seu nome estará na boca do povo. Capítulo 15 | Namorados falsos que mentem juntos, permanecem juntos Queria não ter esperanças, mas quando entrei em casa no sábado de manhã, olhei ao redor procurando pelo meu pai. Ele não estava lá. E, de repente, eu era a garotinha de quatorze anos esperando que aquela fosse mesmo a última garrafa de cerveja que ele tomou logo depois do funeral da minha mãe. Fechei os olhos, fechando a porta atrás de mim, me culpando por ser ingênua a ponto de pensar que só dessa vez seria diferente, que Michael Davis iria conseguir passar algumas horas sóbrio para que pudéssemos ter uma conversa decente. O silêncio da casa parecia gritar que eu estava sozinha novamente, como sempre estive desde que a mamãe se foi. A sala estava uma bagunça, latas vazias e garrafas espalhadas pelo balcão como um lembrete cruel de que a promessa de ficar sóbrio era tão frágil quanto a minha própria esperança. Ajustei a bolsa no meu ombro com um suspiro pesado, lutando contra as lágrimas que sabia que não valia a pena chorar. Atravessei a sala e subi as escadas indo direto para meu quarto que era exatamente o mesmo da semana passada. Às vezes, uma parte de mim, queria encontrá-lo revirado como o resto da casa para me dar um bom motivo para gritar com meu pai, mas ele era inteligente demais para fazer algo que solicitasse uma atitude extrema. Michael era cuidadoso com seu vício. Nunca comigo. Me troquei, meio apática, colocando de novo o uniforme e puxando meus livros para a bolsa que levaria para o trabalho. Tinha um seminário sobre políticas públicas internacionais na segunda-feira e ainda não tinha terminado de revisar os artigos para a apresentação. Meu professor, o Dr. Whitman, era conhecido por fazer perguntas implacáveis, e eu não podia me dar ao luxo de parecer despreparada, especialmenteagora que tinha sido aprovada como assistente de pesquisa no departamento. Suspirei enquanto colocava o volume enorme de Teorias de Relações Internacionais na bolsa. Pelo menos, eu teria que me ocupar com o trabalho na sorveteria e com os estudos. Isso ajudava com meu estado deprimido. Talvez por isso, a escola, o sonho de Harvard, e os livros entraram tão em foco depois da morte da minha mãe. Naquelas páginas, eu podia esquecer da realidade. Peguei um casaco mais grosso no armário e me vesti, descendo para o trabalho. Em um gesto que só era rebelde para mim, não tentei arrumar a casa, fazer um café ou jogar a bebida fora. Se nada adiantaria, não gastaria minha energia. Ou era disso que eu me convenceria. Do lado de fora, o ar frio me atingiu como um tapa, revigorando meus sentidos. Puxei o capuz sobre a cabeça e me encolhi no casaco, desejando que o vento levasse embora o aperto no peito que nunca parecia desaparecer completamente. Caminhei pelas ruas molhadas, o cheiro da terra úmida preenchendo o ar. Eu sabia o caminho para a sorveteria de cor, meus pés seguindo automaticamente enquanto minha mente vagava pelos artigos que ainda precisava revisar. Não era apenas a expectativa de impressionar o professor que me pressionava; era a necessidade desesperada de provar, para mim mesma, que eu era mais do que as ruínas que sobraram da nossa família. A sorveteria estava quase vazia quando cheguei. Tia Syl estava no caixa e podia ouvir o barulho de sua esposa na cozinha. Ela me lançou um olhar triste quando sorriu, me cumprimentando. Provavelmente ela também teve algumas decepções naquele dia. Quando meu pai fazia promessas para mim, as reforçava com a irmã que também tinha esperanças nele. — Oi, meu amor — cumprimentou, se esticando para tocar meu rosto, apertando as minhas bochechas como a boa tia que ela era. — A pontinha do seu nariz está vermelha de frio. — Estamos em Massachusetts no final das contas, apesar de sonharmos com o Havaí — falei e ela riu, se voltando para o caixa. O clima cedeu instantaneamente, tristeza saturando suas feições. — Você também ouviu alguns juramentos ontem, não é? — perguntei e ela suspirou. — Ele jurou que ia estar aqui cedo com você para ajudar com o estoque, depois íamos almoçar juntos, mas... bem, você sabe como é. — seu sorriso era ferido. — Não se preocupe, tia. — Forcei um sorriso, tentando aliviar o clima. — Eu cuido disso. Posso ajudar a Jo com o estoque depois do meu turno. Ela me olhou com gratidão nos olhos, mas também com aquela preocupação que nunca desaparecia completamente. Nós duas sabíamos que não era sobre estoque. — Você é uma boa menina, sabia? — disse ela, sua voz tremendo um pouco, mas o sorriso não se desfez. — Só queria que ele visse isso... e que estivesse aqui para você. Apenas assenti, incapaz de confiar na minha voz para responder. Era mais fácil seguir em frente, deixar que o trabalho na sorveteria, com seu cheiro de baunilha e chocolate, me engolisse. Porque aqui, ao menos, eu sabia o que esperar. Caminhei até o balcão, ajustando meu avental e tentando afastar a melancolia que ameaçava tomar conta. O movimento das primeiras horas de trabalho me manteve ocupada, imersa nas atividades manuais. As famílias entravam junto para tomar seu café da manhã, comer suas panquecas com bolas de sorvete, unidos como deveria ser. Eu me concentrava em cada pedido, sorrindo automaticamente, tentando não olhar muito para as mesas onde os pais brincavam com seus filhos, fazendo cócegas e risadas ecoarem pelo espaço. A manhã passou mais rápido do que eu esperava, uma enxurrada de sorvetes de creme e waffles cobertos de calda de chocolate preenchendo minha manhã. Nos intervalos entre os clientes, eu limpava as mesas, organizava os potes de confeitos e conferia os pedidos de ingredientes na lista da tia Syl. Não era só uma questão de me manter ocupada, era uma forma de evitar pensar no que eu não poderia consertar. Me olhei no reflexo do vidro da fachada enquanto varria o chão e fiz uma careta. Meu cabelo estava fora do lugar, o casaco não combinava em nada com o uniforme vintage, nada parecida com a filha do embaixador que eu deveria ser. Ou com a garota no provador junto com Tomas. A memória me bateu como uma bola de demolição direto na minha cara. Um arrepio que não tinha nada a ver com o clima subiu pela minha coluna com a mera lembrança de seus dedos em minha cintura. Um gesto calculado, ensaiado e mesmo assim me afetou mais do que qualquer outra coisa. Caras nunca vieram em primeiro lugar para mim, mas tive minha cota de namoros entre os estudos. Relacionamentos reais. E que não exerceram nem um décimo daquela força em mim. Um problema gigante. Um problema com braços musculosos, sorriso com covinhas e uma intensidade nos olhos que parecia enxergar através de todas as minhas camadas cuidadosamente construídas. Suspirei, balançando a cabeça, tentando afastar a sensação de seus dedos quentes contra minha pele, o jeito como ele me olhou, como se o mundo inteiro tivesse desaparecido por um segundo, deixando apenas nós dois naquele provador apertado. Era para ser uma foto, uma cena para manter nossa fachada de namoro falso. Só que nada tinha sido simples desde que começamos essa farsa. E mesmo com todas as complicações, o reflexo no vidro estava… sorrindo? Fechei a cara, varrendo mais forte. Maluquice. Tomas estava me distraindo. E sabia que era uma distração que poderia me custar caro. Aquele toque, aquele olhar... não eram parte do plano. Ele era um jogador de hóquei que precisava se destacar, e eu era apenas um meio para o fim dele. Tanto quanto ele era para mim. O que me tirou da linha de pensamentos foram os passos rápidos de tia Jo, me fazendo virar de volta para o balcão. As duas cochichavam, de olhos arregalados em minha direção. Meu corpo inteiro gelou. Conhecia aquela expressão. — Ellie, meu amor, vem aqui... — Tia Syl começou, a voz hesitante, me chamando para mais perto. Tia Jo circulou o balcão, vindo abraçar os meus ombros que nem percebi estar tremendo. — Está tudo bem, querida, se acalme — pediu. De repente, eu estava de volta na sala de aula quando a diretora me chamou dizendo que meu pai estava ali para me buscar. Em poucos minutos, me tornei órfã de mãe. — O dono da farmácia ligou, seu pai estava… andando e caiu, se machucou, precisamos ir lá buscá-lo. O ar saiu dos meus pulmões em um sopro brusco, como se alguém tivesse acabado de me socar no estômago. Meu pai se machucou por estar bêbado demais para se cuidar minimamente. — Ele está bem? — minha voz saiu mais aguda do que pretendia. Tia Syl trocou um olhar rápido com Tia Jo, um daqueles olhares cheios de significados silenciosos, antes de responder: — Ele está consciente, só um pouco desorientado. O dono da farmácia disse que ele estava... — ela hesitou, procurando as palavras, mas eu já sabia o que viria a seguir — ele estava bêbado de novo, Ellie. Senti meus ombros caírem, o peso da decepção me esmagando. A esperança tola de que talvez, só talvez, desta vez fosse diferente evaporou como fumaça. Não importava quantas vezes ele prometia mudar, sempre voltávamos ao mesmo ponto. — Eu cuido disso — murmurei — Posso lidar com as coisas aqui — tia Jo, garantiu. — Vão vocês duas. Queria dizer que não, que eu podia lidar com ele sozinha, mas sabia que não era verdade. — Obrigada — engoli o choro, vendo as duas trocarem de lugar. Peguei minhas coisas meio trêmula e caminhei apressada ao lado de Tia Syl até o sedan delas estacionado do outro lado da rua. Ela não fez perguntas, não tentou me consolar com palavras vazias. Em vez disso, acelerou a caminho do irmão, me deixando processar o turbilhão de emoções que girava dentro de mim: raiva, tristeza, decepção... e uma culpa que eu nunca conseguia afastar, por mais que tentasse. — Você não precisa fazer isso sozinha, Ellie, — ela disse suavemente quando chegamos na esquina da farmácia. Atravessamos o bairro em apenas alguns minutos — Ele ainda é meu irmão também. Assenti de novo, apertandomeus braços ao redor do corpo. Não era justo. Nada disso era justo, mas era a vida que eu conhecia. Minha tia estacionou e, por um segundo, não quis sair, mas mordi o lábio inferior, me obrigando a ser a adulta que eu era. Eu sabia que ficar ali no carro não ia mudar nada, então respirei fundo e abri a porta. A cidade era pequena e eu já tinha estado naquela farmácia dezenas de vezes, mas nunca em um contexto assim. Tia Syl me seguiu em silêncio, seus passos firmes atrás de mim, como sempre. Ela era o tipo de pessoa que sabia quando eu precisava de espaço, mas também quando eu não podia ficar sozinha. Quando chegamos à porta da farmácia, o dono nos viu de longe. O senhor Lincoln sempre me pareceu tranquilo e gentil, mas naquele momento ele estava desconfortável, irritado. Fez um gesto com a cabeça, indicando que meu pai estava sentado num canto, ainda meio atordoado. Não consegui conter a raiva que subiu à minha garganta, mas me forcei a manter a calma. Meu pai estava lá, sua postura desalinhada, as roupas sujas, finas demais para o inverno que enfrentávamos, o cabelo bagunçado e os arranhões do lado direito do seu rosto. Quando me viu, seus olhos arregalaram, mas a expressão dele não era de remorso. Nunca era. Foi como um pedido silencioso de desculpas, como se eu fosse mais uma coisa a suportar em sua vida bagunçada. — Ellie... — ele começou, a voz baixa e embargada. Não consegui olhar nos olhos dele. Eu não queria ver a fraqueza nele agora. Não queria ver o homem que deveria ter sido meu apoio me pedindo para suportá-lo mais uma vez. Eu me virei para o dono da farmácia, tentando me manter firme. — O que aconteceu exatamente? — perguntei, mantendo a voz controlada. — Ele estava andando de volta para casa, mas parecia tonto. Quando tentamos ajudá-lo, ele caiu. Foi só um tombo, nada muito grave, limpamos os machucados, mas... — ele hesitou, olhando para meu pai, que estava em silêncio, cabeça baixa. — Ele não estava em condições de se cuidar, Ellie. Eu queria gritar, dizer que já estava cansada de tudo aquilo. Mas a sensação mais profunda era de que nada ia mudar. Nada nunca mudava. Apenas as promessas quebradas, o arrependimento fingido, a rotina que se repetia. — Vou levá-lo para casa. — Tia Syl disse, assumindo o controle da situação, e eu segui atrás dela. Meu pai tentou se levantar, mas suas pernas vacilaram, e eu rapidamente fui ao seu encontro para apoiá-lo. O cheiro de álcool era forte, mas o pior era a sensação de que isso nunca ia acabar. Ele nunca ia mudar. E eu sempre teria que ser a responsável. Enquanto caminhávamos de volta para o carro, o silêncio pesado entre nós três parecia pesar mais que o resto do mundo. Eu me sentia exausta, com o coração pesado, e mais uma vez, parecia que eu estava sozinha na minha luta. Só que, dessa vez, eu sabia que não podia me dar ao luxo de parar. O ajudei a entrar no banco de trás, vendo sua dificuldade em se manter de pé e quando se sentou, segurou meu braço, me puxando para mais perto. — Ainda sou seu pai — meus olhos se encheram de lágrimas porque a declaração soou raivosa. Não era um pedido de desculpas. — Sua mãe se foi, eu sou tudo que ficou, ok? Como se ele precisasse me lembrar disso. — Michael… — minha tia disse em tom de aviso, assumindo o volante. — Cala a boca, Sylvia, estou educando minha filha — ele nunca falava assim com a irmã. A idolatrava. Mas a bebida tirava o melhor dele — ninguém mandou você vir aqui. Eu não pedi para você fazer tudo, Ellie. — Anotado para a próxima vez — disse e puxei meu braço do seu aperto, batendo a porta atrás dele e entrando no carro, tentando controlar a respiração. Senti um nó apertar no meu estômago, o sangue subindo à cabeça. A raiva explodiu em mim de forma descontrolada, e não consegui mais me segurar. — Ellie… — tia Syl tentou dizer, mas balancei a cabeça, limpando a lágrima teimosa que escorreu. — Pode levar a gente para casa, por favor, ele precisa descansar para curar essa ressaca. Tia Syl olhou para mim pelo retrovisor, seu rosto marcado pela preocupação, mas também pela frustração. Ela sabia que nada do que dissesse agora poderia mudar o que acabara de acontecer. Ela apenas assentiu, ligando o carro e começando a dirigir lentamente, sem palavras. O silêncio dentro do veículo era denso, pesado como uma nuvem escura. Eu mantive os olhos fixos na janela, tentando acalmar os pensamentos que estavam fervendo dentro de mim. A dor do que meu pai havia dito ainda estava cravada no peito, como uma faca que não queria sair. Era a mesma história. Sempre a mesma história. Ele não via o quanto suas palavras me machucavam — nem se lembrava —, não via o quanto eu ainda esperava, por mais que tentasse negar. Me permiti respirar fundo, não queria mais brigar, minhas forças foram drenadas e me sentia mais fraca do que nunca. Não ia mais fazer isso. Não com ele, não mais. Quando as palavras não faziam mais sentido, o que sobrava era o vazio de saber que não havia nada que eu pudesse fazer para mudar a situação. O resto do caminho até em casa foi feito em silêncio. Eu me recostei no banco, os olhos fixos na estrada enquanto meu coração ainda batia rápido, o nó na garganta ainda apertado. A sensação de impotência era esmagadora. Quando o carro finalmente parou na frente de casa, tudo o que eu queria era sair de lá e sumir por um tempo. Mas eu sabia que não podia. Porque, no fim das contas, essa era a minha vida. Não havia pai embaixador no final das contas. E eu sempre teria que enfrentar. Dessa vez tia Syl não me deixou chegar perto dele, ela mesmo o ajudou a sair, firmando-o enquanto tropeçava pela calçada. Segui os dois, vendo quando ela usou a chave reserva para abrir a porta e o guiar para dentro. Meu coração se apertou porque parecia uma dinâmica conhecida para os dois. Eu só não estava lá o tempo todo para ver. Papai se jogou no sofá, deitando o lado machucado no estofado sem se importar com a dor que deveria estar sentindo. Ele parecia alheio a tudo, como se nada do que estivesse acontecendo ao redor dele importasse. Só o álcool e a indiferença ocupavam sua mente. A raiva dentro de mim se misturou com uma tristeza profunda, uma sensação de vazio que não sabia mais como lidar. Tia Syl ajudou ele a se ajeitar no sofá, mas não disse nada. Não era preciso. Ela sabia que qualquer palavra era em vão. Eu estava ali, parada na entrada da sala, observando os dois com uma dor crescente no peito. Eles tinham essa dinâmica, esse ritual de "cuidar", mas no fundo, eu sabia que era só o que ele queria que fosse. Ele não se importava realmente. Ele nunca se importou de verdade. — Você pode voltar para a sorveteria — falei, tentando soar firme. — Passo lá depois do almoço. — Pode tirar o resto do dia para se cuidar, Ellie — disse, segurando minha mão, o que piorou meu estado. Naquela sala havia uma pessoa que se importava comigo. E não era meu pai. Ela soltou minha mão lentamente, como se fosse difícil se separar de mim, e se dirigiu para a porta. Antes de sair, deu uma última olhada para meu pai, que permanecia ali, imóvel, com a testa franzida em um torpor alcoólico. Ela não disse nada, porque não precisava. As palavras seriam inúteis. Quando a porta se fechou atrás dela, o som do silêncio tomou conta da casa. O tipo de silêncio abafado que gritava, um silêncio de abandono. Meu pai estava ali, mas não estava. E eu sabia que esse vazio seria a única companhia que eu teria por muito tempo. Sentei-me na cadeira próxima, sem saber o que fazer com tudo aquilo. O que se espera de alguém que foi deixado para lidar com a realidade sozinho? Minha vida havia se resumido a isso: arrumar os pedaços de algo que nunca esteve completo. E, por mais que tentasse, nunca encontrava a peça certa para montar o quebra-cabeça. De repente, não queria mais estar ali. Queria voltar para Harvard, discutir Crepúsculo com as minhas amigas, apresentar seminários complexos e me afundar na mentira que era muito menos dolorosa do que a verdade diante de mim. Pesquei meu celular na bolsa, deixando-aem cima da cadeira e procurando nos contatos pela pessoa que estava mais longe de toda aquela situação. Não estava pensando quando a voz atendeu do outro lado. — Hum… alô? Meu lábio inferior tremeu e eu segui para a cozinha, odiando olhar para o meu pai, precisando de distração. — Ellie? — perguntou com confusão. — Tomas. A voz que antes era desorientada ganhou contornos alarmantes. — Você está chorando? Aconteceu alguma coisa? — ouvi o som de passos do outro lado da linha, como se ele estivesse andando de um lado para o outro. Fechei os olhos, as lágrimas finalmente vazando. — Você… — solucei — experimentou todas as roupas. Elas ficaram legais? — Ellie, desculpe, mas não consigo escutar você chorar e falar sobre roupas. Me inclinei no balcão da cozinha, sentindo uma fraqueza estranha tomar conta dos meus membros. — Por favor. Tomas ficou em silêncio por um momento, como se estivesse tentando entender o que estava acontecendo. Eu podia ouvi-lo respirar, e por um instante, me senti exposta, como se ele estivesse me vendo, embora estivéssemos distantes. — Meus irmãos acham que comecei a trabalhar como acompanhante de luxo — disse de repente, me pegando de surpresa. O choro se tornou algo entre pranto e risada. — O quê? — É o Holden, aquele idiota. Disse que o corte de cabelo e as roupas só podem significar que estou abre aspas vendendo meu corpinho fecha aspas. — Fez a citação direta e eu aprumei o corpo, limpando as lágrimas. — É uma boa hipótese. — Travis e Tyler acham que eu estou sendo bancado por uma mulher mais velha. Acham que uma coroa está me pagando para me desvirginar. Me peguei rindo, a tensão e a tristeza de tudo que aconteceu ainda estavam ali. Mas, de certa forma, Tom também estava. — Não contou para eles do nosso acordo de namoro falso? — limpei o resto das lágrimas. — Eles ririam de mim para sempre se soubessem. Estão enlouquecendo com um corte de cabelo e roupas novas, o que uma namorada de mentira faria com eles? — Seus irmãos pirariam — concordei. Tomas ficou em silêncio do outro lado, sua respiração tranquila guiando a minha até que ele finalmente sussurrou. — Quer falar sobre o que aconteceu? — Às vezes, ter que mentir é uma merda, Tom — resumi porque não queria enfiá-lo no meio de tudo aquilo. — Sinto muito, querida — o apelido soou tão carinhoso, tão natural, que me peguei de olhos marejados de novo — mas pense pelo lado bom. — E qual é? — funguei. — Pelo menos, dessa vez, estamos mentindo juntos. Capítulo 16 | Milkshakes compartilhados com namorados falsos são mais gostosos Acordei com o cheiro de café e isso me fez levantar em um pulo. Passei o dia anterior limpando a casa para me ocupar, meu pai não se mexeu do seu lugar no sofá, não importava o quanto de barulho eu fizesse — e eu fiz bastante. De propósito. Quando já passavam das seis, tomei um banho, me vesti e fiquei trancada no quarto, estudando. Ouvi seus passos no corredor, mas Michael não tentou falar comigo e fiquei grata por isso. Revisei o conteúdo até que fosse aceitável dormir e me deitei depois das onze. Meus sonhos tinham olhos castanhos e sorrisos com covinhas, mas minha manhã não devia ter cheiro de café. Ainda de pijama, puxei o roupão quente ao meu redor porque se a casa tivesse sido invadida não queria ser assassinada com um pijama da Hello Kitty. Desci as escadas tentando apurar os ouvidos. Mas na cozinha a visão que tive era ao mesmo tempo enlouquecedora e… normal? Meu pai estava virando panquecas no ar. Exatamente como fazia todos os domingos quando minha mãe ainda estava viva e ele só bebia socialmente em festas de ano novo ou uma garrafa de cerveja antes dos jogos do Boston Bruins. Só que a realidade não podia ser alterada. Minha mãe morreu. Meu pai era alcoólatra. Nada naquela cena fazia sentido. — Ellie, você acordou! — meu pai comemorou, deixando mais uma panqueca no prato cheio em cima do balcão e sorrindo em minha direção. Suas roupas estavam limpas, alinhadas, o cabelo ainda úmido depois do banho. A única coisa que denunciava o dia anterior foram os machucados em seu rosto e a ruga em sua testa. As luzes da cozinha estavam apagadas e, diferente de quando a vida ainda era normal, não tinha música enquanto ele cozinhava. Meu pai estava de ressaca. Uma das ruins. Eu não sabia o que me deixava mais triste: a tentativa dele de parecer normal ou o fato de que, no final das contas, ele ainda achava que me enganaria com isso. — E você está agindo como se tudo estivesse normal — falei num tom de voz normal e ele se encolheu. Sabia que não eram pelas minhas palavras, mas porque estava alto demais para seus ouvidos sensíveis. — Ellie… — gemeu, apertando a têmpora sem o machucado. — Não quero brigar, filha. Te disse que queria passar um tempo com você. — A gente passou um tempo juntos quando fui te buscar porque você caiu na rua de tão bêbado. — Sabia que o confronto não era a melhor solução, mas sabia que todas as boas resoluções viriam dele. E não parecia que Michael Davis tinha alguma. — Caí porque me desequilibrei — disse, desligando o fogão, bravo. — E o que isso resolve? Você vai continuar assim até quando? Ele olhou para mim, como se tentasse entender o que eu queria dizer, mas eu sabia que ele não tinha a mínima ideia. Uma parte do meu pai estava muito bem acomodada naquela dinâmica. — Eu sei que está difícil para você, mas… — ele começou, mas eu o interrompi. — Difícil para mim? Sério? — As palavras saíram mais cortantes do que eu planejei. — Está fácil para você? É legal beber até cair na rua? Ter que ser ajudado por desconhecidos? — Conheço o Lincoln — sussurrou e deixei minha cabeça pender para trás. — Isso muda tudo, pai — falei irônica. Seus dedos esfregaram os olhos, sem paciência. Talvez ele pensasse que café e panquecas resolveriam tudo. Na sua lógica torta, semanas sem se falar porque ele estava bêbado demais para qualquer coisa eram compensadas com um café da manhã. A parte mais cruel era que eu gostaria que fosse assim. Queria me sentar com ele e ter uma conversa civilizada. Fingir que o último dia não aconteceu. Os últimos meses. Anos. Mas fazer isso só me machucaria mais. — Quer saber? Cansei — falou, circulando a bancada e indo em direção a porta dos fundos — estou indo trabalhar. Ri, amarga. — É domingo, pai, inventa outra história — pedi, mas ele já estava fora, atravessando o quintal e saindo pela lateral. Para beber. De novo. Com um suspiro, fiquei ali por um momento, observando a porta pela qual ele tinha saído, como se a visão daquilo fosse um castigo diário. O som da fechadura batendo ainda ecoava na casa vazia. Culpa me bateu no segundo que ele saiu. Podia ter ficado calada. Deveria ter evitado o conflito. Já era tarde demais. Peguei o prato de panquecas e me obriguei a comer um pouco sozinha. O gosto estava amargo, mas não era a comida. Eu apenas não sabia mais como lidar com a situação. O café estava forte, talvez para tentar acordar tanto ele quanto a mim, mas eu sentia que não fazia diferença. Não conseguia afastar o peso do que acabara de acontecer. Tudo estava desmoronando ao meu redor e, por mais que eu quisesse que as coisas voltassem a ser como antes, sabia que isso já não era mais possível. Olhei para o relógio em cima da geladeira e já estava na hora de ir para a sorveteria. Repeti o processo de me arrumar e saí mais uma vez, ainda bocejando. Já estava há um semestre naquilo e o cansaço começava a cobrar seu preço. Só que eu não podia parar. O dinheiro que meu pai fazia limpando neve — mesmo em seu ritmo de agora — em breve acabaria com o fim do inverno. Precisava poupar, precisava me ocupar. Quando cheguei na Sonhos Gelados, minhas tias já estavam limpando o espaço para acolher os primeiros visitantes do dia no tradicional café da manhã de Norwich. Podia ouvir tia Sylvia lavar a louça na cozinha enquanto Jo limpava o balcão. — Desculpa pela demora — pedi, me sentindo horrível, mas Josephine não parecia nada preocupada com o horário. Ela estava sorrindo. O que, considerando a últimavez que nos vimos, era meio estranho. — Já temos clientes — tia Jo sussurrou quando entrei, deixando minha bolsa no balcão. A mulher apontou com o queixo para o canto da loja — ele chegou cedo procurando por você. Acompanhei seu olhar e congelei no caminho quando vi quem era o primeiro cliente. Usando roupas muito bonitas Tomas McKinley estava no mesmo banco da primeira vez em que foi até a sorveteria e acabou descobrindo meu segredo. Seus olhos estavam fixos em mim, havia preocupação ali apesar do sorriso nada relaxado. Fiquei parada como uma idiota. — Vai até lá, bobinha — minha tia incentivou. Me virei, ainda em estado de choque. — Tenho que trabalhar — balbuciei e ela estalou a língua no céu da boca, abanando a mão, me expulsando. — Você já trabalhou demais esse fim de semana, vai conversar com o garoto. Caminhei, meio em pânico, tentando reunir forças para me mover. Meu corpo, por um instante, parecia se recusar a dar o passo em direção a ele, mas a voz suave da minha tia me fez perceber que não tinha como fugir. Estava envergonhada por ter ligado para ele chorando. Não era sua obrigação me consolar, mas mesmo assim o jogador ficou por vários minutos comigo no telefone, falando trivialidades sobre sua vida. Disputas infantis com os irmãos, viagens até o Brasil, seus jogos de RPG. Só desligou quando eu disse que estava melhor e precisava ir. Tomas não me pediu uma explicação e eu achei aquilo muito bom, sem saber que ele iria até mim para buscar por uma. Com um sorriso forçado cheguei até o banco onde ele estava. Seus olhos encontraram os meus antes mesmo que eu pudesse me preparar para o impacto. A expressão dele denunciava uma preocupação que eu não sabia como lidar. No entanto, ele sorriu: — Gostou do meu look? — apontou para si mesmo. Ele estava usando o casaco do time, o que poderia ser um erro, mas a combinação com os jeans novos e as botas o deixaram como um verdadeiro astro do esporte. Aproveitei o assunto leve para provocá-lo um pouco. — Muito melhor. — Você acha mesmo? — desafiou. — Astros do hóquei não usam camisa do Mario Bross — brinquei de leve. — Gus Miller usa — no fundo da minha mente, lembrei que sempre aparecia no TikTok falando de nerdices. — Gus Miller não era virgem no último ano da faculdade — sussurrei apesar de saber que estava longe demais para minhas tias ouvirem. Tomas riu, deixando a cabeça pender para trás, encostando-a no banco de vinil. No meio de todo aquele ambiente vintage, ele parecia estrelar um musical como Grease. Era meio fofo como a piada não parecia afetá-lo em nada. Tom era um rapaz bem resolvido. — Você é impossível — disse, ainda rindo. Seus olhos brilhavam com a diversão, mas a tensão sutil ainda estava ali. O adjetivo foi neutro. Impossível. Mas pareceu um elogio. Era estranho como nada que Tomas McKinley dizia para mim soava de forma negativa. — A que devo a honra? — perguntei, apesar de saber seus motivos. Ele também sabia, mas se esquivou, educado. — Da última vez não consegui provar o famoso… — sua voz morreu e ele olhou ao redor. Obviamente ele nem sabia o que servíamos ali — milkshake — disse a primeira coisa que leu no cartaz. — Ah, sim… a sobremesa que não dá para achar em Cambridge… a cara do inverno. — Completei, tentando esconder um sorriso. Ele deu de ombros, com um sorriso travesso, e eu percebi que, apesar de toda a situação meio embaraçosa, ele estava genuinamente tentando. — Fui meio que expulso daqui na última vez, gostaria de provar…, mas não sozinho. — Cruzou as mãos em cima da mesa — me daria a honra? Engoli em seco, procurando uma justificativa para dizer não. — Combinamos que nosso acordo só aconteceria no campus — lembrei, a voz fraca. Aquilo não abalou Tomas. — Não estou aqui pelo acordo, Ellie. — disse gentil, não me constrangendo com toda a choradeira do dia anterior. O jogador estava ali para passar algum tempo… comigo? Sim, com certeza para garantir que não o ligaria mais para atormentá- lo. Então por que ele parecia tão preocupado? — Vou pedir sua sobremesa — falei baixinho, me virando de volta para o balcão. Tia Jo parecia prestes a sair flutuando pela sorveteria, seu sorriso se tornando mais largo a cada passo que eu dava em sua direção. — Um milkshake — falei e ela juntou as mãos diante do rosto, sem conseguir se conter. — Tá, vai lá! Já levo para vocês. — Eu sou a garçonete aqui — lembrei e ela revirou os olhos. — Vai logo, Ellie. Tomei um fôlego, tentando afastar o turbilhão de pensamentos que estavam se formando na minha mente. Tomas McKinley, ali, querendo minha companhia. E o pior, parecia ser sincero. Eu não sabia lidar com isso. Pai surtando e bebendo até cair na rua? Podia lidar. Mentir sobre a minha vida inteira no campus? Fácil. Um pouco de interação saudável com alguém que se importava… era outra história. — Senta do meu lado — pediu quando já estava perto o suficiente, abrindo espaço à sua direita no banco quando eu claramente queria estar do outro lado da mesa. Quem sabe em outra mesa. — Seus irmãos vão pensar que você está num date com a coroa que está supostamente te bancando — um pouco da brincadeira se perdeu porque estava meio endurecida quando me sentei ao seu lado. Tomas parecia uma lâmpada incandescente. Ficar perto dele trazia calor — físico e metafórico. — Considerando meu histórico, aposto que eles estão orgulhosos por eu finalmente ter encontrado alguém… mesmo que seja uma coroa que me banque. — Espremeu os olhos em minha direção, com uma cara divertida. Como alguém podia não notá-lo? — Nunca levou uma namorada em casa? — questionei, brincando com minhas próprias mãos, sem conseguir olhar para o seu rosto. — Uma vez pensei que estava webnamorando, mas descobri que era um menino de doze anos tentando me enganar para comprar skins no LOL[6] para ele — disse, uma cara teatralmente triste, me fazendo rir. — Quantos anos você tinha? Para minha pergunta, a tristeza não pareceu mais ensaiada. — Nem queira saber — suspirou, só fazendo minha risada aumentar. Estava errada. Tomas não era algo efêmero como a luz. Ele era o próprio sol, cercando a chuva. Ouvindo ele falar aquelas bobagens, o peso de tudo que tinha acontecido nos últimos dias cedeu em meu peito. Nesse instante, Tia Jo se materializou caminhando em nossa direção com uma bandeja equilibrando a taça de vidro da nossa porção maior de milkshake. O que seria bem comum. Se não fosse pelo fato de que haviam dois canudos ali. Para dividir um milkshake como namorados faziam. O sorriso da mulher que eu chamava de tia desde os cinco anos só aumentou quando viu minha expressão mortificada. — Aqui está! Acho que vocês vão gostar, hein? — disse, piscando para nós, deixando a taça na mesa e ficando parada lá. — Tá com uma cara muito boa — Tomas elogiou, sorrindo educado para tia Jo — É de que? — Vou deixar Ellie te dizer, ela consegue adivinhar o sabor de qualquer sorvete só de experimentar, é o talento dela. — falou orgulhosa e quis me enfiar debaixo da mesa. Tomas pareceu curtir bastante. — É mesmo? Uma habilidade e tanto, hein? — seu cotovelo bateu de leve no meu e dei um pulo com o contato inesperado. Cotovelos não eram exatamente a área do corpo mais excitante, mas não podia dar chance ao perigo. — Essa garota é nosso maior orgulho… — disse, deixando a frase parar no meio quando percebeu que não sabia o nome dele. Era melhor assim. — Tomas, senhora. — Tratou de dizer, educado. Ele era alérgico a me ajudar. — Tomas — minha tia repetiu — Ellie é nossa menina de ouro. Estuda em Harvard e ainda vem aqui ajudar a gente. Suas palavras fizeram com que a culpa doesse em meu coração. Tia Jo, tia Sylvia e até mesmo meu pai — sabia que sim, apesar de tudo — tinham tanto orgulho de mim e a forma como eu retribuía era mentindo sobre ser filha de um embaixador. Negando minhas raízes em Norwich. Podia imaginar como aquilo soava para Tom, ouvir que uma ente querida me amava sabendo como eu fingia ser parte de uma família totalmente diferente. Ele devia estar enojado naquele momento.Mas então, ao invés de se afastar ou mudar de assunto, Tomas olhou para mim com um sorriso suave, quase melancólico, e disse: — Nunca conheci alguém como ela. Em Harvard, não existem muitas pessoas puras como Ellie — a parte mais difícil foi que ele não falou com ironia, como parte de uma piada secreta nossa. Nada de “ha-ha eu sei o quanto você mente”. Tomas falava a verdade, ou, pelo menos, o que ele acreditava ser verdade. Aquilo emocionou tia Jo, que abraçou a bandeja quando os olhos se encheram de lágrimas. — Tia… os clientes estão chegando — apontei, antes que ela se derramasse inteira. Antes que eu chorasse como uma idiota. Aquela mulher me amava como se eu fosse do seu próprio sangue, uma extensão de sua esposa. A filha que ela ainda não tinha. — Certo, certo, estou bancando a superprotetora aqui — fungou, rindo — espero que goste do milkshake, Tomas — desejou com um tchauzinho e se afastou, indo receber os primeiros clientes do dia. — Ela é adorável — Tom disse e virei o rosto para vê-lo, o leve sorriso em seus lábios não se desfez até que Josephine começasse a conversar com a família recém-chegada. — As duas são — sussurrei. Queria honrar mais as mulheres que cuidavam de mim desde a morte da minha mãe. — Dá para ver de onde você puxou isso — falou, inclinando-se em direção do canudo, os olhos ainda presos em minha direção, sorvendo um gole enquanto fazia um biquinho adorável. — Flocos? — perguntou, o cenho franzido enquanto tentava desvendar o sabor do milkshake. — Isso o quê? — Essa delicadeza com o mundo. Não era exatamente o tipo de comentário que costumava ouvir, e muito menos de Tomas McKinley. — Delicada não é a palavra que melhor me descreve — contrariei, fugindo de seu escrutínio quando tomei meu próprio gole de milkshake. — Você cuida das pessoas de um jeito único, Ellie. E isso é algo raro. — sussurrou, seu rosto próximo ao meu, tão perto que eu podia ver os pontinhos mais claros em seus olhos castanhos e a pequena sombra permanente de sua covinha. Tão perto que… Tentei absorver suas palavras, mas uma confusão generalizada se formou dentro de mim. “Cuidar das pessoas”, era principalmente o que eu estava tentando fazer. Com meu pai, minhas tias, a memória da minha mãe e até de mim mesma. Mas julgava estar falhando em cada uma dessas tarefas. — Então… qual o sabor? — perguntou quando me viu sem respostas. Já havia pressão o suficiente na minha vida. Tomas nunca era mais uma. — Errou feio… — brinquei e ele sorriu largo, os olhos se fechando, pequenas rugas se formando ao redor deles. — Chocolate branco com amêndoas. Suspirou, daquele jeito teatral. — Como posso querer ser popular confundindo flocos e chocolate branco com amêndoas? — se afastou, deitando a cabeça no banco de vinil, a mão no peito. — Ganhei mais quinhentos seguidores, sabia? — As pessoas já estão interessadas no mistério de Tomas McKinley — apontei, o óbvio que não parecia tão claro assim para ele — Está pronto para amanhã? Tomas deu mais um gole no milkshake antes de perguntar: — Você acha mesmo que vai ser tão impactante assim? Dei de ombros. — Quem sabe, não é mesmo? Era melhor não estragar a surpresa para ele. Capítulo 17 | Crepúsculo, dirigido por Catherine Hardwicke, [01:03:28]. Essa é a vibe. Ellie: Pode me dar uma carona até a aula hoje? Tom: Claro. Tom: Aconteceu alguma coisa? Ellie: Tive uma ideia. Tentei não pensar muito no final de semana quando cheguei a Harvard no domingo à noite. Estava cansada, tensa e o pequeno cubículo que era meu quarto parecia sagrado demais para todas as coisas que aconteceram. Me deitei depois do banho e li Crepúsculo até bater a meta da leitura coletiva do Clube do Livro Gostosas Alfabetizadas — nome da semana que Priya deu. Estava no capítulo dez — voltei para refrescar a memória — e a ideia me veio como uma iluminação divina. Peguei meu notebook e abri a Netflix, logando na conta emprestada de Maddy e procurando pelo momento certo. Era isso que eu queria. Por isso mandei mensagem para Tomas que iria encenar comigo um dos grandes clássicos do cinema para garotas literárias. Ele só não sabia disso ainda. — Oi, Ellie — meu cumprimentou de manhã, a janela de sua Ferrari abaixada e a expressão já era curiosa. — Tudo bem? — Trouxe o que eu te pedi? — fui direto aos negócios, entrando do lado do carona. Estava mais animada do que deveria. Era uma estudante de ciências políticas de Harvard, mas meu coração era sempre dos romances. E dos acordos de namoro falso que não eram nada românticos. — Sim, mas se Holden der falta disso… estamos ferrados. — Avisou, saindo de frente do dormitório e seguindo para o prédio de aulas mais cheio do campus. — Você está ferrado — corrigi com um sorriso. Tomas estava de jaqueta de couro, calça jeans, botas e ombros rígidos, dirigindo como se eu estivesse nos guiando direto para o Triângulo das Bermudas. — O que foi? — perguntei, mas ele não me olhou. — Nada. — Desembucha, McKinley — pedi e ele me fitou de soslaio por um segundo antes de se voltar para a estrada. — Você está bem? — questionou devagar, com cuidado. Dava para sentir sua apreensão. — Sim — respondi de cenho franzido. Tomas respirou fundo antes de falar de novo. — Fiquei preocupado quando você pediu carona — admitiu e aquilo me incomodou tanto quanto me… acalentou. Não queria que Tom pensasse que toda vez que eu entrasse em contato era porque estava no meio de uma crise de choro. Eu era uma mulher forte e independente. Já tinha lidado com mais tragédias do que a maioria das garotas de dezenove anos. Mas ao mesmo tempo… era bom saber que se eu precisasse, havia alguém pronto para me ajudar. Mesmo que eu fizesse de tudo para que não fosse necessário. Tomas era um bom amigo. Um bom namorado falso. — Estou bem — garanti — e você? Ansioso? Sua postura relaxou com minha afirmação e ele me olhou de novo, mais livre, um sorrisinho de lado nascendo em seus lábios. — Nah — debochou — E daí que te dei uma carona hoje? Não acho que vai ser a grande fofoca do dia. Pobrezinho. — Você pode estar aqui há mais tempo, mas ainda não consegue entender a dinâmica de Harvard, Tomas — olhei para a rua diante de nós, a chuva lavou o gelo, mas isso não impedia os alunos de andarem lado a lado, conversando. Não sobre as disciplinas, descobertas inéditas de suas áreas. Mas sobre uns aos outros e todos os pequenos escândalos que mantinham a universidade viva. — Eles falam sobre tudo, menos sobre o que realmente importa — continuei apontando sutilmente para dois alunos que passaram por nós, rindo e olhando seus celulares como se tivessem acabado de receber a notícia mais quente do dia. — Hoje de manhã, você me deu uma carona. À tarde, já vão dizer que estamos morando juntos. Tomas soltou uma risada abafada, balançando a cabeça em descrença. — Jura? — ele perguntou, levantando uma sobrancelha. — Tudo isso só por causa de uma carona? — Ah, claro — assenti, virando para encará-lo. — qualquer interação mínima é analisada como se fosse um episódio de um reality show. — Aqui não é o lar das futuras mentes mais brilhantes do século? — Pode até ser, mas hoje esses cérebros serão alimentados com fofoca — Tomas riu, parando em uma vaga central no estacionamento do Littauer Center, por causa da chuva de mais cedo, a maioria dos estudantes estava reunido ali, saindo de seus carros. Era hora do show. — Nosso relacionamento de mentira começa a ser público agora — falei e Tom engoliu em seco, balançando a cabeça positivamente. — Aqui estão as regras: nada de beijos, nada de mão boba, nada de abraços desnecessários. — Combinado — jurou solene e uma parte meio hormonal de mim, disse que queria mais resistência da parte dele. Nada bom. Éramos profissionais ali. — Pode pegar o presentinho de Holden — falei com um sorriso triunfante e Tomas fez uma careta, desligando o carro. — Estava nevando, Ellie, por que preciso de óculos escuros? — reclamou, mas se esticou em minha direção, pegando o acessório no porta luvas e colocando-o no rosto. Perdi o fôlego por um segundo.O Ray-ban se encaixou como uma luva em seu rosto, deixando-o exponencialmente mais atraente. Podíamos estar no polo norte e ele ainda estaria lindo. — Porque você fica… — gostoso, delicioso, saboroso — mais legal assim. — Tem certeza? — abaixou um pouco a cabeça, me olhando por cima das lentes, uma mecha do seu cabelo caindo sobre a testa como se fosse Zayn Malik no VMA. — Absoluta — falei, sentindo a temperatura aumentar. Foco. Hora do show. — Você vai sair, abrir a porta para mim e… — Eu já ia fazer isso — reclamou. Um lorde inglês. — Tá bom, senhor Bridgerton — zombei de leve, arrancando um sorrisinho dele. — Abraça meus ombros e vamos juntos até o primeiro andar, na minha sala, a 1D. Tomas esperou como se aguardasse pelo clímax e quando percebeu que já estava lá, pareceu surpreso. — Só isso? — Confie em mim… só isso, McKinley. Pronto? Deu de ombros, incrédulo. — Vamos! Tomas respirou fundo, ajustando o colarinho da camisa e alisando o casaco como se fosse um ator prestes a entrar em cena. Abriu a porta do carro com um empurrão rápido, saindo para a calçada molhada e girando em minha direção, abrindo um sorriso que faria qualquer um acreditar que ele estava genuinamente animado para a missão. Ele deu a volta, caminhando ao meu lado com aquele jeito relaxado que sempre parecia tão natural para ele, mas hoje eu sabia que era uma performance cuidadosamente calculada. Foi sorte grande ele ser um atleta de alta performance, com consciência corporal máxima. Tomas estava saindo muito bem. A porta se abriu para mim em um gesto grandioso, e eu quase revirei os olhos. Ele estava se divertindo com aquilo, mas também queria me mostrar que podia seguir as regras. — Senhorita Davis — disse, com uma reverência exagerada, arrancando algumas risadas dos alunos que passavam. — Muito convincente, McKinley — murmurei, enquanto ele deslizava a mão pelo meu ombro, seus dedos parando na altura do meu braço. O toque foi leve, mas mesmo assim, senti um calor subir pelo meu pescoço. Tentei não pensar em provadores, milkshakes compartilhados e sua respiração no ombro. Não ajudou quando inclinou a cabeça e sussurrou, a voz baixa e rouca: — Isso conta como mão boba? Porque se contar, já comecei mal. Mordi o lábio para não sorrir, forçando-me a manter o foco. — Sem brincadeiras, Tomas. Lembre-se, estamos sob vigilância constante — falei, indicando com um leve movimento de cabeça um grupo de alunos que cochichavam mais adiante. Cena errada, mas na minha cabeça Supermassive Black Hole tocava como se estivéssemos realmente em Forks. Cada cabeça se virou em nossa direção, os grupinhos parando de conversar para nos ver. Tomas parecia incrédulo. — Tá todo mundo olhando mesmo — sussurrou para si mesmo. — Você subestimou minha popularidade e o instinto da fofoca em Harvard, Tomas. — Não devia dizer a fala de Edward no filme, não devia dizer a fala de Edward no filme, não devia dizer a fala de Edward do filme — mas eu vou pro inferno mesmo. Pronto! Eu disse. — O quê? — Ele sussurrou, confuso. — Nada! Entramos no prédio e os olhares se voltaram para nós como se fôssemos celebridades em um tapete vermelho. Alheio a estar realizando meus sonhos de crepusculete, Tomas parecia estar no seu habitat natural, acenando para conhecidos e lançando sorrisos para todos. Ele era surpreendentemente bom naquilo. Geralmente não achava tanta atenção assim algo divertido, mas ao sentir o braço dele ao meu redor, tudo estava bem. Paramos em frente a sala combinada e me soltou, quebrando um pouco da magia, ainda sorria e mesmo por baixo dos óculos escuros conseguia ver as ruguinhas de felicidade ao redor dos olhos. As covinhas malditas também estavam ali. — Missão cumprida? — perguntou. — Você vai ser a história do dia ainda hoje — prometi. Tomas deu uma risadinha baixa, aquele tipo de som que fazia meu estômago dar um salto estranho, um misto de orgulho e nervosismo. — Ótimo. Porque amanhã quero ser a manchete do mês — respondeu, tirando os óculos de sol com um movimento dramático, como se fosse o protagonista de um filme de ação. Ele balançou os óculos em direção ao bolso e, por um breve momento, achei que ele fosse tentar um truque, mas ele apenas os guardou. Talvez lembrando que era emprestado — roubado — do seu irmão. Eu deveria me afastar e entrar na sala antes que me convencesse de que tudo aquilo era mais do que uma encenação, mas a forma como ele estava parado ali, como se fosse impossível não sorrir em sua presença, fez com que eu hesitasse. — Bom trabalho, McKinley — falei, tentando manter a voz firme, mesmo que meus pensamentos estivessem longe de ser profissionais. — A gente devia… — começou a perguntar, erguendo o braço em minha direção. Um abraço? Um beijo? — Não vamos queimar largada — falei e suas bochechas coraram. Pareceu uma recusa? Um fora? Não era nada disso. Mas deveria ser! — Até mais, Ellie — sorriu, meio envergonhado, mas ainda como ele. — Até mais — respondi, assistindo ele fazer o caminho até o segundo andar, onde teria suas próprias aulas. Esperei até que Tomas desaparecesse para entrar na sala. Não consegui dar um passo antes de ser interceptada por três loiras muito conhecidas que estavam me fitando chocadas. — Bom dia, meninas — cumprimentei, mas não tive resposta. — Tomas McKinley, Ellie, sério? — Amber questionou. — Você não disse que não o conhecia? — Brittany não parecia muito satisfeita. — Ele é esquisito, amiga — Carol nunca usava aquele vocativo a não ser que fosse para julgar. Empinei o queixo, sabendo como contornar a situação. — Não, ele não é. Tom é legal — usei a mesma entoação condescendente. Elas se entreolharam, claramente pegas de surpresa pela minha defesa. Amber piscou algumas vezes, como se estivesse tentando processar o que acabara de ouvir. — Legal? — Carol repetiu, sua expressão cética. — Ellie, ele é todo estranho... caladão, geek de hóquei, super na dele. Você mesma disse. — É autêntico — contrariei e aquela parte não era nenhuma mentira. Senti a alma meio lavada em dizer aquilo. — Talvez eu tenha mudado de ideia. — Dei de ombros, mantendo o tom casual. — Além disso, eu gosto de pessoas que não se importam com o que os outros pensam. Amber bufou, mas Brittany parecia estar considerando minhas palavras, o rosto se suavizando um pouco. — Ok, mas... pode ser bonito. Se ele se esforçar um pouco... — Brittany admitiu, mordendo o lábio, como se estivesse reconsiderando sua opinião. — E parece que ele está. — Eu até ouvi dizer que ele é uma boa pessoa, tipo... genuinamente legal. — Carol murmurou, quase como se estivesse confessando um segredo. — É um dos quadrigêmeos do hóquei, né? — Hum — Amber deu uma risadinha — parece que achamos o quarto T dos irmãos tesão. Sorri, sem nenhuma animação. Estávamos no caminho certo. Tomas tinha dado o primeiro passo para se destacar na malha social de Harvard. E de repente, eu não gostava mais daquele plano. Não quando o ABC do nepotismo estava achando-o interessante. Capítulo 18 | Por que o livro de matemática ficou triste? Não sei! Me beija Eu estava certa. Todo mundo estava falando de Tomas McKinley. Priya: Acabei de escutar um cara dizer Priya: que você se mudou para a mansão dos irmãos tesão. Priya: Isso é verdade? Maddy: pelo amor de Deus, Ellie!!!!!! Ellie: Claro que não é verdade Ellie: mas se alguém perguntar, diga que você não tem certeza. Roxy: Ellie!!! Nosso plano estava saindo muito melhor do que o encomenda e eu tentava não pensar muito sobre isso. Era bom que ele estivesse finalmente se destacando, não era? Minha parte no acordo também estava coberta, Tomas não disse uma palavra sobre minha verdadeira família. Então por que eu estava tão… irritada? E daí que as garotas do campus — incluindo Amber, Brittany e Carol — estavam de repente muito conscientes do quarto irmão McKinley? Não tinha motivos para me importar. Esse era o objetivo desde o começo: fazer Tomas McKinley, o irmão mais nerd e desajeitado da família, ser notado. E não só pelos treinadores de hóquei, mas também por todoo campus. Eu devia estar satisfeita, aliviada até. Eu estava com ciúmes? Não, claro que não. Seria completamente absurdo. Tomas era meu projeto, uma missão para salvar meu próprio pescoço. Ele não era meu. Foi por isso que o convidei para o clube de debates daquela noite. Para que ele aparecesse mais. E não para que as pessoas o vissem do meu lado. Ugh! Nada a ver. Eu precisava continuar lembrando a mim mesma disso. Nosso namoro era uma fachada, um acordo conveniente que funcionava para ambos. Eu o ajudava a ser notado, ele me ajudava a manter minha mentira de pé. Simples assim. Então, por que meu coração acelerou quando o vi chegar ao auditório naquela noite, usando uma um suéter mais justo que destacava seus ombros largos? Por que meu estômago revirou ao perceber que as garotas do clube — especialmente a Brittany — olharam para ele quando ele apareceu? Deixei a porta da sala, indo até ele. Não estava marcando território, nada disso. Apenas garantindo que ele soubesse as regras da noite. — Estou adequado? — perguntou antes de qualquer coisa, apontando discretamente para si mesmo. — Muito bom — garanti, deixando meus olhos vagarem por sua forma física. Eu desviei o olhar rápido, limpando a garganta. — Quero dizer, você está bem... apresentável. Ele sorriu, aquele sorriso meio tímido e confiante ao mesmo tempo, que eu já tinha começado a reconhecer. Aquele que fazia meu coração bater mais forte, mesmo que eu me recusasse a admitir. — Certo, só queria ter certeza. Você sabe que não entendo muito desses eventos — ele disse, ajeitando o suéter de lã que acentuava ainda mais seus braços musculosos. Uma onda de calor subiu pelo meu rosto, e eu me forcei a manter o foco. — Não precisa se preocupar, Tomas. É só ser... você mesmo. — Seria uma noite tranquila, apenas para garantir que ainda estávamos sendo o assunto do momento. Omiti para mim mesma que queria que as pessoas nos vissem juntos. — E quem você está tentando impressionar hoje? — perguntou, de repente, mas então arregalou os olhos. — Quê? — Você… também… é… está bonita — disse, como se cada palavra custasse um neurônio seu, gaguejando e se atropelando com as palavras. Olhei para mim mesma, mordendo o canto interno da bochecha, não admitiria, mas escolhi a calça de alfaiataria preta e meu melhor suéter azul escuro, esperando ser notada. Por ele. — Ah, obrigada — murmurei, tentando soar indiferente, mas o calor em minhas bochechas me envergonhou. Me forcei a endireitar a postura, afastando um fio de cabelo teimoso do rosto, enquanto tentava manter um ar de superioridade. Isso não significava nada. Não podia significar. Nosso acordo era claro e não envolvia elogios sinceros ou, Deus me livre, emoções complicadas. — Espero que você saiba que não estou tentando impressionar ninguém — acrescentei, com uma pitada de sarcasmo. — Diferente de você, que parece estar se divertindo um pouco demais com toda essa atenção. Ele riu, mas havia algo genuíno em seus olhos, um brilho que não estava lá antes, quando começamos essa farsa. — Não posso negar que estou gostando, mas… é estranho, sabe? Nunca fui o cara que as pessoas notam. — Ele encolheu os ombros, os olhos castanhos desviando por um momento, como se tivesse medo de encarar a verdade na minha expressão. — Talvez você só precisasse de um empurrãozinho, Tomas — respondi, com um sorriso que eu esperava ser despreocupado. Ele se aproximou um pouco, e senti o calor dele através do suéter. Seus dedos procuraram os meus, nossas mãos se unindo. Pelo bem da farsa. — Vamos? — Perguntou e eu podia sentir o leve tremor em suas mãos. — Sim — resmunguei, fazendo o caminho de volta até o auditório. Vi quando boa parte do grupo fingiu estar na porta coincidentemente, evitando nos olhar. — Já vai começar? — perguntei, espremendo os olhos em direção a aqueles fofoqueiros. — Sim — Samuel, o organizador disse, olhando diretamente para Tomas ao invés de para mim — Só estávamos esperando vo… a hora certa. — Declarou, com um sorriso meio travado. — Então vamos começar — sugeri, apesar de não ter certeza de como minha voz soava. Toda minha concentração estava em como Tomas McKinley segurava minha mão. — Claro — o organizador pigarreou — Vamos todos para seus lugares? Naquele dia, Jodie Archer iria representar nosso time de debates contra Robert Austin. Uma rivalidade clássica nas equipes porque se tratava de ex- namorados. Mesmo assim, as pessoas pareciam estar muito mais interessadas no McKinley ao meu lado. Enquanto todos se acomodavam nas cadeiras, senti Tomas apertar levemente minha mão antes de soltá-la. Minha mente estava a mil, a pele se aqueceu junto a dele. Talvez eu estivesse tendo um derrame. Nos sentamos em uma das filas do meio, Brittany e Carol cochichavam atrás de nós e consegui ouvir claramente o nome de Tomas no meio da conversa. Essa era a intenção, não era? Tentei focar no começo do debate, mas a presença do homem ao meu lado não era fácil de ignorar, ainda mais quando ele soltava comentários como: — O que acontece se eles saírem na mão? — sussurrou quando Jodie começou a falar sobre a regulação da privacidade nas redes sociais. Revirei os olhos, me voltando para ele só um pouquinho. — Não é uma partida de hóquei, Tom — lembrei e ele deu de ombros. — Se pudesse apostar em um deles, diria que o mauricinho ganharia uma surra da garota — Estávamos em um auditório quase centenário no coração de Harvard e ele queria fazer apostas. Comprimi os lábios, tentando conter uma risada. — Certeza de que a Jodie tem um taco de hóquei escondido atrás da mesa — ele murmurou, ainda com aquele sorriso travesso que começava a me desconcentrar. — Shh, só preste atenção — sussurrei de volta, tentando manter minha expressão séria, mas era difícil quando Tomas estava transformando um debate acadêmico em um jogo de provocações. O clube de debates nunca pareceu tão leve. Jodie estava no meio de uma argumentação feroz sobre como a regulamentação poderia proteger os dados dos usuários, sabia que Robert iria contra-argumentar que isso violaria a liberdade de expressão. Mas seria uma tese fraca, falida. Tomas se inclinou novamente para mim, com os olhos brilhando de diversão. — Aposto cinco dólares que esse tal Robert vai gaguejar na próxima pergunta. — Tomas! — sibilei, mas minha indignação era só para manter as aparências. A verdade é que eu estava me divertindo muito mais do que deveria. E, claro, como se estivesse ouvindo nossa conversa, Robert gaguejou ao começar a falar sobre liberdade de expressão sem muita substância em seu argumento. — Pago em notas pequenas ou posso transferir? — Tomas provocou, me lançando um olhar vitorioso. Eu balancei a cabeça, tentando ignorar o calor que subiu pelo meu rosto. Eu estava quase cedendo a uma risada, mas Robert se calou para a última rodada e Jodie deu um sorriso triunfante. Ele não devia tê-la traído com a melhor amiga dela no ano novo. Aquilo era pessoal. — Uau. — Ele assobiou baixinho. — Ela é tipo Gordie Howe dos debates. Revirei os olhos mais uma vez com sua referência ao hóquei. Se alguém me perguntasse, Jodie era boa, mas se os debates se tornassem mais profundos, ela seguia para questões muito mais filosóficas do que práticas. Faltava repertório para garota e… por que eu estava criticando minha colega de equipe? — Mas tem uma pessoa que é o Wayne Gretzky — sussurrou, se inclinando para falar diretamente no meu ouvido. — Você. Um arrepio subiu pela minha coluna e não tinha nada a ver com o frio. Dizer que eu era bonita, estava bem vestida, tinha seus efeitos em mim, mas elogiar meu desempenho em debates… ah! Aquilo sim mexia comigo. E, apesar de não saber, Tomas estava atingindo diretamente meu ponto fraco. Elogios ao meu intelecto eram o caminho mais rápido para desarmar minhas defesas. Engoli em seco, tentando ignorar o sorriso satisfeito que se espalhava pelos lábios dele, como se soubesse exatamente o impacto que suas palavras tiveram em mim. Foco, Ellie. Tínhamos um acordo sobre aparências, não sobre elogios.um clássico paranormal e vocês não estão preparadas para essa conversa. — Deixou o copo na mesa para gesticular. — Tem fantasia, romance e é um slow burn com tensão sexual que vale a pena. Duas coisas a tiravam do sério: ser interrompida em seus treinos e que falassem mal de harém reverso paranormal. Se raios saiam dos olhos de algum personagem super gostoso, Maddison Davenport se tornava uma fã imediata. — Ok, posso aceitar opiniões contrárias — não podia. Essa era literalmente minha carreira futura: nunca aceitar estar errada. Mas não precisava ser assim com as meninas — Qual vai ser o critério de escolha para o próximo livro? — Alguma coisa muito hot? — Priya falou, se inclinando contra a cadeira, a postura perfeita de suas costas não se perdendo nem por um segundo. Ela podia ter saído da patinação artística, mas a patinação artística não saiu dela. Ou pelo menos a parte do esporte que transformava as garotas em verdadeiras bonecas de gelo não saiu. — Estou na pior ressaca literária — suspirei, brincando com um cacho solto diante do meu rosto. — Ter toneladas de textos acadêmicos para ler mexe com a gente. — Ainda mais quando você escolhe ler mais uma tonelada apenas para complementar a formação — Roxy cutucou minha lateral, me fazendo dar um pulo desavisado. — Não posso ler só um capítulo de Tocqueville e ir para aula, tenho que saber a teoria completa. — Que tal ir para aula para aprender? — sugeriu com um sorriso que era partes iguais de doçura e ironia. Aquela baixinha desgraçada era fofa demais para nosso próprio bem. Foi por causa de todo esse carisma que nosso primeiro encontro do clube do livro acabamos lendo um romance que começava com alienígenas verdes invadindo o planeta Terra. Amamos cada segundo. — Em Harvard? Difícil — Eu era a única entre nós que estava tentando emplacar um Juris Doctor no final da graduação, não podia me dar ao luxo de fazer coisas absurdas como deixar para aprender na aula. Urgh! Só de pensar nisso me dava arrepios. — E se formos para algo mais light? — Maddy sugeriu, dando o último gole em sua bebida. — Light? — Priya ergueu uma sobrancelha com uma risadinha. — Apenas insinuação de BDSM ao invés do espancamento completo? — brincou. Olhei ao redor da cafeteria tentando conter uma risada. A gente tentava fazer com que os encontros não chamassem a atenção por isso escolhíamos lugares calmos, quase ermos, onde podíamos fazer o debate sobre qual parceiro numa matilha de lobos alfas tinha o maior pau. Mas nem sempre dava certo. Um casal de garotas na mesa do lado com livros de biologia diante delas nos olhou meio chocadas. As duas rapidamente fecharam o caderno e começaram a recolher as coisas. Nem todo mundo no Café Harvard estava preparado para quatro estudantes discutindo livros hots. Que pena. Pelo menos o espaço era amplo e aconchegante, com grandes janelas que deixavam a luz natural iluminar as mesas de madeira escura. O aroma de café fresco se misturava ao som suave das conversas e ao tilintar ocasional de xícaras. Nas prateleiras, livros e plantas decoravam o ambiente, criando um clima quase intelectual e acolhedor, típico do campus de Harvard. Mas o melhor de tudo: era mais vazio e mais barato do que a Starbucks. Não que eu tivesse seis dólares para dar em um frapuccino aguado ou disposição para discutir sobre pênis lupinos em uma grande rede de cafés. — Pensei em algo mais… clássico. — Vindo de Maddison-harém- reverso-Devenport podia ser qualquer coisa. — Jane Austen? — Roxy perguntou, seu rosto se animou com a ideia. Apesar do seu claro apreço pelo hot, minha amiga ainda era uma garota indie da criatividade, orgulhosa aluna do curso de Artes e Estudos Visuais. — Reli no ano passado. — Lembrei com um suspiro saudoso da época em que ainda tinha tempo de me debruçar sobre clássicos e conseguir apreciar alguma coisa antes da minha consciência implorar para que meu cérebro fosse usado para ler clássicos da filosofia ao invés de clássicos literários. Uma competição que não existia se eu estivesse lendo hot. Essa era a graça das comédias românticas, das fantasias eróticas, das histórias despretensiosas com bebês rejeitados e homens sem camisa na capa. A capacidade quase mágica daqueles livros de nos tirar do mundo, mostrar dilemas muito mais simplórios do que pais alcoolistas, mães mortas e mentiras contadas em aulas de política. A vida em sua versão mais simples, com os finais mais felizes. Às vezes tudo que a gente quer de um livro é fuga. E, naquela mesa, estavam quatro garotas que precisavam fugir. — Estou pensando em outro tipo de clássico. — Maddy riu, colocando o cabelo atrás da orelha — E se a gente lesse Crepúsculo? Foi ótimo que a gente escolhesse a cafeteria mais vazia no campus porque o gritinho que soltamos em uníssono espantaria qualquer outro cliente. — Isso é incrível! — Priya riu. — Faço uma maratona anual dos filmes no inverno. — E olha só… — Maddy apontou para a janela onde a baixa luz solar e os vestígios da neve ainda podiam ser vistos naquela manhã de janeiro. — é o clima perfeito para isso. — Maravilhoso! — Roxy riu, enfiando as mãos no bolso de seu casaco os ombros dando uma tremidinha alegre e animada. — Tenho o e-book parado no Kindle há um tempão. — Minha mãe tinha uma cópia física em casa — lembrei nostálgica. Karolyn Davis era uma fã de livros. Todos eles. Sua biblioteca tinha desde Harper Lee, Ralph Ellison até Sophie Kinsella e E.L. James — essa última ela nunca me deixou pegar e eu demorei semanas para terminar de ler escondido. Mas o livro preto com a maçã vermelha era seu xodó. Eu era uma adolescente chata e pedante quando a via suspirar com sua cópia de segunda mão, um presente do meu pai que ainda não era o bêbado inconsciente que ele se tornou. Com aquele livro ela não fingiu desconhecer o fato de que eu estava lendo de madrugada quando deixava a edição na estante da sala. — Então… — minha mãe disse no jantar um dia nas férias de verão — eu estava no capítulo da tipagem sanguínea ontem de manhã e hoje, Edward e Bella já estão na clareira. — Ergueu uma sobrancelha por cima de seu prato escondendo um sorrisinho. — Esses vampiros… eles correm rápido. — Me esquivei, levando-a a rir. A lembrança fez meu coração se apertar. Daquele dia em diante, ela deixou dois marcadores dentro do livro. Sentia falta da minha mãe. O tempo todo. Aquela era a coisa esquisita sobre o luto. Eu podia enfrentar um dia inteiro em um feriado familiar sem me desmanchar por ela não estar mais ali, só que um dia, lembrar de Crepúsculo faria com que o buraco da sua perda ameaçasse me corroer. — Eu acho que é uma boa ideia. — Priya sussurrou gentil, sua mão cobrindo a minha em um gesto inesperado, mas muito bem-vindo. Retribui o sorrisinho delicado, vendo outros dois pares de olhos amáveis. Minha mãe teria adorado o Clube das Leitoras com Tesão. — Então está escolhido, sessão encerrada! — Brinquei, sentindo o coração leve pelo acolhimento apesar do peso da saudade. — Tá bom, meritíssima — Roxy riu. — Vou encomendar o meu na Amazon hoje. — Maddy uniu as mãos em frente ao rosto, batendo os dedinhos juntos como se comprar livros fosse um plano mirabolante. A ideia de ter mais um livro de conforto entre as minhas leituras me deixou entusiasmada. — Ler Crepúsculo vai ser a coisa mais animada do meu semestre. — falei, inocente porque não foi exatamente o que aconteceu. Digamos que algo de 1,92 de altura mudou isso para mim. Capítulo 02 | Ele é a noite. Ele é a vingança. Ele é o cara lendo os quadrinhos do Batman! — … já esquiou em Val d'Isère? — Amber terminou seu monólogo de pelo menos uns dez minutos e, Jesus, eu não estava ouvindo. — Hum? — Me endireitei na cadeira dura da biblioteca, sem perceber, meu corpo havia pendido para frente enquanto a mente vagava. Estávamos ali supostamente para estudar os cinco primeiros capítulos de “O Contrato Social” de Rousseau, mas Amber, Brittany e Carol eram tão boas em procrastinar quanto eram boas em se gabar e, para minha infelicidade, quando as duas características— Então, qual é o próximo movimento, senhorita Gretzky? — ele provocou de novo, ainda mais próximo, o calor de seu corpo irradiando para o meu lado. Olhei para a frente, tentando parecer impassível, enquanto Jodie lançava um argumento final, sua tese usou uma analogia filosófica — obviamente — para afirmar que, em um mundo digital onde todos compartilham informações sem limites, a privacidade não era apenas uma questão de regulamentação, mas uma questão ética profunda sobre o direito individual de manter sua identidade. Robert estava liquidado. A plateia explodiu em aplausos e Tomas me cutucou de leve com o cotovelo, um sorriso largo no rosto. — Se eu soubesse que os debates eram assim tão emocionantes, teria me inscrito antes. — Ele parecia genuinamente surpreso — Mas se eu caísse num debate com você, sairia correndo. Um homem com medo do meu poder de argumentação? Aquilo era demais para o meu pobre ego. — Vamos cumprimentar o pessoal e depois você está livre — falei, segurando a dobra interna do seu cotovelo quando me levantei. A sugestão fez com que o jogador cheio de comentários sussurrados parecesse com medo. — Como assim? — murmurou me acompanhando enquanto descíamos pelo corredor entre as cadeiras até a frente do auditório onde o resto da equipe estava. — O que eu devo dizer? — Seja legal, faça piada… só pareça interessado — pedi baixinho porque podia ouvir Brittany e Carol em meu encalço. Tomas olhou para mim com uma expressão meio confusa, mas acenou com a cabeça, como se tentasse se convencer de que sabia o que fazer. Ao chegarmos na frente, ele deu um sorriso largo para o grupo. Bom começo. Ele estava evoluindo. — Gostou do debate? — Samuel perguntou diretamente para Tom que travou, sua expressão se transformando em uma careta. Não tão evoluído assim. — Foi legal — o jogador balançou a cabeça, coçando a têmpora com o polegar. — Vocês fazem… um ótimo trabalho. — Muito obrigado, esse clube tem mais de quarenta anos de existência, meu pai participou quando ele mesmo estudava em Harvard e… — deixei as palavras Samuel se perderem um pouco em meu foco e estudei o rosto de Tomas. Ele estava nervoso, mas parecia estar tentando se manter calmo, o que era um bom sinal. Sabia que ele não era exatamente fã de situações sociais que exigiam uma certa finesse, mas estava se esforçando. Isso, de alguma forma, me fez admirar mais ainda a sua persistência. — Ah, sim, claro — ele continuou, agora olhando para Samuel, ainda tentando encontrar as palavras certas. — Eu acho que... você sabe... a regulação da privacidade... é um tema... bem importante, né? — Ele se virou para mim rapidamente, como se estivesse buscando algum tipo de validação. Ponderei com a cabeça. Não era muito articulado da sua parte, mas ele estava certo. — Sim — o organizador concordou, se calando, os olhos brilhando em expectativa, provavelmente aguardando por elogios a sua trajetória no clube. Samuel era um cara legal, mas tinha um pequeno problema com a soberba. Por ser filho de um dos fundadores do clube, achava que sua história era a mais legal de todas. E não parecia que Tomas concordava. O pânico no rosto do jogador foi crescendo, mas antes que eu pudesse intervir, ele disse: — Por que o livro de matemática ficou triste? Samuel fitou Tom, meio chocado. Eu também. — Perdão? — Porque ele tinha muitos problemas. — Tomas completou, mas vendo a total apatia do organizador do clube de debates, piorou a situação. Ele não sabia mesmo como ficar em silêncio. — Sabe? Problemas… matemáticos. Isso deixou ele triste… Impossível. — Ele está brincando — forcei uma risada, enfiando meu cotovelo nas costelas do McKinley, esperando quebrar uma ou duas. — Ah! — Samuel disse, soltando um ronco nada divertindo, seu sorriso desconfortável. — muito… divertido. Não era esse tipo de piada que eu estava falando, porra! Havia um silêncio constrangedor, e eu queria sumir de vergonha. Tomas não parecia entender o impacto de sua piada, mas, ao mesmo tempo, algo em seu jeito estava fazendo tudo aquilo ser ainda mais… charmoso? Ah, não. Não podia pensar assim. — Seu amigo é muito… — o organizador pareceu tentar escolher as palavras certas — jovial! Um alarme soou na minha cabeça. Não. As pessoas não podiam pensar que ele era meu amigo. Tomas precisava ser meu namorado para mantermos o controle da narrativa. E ele pegou o controle e jogou na puta que pariu. — Temos que ir — falei, com um sorriso educado, puxando o jogador comigo — Até a próxima! Abortar missão! Recalcular a rota! Fazer as pessoas acreditarem que ele era meu namorado super descolado e que não fazia piadas literais com as pessoas. Reboquei Tomas antes que ele começasse um stand up comedy no meio de um clube de debates muito sério. — Eu entrei em pânico — ele sussurrou penalizado, enquanto eu nos arrastava em direção a prova. — Tá tudo bem! — não, não estava. As pessoas pensariam que ele era meu amigo esquisito e eu teria um amigo esquisito. Não era benéfico para nenhum de nós dois. — Ele disse que eu era seu amigo — sua voz era incrédula, como se ele mal conseguisse processar o que acabara de acontecer. O olhei com uma expressão de pânico. Não. Isso não podia estar acontecendo. As pessoas não podiam pensar que Tomas era só um amigo. Ele tinha que ser mais do que isso. Se ele fosse só um amigo, minha farsa estava em risco. — Tomas, a gente precisa mudar isso porque… — comecei a dizer e ele estancou quando estávamos perto da porta, não deixando que eu o puxasse mais. Me virei para perguntar o que diabos estava acontecendo, mas encontrei sua expressão firme, decidida. Não tive tempo de perguntar qual era sua escolha. Porque Tomas McKinley me beijou. Não um selinho como pensei que eventualmente poderia acontecer pelo bem da mentira, mas um beijo de verdade. Ele me puxou para mais perto de si com uma mão firme nas minhas costas, enquanto a outra se aninhava no meu pescoço. O movimento foi inesperado, mas a suavidade com que seus lábios se encontraram com os meus me paralisou por um segundo. Não era apressado nem impetuoso, mas intenso. Muito intenso. Sua língua abraçou a minha quando Tomas tombou de leve sua cabeça, me dando acesso para mais de sua boca. Meus dedos caíram flácidos sobre o seu peito, como se, de repente, toda a força e tensão que eu estava segurando evaporassem com o toque dele. Meu corpo inteiro estava aceso, quente, desejando mais. Muito mais. Por favor, mais. E então ele me soltou. As bochechas coradas, olhando levemente por cima do seu próprio ombro, vendo o efeito que sua decisão de me beijar fez o clube de debates inteiro parar para assistir. Tomas deu um sorrisinho, voltando a me olhar. As pupilas estavam dilatadas, o círculo preto quase levando toda a parte castanha, o peito subindo e descendo. Suas mãos ainda estavam posicionadas como no beijo e parecia tão errado. Tomas não devia me tocar daquele jeito sem seus lábios estarem nos meus. Nem consegui ter forças para desmentir a linha de raciocínio na minha própria cabeça. — Agora eles vão acreditar, não é? — Sim… — respondi sem fôlego. O problema seria eu começar a acreditar. Capítulo 19 | Essas são minhas amigas e elas estão protegendo sua virgindade Claro que eu consegui parar de pensar naquele beijo. Óbvio. Cheguei no dormitório e não fiquei em choque, olhando para as paredes. Definitivamente não fui para o banho e fiquei muito mais tempo do que era recomendado para a boa convivência no campus. E, mais tarde, quando o sono não veio de jeito nenhum, eu não me toquei debaixo das cobertas pensando nele. Meus dedos certamente não pareciam errados ali, desejando que fosse outra mão entre as minhas pernas. Mãos de um jogador de hóquei. Nada disso aconteceu. Levei numa boa. Quando acordei às cinco da manhã meus olhos estavam grudados no teto, e a sensação de suas mãos na minha cintura ainda me envolvia como uma corrente invisível. Não passava. Me virei na cama, tentando ignorar o jeito como meu coração ainda acelerava só de lembrar do beijo. Não, não podia serassim. Eu não podia deixar isso me afetar tanto. Mas quando a imagem do sorriso dele apareceu em minha mente, meu estômago deu um pulo. Droga. Era impossível não pensar nele. Então eu tinha que fazer algo diferente. Me levantei em um pulo e comecei a me arrumar para o dia. Vesti roupas pesadas para o inverno e fiz uma lista minuciosa de todas as coisas que faria para me ocupar. Leria os primeiros textos da assistência de pesquisa, faria um fichamento robusto, com todos os detalhes chatos e teóricos que eu pudesse reunir. Tinha que atualizar meu plano de estudos para a semana, revisar anotações do último seminário sobre políticas públicas, e ainda me preparar para a reunião do Modelo das Nações Unidas. Eu também precisava revisar o caso que seria debatido na próxima competição de julgamentos simulados, fazer anotações detalhadas sobre a constituição de diferentes países, e, claro, terminar o relatório da última reunião do Comitê de Assuntos Jurídicos da Graduação de Harvard. Sem tempo para pensar em Tomas. Ou para os seus beijos… Eu teria que me manter focada. Saí do dormitório cedo, o sol ainda não estava no céu e o campus parecia uma cidade fantasma quando entrei no refeitório para o café da manhã. Estava na fila dos ovos mexidos quando senti dedinhos espertos tocando meu ombro. Me virei, com medo de ver um jogador de hóquei de mais de 1,90. No entanto, quem eu vi foi a ruiva sorridente apesar do horário tão cedo de manhã. — Caiu da cama hoje? — Maddy perguntou, equilibrando sua própria bandeja que era bem mais saudável com suas frutas e pão integral que a minha cheia de bacon, bagels e ovos. — Você nem imagina — resmunguei, apontando com o queixo para a mesa mais afastada do restaurante universitário. Me seguiu, sua postura ereta, firme como a boa atleta que ela era, mas por cima do ombro, conseguia ver seus olhos brilharem. — Problemas no paraíso? — a garota teve a coragem de soltar uma risadinha debochada quando nos sentamos. — Tomas me beijou ontem à noite — confessei, desembrulhando meus talheres. Maddy me olhou como se eu tivesse dito que alienígenas me sequestraram de madrugada e colocaram uma sonda no meu ouvido. — Você tá falando sério? — engasgou, se inclinando em minha direção. — Queria não estar — gemi, espetando um bacon e comendo-o furiosamente. — Então o acordo… é real? — parecia confusa. Podíamos ser um grupo de garotas que consumiam livros eróticos como água, mas nenhuma de nós era muito versada na arte dos relacionamentos falsos. E dos relacionamentos no geral. — Não é real, mas… aquele idiota — a força que usei na palavra fez Maddy sorrir mordiscando sua torrada integral — fez uma burrada. Eu disse “conta uma piada”, no sentido de dizer algo engraçado. Ele olhou para Samuel Porter no fundo dos olhos e perguntou… — Ah, não… — a garota se encolheu, rindo. — Por que o livro de matemática ficou triste? Porque ele tinha muitos problemas. — Contei e Maddy começou a gargalhar alto, colocando a mão na boca, tentando se conter. Seu riso foi tão contagiante que de repente… me peguei sorrindo também. — Eu juro! — Não pode ser real — lágrimas se acumularam em seus olhos. Tinha que admitir… foi engraçado. — Ele disse isso. Com a maior… naturalidade do mundo. — E como uma piada de livros de matemática se transformou em um beijo? Brinquei com os ovos mexidos, cutucando-o com o garfo e evitando seu olhar. — Samuel pensou que eu fosse amiga dele e o idiota entrou em pânico e me beijou… um beijo muito… — perdi o fôlego, finalmente me voltando para Maddy que dava um sorrisinho nada decente — intenso. — Você gostou, sua safada — acusou. — Eu… eu… — o que falar numa situação dessa? — não deveria. — Mas gostou. — Não havia nenhum resquício de dúvida em sua voz. — É um relacionamento — parei, olhando ao redor, mas ninguém prestava atenção na gente — falso. Não deveria ter beijos tão bons. Maddy, com um sorriso travesso, se recostou na cadeira e deu um gole no seu café. — Pode até ser falso, mas não parece que esse beijo não foi. O problema é que agora você vai ter que lidar com ele, não é? E porque todo azar para uma fodida era pouco, o celular vibrou no meu bolso e eu peguei por impulso. Gemi ao ler o nome na tela. Tomas. Por que ele só aparecia nas piores horas? — Tá vendo! — apontei para Maddy que se aproximou para ler a mensagem. — “Vem ver nosso jogo hoje à noite” — disse, dando uma risadinha. — Parece que você tem um encontro de verdade com seu namorado de mentira. — Não sei o que fazer, Maddison — gemi e o sorriso da desgraçada só aumentou. — É melhor comprar uma camisa McKinley 25. — Você me acompanha? — pedi, fazendo minha melhor cara de garota pidona. — Com certeza, não perderia isso por nada. Espremi os olhos em sua direção, lendo a suas intenções ocultas por trás daquele convite tão fácil. Maddy era ocupada, não tinha o tempo tão dado assim. — Você vai contar isso para as meninas, não vai? Seu sorriso foi largo e brilhante. — Não tenha dúvidas, Ellie. — Então nossa função hoje é ser empata foda? — Priya perguntou, as mãos enfiadas no casaco, quando caminhávamos juntos em direção a arena. Lancei um olhar bravo em sua direção quando o trio riu. Maddison era uma fofoqueira. — Não tem foda alguma — lembrei — vocês estão aqui porque são minhas amigas e a gente vai assistir um jogo juntas. — E te impedir de beijar o jogador — Roxy deu uma risadinha, colocando uma mecha de seu cabelo curto atrás da orelha. — Nunca mais chamo vocês para passear — brinquei, mostrando a língua na direção das três que reagiram rindo. Na verdade, devia ser mais do que grata por elas. A temperatura estava perto de zero e mesmo assim elas vestiram seus melhores casacos de inverno e estavam indo comigo para a Bright-Landry Hóquei Center. A verdade era que elas estavam ali para me proibir de fazer escolhas estúpidas. Com Roxy, Priya e Maddy presentes a chance de que eu fizesse algo estúpido como beijar Tomas McKinley era menor. Então as garotas eram um… escudo. Entre mim e a virgindade dele. Mas não podia dizer aquilo em voz alta. Estava cedo então seguimos para a bilheteria sem grandes problemas de fila, cada uma de nós deu seus dez dólares para o garoto mastigando chiclete de um jeito agressivo, como se sua vida precisasse disso. Atrás dele haviam várias camisas do time, com a plaquinha de vinte e cinco dólares cada uma. Uma verdadeira facada, mesmo assim me peguei dizendo: — Quero uma dessas — pedi, apontando com um sorriso. O atendente nem reagiu. — Qual nome? — McKinley, 25 — falei e ele franziu o cenho. — Vinte e cinco? — olhou por cima do próprio ombro — A do Holden? Acabou. — Não, não. Tomas. Parecia que eu estava falando grego. — Tomas… — perguntou para si mesmo, como se eu fosse maluca e estivesse inventando uma pessoa. Respirei fundo, perdendo um pouco da paciência. Sim, Tomas. Ele estava no time. Era um bom jogador — pelo menos esperava que sim — e seria ainda melhor muito em breve, quando nosso acordo finalmente desse certo. — Não tem nenhuma camisa dessa — o garoto me olhou com julgamento. Do outro lado da catraca, as meninas já estavam me esperando, então engoli a raiva e aceitei. — Me dá qualquer uma aí — pedi, tirando meu suado dinheirinho da carteira e entregando as notas para o garoto que tirou uma escrito Kovalenko - 99 e me entregou, sem nenhum interesse. Não consegui me conter antes de despejar: — Vocês deveriam encomendar mais de Tomas McKinley — avisei e saí marchando, passando a camisa por cima do meu casaco e me vestindo como uma idiota. Como era possível que eles não vendessem acessórios de todos os jogadores? Era uma vergonha. — Gastou mesmo vinte e cinco dólares nisso? — Maddy perguntou, segurando o riso enquanto me esperava do outro lado da catraca. — Pois é, Ellie — Roxy provocou, com um sorriso debochado —, pagando o dobro para torcer por outro cara? Eu revirei os olhos, ajustando a camisa do Kovalenko na cintura. Mesmo com toda minha roupa de frio, o uniforme ainda estava enorme em mim. — Isso é temporário.Em algumas semanas, quando Tomas estiver brilhando no time, eles vão ter que começar a vender as camisas dele. Aí vocês todas vão querer uma também. — Apontei para cada uma delas. Priya riu alto, quase tropeçando no degrau da arquibancada. — Se for assim, devíamos encomendar umas camisas personalizadas com o nome dele. Faríamos uma grana com isso. Tomas merecia. Estava dando tudo de si, dentro e fora do gelo para conseguir se destacar mais. Nada mais justo do que ter o reconhecimento necessário. — Camisas exclusivas do McKinley antes mesmo de ele virar estrela. Depois podemos revender por alguns milhares de dólares do e-Bay. — Sugeri, enlaçando meu braço no de Priya. Roxy balançou a cabeça, incrédula. — Somos muito mercenárias. — Visionárias — corrigi minha amiga. Nos sentamos bem perto do gelo, na primeira fila, o que significava que eu sentiria cada impacto como se estivesse lá dentro do jogo com eles. O frio do ringue penetrava através das camadas de roupa, por isso nos encolhemos juntas, perto umas das outras. Esperava que em alguns minutos, com a torcida completa, sentiríamos mais calor. Mas não foi a plateia que fez subir a temperatura. Foi o time entrando no gelo para aquecer. Os jogadores patinando com força e precisão, parecendo mais máquinas que homens enquanto seus corpos se moviam com uma sincronia impressionante. — Meu Deus! — Priya sussurrou do meu lado. — Eles são… — Maddy ficou sem palavras, seus lábios separados. — Incríveis — Foi Roxy quem completou. Mas meus olhos estavam presos em um jogador em específico. O último a entrar. Ele parecia relaxado, como se o gelo fosse sua segunda casa. Patinava com uma confiança que eu nunca tinha visto nele antes, a armadura de proteção moldando seus ombros largos e acentuando cada movimento poderoso que ele fazia. Ali, ele não parecia nada com o cara que contou uma piada ridícula para tentar quebrar o gelo. Confiante, seguro de si e… Jesus. Meu coração deu um salto inesperado. — Olha só quem está brilhando agora, Ellie — provocou Priya, me cutucando com o cotovelo. Queria negar, desviar o olhar, fingir que ele não estava afetando meu sistema nervoso como uma corrente elétrica, mas era impossível. Tomas parecia uma versão aprimorada de si mesmo, o cara que não precisava de uma namorada falsa para se destacar, uma combinação de força e graça que me deixou sem fôlego. Então ele olhou para mim. E sorriu. Erguendo a mão para um tchauzinho, ele olhou para um lado e depois para o outro, vendo o resto dos companheiros de equipe se aquecerem e patinou até a arquibancada, tirando o capacete, expondo os cabelos castanhos bagunçados. — Você fez um trabalho e tanto — Maddy elogiou e eu me levantei, com medo de que, se ele chegasse mais perto, as garotas iam acabar falando demais. Me aproximei da grade e ele parou, os patins arranhando o gelo. Seus olhos brilhando de animação, mas percebi o momento que leu o nome de outro cara no meu uniforme. — Desculpa, essa era a única que ainda tinha para vender. Ele piscou, ponderando por um segundo antes de me dar um sorriso de lado, a covinha aparecendo. — Relaxa, gatinha. Uma camisa não te faz menos minha. Meu coração acelerou para as palavras ditas com tanta segurança. Atrás de mim, um suspiro coletivo tomou minhas amigas e me virei para lançar um olhar mortal para o trio. Elas fingiram estar olhando para lados diferentes, quase assobiando. Dissimuladas. — Gatinha? — perguntei, tentando soar irônica, mas minha voz tremeu. Tomas riu, jogando os cabelos para trás com a mão enluvada. — Estou testando alguns apelidos, o que você acha? Brega. Mortalmente excitante. — Continue tentando — brinquei e ele revirou os olhos. — Animada para o jogo, benzinho? — apontou para atrás de si onde os companheiros de equipe já estavam deslizando pelo gelo com energia. Eu dei de ombros, tentando parecer casual, mesmo que o nervosismo estivesse me devorando por dentro. — Claro, se você não fizer feio, amoreco — provoquei, cruzando os braços. Tomas se encolheu, desviando o olhar, parecendo meio envergonhado apesar de eu não entender o que tinha feito de errado. — Provavelmente vou ficar no banco, mas… — seus ombros largos se apertaram de timidez, mas mesmo assim ele sorriu. Ele sempre sorria. — Espero ter uma oportunidade. Aquele sorriso dele, tão cheio de esperança e vulnerabilidade, me desarmou completamente. Eu estava preparada para as provocações habituais, mas vê-lo se expor daquela forma me pegou de surpresa. — Você vai arrasar, ok? — falei, minha voz mais suave do que planejava. — E quando estiver lá, vou ser a primeira a gritar seu nome. Mesmo com a camisa errada. Tomas me encarou por um segundo, como se estivesse tentando acreditar nas minhas palavras, e então seus olhos brilharam de novo, mais confiantes. — McKinley! — o pai de Roxy e treinador, o chamou e ele deu um último sorriso antes de patinar em direção do grupo reunido no gelo. Voltei para o banco e três bobonas com sorrisos largos me esperavam entre elas. — Vocês dois combinam, sabia? — Maddy perguntou, apertando minha bochecha como se ela fosse uma das minhas tias. — Vamos prestar atenção na partida, ok? — pedi, mas sentia o calor daquele elogio correr por mim. O jogo começou com uma energia elétrica no ar. As arquibancadas estavam lotadas, a torcida fervendo de expectativa, mas no gelo, o time de Harvard parecia preso em um impasse com os Dartmouth Big Green. Podia não ser grande fã do esporte, mas assistia algumas partidas com meus pais. Sabia identificar uma boa disputa. Se ainda estivesse ali, minha mãe diria que ambas as equipes estavam com fogo nos patins. Os times estavam empatados, lutando com unhas e dentes, mas nenhum conseguia passar pelas defesas implacáveis do adversário. Cada jogada era intensa, para não dizer algo menos educado. Os jogadores se chocando contra as laterais do ringue e a torcida explodia a cada tentativa de gol frustrada. O clima era insano. Eu mesma me peguei xingando alto algumas vezes quando um atacante se aproximava do gol de Harvard, algo que Amber, Brittany e Carol desaprovariam se estivessem ali, mas as meninas ao meu lado gritavam e torciam tanto quanto eu. No entanto, mal conseguia me concentrar nas conversas delas — meus olhos estavam grudados no banco de reservas, onde Tomas permanecia sentado, observando cada movimento do jogo, os dedos batucando ansiosamente no joelho. O primeiro período passou num piscar de olhos, depois o segundo, e o placar ainda marcava 0 a 0. A tensão era quase palpável. O pai de Roxy estava na beira do gelo, consultando uma prancheta, prevendo as próximas jogadas. Até que ele fez o inesperado. O técnico chamou Tomas que prendeu seu capacete de volta. — É agora! — eu praticamente gritei, apertando o braço de Roxy que estava berrando um dos gritos recém aprendidos da torcida. Tomas deslizou no gelo quando o jogador Kovalenko saiu, parecendo frustrado em oposição a determinação feroz do McKinley. Os outros jogadores do time pareciam cansados, mesmo a distância dava para ver os peitos pesados em respirações difíceis e rostos suados, mas ele estava fresco, cheio de energia, como um foguete prestes a decolar. O juiz apitou o começo da nova jogada e, em poucos segundos, ele já estava conduzindo o puck com habilidade, passando por dois defensores antes de fazer um passe perfeito que quase resultou em um gol. — Porra! — berrei, fora de mim. — Vai Tomas, vai! Um dos seus irmãos — não dava para saber qual — deu um soquinho em seu ombro, parecendo orgulhoso, mas Tom estava focado, apenas balançou a cabeça positivamente uma vez antes de retornar com força total. Então, aconteceu. Com menos de dois minutos no relógio, ele interceptou um passe mal calculado de Dartmouth. Com um movimento rápido, avançou pelo gelo como um relâmpago, desviando de um defensor após o outro. A torcida estava em pé, as vozes crescendo em um rugido ensurdecedor, mas mesmo assim eu conseguia ouvir o som do meu próprio coração batendo no meu ouvido. Chegando cara a cara com o goleiro,Tomas fingiu um movimento para a esquerda, mas deslizou para a direita e disparou o disco direto para o canto da rede como um torpedo. O som da sirene anunciando o gol foi abafado pelos gritos e aplausos que ecoaram na arena. — Ele conseguiu! — Maddy gritou, pulando de alegria, me abraçando enquanto eu mesma não conseguia me conter. Tomas foi cercado pelos companheiros de time, todos batendo no capacete dele em celebração. Os irmãos o afogaram em seus abraços, mas ele ergueu o olhar em direção à arquibancada e, por um momento fugaz, nossos olhos se encontraram. Aquelas covinhas idiotas apareceram quando ele sorriu, apontando em minha direção. Aquele gol não foi apenas um ponto no placar. Foi uma declaração. Tomas McKinley estava aqui para ficar. A sensação de ser vista, de ser escolhida em meio à celebração, me deixou tonta. Minhas amigas estavam gritando ao meu lado, mas eu não conseguia desgrudar os olhos dele. Tomas ainda apontava para mim, um sorriso cheio de significado estampado no rosto, como se dissesse: viu? Está dando certo! “Sim!”, queria gritar, “está dando certo!” O montinho dos jogadores se desfez e Tomas voltou ao seu modo de concentração máxima, voltando a se concentrar na partida. Os verdões de Dartmouth não pareciam muito felizes. O juiz apitou a volta do jogo e o ritmo acelerado voltou, com os jogadores se posicionando rapidamente para recomeçar. Mas logo, algo inesperado aconteceu. Um defensor de Dartmouth, claramente irritado com o gol de Tomas, avançou contra ele com uma fúria que eu não esperava. Sim, hóquei era um esporte violento, mas aquilo era muito esquisito. Sem aviso, o camisa dezoito veio por trás, com o corpo todo inclinado para o impacto, e bateu com força em Tomas. McKinley caiu, desacordado. Capítulo 20 | Traumatismo craniano? Não! Ellie Davis Quando abri meus olhos, brilhinhos rodaram na minha cara, fazendo com que eu erguesse o braço tentando bloquear a luz. — Ele acordou — uma voz conhecida disse e, de repente, um rosto conhecido entrou em foco. — Tom, você consegue me ouvir? — Consigo — murmurei, minha voz meio esquisita, raspando a garganta. — Irmão, você ficou cinco anos em coma — ouvir aquilo apagou a apatia, fazendo adrenalina correr rápido em minhas veias. Me virei num único movimento, sentindo mãos fortes me segurando contra o que deveria ser uma maca. Cinco anos? Quem era o presidente? Descobriram o assassino em Only Murders in the Building? Oh, não, oh não! Eu tinha ficado careca? — Não seja estúpido, Holden — escutei Travis dizer e um som de impacto. — Aí, não precisa me socar, foi divertido… você está rindo! — reclamou e meus olhos entraram em foco vendo meus três irmãos em seus uniformes de hóquei. Os de Harvard. Pobrezinhos, eles continuaram na faculdade depois que entrei em coma? O engraçado era que a última coisa que me lembrava era que estávamos no ringue antes de algo me acertar… — Não tem coma nenhum, Tomas, você só desmaiou por uns minutinhos. Mas vou ser honesto, esse papo foi o melhor teste de memória que eu já vi. —Que bom que você não é médico. Você é horrível. — falei, espremendo os olhos para meu irmão que ficou puto, jogando a mão enluvada em minha boca. — Pobrezinho, ele não sabe o que fala — disse entredentes, me ameaçando com aquele olhar que ele sabia dar desde que era criança. Nem liguei, parecia que meu corpo inteiro estava voando. — O que aconteceu? — perguntei, quando a luva fedida finalmente saiu da minha cara. — O ala esquerda de Dartmouth ficou putinho com seu gol e resolveu atacar. Jogo sujo, mas não se preocupe — Holden deu um sorriso largo, apontando para a parede à sua esquerda — ele está bem pior que você nesse momento — a piscadinha que ele me lançou só me deixou mais confuso. — Ele é quem está em coma? — perguntei, colocando a mão debaixo da minha cabeça. — Tomara — Tyler sorriu e eu sorri de volta, sem entender do que estávamos rindo. Nesse momento, a porta da enfermaria se abriu com um rangido suave, e o médico entrou, ajustando os óculos na ponta do nariz. Ele olhou para mim e para o bando de irmãos barulhentos ao meu redor antes de soltar um suspiro paciente. — Bom, parece que nosso herói voltou ao mundo dos vivos, hein? — disse ele com um sorriso leve. — Como está se sentindo, Tomas? — Meio... esquisito? — admiti, piscando devagar. — Como se eu estivesse bêbado, mas sem a diversão. Holden sentou na beirada da maca, olhando para o médico com uma sobrancelha arqueada. — Pois é, doutor, por que ele tá agindo como se tivesse passado a noite no bar? É efeito colateral de levar um tranco na cabeça? O médico riu de leve e fez um gesto para que eu ficasse deitado. Não podia ser sério se o médico estava rindo. — Nada tão grave assim, pessoal, talvez essa seja... a natureza do irmão de vocês — ele começou virando-se para nós. Impressão minha ou o doutor estava me chamando de maluco? — Tomas teve uma leve concussão. É comum sentir uma sensação de tontura, como se estivesse bêbado, após um impacto forte como o que ele levou. Seus neurotransmissores ainda estão tentando se ajustar ao golpe, o que pode causar essa sensação de desorientação e confusão. Travis se inclinou para mais perto, os olhos brilhando de curiosidade. — Então ele tá meio zonzo por causa do cérebro dele tentando se reconectar? Fascinante. O médico assentiu. — Exato. Pense nisso como um curto-circuito temporário. Não é nada grave, mas precisa descansar para evitar uma recuperação prolongada. Sem jogos ou treinos pesados por pelo menos uma semana, Tomas. — Uma semana? — eu gemi, tentando me levantar, mas Holden me empurrou de volta para a maca. — Olha só, o senhor Estou Bem mal acordou e já quer quebrar as regras. O médico sorriu, se dirigindo à porta. — Não perca o ritmo, mas pegue leve. Faça caminhadas acompanhado, patine um pouco, mas não volte para o gelo. Gemi, enfiando a cabeça mais no travesseiro. Parar? Quando eu tinha acabado de fazer um gol? Impossível. — Então podemos deixar a garota brava lá fora entrar? — um irmão mal conseguia conter o sorriso — a sua namorada. — Anunciou cada sílaba com muito ironia. — Esqueci de contar para vocês — balancei as mãos no ar tentando parecer mais animado — Eba! Tenho uma namorada. Eu tinha uma, não é? Uma falsa. Um namoro feito em um acordo. Mantive meus lábios bem fechados. Não podia contar aquela parte para meus irmãos. Ou para o doutor. E para ninguém. — Pode deixá-la entrar? — Pedi, não gostando da ideia de Ellie brava lá fora. Ela devia ficar brava aqui dentro. Comigo. A garota ficava sexy quando estava nervosa. — Ih… — Holden deu um tapinha no meu joelho — está cadelizado. — Resmungou se levantando e eu sorri em sua direção. — Au au — respondi e a careta enojada que recebi em resposta foi hilária. Tyler balançou a cabeça com um suspiro exagerado antes de se virar para a porta, abri-la e gritar: — Ei, garota ansiosa, pode entrar! A sala ficou em silêncio enquanto meus irmãos seguravam o riso. A porta se abriu lentamente, revelando Ellie parada na entrada, os braços cruzados, mas não de raiva — era pura preocupação. Ela entrou com passos apressados, o rosto pálido e os olhos arregalados enquanto me olhava de cima a baixo, como se estivesse verificando se eu ainda tinha todos os membros no lugar. Suas mãos foram direto para os meus ombros, tateando como se esperasse encontrar membros fora do lugar. Olhei hipnotizado para o seu rosto. Ela sempre foi tão bonita assim? — Graças a Deus, você está acordado — ela suspirou, aliviada, mas havia uma linha fina de tensão entre suas sobrancelhas. — Oi pra você também — tentei brincar, mas minha voz ainda estava um pouco rouca. Ellie ignorou o comentário e olhou diretamente para os meus irmãos, seus olhos escurecendo. — Vocês têm certeza de que ele não precisa ir para um hospital? Isso não parece nada normal — questionou, claramente ainda aflita. Travis abriu um sorriso, levantando as mãos em rendição. — Calma. O médico já o examinou — apontou para o homem de jaleco anotando algo na prancheta —Só uma concussão leve. Nada de hospital, prometo. Jogadores de hóquei são durões. — Deu uma piscadinha em direção a garota e eu não gostei nada daquilo. Ela se virou para mim, os olhos brilhando de preocupação. — Você está bem? — perguntou baixinho só para mim. — Chega mais perto — pedi e ela franziu o cenho, se aproximando de leve. — Mais perto... mais… mais… — quando ela estava quase totalmente em cima de mim, me estiquei, enfiando o rosto na curva do seu pescoço, cheirando a pele macia dali. Era como lavanda, jasmim e todas as coisas boas do mundo misturadas. Inspirei, deixando que o aroma me intoxicasse. — Porra… estava precisando disso. — Me joguei de volta na maca, me sentindo mais tranquilo. As paredes só rodavam um pouquinho. Ellie me olhou como se as paredes estivessem rodando muito, mas eu sorri, esperando consolá-la. — Hum… ok — Holden engasgou com sua própria risada. — Tá bom, Pepé Le Pew[7], agora vamos te levar para casa — disse, mas ignorei, passando meu braço ao redor da cintura de Ellie trazendo-a mais para perto. — Eu vou levá-la — falei certeiro, mas queria dizer para minha casa. Deixá-la no meu quarto onde eu pudesse vê-la e garantir que nada fizesse chorar. Merda… eu odiava quando ela chorava. E parecia que a garota tinha motivos demais para isso. — Preciso avisar as meninas — ela sussurrou, mas não havia nada que eu não pudesse resolver pela minha gatinha. Estalei os dedos para o Tyler, sabendo que ele adoraria dar a notícia para as meninas porque Maddy era uma delas. — Vai lá avisar. — Não sou seu empregado, cara — meu irmão me fuzilou com o olhar, mas ergui uma sobrancelha em desafio. — Maddison vai ter que ir andando então — cantarolei cada uma das palavras. Talvez eu devesse ser cantor de musical. Esse era meu sonho? Nah! Lembrei! Meu sonho era ser jogador de hóquei. Claro que o cachorrinho arrependido colocou as orelhas para baixo e murmurou um “ok” antes de sair quase pulando para dar a boa notícia para sua melhor amiga. Ellie suspirou e balançou a cabeça, um sorriso de canto de boca que eu sabia que era para disfarçar o alívio. Mesmo preocupada, ela não resistia às minhas piadas idiotas. Talvez eu devesse ser comediante, na verdade. — Ok, grandão, vamos colocar você de pé — Ela passou meu braço pelo ombro, e eu tive que me segurar para não desabar em cima dela. Minhas pernas ainda pareciam feitas de gelatina, mas com Ellie ao meu lado e meus irmãos prontos para me apoiar, dava para fingir que estava tudo sob controle. Holden veio para o outro lado, enquanto Travis segurava meu ombro e costas, formando um verdadeiro escudo humano ao meu redor. Era como se eles estivessem prontos para me carregar para fora da enfermaria, caso eu desmoronasse. O que não iria acontecer. Nem devia ter desmaiado no gelo. O que os idiotas de Dartmouth pensariam? Mas pelo menos sabia que meus irmãos tinham acabado com a raça do infeliz. — Você tá se achando o dono do pedaço, hein, irmão? — Travis debochou, ajustando meu peso. — Acha mesmo que a Ellie vai te carregar até o estacionamento desse jeito? — Ela carrega meu coração — murmurei, fingindo desmaiar no ombro dela, arrancando risadas e reviradas de olhos de todo mundo. — Meu Deus, ele tá pior do que bêbado — Holden comentou. — Tem certeza de que ele não precisa de mais exames? — Ele só está tonto por causa da pancada — o médico tranquilizou, provavelmente acostumado com jogadores de hóquei. Nós sempre nos quebrávamos no gelo. — Nada grave. Só precisa de repouso, muita água e, de preferência, ficar fora do gelo por uns dias. — Viu? — Ellie rebateu, com aquele tom de "eu avisei" direcionado para mim e meus irmãos. — Devíamos ter ido para o hospital. — Ele é um McKinley, a gente aguenta qualquer coisa — disse Holden, me ajudando a dar os primeiros passos. — Agora, vamos logo, Pateta, antes que a sua namorada arraste todos nós para um check-up completo. Com um último empurrãozinho de Ellie, finalmente conseguimos sair da enfermaria. Meus irmãos agarraram suas próprias bolsas e a minha no canto. Não daria tempo de um banho, mas não me importava. Era bom que ela sentisse meus irmãos todos fedorentos e eu cheirosinho. A brisa fria do lado de fora me fez sentir um pouco menos tonto, e segui mancando até o estacionamento, rodeado pelos meus irmãos, como um rei decadente sendo escoltado por seus cavaleiros. — Vamos na Ferrari, Tyler acabou de mandar uma mensagem dizendo que vai levar a Maddy para casa porque não tem espaço para todos nós no seu carro, Tom, e as outras amigas vão juntas no carro de uma delas — Travis explicou guardando o celular no bolso. Estanquei, parando no caminho, a garota voando de volta para o meu peito, tropeçando em mim. — Ninguém dirige minha Ferrari para levar Ellie para casa. Holden bufou, dando um beliscão no meu braço. — É o carro do nosso pai. — lembrou, enfatizando penúltima palavra. — Eu saí das bolas dele, então… — Dei de ombro, provando meu ponto. Travis me olhou boquiaberto como se eu tivesse acabado de dizer algo muito estúpido. Impossível. Nunca disse algo idiota na minha vida inteira. — Nós somos literalmente adotados, seu idiota — refrescou minha mente e fiz uma careta. É mesmo… — Ok, você não vai dirigir nesse estado. — Ellie disse firme, segurando meu uniforme entre seus dedos. — Não é nada seguro, não vai acontecer. — Havia um pouco de desespero em suas palavras. Minha mente piscou em alerta, lembrei de seus olhos arregalados antes de subir na moto, os fatos cuspidos em minha direção, “oitenta por cento dos acidentes envolvendo motocicletas resultam em lesões ou mortes”. Me mantive comportado no trânsito ao seu lado, sabendo que havia algo por trás daquele desespero. Ellie tinha medo. Balancei a cabeça, tirando meu braço dos ombros de Holden e colocando a mão com cuidado no seu rosto. — Tudo bem — garanti, olhando diretamente em seus olhos. — Travis dirige — a garota respirou fundo, concordando e voltando a me apoiar em seu corpo. Pareceu mais um abraço do que qualquer coisa. — Vamos, Alfred — apontei para fora do estacionamento — em direção ao Batdormitório. Meu irmão revirou os olhos, enfiando a mão no bolso da minha mochila e pescando a chave lá dentro. — Você ter uma namorada me impressiona, sabia? — resmungou. — Eu sei, tirei a sorte grande — falei convencido. — E é totalmente verdadeiro. — Garanti, ganhando olhares curiosos dos meus irmãos. — Mantenha a boca fechada, tá bom, gatinho? Assim você não enjoa. — Ellie sugeriu quando chegamos até a Ferrari, mas não entendi muito bem, por isso abri a porta do carona educadamente para ela, afastando o banco para que ela entrasse. Ficaríamos espremidos lá atrás. O que era bom. Muito bom. A segui, cambaleando um pouco, mas tentando parecer firme. Me joguei no banco traseiro, puxando Ellie junto comigo, enquanto Travis e Holden trocavam um olhar de exasperação. Ela me cutucou com o cotovelo, tentando me manter consciente. — Ei, sem dormidinha agora, tá? Vamos focar em chegar vivos — ela disse com um sorrisinho preocupado. — Com você aqui, eu não dormiria nem se tentasse — murmurei, encostando a lateral do meu rosto no topo de sua cabeça. Ela cheirava a lavanda, e não consegui evitar um suspiro satisfeito. — Meu Deus, ele tá mesmo cadelizado — Travis zombou, ligando o motor da Ferrari. — Se você vomitar no carro, vai ter que lavar com uma escova de dente, papai vai ficar puto com você. A ideia dele com raiva me fez sorrir. — Nah… eu conto para ele quem quebrou o troféu de verdade. Holden se virou do banco da frente, com os olhos arregalados. — Agora tô com vontade de te levar para um hospital, você tá louco? Ellie deu uma risadinha do meu lado, me fazendo fitá-la, as luzes dos postes iluminavam seu rosto, a bochecha levemente pressionada em meu peito. Tão linda. — Ele falou desse troféu, qual a história? — A gente era proibido de jogar hóquei em casa, mas nem sempre obedecia essa pequena regra e um dia… o prêmio sofreu as consequências disso… trágico. — Então um de vocês destruiu o prêmioe fizeram um pacto de silêncio? — perguntou rindo e peguei sua mão em seu colo, trazendo seus dedos para minha coxa, brincando com eles. Era bom vê-la interagir com meus irmãos. No meu colo. Minha. Mas ainda assim, falando com eles. Amava aqueles garotos mais do que tudo na vida. E tê-los junto com Ellie… era bom. — Não podemos contar — Travis, se virou por um segundo, desviando o olhar para piscar para minha garota, mas logo se voltando para a estrada. — Ah, então é um segredo de família, né? — Ellie brincou, sorrindo enquanto me olhava, seus dedos ainda se entrelaçando nos meus, acariciando minha coxa com um toque suave, mas significativo. — O pai de vocês tentou arrancar essa informação de mim, mas não fazia ideia do que ele estava falando. — Você foi conhecer nosso pai? — Holden perguntou com um sorriso travesso. Ops… Ellie se remexeu no banco, mas ao invés de parecer encurralada como eu ficaria, a garota respirou fundo, o rosto impassível. — Foi por acidente, Tom foi pegar a Ferrari e me deu uma carona — sabia que ela era boa em mentir, mas ainda me surpreendia com o quão boa ela era. — Seu garanhão, toda essa coisa de cortes de cabelos, roupas novas… e a gente pensando que tinha uma velha rica te bancando. — Ela é minha velha rica. — falei, me inclinando para cheirar o topo de seus cabelos. Holden tirou o celular da sua bolsa esportiva e ergueu em minha direção e eu sorri, fazendo pose, até congelar. Ellie me ensinou a não fazer pose. — Ei, não grava ele assim — Travis deu um tapinha no pulso do irmão. — Liga o flash e manda no nosso grupo da família. — Melhor não — minha namorada falsa disse, colocando a mão na lente fazendo Holden guardar o IPhone de volta. — Você combina com meu irmão — deu um sorrisinho de lado e se voltou de novo para frente, observando a rua escura do campus diante de nós. A Ferrari deslizou silenciosamente pela rua do campus, o ronco do motor agora suave, quase apagado pela noite tranquila. As luzes do campus brilhavam a distância, pontuando o caminho que levávamos até o dormitório de Ellie. A tensão estava no ar, mas de um tipo leve, descontraído, quase como uma promessa de algo mais que estava por vir. Eu podia sentir o calor de Ellie ao meu lado e parecia a noite completa. Um gol, a garota nos meus braços. Um desmaio e uma concussão não eram grandes coisas assim. — Só um pouco mais — Travis murmurou enquanto estacionava no canto da rua, perto do edifício que ela chamava de lar, e desligou o motor com um som abafado. — Prontinho. — Obrigada pela carona — Ellie agradeceu quando Holden abriu a porta do carona, descendo para que ela pudesse passar por cima de mim, mas saí antes, empurrando o banco para deixá-la passar. — De nada, cunhadinha. — Holden disse, sorrindo de forma genuína para ela. Ellie havia caído na graça dos meus irmãos. E como seria diferente? Ela se virou em minha direção, tocando meu peito, quase como para garantir que eu estava inteiro ali. Mais bonita do que qualquer pessoa no mundo inteiro, sorrindo de boca fechada, preocupação ainda brilhando em seus olhos castanhos. — Obrigada, pela… — começou a dizer, mas foquei em seus lábios. Suaves, macios, a sensação deles contra mim ainda estava ali, vibrando na minha pele. Não parei de pensar nela. Aquele primeiro beijo dado às pressas para garantir que seus amigos do debate acreditassem na mentira. Verdadeiro demais para mim. Era errado. Ultrapassava os limites. De novo. Nada de beijos, nada de mão boba. Apenas um acordo. Sem pensar, a puxei de volta para mim. Não disse nada. Apenas a atraí para mais perto, sentindo a presença dela como um ímã, irresistível. Eu podia ouvir a respiração dela ficar mais rápida à medida que eu me inclinava para frente. Meus lábios encontraram os dela de forma urgente, como se eu tivesse que beijá-la ali, naquele momento, para que o mundo não explodisse A sensação foi imediata e avassaladora. O calor de seus lábios me envolveu, quente e macio, a sensação do toque dela parecia eletrocutar minha pele de tão boa. Quando ela reagiu, seus lábios se moldando aos meus, a suavidade de sua boca me fazia querer mais, muito mais. Eu senti como se o tempo tivesse parado. Nada mais importava, apenas o beijo. A pressão foi crescendo aos poucos, não era apenas desejo, mas algo mais profundo, mais potente. Os dedos de Ellie se entrelaçaram no meu cabelo, e sua respiração falhou por um segundo, o que me fez aprofundar o beijo, sem querer mais deixá-la ir embora. A boca dela era suave e quente, e seu gosto… ah, o gosto de Ellie era doce, algo que eu queria guardar para sempre. Minha mente estava em branco, meu corpo inteiro focado apenas nela. Eu não queria parar, não queria que esse momento acabasse, mas sabia que precisava. Então, relutante, rompi o beijo, meus lábios ainda tocando os dela por um último segundo. Ellie me olhou, surpresa, mas com um brilho nos olhos. Eu não disse nada, mas meu olhar falou por mim. — Você devia mesmo ir para o hospital… está completamente fora de si — sussurrou fraca. — Estou recuperado há uns dez minutos, querida — falei e ela me empurrou de leve. — Vai para casa e descanse — pediu, seus dedos se entrelaçando nos meus por um último segundo. Ellie se abaixou, olhando para dentro do carro, mordendo o lábio inferior com vergonha, mas os olhos eram sérios. Me virei para ver meus irmãos com sorrisos idiotas no rosto: — Me avisem se ele piorar. — Parece que ele está muito bem — Holden garantiu. — Boa noite. — Desejou para os meus irmãos, e se endireitou, me olhando uma última vez. — Dorme bem, Tom. Me encostei no carro, sentindo meu corpo flutuar. — Dorme bem, Ellie — desejei e ela se afastou de volta para o dormitório. Capítulo 21 | Um acordo em cima de outro acordo por causa de outro acordo. Simples assim Não deveria. Não deveria. Não deveria. Mesmo assim eu fiz. Ellie: quer dar uma volta no Charles River? Ellie: para tirarmos algumas fotos para o seu perfil. Ellie: se você estiver se sentindo bem. Era melhor que ele não respondesse, mas que Tom estivesse bem, claro. Infelizmente, ele estava. Tomas: Claro! Tomas: Que horas? Tomas: Estou bem, gatinha ϟ Quem tinha ensinado aquele homem a ser assim? Bem… tecnicamente, eu ensinei, mas por que ele estava se saindo tão bem. Ellie: Tenho um intervalo agora de manhã, até às oito e meia. Tomas: te encontro lá! Respirei fundo, detestando o quão irracional eu estava. Então dois beijos transformaram a garota inteligente e articulada que eu era numa massa cheia de tesão por um cara que eu tinha que ensinar a ser popular? Com covinhas… e aquele sorriso… e ombros largos e… Meu Deus. Não podia lidar com uma siririca antes de uma corrida. Não de novo. Me arrumei, vestindo uma roupa de corrida adequada para o inverno e tentando colocar minha cabeça no lugar. Era um namoro falso. Com duas finalidades muito específicas. Transformar Tomas McKinley em um jogador popular no campus e garantir que minha mentira continuasse em segredo. Não me importava o quanto eu estivesse atraída por ele. Eu não podia deixar meus sentimentos atrapalharem o plano. Era simples: ajudá-lo a se destacar no gelo e protegê-lo de perguntas demais sobre nós. A última coisa que eu precisava era complicar ainda mais a bagunça que chamava de vida. Tomas McKinley era charmoso de um jeito despretensioso, mas eu me recusava a deixar isso me afetar. Ele precisava de mim para ser notado, e eu precisava dele para manter as aparências. Apenas isso. Amarrando meus tênis de corrida, respirei fundo e repeti para mim mesma: Isso não é real. Você está no controle. Ele nem é tão gostoso assim. Então, saí pela porta. Tiraríamos algumas fotos. Eu seria cordial. Nada de beijos. Nada de apelidos. Nada de gatinha. Ou elogios ao meu intelecto. Profissionalismo. E então o filho da puta acabou com tudo aparecendo com uma calça de moletom cinza e uma blusa de compressão preta com mangas compridas que delineavam cada um dos músculos daquele infeliz. Para coroar minha derrota, usava um boné para trás. Quem usaum boné para correr? E, pior, quem consegue ficar tão indecentemente atraente com um boné para trás? Tomei fôlego e tentei não demonstrar nenhum sinal externo da batalha interna que estava travando. Nada de olhares demorados. Nada de engasgos. Nada de abaixar a câmera só para admirá-lo mais um pouco. Isso é só parte do plano. Você está no controle, repeti mentalmente. E então ele sorriu, saindo da árvore em que estava encostado. Covinhas. Eu não era imune a elas. — Bom dia, Ellie — cumprimentou e eu parei no lugar tentando encontrar minhas palavras. — Como está sua cabeça? — Perguntei. Com sorte ele teve um traumatismo craniano e não poderia correr. — Não estou mais tonto e com certeza vou poder jogar essa semana ainda — o sorriso nunca morreu em seu rosto. Por que Tomas não parava de sorrir? Por que ele tinha que parecer sempre tão feliz? Tão bonito? — O médico te liberou? — Ainda não, mas estou me sentindo ótimo. Ele vai me liberar para o próximo jogo, tenho certeza. — Tomas deu de ombros, como se a questão fosse um detalhe insignificante. O problema era que ele não parecia nem um pouco insignificante naquela roupa de corrida. Puxei meu celular no bolso do casaco, querendo tirar o trabalho logo do meio do meu caminho. — Você sabe que isso não é uma decisão sua, né? — retruquei, tentando soar mais irritada do que preocupada. Mas o olhar que ele me lançou, com as sobrancelhas levemente erguidas e um traço de diversão, dizia que eu não estava me saindo tão bem. — Tá preocupada comigo? — Ele se aproximou, aquela voz cheia de brincadeira, enquanto suas covinhas ameaçavam minha sanidade. — Preocupada com a sua teimosia, talvez — retruquei, recuando um passo para trás por pura autopreservação. — Agora, vamos focar no motivo pelo qual estamos aqui. As fotos, lembra? Para o seu grande retorno heroico. Tenho certeza de que em alguns buracos de fofoca em Harvard você morreu. Ele riu, um som baixo e incrivelmente caloroso, antes de levantar as mãos em rendição. — Certo, chefe. Onde você quer começar? Chefe. Como ele conseguia tornar uma palavra tão neutra em algo que fazia minha pele formigar? Apontei para um trecho mais aberto do parque, ignorando deliberadamente como ele parecia ainda maior e mais forte sob a luz matinal. — Vamos encontrar algum lugar aestfhetic para você posar. Tomas caminhou ao meu lado enquanto eu procurava o melhor cenário para as fotos. Ele parecia completamente à vontade, as mãos enfiadas nos bolsos do moletom e os olhos observando o rio com um brilho tranquilo. Era irritante o quanto ele parecia se encaixar naturalmente em qualquer lugar, até mesmo em um plano falso. Eu, por outro lado, me sentia como uma mola prestes a disparar. Cada passo ao lado dele parecia carregar uma tensão estranha que eu não conseguia ignorar. Seu ombro esbarrava no meu de vez em quando, apenas o suficiente para fazer minha respiração tropeçar. Não era para ser assim. Eu deveria estar no controle, mas ele tinha uma maneira infalível de desarmar todas as minhas defesas com um sorriso ou uma frase casual. — Essas fofocas... — ele começou, com aquele tom descontraído que me fazia querer revirar os olhos e sorrir ao mesmo tempo. — Você acha que alguém realmente acreditaria que eu morri? Eu sou praticamente uma lenda viva agora. — Uma lenda na sua cabeça quebrada, talvez — retruquei, tentando esconder meu divertimento. — Sou o namorado de Ellie Davis — ergueu o queixo, metido, dizendo meu nome como um grande elogio. Meu coração disparou e olhei para o chão, evitando que ele visse como eu sorri. Mas era difícil ignorar a facilidade com que ele preenchia o espaço ao meu lado, como se não houvesse nenhuma pressão, nenhuma mentira para sustentar. Ele fazia tudo parecer tão simples, e talvez fosse isso que mais me desequilibrava. Diante de nós o Charles River se estendia como um espelho irregular, refletindo o céu cinzento do inverno. A água parecia calma, quase imóvel, com exceção de pequenas ondulações causadas pelo vento gelado. Árvores nuas ladeavam o caminho, seus galhos desenhando silhuetas delicadas contra o horizonte pálido. Resquícios de neve cobriam o gramado ao redor, formando uma camada fina e brilhante, como se alguém tivesse polvilhado açúcar no mundo. O ar estava frio, mordendo meu rosto e minhas mãos, mas havia algo tranquilizador na paisagem. A cidade parecia mais quieta às margens do rio, como se o inverno tivesse suavizado seu ritmo frenético. Era o tipo de vista que deveria trazer paz. Mas ao invés disso, minha atenção continuava desviando para Tomas. A forma como ele caminhava, tão relaxado, com o olhar vagando entre o rio e eu, como se estivesse completamente à vontade, me deixava inquieta. Era quase injusto que ele pudesse parecer tão... certo, tão no lugar, enquanto eu tentava desesperadamente ignorar cada pequeno detalhe dele. — Acho que uma foto fica boa aqui. — murmurei, erguendo o celular e fotografando o lago. — O que eu tenho que fazer? Me beijar. Não me beijar. — Hum… encosta na grade — pedi e ele o fez, obediente. A pior parte é que ele estava sorrindo. — Olha para o lado, grande parte do ser aesthetic é não olhar para câmera. Tomas virou o rosto, apoiando os antebraços na grade de metal gelada, com os ombros relaxados e o perfil iluminado pela luz suave do inverno. O sorriso dele, mesmo voltado para longe, não desapareceu. Parecia que ele estava se divertindo com algo invisível, um segredo que só ele sabia. Respirei fundo e ajustei o ângulo, tentando me concentrar na composição da foto e não no fato de que ele parecia um modelo em uma campanha de roupas esportivas. O contraste da camisa preta contra o fundo acinzentado do rio era perfeito. Claro que era. Tudo nele parecia cooperar para sair bem. — Assim? — perguntou, sem se virar, mas com a voz carregada de diversão. — Tá ótimo — murmurei, tirando a foto e checando rapidamente. A luz era perfeita, a pose perfeita, e... ele também. Dei mais alguns cliques, tentando ignorar como a câmera parecia capturar não só sua imagem, mas também o jeito descontraído e caloroso que fazia meu coração bater um pouco mais rápido. — Posso olhar? — ele perguntou, finalmente se virando para mim. Balancei a cabeça, virando o celular em sua direção, deixando que ele visse sua própria imagem. — Tô bonitão — disse para si mesmo e eu fechei os olhos, incapaz de conter um sorriso. Por que ele tinha que ser assim? Tão fofo, autêntico, genuíno e ainda por cima gostoso. — O que foi? — perguntou curioso, preocupado. Senti o calor de sua presença chegando mais perto. Era muito criminoso desejar que um raio caísse em sua cabeça? Para evitar que eu fizesse a coisa errada. Só por isso. — Não esperei que fosse tão difícil. — murmurei para mim mesma, mas é claro que ele ouviu. — Sou um modelo tão ruim assim? — sua voz também era baixa, mais grave. Tomas sentia também. Podia apostar que sim. Deixei minhas pálpebras se erguerem, enxergando-o. O rosto bonito mesmo com a pequena ruga de preocupação entre suas sobrancelhas. Suas pupilas flutuavam na direção dos meus olhos para minha boca. Ah sim… ele sentia. Engoli em seco, tentando manter a compostura. Cada movimento dele parecia carregar um peso inesperado. Algo em seu escrutínio fazia meu estômago se revirar, como se eu estivesse à beira de cair de um precipício e ele fosse a única coisa que poderia me segurar. Como era meu mantra mesmo? Isso não é real. Você está no controle. Ele nem é tão gostoso assim. Três mentiras deslavadas. A atração que eu sentia por ele era muito real. Pela primeira vez em minha vida, eu não estava nada no controle. E a última… bem… não precisava nem discutir isso. — Aquele beijo… — Tomas disse baixinho, os olhos fixos em minha boca, suas palavras saindo hipnotizadas. Minha cabeça tombou para o lado quando senti toda minha força de vontade se esvaindo. Por que ele tinha sempre que dizer a coisa errada? — Qual deles? — não consegui deixar a ironia de fora da minha pergunta. Tom sorriu, matando o resto da nossa racionalidade quando ergueua mão e enrolou um cacho do meu cabelo em seu indicador. — Todo eles… eram proibidos no acordo, não eram? — Sim — murmurei. — Então talvez devêssemos mudar o acordo. — Sua voz era baixa, grave. — Porque eu quero muito te beijar, Ellie. Meu corpo gelou por um instante, como se o tempo tivesse desacelerado. O simples fato de ele ter dito aquelas palavras com tanta sinceridade, com aquele olhar que agora parecia intenso demais, fez minha respiração falhar. Eu tinha me preparado para a mentira, para o jogo, mas não estava mais tão certa de onde ele começava e onde eu terminava. Eu sabia o que ele queria. Mas o que eu queria? Eu não estava mais tão segura. A tensão entre nós estava se tornando insuportável, o tipo de tensão que você não pode ignorar. A sensação de estar prestes a se entregar a algo que vai mudar tudo. Eu devia afastá-lo. Dizer que não. Dizer que era só parte do plano, que aquilo não era real. Mas, em vez disso, algo dentro de mim se quebrou. Eu queria dizer algo, qualquer coisa, para tirar aquele peso do ar, para que ele se afastasse, mas as palavras se perderam. Ele estava tão perto agora, e aquele cacho de cabelo enrolado em seu dedo estava me fazendo perder a linha entre o que eu deveria fazer e o que eu desejava fazer. Dei um passo para trás, respirando fundo, tentando trazer a racionalidade para dentro de mim de novo. Onde estava a garota de Harvard? A futura senhorita Juris Doctor? Não conseguia encontrá-la em lugar nenhum. No entanto, Tomas interpretou aquilo como uma recusa. Ele se afastou ligeiramente, seus ombros caindo um pouco, como se algo dentro dele tivesse se quebrado também. O sorriso que antes estava nos lábios dele agora desaparecia, e em seu lugar, uma expressão tímida tomou conta de seu rosto. Ele parecia... envergonhado. — Desculpa, Ellie. Eu não queria… — Não seja estúpido — falei em fôlego e dor real atravessou seus olhos. Meu Deus, por que eu não conseguia fazer nada certo com ele? Num gesto inesperado até para mim, peguei sua mão, enrolando seus dedos entre os meus. — Eu também estou… sentindo isso — confessei baixinho — mas tenho medo que a gente esteja… confundindo as coisas. Tomas olhou para nossas mãos entrelaçadas, e a intensidade no olhar dele fez meu coração disparar, como se ele tivesse entendido exatamente o que eu queria dizer — e o que eu não conseguia dizer. Ele não puxou a mão de volta, ao contrário, apertou mais, como se quisesse selar algo entre nós que não podia ser desfeito. — O que faremos então? — perguntou, a voz tranquila. — Acho que devemos… — nos pegar no chão, aqui mesmo, no meio da neve — pensar. — Estou pensando em um monte de coisas agora. — A palavra soou sugestiva e quis socar aquele seu rosto bonito. — Você é virgem, lembra? — deixei a ironia escapar e ele sorriu. — Mas não estou morto. — rebateu, suas covinhas aparecendo para me confundir mais. Ele deu um passo mais perto, sem que eu sequer percebesse, e com a mão que ainda estava entrelaçada com a minha, ele tocou suavemente meu rosto. Era um gesto suave, mas de uma força que eu não sabia de onde vinha. — Então vamos combinar assim… — murmurei sem fôlego — vou voltar para Norwich no final de semana e, se na segunda, ainda nos sentirmos do mesmo jeito… faremos algo sobre isso. — Fazer algo sobre isso… — meditou, as costas da mão traçando meu rosto. Ok. Agora ele estava me provocando. — Você me entendeu — semicerrei os olhos em sua direção. — Temos um acordo, então. — declarou. — Temos um acordo — repeti. A tensão no ar não cedeu nem por um segundo. — Ellie? — Hum? — Posso te beijar só mais uma vez? O pedido foi tão suave, tão cheio de uma intensidade silenciosa, que quase me fez perder o equilíbrio. A tensão que havia entre nós estava se tornando palpável, e o ar parecia pesado com a expectativa. Eu queria dizer que não, que não deveríamos, que precisávamos manter o acordo, mas as palavras simplesmente não saíram. Eu me vi olhando para ele, para aqueles olhos castanhos que estavam tão perto agora, tão profundos e vulneráveis. E, de repente, tudo ao meu redor desapareceu. Tudo o que eu podia ver, sentir e pensar era ele. Eu queria dizer algo, tentar manter o controle, mas tudo o que consegui fazer foi um simples aceno de cabeça, quase imperceptível. Já estava muito claro que eu não era nada racional quando assunto era Tomas McKinley. Ele não esperou, não hesitou. Suavemente, mas com uma urgência silenciosa, ele inclinou a cabeça e os seus lábios tocaram os meus. Era diferente, de uma maneira que eu não sabia explicar. Não era apenas um beijo, mas como se ele estivesse tentando me comunicar algo, algo que eu não conseguia entender completamente, mas que me fazia querer me entregar a isso, a ele, mais do que eu estava disposta a admitir. Quando nos afastamos, nossos rostos ainda estavam próximos, e eu senti um calor crescente no peito, o mesmo calor que parecia refletir naqueles olhos dele. Ele sorriu, um sorriso quase tímido, mas com uma intensidade que me fez ficar sem palavras. — Não sei se posso esperar até segunda-feira. — Sua voz era mais grave, sedutora sem querer. Eu também não tinha essa certeza. De repente, as bochechas de Tomas ganharam um vermelho escarlate como se todo o sangue de seu rosto tivesse se acumulado ali. Era só o que me faltava. De tanto desejar que um raio caísse na cabeça dele, que um carro o atropelasse, Tom estava finalmente sofrendo um AVC. No entanto, ele se virou de repente, ficando de costas para mim, as mãos presas na frente do corpo. — O que está acontecendo? — perguntei alarmada. — Hum… nada — respondeu olhando por cima do ombro, os olhos castanhos arregalados. Tentei me mover, circulando-o para ficar de novo de frente para Tomas, mas ele se esquivou, de novo me mostrando suas costas. — O que está acontecendo? — Eu deveria ir. — E morrer sozinho em casa? Você acabou de ter uma concussão, o que… — comecei a dizer, milagrosamente sendo mais rápida que o jogador de hóquei e conseguindo ver exatamente o que estava acontecendo. Suas mãos estavam na frente do seu corpo, escondendo o seu… Meu Deus. Senti o calor inundando meu rosto quando percebi o que Tomas estava enfrentando. — Estou tendo problemas com… meu taco — murmurou, as mãos ainda tapando sua virilha quando deu dois passos largos para longe de mim. — Deveria ir para meu carro sozinho. — Deveria — respondi seu fôlego perdido. Segunda-feira nunca pareceu tão longe. Capítulo 22 | Higienize seu telefone depois dessa Quando abri a porta de casa no sábado percebi que algo estava muito errado. A sala cheirava a… limpeza? Olhei ao redor, não haviam latas de cerveja espalhadas, nem garrafas vazias pelo chão. A bagunça usual, aquela que sempre me acompanhava, estava ausente. O tapete, geralmente revirado e sujo, estava arrumado. As cadeiras da mesa de jantar, normalmente empilhadas e fora de lugar, estavam todas no lugar, alinhadas com uma precisão quase obsessiva. Pisquei, confusa. Onde estava a bagunça que sempre era um reflexo da desordem do meu pai? O que diabos estava acontecendo? Andei cautelosamente pela sala, o som de meus passos ecoando em um ambiente surpreendentemente silencioso. Talvez tivéssemos sido invadidos por ladrões com mania de limpeza. Era mais provável do que a outra hipótese. E então, algo mais me chamou a atenção: o cheiro. Não o cheiro de álcool que costumava pairar no ar, mas sim o cheiro de café recém passado. Aquele cheiro… era reconfortante, familiar, mas também estranho em meio àquela nova atmosfera. Segui o aroma até a cozinha. Lá, meu pai estava de pé, usando uma camisa simples, mas limpa, com as mangas dobradas. Ele estava preparando café, concentrado no processo. Parecia… diferente. Não estava inclinado sobre a pia ou com as mãos tremendo, como costumava estar nos dias em que bebia demais. Ele parecia… sóbrio. Surpreendentemente sóbrio. Meu pai me viu entrar na cozinha e congelou por um momento, seus olhos se fixando em mim como se estivesse tentando ler minha reação. O que com certeza foi difícil porquenão tive nenhuma. — Oi, filha. — Sua voz estava calma, sem os murmúrios bêbados aos quais eu estava tão acostumada. Ele sorriu, embora de maneira tímida, uma tentativa de parecer natural, como se nada tivesse mudado, mas a diferença era clara. Fiquei parada na porta da cozinha, incapaz de processar tudo o que estava acontecendo. Tudo parecia tão… normal. Mas eu sabia que não era. — Eu fiz café. — Ele tentou, mais uma vez, quebrar o silêncio com algo simples, quase reconfortante. — Estou vendo — falei ainda meio sem reação e ele engoliu em seco, indo até a pequena mesa da cozinha e arrastando uma das três cadeiras que haviam lá indicando-a para mim. — Pensei que antes do trabalho você pudesse… comer comigo. Tudo estava estranhamente no lugar. Meus olhos correram pela cozinha, observando o café, as xícaras, o prato com torradas recém-feitas. Era o tipo de cenário que eu teria esperado de uma família normal, não da minha. A sensação de estranhamento aumentou a cada segundo que passava ali, e uma parte de mim queria gritar, perguntar o que estava acontecendo, mas outra parte estava presa ao silêncio, absorvendo cada detalhe, tentando encontrar uma explicação. Já tinha me acostumado ao caos de seu vício, sabia como agir naquela situação. Mas ali, vendo-o sóbrio e com a casa no lugar como era antes da mamãe morrer, eu não tinha ideia do que fazer. Meu pai ficou me olhando, a ansiedade estampada no rosto dele, os dedos batendo levemente na mesa. — Claro — deixei minha mochila no balcão e caminhei até a mesa onde havia um pequeno banquete posto. Tinha calculado meu fim de semana. Limparia a casa, me esquivaria do meu pai bêbado e tentaria resolver o que fazer com tudo que estava acontecendo entre Tomas e eu. Encontrar Michael Davis sóbrio não estava nos meus planos. Seus movimentos eram cautelosos, como se estivesse pisando em terreno minado. Ele empurrou uma xícara na minha direção, o vapor subindo em espirais preguiçosas. O café tinha leite, do jeito que eu gostava. Meu coração apertou um pouco com isso, mas não deixei transparecer. — Como está Harvard? — ele perguntou, quebrando o silêncio, sentando em sua própria cadeira, mas sem pegar nenhuma comida. Era uma pergunta tão normal, tão cheia de interesse genuíno, que me pegou de surpresa. Olhei para ele por um momento, tentando entender de onde vinha aquilo. Meu pai raramente mencionava Harvard. Na maior parte do tempo, era como se minha vida lá fosse uma realidade distante demais para ele se importar. — Está... bem — respondi, sem muita emoção, ainda tentando decifrá- lo. Peguei uma torrada, mais para ocupar minhas mãos do que por fome. — É... desafiador, mas nada que eu não consiga lidar. Ele assentiu, parecendo genuinamente interessado. Pegou uma xícara, deixando-o diante de si, mas sem nunca enchê-la, seus olhos abaixados enquanto fazia o movimento. A cena era tão domesticamente comum que parecia surreal. — E o Modelo das Nações Unidas? — ele perguntou, olhando para mim de novo. — Você sempre gostou dessas coisas quando era mais nova. Ainda gosta? Fiquei olhando para ele, tentando processar como ele sabia disso. Sim, eu tinha falado algumas vezes sobre como queria participar do projeto quando estava no ensino médio, mas nunca achei que ele estivesse ouvindo. Na maioria das vezes, ele estava perdido demais em suas garrafas para prestar atenção em qualquer coisa que eu dissesse. — Sim — admiti, ainda cautelosa. — É uma das partes que eu mais gosto. É como... treinar para o mundo real, sabe? Ele sorriu de leve, e algo em sua expressão parecia triste, como se soubesse que tinha perdido muitas chances de estar lá para mim. — Você sempre teve esse jeito... determinado. Sua mãe ficava tão orgulhosa de você — ele disse, a voz mais baixa agora, quase um sussurro. Engoli em seco, desviando o olhar. Meu pai nunca falava da mamãe. Essa foi a parte mais dolorosa depois de tudo. Não havia alguém que pudesse conversar comigo, lembrar dela, me garantir que sua presença foi real à medida que o tempo passava e as lembranças se tornavam distantes. — Obrigada — murmurei, pegando a xícara de café e tomando um gole. Ele cruzou as mãos diante de si e de repente sorriu. — A senhora Gutierrez me chamou de novo para tirar a neve de frente da casa dela, foi bom revê-la. — comentou e pisquei tentando entender. A maior parte dos seus clientes ainda o ligavam para o serviço, mas alguns — os menos apegados à figura do meu pai ao invés de com o trabalho — o abandonaram. Pelo que eu podia lembrar a senhora Gutierrez era uma dessas. — Isso é… legal — balancei a cabeça sem saber muito o que dizer. Parecia Coraline, como se eu tivesse caído num universo paralelo em que de repente meu pai voltou a ser quem era e as coisas estavam ordenadas no lugar. Fitei seu rosto por alguns segundos só para garantir que não haviam botões no lugar dos olhos. Só que estava tudo… normal. Não o normal bêbado, com a barba por fazer, olhos vermelhos injetados pela ressaca e aquele cheiro pungente de álcool. Mas o normal de antes com cabelos bem aparados, sorriso discreto e… gentileza. De repente se tornou demais para mim. — Tenho que ir para o trabalho. — Me levantei em um salto, chutando a cadeira sem querer, meu pai dando um pulo de susto. — Desculpe… não posso atrasar se não a tia… — Claro, claro — deu um tapinha no ar, o sorriso leve nascendo em seus lábios — não se preocupe. Vai lá, filha. Peguei minha mochila na bancada e saí da cozinha, ainda meio em transe. No caminho até o segundo andar percebi que tudo estava mesmo muito arrumado. No meu quarto, a colcha de cama foi trocada, os travesseiros estavam empilhados com perfeição e as cortinas, que eu tinha deixado meio abertas, agora estavam puxadas para o lado, deixando a luz entrar. Era quase assustador. Parei no meio do quarto, olhando ao redor, tentando encontrar um vestígio de que ainda era minha casa — meu lugar bagunçado, meu caos. Mas nada. Tudo estava limpo, alinhado. Até as roupas que eu tinha deixado no cesto estavam dobradas sobre a cadeira. Respirei fundo, tentando processar aquilo. Parte de mim queria gritar, exigir respostas, perguntar ao meu pai o que exatamente ele achava que estava fazendo. Mas outra parte estava com medo. Medo de que, se eu questionasse, tudo desmoronasse e ele voltasse a ser quem era nos últimos anos. Peguei minha roupa para o trabalho e fui direto para o banheiro. Precisava de um momento sozinha, longe daquele cenário surreal. Enquanto a água quente escorria pelo meu corpo, minha mente não conseguia desligar. Não podia ignorar o esforço que ele estava fazendo, mas também não conseguia deixar de lado a sensação de que isso era temporário. Como sempre tinha sido. Talvez as coisas estivessem… mudando? Saí do chuveiro, vesti minha roupa e me olhei no espelho. Minha própria expressão parecia tão confusa quanto eu me sentia por dentro. Desci as escadas com passos cuidadosos, tentando evitar que minha mente criasse expectativas ou teorias. Encontrei meu pai no corredor, me esperando com um sorriso tranquilo e um pacote na mão. — Fiz um lanche pra você levar. Sei que sempre esquece de comer durante o dia — ele disse, entregando o pacote de papel pardo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Fiquei ali, segurando aquilo como se fosse uma bomba prestes a explodir. — Obrigada, pai — murmurei, sem conseguir encará-lo por muito tempo. — Vai com cuidado, Ellie. Estou aqui se precisar de algo — ele acrescentou, com uma gentileza que quase doeu de ouvir. Sai de casa com o coração apertado. Parte de mim queria acreditar que ele estava tentando. Mas outra parte ainda não estava pronta para se permitir essa esperança. No caminho para o trabalho, fiz a coisa mais estúpida que podia fazer. Me permiti imaginar como seria. Voltar todos os sábados para Norwich não para checar se meu pai ainda estava vivo e trabalhar para ter certeza que teríamos algum dinheiro se ele bebesse todo seu salário. Voltar para visitar meu pai, trabalhar para fazer uma renda extra, ajudarminhas tias. Deixar a mentira de lado. Não teria problemas em desmentir tudo. Foda-se se Amber, Brittany e Carol ou qualquer outra pessoa me odiasse. Poderia lidar com os olhares tortos, as caras viradas e comentários ácidos quando eu passasse nos corredores. Não teria problema nenhum ser chamada de mentirosa se isso significasse poder contar com meu pai de verdade. Talvez as pessoas até entendessem. E então havia Tomas. Meu coração bateu forte com a imagem mental. Apresentá-lo para o meu pai como meu namorado, trazê-lo para Norwich nos finais de semana, viajar com ele sem ter medo do que encontraria quando voltasse… Estanquei no meio da calçada, percebendo para onde meus pensamentos estavam me levando. Eu queria aquilo? Que Tomas McKinley fosse meu namorado de verdade? Eu já… gostava mais dele do que da maioria dos homens. Mais do que qualquer relação real que já tive na vida. Tom me fazia sorrir, esquecer das coisas ruins e, mais do que isso, sua presença era leve. Estar ao lado de Tom não me custava absolutamente nada. Tinha meus sonhos muito bem definidos, objetivos claros e ele se orgulhava disso. Ele não tentava me diminuir, não fazia comentários passivo-agressivos sobre o quanto eu era focada ou que precisava “aproveitar mais a vida”. Tomas simplesmente aceitava quem eu era como se não tivesse outra forma de me enxergar além dessa. E isso era assustador. Não porque eu não quisesse. Mas porque, pela primeira vez, parecia que algo tão bom estava ao alcance das minhas mãos e eu tinha medo. Porque, até onde eu sabia, as coisas boas não duravam. Ter a ideia de que meu pai, Tomas e a possibilidade de parar de mentir aconteceriam só me frustraria quando tudo desse errado. Porque daria. Entrei na Sonhos Gelados com a cara amarrada e tia Syl logo percebeu, parando a limpeza do balcão para me fitar com seu olhar de águia. — Que bicho te mordeu? — perguntou, deixando a flanela sobre a madeira. Só então percebi que não tinha levado meus livros para estudar no intervalo do almoço. Minha tia, deu a volta no balcão, indo encontrar comigo no meio do caminho. Eu nunca esquecia meus livros. E ela sabia disso. — Papai está esquisito — murmurei, sem saber como colocar em palavras o turbilhão de emoções que me invadiu. Tia Syl ergueu as sobrancelhas, cruzando os braços enquanto me analisava. Seu olhar era firme, mas havia uma ponta de preocupação ali, como se soubesse exatamente o que aquilo significava sem que eu precisasse explicar. — Esquisito como? — ela perguntou, inclinando a cabeça para o lado. Soltei um suspiro pesado, sentindo as palavras escaparem antes que eu pudesse segurá-las: — Sóbrio. Ela piscou, claramente surpresa, e o silêncio que seguiu foi tão pesado quanto a culpa que eu sentia por não estar feliz com isso. — Ele limpou a casa, fez café, até conversou comigo sobre… sei lá, coisas normais. Foi estranho. Muito estranho. Tia Syl assentiu lentamente, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos. — E isso te incomodou? — Eu… — comecei, mas as palavras travaram na minha garganta. Não era que me incomodava. Era que me assustava. — Não sei. Parece… errado. Sequer sabia se aquela era a palavra mais justa para o que eu estava sentindo. No entanto, tê-lo de volta para depois perder não podia ser considerado certo. Ela deu um pequeno sorriso, um daqueles que só ela sabia dar, que era ao mesmo tempo encorajador e um pouco provocativo. — Talvez porque você sempre vê o copo meio vazio. Engoli em seco, incapaz de negar. — Você acha que ele vai voltar a beber? — Não sei, Ellie — tocou minha bochecha do jeito que fazia quando eu era criança. — Talvez isso seja o jeito dele de tentar de novo. Meus olhos arderam, mas pisquei rapidamente, afastando qualquer sinal de fraqueza. Não queria pensar nisso agora. — Só espero que ele não esteja fingindo — murmurei, mais para mim mesma do que para ela. — Pode ser que esteja. Pode ser que não. Só tem um jeito de saber. Olhei para ela, confusa. — Qual? Tia Syl deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia: — Dando uma chance para ele. — Uma chance para o mesmo cara que me fez mentir por dois anos na escola sobre suas faltas nas reuniões de pais para não ter o serviço social atrás de mim? — A pergunta saiu mais dura do que eu gostaria, mas aquilo não surpreendeu minha tia, pelo contrário. — Exatamente para esse homem, Ellie. — Tocou seu indicador na ponta do meu nariz, com delicadeza, um sorriso gentil nascendo em seus lábios — e também para o cara que te comprava livros quando você era criança, que cuidava de você quando estava doente. Ambos. Essa é a parte engraçada do perdão. Fiquei encarando-a, sem saber como responder. Meu peito se apertou com a lembrança de meu pai surgindo com livros velhos, encontrados em brechós ou doados por vizinhos, com aquele sorriso orgulhoso no rosto, como se estivesse me entregando um tesouro. Mas a memória de noites acordada, tentando não ouvir seus gritos de raiva ou soluços bêbados, era igualmente forte. — Não é tão simples assim, tia Syl. — Minha voz saiu baixa, quase um sussurro. — Eu não sei se consigo… Ela suspirou, apertando levemente meu ombro. — Você não tem que pensar nisso hoje, Ellie — garantiu, me soltando. — Preciso pensar em novas combinações malucas para milkshake — falei, aliviada por poder sair daquela linha difícil de pensamentos. — O seu café com marshmallows tostados ainda é uma lenda por aqui — brincou, voltando para o balcão — quero sua mente pensante de Harvard criando outra sensação dessas. O resto do trabalho foi tranquilo, pelo menos na maior parte do tempo. Movimentado o suficiente para me manter ocupada, mas não tão agitado que me deixasse exausta. Alguns clientes fieis apareceram, incluindo o senhor Jenkins, que sempre pedia o mesmo milkshake de baunilha com granulado colorido, alegando que o se fazia sentir jovem. Um dia, eu seria uma grande advogada em um escritório chique em Boston, mas tudo que sabia sobre tratamento com o público nasceu na Sonhos Gelados. — Eu quero milkshake de sabor dos Minions — uma garotinha ruiva vestida com trinta e seis camadas de casacos pediu, batendo o pé diante do balcão. — Minions não é um sabor de sorvete, querida… — a mãe começou a dizer, mas a menina berrou, calando-a. — desculpa por isso, ela vai fazer cirurgia de retirada das amígdalas e o médico disse que era para tomar todo o sorvete que quisesse — a mulher parecia exausta. Eu poderia dizer: diga ao doutor que tire também as cordas vocais dessa monstrinha, mas ao invés disso, sorri para a menina. — Vou fazer agora para você — dei uma piscadinha e me voltei para o congelador procurando pelos sabores de abacaxi e céu azul. Exatamente a mesma linha argumentativa que eu usava no clube de debates. Terminei o trabalho esfregando o chão da sorveteria enquanto minhas tias cuidavam do estoque e do caixa. Como já estava tarde, elas me deram uma carona até em casa e no caminho fiquei pensando o quanto as coisas estariam mudadas. Só que elas não estavam. Quando atravessei o hall de entrada, vi meu pai no sofá, não deitado e desacordado, mas sentado, a TV ligada em uma partida de hóquei. Uma pequena bagunça havia se formado na mesa de centro, mas do tipo que costumávamos ter quando minha mãe ainda estava viva. Era pepperoni. A minha favorita. Latinhas de coca-cola acompanhavam a caixa onde nenhuma fatia tinha sido tirada ainda. Ele estava me esperando. — Ei, filha — sorriu, os olhos fixos na tela como se aquilo fosse algo corriqueiro para nós — tem pizza. Por um momento, fiquei parada na entrada da sala, sem saber o que fazer. Era como se tivesse entrado no cenário de uma lembrança. — Do Carlo's? — perguntei, minha voz saindo hesitante. Ele olhou para mim e deu de ombros, um sorriso pequeno nos lábios. — Sei que é sua favorita. Achei que podíamos comer juntos. Minha mochila escorregou do meu ombro, e eu a deixei cair no chão ao lado da porta. Tirei o casaco e me aproximei lentamente, como se o momento fosse um sonho frágil que poderia se desfazerse fundiam, era impossível fazê- las se calarem. — Se você já esquiou em Val d'Isère? — retornou o questionamento e eu brinquei com a caneta em meus dedos, escolhendo as melhores palavras. Diferente do resto das pessoas, o trio sempre queria saber mais sobre minha vida como filha de um embaixador. Não porque elas estavam animadas, curiosas ou investidas pela história, mas porque queriam se comparar, mostrar que suas experiências eram mais completas do que as minhas. O que, de verdade, não era um problema. Eu não me sentia mal quando elas diziam que era impossível que eu nunca tivesse visitado o Japão ou sobre como era um absurdo eu nunca ter estado num desfile da SAVAGE X FENTY. No entanto, precisava me policiar sobre o quão superficial eu ia com as histórias. — Não, nunca fui até lá — dei um sorriso educado porque menosprezar suas viagens nunca era uma boa escolha. Quando Brittany tentou insinuar Roma era um melhor roteiro de verão do que a Austrália, causou um verdadeiro pandemônio que só foi resolvido quando Carol apontou que o que importava de verdade eram as viagens de inverno. O mais longe que já fui na minha vida inteira foi até o México quando tinha seis anos e mesmo assim passava a maior parte do meu dia discutindo rotas com três patricinhas. — Seu pai passou um tempo na França e você nunca foi a Val d'Isère? — Brittany questionou erguendo sua sobrancelha. — Preferimos roteiros mais seguros, não gostamos muito de esquiar — o que parecia uma resposta ruim já que as três fizeram caretas desgostosas. Deus me livre não gostar de esquiar, não é mesmo? — Mas tenho certeza de que vocês amaram cada minuto. — Mudar o foco para elas, era mais seguro. — Você nem faz ideia — apoiou a mão sobre o queixo, parecendo sonhadora, nostálgica — fiz um curso de inverno de oratória lá, foi fenomenal, mas as montanhas de gelo… ah! sem comparação. Amber Kurtz era o tipo de garota que, além de ser tataraneta de uma das primeiras advogadas dos EUA, usava o dinheiro dos pais para investir em sua própria educação, mas coincidentemente todos os cursos e intercâmbios aconteciam em países paradisíacos. — Meu curso de oratória foi o Dale Carnegie Training que foi eleito o melhor de todo o país, não me arrependo nem por um minuto — Brittany empinou o queixo como se a experiência da outra garota fosse uma provocação a sua. Suspirei em silêncio, olhando por cima do meu ombro, tentando ver algo que não fosse completamente tedioso como aquela conversa, mas a biblioteca continuava como sempre esteve. Cheia de livros, prateleiras que se estendiam pelos corredores, as janelas enormes e fechadas, para que a neve que se acumulou nos vidros não caísse no chão de madeira. Todos os estudantes pareciam estar se divertindo muito mais do que eu. Podia imaginar como nosso pequeno grupo se parecia do lado de fora. Três loiras, magras e esculturais que poderiam ser confundidas com irmãs enquanto uma garota negra tentava fazê-las estudar. Talvez aquilo fosse o meu purgatório, o castigo que era dado para as meninas que mentiam sobre pais embaixadores. — Com certeza, Brittany, mas nem todo mundo quer aprender oratória em apenas uma língua — Amber mostrou seus dentes perfeitos. Qualquer pessoa pensaria que elas estavam expondo suas experiências de forma amigável, mas eu sabia que o buraco era mais embaixo. — Sabe de uma coisa? — falei animada, batendo as mãos de forma inaudível diante do meu rosto antes que elas se atracassem ali. — Vamos consultar nossas anotações sobre a aula? Acho que assim fica mais fácil de seguir. Minha sugestão fez com que a faísca se apagasse e a animação aparecesse em seus rostos. Finalmente! Era para isso que estávamos ali. — Tenho um novo método de anotação em sala que estou amando — Brittany deu dois toques na sala de seu IPad de última geração onde o título Escravidão Para Rousseau apareceu ao lado de desenhos de estrelinhas e corações. Jesus. — O método Cornell tem uma coluna à esquerda para palavras-chave ou perguntas, uma seção maior à direita para as anotações principais e uma área na parte inferior para um resumo final. — Apontou para cada quadrante. — Muito impressionante, Britty — Carol elogiou só que não era apreciação de verdade. — Mas o método de sentenças é seguramente o mais efetivo. — Abriu a capa azul bebê de seu próprio tablet Apple apenas para exibir uma página inteira preenchida por suas anotações. Abaixei a cabeça apenas para ver meu caderno nada digital todo rabiscado com insights e resumos que fiz durante a aula. Nada bonito, decorado ou tecnológico. — Besteira — Amber riu, debochada, mas ainda mantendo toda sua educação de tataraneta da primeira advogada estadunidense — mas o SQ3R é cientificamente provado o mais completo para estudantes que… Abafei a conversa, voltando a fitar as estantes e outras mesas na biblioteca de Harvard, o lugar que passei todos os últimos anos desejando ocupar. Era um sonho se tornando realidade, sentar no mesmo lugar em que grandes pensadores contemporâneos e passados se sentaram para ter a formação mais completa do mundo inteiro. Só que nem nos meus pesadelos mais malucos, podia imaginar que estaria discutindo como anotar coisas com três nepo babies enquanto fingia ser uma. Meus olhos passaram a procurar por eles, todos os deuses e deusas do Direito que estiveram no meu lugar, apenas para perguntar: posso estrangular alguma colega de sala? Três, mais especificamente. Em segredo. Não encontrei os espíritos de Deval Patrick ou Elena Kagan vagando por ali — afinal de contas eles ainda estavam vivos —, mas vi algo muito mais interessante. Um cara. Sentado sozinho em uma mesa afastada, perto da janela, usando um moletom do time de hóquei e não parecendo se importar com o frio. Seu cabelo castanho tinha um corte disforme, o rosto não me era estranho, mesmo assim a beleza ali me surpreendeu, como se eu já o tivesse visto em outro contexto. O garoto era bonito, com traços marcantes que pareciam esculpidos à mão, olhos levemente amendoados fixos na… revista em quadrinhos diante de si. A altura e porte físico deixavam claro que, se ele não era de algum time esportivo, estava muito próximo. Ele era enorme em todas as direções. Alto, mas também forte como os atletas das quadras tinham que ser. Havia algo quase charmoso na forma despreocupada como ele entrava na biblioteca de Harvard para ler um exemplar A Piada Mortal. — Quem é ele? — perguntei, encerrando a conversa que eu nem sabia para que rumo tinha ido. — Quê? — Brittany perguntou, olhando exatamente para o mesmo ponto que eu, mas não parecendo enxergar nada. Era só o que faltava. Eu estava mesmo vendo fantasmas? — Aquele cara — sussurrei, apontando com o queixo, mas as três se viraram de uma vez para fitar o cara. — É o irmão do Trevor. — Do Holden. — Do Tyler. Franzi o cenho quando cada uma delas citou um parentesco diferente. — Ele é irmão de todo mundo no campus ou é de alguma seita religiosa em que todos são parentes? — perguntei e Amber deu uma risadinha debochada. — Os irmãos McKinley, bobinha — odiava quando ela me chamava assim porque sabia que não era uma forma carinhosa de dizer, era mesmo um adjetivo. No entanto, em meio a curiosidade, deixei passar. — Ah… — arregalei os olhos. Eu conhecia aquele sobrenome. Todo mundo sabia sobre os quadrigêmeos do hóquei. — Eu já tinha visto os outros três, são estrelas do time por aqui, mas esse… — voltei a olhá-lo, alheio ao fato de que quatro fofoqueiras estavam falando dele. Me surpreendeu um pouco que elas estivessem tão por dentro da história. O ABC do nepotismo era tão ocupado quanto eu. As três garotas estavam em ainda mais projetos porque não precisavam de emprego no final de semana. — É que esse, o… — Brittany parecia estar fazendo esforço para se lembrar do nome dele. A olhei chocada. Não podia ser tão exótico assim, os outros três tinham os nomes mais brancos do mundo, devia seguir o padrão. — Tomas? Eu acho que sim. Tomas. É o menos interessante. — Do que você está falando? — O cara sentado na biblioteca decom qualquer movimento brusco. — Não vou dizer não para pizza — murmurei, sentando ao seu lado. Ele abriu a caixa e empurrou na minha direção, pegando uma fatia e equilibrando-a com uma habilidade que parecia natural, como nos velhos tempos. — Está boa? — perguntou, me observando dar uma mordida. Assenti, mastigando e sentindo o calor da comida preencher o vazio no meu estômago. — Está ótima. A TV continuava exibindo a partida, os jogadores de hóquei deslizando pelo gelo em movimentos rápidos e precisos. Meu pai voltou sua atenção para a tela, comentando sobre o time, o placar e uma jogada impressionante que quase resultou em gol. Quis dizer, que na faculdade assisti um jogo ao vivo, mas falar qualquer coisa parecia tão errado. Por isso, me permiti afundar no sofá que tinha cheiro de produto de limpeza e… ser filha dele. Terminamos de comer em silêncio, mas um silêncio confortável, preenchido pelo som da narração do jogo e o barulho das latinhas de refrigerante sendo abertas. Quando a partida acabou, ele se espreguiçou no sofá e me lançou um olhar curioso. — Ainda gosta de assistir suas séries antes de dormir? Ri fraco, me levantando. — Só quando não tenho que acordar cedo para estudar. E estudando em Harvard… — dei de ombros. — Boa resposta — ele brincou, voltando a atenção para a TV enquanto eu recolhia as latinhas. Subi as escadas, cada degrau me trazendo de volta à realidade. No quarto, peguei minhas roupas limpas e fui para o banheiro. Deixei a água quente cair sobre mim, tentando aliviar a tensão acumulada do dia. Enquanto o vapor enchia o espaço, os pensamentos sobre meu pai continuavam a rodar na minha cabeça. Talvez, só talvez, as coisas pudessem mesmo mudar. Vesti meu pijama mais quente e saí no corredor, indecisa se iria falar com ele pela última vez ou ir direto para cama. Fiquei parada por alguns segundos com os pés descalços no carpete do corredor. A casa estava silenciosa agora, exceto pelo som abafado da TV no volume baixo. Mordi o lábio, ponderando. Talvez fosse melhor deixar para amanhã, mas algo em mim sabia que, se eu não fosse agora, poderia me arrepender. Com passos leves, fui até o quarto dele. A porta estava entreaberta, uma fresta de luz escapando para o corredor. Bati suavemente antes de espiar para dentro. — Pai? Ele estava sentado na beira da cama, tirando as meias, com uma expressão serena que não combinava com as versões dele que eu costumava enfrentar. Levantou o olhar para mim, um tanto surpreso, mas sorriu. — Oi, filha. Está tudo bem? — Sim, eu… só vim dar boa noite. — A frase saiu hesitante, como se eu estivesse experimentando uma linguagem que não usava há anos. O sorriso dele se alargou, e ele acenou com a cabeça, claramente tocado pelo gesto. — Boa noite, Ellie. Dorme bem, tá? Assenti, ainda parada à porta. Por um momento, considerei dizer algo mais — um agradecimento pela pizza, uma confissão de que estava começando a ter esperança. Mas nada saiu. — Você também, pai. E com isso, me virei, voltando para o meu quarto com o coração um pouco mais leve e um pouco mais pesado ao mesmo tempo. Deitei na cama com aquela sensação estranha no peito. Peguei o celular, esperando que rolar pelo TikTok por alguns minutos me fizesse dormir, mas o diabo operava de formas nada sutis. Uma mensagem brilhou na tela antes mesmo que eu pudesse clicar no aplicativo. Tomas: Oi, Ellie. Tomas: Tá acordada? As memórias da última vez que o vi me encheram. Seu pedido. O beijo. O seu… taco se apresentando para o jogo. Ele não devia entrar em contato. Tínhamos o fim de semana para não falarmos um com o outro. Pensarmos. E, naquele momento, meus pensamentos eram muito fortes. Ellie: Estou. Ellie: não consegue dormir? Tomas: não consigo parar de pensar em você Rolei na cama, ficando de bruços. Golpe baixo. Ellie: Você deveria ir dormir, teve uma concussão forte, não lembra? Tomas: Me lembro de um monte de coisas. Tomas: Todas elas envolvendo você Ellie: Jesus Ellie: Você não precisaria de todas essas aulas de como ser popular se falasse assim sempre. Tomas: Você quer que eu fale assim com outras garotas? O filho da puta estava me testando. Ellie: Talvez você devesse… Ellie: E eu também. Quem sabe quantos garotos virgens estão no campus precisando de umas aulas? Posso fazer uma carreira com isso. Tomas: Nem fodendo. Você é minha. Tomas: Minha professora, quero dizer. Aquela palavra, dita e corrigida logo em seguida, não devia ter me afetado tanto. Mas afetou. Minha. Ninguém nunca me chamou assim. Tomas: Não sei fazer isso direito… Ellie: fazer o quê? Tomas: Tentar seduzir você Tomas: por mensagem Ri, virando de lado, sentindo uma mistura esquisita de atração e diversão. Uma pessoa não devia te fazer rir na mesma proporção que te fazia molhar a calcinha. Mas esse era Tomas McKinley. Ellie: talvez esteja dando certo. Ellie: mas nosso acordo era de não nos vermos no final de semana, lembra? Tomas: Tecnicamente não estou vendo você. Tomas: O que é horrível já que esse é todo o problema Tomas: Não consigo te ver então… minha mente começa a imaginar Ellie: Por quê? Está tendo problemas com seu taco? As mensagens que estavam sendo instantâneas, de repente pararam. Mordi o lábio inferior me sentando encostada na cama. Tinha passado dos limites? Estragado tudo? Talvez ele estivesse passando mal, inferno, ele teve uma concussão. Podia estar doendo e ele queria consolo e eu… Sua mensagem piscou na tela. Tomas: exatamente isso. Tomas: me desculpe. Não deveria estar falando disso com você Tomas: não consigo mais lidar com isso…não para de ficar duro Tomas: Talvez seja a concussão… Tomas: Mas começou antes Ellie: Quando começou? Tomas: Quando te conheci. Deitei de novo na cama, sentindo o calor crescer entre as minhas pernas, a necessidade pungente ali se tornando cada vez mais forte. Como aquele cara inexperiente podia dizer a coisa mais excitante que alguém já me falou em toda minha vida. Fechei os olhos, deixando minha mão direita vagar pelo meu abdômen, entrando pelo cós da calça do meu pijama, ainda por cima da calcinha, toquei o tecido molhado. Tomas: Falei demais? Tomas: Me desculpa Tomas: Me perdoa, Ellie, isso foi muito esquisito. Desculpa. Ellie: Me mostra Tomas: que? Tomas: tipo… com uma foto? Meu indicador passou a brincar com o clitóris sensível por baixo do tecido da minha lingerie. Ellie: sim Eu estava com tanto tesão que o impossível aconteceu: me transformei na pessoa sem nenhuma articulação de palavras. Um minuto se passou. Dois. Três. Aquele branquelo virgem sabia como quebrar o clima. Ellie: Tomas? Tomas: Isso é mais difícil do que eu pensei que seria Ellie: Por que? Tomas: Simplesmente não cabe na foto Fechei meus olhos, perdendo qualquer controle e deixando que meus dedos se infiltrassem para dentro da calcinha, tocando minha boceta úmida. O ícone de foto de visualização única brilhou na tela e eu cliquei antes mesmo que conseguisse pensar no que estava fazendo. E não fui nada decepcionada. — Meu Deus… — meu gemido foi abafado pela mordida que dei em meus próprios lábios. Era como uma selfie no espelho, mas Tomas estava nu, seu rosto aparecia, olhos semicerrados como se ele pudesse sentir o mesmo tesão que me consumia. No fundo da minha mente, uma vozinha mais consciente disse que devia ensiná-lo a nunca mandar nudes com o rosto. Só que Tomas McKinley nunca mais as enviaria para ninguém que não fosse pra mim. Não quando ele tinha tudo aquilo a oferecer. Seu abdômen trincado que me faria babar em qualquer outra situação foi ofuscado pelo pau entre seus dedos. Grosso, a cabeça levemente rosada, as veias salientes sob a pele fina. Minha boceta pulsou em resposta da imagem, a lubrificação escorrendo pelos meus dedos, tornando a fricção menos prazerosa porque não queria minha mão ali. Eu queria Tomas. Seu pau. Tomas: Está tão duro que dói, Ellie Tomas: Não sei o que fazer Tinha prometido para mim mesma que nunca seria esse tipo de garota. Advogadas de Harvard não podiam ter fotos nuas vazadas, mas mesmo assimHarvard lendo quadrinhos como se a vida fosse um morango parecia bem interessante para mim. No mínimo curioso. — Bem, Travis, Holden e Tyler têm… aquela coisa, sabe? São… — Amber gesticulou com as mãos como se indicasse algo grande. — Muito. — Olha o tamanho desse cara — cochichei. — Ele com certeza é muito também. — Ellie, você é como nós — Carol interveio, a voz quase maternal — sabe como funciona por aqui e um cara lendo Superman na biblioteca não é exatamente a coisa mais promissora do mundo. Primeiro de tudo: era uma revista do Batman. Segundo: o que ela queria dizer? — Eles são um verdadeiro milagre, quadrigêmeos super atléticos, inteligentes, bonitos e ricos, mas esse daí escolhe ser… assim — Brittany fez uma careta. Virei de novo para o tal Tomas. Eu, Ellie, não conseguia enxergar o problema ali. Um cara comum, matando o tempo com um hobbie, sem trazer problema para ninguém. Exceto pelo fato de que ele era muito mais bonito do que a média dos rapazes normais. No entanto, a garota que eu fingia ser conseguia ver exatamente o que tinha de errado com ele. Tomas McKinley não se encaixava na malha social de Harvard. Dinheiro, nome e o status dos seus irmãos não comprou seu lugar entre as pessoas que valiam a pena para os alunos mesquinhos da faculdade. Estudantes como a que eu queria ser. Naquele campus, as pessoas não se misturavam com quem não seguia as regras invisíveis de status e aparência. Sorrisos eram calculados, amizades eram alianças, e até o que vestíamos falava mais alto. Eu até podia usar Target, mas ainda assim mantinha uma estética. Era necessário. Tomas, com toda sua boa aparência e talento, ainda era uma peça fora do lugar, porque, naquele ambiente, não bastava ser bom; tinha que ser impecável. Ele não tinha o tipo de polimento que se esperava das pessoas certas. E eu? Bem, a verdade era que eu também não. Trabalhava aos sábados e domingos numa sorveteria em Norwich, passava o dia todo esperando por uma ligação das minhas tias para atualizar o quanto meu pai estava bêbado naquele dia — a resposta variava entre muito e bastante. Eu era uma farsa, vivendo uma mentira planejada. Diferente de Tomas que se encaixaria se largasse a revista, tirasse a blusa e começasse a exibir seu tanquinho por aí. Mas, curiosamente, não parecia ser um problema para ele. E, se fosse, não o impedia de ler revistinhas na biblioteca. — Verdade — suspirei a contragosto, voltando a ser a Ellie Davis, filha do embaixador, super rica e vivida. — Ele é esquisito — a mentira soou desconfortável em meus lábios, talvez porque fosse uma que eu contava sobre outra pessoa ao invés de mim mesma. — Super. — Amber concordou. — Demais. — Brittany endossou. E Carol finalizou: — Total. — Com certeza — concordei, imitando o desfecho simples de cada uma delas. A parte que eu guardei para mim mesma era que eu achei Tomas McKinley muito gostoso. Capítulo 03 | “Eu sou descolado?” Você tem saúde e é isso que importa As palavras do treinador Adams ficaram ressoando na minha cabeça. Precisava… me destacar. O que, em palavras menos suaves significava: minha virgindade estava exalando pelos poros e afetando o desempenho do time, fazendo com que nenhuma equipe profissional quisesse se aproximar de mim. Mas tinha que ser mais que isso. Minha inexperiência com mulheres não estava me limitando. Pelo menos não só ela. Era mais que isso. Devon Adams sabia do que estava falando, não era só teórico dando ordens aos atletas de verdade, o técnico viveu o esporte na pele. E suas palavras para mim foram categóricas. “Hóquei não é mais talento e esforço há muito tempo. Os times querem rostos carismáticos que vão aparecer em seus videozinhos na internet e sustentar as marcas patrocinadoras”. Ele mentiu? Nem por um segundo. Seguia times o suficiente no TikTok para saber que o esporte agora também era conteúdo. Na última semana vi um viral de mais um milhão de visualizações que consistia em Killian Di’Angelis bebendo um Gatorade com milhares de comentários dizendo o quando queriam ser aquela garrafa. Podia apostar que as vendas tinham disparado depois daquilo. Virei a cabeça do lugar onde eu estava deitado na minha cama e foquei no espelho de corpo inteiro no canto — uma exigência da minha mãe para que a gente visse “os lindos filhos que ela criou” — e fitei minha própria imagem. Estava usando uma camiseta do Homem De Ferro e calça de moletom, meias brancas nos pés e cabelos bagunçados. Bem confortável. Mas não conseguia imaginar alguém comprando uma garrafa d’água no deserto por aquela imagem. Se a questão fosse trabalho duro, eu poderia me esforçar mais. Me sentia meio para baixo, principalmente tendo ficado no banco nos últimos dois jogos, mas com o incentivo certo, sabia que voltaria para a minha melhor forma. E o grande estímulo seria a ideia de não ser draftado no final da temporada. Os Frozen Four estavam batendo à porta, o torneio final do campeonato, reunindo as quatro melhores equipes com eliminação direta. O momento de maior destaque dos times e dos atletas individualmente. E como eu me provaria estando no banco? Esquecido em meio aos outros idiotas sem graça. Com certeza não usando uma camisa do Homem de Ferro. Era hora de tomar uma atitude. Levantei da cama, tentando ajeitar os cabelos com os dedos, mas tinha uma verdadeira missão para fazer. Segui pelo corredor, passando pela porta aberta de Holden que exibia seu quarto impecável como se ninguém sequer morasse ali. Sem tempo para invejar os hábitos de organização, desci as escadas, chegando na sala de estar onde meus irmãos estavam sentados, jogando Fifa. Era assim que eles — a gente — passava a maior parte do tempo quando estávamos em casa, diante do Playstation 5. No enorme sofá de couro preto que dominava o espaço, Holden e Travis estavam com os controles em mãos, fazendo uma disputa acirrada entre Borussia Dortmund e Real Madrid. Na poltrona cinza, Tyler olhava a tela da TV como se sua vida dependesse disso. A mesa de centro estava repleta de snacks saudáveis e latas de refrigerante que marcavam todas as horas que meus irmãos deviam ter planejado para ficar ali. — Vocês acham que eu sou legal? Aguardei a resposta, mas os caras estavam muito concentrados no 1 x 1 que se estendia para o segundo tempo. Coloque quadrigêmeos criados em ringues de hóquei para competir e assista às disputas mais acirradas do mundo. Mamãe quase desistiu de nós quando, aos doze, Tyler insinuou que conseguia cuspir mais longe do que nós. Foram tempos obscuros na casa dos McKinley. — Finnick Colleman saiu do Red Wings — falei e aquilo sim fez com que o “pause” aparecesse na tela e três pares de olhos assombrados me fitassem como se eu tivesse anunciado uma nova praga do Egito. Eles disseram em uníssono, atropelando as palavras uns dos outros: — Você está brincando. — Mentira! — Não faz esse tipo de piadas, cara. — Esse é o único jeito de fazer vocês escutarem — dei de ombros, sentando ao lado de Holden no sofá, mas recebi um olhar nada acolhedor. — Tentando causar um ataque cardíaco no Holden, seu babaca, ele tem coração fraco? — Tyler bufou. A gente se amava, se entendia e se apoiava em todos os momentos. Exceto quando o nome de um astro do hóquei era citado. — Preciso de ajuda — impedi que eles continuassem o martírio que eu sabia que ia se seguir. — É uma emergência esportiva. As expressões se tornaram atentas. Holden e Travis deixaram os controles na mesa de centro e Tyler se inclinou na poltrona para me ver melhor. Os McKinley levavam hóquei um pouco a sério demais. Todos nós. Minha mãe fez uma promessa em nosso nome para São Sebastião — o padroeiro dos esportes, como ela sempre nos explicou quando íamos para o Brasil visitar a família — e papai gastava alguns milhares de dólares todos os meses para ter camisetas autografadas e peças de colecionador para o seu santuário quase intocável para o esporte. — O técnico conversou comigo depois do treino, disse que eu devia tentar… extravasar — resolvi omitir a parte em que Devon me orientoua procurar uma garota para isso porque não aguentaria as piadinhas que aconteceriam pelo próximo século. — E então? — Travis questionou, erguendo uma sobrancelha, assumindo sua posição defensora que sempre aparecia para qualquer um de nós. — Ele basicamente disse a verdade — dei de ombros, assumindo os fatos apesar de ser doloroso — meu desempenho não tem sido digno de draft? — O treinador disse isso? — A voz do meu irmão subiu uma oitava. — Não, mas consigo somar dois mais dois. Tenho passado mais tempo no banco do que no ringue, as jogadas não fluem como antes, estou fora do ritmo. Não consigo me concentrar, e quando olho para o gelo, tudo parece mais rápido. E um ala direita precisava ser mais veloz do que qualquer coisa, não dava para estar no ataque e deixar as coisas passarem por você. No hóquei, centímetros e segundos importavam mais do que em qualquer outro esporte. — É só uma fase ruim — Tyler garantiu, colocando os pés sobre a mesinha de centro, mas cruzando os braços diante do peito, quase como se estivesse preocupado. — Está te faltando inspiração. Todos nós temos nossos momentos. — Vocês não — contrariei. Não havia uma gota de inveja em mim, apenas constatação — nunca tiveram uma fase assim. Tem apostas nos nomes de vocês sobre os drafts. Holden se mexeu desconfortável, passando a mão pelos cabelos escuros. — São fases — contrariou, repetindo as palavras do nosso irmão. — E tem mais — encolhi os ombros. — Misericórdia, o técnico estava inspirado! — Travis suspirou, deixando o lamúrio escapar em português. — Ele disse que hoje o hóquei é mais do que só desempenho, é marketing, é ser um produto para vender. Os três ficaram em silêncio por um segundo, meditando sobre aquilo. Nenhum deles tinha como negar aquela realidade também. Mais do que nunca, era sobre engajar os fãs, construir uma imagem atraente, e ter um apelo comercial que pudesse atrair patrocinadores e mídia. — Tom, não é nosso dever fazer isso, os times têm equipes de relações públicas para trabalharem a imagem — Tyler lembrou. — Mas quem eles vão contratar? — Rebati — o futuro namorado de uma princesinha do pop ou um idiota sem magnetismo? — apontei para mim mesmo. Não conseguia me imaginar num edit ao som da Doja Cat, milhares de fãs sedentos por mim. No máximo, eu seria uma das pessoas nos comentários tentando entender o que as piadas de duplo sentido significavam. Ninguém nunca me mandaria “come to Brazil”. — Gente, sejam sinceros… eu sou legal? — A última palavra saiu como um suspiro. Que decadência. Para piorar eles demoraram para responder. Traíras do caralho. Olhei ao redor enquanto eles meditavam, pensativos. Nenhum deles estava usando camisa de super herói para começar. Estavam em tons variados de cores neutras indo do preto ao branco, passando pelo cinza em seus shorts esportivos e camisas oversized. Tênis Jordan também eram uma realidade entre eles e Tyler até usava um boné virado para trás como se fosse um skatista descolado. — Você é… você, Tom. Sempre foi — Holden disse e eu revirei os olhos, me levantando. — Meu Deus, que forma ridícula de dizer que eu sou um perdedor. — Fuzilei meu irmão com o olhar, mas ele riu, deixando a cabeça pender no encosto do sofá. — Você é um cara legal, muito legal. Não seja dramático — pediu, só porque ele parecia pronto para fazer uma propaganda de artigos esportivos apesar dos óculos de grau que não o deixavam nada parecido com um nerd, justamente o oposto. — Ele não está falando uma mentira — Tyler disse, saindo da poltrona e vindo parar ao meu lado, só para me dar um abraço lateral meio esquisito. — Você não pode ser medido pela régua das outras pessoas. Não há ninguém como você. — Agora eu sou um perdedor e esquisito — bufei e ele gargalhou, bagunçando meu cabelo. — Você nunca se importou em se encaixar, Tom, e essa é a coisa mais legal sobre você, é autêntico, cara. Isso é raro. As pessoas podem tentar ser alguém que não são, mas você simplesmente não se importa. Essa confiança em ser você mesmo é o que realmente te destaca. — Sua versão sobre mim era muito bonita, mas não me levava ao draft, não me colocava entre os titulares. E a pior parte era que Tyler não estava mentindo, nunca me importei em tentar ser adequado para o que esperavam de mim. Nesse ponto, crescer com uma mãe brasileira que nunca quis se americanizar para nos criar, ajudou. Ela não era como as outras mamães na escola, mas tampouco a gente era como o resto das crianças. Seu câncer só aumentou aquele senso. Quando os cabelos caíram, ela assumiu seu visual, optando por lenços ou a cabeça exposta. “Não vou me esconder porque é mais cômodo para as pessoas”. Eu vivi assim, mas no momento que isso passou a poder frear a minha carreira, tinha que mudar. — Ninguém vai comprar a camisa com meu nome no time porque eu sou autêntico — debochei da palavra. — Agora você está sendo um crianção — Tyler me soltou, dando um tapinha no meu ombro e se jogando de volta no sofá — Não é tão sério assim. — É sério para mim, não vou ser um economista, quero estar em um time de hóquei, ser profissional — falei firme, a única coisa que eu tinha certeza na minha vida — E eu vou fazer o que for preciso para chegar lá — cruzei os braços, erguendo o queixo, fazendo aquela promessa em voz alta. Sim! Era isso! O que fosse preciso. Perder a virgindade? Faria isso! Fácil! Só precisava saber como… quem… quando… apenas alguns detalhes! Mas não perguntaria a nenhum daqueles três idiotas. Ainda mais porque um deles também não sabia. — Vou aprender como ser mais descolado, mas não com nenhum de vocês três, babacas — apontei. — Descolado — Tyler repetiu a palavra com uma risada, voltando a pegar o controle na mesinha. — Esse vai ser seu vocabulário? Tadinho, vai ser um trabalho difícil. — Não seja idiota — Holden deu um tapinha na nuca do nosso irmão. — Nosso Tom vai ficar supimpa. Deus, às vezes eu odiava aqueles três. Maldita hora que um de nós se dividiu na barriga da nossa genitora e deu lugar aos outros. — Vou mostrar para vocês — impliquei. — Vou sair por aí e ver os populares de verdade, não três bobões que ficam jogando Fifa no sofá. — Se tornar um stalker é muito descolado mesmo — Tyler bufou, pegando seu controle e dando play no jogo. — Quando a polícia do campus te prender vamos fingir que não te conhecemos. — Uhum — bufei, pegando as chaves da minha moto no pequeno gancho que tinha parede atrás de mim. Tinha firmado um plano e o executaria sem ser um maníaco perseguidor, mas de um jeito… legal e relaxado. Atravessei a sala, passando propositalmente na frente da TV porque se eles seriam idiotas, me aguentariam estragando o jogo que eu sabidamente os daria uma surra. — Tom? — Travis perguntou quando eu estava na porta, elaborando meu plano de uma pesquisa antropológica. — Que foi? — perguntei a contragosto, me virando para ver os três de lábios comprimidos, tentando conter risadas. Idiotas. — Caras descolados andam sem sapatos por aí? — apontou para meus pés e eu segui o caminho vendo minhas meias brancas e nada mais. Fechei os olhos, escondendo minha própria vontade de gargalhar. Talvez minha empreitada fosse mais difícil do que eu pensava. Capítulo 04 | O não você já tem, agora corra atrás da humilhação discussão Estava dada a largada para meu plano de me tornar um cara super popular no campus, do tipo que os garotinhos iam ter funkos pop com a minha cabeça, as garotas fariam tatuagens com McKinley - 25. Yeah! Eu só precisava… me inspirar. O fim da tarde estava caindo sobre Harvard quando parei minha moto no canto do estacionamento. O céu, de um azul cada vez mais profundo, começava a tingir-se com tons alaranjados e rosados, enquanto o frio de janeiro cortava o ar, formando pequenas nuvens de vapor a cada respiração enquanto os grupinhos passavam conversando e rindo ao meu redor, sem me notar ali. A neve, acumulada ao longo das calçadas e sobre os telhados dos prédios de tijolos antigos, parecia brilhar sob as primeiras luzes que se acendiam no campus. Apertei ozíper do meu casaco de couro até o queixo e deslizei as luvas mais firmemente nas mãos, sentindo a pele do rosto quase dormente pelo vento gélido. Sair de casa sem sapatos teria sido um erro terrível para os meus pés. Apesar de ter crescido nos EUA, precisava admitir que os meses de férias no verão do Brasil ainda me davam saudades. O frio sem hóquei para me esquentar não era agradável. Suspirei, encostando-me no banco da BMW R nineT que passava despercebida no meio dos Audi e Teslas distribuídos pelo espaço. A calmaria quase me fazia esquecer que estava em Harvard, lar dos estudantes mais promissores de todo país — quem sabe até do mundo. Alunos que faziam algo que parecia ser impossível para mim: eles se destacavam. Era esperado que dali saíssem os próximos cientistas, médicos, advogados e esportistas mais importantes das próximas gerações e, ao meu redor, todos agiam como se aquele futuro já estivesse na porta. Desde já, todo mundo se comportava como se sua existência fosse muito importante. O que eu não concordava muito. Crescendo na família em que cresci, eu sabia identificar verdadeiros milagres quando via um e, para ser sincero, nenhuma daquelas pessoas parecia muito especial. Talvez elas fossem sim os prodígios de suas escolas, o ponto fora da curva dos seus times, mas não conseguia enxergar qual o grande destaque. A maioria deles era invejoso, competitivo e fútil, nada que me parecesse notável. Preferia passar meu tempo jogando, lendo e assistindo animes do que participar de tudo aquilo. Porque, no fundo, Harvard era só mais um lugar onde as pessoas fingiam ser mais do que realmente eram. Um palco onde todos interpretavam papéis de grandeza que raramente coincidiam com a realidade. Aquela autoconfiança exagerada era uma defesa — um amontoado de títulos e prêmios usado para camuflar as mesmas inseguranças que qualquer um tinha. E, pela primeira vez, eu teria que participar de tudo aquilo se quisesse mesmo ser um jogador profissional. A boa notícia era que ser especial era mais uma questão de aparência do que de essência. A má era que eu não tinha nada daquela fachada. Por isso, precisava observar as pessoas. Espremi os olhos, tentando enxergar as nuances. Ok. Não devia ser tão difícil assim. O que um grande futuro atleta draftado vindo da universidade de Harvard precisava ter? Saindo do refeitório principal, há uns metros à minha direita, um grupo de jogadores de basquete saiu amontoado. Vestindo seus próprios casacos vermelhos, conversando alto, rindo e gesticulando como se o campus inteiro fosse deles. Eles tinham aquela postura descontraída, como se estivessem completamente à vontade, seguros de quem eram e do que significavam ali. Eu também estava à vontade. Não andava em bandos enormes porque não sentia a necessidade e, para ser sincero, meu grupinho seria composto pelos meus três irmãos e nada menos descolado do que ser melhor amigo dos irmãos. Precisaria achar uma galera? Gostava dos meus colegas de time, mas dificilmente éramos grudados daquela forma. Meus interesses estavam nos jogos, mangás e animes enquanto o deles estavam em… mulheres, mulheres e mulheres. Obviamente eu também estava muito interessado em mulheres — meu histórico de navegação na internet que o diga — mas os caras faziam algo efetivo para estar com elas. Saiam para festas, baixavam o Tinder, paqueravam nas aulas e eu… longe disso. Me tornar popular por osmose em um grupo de amigos estava longe de questão para o bem da minha autoestima. Outra possibilidade era começar a frequentar as festas de sexta-feira das fraternidades, o lugar onde todos diziam que “as coisas realmente aconteciam.” Eu era um McKinley no final das contas — não o ideal na cabeça das pessoas —, mas podia apostar que ninguém me negaria um convite. Só que sexta-feira era dia da transmissão ao vivo de Dimension 20[2], minha mesa favorita de RPG no Youtube, e a temporada nova estava imperdível demais para ser abandonada por algumas festas em que eu provavelmente acabaria me envergonhando por dizer a coisa errada. O que em retrospecto era a coisa mais virgem e menos legal a se pensar. Tinha que ter um outro jeito. E, como se fosse um passe de mágica, eu a vi. Não a solução para meu problema crônico de falta de popularidade, mas a verdadeira antítese dele. Uma garota. Ellie Davis. Sabia seu nome, é claro; todo mundo em Harvard conhecia os prodígios no topo da cadeia alimentar. A Engenharia tinha Yusuf Ali, na Medicina, Skyler Nwosu, minha turma de Economia tinha o popstar Omar Delgado, e o Direito era de Ellie Davis. Eles eram de um grupo particularmente seleto, o de gente que se destacava entre os destacados. Sabia algumas coisas sobre Ellie. Vinda de uma família influente no Direito e nas Relações Internacionais, a garota estava em mil projetos e brilhava em todos, virando notícia nos corredores sobre seus feitos acadêmicos mesmo no curso de Economia. E, naquele momento, descobri algo que as fofocas e os olhares de relance não tinham me dito. Ela era linda. Negra de pele clara, com cabelos ondulados espalhados ao redor do seu rosto em ondas suaves que pareciam capturar a luz do fim da tarde. Tinha olhos castanhos profundos, expressivos, que contrastavam perfeitamente com a intensidade de suas sobrancelhas escuras e marcantes, franzidas enquanto ela ouvia uma loira tagarelar ao seu lado. Mesmo em uma tarde fria de janeiro, vestia-se bem com botas pretas emolduradas até o joelho por meia calça escura, uma saia moderna com um suéter creme pesado. A única coisa que denunciava que ela estava indo estudar ao invés de desfilar numa passarela era a mochila gigante e pesada em seu ombro direito. Tirei a chave da ignição e nem percebi quando, de repente, estava dentro do prédio três, seguindo para um auditório de porta aberta onde a única coisa que me explicava o que estaria acontecendo ali eram as palavras “Clube de Debates”. Parei antes de entrar, esticando o pescoço para ver lá dentro. A loira acompanhando Ellie sentou numa das cadeiras da frente enquanto a garota colocou a mochila pesada na mesa do professor e passou a conversar com Samuel Porter, que eu conhecia da minha aula de Teoria Econômica e Microeconomia Avançada. Tudo que eu sabia era que o namorado dele estava no time de natação e me arrependi internamente por não saber mais. Podia chegar perto e cumprimentar, e se fosse o caso... talvez me apresentar para Ellie Davis. Balancei a cabeça, refazendo meus pensamentos. Não mesmo. Meus irmãos estavam certos, se eu continuasse a me esgueirar assim pelos lugares acabaria sendo preso pelos guardinhas do campus. Tirei as luvas das mãos, guardando-as nos bolsos do casaco, me preparando para voltar para minha moto e desistir de todo aquele plano maluco de aprender a me destacar. Certas coisas não mudavam. Seria mais fácil eu dar tudo de mim em quadra, para compensar o fato de que eu não era um cara interessante para as marcas patrocinadoras dos times. Talvez o sobrenome me levasse a algum lugar, com sorte alguma equipe azarada acabaria draftando o McKinley errado para disputar o campeonato. — Melhor entrar — uma outra garota loira usando um rabo de cavalo apertado demais deu um tapinha no meu ombro, me empurrando para dentro. — Eu não… — comecei a contrariar, mas ela ignorou, fechando a porta atrás de mim. — O debate vai começar agora. — disse, quase como se estivesse falando para si e não para mim. — Bem-vindos — Samuel chamou lá da frente e as mais ou menos trinta pessoas na sala se ajeitaram em suas cadeiras, incluindo a garota que me obrigou a entrar. — Podem todos… tomar seus lugares — pediu olhando diretamente para mim, o único idiota de pé. Engoli em seco, sentindo os olhares me perfurando enquanto buscava um lugar livre. Deslizei até uma cadeira vazia na fileira à minha esquerda e me sentei, ajeitando as chaves no meu bolso. Minhas mãos tremiam um pouco, mas tentei disfarçar, apoiando-as nos joelhos. Era só um clube de debates, não precisava surtar assim. Ninguém ali sabia que eu não estava alipara exercitar o cérebro, mas sim analisá-los como se eu fosse um cientista maluco. — Hoje nossa sessão de debates vai contemplar as duas equipes representadas aqui por Ellie Davis… — gesticulou em direção a garota, que em um gesto muito nobre ergueu um pouquinho o queixo, nada assustada com a plateia. Bem fodona. —... e Nicholas Reed — diferente de Ellie, o cara ainda estava sentado junto com a plateia e se levantou de ombros encolhidos, as mãos com um maço de papel, se juntando a ela no púlpito perto da mesa. — O tema de hoje vai ser a necessidade de reformar o Conselho de Segurança da ONU. Franzi o cenho, inclinando as costas contra a cadeira, curioso. Era um tema meio complexo para uma turma de calouros, não? — Com a palavra, como sorteado previamente, Ellie Davis — Samuel apontou para a garota que sequer piscou ao assumir a frente do pequeno palco, escondendo as mãos atrás do corpo não por nervosismo, mas num gesto de dominância. Era estranho eu estar meio… absorvido por toda aquela cena? — Obrigada, Samuel. — Ela lançou um breve olhar para Nicholas, que parecia menos à vontade ao seu lado. Não podia julgá-lo. — O Conselho de Segurança da ONU foi criado para garantir a paz e a segurança mundial. No entanto, ele falha repetidamente em sua missão por causa da estrutura de poder desigual que privilegia os interesses de cinco países com poder de veto. Ela fez uma pausa, deixando a afirmação pairar por um momento, quase como se fosse uma mestre de RPG, deixando as informações se assentarem na nossa cabeça para dar mais impacto. A garota era boa. — Essa estrutura impede que medidas significativas sejam tomadas em crises humanitárias urgentes, como o genocídio sistemático promovido contra o povo palestino. — A voz de Ellie era firme, mas cheia de indignação contida, quando deu um pequeno passo para o lado, caminhando pensativa, performática, fazendo com que fosse impossível parar de olhá-la. — Milhares de civis estão sendo mortos, suas casas destruídas, e ainda assim, as resoluções para cessar essas ações são constantemente barradas. Pergunto a vocês, qual o propósito de uma organização que, mesmo ao ver injustiças, permanece impotente? Eu me inclinei mais para a frente, capturado pela intensidade do discurso dela. Ellie parecia tão convicta, cada palavra carregada de uma paixão e firmeza que eu nunca tinha visto em ninguém, muito menos em alguém da nossa idade. Mesmo em Harvard as pessoas não eram tão articuladas. Era como se, ali naquele pequeno palco, ela tivesse uma força capaz de abalar paredes. Não fui o único a parecer entorpecido pelo brilho da garota. Se um alfinete caísse no chão, seria possível ouvir, todos estavam vidrados. Alguns estudantes trocaram olhares surpresos, claramente impressionados com a eloquência dela. Nicholas, ao lado dela, tinha uma expressão mista de preocupação e admiração, como se estivesse reconsiderando sua própria abordagem ao debate, consultando as anotações em sua mão apesar de Ellie não ter nada a não ser suas próprias palavras. Ela continuou: — Se o Conselho de Segurança fosse reformado para representar melhor todas as nações, e se o poder de veto fosse revisado ou extinto, poderíamos ter uma ONU mais justa e capaz de defender os direitos de todos os povos, inclusive dos palestinos. — Parou de novo, de frente para a plateia deixando seu olhar vagar em direção de cada um. Senti um arrepio subir pela minha coluna como se aqueles orbes castanhos estivessem me fitando especificamente, enxergando dentro de mim. Ellie deixou as mãos relaxarem ao lado do corpo, tombou a cabeça para lado apenas alguns milímetros quando a expressão se abriu um pouquinho como se estivéssemos numa propaganda eleitoral e aquele fosse o momento que o sol nascia no fundo do candidato que com certeza seria o vencedor. — Afinal, paz e justiça não deveriam ser privilégio de poucos, mas um direito universal. — disse firme, a reencarnação de Katniss Everdeen dizendo no penúltimo filme dizendo ao Snow que ele também queimaria. Foda. O arrepio pareceu se tornar parte da minha pele quando o auditório irrompeu em aplausos e Ellie sorriu, abaixando a cabeça um pouquinho recebendo as graças do público. Me peguei eu mesmo batendo palmas, apesar de saber que já deveria ter saído dali. Coitado do tal Nicholas Reed. Ele não tinha a menor chance. Nenhuma. Quando os aplausos começaram a se dispersar, o cara finalmente ajustou a gravata, uma tentativa visível de se recompor, e caminhou até o púlpito, onde Ellie ainda estava sorrindo, como se tivesse acabado de conquistar o mundo. E ela poderia ter. — Bem, pessoal, — começou ele, tentando manter a voz firme, embora tremesse levemente. — Agradeço a Ellie pelo discurso. Embora eu não possa discordar da importância de lutar pelos direitos humanos, precisamos considerar que o Conselho de Segurança da ONU… Blá, blá, blá. Eu não estava mais ouvindo, ninguém mais estava. Meus olhos se fixaram na garota ao lado dele no púlpito. Ellie estava ouvindo a fala do adversário, mas não emitia nenhuma reação. Não tinha como eu saber se os argumentos dele eram bons ou ruins porque não estava prestando a menor atenção, só que ela parecia concordar ou discordar. Aquilo era segurança. Estava absorvendo cada palavra de Nicholas, mas sua expressão não revelava nada. Medo, desaprovação, nervosismo, nada. Aquela garota tinha um brilho que ofuscava tudo ao seu redor. Mesmo quando Nicholas tentava argumentar, era como se Ellie fosse a única luz naquela sala. Ela era a definição de se destacar. Não a conhecia para além dos comentários na turma de Economia de que as Ciências Políticas de Harvard já tinham sua nova estudante popstar, no entanto Ellie era ainda mais impressionante do que os boatos sobre uma caloura prodígio. Enquanto Nicholas se esforçava para articular seus pontos, eu percebia que os olhares na sala mudavam de foco. Alguns colegas começaram a sussurrar entre si, avaliando sua performance. Eu não precisava ser um gênio para perceber que o que Ellie trouxe para o debate ressoava de forma mais significativa. Cada palavra dela tinha um peso que ainda ecoava no ar, enquanto o discurso de Nicholas parecia se desvanecer, quase se perdendo em meio ao murmúrio da plateia. Quando finalmente ele concluiu, a sala foi tomada por um silêncio tenso antes que Ellie tivesse a chance de se pronunciar novamente. O moderador, Samuel, olhou entre os dois e fez um gesto para Ellie, como se a convocasse para retomar o palco. O mundo pareceu brilhar de novo ao seu redor. — Obrigada, Nicholas, por seus pontos — Ellie começou, com um sorriso que transmitia um misto de respeito e autoconfiança. Só que se eu estivesse no lugar daquele cara não me sentiria nada respeitado pela surra que estava tomando naquele debate. Se a garota jogasse hóquei esse seria o momento em que estaria ganhando de 7 x 0 sem nem suar. — Mas é importante lembrar que as realidades que enfrentamos não podem ser resumidas a simples considerações de política externa. A vida das pessoas está em jogo aqui. — lembrou, voltando para sua forma total de convencimento. Suas palavras foram recebidas com um novo calor, e percebi que muitos na plateia estavam novamente com a atenção total voltada para ela. O clima que antes parecia morno com as palavras do Nicholas agora estava carregado de energia, como se todos estivessem se preparando para a próxima explosão. Ela era incrível. Não conseguia desviar o olhar de sua direção. A sessão de debates chegou ao fim com uma votação, e a maioria se posicionou ao lado de Ellie. Obviamente. Me peguei eu mesmo levantando a mão quase no céu para dar meu voto — que nem deveria existir — para a garota. Não passou despercebido para mim que a loira que entrou conversando com ela optou pelo discurso de Nicholas o que era uma besteira das grandes. Quem em sã consciência ouvia tudo aquilo e escolhia o cara ao invés de Ellie? Maluquice. Quando o debate foi encerrado, a plateia começou a se dispersar, mas eu não conseguia tirar os olhos dela. Nicholas