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<p>GUIA DE ESCREVA MELHOR Antonio Carlos Viana DE EDITORES BRASILEIRA DE LIVROS editora scipione</p><p>CAPÍTULO 4 Reconheça os paralelismos Lendo texto Eu Eu sou a que no mundo anda perdida eu sou a que na vida não tem norte, sou a irmã do sonho, e desta sorte sou a crucificada... a dolorida... Sombra de névoa tênue e esvaecida, e que o destino amargo, triste e forte, impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam de triste sem o ser Sou a que chora sem saber por quê... Sou talvez a visão que alguém sonhou. Alguém que veio ao mundo pra me ver E que nunca na vida me encontrou! ESPANCA, Florbela. In: FARACO, Sérgio (Org.). Livro dos sonetos: 1500-1900. (Poetas portugueses e brasileiros). Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 104. Os paralelismos são estruturas simétricas que podem estar presen- tes em todo tipo de texto. A poesia, no entanto, é o gênero que mais recorre a eles, como faz Florbela Espanca no soneto que acabamos de ler. Eles são um forte fator de coesão textual e merecem atenção à parte. Ajudam a melhorar a organização sintática da frase, conferindo- -lhe mais clareza. Há três tipos de paralelismo: o sintático, o rítmico e o semântico. Paralelismo Reconhecemos a presença de um paralelismo pela estrutura da sintático frase. Vejamos nos versos de Florbela: Eu sou a que no mundo anda perdida eu sou a que na vida não tem norte Reconheça os paralelismos 29</p><p>Os segmentos destacados repetem a mesma estrutura sintática: "Eu sou a que no mundo/na vida" (sujeito + verbo ser + pronome de- monstrativo + pronome relativo + adjunto adverbial de lugar). Também ocorrem paralelismos nos versos: sou a do sonho, e desta sorte sou a crucificada... a dolorida... Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam de triste sem o ser Sou a que chora sem saber por quê... Florbela Espanca recorreu várias vezes ao paralelismo sintático para construir seu poema. Mas saiba que, mesmo que você não escreva poe- sia, frequentemente precisará dele quando escrever textos em prosa. Para entender melhor o seu mecanismo, veja este exemplo extraído de Quincas Borba, de Machado de Assis: Horas depois, teve Rubião um pensamento horrível. Podiam crer que ele próprio incitara o amigo à viagem, para o fim de o matar mais depressa, e entrar na posse do legado, se é que realmente estava incluso no testamento. ASSIS, Machado de. Quincas Borba. São Paulo: Conducta, [s.d.]. p. 17. Os paralelismos sintáticos podem vir livres ou motivados. Eles são livres quando aparecem, como no poema de Florbela Espanca, sem se ligar a alguma palavra anterior. Já na frase de Machado, foi uma locu- ção prepositiva que exigiu os dois verbos no infinitivo: Para o fim de: OLHO VIVO! Se, em suas próximas a) o matar mais depressa, e leituras, você ficar atento, b) entrar na posse do legado verá como esse tipo de construção sintática aparece à profusão. o exemplo acima mostra apenas duas estruturas paralelas, mas Aprenda a fazê-la e seu nada nos impede de criar quantas quisermos. Mais abaixo, quando texto muito. falarmos da frase fragmentada, você verá um exemplo de quatro paralelismos num mesmo parágrafo. Paralelismo Quem já leu a Bíblia deve ter visto que são inúmeros os casos de rítmico paralelismo, usado geralmente para obter efeitos poéticos. Lemos, por exemplo, no Eclesiastes: Há tempo de matar, e tempo de sarar. Há tempo de chorar, e tempo de sorrir. Além do paralelismo sintático, os versos acima apresentam outro tipo de paralelismo, o rítmico. A estrutura paralelística cria determi- nado ritmo na frase, tornando-a simetricamente perfeita. Os dois seg- mentos (Há tempo de chorar/e tempo de sorrir) têm a mesma exten- são silábica. 30 Parte 1: A caminho do texto</p><p>Na prosa, também ocorrem casos semelhantes. Veja só um peque- no exemplo extraído de um artigo de Carlos Heitor Cony: próprio Lula construiu toda a sua carreira fazendo do desemprego (problema eminentemente urbano) e da reforma agrária (problema rural equivalente) o ponto de partida de sua atuação como líder operário e político. CONY, Carlos Heitor. Folha de S.Paulo, São Paulo, 5 abr. 2004. Caderno A, p. 2. autor criou um paralelismo sintático motivado pelo verbo fazer: fazendo do desemprego e da reforma agrária Para cada item, desemprego e reforma agrária, ele fez uma observa- ção entre parênteses, criando mais uma estrutura paralelística para dar equilíbrio à frase. Ao abrir um parêntese para desemprego, ele se viu obrigado a fazer um outro para reforma agrária. Se não o tivesse feito, a comunicação ficaria prejudicada, porque o ritmo se quebraria brusca- mente, sentiríamos falta de alguma coisa, embora não soubéssemos dizer bem o que era. Leia a frase sem o paralelismo: próprio Lula construiu toda a sua carreira fazendo do desemprego (problema emi- nentemente urbano) e da reforma agrária ponto de partida de sua atuação como líder operário e político. Notou como ficou obscura? A falta da segunda observação nos faria reler tudo uma ou mais vezes, para tentar entender uma mensagem que, da forma como foi escrita, não nos deu nenhum trabalho de compreensão. smo Há um terceiro tipo de paralelismo: o semântico. Se você colocar duas palavras em situação paralelística, elas precisam ter a mesma extensão de significado, ou seja, elas devem apresentar a mesma am- plitude de sentido: Este ano, choveu mais no Nordeste do que em Porto Alegre. o paralelismo semântico está correto? Claro que não. Nordeste é uma região; Porto Alegre é uma cidade. Para o paralelismo ser exato, ou se comparam duas regiões, ou dois estados, ou duas cidades. A frase mais exata seria: Este ano, choveu mais no Nordeste do que no Sul. Ou: Este ano, choveu mais no Ceará do que no Rio Grande do Sul. Reconheça os paralelismos</p><p>Agora, sim, comparou-se o nível de chuva entre duas regiões: Nor- deste e Sul; e entre dois estados: Ceará e Rio Grande do Sul. Podia ser também entre duas capitais: Este ano, choveu mais em Fortaleza do que em Porto Alegre. Para escrever com exatidão, é bom respeitar esse tipo de paralelis- mo, embora nem sempre seja possível fazê-lo. Exemplo: Os Estados Unidos dominam mundo economicamente. A União Europeia procura contrapor-se a essa hegemonia com um euro forte. Não há correspondência semântica entre Estados Unidos, um país, e União Europeia, um conglomerado de países. Mas não há como dizer de forma diferente. o importante é que você esteja consciente do que escreve e saiba justificá-lo. Paralelismo Quando queremos dar certo toque de humor ao texto, podemos ape- semântico e lar para um paralelismo semântico em que uma das palavras se desvia desvio das outras e cria efeitos inesperados, como nesta frase: Depois dos 50, homem tem medo de ser atacado no pulmão, no coração e no bolso. A forma de enunciar os três elementos pulmão, coração, bolso observa o paralelismo sintático, mas não o semântico, que é quebrado porque bolso não faz parte do mesmo campo de significação de pulmão e coração. A frase, a depender da intenção do autor e do tipo de texto, é perfeitamente aceitável. Num artigo científico, é evidente que seria estranho encontrar uma frase como essa, mas não numa crônica. NA NATUREZA SELVAGEM A FORMIGA PRETA DA A MAMBA NEGRA DERRUBA MALÁSIA CONSEGUE ANIMAIS DE 40 SEGUROS POR DIA do GRILO DA SAVANA CARREGAR OBJETOS VEZES AFRICANA PULA 25 VEZES MAIS FAZER 40 VEZES A SUA ALTURA. PESADOS DO QUE EU TENHO METAS ELA!! PARA BATER... Na natureza selvagem. Folha de S.Paulo, São Paulo, 7 jan. 2011. Caderno Mercado. Os três primeiros quadros da tirinha referem-se ao mundo animal. A quebra do para- lelismo se dá no último, quando aparece um homem falando das metas que tem a cumprir. Ao colocá-lo na sequência, autor demonstra que o homem é pior do que os animais irracionais, pois trabalha acima de sua capacidade física 32 Parte 1: A caminho do texto</p><p>Uma ginasta é alguém que abdica da infância e da adolescência para fi- car treinando num ginásio. Que se submete a uma dieta alimentar de campo de concentração para manter a forma. Que literalmente arrisca o pescoço e a vida todos os dias numa infinidade de saltos que, não por acaso, são chamados mortais. Que atrasa voluntariamente o desenvolvimento do corpo para seguir competindo. E que se acostuma a conviver com a dor, já que as contusões são o pão de cada dia desse esporte de altíssimo impacto e risco. VEJA. São Paulo: Abril, n. 1848, 7 abr. 2004. p. 81. Geralmente se diz que não convém começar frase com pronome re- lativo para não fragmentá-la. Por que, então, ninguém condenaria esse trecho da Veja, já que seu redator começou quatro frases com prono- me que? Quando escrevemos, tudo é possível, nada é proibido, desde que estejamos conscientes dos efeitos estilísticos que visamos. Se não houvesse espaço para a transgressão, escrever seria de uma monotonia insuportável, com todos escrevendo do mesmo jeito, como acontece nas redações do vestibular. Por isso você precisa ousar, criar seu próprio esti- lo, saber justificar os recursos que utiliza. Se você, por acaso, fragmenta a frase por não saber estruturá-la corretamente, é claro que seu profes- sor a cortará. Mas se houve intenção ou motivos estilísticos para fazê-lo (e isso tem de ficar claro para o leitor), seu texto cresce. o excerto da Veja tem quatro frases fragmentadas e é perfeito. Seu autor fez cortes conscientes, com o objetivo de chamar a atenção do leitor para cada oração isolada. Só a primeira frase não foi fragmentada: Uma ginasta é alguém que abdica da infância e da adolescência para ficar treinando num ginásio. Depois é que o redator fragmenta uma a uma, criando paralelismos sintáticos. Quando percebemos que ele construiu todas as frases com a mesma estrutura sintática, iniciando-as com o pronome relativo, ve- mos que foi tudo intencional. Escrevendo dessa forma, ele deu mais visibilidade às informações veiculadas em cada oração. Se tivesse es- crito de forma canônica, separando as orações adjetivas com vírgula, além de criar um período muito longo, poderia deixar o leitor entediado e talvez confuso. Escrever deve ser uma atividade de prazer, e não de tédio, tanto para quem quanto para quem escreve. Reconheça os paralelismos 33</p><p>paralelismo Além de estruturar segmentos dentro de uma mesma frase, o para- como recurso lelismo pode também estruturar parágrafos inteiros, como nesta crôni- ca de Marina Colasanti: de construção de texto Eu sei, mas não devia Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pa- gar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais traba- lho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lança- do na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um 34 Parte 1: A caminho do texto</p><p>pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baio- neta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma. COLASANTI, Eu sei, mas não 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. p. 9-10. o texto é uma verdadeira aula de paralelismos. É todo construído a partir de "a gente se acostuma", deixando o leitor na expectativa de saber a que universo de coisas ele se acostumou e nunca percebera. A primeira frase, "A gente se acostuma a [...]" dirige o texto inteiro. Como se trata de uma crônica, a autora teve toda a liberdade para fazer isso, mas numa redação escolar fica difícil fazer algo semelhante, embora não seja de todo impossível. em Dentro da frase, sobretudo quando se coordenam orações em que estejam presentes conjunções coordenativas (e, mas, ou, nem...). smos Estive o tempo todo atento a suas palavras e aos seus gestos. o adjetivo atento exige a preposição a, que vai aparecer antes de suas palavras e de seus gestos. Com estruturas que estabelecem uma correlação de ideias: não só... mas também; tanto... quanto. Durante interrogatório, ele se manteve não só em silêncio, mas também em perma- nente o paralelismo aparece aí por meio da preposição em: não só em silêncio, mas também em permanente tensão. Entre frases: Há na desgraça tanta inteligência quanto na busca da paz, do igualitaris- mo, do Há no tanta inteligência quanto no "mal". Gilson. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 abr. 2004. Caderno Sinapse, p. 17. As duas frases começam pela mesma forma verbal: há, seguida de palavras associadas por oposição. Reconheça os paralelismos 35</p><p>Entre parágrafos: OLHO Há normas para escrever Em 1988, Tite de Lemos e eu fomos levar à editora Nova Fronteira os bem, mas é preciso ter cuidado para não se originais dos nossos livros, Bella Donna e De cor, respectivamente. Seria tornar escravo delas. Os o nosso terceiro lançamento juntos. grandes escritores só foram grandes porque Em 1979, começamos uma parceria que só veio incrementar nosso romperam com certas normas da escrita. conhecimento antigo com uma amizade nova em folha. Naquele ano ele lançou Marcas do Zorro e eu, À mão [...] FREITAS FILHO, Armando. É sempre hoje quando perdemos alguém. Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 nov. 2010. Caderno p. 9. Os dois parágrafos começam pela citação de duas datas que o poeta Armando Freitas Filho julgou importantes para abrir cada um deles. Assim, ele criou duas construções paralelas, que ajudam a dar sequenciação a seu pensamento: "Em 1988 [...]", e depois "Em 1979 [...]". Uma última palavra: os paralelismos conferem uma melhor fei- ção à frase, trazendo mais clareza às ideias ali expostas. Trata- -se de um recurso de coesão muito enriquecedor do estilo, quando bem elaborado. o que você não pode fazer é transformar sua busca numa obsessão, o que pode ser estendido a tudo o que diz respeito a redação. ATIVIDADES 1. Reescreva as frases que se seguem utilizando pa- f) o erotismo exagerado não é só um problema da ralelismos. televisão, mas os outdoors e revistas também apelam para ele. a) Só teremos um país realmente desenvolvido quando não houver mais descaso com a educa- g) Um povo sem educação não sabe como resol- ção e os doentes tiverem bons hospitais. ver seus problemas nem seus representantes b) Para um país se desenvolver, é preciso criar são bem escolhidos. boas escolas e que promova o desenvolvimen- h) o ministro negou que seu assessor tivesse se to apropriado do dinheiro da campanha e que en- c) Cabe a cada um de nós escolher o que assistir riqueceu ilicitamente em pouco tempo. na televisão e as crianças deviam ter horário para ver seus programas. i) o técnico da seleção está cheio de esperanças com o novo time e que tem a possibilidade de d) Certos programas da TV aberta podem preju- chegar à final. dicar a formação da criança e o adolescente também fica com a mente deturpada. j) As pessoas aplicam conceitos numéricos ao e) o homem tem várias formas de lazer à sua dispo- calcular o salário, quando utilizam um compu- sição: viagens, ir ao teatro, ler, assistir a um filme. tador ou se fazem qualquer compra. 36 Parte 1: A caminho do texto</p>

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