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<p>1</p><p>NEAD – Núcleo de Educação a Distância</p><p>ROTAS DE APRENDIZAGEM</p><p>Linguística I | Estudos Linguísticos | Aula 01</p><p>Onde Chegar</p><p>• Nesta Rota você, aluno, vai ter contato com os principais conceitos de língua, ligados a</p><p>diferentes correntes teóricas. Vai também visualizar essas correntes ao longo da história</p><p>e identificar a diacronia dos estudos linguísticos a partir dos principais teóricos, tanto no</p><p>continente europeu quanto americano.</p><p>• Conceituar, definir, refletir</p><p>O que Aprender</p><p>• Conceituação e terminologia</p><p>• Evolução histórica</p><p>• Principais correntes teóricas</p><p>Desenvolvimento</p><p>AULA</p><p>01</p><p>Os estudos linguísticos</p><p>Linguística I</p><p>2</p><p>NEAD – Núcleo de Educação a Distância</p><p>ROTAS DE APRENDIZAGEM</p><p>Linguística I | Estudos Linguísticos | Aula 01</p><p>Caros alunos, esta disciplina vai tratar, em especial, do sistema sonoro das línguas. No</p><p>entanto, antes de adentrarmos esse tema, tão importante para os estudos linguísticos,</p><p>vamos tratar de questões conceituais, históricas e teóricas, que vão servir de fundamento</p><p>para nossos estudos sobre os sons da língua.</p><p>CONCEITOS DE LÍNGUA</p><p>Vamos começar com conceito de língua. O que é língua para você? Já pensou nisso?</p><p>Antes de qualquer estudo sobre linguagem, é muito importante pensar qual conceito de</p><p>língua vai fundamentar o estudo. Para uma discussão sobre conceitos de língua, vamos</p><p>nos basear em dois textos – Travaglia (2002) e Xavier e Cortez (2003).</p><p>Travaglia (2002) aponta para três diferentes conceitos de língua, principalmente com</p><p>foco no trabalho pedagógico. O primeiro deles é a língua como expressão do</p><p>pensamento, que o autor associa ao ensino da gramática tradicional, com foco na norma.</p><p>A língua como meio de comunicação é o segundo conceito trazido por Travaglia, que</p><p>indica o ensino da língua como código, ou seja, um conjunto de signos linguísticos que se</p><p>combinam a partir de regras. Em vez da perspectiva prescritiva da gramática tradicional,</p><p>esse conceito parte de uma ótica descritiva de língua. A terceira concepção é a de língua</p><p>como ação, com os sujeitos exercendo práticas sociais através da linguagem. Esse</p><p>terceiro conceito, segundo o autor, nasce do conceito de sujeito histórico ideológico</p><p>encontrado em Bakhtin. Corroborando essa asserção de Travaglia, Barros (2007) afirma</p><p>que Bakhtin “considera não apenas que a linguagem é fundamental para a comunicação,</p><p>mas que a interação dos interlocutores funda a linguagem” (p. 26).</p><p>Xavier e Cortez (2007), em Conversas com Linguistas: virtudes e controvérsias da</p><p>linguística, que literalmente descreve conversas com diversos linguistas brasileiros,</p><p>fazem a primeira pergunta a cada um deles: Que é língua? Ao longo do livro, podemos</p><p>verificar que os 18 linguistas que conversam com as autoras expõem suas concepções de</p><p>língua a partir das concepções teóricas que embasam suas pesquisas. Vamos tratar de</p><p>dois exemplos aqui, mas recomendo a leitura do livro, que é bastante elucidativo sobre</p><p>a linguística no Brasil.</p><p>Fiorin (2007), pesquisador da semiótica, pragmática e análise do discurso, pensa na</p><p>linguagem humana como “a condensação de todas as experiências históricas de uma</p><p>dada comunidade” (p. 72). Albano (2007), autora do livro “Gesto e suas bordas”, afirma</p><p>que a língua é gesto. Afirma, ainda, que “uma língua, evolutivamente, por uma</p><p>perspectiva filogenética, é esse meio de comunicação que evolui da comunicação dos</p><p>3</p><p>NEAD – Núcleo de Educação a Distância</p><p>ROTAS DE APRENDIZAGEM</p><p>Linguística I | Estudos Linguísticos | Aula 01</p><p>primatas e que coloca na boca um gesto visível, audível, táctil, do qual se tem</p><p>propriocepção” (p.26).</p><p>Outras concepções de linguagem, mais atuais nos estudos da linguagem, são:</p><p>• a língua como estatística, probabilística, estocástica – a língua é fruto do uso e</p><p>da frequência dos itens com que determinados padrões se repetem (Bybee,</p><p>2001).</p><p>• a língua como um sistema adaptativo complexo – assim como qualquer</p><p>sistema complexo, a língua é dinâmica, sensível às condições iniciais, dotada de</p><p>subsistemas interconectados, emergência de estados atratores, e variação</p><p>tanto intra como entre indivíduos (Larsen-Freeman e Cameron, 2008).</p><p>Enfim, é muito importante, ao se tratar de concepções teóricas, compreender a</p><p>concepção de linguagem que embasa os pressupostos.</p><p>E, então, você tem preferência por algum dos conceitos apresentados?</p><p>Agora, vamos tratar da história e das principais correntes teóricas que deram origem aos</p><p>estudos em fonética e fonologia, ou seja, aos estudos dos sons da fala.</p><p>A LINGUÍSTICA PRÉ-SAUSSURIANA</p><p>Embora Ferdinand de Saussure seja considerado o pai da linguística, isso não significa</p><p>que a língua não era estudada antes de Saussure. O chamado “mestre genebrino” foi um</p><p>estudioso da língua e professor de linguística que estruturou os estudos da linguagem e</p><p>deu início ao movimento chamado estruturalismo. Antes, porém, de falar de</p><p>estruturalismo, vamos discutir sobre os estudos da linguagem anteriores a Saussure.</p><p>Carvalho (2003) nos apresenta três fases sucessivas de estudos da linguagem antes que</p><p>a linguística adquirisse status de ciência no início do século XIX. São estas as três fases:</p><p>1. Fase filosófica – as discussões sobre a linguagem se davam, principalmente,</p><p>sobre a relação entre a palavra e o objeto nomeado. As discussões,</p><p>eminentemente práticas, se baseavam na Lógica dos analogistas (doutrina</p><p>aristotélica) ou no uso corrente dos anomalistas (doutrina do estoicismo).</p><p>2. Fase filológica – havia preocupação apenas com a língua escrita, com a crítica a</p><p>textos literários. Os estudos tinham uma perspectiva normativo-prescritiva.</p><p>Surgiram aí os gramáticos alexandrinos, que queriam uma gramática mais</p><p>filológica e menos filosófica.</p><p>4</p><p>NEAD – Núcleo de Educação a Distância</p><p>ROTAS DE APRENDIZAGEM</p><p>Linguística I | Estudos Linguísticos | Aula 01</p><p>3. Fase histórico-comparatista – com a descoberta do sânscrito, uma língua</p><p>ancestral do Nepal e da Índia, revelam-se relações de parentesco genético do</p><p>latim, do grego e de outras línguas com essa língua antiga. Inicia-se, então, uma</p><p>nova fase, com preocupação diacrônica, isto é, com a história das línguas e</p><p>começam os estudos de comparação entre línguas.</p><p>Nessa fase, formam-se dois grupos de estudiosos, com tendências diferentes</p><p>para as leis da linguística: um grupo que identificava as línguas com o viés das</p><p>ciências da natureza, com o biologismo linguístico: as línguas nascem, crescem</p><p>e morrem; e outro grupo, que caracterizava as línguas como instrumentos</p><p>culturais, condicionados por fatores sociais, históricos, geográficos,</p><p>psicológicos. O primeiro grupo, representado pelos neogramáticos, preocupava-</p><p>se com a história interna da língua; o segundo, dos linguistas históricos,</p><p>preocupava-se com fatores externos, condicionadores da língua.</p><p>Nessa terceira fase, a comparatista, aparece Ferdinand de Saussure (1857-1913).</p><p>A LINGUISTICA SASSURIANA</p><p>Saussure recebe sua formação acadêmica no comparativismo e, anos mais tarde,</p><p>criticando esse movimento por não se preocupar em determinar a natureza de seu objeto</p><p>de estudo (Saussure, 1997), coloca em ordem os estudos linguísticos (Carvalho, 2003).</p><p>Criou suas famosas dicotomias e estabeleceu o início do estruturalismo.</p><p>Como não vamos tratar neste momento das dicotomias de Saussure, recomendo a leitura</p><p>de Dias e Gomes (2015) ou de Silva (2011) para uma revisão. No momento, interessa-nos</p><p>lembrar que a publicação póstuma do livro Cours de Linguistique Génerale, de Ferdinand</p><p>de Saussure, por alguns de seus alunos, deu início ao estruturalismo na linguística. Essa</p><p>corrente teórica teve duas vertentes:</p><p>1. Estruturalismo europeu – fundamentado nas ideias de Saussure.</p><p>2. Estruturalismo americano – também denominado linguística descritiva,</p><p>associou-se à psicologia behaviorista e teve como um dos principais nomes, o</p><p>do linguista Leonard Bloomfield.</p><p>A REVOLUÇÃO CHOMSKYANA</p><p>Noam</p><p>Chomsky, um dos principais pensadores da nossa era, estava terminando seu</p><p>Doutorado no final da década de 1950 quando, ao publicar um artigo criticando as ideias</p><p>5</p><p>NEAD – Núcleo de Educação a Distância</p><p>ROTAS DE APRENDIZAGEM</p><p>Linguística I | Estudos Linguísticos | Aula 01</p><p>behavioristas na linguagem, coloca os pressupostos do estruturalismo em xeque. Dando</p><p>início ao gerativismo, teoria que vai substituir o estruturalismo na linguística, define a</p><p>linguagem como uma herança genética do ser humano. Sua gramática gerativa, por</p><p>quase quatro décadas, sofre várias reformulações, mas a espinha dorsal da teoria, a do</p><p>inatismo linguístico, permanece sólida ao longo do tempo. A partir do gerativismo, os</p><p>estudos linguísticos se concentram em duas formas de estudos:</p><p>Formalismo – o poder explicativo está na própria língua, que é um objeto autônomo,</p><p>abstrato e mental. Não considera as relações da língua com o contexto ou o meio de</p><p>interação.</p><p>Funcionalismo - prioriza a relação sistemática entre as formas e as funções que</p><p>desempenham no processo comunicativo.</p><p>Encerramos aqui esta primeira aula adiantando que na próxima vamos continuar</p><p>conversando sobre correntes teóricas, mas dessa vez inserindo a fonologia e,</p><p>consequentemente, a fonética dentro dos estudos linguísticos. Antecipamos também</p><p>como a fonologia se apresenta dentro da estrutura gramatical no esquema de Pinker</p><p>(2000). Assim vamos começar nosso próximo encontro. Até lá!</p><p>Vá mais longe</p><p>6</p><p>NEAD – Núcleo de Educação a Distância</p><p>ROTAS DE APRENDIZAGEM</p><p>Linguística I | Estudos Linguísticos | Aula 01</p><p>Capítulo Norteador: Capítulo 1 - Conceitos e história; Capítulo II – Dois grandes</p><p>momentos da linguística e suas repercussões. DIAS, Luzia Schalkoski; GOMES, Maria</p><p>Lucia de Castro. Estudos Linguísticos: dos Problemas Estruturais aos Novos Campos de</p><p>Pesquisa. Curitiba: Editora Intersaberes, 2015. Biblioteca Virtual.</p><p>Para saber mais de Saussure, assista o bate papo com os professores e autores Carlos</p><p>Alberto Faraco e Marcio Alexandre Cruz sobre os 100 anos de publicação do Curso de</p><p>Linguística Geral de Saussure, comemorado em 2016.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=Tj9gFyrLy-g</p><p>Sobre Chomsky, recomendo um vídeo de uma conversa com o próprio linguista na</p><p>Universidade de Washington em 1989 sobre o conceito de linguagem. O vídeo está em</p><p>inglês com legendas em português. Vale a pena ver!</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=W53UvJoLAwI</p><p>Agora é sua vez!</p><p>Interação</p><p>Assistam os trechos indicados dos vídeos recomendados acima para discussão sobre</p><p>Saussure e sobre Chomsky.</p><p>1. Assista ao primeiro vídeo – conversas sobre os 100 anos de publicação do</p><p>Curso de Linguística Geral de Saussure – trecho 25m a 32m e discuta sobre as</p><p>leituras dos linguistas russos Valentin Volóchinov e Mikhail Bakhtin sobre o</p><p>livro de Saussure.</p><p>2. Assista aos primeiros cinco minutos do segundo vídeo – conversa com Noam</p><p>Chomsky – e discuta sobre o conceito de língua nacional trazida pelo linguista.</p><p>Questão para Simulado</p><p>Considerando os diversos conceitos de linguagem apresentados neste capítulo, assinale</p><p>a alternativa incorreta.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=Tj9gFyrLy-g</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=W53UvJoLAwI</p><p>7</p><p>NEAD – Núcleo de Educação a Distância</p><p>ROTAS DE APRENDIZAGEM</p><p>Linguística I | Estudos Linguísticos | Aula 01</p><p>a) A linguagem como expressão do pensamento tem embasado o ensino de</p><p>gramática normativa.</p><p>b) Língua como ação considera fatores culturais, sociais e históricos dos</p><p>participantes no ato comunicativo.</p><p>c) A língua como um sistema adaptativo complexo tem a língua como estática e</p><p>invariável.</p><p>d) A visão de língua como gesto embasa o modelo gestual da fonologia.</p><p>Resposta: Letra c</p><p>Comentário: A visão de língua como SAC (Sistema Adaptativo Complexo) tem a língua</p><p>como dinâmica, não-linear, imprevisível.</p><p>Referências</p><p>• ALBANO, Eleonora C. Eleonora Cavalcanti Albano. In: XAVIER, Antonio Carlos; CORTEZ,</p><p>Suzana. Conversa com linguistas: virtudes e controvérsias da linguística. São Paulo:</p><p>Parábola, 2007, p. 25-35.</p><p>• BARROS, Diana Luz Pessoa. Contribuições de Bakhtin às teorias do texto e do discurso.</p><p>In: FARACO, Carlos Alberto; TEZZA, Cristóvão; CASTRO, Gilberto de. Diálogos com</p><p>Bakhtin. Curitiba: Editora UFPR, 2007, p. 21-38.</p><p>• BOD, Ren; HAY, Jennifer; JANNEDY, Stefanie. Probabilistic Linguistics. Cambridge: MIT</p><p>Press, 2003.</p><p>• BYBEE, Joan. Phonology and Language Use. Cambridge: CUP, 2001.</p><p>• CARVALHO, Castelar. Para compreender Saussure. Petrópolis: Vozes, 2003.</p><p>• CHOMSKY, Noam, HALLE, Morris. The sound Pattern of English. New York: Harper &</p><p>Row, 1968.</p><p>• DIAS, Luzia S.; GOMES, Maria Lúcia de C. Estudos Linguísticos: dos problemas estruturais</p><p>aos novos campos de pesquisa. IBPEX: Curitiba, 2008.</p><p>• FIORIN, José Luiz. José Luiz Fiorin. In: XAVIER, Antonio Carlos; CORTEZ, Suzana. Conversa</p><p>com linguistas: virtudes e controvérsias da linguística. São Paulo: Parábola, 2007, p. 71-</p><p>90.</p><p>• LARSEN-FREEMAN, Diane.; CAMERON, Lynne. Complex Systems and Applied Linguistics.</p><p>Oxford: Oxford University Press, 2008.</p><p>• PINKER, Steven. Words and Rules: The Ingredients of Language. New York: Perennial</p><p>(2000).</p><p>• SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. 20ª. ed. São Paulo: Cultrix, 1997.</p><p>8</p><p>NEAD – Núcleo de Educação a Distância</p><p>ROTAS DE APRENDIZAGEM</p><p>Linguística I | Estudos Linguísticos | Aula 01</p><p>• SILVA, FernandO Moreno da. As dicotomias saussurianas e suas implicações sobre os</p><p>estudos linguísticos. Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas, vol.</p><p>3, n. 2, 2011, p. 38-55.</p><p>• TRAVAGLIA, L. C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no</p><p>1º e 2º graus. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2002.</p><p>• XAVIER, Antonio Carlos; CORTEZ, Suzana. Conversa com linguistas: virtudes e</p><p>controvérsias da linguística. São Paulo: Parábola, 2007, p. 71-90.</p>