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<p>2018</p><p>Estudos LitErários da</p><p>Língua EspanhoLa</p><p>Prof. Wellington Freire Machado</p><p>Copyright © UNIASSELVI 2018</p><p>Elaboração:</p><p>Prof. Wellington Freire Machado</p><p>Revisão, Diagramação e Produção:</p><p>Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI</p><p>Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri</p><p>UNIASSELVI – Indaial.</p><p>Impresso por:</p><p>M149e</p><p>Machado, Wellington Freire</p><p>Estudos literários da língua espanhola. / Wellington Freire Machado</p><p>– Indaial: UNIASSELVI, 2018.</p><p>176 p.; il.</p><p>ISBN 978-85-515-0207-5</p><p>1.Língua espanhola – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.</p><p>CDD 460</p><p>III</p><p>aprEsEntação</p><p>Prezado estudante</p><p>É com satisfação e entusiasmo que apresentamos a você o presente</p><p>livro de Estudos Literários de Língua Espanhola. Este trabalho foi estruturado</p><p>de acordo com o alto padrão de qualidade estabelecido pela UNIASSELVI.</p><p>Esta disciplina possui um caráter iniciador no âmbito dos estudos</p><p>literários de língua espanhola. Além disso, salientamos que ao longo do</p><p>presente trabalho não efetuaremos uma divisão geográfica entre a literatura</p><p>produzida na Espanha contraposta à literatura produzida na América Latina:</p><p>a língua, para nós, é o principal agente unificador das literaturas produzidas</p><p>nos dois lados do oceano.</p><p>A nossa viagem ao longo da disciplina preconizará questões</p><p>conceituais – sendo importante para nós, assim, autores dos dois lados do</p><p>Oceano Atlântico, períodos e formas de expressão artística no âmbito dos</p><p>estudos hispânicos.</p><p>Com essa base, você estará suficientemente instrumentalizado para</p><p>adentrar futuramente em questões de maior grau de complexidade.</p><p>Nós, embebidos de motivação e desejo de que você logre o melhor</p><p>aproveitamento possível, esperamos que este livro seja tão útil e prazeroso</p><p>para você como o foi para nós durante o processo de composição e redação.</p><p>Explore com sabedoria e curiosidade intelectual o mundo do curso de Letras</p><p>– Espanhol da UNIASSELVI.</p><p>Prof. Wellington Freire Machado</p><p>IV</p><p>Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfi m, tanto</p><p>para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é</p><p>veterano, há novidades em nosso material.</p><p>Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é</p><p>o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um</p><p>formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.</p><p>O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova</p><p>diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também</p><p>contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.</p><p>Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,</p><p>apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade</p><p>de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.</p><p>Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para</p><p>apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto</p><p>em questão.</p><p>Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas</p><p>institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa</p><p>continuar seus estudos com um material de qualidade.</p><p>Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de</p><p>Desempenho de Estudantes – ENADE.</p><p>Bons estudos!</p><p>NOTA</p><p>Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos</p><p>materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais</p><p>os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais</p><p>que possuem o código QR Code, que é um código</p><p>que permite que você acesse um conteúdo interativo</p><p>relacionado ao tema que você está estudando. Para</p><p>utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos</p><p>e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar</p><p>mais essa facilidade para aprimorar seus estudos!</p><p>UNI</p><p>V</p><p>VI</p><p>VII</p><p>UNIDADE 1 – A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E</p><p>O CONTEMPORÂNEO ............................................................................................... 1</p><p>TÓPICO 1 – NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA DA</p><p>LITERATURA HISPANO-AMERICANA .................................................................... 3</p><p>1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3</p><p>2 A SOLIDÃO DA AMÉRICA LATINA EM GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ ........................... 4</p><p>3 JORGE LUIS BORGES, A ERUDIÇÃO E O CÂNONE OCIDENTAL ....................................... 10</p><p>4 O SOBRENATURAL E A HISTÓRIA DO MÉXICO EM CARLOS FUENTES ....................... 14</p><p>5 A MAGNUS OPUS DE JULIO CORTÁZAR .................................................................................... 20</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 24</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 25</p><p>TÓPICO 2 – O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES</p><p>SELECIONADOS.............................................................................................................. 27</p><p>1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 27</p><p>2 FICÇÃO E NÃO FICÇÃO: OS PRIMEIROS ENSAÍSTAS: CRISTÓVÃO COLOMBO</p><p>E FRAY BARTOLOMÉ DE LAS CASAS .......................................................................................... 28</p><p>3 RAMÓN MENÉNDEZ PIDAL E A HISTÓRIA DA LITERATURA ........................................... 34</p><p>4 JOSÉ ORTEGA Y GASSET E A FILOSOFIA .................................................................................. 39</p><p>5 A HETEROGENEIDADE EM ANTONIO CORNEJO POLAR ................................................... 41</p><p>6 HUGO ACHUGAR E A CONTEMPORANEIDADE ..................................................................... 43</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 46</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 48</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 49</p><p>UNIDADE 2 – A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL .................... 51</p><p>TÓPICO 1 – A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: UMA PRIMEIRA APROXIMAÇÃO .... 53</p><p>1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 53</p><p>2 O PERÍODO INICIAL DA LÍRICA CASTELHANA: POEMA DE DEBATE ........................... 54</p><p>2.1 DISPUTA DEL ALMA Y EL CUERPO .......................................................................................... 55</p><p>2.2 RAZÓN DE AMOR CON LOS DENUESTOS DEL AGUA Y DEL VINO .............................. 56</p><p>2.3 DIÁLOGO DE ELENA Y MARÍA ................................................................................................ 58</p><p>3 A POESIA RELIGIOSA DE BERCEO: CLÉRIGOS, SANTAS E DEVOÇÃO ........................... 61</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 65</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 66</p><p>TÓPICO 2 – A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE POÉTICA . .............................................. 69</p><p>1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................</p><p>de las Casas sobre a invasão de Nueva</p><p>España, Pánuco e Jalisco</p><p>Entre otros muchos hizo herrar por esclavos injustamente, siendo</p><p>libres como todos lo son, cuatro mil y quinientos hombres y mujeres</p><p>y niños de un año a las tetas de las madres, y de dos y tres y cuatro</p><p>y cinco años, aun saliéndole a recibir de paz, sin otros infinitos que</p><p>no se contaron. Acabadas infinitas guerras inicuas e infernales y</p><p>matanzas en ellas que hizo, puso toda aquella tierra en la ordinaria</p><p>y pestilencial servidumbre tiránica, que todos los tiranos cristianos</p><p>de las Indias suelen y pretenden poner a aquellas gentes. En la cual</p><p>consintió hacer a sus mismos mayordomos y a todos los demás</p><p>crueldades y tormentos nunca oídos por sacar a los indios oro y</p><p>tributos.</p><p>Mayordomo suyo mató muchos indios ahorcándolos y quemándolos</p><p>vivos y echándolos a perros bravos y cortándoles pies y manos y</p><p>cabezas y lenguas, estando los indios de paz, sin otra causa alguna</p><p>más de por amedrentallos, para que le sirviesen y diesen oro y</p><p>tributos, viéndolo y sabiéndolo el mismo egregio tirano, sin muchos</p><p>azotes crueles y palos y bofetadas y otras especies de crueldades que</p><p>en ellos hacían cada día y cada hora ejercitaban.</p><p>Dícese dél que ochocientos pueblos destruyó y abrasó en aquel reino</p><p>de Jalisco, por lo cual fue causa que de desesperados (viéndose todos</p><p>los demás tan cruelmente perecer) se alzasen y fuesen a los montes</p><p>y matasen muy justa y dignamente algunos españoles. Y después,</p><p>con las injusticias y agravios de otros modernos tiranos que por allí</p><p>pasaron para destruir otras provincias, que ellos llaman descubrir,</p><p>se juntaron muchos indios haciéndose fuertes en ciertos peñones, en</p><p>los cuales ahora de nuevo han hecho en ellos tan grandes crueldades</p><p>que cuasi han acabado de despoblar y asolar toda aquella gran tierra,</p><p>matando infinitas gentes (DE LAS CASAS, 2006, p. 86-87).</p><p>Se, em meados de 1500, Bartolomé de las Casas nos oferece um estilo</p><p>de ensaio muito próximo a uma crônica de viagem, séculos depois – mais</p><p>especificamente no século XIX – surge um dos maiores historiadores e ensaístas</p><p>da literatura espanhola de todos os tempos: Ramón Menéndez Pidal.</p><p>3 RAMÓN MENÉNDEZ PIDAL E A HISTÓRIA DA LITERATURA</p><p>Ramón Menéndez Pidal nasceu en La Coruña em 1869. Atualmente se</p><p>reconhece Menéndez Pidal como um dos maiores medievalistas de todos os</p><p>tempos. Ao longo de sua vida, o autor se dedicou ao estudo da literatura espanhola</p><p>do período medieval, realizando estudos importantes sobre obras como El Cantar</p><p>de Mio Cid, Don Quijote de la Mancha, o códice de San Pedro de Cardeña e outros.</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>35</p><p>Hoje, ao lançarmos um olhar sobre a literatura espanhola do período</p><p>medieval, não cabe lugar a dúvidas de que a obra de Menéndez Pidal é um marco</p><p>de referência para ajudar-nos na compreensão de tópicos importantes.</p><p>DICAS</p><p>Você pode encontrar alguns ensaios de Menéndez Pidal diretamente no website</p><p>da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. O material é disponibilizado gratuitamente e pode ser</p><p>visualizado em pdf.</p><p>Para acessar, visite: <http://www.cervantesvirtual.com/obras/autor/menendez-pidal-ramon-</p><p>1869-1968-2391>.</p><p>O website oficial da Fundación Menéndez Pidal também possibilita ao usuário o acesso a</p><p>parte da obra do autor.</p><p>Visite: <http://www.fundacionramonmenendezpidal.org/index.php/publicaciones/obras-</p><p>digitalizadas>.</p><p>Na figura a seguir, um registro de Menéndez Pidal e María Goyri fazendo</p><p>o caminho de El Cid, em 1920.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>36</p><p>FIGURA 13 – MENÉNDEZ PIDAL E MARÍA GOYRI</p><p>FONTE: <http://www.fundacionramonmenendezpidal.org/images/Mz_Pidal_y_Mar_a_Goyri.</p><p>jpg>. Acesso em: 24 maio 2018.</p><p>Observe o ensaio escrito por Menéndez Pidal sobre os dados biográficos</p><p>relativos ao primeiro grande herói espanhol, Mio Cid:</p><p>Año y lugar del nacimiento del Cid</p><p>Designado por el señor Director de la Academia para redactar el informe</p><p>pedido en R.O del Ministerio de Instrucción Pública con ocasión de un reciente</p><p>proyecto de Centenario del nacimiento del Cid, tengo el honor de someter a la</p><p>Academia la siguiente constatación:</p><p>No hay dato alguno que permita fijar la fecha ni el lugar de nacimiento</p><p>de Rodrigo Diáz el Campeador. Nada dice sobre el particular la crónica especial</p><p>consagrada al héroe, Historia Roderici Campidocti, obra muy poco posterior a</p><p>la muerte del mismo; tampoco dicen nada los historiadores árabes coetáneos.</p><p>Este silencio obedece a los hábitos corrientes de la historiografia de entonces: las</p><p>crónicas de la época nunca se preocupan de expresar el día del nacimiento de</p><p>los reyes más famosos; los personajes interesan tan sólo desde el momento que</p><p>empiezan a realizar hechos notables.</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>37</p><p>De otra parte, los diplomas y otras memorias de aquel tiempo rarísima</p><p>vez consignan datos genealógicos, y nunca fijan el año de nacimiento. Por</p><p>tanto, sólo conjeturalmente se puede adoptar una fecha.</p><p>El padre Barganza, en 1719, fijó el año 1026 para el nacimiento del Cid.</p><p>Pero esa fecha fue ya convencida de falsa por el padre Risco, en 1792, a la luz del</p><p>entonces reciente descubrimiento de la mencionada Historia Roderici, único</p><p>texto autorizado para los primeros años de la vida del héroe. Este texto nos</p><p>asegura que el Cid era aún muy joven al empezar a reinar Sancho II, en 1066.</p><p>Por esta razón, Malo de Molina, en 1857, se limita a decir que el</p><p>nacimiento del Cid hubo de ocurrir entre los años 1040 y 1050.</p><p>Podíamos llegar a una menor vaguedad fijándonos en que, según la</p><p>Historia Roderici, Sancho II armó caballero al Cid y le llevó consigo a la batalla</p><p>de Graus. Esta batalla ocurrió el año 1063 y no hay razón para negar, como</p><p>quieren el padre Moret, Malo de Molina y Dozy, la participación en ella de</p><p>Sancho II, porque éste en 1063 aun no fuese rey sino sólo infante: en contra</p><p>de este reparo, basta recordar que antes de la muerte de Fernando I, su hijo</p><p>se titulaba rey. La Historia Roderici es digna de fe y el Cid, por tanto, se halló</p><p>en Graus como caballero novel. Ahora bien, dado que entonces los jóvenes</p><p>se solian armar caballeros entre los quince y ventiún años, el Cid pudo nacer</p><p>entre 1041 y 1047, que nos da veinte años como edad del Cid en la mencionada</p><p>batalla de Graus.</p><p>Respecto al lugar de nacimiento de Rodrigo Diaz, tampoco hay ninguna</p><p>indicación documental pero el calificativo de Vivar que desde antiguo lleva el</p><p>Campeador, hace casi seguro el que esa aldea burgalesa fue su pueblo nativo.</p><p>Madrid, 25 de julio de 1926.</p><p>R. Menéndez Pidal.</p><p>FONTE: <http://www.cervantesvirtual.com/obras/autor/menendez-pidal-</p><p>ramon-1869-1968-2391>.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>38</p><p>DICAS</p><p>Você conhece?</p><p>El Cantar de Mio Cid ou Poema de Mio Cid é um dos textos mais</p><p>importantes da literatura espanhola. Trata-se de uma epopeia na qual</p><p>narram-se os feitos e as virtudes de Rodrigo Diaz de Vivar, el Campeador.</p><p>Conhecido como Mio Cid, o personagem – supostamente histórico</p><p>– reúne em seu arquétipo heroico características como a justiça, a</p><p>dignidade, a bravura e a compaixão.</p><p>FONTE: <https://mistrabajosdebatxi.files.wordpress.com/2016/10/</p><p>mio-cid.jpg>. Acesso em: 24 maio 2018.</p><p>Perceba que no texto Año y lugar del nacimiento del Cid, o autor galego afirma</p><p>não haver prova documental do ano de nascimento e tampouco do lugar onde</p><p>supostamente nasceu o herói medieval Rodrigo Diaz de Vivar. Em decorrência</p><p>do fato da obra El Mio Cid se tratar de um clássico da literatura espanhola</p><p>e considerando a importância de Menéndez Pidal enquanto medievalista e</p><p>estudioso do tema, o texto acima reproduzido na íntegra possui inegável valor</p><p>histórico-documental.</p><p>Além do caso de Mio Cid, um fato interessante da biografia de</p><p>Menéndez Pidal é o livro El Padre Las Casas: su doble personalidad. O livro trata</p><p>exclusivamente do frei Bartolomé de las Casas, visto anteriormente nesta unidade.</p><p>Na obra, Menéndez Pidal se interessa com afinco pela história do padre narrador,</p><p>descrevendo-o em diversos momentos como um sujeito paranoico dotado de uma</p><p>dupla personalidade. O livro, com 456 páginas, constitui um interessante estudo</p><p>sobre um dos ícones mais significativos da história da literatura espanhola.</p><p>NOTA</p><p>Sobre o estudo El padre las Casas: su doble personalidade,</p><p>observe o que diz o resumo da obra no informativo da Casa del Libro:</p><p>Don Ramón Menéndez Pidal, en 1940, comenzó a interesarse por Fray</p><p>Bartolomé de las Casas, con motivo de tratar de América y Carlos V.</p><p>Su primera impresión fue adversa respecto a Las Casas, al comprobar</p><p>su “intenso y monótono apasionamiento”, siempre violento en acusar</p><p>a conquistadores y encomenderos, siempre melifluo en “exaltar a los</p><p>indios”. En 1956, trató del Padre Victoria y de Las Casas y comprobó</p><p>que la por él calificada de “grave iniquidad” del dominico no era “una</p><p>falta moral, sino intelectual”, lo que aclaró por completo en 1957, al</p><p>examinar documentación fehaciente. Desde entonces, su interés por</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>39</p><p>el problema lascasiano se vio impulsado por la falta de crítica en las biografías del fraile,</p><p>debido a las circunstancias en que se había formado y propagado su fama póstuma, nunca</p><p>fundada en la Historia del descubrimiento de las Indias y en la Apologética de los indios,</p><p>pues se editaron en 1875 y 1909. La fama de Las Casas se debía al opúsculo Destruición</p><p>de las Indias, impreso en Sevilla en 1552, traducido a seis idiomas en más de cincuenta</p><p>ediciones y aplaudido con entusiasmo por ser denigrante para España y porque servía como</p><p>propaganda antiespañola, tanto a los promotores del enfrentamiento en los Países Bajos</p><p>como a potencias enemigas en la guerra de los Treinta años. La propaganda antiespañola</p><p>se fundaba en el opúsculo Destruición de las Indias al que Don Ramón Menéndez Pidal no</p><p>da valor alguno como fuente informativa para la historia, por la imprecisión de los datos que</p><p>ofrece y por haber sido escrito sólo con el fin de mostrar que los españoles no habían hecho</p><p>otra cosa en América que robar, destruir, atormentar y matar millones y millones de indios.</p><p>Cuando escribió Don Ramón Menéndez Pidal el libro que hoy se reedita, La Destrucción de</p><p>las Indias de Las Casas, con algunos fragmentos de otros folletos, era –y continúa siendo</p><p>hoy- el único fundamento de la fama mundial de Fray Bartolomé, acrecentada al erigirlo</p><p>en apóstol los independistas americanos en el primer cuarto del siglo XIX. Con esa fama</p><p>continúa hoy. Don Ramón Menéndez Pidal escribió el libro que hoy reedita la Real Academia</p><p>de la Historia con el fin de contribuir a esclarecer lo que era de verdad esta obra de Las Casas</p><p>y colaborar así a que se formulara una valoración objetiva de las versiones del dominico.</p><p>No lo consiguió, porque este libro de Menéndez Pidal, editado en 1963, se recibió con el</p><p>silencio de quienes habrían de rebatir las afirmaciones que en él se hacen, silencio que</p><p>continúa en nuestros días, como prueba el hecho de que nunca se haya reeditado.</p><p>MENÉNDEZ PIDAL, Ramón. El padre las Casas: su doble personalidad. Madrid: Real Academia</p><p>de la Historia, 2012. Disponível em:<https://www.casadellibro.com/libro-el-padre-las-casas-</p><p>su-doble-personalidad/9788415069539/2131616>.</p><p>4 JOSÉ ORTEGA Y GASSET E A FILOSOFIA</p><p>Contemporâneo de Menéndez Pidal, José Ortega y Gasset nasceu em 1883</p><p>em Madrid. Considerado um dos filósofos espanhóis mais importantes, Ortega</p><p>y Gasset exerceu com maestria a arte do ensaio e deixou uma obra ensaística</p><p>riquíssima. Seu primeiro livro, intitulado Meditaciones del Quijote (1914), serviu</p><p>como uma espécie de base para ideias que o autor desenvolveu posteriormente</p><p>em outras de suas obras. Na época de seu lançamento, o livro não obteve grande</p><p>êxito, mas hoje, no contexto de toda uma produção intelectual relevante, a obra</p><p>recebe um grande apreço por parte da crítica e também dos leitores.</p><p>FIGURA 14 – JOSÉ ORTEGA Y GASSET</p><p>FONTE:<https://amenteemaravilhosa.com.br/wp-content/uploads/2018/02/fotografia-orteg</p><p>a-y-gasset-1024x576.jpg>. Acesso em: 25 maio 2018.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>40</p><p>A obra de Ortega y Gasset é importante porque nos mostra um interessante</p><p>processo sinérgico entre a filosofia e a literatura nas letras hispânicas, tudo isso</p><p>manifestado no ensaio. O trecho que você lerá a seguir constitui um dos textos</p><p>mais lidos e relidos do autor madrilenho:</p><p>El hombre rinde el máximum de su capacidad cuando adquiere la plena</p><p>conciencia de sus circunstancias. Por ellas comunica con el universo.</p><p>¡La circunstancia! ¡Circum-stantia! ¡Las cosas mudas que están en</p><p>nuestro próximo derredor! Muy cerca, muy cerca de nosotros levantan</p><p>sus tácitas fisonomías con un gesto de humildad y de anhelo, como</p><p>menesterosas de que aceptemos su ofrenda y a la par avergonzadas</p><p>por la simplicidad aparente de su donativo. Y marchamos entre ellas</p><p>ciegos para ellas, fija la mirada en remotas empresas, proyectados</p><p>hacia la conquista de lejanas ciudades esquemáticas. Pocas lecturas me</p><p>han movido tanto como esas historias donde el héroe avanza raudo y</p><p>recto, como un dardo, hacia una meta gloriosa, sin parar mientes que</p><p>va a su vera con rostro humilde y suplicante la doncella anónima que</p><p>le ama en secreto, llevando en su blanco cuerpo un corazón que arde</p><p>por él, ascua amarilla y roja donde en su honor se queman aromas.</p><p>Quisiéramos hacer al héroe una señal para que inclinara un momento</p><p>su mirada hacia aquella flor encendida de pasión que se alza a sus</p><p>pies. Todos, en varia medida, somos héroes y todos suscitamos en</p><p>torno humildes amores (ORTEGA Y GASSET, 2005, p. 9-10).</p><p>Percebemos, nesse trecho, a máxima de que o homem é o resultado de suas</p><p>circunstâncias. Para Ortega y Gasset (2005), as situações que conformam a vida de</p><p>cada indivíduo são potencialmente importantes no processo de comunicação do</p><p>homem com o mundo. A plena consciência de quem se é e do que se tem em volta,</p><p>em instância última, pode ser entendida como a maior riqueza do ser humano. No</p><p>pensamento do filósofo espanhol, é enigmática a imagem do herói literário que</p><p>se dirige ao seu objetivo final e, ao mesmo tempo, é incapaz de observar o olhar</p><p>da donzela anônima que tanto o ama em segredo. Ortega y Gasset nos lembra</p><p>que todos nós somos heróis e que é necessário cercar-se de humildes amores. Esta</p><p>metáfora diz mais sobre nossa relação com o mundo do que da relação amorosa</p><p>do homem em si: quando nos realizamos e nos conectamos com quem somos,</p><p>podemos alcançar a plenitude através da admiração que suscitamos no outro.</p><p>DICAS</p><p>A edição crítica do livro Meditaciones del Quijote, da</p><p>editora espanhola Cátedra, é uma das mais completas</p><p>disponíveis no mercado editorial.</p><p>Por se tratar de uma edição crítica a cargo de Julián Marías, a obra</p><p>possui notas de rodapé e considerações importantes que situam</p><p>o leitor no âmbito do ensaio do pensador espanhol e da proposta</p><p>filosófica deste.</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>41</p><p>Atualmente podemos encontrar a obra completa do autor, que legou</p><p>uma vasta produção, reunida em publicações das editoras espanholas Alianza</p><p>Editorial, Taurus e Santillana Ediciones. A obra completa abrange um total de dez</p><p>tomos, que abarcam os anos de 1902 até 1955.</p><p>5 A HETEROGENEIDADE EM ANTONIO CORNEJO POLAR</p><p>No âmbito da literatura hispano-americana, surgiram críticos literários</p><p>que se propuseram a interpretar e compreender os processos culturais envolvidos</p><p>na produção literária. Entre tantos críticos importantes – como Nestor García</p><p>Canclini, Angel Rama, Roberto Fernández Retamar e tantos outros –, cabe</p><p>mencionar a obra de Antonio Cornejo Polar. As razões que alçam Polar ao</p><p>reconhecimento se devem pela relevância do pensamento do autor, equiparado</p><p>– em nível de América Latina – a nomes como Antonio Candido, Ángel Rama e</p><p>Beatriz Sarlo.</p><p>Mas quem foi Antonio Cornejo</p><p>Polar? O autor nasceu em Arequipa</p><p>(Peru) em 1936. Ao longo de sua brilhante trajetória, Polar foi professor e reitor</p><p>da Universidad Nacional Mayor de San Marcos, uma das universidades latino-</p><p>americanas de maior prestígio, e também teve incursões em universidades</p><p>estadunidenses, atuando como professor visitante na Universidade de Pittsburgh,</p><p>na Universidade de Berkeley e também na Universidade Central da Venezuela.</p><p>FIGURA 15 – ANTONIO CORNEJO POLAR</p><p>FONTE: <http://www.casadelaliteratura.gob.pe/wp-content/uploads/2016/07/</p><p>AntonioCornejoPolarHermanSchwarz.jpg>. Acesso em: 25 maio 2018.</p><p>Ao se debruçar sobre a literatura peruana, o teórico atingiu um nível</p><p>analítico tão acurado que na atualidade importantes críticos reconhecem o</p><p>trabalho de Cornejo Polar como essencial para a compreensão da realidade</p><p>latino-americana. O principal contributo teórico-analítico trazido pelas mãos de</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>42</p><p>FIGURA 16 – INDÍGENA PERUANA</p><p>FONTE: <https://pixabay.com/pt/peru-mulher-of%C3%ADcio-peruana-latim-1146200/>.</p><p>Acesso em: 25 maio 2018.</p><p>Cornejo Polar é o conceito de heterogeneidade. A heterogeneidade – marcada</p><p>pela presença forte do prefixo grego ἕτερος [héteros], que significa diferente</p><p>– constitui, em linhas gerais, o encontro do colonizador com o nativo andino</p><p>em primeira instância e latino-americano em um aporte geral. O choque entre</p><p>o colonizador e as populações indígenas, negras e mestiças resulta na fusão que</p><p>dará a tônica de toda uma produção de cultura na América Latina. De acordo com</p><p>Raúl Bueno (2013, p. 19-20), em seu texto Sobre la heteroneidad literaria y cultural en</p><p>América Latina:</p><p>En contraste con las otras categorías acá consideradas, como</p><p>transculturación, mestizaje, diversidad, alternatividad o hibridez,</p><p>que aluden a procesos meramente culturales o raciales, el concepto</p><p>de heterogeneidad refiere a los procesos históricos que arraigan en</p><p>la base misma de las diferencias sociales, culturales, literarias, etc,</p><p>de la realidad latinoamericana. Incluso, en la base de las diferencias</p><p>culturales y raciales que funcionan como establecedoras de clases en</p><p>América Latina: el indio, el negro, el mestizo. La heterogeneidad es</p><p>además el futuro más visible de América Latina. Quinientos años de</p><p>choque cultural no han hecho más que añadir diversidad y conflicto</p><p>a la heterogeneidad de base. Seamos claros: la diversidad no va a</p><p>desaparecer de la noche a la mañana. Y es más: ahora resulta que</p><p>tampoco queremos que desaparezca, pues es parte de nuestra riqueza</p><p>cultural y base imprescindible de nuestro futuro.</p><p>A heterogeneidade, enquanto conceito, surge como uma proposta que visa</p><p>expandir o pensamento crítico da época. O próprio Cornejo Polar, ao longo de</p><p>sua obra, reflete sobre o alcance insuficiente de conceitos como "transculturación",</p><p>cunhado pelo antropólogo cubano Fernando Ortíz.</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>43</p><p>DICAS</p><p>Você pode conhecer mais sobre a obra de Antonio</p><p>Cornejo Polar através das recentes compilações de textos lançadas</p><p>pelo Fondo Editorial de la Asamblea Nacional de Rectores, do Peru:</p><p>CORNEJO POLAR, Antonio. Crítica de la razón heterogénea. Textos</p><p>esenciales (I). Lima: Fondo Editorial de la Asamblea Nacional de</p><p>Rectores, 2013.</p><p>CORNEJO POLAR, Antonio. Crítica de la razón heterogénea. Textos</p><p>esenciales (II). Lima: Fondo Editorial de la Asamblea Nacional de</p><p>Rectores, 2013.</p><p>Para compreender o pensamento de Antonio Cornejo Polar, é necessário</p><p>abrir-se a uma abordagem crítico-literária que busca nas raízes da América Latina</p><p>as variáveis que conformam o presente e delineiam o futuro dos povos que se</p><p>desenvolveram sobre esta terra. No próximo subtópico, viajaremos do Peru para</p><p>o Uruguai na crítica literária de Hugo Achugar.</p><p>6 HUGO ACHUGAR E A CONTEMPORANEIDADE</p><p>Hugo Achugar é outro ensaísta hispano-americano de valor reconhecido</p><p>para o pensamento crítico-literário latino-americano. Nascido em Montevideo</p><p>em 1944, Achugar foi exilado na Venezuela e nos Estados Unidos após o golpe</p><p>de estado de 1973 no Uruguai. Após retornar ao seu país, Achugar foi professor</p><p>de Literatura Latino-americana na Universidad de la República e também foi</p><p>ministro da Educação de seu país.</p><p>FIGURA 17 – HUGO ACHUGAR</p><p>FONTE: <https://www.revistafilm.com/wp-content/uploads/2016/06/hugo-achugar-1050x701.</p><p>jpg>. Acesso em: 24 maio 2018.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>44</p><p>Diferentemente de Cornejo Polar, o pensamento de Achugar se direciona</p><p>para questões ligadas à cultura, à modernidade, à literatura e aos fenômenos</p><p>próprios do nosso tempo-espaço. Um dos seus livros mais reconhecidos é</p><p>Planetas sin bocas: escritos efímeros sobre arte, cultura y literatura, de 2004.</p><p>Neste livro, Achugar aborda desde autores como Borges e Victor Hugo até</p><p>temas que se encontram no cerne do pensamento moderno, como a pós-</p><p>modernidade, as políticas de memória, o cosmopolitismo, a globalização, os</p><p>monumentos históricos, independências e Estados-nação na América Latina.</p><p>São tópicos variados que se segmentam em duas partes (Espaços Incertos e</p><p>Representações da nação).</p><p>DICAS</p><p>Estudante! Convidamos você a assistir à entrevista que Hugo Achugar</p><p>concedeu ao Café Literário do Uruguai.</p><p>Para ver, acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=xr-_aPqVL-E>.</p><p>Em seu texto intitulado Sobre el balbuceo teórico latinoamericano, Achugar</p><p>(2006, p. 29) efetiva uma ferrenha crítica à pretensão universalista do pensamento</p><p>latino-americano:</p><p>El sujeto social piensa o produce conocimiento desde su "historia</p><p>local", es decir, desde el modo en que "lee" o "vive" la "historia local" en</p><p>virtud de sus obsesiones y del horizonte ideológico en que está situado.</p><p>La "historia local" desde la que el presente trabajo está escrito tiene que</p><p>ver con concretos intereses locales que no tienen valor universal y que</p><p>no pueden - ni éstos, ni otros - ser propuestos como válidos para toda</p><p>América Latina y quizás menos todavía para ese conjunto que algunos</p><p>llaman "las Américas".</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>45</p><p>DICAS</p><p>Você sabia?</p><p>O livro Planetas sin bocas ganhou uma tradução em português pela</p><p>editora da UFMG no ano de 2006. Com tradução de Lyslei Nascimento,</p><p>o livro congrega os 18 ensaios originalmente publicados em espanhol.</p><p>Referência:</p><p>ACHUGAR, Hugo. Planetas sem boca. Escritos efêmeros sobre arte,</p><p>cultura e literatura. Belo Horizonte: Humanitas, 2006.</p><p>No âmbito teórico do pensamento latino-americano, Hugo Achugar</p><p>acrescenta ânimo ao debate intelectual ao trazer discussões pertinentes,</p><p>problematizando questões até então não pensadas por seus antecessores.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>46</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>DE LA ISLA DE CUBA</p><p>Fray Bartolomé de las Casas</p><p>El año de mil y quinientos y once pasaron a la isla de Cuba, que es como</p><p>dije tan luenga como de Valladolid a Roma (donde había grandes provincias</p><p>de gentes), comenzaron y acabaron de las maneras susodichas y mucho más y</p><p>más cruelmente. Aquí acaecieron cosas muy señaladas. Un cacique y señor muy</p><p>principal, que por nombre tenia Hatuey, que se había pasado de la isla Española</p><p>a Cuba con mucha gente por huir de las calamidades y inhumanas obras delos</p><p>cristianos, y estando en aquella isla de Cuba, y dándole nueva s ciertos indios,</p><p>que pasaban a ella los cristianos, juntó mucha de toda su gente y díjoles: "Ya</p><p>sabéis cómo se dice que los cristianos pasan acá, y tenéis experiencia cuáles han</p><p>parado a los señores fulano y fulano y fulano; y aquellas gentes de Haití (que es la</p><p>Española) lo mismo vienen a hacer acá. ¿Sabéis quizá por qué lo hacen?" Dijeron:</p><p>"No; sino porque son de su naturaleza crueles y malos." Dice él: "No lo hacen por</p><p>sólo eso, sino porque tienen un dios a quien ellos adoran y quieren mucho y por</p><p>haberlo de nosotros para lo adorar, nos trabajan de sojuzgar y nos matan." Tenía</p><p>cabe sí una cestilla</p><p>llena de oro en joyas y dijo: "Veis aquí el dios de los cristianos;</p><p>hagámosle si os parece areítos (que son bailes y danzas) y quizá le agradaremos</p><p>y les mandará que no nos hagan mal." Dijeron todos a voces: "¡Bien es, bien es!"</p><p>Bailáronle delante hasta que todos se cansaron. Y después dice el señor Hatuey:</p><p>"Mira, como quiera que sea, si lo guardamos, para sacárnoslo, al fin nos han de</p><p>matar; echémoslo en este río." Todos votaron que así se hiciese, y así lo echaron</p><p>en un río grande que allí estaba.</p><p>Este cacique y señor anduvo siempre huyendo de los cristianos desque</p><p>llegaron a aquella isla de Cuba, como quien los conocía, y defendíase cuando los</p><p>topaba, y al fin lo prendieron. Y sólo porque huía de gente tan inicua y cruel y se</p><p>defendía de quien lo quería matar y oprimir hasta la muerte a sí y toda su gente</p><p>y generación, lo hubieron vivo de quemar. Atado a un palo decíale un religioso</p><p>de San Francisco, santo varón que allí estaba, algunas cosas de Dios y de nuestra</p><p>fe (el cual nunca las había jamás oído), lo que podía bastar aquel poquillo tiempo</p><p>que los verdugos le daban, y que si quería creer aquello que le decía iría al cielo,</p><p>donde había gloria y eterno descanso, y si no, que había de ir al infierno a padecer</p><p>perpetuos tormentos y penas. Él, pensando un poco, preguntó al religioso si iban</p><p>cristianos al cielo. El religioso le respondió que sí, pero que iban los que eran buenos.</p><p>Dijo luego el cacique, sin más pensar, que no quería él ir allá, sino al infierno, por</p><p>no estar donde estuviesen y por no ver tan cruel gente. Esta es la fama y honra que</p><p>Dios y nuestra fe ha ganado con los cristianos que han ido a las Indias.</p><p>Una vez, saliéndonos a recibir con mantenimientos y regalos diez leguas</p><p>de un gran pueblo, y llegados allá, nos dieron gran cantidad de pescado y pan y</p><p>comida con todo lo que más pudieron; súbitamente se les revistió el diablo a los</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>47</p><p>cristianos y meten a cuchillo en mi presencia (sin motivo ni causa que tuviesen)</p><p>más de tres mil ánimas que estaban sentados delante de nosotros, hombres y</p><p>mujeres y niños. Allí vi tan grandes crueldades que nunca los vivos tal vieron ni</p><p>pensaron ver.</p><p>Otra vez, desde a pocos días, envié yo mensajeros, asegurando que no</p><p>temiesen, a todos los señores de la provincia de la Habana, porque tenían por</p><p>oídas de mi crédito, que no se ausentasen, sino que nos saliesen a recibir, que</p><p>no se les haría mal ninguno (porque de las matanzas pasadas estaba toda la</p><p>tierra asombrada), y esto hice con parecer del capitán; y llegados a la provincia</p><p>saliéronnos a recibir veinte y un señores y caciques, y luego los prendió el capitán,</p><p>quebrantando el seguro que yo les había dado, y los quería quemar vivos otro día</p><p>diciendo que era bien, porque aquellos señores algún tiempo habían de hacer</p><p>algún mal. Vime en muy gran trabajo quitarlos de la hoguera, pero al fin se</p><p>escaparon.</p><p>Después de que todos los indios de la tierra desta isla fueron puestos</p><p>en la servidumbre y calamidad de los de la Española, viéndose morir y perecer</p><p>sin remedio, todos comenzaron a huir a los montes; otros, a ahorcarse de</p><p>desesperados, y ahorcábanse maridos y mujeres, y consigo ahorcaban los hijos; y</p><p>por las crueldades de un español muy tirano (que yo conocí) se ahorcaron más de</p><p>doscientos indios. Pereció desta manera infinita gente.</p><p>Oficial del rey hubo en esta isla que le dieron de repartimiento trescientos</p><p>indios y a cabo de tres meses había muerto en los trabajos de las minas los</p><p>docientos y setenta, que no le quedaron de todos sino treinta, que fue el diezmo.</p><p>Después le dieron otros tantos y más, y también los mató, y dábanle más y más</p><p>mataba, hasta que se murió y el diablo le llevó el alma. En tres o cuatro meses,</p><p>estando yo presente, murieron de hambre, por llevarles los padres y las madres a</p><p>las minas, más de siete mil niños. Otras cosas vi espantables.</p><p>Después acordaron de ir a montear los indios que estaban por los montes,</p><p>donde hicieron estragos admirables, y así asolaron y despoblaron toda aquella</p><p>isla, la cual vimos ahora poco ha y es una gran lástima y compasión verla yermada</p><p>y hecha toda una soledad.</p><p>Fué impresa la presente obra en la muy noble y muy leal</p><p>ciudad de Sevilla, en casa de Sebastián Trujillo, impresor de</p><p>libros. A nuestra señora de Gracia. Año de MDLII.</p><p>FONTE: LAS CASAS, Bartolomé de. Brevísima relación de la destruición de las Indias. Antioquia:</p><p>Universidad de Antioquia, 2011. p. 35-41. Disponível em: <http://www.cervantesvirtual.</p><p>com/descargaPdf/brevisima-relacion-de-la-destruccion-de-las-indias/>. Acesso em: 12</p><p>set. 2018.</p><p>48</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• Atualmente reconhecemos os nomes de Cristóvão Colombo e Fray Bartolomé</p><p>de las Casas como narradores relevantes da descoberta da América.</p><p>• As literaturas de viagens constituíam o modo que os viajantes encontravam</p><p>de levar notícias à corte, abordando acontecimentos presenciados in loco pela</p><p>pessoa que redigiu a carta e presenciou os fatos ao vivo.</p><p>• Ramón Menéndez Pidal foi um medievalista que trouxe à luz questões</p><p>elucidativas em relação a textos e personagens históricos, como El Cid.</p><p>• Ortega y Gasset mostra um interessante processo sinérgico entre a filosofia e a</p><p>literatura nas letras hispânicas.</p><p>• A heterogeneidade, enquanto conceito, surge como uma proposta que visa</p><p>expandir o pensamento crítico sobre a literatura latino-americana do século XX.</p><p>• O pensamento de Achugar se direciona para questões variadas ligadas à cultura,</p><p>à modernidade, à literatura e aos fenômenos próprios do nosso tempo-espaço.</p><p>49</p><p>1 Associe cada um dos seguintes autores a sua devida característica:</p><p>1 - Ramón Menéndez Pidal</p><p>2 - Antonio Cornejo Polar</p><p>3 - Ortega y Gasset</p><p>4 - Hugo Achugar</p><p>5 - Frei Bartolomé de las Casas</p><p>( ) Literatura de viagens</p><p>( ) Cultura contemporânea e modernidade</p><p>( ) Heterogeneidade</p><p>( ) Ensaio filosófico</p><p>( ) Medievalismo</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:</p><p>a) ( ) 1, 4, 3, 2, 5</p><p>b) ( ) 5, 2, 4, 1, 3</p><p>c) ( ) 1, 3, 4, 2, 5</p><p>d) ( ) 5, 4, 2, 3,1</p><p>e) ( ) 4, 1, 3, 2, 5</p><p>2 Considere o seguinte recorte do texto de Frei Bartolomé de las Casas:</p><p>Mayordomo suyo mató muchos indios ahorcándolos y quemándolos vivos y</p><p>echándolos a perros bravos y cortándoles pies y manos y cabezas y lenguas,</p><p>estando los indios de paz, sin otra causa alguna más de por amedrentallos,</p><p>para que le sirviesen y diesen oro y tributos, viéndolo y sabiéndolo el mismo</p><p>egregio tirano, sin muchos azotes crueles y palos y bofetadas y otras especies de</p><p>crueldades que en ellos hacían cada día y cada hora ejercitaban (2006, p. 86-87)</p><p>Sobre o trecho referido, assinale com V as alternativas verdadeiras e com F as falsas:</p><p>a) ( ) O texto faz parte de uma criação ficcional idealizada por Bartolomé de</p><p>las Casas.</p><p>b) ( ) O relato de las Casas foi reconhecido pela história pelo seu valor</p><p>documental.</p><p>c) ( ) O texto narra a tomada e a destruição da América.</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de respostas.</p><p>a) ( ) V, V, V</p><p>b) ( ) V, F ,F</p><p>c) ( ) F, V, V</p><p>d) ( ) F, F ,F</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>50</p><p>3 Considere a seguinte afirmação de Hugo Achugar (2006, p. 29):</p><p>El sujeto social piensa o produce conocimiento desde su "historia local", es</p><p>decir, desde el modo en que "lee" o "vive" la "historia local" en virtud de</p><p>sus obsesiones y del horizonte ideológico en que está situado. La "historia</p><p>local" desde la que el presente trabajo está escrito tiene que ver con concretos</p><p>intereses locales que no tienen valor universal y que no pueden – ni éstos, ni</p><p>otros – ser propuestos como válidos para toda América Latina y quizás menos</p><p>todavía para ese conjunto que algunos llaman "las Américas".</p><p>É correto o que se afirma em:</p><p>a) ( ) Achugar constata a ausência de uma crítica focada nas Américas como</p><p>um todo.</p><p>b) ( ) O autor defende que deve-se realizar uma crítica literária universalista.</p><p>c) ( ) Achugar realiza uma crítica à</p><p>pretensão universalista de tornar a</p><p>crítica literária local em algo representativo das Américas.</p><p>d) ( ) A história local deve representar a história social de todos os povos.</p><p>e) ( ) O autor defende que haja espaço no âmbito do campo de produção</p><p>intelectual para que o local se projete como macrogeográfico.</p><p>51</p><p>UNIDADE 2</p><p>A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O</p><p>CÂNONE E O ATUAL</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• conhecer as origens da lírica castelhana;</p><p>• observar obras importantes da literatura medieval, especificamente as</p><p>pertencentes ao gênero poesia de debate, nomeadamente Razón de Amor,</p><p>Diálogo de Elena y María e Alma y el cuerpo;</p><p>• estudar a importância da poesia religiosa, manifestada em Gonzalo de</p><p>Berceo, com seus Milagros de Nuestra Señora;</p><p>• conhecer a diversidade de temas na poesia hispânica, ao longo do tempo,</p><p>através de autores escolhidos, como Gustavo Adolfo Bécquer, Pablo</p><p>Neruda e Alejandra Pizarnik;</p><p>• observar momentos importantes na poesia realizada na Espanha e na</p><p>América Latina;</p><p>• ler a poesia de autores que foram importantes em seus respectivos campos</p><p>literários, como Rosalía de Castro, José Hernández, Antonio Machado e</p><p>Miguel de Unamuno.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. Ao final de cada um deles, você</p><p>terá atividades para ajudá-lo a refletir sobre os assuntos abordados.</p><p>TÓPICO 1 – A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: UMA PRIMEIRA</p><p>APROXIMAÇÃO</p><p>TÓPICO 2 – A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE POÉTICA</p><p>TÓPICO 3 – RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO HISPÂNICO: LÁ E CÁ</p><p>52</p><p>53</p><p>TÓPICO 1</p><p>A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA:</p><p>UMA PRIMEIRA APROXIMAÇÃO</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>A lírica em língua espanhola remonta ao período medieval, um momento</p><p>embrionário no qual ainda não havia uma tradição estabelecida e nem a</p><p>consciência evolutiva da poesia tal como conhecemos hoje. No âmbito dos</p><p>estudos hispânicos, naturalmente se confunde o surgimento da lírica castelhana</p><p>com o da épica, acreditando-se que a segunda teria antecedido a primeira em</p><p>vários séculos. No entanto, conforme adverte Fernández-Arce (1974, p. 1), não foi</p><p>exatamente assim:</p><p>Hasta hace poco tiempo se creía que el desarrollo de la poesía épica</p><p>o heroica (compuesta para exaltar la vida guerrera, dar coraje y</p><p>reconocimiento a los caudillos e incitar a los pueblos a defender su</p><p>honor), había antecedido en varios siglos en España a la poesía lírica,</p><p>es decir, a aquella que expresa los sentimientos íntimos del poeta,</p><p>sentimientos de amor o de odio, de ilusión o de esperanza, de alegría</p><p>o de pena. Sin embargo, ha quedado demostrada la existencia de</p><p>una "lírica popular autóctona" de Castilla, que se manifestaba, entre</p><p>otras formas, en coplas o cantarcilos que se referían a la llegada de la</p><p>estación primaveral, a la alegría de diversos acontecimientos familiares</p><p>y sociales, de las faenas agrícolas, y que expresaban el amor y el dolor</p><p>y otros sentimientos personales.</p><p>No presente tópico lançaremos um olhar específico sobre três obras</p><p>importantes para este período de surgimento: Disputa de alma y cuerpo (anônimo),</p><p>Razón de amor con los denuestos del agua y del vino (autor anônimo) e Diálogo de</p><p>Elena y María (anônimo). Além disso, também observaremos mais dois momentos</p><p>pontuais no âmbito da literatura produzida na península: a poesia religiosa e a</p><p>evolução da lírica espanhola, através de Garcilaso de la Vega.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>54</p><p>2 O PERÍODO INICIAL DA LÍRICA CASTELHANA: POEMA DE</p><p>DEBATE</p><p>A história da literatura espanhola remonta ao período trovadoresco, há</p><p>aproximadamente mil anos, quando as cantigas galaico-portuguesas constituíam</p><p>a forma legítima de expressão literária. De acordo com Guillermo Díaz-Plaja,</p><p>reconhecido historiador da literatura espanhola, a lírica galaico-portuguesa foi</p><p>introduzida na Espanha por duas vias: uma delas através das relações político-</p><p>culturais entre a Catalunha e a França e a outra através do caminho francês, ponto</p><p>de peregrinação que passava pelas cidades de Burgos, León e Astorga rumo a</p><p>Santiago de Compostela. Segundo Díaz-Plaja (1958, p. 36): "el segundo de ellos es</p><p>el que repercute más directamente en la primitiva lírica castellana, pero siempre a</p><p>través de una primigenia lírica gallegoportuguesa, fecundada por las oleadas de</p><p>romeros que acudían de todas partes".</p><p>FIGURA 1 – DUAS FORMAS PRINCIPAIS NA PRIMITIVA LÍRICA PENINSULAR</p><p>A GALAICO-PORTUGUESA A CASTELHANA</p><p>FONTE: MENÉNDEZ PIDAL, 1919 apud DÍAZ-PLAJA, 1958, p. 38</p><p>Ainda de acordo com Díaz-Plaja (1958, p. 36), vale a pena mencionar que</p><p>as cantigas de amor, enunciadas diretamente pela pessoa apaixonada, possuíam</p><p>um caráter culto. Já as cantigas de amigo possuíam um caráter genuinamente</p><p>popular e eram "llamadas así por ser el nombre que la recitadora da a su</p><p>amador". No âmbito das origens da produção literária dessa época é um fato</p><p>incontestável a ideia de que as cantigas galaico-portuguesas influenciariam</p><p>diretamente o surgimento da lírica produzida em castelhano. Recordemos que</p><p>estas manifestações ocorreram na Península Ibérica no período da Idade Média.</p><p>O castelhano, língua coexistente com outras também faladas na Península Ibérica,</p><p>também se converteu em instrumento de manifestação lírica, ainda que a língua</p><p>literária daquele tempo fosse o galego:</p><p>Influencias mútuas. Como es lógico, ambas líricas primitivas se influyen</p><p>recíprocamente. El gallego se impone como lengua poética a los escritores</p><p>castellanos, y todavía Alfonso X escribe en este idioma la parte lírica de su</p><p>obra: las Cantigas. Por otra parte, el ímpetu expansivo de Castilla impone</p><p>algunos de sus temas; así, por ejemplo, la pastorela provenzal, debate</p><p>amoroso entre una pastora y un caballero, se convierte en la cantiga de</p><p>serrana, más ruda y agreste que la provenzal (DÍAZ-PLAJA, 1958, p. 38).</p><p>TÓPICO 1 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA:</p><p>55</p><p>FIGURA 2 – OS PRIMEIROS TROVADORES</p><p>FONTE: <https://1.bp.blogspot.com/-SlExlihPIV4/U96r9GulfsI/AAAAAAAAD7w/VOhgcGfECc0/</p><p>w1200-h630-p-k-no-nu/trovadorismo.jpg>. Acesso em: 25 jun. 2018.</p><p>A poesia de debate no período de surgimento da lírica castelhana</p><p>constituiu um gênero próprio que perdurou até meados do século XVI. Nestes</p><p>poemas, em linhas gerais, pode-se dizer que são expostos os argumentos prós e</p><p>contras de dois extremos. Observe, nos exemplos seguintes, como se realizavam</p><p>estes debates no âmbito poético.</p><p>2.1 DISPUTA DEL ALMA Y EL CUERPO</p><p>Para Deyermond (2001, p. 138), em sua História de la Literatura Española,</p><p>Disputa del alma y del cuerpo é um dos exemplares mais antigos em castelhano do</p><p>que hoje se conhece por poema de debate, o antigo estilo de poemas medievais.</p><p>Segundo o autor, o códice "sobrevive de forma incompleta en un manuscrito de</p><p>comienzos del siglo XIII y puede que fuese compuesto a finales del siglo XIII".</p><p>No fragmento que sobreviveu e chegou ao nosso tempo percebe-se o</p><p>diálogo da alma e do corpo de um cadáver. O manuscrito foi descoberto por Tomás</p><p>Muñoz y Romero e teve sua primeira edição trazida à luz por Pedro José Pidal, um</p><p>antigo medievalista que viveu no século XIX. Segundo Deyermond (2011, p. 138):</p><p>Nos presenta en él el poeta la visión de un cadáver y el alma que</p><p>acaba de abandonarlo, bajo la forma de un niño desnudo. Ésta increpa</p><p>amargamente al cuerpo por haberles condenado a ambos por sus</p><p>pecados, truncándose el manuscrito antes de la réplica del cuerpo. Se</p><p>trata de una adaptación de un debate francés, y el poeta español hace</p><p>un uso sagaz de su fuente. La Disputa, no obstante, debido en parte a su</p><p>corta extensión y a su carácter fragmentario, carece del mérito artístico y</p><p>del interés que ofrecen los posteriores debates castellanos sobre el mismo</p><p>asunto. Idéntico debate sobre el alma y el cuerpo reaparece en prosa y en</p><p>verso dos siglos más adelante y pervive aún en el siglo XVI. Estas últimas</p><p>composiciones aludidas (cf. más adelante, pág. 335) derivan, sin embargo,</p><p>no de esta Disputa originaria, sino de la tradición europea</p><p>común.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>56</p><p>Apesar de caracterizar a inauguração de um gênero de poesia que se</p><p>alastrará até meados do século XVI, o texto não suscita interesse literário por</p><p>múltiplas razões, uma delas é o caráter breve que possui, perceptível nos poucos</p><p>fragmentos que sobreviveram ao passar do tempo.</p><p>2.2 RAZÓN DE AMOR CON LOS DENUESTOS DEL AGUA Y</p><p>DEL VINO</p><p>Juntamente com Disputa del alma y el cuerpo, nas origens do primeiro</p><p>monumento da poesia lírica em castelhano se encontra o texto Razón de amor con</p><p>los denuestos del agua y del vino (produzido aproximadamente em 1205). Díaz-Plaja</p><p>afirma que o poema "contiene, por una parte, la descripción de un idilio amoroso</p><p>entre una dama y un escolar o estudiante; y de otra, una disputa entre el agua y el</p><p>vino, sobre cuál tenga mayores excelencias, lo cual es una forma típica del debate</p><p>medieval" (DÍAZ-PLAJA, 1958, p. 39). A obra, como a grande maioria surgida</p><p>naquele período, não possui um autor declarado.</p><p>Observe agora o texto original comparado com uma tradução feita em</p><p>espanhol moderno. Repare, atentamente, na evolução linguística perceptível</p><p>através de ambas versões:</p><p>QUADRO 1 – VERSÕES DO POEMA</p><p>Original (siglo XII-XIII, texto originario de</p><p>Castilla, español antiguo, mezclado con</p><p>formas dialectales ¿aragonesas y/o galaico-</p><p>portuguesas)</p><p>Traducción al español moderno</p><p>(tratando de respetar la forma poética, el</p><p>vocabulario, el ritmo y las rimas)</p><p>(tradução de Sergio Beluz)</p><p>1 Qui triste tiene su coraçon</p><p>benga oyr esta razon.</p><p>Odra razon acabada,</p><p>feyta d’amor e bien rymada.</p><p>5 Vn escolar la Rimo</p><p>que siepre duenas amo;</p><p>mas siepre ouo cryança</p><p>en Alemania y en Fraçia,</p><p>moro mucho en Lombardia</p><p>10 pora prender cortesía.</p><p>En el mes d’abril, depuse yantar,</p><p>estaua so un olivar.</p><p>Entre çimas d’un manzanar</p><p>un uaso de plata ui estar;</p><p>15 pleno era d’un claro uino</p><p>que era uermeio e fino;</p><p>cubierto era de tal mesura</p><p>no lo tocas la calentura.</p><p>una duena lo y eua puesto,</p><p>20 que era senora del uerto,</p><p>que quan su amigo uiniese,</p><p>d’aquel uino a beber le diesse.</p><p>Qui de tal uino ouiesse</p><p>En la mana quan comiesse:</p><p>25 e dello ouiesse cada dia</p><p>nuncas mas enfermarya.</p><p>Quien triste tiene su corazón</p><p>Venga a oír esta canción.</p><p>Oirá poema acabado</p><p>Hecho de amor y bien rimado</p><p>Un escolar la rimó</p><p>Que siempre las damas amó;</p><p>Pero siempre educación tuvo</p><p>En Alemania y en Francia</p><p>Se quedó mucho en Lombardía</p><p>Para aprender la cortesía.</p><p>En el mes de abril, después de comer,</p><p>Estaba yo bajo un olivar.</p><p>Entre los ramos de un manzanar</p><p>Un vaso de plata vi estar;</p><p>Lleno estaba de un claro vino</p><p>Que era bermejo y fino;</p><p>Cubierto era de tal manera</p><p>Que no lo tocase el calor.</p><p>Una dama lo había puesto allí</p><p>Que era señora del huerto,</p><p>Para que cuando su amigo viniese,</p><p>De aquel vino a beber darle pudiese.</p><p>Quien de tal vino tuviese</p><p>En la mañana cuando comiese:</p><p>Y de ello bebiese cada día</p><p>Nunca más se enfermaría.</p><p>TÓPICO 1 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA:</p><p>57</p><p>Ariba del mançanar</p><p>otro uaso ui estar;</p><p>pleno era d’un agua fryda</p><p>30 que en el manzanar se naçia.</p><p>Bebiera d’ela de grado,</p><p>mas oui miedo que era encantado.</p><p>Sobre un prado pus mi tiesta,</p><p>que nom fizies mal la siesta.</p><p>35 parti de mi las uistiduras,</p><p>que nom fizies mal la calentura.</p><p>Plegem a una fuente perenal,</p><p>nuca fue omne que uief tall;</p><p>tan grant virtud en si auia,</p><p>40 que de la frydor que d’i yxia,</p><p>cient pasadas ardedor</p><p>non fintryades el calor.</p><p>Todas yeruas que bien olien</p><p>la fuent çerca si las tenie:</p><p>45 y es la saluia, y sson as Rosas,</p><p>y el liryo e las violas;</p><p>otras tantas yeruas y auia</p><p>que sol nobra no las sabria;</p><p>mas ell olor que d’i yxia</p><p>50 a omne muerto Ressucitaría.</p><p>Prys del agua un bocado</p><p>e fuy todo effryado.</p><p>En mi mano prys una flor,</p><p>sabet, non toda la peyor;</p><p>Arriba del manzanar</p><p>Otro vaso vi estar;</p><p>Lleno estaba de un agua fría</p><p>Que en el manzanar nacía.</p><p>Habría bebido de ella con gusto</p><p>Pero miedo tuve que fuese con maleficio.</p><p>En un prado puse mi cabeza</p><p>Para que no me duela la siesta</p><p>Me quité las vestiduras</p><p>Para que no me moleste la calentura.</p><p>Me acerqué a una fuente perenal,</p><p>Que no existe hombre que viese tal;</p><p>Tan gran virtud en ella había,</p><p>Que del frío que de ella salía,</p><p>A cien pasos alrededor</p><p>No entraba el calor.</p><p>Todas las hierbas que bien olían</p><p>La fuente cerca de sí las tenía:</p><p>Y es la salvia, y son las rosas,</p><p>Y el lirio y las violetas;</p><p>Otras tantas hierbas allí había</p><p>Que sólo nombrarlas no sabría;</p><p>Mas el olor que de allí salía</p><p>A cualquier muerto resucitaría.</p><p>Tomé del agua un trago</p><p>Y fui todo refrescado.</p><p>En mi mano tome una flor,</p><p>Que sepan, no de todas la peor;</p><p>FONTE: Siesta de abril <https://www.sergiobelluz.com/siesta-de-abril-razon-de-amor-con-los-</p><p>denuestos-del-agua-y-el-vino-el-original-de-circa-1205-y-mi-traduccion>.</p><p>DICAS</p><p>Há uma versão crítica disponível on-line. Aos cuidados</p><p>de Mario Barro Jover, o texto é cuidadosamente analisado pelo crítico.</p><p>Ver: BARRA-JOVER, Mario. Razón de Amor: Texto crítico y composición.</p><p>Acesse em:<https://ebuah.uah.es/dspace/bitstream/handle/10017/5063/</p><p>Raz%C3%B3n%20de%20Amor.%20Texto%20Cr%C3%ADtico%20y%20</p><p>Composici%C3%B3n.pdf?sequence=1&isAllowed=y>.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>58</p><p>O texto não apresenta unidade entre as partes que o compõem, sendo</p><p>a primeira a parte tocante a um encontro amoroso e na última percebe-se um</p><p>debate entre a água e o vinho. Percebem-se elementos característicos deste</p><p>período da Idade Média, como o amor cortês, a lírica popular, elementos mágicos</p><p>(a jarra d'água que o jovem bebe na primeira atua como uma espécie de elixir)</p><p>e também aspectos religiosos. Sem espaço a dúvidas, a riqueza desta obra se</p><p>encontra no debate entre a água e o vinho, quando cada qual destas duas bebidas</p><p>apresenta argumentos autoafirmativos. No debate, percebe-se a contraposição de</p><p>argumentos como a pureza da água versus a nobreza do vinho. Vale mencionar</p><p>que a questão religiosa é um dos traços fundamentais neste poema de debate, já</p><p>que tanto a água como o vinho são elementos vitais para o cristianismo.</p><p>Além de Disputa del alma y del cuerpo e Razón de amor con los denuestos del agua</p><p>y del vino, na atualidade também existem vestígios de outros textos produzidos</p><p>naquele período. Incompleto, conhecemos através da historiografia outro texto</p><p>de grande valor histórico para a história da literatura espanhola: Diálogo entre</p><p>Elena y María, obra pertencente ao século XII.</p><p>2.3 DIÁLOGO DE ELENA Y MARÍA</p><p>Na atualidade conserva-se um fragmento do manuscrito Diálogo de Elena</p><p>y María (também conhecido por Poema de Elena y María), uma obra singular</p><p>produzida no período medieval. De acordo com Pérez Priego (s.d., p. 1):</p><p>Nos ha llegado en un extraño manuscrito en papel de minúsculas</p><p>dimensiones (65x55 mm), aunque letra de tamaño corriente para</p><p>permitir su lectura (unos 240 caracteres por página de unas ocho</p><p>líneas cada una). El manuscrito se muestra muy dañado por la polilla y</p><p>deteriorado en sus márgenes, lo que ha ocasionado lagunas y pérdidas</p><p>de texto. A las veinticinco páginas que ocupa, les faltan algunas otras</p><p>al comienzo y al final, de manera que no sabemos cómo comenzaba el</p><p>texto ni cuál era su desenlace.</p><p>O texto veio à luz através da mão do medievalista Ramón Menéndez Pidal</p><p>no começo do século XX. Pérez Priego menciona que o texto ao qual hoje se tem</p><p>acesso chegou originalmente às mãos de Menéndez Pidal através do bibliófilo</p><p>Juan Sánchez, que por sua vez o havia recebido do catalão Salvador Barba. O texto</p><p>original possui traços do castelhano, da língua galaico-portuguesa e também do</p><p>asturleonês, todas línguas romances originadas do latim.</p><p>TÓPICO 1 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA:</p><p>59</p><p>FIGURA 3 – MANUSCRITO CONSERVADO EM CASA DE ALBA</p><p>FONTE: <https://i0.wp.com/www.revistadearte.com/wp-content/uploads/2017/11/Debate-</p><p>Elena-y-Maria.jpg>. Acesso em: 26 jul. 2018.</p><p>Estima-se que o manuscrito tenha sido produzido entre os séculos XIII</p><p>e XIV, porém não há como confirmar o século exato no qual este material foi</p><p>produzido. O texto, hoje disponível na Fundación Casa de Alba (Madrid), possui</p><p>402 versos.</p><p>O debate estabelecido entre Elena e Maria propõe-se a discutir se é</p><p>melhor ser amiga de um sacerdote ou de um cavaleiro. A ideia de disputa entre</p><p>uma opção "a" e "b" é algo bastante comum nos textos dessa época. Em Razón de</p><p>amor con los demuestos del água y del vino há uma disputa nesse sentido. Díaz-Plaja</p><p>(p. 39) sinaliza que "el sentido de disputa o debate" é uma constante nestes três</p><p>primeiros textos da lírica castelhana.</p><p>O fragmento começa já em um dado momento do diálogo. Não temos</p><p>acesso ao que foi dito antes, mas é nítida a percepção de que há um debate entre</p><p>ambas mulheres. Observe o trecho no qual Elena se dirige a Maria de um modo</p><p>bastante hostil em um primeiro momento do diálogo, já em resposta a uma</p><p>comparação feita por Maria. Neste recorte, Elena compara o seu cavaleiro com o</p><p>clérigo de Maria (MENÉNDEZ PIDAL, 1914, p. 39):</p><p>Calla, Maria,</p><p>por que dizes tal follia?</p><p>esa palabra que fabreste</p><p>al mio amigo denosteste,</p><p>mas se lo bien catas</p><p>e por derecho lo asmas</p><p>non eras tu pora conmigo</p><p>nin el tu amigo pora con el mio;</p><p>somos hermanas e fijas de algo,</p><p>mais yo amo el mais alto,</p><p>ca es caballero armado,</p><p>de sus armas esforçado;</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>60</p><p>el mio es defensor,</p><p>el tuyo es orador:</p><p>quel mio defende tierras</p><p>e sufre batallas e guerras,</p><p>ca el tuyo yanta e yaz</p><p>e siempre esta en paz.</p><p>Na sequência, Maria responde de forma igualmente agressiva e</p><p>prossegue a pesagem de vantagens (MENÉNDEZ PIDAL, 1914, p. 39):</p><p>Maria, atan por arte,</p><p>respuso de la otra parte</p><p>«Ve, loca, trastornada,</p><p>ca non sabes nada!</p><p>dizes que yanta e yaz</p><p>por que esta en paz!</p><p>ca el vive bien honrado</p><p>e sin todo cuidado;</p><p>ha comer e beber</p><p>e en buenos lechos yazer;</p><p>ha vestir e calçar</p><p>e bestias en que cabalgar,</p><p>vasallas e vasallos,</p><p>mulas e caballos;</p><p>ha dineros e paños</p><p>e otros haberes tantos.</p><p>De las armas non ha curar</p><p>e otrosi de lidiar,</p><p>ca mas val seso e mesura</p><p>que siempre andar en locura,</p><p>como el tu caballeron</p><p>que ha vidas de garçon.</p><p>Cuando al palacio va</p><p>sabemos vida que le dan:</p><p>el pan a racion,</p><p>el vino sin sazon;</p><p>sorrie mucho e come poco,</p><p>va cantando como loco;</p><p>como tray poco vestido,</p><p>siempre ha fambre e frio.</p><p>Tudo indica que essas mulheres são parte integrante do mais alto estrato</p><p>social. O debate ocorre ao longo dos versos 1-282 e demonstra uma disputa de</p><p>vantagens e críticas de ambos lados. Nos versos finais, é narrada a chegada destas</p><p>irmãs à corte. Para Perez Priego (s.d., p. 4),</p><p>aunque por su estado fragmentario no conocemos el desenlace</p><p>del debate, sobre el que se han especulado diferentes soluciones</p><p>y vencedores, el poema castellano acoge una dura sátira a los dos</p><p>personajes, el clérigo y el caballero, pilares fundamentales de la vieja</p><p>sociedad estamental.</p><p>TÓPICO 1 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA:</p><p>61</p><p>Sem lugar a dúvidas, a existência dessas obras nos permite entender o</p><p>desenvolvimento cultural/intelectual do homem daquele tempo. Além da questão</p><p>literária e de foro ligado à história das mentalidades da nossa civilização, também</p><p>podemos perceber uma dada constância de temas em um dado período temporal.</p><p>No próximo subtópico, conheceremos a poesia religiosa espanhola.</p><p>3 A POESIA RELIGIOSA DE BERCEO: CLÉRIGOS, SANTAS E</p><p>DEVOÇÃO</p><p>A poesia religiosa, também conhecida por Mester de Clerecía, constituiu</p><p>um importante capítulo na história da literatura espanhola. Foi no século XIII</p><p>que ocorreu a formação e o desenvolvimento do castelhano como língua. De</p><p>forma paralela, a literatura – uma manifestação de reconhecida incipiência – já</p><p>começava a dar a primeira demonstração de sua existência. Vale mencionar que</p><p>naquele período já havia outras produções, como o mester de juglaría (uma forma</p><p>de expressão mais popular) e a poesia épica (que exaltava os feitos dos grandes</p><p>heróis daquele tempo). De acordo com Fernández-Arce (1974, p. 39):</p><p>Frente al arte popular y anónimo de los "juglares", se da ahora la poesía</p><p>culta. Este nuevo estilo tiene mayor perfección técnica, es obra de</p><p>autores conocidos, clérigos, en su mayoría. Por contraposición con el</p><p>"mester de juglaría", se llama "mester de clerecía". Pero debe advertirse</p><p>que no hay entre ambos una diferencia esencial, antes bien, la poesía</p><p>erudita o culta se deriva del arte juglaresco, pues sus composiciones</p><p>también se inspiran en el espíritu religioso y nacional de la época, van</p><p>dirigidas al pueblo en su lengua romance, tienen carácter narrativo y</p><p>usan, en lo posible, la expresión directa y llana.</p><p>FIGURA 4 – GONZALO DE BERCEO</p><p>FONTE: <https://www.quien.net/wp-content/uploads/cultura-quien-fue/Gonzalo-De-Berceo.</p><p>jpeg>. Acesso em: 18 jun. 2018.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>62</p><p>Um dos primeiros nomes que surgem nesse contexto é Gonzalo de Berceo.</p><p>Sobre este autor, pouco se sabe na atualidade. Em nível histórico, sabe-se que</p><p>nasceu em torno do ano 1195, em Berceo (La Rioja/Espanha). Segundo Fernández-</p><p>Arce, Berceo morreu já velho em meados do século XIII depois de servir por muito</p><p>tempo como clérigo secular, inscrito no Monastério de San Millán de la Cogolla.</p><p>A obra significativa legada por Berceo se chama Los milagros de nuestra señora e se</p><p>caracteriza como uma mostra cabal do que constituiu os mesteres de juglaría.</p><p>Díaz-Plaja (1958, p. 44) caracteriza esta obra como a mais interessante</p><p>deste período, “poeticamente hablando”. Na obra, Berceo apresenta casos de</p><p>vidas pecadoras as quais são salvas pela piedade da Virgem Maria. Os milagres</p><p>narrados são basicamente cinco: La casulla de San Ildefonso, La Iglesia Robada, El</p><p>Milagro de Teófilo, El niño judío e El labrador avaro.</p><p>Observe, agora, a introdução da obra (DÍAZ-PLAJA, 1958, p. 44). Perceba</p><p>que o poeta se apresenta, discorre sobre a vida na Terra e também reflete sobre a</p><p>passagem para o paraíso e a importância da Virgem Maria para o homem devoto:</p><p>Amigos e vassallos de Dios omnipotent,</p><p>Si vos me escuchássedes por vuestro consiment1,</p><p>Querríavos contar un buen aveniment2:</p><p>Terrédeslo en cabo por bueno verament.</p><p>Yo maestro Gonçalvo de Verceo nominado,</p><p>Yendo en romería caeçí en un prado,</p><p>Verde e bien sençido3, de flores bien poblado,</p><p>Logar cobdiçiaduero pora omne cansado.</p><p>Davan olor soveio4 las flores bien olientes,</p><p>Refrescavan en omne las carnes e las mientes;</p><p>Manavan cada canto fuentes claras corrientes,</p><p>en verano bien frías, en invierno calientes.</p><p>Sennores e amigos, lo que dicho avemos</p><p>Palbra es oscura, emponerla queremos:</p><p>Tolagamos5 la corteza, al meollo entremos,</p><p>Prendamos lo de dentro, lo de fuera dessemos</p><p>Todos cuantos vevimos que en piedes andamos</p><p>Siquiere en presom, o en lecho iagamos,</p><p>Todos somos romeros que camino andamos;</p><p>Sant Peidro lo diz esto, por él vos los probamos.</p><p>Quanto aqui vivimos, en ageno moramos;</p><p>La ficanza durable suso6 la esperamos,</p><p>La nuestra romeria estonz la acabamos</p><p>Quando a paraiso las almas enviamos.</p><p>En esta romeria avemos un buen prado,</p><p>En qui trova repaire7 tot romeo cansado,</p><p>La Virgen Gloriosa madre del buen criado,</p><p>Del qual otro ninguno egual non fue trovado.</p><p>TÓPICO 1 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA:</p><p>63</p><p>Notas explicativas de Díaz-Plaja (1958) sobre o poema: 1 Consientimento,</p><p>gusto; 2 Acontecimiento, sucesso; 3 Intacto; 4 Grande, excelente; 5 Quitemos; 6 Arriba, es</p><p>decir, en el cielo; 7 Reposo, descanso.</p><p>NOTA</p><p>De acordo com Fernández-Arce (1974, p. 41):</p><p>Las obras de este poeta son todas de tipo religioso. Las escribió con el</p><p>propósito de ilustrar al pueblo de la época, piadoso pero ignorante. En</p><p>la mayoría de los casos se limita casi a "traducir" libros escritos en latín a</p><p>la lengua romance castellana y a adaptarlos a la mentalidad del pueblo</p><p>al cual las destina. Escribió tres vidas de santos, tres obras "marianas"</p><p>(sobre la Virgen María), tres temas litúrgios e himnos religiosos. Entre</p><p>esos libros devotos se destacan la vida de "Santo Domingo de Silos"</p><p>y la de "San Millán de la Cogolla" y Miraclos de Nuestra Señora, su</p><p>obra más importante. En la introducción de este libro se explican</p><p>los nombres que se le dan a la Virgen María</p><p>y se presenta un paisaje</p><p>simbólico, que es muestra de delicada descripción primitiva.</p><p>Além disso, cabe mencionar que Berceo se baseia em escritos medievais</p><p>para a construção da sua lírica, não apresentando, então, qualquer traço de</p><p>originalidade. Conforme Díaz-Plaja (1958, p. 47), na lírica de Berceo, o mundo “es</p><p>una lucha entre los espíritus celestes – Dios, la Virgen, los Ángeles – contra los</p><p>infernales – demonios, moros, judíos”.</p><p>Esti prado fué siempre verde en onestat,</p><p>Ca nunca ovó macula la sua virginitat,</p><p>Post partum et in partu fue Virgen de verdat,</p><p>Illesa, incorrupta en su integredat.</p><p>Las quatro fuentes claras que del prado manaban,</p><p>Los quatro evangelios esso significaban,</p><p>Ca los evangelistas quatro que los dictaban,</p><p>Quando los escriben, con ella se fablaban.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>64</p><p>FIGURA 5 – NOSSA SENHORA</p><p>FONTE:<http://img.cancaonova.com/cnimages/canais/uploads/sites/6/2016/07/formacao_</p><p>conheca-a-relacao-entre-o-escapulario-e-nossa-senhora-de-fatima.jpeg>. Acesso em: 21 jun. 2018.</p><p>Mas por qual razão Berceo é importante para o estudo das literaturas</p><p>de língua espanhola? A obra de Berceo apresenta notável cuidado estético</p><p>em seu processo constitutivo, além de expressar-se em castelhano. No recorte</p><p>anteriormente apresentado, perceba que a língua castelhana ainda se encontrava</p><p>em um dos seus primeiros estágios de desenvolvimento.</p><p>65</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• A lírica galaico-portuguesa e a castelhana eram duas das formas principais na</p><p>primitiva lírica peninsular.</p><p>• Disputa del alma y el cuerpo constitui um dos exemplares mais antigos em</p><p>castelhano do que hoje se conhece por poema de debate.</p><p>• A poesia de debate foi um gênero fundamental nos primórdios da lírica</p><p>espanhola.</p><p>• Diálogo de Elena y María foi um importante texto deste período de formação que</p><p>veio à luz através da mão do medievalista Ramón Menéndez Pidal no começo</p><p>do século XX.</p><p>• A poesia religiosa de Gonzalo de Berceo, segundo Díaz-Plaja, constitui um dos</p><p>textos de maior qualidade daquele período.</p><p>66</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 Leia atentamente dois recortes do texto El debate de Elena y María:</p><p>Calla, Maria,</p><p>por que dizes tal follia?</p><p>esa palabra que fabreste</p><p>al mio amigo denosteste,</p><p>mas se lo bien catas</p><p>e por derecho lo asmas</p><p>non eras tu pora conmigo</p><p>nin el tu amigo pora con el mio;</p><p>somos hermanas e fijas de algo,</p><p>mais yo amo el mais alto,</p><p>ca es caballero armado,</p><p>de sus armas esforçado;</p><p>el mio es defensor,</p><p>el tuyo es orador:</p><p>quel mio defende tierras</p><p>e sufre batallas e guerras,</p><p>ca el tuyo yanta e yaz</p><p>e siempre esta en paz.</p><p>Maria, atan por arte,</p><p>respuso de la otra parte</p><p>«Ve, loca, trastornada,</p><p>ca non sabes nada!</p><p>dizes que yanta e yaz</p><p>por que esta en paz!</p><p>ca el vive bien honrado</p><p>e sin todo cuidado;</p><p>ha comer e beber</p><p>e en buenos lechos yazer;</p><p>ha vestir e calçar</p><p>e bestias en que cabalgar,</p><p>vasallas e vasallos,</p><p>mulas e caballos;</p><p>ha dineros e paños</p><p>e otros haberes tantos.</p><p>De las armas non ha curar</p><p>e otrosi de lidiar,</p><p>ca mas val seso e mesura</p><p>que siempre andar en locura,</p><p>como el tu caballeron</p><p>que ha vidas de garçon.</p><p>Cuando al palacio va</p><p>sabemos vida que le dan:</p><p>el pan a racion,</p><p>el vino sin sazon;</p><p>sorrie mucho e come poco,</p><p>va cantando como loco;</p><p>como tray poco vestido,</p><p>siempre ha fambre e frio.</p><p>Agora considere o que diz o historiador da literatura José Manuel</p><p>Blecua sobre o poema (1944, p. 29):</p><p>El debate de Elena y Maria es un fragmento de un poema escrito</p><p>a fines del siglo XIII. Fue descubierto y publicado por Menéndez</p><p>Pidal, quien encontraba los antecedentes en poemas latinos y</p><p>franceses de la Edad Media. Se trata de una disputa entre Elena,</p><p>que defiende el amor de los caballeros, y María, que defiende el</p><p>de los clérigos.</p><p>Considerando o que estudamos no Tópico 1 e os textos acima, responda cada</p><p>uma das seguintes perguntas:</p><p>1 A qual estrato social pertencem Elena e Maria?</p><p>2 Qual é o amigo ideal para Elena?</p><p>67</p><p>3 Qual é o amigo ideal para Maria?</p><p>4 Quais as principais vantagens de ser amiga do padre?</p><p>5 Quais as principais vantagens de ser amiga do cavaleiro?</p><p>2 Observe o seguinte fragmento de Razón de amor con los denuestos del agua y</p><p>del vino:</p><p>1 Qui triste tiene su coraçon</p><p>benga oyr esta razon.</p><p>Odra razon acabada,</p><p>feyta d’amor e bien rymada.</p><p>5 Vn escolar la Rimo</p><p>que siepre duenas amo;</p><p>mas siepre ouo cryança</p><p>en Alemania y en Fraçia,</p><p>moro mucho en Lombardia</p><p>10 pora prender cortesía.</p><p>En el mes d’abril, depuse yantar,</p><p>estaua so un olivar.</p><p>Entre çimas d’un manzanar</p><p>un uaso de plata ui estar;</p><p>15 pleno era d’un claro uino</p><p>que era uermeio e fino;</p><p>cubierto era de tal mesura</p><p>no lo tocas la calentura.</p><p>una duena lo y eua puesto,</p><p>20 que era senora del uerto,</p><p>que quan su amigo uiniese,</p><p>d’aquel uino a beber le diesse.</p><p>Qui de tal uino ouiesse</p><p>En la mana quan comiesse:</p><p>25 e dello ouiesse cada dia</p><p>nuncas mas enfermarya.</p><p>Ariba del mançanar</p><p>otro uaso ui estar;</p><p>pleno era d’un agua fryda</p><p>30 que en el manzanar se naçia.</p><p>Bebiera d’ela de grado,</p><p>mas oui miedo que era encantado.</p><p>Sobre un prado pus mi tiesta,</p><p>que nom fizies mal la siesta.</p><p>35 parti de mi las uistiduras,</p><p>que nom fizies mal la calentura.</p><p>Plegem a una fuente perenal,</p><p>nuca fue omne que uief tall;</p><p>tan grant virtud en si auia,</p><p>40 que de la frydor que d’i yxia,</p><p>cient pasadas ardedor</p><p>non fintryades el calor.</p><p>Todas yeruas que bien olien</p><p>la fuent çerca si las tenie:</p><p>45 y es la saluia, y sson as Rosas,</p><p>y el liryo e las violas;</p><p>otras tantas yeruas y auia</p><p>68</p><p>que sol nobra no las sabria;</p><p>mas ell olor que d’i yxia</p><p>50 a omne muerto Ressucitaría.</p><p>Prys del agua un bocado</p><p>e fuy todo effryado.</p><p>En mi mano prys una flor,</p><p>sabet, non toda la peyor;</p><p>Agora marque a resposta certa:</p><p>a) ( ) Se pode dizer que o texto é escrito completamente em língua espanhola.</p><p>b) ( ) O texto Razón de amor con los denuestos del agua y del vino é um exemplo</p><p>clássico de poesia religiosa da Idade Média.</p><p>c) ( ) No poema percebemos uma nítida mescla do espanhol antigo com</p><p>formas dialetais aragonesas e galaico-portuguesas.</p><p>d) ( ) O poema foi escrito por Gonzalo de Berceo e é parte integrante da obra</p><p>Milagros de Nuestra Señora.</p><p>e) ( ) O poema medieval Razón de amor con los denuestos del agua y del vino se</p><p>trata de uma manifestação única, não havendo naquele período outras</p><p>obras parecidas.</p><p>3 Convidamos você a assistir ao seguinte vídeo: Gonzalo de Berceo – cuando</p><p>copiar no era delito. Para ver, acesse: <https://www.youtube.com/</p><p>watch?v=c40KcKXvyBA> ou então <https://bit.ly/2tJhrdM>.</p><p>Com base no vídeo, responda às seguintes perguntas:</p><p>1 Em quantos estratos estava dividida a sociedade de Península Ibérica do</p><p>século XIII e quais eram estes estratos?</p><p>2 Qual era a classe da sociedade daquele tempo que se dedicava a escrever?</p><p>3 Quem foi Gonzalo de Berceo?</p><p>4 Há originalidade em Los milagros de nuestra señora?</p><p>69</p><p>TÓPICO 2</p><p>A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE</p><p>POÉTICA</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>No presente tópico observaremos os diferentes matizes temáticos na</p><p>poesia de determinados autores de língua espanhola. O amor não realizado, a</p><p>noção de futuro incerto e destino, o amor realizado, a dor da sociedade através da</p><p>poesia e temas mais densos, como o suicídio. Trata-se de poetas representativos,</p><p>de nomes de indubitável significância que, cabe esclarecer, apesar da inegável</p><p>relevância, não constituem o todo do universo das letras hispânicas. Apesar</p><p>disso, nos dão suficientes amostras do poder poético da poesia produzida tanto</p><p>na Espanha como na América Latina.</p><p>FIGURA 6 – MIGUEL DE CERVANTES</p><p>FONTE: <https://imagens.publicocdn.com/imagens.</p><p>aspx/909390?tp=UH&db=IMAGENS&type=JPG>. Acesso em: 20 maio 2018.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>70</p><p>Alguma vez você já leu poesia em língua espanhola? Recorreremos às</p><p>principais expressões literárias da Espanha e da América Latina sem demorar-</p><p>nos por questões puramente teóricas, que serão devidamente esclarecidas em</p><p>momentos oportunos.</p><p>Dessa forma, neste tópico observaremos autores da envergadura de</p><p>Adolfo Gustavo Bécquer, Pablo Neruda,</p><p>Antonio Machado, Alejandra Pizarnik e</p><p>Rosalía de Castro, poetas que enriqueceram o campo de produção intelectual das</p><p>literaturas de língua espanhola.</p><p>2 UM BREVE OLHAR SOBRE A DIVERSIDADE DE TEMAS NA</p><p>ARTE POÉTICA</p><p>Ao lançarmos um olhar sobre a literatura ocidental, percebemos</p><p>que partiram das letras hispânicas as mais belas manifestações poéticas que</p><p>enalteceram a vida, a arte e o amor. Pode-se dizer que a poesia em língua</p><p>espanhola é riquíssima em todos os seus aspectos, seja na forma com a qual é</p><p>apresentada ou então nos conteúdos sobre os quais se debruça. Seja na Espanha</p><p>ou na América Latina, os temas que perfilam a produção dos poetas surgem como</p><p>um leque que esboça a vida e a reflexão existencial.</p><p>FIGURA 7 – A POESIA, POR JOAN BRULL I VINYOLES (1863-1912)</p><p>FONTE: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:De_los_arrayanes_(al%C2%B7legoria_de_la_</p><p>poesia)_-_Joan_Brull_i_Vinyoles_(1863-1912).jpg>. Acesso em: 21 jun. 2018.</p><p>TÓPICO 2 | A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE</p><p>71</p><p>O amor, a existência, o passado, a depressão e a juventude são alguns</p><p>dos temas que podemos encontrar na obra dos poetas mais reconhecidos que</p><p>escreveram em espanhol.</p><p>O poeta nicaraguense Ruben Darío, por exemplo, foi um dos poetas que</p><p>lançou um olhar retrospectivo sobre o passado e contemplou a juventude como</p><p>uma das primaveras da vida no poema intitulado Canción de otoño en primavera</p><p>(CERVANTES, s.p. s. d.):</p><p>Juventud, divino tesoro,</p><p>¡ya te vas para no volver!</p><p>Cuando quiero llorar, no lloro...</p><p>y a veces lloro sin querer...</p><p>Plural ha sido la celeste</p><p>historia de mi corazón.</p><p>Era una dulce niña, en este</p><p>mundo de duelo y de aflicción.</p><p>Miraba como el alba pura;</p><p>sonreía como una flor.</p><p>Era su cabellera obscura</p><p>hecha de noche y de dolor.</p><p>Yo era tímido como un niño.</p><p>Ella, naturalmente, fue,</p><p>para mi amor hecho de armiño,</p><p>Herodías y Salomé...</p><p>Juventud, divino tesoro,</p><p>¡ya te vas para no volver!</p><p>Cuando quiero llorar, no lloro...</p><p>y a veces lloro sin querer...</p><p>Outros poetas, como a argentina Alejandra Pizarnik, preconizam um nível</p><p>mais profundo de intimismo, mais além da simples recordação e desvelam um</p><p>profundo olhar pessimista sobre a vida e sobre o existir. A poesia de Pizarnik, que</p><p>se suicidou em 1972, carrega uma profunda reflexão sobre a condição humana</p><p>e também sobre o amor. A morte, parte constituinte da literatura de Pizarnik, é</p><p>uma companheira que não abandona o eu-lírico da poeta.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>72</p><p>La noche se astilló de estrellas</p><p>mirándome alucinada</p><p>el aire arroja odio</p><p>embellecido su rostro</p><p>con música.</p><p>Pronto nos iremos</p><p>Arcano sueño</p><p>antepasado de mi sonrisa</p><p>el mundo está demacrado</p><p>y hay candado pero no llaves</p><p>y hay pavor pero no lágrimas.</p><p>¿Qué haré conmigo?</p><p>Porque a Ti te debo lo que soy</p><p>Pero no tengo mañana</p><p>Porque a Ti te…</p><p>La noche sufre.</p><p>(PIZARNIK, 2014, p. 40)</p><p>Se em Pizarnik encontramos uma visão pessimista sobre a vida e um</p><p>desalento constante sobre a experiência com o outro, no poeta espanhol Antonio</p><p>Machado (1875-1939) podemos perceber outra visão sobre a existência. O seu</p><p>poema mais célebre, lido e reproduzido constantemente, nos mostra que a</p><p>coragem para guiar a própria vida e a experiência são as duas das variáveis que</p><p>determinam o nosso destino e a realização pessoal:</p><p>Caminante, son tus huellas</p><p>el camino y nada más;</p><p>Caminante, no hay camino,</p><p>se hace camino al andar.</p><p>Al andar se hace el camino,</p><p>y al volver la vista atrás</p><p>se ve la senda que nunca</p><p>se ha de volver a pisar.</p><p>Caminante no hay camino</p><p>sino estelas en la mar</p><p>(MACHADO, 2010, p. 5)</p><p>Pablo Neruda, outro poeta que habita a constelação maior da poesia em</p><p>língua espanhola, nos canta o amor como uma espécie de realização ocorrida a</p><p>partir do encontro com o outro. No seguinte poema percebemos, por exemplo, o</p><p>amor como agente libertador, capaz de despertar o mais belo que existe no outro:</p><p>TÓPICO 2 | A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE</p><p>73</p><p>Para mi corazón basta tu pecho,</p><p>para tu libertad bastan mis alas.</p><p>Desde mi boca llegará hasta el cielo</p><p>lo que estaba dormido sobre tu alma.</p><p>Es en ti la ilusión de cada día.</p><p>Llegas como el rocío a las corolas.</p><p>Socavas el horizonte con tu ausencia.</p><p>Eternamente en fuga como la ola.</p><p>He dicho que cantabas en el viento</p><p>como los pinos y como los mástiles.</p><p>Como ellos eres alta y taciturna.</p><p>Y entristeces de pronto, como un viaje.</p><p>Acogedora como un viejo camino.</p><p>Te pueblan ecos y voces nostálgicas.</p><p>Yo desperté y a veces emigran y huyen</p><p>pájaros que dormían en tu alma.</p><p>FONTE: <https://www.poeticous.com/neruda/poema-12-para-mi-corazon-basta-tu-</p><p>pecho?locale=es>. Acesso em: 11 set. 2018.</p><p>O pensador José Martí, um dos autores cubanos mais importantes de</p><p>todos os tempos, publicou o livro Ismaelillo, em homenagem ao seu filho. O livro,</p><p>uma das obras de maior sensibilidade poética de Martí, nos mostra a relação de</p><p>um pai com o seu filho, a singularidade dos gestos cotidianos na rotina doméstica</p><p>e a beleza da paternidade.</p><p>Mi Caballero</p><p>Por los mañanas</p><p>Mi pequeñuelo</p><p>Me despertaba</p><p>Con un gran beso.</p><p>Puesto a horcajadas</p><p>Sobre mi pecho,</p><p>Bridas forjaba</p><p>Con mis cabellos.</p><p>Ebrio él de gozo,</p><p>De gozo yo ebrio,</p><p>Me espoleaba</p><p>Mi caballero:</p><p>¡Qué suave espuela</p><p>Sus dos pies frescos!;</p><p>¡Cómo reía</p><p>Mi jinetuelo!</p><p>Y yo besaba</p><p>Sus pies pequeños,</p><p>¡Dos pies que caben</p><p>En sólo un beso!</p><p>(MARTÍ, 1882, p. 4)</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>74</p><p>NOTA</p><p>Em tempo: Você pode baixar gratuitamente o livro</p><p>Ismaelillo. Como já constam 70 anos desde a morte do autor, o livro</p><p>pertence ao domínio público. Não perca esta oportunidade! Acesse a</p><p>obra completa em: <http://www.espacioebook.com/sigloxx_98/marti/</p><p>Marti_Ismaelillo.pdf>..</p><p>Na poesia de língua espanhola, percebemos que há um manancial de</p><p>temas e assuntos que perpassam a obra de autores dispostos ao longo dos séculos.</p><p>Nos subtópicos seguintes, estudaremos as singularidades de poetas específicos.</p><p>2.1 GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER: DESTINO E AMOR NÃO</p><p>REALIZADO</p><p>No âmbito da poesia em língua espanhola, Gustavo Adolfo Bécquer</p><p>(1836-1870) é um nome de grande relevância. O autor, que viveu apenas 34</p><p>anos, desenhou seu nome com traço fino na história da poesia espanhola, graças</p><p>à sua habilidade poética que inspirou gerações seguintes de poetas hispânicos.</p><p>Bécquer nasceu em Sevilha e, apesar de ter se conectado profundamente com a</p><p>tradição poética andaluz, atualmente é reconhecido por sua originalidade poética</p><p>e capacidade de expressão romântica.</p><p>FIGURA 8 – GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER</p><p>FONTE: <https://euston96.b-cdn.net/wp-content/uploads/2018/01/Gustavo-Adolfo-</p><p>B%C3%A9cquer-300x203.jpg>. Acesso em: 21 jun. 2018.</p><p>TÓPICO 2 | A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE</p><p>75</p><p>A obra Rimas y Leyendas é uma das mais representativas do autor. Para</p><p>Fernández-Arce (1974, p. 272):</p><p>Rimas y Leyendas se caracterizan por su hondo subjetivismo y por el</p><p>empleo de la primera persona, lo que denota el predominio del yo del</p><p>poeta en lo que éste escribe. También, por su brevedad y sencillez de</p><p>forma. El poeta busca decir las cosas con el menor número de palabras</p><p>posible, eliminando muchos ornamentos expresivos. Esto implica,</p><p>como puede suponerse, una cuidadosa escogencia de los vocablos.</p><p>Recordemos que Bécquer expressa-se no âmago do Romantismo espanhol.</p><p>O amor em Rimas y Leyendas é, então, um amor idealizado. O poeta canta ao amor,</p><p>à solidão e também à imensidão do vago, do mistério, da existência e do futuro</p><p>dos homens.</p><p>Observe o poema VIIII de Rimas y Leyendas:</p><p>Cuando miro el azul horizonte</p><p>perderse a lo lejos</p><p>a través de una gasa de polvo</p><p>dorado e inquieto,</p><p>me parece posible arrancarme</p><p>del mísero suelo,</p><p>y flotar con la niebla dorada</p><p>en átomos leves</p><p>cual ella deshecho.</p><p>Cuando miro de noche en el fondo</p><p>oscuro del cielo</p><p>las estrellas temblar, como ardientes</p><p>pupilas de fuego,</p><p>me parece posible a do brillan</p><p>subir en un vuelo,</p><p>y anegarme en su luz, y con ellas</p><p>en lumbre encendido</p><p>fundirme en un beso.</p><p>En el mar de la duda en que bogo</p><p>ni aun sé lo que creo:</p><p>¡sin embargo, estas ansias me dicen</p><p>que</p><p>yo llevo algo</p><p>divino aquí dentro...!</p><p>Neste poema, percebemos a contemplação das possibilidades no âmbito da</p><p>não realização: ao observar a imensidão do azul do horizonte, o eu-lírico declara</p><p>entender ser possível sair do chão e flutuar "con la niebla dorada". A mesma sensação</p><p>é despertada pela noite, que assim como o azul infinito, também incita o poeta a</p><p>voar e ascender através da luz. A experiência, que se registra sobretudo no nível do</p><p>sensorial, culmina na expectativa de um beijo e na certeza de que o eu-lírico possui</p><p>dentro de si um sentimento tão grande e inexplicável que é incapaz de nomear. Sem</p><p>lugar a dúvidas, este poema expressa nuances fundacionais da escola romântica,</p><p>como a questão da idealização.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>76</p><p>XXIX</p><p>Sobre la falda tenía</p><p>el libro abierto;</p><p>en mi mejilla tocaban</p><p>sus rizos negros;</p><p>no veíamos las letras</p><p>ninguno, creo;</p><p>mas guardábamos entrambos</p><p>hondo silencio.</p><p>¿Cuánto duró? Ni aun entonces</p><p>pude saberlo;</p><p>sólo sé que no se oía</p><p>más que el aliento,</p><p>que apresurado escapaba</p><p>del labio seco.</p><p>Sólo sé que nos volvimos</p><p>los dos a un tiempo</p><p>y nuestros ojos se hallaron,</p><p>y sonó un beso.</p><p>Creación de Dante era el libro,</p><p>era su Infierno.</p><p>Cuando a él bajamos los ojos,</p><p>yo dije trémulo:</p><p>“¿Comprendes ya que un poema</p><p>cabe en un verso?”</p><p>Y ella respondió encendida:</p><p>“¡Ya lo comprendo!”</p><p>O amor, ainda que não realizado, é despertado através do encontro com</p><p>a amada. Fernández-Arce (1974, p. 274) menciona que Las Rimas apresentam</p><p>diferentes fases do desenvolvimento do amor: "desde su emocionada iniciación,</p><p>hasta los momentos de dolor final, en que predomina el fracaso amoroso (...) el</p><p>poeta siente la adversidad y huya del mundo volviendose a sí mismo”.</p><p>DICAS</p><p>No documentário Bécquer Desconocido, el hombre detrás del mito,</p><p>conhecemos mais sobre a biografia do poeta romântico espanhol. Acesse! Para assistir,</p><p>visite: <https://www.youtube.com/watch?v=JTA-Vr-i7yk>.</p><p>TÓPICO 2 | A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE</p><p>77</p><p>DICAS</p><p>O amor, este sentimento que os poetas buscam expressar através de palavras,</p><p>se mescla com o grande mistério da existência e do destino do homem. Observe o</p><p>poema II de Rimas y leyendas:</p><p>II</p><p>Saeta que voladora</p><p>cruza, arrojada al azar</p><p>sin adivinarse dónde</p><p>temblando se clavará;</p><p>hoja que del árbol seca</p><p>arrebata el vendaval,</p><p>sin que nadie acierte el surco</p><p>donde a caer volverá;</p><p>gigante ola que el viento</p><p>riza y empuja en el mar</p><p>y rueda y pasa, y no sabe</p><p>qué playa buscando va;</p><p>luz que en cercos temblorosos</p><p>brilla, próxima a expirar,</p><p>ignorándose cuál de ellos</p><p>el último brillará;</p><p>ese soy yo, que al ocaso</p><p>cruzo el mundo, sin pensar</p><p>de dónde vengo, ni adónde</p><p>mis pasos me llevarán</p><p>Você pode baixar gratuitamente o livro Rimas y leyendas,</p><p>de Gustavo Adolfo Bécquer.</p><p>Para fazê-lo, acesse: <http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/rimas-</p><p>y-leyendas--0/html/>.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>78</p><p>Contemplativo, o eu-lírico observa o passar e o direcionamento da vida</p><p>sem qualquer controle sobre o destino. A metáfora da "folha seca", arrebatada</p><p>pelo vendaval, expressa o sentimento de pequenez diante das variáveis que nos</p><p>levam ao futuro. O mesmo sentimento é expresso pela metáfora subsequente de</p><p>uma onda gigante que é levada pelo vento sem saber em qual praia irá rebentar.</p><p>À seta voadora, à folha, à onda e à luz se compara o poeta, que cruza o mundo</p><p>sem pensar onde seus passos o levarão.</p><p>Quando mergulhamos na poesia de Bécquer, entendemos que a habilidade</p><p>no fazer poético se presentifica na especificidade de temas e na riqueza de</p><p>imagens e metáforas que o autor utiliza. Se Bécquer representa toda uma geração</p><p>de poetas na Espanha, no próximo subtópico conheceremos um nome de valor</p><p>inegociável da poesia hispano-americana: Pablo Neruda.</p><p>3 O AMOR PESSOAL E O SOFRIMENTO SOCIAL EM</p><p>PABLO NERUDA</p><p>Pablo Neruda (1904-1973), pseudônimo de Ricardo Eliecer Neftali Reyes</p><p>Basoalto, foi um dos poetas mais importantes do século XX. Nascido no Chile,</p><p>Neruda foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1971, dois</p><p>anos antes de sua morte. Neruda produziu uma poesia repleta de "sensualidade,</p><p>dúvida e insatisfação", como bem sinalizou Bella Jozef em sua História da Literatura</p><p>Hispano-americana (1971). Ainda de acordo com a historiadora brasileira, nos</p><p>livros de juventude do poeta, podemos encontrar "o lamento do prazer que se foi:</p><p>a matéria, não podendo satisfazer as ânsias ilimitadas, dá um tom angustioso e</p><p>mórbido a muitas de suas poesias eróticas" (JOZEF, 1971, p. 232).</p><p>FIGURA 9 – PABLO NERUDA</p><p>FONTE:<https://www.comunidadeculturaearte.com/wp-content/uploads/2017/10/pablo-</p><p>neruda-galeria-1-2.jpg>. Acesso em: 12 jun. 2018.</p><p>TÓPICO 2 | A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE</p><p>79</p><p>Puedo escribir los versos más tristes esta noche...</p><p>Puedo escribir los versos más tristes esta noche.</p><p>Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,</p><p>y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".</p><p>El viento de la noche gira en el cielo y canta.</p><p>Puedo escribir los versos más tristes esta noche.</p><p>Yo la quise, y a veces ella también me quiso.</p><p>En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.</p><p>La besé tantas veces bajo el cielo infinito.</p><p>Ella me quiso, a veces yo también la quería.</p><p>Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.</p><p>Puedo escribir los versos más tristes esta noche.</p><p>Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.</p><p>Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.</p><p>Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.</p><p>Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.</p><p>La noche está estrellada y ella no está conmigo.</p><p>Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.</p><p>Mi alma no se contenta con haberla perdido.</p><p>Como para acercarla mi mirada la busca.</p><p>Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.</p><p>La misma noche que hace blanquear los mismos</p><p>árboles.</p><p>Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.</p><p>Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.</p><p>Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.</p><p>De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.</p><p>Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.</p><p>Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.</p><p>Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.</p><p>Porque en noches como ésta la tuve entre mis</p><p>brazos,</p><p>mi alma no se contenta con haberla perdido.</p><p>Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,</p><p>y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.</p><p>FONTE: <https://www.neruda.uchile.cl/obra/obra20poemas5.html>. Acesso em: 11 set. 2018.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>80</p><p>Como uma espécie de metapoema, um poema que versa sobre o processo</p><p>de escrita, em Puedo escribir los versos más tristes esta noche percebemos um amor que</p><p>se realizou fisicamente, mas que no presente poético já não se mantém constante.</p><p>O eu-lírico olha para o passado com profunda melancolia e dor por ter vivido um</p><p>amor que já não mais acontece senão no nível da poesia. Além disso, o sentimento</p><p>de descontentamento por ter perdido a amada é algo que está presente em todo</p><p>o poema, como corrobora o verso "Mi alma no se contenta con haberla perdido".</p><p>Percebe-se, também, a inespecificidade das certezas do poeta: o eu-lírico expressa</p><p>não mais querer a amada, mas em outros momentos afirma não ter certeza disso:</p><p>"Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero". As sensações, um emaranhado de</p><p>sentimentos que decorrem da experiência amorosa, presentificam-se na dificuldade</p><p>em esquecer: "Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido".</p><p>FIGURA 10 – CAPA DE LIVRO</p><p>FONTE: <https://www.popularlibros.com/imagenes_grandes/9788432/978843224842.JPG>.</p><p>Acesso em: 17 ago. 2018.</p><p>Em dado momento, a guerra da Espanha converte Neruda em um "cantor</p><p>do social e do coletivo", nas palavras de Jozef (1971). Este momento significa uma</p><p>espécie de curva na produção literária do poeta chileno: "A guerra na Espanha</p><p>produz-lhe um impacto e o poeta, que não sabia como refugiar-se da angústia de</p><p>contemplar a desintegração do próprio ser, converte-se em cantor do social e do</p><p>coletivo, do</p><p>69</p><p>2 UM BREVE OLHAR SOBRE A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE POÉTICA ............... 70</p><p>2.1 GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER: DESTINO E AMOR NÃO REALIZADO ........................... 74</p><p>3 O AMOR PESSOAL E O SOFRIMENTO SOCIAL EM PABLO NERUDA .............................. 78</p><p>4 O SUICÍDIO EM ALEJANDRA PIZARNIK ................................................................................... 82</p><p>sumário</p><p>VIII</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................86</p><p>AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................87</p><p>TÓPICO 3 – RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO HISPÂNICO: LÁ E CÁ .....................91</p><p>1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................91</p><p>2 ROSALÍA DE CASTRO: DO “REXURDIMENTO” DAS LETRAS GALEGAS</p><p>PARA O MUNDO ...............................................................................................................................92</p><p>3 A LITERATURA GAUCHESCA EM JOSÉ HERNÁNDEZ .......................................................95</p><p>4 ANTONIO MACHADO E A CRÍTICA ÀS MENTALIDADES COLETIVAS ........................99</p><p>5 MIGUEL DE UNAMUNO .................................................................................................................103</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................105</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................106</p><p>AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................107</p><p>UNIDADE 3 – O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO</p><p>SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES ...............................................109</p><p>TÓPICO 1 – O CONTO LATINO-AMERICANO ...........................................................................111</p><p>1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................111</p><p>2 O URUGUAIO HORÁCIO QUIROGA: LOUCURA, PAIXÃO E MORTE .............................112</p><p>3 A HISTÓRIA SOCIAL DA ARGENTINA EM JUANA MANUELA GORRITI .....................119</p><p>4 ESTEBAN ECHEVERRÍA E A CRÍTICA À IGREJA E AO GOVERNO ..................................125</p><p>5 A PROSA POÉTICA MODERNISTA DE RUBEN DARÍO ........................................................127</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................132</p><p>AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................133</p><p>TÓPICO 2 – O TEATRO DO SÉCULO DE OURO: UMA NOVA ESTRUTURA</p><p>PARA O DRAMA ............................................................................................................137</p><p>1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................137</p><p>2 O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO: QUESTÕES TEÓRICAS ........................138</p><p>2.1 LOPE DE VEGA: O HOMEM E A OBRA...................................................................................140</p><p>2.1.1 A revolta popular e a tirania em Fuenteovejuna ................................................................143</p><p>2.1.2 A comédia palatina El Perro del Hortelano ..........................................................................149</p><p>3 OS CAMINHOS DE LOPE TRILHADOS POR TIRSO DE MOLINA ....................................151</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................153</p><p>AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................154</p><p>TÓPICO 3 – O DRAMA NA AMÉRICA COLONIAL ....................................................................157</p><p>1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................157</p><p>2 O TEATRO NA AMÉRICA LATINA: HÁ UM PONTO DE INÍCIO? ......................................158</p><p>3 ÉPOCA BARROCA: JUAN RUIZ DE ALARCÓN Y MENDOZA (1580-1639) ........................159</p><p>4 O TEATRO NEOCLÁSSICO: O RESGATE DE OLLANTAY ......................................................161</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................163</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................167</p><p>AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................168</p><p>REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................171</p><p>1</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• orientar-se por questões de ordem conceitual, reconhecendo estéticas e</p><p>estilos recorrentes no âmbito dos estudos literários de língua espanhola;</p><p>• conhecer os principais narradores latino-americanos que marcaram o seu</p><p>nome na história da literatura;</p><p>• entender a importância de Gabriel García Márquez e as linhas que</p><p>conformam a criação de toda uma representação da América Latina;</p><p>• observar a importância de Jorge Luis Borges, escritor argentino considerado</p><p>um dos maiores escritores do século XX;</p><p>• conhecer a biografia e os elementos sobrenaturais caracterizadores da</p><p>literatura produzida pelo mexicano Carlos Fuentes;</p><p>• inteirar-se da proposta inovadora de Julio Cortázar no processo criativo</p><p>de sua obra-prima Rayuela;</p><p>• explorar as nuances que conformam as literaturas de viagens, tão</p><p>populares no período de descobrimento e acessíveis através da carta de</p><p>Cristóvão Colombo e do frei Bartolomé de las Casas;</p><p>• ampliar as noções ensaísticas através dos estudos medievalistas de Ramón</p><p>Menéndez-Pidal</p><p>• conhecer as linhas gerais que perfilam a obra filosófica de José Ortega y</p><p>Gasset;</p><p>• estudar o conceito de heterogeneidade do crítico peruano Antonio Cornejo</p><p>Polar;</p><p>• entender as motivações intelectuais do uruguaio Hugo Achugar e estudar</p><p>a importância do pensamento deste autor para a crítica literária dos</p><p>séculos XX/XXI.</p><p>UNIDADE 1</p><p>A NARRATIVA E O ENSAIO EM</p><p>ESPANHOL: AS BASES E O</p><p>CONTEMPORÂNEO</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>Esta unidade está dividida em dois tópicos. No decorrer da unidade você</p><p>encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA DA</p><p>LITERATURA HISPANO-AMERICANA</p><p>TÓPICO 2 – O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES</p><p>SELECIONADOS</p><p>2</p><p>3</p><p>A história das literaturas de língua espanhola é constituída pela presença</p><p>de narradores que lograram entrar para o seleto grupo de autores pertencentes</p><p>ao cânone ocidental. Estes autores, atualmente reconhecidos como os maiores</p><p>escritores de todos os tempos, nos mostram uma forma de expressão literária e</p><p>estilos singulares.</p><p>No presente capítulo conheceremos um pouco sobre Gabriel García</p><p>Márquez, autor colombiano do clássico Cem anos de Solidão, uma das mais</p><p>importantes obras literárias do século XX e de reconhecida expressão máxima da</p><p>latinoamericanidade.</p><p>TÓPICO 1</p><p>UNIDADE 1</p><p>NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>DA LITERATURA HISPANO-AMERICANA</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>FIGURA 1 – CEM ANOS DE SOLIDÃO</p><p>FONTE: <http://petalasdeliberdade.blogspot.com/2013/10/resenha-livro-cem-anos-de-solidao.html>.</p><p>Acesso em: 15 maio 2018.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>4</p><p>Além de Márquez,</p><p>viril e construtivo" (JOZEF, 1971, p. 133). De fato, esta fase expressa</p><p>uma face bastante obscura do tempo histórico de Neruda e que é plenamente</p><p>representada na poesia do autor:</p><p>Sólo la muerte</p><p>Hay cementerios solos,</p><p>tumbas llenas de huesos sin sonido,</p><p>el corazón pasando un túnel</p><p>oscuro, oscuro, oscuro,</p><p>como un naufragio hacia adentro nos morimos,</p><p>como ahogarnos en el corazón,</p><p>TÓPICO 2 | A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE</p><p>81</p><p>como irnos cayendo desde la piel al alma.</p><p>Hay cadáveres,</p><p>hay pies de pegajosa losa fría,</p><p>hay la muerte en los huesos,</p><p>como un sonido puro,</p><p>como un ladrido sin perro,</p><p>saliendo de ciertas campanas, de ciertas tumbas,</p><p>creciendo en la humedad como el llanto o la lluvia.</p><p>Yo veo, solo, a veces,</p><p>ataúdes a vela</p><p>zarpar con difuntos pálidos, con mujeres de trenzas muertas,</p><p>con panaderos blancos como ángeles,</p><p>con niñas pensativas casadas con notarios,</p><p>ataúdes subiendo el río vertical de los muertos,</p><p>el río morado,</p><p>hacia arriba, con las velas hinchadas por el sonido de la muerte,</p><p>hinchadas por el sonido silencioso de la muerte.</p><p>A lo sonoro llega la muerte</p><p>como un zapato sin pie, como un traje sin hombre,</p><p>llega a golpear con un anillo sin piedra y sin dedo,</p><p>llega a gritar sin boca, sin lengua, sin garganta.</p><p>Sin embargo sus pasos suenan</p><p>y su vestido suena, callado, como un árbol.</p><p>Yo no sé, yo conozco poco, yo apenas veo,</p><p>pero creo que su canto tiene color de violetas húmedas,</p><p>de violetas acostumbradas a la tierra</p><p>porque la cara de la muerte es verde,</p><p>y la mirada de la muerte es verde,</p><p>con la aguda humedad de una hoja de violeta</p><p>y su grave color de invierno exasperado.</p><p>Pero la muerte va también por el mundo vestida de escoba,</p><p>lame el suelo buscando difuntos,</p><p>la muerte está en la escoba,</p><p>es la lengua de la muerte buscando muertos,</p><p>es la aguja de la muerte buscando hilo.</p><p>La muerte está en los catres:</p><p>en los colchones lentos, en las frazadas negras</p><p>vive tendida, y de repente sopla:</p><p>sopla un sonido oscuro que hincha sábanas,</p><p>y hay camas navegando a un puerto</p><p>en donde está esperando, vestida de almirante.</p><p>Apesar desta fase repleta de pessimismo e de representações obscuras</p><p>da realidade social na qual estava inserido (Neruda foi cônsul do Chile na</p><p>Espanha durante a Guerra Civil Espanhola de 1934 a 1938), na atualidade o poeta</p><p>é reconhecido por sua poesia de cariz romântico. Se em Bécquer encontramos</p><p>o amor não realizado e a incerteza do destino, em Neruda compreendemos o</p><p>amor no âmago de sua ausência, apesar de sua realização. O social e as marcas</p><p>da guerra e da dor dão a certeza de que a poesia de Pablo Neruda se constitui</p><p>através da lente observadora de um indivíduo hábil na captação dos sentimentos</p><p>e da sociedade. No próximo subtópico, lançaremos um olhar sobre a poesia de</p><p>Alejandra Pizarnik.</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>82</p><p>DICAS</p><p>Assista à antológica entrevista que Pablo Neruda concedeu a Gabriel García</p><p>Márquez. Sem dúvidas, um encontro de titãs, de dois dos mais significativos nomes da</p><p>literatura na América Latina.</p><p>Para fazê-lo, acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=1520QZIclmI>.</p><p>4 O SUICÍDIO EM ALEJANDRA PIZARNIK</p><p>Alejandra Pizarnik nasceu em Buenos Aires em 1936 e faleceu em 1972. A</p><p>obra da poeta portenha é cada vez mais reconhecida e vem ganhando sucessivas</p><p>edições e traduções em diversos países. Pizarnik foi amiga pessoal de Julio</p><p>Cortázar, o célebre autor de Rayuela, e uma das primeiras leitoras da magnus opus</p><p>do escritor argentino. A poesia de Pizarnik é repleta de pessimismo e carregada</p><p>de um forte desejo de suicídio.</p><p>FIGURA 11 – ALEJANDRA PIZARNIK</p><p>FONTE: <http://lounge.obviousmag.org/a_razao_singular_do_segredo/pizarnik_1.jpg>.</p><p>Acesso em: 21 jun. 2018.</p><p>TÓPICO 2 | A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE</p><p>83</p><p>Observe o poema intitulado El despertar (2014), no qual a autora realiza</p><p>uma espécie de direcionamento a Deus:</p><p>El despertar</p><p>A León Ostrov</p><p>Señor</p><p>La jaula se ha vuelto pájaro</p><p>y se ha volado</p><p>y mi corazón está loco</p><p>porque aúlla a la muerte</p><p>y sonríe detrás del viento</p><p>a mis delirios</p><p>Qué haré con el miedo</p><p>Qué haré con el miedo</p><p>Ya no baila la luz en mi sonrisa</p><p>ni las estaciones queman palomas en mis ideas</p><p>Mis manos se han desnudado</p><p>y se han ido donde la muerte</p><p>enseña a vivir a los muertos</p><p>Señor</p><p>El aire me castiga el ser</p><p>Detrás del aire hay monstruos</p><p>que beben de mi sangre</p><p>Es el desastre</p><p>Es la hora del vacío no vacío</p><p>Es el instante de poner cerrojo a los labios</p><p>oír a los condenados gritar</p><p>contemplar a cada uno de mis nombres</p><p>ahorcados en la nada.</p><p>Señor</p><p>Tengo veinte años</p><p>También mis ojos tienen veinte años</p><p>y sin embargo no dicen nada</p><p>Señor</p><p>He consumado mi vida en un instante</p><p>La última inocencia estalló</p><p>Ahora es nunca o jamás</p><p>o simplemente fue</p><p>¿Cómo no me suicido frente a un espejo</p><p>y desaparezco para reaparecer en el mar</p><p>donde un gran barco me esperaría</p><p>con las luces encendidas?</p><p>¿Cómo no me extraigo las venas</p><p>y hago con ellas una escala</p><p>para huir al otro lado de la noche?</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>84</p><p>El principio ha dado a luz el final</p><p>Todo continuará igual</p><p>Las sonrisas gastadas</p><p>El interés interesado</p><p>Las preguntas de piedra en piedra</p><p>Las gesticulaciones que remedan amor</p><p>Todo continuará igual</p><p>Pero mis brazos insisten en abrazar al mundo</p><p>porque aún no les enseñaron</p><p>que ya es demasiado tarde</p><p>Señor</p><p>Arroja los féretros de mi sangre</p><p>Recuerdo mi niñez</p><p>cuando yo era una anciana</p><p>Las flores morían en mis manos</p><p>porque la danza salvaje de la alegría</p><p>les destruía el corazón</p><p>Recuerdo las negras mañanas de sol</p><p>cuando era niña</p><p>es decir ayer</p><p>es decir hace siglos</p><p>Señor</p><p>La jaula se ha vuelto pájaro</p><p>y ha devorado mis esperanzas</p><p>Señor</p><p>La jaula se ha vuelto pájaro</p><p>Qué haré con el miedo</p><p>Neste poema, percebemos um desejo constante de morrer, na possibilidade</p><p>de a morte ser para o eu-lírico como uma redenção. A confusão nos sentimentos, o</p><p>não entendimento e o medo constante são algumas das marcas que condicionam</p><p>o eu-lírico a um desejo incessante de morrer: "y mi corazón está loco / porque</p><p>aúlla a la muerte". Além disso, percebe-se também uma constante de traços</p><p>depressivos, em um tempo-espaço mental no qual já não se pode mais estar</p><p>suscetível ao externo e sensível à contemplação do universo que a cerca: "Ya no</p><p>baila la luz en mi sonrisa / ni las estaciones queman palomas en mis ideas".</p><p>TÓPICO 2 | A DIVERSIDADE DE TEMAS NA ARTE</p><p>85</p><p>DICAS</p><p>Convidamos você a assistir à primeira parte do documentário Memória</p><p>Iluminada: Alejandra Pizarnik. Para fazê-lo, acesse: <https://www.youtube.com/</p><p>watch?v=rLpUDqeuIW8>.</p><p>Alejandra Pizarnik nos mostra um lado mais obscuro da arte poética:</p><p>a criação da autora é riquíssima em imagens poéticas, versos construídos com</p><p>traços finos e repletos de sutilezas íntimas e questões meta-existenciais. Pizarnik,</p><p>uma alma atormentada pelo peso da existência, brindou-nos com uma literatura</p><p>de qualidade produzida ao longo de sua curta vida.</p><p>86</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• A literatura espanhola é rica no que tange à abundância temática e à diversidade</p><p>expressiva.</p><p>• No âmbito da poesia em língua espanhola, a poesia de Gustavo Adolfo Bécquer</p><p>é representante do que hoje conhecemos por romantismo tardio.</p><p>• A poesia de Pablo Neruda pode ser bipartida em dois segmentos: o amoroso e</p><p>o social.</p><p>• Em sua curta vida, Alejandra Pizarnik apresentou-nos uma poesia envergada</p><p>para o lado mais obscuro da existência e da percepção humana.</p><p>87</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 Realize uma leitura atenta dos quatro poemas seguintes:</p><p>1</p><p>Caminante, son tus huellas</p><p>el camino y nada más;</p><p>Caminante, no hay camino,</p><p>se hace camino al andar.</p><p>Al andar se hace el camino,</p><p>y al volver la vista atrás</p><p>se ve la senda que nunca</p><p>se ha de volver a pisar.</p><p>Caminante no hay camino</p><p>sino estelas en la mar</p><p>(Antonio Machado. Proverbios y cantares XXIX)</p><p>2</p><p>Saeta que voladora</p><p>cruza, arrojada al azar</p><p>sin adivinarse dónde</p><p>temblando se clavará;</p><p>hoja que del árbol seca</p><p>arrebata el vendaval,</p><p>sin que nadie acierte el surco</p><p>donde a</p><p>caer volverá;</p><p>gigante ola que el viento</p><p>riza y empuja en el mar</p><p>y rueda y pasa, y no sabe</p><p>qué playa buscando va;</p><p>luz que en cercos temblorosos</p><p>brilla, próxima a expirar,</p><p>ignorándose cuál de ellos</p><p>el último brillará;</p><p>ese soy yo, que al ocaso</p><p>cruzo el mundo, sin pensar</p><p>de dónde vengo, ni adónde</p><p>mis pasos me llevarán.</p><p>(Gustavo Adolfo Bécquer)</p><p>88</p><p>3</p><p>Hay cementerios solos,</p><p>tumbas llenas de huesos sin sonido,</p><p>el corazón pasando un túnel</p><p>oscuro, oscuro, oscuro,</p><p>como un naufragio hacia adentro nos morimos,</p><p>como ahogarnos en el corazón,</p><p>como irnos cayendo desde la piel al alma.</p><p>Hay cadáveres,</p><p>hay pies de pegajosa losa fría,</p><p>hay la muerte en los huesos,</p><p>como un sonido puro,</p><p>como un ladrido sin perro,</p><p>saliendo de ciertas campanas, de ciertas tumbas,</p><p>creciendo en la humedad como el llanto o la lluvia.</p><p>(Pablo Neruda)</p><p>4</p><p>Exilio</p><p>A Raúl Gustavo Aguirre</p><p>Esta manía de saberme ángel,</p><p>sin edad,</p><p>sin muerte en qué vivirme,</p><p>sin piedad por mi nombre</p><p>ni por mis huesos que lloran vagando.</p><p>¿Y quién no tiene un amor?</p><p>¿Y quién no goza entre amapolas?</p><p>¿Y quién no posee un fuego, una muerte,</p><p>un miedo, algo horrible,</p><p>aunque fuere con plumas,</p><p>aunque fuere con sonrisas?</p><p>Siniestro delirio amar a una sombra.</p><p>La sombra no muere.</p><p>Y mi amor</p><p>sólo abraza a lo que fluye</p><p>como lava del infierno:</p><p>una logia callada,</p><p>fantasmas en dulce erección,</p><p>sacerdotes de espuma,</p><p>y sobre todo ángeles,</p><p>ángeles bellos como cuchillos</p><p>que se elevan en la noche</p><p>y devastan la esperanza.</p><p>(Alejandra Pizarnik)</p><p>89</p><p>Agora marque o número de cada poema relacionando-o à temática</p><p>correspondente:</p><p>2 Convidamos você a assistir ao documentário Memória Iluminada. Alejandra</p><p>Pizarnik: Final del juego (capítulo completo) – Canal Encuentro, disponível</p><p>gratuitamente na plataforma YouTube. Para fazê-lo, acesse: <https://www.</p><p>youtube.com/watch?v=F7dG_ppiHFg> ou então <https://bit.ly/2IGe4Jn>.</p><p>Agora que você já assistiu, responda as seguintes perguntas:</p><p>1 O que a mãe de Alejandra Pizarnik dizia à sua irmã Myriam Pizarnik sobre</p><p>a poesia produzida por Alejandra?</p><p>2 O que aconteceu com os originais de Rayuela, que Cortázar entregou a</p><p>Alejandra?</p><p>3 O que diz Alejandra em Sala de Psicopatología?</p><p>3 Leia o seguinte poema de Gustavo Adolfo Bécquer:</p><p>XXIX</p><p>Cuando miro el azul horizonte</p><p>perderse a lo lejos</p><p>a través de una gasa de polvo</p><p>dorado e inquieto,</p><p>me parece posible arrancarme</p><p>del mísero suelo,</p><p>y flotar con la niebla dorada</p><p>en átomos leves</p><p>cual ella deshecho.</p><p>A sociedade devastada, corroída pela</p><p>maldade humana.</p><p>Visão otimista da vida, liberdade.</p><p>A impossibilidade de dominar o destino.</p><p>O amor forte, porém sem esperanças.</p><p>90</p><p>Cuando miro de noche en el fondo</p><p>oscuro del cielo</p><p>las estrellas temblar, como ardientes</p><p>pupilas de fuego,</p><p>me parece posible a do brillan</p><p>subir en un vuelo,</p><p>y anegarme en su luz, y con ellas</p><p>en lumbre encendido</p><p>fundirme en un beso.</p><p>En el mar de la duda en que bogo</p><p>ni aun sé lo que creo:</p><p>¡sin embargo, estas ansias me dicen</p><p>que yo llevo algo</p><p>divino aquí dentro...!</p><p>Agora marque a resposta correta:</p><p>a) ( ) No poema podemos dizer que o eu-lírico realiza fisicamente o seu amor</p><p>com a amada.</p><p>b) ( ) Apesar de o poema pertencer ao período romântico, não se percebe</p><p>qualquer traço desta escola literária neste poema.</p><p>c) ( ) O eu-lírico vislumbra um horizonte de possibilidades sem propriamente</p><p>concretizá-las.</p><p>d) ( ) A amada não corresponde ao amor do poeta.</p><p>e) ( ) O azul do horizonte pode ser entendido como o amor do eu-lírico</p><p>tipicamente romântico.</p><p>91</p><p>TÓPICO 3</p><p>RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO</p><p>HISPÂNICO: LÁ E CÁ</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Desde o descobrimento da América e a colonização hispânica, o universo</p><p>das letras em castelhano vem recebendo manifestações dos dois lados do Oceano</p><p>Atlântico. Do século XVI até a contemporaneidade, o campo da cultura ocidental</p><p>vem recebendo com entusiasmo as produções poéticas advindas da Península</p><p>Ibérica e também as da América Latina.</p><p>FIGURA 12 – ARTE POÉTICA</p><p>FONTE: <http://elnacional.com.do/wp-content/uploads/2014/05/premio-internacional-manuel-</p><p>acuna-de-poesia-en-lengua-espanola.jpg>. Acesso em: 10 ago. 2018.</p><p>No presente subtópico, selecionamos poetas significativos para a poesia</p><p>na Espanha e também na América Latina. Nas páginas seguintes, conheceremos</p><p>um pouco da obra de nomes como a galega Rosalía de Castro, o sevilhano Antonio</p><p>Machado, o argentino José Hernández e também o basco Miguel de Unamuno.</p><p>Todos eles ligados a uma renovação na lírica castelhana de seu tempo e, por isso,</p><p>expoentes do melhor que há em poesia produzida neste idioma.</p><p>92</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>2 ROSALÍA DE CASTRO: DO “REXURDIMENTO” DAS LETRAS</p><p>GALEGAS PARA O MUNDO</p><p>Rosalía de Castro (1837-1885) nasceu em Santiago de Compostela e hoje</p><p>é conhecida como uma das maiores poetas de todos os tempos. Galega, Rosalía</p><p>escreveu tanto em galego, o idioma de sua comunidade autônoma, como em</p><p>castelhano. Do lado de lá do Atlântico, Rosalía publicou no âmago de uma estética</p><p>romântica. Escreveu à solidão, à saudade, à morte, ao amor e à finitude da vida.</p><p>FIGURA 13 – ROSALÍA DE CASTRO</p><p>FONTE: <http://muinhodovento.gal/wp-content/uploads/2015/01/fotorc.jpg>.</p><p>Acesso em: 23 jun. 2018.</p><p>A importância de Rosalía é tanta que o surgimento da poesia da autora</p><p>constituiu um período chamado “renascimento cultural galego” (ou "rexurdimento",</p><p>em galego), um ponto que inaugurou toda uma geração literária. Não se trata,</p><p>entretanto, de uma corrente ou de uma estética construída em função do estilo</p><p>de Rosalía, mas sim do sopro que inspirou o surgimento de novos poetas no</p><p>âmbito das letras galegas. Atualmente o dia 17 de maio é o Dia das Letras Galegas</p><p>justamente porque foi nesta data em que se publicou a obra Cantares Galegos, de</p><p>autoria de Rosalía de Castro.</p><p>Um dos poemas mais conhecidos de Rosalía é Negra Sombra (CASTRO,</p><p>2016, s. p.):</p><p>Negra Sombra</p><p>Cuando pienso que te fuiste,</p><p>negra sombra que me asombras,</p><p>al pie de mis cabezales,</p><p>vuelves haciéndome burla.</p><p>Cuando imagino que te has ido,</p><p>en el mismo sol te me muestras,</p><p>TÓPICO 3 | RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO</p><p>93</p><p>y eres la estrella que brilla,</p><p>y eres el viento que sopla.</p><p>Si cantan, eres tú que cantas,</p><p>si lloran, eres tú que lloras,</p><p>y eres el murmullo del río</p><p>y eres la noche y eres la aurora.</p><p>En todo estás y tú eres todo,</p><p>para mí y en mí misma moras,</p><p>no me abandonarás nunca,</p><p>sombra que siempre me asombras.</p><p>DICAS</p><p>Você sabia que existe uma versão musicada do poema Negra Sombra? Trata-</p><p>se de uma música gravada pela cantora galega Luz Casal. Para ouvi-la, acesse: <https://</p><p>www.youtube.com/watch?v=gdnVZE5I8Os>.</p><p>Apesar de os poemas românticos de Rosalía atualmente serem os mais</p><p>conhecidos da poeta, que se universalizou, o nome da poeta galega foi impresso</p><p>na história da língua e da literatura justamente por outros tipos de poemas que</p><p>produziu: os de caráter reivindicativo. Em artigo intitulado El Rexurdimento</p><p>o Renacimiento pleno – Poesía, Anxo Tarrío Varela (1985, p. 10) nos conta que a</p><p>poesia de Rosalía surgiu em função da motivação da poeta em dignificar a língua</p><p>e o povo galego:</p><p>Estamos ya en 1863 y ahora surge el primer gran libro del</p><p>«rexurdimento». Nos referimos a Cantares Gallegos, de Rosalía de</p><p>Castro (Santiago 1837-Padrón 1885). Un poemario que se le ocurrió</p><p>componer a Rosalía al leer el Libro de los cantares (1852) de Antonio</p><p>Trueba. De él toma la idea básica, que consiste en glosar, con propia</p><p>mano, dichos y cantares populares. Pero Rosalía, y esto es algo que</p><p>94</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>ella misma dice en el Prólogo con que encabezó el libro, escribe con</p><p>una intención que en el caso de Trueba no era necesaria: reivindicar</p><p>el idioma propio y dignificar al pueblo que lo habla, menospreciado</p><p>secularmente por ser fiel a su lengua y caricaturizado por aquellos</p><p>que creían que era una lengua incapaz de transmitir belleza y</p><p>cultura. Es éste un aspecto de la obra de Rosalía que fue escamoteado</p><p>sistemáticamente por la crítica oficial, la cual,</p><p>a cambio, ofreció una</p><p>imagen de la poetisa remilgada, romántica, azucarada y descargada</p><p>de sus valores más propios y profundos. Fue, Rosalía, sí, un espíritu</p><p>delicadísimo, con una sensibilidad muy acusada, pero en sus versos,</p><p>aun en los más aparentemente ingenuos, late un grito de protesta</p><p>irrenunciable.</p><p>De fato, nesta obra inaugural, Rosalía sustenta uma posição galego-</p><p>falante. No âmbito de sua poesia, Rosalía traz para as páginas da literatura</p><p>algumas singularidades, como é o caso do ritmo popular galego conhecido</p><p>como "muiñeira". Ao estudarmos Rosalía de Castro, podemos entender o que</p><p>significou o chamado “Romantismo tardio” nas letras hispânicas, visto que a</p><p>autora – juntamente com Gustavo Adolfo Bécquer – constitui uma das maiores</p><p>representações da literatura romântica espanhola.</p><p>DICAS</p><p>DICAS</p><p>Recomendamos que você leia o artigo intitulado Rosalía de Castro, la escritora</p><p>gallega más universal, publicado no jornal La Voz de Galicia. O texto completo pode ser</p><p>acessado em :<https://www.lavozdegalicia.es/noticia/informacion/2015/02/24/rosalia-castro-</p><p>escritora-universal-sentimiento-ser-gallego/00031424735206870381619.htm> ou <https://bit.</p><p>ly/2kXbjtU>.</p><p>O livro de poemas En las Orillas del Sar está disponível gratuitamente na página</p><p>do Cervantes Virtual! Para acessá-lo, visite: <http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/</p><p>en-las-orillas-del-sar--0/html/fedc3584-82b1-11df-acc7-002185ce6064.html> ou <https://bit.</p><p>ly/2lEazdn>.</p><p>TÓPICO 3 | RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO</p><p>95</p><p>3 A LITERATURA GAUCHESCA EM JOSÉ HERNÁNDEZ</p><p>Se na Espanha percebemos a expressão romântica como uma marca</p><p>presente na poesia produzida no século XIX, na América Latina outros fenômenos</p><p>literários são detectados além do Romantismo. Um caso bastante singular é o da</p><p>chamada Literatura Gauchesca. Alguma vez você ouviu falar no estilo literário</p><p>que busca recriar o estilo de vida e a linguagem do gaúcho? Este tipo de literatura</p><p>nos traz toda sorte de tipos típicos da região do pampa, como o próprio gaúcho,</p><p>o negro, o crioulo, os mestiços e também os gringos.</p><p>De acordo com Bella Jozef (1971), durante as lutas da revolução de 1810 na</p><p>Argentina, "o citadino e o gaúcho do campo tomaram parte nas mesmas refregas e</p><p>assim surgiram poemas populares que adotaram o falar campesino" (p. 82). Ainda</p><p>de acordo com a historiadora carioca, a forma da poesia gauchesca "assemelha-se</p><p>aos cantares espanhóis" (id) e é comum, nesta forma de expressão poética, o uso</p><p>de um quarteto com o nome de milonga. O gênero foi inicialmente inaugurado</p><p>pelo argentino Juan Gualberto Godoy (1793-1864), autor de Corro, mas foi com</p><p>José Hernández que a poesia gauchesca alcançou sua expressão máxima.</p><p>José Hernández (1834-1816) nasceu na Argentina e é o autor da obra</p><p>Martín Fierro, considerada hoje um dos livros mais importantes da história da</p><p>literatura argentina. O poema teve sua primeira parte publicada em 1872 com o</p><p>título de El gaucho Martín Fierro. Já a continuação da obra veio ao conhecimento</p><p>do público alguns anos depois, em 1879, com o título de La vuelta de Martín Fierro.</p><p>Mas por qual razão Martín Fierro foi – e continua sendo – uma obra de grande</p><p>relevância para os estudos literários de língua espanhola?</p><p>FIGURA 14 – JOSÉ HERNÁNDEZ</p><p>FONTE: <http://brownonline.com.ar/wp-content/uploads/2017/10/2015083109085110151.jpg>.</p><p>Acesso em: 23 jun. 2018.</p><p>96</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>O primeiro ponto a se ressaltar é a questão do caráter original da poesia</p><p>gauchesca. Ao trazer o homem típico do pampa gauchesco para as páginas da</p><p>literatura, José Hernandez constrói uma obra de grande valor tanto em nível de</p><p>expressão, como em nível de conteúdo. Além dos temas típicos do homem do</p><p>pampa, em Martín Fierro encontramos um linguajar próprio do gaúcho e bastante</p><p>distinto da forma culta – e por conseguinte literária/poética – da língua espanhola.</p><p>Sobre a figura do gaúcho, Jozef (1971, p. 83) esclarece que:</p><p>Na extensão pampeana surge um tipo humano, de individualidade</p><p>singular, o "gaúcho", durante dois séculos o elemento característico do</p><p>pampa, sem cerca e sem telégrafo. É o produto de vários componentes</p><p>próprios da planície rio-platense e resultou do contato de espanhóis,</p><p>índios, mestiços, escravos africanos e diversos fatores econômicos,</p><p>sociais, biológicos e geográficos. Há abundante documentação sobre</p><p>o tema, porém, em geral, conforme assinala Rodrígues Molas, serviu</p><p>"para dar curso a um romanticismo vulgar, con metáforas fáciles y</p><p>frases hechas". O gaúcho apresenta semelhanças com outros grupos</p><p>de tipo pastoril, com economia "ganadera" e o cavalo como meio de</p><p>transporte, mas as diferenças são fundamentais, devido a múltiplos</p><p>fatores culturais e econômicos.</p><p>Neste poema narrativo de José Hernández conhecemos Martín Fierro, um</p><p>homem típico do campo que vive a pasmaceira de sua vida rural junto com sua</p><p>mulher e seus filhos. A vida tranquila da família é interrompida quando Fierro é</p><p>convocado para juntar-se aos milicianos que defendem a fronteira argentina. Por</p><p>essa razão, o gaúcho precisa abandonar sua família que, sem o apoio de Fierro,</p><p>acaba se dissolvendo diante das necessidades. Durante a estada no forte em</p><p>combate contra os indígenas, Martín Fierro passa por diversas situações difíceis.</p><p>No entanto, o grande choque do personagem ocorre quando este abandona o</p><p>forte e decide regressar ao rancho em que levava uma vida tranquila com sua</p><p>família. Ao encontrar tudo abandonado, presenciamos outra guinada na vida de</p><p>Fierro: já não mais no nível dos acontecimentos externos, mas em uma mudança</p><p>de postura diante da realidade. Martín Fierro se transforma em um "gaúcho</p><p>matrero", um tipo de homem que frequenta tabernas e outros lugares de público</p><p>duvidoso, cometendo inclusive assassinatos e envolvendo-se em situações</p><p>complicadas. Observe os seguintes versos pertencentes à primeira parte da obra</p><p>na qual conhecemos Martín Fierro:</p><p>Capítulo I - Cantor y Gaucho</p><p>11</p><p>Yo soy toro en mi rodeo</p><p>Y torazo en rodeo ajeno;</p><p>Siempre me tuve por güeno</p><p>Y si me quieren probar,</p><p>Salgan otros a cantar</p><p>Y veremos quién es menos.</p><p>TÓPICO 3 | RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO</p><p>97</p><p>12</p><p>No me hago al lao de la güeya</p><p>Aunque vengan degollando,</p><p>Con los blandos yo soy blando</p><p>Y soy duro con los duros,</p><p>Y ninguno en un apuro</p><p>Me ha visto andar titubiando.</p><p>13</p><p>En el peligro, ¡qué Cristos!</p><p>El corazón se me enancha,</p><p>Pues toda la tierra es cancha,</p><p>Y de eso naides se asombre:</p><p>El que se tiene por hombre</p><p>Ande quiere hace pata ancha.</p><p>14</p><p>Soy gaucho, y entiendaló</p><p>Como mi lengua lo esplica:</p><p>Para mí la tierra es chica</p><p>Y pudiera ser mayor;</p><p>Ni la víbora me pica</p><p>Ni quema mi frente el sol</p><p>15</p><p>Nací como nace el peje</p><p>En el fondo de la mar;</p><p>Naides me puede quitar</p><p>Aquello que Dios me dio</p><p>Lo que al mundo truje yo</p><p>Del mundo lo he de llevar.</p><p>16</p><p>Mi gloria es vivir tan libre</p><p>Como el pájaro del cielo:</p><p>No hago nido en este suelo</p><p>Ande hay tanto que sufrir,</p><p>Y naides me ha de seguir</p><p>Cuando yo remuento el vuelo.</p><p>17</p><p>Yo no tengo en el amor</p><p>Quien me venga con querellas;</p><p>Como esas aves tan bellas</p><p>Que saltan de rama en rama,</p><p>Yo hago en el trébol mi cama,</p><p>Y me cubren las estrellas.</p><p>98</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>18</p><p>Y sepan cuantos escuchan</p><p>De mis penas el relato,</p><p>Que nunca peleo ni mato</p><p>Sino por necesidá,</p><p>Y que a tanta alversidá</p><p>Sólo me arrojó el mal trato</p><p>19</p><p>Y atiendan la relación</p><p>que hace un gaucho perseguido,</p><p>que padre y marido ha sido</p><p>empeñoso y diligente,</p><p>y sin embargo la gente</p><p>lo tiene por un bandido</p><p>Logo no princípio encontramos um linguajar de um típico homem sem</p><p>instrução. Quando José Hernández enviou os originais de Martín Fierro ao editor</p><p>José Zoilo Miguens, o autor advertiu a respeito da natureza rude e não erudita</p><p>do personagem, criado à luz do homem do campo: "Es un pobre gaucho, con</p><p>todas las imperfecciones de forma que el arte tiene todavía entre ellos, y con toda</p><p>la falta de enlace en sus ideas, en las que no existe siempre una</p><p>sucesión lógica,</p><p>descubriéndose frecuentemente entre ellas apenas una relación oculta y remota"</p><p>(HERNÁNDEZ, 2011, p. 5). O autor explica que, ao escrever Martín Fierro,</p><p>empreendeu poderoso esforço em retratar nas páginas da literatura um tipo que</p><p>conseguisse personificar o modo de ser do homem pampeano, sem educação e de</p><p>características próprias e inconfundíveis:</p><p>Me he esforzado, sin presumir haberlo conseguido, en presentar un</p><p>tipo que personificara el carácter de nuestros gauchos, concentrando</p><p>el modo de ser, de sentir, de pensar y de expresarse, que les es peculiar,</p><p>dotándolo con todos los juegos de su imaginación llena de imágenes y</p><p>de colorido, con todos los arranques de su altivez, inmoderados hasta</p><p>el crimen, y con todos los impulsos y arrebatos, hijos de una naturaleza</p><p>que la educación no ha pulido y suavizado.</p><p>Se na Argentina, um país ao sul da América do Sul, encontramos em</p><p>Martín Fierro a expressão típica do povo de uma cultura transnacional, a cultura</p><p>gauchesca, na Espanha – do outro lado do Oceano Atlântico –, pelo menos dois</p><p>nomes de grande relevância colaboraram para a renovação social, cultural,</p><p>estética e poética na lírica espanhola, ainda no século XIX: Antonio Machado e</p><p>Miguel de Unamuno.</p><p>TÓPICO 3 | RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO</p><p>99</p><p>4 ANTONIO MACHADO E A CRÍTICA ÀS MENTALIDADES</p><p>COLETIVAS</p><p>Antonio Machado foi um significativo poeta espanhol, nascido em</p><p>1875 e falecido em 1939. Atualmente reconhece-se Machado como um grande</p><p>expoente do Modernismo espanhol e também da chamada Generación del 98.</p><p>Além da poesia, Machado dedicou-se com afinco também à arte dramática</p><p>e à narrativa. No horizonte de influências do poeta sevilhano se encontravam</p><p>agitadas movimentações culturais, com viagens frequentes a Paris e encontros</p><p>com o consagrado poeta nicaraguense Ruben Darío. Você recorda quando</p><p>comentamos anteriormente o poema Canción de otoño en primavera, de Darío? A</p><p>amizade entre ambos os poetas proporcionou uma interessante troca cultural.</p><p>Machado ingressou como membro da Real Academia Española no ano de 1927.</p><p>Nesta ocasião, conheceu a poeta Pilar de Valderrama, artista que – segundo</p><p>sua biografia no centro de Documentación do Instituto Cervantes (s.d., s.p.) –</p><p>converteu-se em sua amada.</p><p>FIGURA 15 – ANTONIO MACHADO</p><p>FONTE: <https://i2.wp.com/www.jornalopcao.com.br/wp-content/uploads/2017/07/</p><p>imagem-p.11.jpg?w=620&ssl=1>. Acesso em: 23 jun. 2018.</p><p>Consta na biografia do poeta que a Guiomar a quem o poeta dedica suas</p><p>Canciones a Guiomar não é ninguém menos que Pilar:</p><p>En un jardín te he soñado,</p><p>alto, Guiomar sobre el río,</p><p>jardín de un tiempo cerrado</p><p>con verjas de hierro frío.</p><p>Un ave insólita canta</p><p>en el almez, dulcemente,</p><p>junto al agua viva y santa,</p><p>toda sed y toda fuente.</p><p>100</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>En ese jardín, Guiomar,</p><p>el mutuo jardín que inventan</p><p>dos corazones al par,</p><p>se funden y complementan</p><p>nuestras horas. Los racimos</p><p>de un sueño -juntos estamos-</p><p>en limpia copa exprimimos,</p><p>y el doble cuento olvidamos.</p><p>(Uno: Mujer y varón,</p><p>aunque gacela y león,</p><p>llegan juntos a beber.</p><p>El otro: No puede ser</p><p>amor de tanta fortuna:</p><p>dos soledades en una,</p><p>ni aun de varón y mujer.)</p><p>*</p><p>Por ti la mar ensaya olas y espumas,</p><p>y el iris, sobre el monte, otros colores,</p><p>y el faisán de la aurora canto y plumas,</p><p>y el búho de Minerva ojos mayores.</p><p>Por ti, ¡oh Guiomar!...</p><p>De acordo com o Instituto Cervantes, se podem destacar três aspectos na</p><p>poesia de Antonio Machado:</p><p>el entorno intelectual de sus primeros años, marcado primero por</p><p>la figura de su padre, estudioso del folclore andaluz, y después por</p><p>el espíritu de la Institución Libre de Enseñanza; la influencia de sus</p><p>lecturas filosóficas, entre las que son destacables las de Bergson y</p><p>Unamuno; y, en tercer lugar, su reflexión sobre la España de su tiempo.</p><p>La poética de Ruben Darío, aunque más acusada en los primeros años,</p><p>es una influencia constante (s.d. s.p.).</p><p>Este último aspecto, tocante à Espanha do seu tempo, é um dos pontos mais</p><p>nevrálgicos da poesia de Machado, visto que se trata de uma fase do poeta que</p><p>coincidiu com um período turbulento da história da Espanha no século XX.</p><p>Vale mencionar que, em meados de 1936, dois anos antes de sua morte</p><p>em um hotel na cidade francesa de Collioure, Antonio Machado foi enviado</p><p>para viver em Valência para que não sofresse o mesmo fim do também poeta e</p><p>dramaturgo Federico García Lorca, fuzilado naquele mesmo ano em Granada.</p><p>TÓPICO 3 | RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO</p><p>101</p><p>FIGURA 16 – FEDERICO GARCÍA LORCA</p><p>FONTE: <https://i.pinimg.com/564x/d9/15/88/d91588ca4871b30bd37c89f01213ba03.jpg>.</p><p>Acesso em: 25 jun. 2018.</p><p>O poema El Mañana Efímero foi escrito em 1913 e se trata de uma forte</p><p>crítica social. Há quem diga – ver o artigo El mañana efímero que llegó para quedarse,</p><p>publicado no suplemento La Cuarta Página do jornal El País – que, apesar de o</p><p>poema já possuir mais de um século de vida, sua crítica e sua atemporalidade</p><p>mantêm-se atuais como se tivesse sido concebido no século XXI. No poema, o eu-</p><p>lírico efetua uma dura crítica ao pensamento e às tradições, uma espécie de crítica</p><p>corrosiva a uma mentalidade coletiva com postura inerte (perceba a imagem</p><p>poética do bocejo): "Esa España inferior que ora y bosteza".</p><p>El mañana efímero</p><p>La España de charanga y pandereta,</p><p>cerrado y sacristía,</p><p>devota de Frascuelo y de María,</p><p>de espíritu burlón y de alma quieta,</p><p>ha de tener su marmol y su día,</p><p>su infalible mañana y su poeta.</p><p>En vano ayer engendrará un mañana</p><p>vacío y por ventura pasajero.</p><p>Será un joven lechuzo y tarambana,</p><p>un sayón con hechuras de bolero,</p><p>a la moda de Francia realista</p><p>un poco al uso de París pagano</p><p>y al estilo de España especialista</p><p>102</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>en el vicio al alcance de la mano.</p><p>Esa España inferior que ora y bosteza,</p><p>vieja y tahúr, zaragatera y triste;</p><p>esa España inferior que ora y embiste,</p><p>cuando se digna usar la cabeza,</p><p>aún tendrá luengo parto de varones</p><p>amantes de sagradas tradiciones</p><p>y de sagradas formas y maneras;</p><p>florecerán las barbas apostólicas,</p><p>y otras calvas en otras calaveras</p><p>brillarán, venerables y católicas.</p><p>En vano ayer engendrará un mañana</p><p>vacío y ¡por ventura! pasajero,</p><p>la sombra de un lechuzo tarambana,</p><p>de un sayón con hechuras de bolero;</p><p>el vacio ayer dará un mañana huero.</p><p>Como la náusea de un borracho ahíto</p><p>de vino malo, un rojo sol corona</p><p>de heces turbias las cumbres de granito;</p><p>hay un mañana estomagante escrito</p><p>en la tarde pragmática y dulzona.</p><p>Mas otra España nace,</p><p>la España del cincel y de la maza,</p><p>con esa eterna juventud que se hace</p><p>del pasado macizo de la raza.</p><p>Una España implacable y redentora,</p><p>España que alborea</p><p>con un hacha en la mano vengadora,</p><p>España de la rabia y de la idea.</p><p>FIGURA 17 – O BOCEJO COMO IMAGEM POÉTICA DA INÉRCIA</p><p>FONTE: <http://estaticos.muyinteresante.es/rcs/articles/2415/bostezo.jpg>.</p><p>Acesso em: 25 jun. 2018.</p><p>Vale mencionar que a crítica social em Antonio Machado não se restringiu</p><p>ao poema "El Mañana Efímero". Em seu famoso Proverbios y cantares, por exemplo,</p><p>o poeta sevilhano volta a utilizar a imagem do bocejo e também apresenta a ideia</p><p>de que existem duas Espanhas: uma que boceja e outra que morre.</p><p>TÓPICO 3 | RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO</p><p>103</p><p>Ya hay un español que quiere</p><p>vivir y a vivir empieza,</p><p>entre una España que muere</p><p>y otra España que bosteza.</p><p>Españolito que vienes</p><p>al mundo, te guarde Dios.</p><p>Una de las dos Españas</p><p>ha de helarte el corazón.</p><p>O futuro – as gerações de espanhoizinhos que virão – deverá ser tocado</p><p>inevitavelmente por um destes dois extremos. A crítica de Antonio Machado à</p><p>sociedade de seu tempo reverberará no âmago do campo literário e, para além</p><p>da já mencionada morte de Federico García Lorca, também propulsionará a</p><p>ocorrência de eventos dramáticos, como a experiência de Miguel de Unamuno,</p><p>tema do nosso próximo subtópico.</p><p>5 MIGUEL DE UNAMUNO</p><p>Miguel de Unamuno y Jugo nasceu na cidade vasca de Bilbau</p><p>em 1864 e</p><p>faleceu em 1936. Com uma vida consideravelmente longa para os séculos XIX-XX,</p><p>Unamuno dedicou-se com afinco à atividade intelectual, legando à posteridade</p><p>obras de grande qualidade em nível poético, filosófico, dramaturgo, ensaístico</p><p>e romanesco. Assim como Antonio Machado, Unamuno foi um dos grandes</p><p>expoentes da chamada Geração de 98.</p><p>FIGURA 18 – MIGUEL DE UNAMUNO EM 1925</p><p>FONTE: <https://uklitag.com/wp-content/uploads/2016/04/Miguel_de_Unamuno_</p><p>Meurisse_c_1925_550.jpg>. Acesso em: 10 ago 2018.</p><p>104</p><p>UNIDADE 2 | A POESIA EM LÍNGUA ESPANHOLA: O CÂNONE E O ATUAL</p><p>Unamuno foi um dos principais pensadores na Espanha de uma corrente</p><p>filosófica internacional, conhecida como existencialismo cristão. Em linhas gerais,</p><p>esta corrente filosófica entende o universo como um grande paradoxo, cujo nexo</p><p>central é a união da tríade Deus-Homem-Jesus Cristo. Apesar da adesão de</p><p>Unamuno a essa filosofia, não se pode dizer que a obra do poeta se restringe a</p><p>isso. Além disso, Unamuno também foi um escritor bastante profícuo e nos legou</p><p>uma obra riquíssima em conteúdo. Politicamente, o autor apoiou o franquismo</p><p>em seus primeiros anos e, após perceber a violência da política franquista, voltou-</p><p>se contra o regime.</p><p>A poesia de Unamuno é carregada de crítica e de metarreflexão existencial,</p><p>como é o caso de ¿Por qué esos lirios que los hielos matan?, um poema cujo cerne são</p><p>diversas perguntas que se sucedem verso após verso:</p><p>¿Por qué esos lirios que los hielos matan?</p><p>¿Por qué esas rosas a que agosta el sol?</p><p>¿Por qué esos pajarillos que sin vuelo</p><p>se mueren en plumón?</p><p>¿Por qué derrocha el cielo tantas vidas</p><p>que no son de otras nuevas eslabón?</p><p>¿Por qué fue dique de tu sangre pura</p><p>tu pobre corazón?</p><p>¿Por qué no se mezclaron nuestras sangres</p><p>del amor en la santa comunión?</p><p>¿Por qué tú y yo, Teresa de mi alma</p><p>no dimos granazón?</p><p>¿Por qué, Teresa, y para qué nacimos?</p><p>¿Por qué y para qué fuimos los dos?</p><p>¿Por qué y para qué es todo nada?</p><p>¿Por qué nos hizo Dios?</p><p>FONTE: UNAMUNO, Miguel de. ¿Por qué esos lirios que los hielos matan? Disponível em:</p><p><https://www.poemas.de/por-que-esos-lirios-que-los-hielos-matan/>. Acesso em: 11 set. 2018.</p><p>Um dos incidentes de maior relevância na biografia do escritor espanhol</p><p>aconteceu na Universidade de Salamanca, no auge do franquismo. Na época</p><p>Unamuno era reitor da referida universidade e se encontrava em uma cerimônia</p><p>de abertura do ano letivo. O fato ocorreu em outubro de 1936, mesmo ano em que</p><p>Federico García Lorca foi assassinado. A contenda aconteceu quando Unamuno</p><p>enfrentou o general franquista Millán-Astray, quando este declarou morte aos</p><p>intelectuais e ao pensamento, glorificando o fascismo e a soberania da força sobre</p><p>as ideias. Sem deixar barato, em um rompante de coragem e de nobreza, Unamuno</p><p>proferiu a famosa frase: "Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis</p><p>sobrada fuerza bruta, pero no convenceréis porque convencer significa persuadir. Y</p><p>para persuadir necesitáis algo que os falta en esta lucha, razón y derecho. Me parece</p><p>inútil pediros que penséis en España". Após esta fala, Unamuno foi hostilizado</p><p>pelo público presente. No entanto, saiu acompanhado por Carmen Polo (esposa do</p><p>ditador Franco). Unamuno morreu naquele mesmo ano.</p><p>TÓPICO 3 | RENOVAÇÃO NA POESIA DO MUNDO</p><p>105</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>DISCURSO EN LA UNIVERSIDAD DE SALAMANCA</p><p>Miguel de Unamuno</p><p>Estáis esperando mis palabras. Me conocéis bien, y sabéis que soy incapaz</p><p>de permanecer en silencio. A veces, quedarse callado equivale a mentir, porque</p><p>el silencio puede ser interpretado como aquiescencia. Quiero hacer algunos</p><p>comentarios al discurso -por llamarlo de algún modo- del profesor Maldonado,</p><p>que se encuentra entre nosotros. Se ha hablado aquí de guerra internacional</p><p>en defensa de la civilización cristiana; yo mismo lo hice otras veces. Pero no, la</p><p>nuestra es sólo una guerra incivil. Vencer no es convencer, y hay que convencer,</p><p>sobre todo, y no puede convencer el odio que no deja lugar para la compasión.</p><p>Dejaré de lado la ofensa personal que supone su repentina explosión contra vascos</p><p>y catalanes llamándolos anti-España; pues bien, con la misma razón pueden ellos</p><p>decir lo mismo. El señor obispo lo quiera o no lo quiera, es catalán, nacido en</p><p>Barcelona, y aquí está para enseñar la doctrina cristiana que no queréis conocer.</p><p>Yo mismo, como sabéis, nací en Bilbao y llevo toda mi vida enseñando la lengua</p><p>española, que no sabéis.</p><p>Acabo de oír el necrófilo e insensato grito "¡Viva la muerte!". Esto me</p><p>suena lo mismo que "¡Muera la vida!". Y yo, que he pasado mi vida componiendo</p><p>paradojas que excitaban la ira de algunos que no las comprendían he de deciros,</p><p>como experto en la materia, que esta ridícula paradoja me parece repelente. Como</p><p>ha sido proclamada en homenaje al último orador, entiendo que va dirigida a él,</p><p>si bien de una forma excesiva y tortuosa, como testimonio de que él mismo es</p><p>un símbolo de la muerte. El general Millán-Astray es un inválido. No es preciso</p><p>que digamos esto con un tono más bajo. Es un inválido de guerra. También lo</p><p>fue Cervantes. Pero los extremos no sirven como norma. Desgraciadamente en</p><p>España hay actualmente demasiados mutilados. Y, si Dios no nos ayuda, pronto</p><p>habrá muchísimos más. Me atormenta el pensar que el general Millán-Astray</p><p>pudiera dictar las normas de la psicología de las masas. Un mutilado que carezca</p><p>de la grandeza espiritual de Cervantes, que era un hombre, no un superhombre,</p><p>viril y completo a pesar de sus mutilaciones, un inválido, como he dicho, que</p><p>no tenga esta superioridad de espíritu es de esperar que encuentre un terrible</p><p>alivio viendo cómo se multiplican los mutilados a su alrededor. El general Millán</p><p>Astray desea crear una España nueva, creación negativa sin duda, según su</p><p>propia imagen. Y por eso quisiera una España mutilada.</p><p>Éste es el templo de la inteligencia, y yo soy su sumo sacerdote! Vosotros</p><p>estáis profanando su sagrado recinto. Yo siempre he sido, diga lo que diga el</p><p>proverbio, un profeta en mi propio país. Venceréis, porque tenéis sobrada fuerza</p><p>bruta. Pero no convenceréis, porque para convencer hay que persuadir. Y para</p><p>persuadir necesitaréis algo que os falta: razón y derecho en la lucha. Me parece</p><p>inútil el pediros que penséis en España. He dicho.</p><p>FONTE: Disponível em: <https://www.ersilias.com/discurso-de-miguel-de-unamuno-en-la-</p><p>universidad-de-salamanca-el-12-de-octubre-de-1936/>. Acesso em: 11 set. 2018.</p><p>106</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• Tanto na Espanha como na América Latina a poesia vem sofrendo constantes</p><p>processos de mudança ao longo do tempo.</p><p>• Rosalía de Castro renovou as letras galegas e universalizou-se graças à</p><p>qualidade da sua obra poética.</p><p>• A literatura gauchesca encontrou em José Hernández sua expressão máxima.</p><p>• Em Martín Fierro percebemos o uso poético do linguajar de um típico homem</p><p>pampeano sem instrução.</p><p>• No processo construtivo de Martín Fierro, o autor empreendeu poderoso esforço</p><p>em buscar retratar nas páginas da literatura um tipo que lograsse personificar o</p><p>modo de ser do homem pampeano, sem educação e de características próprias</p><p>e inconfundíveis.</p><p>• Antonio Machado realizou uma poesia voltada tanto para as emoções como</p><p>também para a crítica ao pensamento espanhol.</p><p>• A poesia de Unamuno possui forte crítica e metarreflexão existencial.</p><p>107</p><p>1 Considere a leitura do poema El mañana efímero, de Antonio Machado:</p><p>El mañana efímero</p><p>La España de charanga y pandereta,</p><p>cerrado y sacristía,</p><p>devota de Frascuelo y de María,</p><p>de espíritu burlón y de alma quieta,</p><p>ha de tener su marmol y su día,</p><p>su infalible mañana y su poeta.</p><p>En vano ayer engendrará un mañana</p><p>vacío y por ventura pasajero.</p><p>Será un joven lechuzo y tarambana,</p><p>un sayón con hechuras de bolero,</p><p>a la moda de Francia realista</p><p>un poco al uso de París pagano</p><p>y al estilo de España especialista</p><p>en el vicio al alcance de la mano.</p><p>Esa España inferior que ora y bosteza,</p><p>vieja y tahúr, zaragatera y triste;</p><p>esa España inferior que ora</p><p>y embiste,</p><p>cuando se digna usar la cabeza,</p><p>aún tendrá luengo parto de varones</p><p>amantes de sagradas tradiciones</p><p>y de sagradas formas y maneras;</p><p>florecerán las barbas apostólicas,</p><p>y otras calvas en otras calaveras</p><p>brillarán, venerables y católicas.</p><p>En vano ayer engendrará un mañana</p><p>vacío y ¡por ventura! pasajero,</p><p>la sombra de un lechuzo tarambana,</p><p>de un sayón con hechuras de bolero;</p><p>el vacio ayer dará un mañana huero.</p><p>Como la náusea de un borracho ahíto</p><p>de vino malo, un rojo sol corona</p><p>de heces turbias las cumbres de granito;</p><p>hay un mañana estomagante escrito</p><p>en la tarde pragmática y dulzona.</p><p>Mas otra España nace,</p><p>la España del cincel y de la maza,</p><p>con esa eterna juventud que se hace</p><p>del pasado macizo de la raza.</p><p>Una España implacable y redentora,</p><p>España que alborea</p><p>con un hacha en la mano vengadora,</p><p>España de la rabia y de la idea.</p><p>Agora marque a alternativa correta:</p><p>a) ( ) O poema é uma crítica à mentalidade espanhola do tempo de Antonio</p><p>Machado.</p><p>b) ( ) Trata-se de um poema romântico de teor existencialista.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>108</p><p>c) ( ) O eu-lírico expressa uma visão otimista de mundo.</p><p>d) ( ) O poema, de teor predominantemente romântico, nos mostra uma</p><p>visão idealista de mundo.</p><p>e) ( ) No poema percebemos uma Espanha que abre mão da diversão em</p><p>prol da tortura.</p><p>2 Convidamos você a assistir ao vídeo: Filosofía aquí y ahora – José</p><p>Hernández y Martín Fierro. Acesse-o em: <https://www.youtube.com/</p><p>watch?v=AzPAT3qo-PU> ou em <https://bit.ly/1oJOdm7>.</p><p>Agora responda às seguintes perguntas:</p><p>1 O livro de José Hernandez inaugura a literatura gauchesca?</p><p>2 Que termo é utilizado no documentário para caracterizar Martín Fierro?</p><p>3 O que descreve o poema de José Hernández?</p><p>3 Considerando as leituras realizadas nesta unidade, escreva um texto</p><p>dissertativo-argumentativo comentando a diversidade de temas e a</p><p>renovação nas literaturas de língua espanhola. O texto deverá ser escrito</p><p>em espanhol. Você é livre para abordar qualquer um dos aspectos vistos ao</p><p>longo desta unidade.</p><p>109</p><p>UNIDADE 3</p><p>O CONTO HISPANO-AMERICANO, O</p><p>TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE</p><p>OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• conhecer as diferentes expressões do conto latino-americano ao longo da</p><p>história, lançando um olhar sobre significativos contistas;</p><p>• estudar a indissolubilidade dos elementos históricos à obra de</p><p>determinados autores, como é o caso de Juana Manuela Gorriti e Esteban</p><p>Echeverría;</p><p>• vislumbrar experiências estéticas relevantes para o campo dos estudos</p><p>literários de língua espanhola, como o caso da prosa poética modernista</p><p>de Ruben Darío;</p><p>• entender as bases do drama em língua espanhola e a importância do teatro</p><p>produzido na Espanha e na América Latina;</p><p>• estudar a teoria do drama em língua espanhola e suas principais linhas</p><p>distintivas da teoria do drama clássico;</p><p>• observar as variáveis que configuraram o teatro do século de ouro e estudar</p><p>a relevância deste período para o gênero dramático;</p><p>• conhecer obras e autores importantes para o século de ouro, como</p><p>Fuenteovejuna, El Perro del Hortelano (Lope de Vega) e El Burlador de Sevilla</p><p>y convidado de piedra (Tirso de Molina);</p><p>• estudar o surgimento do teatro na América hispânica, considerando o</p><p>contexto sócio-histórico;</p><p>• compreender a relevância de obras pré-colombianas, como Rabinal Achí e Ollantay.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você en-</p><p>contrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>TÓPICO 2 – O TEATRO DO SÉCULO DE OURO: UMA NOVA ESTRUTURA</p><p>PARA O DRAMA</p><p>TÓPICO 3 – O DRAMA NA AMÉRICA COLONIAL</p><p>110</p><p>111</p><p>TÓPICO 1</p><p>O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>De acordo com Seymour Menton, um dos mais importantes estudiosos</p><p>da literatura hispano-americana, o conto é uma narração “fingida en todo, o en</p><p>parte, creada por un autor, que se puede leer en menos de una hora y cuyos</p><p>elementos contribuyen em producir un solo efecto" (MENTON, 1988, p. 8). O</p><p>conto é, então, uma narração breve, cujo núcleo central é seguido pelo leitor do</p><p>princípio da narrativa até o clímax, momento de tensão máxima.</p><p>Ainda de acordo com o autor, o conto não surge nas letras hispano-</p><p>americanas antes das guerras de independência no período romântico. Desta</p><p>época até os dias atuais, a literatura hispano-americana conheceu contistas de</p><p>grande destreza narrativa. Considerando a riqueza geográfico-intelectual das</p><p>letras na América hispano-falante, ao lançarmos um olhar retrospectivo, podemos</p><p>perceber grandes histórias e narradores situados em tempos e lugares específicos.</p><p>FIGURA 1 – A MAGIA DO CONTO NA AMÉRICA LATINA</p><p>FONTE: <https://cdn.pixabay.com/photo/2017/10/24/17/02/books-2885315_960_720.jpg>.</p><p>Acesso em: 18 jul. 2018.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>112</p><p>Neste capítulo, conheceremos contistas de significativa relevância para</p><p>as letras hispano-americanas. Abordaremos, nas páginas seguintes, nomes que</p><p>produziram contos nos séculos XIX e XX, nomeadamente Esteban Echeverría,</p><p>Juana Manuela Gorritti, Horácio Quiroga e Ruben Darío.</p><p>2 O URUGUAIO HORÁCIO QUIROGA: LOUCURA, PAIXÃO</p><p>E MORTE</p><p>Horacio Quiroga (1879-1937), um dos mais importantes contistas</p><p>uruguaios de todos os tempos, constitui um caso especial na literatura hispano-</p><p>americana. O primeiro ponto a ser ressaltado é o caráter literário da produção</p><p>legada por Quiroga: com temas ligados ao horror, à loucura e à morte, o contista</p><p>uruguaio aproximou-se da temática explorada com destreza por outros mestres,</p><p>como o estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849). Na contra face dessa</p><p>produção, habitada por situações caóticas, encontra-se uma biografia que em</p><p>pouco se distinguia da ficção produzida por Quiroga: é de conhecimento notório</p><p>que o autor possuiu uma vida essencialmente trágica, envolta pela doença, pelas</p><p>dificuldades financeiras e pelo suicídio.</p><p>FIGURA 2 – HORACIO QUIROGA</p><p>Fonte: <http://4.bp.blogspot.com/-uYLgFzlZAmg/VX7nvqmpVFI/AAAAAAAAG4o/hDLBKAc2kWY/</p><p>s320/horacio-quiroga.jpeg>. Acesso em: 22 jul. 2018.</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>113</p><p>John O'Kuinghttons, na introdução da versão brasileira da coletânea</p><p>Contos de horror, loucura e morte (2013), nos conta um pouco mais sobre a vida</p><p>trágica de Quiroga. De acordo com o tradutor, muito do que o leitor encontra</p><p>na literatura de Quiroga constitui, nos limites dos entremeios entre realidade e</p><p>ficção – saliente-se –, a expressão da biografia do próprio autor: "Não existe obra</p><p>de arte literária que não seja autobiográfica: o autor se revela na escolha do tema,</p><p>nos espaços, nos nomes, nos julgamentos, nas conclusões, na preferência por este</p><p>ou aquele verbo, adjetivo ou sintaxe" (O'KUINGHTTONS, 2013, p. 9).</p><p>De fato, entre tantos acontecimentos trágicos de conhecimento público</p><p>na biografia de Quiroga, destacam-se algumas tragédias: de acordo com</p><p>O'Kuinghttons (2013, p. 9), em 1901:</p><p>seu amigo, o escritor Federico Ferrando, não aceitou a vinculação com</p><p>um ladrão divulgada pelo jornalista Germán Papini e decidiu enfrentá-</p><p>lo num duelo . Quiroga se oferece para mostrar o uso da arma de cano</p><p>duplo, mas no manuseio o revólver dispara e a bala atravessa a boca</p><p>do amigo, matando-o instantaneamente.</p><p>O fato levou Quiroga à prisão e a sessões de interrogatório. Apesar de se</p><p>tratar de um homicídio, o autor logrou comprovar que a fatalidade foi resultado</p><p>de um acidente.</p><p>O'Kuinghttons nos conta que o pai de Quiroga morreu também vítima de</p><p>um disparo acidental de arma de fogo. Já o padrasto de Quiroga, após casar-se</p><p>com a mãe do escritor, sofreu uma afasia e resultou paralítico. Sem perspectivas,</p><p>o homem também cometeu suicídio. Mas a sucessão de tragédias não parou por</p><p>aí: "dois de seus irmãos, Pastora e Juan Prudencio, faleceram de febre tifoide;</p><p>sua primeira esposa, Ana Maria Cirés, agonizou</p><p>durante dias após se envenenar"</p><p>(O'KUINGHTTONS, 2013, p. 10). Quiroga produziu sua literatura em meio</p><p>a este turbilhão de acontecimentos pessoais, sem qualquer domínio sobre a</p><p>realidade que o cercava. O escritor suicidou-se ingerindo cianureto em 1937. A</p><p>tragédia, como uma espécie de herança familiar, alastrou-se aos três filhos do</p><p>autor, que também seguiram a maldição e igualmente cometeram suicídio: "Eglé</p><p>se matou em 1937. Darío o seguiu em 1952. María Elena se suicidou em 1988"</p><p>(O'KUINGHTTONS, 2013, p. 14).</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>114</p><p>FIGURA 3 – QUIROGA E SUA PRIMEIRA ESPOSA, ANA MARIA CIRÉS</p><p>FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/559994534896302932/>. Acesso em: 22 jul. 2018.</p><p>Mas por qual razão trouxemos todos estes dados biográficos? O primeiro</p><p>ponto a ressaltar é a ligação naturalmente estabelecida por historiadores</p><p>e críticos literários: a literatura de horror de Quiroga não pode ser vista</p><p>dissociada das inúmeras tragédias que o autor experienciou em vida. Ao</p><p>olharmos retroativamente, é como se a tragédia e o suicídio como recurso</p><p>último constituíssem um fio que atravessasse a vida daquelas pessoas. E essa</p><p>é exatamente a perspectiva que encontramos na literatura de Quiroga: em seus</p><p>contos, a desgraça é o elemento que apanha os personagens de surpresa, sem que</p><p>estes tenham qualquer possibilidade de controle sobre o que lhes ocorre.</p><p>Quiroga legou-nos uma vasta obra produzida ao longo de 35 anos. E.</p><p>Anderson Imbert (1959 , p. 463), em sua Historia de la literatura Hispano-americana</p><p>(II), afirma que Horacio Quiroga foi o grande narrador de temas anormais.</p><p>Se ha observado, en los últimos años, Quiroga pareció desviarse del</p><p>cuento al periodismo: artículos, crónicas, comentarios. Sin embargo,</p><p>escribió cuentos hasta el último instante, si bien no tan buenos como</p><p>los de la serie que culmino en "El hijo". La acción de gran parte de</p><p>sus cuentos transcurre en medio de la naturaleza bárbara; a veces</p><p>sus protagonistas son animales; y, si son hombres, suelen aparecer</p><p>deshechos por las fuerzas naturales. Se ha dicho, por lo tanto, que</p><p>Quiroga es típico de un aspecto de la literatura hispanoamericana: la</p><p>geografía y la zoología como más significativas que la historia y la</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>115</p><p>antropología. Pero ni la selva ni las víboras escriben cuentos: es un</p><p>hombre quien los escribe, no las cosas, lo significativo en literatura. Y</p><p>este hombre Quiroga, para quien la naturaleza era un tema literario,</p><p>no tenía nada de primitivo. Era un autor de compleja espiritualidad,</p><p>refinado en su cultura, con una mórbida organización nerviosa.</p><p>Um dos contos mais emblemáticos do autor é La gallina degollada. A</p><p>história se centra no drama presente no casamento dos Mazzini-Ferraz: todos os</p><p>filhos que o casal teve foram vítimas de meningite. A doença não os matou, mas</p><p>ocasionou um notável retardamento mental. O casal, mergulhado em uma crise</p><p>conjugal envolta por acusações e troca de ofensas, por fim consegue ter uma filha</p><p>sem a enfermidade. Após o nascimento de Bertita, prontamente os quatro filhos</p><p>homens do casal foram deixados de lado, já que a atenção do casal e o cuidado se</p><p>voltou somente para a pequena.</p><p>Um dia, após observar a empregada degolando um frango para o almoço,</p><p>os quatro irmãos fazem o mesmo com Bertita. La gallina degollada é, sem dúvidas,</p><p>um dos contos mais fortes de Horacio Quiroga, visto que envolve dramas</p><p>familiares, doenças incuráveis, sequelas mentais, cenas de violência e infanticídio.</p><p>FIGURA 4 – OS QUATRO IRMÃOS E AS GALINHAS</p><p>FONTE: <https://1.bp.blogspot.com/-RnUXLUicjLc/WgRDv1FPoWI/AAAAAAAAmrM/</p><p>Yac1kSq4xl09KOiCAjI4jv6cOGhkAOuYwCLcBGAs/s640/gallina_horacio_quiroga.jpg>.</p><p>Acesso em: 20 jul. 2018.</p><p>Convidamos você, agora, a ler o conto El Almohadón de Plumas. Este conto,</p><p>juntamente com La gallina degollada, faz parte da lista de contos mais conhecidos</p><p>do escritor uruguaio. Realize a leitura neste momento. Ela será necessária para a</p><p>realização da autoatividade que você encontrará ao término deste tópico.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>116</p><p>El almohadón de plumas</p><p>Horacio Quiroga</p><p>Su luna de miel fue un largo escalofrío. Rubia, angelical y tímida, el</p><p>carácter duro de su marido heló sus soñadas niñerías de novia. Ella lo quería</p><p>mucho, sin embargo, a veces con un ligero estremecimiento cuando volviendo</p><p>de noche juntos por la calle, echaba una furtiva mirada a la alta estatura de</p><p>Jordán, mudo desde hacía una hora. Él, por su parte, la amaba profundamente,</p><p>sin darlo a conocer.</p><p>Durante tres meses – se habían casado en abril – vivieron una dicha especial.</p><p>Sin duda hubiera ella deseado menos severidad en ese rígido cielo de</p><p>amor, más expansiva e incauta ternura; pero el impasible semblante de su</p><p>marido la contenía siempre.</p><p>La casa en que vivían influía un poco en sus estremecimientos. La</p><p>blancura del patio silencioso – frisos, columnas y estatuas de mármol – producía</p><p>una otoñal impresión de palacio encantado. Dentro, el brillo glacial del estuco,</p><p>sin el más leve rasguño en las altas paredes, afirmaba aquella sensación de</p><p>desapacible frío. Al cruzar de una pieza a otra, los pasos hallaban eco en toda</p><p>la casa, como si un largo abandono hubiera sensibilizado su resonancia.</p><p>En ese extraño nido de amor, Alicia pasó todo el otoño. No obstante,</p><p>había concluido por echar un velo sobre sus antiguos sueños, y aún vivía</p><p>dormida en la casa hostil, sin querer pensar en nada hasta que llegaba su</p><p>marido.</p><p>No es raro que adelgazara. Tuvo un ligero ataque de influenza que se</p><p>arrastró insidiosamente días y días; Alicia no se reponía nunca. Al fin una tarde</p><p>pudo salir al jardín apoyada en el brazo de él. Miraba indiferente a uno y otro</p><p>lado. De pronto Jordán, con honda ternura, le pasó la mano por la cabeza, y Alicia</p><p>rompió en seguida en sollozos, echándole los brazos al cuello. Lloró largamente</p><p>todo su espanto callado, redoblando el llanto a la menor tentativa de caricia. Luego</p><p>los sollozos fueron retardándose, y aún quedó largo rato escondida en su cuello,</p><p>sin moverse ni decir una palabra.</p><p>Fue ese el último día que Alicia estuvo levantada. Al día siguiente</p><p>amaneció desvanecida. El médico de Jordán la examinó con suma atención,</p><p>ordenándole calma y descanso absolutos.</p><p>– No sé – le dijo a Jordán en la puerta de calle, con la voz todavía baja.</p><p>Tiene una gran debilidad que no me explico, y sin vómitos, nada… Si mañana</p><p>se despierta como hoy, llámeme enseguida.</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>117</p><p>Al otro día Alicia seguía peor. Hubo consulta. Constatóse una anemia</p><p>de marcha agudísima, completamente inexplicable. Alicia no tuvo más</p><p>desmayos, pero se iba visiblemente a la muerte. Todo el día el dormitorio</p><p>estaba con las luces prendidas y en pleno silencio. Pasábanse horas sin oír el</p><p>menor ruido. Alicia dormitaba. Jordán vivía casi en la sala, también con toda</p><p>la luz encendida. Paseábase sin cesar de un extremo a otro, con incansable</p><p>obstinación. La alfombra ahogaba sus pasos. A ratos entraba en el dormitorio y</p><p>proseguía su mudo vaivén a lo largo de la cama, mirando a su mujer cada vez</p><p>que caminaba en su dirección.</p><p>Pronto Alicia comenzó a tener alucinaciones, confusas y flotantes</p><p>al principio, y que descendieron luego a ras del suelo. La joven, con los ojos</p><p>desmesuradamente abiertos, no hacía sino mirar la alfombra a uno y otro lado</p><p>del respaldo de la cama. Una noche se quedó de repente mirando fijamente. Al</p><p>rato abrió la boca para gritar, y sus narices y labios se perlaron de sudor.</p><p>– ¡Jordán! ¡Jordán! – clamó, rígida de espanto, sin dejar de mirar la alfombra.</p><p>– Jordán corrió al dormitorio, y al verlo aparecer Alicia dio un alarido de</p><p>horror.</p><p>– ¡Soy yo, Alicia, soy yo!</p><p>Alicia lo miró con extravió, miró la alfombra, volvió a mirarlo, y después</p><p>de largo rato de estupefacta confrontación, se serenó. Sonrió y tomó entre las</p><p>suyas la mano de su marido, acariciándola</p><p>temblando.</p><p>Entre sus alucinaciones más porfiadas, hubo un antropoide, apoyado</p><p>en la alfombra sobre los dedos, que tenía fijos en ella los ojos.</p><p>Los médicos volvieron inútilmente. Había allí delante de ellos una vida</p><p>que se acababa, desangrándose día a día, hora a hora, sin saber absolutamente</p><p>cómo. En la última consulta Alicia yacía en estupor mientras ellos la pulsaban,</p><p>pasándose de uno a otro la muñeca inerte. La observaron largo rato en silencio</p><p>y siguieron al comedor.</p><p>– Pst… – se encogió de hombros desalentado su médico. Es un caso serio…</p><p>poco hay que hacer…</p><p>– ¡Sólo eso me faltaba! – resopló Jordán. Y tamborileó bruscamente sobre la mesa.</p><p>Alicia fue extinguiéndose en su delirio de anemia, agravado de tarde,</p><p>pero que remitía siempre en las primeras horas. Durante el día no avanzaba su</p><p>enfermedad, pero cada mañana amanecía lívida, en síncope casi. Parecía que</p><p>únicamente de noche se le fuera la vida en nuevas alas de sangre. Tenía siempre</p><p>al despertar la sensación de estar desplomada en la cama con un millón de kilos</p><p>encima. Desde el tercer día este hundimiento no la abandonó más. Apenas podía</p><p>mover la cabeza. No quiso que le tocaran la cama, ni aún que le arreglaran el</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>118</p><p>almohadón. Sus terrores crepusculares avanzaron en forma de monstruos que se</p><p>arrastraban hasta la cama y trepaban dificultosamente por la colcha.</p><p>Perdió luego el conocimiento. Los dos días finales deliró sin cesar a</p><p>media voz. Las luces continuaban fúnebremente encendidas en el dormitorio y</p><p>la sala. En el silencio agónico de la casa, no se oía más que el delirio monótono</p><p>que salía de la cama, y el rumor ahogado de los eternos pasos de Jordán.</p><p>Alicia murió, por fin. La sirvienta, que entró después a deshacer la</p><p>cama, sola ya, miró un rato extrañada el almohadón.</p><p>– ¡Señor! -llamó a Jordán en voz baja –. En el almohadón hay manchas que</p><p>parecen de sangre.</p><p>Jordán se acercó rápidamente y se dobló a su vez. Efectivamente, sobre</p><p>la funda, a ambos lados del hueco que había dejado la cabeza de Alicia, se veían</p><p>manchitas oscuras.</p><p>– Parecen picaduras – murmuró la sirvienta después de un rato de inmóvil observación.</p><p>– Levántelo a la luz – le dijo Jordán.</p><p>La sirvienta lo levantó, pero enseguida lo dejó caer, y se quedó mirando</p><p>a aquél, lívida y temblando. Sin saber por qué, Jordán sintió que los cabellos se</p><p>le erizaban.</p><p>– ¿Qué hay? – murmuró con la voz ronca.</p><p>– Pesa mucho – articuló la sirvienta, sin dejar de temblar.</p><p>Jordán lo levantó; pesaba extraordinariamene. Salieron con él, y sobre</p><p>la mesa del comedor Jordán cortó funda y envoltura de un tajo. Las plumas</p><p>superiores volaron, y la sirvienta dio un grito de horror con toda la boca abierta,</p><p>llevándose las manos crispadas a los bandós. Sobre el fondo, entre las plumas,</p><p>moviendo lentamente las patas velludas, había un animal monstruoso , una bola</p><p>viviente y viscosa. Estaba tan hinchado que apenas se le pronunciaba la boca.</p><p>Noche a noche, demde que Alicia había caído en cama, había aplicado</p><p>sigilosamente su boca – su trompa, mejor dicho – a las sienes de aquélla,</p><p>chupándole la sangre. La picadura era casi imperceptible. La remoción diaria</p><p>del almohadón había impedido sin duda su desarrollo, pero desde que la joven</p><p>no pudo moverse, la succión fue vertiginosa. En cinco días, en cinco noches,</p><p>había viciado a Alicia.</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>119</p><p>Estos parásitos de las aves, diminutos en el medio habitual, llegan a adquirir</p><p>en ciertas condiciones proporciones enormes. La sangre humana parece serles</p><p>particularmente favorable, y no es raro hallarlos en los almohadones de pluma.</p><p>Fonte: QUIROGA, Horacio. Cuentos de amor, locura y muerte. Disponível em: <https://</p><p>ciudadseva.com/texto/el-almohadon-de-plumas/>. Acesso em: 22 jul. 2018.</p><p>DICAS</p><p>Como já consta 70 anos da morte de Quiroga, você</p><p>pode encontrar algumas das obras do autor gratuitamente para</p><p>download. Sugerimos a edição disponível no website argentino</p><p>Biblioteca.ar. Para baixar o conteúdo, acesse: <http://www.biblioteca.</p><p>org.ar/libros/211732.pdf>.</p><p>3 A HISTÓRIA SOCIAL DA ARGENTINA EM JUANA MANUELA</p><p>GORRITI</p><p>Juana Manuela Gorriti (1818-1892), escritora argentina nascida na</p><p>Província de Salta, legou uma significativa obra literária, com incursão em contos</p><p>e romances. Seus contos, com forte influência do Romantismo, são ambientados</p><p>em espaços típicos de seu tempo, como personagens históricos, situações</p><p>políticas que foram partes da história da Argentina, além de outros elementos</p><p>historicamente identificáveis, como a contenda entre unitários e federalistas.</p><p>Se em Horacio Quiroga encontramos a confluência entre a obra e a vida</p><p>pessoal do autor, em Gorriti encontramos uma junção semelhante, visto que a</p><p>autora vivenciou em certa medida os fatos históricos que descreve em seus textos.</p><p>A família de Gorriti se instalou na Bolívia quando a autora tinha 13 anos de</p><p>idade. José Inácio Gorriti, o pai da escritora, era um importante militar argentino</p><p>que lutou na guerra da Independência argentina (1810-1816). A mudança de</p><p>Gorriti para Tarija (Bolívia) foi ocasionada justamente por motivação política.</p><p>Politicamente, a família Gorriti pertencia ao bando Unitário. Naquela época havia</p><p>um forte embate entre unitários e federalistas.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>120</p><p>FIGURA 5 – JUANA MANUELA GORRITI</p><p>FONTE: <http://www.cuarto.com.ar/cuarto/wp-content/uploads/2018/07/juana_manuela_</p><p>gorriti.jpg>. Acesso em: 20 jul. 2018.</p><p>Segundo Joselma Noal (2017, p. 8), na introdução do livro Juana Manuela</p><p>Gorriti – Contos:</p><p>Devido ao fracasso das forças unitárias, em 1831, toda a família</p><p>partiu em exílio para a Bolívia na ocasião em que Facundo Quiroga,</p><p>federalista, venceu o general Gregorio Aráoz de Lamadrid, unitário, na</p><p>Batalha da Ciudadela, em 4 de novembro de 1831. A morte de Güernes,</p><p>que dominou durante uma década (1821-1831) a política da província</p><p>de Salta, resultou no começo de uma nova vida para a família Gorriti,</p><p>exilada em outro país e em condições bastante inferiores a que estava</p><p>acostumada na Argentina. Ao chegar à Bolívia, os Gorriti instalaram-</p><p>se na Fazenda dos Trigo, família tradicional de comerciantes.</p><p>Verificamos, entre os personagens históricos encontrados na literatura</p><p>produzida por Gorriti, tipos do porte de Juan Manuel de Rosas (1793-1877),</p><p>político federalista descrito como um sanguinário. Ainda de acordo com Noal,</p><p>Rosas "foi considerado o principal caudilho da Argentina entre 1835 e 1852,</p><p>período denominado como época de Rosas. Cabe destacar que havia uma</p><p>Sociedade Popular Restauradora que apoiava o governo de Rosas, denominada</p><p>Mazorca" (NOAL, 2017, p. 8).</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>121</p><p>NOTA</p><p>Em 2017 foi lançado o livro Juana Manuela Gorriti –</p><p>Contos. Organizado por Artur Emilio Alarcon Vaz, Danielle Corbetta</p><p>Piletti e Joselma Noal, professores da Universidade Federal do Rio</p><p>Grande, o livro reúne a tradução ao português de 12 contos da autora.</p><p>As histórias, originalmente integrantes dos livros Sueños y realidades</p><p>(1865) e Panoramas de la vida (1876), apresentam – nas palavras de</p><p>Noal – “o espectro da guerra, o horror das lutas, o sangue e a morte</p><p>entrelaçados ao amor romântico” (NOAL, 2017, p. 8).</p><p>VAZ, Artur Emilio Alarcon; PILETTI, Daniele Corbetta; NOAL, Joselma.</p><p>(orgs.). Juana Manuela Gorritti – Contos. São Paulo: Liber Ars, 2017.</p><p>No conto La hija del mazorquero, por exemplo, Gorriti narra a história de</p><p>Clemencia, a filha de Roque Almanegra, homem descrito no conto como "el terror</p><p>de Buenos Aires". Roque, o masorquero do título, pertencia à já referida Sociedade</p><p>Popular Restauradora – a Mazorca –, que defendia as políticas do ditador Juan</p><p>Manuel de Rosas.</p><p>No conto percebemos claramente a divisão maniqueísta, sendo os</p><p>federalistas (maus) versus os unitários (bons). A marca principal dos federalistas</p><p>era a crueldade, regada a muito sangue, conforme</p><p>percebemos já nas primeiras</p><p>páginas do extenso conto:</p><p>Roque Almanegra era el terror de Buenos Aires. Verdugo por excelencia</p><p>entre una asociación de verdugos llamada Mazorca y consagrado en</p><p>cuerpo y alma al tremendo fundador de aquella terrible hermandad,</p><p>contaba las horas por el número de sus crímenes y su brazo,</p><p>perpetuamente armado del puñal, jamás se bajaba sino para herir. Su</p><p>huella era un reguero de sangre y había huido de él hacía tanto tiempo</p><p>la piedad, que su corazón no conservaba de ésta ningún recuerdo, y</p><p>los gemidos del huérfano, de la esposa y de la madre, lo encontraban</p><p>tan insensible, como la fría hoja de acero que hundía en el pecho de sus</p><p>victimas. Cada semejanza con la humanidad había desaparecido de la</p><p>fisonomía de aquel hombre y su lenguaje, expresión fiel del nombre</p><p>que sus delitos le habían dado, era una mezcla de ferocidad y de</p><p>blasfemia que hacía palidecer de espanto a todos aquellos que tenían</p><p>la desgracia de acercársele.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>122</p><p>FIGURA 6 – O CAUDILHO JUAN MANUEL DE ROSAS</p><p>FONTE: <https://www.taringa.net/posts/apuntes-y-monografias/17384286/La-picardia-de-Don-</p><p>Juan-Manuel-De-Rosas.html>. Acesso em: 20 jul. 2018.</p><p>No conto percebemos a coexistência da bondade de Clemencia – uma</p><p>heroína tipicamente romântica – com a maldade de Almanegra, um vilão de</p><p>grande envergadura. Um fato relevante no conto é a dupla faceta de Roque: se na</p><p>vida social este homem representava o que havia de pior na sociedade argentina,</p><p>em seu íntimo possuía uma relação de grande afeto e compaixão com a filha</p><p>Clemencia, único ser capaz de fazê-lo expressar algo de bondade:</p><p>Sin embargo, entre aquel horrible vocabulario de crueldades y de</p><p>impiedad, como una flor nacida en el cieno, había una palabra de</p><p>bendición que Roque pronunciaba siempre.</p><p>– Clemencia – decía aquel hombre de sangre, cuando fatigado con los</p><p>crímenes de la noche entraba a su casa al amanecer.</p><p>Y a este nombre, que sonaba como un sarcasmo en los labios del</p><p>asesino, una voz tan dulce y melodiosa que parecía venir de los</p><p>celestes coros, respondía con ternura:</p><p>– ¡ Padre! – y una figura de ángel, una joven de dieciséis años, con grandes</p><p>ojos azules y ceñida_ de una aureola de rizos blondos, salía al encuentro</p><p>del mazorquero y lo abrazaba con dolorosa efusión. Era su hija.</p><p>Roque la amaba como el tigre ama a sus cachorros, con un amor feroz.</p><p>Por ella hubiera llevado el hierro y el fuego a los extremos del mundo;</p><p>por ella hubiera vertido su propia sangre; pero no le habría sacrificado</p><p>ni una sola gota de su venganza, ni uno solo de sus instintos homicidas.</p><p>Clemencia vivía sola en el maldecido hogar del mazorquero.</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>123</p><p>O conto La hija del masorquero expressa a destreza narrativa de Gorriti e</p><p>a habilidade da autora em criar histórias que culminam em um grande clímax.</p><p>Considerando as distintas situações vividas por Clemencia, o caráter heroico</p><p>e redentor da protagonista é a grande tônica que contrasta com a maldade de</p><p>Roque Almanegra e também com o meio violento no qual vive a personagem.</p><p>Convidamos você a ler o conto Los mellizos del Illimani (Os gêmeos do</p><p>Illimani). Trata-se de uma história singular em seu tempo-espaço, porém universal</p><p>em sua abrangência.</p><p>Los mellizos del Illimani</p><p>Juana Manuela Gorriti</p><p>Historia contemporánea</p><p>Eran dos; y en efecto, se les hubiera creído gemelos. Sin embargo, Álvarez</p><p>y Loaiza eran solo amigos.</p><p>Pero amigos, con esa amistad de la infancia, lazo más fuerte que el</p><p>parentesco y que el amor.</p><p>Hijos de dos familias unidas por una larga vecindad, nacidos en un</p><p>mismo día, meciolos la misma cuna, y de ella bajaron asidos de las manos para</p><p>recorrer los senderos de la vida.</p><p>Juntos entraron en la escuela; juntos lloraron ante el terrible problema</p><p>del alfabeto; juntos atravesaron el monótono espacio que se extiende desde el</p><p>Ba hasta el Zun. Juntos hicieron las primeras travesuras, y juntos recibieron los</p><p>condignos palmetazos. Juntos dejaron la miga para pasar al colegio; y juntos</p><p>se rellenaron de griego y de latín; juntos hicieron su entrada en el mundo;</p><p>juntos corrieron la vida borrascosa de solteros, y juntos pidieron, obtuvieron</p><p>y recibieron en matrimonio a dos buenas mozas, amadas con idéntico amor, y</p><p>con igual entusiasmo.</p><p>Pero ¡ay! que aquí esa doble existencia se bifurcó de una manera</p><p>dolorosa para aquellos dos corazones fundidos en uno solo.</p><p>Las esposas se rebelaron contra esa amistad llevada al terreno de lo</p><p>sublime; creyéronse defraudadas en sus derechos al amor que contaran</p><p>monopolizar; y la mujer de Álvarez miró de reojo a Loaiza; y la mujer de Loaiza</p><p>dio a Álvarez con la puerta en las narices.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>124</p><p>Pero ellos estaban demasiado habituados a esta vida de intimidad</p><p>inalterable, para resignarse a romperla y si el hogar del uno estaba vedado al</p><p>otro, la ciudad les ofrecía su larga alameda, sombrosa y perfumada, donde los</p><p>dos amigos pasaban largas horas entregados a las encantadas reminiscencias</p><p>del pasado.</p><p>Vestidos con la rigorosa igualdad que usaron desde la infancia hasta</p><p>la vejez, bajo cuya apariencia los presentamos, cubría sus hombros una capa</p><p>española de color turquí, que contrastaba singularmente con sus cabelleras</p><p>blancas de largos y plateados bucles.</p><p>Cada tarde a la hora del crepúsculo, cuando el sol se oculta, y que el</p><p>sacromonte a cuya falda se extiende la opulenta Chuquiago, hace resplandecer</p><p>en el éter la nieve de sus ventisqueros, y cambia en azul el rojo violado de</p><p>su granítico pie, veíase aparecer al mismo tiempo a los dos amigos, el</p><p>uno atravesando el puente de Socabaya, el otro descendiendo la calle de</p><p>Cochabambinos, reunirse bajo el arco de la alameda, estrecharse las manos y</p><p>desaparecer juntos entre la fronda de los rosales.</p><p>En las pláticas de aquellos solitarios paseos, el presente y el porvenir</p><p>estaban proscritos.</p><p>– ¿Te acuerdas? – decía el uno, señalando el vuelo de una ave en busca de su</p><p>nido.</p><p>– ¿Te acuerdas? – decía el otro, escuchando a lo lejos las dolientes notas de un</p><p>yaraví.</p><p>Y Álvarez dirigía una mirada de temor hacia la calle de Chirinos; y</p><p>Loaiza otra de miedo hacia la plaza de San Francisco.</p><p>Un día, Álvarez esperó en vano a su amigo: Loaiza no vino; y Álvarez</p><p>regresó a su casa, quebrantado el corazón, y el alma llena de lúgubres</p><p>presentimientos. ¿Cómo saber lo que había sido de Loaiza? Álvarez estaba</p><p>desterrado de la morada de su amigo; y el nombre de este proscrito en su casa.</p><p>Y la ausencia de Loaiza se prolongaba, y una terrible inquietud se</p><p>apoderaba de Álvarez, inquietud que se aumentaba con la extraña alegría, que</p><p>se pintaba en el semblante de su mujer.</p><p>Álvarez, fue a vagar en torno a la casa, de su amigo, y pasó ante su puerta.</p><p>El patio estaba lleno de gente arrodillada en la actitud de la plegaria.</p><p>Álvarez, con el corazón palpitante y la voz trémula, preguntó lo que</p><p>aquello significaba.</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>125</p><p>– El dueño de esta casa está moribundo y le administran los sacramentos -le</p><p>respondieron.</p><p>Álvarez cayó como herido del rayo, y fue conducido a su casa privado</p><p>de conocimiento.</p><p>Tres días después dos féretros ocupaban lo alto de un catafalco, levantado</p><p>en el templo de la Merced; y algunas horas más tarde, la puerta del cementerio se</p><p>abría para recibir los restos de aquellos que no habían querido separarse ni en la</p><p>muerte, y que eran llamados los mellizos del Illimani por sus capas azules y sus</p><p>nevadas cabelleras.</p><p>4 ESTEBAN ECHEVERRÍA E A CRÍTICA À IGREJA E AO</p><p>GOVERNO</p><p>Segundo Seymor Menton, em El cuento hispanoamericano, Esteban</p><p>Echeverría (1805-1851) foi o escritor mais importante do romantismo hispano-</p><p>americano. Autor por vocação, Echeverría viveu no tempo de Juan Manuel de</p><p>Rosas – mesmo período retratado por Juana Manuela Gorriti no conto La hija</p><p>del masorquero – e, assim como sua compatriota,</p><p>também valeu-se do contexto</p><p>histórico para utilizar como pano de fundo de suas histórias.</p><p>FIGURA 7 – ESTEBAN ECHEVERRÍA (1805-1851)</p><p>FONTE: <http://www.cervantesvirtual.com/images/portales/esteban_echeverria/retratos/</p><p>retrato_esteban_echeverria_5_s.jpg>. Acesso em: 21 jul. 2018.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>126</p><p>Echeverría é considerado pela historiografia tradicional como o propagador</p><p>do romantismo na América. O seu conto mais famoso se chama El Matadero. Apesar</p><p>de Echeverría ser oficialmente um escritor romântico, de acordo com Seymour</p><p>Menton (1988, p. 32), esta não é a orientação estética do conto do escritor:</p><p>"El matadero", uno de los primeros cuentos hispanoamericanos, es</p><p>una verdadera obra de arte. A pesar de haber sido escrito en plena</p><p>época romántica por el propagador del romanticismo en América</p><p>y sobre el tema romántico de la lucha contra la tiranía, este cuento</p><p>no es exclusivamente romántico. Mientras su espíritu mordaz</p><p>y su anticlericalismo lo ligan al enciclopedismo del siglo XVIII,</p><p>sus decripciones minuciosas, sus detalles obcenos, sus cuadros</p><p>multisensoriales y su diálogo anónimo lleno de formas dialectales</p><p>anuncian desde lejos los futuros movimientos literarios del realismo,</p><p>del naturalismo, del modernismo y del criollismo. Lo que sí lo</p><p>identifica con el romanticismo es el tono exaltado.</p><p>Neste conto, o autor assume uma postura assumidamente contra o ditador</p><p>Juan Manuel de Rosas, também presente nos contos de Gorriti. Em El Matadero,</p><p>percebemos uma postura de governo sanguinolenta, equiparada no universo</p><p>ficcional criado por Echeverría a um verdadeiro matadouro. No conto, o autor</p><p>também efetua uma crítica forte à Igreja, que – juntamente com o governo de</p><p>Rosas – possui uma grande parcela de responsabilidade no sofrimento do povo</p><p>argentino. No conto, é indissociável a tríade Igreja-Governo-Matadouro.</p><p>Menton reforça o caráter excepcional de Echeverría ao construir este conto,</p><p>considerando que naquela época não havia – ainda – uma tradição narrativa</p><p>hispano-americana: por falta de una tradición narrativa en Hispanoamérica,</p><p>sorprende la maestria del autor tanto en el concepto de la unidad del cuento</p><p>como em la riqueza del idioma” (MENTON, 1988, p. 33).</p><p>FIGURA 8 – EL MATADERO DE BUENOS AIRES, POR D. DULIN (1860)</p><p>FONTE: <http://www.cervantesvirtual.com/images/portales/esteban_echeverria/el_matadero/</p><p>grabado_matadero_dulin_s.jpg>. Acesso em: 21 jul. 2018.</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>127</p><p>NOTA</p><p>Você pode ler o conto El Matadero on-line.</p><p>Para fazê-lo, acesse o website Biblioteca.ar: http://www.</p><p>biblioteca.org.ar/libros/70300.pdf</p><p>Com a experiência de El Matadero, conhecemos uma história construída com</p><p>vigor por um dos autores mais significativos para a história da literatura hispano-</p><p>americana. Nas páginas seguintes, conheceremos um contista de proporções</p><p>modernistas, que apresentou uma nova forma de escrever em língua espanhola.</p><p>5 A PROSA POÉTICA MODERNISTA DE RUBEN DARÍO</p><p>Rubén Darío (1867-1916) foi um escritor nicaraguense nascido em Metapa</p><p>(cidade atualmente rebatizada como Ciudad Darío, em sua homenagem). Autor</p><p>de grande relevância para o Modernismo hispano-americano, Darío legou-nos</p><p>uma obra de grande valor estético e sistemicamente renovadora. Literariamente,</p><p>o autor se destacou tanto na poesia como na prosa. Poeta por natureza, a prosa de</p><p>Darío é permeada de poesia, tanto na seleção vocabular – como observaremos a</p><p>seguir – como na escolha e construção temática.</p><p>FIGURA 9 – RUBEN DARÍO</p><p>FONTE: <https://www.biography.com/.image/ar_1:1%2Cc_fill%2Ccs_srgb%2Cg_face%2Cq_</p><p>auto:good%2Cw_300/MTE1ODA0OTcxMjY5MTI5NzQx/ruben-dario-37640-1-402.jpg>.</p><p>Acesso em: 21 jul. 2018.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>128</p><p>Azul é um dos livros mais importantes de Darío: nesta obra, o autor</p><p>nicaraguense expressa toda sua força poética através de contos e poemas que</p><p>ficaram registrados com traço fino na história da literatura hispano-americana. O</p><p>livro foi concebido durante a vivência de Darío no Chile e obteve uma recepção</p><p>positiva da crítica. Bella Jozef, em sua História da Literatura Hispanoamericana,</p><p>menciona as palavras do romancista espanhol Juan Valero em carta a Darío</p><p>na ocasião de lançamento de Azul: "... usted no imita a ninguno... Usted lo ha</p><p>revuelto todo: lo ha puesto a cocer en el alambique de su cerebro, y ha sacado de</p><p>ello una rara quinta esencia..." (JOZEF, 1971, p. 135).</p><p>Jozef (1971, p. 135) aponta que o programa estético do Modernismo já</p><p>estava em voga quando surgiu a revista Azul (revista homônima ao livro lançado</p><p>posteriormente por Darío). Vale mencionar que a cor azul constituía o símbolo do</p><p>movimento modernista:</p><p>Não era Darío um improvisador, pois estudou profundamente toda a</p><p>poesia anterior à sua, para captar a beleza, a plasticidade, a cor e o acento do</p><p>que existia anterior à sua obra. De cada autor aprendia o que lhe agradava</p><p>e correspondia à sua sede de novidades. Bécquer e Hugo deram-lhe o</p><p>impulso inicial; em seguida, a poesia popular, a do cancioneiro, a poesia</p><p>medieval, o Parnaso e Simbolismo, os pré-rafaelistas ingleses, Quevedo e</p><p>Góngora também. Bebeu nas tradições clássicas, compreendeu a força do</p><p>passado e celebrou o homem e seu progresso.</p><p>El Rubí é um dos contos mais importantes de Azul. Nele, Darío utiliza</p><p>de personagens próprios de uma mitologia pagã. Em um primeiro olhar, neste</p><p>conto há dois elementos que se configuram como relevantes: os duendes e o</p><p>personagem mitológico Puck, um ser brincalhão encontrado na peça Sonhos de</p><p>uma noite de verão, de William Shakespeare.</p><p>No conto El Rubí os gnomos se reúnem estarrecidos diante da notícia</p><p>de que os homens conseguiram falsificar o rubi, tentando passar por cima da</p><p>autoridade da mãe Terra. De acordo com Seymour Menton, são três os elementos</p><p>que cercam o Rubi do título: "en ‘El Rubí’, la joya, alrededor de la cual gira</p><p>todo el cuento, no es más que un pretexto para la expresión de dos ideas del</p><p>autor: la vanidad de los hombres frente al poder misterioso de la naturaleza y el</p><p>elogio a la mujer sensual" (MENTON, 1988, p. 172). De fato, estes três elementos</p><p>se entrelaçam diante da ação de Puck, o personagem mitológico. Puck viaja a</p><p>Paris e rouba o colar de rubis falsos usado por uma mulher. Os gnomos ficam</p><p>enraivecidos ao perceber que os homens foram capazes de tentar falsificar algo</p><p>tão raro e brindado pela natureza.</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>129</p><p>FIGURA 10 – PUCK (1789), DE JOSHUA REYNOLDS</p><p>FONTE: <https://imgcs.artprintimages.com/img/print/print/sir-joshua-reynolds-puck-</p><p>1789_a-l-10069724-8880731.jpg?w=550&h=550>. Acesso em: 22 jul. 2018.</p><p>Para surpresa de todos, o gnomo mais velho decidiu dar um testemunho</p><p>sobre como se forjaram os primeiros rubis. É neste momento que o leitor percebe</p><p>que tem em mãos uma obra de grande poder imaginativo, palco da exposição</p><p>da admirável capacidade inventiva e poética de Darío: o gnomo explica que</p><p>um dia levou uma linda mulher para o centro da Terra para amá-la. A mulher,</p><p>que repousava desnuda em uma cama de cristal, era contemplada e amada pelo</p><p>gnomo enquanto este trabalhava fazendo diamantes. No entanto, esta mulher</p><p>amava outro homem em segredo: sem que o gnomo se desse conta, a mulher era</p><p>capaz de trocar mensagens com o seu amado. E é este fato que culmina na grande</p><p>revelação do conto: a forma como surgiram os primeiros rubis.</p><p>Observe, a seguir, a revelação do gnomo sobre como esta mulher tentou</p><p>escapar de si e, ocasionalmente, fez com que se criassem os primeiros rubis:</p><p>Un día yo martillaba un trozo de diamante inmenso que brillaba como</p><p>un astro y que al golpe de mi maza se hacía pedazos.</p><p>El pavimento de mi taller se asemejaba a los restos de un sol hecho</p><p>trizas. La mujer amada descansaba a un lado, rosa de carne entre</p><p>maceteros de zafir, emperatriz del oro, en un lecho de cristal de roca,</p><p>toda desnuda y espléndida como una diosa.</p><p>Pero</p><p>também incursionaremos na produção dos escritores</p><p>argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, dois dos maiores nomes da cultura</p><p>ocidental, reconhecidos por críticos literários do patamar do estadunidense</p><p>Harold Bloom.</p><p>Por fim, conheceremos Carlos Fuentes, escritor mexicano cuja obra</p><p>inovadora reverberou, influenciando gerações de escritores contemporâneos.</p><p>Autor de clássicos como o romance La muerte de Artemio Cruz e do conto Chac Mool,</p><p>Fuentes deixou sua reconhecida marca nas letras modernas.</p><p>2 A SOLIDÃO DA AMÉRICA LATINA EM GABRIEL GARCÍA</p><p>MÁRQUEZ</p><p>Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca, Colômbia, em 1927.</p><p>Reconhecido como um dos maiores escritores latino-americanos de todos os</p><p>tempos, Márquez – também carinhosamente conhecido como Gabo – ganhou o</p><p>Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1982.</p><p>A principal obra de Gabriel García Márquez foi Cien años de Soledad (1967).</p><p>O autor, que produziu literatura dos anos 60 até 2010, também escreveu obras de</p><p>merecido destaque, como é o caso de El coronel no tiene quien le escriba (1961), La</p><p>increíble y triste historia de la cándida Eréndira y de su abuela desalmada (1972), Crónica</p><p>de una muerte anunciada (1981), El amor en los tiempos del cólera (1985), Doce Cuentos</p><p>Peregrinos (1992), Del amor y otros demónios (1994), Memórias de mis putas tristes (2004).</p><p>FIGURA 2 – GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ</p><p>FONTE: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gabriel_Garcia_Marquez,_2009.jpg>.</p><p>Acesso em: 18 maio 2018.</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>5</p><p>Um dos textos mais politicamente poderosos de Gabriel García Márquez é o</p><p>discurso que o autor proferiu na oportunidade em que recebeu o Prêmio Nobel de</p><p>Literatura das mãos da Academia Sueca de Letras. Por motivos de concisão e sem</p><p>prejudicar a unidade textual, na sequência recortamos alguns trechos deste discurso.</p><p>Convidamos você, estudante do curso de Letras Espanhol da UNIASSELVI, a</p><p>dedicar alguns minutos do seu tempo para ler um dos discursos mais significativos</p><p>sobre a América Latina. Logo após você realizar a leitura, comentaremos algumas</p><p>questões relevantes sobre a perspectiva de Gabriel García Márquez na abordagem</p><p>dos problemas mencionados:</p><p>La soledad de America Latina</p><p>(trecho do discurso proferido durante a recepção do Prêmio Nobel de</p><p>Literatura) Gabriel García Márquez</p><p>Antonio Pigafetta, un navegante florentino que acompañó a Magallanes</p><p>en el primer viaje alrededor del mundo, escribió a su paso por nuestra América</p><p>meridional una crónica rigurosa que sin embargo parece una aventura de la</p><p>imaginación. Contó que había visto cerdos con el ombligo en el lomo, y unos</p><p>pájaros sin patas cuyas hembras empollaban en las espaldas del macho, y otros</p><p>como alcatraces sin lengua cuyos picos parecían una cuchara. Contó que había</p><p>visto un engendro animal con cabeza y orejas de mula, cuerpo de camello, patas</p><p>de ciervo y relincho de caballo. Contó que al primer nativo que encontraron en</p><p>la Patagonia le pusieron enfrente un espejo, y que aquel gigante enardecido</p><p>perdió el uso de la razón por el pavor de su propia imagen.</p><p>Este libro breve y fascinante, en el cual ya se vislumbran los gérmenes</p><p>de nuestras novelas de hoy, no es ni mucho menos el testimonio más</p><p>asombroso de nuestra realidad de aquellos tiempos. Los Cronistas de Indias</p><p>nos legaron otros incontables. Eldorado, nuestro país ilusorio tan codiciado,</p><p>figuró en mapas numerosos durante largos años, cambiando de lugar y de</p><p>forma según la fantasía de los cartógrafos. En busca de la fuente de la Eterna</p><p>Juventud, el mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca exploró durante ocho años</p><p>el norte de México, en una expedición venática cuyos miembros se comieron</p><p>unos a otros, y sólo llegaron cinco de los 600 que la emprendieron. Uno de</p><p>los tantos misterios que nunca fueron descifrados, es el de las once mil mulas</p><p>cargadas con cien libras de oro cada una, que un día salieron del Cuzco para</p><p>pagar el rescate de Atahualpa y nunca llegaron a su destino. Más tarde, durante</p><p>la colonia, se vendían en Cartagena de Indias unas gallinas criadas en tierras</p><p>de aluvión, en cuyas mollejas se encontraban piedrecitas de oro. Este delirio</p><p>áureo de nuestros fundadores nos persiguió hasta hace poco tiempo. Apenas</p><p>en el siglo pasado la misión alemana encargada de estudiar la construcción de</p><p>un ferrocarril interoceánico en el istmo de Panamá, concluyó que el proyecto</p><p>era viable con la condición de que los rieles no se hicieran de hierro, que era un</p><p>metal escaso en la región, sino que se hicieran de oro.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>6</p><p>La independencia del dominio español no nos puso a salvo de la</p><p>demencia. El general Antonio López de Santa Anna, que fue tres veces dictador</p><p>de México, hizo enterrar con funerales magníficos la pierna derecha que había</p><p>perdido en la llamada Guerra de los Pasteles. El general Gabriel García Moreno</p><p>gobernó al Ecuador durante 16 años como un monarca absoluto, y su cadáver</p><p>fue velado con su uniforme de gala y su coraza de condecoraciones sentado en</p><p>la silla presidencial. El general Maximiliano Hernández Martínez, el déspota</p><p>teósofo de El Salvador que hizo exterminar en una matanza bárbara a 30 mil</p><p>campesinos, había inventado un péndulo para averiguar si los alimentos</p><p>estaban envenenados, e hizo cubrir con papel rojo el alumbrado público para</p><p>combatir una epidemia de escarlatina. El monumento al general Francisco</p><p>Morazán, erigido en la plaza mayor de Tegucigalpa, es en realidad una estatua</p><p>del mariscal Ney comprada en Paris en un depósito de esculturas usadas.</p><p>Hace once años, uno de los poetas insignes de nuestro tiempo, el</p><p>chileno Pablo Neruda, iluminó este ámbito con su palabra. En las buenas</p><p>conciencias de Europa, y a veces también en las malas, han irrumpido desde</p><p>entonces con más ímpetus que nunca las noticias fantasmales de la América</p><p>Latina, esa patria inmensa de hombres alucinados y mujeres históricas, cuya</p><p>terquedad sin fin se confunde con la leyenda. No hemos tenido un instante de</p><p>sosiego. Un presidente prometeico atrincherado en su palacio en llamas murió</p><p>peleando solo contra todo un ejército, y dos desastres aéreos sospechosos y</p><p>nunca esclarecidos segaron la vida de otro de corazón generoso, y la de un</p><p>militar demócrata que había restaurado la dignidad de su pueblo. Ha habido</p><p>cinco guerras y 17 golpes de estado, y surgió un dictador luciferino que en el</p><p>nombre de Dios lleva a cabo el primer etnocidio de América Latina en nuestro</p><p>tiempo. Mientras tanto, 20 millones de niños latinoamericanos morían antes</p><p>de cumplir dos años, que son más de cuantos han nacido en Europa desde</p><p>1970. Los desaparecidos por motivos de la represión son casi 120 mil, que es</p><p>como si hoy no se supiera donde están todos los habitantes de la cuidad de</p><p>Upsala. Numerosas mujeres encintas fueron arrestadas dieron a luz en cárceles</p><p>argentinas, pero aun se ignora el paradero y la identidad de sus hijos, que fueron</p><p>dados en adopción clandestina o internados en orfanatos por las autoridades</p><p>militares. Por no querer que las cosas siguieran así han muerto cerca de 200 mil</p><p>mujeres y hombres en todo el continente, y más de 100 mil perecieron en tres</p><p>pequeños y voluntariosos países de la América Central, Nicaragua, El Salvador</p><p>y Guatemala. Si esto fuera en los Estados Unidos, la cifra proporcional sería de</p><p>un millón 600 muertes violentas en cuatro años.</p><p>De Chile, país de tradiciones hospitalarias, ha huido un millón de personas:</p><p>el 12% por ciento de su población. El Uruguay, una nación minúscula de dos y</p><p>medio millones de habitantes que se consideraba como el país más civilizado del</p><p>continente, ha perdido en el destierro a uno de cada cinco ciudadanos. La guerra</p><p>civil en El Salvador ha causado desde 1979 casi un refugiado cada 20 minutos.</p><p>El país que se pudiera hacer con todos los exiliados y emigrados forzosos de</p><p>América Latina, tendría una población más numerosa que Noruega.</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>7</p><p>Me atrevo a pensar, que es</p><p>en el fondo de mis dominios, mi reina, mi querida, mi bella, me</p><p>engañaba. Cuando el hombre ama de veras, su pasión lo penetra todo</p><p>y es capaz de traspasar la tierra.</p><p>Ella amaba a un hombre, y desde su prisión le enviaba sus suspiros.</p><p>Éstos pasaban los poros de la corteza terrestre y llegaban a él; y</p><p>él, amándola también, besaba las rosas de cierto jardín; y ella, la</p><p>enamorada, tenía -yo lo notaba- convulsiones súbitas en que estiraba</p><p>sus labios rosados y frescos como pétalos de centifolia. ¿Cómo ambos</p><p>así se sentían? Con ser quien soy, no lo sé.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>130</p><p>Había acabado yo mi trabajo; un gran montón de diamantes hechos</p><p>en un día; la tierra abría sus grietas de granito como labios con sed,</p><p>esperando el brillante despedazamiento del rico cristal. Al fin de la</p><p>faena, cansado, di un martillazo que rompió una roca y me dormí.</p><p>Desperté al rato al oír algo como un gemido.</p><p>De su lecho, de su mansión más luminosa y rica que las de todas las</p><p>reinas de Oriente, había volado fugitiva, desesperada, la amada mía, la</p><p>mujer robada. ¡Ay! Y queriendo huir por el agujero abierto por mi masa</p><p>de granito, desnuda y bella, destrozó su cuerpo blanco y suave como</p><p>de azahar y mármol y rosa, en los filos de los diamantes rotos. Heridos</p><p>sus costados, chorreaba la sangre; los quejidos eran conmovedores</p><p>hasta las lágrimas. ¡Oh, dolor!</p><p>Yo desperté, la tomé en mis brazos, le di mis besos más ardientes; mas</p><p>la sangre corría inundando el recinto, y la gran masa diamantina se</p><p>teñía de grana. Me pareció que sentía, al darle un beso, un perfume</p><p>salido de aquella boca encendida: el alma; el cuerpo quedó inerte.</p><p>Cuando el gran patriarca nuestro, el centenario semidiós de las</p><p>entrañas terrestres, pasó por allí, encontró aquella muchedumbre de</p><p>diamantes rojos…(DARÍO, Rubén. Azul [fragmento ], 2013, p. 54)</p><p>O diamante inundado pelo sangue da jovem mulher converteu-se, então,</p><p>em rubi. Este mito de fundação, carregado de uma densidade poética esplêndida,</p><p>nos mostra o vigor da literatura de viés modernista. Menton aponta para a</p><p>questão da aplicação de técnicas próprias da poesia à construção narrativa, algo</p><p>que “agrega grande valor ao texto de Darío: "El talento de Darío se revela tanto</p><p>en la estructura del cuento como en su prosa poética. La rima asonante en series</p><p>de palabras produce un gran efecto musical: "topacios dorados"; "una farandola,</p><p>loca y sonora". La aliteración aumenta la musicalidad, pero tambien demuestra el</p><p>espíritu juguetón del autor" (MENTON, 1988, p. 173).</p><p>FIGURA 11 – RUBI</p><p>FONTE: <https://cdn-images-1.medium.com/max/1600/1*S_-MnePwO4iiJ-ghfdKkpQ.jpeg>.</p><p>Acesso em: 24 jul. 2018.</p><p>TÓPICO 1 | O CONTO LATINO-AMERICANO</p><p>131</p><p>Você pode ler a versão completa do conto El Rubí em</p><p><https://ciudadseva.com/texto/el-rubi/>.</p><p>DICAS</p><p>132</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• A literatura do uruguaio Horacio Quiroga (1879-1937) apresenta um universo</p><p>habitado pelo horror e também pela loucura, morte e catástrofe.</p><p>• Os contos La gallina degollada e El almohadón de plumas são dois dos contos mais</p><p>significativos da produção do autor uruguaio.</p><p>• A literatura de Juana Manuela Gorriti expressa a história social da Argentina</p><p>oitocentista, em especial o período dominado pelo sanguinário Juan Manuel</p><p>de Rosas.</p><p>• A contenda entre unitários e federalistas é o pano de fundo do conto La hija del</p><p>masorquero.</p><p>• A literatura de Esteban Echeverría, em especial o conto El Matadero, reúne</p><p>elementos que, assim como em Gorriti, estão voltados contra o despotismo</p><p>social, com especial atenção às alianças espúrias entre a Igreja e o Estado.</p><p>• Echeverría publicou em um período no qual ainda não existia uma tradição</p><p>narrativa na América hispânica, conforme sinaliza Seymour Menton (1988, p. 33).</p><p>• Ruben Darío apresentou uma prosa poética de alta qualidade no cerne do</p><p>Modernismo hispano-americano.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>133</p><p>1 Considere as seguintes palavras de E. Anderson Imbert (1988, p. 463-464)</p><p>sobre Horacio Quiroga:</p><p>Recuérdese el esquema dinamico de emociones en "La gallina</p><p>degollada“, "A la deriva", "El hijo", "El desierto", "El hombre muerto",</p><p>y diez más. A veces sus cuentos tienen un contenido autobiográfico.</p><p>Pero lo autobiográfico en Quiroga es tema complejo. Se le juntaba</p><p>el arte y la vida: a la vida la sentía toda crispada bajo un destino</p><p>cruel; su literatura llevaba también una aciaga mueca; y él, como</p><p>persona, entraba y salía, de la vida a la literatura, de la literatura a la</p><p>vida, empujado por un demonio que lo obligaba a amar y destruir lo</p><p>amado, a afanarse por el éxito y, en el fondo, a desear morir. Era un</p><p>excéntrico, y una de sus excentricidades era meterse en la realidad</p><p>como si la realidad fuera una novela y él hiciera papel de personaje:</p><p>o meterse en la literatura como si la literatura fuera un depósito de</p><p>episodios reales. Su rico anecdotario de hombre áspero, "difícil", era</p><p>el que corresponde a un personaje novelesco; así se explican también</p><p>sus cuentos, llenos de personajes arrancados del trato cotidiano. Su</p><p>dedicación al duro trabajo manual y al mismo tiempo el escribir con</p><p>manos callosas una literatura nerviosa, no armonizaban: había en</p><p>él maldiciones para el trabajo y para la literatura. Era un solitario.</p><p>Agora leia trechos do e sobre o conto El Almohadón de Plumas, de</p><p>Horacio Quiroga, e logo em seguida responda se a sentença sobre o trecho é</p><p>verdadeira ou falsa. Em seguida, justifique sua resposta.</p><p>a) Su luna de miel fue un largo escalofrío. Rubia, angelical y tímida, el</p><p>carácter duro de su marido heló sus soñadas niñerías de novia. Ella lo</p><p>quería mucho, sin embargo, a veces con un ligero estremecimiento cuando</p><p>volviendo de noche juntos por la calle, echaba una furtiva mirada a la alta</p><p>estatura de Jordán, mudo desde hacía una hora. Él, por su parte, la amaba</p><p>profundamente, sin darlo a conocer (QUIROGA, 1917).</p><p>Sentença: O casal Mazzini-Ferraz nunca se amou, sequer no princípio do</p><p>casamento.</p><p>( ) Verdadeira ( ) Falsa</p><p>Justificativa:</p><p>b) No es raro que adelgazara. Tuvo un ligero ataque de influenza que se arrastró</p><p>insidiosamente días y días; Alicia no se reponía nunca. Al fin una tarde pudo</p><p>salir al jardín apoyada en el brazo de él. Miraba indiferente a uno y otro lado.</p><p>De pronto Jordán, con honda ternura, le pasó la mano por la cabeza, y Alicia</p><p>rompió en seguida en sollozos, echándole los brazos al cuello. Lloró largamente</p><p>todo su espanto callado, redoblando el llanto a la menor tentativa de caricia.</p><p>Luego los sollozos fueron retardándose, y aún quedó largo rato escondida en</p><p>su cuello, sin moverse ni decir una palabra (QUIROGA, 1917).</p><p>Sentença: Alicia emagreceu muito após se casar, teve, também, uma forte gripe.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>134</p><p>( ) Verdadeira</p><p>( ) Falsa</p><p>Justificativa:</p><p>c) Era un excéntrico, y una de sus excentricidades era meterse en la realidad</p><p>como si la realidad fuera una novela y él hiciera papel de personaje: o meterse</p><p>en la literatura como si la literatura fuera un depósito de episodios reales.</p><p>Su rico anecdotario de hombre áspero, "difícil", era el que corresponde</p><p>a un personaje novelesco; así se explican también sus cuentos, llenos de</p><p>personajes arrancados del trato cotidiano. Su dedicación al duro trabajo</p><p>manual y al mismo tiempo el escribir con manos callosas una literatura</p><p>nerviosa, no armonizaban: había en él maldiciones para el trabajo y para la</p><p>literatura. Era un solitario (IMBERT, 1988).</p><p>Sentença: De acordo com Imbert, Quiroga era um homem bastante hostil,</p><p>empregava toda sua força na literatura que produzia.</p><p>( ) Verdadeira</p><p>( ) Falsa</p><p>Justificativa:</p><p>d) Al otro día Alicia seguía peor. Hubo consulta. Constatóse una anemia</p><p>de marcha agudísima, completamente inexplicable. Alicia no tuvo más</p><p>desmayos, pero se iba visiblemente a la muerte. Todo el día el dormitorio</p><p>estaba con las luces prendidas y en pleno silencio. Pasábanse horas sin</p><p>oír el menor ruido. Alicia dormitaba. Jordán vivía casi en la sala, también</p><p>con toda la luz encendida. Paseábase sin cesar de un extremo a otro, con</p><p>incansable obstinación. La alfombra ahogaba sus pasos. A ratos entraba en</p><p>el dormitorio y proseguía su mudo vaivén a lo largo de la cama, mirando a</p><p>su mujer cada vez que caminaba en su dirección (QUIROGA, 1917).</p><p>Sentença: Os ratos entravam no quarto de Alicia, olhavam para ela e</p><p>caminhavam na sua direção.</p><p>( ) Verdadeira</p><p>( ) Falsa</p><p>Justificativa:</p><p>e) A veces sus cuentos tienen un contenido autobiográfico. Pero lo</p><p>autobiográfico en Quiroga es tema complejo. Se le juntaba el arte y la vida:</p><p>a la vida la sentía toda crispada bajo un destino cruel; su literatura llevaba</p><p>también una aciaga mueca; y él, como persona, entraba y salía, de la vida</p><p>a la literatura, de la literatura a la vida, empujado por un demonio que lo</p><p>obligaba a amar y destruir lo amado, a afanarse por el éxito y, en el fondo, a</p><p>desear morir (IMBERT, 1988).</p><p>135</p><p>Sentença: Com frequência os contos de Quiroga possuíam conteúdos de teor</p><p>autobiográfico.</p><p>( ) Verdadeira</p><p>( ) Falsa</p><p>Justificativa:</p><p>f) Jordán lo levantó; pesaba extraordinariamente. Salieron con él, y sobre la</p><p>mesa del comedor Jordán cortó funda y envoltura de un tajo. Las plumas</p><p>superiores volaron, y la sirvienta dio un grito de horror con toda la boca</p><p>abierta llevándose las manos crispadas a los bandós. Sobre el fondo, entre</p><p>las plumas, moviendo lentamente las patas velludas, había un animal</p><p>monstruoso, una bola viviente y viscosa. Estaba tan hinchado que apenas se</p><p>le pronunciaba la boca.</p><p>Noche a noche, desde que Alicia había caído en cama, había aplicado</p><p>sigilosamente su boca – su trompa, mejor dicho – a las sienes de aquélla,</p><p>chupándole la sangre. La picadura era casi imperceptible. La remoción</p><p>diaria del almohadón había impedido sin duda su desarrollo, pero desde</p><p>que la joven no pudo moverse, la succión fue vertiginosa. En cinco días, en</p><p>cinco noches, había vaciado a Alicia (QUIROGA, 1917).</p><p>Sentença: Alicia estava, na verdade, sendo sugada por um animal –</p><p>provavelmente uma espécie de carrapato - que vivia dentro de seu travesseiro</p><p>de penas.</p><p>( ) Verdadeira</p><p>( ) Falsa</p><p>Justificativa:</p><p>2 Convidamos você a assistir ao seguinte vídeo intitulado Juana Manuela</p><p>Gorriti – Bicentenario de su nacimiento. Para fazê-lo, acesse: <https://www.</p><p>youtube.com/watch?v=Eg9IaAqHrAg>.</p><p>136</p><p>Agora responda as seguintes perguntas:</p><p>1 Como descobriu-se a data de nascimento de Juana Manuela Gorriti?</p><p>2 Em que data redigiu-se o documento que levou à descoberta?</p><p>3 Onde se encontrava o pai de Gorriti no momento em que lhe foi dada a</p><p>informação de seu nascimento?</p><p>4 Em que ano Juana Manuela Gorriti conheceu Manuel Isidoro Belzú?</p><p>5 Para onde o general Belzú partiu junto com sua família após ser desterrado</p><p>da Bolívia?</p><p>6 A qual status Gorriti é elevada com a publicação do romance La quena, em</p><p>1851?</p><p>7 O que aconteceu em 1875?</p><p>8 Como se chamava o nome do jornal fundado por Gorriti?</p><p>9 O que aconteceu em 1892 e o que aconteceu após isso?</p><p>10 Qual é a pátria de Juana Manuela Gorriti de acordo com o vídeo oficial da</p><p>Província de Salta?</p><p>3 Convidamos você a assistir ao vídeo Filosofía aqui y ahora: Esteban</p><p>Echeverría: El Matadero. Para fazê-lo, acesse: <https://www.youtube.com/</p><p>watch?v=7XgmkESINdk>.</p><p>Com base no vídeo assistido, escreva um texto de no mínimo 10 e no máximo</p><p>15 linhas a respeito do seguinte tema: A QUEM CRITICOU ESTEBAN</p><p>ECHEVERRÍA COM A PUBLICAÇÃO DO CONTO EL MATADERO?</p><p>Recorde-se que se trata de um texto dissertativo-argumentativo, com começo,</p><p>meio e fim. Utilize passagens do texto para embasar sua resposta.</p><p>137</p><p>TÓPICO 2</p><p>O TEATRO DO SÉCULO DE OURO:</p><p>UMA NOVA ESTRUTURA PARA O DRAMA</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>O século de ouro foi o período de surgimento de obras de grande valor</p><p>artístico para a cultura espanhola e para as artes no Ocidente. Na atualidade,</p><p>entende-se por século de ouro todo o período compreendido entre a publicação</p><p>da Gramática Castellana de Nebrija, em 1492, e a morte do grande escritor Calderón</p><p>de la Barca, em 1681. Na literatura especializada é comum também o uso deste</p><p>termo para fazer referência ao século XVII, visto que grande parte dos autores</p><p>deste período – como Miguel de Cervantes, Francisco de Quevedo, Calderón de</p><p>la Barca e Lope de Vega – viveram no referido século.</p><p>FIGURA 12 – LAS MENINAS, DE DIEGO VELÁSQUEZ</p><p>FONTE: <https://3.bp.blogspot.com/-eDbDwJXsGnQ/VwQdos6F9RI/</p><p>AAAAAAAAbfI/c6vweE5fdtAwxL-7K1LHyxa4TLkyOIYrQ/s1600/</p><p>meninas%2BDiego%2BVelazquez%2B%25E2%2580%2593%2BLas%2BMeninas%252C%2B1656.</p><p>jpg>. Acesso em: 23 jul. 2018.</p><p>138</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>Fato incontestável é que, no âmbito artístico, a literatura, a pintura e a</p><p>música foram amplamente exploradas neste período. A humanidade recebeu</p><p>estas obras como um grande presente regalado por um tempo de rica produção</p><p>artística, como o quadro Las Meninas, do pintor espanhol Diego Velásquez.</p><p>No presente subcapítulo dedicaremos atenção a uma parcela fundacional</p><p>– e bastante significativa – do conhecimento que foi produzido neste período.</p><p>Inicialmente observaremos o teatro do século de ouro a partir de uma perspectiva</p><p>teórica, considerando-o no fluxo de um processo de renovação das bases na teoria</p><p>do drama. Após, conheceremos dois autores que contribuíram para a edificação</p><p>do teatro espanhol neste período: Lope de Vega e Tirso de Molina.</p><p>2 O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO:</p><p>QUESTÕES TEÓRICAS</p><p>O teatro espanhol do século de ouro distingue-se estruturalmente do</p><p>drama aristotélico. As bases fundacionais se encontram na obra Arte nuevo de</p><p>hacer comedias en este tiempo, assinada pelo dramaturgo Lope de Vega, um dos</p><p>mais importantes deste período e considerado pelo historiador Guillermo Díaz-</p><p>Plaja "el creador del teatro nacional" (DÍAZ-PLAJA, 1935, p. 191).</p><p>Conforme veremos nos subtópicos seguintes, Lope verdadeiramente criou</p><p>uma tradição dramática na Espanha. O drama, feito nos moldes de Lope, respeita</p><p>uma série de parâmetros adequados pelo autor madrilenho ao gosto do público</p><p>de seu tempo. Ao pensar o teatro do século de ouro, fincando pé no tempo-</p><p>espaço em que vivia, Lope de Vega elabora uma teoria do drama desvencilhada</p><p>da tradição greco-romana.</p><p>FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/0a/Teatro.svg/400px-</p><p>Teatro.svg.png>. Acesso: em 23 jul. 2018.</p><p>FIGURA 13 – O TEATRO DO SÉCULO DE OURO E O DRAMA GRECO-LATINO</p><p>TÓPICO 2 | O TEATRO DO SÉCULO DE OURO:</p><p>139</p><p>As unidades do drama clássico, teorizado em parte por Aristóteles no</p><p>livro Arte Poética (capítulo VIII) e mais tarde repensado por autores neoclássicos</p><p>(como o espanhol Manuel José Quintana), estabelecem limites para as unidades</p><p>de ação, tempo e lugar. A obra teatral, por exemplo, deve seguir o fluxo de uma</p><p>ação dramática, sem espaços a ações paralelas. Já o tempo deve ser linear (sem</p><p>saltos temporais) e não deve exceder as 24 horas do dia. A unidade de lugar,</p><p>por sua vez, não permite trocas de cenário – sendo a obra representada em um</p><p>único espaço físico. Lope de Vega efetua mudanças que dinamizam o fluxo do</p><p>drama: agrega dinâmica ao permitir que se mudem os cenários. Em relação ao</p><p>tempo, Lope permite mudanças temporais – como o alargamento temporal. A</p><p>ação, apesar de não sofrer alterações ao nível das unidades de tempo e espaço,</p><p>permite a coexistência de ações secundárias adjuntas à principal</p><p>DICAS</p><p>Estudante! Você pode acessar gratuitamente</p><p>o livro Arte nuevo de hacer comédias en este tempo, de</p><p>Lope de Vega. O texto está disponível na íntegra na página</p><p>da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. Para ler, acesse:</p><p><http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/arte-nuevo-</p><p>de-hacer-comedias-en-este-tiempo--0/html/ffb1e6c0-</p><p>82b1-11df-acc7-002185ce6064_4.html>.</p><p>O texto virtual é uma transcrição da versão crítica original de:</p><p>ROZAS, Juan Manuel. Significado y doctrina del arte nuevo de Lope de Vega. Alicante:</p><p>Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2002.</p><p>Outro ponto importante que distingue</p><p>o teatro criado por Lope de Vega</p><p>do drama clássico é a divisão dos atos. No teatro espanhol do século de ouro,</p><p>as peças ocorrem em três atos, ao passo que na teoria do drama de Horácio,</p><p>as tragédias são representadas em cinco atos. Nesse sentido, Lope de Vega se</p><p>aproxima de Aristóteles, com a estrutura que respeita um curso com começo, meio</p><p>e fim. Guillermo Díaz-Plaja (1958, p. 193) comenta esta restauração apresentada</p><p>pela obra dramática de Lope:</p><p>Como se recordará, la poética horaciana establecía necesariamente</p><p>cinco actos para la obra dramática. Más tarde se convirtieron en</p><p>cuatro, y luego en tres. Esta innovación es también anterior a Lope,</p><p>y él lo declara en su Arte Nuevo: “El capitán Virués, insigne ingenio,</p><p>- puso en tres actos la comedia, que antes – andaba en cuatro, como</p><p>pies de niño – que eran entonces niñas las comedias”. De muchacho</p><p>todavía alcanzó Lope la moda de los cuatro actos “y yo las escribí de</p><p>once y doce años – de a cuatro actos y de a cuatro pliegos – porque</p><p>cada acto un pliego contenía – y era en las tres distancias – se hacían</p><p>tres pequeños entremeses”.</p><p>140</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>Além disso, enquanto o teatro clássico se bifurcava em tragédia e comédia,</p><p>tendo seus limites estabelecidos, no teatro de Lope predominava uma verdadeira fusão</p><p>entre ambas as vertentes, que coexistiam pacificamente na mesma obra. Prova disso</p><p>é o surgimento do subgênero conhecido como comédia palatina, estilo com limites</p><p>pouco delineados, podendo variar a intensidade do tom humorístico ou trágico em</p><p>uma mesma obra.</p><p>DICAS</p><p>Se você tem curiosidade a respeito da teoria do</p><p>drama clássico, sugerimos a leitura de duas obras:</p><p>ARISTÓTELES. Arte poética. Disponível em: <http://www.</p><p>dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_</p><p>action=&co_obra=2235>.</p><p>COSTA, Ligia Militz. A poética de Aristóteles – Mímese e</p><p>verossimilhança. São Paulo: Ática, 2003.</p><p>2.1 LOPE DE VEGA: O HOMEM E A OBRA</p><p>Lope de Vega nasceu em Madrid em 1562. De acordo com Guillermo</p><p>Díaz-Plaja (1958, p. 191), a vida do dramaturgo espanhol esteve rodeada pelas</p><p>letras desde muito cedo:</p><p>Su padre, un bordador, de ascendencia hidalga, quiso que su hijo tuviera</p><p>una educación, en la que aprendiese "virtudes y letras". "Enviáronme</p><p>- dice Lope - a Alcalá de diez años. De la edad que digo, ya sabía yo</p><p>la Gramática y no ignoraba la Retórica..." Pero para lo que descubrió</p><p>mayor aptitud fue para los versos, e tal modo, que los "carpacios de las</p><p>liciones me servían para borradores de mis pensamientos y muchas</p><p>veces los escribía en versos latinos y castellanos" (Dorotea). Estas</p><p>líneas marcan la primera de las características de Lope: la facilidad</p><p>para escribir.</p><p>TÓPICO 2 | O TEATRO DO SÉCULO DE OURO:</p><p>141</p><p>FIGURA 14 – RUA LOPE DE VEGA, EM MADRID</p><p>FONTE: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Calle_de_Lope_de_Vega_(Madrid).jpg>.</p><p>Acesso em: 23 jul. 2018.</p><p>Uma questão importante ligada à biografia intelectual de Lope diz respeito</p><p>ao fato de ter sido um dramaturgo profícuo. Segundo Díaz-Plaja (1958), Lope de</p><p>Vega escreveu nada menos que 400 comédias e 40 autos. A cifra alta sinaliza para</p><p>um autor que se dedicou a vida inteira à arte de produção literária. Sem sombra de</p><p>dúvidas, Lope foi um dos autores mais fecundos da história da literatura espanhola.</p><p>O próprio Díaz-Plaja (1958, p. 192) qualifica a obra de Lope como "extraordinária":</p><p>Lope fue llamado por sus contemporáneos "Fénix de los Ingenios"</p><p>y "Monstruo de la Naturaleza", por su extraordinaria fecundidad.</p><p>Según Montalbán, su gran panegirista, Lope habría escrito mil</p><p>ochocientas comedias (sin contar los entremeses) y cuatrocientos</p><p>autos. Es probable que la cifra sea algo exagerada. Hoy se conservan</p><p>de él hasta cuatrocientas comedias y cuarenta autos. Como se ve, aun</p><p>reduciéndolas a esta cifra, la cantidad es extraordinaria.</p><p>Lope de Vega valeu-se com propriedade do verso polimétrico (produzindo</p><p>redondilhas, sonetos, décimas...). De acordo com Fernández-Arce (1974, p. 231), o</p><p>dramaturgo espanhol também mescla personagens nobres e plebeus: "los nobles</p><p>representan la riqueza y el poder social y militar; los plebeyos, son los trabajadores</p><p>ligados a la tierra". Para Fernández-Arce (1974), é aos trabalhadores da terra que</p><p>Lope aufere as principais virtudes, como a honra e a fidelidade amorosa. Lope de</p><p>Vega produziu em um período de voga da estética barroca. Recordemos, pois, que</p><p>o Barroco, enquanto escola literária, é reconhecido como a vertente que buscava a</p><p>junção de opostos. Com a invenção de um drama elaborado através de leis próprias,</p><p>Lope une o teatro culto ao popular, conforme sinaliza Díaz-Plaja (1958, p. 192):</p><p>Al llegar el Renacimiento, el teatro presenta una doble tendencia: una,</p><p>popular, que conserva la tradición medieval; otra, culta, que aporta</p><p>al teatro los descubrimientos y los gustos del Renacimiento. Lope de</p><p>Vega crea genialmente un teatro culto y a la vez popular, dando la</p><p>fórmula de nuestro teatro nacional .</p><p>142</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>Vale lembrar que é com Lope de Vega e Calderón de la Barca (outro</p><p>importante dramaturgo do século XVII) que o teatro barroco espanhol alcança</p><p>seu zênite no século de ouro.</p><p>FIGURA 15 – IGREJA DE SÃO FRANCISCO EM SALVADOR (BAHIA)</p><p>FONTE: <http://4.bp.blogspot.com/-AcGVil5Rb_w/U_ZQFDL1JVI/AAAAAAAABcw/xxrKcb</p><p>aKm2Y/s1600/sao%2Bfrancisco2.jpg>. Acesso em: 24 jul. 2018.</p><p>Estudante! Você lembra o que foi o Barroco? De acordo com Massaud</p><p>Moisés (2004):</p><p>BARROCO</p><p>“Movimento literário que se desenrola, grosso modo, ao longo do século XVII. A estética</p><p>barroca visava a unificar a dualidade renascentista, formada pela coexistência de valores</p><p>medievais e católicos e das novidades pagãs trazidas pela restauração do espírito clássico. De</p><p>modo ainda mais esquemático, apontava o esforço de promover uma aliança identificadora</p><p>entre o teocentrismo medieval e o antropocentrismo quinhentista, vale dizer, entre a Idade</p><p>Média e a Idade Moderna. Originário da Espanha e das artes plásticas, o movimento barroco</p><p>difundiu-se pela Europa e pela América (a data 1580 marca o seu início em Portugal, a de</p><p>1601, no Brasil)”.</p><p>Fonte: MOISÉS, Massaud. Barroco. In.: _____ Dicionário de termos literários. São Paulo:</p><p>Cultrix, 2004. p. 52.</p><p>NOTA</p><p>No próximo subtópico, conheceremos uma das obras mais importantes de</p><p>Lope de Vega, responsável por uma verdadeira revolução no âmbito dramático:</p><p>Fuenteovejuna.</p><p>TÓPICO 2 | O TEATRO DO SÉCULO DE OURO:</p><p>143</p><p>2.1.1 A revolta popular e a tirania em Fuenteovejuna</p><p>Fuenteovejuna é uma peça de Lope de Vega publicada em 1619. A história</p><p>se baseia em fatos reais ocorridos em um povoado homônimo ao título da peça,</p><p>localizado na província de Córdoba. Em linhas gerais, a história pode ser resumida</p><p>da seguinte maneira: Fernán Gómez de Guzmán é o comendador de Fuenteovejuna.</p><p>O homem, de índole duvidosa e de alto posto, aconselha o Mestre de Calatrava</p><p>que lute em Cidade Real contra os Reis Católicos (Isabel e Fernando, que também</p><p>aparecem no final da peça). Fernán Gómez é um homem que abusa das mulheres</p><p>do povoado, que acurraladas pela autoridade e pelas ameaças de Fernán, sempre</p><p>cedem às suas investidas. Um dia Fernán se encanta por Laurencia, uma lavradora</p><p>prometida ao jovem Frondoso. No dia do casamento de Laurencia com Frondoso</p><p>ocorre um terrível acontecimento: Fernán invade a cerimônia e carrega Laurencia</p><p>consigo. Laurencia luta com Fernán e consegue retornar ao povoado. Neste</p><p>momento incita aos homens para que deixem de ser covardes e busquem Fernán.</p><p>Indignado, todo o povoado se rebela contra Fernán, buscando-o e matando-o.</p><p>Quando, por fim, a justiça investiga o crime para encontrar um culpado e pergunta</p><p>quem matou Fernán, toda a cidade responde: Fuenteovejuna.</p><p>FIGURA 16 – CALÇADA NO BAIRRO DAS LETRAS (MADRID)</p><p>FONTE: Acervo do autor</p><p>Observe, a seguir, o monólogo de Laurencia. Trata-se de uma das partes</p><p>mais célebres desta obra de Lope. Este é o monólogo que a personagem dirige aos</p><p>homens do povoado logo após retornar, dilacerada, dos domínios do vilão:</p><p>144</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>ESTEBAN: ¡Hija mía!</p><p>LAURENCIA: No me nombres</p><p>tu hija.</p><p>ESTEBAN: ¿Por qué, mis ojos?</p><p>¿Por qué?</p><p>LAURENCIA: Por muchas razones,</p><p>y sean las principales:</p><p>porque dejas que me roben</p><p>tiranos sin que me vengues,</p><p>traidores sin que me cobres.</p><p>Aún no era yo de Frondoso,</p><p>para que digas que tome,</p><p>como marido, venganza;</p><p>que aquí por tu cuenta corre;</p><p>que en tanto que de las bodas</p><p>no haya llegado la noche,</p><p>del padre, y no del marido,</p><p>la obligación presupone;</p><p>que en tanto que no me entregan</p><p>una joya, aunque la compren,</p><p>no ha de correr por mi cuenta</p><p>las guardas ni los ladrones.</p><p>Llevóme de vuestros ojos</p><p>a su casa Fernán Gómez;</p><p>la oveja al lobo dejáis</p><p>como cobardes pastores.</p><p>¿Qué dagas no vi en mi pecho?</p><p>¿Qué desatinos enormes,</p><p>qué palabras, qué amenazas,</p><p>y qué delitos atroces,</p><p>por rendir mi castidad</p><p>a sus apetitos torpes?</p><p>Mis cabellos ¿no lo dicen?</p><p>¿No se ven aquí los golpes</p><p>de la sangre y las señales?</p><p>¿Vosotros sois hombres nobles?</p><p>¿Vosotros padres y deudos?</p><p>¿Vosotros, que no se os rompen</p><p>las entrañas de dolor,</p><p>de verme en tantos dolores?</p><p>Ovejas sois, bien lo dice</p><p>de Fuenteovejuna el hombre.</p><p>Dadme unas armas a mí</p><p>pues sois piedras, pues sois tigres...</p><p>-Tigres no, porque feroces</p><p>siguen quien roba sus hijos,</p><p>matando los cazadores</p><p>antes que entren por el mar</p><p>y pos sus ondas se arrojen.</p><p>TÓPICO 2 | O TEATRO DO SÉCULO DE OURO:</p><p>145</p><p>Liebres cobardes nacisteis;</p><p>bárbaros sois, no españoles.</p><p>Gallinas, ¡vuestras mujeres</p><p>sufrís que otros hombres gocen!</p><p>Poneos ruecas en la cinta.</p><p>¿Para qué os ceñís estoques?</p><p>¡Vive Dios, que he de trazar</p><p>que solas mujeres cobren</p><p>la honra de estos tiranos,</p><p>la sangre de estos traidores,</p><p>y que os han de tirar piedras,</p><p>hilanderas, maricones,</p><p>amujerados, cobardes,</p><p>y que mañana os adornen</p><p>nuestras tocas y basquiñas,</p><p>solimanes y colores!</p><p>A Frondoso quiere ya,</p><p>sin sentencia, sin pregones,</p><p>colgar el comendador</p><p>del almena de una torre;</p><p>de todos hará lo mismo;</p><p>y yo me huelgo, medio-hombres,</p><p>por que quede sin mujeres</p><p>esta villa honrada, y torne</p><p>aquel siglo de amazonas,</p><p>eterno espanto del orbe.</p><p>Esta obra de Lope de Vega aborda temas como a justiça com as próprias</p><p>mãos, a imoralidade dos poderosos, os abusos contra o povo e a união das massas</p><p>em busca da justiça social. De acordo com Fernández-Arce (1974), a obra se funda</p><p>em dois temas: um histórico e outro popular: "el primero presenta la lucha por la</p><p>sucesión del trono de Castilla, que al fin gana Isabel La Católica. El tema popular</p><p>refleja la rebelión de los villanos o habitantes de Fuenteovejuna contra los excesos</p><p>de los señores feudales" (FERNÁNDEZ-ARCE, 1974, p. 233). De fato, na obra</p><p>percebemos um forte apelo pela dignidade social. O povo defende sua honra</p><p>violada pelo comendador. É nesse sentido que ocorre uma espécie de comunhão</p><p>entre o povo e a monarquia contra os senhores feudais (representados por Fernán</p><p>Gómez): "la justicia reside en el poder absolutista de los reyes católicos en pugna</p><p>con los señores feudales" (FERNÁNDEZ-ARCE, 1974, p. 233). O rei, no âmbito</p><p>deste drama, significa a supremacia da comunhão popular:</p><p>El pueblo en las villas y aldeas castellanas comprendió, con sutil</p><p>intuición, que los Reyes Católicos lo defenderían contra los excesos</p><p>feudales de estos "señores de los castillos medievales" y fundarían,</p><p>en unión con el pueblo, un Estado popular y unitario, que fue</p><p>precisamente, la base del Imperio (FERNÁNDEZ-ARCE, 1974, p. 233).</p><p>146</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>Convidamos você a ler com atenção o seguinte fragmento de Fuenteovejuna</p><p>(VEGA, 2002) no qual são exaltados os reis católicos. Na sequência desta mesma</p><p>cena, ocorre o referido ato no qual o povo, na condição de unidade e entidade</p><p>única, assume a responsabilidade pela morte do comendador.</p><p>BARRILDO: "¡Vivan los reyes famosos</p><p>muchos años, pues que tienen</p><p>la victoria, y a ser vienen</p><p>nuestros dueños venturosos!</p><p>Salgan siempre victoriosos</p><p>de gigantes y de enanos</p><p>y ¡mueran los tiranos!"</p><p>Cantan</p><p>MÚSICOS: "Muchos años vivan</p><p>Isabel y Fernando,</p><p>y mueran los tiranos!"</p><p>LAURENCIA: Diga Mengo.</p><p>FRONDOSO: Mengo diga.</p><p>MENGO: Yo soy poeta donado.</p><p>PASCUALA: Mejor dirás lastimado</p><p>el envés de la barriga.</p><p>MENGO: "Una mañana en domingo</p><p>me mandó azotar aquél,</p><p>de manera que el rabel</p><p>daba espantoso respingo;</p><p>pero ahora que los pringo</p><p>¡vivan los reyes cristiánigos,</p><p>y mueran los tiránigos!"</p><p>MUSICOS: "¡Vivan muchos años!</p><p>Isabel y Fernando,</p><p>y mueran los tiranos!"</p><p>TÓPICO 2 | O TEATRO DO SÉCULO DE OURO:</p><p>147</p><p>ESTEBAN: Quita la cabeza allá.</p><p>MENGO: Cara tiene de ahorcado.</p><p>Saca un escudo JUAN ROJO con las armas reales</p><p>REGIDOR: Ya las armas han llegado.</p><p>ESTEBAN: Mostrad las armas acá.</p><p>JUAN ROJO: ¿Adónde se han de poner?</p><p>REGIDOR: Aquí, en el ayuntamiento.</p><p>ESTEBAN: ¡Bravo escudo!</p><p>BARRILDO: ¡Qué contento!</p><p>FRONDOSO: Ya comienza a amanecer,</p><p>con este sol, nuestro día.</p><p>ESTEBAN: ¡Vivan Castilla y León,</p><p>y las barras de Aragón,</p><p>y muera la tiranía!</p><p>Advertid, Fuenteovejuna,</p><p>a las palabras de un viejo;</p><p>que el admitir su consejo</p><p>no ha dañado vez ninguna.</p><p>Los reyes han de querer</p><p>averiguar este caso,</p><p>y más tan cerca del paso</p><p>y jornada que han de hacer.</p><p>Concertaos todos a una</p><p>en lo que habéis de decir.</p><p>FRONDOSO: ¿Qué es tu consejo?</p><p>ESTEBAN: Morir</p><p>diciendo "Fuenteovejuna,"</p><p>y a nadie saquen de aquí.</p><p>FRONDOSO: Es el camino derecho.</p><p>Fuenteovejuna lo ha hecho.</p><p>ESTEBAN: ¿Queréis responder así?</p><p>148</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>TODOS: Sí.</p><p>ESTEBAN: Ahora pues, yo quiero ser</p><p>ahora el pesquisidor,</p><p>para ensayarnos mejor</p><p>en lo que habemos de hacer.</p><p>Sea Mengo el que esté puesto</p><p>en el tormento.</p><p>MENGO: ¿No hallaste</p><p>otro más flaco?</p><p>ESTEBAN: ¿Pensaste</p><p>que era de veras?</p><p>MENGO: Di presto.</p><p>ESTEBAN: ¿Quién mató al comendador?</p><p>MENGO: Fuenteovejuna lo hizo.</p><p>ESTEBAN: Perro, ¿si te martirizo?</p><p>MENGO: Aunque me matéis, señor.</p><p>ESTEBAN: Confiesa, ladrón.</p><p>MENGO: Confieso.</p><p>ESTEBAN: Pues, ¿quién fue?</p><p>MENGO: Fuenteovejuna.</p><p>ESTEBAN: Dadle otra vuelta.</p><p>MENGO: ¡Es ninguna!</p><p>ESTEBAN: ¡Cagajón para el proceso!</p><p>Sale el REGIDOR</p><p>REGIDOR: ¿Qué hacéis de esta suerte aquí?</p><p>FRONDOSO: ¿Qué ha sucedido, Cuadrado?</p><p>REGIDOR Pesquisidor ha llegado.</p><p>TÓPICO 2 | O TEATRO DO SÉCULO DE OURO:</p><p>149</p><p>ESTEBAN: Echad todos por ahí.</p><p>REGIDOR: Con él viene un capitán.</p><p>ESTEBAN: ¡Venga el diablo! Ya sabéis</p><p>lo que responder tenéis.</p><p>REGIDOR: El pueblo prendiendo van,</p><p>sin dejar alma ninguna.</p><p>ESTEBAN: Que no hay que tener temor.</p><p>¿Quién mató al comendador,</p><p>Mengo?</p><p>MENGO: ¿Quién? Fuenteovejuna.</p><p>DICAS</p><p>Ficou curioso para ler Fuenteovejuna? No site da Biblioteca Virtual Miguel</p><p>de Cervantes, você pode ler a obra</p><p>gratuitamente. Para fazê-lo acesse: <http://www.</p><p>cervantesvirtual.com/obra/fuente-ovejuna--1/>.</p><p>2.1.2 A comédia palatina El Perro del Hortelano</p><p>El Perro del Hortelano é uma comédia palatina. Você recorda quando</p><p>mencionamos este subgênero teatral na arte dramática do século de ouro? As</p><p>obras que se enquadram neste subgênero não possuem bem estabelecidos os</p><p>limites do drama e da comédia.</p><p>Neste tipo de obra os personagens geralmente pertencem à realeza ou</p><p>então a altos postos sociais. Em El Perro del Hortelano, a personagem Diana, uma</p><p>dama da alta nobreza, se apaixona por um funcionário de baixo posto.</p><p>150</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>FIGURA 17 – FILME HOMÔNIMO (1996) PRODUZIDO POR PILAR MIRÓ</p><p>FONTE: <http://www.rirca.es/wp-content/uploads/2017/12/elperrodelhortelano-608x400.jpg>.</p><p>Acesso em: 22 jul. 2018.</p><p>Diana é a condessa de Belflor. Uma mulher com temperamento forte e ares</p><p>de vilania. Teodoro é funcionário de Diana, uma espécie de pícaro que apaixona</p><p>as mulheres que o cercam. Diana se apaixona por ele – assim como Marcela, sua</p><p>dama de companhia –, mas não admite esse amor pelo fato de Teodoro ser um</p><p>homem sem sangue nobre. No início da peça, Marcela e Teodoro estavam em</p><p>uma relação amorosa não oficial. Com a constante aproximação e relutância de</p><p>Diana, Teodoro a abandona e retorna a fazer a corte para Diana. Após diversas</p><p>situações exploradas ao longo dos três atos da peça, por fim Tristán, amigo de</p><p>Teodoro, o leva para conhecer Ludovico: um homem nobre que perdeu um filho</p><p>que possuía o nome de Teodoro. Após envolver o ricaço em um imbróglio e fazer-</p><p>se passar por seu filho, Teodoro se casa com Diana, pois consegue ter sangue</p><p>nobre. Marcela, por sua vez, termina com Fabio.</p><p>Por se tratar de uma comédia leve, ainda hoje é comum ver representações</p><p>de El Perro del Hortelano nos teatros espanhóis, em constantes adaptações. Sem</p><p>espaço a dúvidas, essa obra, juntamente com Fuenteovejuna, é uma das mais</p><p>populares de Lope de Vega.</p><p>DICAS</p><p>Estudante! Em 1996 realizou-se uma adaptação cinematográfica da famosa</p><p>peça de Lope de Vega.</p><p>Confira: El Perro del Hortelano. Direção: Pilar Miró. Produção: Enrique Cerezo. Roteiro:</p><p>Pilar Miró. Espanha, 1996, 104min. Disponível em: <https://www.imdb.com/title/tt0114115/>.</p><p>Acesso em: 25 jul. 2018.</p><p>TÓPICO 2 | O TEATRO DO SÉCULO DE OURO:</p><p>151</p><p>3 OS CAMINHOS DE LOPE TRILHADOS POR TIRSO DE</p><p>MOLINA</p><p>De acordo com José García López (1975, p. 315) , a fórmula criada por Lope</p><p>de Vega foi aproveitada por uma série de dramaturgos que, "aunque aportando</p><p>cada cual notas individuales, siguieron en lo esencial la huella del maestro".</p><p>Um destes seguidores foi Tirso de Molina, um dos nomes mais importantes da</p><p>literatura daquele tempo. Frei por ofício, o nome verdadeiro de Tirso de Molina</p><p>era Gabriel Téllez. O homem nasceu na cidade de Almazán em 1584 e legou à</p><p>posteridade uma vasta obra literária:</p><p>Tirso es, después de Lope y Calderón, la figura más importante del</p><p>teatro español. De las cuatrocientas comedias que debió de escribir,</p><p>sólo unas ochenta han llegado hasta nosotros. Su teatro, aunque sigue</p><p>al de Lope en la amplia libertad de su técnica y en su vivo dinamismo</p><p>escénico, ofrece notas particulares, como son el presentar personajes</p><p>fuertemente caracterizados y eludir el mundo convencional –</p><p>caballeresco, mitológico, pastoril... – que Lope había inventado</p><p>(LÓPEZ, 1975, p. 315).</p><p>Tirso de Molina escreveu peças de estilo diverso, escrevendo obras de</p><p>tema bíblico, de santos, históricas e também intrigas amorosas. De acordo com</p><p>López, as comédias de intrigas amorosas constituem o setor "más animado"</p><p>(p. 316) de todo o teatro de Tirso, já que estas peças apresentam personagens</p><p>femininos que abarcam toda a graça do enredo dramático.</p><p>FIGURA 18 – TIRSO DE MOLINA</p><p>FONTE: <https://i.pinimg.com/564x/8e/35/f9/8e35f9ab7d0c0e89c7d87ad7f3638fb5.jpg>.</p><p>Acesso em: 25 jul. 2018.</p><p>152</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>Alguma vez você ouviu falar em Don Juan? A expressão com frequência</p><p>é utilizada quando alguém se refere a um homem galanteador. Pouca gente sabe,</p><p>mas a expressão advém de um personagem arquetípico criado por Tirso de Molina</p><p>para a peça El Burlador de Sevilla y convidado de piedra. Don Juan, o personagem</p><p>principal da peça, é um espanhol que seduz todas as mulheres que de alguma</p><p>forma cruzam o seu caminho.</p><p>A peça começa com uma grande intriga na qual se envolveu Don Juan</p><p>em Nápoles: ele se finge passar pelo namorado da duquesa Isabela, o duque</p><p>Octavio, sendo descoberto quando a jovem o ilumina com a vela. Fugindo da</p><p>Itália por perseguição do rei e de outros nobres, Don Juan retorna à Espanha</p><p>e se envolve em outras confusões oriundas de seu duvidoso caráter amoroso.</p><p>Fato incontestável é que, ao longo da história da literatura ocidental, diversos</p><p>personagens encaixados neste arquétipo vieram aos olhos do público através de</p><p>escritores talentosos, como Antonio de Zamora, Molière, Lord Byron e inclusive</p><p>Mozart, na composição de Don Giovanni.</p><p>153</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• O teatro do século de ouro compreende o tempo entre a publicação da Gramática</p><p>Castellana de Nebrija, em 1492, e a morte do grande escritor Calderón de la Barca,</p><p>em 1681.</p><p>• No período do século de ouro a expressão em voga era a arte barroca.</p><p>• Lope de Vega assentou as bases do teatro do século XVII com a publicação de</p><p>Arte nuevo de hacer comedias en este tiempo.</p><p>• Lope de Vega elaborou uma teoria do drama desvencilhada da tradição greco-</p><p>romana.</p><p>• A divisão de atos no teatro de Lope de Vega é diferente da divisão clássica.</p><p>• Lope de Vega mesclou as vertentes dramática e cômica.</p><p>• Fuenteovejuna foi uma obra significativa por abordar temas como a justiça com</p><p>as próprias mãos, a imoralidade dos poderosos, os abusos contra o povo e a</p><p>união das massas em busca da justiça social.</p><p>• A obra El Perro del Hortelano pertence ao subgênero comédia palatina, expressão</p><p>máxima da abolição dos limites entre o drama e a comédia.</p><p>• Tirso de Molina trilhou os caminhos de Lope de Vega, tornando-se o terceiro</p><p>autor mais importante do teatro espanhol do século de ouro.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>154</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 Convidamos você a assistir ao seguinte vídeo intitulado Biografia de Lope de Vega.</p><p>Para fazê-lo, acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=QKKqQ8Nylg0>.</p><p>Agora responda as seguintes perguntas:</p><p>1 Que ofício exerceu o pai de Lope de Vega em Madrid?</p><p>2 Em que lugares Lope estudou?</p><p>3 O que Lope fez com 10 anos de idade?</p><p>4 Que idade Lope tinha quando escreveu a comédia El verdadero amante?</p><p>5 O que Lope de Vega fez com 14 anos?</p><p>6 Quantos anos durou o relacionamento de Lope com Helena Osório?</p><p>7 Onde Lope vivia quando escreveu a peça San Diego de Alcalá?</p><p>8 Como era conhecido Lope de Vega após ficar famoso?</p><p>9 Em que período da vida de Lope de Vega foi escrito El Perro del Hortelano?</p><p>10 Com quantos dias antes de morrer Lope de Vega acabou seu último poema?</p><p>2 De acordo com o que você estudou neste tópico, marque verdadeiro ou falso</p><p>nas seguintes sentenças:</p><p>a) ( ) O teatro novo segue idênticos moldes do teatro greco-romano.</p><p>b) ( ) As mudanças efetuadas por Lope de Vega alteram as unidades de ação,</p><p>tempo e espaço preestabelecidas pelos gregos.</p><p>c) ( ) Lope de Veja permite o alargamento temporal.</p><p>d) ( ) A história no teatro de Lope de Vega é contada no decorrer de cinco atos.</p><p>e) ( ) Lope de Vega escreveu somente tragédias.</p><p>f) ( ) Fuenteovejuna mostra a rebelião do povo contra os desmandos dos</p><p>senhores feudais.</p><p>g) ( ) Em Fuenteovejuna Fernán representa uma Espanha ultrapassada e</p><p>antiquada aos interesses do século XVII.</p><p>155</p><p>h) ( ) Na peça El Perro del Hortelano, Diana é a condessa de Belflor.</p><p>i) ( ) A personagem Laurencia é fundamental para que ocorra o clímax em</p><p>Fuenteovejuna.</p><p>j) ( ) O teatro do século de ouro ocorreu durante o predomínio da estética</p><p>árcade.</p><p>3 Sobre Tirso de Molina, é certo</p><p>dizer:</p><p>a) ( ) De acordo com José García Lopez, Tirso de Molina foi o segundo</p><p>autor mais importante do teatro espanhol, ficando atrás apenas de</p><p>Lope de Vega.</p><p>b) ( ) Tirso dedicou-se apenas à escrita de peças religiosas.</p><p>c) ( ) Tirso de Molina retomou a estrutura horaciana de cinco anos.</p><p>d) ( ) Tirso criou o arquétipo literário de Don Juan através do personagem</p><p>homônimo da peça El Burlador de Sevilla y convidado de piedra.</p><p>e) ( ) O arquétipo de Don Juan exalta o caráter e os valores positivos do</p><p>homem.</p><p>156</p><p>157</p><p>TÓPICO 3</p><p>O DRAMA NA AMÉRICA COLONIAL</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>No presente capítulo estudaremos o teatro na América Hispânica, do</p><p>período de eclosão até o neoclássico. Anteriormente, conhecemos o teatro do</p><p>século de ouro, a partir das modificações implementadas pelo grande dramaturgo</p><p>Lope de Vega e seguida por Tirso de Molina, um de seus mais ilustres seguidores.</p><p>Neste momento, voltaremos o nosso olhar para a produção dramática</p><p>realizada no outro lado do Oceano Atlântico. São expressões literárias que</p><p>acompanham o ritmo das correntes literárias em voga no velho mundo. Para</p><p>além disso: tratam-se de expressões culturais acrescidas da experiência, do capital</p><p>humano e da cor local hispano-americana.</p><p>FIGURA 19 – ARTE NA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA</p><p>FONTE: <http://www.historiadetudo.com/wp-content/uploads/2015/03/astecas-1.jpg>.</p><p>Acesso em: 25 jul. 2018.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>158</p><p>Dessa forma, inicialmente refletiremos sobre o começo do drama nestas</p><p>terras: há um ponto de eclosão? Em seguida, observaremos a produção barroca a</p><p>partir da pena de Juan Ruiz de Alarcón y Mendoza, para depois lançar um olhar</p><p>sobre a produção neoclássica, já na Ilustração.</p><p>2 O TEATRO NA AMÉRICA LATINA: HÁ UM PONTO DE</p><p>INÍCIO?</p><p>Quando os europeus chegaram à América já havia uma civilização</p><p>que habitava essas terras. Dado o desenvolvimento avançado dos povos pré-</p><p>colombianos, a arte manifestada em danças e ritos próprios já possuía uma longa</p><p>tradição. De fato, o substrato cultural indígena foi de importância fundamental</p><p>para a construção do teatro após a chegada dos europeus.</p><p>FIGURA 20 – REPRESENTAÇÃO MODERNA DE RABINAL ACHÍ</p><p>FONTE: <https://tuul.tv/sites/default/files/styles/1200x630/public/2017-11/</p><p>received1880040505356734.jpeg>. Acesso em: 26 jul. 2018.</p><p>De acordo com Bella Jozef (1971, p. 29), "os grupos arauacos que habitavam</p><p>as Antilhas costumavam executar danças cantadas, chamadas areitos, com</p><p>elementos dramáticos em embrião". Essa expressão teatral em nada lembrava o</p><p>teatro europeu, em estrutura e tampouco em elementos constituintes.</p><p>A riqueza cultural foi o principal elemento caracterizador dessas</p><p>expressões artísticas, que chegaram até nós somente através de notícias – como</p><p>as cartas do desbravador Hernán Cortés – e também de intelectuais do porte do</p><p>Inca Garcilaso de la Vega, este de ascendência indígena:</p><p>De maior complexidade e riqueza foram as atividades teatrais</p><p>dos povos que habitavam o vale do México, as terras de Yucatán,</p><p>Honduras, Guatemala e os Andes cuzquenhos. O próprio Cortés nos</p><p>dá notícia dessa atividade e o mestiço genial Garcilaso de la Vega</p><p>também. O indígena americano tinha sua dança guerreira e sua dança</p><p>ritual. A constante tendência alegórica, a plasticidade elementar das</p><p>expressões, o estranho e primitivo sabor das imagens, a profusão de</p><p>interjeições, as numerosas alusões a costumes indígenas explicam a</p><p>origem préhispânica (JOZEF, 1971, p. 29).</p><p>TÓPICO 3 | O DRAMA NA AMÉRICA COLONIAL</p><p>159</p><p>Deste período anterior ao domínio e à colonização europeia, Jozef (1971,</p><p>p. 29) aponta que o vestígio mais importante do teatro indígena é "a tragédia</p><p>ritual dançante Rabinal Achí em língua quiché da Guatemala e também o drama</p><p>peruano Ollantay". Sobre a obra Rabinal Achí, é importante mencionar que em</p><p>2005 foi considerada pela UNESCO Obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial</p><p>da Humanidade. Nesta peça, um exemplo raríssimo do que era o teatro maia, são</p><p>usadas máscaras, danças e muita música. A obra só chegou até os nossos tempos</p><p>porque foi traduzida por um frei francês.</p><p>DICAS</p><p>Alguma vez você viu uma expressão teatral dessa natureza? Convidamos</p><p>você a assistir ao vídeo em espanhol sobre o assunto: La tradición del teatro bailado Rabinal</p><p>Achi, disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=MSR-VXxmBQk>.</p><p>3 ÉPOCA BARROCA: JUAN RUIZ DE ALARCÓN Y</p><p>MENDOZA (1580-1639)</p><p>A época barroca, como vimos no tópico anterior, foi um período de</p><p>grande fecundidade para o teatro espanhol. Foi nessa época que surgiram obras</p><p>de grande referência no cânone ocidental, dada a capacidade inventiva daqueles</p><p>autores e o montante quantitativo de textos trazidos à luz.</p><p>Se na Espanha a cena cultural borbulhava – relembre-se, estamos falando</p><p>do século XVII –, na América a cultura produzida em língua hispânica ainda</p><p>apresentava suas primeiras produções. Aconteceu no âmbito da poesia, do ensaio</p><p>e também do teatro.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>160</p><p>A referência mais tangível que temos dessa época é o teatro de Juan Ruiz</p><p>de Alarcón y Mendoza, nascido em Taxco, em torno de 1580 e falecido em Madrid</p><p>em 1639. Sua obra mestra se chamava La verdad sospechosa, uma das primeiras</p><p>manifestações do teatro hispano-americano, equiparável aos grandes gênios</p><p>daquele tempo. Sobre Alarcón, Jozef (1971, p. 42) afirma:</p><p>Juan Ruiz de Alarcón y Mendoza, na época turbulenta e tumultuosa</p><p>do Século de Ouro espanhol, dá a nota de serenidade com seu espírito</p><p>severo, cheio de graça, amigo da sutileza e mesura. Em suas obras,</p><p>aquela sociedade contemplou-se com seus vícios e virtudes e Alarcón,</p><p>menos inventivo que seus contemporâneos, cria a comédia de caráter</p><p>com La Verdad Sospechosa, em que iria inspirar-se Corneille para</p><p>escrever Le Menteur e, através de Corneille, influi em Molière.</p><p>FIGURA 21 – JUAN RUIZ DE ALARCÓN Y MENDOZA</p><p>FONTE: <https://www.alamy.com/stock-photo/ruiz-de-alarcon-juan.html>.</p><p>O tema principal da obra, conforme já sugere o título, é a mentira. Tudo</p><p>começa a partir de García, um homem que se apaixona por dona Lucrécia.</p><p>Apaixonado pela mulher, García inventa uma verdadeira cama de gato de mentiras</p><p>para encantar a jovem. Jozef (1971, p. 42) sinaliza ainda que Alarcón busca fugir</p><p>do cânone implementado por Lope de Vega, criando obras com maior consciência</p><p>artística que seus contemporâneos: "observa, mede, poucos têm tal cuidado na</p><p>versificação e a maioria de suas obras destaca-se pela finalidade moralizadora (...)</p><p>julga os costumes e criou verdadeiros caracteres, vivos e individualizados, apesar</p><p>da tese que se evola de suas obras".</p><p>TÓPICO 3 | O DRAMA NA AMÉRICA COLONIAL</p><p>161</p><p>4 O TEATRO NEOCLÁSSICO: O RESGATE DE OLLANTAY</p><p>Você recorda do Iluminismo? O Iluminismo foi um movimento intelectual</p><p>dominante no século XVIII, que buscava varrer com as luzes do racionalismo</p><p>as trevas da Idade Média. A literatura do período neoclássico opera desde uma</p><p>perspectiva de renovação e conflito, pois destoa consideravelmente de toda a</p><p>produção que a antecede.</p><p>Uma das primeiras manifestações documentadas é o teatro do argentino</p><p>Manuel José de Lavardén (1754-1809). A tragédia Siripo, assinada pelo autor</p><p>rioplatense, uma das mais significativas desse período, veio aos olhos do público</p><p>em meados de 1789. Infelizmente os originais dessa obra se perderam em um</p><p>incêndio: "A obra Siripo adquiriu ressonância e foi representada várias vezes, mas</p><p>perdeu-se no incêndio do teatro em 1792 e talvez nem o segundo ato que chegou</p><p>até nós seria de Lavardén e sim de Luis Ambrosio Morante" (JOZEF, 1971, p. 55).</p><p>FIGURA 22 – MANUEL JOSÉ DE LAVARDÉN</p><p>FONTE: <https://4.bp.blogspot.com/-nk-4Wnkzutw/WC9czmQCIlI/</p><p>AAAAAAACAlE/39DUl_dhoBcTy6XE4-xkwr_w2MtkpOiTgCLcB/w1200-h630-p-k-no-nu/</p><p>Manuel%2BJos%25C3%25A9%2Bde%2BLabard%25C3%25A9n.jpg>. Acesso em: 26 jul. 2018.</p><p>Deste período também surgem autores expressivos, como o peruano</p><p>Pedro Peralta</p><p>y Barnuevo (1663-1743). Você lembra quando falamos sobre a peça</p><p>Ollantay, de origem pré-colombiana? Foi em 1780, conforme Jozef, que ocorreu</p><p>sua representação pela primeira vez no teatro hispânico. A peça, já adaptada</p><p>pelos europeus, obteve grande relevância na cena teatral da cidade de Lima,</p><p>capital do Peru.</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>162</p><p>FIGURA 23 – REPRESENTAÇÃO MODERNA DE OLLANTAY</p><p>FONTE: < https://youtu.be/Ra7CIzh7gXc></p><p>DICAS</p><p>Convidamos você agora a assistir a uma representação moderna de Ollantay.</p><p>O vídeo se chama OLLANTAY RAYMI – Ollantaytambo – Cusco – drama Ollantay e está</p><p>disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=Ra7CIzh7gXc>. O drama é representado</p><p>em língua indígena, com legenda em espanhol.</p><p>TÓPICO 3 | O DRAMA NA AMÉRICA COLONIAL</p><p>163</p><p>UMA APOSTA</p><p>Juana Manuela Gorritti</p><p>(Tradução de Artur Emilio Alarcon Vaz)</p><p>I</p><p>Quem não ouviu falar do gênio burlesco e aventureiro da bela Eleonora de</p><p>Olivar, duquesa de Alba? Emanação brilhante do Sol andaluz, a feitiçeira sevilhana</p><p>entrou um dia como um ardente turbilhão na austera corte de Carlos III, despertando</p><p>os graves ecos de sua fortaleza com as risadas de sua inesgotável alegria.</p><p>Os cronistas da época regozijam-se com prazer em relação às graciosas</p><p>loucuras daquela amável distraída que, por tanto tempo, teve em contínua agitação,</p><p>em perpétua aflição, a corte e a cidade; porque, entristecida algumas vezes de suas</p><p>travessuras aristocráticas, descia com frequência do mundo brilhante que habitava</p><p>para buscar outras mais picantes na plebeia atmosfera das ruelas.</p><p>Em nossos dias, Eleonora haveria sido horrivelmente caluniada; mas</p><p>naqueles benditos tempos tinha-se mais confiança numa mulher honrada e o</p><p>duque de Alba e, a exemplo seu, toda a corte veneravam profundamente a virtude</p><p>da duquesa. Honra à fé dos nossos mais velhos?</p><p>Mas, se Eleonora era debochada, não era maligna, como o são geralmente</p><p>aqueles que tem esse odioso caráter. Nem com suas piadas, nem com suas</p><p>loucuras, jamais feriu o amor-próprio, nem a sensibilidade de ninguém. Ao</p><p>contrário, se ela gostava de rir era mais para alegrar aos outros e suas travessuras</p><p>eram tão benévolas e lisonjeiras que cativavam sempre o coração daquele que era</p><p>seu objeto. Assim, o estudante a quem em tão rápida equipe ela fez dançar aquela</p><p>célebre sarabanda deveu-lhe sua fortuna e o capitão de guardas, a restituição do</p><p>régio amor que lhe havia roubado.</p><p>- Duque, pareço-te bem assim?, disse um dia Eleonora, apresentando-se a seu</p><p>marido, vestida de peregrina.</p><p>- Encantadora! respondeu o duque contemplando-a admirado. – Oh! Jamais a</p><p>túnica da viajante cobriu um corpo tão gentil.</p><p>- Obrigada, meu belo cavaleiro!, respondeu a irresistível andaluza, roçando com</p><p>seu delicado rosto a negra barba do castelhano. – Mas não é para ouvir teus</p><p>amáveis galanteios que me apresento a ti vestida desta maneira... Meu objetivo</p><p>é alcançar uma piedosa concessão.</p><p>- Pede o que quiseres, minha bela, desde que me permitas beijar esses pezinhos</p><p>calçados com sandálias.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>164</p><p>- Estão a tua disposição, duque, se me deixares livre por um mês de minha</p><p>existência.</p><p>- E que farás nesse mês? Suponha que não quererás roubá-lo de mim.</p><p>- Irei só e a pé em peregrinação a Santiago de Compostela.</p><p>- Só!... A pé!... A Santiago!...</p><p>- Sim, senhor.</p><p>- Eleonora, pensas no que dizes?</p><p>- Com toda a seriedade de que sou capaz, duque.</p><p>- Esqueceste a adorável revelação que ontem à noite me fizeste?</p><p>- Disse-te que tinhas já um herdeiro.</p><p>- E não seria destruir essa esperança ceder à loucura que imaginas?</p><p>- Precisamente, para que essa esperança se realize, deves consentir em minha</p><p>peregrinação.</p><p>- Como?</p><p>- É um desejo. Já sabes que, se não o cumprisse, morreria nosso filho.</p><p>- E acreditas tu que ele vivera se eu fosse bastante insensato para expô-lo às</p><p>fatigas e acidentes dessa longa e penosa viagem?</p><p>- No entanto, será necessário que me dês permissão... É um desejo!</p><p>- Que delírio! Como podes, minha querida, persistir nessa extravagância? Sem</p><p>contar que no estado em que te encontras, tua posição e teu trabalho na corte</p><p>te mantém próxima da rainha. O que diria sua majestade se lhe falasses de tal</p><p>estranha raridade?</p><p>- Tenho já sua permissão para passar um mês em nossos estados.</p><p>- E a princesa de Astúrias?</p><p>- A princesa de Astúrias está com inveja de mim e me odeia o suficiente para</p><p>alegrar-se com minha ausência, mesmo que eu fosse até Meca.</p><p>- És demasiada bela para justificar a inveja da princesa. Onde tu apareces, toda</p><p>beleza se eclipsa.</p><p>- Vamos, senhor de Alba! Não pense vossa excelência adormecer-me com suas</p><p>lisonjas... A permissão, senhor, a permissão!</p><p>- Impossível, minha bela; tão impossível como que “ria o conde de Girón”, disse</p><p>o duque, acreditando encerrar a questão.</p><p>- Quem é o conde de Girón e porque não há de rir? Conta-me isso, duque, disse</p><p>levianamente Eleonora, colocando um de seus braços no pescoço de seu marido</p><p>e deixando, sobre seus joelhos, o chapéu adornado de conchas.</p><p>- O conde de Girón, minha amada, é um senhor do Antigo Regime tão apegado</p><p>aos costumes de seu tempo; que, não podendo sofrer as inovações que o</p><p>progresso trouxe aos nossos, abandonou a corte e o trabalho que nela tinha,</p><p>retirando-se a um de seus castelos que tem próximo da Aranjuez, onde vive</p><p>como nos tempos do Rei Rodrigo e cercado de escudeiros, pajens e damas de</p><p>companhia tão antiquadas como pede o gosto de seu senhor, cuja seriedade,</p><p>por outra parte incontrastável, tornou-se provérbio e diz-se que nunca quis</p><p>casar-se por não ter que sorrir para a sua noiva sequer no dia do casamento.</p><p>Assim, quando se quer qualificar algo de impossível em grau superlativo se</p><p>compara com o riso do conde de Girón.</p><p>TÓPICO 3 | O DRAMA NA AMÉRICA COLONIAL</p><p>165</p><p>- Muito bem. E se o conde de Girón risse, o que dirias, duque?</p><p>- Diria que o bom apóstolo Santiago, apaixonado por tua beleza, teria feito um</p><p>milagre para conquistar a felicidade de ver-te.</p><p>- Oh! Duque, desta vez caí na armadilha da tua lisonja. Aceito a hipótese. Beija</p><p>minhas sandálias e faz amanhã uma visita ao conde de Girón.</p><p>- É uma aposta, Eleonora?</p><p>- Sim, duque... é uma aposta.</p><p>II</p><p>Na tarde do dia seguinte, o duque de Alba, de volta da caça, pediu</p><p>hospitalidade no castelo de Girón e foi recebido com todas as cerimônias de</p><p>antigo uso.</p><p>O berrante do vigia tocou a fanfarra que anunciavam a visita de um grande</p><p>senhor; a ponte levadiça baixou com barulho; os escudeiros ajudaram com o estribo,</p><p>os pajens de joelhos descalçaram as esporas do duque; as damas, envoltas em suas</p><p>brancas e respeitáveis toucas, apresentaram-lhe o aguamanil de ouro e o incensário</p><p>e, mais além, enfim, de pé na porta do salão de honra, o velho castelhano recebeu o</p><p>duque com toda a rigidez da etiqueta que Felipe V herdou de seu bisavô; com todos</p><p>esses requisitos do andar e da postura que fizeram o duque sorrir mais de uma vez,</p><p>pensando em sua esposa, porque o sério personagem fazia todas aquelas evoluções</p><p>da antiga ordenança palaciana com uma seriedade imperturbável que prometia ao</p><p>de Alba um triunfo seguro em sua aposta.</p><p>O berrante do vigia deixou-se ouvir de novo e, um momento depois, o</p><p>porteiro de estrados anunciou ao conde que um jovem com modos de estudante</p><p>em férias se apresentara aos portões do castelo, pedindo para ser conduzido até o</p><p>senhor, a quem tinha que comunicar um assunto importante para a casa de Girón.</p><p>- Para a casa de Girón!, observou seriamente o conde, eu sou o único representante</p><p>dessa casa e tenho obrigação de escutá-lo, faça-o entrar. O porteiro de estrados</p><p>transmitiu a ordem e, um momento depois, abrindo-se a porta das entradas</p><p>comuns, apareceu no umbral iluminado pelos últimos raios de sol, um rapaz</p><p>coberto com uma túnica puída em todos os sentidos, mas que o pícaro levava</p><p>tão elegantemente como o conde sua capa de tecido nobre. Cobriam a metade</p><p>de seu rosto</p><p>as grandes e furadas abas de um grande chapéu que tirou ao</p><p>entrar, mostrando umas feições cheias de malícia e dois belos e ardentes olhos</p><p>negros que piscaram dissimuladamente ao duque de Alba, atordoado diante</p><p>daquela aparição.</p><p>- Senhor conde, disse com jovialidade o estudante, aproximando-se do</p><p>castelhano; tenho a honra de apresentar-lhes em minha humilde pessoa a um</p><p>de seus mais próximos parentes.</p><p>- Tu!, exclamou o conde, arqueando as sobrancelhas e abrindo desdenhosamente</p><p>o lábio. O que dizes?</p><p>UNIDADE 3 | O CONTO HISPANO-AMERICANO, O TEATRO ESPANHOL DO SÉCULO DE OURO E SUAS REVERBERAÇÕES</p><p>166</p><p>- Seu parente mais próximo, repetiu o diabinho. Que! Não conheces os traços da</p><p>família?</p><p>- Enfim, replicou severamente o conde. Quem és tu?</p><p>- Um Girón por todos os lados e, se não, olha-me...</p><p>E, dando uma rápida volta, ostentou um a um aos olhos do conde os mil</p><p>‘girones’ de que se compunha seu vestido.</p><p>Então, um acontecimento sem precedentes, um estranho fenômeno</p><p>ocorreu no castelo de Girón. Os lábios do conde dilataram-se, seus dentes viram</p><p>pela primeira vez a luz do Sol e, com espanto do duque de Alba, ouviu-se um</p><p>ruído insólito, uma gargalhada que atraiu àquele lugar os escudeiros, pajens e</p><p>damas e até dizem que acordou, assustados, os morcegos que dormiam no antigo</p><p>telhado.</p><p>O diabinho volveu-se radiante para o duque e disse para ele inclinando-se</p><p>graciosamente:</p><p>- O apóstolo Santiago fez o milagre e ganhei minha peregrinação.</p><p>E, sorrindo maliciosamente, recolheu o chapéu e desapareceu.</p><p>Lima, 1855</p><p>Notas: Carlos III, rei espanhol de 1759 a 1788; Rei Rodrigo: rei da Hispânia, região</p><p>atualmente ocupado por Portugal e Espanha, entre 710 e 711; fanfarra é uma peça musical de</p><p>trompetes e instrumentos de percussão, geralmente tocada em cerimônia da realeza; Manteve-se</p><p>o termo “girones” do original, pois se refere à parte do vestido e também faz um trocadilho com o</p><p>sobrenome do duque.</p><p>FONTE: VAZ, A. E. A.; PILLETI, D. C.; NOAL, J. M. Juana Manuela Gorriti – Contos. São Paulo: Liber</p><p>Ars, 2017.</p><p>167</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• O substrato cultural indígena foi de importância fundamental para a construção</p><p>do teatro após a chegada dos europeus.</p><p>• A expressão teatral pré-colombiana em nada lembrava o teatro europeu, em</p><p>estrutura e tampouco em elementos constituintes.</p><p>• A tragédia ritual Rabinal Achí é uma obra rara, oriunda do período anterior à</p><p>colonização.</p><p>• A importância de Rabinal Achí é tanta que em 2005 foi considerada pela</p><p>UNESCO obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade.</p><p>• No teatro barroco hispano-americano, o mexicano Juan Ruiz de Alarcón y</p><p>Mendoza deu forma à expressão teatral no mundo hispano-americano.</p><p>• La verdad sospechosa apresenta um caráter moralizante, reprochando a mentira</p><p>no âmago das relações sociais.</p><p>• No teatro neoclássico a peça pré-hispânica Ollantay ganhou sua primeira</p><p>encenação em castelhano.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>168</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>1 Marque a alternativa correta:</p><p>a) ( ) Não havia manifestação cultural na América até a chegada dos europeus</p><p>em 1492.</p><p>b) ( ) Ollantay foi levada aos palcos em castelhano em 1780.</p><p>c) ( ) Nenhuma obra do teatro pré-colombiano chegou ao nosso tempo.</p><p>d) ( ) Pedro Peralta y Barnuevo produziu drama na América hispânica já no</p><p>período romântico.</p><p>e) ( ) Ollantay só foi encenada em castelhano no período romântico.</p><p>2 Você lembra do vídeo La tradición del teatro bailado Rabinal Achí? Não? Assista</p><p>em <https://www.youtube.com/watch?v=MSR-VXxmBQk>.</p><p>Agora, responda as seguintes perguntas:</p><p>1 O que é o Rabinal Achí?</p><p>2 O que expressa o Rabinal Achí?</p><p>3 Como é apresentado o relato oral e escrito?</p><p>4 Em quantos atos é dividido o relato?</p><p>5 Quantos são e que posto monárquico ocupam os personagens principais?</p><p>6 Em que dia vem sendo representado tradicionalmente o Rabinal Achí?</p><p>169</p><p>3 Sobre o drama na América hispânica é correto afirmar:</p><p>a) ( ) A tragédia Siripo perdeu-se no tempo em decorrência de um incêndio.</p><p>b) ( ) A obra Ollantay é uma ficção espanhola que idealiza o mundo pré-</p><p>colombiano.</p><p>c) ( ) A obra La verdad sospechosa trata de verdades inconvenientes, como a</p><p>tomada do continente americano pelos espanhóis.</p><p>d) ( ) O barroco foi um período de expressão pouco significativa para o teatro</p><p>espanhol.</p><p>e) ( ) Hernán Cortés e o Inca Garcilaso de la Vega não noticiaram experiências</p><p>artísticas na América anteriores a Colombo.</p><p>170</p><p>171</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ACHUGAR, Hugo. 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Acesso em: 30 ago.</p><p>2018.</p><p>VAZ, Artur Emilio Alarcon; PILETTI, Daniele Corbetta; NOAL, Joselma (orgs.).</p><p>Juana Manuela Gorritti – Contos. São Paulo: Liber Ars, 2017.</p><p>VÁZQUEZ, Juan Adolfo. Literaturas indigenas de América. Introducción a su</p><p>estilo. Buenos Aires: Almagesto, 2010.</p><p>176</p><p>VEGA, Lope de. El arte nuevo de hacer comedias en este tiempo. Disponível</p><p>em: <http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/arte-nuevo-de-hacer-</p><p>comedias-en-este-tiempo--0/html/ffb1e6c0-82b1-11df-acc7-002185ce6064_4.</p><p>html>. Acesso em: 27 jul. 2018.</p><p>______. Fuenteovejuna. Alicante: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2002.</p><p>Disponível em: <http://www.cervantesvirtual.com/obra/fuente-ovejuna--1/>.</p><p>Acesso em: 27 jul. 2018.</p><p>______. El Caballero de Olmedo y El perro del hortelano. Madrid: Orbi Fabbri,</p><p>1998.</p><p>esta realidad descomunal, y no sólo su</p><p>expresión literaria, la que este año ha merecido la atención de la Academia</p><p>Sueca de las Letras. Una realidad que no es la del papel, sino que vive con</p><p>nosotros y determina cada instante de nuestras incontables muertes cotidianas,</p><p>y que sustenta un manantial de creación insaciable, pleno de desdicha y de</p><p>belleza, del cual este colombiano errante y nostálgico no es más que una cifra</p><p>más señalada por la suerte. Poetas y mendigos, músicos y profetas, guerreros y</p><p>malandrines, todas las criaturas de aquella realidad desaforada hemos tenido</p><p>que pedirle muy poco a la imaginación, porque el desafío mayor para nosotros</p><p>ha sido la insufi ciencia de los recursos convencionales para hacer creíble</p><p>nuestra vida. Este es, amigos, el nudo de nuestra soledad.</p><p>Un día como el de hoy, mi maestro William Faulkner dijo en este lugar:</p><p>"Me niego a admitir el fi n del hombre". No me sentiría digno de ocupar este sitio</p><p>que fue suyo si no tuviera la conciencia plena de que por primera vez desde</p><p>los orígenes de la humanidad, el desastre colosal que él se negaba a admitir</p><p>hace 32 años es ahora nada más que una simple posibilidad científi ca. Ante</p><p>esta realidad sobrecogedora que a través de todo el tiempo humano debió de</p><p>parecer una utopía, los inventores de fábulas que todo lo creemos nos sentimos</p><p>con el derecho de creer que todavía no es demasiado tarde para emprender</p><p>la creación de la utopía contraria. Una nueva y arrasadora utopía de la vida,</p><p>donde nadie pueda decidir por otros hasta la forma de morir, donde de veras</p><p>sea cierto el amor y sea posible la felicidad, y donde las estirpes condenadas a</p><p>cien años de soledad tengan por fi n y para siempre una segunda oportunidad</p><p>sobre la tierra.</p><p>FONTE: Nobel Book Prize. <https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1982/</p><p>marquez-lecture-sp.html>. Acesso em: 18 maio 2018.</p><p>DICAS</p><p>Estudante! Se você fi cou com</p><p>vontade de ler o discurso na íntegra, sugerimos que</p><p>você o acesse diretamente na página da Academia</p><p>Sueca de Letras. O discurso se encontra disponível</p><p>gratuitamente e está publicado em espanhol.</p><p>Para ver, acesse: <https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1982marqu</p><p>ez-lecture-sp.html>.</p><p>Nobelprize.org</p><p>The Offi cial Web Site Of the Nobel Prize</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>8</p><p>O que você achou do discurso de Gabo? Você já conhecia os dados</p><p>abordados pelo autor? O aspecto central do discurso de Gabo é a associação de</p><p>dados peculiares com a questão literária: é como se o autor apresentasse ao grande</p><p>público as variáveis histórico-geográficas que credenciam a sua criação literária,</p><p>que – ao contrário do que inicialmente possa parecer ao observador desatento –</p><p>nada possui de inverossímil.</p><p>De fato, a história da América Latina é recheada de situações excêntricas</p><p>e de fatos que, se unicamente ficcionais o fossem, não possuiriam valor</p><p>representativo. Momentos como a história do general Antonio López de Santa</p><p>Anna, ditador mexicano que fez um funeral luxuoso para que fosse enterrada</p><p>sua perna direita perdida em uma guerra, as galinhas em cujas moelas teriam</p><p>sido encontrados grãos de ouro, as expedições de Alvar Núñez Cabeza de Vaca</p><p>no norte do México e tantas outras histórias supostamente reais dão subsídio à</p><p>imaginação do escritor colombiano. São essas histórias, relatadas por cronistas,</p><p>como o italiano Antonio Pigafetta, e mais tarde, os cronistas das índias, que dizem</p><p>muito sobre o passado, o presente e, quiçá, o futuro da América Latina.</p><p>DICAS</p><p>Você sabia que as crônicas de Antonio Pigafetta,</p><p>mencionadas no princípio do discurso de Gabriel García Márquez,</p><p>foram publicadas no Brasil em português?</p><p>Os textos estão disponíveis em uma edição traduzida por Jurandir</p><p>Soares dos Santos.</p><p>Tome nota:</p><p>PIGAFETTA, Antonio. A primeira viagem ao redor do mundo. Porto</p><p>Alegre: L&PM, 1986.</p><p>O começo da carreira de García Márquez foi difícil. Colombiano por</p><p>nascimento e vivendo no México, o autor amargou rotundos fracassos no âmbito</p><p>do cinema. No texto Gabriel García Márquez: duas anotações para um perfil, Eric</p><p>Nepomuceno, tradutor de Cien años de soledad e amigo íntimo de Gabriel García</p><p>Márquez, afirma que o autor colombiano criava roteiros de cinema para tentar</p><p>financiar a escrita de seu grande romance. Foi nesta época que García Márquez</p><p>conheceu o autor mexicano Carlos Fuentes, outro ícone da literatura latino-</p><p>americana do século XX. Nepomuceno conta em seu texto que Fuentes e García</p><p>Márquez adaptaram para o cinema um conto do escritor mexicano Juan Rulfo – um</p><p>dos escritores que García Márquez mais admirava, juntamente a Kafka e Sófocles.</p><p>No entanto, ambos autores amargaram um rotundo fracasso como roteiristas de</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>9</p><p>DICAS</p><p>Em 2007 a Real Academia Española publicou uma edição</p><p>de luxo de Cien años de Soledad, em celebração dos oitenta anos</p><p>de Gabriel García Márquez. Na ocasião, realizou-se um evento em</p><p>Cartagena das Índias (Colômbia).</p><p>A edição da RAE teve supervisão do próprio autor e inclui textos críticos</p><p>valiosos sobre a obra de Márquez:</p><p>«Lo que sé de Gabriel», Álvaro Mutis.</p><p>«Para darle nombre a América. Homenaje», Carlos Fuentes.</p><p>«Cien años de soledad: realidad total, novela total», Mario Vargas Llosa.</p><p>«Gabriel García Márquez, en busca de la verdad poética», Víctor García</p><p>de la Concha.</p><p>«Algunas literariedades de Cien años de soledad», Claudio Guillén.</p><p>«Cien años de soledad en la novela hispanoamericana», Pedro Luis Barcia.</p><p>«El patio de atrás», Juan Gustavo Cobo Borda.</p><p>«Cien años de soledad y la narrativa de lo real-maravilloso americano», Gonzalo Celorio.</p><p>«Atajos de la verdad», Sergio Ramírez.</p><p>cinema. Até então que, após reunir cinco mil dólares, García Márquez trancafiou-se</p><p>em casa e escreveu sua obra prima Cien años de soledad. A empreitada, que deveria</p><p>durar seis meses, acabou se estendendo por catorze. Ao término dessa jornada,</p><p>Nepomuceno relata que o autor e sua esposa deviam "nove meses de aluguel,</p><p>quatro meses de açougue, sabe-se lá quantos meses de quitanda e padaria, e não</p><p>tinham mais nada para empenhar ou vender" (NEPOMUCENO, 2011, p. 23).</p><p>Apesar das dificuldades financeiras e das dívidas, o autor encontrou o</p><p>sonhado sucesso após terminar sua obra-prima e enviá-la para a poderosa editora</p><p>argentina Sudamericana:</p><p>Cem anos de solidão foi lançado no dia 20 de junho de 1967, numa</p><p>edição inicial de dez mil exemplares. Quando soube da tiragem,</p><p>García Márquez escreveu, preocupado, ao editor Paco Porrúa,</p><p>dizendo estar temeroso de ser o responsável por um encalhe de</p><p>grandes proporções. Rude engano: a edição esgotou-se em quinze</p><p>dias. Veio uma segunda, de outros dez mil, que teve o mesmo destino.</p><p>Começaram a chegar encomendas de distribuidores e de livrarias de</p><p>outros países: o México pedia vinte mil exemplares, a Colômbia queria</p><p>dez mil. Recém-nascido, o livro era um fenômeno absoluto. A editora</p><p>teve de suspender a impressão de todos os outros livros e comprar</p><p>cotas extras de papel. Aquele vendaval jamais deixou de soprar.</p><p>Em três anos foram 600 mil exemplares em castelhano, e em oito, as</p><p>vendas chegaram a dois milhões. Em 1982, quando García Márquez foi</p><p>contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura, só em castelhano, 25</p><p>milhões de exemplares de Cem anos de solidão tinham sido vendidos</p><p>(NEPOMUCENO, 2011, p. 24).</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>10</p><p>A história de Cien años de soledad, que narra a história das distintas gerações</p><p>da família Buendía, tornou-se uma das maiores obras literárias de todos os</p><p>tempos. Com García Márquez aprendemos a vislumbrar as belezas do excêntrico,</p><p>a perceber a simbiose da força com a solidão latino-americana e a reconhecer,</p><p>na simplicidade do capital humano local, a abundância cultural desta terra tão</p><p>pouco valorizada.</p><p>DICAS</p><p>Convidamos você a assistir ao vídeo do discurso de Gabriel García Márquez</p><p>na ocasião do recebimento do Prêmio Nobel de literatura.</p><p>Assista em: <https://www.youtube.com/watch?v=WSfBFz8c1ZE>.</p><p>No próximo subtópico conheceremos outro autor de relevância máxima</p><p>para a literatura ocidental, dada a inclinação filosófica, metafísica e fantástica:</p><p>Jorge Luis Borges.</p><p>3 JORGE LUIS BORGES, A ERUDIÇÃO E O CÂNONE</p><p>OCIDENTAL</p><p>Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 1899 e faleceu em Genebra</p><p>em 1986. Foi um dos autores argentinos mais significativos de todos os tempos,</p><p>dada a dimensão filosófica da sua obra. No decorrer da longa vida, Borges</p><p>exerceu as artes da tradução, da poesia, da narrativa, além de ter se destacado</p><p>no âmbito do ensaio e da crítica literária. Antes de tudo, Borges foi um grande</p><p>leitor. Trabalhou como bibliotecário e em 1955 foi diretor da Biblioteca Nacional</p><p>da República da Argentina.</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>11</p><p>FIGURA 3 – JORGE LUIS BORGES</p><p>FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d5/Jorge_Luis_Borges_Hotel.</p><p>jpg>. Acesso em: 20 maio 2018.</p><p>Entre os livros mais famosos de Borges, destacam-se os de contos Ficciones</p><p>(1944), El Aleph (1949) e El informe de Brodie (1970). Borges possuía notável</p><p>habilidade em realizar obras não passíveis de classificação em termos literários.</p><p>Este é o caso do Livro dos Seres Imaginários (1957), obra na qual Borges reúne</p><p>116 seres encontráveis em obras literárias, na mitologia clássica e também em</p><p>religiões variadas.</p><p>A poesia, a grande musa inspiradora e seara na qual Borges publicou</p><p>nada menos que 16 livros, foi exercida com paixão pelo autor de El Aleph:</p><p>SUEÑA ALONSO QUIJANO</p><p>El hombre se despierta de un cierto</p><p>sueño de alfanjes y de campo llano</p><p>y se toca la barba con la mano</p><p>y se pregunta si está herido o muerto.</p><p>¿No lo perseguirán los hechiceros</p><p>que han jurado su mal bajo la luna?</p><p>Nada. Apenas el frío. Apenas una</p><p>dolencia de sus años postrimeros.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>12</p><p>El hidalgo fue un sueño de Cervantes</p><p>y Don Quijote un sueño del hidalgo.</p><p>El doble sueño los confunde y algo</p><p>está pasando que pasó mucho antes.</p><p>Quijano duerme y sueña. Una batalla:</p><p>los mares de Lepanto y la metralla.</p><p>(BORGES, 2005, p. 125)</p><p>Neste poema, constituinte de uma compilação intitulada Libro de sueños,</p><p>percebemos um intertexto com a obra máxima da literatura espanhola: Don</p><p>Quijote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. No poema, Borges entrelaça a</p><p>figura de Cervantes com a do fidalgo Dom Quixote, estabelecendo um nexo de</p><p>continuidade entre o autor da obra, o personagem de ficção (o fidalgo) e a ficção</p><p>dentro da ficção (Dom Quixote): "El hidalgo fue un sueño de Cervantes / y Don Quijote</p><p>un sueño del hidalgo. / El doble sueño los confunde y algo" (BORGES, 2005, p. 125).</p><p>DICAS</p><p>Estudante! Sugerimos que você assista à entrevista que Jorge Luis Borges</p><p>concedeu a Joaquín Soler Serrano em 1980. A conversa sucedeu na ocasião em que Borges</p><p>recebeu um dos maiores prêmios de língua espanhola, o Prêmio Cervantes.</p><p>Veja em: <https://www.youtube.com/watch?v=U-GlQZujLqw>.</p><p>O livro dos sonhos de Borges é a materialização de sua erudição, visto</p><p>que nesta obra não acessamos conteúdos plenamente autorais – como no caso do</p><p>poema Sueña Alonso Quijano, mas sim textos da história da literatura universal</p><p>que giram em torno da temática do sonho. Sob esse critério, o autor argentino</p><p>brinda seus leitores com histórias como A epopeia de Gilgamesh, trechos da Gênese</p><p>e Eclesiastes, Ilíada, Odisseia, além de autores do calibre de Franz Kafka, Antonio</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>13</p><p>Machado, Eça de Queiroz, Nietzsche, Luis de Gôngora, Lewis Carroll, Heródoto,</p><p>Pirandello, Platão e muitos outros. Trata-se de, muito além de uma prova cabal</p><p>de erudição, uma compilação riquíssima de sonhos e pesadelos dispostos nas</p><p>páginas da literatura universal.</p><p>FIGURA 4 – BORGES E ESPOSA</p><p>FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/116108496618295027/>. Acesso em: 20 maio 2018.</p><p>El Alma, el sueño, la realidad</p><p>(trecho)</p><p>Se supone que, de hecho, el alma de un durmiente se aleja errante de</p><p>su cuerpo y visita los lugares, ve las personas y verifica los actos que él está</p><p>soñando. Cuando un indio del Brasil o las Guayanas sale de un sueño profundo,</p><p>está convencido firmemente de que su alma ha estado en realidad cazando,</p><p>pescando, talando árboles o cualquier otra cosa que ha soñado, mientras su</p><p>cuerpo estuvo tendido e inmóvil en la hamaca.</p><p>(...)</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>14</p><p>Cuando un dayako sueña que ha caído el agua piede al hechicero</p><p>que pesque al espíritu con una red de mano, lo meta en un recipiente y se lo</p><p>devuelva. Los santals cuentan del hombre que se durmió y soñó tanta sed que</p><p>su alma en forma de lagarto dejó el cuerpo y se metió en una vasija para beber;</p><p>pero el dueño de la vasija lo tapó, y el hombre, impedido de recuperar su alma,</p><p>murió. Se preparaban para el entierro cuando alguien destapó la vasija y el</p><p>lagarto escapó, se reintegró al cadáver, y el muerto resucitó. Dijo que había</p><p>caído en un pozo en busca de agua y que había tenido dificultades para volver;</p><p>así lo entendieron todos.</p><p>James George Frazer, La Rama Dorada (1890).</p><p>FONTE: BORGES, Jorge Luis. El libro de sueños. Madrid: Alianza Editorial, 2005. p. 125.</p><p>Neste trecho Borges apresenta ao leitor um recorte do livro do antropólogo</p><p>sir James Frazer, intitulado O Ramo de Ouro (La rama dorada, em espanhol). O</p><p>trecho selecionado por Borges nos mostra a questão do sonho, a partir da</p><p>perspectiva dos povos indígenas que habitam o norte do Brasil e as Guianas.</p><p>Para esta cultura, conforme relata Frazer, a alma do ser humano viaja por outros</p><p>lugares do universo enquanto o nosso corpo dorme.</p><p>Se em Borges encontramos as maravilhas da poesia, da literatura ocidental,</p><p>da filosofia e dos clássicos, no próximo autor que estudaremos observaremos o</p><p>mundo dentro de uma perspectiva literária bastante peculiar.</p><p>4 O SOBRENATURAL E A HISTÓRIA DO MÉXICO EM</p><p>CARLOS FUENTES</p><p>O terceiro autor que estudaremos neste tópico é de origem mexicana.</p><p>Alguma vez você ouviu falar em Carlos Fuentes? Carlos Fuentes Macias, autor</p><p>mexicano nascido na Cidade do Panamá em 1928, foi um profícuo escritor latino-</p><p>americano, sendo reconhecido hoje como um dos nomes mais importantes das</p><p>letras na América Latina. Sua obra, composta por mais de 45 livros publicados,</p><p>representa aspectos histórico-sociais de valor inquestionáveis no contexto de uma</p><p>literatura latino-americana.</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>15</p><p>FIGURA 5 – CARLOS FUENTES</p><p>FONTE: <http://www.memorial.org.br/wp-content/uploads/2017/11/1337461398393.</p><p>cached.jpg>. Acesso em: 20 maio 2018.</p><p>La Muerte de Artemio Cruz, um dos seus romances mais aclamados, constitui</p><p>um verdadeiro panorama da história do México. Artemio Cruz, o personagem que</p><p>dá título à obra, está em seu leito de morte prestes a morrer. O livro foi publicado</p><p>em 1962 – na mesma década e no mesmo campo literário de Cien años de soledad –</p><p>e na obra, o autor nos mostra uma visão notadamente panorâmica da vida deste</p><p>homem, que outrora fora um industrial e um político importante em seu país.</p><p>A participação do personagem na Revolução Mexicana, a perda dos ideais do</p><p>personagem, as relações políticas corruptas e obscuras da época também são</p><p>elementos constituintes da obra. Na contracapa da edição hispano-americana da</p><p>obra (FUENTES, 2008), os editores descrevem o personagem:</p><p>En su lecho de muerte, durante su último medio día en el mundo, el</p><p>anciano y enfermo Artemio Cruz recuerda: no siempre fue ese triste</p><p>saco de huesos y fermentos corporales; alguna vez fue joven, osado,</p><p>vigoroso. Y tuvo ideales, sueños, fe. Para defender todo eso, incluso</p><p>combatió en una revolución. Mas la rapiña, la codicia y la corrupción</p><p>extinguieron su fuego y aniquilaron su esperanza. Tal vez por ello</p><p>perdió a la única mujer que de verdad lo amó.</p><p>As questões sociais são elementos constantes na obra. Ao longo dos</p><p>capítulos do romance de Fuentes, podemos perceber, por exemplo, diálogos</p><p>que</p><p>expressam a essência do espanhol coloquial falado no México. Os personagens, no</p><p>turbilhão da memória e dos acontecimentos, são mostrados como homens típicos</p><p>do meio de onde vêm. Eis um trecho de La muerte de Artemio Cruz (FUENTES,</p><p>2008, p. 164-165):</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>16</p><p>- Chingue a su madre</p><p>- Hijo de la chingada</p><p>- Aquí estamos los meros chingones</p><p>- Déjate de chingaderas</p><p>- Ahoritita me lo chingo</p><p>- Ándale, chingaquedito</p><p>- No te dejes chingar</p><p>- Me chingué a esa vieja</p><p>- Chinga tú</p><p>- Chingue usted</p><p>- Chinga bien, sin ver a quién</p><p>- A chingar se ha dicho</p><p>- Le chingué mil pesos</p><p>- Chínguense aunque truenen</p><p>- Chingaderitas las mías</p><p>- Me chingó el jefe</p><p>- No me chingues el día</p><p>- Vamos todos a la chingada</p><p>- Se lo llevó la chingada</p><p>- Me chingo pero no me rajo</p><p>- Se chingaron al indio</p><p>- Nos chingaron los gachupines</p><p>- Me chingan los gringos</p><p>- Viva México, hijos de su chingada.</p><p>NOTA</p><p>Em tempo:</p><p>Segundo o dicionário on-line de gírias Tu Babel, a palavra "chingada" pode ser entendida</p><p>de várias formas de acordo com o contexto no qual é empregada. Na sequência, observe</p><p>algumas das acepções aceitáveis:</p><p>a la chingada = no me importa</p><p>al chingadazo = hacer algo con poco empeño</p><p>chingadazo = golpe fuerte</p><p>en casa de la chingada = muy lejos</p><p>hijo de la chingada! = insulto en Mexico</p><p>Veja mais em: <http://www.tubabel.com/slangs/busqueda>.</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>17</p><p>Os textos de Carlos Fuentes, sejam eles romances ou contos, possuem uma</p><p>força descomunal ao mobilizar os temas propostos pelo autor. Uma das grandes</p><p>tônicas da produção de Fuentes é o mistério. Os contos escritos pelo autor, muitos</p><p>deles minados de situações sobrenaturais, semeiam a dúvida e o horror no horizonte</p><p>de expectativas do leitor. Um exemplo cabal é o conto Chac Mool.</p><p>FIGURA 6 – CHAC MOOL</p><p>FONTE: < http://www.forallworld.com/44002-chac-mool.html>. Acesso em: 20 maio 2018.</p><p>Alguma vez você já ouviu falar em Chac Mool? Chac Mool é uma divindade</p><p>pré-hispânica que Carlos Fuentes traz para as páginas de seu conto. Na narrativa,</p><p>conhecemos a história de Filiberto, um homem de aproximadamente 40 anos, que</p><p>é um profundo admirador das antiguidades do México pré-hispânico. O narrador</p><p>da história é o seu amigo, pois quando o conto se inicia, Filiberto já havia morrido</p><p>afogado em Acapulco. O leitor conhece a história de Filiberto através do seu</p><p>diário pessoal. Na rotina relatada pelo próprio defunto em seu diário, nota-se a</p><p>vida de uma pessoa comum que tem a vida mudada quando compra a estátua de</p><p>pedra de uma divindade antiga chamada Chac Mool. O que acontece após essa</p><p>aquisição é que o homúnculo de pedra adquire vida e transforma Filiberto em seu</p><p>verdadeiro escravo. Vale lembrar que para as culturas antigas Chac Mool era uma</p><p>espécie de divindade ligada às águas. Ao longo do relato encontrado no diário de</p><p>Filiberto, percebemos que os fenômenos ligados à água começam a surgir desde</p><p>o momento em que o homem compra a estátua de Chac Mool.</p><p>Los lamentos nocturnos han seguido. No sé a qué atribuirlo, pero estoy</p><p>nervioso. Para colmo de males, la tubería volvió a descomponerse, y</p><p>las lluvias se han colado, inundando el sótano.</p><p>El plomero no viene; estoy desesperado. Del Departamento del Distrito</p><p>Federal, más vale no hablar. Es la primera vez que el agua de las lluvias</p><p>no obedece a las coladeras y viene a dar a mi sótano. Los quejidos han</p><p>cesado: vaya una cosa por otra.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>18</p><p>Secaron el sótano, y el Chac Mool está cubierto de lama. Le da un aspecto</p><p>grotesco, porque toda la masa de la escultura parece padecer de una erisipela</p><p>verde, salvo los ojos, que han permanecido de piedra. Voy a aprovechar</p><p>el domingo para raspar el musgo. Pepe me ha recomendado cambiarme</p><p>a una casa de apartamentos, y tomar el piso más alto, para evitar estas</p><p>tragedias acuáticas. Pero yo no puedo dejar este caserón, ciertamente es</p><p>muy grande para mí solo, un poco lúgubre en su arquitectura porfiriana.</p><p>Pero es la única herencia y recuerdo de mis padres. No sé qué me daría ver</p><p>una fuente de sodas con sinfonola en el sótano y una tienda de decoración</p><p>en la planta baja (FUENTES, 2013, p. 30).</p><p>Um dos momentos mais impactantes da narrativa de Fuentes é quando,</p><p>por fim, Chac Mool recobra vida após o registro constante de fenômenos aquáticos:</p><p>“Allí estaba Chac Mool, erguido, sonriente, ocre, con su barriga encarnada.</p><p>Me paralizaron los dos ojillos casi bizcos, muy pegados al caballete de la nariz</p><p>triangular. Los dientes inferiores mordían el labio superior, inmóviles; sólo el</p><p>brillo del casuelón cuadrado sobre la cabeza anormalmente voluminosa, delataba</p><p>vida. Chac Mool avanzó hacia mi cama; entonces empezó a llover” (FUENTES,</p><p>2013, p. 32). Vale lembrar que tudo a que o leitor tem acesso ocorre através da</p><p>ótica do próprio Filiberto que, estupefato com os acontecimentos, registra-os um</p><p>a um até o dia de sua misteriosa morte.</p><p>DICAS</p><p>No documentário Carlos Fuentes – Instinto de Escritor encontramos</p><p>uma grande oportunidade de conhecer mais sobre um dos mais importantes escritores</p><p>mexicanos de todos os tempos.</p><p>Para ver o documentário, acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=5fTGkoF5lqk>.</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>19</p><p>DICAS</p><p>Por ser um Deus, Chac Mool ameaça constantemente a Filiberto. Um dos</p><p>momentos mais desesperadores na narrativa do personagem ocorre no período</p><p>de seca, quando Chac Mool exige que Filiberto busque água em uma fonte que</p><p>ficava a quatro quadras da casa do homem. Por ser o Deus do raio, Chac Mool</p><p>ameaça fulminar Filiberto, caso ele decida fugir:</p><p>Febrero, seco. Chac Mool vigila cada paso mío; me ha obligado</p><p>a telefonear a una fonda para que diariamente me traigan un</p><p>portaviandas. Pero el dinero sustraído de la oficina ya se va a acabar.</p><p>Sucedió lo inevitable: desde el día primero, cortaron el agua y la luz</p><p>por falta de pago. Pero Chac Mool ha descubierto una fuente pública a</p><p>dos cuadras de aquí; todos los días hago diez o doce viajes por agua, y</p><p>él me observa desde la azotea. Dice que si intento huir me fulminará:</p><p>también es Dios del Rayo. Lo que él no sabe es que estoy al tanto de</p><p>sus correrías nocturnas… Como no hay luz, debo acostarme a las ocho.</p><p>Ya debería estar acostumbrado al Chac Mool, pero hace poco, en la</p><p>oscuridad, me topé con él en la escalera, sentí sus brazos helados, las</p><p>escamas de su piel renovada y quise gritar (FUENTES, 2013, p. 34).</p><p>O final do conto é surpreendente e apresenta ao leitor uma importante</p><p>reflexão sobre o passado, o presente e o futuro das culturas ameríndias no México</p><p>contemporâneo.</p><p>Você ficou com vontade de ler o conto Chac Mool na íntegra?</p><p>Aproveite! Ele está disponível gratuitamente em língua espanhola no endereço: <https://</p><p>ciudadseva.com/texto/chac-mool/>.</p><p>Se em Carlos Fuentes encontramos personagens que nos levam à história do</p><p>México e a questões ligadas ao sobrenatural, no quarto e último autor deste tópico</p><p>conheceremos um aporte de literatura cuja principal característica é a inovação.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>20</p><p>5 A MAGNUS OPUS DE JULIO CORTÁZAR</p><p>Julio Cortázar foi um escritor argentino que nasceu em Ixelles (Bélgica)</p><p>em 1914. O autor, que viveu a infância na Argentina, passou grande parte da vida</p><p>entre Buenos Aires e a França, lugar onde faleceu em 1984. Hábil na arte do conto,</p><p>do romance e da crônica, o nome de Cortázar está fixado na história da literatura</p><p>universal graças ao caráter original e inovador de sua obra.</p><p>FIGURA 7 – JULIO CORTÁZAR</p><p>FONTE: <http://www.libreriausados.com.ar/images/Biografias/Julio-Cortazar.jpg>.</p><p>Acesso em: 20 maio 2018.</p><p>Entre as principais obras de Cortázar, destacamos Histórias de cronopios y</p><p>de famas (1962) e Rayuela (1962). Ao longo do seu período de atividade intelectual,</p><p>Cortázar teve uma vida literária bastante produtiva, deixando para a posteridade uma</p><p>obra com mais de 40 livros publicados.</p><p>DICAS</p><p>Cortázar, além da escrita em prosa pela qual é reconhecido, também escreveu</p><p>poemas. O primeiro livro de poesia: Presencia, 1938, foi publicado sob o pseudônimo de Julio</p><p>Denis. (Primeiro livro de poemas com 43 sonetos. Integrou o movimento neorromântico de</p><p>1940). Depois veio Pameos y meopas (poemas escritos entre 1944 y 1958); Pameos, meopas</p><p>y prosemas (1984) e a obra Salvo el crepúsculo (1984 - obra póstuma) com toda a sua obra</p><p>poética. Observe o jogo que ele realiza com a palavra poema nos títulos de sua obra enquanto</p><p>usava prosemas para falar de poemas escritos em prosa. Você pode saber mais sobre a obra e</p><p>fortuna crítica de Cortázar neste link: https://www.elfikurten.com.br/2014/06/julio-cortazar.html</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>21</p><p>FIGURA 8 – O JOGO DA AMARELINHA</p><p>FONTE: <https://pixabay.com/pt/amarelinha-jogo-n%C3%BAmeros-2612395/>.</p><p>Acesso em: 20 maio 2018.</p><p>O primeiro ponto a ser destacado em Rayuela é o seu aspecto formal: a obra</p><p>pode ser lida de diversas formas, como adverte o autor logo na primeira página:</p><p>TABLERO DE DIRECCIÓN</p><p>A su manera este libro es muchos libros, pero sobre todo es dos libros.</p><p>El primero se deja leer en la forma corriente, y termina en el capítulo</p><p>56, al pie del cual hay tres vistosas estrellitas que equivalen a la palabra</p><p>Fin. Por consiguiente, el lector prescindirá sin remordimientos de lo</p><p>que sigue. El segundo se deja leer empezando por el capítulo 73 y</p><p>siguiendo luego en el orden que se indica al pie de cada capítulo. En</p><p>caso de confusión u olvido, bastará consultar la lista siguiente:</p><p>73 - 1 - 2 - 116 - 3 - 84 - 4 - 71 - 5 - 81 - 74 - 6 - 7 - 8 - 93 - 68 - 9 - 104 - 10 - 65 - 11</p><p>- 136 - 12 106 - 13 - 115 - 14 - 114 - 117 - 15 - 120 - 16 - 137 - 17 - 97 - 18 - 153 - 19</p><p>- 90 - 20 - 126 - 21 79 - 22 - 62 - 23 - 124 - 128 - 24 - 134 - 25 - 141 - 60 - 26 - 109 -</p><p>27 - 28 - 130 - 151 - 152 - 143 100 - 76 - 101 - 144 - 92 - 103 - 108 - 64 - 155 - 123</p><p>-145 - 122 - 112 - 154 - 85 - 150 - 95 - 146 29 - 107 - 113 - 30 - 57 - 70 - 147 - 31</p><p>- 32 - 132 - 61 - 33 - 67 - 83 - 142 - 34 - 87 - 105 - 96 - 94 91 - 82 - 99 - 35 - 121 - 36</p><p>- 37 - 98 - 38 - 39 - 86 - 78 - 40 - 59 - 41 - 148 - 42 - 75 - 43 - 125- 44 102 - 45 - 80</p><p>- 46 - 47 - 110 - 48 - 111 - 49 - 118 - 50 - 119 - 51 - 69 - 52 - 89 - 53 - 66 - 149 - 54</p><p>129 - 139 - 133 - 40 - 138 - 127 - 56 - 135 - 63 - 88 - 72 - 77 - 131 - 58 - 131</p><p>Con el objeto de facilitar la rápida ubicación de los capítulos, la</p><p>numeración se va repitiendo en lo alto de las páginas correspondientes</p><p>a cada uno de ellos.</p><p>O autor divide o livro em dois livros, podendo a primeira parte ser lida na</p><p>íntegra até o capítulo 56. Logo após, ao começar a segunda parte, o leitor poderá</p><p>se deixar seguir pelo direcionamento oferecido pelo autor na tabela e indicado ao</p><p>final de cada capítulo. Por exemplo, ao final do capítulo 57 o leitor é direcionado</p><p>para o capítulo 70, que ao final indica para que o leitor salte para o capítulo 147 e</p><p>assim sucessivamente, havendo cada indicação ao final do capítulo e também na</p><p>tabela inicialmente apresentada. Essa estrutura possibilita que o leitor adote uma</p><p>postura ativa diante da obra, optando e decidindo como ler Rayuela.</p><p>Rayuela, traduzida para o português como O Jogo da Amarelinha, é</p><p>considerada sua obra prima – magnus opus –, dado o caráter inovador da obra e o</p><p>nível de engenhosidade e estilo próprio empregados pelo autor argentino.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>22</p><p>A esta altura você deve estar se perguntando como é a história de um livro</p><p>aparentemente tão complexo, não é mesmo? A história da primeira parte gira em</p><p>torno da relação vivida entre o argentino Horacio Oliveira e a uruguaya La Maga</p><p>(Lucía). Ambos os personagens vivem em Paris e experienciam uma história</p><p>de casal bastante peculiar. As reflexões de Oliveira sobre o relacionamento que</p><p>mantém com a Maga dão a tônica que marca praticamente todo o livro. Oliveira</p><p>é um homem culto, de alto nível intelectual e muito bem relacionado. Já Maga</p><p>não possui o mesmo nível de cultura, mas é sempre muito interessada e atenta</p><p>em absorver o máximo possível do conhecimento que compartilha Oliveira e os</p><p>amigos do casal, os membros do grupo apelidado Club de la Serpiente.</p><p>O livro é repleto de reflexões sobre a existência dos personagens e brinda</p><p>ao leitor frases marcantes, como a que segue: "Andábamos sin buscarnos pero sabiendo</p><p>que andábamos para encontrarnos. Oh Maga, en cada mujer parecida a vos se agolpaba</p><p>como un silencio ensordecedor, una pausa filosa y cristalina que acababa por derrumbarse</p><p>tristemente, como un paraguas mojado que se cierra" (CORTÁZAR, 2013, p. 120).</p><p>NOTA</p><p>A edição de Rayuela publicada pela Editora Cátedra</p><p>(Espanha) é considerada uma das mais completas disponíveis no</p><p>mercado editorial. O livro, cuja organização de notas de rodapé e</p><p>seleção de textos críticos ficou a cargo de Andrés Amorós, atualmente</p><p>é uma ferramenta poderosa para ler o livro de Julio Cortázar em língua</p><p>espanhola.</p><p>De acordo com os editores:</p><p>Por primera vez se edita "Rayuela" como un</p><p>clásico de la novela contemporánea. Todo</p><p>el conjunto de materiales que aporta esta</p><p>edición (introducción, abundantes notas, plano, fotografías)</p><p>servirán al lector para comprender mejor y disfrutar más con esta</p><p>gran novela. Al aclararse tantas alusiones y técnicas narrativas,</p><p>resplandece con más claridad el sentido profundo del relato:</p><p>la búsqueda constante, el humor, el juego, la nostalgia de una</p><p>verdadera vida, el paso soñado "de la tierra al cielo”.</p><p>Veja mais em: <https://www.catedra.com/libro.php?codigo_comercial=141625>.</p><p>TÓPICO 1 | NARRADORES QUE MARCARAM A HISTÓRIA</p><p>23</p><p>O momento responsável pela mudança de destino dos personagens</p><p>ocorre quando falece o bebê de La Maga dentro do apartamento. Conforme a</p><p>edição Amorós, o autor cubano Lezama Lima afirmou que "no hay nada en la novela</p><p>que se pueda comparar a eso. El hijo de la Maga muere, y la conversación y la fiesta</p><p>continúan durante la noche, hasta que por fin la madre percibe la muerte de su hijo.</p><p>Cortázar, sin dramatismo, sin exageración, lo ha resuelto en una forma realmente difícil</p><p>y de calidad" (Cinco minutos, p. 56 apud CORTAZAR, 2013, p. 321). Oliveira não</p><p>assiste à cerimônia fúnebre do filho de La Maga, desaparece por muitos dias e</p><p>ao término da segunda parte, Oliveira retorna ao apartamento e não encontra</p><p>mais La Maga. Pende a dúvida se La Maga retornou ao Uruguay ou se cometeu</p><p>suicídio. Na segunda parte, “do lado de lá”, Oliveira regressa à Argentina, sem</p><p>conseguir esquecer La Maga.</p><p>Sem lugar a dúvidas, Rayuela é um livro bastante complexo e apresenta</p><p>uma nova forma de narrar a literatura. Trata-se de um clássico contemporâneo</p><p>que deve ser lido e relido por gerações de leitores, pois aborda o fazer literário de</p><p>forma inovadora e, assim, consagra-se como uma das grandes obras da literatura</p><p>hispano-americana do século XX.</p><p>24</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• A literatura hispano-americana possui narradores de grande importância para</p><p>a história da literatura universal.</p><p>• A obra de Gabriel García Márquez é significativa quando pensamos questões</p><p>como a identidade latino-americana.</p><p>• A literatura de Jorge Luis Borges proporciona uma viagem pelo cânone</p><p>ocidental, apresentando ao leitor questões filosóficas, metafísicas e existenciais.</p><p>• A obra de Carlos Fuentes é caracterizada pela presença de elementos</p><p>sobrenaturais e de questões significativas que mimetizam a cena político-social</p><p>no México e na América Latina.</p><p>• O escritor argentino Julio Cortázar foi um dos autores mais inovadores do</p><p>século XX, apresentando uma nova forma de ler literatura e proporcionando</p><p>uma postura ativa do leitor.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>25</p><p>1 Considerando o subtópico 2, sobre Gabriel García Márquez, assinale com V</p><p>as alternativas verdadeiras e com F as falsas.</p><p>a) ( ) A obra que catapultou a carreira de Gabriel García Márquez foi El amor</p><p>en los tiempos del cólera (1985).</p><p>b) ( ) O texto apresentado</p><p>na Academia Sueca de Letras representa</p><p>unicamente a Colômbia da infância de Gabriel García Márquez.</p><p>c) ( ) Cien años de soledad narra a história das distintas gerações da família</p><p>Buendía.</p><p>d) ( ) Antonio Pigafetta foi um personagem criado por García Márquez para</p><p>elucidar seu discurso na ocasião de recebimento do Prêmio Nobel de</p><p>Literatura.</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de respostas.</p><p>a) ( ) F, F, V, F</p><p>b) ( ) F, F, F, V</p><p>c) ( ) F, V, V, V</p><p>d) ( ) V, F, F, F</p><p>e) ( ) V, V, V, F</p><p>2 Considere o seguinte trecho retirado do livro Libro de Sueños, de Jorge Luis</p><p>Borges (2005, p. 125):</p><p>Cuando un dayako sueña que ha caído el agua piede al hechicero</p><p>que pesque al espíritu con una red de mano, lo meta en un</p><p>recipiente y se lo devuelva. Los santals cuentan del hombre que</p><p>se durmió y soñó tanta sed que su alma en forma de lagarto dejó</p><p>el cuerpo y se metió en una vasija para beber; pero el dueño de la</p><p>vasija lo tapó, y el hombre, impedido de recuperar su alma, murió.</p><p>Se preparaban para el entierro cuando alguien destapó la vasija y</p><p>el lagarto escapó, se reintegró al cadáver, y el muerto resucitó. Dijo</p><p>que había caído en un pozo en busca de agua y que había tenido</p><p>dificultades para volver; así lo entendieron todos. James George</p><p>Frazer, La Rama Dorada (1890).</p><p>A partir do que estudamos no subtópico 3, sobre Libro de sueños, de Jorge Luis</p><p>Borges, considere as seguintes afirmações:</p><p>I - Libro de sueños é uma compilação de textos de Borges e de outros autores</p><p>importantes para a história da literatura ocidental;</p><p>II - Borges jamais publicou textos poéticos em vida, sendo sua produção</p><p>poética reprodução da literatura feita por outros autores;</p><p>III - Libro de sueños aborda o sonho através da literatura e da cultura universal.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>26</p><p>É correto o que se afirma em:</p><p>a) ( ) Apenas III</p><p>b) ( ) I, II e III</p><p>c) ( ) I e III</p><p>d) ( ) II e III</p><p>e) ( ) Apenas I</p><p>3 Observe atentamente o seguinte excerto retirado do conto Chac Mool, de</p><p>Carlos Fuentes (2013, p. 34):</p><p>Febrero, seco. Chac Mool vigila cada paso mío; me ha obligado</p><p>a telefonear a una fonda para que diariamente me traigan un</p><p>portaviandas. Pero el dinero sustraído de la oficina ya se va a</p><p>acabar. Sucedió lo inevitable: desde el día primero, cortaron el</p><p>agua y la luz por falta de pago. Pero Chac Mool ha descubierto</p><p>una fuente pública a dos cuadras de aquí; todos los días hago diez</p><p>o doce viajes por agua, y él me observa desde la azotea. Dice que</p><p>si intento huir me fulminará: también es Dios del Rayo. Lo que él</p><p>no sabe es que estoy al tanto de sus correrías nocturnas… Como no</p><p>hay luz, debo acostarme a las ocho. Ya debería estar acostumbrado</p><p>al Chac Mool, pero hace poco, en la oscuridad, me topé con él en la</p><p>escalera, sentí sus brazos helados, las escamas de su piel renovada</p><p>y quise gritar.</p><p>Considerando a leitura do subtópico 4, intitulado O sobrenatural e a história do</p><p>México em Carlos Fuentes, marque a alternativa correta:</p><p>a) ( ) O conto Chac Mool é narrado pelo personagem-título.</p><p>b) ( ) Chac Mool é um personagem completamente literário criado por</p><p>Carlos Fuentes, sem qualquer vínculo com o mundo real.</p><p>c) ( ) Chac Mool era o deus do fogo.</p><p>d) ( ) A história é conhecida através do diário de Filiberto.</p><p>e) ( ) Chac Mool se transforma em escravo de Filiberto.</p><p>27</p><p>TÓPICO 2</p><p>O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO:</p><p>AUTORES SELECIONADOS</p><p>UNIDADE 1</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>A história das literaturas de língua espanhola possui diversos capítulos</p><p>marcados pela presença da poesia, do romance, do drama e também do ensaio.</p><p>Alguma vez você teve acesso a um texto ensaístico? O Ensaio é um gênero textual</p><p>no qual um determinado autor realiza análises, expõe críticas e ideias pessoais,</p><p>formadas acerca da obra de determinado autor, de um período específico ou de</p><p>um tema de sua preferência. Esta modalidade é bastante comum no âmbito dos</p><p>estudos literários, chegando em muitos casos a ter o seu próprio cânone crítico.</p><p>É bem verdade, estudante, que ao longo do tempo surgiram cronistas,</p><p>ensaístas e historiadores de peso. No mundo hispânico coexistem autores espanhóis</p><p>e hispano-americanos, cada qual debruçando-se sobre as literaturas de seus países e</p><p>abordando seus respectivos temas e problemas.</p><p>FIGURA 9 – A ESCRITA ENSAÍSTICA (GABRIEL MËTSU) 1664</p><p>FONTE: <https://en.wikipedia.org/wiki/File:Man_Writing_a_Letter_by_Gabri%C3%ABl_</p><p>Metsu.jpg>. Acesso em: 20 maio 2018.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>28</p><p>No presente capítulo, você conhecerá nomes como Fray Bartolomé de</p><p>las Casas, Ramón Menéndez Pidal, José Ortega y Gasset, Antonio Cornejo Pollar</p><p>e Hugo Achugar. Conforme avancemos em cada um dos subtópicos seguintes,</p><p>poderemos contemplar o universo crítico e autorreflexivo dos textos produzidos</p><p>por estes pensadores.</p><p>2 FICÇÃO E NÃO FICÇÃO: OS PRIMEIROS ENSAÍSTAS:</p><p>CRISTÓVÃO COLOMBO E FRAY BARTOLOMÉ DE LAS CASAS</p><p>Na atualidade, o Ensaio é um tipo de texto bastante comum no âmbito</p><p>acadêmico. No campo da produção de cultura ocidental, com frequência nos</p><p>deparamos com ensaístas que muito têm a dizer sobre a produção de arte e cultura</p><p>em nossos tempos. Por se tratar de um gênero razoavelmente autocentrado na</p><p>percepção de alguém sobre algo, este gênero não possui regras bem estabelecidas</p><p>e muitas vezes suas características se confundem com a de outros gêneros textuais,</p><p>como o artigo e até mesmo a crônica.</p><p>Para começarmos nossa viagem pelo mundo dos ensaístas espanhóis e</p><p>latino-americanos, antes nos debruçaremos sobre dois tópicos: a origem do ensaio</p><p>e o esmaecimento das fronteiras deste com os outros gêneros.</p><p>A primeira vez que o termo "Ensaio" surgiu no âmbito de produção</p><p>intelectual foi através da pena do francês Michel de Montaigne (1533-1592)</p><p>quando o autor escreveu Ensaios, em 1597. Até então não havia uma alcunha</p><p>apropriada ao ato que já vinha ocorrendo como fenômeno intelectual. Em um dos</p><p>ensaios, Montaigne relata que teve um encontro com canibais levados do Brasil</p><p>para serem exibidos nas cortes francesas em torno de 1551.</p><p>Nestes primeiros textos, os autores expõem suas respectivas percepções</p><p>de mundo a respeito de algo que vivenciaram. Hans Ulrich Gumbrecht, filósofo</p><p>alemão, afirma em sua obra Modernização dos Sentidos que a invenção da imprensa e</p><p>a descoberta do continente americano sinalizam para o surgimento da subjetividade</p><p>– quando os produtores dos textos são capazes de reconhecer-se como parte</p><p>integrante daquilo a que estão descrevendo (GUMBRECHT, 1998).</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>29</p><p>FIGURA 10 – GRANDES NAVEGAÇÕES, POR FRANCIS DENT (1903)</p><p>FONTE: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Perez_and_Columbus,_or,_The_Franciscans_</p><p>in_America_-_by_Francis_Dent._(1903)_(14764802515).jpg>. Acesso em: 22 maio 2018.</p><p>Antes de o ensaio existir nas configurações da alcunha dada por</p><p>Montaigne, é de conhecimento disseminado que existiu um gênero muito comum</p><p>no século XVI: as narrativas de viagens. Alguma vez você leu a carta de Pero</p><p>Vaz de Caminha? Este é um dos primeiros documentos da história da literatura</p><p>brasileira e quando estudamos a literatura desde os seus primórdios, a carta com</p><p>frequência é abordada como o ponto de surgimento da literatura no Brasil. Este</p><p>tipo de documento foi tão importante que o crítico literário Alfredo Bosi afirma</p><p>que a Carta de Pero Vaz constituiu a nossa "autêntica certidão de nascimento"</p><p>(BOSI, 1997, p. 16).</p><p>Fato incontestável é que, no período das grandes navegações, a literatura</p><p>de viagem era comum. Constituía o modo como os viajantes encontravam meios</p><p>de levar notícias à corte, abordando acontecimentos presenciados in loco, pela</p><p>pessoa que redigiu a carta e presenciou os fatos ao vivo.</p><p>A essa altura você deve estar se questionando: como esse tipo de literatura</p><p>ocorreu no mundo hispânico, certo?</p><p>Voltemos ao ano 1492. Esta data lhe diz algo? Sim? Não? É a data de</p><p>descobrimento da América. Você certamente recordará das</p><p>aulas de História e da</p><p>descoberta da América por Cristóvão Colombo, em uma viagem que visava achar</p><p>uma rota alternativa para as Índias.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>30</p><p>FIGURA 11 – CRISTÓVÃO COLOMBO (EM 1519)</p><p>FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Portrait_of_a_Man,_Said_to_be_Christopher_</p><p>Columbus.jpg>. Acesso em: 22 maio 2018.</p><p>Logo após este acontecimento, ocorreu a colonização da América.</p><p>Atualmente, podemos dizer que este período gerou uma gama importantíssima de</p><p>conhecimento histórico, que hoje nos permite entender a mentalidade da época e</p><p>os fatos ocorridos no contato entre os nativos e os europeus.</p><p>Entre todas as pessoas que escreveram naquele período, podemos destacar</p><p>duas: o próprio Cristóvão Colombo (1491-1451) e o frei Bartolomé de las Casas</p><p>(1474-1566).</p><p>Sobre Colombo, é importante mencionar que foi através da pena do</p><p>descobridor que o Velho Mundo recebeu a notícia do descobrimento da América.</p><p>Assim, a carta de Colombo é tão importante para a América como um todo, assim</p><p>como a carta de Pero Vaz de Caminha o é para nós, brasileiros.</p><p>Alguma vez você já leu a carta de Colombo na íntegra? Trata-se de um</p><p>documento de grande valor histórico. Através dele podemos perceber como o</p><p>homem europeu daquele tempo se deparou com os nativos da terra e a impressão</p><p>que tiveram nestes primeiros encontros:</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>31</p><p>Trecho da Carta de Colombo ao Rei – neste trecho, o descobridor descreve</p><p>os nativos da terra encontrada</p><p>Señor, porque sé que habréis placer de la gran victoria que Nuestro</p><p>Señor me ha dado en mi viaje, vos escribo ésta, por la cual sabréis como en 33</p><p>días pasé de las islas de Canaria a las Indias con la armada que los ilustrísimos</p><p>rey y reina nuestros señores me dieron, donde yo hallé muy muchas islas</p><p>pobladas con gente sin número; y de ellas todas he tomado posesión por Sus</p><p>Altezas con pregón y bandera real extendida, y no me fue contradicho.</p><p>A la primera que yo hallé puse nombre San Salvador a conmemoración</p><p>de Su Alta Majestad, el cual maravillosamente todo esto ha dado; los Indios</p><p>la llaman Guanahaní; a la segunda puse nombre la isla de Santa María de</p><p>Concepción; a la tercera Fernandina; a la cuarta la Isabela; a la quinta la isla</p><p>Juana, y así a cada una nombre nuevo.</p><p>(…)</p><p>Ellos no tienen hierro, ni acero, ni armas, ni son para ello, no porque no</p><p>sea gente bien dispuesta y de hermosa estatura, salvo que son muy temeroso</p><p>a maravilla. No tienen otras armas salvo las armas de las cañas, cuando están</p><p>con la simiente, a la cual ponen al cabo un palillo agudo; y no osan usar de</p><p>aquellas; que muchas veces me ha acaecido enviar a tierra dos o tres hombres a</p><p>alguna villa, para haber habla, y salir a ellos de ellos sin número; y después que</p><p>los veían llegar huían, a no aguardar padre a hijo; y esto no porque a ninguno</p><p>se haya hecho mal, antes, a todo cabo adonde yo haya estado y podido haber</p><p>fabla, les he dado de todo lo que tenía, así paño como otras cosas muchas, sin</p><p>recibir por ello cosa alguna; mas son así temerosos sin remedio. Verdad es que,</p><p>después que se aseguran y pierden este miedo, ellos son tanto sin engaño y tan</p><p>liberales de lo que tienen, que no lo creería sino el que lo viese.</p><p>Ellos de cosa que tengan, pidiéndosela, jamás dicen de no; antes,</p><p>convidan la persona con ello, y muestran tanto amor que darían los corazones,</p><p>y, quieren sea cosa de valor, quien sea de poco precio, luego por cualquiera</p><p>cosica, de cualquiera manera que sea que se le dé, por ello se van contentos.</p><p>Yo defendí que no se les diesen cosas tan civiles como pedazos de escudillas</p><p>rotas, y pedazos de vidrio roto, y cabos de agujetas aunque, cuando ellos esto</p><p>podían llegar, les parecía haber la mejor joya del mundo; que se acertó haber un</p><p>marinero, por una agujeta, de oro peso de dos castellanos y medio; y otros, de</p><p>otras cosas que muy menos valían, mucho más; ya por blancas nuevas daban</p><p>por ellas todo cuanto tenían, aunque fuesen dos ni tres castellanos de oro, o</p><p>una arroba o dos de algodón filado.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>32</p><p>Hasta los pedazos de los arcos rotos, de las pipas tomaban, y daban lo</p><p>que tenían como bestias; así que me pareció mal, y yo lo defendí, y daba yo</p><p>graciosas mil cosas buenas, que yo llevaba, porque tomen amor, y allende de</p><p>esto se hagan cristianos, y se inclinen al amor y servicio de Sus Altezas y de toda</p><p>la nación castellana, y procuren de ayuntar y nos dar de las cosas que tienen</p><p>en abundancia, que nos son necesarias. Y no conocían ninguna seta ni idolatría</p><p>salvo que todos creen que las fuerzas y el bien es en el cielo, y creían muy firme</p><p>que yo con estos navíos y gente venía del cielo, y en tal catamiento me recibían</p><p>en todo cabo, después de haber perdido el miedo. Y esto no procede porque</p><p>sean ignorantes, y salvo de muy sutil ingenio y hombres que navegan todas</p><p>aquellas mares, que es maravilla la buena cuenta que ellos dan que de todo;</p><p>salvo porque nunca vieron gente vestida ni semejantes navíos.</p><p>FONTE: <http://www.culturandalucia.com/cartas%20de%20cristobal%20col%C3%B3n.</p><p>htm#Cartas%20de%20Col%C3%B3n>. Acesso em: 22 maio 2018.</p><p>Observe que na carta que Colombo escreveu ao Rei da Espanha podemos</p><p>perceber uma descrição personalíssima dos índios encontrados nas ilhas. Colombo</p><p>os descreve como pessoas dóceis, ignorantes e sem conhecimentos relevantes</p><p>para um europeu do seu tempo.</p><p>Colombo sinaliza que os filhos daquela terra não possuíam armas, ferro</p><p>e aço e que, a seu ver, não eram feitos para isso. Essa é a visão de Colombo ao</p><p>desembarcar nas primeiras ilhas. Fato conhecido historicamente é que, após</p><p>este contato inicial, houve um processo de tomada do novo mundo. E é neste</p><p>momento que surge a presença de um dos cronistas mais importantes do novo</p><p>mundo: o sevilhano frei Bartolomé de las Casas.</p><p>DICAS</p><p>Você pode ler na íntegra cada uma das três cartas escritas</p><p>por Cristóvão Colombo. Para fazê-lo, acesse o seguinte endereço:</p><p><http://www.culturandalucia.com/cartas%20de%20cristobal%20</p><p>col%C3%B3n.htm>.</p><p>Você também pode fazê-lo através do encurtador de links, acessando:</p><p><https://tinyurl.com/y9yyrb4e>.</p><p>TÓPICO 2 | O ENSAIO ESPANHOL E LATINO-AMERICANO: AUTORES SELECIONADOS</p><p>33</p><p>DICAS</p><p>Estudante!</p><p>O filme 1492 – A conquista do paraíso, dirigido por Ridley Scott, e com trilha musical de Vangelis,</p><p>é uma superprodução que retrata a exploração da América por Colombo. Trata-se de um</p><p>clássico do cinema, de caráter referencial quando mencionamos este assunto. Você já assistiu?</p><p>Não? Então procure mais sobre.</p><p>1492 – A conquista do paraíso. Direção: Ridley Scott. Produção: Ridley Scott, Alain Goldman.</p><p>Roteiro: Roselyne Bosch. Estados Unidos da América, 1992, 2h34min. Disponível em:</p><p><https://www.imdb.com/title/tt0103594/>. Acesso em: 10 ago. 2018.</p><p>Mas quem foi, afinal, de las Casas? Na história da literatura hispano-</p><p>americana, Bartolomé de las Casas se destaca por ter sido um dos primeiros</p><p>narradores das viagens empreendidas pelos espanhóis no novo mundo.</p><p>Na época da colonização, o frei acompanhou diversas missões e descreveu</p><p>tudo em suas crônicas de viagens, as conhecidíssimas Brevísima relación de la</p><p>destrucción de las Indias. As crônicas do frei sevilhano entraram para a história da</p><p>literatura como um dos relatos de caso mais sangrentos de que se tem notícia.</p><p>FIGURA 12 – BARTOLOMÉ DE LAS CASAS</p><p>FONTE: <http://www.historiadelnuevomundo.com/wp-content/uploads/2018/02/bartolome-</p><p>de-las-casas.jpg>. Acesso em: 29 ago. 2018.</p><p>UNIDADE 1 | A NARRATIVA E O ENSAIO EM ESPANHOL: AS BASES E O CONTEMPORÂNEO</p><p>34</p><p>Em suas crônicas, de las Casas descreve um verdadeiro cenário de horror,</p><p>denunciando a brutalidade dos espanhóis no trato com os nativos da América.</p><p>Trata-se de uma compilação de textos de inegável valor histórico, textos com</p><p>descrições que chocariam até mesmo o mais insensível espectador contemporâneo</p><p>de filmes de horror.</p><p>Relato de Fray Bartolomé</p>

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