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<p><</p><p>DESCRIÇÃO</p><p>Construção das principais linhas norteadoras da arte arquitetônica do entorno do Mediterrâneo</p><p>na Antiguidade.</p><p>PROPÓSITO</p><p>Listar as características das sociedades que compõem o ideal de civilização ocidental</p><p>presentes entre o Crescente Fértil e os espaços de Grécia e Roma, relacionando as</p><p>concepções de arte e poder nessas sociedades.</p><p>OBJETIVOS</p><p>MÓDULO 1</p><p>Identificar a arte arquitetônica na Grécia Antiga</p><p>MÓDULO 2</p><p>Relacionar arte da arquitetura na Roma Antiga às estruturas de poder</p><p>MÓDULO 3</p><p>Descrever a arte da arquitetura no Crescente Fértil Oriental</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Faremos um breve passeio sobre as arquiteturas da Antiguidade. O mundo e as sociedades</p><p>são muito mais amplos do que abordamos; contudo, os desdobramentos da história criaram um</p><p>ideal civilizacional contemporâneo pautado, em especial, nas sociedades greco-romanas.</p><p>Entretanto, precisamos não ser etnocêntricos e perceber que é inegável a influência do</p><p>Crescente Fértil para a cultura dessas sociedades. Por isso, reconhecer sua arte e arquitetura</p><p>será fundamental.</p><p>Depois passamos a identificar os símbolos e a influência da chamada Grécia Clássica,</p><p>considerada no ideal Ocidental como o berço de nossa civilização. Para passar, então, aos</p><p>organizadores do ideal social de um mundo civilizado e que manifesta isso em sua arte e</p><p>Arquitetura.</p><p>ETNOCÊNTRICOS</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>Centrados em nossa própria cultura</p><p>CRESCENTE FÉRTIL</p><p>Termo adotado para designar as áreas do Mediterrâneo Oriental entre o Egito e a</p><p>Mesopotâmia.</p><p>MÓDULO 1</p><p> Identificar a arte arquitetônica na Grécia Antiga</p><p>ARQUITETURA GREGA</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p> Acrópole e Partenon de Atenas.</p><p>O Partenon é um dos monumentos mais famosos do mundo. Em dias de verão, a acrópole</p><p>ateniense é visitada por centenas de turistas. Sua construção, que ficou sob a responsabilidade</p><p>dos arquitetos Ictinos e Calícrates, começou em 447 a.C. no lugar de outro templo destruído</p><p>pelos invasores persas, por volta de 480 a.C.</p><p>Engana-se, porém, quem pensa que o edifício permaneceu lá, intocável, por todos esses</p><p>séculos, servindo apenas de espaço de contemplação:</p><p></p><p>395 A 1453 D.C.</p><p>O Partenon foi igreja cristã na época do Império Bizantino, destinado ao culto da Virgem Maria.</p><p>1458</p><p>Quando Atenas foi tomada pelo Império Otomano, foi convertido em mesquita.</p><p></p><p></p><p>1687</p><p>Em um contexto de guerra, o Partenon foi utilizado como paiol de pólvora e experimentou os</p><p>efeitos de um tiro de canhão adversário.</p><p>O edifício que os turistas fotografam entusiasmados não é, nem de longe, idêntico à construção</p><p>original. Apesar disso, nenhuma das alterações que sofreu foi suficientemente poderosa para</p><p>descaracterizá-lo: ele permanece um dos símbolos mais emblemáticos não só da Grécia</p><p>Antiga, mas de toda a arquitetura ocidental, já que inspirou diversas outras construções ao</p><p>longo dos séculos.</p><p>Foto: Zigres/Shutterstock.com</p><p> Antigas ruínas do Partenon e Erechtheion na acrópole de Atenas. Na capital grega, a</p><p>acrópole é um marco histórico significativo, Zigres, 2018.</p><p>O QUE É UM CLÁSSICO?</p><p>Certamente, o termo “clássico” é bastante comum em nosso dia a dia, não é mesmo? Mas</p><p>afinal, qual é a origem desse significado?</p><p>A noção de “clássico” tem origem na Roma Antiga. A palavra classicus estava associada aos</p><p>cidadãos que, pela riqueza e pelo prestígio, pertenciam à primeira classe. Esse sentido foi</p><p>transposto para os textos escritos, quando se passou a distinguir o escritor clássico (scriptor</p><p>proletarius ), mais prestigiado, do scriptor proletarius .</p><p>Imagem: Miguel de Cervantes/Wikimedia Commons, CC BY 3.0.</p><p> Capa da primeira edição de Dom Quixote, livro de Miguel de Cervantes, publicado em</p><p>Madrid, em 1605.</p><p>Os textos canonizados pelo termo “clássico” seguiram não apenas sendo estudados, mas</p><p>classificados a partir da alcunha dada na Roma Antiga. Assim, escritos latinos e gregos</p><p>passaram a ser selecionados e qualificados como “clássicos” até que assumiram o adjetivo</p><p>como nome próprio: a expressão Antiguidade Clássica designa, até hoje, algum aspecto ou,</p><p>no limite, a totalidade de experiências histórico-culturais da Grécia e Roma antigas. O mesmo</p><p>princípio se aplica a casos específicos, como arquitetura clássica.</p><p>Mas seria equivocado afirmar que esse entendimento é o único possível. A ideia de “qualidade”,</p><p>provável influência da lógica censitária da Roma Antiga, tem outro sentido atualmente.</p><p> RESUMINDO</p><p>Clássico, em outras palavras, seria aquilo que é “de primeira classe” – melhor por suas</p><p>características e virtudes do que todo o resto. Trata-se de uma acepção que guarda consigo</p><p>profundas consequências políticas, sobretudo porque nosso gosto, nosso prazer estético, é</p><p>formado e reproduzido na experiência social, e essa disposição nos faz crer que determinado</p><p>modelo representa o paradigma a partir do qual todos os demais devem ser julgados, além de</p><p>um sentido de resistência, persistência e perenidade quando se fala em “clássicos”.</p><p>Os desenvolvimentos do conceito, sobretudo entre os séculos XVII e XIX, fizeram com que</p><p>seus sentidos oscilassem e que não houvesse necessariamente vinculação com o passado dos</p><p>povos antigos. Assim, pode-se falar em “clássicos da literatura espanhola”, expressão que</p><p>representaria uma contradição com o sentido original, mas que coexiste e reforça o sentido de</p><p>“imortalidade”: tornaram-se “clássicas” todas as obras a que, por força da popularidade,</p><p>são atribuídas a capacidade de permanecer como referência, blindadas do</p><p>esquecimento. Até mesmo a expressão “nasce um clássico” passou a ser praticada como</p><p>hipérbole, como elogio a uma obra recente e que se julga qualificada para não ser esquecida.</p><p>PRIMEIROS MATERIAIS E PRIMEIRAS</p><p>CONSTRUÇÕES</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p> Muro com textura adobe.</p><p>O território grego não ganhou fama por sua fartura de recursos. O relevo montanhoso e a</p><p>aridez do solo são bastante conhecidos, ainda que a topografia da bacia do Mediterrâneo seja</p><p>heterogênea. As terras agricultáveis, como se discute, eram muito limitadas, correspondendo a</p><p>cerca de 20% do território. Se, por um lado, aprendemos a reconhecer os méritos do engenho</p><p>humano por sua capacidade de superar as desvantagens, por outro, não podemos ignorar que</p><p>essas mesmas desvantagens estão na base das soluções encontradas.</p><p>As condições materiais (e naturais) não são meros empecilhos à engenhosidade, mas uma</p><p>variável indispensável para entender a forma com que os povos antigos interferiam na</p><p>paisagem.</p><p>Ao longo dos séculos, as redes de contato e comércio garantiram maior oferta de</p><p>possibilidades.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p> Grande peça de mármore e um martelo após a divisão do mármore para trabalhos futuros.</p><p>Os mármores de Quios (norte do mar Egeu) se tornaram célebres não apenas pelo uso como</p><p>matéria-prima para esculturas, mas também para a construção e decoração de edifícios.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p> Grande rocha vulcânica no vale da montanha Hrafntinnusker. A montanha leva o nome das</p><p>rochas de vidro preto, obsidiana.</p><p>Melos, por sua vez, situada ao sul das Cíclades, se tornou referência no comércio de</p><p>obsidiana, uma rocha ígnea extrusiva constituída basicamente de vidro vulcânico, muito</p><p>utilizada na Antiguidade para produzir pontas de flecha e de lanças, e outros instrumentos</p><p>cortantes de boa qualidade.</p><p>Essas inovações, resultado de processos de integração e diálogo entre as cidades, são parte</p><p>de condições históricas específicas, razão pela qual não é possível atestar o uso de tão</p><p>variados recursos em períodos mais antigos, como a Idade do Bronze, quando o adobe era a</p><p>técnica mais recorrente nas construções.</p><p>O desenvolvimento das técnicas de construção dos templos concentrou bastante atenção nas</p><p>proporções. Tales de Mileto e Anaximandro de Mileto foram dois filósofos pré-socráticos do</p><p>século VI a.C. que propuseram modelos geométricos que expressavam suas visões</p><p>cosmológicas e religiosas de mundo. Acredita-se que parte importante de suas reflexões se</p><p>ampara na influência egípcia, sobretudo em</p><p>a função de</p><p>produzir distinção social, reforçar as hierarquias e assegurar privilégios. Ainda que</p><p>eventualmente alguma pessoa das camadas menos abastadas tenha gozado de enterros</p><p>pomposos por algum casuísmo, o que há de certeza é que a arquitetura funerária pode até ser</p><p>destinada aos mortos, mas só àqueles que foram ricos e poderosos em vida.</p><p>No entanto, a compreensão que os egípcios tinham da morte era em nada parecida com a</p><p>nossa. Como explicou Cardoso (1982, p. 103-104), até o terceiro milênio antes de Cristo,</p><p>acreditava-se que a sobrevivência à morte era privilégio dos reis, que teriam uma forma</p><p>duplicada de si, um “princípio do sustento” que os egípcios designavam ka . A mumificação</p><p>dos cadáveres é tributária da crença de que era preciso manter o corpo íntegro para garantir a</p><p>vida eterna; a arquitetura funerária, nesse caso, garantiria as condições para o usufruto dessa</p><p>vida. As pirâmides são o principal símbolo dessa mentalidade que foi impressa na arquitetura.</p><p>MASTABAS</p><p>O início da construção de túmulos suntuosos começou na I Dinastia (3100 a.C.). Acredita-se</p><p>que a forma das pirâmides é resultado do desenvolvimento das chamadas mastabas, “casa</p><p>para a eternidade”. O formato já apresentava uma base mais ampla com paredes inclinadas em</p><p>direção a um topo de menor área, geralmente construídas com os recursos disponíveis na</p><p>região, como tijolos de argila e palha expostos ao sol do deserto para secagem, ou calcário</p><p>talhado com ligeira inclinação para o interior.</p><p>Foto: Jon Bodsworth, egyptarchive.co.u, Wikimedia Commons, Livre de Direitos Autorais.</p><p> Mastaba do faraó Seberquerés, chamada “Mastaba Faraum” (c. 2510 a.C.), da 4ª Dinastia,</p><p>Sacará, Vale funerário de Mênfis , Egito, 2007.</p><p>Esses edifícios, do ponto de vista prático, ofereciam proteção contra ladrões de túmulo e</p><p>animais necrófagos, mas a suntuosidade é tributária da exibição pública do poder do morto</p><p>(sempre faraós ou altos funcionários) e, como vimos, da necessidade religiosa de assegurar a</p><p>preservação do corpo. A estrutura acima do solo contava com um pequeno altar para que</p><p>familiares e sacerdotes levassem comida e outras oferendas para o morto. Em seu interior, as</p><p>câmaras mortuárias eram cavadas na rocha e forradas com madeira. Estátuas dos falecidos</p><p>também foram encontradas pelos arqueólogos.</p><p>Ainda que as mastabas não tenham a fama das pirâmides, é notável que essa forma inicial</p><p>tenha enorme influência nos desenvolvimentos ulteriores. Ainda no Reino Antigo – considerado</p><p>“O tempo das pirâmides” –, uma estrutura bastante conhecida foi erigida. Além de garantir</p><p>abrigo ao corpo morto do faraó Djoser (III Dinastia), assegurou a fama de Imhotep como o</p><p>primeiro arquiteto da história.</p><p>Apesar de não ter nascido em família nobre, Imhotep tornou-se vizir do faraó, e é conhecido</p><p>não apenas pela construção da primeira pirâmide de que temos notícia, mas também por seus</p><p>conhecimentos médicos. Após séculos de sua morte, durante o Reino Novo, foi deificado na</p><p>cidade de Mênfis. Acreditava-se que a arte de construir com pedras tenha sido uma invenção</p><p>sua.</p><p>PIRÂMIDE DE DJOSER</p><p>Imagem: Olaf Tausch/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0</p><p> Pirâmide de Djoser , Egito, 2009.</p><p>A Pirâmide de Djoser tem sua forma escalonada porque é composta de seis mastabas</p><p>sobrepostas, de dimensões decrescentes, de baixo para cima. Na época de sua construção,</p><p>alcançava 62m de altura com uma base de 109m x 125m e era revestida de pedra de calcário</p><p>branca polida.</p><p>O desenvolvimento posterior da arquitetura egípcia levou as pirâmides a abandonarem a</p><p>estrutura escalonada. As superfícies externas passaram a ser lisas, assumindo o formato</p><p>triangular que ascendia para um ponto central no topo a partir de uma base retangular. Ainda</p><p>que as mastabas seguissem sendo construídas e utilizadas ao longo de centenas de anos,</p><p>gradualmente foram cedendo espaço às pirâmides como forma arquitetônica dominante da</p><p>paisagem. Não chegou até nós qualquer modelo bidimensional ou tridimensional que tivesse</p><p>sido usado para projetar essas obras monumentais. Sabe-se que o primeiro passo era escolher</p><p>cuidadosamente o lugar e a posição que a pirâmide ocuparia. Pela posição que ocupam,</p><p>deduz-se que não deveriam estar demasiadamente distantes dos centros de poder e do próprio</p><p>Nilo. Também era necessária uma base rochosa para suportar a massa do edifício. Do mesmo</p><p>modo, esse terreno posteriormente nivelado deveria estar a uma altura segura para se proteger</p><p>das cheias do rio.</p><p>PIRÂMIDE DE QUÉOPS</p><p>Foto: Nina/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0</p><p> Pirâmide de Quéops , Egito, 2005.</p><p>A Pirâmide de Quéops, atribuída ao arquiteto Hemiunu e construída por volta de 2550 a.C.,</p><p>segue muito atentamente essas preocupações e dá indicativos de como o planejamento era</p><p>bem mais rigoroso do que podemos descobrir por meio dos indícios. O nivelamento do solo</p><p>apresenta um erro de apenas 18mm. A base quadrangular de 230m de lado possui um erro de</p><p>apenas 25cm. Não menos curioso, os lados estão orientados para cada um dos pontos</p><p>cardiais, já que os egípcios acreditavam que as estrelas do norte representavam os deuses no</p><p>outro mundo.</p><p> VOCÊ SABIA</p><p>O monumento, dedicado ao faraó que a denomina, é a única maravilha do mundo antigo que</p><p>sobreviveu e que se exibe aos turistas que a visitam na necrópole de Gizé, com seus</p><p>imponentes 146,5m de altura. A massa da pirâmide é de aproximadamente 6 milhões de</p><p>toneladas e seu volume interno é de cerca de dois milhões e meio de metros cúbicos.</p><p>A documentação antiga sugere que a obra teria levado vinte anos para ser concluída. Se esse</p><p>prazo é correto, também é correto afirmar que foram necessárias a instalação de 800 toneladas</p><p>de pedra por dia, ou doze blocos por hora, dia e noite, sem intervalo.</p><p>Não menos curiosa é a perícia dos construtores, que asseguraram uma abertura média das</p><p>juntas de apenas 0,5mm de largura. O material não era necessariamente abundante na região.</p><p>O calcário foi extraído do rio Nilo, bem como 500 mil toneladas de argila usadas como</p><p>argamassa, mas as pedras de granito, que pesam entre 25 e 80 toneladas, vieram de Assuã,</p><p>no sul do Egito, a 950km da atual capital Cairo, e 800km distante do local da construção. A</p><p>logística, portanto, também impressiona, sobretudo porque a única forma viável de transportar</p><p>esse material era através de embarcações que atravessassem o Nilo.</p><p>O número de trabalhadores envolvidos também é digno de nota. Estima-se a necessidade de</p><p>uma força de trabalho médio de 14.500 pessoas, mas não seria surpreendente que, em alguns</p><p>momentos, mais de 40 mil homens estivessem envolvidos com a construção, movendo,</p><p>cortando e alocando os blocos com a ajuda de polias, rodas, cunhas e métodos desconhecidos</p><p>para tornar a finalização do prédio viável.</p><p>TEMPLOS, ARQUITETURA RELIGIOSA DO</p><p>EGITO</p><p>Os templos eram entendidos como a casa dos deuses. Sua forma e decoração, portanto, são</p><p>aquelas que seriam convenientes a uma morada divina. Entre as obrigações religiosas do</p><p>faraó, constava a necessidade de erigir esses edifícios e assegurar sua manutenção por meio</p><p>de obras e rituais. Não menos importante, os templos eram medida importante para os próprios</p><p>egípcios, que emulavam tais práticas, em escala adequada, em suas residências particulares.</p><p>Eram, também, símbolo de distinção social, e a opulência era a marca pública do prestígio da</p><p>divindade (e, por correspondência, do faraó que presidia a construção e os cuidados rotineiros).</p><p>O destinatário também permite classificar os templos em duas categorias:</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>Templos de culto</p><p>Dedicados aos deuses</p><p></p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>Templos mortuários</p><p>Dedicados aos faraós mortos</p><p>Suas características arquitetônicas são bem próximas, exceto pela localização, já que os</p><p>templos mortuários tendiam a ficar nas cercanias do sepultamento do faraó, pelo menos até o</p><p>Reino Médio. No limite, ambos cumprem funções de culto, sobretudo porque os faraós eram</p><p>reis divinizados; contudo, os templos dedicados aos deuses parecem ter concentrado funções</p><p>administrativas menos presentes nos templos mortuários, com ênfase no Reino Médio.</p><p>O estudo dos templos egípcios enfrenta duas dificuldades principais.</p><p> Arraste para ler o conteúdo.</p><p>I</p><p>As construções mais antigas foram feitas de tijolos cozidos e, por razões diversas, não</p><p>sobreviveram ao tempo.</p><p>II</p><p>Muitos templos foram construídos a partir das estruturas de templos anteriores, localizados no</p><p>mesmo lugar, produzindo diversas camadas de construção que interditam um conhecimento</p><p>mais acurado dos edifícios que precederam os sobreviventes. Destaca-se também que, após o</p><p>período faraônico, muitos templos foram convertidos em igrejas ou fortificações. Outros foram</p><p>soterrados para a construção de cidades.</p><p>Do ponto de vista histórico, as mudanças foram notáveis: no fim do quarto milênio, eram</p><p>santuários discretos em nada parecidos com as grandes estruturas que marcaram a paisagem</p><p>a partir do Reino Novo. Grandes propriedades de terra pertenciam aos templos que, portanto,</p><p>também cumpriam uma função econômica.</p><p>TEMPLO DE HATSHEPSUT</p><p>Foto: Ian Lloyd/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.</p><p> Templo mortuário de Hatshepsut , Egito, 2006.</p><p>Um dos templos mortuários mais conhecidos é o de Hatshepsut, faraó egípcia da XVIII</p><p>Dinastia. A rainha em questão casou-se com Tutemés II, seu meio-irmão. O marido faleceu</p><p>quando o filho Tutemés III, enteado de Hatshepsut, era ainda uma criança, o que a levou a</p><p>assumir o poder como regente. Contudo, e graças à enorme habilidade política, Hatshepsut</p><p>assumiu o governo (1502 a 1482 a.C.). Na época, o uso das pirâmides já tinha cedido espaço a</p><p>enterros realizados na região conhecida como Vale dos Reis, localizada nas proximidades de</p><p>Tebas, na margem oeste do Nilo. O espaço abrigou diversas tumbas, algumas bem simples,</p><p>outras bastante complexas. O templo de Hatshepsut foi construído em Deir el-Bahari, nas</p><p>proximidades do vale, junto ao complexo mortuário de Mentuotepe II.</p><p>É considerado um dos monumentos mais emblemáticos do Antigo Egito.</p><p>Sua construção é atribuída ao arquiteto real Senenmut. Há três terraços em camadas que</p><p>chegam a quase 30m de altura, conectados por rampas que, na Antiguidade, eram cercadas</p><p>por plantas estrangeiras. Colunas protodóricas, decerto um modelo que foi tomado como</p><p>referência pelos gregos antigos, foram erigidas para abrigar o altar. O principal eixo do templo</p><p>está alinhado com o nascimento do sol no solstício de inverno. A entrada de luz solar foi objeto</p><p>de preocupação dos arquitetos, que garantiam sua penetração na parte traseira do altar. Essa</p><p>exposição não era importante apenas do ponto de vista material, para evitar os efeitos</p><p>acumulados da umidade, mas sobretudo pelo aspecto cósmico que orientou fortemente as</p><p>concepções egípcias, expressas também na forma com que praticavam sua arquitetura.</p><p> COMENTÁRIO</p><p>O egiptólogo Jan Assman designou como “drama cósmico” a visão de mundo dos egípcios, que</p><p>não encaravam a realidade de um ângulo basicamente espacial e material (ASSMANN, 2000,</p><p>p. 73). Em que pese o possível exagero dessa afirmação, a relação com o culto solar deixou</p><p>marcas bastante curiosas na arquitetura.</p><p>Imagem: Desconhecido/Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.</p><p> Templo de Ramsés , Egito, 2004.</p><p>COMPLEXO DE ABU-SIMBEL</p><p>É o que se observa no complexo de Abu-Simbel, construído por Ramsés II e que possui</p><p>ornamentação bastante impressionante. O maior de seus templos é dedicado ao faraó Ramsés</p><p>II e aos deuses Rá, Ptá e Amon. A construção começou por volta de 1284 a.C. e foi concluída</p><p>vinte anos depois. A fachada possui 33m de altura e 38m de largura. Esse edifício –</p><p>incomparável pelo luxo e pela opulência que são expressos, por exemplo, pelos oito pilares de</p><p>Osíris que sustentam seu interior, pelo conjunto escultórico riquíssimo e pelas pinturas</p><p>emblemáticas – também ficou conhecido pela forma da dimensão cósmica em uma sala</p><p>específica.</p><p>Por fim, e não menos importante, todas essas obras monumentais são tributárias da oferta de</p><p>mão de obra especializada que foi capaz de erigi-las. Ainda que seja muito difícil fazer</p><p>estimativas demográficas na Antiguidade, crê-se que a população do Egito aumentou de 1,5</p><p>milhão para 7 milhões ao longo do período faraônico.</p><p>As pesquisas sobre a arquitetura doméstica no Egito têm avançado nos últimos anos, bem</p><p>como a análise de outras formas e estruturas de assentamento; no entanto, o fascínio</p><p>provocado por esses edifícios e as descobertas arqueológicas frequentes concentram a</p><p>atenção dos analistas nos grandes monumentos.</p><p>ASSISTA AO VÍDEO COM A PROFESSORA BÁRBARA</p><p>LEAL SOBRE ARQUITETURA E PODER NO EGITO</p><p>ANTIGO .</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. AS PIRÂMIDES SE TORNARAM A FORMA DOMINANTE E O MODELO</p><p>ARQUITETÔNICO MAIS CÉLEBRE DA HISTÓRIA DO EGITO ANTIGO. A</p><p>SEU RESPEITO, PODE-SE AFIRMAR CORRETAMENTE QUE:</p><p>A) Foram construídas exclusivamente com rochas e metais, razão pela se tornaram tão</p><p>resistentes ao tempo e às ações humanas.</p><p>B) Tinham por finalidade abrigar o corpo do faraó das intempéries, constituindo-se assim em</p><p>um edifício com características absolutamente funcionais e sem qualquer valor político ou</p><p>religioso.</p><p>C) Desenvolveram-se a partir das mastabas, edificações com base ampla, mas sem as</p><p>superfícies triangulares que acabaram por se consolidar.</p><p>D) Eram centros econômicos e políticos administrados pela comunidade, que também</p><p>participava coletivamente de sua construção sem qualquer recompensa financeira.</p><p>E) Tornaram-se o principal espaço de entretenimento, já que seu complexo também abrigava</p><p>estádios e teatros onde ocorriam jogos e encenações dramáticas.</p><p>2. NA BUSCA PELA EXPLICAÇÃO ACERCA DO SURGIMENTO DAS</p><p>CIDADES NA MESOPOTÂMIA, FOI PROPOSTA A CHAMADA “HIPÓTESE</p><p>CAUSAL HIDRÁULICA” QUE, EM SÍNTESE, ATRIBUÍA O SURGIMENTO DO</p><p>ESTADO E DAS CIDADES À NECESSIDADE DE GERENCIAR AS ÁGUAS</p><p>DOS RIOS TIGRES E EUFRATES. ESSA HIPÓTESE FOI DESCARTADA</p><p>POR QUÊ:</p><p>A) Os especialistas observaram que os canais de drenagem e irrigação foram construídos por</p><p>iniciativa privada dos reis, e não por causa dos tributos recolhidos.</p><p>B) Observou-se que as populações locais não precisaram da agricultura (e, portanto, da gestão</p><p>das águas dos rios) para se organizar em cidades.</p><p>C) Como o Tigres e Eufrates são rios temporários, com secas regulares ao longo do ano, não</p><p>havia necessidade de organizar suas águas, tampouco dependência delas para viver em</p><p>cidade.</p><p>D) Pesquisas recentes mostraram que a gestão das águas dos rios ocorreu inicialmente de</p><p>forma comunitária, sendo o Estado e a cidade um desenvolvimento posterior.</p><p>E) A administração das cheias dos rios mesopotâmicos foi feita inicialmente por governantes</p><p>egípcios, que exportaram a expertise que adquiriram com a gestão do rio Nilo.</p><p>GABARITO</p><p>1. As pirâmides se tornaram a forma dominante e o modelo arquitetônico mais célebre da</p><p>história do Egito Antigo. A seu respeito, pode-se afirmar corretamente que:</p><p>A alternativa "C " está correta.</p><p>A noção de continuidade da vida é algo muito intenso para os egípcios e as relações de poder</p><p>e a arquitetura voltada para a eternidade eram marcadamente mortuárias e, por isso, passam a</p><p>ser os principais símbolos de poder arquitetônico.</p><p>2. Na busca pela explicação acerca do surgimento das cidades na Mesopotâmia, foi</p><p>proposta a chamada “hipótese causal hidráulica” que, em síntese, atribuía o surgimento</p><p>do Estado e das cidades à necessidade de gerenciar as águas dos rios Tigres e Eufrates.</p><p>Essa hipótese foi descartada por quê:</p><p>A alternativa "D " está correta.</p><p>A arquitetura e o urbanismo têm relação humana na busca de soluções. A dinâmica vista no</p><p>Oriente Próximo revela como o clima e a ação humana na arquitetura abrem possibilidades</p><p>fundamentais.</p><p>CONCLUSÃO</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Você percorreu um longo trajeto neste tema e, ao final, é importante perceber qual o seu foco.</p><p>Entender a dinâmica da forma da arquitetura, sua manifestação como arte reconhecida, não</p><p>retira sua característica de dialogar com a sociedade e estabelecer soluções.</p><p>Além disso, você deve ter notado que ela dialoga</p><p>com o contexto, com as demandas sociais,</p><p>com a disponibilidade de materiais, as técnicas, os conflitos, a disponibilidade de mão de obra</p><p>e as relações de poder.</p><p>AVALIAÇÃO DO TEMA:</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ARAÚJO, Carolina. O clássico como problema. Poiésis, v. 8, n. 11, p. 11-24, 2007.</p><p>ASSMANN, Jan. The search for god in ancient Egypt. Ithaca: Cornell University Press, 2000.</p><p>CARDOSO, Ciro Flamarion. O Egito Antigo. São Paulo: Brasiliense, 1982.</p><p>CICERO. De Oratore. Paris: Les Belles Letres, 1967, 3 v.</p><p>GOMBRICH, E. H. La historia del arte. Colonia del Valle, México: Editorial Diana, 1995.</p><p>OSBORNE, R. Archaic and classical Greek art. Oxford: Oxford University Press, 1998.</p><p>KRIWACZEK, Paul. Babilônia: a Mesopotâmia e o nascimento da civilização. Rio de Janeiro: J.</p><p>Zahar, 2010.</p><p>ROZESTRATEN, Artur Simões. Estudo sobre a História dos Modelos Arquitetônicos na</p><p>Antiguidade: origens e características das primeiras maquetes de arquiteto. Dissertação</p><p>(Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade</p><p>de São Paulo, São Paulo, p. 46. 2003.</p><p>EXPLORE+</p><p>Navegue pelo site Melammu Project e tenha acesso gratuito a uma série de materiais</p><p>que ajudam a entender a arte e arquitetura na Mesopotâmia.</p><p>Veja mais detalhes sobre o conceito de clássico no artigo O Clássico como problema , de</p><p>Carolina Araújo, publicado na Revista Poiésis, da Universidade Federal Fluminense</p><p>(UFF).</p><p>Conheça o site do British Museum e explore as coleções de arte grega.</p><p>Conheça mais sobre a erupção do Vesúvio e sua importância para conhecer a arte e</p><p>arquitetura de Roma a partir do documentário Os últimos dias de Pompeia (BBC, 2003).</p><p>Explore o interior de uma domus romana em 3D no site do Laboratório de Arqueologia</p><p>Romana Provincial (LARP) da Universidade de São Paulo (USP).</p><p>Visite o site do Museu Egípcio do Cairo e explore a coleção virtual, inclusive com objetos</p><p>em 3D que permitem uma excepcional experiência de descoberta.</p><p>CONTEUDISTA</p><p>Alexandre Moraes</p><p> CURRÍCULO LATTES</p><p>javascript:void(0);</p><p>javascript:void(0);</p><p>relação à arquitetura de pedra. O diálogo entre as</p><p>sociedades permitiu o compartilhamento de procedimentos, habilidades e ferramentas.</p><p>O interesse pela medição da área, necessário no caso egípcio por razões tributárias, foi</p><p>incorporado pelos filósofos gregos, bem como o uso de técnicas de escala em desenho para</p><p>assegurar, no plano da construção, as propriedades e proporções previamente planejadas. O</p><p>peristilo gradualmente se consolidou como uma das marcas mais visíveis dos templos.</p><p>javascript:void(0)</p><p> EXEMPLO</p><p>A técnica de alocar blocos de pedra ásperos no local das construções para o posterior</p><p>acabamento, por exemplo, é uma prática egípcia que, por volta desse período, se tornou</p><p>bastante frequente no mundo grego.</p><p>PERISTILO</p><p>Galeria de colunas que rodeia o edifício.</p><p>Em relação ao material utilizado nas construções, o uso de blocos de pedra foi se tornando</p><p>cada vez mais popular e ajudou a reforçar a monumentalidade dos edifícios.</p><p>Leia mais</p><p>Imagem: Shutterstock.com</p><p> Rua arqueada medieval na cidade velha de Rodes, Grécia.</p><p>javascript:void(0)</p><p>LEIA MAIS</p><p>Garantindo estabilidade, as pedras cortadas ajudaram a produzir uma aparência mais</p><p>regular e assegurar o respeito às proporções. O uso de pedras também esteve presente</p><p>nos conjuntos escultóricos dos frisos. No templo dedicado a Ártemis em Paros (490-480</p><p>a.C.), as paredes foram feitas com mármores locais bem-ajustados, diferentes de</p><p>diversos templos construídos com tijolos de barro. Os templos também ajudaram a</p><p>consolidar as formas arquitetônicas conhecidas como “ordens”.</p><p>ORDENS GREGAS</p><p>As discussões sobre as famosas “ordens” da arquitetura grega são muito influenciadas pelo</p><p>arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio. Em seu tratado De Architectura (séc. I a.C.), Vitrúvio</p><p>oferece não apenas informações, mas também levanta algumas discussões sobre a arquitetura</p><p>helênica. Essa obra ganhou particular atenção no Renascimento, inclusive por seus aspectos</p><p>teóricos e pelo apreço às ideias de harmonia e proporção, mas também ficou marcada pelo</p><p>entendimento oferecido acerca dos distintos sistemas arquitetônicos, identificados como</p><p>“ordens”. Trata-se, então, de um método classificatório que define práticas e estilos de</p><p>construção, explorando simultaneamente seus aspectos estruturais e ornamentais.</p><p>O desenvolvimento dessas ordens é igualmente devedor do acúmulo de novas técnicas,</p><p>sobretudo do processo de “petrificação” dos templos. Ainda que certas formas arquitetônicas</p><p>que se tornaram célebres pela perspectiva de Vitrúvio já estivessem presentes em edifícios do</p><p>século IX a.C., o uso mais frequente de pedras na construção ampliou as possibilidades. O</p><p>peristilo , por exemplo, se torna relativamente comum no século VII a.C., mas seu uso é</p><p>menos frequente nesse período do que se costumava supor. Apenas no século VI a.C. os</p><p>componentes típicos das ordens se tornam mais visíveis, resultado provável das melhorias</p><p>técnicas e da circulação de informações entre as cidades, mais conectadas e suscetíveis a</p><p>influências mútuas, mesmo que tenham preservado inúmeras características, demandas e</p><p>exigências regionais.</p><p> Templo do Erecteion com o famoso pórtico cariátide em vez de colunas na acrópole.</p><p>Atenas, Grécia.</p><p>Existe um consenso prático entre os especialistas de que todas as ordens derivam de duas</p><p>principais: a dórica e a jônica.</p><p>Apesar das variações, essas ordens eram caracterizadas por algumas regras que</p><p>asseguravam um padrão razoavelmente regular. Compunham-se de uma base a partir da qual</p><p>eram erguidas as colunas que, por sua vez, eram alocadas em entablamentos constituídos</p><p>por três partes:</p><p>Imagem: Siegerder e FlaviaC/Wikimedia commons/licença (CC BY 3.0...)</p><p>Figura 1: Elementos arquitetônicos na ordem dórica , 2009.</p><p>Vamos conhecer as três partes do entablamento:</p><p>Imagem: Siegerder e FlaviaC/Wikimedia commons/licença (CC BY 3.0...)</p><p>ARQUITRAVE</p><p>Uma viga mestra horizontalmente ajustada sobre as colunas.</p><p>Imagem: Siegerder e FlaviaC/Wikimedia commons/licença (CC BY 3.0...)</p><p>FRISO</p><p>Representa a parte plana do entablamento, situado entre a cornija e a arquitrave.</p><p>Imagem: Siegerder e FlaviaC/Wikimedia commons/licença (CC BY 3.0...)</p><p>CORNIJA</p><p>Uma faixa horizontal que se sobressai na parede e que também arremata a parte superior da</p><p>obra.</p><p>Tais elementos, apesar de bastante presentes e de necessária observação, não constituíam os</p><p>únicos aspectos visuais para a definição das ordens, sugerindo mais uma tendência do que</p><p>uma regra cuja ortodoxia deveria ser formalmente seguida.</p><p>Confira abaixo mais detalhes sobre cada ordem:</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>ORDEM DÓRICA</p><p>Na ordem dórica, a coluna não costumava ser acompanhada de base, sendo erigida</p><p>diretamente a partir do solo. Tais colunas eram adornadas com caneluras e terminavam com</p><p>uma espécie de anel no topo (conhecido como equino – ver Figura 1), sobre o qual era</p><p>apensado um ábaco – ver Figura 1 -, quadrado que restringia o vão entre as colunas e provia</p><p>melhor sustentação à arquitrave. Esta, por sua vez, costumava ser lisa e não se apoiava</p><p>diretamente na cornija. Também era frequente que um frontão se sobrepusesse a esse</p><p>conjunto. Trata-se de um grande triângulo de alvenaria, algumas vezes decorado com</p><p>conjuntos escultóricos em alto-relevo que narravam alguma história mítica, associada tanto à</p><p>divindade local como aos heróis fundadores das cidades.</p><p> Capitel de estilo clássico de Corinto no topo de coluna de mármore.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>ORDEM JÔNICA</p><p>Na perspectiva de Vitrúvio, as colunas eram os principais elementos que caracterizavam as</p><p>ordens, e com a ordem jônica não é diferente. Acredita-se que o estilo jônico tenha incorporado</p><p>influências orientais com mais singularidade. Diferentemente da ordem dórica, as colunas não</p><p>emergem diretamente do piso, mas de uma base anelar. Sobre o capitel, os arquitetos</p><p>alocavam uma arquitrave que suportava um friso que, a seu turno, carregava uma cornija</p><p>balanceada. Em seu estilo canônico, a coluna apresenta também motivos vegetais (palmeiras,</p><p>videiras etc.) que, acredita-se, tenham sido inspirados pelos egípcios. No entablamento, a</p><p>arquitrave desempenhava funções similares à da ordem dórica, sendo dotadas de estrias</p><p>horizontais. As cenas decorativas nos frisos também se mostravam presentes. As cornijas, por</p><p>sua vez, não se diferenciavam significativamente da ordem dórica.</p><p> Detalhe arquitetônico de uma capital neorrenascentista Jônica com elementos florais.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>ORDEM CORÍNTIA</p><p>A chamada ordem coríntia, que os próprios gregos diziam ter se desenvolvido pela influência</p><p>jônica, é sobretudo caracterizada por seu capital ricamente esculpido em forma de flores e</p><p>folhagens. Vitrúvio creditou a Calímaco a construção do primeiro capitel coríntio. Os detalhes</p><p>são notáveis e acredita-se que os finos entalhes tenham surgido do trabalho com metal para só</p><p>posteriormente serem aplicados ao mármore.</p><p> Capitel de estilo clássico de Corinto no topo de coluna de mármore.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>ORDEM CARIÁTIDE</p><p>A ordem cariátide é caracterizada pela incorporação de figuras humanas às colunas do edifício.</p><p>Na acrópole de Atenas há a principal referência a esse estilo, especificamente no pórtico da</p><p>fachada sul do Erecteion (templo consagrado a Atena e Poseidon). É um edifício jônico no que</p><p>concerne aos ornamentos e dórico em relação à forma e às proporções. Até hoje, os visitantes</p><p>se encantam com as cariátides.</p><p> Imagem do pórtico da fachada sul do Erecteion, com destaque para as cariátides.</p><p>Em linhas gerais, a ordem dórica tende a ser vista como mais sóbria, geométrica e regular; a</p><p>ordem jônica é mais detalhista, fluida, leve e ornamentada.</p><p>CARIÁTIDES</p><p>javascript:void(0)</p><p>Figuras femininas esculpidas que funcionam como coluna ou pilar de sustentação com</p><p>um entablamento na cabeça.</p><p>Por mais que haja o costume, por exemplo, de associar a criação do estilo dórico ao norte do</p><p>Peloponeso ou à pólis de Corinto, os avanços da arqueologia mostraram que tais inovações</p><p>foram muito menos</p><p>localizadas. Além disso, há variações dentro da mesma ordem: o modelo</p><p>jônico não era o mesmo nas Cíclades e/ou na parte oriental da Ásia Menor. Em outras</p><p>palavras, além da diversidade, as interações políticas e culturais foram responsáveis pela</p><p>criação de mais formas híbridas do que exatamente puras.</p><p>DAS CASAS AO TEATRO</p><p>Ainda que a maioria dos especialistas concentre sua atenção nos templos, outros aspectos da</p><p>arquitetura grega merecem ser considerados. Os edifícios religiosos, mais complexos e</p><p>grandiosos, se tornaram objeto privilegiado por força de sua monumentalidade, da influência</p><p>que exerceram nos pensamentos arquitetônico e artístico posteriores e nos seus aspectos</p><p>simbólicos. No entanto, diversas outras construções compuseram a paisagem urbana da</p><p>Grécia Antiga e qualquer entendimento mais amplo da vida em sociedade do período precisa</p><p>levá-las em consideração.</p><p>CASAS</p><p>É o caso, por exemplo, da arquitetura doméstica. Há uma razão prática para certa</p><p>desatenção dos especialistas: como os templos foram erigidos com material durável, se</p><p>tornaram mais resistentes às ações do homem e do tempo; as casas gregas, por sua vez,</p><p>foram construídas com materiais mais simples, menos resistentes. No entanto, não é uma mera</p><p>questão de análise de vestígios, já que também possuímos bom estoque de informação sobre</p><p>os oikoi , mas uma questão de olhar: só mais recentemente os arquitetos, arqueólogos e</p><p>historiadores passaram a se interessar pela experiência da vida doméstica.</p><p>Ainda que os espaços públicos abrigassem as mais decisivas situações da vida social</p><p>(embates políticos, julgamentos criminais, festividades, práticas religiosas, jogos etc.), grande</p><p>parte dos gregos (sobretudo as mulheres) passava boa parte de seu tempo no espaço privado.</p><p>A maioria das casas era construída com paredes de tijolos (adobe) assentadas sobre pedras,</p><p>que impediam que o barro absorvesse a água do solo. Era comum o uso de revestimentos de</p><p>gesso na parte posterior da parede, também visando à impermeabilização.</p><p> SAIBA MAIS</p><p>Além de ser de baixo custo e ter material em abundância, o adobe não exigia muitos</p><p>instrumentos para a produção nem conhecimentos técnicos exigentes; mais que isso, tratava-</p><p>se de um excelente isolante térmico, que mantinha a temperatura interna mais amena no verão</p><p>e ajudava a reter o calor no inverno, sobretudo com o auxílio de lareiras e braseiros.</p><p> Teatro de Epidauro, prefeitura de Argolida, Peloponeso, Grécia.</p><p>Outra intervenção na paisagem extremamente popular na Grécia Antiga foi o teatro. Tanto nos</p><p>centros urbanos como nas regiões mais periféricas, os teatros eram importantes espaços de</p><p>sociabilidade, religiosidade e discussões políticas. No caso ateniense do Período Clássico, o</p><p>Teatro de Dionísio abrigava importantes festivais no inverno e no verão. Especialmente no</p><p>verão, atraía centenas de estrangeiros que visitavam a cidade para assistir à performance de</p><p>ditirambos, às peças de Aristófanes e a outros comediógrafos, mas sobretudo às tragédias</p><p>célebres de Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Aliás, no mundo contemporâneo, muitos teatros da</p><p>Antiguidade seguem sendo utilizados para seu propósito original.</p><p> SAIBA MAIS</p><p>Em julho de 2020, a peça Os persas , de Ésquilo, foi encenada pela primeira vez no Teatro de</p><p>Epidauro, um dos mais importantes da Antiguidade. Por força da pandemia do novo</p><p>coronavírus, a adaptação foi transmitida ao vivo pela internet para o mundo inteiro.</p><p>Era bastante frequente que a estrutura do teatro interagisse com a topografia local. Entenda</p><p>melhor com explicação abaixo:</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>CAVEA</p><p>A cavea (Espaço destinado aos espectadores.) era, geralmente, afundada em uma encosta</p><p>natural, o que diminuía os custos de construção e aproveitava a o caráter íngreme das colinas</p><p>para definir as fileiras em que ficaria a audiência. Com sua forma hemisférica, a cavea</p><p>semirredonda garantia a propagação do som e se ajustava à orchestra .</p><p> Foto aérea do icônico e gigantesco teatro antigo de Epidavros ou Epidauro, Argolida,</p><p>Peloponeso, Grécia, feita pelo drone panorâmico.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>ORCHESTRA</p><p>Espaço destinado à performance dos atores.</p><p> Foto aérea do icônico e gigantesco teatro antigo de Epidavros ou Epidauro, Argolida,</p><p>Peloponeso, Grécia, feita pelo drone panorâmico.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>SKENE</p><p>Logo após a orchestra ficava o espaço conhecido como skene , formado por um edifício de</p><p>dois ou três pavimentos que funcionava como um camarim, a partir do qual os atores entravam</p><p>e saíam de cena. Como eram frequentemente construídos em encostas, o público também</p><p>ficava diante de grandes vales e colinas. Acredita-se que a construção de skenes mais altas</p><p>pode ter funcionado como incentivo para reter a atenção dos espectadores nas ações que</p><p>ocorriam na orchestra .</p><p> Foto aérea do icônico e gigantesco teatro antigo de Epidavros ou Epidauro, Argolida,</p><p>Peloponeso, Grécia, feita pelo drone panorâmico.</p><p>Em muitos casos, skenes de madeira eram desmontadas ao fim dos festivais teatrais. No</p><p>entanto, muitos teatros acabaram substituindo essa prática por edifícios perenes, feitos de</p><p>pedra. Credita-se ao tragediógrafo Sófocles o uso de pinturas na skene (skenographia ) para</p><p>a composição do cenário de suas peças. Também é bem-documentado o uso de maquinários</p><p>que interagiam com as estruturas originais do teatro.</p><p> EXEMPLO</p><p>O ekkyklema , por exemplo, era um dispositivo móvel que permitia o deslocamento dos atores</p><p>no palco por meio de uma plataforma. Alguns atores, quando a necessidade cênica se</p><p>impunha, eram elevados com guindastes. A versatilidade do espaço, portanto, estimulava</p><p>inovações cênicas.</p><p>É necessário insistir que o espaço teatral era um recinto sacralizado, de modo que tais</p><p>estruturas compunham um edifício religioso, e não um espaço rigorosamente utilitário. A</p><p>posição privilegiada que o sacerdote de Dionísio ocupava, por exemplo, no principal teatro</p><p>ateniense, mostra o valor atribuído à religiosidade. A presença de altares nos teatros é outro</p><p>elemento que destaca a relação íntima entre a execução das peças e a ritualização do</p><p>espetáculo. Estudos recentes também mostram que o espaço era utilizado para debates</p><p>públicos, sobretudo na Atenas democrática: a estrutura permitia, em última instância, que todos</p><p>pudessem ver e ser vistos, o que reforçava ideologicamente a questão da isonomia e da</p><p>isegoria, princípios extremamente valorizados nos discursos políticos atenienses.</p><p>ASSISTA AO VÍDEO COM A PROFESSORA</p><p>BÁRBARA LEAL SOBRE ARQUITETURA E</p><p>PODER NO GRÉCIA ANTIGA .</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. EM RELAÇÃO ÀS TÉCNICAS E AOS MATERIAIS USADOS NAS</p><p>CONSTRUÇÕES DOS EDIFÍCIOS GREGOS, PODE-SE DIZER QUE:</p><p>A) A abundância de matéria-prima permitiu o desenvolvimento de inúmeras técnicas de</p><p>construção.</p><p>B) A arquitetura manteve-se simples e funcional ao longo de todos os séculos graças à</p><p>escassez de pedras e madeiras para a construção.</p><p>C) A madeira foi a principal matéria-prima utilizada na construção dos teatros gregos do</p><p>período clássico.</p><p>D) Houve um gradual processo de “petrificação” dos edifícios, sobretudo os templos.</p><p>E) As estruturas metálicas usadas na cobertura dos telhados foi uma técnica onipresente ao</p><p>longo dos séculos.</p><p>2. SOBRE AS ORDENS GREGAS, ASSINALE A ÚNICA OPÇÃO CORRETA.</p><p>A) Apesar de terem surgido na Grécia, as reflexões e classificações conhecidas são resultado</p><p>dos estudos do romano Vitrúvio em seu tratado De Architectura .</p><p>B) Considera-se que o ponto em comum entre elas era a sobriedade, escassez de detalhes e</p><p>economia nas formas.</p><p>C) As ordens jônica e dórica surgiram na Idade do Bronze e permaneceram em voga até o</p><p>surgimento da ordem coríntia no Período Clássico, que substituiu as demais em função de suas</p><p>características marcantes.</p><p>D) As ordens jônica e dórica representaram um estilo tão marcante que nenhum arquiteto</p><p>construiu edifícios que utilizassem elementos de ambas simultaneamente.</p><p>E) As ordens gregas não existem, são uma invenção posterior e que não se confirmam com</p><p>estudos específicos.</p><p>GABARITO</p><p>1. Em relação às técnicas e aos materiais usados nas construções dos edifícios gregos,</p><p>pode-se dizer que:</p><p>A alternativa "D " está correta.</p><p>O processo do desenvolvimento de técnicas e de usos de materiais obtidos nas pedreiras eram</p><p>uma tendência no mundo grego, em especial do uso da pedra mármore que se tornaria uma de</p><p>suas marcas.</p><p>2. Sobre as ordens gregas, assinale a única opção correta.</p><p>A alternativa "A " está correta.</p><p>As ordens gregas são fruto das variações das próprias pólis que, ainda que tivessem relação</p><p>entre si, assumiam perspectivas específicas. Foram organizadas pelos romanos, característica</p><p>recorrente desse grupo, como destacado na afirmativa A.</p><p>MÓDULO 2</p><p> Relacionar arte da arquitetura na Roma Antiga às estruturas de poder</p><p> Fórum Romano – ruínas da arquitetura do Império Romano, Roma, Itália.</p><p>ARQUITETURA NA ROMA ANTIGA</p><p>Cícero, considerado o maior pensador romano por muitos historiadores, em uma reflexão sobre</p><p>a mimesis (simulacrum ) platônica, recorreu ao exemplo de Fídias. Para o romano, as</p><p>estátuas do artista grego eram as mais perfeitas já vistas e, “apesar de sua beleza, podemos</p><p>imaginar algo ainda mais belo” (CÍCERO, 1967). O filósofo afirmava que Fídias não fez a</p><p>imagem de Júpiter (Zeus, na analogia latina) baseado em qualquer pessoa tomada como</p><p>modelo, mas a partir de uma idealização de belo, sem lastro com referentes do mundo real.</p><p>Essa reflexão, que compõe um argumento mais amplo a respeito da oratória, ampara-se não</p><p>apenas na estética grega, mas também na influência que os gregos, em particular Platão,</p><p>exerceram nas concepções latinas de arte.</p><p>Contudo, seria um equívoco sustentar que a arte e a arquitetura romanas foram simples</p><p>processos de emulação da arte e arquitetura gregas. Ainda que seja possível abordar esses</p><p>fenômenos de modo conjunto, agrupados sob o qualificativo “greco-romano”, a influência grega</p><p>precisa ser relativizada a partir de pelos menos três pontos importantes:</p><p> Arraste para ler o conteúdo.</p><p>Α</p><p>Não há concepção de plágio na Antiguidade, fato que depõe contra a ideia de uma arte</p><p>nacional que serviria de medida para outras nações.</p><p>Β</p><p>Parte significativa do que conhecemos dos gregos depende das reproduções e das narrativas</p><p>que os romanos fizeram a seu respeito, o que coloca em xeque a noção de originalidade</p><p>helênica.</p><p>Γ</p><p>Não há cultura que sobreviva sem contato com outras culturas e, no caso romano, apesar da</p><p>aproximação óbvia com a cultura grega, influências de várias outras sociedades são visíveis.</p><p>ARQUITETURA ROMANA</p><p>Em meados do século VIII a.C., os arqueólogos identificaram as primeiras ocupações da</p><p>cidade que era fundada à margem esquerda do rio Tibre. A planície do Lácio era pantanosa e</p><p>cercada por florestas. Era também um ponto estratégico para as rotas comerciais do mar</p><p>Tirreno, pela ligação que fazia entre a Campânia, ao sul, e a Etrúria, ao norte. Nessa região</p><p>foram erigidas as cabanas do sítio original, feitas com materiais bem simples, demasiadamente</p><p>perecíveis para que deles tenhamos apenas vagas notícias, mas também suficientemente</p><p>capazes de deixar os vestígios que confirmam sua existência.</p><p>O processo de drenagem da planície foi um fato decisivo, e a construção da rede de esgoto,</p><p>que os romanos denominavam cloaca maxima , representou o principal esforço nessa direção.</p><p>Trata-se, aliás, de um dos mais antigos sistemas de esgoto do mundo. Os dejetos e as águas</p><p>pluviais, que até o ano 600 a.C. mantinham o solo excessivamente úmido, passaram a ser</p><p>escoados para o rio Tibre. Houve melhoria óbvia das condições sanitárias e da circulação de</p><p>pessoas.</p><p>Foto: Lalupa/Wikimedia Commons, Domínio público.</p><p> A cloaca maxima , ou "Grande Dreno", drenava água de partes do centro de Roma para o</p><p>rio Tibre, Lalupa, 2005.</p><p>As escavações revelaram o uso de diversos materiais e técnicas de construção, sintoma de</p><p>que os canais foram reformados com regularidade ao longo dos séculos. A drenagem também</p><p>tornou viável a construção do Fórum Romano, cuja importância exige nossa atenção.</p><p>As mudanças na cidade também envolvem a relação com o espaço, e a religiosidade não fica</p><p>de fora dessa equação. O espaço doméstico era marcado por uma profunda dimensão de</p><p>sacralidade. Não era apenas o domínio do pater familias , que exerceria seu poder de mando</p><p>como um sacerdócio; era também o espaço no qual os espíritos dos antepassados viviam.</p><p>A cidade, porém, não é um simples conglomerado de casas e essa concepção também foi</p><p>expressa pela via religiosa: os romanos entendiam que o que havia de sagrado em cada</p><p>domus era também compartilhado no espaço comum, no espaço do fórum. A experiência de</p><p>formação das pólis gregas oferece mais do que uma analogia, mas um sintoma de práticas</p><p>mediterrâneas compartilhadas. Em outras palavras, o desenvolvimento das cidades foi</p><p>acompanhado da noção de que há espaços comuns que pertencem a todos sem pertencer a</p><p>ninguém em particular.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p> Ruínas do Fórum Romano , Itália.</p><p>O fórum era a expressão material da consciência de fazer parte de uma comunidade. Além dos</p><p>prédios administrativos, onde as instituições do governo foram construídas, era também o</p><p>centro jurídico, onde os negócios públicos e as discussões legais eram realizados. Também era</p><p>o centro religioso da cidade: diversos rituais e festividades eram periodicamente realizados na</p><p>busca de uma relação harmoniosa com os deuses. O fórum foi o coração urbanístico e</p><p>arquitetônico de Roma, ponto de ser referência a partir do qual compreendiam irradiar-se todos</p><p>os caminhos, visto como a origem da malha urbana.</p><p> VOCÊ SABIA</p><p>Antigas narrativas diziam que Rômulo, ao fundar a cidade, mandou escavar um poço na região</p><p>do Fórum. Os primeiros resultados das colheitas anuais eram lançados nele como sacrifício</p><p>coletivo. Já em II d.C., o imperador Sétimo Severo mandou erigir um monumento que marcava</p><p>esse ponto central: o Umbilicus Urbis Romae , “umbigo da cidade de Roma”.</p><p>Foto: Sailko/Wikimedia Commons, CC BY 2.5.</p><p> Umbilicus Urbis , Roma, 2008.</p><p>As mudanças urbanísticas e arquitetônicas, como também já observamos, não resultam</p><p>necessariamente de uma visão de mundo preexistente da qual são resultado; ao contrário, elas</p><p>participam, de modo estruturado e estruturante, da construção dessas visões de mundo. Não</p><p>parece improvável que, do ponto de vista das mentalidades, essa gradual valorização do</p><p>espaço comum tenha estimulado não apenas o crescimento da cidade, mas também tenha</p><p>provocado tensões políticas importantes. Ao final do século VI a.C., as tensões que culminaram</p><p>com o fim da monarquia instituíram a República , palavra oriunda do latim res publica , “coisa</p><p>pública” e que se opõe, do ponto de vista semântico, à res privata , à “coisa particular”.</p><p>ESPAÇO DOMÉSTICO E VIDA COTIDIANA</p><p>Durante o período republicano, os templos se consolidaram como a estrutura arquitetônica</p><p>mais comum de Roma. Milhares de templos foram construídos, sobretudo com base em</p><p>patrocínio, mas também com a devida anuência das instituições republicanas. Líderes militares</p><p>utilizavam o espólio de guerra para financiar a construção de santuários, sobretudo dedicados</p><p>a Marte, deus da guerra, como forma de apaziguar o deus ou buscar sua simpatia.</p><p>Magistrados também prometiam templos para celebrar fatos importantes da vida romana. Foi o</p><p>caso do Templo da Concórdia, dedicado à deusa homônima. Sua construção foi jurada em 367</p><p>a.C. para celebrar os acordos que culminaram com a promulgação da Lex Licinia Sextia ,</p><p>ratificada nesse ano e que estabelecia a obrigatoriedade de que um dos cônsules deveria ser</p><p>necessariamente plebeu. Construído na extremidade ocidental do fórum, aos pés do monte</p><p>Capitolino, esse templo com colunas coríntias foi destruído em 1450, restando para nós apenas</p><p>suas ruínas.</p><p>O Templo de Júpiter Capitolino é considerado o maior e mais importante edifício do gênero do</p><p>período republicano. Localizava-se no ponto em que culminava a procissão triunfal que</p><p>generais vitoriosos</p><p>realizavam para celebrar suas conquistas. Por força de incêndios, foi</p><p>reconstruído e sofreu diversas intervenções. Acredita-se, por exemplo, que o general e cônsul</p><p>Sula teria substituído as colunas originais do templo pelas colunas de mármore coríntio do</p><p>Templo de Zeus Olímpico, em Atenas. A difícil tarefa de transportar essas estruturas de</p><p>algumas toneladas levanta sérias dúvidas sobre essa narrativa, ainda que a reutilização de</p><p>mármore e pedra fosse algo comum. Não menos importante, suas características eram bem</p><p>diferentes dos templos helênicos, como o recurso a degraus frontais, alpendre profundo e</p><p>colunas bem mais espaçadas.</p><p>Imagem: Morphart Creation/Shutterstock.com.</p><p> Templo de Júpiter, Capitolino , Roma.</p><p>Ainda que seja um marco arquitetônico do início da República, sobretudo por ter sido dedicado</p><p>aos cônsules em 509 a.C., acredita-se que sua construção tenha começado em 580 a.C. sob a</p><p>iniciativa do último rei etrusco, que mobilizou seus artistas para viabilizar a obra monumental.</p><p>Reforça essa hipótese a estrutura gigantesca que se erguia em uma plataforma de quase 55</p><p>metros e que tinha apenas seis colunas frontais ladeadas por escadarias íngremes e largas.</p><p>Diferentemente dos templos gregos, os ornamentos inseridos no topo do telhado eram</p><p>símbolos da opulência do edifício. O mais admirado era a escultura de Júpiter em uma</p><p>carruagem, feita em terracota, situada no topo do frontão. De acordo com testemunhos</p><p>literários, o original foi substituído por uma versão em bronze que data de 296 a.C.</p><p>É impossível ignorar a influência da arquitetura grega, sobretudo pela adoção das ordens</p><p>dórica e jônica, pelo uso de colunas, capitéis, estruturas em pedra e proporções. Também são</p><p>notáveis os esforços para manter algumas características tradicionalmente latinas. É preciso</p><p>recordar que, ao final da República, Roma já dominava parte significativa do mundo conhecido.</p><p>Por essa razão, controlava inúmeras rotas comerciais que garantiam enorme afluxo de</p><p>produtos para a capital. As construções se tornaram mais diversas e menos dependentes das</p><p>matérias-primas locais. Como não há forma sem conteúdo e conteúdo sem forma, é</p><p>compreensível que a diversificação das técnicas de construção e ornamentação não tenha</p><p>resultado apenas das exigências locais, dos contatos culturais e da criatividade dos arquitetos,</p><p>mas também da oferta de condições materiais que a expansão do território garantiu.</p><p> Partenon, ruínas de um antigo monumento na acrópole. Atenas, Grécia.</p><p>A variedade de estilos também depende do tipo de habitação: tem-se a domus , a casa</p><p>geminada, os cortiços, edifícios de apartamentos, vilas urbanas e suburbanas, casas de</p><p>fazenda, palácios e residências imperiais. Quando se pensa na amplitude do império, não é</p><p>exigido muito esforço para pensar a existência de enorme variedade de estilos, mas o princípio</p><p>também é válido para a própria cidade que, com seu crescimento, se tornou uma espécie de</p><p>sociedade multicultural. Ainda assim, de acordo com os relatos antigos, a domus representava</p><p>o modelo mais representativo da arquitetura doméstica de Roma.</p><p>Mesmo que pudesse ter um segundo pavimento, as domus caracterizavam-se pela</p><p>horizontalidade. As tabernae eram divisões que garantiam acesso à rua e, em alguns casos,</p><p>eram alugadas para terceiros, usadas como lojas ou oficinas. O átrio, provavelmente o espaço</p><p>mais valorizado da domus , não parece ter cumprido funções semelhantes ao pátio dos oikoi</p><p>gregos. Ainda que atividades domésticas cotidianas acontecessem nesse espaço, há ênfase no</p><p>valor religioso, já que o átrio abrigava imagens dos antepassados (imagines maiorum ), além</p><p>de ser um espaço de sociabilidade.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p> Estátua do Fauno na casa do Fauno nas ruínas de Pompeia, Nápoles, Itália.</p><p>Um dos exemplos mais bem-preservados de domus é a conhecida Casa de Fauno , cujas</p><p>ruínas estão localizadas em Pompeia.</p><p>Leia Mais</p><p>javascript:void(0)</p><p>Os edifícios (insulae ) se tornaram marca da paisagem urbana de Roma, sobretudo a partir do</p><p>século I d.C. Uma família com melhores condições poderia alugar um apartamento térreo, mas</p><p>a maioria tinha poucas posses e era obrigada a alugar apartamentos em andares mais altos</p><p>que, na época, eram desvalorizados pelas dificuldades de transportar água pelas escadas.</p><p>Aqueles que investiram na construção de edifícios com vários pavimentos receberam razoáveis</p><p>quantias pela locação. Os custos da produção eram reduzidos com o uso de madeira nas</p><p>estruturas. A probabilidade de desabamento era muito alta, especialmente por terremotos, bem</p><p>como por incêndios.</p><p>LEIA MAIS</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p>A erupção do vulcão Vesúvio em 79 a.C. soterrou as cidades de Pompeia e Herculano.</p><p>Essa domus , construída no século II a.C., é considerada, por seu tamanho e riqueza,</p><p>uma das casas aristocráticas mais luxuosas do período republicano. O lugar recebeu</p><p>esse nome pela presença de uma estátua de bronze do deus homônimo, instalada na</p><p>lateral do implúvio. A construção possui aproximadamente 3.500m2. Não produziu, como</p><p>muitos alegaram, uma cápsula do tempo, mas permitiu que os historiadores e</p><p>arqueólogos analisassem com muito mais recursos a vida em sociedade naquela região.</p><p>Há peristilos da ordem dórica e jônica, além de tabernae , átrios e espaços de serviço.</p><p>Na entrada da domus , o proprietário inscreveu a mensagem Have (ave), famosa</p><p>saudação latina usada para cumprimentar os convidados na chegada e na saída. A Casa</p><p>de Fauno também possuía quartos (cubicula ), salas para banquetes (triclínios), sala de</p><p>recepção e tablinum , uma espécie de escritório. Um dos mosaicos romanos mais</p><p>famosos, como veremos adiante, também foi preservado na Casa de Fauno .</p><p>Obviamente, esse tipo de domus era mais exceção do que regra. Ainda que Roma tenha</p><p>se tornado extremamente rica, a maioria da população era empobrecida e, portanto,</p><p>incapaz de adquirir e garantir a manutenção de residências similares.</p><p> VOCÊ SABIA</p><p>O episódio mais conhecido ocorreu em julho de 64 d.C., quando um grande incêndio afetou</p><p>diversas zonas da cidade de Roma. O fogo se alastrou com enorme velocidade e durou seis</p><p>dias, segundo relatos. As causas são desconhecidas. É possível que tenha começado porque</p><p>algum morador fez uso de fogo no interior de seu apartamento para se aquecer ou preparar</p><p>uma refeição. Alega-se também que o imperador da época, Nero, teria ordenado esse incêndio</p><p>para desapropriar as regiões e construir um complexo palaciano. A despeito da causa real,</p><p>esse grande incêndio estimulou a promulgação de leis que criavam protocolos mais rígidos</p><p>para as construções.</p><p> Coliseu de Roma , Itália.</p><p>ARQUITETURA DO ESPETÁCULO</p><p>Ainda que os templos tenham sido a forma dominante na paisagem, a arquitetura romana</p><p>tornou-se célebre pelos edifícios destinados aos espetáculos.</p><p>Além da monumentalidade, os efeitos políticos foram plenamente percebidos: no final da</p><p>República, aspirantes às altas magistraturas perceberam que o patrocínio para a construção de</p><p>espaços para jogos e atividades esportivas garantia enorme prestígio político. Ainda que os</p><p>anfiteatros, destinados principalmente ao combate de gladiadores, e o circo tenham se tornado</p><p>as principais referências desse modelo arquitetônico, obras de teatros e estádios também</p><p>foram amplamente financiadas, tanto na urbs como nas provinciae de Roma. O investimento</p><p>público foi igualmente alto.</p><p> EXEMPLO</p><p>O circo (circus ), por exemplo, prioritariamente destinado a corridas de bigas, podia abrigar</p><p>eventos de caça, procissões e outras atividades religiosas. Seu formato lembra a letra “U”,</p><p>ainda que as laterais fossem mais compridas do que a analogia sugere. Acomodavam, em</p><p>média, corridas de até doze carros. As dimensões também eram bastante variáveis.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p> Interior do Circus Maximus, estádio de corrida de bigas , Roma, Itália.</p><p>Destaca-se nesse estilo o chamado Circus Maximus , localizado no coração de Roma, entre</p><p>os montes Aventino e Palatino. Com cerca de 621m de comprimento</p><p>e 118m de largura, podia</p><p>acomodar aproximadamente 150 mil pessoas. O início de sua construção é atribuído ao rei</p><p>etrusco Lúcio Tarquínio Prisco, e durante vários séculos o espaço sofreu intervenções,</p><p>sobretudo restauros por incêndios ocorridos em I a.C. A estrutura de pedra só foi construída</p><p>durante o governo de Trajano (98 a 117 d.C.).</p><p>Os teatros romanos, ainda que influenciados pela experiência grega, foram construídos com</p><p>técnicas e materiais bem distintos. As estruturas, erigidas com madeira ou pedra, dependendo</p><p>da região e da fonte de financiamento, diferenciam-se bastante da inspiração helênica,</p><p>sobretudo por força dos avanços técnicos.</p><p>Os romanos já não dependiam da topografia das encostas para produzir a arquibancada: era</p><p>mais frequente o uso de estruturas bem-assentadas no solo, com vigas profundas, para</p><p>garantir apoio seguro aos lugares destinados ao público. O teatro assumia quase sempre uma</p><p>forma semicircular, lembrando a letra “D”; a orchestra , diferentemente da circular dos teatros</p><p>gregos, acompanhava a forma semicircular. Os prédios altos (scenae ) também eram</p><p>presentes e cumpriam função semelhante à dos teatros gregos.</p><p>Foto: Håkan Svensson/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0</p><p> O teatro romano em Mérida , Espanha, 2004.</p><p>Os anfiteatros eram arenas ovais quase totalmente cercadas por assentos. O anfiteatro</p><p>permanente mais antigo conhecido fica em Pompeia. De acordo com uma inscrição no edifício,</p><p>Quinctius Valgus e Marcus Porcius patrocinaram a obra com recursos próprios e com a devida</p><p>anuência dos magistrados locais. Localizado na parte oeste da cidade, media 135m x 105m</p><p>externamente.</p><p>Contudo, como é notório, o anfiteatro mais famoso e influente de Roma, símbolo da cidade até</p><p>os dias atuais, é o Anfiteatro Flaviano, o famoso Coliseu. O edifício monumental contava com</p><p>quatro andares que avançavam por 52m de altura, apoiados em uma estrutura de concreto</p><p>que, por sua vez, assentava-se em fundações com cerca de 12m de profundidade.</p><p>Não menos surpreendente foi o tempo utilizado para a construção dessa obra: as primeiras</p><p>pedras foram colocadas no ano de 68 a.C. e sua inauguração ocorreu por volta de 79 a.C. O</p><p>local escolhido foi o lago artificial criado por Nero na região afetada pelo grande incêndio de 64</p><p>a.C. Essa decisão, amparada na controvérsia do incêndio, provavelmente buscava oferecer</p><p>uma resposta à impopularidade de Nero e garantir prestígio político para o imperador</p><p>Vespasiano, fundador da dinastia Flaviana, que então assumia o poder.</p><p>Foto: FeaturedPics/Wikimedia Commons, Domínio público.</p><p> Coliseu , Roma, Itália, 2020.</p><p>A política não estava presente apenas na oferta de tais espaços. O Coliseu, em particular, se</p><p>tornou o símbolo da famosa “política de pão e circo” (panis et circensis ), tão discutida e objeto</p><p>de intermináveis controvérsias.</p><p>A despeito das divergências, os espetáculos oferecidos ao populus romano eram bastante</p><p>populares. Os mais conhecidos eram os combates de gladiadores, protagonizados por sujeitos</p><p>quase sempre escravizados que na maioria das vezes lutavam até a morte diante do público.</p><p>Além disso, a arena do Coliseu também foi palco dos chamados ludi bestialia , combates com</p><p>animais ou experiências simuladas de caça.</p><p> VOCÊ SABIA</p><p>Por falar em animais, você sabia que a maioria deles não fazia parte da fauna italiana? A</p><p>documentação literária menciona que esses espetáculos ocorriam na parte da manhã e que</p><p>elefantes, leões, leopardos e até tigres eram colocados na arena para enfrentar gladiadores.</p><p>Trazê-los de outras regiões era um método de reforçar o poder imperial e mandava uma</p><p>mensagem – que Roma era tão grande que se estendia até onde viviam animais exóticos.</p><p>Ainda que pouco provável, a documentação também menciona as chamadas naumaquias,</p><p>combates que simulavam algum enfrentamento naval célebre de gregos e/ou romanos.</p><p>MONUMENTALIDADE ROMANA</p><p>O Circus Maximus e o Coliseu são símbolos do vibrante investimento que os romanos fizeram</p><p>em sua paisagem. Em especial, estão inseridos em um processo mais amplo de urbanização</p><p>da cidade que, em período relativamente curto do ponto de vista histórico, produziu</p><p>transformações que geram espanto e curiosidade intelectual. Como vimos, a cidade fundada no</p><p>século VIII a.C., com seus primeiros assentamentos bem simples, gradualmente se converteu</p><p>em centro do mundo (urbi et orbi ), a ponto de se referirem ao Mediterrâneo como mare</p><p>nostrum , nosso mar, já que todas as praias desse mar estavam sob domínio romano. Essas</p><p>transformações, ainda que em menor medida, também se mostraram presentes nas províncias,</p><p>sobretudo nos esforços de assegurar instrumentos adequados de administração e manutenção</p><p>do poder imperial.</p><p>As famosas estradas são exemplos desse esforço estratégico. Mesmo em regiões</p><p>montanhosas, os romanos construíram estradas com enorme cautela, em muitos casos de</p><p>pedra e com valas para o escoamento das águas. Havia boas razões para esse investimento:</p><p>além de facilitar os deslocamentos (para fins administrativos e militares), permitia melhor</p><p>comunicação com as regiões mais afastadas da capital e facilitava o fluxo de mercadorias. A</p><p>construção de estradas igualmente garantia emprego para as camadas mais empobrecidas,</p><p>desestimulando revoltas e sedições.</p><p>Foto: Kleuske/Wikimedia Commons, Domínio público.</p><p> Ruínas da Via Appia, perto de Quarto Miglio , Roma, 2005.</p><p>O início dessa malha viária se deu por volta de 300 a.C., mas os primeiros esforços seriam</p><p>provavelmente incapazes de projetar as dimensões que atingiriam. A mais famosa de Roma é</p><p>também a mais antiga. A Via Ápia, construída em 312 a.C., que ligava Roma à cidade de</p><p>Cápua, ficou conhecida pela repressão que o então general Marco Licínio Crasso imputou a um</p><p>grupo de gladiadores revoltosos liderados pelo trácio Espártaco. Crasso capturou cerca de 6</p><p>mil revoltosos e os crucificou ao longo de toda a Via Ápia.</p><p> SAIBA MAIS</p><p>Calcula-se que 372 grandes estradas foram construídas pelos romanos, totalizando cerca de</p><p>400 mil quilômetros, dos quais 80 mil eram calçados com rochas de basalto, e boa parte ainda</p><p>se encontra em uso. Os chamados miliários (miliarium ) eram pontos de referência apensados</p><p>ao longo das estradas em intervalos médios de 1.500 metros. Eram colunas de base retangular</p><p>que indicavam o número da milha em questão. O Miliarium Aureum , construído por Augusto,</p><p>representava o marco zero de todas as estradas.</p><p>Não menos emblemáticos foram os aquedutos. A cidade de Roma, por exemplo, era</p><p>abastecida por onze aquedutos na época final do império, com longitude total de 426km,</p><p>fornecendo 200 mil litros diários de água. Eles também eram fundamentais para o fornecimento</p><p>de energia hidráulica, necessária para o funcionamento de moinhos e serrarias.</p><p>Foto: Shutterstock.com</p><p> Arco de Druso, um antigo arco em Roma , Itália.</p><p>A maioria dos canais era subterrânea e garantia o fluxo de água por meio da gravidade e com</p><p>ligeiras inclinações. Diversas pontes foram construídas para lidar com a topografia. Esses</p><p>sistemas de aqueduto também incluíam tanques de sedimentação, diminuindo a quantidade de</p><p>impurezas na água. O fluxo era regulado por comportas, e o escoamento levava a fossas e à</p><p>própria rede de esgotos.</p><p>A monumentalidade das obras não é isolada das demais construções que, tomadas em seu</p><p>conjunto, reforçam a excepcionalidade romana.</p><p>Foto: Jean-Pierre Dalbéra/Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.</p><p> Maquete de Roma durante o reinado de Constantino (306-337) , França, 2011.</p><p> SAIBA MAIS</p><p>As maquetes produzidas e expostas pelo Museu della Cività Romana são esclarecedoras para</p><p>visualizarmos o crescimento da urbs .</p><p>As redes de esgoto, aquedutos e estradas não levavam em consideração as antigas fronteiras</p><p>locais. Após a conquista, os romanos atravessavam os territórios com essas intervenções</p><p>urbanas sem considerar os limites tradicionais. Essa estratégia também produzia um efeito</p><p>simbólico, ratificando o domínio do poder central por meio da desterritorialização das</p><p>comunidades</p><p>nativas. Ou seja, quando uma estrada romana se expandia por territórios,</p><p>produzia um efeito de integração que ratificava o poder imperial.</p><p>ASSISTA AO VÍDEO COM A PROFESSORA BÁRBARA</p><p>LEAL SOBRE ARQUITETURA E PODER NA ROMA</p><p>ANTIGA .</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. A RESPEITO DO FÓRUM ROMANO, PODE-SE DIZER QUE:</p><p>A) Seu surgimento foi motivado exclusivamente pela necessidade de canalizar os esgotos e</p><p>garantir melhor salubridade para os moradores da região.</p><p>B) Sua criação resultou de uma iniciativa dos plebeus, que já não admitiam ver seus problemas</p><p>resolvidos pelos patrícios e desejavam um espaço público para discuti-los.</p><p>C) Foi resultado de uma decisão democrática e coletiva, planejada com vistas a destinar os</p><p>tributos à construção de obras monumentais que exibissem o poder político dos patrícios.</p><p>D) Sua criação foi uma iniciativa dos reis etruscos que desejavam aprofundar os laços</p><p>comunitários dos povos latinos que estavam sob seu governo.</p><p>E) É um espaço marcado por profunda religiosidade que resultou das demandas por espaços</p><p>públicos que pertencessem a todos sem pertencer a ninguém em particular.</p><p>2. O DITADO TODOS OS CAMINHOS LEVAM À ROMA POSSUI LASTRO</p><p>EM SUA FAMOSA REDE DE ESTRADAS. EM RELAÇÃO A ELAS,</p><p>ASSINALE A ÚNICA ALTERNATIVA CORRETA.</p><p>A) As estradas foram construídas por cidadãos livres e ricos que estavam envolvidos no projeto</p><p>de melhorar o acesso da plebe à capital do império.</p><p>B) A construção das estradas era uma estratégia de governo para angariar votos para os</p><p>senadores.</p><p>C) Os milhares de quilômetros de estrada facilitavam o deslocamento das mercadorias e</p><p>tinham exclusivamente esse fim.</p><p>D) As estradas romanas, atravessando as antigas fronteiras tradicionais das comunidades</p><p>conquistadas, produziam um sentido de integração que reforçava o domínio de Roma.</p><p>E) Com as estradas, os administradores das províncias conseguiam se proteger e se isolar dos</p><p>ataques dos inimigos de Roma.</p><p>GABARITO</p><p>1. A respeito do Fórum Romano, pode-se dizer que:</p><p>A alternativa "E " está correta.</p><p>O Fórum é um ícone da organização romana, marcando a transição de modelos religiosos para</p><p>a consolidação de espaços públicos, saindo das estruturas palaciana para um modelo que</p><p>seria icônico na República e no Império Romano.</p><p>2. O ditado Todos os caminhos levam à Roma possui lastro em sua famosa rede de</p><p>estradas. Em relação a elas, assinale a única alternativa correta.</p><p>A alternativa "D " está correta.</p><p>A arquitetura e o urbanismo romano são fortemente funcionais. Estavam sempre vinculados a</p><p>demandas e projetos de poder. Assim, expressavam possibilidades de integração, o que</p><p>facilitava a própria noção de romanidade, tão cara ao sistema político naquele momento.</p><p>MÓDULO 3</p><p> Descrever a arte da arquitetura no Crescente Fértil Oriental</p><p>ARQUITETURA NO CRESCENTE FÉRTIL</p><p>Como vimos, Grécia e Roma representam aquilo que se convém denominar “cultura clássica”,</p><p>qualificativo que também se aplica à arte e arquitetura. Seria tentador acreditar que a influência</p><p>dessas sociedades é resultado único e exclusivo das qualidades inatas e inquestionáveis</p><p>daquilo que realizaram. Sabe-se, porém, que esse prestígio tem mais a ver com o valor</p><p>atribuído ao longo dos séculos, sobretudo pelos europeus, do que com a inventividade e perícia</p><p>dos gregos e romanos antigos. Quando os gregos começaram a erigir seus edifícios e a</p><p>representar suas visões de mundo nas artes visuais, sociedades do antigo Oriente Próximo já</p><p>tinham experiências análogas havia muitos séculos. A Mesopotâmia, em particular, é</p><p>considerada a primeira sociedade a organizar um modo de vida urbano.</p><p>A cidade não é um simples conglomerado de pessoas que vivem próximas umas às outras – é</p><p>uma experiência de vida em comum, com relações comunitárias em determinado</p><p>espaço, exigências próprias, obrigações e deveres mútuos, vivências compartilhadas,</p><p>além da sensação de pertencer a um grupo que, por suas características étnicas ou</p><p>históricas, se diferencia de outros grupos semelhantes.</p><p> Mesopotâmia .</p><p>No caso mesopotâmico, as comunidades foram crescendo gradualmente e a construção de</p><p>templos garantiu um centro de culto comum. As práticas agrícolas permitiam que as pessoas</p><p>não precisassem se deslocar em busca de novas fontes de alimento. Pouco a pouco,</p><p>descobriram as vantagens sociais de viver junto, bem como os problemas que isso traz, e</p><p>produziram cada vez mais intervenções na paisagem para favorecer e organizar, a partir de</p><p>relações de poder, uma experiência inaugural de vida urbana.</p><p> ATENÇÃO</p><p>Como se deduz, a data de 3.600 a.C. possui um caráter arbitrário, pois o desenvolvimento das</p><p>cidades não foi um fato momentâneo, precisamente situável na cronologia, mas resultado de</p><p>um processo gradual que, por volta dessa época, atingiu características que historiadores e</p><p>arqueólogos julgaram claras para estabelecer esse marco.</p><p>Em meados do quarto milênio antes de Cristo, a Baixa Mesopotâmia desenvolveu formas de se</p><p>viver em cidades com relativo ineditismo. Não sem razão, diversos especialistas tentaram</p><p>identificar as causas desse fenômeno.</p><p>Por que a formação das cidades ocorreu precisamente naquela região?</p><p>É uma pergunta inevitável, mas arriscada, principalmente se buscamos elementos objetivos. As</p><p>condições climáticas e geográficas não parecem ter sido um incentivo a essa inovação: além</p><p>do clima árido, as regiões mais irrigadas eram pantanosas e a oferta de matéria-prima muito</p><p>limitada. O uso de madeira era raro no período, inclusive porque a palmeira, espécie nativa</p><p>encontrada em maior quantidade, não era considerada adequada para as construções.</p><p> COMENTÁRIO</p><p>Mesmo na Antiguidade, comentadores destacaram a importância dos rios perenes para o</p><p>desenvolvimento da região e a administração das águas se tornou o principal aspecto na</p><p>tentativa de explicação do surgimento das cidades.</p><p>A garantia de alimentos é necessidade primária para a sedentarização. A produção de</p><p>alimentos em maior escala exigia a construção e manutenção de canais que controlassem a</p><p>oferta de água para o solo, irrigando ou drenando conforme a necessidade.</p><p>Acreditou-se que a origem das cidades e do Estado estivesse associada à necessidade de um</p><p>poder central que se responsabilizasse por essa tarefa e utilizasse os tributos para financiar a</p><p>atividade. Essa interpretação recebeu o nome de hipótese causal hidráulica. Estudos</p><p>recentes, contudo, mostraram que a administração das águas dos rios foi inicialmente</p><p>comunitária e só posteriormente os governos se encarregaram dessa tarefa.</p><p>Muitos vestígios chegaram a nós dada a baixa umidade da região e também porque a ausência</p><p>prática de madeira estimulou construções com materiais menos degradáveis, sobretudo tijolos</p><p>de argila. No entanto, e a despeito de dificuldades ou favorecimentos ecológicos, os povos</p><p>sumérios e acádios produziram intervenções no ambiente com recursos e inventividade que</p><p>merecem atenção. Ainda que o patrimônio material tenha sido afetado ao longo do tempo,</p><p>restando de muitos edifícios apenas a planta baixa, o corpus é amplo e rico.</p><p>Confira os detalhes abaixo:</p><p>TIJOLOS</p><p>ROCHAS</p><p>TIJOLOS</p><p>O material básico utilizado nas construções era a argila, tanto na fabricação de tijolos como</p><p>na função de argamassa.</p><p>A partir da definição de um formato e da pressão exercida sobre o material com as mãos ou</p><p>com um molde, produziam-se tijolos pré-fabricados que permitiram construir casas e grandes</p><p>edifícios em menor tempo. Em muitos casos, utilizava-se betume para garantir melhor</p><p>impermeabilização. Os tijolos eram produzidos com um material versátil, econômico e</p><p>abundante na região. Mesmo que a umidade e as chuvas pudessem danificar os edifícios, o</p><p>verão era árido e a disponibilidade de recursos permitia a realização tanto de reparos rápidos</p><p>como da derrubada de paredes comprometidas para que outras, mais seguras, fossem erigidas</p><p>a partir delas.</p><p>ROCHAS</p><p>O uso de rochas era mais incomum, mas presente. Eram obtidas tanto pela coleta de</p><p>pedras (As mais frequentes eram basalto, calcário e arenito.)</p><p>soltas como pela extração de</p><p>blocos. As pedras foram utilizadas na construção de paredes independentes ou de contenções,</p><p>plataformas e detalhes arquitetônicos, como colunas, escadas e soleiras de portas.</p><p>ETAPA 03</p><p>txt</p><p>CASA, PALÁCIO, TEMPLO</p><p> Templo de Bel Baal Mesopotâmia , Palmyra, Síria.</p><p>Tradicionalmente, os analistas dão maior ênfase aos templos e palácios, sobretudo pela</p><p>influência das autoridades que os comandavam, pela disponibilidade de vestígios e pelo caráter</p><p>monumental da arquitetura. Porém, os espaços domésticos passaram a ser reconhecidos não</p><p>apenas por serem os núcleos da vida cotidiana, mas da unidade socioeconômica básica,</p><p>valorizando não só as formas de construção como também os artefatos que a compunham e o</p><p>modo com que interagiam e se integravam à paisagem.</p><p>CASA</p><p>Seria difícil estabelecer um modelo de casa na Mesopotâmia. Sabe-se que as casas com pátio</p><p>(tarbaṣu , em acadiano) eram o tipo predominante. Ao norte da Babilônia, casas menores eram</p><p>mais frequentes do que na Baixa Mesopotâmia.</p><p>Na cidade de Ur, duas áreas de casas foram encontradas bem-preservadas. Em uma delas, foi</p><p>possível conhecer o nome do proprietário, um comerciante chamado Ea-nasir. Essa casa de</p><p>dois pavimentos foi construída com tijolos cozidos e tinha um pátio central que se comunicava</p><p>com todos os cômodos. Em uma sala longa e estreita foi incluída uma escada que conduzia ao</p><p>segundo andar. Em todas as cinco salas foram encontradas tumbas no subsolo. A espessura</p><p>da parede era bastante significativa e alguns autores acreditam que o proprietário buscava</p><p>expressar prosperidade e opulência com isso.</p><p>Imagem: Zunkir /Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0</p><p> Ilustração do interior de uma velha casa babilônica encontrada nas ruínas de Ur, que pode</p><p>ter sido a residência de Ea-nasir. 1. entradas; 2. tribunal principal; 3. cômodo que leva à escada</p><p>(a casa pode ter um andar); 4. lavatório; 5. recepção ou sala residencial; 6. capela ou outro</p><p>cômodo residencial. Zunkir, 2011.</p><p> VOCÊ SABIA</p><p>Curiosamente, nessa casa foi encontrado o registro escrito mais antigo de uma reclamação,</p><p>feita contra o próprio Ea-nasir.</p><p> Tabuleta de argila cuneiforme ao comerciante Ea-Nasir, reclamando da entrega de cobre</p><p>de qualidade errada , cerca de 1750 a.C., atualmente no Museu Britânico.</p><p>Foto: Qualiesin/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.</p><p>A noção de casa não se restringia às paredes que delimitavam o espaço doméstico. Os povos</p><p>mesopotâmicos muitas vezes descreveram construções maiores, como templos e palácios,</p><p>com grandes famílias. Diversos estudos mostram que regiões como Diyala, Ur e Nippur,</p><p>distritos residenciais, eram compostas de casas grandes, amuralhadas e bem-equipadas, e</p><p>uma maioria de casas pequenas e pouco mobiliadas que se situavam próximas a elas, quase</p><p>sempre com paredes compartilhadas. Cômodos especializados (cozinhas, banheiros,</p><p>santuários domésticos etc.) eram exceções, incluindo espaços para sepultamento de ricos</p><p>túmulos. Arqueólogos oportunamente observaram que, graças às características da</p><p>construção, essas casas eram bem maleáveis e com bastante frequência paredes eram</p><p>derrubadas ou erguidas para ampliar uma residência ou reduzi-la, por força de novas</p><p>configurações familiares ou por dificuldades financeiras que obrigavam o proprietário a alugar</p><p>ou sublocar algum cômodo.</p><p>Um dos exemplos foi encontrado na cidade assíria de Mari, na Alta Mesopotâmia.</p><p>Leia mais</p><p>LEIA MAIS</p><p>javascript:void(0)</p><p>Trata-se de um modelo circular feito de argila que teria sido produzido entre 2900 e 2460</p><p>a.C. Foi encontrado em contexto privado e tinha fins religiosos: era um objeto votivo</p><p>relacionado ao culto de ancestrais e que poderia também servir a fins apotropaicos. Os</p><p>arqueólogos relataram que esse objeto foi cuidadosamente alocado em uma superfície</p><p>rodeada de tijolos e acompanhado de vários outros objetos de cerâmica. Não menos</p><p>curioso é o fato de que seu formato não possuía equivalente com as edificações da</p><p>cidade de Mari na época, em geral construídas em forma retangular ou quadrangular.</p><p>Imagem: ROZESTRATEN, 2003, p.46.</p><p> Modelo de Mari B. Mari , Iraque. Terceiro Milênio, 2900-2460 a.C., cerca de 1750</p><p>a.C.</p><p>Foto: Louvre Museum/Wikimedia Commons, Domínio público</p><p> Hamurabi , Louvre Museum, cerca de 1793 e 1751.</p><p>Mesmo que tais modelos tivessem finalidade religiosa, podem ter sido usados como referência</p><p>e estudo de edifícios que pretendiam construir. Essa hipótese não é desprezível, sobretudo</p><p>porque a fragilidade das construções foi objeto de atenção dos governantes antigos, com</p><p>destaque para Hamurabi. Contudo, ainda que seja arriscado caracterizar esses artefatos como</p><p>maquetes, não há como ignorar que são excelentes documentos para compreender as</p><p>experiências domésticas dos mesopotâmicos. Afinal, eram a expressão de uma concepção de</p><p>moradia que só poderia estar vinculada à experiência real, inclusive do ponto de vista da</p><p>matéria-prima.</p><p>HAMURABI</p><p>Monarca ou deus, depende da interpretação, que organiza os sumérios.</p><p> COMENTÁRIO</p><p>javascript:void(0)</p><p>Sobre o Hamurabi, no parágrafo 229 de seu famoso códice legal, tomamos conhecimento de</p><p>que pedreiros que edificassem casas sem a devida fortificação poderiam ser condenados à</p><p>morte caso o prédio tombasse e matasse o contratante.</p><p>PALÁCIO</p><p>O palácio não era apenas uma residência, mas também o lugar de atividades de cunho</p><p>administrativo, burocrático, industrial e cerimonial. Por aglutinar tantas dimensões importantes</p><p>para a vida em sociedade, deveriam ser bem maiores do que as casas regulares. Além desse</p><p>aspecto prático, a monumentalização desses edifícios ocorreu porque os reis gozavam de</p><p>recursos de que a maioria não dispunha e buscavam exibi-los publicamente para legitimar seu</p><p>poder.</p><p>Confira os detalhes arquitetônicos do palácio:</p><p>PÁTIO</p><p>DECORAÇÃO</p><p>PÁTIO</p><p>Acredita-se que os palácios mesopotâmicos se desenvolveram a partir do paradigma da</p><p>arquitetura doméstica, especialmente pela centralidade do pátio. Em geral eram dois pátios: um</p><p>externo, que se abria ao público em função de eventos; e um interno, utilizado para cerimônias</p><p>privadas. Ambos mantinham conexão com a sala do trono, mas a seu redor foram construídos</p><p>quartos que acomodavam escritórios, oficinas e áreas de armazenamento.</p><p>DECORAÇÃO</p><p>A decoração interna também era rica. As paredes eram adornadas com pinturas contendo</p><p>cenas cerimoniais; entre os assírios, relevos esculpidos representavam atividades de guerra e</p><p>caça.</p><p>Um dos maiores palácios conhecidos, com cerca de trezentos cômodos, foi identificado em</p><p>Mari e pertencia ao governador Zinri-Lim, coetâneo de Hamurabi (séc. XVIII a.C.).</p><p>Foto: Heretiq/ Wikimedia Commons, CC BY 2.5.</p><p> Palácio de Zinri-Lim em Mari , Síria, 2005.</p><p>O prédio foi projetado com alguns diferenciais:</p><p>SALA DO TRONO</p><p>ESPAÇO DE ABRIGO</p><p>PRIVACIDADE NOS CÔMODOS</p><p>PORTÃO DE ENTRADA E SEGURANÇA</p><p>CONSTRUÇÃO EM ARGILA</p><p>SALA DO TRONO</p><p>A sala do trono continha uma escada em espiral que conduzia ao telhado para observações</p><p>astronômicas e cerimônias específicas, e um caminho de pedras para guiar as rodas de um</p><p>braseiro portátil que garantia conforto no inverno.</p><p>ESPAÇO DE ABRIGO</p><p>Além da família que governava, o espaço abrigava também os funcionários mais próximos,</p><p>como guardas reais, militares, escribas e demais responsáveis pela manutenção diária do</p><p>espaço.</p><p>PRIVACIDADE NOS CÔMODOS</p><p>A maioria dos cômodos era interconectada, o que reduzia o nível de privacidade; já os</p><p>aposentos particulares do rei eram isolados.</p><p>PORTÃO DE ENTRADA E SEGURANÇA</p><p>Apenas um grande portão de entrada garantia acesso ao palácio, o que aumentava a</p><p>segurança.</p><p>CONSTRUÇÃO EM ARGILA</p><p>As escavações também revelaram cerca de 25 mil tabletes de argila, que demonstram não</p><p>apenas a importância de Mari no contexto da Mesopotâmia, mas também a atividade</p><p>administrativa que o prédio sediava.</p><p>Outro exemplo bastante estudado é o palácio de Assurnasirpal II (883-859 a.C.), um dos reis</p><p>mais conhecidos da história mesopotâmica, por sua política de expansão territorial e pelo</p><p>desenvolvimento</p><p>de importantes centros de poder.</p><p>Imagem: ru:user:Кучумов Андрей/Wikimedia Commons, Domínio público</p><p> Assurnasirpal II sentado em seu trono , ru:user:Кучумов Андрей, 1904.</p><p>Seu projeto arquitetônico mais destacado foi a construção de uma nova capital na província de</p><p>Kalhu, localizada à margem leste de um antigo leito do rio Tigres. Em seu quinto ano de</p><p>governo, abandonou a região de Assur e migrou para Kalhu, onde fez investimentos dos quais</p><p>se destacam uma muralha de aproximadamente 7,5km de circunferência, templos e o referido</p><p>palácio. A área do palácio mede 200m no eixo norte-sul e 120m de leste a oeste.</p><p>Veja os detalhes dessa construção:</p><p>PÁTIO EXTERNO E SALA DO TRONO</p><p>ENTRADAS</p><p>MATERIAIS</p><p>DECORAÇÃO</p><p>PÁTIO EXTERNO E SALA DO TRONO</p><p>Ao norte do edifício encontra-se um grande pátio externo e ao sul, a sala do trono.</p><p>ENTRADAS</p><p>Várias entradas garantiam acesso ao palácio, que foi ricamente adornado com colossos de</p><p>touro e leões com rostos humanos.</p><p>MATERIAIS</p><p>Registros sugerem o uso de madeiras exóticas, tijolos vitrificados e bronze na sua construção.</p><p>A arqueologia não pôde confirmar outras informações presentes na documentação literária,</p><p>mas os vestígios conhecidos são bastante impressionantes. Um muro de contenção feito com</p><p>grandes blocos de calcário, com aproximadamente 10m de altura e 6,5m de largura, era uma</p><p>das marcas desse edifício. Atualmente, os restos do palácio ainda cobrem uma área de quase</p><p>25.000m2.</p><p>DECORAÇÃO</p><p>As paredes eram decoradas com relevos e esculturas. Havia também um pátio interno menor,</p><p>alinhado com três grandes cômodos de paredes revestidas de pedra onde foram esculpidas</p><p>essas imagens. Os arqueólogos britânicos do século XIX extraíram parte desses relevos e</p><p>levaram para seu país de origem. Atualmente, encontram-se expostos no British Museum, em</p><p>Londres.</p><p>Imagem: Mujtaba Chohan/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0</p><p> Detalhe do Palácio Noroeste de Assurnasirpal II, mostrando o rei e seu público</p><p>comemorando a caçada ao touro, Mujtaba Chohan, 2020.</p><p>TEMPLOS</p><p>Apesar da monumentalidade dos palácios, as construções mais emblemáticas da arquitetura</p><p>mesopotâmica foram os templos conhecidos como zigurates (do acádico ziqquratu , “prédio</p><p>alto”). Os templos eram as principais instituições políticas da Mesopotâmia antes do</p><p>estabelecimento dos palácios como centros administrativos. Durante décadas, especialistas</p><p>também consideraram que o templo organizava a economia mesopotâmica. De acordo com os</p><p>defensores da teoria “economia-templo”, todas as terras cultivadas e os habitantes pertenciam</p><p>ao deus patrono da cidade e estavam sob controle do templo.</p><p>Foto: Zereshk /Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0</p><p> Dur-Untas, ou Choga Zambil, construído no século XIII a.C. por Untas Napirisa e localizado</p><p>perto de Susa, Irã, é um dos mais preservados zigurates do mundo , Zereshk, 2005.</p><p>A partir da década de 1960, os historiadores passaram a considerar que, apesar da forte</p><p>dimensão teocrática do poder político, o templo não dominava a totalidade das terras, ainda</p><p>que fosse, como se sugeriu, uma instituição fundamental para organizar a vida em sociedade</p><p>no período.</p><p>Os zigurates eram construções maciças feitas de tijolos de argila, em forma de pirâmide</p><p>escalonada, que contavam com um pequeno santuário em sua parte mais alta. Os andares</p><p>eram sobrepostos respeitando um padrão: os mais baixos deveriam ser, para garantir o</p><p>escalonamento, maiores que os postos acima. O interior foi construído com tijolos queimados,</p><p>mais resistentes; a parte externa era feita de tijolos cozidos ao sol, mais fáceis de serem</p><p>produzidos, ainda que menos densos e duradouros que os anteriores. O acesso ao topo se</p><p>dava por rampas que começavam na base. Esses templos eram identificados como a morada</p><p>dos deuses nas cidades, reproduzindo a analogia com as casas. Por essa dimensão religiosa,</p><p>apenas os sacerdotes tinham acesso aos espaços cultuais.</p><p>Entretanto, os zigurates também cumpriam funções administrativas, serviam como depósito de</p><p>cereais e mesmo como residência para pessoas ligadas à administração pública. Essa forma</p><p>canônica foi estabelecida na época da Terceira Dinastia de Ur.</p><p>Apesar da relativa semelhança entre as obras, algumas especificidades foram observadas:</p><p> Arraste para ler o conteúdo.</p><p>I</p><p>Entre os sumérios, valorizava-se uma base retangular com acesso pelas escadas.</p><p>II</p><p>Ao norte da Mesopotâmia, os assírios optavam por uma base quadrangular e rampas de</p><p>acesso em torno do edifício.</p><p>III</p><p>Na Babilônia, identificou-se uma terceira possibilidade: a partir de uma base quadrada, o</p><p>acesso era garantido por escadas nos andares inferiores e por rampas nos andares superiores.</p><p>Na base dos zigurates, costumava-se também observar a construção de templos dedicados</p><p>aos deuses. Para lidar com a umidade e os riscos de desabamento provocados por chuvas,</p><p>além de revestir os tijolos com camadas de betume, os arquitetos produziram canaletas para</p><p>escoamento das goteiras que vinham dos andares de cima.</p><p>Foto: Hardnfast/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0</p><p> Fachada reconstruída do zigurate; as ruínas da estrutura neobabilônica podem ser vistas</p><p>no topo da estrutura , Iraque, 2005.</p><p>O zigurate de Ur é o que se encontra em melhor estado de conservação. Foi construído pelo rei</p><p>Ur-Nammu em XXI a.C. e media aproximadamente 62,5m de comprimento, 43m de largura e</p><p>21m de altura. Nabonido, o último rei do Império Neobabilônico, restaurou-o no século VI a.C.</p><p>e, nos anos que se seguiram, novas intervenções foram feitas. A fachada do nível mais baixo e</p><p>a escadaria monumental foram reconstruídas perto do fim do século XX por iniciativa de</p><p>Saddam Hussein.</p><p>ASSISTA AO VÍDEO COM A PROFESSORA BÁRBARA</p><p>LEAL SOBRE ZIGURATE E A TORRE DE BABEL .</p><p>ARQUITETURA NO EGITO ANTIGO</p><p>Há um ditado árabe que diz: “O homem teme o tempo, mas o tempo teme as pirâmides”. De</p><p>fato, nada construído pela humanidade parece dar tantas provas de sua perenidade quanto as</p><p>pirâmides egípcias.</p><p>A primeira construção desse tipo começou em 2630 a.C. e foi concluída por volta de 2611 a.C.</p><p>Como alguém observou, do ponto de vista cronológico, o intervalo entre a construção da</p><p>primeira pirâmide e o nascimento de Cristo é maior do que o intervalo entre o nascimento de</p><p>Cristo e nosso presente social. Existem, é claro, construções mais antigas, mas nenhuma que</p><p>goze da fama e do universo de exotismo que cercam as pirâmides. Talvez seja essa mistura de</p><p>grandiosidade e misticismo que cause a sensação de imortalidade a que o ditado se refere.</p><p>Talvez seja uma tarefa impossível, ignorar todos esses fatores que povoam nosso imaginário</p><p>quando nos dedicamos a pensar a história do Antigo Egito. Provavelmente, não seja nem</p><p>mesmo recomendável, já que a história das sociedades é, também, a história dos usos e das</p><p>recepções da cultura dos povos do passado.</p><p> ATENÇÃO</p><p>No entanto, é preciso lembrar que as experiências históricas dos egípcios não se resumem (ou</p><p>se confundem!) com toda essas narrativas que prescrevem uma forma de vida exótica,</p><p>luxuosa, opulenta, mágica e supersticiosa.</p><p> Mastaba de Seshemnefer IV e a Pirâmide de Quéops em Gizé .</p><p>EDIFÍCIOS PARA OS MORTOS</p><p>Diz-se que a arquitetura egípcia pode ser dividida em três categorias, variáveis em função do</p><p>destinatário: edifícios para os mortos, edifícios para os vivos e edifícios religiosos. Poderíamos</p><p>acusar o equívoco de pensar uma arquitetura para aqueles que, falecidos, não poderiam</p><p>usufruir dos edifícios. Afinal, a laicidade é um valor básico para o pensamento científico e, até o</p><p>momento, ignoramos qualquer tipo de experiência possível para os sujeitos que morreram.</p><p> COMENTÁRIO</p><p>A morte se confunde com o desaparecimento do sujeito, razão pela qual tenderíamos a</p><p>descartar imediatamente a categoria “arquitetura para os mortos”. Porém, se para os egípcios</p><p>essa é uma categoria verdadeira, como ignorá-la?</p><p>A arquitetura funerária tinha uma função principalmente política e, portanto, também era</p><p>destinada às necessidades de uma pequena parcela de vivos. A opulência cumpria</p>

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