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<p>LINGUÍSTICA I</p><p>Profa. Esp. JULIANA SPADOTO</p><p>Reitor</p><p>Márcio Mesquita Serva</p><p>Vice-reitora</p><p>Profª. Regina Lúcia Ottaiano Losasso Serva</p><p>Pró-Reitor Acadêmico</p><p>Prof. José Roberto Marques de Castro</p><p>Pró-reitora de Pesquisa, Pós-graduação e Ação Comunitária</p><p>Profª. Drª. Fernanda Mesquita Serva</p><p>Pró-reitor Administrativo</p><p>Marco Antonio Teixeira</p><p>Direção do Núcleo de Educação a Distância</p><p>Paulo Pardo</p><p>Coordenadora Pedagógica do Curso</p><p>Fabiana Arf</p><p>Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico</p><p>B42 Design</p><p>*Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos</p><p>que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos.</p><p>Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A</p><p>violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.</p><p>Universidade de Marília</p><p>Avenida Hygino Muzzy Filho, 1001</p><p>CEP 17.525–902- Marília-SP</p><p>Imagens, ícones e capa: ©envato, ©pexels, ©pixabay, ©Twenty20 e ©wikimedia</p><p>G915b Sobrenome, Nome autor</p><p>Titulo Disciplina [livro eletrônico] / Nome completo autor. -</p><p>Marília: Unimar, 2020.</p><p>PDF (XXX p.) : il. color.</p><p>ISBN XXX-XX-XXXXX-XX-X</p><p>1. palavra 2. palavra 3. palavra 4. palavra 5. palavra 6.</p><p>palavra 7. palavra 8. palavra I. Título.</p><p>CDD – 610.6952017</p><p>Introdução</p><p>Olá, estimados!</p><p>Estudar Linguística e ter conhecimento científico sobre a linguagem é essencial para</p><p>um direcionamento mais eficaz do ensino – e, por que não?, também do aprendizado –</p><p>de uma língua</p><p>Nesta riquíssima disciplina, faremos reflexões iniciais quanto aos estudos da linguística,</p><p>entendida como uma ciência que trata das concepções da linguagem (falada e escrita) e</p><p>das ideias relacionadas aos meios pelos quais uma língua se realiza.</p><p>Para isso, vamos partir dos marcos históricos que pontuam esta ciência desde a</p><p>descoberta dos gregos da Antiguidade, passando pelos latinos até a</p><p>contemporaneidade, percorrendo um trajeto que discute linguagem e pensamento,</p><p>aspectos da fala, fonética, gramática e semântica, além das dicotomias língua x fala,</p><p>sincronia x diacronia, sintagma x paradigma e significante x significado.</p><p>Também vamos abordar teorias e teóricos importantes para a formação do</p><p>conhecimento linguístico e esboçar os fundamentos da sociolinguística e seu papel na</p><p>formação de um professor consciente da importância em se reconhecer as variações</p><p>linguísticas existentes na língua e combater o preconceito linguístico.</p><p>Bons estudos!</p><p>3</p><p>005 Aula 01:</p><p>015 Aula 02:</p><p>024 Aula 03:</p><p>031 Aula 04:</p><p>040 Aula 05:</p><p>048 Aula 06:</p><p>057 Aula 07:</p><p>064 Aula 08:</p><p>074 Aula 09:</p><p>082 Aula 10:</p><p>094 Aula 11:</p><p>100 Aula 12:</p><p>109 Aula 13:</p><p>120 Aula 14:</p><p>128 Aula 15:</p><p>137 Aula 16:</p><p>Breve História da Linguística</p><p>Língua e Linguagem</p><p>Linguagem Humana e Linguagem Animal</p><p>Estruturalismo</p><p>Funcionalismo e Gerativismo</p><p>Linguística Cognitiva</p><p>O Ponto de Vista Linguístico e a Pragmática</p><p>Sociolinguística</p><p>As Variações Linguísticas</p><p>A Aquisição da Linguagem</p><p>Signo: Significante e Significado</p><p>Fonética e Fonologia</p><p>As Dicotomias Saussureanas</p><p>A Mudança Linguística</p><p>Algumas Palavras Sobre Gramática</p><p>Linguística e Ensino</p><p>01</p><p>Breve História</p><p>da Linguística</p><p>5</p><p>“A linguística é a parte do conhecimento mais fortemente debatida no</p><p>mundo acadêmico. Ela está encharcada com o sangue</p><p>de poetas, teólogos, filósofos, filólogos, psicólogos, biólogos e neurologistas, além</p><p>de, não importa o quão pouco, qualquer sangue possível de ser</p><p>extraído de gramáticos.” - Russ Rymer, jornalista norte-americano.</p><p>Olá, estimados!</p><p>Daremos início à viagem dos estudos da Linguística com uma re�exão: desde os</p><p>primórdios, o homem cultiva interesse pela linguagem, e há muito tempo se veri�cam</p><p>relatos dessa curiosidade em lendas, mitos, cantos e peças literárias que investigam</p><p>porque o homem fala. O que diferencia a linguagem humana da linguagem animal?</p><p>Como conseguimos aprender um novo idioma? De onde vêm as diferentes línguas</p><p>que existem no mundo?</p><p>Uma dessas histórias, você deve se lembrar, está na Torre de Babel, que teria sido</p><p>erguida na Babilônia pelos descendentes de Noé para eternizar o nome da família. A</p><p>ideia era construí-la tão alta que tocasse o céu, mas tal soberba provocou a ira de</p><p>Deus que, como castigo, misturou a língua de todos os descendentes para que não</p><p>mais se entendessem entre si e os espalhou por toda a Terra. É provável que esse</p><p>mito tenha sido inspirado na torre do Templo de Marduk, nome que em hebraico</p><p>signi�ca "porta de Deus".</p><p>Hoje, entende-se que foi uma tentativa dos povos antigos de explicarem a variedade</p><p>de idiomas existentes, embora tenham sido encontradas no sul da antiga</p><p>Mesopotâmia (região do Iraque) ruínas de torres no que se encaixa perfeitamente à</p><p>Torre de Babel descrita pela Bíblia.</p><p>6</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>“Torre de Babel”, pintura de Brueghel, 1563</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>7</p><p>https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e1/Brueghel-tower-of-babel.jpg</p><p>Representação do Templo de Marduk, Babilônia</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>Ruínas da Babilônia no Iraque, patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO</p><p>Fonte: UNESCO.</p><p>8</p><p>https://1.bp.blogspot.com/-iQCij6IKFJc/V08fB23u-FI/AAAAAAAACWQ/Ha0uCPm46BMrk_GD3Mhn6X3GAhC_9OTBACKgB/s1600/templo%2Bde%2Bmarduk.jpg</p><p>Primeiros Registros dos</p><p>Estudos Linguísticos</p><p>Hindus e gregos</p><p>Segundo Petter (2002, p. 05), os primeiros registros de estudo da Linguística são do</p><p>século IV a.C. pelos hindus, provavelmente por questões religiosas que os levaram a</p><p>estudar sua língua para que seus textos sagrados não sofressem modi�cações ao</p><p>serem transmitidos. Para isso, os gramáticos de então se dedicaram a descrever</p><p>detalhadamente a língua híndi, produzindo, assim, modelos de análise gramaticais.</p><p>Mas foram os gregos, na Grécia Clássica, no século V a.C., que começaram a esboçar</p><p>os fundamentos da “Linguística” (entre aspas, pois o que existia eram estudos sobre a</p><p>linguagem e não uma linguística (ciência da linguagem) propriamente dita (CABRAL,</p><p>2014) ), que a princípio era chamada só de “gramática”. Era um estudo baseado na</p><p>prática e desprovido de qualquer visão cientí�ca, com o objetivo unicamente de</p><p>formular regras para diferenciar as formas corretas das incorretas (SAUSSURE, 2006,</p><p>p. 34).</p><p>Um pouco antes, no primeiro milênio a. C., já havia registros de escrito do grego</p><p>ateniense clássico e outros dialetos nos quais foi identi�ca a representação do que</p><p>mais tarde seria o alfabeto, uma das maiores conquistas a respeito dos</p><p>conhecimentos linguísticos da Grécia Antiga (CECATO, 2017, p. 20). Os gregos, porém,</p><p>adotaram o sistema de escrita dos fenícios, que era basicamente composto por sons</p><p>consonânticos, e só tempos depois de�niram o próprio alfabeto.</p><p>9</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Alfabeto grego</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>Na época, porém, a Linguística não era uma ciência autônoma, mas dependia de</p><p>outros estudos tais como a lógica, a �lologia, a retórica e a história para ser</p><p>entendida. Foi quando Platão, em cerca de 350 a.C., começou a discutir a relação</p><p>entre a palavra e o seu signi�cado, e Aristóteles complementou com estudos que</p><p>elaboraram a noção de frase e de discurso, além de listar as classes gramaticais.</p><p>Assim, as contribuições desses dois pensadores vincularam a Linguística às re�exões</p><p>da Filoso�a.</p><p>10</p><p>https://pt.wikipedia.org/wiki/Alfabeto_grego#/media/Ficheiro:Alfabeto_Grego.gif</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Platão e Aristóteles na Escola de Atenas, afresco de 1509</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>A partir daí, a produtividade das análises linguísticas passou a ser motivada pela</p><p>percepção dos gregos de que existiam diferentes jeitos de falar - os dialetos - entre</p><p>os povos. Cecato (2017, p. 18) explica que pouco se sabe sobre como era a</p><p>comunicação no comércio e no cotidiano entre</p><p>menos formais) motivariam o uso de “a</p><p>gente”?</p><p>Agora imagine o seguinte: além dessas formas, existem pessoas que falam “nós fala” e</p><p>“a gente falamos”. Dentro do viés da sociolinguística, podemos nos perguntar sobre</p><p>essas variantes:</p><p>1. Qual é o grau de escolaridade dessas pessoas?</p><p>2. Em que contexto essa fala pode ocorrer?</p><p>Usamos a língua em todas as nossas atividades sociais, por isso, ela não</p><p>pode ser a mesma em todos os locais. Como falamos com nosso chefe? E</p><p>com nossos amigos? Com um desconhecido e com um colega de classe?</p><p>Quando o interlocutor muda, a variedade muda. Esse é o caráter</p><p>heterogêneo da língua.</p><p>70</p><p>Contribuições da sociolinguística</p><p>Uma das contribuições dos estudos sociolinguísticos foi veri�car que muitas formas</p><p>não padrão também podem acontecer na fala de pessoas mais estudadas,</p><p>principalmente nos momentos informais. Devido ao seu caráter de estudar a língua</p><p>em uso dentro das diferentes situações do cotidiano, a sociolinguística é capaz de</p><p>medir o número de ocorrências de uso de uma variante qualquer e prever sobre as</p><p>principais tendências de como e onde ela pode aparecer.</p><p>Por exemplo: na década de 1970, foi feito um estudo sobre concordância verbal na</p><p>fala de não alfabetizados adultos no Rio de Janeiro, e nele constatou-se que esses</p><p>indivíduos falavam muito frases do tipo “As menina brinca no quintal” (falta de</p><p>concordância entre artigo e sujeito). A frase foi comparada entre alunos universitários,</p><p>e notou-se que eles também cometiam erro de concordância, mas a maior incidência</p><p>era entre o sujeito e o verbo (“As meninas brinca no quintal”) (CEZARIO E VOTRE,</p><p>2020).</p><p>Entretanto, isso não signi�ca que a forma correta/padrão não possa acontecer entre</p><p>os não alfabetizados e que a forma incorreta/não padrão não possa acontecer entre</p><p>os alfabetizados, compreendem? Coube aos sociolinguistas estudar e explicar quais as</p><p>probabilidades e os contextos de ocorrência num grupo e no outro.</p><p>Assim, a variação linguística se dá entre grupos diferentes de falantes divididos</p><p>segundo variáveis tais como:</p><p>idade</p><p>gênero</p><p>região</p><p>nível de escolaridade</p><p>nível socioeconômico</p><p>Veremos as variações linguísticas na próxima aula!</p><p>71</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Você já ouviu falar em preconceito linguístico? Trata-se de fazer um juízo</p><p>de valor negativo quanto ao jeito de falar de algumas pessoas dentro de um</p><p>grupo que domina o mesmo idioma. Pro�ssionais de Letras tais como</p><p>gramáticos tradicionalistas, dicionaristas e escritores de livros investiram</p><p>com empenho em estabelecer regras gramaticais, elaborar construções</p><p>so�sticadas e usar palavras eruditas como a única forma aceitável de</p><p>práticas linguísticas, ignorando que as variantes do português não padrão</p><p>são faladas por pessoas das classes sociais mais empobrecidas da</p><p>sociedade, por pessoas de regiões mais remotas.</p><p>Segundo o professor Marcos Bagno, maior estudioso e propagador do</p><p>combate ao preconceito linguístico, “o preconceito linguístico deriva da</p><p>construção de um padrão imposto por uma elite econômica e intelectual</p><p>que considera como ‘erro’ e, consequentemente, reprovável tudo que se</p><p>diferencie desse modelo. Além disso, está intimamente ligado a outros</p><p>preconceitos também muito presentes na sociedade, como preconceito</p><p>socioeconômico, preconceito regional, preconceito cultural, preconceito</p><p>racial e a homofobia.”</p><p>Assim, junto a Bagno e seus livros, a  sociolinguística  tem sido a principal</p><p>base de apoio dos estudos militantes no combate ao preconceito linguístico.</p><p>72</p><p>Acesse o link: Disponível aqui</p><p>Leia um artigo cientí�co sobre os oito mitos do preconceito linguístico em:</p><p>73</p><p>https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-44502003000200017</p><p>09</p><p>As Variações</p><p>Linguísticas</p><p>74</p><p>Fonte: a autora.</p><p>Olá a todos!</p><p>Já vimos nas aulas anteriores que a linguagem está diretamente relacionada à prática</p><p>social. Ela é viva e dinâmica, e tanto modi�ca a sociedade quanto é por ela</p><p>modi�cada. Nos estudos sobre o assunto, a linguagem é abordada e entendida a</p><p>partir de três vertentes, e a prática social é uma delas:</p><p>Além do português padrão, há outras variedades que são usadas em situações</p><p>informais diversas e diferentes de acordo com o contexto e sujeitos do processo</p><p>comunicativo. Fatores tais como escolaridade, nível social, idade, região, etc. são</p><p>responsáveis por determinado tipo de linguajar que pode ser discriminado inclusive</p><p>dentro de situações informais.</p><p>Infelizmente, a língua é vista como um status social e há muito preconceito em</p><p>relação às pessoas que não sabem utilizar a norma padrão e culta da língua</p><p>portuguesa, mas conhecer as variações linguísticas é importante justamente para</p><p>combater esse preconceito.</p><p>Leia o seguinte trecho:</p><p>Antigamente</p><p>Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e</p><p>muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito.</p><p>Os janotas, mesmo sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa,</p><p>mas ficavam longos meses debaixo do balaio. (...) Antigamente, acontecia o</p><p>indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o</p><p>doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas</p><p>75</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>fedorentas. Antigamente, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-</p><p>goma, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam:</p><p>descansavam. Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora.</p><p>Carlos Drummond de Andrade, in: Quadrante (1962), obra coletiva. Reproduzida em</p><p>Caminhos de João Brandão, José Olympio, 1970.</p><p>É perceptível que nele existem expressões que já não usamos mais, tais como</p><p>mademoiselles, janotas, pé-de-alferes, balaio, botica, ceroulas, outrora. O texto de</p><p>Drummond fala exatamente disso: de como se falava antigamente.</p><p>Caso fôssemos adequá-las ao vocabulário atual, como �caria? Os termos em destaque</p><p>seriam substituídos por “mina”, “gatinha”, “cantadas”, “da hora”, “os caras”, “a galera,”</p><p>“farmácia”, “cuecas” e assim por diante.</p><p>Perceberam que a língua é dinâmica? Ela sofre transformações com o passar do</p><p>tempo em virtude de vários fatores advindos da própria sociedade, que também é</p><p>totalmente mutável.</p><p>Ou seja: todo mundo tem seu jeito de falar, seja por história pessoal ou coletiva. O</p><p>que vale lembrar é que não existe certo ou um errado quando a questão é sotaque,</p><p>por exemplo, ou vocabulário diferente de uma geração ou região para outra.</p><p>Errado é o que não está de acordo com a gramática vigente. As diferentes formas de</p><p>falar a língua portuguesa são chamadas de variações linguísticas.</p><p>A língua portuguesa, como qualquer outra língua, pode ser de�nida como um</p><p>conjunto de variedades que fazem surgir os níveis de linguagem, que variam de</p><p>acordo com o nível social, econômico, cultural e geográ�co. No Brasil há uma grande</p><p>variedade de pronúncia e de vocabulário; há diferentes sotaques: o sotaque mineiro,</p><p>o gaúcho, o nordestino, etc. Também no vocabulário observam-se diferenças entre</p><p>regiões e também na fala de quem mora na capital e de quem vive na zona rural, por</p><p>exemplo (MOYSÉS, 2014).</p><p>Assim, essas variações são dividas em:</p><p>Variação histórica - a língua sofre variações devido ao tempo transcorrido.</p><p>76</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Variação regional - a língua sofre variações devido ao lugar em que o falante</p><p>vive.</p><p>Variação sociocultural - a língua sofre variações devido à condição social,</p><p>econômica e educacional e ao meio cultural em que o falante vive.</p><p>Variação Histórica</p><p>É aquela que sofre transformações ao longo do tempo. Por exemplo, a palavra “você”,</p><p>que no tempo do Brasil colônia era “vossa mercê” e depois virou “vosmecê”. O mesmo</p><p>acontece com as palavras escritas com PH, como era o caso de pharmácia, agora,</p><p>farmácia.</p><p>No século IX, seria</p><p>comum encontrar uma placa em algum local público onde se lêsse:</p><p>PROHIBIDO COLLOCAR</p><p>CARTAZES E ANNUNCIOS</p><p>NÊSTE EDIFÍCIO</p><p>Veja como a gra�a era diferente. Estava errado? Não, pois na época, era assim que se</p><p>escrevia.</p><p>É famoso nas redes sociais e por quem estuda variações linguísticas o “cartão da</p><p>paquera”, nome usado para identi�car o bilhete do século XIX encontrado no acervo</p><p>bibliográ�co que pertenceu ao gaúcho Othelo Rodrigues Rosa, jornalista, escritor,</p><p>poeta e historiador que morreu em 1956.</p><p>O canto esquerdo será o não                   Dobrando o canto direito, será o sim</p><p>POR TI MINHA ALMA SOFFRE</p><p>77</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>E feliz seria si V.Ex. acceitasse</p><p>os meus protestos de amor</p><p>Devolvendo o cartão intacto dará uma esperança</p><p>Acredita-se que o galanteio seja obra de algum perito em fazer a corte às damas da</p><p>época. Ao que tudo indica, o dono do cartão de fato se deu bem, uma vez que é</p><p>possível observar no cartão original uma discreta marca no canto inferior direito do</p><p>cartão. E você, em tempos de aplicativos de encontros e amores líquidos, o que achou</p><p>do método?</p><p>Variação Regional</p><p>São as variações ocorridas de acordo com a cultura de uma determinada região</p><p>como, por exemplo, a palavra mandioca, que em certas regiões é tratada por</p><p>macaxeira e aipim; e abóbora, que também é conhecida como jerimum dependendo</p><p>do estado brasileiro. O sotaque também é uma variação regional, como em regiões</p><p>que puxam o “r” ou ainda falam “tu” mesmo que não conjugue o verbo corretamente</p><p>(tu é, tu vai, etc.).</p><p>Pense no português do Brasil e no português de Portugal: quantas diferenças não há</p><p>embora a língua seja a mesma? Silva (2013) nos conta que, no plano lexical (referente</p><p>ao vocabulário), há diferenças interessantes tais como um sanduíche se chamar prego,</p><p>um cafezinho é bica, um café com leite (ou “média”, em algumas regiões do Brasil) é</p><p>um galão e um chope é imperial. Sem falar nas diferenças fonéticas, como a pronúncia</p><p>aberta do “e” em “prémio”, enquanto nós, brasileiros, temos a pronúncia fechada</p><p>(prêmio).</p><p>E dentro do próprio Brasil, quantos vocábulos e sotaques nós temos? Onde você mora</p><p>fala-se mais biscoito ou bolacha? Qual é a forma correta?</p><p>78</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>Leia a resposta no link Disponível aqui</p><p>79</p><p>https://super.abril.com.br/wp-content/uploads/2018/07/577570550e216345751c23e1biscoito_bolacha_site2.jpeg</p><p>https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-certo-e-biscoito-ou-bolacha/</p><p>Acesse o link: Disponível aqui</p><p>Sotaques são fascinantes. É curioso perceber como uma entonação ou</p><p>palavra são tão diferentes em lugares distintos do mesmo país, e com um</p><p>país tão grande e diverso como o Brasil. Então escolha sabiamente, pois a</p><p>chave para o sucesso está em alguma pronuncia entre o Oiapoque ao Chuí!</p><p>Assista a uma sketch bem humorada do grupo “Porta dos Fundos” sobre um</p><p>inusitado candidato com diversos sotaques em uma entrevista de emprego:</p><p>Variação Sociocultural</p><p>É aquela pertencente a um grupo especí�co. Neste caso, podemos destacar as gírias,</p><p>a linguagem coloquial usada no dia a dia das pessoas e a linguagem formal, que é</p><p>aquela utilizada por pessoas com maior grau de instrução.</p><p>Diante de tantas variantes linguísticas, é inevitável perguntar qual delas é a correta.</p><p>Resposta: não existe uma opção correta em termos absolutos, mas sim, a mais</p><p>adequada a cada contexto. Dessa maneira, falar bem signi�ca se mostrar capaz de</p><p>escolher a variante adequada a cada situação e conseguir o máximo de e�ciência</p><p>dentro da variante escolhida.</p><p>Usar o português próprio da língua escrita formal em uma situação descontraída da</p><p>comunicação oral é falar de modo inadequado. Soa como pretensioso, pedante,</p><p>arti�cial. Por outro lado, é inadequado em situação formal usar gírias, termos chulos,</p><p>desrespeitosos, fugindo das normas típicas dessa situação.</p><p>80</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=GVTQO9czBsI</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Aqui, a idade e o gênero do falante podem ser fatores de relevância na</p><p>variação sociocultural, pois as pessoas de mais idade falam e escrevem de</p><p>maneiras diferentes que os mais jovens, e há situações que um homem vive</p><p>que lhe permite ter um vocabulário diferente da mulher. Por exemplo: a</p><p>tendência é que os mais velhos continuem usando gírias que usavam</p><p>quando eram jovens (“bicho” = cara, “gamado”  apaixonado, “coqueluche”</p><p>=moda, algo atual, “chá de cadeira” = espera longa), e isso não quer dizer</p><p>que estão errados em sua fala, mas apenas usando uma variação.</p><p>Quanto ao gênero, por exemplo, percebam que as mulheres têm uma</p><p>tendência a usar mais palavras no diminutivo que os homens (lindinho,</p><p>pertinho, delicinha, e por aí vai), e mulheres que são reprimidas ou</p><p>submissas têm uma linguagem mais conservadora que mulheres mais</p><p>socialmente ativas. Na cultura oriental, há línguas com palavras exclusivas</p><p>para o uso de homens e que mulheres não podem falar. Tudo isso acontece</p><p>por fatores externos e não inerentes ao ser humano, mas sociais e culturais.</p><p>81</p><p>10</p><p>A Aquisição</p><p>da Linguagem</p><p>82</p><p>Olá, estimados!</p><p>Um dos assuntos que mais intrigam várias áreas do conhecimento – entre elas a</p><p>Linguística – é como as crianças aprendem a falar. Assim, para explicar a aquisição da</p><p>linguagem, teóricos levantaram algumas hipóteses, que são noções mais aprofundadas</p><p>do gerativismo (já estudado aqui) geralmente estudadas nos cursos de letras.</p><p>Vamos começar pelo behaviorismo.</p><p>A Hipótese Beha�orista</p><p>A hipótese (ou teoria) behaviorista da linguagem transita por dois campos: a psicológica</p><p>e a linguística. No campo da psicologia, o behaviorismo está relacionado a um método</p><p>que procura investigar o comportamento do homem e dos animais com ênfase em</p><p>seus estímulos e reações, por isso, a teoria também é chamada de comportamental</p><p>(behavior significa “comportamento” em inglês).</p><p>Já no campo da linguística, que é o que nos interessa aqui, o behaviorismo é uma</p><p>corrente teórica proposta pelo linguista Leonard Bloomfield (1887 – 1949) e pelo</p><p>psicólogo Burrhus Frederic Skinner, conhecido como B. F. Skinner (1904 –1990),</p><p>que busca explicar os fenômenos da comunicação em termos de estímulos observáveis</p><p>e respostas produzidas pelos falantes em situações específicas (MARTINS, 2008).</p><p>83</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Figura 1 - Bloomfield e B.F. Skinner</p><p>Fonte: Wikipedia / linguistica diaria.</p><p>A teoria behaviorista parte da ideia de que o processo de aprendizagem é uma cadeia</p><p>composta por um estímulo, uma resposta e um reforço, mas no caso da linguística, a</p><p>reposta física é substituída por uma resposta linguística (uma fala, por exemplo) e o</p><p>estímulo pode ser linguístico ou não (CEZARIO E MARTELOTTA, 2020).</p><p>Assim, o ambiente (ou contexto) fornece os estímulos, e a criança dá a reposta. Então,</p><p>durante o processo de aquisição da linguagem, a criança é recompensada ou reforçada</p><p>na sua produção linguística pelos adultos que a rodeiam (MARTINS, 2008). Veja no</p><p>esquema:</p><p>84</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: a autora.</p><p>Segundo Bloomfield, a criança herda a capacidade de pronunciar e de repetir sons</p><p>vocais mediante diferentes estímulos, e articular esses sons se torna um hábito para</p><p>ela, que, na fase seguinte, começa a imitar os sons que ouve.</p><p>A princípio, a criança faz associações entre sons e coisas, e depois aprende a associar</p><p>uma palavra a uma coisa que não está perto dela, que está ausente. Assim, a criança</p><p>não usa mais respostas erradas diante de um estímulo – ela sempre vai falar “papá”</p><p>quando estiver com fome, e não outra coisa – e a aquisição linguística acontece na</p><p>sequência “estímulo – resposta – reforço”</p><p>com a ajuda do meio, do ambiente, do</p><p>contexto, essencial para a aprendizagem não só da linguagem, mas de todos os</p><p>conhecimentos (CEZARIO E MARTELOTTA, 2020).</p><p>85</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O termo “aquisição da linguagem” é largamente aceito para denominar o</p><p>processo que resulta no conhecimento de uma língua nativa, e a aquisição</p><p>de uma língua estrangeira é tida como uma situação bem diferente, ou seja,</p><p>não são a mesma coisa.</p><p>86</p><p>Hipótese do Inatismo</p><p>Não foi difícil entender a hipótese behaviorista para a aquisição da linguagem, certo?</p><p>Por isso, alguns estudiosos não aceitaram essa explicação aparentemente simples para</p><p>um fenômeno tão complexo e diferente dos outros tipos de aprendizagem como</p><p>aprender a andar, por exemplo.</p><p>É aí que novamente entra Noam Chomsky:</p><p>O behaviorismo não consegue explicar como produzimos e</p><p>compreendemos frases que nunca ouvimos antes, como entendemos</p><p>frases cuja referência não se encontra no contexto em que são</p><p>produzidas ou como as crianças aprendem a falar tão rapidamente.</p><p>Na metade do século XX, o linguista Noam Chomsky fez uma crítica</p><p>severa a essa abordagem que dava grande importância ao meio. Ao</p><p>formular a teoria gerativa (...), Chomsky afirma que (...) o homem já</p><p>nasce provido de uma grande variedade de conhecimentos</p><p>linguísticos e não linguísticos. (CEZARIO E MARTELOTTA, 2020, p. 208,</p><p>grifo nosso).</p><p>Assim, Chomsky define que a teoria do inatismo considera o organismo, a genética, a</p><p>personalidade e a capacidade da criança de distinguir os sons da voz de uma pessoa de</p><p>outros sons, entre outros fatores. Aqui, o meio, o ambiente, o contexto, teria a função</p><p>de “acionar o dispositivo responsável pela aquisição da linguagem” (SANTOS, 2002,</p><p>p. 208).</p><p>Esse dispositivo que já nasce com o homem aciona o conhecimento linguístico</p><p>geneticamente herdado, pois a criança ouve ao seu redor todo tipo de fala, completas e</p><p>incompletas, com palavras simples ou complicadas, e mesmo assim é capaz de</p><p>internalizar em um tempo muito curto a gramática da língua. Quando a criança chega à</p><p>idade certa, seu dispositivo é acionado e ela começa a falar.</p><p>87</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>A criança, ainda muito pequena, pode falar frases que nunca falou ou ouviu</p><p>antes, e com 4 ou 5 anos já utiliza praticamente todas as estruturas</p><p>gramaticais de sua língua (ordem correta das palavras, tempos verbais,</p><p>pessoas do discurso, etc.). Para os chomskianos, esses são argumentos fortes</p><p>para acreditar na existência de uma gramática universal inerente ao ser</p><p>humano (CEZARIO E MARTELOTTA, 2020).</p><p>88</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Figura 2 - O psicólogo Jean Piaget</p><p>Fonte: Wikipédia</p><p>Hipótese Construti�sta</p><p>Falamos bastante da aquisição da linguagem a partir da interação da criança com o</p><p>meio em que ela vive, e diferentes correntes linguísticas em algum ponto abordam essa</p><p>questão. Uma delas é o construtivismo, segundo o qual a linguagem é uma</p><p>consequência da construção da inteligência em geral – trata-se da hipótese</p><p>construtivista formulada por Jean Piaget (1896 – 1980) (lê-se “piagê”), outro grande</p><p>nome dos estudos da linguagem.</p><p>89</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Piaget defendia que o desenvolvimento das estruturas do conhecimento é feito pela</p><p>interação entre o ambiente e o indivíduo (CEZARIO E MARTELOTTA, 2020), e, para</p><p>ele, não existe uma gramática solta, autônoma, sem ligação com outros fatores</p><p>cognitivos.</p><p>COGNIÇÃO: Vem do latim cognoscere, que significa “conhecer”. É a faculdade,</p><p>a capacidade de adquirir um conhecimento. Envolve diferentes processos,</p><p>principalmente linguagem, atenção, memória e raciocínio.</p><p>Sabe-se que a linguagem aparece por volta dos 18 meses da criança, momento em que</p><p>ela desenvolve a função simbólica, em que um significante representa um objeto</p><p>significado (dicotomia que estudaremos mais adiante). Nessa fase, também se</p><p>desenvolve a representação, que permite que a criança armazene e recupere as</p><p>experiências que ela vive. É nessa fase que a criança “começa a se reconhecer como</p><p>indivíduo, como senhora de seus movimentos, diferenciando-se das outras pessoas”</p><p>(CEZARIO E MARTELOTTA, 2020, p. 212), ou seja, ela consegue fazer uma oposição entre</p><p>o “eu” e “o outro”.</p><p>Nesse estágio de reconhecimentos, a criança começa a desenvolver a linguagem,</p><p>entendida por Piaget como um sistema de representações. Logo, o conhecimento</p><p>linguístico não seria inato, genético, mas construído por meio da interação da criança</p><p>com o ambiente, sendo uma consequência do desenvolvimento da inteligência em</p><p>geral.</p><p>90</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Hipótese Interacionista</p><p>A exemplo da teoria construtivista, a teoria interacionista não é inatista. Por meio dela,</p><p>o psicólogo Lev Vygotsky (1986 – 1934) explica a aquisição da linguagem e do</p><p>pensamento com base na interação entre os indivíduos. Para Vygotsky, o</p><p>desenvolvimento da fala segue as mesmas leis que outras operações mentais (SANTOS,</p><p>2002). Porém, ele acrescenta que é preciso considerar a função social da fala e a</p><p>importância do interlocutor, do outro, no desenvolvimento da fala.</p><p>91</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Figura 3 - Lev Vygotsky</p><p>Fonte: Wikipédia</p><p>Ainda conforme Santos (2002), os estudos de Vygotsky nessa área destacam o papel do</p><p>adulto como aquele que cria uma interação comunicativa com a criança, logo, é o</p><p>facilitador do processo de aquisição da linguagem. Vê-se que tanto para Vygotsky</p><p>quanto para Piaget interessava estabelecer uma relação entre língua e pensamento,</p><p>conceito tão estudado pela Pedagogia.</p><p>92</p><p>Segundo a hipótese interacionista de Vygotsky, a linguagem e o pensamento</p><p>se desenvolvem na troca comunicativa entre a criança e o adulto. As</p><p>estruturas construídas nessa interação social são internalizadas quando a</p><p>criança começa a controlar o que acontece ao seu redor e consequentemente</p><p>o próprio comportamento. Assim, as histórias e as relações reais entre a</p><p>criança e as outras pessoas são parte do processo de internalização da</p><p>linguagem.</p><p>93</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>11</p><p>Signo: Significante</p><p>e Significado</p><p>94</p><p>Olá, estimados!</p><p>Para começar esta aula, leia os seguintes versos:</p><p>Os nomes dos bichos não são os bichos</p><p>Os bichos são: macaco gato peixe cavalo</p><p>vaca elefante baleia galinha</p><p>Os nomes das cores não são as cores</p><p>As cores são: preto azul amarelo</p><p>verde vermelho marrom</p><p>Esse é um trecho do poema “Nome não”, de Arnaldo Antunes (1990). Nele, Antunes</p><p>diz que os nomes dos bichos é uma coisa, e o bicho em si é outra coisa. A mesma</p><p>coisa acontece com as cores. Isso nos leva a um pensamento que muitos outros antes</p><p>de nós já tiveram: por que as coisas têm os nomes que têm?</p><p>Segundo Sousa e Medeiros (2012), a escolha de um nome depende de uma espécie de</p><p>acordo fechado entre os membros de uma comunidade, de um grupo de falantes.</p><p>Esta é uma questão que a Linguística também estuda por meio dos conceitos de</p><p>símbolo e signo.</p><p>“Os sinais que o homem produz quando fala ou escreve são chamados</p><p>signos. Ao produzir signos, os homens estão produzindo a própria vida: com</p><p>eles, o homem se comunica, representa seus pensamentos, exerce seu</p><p>poder, elabora sua cultura e sua identidade, etc. Os signos da linguagem</p><p>verbal têm uma importância tão grande para a humanidade que mereceram</p><p>uma ciência só para si: a linguística.” (ORLANDI, 2017, p. 05).</p><p>95</p><p>Você deve se lembrar da aula 3, na qual falamos de Benveniste e seu experimento</p><p>com as abelhas, certo? Aquele sistema de comunicação delas por meio da dança era</p><p>uma representação das informações sobre alimento, e concluiu-se</p><p>que as abelhas</p><p>têm a capacidade de simbolizar uma situação, e a simbolização é um dos</p><p>mecanismos necessários para estabelecer a comunicação.</p><p>Para o próprio Benveniste,</p><p>a operação de simbolização é a faculdade de representar o real por</p><p>um “signo” e de compreender o signo como representante do real, de</p><p>estabelecer, portanto, uma relação de “significação” entre alguma</p><p>coisa e alguma outra coisa. (BENVENISTE, 1966, apud LOPES, 1995, p.</p><p>41)</p><p>Já Saussure define signo como a associação entre um significante (a imagem acústica)</p><p>e o significado (conceito). Mas cuidado: é não podemos confundir imagem acústica</p><p>com o som, pois ela é psíquica e não física. Ela é a imagem que fazemos do som em</p><p>nosso cérebro. (ORLANDI, 2017).</p><p>Complicado? Vamos a mais uma exemplificação: quando você vê fumaça ao longe,</p><p>você interpreta que ali há fogo. A fumaça é um símbolo de fogo. O som é “fumaça”, e</p><p>mesmo que você não o esteja vendo ou ele tenha se dissipado, na sua cabeça você</p><p>forma a imagem acústica daquele vapor espesso subindo ao longe. Assim:</p><p>96</p><p>Fonte: Freepik</p><p>Signo = fumaça</p><p>Significante = f/u/m/a/ç/a</p><p>Significado = a imagem de uma porção de vapor acinzentado no ar, ou seja:</p><p>97</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: a autora.</p><p>Em resumo; o signo é um elemento simbólico e representativo que possui dois</p><p>aspectos: o significante e o significado.</p><p>Assim, percebe-se que a língua portuguesa é um sistema composto por signos, pois</p><p>qualquer palavra que tenha um sentido é considerada um signo linguístico, com seu</p><p>significante e seu significado.</p><p>Veja a explicação de Lopes (1995, p. 42):</p><p>Ao falar ou ouvir a palavra “casa” /'kaza/, por exemplo,</p><p>compreendemos que essa sequência de sons, diferente de qualquer</p><p>outra sequência, refere-se a um significado “espaço construído pelo</p><p>homem para lhe servir de habitação”, também diferente de qualquer</p><p>outro significado. O conjunto de sons /'kaza/ transforma-se em signo</p><p>linguístico.</p><p>Usando a palavra “árvore”, temos este esquema:</p><p>98</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>AS CARACTERÍSTICAS DOS SIGNOS LINGUÍSTICOS</p><p>Os signos linguísticos apresentam duas características principais (NEVES, on-</p><p>line):</p><p>Arbitrariedade – a união do significante com o significado é arbitrária, ou</p><p>seja, não segue regras e não tem fundamento lógico, apenas depende da</p><p>vontade ou arbítrio daqueles que nomearam o conceito. É aquela pergunta:</p><p>“Por que cadeira chama cadeira?”. Não há uma razão.   A resposta talvez</p><p>fosse: “Porque não chama mesa”. Devido a esse caráter arbitrário, a</p><p>representação do conceito poderia ser feita com qualquer significante.</p><p>Linearidade – os significantes acontecem em uma única direção: as letras e</p><p>as palavras se sucedem em linha, umas atrás das outras.</p><p>Além dessas duas características, os signos são mutáveis e imutáveis ao</p><p>mesmo tempo:</p><p>Mutabilidade – toda língua passa por modificações ao longo do tempo, e</p><p>esse longo e contínuo processo é influenciado pelo uso social e coletivo da</p><p>língua. Um falante sozinho não consegue provocar alterações nos signos</p><p>linguísticos, mas somente em coletividade. De qualquer forma, essas</p><p>transformações são importantes para que se preserve a continuidade da</p><p>língua – do contrário, ela desapareceria no tempo, como já aconteceu com</p><p>várias línguas.</p><p>Imutabilidade – os falantes de uma língua não escolhem os significantes,</p><p>mas são ensinados pelos outros falantes que já conheciam a relação entre</p><p>um significado e seu significante. Trata-se de uma herança cultural</p><p>resultante dos hábitos linguísticos de cada língua.</p><p>Na próxima aula, falaremos de um conceito que foi apenas suscitado nesta aula: a</p><p>fonética. Até lá!</p><p>99</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>12</p><p>Fonética e</p><p>Fonologia</p><p>100</p><p>Olá, estimados!</p><p>Os sons da fala são um dos primeiros aspectos que notamos quando estamos</p><p>aprendendo outro idioma, não é? Mas não é preciso ir tão longe: também achamos</p><p>estranho os sons que se diferem dentro da nossa própria língua, nas variações</p><p>linguísticas em que há sotaques, por exemplo; o carioca tem um “s chiado”, os</p><p>mineiros, paulistas e paranaenses tem o r chamado retroflexo – aquele erroneamente</p><p>chamado de “r caipira”, e por aí vai.</p><p>Por isso, esse nível sonoro da linguagem tem duas disciplinas dentro da Linguística: a</p><p>fonética e a fonologia.</p><p>Basicamente, a fonética ocupa-se da análise de quaisquer sons emitidos ao se falar</p><p>uma língua. Assim, pode-se dizer que, ao estudar a fonética do Português, estamos</p><p>estudando sons como o de /r/ e todas as suas variações – como a diferença do /r/ em</p><p>“rato”, em “hora” ou ainda em “amor”.</p><p>Já a fonologia não estuda todos os sons existentes em um idioma, mas apenas os</p><p>fonemas e sua função em uma língua. Logo, estuda o sistema sonoro da língua e seu</p><p>principal foco são os fonemas (menor unidade sonora das palavras) e como eles se</p><p>articulam. Vale lembrar que todo idioma tem o seu próprio sistema fonológico!</p><p>Veremos aqui o fundamento teórico dessas disciplinas, pois seu aprofundamento e</p><p>prática fazem parte dos estudos da Língua Portuguesa.</p><p>101</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Os fonemas não sempre transcritos entre barras: /f/, /v/, /e/, etc. Porém, não</p><p>podemos confundir fonema com letra: na linguagem escrita, as letras</p><p>representam o fonema – ou o som – emitido. Portanto, letra é a</p><p>representação gráfica do fonema. Na palavra sala, por exemplo, a letra s</p><p>representa o fonema /s/ (lê-se “sê”), e na palavra casa, a letra s representa o</p><p>fonema /z/ (lê-se “zê").</p><p>Já os símbolos fonéticos, que são a representação dos sons da fala, são</p><p>transcritos entre colchetes – são aquelas “letrinhas estranhas” que você</p><p>encontra na frente da palavra no dicionário. Veja:</p><p>Letras da palavra “táxi”: t,a,x,i</p><p>Fonemas da palavra “táxi”: /t/a/k/s/i</p><p>Transcrição fonética da palavra “táxi”: táxi - [´taksi]</p><p>Percebam que a palavra usada tem quatro letras e cinco fonemas, e a</p><p>fonética reproduz como ela é pronunciada.</p><p>102</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Os estudos da fonética e da fonologia iniciaram em diferentes momentos: a fonética</p><p>já era alvo de análise antes de as correntes linguísticas ganharem força no início do</p><p>século XX, e a fonologia teve origem com o Círculo de Praga, na década de 1920, do</p><p>qual já falamos aqui.</p><p>Fundamentos Teóricos da</p><p>Fonética</p><p>O primeiro meio natural pelo qual a linguagem humana se manifesta</p><p>é o som. Assim, podemos dizer que a linguística se ocupa de estudar</p><p>os sons produzidos pelo aparelho fonador humano, que representam</p><p>um papel importante na comunicação. Esse conjunto de sons é</p><p>chamado de meio fônico e é composto pelos sons individuais da fala.</p><p>A parte da linguística que estuda o meio fônico é a fonética. (CECATO,</p><p>2017, p. 58).</p><p>103</p><p>Para Oliveira (s/d, recurso eletrônico), a fonética é o estudo dos sons da fala levando</p><p>em consideração o modo como eles são produzidos e quais aspectos físicos estão</p><p>envolvidos na sua produção.</p><p>A fonética é divida em três domínios: articulatória, acústica e auditiva.</p><p>FONÉTICA ARTICULATÓRIA – faz a análise dos sons sob o viés fisiológico e estuda</p><p>como os sons são produzidos. Por exemplo, para pronunciar o som [p], não é preciso</p><p>usar as cordas vocais, elas não vibram quando se fala “pá”. Para pronunciar (articular)</p><p>o som [p], o ar passa pela boca e é preciso encostar os lábios. É esse tipo de estudo</p><p>que faz a fonética articulatória.</p><p>FONÉTICA ACÚSTICA – leva em consideração as propriedades do som da fala, como</p><p>as ondas sonoras chegam ao aparelho auditivo, etc. A análise do som é feita com</p><p>programas específicos de computador para avaliar altura, intensidade, etc.</p><p>FONÉTICA AUDITIVA – como o nome diz, analisa como o aparelho</p><p>auditivo recebe os</p><p>sons, pois nem sempre percebemos os mesmos sons de forma idêntica. Entretanto,</p><p>trata-se de um campo ainda pouco pesquisado (principalmente no Brasil).</p><p>Aparelho Fonador</p><p>No corpo humano não existe nenhuma parte ou órgão cuja função seja unicamente</p><p>ligada à fala (SILVA, 2003), e perceba que as partes que usamos para produzir a fala</p><p>têm como função primária outras atividades, por exemplo: a boca serve para comer, a</p><p>garganta para engolir e o nariz para respirar.</p><p>Assim, juntas, as partes usadas para produzir qualquer som em qualquer língua são</p><p>denominadas de aparelho fonador. Veja:</p><p>104</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: Adaptado de Carvalho e Santos apud Furui, 2000, p. 9</p><p>O aparelho fonador é fisiologicamente responsável por produzir os sons da fala, mas</p><p>há um número limitado de sons possíveis de ocorrer. Isso porque é fisiologicamente</p><p>impossível produzir um som em que a língua toque a ponta do nariz, por exemplo,</p><p>mas no inglês, para articular o “th” no artigo “the”, o falante precisa colocar a língua</p><p>nos dentes da frente. Ou seja: enquanto algumas articulações são impossíveis, outras</p><p>são frequentes em um idioma, mas não necessariamente em outro (SILVA, 2003).</p><p>105</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Na adolescência, a capacidade do falante de articular sons novos de línguas</p><p>estrangeiras é reduzida, mas identificar precisamente em qual idade e as</p><p>razões para esse fenômeno levaria muito tempo de explicações que fogem</p><p>da nossa área. O que se pode explicar é que a maioria das crianças que são</p><p>expostas a uma segunda língua fala com pouco sotaque, e “adultos que</p><p>começam a aprender outra língua apresentam sotaque com características</p><p>da língua materna” (SILVA, 2003, p. 25).</p><p>106</p><p>Fundamentos Teóricos da</p><p>Fonologia</p><p>A fonologia descreve os fonemas (os sons), as regras de combinação desses sons para</p><p>formarem unidades maiores – a sílaba – e as regras de atribuição das sílabas tônicas,</p><p>ou seja, aquela tonicidade que dá ênfase a determinadas sílabas das palavras</p><p>durante a fala.</p><p>A fonologia também estabelece seus segmentos, que são as vogais e as consoantes, e</p><p>o valor que essas unidades têm em relação a outras no interior de um mesmo</p><p>sistema, ou o que é funcional na língua: o fonema (MIRANDA, s/d, on-line).</p><p>O fonema pode ser entendido como a menor unidade sonora e tem um valor</p><p>contrastivo: duas (ou mais) palavras de um mesmo idioma podem se diferirem de</p><p>significado por apenas um segmento (um fonema). Pense nas consoantes /p/ e /b/</p><p>que, ao serem trocadas uma pela outra, geram palavras diferentes, como “pula” e</p><p>“bula” ou “pato” e “bato”. Assim, verifica-se o caráter funcional dos fonemas: eles são</p><p>responsáveis por atribuírem significados diferentes a palavras apenas com a troca de</p><p>um fonema.</p><p>107</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Uma das premissas fonológicas é que os sons tendem a ser modificados</p><p>pelo ambiente em que ocorrem. Eles podem sofrer influência de outros sons</p><p>ao redor, pois são condicionados pelo ambiente onde o falante está, o que,</p><p>na verdade, constitui uma variante de um fonema, e não um novo fonema.</p><p>É o caso das variações de fala em diferentes regiões do país, por exemplo,</p><p>da palavra “dia”. Há lugares onde se fala com o “d” com a língua atrás dos</p><p>dentes da frente (linguodental), (d/ˈi/a) e outros onde se fala com o “d” com</p><p>os dentes superiores encostados nos inferiores (dʒ/ˈi/a), com um som mais</p><p>chiado. Tente fazer!</p><p>Acesse o link: Disponível aqui</p><p>O Instituto de Linguística Teórica e Computacional, dentro do Portal da</p><p>Língua Portuguesa, tem um dicionário de fonética com as principais</p><p>variações regionais no Brasil e também de Portugal. Entre, conheça e</p><p>acostume-se aos símbolos fonéticos! Por exemplo: a transcrição fonética de</p><p>“abacaxi” é ɐ/bɐ/kɐ/ʃˈi</p><p>108</p><p>http://www2.videolivraria.com.br/pdfs/4851.pdf</p><p>13</p><p>As Dicotomias</p><p>Saussureanas</p><p>109</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>Olá, estimados!</p><p>Já vimos que o filósofo e linguista Ferdinand de Saussure (1857 - 1913) definiu o rumo</p><p>que tomariam os estudos da linguística moderna e deixou grandes contribuições para</p><p>a área no livro “Curso de Linguística Geral”. Uma delas foram os conceitos de</p><p>dicotomias linguísticas.</p><p>Vamos nos aprofundar naquelas que já vimos nesta disciplina e estudar outras, mas</p><p>antes, vamos ao conceito dicionarizado do termo dicotomia:</p><p>Divisão de um conceito cujas partes geralmente são opostas.</p><p>Classificação cujas divisões possuem somente dois termos.</p><p>Língua X Fala</p><p>Saussure propõe uma separação entre língua e fala. A língua é um sistema</p><p>estruturado (lembram-se da Teoria do Estruturalismo?), enquanto a fala é individual. A</p><p>língua é um dado social, e a fala é particular.</p><p>110</p><p>https://www.dicio.com.br/dicotomia/</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Assim, para Saussure, a fala é heterogênea (singular, separada) e concreta; já a língua</p><p>é homogênea (ampla, cujos elementos estão juntos), abstrata. “A língua passou a</p><p>estabelecer uma oposição à fala” (SILVA, 2011, p. 39). Assim, a fala é heterogênea</p><p>porque é um ato individual que está sujeito a fatores externos (como o lugar que a</p><p>pessoa mora, o tipo de educação que recebeu, etc.), enquanto a língua não pode ser</p><p>modificada por apenas uma pessoa, mas por uma coletividade.</p><p>Um indivíduo tem a sua própria fala (formal, informal, concisa, prolixa, etc.),</p><p>mas ele está dentro de um sistema, que é a língua. Um exemplo: um falante</p><p>de certa região fala “mulé” ao invés de “mulher” e isso não modifica a língua</p><p>portuguesa, sua estrutura não é alterada por conta disso e vai continuar</p><p>constando “mulher” no dicionário. Esse falante altera apenas a própria fala,</p><p>mas não a sua língua – no caso, o português.</p><p>111</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Sincronia X Diacronia</p><p>Antes de Saussure, usava-se na Linguística um método chamado “comparativo”,</p><p>rompido por ele para propor o estudo não mais como as línguas evoluem, mas como</p><p>se estruturam naquele momento (recorte sincrônico):</p><p>112</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Foca não mais a evolução, mas um determinado estado da língua,</p><p>ignorando sua história. A linguística, portanto, pode abordar a língua</p><p>nas perspectivas sincrônica (estuda a língua em um dado momento)</p><p>ou diacrônica (estuda a língua através dos tempos). (SILVA, 2011, p.</p><p>40)</p><p>Vale lembrar que embora muito importante para os estudos linguísticos, essa</p><p>dicotomia foi rebatida pelos funcionalistas do Círculo de Praga (já estudado aqui), que</p><p>não aceitavam o estudo de uma língua apenas pelo recorte sincrônico.</p><p>Acesse o link: Disponível aqui</p><p>Quer ver como os estudos saussureanos têm influência em várias áreas</p><p>além da linguística? Veja um artigo com uma análise da evolução diacrônica</p><p>e o status sincrônico do Leite Moça da Nestlé:</p><p>113</p><p>https://carocodejaca.wordpress.com/2010/09/04/diacronia-x-sincronia-a-maravilhosa-mistura/</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Significante X Significado</p><p>Vamos relembrar o que é signo linguístico na visão de Saussure: signo é a associação</p><p>entre um significante (a imagem acústica) e o significado (conceito).</p><p>Toda palavra que possui um sentido é considerada um signo linguístico. Pense em um</p><p>livro, por exemplo. O signo “livro” é a união do som ou da escrita (significante) e do</p><p>conceito (significado).</p><p>Segundo Silva (2011, p. 41):</p><p>O signo apresenta duas características básicas: (i) arbitrariedade:</p><p>uma das características do signo linguístico é o seu caráter arbitrário.</p><p>Não existe uma razão para que um significante (plano de expressão)</p><p>esteja associado a um significado (plano do conteúdo ou ideia). Isso</p><p>explica o fato de que cada língua emprega significantes diferentes</p><p>para um mesmo significado (conceito). Ex.: “mesa” (português);</p><p>“table” (inglês); (ii) linearidade: os componentes que integram um</p><p>determinado signo se apresentam um após o outro,</p><p>tanto na fala</p><p>como na escrita. É o eixo sintagmático.</p><p>Um significado por ter mais de um significante, como é o caso de alguns sinônimos.</p><p>Por exemplo: o conceito e a ideia de um homem com pouco ou nenhum cabelo têm</p><p>dois significantes: “calvo” e “careca”.</p><p>A dicotomia significante x significado também pode se estender a orações. Leia o</p><p>texto abaixo:</p><p>Pensem na seguinte situação. Um professor está dando aula e um grupo de</p><p>alunos está fazendo a maior bagunça, conversando sem parar e não prestam</p><p>atenção à matéria que está sendo ensinada. O professor dá uma bronca nos</p><p>alunos e pede para ficarem quietos. Entretanto, depois de alguns minutos, eles</p><p>continuam a conversar e a perturbar a aula. Dessa vez, o professor para a aula,</p><p>chama o nome dos alunos que estão fazendo bagunça e diz: “A porta está aberta!”</p><p>114</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>Qual é o significado dessa sentença nesse contexto? Nesse contexto, o</p><p>significante “A porta está aberta” é entendida como um pedido aos alunos para</p><p>que se retirem da sala.</p><p>Vamos pensar agora em outro contexto. O professor está dando aula, a porta da</p><p>sala está aberta e alguém para do lado de fora da sala com ar de curiosidade e</p><p>interesse. O professor, em uma atitude simpática, dirige-se a essa pessoa e diz: “A</p><p>porta está aberta!” – provavelmente acompanhado de um gesto. Será que o</p><p>significado dessa sentença se mantém igual ao significado formado no contexto</p><p>anterior? Certamente não. Desta vez, o professor não está pedindo à pessoa que</p><p>se retire de lá, mas a está convidando a entrar e a assistir à sua aula.</p><p>Assim, percebe-se que o contexto do uso dos signos linguísticos influencia</p><p>diretamente a construção do significado.</p><p>Fonte: Adaptado de: UFSC, s/d, on-line. Disponível aqui</p><p>115</p><p>http://www.libras.ufsc.br/colecaoLetrasLibras/eixoFormacaoBasica/semanticaEPragmatica/scos/cap28914/3.html</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Tudo que nos rodeia possui símbolos: o computador tem símbolos para os</p><p>programas e ferramentas, o sistema monetário tem seus símbolos conforme</p><p>a moeda corrente, empresas, instituições, lojas – tudo tem um símbolo que</p><p>as representa. A ciência que estuda os signos em geral é chamada de</p><p>semiologia, enquanto a linguística é a ciência dos signos verbais, ou seja,</p><p>tudo que envolve palavras faladas ou escritas.</p><p>Sintagma X Paradigma</p><p>Esta dicotomia ainda não apareceu nos nossos estudos, então vamos a ela!</p><p>Já que a língua foi definida como um sistema, era preciso entender como as partes</p><p>que compõem esse sistema se relacionavam entre si. Saussure então dividiu a língua</p><p>em dois eixos: o sintagmático e o paradigmático.</p><p>O sintagma é o eixo horizontal que reúne as combinações de unidades (palavras)</p><p>possíveis para formar um enunciado (frase ou oração), enquanto o paradigma é o</p><p>eixo vertical que agrupa dezenas de milhares de palavras disponíveis em uma língua e</p><p>que podem ocupar os lugares em um enunciado (formulado no sintagma). Vamos</p><p>visualizar:</p><p>116</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: a autora, adaptado de Cecato, 2017</p><p>Os signos alinhados um depois do outro formam uma relação sintagmática –</p><p>sintagma vem do grego syntagma, que significa “ordenado, em linha” – que surge pela</p><p>linearidade dos signos, ou seja, ele exclui a possibilidade de pronunciar dois</p><p>elementos ao mesmo tempo.</p><p>Já o paradigma, como define Saussure, é um "banco de reservas" da língua: é o</p><p>vocabulário que o individuo conhece, fazendo com que suas unidades se oponham,</p><p>pois uma exclui a outra ¬– no quadro anterior, eu posso excluir “a garota” e colocar “o</p><p>garoto” no lugar que a oração continua fazendo sentido.</p><p>Ainda analisando o quadro dos eixos, vamos tomar como exemplo os substantivos</p><p>“garota” e “leite” (A garota não bebe leite todo dia). Ambos estão no eixo do sintagma,</p><p>mas podemos pegar signos do eixo paradigmático e substituir os signos que estão no</p><p>mesmo enunciado:</p><p>A GAROTA ODEIA LEITE COM CAFÉ</p><p>ou</p><p>A GAROTA BEBE LEITE TODO DIA</p><p>ou</p><p>117</p><p>A GAROTA GOSTA DE LEITE DE CAIXA</p><p>Logo, segundo Cecato (2017), o eixo paradigmático apresenta todas as possibilidades</p><p>presentes na língua, e o eixo sintagmático fica responsável por concretizar as</p><p>possibilidades de uso dos termos (signos). Juntos, esses dois eixos constroem a língua.</p><p>A linguagem tem dois modos de funcionamento: a combinação</p><p>(relações sintagmáticas) e a seleção (relações associativas ou</p><p>paradigmáticas). Isto é, funciona a partir do encontro, na cadeia</p><p>linguística, do eixo das relações sintagmáticas com o das relações</p><p>associativas. O eixo sintagmático (mecanismo de combinação) é a</p><p>realização da língua, representando a fala; o eixo paradigmático</p><p>(mecanismo de seleção) representa o plano da língua, sistema</p><p>disponível na memória do falante. (SILVA, 2011, p. 39 - 40)</p><p>Assim, sintagma x paradigma estão no campo da língua e não da fala, pois essa</p><p>dicotomia pertence ao sistema estruturado (a língua), e a fala é a aplicação desse</p><p>sistema em um ato individual (a fala) (PIETROFORTE, 2002).</p><p>118</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>Temos um exemplo prático da importância de saber escolher os signos do</p><p>eixo paradigmático – na verdade, neste exemplo, da falta de escolha</p><p>consciente dos termos, pois se trata de um programa com algoritmos que</p><p>escolhe: a sugestão de preenchimento automático do computador ou</p><p>smartphone. O programa tem uma enorme variedade de signos disponíveis</p><p>para fazer as combinações sintagmáticas possíveis, assim como o ser</p><p>humano tem um repertório de palavras. O que difere a realização dessas</p><p>relações é que nós escolhemos as palavras conforme o contexto e a</p><p>intenção da fala, enquanto o programa apenas lança as variações possíveis,</p><p>o que pode causar falhas na comunicação. Já aconteceu com você?</p><p>119</p><p>https://linguisticageralunip.wordpress.com/2017/09/30/selecionar-e-combinar-saussure-e-os-eixos-paradigmaticos-e-sintagmaticos/</p><p>14</p><p>A Mudança</p><p>Linguística</p><p>120</p><p>Introdução</p><p>Olá, alunos!</p><p>Não é mais novidade para ninguém que as línguas e a linguagem em si evoluem,</p><p>certo?   Então comecemos esta aula estabelecendo que os estudos da mudança</p><p>linguística são divididos em três áreas:</p><p>o problema racional (Por que a língua muda?); o problema geral</p><p>(Como as línguas mudam?) e o problema histórico (Como uma</p><p>língua muda no decorrer dos tempos?). A área do objeto da teoria</p><p>da mudança linguística encontra-se no problema geral; enquanto</p><p>que o domínio da história da língua é o problema histórico. Por</p><p>conseguinte, a história da língua representa, em parte, a fonte de</p><p>dados para a teoria da mudança linguística. (MATTHEIER, 2011, p. 01,</p><p>grifo nosso.)</p><p>A mudança linguística, então, refere-se ao processo de transformação pelo qual as</p><p>línguas passam ao longo da evolução histórica da humanidade.</p><p>Os processos que levam à mudança linguística surgem (CECATO, 2017):</p><p>pelo uso que se faz da língua</p><p>por fatores externos à linguagem tais como questões geográficas e poder</p><p>econômico.</p><p>Assim, a história de uma língua se confunde com a história da humanidade, como se</p><p>vê nas palavras de Michel Foucault: “(a língua) não é uma duração: é uma</p><p>multiplicidade de tempos que se emaranham e se envolvem uns nos outros” (2000, p.</p><p>293).</p><p>121</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Mas atenção: não confundir mudança linguística com variações linguísticas!</p><p>Na mudança linguística, as modificações são estudadas do ponto de vista</p><p>diacrônico (linguística histórica), e as variações linguísticas são sincrônicas</p><p>(na atualidade).</p><p>Porque a Língua Muda</p><p>Segundo Cecato (2017), as tentativas de explicar o processo de modificação de um</p><p>idioma vêm desde os primeiros registros de discussões sobre as línguas, e pode</p><p>parecer contraditório dizer que uma língua se transforma para sobreviver ao longo</p><p>do tempo, mas é justamente essa uma das conclusões às quais os linguistas</p><p>chegaram.</p><p>Um exemplo: comparemos um idioma com a construção de um prédio. Sem revisões</p><p>periódicas, a estrutura pode desmoronar. No caso das mudanças linguísticas,</p><p>podemos perceber isso no nosso cotidiano: precisamos acompanhar as alterações</p><p>feitas quanto à acentuação e grafia (caso do novo acordo ortográfico de 2009), a todo</p><p>momento surgem termos para explicar situações sociais inéditas, e novas ciências e</p><p>tecnologias em constante aprimoramento nos brindam com um sem-número de</p><p>vocábulos.</p><p>Todavia, é preciso ter em mente que, para a linguística, a língua de hoje não é</p><p>melhor que a de ontem ou vice e versa. É errado pensar também que a língua atual</p><p>é uma deterioração da língua do passado; que é uma versão empobrecida ou</p><p>“estragada”. O português que falamos hoje só existe, por exemplo, porque o latim</p><p>passou por uma série de transformações e deu origem a outros idiomas – inclusive o</p><p>nosso.</p><p>122</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Se os falantes não incorporarem as mudanças propostas, aquela língua deixará de</p><p>existir em algum ponto da história.</p><p>Acesse o link: Disponível aqui</p><p>Uma das áreas que mais fornece novas palavras e expressões a uma língua</p><p>são as tecnologias da informação. A cada avanço em desenvolvimento de</p><p>programas, aplicativos e funções é necessário criar um termo para nomeá-</p><p>los. E este é um sinal claro da mudança linguística. Reflita: por que aquele</p><p>seu dicionário de 1990 está desatualizado embora nossa língua continue</p><p>sendo o português?</p><p>Veja a seguir 20 termos que surgiram on-line e já constam dos dicionários</p><p>atuais.</p><p>Como as Línguas Mudam</p><p>“Como as palavras se comportam em relação à passagem do tempo? Ou como as</p><p>palavras de um idioma se comportam com a chegada de palavras estrangeiras?”</p><p>(CECATO, 2017, p. 104). Uma das respostas aceitas para essas questões é a percepção</p><p>de que a mudança linguística pode acontecer no campo da fonética e fonologia</p><p>(mudam-se a pronúncia das palavras), da sintaxe (quanto à construção das estruturas</p><p>de um idioma) e da semântica (palavras que assumem novos significados).</p><p>Veja o exemplo dado por Cecato quanto a uma das características observadas no</p><p>português brasileiro (PB):</p><p>123</p><p>https://super.abril.com.br/mundo-estranho/20-expressoes-surgidas-online-que-ja-chegaram-aos-dicionarios/</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>(...) a aplicação do pronome pessoal do caso reto (ele/ela) como</p><p>objeto direto em sentenças como “Eu levei ele para a escola”. (...) Isso</p><p>ocorre porque a construção produzida pelo uso doe um pronome</p><p>oblíquo átono, como em “Eu o levei para a escola”, não é uma</p><p>característica comum no PB; ao contrário, é comum que essas vogais</p><p>sejam suprimidas na fala, por isso a força do uso do pronome “ele”</p><p>no lugar de “o”. (2017, p. 105)</p><p>Outro caso é quanto à simplificação do plural, principalmente por falantes menos</p><p>escolarizados, como suprimir o “s” de plural em construções tais como “as casa</p><p>branca”. Entende-se que, ao utilizar a marca de plural apenas no artigo (“as”), o falante</p><p>indica que são mais de uma casa, embora não haja o restante da concordância (“casas</p><p>brancas”).</p><p>O exemplo acima nos dá um panorama do que pode ser a mudança linguística devido</p><p>a fatores externos (como experiências vividas) a ela, ou seja, que não podem ser</p><p>manipulados ou controlados.</p><p>(...) condições externas adversas podem (...) impedir que uma</p><p>determinada geração de falantes adquira uma gramática da mesma</p><p>forma que a geração anterior a adquiriu. Nesta perspectiva, as</p><p>gramáticas de fato não mudam (em um sentido “orgânico”, ou seja,</p><p>de um organismo que evolui ou se desenvolve), mas sim são</p><p>substituídas por outras gramáticas. (PAIXÃO DE SOUSA, 2006, apud</p><p>LOPES E CARVALHO, 2019, p. 181).</p><p>Por exemplo: sabe-se que as crianças adquirem uma língua sob influências internas</p><p>(capacidade biológica) e externas (experiência), logo, tanto o interno ao processo</p><p>quanto o externo a ele podem influenciar na mudança linguística. Assim, devido ao</p><p>caráter variável do uso da linguagem, as crianças têm diferentes experiências que</p><p>possibilitam o surgimento de novas línguas, que são diferentes das de seus pais, e</p><p>que são construídas pela nova geração.</p><p>Porém, as alterações de uma língua não acontecem de um dia para o outro, mas são</p><p>gradativas, e geralmente não é conscientemente percebida pelos seus falantes. É o</p><p>que veremos no tópico a seguir.</p><p>124</p><p>Como as Línguas Mudam no</p><p>Decorrer do Tempo</p><p>Reflita sobre o seguinte trecho:</p><p>É fato que as línguas passam por processos de mudança ao longo do</p><p>tempo e esse fenômeno pode ser percebido de diferentes formas.</p><p>Uma das formas de percebermos a mudança linguística é no contato</p><p>com pessoas de outras faixas etárias, sendo que, quanto maior a</p><p>diferença de idade, maiores são as chances de haver diferenças na</p><p>maneira de falar de pessoas com idades distintas. Outra forma de</p><p>perceber a mudança é no contato com textos escritos ou falados</p><p>(gravações, filmes, etc.) de outras épocas. Por esse ponto de vista,</p><p>entendemos que a mudança linguística é percebida a partir de dados</p><p>empíricos (escritos ou falados). Em outras palavras, a mudança de</p><p>uma determinada forma da língua é, geralmente, verificada e</p><p>descrita nos contextos de uso da língua e, por isso, está associada a</p><p>uma abordagem funcionalista dos fenômenos da linguagem. (LOPES</p><p>E CARVALHO, 2019, p. 168).</p><p>125</p><p>Complementando, lembrem-se de que as mudanças linguísticas de uma sociedade</p><p>quanto aos seus modos de comunicação também estão ligadas aos grandes</p><p>processos do desenvolvimento sociocultural. Um exemplo é a modernização social</p><p>europeia pós-Idade Média, que gerou grupos que necessitavam se comunicar de um</p><p>modo diferenciado e mais arrojado, pois tinham de se relacionar com grupos de</p><p>outras regiões do mundo. Essas formas mais cultas acabaram por resultar em uma</p><p>língua padrão.</p><p>Logo, pressupõe-se que a maioria das mudanças que “envolvem variações</p><p>sociocomunicativas tem sua origem nas necessidades comunicativas e, desse modo,</p><p>mantém uma conexão, pelo menos indireta, com os processos gerais de mudança</p><p>social” (MATTHEIER, 2011, p. 119).</p><p>A mudança linguística ao longo do tempo não transforma um idioma todo de uma</p><p>vez, mas age em partes da língua, e há um período intermediário de substituição de</p><p>um termo por outro, em que os dois existem ao mesmo tempo como variantes – até</p><p>uma dessas palavras desaparecer totalmente. O próprio Saussure afirmava que as</p><p>mudanças de uma língua ocorrem em elementos isolados, e não afetando o sistema</p><p>como um todo.</p><p>126</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: Disponível aqui  (Adaptada)</p><p>Como uma Palavra Entra no Dicionário?</p><p>1) Profissionais especializados, os lexicógrafos, caçam novos termos ou</p><p>novos significados para palavras já existentes em revistas, livros, jornais e</p><p>internet.</p><p>2) Detectado um novo termo, ele é catalogado juntamente com o seu</p><p>significado e contexto no qual foi utilizado. Esse registro de uso é chamado</p><p>de “citação”.</p><p>3) Quanto mais citações uma palavra tiver, e de mais fontes diferentes,</p><p>maiores suas chances de entrar no dicionário. É um processo que</p><p>costumava levar no mínimo alguns anos, mas hoje em dia acontece mais</p><p>rapidamente.</p><p>4) Se a palavra realmente passou a ser usada, ela entra no dicionário. A</p><p>definição é feita pelos lexicógrafos, que contam com o auxílio de</p><p>especialistas de áreas ligadas àquela palavra em questão.</p><p>Para fechar, é importante considerar que a mudança linguística é algo que faz parte</p><p>do processo dinâmico das línguas pelo qual todas elas invariavelmente passam, e que</p><p>pode ser explicada de várias maneiras – abordamos aqui apenas três delas.</p><p>127</p><p>https://super.abril.com.br/mundo-estranho/20-expressoes-surgidas-online-que-ja-chegaram-aos-dicionarios/</p><p>15</p><p>Algumas Palavras</p><p>Sobre Gramática</p><p>128</p><p>Olá, estudantes!</p><p>Desde a antiguidade, os filósofos vêm sugerindo reflexões sobre a natureza e o</p><p>funcionamento das línguas, além de propostas de sistematização delas. Com a</p><p>evolução dos estudos linguísticos, essas reflexões foram sendo aprofundadas,</p><p>descartadas ou retomadas quando surgiam novas descobertas e pesquisas na área. O</p><p>conjunto dessas reflexões sobre o funcionamento sistemático da língua recebeu o</p><p>nome de gramática (MARTELOTTA,</p><p>2020).</p><p>A gramática nasceu na Grécia antiga com a finalidade de preservar a cultura clássica.</p><p>Em Roma, a gramática estava ligada à arte de falar e escrever bem e à arte de</p><p>persuadir. No Renascimento, na Itália e na França, era uma forma de preservar a</p><p>cultura do humanismo.</p><p>Normatizar a gramática, segundo Leite e Figueiredo (2010), tinha o objetivo intelectual</p><p>de levar a cultura renascentista às camadas populares. Nessa época, com o</p><p>desenvolvimento das línguas neolatinas, o latim não era mais compreendido pelo</p><p>povo, daí a necessidade de criar normas e regras daquelas línguas para permitir a</p><p>transmissão da cultura.</p><p>Hoje, o termo “gramática” tem dois significados:</p><p>1. diz respeito à natureza dos elementos que compõem uma língua (classes</p><p>gramaticais, fonética, léxico, etc.) e às restrições que regem a união desses</p><p>elementos para formar unidades maiores (frases, orações, parágrafos, textos,</p><p>etc.)</p><p>2. designa os estudos que buscam descrever a natureza desses elementos e suas</p><p>regras de combinação, referindo-se a modelos teóricos criados por estudiosos</p><p>para explicar como a língua funciona.</p><p>É sobre o segundo significado que vamos estudar algumas palavras: as concepções</p><p>gramaticais.</p><p>129</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O termo “gramática” vem do grego   γραμματική, ou grámmata, que quer</p><p>dizer “aquele que sabe ler e escrever corretamente, concepção inicial do que</p><p>seria uma pessoa alfabetizada. Outro conceito da época era téchne</p><p>grammatiké, que se refere à “arte de ler e escrever bem”. Essa definição deu</p><p>origem àquilo que pode ser considerada a primeira gramática do Ocidente,</p><p>escrita por Dionísio da Trácia por volta de 100 a.C. Em apenas 15 páginas e</p><p>25 seções, ele descreveu pela primeira vez o sistema da língua grega. Vem</p><p>daí também a primeira definição de gramática “conhecimento prático do uso</p><p>da linguagem feito por poetas e prosadores” (CECATO, 2017, p. 21), e serviu</p><p>de base para a gramática latina e outras línguas europeias até o</p><p>Renascimento.</p><p>130</p><p>Gramática Tradicional ou</p><p>Normativa</p><p>A gramática tradicional, também chamada de gramática normativa, é aquela que</p><p>estudamos na escola quando alfabetizados. Aprendemos quais são os elementos que</p><p>constituem uma palavra (radical, prefixo, sufixo, etc.), aprendemos as classes</p><p>gramaticais (artigo, substantivo, preposição, adjetivo, etc.), a fazer análise sintática</p><p>(sujeito, verbo transitivo ou intransitivo, objeto direto ou indireto, etc.), estudamos</p><p>concordância verbal e nominal, tudo dentro do que recomenda o uso correto.</p><p>Essa gramática que serve de modelo teórico para o ensino de línguas nas escolas teve</p><p>origem na Grécia antiga, quando os filósofos começaram a ter interesse em estudar a</p><p>linguagem, e foi com Aristóteles que surgiu a visão de que existe uma relação entre</p><p>linguagem e lógica (MARTELOTTA, 20202). Como tudo relacionado à linguagem, a</p><p>gramática normativa sofreu transformações quanto à sua definição e objetivo, que</p><p>hoje é prescrever o que se deve usar ou não na língua (LEITE E FIGUEIREDO, 2010).</p><p>Sua finalidade é pedagógica, pois recomenda como se deve falar e escrever nas várias</p><p>circunstâncias sociais e segundo o uso dos especialistas.</p><p>Mas a gramática normativa é criticada pelos linguistas, que a veem problemas no</p><p>modo como ela é elaborada e ensinada, além de ser arcaica tanto na maneira como</p><p>ensina os tópicos quanto nas teorias nas quais se baseia. Perini (1997), no livro</p><p>Sofrendo a Gramática, aponta três “grandes defeitos” dessa gramática:</p><p>objetivos mal colocados</p><p>metodologia inadequada</p><p>falta de organização lógica</p><p>Por isso, na opinião de Leite e Figueiredo (2010), a gramática normativa é hoje mais</p><p>estudada do que aprendida. As autoras também pontuam que esta gramática</p><p>apresenta os assuntos de forma sintética e dá exemplos geralmente desconhecidos</p><p>dos falantes, o que limita seu alcance de ensino.</p><p>131</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Gramática Descritiva</p><p>A gramática descritiva surgiu da evolução dos estudos da linguística em meados nos</p><p>anos 1960, estimulada pelos questionamentos de insatisfação dos estudiosos em</p><p>relação à gramática normativa. O resultado foi um material mais bem elaborado e</p><p>com mais rigor científico para um ensino mais completo da língua.</p><p>E qual a diferença desta gramática para a normativa? A descritiva não tem como</p><p>finalidade estabelecer o que é certo ou errado, mas apresentar conceitos formulados</p><p>e analisar os exemplos dados sem chegar a uma única conclusão, “mas responder a</p><p>possíveis questionamentos em relação aos fatos da língua” (LEITE E FIGUEIREDO,</p><p>2010, p. 48).</p><p>Mas é preciso destacar que a gramática descritiva também prescreve, tal como a</p><p>normativa, e também define tópicos como as classes gramaticais, por exemplo.</p><p>Entretanto, ela não se preocupa em definir isoladamente uma palavra, mas estudar</p><p>sua função dentro da frase.</p><p>132</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Vamos usar como exemplo duas classes gramaticais do português: o substantivo e o</p><p>adjetivo. As gramáticas normativas geralmente trazem os seguintes conceitos, aqui</p><p>retirados de Terra, 2002 apud Leite e Figueiredo, 2010, p. 48:</p><p>substantivo - palavra variável em gênero, número e grau que dá nome aos seres</p><p>em geral.</p><p>adjetivo - palavra variável em gênero, número e grau que caracteriza o</p><p>substantivo ou qualquer palavra com valor de substantivo, indicando-lhe atributo,</p><p>estado, modo de ser ou aspecto.</p><p>Vejam que são definições isoladas que não levam em conta a função dessas palavras</p><p>em uma oração.</p><p>Na gramática descritiva, a definição de que o substantivo é um nome e o adjetivo é</p><p>uma qualidade seria ampliada com a análise de que, considerando que ambas as</p><p>classes são somente aquilo que foi definido, seria necessário criar uma terceira classe</p><p>gramatical, uma maior que ambas: a das palavras que podem ser tanto substantivos</p><p>quanto adjetivos (PERINI, 2001).</p><p>Por exemplo: “amigo” é um substantivo na frase “Meu amigo é fiel”. Mas na frase</p><p>“Jorge me deu um abraço amigo”, é um adjetivo. Logo, uma terceira classe resolveria</p><p>esse impasse criado pela gramática normativa.</p><p>Perini (2001 apud LEITE E FIGUEIREDO, 2010, p. 50) sugere que palavras como no caso</p><p>do substantivo/adjetivo sejam analisadas a partir do que ele chama de “potencial</p><p>funcional”, que é explicar que uma palavra pode desempenhar mais de uma função</p><p>em uma oração.</p><p>133</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Conforme destaca Perini (1996 apud LEITE E FIGUEIREDO, 2010, p. 48), a</p><p>gramática descritiva não é um livro voltado para alunos do ensino</p><p>fundamental e médio, “mas a professores do ensino fundamental e médio,</p><p>alunos e professores do curso de Letras e deve ser entendida como uma</p><p>contribuição para a reformulação do ensino da gramática”.</p><p>134</p><p>Gramática Histórico-</p><p>Comparativa</p><p>Segundo Martelotta (2020), no início do século XIX, ganhou força na Alemanha uma</p><p>tendência de estudo gramatical chamada gramática histórico-comparativa que, no</p><p>geral, era uma proposta de comparar elementos gramaticais das línguas de mesma</p><p>origem com o objetivo de detectar a estrutura original a partir da qual elas se</p><p>desenvolveram.</p><p>Uma vez que os linguistas da época trabalhavam com línguas já desaparecidas tais</p><p>como o sânscrito e o latim, a metodologia comparativa relacionava línguas que</p><p>supostamente derivavam desses idiomas já inexistentes.</p><p>Essa tendência foi um marco da linguística contemporânea, pois pela primeira vez os</p><p>estudos eram voltados em analisar características das línguas naturais, “sem</p><p>interesses normativos” (MARTELOTTA, 2020, p. 48). Além disso, a gramática histórico-</p><p>comparativa abandonou a ideia de que só era válido estudar a tradição</p><p>gramatical</p><p>grega.</p><p>Vejam a aplicação comparativa de palavras em latim e em quatro línguas românicas:</p><p>Fonte: Martelotta, 2020, p. 48</p><p>LATIM FRANCÊS ITALIANO ESPANHOL PORTUGUÊS</p><p>caput chef capo cabo cabeça</p><p>carus cher caro caro caro</p><p>campus champ campo campo campo</p><p>caballus cheval cavalo caballo cavalo</p><p>135</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Segundo Martelotta,</p><p>a gramática histórico-comparativa possui algumas limitações no que</p><p>se refere à descrição do modo mais completo da estrutura gramatical</p><p>das línguas. Assim, aponta:</p><p>a) Restringiram sua visão a uma abordagem histórica do</p><p>funcionamento gramatical, vendo-o como resultado de mudanças</p><p>linguísticas regulares (Deixam de lado a descrição do funcionamento</p><p>da língua como um sistema de comunicação utilizado por falantes</p><p>que, mesmo não conhecendo a história da língua, comunicam-se</p><p>perfeitamente);</p><p>b) Produziram conhecimento sobre a história das línguas,</p><p>observando-as a partir de sua estrutura interna (Não chegou a</p><p>construir uma teoria consistente sobre a estrutura do funcionamento</p><p>das línguas naturais. A corrente colocou, sobretudo através dos</p><p>neogramáticos, a mudança linguística no âmbito do indivíduo, mas</p><p>não explicitou, de modo mais sistemático, como os contextos de</p><p>comunicação poderiam interferir no uso individual, limitando-se,</p><p>nesse sentido, a descrever processos de analogia e empréstimo).</p><p>c) Os comparatistas analisavam a língua em elementos isolados,</p><p>ocupando-se em seguir suas transformações sem observar o</p><p>funcionamento desses elementos dentro dos sistemas linguísticos de</p><p>que faziam parte. (2012 apud LINHARES, 2014, p.44)</p><p>Assim, conclui-se que a maior contribuição da gramática histórico-comparativa foi</p><p>colocar em evidência que as mudanças sofridas pelas línguas são regulares e têm</p><p>uma direção; não são à toa nem caóticas como se pensava. Esta gramática colaborou</p><p>para entender como várias línguas modernas chegaram a ter as estruturas que hoje</p><p>têm e, ainda, constatar que elas vêm de um mesmo tronco e mantêm uma relação de</p><p>parentesco.</p><p>136</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>16</p><p>Linguística</p><p>e Ensino</p><p>137</p><p>Olá, estimados!</p><p>Chegamos à última aula desta viagem pelos fundamentos da Linguística, e deixei por</p><p>último um assunto dedicado à dupla ensino/linguística.</p><p>Creio que ao longo desta disciplina ficou latente que um dos objetivos dos estudos</p><p>linguísticos é contribuir para o entendimento de que a língua tem um status social.</p><p>Marcuschi (2016) desdobra essa observação em cinco noções que a língua possui, e</p><p>que dependendo da noção, dá-se uma influência diferente no ensino da língua:</p><p>1. Língua como fator de identidade</p><p>2. Língua como sistema de regras</p><p>3. Língua como fenômeno social</p><p>4. Língua como forma de ação</p><p>5. Língua como capacidade inata do ser humano</p><p>Conhecendo esses fatores, o professor terá mais ferramentas para melhor abordar o</p><p>ensino do português ou de outro idioma.</p><p>Língua como Fator de</p><p>Identidade</p><p>No Brasil colônia, o ensino da língua portuguesa limitava-se à alfabetização e, em</p><p>alguns casos, ao estudo da gramática latina. Só em 1759, com a Reforma Pombalina, é</p><p>que se passou a ensinar a gramática e a retórica da língua portuguesa. Logo se</p><p>seguiram os preceitos da Filologia, na qual a ideia era a de que a língua era símbolo</p><p>da identidade nacional e carregava a cultura de um povo por meio da sua</p><p>Literatura.</p><p>Na língua, estaria “o patrimônio e a pátria de um povo”, e em certo sentido isso</p><p>perdura até hoje nas Academias e nas visões mais conservadoras que não admitem</p><p>outro ensino “a não ser o da língua dita padrão e exemplar de nossos melhores e</p><p>mais consagrados autores” (MARCUSCHI, 2016, p. 14).</p><p>138</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Acesse o link: Disponível aqui</p><p>“O Período Pombalino corresponde aos anos em que o Marques de Pombal</p><p>exerceu o cargo de primeiro-ministro em Portugal (1750 a 1777), durante o</p><p>reinado de Dom José I” Leia um breve texto sofre o período pombalino e</p><p>suas reformas.</p><p>Língua como Sistema de</p><p>Regras</p><p>A ideia culturalista do ensino do português perdeu força nos anos 50 do século XX,</p><p>quando os livros de gramática foram unificados aos livros de ensino de literatura</p><p>e houve a inserção de textos de gêneros comunicativos tais como cartas, reportagens,</p><p>notícias, documentos, etc., que se fazem presentes até hoje. Autores como Saussure e</p><p>Bloomfield sugeriam a passagem da visão gramatical da cultura para o sistema, a</p><p>Filologia dá lugar ao estruturalismo linguístico e os estudos permitem mais</p><p>abordagens sincrônicas do que diacrônicas.</p><p>No âmbito do ensino de línguas estrangeiras, a concepção de língua como sistema</p><p>gerou a muitos trabalhos mostrando como as línguas variavam ou se relacionavam</p><p>entre si, e isso o foi de grande utilidade para o ensino na base dos contrastes</p><p>fonológico, morfossintático ou lexical (MARCUSCHI, 2016).</p><p>139</p><p>https://www.historiadobrasil.net/brasil_colonial/periodo_pombalino.htm</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Língua como Fenômeno Social</p><p>A visão estruturalista a língua foi dando lugar a novas perspectivas até os anos de</p><p>1960, quando surgiu a noção de variações linguísticas (que estudamos na aula 9) e os</p><p>estudiosos passaram a olhar para os aspectos sociais da linguística – era o início da</p><p>Sociolinguística e a percepção de que era preciso considerar a língua como um fato</p><p>social.</p><p>Nas palavras de Marcuschi, a partir dessas novas teorias, “o trabalho com a língua</p><p>passa a encarar, debater e combater todo tipo de preconceito linguístico, dando</p><p>lugar às tentativas de valorização das variedades de língua não padrão ou não cultas”</p><p>(2016, p.17). Assim, a escola começou a tratar as diferenças linguísticas como um fato</p><p>comum das línguas, e que essas diferenças têm relação direta com os movimentos da</p><p>sociedade.</p><p>Ainda segundo o autor, o surgimento da Sociolinguística foi importante para o</p><p>desenvolvimento de novas cartilhas de alfabetização e para um estudo mais</p><p>aprofundado das relações entre variação linguística e processos de alfabetização.</p><p>140</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Língua como Forma de Ação</p><p>Também nos anos de 1960, com a Pragmática (que estudamos na aula 7), o filósofo</p><p>da linguagem John Austin postula que, por meio da língua, não apenas se diz, mas se</p><p>age. É a língua como uma forma de ação; é a visão de que a língua em uso está</p><p>diretamente ligada a contextos situacionais e não apenas cognitivos; é a linguagem</p><p>“como ação desenvolvida é uma ideia chave que surge no contexto da teoria dos atos</p><p>de fala e numa perspectiva explicativa das ações intencionais com a língua”</p><p>(MARCUSCHI, 2016, p. 14). No uso da língua, não existe apenas o ato de dizer, mas o</p><p>ato ou a promessa de fazer.</p><p>Quanto essa visão no ensino de línguas estrangeiras, o autor nota que</p><p>É curioso que a observação da variação sociolinguística e também</p><p>estrutural das línguas conduziu, na área de ensino de língua</p><p>estrangeira, a uma série de metodologias de investigações que</p><p>redundaram, entre outras coisas, na análise contrastiva do ponto de</p><p>vista sociocultural. As análises contrastivas dos diversos matizes, tal</p><p>como desenvolvidas entre os anos 60-80, serviram muito aos estudos</p><p>de tradução, ensino de segunda língua, aquisição de língua e</p><p>141</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>bilinguismo. Na realidade, trata-se de uma investigação que tem em</p><p>vista interesses teóricos e aplicativos. Os interesses aplicativos</p><p>prevaleceram nos anos 70 preocupados com os contrastes</p><p>essencialmente estruturais, mas também com o contraste categorial</p><p>e funcional das línguas, os mais interessantes no ensino.</p><p>(MARCUSCHI, 2016, p. 18)</p><p>Língua como Capacidade Inata</p><p>do Ser Humano</p><p>Vimos na aula 5 a importância do surgimento da Teoria Gerativista, tida para alguns</p><p>pesquisadores como a mais importante para os estudos da linguística do século XX . O</p><p>motivo – apesar de contraditório – é que se trata de uma corrente linguística sólida,</p><p>que nos ensinou muito sobre sintaxe e trouxe à luz de que linguagem e</p><p>pensamento</p><p>estão relacionados, porém, o gerativismo nunca pretendeu ser aplicável no dia a dia.</p><p>Ou seja: o gerativismo busca explicar os fenômenos abstratos da língua, mas não</p><p>fornece uma visão sobre os aspectos práticos da produção e da compreensão de</p><p>texto, por exemplo (MARCUSCHI, 2016).</p><p>142</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O próprio Chomsky, idealizador da Teoria Gerativista, disse em estudos recentes que</p><p>essa corrente se situa no contexto das ciências naturais, devendo-se tratar as</p><p>propriedades linguísticas como “atributos neurofisiológicos”, pois, para ele, o ser</p><p>humano constrói sua linguagem a partir do que ele ouve e do que ele tem de inato;</p><p>que já nasce com ele.  Não está nos seus interesses a preocupação com a linguagem</p><p>enquanto fenômeno social, e nem mesmo o aspecto histórico e a modificação</p><p>linguística são objetos de análise dos gerativistas.</p><p>Noções Linguísticas</p><p>Importantes</p><p>Dentre os princípios mais relevantes da Linguística contemporânea para o ensino de</p><p>línguas, sem focar em uma ou outra teoria, resumidamente, temos o seguinte:</p><p>143</p><p>Fonte: Adaptado de Marcuschi, 2016, p. 30.</p><p>1 - A língua apresenta uma organização interna sistemática que pode ser</p><p>estudada cientificamente, mas ela não se reduz a um conjunto de regras de boa-</p><p>formação que podem ser determinadas de uma vez por todas como se fosse</p><p>possível fazer cálculos de previsão infalível. As línguas naturais são dificilmente</p><p>formalizáveis.</p><p>2 - A língua tem aspectos estáveis e instáveis, ou seja, ela é um sistema variável,</p><p>indeterminado e não fixo. Portanto, a língua apresenta sistematicidade e variação</p><p>a um só tempo.</p><p>3 - A língua constrói-se com símbolos convencionais, parcialmente motivados, não</p><p>aleatórios, mas arbitrários. A língua não é um fenômeno natural nem pode ser</p><p>reduzida à realidade neurofisiológica.</p><p>4 - A língua não pode ser tida como um simples instrumento de representação do</p><p>mundo como se dele fosse um espelho, pois ela é constitutiva da realidade. É</p><p>muito mais um guia do que um espelho da realidade.</p><p>5- A língua é uma atividade de natureza sociocognitiva, histórica e</p><p>situacionalmente desenvolvida para promover a interação humana.</p><p>6 - A língua se dá e se manifesta em textos orais e escritos ordenados e</p><p>estabilizados em gêneros textuais para uso em situações concretas.</p><p>7 - Linguagem, cultura, sociedade e experiência interagem de maneira intensa e</p><p>variada não se podendo postular uma visão universal para as línguas particulares.</p><p>144</p><p>Conclusão</p><p>Estimados, chegamos ao final da disciplina, mas certamente não dos estudos sobre a</p><p>Linguística. Vimos aqui os princípios básicos para uma introdução ao assunto, e</p><p>certamente você vai ter contato com estes ou outros fundamentos linguísticos ao longo</p><p>do seu curso de graduação e de pós-graduação.</p><p>Concluindo, apesar das várias análises até hoje feitas sobre a influência da Linguística</p><p>no aprendizado e ensino de línguas, a Linguística passou a ter um papel cada vez mais</p><p>importante nos estudos da área a partir dos anos 1970, mas uma análise mais</p><p>detalhada das diretrizes de ensino de língua em todas as suas modalidades mostra</p><p>que, de uma forma ou de outra, a Linguística sempre esteve presente.</p><p>No geral, o que acontece é que há certa defasagem na aplicação dos princípios</p><p>linguísticos ao ensino, mas é perceptível que nunca a Linguística foi to notada tanto</p><p>como hoje em dia.</p><p>Assim, espero que esta disciplina, em algum momento, tenha trazido reflexões a você,</p><p>tanto como aluno quanto (futuro) profissional de Letras.</p><p>Lembre-se que este é só o começo das descobertas dessa imensa área de estudo</p><p>envolvendo língua e linguagem!</p><p>Abraços!</p><p>145</p><p>Material Complementar</p><p>Livro</p><p>Português brasileiro: Uma viagem diacrônica</p><p>Autores: Ian Roberts e Mary Kato</p><p>Editora: Contexto</p><p>Sinopse: Este livro apresenta de um ponto de vista diacrônico</p><p>uma descrição bastante instigante do que vem mudando no</p><p>português do Brasil. O conjunto dos textos aqui reunidos, frutos</p><p>de pesquisas aprofundadas sobre diversos aspectos de nossa</p><p>língua, mostra que o que ocorre não é um processo de</p><p>“deterioração da gramática” como muitos pensam, mas uma</p><p>reorganização interna coerente. A consciência dessas mudanças,</p><p>que são sistemáticas, é necessária para entender por que os</p><p>estudantes escrevem como escrevem e por que a língua dos</p><p>textos escolares, para as camadas que vêm de pais iletrados,</p><p>pode parecer tão estranha quanto à de um texto do século XVIII.</p><p>Livro</p><p>Preconceito Linguístico</p><p>Autor: Marcos Bagno</p><p>Editora: Parábola</p><p>Sinopse: O preconceito, seja ele de que natureza for, é uma</p><p>crença pessoal, uma postura individual diante do outro.</p><p>Qualquer pessoa pode achar que um modo de falar é mais</p><p>bonito, mais feio, mais elegante, mais rude do que outro. No</p><p>entanto, quando essa postura se transforma em atitude, ela se</p><p>torna discriminação e esta tem de ser alvo de denúncia e de</p><p>combate. No caso da língua, é imprescindível que toda cidadã e</p><p>todo cidadão que frequenta a escola (pública ou privada) receba</p><p>uma educação linguística crítica e bem informada, na qual se</p><p>mostre que todos os seres humanos são dotados das</p><p>mesmíssimas capacidades cognitivas e que todas as línguas e</p><p>variedades linguísticas são instrumentos perfeitos para dar</p><p>146</p><p>conta de expressar e construir a experiência humana neste</p><p>mundo. Este livro já é um clássico brasileiro sobre esse assunto</p><p>tão delicado de se abordar. Vale a pena ler.</p><p>Filme</p><p>O Enigma de Kasper Hauser</p><p>Direção: Werner Herzog</p><p>Elenco: Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Mira</p><p>Nacionalidade: Alemanha Ocidental</p><p>O filme conta a história de um menino que até os 16 anos de</p><p>idade foi vítima de isolamento social e não teve contato físico ou</p><p>verbal com nenhum outro ser humano. Sem acesso ao</p><p>aprendizado de uma língua, ele também não era capaz de</p><p>elaborar pensamentos e de interpretar o que acontecia à sua</p><p>volta. O filme nos leva a refletir sobre a aquisição da linguagem</p><p>entre os seres humanos.</p><p>Web</p><p>A ABRALIN, Associação Brasileira de Linguística, tem em seu</p><p>acervo um rico material sobre os estudos linguísticos tais como</p><p>artigos científicos e revistas especializadas.</p><p>Acesse o link</p><p>147</p><p>https://www.abralin.org/site/</p><p>ABREU, Flávia. Comunicação animal e linguagem humana segundo Benveniste,</p><p>2017. Disponível em: https://medium.com/@bolsa_azul/comunica%C3%A7%C3%A3o-</p><p>animal-e-linguagem-humana-segundo-benveniste-3fd242a85837. Acesso em: 03 set.</p><p>2020.</p><p>BENVENISTE, Émile. Os níveis de análise linguística. In: Estética da Criação Verbal.</p><p>Problemas de Linguística Geral I. 5. ed. Campinas: Pontes, 2005.</p><p>BEZERRA, Maria Auxiliadora. Ensino de língua portuguesa e contextos teórico-</p><p>metodológicos. In: DIONÍSIO, Angela Paiva; MACHADO, Anna Raquel; BEZERRA, Maria</p><p>Auxiliadora. (Org.). Gêneros textuais & ensino. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.</p><p>CABRAL, Marina da Silva. Um breve percurso sobre a história da linguística e suas</p><p>influências na sociolinguística. Uox, n. 02. Universidade Federal de Santa Catarina,</p><p>2014.</p><p>CECATO, Cleuza. Introdução aos fundamentos teóricos da linguística. Curitiba:</p><p>InterSaberes, 2017.</p><p>CEZARIO, Maria Maura; VOTRE, Sebastião. Sociolinguística. In: MARTELOTTA, Mario</p><p>Eduardo (org.). Manual de Linguística. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2020.</p><p>CEZARIO, Maria Maura; MARTELOTTA, Mario Eduardo. Aquisição da linguagem. In:</p><p>MARTELOTTA, Mario Eduardo (org.). Manual de Linguística. 2. ed. São Paulo: Contexto,</p><p>2020.</p><p>COSTA, Marcos Antonio, DUQUE, Paulo Henrique Duque. Cognitivismo e estudos da</p><p>linguagem: novas perspectivas. 2009. Disponível em:</p><p>https://cchla.ufrn.br/humanidades2009/Anais/GT13/13.5.pdf. Acesso em: 12 set. 2020.</p><p>CRYSTAL, David. A dictionary of linguistics and phonetics. 2. ed. Oxford: Blackwell,</p><p>1985. p. 240.</p><p>DUBOIS, Jean et al. Dicionário de linguística. São Paulo: Cultrix, 1978.</p><p>FERNANDES, Nathan. Noam Chomsky: entenda sua teoria linguística e seu</p><p>pensamento político. 2019, on-line. Disponível em:</p><p>https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2019/01/noam-chomsky-entenda-</p><p>sua-teoria-linguistica-e-seu-pensamento-politico.html. Acesso em: 03 set. 2020.</p><p>FIORIN, José Luiz (Org.) Linguística?</p><p>os gregos, mas há relatos históricos</p><p>que mostram que eles percebiam as diferenças de fala e se preocupavam em</p><p>conhecer a origem das palavras da própria língua.</p><p>11</p><p>https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles#/media/Ficheiro:Sanzio_01_Plato_Aristotle.jpg</p><p>Bíblia de 1407 escrita em latim eclesiástico</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>Império Romano e língua latina</p><p>No século III a.C., com a dominação do território grego por Roma, as primeiras</p><p>re�exões sobre os estudos da linguagem foram uma aplicação do pensamento</p><p>grego ao latim, pois apesar da expansão territorial por parte dos romanos, as</p><p>manifestações intelectuais dos gregos eram notadamente superiores às latinas.</p><p>O contato dos romanos com a linguística resultou em um referencial para os estudos</p><p>do latim: “De Língua Latina”, do romano Marco Terêncio Varrão que, “na esteira dos</p><p>gregos, dedicou-se à gramática, esforçando-se por de�ni-la como ciência e como arte”</p><p>(PETTER, 2002, p. 07). A obra era composta por 25 volumes, e nela é possível observar</p><p>que a preocupação de Varrão até os gramáticos dos séculos V e VI em descrever</p><p>principalmente as classes de palavras (CECATO, 2017, p. 22).</p><p>12</p><p>https://pt.wikipedia.org/wiki/Latim#/media/Ficheiro:Calligraphy.malmesbury.bible.arp.jpg</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Depois da conversão dos romanos ao  cristianismo, por meio da Igreja</p><p>Católica Romana o latim se tornou a língua dos acadêmicos e</p><p>dos  �lósofos  europeus  medievais. Assim, com a decadência do império</p><p>romano e a transição para a Idade Média, surgiram as descrições</p><p>etimológicas (parte da gramática que estuda a origem das palavras ou</p><p>como elas de formaram), e os estudos da linguagem em geral se resumiam</p><p>basicamente à prescrição de regras gramaticais.</p><p>No século XVI,</p><p>a religiosidade ativada pela Reforma Protestante provoca a tradução</p><p>dos livros sagrados em numerosas línguas, apesar de manter-se o</p><p>prestígio do latim como língua universal. Viajantes, comerciantes e</p><p>diplomatas trazem de suas experiências no estrangeiro o</p><p>conhecimento de línguas até então desconhecidas. Em 1502, surge o</p><p>mais antigo dicionário poliglota, do italiano Ambrosio Calepino</p><p>(PETTER, 2002, p.7)</p><p>Foi também nesse século, durante o Renascimento, que foram realizados trabalhos</p><p>importantes sobre as línguas neolatinas e que deram força para o estabelecimento</p><p>de idiomas independentes – embora ainda fossem considerados apenas um “latim</p><p>corrompido” (CECATO, 2002, p. 23).</p><p>No século XVIII, viu-se a continuidade da preocupação em demonstrar que a</p><p>linguagem se fundamenta na razão e é a imagem do pensamento, logo, as bases de</p><p>análise estabelecidas para uma língua particular podiam servir a toda e qualquer</p><p>língua.</p><p>13</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Houve, assim, a tentativa de usar exemplos gregos, latinos e hebraicos para</p><p>estabelecer uma gramática geral, mas só no século XIX os estudiosos passaram a</p><p>traçar um parentesco entre as línguas por meio do método comparativo que deu</p><p>aporte aos estudos contemporâneos e levou, no século XX, à concepção da linguística</p><p>conhecida hoje: como ciência autônoma.</p><p>Mais adiante adentraremos a contemporaneidade dos estudos linguísticos. Até lá!</p><p>14</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>02</p><p>Língua e</p><p>Linguagem</p><p>15</p><p>Olá, estimados!</p><p>Em linhas gerais, linguística é basicamente o conjunto de conhecimentos cientí�cos</p><p>sobre a linguagem, e por isso é considerada uma ciência autônoma, e não um ramo</p><p>da gramática.</p><p>Quando começamos a estudar uma disciplina, geralmente buscamos absorver os</p><p>conceitos básicos que a de�nem e a diferenciam de outras disciplinas ou teorias.</p><p>Esses conceitos básicos podem ser completamente desconhecidos para nós e exigem</p><p>mais atenção para que possamos entendê-los, mas outras vezes, pode ser uma</p><p>disciplina sobre a qual já temos alguma noção dos tópicos que a compõem. Aqui, ao</p><p>longo das aulas, você vai perceber que estudar Linguística se encaixa no segundo</p><p>caso, mas o que já sabemos sobre o assunto é incompleto.</p><p>Pois vamos nos aprofundar, abordando de os conceitos e as de�nições básicas da</p><p>Linguística e os relacionando com as noções que fazem parte dos conhecimentos</p><p>mais genéricos sobre língua e linguagem.</p><p>Os conceitos de língua e linguagem são tão próximos que há idiomas que</p><p>usam um único termo para se referir a eles – é o caso do termo “language”,</p><p>em do inglês. Assim, convencionou-se atribuir o termo linguagem à</p><p>capacidade geral que temos, enquanto seres humanos, de utilizar sinais com</p><p>vistas à comunicação, e adquirimos essa capacidade como resultado do</p><p>processo de evolução humana. Todos os homens e mulheres,</p><p>independentemente da língua que falam, quando se comunicam por meio</p><p>de línguas de sinais ou se são acometidos de patologias que prejudicam a</p><p>comunicação verbal, todos são portadores dessa capacidade, ou seja,</p><p>possuem linguagem. “A língua, por sua vez, é uma noção que sugere que a</p><p>capacidade de linguagem se atualiza em um material concreto, disponível</p><p>culturalmente, é uma língua natural.” (LEITE, 2010, p. 216).</p><p>16</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Língua</p><p>Segundo Cecato, a língua pode ser de�nida como um sistema pelo qual um conjunto</p><p>de falantes se comunica e, para isso, os membros que compartilham uma mesma</p><p>língua devem conhecer as características desse sistema (2017, p. 28).</p><p>Essa ferramenta de comunicação é formada por regras gramaticais que possibilitam a</p><p>um grupo produzir enunciados para �ns de comunicação. Possui um caráter social,</p><p>pois pertence a todos os membros de um conjunto de pessoas que podem agir sobre</p><p>ela, modi�cando-a.</p><p>Cada membro do grupo pode individualmente escolher uma forma de se expressar,</p><p>mas não pode criar uma língua particular e exigir que os outros falantes a</p><p>compreendam. Logo, a fala está sempre condicionada às regras socialmente</p><p>estabelecidas da língua e é vasta o bastante para permitir um exercício criativo da</p><p>comunicação.</p><p>São exemplos a língua portuguesa, a Língua Brasileira de Sinais, o francês, o inglês, o</p><p>italiano, o mandarim, e assim por diante.</p><p>17</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Linguagem</p><p>Existem vários autores que estudam a linguagem, mas para explicá-la, vamos recorrer</p><p>a conceitos de alguns teóricos clássicos:</p><p>Fonte: adaptado de Cecato, 2017, p. 25-30.</p><p>Ferdinand de</p><p>Saussure (1857</p><p>- 1913),</p><p>linguista e</p><p>�lósofo suíço</p><p>“A língua não se confunde com a linguagem; é somente uma parte essencial</p><p>dela. É, ao mesmo tempo, um produto social da linguagem e um conjunto de</p><p>convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício</p><p>dessa faculdade nos indivíduos. A linguagem é a parte social da linguagem,</p><p>exterior ao indivíduo”.</p><p>Edward Sapir</p><p>(1884 - 1939),</p><p>antropólogo e</p><p>linguista</p><p>alemão</p><p>De�niu linguagem como “um método puramente humano e não instintivo de</p><p>comunicar ideias, emoções e desejos”. Trata-se de um conceito muito amplo,</p><p>pois a linguagem não serve para de�nir ideias e desejos, mas inúmeras outras</p><p>ações.</p><p>Bernard Bloch</p><p>(1906 - 1965),</p><p>linguista</p><p>americano</p><p>“Um sistema de símbolos vocais arbitrários por meio do qual um grupo</p><p>coopera”. Tal de�nição é parcial, pois abrange somente a língua falada e exclui</p><p>outras formas de linguagem habitualmente utilizadas.</p><p>Robert Hall Jr.</p><p>(1911 - 1997),</p><p>linguista</p><p>americano</p><p>especialista em</p><p>línguas</p><p>românicas</p><p>“A instituição pela qual os humanos se comunicam e interagem uns com os</p><p>outros por meio se símbolos orais-auditivos”. O conceito de Hall Jr. é bastante</p><p>parecido com o de Bloch, mas com a diferença da noção de “habitualmente</p><p>utilizadas”, in�uência dos estudos behavioristas, que utilizavam o termo</p><p>“hábito” para caracterizar respostas previsíveis a um estímulo.</p><p>Robert H.</p><p>Robins (1921 -</p><p>2000), linguista</p><p>britânico</p><p>“As línguas possuem uma in�nita capacidade de se estender e modi�car</p><p>conforme as necessidades e condições de seus falantes”. Não é uma de�nição</p><p>nova, mas um acréscimo</p><p>Que é isso? São Paulo: Contexto, 2013.</p><p>Foucault, M. 1972. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de</p><p>pensamento. Tradução de Elisa Monteiro. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.</p><p>FURUI, Sadaoki. Digital Speech Processing: Synthesis, and Recognition.</p><p>2.ed.Taylor&Francis, 2000.</p><p>Referências</p><p>148</p><p>LEITE, Jan Edson Rodrigues. Fundamentos da Linguística. 2010. Disponível em:</p><p>https://grad.letras.ufmg.br/arquivos/monitoria/LEITE_2010.pdf. Acesso em: 02 set.</p><p>2020.</p><p>LEITE, I. K. T., FIGUEIREDO, J. G dos S. Divergências conceituais: gramática normativa x</p><p>descritiva. Revista Graduando. n.1, jul/dez 2010.</p><p>______. Introdução à linguística. 1ed. São Paulo: Contexto, 2002.</p><p>LINHARES, A. A. Gramática histórico-comparativa: contribuições para a formação de</p><p>línguas modernas. Verbum. PUC-SP, n.7, 2014.</p><p>LOPES, Edward. Fundamentos da linguística contemporânea. São Paulo: Cultrix,</p><p>1995.</p><p>LOPES, E. M.B; CARVALHO, D.S. Mudança linguística e gramática gerativa: uma</p><p>perspectiva de aquisição da linguagem. LaborHistórico, Rio de Janeiro, 5 (1): 166-183,</p><p>jan. | jun. 2019.</p><p>MARCUSCHI, L. A. O papel da linguística no ensino de línguas. Diadorim. Rio de Janeiro,</p><p>revista 18, volume 2, p.12-31, Jul-Dez 2016.</p><p>MARTELOTTA, Mario Eduardo (org.). Manual de Linguística. 2. ed. São Paulo: Contexto,</p><p>2020.</p><p>MARTINS, Ana Paula Pereira. Funcionalismo linguístico: um breve percurso histórico da</p><p>Europa aos Estados Unidos. Domínios de lingu@gem. Revista Eletrônica de Linguística.</p><p>Ano 3, - n° 2 – 2° Semestre 2009 - ISSN 1980-5799.</p><p>MARTINS, Vicente. Behaviorismo, linguística e dislexia. Revista Partes, s/d. Disponível</p><p>em: https://www.partes.com.br/2008/11/02/behaviorismo-linguistica-e-dislexia/. Acesso</p><p>em: 02 out. 2020.</p><p>MATTHEIER, Klaus J. Aspectos de uma teoria da mudança linguística. Rev. de Letras -</p><p>Vol. 30 - 1/4 - jan. 2010/dez. 2011</p><p>MENEZES, Thales de. Filosofia no século XXI. Dossiê Superinteressante. ISBN 978-85-</p><p>69522-95-9, ed. 409-A. São Paulo: Abril, 2019.</p><p>MOYSÉS, C. A. Língua Portuguesa: atividades de leitura e produção de texto. São</p><p>Paulo: Editora Saraiva, 2004.</p><p>Mussalim, Fernanda.  História das Ideias Linguísticas. Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2008.</p><p>NEVES, Flávia. Signo Linguístico. S/d, on-line. Disponível em:</p><p>https://www.normaculta.com.br/signo-linguistico/. Acesso em: 02 out. 2020.</p><p>OLIVEIRA, Demerval da Hora. Fonética e Fonologia. S/d, recurso on-line. Disponível em:</p><p>http://biblioteca.virtual.ufpb.br/files/fonatica_e_fonologia_1360068796.pdf. Aceso em:</p><p>05 out. 2020.</p><p>149</p><p>ORLANDI, Eni Puccinelli. O que é linguística (Primeiros Passos). Brasiliense. Edição do</p><p>Kindle, 2017.</p><p>PETTER, Margarida. Linguagem, língua, Linguística. In: Fiorin, José Luiz (Org.)</p><p>Introdução à linguística. 1ed. São Paulo: Contexto, 2002.</p><p>RIBEIRO, Pablo Nunes, FLORES, Valdir do Nascimento. Manual de linguística. Editora</p><p>Vozes. Edição do Kindle, 2019.</p><p>ROCHA, Max Silva da; SILVA, Maria Margarete de Paiva. A linguística textual e a</p><p>construção do texto: um estudo sobre os fatores de textualidade. Revista Digital dos</p><p>Programas de Pós-Graduação do Departamento de Letras e Artes da UEFS Feira de</p><p>Santana, v. 18, n. 2, p. 26-44, maio-agosto 2017.</p><p>SANTOS, Raquel. Aquisição da linguagem. In: Fiorin, José Luiz (Org.) Introdução à</p><p>linguística. 1ed. São Paulo: Contexto, 2002.</p><p>SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geraI. Tradução de Antônio Chelini, José</p><p>Paulo Paes, Izidoro Blikstein. 27. ed. São Paulo: CuItrix, 2006.</p><p>SILVA, Rita do Carmo Polli da. A sociolinguística e a língua materna. Curitiba:</p><p>InterSaberes, 2013.</p><p>SILVA, Adelaide Hercília Pescatori. Língua Portuguesa I: fonética e fonologia. Curitiba:</p><p>IESDE, 2007.</p><p>SILVA, Thaís Cristófaro. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos e guia</p><p>de exercícios. 7.ed. São Paulo: Contexto, 2003.</p><p>SILVA, Fernando Moreno da. As dicotomias saussureanas e suas implicações sobre os</p><p>estudos linguísticos. REVELLI – Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-</p><p>Inhumas ISSN 1984-6576–v. 3,n.2–outubro de 2011 – p. 38-55.</p><p>SOUSA, Silvia Maria; MEDEIROS, Vanise. Linguística v. 1. Rio de Janeiro: Fundação</p><p>CECIERJ, 2012.</p><p>UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. Iniciação à linguística [e-book]: 1. ed. Rio de Janeiro:</p><p>Lexikon, 2019.</p><p>150</p><p>Breve História da Linguística</p><p>Língua e Linguagem</p><p>Linguagem Humana e Linguagem Animal</p><p>Estruturalismo</p><p>Funcionalismo e Gerativismo</p><p>Linguística Cognitiva</p><p>O Ponto de Vista Linguístico e a Pragmática</p><p>Sociolinguística</p><p>As Variações Linguísticas</p><p>A Aquisição da Linguagem</p><p>Signo: Significante e Significado</p><p>Fonética e Fonologia</p><p>As Dicotomias Saussureanas</p><p>A Mudança Linguística</p><p>Algumas Palavras Sobre Gramática</p><p>Linguística e Ensino</p><p>no sentido da �exibilização da língua.</p><p>Noam</p><p>Chomsky (1928</p><p>- ), linguista,</p><p>�lósofo,</p><p>sociólogo e</p><p>cientista</p><p>cognitivo</p><p>americano</p><p>“A linguagem é um componente da mente/cérebro humano especi�camente</p><p>dedicada ao conhecimento e uso da língua”.  Para Chomsky, portanto, a</p><p>linguagem é uma capacidade inata e especí�ca do homem, transmitida</p><p>geneticamente e própria da espécie humana (LEITE, 2010, p. 218).</p><p>18</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Para uma de�nição mais pontual, linguagem é a capacidade que nós temos</p><p>de se comunicar por meio da fala, da escrita, das imagens e dos gestos.</p><p>Na prática, nos diferentes espaços sociais em que vivemos, temos a oportunidade de</p><p>encontrar diversas formas de linguagem escolhidas dependendo da intenção de</p><p>quem transmite a mensagem – ou emissor. Vejamos algumas informações sobre as</p><p>características e os aspectos mais relevantes que marcam as formas de linguagem,</p><p>sejam elas no plano verbal ou no plano não verbal.</p><p>No instante em que você põe os olhos em um texto, você o lê. E por que você o leu?</p><p>Porque, a partir do momento em que você se alfabetizou, ler se torna um ato</p><p>instintivo, automático. Placas, sinais, canções, �lmes, livros, bilhetes, posts de internet,</p><p>todas essas manifestações só existem porque existe a linguagem aprendida.</p><p>Quando falamos em linguagem, não estamos falando apenas da linguagem escrita e</p><p>do português padrão, correto e formal. A comunicação utiliza vários tipos de</p><p>linguagens tais como a linguagem corporal, o tom de voz, os símbolos, as cores, etc.</p><p>Além dos diferentes tipos de linguagens, devemos considerar a diversidade de</p><p>contextos sociais e indivíduos culturais diferentes entre si.</p><p>O diálogo realizado entre amigos no �nal da tarde em um happy hour não é o mesmo</p><p>diálogo realizado pelos colegas dentro da empresa ou em uma reunião com a</p><p>diretoria. Todos os lugares possuem suas regras próprias, inclusive os locais</p><p>considerados informais. Ninguém chega à casa de um amigo e vai entrando no quarto</p><p>sem pedir licença. Assim, acontece com a linguagem.</p><p>Vamos aos tipos de linguagem.</p><p>19</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: arquivo pessoal.</p><p>Linguagem verbal</p><p>Quando alguém escreve um e-mail ou uma mensagem no WhatsApp, por exemplo,</p><p>está usando a linguagem verbal, ou seja, está transmitindo informações por meio</p><p>das palavras. Esse tipo de linguagem é conhecido como linguagem verbal, pois há a</p><p>palavra, seja escrita ou falada. É certamente a forma mais comum no nosso dia a dia e</p><p>devemos usar corretamente nas diferentes situações exigidas.</p><p>Linguagem não verbal</p><p>Ao contrário da linguagem verbal, a linguagem não verbal não utiliza palavras, pois o</p><p>código utilizado é um símbolo. Nessa forma de comunicação, o objetivo é utilizar</p><p>outros meios comunicativos tais como �guras, placas, gestos, objetos, cores, etc. para</p><p>transmitir a mensagem pretendida. Por exemplo: um jogo de futebol só acaba</p><p>quando o juiz apita, e um motorista só para no sinal quando ele está vermelho.</p><p>Ninguém deu ordem para parar, mas, como se conhece a simbologia utilizada, apenas</p><p>o apito e o sinal da luz vermelha já são su�cientes para compreender a mensagem.</p><p>20</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: arquivo pessoal.</p><p>Fonte: arquivo pessoal.</p><p>Linguagem mista ou híbrida</p><p>Como o próprio nome diz, a linguagem mista (ou híbrida) é o uso simultâneo da</p><p>linguagem verbal e da linguagem não verbal – ou seja, palavras escritas e �guras ao</p><p>mesmo tempo. As histórias em quadrinhos, as charges e os outdoors são um exemplo</p><p>deste tipo de linguagem, já que possuem imagens, símbolos e palavras ao mesmo</p><p>tempo.</p><p>21</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Acesse o link: Disponível aqui</p><p>Acesse o link: Disponível aqui</p><p>Sabia que a Libras, a Língua Brasileira de sinais, não é uma linguagem, mas</p><p>uma língua; um idioma oficial do nosso país?   Leia o decreto que</p><p>regulamenta a Libras e sua inserção como disciplina curricular obrigatória</p><p>nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério:</p><p>Conheça a origem da língua de Libras no Brasil:</p><p>Linguagem Formal e Informal</p><p>A linguagem formal é baseada na norma culta, que é o modelo de padrões</p><p>linguísticos que determinam seu uso correto. Em outras palavras, é aquela linguagem</p><p>sem erros e gírias, utilizada em livros, documentos o�ciais, etc. A linguagem formal é</p><p>voltada principalmente para a comunicação escrita e vai de acordo com a gramática</p><p>vigente.</p><p>Por outro lado, quando conversamos espontaneamente e fazemos o uso de gírias e</p><p>formas reduzidas tais como “cê” (você), “tai” (está aí), “pra” (para), por exemplo, temos</p><p>a linguagem informal. Neste caso, nos comunicamos principalmente por meio da</p><p>fala e de maneira coloquial. Um famoso exemplo da diferença existente entre tais é o</p><p>poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade. Veja:</p><p>22</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Decreto/D5626.htm</p><p>http://blog.handtalk.me/historia-lingua-de-sinais/</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>PRONOMINAIS</p><p>Dê-me um cigarro</p><p>Diz a gramática</p><p>Do professor e do aluno</p><p>E do mulato sabido</p><p>Mas o bom negro e o bom branco</p><p>Da Nação Brasileira</p><p>Dizem todos os dias</p><p>Deixa disso camarada</p><p>Me dá um cigarro.</p><p>O primeiro verso foi escrito de acordo com a norma culta, logo, em uma linguagem</p><p>formal, pois o verbo (dar) vem antes do pronome (me) = Dê-me. A gramática diz que o</p><p>pronome (no caso “me”) nunca deve vir antes do verbo em começo de frase. No</p><p>último verso, já ocorre o contrário: o pronome (me) vem antes do verbo (dar),</p><p>representando assim a forma como falamos e também a linguagem informal = Me dá.</p><p>Mas não podemos dizer que se trata de uma forma errada: é somente inadequada</p><p>em ocasiões e discursos formais.</p><p>LINGUAGEM FORMAL = NORMA CULTA</p><p>Preserva as regras gramaticais;</p><p>É utilizada para comunicação em conferências, palestras e seminários,</p><p>documentos o�ciais e discursos públicos;</p><p>Envolve a comunicação entre pessoas que não se conhecem ou possuem pouca</p><p>ou quase nenhuma a�nidade e</p><p>É também chamada de norma culta ou padrão.</p><p>LINGUAGEM INFORMAL = COLOQUIAL</p><p>É mais descontraída, e há um relaxamento quanto às regras gramaticais;</p><p>Permite o uso de palavras mais simples, abreviações e gírias;</p><p>É muito utilizada na comunicação entre amigos, colegas, familiares e pessoas</p><p>com alto grau de relacionamento e</p><p>É também chamada de linguagem coloquial.</p><p>Agora que já de�nimos o que é língua e linguagem, deixo aqui um questionamento:</p><p>será que os animais também possuem linguagem? Pois essa curiosidade levou um</p><p>grande estudioso a uma experiência que forneceu conteúdo para os estudos da</p><p>linguística, e vermos na próxima aula. Até lá!</p><p>23</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>03</p><p>Linguagem Humana</p><p>e Linguagem Animal</p><p>24</p><p>Olá a todos!</p><p>Uma vez que o objeto de estudo da linguística é a linguagem, faz-se necessário</p><p>estudar e de�nir como se dão a linguagem humana e a linguagem animal.</p><p>A origem da linguagem humana sempre foi alvo de curiosidade e especulação</p><p>cientí�ca, com pesquisas desenvolvidas nas áreas da Antropologia, Psicologia,</p><p>Neurociência, Filoso�a e – claro – Linguística. Mas, na maioria das vezes, essas</p><p>pesquisas tiveram como base a comparação entre a linguagem humana e a</p><p>linguagem animal a �m de responder duas questões: “O que de�ne a linguagem</p><p>humana?” e “Os animais também possuem uma linguagem?”</p><p>Para tentar respondê-las, vamos abordar um estudo realizado pelo linguista Émile</p><p>Benveniste na tentativa de responder a essas questões.</p><p>Vamos lá?</p><p>Benveniste e a Comunicação</p><p>Animal</p><p>Émile Benveniste foi um dos seguidores dos estudos de Saussure, e no livro</p><p>“Problemas de Linguística Geral” (1974), ele trata das diferenças entre um sistema de</p><p>comunicação e uma linguagem “propriamente dita”. Para tanto, Benveniste explica</p><p>que, para ele, não há linguagem sem voz, ou seja, “seu viés é que a de�nição seja</p><p>dada no campo verbal, no máximo escrito, excluindo, portanto, qualquer</p><p>manifestação linguística que seja não verbal, como gestos, pinturas, esculturas e</p><p>a�ns” (ABREU, 2017, on-line). Para ilustrar sua ideia, Benveniste estruturou uma</p><p>argumentação conduzindo um estudo sobre o modo como abelhas e humanos se</p><p>comunicam. Mas por que abelhas?</p><p>25</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O linguista Émile Benveniste (1902 - 1976)</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>O linguista partiu dos estudos realizados por um zoólogo alemão chamado Karl von</p><p>Frisch que demonstraram que, por meio da dança, as abelhas transmitem a outras da</p><p>mesma colmeia informações sobre a posição de um determinado campo de �ores</p><p>(MUSSALIM, 2008) e conclui que o sistema de comunicação das abelhas não é uma</p><p>linguagem, mas um código de sinais convencionado entre elas.</p><p>As abelhas são capazes de formular uma mensagem e de interpretá-la de acordo com</p><p>esse código, que é uma condição inerente a qualquer tipo de linguagem humana. Elas</p><p>executam dois tipos de dança para diferentes informações tais como onde está o</p><p>alimento, qual é a direção a seguir e se �ca longe da colmeia (ABREU, 2017, on-line).</p><p>26</p><p>https://www.goodreads.com/author/show/2452313._mile_Benveniste</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Von Frisch montou uma colmeia transparente e observou o comportamento das</p><p>abelhas que voltam depois de uma descoberta de alimento. Elas são imediatamente</p><p>cercadas por suas companheiras, que viram as antenas em sua direção para recolher</p><p>o pólen nelas ou absorver o néctar que elas vomitam. Em seguida, a abelha que fez o</p><p>transporte do alimento executa danças, e as companheiras fazem igual. Esse é o</p><p>próprio ato da comunicação.</p><p>Mas a semelhança com o homem quanto à capacidade de se comunicar acaba aí, pois</p><p>apesar de as abelhas transmitirem informações de alta complexidade para um inseto,</p><p>existem limitações tais como a impossibilidade de diálogo entre elas e a presença de</p><p>uma reação e não de uma resposta, uma vez que para ser considerada uma</p><p>resposta, é necessário que haja uma re�exão sobre o que foi entendido da</p><p>mensagem.  Há outra diferença essencial:</p><p>Enquanto na linguagem humana há uma reutilização e mistura dos</p><p>códigos usados em sociedade, no caso animal não há meios de</p><p>realizar isso. Mensagem alguma, por exemplo, seria destrinchada ou</p><p>teria sua ordem invertida; ela permanece como foi formada e</p><p>transmitida. (ABREU, 2017, on-line).</p><p>27</p><p>Para Benveniste, a descoberta de von Frisch possibilita, considerando o modo de</p><p>comunicação usado na colônia de abelhas, especi�car pela primeira vez e com alguma</p><p>precisão o funcionamento de uma “linguagem” animal, e descrever esse</p><p>funcionamento permite assinalar “aquilo em que ela é ou não é uma linguagem e o</p><p>modo como essas observações sobre as abelhas ajudam a de�nir, por semelhança ou</p><p>por contraste, a linguagem humana” (BENVENISTE apud MUSSALIM, 2008, p. 13).</p><p>O linguista analisa que as abelhas são capazes de produzir e compreender uma</p><p>verdadeira mensagem, de conservar os dados na memória e de comunicá-los. Em</p><p>outras palavras, as abelhas manifestam aptidão para transmitir símbolos:</p><p>“encontramos nas abelhas as condições sem as quais nenhuma linguagem é possível</p><p>– a capacidade de formular e de interpretar um ‘signo’ que remete a certa ‘realidade’,</p><p>a memória da experiência e a aptidão para decompô-la.” (BENVENISTE, 2005, p. 64).</p><p>Assim, percebemos a semelhança entre a linguagem das abelhas e a linguagem</p><p>humana, visto que esses insetos atingem seus objetivos fazendo gestos que contêm</p><p>elementos variáveis, mas cujo signi�cado, para elas, é constante. A situação e a função</p><p>também são de uma linguagem humana, pois o mesmo sistema comunicacional “é</p><p>válido no interior de uma comunidade determinada e que cada membro dessa</p><p>comunidade tem aptidões para empregá-lo ou compreendê-lo nos mesmos termos”</p><p>(BENVENISTE, 2005, p. 64).</p><p>Vejamos as diferenças entre a linguagem humana e a animal segundo os resultados</p><p>da pesquisa de Benveniste:</p><p>28</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: Adaptado de Mussalim, 2008.</p><p>CARACTERÍSTICAS</p><p>DA LINGUAGEM</p><p>CANAL EFEITOS</p><p>CONTEÚDO</p><p>DA</p><p>MENSAGEM</p><p>TIPO DE</p><p>SIMBOLISMO</p><p>“Linguagem”</p><p>animal (abelhas)</p><p>Dança</p><p>A</p><p>mensagem</p><p>das abelhas</p><p>não provoca</p><p>nenhuma</p><p>resposta,</p><p>pois elas</p><p>não</p><p>conhecem o</p><p>diálogo, e</p><p>gera apenas</p><p>uma</p><p>conduta.</p><p>Refere-se</p><p>sempre</p><p>somente a</p><p>um dado: o</p><p>alimento. As</p><p>únicas</p><p>variantes</p><p>são</p><p>relativas a</p><p>dados de</p><p>espaço e</p><p>distância.</p><p>A mensagem</p><p>das abelhas</p><p>denota um</p><p>simbolismo</p><p>particular</p><p>que consiste</p><p>em um</p><p>decalque da</p><p>única</p><p>situação</p><p>subjetiva que</p><p>possibilita</p><p>uma</p><p>mensagem,</p><p>sem</p><p>nenhuma</p><p>variação.</p><p>Linguagem</p><p>humana</p><p>Aparelho</p><p>vocal</p><p>Os homens</p><p>falam uns</p><p>com os</p><p>outros e</p><p>estabelecem</p><p>um diálogo,</p><p>que é uma</p><p>condição da</p><p>linguagem</p><p>humana.</p><p>Os</p><p>conteúdos</p><p>da</p><p>linguagem</p><p>humana são</p><p>ilimitados.</p><p>O símbolo</p><p>em geral não</p><p>con�gura os</p><p>dados da</p><p>experiência</p><p>(no sentido</p><p>de não haver</p><p>relação</p><p>necessária</p><p>entre a</p><p>referência</p><p>objetiva e a</p><p>forma</p><p>linguística).</p><p>29</p><p>Esses resultados levaram Benveniste a concluir que o termo mais apropriado para</p><p>de�nir o modo de comunicação entre as abelhas – que se caracteriza por ter um</p><p>conteúdo �xo, sem variações, a invariabilidade da mensagem, a referência a uma</p><p>única situação, a natureza indecomponível da mensagem, a transmissão unilateral</p><p>não como “linguagem”, mas como “código de sinais”.</p><p>30</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Máquina de escrever</p><p>linguagem: comunicação</p><p>código: não se comunica, só transmite uma informação</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Máquina de escrever</p><p>Só o homem tem a capacidade de se comunicar e consequentemente de linguagem.</p><p>04</p><p>Estruturalismo</p><p>31</p><p>Olá, estimados!</p><p>Como vimos na primeira aula, os estudos da Linguística foram inaugurados pelos</p><p>gregos, que ainda a chamavam de “gramática” e visavam unicamente criar regras para</p><p>distinguir as formas corretas das incorretas; assim, era uma disciplina normativa</p><p>(que dita normas). Esta, segundo Ferdinand de Saussure (lê-se “sossír”), teria sido a</p><p>primeira fase da Linguística antes que se determinasse “qual é o seu verdadeiro e</p><p>único objeto” (2006, p. 07).</p><p>Vimos também que a Linguística não era uma ciência autônoma, à parte, mas</p><p>dependia de outras ciências. Uma delas marca a segunda fase: associá-la aos estudos</p><p>da Filologia, que trata do estudo da história das línguas por meio principalmente da</p><p>análise dos textos e aborda questões linguísticas para comparar textos de diferentes</p><p>épocas, determinar a língua de autores e decifrar inscrições em línguas obscuras ou</p><p>que não existem mais.</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>“Filologia” vem do grego e é a junção dos termos  philos, que signi�ca "amor,</p><p>carinho”, e logos = "palavra, articulação, razão", descrevendo o amor pela</p><p>aprendizagem e pela  literatura, bem como pela argumentação e pelo</p><p>raciocínio, o que re�ete o leque de atividades incluídas no âmbito da noção</p><p>da Filologia. O termo mudou um pouco e virou philologia  em latim, e mais</p><p>tarde entrou para o idioma Inglês por meio do francês philologie, no sentido</p><p>que mais identi�ca a ciência hoje: "amor pela literatura".</p><p>Adaptado de: filologia in Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2020.</p><p>32</p><p>https://www.infopedia.pt/$filologia</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Franz Bopp, linguista alemão e professor de Filologia e sânscrito</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>A Filologia, assim, deu origem à chamada “gramática comparativa” (ou “comparada”),</p><p>marcando a terceira fase, que começou quando se descobriu que as línguas podiam</p><p>ser comparadas entre si.</p><p>Tal foi a origem da Filologia comparativa ou da “Gramática</p><p>comparada”. Em 1816, numa obra intitulada Sistema de Conjugação</p><p>do Sânscrito, Franz Bopp estudou as relações que unem o sânscrito</p><p>ao germânico, ao grego, ao latim, etc. Bopp não era o primeiro a</p><p>assinalar tais afinidades e a admitir que todas essas línguas</p><p>pertencem a uma única família; isso tinha sido feito antes dele, (...)</p><p>Bopp (...) compreendeu que as relações entre línguas afins podiam</p><p>tornar-se matéria duma ciência autônoma. Esclarecer uma língua</p><p>por meio de outra, explicar as formas duma pelas formas de outra,</p><p>eis o que não fora ainda feito (SAUSSURE, 2006, p. 8, grifo nosso).</p><p>33</p><p>https://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Bopp#/media/Ficheiro:Franz_Bopp_(IZ_46-1866_S_360_ANeumann).jpg</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O Que é Linguística</p><p>Para estabelecer um conceito sobre linguística, é importante enfatizar que ela uma</p><p>ciência – mas não como a física, matemática ou biologia, em que é possível resumir</p><p>uma teoria em uma fórmula. A preocupação dos primeiros linguistas em colocá-la</p><p>como ciência foi justamente para diferenciá-la no que se refere aos seus meios de</p><p>pesquisa e comprovação: a linguística é empírica, ou seja, suas a�rmações são</p><p>baseadas na experiência, na observação e na experiência de mundo dos indivíduos.</p><p>O objeto de estudo da linguística são a língua e a linguagem (já estudadas aqui), mas</p><p>existem rami�cações desses estudos, como a linguística geral e a linguística descritiva.</p><p>Linguística Geral – Ocupa-se em formular resposta para os fenômenos da língua e</p><p>da linguagem</p><p>Linguística Descritiva – Busca comprovar ou refutar as hipóteses levantadas nos</p><p>estudos da linguística</p><p>Cecato nos dá um exemplo para ilustrar a diferença:</p><p>(...) considerando que a linguística geral pudesse gerar uma hipótese</p><p>de que todas as línguas do mundo apresentam sons nasais, a</p><p>linguística descritiva encontraria uma língua que não apresentasse</p><p>essa característica para desconstruir essa hipótese. Contudo, mesmo</p><p>para fazer isso, a linguística descritiva se valerá de conceitos trazidos</p><p>da linguística geral. (2017, p. 37)</p><p>34</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O objetivo da linguística descritiva não é meramente desconstruir conceitos</p><p>da linguística geral, mas dar subsídios para escrever gramáticas e dicionários</p><p>que sejam referência para o uso do idioma estudado.</p><p>Assim, no século XX, a linguística contemporânea se tornou uma ciência que</p><p>basicamente estuda línguas. Ao contrário de uma tradição gramatical que prescreve</p><p>(dita, manda) como escrever e/ou falar “bem”, a Linguística tem como objetivo</p><p>compreender, descrever e explicar línguas (SOUSA E MEDEIROS, 2012, p. 22).</p><p>Para tanto, adota-se um método cientí�co de análise a �m de observar e descrever os</p><p>fatos linguísticos e sistematizá-los para, por exemplo, de�nir a terminologia a ser</p><p>adotada na análise de um objeto de estudo. Estabelecer a diferença entre termos tais</p><p>como linguagem e língua, por exemplo, é uma das funções desta ciência.</p><p>Lembremos também que a linguística tem paralelo com outras áreas do</p><p>conhecimento, como nos coloca Fiorin:</p><p>A Linguística é uma ciência porque ela, ao contrário da gramática,</p><p>não se pretende normativa (não tem por finalidade prescrever como</p><p>se deve dizer), mas se quer descritiva e explicativa (tem por objetivo</p><p>dizer o que a língua é e por que é assim). Assim como um químico</p><p>não diz que uma reação é certa ou errada, um biólogo não declara</p><p>que determinada espécie não deveria existir ou que ela é feia.</p><p>(FIORIN, 2013. p. 37).</p><p>Para concluir, de�ne-se que a linguística estuda todas as manifestações da linguagem</p><p>humana: os sons, as palavras, as frases, o signi�cado, o texto e o discurso – não se</p><p>pode, porém, confundi-la com o estudo da gramática nem com o estudo dos idiomas,</p><p>pois, como já falamos, a gramática prescreve, dita regras sobre um idioma, e a</p><p>35</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>linguística descreve como ele funciona. É, logo, um estudo mais cientí�co e �losó�co</p><p>da linguagem, e não por acaso muitos linguistas são �lósofos, escritores e até</p><p>neurocientistas.</p><p>Capa de edição antiga do Curso de linguística geral em francês | Ferdinand de</p><p>Saussure</p><p>Fonte: wikipedia.</p><p>Saussure e o Curso de</p><p>Linguística Geral</p><p>De�nir uma teoria ou ciência se torna mais fácil quando buscamos um marco</p><p>temporal para situá-la ou um obra que caracterize seu começo (CECATO, 2017, p.</p><p>126). No da linguística, esse marco é a publicação póstuma do celebrado Curso de</p><p>linguística geral, do suíço Ferdinand de Saussure (1857 - 1913), em 1916. O livro é</p><p>composto por anotações de um curso que Saussure ministrou na Universidade de</p><p>Genebra e é considerado o mais importante nos estudos modernos da linguística.</p><p>36</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: a autora.</p><p>No Curso, Saussure, que pensava a língua como um sistema, apresenta pela primeira</p><p>vez as dicotomias, que são de�nições de oposição em duplas (por exemplo: o que</p><p>não é língua é fala). Estudaremos as dicotomias saussurianas mais adiante, porém,</p><p>para estudar o estruturalismo – uma das teorias linguísticas – vamos falar de uma</p><p>delas: diacronia e sincronia.</p><p>Os termos sincronia (estado atual da língua) e diacronia (história da língua) servem</p><p>para explicar que, segundo Saussure, o estudo sincrônico da língua pode ser tão</p><p>cientí�co quanto o diacrônico (CECATO, 2017, p. 127). Assim, ele explica que o</p><p>diacrônico é casual, passageiro, e o sincrônico é estrutural – por isso essa escola é</p><p>chamada de estruturalismo.</p><p>Vale destacar que, para explicar por que as línguas são como são, Saussure não se</p><p>embasa nas transformações de forma e sentido ao longo do tempo, mas na</p><p>percepção sincrônica, pontual, de que todas as formas e sentidos estão</p><p>correlacionados entre si em um sistema linguístico em um determinado momento.</p><p>37</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O interessante é que o termo “estruturalismo” não aparece no livro Curso de</p><p>Linguística Geral, mas foi usado pela primeira vez em um Congresso de</p><p>Filólogos Eslavos, em 1928, por Roman Jakobson e outros autores baseados</p><p>na noção de sistema de Saussure. Sua importância, porém, é inegável:</p><p>“‘Estrutura’, ‘estrutural’ e ‘estruturalismo’ constituem palavras-chave no léxico</p><p>dos pensadores do século XX. (...) A palavra ‘estruturalismo’ designa algumas</p><p>correntes da Linguística moderna que tomam impulso após o Cours de</p><p>Linguistique Générale de Saussure (...)” (LOPES, 1995 apud SOUSA E</p><p>MEDEIROS, 2012, 128).</p><p>Aqui, rompe-se com um paradigma de estudos em que se observavam mudanças ao</p><p>longo do tempo e surge um novo paradigma: a língua é estudada no seu momento</p><p>presente (SOUSA e MEDEIROS, 2012, p. 129).</p><p>Ao falar da abordagem sincrônica, Saussure enfatiza o caráter abstrato da sua</p><p>concepção do que é uma língua. Assim, nasce a metáfora do xadrez:</p><p>Neste jogo, é relativamente fácil distinguir o interno do externo. (...) Se</p><p>eu substituir as peças de madeira por peças de marfim, a troca será</p><p>indiferente para o sistema; mas se eu reduzir ou aumentar o número</p><p>de peças, esta mudança atingirá profundamente a “gramática” do</p><p>jogo.  (...) Assim, formular-se-á a questão da natureza do fenômeno, e</p><p>para resolvê-la, observar-se-á esta regra: é interno tudo quanto</p><p>provoca mudanças no sistema em qualquer grau (SAUSSURE,</p><p>2006, p. 32, grifo nosso).</p><p>No tabuleiro de xadrez, poderemos analisar cada peça independentemente de seu</p><p>passado, de sua jogada anterior, mas conseguimos visualizar como elas estão em</p><p>relação umas às outras dentro das possíveis movimentações do jogo. Ou seja: para</p><p>38</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Saussure, não precisamos saber do passado de uma língua, mas entender seu</p><p>momento presente e situação atual para analisá-la.</p><p>Nessa metáfora, encerra-se o sentido de um enunciado de Saussure: a língua é um</p><p>sistema. Todorov complementa que Saussure mostra que a linguagem é uma</p><p>organização inerente a toda</p><p>língua denominada de SISTEMA (e que seus sucessores</p><p>chamam de ESTRUTURA). “As operações necessárias para determinar uma unidade</p><p>pressupõem que essa unidade seja relacionada com outras e substituídas no âmbito</p><p>de uma organização de conjunto” todo (TODOROV apud DUBOIS et al., 1977, p. 27).</p><p>Assim, quando se fala de sistema ou estrutura de uma língua, quer-se dizer que os</p><p>elementos linguísticos não existem se não tiverem uma relação com o todo.</p><p>Na próxima aula, estudaremos outras teorias linguísticas. Até mais!</p><p>39</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>05</p><p>Funcionalismo</p><p>e Gerativismo</p><p>40</p><p>Olá novamente!</p><p>Na aula passada, estudamos conceitos sobre a de�nição de linguística e vimos uma</p><p>de suas teorias, o estruturalismo, que entende a linguagem é uma estrutura, de tal</p><p>maneira que todas as formas e sentidos estão correlacionados entre si em um</p><p>sistema linguístico e em um determinado momento - a percepção sincrônica da</p><p>língua.</p><p>Para começar, vale destacar que o funcionalismo, que estudaremos agora, é fruto dos</p><p>estudos do estruturalismo, que já estudamos aqui.</p><p>Teoria do Funcionalismo</p><p>Em 1926, na República Tcheca, foi fundado o “Círculo Linguístico de Praga”, um grupo</p><p>formado por estudiosos que romperam com a corrente estruturalista de Saussure</p><p>porque eles não aceitavam solidamente a distinção linguística entre sincronia e</p><p>diacronia proposta pelo linguista suíço.</p><p>Mas a maior contribuição do grupo foi introduzir o conceito de fonologia aos estudos</p><p>linguísticos, consolidando a explicação de que traços como acento, tom da voz e</p><p>duração da fala não diferenciam as formas das palavras, “mas enfatiza a relação entre</p><p>forma e função, considerando a língua como uma estrutura que só pode ser explicada</p><p>se levada em conta a comunicação” (VOTRE E NARO apud MARTINS, 2009, p. 20). Ou</p><p>seja: você pode pronunciar a palavra “porta” com vários sotaques e de várias formas</p><p>que ela sempre terá o mesmo signi�cado, mas dependendo da situação de</p><p>comunicação, você pode usar a palavra como o substantivo que signi�ca uma</p><p>abertura vertical para entrar ou sair de um recinto ou usá-la de modo pejorativo para</p><p>se referir a alguém bronco, parvo, tapado.</p><p>Outra contribuição do Círculo de Praga foi em relação à perspectiva funcional da</p><p>linguagem – daí vem seu nome –, pois para os funcionalistas os enunciados podem ter</p><p>o mesmo signi�cado, mas são empregadas em contextos diferentes. Veja duas frases:</p><p>1 - Vamos tomar café mais tarde.</p><p>2 - Mais tarde, vamos tomar café.</p><p>41</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Do ponto de vista do signi�cado, ambas possuem as mesmas informações, mas são</p><p>ditas de formas diferentes. Assim, a comparação revela que as situações em que</p><p>foram proferidas são diferentes: a primeira tem o foco na ação (“tomar café”), e a</p><p>segunda tem o foco no horário (“mais tarde”).</p><p>A escolha de como arranjar as palavras depende do falante e da ênfase que ele deseja</p><p>dar ao enunciado, pois as estruturas da frase não são �xas.</p><p>O funcionalismo veio para contribuir com o estudo do caráter instrumental</p><p>(prático) da linguagem, o que nos leva a concluir que esta teoria possui</p><p>grande a�nidade temática com os estudos sociolinguísticos (que veremos</p><p>mais adiante).</p><p>42</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Para concluir, leia:</p><p>Para os funcionalistas, a competência comunicativa é fundamental</p><p>para construir e interpretar as expressões linguísticas e o seu uso de</p><p>maneira eficaz. Além disso, esse olhar para a competência</p><p>comunicativa implica a noção de função num sentido amplo, que se</p><p>relaciona ao papel da linguagem na vida dos indivíduos e que</p><p>pressupõe a ideia de universalidade e de variabilidade. Nesse sentido,</p><p>pode-se dizer que a abordagem funcional tem como principal</p><p>questão a verificação dessa competência comunicativa dos usuários</p><p>da língua, uma vez que as estruturas das expressões linguísticas são</p><p>vistas como configurações de funções, observáveis em seus usos.</p><p>Assim, vemos que a própria organização interna da linguagem</p><p>recebe um tratamento funcional (MARTINS, 2009, p. 22).</p><p>Teoria do Gerati�smo</p><p>É impossível falar de gerativismo sem falar de seu desenvolvedor, o linguista</p><p>americano Noam Chomsky (1928 - ), pois sua in�uência ultrapassou os limites da</p><p>linguística e in�uenciou outras áreas tais como a sociologia e a psicologia. O linguista</p><p>dizia ter descoberto uma parte da anatomia humana da qual “ninguém nunca tinha</p><p>ouvido falar”: o órgão da fala – que não era a língua, mas que �cava dentro do</p><p>cérebro (FERNANDES, 2019, on-line), associando, assim, a linguagem ao pensamento.</p><p>43</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Noam Chomsky</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>Em 1959, como extensão do pensamento vygotskyano, Chomsky defendeu que a</p><p>linguagem humana é um objeto que deveria ser estudado também pela psicologia e</p><p>até pela biologia. Era uma proposta para abrir novas direções na compreensão de</p><p>como o ser humano processa informações (MENEZES, 2019, p. 20), e não meramente</p><p>apenas fala ou escreve. Isso está ligado ao gerativismo na busca por respostas de por</p><p>que algumas combinações sintáticas são possíveis em um idioma e em outros</p><p>não. Por exemplo: em português, os adjetivos podem vir tanto antes quanto depois</p><p>do substantivo, e no inglês, devem vir apenas antes.</p><p>44</p><p>https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/bb/Noam_Chomsky%2C_2004.jpg</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>sintaxe</p><p>pronuncia-se “sintásse”</p><p>substantivo feminino</p><p>O conceito mais conhecido do gerativismo é o de que seu interesse é em apontar a</p><p>utilidade em descrever as línguas humanas por meio de gramáticas gerativas, e um</p><p>exemplo é a aquisição da fala pela criança. Segundo os gerativistas, “a criança constrói</p><p>45</p><p>https://www.dicio.com.br/sintaxe/</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>sua gramática a partir do que ela ouve e do que ela tem de inato” (CECATO, 2017, p.</p><p>135).</p><p>Entretanto, há vários estudos que mostram que o ambiente em que a criança está</p><p>inserida não é o bastante para explicar como ela adquire a linguagem (principalmente</p><p>no processo de aprender uma segunda língua). Os problemas são:</p><p>1 - Problema metodológico: adultos também aprendem um segundo idioma</p><p>independentemente do seu ambiente, além de ser necessário de�nir quando começa</p><p>a idade adulta.</p><p>2 - Problema de domínio: a pesquisa exclui o uso da língua, uma vez que a</p><p>preocupação é analisar as competências gramaticais desenvolvidas a partir de um</p><p>conhecimento abstrato e inato ao ser humano.</p><p>3 - Problema teórico: os resultados não levam à de�nição se os participantes da</p><p>pesquisa estão realmente se comportamento de acordo com as diretrizes da</p><p>gramática universal.</p><p>Conclui-se, então, que usar a teoria gerativista para explicar a aquisição da linguagem</p><p>implica desconsiderar outras teorias. Mesmo assim, proponho um exercício de</p><p>exemplo para nos ajudar a entender a di�culdade da teoria. Leia a seguinte oração:</p><p>A PAI CHAMOU A ATENÇÃO DO FILHA.</p><p>Se pensarmos nesse enunciado segundo a proposta gerativista de que há várias</p><p>combinações sintáticas em um mesmo idioma, ela estaria correta, pois utiliza</p><p>elementos disponíveis para formar sentenças na língua portuguesa: os artigos vêm</p><p>antes dos substantivos, a concordância verbal está correta, há sujeito, verbo e objeto</p><p>nessa ordem, etc. Todavia, quando pensamos no que é realmente a língua em uso,</p><p>percebe-se que as combinações entre artigo e substantivo precisam seguir o mesmo</p><p>gênero em português, e ninguém falaria assim.</p><p>De qualquer forma, esse obstáculo não diminui a importância do gerativismo, pois se</p><p>trata de uma teoria que defende que estudar os sistemas linguísticos (sintaxe,</p><p>gramática, fonética, etc.) é válido para admitir a construção de enunciados novos ao</p><p>longo do tempo – justamente o que levou Chomsky a criticar a opinião generalizada</p><p>de que as crianças aprendem a língua materna reproduzindo as falas que elas ouvem</p><p>dos adultos.</p><p>Assim, terminemos a aula com as palavras de Cecato (2017, p. 137, grifo nosso):</p><p>46</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Em outras palavras, para Chomsky, independentemente da idade, os</p><p>falantes criam enunciados novos que são compreendidos pelos</p><p>outros, o que é uma questão importante para se discutir nas teorias</p><p>de aquisição da linguagem justamente por parecer a maior</p><p>contribuição do gerativismo até nossos dias.</p><p>Acesse o link: Disponível aqui</p><p>Para quem ainda não conhece Chomsky, um dos mais importantes</p><p>pensadores do século XX, veja a entrevista que ele concedeu ao programa</p><p>Roda Viva em 1996 sobre assuntos variados da sociedade e do pensamento</p><p>humano.</p><p>47</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=Zx6VlKOU1AM</p><p>06</p><p>Linguística</p><p>Cognitiva</p><p>48</p><p>Olá a todos!</p><p>A linguística cognitiva, uma nova proposta teórica que veio somar ao funcionalismo,</p><p>gerativismo e estruturalismo, e para estudá-la, vamos recorrer a Martelotta (2020)</p><p>para fazer uma breve análise de como era o cenário dos estudos linguísticos quando</p><p>essa escola surgiu.</p><p>Retomando o Gerati�smo</p><p>No �nal da década de 1950, o linguista Noam Chomsky fundou a tendência de</p><p>considerar a linguagem um sistema de conhecimento autônomo e constituída de</p><p>princípios inatos à estrutura gramatical das línguas, hipótese que limita as</p><p>possibilidades das variações existentes em todas as línguas conhecidas. Chomsky</p><p>demonstrou em de�nitivo a importância, para a linguagem, dos fenômenos relativos</p><p>ao modo como nossa mente interage com o mundo que nos cerca e os processos que</p><p>englobam essa interação.</p><p>Para os gerativistas seguidores de Chomsky, as línguas são um re�exo dos princípios</p><p>inatos, inerentes, naturais do homem em relação a outras formas de</p><p>conhecimento, assim, em suas análises, eles passaram a privilegiar “aspectos</p><p>linguísticos universais, deixando de lado as questões sociais e interativas que</p><p>caracterizam o uso concreto da língua nas situações reais de comunicação”</p><p>(MARTELOTTA, 2020, p. 177), pressupondo que o falante ideal de uma língua é aquele</p><p>cuja criatividade linguística se limita a um conjunto finito de regras para gerar um</p><p>número infinito de frases e sentenças.</p><p>Outro aspecto da teoria chomskyana é a modularidade da mente, em que a mente é</p><p>composta de partes (ou módulos), e cada uma dessas partes responde pelo</p><p>desenvolvimento de uma forma de conhecimento – uma é responsável pelo raciocínio</p><p>matemático, outra pela habilidade criativa, pela música, pela linguagem, e assim por</p><p>diante.  Além disso, cada módulo atua separadamente e só tem contato com o</p><p>resultado �nal do trabalho dos outros módulos.</p><p>49</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Essa autonomia propõe que a sintaxe (estrutura das palavras) é</p><p>independente de outros níveis de estrutura gramatical – como a fonologia, a</p><p>semântica, etc. Por exemplo, quando construímos uma frase, estamos</p><p>usando mecanismos sintáticos inatos que não têm muito a ver com</p><p>questões relacionadas ao signi�cado da frase. Assim, o gerativismo tem uma</p><p>base racionalista, pois vê a linguagem como um sistema formal</p><p>interpretado pela lógica.</p><p>Entretanto, muitos estudiosos foram (e são) contra a teoria chomskyana – os</p><p>chamados “cognitivistas” – e expuseram re�exões que abriram caminho para o</p><p>fenômeno cognitivista de analisar as línguas.</p><p>50</p><p>A Revolução da Linguística</p><p>Cogniti�sta</p><p>De início, vale lembrar que a principal crítica dos cognitivistas não se refere à hipótese</p><p>do inatismo, já que os humanos realmente têm habilidades inerentes que os tornam</p><p>capazes de aprender uma ou mais línguas, mas se refere à proposta de que essas</p><p>estruturas e habilidades são especí�cas da linguagem (MARTELOTTA, 2020).</p><p>Para os cognitivistas,</p><p>a linguagem não constitui um componente autônomo da mente, ou</p><p>seja, não é independente de outras faculdades mentais. Sua proposta</p><p>teórica, portanto busca uma visão integradora do fenômeno da</p><p>linguagem com base na hipótese de que não há necessidade de se</p><p>distinguir conhecimento linguístico de conhecimento não linguístico.</p><p>(MARTELOTTA, 2020, p. 179, grifo nosso).</p><p>Inatismo:</p><p>Na �loso�a, ideologia que descreve e analisa o teor inato das ideias do</p><p>indivíduo, a�rmando que estas não dependem daquilo que ele vivenciou ou</p><p>depreendeu após a sua origem (nascimento).</p><p>Na linguística:  de acordo com a teoria gerativa, premissa através da qual as</p><p>normas estruturais da linguagem estariam demarcadas (no indivíduo)</p><p>geneticamente, sendo que sua ativação só seria realizada após o seu</p><p>nascimento.</p><p>51</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Assim, pode-se dizer que a proposta cognitivista foi uma revolução que levou em</p><p>consideração aspectos ligados a restrições cognitivas que incluem a captação de</p><p>dados gerados pela experiência do indivíduo, compreendê-los e armazená-los na</p><p>memória – bem como a capacidade de organização, acesso, conexão, utilização e</p><p>transmissão desses dados linguísticos. E o mais importante: esses aspectos só se</p><p>concretizam socialmente, ou seja, não se trata apenas do funcionamento da mente</p><p>em si, mas de como somos seres socioculturalmente inseridos em um ambiente.</p><p>Resumindo: segundo a visão teórica cognitivista, “há uma relação sistemática entre</p><p>linguagem, pensamento e experiência” (MARTELOTTA, 2020, p. 179).</p><p>52</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O Cogniti�smo e a Interação</p><p>Social</p><p>Percebe, aluno, que a linguística cognitivista tem uma proposta de interação social?</p><p>Isso leva alguns autores a acrescentar outro termo aos estudos desta teoria:</p><p>sociocognitivismo, que serve para enfatizar a importância do contexto em que o</p><p>indivíduo vive nos “processos de signi�cação” e colocar a linguagem com uma forma</p><p>de ação – pois é por meio da linguagem que estudamos, debatemos, trabalhamos e</p><p>nos encaixamos nos inúmeros papéis sociais do nosso cotidiano.</p><p>O termo “processo de signi�cação” quer dizer, segundo Martelotta (2020),</p><p>que na visão cognitivista não há signi�cados prontos, mas mecanismos por</p><p>meio dos quais vamos construindo sentidos a partir de dados ricos e</p><p>dinâmicos que captamos no nosso contexto de vida – os signi�cados não</p><p>são elementos �xos e estáveis, mas resultados de processos de integração</p><p>entre vários campos do conhecimento.</p><p>A linguística cognitivista está ligada à categorização da realidade. Simples atividades</p><p>do dia a dia como, por exemplo, reconhecer que um objeto é uma xícara de café</p><p>“implica associar, ao mesmo tempo, representações visuais e táteis de sua forma, a</p><p>temperatura, o odor e o gosto de café, e também o modo como esse objeto é</p><p>manuseado e utilizado” (MARTELOTTA, 2020, p. 180). Assim, toda vez que ouvimos</p><p>falar em xícara de café, essas representações acontecem em regiões diferentes do</p><p>cérebro.</p><p>53</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Como vimos, a teoria cognitivista da linguagem leva em conta a captação de dados da</p><p>nossa experiência para construir os signi�cados conforme nosso universo</p><p>sociocultural. Trata-se de um processo que não é fácil de explicar, mas segundo os</p><p>cognitivistas, nosso primeiro contato com o mundo acontece por meio dos nossos</p><p>sentidos corporais enquanto bebês – e nossa estrutura corporal é essencial nesse</p><p>processo, pois a percepção que temos do mundo ao redor é limitada por nossas</p><p>características físicas (MARTELOTTA, 2020).</p><p>Segunda Fase da Revolução</p><p>Cogniti�sta</p><p>Aqui, mente e corpo não estão separados, portanto, a organização do pensamento</p><p>está diretamente ligada á estrutura do nosso corpo. É o que nos leva a uma segunda</p><p>etapa da revolução cognitivista.</p><p>Segundo Croft e Cruse (2004 apud COSTA E DUQUE, 2009), em termos gerais, a</p><p>segunda etapa da revolução cognitiva se deu por conta de três</p><p>importantes</p><p>pressupostos básicos:</p><p>54</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>a) As faculdades cognitivas não são separadas: ao contrário do que diz a teoria</p><p>chomskyana, a linguagem não é um módulo inato, autônomo, separado de outras</p><p>capacidades cognitivas do ser humano. Assim, essa parte dos estudos cognitivistas</p><p>descrevem processos cognitivos de interações sociais e culturais.</p><p>b) A estrutura da gramática de uma língua reflete diferentes processos de</p><p>conceitualização: para Langacker (1987 apud COSTA E DUQUE, 2009), gramática de</p><p>uma língua é uma conceitualização; é o re�exo de diferentes processos, pois até</p><p>mesmo os padrões de combinação das diversas estruturas de uma língua são</p><p>resultantes de processos que acontecem no nível do sistema conceitual. Essa</p><p>a�rmação sugere que a linguagem é simbólica em todos os seus aspectos, inclusive</p><p>os morfossintáticos – a junção da morfologia, que estuda as palavras de acordo com</p><p>sua classe gramatical, e a sintaxe, que estuda as palavras de acordo com sua posição</p><p>na frase e pelo contexto linguístico. Essa perspectiva simbólica levou ao</p><p>desenvolvimento da Gramática Cognitiva, que veremos adiante.</p><p>c) O conhecimento linguístico surge a partir do uso da linguagem: de acordo com</p><p>esse pressuposto, o conhecimento linguístico emerge e se estrutura a partir do uso da</p><p>língua em eventos comunicativos reais, ou seja, “categorias e estruturas gramaticais</p><p>são construídas a partir de processos cognitivos gerais que aplicamos às diversas</p><p>situações de uso real da linguagem” (COSTA E DUQUE, 2009, p. 5).</p><p>Assim, estimado aluno, devemos absorver que, com o cognitivismo, a linguagem</p><p>passou a ser vista como um elemento que não pode ser ignorado quando pensamos</p><p>nos mais diversos aspectos da realidade, uma vez que o ser humano é dependente da</p><p>cultura e, portanto, somos seres simbólicos.</p><p>É fato que percebemos que existimos devido à cultura – a partir do trabalho social, da</p><p>vida em grupo e de sua rede de instituições – e que as estruturas de conhecimento</p><p>que nos levam a perceber o mundo ao redor são guiadas por “uma contínua interação</p><p>entre práticas culturais, esquemas cognitivos e linguagem” (COSTA E DUQUE, 2009, p.</p><p>9).</p><p>55</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Assim, as ideias que construímos da realidade não são por nós</p><p>produzidas “livremente”, conforme uma vontade independente,</p><p>pessoal e racional, mas sob a influência de (...) estereótipos culturais</p><p>que, por sua vez, são garantidos e reforçados através da atividade</p><p>discursiva. Não há discurso no vazio. Os sistemas de representação</p><p>construídos discursivamente regulam as estruturas mentais e</p><p>perceptivas dos sujeitos e, ao mesmo tempo, são regulados por elas,</p><p>organizando espaços sociais e articulando significados coletivos.</p><p>Assim, vemos que o fenômeno linguístico é entrelaçado com o contexto sociocultural</p><p>em que ocorre e, ao mesmo tempo, que o contexto em que uma ação discursiva se</p><p>realiza não é separado da memória constituída inclusive por suas emoções.</p><p>56</p><p>07</p><p>O Ponto de Vista</p><p>Linguístico e a</p><p>Pragmática</p><p>57</p><p>Olá novamente, estimados!</p><p>Na perspectiva da linguística cognitivista, que estudamos na aula passada, destacar a</p><p>importância do corpo no modo como vivemos o mundo e a linguagem signi�ca</p><p>admitir “a importância da noção da perspectiva no processo de signi�cação e</p><p>expressão de mundo” (MARTELOTTA, 2020, p. 183).</p><p>Para os cognitivistas, os sentidos do corpo humano são entidades que formam</p><p>conceitos, e as palavras e as estruturas da língua são recursos que simbolizam a</p><p>construção que o falante faz das cenas que ele vive no seu cotidiano. Logo, essa</p><p>construção sempre envolve um falante e uma situação que ele vive, pois toda</p><p>informação é colocada não a respeito de como o mundo realmente é, mas da visão</p><p>que temos dele: os conceitos que formamos estão associados à cultura, ao tempo e à</p><p>inclinação e crenças individuais, que acabam sendo caracterizados no jeito que</p><p>usamos usa a linguagem. É a perspectiva; o ponto de vista de que produz o discurso.</p><p>58</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O Ponto de Vista Linguístico</p><p>Os elementos linguísticos – palavras, frases, pontuação, sons, etc. – têm por função</p><p>garantir que o falante transmita corretamente a sua perspectiva quando está se</p><p>comunicando (MARTELOTTA, 2020), e foram os cognitivistas que propuseram a noção</p><p>de “ponto de vista” linguístico, que se refere às possibilidades que o falante tem de</p><p>realizar mentalmente uma cena antes de falar ou escrever.</p><p>Veja as duas frases a seguir como um exemplo para ilustrar essa noção:</p><p>1 - A vicinal para dentro da cidade é esburacada.</p><p>2 - A vicinal para fora da cidade é esburacada.</p><p>A cena é a mesma: uma vicinal esburacada, mas escolher entre usar o advérbio</p><p>“dentro” ou “fora” depende de como o falante a conceitualiza; está no “movimento</p><p>mental” que o falante faz da cena, ou seja, se ele vê a estrada como uma entrada ou</p><p>como uma saída da cidade.</p><p>Outro exemplo:</p><p>1 - O quadro está sobre a mesa.</p><p>2 - A mesa está sob o quadro.</p><p>As duas frases representam a mesma cena, e a diferença está naquilo que o falante</p><p>quer colocar em perspectiva no seu discurso, o quadro ou a mesa, ou seja, para onde</p><p>ele quer chamar o ponto de atenção da cena. Na frase 1, o ouvinte vai olhar primeiro</p><p>para o quadro, e na frase 2, vai olhar primeiro para a mesa.</p><p>A questão do ponto de vista linguístico está bastante ligada àquilo que se considera a</p><p>linguagem em uso, tema do nosso próximo tópico.</p><p>59</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>O professor, linguista escritor e pesquisador José Luiz Fiorin</p><p>Fonte: Disponível aqui</p><p>A Linguagem em Uso</p><p>Na aula 4, vimos um conceito que explica a língua em uso. Mas o que seria esse</p><p>fenômeno? Para entendê-lo, vamos nos basear em outro grande estudioso</p><p>contemporâneo da Linguística, o brasileiro José Luiz Fiorin (1947 - ).</p><p>Vamos começar com um caso contado pelo próprio Fiorin (2002, p. 165) para explicar</p><p>o que é uma situação concreta da linguagem em uso:</p><p>60</p><p>http://semiotica.fflch.usp.br/node/719</p><p>Fonte: Arquivo pessoal.</p><p>“Certa ocasião, perguntaram a Sérgio Buarque de Holanda se o Chico</p><p>Buarque era filho dele, e ele respondeu:</p><p>- Não, o Chico não é meu filho, eu é que sou pai dele.”</p><p>Perceba que não há nenhum erro gramatical ou sintático na fala de Sérgio Buarque</p><p>de Holanda, e que do ponto de vista semântico (do signi�cado das palavras e da</p><p>interpretação dos enunciados), a resposta de Sérgio é óbvia, pois se ele é pai do Chico</p><p>Buarque, este é seu �lho.</p><p>61</p><p>No entanto, o que Sérgio Buarque pretendia dizer é que, como o Chico era muito mais</p><p>famoso do que ele, não era apropriado apresentar o Chico dizendo que ele era �lho</p><p>do Sérgio, mas que o mais adequado seria dizer que o Sérgio era apenas o pai do</p><p>Chico.</p><p>Com esse exemplo, Fiorin quer nos mostrar que nem as regras semânticas nem as</p><p>sintáticas conseguem explicar o caso acima, pois se trata de entender como a   da</p><p>linguagem foi usada e de conhecer o contexto em que Sérgio e Chico são pai e �lho e</p><p>que, no caso, Chico é mais famoso que Sérgio (embora este tenha sido um dos</p><p>maiores sociólogos do país).</p><p>Ao estudo do uso da linguagem, damos o nome de pragmática.</p><p>Pragmática</p><p>Historicamente, o ponto de partida da Pragmática foram os trabalhos de dois �lósofos</p><p>da linguagem chamados John Austin e Paul Grice. O primeiro diz que a linguagem não</p><p>tem uma função descritiva, mas uma função de agir, pois ao falar, o homem realiza</p><p>um ato. Por exemplo, se alguém diz “Eu prometo estudar mais”, um ato da promessa</p><p>é aí realizado.</p><p>Já Grice explica que a linguagem comunica mais do que aquilo que a pessoa quer</p><p>dizer, pois quando alguém fala, comunicam-se também outros conteúdos implícitos</p><p>(FIORIN, 2002, p. 228): “Quando alguém diz a outro que está se aprontando para sair e</p><p>que já são oito horas, ele não está fazendo uma simples constatação sobre o que</p><p>marca o relógio, mas dizendo: ‘Apresse-se, senão vamos chegar atrasados”.</p><p>Outro exemplo: quando alguém pergunta: “Você tem fogo?”, a pergunta não se refere</p><p>a simplesmente</p><p>se a pessoa tem um isqueiro, mas ela está pedindo que a empreste</p><p>esse objeto. Seria muito estranho se a pessoa respondesse pura e simplesmente</p><p>“Tenho” e não entregasse o isqueiro (ou os fósforos) à pessoa que perguntou, não</p><p>seria? Pois é isso que quer dizer que comunicamos muito mais do que as palavras</p><p>signi�cam.</p><p>Vejamos o assunto pela ótica de Ribeiro e Flores (2019) sobre a diferença entre</p><p>conhecer a gramática e conhecer o uso da linguagem:</p><p>62</p><p>Um exemplo é a concepção, estimulada na escola, de que o sujeito de uma</p><p>sentença é aquele que pratica a ação. Não é isso que se depreende da</p><p>identi�cação dos sujeitos de (1) e (2).</p><p>(1) Lia ganhou um presente de Ana.</p><p>(2) A simpatia de Pedro encantou Luiza.</p><p>Em (1), quem fez a ação de dar um presente é o indivíduo Ana, e não o sujeito da</p><p>oração, o indivíduo Lia.  E em (2), pensando pela linguagem em uso, não foi o</p><p>sujeito “simpatia” quem praticou alguma ação, e sim Pedro, por meio de práticas</p><p>que o tornaram simpático.</p><p>Lembram-se das metáforas, que são �guras de linguagem? Na perspectiva dos</p><p>estudos da Pragmática, elas são um fenômeno de sentido, e não de análise, pois seu</p><p>sentido se afasta bastante do conteúdo literal. Na frase “Ela é o sol da minha vida”,</p><p>por exemplo, é gramaticalmente correta, mas literalmente falsa.</p><p>Na linguística contemporânea, a Pragmática trata do uso da linguagem considerando</p><p>os usuários, o contexto e o conhecimento. Quanto aos usuários, Crystal (1985, p. 240,</p><p>grifo nosso) quanto a este último elemento:</p><p>A pragmática é o estudo da linguagem do ponto de vista de seus</p><p>usuários, particularmente quanto às escolhas que eles fazem, às</p><p>restrições que eles encontram ao usar a linguagem em interações</p><p>sociais e aos efeitos que o uso da linguagem, por parte desses</p><p>usuários, tem sobre os outros participantes no ato da comunicação.</p><p>Percebe-se que, nesta perspectiva, a pragmática explica a inter-relação existente entre</p><p>a linguagem e a situação comunicativa em que esta é geralmente usada. Toda</p><p>interação de troca de mensagens tem uma mensagem envolvida e, assim, pode ser</p><p>de�nida como um ato proposicional, ou seja, o remetente escolhe de propósito os</p><p>enunciados que deseja comunicar.</p><p>63</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>08</p><p>Sociolinguística</p><p>64</p><p>Olá novamente, estimados!</p><p>Os estudos da sociolinguística são de extrema importância principalmente para os</p><p>pro�ssionais do ensino, pois é por meio dele que aprendemos noções de variações</p><p>linguísticas, norma culta e preconceito linguístico – o que nos é muito útil ao</p><p>compreender que nenhum ser individual e nenhum grupo de falantes se comunicam</p><p>da mesma forma, mesmo compartilhando o mesmo idioma e dentro da mesma</p><p>norma padrão. Assim, aprende-se a preservar a individualidade comunicativa do</p><p>aluno.</p><p>Breve História da</p><p>Sociolinguística</p><p>A sociolinguística é uma área que estuda a língua em seu real uso, mas apesar de a</p><p>linguística ser uma ciência que estuda a organização das línguas, nem sempre a</p><p>questão social foi considerada relevante em seus estudos. No início do séc. XX,</p><p>Saussure chegou a falar que a língua era um fato social, mas essa a�rmação não</p><p>emplacou entre os estudiosos da época.</p><p>Uma vez que os linguistas não estavam incorporando os aspectos sociais em suas</p><p>pesquisas, é de se imaginar que os primeiros a abordarem à questão foram os</p><p>sociólogos, porém, seus estudos não foram tão complexos porque não eram</p><p>especialistas em linguísticas. Até que em 1963, uma associação de sociólogos</p><p>chamada Social Science Research Council �nalmente inaugurou os estudos</p><p>sociolinguísticos.</p><p>65</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>A princípio, esta “subdisciplina” não foi bem aceita, mas como nos conta Silva,</p><p>Voltando a Saussure, não há dúvidas de que ele revolucionou a</p><p>história da linguística. (...) mas muitas questões sobre as variações</p><p>linguísticas observáveis não podiam ser resolvidas. Saussure</p><p>reconhecia a mudança linguística, mas, segundo suas teorias, era</p><p>impossível estudá-la em curso, ou seja, em seu processo de</p><p>mudança. Para ele, quando uma mudança linguística pudesse ser</p><p>percebida, observável na língua, é porque ela já tinha ocorrido, já</p><p>tinha sido finalizada. (2013, p. 15, grifo meu)</p><p>66</p><p>Além disso, pouco tempo depois, em 1965, Noam Chomsky – de quem falamos na</p><p>aula 6 – apresentou aos estudiosos o falante-ouvinte ideal, um dos objetos de</p><p>estudo de sua teoria cognitiva. Esse falante-ouvinte seria aquele que pratica uma</p><p>língua perfeita, sem erros, lapsos de memória, agentes externos que afetam sua fala,</p><p>etc.</p><p>Assim, a visão de Chomsky ia contra a sociolinguística, pois, na visão dele, a</p><p>diversidade era irrelevante para a linguística moderna, e a sociolinguística parte</p><p>justamente do princípio de que as variações e transformações são inerentes à língua,</p><p>que pode mudar conforme o ambiente, a época, o contexto social dos falantes, etc.</p><p>Até que um professor polonês chamado Uriel Weinreich (1926 - 1967) passou a voltar</p><p>seus estudos na direção a favor da interferência social no modo de falar e escreve.</p><p>Para ele, a língua é um sistema heterogêneo (que possui uma natureza diversi�cada,</p><p>sortida) – ao contrário dos gerativistas, para quem a língua é homogênea (de natureza</p><p>igual, com estrutura semelhante). A proposta da sociolinguística, então, era que a</p><p>língua pudesse ser ordenada e estruturada e, ao mesmo tempo, ser “inerentemente</p><p>variável” (SILVA, 2013, p. 17).</p><p>A morte prematura de Weinreich aos 41 anos, todavia, não impediu que seu legado</p><p>continuasse: seu orientando William Labov (1927 - )continuou com as pesquisas na</p><p>área e hoje é o nome mais importante da sociolinguística (também chamada de</p><p>linguística variacionista), da qual é fundador.</p><p>67</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Uriel Weinreich e seu orientando e discípulo, William Labov</p><p>Fonte: Arquivo pessoal.</p><p>68</p><p>Definições</p><p>Objetivo da sociolinguística</p><p>O principal objetivo da sociolinguística é entender quais são os principais fatores que</p><p>motivam a variação linguística e qual a importância desses fatores. Aqui, essas</p><p>variações não são vistas como algo que acontece por acaso, mas como um fenômeno</p><p>cultural. A variação linguística é um exemplo claro do caráter adaptativo da língua na</p><p>comunicação, e ao estudá-la, devemos ter em mente que a linguagem se con�gura</p><p>conforme a comunidade de fala e os contextos linguísticos e extralinguísticos que a</p><p>favorecem ou inibem (CEZARIO E VOTRE, 2020).</p><p>Como já dito, a sociolinguística que abordaremos é a teoria variacionista de Lebov,</p><p>cuja metodologia é bem delimitada. Um dos termos utilizados nessa corrente é</p><p>“variante”. Vejamos:</p><p>O termo “variante” é utilizado para identificar uma forma que é</p><p>usada ao lado de outra na língua sem que se verifique mudança no</p><p>significado básico. Tomemos, por exemplo, a variação nos pronomes</p><p>pessoais na primeira pessoa do plural ilustrada com o verbo “falar”.</p><p>Temos as formas “nós falamos” e “a gente fala” como variantes do</p><p>presente do indicativo. Ambas as expressões são aceitas pelas</p><p>pessoas em geral, mas a estrutura “nós falamos” é considerada mais</p><p>formal, enquanto “a gente fala” soa mais coloquial. (CEZARIO E</p><p>VOTRE, 2020, p. 142, grifo meu)</p><p>Diante dessa explicação do uso do verbo de modo formal e de modo informal</p><p>(coloquial), e segundo os autores, veja quais tipos de pergunta podemos nos fazer:</p><p>69</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>mikaela.lazarin</p><p>Destacar</p><p>Fonte: Adaptado de Cezario e Votre, 2020, p. 142.</p><p>1. Em que contexto social um mesmo falante se utiliza de cada uma das duas</p><p>variantes (“nós” ou “a gente”)?</p><p>2. Há diferença nos usos dessas formas ao se compararem crianças, jovens e</p><p>adultos?</p><p>3. Há diferenças ao se compararem pessoas cultas com pessoas analfabetas?</p><p>4. Há diferenças quanto a pessoas de níveis socioeconômicos distintos?</p><p>5. É possível saber se a forma mais coloquial – “a gente fala” – está substituindo</p><p>a forma padrão – “nós falamos”?</p><p>6. Há verbos (os mais formais) que motivam o uso de “nós”? Quais seriam</p><p>esses verbos? E quais outros (os</p>

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