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<p>História da Palestina</p><p>nos Tempos de Jesus</p><p>Material Teórico</p><p>Responsável pelo Conteúdo:</p><p>Prof. Dr. Edgar Silva Gomes</p><p>Prof. Ms. André Valva</p><p>Revisão Textual:</p><p>Prof. Ms. Luciano Vieira Francisco</p><p>O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>• Introdução</p><p>• Jesus e sua Atuação junto aos Pobres de seu Tempo</p><p>• Jesus Confronta os Poderosos e a Cultura da “Não Vida”</p><p>• Jesus e a Pregação da “Boa Nova”</p><p>· Aprender um pouco mais sobre o Jesus que antecede o cristianismo.</p><p>OBJETIVO DE APRENDIZADO</p><p>O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>Orientações de estudo</p><p>Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem</p><p>aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua</p><p>formação acadêmica e atuação profissional, siga</p><p>algumas recomendações básicas:</p><p>Assim:</p><p>Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte</p><p>da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e</p><p>horário fixos como o seu “momento do estudo”.</p><p>Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma</p><p>alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.</p><p>No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e</p><p>sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também</p><p>encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua</p><p>interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.</p><p>Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,</p><p>pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato</p><p>com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.</p><p>Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte</p><p>Mantenha o foco!</p><p>Evite se distrair com</p><p>as redes sociais.</p><p>Mantenha o foco!</p><p>Evite se distrair com</p><p>as redes sociais.</p><p>Determine um</p><p>horário fixo</p><p>para estudar.</p><p>Aproveite as</p><p>indicações</p><p>de Material</p><p>Complementar.</p><p>Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma</p><p>Não se esqueça</p><p>de se alimentar</p><p>e se manter</p><p>hidratado.</p><p>Aproveite as</p><p>Conserve seu</p><p>material e local de</p><p>estudos sempre</p><p>organizados.</p><p>Procure manter</p><p>contato com seus</p><p>colegas e tutores</p><p>para trocar ideias!</p><p>Isso amplia a</p><p>aprendizagem.</p><p>Seja original!</p><p>Nunca plagie</p><p>trabalhos.</p><p>UNIDADE O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>Contextualização</p><p>Saiba que esta Disciplina tem como propósito apresentar um panorama histórico</p><p>do contexto da atuação de Jesus com as discussões mais recentes dessa área; além</p><p>de lhe proporcionar momentos de leitura – textual e audiovisual – e reflexão sobre</p><p>os temas que serão aqui discutidos, contribuindo com sua formação continuada e</p><p>trajetória profissional.</p><p>Esta Disciplina está organizada em seis unidades, cujo eixo principal será o Jesus</p><p>que antecede o cristianismo, ou seja, que dê conta de lhe fazer conhecer, definir,</p><p>classificar e conceituar Jesus e seu tempo como campo de pesquisa, estudo e for-</p><p>mação acadêmica e profissional, é o que você encontrará nas próximas unidades.</p><p>Ademais, perceba que a Disciplina em Educação a Distância pode ser realizada</p><p>em qualquer lugar que você tenha acesso à internet e em qualquer horário.</p><p>Dessa forma, normalmente com a correria do dia a dia não nos organizamos e</p><p>deixamos para o último momento o acesso ao estudo, o que implicará no não</p><p>aprofundamento do material trabalhado, ou ainda na perda dos prazos para o</p><p>lançamento das atividades solicitadas.</p><p>Assim, organize seus estudos de maneira que entrem na sua rotina. Por exemplo,</p><p>você poderá escolher um dia ao longo da semana ou um determinado horário</p><p>todos ou alguns dias e determinar como o “momento do estudo”.</p><p>No material de cada Unidade há videoaulas e leituras indicadas, assim como</p><p>sugestões de materiais complementares, elementos didáticos que ampliarão sua</p><p>interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.</p><p>Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em</p><p>fóruns de discussão, assim como realize as atividades de sistematização, estas que</p><p>lhe ajudarão a verificar o quanto absorveu do conteúdo: são questões objetivas que</p><p>lhe pedirão resoluções coerentes ao apresentado no material da respectiva Unidade</p><p>para, então, prepará-lo(a) à realização das respectivas avaliações. Tratando-se de</p><p>atividades avaliativas, se houver dúvidas sobre a correta resposta, volte a consultar</p><p>as videoaulas e leituras indicadas para sanar tais incertezas.</p><p>Importante!</p><p>Você é responsável pelo seu processo de estudo. Por isso, aproveite ao máximo esta</p><p>vivência digital!</p><p>Importante!</p><p>8</p><p>9</p><p>Introdução</p><p>A partir deste momento contextualizaremos a Palestina no tempo de Jesus, em</p><p>seus aspectos político, econômico, religioso e social, em suas disputas e conflitos,</p><p>em uma sociedade onde Jesus de Nazaré se fez homem, viveu e conviveu, sujeito</p><p>às leis e à cultura de seu tempo, ou seja, entenderemos a prática de Jesus em seu</p><p>tempo segundo sua pregação.</p><p>Jesus e sua Atuação junto</p><p>aos Pobres de seu Tempo</p><p>A História de Jesus e muito depois do cristianismo, está profundamente enraizada</p><p>à história de Israel que, segundo J. Bright (1978, p. 15), “[...] de acordo com a</p><p>Bíblia, a história de Israel começou com a migração dos patriarcas hebreus da</p><p>Mesopotâmia para a sua nova pátria na Palestina”. A história do povo de Israel está</p><p>encravada em algum lugar do passado há aproximadamente dois mil anos antes do</p><p>nascimento de Jesus, que se deu em torno de 5 a.C., segundo o calendário cristão.</p><p>Os israelitas em sua longa história, viveram entre longos cativeiros e alguns poucos</p><p>tempos de bonança. Esse povo foi cativo de grandes impérios e imperadores ao</p><p>longo da história da humanidade; os hebreus ficaram sob o domínio dos impérios</p><p>egípcio, babilônio, grego e romano. Segundo seus crentes, isso se deveu em muitos</p><p>casos aos abusos cometidos pelos hebreus contra a aliança com Deus. A quebra</p><p>da aliança de parte do povo hebreu contra Deus foi, ainda segundo esta mesma</p><p>crença, a causa do envio, por parte de Deus, de seu filho, Jesus, para a derradeira</p><p>aliança com seu povo; contudo, muitos não acreditaram nessa possibilidade – para</p><p>os que creram e creem, Jesus é o salvador da humanidade!</p><p>A história desse Jesus, homem-salvador, sempre foi e será alvo de controvérsias,</p><p>religiosas ou não, pois a maioria dos escritos que se relacionam à existência his-</p><p>tórica de Jesus corresponde a não biográficos, muitos dos quais teológicos, e que</p><p>fazem parte dos textos bíblicos seguidos por seus fiéis como, por exemplo, os evan-</p><p>gelhos sinóticos. Segundo Pierini (1995), “[...] Jesus, o fundador do cristianismo, é</p><p>personagem com uma consistência histórica especial [...]”, e isto se deve, segundo</p><p>o autor de A Idade Antiga, por causa das perguntas que não são de fácil resposta:</p><p>“[...] em que ano e em que dia nasceu, quanto durou sua existência terrena, quan-</p><p>do morreu, quando ressuscitou, ninguém está em condições de dar uma resposta</p><p>precisa [...]”, e isto diz respeito justamente a não termos dados historiográficos</p><p>precisos sobre tais fatos, uma vez que Jesus, segundo esse autor, é “[...] a persona-</p><p>gem histórica por excelência, o centro mesmo da história, o homem profetizado há</p><p>séculos, a plenitude dos tempos (Gl 4,4; Ef 1,10)” (PIERINI, 1995, p. 39).</p><p>9</p><p>UNIDADE O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>Porém, de qual contexto histórico emergiu esse Jesus? Como estava a situação</p><p>dos hebreus pobres? Qual era a circunstância dos hebreus poderosos em relação à</p><p>população pobre que, mais uma vez, encontrava-se sob o domínio de um grande</p><p>império, o romano? Segundo Silva ([20--], p. 1), a história se repetiu quando os</p><p>judeus caíram sob o domínio do império romano, perdendo sua breve liberdade no</p><p>ano de 63 a.C., quando Pompeu dividiu o reino hasmoneu.</p><p>Portanto, sabemos que Jesus viveu em um contexto histórico onde, mais uma</p><p>vez, seu povo era dominado por um grande império, então sob a batuta de um</p><p>dos maiores impérios que a humanidade</p><p>conheceu, o romano que, em sua política</p><p>externa, governava os acordos com as elites locais para manter seu domínio por vastas</p><p>extensões. Como nos informa Silva ([20--]), a estrutura de patronagem e clientelismo</p><p>foi implantada com sucesso entre os judeus por conta do apoio da elite local que seria</p><p>beneficiada com os acertos realizados com os dominadores estrangeiros.</p><p>A elite local, de acordo com pesquisas mais recentes, vem confirmado que pou-</p><p>co ou nada mudou em seu estilo de vida. Segundo Silva ([20--]): “A riqueza dos</p><p>abastados de Jerusalém só se tornou plenamente evidente nos últimos anos, quan-</p><p>do arqueólogos desenterraram, em Jerusalém, grandes casas particulares com mo-</p><p>biliários luxuosos com aproximadamente 600 metros”. Silva ([20--]) cita Faulkner</p><p>(2004) em uma descrição desse tipo de propriedade: “Como podemos notar, a vida</p><p>dos sumos sacerdotes e de outros membros da aristocracia judaica era repleta de</p><p>luxo e suntuosidade, excedendo em todo o tipo de artefato e construção dos mais</p><p>bem-conceituados da moda greco-romana da época”.</p><p>A situação vivida pela elite judaica em relação ao poder dos romanos era pra-</p><p>ticamente inversa à circunstância vivida pela população pobre. Para Silva ([20--])</p><p>havia grande disparidade entre os estilos de vida dos ricos e dos pobres em regiões</p><p>como, por exemplo, Cafarnaum, Galileia e Qumran.</p><p>Observe a descrição de Faulkner (apud SILVA, [20--]) para os estilos das residên-</p><p>cias nas localidades acima citadas:</p><p>Cada (casa) era construída de blocos de basalto cru com seixos de</p><p>argamassa e lama misturados e cobertos com estuque. Os telhados eram</p><p>feitos de ramos de árvores e juncos misturados com argamassa. As casas</p><p>eram muito pequenas, compreendiam cerca de 7 x 6,5 metros, com</p><p>um único cômodo quadrado. Contudo, apenas a metade ou um terço</p><p>das casas tinham esse tamanho, as outras eram bem menores [...]. Os</p><p>artefatos domésticos encontrados eram numerosos e principalmente</p><p>feitos em casa: as famílias camponesas podiam ter carência de dinheiro</p><p>e, consequentemente, dificuldade em adquirir os artefatos, mas não a</p><p>habilidade de fazê-los.</p><p>Por mais anacrônico que possa parecer, vejamos a citação do profeta Jeremias,</p><p>Capítulo 23, partes 1 e 2, que em seus “oráculos messiânicos” diz o seguinte: “[...]</p><p>ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho [...] contra</p><p>os pastores que apascentam meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, as</p><p>expulsastes e não cuidastes delas”.</p><p>10</p><p>11</p><p>Jeremias advertia os poderosos do povo de Deus por estarem desprezando a Sua</p><p>palavra, sendo relapsos com seu próprio povo e prestes a caírem sob o domínio de</p><p>Nabucodonosor, poderoso rei babilônico. No contexto em que Jesus atuava, a elite</p><p>judaica estava em aliança com os romanos e, mais uma vez na história, seus pobres</p><p>sendo negligenciados. Portanto, havia os ricos e os pobres explorados. Os ricos</p><p>controlavam a mão de obra nas vilas e no campo, ou seja, a elite detinha a riqueza</p><p>local e os produtores da riqueza, naquele contexto, explorando os camponeses.</p><p>Os pobres, em geral, produziam o suficiente para a própria subsistência, além</p><p>dos camponeses, estes que vendiam sua mão de obra no campo ou como oleiros,</p><p>carpinteiros, curtidores e outras atividades locais nas vilas,</p><p>[...] tais grupos sempre existiram, mas a proporção variava, e o que era</p><p>decisivo para isto era a alta taxa de exploração imposta nas vilas pela classe</p><p>dominante [... porém,] as evidências que nós apontamos seguem em direção</p><p>a uma intensificação da exploração e empobrecimento do campesinato</p><p>judeu no período greco-romano (FAULKNER apud SILVA, [20--]).</p><p>De acordo com Goodman (apud SILVA, [20--]), há “[...] uma possível explicação:</p><p>os ricos adquiririam sua riqueza à custa de camponeses, os quais, às vezes, sofriam</p><p>de uma colheita ruim após seca”.</p><p>É contra a exploração de seu povo, de todo povo, em especial dos esquecidos</p><p>pelas elites que Jesus se dirige, prioritariamente, em sua atuação político-religiosa,</p><p>de modo que uma não se separa da outra em nenhum momento da atuação de</p><p>Jesus em defesa de seu povo, o povo judeu. Contudo, Jesus nasceu em um mundo</p><p>em conflito de interesses e poder, onde os “judeus” que governavam seu povo em</p><p>nome do império romano viviam de articulações e traições para se manterem no</p><p>topo da sociedade de sua época, e Herodes era o “poder” no contexto que antecedeu</p><p>o nascimento de Jesus, mas o rei teve que enfrentar, inclusive, a ambição de seus</p><p>herdeiros mais próximos. Herodes nunca foi um rei amado pelo seu próprio povo,</p><p>pois, segundo Saulnier e Rolland (1983, p. 18), o rei era “[...] príncipe de tipo</p><p>helenístico, mas de origem árabe, sem parentesco com a família dos Asmoneus,</p><p>Herodes jamais conseguiu conquistar a simpatia dos judeus piedosos. Era filho dum</p><p>idumeu, Antípater, e duma nabatéia”.</p><p>Os filhos de Herodes, Alexandre e Aristóbulo, que teve com sua primeira mulher,</p><p>Mariana, foram julgados e mortos pelos romanos, com total consentimento do pai,</p><p>por tramarem sua queda antes de sua morte, “de olho” na sucessão dinástica. Essas</p><p>disputas colocaram em risco a confiança que Herodes disfrutava junto à Cesar Au-</p><p>gusto e para mantê-la não hesitou em destruir nem mesmo seus primogênitos. De</p><p>acordo com Saulnier e Rolland (1983): “Pouco antes da morte, Herodes determinara</p><p>como seria sua sucessão [...]”, deixando a herança do poder para “[...] Arquelau, filho</p><p>de Maltace, uma samaritana, herdaria o título de rei; Herodes Antipas se tornaria</p><p>tetrarca da Galiléia e da Peréia; Herodes Filipe, filho de Cleópatra, seria o tetrarca</p><p>da Gaulanítide, da Traconítide, da Batanéia e de Pânias [...]”, que foi contestada pela</p><p>elite farisaica, mas foi mantida por Roma conforme a vontade de Herodes.</p><p>11</p><p>UNIDADE O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>Porém, os escândalos causados por Arquelau com seus casamentos “[...] ao</p><p>desposar uma princesa da Capadócia, casada anteriormente com Alexandre (filho</p><p>de Mariana I) e com Juba da Mauritânia. Além disso, considerado cruel e brutal,</p><p>foi acusado perante Augusto por uma delegação de judeus e de samaritanos”</p><p>(SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 18).</p><p>O contexto que antecedeu ao nascimento de Jesus refletiu o que a sociedade</p><p>judaica vivia e porque a aliança do povo de Israel com seu Deus estava quebrada.</p><p>Tal situação persistiu durante a vida do Jesus histórico, apesar de sua exortação em</p><p>favor de seu povo e contra os poderosos de seu tempo, não apenas os romanos,</p><p>mas da elite de seu próprio povo.</p><p>Com a queda de Arquelau, o representante de Roma foi um procurador nomeado</p><p>pelo imperador romano. A situação do povo israelita ficava cada vez mais difícil.</p><p>Os impostos sobrecarregavam os mais pobres, aqueles que viviam da terra e que</p><p>tinham pouco para sobreviver. Jesus vivia nesse contexto e estava ao lado do pobre</p><p>que sofria com todo tipo de exploração em uma terra que contava com muitas</p><p>riquezas, afinal, havia cobrança excessiva de impostos e o pobre subsistia sob</p><p>pesada tributação. “Ao longo da estrada inteira [...] não cessam de pagar, aqui pela</p><p>água, ali pela forragem ou pela hospedagem durante as paradas e pelas diversas</p><p>taxas. Assim é que as despesas se elevam a 688 denários por camelo, até que se</p><p>atinja a costa mediterrânea” (PLÍNIO apud SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 21).</p><p>Até aproximadamente o ano de 66 d.C., o governo da Palestina estava sob a</p><p>responsabilidade de príncipes herodianos e os publicanos eram os responsáveis</p><p>pela cobrança dos impostos e pelo controle dos trabalhos de arrecadação das taxas</p><p>pagas pelo povo, os publicanos eram “[...] financistas, geralmente oriundos da</p><p>ordem eqüestre, têm coletorias que contratam empregados no local. Lucas nos</p><p>conta assim a vocação de Levi-Mateus: Jesus saiu, viu um publicano chamado Levi,</p><p>sentado na coletoria de impostos (Lc 5,27)” (SAULNIER; ROLLAND, 1983, p.</p><p>21). Era muita exploração para esse povo que cria na dádiva gratuita da terra dada</p><p>por Deus para seus descendentes.</p><p>Segundo creem os judeus, a Palestina, dada de herança aos hebreus por seu</p><p>Deus,</p><p>era uma terra rica e cheia de dádivas, e isso causava interesse de outros</p><p>povos. A agricultura era uma verdadeira benção de Deus para seu povo. O trigo era</p><p>abundante em toda a terra, abastecia a Judeia e Israel. A cevada era outra dádiva</p><p>dada por Deus e abundante na região. Havia ainda outras culturas importantes na</p><p>dieta da Palestina, onde encontravam-se figueiras, oliveiras, vinhas – que estavam</p><p>por toda a parte na Judeia e eram essenciais para o consumo no Templo. E não era</p><p>apenas isso, havia muito mais abundância na terra abençoada por Deus, havia “[...]</p><p>frutas ou legumes, [...] lentilhas, ervilhas, alface, chicória, agrião; há tal abundância</p><p>de frutas e de legumes de toda espécie, que se costuma dizer que o peregrino tem</p><p>certeza de encontrar tudo que precisa em Jerusalém” (SAULNIER; ROLLAND,</p><p>1983, p. 23).</p><p>12</p><p>13</p><p>Um setor carente da economia da Palestina era o da pecuária: “Josefo fala sem</p><p>dúvida do leite muito abundante da Judéia-Samaria, o que supõe animais [...]. Na</p><p>criação dos rebanhos, numerosos na Judéia, o interesse está somente nas ovelhas</p><p>[...] e nos cordeiros (necessários para o culto)” (SAULNIER; ROLLAND, 1983,</p><p>p. 24). A carne consumida em toda a região era obtida por meio da importação</p><p>de regiões como Transjordânia, Moab e Saron. Porém, o consumo da carne era</p><p>reservado em sua maioria para a elite e para o Templo, enquanto a população em</p><p>geral só consumia carne em dias de festa, ou seja: “[...] a Palestina do séc. I é um</p><p>país bastante rico no setor agrícola, satisfazendo amplamente às suas necessidades,</p><p>não obstante possuir uma população relativamente densa para a época: 600 mil</p><p>habitantes em 20 mil km2” (SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 25).</p><p>A economia contava ainda com uma relevante indústria pesqueira, a construção</p><p>empregava um contingente razoável de operários, segundo Saulnier e Rolland</p><p>(1983), esses trabalhadores poderiam chegar a mais ou menos dezoito mil e estavam</p><p>empregados na Cidade de Jerusalém para a construção e reforma do Templo,</p><p>além de se ocuparem das obras de pavimentação da cidade. Outra ocupação, em</p><p>especial no emprego da mão de obra feminina, era a da fiação e tecelagem de lã,</p><p>dado que os homens que se ocupavam desse ofício não eram bem vistos.</p><p>Figura 1</p><p>Fonte: Wikimedia Commons</p><p>13</p><p>UNIDADE O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>A indústria do couro e da cerâmica também estava presente na sociedade</p><p>palestina. Havia ainda o comércio, principalmente em torno das necessidades do</p><p>Templo, movimentando bastante o capital da região; mas não era somente isso,</p><p>havia ainda outras atividades econômicas importantes na Palestina, tais como o</p><p>betume, “[...] substância viscosa e colante que, em certa época do ano bóia sobre</p><p>as águas de um lago da Judéia chamado Asfáltico” (PLÍNIO apud SAULNIER;</p><p>ROLLAND, 1983), que era um produto importante, inclusive, para a exportação</p><p>a outras regiões como, por exemplo, o Egito, onde “[...] é utilizado não só para</p><p>a calafetagem dos navios, mas também como remédio: entra na composição de</p><p>muitos produtos farmacêuticos” (JOSEFO, [19--?], p. 481).</p><p>Segundo Saulnier e Rolland (1983): “Em Jerusalém concentra-se todo um</p><p>artesanato de luxo, quer para o Templo (perfumes), quer para os peregrinos que já</p><p>naquele tempo apreciavam os bibelôs-lembranças da Cidade Santa! Como centro</p><p>de peregrinação [...]”, e não era só: “Jerusalém conhece ainda outros ofícios que</p><p>são mais raros em outros lugares: padeiros, carregadores de água, barbeiros e até</p><p>mesmo um serviço de limpeza urbana, para manter a pureza nas vizinhanças do</p><p>Templo” (SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 26).</p><p>Apesar da abundância descrita acima, as condições do homem do campo, nos</p><p>tempos de Jesus, eram bastante sofridas, as perdas ocorridas por causa de secas e</p><p>outros problemas com as colheitas: ao invés de ter a compreensão dos poderosos,</p><p>muitas vezes acarretavam na perda da propriedade do pobre para os ricos e</p><p>poderosos, ocasionando grande violência econômica, além da violência simbólica</p><p>para o camponês habituado à sua terra – não apenas a terra como propriedade,</p><p>mas como pertencimento a um espaço físico que representava a sua vida e fé.</p><p>Nesse sentido, Jesus não pregava uma revolução política, mas uma resistência</p><p>contra o espólio dos valores culturais. Era, na realidade, uma revolução social bem</p><p>demarcada, para que todos tivessem vida, e tivessem vida plenamente; era</p><p>uma pregação que tinha a pretensão de conscientizar o povo pobre de Israel para</p><p>defender sua libertação plena. Era uma revolução que visava resgatar o espaço físico</p><p>desse povo, mas também o que havia de simbólico naquela cultura, a solidariedade</p><p>entre irmãos, que ia muito além da caridade restrita à benevolência dos ricos para</p><p>com os pobres, condição ligada apenas ao seu significado material estrito. Mas</p><p>não era isso que pregava Jesus: sua revolução contemplava o indivíduo inserido na</p><p>coletividade, ou seja, o sujeito-cidadão que estava em relação à comunidade e que</p><p>se sentia sujeito de transformação social.</p><p>Jesus age na transformação do indivíduo para atingir a coletividade, é o sujeito</p><p>que sai de si e vai de encontro ao outro, voltando transformado desse encontro!</p><p>Agindo no indivíduo, Jesus age na sociedade. E mais, Jesus veio para todos, defende</p><p>o pobre dos opressores, mas também chama os opressores à salvação. “Depois</p><p>disso, saiu, viu um publicano, chamado Levi, sentado na coletoria de impostos e</p><p>disse-lhe: ‘Segue-me!’ E levantando-se, ele deixou tudo e o seguia” (Lc 5, 27).</p><p>14</p><p>15</p><p>A Dinastia dos Hasmoneus começa com a famosa história de Hanukkah. Na sequência da</p><p>conquista da Terra de Israel por Alexandre, o Grande, que anexou a maior parte do Mundo</p><p>Antigo, a Terra Santa fi cou sob o controle dos governantes Gregos Selêucidas. Os Selêucidas</p><p>proibiram o estudo da Torá e profanaram o Templo Sagrado, na tentativa de erradicar a</p><p>religião e a cultura judaicas [...] o povo judeu revoltou-se, em 166 A.E.C., sob a liderança</p><p>do heroico Judas Macabeu, da família dos Hasmoneus [...]. Os Hasmoneus governaram a</p><p>Terra de Israel por quase um século. Acreditavam que a sua Dinastia era a continuação da</p><p>Era dos Shoftim (Juízes) e dos Reis, dos primórdios de Israel, e consolidaram o poder judicial,</p><p>religioso, político e militar. Também expandiram as fronteiras físicas da Terra, restaurando</p><p>quase todas as fronteiras da Era de Salomão.</p><p>Ex</p><p>pl</p><p>or</p><p>Fonte: https://goo.gl/KX0Nxm, grifos do autor.</p><p>Jesus Confronta os Poderosos</p><p>e a Cultura da “Não Vida”</p><p>Segundo a Bíblia de Jerusalém (1995), pelo ano 7 a.C., Herodes mandou</p><p>estrangular seus dois filhos, Alexandre e Aristóbulo; mais de seis mil fariseus</p><p>negaram juramento a Augusto na ocasião de um recenseamento na região, na</p><p>ocasião do nascimento de Jesus, entre 7 e 6 a.C.; por volta do ano 4 a.C., houve</p><p>a execução de Antípater, filho mais velho de Herodes, que fez seu testamento em</p><p>favor dos filhos de Maltace, a samaritana, Arquelau e Herodes Antipas e de Felipe,</p><p>filho de Cleópatra, Herodes morreu em Jericó e seu filho, Arquelau, transportou</p><p>seu corpo para o Herodion.</p><p>Após a morte de Herodes, Arquelau sufocou uma sublevação em Jerusalém e</p><p>partiu para receber das mãos de Augusto, em Roma, a investidura de governante.</p><p>No ano 4, Sabino foi para Jerusalém fazer o inventário dos recursos do reinado</p><p>de Herodes e constatou que o País vivia uma séria instabilidade político-social.</p><p>Segundo a Bíblia de Jerusalém (1995), foi nesse contexto que se deu a revolta de</p><p>Judas Galileu (At. 5, 37) e do fariseu Sadoc, ambos contrários à obediência à Roma</p><p>e à cobrança de impostos, sendo nesse período que surgiram os zelotas (Mt 22,</p><p>17). Houve grande repressão contra os revoltosos – há notícias de mais de dois mil</p><p>crucificados devido à intervenção de Varo.</p><p>Os registros do historiador judeu-romano Flávio Josefo repetem os aconteci-</p><p>mentos do ano 4, segundo o qual a agitação deveu-se ao recenseamento de Qui-</p><p>rino; porém, no ano 6, segundo Josefo, a revolta de Judas e Sadoc teria ocorrido</p><p>em ocasião do inventário dos bens de Arquelau, portanto,</p><p>há uma duplicata desse</p><p>relato histórico, ou seja, houve a revolta de Judas e Sadoc contra o império roma-</p><p>no, ação que foi violentamente sufocada. As revoltas se tornaram constantes na</p><p>época de Jesus e em larga escala estavam relacionadas diretamente à exploração</p><p>dos pobres.</p><p>15</p><p>UNIDADE O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>Tudo parecia ser motivo para se criar um novo imposto, havia, inclusive, o</p><p>imposto vinculado ao templo, e Jesus não hesitou em recriminar os excessos em</p><p>relação à religião de seu tempo, expulsando os vendedores e cambistas do Templo.</p><p>Jesus estava defendendo a inclusão de todos, inclusive dos que não podiam mais</p><p>frequentar a Casa de Deus em consequência da “gentrificação” ocorrida na religião</p><p>judaica, e lembrava o motivo de sua revolta contra os abusos que ocorriam: “Não</p><p>está escrito: minha casa será chamada casa de oração para todos os povos? Vós,</p><p>porém, fizestes dela um covil de ladrões!” (Mc 11, 17). Havia na Lei judaica impostos</p><p>devidos ao Templo, mas Jesus chamava a atenção para a discriminação ocorrida</p><p>contra os excluídos de seu povo. Segundo Silva ([20--]), aos impostos devidos ao</p><p>Estado se acumulavam impostos devidos ao Templo:</p><p>Outros são os impostos diretos que o Estado romano exige: o tributum</p><p>soli ou agri, sobre o capital e a produtividade rural, que atinge os</p><p>produtores rurais, principalmente os proprietários de terra. Além desse,</p><p>tem o tributum capitis, que segue dois critérios: taxa fixa de um denário,</p><p>cobrada das mulheres a partir de 12 anos e dos homens a partir de 14</p><p>anos, para ambos até aos 65 anos. E o imposto territorial de 1% sobre o</p><p>valor imobiliário. Os romanos também exigem o pagamento do annona,</p><p>uma contribuição anual, geralmente em espécie, destinada a suprir as</p><p>necessidades das tropas de ocupação. Além desses impostos exigidos</p><p>pelos romanos, há todos os tributos estabelecidos na Lei judaica e que</p><p>estão intimamente vinculados ao Templo, a exemplo dos dízimos e da</p><p>didracma para o Templo. O que significa, em comparação com outros</p><p>povos, uma dupla tributação.</p><p>Jesus pregava a caridade, mas não era uma caridade paternalista, em um</p><p>contexto em que o rico estava cada vez mais agarrado às suas posses: “[...] vai,</p><p>vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu [...]. Ele, porém,</p><p>contristado com essa palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens”</p><p>(Mc 10, 21-22). O rico não se desprendia de suas posses e o pobre estava cada</p><p>vez mais miserável, sendo explorado de todas as formas; havia ainda a exploração</p><p>do Estado que, espoliando ainda mais o pobre, independentemente das condições</p><p>pelas quais este passava, ao pobre era dificultado o acesso aos bens mais básicos</p><p>para a sua sobrevivência, e os impostos cobrados dificultavam ainda mais a vida já</p><p>bastante sofrida naquele contexto, e pior, “[...] a consequência dos altos impostos</p><p>é um encarecimento dos produtos e um empobrecimento gradativo da população,</p><p>porque os tributos têm que ser pagos independentemente das colheitas; em anos</p><p>bons ou ruins, era fixo” (SILVA, [20--]). Ademais, quando o pequeno agricultor não</p><p>conseguia arcar com tantos impostos, acabava perdendo a sua propriedade, em</p><p>geral, seu único meio de sobrevivência e de sua família, que era uma família em</p><p>sentido mais amplo do que a família que surgiu com a burguesia na Idade Moderna</p><p>– a que conhecemos atualmente.</p><p>Todavia, mencionar impostos e outros aspectos materiais não resume toda a</p><p>discriminação político-social existente nos tempos de Jesus, e este aspecto é um</p><p>dos mais fundamentais na sua pregação, o preconceito religioso-cultural:</p><p>16</p><p>17</p><p>A terra pertence a Deus que a dá a seu povo; todos são iguais diante dele</p><p>[...]. Fora preciso inventar instituições como o ano sabático ou jubilar,</p><p>para relembrar esta igualdade social [...], pois necessariamente a cultura, a</p><p>riqueza, a profissão, criavam diferenças. Por outro lado, para os judeus, a</p><p>Lei Civil não é outra senão a Torá, a Lei Religiosa: os que são seus guardi-</p><p>ães ou seus intérpretes, os sacerdotes e também os escribas têm, pois, por</p><p>força das circunstâncias, um lugar mais importante. “Entre outros povos</p><p>— escreve Josefo — outras considerações permitem determinar a nobre-</p><p>za; entre nós, porém, é a posse do sacerdócio que é prova duma ilustre</p><p>origem” – Autobiografia I, 1 – (SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 39).</p><p>Desde 538 a.C., o sumo sacerdote passou a ser a referência máxima da Lei e</p><p>da moral para o povo de Israel, porém, não é bem assim:</p><p>Por causa das suas funções, o sumo sacerdote goza de grande dignidade,</p><p>o que lhe vale uma situação financeira confortável: cada tarde, é o</p><p>primeiro a escolher a sua parte entre as oferendas feitas ao Templo e</p><p>destinadas aos sacerdotes. O Templo é também uma fonte de renda</p><p>para ele; era, com efeito, um centro de comércio muito importante: por</p><p>causa das regras de pureza em vigor quanto aos animais que se devem</p><p>oferecer em sacrifício, os peregrinos são praticamente obrigados a</p><p>comprar essas vítimas no próprio Templo; além disso, compra-se muita</p><p>madeira de valor, perfumes e outros objetos de luxo, únicos dignos do</p><p>Senhor. Ora, todo esse comércio pertence à família do sumo sacerdote</p><p>ou então é confiado a grandes comerciantes que oferecem propinas para</p><p>participarem do negócio. Como esses meios nem sempre satisfazem os</p><p>apetites do sumo sacerdote e os de sua família, às vezes ele se serve</p><p>de outros: apropria-se pela força das peles dos animais degolados, que</p><p>deveriam pertencer aos outros sacerdotes, vai aos sítios roubar o dízimo</p><p>que lhes é igualmente destinado [...]. Ou usa a intriga, a chantagem, e até</p><p>o assassinato. (SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 39).</p><p>Tal situação estava cada vez mais insustentável, dado que para grande parte dos</p><p>sumos sacerdotes a “Lei” e a “moral” de Israel estavam corrompidas pelo poder</p><p>e pelas regalias dadas pelo império romano. O sinédrio era um verdadeiro covil</p><p>de feras que defendiam apenas seus interesses e os do império romano. Era uma</p><p>situação de “morte moral” na pele daqueles que deveriam ser fonte de instrução</p><p>e sabedoria para o povo de Deus. Em uma sociedade estática, com imensas</p><p>dificuldades de ascensão social, determinada pelo nascimento e pela religião –</p><p>sacerdote ou não, judeu puro ou bastardo, rico ou pobre –, os miseráveis e as</p><p>mulheres receberam atenção especial de Jesus, e tal atitude causava escândalo aos</p><p>ouvidos da elite, esta que se voltava cada vez mais contra a sua pregação.</p><p>Contudo, Jesus não se intimidava e seguia exortando seus seguidores a mudarem</p><p>de vida. A trave no olho e o cego que recupera a visão são exemplos de parábolas</p><p>que instigavam os seus contemporâneos a perceberem as injustiças existentes naquela</p><p>sociedade. O Homem de Nazaré combateu os poderosos de seu tempo, os portadores</p><p>da cultura da “não vida” e convidou outros a seguirem os seus passos, a combaterem</p><p>aquele poder que causava a destruição do projeto de Deus para seu povo.</p><p>17</p><p>UNIDADE O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>Sinédrio: do grego synédrion (sentar-se juntos) – é a corte suprema de Israel. Suas origens</p><p>remontam, sem dúvida, à época persa e suas primeiras menções ao reinado de Antíoco III</p><p>(223-187). Foi instituído no tempo de João Hircano (134-104). Como nas cidades helenís-</p><p>ticas, é um conselho que assiste o sumo sacerdote, chefe supremo da Nação que é seu</p><p>presidente. Compreende 71 membros: anciãos, os sumos sacerdotes depostos, sacerdotes</p><p>saduceus e depois, cada vez mais, escribas fariseus. Herodes Magno limitou seus poderes,</p><p>mas sob a ocupação romana, estes foram restabelecidos e até mesmo ampliados. Corte de</p><p>justiça, julga delitos contra a Lei, fixa a doutrina e, finalmente, controla toda a vida religi-</p><p>osa. Tem-se discutido muito, sem chegar a uma certeza, para saber se tinha, à época de</p><p>Jesus, o poder de executar um condenado. Em todo caso, para pronunciar uma condenação</p><p>à morte, eram necessárias duas sessões com 24 horas de intervalo. Tinha uma guarda à sua</p><p>disposição (Jo 18, 3.12). Após a catástrofe de 70 d.C., reconstituiu-se</p><p>em Jâmnia, mas foi,</p><p>então, uma instituição completamente diferente na sua competência e no seu espírito. Em</p><p>toda a Palestina havia pequenos sinédrios de três membros, entre os quais o juiz (Mt 5, 25).</p><p>Ex</p><p>pl</p><p>or</p><p>Figura 2</p><p>Fonte: Wikimedia Commons</p><p>Jesus e a Pregação da “Boa Nova”</p><p>Segundo Alberto Nolan (1987, p. 200): “Jesus não reivindicou títulos divinos</p><p>ou autoridade divina, mas ele reivindicou, sim, o conhecimento da Verdade, e um</p><p>conhecimento que não precisava se apoiar em nenhuma autoridade a não ser a</p><p>própria verdade”. Jesus é a palavra e a ação traduzidas em “Boa Nova”, dado que</p><p>sua luta não foi qualquer batalha, pois lutou contra um império poderoso e contra</p><p>o status quo da elite judaica para anunciar a nova aliança de Deus com seu povo, a</p><p>aliança que mais uma vez fora rompida pela ganância de uma parcela da população</p><p>judaica. Jesus empreendeu uma dura caminhada para mostrar e demonstrar o</p><p>caminho a ser seguido – que era/é a Verdade e a Justiça! O Seu Reino era um</p><p>18</p><p>19</p><p>escândalo para os poderosos dos tempos de Jesus e – por que não dizer? – para os</p><p>poderosos hodiernos, o Reino de Deus, como “Boa Nova”, é para todos!</p><p>Para realizar o “Seu” Projeto, Jesus, no ano 27, depois de um longo hiato,</p><p>voltava aos relatos cronológicos da história de Jerusalém; por essa época, segundo</p><p>a Bíblia, no outono desse ano, houve uma pregação de João Batista e o começo</p><p>do Ministério de Jesus (Lc 3, 2), “[...] sendo sumo sacerdote Anás, e Caifás, a</p><p>palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto”. João Batista</p><p>anunciou o batismo e o arrependimento e em seus pronunciamentos está implícito</p><p>que o Messias estava a caminho. João anunciava a chegada de Jesus, quem</p><p>iniciaria Sua vida pública. Segundo a Bíblia, Jesus, ao iniciar Seu Ministério, tinha</p><p>aproximadamente trinta anos de idade, espalhando o “Reino de Deus e sua Boa</p><p>Nova” e, segundo os relatos do Evangelho de Mateus:</p><p>Esse Reino de Deus (dos Céus), que deve estabelecer entre os homens a</p><p>autoridade soberana de Deus como Rei, finalmente reconhecido, servido</p><p>e amado, tinha sido preparado e anunciado pela Antiga Aliança. Por isso</p><p>Mateus, que escreve entre os judeus e para os judeus, procura mostrar na</p><p>pessoa e na obra de Jesus principalmente o cumprimento das escrituras.</p><p>Em cada encruzilhada de sua obra, ele se refere ao AT para provar como</p><p>se “cumprem” a Lei dos Profetas, isto é, não só se realizam conforme era</p><p>esperado, mas também chegam a uma perfeição que os coroa e supera</p><p>(BÍBLIA DE JERUSALÉM, 1995, p. 1.833).</p><p>A pregação de Jesus se iniciou na Galileia, onde sua fama se espalhou. Pregava</p><p>nas sinagogas e fazia milagres, segundo os evangelhos. A pregação de Jesus é</p><p>questionadora e inquietante para a elite e o império romano. Jesus, por meio de</p><p>suas parábolas, denunciava as injustiças político-sociais contra os pobres de seu</p><p>tempo. O objetivo da pregação de Jesus era despertar o povo oprimido pelas</p><p>elites, tanto a judaica quanto a elite estrangeira que ocupava seu país. Porém, a</p><p>pregação de Jesus era mais uma entre tantas outras, afinal, “[...] o estabelecimento</p><p>do Reino de Javé na Terra parecia algo passível de ser obtido, tanto que durante o</p><p>império romano assistiu-se a uma longa sequência de levantes em favor das idéias</p><p>de restauração nacional de Israel” (SCARDELAI, 1998, p. 41).</p><p>Jesus prega em defesa dos oprimidos e contra os opressores, de modo que seu</p><p>discurso está bem contextualizado, abordando um contexto político-econômico es-</p><p>pecífico, e é culturalmente bem situado, dizendo fundo à sociedade judaica e aos pre-</p><p>ceitos que a elite de seu povo deveria ter em relação aos pobres e excluídos, assim,</p><p>19</p><p>UNIDADE O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>[...] o Reino de Deus não é apenas o tema que abarca a declaração profética</p><p>de Jesus sobre o julgamento contra os governantes romanos e os seus</p><p>dependentes em Jerusalém, mas esse aspecto de julgamento do Reino</p><p>tinha uma contraparte construtiva de libertação, novas forças e renovação</p><p>para o povo. No discurso político moderno, no aspecto de julgamento do</p><p>Reino de Deus, Jesus proclamava que Deus estava no processo de efetuar</p><p>a “Revolução Política” que transtornaria a ordem imperial romana na</p><p>Palestina. Então, no aspecto construtivo, na confiança de que Deus estava</p><p>cuidando da ordem política dominante, Jesus e o seu movimento estavam</p><p>realizando a “Revolução Social” que Deus estava tornando possível e forte</p><p>nas comunidades rurais da Galiléia (HORSLEY, 2004b, p. 109).</p><p>Concluindo, os evangelhos estão plenos de história da vida de Jesus e de Sua</p><p>luta pela libertação de Seu povo; da libertação do jugo imposto por um grande</p><p>império, o romano, e da libertação do povo pobre que estava sob o jugo desse</p><p>império e das elites judaicas que também subjugavam seu próprio povo. A história</p><p>da Salvação é realizada por um homem chamado Jesus, que se encarnou e viveu</p><p>um contexto real dentro de uma cultura em particular, a judaica. Tal história é lida e</p><p>interpretada há mais de dois mil anos; trata-se, portanto, de um estudo complexo,</p><p>mas possível de ser realizado, pois:</p><p>O estudo histórico de Jesus deve incluir uma interpretação histórica de</p><p>suas próprias reivindicações religiosas. É preciso incluí-los e, uma vez que</p><p>fazem afirmações universais sobre a vida humana, o intérprete dificilmente</p><p>pode fazer justiça histórica, sem admitir uma reação semeada com eles.</p><p>O problema é que a teologia geralmente ignora a História, ou faz-se a</p><p>teologia e a chama de História. A solução não é ignorar a teologia, ou de</p><p>fazer teologia e chamar-lhe de História. A solução é fazer os dois juntos e</p><p>reconhecer que, na sua dialética, é possível distingui-los, mas não separá-</p><p>los. Eles são os dois lados da mesma moeda de Jesus – ou você vê apenas</p><p>um lado da moeda? (CROSSAN, 1994).</p><p>Figura 3 – A Boa Nova de Jesus é para todos!</p><p>Fonte: iStock/Getty Images</p><p>20</p><p>21</p><p>Resumo cronológico do império romano no contexto do nascimento de Jesus:</p><p>Antes de Cristo:</p><p>• 49 – César entra na Itália com seu exército; começo das guerras civis; ditadura de César;</p><p>• 48 – Pompeu é vencido na Batalha de Farsala;</p><p>• 44 – Assassinato de César;</p><p>• 43 – Triunvirato: Marco Antônio, Otávio e Lépido;</p><p>• 42 – Os “republicanos” são derrotados em Filipos;</p><p>• 31 – Batalha de Actium: derrota de Marco Antônio e Cleópatra;</p><p>• 27 – Otávio recebe o título de Augusto. O Senado lhe confi rma seu poder tribunício e lhe</p><p>reconhece o domínio proconsular sobre as províncias imperiais;</p><p>• 12 – Augusto toma o título de pontífi ce máximo;</p><p>• 2 – Augusto é proclamado “pai da Pátria”.</p><p>Depois de Cristo:</p><p>• 14 – Morte de Augusto;</p><p>• 14-37 – Tibério;</p><p>• 37-41 – Calígula, dinastia;</p><p>• 41-54 – Cláudio Júlio-Cláudios;</p><p>• 54-68 – Nero;</p><p>• 68-69 – Reinados efêmeros de Galba, Otão e Vitélio;</p><p>• 69-79 – Vespasiano;</p><p>• 79-81 – Tito, dinastia;</p><p>• 81-96 – Domiciano Flávios;</p><p>• 96-98 – Nerva;</p><p>• 98-117 – Trajano;</p><p>• 117-138 – Adriano;</p><p>• 138-161 – Antonino, o pio, dinastia;</p><p>• 161-180 – Marco Aurélio Antoninos;</p><p>• 180-192 – Cômodo (SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 9).</p><p>Ex</p><p>pl</p><p>or</p><p>21</p><p>UNIDADE O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>Material Complementar</p><p>Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:</p><p>Livros</p><p>A Figura de Jesus Cristo no livro Jesus de Nazaré, de Joseph Ratzinger</p><p>BRITO, J. G. de. A figura de Jesus Cristo no livro Jesus de Nazaré, de Joseph</p><p>Ratzinger. 2014. Dissertação (Mestrado em Teologia) - Universidade Católica Portu-</p><p>guesa, 2014.</p><p>Jesus Antes do Cristianismo</p><p>NOLAN, A. Jesus antes do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1988.</p><p>O Evangelho de Mateus e o Judaísmo Formativo</p><p>OVERMAN, J. A. O Evangelho de Mateus e o judaísmo formativo. São Paulo:</p><p>Loyola, 1997.</p><p>Movimentos Messiânicos no Tempo de Jesus</p><p>SCARDELAI, D. Movimentos messiânicos no tempo de Jesus: Jesus e outros</p><p>messias. São Paulo: Paulus, 1998.</p><p>Um Judeu chamado Jesus</p><p>VIDAL, M. Um judeu chamado Jesus: uma leitura do Evangelho à luz da Torá.</p><p>Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.</p><p>22</p><p>23</p><p>Referências</p><p>BÍBLIA de Jerusalém. [S.l.: s.n.], 1995.</p><p>BRIGHT, J. História de Israel,</p><p>São Paulo: Paulus, 1978.</p><p>BRITO, J. G. de. A figura de Jesus Cristo no livro Jesus de Nazaré, de Joseph</p><p>Ratzinger. 2014. Dissertação (Mestrado em Teologia) - Universidade Católica</p><p>Portuguesa, 2014.</p><p>CROSSAN, J. D. O nascimento do cristianismo: o que aconteceu nos anos que</p><p>se seguiram à execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004.</p><p>______. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de</p><p>Janeiro: Imago, 1994.</p><p>FAULKNER, N. Apocalypse: the great jewish revolt against Rome AD 66-73.</p><p>[S.l.]: Tempus, 2004.</p><p>GAGLIARDO, V. O. Entrevista com John Dominic Crossan – “Teologia e</p><p>História precisam caminhar juntas”. [20--?]. Disponível em: <http://www.revistaje-</p><p>sushistorico.ifcs.ufrj.br/arquivos5/crossan.pdf>. Acesso em: 22 maio 2017.</p><p>GOODMAN, M. A classe dirigente da Judéia: as origens da revolta judaica contra</p><p>Roma, 66-70 d.C. Rio de Janeiro: Imago,1994.</p><p>HANSON, J. S.; HORSLEY, R. A. Bandidos, profetas e messias: movimentos</p><p>populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995.</p><p>HORSLEY, R. A. Paulo e o império: religião e poder na sociedade imperial</p><p>romana. São Paulo: Paulus, 2004a.</p><p>______. Jesus e o império: o Reino de Deus e a nova desordem mundial. São</p><p>Paulo: Paulus, 2004b.</p><p>______. Arqueologia, história e sociedade na Galiléia: o contexto social de</p><p>Jesus e dos rabis. São Paulo: Paulus, 2000.</p><p>______.; SILBERMAN, N. A. A mensagem e o Reino: como Jesus e Paulo de-</p><p>ram início a uma Revolução e transformaram o Mundo Antigo. v. 1. São Paulo:</p><p>Loyola, 2000.</p><p>JOSEFO. Guerra judaica. v. 4. [S.l.: s.n., 19--?].</p><p>LOHSE, E. O contexto e ambiente do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas,</p><p>2000.</p><p>MEIER, J. P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. Rio de Janeiro:</p><p>Imago, 1992.</p><p>NOLAN, A. Jesus antes do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1988.</p><p>______. Jesus antes do cristianismo. 4. ed. São Paulo: Paulus, 1987.</p><p>23</p><p>UNIDADE O Jesus que Antecede o Cristianismo</p><p>OVERMAN, J. A. O Evangelho de Mateus e o judaísmo formativo. São Paulo:</p><p>Loyola, 1997.</p><p>PIERINI, Franco. A Idade Antiga. São Paulo: Paulus, 1998.</p><p>SAULNIER, C.; ROLLAND, B. A Palestina no tempo de Jesus. São Paulo:</p><p>Paulus, 1983.</p><p>SCARDELAI, D. Movimentos messiânicos no tempo de Jesus: Jesus e outros</p><p>messias. São Paulo: Paulus, 1998.</p><p>SILVA, R. M. dos S. A Judeia romana: política, poder e desagregação econômica.</p><p>[20--]. Disponível em: <http://www.ufrrj.br/graduacao/prodocencia/publicacoes/</p><p>praticas-discursivas/artigos/judeia.pdf>. Acesso em: 22 maio. 2017.</p><p>VIDAL, M. Um judeu chamado Jesus: uma leitura do Evangelho à luz da Torá.</p><p>Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.</p><p>VOLKMANN, M. Jesus e o Templo. São Paulo: Sinodal; Paulinas, 1992.</p><p>24</p>