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<p>Donald B. Kraybill nasceu</p><p>em 1946. É autor, palestrante</p><p>e especialista na Fé e Cultura</p><p>Anabatista. Kraybill é</p><p>amplamente reconhecido</p><p>por seus estudos sobre os</p><p>Anabatistas, mas sua maior</p><p>especialidade é na cultura Amish.</p><p>Kraybill é Professor</p><p>sobre Cultura Anabatista</p><p>na Elizabethtown College,</p><p>Pensylvania, onde já liderou o</p><p>Departamento de Trabalho Social</p><p>e de Sociologia de 1979 a 1985.</p><p>Ele também foi diretor</p><p>administrativo da Messiah</p><p>College de 1996 a 2002,</p><p>antes de retornar para</p><p>Elizabeth College em 2003.</p><p>0 REINO</p><p>DE PONTA</p><p>CABECA</p><p>lâjesuscopy®</p><p>O REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Donald B. Kraybill</p><p>Mensagem Para Todos</p><p>Douglas Gonçalves</p><p>Thiago Marques</p><p>Fernanda Milczarek</p><p>Souto Crescimento de marcas</p><p>Estúdio Zebra Serviços Editoriais</p><p>Salomão Santos</p><p>Grafica Rettec</p><p>Editora:</p><p>Coordenação Editorial:</p><p>Preparação:</p><p>Tradução:</p><p>Capa:</p><p>Editoração:</p><p>Revisão:</p><p>Impressão c Acabamento:</p><p>Copyright (c) 2017</p><p>Revisado em 2011</p><p>Herald Press</p><p>Scottdale, Pa. U.S.A</p><p>Título original: The Upside-Down Kingdom</p><p>Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos</p><p>reservados a: Editora Mensagem para todos</p><p>Estr. Crispim Marques Veiga, 511 Curitibanos</p><p>Bragança Paulista - SP</p><p>CEP 12.929-733</p><p>Falar com o autor: contato@jesuscopy.com</p><p>(11) 2277-5126</p><p>Proibida a reprodução cotai ou parcial por qualquer meio</p><p>sem a autorização por escrito do autor.</p><p>mailto:contato@jesuscopy.com</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>SUMÁRIO</p><p>PREFÁCIO DA VERSÃO EM INGLÊS 5</p><p>PREFÁCIO DA VERSÃO EM PORTUGUÊS 11</p><p>PARA BAIXO É PARA CIMA 13</p><p>POLÍTICA DA MONTANHA 41</p><p>A PIEDADE DO TEMPLO 75</p><p>PÃO DO DESERTO 97</p><p>ESCRAVOS LIVRES 117</p><p>POBREZA LUXUOSA 141</p><p>DESVIOS DE “CABEÇA PARA CIMA” 171</p><p>PIEDADE ÍMPIA 201</p><p>INIMIGOS ADORÁVEIS 239</p><p>DE FORA MESMO DENTRO 279</p><p>A ESCADA SOCIAL 315</p><p>FALHAS BEM-SUCEDIDAS 351</p><p>NOTAS 375</p><p>395RECURSOS NA INTERNET</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>PREFACIO DA</p><p>VERSÃO EM INGLÊS</p><p>nte para este livro brotou no verão quando eu ensi-</p><p>em um estudo Bíblico para Adultos. Fui chamado</p><p>às pressas para substituir um professor com apenas dois dias</p><p>de antecedência. Eu estava lendo John Howard Yoder, The</p><p>Politics of Jesus e decidi fazer minha a aula em cinco sessões</p><p>do evangelho de Lucas, que Yoder tinha usado extensiva-</p><p>mente. No meio da história de Lucas, um membro da classe</p><p>exclamou com entusiasmo e exasperação: “Tudo aqui está</p><p>tão de ponta-cabeça!” Era uma imagem inabalável do reino</p><p>de Deus. Esse quadro impressionante, deu origem à primei-</p><p>ra edição deste livro, tem me intrigado e ficou comigo ao</p><p>longo dos anos. Eu me sinto atraído por Jesus e seu reino</p><p>de ponta-cabeça de novo e de novo. Suas histórias criativas</p><p>e imagens poderosas me puxam de volta ao reino de Deus.</p><p>5</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Relendo as histórias do evangelho em preparação para</p><p>esta edição do vigésimo quinto aniversário, meu espírito</p><p>mais uma vez se despertou, de maneira que só Jesus pode</p><p>fazer. Escrevo aqui como um cristão confesso. Um encontro</p><p>próximo com a vida de Jesus leva-me ao coração da fé cristã</p><p>e à própria natureza de Deus. Para mim, Jesus fornece a re-</p><p>velação mais clara e completa da vontade de Deus. Embora</p><p>as edições anteriores formem seu núcleo e trechos de texto</p><p>permaneçam inalterados, esta terceira edição foi completa-</p><p>mente revisada, linha por linha e palavra por palavra.</p><p>Entre as alterações e atualizações, o argumento original</p><p>permanece intacto: o reino de Deus anunciado por Jesus era</p><p>uma nova ordem de coisas que parecia de ponta-cabeça em</p><p>meio a cultura palestina no primeiro século. Além disso, o rei-</p><p>no de Deus continua a ter características de ponta-cabeça que</p><p>rompem com diversas culturas ao redor do mundo de hoje.</p><p>Uma abundância de estudos acadêmicos sobre o mundo</p><p>social do tempo de Jesus surgiram desde a primeira edição</p><p>e esta revisão aproveita muitos destes recursos. Muitas coi-</p><p>sas mudaram desde que eu escrevi pela primeira vez, mas</p><p>muito permanece o mesmo. A organização do material per-</p><p>manece intacta. Eu revisei o texto palavra por palavra para</p><p>aumentar sua clareza e fluxo. Estudos recentes sobre Jesus e</p><p>os evangelhos sinóticos forneceram novos insights para atu-</p><p>alizar alguns dos capítulos. E, apesar de ter me empenha-</p><p>do fortemente no trabalho de muitos estudiosos na prepara-</p><p>ção desta edição, o livro continua sendo para leitores leigos,</p><p>não para estudiosos. Sempre que possível, tenho dispensado</p><p>o jargão acadêmico, tentando contar a história com precisão</p><p>em um estilo animado e criativo. E um grande desafio en-</p><p>colher uma grande história em um livro curto. Muitos pa-</p><p>rágrafos poderíam facilmente ser expandidos em tom uni-</p><p>versitário completo. Mas esse não era meu objetivo. Muito</p><p>6</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA</p><p>pelo contrário, eu tentei capturar Idéias-chave da história de</p><p>Jesus e resumi-las para leitores leigos. Uma trilha de fon-</p><p>tes nas notas finais vão ajudar aqueles que querem prosse-</p><p>guir em um estudo mais aprofundado de temas específicos.</p><p>Há muitos livros sobre Jesus com muitos giros diferentes em</p><p>sua história. As páginas que se seguem mostram como eu fiz</p><p>a história. Eu digo história porque eu criei a narrativa de ma-</p><p>neira que reflete meus interesses como um cristão anabatitista</p><p>e como um sociólogo.</p><p>A medida que você lê esta história, duas perguntas-chave</p><p>surgirão: Primeiro, esta é uma leitura justa da história? Se é,</p><p>então o que vamos fazer com Jesus e seu reino de ponta-cabeça?</p><p>Se na verdade ele nos aponta para Deus, como a visão e a</p><p>mensagem do reino transformam nossas vidas para a honra</p><p>e glória de Deus?</p><p>Às vezes é difícil ver Jesus porque ele vem até nós</p><p>através dos filtros de vinte séculos de história da igreja.</p><p>Nossas imagens dele podem vir de livros de histórias,</p><p>adesivos de pára-choque, ou palavras teológicas que di-</p><p>ficilmente compreendemos. De muitas maneiras, os cris-</p><p>tãos têm domesticado Jesus, domando-o para se adequar</p><p>à nossa cultura e tempo. Ao relatar a história, eu tentei</p><p>remover alguns dos filtros para que possamos vê-lo mais</p><p>claramente em seu próprio ambiente cultural. E natu-</p><p>ralmente impossível reconstruir todos os detalhes, mas</p><p>quando removemos alguns dos filtros, muitas vezes des-</p><p>cobrimos um Jesus muito diferente daquele que veio até</p><p>nós na escola dominical.</p><p>Ele pode ser um Jesus que nunca conhecemos antes.</p><p>O Jesus que encontramos pode nos assustar. Ele é um</p><p>pouco irreverente, certamente não é um pastor doce cami-</p><p>nhando ao lado das águas tranquilas. Na verdade, Ele não</p><p>7</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>está carregando nenhuma ovelha e Ele agita tanto as águas</p><p>políticas que acaba recebendo a cadeira elétrica romana, mas</p><p>este é o Jesus que, segundo os Evangelhos, revela a vontade</p><p>e a natureza de Deus para todo o tempo.</p><p>Eu escrevo a partir de uma perspectiva americana como</p><p>um cidadão de uma superpotência mundial. No contexto</p><p>global, sou rico simplesmente porque vivo nos Estados Uni-</p><p>dos e tenho um emprego.</p><p>A história de Jesus pode soar muito diferente para al-</p><p>guém que procura comida e abrigo todos os dias. Ela terá</p><p>um significado diferente para aqueles que cumprem uma</p><p>sentença de prisão perpétua por assassinato, pra quem bebe</p><p>água suja, está morrendo com AIDS ou para os torturados</p><p>por causa de sua fé. Tentei tornar a história acessível a todos,</p><p>independentemente da nossa localização social ou os encar-</p><p>gos que carregamos, sejam eles riqueza ou pobreza, saúde</p><p>ou doença. Graças a Deus, a história é grande o suficiente e</p><p>cheio de graça suficiente para todos nós, independentemen-</p><p>te da nossa cultura ou condição. Resisti à tentação de fazer</p><p>aplicações específicas por várias razões. Primeiro, problemas</p><p>e eventos rapidamente se tornam antigos. Segundo, os lei-</p><p>tores em ambientes locais, sob a orientação do espírito de</p><p>Deus, precisam discernir o que o reino de cabeça para baixo</p><p>significa para eles em seu próprio contexto. Minha tarefa</p><p>é contar a história o mais cuidadosamente e criativamente</p><p>possível, como Jesus fez com as parábolas, deixando os ou-</p><p>vintes aplicarem o significado ao seu próprio cenário. Tercei-</p><p>ro,</p><p>javam ou escravizavam populações inteiras .</p><p>Na época em que Jesus nasceu, não muito distante de</p><p>onde Ele provavelmente cresceu, os romanos incendiaram</p><p>casas e escravizaram milhares para acabar com a revolta po-</p><p>pular de 4 aC. Porém, a chama da liberdade, inflamada por</p><p>Judas, o Macabeu, não podería ser extinta. Ela reacendia vez</p><p>após vez na era de Jesus e, finalmente, explodiu em duas</p><p>grandes guerras romano-judaicas em 66 dC e 132 dC. Roma</p><p>finalmente sufocou os revoltosos judeus de vez em 135 dC</p><p>quando destruiu Jerusalém.</p><p>52</p><p>0 R E W Q D E P O N T A C A B E Ç A</p><p>Grande H erodes</p><p>Em 37 aC, Herodes, o Grande, um judeu, chegou ao po-</p><p>der na palestina como um fantoche romano. Um símbolo</p><p>da tirania opressiva, ele governou até a sua morte em 4 aC,</p><p>pouco depois do nascimento de Jesus. Ele segurava firme</p><p>as rédeas do reino sobre o povo, contratando soldados es-</p><p>trangeiros, construindo fortalezas e orquestrando uma rede</p><p>de informantes secretos. Este Herodes consultou homens</p><p>sábios, e então matou todos os meninos em Belém, porque</p><p>estava assustado com a perspectiva de um novo rei.</p><p>Sob o reino de Herodes, o território da palestina quase</p><p>dobrou. Ele atingiu um delicado equilíbrio entre o poder</p><p>romano e o nacionalismo judeu. Ele só conseguia manter sua</p><p>coroa enquanto pudesse agradar o imperador em Roma. He-</p><p>rodes não tinha que pagar impostos a Roma, mas era obriga-</p><p>do a enviar tropas em tempo de guerra. Ele podería manter</p><p>seu próprio exército, desde que não representasse ameaça ao</p><p>império. Acima de tudo, ele deveria manter a paz e governar</p><p>com eficiência.</p><p>O traço marcante do reinado de trinta e três anos de He-</p><p>rodes foi um extravagante programa de construção. Embora</p><p>ele não tenha forçado a cultura grega aos judeus, a arquite-</p><p>tura de Herodes seguiu os padrões romanos. Ele construiu</p><p>templos, ginásios, claustros, aquedutos e anfiteatros em</p><p>grande escala. Ele construiu várias novas cidades incluindo</p><p>Cesaréia, com seu porto artificial na costa do Mediterrâneo.</p><p>Fortalezas e palácios surgiram por todo interior. Grandes</p><p>projetos de construção incluindo templos pagãos, também</p><p>foram realizados nas terras dos gentios de Sidom, Tiro, Ni-</p><p>cópolis, Esparta e Atenas, apenas para citar algumas.</p><p>Como Herodes provavelmente tinha algum ancestral</p><p>gentio, os líderes judeus nunca confiaram plenamente nele.</p><p>53</p><p>DONALD B. KRAVBILL</p><p>Para ganhar a confiança deles, ele começou uma reforma</p><p>no templo em Jerusalém, em 20 aC - o décimo oitavo ano</p><p>do seu reinado. Os judeus temiam que ele derrubasse o</p><p>templo construído por Zorobabel e nunca o substituísse.</p><p>Para provar sua sinceridade, ele forneceu mil vagões e con-</p><p>tratou dez mil trabalhadores. Além disso, ele treinou 1000</p><p>sacerdotes como pedreiros e carpinteiros para que pés não</p><p>consagrados não profanassem o templo sagrado durante a</p><p>reconstrução. Ele até dobrou o tamanho da antiga área do</p><p>templo. A nova magnífica estrutura era o orgulho e a glória</p><p>de Herodes. Ele funcionou durante toda a vida de Jesus,</p><p>mesmo enquanto a modernização era feita. Este templo foi</p><p>destruído posteriormente pelos romanos, em 70 dC — sete</p><p>anos após a sua conclusão.</p><p>A ambição insaciável de Herodes o tornava, ao mesmo tem-</p><p>po, impiedoso e simpatizante com as preocupações dos judeus.</p><p>Ele tinha que manter a estabilidade dos judeus para receber o</p><p>sorriso constante de Roma. Assim, ele não ousava permitir que</p><p>a rivalidade política ou o nacionalismo judeu ganhasse terreno.</p><p>Apesar de ter distribuído milho de graça durante um período</p><p>de fome e reduzido os impostos durante tempos difíceis, seus</p><p>projetos de construção prendiam o povo a impostos pesados.</p><p>Parte dessa receita foi para o novo templo, o que obviamente</p><p>recebeu aprovação dos judeus. Outros impostos — usados para</p><p>subsidiar suntuosos templos pagãos em lugares distantes - irri-</p><p>tavam os líderes judeus. Sob domínio de Herodes, o Grande, os</p><p>impostos “eram impiedosamente cobrados, e ele sempre estava</p><p>pensando em novas formas de subsidiar suas enormes despe-</p><p>sas”8. Houve ressentimento popular porque Herodes desperdi-</p><p>çou grande parte do patrimônio comum, sugando a força vital</p><p>do povo com os impostos opressivos.</p><p>Herodes costumava tolerar a adoração e rituais judaicos.</p><p>Porém, às vezes, havia confrontações diretas. Por cortesia a</p><p>5 4</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Roma, Herodes colocou uma águia dourada, o símbolo real</p><p>do império, sobre o grande portão leste da cidade. Isso en-</p><p>fureceu uns quarenta judeus piedosos que, em desacato, a</p><p>derrubaram e destruíram. Herodes retaliou essa ação quei-</p><p>mando-os vivos. Nos últimos anos do reinado de Herodes,</p><p>os fariseus se recusaram a assinar um juramento de lealdade</p><p>a ele e ao imperador romano. Eles foram duramente punidos</p><p>por desobediência civil.</p><p>Embora o reino crescesse, Herodes não era popular. Res-</p><p>sentimento ecoava por toda a terra. As suspeitas centravam-</p><p>-se em seu terrível tratamento para com sua família; suas</p><p>diversas esposas - dez no total — viviam em seu palácio. Ao</p><p>longo dos anos ele matou duas delas, além de ao menos três</p><p>filhos, um cunhado e outros parentes. Até mesmo o impe-</p><p>rador romano disse certa vez: “É melhor ser um porco de</p><p>Herodes do que seu filho”9.</p><p>Pouco depois do nascimento de Jesus, Herodes estava mor-</p><p>rendo. A fim de evitar que o povo em ebulição celebrasse sua</p><p>morte, ele ordenou que os principais judeus fossem manti-</p><p>dos na arena de Jerico para que fossem executados quando ele</p><p>morresse. Herodes queria ter certeza de que as lágrimas dos</p><p>judeus fluiríam em sua morte, ainda que não fossem por ele10.</p><p>Felizmente, os prisioneiros foram libertados no momento da</p><p>morte de Herodes. A morte do brutal tirano, entretanto, de-</p><p>sencadeou uma revolta popular generalizada, que se espalhou</p><p>pela terra durante a infância de Jesus.</p><p>A LIGAÇÃO ROMANA</p><p>Após a sua morte, o reino de Herodes foi dividido em três</p><p>partes. Seu filho, Herodes Antipas, governou o distrito da Ga-</p><p>lileia a oeste do mar, incluindo a cidade natal de Jesus, Nazaré.</p><p>Os dois Herodes são frequentemente confundidos. Herodes,</p><p>55</p><p>DONALO 8 KRAYBILL</p><p>o Grande, descrito acima, governou na época do nascimento</p><p>de Jesus, porém morreu pouco depois. Herodes Antipas, seu</p><p>filho, foi contemporâneo de Jesus. Foi Herodes Antipas que</p><p>executou João Batista e a quem Jesus chamou de raposa (Lc</p><p>13:32). Durante Seu julgamento, Pilatos enviou Jesus a He-</p><p>rodes Antipas, que estava em Jerusalém na época.</p><p>Filipe, segundo filho de Herodes, o Grande, recebeu o</p><p>território a nordeste do mar da Galileia. Ele reinou pacifi-</p><p>camente sobre seu território político durante trinta e sete</p><p>anos, mas recebe pouca atenção nos Evangelhos.</p><p>O terceiro filho de Herodes, Arquelau, governou a ter-</p><p>ceira parte do reino, ao sul, com Jerusalém em seu centro.</p><p>José, retornando do Egito com o bebê Jesus, teve medo de</p><p>ir para a Judeia quanto ouviu que Arquelau tinha sucedi-</p><p>do seu pai no poder. Então, José se estabeleceu em Nazaré,</p><p>governada por Herodes Antipas (Mt 2:22). Os três irmãos,</p><p>Herodes Antipas, Filipe e Arquelau - precisaram encontrar</p><p>o imperador romano para confirmar a vontade de seu pai</p><p>e legitimar o seu poder. Arquelau, entretanto, estava com</p><p>problemas com os judeus antes mesmo de deixar Jerusalém</p><p>para receber a benção do imperador. Ele removeu o sumo sa-</p><p>cerdote judeu e nomeou outro. Isso desencadeou revoltas nas</p><p>ruas durante a festa da Páscoa em Jerusalém. As multidões</p><p>exigiam impostos mais baixos, pediam a libertação de pre-</p><p>sos políticos e protestavam pela retirada do sumo sacerdote.</p><p>Arquelau enviou tropas para sufocar o protesto. A multidão</p><p>fez correr os soldados e apedrejou a maioria deles até a mor-</p><p>te. Arquelau imediatamente matou três mil manifestantes e</p><p>foi para Roma!</p><p>5 6</p><p>IDUMEIA</p><p>DONALD B KRAYBILL</p><p>Os fervorosos patriotas judeus não suportavam mais. A</p><p>insurreição se espalhou. Líderes rebeldes surgiram por todo</p><p>o país. Além de Jerusalém, os distritos periféricos da Gali-</p><p>leia, Judeia e Pereia entraram em erupção em uma sangrenta</p><p>desordem11. Um</p><p>dos antigos escravos de Herodes, chamado</p><p>Simão, liderou ataques de guerrilha contra os palácios e as</p><p>ricas propriedades de Herodes.</p><p>Na Judeia, um ex-pastor de ovelhas chamado Arranges e</p><p>seus quatro irmãos lideraram a resistência contra Arquelau</p><p>por vários anos12. Enquanto isso, na Galileia, Judas, cujo pai</p><p>Ezequias havia sido porto por Herodes, o Grande, tornou-se</p><p>um ardente revolucionário. Judas liderou a revolta da cida-</p><p>de de Séforis, cerca de uma hora de caminhada a nordeste</p><p>da cidade natal de Jesus, Nazaré. Ele saqueou o arsenal de</p><p>Herodes em Séforis. Esses líderes em várias regiões do país</p><p>governaram como “reis” autodeclarados durante diversas se-</p><p>manas. Atronges, na Judeia, governou por diversos meses.</p><p>Porém, o poder imperial de Roma não seria zombado.</p><p>Roma logo esmagou os teimosos reis camponeses judeus.</p><p>Como Arquelau ainda estava em Roma durante o levante, o</p><p>comandante romano na Síria interveio do Norte. Ele moveu</p><p>seus exércitos para a Palestina. Ele queimou Séforis até as</p><p>cinzas e vendeu sua população judaica como escravos. Con-</p><p>tinuando para o sul, o comandante romano matou dois mil</p><p>rebeldes, deixando as pessoas no campo atônitas e amedron-</p><p>tadas. Jesus provavelmente tinha menos de dez anos quando</p><p>essa violência ocorreu nas proximidades, então essas memó-</p><p>rias provavelmente moldaram sua perspectiva.</p><p>Em Jerusalém, antigos patriotas judeus se envolveram no</p><p>combate corpo-a-corpo com soldados romanos. Os rebeldes</p><p>lançaram bombas do alto dos muros do templo sobre os sol-</p><p>dados e tentaram atear fogo a uma fortaleza que protegia os</p><p>romanos. Alguns soldados reais desertaram para os rebeldes,</p><p>58</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>mas no final, os romanos venceram. Os soldados incendia-</p><p>ram partes do templo e saquearam seu tesouro.</p><p>Arquelau logo retornou de Roma e recuperou o controle</p><p>do campo. No entanto, o pavio da bomba político-religiosa</p><p>ainda estava aceso. Essa turbulência revolucionária formou</p><p>o contexto da infância de Jesus. Essa turbulência explodiría</p><p>novamente em 66-70 dC, em uma revolta judaica maciça —</p><p>uns trinta anos após a Sua morte.</p><p>Pouco se sabe sobre o curto reinado de Arquelau (4 aC a 6</p><p>dC). Sabemos que ele antagonizou a sensibilidade judaica, es-</p><p>pecialmente casando-se com uma mulher divorciada de seu se-</p><p>gundo marido. A indignação e o ódio judaicos eram tão fortes</p><p>que tanto judeus quanto samaritanos enviaram uma delegação a</p><p>Roma para pedir seu exílio em 6 dC, durante a infância de Jesus.</p><p>Infelizmente, isso mudou a organização política da Judeia</p><p>para pior. Ao invés de ser governada por um rei quase-judeu,</p><p>agora pela primeira vez, ela se tornou província romana. Isso</p><p>significava que a Palestina estava agora sob controle romano</p><p>direto. Um governante romano (às vezes chamado de pro-</p><p>curador, prefeito, embaixador ou governador) supervisiona-</p><p>va a Judeia diretamente. Um procurador, como Pilatos, era</p><p>responsável para com o imperador romano. O império tinha</p><p>dois tipos de províncias:</p><p>1. As áreas mais importantes e ricas recebiam um gover-</p><p>nante de grau senatorial chamado governador-embaixa-</p><p>dor. O governador sírio, Quirino, controlava a Síria ao</p><p>norte da Palestina com um exército permanente de várias</p><p>legiões, cada uma com até 6000 soldados de infantaria.</p><p>2. Províncias menores como a Judeia exigiam menos</p><p>tropas para manter a ordem. Elas recebiam um go-</p><p>vernante romano chamado procurador, de uma classe</p><p>social mais baixa do que um governador-embaixador.</p><p>DONALD B KRAYBIU</p><p>Um procurador, como Pilatos, respondia diretamente a</p><p>Cesar e tinha plena autoridade militar, judicial e financeira.</p><p>A Judeia tinha tropas auxiliares recrutadas da população dos</p><p>gentios. Os judeus, entretanto, eram dispensados do serviço</p><p>militar porque eles não lutariam no sábado. O procurador</p><p>tinha cinco grupos de 600 homens cada sob seu comando e</p><p>mantinha guarnições em todo o país. Um grupo de 300-500</p><p>soldados estava permanentemente alocado em Jerusalém, na</p><p>Fortaleza Antônia, vigiando a área do templo, evitando pro-</p><p>testos. O procurador, Pilatos, vivia em Cesareia, na costa do</p><p>Mediterrâneo. Porém, durante as festas judaicas ele trazia</p><p>tropas extras para Jerusalém, para evitar confusão entre os</p><p>milhares de peregrinos.</p><p>O primeiro procurador romano veio para a Judeia em</p><p>6 dC para substituir Arquelau cerca de nove anos após a</p><p>revolta generalizada. Junto com o controle romano direto,</p><p>vieram os impostos romanos, obviamente. Assim, o coman-</p><p>dante romano Quirino foi a Jerusalém para fazer um censo</p><p>da população para fins de tributação na época do nascimento</p><p>de Jesus (Lc 12:2). Os nacionalistas judeus apaixonados que</p><p>queriam uma pátria livre resistiram fortemente aos impos-</p><p>tos romanos. A mudança do rei Arquelau que era um fanto-</p><p>che, para o governo direto de Roma inflamou uma situação</p><p>já tensa. Os zelosos patriotas judeus protestaram contra o</p><p>censo. Eles argumentavam que porque a terra pertencia a</p><p>Deus, todos os impostos também pertenciam a Deus. Os</p><p>impostos sobre a terra e a capitação eram, aos seus olhos,</p><p>novas formas de escravidão e idolatria.</p><p>O censo para tributação romana de 6 dC enfureceu os</p><p>judeus zelosos, que ansiavam por liberdade da opressão e</p><p>o estabelecimento de um estado judaico independente. Só</p><p>Deus era rei, eles diziam, declarando blasfemo chamar o im-</p><p>perador de “rei” e “senhor”. Em suas mentes, isso violava</p><p>60</p><p>0 R E I N O Ο Ε P O N T A C A B E Ç A</p><p>o primeiro mandamento que proibia a adoração de outros</p><p>deuses. Alguns acreditavam que pagar impostos ao impera-</p><p>dor era pura idolatria. Os super zelotes sequer tocariam em</p><p>uma moeda cunhada com a imagem do imperador. Como</p><p>observa um estudioso “De todos os povos dentro do Império</p><p>Romano, nenhum resistiu tão persistente e resolutamente,</p><p>tanto política quanto espiritualmente, à ocupação romana</p><p>quanto os judeus”13.</p><p>Protestantes, profetas e bandidos</p><p>Nas décadas antes e depois do nascimento de Jesus, sur-</p><p>giram diversos movimentos de protestos judaicos. As vozes</p><p>de agitação tornaram-se cada vez mais violentas depois da</p><p>Sua morte nos anos antes da guerra judaico-romana de 66-</p><p>70 dC. Como mostrado na tabela 2.1, quatro tipos diferen-</p><p>tes de protestos surgiram - protestos públicos, profetas, os</p><p>messias e os grupos de bandidos14. Nos cinquenta anos antes</p><p>e depois do nascimento de Jesus, apareceram mais de trinta</p><p>momentos de protestos diferentes.</p><p>TABELA 2.1</p><p>TIPOS DE PROTESTOS CAMPONESES NA PALESTINA</p><p>Tipo Número Data</p><p>Grandes protestos</p><p>públicos 7 4 aC a 65dC</p><p>Profetas 10 30 aC a 73 dC</p><p>Messias 5 4 aC a 70 dC</p><p>Grupos de Bandidos 11 47 aC a 69 dC</p><p>61</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Diversos fatores alimentavam a raiva pública, incluindo a</p><p>pobreza rural, os altos impostos, o controle romano, os atos</p><p>inflamados dos reis judeus fantoches e a esmagadora violên-</p><p>cia dos exércitos romanos. Fatores políticos, econômicos e</p><p>religiosos se combinaram para agitar a revolta e a rebelião.</p><p>O slogan de muitos dos resistentes zelosos era “Não há Se-</p><p>nhor senão Deus”.</p><p>Em algumas ocasiões, grandes multidões se reuniram du-</p><p>rante vários dias para protestar contra as ações dos governan-</p><p>tes. Protestos e revoltas frequentemente surgiam durante a</p><p>páscoa judaica e outros dias santos, quando as multidões e</p><p>ajuntamentos de rebeldes se reuniam em Jerusalém. Várias</p><p>vezes rebeldes judeus lideraram protestos não-violentos que</p><p>condenavam o tratamento profano dado a seus objetos e lu-</p><p>gares sagrados.</p><p>Incluindo João Batista, pelo menos dez profetas surgiram</p><p>nesses anos desafiando os poderes governantes e proclaman-</p><p>do uma mensagem de libertação. A maioria deles tinha um</p><p>considerável grupo de seguidores. Além disso, nas quatro</p><p>décadas que seguiram a morte de Herodes, o Grande, pelo</p><p>menos cinco messias autodenominados, sem incluir Jesus,</p><p>apareceram. Vindos de contextos camponeses pobres, eles</p><p>também refletiam a turbulência generalizada. Os profetas e</p><p>os messias esperavam que Deus, de forma milagrosa, erradi-</p><p>casse os romanos e estabelecesse o governo divino como nos</p><p>dias passados.</p><p>Os grupos</p><p>de bandidos e terroristas também se manti-</p><p>nham a margem dos governantes. Ao contrário dos ladrões</p><p>comuns, que roubam para ganho pessoal, os bandidos sociais</p><p>defendiam causas religiosas ou econômicas e assim, muitas</p><p>vezes tinham apoio entre os camponeses locais. Pelo menos</p><p>onze grupos de bandidos de vários tipos surgiram nas déca-</p><p>das anteriores à guerra judaico-romana de 70 dC. Alguns dos</p><p>62</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>terroristas atuavam em Jerusalém, matando oponentes com</p><p>punhais, incluindo um sumo sacerdote, em ataques surpresa</p><p>e depois se misturando nas multidões. Outros lutavam pela</p><p>liberdade no campo, muitas vezes aplaudidos pelos campo-</p><p>neses que davam suporte a seu apelo à libertação. Muitos</p><p>dos bandidos sociais foram considerados fanáticos religiosos</p><p>porque queriam a independência judaica e declaravam “Não</p><p>há Senhor senão Deus”.</p><p>Barrabás, libertado no julgamento de Jesus, era um rebelde</p><p>político que foi considerado menos perigoso do que Jesus. Jesus</p><p>morreu entre dois ladrões, provavelmente bandidos sociais que</p><p>haviam ameaçado a “paz” imposta por Roma. O movimento</p><p>de resistência pulsava amplamente entre grande parte do povo</p><p>comum. Enquanto isso, a nata dos líderes judeus, vivendo em</p><p>Jerusalém, colaborou silenciosamente com os romanos.</p><p>O impulso de resistência tornou-se mais violento nos</p><p>anos seguintes à morte de Jesus. Nas décadas de 30 e 60</p><p>dC, surgiram os homens da adaga (Sicários). Suas táticas de</p><p>ataque envolviam assassinatos seletivos e sequestro. Seus al-</p><p>vos: os sumos sacerdotes e outros altos líderes judeus que</p><p>estavam em conluio com os romanos. Uma facção organiza-</p><p>da de Zelotes surgiu depois de 60 dC e, finalmente, passou</p><p>ao combate armado em Jerusalém. Diversas outras facções</p><p>revolucionárias, prontas para cortar gargantas romanas e ju-</p><p>daicas, surgiram na década de 60 dC. Juntos, esses grupos</p><p>rebeldes lideraram a revolta maciça dos judeus de 66-70 dC</p><p>que explodiu na primeira Guerra Judaico-Romana15.</p><p>Grande parte da resistência nos sessenta anos que prece-</p><p>deram a revolta dirigiu-se aos romanos. Porém, crescentes</p><p>disputas internas entre as facções judaicas rivais também</p><p>alimentavam a agitação. De qualquer forma, o desconten-</p><p>tamento e a perturbação generalizados marcaram todo o pe-</p><p>ríodo de domínio romano direto (6-66 dC) na Palestina16.</p><p>63</p><p>DONALD B. KRAVBILL</p><p>Assim, quando Jesus começou Seu ministério, cerca de</p><p>25 dC, a Palestina era um caldeirão de revolução. Filipe,</p><p>filho de Herodes, o Grande, governava a região nordeste</p><p>como um rei quase-judeu. Herodes Antipas, outro filho,</p><p>governava a região da Galileia de forma semelhante. Um</p><p>governador romano (procurador), do porto da costa da</p><p>Cesareia, coordenava territórios judeus, incluindo Jeru-</p><p>salém, na região sul.</p><p>P0NCI0 P1LAT0S</p><p>Pôncio Pi latos foi nomeado o quinto procurador romano</p><p>da Judeia em 26 dC. Comparado a outros líderes judeus, Pi-</p><p>latos aparece neutro em relação a Jesus em alguns relatos do</p><p>julgamento de Jesus. Porém, há outro lado de Pilatos — um</p><p>lado brutal. Sua administração implacável ofendeu muitas</p><p>vezes a sensibilidade judaica.</p><p>Pouco depois de assumir o poder, Pilatos ordenou que as</p><p>tropas fossem de Cesareia para Jerusalém. Eles entraram na</p><p>cidade na calada da noite e colocaram bandeiras que levavam</p><p>a imagem do imperador Tibério. Isso violava a lei judai-</p><p>ca, que proibia uma imagem na cidade santa. Na manhã</p><p>seguinte, as bandeiras idólatras foram descobertas. Judeus</p><p>indignados reuniram-se em Cesareia exigindo que as ima-</p><p>gens fossem removidas. No sexto dia de manifestação Pi-</p><p>latos reuniu a multidão em uma pista de corrida, cercou-os</p><p>com soldados e ameaçou matá-los. Quando percebeu que a</p><p>multidão preferia morrer a violar sua lei religiosa, ele orde-</p><p>nou que as bandeiras ofensivas fossem retiradas.</p><p>Em outra ocasião, em Jerusalém, Pilatos dedicou alguns</p><p>escudos contendo a inscrição do imperador Tibério. Os lí-</p><p>deres judeus que queriam Jerusalém consagrada exclusiva-</p><p>mente à adoração de Yahweh ficaram, naturalmente, insul-</p><p>64</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>tados. Os judeus protestaram contra o imperador romano,</p><p>que instruiu Pilatos a mover os escudos para o templo de</p><p>Augusto, em Cesaréia. Dessa maneira, Pilatos piorou o hu-</p><p>mor dos judeus.</p><p>Mesmo sua única contribuição positiva trouxe proble-</p><p>mas. Pilatos começou a construir um aqueduto de cerca de</p><p>40 quilômetros para trazer água para Jerusalém. O siste-</p><p>ma de água beneficiou o templo, que precisava de enormes</p><p>quantidades de água para purificar os sacrifícios de grandes</p><p>animais. Pilatos pensava que o tesouro do templo deveria</p><p>ajudar a pagar a conta. As autoridades do templo protes-</p><p>taram contra o uso secular do dinheiro dedicado a Deus.</p><p>Porém Pilatos insistiu. Multidões de judeus irritados se</p><p>reuniram para protestar contra esse sacrilégio. As tropas de</p><p>Pilatos os dissiparam e mataram muitos.</p><p>A carreira de Pilatos terminou em 36 dC, depois que</p><p>suas tropas atacaram um grupo de samaritanos reunidos em</p><p>seu santo monte (Monte Gerazin). Os fieis haviam se junta-</p><p>do para seguir o autodeclarado messias samaritano. Após o</p><p>incidente samaritano, Pilatos foi chamado a Roma e perdeu</p><p>sua procuradoria. Filo de Alexandria descreveu a conduta do</p><p>ofício de Pilatos como marcada por “corrupção, violência,</p><p>degradações, maus-tratos, ofensas, numerosas execuções ile-</p><p>gais e crueldade incessante e insuportável”17.</p><p>Suicídio em M assada</p><p>Após a morte de Jesus, as relações entre judeus e romanos</p><p>continuavam a se deteriorar. A crise chegou a tal ponto em</p><p>66 dC que o procurador romano, Floro, roubou dezessete</p><p>talentos do tesouro do templo. Judeus indignados andaram</p><p>por Jerusalém pedindo dinheiro para o “pobre Floro”. Fu-</p><p>rioso, Floro enviou seus soldados para saquear a cidade. O</p><p>65</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>sacerdote do templo se recusou a fazer o sacrifício de animal</p><p>diário em favor do bem-estar do imperador romano. Judeus</p><p>insurgentes ocuparam a área do templo, desafiando Floro</p><p>para que se retirasse de Cesareia. Enquanto isso, zelotes sob a</p><p>liderança de Menahem, filho de Judas da Cfalileia, tomaram</p><p>o forte romano em Massada. O forte estava no topo de um</p><p>pico bem protegido próximo ao Mar Morto.</p><p>Duros confrontos entre os combatentes judeus e os sol-</p><p>dados romanos estouraram em Jerusalém. Ao final do verão,</p><p>os revolucionários judeus haviam expulsado os soldados ro-</p><p>manos de seu país. De fato, Roma levou um ano para recon-</p><p>quistar a Galileia e mais três para retomar Jerusalém, mas</p><p>eles a reconquistaram.</p><p>Os Zelotes de Massada e da Galileia convergiram em Je-</p><p>rusalém para uma tomada de posição final contra as brutais</p><p>forças romanas. Depois de reconquistarem a Galileia, as for-</p><p>ças romanas se moveram para o sul em direção a Jerusalém.</p><p>Destruindo aldeias sistematicamente, eles matavam ou es-</p><p>cravizavam as pessoas em seu caminho. Durante a época da</p><p>Páscoa de 70 dC o general romano Tito, com um exército de</p><p>24 mil homens, lançou um ataque total contra Jerusalém. O</p><p>poder romano esmagou aqueles que lutavam por liberdade.</p><p>Antes que o fogo destruísse o templo, Tito pegou alguns sím-</p><p>bolos judaicos sagrados - o candelabro de sete ramos e a mesa dos</p><p>pães da proposição - como troféus para o seu retorno triunfal a</p><p>Roma. O templo sagrado estava em ruínas fumegantes. Alguns</p><p>rebeldes entrincheiraram-se na fortaleza de Massada até 73 dC.</p><p>Quando os soldados finalmente conquistaram o acesso ao topo</p><p>da cúpula, apenas algumas mulheres e crianças estavam vivas. Os</p><p>patriotas zelosos preferiram o suicídio à derrota!</p><p>A derrota em Massada, no entanto, não extinguiu a cha-</p><p>ma do nacionalismo judaico. Em 132 dC, em resposta a um</p><p>66</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABECA</p><p>édito romano proibindo a circuncisão, ela explodiu sob a li-</p><p>derança de Bar Kochba. Com uma força de 200 mil homens</p><p>ele montou um Estado judaico que durou três anos. Os ro-</p><p>manos perderam entre 5 e 6 mil soldados antes de finalmen-</p><p>te derrotar Bar Kochba na segunda guerra judaico-romana.</p><p>No final, os romanos vitoriosos acabaram com cerca de</p><p>1000</p><p>aldeias, executaram mais de 500 mil pessoas, destruíram Je-</p><p>rusalém e fizeram milhares de pessoas como escravas. A des-</p><p>truição de Jerusalém em 135 dC alterou, obviamente, tanto</p><p>a história judaica quanto a cristã.</p><p>A MONTANHA BAIXA</p><p>Embora os judeus pudessem realizar seus sacrifícios</p><p>prescritos durante a ocupação romana, havia irritantes</p><p>implícitos. Desde a era de Herodes, o Grande, os gover-</p><p>nantes contratavam e demitiam os sumos sacerdotes. As-</p><p>sim, até o sumo sacerdote era, em última instância, um</p><p>fantoche romano. Além disso, o uniforme de oito peças</p><p>que o sumo sacerdote usava para simbolizar a essência da</p><p>fé judaica era guardado por soldados romanos na Forta-</p><p>leza Antônia para evitar possíveis revoltas. Os soldados</p><p>entregavam-no ao sumo sacerdote somente nos dias fes-</p><p>tivos. Um insulto final era a exigência de um sacrifício</p><p>diário, oferecido no templo de Yahweh, em nome do im-</p><p>perador romano.</p><p>Esse turbulento contexto político formava o cenário do</p><p>enfrentamento de Jesus com o diabo no alto daquela mon-</p><p>tanha. Revolta revolucionaria enchia os vales. A Palestina</p><p>da infância de Jesus não era serena. Ela era um caldeirão de</p><p>fervor revolucionário. Apenas frente a esse contexto conse-</p><p>guimos compreender o significado de sua tentação política.</p><p>A possibilidade de uma realeza política não era uma oferta</p><p>67</p><p>DONALD B KRAVBILL</p><p>vã. Esse era o objetivo de muitos profetas messiânicos, por</p><p>quem Jesus certamente era conhecido.</p><p>A tentação que Jesus recusou não foi apenas um convite</p><p>para se juntar ao alto escalão dos patriotas judeus. Não foi</p><p>apenas a tentação para se desatar do controle romano. Era</p><p>também uma armadilha para endossar a violência - o modo</p><p>aceito de governo.</p><p>Naquela alta montanha Jesus rejeitou a força bruta como</p><p>modo apropriado de governar os outros. As regras do poder</p><p>político sancionavam a força, a violência e o derramamento</p><p>de sangue. Jesus desprezou essa instituição “de cabeça para</p><p>cima” de poder político coercitivo. Ele escolheu demonstrar</p><p>um novo poder, um novo modo de governar. Ele se recusou</p><p>a jogar o jogo pelas regras antigas. Porém, ao final, seu jeito</p><p>“de ponta-cabeça” assustava tanto os antigos reinos que Ele</p><p>foi crucificado como “Rei dos judeus”.</p><p>A montanha na tentação simboliza o poder divino1*. Foi</p><p>na montanha que Deus encontrou seu povo através de Moi-</p><p>sés (Ex 24). Pregando na montanha, Jesus descreveu mais</p><p>tarde o povo de Seu novo reino como misericordioso, manso,</p><p>puro de coração e pacífico (Mt 5). Em uma montanha Ele</p><p>chamou os Seus discípulos (Lc 6:12-13)·</p><p>Depois de alimentar cinco mil, Jesus retornou à monta-</p><p>nha para um tempo de oração e renovo (Mc 6:46). A confir-</p><p>mação divina “este é o meu Filho amado” veio de uma nu-</p><p>vem sobre o alto de uma montanha (Mc 9:2,7); e do Monte</p><p>das Oliveiras, Jesus começou sua descida real para Jerusalém</p><p>sobre um jumento (Mt 21:1).</p><p>Ele foi preso alguns dias depois no mesmo Monte das</p><p>Oliveiras, quando Ele não resistiu à captura (Lc 22:39).</p><p>Após a ressurreição, os discípulos O encontraram em uma</p><p>montanha na Galileia (Mt 28:16). Finalmente, no monte</p><p>68</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>chamado das Oliveiras, o Jesus ressurreto disse a Seus se-</p><p>guidores: “Vocês receberão poder quando o Espírito Santo</p><p>descer sobre vocês” (At 1:8, 12).</p><p>A monranha simboliza a força do poder divino e a proximidade</p><p>com Deus. Jesus redefiniu o significado de poder quando se recu-</p><p>sou a usar força violenta. No entanto, era difícil para Ele se livrar</p><p>da sedução da força. Mateus e Marcos relatam três ocasiões em que</p><p>Jesus falou do sofrimento como a nova forma do poder messiâni-</p><p>co. Todas as vezes, os discípulos estavam discutindo sobre quanto</p><p>poder e autoridade eles teriam no reino. Nas três ocasiões Jesus</p><p>respondeu ensinando-os sobre o discipulado do sofrimento</p><p>Ele deixou algo extremamente claro: os heróis do reino</p><p>de ponta-cabeça não são reis guerreiros andando em carru-</p><p>agens ou reis camponeses carregando forcados. Os heróis</p><p>desse reino são crianças e servos. Estes humildes carregam a</p><p>nova bandeira do reino do servo. Eles não operam pelo poder</p><p>e pela força, mas pelo poder sustentador do Espírito Santo</p><p>fluindo da montanha de Deus.</p><p>J esus usou uma adaga?</p><p>Jesus era um terrorista? Alguns argumentam que sim19.</p><p>Ele supostamente usou as táticas sangrentas dos homens da</p><p>adaga. Os defensores desta posição argumentam que os Evan-</p><p>gelhos, escritos mais de quarenta anos após a morte de Je-</p><p>sus, deliberadamente camuflam Sua raiva violenta, de modo</p><p>que os primeiros cristãos não pareceríam ameaçadores para as</p><p>autoridades romanas20. Em outras palavras, os escritores dos</p><p>evangelhos podem ter mascarado a violência de Jesus com</p><p>imagens de um pacífico e amoroso pastor de ovelhas.</p><p>Diversas razões são dadas para colocar Jesus com os ze-</p><p>losos rebeldes21. Ele instruiu os discípulos a venderem suas</p><p>69</p><p>DONALD B KRAYBILL</p><p>roupas e comprar espadas na Ultima Ceia (Lc 22:36). Com</p><p>um chicote, Ele expulsou os cambistas e seus animais do</p><p>templo (Jo 2:1 5). Os romanos O consideravam um político</p><p>subversivo e agitador, crucificaram-No como “Rei dos ju-</p><p>deus” (Lc 23:38). Barrabás, um conhecido rebelde, liderava</p><p>uma insurreição política, mas foi considerado menos perigo-</p><p>so do que Jesus, Ele foi libertado enquanto Jesus foi morto</p><p>(Lc 23:25).</p><p>O próprio Jesus disse que não veio trazer a paz, mas a</p><p>espada (Mt 10:34). Como outros profetas zelosos, Jesus pro-</p><p>clamou um reino. Ele criticou os reis que governavam sobre</p><p>o povo (Mc 10:42). Ele até chamou Herodes de raposa (Lc</p><p>13:32). Ao menos um de seus seguidores, Simão, foi cha-</p><p>mado “o Zelote” (Lc 6:15). Alguns intérpretes usam essas</p><p>coisas para colocar Jesus junto com os revolucionários vio-</p><p>lentos. Nos relatos do evangelho descobrimos que Jesus era</p><p>de fato um revolucionário — um tipo de revolucionário. Ele,</p><p>de fato, desafiou os poderes religioso, político e econômico.</p><p>Sua afirmação de que a lei do amor substitui as regras das</p><p>instituições humanas fez dEle um revolucionário. Porém,</p><p>Ele dificilmente era violento.</p><p>Sem refutar a acusação de que Jesus era um rebelde zeloso</p><p>ponto a ponto, evidências consideráveis sugerem que Jesus</p><p>não estava entre os rebeldes violentos de Seus dias22. Terro-</p><p>ristas zelosos achavam que os seres humanos deveríam aju-</p><p>dar a Deus a inaugurar o reino. Em contraste, Jesus disse a</p><p>Seus seguidores “Não tenham medo, pequeno rebanho, pois</p><p>foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino” (Lc 12:32). Embora</p><p>Jesus tenha criticado fortemente os ricos, Ele nunca recorreu</p><p>à violência. Seus ensinamentos sobre riqueza também ame-</p><p>açavam os interesses romanos e provavelmente os evange-</p><p>lhos teriam sido apagados se eles estivessem apenas tentando</p><p>apaziguar os ânimos romanos. Pilatos pode ter visto Jesus</p><p>70</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>tomo uma ameaça política, mas isso não significa que Jesus</p><p>agiu de forma violenta.</p><p>Limpar o templo do dinheiro dos cambistas não era uma</p><p>ordem para a violência, ainda que Jesus tenha sido dramático</p><p>e vigoroso. Se uma grande revolta estourasse, os 600 soldados</p><p>da Fortaleza Antônia, com vista para o templo, iriam intervir</p><p>rapidamente. A cena no templo era uma condenação profética</p><p>da profanação dos cambistas e um sinal de que o templo de-</p><p>veria ser aberto para adoração dos gentios. A Palavra profética</p><p>- não a ação - estava no centro da purificação do templo.</p><p>Jesus repreendeu severamente o episódio da orelha cortada</p><p>por seu discípulo em resistência quando Ele foi “capturado”</p><p>no Getsêmani. Se os discípulos estivessem fortemente arma-</p><p>dos, um confronto maior provavelmente teria se desenvolví-</p><p>do. Se os discípulos fossem considerados uma ameaça violen-</p><p>ta, eles certamente teriam sido capturados e crucificados, não</p><p>teriam permitido que eles fugissem no meio da escuridão.</p><p>Talvez a evidência mais contundente de que Jesus não</p><p>estava no campo revolucionário foi o abraço caloroso aos co-</p><p>letores de impostos e publicanos. Os rebeldes zelosos odia-</p><p>vam os coletores de impostos - traidores que exploravam</p><p>os</p><p>judeus sob o poder do governo romano. Os rebeldes estavam</p><p>dispostos a matar coletores de impostos judeus, mas Jesus</p><p>os abraçou. Ele até os convidou para se juntar ao seu grupo</p><p>de discípulos. Jesus ensinou que o chamado radical do reino</p><p>ultrapassava a lealdade a outras instituições humanas. Esta</p><p>mensagem única estava fora das táticas coercitivas e, às ve-</p><p>zes, violentas dos zelosos.</p><p>Evidências persuasivas de que Jesus rejeitou a violência per-</p><p>meiam Sua mensagem e Sua vida. Como já vimos, Ele recusou</p><p>a tentação política de governar pela força. Ele nos instruiu, ao</p><p>invés disso, a amar os inimigos, abençoar aos que amaldiçoam e</p><p>71</p><p>DONALD B. KRftYBILL</p><p>perdoar 490 vezes. Em suma, Ele nos chama a servir, não a go-</p><p>vernar. Ele mostra o caminho do amor em histórias nas quais os</p><p>inimigos ajudam uns aos outros. A lição suprema, obviamente,</p><p>é o Seu próprio exemplo na cruz. Embora desrespeitado e tortu-</p><p>rado, Ele recusou a retaliação. Com cravos rasgando seu corpo,</p><p>Ele se recusou a amaldiçoar. Ele pede, em vez disso, o perdão</p><p>para aquele que “não sabem o que fazem” - perdoando de uma</p><p>só vez a ignorância e a estupidez.</p><p>A evidência final para um Jesus não-violento vem dos</p><p>ensinamentos da igreja primitiva. Durante os primeiros dois</p><p>séculos e meio após a Sua morte, a igreja primitiva proi-</p><p>biu os membros de entrarem no serviço militar. Essa prática</p><p>dificilmente teria se desenvolvido se, de fato, Jesus tivesse</p><p>adotado o uso de resistência violenta durante Sua vida23.</p><p>Jesus era um revolucionário ao violar as leis do sábado,</p><p>criticar os gananciosos, comer com os pecadores e provocar</p><p>os Fariseus. Sua mensagem do reino ameaçava o poder de</p><p>grupos com interesses pessoais. Os romanos O consideravam</p><p>uma ameaça à sua falsa tranquilidade política. Os Saduceus</p><p>de direita O odiavam porque Ele condenava sua lucrativa</p><p>operação no templo. Os Fariseus progressistas criticavam</p><p>seu desrespeito pelas suas leis de pureza ritual. E os que</p><p>lutavam por liberdade não suportavam sua conversa sobre</p><p>sofrimento. A tentação de usar a violência era difícil de es-</p><p>quecer. Porém, endossar a violência teria negado toda sua</p><p>plataforma de um amor que sofre.</p><p>Jesus foi revolucionário quando atacou a raiz do proble-</p><p>ma — o mal que muitas vezes amarra as intensões e institui-</p><p>ções humanas. Ele chamou ao arrependimento; Ele pediu</p><p>por amor; Ele anunciou que somente Deus deveria ser adora-</p><p>do. Porém sua revolução de ponta-cabeça substituiu a força</p><p>pelo sofrimento e a violência pelo amor.</p><p>7 2</p><p>REINO DE PONTA CABEÇA ס</p><p>J e s u s a m e a ç o u o status quo. E le a b a lo u as e s t ru tu ra s ta n to</p><p>d o s S a d u c e u s , q u a n to d o s F a riseu s , d o s ro m a n o s e d o s re b e l-</p><p>d es . D e c e r ta fo rm a , E le p a re c ia c o m o u tro s in su rre c io n á r io s</p><p>d a q u e le te m p o , m as su a re v o lu ç ão e s ta v a d e p o n ta -c a b e ç a .</p><p>E la p ro m o v ia a to s d e c o m p a ix ã o , n ão p u n h a is . O a m o r era a</p><p>n o v a T o rá , o p a d rã o d o S eu re in o d e p o n ta -c a b e ç a .</p><p>73</p><p>וווו</p><p>II Iιιιιι</p><p>1 ווו</p><p>in 1</p><p>CAPÍTULO 3</p><p>A PIEDADE</p><p>DO TEMPLO</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Um paraquedas celestial</p><p>overnar o mundo pela força não era a única tentação</p><p>que Jesus enfrentava. Havia a própria religião contra a</p><p>qual lutar. O próximo truque do diabo convidou Jesus para</p><p>abraçar a religião institucionalizada. Havia muitos judeus</p><p>devotos no primeiro século; entretanto, como pode acon-</p><p>tecer em qualquer fé, alguns aspectos da religião formal se</p><p>tornaram obsoletos. Um complexo código - entrelaçado en-</p><p>tre o que deve ou não deve ser feito, as peregrinações e os</p><p>sacrifícios - abrangia grande parte da vida dos judeus, do</p><p>direito civil às festas nacionais. Alguns rituais se tornaram</p><p>vazios e egoístas.</p><p>O fervor religioso, porém, corria firme e forte. A maneira</p><p>de ponta-cabeça de Jesus entrava em conflito com os pesos</p><p>pesados que guardavam os ritos sagrados hebraicos no santo</p><p>nome de Deus. As autoridades se revoltavam à medida que</p><p>Jesus demolia suas queridas pressuposições e práticas. Eles</p><p>rangiam os dentes com a blasfema sugestão de que o embai-</p><p>xador de Deus estava no meio deles, derrubando as mesas no</p><p>santo templo - o auge de todo o seu sistema.</p><p>77</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Uma aparição milagrosa, um súbito raio vindo do céu,</p><p>certamente convencería mesmo os saduceus mais céticos da</p><p>autoridade divina de Jesus. Por isso o diabo ofereceu a Jesus</p><p>uma opção atraente: por que não certificar milagrosamente</p><p>Sua missão? Isso eliminaria qualquer perseguição por parte</p><p>dos líderes religiosos. Uma benção divina milagrosa perto</p><p>do templo sagrado apagaria qualquer dúvida sobre a autori-</p><p>dade messiânica de Jesus. As massas rapidamente O segui-</p><p>riam se os escribas e sábios acolhessem o recém-chegado.</p><p>Cair de paraquedas no pátio do templo tornaria Jesus em um</p><p>messias instantâneo.</p><p>Dessa forma o diabo provocou, “Vamos Jesus, vá em fren-</p><p>te. Ignore a raiva dos fariseus. Esqueça a pobreza e a doença.</p><p>Não provoque a ira dos ricos. Por que se preocupar com a</p><p>cruz? Vamos lá Jesus. Apenas desça lá de paraquedas e todos</p><p>saberão que você é o Messias”.</p><p>T rinta e cinco acres de piedade</p><p>O que estava por trás da tentação do templo? O tem-</p><p>pio era o pináculo da vida religiosa, o coração da adora-</p><p>ção, dos rituais e da emoção judaica. O templo de Jeru-</p><p>salém provocava paixões. Ele era envolto em mistério e</p><p>admiração; era o trono da sabedoria, da lei e da Escritura.</p><p>Ele abrigava o único altar judeu no qual o sumo sacerdo-</p><p>te fazia os ritos sacrificiais de expiação uma vez por ano</p><p>por todo o mundo judaico. Lá e somente lá o perdão era</p><p>possível com o sacrifício apropriado. No único Santo dos</p><p>Santos, o sumo sacerdote entrava na presença de Deus. O</p><p>Santo dos Santos era o lar literal de Deus. Jerusalém era</p><p>a “cidade do templo”. As artérias da religião judaica pul-</p><p>savam por causa do templo. Esse era o lugar óbvio para o</p><p>astuto diabo testar Jesus.</p><p>78</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABECA</p><p>Podemos visualizar o templo como um edifício de igreja</p><p>contemporânea, mas um shopping center oferece uma mo-</p><p>desta comparação um pouco melhor. O templo em si — cerca</p><p>de 30m de comprimento, lüm de largura, 2()m de altura</p><p>— ficava dentro de uma área de 35 acres (Aproximadamente</p><p>140.000 m2). Herodes, o Grande dobrou essa área do pátio</p><p>do templo. Magníficas colunas de mármore e imponentes</p><p>paredes que variavam de 30 a 90m de altura cercavam todo</p><p>o complexo. Algumas pedras das paredes pesavam cerca de</p><p>70 toneladas e aquelas usadas na fundação, 500 toneladas.</p><p>Guardas posicionados em diversas entradas monitoravam o</p><p>fluxo do tráfego. A parte externa do templo era dividida em</p><p>duas áreas: gentios e judeus. O pátio dos gentios, aberto a</p><p>todos, cobria cerca de dois terços da área externa. Um muro</p><p>baixo de pedras impedia que os gentios entrassem na terça</p><p>parte da área dos judeus: o pátio das mulheres, o pátio dos</p><p>israelitas e o pátio dos sacerdotes. Homens judeus traziam</p><p>suas ofertas à corte dos israelitas e as entregavam aos sacer-</p><p>dotes que matavam e sacrificavam os animais no altar no</p><p>pátio dos sacerdotes. O Santo dos Santos estava dentro do</p><p>santuário, exatamente atrás do altar. Uma sala completa-</p><p>mente escura e vazia de cerca de lOm2 era a morada sagrada</p><p>do Todo-Poderoso.</p><p>O complexo do templo incluía duas estruturas adicio-</p><p>nais, dentro dos 275m do muro sul, abrigava as operações</p><p>comerciais do templo. Aqui os cambistas trocavam o Shekel</p><p>(ou Siclo) necessário para as ofertas e vendiam animais para</p><p>sacrifício. Fora dos muros, ao norte estava a Fortaleza Antô-</p><p>nia, de onde soldados romanos vigiavam toda a área prontos</p><p>para acalmar qualquer tumulto'.</p><p>O prédio do templo, que abrigava o Santo dos Santos,</p><p>não era usado para adoração pública, porque era conside-</p><p>rado, literalmente, a “casa de Deus”. Adoração, sacrifício e</p><p>79</p><p>DONALD B KRAYBILL</p><p>outros rituais aconteciam nos grandes pátios externos, fora</p><p>do templo. Ouro e prata</p><p>cobriam boa parte do edifício, in-</p><p>cluindo a mobília e o telhado. Dos campos distantes ele apa-</p><p>recia como um pico resplandecente sobre a montanha sagra-</p><p>da. Havia tanto ouro dentro do templo que depois de sua</p><p>destruição e do saque no ano de 70 dC, a província da Síria</p><p>estava tão saturada de ouro que seu valor caiu pela metade.</p><p>Um provérbio hebraico dizia “Aquele que não viu o santo</p><p>lugar nos detalhes de sua construção nunca viu um edifício</p><p>esplêndido em sua vida” (Mc 13:1). O tamanho do templo</p><p>se destaca pelo fato de que quase 20 mil trabalhadores per-</p><p>deram seus empregos quando a reconstrução foi finalmente</p><p>completa em 62 dC.</p><p>Aproximadamente 18 mil sacerdotes e levitas divididos</p><p>em vinte e quatro grupos chamados “cursos” estavam en-</p><p>volvidos na operação do templo. Estes sacerdotes e levitas</p><p>viviam nos campos da Galileia e da Judeia e vinham para o</p><p>templo em viagens, para uma semana de trabalho duas vezes</p><p>por ano. Eles também ajudavam durante três festivais anu-</p><p>ais acompanhados pelos peregrinos judeus de muitos países.</p><p>Quando o véu do templo foi purificado, foram necessários</p><p>300 sacerdotes para mergulhá-lo em um tanque de água.</p><p>Eram necessários duzentos levitas todas as noites para fe-</p><p>char as portas do templo. Dezenas de cambistas vendiam di-</p><p>nheiro “puro” aos peregrinos para os dízimos e negociavam</p><p>animais para sacrifício. O templo tinha três funções: ritual,</p><p>econômica e administrativa.</p><p>Um grupo de elite de chefes dos sacerdotes administrava</p><p>toda a operação. O tesouro do templo também funcionava</p><p>como um grande banco nacional. Ele mantinha os dízimos</p><p>e ofertas exigidos aos judeus de todo o mundo. A elaborada</p><p>operação do templo gerava a principal fonte de renda para a</p><p>cidade de Jerusalém, e seus tentáculos se estendiam para os</p><p>80</p><p>0 REINO QE PONTA CABEÇA</p><p>campos onde possuía grandes propriedades cultivadas por</p><p>pobres camponeses.</p><p>Judeus devotos que viviam além da Palestina vinham ao</p><p>templo três vezes ao ano para celebrar as festas religiosas.</p><p>Na primavera, a Festa da Páscoa narrava a libertação do Egi-</p><p>to. Cerca de cinquenta dias depois, a Festa de Pentecostes</p><p>agradecia pelos primeiros frutos da colheita. No outono, a</p><p>Festa dos Tabernáculos incluía uma marcha solene em torno</p><p>do altar em gratidão a Deus pela colheita completa. Mais</p><p>importante ainda, o grande Dia da Expiação era celebrado</p><p>no outono. Nesse dia, o sumo sacerdote sacrificava um bode</p><p>por seus próprios pecados e enviava outro para o deserto pe-</p><p>los pecados do povo. Durante essas festas de peregrinos, a</p><p>população normal de Jerusalém, de cerca de 25 mil pessoas</p><p>passava para 180 mil.</p><p>81</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA</p><p>O templo era uma monumental lembrança de que o povo</p><p>eleito de Deus tinha acesso a Ele através de seu ritual sa-</p><p>crificial. Todas as manhãs e todas as tardes, dia após dia o</p><p>“contínuo” holocausto de um cordeiro imaculado era feito</p><p>em favor da comunidade. Essas ofertas perpétuas exigiam</p><p>em torno de 1200 animais por ano2. Uma oferta de incenso</p><p>misturado a especiarias também queimava diariamente. Os</p><p>judeus devotos também ofereciam sacrifícios provados. O</p><p>cheiro da fumaça, de carne e gordura animal sendo quei-</p><p>madas enchia o ar do templo. Os sacerdotes exerciam vários</p><p>deveres no sistema de sacrifícios. Eles removiam as cinzas do</p><p>altar, preparavam a lenha, matavam o cordeiro, aspergiam o</p><p>sangue no altar, limpavam o candelabro e preparavam ofer-</p><p>tas de alimentos e de bebidas’. Ao menos vinte sacerdotes</p><p>escolhidos por sorteio todos os dias, realizavam os sacrifícios</p><p>regulares, enquanto outros realizavam as ofertas especiais.</p><p>O templo era a peça central da fé judaica. Ele simbolizada a</p><p>presença viva de Deus na Terra. As pessoas vinham ao templo</p><p>para orar, crendo que daquele local suas orações iriam direto</p><p>para os ouvidos de Deus. Aqui tanto nazireus quanto gentios</p><p>convertidos ofereciam sacrifícios. Para esse lugar era trazida a</p><p>esposa suspeita de adultério. Aqui os primeiros frutos eram ofe-</p><p>recidos. Aqui mães faziam ofertas de purificação no nascimento</p><p>de cada filho. Esse lugar sagrado era a fonte de perdão.</p><p>De todo o mundo mediterrâneo, os impostos judaicos</p><p>fluíam para sustentar o templo. Três vezes ao ano, o povo en-</p><p>chia esse lugar para as festas4. Esse era o lar de setenta mem-</p><p>bros do sinédrio, a máxima autoridade judaica para assuntos</p><p>religiosos, políticos e civis. Aqui morava o sumo sacerdote.</p><p>Em tudo isso o templo pulsava com o batimento cardíaco</p><p>da fé judaica de todo o mundo. E quase impossível exagerar</p><p>sobre a importância do templo e do sacrifício. Lugar e ritual</p><p>formavam o núcleo sagrado da religião hebraica.</p><p>83</p><p>DONALD B KRAYBILL</p><p>Ritual de purificação</p><p>As imagens contemporâneas do templo como um santu-</p><p>ário majestoso num subúrbio tranquilo são distorções histó-</p><p>ricas. Pense novamente! Imagine um enorme matadouro à</p><p>beira de um pátio de 35 acres cercado por muros. Os animais</p><p>grunhiam quando suas gargantas eram cortadas. Litros de</p><p>sangue fluíam para dentro dos dutos especialmente cons-</p><p>truídos para esse fim na parte inferior do altar externo. O</p><p>massacre era de dezenas de milhares de animais por ano.</p><p>O ritual de sacrifício era um enorme sistema de purifi-</p><p>cação. Como um grande rim, ele filtrava as impurezas do</p><p>pecado de vidas coletivas tornando-as aceitáveis a um Deus</p><p>santo que exigia pureza. Cerca de seis tipos diferentes de</p><p>oferta exigiam um sacrifício no templo: a oferta queimada,</p><p>a oferta de cereal, a oferta de paz, a oferta de purificação, a</p><p>oferta de reparação e a oferta de gratidão’. Três grandes gru-</p><p>pos de ocupações - sacerdotes, levitas e escribas, serviam a</p><p>grande operação do templo.</p><p>O sumo sacerdote, o sacerdote dos sacerdotes, era a cabeça</p><p>simbólica tanto da fé quanto da nação. Ele usava uma vesti-</p><p>menta esplêndida, de oito partes, com cada peça invocando</p><p>poder para expiar todos os pecados específicos. Apenas o sumo</p><p>sacerdote, em perfeita pureza, podería abrir as cortinas e en-</p><p>trar no Santo dos Santos na presença de Deus, uma vez por</p><p>ano no Dia da Expiação. Ele oferecia os sacrifícios no sábado</p><p>e durante as festas de peregrinação. Até a sua morte tinha</p><p>poder expiatório. Os assassinos que fugiram para uma cidade</p><p>de refúgio após acidentalmente matar alguém, só poderíam</p><p>retornar para casa depois da morte do sumo sacerdote.</p><p>O sumo sacerdote estava sujeito a estritas leis de pureza</p><p>cerimonial. Ele não podia tocar em um cadáver nem entrar</p><p>em uma casa de luto. Um “cuspe árabe” certa vez contaminou</p><p>84</p><p>0 R E I N O D E P O X T A C A B E Ç A</p><p>um sumo sacerdote na noite anterior ao Dia da Expiação. De-</p><p>pois disso, os sumos sacerdotes foram obrigados a passar por</p><p>um isolamento, uma purificação de sete dias antes de oficiar</p><p>o Dia da Expiação. Ninguém podia ver o sumo sacerdote nu</p><p>ou quando se barbeava ou tomando banho. Sua linhagem ti-</p><p>nha que ser imaculada. Isso exigia laços diretos com a família</p><p>de Aarão. Regras rígidas exigiam que ele casasse apenas com</p><p>uma virgem de 12 anos de idade de pura descendência. Mui-</p><p>tos sacerdotes casavam com as filhas dos sacerdotes.</p><p>O papel do sumo sacerdote não era apenas pomposo e ce-</p><p>rimonial. Ele exercia considerável poder como presidente do</p><p>Sinédrio. Este conselho supremo tinha completa autoridade</p><p>judicial e administrativa em assuntos religiosos e civis. Seu</p><p>julgamento sobre questões religiosas era respeitado muito</p><p>além das fronteiras da Judeia. Esse era um corpo autoperpe-</p><p>tuante composto de sumos sacerdotes, escribas (geralmente,</p><p>embora nem sempre, do partido fariseu), e nobreza. Embora</p><p>os tribunais inferiores se reunissem em vários distritos da Ju-</p><p>deia, o Sinédrio era o tribunal supremo da autoridade judaica.</p><p>O poder do sumo sacerdote cresceu consideravelmente sob</p><p>o comando dos procuradores romanos. Ele se tornou o princi-</p><p>pal porta-voz judeu, não apenas em questões cerimoniais, mas</p><p>também para negociações políticas com os romanos. Dezes-</p><p>seis dos dezoito sumos sacerdotes entre 6 dC e 67 dC vieram</p><p>de cinco proeminentes e ricas famílias de</p><p>Jerusalém.</p><p>Uma extensa hierarquia de oficiais religiosos se esten-</p><p>dia abaixo do sumo sacerdote e do Sinédrio. O capitão do</p><p>templo administrava a equipe do templo. Ele estava classi-</p><p>ficado próximo do sumo sacerdote porque frequentemente</p><p>auxiliava o sacerdote a cumprir deveres solenes. No próximo</p><p>degrau estavam os vinte e quatro sacerdotes que dirigiam</p><p>vinte e quatro grupos de cerca de 7 mil sacerdotes comuns.</p><p>Eles viviam nos campos e participavam do ritual do tem-</p><p>85</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>plo pelo menos cinco vezes por ano. Em seguida vinham</p><p>os 156 sacerdotes que serviam como coordenadores diários</p><p>do trabalho dos demais sacerdotes do templo naquele dia</p><p>específico.</p><p>As relações administrativas do templo estavam sob a res-</p><p>ponsabilidade de sete supervisores permanentes. Em segui-</p><p>da vinham três tesoureiros que administravam o tesouro do</p><p>templo cobrando impostos, comprando materiais de sacri-</p><p>fício e supervisionando a venda de animais aos peregrinos.</p><p>Eles também mantinham os noventa e três vasos de ouro e</p><p>prata usados para os rituais diários e administravam a pro-</p><p>priedade do templo. Em seguida na classificação estavam</p><p>os sacerdotes comuns que viviam nos campos e vinham ao</p><p>templo cinco vezes por ano executar seus deveres sagrados.</p><p>Zacarias, o pai de João Batista (Lc 1:5), era um desses.</p><p>No final da escala ritual estavam quase 10 mil levitas. Vi-</p><p>vendo em aldeias vizinhas, eles ajudavam no templo quando</p><p>estavam em seu turno de trabalho que era de uma semana.</p><p>Os levitas eram considerados inferiores aos sacerdotes, em-</p><p>bora alguns levitas servissem como cantores e músicos. O</p><p>restante fazia o trabalho pesado do templo - servindo como</p><p>porteiros, guardas de segurança, coletores de lixo e trabalha-</p><p>dores do saneamento em toda a área do templo6. Os escribas</p><p>serviam como escriturários, gravadores, especialistas legais</p><p>e contadores. Provavelmente havia diversos papéis clericais</p><p>ou, como podemos dizer hoje, papéis “de secretariado”- co-</p><p>piando documentos, escrevendo cartas e acordos, registran-</p><p>do impostos e elaborando papéis legais. Embora esse não</p><p>seja um grupo social organizado, os escribas desempenha-</p><p>vam funções clericais da vida das aldeias à corte real. Muitos</p><p>escribas também eram estudantes da Torá: a Lei.</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>E stabelecendo a L ei</p><p>A piedade e a paixão judaicas estavam enraizadas no</p><p>templo e na Torá. No centro das atividades do templo e no</p><p>centro da religião judaica estava a Torá7 Normalmente co-</p><p>nhecida como “Lei”, é melhor traduzida como “doutrina" ou</p><p>“ensino religioso”. Tecnicamente se refere aos cinco livros</p><p>de Moisés. Além disso, os estudantes da Torá compunham</p><p>interpretações orais ou comentários sobre a Escritura. Estas</p><p>“cercas orais em torno da Torá” traduziam a Torá em di-</p><p>versas diretrizes práticas para a vida diária. Assim, a Torá</p><p>incluía não apenas os cinco livros de Moisés, mas também o</p><p>comentário oral que crescia em torno dela.</p><p>A Torá, acreditavam os judeus, continha a vontade ab-</p><p>soluta e inquestionável de Deus. Obedecê-la era obedecer</p><p>a Deus. Um culto de adoração se desenvolveu em torno da</p><p>Torá, personificando-a como a “muito amada filha de Deus”.</p><p>Dizia-se que Yahweh dedicava horas de lazer ao estudo da</p><p>Torá, até mesmo lendo-a em voz alta no sábado. Os judeus</p><p>consideravam-na como o padrão absoluto para todos os as-</p><p>pectos da vida religiosa. Ela era fonte da verdade de Deus.</p><p>A leitura e discussão contínuas da Torá era uma atividade</p><p>sagrada primordial. No comentário oral que cercava a Torá,</p><p>os judeus piedosos poderíam descobrir se era lícito comer</p><p>um ovo colocado no sábado. Eles podiam descobrir se a água</p><p>derramada de um balde limpo em um impuro contaminava</p><p>aquele que era limpo do qual ela foi derramada. A Torá re-</p><p>gia os sacrifícios no templo em Jerusalém e a adoração nas</p><p>sinagogas das aldeias.</p><p>Como vimos, sacerdotes e levitas forneciam a perícia e a</p><p>mão de obra para o trabalho no templo. Além de seus papéis</p><p>clericais, os escribas explicavam os segredos da Torá*. Os es-</p><p>cribas mais instruídos e de nível mais alto, desvendavam as</p><p>87</p><p>DONALD B KRAYBILL</p><p>complexas tradições que cercavam a Torá. Cuidadosamente</p><p>treinados, os escribas eram muitas vezes conhecidos como</p><p>“doutores da Lei”. Eles eram reverentemente chamados de</p><p>“rabino”, “mestre” e “pai”. Os escribas usavam um manto</p><p>especial, longo até os pés, arrematados por uma franja. As</p><p>pessoas se levantavam em respeito quando esses sábios ho-</p><p>mens passavam pelas ruas. Os lugares de mais alta honra na</p><p>sinagoga eram reservados a eles. Em seus primeiros anos de</p><p>adolescência, alguns jovens entravam na carreira de escribas,</p><p>fazendo um curso regular de estudos. O jovem estudante</p><p>aprendia com um rabino mais velho por muitos anos até que</p><p>dominasse os detalhes da Torá e seu comentário. Com cerca</p><p>de quarenta anos de idade o aluno era ordenado um escriba</p><p>pleno, com todos os direitos de um sábio estudioso. Após a</p><p>ordenação ele podería tomar decisões sobre a legislação re-</p><p>ligiosa e pureza cerimonial, bem como sobre processos cri-</p><p>minais e civis. Somente estudiosos ordenados podiam criar e</p><p>transmitir as tradições da Torá.</p><p>Exceto pelos sumos sacerdotes e aqueles que pertenciam</p><p>a famílias nobres, os escribas eram as únicas pessoas que</p><p>podiam se assentar no poderoso Sinédrio. Jovens judeus</p><p>de todo o mundo iam para Jerusalém no tempo de Jesus</p><p>para estudar com os estimados escribas porque Jerusalém</p><p>era o centro teológico do judaísmo. Escribas influentes, em</p><p>suma, “eram venerados, como os profetas de antigamente,</p><p>com respeito ilimitado e temor reverenciai9. Como pro-</p><p>fessores do conhecimento sagrado, suas palavras possuíam</p><p>autoridade soberana”.</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Partidos políticos</p><p>Em nossa exploração pela religião judaica, examinamos</p><p>os papéis formais do sacerdote, do levita e do escriba. Vi-</p><p>mos brevemente o templo, o Sinédrio e a sinagoga. Além</p><p>desses papéis e organizações, existiam dois partidos polí-</p><p>ticos religiosos - os saduceus e os fariseus. Esses partidos</p><p>desenvolveram-se no século II aC devido a diferenças reli-</p><p>giosas e sociais.</p><p>O divisor de águas entre eles era a sua compreensão da</p><p>Torá. Os saduceus consideravam a Torá escrita, os cinco li-</p><p>vros de Moisés, sua autoridade final eles rejeitavam o co-</p><p>mentário oral sobre a Torá, que os fariseus aceitavaml<). Os</p><p>saduceus também negavam a ressurreição, a imortalidade e</p><p>a vida futura. Além disso, eles eram céticos quanto a anjos e</p><p>demônios. Em suma, os saduceus representavam o elemento</p><p>conservador do judaísmo. Eles eram defensores da verdadei-</p><p>ra fé de Israel transmitida por Moisés.</p><p>Os saduceus viviam principalmente em Jerusalém. Eles</p><p>vinham da classe de governo e da rica aristocracia. Alguns</p><p>dos principais sacerdotes eram membros do partido sadu-</p><p>ceu. Eles estavam intimamente envolvidos nas operações</p><p>do templo e dominavam o Sinédrio. Em suma, os saduceus</p><p>dirigiam tanto as relações religiosas quanto sociais da rica</p><p>classe alta de Jerusalém. Os saduceus apoiavam o status quo</p><p>tanto político quanto religioso de Jerusalém. Eles aceitavam</p><p>e colaboravam com o controle romano desde que eles pudes-</p><p>sem manter o sangue fluindo sobre o altar e manter o seu</p><p>status privilegiado.</p><p>Em contraste, o partido farisaico representava a ala pro-</p><p>gressista do judaísmo11. Como progressistas em busca de</p><p>santidade, os fariseus aplicavam a Torá a questões práticas e</p><p>cotidianas. Conhecidos como “separados” os fariseus desen­</p><p>DONALD B. KRAtBILL</p><p>volveram a tradição oral para aplicar a Torá a cada situação</p><p>que um judeu podería enfrentar.</p><p>A Torá ditava regras de pureza para os sacerdotes oficiantes.</p><p>Os fariseus procuravam estender essas regras, esses hábitos de</p><p>santidade à vida cotidiana das pessoas comuns. Encorajando</p><p>as pessoas comuns a serem puras, piedosas e santas, eles espe-</p><p>ravam em algum momento moldar todos os israelitas em um</p><p>santo sacerdócio - um reino de sacerdotes, uma nação santa.</p><p>Os fariseus são muitas vezes confundidos com os escribas.</p><p>Alguns</p><p>escribas se juntaram ao partido fariseu enquanto ou-</p><p>tros se afiliaram aos saduceus. Alguns membros dos fariseus</p><p>vinham do meio de piedosas pessoas comuns. Os fariseus</p><p>operavam principalmente na área rural, promovendo sua</p><p>doutrina em sinagogas locais. Como os campeões da santi-</p><p>dade para povo comum, eles se colocavam em oposição à rica</p><p>elite dos saduceus. O apelo de Jesus aos plebeus ameaçava a</p><p>base da política rural dos fariseus e aumentava sua ferrenha</p><p>crítica a Ele.</p><p>9 0</p><p>0 REINO DE PONTA CABE(«</p><p>Embora tivessem amplo apoio, os fariseus eram apenas</p><p>cerca de 6000. Isso se devia, provavelmente, ao seu rigor. Os</p><p>membros potenciais tinham um ano de estágio para provar</p><p>sua conformidade com as meticulosas leis de pureza. Os fa-</p><p>riseus desafiavam o governo estabelecido em Jerusalém, mas</p><p>também desdenhavam das pessoas comuns que não se preo-</p><p>cupavam com a pureza cerimonial e o dízimo. Eles eram le-</p><p>galistas rígidos, mas também acolhiam novas interpretações</p><p>- sempre procurando aplicar a Torá a novas questões.</p><p>Dois movimentos políticos adicionais eram os essênios e os</p><p>combatentes por liberdade. Como vimos, aqueles que lutavam</p><p>por liberdade não estavam organizados até algumas décadas</p><p>após a morte de Jesus, quando os zelotes se formaram. Antes</p><p>disso, bandidos sociais e manifestantes que defendiam a li-</p><p>berdade surgiam de forma independente. Entretanto, perto</p><p>das margens do Mar Morto, os essênios usavam uma tática</p><p>diferente dos combatentes por liberdade: eles se retiravam</p><p>da sociedade. Esses separatistas criaram uma sociedade co-</p><p>munitária autossuficiente em Qumran. Descontentes com a</p><p>liderança do templo de Jerusalém, eles optaram por deixar</p><p>o sistema. Eles criaram seus próprios rituais de purificação</p><p>e esperavam que o mundo acabasse em uma grande batalha</p><p>entre os filhos da luz e os filhos da escuridão - os romanos12.</p><p>E speranças messiânicas</p><p>Independentemente das opiniões políticas, saduceus, fa-</p><p>riseus, essênios e os combatentes por liberdade esperavam</p><p>um messias que expulsaria os romanos e colocaria tudo no</p><p>lugar novamente na Palestina.</p><p>Eles tinham suas diferenças, obviamente, sobre o quanto</p><p>pensavam que Deus precisava de sua ajuda. Assim, no nasci-</p><p>mento de Jesus, as esperanças messiânicas estavam vivas na co-</p><p>91</p><p>DONALD B KRAYBILL</p><p>munidade judaica. Havia muitas correntes de esperança, mas o</p><p>anseio mais profundo era por um novo governante ungido por</p><p>Deus - aquele que restabelecería o trono de Davi em toda a sua</p><p>antiga glória e inauguraria um reino de Deus pacífico.</p><p>Tal esperança se intensificou no século anterior a Jesus.</p><p>Os Salmos de Salomão escritos nesse tempo, retratam o Mes-</p><p>sias derrubando os rudes gentios que invadem o lugar santo</p><p>de Deus e expulsando os sacerdotes judeus corruptos que</p><p>pervertem a adoração a Yahweh. O Ungido reunirá as tribos</p><p>espalhadas na Terra Prometida. Ele trará dias abençoados</p><p>em todos os sentidos. Sob Seu comando Jerusalém, a Cidade</p><p>Santa da presença de Deus, reinará soberana - “um lugar</p><p>para ser visto em toda a terra”13. Em Lucas (1:32-33) o anjo</p><p>Gabriel oferece a Maria uma nova visão do reino messiânico.</p><p>“Ele será grande e será chamado Filho do Al-</p><p>tíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de</p><p>seu pai Davi,e ele ninará para sempre sobre</p><p>o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim”</p><p>(Lc 1:32,33; ênfase adicionada)</p><p>Um refrão semelhante vem da boca de Zacarias, o pai de</p><p>João Batista, registrado em Lucas:</p><p>“Louvado seja o Senhor, o Deus de Isra-</p><p>el, porque visitou e redimiu o seu povo.</p><p>Ele promoveu poderosa salvação para nós, na</p><p>linhagem do seu servo Davi, (como falara pelos</p><p>seus santos profetas, na antigüidade ), salvando-</p><p>-nos dos nossos inimigos e da mão de todos os que</p><p>nos odeiam, para mostrar sua misericórdia aos</p><p>nossos antepassados e lembrar sua santa aliança. ”</p><p>(Lc 1:68-72)</p><p>92</p><p>0 REINO DE PONTA CABECA</p><p>Era incerto como o Messias aparecería. Alguns pensavam</p><p>que Ele viria dos céus, sobre uma nuvem. Outros esperavam</p><p>que Ele fosse nascido como homem, mas de repente revelado</p><p>de forma decisiva. Jerusalém, lar do templo sagrado, era o</p><p>exato local onde esses textos messiânicos eram cuidadosa-</p><p>mente estudados. Esse era o lugar óbvio para a armadilha</p><p>do diabo.</p><p>O relato da tentação não especifica exatamente onde o</p><p>diabo queria que Jesus pulasse. No canto do muro do tem-</p><p>pio, caindo por centenas de metros até o Vale do Cédronr׳ Ou</p><p>Ele deveria despencar dentro do pátio externo na entrada do</p><p>templo׳׳ Independentemente da forma, uma queda de para-</p><p>quedas milagrosa certificaria, acima de qualquer suspeita, a</p><p>chegada do Messias. Ele atordoaria todos no centro da vida</p><p>religiosa, onde as coisas eram feitas de forma apropriada, em</p><p>conformidade exata com a lei. Os escribas, o Sinédrio, os</p><p>sumos sacerdotes - todos os pesos pesados religiosos - tes-</p><p>temunhariam a chegada miraculosa. Ao verem o milagre</p><p>com seus próprios olhos, eles rapidamente aclamariam Jesus</p><p>como o verdadeiro Messias.</p><p>Tal certificação divina silenciaria qualquer confronto</p><p>com a instituição religiosa. Os oponentes ficariam calados.</p><p>A aristocracia de Jerusalém recebería o novo “operador de</p><p>milagres”. Jesus podería evitar ficar vagando entre os cam-</p><p>poneses pobres da Galileia. Não havería dúvida - Jesus, o</p><p>Messias, havia chegado!</p><p>0 M essias de ponta- cabeça</p><p>A ideia de desfrutar da aprovação da instituição religiosa</p><p>deve ter tentado Jesus. Porém Ele se afastou. Ele rejeitou a</p><p>religião de “cabeça para cima”. A tentação aparentemente</p><p>persistia sobre Ele, entretanto, até a crucificação. Quando</p><p>93</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>os guardas O prenderam no Getsêmani, Ele lembrou ao dis-</p><p>cípulo cortador de orelhas que Ele podería chamar e uma</p><p>nuvem de anjos viría em Sua defesa. Porém Ele não o fez.</p><p>Em vez de sucumbir à religião institucionalizada, Jesus ar-</p><p>rançou até seus fundamentos. Suas parábolas traziam severo</p><p>julgamento aos líderes judeus. Ele voluntariamente violou</p><p>as leis sagradas do sábado. “Blasfemo!”, gritavam os líderes</p><p>religiosos quando Ele espantou os comerciantes do templo e</p><p>chamou o templo sagrado de covil de ladrões.</p><p>Ainda assim, Ele não desprezou completamente a reli-</p><p>gião estabelecida. Ele ensinava nas sinagogas e no templo.</p><p>Ele endossou a Torá. Ele pediu que os leprosos curados fos-</p><p>sem mostrar-se ao sacerdote, de acordo com a tradição. Ele</p><p>ordenou que Pedro pegasse um peixe para pagar o impos-</p><p>to do templo. A verdade seja dita, Ele era um judeu, um</p><p>profeta judeu aos olhos da maioria das pessoas. Ele apoiava</p><p>as virtudes da Lei e a piedade da verdadeira fé hebraica.</p><p>Ele assumiu a difícil tarefa de criticar o judaísmo estando</p><p>dentro dele.</p><p>Porém, quando as práticas religiosas se tornaram ultra-</p><p>passadas, Ele as virou de ponta-cabeça e de dentro para fora</p><p>e as colocou de volta em seu propósito original. Ele se re-</p><p>cusou a abençoar as estruturas religiosas, que classificavam</p><p>as pessoas por seus atos piedosos. Ele substituiu a maquina-</p><p>ria da religião formalizada por compaixão e amor. Jesus, o</p><p>Messias de ponta-cabeça, se tornaria o novo sumo sacerdote.</p><p>O Espírito de Deus sairía do Santo dos Santos no templo e</p><p>repousaria no coração de cada cristão. As pessoas não ado-</p><p>rariam mais a Deus no templo ou no santo monte. Agora</p><p>elas poderíam se aproximar de Deus em qualquer lugar em</p><p>espírito e em verdade (Jo 4:23). Agora o Espírito habita-</p><p>ria no templo de cada cristão. A adoração estaria liberta de</p><p>edifícios elaborados e rituais complicados. Nas palavras dos</p><p>94</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Evangelhos, “está aqui quem é maior do que o templo” (Mt</p><p>12: 6). Maior do que o templo! Tal ideia — quase impossível</p><p>de entender - era ultrajante para os ouvidos judeus.</p><p>A medida que a história se desenrolava, Jesus se tornava</p><p>o sacrifício final e definitivo. Ele seria o imaculado Cordeiro</p><p>de Deus morto pelos pecados do mundo. Jesus revelaria</p><p>os segredos da nova Torá do amor. Esta Torá acabaria com</p><p>cerimoniais de purificação e sacrifício. Ele oferecería perdão</p><p>aos pecadores diretamente de Deus, sem peregrinar</p><p>ao tem-</p><p>pio ou cortar gargantas em sacrifício.</p><p>Jesus afirmou a nova religião de ponta-cabeça quando</p><p>disse a um escriba cjue ele estava perto do reino de Deus se</p><p>colocasse o amor a Deus, a si mesmo e ao próximo acima de</p><p>todas as ofertas queimadas (Mc 12:31-34). Em Jesus vemos</p><p>a religião de ponta-cabeça - sem edifícios, sem programa,</p><p>sem clero de elite. Em Jesus temos um sacrifício final, uma</p><p>oferta definitiva, um novo templo no coração de cada cristão</p><p>e uma nova Torá - a Lei do amor.</p><p>Jesus rejeitou a tentação da exibição espetacular. Ele pre-</p><p>feria o segredo messiânico - o papel do Salvador servo. Ao</p><p>longo de seu ministério, Ele demorou a revelar sua identi-</p><p>dade. Ele falou em enigmas e parábolas. Ele proibiu as pes-</p><p>soas que ele curou miraculosamente de falarem. Este não</p><p>era um Messias arrogante, que tocava trombetas. Ele não</p><p>era nenhum mágico que executava sinais especiais para que</p><p>as multidões batessem palmas. Sua própria vida era o sinal.</p><p>Cuidado com os perdidos, compaixão pelos pobres e amor</p><p>até mesmo pelos inimigos. Estes eram os sinais messiânicos.</p><p>Os novos heróis eram os desprezados da religião institu-</p><p>cional. Eles eram pecadores arrependidos, publicanos, cole-</p><p>tores de impostos confessos e meretrizes. O que dizer dos</p><p>antigos heróis - escribas, sacerdotes, fariseus e saduceus - os</p><p>95</p><p>DONALD B KRAYBILL</p><p>guardiães do ritual sagrado? Eles agora foram destronados,</p><p>trazidos para baixo, e recomendados a se tornarem como</p><p>crianças. Não é de admirar que Sua mensagem os incomo-</p><p>dasse. Não é de admirar que eles O tivessem matado.</p><p>96</p><p>CAPÍTULO 4</p><p>DESERTO</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA</p><p>Rei do bem- estar</p><p>Jesus rejeitou o poder pomposo e a religião espetacu-</p><p>lar, mas o diabo tinha mais uma armadilha. Jesus se-</p><p>ria um rei do bem-estar? Por que não alimentar milagro-</p><p>samente os pobres?</p><p>Jesus foi tentado a transformar pedras em pão apenas</p><p>porque Ele estava com fome? Esta interpretação pode con-</p><p>ter um pouco da verdade, mas o significado mais completo</p><p>da tentação está na situação econômica das massas pales-</p><p>tinas. O pão simboliza o coração da vida material. Como</p><p>o núcleo de muitas dietas, ele está nas mesas refeição após</p><p>refeição, semana após semana. Na oração do Pai Nosso — “o</p><p>pão nosso de cada dia dá-nos hoje” — o pão representa as</p><p>necessidades básicas. Por meio de sua fome literal, Jesus</p><p>se identificou com os milhares de camponeses pobres cuja</p><p>existência diária girava em torno da busca por pão. Sua</p><p>fome gritando o agitou para agir em nome de outros que</p><p>compartilhavam sua dor.</p><p>99</p><p>D O N A L D B K R A V B I L L</p><p>A tentação de Jesus, no entanto, não é engolir pães de pe-</p><p>dra para aliviar o jejum de quarenta dias1. Pensar em pão O</p><p>lembrado maná de Deus distribuído gratuitamente durante</p><p>o período de quarenta anos dos israelitas no deserto. Talvez</p><p>memórias de Nazaré, Sua cidade natal, também vieram à</p><p>mente. Ele vê credores implacáveis tirando camponeses po-</p><p>bres de suas terras e um sistema de dupla tributação opri-</p><p>mindo as massas. Ele ouve os leprosos, os cegos e os pobres</p><p>- pisoteados pelos piedosos e gananciosos - clamando por</p><p>socorro. Por que não alimentar milagrosamente as massas</p><p>e dar um banquete divino a Seus seguidores? Comida de</p><p>graça certamente traria uma onda de apoio público na Gali-</p><p>leia. “Alimente-os, Jesus, alimente-os”, o tentador sussurra:</p><p>“Você tem o poder. Vá em frente. Asse o pão!”.</p><p>Até as autoridades religiosas tinham medo das massas.</p><p>A prisão noturna de Jesus foi motivada pelo medo das mui-</p><p>tidões. O próprio Jesus percebeu que uma multidão bem</p><p>alimentada podería tomá-Lo e torná-Lo rei pela força (Jo</p><p>6:15). O pão era o caminho mais rápido para o coração da</p><p>multidão. Marcos tempera o seu Evangelho com referências</p><p>a multidões (muitos milhares) seguindo Jesus. Lucas (12:1)</p><p>observa que as multidões, uma vez estavam tão apertadas,</p><p>que se pisoteavam. Nem Pilatos nem o sumo sacerdote po-</p><p>diam neutralizar o frenesi contagioso da turba. Alimentar</p><p>as multidões oferecia a Jesus um atalho para assegurar seu</p><p>apoio político.</p><p>A tentação do pão envolveu mais do que um abuso de</p><p>poder. Ela reduziría o Deus encarnado a um rei do bem-es-</p><p>tar. Os pensamentos tentadores fluem: “Diminua a pobreza</p><p>deles sem sofrer. Deixe que as autoridades religiosas conti-</p><p>nuem com sua idolatria. Não pregue o juízo de Deus sobre</p><p>os gananciosos — apenas distribua pão aos famintos. Não cri-</p><p>tique a injustiça econômica, o templo e o controle romano</p><p>100</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>—apenas jogue pão aos pobres camponeses galileus e deixar</p><p>a vida seguir”. Essas sugestões diabólicas teriam reduzido os</p><p>seres humanos a organismos sem alma — a simples animais</p><p>comedores de pão.</p><p>M uito rico e muito pobre</p><p>A maioria dos membros das sociedades desenvolvidas</p><p>pertence a uma grande classe média. Em grande contraste, a</p><p>Palestina do primeiro século tinha basicamente duas classes</p><p>econômicas: alta e baixa2. Nas sociedades camponesas base-</p><p>adas na agricultura, noventa por cento ou mais das pessoas</p><p>são geralmente camponeses pobres. A riqueza é baseada na</p><p>propriedade da terra, mas grande parte dela é mantida por</p><p>ricos proprietários ausentes.</p><p>Assim era na Palestina. Uma pequena classe alta repre-</p><p>sentava dez por cento ou menos da população. Eram os do-</p><p>nos das terras, os aristocratas hereditários; burocratas desig-</p><p>nados, líderes dos sacerdotes, comerciantes, funcionários do</p><p>governo e vários servidores oficiais que atendiam às necessi-</p><p>dades da classe governante. O resto das pessoas — provável-</p><p>mente noventa por cento ou mais - estavam na classe baixa.</p><p>A maioria era de camponeses pobres vivendo precariamente,</p><p>apenas com o suficiente para sobreviver. Eles estavam à mer-</p><p>cê do clima, da fome, da peste, dos bandidos e da guerra.</p><p>Havia algumas camadas dentro da classe baixa. Perto do</p><p>topo havia artesãos, carpinteiros, pedreiros, pescadores e co-</p><p>merciantes3. A maioria, no entanto, eram agricultores. Al-</p><p>guns eram agricultores arrendatários ou meeiros em grandes</p><p>propriedades de donos ausentes. Outros ainda trabalhavam</p><p>por diárias, onde surgisse trabalho. No fundo da classe baixa</p><p>estavam as ocupações “impuras”, como o curtimento de cou-</p><p>ro. No fundo do fundo estavam os desterrados - camponeses</p><p>101</p><p>DONALD B. KRAYBIU</p><p>forçados a sair de suas terras, errantes vagabundos, mendi-</p><p>gos e leprosos. Esses baixos e desprezados eram cerca de dez</p><p>por cento da classe camponesa.</p><p>Na Galileia, onde muito do ministério de Jesus acon-</p><p>teceu, a classe média também não existia. Um historiador</p><p>descrevendo a Galileia diz: “Pode-se concluir com seguran-</p><p>ça que existiam tanto os extremamente ricos como os mi-</p><p>seravelmente pobres, sendo estes últimos a maior parte do</p><p>povo”4. As parábolas e as palavras de Jesus assumem um</p><p>sistema de duas classes, dos ricos e dos pobres. Apesar de</p><p>muitas pequenas distinções, uma realidade rígida dominava</p><p>a paisagem econômica: os poucos viviam no luxo enquanto os</p><p>muitos viviam na pobreza. A grande classe média das socie-</p><p>dades capitalistas modernas simplesmente não existia.</p><p>A ristocratas de pelúcia</p><p>Jerusalém era mais do que um alto pico religioso — ela se</p><p>elevava acima do país em prestígio social e econômico. Uma</p><p>aristocracia de elite, incluindo líderes dos sacerdotes, ricos</p><p>proprietários de terras, comerciantes, cobradores de impos-</p><p>tos e saduceus, chamavam Jerusalém de casa\A classe alta -</p><p>os proprietários de terra que viviam do seu aluguel, artistas</p><p>habilidosos, comerciantes inteligentes e poetas -todos iam</p><p>para a cidade do grande templo.</p><p>A extravagância escorria da elite afluente. Amarrações de</p><p>ouro prendiam os ramos de palma que eles levavam para fes-</p><p>tividades. Eles traziam ofertas de primícias em vasos de ouro</p><p>no dia de Pentecostes. Uma ordenança municipal proibia de</p><p>cobrir seus filactérios com ouro. Conta-se que dois homens,</p><p>sabendo disso apostaram o equivalente a mais do que o sa-</p><p>lário de um ano para ver quem conseguiría irritar um dos</p><p>principais rabinos. A evidência arqueológica documenta</p><p>o</p><p>102</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>rico estilo de vida da pequena classe aristocrática que vivia</p><p>na cidade alta de Jerusalém, adjacente ao templo6.</p><p>Muitos dos ricos em Jerusalém derivaram sua riqueza de</p><p>vastas propriedades de campo cultivadas por escravos, homens</p><p>contratados ou arrendatários. Um dos chanceleres de Herodes</p><p>possuía uma aldeia inteira. Dizia-se que outra pessoa tinha</p><p>herdado 1.000 aldeias, 1.000 navios e tantos escravos que eles</p><p>sequer conheciam o seu mestre. De acordo com os sábios, um</p><p>homem rico era aquele que tinha cem vinhas, cem campos e</p><p>cem escravos. Alguns dos artistas especiais que trabalhavam</p><p>no templo recebiam o equivalente a 300 dólares por dia. Tra-</p><p>balhadores não qualificados em Jerusalém recebiam comida e</p><p>cerca de vinte e cinco centavos por dia.</p><p>No Dia da Expiação, todos precisavam andar descalços.</p><p>Para proteger seus pés, a esposa de um sumo sacerdote for-</p><p>rou o caminho de sua casa para o templo. Uma atitude es-</p><p>nobe permeava a elite de Jerusalém. Eles não assinariam um</p><p>documento como testemunha, a menos que as outras teste-</p><p>munhas também o fizessem. Eles só aceitavam convites para</p><p>jantar se os demais convidados correspondessem ao seu alto</p><p>status. A arrogância impedia a elite de se misturar com pes-</p><p>soas comuns, exceto para empregá-las como servas.</p><p>Os ricos davam grandes dotes quando suas filhas se casa-</p><p>vam. De fato, um dote chegou a exceder um milhão de de-</p><p>nários de ouro, o equivalente financeiro hoje a um milhão de</p><p>dias de trabalho. No caso improvável de um camponês po-</p><p>bre se casar com um urbanita, os pobres tinham de pagar</p><p>enormes somas. Um homem da aldeia que tomou uma noiva</p><p>de Jerusalém foi obrigado a dar o seu peso em ouro como um</p><p>presente de noivado. Uma noiva do campo também trouxe</p><p>seu peso em ouro a seu noivo da cidade. José de Arimateia</p><p>(Mt 27:57), amigo de Jesus é um homem rico, sem dúvida</p><p>pertencia a esta rica crosta superior. Jerusalém também ti-</p><p>103</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>nha uma classe média considerável de comerciantes e arte-</p><p>sãos, bem como muitos pobres.</p><p>H p ra 4.1 Dtaribuiçâo aprodmada das dasses sóooecooómécas da Palestina antiga</p><p>AS MASSAS POBRES</p><p>No campo, a maioria das pessoas era pobre. As massas</p><p>pobres eram chamadas de “pessoas da terra”. Havia um tem-</p><p>po em que isso significava simplesmente pessoas comuns,</p><p>que moravam fora da cidade. Mais tarde, tornou-se um rótu-</p><p>lo colocado naqueles que não observavam as leis religiosas7.</p><p>Os fariseus, para evitar o contato com as “pessoas da terra”,</p><p>se recusavam até a comer com elas. Os religiosamente des-</p><p>cuidados eram tão desprezados que não podiam testemunhar</p><p>no tribunal nem ser o guardião de um órfão. Os fariseus</p><p>104</p><p>0 R E I N O D E P O N T A C A B E Ç A</p><p>não se casavam com eles e consideravam suas mulheres um</p><p>parasita imundo.</p><p>Galileia, a cerca de novenra e cinco quilômetros ao nor-</p><p>te de Jerusalém, era o coração do povo comum. Rica em</p><p>recursos, a Galileia era a área mais densamente povoada da</p><p>Palestina. Antes do reinado de Herodes, o Grande, muitos</p><p>gentios compravam terras lá. Porém, nos anos anteriores</p><p>ao nascimento de Jesus, os imigrantes judeus estavam se</p><p>reinstalando na região. Na época do nascimento de Jesus, a</p><p>Galileia era predominantemente judaica. Herodes Antipas,</p><p>governante da área, construiu a capital de Tiberíades ao lon-</p><p>go do Mar da Galileia. A região, entretanto, ainda carregava</p><p>seu antigo estigma: “Galileia dos Gentios”.</p><p>A população da Galileia incluía um grande número de</p><p>escravos e muitos judeus que haviam absorvido um pouco</p><p>da cultura grega. A maioria dos galileus era pouco instruída</p><p>e ignorante dos detalhes da lei religiosa. Ocupados com a</p><p>própria sobrevivência, os camponeses tinham pouco tempo</p><p>para se preocupar com os minuciosos detalhes da pureza ri-</p><p>tual. As palavras sarcásticas de um fariseu mostram seu des-</p><p>prezo pelas pessoas da terra.</p><p>“Um judeu não deve se casar com a filha do</p><p>povo da terra, porque eles são animais im-</p><p>puros e suas mulheres, répteis proibidos. E</p><p>com respeito a suas filhas as Escrituras di-</p><p>zem, 'Maldito aquele que se deitar com al-</p><p>gum animal...’ (Dt 27:21) disse R. Eleazar:</p><p>alguém pode matar uma pessoa da terra em</p><p>um Dia de Expiação que acontecer em um</p><p>sábado (quando qualquer tipo de trabalho,</p><p>como matar constitui uma violação de uma</p><p>dupla proibição). Seus discípulos disseram a</p><p>105</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>ele, mestre, diga “abate” (em vez da palavra</p><p>vil matar). Porém ele respondeu que “o abate</p><p>requer uma bênção, o matar nâo”s.</p><p>Embora exagerada, essa atitude revela o despeito que os</p><p>líderes religiosos mantinham para com os pobres. O senti-</p><p>mento era mútuo, pois era dito que o “povo da terra” odiava</p><p>os estudiosos judeus mais do que os pagãos odiavam Israel.</p><p>Outro rabino, que antes era do povo da terra, disse:</p><p>“Quando eu era uma pessoa da terra, eu cos-</p><p>tumava dizer: “Eu gostaria de encontrar um</p><p>desses estudiosos, e eu o mordería como um</p><p>burro”. Seus discípulos disseram, “Você quer</p><p>dizer como um cão”. Ele respondeu: Uma mor-</p><p>dida de burro quebra o osso; a de um cão, não”.9</p><p>Foi a partir dessas pessoas retrógradas que a feroz raiva do</p><p>nacionalismo judaico estourou alguns anos após a morte de</p><p>Jesus. Este fervor revolucionário, dirigido aos romanos que</p><p>ocupavam a região, também se dirigia aos ricos aristocratas</p><p>de Jerusalém que cortejavam os romanos. Nazaré, no cora-</p><p>ção da região das pessoas da terra, era a casa de Jesus. Estava</p><p>situada numa fértil área agrícola da Galileia, que também</p><p>exportava peixe. As massas de Nazaré viviam na pobreza.</p><p>A maioria tinha de viver com apenas uma muda de roupas.</p><p>Havia até um provérbio que “as filhas de Israel são bonitas,</p><p>mas a pobreza as faz repulsivas”.</p><p>O fermento social na Galileia do primeiro século foi agi-</p><p>tado não apenas pelo governo romano e pelo nacionalismo</p><p>patriótico, mas também pela dura economia. Os impostos</p><p>eram altos durante a época de Herodes o Grande, embora</p><p>106</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>muito do dinheiro fosse canalizado para o magnífico templo</p><p>em Jerusalém e consagrado a Deus. Na morte de Herodes,</p><p>uma delegação de judeus queixou-se ao imperador romano</p><p>que Herodes retirou muito de sua riqueza confiscando terra</p><p>e os bens de pessoas comuns. Herodes pode, de fato, ter pos-</p><p>suído de dois terços à metade do seu reino10.</p><p>Grande parte da Galileia era dividida em grandes proprie-</p><p>dades de ricos comerciantes e saduceus que viviam em Je-</p><p>rusalém, bem como proprietários gentios em outros países.</p><p>As parábolas de Jesus se referem a proprietários ausentes que</p><p>colocam um mordomo sobre suas propriedades e servos. Al-</p><p>guns camponeses possuíam pequenas parcelas de terra, mas o</p><p>aumento de dívidas muitas vezes os expulsava de suas terras.</p><p>Eles eram forçados a hipotecar suas propriedades para pagar</p><p>impostos que equivaleríam, às vezes, a metade de sua colhei-</p><p>ta. Coletores de impostos e donos de imóveis arrancavam,</p><p>então, a terra de camponeses endividados, que não podiam</p><p>pagar suas contas. Nas sociedades agrárias, como na Palestina,</p><p>o governante e os cinco por cento mais ricos muitas vezes con-</p><p>trolavam até sessenta e cinco por cento da riqueza nacional".</p><p>As famílias camponesas, muitas vezes, ficavam presas na</p><p>trama, recebendo apenas pelo dia trabalhado para proprietá-</p><p>rios ricos e ausentes. Um escritor descreve sua situação.</p><p>“Em poucas décadas, pequenos e médios 10-</p><p>tes de terra haviam desaparecido, enquanto</p><p>as propriedades possuídas pelo templo e a</p><p>coroa imperial cresceram em grande propor-</p><p>ção... Impulsionados pela miséria, muitos</p><p>camponeses abandonaram as suas terras e se</p><p>juntaram a bandos de ladrões que sobrevi-</p><p>viam de pilhagem e viviam em cavernas nas</p><p>montanhas”12.</p><p>107</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>A Receita F ederal romana</p><p>A pobreza foi intensificada por um duplo sistema de im-</p><p>postos: civil e religioso. E impossível calcular a proporção</p><p>exata de impostos. A maioria dos estudiosos concorda, no</p><p>entanto, que de 30 a 60% da renda anual do camponês aca-</p><p>bava nas mãos de diversos cobradores</p><p>o reino de Deus Será muito diferente em diferentes ce-</p><p>nários culturais. As questões para os leitores em uma nação</p><p>democrática dificilmente coincidirão com as dos leitores que</p><p>sofrem perseguição de um tirano brutal.</p><p>Por todas essas razões eu resisti a tentação de falar sobre</p><p>aplicações específicas. Em todo o texto, falei do Antigo Tes­</p><p>8</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>tamento e não da Bíblia hebraica, embora esta última tende</p><p>a ser a prática mais comum entre muitos estudiosos. Os li-</p><p>vros de Moisés, os profetas e outros escritos antes de Jesus</p><p>são considerados Escrituras por comunidades judaicas e cris-</p><p>tãs. As duas comunidades, contudo, interpretam e usam es-</p><p>tes mesmos escritos sagrados de maneira bastante diferente.</p><p>Em um caso, eles são interpretados à luz do Talmud e</p><p>da tradição judaica. Entre os cristãos, esses primeiros escri-</p><p>tos prepararam o cenário para Jesus e a formação da Igreja</p><p>primitiva. Eu escrevo como um cristão dentro desta tradi-</p><p>ção de dois Testamentos e, portanto, uso o rótulo do Antigo</p><p>Testamento, mas o faço com respeito genuíno por seu papel</p><p>central na fé e prática judaica.</p><p>Tenho uma dívida de gratidão com os muitos amigos e</p><p>colegas que ajudaram com este projeto por mais de trinta e</p><p>cinco anos. Estou verdadeiramente abençoado por ter um</p><p>amplo círculo de amigos generosos que ofereceram suges-</p><p>tões e afirmações calorosas ao longo das várias edições do</p><p>livro. Além disso, tenho desfrutado apoio inabalável e entu-</p><p>siasmo dos editores e funcionários da Herald Press desde o</p><p>início do projeto em meados dos anos 1970.</p><p>As edições anteriores deste livro tocaram milhares de</p><p>leitores em diferentes línguas em muitos países. Cartas de</p><p>incentivo vieram de prisioneiros, pastores, professores, estu-</p><p>dantes e outros em muitas culturas. Sou grato pelas edições</p><p>anteriores que ajudaram a interpretar a história de Jesus e</p><p>deram energia aos cristãos ao redor do mundo. Espero que</p><p>esta edição continue a fazer o mesmo.</p><p>Graças a Deus.</p><p>Donald B. Kraybill</p><p>Elizabethtown, Pennsylvania</p><p>April 2003</p><p>9</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>PREFÁCIO DA VERSÃO</p><p>EM PORTUGUÊS</p><p>s anos atrás um assunto começou a queimar no</p><p>coração: O Reino de Deus! Parece que tudo come-</p><p>çou a fazer sentido quando lia a Bíblia e entendia aquilo que</p><p>Jesus realmente queria anunciar. Foi então que em busca de</p><p>me aprofundar no assunto comecei a garimpar a biblioteca</p><p>do meu pai a procura de algo que me ajudasse a iluminar os</p><p>pensamentos sobre o assunto. Foi quando me deparei com</p><p>o livro que está em suas mãos, na verdade uma versão bem</p><p>mais antiga dele. De repente comecei a devorar e me im-</p><p>pressionar com a clareza que Donald Kraybill tratava de um</p><p>assunto até então muito obscuro para mim. Me impressionei</p><p>com a habilidade do autor de nos transportar para o Oriente</p><p>Médio do século I e sua capacidade de contextualizar o dia</p><p>a dia daquele povo, a ponto de quase conseguirmos ver ou</p><p>imaginar a realidade daquela época.</p><p>π</p><p>DONALD B. KRAYBIU</p><p>Com os óculos de Donald comecei a ver que o reino pro-</p><p>posto por Jesus poderia realmente ser considerado um Reino</p><p>de ponta-cabeça em comparação com o Reino deste mun-</p><p>do. Os ensinos e valores propostos por Jesus são totalmente</p><p>contrários àquilo que enxergamos hoje como padrão normal</p><p>do “mundo”. O conhecimento do contexto judaico da época</p><p>de Jesus nos transporta pra dentro das histórias e nos fazem</p><p>entender com grande clareza muitas das atitudes e pregações</p><p>do nosso mestre.</p><p>E impressionante como alguém há quase 40 anos atrás</p><p>conseguia enxergar a realidade do Reino de Deus tão pro-</p><p>fundamente a ponto de nos inspirar ainda hoje. Impressiona</p><p>também como a realidade do mundo e a maneira como ele é</p><p>regido desde os tempos de Jesus até os dias de hoje são mui-</p><p>to similares, como os padrões de pensamento que moldam</p><p>nossa sociedade já estavam moldando a sociedade na época</p><p>em que Jesus viveu e que o desejo do mestre era de apresen-</p><p>tar uma nova maneira de viver, um jeito de ponta-cabeça.</p><p>Boa leitura.</p><p>Douglas Gonçalves</p><p>12</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>M ontanhas planas</p><p>Voz do que clama no deserto:</p><p>Preparai o caminho do Senhor;</p><p>Endireitai as suas veredas.</p><p>Todo o vale se encherá,</p><p>E se abaixará todo o monte e outeiro;</p><p>E o que é tortuoso se endireitará,</p><p>E os caminhos escabrosos se aplanarão;</p><p>E toda a carne verá a salvação de Deus.</p><p>(Lc. 3:4-6)</p><p>J:’ oão Batista exclamou essas palavras de Isaías para anun-</p><p>ciar a vinda de Jesus. As imagens dramáticas retratam</p><p>um novo reino revolucionário. Preparando o caminho para</p><p>Jesus, João Batista descreve quatro surpresas do reino que</p><p>viria: vales aterrados, montanhas aplainadas, curvas retas</p><p>e caminhos acidentados, aplanados. Ele espera um sacudir</p><p>radical no novo reino. Caminhos antigos serão abalados a</p><p>ponto de se tornarem irreconhecíveis. João alerta que essa</p><p>nova ordem, o reino de ponta-cabeça, transformará padrões</p><p>sociais e em meio ao fermento, toda humanidade verá a sal-</p><p>vação de Deus.</p><p>15</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>No cântico de Maria, de exaltação, ela canta sobre sua</p><p>esperança para o novo reino. Junto com João Batista, ela</p><p>espera que o Messias inaugure um reino de ponta-cabeça,</p><p>cheio de surpresas.</p><p>“pois o Poderoso fez grandes coisas em meu</p><p>favor; santo é o seu nome.</p><p>A sua misericórdia estende-se aos que o te-</p><p>mem, de geração em geração.</p><p>Ele realizou poderosos feitos com seu braço;</p><p>dispersou os que são soberbos no mais íntimo</p><p>do coração.</p><p>Derrubou governantes dos seus tronos, mas</p><p>exaltou os humildes.</p><p>Encheu de coisas boas os famintos, mas despe-</p><p>diu de mãos vazias os ricos”.</p><p>(Lc. 1:4953־ — ênfase adicionada)</p><p>Cinco tipos de pessoas ficam alarmados e surpresos na visão</p><p>de Maria. Aqueles no topo da pirâmide social, o orgulhoso, o</p><p>rico e 0 poderoso, caem. Despojados de seus tronos, eles são</p><p>espalhados e dispersos sem nada. Enquanto isso, o pobre e o fa-</p><p>minto, na base da pirâmide, sobem direto para o topo de forma</p><p>surpreendente. Maria canta palavras de esperança e julgamento.</p><p>Esperança para os humildes, como ela mesma se descreve, e jul-</p><p>gamento para aqueles que pisam no necessitado.</p><p>Uma pobre menina da Galileia, Maria espera que o reino</p><p>messiânico vire seu mundo e sociedade de cabeça para baixo.</p><p>Os ricos, poderosos e orgulhosos de Jerusalém serão banidos.</p><p>Os pobres agricultores e pastores da área rural da Galileia se­</p><p>16</p><p>0 REINO DE PONTA CABECA</p><p>rão exaltados e honrados. Durante muitos séculos, os judeus</p><p>têm sido governados por estrangeiros, estrangeiros pagãos.</p><p>O anseio de Maria reflete um antigo clamor dos judeus por</p><p>um messias que irá trazer um novo reino. Ela representava as</p><p>massas que oravam pelo dia em que o Messias expulsaria os</p><p>invasores e estabelecería o tão aguardado reino.</p><p>Um reino invertido</p><p>O tema central no ministério e no ensino de Jesus é o rei-</p><p>no de Deus, ou como Mateus chama: o reino dos céus. Essa</p><p>ideia chave amarra toda a mensagem. O “reino de Deus”</p><p>permeia o ministério de Jesus, dando coerência e clareza a</p><p>ele. Esse é o coração inquestionável, a própria essência da</p><p>Sua vida e ensino1.</p><p>O que Jesus quis dizer quando anunciou a vinda do rei-</p><p>no de Deus? Seus companheiros judeus esperavam um reino</p><p>político que protegeria e preservaria a fé judaica. Ao longo</p><p>dos séculos, estudiosos, teólogos e igrejas desenvolveram</p><p>visões diferentes. Debates ao longo dos século agiram em</p><p>torno do que Jesus quis dizer.</p><p>Nas páginas a seguir, iremos explorar como o reino de Deus</p><p>aponta para um estilo de vida invertido, de ponta-cabeça, que</p><p>desafia a ordem social predominante. Ele certamente desafia</p><p>os antigos padrões da sociedade palestina e faz o mesmo com</p><p>nosso mundo hoje. Podemos perceber a ideia de inversão pen-</p><p>sando em duas escadas lado a lado — uma representando o</p><p>reino de Deus, e outra o reino desse mundo2. Uma relação</p><p>inversa entre essas duas escadas significa que algo muito valo-</p><p>rizado, colocado em um degrau elevado em uma escada, cias-</p><p>sifica-se bem embaixo na outra. Encontramos essa inversão no</p><p>refrão de uma música da escola dominical, em que a</p><p>de impostos e credo-</p><p>res13. A mordida total dos impostos era muito pior do que a</p><p>carga tributária nos países desenvolvidos de hoje. Além dos</p><p>impostos, o custo das sementes e do arrendamento deixava</p><p>muitos camponeses com apenas um décimo do que produ-</p><p>ziam para alimentação e subsistência.</p><p>A eficiente burocracia romana cobrava tributos sobre</p><p>pessoas, casas, animais, vendas, importações e exportações14.</p><p>Primeiro, um imposto sobre a terra levava cerca de um quar-</p><p>to da safra. Em seguida, a captação, ou imposto per capita,</p><p>era cobrado sobre cada homem com mais de catorze anos</p><p>e cada mulher com mais de doze anos. Os impostos eram</p><p>coletados por coletores de impostos judeus nomeados pelo</p><p>governo romano dentro das linhagens de famílias abastadas.</p><p>A polícia que acompanhava os cobradores de impostos para</p><p>assegurar e proteger os pagamentos era, por vezes, culpada</p><p>de abusos tornando mais fácil que fraude se multiplicasse.</p><p>Havia também muitas outras tarifas e taxas, incluindo</p><p>direitos de importação, pedágios e taxas de mercado. Os</p><p>cobradores dessas taxas eram conhecidos como publicanos.</p><p>Eles exploravam a ignorância do povo sobre as taxas e eram</p><p>vistos como enganadores. Os publicanos trabalhavam para</p><p>alguém semelhante a um “auditor fiscal” que supervisionava</p><p>a arrecadação de impostos de um grande distrito. O auditor</p><p>pagava aos romanos a maior parte das taxas do seu distrito.</p><p>A maioria dos auditores de impostos era judia que trabalha-</p><p>va para os romanos. Os auditores de imposto recolhiam os</p><p>108</p><p>a REINO DE PONTA CABECA</p><p>impostos romanos, adicionando então suas próprias taxas. O</p><p>mercado de produtos agrícolas em Jerusalém, por exemplo,</p><p>foi dado a um “auditor” que taxava os comerciantes de pro-</p><p>dutos. Zaqueu era provavelmente um auditor de imposto.</p><p>A mordida dos impostos romanos irritava muitos no tem-</p><p>po de Jesus, porque eles não eram mais usados para recons-</p><p>truir o templo, como haviam sido sob o comando de Herodes,</p><p>o Grande. Agora os impostos judeus estavam financiando um</p><p>exército estrangeiro e os luxos de um império distante.</p><p>Visto que os judeus nunca consideraram o domínio roma-</p><p>no como legítimo, muitos consideravam os impostos roma-</p><p>nos como um roubo direto. Eles viam governantes gentios</p><p>na Palestina como ladrões sem direitos sobre a terra ou seu</p><p>povon . Na verdade, os rabinos não faziam distinção entre</p><p>cobradores de impostos e ladrões. Até mesmo os Evangelhos</p><p>retratam coletores de impostos como pecadores. A tributa-</p><p>ção era tão opressiva que a Síria e a Judeia imploraram a</p><p>Roma uma redução. Depois que os judeus zelotes tomaram</p><p>o controle de Jerusalém em 66 dC, eles queimaram todos os</p><p>registros de dívida nos arquivos de Jerusalém na esperança</p><p>de evitar retaliação futura pelos ricos.</p><p>A Receita F ederal divina</p><p>Além dos impostos romanos, a lei judaica prescrevia cer-</p><p>ca de vinte tipos de dízimos e ofertas religiosas. Os homens</p><p>judeus com mais de vinte anos pagavam um imposto do</p><p>templo todos os anos. O equivalente a dois denários, ou dois</p><p>dias de salário, esse imposto de meio Shekel (ou ' Siclo’)</p><p>era devido no início da Páscoa, em cada primavera. Poucas</p><p>semanas antes da Páscoa, os coletores de impostos viajavam</p><p>para distritos periféricos para arrecadar o imposto daqueles</p><p>que não iriam a Jerusalém para a festa. Em Mateus (17:24),</p><p>10 9</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>esses coletores pediram a Pedro o imposto de meio Siclo.</p><p>Usado para operar e manter o templo, este imposto só po-</p><p>deria ser pago com Siclos de prata de alta qualidade. O</p><p>dcnário romano, no entanto, era a moeda corrente. Adicio-</p><p>nando à carga tributária, os cambistas no templo lucravam</p><p>trocando Siclos de prata pelos denários.</p><p>Os agricultores judeus ofereciam os primeiros frutos de</p><p>suas colheitas em gratidão pela colheita vindoura. Eles tam-</p><p>bém davam um dízimo da própria colheita e um dízimo do</p><p>rebanho para sustentar os levitas. No tempo de Jesus, os</p><p>sacerdotes em Jerusalém às vezes tomavam o dízimo à força,</p><p>prejudicando os levitas. Outro dízimo sustentava os pobres;</p><p>e uma oferta adicional também era provavelmente coletada</p><p>para os pobres a cada três anos.</p><p>Os agricultores eram obrigados a deixar os cantos das la-</p><p>vouras e as espigas caídas em seus campos para os pobres.</p><p>Além disso,havia a prática do ano sabático de deixar a terra</p><p>descansar a cada sete anos. Isto “envolvia a perda de pelo me-</p><p>nos um ano e meio de produção agrícolas em cada ciclo de</p><p>sete anos — um fardo esmagador, de fato, sobre um povo que</p><p>era incapaz de guardar uma parte substancial da colheita em</p><p>qualquer ano”16. Além disso, eram necessárias contribuições</p><p>pessoais - ofertas de paz e pelo pecado - bem como ofertas</p><p>para a dedicação de uma criança. Os fariseus na época de</p><p>Jesus estavam dizimando até de ervas de seus jardins - uma</p><p>prática ridicularizada por Jesus frente à negligência deles</p><p>quanto à justiça e misericórdia (Mt 23:23).</p><p>Os dízimos e impostos religiosos não eram vistos como</p><p>ofertas espontâneas, mas como ordenanças dadas por Deus.</p><p>Não havia, entretanto, nenhuma maneira legal de impô-las.</p><p>Os impostos exorbitantes tentavam muitas pessoas do cam-</p><p>po a deixar passar o seu dízimo. Tal descuido enfurecia os</p><p>líderes religiosos, especialmente os fariseus, que viam o dízi­</p><p>110</p><p>0 REINO DE PONTA CABEQA</p><p>mo como o caminho para a santidade. Um estudioso afirma</p><p>que a pressão dos impostos romanos levou a esta ’crise de</p><p>santidade”. Isso solidificou a insistência dos fariseus na ob-</p><p>servância cuidadosa e estimulou sua repugnância para com</p><p>os camponeses que não observavam a Lei1 .De qualquer for-</p><p>ma, sem uma classe média, o dinheiro dos impostos- roma-</p><p>no e judeu -fluía para cima, beneficiando a pequena crosta</p><p>superior à custa dos pobres.</p><p>0 F ilho do Carpinteiro</p><p>Vemos Jesus crescendo neste cenário de camponeses. Di-</p><p>versos fragmentos de evidências O colocam junto aos pobres</p><p>da Galileia. Maria descreve-se como uma pessoa de “posição</p><p>baixa” em seu canto de exaltação (Lcl :48). A oferta prescrita</p><p>para a dedicação de uma criança em Jerusalém era um cor-</p><p>deiro e uma pomba. Porém,Maria e José trouxeram apenas</p><p>duas pombas, uma prática aceitável para famílias pobres e</p><p>incapazes de pagar por um cordeiro.</p><p>Embora esta evidência sugira que Jesus veio de uma fa-</p><p>mília pobre, Ele provavelmente não veio dos mais pobres</p><p>dentre os pobres. Seu pai era um artesão - um trabalhador</p><p>habilidoso, provavelmente um pedreiro, um carpinteiro ou</p><p>um artesão de carroças18. Jose provavelmente pertencia às</p><p>classes mais altas da classe pobre da Galileia - assim tam-</p><p>bém Jesus, que era um artesão. Entre os seguidores de Jesus</p><p>havia pescadores independentes e cobradores de impostos.</p><p>Assim, Jesus e pelo menos alguns de seus seguidores vieram</p><p>dos níveis mais altos do campesinato da Galileia19.</p><p>Mesmo sendo um artesão habilidoso, Jesus identificou-se</p><p>com os mais pobres dentre os pobres211. Ele disse aos Seus</p><p>entusiastas seguidores que não tinha lugar onde repousar a</p><p>cabeça. As raposas e os pássaros estavam melhores do que ele</p><p>111</p><p>DONALD B. W AYBILL</p><p>(Lc 9:58). Seus discípulos foram apanhados em um sábado</p><p>recolhendo trigo no campo. Tais grãos eram deixados para os</p><p>pobres de acordo com o código deuteronômico.</p><p>Quando questionado sobre o pagamento de impostos ro-</p><p>manos, Jesus pediu uma moeda, mostrando um bolso vazio.</p><p>Ele não ocupava nenhum cargo depois de começar Seu mi-</p><p>nistério. Assim como outros rabinos, Ele não era pago pelo</p><p>seu ensino. Ele não tinha apoio formal além da oferta dada</p><p>por várias mulheres ao longo do caminho (Lc 8: 3). Jesus</p><p>e seus seguidores eram um bando de pregadores errantes,</p><p>itinerantes que viviam com o mínimo para sobreviver. Seu</p><p>radicalismo ético levou à sua falta de moradia, às escassas</p><p>posses e à distância da família21.</p><p>Embora crescendo na Galileia marcada pela pobreza,</p><p>Jesus não se juntou aos zelosos rebeldes que endossavam a</p><p>violência para fins políticos. Os rebeldes capturavam a ima-</p><p>ginação dos mais jovens que cresceram em meio à pobreza.</p><p>Eles sonhavam que algum dia</p><p>queimariam os registros de</p><p>dívidas nos arquivos de Jerusalém. Jesus certamente ouviu</p><p>a retórica revolucionária - mas deixou-a para trás. Sua men-</p><p>sagem não promoveu uma reação violenta à opressão econô-</p><p>mica. Embora desprezasse a injustiça econômica, Sua paixão</p><p>principal era a inauguração de um novo reino que lutaria</p><p>contra a pobreza de uma maneira nova.</p><p>Pão vivo</p><p>A tentação de Jesus com o pão envolvia mais do que ali-</p><p>viar a fome pessoal. Ele foi tentado a voltar à Galileia e ali-</p><p>mentar milagrosamente as massas. Não podemos pensar em</p><p>todas as dimensões do teste. Talvez Ele tenha pensado em</p><p>pegar o manto de Judas, o Galileu, e juntar-se a outros com-</p><p>batentes da liberdade para resistir aos impostos romanos.</p><p>112</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Talvez, como outros bandidos daqueles dias, Ele sonhava em</p><p>atacar os estoques de propriedades ricas. Se ele tinha um</p><p>toque milagroso, por que não o usar para alimentar as mas-</p><p>sas em um grande banquete? Por que não alcançar a justiça</p><p>econômica em uma única grande tacada?</p><p>Porém, Jesus finalmente rejeitou a opção de “viver só de</p><p>pão”. Alimentar milagrosamente o povo era uma solução de</p><p>curto prazo. A fome retornaria com a morte do padeiro mi-</p><p>lagroso. Jesus ofereceu uma nova alternativa. Sua vida, Seu</p><p>caminho, Seu ensinamento formariam um novo fundamento</p><p>para a vida. Este seria um pão permanente da vida. A me-</p><p>dida que as pessoas digerem este novo pão, ele as encherá</p><p>de novo espírito e visão;e aqueles abençoados começariam a</p><p>compartilhar seu pão material de novas maneiras.</p><p>Perto da metade de Seu ministério, Jesus alimentou os</p><p>cinco mil e os quatro mil com pães e peixes. O alimentar</p><p>surgiu de Sua compaixão pela fome da multidão (Mc 6:34;</p><p>8:2). Porém,o grande piquenique era também um sinal mes-</p><p>siânico: o próprio Jesus era o Pão vivo, o tão esperado Messias</p><p>(Mc 6-8). O partir do pão veio logo antes da cena em Ce-</p><p>sareia de Filipe, onde Pedro confessou que Jesus é o Cristo.</p><p>Alimentar a multidão não era uma manobra para estabelecer</p><p>a identidade de Jesus como um operador de milagres. Na</p><p>verdade, poucos dias depois, Jesus disse à multidão que a</p><p>única razão pela qual O seguiram foi porque foram alimen-</p><p>tados (Jo 6:26). Ele entendeu que as refeições miraculosas</p><p>não cultivavam discípulos sérios.</p><p>No entanto, ao partir o pão, Jesus revelou Sua identidade</p><p>messiânica, não como um operador de milagres, mas como</p><p>O arquiteto de um reino de ponta-cabeça. Em João 6, Jesus</p><p>declara: “Eu sou o pão da vida... O pão vivo que desceu do</p><p>céu... Quem comer deste pão viverá para sempre”.</p><p>113</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Enquanto se preparava para uma violenta crucificação,</p><p>Jesus comeu a refeição da Páscoa com seus discípulos. En-</p><p>quanto partia o pão, Ele anunciou: “Isto é 0 meu corpo» (Lc</p><p>22:19)· Depois da ressurreição, aqueles que estavam na estra-</p><p>da de Emaús, de repente, reconheceram Jesus no partir do pão</p><p>(Lc 24: 30-31). Sua identidade messiânica como Salvador do</p><p>mundo foi revelada, não ao transformar pedregulhos em pães,</p><p>mas permitindo que Sua vida fosse partida por outros.</p><p>Quando os valores do reino de ponta-cabeça de Jesus se</p><p>tornam o pão de nossa vida, as instituições econômicas da</p><p>sociedade perdem o seu fascínio. Os ricos que aceitam o pão</p><p>eterno compartilham livremente seu pão de cada dia. Esta é</p><p>uma maneira invertida de alimentar os famintos. Não é uma</p><p>revolução de camponeses zangados, nem pães miraculosos</p><p>do céu. Pelo contrário, aqueles que têm abundância, aqueles</p><p>movidos pela misericórdia de Deus, param de acumular e</p><p>dão generosamente.</p><p>Se a forma de ponta-cabeça de Jesus puxou o tapete da</p><p>política convencional e religião, arrancou ainda mais o ta-</p><p>pete dos ricos. Vez após vez, história após história, Jesus</p><p>prega contra a injustiça econômica. “Ai de vocês que são</p><p>ricos... Bem-aventurados os que são pobres”(Lc 6:20, 24).</p><p>Seu ensino condena as práticas econômicas que pisoteiam os</p><p>pobres para beneficiar os ricos. Como veremos em capítulos</p><p>posteriores, os heróis do reino de ponta-cabeça de Jesus não</p><p>são os ricos proprietários de terras relaxando em suas Jacuzzi</p><p>em Jerusalém, mas os pobres, os mutilados e os fracos.</p><p>Jesus desafiou as três principais instituições sociais: po-</p><p>lítica, religiosa e econômica;e, como muitas vezes aconte-</p><p>ce, as três estavam entrelaçadas. Os ricos aristocratas - os</p><p>principais sacerdotes e os saduceus de Jerusalém - possuíam</p><p>grandes propriedades na Galileia, que prendiam pequenos</p><p>fazendeiros. Esta elite governante também controlava o po­</p><p>114</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA</p><p>deroso tribunal supremo judeu — o Sinédrio. Este corpo, por</p><p>sua vez, supervisionava o ritual do templo e os regulamentos</p><p>religiosos. Na verdade, esta mesma crosta superior de Jeru-</p><p>salém estava em conluio com os romanos. Os ricos aceita-</p><p>vam a ocupação romana porque os protegiam dos bandidos</p><p>e apoiava o sistema que alimentava suas riquezas.</p><p>Esta elite judaica governante comemorou quando os ro-</p><p>manos acabaram com os zelosos que lutavam por liberdade.</p><p>Os líderes religiosos provavelmente faziam parte da multi-</p><p>dão que gritava: “Crucifica-O, crucifica-O”. Eles também</p><p>consideravam Jesus mais perigoso do que o líder rebelde</p><p>Barrabás. Um bandido solitário poderia ser pego de novo</p><p>e morto. Porém um novo ensinamento, um novo modo de</p><p>vida, que derrubou os padrões políticos, religiosos e eco-</p><p>nômicos, era simplesmente muito perigoso para os poderes</p><p>governamentais de Jerusalém.</p><p>Assim, a montanha, o templo e o pão simbolizam as três</p><p>instituições sociais com as quais Jesus lutou no deserto. As</p><p>tentações o convidavam a afirmar políticas corruptas, reli-</p><p>gião vazia e economia injusta. Ele estava lutando com as</p><p>grandes questões do Seu tempo.Se,de fato, a visão de Jesus</p><p>oferecia novas formas de viver para o povo de Deus, faz pou-</p><p>co sentido ver as tentações como meros atrativos pessoais.</p><p>Esta leitura das tentações nos permite apreciar a angústia de</p><p>Jesus enquanto lutava com as poderosas forças da política,</p><p>da religião e da riqueza. Também nos lembra de que, em</p><p>Jesus, Deus estava introduzindo um novo reino de ponta-</p><p>-cabeça — baseado em uma nova fonte de poder, um novo</p><p>templo e um novo tipo de pão. Passamos agora a explorar o</p><p>novo reino nos próximos capítulos.</p><p>115</p><p>ESCRAVOS</p><p>LIVRES</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>O GAROTO DA CIDADE É LINCHADO</p><p>Jesus respondeu com um enfático “não” aos três reinos 'de</p><p>cabeça para cima’. Porém o que era o seu reino de pon-</p><p>ta-cabeça? Marcos (1:1 5) e Mateus (4:17) relatam que após</p><p>a Sua tentação, Jesus anunciou a chegada do reino de Deus.</p><p>Lucas (4:16-30) começa seu relato descrevendo a aparição de</p><p>Jesus em Sua cidade natal, Nazaré1. Embora Mateus (13:53-</p><p>58) e Marcos (6:1-6) concordem que o público ficou ator-</p><p>doado pela aparência de Jesus, eles colocam o evento mais</p><p>tarde na sequência de Seu ministério. Lucas, no entanto, vê</p><p>maior significado neste tumulto em Sua cidade natal. Para</p><p>Lucas, o sermão inaugural de Jesus diante de rostos família-</p><p>res desvenda os mistérios do novo reino.</p><p>Chegava o momento decisivo. Jesus se colocou na fren-</p><p>te da sinagoga de sua cidade natal. O líder lhe entregou o</p><p>pergaminho. Jesus abriu em Isaías2, o povo da cidade natal</p><p>mal podia acreditar em seus ouvidos. O filho do carpintei-</p><p>119</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>ro, o menino de José, declarava que Ele era o ungido. Ele</p><p>era Deus em carne. Ele era o Messias há muito aguardado,</p><p>diante deles.</p><p>Em uma citação concisa do profeta, Jesus resumiu sua</p><p>identidade e missão.</p><p>“O Espírito do Senhor está sobre mim,</p><p>porque ele me ungiu para</p><p>pregar boas novas aos pobres.</p><p>Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos</p><p>e recuperação da vista aos cegos,</p><p>para libertar os oprimidos</p><p>e proclamar o ano da graça do Senhor”.</p><p>(Lc 4:18,19 ênfase adicionada)</p><p>Proclamar a liberdade. Libertar. Anunciar o ano aceitável</p><p>do Senhor. Estas palavras lembram algo aos judeus. As pes-</p><p>soas sabem o que Jesus quer dizer. Eles ouviram essas frases</p><p>repetidas vezes. Libertar, liberar, soltar, perdoar, restaurar.</p><p>Sim! São imagens de esperança messiânica. E disto que se</p><p>trata o Messias, “o Ungido”.</p><p>Três elementos destacam-se no uso que Jesus faz da pas-</p><p>sagem de Isaías (61: 1-2). Primeiro, Jesus revela que Ele é</p><p>o Messias. Segundo, seu papel é trazer notícias libertadoras</p><p>aos pobres, aos cegos, aos escravos e aos oprimidos. Terceiro,</p><p>esta é a proclamação do ano aceitável de Deus. Então Jesus</p><p>conclui com dinamite: “Hoje se cumpriu a Escritura que vocês</p><p>acabaram de ouvir’. O anúncio messiânico está vivo hoje em</p><p>sua presença. Vocês são testemunhas vivas disso. Você está</p><p>vendo isso cumprido diante de seus próprios olhos! Eu sou</p><p>muito mais do que o filho de José, Eu sou o Messias!</p><p>120</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA</p><p>A reação dos amigos e vizinhos de Jesus é fascinante. À</p><p>medida que 0 impacto total de Suas palavras chegava a suas</p><p>mentes, eles ficaram atônitos. Tão atônitos que tentaram</p><p>matá-Lo, perseguindo-O até fora da cidade e empurran-</p><p>do-O de um penhasco. Por que essa reação homicida para</p><p>com o menino da cidade natal? O que Ele disse que os</p><p>incitava à violência?</p><p>Em seu simples anúncio do início do reinado de Deus,</p><p>Jesus omitiu uma frase da passagem de Isaías sobre um Dia</p><p>de Vingança quando Deus puniría os ímpios. Na verdade,</p><p>Ele contou várias histórias ao final de Seu sermão que con-</p><p>firmavam exatamente o oposto. Deus, de fato, estendería</p><p>misericórdia e libertação até aos ímpios. Este anúncio de</p><p>ponta-cabeça enfureceu a multidão (Mais adiante falaremos</p><p>mais sobre isso.).</p><p>A leitura usual do sermão inaugural de Jesus espiri-</p><p>tualiza o seu significado. Frequentemente supomos que</p><p>Jesus proclamou libertação aos cativos do pecado, deu</p><p>vista aos cegos espiritualmente e ofereceu liberdade aos</p><p>oprimidos pela escravidão espiritual. Embora isso seja</p><p>verdade, o contexto do texto do Antigo Testamento ex-</p><p>pande seu significado arraigando-o às realidades sociais</p><p>práticas. O “ano aceitável do Senhor” refere-se ao Jubi-</p><p>leu hebraico. Assim, Jesus vincula seu papel messiânico</p><p>ao Jubileu3. O sermão é, em essência, uma proclamação</p><p>do Jubileu.</p><p>Jesus está chamando a um programa concreto de reforma</p><p>e desenvolvimento social? Os estudiosos do Novo Testamen-</p><p>to discordam sobre este ponto. Há mais concordância de que</p><p>Jesus esperava que seus seguidores abraçassem as práticas do</p><p>Jubileu4. O que é claro, no entanto, é que a visão social anun-</p><p>ciada por Jesus, de repente, recebe um novo significado na</p><p>perspectiva do Jubileu. A visão do Jubileu oferece uma estru-</p><p>121</p><p>DONALD B. KRflYBILL</p><p>tura interpretativa, uma metáfora que nos permite compreen-</p><p>der o ensinamento e o ministério de Jesus de novas maneiras5.</p><p>Porém o que foi este Jubileu que Jesus proclamou?</p><p>Uma virada para os H ebreus</p><p>Três livros - Êxodo, Deuteronômio e Levítico - descrevem</p><p>a visão do Jubileu. Estamos familiarizados com um ciclo se-</p><p>manal de seis dias de trabalho seguido por um Sabbath. Esse</p><p>padrão surgiu da história da criação quando Deus descansou</p><p>no sétimo dia. O calendário hebraico, no entanto, não pa-</p><p>rou com o ciclo semanal. Ele contava seis anos de trabalho</p><p>e então comemorava o sétimo como um ano de descanso.</p><p>Este sétimo ano, ou “shemitá”, foi chamado de ano sabático.</p><p>Os estudiosos não têm certeza se o Jubileu realmente caía</p><p>no quadragésimo nono ou quinquagésimo ano; de qualquer</p><p>forma, o ano do Jubileu celebrava 0 final do sétimo período</p><p>de sete anos.</p><p>Para resumir:</p><p>O sábado encerrava uma semana de seis dias.</p><p>O ano sabático encerrava uma “semana” de</p><p>seis anos.</p><p>O Jubileu encerrava uma “semana” de ciclos</p><p>sabáticos.</p><p>O termo Jubileu significa “chifre de carneiro”. Um chifre</p><p>especial, tirado de uma cabra de montanha, era soprado no</p><p>Dia da Expiação. Isto assinalava o início das festividades do</p><p>Jubileu. Os sacerdotes sopraram o chifre especial apenas no</p><p>ano do Jubileu. Outros anos usavam um chifre de carnei-</p><p>ro comum. Os anos sabáticos e Jubileus estabeleciam um</p><p>ritmo cronológico para a sociedade hebraica. As vibrações</p><p>deste ritmo poderíam virar a vida social de ponta-cabeça.</p><p>122</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Em resumo, três reorganizações eram esperadas no sétimo</p><p>ano, ou ano sabático.</p><p>• A terra era dado um descanso no sétimo ano. As la-</p><p>vouras não deveríam ser plantadas ou colhidas. Plan-</p><p>tas que crescessem sem ser plantadas deveríam ser</p><p>deixadas para os pobres. O Senhor prometeu um ren-</p><p>dimento abundante no sexto ano, grande o suficiente</p><p>para o sexto e o sétimo ano. Como um descanso sabá-</p><p>tico após seis dias de trabalho, esta prática garantia à</p><p>terra descanso depois de seis anos de produtividade</p><p>(Ex 23:10-11, Lv25:2-7).</p><p>• Os escravos eram libertos no sétimo ano. Algumas pes-</p><p>soas se tornavam escravas por causa do aumento das</p><p>dívidas. Depois de trabalhar durante seis anos como</p><p>servo, 0 Jubileu os libertava no sétimo ano. Não está</p><p>claro se os escravos sempre eram libertados no ano sa-</p><p>bático, mas a expectativa de libertá-los após seis anos</p><p>de trabalho aparece em várias passagens (Ex21:1-6,</p><p>Dt 15:12-18).</p><p>• As dívidas eram apagadas no ano sabático. Uma vez</p><p>que Israel tinha uma economia agrícola, as dívidas</p><p>eram, sobretudo empréstimos a pessoas carentes, não</p><p>comerciais. Cobrar juros sobre empréstimos a outros</p><p>hebreus era proibido. A maior de todas as dívidas</p><p>também era cancelada no ano sabático (Dt 15:1-6).</p><p>• O quinquagésimo, ou ano do Jubileu, trazia uma</p><p>grande mudança. A posse de terrenos voltava aos pro-</p><p>prietários que o detinham no início do período de cin-</p><p>quenta anos.</p><p>123</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>“E santificáreis o ano quinquagésimo, e apre-</p><p>goareis liberdade na terra a todos os seus mo-</p><p>radores; ano de Jubileu vos será, e tornareis,</p><p>cada um à sua possessão, e cada um à sua fa-</p><p>mília. ” (Lv 25:10)</p><p>Esta virada dos cinquenta anos ajudava a preservar o pa-</p><p>drão original de propriedade da terra. O Jubileu impedia</p><p>que os barões gananciosos comprassem mais e mais terra à</p><p>custa dos pobres. Embora a terra tenha sido comprada e ven-</p><p>dida durante os quarenta e nove anos, o Jubileu restaurava</p><p>a propriedade da terra pelo menos uma vez a cada geração.</p><p>Os hebreus realmente não compravam a terra nesse intervalo</p><p>de tempo; eles compravam seu uso. À medida que o Jubileu</p><p>se aproximava, o custo do uso da terra caia porque as taxas</p><p>eram calculadas de acordo com o número de colheitas que</p><p>restavam antes do Jubileu (Lv 25: 13-16).</p><p>É difícil saber quão cuidadosamente as práticas</p><p>sabáticas e o Jubileu eram seguidos. Referências históricas</p><p>fora das Escrituras sugerem que a prática de deixar a terra</p><p>ociosa no ano sabático continuou até a destruição do templo</p><p>em 70 dC e, talvez, até mais tarde. Não é certo, no entanto,</p><p>quantas vezes os escravos, dívidas e terras foram restaura-</p><p>dos. Algumas evidências sugerem, pelo menos, a observân-</p><p>cia parcial dessas práticas. Durante o reinado de Zedequias,</p><p>antes de Jerusalém cair diante da Babilônia em 586 aC, os</p><p>ricos libertaram seus escravos, mas logo os recapturaram.</p><p>Jeremias irritou-se com sua desobediência:</p><p>“Mas, agora, vocês voltaram atrás e profanaram</p><p>o meu nome, pois cada um de vocês tomou de</p><p>volta os homens e as mulheres que tinham li-</p><p>bertado. Vocês voltaram a escravizá-los.</p><p>124</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Portanto, assim diz o Senhor: Vocês não me</p><p>obedeceram; não proclamaram libertação</p><p>cada um para o seu compatriota e para o seu</p><p>próximo. Por isso, eu agora proclamo liberta-</p><p>ção para vocês, diz o Senhor, pela espada, pela</p><p>peste e pela fome. Farei com que vocês sejam</p><p>um objeto de terror para todos os reinos da</p><p>terra.” (Jr 34:16,17)</p><p>Jeremias viu a violação sabática como uma das razões</p><p>para a destruição iminente de Jerusalém (Jr 34:18-22).</p><p>Em torno de 423 aC, Neemias (5:1-13) repreendeu o</p><p>povo por não ter observado o Jubileu depois de voltar do</p><p>cativeiro. Ele disse aos nobres e oficiais para libertar seus</p><p>escravos e devolver as terras aos seus proprietários originais.</p><p>Nos últimos capítulos de Ezequiel, o profeta pede que se</p><p>restabeleça o Jubileu (Ez 45:7-9; 46:16-18).</p><p>Embora muitos estudiosos pensem que a reforma</p><p>agrária do</p><p>Jubileu nunca foi praticada, outros acreditam que era periodica-</p><p>mente observada. Há uma evidência mais firme de que as dívidas</p><p>eram perdoadas. Um líder fariseu, Hillel, que vivia na época do</p><p>nascimento de Jesus, iniciou uma prática legal chamada prosbuf’.</p><p>Este procedimento legal terminava com efeito devastador de can-</p><p>celar a dívida a cada seis anos. Os credores demoravam a empres-</p><p>tar dinheiro quando sabiam que o próximo ano sabático acabaria</p><p>com seus empréstimos. Em suma, as pessoas se recusavam a em-</p><p>prestar dinheiro porque nunca iria vê-lo novamente. A prosbul</p><p>permitia que os credores depositassem um certificado junto aos</p><p>tribunais quando os empréstimos eram feitos. Este documento</p><p>impedia que as dívidas fossem apagadas no ano sabático. Aqueles</p><p>que recebiam o empréstimo então sabiam que suas dívidas se-</p><p>riam obrigatórias, apesar do ensino sabático.</p><p>125</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>A necessidade do prosbul para contornar o sabático sugere</p><p>que as dívidas estavam realmentesendo canceladas. Apesar</p><p>da prática errática, o sábado e o Jubileu foram importantes</p><p>marcadores simbólicos do tempo hebraico. Acima de tudo,</p><p>incorporavam valores teológicos fundamentais.</p><p>Pirâmides niveladas</p><p>Mais importantes do que os detalhes do Jubileu são os prin-</p><p>cípios teológicos que o sustentam. Não pode haver dúvida de</p><p>que a visão do Jubileu causava uma perturbação social, por agi-</p><p>tar a ordem social. Como o modelo social para o povo de Deus,</p><p>o Jubileu abordava três fatores que podem gerar desigualdade.</p><p>(1) 0 controle da terra representa o acesso aos recursos naturais.</p><p>(2) A propriedade dos escravos simboliza o trabalho humano</p><p>necessário para a produção. (3) Emprestar e tomar emprestado</p><p>dinheiro envolve a gestão de capital e crédito.</p><p>O uso e a distribuição desses recursos - naturais, huma-</p><p>nos e financeiros — pendem para o equilíbrio da justiça em</p><p>qualquer sociedade. No mundo moderno, a tecnologia tor-</p><p>nou-se uma quarta variável na equação. Ao controlar esses</p><p>recursos, algumas pessoas se tornam ricas enquanto outros</p><p>caem na pobreza. Seis princípios do Jubileu destacam a visão</p><p>divina para o velho problema da injustiça social.</p><p>(1) Propriedade Divina. Uma mensagem ousada reverbe-</p><p>ra através das Escrituras do Jubileu: Deus possui os recursos</p><p>naturais e humanos.</p><p>Por que a terra não deveria ser vendida perpetuamente?</p><p>“Porque a terra é minha” (Lv 25:23).</p><p>Por que os escravos devem ser libertos periodicamente?</p><p>“Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não</p><p>serão vendidos como se vendem os escravos” (Lv 25:42;55).</p><p>126</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>A terra e o povo são do Senhor! Não devemos abusar</p><p>deles. Nós que controlamos a terra e as pessoas não somos</p><p>donos. Somos mordomos responsáveis perante Deus, o verda-</p><p>deiro dono. Não nos atrevemos a usar a terra e as pessoas</p><p>de forma egoísta para construir pirâmides econômicas, criar</p><p>dinastias sociais ou alimentar egos gananciosos. Dar à ter-</p><p>ra um descanso no ano sabático ou sétimo se encaixa nesta</p><p>compreensão. Uma vez que a terra é do Senhor, não deve ser</p><p>abusada. No sétimo ano, ela é devolvida a Deus, seu Dono</p><p>original. Uma teologia de mordomia está por trás a toda a</p><p>visão do Jubileu. Recursos naturais, humanos e financeiros</p><p>são, muito simplesmente, de Deus. Estes recursos são nossos</p><p>somente em empréstimo. Como mordomos de curto prazo</p><p>deles, somos responsáveis perante Deus por seu uso e cuida-</p><p>do apropriados.</p><p>(2) Libertação de Deus. Por que o povo de Deus foi cha-</p><p>mado para participar dessa visão incomum? Por que o povo</p><p>deveria perdoar dívidas, libertar escravos e restaurar as ter-</p><p>ras? Seria uma concepção humana para evitar a rebelião e</p><p>a revolução?</p><p>De modo nenhum. A libertação de Deus é o princípio</p><p>da motivação. O ato decisivo de Deus no êxodo do Egito</p><p>fornece a base teológica para o Jubileu. Que ninguém se</p><p>esqueça: “Lembre-se de que você foi escravo no Egito e que</p><p>o Senhor, o seu Deus, o redimiu. E por isso que hoje lhe dou</p><p>essa ordem.”(Dt 15:15). “Eu sou o Senhor, o Deus de vocês,</p><p>que os tirou da terra do Egito para dar-lhes a terra de Canaã</p><p>e para ser o seu Deus.” (Lv 25:38).</p><p>Em outras palavras, Deus está dizendo: “Durante 450</p><p>anos você trabalhou como escravo carregando tijolos para</p><p>os mestres egípcios. Não muito tempo atrás vocês eram es-</p><p>cravos açoitados e punidos. Você também clamou por liber-</p><p>dade. Porém eu, o Senhor o seu Deus, intervim em vosso</p><p>127</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>favor. Eu os libertei da escravidão do Faraó. Libertei vocês da</p><p>escravidão e os trouxe de volta à Terra Prometida”.</p><p>Vez após vez a memória dos atos libertadores de Deus</p><p>brilha nas páginas da Sagrada Escritura.</p><p>(3) Resposta do Jubileu. O Jubileu foi uma resposta à</p><p>graciosa libertação e livramento de Deus. À medida que</p><p>o povo recordava como Deus os libertava da escravidão,</p><p>sua feliz resposta era passar essa liberdade perdoando dí-</p><p>vidas, libertando escravos e devolvendo a terra. Para nos-</p><p>sas mentes, liberar um escravo soa como um ato nobre,</p><p>mas a prescrição do Jubileu não parava com um tapinha</p><p>nas costas de justiça-própria. Simplesmente libertar um</p><p>escravo não era suficiente. “</p><p>E, quando 0 fizer, não o mande embora de mãos vazias.</p><p>Dê-lhe com generosidade dos animais do seu rebanho,</p><p>do produto da sua eira e do seu lagar” (Dt 15:13-l4a; ên-</p><p>fase adicionada).</p><p>Por que tal generosa misericórdia? Não basta libertar 0</p><p>escravo? Por que essa dose extra de bondade?</p><p>O texto bíblico é claro. “Dê-lhe conforme a bênção que o</p><p>Senhor, o seu Deus, lhe tem dado.” (Dt 15: 14b).</p><p>Como Deus liberalmente redimiu você do Egito, assim</p><p>você deve graciosamente libertar seus irmãos e irmãs.</p><p>Os atos de justiça social do Jubileu não são motivados</p><p>por medalhas divinas de mérito. Eles são a resposta natural</p><p>e alegre às boas novas da libertação de Deus.</p><p>(4) A compaixão do Jubileu. A resposta do Jubileu tem um</p><p>olho na história, nos atos graciosos de Deus de libertação e</p><p>o outro olho nos menos afortunados. O comportamento do</p><p>Jubileu responde aos atos de Deus na história e ao clamor</p><p>daqueles que são esmagados pela injustiça social. A visão dos</p><p>128</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>marginalizados pisoteados, de acordo com os escritos bíblicos,</p><p>deve lembrar os hebreus de sua própria escravidão no passado.</p><p>Os pobres são a razão pela qual a terra fica em repouso.</p><p>Deus ordena que, “mas no sétimo deixem-na descansar sem</p><p>cultivá-la. Assim os pobres do povo” (Ex 23:11).</p><p>Deus promete que “Assim, não deverá haver pobre al-</p><p>gum no meio de vocês... contanto que obedeçam em tudo ao Se-</p><p>nhor, ao seu Deus, e colocarem em prática toda esta lei que hoje lhes</p><p>estou dando."(ênfase adicionada). Então Deus prossegue: “não</p><p>endureçam o coração, nem fechem a mão para com o seu</p><p>irmão pobre.</p><p>Ao contrário, tenham mão aberta e emprestem-lhe libe-</p><p>ralmente o que ele precisar.</p><p>Portanto, eu lhe ordeno que abra o coração para o seu ir-</p><p>mão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de</p><p>sua terra.” (Dt 15: 4-5, 7-8, 11, ênfase adicionada).</p><p>Deus adverte o povo a não recusar empréstimos aos po-</p><p>bres apenas porque o ano sabático está próximo. O que eles</p><p>emprestam pode não voltar por causa do cancelamento sabá-</p><p>tico; ainda assim”.</p><p>Dê-lhe generosamente, e sem relutância no coração; pois, por</p><p>isso, o Senhor, o seu Deus, o abençoará em todo o seu trabalho</p><p>e em tudo o que você fizer.” (Dt 15:10, ênfase adicionada).</p><p>Há uma dupla motivação no perdão do Jubileu: uma res-</p><p>posta graciosa à libertação de Deus e olhos compassivos que</p><p>veem a dor humana.</p><p>(5) Revolução de ponta-cabeça. O Jubileu prevê uma revo-</p><p>lução social, mas é certamente uma revolução única. As re-</p><p>voluções costumam entrar em erupção na parte de baixo da</p><p>pirâmide social. Camponeses explorados, irritados por sua</p><p>129</p><p>DONALD B. KRAV8ILL</p><p>opressão, agarram forquilhas ou metralhadoras e atacam os</p><p>ricos opressores. Se bem-sucedidos, eles tomam o poder.</p><p>Mais frequentemente, eles são esmagados. Motivados pela</p><p>raiva, os revolucionários bem-sucedidos de hoje, muitas ve-</p><p>zes, se tornam os opressores de amanhã, enquanto continu-</p><p>am a usar as mesmas armas de violência.</p><p>O Jubileu é revolução de ponta-cabeça. Aqui a chama da re-</p><p>volução queima do topo. A graça de Deus move aqueles em lu-</p><p>gares de poder, os ricos e influentes. Eles agora olham com olhos</p><p>compassivos e se juntam ao Jubileu, redistribuindo recursos na-</p><p>turais e humanos. Tal generosidade aplana as pirâmides socioeco-</p><p>nômicas à medida que aqueles que estão no topo começam a dar</p><p>livremente aos outros como Deus lhes deu livremente.</p><p>(6) Graça institucionalizada. O conceito do Jubileu está</p><p>enraizado em uma consciência aguda do pecado humano e</p><p>da ganância. Sem controles sociais, as pirâmides econômicas</p><p>aumentam. Sem restrições e nivelamento periódico, os fra-</p><p>cos na parte inferior são afundados na lama. As sociedades</p><p>devem ter disposições especiais para defender e proteger os</p><p>desamparados. Sem isso, o poder e a riqueza se acumulam</p><p>nas mãos da elite.</p><p>O Jubileu é um esplêndido exemplo de um plano social</p><p>- sim, institucional - para colocar freios no desejo e na am-</p><p>bição pessoais. A benevolência não pode ser deixada apenas</p><p>para os caprichos e desejos pessoais dos ricos. Alguns dons</p><p>pessoais não alterarão as estruturas malignas que perpetuam</p><p>a opulência à custa dos pobres. O Jubileu nivela as pirâ-</p><p>mides da vida social fazendo da justiça uma nova regra da</p><p>prática econômica.</p><p>A visão do Jubileu não esmaga a iniciativa individual.</p><p>Ela não exige vida comunitária nem prescreve igualdade</p><p>legalista. Ela coloca as aspirações pessoais em seu lugar, mas</p><p>130</p><p>0 R E I N O D E P O N T A C A B E Ç A</p><p>sabe que tais coisas facilmente saem de controle. Assim, sa-</p><p>biamente, exige mudanças estruturais em intervalos regula-</p><p>res para igualar as disparidades que, de outra forma, corre-</p><p>riam desenfreadas. Como vimos, a Bíblia entende tal graça</p><p>institucionalizada como uma resposta à graça de um Deus</p><p>que já tomou a iniciativa. A graça divina provoca mudanças</p><p>econômicas.</p><p>No verdadeiro modelo bíblico, o Jubileu integra dimen-</p><p>sões espirituais e sociais. Ele tece a religião e a economia em</p><p>um mesmo tecido. Colocando-as, assim, juntas sob a verda-</p><p>de bíblica, que mantém a vida espiritual e econômica juntas.</p><p>E nquanto isso, em N azaré.</p><p>Boas notícias para os pobres. Libertação para os prisionei-</p><p>ros. Visão para os cegos. Liberdade para os oprimidos. O ano</p><p>aceitável de Deus! As velhas palavras soam com um novo</p><p>significado quando Jesus as cita na cidade natal de Nazaré.</p><p>Alguns estudiosos do Novo Testamento acreditam que Jesus</p><p>pode ter realmente pregado estas palavras em um ano sabá-</p><p>tico7. Um estudioso até argumenta que foi o próprio ano do</p><p>Jubileu, mas isso é incerto8.</p><p>De qualquer forma, o contexto do Antigo Testamento</p><p>embeleza o uso que Jesus faz dessas palavras. Agora elas nos</p><p>atingem com um novo significado. A palavra hebraica para</p><p>a liberdade é usada apenas sete vezes no Antigo Testamento</p><p>- mas cada vez com o ano da liberdade9. O significado literal</p><p>do Jubileu era certamente uma boa notícia em Nazaré. Os</p><p>pobres poderíam dizer adeus às suas dívidas. Aqueles que</p><p>foram levados à escravidão por causa de dívidas poderíam</p><p>agora voltar para casa. Os camponeses forçados a vender as</p><p>terras, as veriam devolvidas à sua família. Não há dúvida</p><p>sobre isso - era uma notícia muito boa!</p><p>131</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Porém há mais. Jesus não estava apenas fazendo outra pro-</p><p>clamação do Jubileu. “O Senhor me ungiu”, era um anúncio</p><p>messiânico. E notavelmente semelhante à resposta de Jesus</p><p>quando os discípulos de João perguntaram se Ele realmente</p><p>era o Messias. Jesus não disse sim ou não (Lc 7: 22-23). Ao</p><p>invés disso, Ele disse que “os cegos vêem, os aleijados andam,</p><p>os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são</p><p>ressuscitados e as boas novas são pregadas aos pobres;</p><p>Estas são exatamente as mesmas pessoas que Jesus men-</p><p>ciona em Nazaré.</p><p>Esta não é a primeira vez que tal lista aparece. Na verda-</p><p>de, encontramos o mesmo catálogo nas profecias messiânicas</p><p>de Isaías (29:18, 35:5 e 61:1). O que essas imagens signifi-</p><p>cam? São todas descrições muito antigas da cultura oriental</p><p>para 0 tempo da salvação, quando as lágrimas, a tristeza e o</p><p>luto acabarão10. Jesus nos surpreende acrescentando leprosos</p><p>e mortos à lista dos salvos. Ambos estão ausentes nas pas-</p><p>sagens de Isaías. Ouvintes alertas na sinagoga naquele dia</p><p>teriam ouvido Jesus usando estas palavras de código messi-</p><p>ânico da Escritura. Eles o teriam ouvido dizer: “O Messias</p><p>está aqui\ A salvação está surgindo. O reino de Deus está pró-</p><p>ximo. Não está mais longe nas nuvens. A presença de Deus</p><p>entrou no meio de vocês agora. Está acontecendo diante de</p><p>seus próprios olhos\”.</p><p>O tema da restauração reúne o Jubileu, o sermão de Jesus</p><p>em Nazaré e Sua resposta aos discípulos de João. As coisas</p><p>serão restauradas, devolvidas ao seu estado original. Imagens</p><p>do paraíso — sem dívidas, sem pobreza, sem escravidão — bri-</p><p>lham a frente. Essas imagens do jardim nos levam de volta</p><p>ao Gênesis e à criação. Promover a visão Jubileu irá restaurar</p><p>as coisas para a sua perfeição original do jardim.</p><p>A fala sobre o Jubileu também esclarece o papel do Mes­</p><p>132</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>sias, Aquele que anuncia a libertação por Deus. O Messias</p><p>nos faz livres, perdoando nossas dívidas, redimindo nossos</p><p>pecados. Jesus Cristo nos remonta à imagem de Deus. Ele</p><p>quebra as cadeias do pecado. Nossos olhos são abertos. As</p><p>algemas do mal caem. Esta é a verdadeira libertação. Nós</p><p>nos arrependemos e voltamos para o jardim, reacendendo a</p><p>harmonia com Deus - encontrando mais uma vez um lugar</p><p>na família de Deus.</p><p>E assim, em Nazaré, Jesus anunciou o ano aceitável de</p><p>salvação de Deus. Porém, o ponto principal dessa história</p><p>insultou o orgulho judaico quando afirmou que Deus usa-</p><p>va os gentios na história hebraica. A restauração do Jubileu</p><p>não foi apenas para os judeus. Agora, nas palavras de Jesus,</p><p>Ele restaurou todos— até mesmo os gentios. Jesus, de forma</p><p>ultrajante, ofereceu aos gentios palavras de benevolência e</p><p>graça em vez da vingança. O dia das pessoas favorecidas ti-</p><p>nha acabado. O reino do jubileu era universal; não conhecia</p><p>barreiras étnicas, nem favoritos étnicos.</p><p>Esta foi a notícia surpreendente que incitou a raiva na</p><p>multidão de Nazaré. Em vez de um dia de vingança de Deus</p><p>contra os gentios, Jesus havia anunciado um dia de mise-</p><p>ricórdia e perdão universal11. Não havia dúvida sobre isso.</p><p>Jesus, que amava os gentios, era um falso profeta. E assim</p><p>O perseguiram até fora da cidade e tentaram empurrá-Lo de</p><p>um penhasco.</p><p>133</p><p>DONALD B KRAVBILL</p><p>O hábito do J ubileu</p><p>Um ritmo redentor surge do Jubileu. Ele ecoa do jar-</p><p>dim ao túmulo vazio. Os bateristas da história sagrada dão</p><p>o ritmo de uma mensagem de quatro tempos, ou quatro</p><p>batidas,ressoando ao longo dos tempos:</p><p>Jardim - Egito — Êxodo - Jubileu</p><p>Perfeição — Pecado - Salvação — Misericórdia</p><p>Liberdade - Opressão - Restauração - Perdão.</p><p>A primeira batida nos lembra da criação perfeita de Deus.</p><p>A segunda batida lembra a opressão no Egito. A poderosa</p><p>intervenção de Deus traz restauração e salvação. Finalmente,</p><p>podemos responder à salvação de Deus, estendendo miseri-</p><p>córdia e perdão aos outros.</p><p>Uma vez éramos oprimidos. Uma vez éramos cativos. Po-</p><p>rém agora, o Jubileu nos lembra, somos devedores perdoa-</p><p>dos. Somos escravos libertos. Qual deve ser a nossa resposta?</p><p>De repente, a regra recíproca de Deuteronômio 15:14 faz</p><p>sentido: “Dê-lhe com generosidade dos animais do seu reba-</p><p>nho,... conforme a bênção que o Senhor, o seu Deus, lhe tem</p><p>dado.”. Jesus ecoa uma reação em cadeia. Perdoe como Eu</p><p>perdoei. Seja misericordioso como Eu tenho sido misericor-</p><p>dioso. Ame como Eu amei. Dê livremente como Eu lhe dei.</p><p>No modelo do Jubileu, a graça de Deus nos leva a per-</p><p>doar os outros. A misericórdia de Deus nos move a cancelar</p><p>dívidas. Libertamos nossos escravos porque Deus nos liber-</p><p>tou. Em suma, passamos o Jubileu a diante - estendendo</p><p>graça aos</p><p>outros.</p><p>Da mesma forma que a resposta dos hebreus à libertação</p><p>de Deus tinha consequências reais, também deve ter a nossa.</p><p>Não basta sentar e refletir sobre a beleza teológica do Jubi-</p><p>leu. Temos de agir. O modelo bíblico nos chama a começar</p><p>1 3 4</p><p>0 REINO DE ΡΟΝΙΑ CABEÇA</p><p>a p e rd o a r n ão só os in s u lto s in te rp e sso a is , m a s ta m b é m os</p><p>f in an c e iro s . N ó s b a ix a m o s os lu c ro s e a u m e n ta m o s os sa lá -</p><p>rio s. N a s p a la v ra s d a o ração d o P a i nosso , “P e rd o a as nossas</p><p>d ív id a s , a ss im c o m o p e rd o a m o s aos nossos d e v e d o re s .” (M t</p><p>6 : 12).</p><p>D o is p o n to s se d e s ta c a m a q u i. U m d e le s é q u e a c e ita r e</p><p>c o n c e d e r o p e rd ã o e s tã o lig a d o s . S o m o s e le g ív e is p a ra rece-</p><p>b e r o p e rd ã o d e D e u s à m e d id a q u e nos a r re p e n d e m o s e p e r-</p><p>d o a m o s aos o u tro s . A lé m d isso , a lg u n s e s tu d io so s o b se rv a m</p><p>q u e a p a la v ra dívidas n a O ra ç ã o d o P a i N o sso p o d e re fe rir-se</p><p>a p e c a d o s o u a d ív id a s fin a n c e ira s12. D e v e m o s p e rd o a r não</p><p>ap e n a s s e n t im e n to s ru in s , m a s ta m b é m d ív id a s fin an ce iras?</p><p>D e q u a lq u e r fo rm a , n o co ração d a O ra ç ã o d o P a i N o sso , e n -</p><p>c o n tra m o s o p r in c íp io d o J u b i le u .</p><p>A p a rá b o la d o se rv o im p la c á v e l (M t 18: 2 3 -3 5 ) ta m b é m</p><p>re ssa lta a p o s tu ra d o J u b i l e u . U m re i p e rd o a a g ra n d e d ív id a</p><p>d e u m servo . O servo p e rd o a d o a g a rra o u tro se rv o p e la g a r -</p><p>g a n ta e e x ig e o re e m b o lso d e u m a p e q u e n a d ív id a . Q u a n d o</p><p>o a m ig o n ão p o d e p a g a r, o se rv o p e rd o a d o o tra n c a n a p risão .</p><p>Q u a n d o 0 re i fica sa b e n d o isso , e le fica fu r io so e jo g a o servo</p><p>p e rd o a d o n a c a d e ia a té q u e e le p a g u e a d ív id a . A h is tó r ia</p><p>te r m in a c o m u m a m o ra l c la ra d o J u b i le u : “A ss im ta m b é m</p><p>lh es fa rá m e u P a i c e le s tia l, se cad a u m d e vocês n ão p e rd o a r</p><p>d e co ração a seu i rm ã o ” (M t 1 8 :3 5 ).</p><p>O p r in c íp io d o p e rd ã o re c íp ro c o d o ju b i le u p e r m e ia o</p><p>e n s in o d o N o v o T e s ta m e n to . A s p a lav ras d e J e s u s so b re a</p><p>r iq u e z a d e re p e n te fazem s e n t id o n o c o n te x to d o m o d e lo</p><p>J u b i l e u . N e s te c o n te x to , seus e n s in a m e n to s a s su m e m u m</p><p>n o v o s ig n if ic a d o . E les nos c o n v id a m a re sp o n d e r d e m a n e ira</p><p>c o n c re ta e e c o n ô m ic a à in ic ia t iv a l ib e r ta d o ra d e D e u s.</p><p>135</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>A CAUDA DOCÃO</p><p>Vimos como o Jubileu conecta as esferas espiritual e so-</p><p>cial.Embora ligadas, elas representam diferentes pontos de</p><p>partida.Na verdade, a forma como elas se engrenam tem</p><p>gerado muita controvérsia filosófica.Os cientistas sociais ar-</p><p>gumentam que nossas crenças refletem nosso ambiente ma-</p><p>terial. Eis aí a questão da galinha e do ovo. As nossas idéias</p><p>influenciam os nossos estilos de vida econômicos ou os nos-</p><p>sos estilos de vida influenciam nossas idéias?13</p><p>Filósofos e teólogos tendem a se alinhar em um lado deste</p><p>argumento. Eles afirmam que nossas crenças moldam nosso</p><p>comportamento econômico. Por outro lado, muitos cientis-</p><p>tas sociais argumentam que nossas convicções são apenas um</p><p>espelho de nosso status econômico.</p><p>No último ponto de vista, nosso segmento econômico</p><p>molda as crenças a que nos apegamos. Por exemplo, uma</p><p>pessoa nascida em uma família rica provavelmente acredita-</p><p>rá que abundância é um sinal de benção de Deus. Em con-</p><p>trapartida, aqueles nascidos na pobreza são mais propensos a</p><p>acreditar que Deus os abençoará no céu, com um belo man-</p><p>jar divino. Os camponeses que têm uma vida dura e miserá-</p><p>vel provavelmente sonharão com a futura bênção celestial de</p><p>Deus enquanto seus opressores veem o aqui e agora como já</p><p>bastante celestial.</p><p>As canções dos escravos americanos, por exemplo, enfo-</p><p>cavam a esperança futura de atravessar o tempestuoso Jordão</p><p>e entrar na Terra Prometida. Enquanto isso, seus mestres ci-</p><p>tavam versos bíblicos para apoiar sua crença em um sistema</p><p>escravocrata que os tornava ricos aqui e agora. Da mesma</p><p>forma hoje, a abundante nata da sociedade, cercada por casas</p><p>e carros luxuosos, pouco precisa de uma saída divina para</p><p>infortúnios financeiros.</p><p>136</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Está em jogo a relação entre religião e economia, realida-</p><p>de espiritual e material, nossa fé e nosso bolso. Isso levanta</p><p>a questão do cão e da cauda. E o cão que abana a cauda ou</p><p>a cauda que abana o cão? Nossa fé ‘abana’ nossa carteira,</p><p>ou nossa conta bancária ‘abana’ nossas convicções? O que</p><p>controla 0 quê? Isso simplifica demais, é claro, a complexa</p><p>relação entre carteira e piedade. No entanto, é importante</p><p>perguntar como nossa fé afeta nosso bolso.</p><p>Fatores econômicos moldam fortemente a forma como</p><p>olhamos as coisas. Nosso salário, a renda de nossos amigos,</p><p>o valor de nossa casa e nosso status social - todos esses fa-</p><p>tores afetam nosso pensamento. Eles fornecem um conjun-</p><p>to de lentes pelas quais temos nossa visão do mundo. Nós</p><p>nos apegamos a crenças teológicas que apoiam e legitimam</p><p>nosso status econômico. Nosso status financeiro filtra nossa</p><p>visão da Bíblia e nos encoraja a interpretá-la de maneira que</p><p>endossem nosso estilo de vida econômico — quer sejamos</p><p>ricos ou pobres.</p><p>Em suma, nossas carteiras muitas vezes ‘abanam’ nossas</p><p>crenças. Isso contradiz o padrão bíblico. A visão bíblica exi-</p><p>ge uma fé que abra bolsos. Forças econômicas moldam nos-</p><p>sas opiniões. Não conseguimos pular fora de nossos ambien-</p><p>tes sociais. Porém podemos ouvir e obedecer à mensagem</p><p>bíblica, que nos incita a colocar nossas decisões econômicas</p><p>sob o reinado do Rei Jesus.</p><p>O Jubileu fornecia uma solução hebraica para este pro-</p><p>blema “da cauda e do cão”. A fé em um Deus que graciosa-</p><p>mente livrou da escravidão motivava as pessoas a abrir a sua</p><p>mão de misericórdia. Os atos de salvação de Deus na história</p><p>santa moviam a comunidade a perdoar dívidas, libertar es-</p><p>cravos e devolver terra. Às vezes, os hebreus recusavam-se</p><p>a praticar o Jubileu. Sua teimosia atesta o firme domínio</p><p>das lealdades econômicas sobre a fé. O modelo bíblico, no</p><p>137</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>entanto, é claro: a fé deve mover as carteiras. Este princípio</p><p>bíblico sustenta o ensinamento de Jesus, que exploraremos</p><p>em capítulos posteriores.</p><p>A obediência cristã hoje não significa duplicar os de-</p><p>talhes históricos do Jubileu. Muitas pessoas já não vivem</p><p>numa teocracia onde a legislação civil e religiosa flui junto</p><p>sob 0 reinado de Deus. Além disso, um pequeno grupo de</p><p>cristãos não pode impor sua forma de economia a uma socie-</p><p>dade maior. Restaurar a terra aos seus proprietários originais</p><p>não ajudará as famílias que nunca possuíram a terra ante-</p><p>riormente. Os intercâmbios de terras não podem corrigir as</p><p>injustiças resultantes do acesso desigual à tecnologia, à in-</p><p>formação, ao capital e aos recursos naturais. Permitir que o</p><p>trigo fique cada sétimo ano nos campos do Nebrasca não vai</p><p>alimentar os famintos em Nova York e Bombaim. Embora</p><p>muitos dos detalhes não sejam aplicáveis hoje, os princípios</p><p>teológicos do Jubileu oferecem uma estrutura bíblica, para a</p><p>prática econômica cristã.</p><p>A visão do Jubileu entrelaça o social e o espiritual, o polí-</p><p>tico e o pessoal, o interior e 0 exterior. Ela também combina</p><p>a iniciativa de Deus com a nossa. Provocados pela libertação</p><p>divina, nós perdoamos. Assim como nós perdoamos, então</p><p>somos perdoados. Como somos misericordiosos, recebemos</p><p>misericórdia. Estas verdades estão no coração do Jubileu; e</p><p>a visão do Jubileu permeia o ensinamento de Jesus, não só</p><p>em Nazaré, mas em todo 0 seu ministério14.</p><p>Misericórdia,</p><p>libertação, liberdade, compaixão, perdão. Estas são as pala-</p><p>vras-chave do Jubileu; e essas mesmas palavras energizam a</p><p>visão econômica de Jesus. Elas moldam Seu perdão ao pobre</p><p>e humilde.</p><p>A visão teológica de Jesus tem consequências sociais. O</p><p>Jubileu declara o reinado de Deus. O decreto de Deus traz</p><p>a libertação da escravidão às velhas autoridades, o perdão</p><p>138</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>das dívidas com os velhos reinos e a liberdade para aqueles</p><p>em escravidão espiritual e social. Esta graça esplêndida é o</p><p>Jubileu. E o dia aceitável do Senhor, o dia da liberdade, o dia</p><p>da salvação. E é Jesus de Nazaré quem articula e encarna isto</p><p>em Suas palavras e ações.</p><p>139</p><p>CAPITULO 6</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>J ubileu Perpétuo</p><p>'esus dá uma grande atenção à riqueza. Especialmente no</p><p>Evangelho de Lucas, Ele liga a conversão econômica ao</p><p>novo reino. Vamos seguir a história de Lucas com referências</p><p>cruzadas aos outros Evangelhos1.</p><p>J;</p><p>Jesus não condena a propriedade privada. Ele não pede</p><p>uma nova comuna cristã. Contudo, Ele condena a ganância.</p><p>E, como vimos, havia muito a criticar. Jesus sustenta o mo-</p><p>delo do Jubileu como o novo caminho para seus discípulos.</p><p>Pessoas no caminho com Ele respondem ao amor gracioso de</p><p>Deus compartilhando com os necessitados em torno deles.</p><p>A riqueza não cai simplesmente do céu. Conjuntos de re-</p><p>gras sociais regulam a sua aquisição e utilização da riqueza.</p><p>Ao repreender os gananciosos, Jesus questionou as normas</p><p>econômicas de sua época, que permitiam que os ricos opri-</p><p>missem os pobres. Ele não disse que as coisas materiais são</p><p>inerentemente más. Porém Ele advertiu sobre 0 perigo. Di-</p><p>nheiro e bens materiais podem rapidamente se tornar ídolos,</p><p>que podem nos controlar e tirar o governo de Deus do trono</p><p>de nossas vidas. Começaremos explorando seis perigos de</p><p>riqueza que, segundo Jesus, podem minar nossa fidelidade</p><p>ao reino.</p><p>143</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Cuidado: 0 sufocador</p><p>Escondido na parábola do semeador está um sermão sobre</p><p>a ameaça de riquezas para os cidadãos do reino3. A semente é a</p><p>Palavra de Deus4. Seu crescimento simboliza o surgimento do</p><p>reino. A semente que cai entre arbustos espinhosos é sufocada.</p><p>“As que caíram entre espinhos são os que ouvem, mas, ao se-</p><p>guirem seu caminho, são sufocados pelas preocupações, pelas</p><p>riquezas e pelos prazeres desta vida, e não amadurecem”(Lc</p><p>8:14 NVI, Marcos 4: 18-19 e Mateus 13:22). As sementes</p><p>brotam. Há crescimento e vida nova. Porém afiados espinhos</p><p>rapidamente sufocam a vitalidade. Os cuidados, riquezas e</p><p>prazeres da vida sufocam as novas plantas.</p><p>Os escritores sinóticos usam a palavra asfixiar. A vida es-</p><p>pi ritual fica amordaçada. Brotos de frutas aparecem, mas não</p><p>há colheita. Os pequenos frutos nunca amadurecem. Hoje, os</p><p>cuidados, riquezas e prazeres da vida podem incluir avanço</p><p>profissional, casas, casas de férias, férias de luxo, passatempos</p><p>exóticos, investimentos financeiros, roupas de grife, carros de</p><p>alto desempenho e muitas outras coisas. Esses prazeres da vida</p><p>podem abortar o crescimento do reino. Eles nos desviam de</p><p>nosso verdadeiro ministério e estragam a colheita.</p><p>Cuidado: 0 preocupado</p><p>O ontem traz culpa. O amanhã traz preocupação. Jesus</p><p>entendeu que a riqueza gera ansiedade. Estaremos seguros</p><p>amanhã? E se um ataque terrorista tornar a economia em</p><p>um caos? E se o mercado de ações cair? Podería o alarme</p><p>contra assaltantes falhar? Ter propriedades faz com que nos</p><p>preocupemos com sua defesa e proteção. Em Lucas (12: 22-</p><p>34) e em Mateus (6:19-21, 25-33) Jesus exorta os discípulos</p><p>quatro vezes a não se preocuparem com alimentos e roupas.</p><p>144</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA</p><p>“Não busquem ansiosamente o que hão de</p><p>comer ou beber; não se preocupem com isso.</p><p>Pois 0 mundo pagão é que corre atrás dessas</p><p>coisas; mas o Pai sabe que vocês precisam de-</p><p>las.Busquem, pois, o Reino de Deus, e essas</p><p>coisas lhes serão acrescentadas.”Não tenham</p><p>medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado</p><p>do Pai dar-lhes o Reino.Vendam o que têm</p><p>e deem esmolas. Façam para vocês bolsas que</p><p>não se gastem com o tempo, um tesouro nos</p><p>céus que não se acabe, onde ladrão algum</p><p>chega perto e nenhuma traça destrói.Pois</p><p>onde estiver o seu tesouro, ali também estará</p><p>o seu coração” (Lc 12:29-34)</p><p>O texto grego significa “não faça esforços ansiosos para”.</p><p>Os pagãos ficam ansiosos por coisas materiais. Eles são es-</p><p>forçados. Eles estão sempre inquietos e se preocupam com</p><p>o que eles irão vestir, o que eles irão comer, onde eles irão</p><p>morar, e quanto eles irão ganhar. As nações do mundo pro-</p><p>curam estas coisas.</p><p>Não é assim com os discípulos de Jesus. Eles não se pre-</p><p>ocupam com essas coisas. Eles se concentram totalmente no</p><p>reino! Deus cuidará deles. No contexto do ano sabático, quan-</p><p>do as lavouras não eram cultivadas, essa sabedoria adquire um</p><p>novo significado. Um estudioso oferece essa paráfrase.</p><p>Se você trabalha seis dias (ou seis anos) com</p><p>todo o seu coração, você pode contar com</p><p>Deus para cuidar de você e dos seus. Portan-</p><p>to, sem medo, deixe o seu campo sem culti-</p><p>vo. Como Ele faz com os pássaros do céu, que</p><p>não semeiam ou colhem ou ajuntam em ce-</p><p>145</p><p>DONALD B. KRAYB1LL</p><p>leiros, Deus cuidará de suas necessidades. Os</p><p>gentios que não prestam atenção ao sábado</p><p>não são mais ricos do que vocês.5</p><p>No contexto do ano sabático, essas palavras não prescre-</p><p>vem preguiça; elas não são uma receita para 0 ócio. Eles nos</p><p>lembram de que a acumulação de coisas nos distrai do reino.</p><p>Jesus nos exorta a colocar nossas prioridades sobre os valores</p><p>do reino, não sobre os materiais. Quando abraçarmos sua</p><p>visão, o reino de Deus, seremos movidos pela graça de Deus</p><p>a compartilhar nossos bens com os necessitados. Os pobres</p><p>são 0 foco do discurso de Jesus. A acumulação é uma forma</p><p>pagã. Dar esmolas aos pobres reflete a forma de ponta-ca-</p><p>beça. O princípio do Jubileu surge novamente. Filhos de</p><p>um Deus amoroso respondem ao dom do reino usando suas</p><p>posses em favor dos pobres.</p><p>Esse mesmo espírito permeia as bem-aventuranças quando</p><p>Jesus nos instrui a dar àqueles que pedem e emprestar sem</p><p>esperar retorno (Lc 6: 34-35, Mt 5:42). Os lucros excessivos</p><p>não atormentam aqueles cujos corações são cativados pelo rei-</p><p>no. Quando o reino é nosso tesouro, mudamos de acumular</p><p>para compartilhar. Quando elevamos as prioridades do reino,</p><p>compartilhamos liberalmente nossa riqueza; e no processo</p><p>não só restauramos e liberamos os pobres, mas também a nós</p><p>mesmos! Nós nos libertamos da ansiedade e da escravidão da</p><p>preocupação, dos grilhões do consumo sem fim.</p><p>Nós não herdamos a preocupação. As posses trazem pre-</p><p>ocupação. Crianças saudáveis raramente se preocupam. Por</p><p>exemplo, um garoto de quatro anos, ouvindo uma música</p><p>sobre emoções, ficou intrigado. A cantora perguntou: “Com</p><p>o que você está triste?” e “Com o que você está zangado?”</p><p>Ouvindo a pergunta “Com o que você está preocupado?” A</p><p>criança foi soluçando para sua mãe e disse: “Não tenho nada</p><p>! 4 6</p><p>0 REINO DE ΡΟΝΕΑ CABEÇA</p><p>com que me preocupar”. Poucos dias depois, bastante ali-</p><p>viada, ela respondeu: “Finalmente encontrei algo com que</p><p>me preocupar”. Entrar no reino como uma criança, como</p><p>Jesus nos chama a fazer, é permitir que Deus cuide de nossos</p><p>amanhãs.</p><p>Uma frase concisa do evangelho de Mateus resume bem.</p><p>“Portanto, não se preocupem com 0 amanhã, pois o amanhã</p><p>se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio</p><p>mal” (Mt 6:34). O número de contratos de seguro vendidos</p><p>a cada ano pode refletir a quantidade de ansiedade coletiva</p><p>em uma sociedade. Uma obsessão com as posses nos escra-</p><p>viza ao demônio da preocupação. Jesus nos convida a mudar</p><p>nossas prioridades, a nos concentrar no Reino e a comparti-</p><p>lhar com os necessitados.</p><p>Cuidado: A quele que cega</p><p>Em uma de suas parábolas mais pungentes, Jesus fala so-</p><p>bre como as armadilhas das riquezas pode nos cegar.</p><p>“Havia um homem rico que se vestia de púr-</p><p>pura e de linho fino e vivia no luxo todos os</p><p>dias.Diante do seu portão fora deixado um</p><p>mendigo</p><p>chamado Lázaro, coberto de cha-</p><p>gas;este ansiava comer o que caía da mesa do</p><p>rico. Em vez disso, os cães vinham lamber as</p><p>suas feridas.”Chegou o dia em que o mendi-</p><p>go morreu, e os anjos o levaram para junto de</p><p>Abraão. O rico também morreu e foi sepulta-</p><p>do.No Hades, onde estava sendo atormenta-</p><p>do, ele olhou para cima e viu Abraão de lon-</p><p>ge, com Lázaro ao seu lado..” (Lc 16:19-23)</p><p>147</p><p>DONALD B. KRAYB1LL</p><p>Normalmente conhecido como a história de Lázaro e do</p><p>Rico, um título melhor podería ser: “Surpreendido pelo In-</p><p>ferno”. Jesus provavelmente dirigiu essa história aos ricos</p><p>saduceus em Jerusalém que duvidavam da existência de uma</p><p>vida após a morte. Também pode ser a resposta de Jesus aos</p><p>pedidos incessantes de um sinal miraculoso.</p><p>De qualquer forma, o ensino é claro. O homem rico vive</p><p>em uma casa grande e dá festas todos os dias. Ele usa roupas</p><p>roxas finas e as roupas íntimas egípcias mais caras. Ele não era</p><p>um ladrão ou trapaceiro. Ele não ganhou suas riquezas ile-</p><p>galmente. Ele simplesmente aproveitou o sistema econômico.</p><p>Sua riqueza pode ter vindo através de herança, ligações fami-</p><p>liares ou trabalho duro. Ele era um homem honesto e decente,</p><p>talvez um saduceu, mas certamente não um vigarista.</p><p>No canto da propriedade do homem rico estava um pobre</p><p>mendigo que sofria de uma doença de pele. Lázaro, o único</p><p>personagem com nome entre todas as histórias de Jesus, sig-</p><p>nifica “Deus ajuda”6. Dia após dia, ele procura por pedaços</p><p>de pão. Os convidados do anfitrião jogam as sobras para ele</p><p>enquanto estão festejando. De acordo com o costume local,</p><p>os convidados não usavam guardanapos, mas limpavam suas</p><p>mãos pegajosas em pedaços de pão e depois os jogavam de-</p><p>baixo da mesa. A palavra grega para mendigo está relacionada</p><p>com a palavra para cuspir. Lázaro era uma pessoa “cuspida”,-</p><p>desprezada pelos qLie festejavam. O mendigo envergonhava</p><p>o homem rico e arruinava o espírito de sua festa.</p><p>Porém os cães não tinham favoritos. Eles lambiam as fe-</p><p>ridas do pobre Lázaro. Os filhotes simbolizavam os não-sal-</p><p>vos, os gentios desprezados. O momento de ponta-cabeça se</p><p>apresenta. O saduceu rico e religioso cuspiu sobre o mendigo</p><p>com desprezo. Mas os cães, dentre todos, foram aqueles que</p><p>mostraram compaixão. Em vez de cuspir, eles usaram sua</p><p>saliva para curar. Eles lamberam as feridas do pobre Lázaro.</p><p>148</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Que sarcástica e afiada lição — os cães têm mais compaixão</p><p>do que os ricos saduceus7.</p><p>De repente, à medida que a história se desenrola, o mun-</p><p>do fica de ponta-cabeça. O homem rico queima no inferno e</p><p>o velho Lázaro, em quem cuspiam, se senta à mão direita de</p><p>Abraão. Ele ocupa o lugar de honra, o lugar mais prestigiado</p><p>na congregação dos justos. O jogo virou. Em cima e embaixo</p><p>estão invertidos. Antes, Lázaro tinha ido até o homem rico,</p><p>implorando migalhas. Agora, fritando no inferno, o rico fes-</p><p>teiro vai até Lázaro e implora por uma gota de água. Ecos</p><p>do cântico de Maria chegam aos nossos ouvidos: “Encheu de</p><p>bens os famintos, e despediu vazios os ricos” (Lc 1:53).</p><p>A mensagem é clara. O homem rico, cego pelo luxo, re-</p><p>cusou o Jubileu e enfrentou um fim abrasador. O enorme</p><p>abismo da história simboliza sua distância de Deus. O Deus</p><p>Todo-Poderoso não tinha esquecido o fraco e d esprezado</p><p>Lázaro. Porém,cuidado, esta não é uma história para confor-</p><p>tar mendigos. A parábola não pede aos pobres que aguardem</p><p>pacientemente sua recompensa no céu. Não, o final da his-</p><p>tória se concentra nos cinco irmãos ricos que ainda vivem.</p><p>No calor do momento, o homem rico sente compaixão.</p><p>Ele de repente implora a Abraão que deixe Lázaro ressuscitar</p><p>dos mortos e avisar seus irmãos. Abraão recusa. Mais uma</p><p>vez, o homem rico implora para que um mensageiro mira-</p><p>culoso se levante do túmulo e avise seus irmãos. Novamente</p><p>Abraão diz: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampou-</p><p>co se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre</p><p>os mortos “ (Lc 16: 31).</p><p>Em outras palavras, os irmãos do homem rico sabem so-</p><p>bre 0 Jubileu desde a infância. Seus ouvidos ouviram as leis</p><p>do Jubileu serem lidas em voz alta Sabbath após Sabbath na</p><p>sinagoga. A dura conclusão é óbvia. Nenhum mensageiro</p><p>149</p><p>DONALD 8. KRAYB1UL</p><p>especial avisará os ricos. O julgamento irá queimar aqueles</p><p>que se recusam ao Jubileu e zombam do reino de Deus.</p><p>Deliciosos banquetes e um estilo de vida luxuoso cega-</p><p>vam 0 homem rico. Envolvido na boa vida, ele não conseguia</p><p>ver as feridas ou ouvir os gritos de desespero nas proximida-</p><p>des. Ele estava preso em um sistema cultural que era insen-</p><p>sível à compaixão. Quanto mais grave é a cegueira daqueles</p><p>que não têm apenas Moisés e os profetas, mas também Jesus,</p><p>Paulo, e a história da igreja. Certamente, Jesus nos diria:</p><p>“Quemtêm ouvidos para ouvir, ouça”.</p><p>Cuidado: 0 Chefe</p><p>Em outra parábola, Jesus nos informa que as riquezas</p><p>não só cegam, mas elas também comandam. Dominam e</p><p>ordenam nossas vidas. Um homem rico, possivelmente um</p><p>proprietário de terra ausente, tem um mordomo para geren-</p><p>ciar sua propriedade (Lc 16: 1-9)8· O proprietário da terra</p><p>ausente tem contratos com comerciantes que vendem seus</p><p>produtos. O mordomo escreve os contratos em nome de seu</p><p>chefe e inclui uma taxa de juros escondidos.</p><p>O proprietário descobre que o mordomo está dilapidando</p><p>sua propriedade. Então, o proprietário pede um inventário</p><p>completo de seus bens antes de dispensar o trapaceiro. Sa-</p><p>bendo que estava prestes a ser demitido, o mordomo perce-</p><p>be que ele enfrenta possível destruição em outros trabalhos,</p><p>como escavar ou mendigar. Ele é muito fraco para escavar</p><p>e se ele mendigar, provavelmente vai ficar doente e morrer</p><p>como um mendigo. Assim, ele prepara uma solução surpre-</p><p>endente. O mordomo perspicaz, sentindo sua iminente mor-</p><p>te, rapidamente chama os devedores de seu amo e reduz suas</p><p>dívidas. Ao descobrir a surpresa, o senhor elogia o mordomo</p><p>por sua ação rápida.</p><p>150</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Esta história deixa muitos comentaristas perplexos. A</p><p>perspectiva do Jubileu e o conhecimento das práticas finan-</p><p>ceiras da época esclarecem o enigma. No centro da história</p><p>está o fato de que o mordomo provavelmente cobrava um</p><p>juro oculto, cerca de vinte e cinco a cinquenta por cento, nos</p><p>contratos com os devedores. O comissário provavelmente ti-</p><p>nha escrito os contratos, mas não está claro se 0 juro oculto</p><p>era para ele ou para o proprietário.</p><p>O juro, considerado usura e contra a lei de Deus, era proi-</p><p>bido no Antigo Testamento. Os fariseus, entretanto, haviam</p><p>inventado maneiras de cobrar um juro oculto tolerado mes-</p><p>mo por tribunais civis judaicos. Ao emprestar grãos, vinho e</p><p>óleo, juros ocultos poderíam ser cobrados se o empréstimo não</p><p>fosse de “necessidade imediata”. A maioria dos empréstimos</p><p>não era considerada de necessidade imediata. Assim, o juro</p><p>era, de fato, tipicamente cobrado, violando a lei de Deus.</p><p>Por exemplo, se uma mulher tinha uma gota de óleo e que-</p><p>ria pegar mais óleo emprestado, o empréstimo não era de</p><p>necessidade imediata. Ela já tinha uma gota de óleo! Assim,</p><p>seu credor podería cobrar juros sobre seu empréstimo.</p><p>A regra da necessidade imediata aplicada principalmente</p><p>aos empréstimos de mercadorias como trigo e vinho. Em-</p><p>préstimos monetários eram muitas vexes transformados em</p><p>valores de mercadoria se então os juros ocultos poderíam ser</p><p>cobrados. O juro, no entanto, nunca foi escrito no contrato,</p><p>pois isso teria violado a lei de Deus.</p><p>De volta à história. O mordomo está em crise. Em breve</p><p>ele estará desempregado, sem referências. Sua reputação será</p><p>manchada. Em um beco sem saída, ele decide perdoar o juro</p><p>que tinha injustamente adicionado aos seus empréstimos dos</p><p>devedores. Provavelmente ele havia transformado os emprés-</p><p>timos em valores de produtos— óleo ou grãos — para esconder</p><p>os juros proibidos que ele cobrava para si. Ao cancelar os juros</p><p>151</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>ilegais, o mordomo perdeu uma soma considerável. Ele não</p><p>tinha o poder de perdoar toda a dívida, já que o principal</p><p>era</p><p>devido ao seu senhor. “Nosso mordomo, então, emprestando</p><p>juros aos judeus era moralmente um transgressor, mas estava</p><p>legalmente seguro, contanto que seus contratos ocultassem o</p><p>fato de que o empréstimo era com usura”9.</p><p>A história começa com os mestres da animosidade</p><p>— de que os mestres desconfiam de mordomos, os comercian-</p><p>tes que odeiam os mordomos e dos mordomos que enganam</p><p>mestres e mercadores. No entanto, termina de um modo</p><p>invertido com todos felizes - os comerciantes estão satisfei-</p><p>tos com dívidas mais baixas, o mestre elogia um mordomo</p><p>por eliminar contratos desonestos e o mordomo feliz por ter</p><p>salvado seu trabalho10.</p><p>O mordomo, no final, modela a justiça perdoando dívi-</p><p>das injustas. Além disso, ao conceder favor aos devedores, ele</p><p>agora pode esperar favor em troca deles. Eles irão oferecer</p><p>hospitalidade calorosa e apoio se ele algum dia precisar. O</p><p>proprietário da terra elogia seu mordomo por seguir a lei</p><p>bíblica e agir com retidão (Lc 16: 8). Então vem a fala de</p><p>ponta-cabeça dizendo: “porque os filhos deste mundo são</p><p>mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz”</p><p>Os fariseus, supostamente os filhos da luz, haviam in-</p><p>ventado esses modos engenhosos de contornar a lei de Deus</p><p>porque eram “amantes do dinheiro”11. O mordomo mun-</p><p>dano agiu com justiça cancelando o juro. Se os fariseus não</p><p>pudessem ser fiéis em uma coisa pequena como emprestar</p><p>dinheiro, como Deus podería confiar neles para lidar com a</p><p>maior riqueza do reino?</p><p>De acordo com Lucas, a parábola do mordomo perspicaz</p><p>levou Jesus a um sermão mordaz: “Nenhum servo pode ser-</p><p>vir a dois senhores; pois odiará a um e amará ao outro, ou se</p><p>152</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>dedicará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir</p><p>a Deus e ao Dinheiro”(Lc 16:13). Os fariseus, amantes do</p><p>dinheiro, ouviram isso e zombaram dele.</p><p>Ainda assim, Jesus disse: “Vocês são os que se justificam</p><p>a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os</p><p>corações de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os ho-</p><p>mens é detestável aos olhos de Deus”(Lc 16:15).</p><p>O mordomo foi pego entre dois senhores. A lei de Deus</p><p>proibia o juro, mas a lei dos fariseus permitia. As exigências</p><p>dos dois senhores colidiram. O mordomo desonesto perce-</p><p>beu o impasse e escolheu obedecer à lei de Deus. No estilo</p><p>de ponta-cabeça, 0 vigarista se torna o herói.</p><p>Mamon, um termo aramaico, significa riqueza, dinhei-</p><p>ro, propriedade ou lucro. A verdade marcante aqui é que</p><p>Jesus vê Mamon reivindicando status divino. Em sua opi-</p><p>nião, ele compete diretamente com Deus. A riqueza, mais</p><p>do que qualquer outra coisa, pode agir como um deus. Jesus</p><p>não concede status de deidade ao conhecimento, habilidade,</p><p>aparência, ocupação, nobreza ou nacionalidade. E a riqueza,</p><p>Ele diz, que clama para nos controlar e nos dominar como</p><p>uma divindade.</p><p>Jesus não está, neste caso, atacando dinheiro ou bens, mas</p><p>a escravidão a eles - obsessão por eles. Essa é a diferença</p><p>entre entregar-se totalmente ao reino de Deus ou dedicar</p><p>paixão às posses materiais. Precisamos escolher. E impossí-</p><p>vel, diz Jesus, servir livremente a Deus se estivermos apri-</p><p>sionados pela riqueza.</p><p>Flutuações do mercado de ações podem se tornar nossa</p><p>obsessão. Nós facilmente ficamos absorvidos em novos dis-</p><p>positivos tecnológicos e começamos a servi-los. Como novos</p><p>brinquedos cativam as crianças, ambições materiais podem</p><p>cativar os adultos. Muito facilmente, nós também nos pros-</p><p>153</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>tramos e adoramos no altar do materialismo. O luxo começa</p><p>a manipular e ditar nossas vidas. Marnon se transforma em</p><p>um deus. Jesus afirma que não podemos servir a Deus e à ri-</p><p>queza simultaneamente. Podemos usar a riqueza para servir</p><p>os propósitos de Deus, mas isso é bem diferente de servir à</p><p>riqueza em si.</p><p>Particularmente irritante é a acumulação de riqueza sob</p><p>uma camada de propagandas piedosas. Quando Jesus puri-</p><p>ficou o templo, Ele atingiu a exploração que oprimia os po-</p><p>bres em nome da religião. “A minha casa será chamada casa</p><p>de oração para todos os povos? Mas vocês fizeram dela um</p><p>covil de ladrões”(Mc 11:17, Mt 21:13, Lc 19:46, Jo 2:16).</p><p>Os mercadores que operavam no templo não estavam agin-</p><p>do ilegalmente. Eles estavam trocando dinheiro “puro” por</p><p>ofertas e vendendo animais para sacrifícios com um lucro</p><p>alto. Eles inventaram um sistema “legal” que roubava os po-</p><p>bres. Jesus os chamou de “ladrões”, pois eles criaram um</p><p>sistema que explorava os pobres em nome de religião.</p><p>Os fariseus, engajados em sua própria versão de fraude</p><p>cobrando juro oculto, zombavam da repreensão de Jesus. Ele</p><p>declarou que a acumulação de riqueza para impressionar os</p><p>outros é uma abominação aos olhos de Deus (Lc 16:15). Bens</p><p>glamorosos, festas abundantes e grandes ativos financeiros</p><p>sobem muitos degraus na escada do sucesso. Os bens mate-</p><p>riais, no entanto, cair lá para baixo no reino de ponta-cabeça.</p><p>De acordo com Jesus, misericórdia, amor e compaixão são os</p><p>novos padrões de sucesso no reino invertido de Deus.</p><p>154</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Cuidado: O Destruidor</p><p>A riqueza pode até ter um efeito destruidor em nossas vi-</p><p>das. Jesus destaca este ponto em uma história sobre um homem</p><p>rico e tolo (LC 12: 13-21)12. Um homem na multidão corre até</p><p>Jesus e pede um conselho legal. Ele estava reclamando porque</p><p>seu irmão não queria compartilhar a herança da família. O ho-</p><p>mem implora a Jesus para repreender seu irmão mesquinho.</p><p>Jesus se recusa a mediar. Em vez disso, Ele conta uma história</p><p>sobre celeiros, pois percebe um espírito de ganância com toda a</p><p>preocupação de obter uma parcela justa da fazenda da família.</p><p>O padrão de quarenta e nove anos do Jubileu protegia</p><p>os direitos de herança dos pobres. Se a terra era devolvida</p><p>aos antigos proprietários de cada geração, uma família não</p><p>podería acumular grandes extensões. As práticas de herança</p><p>geralmente favorecem os filhos dos ricos, que recebem tudo</p><p>numa bandeja de prata. Talvez Jesus estivesse alfinetando</p><p>não apenas a ganância desse homem, mas também os hábitos</p><p>de herança, que davam a uma pessoa uma fazenda de graça,</p><p>enquanto outros não a possuíam nada.</p><p>De volta a nossa história13. Um agricultor goza de bons</p><p>rendimentos. Ele expande seu espaço de armazenamento e</p><p>guarda o grão. Ele planeja uma festa. Naquela noite, Deus</p><p>o chama de tolo e exige sua alma. Jesus resume a inversão:</p><p>«Assim é aquele que para si ajunta tesouros... não é rico para</p><p>com Deus”(Lc 12:21). O celeiro que este colega constrói não</p><p>é um galpão para manter o grão até a debulha, mas um silo</p><p>para armazenamento permanente. Em vez de praticar o Ju-</p><p>bileu compartilhando seu excedente, ele o acumula como</p><p>um tolo. Este não é um armazenamento justo e sabático do</p><p>rendimento do sexto ano. Esta é a expansão egoísta à custa</p><p>dos pobres. Seu motivo egoísta é claro: “descansa, come,</p><p>bebe e folga” (Lc 12:19-20).</p><p>155</p><p>D O N A L D B . K R A V B IL L</p><p>Em meio a sua festa, Deus bate na porta e o chama de</p><p>tolo. No uso diário “tolo” significa estúpido ou um pouco</p><p>louco. O significado bíblico, entretanto, é áspero. O tolo é</p><p>aquele que diz que não há Deus (SI 14: 1). Um ateu prático</p><p>preso pela ganância, o homem rico vive como se não hou-</p><p>vesse Deus. No Evangelho de Mateus (5:22) a pessoa que</p><p>chama seu irmão de tolo é digna do inferno. Quando Deus</p><p>chama o fazendeiro um tolo, Deus o condena.</p><p>No curto espaço de quatro versículos (16-19), o rico tolo</p><p>faz onze referências a si mesmo. Seu único foco é a boa vida</p><p>para “mim e apenas eu”. Deus não pergunta sobre seus mo-</p><p>tivos; Ele tira a sua vida. Chafurdando em auto-obsessão, 0</p><p>tolo é insensível às necessidades dos outros. Ele não era um</p><p>monstro, mas apenas um membro típico da rica elite. Ele</p><p>estava simplesmente protegendo seu futuro e expandindo</p><p>seus investimentos.</p><p>Porém,a história não é apenas sobre a ganância; é uma</p><p>advertência quanto à fragilidade da vida e os verdadeiros</p><p>bens que contam para a eternidade. A recusa do tolo em pra-</p><p>ticar o Jubileu - seu cativeiro na riqueza condena</p><p>sua alma.</p><p>Acumular seus próprios tesouros o faz um pobre aos olhos de</p><p>Deus. Novamente a inversão aparece. Aqueles que a acumu-</p><p>lam aqui em baixo são pobres no reino de Deus. Seus bens</p><p>pegajosos não permanecerão. Os ricos que entram no reino</p><p>de Deus dão generosamente. Ao fazê-lo, eles salvam suas</p><p>almas da condenação da riqueza.</p><p>Jesus adverte: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra</p><p>todo tipo de ganância; a vida de um homem não consis-</p><p>te na quantidade dos seus bens “(Lc 12:15). Novamente</p><p>encontramos uma inversão entre os valores do reino e os</p><p>padrões sociais. Depois que o caixão é enterrado, os fofo-</p><p>queiros perguntam, “De que tamanho era a propriedade</p><p>dele?” “Quanto dinheiro ele deixou?” Pessoas bem-sucedi­</p><p>156</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>das deixam grandes somas financeiras. As vozes sedutoras</p><p>da nossa era proclamam que 0 sucesso financeiro determina</p><p>o significado. A vida consiste de posses. Abundantes posses</p><p>equivalem à vida abundante. Em uma era de consumismo</p><p>ditada por modismos comerciais envolventes, somos ten-</p><p>tados a acreditar na mentira da publicidade: os bens deste</p><p>mundo irão satisfazer nossa alma.</p><p>Jesus é muito claro. Outros valores governam o reino de</p><p>ponta-cabeça. Aqui, as carteiras de investimento não me-</p><p>dem o valor de uma pessoa. O crescimento financeiro não</p><p>é igual ao status mais elevado no reino. Na nova ordem de</p><p>Deus, a cobiça e a busca de lucros e privilégios excessivos são</p><p>erradas. A mentalidade que constrói celeiros maiores para</p><p>fins egoístas é claramente denominada: é ganância, nem</p><p>mais nem menos.</p><p>Cuidado: A Maldição</p><p>As bem-aventuranças aumentam o contraste entre ricos e</p><p>pobres. Aqui, Jesus, em Seu estilo de ponta-cabeça, recom-</p><p>pensa aos pobres e repreende o confortável. Na vida social</p><p>normal, muitas vezes fazemos o oposto. Aplaudimos as es-</p><p>trelas, as celebridades e as sensações da mídia. Valorizan-</p><p>do o sucesso monetário, damos aos “vencedores” sedutoras</p><p>recompensas. Nós os enchemos de propriedades privadas,</p><p>prêmios públicos, posições de prestígio, atenção glamorosa</p><p>e acesso ao poder político.</p><p>Presumimos, assim como os contemporâneos de Jesus,</p><p>que a riqueza equivale à bênção de Deus. Assim, deploramos</p><p>e estigmatizamos os “perdedores”, os excluídos, à beira da</p><p>sociedade. Condenamos os pobres como pessoas estagnadas</p><p>que não têm motivação e força de vontade.</p><p>157</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Jesus derruba nossas suposições, invertendo-as. “Bem-a-</p><p>venturados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino</p><p>de Deus....,mas ai de vocês, os ricos, pois já receberam sua</p><p>consolação.”(Lc 6:20, 24). Em vez de repreender os pobres</p><p>por serem preguiçosos, Jesus os exalta. Os desprezados, os</p><p>desamparados e os fracos são aqueles que receberão a feliz</p><p>bênção de Deus. Para os ricos, a quem aplaudimos, Jesus diz</p><p>“ai de vós!”14.</p><p>Jesus realmente quer dizer que a pobreza é uma virtude?</p><p>Ele está sugerindo que os pobres entrem automaticamen-</p><p>te no reino? Provavelmente não. O termo pobre no contexto</p><p>bíblico tem pelo menos três significados. Primeiro, refere-</p><p>-se aos pobres materialmente - pobres vivendo em miséria</p><p>quanto a comida, habitação e roupas. O termo ocorre mais</p><p>de sessenta vezes no Antigo Testamento e geraímente se re-</p><p>fere à pobreza material.</p><p>Em segundo lugar, em um sentido mais amplo, os pobres</p><p>da Bíblia são os oprimidos15. São os cativos, os escravos, os</p><p>doentes, os destituídos e os desesperados. Esses “ninguéns”</p><p>são, de fato, os mesmos a quem Jesus oferece boas notícias</p><p>em seu sermão do Jubileu em Nazaré (como explorado ante-</p><p>riormente neste livro, no capítulo 5). Eles são os excluídos,</p><p>os desprezados que não podem defender-se. Vivendo à mar-</p><p>gem da sociedade, dependem da misericórdia dos poderosos.</p><p>As multidões que seguiam Jesus muitas vezes incluíam o</p><p>desprezível, o ignorante e o estigmatizado. Pelos padrões</p><p>dos fariseus, suas imperfeições sociais bloqueavam qualquer</p><p>esperança de salvação. Os seguidores de Jesus, na verdade,</p><p>eram frequentemente chamados de “pequeninos” e “os me-</p><p>nores”.</p><p>A terceira conotação de pobres vem de uma tradição do</p><p>Antigo Testamento. Aqui os pobres são os humildes de es-</p><p>pírito - aqueles que são pobres para com Deus. Independen-</p><p>158</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>temente de sua condição econômica, eles se colocam dian-</p><p>te de Deus como mendigos com as mãos estendidas. Eles</p><p>imploram misericórdia com espíritos contritos e quebrados.</p><p>Foi esta pobreza de espírito - essa humildade - que Mateus</p><p>destacou em sua versão das bem-aventuranças:</p><p>“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o</p><p>Reino dos céus.” (Mateus 5: 3)· Mateus ressaltou a pobreza</p><p>espiritual interior, enquanto Lucas claramente tinha os po-</p><p>bres materiais em mente16. As bem-aventuranças de Lucas</p><p>(6: 20-26) consistem em um quarteto de bênçãos e aflições</p><p>(ou ‘ais’).</p><p>Al DE VOCÊS</p><p>Que são ricos</p><p>Que estão satisfeitos agora</p><p>Que riem agora</p><p>Quando todos falarem bem</p><p>de vocês</p><p>BEM-AVENTURADOS VOCÊS</p><p>Que são pobres</p><p>Que tem fome agora</p><p>Que choram agora</p><p>Quando os odiarem...</p><p>excluírem, injuriarem e</p><p>difamarem</p><p>O que tudo isso significaPLucas está claramente pen-</p><p>sando naqueles que são literalmente financeiramente po-</p><p>bres, que estão realmente com fome, literalmente choran-</p><p>do, sendo ativamente perseguidos. Estas são as pessoas que</p><p>têm uma coisa em comum: o sofrimento1'. Estes são os</p><p>pequeninos que derramam lágrimas de luto porque carre-</p><p>gam grandes fardos. Pobres camponeses e mendigos —eles,</p><p>de fato, estão com fome, chorando e são pobres. Porém eles</p><p>também são humildes em espírito - pequenos- nos can-</p><p>tos, embaixo na sociedade. Sua pobreza é tanto em atitude</p><p>quanto em circunstância.</p><p>159</p><p>DONALD B. KRAVB1LL</p><p>As palavras de Jesus trazem boas notícias a eles. Descar-</p><p>tados na pilha de lixo humano, eles não foram, no entanto,</p><p>descartados por Deus. O Deus Todo-Poderoso não os jogou</p><p>fora. Na verdade, a bênção de Deus recai sobre eles. Deus se</p><p>importa com eles. Enquanto isso, os ricos e arrogantes em</p><p>Jerusalém, que se recusam a praticar o Jubileu, podem ser</p><p>acusados de desprezar a lei de Deus. Porém, eles também te-</p><p>rão nova vida no reino se eles rejeitarem os grilhões das posses.</p><p>Jesus está aplaudindo a miséria? Ele está dizendo que</p><p>os desamparados estão automaticamente no reino de Deus</p><p>só porque são pobres? Provavelmente não. E mais prová-</p><p>vel que Ele esteja deixando claro que os pobres são sempre</p><p>bem-vindos à presença de Deus. Ao contrário dos ricos que</p><p>desprezam os pobres, Deus os recebe. Além disso, de muitas</p><p>formas, os pobres estão mais próximos do reino do que aque-</p><p>les que estão presos nas armadilhas da riqueza. Na verdade, é</p><p>mais fácil para os pobres entrarem no reino porque não estão</p><p>emaranhados nas propriedades e no prestígio. O domínio</p><p>de Matnon,, muitas vezes, bloqueia o caminho para o reino.</p><p>Os desprezados- pecadores, prostitutas, crianças, sem-teto</p><p>- podem entrar no reino mais facilmente do que a elite, os</p><p>justos, os fortes e os piedosos.</p><p>Os pobres entendem dependência, simplicidade e coope-</p><p>ração. Eles sabem a diferença entre necessidade e luxo. Ten-</p><p>do menos enredos, eles são mais livres para abandonar todo</p><p>o resto pelo reino. Eles têm pouco de que abrir mão. Eles</p><p>podem simplesmente entrar; e eles são gratos. Eles sabem o</p><p>que é ser perdoado. Os altivos, os arrogantes e os ricos têm</p><p>dificuldade em se inclinar em humildade à porta do reino e</p><p>reconhecer qualquer dependência de Deus.</p><p>Jesus oferece boas notícias aos pobres. Sua pobreza não é</p><p>um sinal de desaprovação divina, uma visão comum daquele</p><p>tempo. Jesus sinaliza a salvação transformando os destituí­</p><p>160</p><p>D REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>dos. Os cegos veem. Os coxos andam. Os surdos ouvem. Os</p><p>leprosos são limpos. Os oprimidos são libertos (Mt 11:5, Lc</p><p>4:18-19, 7:22). Deus recebe os pobres através de Jesus Cris-</p><p>to. Os excluídos sociais certamente não são mais vagabundos</p><p>aos olhos de Deus. Sua pobreza não traz nenhuma repreensão</p><p>divina, mas faz 0 oposto. Eles são tão bem-vindos no reino</p><p>como qualquer outra pessoa. Isso é,</p><p>chuva e a</p><p>enchente se movem em direção opostas:</p><p>17</p><p>DONALD B. KRflYBILL</p><p>As chuvas desceram e a enchente subiu,</p><p>As chuvas desceram e a enchente subiu.</p><p>Jesus não retrata o reino à margem da sociedade. Ele não</p><p>defende que se evite ou se abstenha da sociedade. Ele também</p><p>não presume que o reino e o mundo simplesmente se dividem</p><p>em dois reinos. As ações do reino acontecem no mundo, no</p><p>meio do estádio da sociedade, porém esse é um jogo diferente.</p><p>Os jogadores do reino seguem regras especiais e são coman-</p><p>dados por outro treinador. Os valores do reino desafiam os</p><p>padrões sociais dominantes e, às vezes, vão contra o padrão</p><p>cultural. Porém, não entenda mal. O povo do reino não é de</p><p>sectários protestando na grande sociedade apenas para serem</p><p>diferentes. Os valores do reino, arraigados em profundo amor</p><p>e na eterna graça de Deus, semeiam novas formas de pensar</p><p>e viver. Algumas vezes, as novas formas complementam as</p><p>práticas dominantes; outras vezes não. Em suma, os padrões</p><p>do reino originam-se do amor de Deus, não de um impulso</p><p>sectário de se opor ou abster do restante da sociedade.</p><p>Além de estar de ponta-cabeça, o reino fala com auto-</p><p>ridade hoje. Em outras palavras, ele é mais do que apenas</p><p>relevante; também é normativo3. Mais do que idéias em-</p><p>poeiradas na lixeira da história, a mensagem do reino vai</p><p>ao encontro de nossos problemas hoje. A ética do reino,</p><p>traduzida ao nosso contexto contemporâneo, sugere como</p><p>devemos ordenar nossas vidas. Certamente não encontrare-</p><p>mos respostas específicas nas Escrituras para todas as nossas</p><p>questões éticas. Os Evangelhos não nos dão um livro de</p><p>receita com soluções para cada dilema ético. Porém eles,</p><p>sim, levantam os questionamentos certos. Eles focam nas</p><p>questões importantes e sugerem como podemos transfor-</p><p>mar nossas vidas hoje.</p><p>18</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Um reino relacional</p><p>O que exatamente é o reino de Deus? O termo desafia a</p><p>definição porque carrega dentro de si muitos diferentes sig-</p><p>nificados. Isso, na verdade, é a sua genialidade — esse poder</p><p>de estimular nossa imaginação vez após vez.</p><p>Em linhas gerais, a maioria dos estudiosos bíblicos con-</p><p>corda que o “reino de Deus” significa o reinado ou domínio</p><p>dinâmico de Deus. O reino envolve as intenções de Deus, a</p><p>autoridade e o poder de governo. Não se refere a um território</p><p>ou local específico. Não é algo estático. Ele é dinâmico - sem-</p><p>pre vindo, se espalhando e crescendo1. O reino não aponta</p><p>para um lugar de Deus, mas para as atividades de governo</p><p>de Deus. Não é um reino no céu, mas do céu — um reino que</p><p>prospera aqui e agora. O reino aparece onde quer que homens</p><p>e mulheres submetam suas vidas à vontade de Deus.</p><p>Ele significa mais do que Deus governando no coração</p><p>das pessoas, mais do que um sentimento místico. A própria</p><p>palavra reino implica em uma ordem coletiva além da expe-</p><p>riência de qualquer pessoa. Um reino em seu sentido lite-</p><p>ral significa que um rei governa sobre um grupo de pessoas.</p><p>Acordos ditam as obrigações que os cidadãos têm uns para</p><p>com os outros e para com o seu rei. A atividade de governo</p><p>do rei transforma as vidas e relacionamentos de seus súditos.</p><p>Nas palavras de um estudioso, “O reino é algo em que as</p><p>pessoas entram, não algo que entra nelas. E um estado de</p><p>relações, não um estado de mente”5.</p><p>O viver no reino é fundamentalmente social. Envolve ser</p><p>membro, envolve cidadania, lealdade e identidade. Cidada-</p><p>nia em um reino acarreta relacionamentos, políticas, obri-</p><p>gações, fronteiras e expectativas. Essas dimensões da vida</p><p>no reino ultrapassam os caprichos da experiência individual.</p><p>Ser um membro do reino esclarece uma relação do cidadão</p><p>19</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>com o rei, com os demais cidadãos e com outros reinos. Vi-</p><p>ver em um reino significa compartilhar da sua história e aju-</p><p>dar a moldar o seu futuro.</p><p>Embora um reino seja uma ordem social além de qual-</p><p>quer pessoa, os indivíduos sim tomam decisões a respeito</p><p>de reinos. Nós o abraçamos ou o rejeitamos. Servimos a ele</p><p>ou zombamos dele. Nós entramos no reino ou o deixamos.</p><p>Juramos nossa fidelidade a ele ou víramos as costas para ele.</p><p>A diferença entre um agrupamento e uma coletividade ajuda</p><p>a esclarecer a ideia de reino. Um agrupamento é um conjun-</p><p>to de pessoas que acabaram estando juntas no mesmo tem-</p><p>po e espaço. Considere, por exemplo, um grupo de pessoas</p><p>esperando que o sinal abra na faixa de pedestres. Apesar de</p><p>estarem de pé, lado a lado, elas normalmente não interagem</p><p>uns com os outros. Elas não influenciam umas às outras.</p><p>Em contrapartida, o comitê executivo da direção de uma</p><p>escola local é uma coletividade - um grupo interdependente</p><p>de pessoas. Elas influenciam umas às outras, formulam obje-</p><p>tivos comuns e juntas decidem como alcançá-los. Os súditos</p><p>de um reino têm uma interdependência coletiva, baseada nas</p><p>políticas do seu rei.</p><p>O reino de Deus é uma coletividade — uma rede de pes-</p><p>soas que têm rendido seus corações e relacionamentos ao reino</p><p>de Deus. O reino se torna real quando Deus governa nos co-</p><p>rações e relações sociais. A vida no reino é mais do que uma</p><p>série de conexões por e-mail individualizadas que ligam o</p><p>Rei a cada súdito. O reino de Deus infunde uma rede de</p><p>relacionamentos, vinculando o Rei e os cidadãos.</p><p>Com que se parece o reino de Deus? Qual é a forma das</p><p>políticas reais? Como podemos traduzir a elevada ideia do</p><p>reino de Deus para a rotina diária? As respostas estão na</p><p>encarnação. Jesus de Nazaré revelou os segredos de Deus - a</p><p>20</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>própria natureza do reino de Deus. Começamos a vislum-</p><p>brar o significado do reino à medida que estudamos a vida</p><p>de Jesus e seus ensinamentos porque Ele era a Palavra final</p><p>e definitiva de Deus. Através da pessoa e do ministério de</p><p>Jesus, Deus falou em uma linguagem universal que qual-</p><p>quer um - independente de cultura, nação ou raça - podería</p><p>entender. As intenções de Deus não estavam escondidas em</p><p>vagas doutrinas religiosas. Com eloquência e clareza inegá-</p><p>veis Deus falou através dos atos concretos de uma pessoa:</p><p>Jesus de Nazaré.</p><p>O reino de Deus se entrelaça no tecido dos ensinos e</p><p>ministério de Jesus. Logo no início, Jesus anunciou a che-</p><p>gada do reino. Ele frequentemente apresentava parábolas</p><p>como exemplos do reino. Seus sermões na Montanha e no</p><p>Vale descrevem a vida no reino. A oração do Pai Nosso dá</p><p>boas-vindas à chegada do reino. O vocabulário do reino é</p><p>frequente nos lábios de Jesus. Os estudiosos concordam,</p><p>de fato, na centralidade do reino no ensino de Jesus.</p><p>Além de suas palavras, os atos de Jesus nos ensinam</p><p>sobre o reino. O judeu da Galileia nos dá os exemplos mais</p><p>concretos — a expressão mais visível do governo de Deus.</p><p>Suas palavras e comportamento oferecem as melhores pis-</p><p>tas para solucionar o enigma do reino. Ao longo dos sécu-</p><p>los, os cristãos têm usado as palavras de Jesus para criar</p><p>doutrinas, muitas vezes negligenciando o Seu ministério.</p><p>Com quem Ele falou, o que Ele fez, onde Ele andou, e</p><p>como Ele lidou com as críticas nos oferecem dicas sobre</p><p>a natureza do reino. Porém, em última análise esse não é</p><p>o reino Dele, nem é o nosso. Sempre e acima de tudo Jesus</p><p>aponta para o reino de Deus.</p><p>21</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>P0R QUE DE PONTA-CABEÇA?</p><p>Se Jesus inaugurou o reino de Deus, talvez nós devesse-</p><p>mos chamá-lo de reino de cabeça para cima. De fato, se o</p><p>reino de Deus retrata o desenho original do plano de Deus</p><p>para nossas vidas, então certamente merece o rótulo de “rei-</p><p>no de cabeça para cima”. Entretanto, eu prefiro a imagem de</p><p>ponta-cabeça por diversas razões.</p><p>A vida social tem dimensões verticais. A sociedade não é pia-</p><p>na; ela tem uma topografia bastante acidentada. Na geografia</p><p>social existem montanhas, vales, depressões e planícies. Algu-</p><p>mas pessoas estão em altos picos sociais enquanto outros cho-</p><p>ram nos vales. A influência social dos indivíduos e dos grupos</p><p>varia muito. O presidente de um comitê reúne mais poder do</p><p>que outro membro do comitê. Advogados desfrutam de mais</p><p>prestígio do que</p><p>de fato, uma boa notícia!</p><p>Foi provavelmente esta boa notícia para os pobres que</p><p>levou Jesus a acrescentar: “e feliz é aquele que não se escan-</p><p>daliza por minha causa” (Mt. 11:6 NVI e Lc 7:23). Curar le-</p><p>prosos e os doentes causava pouca ofensa,mas Jesus insultou</p><p>os ouvidos saduceus e fariseus quando abençoou os pobres e</p><p>recebeu esses ‘ninguéns’ no reino. Jesus deixou claro que os</p><p>ricos também eram bem-vindos — se eles se soltassem dos</p><p>grilhões da riqueza, obedecessem às leis econômicas de Deus</p><p>e praticassem o Jubileu.</p><p>J ubileu Recusado</p><p>Nós examinamos seis advertências de Jesus sobre a ri-</p><p>queza. Agora voltamos nossa atenção para três personagens</p><p>bíblicos: o jovem rico governante, Zaqueu, e a viúva com</p><p>uma moeda. Jesus usa as histórias deles para expandir seu</p><p>ensinamento sobre riquezas.</p><p>A história do jovem governante rico (Lc 18:18-30) apre-</p><p>senta um jovem profissional que coloca a grande questão</p><p>a Jesus; “O que devo fazer para herdar a vida eterna?” O</p><p>diálogo de Jesus com este brilhante rapaz é afiado quando</p><p>é colocado ao lado da história de Zaqueu, que vem a seguir</p><p>(Lc 19: 1-10). Lado a lado, Zaqueu e o jovem fazem escolhas</p><p>opostas sobre o Jubileu. Ambos são ricos e tem posições de</p><p>poder. Ambos se encontram com Jesus, mas eles se afastam</p><p>em diferentes direções.</p><p>161</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>O adjetivo rico não éforte 0 suficiente para este querido</p><p>“mauricinho”. Ele era muito rico. Ele tinha tudo o que im-</p><p>portava. Ele era jovem, rico, poderoso. Esta tríade o mandou</p><p>direto para o topo. Podemos apenas especular sobre como ele</p><p>se tornou rico em uma idade tão jovem. Foi trabalho duro,</p><p>herança, sorte?</p><p>Por que ele para Jesus? Sua vida abundante tinha se tor-</p><p>nado amarga? O vazio perseguia seus dias? Seja qual for o</p><p>motivo, a grande questão o assombra. O que ele deve fazer</p><p>para herdar a vida eterna?</p><p>Aqui, novamente, como na história de Lázaro, Jesus liga</p><p>a vida eterna à riqueza. O jovem rico é sincero e consciente,</p><p>não um ladrão esperto. Ele cresceu em uma família devota.</p><p>Ele conhece os mandamentos de Deus. Estudou na sinagoga.</p><p>Sua frequência na escola dominical, no estudo bíblico, no</p><p>coral, no acampamento da igreja e no culto é perfeita. Ele</p><p>conhece a Escritura e a doutrina da denominação de cor. Sua</p><p>teologia é ortodoxa. Ele não só conhece os credos - ele os</p><p>vive em sua vida diária.</p><p>Jesus responde a grande pergunta do jovem apontando</p><p>para uma deficiência. Ele deve vender suas posses. Elas estão</p><p>controlando a vida dele - não Deus. Para experimentar o</p><p>reino de Deus, para ganhar o tesouro eterno, ele deve vender</p><p>suas posses. Por que ele deveria vender? Porque os pobres es-</p><p>tão famintos e necessitados. A riqueza conquistou o coração</p><p>dele e reivindicou sua fidelidade. Vendendo suas posses, ele</p><p>não somente alimentará o faminto; mas também colocará o</p><p>foco de sua atenção de volta no reino celestial. Jesus o convi-</p><p>da a “vir e Me seguir”.</p><p>Devemos enfatizar 0 “seguir” ao invés de “vender”. Este é</p><p>um convite para se juntar ao povo do reino e vender tudo era,</p><p>neste caso, um primeiro passo necessário. Jesus nem sempre</p><p>162</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>aconselhou as pessoas a venderem tudo, como veremos na</p><p>história de Zaqueu. Porém neste caso Ele faz. A decisão do</p><p>jovem foi provavelmente negativa, porque ele se afasta tris-</p><p>temente. O grilhão de Mamon é simplesmente muito forte.</p><p>Ele perde a vida eterna.</p><p>Jesus resume o evento com dureza: “Como é difícil aos</p><p>ricos entrar no Reino de Deus!</p><p>De fato, é mais fácil passar um camelo pelo fundo de</p><p>uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Lc</p><p>18:24-25). Alguns escribas mudaram versões posteriores do</p><p>manuscrito para suavizar a dureza deste ensinamento. Uma</p><p>edição posterior disse que levar um homem rico para o céu</p><p>era como puxar um cordão ou corda através de uma agulha.</p><p>Outra versão dizia que era como conseguir um camelo atra-</p><p>vés de um pequeno portão. Nenhuma dessas interpretações</p><p>provavelmente são autênticas18. Jesus provavelmente queria</p><p>dizer um camelo e uma agulha. O camelo era o maior animal</p><p>e a agulha tinha a menor abertura. Tal exagero se encaixa em</p><p>seus outros ensinamentos sobre a riqueza. Hoje Jesus pode-</p><p>ria colocar dessa forma: é mais difícil para os ricos entrarem</p><p>no reino do que para um proprietário do cassino passar atra-</p><p>vés da abertura de uma máquina de dinheiro.</p><p>A explosão da multidão era previsível. “Os que ouviram</p><p>isso perguntaram: “Então, quem pode ser salvo” (Lc 18:26-</p><p>27). Isso não significa que Deus passará milagrosamente os</p><p>ricos através da porta do reino. Significa, antes, que a graça de</p><p>Deus pode libertar até mesmo os ricos do domínio demoníaco</p><p>da riqueza. Como veremos em breve, mesmo uma pessoa rica</p><p>pode se arrepender e praticar o Jubileu. Tudo é possível quan-</p><p>do as pessoas abrem suas vidas ao reino de Deus.</p><p>Lucas faz uma ponte entre o jovem rico e Zaqueu com</p><p>duas pequenas histórias. Costuradas com ironia, as histórias</p><p>163</p><p>DONALD B. KRAVBia</p><p>nos surpreendem. Na primeira história, os discípulos que</p><p>“veem” são cegos à verdade. No segundo, um cego abre os</p><p>olhos e vê. Quando Jesus fala sobre sua condenação iminente</p><p>na cruz, os discípulos não entendem. Eles estão perplexos.</p><p>Que tipo de Messias vitorioso é este que fala sobre cruzes?</p><p>Os discípulos, que devem saber sobre estas coisas, não sa-</p><p>bem. Talvez eles simbolizem a cegueira do jovem rico. A</p><p>próxima história apresenta um mendigo cego fora de Jericó.</p><p>Ele não consegue enxergar. Porém, ele entende quem é Jesus</p><p>e grita por misericórdia. Jesus o cura. De repente, o cego vê;</p><p>as pessoas glorificam e louvam a Deus. Lucas está nos prepa-</p><p>rando para Zaqueu.</p><p>J ubileu aceito</p><p>Zaqueu podia ser baixinho, mas ele tinha um negócio</p><p>considerável (Lc 19: 1-10). Jericó não era uma pequena al-</p><p>deia agrícola. Essa era uma cidade com piscinas, parques e</p><p>edifícios greco-romanos típicos. A área no entorno, irriga-</p><p>da e extremamente fértil, tornou-a rica. Os rabinos falavam</p><p>das “terras gordas de Jericó”. Impressionado por seu clima</p><p>ameno, Herodes, o Grande, tornou sua capital de inverno. A</p><p>região ganhou o renome por cultivar grandes bosques de ár-</p><p>vores de bálsamo. Eles vendiam por um preço enorme, mui-</p><p>tas vezes trazendo seu peso em ouro19. Além disso, Jericó era</p><p>a porta de entrada para uma rota comercial que passava por</p><p>Jerusalém e toda a área dos gentios a leste do Jordão.</p><p>Zaqueu era rico porque era o principal “auditor fiscal” do</p><p>distrito. Uma equipe de subordinados cobrava os impostos</p><p>para ele. Era um trabalho lucrativo em uma área lucrativa.</p><p>Zaqueu tinha vencido outros concorrentes para ganhar o di-</p><p>reito de cobrar os impostos. Cobradores de impostos muitas</p><p>vezes usavam a força e fraude para ter grandes lucros. Pa­</p><p>164</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>trões fiscais como Zaqueu às vezes até mesmo desviavam de</p><p>seus empregados.</p><p>Compreensivelmente, então, os cobradores de impostos</p><p>e, especialmente, os chefes de impostos eram desprezados.</p><p>Isso não apenas porque eles eram judeus cobrando impostos</p><p>para os romanos, mas porque muitas vezes enganavam e usa-</p><p>vam a força para cobrar os impostos. Os chefes de impostos</p><p>eram estigmatizados. Não podiam ser juizes nem ser teste-</p><p>munhas no tribunal. Como escravos dos gentios, eles sequer</p><p>tinham direitos civis e políticos concedidos aos bastardos</p><p>manchados20. O dinheiro de um coletor de imposto não po-</p><p>deria ser dado como esmola porque era sujo. Comer e se</p><p>associar com cobradores de impostos contaminaria os justos.</p><p>Era inconcebível que um fariseu almoçasse com Zaqueu.</p><p>O povo zombava dele. Talvez o tenham apelidado de Za-</p><p>queu por desprezo, pois seu nome significa “o justo”. Ele</p><p>era, de fato, qualquer coisa menos justo. No entanto, Jesus</p><p>o levou para almoçar. Os rabis e os escribas cuspiam alegre-</p><p>mente em seu rosto. Jesus deliberadamente se contamina</p><p>comendo com este rejeitado em sua elaborada mansão. Uma</p><p>das melhores em Jerico, construída com os lucros excessivos</p><p>que Zaqueu tinha espremido dos pobres.</p><p>Nós não sabemos os detalhes de sua conversa,</p><p>mas de al-</p><p>guma forma um milagre acontece. O cuidado e a compaixão</p><p>de Jesus movem Zaqueu. Eles o comovem tanto que ele deci-</p><p>de praticar o Jubileu. Ele chama uma multidão no gramado</p><p>da frente. Surpreendidos, ouvem o velho Zaqueu, zangado,</p><p>dizer: “Olha, Senhor! Estou dando a metade dos meus bens</p><p>aos pobres; e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei</p><p>quatro vezes mais”(Lc 19:8). O povo vibra e aplaude. Eles</p><p>não podem acreditar que o milagre se desdobra diante de</p><p>seus olhos. O que aconteceu com esse salafrário?</p><p>165</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Não sabemos o saldo final na conta bancária de Zaqueu.</p><p>Dependendo do quanto ele devolveu por causa da fraude, ele</p><p>pode ter sido zero. Ou talvez ele tenha ficado com alguma</p><p>migalha do que sobrou. Não importa. O que conta é uma</p><p>mudança de coração que produz mudanças econômicas.</p><p>Jesus afirma sua ação. ״Hoje houve salvação nesta casa!</p><p>Porque este homem também é filho de Abraão.”(Lc 19:9־</p><p>10). Este homem foi salvo! Ele se juntou ao povo de Deus.</p><p>Ele está na família real, um filho de Abraão. É disso que se</p><p>trata 0 dia da salvação. Jesus une a salvação pessoal à ética</p><p>social. O que é impossível para os seres humanos é possível</p><p>para Deus. Pela graça de Deus, um homem rico passou pelo</p><p>buraco da agulha. Jubileu está em andamento.</p><p>As coisas estão de ponta-cabeça. O jovem rico tem teolo-</p><p>gia perfeita, mas falta obediência. Zaqueu tem uma teologia</p><p>ruim ou inexistente, mas pratica o Jubileu. O jovem cha-</p><p>ma Jesus de “bom mestre”. Zaqueu, o trapaceiro, O chama</p><p>de “Senhor”. O jovem espera a vida eterna, mas se recusa</p><p>a compartilhar e não consegue passar pelo buraco da agu-</p><p>lha. Zaqueu, que provavelmente pensava pouco sobre a vida</p><p>eterna, mas seu novo cuidado com os pobres abre o buraco</p><p>da agulha. O líder religioso corre até Jesus. Em contraste,</p><p>Jesus se convida para almoçar com um pecador que é movi-</p><p>do por sua compaixão.</p><p>Na primeira história, preocupações econômicas parali-</p><p>sam a fé. Na segunda história, a fé impulsiona a agenda eco-</p><p>nômica. Aqui temos duas respostas contraditórias ao evan-</p><p>gelho, reações opostas aos pobres. Por um lado, boa teologia,</p><p>sem Jubileu, e condenação. Por outro lado, pouca teologia,</p><p>Jubileu, e verdadeira salvação. Em ambas as histórias, a ex-</p><p>periência espiritual privada conecta-se à justiça social, não,</p><p>à justiça econômica!</p><p>166</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>O J ubileu de ponta- cabeça</p><p>Concluímos o ensinamento de Jesus sobre a riqueza com</p><p>um caso de Jubileu invertido. Perto do fim de seu ministé-</p><p>rio, pouco depois de limpar o templo, Jesus retorna a ele. Ele</p><p>está no enorme tesouro do templo, onde as ofertas são colo-</p><p>cadas em grandes vasos de ouro. Novamente encontramos</p><p>uma comparação de ricos e pobres. Jesus se senta em frente</p><p>ao tesouro, e observa a multidão colocando suas ofertas em</p><p>vasos de ouro. Muitos ricos colocam grandes somas. Depois</p><p>vem uma pobre viúva e coloca duas moedas de cobre, que</p><p>somam cerca de um centavo.</p><p>Jesus se coloca em pé e chama seus discípulos. Apontan-</p><p>do para a viúva, Ele diz: “Afirmo-lhes que esta viúva pobre</p><p>colocou na caixa de ofertas mais do que todos os outros.To-</p><p>dos deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu</p><p>tudo o que possuía para viver”(Mc 12: 41-44; Lc 21:1-4).</p><p>No versí culo que precede este relato, Jesus condena</p><p>aqueles “Eles devoram as casas das viúvas, e, para disfarçar,</p><p>fazem longas orações. Esses receberão condenação mais seve-</p><p>ra.”(Mc 12:40). Uma viúva na sociedade palestina era uma</p><p>desprezada. Ela não tinha direitos de herança da propriedade</p><p>de seu marido. Quando o marido morria, o filho mais velho</p><p>adquiria a propriedade. Se não houvesse um filho, um irmão</p><p>do falecido marido podería casar com a viúva. Se o irmão</p><p>recusasse ou não houvesse um irmão, ela retornaria à casa</p><p>de seu pai ou ficaria mendigando. As viúvas, como outras</p><p>mulheres, não tinham nenhum papel na vida pública ou re-</p><p>ligiosa. Elas costumavam usar roupas pretas para sinalizar</p><p>sua situação. Além disso, os ricos muitas vezes as oprimiam.</p><p>Jesus condena os escribas por devorar as casas das viúvas.</p><p>Os escribas tinham desenvolvido regras religiosas, que em-</p><p>purravam as viúvas para fora de suas próprias casas. Porém,</p><p>167</p><p>DONALD B .K R A Y B ia</p><p>os líderes religiosos ignoraram sua injustiça com longas e</p><p>pretensiosas orações. Depois de alfinetar os escribas por “de-</p><p>vorar as casas das viúvas”, Jesus se volta e destaca a fidelidade</p><p>da viúva. Os ricos — provavelmente saduceus e nobres de fa-</p><p>mílias de aristocratas — estavam colocando “grandes somas”</p><p>nos vasos de ouro, moedas de prata puras e apropriadas.</p><p>A viúva pobre coloca duas moedas de cobre que valem</p><p>um centavo. O lepton de cobre era a menor moeda grega em</p><p>circulação. Eram necessários 128 desses leptons para igualar</p><p>um denário — um salário de um dia. Assim, a viúva coloca</p><p>0.015% do salário de um dia!</p><p>Jesus está impressionado, tão impressionado que Ele en-</p><p>sina os discípulos. Esta viúva, diz ele, colocou mais do que</p><p>todos esses ricos juntos. Como isso pode ser? Ao contrário</p><p>deles, ela colocou tudo o que tinha. Eles apenas entregaram</p><p>a nata de sua abundância. A quantidade real de dinheiro era</p><p>insignificante. O que contava era a quantidade restante para</p><p>consumo. Os ricos ainda eram bastante ricos, mesmo depois</p><p>de dar uma oferta considerável. A pobre viúva deu tudo,</p><p>não um dízimo de justiça própria. Jesus, a história sugere,</p><p>olha para qual proporção de nossa riqueza nós damos, não a</p><p>quantidade bruta.</p><p>Jesus afirma a atitude de Jubileu da viúva pobre. Cer-</p><p>tamente ela podería ter encontrado desculpas convincentes</p><p>para não dar as últimas moedas em sua bolsa. O Jubileu de</p><p>ponta-cabeça ocorre quando os pobres dão da sua pobreza</p><p>“ofertas maiores” do que os ricos.</p><p>As histórias deste capítulo resumem 0 núcleo da men-</p><p>sagem econômica de Jesus. A quantidade de material nos</p><p>Evangelhos lidando com a riqueza é enorme. São poucos os</p><p>outros tópicos, exceto o próprio reino de Deus, que apare-</p><p>cem com mais frequência nos Evangelhos! As questões eco­</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>n ô m ic a s são c e n tra is n a v isão d e J e s u s so b re o n o v o re in o .</p><p>A c o n v e rsã o , q u e n ão en v o lv e m u d a n ç a e c o n ô m ic a , n ão é</p><p>c o n v e rsão c o m p le ta . J e s u s n ão só c o n d e n a a g a n â n c ia n a P a -</p><p>le s t in a d o p r im e iro séc u lo ; E le p e d e u m J u b i l e u p e rp é tu o .</p><p>A m e n s a g e m d e p o n ta -c a b e ç a resso a vez ap ó s vez.</p><p>• B e m - a v e n tu r a d o s os p o b r e s . . . A i d o s r ic o s (Lc</p><p>6 :2 0 , 2 4 ) .</p><p>• A q u ilo q u e te m m u i to v a lo r e n t r e os h o m e n s é d e te s -</p><p>táv e l aos o lh o s d e D e u s L ucas 1 6 :1 5 .</p><p>• L ázaro v a i p a ra ju n to d e A b ra ã o e n q u a n to o h o m e m</p><p>rico e n f re n ta to r m e n to (Lc 1 6 :2 2 , 2 3 ).</p><p>• A q u e le q u e p a ra si a ju n ta te so u ro s , e n ão é r ic o p a ra</p><p>co m D e u s . (Lc 1 2 :2 1 ).</p><p>• P o is o m u n d o p a g ã o é q u e c o rre a trá s dessas co isas ...</p><p>• B u s q u e m , p o is , 0 R e in o d e D eu s(L c 1 2 :3 0 , 31 ).</p><p>• O jo v e m rico recu sa -se a c o m p a r t i lh a r a su a r iq u e z a ,</p><p>m a s a sa lvação v is i ta a casa d e Z a q u e u , o tra p a c e iro</p><p>(L ucas 1 8 :1 8 a 1 9 :1 0 ).</p><p>• N ã o a c u m u le m p a ra vocês te so u ro s n a te r r a .. . a c u m u -</p><p>le m p a ra vocês te so u ro s n o céu . (M t 6 : 1 9 2 0 ־ ).</p><p>• V ocê n ão p o d e se rv ir a D e u s e à r iq u e z a . V ocê será</p><p>d e d ic a d o a u m e d e sp re z a rá 0 o u t ro (M t 6 :2 4 ).</p><p>D iv e rsa s id e ia s -c h a v e e m e rg e m d a m e n sa g e m d e Je su s .</p><p>O a p e g o à r iq u e z a p o d e c o m p e t i r e d e s t i tu i r o g o v e rn o d e</p><p>D e u s e m nossas v id as . Q u a n d o D e u s se to rn a v e rd a d e ira -</p><p>m e n te R e i d e n ossas v id a s , D e u s tra n s fo</p><p>rm a nossos va lo re s</p><p>e p rá tic a s ec o n ô m ic as . E m b o ra J e s u s te n h a re p re e n d id o</p><p>“p essoas r ic a s” , E le ta m b é m e s ta v a a ta c a n d o as p rá tic a s d a</p><p>so c ie d a d e p a le s t in a q u e p iso te a v a os p o b re s p a ra b en e fic ia r</p><p>169</p><p>DONALD B. KRAVBILL</p><p>os ricos. Estruturas injustas eram uma dupla ofensa quan-</p><p>do líderes religiosos as endossavam com linguagem piedosa.</p><p>Jesus vira as coisas de ponta-cabeça ao argumentar que a</p><p>verdadeira religião estimula a compaixão e a generosidade.</p><p>Ela nunca santifica a injustiça.</p><p>Os ensinamentos de Jesus surgiram na primeira fase de</p><p>um novo movimento religioso, que em um dado momento</p><p>se tornou a igreja. Como líderes de novos movimentos di-</p><p>vergem, muitas vezes, da corrente de pensamento social ge-</p><p>ral, eles tipicamente criticam práticas estabelecidas. Muitos</p><p>discípulos cristãos hoje se encontram dentro de instituições</p><p>preocupadas com a continuidade e autopreservação. Arran-</p><p>jos financeiros estáveis e previsíveis são necessários para que</p><p>as organizações continuem. A proteção do equilíbrio finan-</p><p>ceiro é fundamental para a sobrevivência institucional.</p><p>Como, então, relacionamos os ensinamentos econômi-</p><p>cos de Jesus, o “de fora”, com as questões enfrentadas pelos</p><p>“de dentro” das organizações, corporações, escolas e igrejas</p><p>convencionais? Como pode a sabedoria de Jesus informar as</p><p>práticas econômicas das organizações modernas sem amea-</p><p>çar sua sobrevivência?</p><p>Jesus não prescreve políticas nem nos dá diretrizes espe-</p><p>cíficas. Ele, contudo, oferece uma nova visão — que anuncia</p><p>a graça em vez da ganância, a compaixão em vez da com-</p><p>petição. Essa é uma visão do Jubileu baseada em um novo</p><p>espírito e valores do reino: uma visão que muda os corações e</p><p>as práticas econômicas. No entanto, a mudança de coração e</p><p>prática é difícil. Muitas vezes procuramos desvios em torno</p><p>do chamado de Jesus para a transformação econômica. Ex-</p><p>pioraremos alguns desses desvios no capítulo sete.</p><p>17D</p><p>CAPÍTULO 7</p><p>DESVIOS DE</p><p>“CABEÇA</p><p>PARA CIMA”</p><p>0 RHINO DE PONTA CABEÇA</p><p>ossos compromissos econômicos muitas vezes dis-</p><p>torcem nossa leitura das Escrituras e nos desviam do</p><p>ensinamento bíblico sobre a riqueza. Somos tentados a ti-</p><p>rar versículos, do seu contexto e distorcer o seu significado</p><p>para “abençoar” a nossa filosofia econômica pessoal. Além de</p><p>torcer as Escrituras à nossa maneira, muitas vezes usamos</p><p>a sabedoria popular não-bíblica para racionalizar a riqueza.</p><p>Vamos analisar nove desvios - nove exemplos de como a</p><p>riqueza pode abalar nossas crenças teológicas. Os contornos</p><p>que nos permitem passar pela substância da mensagem de</p><p>Jesus. Muitas vezes baseadas em um verso isolado ou em um</p><p>ditado, essas evasões nos permitem manobrar em torno do</p><p>chamado de Jesus para a conversão econômica.</p><p>Desvio um: E sobre a parábola dos talentos?</p><p>Uma desculpa frequente se apega a uma parábola familiar</p><p>(Mt 25: 14-30 e Lc 19: 11-27)1. É irônico que, às vezes, use-</p><p>mos a parábola dos talentos, imediatamente após a história</p><p>de Lucas sobre Zaqueu, para contradizer o comportamento</p><p>173</p><p>DONALD B. WAYBILL</p><p>de Zaqueu. Os leitores do mundo capitalista ocidental são</p><p>tentados a pensar que a história afirma uma versão caseira do</p><p>capitalismo. Nós também facilmente confundimos a pala-</p><p>vra talento no texto, o que significa cerca de 6.000 dracmas</p><p>(unidades monetárias), com o uso moderno do talento como</p><p>dom pessoal e habilidade.</p><p>A interpretação popular da parábola muitas vezes vai nes-</p><p>sas linhas. Deus deu a cada um de nós capacidades diferentes</p><p>ou talentos pessoais — cantar, administrar, aconselhar e assim</p><p>por diante. Os talentos também se referem aos nossos ativos</p><p>financeiros e experiência — especialmente a nossa capacidade</p><p>de ganhar dinheiro. Deus nos responsabilizará pela forma</p><p>como usamos esses dons pessoais e recursos materiais. Deus</p><p>nos recompensará por aumentá-los.</p><p>A punição, por outro lado, atingirá aqueles que se assen-</p><p>tam sobre seus recursos. Então, se ganhar dinheiro é nosso</p><p>dom, devemos ganhar dinheiro como loucos. Devemos mui-</p><p>tiplicar os bens de capital e as propriedades o mais rápido</p><p>possível. De fato, tal leitura pode justificar a especulação.</p><p>O Evangelho de Mateus cita o mestre dizendo ao mordomo</p><p>infiel: “você devia ter confiado o meu dinheiro aos banquei-</p><p>ros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com</p><p>juros” (Mt 25:27). Uma interpretação literal dessas linhas</p><p>perde completamente o ponto.</p><p>Só porque Jesus usa o dinheiro como o símbolo-chave</p><p>na história não significa que a parábola aborda a adminis-</p><p>tração financeira. Os objetos em uma parábola geralmente</p><p>não são prescrições literais para o comportamento cristão.</p><p>Símbolos diários são usados para criar uma história com um</p><p>significado mais profundo. Não dizemos que a parábola do</p><p>semeador signifique que os cristãos realmente devem semear</p><p>grãos. Nem dizemos que a parábola da ovelha perdida im-</p><p>plica que deveriamos criar ovelhas! Por outro lado, histórias</p><p>174</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>de exemplo como o Bom Samaritano mostram, sim,o com-</p><p>portamento cristão quando concluem: “Vá e faça o mesmo”</p><p>(Lc 10:37).</p><p>Então, qual é o ponto dos talentos? Um nobre confia a</p><p>seus servos uma mercadoria e os faz responsáveis por isso.</p><p>Seu retorno inesperado causa uma crise. O mestre julga os</p><p>servos pelo modo como cuidaram de sua propriedade. A</p><p>mercadoria na história é o nosso conhecimento da fé cris-</p><p>tã. Talvez Jesus estivesse pensando nos escribas ou no povo</p><p>judeu em geral. Como eles tinham lidado com a fé e as Es-</p><p>crituras, que lhes tinham sido entregues? Jesus estava agora</p><p>julgando sua mordomia da lei. Quão bem eles haviam lida-</p><p>do com a mordomia dos mandamentos? Eles preservaram</p><p>e interpretaram a Lei de Moisés corretamente? Ou tinham</p><p>enterrado o conhecimento da lei?</p><p>A igreja primitiva achava que a parábola significava que</p><p>Jesus, como o nobre, estava indo embora. Ao retornar, Ele os</p><p>julgaria sobre como multiplicaram o reino. De fato, Lucas</p><p>(19:11) relata que Jesus contou a parábola precisamente por-</p><p>que alguns discípulos pensavam que o reino aparecería ime-</p><p>diatamente quando chegassem a Jerusalém. Jesus pode estar</p><p>dizendo, com efeito, que o reino não está aqui ainda em sua</p><p>plenitude, mas somos responsáveis por investir (espalhar e</p><p>aplicar) o nosso conhecimento do reino. Lucas provavelmen-</p><p>te pensava que Jesus julgaria a administração de seus segui-</p><p>dores do reino depois de seu retorno, não imediatamente.</p><p>Jesus podería então perguntar como eles tinham praticado</p><p>os ensinamentos do reino. Teriam investido e multiplicado</p><p>o conhecimento de sua mensagem?</p><p>Como diz um escritor, devemos “trocar” ou “permutar”</p><p>nas idéias do reino2. Assim, ao invés de uma história que</p><p>justifica a aquisição de riqueza, temos o oposto. Quanto</p><p>mais sabemos sobre a forma de ponta-cabeça de Jesus, maior</p><p>175</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>a nossa obrigação de vivê-la. A parábola dos talentos ecoa a</p><p>história do homem rico e de Lázaro. O homem rico conhecia</p><p>Moisés e os profetas. Ele compreendia o Jubileu. Ele tinha</p><p>recebido um talento, conhecimento do sistema econômico</p><p>de Deus, mas o tinha enterrado. Ele não alimentou o men-</p><p>digo Lázaro. Então ele enfrentou a condenação.</p><p>Lucas coloca a parábola dos talentos imediatamente após</p><p>Zaqueu. Talvez Lucas esteja sugerindo que somos responsá-</p><p>veis pela administração das idéias da história de Zaqueu. Va-</p><p>mos, como Zaqueu, permitir que o senhorio de Jesus Cristo</p><p>abra nossas carteiras? Uma interpretação similar se encaixa</p><p>na sabedoria que diz no final da parábola. “A todos os que</p><p>têm mais será dado; mas daqueles que não têm nada, até</p><p>mesmo o que eles têm será tirado”. A questão-chave aqui</p><p>é mais do que> Isso dificilmente significa que aqueles que</p><p>têm dinheiro vão ter mais - mesmo que isso muitas vezes</p><p>seja verdade. O significado da parábola é claro: aqueles que</p><p>investem e multiplicam o seu conhecimento do reino re-</p><p>ceberão mais. Aqueles que o desperdiçam podem perder</p><p>o</p><p>reino completamente.</p><p>Desvio Dois: Busque o reino e fique rico!</p><p>Depois de ensinar sobre a ansiedade, Jesus instrui os dis-</p><p>cípulos a esforçarem-se primeiro pelo reino de Deus e sua</p><p>justiça, e todas essas coisas lhes serão dadas (Mt 6:33; Lc</p><p>12:31). Isso oferece uma prova bíblica de que aqueles que</p><p>buscam o reino se tornarão ricos? Podemos ver as riquezas</p><p>como um sinal da bênção de Deus? Já vimos que a riqueza</p><p>aos olhos de Jesus pode ser considerada mais uma maldição</p><p>do que uma bênção.</p><p>Qual o significado de aqueles que buscam o reino terem</p><p>as coisas materiais da vida também? No contexto do ano</p><p>176</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>sabático, Jesus está simplesmente dizendo que Deus dará</p><p>um rendimento adequado de seis anos para cobrir as neces-</p><p>sidades, tanto no sexto quanto no sétimo ano. Se as pessoas</p><p>seguirem seu mandamento, Ele cuidará delas. As “coisas”</p><p>que Deus fornecerá são alimentos e roupas básicas - não</p><p>casas luxuosas e propriedades. Deus proverá as necessidades</p><p>básicas. No contexto do ano sabático, esta passagem não é</p><p>um esquema para se enriquecer do reino. Ela simplesmente</p><p>oferece sobrevivência básica no sétimo ano.</p><p>Um empreendimento comercial ou uma casa adminis-</p><p>trada em harmonia com os princípios cristãos — honestidade</p><p>e integridade — provavelmente serão bem-sucedidos. Mas</p><p>gerentes e donos que realmente permitem que o governo</p><p>de Deus opere em suas vidas não acumularão ganho. Eles</p><p>irão compartilhá-lo no espírito do Jubileu. Nossos estoques</p><p>materiais podem ser um termômetro da nossa vontade de</p><p>seguir os princípios do reino.</p><p>Mateus nos aconselha a lutar pelo reino e a “retidão” de</p><p>Deus, que poderia ser interpretada como a “justiça” de Deus.</p><p>Buscar o reino não significa que o pão cairá misteriosamente</p><p>do céu. Nem significa que ficaremos ricos automaticamente.</p><p>Buscar o reino com a intenção de ficar rico perverte a própria</p><p>essência do reino. Essa atitude zomba da mensagem de Jesus</p><p>sobre a riqueza e implica que podemos alcançar a bênção de</p><p>Deus por meio de nossas boas obras.</p><p>Desvio três: Da r e receber!</p><p>Encontramos outra rota evasiva perto do fim da histó-</p><p>ria do jovem rico. Jesus conclui: “Respondeu Jesus: “Digo</p><p>a verdade: Ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs,</p><p>mãe, pai, filhos, ou campos, por causa de mim e do evan-</p><p>gelho, 40 deixará de receber cem vezes mais, já no tempo</p><p>177</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>presente, casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, e com</p><p>eles perseguição; e, na era futura, a vida eterna. “(Mc 10:29-</p><p>30; Lc 18:29, 30; Mt 19:29)· Mateus e Marcos incluem terra</p><p>em sua lista de coisas abandonadas. Isso significa que Jesus</p><p>multiplicará nossa propriedade se nós o seguirmos?</p><p>Um pastor que preparava sua congregação para uma ofer-</p><p>ta usou este verso. Ele prometeu que Deus literalmente de-</p><p>volvería 100 dólares por cada dólar colocado na oferta. Dar</p><p>com a esperança de ficar rico distorce o espírito do Jubileu.</p><p>Tal interpretação também multiplicaria esposas, maridos e</p><p>pais nesta era!</p><p>Jesus não espera que nossos cônjuges e terras se multi-</p><p>pliquem. Ele quer dizer que quando nos juntamos ao reino,</p><p>nos juntamos à família de Deus. Os discípulos que vendem</p><p>propriedades ou saem de casa encontrarão uma recepção ca-</p><p>lorosa em outras casas cristãs enquanto viajam. Eles vão des-</p><p>cobrir uma nova rede de irmãs, irmãos e pais no reino que</p><p>irão recebê-los com todo carinho. Aqueles que argumentam</p><p>que Deus dobrará nossa riqueza se abandonarmos tudo pelo</p><p>reino geralmente são aqueles que não deixaram casas ou ter-</p><p>ras. Eles estão, ao contrário, tentando encontrar um verso</p><p>isolado para justificar a expansão. Suas motivações zombam</p><p>do espírito do Jubileu, que se concentra nas necessidades</p><p>dos outros — não no ganho pessoal. Jesus diz que aqueles</p><p>que sacrificam por causa do reino receberão recompensas</p><p>materiais e espirituais agora e na era por vir.</p><p>Desvio quatro: os pobres estão sempre com você!</p><p>Os quatro Evangelhos relatam a história da mulher der-</p><p>ramando um caro perfume em Jesus (Mt 26:6-13; Mc 14:3־</p><p>9;Lc 7:36-30;Jo 12: 1-8). Há uma variação considerável nos</p><p>quatro relatos. Todos os escritores (exceto Lucas) contam que</p><p>178</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>os espectadores condenaram esse desperdício de salário de</p><p>um ano. Perguntaram-se em voz alta por que 0 perfume não</p><p>era vendido e o dinheiro dado aos pobres. Jesus disse: “Pois</p><p>os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim vocês nem</p><p>sempre terão” (Mt 26:11)3. Este é um exemplo claro do fa-</p><p>talismo de Jesus? Ele aparentemente reconhece a existência</p><p>perpétua dos pobres e mostra a prioridade do culto sobre a</p><p>justiça social — ou não?</p><p>Curiosamente, Jesus cita diretamente de Deuteronômio</p><p>15, o capítulo com Jubileu e instruções sabáticas. Ante-</p><p>riormente, na passagem, Deus diz aos hebreus que, se fo-</p><p>rem obedientes, não haverá pobres na terra. No entanto, se</p><p>eles endurecerem seus corações, haverá pobres. Enquanto</p><p>a cobiça e o egoísmo continuarem, os pobres estarão entre</p><p>eles. Esse fato justifica uma negligência insensível aos po-</p><p>bres? Exatamente o oposto! “Sempre haverá pobres na ter-</p><p>ra. Portanto, eu ordeno a você que abra o coração para o seu</p><p>irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado</p><p>de sua terra.” (Dt 15:11).</p><p>A luz d a sua contínua súplica em favor dos pobres,</p><p>dificilmente é concebível que Jesus agora se contradiga, nos</p><p>dizendo para negligenciar os pobres que, afinal, sempre es-</p><p>tarão ao redor e não há muito que possamos fazer sobre isso.</p><p>Tal sensação de fatalismo bate de frente com tudo o que Ele</p><p>diz sobre cuidar dos pobres. Ele provavelmente está sugerin-</p><p>do que, enquanto a ganância e a ambição governam as vidas</p><p>das pessoas, sempre haverá pobres. Sua observação deste fato</p><p>não justifica sua perpetuação. Ao invés de nos dispensar da</p><p>obrigação social, Jesus está nos lembrando que o alívio da</p><p>pobreza é uma luta sem fim.</p><p>Um estudo detalhado da lei judaica mostra que derramar</p><p>o perfume era um ato não, de adoração, mas de caridade4. A</p><p>prostituta não podia dar a sua oferta no templo porque sua</p><p>179</p><p>D O N A □ B. KRAYBILL</p><p>profissão a contaminava. Rendimentos e unguentos conta-</p><p>minados poderíam, contudo, ser usados para preparar um</p><p>cadáver. Preparação para 0 enterro se sobrepunha a alimen-</p><p>tar e vestir os pobres. Nas palavras de Jesus, “ela o fez a fim</p><p>de me preparar para o sepultamento” (Mt 26:12).</p><p>A prostituta usa uma ferramenta de seu comércio — per-</p><p>fume - e usa em um ato da caridade para preparar o corpo de</p><p>Jesus. Ela alegremente dá o perfume, que uma vez seduziu</p><p>outros corpos, para preparar o corpo que em breve será es-</p><p>magado pelos pecados do mundo. Derramar perfume sobre</p><p>o corpo de Jesus simbolizava a rejeição de seus velhos modos</p><p>e a sua alegria espontânea do perdão, pois ela tinha muitos</p><p>pecados. Realmente de ponta-cabeça!</p><p>Desvio cinco: T udo depende da sua postura!</p><p>É ten tador resumir o ensinamento de Jesus sobre a</p><p>riqueza, dizendo: “É só nossa postura em relação ao dinheiro</p><p>que i mporta. Se tivermos a postura correta, as coisas vão</p><p>dar c erto”. Obviamente, a postura é importante porque</p><p>infl u enciam nosso comportamento. Jesus ensinou que a</p><p>postura errada é tão má quanto os comportamentos errados.</p><p>Os pobres podem ser tão materialistas, se não mais, do que</p><p>os ricos.</p><p>Jesus não disse, no entanto, que podemos substituir um</p><p>bom comportamento por uma boa postura. Os bons senti-</p><p>men tos são um bom lugar para começar, mas Jesus clara-</p><p>mente deseja que possamos ir além deles. Ele condena o rico</p><p>tolo por expandir seu celeiro e o rico por jogar migalhas para</p><p>Lázaro. Ele nos encoraja a distribuir riqueza. Diversas vezes</p><p>ele diz a seus discípulos para venderem as suas posses. Ele</p><p>descreve Zaqueu como um filho de Deus porque sua mu-</p><p>dança de postura altera seu comportamento econômico. O</p><p>180</p><p>0 R E I N O D E P O N T A C A B E Ç A</p><p>jovem rico tem uma boa postura, mas ela não é suficiente</p><p>para alimentar os pobres.</p><p>Calorosos sentimentos em nosso coração, boas intenções</p><p>em nossa mente e atitudes</p><p>apropriadas em nossa mente são</p><p>um primeiro passo essencial. Porém eles não vestem nem</p><p>alimentam os pobres. O comportamento é o verdadeiro tes-</p><p>te. Jesus pede mudanças de postura que produzem ação.</p><p>Desvio seis: E quanto à M ordomia?</p><p>A mordomia é um conceito central na compreensão de</p><p>nossa relação com a riqueza. Ironicamente, às vezes usamos</p><p>a mordomia para mascarar a ganância. Curiosamente, Jesus</p><p>não usa a palavra mordomia para discutir a riqueza. Em vez</p><p>disso, Ele alerta sobre os perigos de Alamon e pede compai-</p><p>xão. Em hebraico, mordomo significa “gerente sobre a casa”.</p><p>O administrador é um funcionário que controla uma grande</p><p>casa para o mestre. É certamente apropriado para os cristãos</p><p>usarem o termo mordomia para descrever nossa relação com</p><p>a propriedade porque o conceito nos lembra de que, de fato,</p><p>Deus é 0 dono. Mas, o que queremos dizer com mordomia?</p><p>E ú t il distinguir entre os desejos do proprietário e</p><p>os d esejos do mordomo. O mordomo é responsável por</p><p>administrar a propriedade de acordo com os desejos do mes-</p><p>tre, não os do mordomo. As vezes, usamos o termo “mordo-</p><p>mia” para encobrir nossos próprios desejos. Podemos, por</p><p>exemplo, dizer que mordomia significa tomar todos os re-</p><p>cursos que possuímos, multiplicá-los o mais rápido possível</p><p>e usá-los para os nossos próprios propósitos.</p><p>Isso distorce a visão bíblica da mordomia. A visão bíblica</p><p>começa com a visão de Deus para o uso de recursos natu-</p><p>rais e humanos. No Jubileu hebraico e nos ensinamentos</p><p>181</p><p>DONALD B. W AYBILL</p><p>de Jesus, os recursos de Deus devem ser amplamente com-</p><p>partilhados. Eles não devem ser usados para elevar algumas</p><p>pessoas e colocar outras para baixo. Eles devem ser dados li-</p><p>vremente aos necessitados. Os bons mordomos dos recursos</p><p>de Deus compartilham e distribuem generosamente. Não</p><p>somos mordomos dos recursos de Deus quando acumula-</p><p>mos e os multiplicamos para ganho pessoal. Os bons mor-</p><p>dom os são guardiões prudentes e cuidadosos dos recursos</p><p>que chegaram às suas mãos. Eles desprezam o desperdício e</p><p>o abuso insensato de recursos. Os mordomos fiéis são modes-</p><p>tos quando calculam suas próprias necessidades e generosos</p><p>quando respondem aos outros.</p><p>Desvio sete: A penas dê um dízimo!</p><p>Mesmo o dízimo pode servir como algo que diverge, uma</p><p>autojustificação em torno da mensagem de Jesus. Pode se</p><p>tornar uma regra mecânica para justificar a vida luxuosa.</p><p>O Novo Testamento não nos instrui explicitamente sobre</p><p>o dízimo. Jesus e o apóstolo Paulo encorajam a doação li-</p><p>beral. As ofertas liberais, entretanto, vão além do dízimo,</p><p>como vimos no caso da viúva pobre. Os dízimos eram parte</p><p>integrante do sistema do Antigo Testamento de sacrifícios e</p><p>ofertas. O Novo Testamento simplesmente assume o dízimo</p><p>como um padrão mínimo para dar.</p><p>A fraqueza do dízimo como diretriz primária para dar é</p><p>óbvia. Uma pessoa que ganha $ 10.000 por ano dá $ 1.000</p><p>e retém $ 9.000. Outra pessoa que ganha US $ 100.000 e</p><p>dá US $ 10.000 tem US $ 90.000 para uso pessoal. O dízi-</p><p>mo, infelizmente, concentra nossa atenção em quanto damos</p><p>e não em quanto nos jnantemos. Na forma de ponta-cabe-</p><p>ça, Deus se importa mais com o que mantemos do que com</p><p>aquilo que damos. E menos importante que uma pessoa dê $</p><p>182</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>1000, enquanto outra dá $ 10.000. O que conta é que uma</p><p>luta para cobrir as despesas com $ 9.000, enquanto outra</p><p>pode justificar gastar US $ 90.000 ricamente porque, afinal,</p><p>“já dei o dízimo”.</p><p>Os dízimos simbólicos não exemplificam necessariamen-</p><p>te boa mordomia, compaixão ou Jubileu. Eles se tornam fa-</p><p>cilmente manobras para justificar a opulência. Em vez de</p><p>usar o dízimo para desculpar a vida sofisticada, podemos ex-</p><p>piorar formas de encolher nosso padrão de vida a fim de que</p><p>tenhamos mais excedentes a dar.</p><p>Um dízimo graduado é uma forma de trabalhar nesta</p><p>questão5. Uma família pode estabelecer um orçamento bá-</p><p>sico de, digamos, $ 30.000. Eles podem então dar o dízimo</p><p>normal sobre este padrão básico.</p><p>Cinco por cento é adicionado ao dízimo para cada mil</p><p>acima da linha de base.</p><p>Uma renda de US $ 31.000 significa dez por cento nos</p><p>primeiros trinta mil e quinze por cento no próximo mil, e</p><p>assim por diante.</p><p>Quando a renda chega a US $ 48.000, todos os últimos mil</p><p>são dados, já que o dízimo graduado saltou para 100 por cento.</p><p>Com $ 48.000, uma família seguindo este esquema daria</p><p>$ 13-350 e reteria $ 34.650 para uso pessoal e poupança.</p><p>Sob o dízimo tradicional, dariam US $ 4.000 com $ 43.200</p><p>deixados para uso pessoal.</p><p>Estes números hipotéticos ilustram como alguma forma</p><p>de dízimo graduado pode funcionar. Tal dízimo incorpora o</p><p>espírito do Jubileu e nos empurra na direção de uma gene-</p><p>rosa mordomia. Diretrizes específicas podem ajudar a disci-</p><p>plinar a nossa doação, mas nossos dons devem fluir de um</p><p>coração de alegria, não regras legalistas.</p><p>183</p><p>DONALD B. W AYBILL</p><p>A mentalidade de um dízimo de dez por cento também</p><p>promove a noção de que não há problema na boa vida “se</p><p>pudermos pagar” por ela. O dito popular de “viver dentro</p><p>de suas capacidades” sugere que aqueles com um orçamen-</p><p>to magro devem seguir ter um estilo austero. Aqueles com</p><p>orçamento maiores podem, naturalmente, consumir livre-</p><p>mente. “Se você puder pagar; você pode ter”. À medida que</p><p>nossos meios se expandem, assim faz também nosso apetite</p><p>pelas chamadas necessidades”. As coisas para as quais não</p><p>tínhamos recursos no passado se transformam nas coisas que</p><p>nós simplesmente não podemos viver sem quando nossas</p><p>rendas aumentam. Viver dentro de nossos meios é obvia-</p><p>mente necessário - especialmente para famílias de baixa ren-</p><p>da. A frase muitas vezes, no entanto, torna-se uma descul-</p><p>pa conveniente para endossar um estilo de vida sofisticado.</p><p>“Viver dentro dos seus meios” é uma regra cultural que pode</p><p>levar as pessoas de renda superior para longe do espírito do</p><p>Jubileu e de uma vida que dá em abundância.</p><p>Desvio O ito: M antenha o T estemunho!</p><p>“Manter o Testemunho” é um argumento piedoso que</p><p>também foge do modelo do Jubileu. Ele sugere que um</p><p>alto padrão de vida é necessário para “testemunhar” de for-</p><p>ma eficaz para pessoas ricas. Para alcançar pessoas de classe</p><p>alta com o evangelho, os cristãos devem se comunicar com</p><p>eles através de símbolos de classe superior. Em outras pala-</p><p>vras, não podemos testemunhar de forma significativa para</p><p>a multidão que anda de Jaguar se nós dirigimos um Ford.</p><p>Os cristãos precisam ostentar para efetivamente comunicar o</p><p>evangelho em um contexto afluente. Os defensores do “evan-</p><p>gelismo de luxo” certamente não encorajariam os cristãos a</p><p>roubar para serem testemunhas de assaltantes. Tampouco</p><p>184</p><p>0 REINDOE PONTA CABEÇA</p><p>encorajariam a promiscuidade sexual como testemunha para</p><p>prostitutas. No entanto, às vezes eles usam essa lógica para</p><p>racionalizar um estilo de vida extravagante. No processo, a</p><p>boa notícia se torna diluída.</p><p>Esse “testemunho” de alto nível chama as pessoas a um</p><p>simples “sim” a Jesus no coração, com poucas expectativas</p><p>de conversão social e econômica. Isso leva a um evangelho</p><p>barato - aquele que faz com que 0 culto a Mamon pareça</p><p>justo. O evangelho de Jesus Cristo nos livra da escravização</p><p>de outros ídolos. Manter um alto padrão de vida para “efeti-</p><p>vamente” testemunhar não só zomba da verdadeira fé, mas</p><p>também empurra os outros para um evangelho diluído.</p><p>Desvio nove: F ilhos do Rei!</p><p>Um desvio final nos lembra de que somos, afinal de con-</p><p>tas, filhos de um Rei. A Escritura promete muitas bênçãos</p><p>aos fiéis filhos de Deus. Como os reis terrestres vivem em</p><p>palácios extravagantes, nós, cristãos, devemos também viver</p><p>luxuosamente. Filhos de um rei devem se vestir e comer de</p><p>forma régia. Ao vivermos dessa maneira, mostramos nossa</p><p>participação na corte real de Deus porque as bênçãos mate-</p><p>riais mostram 0 sorriso de Deus sobre nós.</p><p>Jesus é, obviamente, nosso Rei. Mas isso dificilmente nos</p><p>dá licença para entrar em uma vida pródiga. Exatamente o</p><p>oposto. Em sua entrada triunfal em Jerusalém em um ju-</p><p>mento, por exemplo, Jesus deixa claro que Ele é, em harmo-</p><p>nia com seus ensinamentos, um rei de ponta-cabeça. Assim,</p><p>se J esus é realmente Senhor e Rei de nossa vida, procura-</p><p>remos maneiras de demonstrar humildade, generosidade e</p><p>compaixão comparáveis. Jesus promete “nos abençoar”, nos</p><p>oferecendo totalidade, paz e alegria. Mas Ele nunca promete</p><p>riquezas financeiras para seus filhos.</p><p>185</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Jesus, na verdade, foi muito claro: a chuva de Deus cai</p><p>sobre os justos e os injustos. O sol de Deus brilha para todos.</p><p>Deus não tem animais de estimação. Não podemos mani-</p><p>pular Deus como um boneco. Dizer que os ricos são aben-</p><p>çoados - que suas riquezas são um sinal do sorriso de Deus</p><p>- implica dizer que os pobres não o são. Tal atitude é uma</p><p>condenação dura e cruel dos pobres, porque sugere que a</p><p>pobreza deles é um sinal da maldição de Deus.</p><p>Lutar para sobreviver na miséria todos os dias é muito</p><p>ruim, mas ter cristãos ricos sugere que os bens materiais são</p><p>uma bênção, e a pobreza uma maldição divina, é blasfêmia.</p><p>O bem-estar material e a pobreza são alimentados por mui-</p><p>tos fatores complicados, mas não pelas bênçãos ou maldições</p><p>de Deus. Que os cristãos ricos digam que suas riquezas são</p><p>um sinal da bênção de Deus não só insulta os pobres, mas a</p><p>própria natureza e mensagem de Deus.</p><p>E nquanto isso, em casa</p><p>O que tudo isso significa? O governo de Deus na vida</p><p>dos cristãos é a chave da mensagem econômica de Jesus6. A</p><p>proximidade do reinado de Deus rouba dos demônios eco-</p><p>nômicos o seu poder. Vimos os princípios do Jubileu tecidos</p><p>ao longo dos Evangelhos. À medida que experimentamos o</p><p>perdão de Deus, podemos, por nossa vez, perdoar. À medi-</p><p>da que aprendemos da bondade de Deus, já não nos preo-</p><p>cupamos com as necessidades. Uma vez éramos mendigos,</p><p>estranhos, escravos e devedores. Agora Deus nos fez novos,</p><p>enchendo-nos de compaixão pelos que estão presos, como</p><p>estávamos antes.</p><p>O amor de Deus por nós transforma nosso comportamento</p><p>econômico. A misericórdia, e não a acumulação, torna-se nosso</p><p>novo critério para medir o sucesso. A doação generosa substitui</p><p>186</p><p>0 REINO DE PONTA CABECA</p><p>o proeminente consumo. O mais alto comando de Deus forma o</p><p>cerne desta maneira de ponta-cabeça. Amar a Deus com todo o</p><p>nosso coração significa amar nossos vizinhos tanto quanto a nós</p><p>mesmos. Isso significa cuidar, compartilhar, dar - valorizando</p><p>o bem-estar dos nossos vizinhos tanto quanto o nosso. Cuidar</p><p>de nosso vizinho nos solta dos antigos grilhões dos demônios.</p><p>Jesus não oferece respostas específicas, mas Ele nos chama</p><p>para as perguntas certas. Ele nos leva para além das regras</p><p>e regulamentos, apelando a um Jubileu perpétuo. Ele não</p><p>rejeita a propriedade privada nem insiste na propriedade co-</p><p>mum. De fato, grande parte de Seu ensino assume nossa pro-</p><p>priedade privada. Não podemos emprestar ou dar aos que</p><p>precisam se não temos propriedade. O que Jesus nos pede</p><p>pode variar, mas Ele nos convida a tratar os pobres como</p><p>nosso próximo, e na verdade como a nós mesmos.</p><p>Embora Ele tenha se dirigido a indivíduos, as palavras</p><p>de Jesus abalaram a base da economia palestina. Ainda hoje,</p><p>Seu chamado ao Jubileu desafia as políticas econômicas que</p><p>incentivam as disparidades entre ricos e pobres. Trabalhar</p><p>duro para ganhar dinheiro justifica gastá-lo abundante e</p><p>egoisticamente? Há momentos em que a aquisição legal de</p><p>riqueza é imoral? Jesus nos adverte que a riqueza pode se</p><p>transformar em um deus poderoso, capturando nossa ima-</p><p>ginação, exigindo nossa lealdade, dobrando nossos joelhos e</p><p>governando nossas vidas.</p><p>A perspectiva do Jubileu nos leva a questionar suposi-</p><p>ções culturais que, muitas vezes, não consideramos. É mo-</p><p>ralmente correto pagar somente um salário mínimo mesmo</p><p>quando é legal? Devemos cobrar honorários profissionais</p><p>exorbitantes, mesmo que sejam legais e costumeiros? Co-</p><p>brar comissões exorbitantes pode dificultar o Jubileu, perpe-</p><p>tuando as estruturas econômicas que mantêm miseráveis as</p><p>pessoas pobres, enquanto os povos ricos festejam.</p><p>187</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Obter o “melhor preço” por uma propriedade ou produto</p><p>é sempre “boa administração”? Vender por um preço infe-</p><p>rior para uma pessoa carente podería estar mais no espírito</p><p>do Jubileu do que exigir o “melhor preço.” Cobrar as taxas</p><p>mais altas que “0 mercado vai suportar” é consistente com</p><p>o caminho de Jesus? Será que “boa administração” signifi-</p><p>ca espremer o último níquel de cada negócio? De muitas</p><p>maneiras sutis, nossos sistemas econômicos podem distorcer</p><p>nossa fé. Não nos atrevemos a assumir que só porque “as coi-</p><p>sas são assim" significa que elas são necessariamente éticas,</p><p>morais ou cristãs.</p><p>Quem é rico?</p><p>Jesus falou dos ricos e dos pobres. Estes termos preci-</p><p>savam de pouco esclarecimento para o seu público. Numa</p><p>sociedade de duas classes, os ricos eram óbvios. E fácil jogar</p><p>de lado os comentários de Jesus sobre a riqueza, porque po-</p><p>demos supor que não somos ricos. Um momento de reflexão,</p><p>no entanto, mostra o significado relativo do termo. Uma</p><p>pessoa rica em um contexto pode ser pobre em outro. De-</p><p>pende de quem comparamos com quem. Simplesmente não</p><p>há padrões absolutos para definir o escorregadio termo rico.</p><p>As pessoas da classe média tendem a não dar importância ao</p><p>Jubileu porque Jesus estava falando sobre os realmente ricos,</p><p>não sobre eles.</p><p>Os cientistas sociais observam que a felicidade não au-</p><p>m enta automaticamente com a riqueza. Na verdade, um</p><p>psicólogo colocou o perene paradoxo americano: Por que</p><p>tantas pessoas estão tristes em meio à prosperidade?7.Fica-</p><p>mos satisfeitos quando sentimos que temos recursos suficien-</p><p>tes para atender às nossas necessidades percebidas. As pes-</p><p>soas ao nosso redor moldam o que achamos que precisamos.</p><p>188</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Nossas necessidades e, portanto, nossa felicidade, estão ba-</p><p>seadas em comparações sociais suaves com os outros, não em</p><p>padrões absolutos. Se não achamos que precisamos de mui-</p><p>to, podemos ser felizes com pouco. Se tentarmos alcançar</p><p>nossos colegas de alto nível, um modesto aumento salarial</p><p>pode nos deixar mal-humorados. O que precisamos, o que</p><p>nos faz felizes, tudo depende do nosso ponto de comparação.</p><p>Quando penso em pessoas ricas, penso no Bill Gates, nos</p><p>Ted Turners, nos Rockefeller, nos Kennedy, nos Trumps.</p><p>Pen s o em lugares como Palm Springs, Califórnia, onde</p><p>“simples e despretensioso” épara casas de milhões de dó-</p><p>lares. Penso em diretores executivos que ganham milhões</p><p>por ano. Eu penso em estrelas do esporte e do cinema com</p><p>enormes salários. Estes são os ricos para mim. Eu certamente</p><p>não sou um deles. Ou eu sou?</p><p>Uma visita a uma igreja rural na América Central abriu</p><p>meus olhos de uma nova maneira. Um irmão cristão levou-</p><p>-me para o seu lote de banana, um quilômetro acima de uma</p><p>montanha íngreme. Contei enquanto andamos. Ele tinha</p><p>mais de cinquenta remendos no único par de calças que ele</p><p>possuía. De repente, percebí que eu era rico, muito rico,</p><p>com pares de calças e camisas de sobra. O significado de</p><p>“rico” depende totalmente do nosso contexto social e ponto</p><p>de comparação.</p><p>Temos pena de nós mesmos quando olhamos para a escala</p><p>social e nos comparamos com aqueles que estão acima de</p><p>nós. Nós certamente não somos ricos em comparação com</p><p>alguém que faz $ 50.000 por ano a mais do que nós. Não,</p><p>não somos ricos ao lado da pessoa com uma casa maior do</p><p>que a nossa. Ao olhar para cima na escala, nunca somos ricos.</p><p>Se olharmos para cima da escala nos sentiremos pobres. Te-</p><p>mos pena de nós mesmos e a mensagem bíblica nos escapa.</p><p>Esperamos que aqueles que estão no degrau acima de nós</p><p>189</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>soltem algumas sobras e não pisoteiem nossos dedos. Porém</p><p>isso é um pensamento ilusório, porque aqueles que estão aci-</p><p>ma de nós também estão olhando para cima e se sentindo</p><p>pobres em contraste com os ricos acima deles. Assim, 0 sen-</p><p>timento de pobreza segue em espiral sempre para cima entre</p><p>os ricos, porque ninguém nunca pensa já ter o suficiente.</p><p>A perspectiva do Jubileu de ponta-cabeça nos lembra de</p><p>que uma vez éramos escravos, uma vez estivemos presos.</p><p>Esse lembrete desloca nosso foco para baixo, para onde o foco</p><p>bíblico sempre aponta. Os pagãos olham para cima. Quando</p><p>seguimos o foco bíblico, olhamos para baixo e percebemos</p><p>que somos ricos. Quando olhamos para baixo, as coisas de</p><p>repente parecem diferentes e somos movidos à compaixão.</p><p>A mensagem do Jubileu alcança o seu destino.</p><p>Poucos leitores deste livro são um Lázaro destituído.</p><p>Porém os Lázaros estão em nossa comunidade global. Eles</p><p>procuram água limpa. Eles morrem de HIV/AIDS e outras</p><p>doenças tratáveis. Eles procuram uma moradia decente. Sen-</p><p>tam-se ao lado da calçada global com fome e desnutridos.</p><p>Mesmo com estimativas conservadoras, mais de meio bilhão</p><p>— ou seja, 500 milhões -de pessoas estão literalmente pas-</p><p>sand o fome. Outro meio bilhão recebe calorias suficientes,</p><p>mas tem pouca proteína. Cerca de 60.000 pessoas morrem</p><p>de causas relacionadas à fome todos os dias. Cerca de 20.000</p><p>destes são crianças. Quase 1,3 bilhão de pessoas não têm</p><p>água limpa. Da fome absoluta a dietas deficientes, cerca de</p><p>um quinto da população mundial está com fome e desnutri-</p><p>ção8. Comparado a eles, muitos leitores deste livro são ricos.</p><p>Muitos cristãos lutam contra os pneuzinhos. Dietas indisci-</p><p>plinadas nos levam direto para programas de perda de peso.</p><p>Ironicamente, a estrutura de classe global hoje se parece</p><p>muito com a antiga Palestina. Uma pequena elite no topo</p><p>senhores sobre a vasta multidão embaixo. Cerca de um quin-</p><p>190</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>to da população mundial devora em torno de 80% dos nos-</p><p>sos recursos globais e produz 80% da poluição. Os quatro</p><p>quintos mais pobres da população mundial lutam pelos 20%</p><p>restantes dos produtos. Quase metade das pessoas do mundo</p><p>vive com menos de dois dólares por dia —menos do que o</p><p>gasto com animais de estimação nos países desenvolvidos.</p><p>A renda média dos americanos é 100 vezes mais do que</p><p>a renda do bilhão mais pobre do mundo. Mesmo quando os</p><p>respectivos padrões de vida são levados em conta e o poder</p><p>de compra real é calculado, o americano médio tem mais</p><p>de 10 vezes a renda das pessoas típicas em muitos países. A</p><p>maioria dos cristãos nos países desenvolvidos ocidentais só</p><p>pode ler suas Bíblias como cristãos ricos.</p><p>R eduzindo a escala</p><p>Por onde começamos? Podemos começar consumindo</p><p>menos. Muitas de nossas chamadas “necessidades” são sím-</p><p>bolos de status que lustramos para manter uma imagem</p><p>respeitável entre nossos amigos. Compras incessantes têm</p><p>se tornado um ritual de sacrifício no altar do materialismo.</p><p>Reduzir o consumo é o início do processo de ser um mordo-</p><p>mo responsável dos recursos não renováveis.</p><p>Nossa autoimagem está enraizada em como nós achamos</p><p>que as pessoas nos veem. O antigo ditado social é verdade -</p><p>Eu sou o que eu acho que você acha que eu sou. Se eu acho</p><p>que outra pessoa acha que sou estranho, me sinto inadequa-</p><p>do e inseguro sobre mim mesmo, Desejamos que outros nos</p><p>respeitem e pensem bem de nós. Para sermos aceitos, mos-</p><p>tramos os símbolos de status do nosso grupo - carros, rou-</p><p>pas, barcos, livros, computadores e bugigangas. Roupas fora</p><p>de moda, carros pequenos/casas modestas e férias simples</p><p>violam as regras da etiqueta da classe média. Para proteger e</p><p>191</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>melhorar nossa imagem, precisamos sempre devorar mais e</p><p>mais produtos, poucos dos quais são necessidades.</p><p>O materialismo é uma armadilha sem saída. Quanto mais</p><p>temos, mais desejamos. Quanto mais temos, mais precisamos</p><p>para manter aquilo que temos. Assim que conseguimos acom-</p><p>panhar a nova mania ou moda, alguém passa a nossa frente.</p><p>Mais uma vez, ficamos para trás. Alguém sempre nos ultra-</p><p>passa com um modelo maior, com mais acessórios, com mais</p><p>velocidade, mais conveniência, ou um modelo mais avança-</p><p>do. Propagandas incessantes sempre criam novas necessidades</p><p>e desejos. Nossos desejos socialmente construídos prendem</p><p>nossas vidas em armadilhas artificiais e roubam nossas almas</p><p>da integridade moral. O impulso incessante por mais de tudo</p><p>deixa os ricos vazios, os pobres famintos e os escassos recur-</p><p>sos desperdiçados. Na sociedade americana, por exemplo, o</p><p>tamanho médio da família encolheu para metade e durante o</p><p>mesmo período o tamanho das casas dobrou.</p><p>Na corrida sem fim da escalada de status, estamos sem-</p><p>pre atrasados9. E tentador entrar no jogo do consumo eviden-</p><p>te — exibindo nossas mercadorias de intermináveis viagens</p><p>de compras - na esperança de sermos aceitos e aplaudidos</p><p>por nossos amigos. Em nítido contraste, o povo do reino</p><p>de ponta-cabeça envolve um serviço discreto— cuidando dos</p><p>necessitados, dos doentes, dos destituídos e dos deficientes,</p><p>que muitas vezes estão escondidos em instituições ou vivem</p><p>à margem da sociedade.</p><p>Para suportar as pressões do consumo evidente, precisa-</p><p>mos de amigos para dar apoio e afirmação. As pressões so-</p><p>ciais para o consumo, conformidade e status social são tão</p><p>fortes que dificilmente podemos resistir a elas sozinhas. É</p><p>por isso que precisamos de amigos cristãos que também afir-</p><p>mam os valores de ponta-cabeça e tentam vivê-los. Somos</p><p>todos seres sociais que dependem dos outros para o nosso</p><p>192</p><p>0 REINO DE ΡΟΝΙΑ CABEÇA</p><p>senso de valor. É importante selecionar e criar círculos de</p><p>amigos - rede de apoio - que afirmam valores do reino. Esta</p><p>rede de amigos cristãos não precisa ter uma estrutura for-</p><p>mal, mas pode ajudar a reforçar escolhas modestas de estilo</p><p>de vida. O apoio amoroso de uma cultura alternativa, um</p><p>enclave cristão, nos permite resistir às forças sedutoras e de-</p><p>moníacas do materialismo.</p><p>A redução do consumo não é um remédio para a fome</p><p>no mundo. Comprar menos carne no supermercado local</p><p>não vai levar mais proteína para despensas do terceiro mun-</p><p>do. Como cristãos, consumimos menos, não porque é uma</p><p>solução eficaz para a fome no mundo, mas porque é algo</p><p>moralmente responsável a fazer. Somos responsáveis não por</p><p>soluções grandiosas para os problemas mundiais, mas pela</p><p>nossa obediência pessoal ao nosso conhecimento do evange-</p><p>lho. Isso, de fato, resume a parábola dos talentos.</p><p>Considere o tamanho de nossa pegada ecológica. Como</p><p>nosso estilo de vida diário devora os recursos naturais e polui</p><p>o jardim de Deus? A pegada que deixamos é determinada</p><p>por coisas como os produtos que vão para o lixo, os quilo-</p><p>metros que dirigimos, a água mandamos pelo ralo, e a ele-</p><p>tricidade que usamos. Essas e dezenas de outras atividades</p><p>diárias deixam sua marca não apenas nos recursos naturais,</p><p>mas também nos pobres10.</p><p>E fácil não fazer nada porque tememos que nosso pequeno</p><p>ato não faça diferença. E verdade que mais um carro de luxo,</p><p>e mais uma casa de férias não fará uma diferença significa-</p><p>tiva. No entanto, quando vários milhões de outras pessoas</p><p>pensam e agem da mesma forma, as consequências corporativas</p><p>da nossa ganância são devastadoras. Cinco milhões de pe-</p><p>daços de plástico e 10 milhões de carrões bebendo gasolina</p><p>produzirão um imenso impacto coletivo - uma gigantesca</p><p>pegada ecológica. A crença de que “meu comportamento</p><p>193</p><p>DONALD B.KRSYBILL</p><p>não fará a diferença de qualquer maneira” não nos desculpa</p><p>da responsabilidade moral.</p><p>Por outro lado, os atos individuais não são suficientes.</p><p>Devemos também agir em conjunto através de organizações</p><p>a nível local e internacional que fazem a diferença. Preci-</p><p>samos trabalhar para mudar as estruturas e as políticas que</p><p>protegem os ricos e pisoteiam os pobres. Acima de tudo, de-</p><p>vemos cultivar uma perspectiva global que faça a diferença</p><p>no nível pessoal e local11.</p><p>Considere várias perguntas simples sobre simplicidade e</p><p>justiça econômica.</p><p>• Se todo mundo no mundo todo consumisse tantos re-</p><p>cursos naturais quanto eu, que tipo de mundo teríamos?</p><p>• Quanto do meu nível de consumo drena recursos</p><p>energéticos e prejudica o meio ambiente? Em outras</p><p>palavras, quão grande é minha pegada ecológica?</p><p>• Meu estilo de vida este ano é mais simples do que</p><p>no</p><p>ano passado? Ou é mais complicado, mais consumis-</p><p>ta, mais estressante?</p><p>• Em que direção estou indo?</p><p>Praticando o Jubileu</p><p>Jesus não nos chama para sair mundo do comércio e dos</p><p>negócios. Ele não nos ensina que administrar dinheiro e pro-</p><p>priedade está errado. Em vez disso, Ele nos diz que o reino</p><p>de Deus em nossas vidas deve moldar nossa aquisição, admi-</p><p>nistração e disposição de riqueza.</p><p>Muitos cristãos, habilidosos em administrar negócios e</p><p>entender sistemas econômicos, fizeram enormes contribui-</p><p>ções ao ministério da igreja e aos necessitados em todo o</p><p>194</p><p>0 REINO DE POHTA CABEÇA</p><p>mundo. A expressão do Jubileu assume diferentes formas,</p><p>dependendo da nossa posição numa determinada estrutu-</p><p>ra econômica. Se somos o rico em um relacionamento, isso</p><p>pode significar compartilhar além da expectativa com pes-</p><p>soas em necessidade12.</p><p>Como empregadores, praticamos o Jubileu pagando sa-</p><p>lários acima da média com alegria, mesmo quando isso re-</p><p>duz nossos lucros. Em vez de tentar espremer o máximo da</p><p>mão-de-obra dos funcionários, ao preço mínimo, compar-</p><p>tilhamos lucros, proporcionamos dignidade no trabalho e</p><p>incentivamos a participação acionária na empresa. Esta pers-</p><p>pectiva não é uma receita para a falência ou uma visão arro-</p><p>gante do fundo do poço. Na verdade, em longo prazo,esse</p><p>subsídio pode render mais empregados felizes, trabalhando</p><p>melhor para produzir mais para todos. Um compromisso</p><p>com a perspectiva do Jubileu exige a distribuição justa da</p><p>riqueza entre aqueles que ajudam a criá-la. Afunilar todo o</p><p>lucro nas mãos de alguns contradiz o espírito Jubileu.</p><p>Os empreendedores cristãos lutam frequentemente com</p><p>estas perguntas difíceis.</p><p>• De onde vem o lucro?</p><p>• Onde ele vai parar?</p><p>• Sua distribuição está de acordo com uma visão do Ju-</p><p>bileu? Ou empurra alguns para o alto da escala econô-</p><p>mica e prende 0 restante na parte inferior?</p><p>Lembre-se da injunção bíblica de que as pessoas e os re-</p><p>cursos materiais são do Senhor. Somos chamados a valorizar</p><p>as pessoas acima das coisas. Devemos usar bens, não pessoas.</p><p>Uma corporação, seguindo a visão do Jubileu, fará esforços</p><p>especiais para empregar os desfavorecidos — os ex-infrato-</p><p>185</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>res, os surdos, os deficientes e os estigmatizados de outras</p><p>formas. Para aqueles que prestam serviços profissionais, a</p><p>abordagem do Jubileu pode significar uma escala graduada</p><p>de pagamento ligada à renda do cliente. Ou pode significar</p><p>cobrança de preços abaixo das taxas vigentes. Os ricos, ener-</p><p>gizados pela visão bíblica, compartilharão o Jubileu com</p><p>aqueles ao redor e abaixo deles com alegria.</p><p>Considere um exemplo do Jubileu moderno que vai além</p><p>da piedade. Habitat for Humanity (“habitat para a humani-</p><p>dade”) é uma organização internacional que aplica criativa-</p><p>mente a economia bíblica. A Habitat opera em centenas de</p><p>locais em dezenas de países ao redor do mundo. O programa</p><p>constrói casas de baixo custo e modestas para quem não tem</p><p>casa. Proprietários em potencial devem dar centenas de horas</p><p>de sua própria “equidade de suor” (tempo de voluntariado)</p><p>para se qualificar para uma casa. Eles também dão alguns dos</p><p>“equidade de suor”para outros projetos antes da construção</p><p>de sua casa começar. Eles podem pagar hipotecas sem juros por</p><p>mais de vinte anos. Os contribuintes compartilham o dinhei-</p><p>ro, o tempo, os suprimentos e mão-de-obra com os pobres. A</p><p>Habitat constrói mais do que casas - ela constrói relaciona-</p><p>mentos e comunidade. Acima de tudo, a Habitat nutre dig-</p><p>nidade, prestação de contas e responsabilidade. Isto é, de fato,</p><p>um modelo exemplar de compaixão jubilar.</p><p>O dar de ponta-cabeça que entrega além da expectativa</p><p>sinaliza nossa entrada no reino. É um sinal poderoso de que</p><p>o Rei Jesus é o rei dos nossos recursos. Há muitas maneiras</p><p>criativas de usar nossos recursos para o bem dos pobres. Em</p><p>uma comunidade uma associação de “fiança pré-julgamen-</p><p>to”deposita fiança para que os pobres não precisem ficar na</p><p>cadeia por meses antes do julgamento. Proprietários forne-</p><p>cem suas propriedades como fiança para este programa. Em</p><p>outro exemplo, propriedade ou poupança podem ser usados</p><p>196</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>como garantia para pessoas carentes que não têm crédito e</p><p>querem comprar uma casa ou iniciar um negócio. Se nós</p><p>amamos os nossos vizinhos como a nós mesmos, assinaremos</p><p>a fiança de empréstimo do vizinho e arriscaremos pagar pe-</p><p>las consequências do não cumprimento?</p><p>O espírito do Jubileu pode tomar muitas expressões. Em</p><p>vez de bater na porta do escritório do chefe para o nosso próprio</p><p>aumento, podemos pedir em nome daqueles que têm menos</p><p>do que nós. Podemos oferecer para pagar além do preço esta-</p><p>belecido por um produto ou serviço. Podemos dar uma gorjeta</p><p>além da expectativa. Podemos acrescentar um dízimo à renda</p><p>mensal ou hipoteca como um sinal de Jubileu. Ao invés de ex-</p><p>pressões descuidadas de mordomia, esses sinais de ponta-cabeça</p><p>sinalizam nossa liberdade da escravidão econômica. Livremente</p><p>compartilhar o espírito do Jubileu nem sempre é possível, mas,</p><p>como somos capazes, dar com um espírito generoso sinais do</p><p>amor de Deus e nossa libertação dos demônios de Matnon.</p><p>Dar de ponta- cabeça</p><p>Há cinco sinais que indicam o que é dar de ponta-ca-</p><p>beça. Em primeiro lugar, canalizamos o compartilhamento</p><p>do Jubileu para os marcados pelas disparidades econômicas.</p><p>Jesus, vez após vez, nos ordena a dar aos pobres. Em con-</p><p>traste com muitos promotores religiosos, Jesus não pleiteou</p><p>contribuições para sua causa. Sua paixão era pelos necessita-</p><p>dos, não por seu movimento religioso. O testemunho cristão</p><p>mais poderoso vem quando nosso dar é livre das amarras</p><p>do interesse próprio. Mesmo as instituições cristãs, às vezes,</p><p>tornam-se egoístas e desviam fundos para seus próprios in-</p><p>teresses ao invés de servir os necessitados. O Jubileu coloca</p><p>alvos genuínos, para atendermos aos que precisam, não ins-</p><p>tituições que se interessem por si mesmas.</p><p>197</p><p>DONALDB.KRAVBILL</p><p>Segundo, a generosidade do Jubileu inclui outros cris-</p><p>tãos no processo de tomada de decisão. O individualismo</p><p>da cultura ocidental assume que dar é estritamente um as-</p><p>sunto privado, pessoal. Irmãs e irmãos na comunidade cristã</p><p>podem nos ajudar a discernir como e onde dar. Ao invés de</p><p>fazer manobras para conseguir lugares de influência e reco-</p><p>nhecimento público, dar segundo o Jubileu é uma expressão</p><p>coletiva de amor da comunidade, não do indivíduo.</p><p>Terceiro, dar, segundo o Jubileu, assume que uma forma</p><p>de dar é não tomar dinheiro de outros, em primeiro lugar.</p><p>Tirar o máximo possível dos outros para dar mais contradiz</p><p>o espírito jubilar. O Jubileu afirma que não se trata deter</p><p>recursos em primeiro lugar, mesmo os recursos que podem</p><p>ser legitimamente nossos, e sim de uma forma de dar. Isso,</p><p>em muitos aspectos, protege a dignidade do indivíduo mais</p><p>do que os dons paternalistas.</p><p>Em quarto lugar, a doação do Jubileu não envia cheques</p><p>a todos os fundos de compaixão que retratam crianças</p><p>necessitadas. O dinheiro aborda apenas um tipo de neces-</p><p>sidade. Dinheiro por si só não é suficiente. Pessoas, tempo,</p><p>dignidade e educação também devem ser incluídos no paco-</p><p>te do Jubileu. A compaixão é mais do que piedade e peque-</p><p>nas porções sentimentalistas. Essa doação deve ser pensada,</p><p>ordenada e humana. Ela deve ir além de cestas de Natal, até</p><p>empregos, empréstimos a juros baixos, crédito, segurança,</p><p>projetos educacionais e de habitação.</p><p>Em quinto lugar, a doação do Jubileu decorre da história</p><p>do amor de Deus. Ela atesta a história bíblica do Jubileu —</p><p>a história da compaixão de Deus encarnada por Jesus. As</p><p>ofertas genuínas da compaixão sentida pelo coração são mo-</p><p>tivadas pelo amor de Deus e um cuidado genuíno para com</p><p>os necessitados. Sem a perspectiva bíblica, a ajuda financei-</p><p>ra simplesmente empurra os outros para cima uma escala</p><p>1 9 8</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>econômica de forma vazia, onde a ganância gera ganância e</p><p>materialismo prevalece. A doação do Jubileu proclama a boa</p><p>notícia do perdão em Jesus Cristo. A caridade que não traz</p><p>uma mensagem de que libertação espiritual é pouco mais do</p><p>que o paternalismo do bem-estar que só leva a novas manei-</p><p>ras de adorar a Mamon.</p><p>199</p><p>CAPÍTULO 8</p><p>PIEDADE</p><p>ÍMPIA</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>P istas para a crucificação</p><p>Por que Jesus foi assassinado? Por que um pregador de</p><p>compaixão seria pregado em uma árvore? Já vimos al-</p><p>gumas pistas sobre a razão da sua morte em sua crítica aos</p><p>ricos. Porém, a mensagem do novo reino foi muito além de</p><p>uma crítica da riqueza. O que seguramente selou o destino</p><p>de Jesus foi o seu ousado desafio aos símbolos da identidade</p><p>judaica. Suas palavras e ações incendiaram a bandeira do na-</p><p>cionalismo judaico.</p><p>Jesus anunciou o rompimento de um novo reino, uma</p><p>nova ordem, um novo dia. A intervenção de Deus na história</p><p>trouxe muitas surpresas que colocariam as coisas antigas de</p><p>ponta-cabeça. Jesus era um profeta judeu que se mantinha</p><p>firme nas tradições de Moisés, mas dizendo que Deus estava</p><p>se movendo além delas, transformando-as em novas manei-</p><p>ras que cumpriríam mais plenamente seu propósito. O espí-</p><p>rito de Deus transformaria símbolos sagrados - observância</p><p>do sábado, rituais de pureza, limites sagrados, e sim, até</p><p>mesmo o poderoso templo em Jerusalém. Muitas das práti-</p><p>203</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>cas que cercam esses símbolos serviram para reforçar a iden-</p><p>tidade tribal e nacional. O novo reino teria portas maiores,</p><p>mesas maiores e Lima família muito maior. As velhas formas</p><p>criaram a identidade tribal através da separação e da exclu-</p><p>são. A nova ordem dava as boas-vindas a todos.</p><p>Ninguém gosta de ver seus símbolos queimados. Nin-</p><p>guém gosta de ver sua bandeira em chamas. Mudança, espe-</p><p>cialmente mudança religiosa, é muito difícil. Muitos cristãos</p><p>de hoje provavelmente teriam se juntado às forças que defen-</p><p>diam a bandeira tribal no tempo de Jesus. Era a coisa razoá-</p><p>vel, racional, natural a fazer diante de idéias ultrajantes. Em</p><p>todo caso, a crítica de Jesus às práticas piedosas que elevavam</p><p>símbolos sagrados e rituais religiosos acima da necessidade</p><p>humana engrossava o enredo que conduzia à sua cruz.</p><p>A T radição Oral</p><p>Por que o ministério de Jesus trouxe um confronto direto</p><p>com as autoridades religiosas? Jesus viveu em um mundo</p><p>hebraico entrincheirado nos ensinamentos de Moisés. Ele</p><p>não veio para destruir a lei ou para desprezá-la. Ele a abraçou</p><p>e cumpriu. Se Jesus afirmou a lei, por que Ele colidiu com</p><p>líderes religiosos? A resposta está, em parte, em sua atitude</p><p>em relação à lei oral do judaísmo. Jesus endossou a Totã</p><p>escrita, os cinco livros de Moisés, mas Ele desprezou partes</p><p>da lei oral. Ele via a lei oral como tendo menos autoridade</p><p>do que as Escrituras. Isto, especial mente, provocou a ira dos</p><p>fariseus. Alguns dos escritores dos Evangelhos ressaltaram o</p><p>antagonismo entre Jesus e os fariseus, porque a igreja primi-</p><p>tiva enfrentava dura oposição deles. Uma breve visão geral</p><p>da lei oral nos ajuda a compreender a natureza do conflito.</p><p>Na época de Jesus havia realmente duas Tonás, dois tipos</p><p>de lei religiosa — escrita e oral. Tanto os saduceus como os</p><p>204</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>fariseus aceitavam a Torá escrita, composta pelos cinco livros</p><p>de Moisés, como a santa lei de Deus. Ele continha os man-</p><p>damentos dados a Moisés no Monte Sinai. Além disso, uma</p><p>Torá oral não escrita passou de boca em boca de geração em</p><p>geração. Os escribas desenvolveram a lei oral e no tempo de</p><p>Jesus, os fariseus seguiam-na à letra. A lei oral evoluiu atra-</p><p>vés de três estágios diferentes - Midrash, Mishná e Talmude.</p><p>O primeiro passo, ou Midrash, surgiu depois que os ju-</p><p>deus retornaram à sua terra natal do cativeiro babilônico</p><p>cinco séculos antes do nascimento de Jesus. O Midrash era</p><p>um comentário versículo por versículo explicando a Escritu-</p><p>ra. Uma interpretação seguia cada versículo. Por exemplo,</p><p>em Levítico 19:13 a lei escrita diz: “Não oprimirás o teu</p><p>próximo, nem o roubarás; a paga do diarista não ficará con-</p><p>tigo até pela manhã”. O comentário do Midrash seguindo</p><p>este versículo diz que:</p><p>Isto aplica-se também ao aluguel de animais, ou de uten-</p><p>sílios, ou de salário de um empregado mesmo se 0 empre-</p><p>gado não veio a ele para pedir o salário... um assalariado</p><p>contratado para o dia deve ser pago na noite seguinte; um</p><p>contratado para a noite, no dia seguinte1.</p><p>Desta forma, o Midrash fornecia um comentário de verso</p><p>por verso sobre os cinco livros de Moisés. Este vasto corpus</p><p>foi preservado oralmente - passado de boca em boca através</p><p>das gerações. Não foi escrito até depois do tempo de Jesus.</p><p>Uma segunda forma de interpretação oral, conhecida</p><p>como Mishná, surgiu nos dois séculos antes de Jesus. Em</p><p>vez de um comentário exato em cada verso, ela fornecia in-</p><p>terpretações orais da Torá aplicada a muitas questões não</p><p>mencionadas especificamente na escritura sagrada.</p><p>Quase dois séculos após a morte de Jesus (cerca de 200</p><p>dC), as tradições orais foram gradualmente escritas no Tal-</p><p>205</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>muck. Isto gerou a controvérsia feroz, já que muitos rabinos</p><p>consideravam escrever a lei o mesmo que queimá-la. O Tal-</p><p>mude, esta coleção final de sabedoria e lei oral, tornou-se o li-</p><p>vro distintivo do Judaísmo comparável ao Novo Testamento</p><p>do Cristianismo.</p><p>A lei oral ou “tradição dos anciãos” (Mc 7:5) tinha um</p><p>propósito nobre: esclarecer e interpretar as palavras escritas</p><p>de Moisés. Inicialmente, a tradição oral estava subordinada</p><p>à autoridade das Escrituras. Porém ao longo dos anos a auto-</p><p>ridade da lei oral cresceu. Com o tempo, foi dito que Deus</p><p>havia dado a lei oral a Moisés e preservado por providência</p><p>divina ao longo das gerações. A tradição oral logo assumiu</p><p>igual, se não maior, autoridade do que a palavra escrita. O</p><p>escopo e os detalhes da lei oral são surpreendentes. Uma</p><p>compilação escrita da Mishnd tem cerca de 700 páginas de</p><p>letras pequenas2! Os escribas e rabinos memorizavam-na.</p><p>Não admira que toda a vida de um escriba fosse dedicada ao</p><p>seu estudo e à sua memória.</p><p>A Mishnd está organizada em seis grandes divisões cha-</p><p>madas ordens. Cada ordem tem sete a doze subdivisões cha-</p><p>madas de tratados. Estes são mais detalhados em 523 capí-</p><p>tulos. Finalmente, cada capítulo contém cerca de cinco a dez</p><p>parágrafos legais3. Não escrita na época de Jesus, a versão</p><p>oral da Mishnd guiava a prática religiosa. A Mishnd cobre</p><p>toda a gama de perguntas, que podem surgir sobre a legis-</p><p>lação religiosa e civil.</p><p>Os trabalhadores em cima de uma árvore ou um muro po-</p><p>dem oferecer uma oração? Pode-se abrir pedreiras ou poços</p><p>durante um ano sabático? Se alguém está nu e faz uma ofer-</p><p>ta de pão com cevada em casa, isso torna a oferta imunda?</p><p>Amarrar um nó é considerado trabalho que viola o sábado?</p><p>Um homem pode se divorciar de sua esposa por ela queimar</p><p>uma refeição? Qual é a pena de morte apropriada para quem</p><p>206</p><p>D REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>b la s fe m a - se r q u e im a d o , a p e d re ja m e n to , d e c a p ita ç ã o o u es-</p><p>t r a n g u la m e n to ? U m h o m e m é c e r im o n ia lm e n te im u n d o se</p><p>e le to c a r u m ra to ? Se u m p ássa ro im u n d o se s e n ta n o s ovos</p><p>d e u m p ássa ro l im p o , os ovos p e rm a n e c e m c e r im o n ia lm e n te</p><p>l im p o s? Se u m cão c o m e a c a rn e d e u m cad áv er, e n tã o fica à</p><p>p o r ta d e u m a casa , isso to r n a a casa im p u ra ?</p><p>A í vezes, a Misbná e n u m e ra as co isas a faze r e a n ão fazer,</p><p>as l in h a s finas e n tr e o sa g ra d o eo p ro fa n o . C o m o u m a b o la d e</p><p>n ev e sa g ra d a , a tra d iç ã o o ra l se to rn o u c a d a vez m a is p esa d o</p><p>ao lo n g o d o s sécu lo s.</p><p>Fariseus progressistas</p><p>O s fa riseu s , ao c o n t r á r io d o s sa d u c e u s , a p lic a v a m a lei</p><p>o ra l à v id a c o tid ia n a . S u a in te n ç ã o e ra bo a . O s fa riseu s ac re -</p><p>d i ta v a m q u e a fé re lig io sa d e v e r ia p e n e tr a r to d o</p><p>s os asp e c to s</p><p>d a v id a . A p a r t i r d e u m ex a m e c u id a d o so d as E sc r itu ra s ,</p><p>e les te n ta v a m p re sc re v e r u m a c o n d u ta a p ro p r ia d a p a ra cad a</p><p>c irc u n s tâ n c ia . E le s n ão q u e r ia m q u e a Lei d e M o isés se to r-</p><p>n asse u m liv ro e s t é r i l , s e p a ra d o d a v id a . E m c o n tra s te , os</p><p>sa d u c e u s a f irm a v a m ap e n a s a a u to r id a d e d a lei e sc rita . Isso</p><p>to r n o u m a is fá c il n ão a p lic a r as E s c r itu ra s a n o v as q u e s tõ e s</p><p>d e se u te m p o . E le s e ra m cap azes d e a b ra ç a r a p re se n ç a ro -</p><p>m a n a e a c e ita r a in f lu ê n c ia d e c u l tu ra s e s tra n h a s p o rq u e os</p><p>liv ro s d e M o isés p a re c ia m ir re le v a n te s p a ra essas re a lid ad es .</p><p>A o a d e r ir a p e n a s à p a la v ra e s c r i ta e a a lg u n s re g u la m e n -</p><p>to s r i tu a is , os sa d u c e u s se d e sc u lp a v a m d a o b e d iê n c ia d iá r ia</p><p>à le i. A ss im e le s p o d ia m o p e ra r p ie d o s a m e n te o te m p lo d e</p><p>J e r u s a lé m m e sm o q u a n d o e les f le r ta v a m c o m os ro m an o s .</p><p>O s fa riseu s , p o r o u tro la d o , se p re o c u p a v a m co m a p rá t i -</p><p>ca fiel. E les m o s t r a r a m su a su b m issã o à a lia n ç a d e M oisés</p><p>o b e d e c e n d o à le i o ra l. C u id a d o s a m e n te s e g u ia m as re g ra s</p><p>d a p u re z a r i tu a l e d o d íz im o . E sc ru p u lo s a m e n te o b se rv a ra m</p><p>207</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>regulamentos piedosos, esperando que algum dia todos os</p><p>judeus seguissem seu exemplo.</p><p>A visão farisaica, em suma, era criar uma nação santa,</p><p>uma nação de sacerdotes4. Hoje, o termo fariseu carrega uma</p><p>conotação negativa de hipocrisia e autojustiça. No contexto</p><p>do seu tempo, porém, os fariseus eram progressistas since-</p><p>ros! Eles realmente queriam que a visão de Moisés floresces-</p><p>se na vida corporativa do judaísmo.</p><p>Em termos gerais, os quatro partidos religiosos (como</p><p>observado no capítulo três) respondiam de formas diferentes</p><p>à situação política na Palestina. Os essênios eram um grupo</p><p>sacerdotal fora do poder. Eles se retiravam para comunida-</p><p>des separatistas alojadas em cavernas perto do Mar Morto.</p><p>Algum dia eles esperavam deslocar os saduceus em Jerusa-</p><p>lém e operar o templo. Usando a estratégia oposta, os rebel-</p><p>des patriotas tentavam derrubar os romanos através de mo-</p><p>vimentos de protesto e violência. Os saduceus diplomáticos</p><p>comprometiam-se, trabalhando de mãos dadas com os ro-</p><p>manos para manter o status quo por ganhos financeiros. Em</p><p>muitos aspectos, os saduceus eram conservadores políticos,</p><p>econômicos e religiosos. Os fariseus, entretanto, trabalha-</p><p>vam seriamente na agenda judaica de santidade. Viviam em</p><p>tensão criativa. Tentavam encontrar um delicado equilíbrio</p><p>entre retirar-se, revoltar-se e comprometer-se. Em meio ao</p><p>tumulto, eles se apegavam obstinadamente à visão de uma</p><p>nação santa e sacerdotal.</p><p>J esus Irreverente</p><p>A irreverência de Jesus é uma questão fascinante. Por que</p><p>Ele deplorava o ritual religioso? Por que Ele desprezou a</p><p>lei civil? Ele quebrou as regras da piedade trabalhando no</p><p>sábado, desconsiderou a limpeza ritual, associando-se com</p><p>208</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>pessoas de má reputação e purgando o templo. Explorare-</p><p>mos o significado desses quatro atos provocadores e então</p><p>resumiremos a crítica verbal de Jesus aos fariseus5.</p><p>A violação de Jesus às normas do sábado foi muito ir-</p><p>ritante. Claro que Ele sabia disso muito bem! O descanso</p><p>sabático foi um dos Dez Mandamentos. Um símbolo de res-</p><p>peito e adoração a Deus era uma característica distintiva da</p><p>fé hebraica. Ele separou os hebreus. Os judeus preservaram</p><p>cuidadosamente o dia do culto sagrado. A transgressão à lei</p><p>do sábado era um assunto sério - os infratores recebiam a</p><p>pena de morte. Aqueles que quebraram uma ordenança do</p><p>sábado após receber uma advertência eram apedrejados. Je-</p><p>sus destruiu algumas das tradições humanas incrustando o</p><p>sábado, mas não destruiu o princípio do sábado. De fato, ele</p><p>o confirmou6.</p><p>Todos os quatro Evangelhos relatam o desvio do sábado</p><p>por Jesus. Mateus e Marcos registram duas violações: colhei-</p><p>ta de grãos e cura (Mt 12: 1-14; Mc 2:23-3: 6). Lucas ob-</p><p>serva quatro polêmicas (Lc 6:1-11; 13:10-17; 14:1-6). João</p><p>(5:2-18) relata uma cura do sábado. Mateus, Marcos e Lucas</p><p>mostram uma sequência de cinco passos em incidentes de</p><p>cura e de colheita.</p><p>Primeiro, Jesus defende seus discípulos por colher grãos</p><p>no sábado. A ofensa não é roubar. Viajantes e os pobres eram</p><p>autorizados a servir-se dos grãos de pé em pé no campo.</p><p>Provavelmente houve diversas infrações nesse sentido. Je-</p><p>sus e seus discípulos provavelmente haviam andado muito</p><p>no sábado em violação de limites estritos. Eles estavam tra-</p><p>balhando (colhendo grãos) e talvez não comendo a refeição</p><p>ritual apropriada no sábado. Eles estavam “debulhando” o</p><p>grão em suas mãos e não preparando uma refeição “pura”de</p><p>sábado. Todos esses atos violavam os estritos regulamentos</p><p>do sábado.</p><p>209</p><p>DONALD B.KFAYBILL</p><p>Segundo, os fariseus discutem a violação com Jesus e ad-</p><p>vertem-no a seguir a lei — as tradições religiosas.</p><p>Terceiro, eles O colocavam sob vigilância (Mc 3:2) para</p><p>ver se eles podiam pegá-lo em uma segunda ofensa punível</p><p>com a morte.</p><p>Quarto, mesmo depois de uma advertência, Ele profa-</p><p>na o sábado de novo, desta vez curando. A tensão aumenta.</p><p>Marcos diz: “Irado, olhou para os que estavam à sua volta e,</p><p>profundamente entristecido por causa do coração endurecí-</p><p>do deles” (Mc 3: 5).</p><p>No quinto e último passo, os fariseus fazem planos para</p><p>destruí-lo. Jesus de repente se retira da área, aparentemente</p><p>fugindo para preservar sua vida.</p><p>Por que Jesus é tão ousado? Por que continua com esse</p><p>comportamento desrespeitoso? Por que brincar com a mor-</p><p>te? Por que Ele ataca a tradição oral, arriscando sua própria</p><p>vida? O doente esteve doente há muitos anos. Por que não</p><p>esperar educadamente mais um dia até que o sábado passe?</p><p>Jesus conhece bem as penalidades da lei. Apesar de um se-</p><p>gundo aviso, ele continua a curar. Por quê?</p><p>Jesus atingiu o coração da tradição oral. Embora os Dez</p><p>Mandamentos proibissem o trabalho do Sábado, a lei oral</p><p>englobava um sistema meticuloso de regras para a obser-</p><p>vância do sábado. Na forma escrita, a Mishnd contém 240</p><p>parágrafos sobre o comportamento do sábado. Um parágrafo</p><p>enumera trinta e nove tipos de trabalho proibido: semear,</p><p>arar, assar, girar, amarrar um nó, escrever ou apagar duas</p><p>letras do alfabeto, apagar um fogo, acender um fogo, golpear</p><p>com um martelo, e assim por diante7.</p><p>Muitos parágrafos discutem as proibições em detalhes.</p><p>Por exemplo, aqueles que guiavam camelos e marinheiros</p><p>não podiam amarrar nós no sábado. Mas os nós para redes de</p><p>210</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>cabelo, sandálias e cintos eram permitidos. Os nós, abertos</p><p>com uma mão, eram permitidos desde que não fossem con-</p><p>siderados nós. Era tão errado desatar um nó quanto amarrar</p><p>um. O território era dividido em quatro tipos de espaço: pú-</p><p>blico, privado, neutro e livre. As regras do sábado determi-</p><p>navam o material que podería ser movido de uma área para</p><p>outra. Uma pessoa movendo qualquer coisa de um espaço</p><p>privado para um espaço público ou vice-versa era culpada de</p><p>uma infração do sábado.</p><p>Dispositivos engenhosos foram criados para ignorar a le-</p><p>gislação do sábado. A lei ditava que as pessoas não podiam</p><p>andar mais de 900 metros no sábado. No entanto, para con-</p><p>tornar isso, eles poderíam “estabelecer residência” no final</p><p>da caminhada do seu dia de sábado, um dia antes. Eles es-</p><p>tabeleciam a residência levando duas refeições a um lugar</p><p>que ficasse a 900 metros de sua casa. No dia de sábado, as</p><p>pessoas podiam percorrer os 900 metros de sua casa perma-</p><p>nente para a sua “residência recém-criada” e depois andar</p><p>900 metros adicionais. Esse desvio legal</p><p>vendedores de uma loja. Um fato central e</p><p>persistente da vida social é a hierarquia - classificar as pessoas</p><p>em escalas sociais. Nós não jogamos esse “jogo” da interação</p><p>social a esse nível. A imagem de ponta-cabeça nos lembra des-</p><p>sa dimensão vertical da vida social.</p><p>Esquecemos de perguntar por que as coisas são como são. O ró-</p><p>tulo “de ponta-cabeça” nos encoraja a questionar o modo</p><p>como as coisas são. As crianças aprendem rapidamente valo-</p><p>res culturais comuns e a aceitá-los como se não fossem nada</p><p>demais. Elas aprendem que o cereal é “correto” no café da</p><p>manhã nos Estados Unidos. Socialização - aprender as for-</p><p>mas da nossa cultura - molda os pressupostos pelos quais</p><p>vivemos. Achamos que nossa vida não é nada demais. Pre-</p><p>sumimos que as coisas são como deveríam ser. Comer cere-</p><p>al no café da manhã, dia após dia, faz com que isso pareça</p><p>inquestionavelmente correto. Internalizamos os valores e</p><p>normas exibidos na tela e no mural simplesmente como “o</p><p>jeito que a vida é”. Se nosso sistema econômico estabelece</p><p>22</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>o salário mínimo, aceitamos como justo sem pensar duas</p><p>vezes. Se alguém invade nossa propriedade, nós alegremente</p><p>o processamos. Afinal, “é isso que a lei prevê”. Cobramos</p><p>uma comissão de oito por cento em uma transação de venda</p><p>porque “é assim que é”.</p><p>Os valores e as normas da nossa sociedade se tornam tão</p><p>profundamente enraizados em nossas mentes que é difícil</p><p>imaginar alternativas. Ao longo dos Evangelhos, Jesus apre-</p><p>senta o reino como uma nova ordem que rompe e derruba as</p><p>formas antigas, os valores antigos, os pressupostos antigos. Se</p><p>existe algo que o reino de Deus faz, é quebrar os pressupostos</p><p>que governam nossas vidas. Como cidadãos do reino não po-</p><p>demos presumir que as coisas estão certas só porque “é assim</p><p>que elas são”. A perspectiva de ponta-cabeça enfoca nos pon-</p><p>tos de diferença entre o reino de Deus e o reino desse mundo.</p><p>0 reino está cheio de surpresas. Vez após vez em parábolas,</p><p>sermões e atos Jesus nos espanta. As coisas nos Evangelhos</p><p>geralmente estão de ponta-cabeça. Os bonzinhos acabam</p><p>sendo vilões. Aqueles que esperamos que sejam recompen-</p><p>sados são corrigidos. Aqueles que pensam que estão a cami-</p><p>nho do céu acabam no inferno. As coisas estão invertidas.</p><p>Paradoxo, ironia e surpresas permeiam os ensinamentos de</p><p>Jesus. Eles invertem nossas expectativas e as deixam de pon-</p><p>ta-cabeça. Os menores são os maiores. Os imorais recebem</p><p>perdão e benção. Adultos se tornam crianças. Os religiosos</p><p>perdem o banquete celestial. Os piedosos são amaldiçoados</p><p>— quebrando nossos pressupostos. As coisas não são do jei-</p><p>to que esperamos que sejam. Ficamos confusos e perplexos.</p><p>Admirados, damos um passo atrás. Será que deveriamos rir</p><p>ou chorar? Vez após vez, virando nossas expectativas de ca-</p><p>beça para baixo, o reino nos surpreende.</p><p>23</p><p>DONALD 6. KRAYBILL</p><p>Desvios em torno de J esus</p><p>É possível retroceder no tempo e captar o significado do</p><p>reino? Somos capazes de colocar uma ponte sobre o abis-</p><p>mo que separa nosso mundo do mundo bíblico? Séculos</p><p>de água correram entre as falésias que se erguem em cada</p><p>lado do abismo. Duas questões em particular dificultam a</p><p>construção de uma ponte entre o nosso mundo e o antigo</p><p>mundo palestino.</p><p>Primeiro, podemos realmente vislumbrar a missão e a</p><p>mensagem de Jesus da distância desse ponto em que nos</p><p>encontramos? Essa questão centra-se na evidência histórica e</p><p>na diferença cultural. Nós temos informação confiável o bas-</p><p>tante para pintar um quadro preciso do que Jesus disse e fez?</p><p>Os líderes da igreja ao longo dos séculos têm criado muitas</p><p>de nossas impressões de Jesus. Na verdade, a igreja tem se</p><p>concentrado nos significados teológicos da doutrina de Cris-</p><p>to e não nos ensinamentos éticos de Jesus, o profeta. É pos-</p><p>sível voltarmos na história e resgatar a mensagem de Jesus?</p><p>Porém, mesmo se pudermos atravessar os mundos culturais</p><p>e reunir evidências o bastante para entender do que Jesus</p><p>estava falando, isso faz alguma diferença? Essa, em suma,</p><p>é a segunda pergunta. Jesus tem alguma coisa a nos dizer</p><p>hoje - alguma coisa é relevante para o que devemos viver</p><p>em nosso mundo? Ou será que as grandes diferenças entre</p><p>os nossos dois mundos tornam Jesus irrelevante? Simples à</p><p>primeira vista, essas questões espinhosas enfatizam o abismo</p><p>entre nosso mundo e o mundo palestino de Jesus.</p><p>Ao longo deste livro, em meio à consciência das com-</p><p>plexidades intrínsecas a serem debatidas pelos estudiosos,</p><p>eu defendo “sim” para ambas as perguntas. Sim, sabemos o</p><p>suficiente sobre quem era Jesus e o que Ele disse para des-</p><p>vendar os mistérios do reino. Além disso, à medida que des­</p><p>24</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>vendamos o contexto cultural de Sua vida, o significado do</p><p>reino de ponta-cabeça entra em foco. Sim, Jesus tem muito a</p><p>dizer a nós hoje, não apenas sobre nossas questões espirituais</p><p>particulares, mas sobre como devemos viver coletivamente.</p><p>Jesus, em outras palavras, é relevante. Sua mensagem e Sua</p><p>vida falam às nossas definições de forma poderosa hoje.</p><p>No entanto, podemos não querer ouvir o que Jesus tem</p><p>a dizer. Podemos achar suas palavras desconfortáveis. Suas</p><p>parábolas podem parecer bastante interessantes no início,</p><p>mas também podem nos incomodar à medida que se apro-</p><p>fundam em nossa mente. Infelizes com o que ouvimos, po-</p><p>demos procurar desvios em torno de Jesus, desvios que nos</p><p>permitam contornar 0 centro de Sua mensagem. Pelo menos</p><p>cinco desvios tentadores tornam possível que evitemos Je-</p><p>sus. Ao longo dos séculos, muitas pessoas têm usado essas</p><p>alegações para desviar a mensagem do reino, descartando a</p><p>sua relevância para suas vidas.</p><p>Desvio um: J esus está perdido na história</p><p>Não podemos ouvir Jesus se não pudermos encontrá-lo.</p><p>Um dos desafios do estudo do Novo Testamento envolve</p><p>classificar as muitas camadas de texto - camadas de his-</p><p>tórias sobre Jesus e Sua mensagem. Camadas de evidência</p><p>arqueológica sobre barcos, potes e outros artefatos aguçam</p><p>nosso entendimento do contexto cultural. A classificação</p><p>através das camadas paralelas da terra e os textos nos aju-</p><p>dam a descobrir Jesus. Existem várias razões para todas</p><p>as camadas. Os escritores dos evangelhos escreveram suas</p><p>histórias mais de quarenta anos após a morte de Jesus. Eles</p><p>usaram suas histórias transmitidas oralmente, assim como</p><p>fragmentos escritos sobre Jesus que estavam circulando.</p><p>Além disso, Mateus, Marcos, Lucas e João escreveram dife-</p><p>25</p><p>DONALD B. KRAYBI1X</p><p>rentes Evangelhos direcionados a diferentes públicos. Cada</p><p>escritor coloca seu próprio estilo na história para enfatizar</p><p>um ponto específico. Às vezes suas histórias batem; outras</p><p>vezes não. Além disso, nem sempre fica claro se alguns pro-</p><p>vérbios vêm de Jesus, dos escritores ou das memórias pro-</p><p>fessadas pela igreja primitiva que na época dizia ter visto</p><p>Jesus como seu Salvador ressurreto.</p><p>Essas questões têm estimulado muitas pesquisas em do-</p><p>cumentos antigos em busca do Jesus da Galileia “real”. No</p><p>final, temos nas palavras de um estudioso, um Jesus com</p><p>muitos rostos7. O Jesus de Mateus parece um pouco dife-</p><p>rente daquele de Lucas, e assim por diante. Apesar de seus</p><p>muitos rostos, temos firmes evidências de que Jesus era um</p><p>profeta judeu que viveu na Palestina e foi crucificado. Além</p><p>disso, a maioria dos estudiosos concorda que Ele pregava as</p><p>boas notícias do reino de Deus. Ele recebia os desprezados,</p><p>comia com pecadores. Pregava amor aos inimigos, criticava</p><p>as práticas religiosas dominantes e era uma ameaça tão gran-</p><p>de para os líderes judeus e para os governantes romanos que</p><p>foi torturado na cruz, sangrando até a morte.</p><p>Mesmo que não possamos verificar cada história atribuí-</p><p>da a Ele ou saber 0 exato texto de cada frase que Ele proferiu,</p><p>temos evidências abundantes e confiáveis dos temas chave</p><p>de Sua mensagem. Apesar de Suas diferentes expressões,</p><p>podemos identificar as linhas gerais do Seu rosto. Existem,</p><p>naturalmente, muitas coisas que não sabemos sobre Jesus e</p><p>provavelmente</p><p>dobrava a duração</p><p>das viagens do Dia do Senhor9.</p><p>O Sábado, com seu complicado ritual, era um símbolo</p><p>central da fidelidade religiosa e da identidade tribal. Aque-</p><p>les que seguiam as receitas do sábado eram justos; os que</p><p>não o faziam, eram perversos. Os líderes religiosos tinham o</p><p>poder de definir e fazer cumprir a prática do sábado. Ao vio-</p><p>lar o sábado, Jesus desconsiderou a autoridade dos líderes</p><p>religiosos, especialmente os fariseus.</p><p>Jesus explicou seu comportamento com estas palavras:</p><p>“O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por</p><p>causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor</p><p>até mesmo do sábado” (Mc2:27-28, Mt 12:8, Lc 6:5). O</p><p>ponto é simples, mas profundo. Este ato de desobediência</p><p>civil não foi projetado para destruir o sábado, mas para es-</p><p>211</p><p>DONALD B.KRAYBILL</p><p>clarecer o seu propósito e mostrar quem o controlava. O sá-</p><p>bado foi projetado para servir às pessoas - para nos revigorar</p><p>depois de seis dias de suor. Destinava-se a atender às nossas</p><p>necessidades físicas, emocionais e psicológicas. O sábado de-</p><p>veria ser servo, não mestre.</p><p>Ao longo dos anos, este princípio virou de ponta-cabeça. À</p><p>medida que a lei oral se acumulava, o sábado também crescia.</p><p>Logo se tornou um mestre; escravizou as pessoas. Elas não</p><p>mais o governavam. O Sábado tinha parado de servi-las. As</p><p>pessoas cumpriam obedientemente centenas de regulamen-</p><p>tos. Em vez de descanso, ele fazia com que tivessem coisas</p><p>novas para se preocupar. Em vez de dar boas-vindas ao sábado,</p><p>as pessoas esperavam pelos dias de trabalho, que as libertava</p><p>dos fardos do sábado. Essa prática religiosa, uma vez tão nobre</p><p>em intenção e propósito, se tornara opressora.</p><p>Então veio Jesus, alegando que Ele era Senhor do sábado,</p><p>dizendo que Ele reinava sobre o ritual religioso e tradição.</p><p>Ele se recusou a se curvar e adorá-los. Ele chamou os escravos</p><p>dos costumes a servir a Deus e somente a Deus. As pesso-</p><p>as não se atrevem, disse Ele, a colocar o costume antes de</p><p>alimentar e curar as pessoas. Jesus coloca repetidamente a</p><p>necessidade humana acima do dogma religioso. Ele observa</p><p>ironicamente que os fariseus cuidam melhor dos animais do</p><p>que das pessoas. Eles puxariam um boi de uma cova no sába-</p><p>do, mas proibiam um médico de tocar numa pessoa doente.</p><p>Para os fariseus, a religião se tornara um ritual vazio. Jesus</p><p>virou a religião de ponta-cabeça mostrando que a verdadeira</p><p>adoração honra a Deus e serve os outros.</p><p>212</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Mãos sujas</p><p>É difícil compreendermos a piedosa paranoia do judeu</p><p>sobre impureza. Os seres humanos traçam linhas para</p><p>separar as coisas sagradas das coisas cotidianas. Dizemos que</p><p>a vida humana é sagrada para nos separarmos dos animais.</p><p>Vemos a oração como uma atividade sagrada, bem separa-</p><p>da de jogar videogames. As sociedades ao redor do mundo</p><p>traçam linhas entre o sagrado e o profano. Esses mapas cul-</p><p>turais classificam pessoas, lugares, coisas e tempo em caixas</p><p>sagradas e profanas. Comer pão em um culto de Santa Ceia</p><p>é uma atividade sagrada em um lugar sagrado em um tem-</p><p>po sagrado. Cada aspecto de comer pizza em uma praça de</p><p>alimentação em um shopping é absolutamente cotidiana- o</p><p>que os estudiosos chamam de profano.</p><p>Não apenas traçamos linhas entre o sagrado e profano, fica-</p><p>mos muito perturbados se fatias de pizza aparecerem em uma</p><p>bandeja da ceia. Regras de pureza e poluição nos ajudam a ga-</p><p>rantir que a sujeira cultural não contamine os lugares limpos.</p><p>As regras relativas à limpeza cultural se aplicam a pessoas, lu-</p><p>gares, coisas e épocas. Nós, por exemplo, não queremos que os</p><p>mendigos desabrigados apareçam em recepções de casamento.</p><p>Como outras sociedades humanas, 0 sistema de pureza de Is-</p><p>rael tinha um lugar para tudo e cada pessoa - com punições se</p><p>coisas sujas ou pessoas sujas caíam em lugares limpos.</p><p>Para adorar a Deus, para até mesmo se aproximar de Deus,</p><p>era preciso estar absolutamente limpo. Tocar a coisa errada,</p><p>conversar com uma pessoa suja ou sentar-se em um banco po-</p><p>luído contaminaria 0 corpo e ultrajaria Deus. As regras e ritos</p><p>que ajudavam a preservar a pureza não eram brechas humanas</p><p>mesquinhas. Aos olhos dos fiéis, elas vinham diretamente do</p><p>Deus Todo-Poderoso, que exigia absoluta e completa pure-</p><p>za, um Deus ultrajado por máculas e manchas.</p><p>213</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Refletindo essas preocupações de pureza, a lei dividia ob-</p><p>jetos, pessoas, lugares e animais em duas categorias - lim-</p><p>pos e impuros. Camelos, texugos, suínos, abutres, águias e</p><p>insetos alados, para citar apenas alguns, eram considerados</p><p>impLiros. Cemitérios eram um tabu. O contato com uma</p><p>pessoa ou animal contaminado poluía um objeto limpo. A</p><p>Mishná dedicava 185 páginas a leis de impureza e pureza. A</p><p>limpeza cerimonial antes de cada refeição marcava os fari-</p><p>seus conscientes. Eles higienizavam-se sem falhas, na espe-</p><p>rança de engendrar uma nação de sacerdotes purificados10.</p><p>Esta nobre visão dirigiu sua obsessão com pureza.</p><p>Jesus irritou os fariseus ao ignorar a limpeza cerimonial.</p><p>Mateus (15:1-20) e Marcos (7:1 -23) fazem relatos semelhan-</p><p>tes. Fariseus e escribas de Jerusalém caminharam quase 100</p><p>quilômetros ao norte da Galileia para questionar Jesus so-</p><p>bre este assunto. Lucas (11:37-38) observa que o fariseu que</p><p>hospedou Jesus para uma refeição estava surpreso que Ele</p><p>comeu sem se lavar. Os fariseus ressaltavam a importância</p><p>de comer com as pessoas certas — aqueles que obedeciam</p><p>às leis de pureza. Eles também mantinham a tradição dos</p><p>anciãos que precisavam lavar as mãos antes de comer. O la-</p><p>var purificava qualquer “sujeira” religiosa acidentalmente</p><p>adquirida durante o dia.</p><p>Por que os fariseus se perguntavam, Jesus negligenciou a</p><p>limpeza purificadora? Jesus respondeu.</p><p>“Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se ape-</p><p>gam às tradições dos homens”.</p><p>E disse-lhes: “Vocês estão sempre encontrando uma boa</p><p>maneira de pôr de lado os mandamentos de Deus, a fim de</p><p>obedecerem às suas tradições! ” (Mc 7:8-9)■ Citando Isaí-</p><p>as, o profeta, disse-lhes que adoravam com lábios, mas não</p><p>com coração. Eles ensinavam idéias humanas como se fos­</p><p>214</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>sem doutrina divina. Em suma, os fariseus elevavam a tra-</p><p>dição oral ao status divino. Eles não apenas serviam, mas</p><p>adoravam a tradição oral. Eles deram-lhe precedência sobre</p><p>a Palavra de Deus e até a usavam como desculpa para deso-</p><p>bedecer à vontade de Deus.</p><p>Um voto religioso chamado corbã ilustra como mesmo</p><p>coisas boas foram pervertidas (Mc 7:10-13). Por meio do</p><p>voto corbã, os fariseus incentivavam filhos adultos a consa-</p><p>grar sua propriedade ao templo em vez de usá-la para dar</p><p>suporte a seus pais idosos. Depois que a propriedade era de-</p><p>dicada ao templo, ela não podería mais ser usada para dar</p><p>suporte a seus pais idosos. Cortar o apoio financeiro com-</p><p>prometia o bem-estar dos idosos. Jesus condenou o voto cor-</p><p>bã que promovia a piedade à custa do sofrimento humano.</p><p>Palavras e tradições humanas substituíam a lei suprema do</p><p>amor ao próximo. O sistema religioso que operava em nome</p><p>de Deus, ironicamente, obscurecia a lei de amor de Deus.</p><p>Jesus criticou duramente as leis de pureza quando disse</p><p>que a corrupção resulta das coisas que saem da boca, e não</p><p>daqueles que entram. Palavras de fofoca, engano, falso teste-</p><p>munho e calúnia contaminam a pessoa e não o alimento (Mt</p><p>15:18-20; Mc 7:20-23). Em poucas palavras, Jesus aboliu</p><p>os aspectos da tradição oral que bloqueavam o caminho para</p><p>a verdadeira santidade. A limpeza perfeita, Ele disse, vem</p><p>quando os atos de caridade fluem do coração (Lc 11:41).</p><p>A migos sujos</p><p>Um terceiro aspecto do comportamento de Jesus, que ir-</p><p>ritava os fariseus, era sua comunhão com pessoas impuras.</p><p>Os cobradores de impostos e os pecadores que ridiculariza-</p><p>vam as regras de pureza eram considerados imundos. Os pe-</p><p>cadores, ou seja, os “ímpios”, cuspiam abertamente nas leis</p><p>215</p><p>DONALD B.KRAYBILI</p><p>d a p u re z a e e ra m c o n s id e ra d o s a lé m d o a lca n ce d a re d e n ç ã o</p><p>d e D e u s . O s fa riseu s , é c la ro , os e v ita v a m . J e s u s n ão e x c lu iu</p><p>n in g u é m . E le c o n v id o u os p e c a d o re s p a ra as re fe ições (Lc 15:</p><p>2 ) e ju n to u - s e a suas festas (M c 2 :1 5 e M t 9 :1 0 ) . I s to e n fu -</p><p>rec ia os fa riseu s , q u e O r id ic u la r iz a v a m , d iz e n d o : “A í e s tá</p><p>u m c o m ilã o e b e b e rrã o , a m ig o d e p u b lic a n o s e p e c a d o re s”</p><p>(M t 1 1 :1 9 ; Lc 7 :3 4 ) . A lg u n s e s tu d io so s a f irm a m q u e o fa to</p><p>d e J e s u s se s e n ta r e t e r c o m u n h ã o à m e sa c o m p e c a d o re s e</p><p>m a rg in a liz a d o s e ra a m a rc a d is t in t iv a , q u e o d i s t in g u ia d o s</p><p>o u tro s p ro fe ta s re lig io so s d e seu te m p o .</p><p>N a c u l tu r a p a le s t in a , c o n v id a r a lg u é m p a ra u m a refe ição</p><p>e ra u m s in a l d e h o n ra . C o m p a r t i lh a r u m a re fe ição s in a liz a -</p><p>v a l im i te s d e g r u p o — q u e m e s tav a n o c írc u lo d e a m ig o s e</p><p>q u e m e ra e x c lu íd o . P essoas p e rv e rsa s e im u n d a s n u n c a se-</p><p>r ia m c o n v id a d a s p o r u m fa riseu . A re fe ição s in a liz a v a p az ,</p><p>co n fia n ça , in t im id a d e e p e rd ã o ; c o m p a r t i lh a r a m esa s ig n if i-</p><p>ca c o m p a r t i lh a r a v id a . N a c u l tu r a h e b ra ic a , a c o m u n h ã o d e</p><p>m esa ta m b é m s im b o liz a v a a c o m u n h ã o p e ra n te D e u s . P a r t i r</p><p>o p ã o e m to rn o d e u m a m e sa t ra z ia u m a b ên ç ão in c o rp o ra d a</p><p>a to d o s q u e p a r t ic ip a v a m d a re fe ição . A o c o m e r co m re je i ta -</p><p>d o s so c ia is — os salvos d a ira ju s ta , J e s u s e n c a rn a a c o m p a ix ã o</p><p>d e D e u s p o r to d o s . A lé m d isso , E le s in a liz a su a in c lu sã o e m</p><p>to rn o d a m e sa d e b a n q u e te c e le s tia l. E le , a s s im , os ac o lh e n a</p><p>c o m u n id a d e d a salvação .</p><p>A o ja n ta r co m Z a q u e u e p essoas d o seu t ip o , J e s u s d e -</p><p>safiava as n o rm a s d a e t iq u e ta re lig io sa . S ua m e n s a g e m e ra</p><p>clara : as pessoas e ra m m a is im p o r ta n te s d o q u e re g ra s p ie -</p><p>d osas. N a v e rd a d e , E le d is se q u e v e io p a ra sa lv a r os d o e n te s .</p><p>O s sau d á v e is n ão p re c is a m d e u m m é d ic o (M t 9 :1 2 -1 3 ;M c</p><p>2 :1 7 ) . I ro n ic a m e n te , os l íd e re s “d o e n te s ” q u e p e n sa v a m q u e</p><p>e ra m sau d á v e is re je i ta ra m o M é d ic o . A q u e le s q u e sa b ia m</p><p>q u e e s ta v a m “d o e n te s ” e re c o n h e c ia m a su a n e c e ss id a d e fo-</p><p>ra m c o n v id a d o s p a ra a fe s ta d o M éd ico .</p><p>216</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>As regras da piedade religiosa, muitas vezes, se tornavam</p><p>idólatras e exclusivas. Eles classificavam as pessoas em caixas</p><p>profanas e sagradas, protegendo os “justos” dos estigmati-</p><p>zados. Jesus borrou as linhas finas que separavam o sagrado</p><p>do profano. Ao receber os ímpios na comunhão da mesa, Ele</p><p>deixou claro que o novo reino acolhia a todos, independen-</p><p>temente do pecado passado ou piedade.</p><p>Dedetizando o T emplo</p><p>Desonrar o sábado, zombar das regras da pureza e fazer</p><p>amizade com os pecadores irritava os fariseus, guardiões</p><p>da tradição oral. A provocação final de Jesus criou um</p><p>grupo diferente: os saduceus. Como vimos no capítulo</p><p>três, este partido político operava o complexo do templo</p><p>— o centro do sacrifício e da santidade — em Jerusalém.</p><p>Pouco antes de sua crucificação, Jesus caminhou da Ga-</p><p>lileia rural para o coração sagrado da religião judaica. As</p><p>pistas sobre por que Ele foi executado estavam se tornan-</p><p>do claras. O anúncio de seu novo reino estava desafiando</p><p>os três assentos sagrados da fé judaica — o Sabbath, a pu-</p><p>reza, e agora o próprio templo.</p><p>Os ricos saduceus se beneficiavam da renda gerada pelo</p><p>templo. O desafio de Jesus no templo repreendeu a hierar-</p><p>quia do templo13. O templo era o centro da adoração hebrai-</p><p>ca. Uma coisa era atacar a tradição oral dos fariseus no norte</p><p>da Galileia; outra coisa muito diferente era atacar o centro</p><p>nervoso do poder religioso, político e econômico!</p><p>Os saduceus gozavam de acolhedoras conexões romanas.</p><p>Uma corte de 500-600 soldados romanos estava na forta-</p><p>leza Antônia guardando a área do templo contra qualquer</p><p>tumulto. Jesus tinha deixado os dóceis pastores na Galileia.</p><p>Agora Ele andava pelos corredores de Jerusalém. Mas Ele</p><p>21 7</p><p>DONALD 6. KRAYBILL</p><p>veio montado em um burro —acabando com todas as espe-</p><p>ranças de um Messias militar montado em um garanhão.</p><p>Os quatro Evangelhos relatam seu ato decisivo no tem-</p><p>pio. Totalmente consciente de que os saduceus O acusariam</p><p>de profanação e blasfêmia, Jesus se moveu habilmente. En-</p><p>trou no templo e perseguiu os comerciantes, depois virou as</p><p>mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombos.</p><p>Além disso, Ele impediu que as pessoas carregassem coisas</p><p>através do templo. Explicando sua perturbação dramática,</p><p>Ele perguntou: “Não está escrito:‘A minha casa será chama-</p><p>da casa de oração para todos os povos’? Mas vocês fizeram</p><p>dela um ‘covil de ladrões’.”(Mc 11:15-17).</p><p>Os cambistas estavam na área comercial nas cortes gentis</p><p>exteriores do templo14. Ali eles trocavam moedas comuns</p><p>pelas “puras” necessárias para as ofertas do templo. Criado-</p><p>res de animais vendiam ovelhas e cabras para sacrifícios aos</p><p>peregrinos. O pátio externo, um lugar de culto, havia se</p><p>transformado em um lucrativo mercado de gado e câmbio.</p><p>Mesas entulhavam a área. O cheiro de esterco animal pairava</p><p>no ar. Oração não era o que o ambiente inspirava.</p><p>Não sabemos se Jesus simplesmente perseguiu alguns</p><p>vendedores ou se Ele purgou completamente a área. Uma</p><p>grande perturbação certamente teria atraído a corte romana,</p><p>causando sua p risão imediata. Independentemente do</p><p>alcance da purga, aos olhos dos líderes religiosos, Seu ato</p><p>era uma profanação ultrajante nas sagradas cortes de Deus.</p><p>A ação de Jesus fez mais, porém, do que abrir o pátio para</p><p>que os gentios pudessem orar15. Ela fez mais do que reorien-</p><p>tar as atividades do templo no Santo dos Santos. Fechou 0</p><p>templo. Parando o fluxo de vasos e animais, Jesus fechou o</p><p>templo poderoso - pelo menos por alguns momentos. Sem</p><p>os animais comprados dos comerciantes, sem moedas puras</p><p>218</p><p>D REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>para as ofertas, sem o tráfego através do pátio, o sistema de</p><p>sacrifício chegou a uma barulhenta parada.</p><p>Os estudiosos se dividem quanto ao significado exato do</p><p>ato público de desafio de Jesus no lugar da santidade. Talvez</p><p>Ele estivesse tentando reformar as práticas econômicas co-</p><p>bradas dos camponeses pobres quando traziam suas ofertas.</p><p>Ou Ele era um profeta como Jeremias de antigamente, usan-</p><p>do atos simbólicos para sinalizar a destruição do templo pe-</p><p>las mãos romanas ou a intervenção de Deus? Ou talvez sua</p><p>parada simbólica apontasse para o fim do sacrifício em Seu</p><p>novo reino. Seu desafio às restrições e exclusões do templo</p><p>abria uma nova era quando todos os povos, judeus e gentios,</p><p>limpos e impuros, podiam adorar a Deus sem a mancha de</p><p>sangue ou o cheiro de sacrifício?</p><p>Independentemente das camadas de significado, temos</p><p>aqui o Profeta, cheio de rico simbolismo, atingindo o centro</p><p>nervoso da religião judaica. Em um ato decisivo, Ele fecha o</p><p>templo16. Esse ato flagrante custou a Jesus sua própria vida.</p><p>Marcos coloca a purga do templo entre dois episódios de</p><p>maldição sobre uma figueira (Mc 11:12-14; 20-26). Antes</p><p>de entrar em Jerusalém para o ato dramático, Jesus viu uma</p><p>figueira. Ele estava com fome e procurou por figos. Encon-</p><p>trando a árvore vazia, Ele a amaldiçoou. No dia seguinte ao</p><p>episódio do templo, as raízes da árvore haviam secado. A</p><p>figueira representa o templo, o centro da adoração judaica.</p><p>Como a maldição arruinou as raízes da árvore, assim a</p><p>puri-</p><p>ficação profética fazia secar as funções do templo.</p><p>O movimento ousado de Jesus abriu simbolicamente o</p><p>templo mais uma vez para os gentios e sinalizou que o novo</p><p>reino acolhia a todos - independentemente de raça ou na-</p><p>cionalidade. Jesus está apontando para uma nova era, um</p><p>tempo em que uma nova oferta será feita: um corpo. Um</p><p>219</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>sacrifício permanente será oferecido. Cada coração se tornará</p><p>um vaso onde o Espírito Santo será derramado. Este é um</p><p>movimento ousado. Mas o Profeta não tem medo diante dos</p><p>soldados romanos e da autoridade dos saduceus. Ele age de-</p><p>finitivamente; atingindo o sistema que oprimia os pobres,</p><p>evitava os estigmatizados e afastava as pessoas de Deus com</p><p>regras piedosas.</p><p>Jesus não é apenas Senhor do sábado e Senhor da tradi-</p><p>ção oral; Ele também é Senhor do templo. Ele termina seu</p><p>ritual de sacrifício em preparação para o novo reino. Jesus</p><p>finalmente responde à provocação do tentador. Ele vem ao</p><p>templo! Não caindo de um paraquedas milagrosamente,</p><p>mas como Senhor de suas funções. O próprio Jesus estava</p><p>realizando a função do templo - oferecendo perdão a todos</p><p>os que queriam ouvir, sem trazer uma oferta de sangue ao</p><p>altar. Suas palavras de perdão aos pecadores, fora do pátio</p><p>do templo, já a haviam se tornado obsoletas. Em um único</p><p>momento dramático Ele critica a religião humana e aponta</p><p>para uma nova era.</p><p>A purga do templo teve consequências arrebatadoras. Vi-</p><p>rar algumas mesas em um em um beco já teria sido ruim o su-</p><p>ficiente. Porém dentro dos tribunais sagrados, virar as mesas</p><p>parecia um ataque deliberado contra os saduceus. Jesus estava</p><p>desafiando corajosamente a autoridade das famílias sacerdo-</p><p>tais que dirigiam o templo para lucrar. O Sinédrio - aquele</p><p>poderoso tribunal supremo judeu — reunia-se a poucos quar-</p><p>teirões dali. Na Galileia rural, um pouco de blasfêmia e um</p><p>pouco de ultraje ao sábado podem escapar, mas não aqui. Não</p><p>no templo sagrado, nem pelas portas do poderoso Sinédrio,</p><p>muito menos bem debaixo do nariz do sumo sacerdote. Os</p><p>guardiões da piedade não podem permitir tal irreverência.</p><p>No Evangelho de Marcos, o plano de matar Jesus agora se</p><p>acende mais abertamente do que em qualquer outro momen­</p><p>220</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA</p><p>to desde os confrontos sobre 0 sábado na Galileia. Jesus solidi-</p><p>ficou o ódio dos principais sacerdotes e escribas. Eles não têm</p><p>escolha. Eles devem destruí-lo. Jerusalém, o lugar da vida e da</p><p>adoração, torna-se o palco da morte e da vingança.</p><p>Dado 0 perigo do antissemitismo e o fato de que Jesus era</p><p>um profeta judeu dentro do judaísmo, precisamos ressaltar</p><p>que as coisas que Jesus critica são afinal a religião humana, não</p><p>a religião judaica. Jesus desafia as práticas do sábado e a ope-</p><p>ração do templo, não porque sejam judeus, mas porque com</p><p>o passar do tempo eles perverteram a verdadeira adoração. A</p><p>tendência de que o ritual religioso se torne fechado e exclu-</p><p>dente é antiga e mundial. Se Jesus voltasse em carne hoje, en-</p><p>contraria muitas mesas para derrubar em templos cristãos.</p><p>P iedade pomposa</p><p>Se a irreverência não bastasse, Jesus repreendeu os líderes</p><p>religiosos com uma leva de acusações e parábolas. Muitas</p><p>de suas histórias farpadas irritavam autoridades piedosas,</p><p>mas alguns aceitavam ou pelo menos fizeram amizade com</p><p>ele. Alguns fariseus amáveis advertiram a Jesus que Herodes</p><p>Antipas queria matá-lo (Lc 13:31). O fariseu Simão entrete-</p><p>ve Jesus em sua casa (Lc 7:36). Nicodemos, um fariseu que</p><p>talvez se sentasse no Sinédrio, conversou calorosamente com</p><p>Jesus numa noite (Jo 3: 1). No entanto, os Evangelhos sinó-</p><p>ticos mostram Jesus em conflito com os fariseus. Os escri-</p><p>tores dos Evangelhos, refletindo tensões na igreja primitiva,</p><p>podem ter enfatizado demais o conflito17.</p><p>A glória social dos fariseus estava na raiz da crítica mor-</p><p>daz de Jesus. Eles ofereciam seus sacrifícios no altar do sta-</p><p>tus social. As exigências de Deus pouco importavam. O que</p><p>contava era como sua piedade aparecia aos outros. Suas ora-</p><p>ções, jejuns e dízimos aumentariam seu status aos olhos de</p><p>221</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>seus companheiros? Embora Ele não mencione os fariseus</p><p>especificamente em Mateus (6:1), Jesus desmascara seu cia-</p><p>mor por aplausos sociais. “Tenham o cuidado de não praticar</p><p>suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos</p><p>por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recom-</p><p>pensa do Pai celestial.”.</p><p>Dois tipos de piedade pública eram particularmente irri-</p><p>tantes. Trombetas eram soadas nas ruas e sinagogas quando</p><p>os líderes religiosos davam um dízimo para “ser louvado pe-</p><p>los homens”. Além disso, os líderes disputavam os melhores</p><p>lugares na sinagoga e usavam trajes ostentosos. Eles costu-</p><p>ravam longas franjas em suas vestes e queriam lugares de</p><p>honra em festas. Eles preferiam saudações dignas nas ruas</p><p>(Mt 23:5-7, Lc 11:43; 20:46). Ambos, Marcos (12:40) e Lu-</p><p>cas (20:47), dizem que os escribas faziam longas orações por</p><p>causa da exibição social. Os líderes faziam todas essas coisas,</p><p>diz Mateus (23: 5), para uma audiência social, “ser visto pe-</p><p>los outros”. Lucas chama-os amantes do dinheiro que se jus-</p><p>tificam diante dos outros (Lc 16:14-15). Tal religiosidade,</p><p>orientada pelos aplausos dos outros, é uma abominação aos</p><p>olhos de Deus, de acordo com Lucas.</p><p>João (12:42-43) observa que algumas das autoridades</p><p>que acreditavam em Jesus tinham medo de admiti-lo porque</p><p>“amaram a glória humana mais do que a glória que vem de</p><p>Deus”. No Evangelho de Mateus, Jesus coloca os escribas e</p><p>fariseus juntos em uma crítica feroz 18. São como copos sujos,</p><p>que parecem limpos no exterior e como túmulos polidos,</p><p>que fedem por dentro. “Assim são vocês: por fora parecem</p><p>justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e</p><p>maldade” (Mt 23:28).</p><p>Nos três evangelhos sinóticos, Jesus adverte os seus disci-</p><p>pulos para que tomem cuidado com o fermento dos fariseus</p><p>(Mt 1 6:11-12, Mc 8:15 e Lc 12: 1). Lucas chama sua hi-</p><p>222</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>pocrisia de fermento canceroso. Embora muitas vezes asso-</p><p>ciemos a palavra hipocrisia aos fariseus, a questão, como um</p><p>estudioso assinala, não era na verdade hipocrisia. Os fariseus</p><p>eram realmente sinceros e devotos. A questão era sobre o que</p><p>eram sinceros19.</p><p>O ataque verbal aos fariseus continua. Eles falam, mas</p><p>não andam, pregam, mas não praticam, teologizam, mas</p><p>não obedecem. Consumidos com os detalhes de limpeza de</p><p>vasos, eles esquecem a agonia dos doentes e pobres. Em um</p><p>comentário satírico, Jesus aconselhou a multidão a “Obede-</p><p>çam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam</p><p>o que eles fazem, pois não praticam o que pregam”(Mt 23:3,</p><p>ênfase adicionada).</p><p>Outra vez, depois que os anciãos questionaram a autori-</p><p>dade de Jesus, Ele deixou claro o mesmo ponto em uma pa-</p><p>rábola mordaz (Mt 21:28-31). Um homem tinha dois filhos.</p><p>Ele lhes pediu para trabalhar na vinha. O primeiro disse:</p><p>“Não, eu não vou”, mas depois ele se arrependeu e foi. O</p><p>segundo filho disse: “Sim, papai”, mas nunca foi. Os escribas</p><p>e os fariseus eram como o segundo filho. Eles suavemente</p><p>diziam: “Sim, pai”, mas nunca iam para a vinha.</p><p>Os líderes religiosos eram como os irmãos do rico na his-</p><p>tória de Lázaro. Eles tinham Moiséí e os profetas, mas se</p><p>recusavam a praticar o Jubileu. Lembravam-se de triviali-</p><p>dades, mas esqueciam-se da justiça, da misericórdia e da fé.</p><p>De forma tola tentavam retirar um mosquito do seu chá,</p><p>enquanto elevavam engolir um camelo (Mt 23:23-24; Lc</p><p>11:42). Eles observavam regulamentos piedosos, mas negli-</p><p>genciavam as casas das viúvas (Lc 20:47, Mc. 12:40). Com</p><p>o voto de corban eles frustravam a lei do amor, empurran-</p><p>do os idosos para a pobreza (Mc 7:9-12). Sua verborragia</p><p>não produzia ação e sua doce conversa de Deus camuflava</p><p>a injustiça econômica enquanto eles seguiam alegremente</p><p>223</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>dizimando de suas ervas. No entanto, suas intenções eram</p><p>boas. Eles pensavam sinceramente que seus rituais de pureza</p><p>acabariam fazendo com</p><p>que toda a nação fosse uma nação de</p><p>sacerdotes.</p><p>Quão grande és T u</p><p>A observância cuidadosa do dogma religioso gera orgu-</p><p>lho. Os fariseus eram como uma pessoa cantando “Quão</p><p>grande és Tu” na frente do espelho todas as manhãs. Numa</p><p>pequena parábola, Jesus condena a sua arrogância20. Um fa-</p><p>riseu vai ao templo para oferecer as suas orações (Lc 18:9-</p><p>14). O devoto encontra seu lugar proeminente e oferece uma</p><p>oração de agradecimento. Ele agradece a Deus por não ser</p><p>um trapaceiro; por ele não ser injusto; por não cobiçar as</p><p>mulheres. Espiando pelo canto do olho, vê um cobrador de</p><p>impostos, que surpreendentemente também veio orar. O fa-</p><p>riseu termina sua oração com um agradecimento especial</p><p>por não estar contaminado como esse cobrador de impostos</p><p>que rouba os pobres.</p><p>O fariseu oferece suas ações justas a Deus. Embora a lei</p><p>exija um jejum anual no Dia da Expiação, ele lembra a Deus</p><p>que ele voluntariamente adiciona um jejum toda segunda-</p><p>-feira e quinta-feira. Ele dá dízimos sobre tudo o que ele</p><p>compra dos lojistas. Se o produtor já pagou um dízimo dos</p><p>produtos, fariseus dão o dízimo novamente para se certificar</p><p>de que tudo o que ele usa é sagrado. Este homem representa</p><p>o ápice da ortodoxia hebraica. Ele está no topo da escada</p><p>religiosa de piedade.</p><p>O coletor de impostos, condenado ao ostracismo por pes-</p><p>soas decentes, é considerado um ladrão sem direitos civis. Ele</p><p>mal consegue alcançar o último degrau inferior da escala</p><p>social. Ele fica na beira do pátio do templo, sem se aventurar</p><p>224</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>em um lugar proeminente. Em contraste com o orgulhoso</p><p>fariseu, o cobrador de impostos está envergonhado de levan-</p><p>tar as mãos para o céu. Em vez disso, ele bate no peito, um</p><p>sinal de profunda contrição. Ele clama a Deus em desespero,</p><p>consternado pelo abismo da separação. O arrependimento,</p><p>para este homem, não significa sorrisos agradáveis. Significa</p><p>deixar sua profissão e começar de novo. Significa pagar cinco</p><p>vezes todas as pessoas que ele enganou. Ele nem sabe a quan-</p><p>tos roubou. Esta é uma situação impossível, então ele clama</p><p>por misericórdia.</p><p>Três grandes contrastes definem esta história: atitude,</p><p>identidade e localização. As atitudes opostas são evidentes</p><p>no texto. O que é menos claro é o contraste entre identida-</p><p>des. O fariseu representa o papel sagrado da devoção ritual.</p><p>O cobrador de impostos simboliza os ímpios que nem se-</p><p>quer estão na lista da santidade. Os dois locais - o Templo e</p><p>casa - também pintam uma nítida distinção. O ímpio que</p><p>vem a Deus em humildade, sem oferta nem jejum, desce até</p><p>à sua casa justificado. Mesmo no alto monte sagrado do tem-</p><p>pio, o fariseu não encontra salvação. Porém 0 humilde de</p><p>coração encontra a acolhida de Deus em sua casa - sem altar,</p><p>sacrifício ou dízimo.</p><p>Inesperadamente, o momento de ponta-cabeça aparece.</p><p>Em uma inversão surpreendente, o cobrador de impostos</p><p>arrependido é elogiado. Este bandido social, esse traidor da</p><p>nação, encontrou graça diante de Deus. O Todo-Poderoso</p><p>aceitou o sacrifício do coletor de impostos com um coração</p><p>quebrado e contrito. Enquanto isso, o arrogante fariseu per-</p><p>de a bênção.</p><p>Esta história certamente soou de ponta-cabeça para a au-</p><p>diência de Jesus. Aqueles que arrogantemente confiam em</p><p>si mesmos e desprezam os outros rejeitaram Deus apesar de</p><p>todos os seus movimentos religiosos. A adoração egocêntrica</p><p>225</p><p>DONALD B. KRAVBILL</p><p>zomba dos outros, em vez de provocar uma análise pessoal.</p><p>Ela deriva da falsa piedade da comparação social. As farpas</p><p>da parábola espetaram os altivos fariseus.</p><p>Não entre</p><p>O orgulho condescendente transforma as igrejas em clu-</p><p>bes exclusivos. Afastar os de fora e zombar da ignorância</p><p>deles não era a iinica culpa dos fariseus. Eles usavam uma</p><p>barricada de regras triviais para impedir os pecadores de</p><p>chegarem à mesa da salvação. Jesus detestava este espírito</p><p>exclusivo dos fariseus.</p><p>“Eles atam fardos pesados e os colocam sobre</p><p>os ombros dos homens, mas eles mesmos não</p><p>estão dispostos a levantar um só dedo para</p><p>movê-los.... Ai de vocês, mestres da lei e fa-</p><p>riseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos</p><p>céus diante dos homens! Vocês mesmos não</p><p>entram, nem deixam entrar aqueles que gos-</p><p>tariam de fazê-lo.”(Mt 23: 4, 13-15; Lc 11:</p><p>45-52)</p><p>Em contraste com o peso das regras que esmagavam ju-</p><p>deus devotos, Jesus ofereceu uma carga leve. “Pois o meu</p><p>jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:30). Em sua ten-</p><p>tativa de traduzir os cinco livros de Moisés para a prática di-</p><p>ária, os fariseus, por engano, jogaram fora a chave do reino.</p><p>Eles se trancaram dentro da sinagoga de seu próprio ritual</p><p>e deixaram os outros de fora. Religião cerimonial não são</p><p>apenas acentos rituais; ela também cria um fosso entre os</p><p>“de dentro” e os “de fora”.</p><p>226</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>O ÚLTIMO SERÁ O PRIMEIRO</p><p>Muitas parábolas de Jesus são uma defesa dos Evangelhos.</p><p>Sua aceitação dos pecadores incorporava as boas novas. Os lide-</p><p>res religiosos ficavam indignados com o fato de que Jesus aco-</p><p>lhia os maus - os iníquos e os adúlteros no reino. “Pecadores”</p><p>eram normalmente privados de direitos civis -assumir cargos</p><p>e testemunhar no tribunal. A lista inclui cobradores de im-</p><p>postos, pastores, vendedores ambulantes, curtidores, criadores</p><p>de pombos e outros em trabalhos impuros21. A mensagem</p><p>de Jesus em numerosas parábolas é clara. O estabelecimen-</p><p>to religioso pode expulsar essas pessoas do reino, mas Deus</p><p>ainda as ama. Jesus oferece tal amor na comunhão à mesa nas</p><p>casas, apesar do desprezo dos principais fariseus. Adicionando</p><p>insulto à ofensa, Jesus diz que a rejeição dos fariseus para com</p><p>as pessoas “impuras” não é uma questão irreverente. As coisas</p><p>podem virar de ponta-cabeça. Os líderes religiosos podem en-</p><p>contrar-se fora das portas do banquete enquanto os pecadores</p><p>arrependidos festejam lá dentro com os profetas.</p><p>Sim, diz Jesus, Deus se importa com esses marginais so-</p><p>ciais. Em quatro histórias ele mostra como a compaixão per-</p><p>doadora de Deus acolhe os pecadores rebeldes e os forasteiros.</p><p>Jesus compara Deus a um pai que esperava dia após dia</p><p>que seu filho rebelde voltasse para casa. Quando ele retorna,</p><p>o pai o abraça e beija e até dá uma festa em sua homenagem</p><p>(Lc 15:11 -24). Deus é como uma mulher que varre cada can-</p><p>tinho de sua casa à procura de uma moeda perdida (Lc 15:8).</p><p>Deus pode até ser comparado a um pastor caminhando sobre</p><p>um campo montanhoso à procura de uma ovelha fraca pre-</p><p>sa nos espinhos das matas (Lc 15:3-5). Ou imaginem Deus</p><p>como um fazendeiro que se importava tanto com seus traba-</p><p>lhadores que deu a alguns deles um salário de um dia inteiro</p><p>por apenas uma hora de trabalho (Mt20:l-16).</p><p>227</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>As parábolas abalam as mentes de pesados fardos reli-</p><p>giosos: Sua atitude é exatamente oposta a de Deus. Você</p><p>é como o filho mais velho que reclama quando vê a festa</p><p>feita para seu próprio irmão (Lc 15:25-32). Vocês são como</p><p>os agricultores que trabalham o dia todo, recebem o salário</p><p>prometido, então se queixam porque os retardatários rece-</p><p>beram o mesmo (Mt 20:11-16). Como os arrendatários de</p><p>uma vinha, vocês se recusam a dar ao proprietário o vinho</p><p>de sua própria vinha. Vocês matam os servos que ele envia</p><p>e finalmente vocês ainda têm a audácia de matar seu único</p><p>filho (Lc 20:9-16). De repente,o jogo vira e o proprietário dá</p><p>a vinha para outros.</p><p>As histórias mordazes continuam. Como aqueles que fo-</p><p>ram convidados para um banquete, vocês se recusam a vir</p><p>quando a festa começa (Lc 14:1 5-24, Mt 22:1-10). Por causa</p><p>de sua obstinação, Deus convida os outros a substituí-los na</p><p>mesa. Deus acolhe os pobres, os leprosos, os mutilados, os</p><p>cegos e os coxos das ruas da cidade. Deus vai até o campo</p><p>à procura de excluídos para encher a mesa do banquete. O</p><p>momento do julgamento acontece! Nenhum dos convidados</p><p>que se recusou a vir, desfrutará do banquete”(Lc 14:24).</p><p>Jesus esclarece a inversão em outro quadro de crise imi-</p><p>nen te. O julgamento surpreenderá mesmo os defensores</p><p>mais</p><p>firmes da fé. Alguns dirão: “Comemos e bebemos con-</p><p>tigo, e ensinaste em nossas ruas”, mas o juiz responderá:</p><p>“Não os conheço, nem sei de onde são vocês.</p><p>Afastem-se de mim, todos vocês, que pra-</p><p>tic am o mal!” Ali haverá choro e ranger de</p><p>dentes, quando vocês virem Abraão, Isaque</p><p>e Jacó e todos os profetas no Reino de Deus,</p><p>mas vocês excluídos. Pessoas virão do oriente</p><p>e do ocidente, do norte e do sul, e ocuparão</p><p>2 2 8</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>os seu s lu g a re s à m e sa n o R e in o d e D e u s . D e</p><p>fa to , h á ú l t im o s q u e serão p r im e iro s , e p r i-</p><p>m e iro s q u e se rão ú l t im o s ”(Lc 1 3 :2 7 -3 0 )</p><p>F a lan d o aos fariseus, Je su s te rm in a a p a ráb o la dos do is filhos</p><p>n a v in h a com estas palavras concisas: “D ig o a verdade: O s p u -</p><p>b licanos e as p ro s titu ta s estão e n tra n d o an tes de vocês n o R e in o</p><p>d e D e u s” (M t 2 1 :31 ). D ep o is d e acabar co m os escribas p o r</p><p>d ev o ra r as casas das v iúvas e fazer lo ngas orações co m o p re te x to ,</p><p>J e s u s d iz q u e eles en fre n ta m não só a exclusão d o re ino , m as</p><p>“receberão condenação m ais severa!” (M c 1 2 :4 0 e Lc 2 0 :47 ).</p><p>O s v a le n te s e lea is d a fé t in h a m acesso a M o isés e aos</p><p>p ro fe ta s . O s líd e re s re c e b ia m u m ta le n to - c o n h e c im e n to d a</p><p>le i d e D e u s — m a s o h a v ia m e n te r ra d o ta n to n a tra d iç ã o o ra l</p><p>q u e os p e c a d o re s p e r d ia m o c h a m a d o d e D e u s . A s p ied o sas</p><p>t ra d iç õ e s h u m a n a s , d e fa to , re p e lia m os e x c lu íd o s e os afas-</p><p>ta v a m d e D e u s . J e s u s re s ta u ra 0 d ia d a g ra ç a . S u a c o m u n h ã o</p><p>à m e sa c o m os e s t ig m a tiz a d o s s in a liz a a a u ro ra d a sa lvação</p><p>d e D e u s . O s ímpios e e x c lu íd o s so c ia is , ao c o n trá r io d o s fa-</p><p>r ise u s , a b ra ç a m p ro n ta m e n te a a c o lh id a d e D e u s .</p><p>I s s o é t r a g ic a m e n te d e p o n ta -c a b e ç a . A q u e le s q u e tra -</p><p>b a lh a r a m tã o d u ro p a ra a p lic a r a T o rá à v id a c o t id ia n a são</p><p>d e ix a d o s p a ra trá s . S eu fe rv o r e e n tu s ia s m o p e la p ie d a d e ce-</p><p>r im o n ia l f ru s tr a a lei d o a m o r d e D e u s . A q u e le s q u e lu ta v a m</p><p>ta n to p e la re lig iã o e s tão e m risco . O s re c é m -c h e g a d o s , p o r</p><p>su a vez , são u m g r u p o h e te ro g ê n e o , m a s a su a ju s t iç a excede</p><p>a d o s fa riseu s (M t 5 :2 0 ). N a v e rd a d e , os ím p io s e s tã o rece-</p><p>b e n d o o re in o d e D e u s . U m d e n tr e essa m u l t id ã o , Z a q u e u ,</p><p>d e v o lv e os b en s q u e ro u b o u . U m a p r o s t i tu ta q u e u n g iu a</p><p>J e s u s se a r re p e n d e e é g ra n d e m e n te p e rd o a d a . O c o le to r d e</p><p>im p o s to s n o te m p lo p e n i te n te b a te seu p e ito . U m filh o fu -</p><p>g i t iv o v o l ta p a ra casa.</p><p>229</p><p>DONALD B. KRAYGILL</p><p>Em contraste com a elite religiosa, esses pecadores estão</p><p>realmente arrependidos de seus pecados. Eles entram no</p><p>reino pelo tapete vermelho. A mensagem trágica finalmen-</p><p>te penetra na cabeça dos altivos. “Quando os chefes dos</p><p>sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas de Jesus, com-</p><p>preenderam que ele falava a respeito deles. E procuravam</p><p>um meio de prendê-lo; mas tinham medo das multidões,</p><p>pois elas o consideravam profeta.”(Mt 21:45-46; Mc 12:12</p><p>e Lc 20:19).</p><p>Panos VELHOS E REMENDOS NOVOS</p><p>O que tudo isto significa para nós hoje? Como o reino e a</p><p>igreja se cruzam? Jesus descreveu o romper do reino com duas</p><p>histórias (Mc 2:21-22). Sempre lave um remendo antes de cos-</p><p>turá-lo em uma roupa velha. Caso contrário, o remendo vai en-</p><p>colher após a primeira lavagem e rasgar o pano velho deixan-</p><p>do-o pior do que antes. Além disso, armazenar vinho novo, em</p><p>fermentação em odres novos e maleáveis. O vinho borbulhante</p><p>se derramado em odres velhos e frágeis os abrirá e escorrerá.</p><p>Em palavras pitorescas, Jesus ressalta a tensão entre o</p><p>novo vinho do reino e estruturas religiosas mais antigas.</p><p>Novos odres, macios e flexíveis, são necessários para o vinho</p><p>novo. À medida que o vinho fermenta as peles se expandem</p><p>e se contraem. O vinho do reino do movimento de Jesus</p><p>estava quebrando os frágeis odres dos saduceus, fariseus e</p><p>escribas. Os odres da lei oral eram muito duros para supor-</p><p>tar a fermentação do vinho novo. Os ímpios já não podiam</p><p>cheirar o vinho. Tudo o que podiam ver eram odres de peles</p><p>velhas e insensíveis. O vinho do reino de ponta-cabeça exige</p><p>odres de peles novas - estruturas institucionais flexíveis.</p><p>Como distinguimos entre o reino e a igreja instituciona-</p><p>lizada?22 O reino é o mesmo que a igreja? A mudança bíblica</p><p>2 3 a</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA</p><p>de “reino” para “igreja” entre os Evangelhos e as epístolas</p><p>reflete uma mudança da cultura judaica para a cultura gre-</p><p>ga23. Uma das dificuldades em distinguir entre reino e igreja</p><p>hoje está em palavras que usamos frequentemente de forma</p><p>descuidada -igreja, denominação e povo de Deus.</p><p>Uma distinção cuidadosa entre quatro realidades - reino,</p><p>igreja, cultura e estrutura- pode esclarecer os conceitos.</p><p>O reino que Jesus anunciou nos aponta para algo maior</p><p>do que nossas próprias estruturas e nós mesmos. Já dissemos</p><p>que o reino se refere ao governo de Deus em nossos corações</p><p>e relacionamentos. Deus estava “ao vivo” em Jesus, vivendo</p><p>entre as pessoas e chamando-as à obediência. Hoje, Deus</p><p>governa através da presença do Espírito Santo. O Espírito</p><p>nos aponta para a direção do reino. O vinho na parábola sim-</p><p>boliza o poder dinâmico de Deus infiltrando nossas vidas.</p><p>Assim como o vinho novo em fermentação, o reino encarna</p><p>0 poder dinâmico e criativo do Espírito de Deus. Ele assume</p><p>a expressão visível de maneiras novas e animadoras à medida</p><p>que as pessoas submetem suas vidas ao governo de Deus.</p><p>O reino implica uma nova visão, um novo conjunto de</p><p>valores e uma nova abertura para ceder aos caminhos de Deus.</p><p>Passado e presente, o agora e o futuro, o reino é o reinar de</p><p>Deus na vida dos cristãos. Torna-se visível na forma e na</p><p>prática à medida que as pessoas se entregam ao domínio di-</p><p>nâmico de Deus.</p><p>A igreja é a assembléia de pessoas que acolheram o rei-</p><p>nado de Deus em seus corações e relacionamentos. A igreja</p><p>consiste dos cidadãos do reino. E 0 corpo de Cristo compos-</p><p>to de discípulos obedientes seguindo o caminho de Jesus.</p><p>Podemos também imaginar a igreja como a comunidade de</p><p>cristãos- a reunião coletiva do povo de Deus. A igreja não é</p><p>um edifício, um santuário ou um programa. E a comunida-</p><p>de visível daqueles que vivem pelos valores do reino.</p><p>2 3 1</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>A cultura implica os valores e práticas de um grupo par-</p><p>ticular de cristãos. Que opiniões, hábitos e práticas eles</p><p>prezam? Quais eles rejeitam? As idéias e valores do reino</p><p>assumem diferentes expressões culturais em diferentes con-</p><p>textos. Cristãos em Honduras ttrão práticas e padrões di-</p><p>ferentes daqueles no Japão. A questão-chave, no entanto, é</p><p>esta: como os valores do reino moldam as práticas culturais,</p><p>independentemente do país?24 Em outras palavras, o povo</p><p>do Reino deve criar suas próprias práticas culturais baseadas</p><p>nos valores do reino. Eles podem compartilhar muitas práti-</p><p>cas com sua cultura, mas sua vida deve refletir valores do rei-</p><p>no, que muitas vezes podem divergir da culttira dominante.</p><p>Finalmente vêm as estruturas. O povo de Deus precisa de</p><p>veículos sociais — instituições e programas - para atender</p><p>às suas próprias necessidades e às necessidades dos outros.</p><p>A igreja cria veículos sociais e “estruturas de servo” (aque-</p><p>las que são servas da igreja) para cumprir sua missão. As</p><p>estruturas de servos incluem toda a gama de órgãos e pro-</p><p>gramas organizados da igreja. Eles abrangem denominações,</p><p>escolas, tradições litúrgicas, agências</p><p>missionárias, empresas</p><p>de publicação, acampamentos e, claro, comitês, comissões,</p><p>tradições e muitos programas. Estas são as peles sociais, as</p><p>estruturas de servo que a igreja cria para fazer seu trabalho.</p><p>Eles não são, no entanto, a igreja ou o reino.</p><p>O reino transcende a igreja de duas maneiras. Ele existia</p><p>antes do início da igreja e será o domínio real de Deus du-</p><p>rante toda a eternidade. O reino também é maior do que a</p><p>igreja. Representa o supremo senhorio de Cristo sobre todos</p><p>os povos, principados e poderes. A igreja, o corpo de crentes,</p><p>abraça o governo de Deus. A cultura e a estrutura da igreja,</p><p>projetadas para expressar maneiras de reino, podem tornar-</p><p>-se frágeis deixando vazar o vinho precioso. Essas expressões</p><p>culturais e estruturas organizadas, essas criações humanas,</p><p>232</p><p>D REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>precisam de revisão periódica para assegurar que permane-</p><p>çam como servidores do reino.</p><p>Esta distinção quádrupla de reino, igreja, cultura e es-</p><p>trutura destaca suas características diferentes. A igreja co-</p><p>meçou, e tem existido junto com o reino, à medida que pes-</p><p>soas aceitam o governo de Deus em suas vidas. O reino tem</p><p>características sociais e políticas visíveis, tanto no corpo de</p><p>cristãos que declaram Jesus como Rei, como nas culturas e</p><p>estruturas que criam para cumprir sua missão.</p><p>Um foco na cultura — os valores e práticas — do corpo de</p><p>cristãos levanta a questão de sua origem. A cultura da igre-</p><p>ja é impulsionada pela grande sociedade ou pelos valores e</p><p>prioridades do reino? Além disso, se vemos os programas e</p><p>estruturas da igreja como criações humanas, e não como o</p><p>próprio reino, não as sacralizamos tanto. No momento em</p><p>que as estruturas da igreja se rornam iguais ao reino, elas se</p><p>colocam na altura de algo sagrado. As estruturas da igreja</p><p>refletem e encarnam o reino, mas não são nem o reino nem</p><p>a própria igreja.</p><p>Expressando a visão de um reino, as estruturas que cria-</p><p>mos assumirão diversas formas em diferentes culturas. No</p><p>entanto, não devem ser meros reflexos de sua cultura. Suas</p><p>diversas aparências devem ser culturalmente relevantes, mas</p><p>não culturalmente determinadas. A mensagem do Reino,</p><p>ancorada na história bíblica, deve moldar a arquitetura so-</p><p>ciai dos programas eclesiásticos. Quando os valores cultu-</p><p>rais,e não os valores do reino,moldam as formas institucio-</p><p>nais da igreja, o sal perde seu sabor.</p><p>233</p><p>DONALD B.KRAVBILL</p><p>Vacas Sagradas ou E struturas de Servo?</p><p>A visão do reino irrompe sobre nós em maneiras novas</p><p>através do ministério do Espírito Santo. Ela toma forma em</p><p>novos edifícios, novos projetos, novos programas e novos co-</p><p>mitês. Estas estruturas sociais, no entanto, logo se solidificam.</p><p>Os participantes da primeira geração acolhem com entusias-</p><p>mo os novos programas. Porém padrões espontâneos em breve</p><p>endurecem e tornam-se rotina. Gradualmente, eles nem são</p><p>mais levados em consideração. Eles se tornam “como as coisas</p><p>são”. Eles exalam um senso de “retidão”. Já não são vistos</p><p>como uma das muitas maneiras de satisfazer uma necessida-</p><p>de. A segunda geração os vê como o único caminho. Eles,</p><p>em suma, se tornaram vacas sagradas. As estruturas, uma vez</p><p>criadas, buscam sua própria legitimação. Elas se perpetuam,</p><p>muitas vezes com a bênção da linguagem religiosa.</p><p>A tentação dos fariseus está sempre conosco. Aquela que</p><p>uma vez foi expressão espontânea do amor se solidifica à medi-</p><p>da que uma organização cresce em tamanho e idade. A consti-</p><p>tuição fica mais longa. A burocracia aumenta. Os símbolos são</p><p>idolatrados. Procedimentos se tornam rígidos. O evangelismo</p><p>cede à etnicidade. A abertura às novas necessidades dá lugar</p><p>à preservação do status quo. As palavras e símbolos do grupo</p><p>emergem e excluem outros. Quem está de fora se sente exclu-</p><p>ído. Políticas e estruturas podem sufocar o caminho do amor.</p><p>Quando as estruturas se calcificam, é hora de odres novos.</p><p>A genialidade dos Evangelhos é a sua semente de autocrí-</p><p>tica ou auto-reforma. Cada geração de cristãos, como os fa-</p><p>riseus, é tentada a sacralizar seus programas e congelar suas</p><p>rotinas. Jesus mostrou-nos que as estruturas humanamente</p><p>criadas não são sagradas. Não há lugares sagrados, organiza-</p><p>ções, tempos, objetos, doutrinas ou posições sociais, exceto</p><p>no sentido de que todas as coisas boas são, afinal, sagradas.</p><p>234</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>O altar de um edifício da igreja não está mais perto do</p><p>coração de Deus do que uma sala de estar. O triste uso do</p><p>termo santuário nos incentiva a ver o edifício da igreja como</p><p>um lugar sagrado que merece a reverência especial. Edifícios</p><p>religiosos muitas vezes testemunham a nossa rigidez, orgulho</p><p>e status social. Quando Jesus purgou 0 templo, Ele declarou</p><p>de uma vez por todas que mesmo os mais sagrados edifícios</p><p>não merecem nossa adoração. Eles podem ser dedicados como</p><p>uma das muitas ferramentas para proclamar e celebrar as boas</p><p>novas do reino, mas são apenas criações humanas. Eles devem</p><p>ser sempre subordinados à assembléia dos cristãos.</p><p>A mesma irreverência amorosa deve se aplicar à doutrina,</p><p>aos objetos, às posições sociais e aos programas da igreja. O</p><p>credo, que molda a identidade única de uma denominação,</p><p>pode substituir a autoridade bíblica. A cadeira da diretoria</p><p>entre os anciãos pode oferecer conselhos sábios, mas não tem</p><p>nenhuma posição sagrada. O pastor pode oferecer uma per-</p><p>cepção e compreensão especial, mas não é um herói colocado</p><p>acima dos santos que todos nós somos chamados a ser. Símbo-</p><p>los de fé - a cruz, o púlpito, o altar, o tanque — são tão mun-</p><p>danos como outros objetos cotidianos. Elas nos apontam para</p><p>significados espirituais, mas eles não são sagrados em si mesmos.</p><p>E lefantes brancos sabáticos</p><p>Os programas institucionais da igreja às vezes se tornam</p><p>vacas sagradas - ou devemos dizer elefantes brancos. Or-</p><p>ganizações, tradições e programas concebidos como servos</p><p>podem, ao longo do tempo, se levantar e nos dominar. Seu</p><p>propósito original satisfazia necessidades reais e comunicava</p><p>0 Evangelho de forma eficaz,mas ao longo dos anos tornam-</p><p>-se frágeis. Práticas rotineiras relacionadas aos cultos de ado-</p><p>ração, programas para jovens, conselhos de missões, agências</p><p>235</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>educacionais e organizações de serviços facilmente tornam-</p><p>-se coercitivas porque são o “trabalho do Senhor”.</p><p>As organizações são necessárias e úteis para canalizar a</p><p>atividade humana de maneira eficaz. Precisamos de insti-</p><p>tuições sociais e as teremos sempre. Nós não somos apenas</p><p>produtores deles, mas também seus produtos. Fomos mol-</p><p>dados e nutridos por escolas e por muitas organizações rela-</p><p>cionadas à igreja. E importante, entretanto, que avaliemos</p><p>periodicamente seu papel e propósito. Talvez os períodos sa-</p><p>báticos institucionais — períodos de revisão de programas e</p><p>projetos - nos ajudassem a rejuvenescer nossas estruturas. Se</p><p>eles já não servem a sua intenção original, devemos empur-</p><p>rá-los de volta para funções de servo, ou mesmo enterrá-los.</p><p>O sétimo ano ou ano sabático no calendário hebraico dava</p><p>tempo, não só para descanso, mas também para reflexão.</p><p>Seria apropriado, a cada sétimo ano, dar um descanso sabá-</p><p>tico para os comitês, comissões e programas que constituem</p><p>grande parte da religião institucional hoje? Durante este</p><p>sétimo ano, estudos e avaliações extensivos poderíam deter-</p><p>minar a eficácia desses programas. Alguns podem precisar</p><p>de uma grande modernização. Outros podem continuar na</p><p>sua forma atual. Outros ainda podem precisar de um fune-</p><p>ral. Intervalos de sete anos permitem tempo suficiente para</p><p>testar um programa e refletir sobre sua contribuição.</p><p>Muito frequentemente os elefantes brancos religiosos se</p><p>arrastam por muito tempo. Uma vez que eles envolvem a</p><p>“obra do Senhor”, ninguém ousa mexer com eles. O serviço</p><p>aos outros e a edificação da comunidade de fé é a referência</p><p>para a avaliação. Quando pastores têm de exortar, persuadir</p><p>e implorar para que os membros participem de um deter-</p><p>minado programa ou assistam a um determinado</p><p>culto, ele</p><p>pode não estar servindo a uma necessidade real. Talvez seja</p><p>hora de um funeral. Quando as estruturas servem às verda­</p><p>2 3 6</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>deiras necessidades dos membros, a participação é alegre e</p><p>espontânea.</p><p>Jesus é Senhor dos “Sabbaths”, aquelas estruturas religio-</p><p>sas que criamos. Criações humanas, as estruturas têm uma</p><p>maneira misteriosa de assumir o controle e tornar-se os mes-</p><p>tres de seus próprios criadores. O Espírito de Jesus e as pers-</p><p>pectivas de Seu reino criticam nossos odres sociais. O senho-</p><p>rio de Cristo sobre as estruturas organizacionais as impede</p><p>de perverter os Evangelhos e escravizar os fiéis. Muitas vezes</p><p>esquecemos que Jesus é o Senhor do sábado. Nós também</p><p>facilmente equipáramos nossas próprias estruturas com o</p><p>reino. Aquelas que uma vez eram estruturas de servo, com o</p><p>tempo, às vezes, se levantam e nos chamam a servi-las.</p><p>Como avaliamos estruturas que servem? As perguntas a</p><p>seguir podem ajudar a avaliar sua postura de servo.</p><p>• Quais são as necessidades específicas que esse progra-</p><p>ma atende?</p><p>• Será que as pessoas criariam este projeto novamente se</p><p>fosse encerrado?</p><p>• Ele expressa o espírito e a missão dos Evangelhos?</p><p>• Esta estrutura é projetada para servir no Espírito de</p><p>Jesus?</p><p>• Ela promove uma postura autojustificada exclusiva?</p><p>• As pessoas gostam de participar?</p><p>• A flexibilidade é incorporada à sua natureza?</p><p>• Foi designado um tempo para avaliar suas funções?</p><p>• Existe um processo de tomada de decisão para deck-</p><p>rar um “funeral” se necessário?</p><p>• Está claro que o povo de Deus, liderado pelo Espírito</p><p>de Deus, tem autoridade para declarar sua moratória?</p><p>237</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>A igreja está sempre presa à tensão entre as soluções</p><p>tradicionais do passado e o vinho fermentado de um reino</p><p>sempre novo. E uma tensão entre a forma e o amor, a estru-</p><p>tura e o Evangelho, a organização e a visão. Os símbolos do</p><p>passado ameaçam tornar-se idolatrados. Os velhos rituais se</p><p>afirmam como absolutos. O Espírito de Jesus que violou as</p><p>regras do sábado, evitou os rituais de pureza, comeu com os</p><p>pecadores e purificou o templo, também é Senhor de nossas</p><p>estruturas. Ele as julga, as critica e as torna flexíveis para o</p><p>vinho novo.</p><p>Escondido na excmciante dor do juízo está o germe da</p><p>renovação. Os valores do reino formam odres novos e elásti-</p><p>cos para o fermento do reino. Neste processo, às vezes dolo-</p><p>roso, a igreja se reforma através das gerações.</p><p>238</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>O Pai Insensato</p><p>c r í t ic a d e J e s u s à r iq u e z a e à re lig iã o p o d e so a r severa</p><p>aos nossos o u v id o s , m as e la flu i d e u m co ração d e am or.</p><p>N a v e rd a d e , o p ró p r io fu n d a m e n to d o n o v o re in o d e J e s u s</p><p>re p o u sa n o am o r. Q u e t ip o d e a m o r é esse? C o m o q u e se</p><p>p a rece ? E x p lo ra m o s essas q u e s tõ e s n o c a p ítu lo nove .</p><p>A v io lê n c ia é o b s o le ta n o n o v o re in o . O a m o r dgape se</p><p>to rn a 0 n o v o m o d o d e g o v e rn a r. A p a la v ra g re g a , ágape,</p><p>s ig n if ic a a m o r in c o n d ic io n a l . T o ta lm e n te a l t r u ís ta , ágape</p><p>su p e ra p a ix ã o , a m iz a d e e b e n e v o lê n c ia . S u p e ra o in te re sse</p><p>p ró p r io . Ágape é m a is d o q u e u m s e n t im e n to a l t ru ís ta . E le</p><p>ag e . E le a m a àqueles q u e n ão são a m á v e is , a té m e sm o in im i-</p><p>g o s . C o m p a ix ã o , g e n e ro s id a d e , p e rd ã o , m is e r ic ó rd ia — estas</p><p>são a essência do ágape1.</p><p>O ágape flu i d o R e i d o re in o , q u e é c o m o u m p a i a m o -</p><p>roso . O s s ú d ito s d o g o v e rn a n te n ão são esc rav o s, m a s filhos.</p><p>E les n ão d iz e m : “S im , S ua M a je s ta d e ” , m a s c a r in h o s a m e n te</p><p>o c h a m a m d e abba o u “p a p a i” . O s c id a d ã o s n e s ta n o v a o r-</p><p>241</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>dem amam generosamente, porque um Pai gracioso os arre-</p><p>batou. O amor divino provoca o seu amor. Que tipo de pai</p><p>desencadeia tal amor?</p><p>Respondendo a queixas de escribas e fariseus ,porque es-</p><p>tava comendo com pecadores, Jesus contou uma história</p><p>para esclarecer o amor de Deus. Deus, pecadores e fariseus</p><p>são retratados na história por um pai, um filho fugitivo e um</p><p>irmão que se queixa (Lc 13:ll-32).2Como é Deus? Essa é a</p><p>questão central da parábola. Jesus sugere que Deus é como</p><p>um pai tolo.</p><p>De acordo com o costume judeu, o mais novo de dois filhos</p><p>tinha direito a um terço da propriedade de seu pai. A riqueza</p><p>podería ser transmitida de duas maneiras: por um testamento</p><p>na morte do pai ou como um presente durante a vida do pai.</p><p>Em contraste com a cultura ocidental, se o filho recebeu a pro-</p><p>priedade como um presente, ele não tinha o direito de dispor</p><p>dele até depois da morte do pai. Dispor dela enquanto o pai</p><p>estava vivo era o mesmo que tratar 0 pai como um cadáver. O</p><p>costume judaico esperava que as crianças honrassem seus pais</p><p>obedecendo-os e apoiando-os financeiramente.</p><p>O jovem apressado viola vários costumes culturais. Pri-</p><p>meiro, ele exige sua parte da propriedade muito antes de seu</p><p>pai morrer. Ele merecia um flagelo por simplesmente fazer</p><p>um pedido tão arrogante. De fato, o grosseiro desrespeito do</p><p>filho por seu pai é tão pecaminoso quanto seu vício em um</p><p>país estrangeiro. Ele deixa seu pai e esbanja os recursos que</p><p>nunca mais poderíam ser usados para sustentar o seu pai. Ele</p><p>trata o seu pai como se já estivesse morto! Era a coisa mais</p><p>rude que um filho podia fazer a um pai.</p><p>Colocando outro insulto sobre o insulto cultural, 0 filho</p><p>acaba cuidando de suínos. Tal trabalho era proibido na cul-</p><p>tura judaica, que considerava os porcos não apenas imundos,</p><p>242</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>mas a própria morada dos demônios. O filho não só faz 0 tra-</p><p>balho degradante, mas também se identifica com os porcos</p><p>desejando 0 seu alimento. Simbolicamente, ele caiu abaixo</p><p>do fundo do poço cultural.</p><p>Imagine a vergonha do pai. Os escribas da aldeia se-</p><p>guramente zombavam dele. Por que, em primeiro lugar,</p><p>ele,de forma tola, entregou a propriedade a seu filho sendo</p><p>tão jovem? Os vizinhos devem ter desprezado o velho com</p><p>gargalhadas. O filho tinha destruído a reputação, a estima</p><p>e a honra de seu pai. Que vergonha! Esse pai jamais estaria</p><p>novamente apto para a liderança da sinagoga.</p><p>Para se vingar, um bom pai, pelo menos, lamentaria pu-</p><p>blicamente tal comportamento. Um pai sábio não apenas</p><p>olharia para o outro lado e aprovaria silenciosamente a deso-</p><p>bediência. Ele repudiaria o filho legalmente.</p><p>Porém,não este pai. Ele não se defende. Ele não retalia</p><p>para proteger seu status social. Ele não corre atrás do filho</p><p>com um grupo de busca. Ele dá a seu filho a liberdade de</p><p>ir. Seu amor por seu filho é mais forte do que sua própria</p><p>necessidade de aprovação social. Além disso, espera pacien-</p><p>temente que seu filho volte. Ele nunca se esquece dele. Ele</p><p>vai até o caminho todos os dias - esperando, observando,</p><p>com esperança e expectativa.</p><p>Finalmente, o filho “cai em si” No aramaico, esta frase</p><p>sugere arrependimento. Ele finalmente percebe a estupidez</p><p>de seus caminhos e volta. Ele volta para casa esperando o</p><p>pior. Ele sabe quão duramente os pais reagem quando são</p><p>publicamente desonrados. Então ele vem confessando, im-</p><p>piorando a seu pai para aceitá-lo como um simples servo.</p><p>Podemos esperar muitas respostas de um pai judeu que vê</p><p>o filho dele voltando para casa salpicado de esterco. Um pai</p><p>razoável podería bater a porta na cara dele e declará-lo um des-</p><p>2 4 3</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>conhecido . E le p o d e r ía p e d ir ao seu filho p ara se lavar an te s de</p><p>u m lo n g o d iscu rso so b re a desobed iência . E le p o d e r ia in v es ti-</p><p>g a r os d e ta lh e s d o desv io e en tão p u n ir . A ju s tiç a c e r ta m e n te</p><p>p rescrevería p u n ição p ara en s in a r ao rapaz u m a lição. Talvez,</p><p>u m ch ico te estivesse n a lista . T</p><p>alvez, o fu g itiv o devesse serv ir</p><p>co m o escravo. D e ixe-o p ro v a r q u e é re a lm en te sincero .</p><p>O p a i re je i ta to d a s essas so lu çõ es ju s ta s e d e sen so co -</p><p>m u m . V e n d o seu filh o , e le é m o v id o à co m p a ix ã o . D o je i to</p><p>“d e p o n ta -c a b e ç a ” , e le , p a re c e n d o to lo , a c o lh e o p a t i fe em</p><p>casa c o lo c a n d o p a ra e le , n a v e rd a d e , o i to ta p e te s v e rm e lh o s .</p><p>• E le n ão e sp e ra q u e o filh o b a ta . S ua c o m p a ix ã o o o b r i-</p><p>g a a co rre r. E ra c o n s id e ra d o in d ig n o q u e u m a p esso a</p><p>m a is v e lh a co rresse . O p a i n ão t in h a id e ia d o q u e 0</p><p>filh o d ir ia . C o rre r p a ra e le c e r ta m e n te a s s in a la r ia o e n -</p><p>d o sso d e seu s v íc io s .</p><p>• E n tã o 0 p a i a b ra ç a o m e n in o , q u e b ra n d o o u tr a re g ra</p><p>d e e t iq u e ta so c ia l. A b ra ç a r e ra u m a v e rg o n h a p a ra</p><p>u m a p esso a id o sa . E le e s ta v a re c e b e n d o u m filh o re -</p><p>b e ld e c o b e r to d e es te rco .</p><p>• U m b e ijo - o s ím b o lo b íb l ic o d o p e rd ã o - se seg u e . O</p><p>p a i ze ra a c o n ta . E le re c e b e ao filho d e v o l ta d o c h i-</p><p>q u e iro , n ão c o m o esc rav o , n ão c o m o e m p re g a d o c o n -</p><p>t r a ta d o - m a s c o m o u m filho .</p><p>• N a v e rd a d e , o p ró x im o s in a l d e b o a s -v in d a s a n u n c ia o</p><p>filh o c o m o u m c o n v id a d o d e h o n ra . A m e lh o r tú n ic a</p><p>é colocada e m to rn o d e le . E s ta b e la ro u p a e ra u m a</p><p>m a rc a d e a l ta d is t in ç ã o . E s ta v a re se rv ad o p a ra os c o n -</p><p>v id a d o s rea is , n ão p a ra os filhos d e so b e d ie n te s .</p><p>• O filh o re c e b e u m a a lia n ç a q u e s im b o liz a a a u to r id a -</p><p>d e . E le n ão re to rn a c o m o u m m e re c e d o r d e lib e rd a d e</p><p>c o n d ic io n a l e e s t ig m a tiz a d o , m as c o m o a lg u é m d ig n o</p><p>d e p o d e r e p re s t íg io .</p><p>244</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>• O s sa p a to s q u e os servos c o lo c a m e m seus p é s ta m b é m</p><p>s in a liz a m o seu a l to s ta tu s . O s h o m e n s liv re s u sa v a m</p><p>sa p a to s . E scravos a n d a v a m desca lço s. E s te f ilh o re c u -</p><p>p e ra d o r e to rn a r ia c o m o u m a p esso a liv re . O s servos</p><p>ir ia m se rv i- lo .</p><p>• U m b e z e rro g o rd o fo i m o r to . C a rn e d e g a d o e ra reser-</p><p>v a d a p a ra ocasiões e sp ec ia is . O f ilh o , q u e o n te m c o m ia</p><p>c o m p o rc o s , h o je te m b ife n o ja n ta r .</p><p>• N ã o se o u v e o so m d o c h ic o te . E m vez d is so , o u v e-se</p><p>a m ú s ic a e os d a n ç a r in o s se a p re s e n ta m . E h o ra d e ce-</p><p>le b ra r a re ssu rre iç ã o d e u m filh o m o r to . U m p e c a d o r</p><p>v o l to u p a ra casa. V am o s feste ja r!</p><p>O b a r u lh o d a fe s ta s u rp re e n d e o f ilh o m a is v e lh o q u a n d o</p><p>e le re to rn a d o tra b a lh o n o c a m p o n a q u e la n o ite . O in se n sa to</p><p>p e rd ã o d o p a i é um u l t r a je p a ra ele . E le e x ig e ju s t iç a e e q u i-</p><p>d a d e . O n d e e s tá o c a s tig o d e v id o ao seu i rm ã o re b e ld e q u e</p><p>d e s p e rd iç o u as reservas d e seu p a i ?</p><p>A lé m d is so , o n d e e s tá a fe s ta d e v id a ao filh o m a is ve-</p><p>lho? Q u e m e s tá c e le b ra n d o seu s a n o s d e tra b a lh o fiel nos</p><p>c a m p o s? D e s d e n h o s a m e n te , 0 filh o m a is v e lh o c h a m a seu</p><p>p ró p r io i rm ã o “es te seu filh o ” .</p><p>P o ré m , o p a i a m o ro so re sp o n d e c o m “m e u q u e r id o filh o ” .</p><p>O filh o m a is v e lh o , c o n s u m id o p e la ra iv a , n u n c a e n t r a n a</p><p>casa. C o m o os esc rib as e fa r ise u s , e le se re cu sa a p a r t ic ip a r d a</p><p>festa . A g o ra e le e s tá p e r d id o , n o m o m e n to e m q u e seu irm ã o</p><p>é e n c o n tra d o .</p><p>D e u s é c o m o u m p a i d e p o n ta -c a b e ç a . D e u s p e rd o a g e n e -</p><p>ro s a m e n te q u a n d o nos a r re p e n d e m o s . D e u s é c o m o u m p a i</p><p>ju d e u q u e re c o m p e n sa o seu filh o , q u e c o m ia c a rn e d e p o rc o ,</p><p>c o m u m b ife . E m vez d e e sp a n c a r o filho , q u e tra z d esg raça ,</p><p>e le o e lev a p a ra o a l to p o s to d e “c o n v id a d o m a is h o n ra d o .”</p><p>245</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Deus é como um pai que não faz perguntas, mesmo quando</p><p>tratado como morto. Este é o amor ilimitado, incondicional,</p><p>sem amarras. Esta história nos leva ao próprio coração de</p><p>Deus e expõe a natureza de Deus — ãgape.</p><p>Tal pai nos impulsiona a agir. Como o homem que en-</p><p>controu um tesouro no campo, tal perdão, espantoso, nos</p><p>deixa chocados. Este amor esmagador energiza uma reação</p><p>em cadeia. Os filhos de tal amor querem passá-lo adiante.</p><p>Como seu Pai, eles se tornam misericordiosos. Eles amam</p><p>como Deus amou. Porque Deus os perdoou, eles também</p><p>podem perdoar.</p><p>A resposta grata a Deus é o motivo da ação no reino de</p><p>ponta-cabeça. Os atos de amabilidade, movidos pela bonda-</p><p>de de Deus, encarnam o abraço carinhoso de Deus por este</p><p>mundo. Desencadeadas pelo amor de Deus, estas ações são</p><p>uma doce oferta no altar de adoração.</p><p>Outra camada de significado fundamenta a história. O</p><p>filho pródigo também representa Israel no exílio que agora</p><p>está sendo restaurado no ministério de Jesus. O filho mais</p><p>velho tipifica os escribas e fariseus que estão resistindo ao</p><p>romper do novo reino em seu meio. A festa que comemora</p><p>o retorno do filho rebelde também aponta para a mesa de</p><p>comunhão de Jesus com os pecadores que são acolhidos no</p><p>novo reino. Neste sentido mais profundo, a história capta o</p><p>significado do anúncio do reino feito por Jesus.</p><p>Saia de cima do seu jumento</p><p>Como o amor ágape age na vida diária? Se a compaixão</p><p>de Deus parece insensata, os filhos de Deus também parecem</p><p>tolos? Jesus esclareceu a essência de ágape com uma história.</p><p>Ele descreve a natureza radical do amor de ponta-cabeça em</p><p>seu novo reino (Lc 10:25-37)'*. A história é a resposta de</p><p>248</p><p>0 REINO ΟΕ PONTA CABEÇA</p><p>Jesus à pergunta de um “advogado”- a grande questão sobre</p><p>como obter a vida eterna.</p><p>Ela começa de uma maneira crível. Um homem caminha</p><p>ao longo da estrada sinuosa e desolada que vai de Jerusalém</p><p>a Jerico. O público assume que esse homem é um compa-</p><p>nheiro judeu. Os bandidos que viviam em cavernas infesta-</p><p>vam as encostas descobertas ao longo da sinuosa estrada para</p><p>Jericó. Um assalto não surpreendia.</p><p>Sacerdotes e levitas que viviam em áreas periféricas re-</p><p>tornavam por esta estrada depois de realizarem os seus deve-</p><p>res no templo de Jerusalém. Todos sabiam que sacerdotes e</p><p>levitas, que seguiam as leis de pureza com obsessão, seriam</p><p>contaminados se a sombra deles tocasse um cadáver. O via-</p><p>jante na história de Jesus, roubado e espancado, parecia qua-</p><p>se morto. Um sacerdote preocupado o evitaria a todo custo.</p><p>O público espera que a história termine com uma críti-</p><p>ca mordaz a elite religiosa. Como muitas outras parábolas</p><p>de Jesus, esta criticará os líderes insensíveis que não têm</p><p>compaixão. A multidão espera que um fazendeiro comum se</p><p>torne herói resgatando um companheiro judeu. Esse fim vai</p><p>alfinetar os sacerdotes e levitas. Um camponês judeu mostra</p><p>mais compaixão do que líderes religiosos! Mais uma vez,</p><p>Jesus acerta os pesos pesados com uma história pungente.</p><p>De repente, Jesus inverte suas expectativas de ponta-ca-</p><p>beça. Um samaritano, não um judeu, aparece como herói. O</p><p>público está horrorizado. Como isso pode ser? Por que um</p><p>samaritano? Seu mundo simbólico acaba.</p><p>Por que um samaritano é tão chocante? A tensão amarga</p><p>dividia judeus e samaritanos. Samaria, ao norte de Jerusa-</p><p>lém,</p><p>estava encurralada entre a Judéia e a Galileia. Os sa-</p><p>maritanos surgiram cerca de 400 aC de casamentos mistos</p><p>entre judeus e gentios. Os judeus os consideravam bastar­</p><p>247</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>dos mestiços. Eles tinham a sua própria versão dos livros</p><p>de Moisés. Eles tinham construído seu próprio templo no</p><p>Monte Gerizim, ao norte de Jerusalém. Eles até afirmavam</p><p>que o seu templo era o verdadeiro lugar de adoração. Os</p><p>sacerdotes samaritanos traçaram suas linhagens de volta à</p><p>linhagem real sacerdotal na história hebraica.</p><p>Para a mente judaica, os samaritanos eram piores do que</p><p>pagãos, porque pelo menos sabiam mais. Os samaritanos,</p><p>odiados e desprezados pelos judeus, estavam bem embaixo</p><p>na escala social5. A Escritura atesta o racismo beligerante</p><p>entre os dois grupos. João (4: 9) relata que os judeus não</p><p>mantinham relações com os samaritanos. Quando alguns sa-</p><p>maritanos se recusam a dar alojamento a Jesus, Tiago e João</p><p>estão tão irritados que imploram a Jesus que queimasse a</p><p>aldeia com fogo do céu (Lc 9:51-56). Os líderes judeus cha-</p><p>mam Jesus de “samaritano”, um apelido depreciativo para</p><p>os endemoninhados (Jo 8:48).</p><p>Quando Jesus tinha cerca de doze anos, os samaritanos</p><p>entraram no templo de Jerusalém, à noite, e espalharam os-</p><p>sos humanos sobre o santuário. Este ato ultrajante inflamou</p><p>os ânimos judaicos. Os judeus não comiam pães ázimos fei-</p><p>tos por um samaritano, nem um animal morto por um sa-</p><p>maritano. Um rabino disse: “Aquele que come o pão de um</p><p>samaritano é como aquele que come a carne de um suíno”6.</p><p>O casamento entre eles era um tabu. Os judeus consi-</p><p>deravam as mulheres samari tanas menstruantes perpétuas</p><p>desde o berço e seus maridos perpetuamente impuros. A</p><p>saliva de uma mulher samaritana era impura. Toda uma al-</p><p>deia era declarada contaminada se uma mulher samaritana</p><p>ficasse lá. Qualquer lugar que um samaritano dormisse era</p><p>considerado imundo, como qualquer comida ou bebida que</p><p>tocasse o lugar. Outro rabino disse que os samaritanos “não</p><p>têm lei nem os restos de uma lei e, portanto, eles são des­</p><p>248</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>prezíveis e corruptos”7. Os samaritanos frequentemente ata-</p><p>cavam judeus galileus que iam para Jerusalém. Para os ju-</p><p>deus devotos, os samaritanos eram piores do que os romanos</p><p>porque os mestiços ridicularizavam a fé judaica praticando</p><p>uma religião rival na Terra Santa de Deus. Os samaritanos,</p><p>em suma, nem sequer estavam na lista de pureza —eram to-</p><p>talmente poluídos.</p><p>De volta à nossa história. Jesus chocou as mentes judai-</p><p>cas quando disse que um mercador samaritano, um inimigo</p><p>desprezível, parou para ajudar a vítima. Se Jesus quisesse</p><p>simplesmente ensinar sobre o amor ao próximo, o herói da</p><p>história poderia ter sido outro judeu. Melhor ainda, por</p><p>que não contar uma história em que um judeu resgatou um</p><p>samaritano? Isso teria acariciado egos tribais — mostrando</p><p>como o mocinho ajuda o cara mau.</p><p>Transformar um patife em um herói? Impensável! Jesus</p><p>vira o mundo social da multidão de ponta-cabeça. Os bons —</p><p>sacerdotese levitas —se tornam maus. O vilão se transforma</p><p>em herói. Jesus une duas palavras impensáveis: bom e sama-</p><p>ritano. Uma mistura equivalente em nosso mundo pode ser</p><p>bom e terrorista.</p><p>Que terremoto! Isso abala as suposições da multidão. As</p><p>linhas de falhas estão no mapa cultural. Os juízos dogmá-</p><p>ticos, as conclusões estabelecidas e os pressupostos conven-</p><p>cionais de repente entram em colapso8. Fatos contraditórios</p><p>colidem. Os líderes judeus agem sem compaixão. Um vil sa-</p><p>maritano se comporta como um vizinho amoroso. O inimigo</p><p>é movido pela compaixão, pela mesma força que dominou</p><p>o pai tolo. O sacerdote e o levita, representando o templo</p><p>judeu, se recusam a ajudar por causa de regulamentos reli-</p><p>giosos. O samaritano, levantando a bandeira de um templo</p><p>rival, desafia prescrições cerimoniais e oferece ternura.</p><p>249</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>O óleo e o vinho eram frequentemente usados como un-</p><p>guento e antisséptico. Porém eles estavam contaminados se</p><p>tocados por um samaritano. O templo de Jerusalém continha</p><p>óleo sagrado e vinho, guardados em lugares sagrados, para</p><p>ocasiões especiais de sacrifício. Somente sacerdotes oficiantes</p><p>podiam tocar o óleo e o vinho sagrados. Agora, um estranho,</p><p>um samaritano, polui os emblemas sagrados com seu toque, e</p><p>depois os usa para curar seu inimigo judeu. Esta é a verdadei-</p><p>ra adoração, verdadeiro perdão, sacramento genuíno sem um</p><p>sacrifício de animais, longe do Santo dos Santos!</p><p>O samaritano derrama generosamente os elementos sa-</p><p>grados sobre seu oponente, nem mesmo separando o dízimo</p><p>segundo o procedimento judaico apropriado. Como o amor</p><p>de Deus, o óleo e o vinho não são restritos a pessoas espe-</p><p>ciais em lugares santos. Eles são compartilhados livremente,</p><p>mesmo com inimigos. Em poucas linhas, esta história não</p><p>só redefine o amor, como também destrói a necessidade do</p><p>templo e do seu altar sacrificial.</p><p>Só duas vezes no Evangelho Jesus foi perguntado sobre</p><p>como ganhar a vida eterna. Na primeira vez, Jesus recomen-</p><p>da ao jovem rico que venda tudo e de aos pobres e siga-O.</p><p>A segunda vez que Jesus conta a história do Bom Samari-</p><p>tano para explicar o amor do reino a um advogado judeu,</p><p>um estudante da Torá. Esta história de ponta-cabeça revela</p><p>a resposta mais chocante às perguntas do advogado: “Como</p><p>herdar a vida eterna?” e “Quem é 0 meu próximo?”.</p><p>A Torá definia os limites tribais do povo de Israel. Amar</p><p>o próximo certamente se referiría àqueles dentro da tribo ju-</p><p>daica. Em poucas palavras, Jesus esmaga as antigas frontei-</p><p>ras étnicas e mostra que os muros do novo reino vão muito</p><p>além de Israel. Não se trata apenas de uma história sobre no-</p><p>vas fronteiras e uma boa ação. É também uma história sobre</p><p>uma boa pessoa, uma história que mostra a bondade até para</p><p>250</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>com um inimigo. Ao fazê-lo, Ele estende o guarda-chuva</p><p>do novo reino sobre toda a humanidade. Em uma pequena</p><p>história, Jesus derruba nossos rótulos de vizinho e inimigo,</p><p>os “de dentro” e os “de fora”9.</p><p>A história esclarece os valores do reino e o amor ágape</p><p>de várias maneiras. (1 )0 ágape é indiscriminado. O reino do</p><p>amor zomba dos rótulos por trás da pergunta do mestre da</p><p>lei, “Quem é o meu próximo?” Ele quer classificar as pessoas</p><p>em caixas de “próximos” e “inimigos”. Os discípulos de Je-</p><p>sus amam indiscriminadamente; Seu amor se estende além</p><p>do próximo. Agentes do ágape não traçam linhas de respon-</p><p>sabilidade e exclusão. A resposta à pergunta do advogado é</p><p>clara. Se, mesmo os inimigos são definidos como próximos,</p><p>então certamente qualquer pessoa menos hostil merece a</p><p>graça do ágape.</p><p>Em outras palavras, a questão, “Quem é meu próximo?”</p><p>é irrelevante. A história define todos, mesmo meu inimigo,</p><p>como meu próximo. Nosso “próximo” inclui a todos no rei-</p><p>no de ponta-cabeça. Num amplo apelo à solidariedade hu-</p><p>mana, as categorias de amigo e inimigo se dissolvem, uma</p><p>vez que todos são o próximo. Tratamos como vizinhos, mes-</p><p>mo aqueles a quem não temos obrigação de agir de forma</p><p>favorável - até mesmo inimigos que poderiamos odiar com</p><p>razão. O amor ágape responde às pessoas, não às categorias</p><p>sociais. Jesus inverte as coisas perguntando ao advogado, em</p><p>essência, “Você está agindo como um vizinho a todos?”.</p><p>(2) O ágape ousado. Os costumes religiosos não o impe-</p><p>dem. A compaixão suspende as normas sociais que podem</p><p>justificar um desinteresse insensível. Ao contrário do sacer-</p><p>dote, que temia que sua sombra pudesse tocar um cadáver, 0</p><p>ágape valoriza as pessoas acima das regras religiosas. O ágape</p><p>ultrapassa barreiras sociais que escondem pessoas em prisões,</p><p>hospitais, centros de recuperação e guetos de todos os tipos.</p><p>261</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>(3) O ágape é inconveniente. O sacerdote e o levita “vi-</p><p>ram e passaram pelo outro lado”. O samaritano teve com-</p><p>paixão e desceu de seu jumento. Ele colocou a vítima em</p><p>seu jumento e caminhou ao lado. Muitas vezes é inconve-</p><p>niente sair de cima dos burros que nos levam a lugares de</p><p>segurança confortável. O ágape do reino nos chama a tais</p><p>inconvenientes.</p><p>(4) O ágape é arriscado. Toda a cena desta história podería</p><p>ter sido uma armação. Talvez os ladrões estivessem se es-</p><p>condendo nas proximidades esperando para atacar qualquer</p><p>pessoa que oferecesse ajuda. Caminhando com a vítima, em</p><p>vez de montar, o samaritano tornou-se vulnerável a mais ata-</p><p>ques após o resgate. No entanto, este bom inimigo assume</p><p>um risco por causa da vítima.</p><p>(5) O ágape leva tempo. O resgate interrompe a agenda</p><p>do comerciante samaritano. Parar e fazer curativos na víti-</p><p>ma, caminhar ao lado dele, e parar na estalagem certamente</p><p>atrasou a viagem do comerciante. Compaixão requer ação</p><p>que exige tempo.</p><p>(6) O ágape é caro. O Samaritano pagOLi ao dono da es-</p><p>talagem o equivalente a vinte e quatro dias de alojamento</p><p>e ofereceu um “cheque em branco” para quaisquer custos</p><p>adicionais. Se os judeus estivessem ajudando judeus, um</p><p>tribunal civil teria provavelmente reembolsado aquele que</p><p>ajudou. Porém,um tribunal judeu jamais reembolsaria um</p><p>samaritano. O inimigo livremente empresta recursos sem</p><p>esperança de retorno. Isto é exatamente o que Jesus diz em</p><p>uma instrução formal: “emprestem a eles, sem esperar rece-</p><p>ber nada de volta” (Lc 6:35).</p><p>(7) O ágape compromete 0 status social. O que aconteceu</p><p>quando a notícia chegou à cidade natal do samaritano, de</p><p>que ele estava ajudando judeus? Ele, provavelmente, foi ro­</p><p>252</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>tulado como traidor da causa samaritana. Sua reputação e</p><p>status social foram manchados. Certamente ele foi ridícula-</p><p>rizado por seu próprio povo.</p><p>Esta história de ponta-cabeça não deixa dúvidas sobre a</p><p>natureza corajosa do dgape. A compaixão envolve mais do</p><p>que confusos sentimentos calorosos. É mais do que boas ati-</p><p>tudes em relação aos outros. Não acaba apenas com sorrisos</p><p>doces. Este amor “tolo” é assertivo. E caro, tanto social e</p><p>quanto economicamente.</p><p>Embora a história mostre a forma do dgape, ela não res-</p><p>ponde a todas as nossas perguntas. E se o samaritano tivesse</p><p>encontrado os ladrões batendo na vítima? Como 0 dgape</p><p>teria respondido? A força deveria ser usada para parar a</p><p>atrocidade? O dgape só aplica Band-Aids aos feridos? O sa-</p><p>maritano chegou à raiz do problema voltando às cavernas e</p><p>procurando os ladrões? Se os tivesse encontrado, o que po-</p><p>deria ter feito com eles? E se alguém vê muitas vítimas mal-</p><p>tratadas? Quais recebem prioridade? Essas perguntas, sem</p><p>resposta no incidente, muitas vezes imploram por respostas</p><p>no nosso mundo de hoje.</p><p>A L ei de um pé só</p><p>Os Evangelhos anunciam o amor dgape como o único sa-</p><p>cramento do reino de ponta-cabeça. Depois do grande man-</p><p>damento de amar a Deus com todo o nosso ser vem a ins-</p><p>trução revolucionária. Ame seu próximo da mesma maneira</p><p>que você ama a si mesmo. Todos os três escritores sinóticos</p><p>destacam este manifesto cristão (Mt 22:37-40, Mc 12:28-</p><p>31, Lc 10:25-27).</p><p>A frase simples é cheia de significado. Primeiramente,</p><p>supõe que o amor-próprio é apropriado. Há um lugar para</p><p>253</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>o respeito pessoal e dignidade. É bom ter aspirações pesso-</p><p>ais, mas há um porém. A frase revolucionária diz para nos</p><p>importarmos com o próximo tão intensamente quanto nos</p><p>importamos com nós mesmos. Devemos trabalhar tão duro</p><p>para ajudar nossos vizinhos a alcançar seus objetivos en-</p><p>quanto trabalhamos pelos nossos.</p><p>O convite para amar o próximo como a nós mesmos co-</p><p>lide com o individualismo egoísta. A sábia admoestação</p><p>equilibra a busca do interesse próprio com as necessidades</p><p>dos outros. Ela celebra as necessidades e desejos pessoais,</p><p>mas então os restringe, chamando por igual atenção para</p><p>os outros. O individualismo egoísta é abolido no reino de</p><p>ponta-cabeça. Aqui, doses iguais de amor próprio e amor</p><p>ao próximo fluem de nosso amor supremo - nossa devoção</p><p>a Deus. Esse amor erradica o orgulho. Cuidar do bem-estar</p><p>do próximo com a mesma intensidade com que cuidamos do</p><p>nosso, elimina o egoísmo ganancioso.</p><p>Para Jesus, a norma do amor ágape resumia toda a lei e</p><p>a mensagem dos profetas (Mt7:12). Embora o ágape fosse a</p><p>chave da justiça hebraica, Jesus a chamou de um novo man-</p><p>damento. Devemos amar os outros como Deus nos amou.</p><p>Nossa prática de amor é o sinal de que somos realmente</p><p>discípulos de Jesus (Jo 13:34-35).</p><p>Jesus acrescentou novas dimensões ao significado do</p><p>amor. Um gentio cético disse, certa vez, a um rabino que</p><p>aceitaria a fé judaica se o rabino pudesse resumir a lei judai-</p><p>ca enquanto o gentio estava de pé em um pé só. O rabino</p><p>respondeu: “Não faça a outro o que seria prejudicial para</p><p>você”. Jesus virou a regra negativa de ponta-cabeça e trans-</p><p>formou-a em uma diretriz para a ação. “E como vós quereis</p><p>que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós,</p><p>também” (Lc 6:31, Mt 7:12).</p><p>254</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Jesus foi o modelo do ágape. Ele o encarnou, por ser um</p><p>defensor dos pobres. Ele violou leis civis e religiosas para</p><p>servir à necessidade humana. Suas palavras e ações insulta-</p><p>ram os ricos e poderosos. Ele defendeu os espezinhados, os</p><p>excluídos e os oprimidos, mesmo quando seu comportamen-</p><p>to criava tumulto.</p><p>Embora o ágape sofra de bom grado, ele entende que um</p><p>“não” firme é também uma expressão de cuidado amoroso.</p><p>A criança pequena, emocionalmente perturbada, 0 adoles-</p><p>cente com um transtorno de caráter e o adulto irresponsável</p><p>podem precisar de um “não” em vez de um doce sorriso. Um</p><p>confronto amável, mas firme, pode ser uma profunda expres-</p><p>são de ágape. O verdadeiro amor confronta mesmo quando</p><p>o confronto é doloroso. Na verdade, o confronto gentil ex-</p><p>pressa ágape mais do que evitar o confronto ou a aprovar de</p><p>forma implícita o comportamento irresponsável. Dizer que</p><p>o ágape pode ser firme e confrontador não serve, no entanto,</p><p>como desculpa para o uso de meios violentos, mesmo para</p><p>fins bons.</p><p>Sugerir que o ágape seja única ordenança do reino soa</p><p>agradável, mas não é solução milagrosa. Como se responde</p><p>quando as necessidades de três ou quatro diferentes “vizi-</p><p>nhos” estão em choque? Cuidar de um vizinho pode preju-</p><p>dicar os interesses de outro. Em uma época de competição</p><p>agressiva, como uma empresa cristã aplica o ágape diante</p><p>de concorrentes veementes? Os concorrentes corporativos</p><p>são também “vizinhos”? Como amamos 0 nosso próximo</p><p>quando os objetivos do vizinho se chocam com os valores</p><p>cristãos? Embora tais perguntas implorem respostas, a visão</p><p>ágape oferece novas perspectivas. Ela nos afasta do indivi-</p><p>dualismo arrogante e nos estimula a fazer as perguntas certas</p><p>sobre o amor ao próximo.</p><p>DONALD B. KRftYBILL</p><p>A lém do toma lá dá cá</p><p>O amor ágape revisa uma regra social generalizada — a</p><p>norma da reciprocidade. Em todo o mundo, a reciprocidade</p><p>molda nossas expectativas para dar e receber favores - tanto</p><p>verbal quanto material. Se eu comprar uma xícara de café</p><p>para você, você é obrigado a dizer “obrigado” e devolver o</p><p>favor algum dia. A troca não precisa ser igual em valor ou</p><p>forma. Um chocolate pode ser um aceitável obrigado por</p><p>uma xícara de café. A regra por trás, no entanto, é simples:</p><p>devemos apreciar e devolver favores.</p><p>A norma da reciprocidade pressupõe que as pessoas de-</p><p>vem ajudar — e certamente não prejudicar - aqueles que as</p><p>ajudaram. A reciprocidade mantém um equilíbrio de obri-</p><p>gações nas relações sociais. Sentimo-nos constrangidos se</p><p>não podemos retribuir um presente. Consideramos rudes</p><p>aqueles que quebram as regras da reciprocidade. Dar um</p><p>presente e trocar um cartão no fim do ano ilustram a nor-</p><p>ma. Presentes precisam ser de valor semelhante para que as</p><p>coisas não fiquem desequilibradas. Dar um presente de R$</p><p>2,00 em troca de um de R$ 25,00 nos deixa desconfortá-</p><p>veis. Nós enviamos cartões de “boas festas” para aqueles que</p><p>achamos que vão enviar um de volta. Nossas relações saem</p><p>do equilíbrio quando um presente de Natal ou felicitação</p><p>não é devolvido.</p><p>Esta regra não é apenas uma coisa sazonal. Ela permeia</p><p>todos os aspectos das relações humanas. Os pequenos</p><p>nunca saberemos, mas essa não é uma razão</p><p>suficiente para dizer que não podemos encontrá-Lo. Dizer</p><p>que Ele está perdido na história se torna uma desculpa fácil</p><p>para virarmos as costas para Sua mensagem.</p><p>26</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Desvio dois: J esus está envolvido pela cultura</p><p>M e sm o q u e c o n c o rd e m o s q u e p o d e m o s e n c o n tra r Je su s</p><p>e n tr e as c a m a d a s e m p o e ira d a s d e e v id ê n c ia , p o d e m o s e n te n -</p><p>d ê - lo ? E le n ão e s tá e n v o lv id o e m u m a c u l tu r a a n t ig a q u e</p><p>n ão faz s e n t id o h o je? N ó s o u v im o s q u e M a r ia O en v o lv eu</p><p>e m fa ixas d e p a n o , m a s o q u e isso s ig n if ic a p a ra nós q u e</p><p>d if ic i lm e n te e n fa ix a m o s a lg u é m ? E s te d e sv io s u s te n ta q u e</p><p>as d ife re n ç a s c u l tu ra is e n t r e n osso m u n d o e o D e le são tão</p><p>g ra n d e s q u e q u a lq u e r co isa q u e E le te n h a d i to fa rá p o u co</p><p>s e n t id o p a ra nós h o je .</p><p>J e s u s m o ra v a e m u m p e q u e n o v ila re jo ru ra l , sécu lo s an -</p><p>te s d e c o m p u ta d o re s , I n te r n e t , ro b ô s , s a té l i te s , a rm a s n u d e -</p><p>ares e e m p re sa s m u lt in a c io n a is . D e a c o rd o c o m esse s in a l de</p><p>d esv io , a é t ic a d o re in o p o d e fu n c io n a r e m p e q u e n o s v ila re -</p><p>jos o n d e S im ã o co n h e c e M a r ta — e m p e q u e n a s c o m u n id a d e s</p><p>o n d e é p o ss ív e l a m a r os in im ig o s e p e rd o a r o v iz in h o - m as,</p><p>n ão h o je . A v id a n o re in o p o d e r ia se r a d e q u a d a p a ra s im p le s</p><p>p a s to re s e ca m p o n e se s , m a s n ão p a ra nós. O e n s in a m e n to de</p><p>J e s u s , d e a c o rd o co m esse d e sv io , e s tá p re so a u m a p ito re sc a</p><p>c u l tu r a ru ra l , m u i to s séc u lo s d is ta n te s d o m u n d o tec n o ló -</p><p>g ic o d e a rm a s la se r e c o m u n ic a ç ã o se m fio. C e r ta m e n te não</p><p>p o d e m o s tra z e r n e n h u m a p e rc e p ç ã o , m u i to m e n o s a é tica</p><p>desses a n t ig o s c a m in h o s e m p o e ira d o s p a ra nosso m u n d o d i-</p><p>g i ta l a tu a l .</p><p>D e a c o rd o c o m essa a d v e r tê n c ia , p o d e m o s e s tu d a r as</p><p>E s c r itu ra s p a ra a p re n d e r so b re é t ic a b íb l ic a nos te m p o s do</p><p>N o v o T e s ta m e n to , m a s n ão d e v e m o s a r ra s tá - la p e lo s sécu los</p><p>e a p lic á - la a nossas v id as . A d ife re n ç a é m u i to g ra n d e . Esse</p><p>d e sv io n o s d iz p a ra c r ia rm o s n o ssa p ró p r ia é t ic a c r is tã d o</p><p>zero . E le nos fa la p a ra fu n d a m e n tá - la n o b o m senso p o rq u e</p><p>os a n t ig o s e n s in a m e n to s b íb lic o s n ão fa zem s e n tid o em nos-</p><p>so m u n d o c o m p lic a d o - e les são s im p le s m e n te irre le v a n te s .</p><p>27</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>É tolice, é claro, pegar as palavras envoltas nessa cultu-</p><p>ra antiga e aplicá-la cegamente aos nossos tempos. Porém,</p><p>graças aos esforços de muitos estudiosos, temos um estoque</p><p>de informações sobre o cenário cultural de Jesus. Com esses</p><p>recursos, podemos desembrulhar um texto bíblico de seu</p><p>próprio contexto cultural e trazer o seu significado para o</p><p>nosso mundo. Conhecer os valores culturais, práticas e re-</p><p>lações entre os grupos no cenário bíblico nos ajuda a de-</p><p>sembrulhar o pleno significado de um texto específico. As</p><p>histórias bíblicas de repente ganham vida de uma forma</p><p>nova quando as interpretamos e entendemos em seu próprio</p><p>contexto cultural.</p><p>A sociedade camponesa da Galileia era surpreenden-</p><p>temente diferente do nosso mundo. No entanto, hábitos</p><p>humanos semelhantes persistem nos dois lados do abismo</p><p>histórico: nacionalismo, racismo, injustiça, ganância, vio-</p><p>lência, abuso de poder e orgulho arrogante. Em suma, o</p><p>mal se esconde dentro das estruturas sociais tanto de on-</p><p>tem quanto de hoje. Ao desvendar o significado do evan-</p><p>gelho em seu próprio cenário cultural, ele fala conosco de</p><p>forma nova e poderosa.</p><p>O antigo cenário de Jesus não é uma desvantagem se pa-</p><p>rarmos para entender seu contexto histórico. Quando o fa-</p><p>zemos, as histórias do evangelho aumentam seu significado</p><p>e poder. De fato, a relevância de Jesus desaparecería se Sua</p><p>vida tivesse flutuado misteriosamente acima da cultura. Ele</p><p>fala conosco de forma poderosa exatamente porque está en-</p><p>volto em uma cultura específica. A cultura que O envolve</p><p>esclarece, e não esconde, sua mensagem do Reino.</p><p>28</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Desvio três: J esus zombou do tempo</p><p>A q u e s tã o d o te m p o d o re in o é u m p ro b le m a p e rs is te n te</p><p>nos e s tu d o s d o s e v a n g e lh o s s in ó tic o s . T em p ro v o c a d o aca-</p><p>lo ra d o s d e b a te s a c a d ê m ic o s 8. Q u a n d o o re in o ch eg a? E le já</p><p>v e io ou a in d a o e sp e ra m o s? E ap e n a s u m a id e ia m ira b o la n te</p><p>o u já é a lg o real?</p><p>O te rc e iro d e sv io nos a d v e r te q u e J e s u s b r in c o u ao p e n -</p><p>sar q u e o m u n d o te r m in a r ia e m b rev e . A ss im , tu d o q u e E le</p><p>d isse d e v e se r v is to c o m u m a p i t a d a d e c a u te la , se E le d e fa to</p><p>s u p u n h a q u e o m u n d o e s ta v a p re s te s a e n t r a r e m co lapso .</p><p>Isso n ão a c o n te c e u e e n tã o , d e a c o rd o co m esse d esv io , não</p><p>p o d e m o s a p lic a r S eus e n s in a m e n to s so b re o fim d o m u n d o</p><p>à n o ssa s itu a ç ã o .</p><p>E ssa v isã o r e g u la o c a rá te r ra d ic a l d a v id a d e J e s u s . E s-</p><p>p e r a n d o q u e o m u n d o a c a b a sse e m p o u c o s a n o s , E le ofe-</p><p>re c e u d i r e t r iz e s te m p o rá r ia s p a r a se v iv e r. E la s e ra m a p l i-</p><p>c á v e is a p e n a s ao b re v e in te rv a lo d e te m p o e à c h e g a d a d o</p><p>re in o . Se v o cê e s p e ra q u e 0 m u n d o a c a b e e o re in o i r ro m p a</p><p>a q u a lq u e r m o m e n to , v o cê p o d e a m a r seu s in im ig o s e d a r</p><p>o se u m a n to . D e a c o rd o c o m essa in te rp re ta ç ã o , os e n s in a -</p><p>m e n to s “te m p o r á r io s ” d e J e s u s são ir re le v a n te s p a ra re la -</p><p>ções so c ia is d u ra d o u ra s .</p><p>A lg u n s e s tu d io so s a c re d i ta m q u e J e s u s esp e rav a a co n su -</p><p>m açã o final d o re in o d u r a n te S u a p ró p r ia v id a 9. E m M a te u s</p><p>1 0 :2 3 , p o r e x e m p lo , J e s u s d iz à q u e le s a q u e m e s tá en v ia n d o</p><p>q u e “E u lh es g a r a n to q u e vocês n ão te rã o p e rc o rr id o to d as as</p><p>c id a d e s d e Is ra e l a n te s q u e v e n h a o F ilh o d o h o m e m . M ateu s</p><p>1 0 :2 3 ” . E m L ucas 9 :2 7 , d e p o is d e fa la r c o m os d isc íp u lo s</p><p>so b re a c ru z , J e s u s d iz “G a ra n to - lh e s q u e a lg u n s q u e a q u i</p><p>se ac h a m d e m o d o n e n h u m e x p e r im e n ta rã o a m o r te an tes</p><p>d e v e re m o R e in o d e D e u s L ucas 9 :2 7 ” . Essas e o u tra s pas-</p><p>sag e n s su g e re m q u e J e s u s e sp e ra v a q u e 0 re in o v iesse logo .</p><p>29</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>Em contraste, outros teólogos argumentam que Jesus</p><p>pensava que o reino já estava presente em seu próprio minis-</p><p>tério. Jesus disse “O Reino de Deus está próximo de vocês</p><p>LC 10:9” “então chegou a vocês o Reino de Deus. Lucas</p><p>11:20”. Assim, Jesus deve ter compreendido que o reino de</p><p>Deus já estava presente em Seu ministério. Essa linha de</p><p>interpretação enfatiza a presença do reino na encarnação e no</p><p>posterior crescimento da igreja, mas pode minimizar uma</p><p>consumação futura10.</p><p>Uma terceira posição, a visão dispensacionalista, re-</p><p>lega o reino ao governo real e futuro de Cristo na</p><p>“obri-</p><p>gados” que dizemos e fazemos ao longo do dia são gover-</p><p>nados pela reciprocidade. Assim é a troca de trabalho por</p><p>salários e taxas por serviços. Podemos manipular relaciona-</p><p>mentos para ganho pessoal, aumentando a dívida com os</p><p>outros. Isto acontece quando os vendedores trazem diversas</p><p>amostras e explicações a potenciais clientes, obrigando as-</p><p>256</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>sim os clientes a devolver o favor, fazendo uma compra. Se</p><p>quisermos pedir um favor aos outros, podemos levá-los para</p><p>almoçar, obrigando-os a nos ajudar.</p><p>A troca sutil desta norma, muitas vezes, dispensa pala-</p><p>vras, mas ainda é penetrante e poderosa. Embora se espere</p><p>que ajudemos àqueles de dentro da nossa rede de reciproci-</p><p>dade, não somos obrigados a sair do nosso caminho para fa-</p><p>zer favores para estranhos. Não temos obrigações para com</p><p>pessoas de fora. Este é o motivo de atos aleatórios de bon-</p><p>dade para com estranhos serem tão surpreendentes. Não</p><p>temos dívidas com aqueles que não fizeram nada por nós.</p><p>Podemos ignorar estranhos sem sentir culpa. Mas quando</p><p>se trata de inimigos, é uma história diferente. Temos o</p><p>dever de odiá-los.</p><p>Jesus corta a norma da reciprocidade: ,‘Que mérito vo-</p><p>cês terão, se amarem aos que os amam? Até os ‘pecadores’</p><p>amam aos que os amam...E que mérito terão, se empresta-</p><p>rem a pessoas de quem esperam devolução? Até os ‘pecado-</p><p>res’ emprestam a ‘pecadores’, esperando receber devolução</p><p>integral”(Lc. 6: 32-34).</p><p>Jesus chega ao ponto perguntando: “Se vocês amarem</p><p>aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os</p><p>publicanos fazem isso !E se vocês saudarem apenas os seus</p><p>irmãos, o que estarão fazendo demais? Até os pagãos fazem</p><p>isso!”(Mt 3:46-47). Em outras palavras, o amor dgape se</p><p>estende muito além da simples reciprocidade.</p><p>Não seja enganado, diz Jesus, em pensar que o amor ága-</p><p>pe é o mesmo que a norma da reciprocidade. Ágape não se</p><p>trata de devolver sorrisos com sorrisos ou favores com favo-</p><p>res. Até os pecadores jogam com essa regra. Os fariseus e</p><p>cobradores de impostos sorriem quando as pessoas sorriem</p><p>para eles. Pagãos devolvem favores a pessoas que lhes fazem</p><p>257</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>favores. Os gentios eclucadamente obedecem a essas regras</p><p>de etiqueta social. Não é grande coisa se você simplesmente</p><p>jogar pelas regras de reciprocidade. Isso não é o amor do</p><p>reino.</p><p>Ágape é uma norma de excesso. Vai além da reciprocidade.</p><p>O pai tolo não jogou pela regrada reciprocidade quando re-</p><p>cebeu seu filho fedorento em casa. O mestiço samaritano não</p><p>jogou pela regra da reciprocidade quando saiu do jumento.</p><p>Seu Pai celestial também não joga com essa regra. Deus en-</p><p>via sol e chuva sobre os injustos e também sobre os justos</p><p>(Mt 5:45). Deus é 0 modelo da norma do excesso. Devemos</p><p>ser misericordiosos como Deus é misericordioso” (Lc 6:36).</p><p>“Vocês receberam de graça; deem também de graça” (Mt</p><p>10: 8 ).</p><p>Deus injeta uma dimensão divina na antiga fórmula</p><p>“toma lá dá cá”. Deus entra na equação das relações sociais.</p><p>Deus tomou a iniciativa fazendo-nos um favor. Deus amou</p><p>tanto o mundo que Deus se tornou uma pessoa humana.</p><p>Deus nos redime e nos salva por meio de Jesus Cristo. Deus</p><p>age primeiro e inicia uma reação em cadeia. Nós fomos gra-</p><p>ciosamente perdoados. Como devolvemos? Ao compartilhar</p><p>a iniciativa amorosa de Deus com os outros. Nesta rede de</p><p>relações sociais existem três atores. Deus toma a iniciativa es-</p><p>tendendo amor incondicional como o pai tolo. Nós retribui-</p><p>remos nossa dívida para com Deus, espalhando a iniciativa</p><p>amorosa para os outros.</p><p>Agradecemos ao perdão de nossa dívida com Deus aman-</p><p>do os outros. Paulo descreve sucintamente o funcionamento</p><p>desta “dívida amorosa”: “Não devam nada a ninguém, a não</p><p>ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu</p><p>próximo tem cumprido a Lei.”(Rm 13:8). Jesus diz isso com</p><p>clareza quando afirma: ‘“Digo a verdade: O que vocês fize-</p><p>ram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’”</p><p>258</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>(Mt 25:40). Neste contexto, Ele descreve atos de amor para</p><p>com os mais necessitados: os famintos, os sedentos, os doen-</p><p>tes, os prisioneiros, os estranhos e os nus. A medida que você</p><p>ama mesmo o menor destes - colocado lá no último degrau</p><p>da escala social - você tem me retribuído!</p><p>A transação está concluída. Começa uma nova reação em</p><p>cadeia. O menor destes que experimenta o cuidado de Deus</p><p>passa-o adiante agora. O refrão do Jubileu toca em nossos</p><p>ouvidos novamente. Assim como vos libertei, libertai os ou-</p><p>tros! Esta não é uma troca fria, calculada, onde buscamos</p><p>“pagar” a Deus de alguma maneira legalista. E impossível</p><p>retribuir totalmente nossa enorme dívida. Esta é uma alegre</p><p>resposta do jubilei- gratidão espontânea pela graça maravi-</p><p>lhosa de Deus.</p><p>O amor ágape excede a norma da reciprocidade de três</p><p>maneiras. Primeiro, a iniciativa agora é nossa. Em vez de</p><p>esperar para devolver um favor, damos o primeiro passo por-</p><p>que Deus já nos favoreceu.</p><p>Em segundo lugar, o ágape serve aos outros, independen-</p><p>temente do seu status. Não se concentra em amigos ou iguais</p><p>com quem devemos “ser bons”. Como a história do Samarita-</p><p>no sugere, sob o reino do ágape, estranhos, inimigos e margi-</p><p>nalizados são cuidados tanto quanto amigos íntimos.</p><p>Em terceiro lugar, o amor ágape não espera um retorno.</p><p>Porque Deus tomou a iniciativa, já fomos pagos. Na forma</p><p>típica de ponta-cabeça, o ágape exorta os outros a passar o</p><p>amor, oferecendo 0 favor a alguém em vez de devolvê-lo.</p><p>Jesus articula isso claramente. “Quando você der um</p><p>banquete ou jantar, não convide seus amigos, irmãos ou</p><p>parentes, nem seus vizinhos ricos; se o fizer, eles poderão</p><p>também, por sua vez, convidá-lo, e assim você será recom-</p><p>pensado. Mas, quando der um banquete, convide os pobres,</p><p>259</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>os aleijados, os mancos, e os cegos. Feliz será você, porque</p><p>estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na res-</p><p>stirreição dos justos”(Lc 14:12-14)10.</p><p>Os discípulos de Jesus não amam por interesse pessoal,</p><p>nem esperam um retorno. Depois de zombar daqueles que</p><p>se orgulham de seguir a norma da reciprocidade, Jesus es-</p><p>clarece a natureza ilimitada do ágape. “Amem, porém, os</p><p>seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem</p><p>esperar receber nada de volta. Então, a recompensa que terão</p><p>será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é</p><p>bondoso para com os ingratos e maus. ” (Lc 6:35).</p><p>Os discípulos de Jesus são anormais de ponta-cabeça.</p><p>Eles excedem as expectativas convencionais. Eles tomam a</p><p>iniciativa. Eles não fazem diferença entre inimigos e vizi-</p><p>nhos. Eles não esperam retorno. Quando esperamos retor-</p><p>no, transformamos os destinatários do presente em clientes.</p><p>Quando não esperamos retorno, os liberamos da dívida11.</p><p>Muitas vezes é difícil aceitar um presente. Odiamos nos</p><p>sentir em dívida. Nós nos preocupamos em como retribuir.</p><p>Nossos presentes aos outros podem fazê-los sentir estranhos</p><p>também. A postura ágape alivia a estranheza. Quando al-</p><p>guém nos dá um presente e diz: “Só passe o favor adiante”,</p><p>isso alivia o nosso senso de d/vida. Isso também protege nos-</p><p>sa dignidade, pois podemos retribuir em tempo oportuno a</p><p>outra pessoa. Passando adiante a bondade, também, é claro,</p><p>nós ampliamos 0 círculo de amor redentor.</p><p>Uma bofetada por uma bofetada?</p><p>Olhamos para o lado positivo da norma da reciprocida-</p><p>de - faça bem àqueles que fazem o bem para você. O lado</p><p>negativo, no entanto, nos permite prejudicar alguém que</p><p>2 6 0</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>n o s p re ju d ic o u . É u m jo g o ju s to re ta l ia r se a lg u é m nos m a -</p><p>g o o u d e l ib e ra d a m e n te . N a v e rd a d e , p o d e m o s i r a lé m d e u m</p><p>o lh o p a ra u m o lh o . Se a lg u é m p õ e o d e d o e m u m d o s nossos</p><p>o lh o s , nós p o d e m o s p ô r o d e d o nos d o is d e le s . E s ta n o rm a d e</p><p>re c ip ro c id a d e n e g a tiv a su b ja z o e sp e c tro d o c o m p o r ta m e n to</p><p>h u m a n o d e sd e b i r r</p><p>ter-</p><p>ra. Nesta perspectiva, Israel rejeitou a oferta do reino na</p><p>primeira vinda de Cristo. Essa desfeita obrigou Deus a</p><p>adiar a chegada do reino até o retorno de Cristo. A incli-</p><p>nação futurista dessa visão dilui qualquer interesse sério</p><p>em aplicar os ensinamentos de Jesus a nossas vidas hoje.</p><p>Curiosamente, ambas visões “temporária” e “dispensado-</p><p>nalista” chegam à mesma conclusão: a ética do reino en-</p><p>sinada por Jesus não tem sentido hoje.</p><p>Muitos estudiosos colocam uma quarta posição. Eles ar-</p><p>gumentam que o reino de Deus nos ensinamentos de Jesus</p><p>integra ambos, o futuro e o presente. Um consenso crescente</p><p>vê Jesus “falando do reino como presente e futuro”11. Há</p><p>pelo menos quatro significados do reino nos Evangelhos. (1)</p><p>um significado abstrato do reino ou governo de Deus (2) um</p><p>reino futuro no qual os justos entrarão (3) uma realidade</p><p>que já está presente na terra (4) um reino em que as pessoas</p><p>estão entrando ou para o qual estão virando as costas agora.</p><p>Todos os quatro pontos de vista nos fornecem espaço para</p><p>uma compreensão do reino.</p><p>O reino de Deus é um símbolo cheio de muitos significa-</p><p>dos. A diferença entre um símbolo geral e um específico ajuda</p><p>a esclarecer o mistério12. Símbolos apontam para algo além</p><p>30</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>de si mesmos. A palavra escrita “cachorro” é um símbolo.</p><p>Quando lemos a palavra, ela nos lembra de um certo tipo</p><p>de animal. Um símbolo específico nos remete a uma coisa</p><p>específica. Um filhote de Cocker Spaniel, preto, fêmea, por</p><p>exemplo, nos aponta para um tipo muito específico de cão.</p><p>Em contraste, um símbolo geral tem múltiplos significa-</p><p>dos. A palavra “animal” por exemplo, sugere muitos tipos</p><p>de criaturas.</p><p>O reino de Deus é um símbolo geral, e não específico. Se</p><p>vemos o reino como um símbolo específico, ele nos limita a</p><p>um significado. Se o reino é apenas um evento único, somos</p><p>forçados a nos perguntar se ele já ocorreu - sim ou não. Um</p><p>símbolo geral é elástico. Ele se estica para frente e para trás,</p><p>mais largo e comprido, com muitos significados. Assim, ao</p><p>invés de fazer perguntas sobre o tempo, perguntamos o que</p><p>o reino evoca ou representa. O que ele defende? Em que</p><p>direção ele aponta? Além disso, um símbolo geral não está</p><p>ligado a um evento. O reino é mais do que um evento antigo</p><p>ou futuro. Ver o reino como um símbolo geral nos permite</p><p>apreciar tanto sua complexidade quanto seu poder.</p><p>Considere a frase “vai chover”. Dependendo do contexto,</p><p>ela pode significar muitas coisas13. Nos lábios de alguém</p><p>que acabou de sentir algumas gotas, significa que já está</p><p>chovendo. Alguém olhando para 0 céu à noite pode fazer</p><p>uma previsão do tempo de amanhã com essa frase. Um me-</p><p>teorologista pode usar essas palavras para uma previsão de</p><p>longo prazo. A mesma frase pode soar muito diferente em</p><p>meio a duas semanas de chuvas torrenciais, a seis meses de</p><p>seca ou em um deserto por exemplo. E assim é com o tempo</p><p>do reino.</p><p>Um estudioso observa que o significado do reino nos lá-</p><p>bios de Jesus não dizia respeito ao lugar ou tempo, mas a po-</p><p>der. Quem governa e como deveria governar14. Nosso estudo</p><p>31</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>abrange os diversos significados do reino: a esperança dos</p><p>hebreus por ele. Sua inauguração no ministério de Jesus. O</p><p>seu poder no Pentecostes. A sua duração na vida dos cristãos</p><p>ao longo dos séculos. E sua consumação futura.</p><p>Os sinais do reino surgem quando as pessoas submetem</p><p>suas vontades e relacionamentos à forma de Deus. Para citar</p><p>o título de um livro, o reino é A Presença do Futuro já entre</p><p>nós15. O reino de Deus está presente hoje, à medida que o</p><p>Espírito de Deus governa a vida dos cristãos. Os membros</p><p>do reino, mesmo agora, são aqueles que obedecem ao Senhor</p><p>do reino. Aqueles que seguem o caminho de Jesus já fazem</p><p>parte do movimento do reino. Jesus não zombou do tempo;</p><p>Ele estava simplesmente falando de algo maior do que o en-</p><p>tendimento humano sobre tempo.</p><p>Desvio Quatro: J esus Só Falou de Coisas E spirituais</p><p>Um quarto desvio muitas vezes suaviza os ensinamentos</p><p>de Jesus espiritualizando-os. As comunidades humanas cias-</p><p>sificam as palavras em caixas. Nós contrastamos o bem e o</p><p>mal, o sagrado e o secular e assim por diante. Nos círculos</p><p>religiosos o termo espiritual está no topo da escala sagrada,</p><p>mas a palavra social cai lá para baixo.</p><p>As realidades espirituais, diz a lógica, vêm de Deus. Elas</p><p>são santas. As realidades sociais, por outro lado, vêm das</p><p>pessoas. Estando longe do coração de Deus, as realidades so-</p><p>ciais são suspeitas. Em suma, o espiritual é melhor do que o</p><p>social; na verdade, as duas realidades pertencem a mundos</p><p>separados. Por exemplo, podemos nos preocupar que uma</p><p>atividade da igreja se torne “apenas um evento social” -di-</p><p>zendo que ela não teria um significado espiritual. Essa la-</p><p>mentável divisão entre espiritual e social muitas vezes nos</p><p>desvia da ética do reino.</p><p>32</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>Realidades espirituais envolvem grandes verdades mis-</p><p>teriosas. Elas incluem nossas crenças sobre Deus, salvação</p><p>e o misterioso trabalho do Espírito de Deus. As realidades</p><p>sociais, por outro lado, nos apontam para preocupações coti-</p><p>dianas — casa, amigos, salário, recreação e nossa necessidade</p><p>de amor, criatividade e relacionamentos felizes.</p><p>Uma falsa divisão entre o espiritual e o social nos leva</p><p>a uma leitura deformada das Escrituras. Ela nos tenta a</p><p>transformar a mensagem de Jesus em um doce xarope espi-</p><p>ritualizado. Tal distorção pode diluir a verdade, tornando-a</p><p>inofensiva. Ficamos maravilhados com a morte expiatória</p><p>de Jesus, mas esquecemos de que ela aconteceu porque Ele</p><p>demonstrou uma nova forma de viver.</p><p>De fato, qualquer evangelho sem os pés no chão não é</p><p>evangelho. O amor de Deus pelo mundo produziu ação so-</p><p>ciai. Deus não apenas sentou em uma grande cadeira de ba-</p><p>lanço teológica e refletiu a respeito de amar o mundo. Deus</p><p>agiu. Deus entrou nas questões sociais - em forma humana.</p><p>Através de Jesus, Deus viveu em um ambiente social real.</p><p>Jesus, em essência, revelou os hábitos sociais de Deus. Na</p><p>encarnação, o espiritual se tornou social.</p><p>Em outras palavras, a encarnação nos comunicou os misté-</p><p>rios espirituais de Deus em uma forma social prática — em uma</p><p>pessoa. Palavra e ação combinadas em uma única realidade no</p><p>Emanuel (Deus conosco). Deus falou conosco não através do</p><p>Grego, do Inglês ou do Português, mas através de um Filho</p><p>- um evento social (Hb. 1:2). A genialidade da encarnação é</p><p>que o mundo espiritual e o mundo social se cruzam em Jesus</p><p>Cristo. Separá-los é negar a encarnação. Social e espiritual estão</p><p>indissociavelmente entrelaçados na história de Jesus.</p><p>Um estudioso argumenta que o arrependimento “é um</p><p>ato ético puramente religioso... um ato envolvendo apenas</p><p>3 3</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>a si mesmo e a Deus, e é neutro com relação a outros se-</p><p>res humanos e o mundo”16. Essa visão assume erradamente</p><p>que o arrependimento é apenas uma experiência espiritual</p><p>pessoal sem implicações sociais. Tal segmentação deturpa</p><p>o evangelho.</p><p>Não temos dois evangelhos. Não temos um evangelho es-</p><p>piritual e um social, um evangelho de salvação e um de justiça</p><p>social. Em vez disso, temos um único e integrado evangelho</p><p>do reino. Esse evangelho funde as realidades social e espiritual</p><p>em uma só. Jesus une o espiritual em um todo indivisível.</p><p>Por um lado, Ele diz que a verdadeira fé está ancorada no</p><p>coração - não no dízimo, no sacrifício, na purificação ou em</p><p>outros rituais externos. Nesse sentido, Ele espiritualiza a fé</p><p>religiosa. Por outro lado, Jesus argumenta que a fé em Deus</p><p>é sempre expressa em atos tangíveis de amor ao próximo.</p><p>Ele estava, em resumo, acabando com nossas categorias de</p><p>espiritual e social. Na visão de Jesus, elas são um tecido sem</p><p>costura, que não pode ser rasgado ao meio.</p><p>Um pastor certa vez espiritualizou a história de Zaqueu.</p><p>Depois de contar a história, ele lembrou à congregação que</p><p>se estamos espiritualmente “em cima da árvore” podemos</p><p>ser feitos livres por Jesus. O sermão ignorava</p><p>as profundas</p><p>dimensões econômicas da história. Ele tornou trivial um</p><p>terremoto social usando aplicações espirituais banais. Den-</p><p>tro do contexto descobrimos um coletor de impostos ganan-</p><p>cioso que encontra Jesus, se arrepende e corrige seus erros</p><p>econômicos. O arrependimento espiritual e a retribuição so-</p><p>ciai formam uma história, uma história que Jesus chama de</p><p>“ser visitado pela salvação”.</p><p>Descobrir as implicações sociais do evangelho não é de-</p><p>preciar ou negligenciar entendimentos espirituais. Significa</p><p>simplesmente que os entendimentos espirituais sempre têm</p><p>34</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>implicações sociais. A integração do social e do espiritual</p><p>em um todo afirma uma encarnação que se moveu para além</p><p>do Santo dos Santos no templo de Jerusalém, para as realida-</p><p>des sociais da sociedade palestina. Quando espiritualizamos</p><p>textos bíblicos, evaporamos seu poder e significado práticos.</p><p>Desvio cinco: Jesus só abordou a moralidade</p><p>A próxima barreira sugere que o reino fala apenas ao nos-</p><p>so caráter pessoal. Em outras palavras, os ensinamentos de</p><p>Jesus fornecem bons conselhos a nossas vidas privadas, mas</p><p>não para a ética social. Um estudioso afirma que Jesus dese-</p><p>ja primariamente um caráter justo. A conduta, ele observa,</p><p>deve ser a manifestação de tal retidão de caráter. Porém, ele</p><p>conclui erroneamente “que há pouco ensinamento explícito</p><p>sobre ética social nos Evangelhos”17.</p><p>Tais visões atingem a segmentação entre nossa conduta pes-</p><p>soai e nossa vida em comunidade. A distinção entre ética pes-</p><p>soai e social é clara, mas problemática. Isso implica em que as</p><p>ações pessoais não têm consequências sociais; e pressupõe que os</p><p>indivíduos operam em um vácuo social, desvinculado das forças</p><p>sociais. Além disso, torna-se mais fácil nos concentrarmos em</p><p>nosso comportamento pessoal enquanto estamos cegos para as</p><p>implicações sociais de nossa conduta. Mais importante ainda,</p><p>essa divisão declara que Jesus é irrelevante para a política social</p><p>e restringe Sua autoridade à moralidade pessoal.</p><p>Jesus, de acordo com esse ponto de vista, estava preo-</p><p>cupado com assuntos pessoais da vida interior. Ele se preo-</p><p>cupava principalmente com o caráter, atitudes, motivações,</p><p>emoções e traços de personalidade. Por isso, a ética de Jesus</p><p>se aplica apenas aos nossos sentimentos íntimos e compor-</p><p>35</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>tamentos privados. Jesus transforma nossa perspectiva emo-</p><p>cional - nosso senso de esperança e paz interior, mas não</p><p>nossas relações sociais.</p><p>O problema com tal divisão pessoal/social é que a maio-</p><p>ria dos comportamentos é social. Alguma ação é puramente</p><p>“pessoal”? Talvez coçar a própria perna passe nesse teste. Po-</p><p>rém mesmo isso cria problemas, porque a própria forma de</p><p>coçar a perna é aprendida em um contexto social. As normas</p><p>culturais determinam o tempo e o método de coçar. Ai de</p><p>algum líder nacional que fique coçando as pernas durante a</p><p>coletiva de imprensa!</p><p>Nossas idéias, valores e traços de caráter têm origens so-</p><p>ciais. Eles não caem do céu. Nós os adquirimos através de</p><p>várias influências sociais - discutindo com amigos, lendo li-</p><p>vros, ouvindo música, assistindo televisão, observando nos-</p><p>sos pais. Isso não significa que nos falte originalidade; nem</p><p>significa que somos robôs culturalmente programados. Nos-</p><p>sas mentes são o crisol onde uma variedade de influências são</p><p>processadas em conjunto. Cada pessoa, naturalmente, mis-</p><p>tura essas influências sociais de sua própria forma.</p><p>Os sentimentos internos e as motivações não têm apenas</p><p>raízes sociais, eles também têm ramificações. Sentimentos</p><p>de desespero afetam a forma como tratamos ou outros. Jesus</p><p>identificou como as atitudes privadas afetam outras pessoas.</p><p>Odiar alguém em seu coração, Ele disse, é equivalente ao</p><p>assassinato; o desejo sexual equivale ao adultério.</p><p>Os sentimentos e as emoções não são isolados das outras</p><p>pessoas. Eles emergem em nossa experiência social e mol-</p><p>dam nossas ações para com os outros. E difícil pensar em</p><p>quaisquer chamados traços de caráter fora de um contexto</p><p>social. Alguém preso em uma ilha deserta podería refletir</p><p>36</p><p>0 REINO DE PONTA CABECA</p><p>sobre o significado de integridade, honestidade e mansidão,</p><p>mas encontraria palavras vazias separado de outras pessoas.</p><p>Se Jesus tivesse se preocupado apenas com o caráter interno,</p><p>Ele podería ter passado todo o Seu tempo em um retiro no</p><p>deserto falando sobre as virtudes da harmonia interior.</p><p>O fato de que as idéias têm origens e consequências não</p><p>nega o papel do Espírito Santo. Deus nos criou como seres</p><p>sociais e o Espírito de Deus nos estimula a cuidar dos outros.</p><p>Só porque nossos pensamentos são produtos sociais com im-</p><p>plicações sociais, não significa que nossa vida interior não é</p><p>importante — é exatamente o oposto. Pensamentos influen-</p><p>ciam o comportamento. Jesus enfatizou a necessidade de ge-</p><p>nuína retidão interior em contraste com o ritual hipócrita.</p><p>Ele sabia que nossa vida interior produz frutos sociais — de</p><p>uma forma ou de outra.</p><p>A ética do reino, ensinada e vivida por Jesus, pode ser</p><p>transportada sobre a ponte que liga o primeiro século ao</p><p>nosso. Este livro resiste à noção de que Jesus deveria vol-</p><p>tar para o Seu próprio tempo porque, nas palavras de um</p><p>erudito, “Ele não fornece uma ética válida para os dias de</p><p>hoje”18. Em contraste, as páginas seguintes ecoam o cres-</p><p>cente interesse de muitos estudiosos que relacionam a ética</p><p>social aos ensinamentos de Jesus sobre o reino de Deus19.</p><p>Os Evangelhos não oferecem um sistema completo de ética</p><p>formal para cada situação concebível; e eu certamente não</p><p>abraço uma mentalidade sentimentalista de simplesmente</p><p>“andar em Suas pegadas”. Porém, eu afirmo que os Evan-</p><p>gelhos nos fornecem alguns episódios, imagens e histórias</p><p>repletos de entendimentos éticos que abordam a nossa si-</p><p>tuação, mesmo que estejamos muito distantes dos pastores</p><p>de ovelhas na palestina antiga. As muitas imagens do bom</p><p>e do correto nas histórias do reino não são coisas impos­</p><p>37</p><p>DONALD B KRAYBIU</p><p>síveis nem idéias romantizadas. Elas podem ser antigas,</p><p>mas ainda correspondem de forma muito viva aos difíceis</p><p>problemas da existência humana hoje.</p><p>A visão do reino descrita nos Evangelhos não especifica</p><p>um programa para a ética social ou ações políticas. A visão</p><p>de Jesus, entretanto, nos apresenta claramente os princípios</p><p>básicos do direito e do bom para a vida coletiva do reino.</p><p>Fazer aplicações específicas, é claro, é a tarefa dos cristãos</p><p>guiados pelo Espírito Santo.</p><p>Estes cinco desvios nos enrolam em torno dos ensina-</p><p>mentos de Jesus. Eles nos oferecem desculpas para ignorar</p><p>aquilo que o evangelho exige de nossas vidas. Porém tais</p><p>desvios não são honestos para conosco ou para com Jesus.</p><p>Precisamos primeiramente ouvir a Sua história antes de de-</p><p>cidirmos como responder.</p><p>Algo notável sobre nossas tentativas de compreender o</p><p>reino é a forma como nós o colocamos em categorias. Nossas</p><p>perguntas facilmente o fragmentam em pedaços. E o rei-</p><p>no presente ou futuro, nós perguntamos. Pessoal ou social?</p><p>Abstrato ou concreto? Terreno ou celestial? Espiritual ou</p><p>político? Um presente ou promulgado por nós?</p><p>Nossa propensão humana de colocar o reino em cate-</p><p>gorias lógicas destrói sua integridade. De fato, o reino de</p><p>Deus em sua plenitude, quebra nossas categorias humanas</p><p>insignificantes. Não é um ou o outro, sim ou não. É algo</p><p>totalmente acima - ambos/e. E de fato o reino de Deus, não</p><p>o nosso!</p><p>Queremos compreendê-lo, examiná-lo, analisá-lo. Porém</p><p>Deus ordena que entremos nele. Deus nos chama a virar as</p><p>costas para os reinos deste mundo e abraçarmos um mundo</p><p>de ponta-cabeça. Implícito em todo o ensinamento de Jesus</p><p>38</p><p>0 REINO DE PONTA CABECA</p><p>está um chamado à resposta. Ele nos convida não para estu-</p><p>dar, mas para participar; não para dissecar, mas para entrar.</p><p>O que faremos com ele? Como vamos responder?</p><p>3 9</p><p>וווו</p><p>II I</p><p>inn</p><p>1 ווו</p><p>in 1</p><p>CAPÍTULO 2</p><p>POLÍTICA</p><p>DA MONTANHA</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>A rmadilhas triplas</p><p>s escritores dos evangelhos</p><p>sinóticos relatam que rrês</p><p>opções do lado direito seduziram Jesus antes que Ele</p><p>lançasse o reino de ponta-cabeça. Sua tentação tripla foi uma</p><p>provação de quarenta dias. O número quarenta representa</p><p>prova e opressão na história hebraica. O dilúvio durou qua-</p><p>renta dias e quarenta noites e os hebreus andaram pelo de-</p><p>serto por quarenta anos. Moisés ficou em cima da montanha</p><p>por quarenta dias e quarenta noites e Golias provocou os</p><p>israelitas pela mesma quantidade de tempo. Independente-</p><p>mente do número real de dias, o número quarenta assinalou</p><p>escolhas dolorosas para Jesus.</p><p>Cinco símbolos-chave na história da tentação ajudam</p><p>a desvendar o seu significado: o pão, o diabo, o deserto, a</p><p>montanha e o templo1. Cada símbolo recorda episódios-cha-</p><p>ve na história hebraica. O diabo, a ameaça à santidade, leva</p><p>as coisas à total ruína. Os israelitas enfrentaram muitas ten-</p><p>tações no árido deserto, onde comeram pão do céu (maná).</p><p>Deus revelou os Dez Mandamentos a eles em uma alta mon-</p><p>tanha; e, finalmente, Deus habitava no santo templo.</p><p>4 3</p><p>DONALD B- KRAYBILL</p><p>Marcos não dá nenhuma informação sobre a tentação de</p><p>Jesus, mas Mateus e Lucas (ambos no capítulo 4) concor-</p><p>dam que Ele lutou com essas três armadilhas simbolizadas</p><p>pela montanha, o templo e o pão. Essas opções formaram as</p><p>pernas da cadeira sobre a qual Jesus podería ter se assentado</p><p>como poderoso Messias político. A tentação aponta para um</p><p>reino “de cabeça para cima” que engloba três grandes insti-</p><p>tuições sociais daquele tempo: política (montanha), religio-</p><p>sa (templo) e econômica (pão)2.</p><p>As instituições sociais são os padrões sociais estabelecí-</p><p>dos que organizam um aspecto particular da sociedade. As</p><p>instituições econômicas, por exemplo, incluem uma rede de</p><p>regras que governam a atividade financeira, especificando as</p><p>taxas de juros e os direitos dos credores e dos devedores. Os</p><p>participantes do sistema econômico sequer prestam atenção</p><p>às “regras” desse jogo. Elas tornam o comportamento finan-</p><p>ceiro previsível e sistemático. Assim como no setor financei-</p><p>ro, um conjunto de normas sociais organiza as esferas edu-</p><p>cacional, recreativa, religiosa e outras esferas sociais. Esses</p><p>padrões sociais se tornam profundamente enraizados na vida</p><p>de uma sociedade.</p><p>As tentações enfrentadas por Jesus oferecem verdadeiros</p><p>desvios sociais. A tentação tripla prometia satisfazer a espe-</p><p>rança dos judeus de um messias que desafiaria os opressores</p><p>políticos, alimentaria os pobres e desfrutaria de milagrosa</p><p>aprovação do alto. Após a tentação, Lucas diz que o diabo</p><p>deixou Jesus “até ocasião oportuna”. Isso sugere que esses</p><p>sedutores atalhos não evaporaram depois de quarenta dias no</p><p>deserto. Eles continuamente atormentavam Jesus ao longo</p><p>de Seu ministério.</p><p>Por exemplo, quando Pedro repreende Jesus por falar so-</p><p>bre o sofrimento, Jesus enfaticamente declara: “Para trás de</p><p>mim, Satanás” (Mc 8:33). O uso de violenta força aparente­</p><p>44</p><p>0 HEIN□ ΟΕ PONTA CABECA</p><p>mente continuava a seduzir Jesus. Em meio a uma disputa</p><p>por poder, Jesus lembra os discípulos de permanecerem ao</p><p>Seu lado em Suas provações (Lc 22:28). Ao longo de Seu</p><p>ministério, Jesus encarou alternativas políticas que ameaça-</p><p>ram descaracterizar Seu compromisso de ponta-cabeça em</p><p>um amor que sofre.</p><p>Para compreender a natureza do reino de ponta-cabeça,</p><p>devemos explorar as três alternativas “de cabeça para cima”:</p><p>a montanha, o templo e o pão. Apenas quando enxergamos</p><p>o que Jesus rejeitou é que podemos conhecer o que Ele afir-</p><p>mou. As tentações fornecem um panorama geral do cenário</p><p>social do ministério de Jesus. Nesse capítulo e nos próximos</p><p>dois, lidaremos com as tentações no contexto político, reli-</p><p>gioso e econômico daqueles dias. Cada capítulo aborda uma</p><p>dessas ofertas do tentador. Começaremos com a tentação po-</p><p>lítica e voltaremos às armadilhas religiosa e econômica nos</p><p>capítulos três e quatro.</p><p>J esus, 0 Grande</p><p>De acordo com Mateus (4:8), o cenário para a tentação</p><p>política era “uma montanha muito alta” onde “todos os rei-</p><p>nos do mundo e o seu esplendor” foram oferecidos a Jesus.</p><p>Essa era a chance de Jesus para ser o novo Alexandre, O</p><p>Grande, sua oportunidade de exercer poder político sobre</p><p>todo o vasto mundo mediterrâneo. Outra vez Israel seria su-</p><p>premo, uma luz e um poder para todas as nações. A vingança</p><p>de Deus viría sobre os impérios do Oriente Médio. O eixo</p><p>de autoridade e influência mundiais mudaria de Roma para</p><p>Jerusalém. César não podería mais tributar e insultar os ju-</p><p>deus, pois o próprio Cesar serviría a Israel.</p><p>Do alto daquela montanha Jesus podia ver a Si mesmo</p><p>exercendo extraordinário poder político. Ele não apenas go-</p><p>4 5</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>vernaria, Seu trono se assentaria sobre o cume mais alto de</p><p>poder, e as multidões cantariam sua aclamação. Esta opção</p><p>de cabeça para cima contrasta totalmente com o papel de</p><p>servo humilde. Porque ela era sedutora׳׳ Porque Jesus deve-</p><p>ria se preocupar com a ocupação romana?</p><p>Um breve passeio pela história nos ajuda a entender as</p><p>esperanças políticas judaicas no tempo de Jesus5. Os estu-</p><p>diosos normalmente dividem a história com o nascimento</p><p>de Jesus. A Era Comum (EC) se refere à era judaica e cristã</p><p>comum, após o nascimento de Jesus. Antes da Era Comum</p><p>(AEC) marca o período de tempo antes do nascimento de</p><p>Jesus.</p><p>UNHA DO TEMPO EEVENTOS-CHAVE</p><p>538 Fim do cativeiro babilônico</p><p>Antes da Era</p><p>332 Alexandreo Grande</p><p>323 Controle egípcio</p><p>198 Controle sírio</p><p>75 Antíoco IV “O louco”</p><p>164 Macabeus ganham controle</p><p>63 Pompeu, generalromano</p><p>Comum</p><p>(AEC / aC) 37-04 Herodes, o Grande</p><p>05 Nascimento de Jesus</p><p>04 Morte de Herodeso Grande</p><p>04 Levante geral e revolta</p><p>04 Divisão do reino de Herodes</p><p>Herodes Antipas</p><p>Herodes Filipe</p><p>Herodes Arquelau</p><p>46</p><p>0 REINO DE PONTA CABECA</p><p>Era Comum</p><p>06 Arquelau deposto</p><p>06 Controle Romano direto</p><p>(Procurador)</p><p>06 Impostos Romanos</p><p>25- 28 Ministério de Jesus</p><p>26- 30 Pôncio Pilatos</p><p>(EC / dC) 66-70 Levante geral e revolta</p><p>70 Romadestrói o templo e</p><p>Jerusalém</p><p>132 Revolta de Bar Kochba</p><p>135 Destruição romanade</p><p>Jerusalém</p><p>O antigo testamento termina com os hebreus sob con-</p><p>trole persa. Os persas haviam permitido que os hebreus re-</p><p>tornassem para casa em 5.38 aC, depois de cinquenta anos</p><p>no cativeiro babilônico. Uma coexistência pacífica com os</p><p>persas permitiu que o templo fosse reconstruído por Zoro-</p><p>babel. A situação mudou rapidamente, entretanto, quando</p><p>um jovem grego, Alexandre, o Grade, saltou para a íama.</p><p>Ele conquistou os persas em 334 aC e dentro de dois anos</p><p>toda a palestina acabou sob seu controle enquanto ele avan-</p><p>çava vorazmente em direção ao Egito. Ele esperava inaugu-</p><p>rar uma civilização mundial unificada pelo estilo de vida</p><p>grego (conhecido como helenização).</p><p>Pela primeira vez comerciantes gregos e a língua grega se</p><p>sentiram em casa na palestina. Após uma febre que matou</p><p>Alexandre aos 32 anos, seu império caiu nas mãos de seus</p><p>briguentos generais. A palestina se transformou em uma</p><p>zona de conflito empurrada para um lado e para outro entre</p><p>esses generais, umas cinco vezes em dez anos. Um dos gene-</p><p>rais, Ptolomeu, governador do Egito, juntamente com seus</p><p>4 7</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>sucessores, finalmente ganhou o controle da palestina por</p><p>mais de 100 anos. Porém, esses não foram anos felizes. Pto-</p><p>lomeu supostamente entrou em Jerusalém em um sábado,</p><p>sob pretexto de oferecer um sacrifício, apenas para capturar</p><p>muitos hebreus e enviá-los para o Egito.</p><p>0 Louco</p><p>Em 198 aC a Síria capturou o reino judeu dos egípcios.</p><p>Em torno de 175 aC, o rei sírio Antíoco IV chegou ao poder</p><p>e causou mais danos aos judeus. Apelidado de “O Louco”,</p><p>ele se chamava de “o ilustre”. Ele se chamava “Epifânio”,</p><p>significando Deus encarnado!</p><p>O rei sírio prontamente estabeleceu políticas para dou-</p><p>trinar os judeus à vida grega. A cultura estrangeira grega</p><p>brotou em Jerusalém, incluindo a construção de um giná-</p><p>sio para treinamento atlético. Jovens homens judeus foram</p><p>constrangidos por sua circuncisão, que foi abertamente reve-</p><p>lada nas</p><p>competições nuas que ocorriam no ginásio. Alguns</p><p>foram submetidos a operações para esconder sua circuncisão.</p><p>Eles também usavam roupas gregas, particularmente um</p><p>elegante chapéu de aba larga associado ao deus Hermes.</p><p>O judeu, escritor de II Macabeus (4:14) lamenta que até</p><p>os sacerdotes judeus tenham abandonado suas responsabili-</p><p>dades sagradas para assistir a eventos esportivos — luta livre,</p><p>lançamento de discos e corridas de cavalo. A língua grega se</p><p>tornou popular em Jerusalém. Todas essas atividades ameaça-</p><p>vam a identidade e a herança judaica. Os hebreus resistiram à</p><p>helenização, mas não conseguiram deter as agressivas táticas</p><p>do louco, Antíoco IV, para acabar com a cultura hebraica.</p><p>Duas vezes o louco sírio saqueou o tesouro judeu para</p><p>financiar sua atividade de guerra. Ele levou preciosos móveis</p><p>48</p><p>0 REINO DE PONTA CABEÇA</p><p>do templo - o altar do incenso, o candelabro de sete ramos,</p><p>a mesa dos pães da proposição - para Antioquia na Síria. Um</p><p>estudioso descreve suas políticas:</p><p>Os muros de Jerusalém foram derrubados e</p><p>uma fortaleza foi construída no monte da an-</p><p>tiga cidade de Davi. Os judeus foram proibi-</p><p>dos, sob pena de morte, de guardar o sábado</p><p>e circuncidar seus filhos. Os inspetores do rei</p><p>viajavam por todo o país para supervisionar</p><p>o cumprimento desses decretos. Em Jerusa-</p><p>lém, um altar pagão foi erguido no lugar do</p><p>altar do holocausto, e os sacrifícios eram ofe-</p><p>recidos lá ao deus supremo, o Zeus Olímpico</p><p>em 167 aC\</p><p>Durante o reinado do louco, dois sumos sacerdotes ju-</p><p>deus sucessivos o subornaram com grandes somas por suas</p><p>posições. Novas leis civis decretaram que qualquer pessoa</p><p>encontrada com uma cópia da Sagrada Escritura morrería. A</p><p>construção de um altar para Zeus terminou com os sacrifí-</p><p>cios a Yahweh. Dez dias após a conclusão do altar um porco</p><p>foi sacrificado sobre ele. Matar um porco em um altar pagão</p><p>era um horror blasfemo à pureza ritual judaica. O santuário</p><p>do templo estava manchado com sangue e os soldados come-</p><p>teram as mais grosseiras indecências nos pátios sagrados do</p><p>templo. O coração dos hebreus clamava pela misericórdia e</p><p>libertação de Deus.</p><p>Além disso, houve opressão econômica. A ganância do</p><p>louco por impostos incluía o seguinte:</p><p>Impostos sobre o sal retirado do Mar Morto;</p><p>impostos equivalentes a um terço dos grãos</p><p>colhidos; a metade dos já escassos frutos;</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>im p o s to s c o m u n itá r io s , im p o s to d a co roa;</p><p>im p o s to d o te m p lo , p a ra n ão fa la r d o d ir e i to</p><p>so b e ra n o d e a p re e n d e r o g a d o e as lo jas em</p><p>n o m e d a c o n sc rição m i l i ta r - tu d o isso fo-</p><p>m e n to u a g ita ç ã o 6.</p><p>E m b o ra os su m o s sa c e rd o te s e a lg u n s d o p o v o te n h a m re-</p><p>c e b id o a c u l tu r a g re g a , u m p e q u e n o g r u p o d e ju d e u s t r a d i -</p><p>c io n a is re s se n tiu -se d a in flu ê n c ia e s tra n g e ira . E s te e le m e n to</p><p>c o n se rv ad o r, os H a ss íd ic o s (q u e s ig n if ic a p ie d o so ), p ro te s ta -</p><p>va c o n tra a a c e itaçã o ju d a ic a d a c u l tu r a g re g a . P o ré m , eles</p><p>n ão se re v o lta v a m c o n tra as p o lí t ic a s d o louco . A lg u n s o u -</p><p>tro s ju d e u s , e n t r e ta n to , p e n sa v a m q u e d e v e r ía m lu ta r p o r</p><p>su a c u l tu ra , ad o raçã o e id e n t id a d e p a ra so b re v iv e re m a q u i</p><p>e m su a te r r a n a ta l . E les e ra m c o n h e c id o s c o m o M acab eu s.</p><p>OS MARTELADORES</p><p>A re b e liã o v e io n o c a m p o . U m a n t ig o sa c e rd o te c h a m a -</p><p>d o M a ta tia s e seus c in c o filhos m o ra v a m e m u m a p e q u e n a</p><p>a ld e ia ce rca d e t r i n t a q u i lô m e tro s a n o ro e s te d e J e ru sa lé m .</p><p>Q u a n d o u m d o s in sp e to re s d o re i e n tro u n a a ld e ia p a ra for-</p><p>ça r os ju d e u s a o fe rec e rem sac rifíc io s p ag ã o s , M a ta tia s se</p><p>re cu so u . E le m a to u o in sp e to r . C h a m a n d o to d o s q u e e ram</p><p>zelosos e m s e g u ir a le i, pa i e filhos fu g ira m p a ra as cav ern as</p><p>n a e n c o s ta . Lá, os ju d e u s H a ss íd ic o s , d isp o s to s a f in a lm e n te</p><p>lu ta r p a ra liv ra r a te r r a d a m ã o d o s s ír io s , se ju n ta ra m a eles.</p><p>D a su a base n o d e se r to , os re b e ld es ju d e u s a ta c a v a m d ire -</p><p>ta m e n te e d i r ig ia m c a m p a n h a s p e la s a ld e ia s p a ra d e s t r u i r</p><p>a lta re s p ag ã o s e p e r s e g u ir ju d e u s a p ó s ta ta s .</p><p>E m u m a ocasião , a lg u n s re b e ld es , p o r re sp e ito ao sáb ad o ,</p><p>se recusaram a re ta lia r as tro p a s sírias. O s reb e ld es fo ram a ta -</p><p>50</p><p>REINO OE PONTA CABEÇA ס</p><p>cados e massacrados. Resistência completa e ataques ofensivos</p><p>começaram. Matatias logo morreu e seu filho Judas, o Maca-</p><p>beu (“o martelador” em hebraico) organizou uma campanha</p><p>militar bem-sucedida que literalmente martelou os sírios. Fi-</p><p>nalmente, os macabeus recuperaram o controle do templo em</p><p>Jerusalém. Em 164 aC, três anos depois de o templo ter sido</p><p>contaminado pelo sangue de suínos, ele foi rededicado. Ainda</p><p>hoje os judeus celebram o Hanucá, uma festa de dedicação,</p><p>para lembrar e celebrar esse grande evento.</p><p>Embora os judeus reivindicassem o templo, os sírios man-</p><p>tinham o controle da fortaleza militar ao redor. Com o templo</p><p>restaurado, os judeus Hassídicos pararam de apoiar a revol-</p><p>ta porque tinham pouco interesse na liberdade política. Esse</p><p>grupo acabou por formar o berço do movimento fariseu.</p><p>No entanto, outro grupo emergente, os saduceus, insis-</p><p>tiam em independência política. Eles finalmente alcançaram</p><p>seu objetivo sob comando de Simão (um dos cinco filhos de</p><p>Matatias) em 142 aC. Ele se declarou sacerdote e líder mili-</p><p>tar. Além disso, esse movimento iniciou um período de oi-</p><p>tenta anos, monitorado pela chamada família dos asmoneus.</p><p>Durante esta época, a mesma pessoa muitas vezes governava</p><p>como rei e sumo sacerdote. Moedas foram cunhadas, e o Es-</p><p>tado judeu conquistou Moabe, Samaria e Edom.</p><p>O conflito entre os fariseus e os saduceus logo os forçou</p><p>a tomar partido em facções que brigavam entre si na famí-</p><p>lia dos amoneus. Um impasse militar entre os grupos rivais</p><p>abriu as portas para os romanos em 63 aC, cerca de sessen-</p><p>ta anos antes do nascimento de Jesus. Pompeu, o general</p><p>romano, sitiou Jerusalém por três meses. Finalmente, em</p><p>um sábado, os romanos tomaram a última fortaleza, o tem-</p><p>pio. Mais de 12 mil judeus foram massacrados. Em um ato</p><p>ultrajante de profanação, Pompeu entrou no sagrado Santo</p><p>dos Santos, aberto apenas pelo sumo sacerdote, uma vez ao</p><p>51</p><p>DONALD B. KRAYBILL</p><p>ano, e para seu espanto, o encontrou vazio. O ato profano do</p><p>general romano insultou judeus fieis, que viram isso como</p><p>santo juízo de Deus contra o povo judeu.</p><p>Após quase 100 anos de liberdade política, o Estado ju-</p><p>deu estava novamente sob a mão de um poder estrangeiro.</p><p>Por séculos, seria um tributário do grande Império Romano.</p><p>Assim, em 500 anos de história antes do nascimento de Je-</p><p>sus, o povo judeu era jogado de um lado para outro em um</p><p>pingue-pongue político. Eles foram jogados entre as gran-</p><p>des potências do Oriente Médio: Babilônia, Pérsia, Grécia,</p><p>Egito, Síria e finalmente Roma.</p><p>Embora anos de turbulência seguiram a vitória de Pom-</p><p>peu, Roma dominou a política palestina depois de 63 aC.</p><p>Durante o período de dominação imperial, os exércitos ro-</p><p>manos periodicamente tentaram sufocar revoltas campone-</p><p>sas através de campanhas de “busca e destruição” que causa-</p><p>vam terror. Os exércitos devastavam aldeias, massacravam os</p><p>idosos e levavam milhares para Roma para serem vendidos</p><p>como escravos. Como um macabro lembrete de sua brutali-</p><p>dade, os soldados romanos crucificaram centenas de pessoas</p><p>em cruzes ao longo das estradas públicas — avisos para outros</p><p>que estivessem revoltosos. As vezes crucificavam, esquarte-</p>

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