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<p>1</p><p>FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE II</p><p>(CARL GUSTAV JUNG)</p><p>1</p><p>SUMÁRIO</p><p>FACULESTE ............................................................................................ 2</p><p>Introdução ................................................................................................ 3</p><p>Questões Preliminares Sobre A Biografia De Jung ................................. 7</p><p>Principais fundamentos ........................................................................ 9</p><p>Estrutura da psique ......................................................................... 10</p><p>Arquétipos persona, sombra, anima, animus e self ........................... 13</p><p>Persona .......................................................................................... 13</p><p>Sombra ........................................................................................... 14</p><p>Anima e animus .............................................................................. 15</p><p>Sizígia: anima e animus .................................................................. 17</p><p>Processo de Individuação ............................................................... 18</p><p>A Importância Dos Símbolos Para Jung ................................................ 20</p><p>Deus E A Religião Nas Obras De Jung ................................................. 24</p><p>Sobre a teoria da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung .............. 30</p><p>REFERÊNCIAS ..................................................................................... 36</p><p>2</p><p>FACUMINAS</p><p>A história do Instituto FACUMINAS, inicia com a realização do sonho de</p><p>um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para</p><p>cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a FACUMINAS,</p><p>como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior.</p><p>A FACUMINAS tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas</p><p>de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a</p><p>participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua</p><p>formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais,</p><p>científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o</p><p>saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação.</p><p>A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma</p><p>confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base</p><p>profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições</p><p>modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica,</p><p>excelência no atendimento e valor do serviço oferecido.</p><p>3</p><p>Introdução</p><p>Jung foi um dos mais proeminentes discípulos de Freud, exercendo a</p><p>Psicanálise de 1909 a 1913, ano em que rompeu com Freud e fundou a</p><p>Psicologia Analítica. O termo Psicologia Analítica passou a ser utilizado</p><p>oficialmente por Jung em 1913, porém, suas bases foram geradas em anos</p><p>anteriores.</p><p>A teoria junguiana é muito vasta, e aqui estão delineados os conceitos</p><p>principais. Mas há outros igualmente importantes, como o processo de</p><p>Individuação – processo através do qual o ser evolui de um estado de</p><p>identificação profunda com o ambiente à sua volta, para outro de sintonia com o</p><p>Si-mesmo, o centro de sua personalidade individual, de onde brota toda a</p><p>energia inata da mente -, objetivo máximo da psique humana; Eu ou ego – centro</p><p>da Consciência, simboliza os impulsos inferiores da personalidade; Sombra – a</p><p>parte mais sombria do homem, legada, segundo Jung, das formas mais</p><p>primitivas de vida; Sigízia, ou arquétipo da alteridade – diz respeito à oposição</p><p>entre masculino e feminino na mente, constituindo uma elaboração voluntária do</p><p>4</p><p>inconsciente -, o ‘animus’ corresponde à face masculina da mulher, enquanto a</p><p>‘anima’ refere-se ao lado feminino do homem; os Tipos Psicológicos, ou seja, a</p><p>Personalidade.</p><p>Psicologia Analítica é como Carl Gustav Jung chamou seu método de</p><p>compreensão da Psique, distinguindo-se da Psicanálise de Sigmund Freud.</p><p>Desta forma, podemos dizer que a psicologia analítica aborda, de forma prática,</p><p>a psicoterapia sob o viés da teoria de C.G. Jung.</p><p>Seu diferencial é dado pelo foco no papel das experiências simbólicas na</p><p>vida humana, adotando uma abordagem prospectiva para as questões</p><p>apresentadas na terapia. Isso significa que, embora a história da vida de uma</p><p>pessoa seja de grande importância para a compreensão das circunstâncias</p><p>atuais, as circunstâncias atuais podem conter bases de toda a humanidade, além</p><p>de, também, serem as sementes para o crescimento e desenvolvimento.</p><p>A Psicologia Analítica engloba todo o arcabouço teórico criado por Carl</p><p>Gustav Jung, um trabalho denso e essencial para a compreensão da mente</p><p>humana. Muitos dos temas desenvolvidos por Jung brotaram de suas próprias</p><p>experiências pessoais. O psiquiatra suíço vivenciou constantemente sonhos</p><p>marcantes e a visão de imagens mitológicas e espirituais, passando então a</p><p>nutrir um grande interesse por mitos, sonhos e religiões, do ponto de vista</p><p>psicológico. Ele também experimentou a ocorrência de manifestações</p><p>parapsicológicas, o que suscitava em sua inteligência questionamentos cada vez</p><p>mais frequentes.</p><p>Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço, nasceu no dia 26 de julho de 1875, na</p><p>cidade de Kresswil, na Basiléia. Sua família era muito religiosa, o pai e outros</p><p>familiares eram pastores da Igreja Luterana, o que justifica o interesse precoce</p><p>de Jung pela filosofia e pelo espiritualismo. Alguns trabalhos seus,</p><p>posteriormente, desenvolverão a questão da religião e sua contribuição para o</p><p>amadurecimento psicológico dos indivíduos, bem como dos povos e civilizações.</p><p>Jung buscou inspiração para o desenvolvimento de seu pensamento nas esferas</p><p>da Alquimia, da Mitologia, nos povos ancestrais da Ásia, África e nos indígenas</p><p>da tribo dos Pueblos, dos Estados Unidos. Também foi muito influenciado pela</p><p>filosofia e pela religião orientais, principalmente a indiana, e pelo I Ching.</p><p>5</p><p>Segundo Jung, o homem deveria ser analisado em sua integridade, na</p><p>sua vida em comunidade, nunca isolado do contexto sociocultural e universal.</p><p>Os conceitos por ele criados foram batizados com expressões imbuídas de um</p><p>simbolismo profundo, que por si só já definem seu valor temático. O Inconsciente</p><p>Coletivo, por exemplo, diferencia-se já no próprio nome do universo desvendado</p><p>por Freud - visto como um depósito mnemônico e de pulsões reprimidas -,</p><p>significando um sistema herdado por cada geração, dinâmico e pulsante,</p><p>incessantemente ativo.</p><p>O inconsciente junguiano não pode ser meramente descrito como um</p><p>conjunto de memórias legadas pelos ancestrais, mas sim de tendências inatas</p><p>para a disposição da psique. Ou seja, este oceano da mente humana já existe ‘a</p><p>priori’ – antes de tudo, no início, uma expressão tipicamente kantiana -, o homem</p><p>é concebido já com o inconsciente, que como um arquivo perpetuado ao longo</p><p>do tempo traz em si, potencialmente, toda produção mental legada pelos</p><p>ancestrais. Assim, pode-se afirmar que ele é anterior à consciência, um pequeno</p><p>ponto na vastidão do universo da inconsciência. Mas o inconsciente não apenas</p><p>recebe conteúdos elaborados em tempos distantes, ele também produz seus</p><p>próprios temas, rearranja os que herdou e trabalha em conjunto com o</p><p>consciente. Nesse sentido, Jung divide o Inconsciente em Pessoal e Coletivo.</p><p>O Inconsciente Pessoal ou Individual quase se confunde com o espaço</p><p>da consciência, pois suas fronteiras são bem tênues, ele é um estrato temático</p><p>mais superficial, semelhante ao de Freud, porque contém elementos que por</p><p>algum motivo foram ali reprimidos. Nele também se encontram percepções que</p><p>não foram percebidas pela consciência e memórias que esta esfera não deseja</p><p>para si o tempo todo. Aqui estão igualmente os complexos – tema desenvolvido</p><p>por Jung e</p>
<p>depois adaptado por Freud –, elementos que, desconectados da</p><p>consciência, refugiam-se no inconsciente, mas continuam a exercer influência</p><p>sobre o comportamento humano, tanto negativa quanto positiva, ao incentivar o</p><p>exercício do potencial criativo do ser. Jung lida com os complexos por meio do</p><p>exame das personas – papéis sociais desempenhados pelos indivíduos, as</p><p>famosas máscaras que todos desenvolvem no processo de interação social.</p><p>O Inconsciente Coletivo – revelação essencial de Jung – é a esfera mais</p><p>íntima e recôndita da psique humana. Nela se encontram vestígios das ações</p><p>6</p><p>naturais da mente, impressas como representações potenciais, ou seja,</p><p>automatismos desenvolvidos pela psique ao longo de milênios. Estes traços são</p><p>compartilhados por toda a humanidade e estão ao alcance de cada um,</p><p>preparados para se tornarem concretos através da ação humana. Neste estrato</p><p>psíquico todos são iguais, diferenciando-se depois por meio da experiência</p><p>pessoal, na qual o homem realiza escolhas e assim atualiza uma ou outra</p><p>tendência inata, o que se processa no nível do Inconsciente Pessoal.</p><p>Os arquétipos, para Jung, são justamente os automatismos desenvolvidos</p><p>pela psique, estes traços do Inconsciente Coletivo. Cada um deles corresponde</p><p>a uma circunstância apresentada pela vida, recepcionada pela mente como um</p><p>desafio a ser conquistado e transformado em conhecimento, através da</p><p>repetição exaustiva da experiência, então automatizada em nossa organização</p><p>psíquica, no início mais como disposição formal do que como conteúdo,</p><p>simbolizando tão somente possibilidades, dentre as quais o homem</p><p>posteriormente escolherá a que se tornará real. Eles se traduzem em imagens</p><p>primitivas, estreitamente relacionadas à criação da nossa espécie, são embriões</p><p>das características humanas, latentes em cada ser. Segundo Jung, é em volta</p><p>do centro de um arquétipo que se agrupam os complexos que têm em comum</p><p>uma carga emocional semelhante.</p><p>7</p><p>Questões Preliminares Sobre A Biografia De Jung</p><p>Para melhor compreender a teoria desenvolvida por um estudioso,</p><p>sobretudo dentro da Psicanálise e da Psicologia Analítica, é necessário</p><p>considerar alguns pontos da biografia do mesmo. A referida pontuação sobre</p><p>estas duas escolas, a psicanalítica e a analítica, advém do fato de que tanto a</p><p>história de vida de Sigmund Freud, fundador da Psicanálise, como a vida de Carl</p><p>Jung, fundador da Psicologia Analítica, tiveram suas teorias fundadas, muitas</p><p>vezes, em suas próprias experiências vivenciais coletivas ou individuais, por</p><p>exemplo, Freud com suas análises em torno de sua paciente Anna O, e em Jung</p><p>com suas visões e experiências religiosas quando jovem. Esta questão é</p><p>amplamente discutida, sobretudo no campo da Psicologia Analítica, em que as</p><p>ideias e concepções pessoais de Jung estão amplamente atreladas.</p><p>A vida do autor, como relata Palmer (2001), fora marcada, desde logo</p><p>cedo, por questões envolvendo a religiosidade de modo geral. Carl Jung nasceu</p><p>em Kesswi, Suíça, em 1875. Seu pai era um pastor protestante, sua mãe era</p><p>dona de casa e, segundo o próprio Jung (2006), ela era acometida por ataques</p><p>histéricos e estava sempre sob cuidados médicos. Filho de uma mãe fortemente</p><p>abalada psiquicamente, o jovem foi educado principalmente pelo pai.</p><p>Silveira (1976) lembra que Jung sempre esteve envolvido, desde criança,</p><p>com assuntos religiosos, pois sempre acompanhava seu pai aos sermões que o</p><p>mesmo pregava na comunidade local. Desde cedo, já se questionava sobre a fé</p><p>de seu pai e dos fiéis que frequentavam a comunidade. Em seu livro “Memória</p><p>Sonhos e Reflexões”, Jung (2006) relata suas impressões iniciais sobre a religião</p><p>e a fé, impressões estas que lhe foram transmitidas inicialmente por seu genitor.</p><p>Jung (2006) não esconde a decepção frente a uma fé alienada de seu pai,</p><p>principalmente em um episódio em que ele estava tendo aulas de religião e, ao</p><p>passar pelo mistério da Trindade, Jung pediu para que lhe explicasse aquele</p><p>complicado dogma. Seu pai, por sua vez, pediu para que ele não lhe</p><p>questionasse sobre aquele assunto pois, ele mesmo, um pastor protestante,</p><p>nada sabia a respeito do dogma.</p><p>8</p><p>Jung logo desenvolveu seu gosto pelas áreas da Arqueologia e Filosofia.</p><p>Muito provável que sua tendência para tais áreas das ciências humanas tenha</p><p>influenciado toda a sua carreira como médico e fundador da Psicologia Analítica.</p><p>É bem conhecida a histórica e importante passagem de Jung pela escola</p><p>psicanalítica, juntamente com sua amizade, e posterior rompimento com o Pai</p><p>da Psicanálise.</p><p>Segundo Rodrigues (2014), Jung formou-se em Medicina-Psiquiátrica, e</p><p>logo entrou em contato com as obras de Freud, começando uma amizade</p><p>juntamente com troca de informações científicas. Após anos de amizade e de</p><p>intenso intercâmbio científico, começaram a surgir as primeiras divergências</p><p>tanto no campo clínico, quanto no campo do estudo das religiões e como estes</p><p>dois estudiosos encaravam tal fenômeno.</p><p>Tais divergências ficaram mais claras quando Freud publicou seu livro</p><p>“Totem e Tabu” em 1913, que teorizava sobre o surgimento da religiosidade em</p><p>meios totêmicos, caracterizado como uma espécie de submissão à figura do Pai</p><p>9</p><p>e da repetição do Complexo de Édipo. Embora existam outros fatores que</p><p>salientem a ruptura entre estes dois intelectuais, o fator de como encarar e lidar</p><p>como um fenômeno religioso fora uma das mais ressaltadas divergências para</p><p>a ruptura. É valido lembrar que tanto os trabalhos de Freud como de Jung são</p><p>considerados marcos da chamada Psicologia da Religião.</p><p>Principais fundamentos</p><p>A psique (psiquismo humano) é formada por: consciente, inconsciente</p><p>pessoal e inconsciente coletivo.</p><p>O eixo central da Psicologia Analítica é o Processo de Individuação:</p><p>tendência instintiva e teleológica de o ser humano, através de processos de</p><p>autoregulação, desenvolver suas potencialidades inatas em direção à realização</p><p>da totalidade psíquica (autodesenvolvimento, autorealização e</p><p>autoconhecimento).</p><p>O Processo de Individuação ocorre através do fluxo dialético (permuta e</p><p>transformação) da energia psíquica (libido) que corre entre o consciente, o</p><p>inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo.</p><p>Esse fluxo de energia, através de processos de autoregulação, sempre</p><p>visa a homeostase psíquica (equilíbrio psicológico).</p><p>O conceito junguiano de libido difere do freudiano: para Jung a libido</p><p>compreende não só a energia sexual, mas, também, energias associadas ao</p><p>instinto de sobrevivência, à motivação, às relações afetivas, desejos de</p><p>autorealização, autoconhecimento, vivências espirituais e, enfim, ao Processo</p><p>de Individuação.</p><p>Apesar de o Processo de Individuação ser o tema principal da obra</p><p>junguiana, seu estudo mais conhecido trata dos tipos psicológicos - tipos de</p><p>personalidade.</p><p>10</p><p>Estrutura da psique</p><p>A Psique está estruturada em três elementos: consciente, inconsciente</p><p>pessoal e inconsciente coletivo.</p><p>• Consciente</p><p>- Sistema do aparelho psíquico que mantém contato com o mundo</p><p>interior (processos psíquicos, internos) e exterior (meio ambiente e social) do</p><p>sujeito.</p><p>- Na consciência destaca-se os fenômenos de percepção intrínseca</p><p>e extrínseca, senso de identidade, atenção, raciocínio e memória, entre outras</p><p>funções cognitivas e emocionais.</p><p>- As pessoas são conscientes apenas de uma pequena parte de sua</p><p>vida psíquica.</p><p>- O consciente tem como centro organizador o Eu.</p><p>Tanto o Eu como o Consciente como um todo surge do Self (localizado no</p><p>Inconsciente coletivo).</p><p>11</p><p>• Inconsciente pessoal</p><p>- É a camada mais superficial do inconsciente, cuja fronteira com o</p><p>consciente é bastante imprecisa.</p><p>- Nele permanecem os conteúdos inconscientes derivados da vida</p><p>do indivíduo - sua formação é, portanto, a posteriori ao nascimento.</p><p>Esses conteúdos são formados por percepções subliminares</p>
<p>e</p><p>combinações de idéias com energia psíquica insuficiente para irromperem na</p><p>consciência, experiências de vida “esquecidas” pela memória consciente,</p><p>recordações dolorosas se serem relembradas, repressões sexuais, desejos</p><p>reprimidos, qualidades da personalidade - positivas e negativas - desconhecidas</p><p>pelo Eu e, principalmente, grupos de representações carregados de forte carga</p><p>emocional e incompatíveis com a atitude consciente (complexos, cujas bases</p><p>são os arquétipos - localizados no Inconsciente coletivo).</p><p>- Geralmente esses conteúdos não possuem energia psíquica</p><p>suficiente para permanecerem no campo da consciência, entretanto, podem</p><p>adquirir a energia necessária para emergir na consciência na forma de</p><p>lembranças, sonhos, fantasias, devaneios e comportamentos.</p><p>Quando irrompem na consciência podem possuir um significativo grau de</p><p>autonomia, chegando até a tomar sua posse temporária.</p><p>• Inconsciente coletivo</p><p>- É a camada mais profunda do inconsciente e a base da psique.</p><p>- É constituído pelos arquétipos : núcleos instintivos passados de</p><p>forma psicobiológica de geração a geração, trazendo padrões de</p><p>comportamento herdados desde o surgimento da humanidade e mesmo antes</p><p>dela, no período em que o homem ainda era animal - a gênese do Inconsciente</p><p>coletivo é, portanto, a priori ao nascimento.</p><p>12</p><p>- Os arquétipos constituem a base dos complexos situados no</p><p>Inconsciente pessoal.</p><p>Os arquétipos são inúmeros, incontáveis, entretanto, Jung identificou</p><p>alguns que estão em permanente contato com o Eu. São eles a persona, a</p><p>sombra, a anima, o animus e o self.</p><p>- O Self - também denominado de si mesmo - é o centro organizador</p><p>não só do Inconsciente (pessoal e coletivo), mas, também, de toda a psique.</p><p>É do Self que surge a consciência e o Eu.</p><p>- Jung chamou a camada mais profunda do Inconsciente coletivo de</p><p>Psicóide : a ela estão associados fenômenos “extra-racionais” tais como sonhos</p><p>e visões premonitórios, sincronicidades (“coincidências significativas” em torno</p><p>de pessoas e objetos) e telecinésia.</p><p>13</p><p>Arquétipos persona, sombra, anima, animus e self</p><p>Persona</p><p>O termo persona origina-se do teatro grego antigo e significa máscara.</p><p>Arquétipo associado ao comportamento de contato com o mundo exterior</p><p>necessário à adaptação do indivíduo às exigências do meio social onde vive.</p><p>Corresponde à identidade e desempenho de papéis socialmente</p><p>atribuídos a uma pessoa. Também está intimamente relacionada a</p><p>conveniências pessoais.</p><p>A persona corresponde a uma significativa parcela do comportamento do</p><p>sujeito enquanto personagem coletiva. A alma, em oposição à persona,</p><p>corresponde ao comportamento do sujeito enquanto personagem individual, sua</p><p>real personalidade.</p><p>Uma pessoa pode ter um determinado comportamento em sociedade</p><p>(persona) e, outro, completamente oposto, em casa (alma). Convém esclarecer</p><p>14</p><p>que nem todo comportamento social é manifestação da persona, também pode</p><p>ser uma expressão da alma.</p><p>A persona possui dois aspectos: positivo e negativo.</p><p>O aspecto positivo está associado à adaptação do sujeito ao seu meio</p><p>social. O aspecto negativo surge quando o Eu se identifica com a persona,</p><p>fazendo com que a pessoa se distancie e desconheça sua real personalidade, a</p><p>alma.</p><p>Muitas vezes é difícil para um observador externo identificar numa pessoa</p><p>o que é sua persona e o que é sua alma. Ao se manifestar geralmente de modo</p><p>inconsciente - sem que o Eu não tenha consciência de sua existência - a persona</p><p>revela seu significativo grau de autonomia na psique.</p><p>Quando tornada consciente - assimilada pelo Eu - a persona traz</p><p>benefícios ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.</p><p>Sombra</p><p>Arquétipo associado às virtudes e defeitos de caráter que o indivíduo</p><p>desconhece existir em si mesmo. Uma pessoa tende a projetar sua sombra nos</p><p>outros e negá-la em si mesma.</p><p>A persona possui dois aspectos: positivo e negativo.</p><p>O aspecto positivo está associado às virtudes que o indivíduo desconhece</p><p>existir em sim mesmo. O aspecto negativo está associado aos defeitos de caráter</p><p>que o indivíduo desconhece existir em si mesmo.</p><p>A sombra também pode se manifestar de forma coletiva, tanto nos seus</p><p>aspectos positivos como negativos.</p><p>Ao se manifestar geralmente de modo inconsciente - sem que o Eu não</p><p>tenha consciência de sua existência - a sombra revela seu significativo grau de</p><p>autonomia na psique.</p><p>15</p><p>Quando tornada consciente - assimilada pelo Eu - a sombra traz</p><p>benefícios ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.</p><p>Anima e animus</p><p>A anima corresponde ao princípio feminino presente na psique do homem.</p><p>O animus corresponde ao princípio masculino presente na psique da mulher.</p><p>Anima</p><p>Arquétipo associado à personificação da natureza feminina no</p><p>inconsciente masculino. Manifesta-se no comportamento masculino através de</p><p>expressões emocionais.</p><p>Projeta-se em figuras femininas: mãe, irmã, namorada, esposa, amante,</p><p>mulher desejada, mulheres admiradas (nos sentidos eróticos, heróicos,</p><p>intelectuais e espirituais).</p><p>A anima condensa todas as experiências que o homem vivenciou no seu</p><p>encontro com a mulher durante milênios e é a partir desse imenso material</p><p>inconsciente que é modelada a imagem de mulher que o homem procura.</p><p>A anima possui dois aspectos: positivo e negativo.</p><p>O aspecto positivo está associado àquilo que a anima, uma vez tornada</p><p>consciente - assimilada pelo Eu -, pode trazer ao homem no sentido de conhecer</p><p>suas próprias emoções e melhorar suas relações afetivas. Ainda, mesmo que</p><p>inconsciente, possibilita ao homem a capacidade de amar, a receptividade ao</p><p>irracional, a sensibilidade à arte e à natureza, a intuição profética e o acesso ao</p><p>inconsciente e, em consequência, à busca espiritual.</p><p>O aspecto negativo está associado ao fato de que, quando inconsciente -</p><p>desconhecida pelo Eu -, a anima expressa-se em manifestações emocionais</p><p>infantis e primitivas, domina o homem, tornando-o subjugado por figuras</p><p>16</p><p>femininas, fazendo com que ele possa incorrer em paixões cegas e desilusões</p><p>amorosas, dependência da mulher, mudanças bruscas de humor, explosões</p><p>emocionais, ciúme, caprichos, ansiedade, melancolia, depressão e mesmo</p><p>(tentativas de) suicídio.</p><p>Ao se manifestar geralmente de modo inconsciente - sem que o Eu não</p><p>tenha consciência de sua existência - a anima revela seu significativo grau de</p><p>autonomia na psique do homem.</p><p>Quando tornada consciente - assimilada pelo Eu - a anima traz benefícios</p><p>ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.</p><p>Animus</p><p>Arquétipo associado à personificação da natureza masculina no</p><p>inconsciente feminino. Manifesta-se no comportamento feminino através de</p><p>expressões judicativas e reflexivas.</p><p>Projeta-se em figuras masculinas: pai, irmão, namorado, esposo, amante,</p><p>homem desejado, homens admirados (nos sentidos eróticos, heróicos,</p><p>intelectuais e espirituais).</p><p>O animus condensa todas as experiências que a mulher vivenciou no seu</p><p>encontro com o homem durante milênios e é a partir desse imenso material</p><p>inconsciente que é modelada a imagem de homem que a mulher procura.</p><p>O animus possui dois aspectos: positivo e negativo.</p><p>O aspecto positivo está associado àquilo que o animus, uma vez tornado</p><p>consciente - assimilado pelo Eu -, pode trazer à mulher no sentido de conhecer</p><p>seus próprios pensamentos e melhorar suas relações afetivas. Ainda, mesmo</p><p>que inconsciente, possibilita à mulher o gosto pelo conhecimento da natureza</p><p>dos fenômenos e o acesso ao inconsciente e, em conseqüência, a busca</p><p>espiritual.</p><p>17</p><p>O aspecto negativo está associado ao fato de que, quando inconsciente -</p><p>desconhecida pelo Eu -, o animus expressa-se em manifestações judicativas e</p><p>reflexivas infantis e primitivas, domina a mulher, tornando-a subjugada por</p><p>figuras masculinas, fazendo com</p>
<p>que ela possa incorrer em paixões cegas,</p><p>dependência do homem, juízos irrefletidos, preconceitos infundados, certezas</p><p>não fundamentadas, teimosias, afetos de vingança e frieza emocional.</p><p>Ao se manifestar geralmente de modo inconsciente - sem que o Eu não</p><p>tenha consciência de sua existência - o animus revela seu significativo grau de</p><p>autonomia na psique da mulher.</p><p>Quando tornado consciente - assimilada pelo Eu - o animus traz</p><p>benefícios ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.</p><p>Sizígia: anima e animus</p><p>Devido à diferente natureza dos dois gêneros, a relação entre homens e</p><p>mulheres é uma relação de oposição e, ao mesmo tempo, de</p><p>complementaridade não só fisiológica, mas, também, psicológica.</p><p>A tomada de consciência - pelo Eu -, da anima pelo homem e do animus</p><p>pela mulher, propicia a melhoria das relações interpessoais e afetivas entre os</p><p>gêneros.</p><p>Essa sizígia já era bem conhecida pelo taoísmo - uma antiga filosofia</p><p>chinesa - expressando-se na idéia / símbolo do Tai Chi (“princípio do princípio)</p><p>que compreende a oposição e complementaridade entre os princípios Yin</p><p>(feminino, branco) e Yang (masculino, negro).</p><p>18</p><p>Self</p><p>É o núcleo organizador não só do Inconsciente (pessoal e coletivo), mas,</p><p>também, de toda a psique.</p><p>É o arquétipo que leva o homem à busca pela individuação - e não</p><p>individualismo -, o autoconhecimento, pela integração com os demais homens e</p><p>com a natureza, pela vivência espiritual e o sentido da vida e da morte.</p><p>Essa busca é denominada por Jung de Processo de Individuação, sendo</p><p>este o tema central da Psicologia Analítica.</p><p>Possui dois aspectos: positivo e negativo.</p><p>O aspecto positivo está associado à (possibilidade de) efetivação do</p><p>Processo de Individuação. O aspecto negativo está associado ao fato de que o</p><p>Self pode subjugar o Eu, criando doutrinadores e fanáticos religiosos.</p><p>Quando tornado consciente - assimilado pelo Eu - o Self traz benefícios</p><p>ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.</p><p>Processo de Individuação</p><p>É a busca do ser humano pela individuação - e não individualismo -, pelo</p><p>autoconhecimento, pela integração com os demais homens e com a natureza,</p><p>pela vivência espiritual e pelo sentido da vida e da morte.</p><p>19</p><p>Essa busca é instintiva e herdada de nossos ancestrais, desde o início da</p><p>humanidade. Os sinais dessa busca estão expressos nas manifestações</p><p>artísticas dos homens primitivos e seu registro percorre toda a história da</p><p>civilização.</p><p>A efetivação do Processo de Individuação implica na integração entre o</p><p>Eu e o Self, entre consciente e inconsciente.</p><p>Esse mecanismo psíquico de integração dos opostos no Processo de</p><p>Individuação foi denominado por Jung de Função Transcendente. O próprio Jung</p><p>esclareceu que a Função Transcendente não é um processo metafísico, mas</p><p>uma função teleológica instintivamente herdada.</p><p>Apesar de o Processo de Individuação possuir uma natureza teleológica,</p><p>sua realização é possibilidade e não certeza.</p><p>Essa possibilidade está estreitamente relacionada por um lado à Função</p><p>Transcendente - no sentido da prontidão do Eu e do Self para desencadear e dar</p><p>curso ao Processo de Individuação - e, por outro lado, a realidades exteriores</p><p>que podem facilitar ou dificultar - e mesmo impedir - a realização desse processo,</p><p>tais como certas patologias psicológicas e orgânicas e determinados contextos</p><p>ambientais e sociais.</p><p>O Processo de Individuação não implica em individualismo (egocentrismo</p><p>e egoísmo), muito pelo contrário, significa individuação, isto é, o indivíduo tornar-</p><p>se consciente de si mesmo na relação com os outros, melhorando as relações</p><p>intra e interpessoais.</p><p>O Processo de Individuação está relacionado ao confronto do Eu com os</p><p>complexos presentes no Inconsciente Pessoal, principalmente os relacionados</p><p>a determinados arquétipos do Inconsciente Coletivo (persona, sombra, anima /</p><p>animus e self ) no sentido de tornar esses aspectos conscientes, integrando,</p><p>assim, consciente e inconsciente (Função Transcendente).</p><p>A ativação do Processo de Individuação está intimamente relacionado à</p><p>influência dos mitos na psique uma vez que os mitos servem de referenciais para</p><p>o indivíduo seguir seu Processo de Individuação.</p><p>20</p><p>É nesse sentido que Jung destacou o papel dos conteúdos religiosos -</p><p>portadores de mitos - como elemento importante para o desenvolvimento da</p><p>Função Transcendente e, em consequência, para a realização do Processo de</p><p>Individuação.</p><p>Muitas vezes experiências de sincronicidades (“coincidências</p><p>significativas” em torno de pessoas e objetos) estão associadas ao Processo de</p><p>Individuação.</p><p>O sentido espiritual experimentado na vivência do Processo de</p><p>Individuação é classificado por Jung como um fenômeno numinoso (de</p><p>numinosidade, termo utilizado pelo teólogo e filósofo alemão Rudolf Otto (1869-</p><p>1927) para designar a experiência do sagrado).</p><p>Embora a busca pela realização do Processo de Individuação seja um</p><p>instinto herdado - uma vontade herdada -, portanto, comum a toda humanidade,</p><p>independente de gênero, idade, etnia, posição social, política e cultural e credo</p><p>religioso que uma pessoa possa ter, a maior parte das pessoas não a vivencia e</p><p>uma significativa parcela inicia seu processo de confronto e integração com o</p><p>inconsciente (Função Transcendente) a partir da meia idade.</p><p>A Função transcendente para ser efetiva não pode ter apenas caráter</p><p>cognitivo (assimilação racional do Processo de Individuação), mas, sobretudo,</p><p>emocional (assimilação afetiva desse processo). Uma pessoa que conhece os</p><p>fundamentos teóricos da Psicologia Analítica não necessariamente vivencia seu</p><p>Processo de Individuação, ao passo que um leigo pode muito bem vivenciá-lo a</p><p>partir de suas experiências afetivas e sem, contudo, ter conhecimento algum</p><p>dessa teoria.</p><p>A Importância Dos Símbolos Para Jung</p><p>Estudar a teoria junguiana é, sem dúvidas, estudar símbolos. Com efeito,</p><p>isso se deve à paixão do autor pelos estudos na área da cultura de modo geral,</p><p>sobretudo das religiões. É através de sua teorização do símbolo que Jung</p><p>(2008a) organiza toda a sua teoria, não só em torno da cultura, compreendendo</p><p>21</p><p>as religiões, costumes e mitos, mas também compreendendo as estruturas da</p><p>psique humana. Em uma de suas últimas obras, “O Homem e Seus Símbolos”,</p><p>o estudioso define sinteticamente a importância dos símbolos em suas teorias:</p><p>Esta consideração sobre os símbolos, elencada pelo estudioso, é uma</p><p>condensação de toda a sua teoria relativa ao simbolismo. É uma síntese, pois,</p><p>suas obras aprofundam-se muito mais nesta temática. Nosso interesse reside</p><p>em apontar o “equilíbrio” que Jung (2008a) supõe em sua tese sobre os símbolos</p><p>religiosos, a saber, o raciocínio entre os argumentos céticos e crentes. Neste</p><p>trecho, o autor não desqualifica o pensamento ou o raciocínio religioso, no</p><p>entanto, deixa claro que, dentro do âmbito científico, só é possível pensar em</p><p>símbolos como produtos da própria psique humana.</p><p>Em seu livro, “Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo”, Jung (2008b) traz</p><p>uma série de conceitos ligados à formação de símbolos. Para ele, os símbolos</p><p>trazem uma matriz da consciência, que é o símbolo propriamente dito, aquilo que</p><p>se apresenta, que é manifesto; e, por outro lado, uma matriz inconsciente, que</p><p>tem seus significados arraigados à própria cultura da humanidade e que se</p><p>fazem presentes nos mitos, ritos, religiões, nas artes e em todas as outras formas</p><p>de manifestação cultural humana.</p><p>22</p><p>É importante apontar que Jung (2008b) não descarta as significações</p><p>pessoais que um símbolo possui, quando manifestado, por exemplo, em um</p><p>paciente em tratamento, mas ele enfatiza a importância e a dimensão do caráter</p><p>coletivo dos símbolos e do inconsciente. Um dos grandes marcos da Psicologia</p><p>Analítica está no postulado da existência do inconsciente coletivo, junto com</p>
<p>o</p><p>inconsciente pessoal. Eis como o autor explica esta tipologia da psique:</p><p>Esta tipologia junguiana da estrutura da psique está vinculada ao conceito</p><p>de inconsciente, herdado de seus estudos com Freud, entretanto, é totalmente</p><p>diferente da Psicanálise freudiana quando expõe a existência do inconsciente</p><p>coletivo.</p><p>Como lembra Palmer (2001), Freud tinha como premissa a noção</p><p>aristotélica de “tábula rasa”, ou seja, de que todo individuo nascia como uma</p><p>espécie de “folha em branco”, sem nenhum registro consciente ou inconsciente,</p><p>começando a elaboração destes registros logo após o seu nascimento, quando</p><p>entrava em contato com as relações sociais, especialmente com as relações pai</p><p>e mãe e com a cultura de modo geral.</p><p>Já em Jung (2008b), em oposição a Freud, o ser humano não nasce como</p><p>uma “tábula rasa”, assume-se a postura de que o ser humano nasce com uma</p><p>espécie de “herança genérica” no próprio psiquismo, constituído pelo</p><p>inconsciente coletivo e seus respectivos arquétipos. É com esta tese que o autor</p><p>deseja explicar porque existem formas similares de comportamento, entre os</p><p>mais diversos e distintos povos, que culminam na criação e assimilação de</p><p>símbolos, de mitos, de ritos dentre outras.</p><p>23</p><p>É impossível estudar a teoria junguiana sem se deparar com a tríade:</p><p>“símbolos, arquétipos e inconsciente coletivo” que estão intrinsicamente ligados.</p><p>Podemos apontar que o surgimento da tese sobre a coletividade do inconsciente</p><p>e o nascimento do indivíduo, com uma herança inconsciente psíquica, herdada</p><p>de tempos imemoriais, é o resultado de longas pesquisas de Jung no campo da</p><p>Antropologia, da História das religiões comparadas e dos símbolos, sobretudo,</p><p>religiosos.</p><p>O estudo dos símbolos norteou os trabalhos de Jung, fazendo com que</p><p>todos seus estudos antropológicos em torno dos mitos, símbolo, tradições e</p><p>culturas de diversos povos fossem direcionadas para o atendimento clínico de</p><p>seus pacientes.</p><p>Com efeito, Jung (2011) percebeu que os símbolos, frutos do inconsciente</p><p>coletivo, estavam presentes nas temáticas trazidas pelos seus pacientes nas</p><p>sessões terapêuticas. Estas imagens eram frutos tanto de um psiquismo que</p><p>trabalhava dentro dos padrões da normalidade, quanto daqueles que estavam</p><p>em estados de delírios, por exemplo.</p><p>Jung (2011) conta que foi em suas conversações com doentes</p><p>psiquiátricos que ele pode fazer uma assimilação entre psique e símbolos</p><p>coletivos. Um evento particular, no início de sua carreira, ocorreu quando um</p><p>24</p><p>doente psiquiátrico, ao olhar para o sol, relatou que o vento tinha sua origem no</p><p>sol, que possuía um falo, um tubo, que direcionava o mesmo por todos os cantos.</p><p>Jung não deu muita importância para o caso, contudo, anos mais tarde, quando</p><p>lia sobre antigas liturgias de Mitra, recém descobertas, se deparou com o mito</p><p>sobre a origem do vento em um tubo, muito similar ao relato do paciente.</p><p>Com este relato, dentre outros apresentados por seus pacientes, é que</p><p>ele promoveu uma verdadeira “viagem” entre os relatos clínicos e os símbolos,</p><p>mitos e crenças existentes na história da humanidade. Jung (2011) via,</p><p>sobretudo nos símbolos, a forma mais autêntica de expressão do inconsciente,</p><p>expressão esta enraizada no coletivismo do inconsciente de todos os povos. Sua</p><p>importância dada aos símbolos, promoveu o que Jung (2011) chamou de</p><p>“Imaginação Ativa”, que é o ato geralmente artístico do paciente se expressar,</p><p>muitas vezes através de símbolos e ideias que estão atrelados ao seu</p><p>inconsciente.</p><p>Deus E A Religião Nas Obras De Jung</p><p>Adentramos em um tópico muito importante e muito debatido nas obras</p><p>de Jung, que são os conceitos de religião e de divindade (Deus), amplamente</p><p>25</p><p>estudados e debatidos pelo autor em quase todas suas obras. Não seria uma</p><p>atitude ingênua acatar a ideia de que sua história de vida, com suas lembranças</p><p>de uma religião alienada de seu pai, sua amizade e ruptura com Freud, somada</p><p>a seu grande interesse por Antropologia e Arqueologia, tenha, de fato,</p><p>influenciado todos os seus escritos sobre religião. Ou, até mesmo quando</p><p>escreveu sobre símbolos, sonhos e tipos de personalidade, em que muitas vezes</p><p>utilizava-se de notas de rodapé, exemplificando em termos astrológicos , por</p><p>exemplo.</p><p>Estas complicadas explicações de Jung, em suas obras e em alguns</p><p>escritos tendenciosos, renderam-lhe, não poucas vezes, o título de místico. Ele</p><p>mesmo tinha consciência de que seus escritos poderiam ser taxados de místicos.</p><p>Para compreender alguns de seus escritos, que tocam efetivamente sobre a</p><p>religião, é necessário saber o que o estudado autor entende por religião. Em sua</p><p>obra “Psicologia da Religião Ocidental e Oriental”, Jung (1983) escolhe a</p><p>seguinte origem etimológica para o termo:</p><p>Assim, o autor coloca a religião como uma “disposição” do humano para</p><p>o “numinoso”, para o sagrado. O homem que sempre observa e interpreta o meio</p><p>em que vive, interpretação esta que se desemboca no senso religioso.</p><p>Hoeller (1995) afirma com bastante propriedade que os escritos de Jung,</p><p>especialmente os trabalho sobre religião, estão profundamente ligados a</p><p>conceitos gnósticos e alquímicos que Jung tanto apreciava. De fato, esta</p><p>impressão é clara ao analisar a obra “Psicologia da Religião Ocidental e</p><p>Oriental”, que não expressa uma imagem clara sobre o conceito de divindade</p><p>para Jung. Porém, é clara a sua colocação de Deus como arquétipo.</p><p>Em seu tratado sobre religião ocidental, em que aborda o Cristianismo,</p><p>Jung se mostra crítico ao protestantismo, apontando que a Reforma se esvaziou</p><p>26</p><p>dos símbolos, deixando de lado as mais autênticas manifestações do</p><p>inconsciente coletivo. Ele também tece uma crítica ao catolicismo, que se fechou</p><p>em dogmas e excluiu importantes características simbólicas da divindade, como,</p><p>por exemplo, o seu lado feminino, que era referenciado como deusa no</p><p>paganismo e que tinha como fonte de expressão o arquétipo anima.</p><p>Jung (1983) teoriza em seu livro sobre as possibilidades da existência de</p><p>uma quaternidade no lugar de uma Trindade cristã, pois o símbolo do quatro</p><p>representa, para Jung (1983), a totalidade da psique, a união dos opostos</p><p>(consciente e inconsciente), os quatro tipos psicológicos, ou seja, uma</p><p>expressão de totalidade da psique, mas que estava em desacordo com a</p><p>Trindade cristã.</p><p>Assim, um quarto elemento, “esquecido” ou renegado pelo Cristianismo,</p><p>seria necessário para que a religião cristã se tornasse um “reflexo” mais</p><p>autêntico da própria estrutura da psique. Este quarto princípio poderia ser o</p><p>reflexo das características femininas da divindade ou, até mesmo, seus aspectos</p><p>mais sombrios, ou o próprio demônio.</p><p>Neste ponto, vale ressaltar que Jung (1983) não está escrevendo um</p><p>tratado teológico, e muito menos alegando que exista um Deus e uma deusa,</p><p>pelo contrário, como notamos, ele deseja apontar que a imagem de Deus é a</p><p>mais completa e perfeita, muitas vezes simbolizada por uma mandala, símbolo</p><p>da totalidade. A perfeição e sentimento de completude, neste caso, estão</p><p>arraigadas no próprio símbolo do círculo que abarca a noção de “preenchimento”</p><p>de estar completo.</p><p>Sendo Deus o símbolo psíquico exteriorizado pelo self, Ele deve ser capaz</p><p>de comportar seus próprios opostos, em harmonia, sobretudo os elementos</p><p>“masculinos e femininos”, elementos estes que não foram totalmente adotados</p><p>pelo Cristianismo. Por outro lado, toda a concepção da união de polaridades</p><p>(união dos opostos), a valorização da interioridade como fonte dos símbolos</p><p>sagrados e aspectos ambivalentes na própria divindade são, de certa maneira,</p><p>influências de correntes como a Gnose e a Alquimia.</p><p>Ainda assim, não é possível defender que Jung esteja alegando a</p><p>existência de uma divindade exterior ao homem. Seus escritos apontam para a</p><p>27</p><p>capacidade da psique humana em representar Deus e é com esta capacidade</p><p>geradora</p>
<p>de símbolos que a cultura organiza as religiões institucionalizadas.</p><p>Para o estudioso, cabe ao homem escolher e definir Deus. “Cabe à liberdade do</p><p>homem decidir se Deus é um ‘espírito’ ou um fenômeno da natureza, como o</p><p>vício dos morfinômanos, e com isto fica definido também, se ‘Deus’ significa</p><p>poder benéfico ou destruidor” (JUNG, 1983, p.85).</p><p>Colocando Deus como símbolo arquetípico, Jung (1983) estabelece que</p><p>a religião é uma terapêutica “revelada por Deus”. Assim, é na religião – fonte de</p><p>expressões do inconsciente que se dão através dos símbolos – uma das formas</p><p>que o homem pode encontrar auxílio para buscar sua individuação e alcançar</p><p>seu self. Já os escritos de Jung sobre a religiosidade oriental são mais sintéticos,</p><p>comparados com os trabalhos sobre a religiosidade ocidental.</p><p>É provável que um estudioso ao analisar estas duas obras, perceba uma</p><p>predileção de Jung para com as religiões orientais. Tal predileção pode ter suas</p><p>raízes nas próprias crenças orientais que, grosso modo, identificam a divindade</p><p>no próprio ser humano, e que conceitos como Deus e mal, duas grandes</p><p>polaridades na tradição ocidental, não encontram espaços nas crenças do</p><p>Oriente.</p><p>28</p><p>A exposição do autor revela o quão a filosofia religiosa do Oriente está</p><p>mais próxima das concepções arquetípicas, por exemplo, postuladas por ele.</p><p>Jung (1983) julga que o Oriente seja de características de introversão, já o</p><p>Ocidente de características de extroversão. O conceito é também defendido pelo</p><p>mitólogo Campbell (2009), que observou na religião budista uma religião</p><p>psicológica. Talvez essa sua predileção pelas religiões orientais esteja arraigada</p><p>em suas próprias teorias.</p><p>A teoria esboçada por Jung (1994) de Anima Mundi, pode ser um conceito</p><p>retirado da essência da filosofia religiosa oriental, bem como dos próprios</p><p>gnósticos e alquimistas. Tal conceito deseja explorar a “ligação” entre o psíquico</p><p>e a cultura. Com efeito, todas as artes, ciências, tradições e religiões estariam,</p><p>de certa forma, empreendidas em quadros arquetípicos, por exemplo, de uma</p><p>determinada nação. Esta noção de integração entre interioridade e exterioridade</p><p>é bem evidente nas religiões do Oriente.</p><p>Na mesma linha das religiões orientais está a Alquimia que, para Jung</p><p>(1994), é um simbólico processo de mudança interior e da busca e encontro da</p><p>psique com o self. Para ele, os alquimistas foram os primeiros psicólogos da</p><p>História, pois, além do trabalho manual com formulações químicas, este mesmo</p><p>trabalho também consistia na possível interação do “eu interior” do alquimista</p><p>com suas práticas exteriores, resultando em um complexo processo de símbolos</p><p>e mitos, codificados durante todo o processo alquímico.</p><p>29</p><p>Podemos acrescentar que a paixão de Jung pela Alquimia deriva da</p><p>“aproximação” que o estudioso encontrou, ao ler os tratados alquímicos, com a</p><p>nossa moderna Psicologia clínica. De fato, assim como nas religiões orientais,</p><p>viu-se na Alquimia todo o seu intricado simbolismo, manifestações de cunho</p><p>psicológico que “clamavam” pela reelaboração ou pela busca do self, da</p><p>totalidade do sujeito.</p><p>Em outras palavras, a Alquimia seria a antecessora da Psicologia</p><p>Analítica. O sujeito – no caso o paciente – não necessitaria de um laboratório</p><p>físico e nem deveria se preocupar com questões químicas. O mesmo deveria se</p><p>preocupar em expressar seus símbolos, mediante desenhos, fala, sonhos e</p><p>outros tipos de expressão, e com ajuda de seu psicólogo, produzir uma espécie</p><p>de “regeneração psicológica”, buscando com isso o seu “ouro filosófico” ou a</p><p>integridade com o seu self.</p><p>30</p><p>Esta supertficial explicação sobre a utilização da essência alquímica em</p><p>uma sessão analítica, pode nos levar a crer que Jung tenha proposto um certo</p><p>tom religioso em sua clínica. Porém, uma resposta negativa é a mais coerente</p><p>para esta afirmação. Jung (1994) em nenhum momento faz alusão de que seu</p><p>paciente deva ter algum tipo de crença. Ele, no entanto, emprega a essência</p><p>roligioso-alquímica, conotando somente em uma busca interior pela centralidade</p><p>e totalidade do ser humano.</p><p>Sobre a teoria da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung</p><p>O posicionamento de Jung, com base nas teorias da psicologia profunda</p><p>e da psiquiatria dinâmica de sua época, contesta as abordagens organicistas</p><p>inerentes da Psiquiatria Clássica. Para ele, o materialismo científico não permite</p><p>a apreciação da importância decisiva dos fatores psicológicos, relacionais,</p><p>ambientais para o adoecimento psicológico. Jung critica a formação dos médicos</p><p>de sua época, pois estão enclausurados e especializados apenas em estudos</p><p>anátomo-fisiológicos. (Jung, 1971, §297).</p><p>A psique não é uma coisa dada, imutável, mas um produto de sua história</p><p>em marcha. Assim, não só secreções glandulares alteradas ou relações</p><p>pessoais difíceis são as causas de conflitos neuróticos; entram em jogo também,</p><p>em igual proporção, tendências e conteúdos decorrentes da história do espírito.</p><p>Conhecimentos bio-médicos previamente são insuficientes para compreender a</p><p>31</p><p>natureza da alma. O entendimento psiquiátrico do processo patológico de modo</p><p>algum possibilita o seu enquadramento no âmbito geral da psique. Da mesma</p><p>forma, a simples racionalização é um instrumento insuficiente. A história sempre</p><p>de novo nos ensina que, ao contrário da expectativa racional, fatores assim</p><p>chamados irracionais exercem o papel principal, e mesmo decisivo, em todos os</p><p>processos de transformação da alma. (Jung, 2013, p.17).</p><p>Para ele, a perspectiva organicista e racionalista não é suficiente para a</p><p>compreensão do pathos da alma. Não se trata de negar a existência</p><p>organogênica, certamente muitos adoecimento como intoxicação, má formação,</p><p>traumas, entre outros levam a manifestações psicopatológicas. Mas, de modo</p><p>geral, o problema da alma vai além do viés fisiológico, pois é ela um território em</p><p>si, com leis próprias, diferente das leis fisiológicas. Assim, o empreendimento de</p><p>Jung como pesquisador da alma humana é identificar as leis inerentes de tais</p><p>processos, a natureza particular da psique.</p><p>A psicogênese das doenças mentais implica em reconhecer que há uma</p><p>condicionalidade para a gênese das doenças mentais, que "(...)é de natureza</p><p>psíquica. Pode ser um choque psíquico, um conflito desgastante, uma adaptação</p><p>psíquica errônea ou uma ilusão fatal" (Jung, 1990, §496). Em outras palavras, o</p><p>paradigma psicodinâmico consiste em enfatizar a afetividade como causa do</p><p>desequilíbrio "na regulação, direção e perturbação da vida psíquica". (Martinez,</p><p>2006, p.94).</p><p>Os trabalhos iniciais de Jung tinham fundamentavam-se na compreensão</p><p>causalista dos fenômenos psicopatológicos pautando-se no uso de métodos</p><p>quantitativos, experimentais e a investigação redutiva psicanalítica. Este</p><p>momento perdura até aproximadamente 1913, com a publicação do livro</p><p>"Transformações e Símbolos da Libido". Segundo Penna (2013, p.83), trata-se</p><p>de um marco inicial que se deu pelo rompimento de Jung com Freud e a</p><p>Psicanálise e sua apresentação de um novo método de investigação dos</p><p>fenômenos psíquicos: o método associativo-comparativo. Este método se</p><p>fundamenta na filogênese (coletiva, arquetípica) dos elementos psicológicos, em</p><p>32</p><p>detrimento da perspectiva ontogenética (individual, biográfica) de Freud. Isto</p><p>significa dizer que é neste momento que Jung aponta para a hipótese de um</p><p>inconsciente mitológico: o material individual possui um correlato com o material</p><p>mitológico e coletivo (humanidade em geral). O método comparativo seria a raiz</p><p>da amplificação simbólica, que mais tarde seria desenvolvido.</p><p>O conceito de inconsciente mitológico ou coletivo lança bases para o</p><p>desenvolvimento de uma abordagem simbólica dos fenômenos psicológicos por</p><p>meio do método hermenêutico sintético-construtivo. Esta abordagem da</p><p>experiência psicopatológica e dos sintomas desenvolvida</p>
<p>por Jung implica em</p><p>compreendê-los não apenas pela lógica racional e causalista, mas por meio de</p><p>analogias de imagens com sentidos e significados (hermenêutica). Para abordar</p><p>o humano é preciso considerar seus aspectos irracionais, imaginativos,</p><p>intuitivos. Suas contribuições para o campo da psicopatologia se distinguem das</p><p>concepções médicas clássicas, pois avança em termos metodológicos, insere</p><p>conhecimentos além do campo da medicina, tais como filosofia, mitologia,</p><p>história, ciências da religião, etologia, etc. sem perder o caráter clínico e empírico</p><p>das investigações e intervenções (Whitmont, 1969, p.24).</p><p>Para Jung, a psiquiatria clássica é racionalista e mecanicista, pois avalia</p><p>os conteúdos psicológicos em nível de normalidade, de conceito/diagnóstico em</p><p>detrimento de sentido e de experiência/imagem. A abordagem sintomática da</p><p>psiquiatria compreende os adoecimentos em termos de causalidade e disfunção,</p><p>como se algo errado estivesse ocorrendo naquele indivíduo. (Whitmont, 1969,</p><p>p.19).</p><p>A abordagem simbólica de Jung apresenta uma perspectiva dialética ao</p><p>invés de lógica e linear. Para ele, a psique se expressa por meio de símbolos</p><p>que possuem uma finalidade de desenvolvimento psicológico (individuação) e</p><p>não apenas expressão do material inconsciente reprimido. O símbolo é uma</p><p>totalidade que une polaridades consciente e inconsciente ou fatores</p><p>heterogêneos que podem estar em conflito na psique visando uma superação</p><p>transcendente (síntese da relação dialética dos opostos) de modo que se</p><p>alcance uma nova consciência, uma nova perspectiva. O símbolo é "(...) uma</p><p>imagem de um conteúdo em sua maior parte transcendental ao consciente. É</p><p>33</p><p>necessário descobrir que tais conteúdos são reais, são agentes com os quais</p><p>um entendimento não só é possível, mas necessário". (Jung, 2013, §114).</p><p>Os sintomas devem ser compreendidos simbolicamente e isto significa</p><p>que apontam para além de si, para além da compreensão acessível da</p><p>consciência. Sendo a linguagem da alma subjetiva, imagética e coletiva,</p><p>demonstra que para compreendê-la é preciso apropriar-se do pensamento</p><p>hermenêutico e analógico para alcançar os sentidos e significados dos símbolos</p><p>e sintomas, pois "mais precisamente, ela possui leis e estruturas próprias que</p><p>correspondem às leis estruturais da emoção e do conhecimento intuitivo."</p><p>(Whitmont, 1969, p.19).</p><p>A experiência psicopatológica quando compreendida simbolicamente</p><p>apresenta, por traz de sua aparente irracionalidade, desadaptação e</p><p>contradição, profundos significados, possibilidades de desenvolvimento e de</p><p>renovação da postura do indivíduo perante sua realidade (Whitmont, 1969, p.23).</p><p>Segundo Clarke (1993) e Shandasami (2011), a teoria de Jung é alvo de</p><p>muitas críticas, considerada contraditória, sem sistematização do pensamento e</p><p>com lacunas teóricas. Ela segue uma linha não racional (analógica) e não linear</p><p>(circular) de pensamento, semelhante a sua proposta metodológica de</p><p>investigação dos fenômenos psíquicos: a amplificação. Trata-se de uma forma</p><p>de pensamento por semelhanças, em torno de um objeto central: o símbolo.</p><p>Assim, suas investigações se apropriam de caminhos diversos, com múltiplas</p><p>referências de conhecimentos, como a história da humanidade, as religiões, a</p><p>biologia, a filosofia, entre outras, para alcançar uma compreensão profunda dos</p><p>fenômenos psicológicos.</p><p>Segundo Silveira (1997, p.16), por um lado Jung possuía uma postura</p><p>científica: desenvolve seus trabalhos como médico psiquiatra e pesquisador da</p><p>alma humana com base em procedimentos científicos experimentais e</p><p>empíricos, além de um grande aprofundamento nos conhecimentos humanos</p><p>gerais. Investigava com rigor empírico seus resultados com referência em dados</p><p>da realidade, realizou experimentações, viagens para outros países e culturas,</p><p>além de sua vasta experiência cotidiana como médico psiquiatra. Por outro lado,</p><p>34</p><p>grande parte de sua obra foi constituída a partir das elaborações de suas</p><p>experiências pessoais interiores, suas visões, sonhos, insights profundos, etc.</p><p>Brooke (1991, p.22) e Samuels (2002, p.9) apresentam uma concepção</p><p>semelhante, a dizer que a obra junguiana é atravessada por duas perspectivas:</p><p>uma científica natural e outra poética. Para Brooke, Jung utiliza a linguagem das</p><p>ciências naturais que advém de sua prática médica e de pesquisador. Porém,</p><p>sua perspectiva científica não se consolida totalmente nos moldes da ciência</p><p>clássica cartesiana e positivista. Tende mais a perspectiva moderna de ciência,</p><p>a-causal, sistêmica, reconhecendo a influência do observador, do contexto</p><p>histórico nas elaborações teóricas do conhecimento, uma epistemologia</p><p>relativista.</p><p>Já a perspectiva poética origina-se das suas experiências pessoais,</p><p>corroborando com Silveira (1997), e a preocupação de encontrar os significados</p><p>intrínsecos dos fenômenos e da existência humana. Sua sensibilidade e</p><p>pensamento poético o aproximam das teorias fenomenológicas existenciais,</p><p>desconstruindo a perspectiva objetivista cartesiana. A perspectiva poética é</p><p>alegar a sensibilidade poética como ontologicamente válida para se alcançar o</p><p>conhecimento sobre a alma humana, a psique. A imaginação e a fala por</p><p>metáforas adquirem status ontológico, na medida em que, por elas, se faz um</p><p>aprofundamento nas perspectivas da psique e possibilita a descrição com mais</p><p>precisão sobre a realidade psicológica. Como exemplo, o uso das imagens</p><p>alquímicas, os mitos e os contos de fadas para ilustrar e aproximar a</p><p>compreensão significativa dos processos psicológicos profundos. (Brooke, 1991,</p><p>p.32).</p><p>Ao mesmo tempo em que se aproxima da perspectiva fenomenológica, é</p><p>indisciplinado e incoerente, pois não apresenta um campo epistemológico bem</p><p>elaborado. A crítica que recebe da perspectiva fenomenológica é que Jung não</p><p>se desvincula totalmente do pensamento cartesiano quando parece se</p><p>preocupar mais em classificar estruturas, categorias, dar uma anatomia e</p><p>fisionomia à experiência, como por exemplo seus conceitos de arquétipos</p><p>(anima, sombra, self, etc.) e as dinâmicas psicológicas destes. Por outro lado,</p><p>sua teoria se aproxima da fenomenologia quando faz uso do pensamento</p><p>hermenêutico, metafórico e imaginativo. (Brooke, 1991, p.62).</p><p>35</p><p>O que se faz relevante aqui é destacar o caráter contraditório e não</p><p>sistematizado da elaboração teórica de Jung. Esta ambivalência teórica implica</p><p>numa concepção de psicopatologia que, segundo Samuels (2002, p.9), pode ser</p><p>compreendida metaforicamente como um espectro que oscila: de um lado</p><p>denominado "profissional", do outro denominado "poético". A dimensão</p><p>profissional se remete ao jargão médico psiquiátrico com diagnósticos, termos</p><p>classificatórios que pode ser encontrado tanto na psicopatologia geral como na</p><p>Psicologia Analítica. Termos como "depressão", "complexo paterno",</p><p>"tendências regressivas", "constelação do arquétipo", entre outros, são jargões</p><p>científicos que definem e delimitam uma experiência psicológica. Por outro lado,</p><p>a dimensão poética remete a leitura mitopoética, fenomenológica, como uma</p><p>análise artística dos fenômenos encontrados, inclusive uma releitura do próprio</p><p>jargão médico.</p><p>Não se deve abandonar nem um, nem outro, posto ser ambos</p><p>fundamentais no processo psicoterapêutico. O termo profissional orienta o</p><p>procedimento terapêutico, mas tende a ser insuficiente para a compreensão do</p><p>processo subjetivo do paciente, sendo assim fundamental a compreensão</p><p>poética. (Samuels, 2002, p.10).</p><p>36</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BROOKE, R. (1991). Jung & phenomenology. Trivium Publications:</p><p>Pittsburgh.</p><p>BRYANT, C. Jung e o Cristianismo. São Paulo: Loyola, 1996.</p><p>BURKE, J. Deuses de Freud: A Coleção de Arte do Pai da Psicanálise.</p><p>Rio de Janeiro: Record, 2010.</p><p>CAMPBELL, J. O poder do mito. 14. ed. São Paulo: Palas Athena, 1996.</p><p>CAMPBELL, J. O Poder</p>
<p>do Mito. São Paulo: Palas Athena, 2009.</p><p>CAMPBELL, J. Reflexões sobre a arte de viver. São Paulo: Gaia, 2003.</p><p>CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo:</p><p>Cultrix/Pensamento, 2007.</p><p>CAMPBELL, Joseph. O poder do mito com Bill Moyers ; org. por Betty Sue</p><p>Flowers ; tradução de Carlos Felipe Moisés. -São Paulo: Palas Athena, 1990.</p><p>CAVALCANTI, Tito R. de A. Jung (Folha Explica). São Paulo: Publifolha,</p><p>2007.</p><p>CLARKE, J. (1993). Em busca de Jung. Rio de Janeiro: Ediouro.</p><p>DURKHEIM, E. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo:</p><p>Martins Fontes, 1996.</p><p>DYER, D. Pensamentos de Jung Sobre Deus. São Paulo: Madras, 2003.</p><p>ELIADE, M. História das Crenças e das Idéias Religiosas. Rio de Janeiro:</p><p>Zahar, 1984.</p><p>ELIADE, M. Tratado de História das Religiões. . São Paulo: Martins</p><p>Fontes. 1998.</p><p>ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos. São Paulo: Martins Fontes, 1991.</p><p>HOELLER, S. A Gnose de Jung: e os Sete Sermões aos Mortos. São</p><p>Paulo: Cultrix, 1995.</p><p>HOUAISS (2001). Dicionário eletrônico Houaiss da língua</p><p>portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva. Versão 1.0. 1 CD-ROM.</p><p>JUNG, C. G et al. O homem e seus símbolos. 14. ed. Rio de Janeiro: Nova</p><p>Fronteira, 1996. JUNG, Emma; FRANZ, Marie-Louise von Animus e Anima. 3.</p><p>ed. São Paulo: Cultrix, 2003.</p><p>JUNG, C. G. (1971b). Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes. CW 6.</p><p>JUNG, C. G. (1971d). A natureza da psique. Petrópolis: Vozes. CW 8ii.</p><p>JUNG, C. G. (1971f). Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes. CW 11i.</p><p>JUNG, C. G. (1971g). Interpretação psicológica do dogma da trindade.</p><p>Petrópolis: Vozes. CW 11ii</p><p>37</p><p>JUNG, C. G. (1971h). Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes. CW 12.</p><p>JUNG, C. G. (1971i). A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes. CW 16i.</p><p>JUNG, C. G. (1971j). A vida simbólica. Petrópolis: Vozes. CW 18i.</p><p>JUNG, C. G. (1976a). Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis:</p><p>Vozes. CW 9i.</p><p>JUNG, C. G. (1976b). Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis:</p><p>Vozes. CW 9ii.</p><p>JUNG, C. G. (2001). Cartas. Petrópolis: Vozes. Vol. 2.</p><p>JUNG, C. G. Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova</p><p>Fronteira, 2006.</p><p>JUNG, C. G. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,</p><p>2008a.</p><p>JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 6 ed. Petrópolis:</p><p>Vozes, 2008b.</p><p>JUNG, C. G. Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. Petrópolis:</p><p>Vozes, 1983</p><p>JUNG, C. G. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Editora Vozes, 1994.</p><p>JUNG, C. G. Símbolos da Transformação. Petrópolis: Editora Vozes,</p><p>2011.</p><p>JUNG, C. G. (1971a). Símbolos da transformação.</p><p>Petrópolis: Vozes. CW 5.</p><p>JUNG, C.G A Vida Simbólica. Petrópolis: Vozes. V.XVIII/1. 1998.</p><p>JUNG, C.G A Vida Simbólica. Petrópolis: Vozes. V.XVIII/2. 2000</p><p>JUNG, C.G Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes. 1995.</p><p>JUNG, Carl G. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova</p><p>Fronteira, 1998.</p><p>JUNG, C. G. (1971c). Psicologia do inconsciente.</p><p>Petrópolis: Vozes. CW 7i.</p><p>JUNG, C. G. (1971e). Civilização em transição.</p><p>Petrópolis: Vozes. CW 10.</p><p>MARTINEZ, J. (2006). Metapsicopatologia da Psiquiatria: Uma Reflexão</p><p>sobre o Dualismo Epistemológico da Psiquiatria Clínica entre a Organogênese e</p><p>a Psicogênese dos Transtornos Mentais. 448f. (Tese de Doutorado) - Programa</p><p>de Pós Graduação em Filosofia e Metodologias Científicas, Universidade</p><p>Federal de São Carlos, São Carlos.</p><p>PALMER, M. Freud e Jung: Sobre a Religião. São Paulo: Loyola, 2001.</p><p>PENNA, E. (2013). Epistemologia e método na obra de C. G. Jung. São</p><p>Paulo: EDUC:FAPESP.</p><p>38</p><p>RAMOS, L. M. A. Apontamentos sobre a Psicologia Analítica de Carl</p><p>Gustav Jung. ETD - Educação Temática Digital. Dez. 2002, v.4, n.1. Campinas,</p><p>SP: Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas</p><p>(UNICAMP). Disponível na Internet:</p><p><http://www.bibli.fae.unicamp.br/etd/acesso.html>.</p><p>RODRIGUES, M. A Religião na Vida de Jung. Sinapse Múltipla, Betim,</p><p>v.3, n.1, pp. 50-70, jul. 2014.</p><p>SAMUELS, A. (2002). Psychopathology: contemporary Junguian</p><p>perspectives. London: Karnac.</p><p>SILVEIRA, N. (1997). Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra.</p><p>SILVEIRA, N. Jung Vida e Obra. Rio de Janeiro: Editor Paz e Terra, 1976.</p><p>WHITMONT, E. (1969). A busca do símbolo: conceitos básicos de</p><p>psicologia analítica. São Paulo: Editora Pensamento Cultrix.</p><p>WILHELM, R. A sabedoria do I Ching: mutação e permanência. 2.ed. São</p><p>Paulo: pensamento, 1991.</p><p>WILHELM, R. A. I Ching: o livro das mutações. 20. ed. São Paulo:</p><p>Pensamento, 2002.</p>

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