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<p>Título Estudos em. Homenagem</p><p>à Professora Doutora Maria da Glória F. P. D. Garcia</p><p>Volume II</p><p>Comissão Organizadora Mário Aroso de Almeida Pedro Machete</p><p>Fiüpa. Urbano Calvâo</p><p>Raquel Carvalho</p><p>Marta Porto carrero</p><p>Maria OUveira Martins</p><p>Coleçao Estudos em Homenagem.</p><p>António Cortês</p><p>LUÍS Fábrica</p><p>Jorge Pereira da Silva</p><p>Armando Rocha</p><p>© Universidade Católica Editora</p><p>Revisão Editorial Ana Cunha, Patrícia Feio</p><p>Capa Ana Luísa Bolsa ] 4 ELEMENTOS</p><p>Conceçao gráfica Sersüito-Empresa Gráfica, Lda.</p><p>Depósito Legal 522738/23</p><p>Data novembro 2023</p><p>Tiragem 300 exemplares</p><p>Vol.I 9789725409855</p><p>Vol.H 9789725409862</p><p>Vôl.IH 9789725409879</p><p>Universidade Católica Editora,</p><p>Sociedade Unipessoal, Lda.</p><p>Palma de Cima 1649-023 Lisboa</p><p>Tel. (351) 217 214 020</p><p>uceditora@ucp.pt | www.uceditora.ucp.pt</p><p>Estudos em Homenagem</p><p>à Professora Doutora</p><p>Maria da Glória F. P. D. Garcia</p><p>Volume II</p><p>ucpsm"EDITORA</p><p>934 | Francisco Paes Marques</p><p>termos do artigo 48.°, n.° l, do CPTA (ex vi do artigo 10.°, n.° 2, da</p><p>Lei n.° 23/2018, de 5 de junho);</p><p>12) Permite-se, assim, que processos em que se discutam questões idên-</p><p>ücas, mesmo que reportados a diferentes sujeitos, mas nos quais estão</p><p>em causa questões conexas ou semelhantes, possam ser resolvidos num</p><p>processo único, que servirá de processo-modelo, evitando-se a proli-</p><p>feração de processos diferentes e decisões contraditórias em um ou</p><p>vários tribunais diferentes;</p><p>13) Assim, tem o tribunal, num primeiro momento, de realizar uma aná-</p><p>lise, relativamente a todas as ações propostas, sobre a identidade das</p><p>questões de facto e de Direito, ou pretensões típicas do grupo ou dos</p><p>membros da classe - por forma à que esse processo seja modelar ou</p><p>suficientemente representativo;</p><p>14) Num segundo momento, tem de escolher a ação que seja a mais</p><p>representativa, no sentido de abranger de uma forma mais fidedigna e</p><p>exaustiva o objeto do litígio;</p><p>15) Num terceiro momento, tem de averiguar da idoneidade do autor</p><p>da açâo escolhida, pois na seleção do processo-modelo ou piloto não</p><p>pode o tribunal abstrair-se das quaüdades do sujeito autor do processo,</p><p>dado que a açâo popular postula uma representatividade adequada</p><p>no sentido da idoneidade ou da capacidade do autor popular (artigo</p><p>14. LPPAP),pelo que o respetivo propulsor (e respetivos mandatários</p><p>judiciais ou consultores) tem de possuir idoneidade e capacidade ade-</p><p>quada para conduzir diligentemente o processo e levá-lo a «bom porto»</p><p>(experiência que o autor tenha adquirido na representação da classe</p><p>em demandas idênticas, capacidade técnica, capacidade financeira).</p><p>)ignidade Humana e Direito Penal</p><p>Germano Marques da Silva*</p><p>«A melhor forma de combater as agressões à dignidade</p><p>humana consiste em reconhecer direitos fundamentais às</p><p>pessoas, direitos que possam funcionar como Limite à ação</p><p>abusiva ou arbitrária dos outros.»</p><p>Maria da Glória Garcia, Como defender hoje a Dignidade</p><p>Humana, Universidade Católica Editora, 2016, p. 7.</p><p>Sumário: Introdução; l. O que é a dignidade humana, l. l. Breve excurso pela história</p><p>daTemântica e das ideias; l. 2.'Dignidade ontológica e dignidade étic^l.3. O que (não)</p><p>éTdignidade? 2. Conteúdo normativo da dignidade; 2.1. A dignidade humana como</p><p>'comum ao direito e à moral; 2.2. A dignidade humana e os direitos fimdamen-</p><p>taÍsF2.3. O princípio da dignidade humana: valor hermenêutico e fonte de direitos;</p><p>2"4'Excurso.±Fracalproteçàoda dignidade humana no plano da vida económica e social;</p><p>ÏD"ireito penal e\ dignidade humana; 3.1. Democracia, direito penal e dignidade</p><p>humana; 3.2. Confronto^ equilíbrio e simbiose entre a dignidade humana, os direitos</p><p>humanos e o direito penal; 3.2.1. As fontes normativas e a sua nova leitura emterpre-</p><p>taçâo~atuaüstas; 3.2.2.^0 conflito dialéúco entre o direito penal e os direitos humanos;</p><p>32.3. Contenção do direito dos direitos humanos pelo direito pena^3.2.4.A simbiose</p><p>entre'o-direito dos direitos humanos e o direito penal ao serviço da dignidade humana;</p><p>3.2~5. Conflito de valores no direito dos direitos humanos e no direito penal; 4. Dig-</p><p>nidade "humana, direitos humanos, pluralismo democrático, multiculturaUsmo e direito</p><p>penal; 5. O desafio dos fluxos migratórios; Conclusão.</p><p>Introdução</p><p>I. Para homenagear a Doutora Maria da Glória Dias Garcia pareceu-me</p><p>adequado o tema da Dignidade Humana e a sua referência ao Direito Penal,</p><p>por ser esta a área que cultivo na academia procurando assodar-me a"unha</p><p>quer~ida'Colega e Amiga na busca do modo «Como defender hoje a dignidade</p><p>Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Direito da Universidade Católica</p><p>Portuguesa.</p><p>936 | Germano Marques da Silva</p><p>humana», tema e título do seu livrinho publicado em 20161. Este «livrinho»</p><p>não é um tratado, não é uma monografia nem sequer um manual, mas um</p><p>alerta, um chamamento, uma provocação envolta em poesia como poético</p><p>é sempre o estilo de Maria da Glória Garcia em tudo que escreve e quando</p><p>fala.</p><p>Gostaria de ter engenho para escrever com arte este texto que lhe dedico,</p><p>mas já me consola poder segui-la no propósito que também me anima e</p><p>nos empenha na promoção do respeito da humanidade presente em cada ser</p><p>humano, agora e sempre na defesa da dignidade que se mostra desmerecida</p><p>e sacrificada neste tempo de pós-modernidade.</p><p>II. O texto que vou desenvolver sob o título «Dignidade Humana e</p><p>Direito Penal», mais do que o tratamento dogmático do tema, é ato de</p><p>militância. Julgo que neste nosso tempo, iniciado com o ataque terrorista às</p><p>Torres Gémeas, se está a sufocar o princípio que marcou a história da huma-</p><p>nidade a partir da Carta das Nações Unidas com a elevação da dignidade</p><p>humana a princípio de direito positivo universal, no propósito de não mais</p><p>permitir a destruição do homem pelo homem, destruição que o Holocausto</p><p>representa simbolicamente. A destruição, a morte de vidas humanas inocen-</p><p>tes voltou, está aí, tanto nos muros que flanqueiam fronteiras e no cemitério</p><p>do mediterrâneo quanto na guerra na Ucrânia, mas não só, a recordar-nos</p><p>a todos que o direito não pode substituir a ética no efetivo reconhecimento</p><p>quotidiano da dignidade do outro. O diabo está sempre presente à espreita</p><p>da sua oportunidade!</p><p>Neste nosso tempo soam cada vez mais alto as vozes que exigem, a mus-</p><p>culaçâo das medidas de prevenção e combate ao crime e, pretextando sempre</p><p>a segurança coletiva em nome da proteçâo das vítimas, reclamam medidas</p><p>policiais preventivas cada vez mais intrusivas, a vindicta como fim das sanções,</p><p>penas de prisão mais graves e efeúvas, a imprescriübmdade, a abolição de</p><p>medidas alternativas à prisão, a desconsideraçâo da culpa como limite da</p><p>punição, a retoma de medidas de segurança após o cumprimento das penas,</p><p>a castração química para os delinquentes sexuais e até a recuperação do</p><p>direito penal de autor relativamente a minorias sociais e imigrantes e aos</p><p>virtuais agentes de certos tipos de criminalidade, especialmente «colarinhos</p><p>GARCIA (2016).</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal | 937</p><p>e políticos, considerados como responsáveis por todos os males</p><p>sociais2.</p><p>Endurecem-se as condições prisionais, dificulta-se a concessão da liber-</p><p>dade condicional, deturpa-se descaradamente a presunção de inocência,</p><p>retoma-se a detenção no dia anterior à apresentação a juiz para humilhar</p><p>e quebrar o ânimo dos detidos promove-se o espetáculo mediático das</p><p>detenções e buscas para gáudio do povo desinformado, arrestam-se preven-</p><p>tivamente bens por tempo indeterminado ou sucessivamente renovado ano</p><p>iós ano, paralisando e sufocando a atividade das empresas e dos arguidos</p><p>até à insolvência, criticam-se os direitos de defesa e dificulta-se de modos</p><p>vários o seu exercício com o pretexto de serem dilatórios, chegando a</p><p>apelidar-se os advogados de terroristas do direito por não se conformarem</p><p>com as ilegalidades e a injustiça que testemunham diariamente e se mante-</p><p>rem fiéis e ativos na defesa dos valores que enformam o Estado de Direito</p><p>democrático. Esquece-se ou despreza-se, afinal, o fim, que também é do</p><p>direito penal, da recuperação social do condenado,</p><p>popular português - «à terra onde fores ter, faz como vires</p><p>fazer» - tem implícita a ideia de que se devem respeitar as normas de conduta</p><p>vigentes na terra para onde se for, imperativamente as leis que governam essa</p><p>comunidade. É assim, desde logo, no que respeita aos deveres que visam tute-</p><p>lar os direitos humanos, deveres conformados localmente em razão da cultura</p><p>dominante. A regra, nos Estados de Direito democrático, é a de que a justiça</p><p>está na lei, na lei decretada em conformidade com as regras constitucionais e</p><p>95 IDEM, pp. 135 ss.; MONTE (2014), pp. 97 ss.</p><p>96 MANGIAMELI (2022), pp. 99 ss.</p><p>97 MERU (2008), pp. 331 ss.</p><p>98 DIAS (2016), pp. 394 ss.; BASILE (2010), pp. 354 ss.</p><p>99 MANGIAMELI (2022), p. 104.</p><p>100 Assim, não é tolerável que numa comunidade em que as pessoas vivem lado a lado e se</p><p>pretende que vivam em comunhão social uns com os outros, os feministas, por exemplo,</p><p>convivam com horríveis formas de opressão das mulheres ou em que o laicismo conviva</p><p>com formas ameaçadoras de fanatismo religioso ou que os amantes da liberdade convivam</p><p>como se nada fosse com libertinos viohdores evidentes da liberdade e dignidade humana.</p><p>964 | Germano Marques da Silva</p><p>que necessariamente há que respeitar, sob pena de invalidade, as normas que</p><p>promovem e tutelam a dignidade humana.</p><p>Conclusão</p><p>O direito penal tem como fim a proteçâo de interesses especialmente</p><p>importantes para a convivência social, interesses que constituem condições</p><p>de existência, conservação e progresso social, ou, numa formulação mais</p><p>moderna, a proteçâo de bens jurídicos especialmente relevantes para a vida</p><p>em sociedade, sendo a dignidade da pessoa humana o maior.</p><p>A ideia de que o direito penal é o código de conduta dos criminosos</p><p>constitui uma visão simplista, traduz o desconhecimento da capacidade que o</p><p>direito penal tem para disciplinar vontades, quer enquanto define os compor-</p><p>lamentos proibidos para tutela dos bens jurídicos importantes, quer em razão</p><p>da finalidade preventiva e ressocializadora das penas, sempre pela promoção</p><p>e tutela da dignidade humana.</p><p>Tenha-se sempre presente, porém, que se o direito penal não só, mas de</p><p>modo fundamental, estabelece concretamente as regras da convivência social</p><p>num dado momento e lugar, a proteção da dignidade joga-se no plano da</p><p>tutela efetiva, que é trabalho de todos nos respedvos setores de advidade e</p><p>exige a contribuição essencial da educação na aprendizagem do respeito da</p><p>humanidade presente em cada ser humano e a importância da ética pessoal</p><p>de cada um no efetivo reconhecimento quotidiano da dignidade do outro.</p><p>«Como defender hoje a dignidade humana»? Difícü, sem dúvida, mas já</p><p>será muito louvável e dignificante acreditar que a dignidade existe e impetrar</p><p>com coragem a sua melhor proteção, sobretudo na defesa do direito das</p><p>minorias, do direito dos fracos, dos perseguidos e dos vencidos...</p><p>Bibliografia</p><p>ALBUQUERQUE, Paulo Pinto de. Comentário da Convenção Europeia dos Direitos Humanos</p><p>e dos Protocolos Adicionais, Universidade Catóüca Editora, Lisboa, 2019 e 2020; AMATI.</p><p>Enrico, UEnigma Penale - L'A_ffèrmazione Política dd Populisi nelle Democrazie LiberaU,</p><p>Giappichelli, Turim, 2020; ANASTASIA, Stefano, «U Populismo Penale», in Patrizio Gon-</p><p>neUa e Marco Ruotolo (coord.), Giustizia e carceri secondo papa Francesco, Editorial Jaca</p><p>Book, Milão, 2016 (pp. 61-65); ANDRADE, J. 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Relativamente à criminalidade dos políticos</p><p>e empresários, o arrastar as investigações pré-acusatórias por anos a fio, em</p><p>flagrante afrontamento do direito a um processo célere, configura uma</p><p>medida atípica de coaçào condicionante da liberdade dos suspeitos exa-</p><p>cerbada pela condenação instrumentalizada pêlos média sobre o disfarçado</p><p>pretexto de juízos éticos, sendo que no fim, se as suspeitas não se compro-</p><p>varem, ninguém responde pêlos sacrifícios pessoais impostos aos suspeitos/</p><p>/investigados que frequentemente viram as suas vidas desfeitas nem pêlos</p><p>danos sociais emergentes da pendência da investigação.</p><p>III. Ao tempo em que escrevo causa-me forte perplexidade e repúdio</p><p>o modo como a Europa tem afrontado a tragédia da imigração e a bárbara</p><p>guerra na Ucrânia, traindo pêlos factos a solenidade dos princípios.</p><p>Quanto à imigração animam-me os sinais de mudança que pressinto na</p><p>discussão política que suscita e quanto à guerra a esperança de que a atroz</p><p>violação da dignidade e dos direitos humanos não ficará impune e o facto de</p><p>que nunca na história moderna uma democracia perdeu uma guerra.</p><p>2 Sobre o populismo penal, cf. PAPA FRANCISCO (2014);ANASTASIA (2016), pp. 61 ss.</p><p>938 Germano Marques da Silva</p><p>Entretanto, «para refazer a nossa humanidade» podemos escutar «o canto</p><p>da madeira», de Nicola Piovani, tocado no «violino do mar» pela Orquestra</p><p>Nacional da Academia de Santa Cecília3 e voltar a ler e dar a ler «A brincar</p><p>se leva a sério a liberdade»4 da JVtaria da Glória.</p><p>1. O que é a dignidade humana</p><p>1.1. Breve excurso pela história da semântica e das ideias</p><p>I. Ensinava o Professor Roque Cabral que é mais fácil concordar na</p><p>afirmação da dignidade de qualquer pessoa humana do que defini-la e</p><p>fundamentá-la, «sendo de modo intuitivo que sentimos, diante de qualquer</p><p>ser humano, estar perante algo de sagrado ou profundo e que aprofundando</p><p>na génese deste sentimento somos reenviados para a consciência que temos</p><p>da nossa própria dignidade pessoal: reconhecemos a dignidade do outro por-</p><p>que nele vemos um outro eu, alter ego5».</p><p>O termo dignidade teve, através dos séculos, dois sentidos fundamen-</p><p>tais: o sociológico, hierarquizante, que foi cronologicamente o primeiro, e o</p><p>antropológico, igualitário, que se foi progressivamente impondo e que hoje é</p><p>quase o único que a generalidade das pessoas üga à palavra. Teve, e tem, tam-</p><p>bem duas vertentes: uma mais pessoal, voltada para a natureza e qualidades (</p><p>individuais, implicando a proteçào da subjetividade individual, e outra mais</p><p>comunitária, abrangendo toda a humanidade, donde a sua proteçâo objetiva</p><p>e indisponível por cada ser humano. Para melhor compreender o conceito</p><p>e suas implicações convém, fazer um brevíssimo percurso pela história da</p><p>semântica e das ideias.</p><p>II. A palavra dignitas é de origem romana e exprime na sua génese uma</p><p>realidade de natureza sociopolíüca: integrava a pertença à nobreza, a dedi-</p><p>caçâo à rés publica. A dignidade inerente ao cargo foi-se paulatinamente</p><p>associando a dignidade ou valor interior, dignidade cujo fundamento se foi</p><p>buscar à natureza do ser humano, natureza muito superior à dos animais6.</p><p>3 MENDONÇA (2022), p. 80.</p><p>GARCIA (2019), p. 23: «Nasce-se digno e igual / O outro és tu também / Não faças, por</p><p>isso, mal / E não perguntes a quem!»</p><p>5 CABRAL (2000), p. 280.</p><p>6 Ibidem; BIOY, (2018), pp. 15 ss.</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal | 939</p><p>Com os autores cristãos manteve-se a exaltação da dignidade da pes-</p><p>soa humana, fundamentada essencialmente no facto de Deus se ter tornado</p><p>homem, e de todos os homens serem, criados à Sua imagem, donde que é por</p><p>serem semelhantes a Deus que todos os homens são dignos e rigorosamente</p><p>,. Os escolásticos retomaram, e desenvolveram, as ideias anteriores, ligando</p><p>a dignidade à liberdade e racionalidade do homem. Também a renascença</p><p>exalta a dignidade da pessoa humana, que se funda na sua autonomia pessoal,</p><p>na sua liberdade de pensamento e, como consequência, na sua capacidade de</p><p>responder pêlos seus atos7.</p><p>Os séculos xvi a xvin representam um acentuado ecUpse do tema, mas</p><p>o conceito ético de dignidade foi retomado por Kant, que considerava o ser</p><p>humano um valor absoluto, fim de si mesmo, porque dotado de razão. A sua</p><p>autonomia, porque ser racional, é a raiz da sua dignidade, pois é ela que faz do</p><p>homem fim de si mesmo, quer dizer que tem. o direito sagrado de escolher os</p><p>seus próprios fins e convicções e que ninguém tem o direito de ditar a outrem</p><p>a sua conduta ou as suas escolhas. Tal a dignidade, ou prerrogativa, do homem,</p><p>acima dos seres materiais, dignidade que é ao mesmo tempo princípio moral</p><p>subjetivo e objeüvo8.As correntes materialistas dos séculos xix e xx, nomea-</p><p>damente com. os «filósofos da suspeita»9 e a «morte de Deus», conceptualizada</p><p>por Nietzsche10, fizeram soçobrar a razão da dignidade da pessoa humana, mas</p><p>os neokantianos" voltaram a colocar a ideia em. lugar de honra.</p><p>Chegámos a Auschwitz, um grito a reclamar a proteçâo da dignidade</p><p>humana pelo direito positivo universal, não mais o indivíduo abstraio do</p><p>Iluminismo, mas o homem concreto, o homem de carne e osso, todo o</p><p>ser humano, que em razão dessa condição, por si só, tem. o «direito a ter</p><p>direitos»12, o que aconteceu, pela primeira vez, no artigo 1.° da Declaração</p><p>7 O Autor mais representativo é Giovanni Pico delia Mirandola e a sua obra Oratio de</p><p>hominis dignitate: a peculiaridade da natureza humana, consiste não em. ser, enquanto obra</p><p>do Criador, eternamente imutável, mas, ao contrário, suscetível de contínua evolução na</p><p>base dos comportamentos que os seres humanos são Uvres de escolher e pêlos quais, por</p><p>isso, são responsáveis. Segundo Pico deUa Mirandola, a dignidade do homem é não só</p><p>superior à dos animais, mas superior à dos próprios anjos, os quais, diversamente dos seres</p><p>humanos, que têm a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, não são capazes de</p><p>autodeterminação, podendo querer sempre e só o bem. [apud Ripepe, (2014), pp. 18-19].</p><p>8 KANT (1785), p. 82.</p><p>9 Friedrich Nietzsche, Karl Mane e Sigmund Freud.</p><p>10 NIETZSCHE (1883) (1885).</p><p>n Max Ernst Mayer, Gustav Radbruch, Edmund Mezger e Sauer.</p><p>12 ARENDT (1989), pp. 300-336.</p><p>940 | Germano Marques da Silva</p><p>Universal dos Direitos do Homem que, ao declarar que «todos os homens</p><p>nascem livres e iguais era dignidade e em. direitos» e que «dotados de razão</p><p>e de consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fi-ater-</p><p>nidade», pretende realçar que o fundamento de todos os direitos, liberdades</p><p>e garantias reside na consciência ética dos homens e dos povos, não estando</p><p>à mercê do Estado-poder13.</p><p>Fica no ar, fica sem. resposta, não só o inteiro significado da dignidade</p><p>humana e o conteúdo dos direitos e deveres que dela brotam e a tutelam14,</p><p>mas também, a questão: o ser humano é digno porquê?</p><p>III. Já antes citámos Roque Cabral: «sendo de modo intuitivo que sen-</p><p>timos, diante de qualquer ser humano, estar perante algo de sagrado ou</p><p>profundo e que aprofundando na génese deste sentimento somos reenviados</p><p>para a consciência que temos da nossa própria dignidade pessoal»15. A pessoa</p><p>é a substância, a dignidade a qualidade e razão para a tutela da pessoa.</p><p>«Quem és tu, o ser humano que reivindica tantos direitos? Qual é a</p><p>sacraÜdade do teu ser que merece esses direitos sagrados? Qual é a visão</p><p>sagrada de nós mesmos que nos faz merecer superpoderes?» «O homem é</p><p>um OVNI ontológico, porque ele é tudo e é nada. Chama-se humano o ser</p><p>que pode ser tudo, quer dizer, que pode criar-se a si mesmo tanto como um</p><p>bem sublime ou miserável. Deus ou diabo, anjo ou besta...»16.</p><p>A questão da dignidade ou sacraUdade da pessoa humana é de trans-</p><p>cendente dificuldade. Vimos que através da história foi justificada de modos</p><p>diversos: numa perspetiva religiosa porque criado à imagem e semelhança</p><p>de</p><p>Deus, na filosófica pela sua racionalidade, autonomia e überdade, que faz dele</p><p>o fim de si mesmo, e, mais recentemente, numa visão biológica, pela espécie</p><p>única de cada ser humano e sua pertença ao género humano17718.</p><p>13 MIRANDA (1978), p. 351.</p><p>14 RIPEPE (2014), p. l: «o problema não é que não haja nenhuma resposta possível, mas que</p><p>são muitas; tantas, que se será tentado a dizer, quantos os que falam, de dignidade humana».</p><p>15 CABRAL (2000), p. 280.</p><p>16 BIDAR (2021), p. 325.</p><p>17 DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE O GENOMA HUMANO E OS DIREITOS HUMANOS, (1997):</p><p>art. 1.° «O genoma humano tem subjacente a unidade fundamental de todos os membros</p><p>da família humana, bem como o reconhecimento da sua inerente dignidade e diversidade.</p><p>Em. sentido simbólico, constitui o património da Humanidade.»</p><p>18 GASPAR (2008), p. 149 ss.; MANGINI (2013), pp. 230 ss.</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal 941</p><p>Não cabe no propósito deste artigo análise mais aprofundada. A sacraU-</p><p>dade do homem é de natureza cultural e, antes de ser uma realidade jurídica,</p><p>um valor, um bem. jurídico carente de tutela pelo direito, é uma realidade de</p><p>outra natureza, religiosa, filosófica e biológica, mas a história documenta e a</p><p>a.tualidade mostra ainda que o que consideramos como inerente à sacralidade</p><p>humana. - sobretudo a vida, a integridade física, a autonomia, a liberdade</p><p>e a igualdade de todos os seres humanos, enfim, todas as componentes da</p><p>personalidade, incluindo condições de vida decente - não foi sempre assim</p><p>e ainda não o é19, tanto que tendo natureza cultural é fruto do tempo e do</p><p>espaço.</p><p>Sintetizando, o homem e a sua dignidade é «maior valor, o "supremo bem",</p><p>a que todos os valores estão referidos»20; as suas ações, guiadas e governadas</p><p>pela razão, são consideradas corno manifestação da sua essência necessária21.</p><p>«Reconhecer a especial importância das pessoas impÜca tratá-las como "fim</p><p>em si" e, isto significa reconhecer-lhes "direitos" que valem mesmo que tal</p><p>seja contrário a outros fins (ao interesse público ou à vontade da maioria)22»,</p><p>significa o direito de não ser humilhado e o direito de ser respeitado23, mas</p><p>também o dever de respeitar a própria dignidade.</p><p>1.2. Dignidade ontológica e dignidade ética</p><p>A dignidade por si mesma indica uma qualidade, uma excelência, um</p><p>valor a que corresponde a honra, a estima, a autoridade; refere-se ao que é</p><p>reconhecido como bom e encontra a sua razão de ser numa qualidade de</p><p>ser ou de agir. Como tudo o que se refere a um determinado sujeito, pode</p><p>corresponder à ordem substancial ou acidental, ao que é natural ou ao que é</p><p>adquirido, pode relacionar-se à dignidade essencial ou à dignificação. Segundo</p><p>o primeiro significado, é inerente ao ser humano; o segundo refere-se a um</p><p>comportamento ou a uma função, à qualidade desse comportamento, desse</p><p>modo de ser do agente (que o torna digno). A dignidade adquirida pressupõe</p><p>a dignidade essencial; não seria possível adquirir uma determinada quaUdade</p><p>sem ter nunca a possibilidade intrínseca de a adquirir.</p><p>19 TURCO (2017), p. 139 ss.</p><p>20 NBVES (1995), p. 278.</p><p>21 TARANTINO (2016), pp. 51 ss. e 103 ss.</p><p>22 CORTÊS (2010), p. 259.</p><p>23 ARDANT (2004), p. 378.</p><p>942 | Germano Marques da Silva</p><p>A dignidade não é por si uma noção jurídica, é um valor, à semelhança</p><p>da liberdade e da igualdade. O direito promove e tutela este valor, desde logo</p><p>ao proclamar o princípio jurídico da dignidade da pessoa humana como</p><p>universal e ao refleti-lo nas normas dos sistemas jurídicos particulares, mas a</p><p>dignidade humana impõe-se para além do direito, no âmbito da moral social</p><p>e até das meras regras de cortesia.</p><p>E importante esta distinção a justificar que não obstante os atos do</p><p>homem possam ser indignos, nomeadamente pela prática de crimes, a sua</p><p>dignidade ontológica mantém-se e é por isso que os procedimentos poUciais</p><p>e judiciários e as sanções pelas suas ações indignas não devem beliscar a</p><p>dignidade do seu ser24.</p><p>1.3. O que (não) é a dignidade?</p><p>I. Também Roque Cabral procurou dar a resposta sobre o que é a digni-</p><p>dade: «sendo de modo intuitivo que sentimos, diante de qualquer ser humano,</p><p>estar perante algo de sagrado ou profundo». E acrescentava que é mais fácü</p><p>descobrir o que não é digno do que determinar o que é a dignidade.</p><p>E indigno do ser humano sujeitá-lo a qualquer espécie de violência física</p><p>ou moral. E indigno do ser humano não ter meios para satisfazer as suas</p><p>necessidades básicas materiais e espirituais; é indigno o tratamento que a</p><p>sociedade dispensa aos miseráveis, não é indigno ser pobre, o pobre é digno,</p><p>indigno é o tratamento que a sociedade lhes dá. É indigno da pessoa humana</p><p>que o trabalhador não consiga com o seu salário fazer face às despesas básicas</p><p>da sua fanulia, como a alimentação, o vestuário, a educação e a habitação.</p><p>E indigno da pessoa humana que o doente morra enquanto aguarda a inter-</p><p>venção médica ou porque não pode aviar os medicamentos. É indigno da</p><p>pessoa humana que o velho, o doente, o desempregado tenha de estender a</p><p>mão à caridade para matar a fome, abrigar-se do fi-io ou comprar o medi-</p><p>camento; o estado de miséria do ser humano é sempre indigno. É indigno</p><p>da pessoa humana que o jovem não possa constituir família ou prosseguir</p><p>estudos por carência económica. É indigna a exploração do trabalhador e</p><p>sujeitá-lo a perigos para a vida ou saúde quando conhecidos e evitáveis.</p><p>como indigno é o trabalhador que não cumpre os seus deveres laborais</p><p>E indigno que o estrangeiro que foge da guerra, da perseguição ou da miséria</p><p>não seja acolhido e protegido, e seja escorraçado como raivoso. São indignas</p><p>24 KANT (2019), p. 140.</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal | 943</p><p>mangações ou meros comentários de gozo, de horror ou mesmo</p><p>compabdo sobre pessoas com malformações ou deficiências físicas ou</p><p>cínuicas e mais ainda a sua exploração para divertimento25, sobretudo por</p><p>daqueles que se comprazem em não lhes serem semelhantes. E um</p><p>nunca mais de indignidades com que somos constantemente confrontados.</p><p>perante tantas indignidades, tomamos então consciência, ainda que difusa,</p><p>de que a dignidade da pessoa humana consiste no respeito de cada uma e</p><p>de todas as pessoas, que nenhuma pessoa seja humilhada no seu corpo e no</p><p>seu espírito, nem na sua vida individual ou social nem mesmo na sua morte.</p><p>II. O ideal da dignidade humana é bem difícü de definir a priori, se não</p><p>em termos de valores, de princípios gerais, mas traduz a ideia da sacralidade</p><p>da vida: a integridade física e moral da pessoa, a liberdade, a igualdade, a har-</p><p>mónica coexistência da liberdade e a justiça social, ideais que correspondem</p><p>desde sempre ao núcleo essencial do direito natural e no nosso tempo aos</p><p>direitos humanos fundamentais, pilar essencial do ideal democrático, e sem-</p><p>pré em contínuo aprofundamento para corresponder ao que em cada tempo</p><p>e lugar é entendido como prerrogativa insuprível das pessoas.</p><p>Á indeterminação do conceito de dignidade da pessoa humana é da sua</p><p>própria natureza constitutiva. A vagueza do seu conteúdo compensa a falta de</p><p>um fundamento ético urúficante, como no passado era atribuído à «natureza</p><p>humana» para fundamentar o direito natural, e torna o conceito compatível</p><p>com as mais diversas orientações filosóficas e ideológicas, o que permite a</p><p>sua pretensão de universalidade, estando, como referido já, continuamente em</p><p>construção e por isso nunca definitivamente concluído, mas sempre aberto a</p><p>ulteriores desenvolvimentos26.</p><p>25 Foi o caso de Manuel Wackenheim, cidadão francês, medindo 1,14 metro, que o Conselho</p><p>de Estado impediu de ser arremessado como projétil, prática conhecida por lançamento</p><p>de anões, com o argumento de violação da dignidade humana, decisão que mereceu</p><p>acolhimento no Comité de Direitos Humanos da ONU, que afirmou que a necessidade</p><p>de proteger a dignidade humana era fundamental. O mais interessante nesta proibição é</p><p>que foi Manuel Wackenheim quem recorreu da proibição adnümstrativa argumentando</p><p>que a proibição o privava de um trabalho que exercia voluntariamente</p><p>como meio de</p><p>ganhar o seu sustento.</p><p>26 RIPEPE (2014), p. 12.</p><p>944 | Germano Marques da Silva</p><p>2. Conteúdo normativo da dignidade</p><p>2.1. A dignidade humana como espaço comum ao direito e à</p><p>moral</p><p>I. Não cabe no propósito deste artigo a análise aprofundada das relações</p><p>entre o direito penal e a moral, mas convém um breve apontamento. Está</p><p>hoje comummente adquirido, no nosso contorno cultural, que a lei penal não</p><p>é instrumento para regular a moral e assumir as suas normas, perpetuando</p><p>desse modo a confusão pré-üuminista entre ética e direito. Se é certo que</p><p>não é função do Estado liberal intrometer-se nas conceções morais dos seus</p><p>cidadãos, certo é, porém, que existe um espaço comum à moral e ao direito</p><p>na compreensão, adesão e aplicação dos princípios éticos universais, sendo</p><p>este o espaço da dignidade humana que, no plano jurídico atual, se traduz,</p><p>em síntese, pêlos direitos humanos fundamentais, e no moral pela sacralidade</p><p>da pessoa humana, constituindo a força propulsora do aprofundamento e</p><p>expansão dos direitos humanos.</p><p>II. Na verdade, alguns valores que caracterizam a dignidade humana na</p><p>esfera da vida social, e que respeitam à autonomia moral da pessoa e aos</p><p>seus direitos fundamentais, pertencem historicamente a uma moral natural,</p><p>ou racional, que precede e controla o direito positivo, teorizada pelo Ilu-</p><p>minismo em função dos limites do poder punitivo do Estado. Esses valores</p><p>encontram, um consenso amplamente compartühado no âmbito das culturas</p><p>ocidentais, correspondendo a uma geral e difusa convicção da consciência</p><p>humana, e representam o ponto de chegada de um percurso de humanização</p><p>que libertou a humanidade de muitos séculos de barbárie e de superstição e o</p><p>direito penal de graves formas de crueldade e de atrocidade. Tais valores são a</p><p>base de direitos humanos invioláveis, consagrados nas declarações de direitos</p><p>humanos e nas modernas constituições e que os defensores do direito natural</p><p>fazem nascer da natureza humana ou da natureza das coisas, contraposta às</p><p>variações da cultura, dos costumes e das tradições.</p><p>A respeito deste núcleo de princípios fundamentais, que constituem a base</p><p>da democracia liberal, pode aspirar-se a recuperar uma componente moral</p><p>do direito penal que, respeitando valores que podem considerar-se comuns,</p><p>se Ubertam de algum modo e em certa medida das convenções locais e da</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal 945</p><p>coloração histórica de uma particular forma de vida27. E neste sentido que se</p><p>falar de uma identificação entre o direito penal e a moral. A democracia</p><p>liberal, renunciando a projetar o direito penal numa dimensão transcendente</p><p>e ética, separando quanto possível o direito da moral, sustenta uma moral</p><p>mínima, que vai para além das divisões religiosas e filosóficas e que fornece</p><p>ao direito penal e à moral um fundamento comum.</p><p>O direito é independente da moral e cada uma destas ordens normati-</p><p>vás vale independentemente da outra e se coincidem em. muitos dos seus</p><p>>s é também certo que existem muitas normas jurídicas que não são</p><p>normas morais e muitas normas morais não são acolhidas pelo direito (non</p><p>omne quod licet honestum est). Existe, porém, uma grande interpenetraçâo do</p><p>direito e da moral, mormente no direito penal {v. g., crimes contra a vida,</p><p>contra a integridade física, contra a liberdade, contra a liberdade e autode-</p><p>ternúnaçâo sexual, contra a humanidade). Sói dizer-se ainda que o direito</p><p>consagra também normas que são contrárias à moral, mas isso representaria</p><p>uma contradição quanto ao fundamento comum de uma e outra ordem, que</p><p>impede que entre moral e direito haja contradição. Só existiria contradição se</p><p>o Direito impusesse o que a Moral proíbe. «O direito consente certa latitude</p><p>e, por sua natureza, admite possibilidades; consente em muitas ações, das quais</p><p>só uma será conforme ao dever moral. O Direito traça uma esfera que é por</p><p>ele protegida. Ser conforme ao Direito equivale a ser não imperdível;jamais</p><p>a ser conforme à lei moral.»28</p><p>É condição da própria vida democrática que na sociedade esteja bem. viva</p><p>a moral, tanto que muitas vezes o acatamento das normas jurídicas por parte</p><p>das pessoas é sobretudo determinado por razões morais. Vem a propósito a</p><p>exclamação de Tácito na Germânia: «e aí podiam mais os bons costumes do</p><p>que noutros países as boas leis».</p><p>2.2. A dignidade humana e os direitos fundamentais</p><p>I. As declarações dos direitos humanos, internacionais e internas, posi-</p><p>tivaram os direitos que a comunidade universal e os Estados particulares</p><p>devem respeitar e satisfazer. Esses direitos das pessoas, de todas as pessoas,</p><p>são a expressão jurídico-positiva temporal da dignidade humana, por isso de</p><p>alta densidade axiológica, e como tais tendentes a assegurar a maior extensão</p><p>27 MERLI (2008), pp. 157 ss.</p><p>28 VECCHIO (1959), pp. 95-96.</p><p>946 | Germano Marques da Silva Dignidade Humana e Direito Penal | 947</p><p>possível, em subjetividade e objetividade, no tempo e no espaço29, donde que</p><p>a dignidade humana, que constitui o fundamento dos direitos fundamentais,</p><p>conforme proclamado no preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos</p><p>Humanos, seja também fundamento da atribuição de novos direitos e deveres</p><p>para maior dignificação prática da pessoa humana.</p><p>O princípio tem uma necessária referência à subjeüvidade - a liberdade é,</p><p>antes de mais, dignidade das pessoas enquanto liberdade originária - mas tem</p><p>também um sentido objetivo de respeito pela humanidade enquanto ideal da</p><p>ação, enquanto ideal de perfeição da espécie humana30.</p><p>II. A dignidade não pode, porém, viver só de direitos, tem necessidade de</p><p>deveres e é por isso que é também síntese dos deveres de cada um perante</p><p>todos os outros. O principal dos deveres consiste no respeito da própria</p><p>dignidade, seja como observância seja como modo de agir, porque, conforme</p><p>a mensagem evangélica - amarás o teu próximo como a ti mesmo31 -, a dig-</p><p>nidade implica não só o respeito de si, mas ainda e sobretudo o respeito do</p><p>outro. Daqui a necessidade de correlativos deveres para a tutela da dignidade,</p><p>seja de abstenção ou de açâo, a cargo de todos, compreendendo o Estado,</p><p>os cidadãos e o próprio. Na perspetiva comunitária seria inadmissível que</p><p>se impusesse à sociedade a obrigação de reconhecer a dignidade de todos lf</p><p>os seus membros, como fundamento da própria ordem social e jurídica32,</p><p>e se aceitasse que cada um pudesse renunciar a esta qualidade constitutiva33.</p><p>Por isso que os meios de tutela da dignidade humana, a lei posiüva, possam</p><p>estabelecer limitações ao pleno gozo da liberdade e autodeterminação que</p><p>são componentes essenciais da dignidade, donde que não nos pareça carreto</p><p>dizer-se que a dignidade, enquanto valor ou bem jurídico, não pode ser</p><p>limitada porque sendo também um bem comunitário seria incompreensível</p><p>que pudesse ser livremente renunciado por algum dos seus membros34.</p><p>Filha da universal interdependência entre os seres humanos, a solidarie-</p><p>dade tem no princípio da dignidade o seu fundamento e a sua mais segura</p><p>29 SCALISI (2018), p. 43.</p><p>30 CORTÊS (2010), p. 262.</p><p>31 MATEUS, 22,39.</p><p>32 Recordemos que o artigo l." da Constituição da República Portuguesa dispõe que «Por-</p><p>tugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana».</p><p>33 BIOY (2004), p. 85.</p><p>34 NOVAIS (2021), p. 177 ss.; FERREIRA DA CUNHA (2014), p. 171 ss.; SILVA (2020), pp. 368</p><p>ss.; MARQUES (2017), pp. 402 ss.; MEDEIROS/CORTÊS (2017), pp. 440 ss.</p><p>;ão35, tendo como sua direção finalística a de contribuir para a supe-</p><p>ração das condições de necessidade e/ou de inferioridade, de marginalização</p><p>ou exclusão social36. Sobre este aspeto é significativa a Carta de Direitos Fun-</p><p>damentais da União Europeia, a qual não só dedica um título à solidariedade,</p><p>mas institui também uma expressa ligação com a dignidade, proclamando a</p><p>indivisibüidade da mesma e textualmente pondo-a em referência às institui-</p><p>entre as condições necessárias para garantir uma existência digna a todos</p><p>os que não disponham de recursos suficientes (art. 34.°)37.</p><p>2.3.</p><p>O princípio da dignidade humana; valor hermenêutico e</p><p>fonte de direitos</p><p>I. A norma jurídica é uma regra de dever ser, uma fórmula, um modelo</p><p>de conduta que é dever observar. Neste sentido, os princípios são também</p><p>normas38, e agora, no que respeita ao princípio da dignidade humana, é uma</p><p>norma jurídica positiva39. Diversamente, porém, das demais normas jurídicas</p><p>que tipificam os comportamentos que devem ser, os princípios jurídicos visam</p><p>a realização de um fim, um valor, uma ideia, um interesse juridicamente rele-</p><p>vante, enfim, um bem jurídico, 'mas não têm a pretensão de gerar soluções</p><p>específicas, de descrever os comportamentos que devem ser, mas de contribuir,</p><p>ponderando-os com outras razões, para a decisão'40; «não têm um conteúdo</p><p>proposidonal deËnido, são avessas a uma formulação linguística precisa»41.</p><p>Os princípios são relativos aos valores positivos que se querem promover,</p><p>mas distinguem-se desses valores porque enquanto os principias se situam no</p><p>plano deontológico e, consequentemente, estabelecem a obrigação da adoção</p><p>de determinadas condutas necessárias à realização do fim, os valores situam-se</p><p>no plano axiológico42743, do bem final que deve ser realizado.</p><p>35 MIRANDA (2017), pp. 66 ss.; CORTÊS (2017), pp. 67 ss.</p><p>36 MANGIAMELI (2022), pp. 123 ss.</p><p>37 SCALISI (2018), pp. 50 ss</p><p>38 CRISAFULLI (1941), p. 248.</p><p>39 VECCHIO (2002), pp. 10-11; IDBM (1959), pp. 108 e 372 ss.</p><p>40 ÁVILA (2014), pp. 60, 74 ss. e 106 ss. .</p><p>41 CORTÊS (2010), p. 29.</p><p>42 ÁVILA (2014), p. 62.</p><p>43 ROMANO (2015), p. 79: «O direito garante, mediante a legalidade, o respeito da pessoa</p><p>humana, da sua dignidade, que não tem a sua "razão" no direito, mas é a "razão" do</p><p>direito.»</p><p>948 | Germano Marques da Silva</p><p>Os princípios são normas que atribuem um fundamento a outras nor-</p><p>mas, indicando a finalidade a promover, sem preverem os meios para a sua</p><p>realização. Apresentam, por isso, um elevado grau de indeterminaçâo, não no</p><p>sentido de simples abstraçâo, próprio de qualquer norma, mas no sentido</p><p>específico de não descreverem exaustivamente os factos em presença dos</p><p>quais produzem consequências jurídicas. Os princípios são prescrições fina-</p><p>lísdcas com um elevado grau de generalidade material, sem consequências</p><p>específicas previamente determinadas44.</p><p>II. O princípio da dignidade humana, como é regra na generalidade</p><p>dos princípios, tem uma importante função na hermenêutica das normas de</p><p>conduta45. A interpretação das normas visa a descoberta da norma justa, da</p><p>norma mais conveniente e adequada a atingir a prescritibüidade normativa</p><p>ínsita na situação particular dentro da unidade do sistema jurídico.</p><p>Mas se o sistema e o texto legal representam, no quadro de uma con-</p><p>ceçâo integral da juridicidade, as coordenadas essenciais do procedimento</p><p>hermenêutico, o princípio da dignidade humana, que é considerado pelo</p><p>sistema o princípio dos princípios, um superprincípio, uma norma originária</p><p>motivadora de outras normas, ocupa um lugar de primeiríssimo plano do</p><p>ponto de vista da teoria geral da interpretação 46/47/48</p><p>44 RIPEPE (2014), p. 12: «a indeterminaçâo não é o resultado de um banal expediente diplo-</p><p>mático para simular uma convergência de vistas que na realidade é inexistente, mas um</p><p>dado constitutivo da noção de dignidade humana».</p><p>Tenha-se em conta o disposto no art. 16.° da Constituição da República Portuguesa, que</p><p>dispõe que «os preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem</p><p>ser interpretados e integrados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do</p><p>Homem».</p><p>E assim que a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclama logo a abrir o seu</p><p>preâmbulo que «a dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus</p><p>direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no</p><p>mundo»; o art. 1.° da Carta dos Direitos Fundamentas da. União Europeia dispõe que</p><p>«A dignidade do ser humano é inviolável. Deve ser respeitada e protegida», e o art. 1.°</p><p>da Constituição da República Portuguesa proclama como seu princípio fundamental</p><p>que «Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na</p><p>vontade popular».</p><p>47 No seu acórdão Países Baixos c. Conselho e Parlamento Europeu de 9 de outubro de</p><p>2001, Proc. C-377/98, o Tribunal de Justiça afirma que lhe compete, «no controlo da</p><p>conformidade dos atos das instituições com os princípios gerais do direito comunitário, de</p><p>velar pelo respeito do direito fundamental à dignidade humana e à integridade da pessoa».</p><p>48 ROMANO (2015), p. 72.</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal 949</p><p>Nenhuma interpretação será jurídica se não for humanar razoável. E o</p><p>"não é lógica, mas vida. Daí haver no universo jurídico lugar para</p><p>lógica do razoável, uma lógica humana, em oposição à lógica formal</p><p>'coiTceitos puros. O que interessa é o caso em espécie no qual os atores</p><p>^o pessoas vivas e concretas, não abstrações49. O princípio da dlgnidade</p><p>Ïl^nadeve ser considerado como parte ativa e concreta de um percurso</p><p>dirigido à elaboração de regras de conduta concreüzadoras</p><p>"tenham em conta as particularidades da situação de facto e da pessoa</p><p>humana, não como parte de uma multidão, mas na sua unidade e singulari-</p><p>dade extraordinária50.</p><p>III. A dignidade humana, enquanto valor da pessoa, reclama a expansão</p><p>das normas jurídicas necessárias à sua proteção em cada circunstância. Como</p><p>referimos já, os direitos fundamentais são a expressão jurídica da dignidade</p><p>humana, fonte e razão desses direitos (e deveres) e fonte de atribuição de</p><p>novos direitos e deveres para a sua reaUzação conforme as exigências e condi-</p><p>coes de cada tempo e a circunstância de cada um. O princípio da dlgnidade</p><p>há de inspirar novas incriminações para a sua tutela e a revelação de causas</p><p>de justificação e de desculpa (arts. 31.°, 34.°, 35.° e 36.° do Código Penal).</p><p>2.4. Excurso. Fraca proteção da dignidade humana no plano</p><p>da vida económica e social</p><p>I. Referimos anteriormente como exemplos de indignidade humana as</p><p>situações económicas e sociais das pessoas, mas, não obstante o principio</p><p>da indivisibilidade dos direitos humanos, certo é, porém, que os direitos</p><p>económicos e sociais da pessoa não têm em parte alguma o mesmo grau de</p><p>proteçâo dos direitos civis e políticos. Embora a incidência com o direito</p><p>penal'seja mais fraca que a que respeita aos direitos civis e poUdcos, tanto</p><p>que nestes a proteçâo do Estado é, em regra, muito menos oneros^para o</p><p>orçamento, a satisfação dos direitos económicos e sociais em ordem à tutela</p><p>da'dignidade humana nesse plano há de implicar alterações legislativas na</p><p>busca de meios para que o Estado possa satisfaze-los minimamente51752.</p><p>49 POLETTI (1996), p. 294.</p><p>50 SCAUSI (2018), pp. 60 ss.</p><p>51 MIRANDA (2017), pp. 69 ss.; CORTÊS (2017), pp. 69 ss.</p><p>52 ANDRADE (2004), pp. 3 ss.</p><p>950 | Germano Marques da Silva</p><p>Os meios para tutelar a dignidade humana na sua vertente económico-</p><p>-social são muito variados e dependentes das ideologias políticas vigentes e</p><p>respetivas políticas públicas, mas também passarão inevitavelmente pela pro-</p><p>mulgação de medidas penais contra a economia paralela, regimes fiscais mais</p><p>distribuüvos da riqueza53, regulamentação mais justa das relações de trabalho,</p><p>por uma parte, e a abolição de sanções pecuniárias ou imposição de condi-</p><p>coes de cumprimento razoavelmente impossível54, consagração de regimes</p><p>punitivos mais benéficos para os agentes de crimes de natureza patrimonial</p><p>que visem a satisfação das necessidades económicas básicas e limitações a</p><p>outros direitos e deveres55, por outra parte.</p><p>E também certo que a satisfação destes direitos não depende somente da</p><p>prosperidade económica do Estado, mas sobretudo de uma orientação polí-</p><p>tica dirigida à proteçâo e promoção da dignidade humana na sua dimensão</p><p>económica e social56, o que, aÜás, sucede também no que respeita à proteçâo</p><p>dos demais direitos que tutelam a dignidade humana.</p><p>II. Vem a. propósito um brevíssimo excurso sobre o populismo que cons-</p><p>titui um fenómeno político</p><p>característico da pós-modernidade provocado</p><p>essencialmente pêlos efeitos económicos decorrentes da globaüzação e a</p><p>explosão das contradições da democracia representativa moderna57. Mais do</p><p>que de ideologia populista parece mais carreto falar de insurgências populistas</p><p>53 Não resistimos a referir o ensinamento do português Luís de Beja Perestrelo, frade agos-</p><p>tinho que ensinava Casuística em Bolona no século xvn, sobre o dever moral de pagar</p><p>impostos. Ensinava que a fraude fiscal era um mal necessário e tolerado, tanto mas que «in</p><p>multís gabellis mn remanente causae, propter quas sunt impositae» (em muitos impostos não se</p><p>descobrem as causas por que são criados). Onera-se com impostos a compra de produtos</p><p>de primeira necessidade «et propettera in his fraudantes non peccant» (e por consequência, os</p><p>que evadem o imposto não pecam.) - dpuáVinvenzo Lavenia (2006), p. 62. Lição atual,</p><p>cora as necessárias adaptações!</p><p>54 È disso exemplo a condição de pagamento dos impostos em dívida como condição para a.</p><p>suspensão da execução da pena de prisão no direito penal tributário (art. 14.° do RGIT).</p><p>Cf. Ac. STJ de Fbaçâo de Jurisprudência n.° 8/2012, de 24 de outubro.</p><p>55 Cf. Ac. STJ, de 2.02.2016, Relator Fonseca Ramos, Proc. 3562/14T8GMR.G1.S1: «[...]</p><p>ambos os recorrentes são devedores/insolventes e auferem pensão de velhice - a cada um</p><p>deles deve ser atribuído montante igual ao salário mínimo nacional - porque só assim se</p><p>lhes assegura uma vivência compatível com a. dignidade humana, tendo em conta aquüo</p><p>que deve ser o valor compatível com "o sustento minimamente digno"».</p><p>56 ANDRIANTSIMBAZOVINA (2004), pp. 140-141.</p><p>57 PRETEROSI (2022), pp. 182 ss.</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal. | 951</p><p>mto este fenómeno se caracteriza essencialmente pela eclosão de</p><p>movimentos populares ou que como tais se arrogam, invocando a legitimi-</p><p>dade soberana do povo para contestarem as políticas públicas promovidas</p><p>estabelecido. É neste contexto que releva o descontentamento</p><p>pela insuficiência da satisfação dos direitos económicos e sociais e os</p><p>movimentos em ordem à sua mais adequada tutela direta e indireta58, em que</p><p>se inclui a reivindicação de medidas também de natureza penal, mormente</p><p>contra a criminalidade económica e financeira, corrupção pública e privada</p><p>e proteçâo dos consumidores, como referido já.</p><p>«Não se nasce para ser pobre»59 é o slogan, porventura também populista,</p><p>mas emergente dos direitos humanos, proclamado nos artigos 23.° a 25.° da</p><p>Declaração Universal dos Direitos Humanos, a reclamar a sua tutela pelo</p><p>Estado Social de Direito como condição da dignidade social de todas as</p><p>pessoas. Questão é que frequentemente os movimentos populares de protesto,</p><p>legítima manifestação do «direito à indignação»60, são anárquicos e ambí-</p><p>guos nas reivindicações e muitas vezes instrumentalizados na luta política,</p><p>abusando e subvertendo o direito de manifestação (art. 19.° da DUDH e</p><p>art. 45.° da CRP).</p><p>3. O Direito penal e a dignidade humana</p><p>3.1. Democracia, direito penal e dignidade humana</p><p>I. O que tem afinal a dignidade humana que ver com o direito penal?</p><p>Tem tudo que ver61; tem que ver com as incriminações que tutelam a digni-</p><p>dade nas suas diversas manifestações individuais e sociais (v. g., crimes contra</p><p>a vida, a integridade física, a liberdade e a honra, a privacidade, a família,</p><p>a habitação, a educação, o trabalho, a integridade dos servidores públicos e</p><p>agentes económicos privados), com as causas de justificação e de exclusão</p><p>da culpa {v. g., hierarquia dos interesses tutelados), com as penas aplicáveis e</p><p>aplicadas aos condenados Çv.g., repúdio da pena de morte, das penas de prisão</p><p>de longa duração, da preferência por penas não privativas da liberdade), com</p><p>os seus fins e modos de execução (rejeição da mera retribuição, exigência de</p><p>58 COSTA (2010); LOUREIRO (2017).</p><p>59 CATERINI (2019).</p><p>60 Expressão cunhada por Mário Soares, em 7.03.1995, para exprimir a reaçao sentida e</p><p>legítima contra uma ofensa insuportável.</p><p>61 PAPA FRANCISCO (2014); SILVA (2020), pp. 175 ss. •</p><p>952 Germano Marques da Silva</p><p>culpa, execução em ordem, à reinserção social do condenado, não aplicação</p><p>de penas pecuniárias de cumprimento impossível nem de penas degradantes</p><p>ou humühantes) e, no plano processual, com o tratamento devido aos suspei-</p><p>tos e arguidos (ampla defesa, presunção de inocência, proibições de métodos</p><p>de obtenção de prova ofensivos da integridade física ou moral e abusiva</p><p>intromissão na vida privada)62.</p><p>As relações da dignidade humana e do direito penal não são isentas de</p><p>dificuldades, revelando situações ora de conflito, ora de equilíbrio, ora de</p><p>simbiose. O conflito ocorre especialmente nos regimes autoritários, que pro-</p><p>clamam a superioridade absoluta do Estado sobre as pessoas63, admitindo o</p><p>sacrifício da dignidade para satisfação do interesse do Estado, e é bem menor</p><p>nos democráticos, que põem o Estado ao serviço das pessoas (o Estado existe</p><p>para as pessoas e não as pessoas para o Estado).</p><p>As dificuldades não resultam, porém, apenas da diversidade dos regimes</p><p>políticos, mas também das circunstâncias históricas que, mesmo nos regimes</p><p>democráticos, ora tendem a fazer recuar a proteção da dignidade face à pres-</p><p>são da criminalidade e do popuUsmo criminal, ora a limitar o direito penal</p><p>em tempos de estabilidade e sossego social, ora a harmonizar-se à medida</p><p>que se vai aprofundando e consolidando na comunidade a consciência da</p><p>dignidade da pessoa humana, do ideal democrático e dos fins prosseguidos</p><p>pelo direito penal.</p><p>E assim porque de um lado temos um direito objetivo (jus poenale) pelo</p><p>qual se exprime o poder coercitivo do Estado em ordem à realização dos</p><p>seus fins ou tarefas, nomeadamente da segurança e da paz, cuja violação</p><p>acarreta sanções que afetam a liberdade, quando não a própria vida, a honra</p><p>e o património, e do outro os direitos individuais ordenados à tutela da</p><p>dignidade, da liberdade e desenvolvimento das pessoa. Dito de outro modo:</p><p>«a lógica do Estado, a dinâmica da ordem, de um lado; a lógica do indivíduo</p><p>e a dinâmica da liberdade, do outro»64.</p><p>A anáUse das relações entre a dignidade humana e o direito penal mostra-</p><p>-se também muito relevante quando consideramos a função limitadora da</p><p>dignidade relativamente ao direito e processo penal, porquanto ambos con-</p><p>correm, para preservar a liberdade contra a tirania e defender a igualdade</p><p>contra toda a assimetria, seja da justiça ou da lei. Tanto mais importante é o</p><p>62 COMMAMT (2004), pp 243 ss.</p><p>63 AKENDT (2018) e (2021).</p><p>64 GOUTES (2000), pp. 133 ss.</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal 953</p><p>seu estudo quanto se verificam no espaço europeu, mesmo na União, fluxos</p><p>autoritários que tendem a limitar princípios básicos dos direitos humanos</p><p>se julgavam aqui de há muito consolidados.</p><p>Outra perspetiva interessante, embora mais específica e complexa, respeita</p><p>ao conflito de valores que ocorre tanto no seio do direito penal quanto no</p><p>do direito dos direitos humanos e entre ambos, bem. como nas sociedades</p><p>multiculturais, a reclamar a sua superação ou equilíbrio com. apelo à digni-</p><p>dade da pessoa humana.</p><p>II. A ideia de democracia assenta em três püares fundamentais: a regra da</p><p>maioria, a tutela da dignidade humana, nomeadamente através do respeito</p><p>dos direitos humanos, e o culto da liberdade65. Mesmo a sociedade estru-</p><p>tarada democraticamente não pode renunciar, pelo menos no estádio atual</p><p>do seu desenvolvimento, à repressão penal para defesa dos valores essenciais</p><p>à vida em comunidade, mas a vontade da maioria do povo, que legitima e</p><p>corporiza o poder punitivo do Estado, não é um poder üimitado, é limitado</p><p>pelo direito dos direitos humanos, síntese atual da positivaçâo normativa da</p><p>tutela da dignidade humana.</p><p>Se anteriormente ao Iluminism.o o direito penal era essencialmente puni-</p><p>tivo e arbitrário, ao direito penal moderno cabe essencialmente a função de</p><p>garantia dos indivíduos contra os abusos, estabelecendo em bases de legiü-</p><p>midade democrática os pressupostos materiais e formais</p><p>da intervenção do</p><p>Estado. Por isso que o decisivo no direito penal objetivo não seja apenas a</p><p>cominaçâo de sanções para as condutas que descreve (os crimes), mas tam-</p><p>bem a. disciplina do jus puniendi.</p><p>Já o Iluminismo reclamava como ümite ao poder punitivo, para além. da</p><p>necessidade e gravidade da ofensa e da proporcionalidade da sanção, o direito</p><p>natural, então concebido como um. ordenamento superior, transcendente,</p><p>racional, que nenhum poder político podia sacrificar66. O conceito foi evo-</p><p>luindo, positivando-se como ordenamento jurídico supranacional, e constitui</p><p>agora o «direito dos direitos humanos», cujo texto fundamental é a Declara-</p><p>cão Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembleia Geral das</p><p>Nações Unidas, em. 10 de dezembro de 1948, que logo no seu preâmbulo</p><p>declara «que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros</p><p>da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento</p><p>65 GOMES (1980), pp. 10 ss.</p><p>66 BECCARJA (2014), pp. 64 ss.</p><p>954 | Germano Marques da Silva Dignidade Humana e Direito Penal | 955</p><p>da überdade, da justiça e da paz no mundo», completado e desenvolvido por</p><p>numerosos textos legais internacionais67 e internos.</p><p>III. Os direitos humanos são propostos e defendidos como valores comuns</p><p>a todos os humanos de todo o tempo e cultura e representam, a síntese de um</p><p>vasto espetro de tradições legais, culturais, religiosas e políticas com o obje-</p><p>tivo de definir uma base comum que toda a humanidade possa considerar</p><p>com o fim de conservar e promover alguns valores básicos do ser humano,</p><p>valores que constituem, o cerne essencial da dignidade humana.</p><p>A pretensão do direito dos direitos humanos constituir um. corpo norma-</p><p>tivo universal que proclame e proteja a dignidade humana é, porém, difícil de</p><p>realizar em virtude da diversidade de culturas e sistemas jurídicos particulares.</p><p>E disso exemplo o direito dos Estados islâmicos, subordinado à religião, com</p><p>a pretensão de se impor a todas as pessoas e não apenas aos crentes e cidadãos</p><p>desses Estados, o que contrasta com. o direito dos Estados ocidentais, mas é</p><p>disso exemplo também o direito de alguns regimes políticos de Estados com</p><p>tradições culturais de cariz autoritário e o povo despolitizado ou pouco</p><p>vocacionado para a política68.</p><p>O princípio do Estado de Direito democrático visa, fundamentalmente,</p><p>dar resposta ao problema do conteúdo, extensão da atividade e modo de /</p><p>proceder do Estado, conformando as estruturas do poder e a ação política</p><p>segundo a medida do Direito, ou seja, no que ao direito penal importa, ape-</p><p>nas sancionando atos ou comportamentos contrários ou desviantes da ordem.</p><p>jurídica, designadamente por lesões graves dos bens constitucionalmente pro-</p><p>tegidos. O poder punitivo do Estado encontra-se limitado por um. conjunto</p><p>de valores e princípios de natureza consútucional, mas também de natureza</p><p>supraconstitucional, como é o princípio da dignidade humana, consagrado,</p><p>veiculado e tutelado pelo direito dos direitos humanos. Na prática demo-</p><p>crática, a defesa daqueles valores, enquanto essenciais para a sobrevivência da</p><p>democracia, não está sujeita à regra da maioria, que constitui também um dos</p><p>pilares essenciais do ideal e regime democráticos, limitando-a.</p><p>67 A nível universal há que destacar o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos,</p><p>de 16.12.1966, e a nível regional europeu a Convenção para a Proteçâo dos Direitos</p><p>do Homem e das Liberdades Fundamentais (geralmente designada como Convenção</p><p>Europeia dos Direitos Humanos - CEDH), adotada em Roma em 4.11.1956. Outros</p><p>exemplos: Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (CADHP), 1981, e a Con-</p><p>vençâo Americana sobre Direitos Humanos,1969.</p><p>68 LAVIS (2022), pp. 30 ss.</p><p>3.2. Confronto, equilíbrio e simbiose entre a dignidade huma-</p><p>na, os direitos humanos e o direito penal</p><p>3.2.1. As fontes normativas e a sua nova leitura e interpretação</p><p>atualistas</p><p>Como referimos anteriormente, as cartas de direitos humanos constituem</p><p>a expressão jurídico-posiúva da dignidade humana, são a expressão temporal</p><p>da dignidade da pessoa humana e visam a sua plena realização e proteçâo</p><p>O texto-base sobre direitos humanos é a Declaração Universal dos</p><p>Direitos Humanos, mas este texto tem sido desenvolvido por muitos outros</p><p>textos normativos a nível universal, no âmbito das Nações Unidas, e regio-</p><p>nais, explicitados e aprofundados pela jurisprudência dos tribunais internos e</p><p>com jurisdição sobre violações dos direitos humanos.</p><p>Facilmente se entende que, como todos os grandes textos e princípios</p><p>oferecem novas leituras e interpretações conforme os tempos que lhes suce-</p><p>dem, também os direitos humanos não cristalizaram aquando da sua procla-</p><p>maçâo, donde a grande importância da jurisprudência na sua interpretação e</p><p>aplicação em resposta às circunstâncias de cada tempo e espaço69. Na Europa</p><p>é especialmente relevante a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos</p><p>Humanos, que tem uma grande influência sobre as legislações e jurisprudên-</p><p>cia internas dos Estados Partes da Convenção70. São reveladores, entre muitos</p><p>outros, os acórdãos do Tribunal sobre violências físicas e psíquicas sobre pes-</p><p>soas privadas da liberdade71, sobre insuficiência e inadequação dos cuidados</p><p>médicos aos presos, independentemente da causa da privação da liberdade72,</p><p>sobre as condições de privação da liberdade das pessoas idosas73, sobre as</p><p>condições das prisões74, etc. Também em Portugal é muitíssimo relevante a</p><p>jurisprudência do Tribunal Constitucional75.</p><p>A concretização normativa da proteção da dignidade humana vai-se</p><p>atualizando e expandido mediante a interpretação atualista dos textos, mas</p><p>69 MASSÉ (2009), pp. 43 ss.</p><p>70 Sobre a CEDH, cf. ALBUQUERQUE (2019-2020).</p><p>71 Ac. Hulki Gunes c. Turquia, de 19 de junho de 2003.</p><p>72 Ac. McGlinchev c. Reino Unido, de 29 de abril de 2003.</p><p>73 Ac. Henafc. França, de 27 de novembro de 2003; Ac. Farbtuhs c. Letónia, de 2 de dezem-</p><p>bro de 2004.</p><p>74 Ac. Petrescu c. Portugal, de 3.12.2019.</p><p>75 Cf. TRIBUNAL CONSTITUCIONAL PORTUGUÊS (2007).</p><p>956 | Germano Marques da Silva</p><p>também através da consagração normativa de novos direitos (direitos das</p><p>crianças76, direitos das mulheres77, direitos dos refugiados78) e de deveres,</p><p>como os relaúvos aos «direitos dos animais»79, tendo em conta a sua impor-</p><p>tância para a qualidade de vida das pessoas e o seu valor para a sociedade.</p><p>3.2.2. O conflito dialético entre o direito penal e os direitos huma-</p><p>nos</p><p>I. O direito penal construiu-se sobre uma dialéüca, opondo, de um lado,</p><p>as exigências da luta contra a criminalidade, e de outro, a necessidade de</p><p>proteger o indivíduo contra os riscos de perseguições abusivas e de arbítrio</p><p>do Estado. Esta dialética traduziu-se num duplo movimento: (i) os direitos</p><p>humanos contidos pelo direito penal e o (U) o direito penal limitado pêlos</p><p>direitos humanos.</p><p>Na conceçâo clássica do direito penal, a preocupação primeira era prote-</p><p>ger os cidadãos contra o arbítrio do sistema repressivo, tanto no plano subs-</p><p>tantivo quanto no processual, tendo adotado grandes princípios, considerados</p><p>pelo Iluminismo como princípios de direito natural de base racional e que</p><p>ainda agora integram os valores universais do direito dos direitos humanos:</p><p>lesão ou perigo de lesão de interesses individuais mas comunitariamente</p><p>relevantes, legalidade dos crimes e das penas, não retroatividade da lei penal</p><p>desfavorável, não descriminaçâo quanto aos agentes e quanto às vítimas, per-</p><p>sonalidade das penas, etc. Se no plano teórico, dos princípios, estes direitos</p><p>humanos fazem hoje parte integrante do direito penal dos Estados de Direito</p><p>democrático, existem alguns direitos especialmente ameaçados: o direito à</p><p>dignidade, o direito à liberdade e segurança, o respeito da vida privada e</p><p>o processo equitativo, não só na sua formulação normativa, mas também e</p><p>sobretudo na interpretação e aplicação que deles é feita pelas autoridades</p><p>internas de cada Estado.</p><p>76 Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada pela</p><p>Assembleia Geral da ONU em 20</p><p>de novembro de 1989. Entrou em vigor em 2 de setembro de 1990.</p><p>Plataforma de Açâo de Pequim (PAP), adotada na IV Conferência Mundial das Nações</p><p>Unidas sobre as Mulheres, realizada em Pequim, em Setembro de 1995.</p><p>A Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados, também conhecida</p><p>como Convenção de Genebra de 1951.</p><p>79 Convenção Europeia para a Proteção doa Animais de Companhia, de 13 de novembro de</p><p>1987.</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal | 957</p><p>:o a dignidade da pessoa humana constituiu o essencial do Estado</p><p>de Direito social e liberal, e a proclamação dos direitos humanos representou</p><p>essencialmente a defesa dos cidadãos contra os abusos do poder totalitário</p><p>cimentado na primeira metade do século passado, agora, aparentemente</p><p>com o mesmo fundamento, a defesa dos direitos humanos, está a enveredar-</p><p>-se por um liberalismo autoritário populista, e com. o mesmo pretexto da</p><p>;âo das pessoas contra a insegurança coletiva emergente do terrorismo</p><p>e da «sociedade do risco» vâo-se pouco a pouco cerceando os direitos con-</p><p>mistados no meio século em que se aprofundou política e juridicamente o</p><p>conceito de dignidade e direitos humanos.</p><p>II. O direito à dignidade (Preâmbulo e art. 1.° da DUDH e art. 3.°</p><p>da CEDH), síntese de todos os direitos humanos, implica, entre o mais,</p><p>a pessoa não sofra nem tortura, nem pena ou tratamento desumano</p><p>ou degradante em qualquer fase do processo. Como exemplo da violação,</p><p>â jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos tem-se ocu-</p><p>pado especialmente do tratamento prisional dado aos reclusos80, do controlo</p><p>dos interrogatórios policiais e da caracterização de certas penas.</p><p>O direito à liberdade e à segurança (art. 3.° da DUDH e art. 5.° da</p><p>CEDH) e à liberdade de expressão do pensamento (art. 19.° da DUDH e</p><p>art. 10.° da CEDH), violados por meio da privação arbitrária da liberdade</p><p>e condicionamento e repressão das manifestações da liberdade de expressão.</p><p>O direito ao respeito da vida privada (art. 12.° da DUDH e art. 8.° da</p><p>CEDH), violado pela interferência nas relações íntimas socialmente irrele-</p><p>vantes, pelo condicionamento de atos de consciência, pela interferência nas</p><p>comunicações privadas, a título de exemplo.</p><p>A exigência de processo equitativo: (art. 11.° da DUDH e art. 6.° da</p><p>CEDH) presunção de inocência, direito de ser informado sobre a acusação,</p><p>direito a um tribunal independe e imparcial, respeito do contraditório e de</p><p>igualdade de armas, publicidade das audiências, direitos de defesa, proibições</p><p>de prova, duração razoável do processo e da privação da liberdade, direito a</p><p>recurso, etc.</p><p>O confronto é muito frequente, e mesmo quando estes direitos subs-</p><p>tantivos e processuais estão também consagrados nos textos constitucionais</p><p>Sobre a procura de equilíbrio entre segurança e direitos humanos, no âmbito penitenciá-</p><p>rio, cf. MELONI (2021).</p><p>958 | Germano Marques da Silva</p><p>internos a prática das autoridades é-lhes frequentemente desconforme ou</p><p>minimalista, em regra por falta de cultura democrática dos seus aplicadores81.</p><p>3.2.3. Contenção do direito dos direitos humanos pelo direito penal</p><p>O direito dos direitos humanos é, porém, também limitado pelo direito</p><p>penal em razão de circunstâncias várias que vão ocorrendo com o passar dos</p><p>tempos. Acontece assim, com a intensificação da criminaÜdade desde os finais</p><p>do século passado, fruto em grande parte da globalização e incremento da</p><p>atividade económico-financeira, com. o terrorismo que assola o mundo e sus-</p><p>citou o movimento de «guerra ao terrorismo», proclamado por Bush, e que</p><p>se converteu em «guerra ao crime» e «tolerância zero»; pelo «popuUsmo</p><p>penal» a reclamar a vindicta para satisfação da vítima e a protestar contra</p><p>o «excesso» de direitos de defesa dos suspeitos82, julgamentos sumários e</p><p>limitação dos recursos, pêlos crescentes movimentos migratórios, provocados</p><p>pela guerra e pela miséria, a ditarem normas e procedimentos que conduzem</p><p>à discriminação.</p><p>As circunstâncias referidas ressuscitaram metodologias de investigação</p><p>criminal do tipo inquisitório, que se julgavam ultrapassadas pelo triunfo dos</p><p>direitos humanos; o enfraquecimento do princípio da presunção de inocência,</p><p>que muitos consideram, hoje a maior mentira na prática do processo penal;</p><p>a recuperação da delação premiada, pública ou mediante a insidiosa impu-</p><p>nidade do confidente delator/cokborador das polícias; a pena como festa</p><p>pública; a cultura do suspeito e os processos sem factos; a perene construção</p><p>dos inimigos com a retórica da elite corrupta a subverter o direito penal</p><p>do facto pelo direito penal de autor na luta política e, em. geral, a pretensão</p><p>de tudo governar através dos instrumentos e ameaças do processo penal83.</p><p>O direito da liberdade, que caracterizava o direito penal moderno, está a</p><p>resvalar para o direito da repressão na pós-modernidade.</p><p>81 Portugal foi já por várias vezes condenado pelo TEDH quer pela violação do direito à</p><p>dignidade, quer do direito à liberdade e segurança e liberdade de expressão, quer pela</p><p>violação do direito ao respeito da vida privada, quer pela violação do processo equitativo.</p><p>Cf. o site https://gddc.ministeriopublico.pt/faq/acordaos-relativos-portugal</p><p>82 PAPA FRANCISCO (2014).ANASTASIA (2016), pp. 61 ss.</p><p>83 AMATI (2020)</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal | 959</p><p>3.2.4. A simbiose entre o direito dos direitos humanos e o direito</p><p>penal; o direito penal ao serviço da dignidade humana</p><p>I. Como referimos anteriormente, à ideia de democracia inere a de res-</p><p>pela dignidade humana, tutelada pêlos direitos humanos, que consti-</p><p>tuem um limite ao poder da maioria. Não pode haver Estado de Direito</p><p>democrático sem respeito pêlos direitos humanos.</p><p>Ocorre em todos os Estados de Direito democrático a procura de inte-</p><p>rraçâo dos direitos humanos nos respetivos sistemas jurídicos, desde logo</p><p>nas suas constituições, como se verifica na generalidade das constituições</p><p>democráticas do pós-guerra, nomeadamente a portuguesa. A medida que</p><p>o povo assume o ideal democrático, como um importante valor cultural e</p><p>político, também os direitos humanos se vão integrando no direito interno,</p><p>que os assume não como limite ao poder da maioria, mas como tutela da</p><p>dignidade humana, garantindo a realização da justiça, que constitui o fim</p><p>do Direito.</p><p>Ao cotejarmos os artigos da Constituição da República Portuguesa com.</p><p>o texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos fácil é verificar que</p><p>não há divergências de conteúdo, acrescendo que o nosso texto constitu-</p><p>cional dispõe expressamente no seu artigo 16. , n. 2, que «Os preceitos</p><p>constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser inter-</p><p>prelados e integrados de harmonia com. a Declaração Universal dos Direitos</p><p>do Homem».</p><p>II. Acresce que o direito penal exerce também uma importante função</p><p>em apoio dos direitos humanos. No plano interno pela atenção dada às pes-</p><p>soas mais frágeis no plano substantivo (crianças, mulheres, idosos, doentes,</p><p>pessoas vítimas de descriminaçâo, etc.) e no plano processual (v. g., estatuto</p><p>das vítimas, proibições de métodos de obtenção de prova ofensivos da dig-</p><p>nidade). No internacional pelo reforço do direito penal internacional posto</p><p>ao serviço das vítimas de violações graves (crimes contra a humanidade,</p><p>genocídios e violações graves do direito internacional humanitário) e com</p><p>a criação de tribunais internacionais para o julgamento desses crimes (Tri-</p><p>bunais penais internacionais da ex-Jugoslávia, do Ruanda e Tribunal Pena</p><p>Internacional). De destacar também o reconhecimento da competência</p><p>960 | Germano Marques da Silva</p><p>universal dos tribunais dos Estados para o processamento de certos crimes</p><p>internacionais, nomeadamente dos crimes contra a humanidade84785 .</p><p>Não obstante o direito penal, interno e internacional, é frequentemente</p><p>insuficiente para a punição dos poderosos, sobretudo no plano internacional,</p><p>que são exemplos paradigmáticos Guantánamo e os crimes de guerra</p><p>perpetrados pela Rússia na Ucrânia.</p><p>3.2.5.</p><p>Conflito de valores no direito dos direitos humanos e no</p><p>direito penal</p><p>[. O direito dos direitos humanos, embora cada direito esteja vocacionado</p><p>para a tutela da dignidade humana, abrange uma multiplicidade heterogénea</p><p>valores diversos e singulares, umas vezes complementares, outras antagó-</p><p>nicos. E possível, por isso, encontrar, lado a lado, um valor e o seu contrário</p><p>que pretendem excluir-se uns ao outros. O reconhecimento pleno de um</p><p>traduz necessariamente a negação do outro. É o caso do direito à vida do</p><p>nascituro e do direito à existência e saúde da mãe, quando não é possível</p><p>salvar um e outra86.</p><p>O conflito suscita-se também com frequência entre as exigências de</p><p>segurança e os direitos das pessoas. O debate abriu-se sobre a possibilidade</p><p>uso da tortura no caso em que seja o único meio para desvendar uma</p><p>grave ameaça terrorista. Questiona-se se devem salvar-se os princípios ou as</p><p>humanas inocentes e as respostas não são unânimes87, mas predomina a</p><p>opinião de poder usar-se da tortura, ainda que moderada, ou seja, na medida</p><p>estritamente necessário. Assumindo a paz carácter de valor predominante,</p><p>a sua preservação justificará a atribuição ao Estado de poderes extraordinários</p><p>e excecionais quer sobre os súbditos quer sobre outros Estados88.</p><p>84 GOUTTES (2000), p. 139.</p><p>'lo da competência universal dos tribunais nacionais foi a detenção do general</p><p>Augusto Pinochet pelo Reino Unido em 1998 e os mandados de detenção internacional</p><p>emitidos em 1999 pelo juiz espanhol Baltasar Garzón contra vários militares argentinos</p><p>suspeitos de crimes de genocídio, terrorismo e torturas, cometidos entre 1976 e 1983 na</p><p>Argentina, ao tempo da ditadura das juntas militares.</p><p>86 MERLI (2008), p. 217.</p><p>87 VALENTE (2017), pp. 221 ss.</p><p>88 CUNHA (2014),pp.^52 ss.</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal | 961</p><p>Um outro exemplo muito significativo de conflitos respeita ao chamado</p><p>direito penal do inimigo89. Aqui preconiza-se a violação ou restrição dos</p><p>direitos humanos dos delinquentes perigosos (inimigos) em. nome da salva-</p><p>dos direitos dos cidadãos. É simplesmente a negação do Direito90. Os</p><p>exemplos podem multiplicar-se91.</p><p>Nestas situações de conflito e para a sua resolução, não sendo possível</p><p>hierarquizar os valores em conflito, não há soluções universalmente justas,</p><p>sendo a solução sobretudo de natureza moral92, embora reclamando soluções</p><p>jurídicas em cada caso concreto, resolvidas, em regra, pela via do estado de</p><p>necessidade desculpante.</p><p>4. Dignidade humana, direitos humanos, pluralismo democrá-</p><p>tico, multiculturalismo e direito penal</p><p>Se é verdade que todas as sociedades humanas têm. muito em comum, è</p><p>também certo que nem todas as culturas e formas de vida, morais e religiosas</p><p>ou não, são compatíveis com o carácter laico da conceção ocidental dos</p><p>direitos. Mas os direitos humanos, enquanto meios de tutela da dignidade</p><p>humana, têm vocação e pretensão de validade para todos os povos e culturas</p><p>por constituírem valores básicos do ser humano, que devem ser reconhecidos</p><p>a toda a pessoa humana. Não obstante a pretensão de validade universal, por-</p><p>que «todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em. direi-</p><p>tos» (art 1.° da DUDH), é desde logo a Declaração Universal dos Direitos</p><p>Humanos que no seu proémio prevê e preconiza «que todos os indivíduos e</p><p>todos os órgãos da sociedade se esforcem, pelo ensino e pela educação, por</p><p>desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medi-</p><p>das progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento</p><p>e a sua aplicação universais e efeúvos». Respeitado o conteúdo essencial</p><p>dos direitos, liberdades e garantias, tutelada que é desse modo a dignidade</p><p>humana de todos os membros da família humana, é admissível que o modo</p><p>do seu reconhecimento e aplicação seja ajustado às diversas culturas e formas</p><p>de vida de cada povo.</p><p>89 JAKOBS (2006).</p><p>90 FERRAJOLI (2016), pp. 55 ss.</p><p>91 Caso de eventual conflito muito atual é também o que se verifica entre o segredo da</p><p>confissão e o dever de denúncia dos crimes sexuais em que as vítimas sejam menores. Cf.</p><p>ATLANI-DUAULT, /GUÉRIN (2022), pp. 17 ss.</p><p>92 MERLI (2008), p. 227.</p><p>962 | Germano Marques da Silva</p><p>Em democracia, a assunção individual dos valores não é do interesse</p><p>coletivo, do Estado, não respeita à comunidade, pertence exclusivamente ao</p><p>espaço de liberdade de cada pessoa. Por isso, mesmo os Estados democráticos,</p><p>confessionais ou com religião de Estado, reconhecem, por força da própria</p><p>Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. 18.° da DUDH), a legi-</p><p>timidade de qualquer visão do mundo e da vida, de cada moral e de cada</p><p>verdade.</p><p>Um moderno sistema de direito penal não tutela princípios políticos nem</p><p>conceções ideais como valores de consciência, exigindo, em nome de uma</p><p>pretensa conceçâo moralmente mais alta de convivência, uma adesão incon-</p><p>dicional, sancionando penalmente a desobediência. Pelo contrário, concede</p><p>a cada um a íntima reserva nos confrontos dos próprios valores fundantes da</p><p>democracia, ünütando-se a exigir a observância das leis93.</p><p>A ofensa aos sentimentos éticos ou às ideologias, às convicções religiosas,</p><p>mesmo se dominantes na coletividade, não constitui dano social, sendo por</p><p>isso irrelevante para o direito penal, mesmo quando provoque ou possa pro-</p><p>vocar perturbação na consciência coleúva ou de grupo.</p><p>A liberdade de pensamento, consciência e religião bem como a liberdade</p><p>de opinião e de expressão, consagrados nos artigos 18.° e 19.° da Declaração</p><p>Universal dos Direitos Humanos e nos artigos 9.° e 10.° da Convenção Euro-</p><p>peia dos Direitos Humanos, bem como o princípio da igualdade, constituem</p><p>os alicerces do pluralismo democrático e do mulüculturaUsmo social.</p><p>Há, porém, sempre um ünúte. Não pode reclamar-se o exercício de um</p><p>direito com violação dos direitos dos outros nem com a violação das leis</p><p>estabelecidas que tutelam a dignidade da pessoa humana. A violação pode ser</p><p>sancionada criminalmente porque o direito penal é instrumento adequado,</p><p>frequentemente o único, para tutela da dignidade de cada um. Por isso que a</p><p>doutrina consigne que o direito penal tutela o mínimo ético necessário para</p><p>alcançar a paz social, entendendo-se por mínimo ético a ética democrática94.</p><p>5. O desafio dos fluxos migratórios</p><p>Questiona-se se, no plano interno de cada país, o conteúdo dos direi-</p><p>tos humanos pode ser sujeito a variações em consideração das diferenças</p><p>93 DIAS (2016).</p><p>94 MANGINI (2013), pp. l ss.</p><p>Dignidade Humana e Direito Penal | 963</p><p>culturais95, especificamente se a tutela penal deve atender às diferentes cultu-</p><p>rãs dos agentes dos comportamentos tipificados como crimes96.</p><p>Os valores e costumes importados pelo imigrante, que age movido por</p><p>razões de consciência, devem coordenar-se com os princípios essenciais de</p><p>uma sociedade democrática. Não se trata de impor à minoria os valores</p><p>redominantes na sociedade, mas antes de reconhecer que o Estado, mesmo</p><p>que mulúcultural, deve impor como vinculantes para todos as regras funda-</p><p>mentais que respeitam aos direitos fundamentais da pessoa humana, sem o</p><p>não seria possível garantir a convivência97.</p><p>Este princípio não obsta a que os valores e costumes do imigrante devam</p><p>ser ponderados para a avaliação e graduação da sua culpabilidade e de tal</p><p>modo que a falta de consciência da Üicitude pode levar, se o erro não lhe for</p><p>censurável, à sua impunidade (art. 17.° do Código Penal)98.</p><p>Componente essencial do ideal democrático é o culto da liberdade indi-</p><p>vidual, o que reclama a. tolerância com o assessório, mas intolerância absoluta</p><p>com o que é essencial, e o essencial é o respeito pela dignidade humana,</p><p>garantida pelo direito dos direitos humanos, interpretados e positivados</p><p>segundo as regras constitucionais de cada comunidade organizada. A lei tem</p><p>de ser igual para todos, não podendo disünguir-se a lei estadual e as leis</p><p>étnicas, e tolerar formas de opressão e de negação da dignidade da pessoa</p><p>humana, na realidade absolutamente intolerável997100.</p><p>O ditado</p>