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<p>SEE-SP</p><p>SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO</p><p>Professor de Ensino Fundamental e Médio -</p><p>Sociologia</p><p>EDITAL DE ABERTURA DE INSCRIÇÕES Nº 01/2023</p><p>CÓD: OP-123MA-23</p><p>• A Opção não está vinculada às organizadoras de Concurso Público. A aquisição do material não garante sua inscrição ou ingresso na</p><p>carreira pública,</p><p>• Sua apostila aborda os tópicos do Edital de forma prática e esquematizada,</p><p>• Dúvidas sobre matérias podem ser enviadas através do site: www.apostilasopção.com.br/contatos.php, com retorno do professor</p><p>no prazo de até 05 dias úteis.,</p><p>• É proibida a reprodução total ou parcial desta apostila, de acordo com o Artigo 184 do Código Penal.</p><p>Apostilas Opção, a Opção certa para a sua realização.</p><p>O concurso da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP) é um dos mais concorridos do país,</p><p>com milhares de candidatos disputando vagas para diversas especialidades. Para se destacar nesse processo</p><p>seletivo, é fundamental se preparar com antecedência e com materiais adequados.</p><p>Pensando nisso, a Editora Opção preparou um material especialmente voltado para a Especialidades do SEE-</p><p>SP, com o objetivo de introduzir o aluno no que é cobrado pelo edital. Essa apostila é um guia introdutório que</p><p>apresenta os principais conteúdos, de forma clara e objetiva, que serão cobrados na prova.</p><p>No entanto, é importante destacar que o edital pede um conhecimento completo sobre a bibliografia</p><p>indicada, e por isso é fundamental que o estudante complemente seus estudos com a leitura das obras e</p><p>documentos oficiais recomendados.</p><p>O material organizado pela Editora Opção visa, portanto, oferecer uma base sólida para o aluno começar</p><p>seus estudos e se familiarizar com os principais temas que serão abordados no concurso SEE-SP. Além disso,</p><p>ressaltamos a importância do estudo desses conteúdos não apenas para o sucesso no processo seletivo, mas</p><p>também para uma formação sólida e aprimoramento profissional.</p><p>Desejamos aos alunos que se preparam para o concurso SEE-SP sucesso em seus estudos e que aproveitem</p><p>ao máximo o conteúdo apresentado nessa apostila, que servirá como uma importante ferramenta para alcançar</p><p>seus objetivos.</p><p>ÍNDICE</p><p>Conhecimentos</p><p>1. Da pluralidade de perspectivas epistemológicas das Ciências Humanas e Sociais, bem como de suas tecnologias e</p><p>metodologias científicas de investigação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>7</p><p>2. Do Estranhamento, da Desnaturalização e do Distanciamento enquanto posturas teórico-metodológicas da prática científica</p><p>do Cientista Social. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13</p><p>3. Das transformações culturais, sociais, históricas, científicas e tecnológicas no mundo contemporâneo e seus desdobramentos</p><p>para as relações, as atitudes, os valores e as identidades social e culturalmente construídas pelos sujeitos e coletividades . 14</p><p>4. Da cultura de um ponto de vista antropológico, suas características, limites e possibilidades para a compreensão das</p><p>diferenças entre sujeitos, grupos, povos, comunidades etc . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14</p><p>5. Dos elementos materiais, simbólicos, conhecimentos, valores, crenças e práticas envolvidos no processo de socialização</p><p>dos indivíduos, de construção identitária e na constituição da diversidade sociocultural . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22</p><p>6. Das dinâmicas de circulação de populações, valores, informações, coisas ou bens em razão de fenômenos naturais, políticos,</p><p>econômicos, socioculturais e tecnológicos no contexto de mundialização ou globalização contemporânea . . . . . . . . . . . . . . 30</p><p>7. Dos significados conceituais de espaço, território, territorialidade, paisagem e fronteira e de suas objetivações por atores e</p><p>instituições sociais em contextos distintos e específicos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31</p><p>8. Das dimensões e características culturais, econômicas, ambientais, políticas e sociais e dos conflitos que envolvem a</p><p>produção de territórios e territorialidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42</p><p>9. Do papel da indústria cultural e das culturas de massa na produção de uma sociedade do consumo e de seus impactos</p><p>econômicos e socioambientais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46</p><p>10. Do papel e da importância de distintos atores sociais na formulação e implementação de ações e políticas na produção de</p><p>um mundo sustentável. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47</p><p>11. Das abordagens sociológicas, políticas e antropológicas dos conflitos e problemáticas socioambientais contemporâneas que</p><p>envolvem diferentes modelos e práticas de produção, circulação, consumo e descarte de coisas e bens. . . . . . . . . . . . . . . . . 48</p><p>12. Das transformações no processo e na organização do trabalho, das novas formas de trabalho e suas implicações no emprego</p><p>e desemprego na atualidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50</p><p>13. Das abordagens sócio-antropológicas sobre os impactos das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais nas</p><p>relações sociais e de trabalho na contemporaneidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53</p><p>14. Dos múltiplos aspectos do trabalho em diferentes circunstâncias e contextos e seus efeitos sobre as gerações, em especial</p><p>os jovens . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55</p><p>15. Das causas, dos atores e das formas de violência (simbólica, física, psicológica, afetivas etc.) nos mais diversos âmbitos</p><p>sociais do contexto brasileiro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56</p><p>16. Das formas de preconceito, intolerância e discriminação presentes na vida cotidiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56</p><p>17. Das diferenças e das desigualdades decorrentes tanto dos processos estruturantes da estratificação socioeconômica da</p><p>sociedade brasileira quanto dos marcadores sociais da diferença, como idade, geração, gênero, classe, cor/raça, sexualidade,</p><p>entre outros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58</p><p>18. Das relações étnico-raciais na sociedade brasileira e das demandas e protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos</p><p>indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo os quilombolas) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60</p><p>19. Dos Direitos Humanos (seus fundamentos, princípios, valores e garantias), da Cidadania (direitos civis, políticos, sociais,</p><p>culturais, econômicos, ambientais etc.) e das formas de organização e participação do cidadão na efetivação desses direitos 64</p><p>20. Das distintas formas de organização dos sistemas governamentais e dos Estados modernos, inclusive do caso brasileiro . . . 65</p><p>21. Sobre as formas do paternalismo, do autoritarismo e do populismo presentes na política, na sociedade e nas</p><p>a</p><p>História do cotidiano, o imaginário, a micro-história e da História</p><p>das Mentalidades.</p><p>Cultura e Arte1</p><p>Raymond Willians também aponta o sentido de cultura asso-</p><p>ciada à expressão artística. Neste conceito, cultura está ligada à ati-</p><p>vidade intelectual (cientistas, filósofos, pensadores) ou a atividades</p><p>imaginativas (pintura, música, literatura, teatro). Ou seja, restrita a</p><p>pequena porção de pessoas dotadas de talento ou de formação es-</p><p>pecífica, traduzida em obras que devem circular. Este é o conceito</p><p>de cultura como espetáculo, a ser passivamente recebido, tendo o</p><p>sentido de lazer e entretenimento.</p><p>Etnocentrismo</p><p>Podemos perceber que o sufixo “centrismo” destaca algo como</p><p>central, a partir de uma determinada perspectiva. O radical “etn(o)”,</p><p>por sua vez, corresponde à cultura. Unindo “etno” e “centrismo”,</p><p>temos uma cultura que está no centro. Trata-se de uma perspectiva</p><p>de compreensão da diversidade que coloca uma cultura no centro</p><p>para a compreensão do universo plural.</p><p>O conceito de “etnocentrismo” parte de uma lógica de inter-</p><p>pretar as diferenças culturais humanas, estabelecendo critérios</p><p>de superioridade e inferioridade para a classificação dos povos. A</p><p>questão central é a estranheza que se estabelece com o encontro</p><p>de duas ou mais referências culturais. O etnocentrismo se afirma</p><p>quando há algum choque entre os “diferentes”; nesse contexto,</p><p>surgem as ideias de “meu grupo” e de “grupo do outro” e a defini-</p><p>ção de categorias hierárquicas. Normalmente, o “meu grupo” é vis-</p><p>to como o melhor, o superior, enquanto os outros são vistos como</p><p>menores, inferiores.</p><p>Para pensar: qual é a referência para considerar algo ou algu-</p><p>ma cultura “diferente”? Nós somos “diferentes” para quem ou para</p><p>que?</p><p>A leitura etnocêntrica tem base nos processos históricos que</p><p>pressupõem a justificativa para a dominação de um povo em rela-</p><p>ção a outro. Assim, por exemplo, encontra-se legitimidade para o</p><p>discurso a ação eurocêntrica na colonização da América, da África e</p><p>da Ásia. Também, com muita ênfase, o etnocentrismo está presen-</p><p>te no imperialismo nazista alemão. A doutrina do sangue azul é a</p><p>principal referência.</p><p>Relativismo Cultural</p><p>Contrapõe-se ao Etnocentrismo;</p><p>Cada manifestação cultural é compreendida como uma dimen-</p><p>são própria de significação. O que tem valor em um grupo ou uma</p><p>comunidade ganha sentido dentro de uma lógica interna. As nor-</p><p>mas de comportamento e os valores de um determinado grupo são</p><p>resultantes de um processo histórico que abrange espaço, tempo,</p><p>indivíduo e sociedade.</p><p>Não se pode eleger uma forma cultural específica como refe-</p><p>rência de um padrão de comportamento humano. Os sentidos das</p><p>práticas culturais devem ser legitimados em uma ordem interna</p><p>que congrega o grupo.</p><p>1 Cultura, etnocentrismo, relativismo cultural e identidade. CULTURANDAS. ht-</p><p>tps://culturandas.wordpress.com/cultura-etnocentrismo-relativismo-cultural-e-</p><p>-identidade/</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>16</p><p>Identidade</p><p>A dinâmica da relação entre como nos vemos e como somos</p><p>vistos, os processos de reconhecimento individual e social com-</p><p>põem a nossa identidade. Mas também olhamos o outro. Vivemos</p><p>no espelho da interação social, no campo da alteridade.</p><p>A trama social construída entre os movimentos de ver, ser e ser</p><p>visto modela a teoria do reconhecimento. Os olhares, entretanto,</p><p>têm significados e se colocam em uma territorialidade de poder.</p><p>Diversos elementos, conjugados ou não, são traços para a defi-</p><p>nição de identidades: origem, geração, etnia, raça, gênero, orienta-</p><p>ção sexual, posição econômica, religião etc. Nesse universo, nós nos</p><p>sentimos, percebemos o outro e somos percebidos.</p><p>A cena instaura a trama da identidade e da alteridade. Ou seja,</p><p>sentimento de pertença, reconhecimento dos outros e percepção</p><p>pelos outros. Assim, a afirmação de identidade é uma dimensão de</p><p>cultura essencial ao pertencimento do sujeito ou grupo a um lu-</p><p>gar. A ausência ou a negação de reconhecimento é um mecanismo</p><p>de dominação desencadeador de desigualdades. Possuir identida-</p><p>de significa existir, com poder e visibilidade distintivos.</p><p>Cultura e Natureza</p><p>O ser humano não traz, ao nascer, uma determinação natural</p><p>do comportamento. A conduta do mesmo é feita numa relação di-</p><p>nâmica com a natureza, onde se aprende a lidar com ela, e assim</p><p>elaborar um sistema humano de linguagem que lhe permite se si-</p><p>tuar em relação à natureza. Neste sentido, o ser humano é inacaba-</p><p>do (BERGER:1985), precisando da Cultura para poder se relacionar</p><p>com o meio. A cultura torna-se esse viés pelo qual se percebe dife-</p><p>rente dela e busca o controle da natureza, ao mesmo tempo em que</p><p>se sente parte dela e vive um processo de constante reelaboração</p><p>dos significados do meio social.</p><p>É na condição de ser transformador das leis “naturais” e</p><p>modificador do meio que as necessidades também geram um ato</p><p>de organizar simbolicamente a vida e se tornar refém da condição</p><p>simbólica. (GEERTZ:1989) Nesse ato organizado e instaurado</p><p>do social já podemos considerá-lo como um ser tecnológico,</p><p>capaz de aprimorar seus utensílios e suas formas de socialização.</p><p>Malinowski viria acrescentar ser necessário seguir uma análise</p><p>dessa transformação pelas chamadas “necessidades naturais” do</p><p>ser humano para o modo como ele põe para funcionar a cultura.</p><p>Por outro lado, poderíamos afirmar como capacidade exclusi-</p><p>vamente humana: a linguagem e a ação por “liberdade”. Esses dois</p><p>pontos são importantes para compreendermos a Cultura é um con-</p><p>ceito construído em oposição à natureza. Porém, buscamos apro-</p><p>fundar essa questão com referências mais atenuantes no universo</p><p>dos significados. O antropólogo estruturalista Levi-Strauss colabora</p><p>com essa análise acerca do tema: Natureza e Cultura, refere-se a</p><p>“lei do incesto”( LEVI-STRAUSS: 1982) que surge no momento em</p><p>que os humanos faz a passagem do estado de natureza à cultura. Os</p><p>animais desconhecem tal ordem em seus sistemas. Outros elemen-</p><p>tos colocados pelo antropólogo está na ordem do cru e do cozido</p><p>e da domesticação do fogo. A capacidade de preparar seus alimen-</p><p>tos pelo cozimento é singular no universo humano. Desta maneira,</p><p>viriam outras questões ligadas à morte, ao ritual de sepultamento</p><p>e à sexualidade. A lei na ordem da cultura é a constatação que os</p><p>humanos são capazes de criar uma existência que não é apenas na-</p><p>tural, é uma ordem simbólica.</p><p>Assim, não houve um estado de evolução biológica no ser</p><p>humano para depois ocorrer o aparecimento da cultura. Ambos</p><p>acontecerem simultaneamente e intrínsecamente na formação do</p><p>homem. O ser humano em seu processo particular de socialização</p><p>vai desde cedo, nas diversas culturas, a incorporar os símbolos que</p><p>lhe prescrevem o viver em sociedade. Desta forma, ser membro de</p><p>uma determinada sociedade é se naturalizar como social, fazendo-</p><p>-se um objeto por completo do seu caráter construtor pelo tempo</p><p>e espaço2.</p><p>Cultura e Organização Social3</p><p>O conceito de cultura, tal como o de sociedade, é uma das no-</p><p>ções mais amplamente usadas em Sociologia.</p><p>A cultura consiste nos valores de um dado grupo de pessoas,</p><p>nas normas que seguem e nos bens materiais que criam. Os valo-</p><p>res são ideias abstratas, enquanto as normas são princípios de-</p><p>finidos ou regras que se espera que o povo cumpra. As normas</p><p>representam o (permitido) e o (interdito) da vida social. Assim, a</p><p>monogamia – ser fiel a um único parceiro matrimonial – é um valor</p><p>proeminente na maioria das sociedades ocidentais. Em muitas ou-</p><p>tras culturas, uma pessoa é autorizada a ter várias esposas ou espo-</p><p>sos simultaneamente. As normas de comportamento no casamento</p><p>incluem, por exemplo, como se espera que os esposos se compor-</p><p>tem com os seus parentes por afinidade. Em algumas sociedades, o</p><p>marido ou a mulher devem estabelecer uma relação próxima com</p><p>os seus parentes por afinidade; noutras, espera-se que se mante-</p><p>nham nítidas distâncias entre eles.</p><p>Quando usamos o termo, na conversa quotidiana comum, pen-</p><p>samos muitas vezes na cultura como equivalente às coisas mais ele-</p><p>vadas do espírito – arte,</p><p>literatura, música e pintura. Os sociólogos</p><p>incluem no conceito estas atividades, mas também muito mais. A</p><p>cultura refere-se aos modos de vida dos membros de uma socieda-</p><p>de, ou de grupos dessa sociedade. Inclui a forma como se vestem</p><p>os costumes de casamento e de vida familiar, as formas de trabalho,</p><p>as cerimônias religiosas e as ocupações dos tempos livres. Abrange</p><p>também os bens que criam e que se tornam portadores de sentido</p><p>para eles – arcos e flechas, arados, fábricas e máquinas, computa-</p><p>dores, livros, habitações.</p><p>A cultura pode ser distinguida conceptualmente da sociedade,</p><p>mas há conexões muito estreitas entre estas noções. Uma socie-</p><p>dade é um sistema de inter-relações que ligam os indivíduos em</p><p>conjunto. Nenhuma cultura pode existir sem uma sociedade. Mas,</p><p>igualmente, nenhuma sociedade existe sem cultura. Sem cultura,</p><p>não seríamos de modo alguns humanos, no sentido em que nor-</p><p>malmente usamos este termo.</p><p>Características da Cultura</p><p>A principal característica da cultura é o chamado mecanismo</p><p>adaptativo: a capacidade de responder ao meio de acordo com mu-</p><p>dança de hábitos, mais rápida do que uma possível evolução biológica.</p><p>O homem não precisou, por exemplo, desenvolver longa pe-</p><p>lagem e grossas camadas de gordura sob a pele para viver em am-</p><p>bientes mais frios – ele simplesmente adaptou-se com o uso de</p><p>roupas, do fogo e de habitações. A evolução cultural é mais rápida</p><p>do que a biológica. No entanto, ao rejeitar a evolução biológica, o</p><p>homem torna-se dependente da cultura, pois esta age em substi-</p><p>tuição a elementos que constituiriam o ser humano; a falta de um</p><p>destes elementos (por exemplo, a supressão de um aspecto da cul-</p><p>tura) causaria o mesmo efeito de uma amputação ou defeito físico,</p><p>talvez ainda pior.</p><p>2 SALES. Chico. As explicações da relação entre cultura e natureza. https://bit.</p><p>ly/2FZByw7</p><p>3 Texto adaptado de FERNANDES, C. A. Professor de Sociologia.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>17</p><p>Além disso, a cultura é também um mecanismo cumulativo. As</p><p>modificações trazidas por uma geração passam à geração seguin-</p><p>te, de modo que a cultura transforma-se perdendo e incorporando</p><p>aspectos mais adequados à sobrevivência, reduzindo o esforço das</p><p>novas gerações.</p><p>Um exemplo de vantagem obtida através da cultura é o desen-</p><p>volvimento do cultivo do solo, a agricultura.</p><p>Com ela o homem pôde ter maior controle sobre o forneci-</p><p>mento de alimentos, minimizando os efeitos de escassez de caça</p><p>ou coleta. Também pôde abandonar o nomadismo; daí a fixação em</p><p>aldeamentos, cidades e estados.</p><p>Dimensões da Cultura</p><p>Cultura, de forma bastante geral, pode ser definida como “a</p><p>parte do ambiente feita pelo homem”. Essa definição, elaborada</p><p>pelo antropólogo Melville Herkovits, nos traz um elemento funda-</p><p>mental para pensarmos as questões ligadas à dimensão sócio his-</p><p>tórica da humanidade: o fato de que o que entendemos por cultura</p><p>ser, fundamentalmente, algo construído pelos seres humanos. A</p><p>dimensão cultural, portanto, não é algo dado, natural, mas uma in-</p><p>tervenção ampla dos seres humanos naquilo que conhecemos por</p><p>natureza. Como somos seres vivos, partimos, obviamente, de nossa</p><p>condição biológica, dependente do meio natural; entretanto, essa</p><p>mesma condição é constantemente modificada pela tecnologia (en-</p><p>tendida aqui em seu sentido amplo) e pelo trabalho humanos. É</p><p>bom lembrar, também, que a noção de cultura envolve tanto uma</p><p>dimensão material, ligada a instrumentos e objetos (de brinquedos</p><p>a chaves de fenda, passando pelo vestuário e também pelos alimen-</p><p>tos que consumimos), como uma dimensão não material (as visões</p><p>de mundo, as formas e padrões de comportamento, as diversas re-</p><p>ligiões). Também é importante colocar que essas dimensões não</p><p>são isoladas e se relacionam a todo momento. Assim, há um fator</p><p>importantíssimo, quando falamos em cultura, que é pensá-la como</p><p>um elemento das sociedades humanas que articula o aspecto ma-</p><p>terial e o aspecto simbólico.</p><p>Um exemplo bastante simples e facilmente observável é o uso</p><p>do vestuário. Usamos as roupas por pelo menos três motivos, em</p><p>maior ou menor grau: a necessidade de proteção (em áreas do</p><p>mundo ou situações em que isso seja necessário), o desejo de en-</p><p>feitar-nos e o pudor (a vergonha em relação à nudez pública).</p><p>No entanto, há regras para o uso das diversas formas de ves-</p><p>tuário dependendo da situação ou contexto em que nos encontre-</p><p>mos: no Brasil, não podemos (ou não devemos) ir a um casamento</p><p>ou formatura em trajes de banho (e provavelmente mesmo que ce-</p><p>rimônias estejam sendo realizadas em uma praia). O que determina</p><p>essa atitude é o significado atribuído socialmente a esta ou aquela</p><p>forma de vestuário, para além do fato de ser esteticamente interes-</p><p>sante ou cobrir nossa nudez.</p><p>Assim, tão importante — ou mais até — que a utilidade con-</p><p>creta de um objeto ou utensílio cultural, é o sentido simbólico atri-</p><p>buído a ele. Dessa forma, ao vivermos em sociedade, partilharmos</p><p>objetos, sentimentos e símbolos através dos quais construímos</p><p>uma ideia de identidade. A partir desse raciocínio, podemos pro-</p><p>blematizar a noção de identidade cultural, no sentido de ampliá-la</p><p>e verificar como essa visão ampliada pode ser útil no entendimento</p><p>da diversidade constitutiva de todas as sociedades. O antropólogo</p><p>norte-americano Ralph Linton, escrevendo sobre a difusão cultu-</p><p>ral, no livro O homem: uma introdução à antropologia, afirma que,</p><p>na grande maioria das sociedades humanas, a maior parte das in-</p><p>venções e descobertas partilhadas tem origem em sociedades dife-</p><p>rentes, ou seja, muitas vezes o que chamamos de “típico” ou “co-</p><p>mum” em termos culturais pode ter tido origem em outro país ou</p><p>sociedade. Num trecho bastante interessante, escreve Linton que a</p><p>vida cotidiana de um cidadão norte-americano “típico” contém ele-</p><p>mentos de outras sociedades: o papel, inventado na China; o vidro,</p><p>originário do Egito; os talheres, inventados na Índia e na Europa; a</p><p>imprensa, processo inventado na Alemanha; o inglês é uma língua</p><p>indo-europeia e o Deus cristão, uma divindade de origem hebraica.</p><p>Dessa exposição podemos depreender, de um lado, que a di-</p><p>versidade e a diferença são elementos constitutivos das culturas</p><p>humanas e que as formas de preconceito cultural são, dessa forma,</p><p>uma manifestação clara da ignorância dos processos históricos e</p><p>das trocas culturais. Por outro lado, podemos verificar também que</p><p>a noção de identidade cultural, como uma forma de pertencimento</p><p>a esta ou àquela sociedade específica é assim, como nos diz ain-</p><p>da outro antropólogo, o professor Renato Ortiz, uma “construção</p><p>simbólica”, ou seja, um recorte de elementos aos quais atribuímos</p><p>um sentido de nacionalidade e que pode ser modificado ao longo</p><p>do tempo. É só lembrarmos que no Brasil o samba, que já foi um</p><p>gênero musical ligado à marginalidade e à “malandragem”, trans-</p><p>formou-se em um dos símbolos nacionais. E assim, hoje, “quem não</p><p>gosta, de samba, bom sujeito não é”.</p><p>A Diversidade Cultural4</p><p>Apesar do processo de globalização, que busca a mundialização</p><p>do espaço geográfico – tentando, através dos meios de comunica-</p><p>ção, criar uma sociedade homogênea – aspectos locais continuam</p><p>fortemente presentes. A cultura é um desses aspectos: várias co-</p><p>munidades continuam mantendo seus costumes e tradições.</p><p>O Brasil, por apresentar uma grande dimensão territorial, pos-</p><p>sui uma vasta diversidade cultural. Os colonizadores europeus, a po-</p><p>pulação indígena e os escravos africanos foram os primeiros respon-</p><p>sáveis pela disseminação cultural no Brasil. Em seguida, os imigrantes</p><p>italianos, japoneses, alemães, árabes, entre outros, contribuíram</p><p>para a diversidade cultural do Brasil. Aspectos como a culinária, dan-</p><p>ças, religião são elementos que integram a cultura de um povo.</p><p>As regiões brasileiras apresentam diferentes peculiaridades</p><p>culturais. No Nordeste, a cultura é representada através de danças</p><p>e festas como o bumba meu boi, maracatu, caboclinhos, carnaval,</p><p>ciranda, coco, reisado, frevo, cavalhada e capoeira. A culinária típica</p><p>é representada pelo sarapatel,</p><p>buchada de bode, peixes e frutos do</p><p>mar, arroz doce, bolo de fubá cozido, bolo de massa de mandioca,</p><p>broa de milho verde, pamonha, cocada, tapioca, pé de moleque,</p><p>entre tantos outros. A cultura nordestina também está presente no</p><p>artesanato de rendas.</p><p>O Centro-Oeste brasileiro tem sua cultura representada pelas</p><p>cavalhadas e procissão do fogaréu, no estado de Goiás; e o cururu</p><p>em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A culinária é de origem in-</p><p>dígena e recebe forte influência da culinária mineira e paulista. Os</p><p>pratos principais são: galinhada com pequi e guariroba, empadão</p><p>goiano, pamonha, angu, cural, os peixes do Pantanal – como o pin-</p><p>tado, pacu e dourado.</p><p>As representações culturais no Norte do Brasil estão nas festas</p><p>populares como o círio de Nazaré e festival de Parintins, a maior fes-</p><p>ta do boi-bumbá do país. A culinária apresenta uma grande herança</p><p>indígena, baseada na mandioca e em peixes. Pratos como otacacá,</p><p>pirarucu de casaca, pato no tucupi, picadinho de jacaré e mussarela</p><p>de búfala são muito populares. As frutas típicas são: cupuaçu, ba-</p><p>curi, açaí, taperebá, graviola, buriti.</p><p>4 Texto adaptado de Wagner de Cerqueira e Francisco.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>18</p><p>No Sudeste, várias festas populares de cunho religioso são ce-</p><p>lebradas no interior da região. Festa do divino, festejos da páscoa</p><p>e dos santos padroeiros, com destaque para a peregrinação a Apa-</p><p>recida (SP), congada, cavalhadas em Minas Gerais, bumba meu boi,</p><p>carnaval e peão de boiadeiro. A culinária é muito diversificada, os</p><p>principais pratos são: queijo minas, pão de queijo, feijão tropeiro,</p><p>tutu de feijão, moqueca capixaba, feijoada, farofa, pirão, etc.</p><p>O Sul apresenta aspectos culturais dos imigrantes portugueses,</p><p>espanhóis e, principalmente, alemães e italianos. Algumas cidades</p><p>ainda celebram as tradições dos antepassados em festas típicas,</p><p>como a festa da uva (cultura italiana) e a oktoberfest (cultura ale-</p><p>mã), o fandango de influência portuguesa e espanhola, pau de fita</p><p>e congada. Na culinária estão presentes: churrasco, chimarrão, ca-</p><p>marão, pirão de peixe, marreco assado, barreado (cozido de carne</p><p>em uma panela de barro) e vinho.</p><p>Cultura Nordestina5</p><p>Pensar o Nordeste em termos culturais é entender a região</p><p>como espaço criativo de símbolos e rituais, tais como festas, músi-</p><p>cas, e indumentárias. Um espaço definido, que demarca um mun-</p><p>do familiar, estruturado pela tradição com a qual a coletividade se</p><p>identifica.</p><p>A riqueza cultural nordestina é, pois, bastante particular e tí-</p><p>pica, apesar de extremamente variada. Sua representação vai além</p><p>das manifestações folclóricas e populares. O campo da literatura,</p><p>por exemplo, contribuiu em muito para a cultura da região. Nomes</p><p>como Clarice Lispector, Jorge Amado, José de Alencar, Rachel de</p><p>Queiróz, Ariano Suassuna, dentre outros, sem dúvida, são de extre-</p><p>ma importância para construção de um imaginário específico sobre</p><p>a região Nordeste. São, pois, defensores da delimitação do espaço</p><p>regional e de uma identidade nordestina.</p><p>Na dança, merecem evidência o maracatu, manifestação cul-</p><p>tural da música folclórica pernambucana afro-brasileira praticado</p><p>em diferentes cidades do nordeste; o frevo que é executado prin-</p><p>cipalmente no carnaval de Pernambuco; o bumba-meu-boi, dança</p><p>do folclore popular brasileiro, com personagens humanos e animais</p><p>fantásticos, que gira em torno da morte e ressurreição de um boi;</p><p>o xaxado, muito praticada pelos cangaceiros pernambucanos, em</p><p>comemoração as suas vitórias; o tambor de crioula, característico</p><p>do Maranhão; diversas variantes do forró; etc.</p><p>Já na música, que é sempre acompanhadas de danças, muitos</p><p>ritmos se destacam, como coco, martelo agalopado, samba de roda,</p><p>baião, xote, forró, Axé, dentre outros ritmos. Um dos músicos que</p><p>melhor representa o nordeste chama-se Luiz Gonzaga, o criador da</p><p>“música nordestina”, notadamente o baião. Em suas canções ele re-</p><p>trata não só os problemas do Nordeste como a seca, mas também</p><p>os fatores positivos daquela localidade.</p><p>Um dos assuntos que Luiz Gonzaga também retrata em suas</p><p>músicas é a questão religiosa, que pode ser considerada como ele-</p><p>mento de identidade regional. Ele desenvolve, como estratégia de</p><p>afirmação do seu trabalho, uma forte ligação com a Igreja do Nor-</p><p>deste, já que era profundamente cristão.</p><p>O tema religioso também está presente nos trabalhos de Aria-</p><p>no Suassuna, pernambucano que é o responsável pela repercussão</p><p>nordestina e nacional no campo do teatro, a partir da década de 50.</p><p>É possível encontrar ainda temáticas religiosas nos cordéis,</p><p>que é um tipo de poesia popular, originalmente oral, e depois im-</p><p>pressa em folhetos rústicos ou outra qualidade de papel, expostos</p><p>5 ALMEIDA, L. A. B. et. Al. Um recorte cultural do Nordeste: o caso da Festa do</p><p>Carmo. ENECUT – UFBA. http://www.cult.ufba.br/enecult2009/19376.pdf</p><p>para venda, pendurados em cordas ou cordéis. No Brasil, a literatu-</p><p>ra de cordel é produção típica do Nordeste, sobretudo nos estados</p><p>de Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará.</p><p>Portanto o Nordeste é identificado como o local de origem da</p><p>“verdadeira” cultura brasileira ou do tipo brasileiro por excelência.</p><p>Cultura essa que é tão rica em sua diversidade quanto em interpre-</p><p>tações acerca de sua existência como unidade. Em um país de ta-</p><p>manha extensão, a pluralidade está presente em muitos aspectos,</p><p>sejam eles sociais, econômicos, políticos ou culturais. Nesse último,</p><p>ela é ainda mais acentuada, pois, nossa bagagem vem de outras</p><p>diferentes culturas, como a indígena, a portuguesa, a negra e mais</p><p>recentemente a americana. Pode-se dizer, então, com veemência,</p><p>diante da riqueza e pluralidade cultural nordestina, que todos os</p><p>elementos citados anteriormente, responsáveis por estereotipar</p><p>a região, contribuem para atrair pessoas de outras localidades a</p><p>conheceram, vivenciarem ou se divertirem com as tradições deste</p><p>lugar.</p><p>Manifestações Religiosas</p><p>Por meio de suas festas tradicionais, as comunidades estreitam</p><p>seus laços e mantêm sua identidade como grupo, celebrando tam-</p><p>bém sua vida cotidiana. Desde os tempos remotos, o homem primi-</p><p>tivo já possuía uma relação de fé com o divino, ele pedia aos deuses</p><p>proteção e colheitas fartas, muitas vezes usando comida, bebida,</p><p>música e dança como oferendas. Com o cristianismo, a Igreja Ca-</p><p>tólica transformou alguns desses rituais pagãos em homenagens</p><p>aos santos, conferindo a eles um caráter sagrado de acordo com os</p><p>princípios cristãos. Assim surgiram as manifestações ou festas reli-</p><p>giosas, rituais de explicitação das relações entre os grupos sociais.</p><p>Na realidade, a primeira forma de expressão dos grupos populares</p><p>não foi a escrita, e sim o domínio da dança, de cânticos rimados</p><p>para facilitar a memorização, as lendas, ditados, culinária. É dessa</p><p>forma que o povo escreve suas memórias, seus valores, seus có-</p><p>digos de regras, suas crenças, suas angústias pelo árduo trabalho,</p><p>suas esperanças e fantasias e de igual modo se manifestam.</p><p>A história das festas religiosas tem início com a chegada dos</p><p>Jesuítas no Brasil, que marca o começo da evangelização no Nordes-</p><p>te. Este grupo traz a representação da figura histórica do Padre José</p><p>de Anchieta na evangelização dos primeiros habitantes, os índios.</p><p>Com a mistura de povos começam as manifestações religiosas de</p><p>cada raça: o índio com adoração ao deus Sol, à Lua, à Terra ao deus</p><p>Trovão e a todos os seres da Natureza; os brancos com a realiza-</p><p>ção de missa, sacerdócio, apego à Bíblia, crucifixos e veneração aos</p><p>santos e os negros com o culto aos orixás, tambores e vestimentas</p><p>coloridas.</p><p>A maioria das festas populares tem, assim, origem ibérica, afri-</p><p>cana e indígena e segue as datas do calendário católico. São comuns</p><p>nas festas populares baseadas no calendário religioso manifesta-</p><p>ções de sincretismo afro-cristão, que fundem os orixás do candom-</p><p>blé com os santos católicos.</p><p>No Ceará, a festa principal é a festa de Padre Cícero, que é</p><p>idolatrado em todo o Nordeste, o padre milagreiro</p><p>e reverenciado a</p><p>cada dia com uma nova romaria. O fanatismo pelo santo construiu</p><p>a cidade de Juazeiro. A segunda maior cidade do Estado virou man-</p><p>jedoura de missas, procissões, rezas, peregrinações e festas folcló-</p><p>ricas em homenagem ao eterno “Padim Ciço”, como os seguidores</p><p>o chamam. Além dessa festa, há também a devoção a São Francisco</p><p>das Chagas, na qual centenas de fiéis viajam em ônibus ou nos fa-</p><p>mosos “paus-de-arara” para pagar promessas e reverenciar o seu</p><p>santo protetor.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>19</p><p>No Rio Grande do Norte, Santa Luzia é a principal festa popular</p><p>religiosa. Sua procissão reúne mais de 130 mil devotos. A cada ano,</p><p>a participação de romeiros de municípios do Rio Grande do Norte e</p><p>Estados vizinhos é aumentada, ou seja, cresce o turismo religioso.</p><p>No Piauí Santa Cruz dos Milagres é a cidade de terceiro destino</p><p>de maior visitação religiosa do Nordeste. O santuário de Santa Cruz</p><p>dos Milagres, a 181 km de Teresina, é o único do Estado reconhe-</p><p>cido pelo Vaticano para peregrinações. Todos os anos milhares de</p><p>fiéis vão à Santa Cruz dos Milagres para pagar promessas e pedir</p><p>novas bênçãos. Ainda no Piauí há a Roda de São Gonçalo, que é</p><p>dançada em todo o Estado e faz parte do novenário em homena-</p><p>gem ao santo violeiro, daí o seu caráter estritamente litúrgico-reli-</p><p>gioso. Duas fileiras de homens e mulheres se colocam em frente ao</p><p>altar do santo. Movimentam-se em forma de círculo, em forma de</p><p>“cruzeiro” (cruz), reverenciando o santo e beijando o altar. O canto</p><p>vai acompanhado de rabeca, violão, pandeiro e, às vezes, zabumba.</p><p>Já a Festa do Divino é uma das manifestações religiosas mais</p><p>ricas do Maranhão. As mais famosas são as que acontecem no eixo</p><p>São Luís - Alcântara. Apesar das claras influências africanas, várias</p><p>características se mantêm, como a representação do imperador</p><p>que preside os rituais durante todo o tempo, a missa, a procissão</p><p>e a partilha de alimentos. Outra manifestação importante do</p><p>Maranhão é o terreiro, lugar onde são cultuados voduns e orixás,</p><p>gentis e caboclos. Também são realizadas festas e rituais populares</p><p>como a Festa do Espírito Santo, Queimação de Palhinhas do Presé-</p><p>pio, Batismo.</p><p>Em Sergipe acontece a louvação a São Benedito e a Nossa Se-</p><p>nhora do Rosário, ambos padroeiros dos negros no Brasil. Tocan-</p><p>do quexerés (instrumentos de percussão) e tambores, as Taieiras</p><p>(Grupo de forte característica religiosa), trajando blusa vermelha</p><p>cortada por fitas e saia branca, seguem pelas ruas cantando can-</p><p>tigas religiosas. Este evento é definido como uma das mais claras</p><p>demonstrações de sincretismo, com santos e rainhas, procissões e</p><p>danças misturados num momento de celebração.</p><p>Na Bahia, a Lavagem (das escadarias da Igreja) do Bonfim, que</p><p>acontece em janeiro, é a mais importante festa religiosa do estado.</p><p>A Festa inicia-se com cortejo de baianas vestidas tipicamente que</p><p>caminham desde a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia</p><p>até o alto do Bonfim, carregando água de cheiro e despejam seus</p><p>vasos no adro da Igreja e sobre as cabeças dos fiéis.</p><p>Muitas manifestações religiosas são realizadas nos estados nor-</p><p>destinos, inclusive em cidades do interior e em municípios, mas,</p><p>apesar de algumas festas compartilharem o mesmo tema, em cada</p><p>lugar elas assumem características próprias, de acordo com a tradi-</p><p>ção regional. Outrossim, há que se pensar que as festas tradicionais</p><p>da cultura popular também estão sendo afetadas pelas transforma-</p><p>ções da comunicação e pela reorganização do mercado.</p><p>INSTITUCIONALIDADE DA CULTURA</p><p>Nos anos 1930 acontecem mudanças políticas, econômicas</p><p>e culturais relevantes no Brasil. A chamada “Revolução” de 1930</p><p>realiza outra transição pelo alto sem grandes rupturas. O novo re-</p><p>gime representa um compromisso entre a emergente burguesia in-</p><p>dustrial, as velhas oligarquias agrárias e outros segmentos sociais,</p><p>inclusive militares. As classes médias e o proletariado emergem</p><p>na cena política como atores mais substantivos que nos anos ante-</p><p>riores. Industrialização; urbanização; modernismo cultural e cons-</p><p>trução do Estado centralizado são faces do país que se pretende</p><p>moderno6.</p><p>6 Antonio Albino Canelas Rubim. Desafios e Dilemas da institucionalidade cultu-</p><p>Floresce a segunda geração modernista, com o aparecimento</p><p>de importantes artistas e intelectuais que buscam expressar um</p><p>Brasil moderno. Nele, duas experiências simultâneas inauguram</p><p>as políticas culturais e conformam uma nova institucionalidade do</p><p>campo da cultura: a passagem de Mário de Andrade pelo Departa-</p><p>mento de Cultura da Prefeitura da cidade de São Paulo (1935-1938),</p><p>interrompida no início da ditadura do Estado Novo (1937-1945), e a</p><p>presença de Gustavo Capanema à frente do Ministério da Educação</p><p>e Saúde (1934-1945).</p><p>Surpreendente que uma gestão municipal seja tomada como</p><p>uma das inauguradoras das transformações culturais no Brasil. Tal</p><p>atuação, por suas práticas e ideários, transcendeu em muito as</p><p>fronteiras da cidade de São Paulo. Sem esgotar suas contribuições,</p><p>Mário de Andrade inova em: (i) estabelecer uma intervenção esta-</p><p>tal sistemática abrangendo diferentes áreas da cultura; (ii) pensar a</p><p>cultura como algo “tão vital como o pão”; (iii) propor uma definição</p><p>ampla de cultura, que extrapola as belas artes, sem desconsiderá-</p><p>-las, e que abarca, dentre outras, as culturas populares; (iv) assu-</p><p>mir o patrimônio não só como material e associado às elites, mas</p><p>também como imaterial e pertinente aos diferentes segmentos da</p><p>sociedade; (v) patrocinar missão etnográfica à região amazônica e</p><p>ao Nordeste para pesquisar e documentar seus ricos acervos cultu-</p><p>rais; (vi) fortalecer a institucionalidade cultural por meio da criação</p><p>de organismos e procedimentos. O projeto de Mário de Andrade</p><p>tem limitações, mas elas não podem impedir seu reconhecimento,</p><p>mesmo no cenário internacional.</p><p>Em um registro nacional, aconteceu outro movimento inau-</p><p>gurador. Ele foi protagonizado pelo ministro Gustavo Capanema</p><p>(Badaró, 2000; Gomes, 2000; Williams, 2000). Esteticamente mo-</p><p>dernista e politicamente conservador, ele acolheu intelectuais e ar-</p><p>tistas progressistas, a exemplo de Carlos Drummond de Andrade,</p><p>seu chefe de gabinete, Candido Portinari e Oscar Niemeyer (Velloso,</p><p>1987). Pela primeira vez, o Estado realizou um conjunto de inter-</p><p>venções na área da cultura, que conjugou uma atuação negativa –</p><p>opressão, repressão e censura, como ocorre em todas as ditaduras</p><p>– com uma atitude afirmativa, por meio da criação de novas formu-</p><p>lações, práticas, normas e instituições. Dentre os procedimentos,</p><p>têm-se legislações para cinema, radiodifusão, artes, profissões cul-</p><p>turais e a constituição de organismos culturais, a exemplo do: Insti-</p><p>tuto Nacional de Cinema Educativo (1936); Serviço de Radiodifusão</p><p>Educativa (1936); Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacio-</p><p>nal (1937); Serviço Nacional de Teatro (1937); Instituto Nacional do</p><p>Livro (1937) e Conselho Nacional de Cultura (1938). Nacionalismo,</p><p>brasilidade, harmonia entre as classes sociais, apologia ao trabalho</p><p>e reconhecimento do caráter mestiço balizaram o ministério.</p><p>Nem a criação desses dispositivos, nem a modernização ense-</p><p>jada pelo governo Getúlio Vargas com a constituição do Departa-</p><p>mento Administrativo do Serviço Público, em 1937/1938, tiveram</p><p>força para reverter a baixa institucionalidade da cultura, inclusive</p><p>por conta de sua continuidade e instabilidade. A gestão cultural, por</p><p>exemplo, desde seus primórdios e até os anos 1980, foi dominada</p><p>por indicações políticas e familiares, longe, por conseguinte, de cri-</p><p>térios mais afinados com a qualificação da administração cultural.</p><p>No âmbito das excepcionalidades, destaque para o Serviço do</p><p>Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, entidade emblemática</p><p>das políticas culturais nacionais. Criado em 1937, ele acolheu mo-</p><p>dernistas, a começar pelo seu quase eterno dirigente: Rodrigo Melo</p><p>ral no Brasil. MATRIZes. V.11 - Nº 2 maio/ago. 2017 São Paulo - Brasil ANTONIO</p><p>ALBINO CANELAS RUBIM p. 57-77. https://www.revistas.usp.br/matrizes/arti-</p><p>cle/download/123379/133230</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>20</p><p>Franco de Andrade (1937-1967). O Serviço, depois Instituto (Iphan)</p><p>ou Secretaria, até a década de 1970, optou pela preservação de mo-</p><p>numentos de pedra e cal, de cultura branca e estética barroca, em</p><p>geral: igrejas católicas, fortes e palácios do período colonial. Assim,</p><p>o Iphan circunscreveu sua área de atuação, diluiu polêmicas, de-</p><p>senvolveu competência técnica e profissionalizou seu pessoal. Seu</p><p>“insulamento institucional”, na formulação de Sergio Miceli, garan-</p><p>tiu certa independência da ingerência política, gestão diferenciada,</p><p>continuidade administrativa, inclusive de seu dirigente, e reforço</p><p>de sua institucionalidade (Miceli, 2001: 362). Paradoxalmente, sua</p><p>força foi sua fraqueza. A opção elitista, com forte viés classista; a</p><p>não interação com públicos dos sítios preservados e o imobilismo,</p><p>advindo da longa estabilidade institucional, impediram o Iphan de</p><p>acompanhar os avanços da área de patrimônio (Miceli, 2001; Gon-</p><p>çalves, 1996).</p><p>A gestão de Capanema buscou superar uma das tristes tradi-</p><p>ções das políticas culturais no Brasil: as ausências. Ao fazer essa</p><p>tentativa, ela estabeleceu outra problemática tradição: a íntima</p><p>relação entre governos autoritários e políticas culturais nacionais,</p><p>apesar de algumas de suas iniciativas terem ocorrido no período</p><p>anterior à ditadura do Estado Novo. Essa tradição, inventada na era</p><p>Vargas, será retomada depois pela ditadura militar, implantada em</p><p>1964.</p><p>O interregno democrático de 1945 a 1964 reafirmou as tristes</p><p>tradições das ausências e dos autoritarismos. Esplendoroso desen-</p><p>volvimento da cultura brasileira aconteceu em praticamente todas</p><p>as áreas, o qual, porém, não teve correspondência na institucionali-</p><p>dade e nas políticas culturais no país, sendo que estas, com exceção</p><p>da atuação do Iphan, quase inexistiram.</p><p>Intervenções pontuais marcaram o período democrático: a ins-</p><p>talação do Ministério da Educação e Cultura, em 1953, sem reforçar</p><p>a institucionalidade da cultura, pois não significou a existência de</p><p>nenhuma estrutura nova; a expansão das universidades públicas</p><p>(nacionais); a Campanha de Defesa do Folclore e a criação do Insti-</p><p>tuto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb).</p><p>A ditadura militar de 1964 reatualizou a triste tradição do vín-</p><p>culo entre políticas culturais e autoritarismos. Os militares reprimi-</p><p>ram, censuraram, perseguiram, prenderam, assassinaram, exilaram</p><p>a cultura, os intelectuais, os artistas, os cientistas e os criadores po-</p><p>pulares, e, ao mesmo tempo, constituíram uma agenda de realiza-</p><p>ções. Três fases marcaram a relação entre governo militar e cultura.</p><p>De 1964 até 1968, a ditadura perseguiu, em especial, os se-</p><p>tores populares e militantes vinculados a estes segmentos. Apesar</p><p>da repressão, ocorreram manifestações políticas contra o regime,</p><p>em especial dos setores médios, e existiu uma expressiva “floração</p><p>tardia” da cultura dos anos anteriores, hegemonicamente de es-</p><p>querda, mas circunscrita às classes médias, como assinalou Roberto</p><p>Schwarz (1978).</p><p>A ditadura estimulou o predomínio da cultura midiatizada (Ru-</p><p>bim; Rubim, 2004). A instalação da infraestrutura de telecomuni-</p><p>cações, a criação da Telebrás e da Embratel e a implantação da in-</p><p>dústria cultural foram realizações dos militares, que controlaram os</p><p>meios audiovisuais e buscaram integrar simbolicamente o país, pelo</p><p>viés da política de segurança nacional, com a adesão da mídia. Na</p><p>contramão, intelectuais “tradicionais”, como diria Gramsci (1972,</p><p>1978a, 1978b), aliados do regime e instalados no recém-instituído</p><p>Conselho Federal de Cultura (1966), demonstravam preocupação</p><p>com o impacto da televisão sobre as culturas regionais e populares,</p><p>concebidas em perspectiva conservadora (Ortiz, 1986). Eles estimu-</p><p>laram a institucionalidade da cultura incentivando a criação de con-</p><p>selhos e secretarias em alguns estados brasileiros.</p><p>O segundo momento (final de 1968-1974), o mais brutal da di-</p><p>tadura, foi dominado pela tortura, assassinatos e censura sistemáti-</p><p>ca, interditando parte significativa da dinâmica cultural, sobretudo</p><p>aquela de tonalidade mais crítica e progressista. Época do chamado</p><p>vazio cultural, contrariado pelas contraculturas hippie e marginal.</p><p>Tempo de imposição da cultura midiática, tecnicamente sofisticada</p><p>e fiel reprodutora da ideologia oficial.</p><p>A derrota da ditadura nas eleições legislativas de 1974 possi-</p><p>bilitou o terceiro momento, que terminou em 1985, com o final do</p><p>regime militar. Para realizar a transição sob sua hegemonia, ele bus-</p><p>cou cooptar profissionais da cultura (Ortiz, 1986: 85), por meio da</p><p>ampliação de investimentos, inclusive institucionais, na área. Pela</p><p>primeira vez, o país teve uma Política Nacional de Cultura (1975).</p><p>Inúmeras instituições culturais foram criadas (Miceli, 1984), dentre</p><p>elas: Fundação Nacional das Artes (1975), Centro Nacional de Re-</p><p>ferência Cultural (1975), Conselho Nacional de Cinema (1976), Ra-</p><p>diobrás (1976) e Fundação Pró-Memória (1979).</p><p>Destaque para dois acontecimentos. Primeiro: a criação da</p><p>Fundação Nacional das Artes (Funarte), instituição emblemática, a</p><p>partir da experiência do Plano de Ação Cultural (1973). A Funarte,</p><p>inicialmente uma agência de financiamento de projetos, consoli-</p><p>dou-se por meio de intervenções inovadoras; da constituição de</p><p>corpo técnico qualificado, oriundo das próprias áreas culturais; e da</p><p>tentativa de superar a lógica fisiológica de apoios no campo cultu-</p><p>ral, pela análise de mérito dos projetos (Botelho, 2001). Modifica-</p><p>ções posteriores retiram da Funarte esse caráter inovador.</p><p>O segundo movimento expressivo esteve associado à figura</p><p>de Aloísio Magalhães. Em sua rápida trajetória, facilitada por seu</p><p>dinamismo, criatividade e relações com setores militares, Aloísio,</p><p>um intelectual administrativo (Ortiz, 1986: 124), até sua morte em</p><p>1982, criou ou alterou organismos como: Centro Nacional de Refe-</p><p>rência Cultural (1975); Iphan (1979); Sphan e Pró-Memória (1979)</p><p>e Secretaria de Cultura do MEC (1981). Sua visão renovada do</p><p>patrimônio; sua concepção antropológica de cultura; sua atenção</p><p>com o saber popular, o artesanato e as tecnologias tradicionais</p><p>(Magalhães, 1985) ensejaram mudanças, limitadas pelo contexto</p><p>ditatorial.</p><p>As experiências excepcionais, mas isoladas, do Iphan e da Fu-</p><p>narte não têm cacife para mudar o panorama da institucionalidade</p><p>cultural brasileira. As três tristes tradições prevalecentes na traje-</p><p>tória das políticas culturais no país – ausências, autoritarismos e</p><p>instabilidades – não permitiram maior atenção e cuidado com a ins-</p><p>titucionalidade cultural. Ela se manteve imersa no amadorismo, fra-</p><p>gilidade, clientelismo, fisiologismo, patrimonialismo e instabilidade.</p><p>Novo Patamar Possível da Institucionalidade Cultural no Brasil</p><p>Os desafios colocados para os governos Lula e Dilma não eram</p><p>apenas superar as políticas culturais neoliberais da gestão FHC,</p><p>mas enfrentar as três tristes tradições – ausências, autoritarismos</p><p>e instabilidades –, que dificultaram políticas culturais ativas, demo-</p><p>cráticas e sustentáveis e interditaram ganhos mais significativos na</p><p>institucionalidade cultural no país.</p><p>A gestão cultural no Brasil possui forte tradição de desconti-</p><p>nuidades. Três movimentos, iniciados por Lula e desenvolvidos por</p><p>Dilma, assumiram centralidade na superação dessa triste tradição</p><p>institucional e na construção de políticas de Estado. Trata-se do</p><p>Plano Nacional de Cultura (PNC), do Sistema Nacional de Cultura</p><p>(SNC) e da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que assegura</p><p>orçamento para a cultura. Tais iniciativas não são as melhores, nem</p><p>as contempladas com maiores recursos no ministério. Elas não têm</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>21</p><p>a repercussão ou a visibilidade, por exemplo, do programa Cultura</p><p>Viva e seus Pontos de Cultura. Mas elas possibilitam, dada à arqui-</p><p>tetura política e institucional, a configuração de políticas de Estado.</p><p>Isto é, de políticas de longo prazo no campo da cultura.</p><p>A PEC está paralisada no Congresso Nacional há mais de dez</p><p>anos, sem uma perspectiva razoável de aprovação, em especial,</p><p>com a nova conjuntura nacional, em que vinculações orçamentárias</p><p>existentes para a Educação e a Saúde são atacadas pelo governo</p><p>interino e seus aliados políticos. Ela propõe alterar a Constituição</p><p>Federal para garantir a vinculação de, pelo menos, 2% do orçamen-</p><p>to nacional para a cultura, sendo 1% distribuído para estados e mu-</p><p>nicípios, além de prever que os estados destinem, no mínimo, 1,5%</p><p>de seus orçamentos; e os municípios, ao menos, 1% do orçamento</p><p>para a cultura. A determinação constitucional de orçamento carim-</p><p>bado se torna essencial para superar a tradição de instabilidades,</p><p>pois, além de ampliar as verbas para o campo cultural, garante o</p><p>recebimento continuado e estável de recursos, o que viabiliza o</p><p>planejamento na área, com impactos positivos para o desenvolvi-</p><p>mento da cultura. A paralisia da PEC no Congresso Nacional invia-</p><p>biliza, no momento, maiores análises. Cabe assinalar, no entanto,</p><p>o quadro político do país e do Congresso Nacional como bastante</p><p>adversos a sua aprovação.</p><p>O Plano Nacional de Cultura e o Sistema Nacional de Cultura</p><p>encontram-se em situações bastante distintas. Eles caminharam</p><p>desde 2003, ainda que em ritmos distantes da velocidade ideal</p><p>requerida pelos processos de implantação e pelas comunidades</p><p>culturais. Em 2010, foi aprovada pelo Congresso Nacional a lei que</p><p>instituiu o Plano Nacional de Cultura (PNC) (Brasil, 2010b). Ela foi</p><p>precedida pela incorporação à Constituição Federal da emenda</p><p>nº 48, de 10 de agosto de 2005. Em 2012, a emenda 71 incluiu na</p><p>Constituição Federal brasileira o Sistema Nacional de Cultura (SNC).</p><p>O PNC e o SNC são políticas estruturantes que devem alterar pro-</p><p>fundamente a institucionalidade cultural no Brasil, pois exigem po-</p><p>líticas de Estado de longo prazo.</p><p>A aprovação pelo Congresso Nacional da emenda constitucio-</p><p>nal e a subsequente elaboração do PN Cultura, em parceria do Mi-</p><p>nistério da Cultura com a Câmara dos Deputados, dotou o país de</p><p>um plano com duração de dez anos (Brasil, 2008). Ele reúne minis-</p><p>tério, Congresso e sociedade civil, dada sua construção como polí-</p><p>tica pública, realizada em audiências, conferências, debates e semi-</p><p>nários. Mas, o número demasiado de diretrizes, ações e prioridades</p><p>inscritos no PNC dificulta que, ao final dos dez anos previstos, seja</p><p>alcançado avanço significativo em relação à situação de 2010 (Ru-</p><p>bim, 2009). O Ministério da Cultura, no ano de 2011, desenvolveu</p><p>admirável esforço em traduzir por volta de 250 ações em 53 metas,</p><p>buscando tornar o PNC passível de ser executado, acompanhado</p><p>e avaliado. O Conselho Nacional de Políticas Culturais aprovou as</p><p>metas, depois divulgadas, inclusive em estados e municípios, pois</p><p>a efetividade de muitas delas depende da atuação colaborativa dos</p><p>entes federativos. O PNC estabeleceu uma perspectiva de planeja-</p><p>mento na área cultural nacional e induziu que essa atitude fosse</p><p>adotada nas esferas estaduais e municipais, dado que ele implica</p><p>em planos estaduais e municipais de cultura.</p><p>A construção do Sistema Nacional de Cultura vem sendo reali-</p><p>zada pelo ministério, em parceria com estados, municípios e socie-</p><p>dade civil (Brasil, 2016). Ela é vital para a consolidação de políticas e</p><p>de estruturas, pactuadas e complementares, que viabilizem a exis-</p><p>tência de programas culturais de prazos médios ou longos, portanto</p><p>não submetidas às intempéries das conjunturas políticas ( Meira,</p><p>2016; Rubim, 2016).</p><p>O SNC busca articular, de modo voluntário, os entes federativos</p><p>– União, estados e municípios – em trabalho colaborativo e comple-</p><p>mentar. O termo da adesão voluntária ao SNC prevê que cada ente</p><p>federativo deva constituir um órgão específico de gestão em cultura</p><p>(secretaria específica, secretaria compartilhada, fundação, direto-</p><p>ria, departamento etc.); um conselho de cultura, instituído em mol-</p><p>des democráticos; e um fundo de apoio à cultura, que estimule o</p><p>desenvolvimento da cultura e possa receber repasses financeiros.</p><p>A implantação do SNC potencializa estruturas e fluxos do cam-</p><p>po da cultura e aumenta de modo significativo a institucionalidade</p><p>cultural. A adesão ao SNC requer a construção de sistemas esta-</p><p>duais e municipais de cultura. Além da conjunção colaborativa dos</p><p>entes federativos, o SNC prevê ainda a integração ou a constituição,</p><p>quando for o caso, de subsistemas, a exemplo do Sistema Nacional</p><p>de Museus e similares.</p><p>Os sistemas articulam atores; racionalizam recursos; viabilizam</p><p>trabalhos colaborativos; facilitam intercâmbios; possibilitam inicia-</p><p>tivas inovadoras; ampliam a envergadura das intervenções; exigem</p><p>gestão e profissionais mais qualificados; demandam normas e roti-</p><p>nas; viabilizam conexões federativas; garantem estruturas institu-</p><p>cionais mais consistentes; enfim, consolidam políticas mais perma-</p><p>nentes e de longo prazo.</p><p>O SNC tem como componentes, em níveis da união, dos es-</p><p>tados e dos municípios: órgãos gestores; conferências; conselhos;</p><p>planos; sistemas de financiamento; sistemas setoriais; sistemas de</p><p>informação e indicadores; comissões intergestores e programa de</p><p>formação na área da cultura (Brasil, 2011).</p><p>A construção do SNC, proposto inicialmente no documento A</p><p>imaginação a serviço do Brasil (Partidos dos Trabalhadores, 2002),</p><p>foi assumida de maneira muito incisiva pela Secretaria de Articula-</p><p>ção Institucional do Ministério da Cultura, na gestão de Márcio Mei-</p><p>ra. No final de 2005, o SNC foi legitimado na I Conferência Nacional</p><p>de Cultura e já contava com a adesão de quase todos os estados e</p><p>mais de mil municípios. Com a saída de Márcio Meira, a construção</p><p>do SNC sofreu atrasos até ser retomada com vigor em 2009 com a</p><p>vinda de José Roberto Peixe para o Ministério da Cultura, e fortale-</p><p>cida em março de 2010 com a realização da II Conferência Nacional</p><p>de Cultura.</p><p>A retomada dos trabalhos implicou em reativar os acordos</p><p>com estados e municípios – hoje envolvendo todos os 26 estados,</p><p>o Distrito Federal e por volta de dois mil municípios –, em deta-</p><p>lhar o arcabouço jurídico do SNC e em conformar atividades que</p><p>começassem a dar efetividade ao SNC. Dentre eles, cabe destacar o</p><p>projeto-piloto de curso em gestão cultural, esboçado por comissão</p><p>de especialistas, que foi realizado em Salvador, com o objetivo de</p><p>iniciar o processo de formação do pessoal qualificado que o SNC</p><p>demanda. A partir desse curso inicial, muitas outras experiências</p><p>foram realizadas, começando a dar substância ao Programa de For-</p><p>mação em Cultura, parte constitutiva do SNC (Rubim; Rubim, 2012;</p><p>Rubim; Rubim, 2014; Costa, 2011, 2014).</p><p>Simultâneo ao curso, outro projeto mapeou as experiências</p><p>existentes no país de formação em políticas, gestão e produção</p><p>culturais. A pesquisa permitiu um diagnóstico do panorama da for-</p><p>mação em cultura: na graduação, na pós-graduação ou mesmo em</p><p>extensão (Rubim; Barbalho; Costa, 2012). O mapeamento sugeriu</p><p>ao Ministério da Cultura tomar a iniciativa de constituir uma Rede</p><p>de Formação em Cultura, associada ao SNC, que reúna o ministé-</p><p>rio e as instituições qualificadas, territorialmente distribuídas, para</p><p>desenvolver o programa de formação e capacitação em cultura. A</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>22</p><p>conformação dessa rede de cooperação proverá o Estado de políti-</p><p>cas mais permanentes no campo da formação. A rede, entretanto,</p><p>ainda não foi constituída.</p><p>Órgãos gestores, coletivos, comissões, sistemas e outras</p><p>instâncias previstas implicam em pessoal (qualificado), em</p><p>especial, dedicado à gestão pública no campo da cultura. A atenção</p><p>com a gestão cultural aparece constantemente reafirmada em</p><p>documentos do ministério, em especial, os dedicados ao PNC e ao</p><p>SNC. O documento ministerial enunciou:</p><p>A formação de pessoal em política e gestão culturais é estraté-</p><p>gica para a implantação e gestão do Sistema Nacional de Cultura,</p><p>pois trata-se de uma área que se ressente de profissionais com co-</p><p>nhecimento e capacitação no campo da gestão das políticas públi-</p><p>cas. (Brasil, 2011: 49-50)</p><p>O texto, depois dessa constatação,</p><p>alargou o espectro da qua-</p><p>lificação também para gestores do setor privado e conselheiros de</p><p>cultura.</p><p>Nas três conferências nacionais de cultura realizadas, nos anos</p><p>de 2005, 2010 e 2013, bem como em conferências setoriais, esta-</p><p>duais, territoriais e municipais, a temática da formação, capacitação</p><p>e qualificação foi sempre uma das principais reivindicações das co-</p><p>munidades culturais. Tais atitudes colocaram em cena a formação,</p><p>componente imprescindível para bem equacionar a institucionali-</p><p>dade.</p><p>DOS ELEMENTOS MATERIAIS, SIMBÓLICOS, CONHECI-</p><p>MENTOS, VALORES, CRENÇAS E PRÁTICAS ENVOLVIDOS</p><p>NO PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO DOS INDIVÍDUOS, DE</p><p>CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA E NA CONSTITUIÇÃO DA</p><p>DIVERSIDADE SOCIOCULTURAL</p><p>Ação Social</p><p>Ação social é um conceito básico da sociologia e designa de</p><p>maneira geral toda ação humana que é influenciada pela consciên-</p><p>cia da situação concreta na qual se realiza e da existência de agen-</p><p>tes sociais entre os quais a ação acontece7.</p><p>Max Weber elegeu o conceito de ação social como elemento</p><p>primordial de sua teoria, definindo-a como a ação com um sentido,</p><p>ou seja, uma intenção e um motivo. Distinguiu, de acordo com os</p><p>possíveis sentidos, as seguintes ações sociais:</p><p>a) racional - ação orientada para um fim determinado.</p><p>b) orientada por valores — ação que é um fim em si mesma.</p><p>c) afetiva — ação motivada pela emotividade de quem a pra-</p><p>tica.</p><p>d) tradicional — ação que se baseia nos usos e nos costumes</p><p>sociais.</p><p>Talcott Parsons, sociólogo norte-americano deste século, de-</p><p>senvolveu o conceito de ação social distinguindo nela três elemen-</p><p>tos indispensáveis: o agente social ou ator, a situação na qual a ação</p><p>se realiza e a orientação da ação. Neste último elemento, à maneira</p><p>de Weber, Parsons percebe um sentido determinado por motiva-</p><p>ções e valores.</p><p>Na teoria marxista, o conceito adquire outro sentido. Marx re-</p><p>laciona a ação social com a práxis e, ao contrário de outros soció-</p><p>logos, distingue valores e motivações da ação propriamente dita.</p><p>7 Costa, Cristina. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. 4º ed. São Pau-</p><p>lo: Moderna, 2010.</p><p>Ação social adquire, portanto, uma maior concretude. Entre as</p><p>ações sociais possíveis, Marx distingue as ações conscientes e as</p><p>alienadas.</p><p>Portanto, embora reconhecendo o condicionamento social da</p><p>ação humana e seu papel como elemento constitutivo da socieda-</p><p>de, o conceito de ação social na sociologia remete ao princípio da</p><p>liberdade e da participação histórica.</p><p>Coerção Social</p><p>Chamamos de coerção social à força da coletividade e da socie-</p><p>dade sobre a vontade individual. Émile Durkheim percebia de modo</p><p>tão categórico a importância dessa orientação da sociedade sobre</p><p>seus membros que chegou a usá-la como elemento definidor de</p><p>fatos sociais. Para ele, fato social é aquele fenômeno que, sendo</p><p>exterior ao indivíduo, a ele se impõe de maneira decisiva. Coerção</p><p>passa a ser a essência da vida social e da oposição entre indivíduo e</p><p>sociedade e entre natureza e cultura.</p><p>Outros autores, entretanto, como Parsons e Clyde Kluckhohn,</p><p>antropólogo norte-americano, estudaram a importância da coerção</p><p>exercida pelos valores introjetados pelo indivíduo e que se manifes-</p><p>tam sob a forma de ideais que ele busca satisfazer. Não existe nesse</p><p>caso nenhuma oposição entre comportamento social e individuali-</p><p>dade. Há na sociedade inúmeros mecanismos de coerção social, os</p><p>quais dizem respeito tanto à maneira como se socializam os mem-</p><p>bros de uma sociedade — introjetando valores e normas — quanto</p><p>aos recursos institucionalizados de controle social. Em toda relação</p><p>social existem mecanismos de punição e recompensa pelos quais</p><p>orientamos nossa ação e a dos outros. Além dessa possibilidade</p><p>de coerção intersubjetiva, há formas institucionalizadas de coerção</p><p>que se tornam mais radicais à medida que o comportamento que</p><p>se queira regular assume uma dimensão mais coletiva. Nesses casos</p><p>os sistemas de controle se tornam mais eficientes e deixam menor</p><p>espaço para a decisão individual.</p><p>A teoria marxista, por sua vez, desenvolveu o princípio pelo</p><p>qual as classes sociais, tendo interesses opostos em relação à vida</p><p>social, disputam o poder a fim de transformar esses interesses em</p><p>ordem social. Nesse caso a coerção social se dá entre a classe domi-</p><p>nante e a classe dominada e é uma das funções do poder existente</p><p>na sociedade.</p><p>Comunicação</p><p>O conceito abrange diferentes processos de interação entre os</p><p>homens, comuns a toda cultura humana e uma das bases para a</p><p>identificação daquilo que nos distingue dos demais animais. Desses</p><p>processos, o uso das linguagens é um dos mais importantes, en-</p><p>tendendo-se a linguagem como um conjunto organizado e limitado</p><p>de signos associados segundo um grupo de regras de combinação,</p><p>determinadas técnicas de expressão que fazem uso de tecnologias</p><p>da comunicação. Do gesto à palavra, as mais diferentes linguagens</p><p>estão incorporadas a esta definição. Elemento básico da vida social,</p><p>a comunicação dá forma à cultura e permite a integração dos seres</p><p>à sociedade.</p><p>O estudo da comunicação se tornou especialmente importante</p><p>na análise da sociedade contemporânea, onde a presença e abran-</p><p>gência dos meios de comunicação têm introduzido elementos no-</p><p>vos na relação entre as pessoas e destas com a realidade que as</p><p>circunda. Nesse sentido, a comunicação implica o estudo dos meios</p><p>de comunicação, das formas de representação simbólica, da ficção</p><p>e das diferentes linguagens midiáticas — a fotografia, o cinema, o</p><p>rádio e a televisão.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>23</p><p>O desenvolvimento da sociedade midiática contemporânea —</p><p>uma sociedade globalizada na qual as relações estão intermediadas</p><p>pelos meios de comunicação de massa — acabou por engendrar</p><p>a formação do campo da comunicação, área de estudos das inte-</p><p>rações simbólicas das relações significativas, da indústria cultural,</p><p>das políticas de comunicações e das possibilidades de participação</p><p>comunicativa do cidadão. De acordo com o conceito de campo de</p><p>Bourdíeu, o estudo da comunicação prevê o exame das relações de</p><p>dominação envolvendo indivíduos, instituições e organizações so-</p><p>ciais.</p><p>Comunidade</p><p>O conceito de comunidade, de enorme importância na socio-</p><p>logia do século XIX, designa os agrupamentos humanos nos quais</p><p>se verifica um grau elevado de intimidade e coesão entre seus</p><p>membros, engajamento moral e urna garantia de continuidade. Os</p><p>sociólogos positivistas dedicaram parte de suas teorias ao estudo</p><p>da comunidade, considerado como o modelo de vida social próprio</p><p>das sociedades agrárias, caracterizado por relações primárias e tra-</p><p>dicionais, influência fundamental da família e pequena flexibilidade</p><p>das relações existentes.</p><p>O filósofo e sociólogo alemão Ferdínand Tõnnies foi um dos</p><p>teóricos que procuraram entendera organicidade da vida comunitá-</p><p>ria assim como fizeram, mais tarde, Donald Pierson (sociólogo nor-</p><p>te-americano) e Robert Maciver (filósofo social e sociólogo inglês).</p><p>De maneira geral atribui-se à comunidade uma forte homogenei-</p><p>dade entre os indivíduos quanto aos seus interesses e às crenças</p><p>que compartilham, além de uma menor diferenciação nas funções</p><p>e status individuais. Corporações, comunas e mosteiros foram estu-</p><p>dados como exemplos de comunidade.</p><p>Para Kingsley Davis, a base da interdependência entre os mem-</p><p>bros de urna comunidade estaria, de alguma maneira, em seu ele-</p><p>mento territorial. A comunidade seria sempre um grupo local, cuja</p><p>integração entre os membros abrangeria todas as instituições exis-</p><p>tentes, consideradas menos importantes ou menos abrangentes do</p><p>que a própria comunidade.</p><p>A comunidade foi estudada também como categoria que se</p><p>define em oposição à de sociedade, que, por sua vez, designa as</p><p>relações que emergiram com o surgimento da indústria e do Estado</p><p>nacional. Ao contrário da comunidade, a sociedade se caracteriza</p><p>pelo predomínio das relações impessoais, pela burocracia, grande</p><p>desigualdade entre os indivíduos, complexa divisão social do tra-</p><p>balho e interdependência entre os membros, baseada em relações</p><p>jurídicas</p><p>e não-naturais ou biológicas.</p><p>Hoje a sociologia volta a estudar a comunidade, não mais como</p><p>forma de organização dos membros de uma sociedade, anterior ou</p><p>em oposição às formas mais individualistas e impessoais de con-</p><p>vivência, mas como relações específicas que integram grupos me-</p><p>nores da sociedade, como os de vizinhança, os grupos religiosos</p><p>e certas associações profissionais. Sociólogos norte-americanos</p><p>identificam na sociedade atual princípios emergentes de relações</p><p>de solidariedade, que representariam novas formas de convivência</p><p>comunitária, baseadas em objetivos comuns e forte sentimento de</p><p>solidariedade.</p><p>A organização das minorias étnicas, raciais e religiosas, o re-</p><p>gionalismo que emerge em meio à sociedade que se globaliza, a</p><p>multiplicação das associações profissionais e regionais, ao lado do</p><p>enfraquecimento dos Estados nacionais, recolocam o estudo da co-</p><p>munidade como elemento essencial da vida social, e não mais como</p><p>uma forma de organização primária e em extinção nas sociedades</p><p>complexas.</p><p>Consenso</p><p>Presente no pensamento sociológico desde Auguste Comte, o</p><p>consenso é o estado em que se encontra uma sociedade caracteri-</p><p>zada por uma forte coesão entre seus membros, fazendo prevalecer</p><p>a interdependência entre eles e suas formas de adequação acima</p><p>dos interesses e das expectativas individuais.</p><p>O consenso resultaria da eficácia dos mecanismos sociais em</p><p>garantir a assimilação de valores, a socialização e o controle social.</p><p>Muitas dessas análises deixaram de estudar, entretanto, os meca-</p><p>nismos artificiais de consenso, típicos dos regimes totalitários, ca-</p><p>pazes de simular comportamentos adequados e uma unanimidade</p><p>ideológica, resultantes unicamente do circunstancial monopólio do</p><p>poder. A deserção e outras manifestações de protesto individual e</p><p>coletivo seriam maneiras de evidenciar a fragilidade de certas for-</p><p>mas de consenso social. A força dos mecanismos repressivos tam-</p><p>bém evidenciaria essa mesma fragilidade.</p><p>Já nas sociedades democráticas, as formas de consenso assu-</p><p>mem muitas vezes o caráter de uma negociação, isto é, sustentam-</p><p>-se em mecanismos de ajuste pelos quais os diversos atores cedem</p><p>parte de seus interesses em favor de situações intermediárias de</p><p>interesse coletivo. O consenso não se verificaria por uma igualdade</p><p>de valores e interesses, mas pela possibilidade de situações de con-</p><p>ciliação. A oposição pacífica entre posições divergentes está pressu-</p><p>posta nessa forma de consenso.</p><p>O consenso foi confundido muitas vezes com os desejos, os</p><p>interesses e os valores da maioria, entendida como maioria esta-</p><p>tística o grupo dominante numa sociedade. Hoje, entretanto, dada</p><p>a pluralidade da sociedade contemporânea, entende-se o consenso</p><p>como a possibilidade de convívio e respeito entre os diversos gru-</p><p>pos constituintes da sociedade.</p><p>Controle social</p><p>Chamamos de controle social aos mecanismos materiais e sim-</p><p>bólicos, disponíveis em uma dada sociedade, que visam eliminar ou</p><p>diminuir as formas de comportamento desviantes individuais ou co-</p><p>letivas. Fazem parte desses mecanismos as formas de controle res-</p><p>ponsáveis pela introjeção de normas e valores sociais e pela sociali-</p><p>zação dos membros de uma sociedade, previstas principalmente na</p><p>educação formal e na informal — escola e meios de comunicação.</p><p>Também configuram formas de controle social as regras que orien-</p><p>tam as recompensas e as punições existentes tanto na sociedade</p><p>como um todo, presentes em seus códigos e constituições, como as</p><p>existentes em cada instituição particularmente.</p><p>Os processos de orientação das expectativas, os modelos so-</p><p>ciais, as mensagens subliminares, os processos de valorização do</p><p>comportamento individual e as regras de ascensão social são alguns</p><p>dos mais eficientes mecanismos de controle social. Quando todos</p><p>esses falham ou quando, em decorrência da ambiguidade natural</p><p>das mensagens sociais, o desvio ocorre, as formas instituídas de</p><p>punição tendem a reafirmar os padrões da sociedade. A perda de</p><p>benefícios e da liberdade, o confinamento, a segregação e a discri-</p><p>minação são alguns dos mecanismos de controle social.</p><p>A possibilidade conformativa dos mecanismos de controle so-</p><p>cial se assenta na interdependência essencial das relações sociais.</p><p>Sem essa reciprocidade, própria da vida social, os agentes sociais</p><p>não teriam poder sobre o comportamento individual. É ela que dá</p><p>o caráter social às reações de um agente sobre as ações desviantes</p><p>de outro.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>24</p><p>Além dos sociólogos, em especial os clássicos, também os psi-</p><p>cólogos procuram entender os mecanismos da psique responsáveis</p><p>pela conformidade do indivíduo aos padrões existentes numa dada</p><p>sociedade. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, identificou o su-</p><p>perego como a entidade na qual estariam armazenados os valores</p><p>sociais, sendo responsável pela censura aos sentimentos e desejos</p><p>individuais desviantes. O superego representaria o mecanismo in-</p><p>ternalizado de controle social.</p><p>Cooperação</p><p>Leakey afirmou que o utensílio mais importante que o homem</p><p>criou não foi o machado, com o qual fere a pedra e fere seu inimi-</p><p>go, mas a sacola, com a qual tomou concreta uma forma própria</p><p>e inteiramente nova de convívio — a cooperação e a distribuição.</p><p>Quando, após a revolução agrícola, o homem elegeu a sacola como</p><p>instrumento essencial às suas atividades, estava estabelecendo for-</p><p>mas perenes de distribuição de funções, alimentos e bens.</p><p>Desde então, a cooperação e a solidariedade têm se tornado</p><p>valor essencial da cultura humana. Podemos identificar nas formas</p><p>de cooperação algumas diferenças. Há a cooperação temporária</p><p>quando emergem em um grupo social formas de coesão e de ajuda</p><p>mútua. Há a cooperação contínua, quando se prevê certa estabili-</p><p>dade nas formas de ação cooperativa. Podemos distinguir também</p><p>comportamentos relativos a uma cooperação direta, quando os</p><p>elementos que atuam em conjunto estão integrados em função de</p><p>um objetivo comum, como no mutirão; ou indireta, quando os in-</p><p>divíduos têm suas ações interligadas por condições estruturais das</p><p>quais são muitas vezes inconscientes. É nesse nível que se dá com</p><p>frequência a cooperação entre o agricultor e o industrial.</p><p>A situação de cooperação é inversa à de oposição e conflito,</p><p>na qual os membros de uma mesma situação veem seus interes-</p><p>ses como excludentes e se colocam como adversários. E, muitas</p><p>vezes, a cooperação é vista como uma forma de enfrentamento dos</p><p>conflitos. A cooperação se dá em situações nas quais os agentes</p><p>se defrontam com oposições mais fortes e violentas do que as que</p><p>vivenciam entre si.</p><p>A cooperativa, como uma forma de produção, esteve presen-</p><p>te nos programas econômicos desde o século XIX e permanece até</p><p>hoje como alternativa em associações nas quais os interesses co-</p><p>muns se sobrepõem aos interesses individuais. Acredita-se que a</p><p>dimensão do movimento cooperativista seja um dos indícios do su-</p><p>cesso alcançado por algumas sociedades, na medida em que revela</p><p>a predominância de relações democráticas sobre as autoritárias.</p><p>Cultura</p><p>Cultura é um termo originariamente relacionado com a antro-</p><p>pologia, mas que assume cada vez maior importância nos estudos</p><p>sociológicos, especialmente no século XX, quando essas duas ciên-</p><p>cias passaram a estudar fenômenos semelhantes e a intercambiar</p><p>ideias e pressupostos teóricos.</p><p>A cultura correspondeu nas ciências sociais novecentistas a</p><p>um conjunto de hábitos, costumes e formas de vida capazes de</p><p>distinguir um povo de outro ou um grupo social de outro. Esteve</p><p>relacionada com os estudos históricos e folclóricos numa acepção</p><p>predominantemente materializada da vida social — a cultura cor-</p><p>responderia, nessa visão, a um conjunto de utensílios e produtos</p><p>em torno dos quais a sociedade se organiza — ferramentas, alimen-</p><p>tos, matérias-primas, técnicas.</p><p>No século XX, com o advento de uma concepção mais simbóli-</p><p>ca da vida humana, o conceito de cultura foi se desmaterializando,</p><p>ganhando conteúdos mais abstratos, até chegar às propostas mais</p><p>contemporâneas que a veem</p><p>como um conjunto de significados</p><p>partilhados por um grupo. O fenômeno da globalização, tornando</p><p>os hábitos de vida semelhantes nas mais distantes áreas do planeta,</p><p>tem favorecido essa ideia de que a cultura é um conjunto de inter-</p><p>pretações da realidade, como proposto por Clifford Ceertz.</p><p>Essa acepção abstrata da cultura favorece, de certo modo, o</p><p>entendimento mais vulgar do termo que designa a erudição de</p><p>certas pessoas, ou seja, um conjunto de informações que se tem</p><p>acesso por intermédio da educação formal ou informal e que as</p><p>distingue dos demais, portadores apenas de um saber espontâneo</p><p>e aparentemente pouco ilustrado. Esse conceito como se percebe</p><p>nada tem de científico.</p><p>O estudo da comunicação tem levado alguns autores, como</p><p>Néstor Garcia Canclini, a estudarem a cultura midiática, termo que</p><p>aponta para o conjunto de narrativas, experiências e informações</p><p>que é partilhado pela sociedade por meio da mídia. As pesquisas</p><p>mostram que essa cultura vem substituindo as experiências e a in-</p><p>fluência que se obtém com a cultura local, espontânea e imediata.</p><p>Difusão</p><p>Chamamos de difusão ao processo de mudança social por</p><p>meio do qual elementos culturais — valores, crenças e tecnologia</p><p>— passam de uma sociedade a outra. Sabe-se que, desde o início</p><p>da civilização humana, padrões culturais, assim como usos e cos-</p><p>tumes, atravessaram fronteiras e foram incorporados por outras</p><p>sociedades. Foi o que ocorreu, por exemplo, com o arco, a flecha</p><p>e o alfabeto.</p><p>As barreiras para a introdução de padrões culturais estrangei-</p><p>ros em um grupo social são, além das dificuldades regionais, a re-</p><p>sistência e a flexibilidade das sociedades, assim como o preconceito</p><p>que desenvolvem para com o diferente.</p><p>O intercâmbio de padrões existentes entre as sociedades não</p><p>se dá, entretanto, de forma igualitária. As relações desiguais entre</p><p>elas, tais como as estabelecidas pelo colonialismo e o imperialis-</p><p>mo, provocam transformações profundas nas sociedades coloniais,</p><p>extinguindo, de forma impositiva, formas tradicionais de vida pela</p><p>incorporação de novos padrões culturais.</p><p>Os estudiosos do desenvolvimentismo chamam de efeito de-</p><p>monstração ao poder e à atração que o$ padrões culturais dos</p><p>países desenvolvidos exercem sobre as populações dos países em</p><p>desenvolvimento, fazendo com que a absorção de novos hábitos e</p><p>costumes ocorra de forma sistemática e com o mínimo de resistên-</p><p>cia por parte da sociedade receptora ou dependente.</p><p>Há, portanto, aspectos mais importantes do que as barreiras</p><p>culturais e geográficas no estudo da difusão. São questões que di-</p><p>zem respeito à natureza das relações entre sociedades, as quais</p><p>modificam o ritmo, a intenção e a direção das trocas culturais, al-</p><p>terando o processo de assimilação, como é chamado o processo</p><p>de incorporação de novos padrões culturais do ponto de vista das</p><p>sociedades receptoras.</p><p>Divisão Social do Trabalho</p><p>Entende-se por divisão social do trabalho a organização da</p><p>sociedade em diferentes funções, exercidas pelos indivíduos ou</p><p>grupos de indivíduos. Nas sociedades mais simples, predomina a</p><p>divisão social do trabalho baseada principalmente em critérios bio-</p><p>lógicos de sexo e idade. Essa divisão parece decorrer de uma exten-</p><p>são analógica das diferenças naturais de funções entre membros</p><p>de um grupo.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>25</p><p>A partir do momento em que a sociedade se torna complexa,</p><p>em especial quando tem início o desenvolvimento da agricultura,</p><p>a sedentarizarão e o sistema de propriedade privada, surge uma</p><p>divisão social mais complexa, com a criação de novas funções. A in-</p><p>dústria foi sistema produtivo que mais desenvolveu a divisão social</p><p>do trabalho, criando uma imensa gama de funções e atribuições</p><p>diferenciadas.</p><p>Durkheim diferenciava as sociedades nas quais existia a solida-</p><p>riedade mecânica — com uma divisão social do trabalho baseada</p><p>em critérios tradicionais — daquelas em que se verificava a soli-</p><p>dariedade orgânica, como a indústria, onde as diferentes funções</p><p>decorrem de necessidades do sistema produtivo e não da tradição.</p><p>A divisão social do trabalho implica sempre uma divisão não só</p><p>de funções, mas também de privilégios, regalias e poder. Para Marx,</p><p>essa divisão no sistema capitalista industrial é responsável pela alie-</p><p>nação do trabalhador em relação a seu trabalho, na medida em que</p><p>o operário realiza uma tarefa mínima perdendo a noção da riqueza</p><p>que efetivamente produz.</p><p>Estrutura Social</p><p>Em O espírito das leis, Montesquieu já utiliza um tipo de análise</p><p>da sociedade que poderíamos classificar de estrutural-funcional e</p><p>que corresponde à identificação de uma coerência e de uma inter-</p><p>dependência entre os elementos da vida social. Essa correspondên-</p><p>cia entre os diversos elementos da sociedade, entre valores, leis,</p><p>comportamentos e instituições é explicada pela existência desse</p><p>arcabouço que interliga, articula e dá sentido aos diversos compo-</p><p>nentes sociais.</p><p>George Murdock, antropólogo norte-americano, encontra na</p><p>estrutura social a origem de toda coerência da vida social. Botto-</p><p>more identifica na estrutura social o complexo das principais insti-</p><p>tuições e grupos sociais. Como eles, inúmeros sociólogos de dife-</p><p>rentes escolas de pensamento desenvolveram conceitos relativos</p><p>à estrutura social, alguns como um sistema integrado de relações</p><p>e cargos, como Parsons, outros como um tecido de foiças sociais</p><p>em interação, como Mannheim. Para Marx, a estrutura social cor-</p><p>responde à estrutura de classes sociais de uma sociedade, sendo</p><p>aquele elemento que define as demais instâncias existentes.</p><p>De qualquer maneira, apesar das diferentes definições e con-</p><p>cepções, a partir das quais a estrutura social aparece como elemen-</p><p>to predominantemente comportamental ou conceituai ou teórico,</p><p>alguns aspectos são constantes. A estrutura social corresponde, nas</p><p>diversas teorias, àquele elemento mais estável da vida social e me-</p><p>nos sujeito às variações circunstanciais. Nesse sentido, a estrutura</p><p>tende a se diferenciar da conjuntura.</p><p>Está sempre presente no conceito de estrutura o princípio da</p><p>reciprocidade e da ordenação, aquele elemento que interliga e dis-</p><p>tribui diferentes componentes da sociedade, sejam eles classes ou</p><p>cargos institucionais. A estrutura seria aquele elemento definidor</p><p>das várias características de uma sociedade, responsável, em últi-</p><p>ma instância, pelos limites de ação tanto dos indivíduos como das</p><p>instituições.</p><p>Por fim, a estrutura tende a aparecer nas diversas teorias em</p><p>oposição à noção de organização social, que corresponderia ao</p><p>princípio dinâmico da vida social, responsável pelo fluxo das ações</p><p>dos membros de um grupo.</p><p>O estudo das novas tecnologias de informação e de comuni-</p><p>cação tem levado alguns autores a ampliarem o conceito de estru-</p><p>tura de modo a incorporar a noção de rede — conjunto de conta-</p><p>tos diretos e indiretos entre agentes, criadores de novas formas de</p><p>sociabilidade, diferentes das relações de parentesco ou de poder.</p><p>A importância dessas relações tem se evidenciado na substituição</p><p>constante das relações tradicionais por novas formas de conexão na</p><p>sociedade contemporânea.</p><p>Função Social</p><p>Função é um conceito tomado da biologia e que procura justi-</p><p>ficar a existência de determinado comportamento por sua contri-</p><p>buição na manutenção do todo no qual se insere. Nesse sentido,</p><p>função se aproxima do conceito de papel social, correspondendo à</p><p>maneira como um agente social participa de um conjunto de rela-</p><p>ções que tem um objetivo determinado.</p><p>Na verdade, muitos cientistas sociais procuram entender as</p><p>funções sociais, não como a interdependência das relações existen-</p><p>tes numa sociedade, mas como a justificativa de existência dessas</p><p>relações. Tal análise, por seu caráter sincrônico e seu princípio con-</p><p>formista, entretanto, pouco acrescenta ao estudo da natureza dos</p><p>fenômenos sociais.</p><p>Prevendo a tautologia que o conceito de função poderia trazer</p><p>aos estudos sociológicos, Durkheim distingue nos fatos sociais suas</p><p>causas — estruturais — e suas funções. O estudo genético e o fun-</p><p>cional</p><p>se complementam na teoria durkheímiana.</p><p>As análises funcionalistas se desenvolveram mais na antropo-</p><p>logia, mas os sociólogos estiveram sempre atentos à natureza fun-</p><p>cional dos fenômenos sociais, capaz de explicar ao mesmo tempo</p><p>a interdependência entre diversos setores da sociedade. Spencer,</p><p>Mertori e Gouldner procuraram definir o que é uma função social e</p><p>qual a autonomia das partes em relação ao todo.</p><p>Os sociólogos contemporâneos retomam o conceito de função</p><p>procurando mostrar também a existência de disfunções no interior</p><p>das relações sociais, explicando que certos comportamentos são</p><p>funcionais para certa ordem social e disfuncionais para outra. Pro-</p><p>curando dar às funções sociais uma natureza mais concreta, Par-</p><p>sons procurou entendê-las corno as regras sociais existentes nas</p><p>instituições e nos grupos.</p><p>Grupo Social</p><p>O conceito de grupo vem da matemática, que o define como a</p><p>reunião de elementos que têm pelo menos um aspecto em comum,</p><p>chamado de propriedade associativa.</p><p>Chamamos de grupo social a um conjunto de indivíduos que</p><p>agem de maneira coordenada, autor referida ou recíproca, isto é,</p><p>numa situação na qual cada membro leva em consideração a exis-</p><p>tência dos demais membros do grupo e em que o objetivo de suas</p><p>ações é, na maior parte das vezes, dirigido aos outros.</p><p>Além de agir de forma autorreferente, o homem tem a cons-</p><p>ciência de pertencera um grupo, o que implica interdependência,</p><p>integração e reciprocidade, elementos fundamentais da vida social.</p><p>Podemos identificar no estudo dos grupos sociais os grupas</p><p>primários, tais como a família e a vizinhança, nos quais se observa</p><p>forte envolvimento emocional, atitudes de cooperação e o compar-</p><p>tilhar de objetivos comuns. Os grupos secundários são mais formais</p><p>e menos íntimos e correspondem àqueles grupos formados pelos</p><p>membros de grandes empresas e instituições como o exército.</p><p>Podemos ainda identificar no estudo dos grupos sociais os grupos</p><p>de referência, assim chamados por serem aqueles que servem</p><p>de parâmetro para a ação individual. São seus valores e suas</p><p>expectativas que ordenam os padrões de comportamento.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>26</p><p>Habitus</p><p>O conceito de hábito ou habitus foi utilizado na filosofia desde</p><p>Aristóteles procurando evidenciar as categorias que definem a pes-</p><p>soa, mas, que se apresentando no tempo presente, tem suas raízes</p><p>no comportamento passado.</p><p>Desse modo o habitus se refere a quem o expressa, à lingua-</p><p>gem com a qual se expressa e às propriedades tanto materiais como</p><p>abstratas que o sujeito demonstra possuir e, ao mesmo tempo, ter</p><p>adquirido durante a vida.</p><p>Este é um dos conceitos basilares da sociologia desenvolvida</p><p>por Pierre Bourdieu, com o qual ele procura designar e compreen-</p><p>der as estruturas sociais da subjetividade, formadas a partir das</p><p>condições de nascimento e ao longo da vida adulta. Além da for-</p><p>mação da subjetividade, o habitus é responsável pela forma como</p><p>as instituições sociais, os valores e as relações são introjetados pe-</p><p>los indivíduos. Fazem parte do habitus a forma de perceber, sentir,</p><p>fazer, pensar e representar incorporadas, de maneira geralmente</p><p>inconsciente, pelos agentes sociais.</p><p>O habitus tem o poder de definir a individualidade e de garan-</p><p>tir certa persistência de nossa maneira de ser no decorrer da vida,</p><p>sendo o elemento primordial de nossa unidade. Bourdieu entende</p><p>o papel das circunstâncias e das posições sociais na constituição de</p><p>nossos hábitos, bem como a possibilidade de haver semelhança de</p><p>tendências em grupos que compartilham circunstâncias históricas,</p><p>como as classes sociais, por exemplo. Mas, ao lado desse comparti-</p><p>lhamento das formas de ser, o autor concebe o habitus como uma</p><p>singularidade — a forma particular pela qual certas tendências se</p><p>organizam compondo o indivíduo.</p><p>Ideologia</p><p>Vocábulo criado para designar, no século XVIII, a ciência que</p><p>deveria estudar os fenômenos mentais. Em Karl Marx, entretanto,</p><p>o conceito adquire novo significado, designando a falsa consciência</p><p>que os indivíduos manifestam acerca da realidade que os circunda,</p><p>em razão das distorções provocadas pela posição que ocupam na</p><p>estrutura de classes sociais. A ideologia transforma-se, então, numa</p><p>construção simbólica e valorativa que, em defesa de uma ordem so-</p><p>cial, expressa uma visão de mundo relativa aos interesses das dife-</p><p>rentes classes sociais. Segundo Marx, apenas o proletariado, como</p><p>classe revolucionária, poderia desenvolver uma ideologia capaz de</p><p>apreender a realidade objetiva.</p><p>Com Karl Mannheim, estudioso da sociologia do conhecimen-</p><p>to, área da sociologia que ajudou a fundar, o conceito de ideologia</p><p>perde essa rigorosa vinculação com a estrutura de classes sociais.</p><p>Por outro lado, o autor admite a possibilidade de os intelectuais</p><p>romperem o véu que encobre ideologicamente a realidade.</p><p>O conceito de ideologia mescla-se, muitas vezes, à noção de</p><p>crença, como um conjunto de ideias que se organizam como siste-</p><p>ma explicativo da realidade, baseado muitas vezes na tradição e na</p><p>cultura e não na verificação objetiva de seus fundamentos. Essas</p><p>crenças guiariam a conduta humana, justificando-a. Esse é prova-</p><p>velmente o sentido que quis dar o compositor brasileiro Cazuza à</p><p>palavra ao criar o refrão da música “Ideologia”: ideologia — eu que-</p><p>ro uma para viver.</p><p>Aprofundando esse viés construído principal mente pelo senso</p><p>comum, ideologia confunde-se também com o conceito de utopia,</p><p>um conjunto de crenças sobre a realidade e a história que, por seu</p><p>alto grau de idealismo, apresentam-se como irrealidades.</p><p>Instituição Social</p><p>O comportamento humano tem por característica a padroniza-</p><p>ção, isto é, sempre que um agente social obtém aquilo que deseja,</p><p>tende a repetir o comportamento adotado em novas situações, as-</p><p>sim como tende a ser imitado pelos que o cercam. A gratificação</p><p>ou a punição decorrente das diversas ações leva à padronização e à</p><p>formação de usos e costumes, e à cristalização das formas de com-</p><p>portamento social, ou à sua institucionalização.</p><p>As instituições sociais são entidades que congregam várias des-</p><p>sas formas de comportamento estabelecidas, organizando-as de</p><p>forma recíproca, hierárquica e com um objetivo comum. A partir</p><p>do momento em que esse comportamento se institucionaliza, ele</p><p>se perpetua por meio de mecanismos próprios de controle social</p><p>existentes em toda instituição. Por essa razão as instituições são um</p><p>importante elemento conservador da vida social ou de reafirmação</p><p>da sociedade, como mostrou Georges Gurvitch, sociólogo russo na-</p><p>turalizado francês.</p><p>A família, a Igreja, o exército e a burocracia do Estado são as</p><p>mais antigas e fortes instituições sociais, dentre as quais a família se</p><p>destaca por seu caráter universal. As instituições econômicas — em</p><p>especial a propriedade — são de fundamental importância no ca-</p><p>pitalismo e responsáveis em grande parte pela estrutura de classes</p><p>existente.</p><p>Resta ainda considerar que, apesar de sua função de manuten-</p><p>ção da sociedade, de manifestação direta da estrutura social, as ins-</p><p>tituições são passíveis de mudança e transformação. Exemplo disso</p><p>é o que vem ocorrendo com a família nas últimas décadas.</p><p>Integração</p><p>A vida social se baseia na tendência de um indivíduo repetir</p><p>determinada ação sempre que, por meio dela, tiver obtido êxito em</p><p>seus propósitos. Baseia-se, ainda, na assimilação desse comporta-</p><p>mento por outros membros do grupo, levando à sua padronização,</p><p>esse é o mecanismo de origem dos usos e dos costumes sociais.</p><p>Por outro lado, a interdependência das relações sociais faz com</p><p>que uma série de ações estejam organizadas e padronizadas de for-</p><p>ma recíproca, formando um conjunto de ações mutuamente refe-</p><p>renciadas, gerando um sentimento coletivo significativo.</p><p>Dizemos então que uma sociedade é integrada quando as</p><p>ações de seus membros se relacionam mutuamente e o êxito do</p><p>comportamento individual, no alcance de seus objetivos, tende a</p><p>gerar formas padronizadas de comportamento.</p><p>Georg Simmel, sociólogo e filósofo alemão, ao analisar a emer-</p><p>gência de</p><p>culturas</p><p>brasileira e latino-americana e seus impactos na democracia, na cidadania e nos Direitos Humanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67</p><p>22. Sobre as formas atuais de organização e de articulação das sociedades em defesa da autonomia, da liberdade, do diálogo e</p><p>da promoção da sociedade democrática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68</p><p>23. Do papel dos organismos internacionais no contexto mundial, suas formas de atuação e seus limites nos contextos nacionais 69</p><p>Bibliografia Livros e Artigos</p><p>1. ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2. ed. rev. ampl.. São Paulo:</p><p>Boitempo, 2009. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83</p><p>2. BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2022 . . . 83</p><p>3. BENEVIDES, Maria Victoria. Direitos humanos: desafios para o século XXI. In: SILVEIRA, Rosa Maria Godoy et al. Educação em</p><p>direitos humanos: fundamentos teórico-metodológicos. João Pessoa: Universitária/UFPB, 2007. p. 335-350 . . . . . . . . . . . . . . 83</p><p>4. DA MATTA, Roberto. O ofício de etnólogo, ou como ter anthropological blues. Boletim do Museu Nacional: Nova Série: An-</p><p>tropologia, Rio de Janeiro, n. 27,p. 1-16, maio 1978 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84</p><p>5. FRASER, Nancy. Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça numa era “pós-socialista”. Cadernos de Campo,</p><p>São Paulo , v. 14/15, p. 231-239, 2006 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84</p><p>6. GALLOIS, Dominique Tilkin. Terras ocupadas? Territórios? Territorialidades? In: RICARDO, Fany Pantaleoni (org.). Terras indí-</p><p>genas & unidades de conservação da natureza: o desafio das sobreposições. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2004. p.</p><p>37-41 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84</p><p>7. GODOI, Emília Pietrafesa. Territorialidade: trajetória e usos do conceito. Raízes: Revista de Ciências Sociais e Econômicas,</p><p>Campina Grande, v. 34, n. 2, p. 8-16, jul-dez 2014. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85</p><p>8. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 12 ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2019 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85</p><p>9. IANNI, Octavio. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85</p><p>10. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. Comedores de terra. In: A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo:</p><p>Companhia das Letras, 2015. p. 334-355 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86</p><p>11. Na cidade. In:A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 421-438. 12. . . . 86</p><p>12. MAIA, Luciano Mariz. Educação em direitos humanos e tratados internacionais de direitos humanos. In SILVEIRA, Rosa Maria</p><p>Godoy. et al. Educação em direitos humanos: fundamentos teórico-metodológicos. João Pessoa: Universitária/UFPB, 2007.</p><p>p. 85 - 102 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86</p><p>13. MAUÉS, Antonio; WEYL, Paulo. Fundamentos e marcos jurídicos da educação em direitos humanos. In SILVEIRA, Rosa Maria</p><p>Godoy et al. Educação em direitos humanos: fundamentos teórico-metodológicos. João Pessoa: Universitária/UFPB, 2007.</p><p>p. 103-116 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87</p><p>14. MORAES, Amaury César (coord.). Sociologia: ensino médio. Brasília: MEC/SEB, 2010 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87</p><p>15. QUINTANEIRO, Tânia; BARBOSA, Maria Lígia de Oliveira; OLIVEIRA, Márcia Gardênia Monteiro de. Um toque dos clássicos:</p><p>Marx, Durkheim e Weber. 2. ed. rev. atual. Belo Horizonte: UFMG, 2017. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87</p><p>16. SCHILLING, Flávia. A sociedade da insegurança e a violência na escola. São Paulo: Summus, 2014 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88</p><p>Publicações Institucionais</p><p>1. SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Currículo paulista: etapa ensino médio. São Paulo: SEDUC, 2020. p. 167–178,</p><p>229–239, 257–262, 271–277, 286–294 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83</p><p>7</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>DA PLURALIDADE DE PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS</p><p>DAS CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS, BEM COMO DE</p><p>SUAS TECNOLOGIAS E METODOLOGIAS CIENTÍFICAS DE</p><p>INVESTIGAÇÃO</p><p>Nascida no século XIX, num contexto marcado por um novo</p><p>tipo de sociedade e por um modo original de pensamento e de</p><p>prática, a sociologia, embora progressivamente reconhecida como</p><p>ciência, fruto da sua consolidação metodológica e de recorte do ob-</p><p>jeto de estudo, parece estar hoje mergulhada numa «crise». Uma</p><p>«crise» a que não é alheio o estado das demais ciências sociais, e</p><p>em certa medida, todo o conhecimento científico (Castells, 1973;</p><p>Santos, 1999; Boudon, 1971), e que data do final do século XIX.</p><p>Esta crise é justificada por duas ordens de razão:</p><p>a) por aspectos intrínsecos à ciência, tais como a possibilidade</p><p>de fundamentar o rigor e a objetividade do conhecimento científi-</p><p>co, ou a aceitação dos limites deste conhecimento;</p><p>b) por um contexto mais geral que tem a ver com o questiona-</p><p>mento das consequências sociais da ciência.</p><p>Expliquemos. A «ciência moderna», ao permitir conhecer as</p><p>relações entre os fenómenos e a sua aplicação na transformação</p><p>do próprio mundo, vai proporcionar um poder tecnológico cada vez</p><p>maior aos seres humanos para intervirem sobre a natureza e o pró-</p><p>prio homem. Assim, quanto maiores os avanços da ciência, maior a</p><p>consciência das limitações do Homem e da dificuldade em controlar</p><p>os avanços da ciência e da tecnologia. Deste modo, o Homem vê-se</p><p>obrigado a fazer opções de mudança, o que implica que se tenha</p><p>consciência dos fundamentos teóricos e dos valores que orientam</p><p>essa mudança.</p><p>Acontece que, desde o final do século XIX, e especialmente</p><p>neste século, a ciência parece ter frustrado muitas das esperanças</p><p>nela depositadas, por exemplo, as relativas à promessa de uma</p><p>sociedade mais justa e livre assente na criação da riqueza tornada</p><p>possível pela conversão da ciência em força produtiva, a qual redun-</p><p>dou na espoliação do terceiro mundo e na criação de um conflito</p><p>Norte/Sul que não cessa de se agravar, de par, aliás, com o aumento</p><p>crescente das desigualdades sociais no interior dos países do norte</p><p>(Santos, 1999). Tal situação levou a uma ruptura de valores e ao</p><p>início de uma crise que, em várias vertentes, se prolonga até ao</p><p>momento atual.</p><p>Hoje, é mais do que evidente o choque entre os paradigmas</p><p>positivista e moderno de ciência. À concepção, defendida durante</p><p>grande parte do século XIX, de uma ciência considerada como um</p><p>conhecimento objetivo permitindo previsões rigorosas, fundada no</p><p>princípio do determinismo, defendendo um modelo mecanicista, e</p><p>baseada no desejo de quantificar todas as leis da natureza, opõe-</p><p>-se à concepção moderna de ciência que defende que esta não é</p><p>mais do que uma</p><p>regras de “boas maneiras” ou de “polidez”, reconhece</p><p>a existência de regras coletivas de formas de agir e chama a esse</p><p>fenômeno de agregação. Schelling vai mais além, analisando a ma-</p><p>neira como ações individuais acabam por se transformarem macro-</p><p>fenômenos simplesmente por sua forma de integração.</p><p>O conceito de integração se opõe necessariamente ao de se-</p><p>gregação, cuja função é justamente isolar setores da vida social e</p><p>parcelas da população de determinada forma de convívio e com-</p><p>plementaridade. Esse fenômeno provoca nos integrantes de um</p><p>grupo social não o sentimento de coesão e interdependência, mas</p><p>de aversão e discriminação.</p><p>Chamamos de grupo integrado, como variável passível de men-</p><p>suração, àquele grupo no qual os diversos membros executam tare-</p><p>fas diferentes, mas com alto grau de interdependência, como uma</p><p>equipe médica, um time de futebol ou uma equipe de Fórmula 1.</p><p>O nível de integração da equipe é elemento fundamental no êxito</p><p>alcançado pelo grupo e pelos indivíduos que o compõem.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>27</p><p>Interação Social</p><p>Podemos dizer que o conceito de ação social é o menor ele-</p><p>mento de análise da sociologia e diz respeito ao caráter social da</p><p>ação individual. Já o conceito de interação social pressupõe, no mí-</p><p>nimo, dois agentes sociais, “ego” e “alter”, como os chama Talcott</p><p>Parsons.</p><p>Temos uma interação social, portanto, quando um sujeito —</p><p>ego — age considerando não apenas as suas condições individuais</p><p>— motivos, valores e fins —, mas também as de outro — alter —,</p><p>com o qual interage e de quem depende o resultado de sua ação.</p><p>Quando um agente interage com outro, desenvolve em relação</p><p>a ele uma série de expectativas a partir das quais orienta sua pró-</p><p>pria ação. Essas expectativas derivam de um conjunto de padrões</p><p>culturais comuns, pelos quais o ego pode prever uma série de pos-</p><p>sibilidades quanto à resposta de alter à sua ação.</p><p>Assim, o estudo da interação social revela aspectos essenciais</p><p>da vida social: a reciprocidade — os atores sociais respondem às</p><p>ações uns dos outros sob a forma de punição ou recompensa; a</p><p>interdependência — a ação de um ator está condicionada à reação</p><p>do outro; a tendência â padronização — uma ação bem-sucedida</p><p>tende a ser repetida e imitada, padronizando-se como forma de</p><p>comportamento.</p><p>Foram as teorias sobre a interação social que levaram também</p><p>ao estudo e reconhecimento da importância da comunicação nas</p><p>relações sociais e do caráter simbólico das interações.</p><p>É preciso lembrar ainda que, embora os estudos procurem</p><p>destacar o caráter recíproco das interações sociais, elas estão</p><p>condicionadas a outros elementos da vida em sociedade, como</p><p>os diferentes status sociais. Assim é que as interações entre ego</p><p>e alter não são igualitárias e envolvem relações de dominação e</p><p>submissão, bem como diferentes possibilidades de recompensa e</p><p>punição.</p><p>Mobilidade Social</p><p>Chamamos de mobilidade social à possibilidade de um indiví-</p><p>duo, sociais. Uma família ou um grupo social modificar sua posição</p><p>social — seu status—numa determinada sociedade. A mobilidade</p><p>implica uma mudança de papel social, função social, atividade eco-</p><p>nômica, poder político e econômico.</p><p>A mobilidade pode ser horizontal, quando transformações es-</p><p>truturais implicam, por exemplo, a modificação de determinadas</p><p>atividades econômicas. A mecanização da produção agrícola provo-</p><p>cou o êxodo rural e a integração de parcelas da população do cam-</p><p>po à vida urbana, não acarretando elevação no padrão de vida. A</p><p>passagem do trabalho agrário para o urbano-industrial representa</p><p>uma mobilidade horizontal.</p><p>Os processos de migração e imigração são exemplos de mobi-</p><p>lidade territorial, não implicando muitas vezes mobilidade vertical</p><p>nem horizontal, ou seja, modificação na participação dos indivíduos</p><p>e dos grupos na hierarquia social.</p><p>A ascensão vertical, ou seja, a possibilidade de os indivíduos</p><p>galgarem posições mais elevadas numa determinada organização</p><p>social, foi amplamente estudada pelos sociólogos norte-america-</p><p>nos, em especial por Pitirim Sorokin, sociólogo e filósofo social. Esse</p><p>autor identificou na vida social uma orientação dos indivíduos, de</p><p>uma posição inicial ou de Iargad3 em direção a uma posição final</p><p>ou de chegada, responsável por grande parte de suas ações e as-</p><p>pirações.</p><p>Os teóricos marxistas criticam o conceito de mobilidade social</p><p>uma vez que identificam nesse fenômeno um mecanismo ideoló-</p><p>gico que visa diminuir o antagonismo entre classes sociais. A fal-</p><p>sa possibilidade de mobilidade social — falsa na medida em que</p><p>é individual e não coletiva — impede que indivíduos e grupos de</p><p>mesma condição social se unam e se organizem a fim de realizar</p><p>mudanças estruturais na sociedade. A mobilidade social seria um</p><p>meio de cooptação que as classes sociais mais elevadas promove-</p><p>riam entre seus subalternos para criar vínculos e a ilusão de uma</p><p>sociedade aberta. A mobilidade social funcionaria, nesses termos,</p><p>como elemento desagregador da mobilização e da organização das</p><p>classes sociais subalternas, criando um espírito competitivo entre</p><p>seus membros.</p><p>Movimentos Sociais</p><p>Chamamos de movimentos sociais a todas as formas de mo-</p><p>bilização de membros da sociedade que têm um objetivo comum</p><p>explícito. Os movimentos sociais são o objeto por excelência da so-</p><p>ciologia dinâmica, permitindo o estudo dos processos sociais e das</p><p>mudanças.</p><p>Quando um indivíduo age em discordância com as regras so-</p><p>ciais de seu grupo, seu comportamento é considerado desviante</p><p>e ele é punido de acordo com as formas estabelecidas. Quando o</p><p>comportamento discordante se propaga e é adotado de forma or-</p><p>ganizada por um grande número de membros, estamos diante de</p><p>um movimento social e da possibilidade de mudança, quer de uma</p><p>instituição quer da estrutura social. As greves, as passeatas, as ocu-</p><p>pações de terras são exemplos de movimentos sociais.</p><p>Na maioria das vezes os movimentos sociais surgem de forma</p><p>não- -coordenada, para irem depois, pouco a pouco, assumindo</p><p>uma forma organizada e estratégica.</p><p>Inúmeras teorias procuram distinguir a natureza dos movimen-</p><p>tos sociais. Alguns são considerados messiânicos, como o de Padre</p><p>Cícero, em Juazeiro, outros carismáticos, por dependerem de forma</p><p>intensa de um determinado líder, como o gandhismo, por exemplo.</p><p>Smelser, por sua vez, distingue os movimentos sociais que procu-</p><p>ram modificar normas daqueles que visam mudar valores, sendo</p><p>difícil, porém, que uma mudança de valores não transforme as nor-</p><p>mas e vice-versa</p><p>Os movimentos sociais também variam conforme a sua ampli-</p><p>tude. Alguns processos reivindicatórios têm o limite da instituição</p><p>na qual ocorrem; outros, entretanto, acabam envolvendo a socieda-</p><p>de como um todo. As greves nos meios de transporte extrapolam,</p><p>por exemplo, o âmbito da instituição que os administra.</p><p>Embora os movimentos sociais sejam basicamente aqueles nos</p><p>quais podemos identificar claramente os objetivos e os valores dos</p><p>membros atuantes e distinguir formas de liderança e de organiza-</p><p>ção, não podemos deixar de considerar como movimentos sociais</p><p>as multidões, estudadas por Herbert Blumer, psicólogo social e</p><p>sociólogo norte-americano. Esse cientista classificou as ações co-</p><p>letivas da seguinte forma: as de tipo casual, como as torcidas de</p><p>futebol; as convencionais, como o público dos grandes shows, e as</p><p>multidões expressivas, como os movimentos de manifestação polí-</p><p>tico-partidária.</p><p>Mudança Social ou Processo Social</p><p>A percepção mais clara que o cientista social tem da realida-</p><p>de quando sobre ela se debruça é a de sua instabilidade e de sua</p><p>permanente mudança. A busca de um padrão teórico capaz de</p><p>explicar o mecanismo de transformação social e de dar conta das</p><p>mais diferentes mudanças ocorridas na sociedade humana foi ob-</p><p>jeto de pesquisa de muitos cientistas. Alguns chegaram a construir</p><p>modelos cíclicos, como Spengler, para quem os diversos momentos</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>28</p><p>históricos das sociedades apresentariam uma dinâmica interna de</p><p>surgimento, maturidade e decadência, à semelhança do que</p><p>ocorre</p><p>aos organismos vivos.</p><p>Muitos sociólogos e historiadores do século XIX acreditaram,</p><p>por outro lado, no evolucionismo, ou seja, no princípio de que toda</p><p>transformação visava ao aprimoramento da espécie humana e das</p><p>formações sociais. As teorias desenvolvimentistas também adota-</p><p>vam postura teórica semelhante.</p><p>Hegel e depois Marx, de maneira diversa, percebiam na so-</p><p>ciedade um movimento dialético entre forças conflitantes, que re-</p><p>sultaria num moto perpétuo de urna dada situação (a tese) a seu</p><p>oposto (a antítese) e finalmente a um novo momento (a síntese).</p><p>As teorias funcionalistas, por sua vez, procuraram explicar as</p><p>mudanças sociais partindo das condições internas de cada socie-</p><p>dade e de suas possibilidades de transformação diante de forças</p><p>de mudança, tais como inovações, modernizações e o contato com</p><p>sociedades diferentes.</p><p>Cientistas estruturalistas analisam as mudanças sociais como</p><p>decorrentes dos limites de ação estabelecidos pela própria estrutu-</p><p>ra social. A partir desses limites, a ação social passa a exigir trans-</p><p>formações estruturais.</p><p>Normas Sociais</p><p>A conformidade da vida social percebida desde seus primeiros</p><p>estudiosos resulta em grande parte de seus mecanismos de inte-</p><p>gração, entre os quais estão as normas e os valores sociais. Embora</p><p>seja difícil distinguir precisamente um conceito de outro, podemos</p><p>dizer que os valores são o objetivo ou o sentido da ação social,</p><p>como o definiu Weber, enquanto as normas são as restrições e as</p><p>coerções às condutas individual e coletiva. Assim, o sucesso é um</p><p>valor social, e o princípio de que uma pessoa deva ser responsável</p><p>pelos atos que pratica, em determinadas situações, é uma norma</p><p>social. Enquanto o valor age internamente nos indivíduos, em sua</p><p>motivação, as normas atuam de forma externa. O aparato legal de</p><p>urna sociedade é um recurso para se fazer cumprir um conjunto de</p><p>regras de conduta socialmente estabelecidas.</p><p>Normas sociais não significam normalidade nem implicam ne-</p><p>nhuma noção universalista de conduta social. São mecanismos que</p><p>asseguram a regularidade da vida social e a existência de suas insti-</p><p>tuições, além de certa reciprocidade nas ações individuais. As nor-</p><p>mas sociais se manifestam de diferentes formas — nos usos e nos</p><p>costumes de uma sociedade, nas formas habituais de convívio que</p><p>agem sobre os indivíduos desde a mais tenra idade. Manifestam-se</p><p>também nos diversos códigos de conduta existentes nas famílias,</p><p>nas agremiações e na sociedade como um todo.</p><p>Assim, cada conjunto de normas tem diferente amplitude na</p><p>sociedade, atingindo parcelas diferentes da população. Enquanto</p><p>as normas que orientam a vida dos escoteiros, por exemplo, res-</p><p>tringem-se a eles, as regras de trânsito são aplicáveis a todos os</p><p>membros da sociedade.</p><p>Como outros elementos da vida social, as normas são dinâmi-</p><p>cas e se alteram no tempo e no espaço. Sua validade é garantida,</p><p>entre; tanto, pelo tempo em que vigoram, pela adesão dos mem-</p><p>bros de uma sociedade e pelas punições e sanções sociais que se</p><p>estabelecem diante das infrações às regras constituídas.</p><p>Estudadas desde os séculos XVII e XVIII por filósofos sociais</p><p>como Rousseau, as normas sociais foram enfocadas de forma mais</p><p>sistemática nas teorias de Durkheim e Ferdinand Tõnnies.</p><p>Organização Social</p><p>Radcliffe-Brown definia a organização social como a ordena-</p><p>ção sistemática de relações sociais e obrigações entre os diversos</p><p>grupos. Broom e Selzníck identificam organização com ordem social</p><p>que se manifestaria em diferentes níveis — interpessoal, grupai e</p><p>em um nível macrossocial, o da ordem social propriamente dita.</p><p>Realmente é possível estudar a organização social como o ele-</p><p>mento responsável pela correspondência das diversas ações sociais</p><p>e por sua reciprocidade, assim como pela maneira como os grupos</p><p>sociais agem para alcançar seus objetivos. Nesse sentido, o concei-</p><p>to de organização é amplo e possibilita as mais diferentes análises,</p><p>que vão da explicação do funcionamento das empresas ao enten-</p><p>dimento de como atuam as diferentes instituições sociais, como o</p><p>exército e a Igreja.</p><p>É possível também analisar a organização social em estreita</p><p>relação com a estrutura social, pressupondo-se entre elas uma</p><p>importante correspondência. Enquanto a estrutura organiza e</p><p>articula as diversas instâncias da vida social, desenvolvendo uma</p><p>ação que tende à estabilidade e à definição da sociedade, a orga-</p><p>nização seria a manifestação concreta e dinâmica dessa estrutura,</p><p>quer em nível interpessoal quer em nível das instituições, como o</p><p>Estado. A organização corresponderia às regras de comportamento</p><p>e a fluidez e integração dos diversos procedimentos previstos por</p><p>uma determinada estrutura sociaI. Nesse sentido, a organização do</p><p>sistema jurídico responsável pela regulamentação do sistema de</p><p>heranças na sociedade capitalista só pode ser compreendida como</p><p>manifestação de uma ordem estrutural capitalista.</p><p>Essa relação entre estrutura e organização elimina da última</p><p>um certo caráter aleatório e ocasional.</p><p>De qualquer maneira, em relação à estrutura, a organização</p><p>social corresponde a um aspecto de ordenação da vida social, mais</p><p>flexível, adaptável e variável, além de possuir também, nas mais di-</p><p>versas teorias, um caráter mais empírico.</p><p>Papel Social</p><p>Papel social é o conjunto de normas, direitos, deveres e expec-</p><p>tativas que envolvem urna pessoa no desempenho de uma função</p><p>junto a um grupo ou dentro de uma instituição. Esse conceito tem</p><p>sua origem no teatro, quando as características e as falas de um</p><p>determinado personagem em uma dada situação dramática são de-</p><p>finidas. O primeiro a utilizar esse conceito no sentido sociológico foi</p><p>Nietzsche, quando destacou o papel dos homens na sociedade de</p><p>seu tempo.</p><p>Os papéis sociais podem ser atribuídos, isto é, designados aos</p><p>indivíduos, independentemente de sua escolha. Os papéis familia-</p><p>res são alguns exemplos dessas atribuições. Ser filho, por exemplo,</p><p>independe de escolha. Chamamos de papéis conquistados ou de</p><p>realização, como os chamava Weber, àqueles que exigem do ator</p><p>decisão e algum tipo de pré-requisito. Aqueles ligados ao desempe-</p><p>nho profissional ou à carreira são dessa ordem.</p><p>Os papéis sociais formam geralmente um conjunto organizado</p><p>e interdependente envolvendo um grande número de atores. São</p><p>os sistemas de papéis que se dispõem, em geral, de forma hierár-</p><p>quica e complementar.</p><p>A divisão social do trabalho também teve como característica</p><p>criar na indústria vastos sistemas de papéis hierarquizados.</p><p>Embora seja um conceito típico das análises microssociológi-</p><p>cas, isto é, análises que procuram estudar determinados grupos</p><p>em suas formas de funcionamento, os papéis sociais, quando gene-</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>29</p><p>ralizados dentro de uma sociedade, podem propiciar importantes</p><p>estudos macrossociológicos, é o caso do patriarcado, por exemplo,</p><p>que envolve a análise de um papel que extrapola o âmbito familiar.</p><p>Os papéis tendem a ser universais, embora sejam desempenha-</p><p>dos por pessoas diferentes. Alguns autores identificam a personali-</p><p>dade individual na maneira própria com que cada um desempenha</p><p>seus papéis. De qualquer forma, um sistema de papéis pressupõe a</p><p>alternância e a substituição dos atores. A integração de uma pessoa</p><p>nos papéis que assume depende dos processos institucionalizados</p><p>ou informais de socialização.</p><p>Chamamos conflitos de papéis quando as normas e as expecta-</p><p>tivas relacionadas aos diversos papéis de um ator são conflitantes e</p><p>exigem dele ações divergentes. Por exemplo, a fidelidade à família</p><p>pode exigir de um ator o desrespeito aos seus deveres como cida-</p><p>dão e assim por diante.</p><p>Raiph Linton, Thomas Merton e Talcott Parsons são alguns dos</p><p>sociólogos que se dedicaram ao estudo dos papéis sociais.</p><p>Sistema Social</p><p>“Uma ordem em que todas as diferentes partes se sustentam</p><p>mutuamente. “ Assim definiu Condillac o conceito de sistema. Ex-</p><p>traído da biologia e da matemática, onde adquiriu grande capacida-</p><p>de explicativa, o conceito de sistema foi aplicado à vida social</p><p>como</p><p>o elemento capaz de explicar e justificar certa ordem existente.</p><p>Assim como os sistemas biológicos interligam os diversos órgãos,</p><p>realizando uma função necessária e vital, o sistema social seria o</p><p>mecanismo que integraria de forma interdependente as diversas</p><p>instâncias sociais, em função de objetivos comuns e de sobrevivên-</p><p>cia do todo social.</p><p>Ligado aos princípios de estabilidade e desenvolvimento, o sis-</p><p>tema aparece muitas vezes na sociologia como o elemento expli-</p><p>cativo de formas de comportamento e aspectos não-desejáveis da</p><p>vida social, representando uma racional idade extra individual ou</p><p>extra institucional. Consciente da utilização ideológica do concei-</p><p>to de sistema, a sociologia moderna abandonou essa noção quase</p><p>teleológica de sistema — para a qual os fins sociais justificam os</p><p>meios — para firmar o princípio da interdependência das partes.</p><p>Nessa ótica, buscou-se desenvolver a ideia de que os sistemas</p><p>apresentam tensões e desequilíbrios e que sua estabilidade é na</p><p>verdade instável, temporária e resultante de forças em oposição. Ri-</p><p>cardo, Malthus e Marx foram alguns dos cientistas que perceberam</p><p>tendências explosivas e destrutivas nos sistemas sociais.</p><p>Assim surgiram classificações em relação aos diversos sistemas</p><p>sociais, considerados abertos ou fechados, flexíveis ou inflexíveis,</p><p>tendo se firmado o princípio de que os sistemas abertos, ou seja,</p><p>aqueles que são permeáveis, adaptáveis e passíveis de transforma-</p><p>ção, são os que mais chances têm de sobreviver.</p><p>Outro importante campo de aplicação do conceito se deu no</p><p>estudo das relações entre a sociedade e o meio natural e o social.</p><p>Essa ideia da interdependência entre a vida social e seu entorno</p><p>— natural e humano —, em nível de tensões e trocas permanen-</p><p>tes, deu outro sentido ao estudo de padrões de comportamento.</p><p>Os processos de imigração, de adoção de determinadas formas de</p><p>exploração econômica passaram a ser vistos numa cadeia de causas</p><p>e consequências mais ampla. É nessa ótica que se estudam também</p><p>as relações internacionais em uma sociedade globalizada e todos os</p><p>ecossistemas desenvolvidos pela ciência contemporânea.</p><p>Socialização</p><p>Chamamos de socialização ao processo pelo qual o indivíduo</p><p>assimila os valores, as normas e as expectativas sociais de um grupo</p><p>ou de uma sociedade. Esse processo, responsável pela transmis-</p><p>são da cultura, é contínuo e se inicia na família quando se realiza</p><p>a chamada “socialização primária”. Depois é assumido pela escola,</p><p>pelo grupo de referência e pelas diferentes formas de treinamento</p><p>e ajuste a que o indivíduo se submete no decorrer de sua existência</p><p>e que caracterizam a socialização secundária.</p><p>Guy Rocher reconhece na socialização aquele mecanismo da</p><p>vida social pelo qual o indivíduo introjeta os valores sociais de ma-</p><p>neira a se tornarem integrantes de sua personalidade, A socializa-</p><p>ção é responsável por desenvolver nos membros de uma sociedade</p><p>gostos, ideias e sentimentos correspondentes à cultura do grupo no</p><p>qual esses indivíduos vão viver.</p><p>A psicopedagogia desenvolveu inúmeros estudos tentando</p><p>desvendar as etapas e os mecanismos pelos quais os indivíduos vão,</p><p>paulatinamente, introjetando valores e formas de comportamento</p><p>adequados. Esses estudos, dos quais salientamos a obra de Piaget,</p><p>consideraram o processo de socialização do ponto de vista uni-</p><p>versal, independentemente da cultura na qual se realiza. Sabe-se,</p><p>entretanto, que a capacidade de aprendizado está condicionada à</p><p>maneira como o indivíduo participa da vida social e à posição que</p><p>ele ocupa na sociedade.</p><p>De maneira geral, a socialização é estudada como elemento de</p><p>conservação da sociedade, de resistência a mudanças e de tradição,</p><p>São inúmeras as teorias que reforçam o papel da socialização na as-</p><p>similação social dos indivíduos. Os sociólogos marxistas, entretan-</p><p>to, reconhecem na socialização a possibilidade de conscientização</p><p>das classes dominadas, criando-se assim as condições necessárias à</p><p>ação revolucionária.</p><p>Pedagogos como Paulo Freire também salientam o papel da</p><p>educação — inclusive a formal — para a mudança e a libertação do</p><p>indivíduo e das classes sociais.</p><p>Status Social</p><p>É o status que define, numa determinada estrutura social, a</p><p>posição que cada indivíduo ocupa na hierarquia de papéis sociais</p><p>estabelecidos. Comumente chamado de posição social, o status é</p><p>um elemento comparativo entre os membros de uma comunidade</p><p>ou de uma instituição, definindo a distribuição de normas, deveres,</p><p>direitos e privilégios para cada um de seus integrantes.</p><p>O status social valoriza e, distingue os indivíduos de um grupo</p><p>social, dispondo-os numa escala de posições: estabelecem entre</p><p>as pessoas relações de dominação, subordinação e dependência.</p><p>Assim, essa forma de distinção passa a ter uma participação funda-</p><p>mental no comportamento dos indivíduos bem como nas relações</p><p>que esses mantêm entre si.</p><p>Os papéis que se encontram no topo de uma estrutura social</p><p>e que correspondem às posições mais elevadas da hierarquia social</p><p>são altamente valorizados na sociedade. Seus integrantes desfru-</p><p>tam de prestígio e poder e desempenham funções de liderança.</p><p>Galgar posições sociais ao longo da vida ou da carreira é um dos</p><p>objetivos de grande parte dos indivíduos de nossa sociedade.</p><p>Alguns status são opcionais, isto é, dependem da concordân-</p><p>cia ou não do indivíduo em assumir certa posição social, como, por</p><p>exemplo, a ocupação de determinados cargos públicos. Outros sta-</p><p>tus são atribuídos e independem da escolha individual. Numa famí-</p><p>lia, por exemplo, ocupar a posição de avô independe da vontade de</p><p>quem a ocupa.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>30</p><p>A permanência dos indivíduos em determinada posição social</p><p>é temporária, existindo em cada sistema de status um conjunto de</p><p>regras que organiza a rotatividade dos indivíduos pelas posições so-</p><p>ciais. Os privilégios que certas posições sociais asseguram aos seus</p><p>ocupantes são uma forma de recompensa àqueles que incorporam</p><p>determinados valores da ordem social e agem em conformidade a</p><p>esses valores. Desse modo, o status como forma de distinção indivi-</p><p>dual funciona também como mecanismo de integração social.</p><p>As regras que determinam a ascensão ou a queda dos indiví-</p><p>duos nas hierarquias sociais, a chamada mobilidade social, revelam</p><p>os valores básicos da sociedade em questão e representam tam-</p><p>bém mecanismos de discriminação social. São essas regras que</p><p>favorecem determinadas minorias sociais discriminadas pelo sexo,</p><p>pela raça ou pela nacionalidade, garantindo-lhes privilégios.</p><p>Ralph Linton e Talcott Parsons foram alguns dos sociólogos que</p><p>desenvolveram estudos sobre os sistemas de status sociais e sua</p><p>função na sociedade.</p><p>Valores</p><p>Se a justificativa da ação humana não se limita à satisfação de</p><p>necessidades de origem biológica, física ou instintiva, o seu senti-</p><p>do deve ser buscado em elementos da vida social e da cultura. A</p><p>sociologia clássica, em Durkheim e Weber, já reconhecia o caráter</p><p>valorativo e significativo da ação humana e sua importância na ex-</p><p>plicação da vida social.</p><p>Valores são os juízos e as avaliações que os indivíduos desen-</p><p>volvem por si mesmos e em grupos e que lhes permitem julgar, es-</p><p>colher e orientar seu comportamento. Para Weber, os valores é que</p><p>dão sentido à ação social, permitindo ao sociólogo a compreensão</p><p>da vida em sociedade.</p><p>Os valores sociais se traduzem na conduta humana por prefe-</p><p>rências, gostos e atitudes pelos quais os agentes sociais manifestam</p><p>uma apreciação da realidade. São elementos dos mais importantes</p><p>no processo de socialização pelo qual um indivíduo é assimilado a</p><p>uma cultura.</p><p>Os valores são introjetados ou desenvolvidos nos indivíduos</p><p>desde a infância, época em que a família assume importante pa-</p><p>pel nesse processo. À medida que a pessoa cresce, outros grupos,</p><p>como a escola e os amigos, vão atuando de maneira mais significa-</p><p>tiva na introjeção de novos valores sociais.</p><p>O estudo dos valores sociais revela o reconhecimento de certo</p><p>grau de liberdade da ação humana e a confirmação da pluralidade</p><p>da vida social. Tendo sido muito importantes no desenvolvimento</p><p>da sociologia clássica, para teorias de sociólogos como Tocqueville,</p><p>os valores sociais transformaram-se também em análises de “visões</p><p>de mundo”, crenças, dogmas e paixões.</p><p>A economia, incorporando a noção de valor, procurou entender</p><p>a ação humana em seus meios e fins, identificando os últimos como</p><p>manifestação dos valores sociais. A análise marxista, por sua vez,</p><p>redefiniu o conceito de valor social na medida em que procurou</p><p>analisá-lo como manifestação de interesses particulares, de grupos</p><p>e especialmente de classes sociais. Nesse sentido, os valores sociais</p><p>expressariam uma situação de classe social, cuja prática resultaria</p><p>na satisfação de interesses econômicos e políticos.</p><p>DAS DINÂMICAS DE CIRCULAÇÃO DE POPULAÇÕES,</p><p>VALORES, INFORMAÇÕES, COISAS OU BENS EM RAZÃO</p><p>DE FENÔMENOS NATURAIS, POLÍTICOS, ECONÔMICOS,</p><p>SOCIOCULTURAIS E TECNOLÓGICOS NO CONTEXTO DE</p><p>MUNDIALIZAÇÃO OU GLOBALIZAÇÃO CONTEMPORÂNEA</p><p>A globalização contemporânea tem impulsionado uma intensa</p><p>circulação de populações, valores, informações, coisas e bens em</p><p>diferentes partes do mundo. Esse processo é influenciado por uma</p><p>série de fatores, incluindo fenômenos naturais, políticos, econômicos,</p><p>socioculturais e tecnológicos. Neste texto, exploraremos as dinâmicas</p><p>dessa circulação e suas implicações na contemporaneidade.</p><p>— Fenômenos Naturais</p><p>Os fenômenos naturais desempenham um papel significativo</p><p>na circulação de populações, valores, informações, coisas e bens.</p><p>Desastres naturais, como terremotos, furacões, tsunamis e en-</p><p>chentes, podem resultar em movimentos migratórios forçados, de-</p><p>slocamentos populacionais e transferência de recursos. As pessoas</p><p>afetadas por esses eventos muitas vezes são forçadas a deixar suas</p><p>áreas de origem e buscar refúgio em outras regiões.</p><p>Além disso, a geografia natural também influencia as trocas</p><p>comerciais e culturais entre os países. Portos, rios e rotas marítimas</p><p>desempenham um papel crucial na circulação de mercadorias e in-</p><p>formações, facilitando o comércio internacional e a disseminação</p><p>de ideias e conhecimentos.</p><p>— Fenômenos Políticos</p><p>Os fenômenos políticos têm um impacto significativo na circu-</p><p>lação de populações, valores, informações, coisas e bens. Políticas</p><p>migratórias, acordos comerciais, conflitos armados e decisões gov-</p><p>ernamentais influenciam diretamente a movimentação de pessoas,</p><p>fluxos comerciais, acesso a informações e a circulação de bens.</p><p>Por exemplo, políticas migratórias mais flexíveis e acordos</p><p>de cooperação internacional podem facilitar a migração de tra-</p><p>balhadores, promovendo a diversidade cultural e contribuindo para</p><p>o desenvolvimento econômico. Por outro lado, políticas restritivas</p><p>podem dificultar a mobilidade e gerar tensões sociais.</p><p>— Fenômenos Econômicos</p><p>Os fenômenos econômicos têm um papel central na circulação</p><p>de populações, valores, informações, coisas e bens. A globalização</p><p>econômica, caracterizada pela integração dos mercados e pela lib-</p><p>eralização do comércio, tem impulsionado a circulação de bens e</p><p>serviços em escala global.</p><p>Os investimentos estrangeiros, as cadeias de produção global e</p><p>as práticas de outsourcing têm permitido a circulação de capitais, a</p><p>transferência de tecnologias e a expansão de empresas multinacio-</p><p>nais. Além disso, as desigualdades econômicas entre os países e as</p><p>oportunidades de emprego influenciam os fluxos migratórios, com</p><p>pessoas buscando melhores condições de vida e oportunidades</p><p>econômicas em outras regiões.</p><p>— Fenômenos Socioculturais</p><p>Os fenômenos socioculturais também desempenham um pa-</p><p>pel importante na circulação de populações, valores, informações,</p><p>coisas e bens. A troca de conhecimentos, ideias, práticas culturais e</p><p>valores entre diferentes sociedades promove a diversidade cultural</p><p>e o enriquecimento mútuo.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>31</p><p>A disseminação de valores universais, como direitos humanos e</p><p>liberdades individuais, é um exemplo dessa circulação sociocultural.</p><p>Além disso, as redes sociais, a internet e os meios de comunicação</p><p>contribuem para a disseminação de informações em tempo real,</p><p>permitindo a formação de comunidades virtuais e a mobilização de</p><p>movimentos sociais.</p><p>— Fenômenos Tecnológicos</p><p>Os avanços tecnológicos têm revolucionado a circulação de</p><p>populações, valores, informações, coisas e bens. A facilidade de</p><p>transporte, as comunicações instantâneas e a conectividade global</p><p>permitem que as pessoas se desloquem mais rapidamente e se co-</p><p>muniquem além das fronteiras físicas.</p><p>As tecnologias digitais também têm impacto na circulação de</p><p>informações e na disseminação de valores e ideias. Redes sociais,</p><p>plataformas de streaming, comércio eletrônico e serviços online</p><p>permitem que pessoas e produtos atravessem fronteiras sem bar-</p><p>reiras físicas, criando um ambiente de interconectividade global.</p><p>As dinâmicas de circulação de populações, valores, infor-</p><p>mações, coisas e bens no contexto de globalização contemporânea</p><p>são complexas e interconectadas. Os fenômenos naturais, políticos,</p><p>econômicos, socioculturais e tecnológicos desempenham papéis</p><p>fundamentais nesse processo. Compreender essas dinâmicas é es-</p><p>sencial para uma análise abrangente da sociedade contemporânea</p><p>e para a promoção de relações mais justas, inclusivas e sustentáveis.</p><p>DOS SIGNIFICADOS CONCEITUAIS DE ESPAÇO, TERRI-</p><p>TÓRIO, TERRITORIALIDADE, PAISAGEM E FRONTEIRA E</p><p>DE SUAS OBJETIVAÇÕES POR ATORES E INSTITUIÇÕES</p><p>SOCIAIS EM CONTEXTOS DISTINTOS E ESPECÍFICOS</p><p>O espaço deve ser entendido como “um mediador indispensá-</p><p>vel na análise das relações sociais” (Guerra, 1987, p. 4). A especifi-</p><p>cidade de que é detentor reside na capacidade em induzir “recortes</p><p>próprios e indispensáveis, a partir dos quais se formam situações</p><p>específicas e se exprimem de formas diferentes as relações sociais,</p><p>contribuindo, portanto, para instituir posições de desigualdade</p><p>mas, também, novas relações sociais que se configuram na relação</p><p>com o espaço, ou seja, no uso que dele fazem.” (Guerra, 1987, p. 4)</p><p>Esta reflexão em torno do espaço tem, nos últimos anos, rece-</p><p>bido contribuições de duas correntes fundamentais de pesquisa so-</p><p>ciológica, uma que se denominou Sociologia Espacial e cujo objeto</p><p>de análise incide sobre a materialização do espaço; e a Sociologia</p><p>Urbana, que procura compreender as significações e os efeitos pro-</p><p>vocados pelas concentrações humanas ao nível das relações sociais.</p><p>Enquanto a Sociologia Espacial procura estabelecer “uma arti-</p><p>culação entre uma teoria geral e uma teoria urbana introduzindo na</p><p>questão urbana algumas das grandes problemáticas da teoria geral</p><p>da sociologia” (Guerra, 1987, p. 7), e nalguns casos, entre uma teo-</p><p>ria geral e a cidade, a Sociologia Urbana está perante uma cidade</p><p>já produzida e confronta-se com a descontinuidade entre os con-</p><p>ceitos de base social - que tem a ver com a definição da existência</p><p>de interesses comuns - e de força social - assente na consciência</p><p>desses interesses e na fabricação de meios para os satisfazer (Guer-</p><p>ra, 1987, p. 8).</p><p>Os impasses em que a Sociologia Espacial caiu parecem residir</p><p>nas dificuldades em contornar ou, quiçá, sair da especificidade ma-</p><p>terial do espaço e da influência que este exerce sobre as relações</p><p>sociais. Por outro lado, as dificuldades em construir um corpo con-</p><p>ceptual específico prendem-se com a relação que mantém com o</p><p>espaço conceptual da sociologia geral, que destrói a especificidade</p><p>e a própria identificação do espaço enquanto objeto sociológico e</p><p>possuidor de identidade própria.</p><p>Por sua vez, a Sociologia Urbana teve, desde o seu nascimen-</p><p>to, na corrente culturalista da Escola de Chicago, um objeto teóri-</p><p>co especificamente urbano, partindo do pressuposto que o espaço</p><p>urbano é detentor de características próprias, que constrange ou</p><p>incentiva determinados comportamentos urbanos.</p><p>As duas perspetivas em presença, que partem de valorizações</p><p>diferentes sobre os processos de produção e apropriação social do</p><p>espaço urbano, são unânimes ao pressupor</p><p>que “o espaço é um ele-</p><p>mento de mediação indispensável, a partir do qual se criam situações</p><p>particulares e se exprimem estruturas sociais.” (Guerra, 1987, p. 20)</p><p>O espaço não é algo abstrato. Também não é uma página em</p><p>branco sobre a qual são inscritas as ações desenvolvidas pelos gru-</p><p>pos e pelas instituições. É, acima de tudo, um espaço social produ-</p><p>tor de relações sociais e que contribui para que as desigualdades e</p><p>os interesses sociais sejam institucionalizados.</p><p>A Sociologia Urbana: Seu Desenvolvimento Teórico</p><p>A Sociologia Urbana está muito longe de possuir uma estrutu-</p><p>ra científica unitária e a sua já longa história não pode, nem deve</p><p>ser apresentada como um mero repositório acumulado de conhe-</p><p>cimentos teóricos e de estudos empíricos realizados ao longo de</p><p>décadas, e que convergem para a formação de corpo orgânico da</p><p>disciplina.</p><p>Seria, por outro lado, extremamente simplista afirmar que, em-</p><p>bora a Sociologia Urbana esteja atenta a um conjunto de fenóme-</p><p>nos sociais alvo de uma definição unívoca, existe no seu interior um</p><p>número definido de paradigmas alternativos, cabendo a cada um</p><p>uma interpretação diferente em relação aos restantes.</p><p>O que na realidade se verifica no âmbito da Sociologia Urbana</p><p>é um acervo heterogéneo de conceitos, de resultados de pesquisas</p><p>empíricas, que se mostram diversificados e diferentes na medida</p><p>em que são o produto de questões e de problemas que foram for-</p><p>mulados de modo diferente.</p><p>Esta diferença sobre o modo de pensar os problemas está in-</p><p>timamente relacionada com um conjunto de aspetos: os contextos</p><p>nacionais em que decorrem, os momentos historicamente distintos</p><p>que produzem os debates e os problemas sociais e territoriais que</p><p>decorrem em formações sociais e culturais diferentes e nem sem-</p><p>pre passíveis de comparação.</p><p>No que se refere às tradições teóricas que se podem encontrar</p><p>no seio da Sociologia Urbana, Alfredo Mela (1999) propõe duas,</p><p>que no seu entender se apresentam parcialmente diferentes:</p><p>a) a tradição teórica norte-americana, partilhada com acentua-</p><p>ções específicas pelos sociólogos anglo-saxónicos;</p><p>b) a tradição teórica europeia-continental, detentora de perfis</p><p>específicos, e onde cabem os sociólogos urbanos franceses, italia-</p><p>nos e alemães (cf. Mela, 1999, p. 20).</p><p>A Escola de Chicago</p><p>a) A tradição teórica da Sociologia Urbana norte-americana</p><p>encontra-se intimamente relacionada com a chamada Escola de</p><p>Chicago.</p><p>A Escola de Chicago desempenhou um papel de extrema im-</p><p>portância na consolidação e na confirmação da Sociologia Urbana</p><p>enquanto ramo específico da Sociologia.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>32</p><p>Em 1915, Robert Ezra Park publica no American Journal of So-</p><p>ciology o artigo “The City: Suggestions for the Investigation of Hu-</p><p>man Behavior in the City Environment”, um artigo revelador das</p><p>preocupações que a Escola de Chicago detinha em relação à vida</p><p>urbana e no qual é apresentado um programa de investigação de</p><p>Sociologia Urbana.</p><p>A partir dessa altura, ao longo dos anos vinte e seguintes, de-</p><p>correm na Escola de Chicago dois domínios de investigação:</p><p>O primeiro domínio de investigação desenvolveu um extenso</p><p>trabalho empírico sobre a cultura urbana, tentando determinar a</p><p>especificidade do urbanismo como modo de vida.</p><p>Esses estudos centraram-se sobre os diversos comportamen-</p><p>tos verificados na comunidade urbana, entre a vizinhança, sobre</p><p>a delinquência, sobre a mobilidade intraurbana, a vida nos bairros</p><p>fortemente segregados etnicamente, etc.</p><p>Estes estudos foram realizados por Robert Ezra Park, Ernest</p><p>Burguess, Rodrick McKenzie e principalmente por Louis Wirth, e re-</p><p>presentaram as primeiras análises de Sociologia Urbana.</p><p>O segundo domínio de investigação teve como representantes</p><p>Ernest Burgess e Rodrick McKenzie.</p><p>Enquanto Burguess desenvolveu um conjunto de trabalhos so-</p><p>bre a forma urbana, com recurso à cartografia ecológica, das áreas</p><p>naturais de Chicago, tentando construir uma teoria científica do</p><p>crescimento urbano e da estruturação espacial baseada nas cidades</p><p>norte-americanas, Rodrick McKenzie, incrementou um conjunto de</p><p>trabalhos de cariz etnográfico, que incidiram sobre os vários grupos</p><p>sociais existentes na cidade de Chicago.</p><p>O outro domínio de investigação da Escola de Chicago foi de-</p><p>senvolvido por Rodrick McKenzie, com recurso às técnicas etnográ-</p><p>ficas. Trata-se do lado menos conhecido dentro da Sociologia Urba-</p><p>na, pese embora a sua grande influência se tenha sentido mais ao</p><p>nível da Antropologia Urbana.</p><p>Estas etnografias, que tiveram o seu aparecimento a partir da</p><p>década de vinte, incidiam sobre os vastíssimos aspetos da vida da</p><p>cidade de Chicago e procuraram dar resposta às questões que anos</p><p>antes Robert Ezra Park levantara. Por outro lado, estas etnografias</p><p>apresentavam grandes pormenores da vida urbana da cidade, ao</p><p>mesmo tempo que escolhiam algumas populações-alvo para os</p><p>seus Estudos: os mais desfavorecidos, os desprotegidos e os que</p><p>não se fixavam (cf. Savage & Warde, 2002, p. 11).</p><p>McKenzie procurava demonstrar que a localização no espaço</p><p>não era apenas um produto dos recursos e das funções de cada gru-</p><p>po em termos de atividade na competição, como também estava</p><p>associada a um ciclo ecológico de invasão-competição-sucessão-a-</p><p>comodação, válido não apenas para as atividades e áreas de resi-</p><p>dência, mas também para os grupos étnicos (ethnic succession e</p><p>residential invasion). A diferença entre esses processos e as formas</p><p>naturais de competição (válidas para plantas e animais) residiria na</p><p>capacidade humana de transformar as condições ambientais.</p><p>Ao longo das décadas de quarenta e cinquenta, Amos Hawley,</p><p>ao proceder a uma nova análise da ecologia urbana, reduziu a ênfa-</p><p>se na competição, aumentando a importância da cooperação.</p><p>O modelo de Ernest Burgess foi, contudo, o que tornou a Escola</p><p>de Chicago mais conhecida.</p><p>Este modelo, como já foi referido acima, assentava nos padrões</p><p>do uso do solo da cidade de Chicago, procurando configurar os pa-</p><p>drões básicos de segregação social nas cidades contemporâneas.</p><p>Baseado em quatro zonas concêntricas, formava uma repre-</p><p>sentação ideal-típica do crescimento da cidade. No meio da cidade</p><p>estava previsto a existência do centro de negócios da cidade. Numa</p><p>zona de transição, já afastada desse centro, uma outra área concên-</p><p>trica caracterizada pela decadência urbana, onde se observava uma</p><p>invasão por parte dos negócios e da indústria.</p><p>Esta situação não se mostrava atrativa para os residentes. En-</p><p>tão aqueles que eram possuidores de alguns recursos económicos</p><p>recorriam à zona residencial dos trabalhadores, ou seja, uma zona</p><p>mais periférica que antecedia os subúrbios onde a chamada classe</p><p>média se apresentava em predominância.</p><p>Ao elaborar este modelo, Ernest Burgess quer relevar a impor-</p><p>tância dos processos ecológicos, ou seja, “à medida que as cidades</p><p>se expandem, sucessivas “invasões” ocorrem simultaneamente ao</p><p>extravasar das pessoas daquelas que eram as suas áreas para ou-</p><p>tras, levando à competição entre diferentes comunidades e à alte-</p><p>ração da forma urbana” (Savage & Warde, 2002, p.11).</p><p>É curioso verificar que, quase um século após este modelo</p><p>ter sido apresentado, assiste-se em Portugal, em matéria de</p><p>Planeamento Municipal, a estratégias semelhantes, rompendo com</p><p>um passado onde as periferias sem qualidade eram dominantes em</p><p>torno das grandes cidades. O Planeamento Municipal pressionado</p><p>urbanisticamente pelos agentes imobiliários apresenta nos seus</p><p>territórios zonas destinadas a condomínios fechados, alguns deles</p><p>junto a campos de golfe, etc.</p><p>Os temas-chave, ainda hoje relevantes, que derivam da expe-</p><p>riência da Escola de Chicago, não se referem à teoria ecológica for-</p><p>malizada nem às primeiras versões do método etnográfico urbano,</p><p>mas constituem, antes, três elementos substantivos interrelaciona-</p><p>dos: a sociation, as formas variáveis que esta toma na modernidade</p><p>e, por último, a reforma social.</p><p>Se para a primeira Escola de Chicago a estruturação do espaço</p><p>era vista como um produto da luta dos indivíduos e grupos por re-</p><p>cursos escassos, já para a segunda versão da tradição ecológica a</p><p>distribuição sócio espacial foi entendida como uma adaptação fun-</p><p>cional de cada espaço particular a transformações provocadas na</p><p>sociedade urbana como um todo.</p><p>A sociedade seria então um sistema que, buscando equilíbrio,</p><p>imprimiria funções diversas a cada uma de suas partes.</p><p>Uma transformação em determinada configuração espacial</p><p>representaria uma mudança homeostática das partes daquele sis-</p><p>tema.</p><p>A Sociologia Urbana Britânica</p><p>No Reino Unido, o desenvolvimento da Sociologia Urbana só</p><p>assumiu interesse académico quando esta foi instituída, nos anos</p><p>sessenta do século passado, como matéria lecionada no ensino su-</p><p>perior.</p><p>Todavia, é de realçar que embora se tenha verificado esta en-</p><p>trada tardia no mundo académico, no Reino Unido, tal como nos</p><p>Estados Unidos, havia uma longa tradição ao nível da pesquisa so-</p><p>cial, sobretudo nas questões que lhe são colaterais, ou sejam, as</p><p>questões relacionadas com a natureza, as causas e consequências</p><p>dos problemas urbanos (cf. Savage & Warde 2002, p. 18).</p><p>As preocupações dos analistas sociais de então assentavam nas</p><p>questões da pobreza urbana e no seu recenseamento, na tentativa</p><p>de perceberem quais as causas teóricas que poderiam explicar a po-</p><p>breza nos meios urbanos. Mas, contrariamente ao que poderíamos</p><p>supor, este estilo de trabalho apresentava-se mais próximo, do que</p><p>hoje chamamos de jornalismo de investigação, do que dos métodos</p><p>etnográficos utilizados pela Escola de Chicago.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>33</p><p>De todos estes repórteres do social, distingue-se Henry</p><p>Mayhew, cujos trabalhos, realizados na cidade de Londres, reve-</p><p>laram que a pobreza urbana era devida às baixas remunerações,</p><p>derivadas de crises cíclicas que a produção ligada a muitos ofícios</p><p>manuais apresentava e não, como se supunha, à falta de qualidades</p><p>pessoais intrínsecas aos próprios pobres.</p><p>Na continuação deste tipo de estudos realçam-se os trabalhos</p><p>de Charles Booth e de Benjamin Seebohm Rowntree, que embora</p><p>possuíssem as mesmas preocupações que Henry Mayhew, adota-</p><p>ram, como técnica de recolha de informação, os inquéritos estatís-</p><p>ticos em detrimento da entrevista, técnica predileta utilizada por</p><p>Mayhew.</p><p>Nos trabalhos de Charles Booth realizados já no último quartel</p><p>do século XIX, verifica-se a sua grande preocupação em enumerar</p><p>as causas da pobreza na cidade de Londres, causas essas que são</p><p>estabelecidas a partir da distinção entre os impactos dos hábitos</p><p>individuais e os que estão relacionados com determinados tipos de</p><p>emprego.</p><p>Também em matéria de tradição em pesquisa urbana existem</p><p>diferenças substanciais entre a tradição norte-americana e a britâ-</p><p>nica.</p><p>Os britânicos não atribuíam grande interesse às populações de</p><p>passagem e desenraizadas que apareciam pelas cidades. O seu in-</p><p>teresse era muito maior quando se tratava de questões que envol-</p><p>viam não só os aspetos relacionadas com a pobreza, bem como os</p><p>temas relacionadas com a classe social.</p><p>Deve-se a Charles Booth o desenvolvimento de uma tipologia</p><p>(extremamente complexa) de classes sociais, da qual construiu uma</p><p>geografia social da cidade de Londres. Graças a esse trabalho é que</p><p>Booth é considerado como um dos primeiros sociólogos a demons-</p><p>trar, de modo sistemático, a forma em como a classe social afetava</p><p>não apenas a segregação social urbana, como produzia um maior</p><p>ou menor envolvimento nos aspetos institucionais da vida quoti-</p><p>diana, nomeadamente na atividade religiosa (cf. Savage & Warde,</p><p>2002, p.18).</p><p>Ou seja, na tradição da Escola de Chicago os trabalhos desen-</p><p>volvidos aludiam a importância da classe social para a realçar en-</p><p>quanto força social, ao passo que a preocupação dominante com</p><p>a classe social por parte dos britânicos conduziu a aspetos parti-</p><p>culares que iriam marcar algumas teorias da sociologia urbana no</p><p>Reino Unido.</p><p>O contraste é ainda mais evidente entre a tradição norte-ame-</p><p>ricana e britânica se verificarmos um crescente interesse, por parte</p><p>dos primeiros, em relação às questões relacionadas com a raça e</p><p>a pertença étnica, aspetos que não nutriam grande interesse por</p><p>parte dos estudos urbanos britânicos.</p><p>Registe-se um outro aspeto que pode contribuir para o en-</p><p>tendimento desta originalidade britânica e que se relaciona com o</p><p>facto de existir uma outra tradição da sociologia britânica que, nos</p><p>seus primórdios, se encontrava ligada à British Sociological Society</p><p>fundada em 1903. Um dos principais interesses que desde logo foi</p><p>manifestado por esta sociedade prendia-se com o estudo sobre as</p><p>concentrações urbanas.</p><p>Na altura, a British Sociological Society era possuidora de uma</p><p>linha intelectual proveniente das escolas sociológicas francesas de</p><p>Émile Durkheim e Frédéric Le Play. Todavia, a referência mais im-</p><p>portante para a British Sociological Society era sem dúvida a da es-</p><p>cola de Le Play. Não que Le Play tenha sido um teórico, mas o seu</p><p>grande mérito teria residido no facto de ter centrado a sua atenção</p><p>no papel que a Sociologia deveria desempenhar, enquanto discipli-</p><p>na, nas análises que deveriam privilegiar as relações trinitárias Lo-</p><p>cal, Trabalho e Tradição.</p><p>Por outro lado, Le Play defendia que os sociólogos deveriam</p><p>analisar as situações que são familiares no contexto regional, de</p><p>modo a que se pudesse averiguar a existência de reciprocidades</p><p>entre o meio e a sociedade.</p><p>Este princípio de Frédéric Le Play deixava à Sociologia (e aos</p><p>sociólogos) a tarefa de unir disciplinas que de outro modo se mos-</p><p>travam díspares.</p><p>Decalcando o pensamento de Le Play, a British Sociological So-</p><p>ciety vai considerar que são as cidades vivas, assim como as suas</p><p>regiões, os espaços que reúnem as melhores condições e que de</p><p>uma maneira mais completa, possibilitam a oferta de aspetos dire-</p><p>tamente observáveis da civilização.</p><p>Para Patrick Geddes o inquérito era possuidor de uma maior</p><p>abrangência que os inquéritos por amostragem realizados por Char-</p><p>les Booth, na medida em que continha informação sobre o ambien-</p><p>te natural, a história do local e as atividades desenvolvidas pelos</p><p>seus habitantes.</p><p>Geddes, cuja formação académica original era a Biologia, era</p><p>um homem multifacetado: às vezes era geógrafo, outras vezes so-</p><p>ciólogo, para além de propagandista e educador, tudo isto antes de</p><p>se ter tornado numa referência nas questões do planeamento re-</p><p>gional e urbano.</p><p>Dessa pluralidade de conhecimentos e de formações, surge-lhe</p><p>a ideia de tentar agrupar os conhecimentos das Ciências Naturais,</p><p>da Geografia, da Economia e da Antropologia, e pensou que no seu</p><p>conjunto pudessem ser subsumidos como Sociologia.</p><p>Como educador, conseguiu persuadir vários grupos de pessoas</p><p>a realizar este tipo de inquéritos em vários locais, quer por razões</p><p>de autoeducação e de consciencialização cívica, quer por razões</p><p>meramente científicas.</p><p>Deste apelo resultaram inúmeras recolhas de inquéritos, por</p><p>amadores, em cidades e aldeias do Reino Unido. Estava traçado o</p><p>rumo da Sociologia Urbana britânica.</p><p>A aplicabilidade de métodos de investigação pouco adequados,</p><p>levaria a um descrédito acentuado da Sociologia Urbana no seio dos</p><p>próprios sociólogos; simultaneamente assiste-se ao uso (e abuso)</p><p>da aplicação não sociológica do inquérito social por parte dos pla-</p><p>nificadores</p><p>Se para a Escola de Chicago a Sociologia Urbana estaria envol-</p><p>vida com três preocupações gerais: a sociation na cidade moderna,</p><p>a natureza da modernidade, e um projeto político liberal, no Reino</p><p>Unido a situação era substancialmente diferente.</p><p>Para os sociólogos urbanos britânicos o interesse para com a</p><p>sociation era quase inexistente.</p><p>Enquanto para os continuadores da Escola de Chicago as obser-</p><p>vações eram acentuadas no âmbito da vida social da vizinhança, dos</p><p>gangues ou dos grupos sociais informais, a orientação dominante</p><p>britânica estava virada para a aplicação do inquérito às unidades</p><p>familiares, à pesquisa sobre os rendimento</p><p>e despesas das famílias,</p><p>não existindo uma verdadeira preocupação com a importância dos</p><p>vínculos sociais mais alargados.</p><p>Os sociólogos britânicos de então eram levados a considerar</p><p>que as identidades de classe social originavam vínculos sociais, ain-</p><p>da que em ambientes urbanos de algum modo diferentes.</p><p>Os seus interesses tinham mais a ver com as questões decor-</p><p>rentes da vida contemporânea, ao mesmo tempo que também</p><p>mostravam um certo compromisso com a atividade política.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>34</p><p>Por muitas críticas que se tenham produzido às ideias de Pa-</p><p>trick Geddes, o facto é que a Sociologia Urbana britânica nunca</p><p>abandonou a técnica de inquérito para proceder às suas análises</p><p>regionais.</p><p>O tipo de atenção particular que concederam ao método de</p><p>observação à escala regional possibilitou perceber dois aspetos im-</p><p>portantes: a causa pela qual se tornou impossível abstrair os indiví-</p><p>duos do seu meio social mais abrangente; e que a Sociologia, sendo</p><p>uma ciência contextual, não deveria repartir ações sociais por um</p><p>conjunto de subdisciplinas, devendo proceder à integração dos di-</p><p>ferentes aspetos produzidos pela atividade social.</p><p>Como reação ao uso de técnicas etnográficas básicas e de</p><p>observação direta das atividades sociais por parte dos Mass ob-</p><p>servation que as utilizavam, em vez de conduzirem as entrevistas</p><p>com o recurso às grelhas de questões pré-estabelecida, assiste-se</p><p>a uma galopante hegemonia do inquérito dominado pelas ideias</p><p>estatísticas em que o recurso à amostragem aleatória se tornou</p><p>regra.</p><p>Neste período, pese embora haja uma certa semelhança no</p><p>uso das técnicas utilizadas pelos etnógrafos da Escola de Chicago, o</p><p>projeto britânico de uma science ourselves, recebeu pouca atenção</p><p>na Academia britânica.</p><p>O pós-Guerra e o Declínio da Sociologia Urbana Anglo-saxóni-</p><p>ca</p><p>A década de trinta viria a ser a década crucial para a mudança</p><p>de preocupações por parte dos sociólogos urbanos norte-america-</p><p>nos e britânicos.</p><p>Até a essa década, em ambos os países a Sociologia Urbana</p><p>experimentara sérias dificuldades para se afirmar enquanto subdis-</p><p>ciplina da Sociologia.</p><p>Embora se verificasse uma certa preocupação por parte dos so-</p><p>ciólogos em determinar os meios e os contextos produtores de ação</p><p>social, a verdade é que muitos dos temas empíricos da Sociologia</p><p>afloravam matérias de carácter urbano, como os problemas criados</p><p>pela imigração em massa, a pobreza urbana, as patologias sociais,</p><p>os grupos de conflito e os vínculos sociais.</p><p>Posteriormente à década de trinta, os desenvolvimentos verifi-</p><p>cados na Sociologia levaram a que se tivesse verificado uma deslo-</p><p>cação do eixo de interesses da Sociologia pelas questões urbanas e,</p><p>por arrastamento, da sua lógica de contextualização.</p><p>A Sociologia passa, a partir dessa altura, a ser organizada à vol-</p><p>ta de um conjunto distinto de problemas intelectuais.</p><p>A natureza da ordem social passa a constituir o principal pen-</p><p>samento teórico e tal alteração deve-se à publicação, em 1937, da</p><p>obra de Talcott Parsons The Structure of Social Action.</p><p>Nesta obra Parsons apresenta aos sociólogos norteamericanos</p><p>as teorias de Émile Durkheim, de Max Weber e de Vilfredo Pareto,</p><p>que considerou como teóricos centrais no pensamento sociológico.</p><p>Se a obra de Durkheim já tinha merecido vários estudos, o mesmo</p><p>não se passara com as obras de Max Weber e de Vilfredo Pareto.</p><p>Em 1951, Talcott Parsons publica The Social System, onde co-</p><p>locou o problema da ordem social no centro da Sociologia norte-</p><p>-americana.</p><p>Entretanto, na Sociologia europeia eram os estudos sobre as</p><p>desigualdades e sobre o controlo social que iriam continuar a domi-</p><p>nar o espaço da produção sociológica.</p><p>Talvez pela crescente legitimação que o uso dos métodos de</p><p>pesquisa baseados em estatísticas foi alcançando, o carácter predo-</p><p>minantemente contextual que caracterizava a investigação urbana</p><p>foi diminuindo.</p><p>Esta concepção parsoniana de ordem social não existia na anti-</p><p>ga Sociologia norte-americana nem na europeia.</p><p>A única referência à ordem social que se encontra nos estudos</p><p>desenvolvidos pela Escola de Chicago é a sua convicção que a or-</p><p>dem social é inexistente na cidade moderna, existindo apenas uma</p><p>luta descoordenada para obter recursos e pela sobrevivência.</p><p>Este conceito de ordem social era tido como uma questão me-</p><p>ramente política, que pode ser alcançada através de empenhamen-</p><p>to político e não como matéria sociológica.</p><p>A influência do chamado funcionalismo normativo de Talcott</p><p>Parsons viria a refletir o novo clima político que os Estados Unidos</p><p>(e o mundo) viviam após 1945.</p><p>Este novo clima está bem patente no contraste de análises so-</p><p>bre a cidade, enquanto para os membros da Escola de Chicago a</p><p>cidade era apresentada como um espaço fragmentado e caótico,</p><p>um local de agitação social por excelência.</p><p>Ora, na era do planeamento que marcou o pós guerra, das teo-</p><p>rias Keynesianas de crescimento económico, do abafamento dos</p><p>conflitos sociais e das reduções das imigrações massificadas, esta</p><p>ideia catastrófica da cidade estava completamente desajustada.</p><p>Com estas alterações verificadas na sociedade norte-america-</p><p>na, a atividade da Sociologia Urbana foi-se desvanecendo, uma vez</p><p>que os aspetos teóricos até aí considerados pertinentes diminuí-</p><p>ram, assim como as suas próprias convicções políticas viriam a tor-</p><p>nar-se cada vez mais pontuais.</p><p>A Sociologia Urbana norte-americana não morrera. Embora os</p><p>sociólogos urbanos continuassem a trabalhar, o facto é que em ter-</p><p>mos técnicos a pesquisa desenvolvida mostrava-se cada vez mais</p><p>positivista e o predomínio era agora assumido pelo planeamento</p><p>urbano (cf. Savage & Warde, 2002, p.22).</p><p>Por outro lado, a Sociologia Urbana do pós-Guerra viria a resol-</p><p>ver a questão do debate metodológico existente na Escola de Chi-</p><p>cago. Esse debate oscilava entre a utilização do método de estudo</p><p>de caso e o método de inquérito, e a opção tomava foi para este</p><p>último método.</p><p>Embora os estudos etnográficos continuassem a ser realiza-</p><p>dos, a verdade é que o uso da metodologia qualitativa foi perdendo</p><p>prestígio em detrimento da investigação que recorria às metodolo-</p><p>gias quantitativas, baseadas no uso de métodos estatísticos.</p><p>A investigação da Sociologia Urbana orientava-se exclusiva-</p><p>mente para as formas de lidar com os problemas urbanos, vistos</p><p>como matéria de administração e não como algo orientado para a</p><p>reforma política.</p><p>Esta situação alterou-se radicalmente quando em meados dos</p><p>anos sessenta, os desenvolvimentos políticos que se verificaram</p><p>nos Estados Unidos levaram à ocorrência de motins urbanos, per-</p><p>turbando não só a economia norte-americana como o próprio sta-</p><p>tus quo académico. Simultaneamente, foram trazidas para a ribalta</p><p>da análise sociológica um conjunto de questões relacionadas com a</p><p>justiça e a ordem social.</p><p>Os comportamentos políticos conflituosos, até aí sonegados,</p><p>passaram a constituir o alvo das atenções e das preocupações de</p><p>uma Sociologia norte-americana que se tinha acomodado ao stab-</p><p>lishement político e que começa a denotar uma certa inquietação,</p><p>senão mesmo, uma grande insatisfação em relação à teoria produ-</p><p>zida por Talcott Parsons.</p><p>Entretanto, no Reino Unido a sociologia britânica procede a al-</p><p>terações significativas ao nível dos seus métodos de investigação,</p><p>situação que é coincidente com a emergência de novas preocupa-</p><p>ções.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>35</p><p>O interesse que até aí estava localizado no estudo sobre a con-</p><p>textualização dos processos de interação entre os sujeitos e o am-</p><p>biente, passa a dar lugar privilegiado aos estudos sobre a estratifi-</p><p>cação ocupacional.</p><p>O conceito central desenvolvido pela Sociologia britânica do</p><p>pós-Guerra residia na classe social e estendia-se às subdisciplinas</p><p>sociológicas. E é este conceito que vai destronar os então conceitos</p><p>de região e de vizinhança que tinham sido os preferidos nas suas</p><p>análises empíricas.</p><p>Os sinais da mudança fizeram-se ainda sentir, sobretudo du-</p><p>rante a década de setenta,</p><p>quando se verifica um incremento no</p><p>interesse por questões relacionadas com o género e com a raça, no-</p><p>meadamente nas suas vertentes de desigualdades raciais e étnicas,</p><p>assuntos que até aí tinham sido ignorados</p><p>As análises teóricas das práticas sociais procediam agora à sua</p><p>associação com as operações dos sistemas comum, nacional, de</p><p>classe e, posteriormente, de género e raça.</p><p>Ainda durante esta década, o ambiente social envolvente não</p><p>apresentava qualquer relevância para a análise das classes sociais.</p><p>Contemporaneamente, a chamada análise estruturalista assen-</p><p>ta lugar na teoria social através do filósofo marxista francês Louis</p><p>Althusser. Para os estruturalistas a análise das classes sociais deve-</p><p>ria centrar-se na análise das forças que condicionam as posições de</p><p>classe e não sobre os sujeitos.</p><p>Ou seja, o que os estruturalistas vêm propor é uma análise das</p><p>classes sociais relacionada exclusivamente com o processo econó-</p><p>mico, que afetava tanto a natureza do trabalho como as próprias re-</p><p>lações de trabalho, em detrimento duma análise mais ampla e que</p><p>envolve quer o contexto social da vida quotidiana, quer as relações</p><p>sociais e a residência.</p><p>Em conclusão, podemos depreender que uma das preocupa-</p><p>ções comuns, consideradas como cruciais, entre a Escola de Chica-</p><p>go e os primeiros sociólogos urbanos britânicos, se referia ao seu</p><p>sentido de compromisso político.</p><p>Nos dois lados do Atlântico a investigação social continuou a</p><p>estar entrosada com políticas de reformas de tipo socialdemocra-</p><p>ta, apoiando a intervenção do Estado no sentido da promoção dos</p><p>mais desfavorecidos e pelo funcionamento do mercado.</p><p>Enquanto a Escola de Chicago se preocupava com a forma de</p><p>agir para alterar o modo estrutural da cidade de Chicago, mantendo</p><p>para isso um conjunto de relações muito estreitas com a Adminis-</p><p>tração política local, os sociólogos britânicos do período decorrente</p><p>entre as duas grandes guerras mundiais faziam tentativas no senti-</p><p>do de promover as comunidades locais.</p><p>Contrastando com a situação anterior, os sociólogos do pós-</p><p>-Guerra viriam a considerar inteligível a realização de estudos e re-</p><p>latórios à escala nacional, uma vez que consideravam essa metodo-</p><p>logia como a forma mais eficaz para pressionar o governo central.</p><p>Os estudos locais foram abandonados por se ter considerado</p><p>que os mesmos não eram representativos, enquanto a metodologia</p><p>quantitativa com recurso ao inquérito e a investigação realizados à</p><p>escala nacional tinham maior impacto, pelo facto dos vários depar-</p><p>tamentos governamentais manifestarem uma maior consideração</p><p>pelo conhecimento estatístico.</p><p>Chega-se ao final da década de sessenta, em que o campo da</p><p>Sociologia tinha mudado radicalmente.</p><p>Todavia, a Sociologia, ao invés de centrar a sua atenção no es-</p><p>tudo do sociation, tinha voltado a tratar quase exclusivamente as</p><p>questões referentes ao Estado, às classes sociais, às várias organiza-</p><p>ções de interesse comum.</p><p>As questões relacionadas com o contexto urbano e com a or-</p><p>dem moral implícita nas ações quotidianas, foram sendo relegadas</p><p>para um segundo plano. Os estudos à escala nacional sobre as mais</p><p>variadas estruturas sociais, com recurso aos inquéritos aleatórios,</p><p>substituíram os estudos locais sobre as desigualdades e a interação</p><p>social entre os indivíduos.</p><p>Com um horizonte nada propício à Sociologia Urbana, as déca-</p><p>das de setenta e de oitenta viriam a proporcionar uma tentativa da</p><p>sua reconstrução assente nos moldes do quadro teórico revisto das</p><p>Ciências Sociais.</p><p>Dessa tentativa emergiu a nova Sociologia Urbana.</p><p>A Sociologia Urbana da Europa Continental</p><p>A Sociologia Urbana que se desenvolveu na Europa continental,</p><p>não menosprezou os contributos prestados pela Escola de Chicago.</p><p>Contrariamente ao que se possa pensar, as origens da Sociolo-</p><p>gia Urbana europeia remontam a algumas décadas de antecedência</p><p>relativamente aos estudos de Robert Ezra Park.</p><p>Alguns autores, ao defenderem a ideia acima expressa, rele-</p><p>gam para a Sociologia Urbana europeia as reflexões produzidas so-</p><p>bre “as antíteses entre a sociedade tradicional e a moderna e sobre</p><p>a antítese paralela entre as respetivas manifestações espaciais, a</p><p>comunidade rural e a cidade industrial.” (Mela, 1999, p. 21).</p><p>Do debate científico desta Sociologia especializada nasce um</p><p>corpo conceptual e analítico que, mormente se apresente hetero-</p><p>géneo, cria a possibilidade de se proceder à interpretação da cidade</p><p>enquanto lugar onde se manifestam, na sua forma mais original,</p><p>os aspetos sociais e culturais tradicionalmente classificados como</p><p>típicos da modernidade.</p><p>Além disso, pode-se sublinhar como, no nosso contingente, a</p><p>análise sociológica da cidade mantém, no século XX, um contato</p><p>mais estreito com a reflexão filosófica nas suas várias coerentes,</p><p>do historicismo ao marxismo, do estruturalismo à fenomenologia.</p><p>Por outro lado, como já se referiu anteriormente, para além</p><p>de alguns traços comuns, a Sociologia Urbana europeia apresenta</p><p>grandes distinções com base em contextos nacionais – têm origem</p><p>nas diferenças do substrato cultural que são acentuados pelas atitu-</p><p>des políticas contrastastes dos vários países, pelas diversas formas</p><p>que os problemas territoriais e urbanos apresentam em qualquer</p><p>contexto e, também, pelo facto da literatura especializada se frag-</p><p>mentar em função dos âmbitos linguísticos.</p><p>Neste sentido e no que se refere à Sociologia Urbana alemã,</p><p>esta apresenta-se num misto de interesses de índole filosófica, e</p><p>imbuída de aspetos concretos em termos de programação social e</p><p>territorial.</p><p>Em contrapartida, a Sociologia Urbana italiana viria a concen-</p><p>trar-se em temas propostos pela realidade social do país, nomeada-</p><p>mente com as questões dos equilíbrios territoriais entre uma forte</p><p>dinâmica urbana do norte, passando pelas características particula-</p><p>res da chamada Itália do meio-dia até às áreas de industrialização</p><p>difusas, também conhecida por terceira Itália.</p><p>Particularmente rica em história é a Sociologia Urbana france-</p><p>sa, a qual, nos anos sessenta e setenta teve um papel essencial,</p><p>ao consolidar-se no nível internacional através do filão crítico de</p><p>origem marxista e viria a tornar-se, mais tarde, bastante influente</p><p>na potical economy.</p><p>Embora nessas décadas se constate esse filão crítico de matriz</p><p>marxista, não se pode considerar que tenha existido uma escola</p><p>unificada de Sociologia Urbana em França.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>36</p><p>Curiosamente, os autores mais referenciados da denominada</p><p>Escola Francesa não eram franceses. Se excetuarmos Henri Lefeb-</p><p>vre, e Jean Lojkine, David Harvey é britânico e Manuel Castells é</p><p>espanhol.</p><p>Durante as décadas em consideração, muitos foram os investi-</p><p>gadores e de equipas de estudo e de investigação que partilharam</p><p>este espaço de reflexão e de produção teórica e empírica.</p><p>Embora se deva a Henri Lefebvre e a Manuel Castells a visibili-</p><p>dade e organização da Escola, é à rede académica que conseguiram</p><p>estabelecer que se deve a criação da revista Espaces et Sociétés, as</p><p>Mouton book séries e o International Journal for Urban and Regio-</p><p>nal Research</p><p>O grupo é ainda responsável pela fundação da International So-</p><p>ciological Association Research Committee on Urban and Regional</p><p>Development.</p><p>Para a formação deste grupo de sociólogos urbanos contribuí-</p><p>ram três processos de convergência:</p><p>- O processo de renovação intelectual em França, durante a dé-</p><p>cada de sessenta, quando as Ciências Sociais se desprendem da Fi-</p><p>losofia e realizam estudos empíricos sobre as sociedades em pleno</p><p>processo de mudança social. É por essa altura que é fundada a pri-</p><p>meira Escola Francesa de Sociologia, orientada para a investigação,</p><p>no novo campus da Universidade de Nanterre, dirigida por Alain</p><p>Touraine e que contava, como professores, com Michel Croizier,</p><p>Henri Lefebvre e Fernando Henrique Cardoso;</p><p>- Os movimentos sociais de Maio de 1968 que mobilizaram os</p><p>intelectuais e que politizaram todo o trabalho de investigação so-</p><p>cial;</p><p>- A penetração</p><p>das ideias dos movimentos de Maio de 1968</p><p>na elite tecnocrática francesa e na ideologia urbana do Governo. A</p><p>interpretação da crise social dos finais da década de sessenta por</p><p>parte da elite, que a vê como uma crise urbana e que teve, como</p><p>consequência, um mega programa de investigação patrocinado</p><p>pelo Ministério da Habitação e Assuntos Urbanos.</p><p>Foi graças a este programa que grande parte dos sociólogos</p><p>franceses se reconverteu em sociólogos urbanos, dando origem a</p><p>quatro correntes que fluíam no interior da Escola Francesa.</p><p>Essas quatro correntes tinham dentro de si vários investigado-</p><p>res que diferiam dos restantes, mais por uma questão de metodolo-</p><p>gias de abordagem do que por divergências teóricas.</p><p>A primeira corrente identificava-se com Henri Lefebvre e era</p><p>representada por ele mesmo. Desenvolveu o conceito de civilização</p><p>urbana, como uma forma distinta de organização social. Por outro</p><p>lado, concede importância ao espaço como elemento constitutivo</p><p>das relações sociais e como uma expressão da sociedade. Defende</p><p>o princípio do direito à cidade, contra a exclusão social.</p><p>A segunda corrente identificava-se com o marxismo ortodoxo.</p><p>Integravam essa corrente Jean Lojkine, Christian Topolov e Edmond</p><p>Preteceille. Esta corrente coloca em evidência o domínio do capital</p><p>e dos interesses capitalistas sobre o Estado, e é através do Estado</p><p>que se dá a dominação dos interesses capitalistas sobre os proces-</p><p>sos urbanos.</p><p>Estes pensadores seguiam fielmente a teoria do capitalismo</p><p>monopolista de Estado. A obra de David Harvey, Social Justice and</p><p>the City, representou uma síntese entre a lógica capitalista de domi-</p><p>nação e a inspiração lefebvreriana. Depois evoluiu até à análise da</p><p>lógica interna do capital, ou seja, derivou cada expressão do espaço</p><p>e sociedade a partir da lógica interna do capital até às lutas sociais.</p><p>A escola de Michel Foucault constitui a terceira corrente, e es-</p><p>teve organizada em torno de um centro de Investigação, o Centre</p><p>d’Étude, de Recherche et de Formation Institutionnelles (CERFI) e de</p><p>outros jovens investigadores. Enfatizaram a análise da microfísica</p><p>do Poder nas instituições sociais, e estenderam a noção de domi-</p><p>nação ao âmbito da vida quotidiana, delimitada pelas instituições</p><p>urbanas.</p><p>Esta corrente teria sido, talvez, a tendência de investigação</p><p>mais inovadora durante a década de setenta. Foi a única que surgiu</p><p>a partir dos velhos moldes para abordar, sob um ponto de vista crí-</p><p>tico, os novos temas sociais existentes numa nova sociedade.</p><p>A quarta e última corrente, a do marxismo estruturalista, pos-</p><p>suidora da marca de Althusser por via de Nicos Poulantzas, teve Ma-</p><p>nuel Castells como representante. Os seus princípios teóricos serão</p><p>tratados mais adiante quando for abordada a problemática da nova</p><p>Sociologia Urbana.</p><p>É evidente que, com estas quatro correntes, a Escola Francesa</p><p>revigorou internacionalmente a investigação urbana ao:</p><p>- colocar o poder e as relações sociais conflituosas, os valores e</p><p>interesses no centro da dinâmica urbana.</p><p>Esta questão mostra de forma implícita e explicita a tónica que</p><p>a Escola de Chicago põe na sociabilidade e na integração social. Por</p><p>outro lado, encetou a crítica à noção de comunidade. As comunida-</p><p>des, no seu ponto de vista, não só eram conflituosas ao nível local,</p><p>como eram criadas pela luta de classes e pelos projetos políticos</p><p>gerados a um nível social mais amplo;</p><p>- exigir a especificidade do urbano.</p><p>Esta situação viria a forçar o marxismo e as teorias das classes a</p><p>reconhecer um acervo completo de experiências, e que não se en-</p><p>contrava remetido às regras de produção e reprodução como fonte</p><p>potencial de mudança social.</p><p>Foi o princípio do fim do monopólio da classe operária como</p><p>ator da mudança. Sem dúvida que os sociólogos orientados pela</p><p>escola do capitalismo monopolista de Estado, como Jean Lojkine e</p><p>Edmond Preteceille, discordam deste princípio;</p><p>- afirmar a importância do espaço como indicio e força que es-</p><p>trutura a organização social.</p><p>Este projeto tinha uma ligação implícita com a análise mate-</p><p>rialista do enfoque da ecologia humana privado dos pressupostos</p><p>funcionalistas;</p><p>- procurar esforços para ligar a teoria com a investigação em-</p><p>pírica.</p><p>A exceção só poderá ser feita atendendo o esforço puramente</p><p>teórico de Henri Lefebvre. (cf. Castells, 1998).</p><p>Das Críticas ao Modelo à Nova Sociologia Urbana</p><p>Os desenvolvimentos teóricos da Sociologia no período do pós-</p><p>-Guerra viriam a servir de comparação aos processos – teóricos e</p><p>empíricos – desenvolvidos pela Sociologia Urbana, em particular</p><p>nos Estados Unidos. Aí, a produção científica da Sociologia Urba-</p><p>na assentava, ainda, em meras descrições estatísticas referentes às</p><p>condições de vida nos centros urbanos, disponibilizando alguma</p><p>base informativa tendente à resolução de problemas urbanos.</p><p>Outras áreas de interesse, continuaram a ser a exploração das</p><p>questões subjacentes ao crescimento urbano e dos contrastes entre</p><p>a vida urbana e a vida rural.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>37</p><p>Do ponto de vista intelectual, a Sociologia Urbana norte-ameri-</p><p>cana tinha-se esgotado. As críticas devastadoras em torno das suas</p><p>muitas falhas teóricas não se fizeram sentir e provinham de todos</p><p>os lados.</p><p>Dentro desse quadro crítico, a mais célebre e, quiçá, a mais</p><p>original, foi elaborada pelo sociólogo catalão Manuel Castells, em</p><p>1972, com a publicação de La Question Urbaine.</p><p>Nesta obra, para além das críticas que traçou sobre as tradi-</p><p>ções orientadoras da Sociologia Urbana, propôs-se proceder à sua</p><p>reconstrução partindo de novas bases teóricas.</p><p>Hoje, é perfeitamente perceptível que as críticas lançadas por</p><p>Castells coincidiram com o ressurgimento e consequente adoção,</p><p>de modo generalizado, da análise marxista pela Sociologia da Eu-</p><p>ropa ocidental.</p><p>Com o retomar das teorias marxistas assiste-se, mais uma vez,</p><p>às alterações nas orientações da teoria social, situação que se torna</p><p>responsável pela mudança de rumo dos estudos urbanos que pas-</p><p>sam, assim, a ocupar um novo terreno.</p><p>Para os neomarxistas, o que estava em causa em matéria de</p><p>teoria sobre os fenómenos urbanos prendia-se com o isolamen-</p><p>to, em termos analíticos, a que deveriam ser sujeitos os aspetos</p><p>especificamente capitalistas que caracterizam a vida económica,</p><p>colocando a tónica no papel primordial das classes como agentes</p><p>históricos; e rejeitando, ao mesmo tempo, o papel que o Estado</p><p>Providência estava a desempenhar, do ponto de vista social, junto</p><p>das classes trabalhadoras sem, contudo, proceder a uma redistri-</p><p>buição quer da riqueza quer do Poder.</p><p>São, no entanto, os escritos dos autores associados ao filósofo</p><p>neomarxista Louis Althusser aqueles que se viriam a tornar como os</p><p>mais influentes nas intenções, já manifestadas, de desenvolver uma</p><p>nova Sociologia Urbana mais teórica e com análise mais rigorosa.</p><p>Estes escritos viriam a ter grande impacto não só junto dos au-</p><p>tores declaradamente marxistas, como de autores que se reivindi-</p><p>cavam da tradição weberiana, como Peter Saunders que publicou</p><p>em 1981 a obra Social Theory and the Urban Question e na qual</p><p>propunha romper com as linhas teóricas tradicionais em que a So-</p><p>ciologia Urbana se fundava.</p><p>O argumento em que assentava a crítica à postura assumida</p><p>pela Sociologia Urbana, radicava na argumentação althusseriana da</p><p>distinção entre trabalhos científicos e trabalhos ideológicos.</p><p>Esta distinção residiria no facto que estes últimos partiam de</p><p>noções tidas como adquiridas, enquanto os primeiros manifesta-</p><p>vam teoricamente as suas preocupações. O mesmo seria dizer que</p><p>toda a disciplina científica, a Sociologia Urbana incluída, deveria ser</p><p>detentora de um objeto teórico próprio distinto e, ao mesmo tem-</p><p>po, específico.</p><p>Assim sendo, a crítica lançada à Sociologia Urbana assentava</p><p>na argumentação de que toda ela era detentora não de característi-</p><p>cas científicas, mas sim de aspetos ideológicos, uma vez que no seu</p><p>ponto de partida predominavam conceitos de senso comum, tais</p><p>como: cidade, comunidade, problemas urbanos, ou seja, na opinião</p><p>dos críticos, conceitos que a própria Sociologia Urbana se mostrava</p><p>incapaz de fundamentar teoricamente (cf. Savage & Warde, 2002,</p><p>p.28).</p><p>O problema que emerge é deveras delicado. Procurasse saber</p><p>qual o objeto teórico, distinto e específico da Sociologia Urbana.</p><p>Esta situação aparenta ser fácil, todavia as interrogações persis-</p><p>tem. Será a cidade o seu objeto teórico? Se a aceitássemos como</p><p>tal, então surgiriam os mais variadíssimos problemas em torno das</p><p>atividades sociais específicas de que a cidade seria hipoteticamen-</p><p>te detentora e monopolizadora e, por conseguinte, não poderiam</p><p>existir nos espaços não urbanos, ou seja, nos campos.</p><p>Ou, ainda, poder-se-ia aceitar como seu objeto teórico a preo-</p><p>cupação sobre o espaço e a sua pluralidade de influências, nomea-</p><p>damente o impacto que as próprias distribuições do espaço podem</p><p>assumir junto da vida social.</p><p>A aceitação do espaço enquanto objeto teórico da Sociologia</p><p>Urbana, seria aparentemente simples de resolver, não fosse o facto</p><p>de ser excessivamente difícil de demonstrar em que medida esse</p><p>mesmo espaço, considerado como distância física entre os objetos</p><p>naturais e os objetos sociais, poderia conduzir à explicação socioló-</p><p>gica pretendida.</p><p>Não sendo detentora de um objeto teórico e sendo difícil saber</p><p>como construir um que lhe fosse próprio, nada mais restava à So-</p><p>ciologia Urbana senão receber as críticas de Manuel Castells, que se</p><p>lhe apresentavam de uma forma bastante enérgicas.</p><p>Como sociólogo embutido pelo pensamento marxista, Manuel</p><p>Castells tenta o processo de reconstrução da Sociologia Urbana,</p><p>moldando-a à sua análise sobre as contradições existentes nas so-</p><p>ciedades capitalistas.</p><p>Na sua opinião, na fase do chamado capitalismo tardio, as ci-</p><p>dades eram detentoras de um papel específico, que agora já não</p><p>se localizava no processo de produção, mas nos chamados centros</p><p>de consumo coletivo, ou sejam, as variadíssimas formas de serviços</p><p>que o Estado facultava, de modo coletivo, aos cidadãos: a habita-</p><p>ção, os transportes, a assistência na doença, etc.</p><p>Por outro lado, Castells partia ainda de um outro princípio: sen-</p><p>do o consumo coletivo dirigido àqueles que vivem num determina-</p><p>do raio espacial, tal vai implicar que haja um referente espacial por</p><p>parte daqueles que nele se encontram.</p><p>O modo como estes serviços eram prestados constituía, se-</p><p>gundo Castells, a fonte de mobilização política, geradores dos cha-</p><p>mados movimentos sociais urbanos, que procuravam, através da</p><p>contestação aos padrões existentes de consumo coletivo, uma me-</p><p>lhoria das condições de vida urbana.</p><p>Castells propunha-se ir ainda mais longe no seu modelo, quan-</p><p>do defendia que estas contestações se encontravam relacionadas</p><p>com as condições de reprodução da força de trabalho e que estas</p><p>seriam detentoras de um elevado potencial revolucionário, se en-</p><p>tretanto se encontrassem articuladas com os movimentos das clas-</p><p>ses trabalhadoras. O que no fundo Manuel Castells queria demons-</p><p>trar era que os movimentos sociais urbanos estavam intimamente</p><p>relacionados com a luta de classes.</p><p>Parecia, assim, que a contribuição do modelo teórico de Caste-</p><p>lls resolveria os problemas que atormentavam a Sociologia Urbana,</p><p>que passaria agora a deter um objeto teórico – o consumo coletivo</p><p>– e a prática política marxista, na medida em que o próprio marxis-</p><p>mo saía fortalecido pela relação que Castells estabelecera entre os</p><p>movimentos sociais urbanos e a luta de classes.</p><p>O curioso de todo este processo é o facto de que, do ponto</p><p>de vista académico, a análise teórica que era desenvolvida sobre a</p><p>cidade tenha sido feita a partir do princípio de que está se tornava</p><p>no local específico onde o poder laboral era produzido, tornando-se</p><p>assim no emblema da então denominada nova Sociologia Urbana.</p><p>Para fortalecer este novo olhar sobre o papel da cidade, sur-</p><p>ge em 1977 a revista International Journal of Urban and Regional</p><p>Research cujas influências de Castells e do marxismo francês eram</p><p>bem patentes, pese embora houvesse uma certa abertura a outras</p><p>perspectivas teóricas não muito afastadas do marxismo.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>38</p><p>Os anos setenta e parte dos anos oitenta do século passado,</p><p>tornar-se-iam cruciais para a sobrevivência do modelo teórico de</p><p>Castells. No início dos anos oitenta esse modelo era ainda visto</p><p>como algo que iria dar novo fôlego à Sociologia Urbana (cf. Sava-</p><p>ge & Warde, 2002, p.29). Prometia-se, acima de tudo, um quadro</p><p>teórico coerente para a análise das questões urbanas. Castells era</p><p>um acérrimo crítico da análise culturalista, tal qual Louis Wirth es-</p><p>tabelecera, e das teorias deterministas sobre as questões espaciais.</p><p>Propunha, em alternativa, uma teoria que dava todo o ênfase</p><p>à característica variável da produção económica e ao papel que o</p><p>Estado desempenhava nas sociedades contemporâneas, nomeada-</p><p>mente nas formas de organização do consumo coletivo. Por outro</p><p>lado, as questões referentes aos movimentos sociais urbanos mere-</p><p>ceram-lhe particular atenção, na medida em que estes se compor-</p><p>tariam como veículos de contestação e oposição social.</p><p>Mas o decorrer dos anos oitenta iria mostrar-se impiedoso para</p><p>o modelo de Castells e depressa se percebeu que as críticas e os ar-</p><p>gumentos preconizados por Castells levantavam tantos, ou até mais</p><p>problemas, quantos os que resolvia.</p><p>Em termos práticos, os movimentos sociais urbanos (quer os</p><p>de natureza social, quer os de natureza política) dificilmente se</p><p>mostravam conciliáveis com as orientações políticas marxistas, ou</p><p>seja, escapavam um pouco por toda a Europa ao controlo político</p><p>dos partidos comunistas, em detrimento dos novos movimentos</p><p>cívicos e ecológicos que entretanto começavam a emergir no ho-</p><p>rizonte europeu.</p><p>Finalmente e no campo académico, verifica-se que à medida</p><p>que se avançava na década de oitenta, as orientações do ensino</p><p>marxista se reorientaram para os processos de produção, em detri-</p><p>mento do consumo coletivo que Manuel Castells tinha empolgado</p><p>e que foi relegado para um papel insignificante, contribuindo desta</p><p>forma para a decadência e abandono gradual dos pressupostos teó-</p><p>ricos da nova Sociologia Urbana.</p><p>A Emergência da Sociologia do Território</p><p>As Ciências Sociais nem sempre consideraram o território como</p><p>uma variável necessária para a compreensão das realidades sociais</p><p>e económicas. Dir-se-ia que, nos primórdios (cf. Reis, 2005a, p. 1).</p><p>Recentemente, as diversas áreas do conhecimento adotaram o</p><p>território como conceito essencial nas suas análises.</p><p>Com a construção do conceito de território tornou-se possível</p><p>sair da polarização que existia anteriormente, ou seja, entre o rural</p><p>e o urbano, o espaço agrícola e o espaço industrial. Para além deste</p><p>aspeto, do ponto de vista das políticas públicas, torna-se mais fácil</p><p>conferir maior visibilidade à economia local.</p><p>No entanto, o conceito de território é utilizado como uma das</p><p>dimensões das relações sociais, enquanto na verdade, o território é</p><p>multidimensional, constituindo-se numa totalidade.</p><p>Muitos sociólogos trabalham ainda, de modo indistinto, com os</p><p>conceitos de espaço e de território a partir de uma visão unidimen-</p><p>sional, muitas vezes importada de outras áreas do conhecimento.</p><p>Partindo da definição extremamente ampla proposta por Henri</p><p>Lefebvre de que o espaço social é a materialização da existência hu-</p><p>mana (cf. Lefebvre, 1991, p. 102), chega-se à noção que esse mes-</p><p>mo espaço constitui uma dimensão da realidade.</p><p>Esta amplitude conceptual potencializa um conjunto de utiliza-</p><p>ções distintas do espaço de que são exemplos os espaços políticos,</p><p>os espaços culturais, os espaços económicos e os ciberespaços.</p><p>Sendo parte da realidade, o espaço é detentor de um carácter</p><p>multidimensional.</p><p>Mas para se proceder à sua análise conceptual tornasse neces-</p><p>sário defini-lo como sendo detentor de:</p><p>a) composicionalidade, ou seja, o espaço compreende e só</p><p>pode ser compreendido em todas as dimensões</p><p>forma de conhecimento que tende para a obje-</p><p>tividade, uma vez que a ciência ganha cada vez mais consciência</p><p>de ser uma construção do espírito humano, logo, limitada e finita</p><p>como este. Segundo esta concepção, as leis científicas permanecem</p><p>conjecturais e apresentam um carácter probabilístico. Defende-se,</p><p>portanto, nesta concepção, que o objeto de estudo da ciência não</p><p>é independente do cientista e que a distinção entre ciências na-</p><p>turais, ciências exatas e ciências humanas deixa de fazer sentido.</p><p>Boaventura de Sousa Santos vai ainda mais longe. Para este sociólo-</p><p>go, a grande confrontação atual da ciência só pode ser ultrapassada</p><p>com a emergência de um novo paradigma científico: o paradigma</p><p>da pós-modernidade, fundado na ideia de que todo o conhecimen-</p><p>to científico-natural é científico-social, e que todo o conhecimento</p><p>é «local», «total», «auto-conhecimento» e visa «constituir-se em</p><p>senso comum» (Santos: 1999).</p><p>É neste quadro de “mudança radical” no pensamento sobre a</p><p>própria ciência que a sociologia, bem como as demais ciências, so-</p><p>ciais e outras, deve hoje ser pensada.</p><p>EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS</p><p>Ao longo desta reflexão, operaremos com várias categorias</p><p>epistemológicas, pelo que importa, desde já, atendermos ao seu</p><p>significado, por forma de evitarmos desvios em relação ao que pre-</p><p>tendemos transmitir.</p><p>CATEGORIAS EPISTEMOLÓGICAS</p><p>A primeira categoria que se impõe definirmos é exatamente a</p><p>«epistemologia». Trata-se de uma «teoria da ciência» - para mui-</p><p>tos uma filosofia da ciência, para outros, como Boaventura Sousa</p><p>Santos, uma disciplina, tema, perspectiva ou reflexão de estatuto</p><p>duvidoso (Santos, 1989) que surge no segundo terço do século XIX,</p><p>e se consolida já neste século, como resultado do grande movimen-</p><p>to chamado «crítica das ciências», dirigido ao dogmatismo cientista</p><p>típico do positivismo de Comte (século XIX), chamado de «cientis-</p><p>mo» (Blanché, 1976: 16). O seu objeto de estudo respeita à prática</p><p>de vigilância das operações (conceptuais e metodológicas) de uma</p><p>prática científica “com o objetivo de anular a eficácia dos obstácu-</p><p>los epistemológicos que entravam a produção de conhecimentos”</p><p>(Castells, 1975: 10). Precisamente outra categoria epistemológica</p><p>são os «obstáculos epistemológicos», presentes em todo e qual-</p><p>quer processo de produção científica.</p><p>Gaston Bachelard está convicto que “quando se procuram as</p><p>condições psicológicas dos progressos da ciência, chega-se à convic-</p><p>ção de que é em termos de obstáculos que se deve pôr o problema</p><p>do conhecimento científico” (Bachelard: 1981: 165). Efetivamente,</p><p>o nosso conhecimento do real nunca é totalmente objetivo, ele “é</p><p>uma luz que sempre projeta algumas sombras” (Bachelard, 1981:</p><p>165). Na acepção bachelardiana, são exemplos de obstáculos epis-</p><p>temológicos, “as «resistências intelectuais» que bloqueiam ou des-</p><p>naturam a produção de conhecimentos; expressões como «contra</p><p>pensamentos», «trama de erros persistentes», «resistências do</p><p>pensamento ao pensamento», constituem fórmulas (designando</p><p>todos os obstáculos epistemológicos) que sublinham a origem sub-</p><p>jetiva destes obstáculos.”(Castells, 1975:14).</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>8</p><p>Os obstáculos epistemológicos tanto podem ser de ordem pes-</p><p>soal como de ordem social, internos ou externos, e são transver-</p><p>sais à prática científica, pelo que podemos assumi-los como todo</p><p>e qualquer “elemento ou processo extra científico que, intervindo</p><p>no interior de uma prática científica, trava, impede ou desvirtua a</p><p>produção de conhecimentos” (Castells, 1975: 20). Mas, “na forma-</p><p>ção de um espírito científico, o primeiro obstáculo é a «experiência</p><p>inicial, é a experiência situada antes e acima da crítica, que é ne-</p><p>cessariamente um elemento integrante do espírito científico”(Ba-</p><p>chelard, 1981: 170), pelo que fazer ciência é “conviver”, desde a</p><p>primeira hora e permanentemente com desafios à objetividade que</p><p>é preciso ultrapassar.</p><p>Para obviar os obstáculos epistemológicos impõe-se ao inves-</p><p>tigador uma sistemática prática de «vigilância epistemológica», ou</p><p>seja, o cientista deve assumir uma “atitude de vigilância que encon-</p><p>tre no conhecimento adequado do erro e dos mecanismos capazes</p><p>de o engendrar um dos meios de o superar” (Bourdieu, 1999:11).</p><p>Praticando esta vigilância, o pesquisador será capaz de questio-</p><p>nar as suas próprias práticas, incessantemente confrontadas com</p><p>o erro, e, como tal, a validade dos conhecimentos que produz. Ao</p><p>fazê-lo, estará certamente tornar “mais científico” o conhecimento</p><p>a que chega, porque mais “expurgado” de muitos dos obstáculos</p><p>epistemológicos com que se confronta.</p><p>A história da ciência faz-se com a superação de obstáculos con-</p><p>cretos ao avanço da ciência. Em algumas épocas acontece, no seio</p><p>de uma formação ideológica, a irrupção de um processo de produ-</p><p>ção de conhecimentos científicos. Quando isso acontece, estamos</p><p>perante um «corte epistemológico» (Castells, 1975: 12-13), ou,</p><p>como prefere a epistemologia bachelardiana, perante uma «ruptura</p><p>epistemológica »,sendo que esta designa uma descontinuidade</p><p>histórica e epistemológica.</p><p>AS CIÊNCIAS SOCIAIS E A EPISTEMOLOGIA</p><p>As ciências sociais têm em comum o objeto real de estudo,</p><p>uma vez que todas elasse dedicam ao estudo da realidade, «una e</p><p>indivisível», conforme preconizou Georges Gurvitch. Essa unidade</p><p>do objeto real das ciências sociais começou a ser reconhecida com</p><p>base na noção de «facto social total», já que se considera hoje que</p><p>todos os fenómenos ocorridos na sociedade são fenómenos sociais</p><p>totais, isto é, têm implicações simultaneamente em diversos níveis</p><p>em diferentes dimensões do real-social, sendo portanto susceptí-</p><p>veis, pelos menos potencialmente, de interessar a várias, quando</p><p>não a todas as ciências sociais (Nunes, 1984:22).</p><p>Daqui decorre que as ciências sociais implicitamente assumam</p><p>os mesmos modelos epistemológicos - ambos variantes do paradig-</p><p>ma da filosofia idealista do conhecimento -, que Manuel Castells</p><p>considera «obstáculos epistemológicos» e que encarnam em ideo-</p><p>logias teóricas determinadas. As principais são o humanismo histó-</p><p>rico e o positivismo (Castells, 1975: 25-26).</p><p>A metodologia das ciências sociais (nas quais obviamente se</p><p>inclui a Sociologia), realiza a função de garantir a objetividade de</p><p>uma «descoberta» utilizando como critério a maior ou menor proxi-</p><p>midade que esta apresenta relativamente ao modelo de ação desig-</p><p>nado como científico. (Castells, 1975:27). Assumindo que a verdade</p><p>provém do objeto e não tanto do sujeito (o objeto predomina sobre</p><p>a verdade, ou seja, pressupõe-se que o conhecimento reside nos</p><p>factos e é deles extraído através da prática científica) e que os inves-</p><p>tigadores sociais não conseguem trabalhar com indicadores e com</p><p>instrumentos de análise totalmente objetivos/válidos para extrair</p><p>dos dados todo o conhecimento, deixando uma margem de mano-</p><p>bra à interpretação do investigador, o empirismo assume-se como o</p><p>obstáculo dominante nas ciências sociais.</p><p>De qualquer forma, mesmo admitindo que todos os dados</p><p>são «construídos», que todo o conhecimento é «abstração» e</p><p>«construção» (Nunes, 1984), «o empirismo não tem «inimigos» nas</p><p>ciências sociais» (Castells, 1975: 34). Terá, isso sim, e ainda segundo</p><p>Manuel Castells, um «concorrente» representado pelo modelo for-</p><p>malista, nas suas diversas variantes. Em todas elas, se exclui “pelo</p><p>menos, um dos dois momentos necessários a toda a investigação</p><p>científica, seja porque se concebe que a prática científica está limi-</p><p>tada à elaboração de construções especulativas (primeira variante),</p><p>seja porque se considera a reflexão teórica como suficiente, pelas</p><p>virtudes da sua coerência interna e rigor lógico, para suscitar propo-</p><p>sições empíricas tão evidentes que podem dispensar o processo de</p><p>experimentação (segunda variante)” (Castells, 1975:35).</p><p>A EPISTEMOLOGIA DA SOCIOLOGIA</p><p>AS RUPTURAS EPISTEMOLÓGICAS NA SOCIOLOGIA</p><p>O pensamento sociológico é tradicionalmente apresentado</p><p>através do confronto teórico que opõe as suas duas principais cor-</p><p>rentes,</p><p>que o constituem.</p><p>Este sincronismo expressa as propriedades do espaço: é produto e</p><p>é produtor, é movimento e imutabilidade, é processo e resultado, é</p><p>lugar de partida e de chegada;</p><p>b) completude, isto é, o espaço possui a qualidade de ser um</p><p>todo mesmo sendo apenas parte. O espaço pode conter elemen-</p><p>tos da natureza mas também é formado pelas diversas dimensões</p><p>sociais resultantes das relações que os sujeitos estabelecem entre</p><p>si, aos níveis da cultura, da política ou da economia. Por outro lado,</p><p>os sujeitos são produtores de espaços ao estabelecerem relações</p><p>diversas, sendo produtos dessa multidimensionalidade.</p><p>O espaço contém todos os tipos de espaços sociais que resul-</p><p>tam das relações entre os sujeitos, e entre estes e a natureza, trans-</p><p>formando assim esse espaço, alterando as paisagens, construindo</p><p>territórios, regiões e lugares. A complementaridade é a qualidade</p><p>pela qual o espaço social complementa o espaço envolvente (espa-</p><p>ço natural, espaço geográfico), (cf. Fernandes, 2005, p. 274).</p><p>As qualidades que o espaço possui são um autêntico desafio</p><p>aos sujeitos que nele vivem, no sentido da procura sobre a com-</p><p>preensão dos mesmos. Daí que o espaço seja multidimensional,</p><p>pluriescalar ou multiescalar, num processo ativo de complementa-</p><p>ridade, de conflitualidade e de interação.</p><p>Não são raras as vezes em que estudos de análise espacial, so-</p><p>bre as relações sociais ou outras, procedem a leituras e desenvol-</p><p>vem ações intencionais que fragmentam o espaço.</p><p>Este procedimento só pode resultar em análises parciais e in-</p><p>completas, uma vez que restringem as qualidades que compõem e</p><p>completam o espaço.</p><p>O espaço apresenta-se como um conjunto indivisível de siste-</p><p>mas de objetos e sistemas de ações, os quais não podem ser con-</p><p>siderados de modo isolado. Deve, antes de mais, ser considerado</p><p>como um quadro único de análise onde se produz a ação histórica.</p><p>As relações sociais, ao apresentarem-se predominantemente</p><p>produtoras de espaços fragmentados, dicotomizados, unos ou fra-</p><p>cionados, produzem também espaços conflituais.</p><p>Desta produção fragmentada ou fracionada de espaços resulta</p><p>um conjunto de intencionalidades que se produzem ao nível das</p><p>relações sociais. São estas relações as responsáveis pela determi-</p><p>nação dos tipos de leitura e de ação intencional, que esboçam a</p><p>totalidade como se de uma parte se tratasse, ou seja, o espaço na</p><p>sua qualidade completiva, é apresentado como um fragmento ou</p><p>como uma fração.</p><p>Esta decisão é uma ação intencional que vai interagir com uma</p><p>ação receptiva, dando lugar à representação do espaço como frag-</p><p>mento ou fração.</p><p>Constitui-se, portanto, numa forma de poder, que mantém a</p><p>representação materializada e/ou imaterializada do espaço, e que</p><p>é determinada pela intencionalidade e sustentada pela receptivi-</p><p>dade.</p><p>Sem este tipo de relação social o espaço como fração não se</p><p>sustenta.</p><p>A intencionalidade pode ser definida como um modo de com-</p><p>preensão que um grupo, uma nação, uma classe social ou até mes-</p><p>mo um sujeito utiliza para se poder realizar, ou seja, para se mate-</p><p>rializar no espaço, como definiu Henri Lefebvre.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>39</p><p>Portanto, a intencionalidade não é mais do que uma visão do</p><p>mundo, ampla e una, que assume sempre uma forma, um modo de</p><p>ser e de existir.</p><p>É dentro desta lógica que se cria uma identidade. Torna-se</p><p>imperiosa a sua delimitação espacial para que seja possível a sua</p><p>diferenciação e possa ser identificada.</p><p>Constrói-se então uma leitura parcial do espaço que é apre-</p><p>sentada como totalidade, dando origem às leituras etnocêntricas,</p><p>uma vez que todos os povos e comunidades se sentem no centro do</p><p>universo. A parte é transformada em todo e o todo é transformado</p><p>em parte.</p><p>O espaço passa agora a ser compreendido de acordo com a in-</p><p>tencionalidade da relação social que o criou, daí a sua redução a</p><p>uma mera representação unidimensional, e a visão parcial que o</p><p>criou irá ser expandida como representação da multidimensiona-</p><p>lidade.</p><p>A relação social na sua intencionalidade cria uma determinada</p><p>leitura do espaço que, de acordo com o campo de forças em presen-</p><p>ça, pode ser dominante ou não. Através deste processo, criam-se</p><p>as diferentes leituras sócio-espaciais (cf. Fernandes, 2005, p. 276).</p><p>Dessa forma é produzido um espaço geográfico e ou social es-</p><p>pecífico: o território. O território é o espaço apropriado por uma</p><p>determinada relação social que o produz e o mantém a partir de</p><p>uma forma de Poder. Esse Poder, já foi referido anteriormente, é</p><p>dado pela receptividade.</p><p>Por outro lado, o território é simultaneamente uma convenção</p><p>e uma confrontação. E pelo facto de possuir limites e fronteiras,</p><p>torna-se num espaço de conflitualidades.</p><p>Os territórios formam-se no espaço geográfico a partir de di-</p><p>ferentes relações sociais. O território pode ser definido como uma</p><p>fração do espaço geográfico e/ou de outros espaços materiais ou</p><p>imateriais.</p><p>O território como um espaço geográfico, tal qual a região ou</p><p>lugar, é detentor das qualidades composicionais e completivas dos</p><p>espaços.</p><p>Partindo deste princípio, é essencial fazer sobressair a ideia de</p><p>que o território imaterial é também um espaço político, ou seja um</p><p>espaço abstrato. A sua configuração enquanto território refere-se</p><p>às dimensões de poder e controle social que lhes são intrínsecas. E</p><p>mesmo sendo uma fração do espaço, o território também é multi-</p><p>dimensional. Essas qualidades dos espaços evidenciam, nas partes,</p><p>as mesmas características da totalidade.</p><p>Se definirmos o território como um agregado de sistemas de</p><p>ações e sistemas de objetos poderá significar que espaço e territó-</p><p>rio, embora diferentes, são o mesmo.</p><p>Será pacífico afirmar-se, então, que todo o território é um es-</p><p>paço (nem sempre geográfico, podendo assumir configurações so-</p><p>ciais, políticas, culturais, cibernéticas, etc.). Por outro lado, é tam-</p><p>bém evidente que nem sempre e nem todo o espaço é um território.</p><p>Os territórios movimentam-se e fixam-se sobre o espaço geo-</p><p>gráfico. O espaço geográfico de uma nação é o seu território. E no</p><p>interior deste espaço há geralmente uma multiplicidade de terri-</p><p>tórios.</p><p>São as relações sociais que transformam o espaço em território</p><p>e vice-versa, no entanto, o espaço é um a priori ao passo que o ter-</p><p>ritório se caracteriza por ser um a posteriori.</p><p>Além disso, o espaço é perene e o território é intermitente.</p><p>Da mesma forma que o espaço e o território são fundamentais</p><p>para que as relações sociais possam efetivar-se, estas produzem,</p><p>de modo contínuo, novos espaços e novos territórios de contornos</p><p>contraditórios, interdependentes e conflituosos. Esses vínculos são</p><p>indissociáveis.</p><p>O Conceito de Território</p><p>O atual debate sociológico sobre o território tem revelado a</p><p>existência de uma amálgama de opiniões e de pontos de vista dís-</p><p>pares. Se por um lado existem aqueles que teimam em perceber o</p><p>território com uma configuração estática, há outros que chamam</p><p>insistentemente a atenção para a realidade complexa e dinâmica,</p><p>e em permanente mutação, que os territórios apresentam e que,</p><p>em sua opinião, mais não são do que o reflexo das dinâmicas físicas,</p><p>socioeconómicas e culturais do contexto local (cf. Gehlen & Riella,</p><p>2004, p. 20).</p><p>A própria noção de território convida-nos ao debate, uma vez</p><p>que amplia o nosso olhar e diversifica as possibilidades de com-</p><p>preender, de sistematizar e de alterar a realidade complexa.</p><p>Por outro lado, o território é uma referência globalizante, ou</p><p>seja, é algo que está a ser construído simultaneamente com o con-</p><p>ceito de globalização, denotando-se, por vezes, uma certa oposição</p><p>face a este conceito, sobretudo pelas possibilidades que oferece,</p><p>em reconhecer e valorizar as especificidades locais e regionais e as-</p><p>sim enfrentar o desejo uniforme da ideia de globalização.</p><p>Por outro, a ideia de território pode oferecer a possibilidade</p><p>de inclusão do particular no global, através das oportunidades de</p><p>desenvolvimento e de potencialidades locais e regionais</p><p>que as va-</p><p>lorizam e lhes dão visibilidade.</p><p>O território constituído como espaço social produzido e deli-</p><p>mitado por uma fronteira que o ordena, é construído como repre-</p><p>sentação: tanto pode ser uma ferramenta, como um recurso para o</p><p>desenvolvimento económico e social.</p><p>Nesta perspectiva, incluem-se no processo de planeamento as</p><p>diferentes dimensões do território, pondo em evidência a sua com-</p><p>plexidade.</p><p>Todo o conjunto é afetado e, simultaneamente, apontam-se</p><p>as especificidades e as particularidades internas às delimitações da</p><p>sociedade global, as quais interagem nos processos de construção</p><p>indenitárias sócio-económico-culturais que atribuem sentido ao</p><p>local.</p><p>O olhar holístico que aponta para a incorporação de recursos</p><p>específicos propicia a invenção de alternativas de competitividade</p><p>dos produtos que são gerados no interior de um território, vanta-</p><p>gem essa que é partilhada coletivamente.</p><p>Entretanto lançam-se desafios à ação coletiva para que esta</p><p>passe a gerir a apropriação, que é compartilhada, dos benefícios</p><p>retirados da competitividade.</p><p>Estes desafios podem ser alcançados através de processos de</p><p>negociação de conflitos, de regras comuns e da tomada de decisões</p><p>coletivas.</p><p>Este processo é ainda responsável pela construção do patrimó-</p><p>nio sociocultural baseado na tradição histórica local, ao mesmo</p><p>tempo que possibilita apontar alternativas inovadoras. Aos poucos,</p><p>sedimenta uma memória coletiva, rearticulando os saberes e as</p><p>relações com o meio natural e com o património material e sim-</p><p>bólico, desencadeando processos que conduzem à construção da</p><p>cidadania.</p><p>O conceito de território é detentor da noção de património so-</p><p>ciocultural e reclama a necessidade de mobilização dos recursos e</p><p>das competências, atribuindo responsabilidades sociais, através de</p><p>processos participativos.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>40</p><p>Deste modo, a mobilização do património local induz à redi-</p><p>namização do território, através de novas modalidades de integra-</p><p>ção e de valorização dos recursos (materiais e não materiais) e dos</p><p>produtos locais, como componentes do património sociocultural</p><p>coletivo.</p><p>Não estamos perante uma situação em que se procura integrar</p><p>de forma positiva os conhecimentos científicos e técnicos nos sis-</p><p>temas cognitivos e de agir de forma solidária, mas de estabelecer</p><p>uma relação de cooperação e de negociação do conflito, para que</p><p>as normas e os códigos de conduta sejam subjetivados no sistema</p><p>de representações para que constituam parte da identidade social.</p><p>O conceito de território, que entretanto foi adquirindo forma,</p><p>pode ser definido como um espaço socialmente construído, pos-</p><p>suidor de recursos naturais e detentor de uma história construída</p><p>pelos homens que nele habitam, através de convenções de valores</p><p>e regras, de arranjos institucionais que lhes conferem expressão, e</p><p>de formas sociais de organização da produção.</p><p>Como espaço social, o território é um campo de forças políti-</p><p>cas conflituosas, com estruturas de poder e dominação. Assim, o</p><p>território é simultaneamente um lugar de produção de bens e de</p><p>acumulação de capital e um lugar de construção de acordos insti-</p><p>tucionais do poder instituído, em constante mutação e que abriga</p><p>conflitos de interesses e formas de ação coletiva e de coordenação.</p><p>As formas de ação coletiva são territorializadas, pois não ocor-</p><p>rem no espaço abstrato, mas sim no espaço socialmente construído.</p><p>Sociologia do Território - Novos olhares sobre velhas e novas</p><p>questões: a análise dos territórios em mutação sobre as relações</p><p>entre os espaços sociais rural e urbano</p><p>A Sociologia, ao apropriar-se do conceito de território, tenta</p><p>resolver um conjunto de questões com que a Sociologia Urbana e</p><p>a Sociologia Rural se confrontavam e para os quais as teorias por</p><p>si construídas deixavam muitas perguntas sem resposta. Daí que o</p><p>uso do conceito de território tenha vindo, há mais de uma década,</p><p>a obrigar à realização de um conjunto de reflexões em torno dos</p><p>conceitos de rural e de urbano, ao mesmo tempo que nos leva a</p><p>interrogar sobre os seus objetos específicos de análise.</p><p>A leitura sociológica que predominantemente marcou, nos úl-</p><p>timos anos, a análise sobre espaço social rural português - nas suas</p><p>dimensões de investigação e de institucionalização académica, sob</p><p>a forma de Sociologia Rural – caracterizou-se por ser tributária do</p><p>paradigma de análise dominante em voga nos anos setenta (cf. Reis</p><p>& Lima, 1998, p. 341).</p><p>Esse paradigma, incorporava um conjunto de problemáticas</p><p>e de preocupações intrinsecamente relacionadas com a natureza</p><p>das transformações verificadas pela agricultura e pelos espaços</p><p>rurais nas sociedades mais avançadas da Europa. Assim, as teorias</p><p>desenvolvidas estavam todas elas viradas para a explicação da so-</p><p>brevivência do campesinato e as articulações entre a denominada</p><p>economia camponesa e a sociedade global (cf. Reis & Lima, 1998,</p><p>p. 341).</p><p>Hoje, é possível verificar que este paradigma se encontrava</p><p>tendencialmente enviesado no que se refere ao tipo de análises</p><p>teóricas que produziu, isto porque:</p><p>a) relegou para um lugar de destaque, senão mesmo para um</p><p>lugar exclusivo de análise, o campesinato e a pequena agricultura</p><p>familiar, deixando o conhecimento sobre os assalariados agrícolas e</p><p>as especificidades relacionadas com o sistema latifundista para um</p><p>lugar subalterno, senão mesmo marginal;</p><p>b) a articulação rural-urbano, utilizada para analisar os proces-</p><p>sos de desenvolvimento e de mudança social, era baseada em teo-</p><p>rias dicotómicas, onde o espaço rural se subordinava (e também</p><p>se subalternizava) ao espaço urbano, através do que ficou denomi-</p><p>nado por submissão formal da agricultura camponesa aos sectores</p><p>de produção especificamente capitalistas (cf. Reis & Lima, 1998, p.</p><p>341).</p><p>Por outro lado, o paradigma ao aceitar a tese da autonomia re-</p><p>lativa do espaço rural abria a possibilidade de se proceder a análises</p><p>sobre os próprios equilíbrios e sobre os mecanismos de reprodução</p><p>internos (cf. Reis & Lima, 1998, p. 342).</p><p>Se uma das mais importantes heranças que o modelo teórico</p><p>em análise possibilitou foi a restituição parcial do processo de de-</p><p>senvolvimento industrial, centrado nos espaços urbanos dos países</p><p>mais desenvolvidos e dos mais periféricos da Europa, conseguiu</p><p>produzir uma fundamentação teórica e uma metodologia crítica</p><p>muito consistente do modelo empirista-localista que condicionou</p><p>muitos dos estudos sobre as comunidades rurais.</p><p>A pior herança, se nos for assim permitida a classificação, pren-</p><p>de-se com o facto desse mesmo modelo ter limitado as abordagens</p><p>teóricas a outras dinâmicas do espaço rural, nomeadamente aque-</p><p>las que se referem ao sul da Europa, onde esse mesmo espaço rural</p><p>se apresenta regionalmente mais diferenciado e que nem sempre</p><p>se assumiu como um espaço social passivo face aos processos de</p><p>mudança (cf. Reis & Lima, 1998, p. 342).</p><p>O impacto empírico verificado a partir deste modelo, traduziu-</p><p>-se num conjunto de processos e de estratégias, de inovação e de</p><p>reconversão económica, submetidas às lógicas urbano-industriais</p><p>e ignorando os fatores intrínsecos aos contextos locais onde se en-</p><p>contravam integrados.</p><p>As lógicas e as próprias experiências de industrialização, que</p><p>emergiram de forma difusa nalguns países do sul Europa, nomea-</p><p>damente em espaços rurais e noutros tradicionalmente margi-</p><p>nalizados, abriram o caminho que tendem para o incremento de</p><p>processos de desenvolvimento, assentes nos recursos e nas comple-</p><p>mentaridades dos locais, e que evoluiu de um modo relativamente</p><p>autónomo face ao modelo dominante de desenvolvimento, muitas</p><p>das vezes denominado por fordista, que marcou o pós-guerra.</p><p>A partir do momento em que se passou a refletir sobre as di-</p><p>nâmicas de reanimação local dos espaços sociais anteriormente</p><p>considerados como irrelevantes, senão mesmo invisíveis, face às</p><p>perspectivas de reflexão de teorias macroeconómicas e macrosso-</p><p>ciológicas, obrigou a que se procedesse a profundas reconceptuali-</p><p>zações</p><p>nos vários campos de análise, das quais sobressaem aquelas</p><p>que se preocupam, simultaneamente, com os aspetos inteligíveis</p><p>face às novas interdependências espaciais e territoriais, e com a</p><p>promoção da reabilitação dos estudos locais e da análise dos fenó-</p><p>menos sociais.</p><p>O conceito de rural tende a ganhar novos contornos como con-</p><p>sequência das transformações que têm tido lugar nos vários terri-</p><p>tórios. Talvez já não se possa falar de uma especificidade do espaço</p><p>social rural, uma vez que essa mesma especificidade desapareceu</p><p>devido ao avanço das lógicas que presidem ao modo de produção</p><p>capitalista nos campos (cf. Freitas, Almeida & Cabral 1976).</p><p>Por outro lado, o rural tende a distanciar-se cada vez mais de</p><p>uma concessão setorial que assentava tradicionalmente nas ativi-</p><p>dades agrícolas.</p><p>A primeira interrogação que surge quando se pretende refletir</p><p>sobre as mudanças verificadas nesse espaço social, prende-se com</p><p>o aspeto meramente ideológico que vem defendendo que o espaço</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>41</p><p>rural não é mais do que o prolongamento expectante do espaço</p><p>urbano; então é legítimo que nos interroguemos: será que o rural</p><p>poderá ser entendido como um continuum do urbano? Ou será que</p><p>o espaço rural poderá ser compreendido recorrendo à dicotomia</p><p>rural e urbana?</p><p>O que se tem vindo a verificar é um incremento da penetração</p><p>das atividades industriais na agricultura, a ponto de não se poderem</p><p>diferenciar os sectores de fornecimento ou de compra de produtos.</p><p>Devido à forte influência das atividades urbanas que penetram</p><p>no espaço rural, assiste-se a processos diferenciados de urbaniza-</p><p>ção dos campos.</p><p>Todavia, esta situação não deve ser vista como um determinis-</p><p>mo, ao qual o espaço rural se encontra irremediavelmente conde-</p><p>nado.</p><p>Outro tipo de modificação verificada nos espaços rurais relacio-</p><p>na-se com as alterações nas formas de trabalho, comprovando-se</p><p>a emergência de profissões diferenciadas no meio rural que eram,</p><p>anteriormente, exclusivamente urbanas.</p><p>Como ocupações não agrícolas, podem-se destacar profissões</p><p>como administradores, secretárias, mecânicos, motoristas ou ope-</p><p>radores de informática.</p><p>O que sobressai destas alterações é o facto de nestas profis-</p><p>sões, além de serem diferenciadas para o meio, os profissionais</p><p>passarem a ocupar postos de trabalho em empresas que não estão</p><p>ligadas somente ao ramo das agroindústrias, mas a outras empre-</p><p>sas que, por razões diversas, se estabeleceram neste ambiente.</p><p>Entretanto, presencia-se a proliferação de lugares ou quintas</p><p>projetadas para atividades de lazer destinadas à classe média ur-</p><p>bana, e acessivelmente localizados em relação aos grandes centros</p><p>urbanos, e que possuem atividades diversificadas como a apicul-</p><p>tura, a criação de peixes, de aves e outros pequenos animais, ou</p><p>a produção de chás, de flores, de plantas ornamentais, de frutas</p><p>e hortaliças, assim como atividades de recreio e de turismo (como</p><p>o turismo de habitação, o agroturismo ou o turismo rural), e que</p><p>apresentam um impacto positivo na preservação e conservação da</p><p>paisagem ao mesmo tempo que viabilizam economicamente espa-</p><p>ços condenados ao despovoamento.</p><p>Estes estabelecimentos, para além de proporcionarem uma al-</p><p>ternativa de rendimento diferenciado para os trabalhadores agríco-</p><p>las, propiciam que esses mesmos trabalhadores se tornem caseiros</p><p>ou até jardineiros, contribuem, ainda, para eliminar as culturas ex-</p><p>tensivas que se encontram nos arredores das cidades, libertando-</p><p>-as da dependência dos agroquímicos e da maquinaria pesada que</p><p>normalmente se encontram associados a este tipo de culturas (cf.</p><p>Blume, 2004, p. 38).</p><p>A interrogação anteriormente estabelecida possibilita que se</p><p>proceda a um outro tipo de reflexão.</p><p>Hoje parece ser pacífica a aceitação do facto de existir uma</p><p>grande aproximação entre os ambientes culturais urbanos e rurais.</p><p>No entanto, esta integração não leva, necessariamente, a uma</p><p>mudança generalizada da identidade local dos habitantes rurais,</p><p>contrariamente ao que se poderia supor.</p><p>O maior contato, como aquele que ocorre atualmente, pode</p><p>até proporcionar um efeito contrário.</p><p>Assim, ao invés de se dar uma homogeneização cultural, que</p><p>descaracterizaria as identidades socioculturais dos sujeitos, a apro-</p><p>ximação realçaria as especificidades do rural, na medida em que se</p><p>produziria uma reestruturação das identidades e, simultaneamen-</p><p>te, se verificaria um fortalecimento da ruralidade (cf. Blume, 2004,</p><p>p. 40).</p><p>Dado o entrosamento de culturas, torna-se necessária algu-</p><p>ma prudência com o uso de determinados resultados o que, muito</p><p>evidentemente, pode apontar para uma reestruturação das identi-</p><p>dades e das culturas rurais atribuindo-lhes valores e padrões tidos</p><p>como urbanos.</p><p>E esta prudência não é de todo descabida se tomarmos em con-</p><p>sideração a propagação da cultura rural nas grandes áreas urbanas.</p><p>Perante está clara invasão do rural no espaço urbano, coloca-se</p><p>obviamente em causa os pressupostos dos que defendem o fim do</p><p>rural.</p><p>E esta questão leva a uma outra interrogação. A fronteira entre</p><p>o rural e o urbano não estará a ser derrubada pelo lado contrário?</p><p>Este facto indicia, de forma indiscutível, que a fronteira entre o</p><p>rural e o urbano não é rígida, encontrando-se muitas das vezes de</p><p>forma dissimulada. Daqui emergem a necessidade e a importância</p><p>da análise do local.</p><p>Todavia, a noção de local não reduz o espaço a uma simples</p><p>base física.</p><p>Esta noção torna-se útil como uma referência para um conjun-</p><p>to de relações sociais diversificadas que podem estar diluídas tanto</p><p>no ambiente rural como no urbano, reduzindo, desta forma, a ne-</p><p>cessidade de distinção entre os ambientes.</p><p>Perante esta diversidade, os valores culturais são incorporados</p><p>por novos hábitos e técnicas, o que contribui para que se torne di-</p><p>fícil a determinação da unicidade no sentido das modificações e de</p><p>se proceder com rigor à identificação de determinada preponde-</p><p>rância de certos valores culturais considerados como hegemónicos</p><p>(cf. Blume, 2004, p. 41).</p><p>A solução a adotar para este tipo de análise parece ser aquela</p><p>que Pierre Bourdieu propunha para a leitura do rural como uma</p><p>categoria social realizada (cf. Bourdieu, 1993, pp. 32-36).</p><p>A partir desta proposta, desenvolver-se-ia um conjunto de pos-</p><p>sibilidades para observar as relações sociais ao nível local, tornan-</p><p>do-se possível a agregação ao rural das categorias simbólicas que</p><p>foram sendo construídas a partir de universos culturais diversos.</p><p>Estas categoriais tendem a orientar o sentido das análises para</p><p>os sujeitos do processo e não apenas para o espaço.</p><p>Serão os sujeitos que irão manifestar o seu vínculo com o local,</p><p>através das suas práticas, independentemente de estarem ou não</p><p>fisicamente no local definido como o de origem.</p><p>Torna-se, contudo, pertinente averiguar se, ao centrar os es-</p><p>tudos nos aspetos simbólicos do rural, tendo o local como escala</p><p>de análise, não se estaria a limitar a abordagem a outras escalas</p><p>analíticas, e que são, por seu turno, são influentes na escala local.</p><p>Neste sentido, mais do que precisar as fronteiras entre o rural</p><p>e o urbano ou evidenciar as diferenças culturais nas representações</p><p>sociais, há que verificar a qualidade do conjunto das relações que as</p><p>práticas sociais estabelecem sobre o espaço, sobre o local de aná-</p><p>lise, sendo que as práticas podem até mesmo ampliar a rede de</p><p>relações sociais, sem que no entanto proporcionem uma homoge-</p><p>neidade social. Para que isto ocorra, as identidades devem estar an-</p><p>coradas ao sentimento de pertença a um determinado local, crian-</p><p>do uma consciência de si na relação que estabelece com o outro (cf.</p><p>Blume, 2004), p. 42).</p><p>A proposta que sugere o estudo do rural a partir de uma abor-</p><p>dagem territorial é deveras inovadora.</p><p>Parte-se do princípio que o território pode substituir com van-</p><p>tagens acrescidas, as ambiguidades originárias das perspectivas di-</p><p>cotómicas ou das perspectivas que consideram o rural como um</p><p>continuum do urbano,</p><p>na medida em que remete o debate para</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>42</p><p>questões mais inteligíveis, não se preocupando em precisar as ca-</p><p>racterísticas que outros consideraram como determinantes, de um</p><p>ou outro espaço.</p><p>Acredita-se que a abordagem territorial para o rural pode pro-</p><p>porcionar uma valorização de dimensões analíticas importantes</p><p>como os fundamentos ecológicos e económicos que se encontram</p><p>inscritas neste espaço.</p><p>Será, de todo errado, abordar as relações entre a cidade e o</p><p>campo, nos termos em que usualmente se desenrola o debate so-</p><p>ciológico, ou seja, dicotomia × continnum.</p><p>E é de todo errado, pelo facto de existirem as denominadas</p><p>twilight zones, ou sejam, espaços que pelo aumento da densidade</p><p>demográfica, já não são rurais mas ainda não são urbanos, sem que,</p><p>contudo, tal venha a significar que a contradição material e também</p><p>histórica entre o fenómeno urbano e o fenómeno rural esteja a de-</p><p>saparecer.</p><p>Urge então saber quais os impactos que a tendência da dife-</p><p>renciação espacial pode alcançar na questão do desenvolvimento</p><p>local, uma que é usual aliar as questões do desenvolvimento com</p><p>os processos de urbanização.</p><p>Todavia, é possível que um determinado espaço rural se desen-</p><p>volva sem ter a necessidade de se tornar não-rural.</p><p>A verificar-se esta situação, dar-se-ia como que um corte epis-</p><p>temológico com a perspectiva do espaço rural como continuum do</p><p>espaço urbano, havendo lugar ao questionamento da tese que ad-</p><p>voga que o desaparecimento do rural se torna irreversível face ao</p><p>avanço da urbanização.</p><p>Os estudos a empreender devem incorporar as novas perspec-</p><p>tivas de análise, já que para estas, torna-se fundamental a valoriza-</p><p>ção da questão espacial, que assume um lugar de destaque nesses</p><p>estudos.</p><p>Desta forma, a abordagem territorial que é possuidora de um</p><p>enfoque que valoriza as dimensões espaciais numa forma diferen-</p><p>ciada para análise do rural, tornou-se a mais inteligível uma vez que</p><p>os conceitos de espaço e de território não se restringem, apenas e</p><p>só, às dimensões local, regional, nacional ou até mesmo continen-</p><p>tal, como podem referenciar, de forma simultânea, a todas essas</p><p>dimensões, o que se traduz numa mais-valia para a análise.</p><p>Contudo será pertinente proceder-se à verificação de prováveis</p><p>impedimentos de índole teórico conceptual, que reduziram o uso</p><p>do território a uma mera abordagem explicativa, para que se possa</p><p>realizar o pressuposto da abordagem territorial.</p><p>Será que o território é suficientemente inteligível na discussão</p><p>sobre o rural e a ruralidade? Ou será que a essa abordagem, nos</p><p>termos é que é proposta, só irá valorizar uma das dimensões expli-</p><p>cativas, a explicação normativa?</p><p>Ao chamar o território à discussão, para as questões sobre o</p><p>rural e a ruralidade, contribui-se para que o debate passe a assumir</p><p>um caminho especializado, pois dá-se a sua distanciação das ver-</p><p>tentes clássicas das Ciências Sociais, configurando-se, deste modo,</p><p>um novo momento para se produzirem as reflexões.</p><p>No entanto, esta renovação teórica, que tem vindo a apelar à</p><p>convocação de novas abordagens sobre a fronteira do rural e do</p><p>urbano, e cuja reformulação está longe de reunir a fundamenta-</p><p>ção teórica indispensável à credibilidade e adesão da comunidade</p><p>científica, tem vindo a introduzir, de forma sistemática, um conjun-</p><p>to de orientações e de perspectivas de análise, sobretudo, quando</p><p>focalizam a sua atenção nos processos endógenos – quer se tratem</p><p>de transformações, ou de iniciativas de base local – e que são con-</p><p>cernentes a contextos e a estratégias regionais, têm proporcionado</p><p>para que se verifique a emergência de novos princípios a introduzir</p><p>nas teorias de análise do desenvolvimento local.</p><p>,</p><p>DAS DIMENSÕES E CARACTERÍSTICAS CULTURAIS,</p><p>ECONÔMICAS, AMBIENTAIS, POLÍTICAS E SOCIAIS E DOS</p><p>CONFLITOS QUE ENVOLVEM A PRODUÇÃO DE TERRITÓ-</p><p>RIOS E TERRITORIALIDADES</p><p>Instituições e a Relação entre Economia e Sociologia na Aca-</p><p>demia: Uma Visão Histórica</p><p>Até o final do século XIX, economia e sociologia não existiam</p><p>como disciplinas separadas. Vista como parte das chamadas “ciên-</p><p>cias morais”, a economia política clássica (assim como sua crítica</p><p>marxista) certamente se interessava muito por instituições, mesmo</p><p>quando esse último termo não era usado com muita frequência.</p><p>Por volta de 1870 emergiu a economia neoclássica, que tentou</p><p>aproximar a economia da física, afastando-a do que viriam a ser as</p><p>outras ciências sociais. Por outro lado, na virada do século XIX para</p><p>o XX, surgiu nos Estados Unidos a escola institucionalista de Veblen</p><p>e outros, que alcançou um status importante na academia norte-a-</p><p>mericana durante algumas décadas, tendo participado da econo-</p><p>mia mainstream da época naquele país. De sua parte, a sociologia</p><p>– aplicada ou não ao estudo da economia ou das organizações sem-</p><p>pre se interessou por instituições, ao lado de outros aspectos do</p><p>social. Além disso, os principais fundadores da sociologia – Marx,</p><p>Durkheim e Weber – foram todos eles sociólogos econômicos, de</p><p>modo que se pode falar hoje da sociologia econômica clássica. Par-</p><p>te da economia era, então, próxima da sociologia econômica e de</p><p>outras disciplinas sociais, enquanto outra parte nem tanto8.</p><p>Em meados do século XX, a divisão de trabalho entre a econo-</p><p>mia e outras ciências sociais já havia se alterado bastante, sobre-</p><p>tudo nos Estados Unidos e, a partir deles, em outros países. Numa</p><p>medida significativa, assuntos econômicos passaram a ser o territó-</p><p>rio de economistas e não de outros cientistas sociais (Swedberg e</p><p>Granovetter, 2001; Velthuis, 1999; Hodgson, 2001: 195-197). Den-</p><p>tro da sociologia, em particular, a sociologia econômica tornou-se</p><p>muito menos frequentemente praticada. Do lado da economia, o</p><p>auge dessa separação correspondeu à ascensão e hegemonia teó-</p><p>rica do modelo standard de equilíbrio geral, também conhecido</p><p>como modelo “Arrow-Debreu”. Este modelo é substancialmente</p><p>a-histórico e a institucional, ao menos no que se refere às suas hi-</p><p>póteses explícitas (voltaremos a isso mais adiante).</p><p>Numa das interpretações possíveis, o modelo “Arrow-Debreu”</p><p>pretende valer para qualquer economia, em qualquer lugar e em</p><p>qualquer momento do tempo. Numa leitura um pouco menos ge-</p><p>ral, o modelo só supõe claramente uma única instituição e mesmo</p><p>assim a entende de forma extremamente restritiva: o mercado, mas</p><p>não um mercado próximo a mercados reais e sim um mercado ima-</p><p>ginário, reduzido ao mecanismo de preços (a interação entre oferta</p><p>e demanda). Outras instituições, incluindo algumas sem as quais</p><p>mercados reais não podem existir, são ignoradas explicitamente.</p><p>Naquele período, a economia mainstream afastou-se de outras dis-</p><p>ciplinas sociais e aproximou-se das ciências exatas e da matemática,</p><p>8 DEQUECH, David. Instituições e a relação entre economia e sociologia. Estud.</p><p>Econ., São Paulo , v. 41, n. 3, p. 599-619, Sept. 2011 . http://www.scielo.br/scie-</p><p>lo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-41612011000300005&lng=en&nrm=iso</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>43</p><p>mais ainda do que os fundadores da economia neoclássica haviam</p><p>feito. Por volta da década de setenta do século XX, as barreiras que</p><p>separavam a economia de outras disciplinas sociais começaram a</p><p>diminuir. Da parte dos economistas, três movimentos podem ser</p><p>notados a esse respeito:</p><p>Primeiro (sem ordem cronológica ou de importância) houve na</p><p>economia uma virada institucional: ressurgiu o interesse dos eco-</p><p>nomistas pelas instituições. Isso vale inclusive para os economistas</p><p>neoclássicos e, dentro desse conjunto, para teóricos de equilíbrio</p><p>geral que foram além do modelo standard. De fato, algumas tentati-</p><p>vas de ultrapassar os limites do modelo “Arrow-Debreu” e ampliar o</p><p>escopo da teoria de equilíbrio geral levaram à incorporação de mais</p><p>instituições à análise. Além disso, surgiu a chamada nova econo-</p><p>mia institucional (Dequech, 2006). Parte dela aplica ao estudo das</p><p>instituições a teoria neoclássica, entendida aqui como assentada</p><p>sobre três elementos definidores (Dequech,</p><p>2007-2008): a hipótese</p><p>de racionalidade na forma de maximização de utilidade; a hipóte-</p><p>se de que a economia analisada está em equilíbrio ou tende a um</p><p>equilíbrio (que pode ser único ou um entre múltiplos equilíbrios);</p><p>e um conceito de incerteza que corresponde ao “risco knightiano”</p><p>(com probabilidades objetivas conhecidas) ou, mais amplamente, à</p><p>incerteza tal como concebida na teoria da utilidade esperada subje-</p><p>tiva de Savage (1954).</p><p>Outras alas da nova economia institucional abandonaram, ao</p><p>menos em parte, uma ou mais dessas ideias neoclássicas básicas</p><p>(Dequech, 2006). Oliver Williamson, recuperando insights de Ro-</p><p>nald Coase sobre custos de transação, e Douglass North, são alguns</p><p>nomes importantes neste contexto. Esses três autores ganharam</p><p>o prêmio Nobel de economia. Williamson dividiu-o com a cientis-</p><p>ta política Elinor Ostrom, cuja premiação é um ótimo exemplo de</p><p>como aumentou o respeito dos economistas por outras disciplinas</p><p>sociais. Dentro e fora da economia neoclássica surgiram também</p><p>outras abordagens às instituições, mas sem o rótulo de economia</p><p>institucional (algumas serão mencionadas mais adiante). Seja sob</p><p>este rótulo ou não, a esmagadora maioria dos trabalhos da econo-</p><p>mia mainstream contemporânea dedicados ao estudo das institui-</p><p>ções está baseada em modelos matemáticos e especialmente na</p><p>teoria dos jogos. Usando de novo o prêmio Nobel como indicador</p><p>de eminência, cabe aqui mencionar os trabalhos sobre mecanismos</p><p>de desenho institucional, que levaram à premiação conjunta de</p><p>Leonid Hurwicz, Eric Maskin e Roger Myerson.</p><p>A ascensão da teoria dos jogos na economia em parte se deu</p><p>às expensas da teoria do equilíbrio geral. Dito de outra forma, a</p><p>retomada do estudo das instituições no meio da economia mains-</p><p>tream em boa medida foi facilitada pelo aumento do prestígio de</p><p>um aparato formal considerado propício a isso (ou, em vários casos,</p><p>mais propício que a teoria do equilíbrio geral): a teoria dos jogos.</p><p>A virada institucional levou a uma aproximação com outras discipli-</p><p>nas, sobretudo o direito e a história. O aproveitamento de contri-</p><p>buições da sociologia é bem maior na economia não mainstream,</p><p>mas há exceções de destaque, como Masahiko Aoki (2001), Avner</p><p>Greif (2006), Durlauf e Young (orgs.)(2001) e George Akerlof (1984),</p><p>embora esse último use ideias da sociologia e da antropologia ao</p><p>mesmo tempo em que amplia o escopo da hipótese de maximiza-</p><p>ção da utilidade, com referências a costumes, identidade e normas</p><p>sociais no tratamento de temas tradicionalmente econômicos.</p><p>Segundo, houve na economia uma virada cognitiva: ressurgiu</p><p>o interesse dos economistas por questões cognitivas, referentes</p><p>em especial a certos tipos de incerteza e de possíveis limitações</p><p>mentais e computacionais dos agentes econômicos. Na economia</p><p>mainstream, isso se deu em larga medida em reação à intervenção</p><p>no debate econômico de autores oriundos de fora da disciplina e</p><p>em particular influenciados pela psicologia.</p><p>Destacam-se aqui os mais influentes precursores da economia</p><p>comportamental: Herbert Simon, de um lado, e os psicólogos Da-</p><p>niel Kahneman e Amos Tversky, de outro. Simon e Kahneman ga-</p><p>nharam o prêmio Nobel (Tversky certamente o teria compartilha-</p><p>do com Kahneman se estivesse vivo no momento da premiação).</p><p>Embora Simon se interessasse muito por organizações e, em grau</p><p>menor, por outras instituições, a economia comportamental em</p><p>geral não tem dado tanta atenção às instituições ou, mais ampla-</p><p>mente, ao contexto social em que operam os agentes econômicos</p><p>(ver Dequech, 2007-2008 para algumas referências críticas ao in-</p><p>dividualismo das abordagens psicológicas que penetraram a eco-</p><p>nomia mainstream). Uma exceção, de difusão ainda limitada, são</p><p>os trabalhos comportamentais sobre justiça (fairness), envolvendo</p><p>normas sociais.</p><p>Terceiro, economistas neoclássicos invadiram o território de</p><p>sociólogos, cientistas políticos e outros estudiosos da sociedade,</p><p>aplicando em outros campos o instrumental neoclássico, em par-</p><p>ticular a hipótese de maximização de utilidade como critério de ra-</p><p>cionalidade. Gary Becker (1976) é o principal expoente disso que</p><p>ficou conhecido como “imperialismo econômico”. Seja em reação a</p><p>isso ou não, não economistas voltaram a dedicar com intensidade</p><p>sua atenção a assuntos econômicos. Dentro da sociologia, em par-</p><p>ticular, emergiu a partir dos anos 1980 a chamada nova sociologia</p><p>econômica. Inicialmente, sob a influência de Mark Granovetter, ela</p><p>concentrou-se bastante nas redes de relações interpessoais. Com o</p><p>passar do tempo, outros aspectos sociais da economia passaram a</p><p>ser (re)examinados pelos sociólogos, incluindo as instituições.</p><p>Assim como na economia, “novos institucionalismos” surgiram</p><p>em outras disciplinas das ciências sociais. Em vários casos, eles são</p><p>aplicados ao estudo de fenômenos econômicos, de um modo que</p><p>enriquece nosso entendimento.</p><p>Disciplinas Definidas por Objetos? A Proximidade entre Eco-</p><p>nomia e Sociologia Econômica</p><p>Em contraste com a visão que define a economia em função</p><p>de uma abordagem ou um método de análise, uma alternativa é</p><p>defini-la em função de um objeto de estudo. Concebe-se então a</p><p>economia como a disciplina que estuda a economia como objeto.</p><p>Dentro dessa concepção, alguns economistas ligados à tradição ins-</p><p>titucionalista americana ofereceram um tratamento mais específico</p><p>da disciplina. Walter Neale, inspirado na distinção de Karl Polanyi</p><p>entre os sentidos formal e substantivo do termo “econômico”, pro-</p><p>pôs o seguinte: “substantive economics ... is the study ... of how</p><p>people go about provisioning themselves, whether as individuals or</p><p>as members of groups with common purposes” (1987: 1180).</p><p>Na definição de Allan Gruchy (1987: 21), a economia é a dis-</p><p>ciplina que estuda o processo de provisão social. Isso pode ser</p><p>entendido como relacionado com a provisão das necessidades. A</p><p>provisão social engloba não apenas objetos materiais, mas também</p><p>serviços, incluindo cuidados pessoais. Parece razoável acrescentar</p><p>que a economia deve estudar também as consequências de orga-</p><p>nizar o processo de provisão social de certa maneira. Esta definição</p><p>não é livre de pontos obscuros, mas parece satisfatória e preferível</p><p>a outras alternativas.</p><p>Existem variados tipos de relações econômicas através das</p><p>quais as pessoas obtêm a provisão de bens e serviços. Alguns cor-</p><p>respondem, grosso modo, às formas de integração de que tratou</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>44</p><p>Polanyi (1944, 1957), embora não precisem ou não devam ser to-</p><p>das caracterizadas exatamente como ele o fez: reciprocidade, redis-</p><p>tribuição, troca mercantil e autosubsistência familiar. Outros tipos</p><p>de relação econômica incluem solidariedade sem reciprocidade,</p><p>roubo e (dependendo de como se vê a forma pela qual o Estado</p><p>financia seus gastos) provisão pelo Estado sem redistribuição. Se</p><p>a economia estuda o econômico, a sociologia pode ser vista como</p><p>a disciplina que estuda o social, como seu próprio nome indica. A</p><p>subdisciplina da sociologia econômica pode ser vista como estudan-</p><p>do simultaneamente o social e o econômico. Parte importante da</p><p>relação entre economia e sociologia passa a depender, então, da</p><p>relação entre seus objetos de estudo.</p><p>Na verdade, esses objetos se interpenetram em grande me-</p><p>dida. Mais especificamente, o social está inevitavelmente presen-</p><p>te dentro do econômico. É isso que se pretende argumentar em</p><p>mais detalhes a seguir e disso resulta uma enorme dificuldade para</p><p>quem quiser separar economia e sociologia em termos de objetos.</p><p>As instituições são uma parte importante dos argumentos. Assim,</p><p>convém começar discutindo o que são as instituições e como elas</p><p>afetam os indivíduos. Em seguida, as instituições serão colocadas</p><p>ao lado de outros aspectos do social. Depois disso será considera-</p><p>do como o social está dentro do econômico no caso particular dos</p><p>mercados, dada sua relevância nas economias contemporâneas.</p><p>Instituições</p><p>As instituições são entendidas aqui de modo amplo, como</p><p>padrões socialmente compartilhados de</p><p>comportamento e/ou de</p><p>pensamento (Dequech, 2009). Isso inclui padrões que não apenas</p><p>são seguidos, mas também que são prescritos ou descritos – no</p><p>sentido de que eles indicam ou representam o que (não) fazer ou</p><p>pensar em determinadas circunstâncias – e, neste sentido, podem</p><p>ser chamados de regras. Socialmente compartilhados quer dizer</p><p>aqui compartilhados por razões sociais, por contraste com causas</p><p>genéticas ou outro tipo de causa natural ou inevitável. O conceito</p><p>de instituições tem uma dimensão comportamental, assim como</p><p>uma dimensão mental. A dimensão mental inclui não apenas ex-</p><p>pectativas, mas também modelos mentais compartilhados.</p><p>Existem diferentes tipos de instituição. Normas socialmente</p><p>compartilhadas indicam o que um indivíduo deveria fazer, trazem</p><p>consigo a possibilidade de sanções externas, mas, ao menos no</p><p>caso de alguns indivíduos, são internalizadas. Normas formais ou</p><p>legais são mantidas em prática em última instância pelas organiza-</p><p>ções do sistema legal, enquanto as normas sociais informais estão</p><p>ligadas a sanções por outras pessoas no grupo relevante.</p><p>As convenções possuem ao menos duas características que</p><p>outros padrões socialmente compartilhados (sejam eles formais ou</p><p>informais) podem não ter:</p><p>a) quando seguida conscientemente, uma convenção é seguida</p><p>ao menos em parte porque outras pessoas a seguem (ou se espera</p><p>que vão seguir) e não – ou não apenas – porque há uma pressão</p><p>externa;</p><p>b) uma convenção é em algum grau arbitrária, no sentido de</p><p>que é concebível uma alternativa hipotética que não é claramente</p><p>inferior ao padrão prevalecente. As instituições dependem dos in-</p><p>divíduos que as reproduzem, transformam ou criam, mas elas tam-</p><p>bém influenciam o comportamento e o pensamento individual de</p><p>maneiras cruciais e às vezes constitutivas (Dequech, 2006).</p><p>Talvez o tipo menos controverso de influência das instituições</p><p>seja seu papel restritivo. Seu papel cognitivo é triplo: informacional,</p><p>prático e profundo. Além de dar informações (como vários econo-</p><p>mistas institucionais reconhecem), elas também incorporam ou cor-</p><p>porificam conhecimento prático ou tácito; e, especialmente como</p><p>modelos mentais compartilhados, desempenham uma função cog-</p><p>nitiva profunda ao influenciar o modo como os indivíduos selecio-</p><p>nam, organizam e interpretam informações. Em termos de motiva-</p><p>ções, as instituições não apenas dão incentivos, como usualmente</p><p>enfatizado por economistas mainstream, mas também influenciam</p><p>os próprios objetivos que as pessoas buscam e as obrigações que</p><p>os indivíduos se atribuem. Essas são o que podemos denominar as</p><p>variantes simples e profundas do seu papel motivacional, respec-</p><p>tivamente. Finalmente, as instituições podem também desempe-</p><p>nhar um papel emocional, menos estudado por enquanto, através</p><p>do qual influenciam o estado emocional das pessoas.</p><p>Por serem tratadas como padrões de comportamento ou de</p><p>pensamento socialmente compartilhados, ou seja, compartilhados</p><p>por razões sociais, as instituições econômicas inevitavelmente im-</p><p>plicam que parte do social está dentro do econômico. Quando se</p><p>trata as instituições como capazes de influenciar profundamente a</p><p>cognição e as motivações dos indivíduos, como discutido acima, co-</p><p>loca-se o institucional não apenas dentro do econômico em geral,</p><p>mas, num sentido importante, dentro dos próprios agentes econô-</p><p>micos em particular. Um pouco mais adiante, o argumento de que</p><p>o social, em particular o institucional, está dentro do econômico,</p><p>será ilustrado no caso dos mercados. Em termos gerais, ele vale,</p><p>contudo, qualquer que seja o tipo de economia prevalecente numa</p><p>realidade histórica concreta.</p><p>Instituições e Outros Aspectos do Social</p><p>Émile Durkheim definiu a sociologia geral como a “ciência das</p><p>instituições” (Velthuis, 1999: 634 e n. 6). Coerentemente, Durkheim</p><p>concebeu a sociologia econômica como voltada ao estudo das ins-</p><p>tituições econômicas (Swedberg, 2003: 18). Essa visão é excessi-</p><p>vamente restritiva, à luz do argumento de que as instituições não</p><p>esgotam todos os aspectos relevantes do social, sendo apenas um</p><p>entre outros. Quais são os outros aspectos depende da classifica-</p><p>ção de cada autor. Um aspecto, bastante destacado na sociologia</p><p>econômica em seus primeiros anos de renascença, corresponde às</p><p>redes de relações interpessoais (redes sociais). Outro consiste nas</p><p>relações de poder (ou relações de dominação, hierarquia, etc). Elas</p><p>são relações entre posições sociais, a não confundir com relações</p><p>pessoais. Alguns autores incluem ainda os aspectos sociais da cog-</p><p>nição ou as estruturas cognitivas socialmente compartilhadas (e.g.,</p><p>Dobbin, 2004: 4); para outros, essas estruturas são instituições e</p><p>não algo separado delas (esta é a concepção adotada aqui, como</p><p>já visto).</p><p>Mais recentemente, um número menor de autores, ao pensar</p><p>em questões econômicas, passou a identificar ainda outro aspecto</p><p>do social: as técnicas performativas que eles acreditam formatar os</p><p>mercados. Em suma, o social não é apenas institucional. Ao mesmo</p><p>tempo, esses diferentes aspectos do social estão ligados entre si.</p><p>As instituições, em particular, estão estreitamente relacionadas aos</p><p>demais aspectos. Por exemplo, as redes de relações sociais servem</p><p>de condutor para as instituições (Dobbin, 2004: 18) e, às vezes, para</p><p>sua efetivação (enforcement). A conexão entre as instituições e as</p><p>relações de poder é uma via de duplo sentido. As instituições são</p><p>em parte mantidas por relações de poder; no caso específico das</p><p>organizações, trata-se de instituições que são em parte definidas</p><p>por essas relações de poder, na forma de relações hierárquicas.</p><p>Por outro lado, sobretudo através de sua presumida legitimidade</p><p>ou inevitabilidade, as instituições ajudam a sustentar relações de</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>45</p><p>poder. Há quem enxergue o poder mesmo como a capacidade de</p><p>influenciar o entendimento que os outros têm do mundo e de seus</p><p>interesses. Nesse duplo sentido, a economia das instituições pode</p><p>ser vista como uma economia política (o que aproxima a economia</p><p>de outra disciplina social, a ciência política).</p><p>O Importante Caso Particular dos Mercados</p><p>Alguns economistas parecem restringir sua concepção da eco-</p><p>nomia como disciplina ao estudo de um tipo de relação econômica,</p><p>nomeadamente as relações de troca, sobretudo troca mercantil. As</p><p>trocas através dos mercados não esgotam, entretanto, as possibili-</p><p>dades de provisão social, como argumentado acima. Assim, a eco-</p><p>nomia como disciplina não deveria se restringir a investigar apenas</p><p>os mercados.</p><p>Contudo, mesmo quando nos limitamos ao estudo dos merca-</p><p>dos, a economia como disciplina não é facilmente separável da so-</p><p>ciologia econômica. De acordo com Marion Fourcade (2007: 1017),</p><p>a nova sociologia econômica, em suas origens nos anos oitenta</p><p>do século XX, orientou-se pela ambição de um diálogo – ou uma</p><p>concorrência – com a economia mainstream. Isso a teria levado</p><p>a se construir dominantemente como a sociologia dos mercados.</p><p>Alguns sociólogos econômicos discordam desse foco estreito (para</p><p>algumas referências, ver Fligstein e Dauter, 2007: 106, n. 1 e Zelizer,</p><p>2007, além do próprio artigo de Fourcade) e o argumento de que a</p><p>provisão social não se faz apenas pelos mercados lhes dá razão. De</p><p>qualquer modo, repete-se aqui, agora de modo mais específico, a já</p><p>apontada dificuldade mais geral de responder a seguinte pergunta:</p><p>o que é distintivo da sociologia, por contraste com a disciplina da</p><p>economia, no estudo de assuntos econômicos? Isso vale no caso</p><p>particular em que o objeto econômico de estudo é restrito aos mer-</p><p>cados.</p><p>Também dentro dos mercados existe inevitavelmente algo de</p><p>social, algo que facilmente pode ser visto como um objeto de estu-</p><p>do de interesse para sociólogos, às vezes até mais tipicamente in-</p><p>teressante para sociólogos que para economistas. De fato, também</p><p>no caso específico do estudo dos mercados os sociólogos têm ma-</p><p>nifestado seu interesse pelos diferentes aspectos do social já men-</p><p>cionados anteriormente. Fourcade (2007: 1015),</p><p>por exemplo, des-</p><p>taca esses aspectos ao identificar quatro representações principais</p><p>do que é sociologicamente importante sobre mercados: “the social</p><p>networks that sustain them, the systems of social positions that or-</p><p>ganize them, the institutionalization processes that stabilize them,</p><p>and the performative techniques that bring them into existence.”</p><p>Mais particularmente, existe dentro dos mercados algo de ins-</p><p>titucional. Isso vai além do argumento de que o mecanismo de pre-</p><p>ços é uma instituição. Duas ideias principais serão destacadas aqui a</p><p>esse respeito. Primeiro, será considerado o que se pode chamar de</p><p>bases institucionais dos mercados, sem as quais os mercados não</p><p>podem existir. Segundo, serão dadas breves indicações de como as</p><p>instituições estão difundidas e são importantes numa economia de</p><p>mercado, mesmo quando algumas dessas instituições não são in-</p><p>dispensáveis à existência dos mercados.</p><p>As Bases Institucionais dos Mercados</p><p>Os mercados não apenas são instituições, mas dependem de</p><p>instituições para existir.</p><p>Algumas das bases institucionais dos mercados são reconheci-</p><p>das como necessárias sem que sempre se veja o seu caráter institu-</p><p>cional. É o caso, por exemplo, da divisão social do trabalho (mesmo</p><p>que esta divisão não seja capaz de atingir uma larga escala sem os</p><p>mercados, que a estimulam). Seu caráter institucional resulta de</p><p>sua necessária associação com modos de pensar socialmente com-</p><p>partilhados, em particular modos de pensar sobre a conveniência</p><p>da especialização por contraste com a autosubsistência.</p><p>Outras pré-condições para a existência de mercados são fre-</p><p>quentemente vistas como institucionais, embora talvez não como</p><p>tipicamente de interesse sociológico ou mais próximo da seara dos</p><p>sociólogos que dos economistas. Este parece ser o caso: da pro-</p><p>priedade privada do que vai ser trocado; da proteção de direitos de</p><p>propriedade sobre o que pode ser vendido e comprado; e do cum-</p><p>primento de contratos, ao menos quando dependente da (ameaça</p><p>de) pressão do Estado.</p><p>Talvez se possa enquadrar no mesmo caso instituições que</p><p>estabeleçam uma regulação básica da concorrência – no mínimo,</p><p>regras sobre concorrência de bens importados, modos de pensar</p><p>sobre o que é concorrência desleal (como, por exemplo, sonegação</p><p>de impostos e, em casos de algum poder de mercado, dumping,</p><p>vendas casadas, etc.) e a prática pelo Estado e/ou agentes privados</p><p>de (in)tolerância à concorrência desleal; mais dinamicamente, re-</p><p>gras sobre limites ou não para a market share de um ofertante ou</p><p>demandante no mercado. Pelo menos para alguns autores, deve-se</p><p>acrescentar também a moeda e o Estado, ao menos para garan-</p><p>tir direitos de propriedade e o cumprimento de contratos ou para</p><p>garantir a própria moeda. O mesmo parece valer para instituições</p><p>que ajudam a definir o que é um determinado bem ou serviço, com</p><p>sua respectiva qualidade, por contraste com outros bens e serviços.</p><p>Restam ainda outras bases institucionais dos mercados, que</p><p>não são frequentemente identificadas por muitos economistas e</p><p>que envolvem temas reconhecidamente sociológicos. São exata-</p><p>mente elas que mais claramente colocam o social dentro dos mer-</p><p>cados. Elas podem ser reunidas em pelo menos três grupos. Pri-</p><p>meiro, há um conjunto de regras (permissões e restrições) e modos</p><p>compartilhados de pensar sobre o que pode ou não ser vendido,</p><p>por quem e em que circunstâncias. Isso é o que delimita o domínio</p><p>do mercado, sujeito a alterações relativamente frequentes.</p><p>As instituições envolvidas são concepções normativas morais</p><p>e político-ideológicas (com relação a: que tipo de bens e serviços</p><p>devem ou não ser providos gratuitamente pelo Estado e não via</p><p>mercados; o nacionalismo ou não em relação aos produtores nacio-</p><p>nais e seus interesses; etc.), junto com restrições comportamentais</p><p>formais (como leis) e informais (como normas sociais e conven-</p><p>ções). Segundo, há normas sociais de honestidade e cooperação,</p><p>que servem de base para a confiança (trust) nos agentes com quem</p><p>se interage, junto com redes de relações interpessoais. Isso em par-</p><p>te se sobrepõe ao cumprimento de contratos, mas vai além, incluin-</p><p>do aspectos não completamente especificados nos contratos (e.g.,</p><p>a qualidade das mercadorias e serviços). Um terceiro grupo inclui</p><p>duas instituições já mencionadas acima, mas agora vistas sob uma</p><p>ótica diferente, incomum entre economistas: a moeda e o Estado.</p><p>Numa visão inspirada em Polanyi, o Estado seria indispensável para</p><p>administrar o que ele chamou de “mercadorias fictícias”, incluindo</p><p>trabalho e a terra, além da moeda. Uma outra visão da moeda en-</p><p>fatiza suas bases convencionais, mas rejeitando a ideia econômica</p><p>tradicional de que o objeto a ser eleito moeda tem um valor social</p><p>prévio à convenção monetária (Aglietta e Orléan, 2002).</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>46</p><p>A Ubiquidade e Importância das Instituições na Vida Econô-</p><p>mica</p><p>Há muito mais de institucional na vida econômica do que supõe</p><p>a maioria dos economistas e mesmo uma parte dos sociólogos. Me-</p><p>nos frequentemente reconhecidas como relevantes para economis-</p><p>tas, mas na verdade muito importantes e amplamente difundidas,</p><p>são as instituições informais.</p><p>Além das instituições já mencionadas, podem-se destacar várias</p><p>outras. Há, por exemplo, as instituições tecnológicas. Algumas delas</p><p>são formais, como as organizações e as leis dos chamados sistemas</p><p>nacionais de inovação. Outras instituições tecnológicas são infor-</p><p>mais: convenções e normas sociais. As convenções tecnológicas são</p><p>mais facilmente perceptíveis na literatura sobre tecnologias concor-</p><p>rentes, path dependence e lock in, a partir dos trabalhos seminais</p><p>de Brian Arthur e Paul David, mas também podem ser associadas</p><p>aos chamados paradigmas tecnológicos. Pelo menos alguma in-</p><p>terseção existe com a literatura sociológica que trata de estudos</p><p>sociais da tecnologia e da construção social da tecnologia. Por sua</p><p>vez, a ideia de normas sociais tecnológicas aparece já nas reflexões</p><p>de Schumpeter sobre o agente inovador e ressurge com riqueza nos</p><p>trabalhos que tratam das dificuldades envolvidas em path creation.</p><p>No domínio das finanças, organizações e regulamentos formais</p><p>são amplamente vistos como importantes, mas cresce o reconhe-</p><p>cimento da existência também de convenções e, por enquanto em</p><p>menor grau, de normas sociais financeiras. Keynes (1936, 1937)</p><p>ofereceu um exemplo seminal com a análise de sua convenção pro-</p><p>jetiva (que consiste em projetar para o futuro o valor presente de</p><p>uma variável, como o preço das ações), mas existem modelos con-</p><p>vencionais que são mais vagos ou gerais, no sentido de que não ge-</p><p>ram previsões específicas sobre o valor futuro de alguma variável.</p><p>Um exemplo é a convenção financeira de que trata André Orléan</p><p>(1999), um modelo mais qualitativo de análise que ele supõe ser</p><p>adotado por operadores no mercado de ações e que é compatível</p><p>com diferentes expectativas específicas. O mesmo tipo de comen-</p><p>tário aplica-se ao chamado mercado de trabalho. Tradicionalmen-</p><p>te já se reconhece a relevância de organizações como sindicatos e</p><p>das leis trabalhistas (ou de sua ausência). Alguns autores destacam</p><p>também normas sociais ou convenções, especialmente dentro das</p><p>firmas e referentes, por exemplo, ao esforço dos empregados e à</p><p>justiça de seu tratamento pelos superiores hierárquicos.</p><p>Menos comumente reconhecidas, mas igualmente relevantes,</p><p>são as instituições informais envolvendo decisões sobre o quanto</p><p>investir e o quanto produzir em mercados de bens. Nesses merca-</p><p>dos, pode-se falar também de instituições informais envolvendo,</p><p>por exemplo, mark-up pricing em várias estruturas de mercado,</p><p>formas de gerenciamento e procedimentos contábeis, bem como</p><p>padrões de consumo. Frequentemente trata-se aí de comporta-</p><p>mentos em busca de vantagens pecuniárias. Finalmente, mas não</p><p>menos importante, pode-se falar de um tema ainda pouco explora-</p><p>do: instituições informais na economia como disciplina, que podem</p><p>influenciar ou ter como contrapartida instituições na economia</p><p>como objeto.</p><p>DO PAPEL DA INDÚSTRIA CULTURAL E DAS CULTURAS DE</p><p>MASSA NA PRODUÇÃO DE UMA SOCIEDADE DO CON-</p><p>SUMO E DE SEUS IMPACTOS ECONÔMICOS E SOCIOAM-</p><p>BIENTAIS</p><p>Como fruto de uma sociedade capitalista e industrializada, em</p><p>que tudo é tratado como produto, inclusive os seres humanos, os</p><p>valores humanísticos foram deixados de lado em troca do interesse</p><p>econômico. A agressão ao meio ambiente e os danos causados em</p><p>nome da geração de grandes lucros.</p><p>Para entender o que vem a ser indústria cultural é preciso dis-</p><p>tinguir o que é cultura propriamente dita. A visão que muitos têm</p><p>sobre o termo cultura, em sua etimologia, possui vários significa-</p><p>dos, para alguns a cultura é o resultado de status social, ou seja,</p><p>somente para uma sociedade elitizada com uma hierarquia de bens</p><p>adquiridos durante sua trajetória de vida. Já para outros é o patri-</p><p>mônio artístico, literário e científico. No seu conceito sociológico</p><p>e antropológico, segundo Torre, a cultura tem uma definição mais</p><p>ampla, com embasamentos em estudo, a definição de cultura passa</p><p>ser:</p><p>Cultura é tudo que o homem produz, quer no sentido mate-</p><p>rial (utensílios, objetos, vestimentas, técnicas, habitações), quer no</p><p>sentido espiritual (filosofia, ciência, artes, letras, crenças). Cultura é</p><p>então à parte do ambiente feito pelo homem, o conjunto complexo</p><p>que inclui conhecimentos, artes, leis, crenças, moral, costumes, en-</p><p>fim tudo o que adquire como membro da sociedade. (1989. p218).</p><p>Para atender as necessidades do homem dentro de uma socie-</p><p>dade consumista e para explicar sua existência de que forma tudo</p><p>foi criado, “a cultura se origina sempre para satisfazer as necessi-</p><p>dades humanas, para que o homem possa adaptar-se ao meio e</p><p>adaptar o meio a si”. TORRE (1989 p. 200).</p><p>Como fruto de uma sociedade capitalista e industrializada, em</p><p>que tudo é tratado como produto, inclusive os seres humanos, os</p><p>valores humanísticos foram deixados de lado em troca do interesse</p><p>econômico. A cultura também segue a lógica do interesse conside-</p><p>rando que ela é produzida como mercadoria e planejada a fim de</p><p>gerar lucros. Nasce o individualismo, fruto de toda essa industriali-</p><p>zação cultural, logo só serão valorizados e permitidos os trabalhos</p><p>que sejam fiéis a essa ideologia e que mantenham seus seguidores</p><p>passivos, alienados e prontos para absorverem os ensinamentos de</p><p>consumo dessa indústria.</p><p>Com o intuito de influenciar, transformar hábitos, educar, in-</p><p>formar, criar outra visão de mundo e com a intenção de atingir a</p><p>sociedade como um todo para o consumo, a indústria cultural surge</p><p>como a ovelha negra da Revolução Industrial, no século XVIII, que</p><p>criou uma economia de consumo de bens e que passou a reger a</p><p>sociedade com a lei da troca, produtos substituídos por moedas,</p><p>essa substituição de produtos foi intensificada no século XIX. COE-</p><p>LHO (1980, p. 20).</p><p>A cultura – feita em série industrialmente, para o grande núme-</p><p>ro – passa a ser vista não como um instrumento de crítica e conhe-</p><p>cimento, mas como produto trocável por dinheiro e que deve ser</p><p>consumido como se consome qualquer outra coisa. E produto feito</p><p>de acordo com as normas gerais em vigor: produto padronizado,</p><p>como uma espécie de kit para montar. COELHO (1980. p. 11).</p><p>Através desta intensificação da cultura de massa e com o avan-</p><p>ço tecnológico, os meios de comunicação de massa, a imprensa, o</p><p>rádio, o cinema começam a disparar suas penetrações com a Era da</p><p>Eletrônica. Com o avanço da TV, capaz de colocar uma mensagem</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>47</p><p>ao alcance de grande número de indivíduos esta alienação torna-se</p><p>mais intensa. Dando início a algo que já era praticado, só que agora</p><p>com mais intensidade, a sociedade consumista realiza hábitos, nos</p><p>quais são praticados por outros, geralmente aqueles mais desen-</p><p>volvidos.</p><p>Com o desenvolvimento dos meios eletrônicos, a indústria da</p><p>consciência converteu-se em marca-passos do desenvolvimento</p><p>socioeconômico na sociedade pós-industrial, infiltram se em todos</p><p>os demais setores da produção, assume cada vez mais funções de</p><p>comando e de controle, e determina a norma da tecnologia domi-</p><p>nante. ENZENSBERGER. (1970. P. 43).</p><p>A indústria cultural preza pela estagnação das coisas, tentando</p><p>quebrar essa homogeneidade surgem movimentos modernos de</p><p>vanguarda que rompem essa ideologia e valorizam a mudança e o</p><p>novo.</p><p>Assim a indústria cultural, os meios de comunicação de massa</p><p>e a cultura de massa, vêm se estabelecendo a partir do processo da</p><p>industrialização e com a preocupação de atingir o maior número de</p><p>público e com isso buscar o máximo de lucro. A lógica é oferecer</p><p>uma produção, agradar o consumidor fazendo com que ele consu-</p><p>ma e se adapte à cultura imposta pela indústria cultural.</p><p>Uma cultura começa a ser vinculada pelos veículos de comuni-</p><p>cação e destinada a um maior número de pessoas. Os valores hu-</p><p>manos são deixados de lado em troca de interesses econômicos,</p><p>devido à industrialização da cultura, através dos meios de comu-</p><p>nicação. Com o grande poder em transformar uma sociedade con-</p><p>sumista, alienada, a indústria cultural também contribui para uma</p><p>formação do indivíduo. A industrialização cultural faz com que os</p><p>meios de comunicação possam homogeneizar as classes sociais.</p><p>O consumo proposto pelos meios de comunicação está rela-</p><p>cionado à cultura superior, que manipula a classe dos dominados</p><p>induzindo a terem os mesmo hábitos da sociedade elitizada, isso</p><p>significa que as formas culturais atravessam as classes sociais sem</p><p>que percebamos, acreditando que o povo pode ser consumidor das</p><p>mesmas coisas que a elite, criando desta forma uma indústria. As-</p><p>sim a cultura de massa, fornecida pelos meios de comunicação que-</p><p>bra as barreiras das classes sociais e culturais e coloca as bases de</p><p>uma instável e discutível democrática comunidade cultural.</p><p>Nessa perspectiva, a cultura média surge como filha bastarda</p><p>ou subproduto da cultura de massa, nesse processo, ela se diferen-</p><p>cia da cultura de massa: a) por tomar emprestados procedimentos</p><p>da cultura superior, desbastando-os facilitando-os; b) por usar es-</p><p>ses procedimentos, quando eles já são notórios, já foram “consu-</p><p>midos”; c) por rearranjá-los à provocações de efeitos fáceis; d) por</p><p>vende-los como cultura superior. COELHO (1980. p.20).</p><p>A alienação ou uma revelação a quem a consome. Na questão</p><p>de alienação o indivíduo foge da sua realidade cultural com um úni-</p><p>co intuito, trocar seus produtos por moedas criando uma socieda-</p><p>de capitalista monopolizada. A revelação, é que leva o indivíduo a</p><p>outra visão de mundo. A indústria cultural faz com que percamos a</p><p>essência da realidade, proporcionando ao homem a necessidade de</p><p>consumir incessavelmente.</p><p>A sociedade de consumo tem, claramente, um forte encanto e</p><p>traz consigo muitos benefícios econômicos. Também seria injusto</p><p>argumentar que as vantagens obtidas por uma geração anterior de</p><p>consumidores não deveriam ser compartilhadas pela geração se-</p><p>guinte. Todavia, o aumento disparado do consumo na última dé-</p><p>cada – e as projeções alucinantes que logicamente dele derivam</p><p>– indica que o mundo como um todo se verá, em breve, frente a um</p><p>grande dilema. (Gardner, Assadourian e Sarin, 2004: 4)</p><p>O Meio Ambiente é uma manifestação da constante trans-</p><p>formação, da natureza e da sociedade humana. Devido ao nosso</p><p>egocentrismo, e consumismo sem limite, na busca constante de</p><p>suprirmos nossos desejos econômico, buscando sempre viver de</p><p>aparência e isto fazendo às custas de derrubadas de árvores, quei-</p><p>madas, extinção de espécies, poluição do ar, do solo e da água, não</p><p>importando ao menos se todo este descaso com o planeta vai valer</p><p>mesmo a pena, pois para que todo este lucro, esta aparência de</p><p>ser o melhor, de ter a melhor casa e o melhor carro a melhor conta</p><p>bancária, sendo que não terá como aproveitar, já que o planeta já</p><p>reclama e está à beira de um colapso total. E para que tanto se ge-</p><p>rações futuras também não aproveitará esta fortuna.</p><p>Este descaso já vem de longe, o meio ambiente está sofrendo</p><p>profundas alterações,</p><p>às vezes são rastro de destruição jamais re-</p><p>cuperados, ou seja perdidas, pondo em perigo a sua própria exis-</p><p>tência, pois através desta destruição é que pode esta algum tipo de</p><p>cura jamais conhecidos.</p><p>O ritmo consumista está trazendo problemas seríssimos, insus-</p><p>tentáveis, não se pode nem medir o valor da perda só assistindo o</p><p>planeta responder de forma dramática.</p><p>Os cenários como shoppings, arranha-céus, indústrias, são con-</p><p>siderados normais, os valores relacionados com a natureza não tem</p><p>valor, na verdade é tratada como empecilho ao progresso.</p><p>Estas construções levam a várias complicações, pois muitas de-</p><p>las são feitas sem medir o impacto que podem causar. Ruas, quando</p><p>chove, ficam inundadas. Carros parece que têm mais que gente, um</p><p>trânsito louco, poluição constante.</p><p>DO PAPEL E DA IMPORTÂNCIA DE DISTINTOS ATORES</p><p>SOCIAIS NA FORMULAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DE</p><p>AÇÕES E POLÍTICAS NA PRODUÇÃO DE UM MUNDO</p><p>SUSTENTÁVEL</p><p>A busca por um mundo sustentável exige a participação ati-</p><p>va de diversos atores sociais na formulação e implementação de</p><p>ações e políticas. Esses atores desempenham papéis fundamentais</p><p>na promoção de práticas e soluções que visam conciliar o desen-</p><p>volvimento humano com a preservação ambiental e a justiça social.</p><p>Neste texto, discutiremos o papel e a importância desses atores na</p><p>construção de um mundo sustentável.</p><p>— Governos e Instituições Governamentais</p><p>Os governos desempenham um papel central na formulação e</p><p>implementação de políticas públicas que promovam a sustentabili-</p><p>dade. Através da criação de legislações, regulações e instrumentos</p><p>de governança, os governos podem estabelecer diretrizes e metas</p><p>para a proteção do meio ambiente, a promoção de energias ren-</p><p>ováveis, a gestão sustentável dos recursos naturais, entre outros</p><p>aspectos relacionados à sustentabilidade.</p><p>Além disso, as instituições governamentais são responsáveis</p><p>por fiscalizar o cumprimento das políticas ambientais, promover a</p><p>educação ambiental e incentivar a participação da sociedade civil</p><p>na tomada de decisões relacionadas ao meio ambiente.</p><p>— Sociedade Civil e Organizações Não Governamentais</p><p>(ONGs)</p><p>A sociedade civil desempenha um papel essencial na con-</p><p>strução de um mundo sustentável. Organizações não governamen-</p><p>tais (ONGs), movimentos sociais, grupos comunitários e indivíduos</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>48</p><p>engajados são responsáveis por levantar questões ambientais, pro-</p><p>mover a conscientização e mobilizar ações em prol da sustentabil-</p><p>idade.</p><p>As ONGs desempenham um papel de pressão e advocacia,</p><p>monitorando as políticas governamentais, conduzindo pesquisas,</p><p>fornecendo assistência técnica e participando de processos de</p><p>tomada de decisão. Além disso, a sociedade civil desempenha um</p><p>papel importante na promoção de práticas sustentáveis em nível</p><p>local, através de iniciativas de reciclagem, conservação de recursos</p><p>naturais, educação ambiental e empoderamento das comunidades.</p><p>Setor Privado e Empresas</p><p>O setor privado e as empresas têm um papel crucial na pro-</p><p>dução de um mundo sustentável. As empresas podem adotar práti-</p><p>cas de responsabilidade social e ambiental, investir em tecnologias</p><p>limpas, reduzir emissões de gases de efeito estufa, implementar</p><p>políticas de reciclagem e promover a sustentabilidade em suas</p><p>cadeias de suprimentos.</p><p>Além disso, a inovação e o empreendedorismo sustentável no</p><p>setor privado podem impulsionar a transição para uma economia</p><p>mais verde e resiliente, promovendo a criação de empregos verdes</p><p>e soluções inovadoras para os desafios ambientais.</p><p>Academia e Pesquisa Científica</p><p>A academia e a pesquisa científica desempenham um papel</p><p>fundamental na produção de conhecimento e na formulação de</p><p>soluções sustentáveis. Através da pesquisa multidisciplinar, estudos</p><p>de impacto ambiental, modelagem de cenários e análise de políti-</p><p>cas, os acadêmicos podem contribuir com evidências científicas e</p><p>recomendações para embasar a formulação de políticas públicas e</p><p>práticas sustentáveis.</p><p>Além disso, a academia desempenha um papel de educação e</p><p>formação, capacitando profissionais nas áreas relacionadas à sus-</p><p>tentabilidade e promovendo a conscientização sobre os desafios</p><p>ambientais e sociais.</p><p>A produção de um mundo sustentável requer a participação</p><p>ativa e colaborativa de diversos atores sociais. Os governos, a so-</p><p>ciedade civil, o setor privado e a academia desempenham papéis</p><p>complementares na formulação e implementação de ações e políti-</p><p>cas sustentáveis. A integração desses atores e o fortalecimento de</p><p>parcerias colaborativas são fundamentais para enfrentar os desafi-</p><p>os globais e construir um futuro mais sustentável para as gerações</p><p>presentes e futuras.</p><p>DAS ABORDAGENS SOCIOLÓGICAS, POLÍTICAS E AN-</p><p>TROPOLÓGICAS DOS CONFLITOS E PROBLEMÁTICAS</p><p>SOCIOAMBIENTAIS CONTEMPORÂNEAS QUE ENVOLVEM</p><p>DIFERENTES MODELOS E PRÁTICAS DE PRODUÇÃO, CIR-</p><p>CULAÇÃO, CONSUMO E DESCARTE DE COISAS E BENS</p><p>Antropologia Social9</p><p>A antropologia social é uma disciplina fundamental do conhe-</p><p>cimento humano. Esta ciência começou a ser desenvolvida de ma-</p><p>neira mais concreta a partir do século XIX. Em sua primeira fase, o</p><p>objeto de estudo da antropologia social era a sociedade pré-indus-</p><p>trial. No entanto, através da evolução social esta ciência também</p><p>expandiu seu campo de estudo.</p><p>9 Conceitos. Antropologia Social. < https://conceitos.com/antropologia-so-</p><p>cial/></p><p>Os profissionais que trabalham no campo da antropologia so-</p><p>cial são especialistas em explorar o conhecimento cultural de um</p><p>povo</p><p>Por exemplo, o estudo de um antropólogo social pode abor-</p><p>dar questões específicas como a fé de um povo (ou seja, ideias re-</p><p>ligiosas), as tendências artísticas dominantes na época, a teoria do</p><p>conhecimento dominante, as formas de relação social, os valores e</p><p>crenças que estruturam a ética social, os convencionalismos sociais</p><p>e as tradições dos povos em determinadas datas.</p><p>Assim como outras disciplinas humanas, a antropologia social é</p><p>um tesouro que permite ao ser humano conhecer-se melhor como</p><p>parte da sociedade que pertence</p><p>Além disso, a antropologia social mostra a riqueza cultural que</p><p>há no mundo a partir das diferenças presentes nos costumes dos</p><p>mais variados povos. Ou seja, a cultura como um alimento de es-</p><p>pírito é um bem essencial para a evolução, uma vez que é um bem</p><p>diferente. Um dos métodos de investigação realizado por antropó-</p><p>logos sociais é a observação direta que é fundamental para reunir</p><p>dados objetivos.</p><p>Outro fator, como o idioma de uma região, é vital para formar</p><p>a antropologia desse local.</p><p>O Homem é um ser Cultural</p><p>O sentido da antropologia social parte também da premissa do</p><p>ser humano como um ser cultural por sua própria natureza. Ou seja,</p><p>a inteligência, a razão, a sensibilidade e a vontade são habilidades</p><p>essenciais para a compreensão da vida humana.</p><p>Por outro lado, enquanto um ser humano pode ser compreen-</p><p>dido de modo individual, a antropologia social é colocada em ob-</p><p>servação como uma entidade de grupo. Ou seja, a sociedade como</p><p>estrutura de vida própria se nutre de ritos, costumes, regras e acon-</p><p>tecimentos. É impossível compreender o ser humano como uma</p><p>manifestação de sua própria natureza.</p><p>Antropologia e Política10</p><p>A abordagem da política pela antropologia pode ser definida de</p><p>uma forma simples: explicar como os atores sociais compreendem</p><p>e experimentam a política, isto é, como significam os objetos e as</p><p>práticas relacionadas ao mundo da política. A compreensão de gru-</p><p>pos específicos, em circunstâncias particulares, leva a comparações</p><p>e diálogos com a literatura sobre contextos sociais mais amplos.</p><p>Embora aparentemente simples, trata-se de uma proposta</p><p>complexa de ser executada e que implica pelo menos dois pressu-</p><p>postos. O primeiro, de que a sociedade é heterogênea, formada por</p><p>redes sociais que sustentam e possibilitam múltiplas percepções</p><p>da realidade. O segundo, de que o “mundo da política” não é um</p><p>dado a priori, mas precisa ser investigado e definido a partir das for-</p><p>mulações e dos comportamentos de atores sociais e de contextos</p><p>particulares.</p><p>O interesse da antropologia pela política existe desde os</p><p>primórdios da disciplina, uma vez que o estudo de sociedades e</p><p>relações sociais é estreitamente ligado à temática das relações de</p><p>poder. No contexto da tradição evolucionista, que marcou a fase</p><p>inicial da antropologia, o foco recaía sobre as formas e os sistemas</p><p>de poder em sociedades “primitivas”, cujas características deveriam</p><p>ser comparadas e classificadas em relação ao sistema político das</p><p>sociedades modernas, consideradas mais “evoluídas”. Propunha-se,</p><p>10 KUSCHNIR, Karina. Antropologia e política. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo, v.</p><p>22, n. 64, p. 163-167, Junho 2007. <http://www.scielo.br/scielo.php?script=s-</p><p>ci_arttext&pid=S0102-69092007000200014&lng=en&nrm=iso>.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>49</p><p>então, uma linha evolutiva das formas de organização política, que</p><p>começava com a “horda primitiva” e chegava ao Estado moderno.</p><p>Nessa época, entre o final do século XIX e o início da década de</p><p>1920, a grande maioria dos estudos antropológicos não tinha a polí-</p><p>tica como tema central de interesse, nem a antropologia política era</p><p>pensada ou formalizada como uma subárea de estudos.</p><p>Com o avanço da tradição estrutural-funcionalista britânica, no</p><p>entanto, a política ganhou espaço, sobretudo nas etnografias reali-</p><p>zadas no contexto colonial anglo-africano. Muitos desses estudos</p><p>buscavam entender a organização social de grupos e etnias sem a</p><p>presença de um sistema político formal, isto é, sem Estado. É nessa</p><p>direção que surgem as reflexões sobre a importância dos sistemas</p><p>de parentesco para a hierarquia e a coesão sociais. Tendo como re-</p><p>ferência inicial Radcliffe-Brown, sucederam-se autores como Evans-</p><p>-Pritchard, Meyer Fortes, Max Gluckman, Edmund Leach e Victor</p><p>Turner, entre outros. Alguns dos textos fundamentais da então re-</p><p>cém-nomeada “antropologia política” foram produzidos nesse con-</p><p>texto, como a coletânea African political systems (Fortes e Evans-Prit-</p><p>chard, [1940 - 1961) e a monografia Os Nuer (Evans-Pritchard, [1940]</p><p>1978). Essa abordagem, por sua vez, também gerou críticas. A defini-</p><p>ção de poder teria se tornado tão ampla que poderia ser encontrada</p><p>em qualquer situação social, englobando literalmente todos os temas</p><p>da disciplina (Vincent, 2002). Mas é nessa fase que se consolidou ins-</p><p>titucionalmente o campo de uma antropologia política (Easton, 1959).</p><p>É fundamental ressalvar que, embora dialogando entre si com mais ou</p><p>menos frequência, esses antropólogos não produziram em absoluto</p><p>abordagens homogêneas da política. Se numa primeira etapa foi dada</p><p>maior ênfase aos aspectos de coesão e equilíbrio social, à medida que</p><p>avançamos no tempo, observamos uma maior preocupação com as</p><p>transformações sociais, discutindo as relações de poder no tempo e</p><p>no espaço, a partir de temáticas relacionadas a conflitos, rituais, mitos,</p><p>identidades, status, representações e práticas.</p><p>A partir da década de 1950, principalmente depois do clássi-</p><p>co Sistemas políticos da Alta Birmânia, de Edmund Leach ([1954]</p><p>1996), desenvolve-se uma nova fase no campo da antropologia</p><p>política, com o afastamento do cânone tradicional e a pulverização</p><p>de problemas teóricos e temas de pesquisa, cujo alcance foge ao</p><p>âmbito deste texto. Entretanto, há um certo consenso de que esses</p><p>novos campos são fruto sobretudo do enfrentamento dos desafios</p><p>impostos por uma conjuntura mundial na qual convivem forças po-</p><p>líticas e culturais em diversos níveis como comunismo, capitalismo,</p><p>colonialismo e movimentos sociais de diversos tipos. Entre estes,</p><p>a área dos estudos feministas e dos movimentos anticolonialistas</p><p>ganhou destaque por sua importante contribuição para a reflexão</p><p>em torno do poder (Vincent, 2002).</p><p>No contexto brasileiro, desenvolveu-se, na década de 1990, um</p><p>conjunto de trabalhos autodenominados antropologia da política,</p><p>que tiveram sua institucionalização mais importante no Núcleo de</p><p>Antropologia da Política (NuAP), sediado no Museu Nacional da</p><p>UFRJ, mas envolvendo grupos em outras universidades federais,</p><p>como as de Brasília, Ceará e Rio Grande do Sul, entre outras. O ob-</p><p>jetivo do NuAP, como definiu Peirano (1998), era partir da “supo-</p><p>sição básica de que a categoria política é sempre etnográfica”. Ao</p><p>investigar a política legitimada pelos padrões ocidentais modernos,</p><p>“deslegitimando pretensões essencialistas, sociocêntricas e confor-</p><p>mistas”, revela-se que a própria percepção da “política” como uma</p><p>esfera social à parte de outras esferas é produto dessa ideologia</p><p>moderna. No caso brasileiro, alerta Peirano, o antropólogo enfren-</p><p>taria uma “combinação complexa” de universalismo científico e</p><p>ideologia nacional de moldes “holistas”.</p><p>Isso tem sido observado em muitos estudos empíricos, desde</p><p>o clássico Coronelismo, enxada e voto (Leal, 1948) até as recentes</p><p>etnografias e coletâneas publicadas no âmbito do NuAP (Palmeira e</p><p>Goldman, 1996; Barreira e Palmeira, 1998; Heredia, Teixeira e Bar-</p><p>reira, 2002; Palmeira e Barreira, 2006). A política é entendida, aqui,</p><p>principalmente como um meio de acesso aos recursos públicos, no</p><p>qual o político atua como mediador entre comunidades locais e di-</p><p>versos níveis de poder. Esse fluxo de trocas é regulado pelas obriga-</p><p>ções de dar, receber e retribuir, o que o antropólogo Marcel Mauss</p><p>([1924] 1974) chamou de “lógica da dádiva”, e cujo princípio funda-</p><p>mental está no comprometimento social daqueles que trocam para</p><p>além das coisas trocadas.</p><p>As pessoas que participam dessas redes, seja como eleitores,</p><p>seja como políticos, nunca concordariam com os acadêmicos que</p><p>consideram suas ações um mero “clientelismo”. Do ponto de vista</p><p>“nativo”, os políticos não estão “privatizando bens públicos” (para</p><p>usar uma definição clássica de clientelismo); ao contrário, os polí-</p><p>ticos estão dando acesso a bens e serviços públicos a pessoas que</p><p>não os teriam de outra forma. Nesse contexto, a palavra “público”</p><p>não significa “recursos que pertencem a todos”, mas “recursos mo-</p><p>nopolizados pelas elites políticas e econômicas”. Ou seja, pessoas</p><p>“ordinárias” – de estratos inferiores da sociedade – não participa-</p><p>riam dessa definição de “público”. Por isso mesmo, o acesso às fon-</p><p>tes públicas de bens e serviços precisa ser intermediado pelo polí-</p><p>tico e é visto como um bem extraordinário, “que não tem preço”.</p><p>No entanto, essa rede não se constitui apenas pelo acesso e</p><p>intermediação de recursos públicos. A distribuição de bens e servi-</p><p>ços em locais de “atendimento”, como centros de assistência social</p><p>ou escritórios políticos, é prática corrente. Para manter esse tipo</p><p>de serviço, o político precisa manter fortes laços com empresários</p><p>ou grupos economicamente favorecidos que lhe forneçam dinheiro</p><p>ou mercadorias demandados pela comunidade. Essa ajuda externa</p><p>é retribuída, por sua vez, na forma de alvarás, licenças, anistia de</p><p>multas e outros benefícios diversos. Pode também, sem dúvida, em</p><p>certos casos, caracterizar-se como corrupção pura e simples.</p><p>Como se coloca, então, a antropologia da política ante a ques-</p><p>tão da democracia? Se nos basearmos nos seus princípios concei-</p><p>tuais, relações de troca do tipo acima mencionadas são um grande</p><p>desserviço. Entretanto, como intelectuais, temos que evitar que</p><p>nosso desejo de melhorar a qualidade da democracia interfira na</p><p>forma como coletamos e interpretamos os dados de pesquisa. Se-</p><p>não, ficaremos perpetuamente rotulando as pessoas em vez de ten-</p><p>tar compreendê-las. Seguindo a proposta de Peirano (1998), esses</p><p>mesmos rótulos operam segundo lógicas de poder da academia</p><p>ou até lógicas de poder mais amplas. Assim, o mesmo fenômeno</p><p>classificado como “máquina política”, nos Estados Unidos, torna-se</p><p>“clientelismo”, na América Latina, ou “serviços aos eleitores”, no</p><p>Reino Unido (Posada-Carbó, 2005).</p><p>Categorias como “mandonismo”, “coronelismo”, “clientelismo”,</p><p>entre outras, trazem embutidas a idéia de que as nossas práticas</p><p>políticas são imperfeitas, atrasadas ou inferiores. Trata-se de clas-</p><p>sificações que tomam por base o princípio de que as sociedades</p><p>modernas</p><p>ou paradigmas: o «individualismo metodológico» e o «ho-</p><p>lismo». Tal significa, portanto, que a investigação e a explicação</p><p>sociológica são, desde logo condicionadas, pelo posicionamento do</p><p>investigador face a estes universos de proposições teóricas que têm</p><p>marcado a história da sociologia.</p><p>Enquanto paradigma, o «individualismo metodológico» consis-</p><p>te na análise da realidade social decorrente da estrita explicação</p><p>dos comportamentos individuais. Esta abordagem inspira-se funda-</p><p>mentalmente na economia, que considera que o homem, sujeito</p><p>“simultaneamente racional e maximizador, é utilitarista e procura</p><p>em qualquer situação adoptar o comportamento que, em função</p><p>dos recursos de que dispõe, lhe é mais favorável” (Riutort, 1999:</p><p>51). Inspirado nesta concepção, o sociólogo alemão Max Weber</p><p>defendia que também a sociologia não poderia também proceder</p><p>senão das ações de um, ou vários ou numerosos indivíduos separa-</p><p>dos. O francês Raymond Boudon (1995) acentuou as diferenças en-</p><p>tre a abordagem dos economistas e dos sociólogos, dizendo que, se</p><p>aquela concepção era válida para os economistas, já os sociólogos</p><p>deveriam perceber que o contexto social interfere no cálculo dos</p><p>atores e, como tal, o indivíduo, ao agir, fá-lo sempre num contexto</p><p>de influência pelos comportamentos coletivos. O sujeito não é re-</p><p>dutível a um ser «passivo» e não se limita a agir «mecanicamente»</p><p>sem atribuir significado à ação.</p><p>Este paradigma revela, contudo, algumas insuficiências. Con-</p><p>forme sintetiza Riutort (1999: 54-55), em primeiro lugar, importa</p><p>considerar que o indivíduo, confrontado com uma situação prá-</p><p>tica, não tem a possibilidade de encarar todas as situações pos-</p><p>síveis, e por outro, a racionalidade a que ele recorre é chamada</p><p>«adaptativa», porque ele não é espontaneamente racional, antes</p><p>fruto de uma aprendizagem (socialização). Em segundo lugar, é de</p><p>admitir que nem sempre o interesse individual preside sempre à</p><p>conduta humana. Finalmente, dir-se-á que os indivíduos são dife-</p><p>rentes entre si, pelo que não se pode negligenciar o contexto social</p><p>que influencia aos comportamentos.</p><p>Contrária à perspectiva individualista, a perspectiva «holista»,</p><p>assume que, para compreender um fenómeno social, deve par-</p><p>tir-se da sociedade, encarada na sua globalidade, analisando o(s)</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>9</p><p>constrangimento(s) que ela exerce sobre a conduta dos indivíduos.</p><p>Este enfoque é muito semelhante ao preconizado por Durkheim,</p><p>quando defendia que “romper com as pre-noções consistia preci-</p><p>samente em pôr entre parênteses as razões que o indivíduo dá da</p><p>sua ação, já que este raramente está em condições de compreender</p><p>os reais «motivos» dos seus atos” (Riutort, 1999: 56). Nesta óptica,</p><p>cabe à sociologia analisar de que maneira a sociedade imprime no</p><p>indivíduo maneiras de pensar e de agir que acabam por lhe apare-</p><p>cer como «naturais». Esta perspectiva evoluiu com a corrente fun-</p><p>cionalista (sobretudo da sociologia americana, com Talcott Parsons</p><p>como figura de proa), que considerava a sociedade como um con-</p><p>junto coerente em que cada elemento desempenha um a função</p><p>específica útil ao equilíbrio do todo. Como consequência, os ele-</p><p>mentos (indivíduos)não podem ser estudados de per si, mas sim a</p><p>partir das suas relações com o contexto social.</p><p>Mas, à semelhança do “individualismo metodológico”, também</p><p>esta perspectiva foi alvo de críticas. De facto, a análise funcional</p><p>tem o inconveniente de interessar-se com uma «distância» muito</p><p>grande, pelos comportamentos dos indivíduos em sociedade e tem</p><p>tendência a sobrestimar em excesso a estabilidade de uma socie-</p><p>dade, unicamente encarada a um nível global. Max Weber qualifica</p><p>esta abordagem como «objetivante», já que ela não se prende à</p><p>maneira como os indivíduos atuam nem aos efeitos sociais que pro-</p><p>duzem - enumerar funções implica um afastamento das relações</p><p>sociais efetivas que contribuem para a sua existência.</p><p>Acontece, porém, que esta oposição clássica individualismo</p><p>metodológico/holismo surge um pouco forçada em ciências sociais.</p><p>Com efeito, tal como Weber está atento às estruturas sociais, à</p><p>maneira como elas afetam as representações e as ações dos indi-</p><p>víduos, também Durkheim não está insensível aos processos pelos</p><p>quais a realidade social, que nunca é um «dado», acaba por «ganhar</p><p>corpo nas consciências individuais” (Riutort, 1999: 60). Outro autor,</p><p>o alemão Norbert Élias, “prova” também a relativização que deve</p><p>fazer-se sobre a diferenças entre os dois paradigmas. Elias, conside-</p><p>ra que o indivíduo não é «totalmente determinado» nem «livre» de</p><p>atuar à sua maneira, mas dispõe de uma margem de manobra num</p><p>jogo em que é um interveniente entre outros (Riutort, 1999: 62).</p><p>Entretanto, os sociólogos contemporâneos Anthony Giddens e</p><p>Erving Goffman, propuseram-se reconsiderar as relações indivíduo/</p><p>sociedade. Adoptando uma perspectiva «relacional» (interacionis-</p><p>ta), eles reclamam a necessidade de estar atento à maneira como a</p><p>realidade social se instaura num movimento de vaivém, ou seja, en-</p><p>quanto fenómeno objetivo que se impõe a todos, mas igualmente</p><p>por meio de uma progressiva interiorização nas consciências indivi-</p><p>duais. Isto porque a realidade social tem duas existências: enquanto</p><p>realidade objetivada e realidade incorporada pelos indivíduos, em</p><p>função das suas características sociais próprias. Desta forma, verifi-</p><p>ca-se que a organização social não se impõe aos indivíduos «meca-</p><p>nicamente» e do «exterior», já que estes contribuem à sua maneira</p><p>e sem prestar a isso grande atenção, para a sua perpetuação através</p><p>de um conjunto de interações que os colocam em relação.</p><p>AS SINGULARIDADES EPISTEMOLÓGICAS DA SOCIOLOGIA</p><p>Na sua obra La crise de da Sociologie, Raymond Boudon (1971),</p><p>apresenta-nos as singularidades epistemológicas da sociologia. A</p><p>primeira, respeita ao próprio objetada sociologia. Ao contrário das</p><p>outras ciências sociais, a sociologia dá a ideia de não ter ainda en-</p><p>contrado o seu próprio objeto. Efetivamente, esta ciência parece</p><p>caracterizar-se por uma interminável pesquisa sobre si mesmo,</p><p>uma vez que nenhuma das definições até agora propostas pelos</p><p>principais sociólogos mereceu consenso generalizado. Como afir-</p><p>mou um dia Raymond Aron (talvez com alguma ironia), num ponto,</p><p>e talvez apenas nele, todos estão de acordo: a sociologia é difícil de</p><p>definir (Boudon, 1971: 10).</p><p>A segunda singularidade da sociologia reside na sua hesitação</p><p>entre a «descrição» e a «explicação». Como dissemos, os primei-</p><p>ros sociólogos assumiam a sociologia como ciência nomotética que</p><p>procurava explicar as regularidades sociais e enunciar leis universais</p><p>sobre o funcionamento da sociedade. No entanto, vemos hoje que</p><p>muitos dos trabalhos de investigação adoptam uma lógica muito</p><p>mais descritiva do que explicativa.</p><p>Uma terceira singularidade, que decorre das consequências da</p><p>segunda, tem a ver com a possibilidade de uma sociologia “assim “,</p><p>uma sociologia crescentemente «empírica», poder produzir teorias;</p><p>ou seja emerge a questão de (im)possibilidade de propor teorias a</p><p>partir de dados empíricos, necessariamente contextualizados.</p><p>Em suma: dificuldade em definir o seu objeto, hesitação entre</p><p>a descrição sociográfica e a análise sociológica e o carácter flexível</p><p>de noção de teoria: eis algumas características epistemológicas da</p><p>sociologia atual (Boudon, 1971: 16).</p><p>Raymond Boudon, considera, no entanto, que o carácter sin-</p><p>gular da sociologia advém tanto de ser simultaneamente descritiva</p><p>e nomotética, porque, por um lado, a descrição e explicação são</p><p>frequentemente tomadas uma pela outra e, por outro lado, porque</p><p>a interação entre estes dois aspectos da pesquisa é sempre fraca e,</p><p>em todo o caso, pouco sistemática (Boudon, 1971: 17). Curioso e</p><p>surpreendente, conclui Boudon, é que estas singularidades, longe</p><p>de se atenuarem, tendem a ser vez mais marcadas hoje do que na</p><p>época de Durkheim ou de Sorokin.</p><p>Uma vez que, também na linha de Boudon (1971), este «poli-</p><p>morfismo» da sociologia não se deverá apenas à sua hesitação</p><p>devem estar comprometidas com os princípios democrá-</p><p>ticos universais inspirados nas experiências europeia e norte-ame-</p><p>ricana. Desse ponto de vista, o clientelismo será sempre visto como</p><p>sintoma de nosso estágio de “subdesenvolvimento” e, portanto, um</p><p>problema para a “modernização” da política.</p><p>Seguindo em outra direção, podemos tomar o “clientelismo”</p><p>como expressão de valores culturais que privilegiam as relações</p><p>sociais entre pessoas, por oposição às relações entre indivíduos,</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>50</p><p>no sentido que Roberto Da Matta (1979) emprestou ao termo. Isto</p><p>é, trata-se de trocas e relações sociais que envolvem noções como</p><p>honra, gratidão e dívida moral. Em muitos casos, isso ajuda também</p><p>a perceber que as relações de troca empiricamente observadas não</p><p>se constituem numa esfera “política” à parte, muito menos são a</p><p>principal fonte de recursos da população. Tanto é assim que muitos</p><p>dos bens doados por políticos são itens aparentemente supérfluos,</p><p>como perucas, camisas para times de futebol, brinquedos, latas de</p><p>tinta etc.</p><p>Para a antropologia, é preciso investigar tais trocas dentro do</p><p>contexto etnográfico em que ocorrem, buscando a compreensão</p><p>das relações sociais envolvidas. Em muitos casos, essa compreen-</p><p>são é fundamental para percebermos que a política opera com va-</p><p>lores da sociedade mais abrangente, tradicionalmente associados</p><p>a outras esferas da vida social, como família e religião, mas con-</p><p>siderados ilegítimos quando operados na esfera política. Isso não</p><p>quer dizer, obviamente, que se queira justificar nem defender essas</p><p>práticas – cumpre, antes de tudo, compreendê-las.</p><p>Onde ficaria, então, a responsabilidade e a contribuição da an-</p><p>tropologia para com os princípios da democracia representativa e o</p><p>aperfeiçoamento das suas instituições?</p><p>Como afirmou Abélès (1997), a antropologia não tem como</p><p>objetivo criticar as práticas políticas, mas entender a maneira pela</p><p>qual as relações de poder emergem numa situação determinada,</p><p>adquirindo significado para os atores sociais. Parte sempre do pres-</p><p>suposto de que a “democracia” é um modelo teórico, e que, portan-</p><p>to, não existe de forma pura. Questionar conceitos como “clientelis-</p><p>mo” é deixar de tomar esse modelo como ponto de partida; é não</p><p>considerar universais termos como, por exemplo, “individualismo”,</p><p>“representação” e “domínio público”; é, finalmente, perceber que o</p><p>universalismo é um valor inspirado no paradigma da modernização,</p><p>na crença de que a imparcialidade e a objetividade devem prevale-</p><p>cer sobre as emoções e a subjetividade (como as que estão presen-</p><p>tes nas relações baseadas na honra e na dádiva).</p><p>A abordagem antropológica privilegia técnicas de pesquisa</p><p>qualitativas, voltadas para a realização de trabalho de campo com</p><p>observação participante e entrevistas em profundidade, frequente-</p><p>mente produzindo “estudos de casos”. No entanto, o antropólogo</p><p>não ignora que as práticas e as representações observadas estão</p><p>inseridas numa sociedade maior, num sistema político formal, com</p><p>instituições de larga escala. Nesse esforço, a antropologia de um</p><p>modo geral oscila entre sua fidelidade ao particular e a necessidade</p><p>de produzir generalizações (Lewellen, 1992). Por isso, é fundamen-</p><p>tal que se estabeleça um diálogo com outras disciplinas, como a his-</p><p>tória, a ciência política, a sociologia, a linguística e a comunicação.</p><p>É a partir de abordagens multi e interdisciplinares e da adoção de</p><p>uma perspectiva comparativa que se pode chegar a compreender</p><p>não só as representações e as práticas da política num grupo espe-</p><p>cífico, mas também as relações desse material etnográfico com a</p><p>sociedade mais ampla.</p><p>A antropologia pode contribuir nesse debate porque sua prin-</p><p>cipal tarefa é estudar não o que a política deve ser, mas o que ela</p><p>é para um determinado grupo, em um contexto histórico e social</p><p>específico. Compreender, “do ponto de vista do nativo”, práticas</p><p>muitas vezes diferentes daquelas que idealizamos pode gerar in-</p><p>cômodo, intelectual ou cívico, mas um incômodo necessário, pois,</p><p>como disse Geertz, “se quiséssemos verdades caseiras, deveríamos</p><p>ter ficado em casa” (2001, p. 67).</p><p>DAS TRANSFORMAÇÕES NO PROCESSO E NA ORGANIZA-</p><p>ÇÃO DO TRABALHO, DAS NOVAS FORMAS DE TRABALHO</p><p>E SUAS IMPLICAÇÕES NO EMPREGO E DESEMPREGO NA</p><p>ATUALIDADE</p><p>Trabalho é um conjunto de atividades realizadas, é o esforço</p><p>feito por indivíduos, com o objetivo de atingir uma meta. O trabalho</p><p>também pode ser abordado de diversas maneiras e com enfoque</p><p>em várias áreas, como na economia, na física, na filosofia, a evolu-</p><p>ção do trabalho na história, etc11.</p><p>É o trabalho que faz com que o indivíduo demonstre ações,</p><p>iniciativas, desenvolva habilidades. É com o trabalho que ele</p><p>também poderá aperfeiçoá-las. O trabalho faz com que o homem</p><p>aprenda a conviver com outras pessoas, com as diferenças, a não</p><p>ser egoísta e pensar na empresa, não apenas em si.</p><p>O trabalho faz com que o indivíduo aprenda a fazer algo com</p><p>um objetivo definido, desde a época do trabalho escolar no colégio,</p><p>e com isso, o ser humano começa a conquistar seu próprio espaço,</p><p>respeito e consideração dos demais. Quando a pessoa realiza um</p><p>trabalho bem feito, também contribui para a sua autoestima, satis-</p><p>fação pessoal e realização profissional.</p><p>Muitas pessoas se questionam a respeito da diferença entre</p><p>o trabalho e emprego, sendo que algumas pessoas confundem os</p><p>dois conceitos. O trabalho é uma tarefa que não necessariamente</p><p>confere ao trabalhador uma recompensa financeira. O emprego é</p><p>um cargo de um indivíduo em uma empresa ou instituição, onde o</p><p>seu trabalho (físico o mental) é devidamente remunerado. O con-</p><p>ceito de emprego é bem mais recente do que o de trabalho, e surgiu</p><p>por volta da Revolução Industrial e se propagou com a evolução do</p><p>capitalismo.</p><p>Trabalho Infantil</p><p>Trabalho infantil é o trabalho exercido por crianças e adoles-</p><p>centes, que estejam abaixo da idade mínima legal permitida para o</p><p>trabalho, e isso pode variar de cada país. No Brasil, qualquer criança</p><p>ou adolescente, que trabalhe com menos de 16 anos, é considerado</p><p>trabalho infantil, que é proibido por lei.</p><p>Além do trabalho infantil ser proibido, qualquer forma de tra-</p><p>balho que seja cruel ou nociva, como tortura e maus tratos, tam-</p><p>bém constituem crime.</p><p>Trabalho em Equipe</p><p>Trabalho em equipe é quando um grupo realiza um esforço co-</p><p>letivo para atingir um objetivo ou solucionar um problema. Traba-</p><p>lho em equipe é um tema muito debatido em organizações, pois</p><p>acredita-se que todos os funcionários devem saber trabalhar em</p><p>equipe, para atingir metas mais rápidas.</p><p>Saber trabalhar em equipe é uma característica muito impor-</p><p>tante nos dias atuais, uma vez que facilita a convivência, faz com</p><p>que as tarefas sejam realizadas de forma mais eficiente e com muito</p><p>mais agilidade.</p><p>Trabalho em equipe é também muito importante nos esportes.</p><p>Esportes como o futebol, basquete, vôlei, e muitos outros, precisam</p><p>do trabalho em equipe de todos, para atingir o objetivo que é a</p><p>vitória nas partidas.</p><p>11 https://bit.ly/2j76Od5</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>51</p><p>Trabalho Escravo</p><p>Trabalho escravo é quando o empregador explora seu empregado.</p><p>O trabalho escravo surgiu na época da escravidão, onde os empregados</p><p>tinham que fazer tudo que seu patrão mandasse, sem receber absoluta-</p><p>mente nada por isso, e geralmente sob tortura e maus tratos.</p><p>O trabalho escravo também é quando ocorre contratações</p><p>realizadas de forma ilegal e que acabam explorando o trabalhador.</p><p>Em tese, a escravidão foi extinta em todos os países, porém alguns,</p><p>principalmente no continente Africano, mantêm crianças e mulhe-</p><p>res para serem escravas, ou até mesmo na prostituição.</p><p>Há diversos acordos internacionais que proíbem os países de</p><p>manterem qualquer pessoa sob regime de trabalho escravo, porém</p><p>isso não é cumprido, em especial em áreas pobres, como Filipinas</p><p>e Tailândia.</p><p>Trabalho Voluntário</p><p>Há também o trabalho voluntário, que é aquele onde o indi-</p><p>víduo se disponibiliza a exercer uma atividade, sem receber qual-</p><p>quer remuneração para</p><p>isso. Trabalho voluntário é bastante comum</p><p>para estudantes universitários, que estão em fase de aprendizado,</p><p>e ainda não buscam receber remuneração por isso. Além disso, o</p><p>trabalho voluntário está muitas vezes associado a diferentes causas</p><p>sociais. Algumas ONGs e instituições sem fins lucrativos dependem</p><p>de pessoas que estão dispostas a trabalhar voluntariamente.</p><p>Trabalho na Física</p><p>Em Física, trabalho, que é representado pela letra W, serve para</p><p>medir a energia necessária para a aplicação de uma força, durante</p><p>um determinado tempo de deslocamento. O trabalho é calculado</p><p>através de uma fórmula, que é a multiplicação da força, pelo des-</p><p>locamento.</p><p>O trabalho pode ser um número positivo ou negativo, uma vez</p><p>que, para o trabalho ser positivo a força tem que atuar no sentido</p><p>do deslocamento, e para ser negativo, a força tem que ser exercida</p><p>no sentido oposto.</p><p>O trabalho em física pode ser dividido em nulo, que é quando</p><p>o trabalho é igual a zero, em trabalho motor, que é quando o deslo-</p><p>camento e a força estão no mesmo sentido, e o trabalho resistente,</p><p>que é o oposto do motor.</p><p>Trabalhos Acadêmicos</p><p>Trabalhos acadêmicos são tarefas exigidas a alunos que fre-</p><p>quentam instituições de ensino universitário e que pretendem</p><p>desenvolver o espírito crítico e capacidade intelectual dos alunos.</p><p>Estes trabalhos podem ser exclusivamente escritos e submetidos à</p><p>avaliação do professor. No entanto, muitos trabalhos acadêmicos</p><p>requerem apresentação oral perante um público.</p><p>Alguns trabalhos acadêmicos podem ser longos, como a tese</p><p>(para doutorado), dissertação (para mestrado), monografia (para</p><p>graduação) e trabalho de conclusão de curso (para tecnólogos e téc-</p><p>nicos). Outros podem ser mais curtos, não representando a mesma</p><p>importância que os trabalhos finais mais longos mencionados ante-</p><p>riormente. Como exemplo de trabalhos mais curtos temos: artigos,</p><p>relatórios, fichamentos, resenhas, comunicações, etc.</p><p>Trabalho na Filosofia</p><p>Vários filósofos e pensadores debateram sobre o conceito de</p><p>trabalho. Para Aristóteles, por exemplo, as lutas e conquistas de-</p><p>veriam vir apenas com o trabalho, não era justo que fosse de outra</p><p>maneira. Para ele, o trabalho fazia com que os homens se tornas-</p><p>sem independentes.</p><p>Na filosofia, o trabalho tem concepções simples, como o pró-</p><p>prio conceito de trabalho e suas diversas definições. Existem tam-</p><p>bém as concepções mais complexas do trabalho, como as ativida-</p><p>des exercidas por pensadores e seus interesses, como a virtude, a</p><p>riqueza, a beleza, e etc.</p><p>Os filósofos, pesquisadores e pensadores estudam como, para</p><p>quê e para quem os homens trabalham, se eles são obrigados a tra-</p><p>balharem ou não, se eles trabalham em troca de algo, e etc.</p><p>Trabalho na Economia</p><p>No âmbito da Economia, o trabalho consiste no esforço huma-</p><p>no que tem como objetivo satisfazer as necessidades de uma pes-</p><p>soa ou de um grupo.</p><p>Para a economia, o trabalho faz parte de um dos três fatores da</p><p>produção, juntamente com a terra e o capital. O trabalho significa</p><p>que um indivíduo realiza um conjunto de atividades, e recebe um</p><p>salário por isso, ou seja, o trabalho tem um preço, que é verificado</p><p>na forma de salário.</p><p>Existem outras formas de trabalho, como o trabalho autônomo,</p><p>quando o indivíduo exerce sua atividade como profissional liberal,</p><p>ou seja, não está vinculado a nenhuma empresa, e normalmente</p><p>trabalha no comércio ou em atividades comerciais.</p><p>Transformações no Mundo do Trabalho</p><p>Na década de 1970, com a recessão econômica causada pela</p><p>crise do petróleo, os capitalistas desenvolveram novas formas de</p><p>trabalho, visando diminuir os custos de produção e aumentar seus</p><p>ganhos. Começaram, então, a surgir formas de flexibilização do tra-</p><p>balho e do mercado que tem a ver com a busca desenfreada por</p><p>mais lucro.</p><p>O fordismo começou a apresentar problemas, por que não es-</p><p>tava mais conseguindo acompanhar o mercado, ou seja, as pessoas</p><p>queriam produtos diversificados, personalizados e inovadores. O</p><p>fordismo era lento para inovar, cada vez que se modificava um pro-</p><p>duto tinha que modificar muitas máquinas, supunha um estoque</p><p>grande de mercadorias, etc. tudo isso elevou os custos de produção.</p><p>Flexibilização ou acumulação flexível, se refere aos processos</p><p>que o mundo do trabalho vem sofrendo no âmbito da produção,</p><p>dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo.</p><p>Todos estes baseados na inovação e na contraposição aos padrões</p><p>fordistas de acumulação.</p><p>Nova Tendência: Acumulação Flexível</p><p>Sistema no qual a rigidez fordista é substituída pela produção</p><p>flexível.</p><p>Nesse sistema, inverte-se a lógica fordista em que a indústria</p><p>determinava o que seria consumido. Hoje os consumidores deter-</p><p>minam o que as empresas irão produzir e oferecer.</p><p>A acumulação flexível assim está formatada ou pensada, para</p><p>atender as novas tendências do mercado. Os consumidores que</p><p>não querem mais produtos padronizados na sua generalidade, mas</p><p>requerem produtos com características que correspondam a sua</p><p>personalidade e necessidade. Diferentes públicos como jovens, mu-</p><p>lheres, idosos, deficientes, gays, esportistas, empresários, etc. exi-</p><p>gem produtos com detalhes e adereços próprios para o seu grupo,</p><p>que como dito, correspondam a sua personalidade e necessidade.</p><p>Baseado nisso, o sistema possui características como:</p><p>- Produção flexível: Produção de um reduzido número de mer-</p><p>cadorias, voltadas a um público específico. Ex.: mulheres, jovens,</p><p>velhos, deficientes, homossexuais, ecologistas, aventureiros, etc.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>52</p><p>Diferentemente do fordismo que está destinado para fabrica-</p><p>ção de produtos padronizados e homogêneos em grande quanti-</p><p>dade e para mercados de massa em que os consumidores não se</p><p>distinguem. A produção flexível oferece produtos específicos para</p><p>públicos distintos. Os produtos podem ser carros adaptados ou</p><p>personalizados, softwares para empresas segundo sua necessida-</p><p>de, calçados, móveis, objetos, acessórios personalizados de acordo</p><p>com a vontade do consumidor.</p><p>Isso é possível, principalmente, devido, as tecnologias basea-</p><p>das na computação. Desse modo, o domínio da informática ganha</p><p>cada vez mais importância no mundo do trabalho.</p><p>- Produção em grupo: Ao contrário do fordismo, em que as em-</p><p>presas tinham uma gerência que funcionava como uma espécie de</p><p>“cérebro da empresa”, que pensava todas as etapas da produção,</p><p>na acumulação flexível, a tendência é que os grupos de trabalha-</p><p>dores colaborem no desenvolvimento de todo o processo de pro-</p><p>dução. A atividade do trabalhador não se resume mais à execução</p><p>de uma tarefa repetitiva e exaustiva: deve também ajudar a propor</p><p>soluções para a empresa.</p><p>- Trabalho em equipe: Ao invés de ter um cargo definido, com</p><p>um conjunto fixo de tarefas a serem realizadas, o trabalhador deve</p><p>enfrentar situações distintas em grupos colaborativos.</p><p>Forma-se um grupo para realizar um projeto e, logo depois,</p><p>dissolve-se esta equipe, deslocando seus membros para novos pro-</p><p>jetos. Ex: agências de publicidade, projetos de engenharia, grupos</p><p>de pesquisa, etc.</p><p>- Habilidades múltiplas: Como dito anteriormente, a participa-</p><p>ção do empregado não é mais exigida somente em uma única tarefa</p><p>repetida à exaustão, mas em uma variedade de tarefas. Por isso, o</p><p>mercado exige um empregado capaz de resolver problemas e pro-</p><p>por ideias criativas.</p><p>As decisões em relação à contratação de um funcionário não</p><p>são mais baseadas exclusivamente na sua escolarização e qualifi-</p><p>cações, mas na capacidade desse funcionário de se adaptar e ad-</p><p>quirir novas habilidades com rapidez. (Isso não quer dizer que não</p><p>devemos nos qualificar, ao contrário, quer dizer que devemos estar</p><p>constantemente nos atualizando, dominando novos recursos).</p><p>Emprego e Desemprego na Atualidade</p><p>Ter um emprego não só constitui o principal recurso com que</p><p>conta a maioria das pessoas para suprir suas necessidades mate-</p><p>riais como também lhes permite plena integração social. Por isso,</p><p>a maior parte dos países reconhece o direito ao trabalho como um</p><p>dos direitos fundamentais dos cidadãos.</p><p>Emprego é a função e a condição das pessoas que trabalham,</p><p>em caráter temporário ou permanente, em qualquer tipo de ativi-</p><p>dade econômica, remunerada ou não. Por desemprego se entende</p><p>a condição ou situação das pessoas incluídas na faixa das “idades</p><p>ativas” (em geral entre 14 e 65 anos), que estejam, por determi-</p><p>nado prazo, sem realizar trabalhos em qualquer tipo de atividade</p><p>econômica, remunerada ou não.</p><p>As possibilidades de emprego que os sistemas econômicos po-</p><p>dem oferecer em certo período relacionam-se com a capacidade de</p><p>produção da economia, com as políticas de utilização dessa capaci-</p><p>dade e com a tecnologia empregada na produção.</p><p>Os economistas clássicos entendiam que o estado de pleno em-</p><p>prego dos fatores de produção (entre eles o trabalho) era normal,</p><p>estando a economia sempre em equilíbrio. John Stuart Mill dizia:</p><p>“Se pudermos duplicar as forças produtoras de um país, duplicare-</p><p>mos a oferta de bens em todos os mercados, mas ao mesmo tempo</p><p>duplicaremos o poder aquisitivo para esses bens.” Dentro dessa li-</p><p>nha de ideias, o aparecimento de desempregados em certas épocas</p><p>era explicado como a resultante de um desajustamento temporá-</p><p>rio. O ajustamento (ocupação da força de trabalho desempregada)</p><p>ocorreria quando os trabalhadores decidissem aceitar voluntaria-</p><p>mente os salários mais baixos oferecidos pelos empresários.</p><p>Teorias</p><p>John Maynard Keynes contestou essas afirmações, negando</p><p>que haja um ajustamento automático para o pleno emprego no re-</p><p>gime da propriedade privada dos meios de produção. Afirmam os</p><p>keynesianos que a lei do mercado dos clássicos, segundo a qual “a</p><p>oferta cria a sua própria procura”, é ilusória e que o pleno emprego</p><p>é uma situação excepcional, de pouca duração e raramente atingi-</p><p>da. Para Keynes, é a procura efetiva que determina a maior produ-</p><p>ção e em consequência o mais alto nível de emprego, enquanto a</p><p>produção global nem sempre encontra procura efetiva. “Quando a</p><p>procura efetiva é insuficiente, o sistema econômico se vê forçado a</p><p>contrair a produção”, o que resulta no desemprego. “Não há meio</p><p>de assegurar maior nível de ocupação, a não ser pelo aumento do</p><p>consumo.” A procura efetiva estaria na dependência da renda real,</p><p>ou seja, do efetivo poder de compra da comunidade, e o subconsu-</p><p>mo, causador do desemprego, seria consequência do fato de que</p><p>“uma parte excessivamente grande do poder de compra fica com</p><p>os beneficiários de rendas importantes”, como disse Bertrand de</p><p>Jouvenel.</p><p>Marx também formulou uma lei da população para explicar</p><p>o desemprego. Chamou-a de “lei capitalista do desemprego”, e a</p><p>considerou uma consequência da propriedade privada dos meios</p><p>de produção. Segundo ele, na sociedade burguesa a acumulação</p><p>do capital faz com que uma parte da população operária se torne</p><p>inevitavelmente supérflua. É eliminada da produção e condenada à</p><p>fome. Essa “superpopulação relativa” toma diferentes nomes, se-</p><p>gundo os aspectos que apresenta:</p><p>- Superpopulação flutuante, constituída pelos operários que</p><p>perdem seu trabalho por certo tempo, em consequência da queda</p><p>da produção, do emprego de novas máquinas, do fechamento de</p><p>empresas. Com o incremento da produção, uma parte desses de-</p><p>sempregados volta a se empregar; e também consegue emprego</p><p>uma parcela dos novos trabalhadores que alcançaram a idade pro-</p><p>dutiva. O número total dos operários empregados aumenta, mas</p><p>numa proporção decrescente em relação ao aumento da produção.</p><p>- Superpopulação latente, constituída pelos pequenos produto-</p><p>res arruinados e principalmente pelos camponeses pobres e pelos</p><p>operários agrícolas que estão ocupados na agricultura somente du-</p><p>rante parte do ano. Ao contrário do que ocorre no setor industrial, o</p><p>progresso técnico na agricultura provoca uma diminuição absoluta</p><p>da demanda de mão-de-obra.</p><p>- Superpopulação estagnada, constituída pelos grupos numero-</p><p>sos de pessoas que perderam definitivamente seu emprego e cujas</p><p>ocupações irregulares são pagas muito abaixo do nível habitual de</p><p>salário. Encontram-se entre esses os trabalhadores domésticos e os</p><p>que vivem de trabalho ocasional.</p><p>Classificação</p><p>Costuma-se classificar o desemprego segundo sua origem:</p><p>- Desemprego estrutural, característico dos países subdesen-</p><p>volvidos, ligado às particularidades intrínsecas de sua economia. Ex-</p><p>plica-se pelo excesso de mão-de-obra empregado na agricultura e</p><p>atividades correlatas e pela insuficiência dos equipamentos de base</p><p>que levariam à criação cumulativa de emprego.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>53</p><p>- Desemprego tecnológico, que atinge sobretudo os países</p><p>mais adiantados. Resulta da substituição do homem pela máquina</p><p>e é representado pela maior procura de técnicos e especialistas e</p><p>pela queda, em maior proporção, da procura dos trabalhos mera-</p><p>mente braçais.</p><p>- Desemprego conjuntural, também chamado desemprego cí-</p><p>clico, característico da depressão, quando os bancos retraem os cré-</p><p>ditos, desestimulando os investimentos, e o poder de compra dos</p><p>assalariados cai em consequência da elevação de preços.</p><p>- Desemprego friccional, motivado pela mudança de emprego</p><p>ou atividade dos indivíduos. É o tipo de desemprego de menor sig-</p><p>nificação econômica.</p><p>- Desemprego temporário, forma de subemprego comum nas</p><p>regiões agrícolas, motivado pelo caráter sazonal do trabalho em</p><p>certos setores agrícolas.</p><p>Exército de Reserva</p><p>Thomas Robert Malthus, economista inglês do século XVIII,</p><p>atribuiu o desemprego a leis eternas da natureza. De acordo com</p><p>a sua “lei da população”, desde a origem da sociedade humana a</p><p>população aumenta em progressão geométrica (1, 2, 4, 8, 16, 32...)</p><p>e os meios de subsistência, dado o caráter limitado das riquezas</p><p>naturais, aumentam em progressão aritmética (1, 2, 3, 4, 5, 6...).</p><p>Esta, segundo Malthus, é a causa original dos excedentes de popu-</p><p>lação, de fome e de miséria. Segundo Malthus, para se libertar da</p><p>miséria e da fome o proletariado deveria reduzir artificialmente os</p><p>nascimentos.</p><p>A desocupação de uma percentagem de três por cento da for-</p><p>ça de trabalho é considerada nos países capitalistas como desem-</p><p>prego mínimo ou normal e só acima desse índice é que se fala em</p><p>desemprego. Há quem considere essa quota como necessária ao</p><p>desenvolvimento da indústria. Os defensores dessa tese afirmam</p><p>que uma certa porcentagem de desemprego é salutar à economia,</p><p>por constituir uma reserva de mão-de-obra para a expansão indus-</p><p>trial. E alegam que nos períodos de recuperação e avanço industrial,</p><p>quando o crescimento rápido da produção se impõe, uma quantida-</p><p>de suficiente de empregados estará à disposição dos empresários.</p><p>Desemprego na América Latina</p><p>O potencial de mão-de-obra latino-americano está longe de</p><p>seu pleno aproveitamento. Há na economia agropecuária um de-</p><p>semprego latente, disfarçado e, embora generalizado, dificilmente</p><p>mensurável em termos estatísticos. O mesmo ocorre nas camadas</p><p>economicamente marginais da população urbana. É também cada</p><p>vez maior o desemprego nos subgrupos secundário e terciário das</p><p>atividades econômicas no setor citadino. Observam-se na América</p><p>Latina os diversos tipos de desemprego comuns à economia capi-</p><p>talista. Como nessa região do mundo coexistem formas de explo-</p><p>ração da terra em regime semifeudal pré-capitalista até atividades</p><p>em centros altamente industrializados, aí estão também desde o</p><p>subemprego rural, decorrente da concentração da propriedade da</p><p>terra, até o desemprego tecnológico, consequência da maior procu-</p><p>ra de mão-de-obra especializada em lugar de simples trabalhadores</p><p>braçais.</p><p>Estanislau Fischlowitz chama a atenção para o denominado “fa-</p><p>tor de patologia social do mercado do trabalho”, ou seja, o desem-</p><p>prego de preponderante origem populacional, que se delineia cla-</p><p>ramente na América Latina. A população cresce num ritmo tal que</p><p>os contingentes de pessoas a alcançar a idade de trabalho é maior</p><p>do que a capacidade de absorção de mão-de-obra. Dada a alta fre-</p><p>quência de adolescentes e a melhora nos índices de sobrevivência,</p><p>esse sociólogo calcula em vários milhões o número de jovens que,</p><p>a cada ano, entram no mercado de trabalho, em busca do primeiro</p><p>emprego remunerado. Em vários países sul-americanos, a situação</p><p>seria menos sombria se não fosse a altíssima taxa de aumento de-</p><p>mográfico, calculada em 2,7% ao ano. A situação é particularmente</p><p>grave em El Salvador, o país latino-americano de maior densidade</p><p>populacional.</p><p>No Brasil, um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Es-</p><p>tatística, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios</p><p>(PNAD, concluiu que o Brasil tinha 62 milhões de pessoas com al-</p><p>gum tipo de ocupação, dos quais 40 milhões empregadas; a pro-</p><p>porção de desempregados (2,4%) era relativamente baixa). Esses</p><p>números escondiam acentuadas disparidades regionais, como a</p><p>proporção de crianças de 10 a 13 anos que trabalhavam: 7,3% em</p><p>São Paulo, 28,4% no Piauí.</p><p>Calcula-se que nos países menos desenvolvidos de 25 a 30% do</p><p>potencial de trabalho seja perdido por meio do desemprego e do</p><p>subemprego. No entanto, a taxa de crescimento demográfico extre-</p><p>mamente alta não é a principal causa de subutilização da força de</p><p>trabalho. O problema se deve basicamente a graves desequilíbrios</p><p>e inadequações nos sistemas econômicos e sociais desses países.</p><p>Entre esses fatores, aponta-se a má distribuição de renda.</p><p>DAS ABORDAGENS SÓCIO-ANTROPOLÓGICAS SOBRE OS</p><p>IMPACTOS DAS TRANSFORMAÇÕES TÉCNICAS, TECNOLÓ-</p><p>GICAS E INFORMACIONAIS NAS RELAÇÕES SOCIAIS E DE</p><p>TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE</p><p>As transformações técnicas, tecnológicas e informacionais têm</p><p>desempenhado um papel significativo na contemporaneidade,</p><p>moldando as relações sociais e de trabalho. Através de abordagens</p><p>sócio-antropológicas, é possível compreender os impactos dessas</p><p>transformações e analisar as dinâmicas sociais e culturais que sur-</p><p>gem em resposta a elas. Neste texto, exploraremos as principais</p><p>abordagens sócio-antropológicas sobre esses impactos.</p><p>— Determinismo Tecnológico</p><p>O determinismo tecnológico é uma abordagem que enfatiza</p><p>o papel central das transformações técnicas, tecnológicas e infor-</p><p>macionais na configuração das mudanças sociais. Essa perspectiva</p><p>argumenta que as inovações tecnológicas são os principais im-</p><p>pulsionadores das transformações sociais e que as mudanças nas</p><p>relações sociais e de trabalho são diretamente determinadas pelas</p><p>mudanças tecnológicas.</p><p>Segundo o determinismo tecnológico, as tecnologias são vistas</p><p>como forças autônomas e independentes que moldam a sociedade</p><p>e suas estruturas. Acredita-se que as inovações tecnológicas têm</p><p>uma lógica própria de desenvolvimento e que sua introdução inev-</p><p>itavelmente gera mudanças sociais correspondentes. Nessa visão,</p><p>as transformações sociais são vistas como resultantes diretas das</p><p>mudanças tecnológicas, e a tecnologia é vista como o principal mo-</p><p>tor da história.</p><p>Uma das ideias fundamentais do determinismo tecnológico é a</p><p>noção de “imperativo tecnológico”. Isso significa que uma vez que</p><p>uma nova tecnologia é desenvolvida, sua adoção e implementação</p><p>são consideradas inevitáveis e necessárias para o progresso e o</p><p>desenvolvimento social. De acordo com essa perspectiva, as mu-</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>54</p><p>danças sociais são vistas como consequências naturais e inevitáveis</p><p>do avanço tecnológico, e a sociedade é vista como passivamente</p><p>moldada pelas inovações tecnológicas.</p><p>No entanto, críticas ao determinismo tecnológico apontam</p><p>suas limitações. Essa abordagem tende a negligenciar outros fa-</p><p>tores importantes que influenciam as mudanças sociais, como os</p><p>contextos políticos, econômicos, culturais e ideológicos. Além dis-</p><p>so, o determinismo tecnológico pode subestimar a capacidade dos</p><p>atores sociais de moldar e influenciar o desenvolvimento tecnológi-</p><p>co, bem como de interpretar e utilizar as tecnologias de maneiras</p><p>diversas.</p><p>Embora o determinismo tecnológico tenha desempenhado</p><p>um papel importante no entendimento das relações entre tecnolo-</p><p>gia e sociedade, é importante considerá-lo como uma perspectiva</p><p>entre outras, reconhecendo a complexidade das interações entre</p><p>tecnologia, sociedade e cultura. Abordagens mais recentes, como</p><p>o construtivismo social e a mediação simbólica, fornecem visões</p><p>complementares que consideram os aspectos sociais, culturais e</p><p>simbólicos envolvidos nas transformações técnicas e suas influên-</p><p>cias nas relações sociais e de trabalho.</p><p>— Construtivismo social</p><p>O construtivismo social é uma abordagem que enfatiza a im-</p><p>portância das relações sociais, dos processos de interação e das</p><p>práticas culturais na construção da realidade social. Essa perspec-</p><p>tiva argumenta que as transformações técnicas, tecnológicas e in-</p><p>formacionais são construções sociais que refletem os valores, as</p><p>crenças e os interesses de determinados grupos sociais.</p><p>De acordo com o construtivismo social, as inovações tecnológi-</p><p>cas não são vistas como forças autônomas que determinam as mu-</p><p>danças sociais, mas como produtos da interação entre atores so-</p><p>ciais e suas necessidades, desejos e interesses. Nessa abordagem,</p><p>a tecnologia é entendida como resultado de escolhas e decisões</p><p>humanas, influenciadas por fatores sociais, culturais, políticos e</p><p>econômicos.</p><p>O construtivismo social destaca que as tecnologias são molda-</p><p>das pelas relações de poder existentes na sociedade. Grupos so-</p><p>ciais com maior poder econômico, político ou cultural têm maior</p><p>influência na definição das agendas tecnológicas, no desenvolvi-</p><p>mento e na disseminação de inovações. Além disso, as tecnologias</p><p>são influenciadas pelos valores e pelas crenças dominantes em uma</p><p>determinada sociedade, refletindo e reforçando as hierarquias e as</p><p>estruturas de poder existentes.</p><p>Uma das principais contribuições do construtivismo social é de-</p><p>stacar a diversidade de significados e usos atribuídos às tecnologias.</p><p>As inovações técnicas não são interpretadas de forma universal,</p><p>mas sim contextualizadas em práticas sociais específicas e em siste-</p><p>mas simbólicos particulares. As tecnologias podem ser adotadas e</p><p>apropriadas de maneiras diferentes por diferentes grupos sociais,</p><p>levando a consequências sociais e culturais variadas.</p><p>O construtivismo social também enfatiza a importância do con-</p><p>hecimento local e das práticas situadas na compreensão das trans-</p><p>formações técnicas. As percepções, as experiências e os saberes</p><p>dos atores sociais são fundamentais para compreender como as in-</p><p>ovações tecnológicas são interpretadas, adaptadas e utilizadas em</p><p>contextos específicos.</p><p>Em suma, o construtivismo social destaca que as transfor-</p><p>mações técnicas não são determinadas apenas pela lógica interna</p><p>das tecnologias, mas são produtos de processos sociais complexos.</p><p>Compreender esses processos e as relações entre tecnologia, socie-</p><p>dade e cultura é essencial para analisar os impactos das transfor-</p><p>mações técnicas, tecnológicas e informacionais nas relações sociais</p><p>e de trabalho na contemporaneidade.</p><p>— Mediação simbólica</p><p>A mediação simbólica é uma abordagem que enfatiza o pa-</p><p>pel dos significados, dos símbolos e das representações sociais na</p><p>relação entre as transformações técnicas, tecnológicas e informa-</p><p>cionais e as relações sociais. Essa perspectiva argumenta que as tec-</p><p>nologias e as transformações técnicas não são apenas ferramentas</p><p>neutras, mas carregam significados e simbolismos que influenciam</p><p>as interações sociais e as práticas culturais.</p><p>De acordo com a mediação simbólica, as tecnologias são con-</p><p>sideradas mediadores simbólicos, ou seja, objetos técnicos que</p><p>possuem uma dimensão simbólica e que moldam as práticas so-</p><p>ciais, as identidades individuais e coletivas e as percepções dos in-</p><p>divíduos. As tecnologias não são apenas instrumentos utilizados pe-</p><p>los indivíduos, mas também influenciam a forma como as pessoas</p><p>se relacionam, se comunicam e constroem significados.</p><p>Nessa abordagem, os significados e os simbolismos atribuídos</p><p>às tecnologias são socialmente construídos e podem variar em dif-</p><p>erentes contextos culturais e sociais. Por exemplo, um mesmo ob-</p><p>jeto técnico pode ter diferentes significados e usos em diferentes</p><p>culturas ou grupos sociais.</p><p>Os significados atribuídos às tecnologias</p><p>são influenciados pelos valores culturais, pelas normas sociais, pe-</p><p>los sistemas de crenças e pelos contextos históricos e sociais espe-</p><p>cíficos.</p><p>A mediação simbólica também destaca a importância das rep-</p><p>resentações sociais na relação entre as transformações técnicas e</p><p>as relações sociais. As representações sociais são construções cole-</p><p>tivas que refletem as interpretações e os discursos compartilhados</p><p>sobre as tecnologias. Essas representações moldam as atitudes, as</p><p>percepções e as práticas das pessoas em relação às tecnologias, in-</p><p>fluenciando a forma como elas são adotadas, utilizadas e integradas</p><p>na vida cotidiana.</p><p>Além disso, a mediação simbólica reconhece que as tecnologias</p><p>não têm um impacto homogêneo em todos os indivíduos e grupos</p><p>sociais. As tecnologias são apropriadas e interpretadas de maneiras</p><p>diferentes por diferentes atores sociais, levando a múltiplas formas</p><p>de uso e significado. Essa diversidade de interpretações e usos das</p><p>tecnologias pode gerar conflitos, resistências ou apropriações cria-</p><p>tivas por parte dos indivíduos e grupos sociais.</p><p>Em resumo, a mediação simbólica destaca que as transfor-</p><p>mações técnicas não são apenas processos materiais, mas também</p><p>processos simbólicos que influenciam as relações sociais e culturais.</p><p>Compreender os significados, os símbolos e as representações as-</p><p>sociados às tecnologias é fundamental para analisar os impactos</p><p>das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais nas</p><p>relações sociais e de trabalho na contemporaneidade.</p><p>— Ecologia de Mídia</p><p>A ecologia de mídia é uma abordagem teórica que busca</p><p>compreender as interações complexas entre os meios de comuni-</p><p>cação, os ambientes sociais e a cultura. Essa perspectiva enfatiza</p><p>a importância de se analisar a mídia não apenas como um sistema</p><p>isolado, mas como parte de um ecossistema comunicacional mais</p><p>amplo, no qual diferentes elementos interagem e influenciam-se</p><p>mutuamente.</p><p>A ecologia de mídia considera que a mídia não apenas reflete a</p><p>realidade, mas também contribui para moldá-la e transformá-la. Ela</p><p>reconhece que os meios de comunicação desempenham um papel</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>55</p><p>ativo na construção das narrativas, na disseminação de informações</p><p>e na formação das percepções sociais. Além disso, essa abordagem</p><p>destaca que a mídia está imersa em um contexto cultural, político e</p><p>econômico, e que suas práticas e conteúdos são influenciados por</p><p>esses aspectos.</p><p>Um dos conceitos fundamentais da ecologia de mídia é o de</p><p>“ecossistema mediático”. Assim como em um ecossistema natural,</p><p>o ecossistema mediático é composto por diferentes elementos in-</p><p>terdependentes, como plataformas de comunicação, produtores de</p><p>conteúdo, audiências, regulamentações, tecnologias e infraestrutu-</p><p>ras. Esses elementos interagem e influenciam-se mutuamente, cri-</p><p>ando dinâmicas complexas que moldam a produção, a circulação e</p><p>o consumo de mídia.</p><p>A ecologia de mídia também destaca a importância das práticas</p><p>de recepção e apropriação da mídia por parte do público. Ela recon-</p><p>hece que os indivíduos e os grupos sociais não são apenas recep-</p><p>tores passivos das mensagens midiáticas, mas também são ativos</p><p>na interpretação, na negociação e na ressignificação dos conteúdos.</p><p>Essa perspectiva enfatiza a diversidade de leituras e apropriações</p><p>da mídia e a multiplicidade de vozes e perspectivas presentes no</p><p>ecossistema mediático.</p><p>Além disso, a ecologia de mídia chama a atenção para a dis-</p><p>tribuição desigual de poder e recursos no campo da mídia. Ela anal-</p><p>isa as relações de poder entre os diferentes atores envolvidos na</p><p>produção e na distribuição de conteúdo, destacando o papel das</p><p>grandes corporações midiáticas, das políticas de regulação e dos</p><p>movimentos sociais na configuração do ecossistema mediático.</p><p>As abordagens sócio-antropológicas oferecem perspectivas en-</p><p>riquecedoras para compreender os impactos das transformações</p><p>técnicas, tecnológicas e informacionais nas relações sociais e de</p><p>trabalho na contemporaneidade. Ao considerar os aspectos soci-</p><p>ais, culturais e simbólicos envolvidos nesses processos, podemos</p><p>ter uma compreensão mais completa das dinâmicas em curso. A</p><p>interação entre as transformações técnicas e as relações sociais é</p><p>complexa e multifacetada, exigindo uma análise abrangente que</p><p>leve em conta as diversas abordagens e seus insights para uma</p><p>compreensão mais profunda dessas transformações.</p><p>DOS MÚLTIPLOS ASPECTOS DO TRABALHO EM DIFE-</p><p>RENTES CIRCUNSTÂNCIAS E CONTEXTOS E SEUS EFEITOS</p><p>SOBRE AS GERAÇÕES, EM ESPECIAL OS JOVENS</p><p>O trabalho é uma parte fundamental da vida de milhões de</p><p>pessoas em todo o mundo. Além de ser uma fonte de sustento fi-</p><p>nanceiro, o trabalho também desempenha um papel significativo</p><p>na identidade pessoal, no desenvolvimento das habilidades e no</p><p>estabelecimento de relações sociais. No entanto, o trabalho pode</p><p>apresentar diferentes aspectos e desafios, dependendo das circun-</p><p>stâncias e contextos em que é realizado. Neste texto, exploraremos</p><p>os múltiplos aspectos do trabalho em diferentes circunstâncias e</p><p>contextos, com um foco especial nos efeitos que essas realidades</p><p>têm sobre as gerações, em particular os jovens.</p><p>— Trabalho formal e informal</p><p>O trabalho pode ser categorizado em formal e informal, de-</p><p>pendendo das condições e proteções oferecidas aos trabalhadores.</p><p>O trabalho formal é caracterizado pela existência de um contrato</p><p>de trabalho, com direitos e benefícios estabelecidos por lei, como</p><p>salário-mínimo, jornada de trabalho regulamentada e acesso a</p><p>benefícios sociais. Por outro lado, o trabalho informal ocorre sem</p><p>a devida proteção legal, muitas vezes sem contrato ou garantias</p><p>trabalhistas. Os jovens são frequentemente afetados por essa real-</p><p>idade, encontrando-se em empregos precários, de baixa remuner-</p><p>ação e sem perspectivas de crescimento profissional.</p><p>— Trabalho no setor rural e urbano</p><p>Outro aspecto relevante é a distinção entre trabalho no setor</p><p>rural e no setor urbano. O trabalho no campo geralmente envolve</p><p>atividades agrícolas, pecuárias ou de pesca, enquanto o trabalho</p><p>urbano está relacionado a empregos nas indústrias, serviços e</p><p>comércio. Os jovens que crescem em áreas rurais muitas vezes</p><p>enfrentam desafios adicionais, como falta de acesso à educação e</p><p>oportunidades limitadas de emprego. Por outro lado, os jovens nas</p><p>áreas urbanas podem se deparar com competição acirrada por em-</p><p>pregos, altos níveis de desemprego e trabalho informal.</p><p>— Trabalho em diferentes setores e indústrias</p><p>O trabalho também varia de acordo com o setor e a indústria</p><p>em que é realizado. Alguns setores, como tecnologia da informação,</p><p>ciência e serviços financeiros, podem oferecer salários mais altos</p><p>e melhores condições de trabalho. Por outro lado, setores como</p><p>construção, agricultura e serviços domésticos tendem a apresentar</p><p>desafios significativos, como baixa remuneração, falta de proteção</p><p>social e condições precárias de trabalho. Essas diferenças têm im-</p><p>pacto direto nas oportunidades e perspectivas dos jovens em difer-</p><p>entes áreas de atuação.</p><p>— Efeitos sobre as gerações</p><p>Os múltiplos aspectos do trabalho em diferentes circunstâncias</p><p>e contextos têm efeitos significativos sobre as gerações, especial-</p><p>mente os jovens. Os jovens podem ser particularmente vulneráveis</p><p>às condições precárias de trabalho, falta de proteção social e dificul-</p><p>dades de inserção no mercado de trabalho. Esses desafios podem</p><p>levar a altos níveis de desemprego juvenil, subemprego e desigual-</p><p>dades de oportunidades. Além disso, o trabalho em condições ad-</p><p>versas pode afetar negativamente a saúde física e mental dos jov-</p><p>ens, bem como o seu desenvolvimento profissional e pessoal.</p><p>— Enfrentando os desafios</p><p>Diante desses desafios, é fundamental implementar políticas</p><p>e medidas que promovam o trabalho digno e inclusivo para todas</p><p>as gerações. Isso inclui a criação de empregos de qualidade, com</p><p>remuneração justa, proteção social abrangente e oportunidades de</p><p>crescimento e desenvolvimento. Além disso, é necessário</p><p>investir</p><p>em educação e treinamento profissional adequados, para que os</p><p>jovens possam adquirir as habilidades necessárias para atender</p><p>às demandas do mercado de trabalho. O estabelecimento de um</p><p>diálogo social entre governos, empregadores e trabalhadores tam-</p><p>bém é essencial para promover um ambiente de trabalho saudável</p><p>e equitativo.</p><p>O trabalho desempenha um papel crucial na vida das pessoas,</p><p>e os diferentes aspectos do trabalho em várias circunstâncias e con-</p><p>textos têm impactos significativos nas gerações, especialmente os</p><p>jovens. Para construir uma sociedade mais justa e equitativa, é fun-</p><p>damental enfrentar os desafios do trabalho precário, informalidade</p><p>e desigualdades de oportunidades. Por meio de políticas e medidas</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>56</p><p>adequadas, é possível promover o trabalho digno, garantir direitos</p><p>fundamentais e proporcionar condições favoráveis para o desen-</p><p>volvimento pessoal e profissional dos jovens.</p><p>DAS CAUSAS, DOS ATORES E DAS FORMAS DE VIOLÊN-</p><p>CIA (SIMBÓLICA, FÍSICA, PSICOLÓGICA, AFETIVAS ETC.)</p><p>NOS MAIS DIVERSOS ÂMBITOS SOCIAIS DO CONTEXTO</p><p>BRASILEIRO</p><p>Entres as principais causas da violência no país, pode-se citar:</p><p>• As múltiplas carências das populações de baixa renda,</p><p>precariamente assistidas nas periferias das grandes cidades,</p><p>tornam seus integrantes, especialmente os jovens, suscetíveis de</p><p>escolha de vias ilegais como forma de sobrevivência ou adaptação</p><p>às pressões sociais.</p><p>• A opção ilegal é favorecida pela tolerância cultural aos des-</p><p>vios sociais e pelas deficiências de nossas instituições de controle</p><p>social: polícia ineficiente, legislação criminal defasada (o que gera</p><p>impunidade), estrutura e processos judiciários obsoletos, sistema</p><p>prisional caótico. A interação entre essas deficiências institucionais</p><p>enfraquece sobremaneira o poder inibitório do sistema de justiça</p><p>criminal.</p><p>• De maneira geral as polícias têm treinamento deficiente, sa-</p><p>lários incompatíveis com a importância de suas funções e padecem</p><p>de grave vulnerabilidade à corrupção. A ineficiência da ação policial</p><p>na contenção dos crimes, assim como o excessivo número de mor-</p><p>tes de civis e de policiais, decorre dessas deficiências e do emprego</p><p>de estratégias policiais meramente reativas e frequentemente re-</p><p>pressivas.</p><p>• O emprego de tecnologia de informação ainda é incipiente,</p><p>dificultando o diagnóstico e o planejamento operacional eficiente</p><p>para a redução de pontos de criminalidade. Nesse planejamento</p><p>são precárias as iniciativas de integração entre os esforços policiais</p><p>e as autoridades locais para promover esforços conjuntos de pre-</p><p>venção e redução dos índices de violência.</p><p>Possíveis Medidas Contra a Violência</p><p>1) Realização de projetos sociais com intuito de diminuir a de-</p><p>sigualdade social. Abrindo outros caminhos, além dos caminhos</p><p>criminosos que fomentam a violência, à população de baixa renda</p><p>(principalmente aos jovens). Por exemplo: É fato que, hoje, a Infor-</p><p>mática é um pré-requisito básico para as pessoas que disputam um</p><p>lugar no mercado de trabalho. No entanto, grande parte da popula-</p><p>ção não tem condições financeiras para adquirir este conhecimen-</p><p>to. Uma primeira forma de ajudar, seria oferecendo condições a</p><p>estas pessoas de disputarem um emprego, através da disseminação</p><p>do conhecimento em Informática.</p><p>2) Criação de um instituto de estudos e pesquisas de segurança</p><p>pública para desenvolver pesquisas sobre o controle da violência e</p><p>promover o desenvolvimento de modelos de organização, de ges-</p><p>tão e de processos mais eficientes e eficazes para as polícias. Outra</p><p>função importante desse instituto seria o planejamento e coorde-</p><p>nação de programas de formação e capacitação das polícias, e, para</p><p>tanto, deveria assumir a direção da Academia Nacional de Polícia.</p><p>3) Inteligência criminal: desenvolvimento dessa área pratica-</p><p>mente inerte na maioria das polícias, com a adoção de métodos,</p><p>processos e instrumentos de busca e processamento de informação</p><p>sobre criminosos. Essa área deve receber recursos para aquisição</p><p>de licenças de softwares de inteligência e de treinamento específi-</p><p>co, além de promover a interação com outras agências de inteligên-</p><p>cia, inclusive dos países fronteiriços. O sistema de inteligência de</p><p>segurança pública deve ser plenamente implantado em todos os Es-</p><p>tados para a troca ágil e segura de informações sobre atividades de</p><p>indivíduos e grupos criminosos. O tratamento intensivo e contínuo</p><p>das atividades do crime organizado deve receber particular ênfase,</p><p>principalmente sobre o tráfico de drogas, contrabando, pirataria,</p><p>roubo de cargas, furto e roubo de veículos, jogos ilícitos e crimes</p><p>financeiros. Nessa área devem ser exploradas todas as possibilida-</p><p>des de integração com os serviços de inteligência da Polícia Federal.</p><p>4) Cadastros nacionais: o atual Sistema de Informação de Justi-</p><p>ça e Segurança Pública (Infoseg) deve ser aperfeiçoado para receber</p><p>dados atualizados e de qualidade dos Estados quanto a condenados</p><p>procurados, cadastro de armas e veículos, pessoas desaparecidas,</p><p>arquivos de fotos dos principais criminosos de cada unidade fede-</p><p>rativa e dados relevantes de inteligência. O Infoseg deve integrar</p><p>arquivos semelhantes existentes na Polícia Federal.</p><p>5) Tecnologia da informação: o desenvolvimento de bancos in-</p><p>tegrados de dados criminais e sociais, a implantação de sistemas de</p><p>geo-referenciamento e de sistemas de análise dos dados para iden-</p><p>tificar perfis criminais, padrões e tendências de cada área, pontos</p><p>críticos e evidências de atuação de indivíduos e grupos criminosos.</p><p>Devem ser desenvolvidos instrumentos e métodos para o moni-</p><p>toramento de crimes e planejamento de intervenções focalizadas</p><p>para sua redução em curto prazo. Esses instrumentos e métodos</p><p>também podem favorecer, através da análise ambiental dos pon-</p><p>tos críticos de criminalidade, a integração com outros esforços de</p><p>prevenção como a participação de guardas municipais e ações das</p><p>prefeituras na correção de problemas locais que favorecem a ação</p><p>criminosa.</p><p>DAS FORMAS DE PRECONCEITO, INTOLERÂNCIA E DISCRI-</p><p>MINAÇÃO PRESENTES NA VIDA COTIDIANA</p><p>O preconceito é uma atribuição social de malignidade a deter-</p><p>minados indivíduos e grupos, correspondente a uma categorização</p><p>de classe social que, muitas vezes, veicula uma atitude política e</p><p>étnica aversiva. Constitui-se de “um conjunto de opiniões, crenças</p><p>e atitudes negativas contra grupos socialmente discriminados e se</p><p>fundamenta no medo irracional que desenvolvemos em relação a</p><p>eles. A falta de contato e convívio mais próximo com os grupos so-</p><p>cialmente discriminados contribui, sem dúvida, para aumentar esse</p><p>medo” (CARONE, 2005)12.</p><p>Um grau significativo de rejeição e intolerância sociais é dirigido a</p><p>esses supostos “portadores do mal” e é alimentado pela inconsciência</p><p>do medo que se tem desses indivíduos, propagando-se no tecido social</p><p>sem passar pelo crivo de um exame crítico. Embora categorizações ex-</p><p>cludentes existam em todos os agrupamentos humanos, no contexto</p><p>classista da sociedade capitalista, o preconceito preenche, mais ou me-</p><p>nos intencionalmente, uma função ideológica encobridora da primazia</p><p>de oportunidades para os grupos hegemônicos.</p><p>As representações preconceituosas, uma das expressões da</p><p>violência social, manifestam-se por meio de signos de periculosida-</p><p>de distintos e com atribuição de perversidades a indivíduos e gru-</p><p>12 Arq. bras. psicol., Rio de Janeiro, v.60, n.2, p.20-31, jun.2008.</p><p>h t t p : / / p e p s i c . b v s a l u d . o r g / s c i e l o . p h p ? s c r i p t = s c i _ a r t t e x t & p i -</p><p>d=S1809-52672008000200004&lng=pt&nrm=iso>.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>57</p><p>pos diferentes. Isso porque a escolha de quem deve ser hostilizado</p><p>atende a interesses político-econômicos hegemônicos de cada épo-</p><p>ca. Esse processo de “dividir para reinar”, portanto, sofre as con-</p><p>sequências de determinações históricas e, na contemporaneidade,</p><p>exprime-se de forma cada vez mais encoberta e sutil. Consequên-</p><p>cias destrutivas permeiam a vida dos estigmatizados pelo precon-</p><p>ceito, em especial</p><p>quando tais representações são internalizadas</p><p>inconscientemente pelos indivíduos destinatários do preconceito,</p><p>que se tornam “portadores” de tais atribuições de malignidade.</p><p>O preconceito é, possivelmente, uma das mais eficientes e</p><p>perversas estratégias de controle e de exclusão sociais, pois a vio-</p><p>lência das representações preconceituosas (violência simbólica)</p><p>perfura/ilude as estruturas psíquicas conscientes e, como em um</p><p>susto-traumático (FREUD, 2006), instala-se na irracionalidade da</p><p>vida psíquica e reverbera continuamente (repetição compulsiva do</p><p>sofrimento recalcado) seus efeitos deletérios. Sem o saber, os indi-</p><p>víduos desarmados de qualquer possibilidade de defesa assumem,</p><p>como suas, as “perversidades” que são difundidas pelas “ideias”</p><p>preconceituosas.</p><p>Aderem mais ou menos conscientes aos atributos de maligni-</p><p>dade que lhes são impingidos. A labilidade psíquica cede espaço</p><p>para a implantação na vida mental dessa atribuição, e o indivíduo</p><p>acaba por tomá-la como se fosse originária de si próprio. É nesse</p><p>processo de identificação inconsciente com tais atribuições que o</p><p>indivíduo se torna cúmplice deste processo social que o violenta</p><p>e rejeita. Por outro lado, é com sua adesão a essas “ideias” que o</p><p>preconceito ganha força de verdade. Os indivíduos, internalizando</p><p>tais representações violentadoras e tomando-as como se fossem</p><p>próprias, acabam por exibir atitudes condizentes com tais maligni-</p><p>dades e, assim, ratificam o que lhes é socialmente atribuído.</p><p>A perversidade embutida na internalização dessas atribuições</p><p>sociais de malignidade (violência social internalizada) é difusa e an-</p><p>tagônica. Em especial, quando se tornam inoperantes as funções</p><p>egóicas de discriminação do real inimigo/opressor. Revertidas e</p><p>deslocadas para o mundo interno e inconsciente dos indivíduos,</p><p>tais representações, ideologicamente pervertidas, embebem a vida</p><p>psíquica dos sujeitos e passam a administrar seus desejos, seus</p><p>sentimentos, seus pensamentos e suas ações de forma a torná-los</p><p>cooperadores/cúmplices da crueldade social que os atormenta. As</p><p>estratégias de encobrimento da violência social do preconceito po-</p><p>tencializam a aceitação dessas ideias por ampla camada da popula-</p><p>ção que não só dá crédito de confiabilidade a certas formas de fazer</p><p>ciência como também agrega veracidade aos discursos de determi-</p><p>nados governantes. O preconceito vai se alastrando na sociedade,</p><p>perpetuando e justificando até ações bélicas contra os grupos ma-</p><p>lignizados. Tais violências corrosivas não terminam no âmbito da in-</p><p>timidade subjetiva – nessa espécie de prazer em “lamber as feridas”</p><p>– e, sim, nas atrocidades que penetram sorrateiramente os vínculos</p><p>interpessoais nos moldes do que Theodor Adorno examina em “A</p><p>educação após Auschwitz” (ADORNO, 1986b, p. 39-40):</p><p>Aquele que é duro contra si mesmo adquire o direito de sê-lo</p><p>contra os demais e se vinga da dor que não teve a liberdade de</p><p>demonstrar, que precisou reprimir. Esse mecanismo deve ser cons-</p><p>cientizado, da mesma forma como deve ser fomentada uma educa-</p><p>ção que não mais premie a dor e a capacidade de suportá-la. [...]</p><p>não devemos reprimir o medo. Quando o medo não for reprimido,</p><p>quando nos permitirmos ter tanto medo real quanto essa realidade</p><p>merecer, então possivelmente muito do efeito destrutivo do medo</p><p>inconsciente e reprimido desaparecerá.</p><p>O potencial destrutivo dessa violência, se mantido sob repres-</p><p>são, esparrama-se nas relações entre os indivíduos. Pode assumir</p><p>diferentes formas e até voltar-se contra os próprios pares, esmagan-</p><p>do toda e qualquer intenção de laços coletivos. Um desses descami-</p><p>nhos é a externalização em atos catárticos de vandalismo individual</p><p>e/ou de pequenos grupos que, apenas, exprimem o ressentimento</p><p>e uma malfadada vingança diante das violências sofridas. Trazem</p><p>um alívio temporário e uma ilusão de vitória contra o opressor por-</p><p>que apenas vêm confirmar e legitimar também as atribuições de</p><p>periculosidade anteriormente imputadas a tais indivíduos. A repre-</p><p>sália social não tarda. Pior ainda: ficam confirmadas socialmente</p><p>as atribuições sociais de periculosidade desses indivíduos e grupos.</p><p>Justifica-se, pois, a aplicação de diferentes formas de coerção so-</p><p>cial, mais ou menos ostensivas e violentas contra eles. O ciclo da</p><p>autopunição desemboca no cerco policial e na represália armada</p><p>conducente ao extermínio coletivo (CANIATO, 2003).</p><p>Este processo, de fato, em especial porque escamoteado por</p><p>expressões ideologizadas, expõe os indivíduos e os grupos a um vio-</p><p>lento e doloroso processo de idiotização regressiva. Esta sedimenta</p><p>a impotência individual e a apatia dos grupos sob a culpabilização</p><p>por suas mazelas e fracassos psicossociais. Restam os “pobres reni-</p><p>tentes” para os quais está reservada a pseudoproteção do enreda-</p><p>mento nas malhas dos rendosos e lucrativos “negócios” do crime</p><p>organizado e do tráfico de drogas. Embora eles não admitam, estes</p><p>“paraísos fiscais” se restringem ao se digladiarem entre si, ferre-</p><p>nhamente, até a morte e/ou até virem sucumbir sob as armas das</p><p>forças de “segurança” estatais. O que dizer do que vem ocorrendo</p><p>com os designados, oficialmente, como “adolescentes em confli-</p><p>to com a lei”, que devem receber “medidas socioeducativas” em</p><p>abrigos/prisões cheios de celas com grades de ferro, algemas para</p><p>a locomoção interna e guardas em guaritas blindadas para coibir</p><p>rebeliões e fugas?</p><p>O que ocorre com os jovens pobres, sob a proteção estatal,</p><p>que denunciam a violência que sofrem nos enfrentamentos de-</p><p>sesperados das rebeliões “camicases” nas instituições educativas</p><p>da ex-Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM)? Para</p><p>muitos, inclusive para psicólogos influentes neste setor, a juventude</p><p>é violenta (JUVENTUDE..., 2005), o que é dito, de forma explícita,</p><p>em entrevista para uma revista da categoria profissional. Enquanto</p><p>isso, em universidades famosas de Porto Alegre – Pontifícia Univer-</p><p>sidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e Universidade Fede-</p><p>ral do Rio Grande do Sul (UFRGS) –, médicos que se dizem cientistas</p><p>estão buscando novas máscaras para velhas práticas de extermínio</p><p>e exclusão, que são exibidas e alardeadas no programa Fantástico</p><p>da Rede Globo de Televisão, para obter adesão da população desa-</p><p>visada. Estes profissionais estão procurando provar, por pesquisas</p><p>genéticas e exames neurológicos, que a destrutividade de jovens</p><p>das classes pobres é herdada; portanto, de natureza biológica e he-</p><p>reditária (CIESPI, 2007). Felizmente, a comunidade científica vem</p><p>protestando contra estas arbitrariedades.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>58</p><p>DAS DIFERENÇAS E DAS DESIGUALDADES DECORRENTES</p><p>TANTO DOS PROCESSOS ESTRUTURANTES DA ESTRATIFI-</p><p>CAÇÃO SOCIOECONÔMICA DA SOCIEDADE BRASILEIRA</p><p>QUANTO DOS MARCADORES SOCIAIS DA DIFERENÇA,</p><p>COMO IDADE, GERAÇÃO, GÊNERO, CLASSE, COR/RAÇA,</p><p>SEXUALIDADE, ENTRE OUTROS</p><p>Etnias</p><p>O conceito de etnia vem ganhando espaço cada vez maior nas</p><p>ciências sociais a partir das crescentes críticas ao conceito de raça</p><p>e, em alguns casos, ao conceito de tribo. Apesar disso, é ainda con-</p><p>siderado por muitos uma noção pouco definida. O termo etnia sur-</p><p>giu no início do século XIX para designar as características culturais</p><p>próprias de um grupo, como a língua e os costumes. Foi criado por</p><p>Vancher de Lapouge, antropólogo que acreditava que a raça era o</p><p>fator determinante na história. Para ele, a raça era entendida como</p><p>as características hereditárias comuns a um grupo de indivíduos.</p><p>Elaborou então o conceito de etnia para se referir às características</p><p>não abarcadas pela raça, definindo etnia como um agrupamento</p><p>humano baseado em laços culturais compartilhados, de modo</p><p>a diferenciar esse conceito do de raça (que estava associado a</p><p>características físicas). Já Max Weber, por sua vez, fez uma distinção</p><p>não apenas entre raça e etnia, mas também entre etnia e Nação.</p><p>Para ele, pertencer a uma raça era ter a mesma origem (biológica</p><p>ou cultural), ao passo que pertencer a uma etnia era acreditar em</p><p>uma origem cultural comum. A</p><p>Nação também possuía tal crença,</p><p>mas acrescentava uma reivindicação de poder político.</p><p>A etnia é um objeto de estudo da Antropologia, e se caracte-</p><p>rizou desde cedo como tema principal da Etnologia, ciência que</p><p>se propõe a estudar diferentes grupos étnicos, constituindo-se</p><p>em torno da própria noção de etnia. Durante o século XX, essas</p><p>duas disciplinas multiplicaram as conceituações sobre o termo. Au-</p><p>tores como Nadel e Meyers Fontes afirmam que uma etnia é um</p><p>grupo cuja coesão vem de seus membros acreditarem possuir um</p><p>antepassado comum, além de compartilharem uma mesma lingua-</p><p>gem. Para essa definição, baseada em Weber, uma etnia seria um</p><p>conjunto de indivíduos que afirma ter traços culturais comuns,</p><p>distinguindo-se, assim, de outros grupos culturais.</p><p>Nesse sentido, não importa se o grupo realmente descende de</p><p>uma mesma comunidade original: o que importa é que os indiví-</p><p>duos compartilhem essa crença em uma origem comum. Uma cren-</p><p>ça confirmada, a seu ver, pelos costumes semelhantes.</p><p>Assim, uma etnia se sente parte de uma mesma comunidade</p><p>que possui religião, língua, costumes - logo, uma cultura - em co-</p><p>mum. Notemos que nesse conceito não importa somente o fato</p><p>de as pessoas que compõem uma etnia compartilharem os mes-</p><p>mos costumes, mas sobretudo o fato de elas acreditarem fazer par-</p><p>te de um mesmo grupo. Nesse sentido, a etnia é uma construção</p><p>artificial do grupo, e sua existência depende de seus integrantes</p><p>quererem e acreditarem fazer parte dela.</p><p>Toda etnia se identifica como um grupo distinto, consideran-</p><p>do-se diferente de outros grupos, e baseia sua identidade em uma</p><p>religião e rituais específicos. Assim, os judeus e muçulmanos dentro</p><p>das atuais Nações europeias são, cada um por seu lado, etnias, por</p><p>se identificarem como grupos distintos e reivindicarem identidades</p><p>próprias baseadas em religiões e costumes diferentes das socieda-</p><p>des em que estão inseridos. No caso dos muçulmanos, a construção</p><p>artificial desse conceito é mais nítida, pois quase sempre oriundos</p><p>de migrações recentes para a Europa, seus integrantes são originá-</p><p>rios de diferentes países e culturas distintas, mas ao se instalarem</p><p>em lugares como a França e a Inglaterra em geral se identificam</p><p>como uma mesma etnia, independentemente do país de origem.</p><p>Tal situação pode ser percebida sobretudo com relação aos descen-</p><p>dentes dos primeiros imigrantes, e a construção de uma identidade</p><p>comum “árabe” ou “muçulmana” vem tanto do fato de possuírem</p><p>uma mesma religião quanto do fato de a sociedade os tratar em</p><p>geral como um grupo homogêneo.</p><p>Alguns sociólogos diferenciam etnia e grupo étnico, pois</p><p>para eles um grupo precisa de uma interação entre todos os seus</p><p>membros, enquanto a etnia abrange um número grande demais de</p><p>pessoas para que haja relação direta entre todas elas.</p><p>O grupo étnico seria, então, um conjunto de indivíduos que</p><p>apresenta uma interação entre todos os seus membros, além das</p><p>características gerais da etnia. Por essa distinção, os membros de</p><p>uma vizinhança judaica em uma cidade do Ocidente, por exemplo,</p><p>onde todos os indivíduos frequentam a mesma sinagoga, consti-</p><p>tuem um grupo étnico, ao passo que os judeus como um todo com-</p><p>põem uma etnia.</p><p>Atualmente, os debates em torno da ideia de etnia continuam</p><p>acirrados. Primeiro porque a Antropologia não considera mais raça</p><p>um conceito determinado biologicamente. Hoje, raça significa a</p><p>percepção das diferenças físicas pelos grupos sociais, e como essa</p><p>percepção afeta as relações sociais, aproxima-se bastante da pró-</p><p>pria definição de etnia. Por outro lado, alguns antropólogos france-</p><p>ses, no fim da década de 1980, afirmaram que o conceito de etnia</p><p>estava sendo pregado para as sociedades ditas primitivas com a in-</p><p>tenção de apagar a historicidade delas. Para Amselle, por exemplo,</p><p>o conceito de etnia, bem como o de tribo, era usado em substitui-</p><p>ção ao de Nação, para as “sociedades primitivas”, passando a ideia</p><p>de Nação a pertencer exclusivamente aos “Estados civilizados”.</p><p>Dessa forma, o conceito de etnia teria um sentido etnocêntrico bas-</p><p>tante acentuado. Mas, apesar dessas controvérsias, a Antropologia</p><p>trabalha também com a noção de etnicidade, que é um sentimento</p><p>de pertencer exclusivamente a um determinado grupo étnico. Um</p><p>conceito próximo ao de identidade.</p><p>Podemos perceber, dessa forma, os intensos debates em torno</p><p>do conceito de etnia, e o quanto esse conceito ainda precisa ser</p><p>mais bem caracterizado. Não obstante, os estudos etnológicos têm</p><p>crescido, principalmente porque, desde a década de 1960, muitas</p><p>reivindicações políticas no mundo se apresentam como étnicas, ba-</p><p>seadas em crenças em uma identidade comum, contexto esse que</p><p>motiva os cientistas sociais a continuarem refletindo sobre o con-</p><p>ceito.</p><p>É preciso ressaltar que se, por um lado, muitas comunidades se</p><p>auto afirmam positivamente a partir de seus costumes, por outro, a</p><p>identidade étnica (a etnicidade) é um elemento que contribui para</p><p>a construção do etnocentrismo. Ao se identificarem como mem-</p><p>bros de uma cultura em comum, diferente dos que o cercam, um</p><p>determinado grupo reage às culturas diferentes muitas vezes com</p><p>repulsa. O sentimento de superioridade diante de diferentes cultu-</p><p>ras é, assim, criado na identidade étnica. Dessa forma, os fran-</p><p>ceses se sentem superiores aos “árabes” (como classificam todos</p><p>os que professam a fé muçulmana, sejam árabes ou não) por acre-</p><p>ditarem possuir uma origem diferente e uma cultura que os outros</p><p>não compartilham. Isso acontece com os norte-americanos diante</p><p>dos hispânicos, e já aconteceu em outras épocas da história, como</p><p>entre os alemães e os judeus durante a Segunda Guerra Mundial.</p><p>Em suma, a discussão sobre etnia nos leva a repensar o próprio</p><p>conceito de etnocentrismo. Para o professor de História, conhe-</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>59</p><p>cer o conceito de etnia é uma exigência fundamental, pois os</p><p>programas curriculares discutem cada vez mais as minorias no</p><p>Brasil. Essas minorias são estudadas pela Antropologia como etnias,</p><p>mas algumas delas ainda se identificam muitas vezes como raças. É</p><p>o caso dos negros brasileiros. Enquanto os antropólogos discutem a</p><p>validade de termos como raça e etnia, o que precisamos apreender</p><p>de todo esse debate e discutir com os alunos é que, seja na raça</p><p>ou na etnia, o fato de um indivíduo pertencer a um desses grupos</p><p>é mais uma questão de sentimento, de identidade, do que de de-</p><p>terminação física ou mesmo cultural. Vale lembrar ainda que tan-</p><p>to a concepção atual de raça quanto a de etnia são conceitos que</p><p>buscam dar conta da multiplicidade de culturas, de hábitos e</p><p>crenças que a humanidade apresenta, e das implicações políticas</p><p>dessas diferenças13.</p><p>Classes Sociais</p><p>Quantas classes há na sociedade - isto é, pessoas que dividem</p><p>uma dada fatia da torta de dinheiro e prestígio e que, desta forma,</p><p>revelam características comuns?</p><p>Quão claras são as fronteiras? Quanta mobilidade de classe</p><p>para classe ocorre durante uma, ou entre gerações? E quão dura-</p><p>douras são as classes? Algumas das respostas a essas perguntas são</p><p>mais fáceis do que outras. Vamos tomá-las em ordem.</p><p>Quantas classes existem? A resposta depende da nossa sinto-</p><p>nia com a realidade. Uma aproximação irregular distinguiria o se-</p><p>guinte: elite (ricos, poderosos e prestigiosos), muito ricos (riqueza</p><p>acumulada e prestígio de profissões de alta renda ou empresas),</p><p>profissionais executivos de classe médio-alta (profissionais com alto</p><p>salário ou pessoas de negócios bem sucedidas que acumularam al-</p><p>guma riqueza), sólida classe média administrativa (renda respeitá-</p><p>vel, alguma riqueza em fundo de pensão e participação de lucros</p><p>da empresa), classe média mais baixa (renda modesta, poucos</p><p>bens acumulados, talvez participação de lucros da empresa), clas-</p><p>se trabalhadora alta (renda respeitável, alguma riqueza em fundos</p><p>de pensão e participação de lucros da empresa), operária de clas-</p><p>se</p><p>média (renda modesta, poucos bens acumulados), e os pobres</p><p>(renda baixa, desempregados, “desempregáveis” sem qualquer au-</p><p>xílio). Como importante observação, esta última classe, de pessoas</p><p>pobres, é a maior do mundo.</p><p>Uma pesquisa divulgada pelo jornal “O Globo”, em 2006, afir-</p><p>ma que a riqueza está fortemente concentrada na América do Nor-</p><p>te, na Europa e nos países de alta renda da Ásia e do Pacífico. Os</p><p>moradores desses países detêm juntos quase 90 por cento do total</p><p>da riqueza do planeta’’, disse a pesquisa.</p><p>“Nós calculamos que os 2 por cento dos adultos mais ricos do</p><p>mundo possuem mais da metade da riqueza global enquanto os 50</p><p>por cento mais pobres, 1 por cento”, disse Anthony Shorrocks, di-</p><p>retor do instituto.</p><p>As diferenças nessas classes giram em torno de diversos fato-</p><p>res. Um deles é se o trabalho é manual (operárias) ou não manual</p><p>(intelectual); esse fator é muito importante, e podemos sempre</p><p>observar facilmente as diferenças na conduta, no estilo de vida e</p><p>em outras características das pessoas do setor administrativo e da</p><p>linha de produção. Outro ponto de corte é o nível de renda e a ca-</p><p>pacidade de acumular bens de sua própria renda; as pessoas que</p><p>têm bens agem e pensam diferentemente do que as que não têm.</p><p>E quanto menos dinheiro você tem, maior é a diferença entre você</p><p>e os que têm alguns bens.</p><p>13 Fonte: SILVA, K. V. e SILVA, M. H.</p><p>Uma última fronteira é quanto poder e prestígio você tem,</p><p>como resultado de sua renda ou natureza de seu trabalho. Pessoas</p><p>com poder e prestígio agem e pensam diferentemente dos que não</p><p>têm esses bens.</p><p>Essas fronteiras de classe são vagas, indicando que não há</p><p>qualquer divisão ou rígida descontinuidade entre elas. Voltando</p><p>à questão da mobilidade social, há possibilidades de mobilidade</p><p>entre essas classes, mas não há grandes saltos. Estatisticamente, é</p><p>mais provável que você mude para a classe mais próxima - ou acima</p><p>ou abaixo. Se começar pela média baixa, você pode esperar mudar</p><p>para a média sólida, ou mudar para um emprego operário mais alto.</p><p>Se começar nas classes operárias, você pode mudar com a aquisi-</p><p>ção de diplomas para as classes médias. Mas, se a economia está</p><p>em recessão e se o governo corta gastos, então é provável que você</p><p>permaneça onde começou ou que até mesmo desça a escada da</p><p>estratificação. A maioria dos brasileiros permanece em uma classe</p><p>social durante toda a sua vida; e, se eles mudam, não é para muito</p><p>longe - apesar de muito discurso sobre aqueles que passaram de</p><p>muito pobres a ricos.</p><p>Gênero</p><p>Em todas as sociedades, os indivíduos categorizam-se uns aos</p><p>outros como masculino ou feminino e, com base nessa distinção,</p><p>as crenças culturais e normas indicam quais status os homens e as</p><p>mulheres deveriam ocupar e como elas deveriam desempenhar os</p><p>papéis associados com esses status. Tem havido no curso da evo-</p><p>lução humana enorme variação no que é definido como adequado</p><p>aos homens e às mulheres, um fato que indica que distinções entre</p><p>os sexos são mais socioculturais do que biológicas. Esse processo</p><p>de definir culturalmente status e papéis adequados para cada sexo</p><p>é denominado de diferenciação de gênero; e esse conceito deveria</p><p>ser distinto da diferenciação sexual, que denota as diferenças bioló-</p><p>gicas entre homens e mulheres As duas noções, de sexo e gênero,</p><p>entretanto, não são tão facilmente separadas porque muito do que</p><p>a população costuma ver como tendências “naturais”, biológicas,</p><p>dos sexos são culturalmente definidos e reforçado através de san-</p><p>ções. As únicas diferenças biológicas claras entre os homens e as</p><p>mulheres são diferenças geneticamente causadas nas secreções</p><p>hormonais e seus efeitos no desenvolvimento dos órgãos sexuais</p><p>e outras características anatômicas (estrutura óssea, percentual de</p><p>camada de gordura e musculatura). Pode haver outras diferenças</p><p>fundamentadas geneticamente, mas não há evidências claras para</p><p>essas. Além disso, até mesmo as diferenças mais inequívocas tor-</p><p>nam-se tão elaboradas e impregnadas por crenças culturais e nor-</p><p>mas, e por papéis sociais e práticas dentro de estruturas sociais,</p><p>que tornam obscura a fronteira entre o sexo e o gênero.</p><p>A base da noção de sexo socialmente construída é bastante</p><p>ilustrada por casos nos quais a identidade sexual biológica é am-</p><p>bígua. Por exemplo, em um estudo, crianças que nasceram com os</p><p>órgãos de ambos os sexos (antigamente chamadas de hermafrodi-</p><p>tas, atualmente chamadas de intersexuais) empregaram as carac-</p><p>terísticas sexuais - atitudes, comportamento e preferências sexuais</p><p>- que refletiram sua socialização pelos pais, tanto masculinos quan-</p><p>to femininos (Ellis, 1945; Money ê Ehrhardt, 1972). Em outro caso</p><p>elucidativo, uma garota jovem que tinha os órgãos sexuais externos</p><p>de uma mulher e que fora criada como mulher, sofreu uma mudan-</p><p>ça de voz na puberdade; um exame médico mais detalhado revelou</p><p>que “ela era “XY”, ou seja, um homem”. Informada disso, ela “foi</p><p>para casa, jogou fora suas roupas de moça e tornou-se um garoto,</p><p>começando imediatamente a se comportar como os outros garo-</p><p>tos” (Reynolds, 1976).</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>60</p><p>Ou seja, o gênero é mais determinante do que o sexo quando</p><p>pensamos em assumir papéis. Um indivíduo pode ter nascido do</p><p>sexo feminino e optar, posteriormente, pelo gênero feminino se tor-</p><p>nando, portanto, uma mulher. Outro ponto importante é distinguir</p><p>gênero de orientação sexual. Embora existam várias orientações</p><p>sexuais, as mais conhecidas são: homossexuais, heterossexuais e</p><p>bissexuais. A orientação sexual (e não opção sexual) não é deter-</p><p>minada pelo sexo nem pelo gênero. O que determina o seu sexo</p><p>são suas características biológicas; seu gênero é determinado pelas</p><p>suas características culturais e sociais; sua orientação sexual se defi-</p><p>ne para qual gênero você tem sua afetividade direcionada.</p><p>De um ponto de vista sociológico, então, é melhor nos concen-</p><p>trarmos nos processos de gênero, ou aquelas causas culturais e so-</p><p>ciais que afetam os status e os papéis desempenhados por todos</p><p>na sociedade. Vamos nos concentrar na estratificação de gênero</p><p>porque esse é o tópico que diretamente afeta tudo em nossas vidas.</p><p>Geração</p><p>Nas Ciências Sociais, e mesmo no âmbito de senso comum,</p><p>o termo traduz, vulgarmente, a referência a um conjunto de indi-</p><p>víduos nascidos num mesmo tempo, que detêm uma experiência</p><p>comum, e expressa uma determinada forma de encarar a vida e os</p><p>seus problemas. A geração pode também ser entendida na base de</p><p>um movimento cultural que emergiu em determinado momento da</p><p>vida de uma sociedade, sem que isso tenha a ver com o tempo de</p><p>nascimento daqueles que o representam. É com esse sentido que,</p><p>por exemplo, se alude à geração de 70 por referência ao movimento</p><p>literário português do século XIX. Mas, em termos mais concretos,</p><p>cada geração distancia-se das que lhe estão chegadas - anterior e</p><p>posterior - por um período de 20 anos. Diz-se, de forma consensual,</p><p>que uma geração representa vinte anos e isso implica aceitarmos as</p><p>diferenças que ela possa ter em relação a outras gerações, diferen-</p><p>ças que, naturalmente, se traduzem em todos os domínios sociais</p><p>e para as quais contribuem o progresso tecnológico, a escola, as</p><p>transformações económicas e, em sentido lato, as transformações</p><p>de toda uma sociedade. Por isso, as diferenças entre gerações, ao</p><p>existirem, têm necessariamente uma relação com a sociedade em</p><p>si e, mais do que isso, com a sua própria estrutura sociodemográ-</p><p>fica. Hoje se fala muito, nas sociedades desenvolvidas, em conflito</p><p>de gerações como uma consequência do progressivo aumento da</p><p>esperança média de vida nas idades mais avançadas: as distâncias</p><p>de tempo que existem entre os jovens e os idosos é, nesta inter-</p><p>pretação, um fator de desentendimento entre gerações, dadas as</p><p>distâncias de valores e de universos socialmente apreendidos. Não</p><p>é pacífica esta tese, tanto mais que, nas mesmas sociedades, nunca</p><p>se deixou de valorizar, apesar de outro tipo de “concorrências”, o</p><p>papel, por exemplo, dos avós na educação dos netos e, por</p><p>conse-</p><p>quência, a sua importante ação enquanto transmissores de certa</p><p>ideia da sociedade em que estão inseridos e dos valores que par-</p><p>tilham.</p><p>Em termos analíticos, podemos ainda definir geração por um</p><p>corte efetuado sobre um conjunto de pessoas nascidas em determi-</p><p>nado período, coincidente, normalmente, com um ano civil.</p><p>DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NA SOCIEDADE BRASI-</p><p>LEIRA E DAS DEMANDAS E PROTAGONISMOS POLÍTICOS,</p><p>SOCIAIS E CULTURAIS DOS POVOS INDÍGENAS E DAS</p><p>POPULAÇÕES AFRODESCENDENTES (INCLUINDO OS</p><p>QUILOMBOLAS)</p><p>Combate às Desigualdades Raciais</p><p>Avanços nos indicadores socioeconômicos da população ne-</p><p>gra atestam o impacto positivo das políticas universais. Ao mesmo</p><p>tempo, os dados mostram a necessidade urgente de ações afirma-</p><p>tivas de caráter amplo na busca por igualdade racial no Brasil. Se-</p><p>gundo Douglas Belchior, “O jovem negro tem, hoje, oportunidades</p><p>que seus pais não tiveram, mas isso não significa que elas sejam</p><p>iguais”14.</p><p>Construir pontes que aproximem as realidades de brancos e ne-</p><p>gros no Brasil é um desafio monumental de engenharia social e econô-</p><p>mica. Nas últimas duas décadas, políticas públicas de natureza diversa,</p><p>adotadas em diferentes níveis de governo, têm sido capazes de impul-</p><p>sionar a construção das bases da igualdade. Indicadores socioeconô-</p><p>micos de toda ordem mostram uma melhoria nas condições de vida</p><p>da população negra, bem como no acesso a serviços e direitos. Nesse</p><p>período, homens e mulheres negras viram sua renda, expectativa de</p><p>vida e acesso à educação – para citar apenas os componentes do Índice</p><p>de Desenvolvimento Humano (IDH) – avançarem de forma mais ace-</p><p>lerada do que as da população branca.</p><p>Entretanto, ainda não é possível vislumbrar a superação do</p><p>abismo racial. Os dados disponíveis indicam um caminho: é preciso</p><p>apostar em políticas de ação afirmativa de forma consistente.</p><p>A criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade</p><p>Racial (Seppir), em nível federal, a aprovação do Estatuto da Igual-</p><p>dade Racial e os resultados encorajadores já revelados por algumas</p><p>ações indicam um rumo positivo nas políticas públicas dos últimos</p><p>anos. Embora persistam os debates acerca da constitucionalidade</p><p>das ações afirmativas – especialmente nas cotas para ingresso em</p><p>universidades e no serviço público –, muitos avaliam que a agenda</p><p>está consolidada. “O momento é de continuidade e de ampliação”,</p><p>afirma Tatiana Dias Silva, coordenadora de Igualdade Racial do</p><p>Ipea, especialista em análises da questão racial. “Temores de que</p><p>as ações afirmativas criariam um ‘racismo ao contrário’ ou ‘reduzi-</p><p>riam o nível das universidades’ desapareceram. Os dados disponí-</p><p>veis desmentem tudo isso.”</p><p>Impacto das Mudanças</p><p>Os argumentos favoráveis às ações afirmativas não vêm, ne-</p><p>cessariamente, de uma avaliação acerca do impacto específico das</p><p>iniciativas em curso no País. O caráter pontual e descentralizado das</p><p>políticas dificulta a identificação destas nas mudanças na vida dos</p><p>negros brasileiros nos últimos anos. Há também o fato de um nú-</p><p>mero cada vez maior de instituições e órgãos públicos e privados</p><p>manterem programas de inclusão ou combate à discriminação e o</p><p>preconceito. “A partir dos dados estatísticos, não é possível desa-</p><p>gregar o que é impacto de ações afirmativas e o que é resultado das</p><p>políticas de caráter universal”, comenta Marcelo Paixão, economista</p><p>e coordenador do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas,</p><p>Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser) da Universidade</p><p>Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).</p><p>14 IPEA. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Igualdade Racial. O longo</p><p>combate às desigualdades raciais. https://www.ipea.gov.br/igualdaderacial/in-</p><p>dex.php?option=com_content&view=article&id=711.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>61</p><p>A exceção talvez sejam os dados relativos à criação de cotas nas</p><p>universidades públicas. Neste caso, é possível inferir, a partir dos</p><p>editais e do Censo do Ensino Superior do Ministério da Educação,</p><p>o número de estudantes afrodescendentes beneficiados pelas me-</p><p>didas. Segundo dados reunidos no artigo Juventude Negra e Edu-</p><p>cação Superior, de autoria de Adailton da Silva, Josenilton da Silva</p><p>e Waldemir Rosa, no livro do Ipea Juventude e Políticas Sociais no</p><p>Brasil, entre os anos de 2002 e 2009, pouco mais de 98 mil jovens</p><p>negros entraram no Ensino Superior por meio de iniciativas desse</p><p>tipo ou programas de bônus sobre a nota obtida nos processos sele-</p><p>tivos. O levantamento não inclui os afrodescendentes que porven-</p><p>tura se beneficiaram de cotas não raciais, que utilizam critérios de</p><p>renda ou estão voltadas para alunos oriundos do sistema público</p><p>de ensino. O Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil</p><p>2009-2010 (lançado pelo Laeser e pelo Instituto de Economia da</p><p>UFRJ) atesta o seguinte quadro no ano de 2008: “Se, por um lado,</p><p>os dados do Censo do Ensino Superior evidenciavam a existência de</p><p>uma boa disseminação do número de Instituições de Ensino Supe-</p><p>rior (IES) que aderiram ao sistema de ingresso diferenciado, 26,3%</p><p>do total das IES públicas do País, por outro lado, o número de vagas</p><p>disponibilizadas pelo sistema de cota era de apenas 10,5%”.</p><p>Ainda que restritas e criadas por iniciativa das instituições, sem</p><p>qualquer tipo de integração ou norma que sustente a reserva de va-</p><p>gas como política pública abrangente, as cotas, somadas a ações de</p><p>caráter geral de acesso ao ensino superior – como o Programa Uni-</p><p>versidade para Todos (ProUni) –, estão mudando o perfil do univer-</p><p>sitário brasileiro. Em 17 anos, a taxa líquida de matrícula de jovens</p><p>de 18 a 24 anos – que mede o número de matriculados no nível</p><p>esperado de ensino para aquela faixa etária – mais que quintuplicou</p><p>entre os negros. Segundo dados levantados pelo Ipea para o Bole-</p><p>tim Políticas Sociais: acompanhamento e análise nº 19, disponíveis</p><p>no site criado por ocasião da programação em torno do Ano Inter-</p><p>nacional dos Afrodescendentes – www.ipea.gov.br/igualdaderacial</p><p>–, no ano de 1992, apenas 1,5% dos jovens negros nesta faixa etá-</p><p>ria estavam na universidade. Em 2009, eram 8,3 %. Entre os jovens</p><p>brancos, as matrículas líquidas triplicaram no mesmo período – de</p><p>7,2% para 21,3%. A frequência dos jovens negros na universidade,</p><p>que correspondia a 20,8% da frequência dos brancos em 2002, pas-</p><p>sou a corresponder a 38,9% em 2009.</p><p>Universal ou Não</p><p>A divisão entre o peso das políticas universais e o das ações</p><p>afirmativas lembra um dos debates de fundo sobre os efeitos do</p><p>preconceito e da discriminação no País. Um dos argumentos con-</p><p>trários ao estabelecimento de políticas reparadoras baseadas em</p><p>quesitos raciais é de que a exclusão social no Brasil não é determi-</p><p>nada pela cor da pele, mas pela pobreza. Este é um dos pontos le-</p><p>vantados pelo Democratas (DEM) na Arguição de Descumprimento</p><p>de Preceito Fundamental (ADPF), que questiona o sistema de cotas</p><p>raciais no processo seletivo da Universidade de Brasília e que aguar-</p><p>da julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Por essa razão, o</p><p>DEM advoga que apenas critérios econômicos poderiam ser válidos</p><p>para o estabelecimento de cotas em vestibulares, por exemplo.</p><p>Seguindo essa mesma lógica, programas voltados para o com-</p><p>bate à pobreza e à redução das desigualdades sem recorte específi-</p><p>co deveriam dar conta de acabar com as diferenças existentes entre</p><p>negros e não-negros. São justamente as análises estatísticas que</p><p>demonstram que os afrodescendentes são o grupo mais beneficia-</p><p>do pelos avanços econômicos e sociais recentes no País. Isso reforça</p><p>os argumentos em favor das ações afirmativas. “Mesmo reconhe-</p><p>cendo que políticas universais podem ser, às vezes, mais positivas,</p><p>a questão é saber se seus efeitos tiveram a capacidade de, efetiva-</p><p>mente, enfrentar o abismo sociorracial no País. E a resposta é não,</p><p>não tiveram”, diz, taxativo, o economista Marcelo Paixão.</p><p>Paixão analisa a evolução dos negros no mercado de trabalho</p><p>como um exemplo dos benefícios e limites das políticas universais.</p><p>Segundo ele, há uma aproximação recente entre a renda do</p><p>en-</p><p>tre a sociografia e a sociologia propriamente dita, mas igualmente</p><p>a fatores institucionais e epistemológicos, importa analisá-los. É o</p><p>que fazemos de seguida.</p><p>OBSTÁCULOS EPISTEMOLÓGICOS E VIGILÂNCIA EPISTEMOLÓ-</p><p>GICA NA SOCIOLOGIA</p><p>As ciências sociais e humanas têm a particularidade do próprio</p><p>investigador fazer parte do objeto de estudo, o que implica certas</p><p>consequências epistemológicas e metodológicas, nomeadamen-</p><p>te no que respeita à relação entre o pensamento e a ação na vida</p><p>social e histórica e, consequentemente, à própria estrutura da ob-</p><p>jetividade em sociologia. (Goldmann, 1981: 334). A familiaridade</p><p>do sociólogo como universo social constitui, para este, “o obstáculo</p><p>epistemológico por excelência porque essa familiaridade produz</p><p>continuamente concepções ou sistematizações fictícias ao mesmo</p><p>tempo que as condições da sua credibilidade” (Bourdieu, 1999: 23).</p><p>Efetivamente, quando abordamos o estudo da sociedade em geral e</p><p>dos factos de consciência individuais e coletivos, em particular, não</p><p>nos deveremos esquecer que:</p><p>- o indivíduo é, por essência, social, e que, tal como preconizava</p><p>Piaget, a sociologia deve encarar a sociedade como um todo, ain-</p><p>da que esse todo, bem distinto da somados indivíduos, nada mais</p><p>seja do que o conjunto das relações ou das interações entre esses</p><p>indivíduos;</p><p>- a vida social e histórica é um conjunto estruturado de com-</p><p>portamentos de indivíduos agindo de forma consciente, em certas</p><p>condições de meio natural e social;</p><p>- a estruturação resulta de facto de que dos indivíduos e os</p><p>grupos sociais procuram dar respostas unitárias e coerentes ao</p><p>conjunto dos problemas colocados pelas suas relações com o meio</p><p>ambiente;</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>10</p><p>- a existência de qualquer grupo social constitui um processo</p><p>de equilibração entre um sujeito coletivo e um meio social e natural</p><p>(Goldmann, 1981: 335-336).</p><p>Ora, sendo toda a realidade constituída, simultaneamente,</p><p>por factos materiais e fatos intelectuais e afetivos que estruturam</p><p>a consciência do investigador e que implicam naturalmente valori-</p><p>zações, não poderemos deixar de considerar que fica impossibili-</p><p>tado qualquer estudo rigorosamente objetivo da sociedade (Gold-</p><p>mann,1981: 336).</p><p>Sem outra possibilidade que não seja estar vigilante, o soció-</p><p>logo deve, para cada caso particular de estudo, determinar o grau</p><p>específico de identidade entre o sujeito e o objeto, e, desse modo,</p><p>o grau de objetividade acessível à pesquisa.</p><p>Para Gaston Bachelard, o próprio domínio da pesquisa, o</p><p>primeiro impulso do sujeito para o objeto, não é neutro. Diz ele:</p><p>“na nossa opinião, é preciso aceitar o postulado seguinte para a</p><p>epistemologia: o objeto não pode ser designado como um «obje-</p><p>tivo» imediato; por palavras, um movimento para o objeto não é</p><p>inicialmente objetivo. É necessário aceitar, pois, uma verdadeira</p><p>ruptura entre o conhecimento sensível e o conhecimento científi-</p><p>co. Cremos, com efeito, ter demonstrado, no decurso das nossas</p><p>críticas, que as tendências normais do conhecimento sensível, in-</p><p>tensamente animadas de pragmatismo e de realismo imediatos,</p><p>determinavam apenas uma falsa partida, uma falsa direção” (a um</p><p>objeto) (Bachelard, 1981: 128).</p><p>Como a generalidade dos cientistas sociais aceita hoje, este</p><p>epistemólogo esclarece que a “objetividade científica só é possível</p><p>depois de termos rompido com o objeto imediato, de termos recu-</p><p>sado a sedução da primeira escolha, de termos parado e contradito</p><p>os pensamentos que nascem da primeira observação” (Bachelard,</p><p>1981:129) e que, ao partir para a investigação, o sociólogo “ tem que</p><p>começar por criticar tudo: a sensação, o senso comum, até a prática</p><p>mais constante e a própria etimologia, pois o verbo, que é feito para</p><p>cantar e seduzir, raramente vai ao encontro do pensamento. Em vez</p><p>de deslumbrar, o pensamento objetivo deve ironizar”(Bachelard,</p><p>1981: 129). Bachelard conclui que sem esta vigilância desconfiada,</p><p>nunca alcançaremos uma atitude verdadeiramente objetiva.</p><p>Não se pense, no entanto, que estas posições são exclusiva-</p><p>mente contemporâneas. Pelo contrário. Já Émile Durkheim, na sua</p><p>obra As Regras do Método Sociológico, assegurava que os factos</p><p>sociais deveriam ser tratados como «coisas», o que significava que</p><p>o sociólogo deveria conservar uma certa distância relativamente ao</p><p>seu objeto de estudo, a fim de ultrapassar as pré-noções, isto é, os</p><p>preconceitos e as falsas evidências que ameaçam, em cada instan-</p><p>te, introduzir-se na sua análise.</p><p>De fato, como qualquer cientista, o sociólogo “deve desconfiar</p><p>da ilusão do saber imediato, condição indispensável para poder es-</p><p>tudar o seu objeto de estudo e fazer uma «descoberta»” (Riutort,</p><p>1999: 19), ao mesmo tempo que deve fazer um “esforço para co-</p><p>nhecer e fazer conhecer aos outros as suas valorizações, indicando-</p><p>-as explicitamente, pois este esforço ajudá-lo-á a atingir um máximo</p><p>de objetividade subjetivamente acessível no momento em que es-</p><p>creve” (Goldmann, 1981: 338).</p><p>A vigilância epistemológica aconselha, ainda, que o sociólogo</p><p>não se refugie numa redoma de vidro, isolando-se do mundo social</p><p>que importa estudar, e que não retome, sem crítica prévia, as ques-</p><p>tões colocadas por outros investigadores, compre ocupações por-</p><p>ventura muito diferentes do chegar a um conhecimento científico.</p><p>Por outro lado, ainda, o sociólogo deve, ainda, ter presente que</p><p>não desenvolve a sua atividade desligado de um determinado con-</p><p>texto, ou seja, que toda a vida psíquica está estreitamente ligada</p><p>com a praxis, e que, como tal, fruto do processo de socialização</p><p>que vivenciou, ele transporta para o contexto da investigação as</p><p>chamadas “visões do mundo”, resultado de um processo de estru-</p><p>turação bastante lento e complexo resultante da praxis das gera-</p><p>ções anteriores. Estas visões do mundo são a «consciência coletiva»</p><p>de um grupo e predominam nas consciências individuais dos seus</p><p>membros, embora com algumas diferenças resultantes de diferen-</p><p>tes processos de estruturação de que foram alvo, e estão na base</p><p>das suas maneiras de agir. O sociólogo, ao fazer investigação, deve</p><p>procurar o equilíbrio nas «consciências colectivas» dos grupos. Não</p><p>esqueçamos que ao sociólogo interessa, não a descrição e explica-</p><p>ção do individual mas do coletivo; ele estuda os grupos sociais, em</p><p>articulação uns com os outros, e deve ter cuidado para não transfe-</p><p>rir para a investigação as suas ideias, a sua «consciência».</p><p>No processo de produção científica, o sociólogo deve recortar,</p><p>de cada vez, o seu objeto de estudo, ou seja, em cada investigação</p><p>prática ele deve “pôr a claro uma totalidade que permita atingir</p><p>o significado objetivo de uma parte notável e preponderante dos</p><p>factos empíricos que se propõe estudar e das suas transformações,</p><p>estando assente que o ponto de partida da investigação e que a</p><p>possibilidade de ele prestar contas permanece o único critério obje-</p><p>tivo para avaliar a sua validade” (Goldmann, 1981: 341-342). Nesta</p><p>fase, intervém muitas vezes o fator ideológico, começando, desde</p><p>logo, a condicionar os resultados que irão ser obtidos, a partir dos</p><p>dados estudados, dados esses isolados das suas raízes, separados</p><p>dos seus contextos. Uma vez que as ideologias são produtos cole-</p><p>tivos espontâneos da prática social, e que, quer queiramos ou não</p><p>todos nos movemos em alguma ou algumas ideologias, e o cientista</p><p>não desfruta de nenhum privilégio que o exima da sujeição a essa</p><p>regra geral (Nunes, 1984: 123), então não lhe resta alternativa que</p><p>não seja delas tomar consciência e explicitá-la nos seus estudos,</p><p>por forma a que os outros passem a conhecer essas posições do</p><p>investigador e possam essa informação nas “leituras” dos seus es-</p><p>tudos. Recomendam, ainda, as “regras” da epistemologia que para</p><p>cada investigação seja feito o recorte do objeto de estudo, e que</p><p>se eliminem tanto os conceitos gerais como os factos puramente</p><p>individuais (Goldmann,1981: 342). O sociólogo alemão Max Weber</p><p>falava nos «juízos de valor», distinguindo-os das referências aos</p><p>valores. Enquanto</p><p>tra-</p><p>balho auferida por negros e brancos, mas longe de significar o fim</p><p>das desigualdades. Os dados levantados pelo Ipea para o Boletim</p><p>Políticas Sociais nº 19 Políticas Sociais: acompanhamento a análise,</p><p>mostram que os rendimentos médios reais da população negra re-</p><p>cebidos de todas as fontes, cresceram 56% entre 1992 e 2009, ante</p><p>um aumento de 39% entre os trabalhadores brancos. No entanto,</p><p>a diferença entre uns e outros continua significativa: na década de</p><p>1990, o rendimento dos negros equivalia a 50% do dos brancos; há</p><p>dois anos, esta proporção passou a 57%.</p><p>Salário Mínimo e Bolsa Família</p><p>A principal explicação para esta aproximação estaria no efeito</p><p>redistributivo das políticas sociais, em especial em relação ao sa-</p><p>lário mínimo e os benefícios previdenciários. Isso porque a maior</p><p>parte dos trabalhadores negros atua em setores cujos vencimentos</p><p>estão atrelados ao salário mínimo.</p><p>Quando analisada a renda das famílias somando-se outras</p><p>fontes além do trabalho, o resultado é o mesmo: percebe-se uma</p><p>aceleração recente na diminuição das desigualdades, mas ainda in-</p><p>suficiente para dar conta da defasagem. Segundo análise do técnico</p><p>do Ipea Sergei Soares, registrada em artigo no livro As políticas pú-</p><p>blicas e a desigualdade racial no Brasil – 120 anos após a abolição</p><p>(disponível em www.ipea.gov.br), a razão entre a renda domiciliar</p><p>per capita das famílias negras e a das famílias brancas iniciou uma</p><p>trajetória de queda constante a partir de 2001. Ao longo dos anos</p><p>1990, os brancos viviam com um ingresso 2,4 vezes maior do que os</p><p>negros. Em 2007, essa proporção caiu para 2,06. No entanto, alerta</p><p>Soares, mantido esse ritmo – o que não é provável –, a igualdade</p><p>entre os dois grupos só seria alcançada em 2029.</p><p>Além dos fatores macroeconômicos e das políticas salariais,</p><p>tanto a análise do Ipea como a do Laeser chamam a atenção para</p><p>o peso dos programas de redistribuição de renda. O relatório do</p><p>Laeser aponta que a importância dos benefícios do Bolsa Família</p><p>sobre a renda das famílias negras é significativamente maior do que</p><p>para as famílias brancas. Entre os afrodescendentes, o programa re-</p><p>presenta 23,1% da renda da família. Para os brancos, 21,6%. Além</p><p>disso, a proporção de famílias cujo chefe é preto ou pardo bene-</p><p>ficiadas pelo programa – 24% do total de famílias deste grupo no</p><p>país – é quase três vezes maior do que a das unidades familiares</p><p>brancas (9,8%).</p><p>Com os rendimentos de trabalho crescendo e a maior partici-</p><p>pação nos programas de distribuição de renda, é natural que os ín-</p><p>dices de pobreza e indigência caiam rapidamente entre os afrodes-</p><p>cendentes. No entanto, embora em números absolutos mais negros</p><p>tenham ultrapassado a linha da pobreza, a redução proporcional</p><p>dos índices ficou em torno de 30% para os dois grupos, mantendo</p><p>as diferenças significativas. Em 1997, 57,7% dos negros brasileiros</p><p>eram pobres. Dez anos depois, eram 41,7%. Entre os brancos, o per-</p><p>centual caiu de 28,7% para 19,7% no mesmo período.</p><p>Trabalho Precário</p><p>“O fato é que as políticas macroeconômicas e as de caráter</p><p>redistributivo, como o Bolsa Família, contribuíram para diminuir a</p><p>desigualdade de renda, mas a distância é muito grande”, comenta</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>62</p><p>Marcelo Paixão. Os limites ficam mais evidentes, diz ele, quando se</p><p>analisa a possibilidade de mobilidade dos negros dentro do merca-</p><p>do de trabalho. “Essas políticas gerais não afetam a maneira como</p><p>os afrodescendentes chegam ao mercado, nem como são tratados</p><p>dentro dele. A estrutura do vínculo com cor e raça não muda”, afir-</p><p>ma. Hoje, os negros são maioria nos setores econômicos com as</p><p>piores condições laborais – agricultura, construção civil e trabalhos</p><p>domésticos – e também nas posições mais precárias, sendo a maio-</p><p>ria entre os profissionais não remunerados e assalariados sem car-</p><p>teira.</p><p>Em outras palavras, embora melhores as condições de vida da</p><p>população negra, políticas que ignorem a questão racial não aju-</p><p>dam a superar a expressão real do preconceito e da discriminação.</p><p>O mesmo se dá no acesso à saúde ou no aproveitamento das opor-</p><p>tunidades educacionais. Na área da educação, por exemplo, é pos-</p><p>sível comemorar as reduções das diferenças entre negros e brancos</p><p>em relação ao número de anos de estudo formal ou nos índices</p><p>de analfabetismo. A taxa de analfabetismo em 1992 era de 10,6%</p><p>para brancos e 25,7% para negros; em 2009, 5,94% para brancos e</p><p>13,42% para negros. Nesse período, embora tenha caído a desigual-</p><p>dade, a taxa dos negros permaneceu mais que duas vezes maior</p><p>que a taxa da população branca, de acordo com dados do IBGE</p><p>compilados pelo Ipea.</p><p>Por outro lado, o aumento das matrículas em creches ou pré-</p><p>-escolas é muito maior entre crianças brancas. A entrada no percur-</p><p>so escolar regular é mais atribulada para as crianças afrodescen-</p><p>dentes.</p><p>Taxa de Homicídios</p><p>Um número estarrecedor é do aumento de homicídios de ne-</p><p>gros, especialmente entre os jovens. Segundo o Mapa da Violência,</p><p>editado pelo Ministério da Justiça e pelo Instituto Sangari, o núme-</p><p>ro de brancos mortos vem diminuindo ao longo dos anos, enquan-</p><p>to os casos envolvendo negros aumentam. Em 2008, o número de</p><p>jovens negros de 18 a 25 anos vítimas de homicídio foi 134% maior</p><p>do que o de jovens brancos.</p><p>Os dados evidenciam a necessidade urgente de se ampliar o</p><p>combate às desigualdades raciais. “Conceitualmente, a ação afir-</p><p>mativa é aquela que, a partir da identificação de uma desigualdade,</p><p>cria políticas para alterar esse cenário de forma a garantir acesso</p><p>a direitos, bens e serviços semelhante ao restante da população”,</p><p>explica Tatiana Silva, do Ipea. “Não é, necessariamente, política de</p><p>cotas. Pode haver, por exemplo, a divulgação de vagas de trabalho</p><p>para públicos específicos. Ou, como no caso da saúde, focar o com-</p><p>bate a patologias típicas da população negra.”</p><p>Na avaliação de Tatiana, apesar da consolidação das ações afir-</p><p>mativas como uma necessidade, há muitas iniciativas ainda reali-</p><p>zadas de forma experimental, através de convênios e sem garantia</p><p>de continuidade. “Temos uma série de reconhecimentos das desi-</p><p>gualdades, mas há problemas na adoção de políticas públicas como</p><p>a baixa adesão setorial e a pouca visibilidade das ações, que por</p><p>não serem integradas no seu planejamento também não podem ser</p><p>monitoradas”, comenta.</p><p>Ainda assim, há perspectivas positivas para a ampliação das</p><p>ações afirmativas, considerando o contexto após a aprovação do</p><p>Estatuto da Igualdade Racial, no ano passado, e a instituição do Sis-</p><p>tema Nacional de Igualdade Racial previsto por ele. Outra janela de</p><p>oportunidade é a revisão em curso do Plano Nacional de Promoção</p><p>da Igualdade Racial. Apesar de ser considerado, como diz Tatiana,</p><p>“um quadro de intenções”, a rediscussão do plano, associada aos</p><p>debates sobre o Plano Plurianual, pode abrir espaço para se esta-</p><p>belecer uma gestão coordenada das ações afirmativas em nível fe-</p><p>deral.</p><p>Cotas e Contestações</p><p>O resultado intangível da implementação de ações afirmativas</p><p>no Brasil, segundo analistas e representantes do movimento negro,</p><p>foi colocar, definitivamente, a discriminação e o preconceito na</p><p>agenda pública. “Apesar da insuficiência das ações até aqui adota-</p><p>das, o sentido das iniciativas em curso é colocar em debate o tema</p><p>da reparação histórica ao povo negro, algo que faz parte das reivin-</p><p>dicações do movimento desde a década de 1980”, avalia Douglas</p><p>Belchior, membro da Coordenação Geral da União de Núcleos de</p><p>Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora (Uneafro</p><p>Brasil).</p><p>Marcelo Paixão, economista da UFRJ, afirma que “o grande im-</p><p>pacto das medidas de ação afirmativa foi colocar o tema das desi-</p><p>gualdades raciais, mudando a lógica como vínhamos discutindo a</p><p>questão das desigualdades sociais no Brasil”.</p><p>O debate público acerca dos efeitos do preconceito e da res-</p><p>ponsabilidade do Estado sobre a promoção da igualdade ganhou</p><p>impulso na esteira da Constituição de 1988, seja pela revitalização</p><p>do movimento negro no processo de discussão da nova Carta, seja</p><p>os primeiros devem ser evitados pelo sociólogo</p><p>deve tentar evitar, já os segundos devem ser divulgados, e podem</p><p>guiar o sociólogo na sua atuação. Efetivamente, em função das suas</p><p>interrogações prévias, o sociólogo “recorta a realidade social que</p><p>escolhe estudar em função dos seus próprios centros de interesse”</p><p>(Riutort, 1999: 29).</p><p>Abordando a questão da objetividade na sociologia, Weber fa-</p><p>la-nos também da necessidade de termos como fim último a «neu-</p><p>tralidade axiológica», isto é, impõe-se uma separação nítida entre</p><p>os juízos morais próprios do investigador e a sua análise científica.</p><p>Esta separação não é, no entanto, fácil de garantir, já que o sociólo-</p><p>go não está separado do real, da prática, ele é originário de um meio</p><p>social, possui «gostos» e «repulsas» particulares (Riutort, 1999:30).</p><p>Conforme sustenta Rosenthal, “alguns estudos de psicologia social</p><p>têm mostrado que, mesmo em padrões aparentemente muito cui-</p><p>dadosos, as atitudes e expectativas dos investigadores têm efeitos</p><p>marcantes sobre os resultados” (Coulson, 1979:18), pelo que o so-</p><p>ciólogo ganha em esclarecer a distância ou a proximidade que man-</p><p>tém com o objeto de estudo.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>11</p><p>Para o sociólogo francês Pierre Bourdieu, o sociólogo tem todo</p><p>o interesse em objetivar a objetivação, isto é, em assumir o mundo</p><p>social como um objeto e em incluir-se na análise sociológica. Tal</p><p>significa que, não sendo possível um olhar neutro perante o objeto -</p><p>conforme explicámos - deveremos fazer uma sócio análise que per-</p><p>mita levar em conta o «olhar» particular que o sociólogo deita ao</p><p>seu objeto e o motiva a redobrar a vigilância perante as pre noções</p><p>(Riutort, 1999: 31). De qualquer forma, devemos assumir, que “to-</p><p>das as técnicas de ruptura (...) hão de permanecer impotentes en-</p><p>quanto a sociologia espontânea não for atacada no seu âmago, isto</p><p>é, na filosofia do conhecimento do social e da ação humana que lhe</p><p>serve de suporte. A sociologia só se pode constituir como ciência</p><p>realmente separada do senso comum, com a condição de opor às</p><p>pretensões sistemáticas da sociologia espontânea a resistência or-</p><p>ganizada de um a teoria do conhecimento do social cujos princípios</p><p>contradizem, ponto por ponto, os pressupostos da filosofia primeira</p><p>do social”(Bourdieu, 1999: 25). Como tal teoria não existe, restará</p><p>ao sociólogo recusar sistematicamente as pre-noções, embora per-</p><p>ceba que a transparência não passa, no fundo, de uma ilusão, e que</p><p>a sua preocupação deve ser a de penetrar no mundo social como se</p><p>de um mundo desconhecido se tratasse, isto, é, deve procurar ex-</p><p>plicara vida social, não de acordo com as concepções que tem dela</p><p>mas por causas profundas que escapam à sua consciência (aplicar o</p><p>«princípio da não consciência» no estudo da sociedade) (Bourdieu,</p><p>1999: 26).</p><p>Também em termos metodológicos o sociólogo pode exercer a</p><p>sua vigilância epistemológica sobre os diversos obstáculos com se</p><p>confrontará. O apetrechamento metodológico possibilita-lhe “afas-</p><p>tar as «falsas evidências», as «prenoções» e redefinir o problema</p><p>que é colocado pelas suas próprias preocupações, isto é, com o in-</p><p>tuito de produzir conhecimentos” (Riutort, 1999: 21-22)</p><p>Em abono da vigilância epistemológica, recomenda-se a diver-</p><p>sificação e complementaridade metodológicas, pois com o recurso</p><p>a métodos ditos quantitativos e métodos qualitativos o sociólogo</p><p>conseguirá entrever as diferentes dimensões do seu objeto.</p><p>Alem disso, a vigilância do sociólogo deve estar presente em</p><p>cada etapa da investigação. No que respeita aos métodos quanti-</p><p>tativos, os sociólogos recorrem geralmente às estatísticas e visam</p><p>obter explicações a partir de um conjunto de dados mensuráveis</p><p>e comparáveis entre si. O uso de estatísticas constitui um precioso</p><p>instrumento para o seu trabalho, já que ao produzir dados obje-</p><p>tivos, o sociólogo pode desse modo romper mais facilmente com</p><p>as pre-noções (que constituem obstáculos epistemológicos). No en-</p><p>tanto, o sociólogo deve procurar certificar-se sobre a forma como</p><p>os dados analisados foram recolhidos, uma vez que a neutralidade</p><p>das técnicas se afigura uma ilusão. O sociólogo deve evitar a “arma-</p><p>dilha” do artefato, que pode definir-se como “um fenómeno artifi-</p><p>cial produzido pelo analista por força de um controlo insuficiente</p><p>das técnicas utilizadas” (Riutort, 1999: 34). Ao fazer uso de métodos</p><p>quantitativos o investigador social deve ainda considerar que (Riu-</p><p>tort, 1999:35):</p><p>a) a multiplicação de dados estatísticos recolhidos a partir de</p><p>critérios combinados não constitui uma garantia suficiente e corre-</p><p>-se o risco de poder conduzira um demissão da parte do sociólogo</p><p>se ele optar por refugiar-se atrás da aparente neutralidade das in-</p><p>formações recolhidas;</p><p>b) os indicadores são, em muitos casos, «dados» pré-construí-</p><p>dos, isto é apresentam interferências sociais, pelo que remete para</p><p>outra questão, que é a da indeterminação social (relativa) dos indi-</p><p>víduos em questão;</p><p>c) a classificação dos semelhantes, isto é, a elaboração de no-</p><p>menclaturas levanta o problema de saber se as categorias serem</p><p>suficientemente “sólidas” para permitirem as comparações e a</p><p>adaptação às evoluções da estrutura social, de modo a produzir</p><p>agrupamentos dotados de um elevado grau de realidade;</p><p>d) a técnica das sondagens exige um saber específico, já que</p><p>existem os riscos de erro susceptíveis de serem introduzidos em</p><p>cada etapa do inquérito (duas notas apenas: pode haver enviesa-</p><p>mentos durante a condução dos inquéritos, e podem obter-se res-</p><p>postas que não correspondem à prática efetiva dos indivíduos, por</p><p>inúmeras razões).</p><p>Quanto aos métodos qualitativos, lembramos que, embora</p><p>disponíveis desde o início da sociologia, apresentam hoje um re-</p><p>novado interesse. A «crise» do empirismo, isto é, o arrefecimento</p><p>nos adeptos dos métodos quantitativos, leva os sociólogos a recor-</p><p>rerem a técnicas como a observação direta ou participante, ou a</p><p>outras técnicas de recolha qualitativa de grande proximidade com o</p><p>objeto de estudo. Vejamos algumas questões epistemologicamente</p><p>relevantes:</p><p>- o investigador social deve fazer um esforço particular para</p><p>compreender «o que se passa» numa comunidade que lhe é so-</p><p>cial e culturalmente distante, e onde, além do mais, pode ser visto</p><p>como perturbador;</p><p>- ao obter respostas, por exemplo em entrevistas, como pode</p><p>o sociólogo estar seguro da sinceridade das informações que reco-</p><p>lhe? Uma das práticas exigidas para obviar esta dificuldade é efe-</p><p>tuar a chamada «triangulação»;</p><p>- o sociólogo jamais se deve esquecer que a relação de inqui-</p><p>rição é uma relação social como qualquer outra e que, como tal,</p><p>deve ser questionada. A linguagem por exemplo, difere em função</p><p>do meio social;</p><p>- a situação de inquérito necessita de uma investigação especí-</p><p>fica, pois, não basta dar a palavra qualquer um para que o mesmo a</p><p>tome espontaneamente, e ainda menos no sentido procurado pelo</p><p>investigador.</p><p>Aplicados os métodos de recolha de dados, e interpretados os</p><p>mesmos, o sociólogo tem pela frente a difícil mas essencial tarefa:</p><p>dar a conhecer os resultados, as conclusões a que chegou. Uma vez</p><p>mais, problemas de ordem epistemológica ocorrem. A própria lin-</p><p>guagem sociológica, ao recorrer a uma linguagem do léxico comum</p><p>numa acepção rigorosa e sistemática, torna-se, por isso mesmo,</p><p>equívoca, já que deixa de dirigir-se unicamente aos especialistas e</p><p>presta-se, mais do que qualquer outra, a utilizações fraudulentas</p><p>- os jogos de polissemia, possibilitados pelos estreita e impercep-</p><p>tível afinidade entre os conceitos mais depurados e os esquemas</p><p>comuns, favorecem o duplo sentido e os mal-entendidos cúmplices</p><p>que garantem ao duplo jogo profético as suas audiências múltiplas</p><p>e, por vezes, contraditórias (Bourdieu, 1999: 37)Este é, pois, outro</p><p>obstáculo epistemológico perante o qual o sociólogo se revela qua-</p><p>se impotente, já que usar a «palavra» para divulgar o seu trabalho é</p><p>um imperativo incontornável.</p><p>NOVOS DESAFIOS EPISTEMOLÓGICOS DA SOCIOLOGIA</p><p>Um século após a sua fundação, ao invés</p><p>de assistirmos a uma</p><p>consolidação da sociologia enquanto ciência aceite mundialmen-</p><p>te, vemos, portanto, que é comum os próprios sociólogos debru-</p><p>çarem-se sobre o seu programa epistemológico fundamental. Ao</p><p>contrário dos seus fundadores, que polemizaram sobretudo sobre</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>12</p><p>o método, a sociologia, e sobretudo a sociologia da última década,</p><p>mergulhou num debate sobre a sua própria cientificidade. Deste</p><p>debate foi durante muito tempo delimitado de forma bastante cla-</p><p>ra por três posições que poderiam, segundo Berthelot(2000: 111)</p><p>resumir-se da seguinte forma:</p><p>1. A sociologia não pode fundar-se senão sobre uma determi-</p><p>nação crítica do seu objeto, irredutível a uma simples fenomeno-</p><p>logia do existente. Esta posição é ilustrada exemplarmente por T.</p><p>Adorno e liga o projeto epistémico da sociologia ao programa de</p><p>uma filosofia crítica;</p><p>2. A sociologia não pode ser senão uma ciência como as outras,</p><p>devendo-se admitir que, se a natureza está submetida à autorida-</p><p>de do princípio da causalidade, não há nenhuma razão para que</p><p>a sociedade escape à sua legislação. Esta posição, inaugurada por</p><p>Durkheim, tomou depois forma nas diversas variantes do raciona-</p><p>lismo experimental e do positivismo, por exemplo no sistema de</p><p>Bourdieu, o qual, na sua versão estruturo-funcionalista, ilustra um</p><p>objetivo de refundação unitária da sociologia científica, com o risco</p><p>recorrente de naturalismo que sem dúvida comporta;</p><p>3. A sociologia, enfim, deve aceitar ao mesmo tempo o prin-</p><p>cípio do racionalismo experimental e o princípio do pressuposto</p><p>transcendental da subjectividade. Esta associação difícil mas fun-</p><p>damental é enunciada pela primeira vez por Weber e retomada por</p><p>Schutz.</p><p>Destas três posições clássicas podem encontrar-se ecos nas</p><p>diversas correntes de pensamento da sociologia contemporânea.</p><p>Todas elas parecem colocar em causa o próprio objeto epistémico</p><p>da sociologia: a sua aspiração a construir um conhecimento de ca-</p><p>rácter científico. Parece que, após um século do seu nascimento, a</p><p>sociologia sofre de contestação radical do objetivo por ele visado.</p><p>Jean Michel Berthelot considera que há três temas que emer-</p><p>gem recorrentemente nos diversos contextos de discussão: o uni-</p><p>versalismo da sociologia; o relativismo e o pluralismo. Analisemos,</p><p>ainda que resumidamente, cada uma destas temáticas.</p><p>O universalismo tem de ser equacionado no quadro da interna-</p><p>cionalização da sociologia, movimento que, apesar de esboçado no</p><p>início do séc. XX, desenvolveu-se fortemente após a II Guerra Mun-</p><p>dial e é agora, desde a década de 80, submetido a questionamen-</p><p>to. Esta internacionalização é efetivamente objeto de um discurso</p><p>novo, fortemente contrastado por duas posições. Por um lado, é</p><p>assumido enquanto oportunidade para a sociologia se desenvolver,</p><p>pois os sociólogos passam a tomar o mundo como horizonte, a cons-</p><p>tituí-lo em espaço de referência, tanto dos seus trabalhos, como</p><p>dos seus ensinamentos. Por outro lado, surgem ataques à interna-</p><p>cionalização concebida como processo de dominação da sociolo-</p><p>gia dos países ocidentais sobre a dos países do terceiro mundo, ao</p><p>exportar modelos teóricos inadaptados para estes países. Interna-</p><p>cionalização conjuga-se, pois, com dominação, etnocentrismo e im-</p><p>perialismo (Berthelot, 2000:114).Por detrás desta denúncia política</p><p>de hegemonismo está um problema de natureza epistemológica.</p><p>Trata-se do questionamento sobre a própria pretensão da sociolo-</p><p>gia elaborar um discurso universalizável. Segundo lembra Berthelot</p><p>(2000), M. A. Sanda considera que “a falência do universalismo é</p><p>um estado de facto verificado pela precaridade das teorias socioló-</p><p>gicas e pela incapacidade dos investigadores das ciências sociais em</p><p>constituírem comunidades científicas unidas em torno de consen-</p><p>sos como nas ciências da natureza” (Berthelot, 2000:114).</p><p>Ora, mesmo que seja possível desenvolver uma posição inter-</p><p>média distinguindo universalismo lógico e universalização fica claro</p><p>que o contexto da discussão relativo à internacionalização da socio-</p><p>logia afeta a pertinência do objetivo original: ser um saber científi-</p><p>co. Por outras palavras, a cientificidade da sociologia parece estar</p><p>refém das suas condições de produção e esse facto levanta um ou-</p><p>tro problema: o da relatividade da sociologia, pois “submeter o co-</p><p>nhecimento sociológico à determinação exclusiva do seu contexto</p><p>de produção é declará-lo um valor relativo” (Berthelot,2000:115).</p><p>A questão do relativismo também não é, no entanto, uma ques-</p><p>tão nova. A sociologia do conhecimento soube mostrar como a so-</p><p>ciologia reconheceu, desde as origens, o papel das determinações</p><p>sociais na elaboração do conhecimento. Mas, isso não lhe surgiu</p><p>como um obstáculo ao reconhecimento da validade desse conheci-</p><p>mento. Acontece, porém, que ao longo do séc. XX vários sociólogos</p><p>apresentaram novas convicções relativistas e cépticas. O problema</p><p>do enraizamento social do conhecimento muda de perspectiva e</p><p>de amplitude, tornando-se um obstáculo a qualquer pretensão à</p><p>cientificidade. Este relativismo contemporâneo tem fontes e formas</p><p>diversas (Berthelot, 2000:116) e alimenta-se das opiniões que recu-</p><p>sam o postulado weberiano da neutralidade axiológica. Berthelot</p><p>considera que o relativismo contemporâneo carece ainda de me-</p><p>lhor explicação e propõe que se assumam como relativistas “todas</p><p>as posições que reduzam o significado de um enunciado à expres-</p><p>são do seu contexto singular de enunciação” (Berthelot, 2000:117).</p><p>Esta questão parece estar longe de ser resolvida porquanto são vá-</p><p>rios os seus adeptos e também diversos os seus detratores.</p><p>Associada ao relativismo está a questão do pluralismo, caracte-</p><p>rística fundamental das ciências sociais e resultado da sua história. A</p><p>sociologia contemporânea preocupa-se em encontrar novas visões,</p><p>isto é, visões renovadas da capacidade da sociologia para estabele-</p><p>cer articulação entre a pluralidade das abordagens e o objetivo de</p><p>cientificidade. Não sendo nossa preocupação determo-nos longa-</p><p>mente sobre esta temática, diremos, concordantes com Berthelot</p><p>(2000:123), que, apesar de tudo, a pluralidade de abordagens e dos</p><p>quadros de análise usados pelas diversa teorias(funcionalismo, es-</p><p>truturalismo, interacionismo, construtivismo, entre outras) não fra-</p><p>giliza as pretensões iniciais da sociologia à cientificidade.</p><p>Em suma, “tal como os trabalhos fundamentais em história</p><p>das ciências de Koyré, de Bachelard, de Blanché, ou de Holton não</p><p>invalidaram a natureza dos conhecimentos da física clássica ao re-</p><p>velarem o seu pano de fundo metafísico ou simbólico, também o</p><p>pluralismo recorrente da sociologia não é argumento para qualquer</p><p>relativismo que seja. Precisa, pelo contrário, de ser descrito e ana-</p><p>lisado tanto pelos meios de investigação histórica, como da análise</p><p>lógica afim de que seja posto em evidência o regime de cientificida-</p><p>de da sociologia” (Berthelot, 2000:127).</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Contrariamente ao que poderiam antever alguns dos primei-</p><p>ros sociólogos, a sociologia, enquanto ciência do social, não teve</p><p>um percurso pacífico. Esse percurso foi trilhado sob a influência de</p><p>várias proposições teóricas explicativas da realidade, entre elas os</p><p>paradigmas do «individualismo metodológico» e do «holismo» que</p><p>condicionaram a natureza e os contornos da investigação e expli-</p><p>cação sociológicas durante décadas, ou seja, configuraram, recon-</p><p>figuraram e afirmaram a sociologia no universo do conhecimento</p><p>científico.</p><p>A história da sociologia é, por conseguinte, marcada por uma</p><p>continuada e intensa reflexão epistemológica, com o objetivo de</p><p>dotar a sociologia de métodos e instrumentos capazes de conferi-</p><p>rem ao conhecimento sociológico a validade que se lhe exige. On-</p><p>tem, como hoje, movidos pelo seu compromisso com a “verdade”,</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>13</p><p>os sociólogos procuram ampliar, aos limites do possível, a objetivi-</p><p>dade no seu trabalho, reduzindo ou ultrapassando os obstáculos</p><p>epistemológicos através da concretização de diversas formas de vi-</p><p>gilância epistemológica</p><p>em todas as etapas do seu trabalho.</p><p>Intensificada nas últimas décadas, a reflexão centrada em</p><p>torno da validade universalista, do relativismo e do pluralismo do</p><p>conhecimento sociológico transporta a sociologia para uma «crise</p><p>existencial» dificilmente imaginável por Auguste Comte e pelos pri-</p><p>meiros sociólogos. Contudo, independentemente dos novos desa-</p><p>fios epistemológicos que se colocam à sociologia e das perspectivas</p><p>mais negativas sobrea cientificidade da sociologia, a sociologia têm</p><p>conquistado, gradualmente, um papel de relevo nas sociedades</p><p>contemporâneas. O debate sobre o conhecimento sociológico con-</p><p>tinuará a fazer-se, o que, além de prova de vitalidade da própria</p><p>ciência, originará, certamente, uma sociologia mais consciente,</p><p>mais necessária e mais reconhecida.</p><p>DO ESTRANHAMENTO, DA DESNATURALIZAÇÃO E DO</p><p>DISTANCIAMENTO ENQUANTO POSTURAS TEÓRICO-ME-</p><p>TODOLÓGICAS DA PRÁTICA CIENTÍFICA DO CIENTISTA</p><p>SOCIAL</p><p>A prática científica do cientista social envolve a análise e com-</p><p>preensão dos fenômenos sociais, buscando entender as dinâmicas</p><p>e relações que permeiam a sociedade. Nesse contexto, três pos-</p><p>turas teórico-metodológicas se destacam: o estranhamento, a des-</p><p>naturalização e o distanciamento. Essas abordagens permitem ao</p><p>cientista social analisar criticamente a realidade, questionar con-</p><p>cepções prévias e compreender a complexidade social. Neste texto,</p><p>exploraremos essas posturas e discutiremos sua importância para a</p><p>prática científica.</p><p>— O Estranhamento</p><p>O estranhamento é uma postura teórico-metodológica que se</p><p>baseia na ideia de que o cientista social deve questionar o senso</p><p>comum e as percepções prévias para obter uma compreensão mais</p><p>profunda da realidade social. Essa abordagem, desenvolvida por</p><p>pensadores como Karl Marx e Max Weber, busca desvendar as con-</p><p>tradições e estruturas ocultas presentes na sociedade.</p><p>Ao adotar o estranhamento, o cientista social se distancia das</p><p>ideias pré-estabelecidas e das visões dominantes, permitindo uma</p><p>análise mais crítica e imparcial. Isso implica em questionar os va-</p><p>lores, normas e instituições que moldam a sociedade, buscando</p><p>compreender as relações de poder e as desigualdades existentes.</p><p>O estranhamento também incentiva o olhar atento às contradições</p><p>presentes nos discursos e práticas sociais, revelando as tensões e os</p><p>conflitos subjacentes.</p><p>— A Desnaturalização</p><p>A desnaturalização é uma postura teórico-metodológica que</p><p>questiona a ideia de que os fenômenos sociais são naturais e</p><p>imutáveis. Ela propõe que as características sociais são construídas</p><p>e moldadas por processos históricos, culturais e políticos, e que é</p><p>necessário desvendar essas construções para compreender a real-</p><p>idade social.</p><p>Ao adotar a desnaturalização, o cientista social desafia as</p><p>noções de ordem natural e revela as relações de poder subjacentes</p><p>que moldam as estruturas sociais. Isso implica em desconstruir con-</p><p>cepções naturalizadas, como a desigualdade de gênero, a hierarquia</p><p>racial ou as divisões de classe, mostrando que esses fenômenos são</p><p>produtos de relações sociais e históricas específicas.</p><p>A desnaturalização também envolve a análise crítica das cate-</p><p>gorias e conceitos utilizados na investigação social. O cientista social</p><p>questiona a validade e a aplicabilidade dessas categorias, buscando</p><p>evitar generalizações simplistas e estereótipos. Ao desnaturalizar</p><p>as categorias sociais, o pesquisador pode compreender a diversi-</p><p>dade e a complexidade das experiências humanas, permitindo uma</p><p>análise mais abrangente e precisa.</p><p>— O Distanciamento</p><p>O distanciamento é uma postura teórico-metodológica que se</p><p>baseia na necessidade de separar o pesquisador do objeto de es-</p><p>tudo, evitando enviesamentos e interferências pessoais na análise.</p><p>Essa abordagem, influenciada pela tradição positivista das ciências</p><p>sociais, busca a objetividade e a neutralidade na investigação cientí-</p><p>fica.</p><p>Ao adotar o distanciamento, o cientista social busca uma</p><p>posição de observador imparcial, evitando influências subjetivas e</p><p>ideológicas. Essa postura implica em utilizar métodos e técnicas rig-</p><p>orosas de coleta e análise de dados, buscando resultados confiáveis</p><p>e generalizáveis. O distanciamento também incentiva a utilização</p><p>de teorias e conceitos abrangentes, que permitam a compreensão</p><p>dos fenômenos sociais de forma mais ampla e sistemática.</p><p>No entanto, é importante ressaltar que o distanciamento ab-</p><p>soluto é impossível de ser alcançado, uma vez que o cientista social</p><p>também é um ser social inserido em determinado contexto. Portan-</p><p>to, o distanciamento deve ser entendido como uma aspiração met-</p><p>odológica, que busca minimizar os enviesamentos e subjetividades</p><p>na análise.</p><p>O estranhamento, a desnaturalização e o distanciamento são</p><p>posturas teórico-metodológicas fundamentais na prática científica</p><p>do cientista social. Essas abordagens permitem uma compreensão</p><p>mais crítica, profunda e imparcial dos fenômenos sociais, desafian-</p><p>do concepções prévias e revelando as estruturas ocultas presentes</p><p>na sociedade.</p><p>Ao adotar o estranhamento, o cientista social questiona o sen-</p><p>so comum e as visões dominantes, revelando as contradições e</p><p>desigualdades sociais. A desnaturalização, por sua vez, desconstrói</p><p>concepções naturalizadas e revela as relações de poder subjacentes</p><p>aos fenômenos sociais. Já o distanciamento busca a objetividade e</p><p>a neutralidade na investigação, evitando interferências pessoais na</p><p>análise.</p><p>É importante ressaltar que essas posturas teórico-</p><p>metodológicas não são excludentes, mas sim complementares. Ao</p><p>combinar o estranhamento, a desnaturalização e o distanciamento,</p><p>o cientista social pode obter uma compreensão mais rica e complexa</p><p>da realidade social, contribuindo para a produção de conhecimento</p><p>científico sólido e relevante.</p><p>Em suma, a prática científica do cientista social requer a adoção</p><p>dessas posturas teórico-metodológicas, que possibilitam uma</p><p>análise crítica e aprofundada dos fenômenos sociais. O estranham-</p><p>ento, a desnaturalização e o distanciamento são ferramentas essen-</p><p>ciais para compreender a complexidade da sociedade e contribuir</p><p>para transformações sociais mais justas e igualitárias.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>14</p><p>DAS TRANSFORMAÇÕES CULTURAIS, SOCIAIS, HIS-</p><p>TÓRICAS, CIENTÍFICAS E TECNOLÓGICAS NO MUNDO</p><p>CONTEMPORÂNEO E SEUS DESDOBRAMENTOS PARA AS</p><p>RELAÇÕES, AS ATITUDES, OS VALORES E AS IDENTIDADES</p><p>SOCIAL E CULTURALMENTE CONSTRUÍDAS PELOS SUJEI-</p><p>TOS E COLETIVIDADES</p><p>O mundo contemporâneo tem passado por rápidas e signifi-</p><p>cativas transformações em diversos âmbitos, como cultural, social,</p><p>histórico, científico e tecnológico. Essas transformações têm influ-</p><p>enciado profundamente as relações entre as pessoas, suas atitudes,</p><p>valores e as identidades social e culturalmente construídas pelos</p><p>sujeitos e coletividades. Neste texto, abordaremos essas transfor-</p><p>mações e seus desdobramentos, destacando sua relevância para a</p><p>compreensão da realidade atual.</p><p>Transformações Culturais</p><p>As transformações culturais no mundo contemporâneo são</p><p>marcadas por uma crescente diversidade e interculturalidade. A</p><p>globalização, os fluxos migratórios e os avanços nas tecnologias de</p><p>comunicação têm aproximado diferentes culturas, possibilitando o</p><p>contato e a troca de experiências entre pessoas de diferentes ori-</p><p>gens e tradições.</p><p>Essa diversidade cultural tem desdobramentos significativos</p><p>nas relações sociais, nas atitudes e nos valores dos indivíduos. A</p><p>convivência com a diversidade cultural demanda uma postura de</p><p>abertura, tolerância e respeito, além de uma reavaliação dos va-</p><p>lores e crenças tradicionalmente estabelecidos. Nesse contexto, a</p><p>identidade cultural dos sujeitos e coletividades se torna mais flui-</p><p>da e híbrida, resultante de um constante processo de negociação e</p><p>construção coletiva.</p><p>Transformações Sociais</p><p>As transformações sociais no mundo contemporâneo têm sido</p><p>marcadas por mudanças nas estruturas familiares, nas relações de</p><p>trabalho, no papel da mulher na sociedade, na participação política</p><p>e na forma como os indivíduos</p><p>se organizam em comunidades e</p><p>movimentos sociais.</p><p>Por exemplo, a crescente presença das mulheres no merca-</p><p>do de trabalho e a luta por igualdade de gênero têm impactado</p><p>as relações familiares e a divisão de tarefas domésticas. Da mesma</p><p>forma, as novas formas de trabalho, como o trabalho remoto e o</p><p>empreendedorismo, têm modificado a dinâmica das relações labo-</p><p>rais e a noção de carreira profissional.</p><p>Essas transformações sociais também afetam as identidades</p><p>sociais, uma vez que os indivíduos passam a se perceber e se posi-</p><p>cionar de forma diferente na sociedade. A busca por igualdade, in-</p><p>clusão e respeito às diversidades leva à formação de identidades</p><p>coletivas, como movimentos sociais e grupos que reivindicam dire-</p><p>itos e representatividade.</p><p>Transformações Históricas</p><p>As transformações históricas no mundo contemporâneo são</p><p>reflexo de eventos e processos que marcaram o século XX e con-</p><p>tinuam a moldar a realidade atual. Guerras, revoluções, descoloni-</p><p>zação, avanços tecnológicos e crises econômicas são exemplos de</p><p>eventos que influenciaram as relações sociais, políticas e econômi-</p><p>cas em diferentes partes do mundo.</p><p>Essas transformações históricas têm consequências duradouras</p><p>nas atitudes, valores e identidades dos sujeitos e coletividades. Por</p><p>exemplo, a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto geraram uma</p><p>profunda reflexão sobre a violência e os direitos humanos, influen-</p><p>ciando a construção de uma consciência global voltada para a paz</p><p>e a tolerância.</p><p>Transformações Científicas e Tecnológicas</p><p>As transformações científicas e tecnológicas no mundo con-</p><p>temporâneo têm um impacto cada vez mais acelerado e abrangen-</p><p>te. Avanços em áreas como inteligência artificial, biotecnologia, in-</p><p>ternet das coisas e automação têm transformado a forma como as</p><p>pessoas vivem, se comunicam, trabalham e se relacionam.</p><p>Essas transformações tecnológicas afetam as relações sociais</p><p>ao facilitar a conectividade global, permitir novas formas de inter-</p><p>ação e disseminação de informações, e reconfigurar os espaços e</p><p>tempos de convivência. Além disso, essas mudanças tecnológicas</p><p>também influenciam as atitudes e os valores dos indivíduos, geran-</p><p>do debates éticos e reflexões sobre questões como privacidade, se-</p><p>gurança e desigualdades sociais.</p><p>Considerações Finais</p><p>As transformações culturais, sociais, históricas, científicas e tec-</p><p>nológicas no mundo contemporâneo são complexas e interconect-</p><p>adas. Elas influenciam as relações sociais, as atitudes, os valores e</p><p>as identidades social e culturalmente construídas pelos sujeitos e</p><p>coletividades. Compreender essas transformações é fundamental</p><p>para uma análise crítica da realidade atual e para a promoção de</p><p>sociedades mais inclusivas, igualitárias e sustentáveis.</p><p>DA CULTURA DE UM PONTO DE VISTA ANTROPOLÓGI-</p><p>CO, SUAS CARACTERÍSTICAS, LIMITES E POSSIBILIDADES</p><p>PARA A COMPREENSÃO DAS DIFERENÇAS ENTRE SUJEI-</p><p>TOS, GRUPOS, POVOS, COMUNIDADES ETC</p><p>A cultura é um dos principais temas de estudo das ciências hu-</p><p>manas, com a antropologia dedicando-se quase de maneira integral</p><p>para definir e entender esse conceito.</p><p>Desde o século XIX os antropólogos buscam definir os limites</p><p>da antropologia através da definição do que é cultura, o que ao lon-</p><p>go de mais de um século de discussões gerou diversas linhas de</p><p>pensamentos e teses, que em muitos aspectos acabam por contra-</p><p>por-se.</p><p>Entre as definições mais simples para o que seria a cultura, é</p><p>possível entende-la como algo que engloba todas as manifestações</p><p>materiais e imateriais de um povo, como por exemplo, a fabricação</p><p>de artesanato e os rituais e festas. São todas as manifestações de</p><p>criação e habilidade do ser humano praticadas em sociedade, todos</p><p>os comportamentos que não possuem origem biológica, segundo</p><p>antropólogo britânico Edward Tylor, que a definiu assim já no século</p><p>XIX.</p><p>Nas primeiras décadas do século XX era muito comum a ideia</p><p>vinculada aos estudos de Charles Darwin, de que a cultura era uma</p><p>manifestação hierarquizada entre os povos do planeta, passando</p><p>todas pelas mesmas etapas de desenvolvimento, indo das mais pri-</p><p>mitivas até as mais avançadas, o que abriu espaço para a propaga-</p><p>ção do etnocentrismo que defendia que a cultura ocidental estava</p><p>no mais avançado estagio desse desenvolvimento.</p><p>CONHECIMENTOS</p><p>15</p><p>Um dos grandes críticos das teorias hierarquizadas de manifes-</p><p>tação cultural foi o antropólogo teuto-americano Franz Boas, que</p><p>defendia a ideia da particularidade de cada povo no que diz res-</p><p>peito à cultura, e de que ela não deveria ser entendida como algo</p><p>comparativo entre sociedades diferentes. Boas iniciou a utilização</p><p>da história como instrumento para compreensão da ideia de cultura</p><p>dentro da antropologia, o que pode ser exemplificado na obra de</p><p>seu discípulo, Gilberto Freyre, ao produzir o clássico Casa-grande</p><p>e Senzala.</p><p>A antropologia busca estudar e entender essa grande diversi-</p><p>dade que forma as diferentes culturas humanas. Mesmo sem haver</p><p>um consenso sobre a definição exata de cultura nas várias corren-</p><p>tes antropológicas, alguns aspectos possuem ampla concordância,</p><p>como a afirmação de que a divisão do trabalho com base no sexo</p><p>ou na raça é uma manifestação cultural, e não uma característica</p><p>natural.</p><p>O resultado do entendimento de tal afirmação é que o discurso</p><p>de trabalho baseado em premissas como “trabalho de homem” ou</p><p>“trabalho de negro”, nada mais é do que uma justificativa criada</p><p>para sustentar a posição de grupos sociais dominantes, não pos-</p><p>suindo nenhuma sustentação na biologia.</p><p>Além da antropologia, outras áreas como a linguística e a his-</p><p>tória buscam definir o que é cultura através de outras abordagens.</p><p>Alfredo Bosi buscou definir em sua obra Dialética da colonização, a</p><p>cultura partindo da linguística e da etimologia da palavra cultura,</p><p>que assim como as palavras culto e colonização, são originadas do</p><p>verbo em latim colo, que significa eu ocupo a terra. Partindo des-</p><p>sa ideia de cultura, além de estar relacionada com o trabalho e o</p><p>cultivo do solo, também representa o cultivo dos costumes e das</p><p>tradições que serão passadas adiante.</p><p>A definição do historiador é de que cultura é o conjunto de prá-</p><p>ticas, de técnicas, de símbolos e de valores que devem ser transmi-</p><p>tidos às novas gerações para garantir a convivência social. A cultura</p><p>também está ligada à existência de uma consciência coletiva produ-</p><p>zida pela vida cotidiana, como um planejamento para o futuro de</p><p>determinada sociedade, ou seja, pode ser entendida como o con-</p><p>junto de práticas passadas de um povo para seus descendentes com</p><p>o intuito de sobrevivência.</p><p>Em todas as sociedades humanas existe cultura, em todas as</p><p>suas manifestações. A cultura dessas diferentes sociedades deter-</p><p>mina as regras de convívio social em cada uma delas, permitindo</p><p>com que o indivíduo adapte-se no meio social em que está inserido.</p><p>As formas de comunicação na sociedade também possuem relação</p><p>com a herança cultural, não somente pela linguagem, pois a he-</p><p>rança cultural é capaz de revelar formas únicas de comportamento.</p><p>O desentendimento também pode ser explicado pela relação de</p><p>cultura entre povos, no caso culturas diferenciadas, que possuem</p><p>estruturas sociais próprias e conflitantes entre si, o que gera a dife-</p><p>rença e a exclusão.</p><p>É importante lembrar que apesar de definir a identidade de um</p><p>povo, a cultura não é estática dentro das sociedades. O contanto</p><p>com culturas diferentes ou mesmo praticas internas sofrem altera-</p><p>ções ao longo do tempo, em todas as sociedades existentes.</p><p>Como elemento de caracterização do comportamento social, a</p><p>cultura tem papel importante no estudo da história, que passou a</p><p>explorar essa relação com os trabalhos da chamada Nova História,</p><p>já na segunda metade do século XX, através de estudos interdisci-</p><p>plinares. Entre os grandes expoentes da Nova Historia estão os fran-</p><p>ceses Georges Duby, Jacques Le Goff e Robert Darnton. No Brasil,</p><p>pesquisadores como Ronaldo Vainfas, Lilia Moritz Schwarcz e Luiz</p><p>Mott, integram boa parte dos estudos da área, e trabalham com</p>