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<p>Lucienne Lautenschlager</p><p>Produção e Interpretação de Textos</p><p>Produção e</p><p>Interpretação</p><p>de Textos</p><p>Lucienne Lautenschlager</p><p>Código Logístico</p><p>58975</p><p>Fundação Biblioteca Nacional</p><p>ISBN 978-85-387-6545-5</p><p>9 7 8 8 5 3 8 7 6 5 4 5 5</p><p>Produção e interpretação</p><p>de textos</p><p>IESDE</p><p>2019</p><p>Lucienne Lautenschlager</p><p>© 2019 – IESDE BRASIL S/A.</p><p>É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem</p><p>autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais.</p><p>Capa: IESDE BRASIL S/A.</p><p>CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO</p><p>SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ</p><p>L423p</p><p>Lautenschlager, Lucienne</p><p>Produção e interpretação de textos / Lucienne Lautenschlager. -</p><p>1. ed. - Curitiba [PR]: IESDE Brasil, 2019.</p><p>130 p. : il.</p><p>Inclui bibliografia</p><p>ISBN 978-85-387-6545-5</p><p>1. Língua portuguesa - Estudo e ensino (Superior). 2. Compreensão</p><p>na leitura. 3. Língua portuguesa - Composição e exercícios - Estudo e</p><p>ensino (Superior). I. Título.</p><p>19-60651 CDD: 469.8</p><p>CDU: 811.134.3</p><p>Todos os direitos reservados.</p><p>IESDE BRASIL S/A.</p><p>Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200</p><p>Batel – Curitiba – PR</p><p>0800 708 88 88 – www.iesde.com.br</p><p>Lucienne Lautenschlager</p><p>Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).</p><p>Graduada em Letras pela Universidade Braz Cubas (UBC) e</p><p>em Pedagogia pela Universidade Nove de Julho (Uninove).</p><p>Atua como psicopedagoga e consultora educacional de uma</p><p>multinacional. É autora de livros sobre educação e editora de</p><p>livros didáticos. Possui renomada experiência na formação</p><p>de educadores, tanto da área pública quanto privada.</p><p>Sumário</p><p>Apresentação 7</p><p>1. Leitura e interpretação na prática 9</p><p>1.1 Finalidades da leitura 10</p><p>1.2 Texto e contexto 15</p><p>1.3 Linguagem verbal e não verbal 19</p><p>1.4 Intertextualidade 23</p><p>2. A linguagem nua e crua 29</p><p>2.1 Funções da linguagem 30</p><p>2.2 Denotação e conotação 43</p><p>2.3 Polissemia e ambiguidade 44</p><p>3. Estratégias de leitura e de escrita 53</p><p>3.1 Níveis de leitura de um texto 54</p><p>3.2 Tópico frasal e desenvolvimento de um parágrafo 66</p><p>3.3 Resumo 68</p><p>4. Tipologias e gêneros textuais 75</p><p>4.1 Tipos de textos 76</p><p>4.2 Narrar, argumentar e comunicar 86</p><p>4.3 Gêneros textuais 91</p><p>5. A escrita acadêmica na produção científica 99</p><p>5.1 Linguagem formal e informal 100</p><p>5.2 Exercitando a argumentação 104</p><p>5.3 Artigo acadêmico 113</p><p>Gabarito 125</p><p>Apresentação</p><p>Saber escrever, desde uma mensagem de texto no celular</p><p>até um artigo acadêmico, não é uma habilidade espontânea,</p><p>mas ensinada e aprendida com o objetivo de criar e reconhecer</p><p>efeitos de sentido. Por isso, esta obra busca mostrar que todas as</p><p>pessoas que desejam aprender sobre produção e interpretação</p><p>de textos podem vir a reconhecer e compreender estruturas</p><p>linguísticas de qualquer tipo ou gênero textual, tornando-se</p><p>um leitor experiente.</p><p>No primeiro capítulo tratamos sobre as finalidades de</p><p>leitura reconhecidas dentro de um contexto e as linguagens</p><p>verbal e não verbal. A intertextualidade também é abordada,</p><p>sob a perspectiva de que um texto sempre traz outros textos,</p><p>possibilitando uma interpretação muito mais abrangente e</p><p>funcional.</p><p>No segundo capítulo, procuramos mostrar a linguagem</p><p>dentro dos discursos produzidos de modo tanto espontâneo</p><p>quanto intencional. São abordadas também as diferentes</p><p>funções da linguagem e os vários sentidos que as palavras</p><p>podem receber.</p><p>No terceiro capítulo, refletimos sobre os graus de</p><p>aprofundamento de leitura, sugerindo estratégias, como a</p><p>identificação do núcleo de um parágrafo e a elaboração de</p><p>um resumo, para auxiliar tanto a leitura quanto a escrita de</p><p>um texto.</p><p>8 Produção e interpretação de textos</p><p>No quarto capítulo estudamos as estruturas discursivas</p><p>que facilitam o enquadramento de um texto em tipos ou</p><p>gêneros textuais. Assim, você poderá refletir sobre a função</p><p>social de um texto e se ele atende às regularidades discursivas</p><p>que facilitam a comunicação.</p><p>Por fim, no quinto capítulo apresentamos o universo</p><p>acadêmico, mostrando como você pode utilizar diferentes</p><p>tipos de argumentação para validar e divulgar suas</p><p>pesquisas, utilizando a linguagem e a estrutura adequadas</p><p>ao gênero artigo acadêmico.</p><p>Apesar de serem muitos os caminhos da produção e</p><p>interpretação de textos, evidenciamos neste livro um percurso</p><p>que exige a reflexão crítica e a percepção do uso linguístico.</p><p>Assim, trazemos artifícios linguísticos de extrema valia para</p><p>o uso eficaz da escrita e da leitura na (re)construção de efeitos</p><p>de sentido.</p><p>Finalmente, desejamos um ótimo aprendizado e uma</p><p>excelente jornada de aprendizagem!</p><p>1</p><p>Leitura e interpretação na prática</p><p>Lemos para que e por quê? Saber ler e interpretar significa,</p><p>antes de tudo, identificar a finalidade do estudo com base nos</p><p>múltiplos impactos discursivos e sociais. Comunicar-se e interagir</p><p>com a língua portuguesa não quer dizer só ler e entender o que</p><p>vem à cabeça, mas sim investigar o que cada elemento linguístico</p><p>(verbos, adjetivos, substantivos, sinais de pontuação etc.) traz de</p><p>informação e como podemos utilizá-lo para ampliar nosso universo</p><p>de conhecimento, fazendo relações entre tudo aquilo que nós lemos,</p><p>ouvimos, observamos e com o que interagimos.</p><p>A partir deste momento, você está convidado a refletir sobre o</p><p>que significa ler bem. Ao iniciar essa difícil, mas fascinante reflexão,</p><p>lembre-se de uma importante observação feita por Carlo Goldoni,</p><p>dramaturgo veneziano: “O mundo é um belo livro, mas é pouco útil</p><p>a quem não o sabe ler” (CABADA, 2001). Logo, se quiser descobrir</p><p>um mundo de conhecimento, você terá de refletir sobre diferentes</p><p>situações dentro dos textos.</p><p>Para começarmos essa jornada, vale dizer que este capítulo</p><p>está dividido em quatro partes. Na primeira, refletiremos sobre os</p><p>objetivos da leitura, para que reconheçamos essa prática de maneira</p><p>significativa. Já na segunda parte, vamos aprender a situar o texto no</p><p>contexto em que ele foi produzido, a fim de ampliar a compreensão</p><p>leitora. Em seguida, veremos como diferentes linguagens produzem</p><p>diferentes significados, e que o domínio da linguagem tanto verbal</p><p>como não verbal garante aos sujeitos a expansão da capacidade do</p><p>uso da língua. Por fim, discutiremos como todo texto traz outros</p><p>textos de modo intrínseco, que, se reconhecidos, aumentam nossa</p><p>capacidade de compreensão e senso crítico.</p><p>10 Produção e interpretação de textos</p><p>1.1 Finalidades da leitura</p><p>Ler é uma das ações mais importantes e todo</p><p>e qualquer indivíduo deveria colocá-la em prática</p><p>no dia a dia, pois ela pode oportunizar novos</p><p>aprendizados e mudanças significativas no nosso</p><p>pensamento, além de auxiliar na busca por uma</p><p>solução para qualquer problema que possamos</p><p>enfrentar ao longo de nossas vidas.</p><p>Por exemplo, digamos que você está na sua casa e está curioso</p><p>para saber um pouco mais sobre aquela personagem da TV ou de</p><p>um filme de que gosta; o que você faz? Caso tenha se imaginado</p><p>procurando informações na internet, acertou! Essa é uma das</p><p>atitudes mais prováveis que alguém pode tomar quando quer saber</p><p>se aquela pessoa famosa tem namorado(a), que dia faz aniversário</p><p>ou, até mesmo, se poderia ser seu ou sua crush ideal.</p><p>Além dessa finalidade, existem várias outras que nos fazem ler</p><p>algum texto a fim de sanar diferentes necessidades. Será que você</p><p>consegue descobrir algumas delas? Observe as imagens a seguir e</p><p>descubra alguns motivos pelos quais lemos.</p><p>Figura 1 – Finalidades da leitura</p><p>Va</p><p>di</p><p>m</p><p>G</p><p>eo</p><p>rg</p><p>ie</p><p>v/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>fiz</p><p>ke</p><p>s/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ckA B</p><p>on</p><p>e</p><p>ph</p><p>ot</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ckC</p><p>Te</p><p>ro</p><p>V</p><p>es</p><p>al</p><p>ai</p><p>ne</p><p>n/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ckD</p><p>Vídeo</p><p>crush: pessoa</p><p>por quem se está</p><p>apaixonado ou</p><p>se sente atraído.</p><p>(Continua)</p><p>Leitura e interpretação na prática 11</p><p>An</p><p>to</p><p>ni</p><p>o</p><p>G</p><p>ui</p><p>lle</p><p>m</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ckE</p><p>Outdoor:</p><p>sem querer você</p><p>já leu!</p><p>An</p><p>dr</p><p>ew</p><p>Fi</p><p>rs</p><p>t/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ckF</p><p>Na Figura 1, em (A) temos o que você está fazendo agora:</p><p>estudando; enquanto (B) caracteriza a leitura prazerosa, aquela</p><p>que você faz por hobby. Perceba que, quando estamos na escola,</p><p>na faculdade ou</p><p>que exige do leitor um olhar atento aos</p><p>tópicos mais importantes de um texto, além da consideração do</p><p>contexto, da função da linguagem e da intencionalidade do texto.</p><p>Assim, o presente capítulo tem como objetivo principal promover</p><p>uma reflexão para quem gosta de estudar, oferecendo atividades</p><p>práticas que colaborem no processo de aprendizado da leitura e,</p><p>consequentemente, da escrita.</p><p>3.1 Níveis de leitura de um texto</p><p>Segundo Teberosky e Tolchinsky (2006, p. 150),</p><p>“um dos problemas cruciais na compreensão do</p><p>processo de leitura é a relação entre interpretação</p><p>e decodificação”. Muitas vezes, essa incompreensão</p><p>se dá porque todo mundo sabe que existem</p><p>várias funções da linguagem, mas muitas pessoas</p><p>desconhecem os diferentes níveis de leitura.</p><p>Entender a língua como ato social e atividade de interação verbal</p><p>entre dois ou mais interlocutores – vinculada, assim, a circunstâncias</p><p>concretas e diversificadas de sua atualização e utilização – é o primeiro</p><p>passo para formar um indivíduo competente que consiga discernir,</p><p>decidir e atuar sobre a própria aprendizagem e realidade.</p><p>Você já deve ter passado por momentos nos quais, após ler um</p><p>texto qualquer, foi obrigado a responder perguntas em que bastava</p><p>voltar a ele, copiar um trecho e pronto, estavam respondidas as</p><p>perguntas. Atualmente, sabemos que perguntas e respostas não são</p><p>mais suficientes para avaliar leitores, visto que, para compreender</p><p>verdadeiramente um texto, são necessárias diferentes práticas, que</p><p>Vídeo</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 55</p><p>podem envolver o implícito ou o explícito, o vocabulário geral ou</p><p>o específico, ou, ainda, a percepção da estrutura linguística que os</p><p>textos trazem de acordo com o gênero apresentado.</p><p>Por esse motivo, vamos aprender quais níveis estão envolvidos</p><p>na leitura e por quais estratégias podemos alcançá-los.</p><p>3.1.1 Nível objetivo</p><p>Provavelmente, você já viajou ou conhece alguém que foi a</p><p>algum lugar diferente do estado onde mora e que, ao chegar ao</p><p>destino, enfrentou dificuldades com a tradição alimentar do local</p><p>ou ficou na dúvida se era seguro se alimentar daquela culinária ou</p><p>não. Pensando nisso, o Ministério do Turismo lançou uma cartilha</p><p>com dicas sobre alimentação segura em viagens.</p><p>Sua escolha faz toda diferença</p><p>Hoje os destinos turísticos do Brasil estão se preparando</p><p>para oferecer aos visitantes alimentos prontos para o</p><p>consumo, com qualidade higiênico-sanitária.</p><p>Para que os bares, restaurantes, quiosques, ambulantes</p><p>e outros serviços de alimentação adotem boas práticas,</p><p>você, turista, precisa fazer a sua parte: escolha sempre</p><p>lugares limpos e organizados, que se preocupam com</p><p>a segurança dos alimentos.</p><p>Esteja atento!</p><p>Observe quem vai manipular os alimentos. Garçons,</p><p>copeiros e demais atendentes não podem tocar nos</p><p>alimentos, devendo utilizar corretamente os utensílios</p><p>para servir os clientes. Os manipuladores devem estar</p><p>com as unhas cortadas, limpas e sem esmalte, com os</p><p>cabelos curtos ou presos e protegidos, e usar roupas</p><p>limpas.</p><p>56 Produção e interpretação de textos</p><p>Lave bem suas mãos antes de pegar nos alimentos ou</p><p>pegue-os envolvidos em um guardanapo.</p><p>De nada valerão os cuidados dos manipuladores de</p><p>alimentos se você não fizer a sua parte. (BRASIL, 2006,</p><p>p. 6 e 8)</p><p>Ao ler esse texto, fica claro que o Ministério do Turismo tem o</p><p>objetivo de alertar o viajante sobre a escolha de alimentos e locais</p><p>com qualidade higiênico-sanitária. Porém, de nada adiantará essas</p><p>orientações se o turista não fizer sua parte, que está posta de modo</p><p>explícito no texto. Você consegue encontrá-la?</p><p>Se você descobriu que é o trecho que alerta sobre a importância</p><p>de o viajante dar preferência a lugares limpos e organizados e ter o</p><p>cuidado de lavar bem as mãos antes de pegar qualquer alimento,</p><p>você acertou! Não foi difícil encontrar essa resposta, não é mesmo?</p><p>Isso porque dizemos que ela está posta de maneira objetiva no texto</p><p>e deve ser interpretada da mesma forma: com clareza e sem rodeios.</p><p>Assim sendo, toda vez que temos que encontrar, no texto, uma</p><p>situação objetiva, que vai direto ao ponto de um determinado tema</p><p>e que não tem como ser modificada dentro do contexto apresentado,</p><p>dizemos que fizemos uma interpretação no nível objetivo da leitura.</p><p>Esse nível tem como característica principal fazer com que o leitor</p><p>decodifique o texto, identifique informações explícitas ou busque</p><p>palavras e expressões que respondam a perguntas sobre informações</p><p>básicas relacionadas a um determinado texto.</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 57</p><p>O nível objetivo é o mais superficial da leitura, e o alcançamos,</p><p>geralmente, no primeiro contato com o texto. À medida que</p><p>decodificamos um texto e fazemos a leitura, depreendemos</p><p>informações explícitas postas no texto e que nos ajudam a determinar</p><p>o tema principal e seus desdobramentos principais.</p><p>Observe a interpretação no nível objetivo que podemos fazer dos</p><p>textos Sua escolha faz toda diferença e Esteja atento!, apresentados</p><p>anteriormente:</p><p>• Tema principal: turismo.</p><p>• Desdobramento de Sua escolha faz toda diferença: a</p><p>importância da qualidade higiênico-sanitária e da adoção</p><p>de boas práticas na preparação de alimentos em bares,</p><p>restaurantes, quiosques e ambulantes.</p><p>• Desdobramento de Esteja atento!: a manipulação de</p><p>alimentos exige certos cuidados, como unhas limpas, cortadas</p><p>e sem esmalte; cabelos curtos, presos e protegidos; e roupas</p><p>limpas. Além disso, nem todos os profissionais dentro do</p><p>restaurante podem manipular os alimentos.</p><p>• Outras informações: o turista deve estar sempre atento a</p><p>essas dicas e fazer sua parte.</p><p>Para chegar a essa interpretação, o leitor pode utilizar estratégias</p><p>como a antecipação e a observação. Em linguagens verbais, como</p><p>a observada em um livro, a antecipação pode ser alcançada por</p><p>meio do reconhecimento dos títulos ou subtítulos, pela previsão</p><p>do conteúdo que eles trazem, e a observação diz respeito ao olhar</p><p>atento ao índice, à capa, à contracapa e aos parágrafos.</p><p>58 Produção e interpretação de textos</p><p>Diante de uma linguagem não verbal, essas estratégias devem</p><p>ser realizadas pela observação de detalhes, cores, fontes e todos os</p><p>pormenores contidos na imagem.</p><p>Figura 1 – Linguagem não verbal representada por uma pintura</p><p>Fonte: BOTTICELLI, S. O nascimento de Vênus. ca. 1483. Têmpera sobre tela: 1,72 m x 2,78 m.</p><p>Galeria Uffizi, Itália.</p><p>Diante desse texto, podemos antecipar, em uma primeira análise,</p><p>que se trata de uma pintura renascentista, pois apresenta cores</p><p>claras com escuras, temática mitológica e equilíbrio e elegância</p><p>nas formas. Claro, isso exige um conhecimento prévio sobre</p><p>arte. Porém, de qualquer modo, a partir da observação, podemos</p><p>identificar uma mulher adulta, nua, acompanhada de três seres,</p><p>todos com características mitológicas. Além disso, há um manto</p><p>estampado, presença da natureza (mar, vegetação, flores) e uma</p><p>concha de tamanho considerável apoiando a mulher. Poderíamos,</p><p>ainda, descrever melhor as expressões, as características de cada ser,</p><p>as vestimentas (ou sua falta) e as atitudes demonstradas.</p><p>Perceba que esses exemplos de interpretação se referem a um</p><p>momento inicial da leitura, no qual devemos considerar o texto</p><p>como um todo, como uma unidade de sentido. Além disso, devemos</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 59</p><p>retomar alguns termos-chave a fim de identificar fatos específicos</p><p>ou dados relevantes de acordo com o gênero. Esses termos-chave</p><p>são importantes e decisivos, uma vez que só podemos garantir a</p><p>compreensão total de um texto se partirmos da identificação</p><p>objetiva. Porém, após essa análise, não podemos simplesmente nos</p><p>afastar do texto; devemos nos aproximar ainda mais dele, utilizando</p><p>outras estratégias que veremos a seguir.</p><p>3.1.2 Nível inferencial</p><p>Ao passarmos para a próxima etapa da leitura, devemos</p><p>considerar a compreensão do contexto, e não apenas a decodificação</p><p>de um texto ou suas informações básicas. Esse estágio é chamado</p><p>de nível inferencial e está relacionado à busca por detalhes</p><p>e informações específicas, as quais podem estar explícitas ou</p><p>implícitas. De todo modo, devemos partir do contexto e do que está</p><p>posto para alcançarmos propósitos relacionados às funções sociais</p><p>da leitura, que são bastante variadas e, por esse motivo, acionam</p><p>diferentes estratégias de leitura.</p><p>Assim, se a função social está relacionada ao convencimento, o</p><p>leitor pode identificar isso a partir da análise de verbos no modo</p><p>imperativo, por exemplo. Porém, se a função social tem objetivo</p><p>de divulgar um acontecimento, como uma notícia, a estratégia</p><p>de leitura passa a ser a identificação dos envolvidos, do local e</p><p>do tempo em que aconteceu determinado fato. Assim, essa etapa</p><p>exige um aprofundamento da leitura. A partir disso, o leitor passa a</p><p>adquirir mais segurança no que está lendo e pode até começar a se</p><p>sentir engajado no tema que está estudando ou pelo qual apresenta</p><p>curiosidade.</p><p>Leia a seguir outro trecho da cartilha do Ministério do Turismo</p><p>sobre alimentação segura em viagens, para analisarmos como o</p><p>nível inferencial da leitura acontece.</p><p>60 Produção e interpretação de textos</p><p>Saudáveis tentações</p><p>Em seus passeios não deixe de experimentar as frutas</p><p>regionais. Elas são leves, saborosas e, dependendo da</p><p>região onde você estiver, podem ser bem exóticas. Vale</p><p>a pena experimentar. Só não se esqueça de lavá-las bem</p><p>antes de comer.</p><p>Comidas tipicamente deliciosas</p><p>Viajar é bom para conhecer lugares diferentes e, claro,</p><p>para provar as comidas típicas de cada região. Quando</p><p>for saborear um prato especial, escolha bem o local.</p><p>E lembre-se de perguntar quais são os ingredientes da</p><p>receita. Alguns pratos podem ser muito apimentados</p><p>ou ter temperos com os quais você não está</p><p>acostumado.</p><p>Vá com calma e prove o sabor do Brasil com segurança.</p><p>(BRASIL, 2006, p. 15-16)</p><p>Para podermos fazer uma interpretação além do nível objetivo,</p><p>vamos observar primeiro a que nos induz esse texto: ao usar</p><p>palavras como experimentar, saborosas, deliciosas, provar e saborear,</p><p>o texto cria na mente do leitor uma cena embasada em experiências</p><p>gustativas, a partir do acionamento de memórias que o sujeito já</p><p>tem em relação à alimentação. Isso ocorre porque toda e qualquer</p><p>situação comunicativa é interpretada à luz de situações já passadas</p><p>ao longo de nossas vidas, as quais nos permitem compreender</p><p>melhor tanto um fato corriqueiro do dia a dia quanto algo não</p><p>vivido pessoalmente, para o qual criamos uma ideia representativa</p><p>do acontecimento em nossa cabeça.</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 61</p><p>Assim, mesmo que não tenhamos viajado muito e nem</p><p>experienciado diferentes paladares, ainda é possível ler os textos</p><p>Saudáveis tentações e Comidas tipicamente deliciosas, identificar</p><p>do que eles tratam e compreender além daquilo que está somente</p><p>posto na escrita. Além disso, ao comparar o alimento a “saudáveis</p><p>tentações” e utilizar a expressão “vale a pena experimentar”, o autor</p><p>reitera o quão bom é se abrir a novos sabores e, pelo contexto, reforça</p><p>o turismo, atingindo o objetivo do gênero textual usado.</p><p>Outros índices de leitura inferencial podem ser determinados</p><p>quando lemos que “alguns pratos podem ser muito apimentados ou</p><p>ter temperos”, porque isso nos remete aos pratos típicos do Nordeste,</p><p>o que não está explícito (escrito objetivamente), mas podemos fazer</p><p>um julgamento de valor pelo conhecimento de mundo que temos.</p><p>Ao afirmar que podemos não estar acostumados com esse tipo de</p><p>prato, identificamos também que, muito provavelmente, o emissor é</p><p>de outra região do país, ou então que essa cartilha sobre turismo foi</p><p>distribuída em outra região que não o Nordeste.</p><p>No último parágrafo do trecho, temos a expressão “prove o</p><p>sabor do Brasil”, o que nos leva a compreender que essa figura de</p><p>linguagem (metonímia1) considera que o país proporciona muitas</p><p>experiências gastronômicas.</p><p>Esses são só alguns exemplos de como podemos ultrapassar</p><p>o ato da simples decodificação do texto com o objetivo de buscar</p><p>significados maiores produzidos entre as palavras, os parágrafos,</p><p>o começo, o meio e o fim, alcançando o acesso a informações</p><p>implícitas e desfrutando do prazer de qualquer literatura.</p><p>1 Metonímia: consiste no uso de uma palavra no lugar de outra, pois há uma relação</p><p>de proximidade entre elas. Por exemplo, quando falamos “Li Machado de Assis”, não</p><p>quer dizer que lemos o autor, mas sim sua obra; ou quando falamos que alguém tem</p><p>uma cabeça boa, geralmente queremos dizer que a pessoa é inteligente ou tem uma</p><p>boa memória.</p><p>62 Produção e interpretação de textos</p><p>Do mesmo modo, diante da linguagem não verbal, devemos</p><p>buscar o nível inferencial da leitura. Para isso, vamos considerar o</p><p>exemplo dado anteriormente (a pintura O nascimento de Vênus).</p><p>Figura 2 – Interpretação de uma linguagem não verbal</p><p>Fonte: Adaptado de BOTTICELLI, S. O nascimento de Vênus. ca. 1483. Têmpera sobre tela: 1,72 m x</p><p>2,78 m. Galeria Uffizi, Itália.</p><p>Uma leitura possível dessa pintura é feita a partir de sua composição</p><p>geométrica. Se analisarmos com cuidado, perceberemos que os</p><p>elementos estão dispostos de modo equilibrado dentro de triângulos</p><p>implícitos. À esquerda, podemos encontrar a representação do vento</p><p>Zéfiro, que, não por acaso, costuma se originar no Oeste; à direita,</p><p>encontramos a deusa romana da beleza, Hora, segurando um manto</p><p>ornado com flores; e ao centro, vemos Vênus, que também é a deusa</p><p>da beleza e do amor e nasceu da espuma do mar. No quadro, seus</p><p>cabelos são responsáveis por uma quebra suave do alinhamento</p><p>geométrico (ele sai do triângulo central).</p><p>Para alcançar esse nível de interpretação, o leitor deve ter um</p><p>mínimo de conhecimento prévio do assunto tematizado por meio de</p><p>uma linguagem e ser capaz de criar diferentes percepções advindas</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 63</p><p>ou não de uma verossimilhança. Isso só é alcançado com muita</p><p>observação e com base na premissa de que “quanto mais leitura,</p><p>melhor ela será”.</p><p>3.1.3 Nível avaliativo</p><p>O nível avaliativo da leitura é o mais alto grau de compreensão</p><p>que podemos ter de um texto. Vale ressaltar que, ao contrário do</p><p>que parece, esses níveis não são hierárquicos, podendo ocorrer ao</p><p>mesmo tempo – no momento em que o leitor entra em contato com</p><p>a leitura.</p><p>Como já explicado anteriormente, a interpretação está sempre</p><p>associada a uma memória. Por isso, consideramos importante</p><p>tudo aquilo que já foi lido ou analisado em um dado momento de</p><p>nossas vidas. Além disso, podemos considerar cada novo momento</p><p>vivido como sendo o nascimento de outros pontos relevantes, já que</p><p>consideramos as experiências responsáveis pela criação de diferentes</p><p>episódios e opiniões em nossa mente.</p><p>Jolibert e Sraïki (2008) acreditam que a leitura exige intelectualidade</p><p>daquele que realiza essa ação. Desse modo, ela pode ser considerada</p><p>uma atividade de resolução de problemas, uma vez que, diante de um</p><p>texto, o leitor deve se ater aos índices existentes nele para completar</p><p>as lacunas deixadas pelo autor. Esses índices são o contexto, o tipo de</p><p>texto, os atributos gramaticais significativos, o léxico etc.</p><p>Logo, podemos dizer que somos leitores proficientes e</p><p>pertencentes ao nível avaliativo quando: fazemos da leitura uma</p><p>verdadeira atividade intelectual; demonstramos a capacidade de</p><p>interagir não só com o texto lido/estudado naquele momento, mas</p><p>com vários outros já lidos; observamos construções da linguagem;</p><p>e reconhecemos intencionalidades diferentes entre autores e textos</p><p>que trazem o mesmo tema em gêneros diferentes ou diferentes</p><p>temas em gêneros iguais.</p><p>Verossimilhança:</p><p>Ligação e</p><p>harmonia entre</p><p>os fatos ocorridos</p><p>em uma história,</p><p>que levam o</p><p>leitor a crer que</p><p>aquilo pode</p><p>ser realmente</p><p>verdadeiro.</p><p>64 Produção e interpretação de textos</p><p>Leia a seguir outro trecho da cartilha do Ministério do Turismo</p><p>sobre alimentação segura em viagens.</p><p>Você sabia?</p><p>Alimentos estragados possuem microrganismos que</p><p>podem deteriorá-los e alterar suas características</p><p>originais (cor, odor, sabor e textura) e, por isso,</p><p>poderão</p><p>ser rejeitados pelos consumidores. Exemplo:</p><p>pão embolorado.</p><p>Mas há também alimentos contaminados por</p><p>microrganismos patogênicos, que, entretanto, não</p><p>produzem alteração nas características externas</p><p>do alimento (cor, sabor, odor e textura), causando,</p><p>porém, doenças em quem os ingere, como dores de</p><p>barriga, vômitos e diarreia.</p><p>Quando os alimentos estão conservados em</p><p>temperaturas abaixo de 5 °C, os microrganismos</p><p>praticamente não se multiplicam.</p><p>Quando os alimentos se conservam quentes, ou</p><p>seja, em temperaturas acima de 60 °C, a maioria dos</p><p>microrganismos é destruída. (BRASIL, 2006, p. 19)</p><p>Se, ao ler, no texto, as expressões microrganismos e pão</p><p>embolorado, você imediatamente se lembrou de suas aulas de</p><p>biologia e conectou essa informação aos fungos filamentosos que se</p><p>desenvolvem em matéria orgânica, você fez uma leitura avaliativa.</p><p>Se, ao invés disso, você se lembrou apenas de um momento</p><p>em que esqueceu um pão em cima da mesa de sua casa por algum</p><p>tempo (e, quando voltou, ele estava todo embolorado) ou de alguns</p><p>coisas que aprendeu (como congelar o pão para durar mais tempo,</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 65</p><p>evitando o mofo), isso não deixa de representar uma conexão com</p><p>um conhecimento prévio, além do texto escrito; portanto, você</p><p>também atingiu o nível avaliativo da leitura.</p><p>Claro que quanto mais informações você tiver sobre o processo</p><p>de emboloramento, mais conexões fará, e a compreensão da leitura</p><p>ficará mais completa. Lembre-se de que, para atingir esse nível da</p><p>leitura, não basta uma simples lembrança de um texto, mas sim</p><p>de alguma informação que possibilite um melhor entendimento</p><p>daquilo que está sendo lido.</p><p>Outro exemplo é a capa da revista Veja2, de 30 de maio de</p><p>2001. Nela, podemos observar a imagem de uma mulher com</p><p>cabelos compridos até o joelho e ondulados, nua e, por esse motivo,</p><p>tampando os seios com a mão direita e sua parte íntima com a</p><p>esquerda e parte do cabelo. Além disso, ela está em pé em cima da</p><p>metade de uma concha.</p><p>Logo, percebemos que essa capa de revista está fazendo alusão à</p><p>pintura O nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. Porém, se não</p><p>conhecêssemos essa pintura, nossa interpretação da capa não seria a</p><p>mesma. Além disso, a reportagem principal dessa edição da revista fala</p><p>sobre como a ciência desvenda os problemas sexuais femininos e permite</p><p>que a mulher sinta prazer. Considerando a relação da linguagem verbal</p><p>com a não verbal, podemos compreender que, sendo Vênus a deusa do</p><p>amor e da beleza, o prazer sexual da mulher pode estar relacionado ou</p><p>contribuir com a autoestima da pessoa do sexo feminino.</p><p>Logo, a conexão que fizemos aqui contribui para a construção de</p><p>significado desse gênero textual (capa de revista). Solé (1992) afirma</p><p>que o processo de construção de significados de um texto não é o</p><p>mesmo de um sujeito para o outro, pois a compreensão depende</p><p>do conhecimento prévio de mundo do indivíduo e das inferências</p><p>2 Capa disponível em: http://capasdaveja.blogspot.com/2001/05/. Acesso em: 17</p><p>out. 2019.</p><p>66 Produção e interpretação de textos</p><p>que são feitas pela pessoa no ato da leitura. Quanto mais um texto</p><p>permite sua ligação ao conhecimento trazido pelo sujeito, mais fácil</p><p>se torna o entendimento daquele escrito.</p><p>Finalmente, atingir o nível avaliativo da leitura é uma ação</p><p>individual, sendo que cada conhecimento, estudo e vivência é</p><p>algo introspectivo e, portanto, particular. Porém, vale lembrar que</p><p>também é coletivo, pois vivemos em sociedade e podemos partilhar</p><p>conhecimentos, experiências e vivências. Portanto, cabe a cada</p><p>sujeito equilibrar esses dois lados e compreender qualquer texto</p><p>sempre da melhor forma.</p><p>3.2 Tópico frasal e desenvolvimento de um</p><p>parágrafo</p><p>Escrever é fácil: você começa com uma letra</p><p>maiúscula e termina com um ponto final; no meio,</p><p>você coloca ideias. Assim, faz-se um texto e muitos</p><p>parágrafos, certo?</p><p>Errado! Na prática, sabemos que desenvolver</p><p>um, dois, três ou mais parágrafos bem feitos exige muito cuidado,</p><p>reflexão e o perfeito encadeamento de ideias. Ordenar informações</p><p>que mostrem o pensamento distribuído de forma lógica e precisa é</p><p>uma ação que parte da análise de elementos linguísticos utilizados</p><p>em um texto, como sinais de pontuação, elementos coesivos e</p><p>coerência, os quais se originam a partir do chamado tópico frasal.</p><p>Dizemos que tópico frasal é a afirmação ou negação que,</p><p>algumas vezes, introduz o parágrafo e, em outras, encontra-se no</p><p>meio dele; mas, independentemente do lugar em que se apresenta,</p><p>ele tem o objetivo de evidenciar a ideia-núcleo, também chamada</p><p>de ideia principal. Ele é sempre o condutor do discurso e deve ter</p><p>uma palavra nuclear que possa ser explorada. A abstração deve ser</p><p>evitada a todo custo, e a organização linguística é a responsável pela</p><p>qualidade do texto.</p><p>Vídeo</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 67</p><p>O parágrafo deve se desdobrar em volta desse tópico,</p><p>apresentando ideias secundárias que devem obrigatoriamente</p><p>sustentar o tópico frasal. Para isso, podemos apresentar explicações,</p><p>causas ou consequências e fazer comparações e outros tipos de</p><p>construção linguística, desde que estejam relacionados ao tópico</p><p>frasal do parágrafo.</p><p>Segundo Faraco e Tezza (2013, p. 168),</p><p>o bom domínio do parágrafo não é simplesmente uma</p><p>questão de técnica de escrita; a noção de parágrafo depende,</p><p>de certo modo, da percepção mais ou menos intuitiva que</p><p>nós temos de uma hierarquia de ideias e de fatos, de uma</p><p>organização do mundo que não se reduz a um macete ou a</p><p>uma regra fixa. (FARACO; TEZZA, 2013, p. 168)</p><p>Observe como isso acontece na introdução do texto informativo</p><p>(NEEDHAM et al., 2007, p. 40) a seguir.</p><p>Cultura & Diversidade cultural</p><p>O turismo, por sua natureza, proporciona</p><p>oportunidades crescentes de contato social.</p><p>Ele pode aproximar pessoas e fomentar o</p><p>entendimento intercultural. Porém o turismo</p><p>de massa pode ter efeitos contrários: pode</p><p>provocar mudanças nas tradições culturais</p><p>que levem, até mesmo, à perda do significado</p><p>original.</p><p>Há diversas maneiras de definir cultura. Ela</p><p>é a soma de fatores que tornam um país único.</p><p>Frequentemente, é definida de modos diferentes</p><p>e por grupos etários diferentes, dentro da mesma</p><p>cultura. Até mesmo o modo como uma reunião</p><p>de negócios é conduzida varia de cultura para</p><p>cultura. É possível resumir o conceito de cultura</p><p>em poucas palavras. Mas, geralmente, definir a</p><p>cultura de um país é um processo intrincado.</p><p>Por exemplo, cores e números podem ter</p><p>significados diferentes em culturas diferentes.</p><p>Tópico frasal 1</p><p>Tópico frasal 2</p><p>Tópico frasal 3</p><p>Explica o tópico</p><p>frasal 1</p><p>Explica o tópico</p><p>frasal 2</p><p>Explica o tópico</p><p>frasal 3</p><p>68 Produção e interpretação de textos</p><p>Por isso, ao escrever um parágrafo, é importante atentar à</p><p>produção dos sentidos que se pretende comunicar, bem como ao</p><p>tópico frasal a ser utilizado, pois seu desenvolvimento é um recurso</p><p>essencial do texto. Seguindo essas orientações, tanto a leitura quanto</p><p>a escrita podem ser melhoradas. Ao encontrar as ideias-núcleo de</p><p>um texto e decompor as partes de um parágrafo, entendendo sua</p><p>estrutura, é possível compreender sua leitura na totalidade e escrever</p><p>com mais segurança.</p><p>3.3 Resumo</p><p>Ao fazermos uma tese, dissertação ou</p><p>monografia3, temos que escrever, no início, um</p><p>resumo, com o objetivo de apresentar ao leitor o que</p><p>ele vai encontrar ao longo do texto. Assim, ele pode</p><p>julgar se será necessária ou válida a leitura do texto</p><p>em sua íntegra ou de partes dele. Se não fosse assim,</p><p>teríamos que ler toda uma tese ou dissertação para descobrirmos se</p><p>o trabalho apresenta o que procuramos ou não. Perderíamos muito</p><p>tempo, não é mesmo?</p><p>Resumo é um texto que traz apenas as ideias mais importantes</p><p>de um outro texto e tem como característica principal apresentar de</p><p>modo objetivo os pontos mais relevantes desse outro texto. Segundo</p><p>Machado (2005), resumir é utilizar uma estratégia de redução de</p><p>informação com um caráter flexível. Deve ser considerada sua</p><p>relação com o objetivo da</p><p>leitura e o conhecimento prévio do</p><p>emissor, além da possível influência de fatores contextuais.</p><p>Para resumir um texto, podemos utilizar duas estratégias</p><p>principais:</p><p>3 Tese, dissertação e monografia são os trabalhos de pesquisa acadêmica que</p><p>se destinam à obtenção dos títulos de doutor, mestre e bacharel para licenciado,</p><p>respectivamente. A tese deve trazer um tema inédito, diferentemente dos outros dois</p><p>tipos de trabalho.</p><p>Vídeo</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 69</p><p>• Generalização: consiste na substituição de diversos termos</p><p>por apenas um. Por exemplo: “Ao adentrar a casa, o assaltante</p><p>levou televisão, joias, dinheiro e notebooks” → “Ao adentrar a</p><p>casa, o assaltante levou objetos de valor”.</p><p>• Associação de significados: é o resumo das ações ou ideias</p><p>que podem ser associados dentro de um ou mais parágrafos.</p><p>Por exemplo: “O diretor da empresa acabou por pegar um táxi</p><p>até o aeroporto, onde comprou uma passagem, despachou três</p><p>bagagens e esperou, pacientemente, o horário do embarque”</p><p>→ “O diretor da empresa viajou”.</p><p>Assim, considere o texto lido durante o estudo sobre o nível</p><p>objetivo de leitura, intitulado Sua escolha faz toda diferença (ver p. 57).</p><p>Se fossemos fazer um resumo pelas estratégias da generalização e da</p><p>associação de significados, ele poderia ficar do seguinte modo:</p><p>Sua escolha faz toda diferença</p><p>Hoje, locais que oferecem serviço de alimentação pelo</p><p>Brasil estão se preparando para oferecer produtos</p><p>com qualidade higiênico-sanitária. Porém, é preciso</p><p>que o turista colabore escolhendo lugares limpos e</p><p>organizados, que se preocupam com a segurança dos</p><p>alimentos.</p><p>Podemos resumir o texto desse modo porque generalizamos</p><p>os destinos turísticos do Brasil e bares, restaurantes, quiosques,</p><p>ambulantes e outros serviços de alimentação como locais que</p><p>oferecem serviço de alimentação. Além disso, associamos as</p><p>ideias dos dois parágrafos, que são, respectivamente, a qualidade</p><p>higiênico-sanitária e a atitude do turista.</p><p>Além disso, ao escrever um resumo, é importante:</p><p>70 Produção e interpretação de textos</p><p>• garantir que a ideia central seja mantida;</p><p>• respeitar a ordem das ideias apresentadas no texto original;</p><p>• ter cuidado para não copiar trechos, mas sim expressões e</p><p>palavras-chave;</p><p>• evitar comentários críticos ou uso de palavras que evidenciem</p><p>a opinião de quem resume.</p><p>Seguindo essas estratégias e dicas, garantimos um resumo</p><p>conciso e de qualidade, com informações relevantes que atendam às</p><p>situações de uso desse gênero.</p><p>Considerações finais</p><p>Ler é um processo diário de construção em que o leitor é</p><p>colocado diante de espaços em branco, deixados pelos textos, e das</p><p>mais variadas intrigas e complexas situações. Perante qualquer uma</p><p>dessas situações, o texto cobra uma atitude do leitor.</p><p>O avanço das pesquisas em relação a como interpretamos</p><p>ou nos apropriamos da linguagem é bastante significativo, e</p><p>utilizar velhas práticas ou atividades incorre em um duplo</p><p>equívoco: 1. limitamo-nos apenas ao aprendizado da língua; e</p><p>2. assumimos o risco de não criarmos a função social adequada à</p><p>comunicação. Por esse motivo, diante de textos, precisamos sempre</p><p>avançar em relação àquilo que está escrito, procurando entender as</p><p>entrelinhas, as intencionalidades do remetente e as conexões entre</p><p>os mais variados objetos de conhecimento.</p><p>A leitura é um processo que envolve inúmeras funções</p><p>mentais. Em cada nível, podemos identificar um desafio diferente.</p><p>É importante ressaltar que as conexões feitas na leitura ocorram</p><p>de maneira quase natural, sem frustrar o leitor. Então, ele poderá</p><p>identificar o nível avaliativo. A leitura avaliativa promove o</p><p>reconhecimento das características específicas de cada gênero</p><p>textual e dos parágrafos, operacionalizando estratégias tanto de</p><p>leitura e interpretação quanto de produção.</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 71</p><p>Dentro dessa última prática, ressaltamos o resumo. Seu domínio</p><p>permite o desenvolvimento de uma competência discursiva que é</p><p>aperfeiçoada com a participação do sujeito em diversas situações</p><p>de uso da linguagem. Nesse processo, o emissor precisa conhecer</p><p>o gênero textual, sabendo que ele não pode ser tratado como mero</p><p>amontoado de registros, mas sim como um recurso para estudo e</p><p>leitura.</p><p>Ampliando seus conhecimentos</p><p>• TERRA, E. Práticas de leitura e escrita. São Paulo: Saraiva,</p><p>2019.</p><p>Nesse livro, o autor mostra diferentes estratégias para que os</p><p>leitores possam melhorar ou desenvolver sua habilidade tanto</p><p>de escrita quanto de leitura.</p><p>• LIMA, R. L. M. O ensino da redação: como se faz um resumo.</p><p>Maceió: EDUFAL, 2004.</p><p>Esse livro apresenta técnicas de redução do texto para a</p><p>elaboração de resumos com qualidade.</p><p>• VIDEOCURSO Língua Portuguesa: avaliação da leitura no</p><p>processo de alfabetização. 2015. 1 vídeo (5 min). Publicado</p><p>pelo canal Editora Positivo. Disponível em: https://www.</p><p>youtube.com/watch?v=6EmayuzvH0o. Acesso em: 17 out.</p><p>2019.</p><p>Apesar de abordar, principalmente, a alfabetização, o vídeo</p><p>também traz considerações sobre os níveis de leitura, que</p><p>devem ser considerados em qualquer momento da vida de</p><p>um indivíduo.</p><p>72 Produção e interpretação de textos</p><p>• O CÓDIGO da Vinci. Direção: Ron Howard. Los Angeles:</p><p>Columbia Pictures, 2006. 1 DVD (149 min).</p><p>Filme baseado no livro de mesmo nome do escritor Dan</p><p>Brown. A partir de um assassinato no Museu do Louvre, em</p><p>Paris, um professor é chamado para a investigação do crime.</p><p>Então, um mistério religioso aparece e, para desvendá-lo, é</p><p>necessária muita leitura, além de conexões. Portanto, o filme</p><p>acaba por evidenciar a interpretação no nível avaliativo.</p><p>Atividades</p><p>1. Por que é importante alcançarmos o nível avaliativo de</p><p>leitura? Justifique.</p><p>2. Sendo o nível objetivo o ato mais simples durante a leitura,</p><p>podemos ignorá-lo para nos focarmos nos outros dois níveis?</p><p>Por quê?</p><p>3. Usando as estratégias de generalização e associação, faça um</p><p>resumo de um texto de sua escolha. Não se esqueça das dicas</p><p>apresentadas na seção 3.3.</p><p>Referências</p><p>BRASIL. Ministério do Turismo. Alimento seguro no turismo. Brasília,</p><p>DF: Ministério do Turismo, 18 maio 2006. Disponível em: http://</p><p>www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_</p><p>action=&co_obra=82189. Acesso em: 16 out. 2019.</p><p>FARACO, C. A.; TEZZA, C. Oficina de Texto. Petrópolis: Vozes, 2003</p><p>JOLIBERT, J.; SRAÏKI, C. Caminhos para aprender a ler e escrever. São</p><p>Paulo: Contexto, 2008.</p><p>Estratégias de leitura e de escrita 73</p><p>MACHADO, A. R. Revisitando o conceito de resumos. In: DIONISIO, A. P.;</p><p>MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (org.) Gêneros textuais e ensino. 4. ed.</p><p>Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.</p><p>NEEDHAM, N. et al. Passaporte para o mundo. São Paulo: IPSIS,</p><p>2007. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/</p><p>DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=82188. Acesso em: 16 out.</p><p>2019.</p><p>SOLÉ, I. Estratégias de leitura. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.</p><p>TEBEROSKY, A.; TOLCHINSKY, L. (org.) Além da alfabetização. 4 ed. São</p><p>Paulo: Ática, 2006.</p><p>http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/tu000009.pdf</p><p>http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/tu000009.pdf</p><p>4</p><p>Tipologias e gêneros textuais</p><p>Com base no que foi estudado nos capítulos anteriores, é</p><p>possível entender que o leitor não é somente aquele que decodifica</p><p>o sistema de escrita alfabética e encontra informações explícitas em</p><p>um texto, mas é aquele que também apresenta a capacidade de ler</p><p>textos com diferentes estruturas e compreende os diversos tipos e</p><p>gêneros textuais presentes nas mais variadas situações sociais. Desse</p><p>modo, com o propósito de mostrar ao leitor novas informações e</p><p>provocar a elaboração de novos pensamentos a respeito de um tema</p><p>geral ou específico, entendemos que possibilitar a um indivíduo que</p><p>leia e compreenda um texto com qualquer conteúdo significa partir</p><p>do seu conhecimento prévio e considerar a lógica ou as limitações</p><p>de sua interpretação.</p><p>Quando o sujeito lê, ele constrói relações, cria imagens e analisa</p><p>possibilidades. Para que consiga fazer isso,</p><p>é indispensável que tenha</p><p>contato com diferentes gêneros textuais, visto que eles revelam os</p><p>usos da linguagem e as mais variadas formas linguísticas.</p><p>Desse modo, o estudo de tipos e gêneros textuais envolve</p><p>principalmente a análise do texto, do uso da linguagem e da visão da</p><p>sociedade e tem como objetivo responder a questões de natureza social</p><p>e cultural relacionadas aos usos da língua. Compreender a composição,</p><p>a estrutura, o estilo e os recursos que fazem parte de determinados</p><p>gêneros textuais é trabalhar com a língua em seu cotidiano nas mais</p><p>diversas formas, sejam elas informais sejam formais.</p><p>Além disso, defendemos que o desenvolvimento do leitor</p><p>é contínuo e persiste por toda sua vida, não se esgotando na</p><p>leitura de um livro nem ao final do processo de escolarização.</p><p>76 Produção e interpretação de textos</p><p>Afinal, enquanto houver textos ao redor de um indivíduo,</p><p>haverá a possibilidade de novas análises interpretativas.</p><p>Logo, nessa multiplicidade de gêneros a serem estudados</p><p>durante a vida, pretendemos iniciar uma reflexão e ter uma noção</p><p>de tipologia e gênero textual. Diante disso, este capítulo traz o</p><p>conceito e o reconhecimento de tipologia e gêneros textuais, com o</p><p>objetivo de contribuir para o desenvolvimento intelectual e do nível</p><p>avaliativo de leitura do estudante.</p><p>Esse objetivo é proposto devido ao conhecimento ser vantajoso</p><p>somente quando o estudo de tipos e gêneros textuais é adquirido</p><p>e convertido em habilidades, capacidades e atitudes. Assim, nossa</p><p>linha de estudo neste capítulo parte de observar a escolha de uma</p><p>palavra até a ideia de manipulá-la dentro de um período, o qual</p><p>obedece determinadas estruturas e tem objetivos específicos na</p><p>formação de um texto.</p><p>4.1 Tipos de textos</p><p>Quando lemos uma revista ou o texto de algum</p><p>outro suporte, a nossa percepção e vontade de</p><p>compreender os textos apresentados aumentam.</p><p>As estruturas que identificamos ao ler são várias e</p><p>diferentes, como a contação de fatos, a objetividade</p><p>e o modo de interação/interlocução entre o emissor</p><p>e o receptor. Em razão desse desejo de identificação e entendimento,</p><p>o texto se tornou um fenômeno social cada vez mais estudado,</p><p>popular e abrangente.</p><p>A presença intensa de diferentes tipos de texto no nosso cotidiano</p><p>influencia a maneira como compreendemos o mundo, pois o texto</p><p>não é só uma prática leitora, mas também histórica e social. Nele</p><p>e por meio dele, valores e conceitos da sociedade em que vivemos</p><p>transitam e são reforçados.</p><p>Vídeo</p><p>Tipologias e gêneros textuais 77</p><p>Existe um número considerável de tipos de texto, alguns mais</p><p>conhecidos do que outros. Além disso, em um curto período, eles</p><p>podem se desdobrar em diversos novos gêneros. Para entendermos</p><p>melhor como eles são estruturados, devemos considerar o conceito</p><p>de competência comunicativa, que designa as atividades ou práticas</p><p>que promovem efeitos de sentido de acordo com uma situação</p><p>específica de interação comunicativa.</p><p>O avanço da tecnologia e o aparecimento</p><p>de novos recursos digitais fez com que novas</p><p>organizações textuais fossem necessárias. Assim,</p><p>surgiram gêneros como e-mail, SMS, blog e vlog.</p><p>CURIOSIDADE</p><p>O entendimento de qualquer tipo de texto é viabilizado pelas</p><p>estratégias de observação e pela utilização de recursos linguísticos,</p><p>que nos ajudam a entender como determinada estrutura linguística</p><p>pode ou deve ser feita. De acordo com Travaglia (2002), os recursos</p><p>linguísticos usados em um texto podem ser:</p><p>• unidades linguísticas: palavra, oração, período simples ou</p><p>compostos etc.;</p><p>• categorias linguísticas: número, gênero, pessoa etc.;</p><p>• outros recursos: entonação, pausa, ritmo etc.</p><p>O uso adequado desses recursos ajuda o sujeito a atribuir</p><p>sentidos à sua ação de ler, estimula sua imaginação e o auxilia a</p><p>explorar conteúdos que o façam sair das informações explícitas. Para</p><p>conduzir a leitura, por exemplo, o autor pode utilizar estratégias de</p><p>acordo com a estrutura textual, com o intuito de conceder forma e</p><p>conteúdo a determinado texto. Além disso, ele precisa considerar</p><p>tanto aspectos técnicos quanto de construção de significado.</p><p>blog: página da</p><p>internet em que</p><p>são publicados</p><p>conteúdos</p><p>diversos,</p><p>geralmente, na</p><p>forma de texto.</p><p>vlog: blog em</p><p>que o conteúdo</p><p>é composto</p><p>por vídeos.</p><p>78 Produção e interpretação de textos</p><p>Quanto à técnica, a leitura, em nosso país, é uma ação feita</p><p>geralmente da esquerda para a direita e de cima para baixo. Já com</p><p>relação à construção de significado, o texto deve articular recursos</p><p>linguísticos, isto é, escolher palavras, conjunções, a organização das</p><p>orações, entre outros.</p><p>Todo texto produzido ou veiculado em um determinado suporte</p><p>cumpre uma função social e apresenta uma série de características,</p><p>próprias e mais ou menos específicas, que as pessoas a quem o texto</p><p>se destina reconhecem de maneira geral. Assim, ao olhar um texto</p><p>cuja apresentação se dá por estrofes e versos, logo pensamos que se</p><p>trata de um poema. Do mesmo modo, diante de um texto que traz</p><p>ingredientes e o modo de preparo, logo reconhecemos que é uma</p><p>receita. Fazemos isso quando nos deparamos com qualquer texto, pois</p><p>o nosso primeiro olhar sobre um escrito é sempre para sua estrutura.</p><p>Contudo, se fosse pedido para você desenhar um texto, muito</p><p>provavelmente você o representaria da seguinte maneira.</p><p>Figura 1 – Exemplo de estrutura de texto</p><p>Fonte: Elaborada pela autora.</p><p>Fazemos isso porque, ao ouvirmos a palavra texto, geralmente,</p><p>a primeira ideia que nos vem à mente são as partes de um texto e</p><p>o modo como elas se relacionam para formar o todo. Além disso,</p><p>apesar de o texto não ser somente algo escrito, nossa tendência</p><p>é pensar primeiro em uma narrativa ou uma dissertação, que</p><p>compõem os tipos de texto. Vejamos mais sobre cada tipo a seguir1.</p><p>1 Para a classificação dos tipos de textos, optamos por aquela feita por Jean-Paul</p><p>Bronckart (2003), somada ao tipo injuntivo de Marcuschi (2002).</p><p>Tipologias e gêneros textuais 79</p><p>4.1.1 Descritivo</p><p>Leia o fragmento de texto a seguir.</p><p>Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava</p><p>pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava</p><p>alguém ou alguma coisa, os seus olhos tomavam, por</p><p>detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era</p><p>como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da coisa que</p><p>fixava. (BARRETO, s. d., p. 2)</p><p>Observe que, nesse texto, o autor organiza os recursos linguísticos</p><p>com intenção de relatar impressões sobre a personagem. Ele utiliza</p><p>caracterizações objetivas (pequeno, magro) e subjetivas (“um forte</p><p>brilho de penetração”, “como se ele quisesse ir à alma da pessoa”).</p><p>Portanto, percebemos que o texto descritivo procura</p><p>descrever um objeto, uma pessoa ou um local, evidenciando suas</p><p>peculiaridades, componentes e partes. Durante a escrita desse tipo</p><p>de texto, o autor pode direcionar a impressão do objeto ou pessoa</p><p>descrita dependendo de como ele utiliza adjetivos, advérbios e</p><p>outros elementos gramaticais.</p><p>Compare, a seguir, a utilização dos adjetivos nos dois textos.</p><p>Texto 1</p><p>Essa linda moça loira, de</p><p>olhos azuis, é uma pessoa muito</p><p>estudiosa. Ela sempre tira boas</p><p>notas e é elogiada pelos professores</p><p>e familiares. Por ser bondosa e</p><p>simpática, tem muitos amigos e</p><p>está sempre passeando com eles em</p><p>parques, shoppings ou sorveterias.</p><p>Texto 2</p><p>Essa horrível moça morena,</p><p>de olhos castanhos, é uma pessoa</p><p>muito desleixada. Ela sempre</p><p>tira notas baixas e é repreendida</p><p>pelos professores e familiares. Por</p><p>ser maldosa e antipática, não tem</p><p>amigos e está sempre sozinha em</p><p>lugares sombrios e fechados.</p><p>80 Produção e interpretação de textos</p><p>Se fossemos desenhar um retrato dessas personagens, talvez elas</p><p>sairiam da seguinte forma:</p><p>Figura 2 – Moça carregando livros e</p><p>conversando com uma amiga</p><p>Figura 3 – Moça sozinha em um lugar</p><p>escuro</p><p>Iry</p><p>na</p><p>In</p><p>sh</p><p>yn</p><p>a/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>VG</p><p>st</p><p>oc</p><p>ks</p><p>tu</p><p>di</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Imaginamos isso porque o autor consegue criar em nossa mente</p><p>uma imagem sobre o que está sendo descrito. Dessa forma, ele</p><p>consegue manipular</p><p>esse objeto ou personagem, induzindo o leitor</p><p>a ver determinadas coisas da mesma forma que ele. Assim, temos</p><p>que tomar cuidado com estereótipos.</p><p>4.1.2 Narrativo</p><p>Leia o trecho a seguir.</p><p>Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido</p><p>por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da</p><p>tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo</p><p>do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava</p><p>pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo,</p><p>às vezes, e sempre o pão da padaria francesa. Não gastava</p><p>nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às</p><p>três e quarenta, por ai assim, tomava o bonde, sem erro de</p><p>um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa</p><p>rua afastada de São Januário, bem exatamente às quatro e</p><p>quinze, como se fosse a aparição de um astro, um eclipse,</p><p>enfim um fenômeno matematicamente determinado,</p><p>previsto e predito. (BARRETO, s. d., p. 1)</p><p>Perceba que o narrador conta a história do personagem</p><p>Policarpo Quaresma, com foco em uma progressão temporal</p><p>Tipologias e gêneros textuais 81</p><p>que marca a hora que a personagem saía de seu trabalho e a</p><p>hora que chegava em casa (três e quarenta às quatro e quinze,</p><p>respectivamente). Além disso, são marcados vários espaços, como</p><p>Arsenal de Guerra, confeitaria, padaria, bonde e uma rua afastada</p><p>de São Januário onde se desenrola todo o trajeto de Policarpo.</p><p>Os textos narrativos são geralmente organizados</p><p>em torno de um conflito; assim, o enredo vai se</p><p>desenrolando em torno de algum antagonismo ou</p><p>oposição entre forças. O conflito pode ocorrer entre</p><p>uma personagem representando o bem e a outra o</p><p>mal, entre uma personagem com opiniões diferentes</p><p>da outra, ou ainda, entre famílias ou grupos com</p><p>interesses e crenças opostas.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Dessa maneira, o texto narrativo é caracterizado pela dinâmica</p><p>interna que ocorre dentro do contexto da história que está sendo</p><p>narrada. Sua função é criar uma proximidade com o leitor, fazendo</p><p>com que ele, muitas vezes, se identifique na história e seja conduzido</p><p>pelo fio narrativo que passa por personagens, tempo e espaço, marca</p><p>um narrador e determina todo um enredo.</p><p>Nesse tipo de texto, podemos encontrar três tipos de discurso</p><p>narrativo:</p><p>• direto: a fala da personagem é descrita de modo direto e é</p><p>marcada pelo uso do travessão;</p><p>• indireto: o narrador, por meio de sua visão, conta a história</p><p>da personagem, na terceira pessoa do singular;</p><p>• indireto livre: é uma mistura do discurso direto com o</p><p>indireto, e o narrador interfere na fala do personagem.</p><p>82 Produção e interpretação de textos</p><p>No trecho apresentado, temos a história de Policarpo Quaresma</p><p>sob a visão do narrador, o que caracteriza discurso indireto.</p><p>A análise de como o narrador conta a história nos ajuda a ter senso</p><p>crítico, na medida em que devemos tentar entender as intenções e</p><p>visões do autor e, então, refutá-las ou simplesmente compreendê-las.</p><p>4.1.3 Argumentativo</p><p>Observe o texto a seguir.</p><p>Com tantos avanços tecnológicos da chamada globalização,</p><p>há um redescobrimento da cultura local em contraposição</p><p>à global e, portanto, um crescente desejo das pessoas de</p><p>conhecerem lugares novos e outras culturas. Nesse sentido,</p><p>as viagens trazem uma ampliação de horizontes para</p><p>aqueles que se deslocam de um lugar a outro. Trazemos</p><p>em nossas malas lembranças, histórias para contar, novos</p><p>amigos que algum dia podemos reencontrar e um lugar</p><p>para voltar. Certamente, voltamos diferentes do que fomos,</p><p>com a própria experiência da viagem, ainda mais quando</p><p>estamos abertos e dispostos à troca e ao estabelecimento de</p><p>uma relação afetiva com as pessoas e o lugar que visitamos.</p><p>Já que exigimos políticas públicas para a geração de trabalho,</p><p>também temos que exigir políticas públicas voltadas para</p><p>o lazer, divertimento e eventos culturais, importantes</p><p>momentos da vida que devem ser garantidos como direito a</p><p>todos. (REGULES et al., 2007, p. 17)</p><p>Com o propósito de evidenciar que o tema turismo é um direito</p><p>social, os autores argumentam que os avanços tecnológicos e a ideia</p><p>de globalização fazem com que as pessoas sintam mais vontade de</p><p>conhecer lugares novos e, consequentemente, culturas novas.</p><p>Desse modo, eles usam um texto argumentativo. Com essa</p><p>construção, o emissor procura evidenciar a ideia em que ele acredita,</p><p>defender seu ponto de vista e convencer o leitor do tema tratado.</p><p>Nesse tipo de texto, é fundamental que se apresente uma progressão</p><p>de ideias, que vão tomando proporções maiores à medida que o</p><p>texto vai se desenvolvendo.</p><p>Tipologias e gêneros textuais 83</p><p>Assim, veja que o trecho começa com a argumentação que</p><p>evidencia o desejo das pessoas de viajarem e acaba com o alerta de</p><p>que é necessária a exigência de políticas públicas voltadas ao lazer.</p><p>Nesse entremeio, há um encaminhamento que faz a argumentação</p><p>progredir e ser creditada ao longo do texto.</p><p>Portanto, diante desse tipo de texto, é essencial que o leitor</p><p>observe os argumentos, veja se eles estão coerentes com base no seu</p><p>conhecimento histórico, social e cultural e faça a mediação de sua</p><p>própria leitura, tomando os argumentos para si ou descartando-os.</p><p>4.1.4 Dialogal</p><p>Leia o trecho de uma entrevista feita com Oscar Castro Neves,</p><p>violinista emérito, compositor, arranjador e produtor.</p><p>JVP – Oscar, conte, para começar, como você compôs</p><p>“Chora tua tristeza”, seu primeiro grande sucesso.</p><p>OCN – Fiz “Chora tua tristeza” dentro de um lotação,</p><p>brincando com intervalos. Cheguei em casa correndo e</p><p>peguei o violão, para poder tocar a harmonia que tinha</p><p>no ouvido desde que sentei na lotação. Quem colocou a</p><p>letra foi o Luvercy Fiorini, um arquiteto, bom amigo, meu</p><p>parceiro também em “Menina feia”. Na mesma época, fiz</p><p>outra música com Ronaldo Bôscoli, chamada “Não faz</p><p>assim”, gravada pelos Garotos da Lua, aquele grupo de que o</p><p>João Gilberto participou. (PIMENTEL, s.d., p. 11)</p><p>No trecho apresentado, percebemos que há uma conversa</p><p>entre duas pessoas. As siglas JVP e OCN se referem às iniciais</p><p>dos nomes do entrevistador e entrevistado (respectivamente, José</p><p>Vicente Pimentel e Oscar Castro Neves). Dizemos que houve,</p><p>então, um texto dialogal, que é caracterizado, como o próprio</p><p>nome indica, por um diálogo, ou seja, um discurso produzido em</p><p>situações de comunicação direta. As partes do texto são distinguidas</p><p>estruturalmente por uma pergunta seguida de uma resposta.</p><p>84 Produção e interpretação de textos</p><p>Diante de um texto dialogal, devemos analisar a relação entre</p><p>os envolvidos e tentar verificar se as respostas são coerentes, se o</p><p>entrevistado é claro ou faz rodeios para não responder à pergunta</p><p>e qual é o objetivo da entrevista. As perguntas realizadas sempre</p><p>evidenciam a intencionalidade do entrevistador: revelar segredos do</p><p>entrevistado, esclarecer fatos ou, simplesmente, conhecer mais sobre</p><p>a vida de uma pessoa. Nesse caso, temos o interesse de Pimentel em</p><p>saber mais a respeito do primeiro sucesso do artista.</p><p>4.1.5 Explicativo</p><p>Você já ouviu falar de flogs e vlogs? A seguir, leia o trecho sobre eles.</p><p>Flogs e vlogs são páginas pessoais que permitem a você se</p><p>comunicar por meio de imagens pela internet. Esses blogs</p><p>de fotos e vídeos participam de uma transformação no</p><p>universo da comunicação. Com eles, qualquer pessoa pode</p><p>utilizar a rede para se expressar e conversar com o mundo.</p><p>[...]</p><p>O que une flogs e vlogs é o fato de o equipamento digital</p><p>para produzi-los geralmente ser o mesmo. A maioria das</p><p>câmeras fotográficas também grava vídeos, câmeras de</p><p>vídeo podem fotografar e novos modelos de celular e PDAs</p><p>(computadores de mão) vêm com as duas opções. Algumas</p><p>das noções técnicas da linguagem visual, além disso,</p><p>aplicam-se tanto a fotos como vídeos.</p><p>Você pode montar duas páginas, uma para fotos, outra para</p><p>vídeos. Se preferir, crie um blog que reúna tudo. O texto está</p><p>lá também, no título, legenda e nos comentários que você e</p><p>seu público fazem. Diversos serviços proporcionam essa</p><p>integração, com ferramentas de publicação que mesclam todos</p><p>os conteúdos multimídia. (FOSCHINI;</p><p>TADDEI, s.d., p. 9)</p><p>O objetivo desse texto é explicar o que é vlog e flog de maneira</p><p>direta e objetiva. Assim, reúne as informações do equipamento</p><p>necessário para fazer um vlog ou flog, noções técnicas da linguagem</p><p>visual necessária e ideias de como montar páginas.</p><p>Tipologias e gêneros textuais 85</p><p>Percebemos, então, que se trata de um texto explicativo, o qual</p><p>tem por objetivo contribuir com um tipo de conhecimento mais</p><p>científico, ou seja, com base em fatos, e não em opiniões. Esse</p><p>tipo de texto é essencial para momentos de estudo, para sanar</p><p>curiosidades ou, simplesmente, para aprender coisas novas. Ele</p><p>também é fundamental para a ampliação de conhecimento, difusão</p><p>de informações ou exposição de algum dado ou situação.</p><p>4.1.6 Injuntivo</p><p>A seguir, leia o passo a passo de como captar um bom momento</p><p>para postar nas redes sociais.</p><p>Identifique o foco de atenção – a composição, um dos</p><p>elementos estudados nas artes visuais, refere-se à relação</p><p>dos objetos de uma cena com o espaço. É um conceito</p><p>relacionado a harmonia, proporção, movimento, a</p><p>parâmetros subjetivos. A composição depende mais da</p><p>sensibilidade do que de regras técnicas. Seguem algumas</p><p>dicas:</p><p>• Escolha um ponto de interesse que atraia a atenção dos</p><p>olhos.</p><p>• Experimente não centralizar esse ponto, desloque o foco</p><p>da atenção para o lado. Divida a imagem em três partes</p><p>iguais nos sentidos horizontal e vertical. Os quatro</p><p>pontos formados pela intersecção (encontro) destas</p><p>linhas, conhecidos como pontos áureos, são bons lugares</p><p>para posicionar o foco de interesse.</p><p>• Procure não “asfixiar” seu objeto, observe como o espaço</p><p>ao redor do foco de interesse cria efeitos diferentes. O</p><p>enquadramento dá dramaticidade às imagens.</p><p>• Fundos cheios de detalhes roubam a atenção do objeto</p><p>principal.</p><p>• Aproxime-se de seu objeto, mude o enquadramento,</p><p>deite-se no chão, se for preciso. Não posicione a câmera</p><p>onde é mais confortável para você e sim onde estão os</p><p>melhores ângulos. (FOSCHINI; TADDEI, s.d., p. 20-21)</p><p>86 Produção e interpretação de textos</p><p>Vemos que esse texto traz instruções sobre como tirar fotos mais</p><p>harmoniosas e proporcionais. Assim, trata-se de um texto injuntivo.</p><p>Ele tem como objetivo evidenciar a realização de um procedimento</p><p>qualquer ou ordenar procedimentos essenciais à realização de</p><p>alguma atividade ou utilização de algum produto.</p><p>Finalmente, para entendermos melhor como a forma, a</p><p>função, o conteúdo e, até mesmo, o suporte podem nos conduzir</p><p>ao aprendizado de práticas sociais de leitura e escrita, é sempre</p><p>importante praticarmos a percepção dos pontos levantados sobre</p><p>cada tipo de texto. Com isso, garantiremos uma melhor experiência</p><p>textual, além de um senso crítico apurado.</p><p>4.2 Narrar, argumentar e comunicar</p><p>Ao considerar os tipos de textos estudados,</p><p>vamos conceder especial atenção aos tipos narrativo</p><p>e argumentativo, por serem considerados de grande</p><p>frequência social. Seja em uma festa, no trabalho,</p><p>seja na hora do intervalo, é muito comum contarmos</p><p>uma história de nossas vidas, fazer uma fofoca da</p><p>vizinha ou contar um spoiler daquele filme ou seriado que está na</p><p>moda. Do mesmo modo, também é muito comum expormos nossas</p><p>opiniões sobre um fato ocorrido em algum lugar, defender a atitude</p><p>de um amigo, concordar ou discordar de alguém, desde uma comida</p><p>preferida até um time de futebol. Hoje em dia, com as redes sociais, é</p><p>ainda mais comum observarmos as pessoas defendendo seus pontos</p><p>de vista com o objetivo de convencer ou persuadir outros com sua</p><p>opinião.</p><p>O grande problema é que, muitas vezes, vemos argumentações</p><p>sem critérios, de modo fragmentado, sem o uso de recursos lógicos</p><p>ou linguísticos que dariam mais credibilidade aos argumentos,</p><p>tirando-os do senso comum e inserindo-os em um rigor científico.</p><p>Vídeo</p><p>spoiler: revelar</p><p>um trecho ou</p><p>contar o final</p><p>de uma obra de</p><p>ficção antes de a</p><p>outra pessoa ter</p><p>visto/lido.</p><p>Tipologias e gêneros textuais 87</p><p>Nesses casos, o texto falado/escrito pode parecer mais narrativo do</p><p>que argumentativo.</p><p>Então, para entender quais são as principais diferenças entre</p><p>narrar e argumentar e saber como utilizar cada tipo de texto com</p><p>eficiência, vamos nos aprofundar nesses tipos e perceber em que</p><p>estruturas de enunciados eles ocorrem.</p><p>Para isso, leia os textos a seguir e acompanhe seus</p><p>desmembramentos.</p><p>Texto 1</p><p>Miau, miau</p><p>O ratinho estava na toca e do lado de fora,</p><p>o gato:</p><p>- MIAU, MIAU, MIAU...</p><p>O tempo passava e ele ouvia:</p><p>- MIAU, MIAU, MIAU...</p><p>Depois de várias horas e já com muita fome</p><p>o rato ouviu:</p><p>- AU! AU! AU!</p><p>Então deduziu: “Se tem cachorro lá fora, o</p><p>gato foi embora”. Saiu disparado em busca de</p><p>comida. Nem bem saiu da toca, o gato CRAU!</p><p>Inconformado, já na boca do gato perguntou:</p><p>- Pô, gato! Que sacanagem é essa?????</p><p>E o gato respondeu:</p><p>- Meu filho, hoje, nesse mundo</p><p>“globalizado”, quem não fala, pelo menos, dois</p><p>idiomas... MORRE DE FOME...</p><p>INTRODUÇÃO:</p><p>a. Assunto: a desconfiança entre o rato e o gato.</p><p>b. Personagens: o gato e o rato.</p><p>c. Espaço: a toca do rato e seus arredores.</p><p>d. Tempo: várias horas.</p><p>DESENVOLVIMENTO:</p><p>e. Complicação: o rato é pego pelo gato e fica</p><p>inconformado.</p><p>CONCLUSÃO:</p><p>f. Desfecho: o gato explica que enganou o rato</p><p>pelo fato de falar dois idiomas.</p><p>Fonte: BRASIL, 2006, p. 63.</p><p>88 Produção e interpretação de textos</p><p>Texto 2</p><p>Futebol global</p><p>O futebol em sua forma atual tem</p><p>mais de um século. Nasceu falando inglês</p><p>e em inglês ainda fala. Para o torcedor</p><p>do esporte mais popular do mundo,</p><p>para o apaixonado da mais universal</p><p>das paixões, a camiseta do clube é um</p><p>manto sagrado, uma segunda pele, o</p><p>outro peito. No entanto, a camiseta</p><p>transformou-se num cartaz publicitário</p><p>ambulante de quem paga os campeonatos.</p><p>Por isso na final da Copa do Mundo</p><p>em 1998, podíamos dizer que a Adidas,</p><p>patrocinadora da seleção francesa,</p><p>venceu a Nike, patrocinadora da seleção</p><p>brasileira, quando o Brasil perdeu para</p><p>a França.</p><p>INTRODUÇÃO:</p><p>Situa o leitor sobre o tema do</p><p>texto: futebol.</p><p>DESENVOLVIMENTO:</p><p>O autor aprofunda o tema e traz</p><p>argumentos: a camiseta de futebol é</p><p>algo precioso para o torcedor e um</p><p>cartaz publicitário.</p><p>CONCLUSÃO:</p><p>O autor se posiciona com base nos</p><p>argumentos e finaliza o texto: a</p><p>Adidas venceu a Nike em termos de</p><p>publicidade.</p><p>Fonte: Galeano, 2006, p. 20.</p><p>Apesar de os dois textos serem compostos por introdução,</p><p>desenvolvimento e conclusão, perceba que o objetivo de cada um</p><p>deles é bastante diferente.</p><p>No texto 1, há a presença de elementos próprios do texto</p><p>narrativo, como as personagens, o narrador em terceira pessoa do</p><p>singular e o conflito, que se inicia com a observação auditiva do</p><p>rato de que há um gato lá fora. Nesse momento, o autor retoma uma</p><p>situação de conhecimento de mundo na mente do leitor, bastante</p><p>comum em desenhos animados, contos ou histórias no geral: gatos</p><p>e ratos são inimigos. Com base nessa premissa, o autor cria uma</p><p>dificuldade e o rato não pode se libertar de sua própria toca para não</p><p>ser pego pelo gato.</p><p>Tipologias e gêneros textuais 89</p><p>O conflito nasce então da oposição entre esses animais e das</p><p>lacunas deixadas pelo autor para que o leitor as preencha de acordo</p><p>com o seu conhecimento prévio, articulando as partes do texto.</p><p>Portanto, é importante reconhecer o assunto, as personagens, o</p><p>tempo e o espaço já na introdução do texto, visto que, por meio</p><p>dessas informações, os conhecimentos entram em ação na mente</p><p>dos leitores, o que produz sentido naquilo que está sendo lido.</p><p>No desfecho, o narrador deixa uma reflexão para o leitor sobre</p><p>a importância de se falar mais de uma língua em um mundo</p><p>globalizado, onde a integração entre países e culturas se dá de</p><p>maneira cada vez mais intensa e veloz. A tecnologia facilita bastante</p><p>essa integração e, assim, exige cada vez mais dos cidadãos que se</p><p>conectem de alguma forma a outros povos, crenças ou tipos de</p><p>manifestações culturais, como o futebol, tema do texto 2.</p><p>Nesse texto, assim como no primeiro, o início já apresenta o</p><p>assunto principal; porém,</p><p>em vez de evidenciar elementos como</p><p>espaço, tempo e personagens, o autor segue afunilando o tema</p><p>maior (futebol) com o uso de raciocínios que contribuam para</p><p>convencer o leitor.</p><p>O autor aponta, por exemplo, o fato de pessoas utilizarem</p><p>camisetas de clubes como se fossem mantos sagrados. Essa analogia</p><p>serve como um recurso argumentativo. Desse modo, como os</p><p>jogadores e torcedores utilizam a camiseta com tanto cuidado, ela</p><p>também se torna um bom lugar para fazer anúncios publicitários.</p><p>O autor conclui, então, que a Adidas venceu a Nike quanto à</p><p>publicidade da marca.</p><p>Independentemente de qual recurso o autor se aproprie, é</p><p>fundamental que ele consiga articular as ideias a fim de garantir o</p><p>encadeamento e a organização do assunto tratado, deixando, assim,</p><p>o leitor mais confortável durante a leitura. Cavalcante (2012) reforça</p><p>90 Produção e interpretação de textos</p><p>a importância do encadeamento, afirmando que, para um texto ser</p><p>articulado, é preciso relacionar muito bem as ideias escritas, além</p><p>de estabelecer tipos específicos de relações entre elas. Para isso,</p><p>podemos contar com o uso adequado de conjunções.</p><p>Observe as palavras destacadas no trecho a seguir.</p><p>• “No entanto, a camiseta transformou-se num cartaz publicitário</p><p>ambulante de quem paga os campeonatos. Por isso na final da</p><p>Copa do Mundo em 1998 [...]” (GALEANO, 2006, p. 20).</p><p>Ao utilizar a conjunção no entanto, o autor anuncia que está</p><p>inserindo no texto uma ideia adversativa, contrária, a que ele</p><p>tinha acabado de escrever. O leitor, diante disso, pode interpretar</p><p>e analisar a frase como um contraste à ideia principal do texto ou</p><p>perceber se o autor apenas está tentando fazer uma compensação</p><p>quanto ao assunto apresentado. Em textos argumentativos, esse tipo</p><p>de articulação pode fazer com que o leitor dê mais crédito ao ponto</p><p>defendido, visto que ele pode ver que o autor mostra o outro lado e</p><p>expõe contra-argumentos.</p><p>Em seguida, encontramos a conjunção por isso, o que faz com</p><p>que o leitor entenda que se trata de uma ideia conclusiva. Assim, o</p><p>leitor é levado a concluir que, devido ao fato de as camisetas serem</p><p>bons locais de anúncio, a marca do time vencedor da Copa também</p><p>venceu em termos publicitários. Outras conjunções que possuem</p><p>esse mesmo efeito são logo, portanto e assim. Vendo a consequência</p><p>ou conclusão do fato de maneira evidenciada, o leitor pode ser</p><p>conduzido pelo autor e, até mesmo, reproduzir ou fazer aquilo que</p><p>ele propõe.</p><p>Diante disso, confirmamos que o leitor deve sempre se posicionar</p><p>criticamente diante de qualquer tipo de texto, refletindo sobre os</p><p>recursos utilizados e fazendo julgamentos acerca dos assuntos lidos,</p><p>assim como sobre como utilizá-los em benefício próprio a fim de</p><p>garantir uma escrita de qualidade.</p><p>Tipologias e gêneros textuais 91</p><p>4.3 Gêneros textuais</p><p>Compreender os diferentes tipos de texto facilita</p><p>nosso entendimento dos gêneros textuais, garantindo</p><p>um contato com o rico universo textual existente,</p><p>seja porque temos como objetivo ter acesso a uma</p><p>informação, expressar ou defender pontos de vista</p><p>e conhecer a história da humanidade, seja porque</p><p>queremos ter acesso à estética dos usos artísticos da linguagem. Esse</p><p>contato promove o reconhecimento das características específicas</p><p>de cada gênero textual e dá suporte às produções comunicativas</p><p>individuais ou coletivas. Além disso, possibilita aos sujeitos que</p><p>estabeleçam relações entre os textos, alcançando altos níveis de</p><p>compreensão.</p><p>Contudo, primeiro, é indispensável entender a diferença entre</p><p>tipos de texto e gêneros textuais para que o processo de comunicação</p><p>se efetive entre interlocutores, de acordo com o contexto e o uso</p><p>adequado da linguagem. Os tipos de texto compreendem as</p><p>estruturas textuais rígidas e distintas entre si, com uma quantidade</p><p>limitada de categorias; enquanto os gêneros textuais são mais flexíveis</p><p>em suas composições, têm uma enorme variedade de categorias e se</p><p>relacionam diretamente às funções sociais que exercem.</p><p>Não há comunicação sem a utilização de gêneros textuais. Desse</p><p>modo, se você já escreveu uma mensagem de texto ou mandou um</p><p>áudio pelo celular para alguém, rabiscou um poema em um papel</p><p>ou defendeu um ponto de vista nas redes sociais, saiba que você</p><p>já usou os gêneros textuais no seu dia a dia, e continuará usando</p><p>nas situações mais inusitadas. Operacionalizamos estratégias de</p><p>escrita ou fala, mesmo que de modo automatizado, o tempo todo</p><p>para atender às características peculiares de cada discurso. Isso quer</p><p>dizer que até para escrever uma simples legenda em uma foto, você</p><p>terá que utilizar uma série de conhecimentos linguísticos como a</p><p>gramática ou a organização das palavras em um enunciado.</p><p>Vídeo</p><p>92 Produção e interpretação de textos</p><p>Conhecer essas estratégias permite ao sujeito desenvolver</p><p>sua competência discursiva, que vai sendo aperfeiçoada com sua</p><p>participação em diversas situações de uso da linguagem. Assim, o</p><p>leitor precisa ter consciência de que todos os textos exercem um</p><p>papel social muito importante em nossas vidas e não podem ser</p><p>tratados como simples registros que serão esquecidos. Mesmo que</p><p>esqueçamos o que foi lido em uma postagem de uma rede social, no</p><p>momento da leitura, ela exerce seu papel social.</p><p>E o que devemos esperar de um leitor ou produtor de textos mais</p><p>experiente? Pressupomos que ele interprete e escreva textos orais</p><p>e escritos e perceba a mensagem e a melhor forma de atingir seu</p><p>interlocutor, efetivando uma interação real.</p><p>Somente a prática constante de leitura e produção subsidiará o</p><p>sujeito na compreensão ou escrita de texto como unidade de sentido</p><p>e forma de representação de um pensamento. Esta só é possível se</p><p>o indivíduo conseguir reconhecer a dinamicidade e a complexidade</p><p>variável dos gêneros textuais, determinadas por Bakhtin (1992) e</p><p>reiteradas por Marcuschi (2002, p. 2), que conceitua os gêneros</p><p>como “eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos”.</p><p>Se por um lado é importante que o leitor/produtor de textos</p><p>consiga se comunicar utilizando gêneros textuais, por outro, a</p><p>maleabilidade dos gêneros pode, muitas vezes, dificultar a definição</p><p>e classificação de textos produzidos socialmente em categorias</p><p>precisas. Isso se dá porque a explosão de novas tecnologias digitais,</p><p>suportes textuais e meios de comunicação acaba dando origem à</p><p>“transmutação” de gêneros, além de criar outros absolutamente</p><p>inovadores.</p><p>Porém, mesmo diante dessas dificuldades, é possível descrever</p><p>como os gêneros se constituem e circulam socialmente, além de</p><p>ressaltar suas características por meio de análises linguísticas. Isso</p><p>torna o trabalho de leitura e escrita mais significativo, já que ler e</p><p>escrever textos são atividades comunicativas diárias.</p><p>Tipologias e gêneros textuais 93</p><p>Por um motivo de delimitação de tema e objetividade, preferimos</p><p>nos ater aos gêneros lidos e escritos. Contudo, ressaltamos que eles</p><p>também podem ser orais. Além disso, há vários gêneros que podem</p><p>orientar o leitor na definição ou delimitação de uma escrita ou</p><p>leitura que favoreça o conhecimento.</p><p>Alguns exemplos de gêneros, com base nos tipos de texto, são</p><p>aqueles originados:</p><p>• do tipo de texto narrativo: tem a característica principal de</p><p>apresentar sequência temporal. Por exemplo: conto, relato,</p><p>fábula, notícia, romance, novela, mito, lenda, piada e apólogos.</p><p>• do tipo de texto argumentativo: tem a característica principal</p><p>de convencer o leitor ou levá-lo a ver o fato que se defende</p><p>de determinada maneira. Por exemplo: editoriais, textos de</p><p>opinião e textos jurídicos.</p><p>• do tipo de texto dialogal: tem a característica principal</p><p>de apresentar uma situação de interação direta entre os</p><p>interlocutores. Por exemplo: entrevistas e textos teatrais.</p><p>• do tipo de texto explicativo: tem a característica principal de</p><p>propagar uma informação específica ou um conhecimento</p><p>com base em fatos. Por exemplo: dissertações, teses,</p><p>gramáticas e dicionários.</p><p>• do tipo de texto injuntivo: tem a característica principal</p><p>de</p><p>evidenciar um procedimento específico. Por exemplo: receitas</p><p>e manuais.</p><p>Nem sempre é fácil classificar um texto em um gênero apenas. Um</p><p>exemplo dessa dificuldade é o gênero história em quadrinhos, pois</p><p>ele pode ser considerado dialogal ao representar um diálogo entre</p><p>uma pessoa e outra, mas também pode ser considerado narrativo, já</p><p>que cada quadrinho revela uma sequência de acontecimentos.</p><p>94 Produção e interpretação de textos</p><p>Do mesmo modo, um e-mail pode ser: narrativo, visto que pode</p><p>trazer uma história; argumentativo, caso o emissor queira convencer</p><p>o interlocutor da sua história e tenha escrito argumentos para isso;</p><p>e dialogal, pois pode trazer a reprodução da fala entre duas ou mais</p><p>pessoas em seu corpo.</p><p>Algumas características dos gêneros textuais são:</p><p>• ter uma estrutura própria;</p><p>• apresentar recursos linguísticos específicos;</p><p>• ser produzido com base em diferentes funções e intenções;</p><p>• ser escrito para interlocutores e suportes diferentes;</p><p>• apresentar diferentes formas de ver, compreender e representar</p><p>a realidade, diferentes linguagens e/ou níveis de linguagens e</p><p>recursos visuais.</p><p>Porém, para fazer uma classificação, o leitor ou produtor de textos</p><p>deve se ater à predominância das características tanto do tipo de texto</p><p>quanto do gênero textual. Por exemplo, em A Vida do Viajante, de Luiz</p><p>Gonzaga2, podemos verificar que o texto se encaixa no gênero letra de</p><p>música, escrita em forma de poema. Por esse motivo, observamos</p><p>uma estrutura de estrofes e versos, recursos linguísticos como rimas</p><p>(recordações/sertões) e linguagem conotativa.</p><p>Além disso, a intencionalidade do texto é emocionar o leitor com</p><p>a divulgação da cultura popular e das riquezas e belezas do nordeste</p><p>semiárido. Isso fica evidenciado na relação da poeira com o passado,</p><p>visto que ela representa aquilo que já passou ao se levantar quando as</p><p>pessoas andam por ela. Desse modo, o autor usa a função conotativa</p><p>da linguagem. Por contar a vida de um viajante e evidenciar toda sua</p><p>progressão pelos lugares que ele passou ou pelas emoções que viveu,</p><p>2 A VIDA do viajante. Intérprete: Luiz Gonzaga. Compositores: Hervê Cordovil e Luiz</p><p>Gonzaga. In: GONZAGÃO e Gonzaguinha – A Vida do Viajante. São Paulo: RCA Victor</p><p>Brasileira, 1981. 1 LP, disco 2, faixa 8. Letra disponível em: https://genius.com/Luiz-</p><p>gonzaga-a-vida-de-viajante-lyrics. Acesso em: 14 out. 2019.</p><p>Tipologias e gêneros textuais 95</p><p>o texto se encaixa no tipo narrativo. Vale lembrar que o poema pode</p><p>ter como suporte os livros, as músicas e as redes sociais.</p><p>Portanto, podemos entender que todo texto exige uma forma e um</p><p>conteúdo que mais bem atendam aos nossos objetivos. Além disso, é</p><p>necessário analisar qual o tipo de texto, seu gênero e o suporte em que</p><p>é veiculado para entender e produzir o texto em sua totalidade.</p><p>Considerações finais</p><p>Tornar-se leitor e escritor significa apropriar-se de uma tradição</p><p>de leitura e escrita, isto é, assumir uma herança cultural, que envolve</p><p>diversas operações, como conhecer o texto, seu contexto e a relação</p><p>entre textos e autores.</p><p>O desafio dos leitores reside, então, em saber selecionar</p><p>os textos e como eles serão interpretados, quais intervenções</p><p>serão necessárias, de que tipo de auxílio ou recurso os sujeitos</p><p>necessitarão, entre outras questões mais específicas de cada situação</p><p>de gênero. Assim, muitas vezes, meramente conhecer os tipos de</p><p>texto que circulam socialmente não basta. É preciso refletir sobre</p><p>os elementos envolvidos para saber tomar decisões certas e, assim,</p><p>aprimorar o processo de compreensão.</p><p>Quanto aos gêneros textuais, eles promovem o pensamento</p><p>crítico, pois os sujeitos emissores necessitam pensar naquilo que</p><p>dirão e farão para serem compreendidos. Nesse processo, ocorre a</p><p>negociação de significados e se estabelece a possibilidade de novas</p><p>aprendizagens leitoras ou escritoras.</p><p>Assim sendo, quando alguém, diante de um jogo, consegue</p><p>não só inferir suas regras, mas também pesquisá-las em páginas da</p><p>internet e compreendê-las, dizemos que essa pessoa se apropriou</p><p>do conceito e uso de gêneros, pois ela está reconhecendo a função</p><p>social do texto. Do mesmo modo, se ela for à caixa de correio e</p><p>encontrar folhetos de publicidade, poderá reconhecer esse gênero</p><p>96 Produção e interpretação de textos</p><p>e perceber marcas de convencimento que pretendem influenciar o</p><p>leitor a comprar um determinado produto.</p><p>Nessas ocasiões, os indivíduos exercitam comportamentos de</p><p>leitores e escritores, assimilando conhecimentos já adquiridos e</p><p>desenvolvendo capacidades como a percepção das coisas, a reflexão,</p><p>a expressão do pensamento pela linguagem e o reconhecimento das</p><p>relações entre fatos e fenômenos do dia a dia, necessários ao manejo</p><p>de qualquer linguagem.</p><p>Por fim, as interações com os textos nos permitem desenvolver</p><p>os potenciais de participação, cooperação e crítica cultural ou</p><p>social. Ao mesmo tempo, elas nos exigem coerência, pois somos</p><p>convidados, muitas vezes, a compartilhar nossas estratégias e</p><p>justificar nossas conclusões, trocar opiniões, pontos de vista e ideias.</p><p>Assim, capacitar o leitor para o uso social e cultural da leitura e</p><p>escrita não tem fim.</p><p>Ampliando seus conhecimentos</p><p>• KOCHE, V. S.; MARINELLO, A. F. Gêneros textuais: práticas</p><p>de leitura escrita e análise linguística. São Paulo: Vozes, 2015.</p><p>Esse livro traz propostas de leitura e escrita de diferentes</p><p>gêneros textuais, com foco no aperfeiçoamento da</p><p>competência comunicativa com base na prática de análise</p><p>linguística.</p><p>• YOSHIDA, S. Você sabe reconhecer os gêneros textuais?</p><p>Faça o teste. Nova Escola, 1 ago. 2018. Disponível em: https://</p><p>novaescola.org.br/conteudo/12166/voce-sabe-reconhecer-</p><p>os-generos-textuais-faca-o-teste. Acesso em: 1 out. 2019.</p><p>Nesse link, você encontra um teste para responder a 13</p><p>perguntas e saber se você sabe reconhecer os diferentes</p><p>gêneros textuais. Vale a pena conferir!</p><p>Tipologias e gêneros textuais 97</p><p>• GÊNEROS textuais [1/12] [pt] (Genres) – Carolyn Miller &</p><p>Charles Bazerman. [S.l.: s.d.], 2011. 1 vídeo (4 min). Publicado</p><p>pelo canal nigufpe. Disponível em: https://www.youtube.</p><p>com/watch?v=-YFBvrVLF5I. Acesso em: 11 out. 2019.</p><p>Para aprender mais sobre o conceito de gêneros textuais,</p><p>assista a todas as partes dessa série de vídeos e acompanhe o</p><p>bate-papo dos professores universitários dos EUA, Carolyn</p><p>Miller e Charles Bazerman.</p><p>Atividades</p><p>1. Escreva um texto descritivo de alguém que você conhece</p><p>e utilize recursos linguísticos para cumprir a intenção</p><p>desejada.</p><p>2. Cite duas tipologias de texto e comente uma característica de</p><p>cada uma.</p><p>3. Complete as lacunas apresentadas a seguir em uma folha</p><p>a parte, criando uma bula de remédio, com base nas</p><p>características de um texto injuntivo.</p><p>Nome do remédio: _________________ (invente o nome do remédio)</p><p>Indicações: _________________ (diga para que o remédio serve)</p><p>Reações adversas: _______________ (escreva as reações que o remédio pode causar</p><p>se utilizado em grande quantidade ou se não for seguida a quantidade adequada)</p><p>Posologia: _________________ (indique a dose adequada do remédio)</p><p>98 Produção e interpretação de textos</p><p>Referências</p><p>BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.</p><p>BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. 17. ed. São Paulo: Ática,</p><p>[s.d.]. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/</p><p>DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1867%3E. Acesso em: 1</p><p>out. 2019.</p><p>BRASIL. Miau, Almanaque do Alua, Rio de Janeiro, SAPÉ, n. 2, jan. 2006.</p><p>Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/</p><p>me003418.pdf. Acesso em: 11 out. 2019.</p><p>BRONCKART, J. P. Gêneros textuais, tipos de discursos e operações</p><p>psicolinguísticas. Revista de Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v. 11,</p><p>n. 1, p. 49-67, 2003.</p><p>CAVALCANTE, M. M. Os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2012.</p><p>FOSCHINI, A. C.; TADDEI, R. R. Flog & Vlog. [S. l: s. d.]. Coleção Conquiste</p><p>a Rede. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/</p><p>DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=33101.</p><p>Acesso em: 1 out.</p><p>2019.</p><p>GELEANO, E. Futebol global. In: BRASIL. Almanaque do Aluá, Rio de</p><p>Janeiro, SAPÉ, n. 2, jan. 2006. Disponível em: http://www.dominiopublico.</p><p>gov.br/download/texto/me003418.pdf. Acesso em: 11 out. 2019.</p><p>MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In:</p><p>DIONÍSIO, A. et al. Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.</p><p>PIMENTEL, J. V. Entrevista Oscar Castro Neves [S. l: s. d.]. Disponível em</p><p>http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_</p><p>action=&co_obra=88446. Acesso em: 1 out. 2019.</p><p>REGULES, P. M. P. et al. Ética, meio ambiente e cidadania para o turismo.</p><p>São Paulo: Ipsis, 2007. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/</p><p>pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=82183. Acesso</p><p>em: 1 out. 2019.</p><p>TRAVAGLIA, L. C. Tipos, gêneros e subtipos textuais e o ensino de língua</p><p>materna. In: BASTOS, N. M. O. B. (org.) Língua Portuguesa: uma visão em</p><p>mosaico. São Paulo: EDUC/PUC-SP, 2002.</p><p>5</p><p>A escrita acadêmica na produção</p><p>científica</p><p>A persuasão está presente em todas as informações e ganha mais</p><p>força, principalmente, por meio da comunicação, tentando limitar</p><p>nossas escolhas e, assim, manipular-nos, mesmo que de modo</p><p>inconsciente. Sabemos que há muitas formas de argumentar a fim de</p><p>convencer alguém, mas por meio das palavras isso pode se efetivar</p><p>de modo mais eficaz.</p><p>Dessa forma, este capítulo tem como objetivo evidenciar as</p><p>formas que a linguagem pode assumir e refletir sobre como elas</p><p>podem influenciar as pessoas por meio dos mais variados gêneros</p><p>textuais. Para isso, ele está organizado em três partes principais.</p><p>A primeira seção apresenta as linguagens formal e informal e</p><p>como elas se apresentam, seja na escrita ou na oralidade.</p><p>Na segunda parte, apresentamos o conceito de argumentação, haja</p><p>vista que é um ato essencialmente destinado a agir sobre o outro por</p><p>meio da palavra, do conhecimento e da razão e envolve a disposição</p><p>que os ouvintes/leitores conferem àquilo que falam/escrevem e a</p><p>reação que se provoca, a partir disso, nos que ouvem/leem.</p><p>Por fim, na última seção, veremos técnicas discursivas para</p><p>cumprir o gênero artigo acadêmico, adequando a linguagem e</p><p>utilizando a estrutura adequada ao gênero ou ao estilo do texto.</p><p>Consideramos o artigo acadêmico um meio que tem como primeiro</p><p>objetivo propagar os principais resultados obtidos em uma pesquisa,</p><p>a qual deve ter um tema delimitado. Os melhores artigos devem</p><p>100 Produção e interpretação de textos</p><p>ser concisos, além de combinar elementos linguísticos e trazer uma</p><p>estrutura discursiva muito bem estruturada entre suas partes, de</p><p>modo a comunicar ao leitor uma teoria relacionada à prática.</p><p>Ao final dessas três partes, apresentamos as considerações finais,</p><p>que consistem na retomada geral do que estudamos neste capítulo</p><p>e em uma das possíveis conclusões quanto ao tema abordado.</p><p>Finalmente, pretendemos situar os temas aqui estudados quanto</p><p>à argumentação, indicando os conhecimentos teóricos e práticos</p><p>necessários para uma compreensão efetiva e uma produção</p><p>textual subordinada ao processo organizacional da língua e às suas</p><p>finalidades diversas, de acordo com os tipos e gêneros textuais.</p><p>5.1 Linguagem formal e informal</p><p>Dependendo da situação comunicativa em</p><p>que nos encontramos, podemos utilizar diferentes</p><p>linguagens para nos comunicarmos. Assim, tente</p><p>se imaginar nas duas situações a seguir e pense</p><p>como falaria e agiria.</p><p>Figura 1 – Diferentes situações e níveis de formalidade</p><p>Ro</p><p>m</p><p>an</p><p>Sa</p><p>m</p><p>bo</p><p>rs</p><p>ky</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>cka - Jogar videogame com os amigos</p><p>Vídeo</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 101</p><p>M</p><p>at</p><p>ej</p><p>Ka</p><p>st</p><p>el</p><p>ic</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>b – Apresentar um trabalho para</p><p>professores e colegas da faculdade</p><p>Provavelmente, você se imaginou na primeira situação de uma</p><p>forma muito mais descontraída do que na segunda, não é mesmo?</p><p>Afinal, quando jogamos videogame com os amigos, podemos agir</p><p>naturalmente, rir das mais diversas situações, falar alto ou baixo,</p><p>relaxar e falar as coisas mais variadas possíveis, desde brincadeiras</p><p>até histórias engraçadas, com construções linguísticas com pouca</p><p>atenção à gramática, sintaxe ou fonologia. Essas construções formam</p><p>o que chamamos de linguagem informal.</p><p>Já a segunda situação exige uma postura mais elegante, bem</p><p>como entonação e gestos adequados à quantidade de pessoas na</p><p>plateia, vocabulário respeitoso e atenção mútua a você, aos outros e</p><p>ao ambiente de modo geral. Não se trata de um momento de tensão,</p><p>mas sim de respeito às pessoas que esperam aprender com você e</p><p>refletir sobre um determinado assunto. Dessa forma, a linguagem</p><p>mais adequada para esses momentos é a linguagem formal.</p><p>Assim como acontece na oralidade, também acontece na escrita.</p><p>Existem textos escritos que são mais informais e outros mais</p><p>formais, dependendo da necessidade do emissor e da compreensão</p><p>do receptor. De acordo com o gênero textual, já criamos expectativas</p><p>quanto à formalidade ou informalidade do texto.</p><p>102 Produção e interpretação de textos</p><p>De acordo com Preti (2003), a linguagem formal ou informal é</p><p>determinada pelo nível de coloquialismo que inserimos em nossa</p><p>forma de comunicar algo a alguém. Isso depende, em grande escala,</p><p>da intimidade que temos com a pessoa a qual nos dirigimos.</p><p>Figura 2 – Representação dos níveis de fala</p><p>Situações de formalidade</p><p>Comportamento linguístico mais refletido, mais tenso</p><p>Predomínio de linguagem culta</p><p>Vocabulário técnico</p><p>etc.</p><p>Situações familiares ou de menor formalidade</p><p>Predomínio de linguagem popular</p><p>Comportamento linguístico mais distenso</p><p>Linguagem afetiva, expressões obscenas</p><p>Gíria</p><p>etc.</p><p>Níveis de fala</p><p>(registros) Comum</p><p>Formal</p><p>Coloquial</p><p>Fonte: Dino, 2003, p. 39.</p><p>Voltando às situações apresentadas na Figura 1, é nítido que</p><p>a situação B exige formalidade, refletida em um comportamento</p><p>mais convencional, meticuloso e voltado a convenções sociais e</p><p>culturais. Isso se reflete na linguagem, que se torna automaticamente</p><p>mais formal e voltada à norma culta, conforme representado no</p><p>esquema anterior. Já na situação A, que representa uma situação de</p><p>menos formalidade, são utilizadas gírias ou uma linguagem menos</p><p>monitorada. Contudo, essa linguagem não deve ser confundida com</p><p>menosprezo linguístico ou ser tratada como inferior.</p><p>De acordo com Bagno (2002), por muito tempo, a linguagem</p><p>coloquial foi alvo de preconceito linguístico no Brasil, servindo</p><p>apenas para separar as classes privilegiadas de um lado, por usarem</p><p>a norma culta da língua portuguesa, e as classes menos favorecidas</p><p>do outro, por utilizarem uma linguagem mais simples do ponto de</p><p>vista do desenvolvimento de habilidades linguísticas.</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 103</p><p>Para termos uma postura de reflexão nova e mais moderna,</p><p>devemos entender as linguagens formal e informal como um advento</p><p>de monitoração estilística, e não entender apenas a linguagem</p><p>formal como sinônimo de genuíno, autêntico e correto. Devemos</p><p>considerar que tanto uma quanto a outra são autênticas e entender</p><p>os fatores que nos levam a monitorar esses estilos. Como proposto</p><p>por Bortoni-Ricardo (2004), os fatores são:</p><p>• ambiente;</p><p>• interlocutor;</p><p>• tópico da conversa.</p><p>Comparando as situações A e B da Figura 1, perceba que</p><p>uma mesma pessoa pode jogar videogame e usar uma linguagem</p><p>menos monitorada em um dia e, no outro, apresentar um trabalho</p><p>na faculdade e utilizar uma linguagem mais monitorada. Assim,</p><p>a linguagem usada em uma situação não pode ser comparada à</p><p>ausência ou falta de prestígio.</p><p>Para analisarmos o uso da linguagem de maneira distinta, é</p><p>indispensável que não façamos associações do uso formal e informal</p><p>da língua a classes sociais, lugares ou qualquer outro estereótipo.</p><p>Devemos considerar os gêneros e contextos em que acontecem a</p><p>conversa, o texto ou o tipo de comunicação, porém, devemos tomar</p><p>cuidado. Fiorin e Savioli (2007, p. 220) alertam que: “assim como</p><p>o uso adequado de certo tipo de linguagem pode funcionar para</p><p>impor</p><p>em algum curso, somos obrigados a ler assuntos</p><p>específicos na maioria das vezes, aprofundando-os para ampliarmos</p><p>nossos conhecimentos. Entretanto, em momentos de lazer, podemos</p><p>ler para nos divertirmos, relaxarmos ou simplesmente desfrutarmos</p><p>de um bom texto, um autor ou um gênero preferido (como romance,</p><p>drama ou suspense). Assim, podemos afirmar que nem sempre a</p><p>leitura com a finalidade de estudo é prazerosa, ou vice-versa.</p><p>Em seguida, (C) representa a leitura de um mapa em um GPS</p><p>a fim de obter uma informação precisa. Essa leitura se aplica</p><p>quando queremos, por exemplo, encontrar uma rota de um lugar a</p><p>outro, tanto na mesma cidade, estado ou país quanto em territórios</p><p>diferentes.</p><p>Em contrapartida, (D) remete à ideia da leitura para obter uma</p><p>informação no âmbito geral, como na política, quando assistimos</p><p>a um candidato em um comício. Nesse caso, temos a tendência</p><p>de “ler” a sua maneira de se vestir, falar e se comportar, de modo</p><p>geral e até inconsciente. Essa leitura permite que, considerando</p><p>um texto de um determinado tema, seja ele verbal ou não verbal,</p><p>identifiquemos informações com base em trechos que nos</p><p>interessam mais e verifiquemos do que se trata o texto, sem nos</p><p>atermos a detalhes necessariamente. Refere-se a uma leitura mais</p><p>global e menos compromissada, porém nem por isso mais ou menos</p><p>significativa. O valor dessa leitura depende muito mais do quanto a</p><p>GPS:</p><p>Sistema de</p><p>Posicionamento</p><p>Global. Permite</p><p>localizar vários</p><p>elementos</p><p>sobre a</p><p>superfície</p><p>terrestre.</p><p>12 Produção e interpretação de textos</p><p>informação foi suficiente em um determinado momento do que do</p><p>aprofundamento em um dado assunto.</p><p>De qualquer maneira, a leitura para conseguir uma informação,</p><p>seja ela específica ou geral, é bastante comum no dia a dia. Isso se dá</p><p>porque, com as chamadas tecnologias da informação1, a produção e a</p><p>divulgação de conhecimento deixaram de ser monopólio dos meios</p><p>de comunicação tradicionais para se tornarem acessíveis a diversas</p><p>pessoas, independentemente de classe social, local em que residem</p><p>ou instituição educacional que frequentam.</p><p>Atualmente, é muito comum olharmos as redes sociais sem</p><p>um objetivo específico e apenas ir “passando os olhos” por várias</p><p>postagens que tratam dos assuntos mais variados. Do mesmo</p><p>modo, diante de reportagens ou notícias (independentemente de</p><p>serem sobre esportes, política ou economia), para muitas pessoas,</p><p>simplesmente olhar um título, um lide ou algumas partes do texto já</p><p>é o suficiente para que obtenham informações necessárias sobre um</p><p>assunto e ainda comentem sobre ele posteriormente. Em um mundo</p><p>considerado a era da informação, essa finalidade está cada vez mais</p><p>presente no dia a dia das pessoas, dando uma nova dinâmica aos</p><p>estudos, à pesquisa e ao compartilhamento de informações, opiniões</p><p>e saberes.</p><p>Diante disso, podemos afirmar que as pessoas estão interligadas</p><p>mundialmente o tempo todo. Por um lado, isso ocasiona a rapidez</p><p>da informação, a praticidade na descoberta de variados assuntos e</p><p>o auxílio em diversas pesquisas; porém, por outro, surge uma nova</p><p>característica na finalidade da leitura para obter informações de</p><p>âmbito geral à medida que o grande volume de informações acaba</p><p>por enfraquecer a memória e saturar o processo de compreensão.</p><p>1 Conjunto de ferramentas e recursos tecnológicos que usam a computação como meio</p><p>para administrar, armazenar, produzir e transmitir diferentes informações.</p><p>lide: parágrafo</p><p>inicial de</p><p>uma matéria</p><p>jornalística que</p><p>apresenta, de</p><p>modo resumido, o</p><p>assunto principal.</p><p>Leitura e interpretação na prática 13</p><p>Então, ressaltamos que a simples aquisição de dados de modo</p><p>superficial, fragmentado e, portanto, desconcentrado não é sinônimo</p><p>de aprendizagem, já que esta exige organização, concentração e</p><p>compreensão, e não apenas um entendimento simples e raso.</p><p>Você sabe quais foram os três assuntos</p><p>mais pesquisados no Google em 2018?</p><p>Resposta: Copa do Mundo, Big Brother Brasil e Eleições.</p><p>Fonte: Rosa, 2018.</p><p>PARA PENSAR</p><p>A pesquisa desenfreada por assuntos diversos e a leitura mais</p><p>descompromissada nos remetem ao que (F) está ilustrando. Ela</p><p>representa aquela leitura que acontece simplesmente porque é</p><p>apresentada aos nossos olhos e nem tínhamos a intenção de ler,</p><p>como quando passamos por um outdoor enquanto dirigimos. Já (E)</p><p>se contrapõe a essa ideia, pois caracteriza as leituras que fazemos por</p><p>obrigação ou necessidade. Por exemplo, na maioria das vezes, nem</p><p>intencionamos ler uma bula de remédio, mas acabamos por realizar</p><p>essa ação com a única finalidade de recebermos uma orientação</p><p>acerca de um determinado medicamento. Desse modo, podemos</p><p>afirmar que ambas as formas de leitura ocorrem sem intenção e,</p><p>portanto, têm uma finalidade mais destituída de formalidade.</p><p>Considerando as finalidades de leitura, escolher um suporte</p><p>textual com que você se identifique mais ou tenha mais afinidade</p><p>sempre é uma boa opção.</p><p>suporte textual:</p><p>lugar onde os</p><p>gêneros são</p><p>colocados</p><p>para circular</p><p>(ex.: jornal,</p><p>embalagem,</p><p>placa de</p><p>trânsito, livro).</p><p>14 Produção e interpretação de textos</p><p>Observe os suportes a seguir e reflita sobre qual você gosta</p><p>mais de usar para leitura, seja para estudar ou se divertir.</p><p>Figura 2 – Suportes textuais</p><p>Celular</p><p>pi</p><p>gg</p><p>u/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Revistas</p><p>Co</p><p>zi</p><p>ne</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>itt</p><p>oi</p><p>lm</p><p>at</p><p>ar</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Computador</p><p>Livros</p><p>st</p><p>ud</p><p>io</p><p>vi</p><p>n/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>ro</p><p>be</p><p>rt</p><p>_s</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Tablet</p><p>Fo</p><p>xy</p><p>b</p><p>ur</p><p>ro</p><p>w</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Vários suportes juntos</p><p>Independentemente de qual suporte você tenha escolhido, saiba</p><p>que todos são denominados suportes convencionais. Marcuschi</p><p>(2003) classifica os suportes textuais em:</p><p>• suportes convencionais: aqueles que têm como função</p><p>natural portar ou fixar textos. São exemplos: livros, jornais,</p><p>revistas, rádios, televisões, computadores, tablets, quadro de</p><p>avisos, outdoors, faixas, fôlderes, encartes.</p><p>• suportes incidentais: têm a mesma função, porém de modo</p><p>artificial ou, como o próprio nome já diz, de maneira ocasional</p><p>ou eventual. Eles podem ou não evidenciar um texto, mas,</p><p>no caso da evidência, ela é forçada ou não espontânea.</p><p>São exemplos: para-choques ou para-lamas de caminhões,</p><p>camisetas, muros, corpo humano, calçadas, estações de metrô,</p><p>pontos de ônibus.</p><p>Leitura e interpretação na prática 15</p><p>Você se lembra de alguma frase de camiseta</p><p>que foi impactante na sua vida e por quê?</p><p>PARA PENSAR</p><p>Assim, vemos que há diferentes motivos que nos levam a ler um</p><p>texto, que pode ser verbal ou não verbal. Seja para nos divertirmos</p><p>ou estudarmos, de modo específico ou geral e intencional ou</p><p>não, a leitura é uma atividade que sempre deve ser praticada</p><p>e aperfeiçoada. Para isso, é importante escolher um suporte</p><p>agradável e adequado ao nosso objetivo.</p><p>1.2 Texto e contexto</p><p>Várias pessoas dizem saber, mas você já se</p><p>indagou sobre o que é texto? Quais textos exercem</p><p>papel social e não podem ser tratados como simples</p><p>registros para serem lidos, guardados e, muitas</p><p>vezes, esquecidos? Observe atentamente a situação</p><p>apresentada na Figura 3 e a da Figura 4.</p><p>Figura 3 – Placa em uma quitanda</p><p>Vendem-se</p><p>batatas</p><p>ko</p><p>ya</p><p>97</p><p>9/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Vídeo</p><p>16 Produção e interpretação de textos</p><p>Figura 4 – Placa em um aeroporto</p><p>Vendem-se</p><p>batatas</p><p>10</p><p>00</p><p>Ph</p><p>ot</p><p>og</p><p>ra</p><p>ph</p><p>y/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Qual situação parece mais significativa? Claro que é a primeira,</p><p>pois sabemos que não é nada usual vender batatas em um aeroporto,</p><p>ainda mais em uma fila na qual elas sequer existem.</p><p>De acordo com Curto, Morillo e Teixidó (2000), texto é a</p><p>unidade básica de comunicação que tem significado. Por isso,</p><p>consideramos que a primeira situação é um texto, pois está</p><p>efetivamente comunicando algo, enquanto a segunda não sustenta</p><p>uma comunicação com significado real, o que enfraquece seu</p><p>conceito de texto.</p><p>Ainda considerando a primeira situação, imaginemos agora</p><p>chegar à mesma quitanda e encontrar a seguinte faixa:</p><p>Vendem-se batatas.</p><p>As batatas</p><p>respeito, o uso inadequado pode ter efeito contrário, isto é,</p><p>expor o falante ao ridículo”.</p><p>Dada essa diversidade de usos, o bom falante da língua é aquele</p><p>que considera a situação comunicativa e a linguagem adequada, sem</p><p>afirmar que existe um padrão de linguagem superior.</p><p>104 Produção e interpretação de textos</p><p>5.2 Exercitando a argumentação</p><p>Os textos do tipo argumentativo devem</p><p>apresentar, como o próprio nome diz, argumentos,</p><p>que são estratégias linguísticas com o objetivo de</p><p>persuadir. Isto é, eles têm a intenção de convencer</p><p>o receptor sobre o que lhe foi comunicado. Para</p><p>podermos argumentar, é fundamental buscarmos</p><p>ampliar nosso repertório de conhecimentos e nos familiarizarmos</p><p>com as especificidades de diferentes gêneros textuais. Isso contribui</p><p>para que reconheçamos a diversidade de linguagens dos diferentes</p><p>textos de acordo com suas temáticas principais e seu contexto social,</p><p>histórico e cultural (que acaba por ser evidenciado em qualquer</p><p>texto).</p><p>Além disso, a subjetividade de quem escreve é evidenciada pela</p><p>argumentação utilizada, já que a argumentatividade é característica</p><p>fundamental de toda e qualquer atividade discursiva; argumentar</p><p>significa considerar o outro como capaz de reagir e interagir diante</p><p>do texto que lhe é apresentado.</p><p>Breton (2003) afirma que a argumentação é inerente ao processo</p><p>comunicativo e aos vínculos sociais. Logo, onde há diálogo, há</p><p>automaticamente a necessidade de argumentação. Desse modo,</p><p>acreditamos que ela é criada não apenas na relação tese-argumento,</p><p>mas abrange muito mais que isso, na medida em que desejamos</p><p>compartilhar com outras pessoas nossas opiniões, ideologias,</p><p>crenças, valores, aprendizagens e formas de ver o mundo.</p><p>Se você está em dúvida se já argumentou alguma vez na sua vida,</p><p>basta lembrar de algum dia em que, ao querer sair de casa para ir a</p><p>uma festa com os amigos ou ficar na rua até mais tarde, usou de todas</p><p>as estratégias possíveis para convencer seu responsável, com frases</p><p>como “não vai ser perigoso”, “eu já sei me cuidar” ou “a mãe do meu</p><p>melhor amigo vai levar e buscar a gente”. Ou, então, quando você</p><p>Vídeo</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 105</p><p>deixou de entregar um trabalho para algum professor e utilizou falas</p><p>como: “se você deixar eu entregar o trabalho amanhã...”, “prometo</p><p>melhorar nas provas” ou “não entreguei porque ainda estava com</p><p>dúvidas”. Claro que frases como essas não são argumentos fortes,</p><p>concisos ou fundamentados, porém, são exemplos de como vários</p><p>momentos de nossas vidas exigem que convençamos outras pessoas</p><p>sobre aquilo que acreditamos.</p><p>Precisamos, contudo, ter consciência de que, dependendo da</p><p>pessoa com quem falamos, não é qualquer argumento que vai</p><p>persuadi-la. Assim, tomando o exemplo do professor e do aluno,</p><p>vemos que, muitas vezes, o primeiro já está acostumado com</p><p>alunos que não cumprem suas obrigações ou querem se justificar</p><p>a todo custo, com argumentos tirados do senso comum, tão fracos</p><p>que acabam sendo apenas uma justificativa sem valor. Portanto,</p><p>apresentar boas provas ou causas durante a ação do argumentar é</p><p>fundamental para que o ouvinte/leitor reafirme ou modifique seu</p><p>pensamento, crença ou ideia previamente creditada.</p><p>Fiorin e Savioli (2007) comentam que um dos aspectos mais</p><p>relevantes a se considerar sobre argumentação é o fato de que quem</p><p>produz um texto sempre está interessado em convencer o leitor</p><p>sobre alguma coisa e, para isso, sempre vai utilizar procedimentos</p><p>argumentativos para levar o leitor a não só crer em determinado</p><p>fato, mas também agir a favor dele.</p><p>Mesmo que o receptor de determinado discurso já compartilhe</p><p>da mesma ideia do emissor, temos que pensar que quem produz o</p><p>discurso deve, então, convencer o leitor a manter sua opinião, e não</p><p>produzir o efeito contrário. Para tanto, há algumas estratégias que</p><p>podem ser utilizadas e que determinam os tipos de argumentação.</p><p>Apresentaremos quatro tipos, com base em Fiorin e Savioli (2006),</p><p>que consideramos serem os mais habituais ou comuns nos discursos</p><p>de modo geral.</p><p>106 Produção e interpretação de textos</p><p>5.2.1 Argumento de autoridade</p><p>Leia o seguinte trecho, retirado do texto “Cultura erudita e</p><p>cultura popular”.</p><p>A diferenciação entre culturas se dá a partir da identificação</p><p>da origem de quem a produz.</p><p>A cultura erudita é produto da leitura, do estudo e da</p><p>pesquisa. Para que se produza cultura erudita é necessário</p><p>que se tenha vasto conhecimento sobre um determinado</p><p>assunto.</p><p>Cultura popular pode ser compreendida como “a soma</p><p>dos valores tradicionais de um povo, expressos em forma</p><p>artística, como danças, ou em crendices e costumes gerais”,</p><p>como afirma Teixeira Coelho. (MYANAKI et al., 2007, p. 11)</p><p>Observe que, ao definir cultura popular, os autores apontam</p><p>as palavras de Teixeira Coelho, diretor do Museu de Arte</p><p>Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) e</p><p>estudioso do assunto cultura. Assim, no argumento de autoridade,</p><p>o autor escolhe citar alguém que é referência no assunto que ele</p><p>estava escrevendo, pois quer fortalecer seu argumento acerca da</p><p>definição de cultura popular.</p><p>Consideramos que esse tipo de argumento é uma citação direta</p><p>curta, por estar registrada entre aspas e reproduzir exatamente o que</p><p>a outra pessoa disse. A citação também pode ser direta longa. Nesse</p><p>caso, escrevemos as mesmas palavras da pessoa a quem queremos</p><p>nos referir com recuo da margem esquerda.</p><p>Podemos observar como isso acontece nos trechos apresentados</p><p>como exemplos no início de algumas subseções deste capítulo.</p><p>Percebemos que o texto está em tamanho menor e deslocado de</p><p>modo que fique separado do restante dos parágrafos.</p><p>Outro recurso linguístico que podemos utilizar, ainda fazendo</p><p>uso do argumento de autoridade, é a citação indireta, também</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 107</p><p>chamada de paráfrase. Trata-se de quando o autor incorpora a ideia</p><p>de outra pessoa no seu próprio texto com novas palavras, ou seja, o</p><p>autor reformula a frase com a intenção de interpretar e transcrever</p><p>o que já foi dito ou estudado por alguém. Nesse caso, é importante</p><p>citar a fonte, mas não há a necessidade de uso de aspas ou recuos.</p><p>Veja como isso acontece a seguir.</p><p>De acordo com Gonçalves Dias (1969), o Brasil tem</p><p>palmeiras, onde canta um pássaro chamado sabiá. As</p><p>aves que gorjeiam nesse país são diferentes das que</p><p>cantam em Portugal.</p><p>De um jeito ou de outro, as citações dão mais credibilidade ao</p><p>escritor/falante e ao assunto abordado, levando o leitor/ouvinte</p><p>a ser convencido acerca do que estamos defendendo. Esse tipo</p><p>de argumento é muito utilizado em propagandas ou anúncios</p><p>publicitários, a fim de persuadir o consumidor e levá-lo a comprar</p><p>ou adquirir determinado produto.</p><p>Imagine que você está em busca de um tênis e vê a propaganda</p><p>de uma determinada marca com seu jogador de futebol preferido</p><p>dizendo que o tênis é muito bom, tem amortecedor, é muito macio</p><p>e que, por esses motivos, só faz atividades físicas com ele. Logo, isso</p><p>chamaria sua atenção, não é mesmo? Por isso, muito provavelmente,</p><p>você compraria esse tênis, pois, de alguma forma, seria convencido</p><p>a acreditar que todos esses benefícios são reais.</p><p>Com esse comentário, não estamos desmerecendo ou</p><p>desvalorizando o tênis da propaganda, mas sim trazendo a reflexão</p><p>de que, independentemente da marca ou do produto, somos muito</p><p>mais convencidos por figuras que já temos apreço do que por aquelas</p><p>que são desconhecidas.</p><p>108 Produção e interpretação de textos</p><p>Nesse caso, o jogador se torna uma figura de autoridade. Afinal,</p><p>é muito mais fácil um esportista nos convencer a comprar um tênis</p><p>do que uma pessoa que não gosta de praticar esportes, mesmo que</p><p>ela também seja famosa. Assim, não basta a pessoa ser conhecida;</p><p>para argumentarmos, é importante escolhermos uma personagem</p><p>ligada ao fato sobre o qual queremos convencer alguém.</p><p>Na maioria das vezes, as pessoas tendem a validar uma informação</p><p>muito mais pela relação de status ou títulos</p><p>que uma pessoa carrega</p><p>do que pela legitimação da informação em si. Assim, diante da</p><p>propaganda exemplificada, estamos muito mais propensos a comprar</p><p>o tênis propagando a fala “fulano disse que esse calçado é realmente</p><p>bom” (no qual fulano se refere ao jogador de futebol preferido) do que</p><p>verificar se realmente o produto tem um material confortável, durável</p><p>e com tecnologias avançadas em amortecimento e leveza.</p><p>Seja por meio da linguagem verbal ou não verbal, nos textos</p><p>do tipo argumentativo, podemos utilizar argumento de autoridade</p><p>desde que saibamos fazer relações concretas, coerentes e pertinentes</p><p>ao tema em questão. Para que o argumento de autoridade seja</p><p>eficiente, devemos, enquanto produtores de texto, utilizá-lo com</p><p>base em pesquisas de pessoas que temos certeza que vão nos ajudar</p><p>a convencer nosso leitor. Dessa forma, não cometeremos enganos.</p><p>Enquanto leitores diante de um argumento de autoridade,</p><p>devemos conhecer a pessoa citada, procurando realmente saber se</p><p>ela é uma conhecedora do produto ou assunto. Então, devemos ter</p><p>discernimento para concordarmos ou não com aquela informação,</p><p>sempre com base em uma outra opinião científica, a fim de</p><p>minimizar o senso comum.</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 109</p><p>5.2.2 Argumento de comprovação</p><p>Observe o argumento utilizado no trecho da reportagem a seguir.</p><p>Escola de Guanambi lança cultivar resistente a fungos</p><p>Professores da Escola Agrotécnica Federal Antônio José</p><p>Teixeira (EAFAJT), de Guanambi/BA, estão na linha de</p><p>frente na pesquisa de novos tipos de bananas. (...)</p><p>(...) o fato é que o Brasil é um grande produtor da fruta.</p><p>Em 2005, produziu 6,9 milhões de toneladas. O volume</p><p>de exportações de bananas, no ano seguinte, foi de 179,9</p><p>mil toneladas, segundo dados do Instituto Brasileiro</p><p>de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério do</p><p>Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).</p><p>No Brasil, os maiores produtores são os estados de São</p><p>Paulo e Bahia, seguidos de Santa Catarina, Pará e Minas</p><p>Gerais. Em 2005, a Bahia produziu 1 milhão de toneladas</p><p>da fruta, 21,5% a mais do que em 2004 (872 mil toneladas).</p><p>(FARHAT, 2004, p. 8-9, grifos do original)</p><p>Para comprovar que o Brasil é um local onde se produz muita</p><p>banana, o autor usou como argumentos os dados baseados em</p><p>provas concretas, extraídos da realidade, como a quantidade de</p><p>bananas produzidas no país no ano de 2005. Perceba que esses dados</p><p>podem ser comprovados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e</p><p>Estatística (IBGE) e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria</p><p>e Comércio Exterior (MDIC), o que traz mais veracidade às</p><p>informações apresentadas.</p><p>Quando utilizamos em um texto esses tipos de dados, baseados</p><p>em estatísticas, pesquisas e quantidades que servem de referência</p><p>para comprovação de algum fato, dizemos que o autor usou um</p><p>argumento de comprovação. Porém, ao utilizarmos esse tipo</p><p>de argumento, é necessário ter cuidado. Precisamos verificar</p><p>se os dados apresentados são verossímeis ou apenas suposições</p><p>110 Produção e interpretação de textos</p><p>ou aproximações. Nesses últimos casos, o argumento acaba por</p><p>ser enfraquecido ao invés de transmitir segurança; afinal, diante</p><p>de valores aproximados, o leitor tende a ter mais dúvidas do que</p><p>certezas, depondo contra o que o autor procura defender. No texto</p><p>lido, observe que Farhat não escreveu aproximadamente 7 milhões</p><p>de toneladas, mas sim 6,9 milhões. Oferecer ao leitor até os números</p><p>decimais promove mais credibilidade e, consequentemente, há um</p><p>convencimento maior.</p><p>Utilizar porcentagens também não é muito indicado, já que elas</p><p>podem dar uma falsa impressão de dados ao leitor. Ao lermos uma</p><p>frase como “50% dos estudantes têm dificuldade em argumentar”,</p><p>podemos ficar admirados com o valor elevado. Porém, temos que</p><p>nos atentar à quantidade total de estudantes pesquisados. Por</p><p>exemplo: se essa pesquisa foi feita em uma escola de cem alunos,</p><p>isso significa um problema local e mais fácil de se resolver. Agora,</p><p>se essa estatística está voltada ao número de estudantes do país, a</p><p>quantidade de pessoas cresce demasiadamente, e o fato se torna</p><p>muito mais grave e preocupante.</p><p>Assim, por evidenciar fatos, esse argumento torna-se bastante</p><p>eficiente. Contudo, exige mais cuidados por parte de quem o usa,</p><p>pois basta um dado em falso para colocar todo o texto em descrença.</p><p>Ademais, utilizar esse tipo de argumento demasiadamente em um</p><p>texto também pode torná-lo cansativo e afastar o leitor. Por isso, saber</p><p>dosar a quantidade de dados apresentados é de extrema importância</p><p>para que ele cause o efeito desejado no texto na medida certa.</p><p>5.2.3 Argumento por raciocínio lógico</p><p>Leia o texto a seguir, que trata da cidadania no turismo, e observe</p><p>o argumento utilizado com relação aos efeitos da globalização.</p><p>Somos testemunhas do que vem ocorrendo em grande</p><p>medida em várias regiões do Brasil e do mundo: um</p><p>turismo de massa no qual as comunidades receptoras são</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 111</p><p>desrespeitadas no plano cultural e pouco participam dos</p><p>ganhos econômicos que as atividades turísticas geram.</p><p>São construídas grandiosas infraestruturas, com prédios e</p><p>estradas que modificam a paisagem da cidade, alterando a</p><p>dinâmica local e as relações sociais, com o único objetivo</p><p>de atender o turista. Os efeitos da globalização aparecem</p><p>quando a cultura local é substituída por formas de</p><p>comportamento padronizadas que podem ser encontradas</p><p>em qualquer lugar do mundo. Conhecemos muitos lugares</p><p>que sofreram impactos ambientais e socioculturais e que,</p><p>hoje em dia, deixaram de ser vistos como lugares bonitos</p><p>e interessantes para a realização das atividades turísticas.</p><p>Assim o Estado, na promoção de políticas públicas, as</p><p>escolas, os demais espaços de convivência devem incentivar</p><p>a valorização das culturas, ao invés da massificação e</p><p>padronização carregada de preconceitos e estigmas em</p><p>relação ao outro. Dessa forma, a atitude ética e cidadã no</p><p>turismo deve ser praticada por todos os envolvidos na</p><p>atividade. (REGULES, 2007, p. 13)</p><p>Nesse trecho, a autora comenta sobre a modificação da paisagem</p><p>natural de uma cidade, decorrente de alterações sociais causadas</p><p>pelo aumento do turismo, que faz com que os administradores</p><p>daquele local se sintam obrigados a atender a demanda da chegada</p><p>de novas pessoas, que vão para passear e se divertir. Assim, muitas</p><p>vezes, um local que tem sua cultura, suas construções e seus hábitos</p><p>locais preservados acaba sofrendo uma invasão cultural ao atender a</p><p>muitos turistas e acaba sendo modificado com o objetivo de atendê-</p><p>los. Chamamos esse fenômeno de globalização. Assim, dizemos que a</p><p>pessoa usou um argumento por raciocínio lógico para demonstrar</p><p>que existe um fundamento naquilo que está sendo demonstrado,</p><p>afirmado ou defendido. Desse modo, se queremos utilizar esse tipo</p><p>de argumentação, devemos sempre procurar os motivos que levam</p><p>àquilo que estamos querendo demonstrar.</p><p>112 Produção e interpretação de textos</p><p>Um recurso de escrita relacionado a esse tipo de argumento é</p><p>chamado de silogismo, o qual compreende a apresentação de duas</p><p>premissas, a fim de obter uma terceira por inferência. Ele utiliza a</p><p>prática da dedução, partindo de uma ideia geral para uma específica.</p><p>Observe a seguir como isso acontece.</p><p>Assunto principal: desmatamento na floresta</p><p>Amazônica.</p><p>Premissa 1: o desmatamento da floresta amazônica</p><p>passa por um processo de extinção da fauna e da flora.</p><p>Premissa 2: a extinção da fauna e da flora impacta a</p><p>cadeia alimentar e as condições climáticas.</p><p>Conclusão: o desmatamento da floresta Amazônica</p><p>impacta a cadeia alimentar e as condições climáticas.</p><p>O leitor, diante de um raciocínio lógico, pode se sentir mais seguro</p><p>a acreditar naquilo que está sendo lido e, principalmente, propagar</p><p>aquela informação por meio do mesmo tipo de argumentação.</p><p>5.2.4 Argumento por consenso</p><p>Um tipo de argumento mais frágil, mas que, ainda assim,</p><p>pode ser utilizado é o argumento por consenso, que consiste no</p><p>uso de convicções coletivamente aceitas em uma determinada</p><p>cultura ou sociedade. Isso não significa que elas sejam baseadas</p><p>no senso comum.</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 113</p><p>Exemplos dessa argumentação são frases como:</p><p>• “A saúde necessita de investimento por parte da política</p><p>pública, começando pela construção de mais hospitais”.</p><p>• “Saber ler e escrever é sinônimo de autonomia social”.</p><p>• “A corrupção faz mal a uma nação”.</p><p>Perceba que esses assuntos têm significados e valores considerados</p><p>universais pela cultura que os produz e recebe e, portanto, quando</p><p>utilizados em um texto, não necessitam de comprovação de fatos.</p><p>Contudo, esse tipo de argumento não se sustenta, pois pode receber</p><p>facilmente um contra-argumento mais sólido e não cumprir com o</p><p>objetivo de convencer o leitor.</p><p>5.3 Artigo acadêmico</p><p>Para escrever um artigo acadêmico, o produtor</p><p>do texto deve ter em mente a importância da</p><p>materialização do assunto estudado em práticas</p><p>autênticas de linguagem. Um artigo acadêmico</p><p>deve ser o ponto de partida e de chegada de estudos</p><p>realizados sobre algum assunto.</p><p>O artigo acadêmico advém do tipo de texto dissertativo, definido</p><p>por Fiorin e Savioli (2007, p. 298) como “o tipo de texto que analisa</p><p>e interpreta dados da realidade por meio de conceitos abstratos”.</p><p>Desse modo, o pesquisador deve evidenciar relações de causa</p><p>e efeito, relatar um fato e sua condição e partir de uma premissa</p><p>até alcançar uma possível conclusão. Ele também deve determinar</p><p>relações de implicação.</p><p>É fundamental que o autor do texto defina quem são os</p><p>interlocutores e tenha clareza do contexto da situação comunicativa:</p><p>com que intenção escreverá sobre o assunto pesquisado, onde será</p><p>publicado e quem será o público-alvo. Tudo isso requer um trabalho</p><p>organizado, contínuo e planejado.</p><p>Vídeo</p><p>implicação:</p><p>relação em que</p><p>a afirmação</p><p>sobre a verdade</p><p>de uma</p><p>proposição leva</p><p>à inferência</p><p>da veracidade</p><p>de outra</p><p>proposição.</p><p>114 Produção e interpretação de textos</p><p>Podemos considerar que um artigo científico deve conter três</p><p>partes. Vamos ver, a seguir, o que cada uma delas deve conter.</p><p>Figura 3 – Partes de um artigo acadêmico</p><p>Parte 1</p><p>• Título</p><p>• Autor(es)</p><p>• Abstract e resumo</p><p>• Palavras-chave</p><p>Parte 2</p><p>• Introdução</p><p>• Desenvolvimento</p><p>• Conclusão (ou</p><p>considerações finais)</p><p>Parte 3</p><p>• Referências</p><p>• Anexo (se houver)</p><p>Fonte: Elaborada pela autora.</p><p>A parte 1 apresenta as informações básicas do material e ajuda</p><p>o leitor a encontrar o artigo, além de verificar se é o que ele está</p><p>procurando. A parte 2 apresenta o texto do artigo em si; e a parte 3</p><p>mostra as referências utilizadas pelo autor e os outros documentos</p><p>utilizados no trabalho, como questionários e formulários.</p><p>Dependendo da universidade ou do periódico, essa estrutura</p><p>pode ser modificada, incluindo ou excluindo alguns elementos, mas,</p><p>em todo caso, essas são as partes principais de um artigo acadêmico</p><p>e podemos sempre partir delas para a escrita desse gênero textual.</p><p>Todas essas partes exigem uma linguagem mais monitorada, voltada</p><p>a atender as normas gramaticais e ortográficas da língua portuguesa</p><p>e manter a objetividade e a clareza na exposição das ideias, as quais</p><p>determinarão a coerência e a coesão do texto.</p><p>5.3.1 Estrutura do artigo acadêmico</p><p>Observe, a seguir, a explicação da estrutura do artigo acadêmico,</p><p>para entender melhor como cada parte se desenvolve.</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 115</p><p>Figura 4 – Estrutura do artigo acadêmico</p><p>Título:</p><p>Apresenta o tema do artigo de modo conciso e específi co.</p><p>Autoria:</p><p>Mostra o nome e a qualifi cação de todos os autores do artigo.</p><p>Resumo</p><p>Sintetiza as informações de todas as partes do artigo. Devemos nos atentar para que ele não</p><p>ultrapasse o limite de palavras permitido pela instituição ou revista em que será publicado.</p><p>Abstract</p><p>Apresenta o resumo traduzido para a língua inglesa. Pode ser escrito em outros idiomas</p><p>também, como espanhol (resumen) e francês (résumé).</p><p>Palavras-chave: Expõem de três a seis palavras ou expressões relacionadas ao assunto do</p><p>artigo, separadas por vírgula ou ponto e vírgula.</p><p>Introdução</p><p>Inicia o artigo e apresenta informações sobre o tema, os objetivos da pesquisa, a metodologia</p><p>utilizada e a justifi cativa para realização do estudo.</p><p>Desenvolvimento</p><p>Começa com o referencial teórico, isto é, todos os textos que foram utilizados durante a</p><p>realização da pesquisa. Então, são feitas quantas seções forem necessárias para explicar e</p><p>descrever o estudo, como métodos e materiais, resultados e discussão.</p><p>Conclusão</p><p>As principais questões são retomadas, fazendo uma síntese do que foi abordado durante</p><p>o artigo. Também podem ser apresentadas questões ainda não resolvidas, e que merecem</p><p>outros estudos.</p><p>Referências</p><p>É apresentada a lista de todas as referências usadas pelo pesquisador que aparecem no</p><p>artigo.</p><p>Anexos</p><p>Todos os documentos relevantes utilizados na pesquisa que não aparecem no corpo do</p><p>texto, como tabelas, questionários, formulários etc.</p><p>Fonte: Elaborada pela autora.</p><p>116 Produção e interpretação de textos</p><p>Os artigos devem ter um resumo na língua materna, no nosso</p><p>caso, o português, seguido por outro resumo escrito em uma segunda</p><p>língua, geralmente inglês ou espanhol. É importante que o resumo</p><p>não ultrapasse o limite permitido pela instituição ou pela revista</p><p>em que será publicado e seja escrito na primeira página do artigo.</p><p>O resumo é importante porque permite que os leitores avaliem a</p><p>pesquisa e antecipem o conteúdo que será apresentado. O abstract,</p><p>por trazer uma tradução do resumo, tem o mesmo objetivo, mas com</p><p>o acréscimo de facilitar a internacionalização e, consequentemente,</p><p>o poder de alcance da pesquisa. Nas palavras-chave, escritas após o</p><p>resumo, deve haver, no mínimo três e no máximo seis, palavras ou</p><p>expressões relacionadas ao assunto do artigo. Assim como o resumo,</p><p>elas também servem para ajudar o leitor na busca de assuntos</p><p>relacionados.</p><p>5.3.1.1 Introdução</p><p>Trata-se do início de um artigo e tem como objetivo situar o</p><p>leitor acerca do tema da escrita, esclarecendo o motivo da escolha e</p><p>as delimitações consideradas. Devem ser apresentados os seguintes</p><p>aspectos: o porquê de o texto ter sido escrito, quais são os seus</p><p>objetivos, a sua importância para a sociedade e qual método e teoria</p><p>foram utilizados. Em suma, essa parte deve apresentar o que (tema</p><p>pesquisado), para que (objetivos delimitados), porque (justificativa</p><p>do estudo) e como (metodologias e teorias utilizadas).</p><p>Souto (2007) utiliza a metáfora de um triângulo, com a base</p><p>voltada para cima, para explicar como deve ser escrita uma boa</p><p>introdução. Assim, podemos entender essa parte do artigo da</p><p>seguinte forma:</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 117</p><p>Figura 5 – Metáfora do triângulo sobre como escrever uma introdução</p><p>A base da introdução é a abordagem geral do</p><p>tema; nessa etapa, devemos situar o leitor acerca</p><p>do que se trata a pesquisa.</p><p>Então, temos que apresentar o embasamento</p><p>teórico, mostrando quais autores, linhas e</p><p>métodos de pesquisa foram utilizados.</p><p>Finalmente, devemos evidenciar o objetivo da</p><p>pesquisa e de qual(is) hipótese(s) partimos.</p><p>Fonte: Adaptado de Souto, 2007, p. 19.</p><p>Assim, podemos perceber que no esquema apresentado por</p><p>Souto (2007) também é marcada a importância da apresentação</p><p>do tema, dos métodos e teorias e dos objetivos do artigo. Por ter o</p><p>objetivo de situar o leitor acerca do conteúdo a ser lido, a introdução</p><p>é uma das partes mais desafiadoras para o autor. Além disso, ela</p><p>deve chamar sua atenção de alguma forma para que o leitor continue</p><p>interessado no tema ou, então, perceba que aquele artigo não é o que</p><p>estava procurando.</p><p>Apesar de ser o início do artigo, a introdução pode ser melhor</p><p>escrita se ficar por último, já que, ao longo das outras partes, o autor</p><p>pode sentir a necessidade de tomar caminhos diferentes do previsto,</p><p>de acordo com a delimitação que a pesquisa acaba exigindo ou os</p><p>processos realizados pelo pesquisador. Vale ressaltar, ainda, que</p><p>devemos tomar cuidado para que a introdução não seja apenas um</p><p>resumo de todo o trabalho.</p><p>5.3.1.2 Desenvolvimento</p><p>Após a introdução, a próxima parte que o pesquisador deve</p><p>escrever é o desenvolvimento, o principal corpo do texto. Ele deve</p><p>ser iniciado com a exposição do referencial teórico utilizado para</p><p>118 Produção e interpretação de textos</p><p>fazer a pesquisa, ou seja, quem foram os autores e textos utilizados</p><p>para realizar o estudo. Em seguida, são elaboradas quantas seções</p><p>e subseções forem necessárias para que o leitor entenda como a</p><p>pesquisa foi realizada (metodologia utilizada), o que foi investigado</p><p>e encontrado pelo pesquisador (resultados) e como essa descoberta</p><p>se relaciona com outras pesquisas na área (discussão). No entanto,</p><p>devemos ter o cuidado de manter o assunto sempre integrado entre</p><p>as divisões. Vale destacar que nem todos os artigos devem seguir</p><p>exatamente a mesma estrutura, variando de acordo com os objetivos</p><p>do pesquisador e as normas da instituição ou revista em que o artigo</p><p>será publicado.</p><p>Os títulos das seções e subseções devem ser objetivos e atraentes,</p><p>evidenciando o que será tratado em cada parte. As contribuições</p><p>teóricas devem estar presentes em todo o desenvolvimento do</p><p>texto. Como afirmam Fiorin e Savioli (2007), nessa parte do</p><p>texto, o discurso deve ser elaborado de modo a criar um efeito de</p><p>objetividade. Para isso, devemos nos atentar à linguagem utilizada,</p><p>a qual deve neutralizar a presença do pesquisador e dar destaque</p><p>às descobertas.</p><p>Para escrever um artigo, podemos utilizar o que estudamos na</p><p>seção anterior. Em um artigo acadêmico, não é obrigatório usar</p><p>apenas um tipo de argumento em todo seu desenvolvimento. Na</p><p>verdade, é importante e, às vezes, até mesmo obrigatório utilizar</p><p>quantos tipos forem necessários, a fim de causar um efeito de</p><p>sentido mais verossímil e de destaque ao conteúdo demonstrado.</p><p>Uma estratégia para escrevermos e desenvolvermos um bom</p><p>argumento ao longo de um artigo é primeiro escrevermos perguntas</p><p>que pretendemos responder com relação ao tema e, então, ir</p><p>respondendo a cada uma delas com o tipo de argumento que melhor</p><p>sustentá-las. Oferecer exemplos nessas respostas é uma maneira de</p><p>tornar a argumentação e a pesquisa mais consistentes.</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 119</p><p>Além disso, a busca por diferentes fontes e o diálogo com pessoas</p><p>relacionadas ao tema estudado são imprescindíveis para a boa</p><p>escrita de um artigo acadêmico, tanto para dar mais credibilidade à</p><p>pesquisa quanto para prover diferentes parâmetros avaliativos para</p><p>o autor e o leitor.</p><p>É fundamental lembrar que, quando começamos a pesquisar um</p><p>determinado assunto e ficamos muito imersos nele, acabamos tendo</p><p>certa dificuldade em fazer distinções de aspectos que devem ser</p><p>implícitos e explícitos ou do que é óbvio para o autor, mas não para</p><p>o leitor e, portanto, deveria ser explicado com mais profundidade.</p><p>O contrário também pode ser verdadeiro, quando o autor detalha</p><p>demais alguns assuntos em detrimento de outros que realmente</p><p>deveriam receber melhor descrição. Assim, ter outras pessoas para</p><p>discutirmos diferentes pontos de vista e opiniões é imprescindível</p><p>para crescermos e apresentarmos bons argumentos que nos ajudem</p><p>a produzir um bom artigo acadêmico.</p><p>5.3.1.3 Conclusão</p><p>Por fim, deve aparecer a conclusão, também chamada de</p><p>considerações finais. Apesar de parecer contraditório, nessa parte do</p><p>artigo, não se espera que o autor conclua seu trabalho, no sentido de</p><p>pôr um término ou dar um fim definitivo à sua pesquisa. É esperado</p><p>que ele retome as questões principais do que foi pesquisado, com o</p><p>objetivo de fazer uma síntese com as questões que foram respondidas.</p><p>O pesquisador também pode apontar questões que não</p><p>foram respondidas por sua pesquisa, deixando aberto para</p><p>outros estudos futuros, em caso de possíveis dúvidas que acabem</p><p>aparecendo ao longo da pesquisa ou para as quais não foi possível</p><p>alcançar um consenso.</p><p>120 Produção e interpretação de textos</p><p>Considerações finais</p><p>Considerando a relação de sentidos, sabemos que todo e</p><p>qualquer gênero textual pode se relacionar com outros e que o</p><p>uso da linguagem formal ou informal varia, dependendo dos</p><p>efeitos de convencimento ou da aproximação que queremos com o</p><p>interlocutor.</p><p>Quanto à nossa argumentação, seja no dia a dia ou na vida</p><p>acadêmica, devemos minimizar o uso do senso comum e reconhecer</p><p>a diversidade de perspectivas existentes. É necessário utilizar</p><p>argumentos sólidos e com rigor científico, para que sejamos cada</p><p>vez mais creditados pelas pessoas que nos ouvem/leem. Além disso,</p><p>argumentos inconsistentes ou contraditórios enfraquecem nosso</p><p>discurso, seja ele escrito ou oral.</p><p>Diante de qualquer tipo de texto argumentativo, o sujeito deve</p><p>observar, durante a leitura, o vocabulário, os conceitos e a estrutura</p><p>linguística que sustentam a argumentação em cada parágrafo do</p><p>texto. Buscar indícios da influência do contexto do autor, da</p><p>sociedade ou da história também é fundamental para que o leitor</p><p>entenda o texto e forme sua opinião a respeito do tema lido com</p><p>senso crítico.</p><p>É fundamental, também, definirmos as capacidades linguístico-</p><p>-discursivas que pretendemos desenvolver com a escrita de textos</p><p>de cunho científico. A linguagem acadêmica exige do pesquisador</p><p>uma compreensão leitora crítica, visto que para apresentar, discutir</p><p>resultados e escrever um artigo é preciso que o pesquisador</p><p>tenha lido e refletido sobre outros textos. O artigo científico</p><p>tem como finalidade não só promover um intercâmbio de ideias</p><p>entre pesquisadores, mas também registrar, de modo fidedigno,</p><p>métodos, técnicas e conhecimentos produzidos.</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 121</p><p>É importante reconhecer que a prática argumentativa sempre</p><p>enriquece a argumentação do emissor. Além disso, devemos</p><p>identificar divergências entre textos na nossa leitura, pois essa</p><p>prática nos ajuda a refletir sobre os posicionamentos que os</p><p>argumentos suscitam com relação ao que é posto pelos autores,</p><p>desenvolvendo o senso crítico e o poder de compreensão leitora.</p><p>Ampliando seus conhecimentos</p><p>• BAGNO, M. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São</p><p>Paulo: Loyola, 1999.</p><p>Para refletir e descobrir novas proposições acerca do uso</p><p>das linguagens formal e informal, leia esse livro sobre as</p><p>concepções da linguística moderna. Com uma linguagem</p><p>bastante acessível e uma leitura fluída, o autor traz</p><p>ponderações sobre a construção de uma verdadeira sociedade</p><p>democrática por meio da linguagem.</p><p>• SOARES, M. B.; CAMPOS, E. N. Técnica de redação. Rio de</p><p>Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2000.</p><p>Para quem procura orientações técnico-metodológicas</p><p>para produzir textos, esse é o livro indicado. Os autores</p><p>apresentam tópicos para a produção textual: desde a escolha</p><p>de vocabulário até a articulação de parágrafos.</p><p>• AQUILO, I. S. Como escrever artigos científicos. São Paulo:</p><p>Saraiva, 2010.</p><p>Nesse livro, o autor se propõe a explicar as normas básicas dos</p><p>textos acadêmicos, de modo prático e objetivo, para uma boa</p><p>escrita de artigos, monografias, dissertações e teses, além de</p><p>resumos e projetos de pesquisa.</p><p>122 Produção e interpretação de textos</p><p>• MÓDULO 01 – “O Gênero Literário” – Curso de Escrita</p><p>Científica. [S.l: s. d.], 2013. 1 vídeo (27 min 13 seg). Publicado</p><p>pelo canal Escrita Científica. Disponível em: https://www.</p><p>youtube.com/watch?time_continue=11&v=CZR0ptpPaR0.</p><p>Acesso em: 18 out. 2019.</p><p>Para melhorar seu nível de escrita de artigos científicos,</p><p>aprender estratégias sobre o uso eficaz da linguagem e refletir</p><p>sobre construções textuais insatisfatórias, assista ao vídeo e</p><p>pratique as sugestões apresentadas.</p><p>Atividades</p><p>1. Reflita sobre o seu discurso e anote em quais momentos e</p><p>com que pessoas você utiliza uma linguagem mais formal ou</p><p>mais informal, justificando seu uso.</p><p>2. Leia o enunciado a seguir e faça um texto argumentando a</p><p>favor ou contra. Independentemente de seu posicionamento,</p><p>utilize um argumento de autoridade em seu</p><p>texto.</p><p>“A música erudita tem mais prestígio e importância que a</p><p>música popular”.</p><p>3. Leia o editorial de um jornal ou revista de sua preferência</p><p>e encontre um exemplo de argumento de comprovação e</p><p>argumento por raciocínio lógico. Explique, então, a diferença</p><p>entre os dois dentro do contexto lido.</p><p>A escrita acadêmica na produção científica 123</p><p>Referências</p><p>BAGNO, M. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 15. ed. São Paulo:</p><p>Loyola, 2002.</p><p>BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna: a sociolinguística</p><p>na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.</p><p>BRETON, P. A argumentação na comunicação. 2. ed. Bauru: EDUSC,</p><p>2003.</p><p>DIAS, G. Primeiros Cantos. São Paulo: Agira, 1969. Disponível em: http://</p><p>www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000115.pdf. Acesso em: 18</p><p>out. 2019.</p><p>FARHAT, R. Escola de Guanambi lança cultivar resistente a fungos. Cadernos</p><p>Temáticos, Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica, Brasília, DF,</p><p>v. 1, 2004. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/</p><p>texto/me004724.pdf. Acesso em: 2 out. 2019.</p><p>FIORIN, J. L.; SAVIOLI, F. P. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo:</p><p>Ática, 2006.</p><p>FIORIN, J. L.; SAVIOLI, F. P. Para entender o texto: leitura e redação. 17. ed.</p><p>São Paulo: Ática, 2007.</p><p>MYANAKI, J. et al. Cultura e turismo. São Paulo: IPSIS, 2007. Disponível</p><p>em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.</p><p>do?select_action=&co_obra=82175. Acesso em: 18 out. 2019.</p><p>PRETI, D. Sociolinguística: os níveis de fala: um estudo sociolinguístico do</p><p>diálogo na literatura brasileira. [S.l: s.n.], 2003.</p><p>REGULES, M. P. P. et al. Ética, meio ambiente e cidadania para o turismo.</p><p>São Paulo: IPSIS, 2007. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.</p><p>br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=82183. Acesso</p><p>em: 18 out. 2019.</p><p>SOUTO, A. Anatomia de um artigo. 2. ed. Recife: Editora Universitária da</p><p>UFPE, 2007.</p><p>Gabarito</p><p>1 Leitura e interpretação na prática</p><p>1. É importante que você reveja as finalidades de leitura e</p><p>exemplifique as que mais usa em seu cotidiano. Por exemplo,</p><p>se você lê com a finalidade de estudar, pode comentar um</p><p>texto que um professor tenha solicitado para estudar.</p><p>2. Você deve se lembrar de qualquer livro que tenha lido ao</p><p>longo de sua vida e revelar a situação que se passa na história,</p><p>com descrição de detalhes que sejam importantes para a</p><p>interpretação. Além disso, deve investigar quem, quando e</p><p>onde o livro foi produzido e verificar se essas informações</p><p>são relevantes para o entendimento da narrativa.</p><p>3. Explique a intertextualidade de um livro ou filme, ou seja,</p><p>algum recurso usado que explicite uma opinião, pensamento</p><p>ou discurso de outras pessoas, que não aquelas que</p><p>produziram o texto. Ao identificar esses diálogos dentro do</p><p>texto, você pode verificar a produção de sentidos de modo</p><p>complexo e entender que a intertextualidade interfere</p><p>diretamente no nível de compreensão de um texto.</p><p>2 A linguagem nua e crua</p><p>1. As funções de linguagem estão presentes no nosso cotidiano.</p><p>Dependendo da intencionalidade que desejamos atingir</p><p>em nossos discursos, sejam eles verbais ou não verbais, é</p><p>importante observar o funcionamento das mensagens a partir</p><p>dos elementos que compõem o processo comunicacional, já</p><p>que são eles que determinam a função e o perfil de linguagem.</p><p>126 Produção e interpretação de textos</p><p>Além disso, é importante que o falante da língua conheça</p><p>as funções para que consiga reconhecer as formas padrão,</p><p>preestabelecidas pela sociedade, que cada função apresenta.</p><p>Por exemplo, textos com frases imperativas como “Compre!”</p><p>são, geralmente, associados à função apelativa, e frases com</p><p>onomatopeias como “hein” se relacionam à função fática.</p><p>Conhecendo esses padrões, somos capazes de realizar</p><p>interações mais eficazes.</p><p>2. Para garantir a impessoalidade do discurso, é importante</p><p>escolher palavras neutras, evitando advérbios e adjetivos.</p><p>Além disso, devemos observar o significado construído</p><p>pelo contexto por meio dos conceitos polissêmicos de um</p><p>vocábulo. Também é necessário observar se há ambiguidade</p><p>nas construções linguísticas e evitá-la por meio de recursos</p><p>sintáticos e semânticos adequados.</p><p>3. A conotação pode ser usada em várias funções da linguagem,</p><p>mas a função poética é aquela que mais faz uso do sentido</p><p>conotativo. Isso se dá porque a função poética tem como</p><p>objetivo expressar emoções, focando na mensagem. A</p><p>conotação vem, então, como um dos recursos usados para</p><p>exprimir os sentimentos no discurso poético, visto que</p><p>ela apresenta as palavras com sentido figurado. Ou seja,</p><p>se queremos dizer que estamos numa fase muito difícil,</p><p>podemos dizer que nossa vida está um mar de tristezas. Mar,</p><p>nesse caso, não se refere à porção de água salgada, mas sim a</p><p>uma grande quantidade.</p><p>4. Polissemia está relacionada à multiplicidade de sentidos que</p><p>uma palavra pode assumir dentro de uma determinada frase.</p><p>Já a ambiguidade pode ser sintática ou semântica, sendo que</p><p>a primeira gera dúvida pela ordem dos termos na oração,</p><p>Gabarito 127</p><p>enquanto a segunda permite várias interpretações a partir</p><p>dos diversos significados que uma palavra pode assumir</p><p>dentro da frase (polissemia). Assim, quando uma palavra</p><p>ou expressão é utilizada dentro da frase, evitando a clareza,</p><p>dizemos que ficou ambíguo. Para exemplificar, podemos</p><p>citar as frases: “Fui ao restaurante e pedi o prato mais caro”;</p><p>“Sentei no banco e esperei ele chegar”; e “Compre uma vela</p><p>para mim amanhã”.</p><p>3 Estratégias de leitura e de escrita</p><p>1. Porque o nível avaliativo exige do leitor o reconhecimento</p><p>de que a língua é um ato social e uma atividade de interação</p><p>verbal entre dois ou mais interlocutores (autor e leitor/autor</p><p>com outros autores). Assim, durante a leitura, é importante</p><p>que o leitor reconheça essa interação, fazendo uso do</p><p>discernimento, da decisão e de sua própria atuação no ato da</p><p>leitura, com o objetivo de socializar com o(s) autor(es), e não</p><p>apenas tomando para si aquilo que foi lido como verdade ou</p><p>mentira absoluta.</p><p>2. Não, pois todo processo de leitura é iniciado pela decodificação</p><p>e pela busca de informações explícitas no texto. Portanto, ele</p><p>é de fundamental importância, assim como os outros.</p><p>3. Revisite o exemplo de resumo, apresentado na seção 3.3, do</p><p>texto Sua escolha faz toda diferença; ele serve como modelo</p><p>de resposta. Vale lembrar que a generalização é quando</p><p>conseguimos trocar termos específicos por um de maior</p><p>abrangência, e associação é a relação que é feita das ideias</p><p>apresentadas dentro de um ou mais parágrafos a fim de</p><p>condensar a informação.</p><p>128 Produção e interpretação de textos</p><p>4 Tipologias e gêneros textuais</p><p>1. Resposta pessoal. Para criar a imagem da pessoa de acordo</p><p>com a sua visão, você deve utilizar recursos linguísticos,</p><p>como adjetivos ou conjunções.</p><p>2. Descritivo e dialogal. O primeiro possui a característica</p><p>de contar com detalhes sobre algo ou alguém e o segundo</p><p>é a representação de uma interação em um momento de</p><p>comunicação direta.</p><p>3. Resposta pessoal. Você deve usar as lacunas para criar e</p><p>escrever um texto do tipo injuntivo, ele deve ser descrito de</p><p>modo criativo. Atente para uma linguagem mais técnica e</p><p>formal.</p><p>5 A escrita acadêmica na produção científica</p><p>1. Pessoal. Você deve diferenciar a linguagem formal da</p><p>informal, observando os momentos em que usa a norma</p><p>culta da língua portuguesa e os momentos em que sua fala</p><p>fica mais descontraída, sem maiores preocupações com as</p><p>regras gramaticais.</p><p>2. Pessoal. Você deve apresentar sua tese com base em alguma</p><p>pessoa importante da área da música que defenda ou não a</p><p>música erudita em relação à música popular. Por exemplo,</p><p>Diósnio Machado Neto, da Universidade de São Paulo,</p><p>estuda as dimensões da cultura erudita letrada; assim, é</p><p>possível pesquisar artigos nos quais ele estuda esse assunto</p><p>para comprovar seu ponto de vista.</p><p>Gabarito 129</p><p>3. Você deve encontrar um editorial (gênero textual de caráter</p><p>opinativo) e reconhecer um argumento de comprovação</p><p>(aquele em que utilizamos dados, estatísticas e provas</p><p>concretas para sustentar uma tese) e um argumento por</p><p>raciocínio lógico (aquele que busca mostrar as relações de</p><p>causa e consequência de um determinado fato).</p><p>Lucienne Lautenschlager</p><p>Produção e Interpretação de Textos</p><p>Produção e</p><p>Interpretação</p><p>de Textos</p><p>Lucienne Lautenschlager</p><p>Código Logístico</p><p>58975</p><p>Fundação Biblioteca Nacional</p><p>ISBN 978-85-387-6545-5</p><p>9 7 8 8 5 3 8 7 6 5 4 5 5</p><p>Página em branco</p><p>Página em branco</p><p>são fresquinhas.</p><p>As batatas estão baratas.</p><p>As batatas estão limpas.</p><p>O que achou? Bastante esquisito, não? Essa sensação se dá porque</p><p>ninguém comunica algo com frases desconectadas. Geralmente,</p><p>quando queremos transmitir uma mensagem, procuramos ser</p><p>bastante claros, economizar palavras, evitar repetições e fazer</p><p>do texto uma unidade significativa. Por isso, devemos levar em</p><p>Leitura e interpretação na prática 17</p><p>consideração que “ninguém fala ou escreve por meio de palavras</p><p>ou de frases justapostas aleatoriamente, desconectadas, soltas, sem</p><p>unidade. O que vale dizer: só nos comunicamos através de textos”</p><p>(ANTUNES, 2005, p. 30).</p><p>Para que uma pessoa se torne apta a produzir informação e/ou</p><p>conhecimento individualmente ou em grupo, ela terá que aprimorar</p><p>seus textos ao longo de sua vida e de sua carreira estudantil, com o</p><p>objetivo de diminuir a distância entre o que se quis dizer e o que</p><p>realmente foi dito. Assim, a comunicação não é algo simples, haja</p><p>vista que uma palavra pode adquirir vários significados dependendo</p><p>do texto e do contexto no qual se apresenta. Se considerada</p><p>isoladamente, fora do contexto, a palavra perde sua dimensão mais</p><p>importante: a construção e reconstrução de sentidos no processo de</p><p>interação verbal. Mas afinal, o que é contexto?</p><p>Contexto é a situação em que um texto ocorre. Tomemos como</p><p>exemplo as figuras analisadas anteriormente: achamos a primeira</p><p>situação mais adequada porque o contexto apresentado – a quitanda</p><p>– está condizente com a informação apresentada na placa “vendem-</p><p>-se batatas”. Já a segunda imagem – o aeroporto – não é condizente</p><p>com essa prática de venda, o que nos faz crer que a informação</p><p>apresentada está descontextualizada, ou seja, essa situação é</p><p>aleatória, desconexa e, portanto, não merece validação por parte do</p><p>leitor.</p><p>Assim, conceituar e identificar um texto não é uma tarefa fácil,</p><p>pois isso significa apreender seu sentido com base na situação</p><p>que o envolve. E essa situação pode ser justificada por alguma</p><p>necessidade ou algo relacionado ao cotidiano e costuma fazer parte</p><p>do conhecimento de mundo da maioria dos indivíduos. Então,</p><p>dizemos que um texto pode ser lido e contextualizado quase que</p><p>automaticamente por qualquer leitor, desde que ele possua esse tipo</p><p>de conhecimento.</p><p>18 Produção e interpretação de textos</p><p>Além disso, para conseguirmos ler e contextualizar, é fundamental</p><p>observarmos textos e, em seguida, refletir sobre seu contexto. Isso não</p><p>só aproxima o leitor de várias linguagens usadas no dia a dia – seja em</p><p>comunicações formais ou informais – como também o impulsiona a</p><p>dar sentido e valorizar as mais variadas formas de comunicação.</p><p>1.2.1 Contextos de produção</p><p>Para encontrarmos o contexto de um determinado texto, é</p><p>importante analisarmos a situação que o permeia. Isso só é possível</p><p>quando identificamos a finalidade, onde e quando o texto foi escrito.</p><p>Ou seja, a partir da leitura, precisamos analisar as informações tanto</p><p>de ordem implícita quanto explícita, a fim de encontrarmos um</p><p>conjunto de elementos de ordem cultural, social e histórica que,</p><p>juntos, formam o contexto.</p><p>Confira alguns exemplos de textos que apresentam o mesmo</p><p>assunto em contextos diferentes.</p><p>Figura 5 – Exemplos de textos com contextos diferentes</p><p>Si</p><p>dn</p><p>ey</p><p>de</p><p>A</p><p>lm</p><p>ei</p><p>da</p><p>/ S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>A – Placa de pare</p><p>Onde: em uma estrada.</p><p>Quando: a todo</p><p>momento, desde que foi</p><p>implementada.</p><p>Para quê: organizar o</p><p>trânsito.</p><p>B – Caderno de</p><p>conscientização Direção</p><p>defensiva</p><p>Onde: em um caderno sobre</p><p>direção defensiva.</p><p>Quando: maio de 2005.</p><p>Para quê: evitar acidentes no</p><p>trânsito.</p><p>Fonte: Brasil, 2005.</p><p>Leitura e interpretação na prática 19</p><p>Chamamos as diferentes abordagens de um mesmo tema de</p><p>contexto de produção. Nas duas figuras apresentadas, o tema é o trânsito</p><p>e a preocupação é diminuir acidentes. Tanto a placa como o caderno</p><p>de conscientização procuram conscientizar motoristas para que tomem</p><p>certos cuidados, evitando maiores transtornos para a própria vida e para</p><p>a de terceiros. Apesar de as duas imagens terem o mesmo tema, a do</p><p>caderno aborda de modo detalhado, com textos e imagens que podem</p><p>ser estudados com calma pelo leitor, enquanto a placa é um texto curto</p><p>e direto, para ser lido rapidamente em meio ao trânsito movimentado.</p><p>Dessa forma, entendemos que o contexto de produção valida</p><p>os textos. Quando o leitor entra em contato com uma unidade</p><p>significativa, mesmo que cognitivamente, ele tende a identificar</p><p>elementos que levem ao processo de contextualização e,</p><p>consequentemente, encontra sentido naquilo que foi decodificado.</p><p>1.3 Linguagem verbal e não verbal</p><p>Por muitos anos, o texto foi sinônimo apenas de</p><p>palavras escritas em uma superfície ou um papel. No</p><p>entanto, principalmente com o surgimento de novas</p><p>formas de comunicação trazidas pelas tecnologias</p><p>digitais (e-mails, redes sociais, aplicativos etc.), a</p><p>interação entre as pessoas foi se modificando e, como</p><p>consequência, foram surgindo diferentes modos de apresentação de</p><p>mensagens e de tipos de textos.</p><p>Conforme estudamos na seção anterior, o texto é uma unidade</p><p>significativa e não precisa ser necessariamente escrito, pois é</p><p>composto por diversos tipos de linguagens, ou seja, usos da língua.</p><p>Sendo assim, podemos encontrar diferentes maneiras de expressão</p><p>linguística com o objetivo de comunicar algo a alguém.</p><p>Entendemos que há duas formas principais de linguagem: a verbal e</p><p>a não verbal (ou imagética). A primeira se apoia em palavras, que podem</p><p>cognição: ato</p><p>ou resultado de</p><p>ter ou adquirir</p><p>conhecimento.</p><p>Vídeo</p><p>20 Produção e interpretação de textos</p><p>aparecer tanto na forma escrita quanto na oral – neste último caso,</p><p>chamamos de fala. Já a linguagem não verbal procura utilizar outros</p><p>meios comunicativos, como imagens, figuras e gestos.</p><p>No dia a dia, querendo ou não, somos coagidos a produzir</p><p>textos orais a fim de atender a diferentes objetivos comunicativos,</p><p>como contar histórias que aconteceram conosco ou com alguém</p><p>conhecido, pedir informações e participar de debates. Quando</p><p>fazemos isso, estamos utilizando a linguagem verbal. Da mesma</p><p>forma, utilizamos essa linguagem quando precisamos escrever</p><p>uma mensagem de texto no celular, um e-mail, fazer uma lista de</p><p>compras ou escrever um bilhete qualquer.</p><p>Você sabia que muitas canções e crenças</p><p>que existem até hoje sobreviveram ao longo de muitos</p><p>anos só no chamado boca a boca? Isso significa que</p><p>as pessoas transmitiam algo umas às outras apenas</p><p>oralmente, contando, conversando e se informando.</p><p>CURIOSIDADE</p><p>Sabemos que, na linguagem verbal, as palavras utilizadas em uma</p><p>língua e outra são diferentes, mesmo quando querem dizer a mesma</p><p>coisa. Por exemplo, na língua portuguesa, chamamos o lugar onde</p><p>moramos de casa, enquanto na língua inglesa ela é conhecida como</p><p>house. Isso acontece porque a escolha das palavras e sua relação com</p><p>seu significado é arbitrária, ou seja, surge da escolha ou vontade de</p><p>alguém que determinou que seria assim.</p><p>Porém, isso não ocorre apenas nesse tipo de linguagem, mas</p><p>também na linguagem não verbal. Na Alemanha, por exemplo,</p><p>colocar as mãos no bolso ao conversar com alguém é considerado</p><p>falta de educação e significa desinteresse pela conversa. Já no Brasil,</p><p>Leitura e interpretação na prática 21</p><p>como em vários outros países, esse ato é apenas uma forma de</p><p>descansar as mãos ou uma simples pose.</p><p>Assim, percebemos que estamos rodeados de textos que não</p><p>apresentam linguagem verbal e exigem do leitor uma procura</p><p>minuciosa do contexto, que pode ser carregado de ideologias,</p><p>valores ou crenças. Tomando como exemplo as mãos no bolso e</p><p>seu significado pelos países, podemos perceber que essa ação revela</p><p>diferentes crenças de cada território.</p><p>Então, consideramos que o significado de linguagens tanto</p><p>verbais quanto não verbais pode remeter a modos de manifestação,</p><p>a situações sociais ou a espaços culturais, isto é, podemos manifestar</p><p>nossas ideias ou pensamentos de diferentes formas, de acordo com</p><p>as situações do cotidiano.</p><p>Por exemplo, em uma universidade,</p><p>revelamos uma maneira de agir e pensar diferente de quando</p><p>estamos em uma festa. Essas ações são determinadas pela cultura que</p><p>nos “dita” o que fazer e de que modo devemos revelar a linguagem.</p><p>Identificar esses elementos em um texto escrito, ouvido, falado ou</p><p>imagético é de fundamental importância para a interpretação dele.</p><p>Um leitor menos experiente, ao analisar a</p><p>linguagem não verbal exposta na figura a seguir,</p><p>pode afirmar que se trata apenas do local turístico</p><p>conhecido como Cristo Redentor, na cidade do Rio</p><p>de Janeiro. Contudo, se analisarmos mais a fundo,</p><p>poderemos compreender que essa figura supõe</p><p>uma visão do Cristo Redentor em linha reta, direta</p><p>ao Corcovado, que ignora toda e qualquer situação</p><p>negativa ou problemas terrenos que existam</p><p>abaixo do monumento.</p><p>(Continua)</p><p>SAIBA MAIS</p><p>22 Produção e interpretação de textos</p><p>Figura 7 – Cristo Redentor no Rio de Janeiro</p><p>dm</p><p>itr</p><p>y_</p><p>is</p><p>le</p><p>nt</p><p>ev</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Lautenschlager (2016) afirma que muitos textos</p><p>relacionados à cidade do Rio de Janeiro revelam a</p><p>ideia de que o Cristo Redentor, situado no Corcovado,</p><p>está voltado a abençoar toda a Guanabara, e não a ver</p><p>coisas desagradáveis ou problemas sociais.</p><p>Além disso, no local, a cor predominante é o azul,</p><p>representada no céu e no mar, reforçando a ideia de</p><p>união entre esses dois elementos e trazendo calma,</p><p>paz e tranquilidade. Em contraposição, o verde do</p><p>morro é evidenciado, remetendo explicitamente à</p><p>ideia de natureza, vida e beleza natural. Portanto, a</p><p>concretude da cidade é quase engolida por essas cores,</p><p>passando a ideia de que o Rio de Janeiro é realmente</p><p>a cidade maravilhosa. Com isso, não queremos negar</p><p>esse fato ou consideração, mas sim refletir acerca dos</p><p>problemas sociais e culturais existentes.</p><p>Leitura e interpretação na prática 23</p><p>Não podemos nos esquecer dos textos com linguagem mista,</p><p>que misturam as linguagens verbal e não verbal em um só, como</p><p>as histórias em quadrinhos. Atualmente, também são reconhecidos</p><p>os textos multimodais, ou seja, textos que lançam mão de diversos</p><p>modos de construção (cores, formas, sons, imagens, palavras etc.),</p><p>que geram, por sua vez, muitos modos de significação.</p><p>Finalmente, retomamos que, a partir do levantamento do contexto</p><p>e das impressões sociais, culturais ou históricas, conseguimos ler</p><p>com propriedade tanto a linguagem verbal quanto a não verbal. Vale</p><p>lembrar também que as duas expressões linguísticas são carregadas de</p><p>significados, desde os mais simples até os mais complexos.</p><p>1.4 Intertextualidade</p><p>Os limites da minha linguagem são os limites de</p><p>meu mundo – Ludwig Wittgenstein</p><p>Muitas vezes, quando lemos um texto ou</p><p>assistimos a um filme, lembramo-nos imediatamente</p><p>de outro, seja porque a linguagem não verbal é semelhante a algo que</p><p>já vimos, ou porque a linguagem verbal se repete de algum modo.</p><p>Ao olharmos uma propaganda de hortifrúti2, por exemplo, com</p><p>a figura de um melão na ponta de uma pedra, seguido do texto</p><p>verbal “O Rei Melão”, muito provavelmente nos lembraríamos</p><p>imediatamente do filme O Rei Leão. Quando temos essa recordação,</p><p>estamos diante de um intertexto.</p><p>Intertexto é a apropriação de outros textos por um autor, pintor</p><p>ou artista, com o objetivo de dar voz a uma determinada temática</p><p>de maneira crítica, irônica, humorística ou intelectualizada.</p><p>2 HORTIFRUTI - Rei Melão - Campanha Hortiflix. 2016. 1 vídeo (15 seg). Publicado pelo</p><p>canal Hortifruti. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7SbhCNPRUGw.</p><p>Acesso em: 10 out. 2019.</p><p>Vídeo</p><p>http://pt.wikiquote.org/wiki/Linguagem</p><p>http://pt.wikiquote.org/w/index.php?title=Limite&action=edit&redlink=1</p><p>http://pt.wikiquote.org/wiki/Mundo</p><p>24 Produção e interpretação de textos</p><p>A intertextualidade é um recurso de grande eficácia para</p><p>introduzir a opinião, o pensamento ou o discurso de outros</p><p>enunciadores em um determinado texto, criando, assim, uma</p><p>espécie de interseção entre dois ou mais textos.</p><p>No caso do anúncio publicitário, o autor quis comparar o melão</p><p>(fruta) ao Rei Leão (filme). Isso faz com que, quando o indivíduo</p><p>entre em contato com esse texto, ele se sinta atraído a comprar o</p><p>melão do estabelecimento, ainda mais se for um fã do filme. Tentar</p><p>persuadir o leitor é o objetivo primordial da publicidade, ainda mais</p><p>no nosso mundo competitivo, em que muitas empresas de ramos</p><p>iguais ou semelhantes disputam uma maior quantidade de clientes.</p><p>Diariamente, estamos rodeados de diferentes textos e recursos</p><p>que invadem nossas casas, atraem nossos olhares e nos encantam</p><p>com demonstrações de inovação, tecnologia ou diferentes estratégias</p><p>de marketing. Seja na rua ou dentro de nossos lares, por meio dos</p><p>aparelhos de comunicação, podemos observar diferentes linguagens</p><p>que tentam nos envolver, criando identificação com as marcas e,</p><p>consequentemente, fazendo-nos adquirir determinados produtos.</p><p>Como afirmam Ribeiro e Eustachio (2003, p. 17), “em um</p><p>mundo de produtos cada vez mais semelhantes, a propaganda é o</p><p>recurso de maior eficácia, do qual o anunciante pode fazer uso para</p><p>prevalecer em relação aos seus concorrentes”.</p><p>Em alguns casos, o recurso da intertextualidade pode ser</p><p>explícito, como na propaganda de uma famosa marca de produtos</p><p>de limpeza em que o garoto-propaganda se caracteriza tal qual</p><p>a pintura da Mona Lisa, de Da Vinci3. Nesse exemplo, o anúncio</p><p>publicitário cria um diálogo com a renomada e valiosa obra de arte,</p><p>dando a entender que o amaciante é tão bom quanto o quadro. Isso é</p><p>estabelecido tanto pela linguagem não verbal, que traz uma releitura</p><p>3 CAMPANHAS. Bombril, [s. d.]. Disponível em: http://www.bombril.com.br/sobre/</p><p>campanhas/63/maio-de-1998. Acesso em: 10 out. 2019.</p><p>Leitura e interpretação na prática 25</p><p>da pintura, quanto pela linguagem verbal, que deixa essa relação</p><p>explícita, ao revelar a seguinte frase: “Mon Bijou deixa sua roupa</p><p>uma perfeita obra-prima”. Para que possamos interpretar esse texto,</p><p>é fundamental que o leitor tenha conhecimento prévio da obra e</p><p>investigue a memória artística a que remete. Do contrário, a leitura</p><p>não terá a mesma qualidade nem alcançará seu objetivo.</p><p>Em outros casos, o intertexto pode aparecer de modo implícito,</p><p>em meio ao contexto de publicação do texto, como na música “Roda</p><p>Viva”, de Chico Buarque4. Para interpretar esse texto, a primeira</p><p>coisa a se fazer é entender seu contexto: ela foi escrita no ano de</p><p>1968, momento em que foi criado o Ato Institucional n. 5, ligado à</p><p>ditadura militar. Esse ato marcou o período mais rígido e sombrio</p><p>de toda a ditadura, pois foi marcado pela censura aos meios de</p><p>comunicação, tortura de pessoas, confisco de bens privados e</p><p>demissões de pessoas do serviço público indistintamente.</p><p>Chico Buarque, então, escreveu uma crítica, praticamente em</p><p>forma de código verbal, utilizando a música como meio. Assim,</p><p>podemos entender a expressão roda viva como uma alusão aos</p><p>representantes da ditadura que, como uma roda, iam “atropelando”</p><p>todo mundo, sem se preocupar com os danos que causavam. Desse</p><p>modo, essa “roda viva” impede e proíbe a expressão artística e</p><p>cultural. Por isso, ele clama em forma de canção a necessidade de se</p><p>“ter voz ativa” e “no nosso destino mandar”.</p><p>Portanto, para encontrar a intertextualidade, muitas vezes</p><p>é necessário que o leitor pesquise, leia outros textos e vá atrás de</p><p>outros contextos. Assim, ele deixará de fazer uma leitura superficial</p><p>para efetivamente investigar o que as palavras carregam consigo</p><p>além das explícitas letras ou sílabas.</p><p>4 RODA viva. Compositor e intérprete: Chico Buarque de Holanda. In: CHICO Buarque</p><p>de Hollanda: volume 3. São Paulo: RGE, 1968. 1 LP (36 min), lado B, faixa 6. Letra da</p><p>música disponível em: https://genius.com/Chico-buarque-roda-viva-lyrics. Acesso em:</p><p>10 out. 2019.</p><p>Código verbal:</p><p>linguagem</p><p>verbal utilizada</p><p>de modo tão</p><p>implícito que</p><p>acaba se</p><p>tornando um</p><p>código secreto</p><p>a ser decifrado</p><p>por quem lê.</p><p>26 Produção e interpretação de textos</p><p>Considerações finais</p><p>Tornar-se leitor e escritor</p><p>significa apropriar-se de uma</p><p>tradição de leitura e escrita e assumir uma herança cultural, a</p><p>qual envolve realizar diversas operações, como conhecer um texto,</p><p>seus contextos e as relações intertextuais. Portanto, precisamos</p><p>valorizar o contato com a leitura nos vários momentos de nossa</p><p>vida e tornar cada um deles uma imersão e reflexão sobre o que é</p><p>ler. Com isso, seremos capazes de pensar sobre esse objeto cultural</p><p>que é o texto.</p><p>Mas vale lembrar que devemos praticar ações como pensar,</p><p>refletir, analisar e compreender a escrita em toda a sua riqueza e</p><p>complexidade. A participação em práticas sociais que envolvam</p><p>a leitura, como grupos de estudo e pesquisa, possibilita resolver</p><p>problemas e refletir sobre a escrita em diferentes suportes e</p><p>contextos. Assim, vamos construindo ideias e hipóteses de como se</p><p>estrutura o sistema linguístico.</p><p>Um leitor não é, portanto, um mero receptor passivo de</p><p>informações e conhecimentos, mas sim um sujeito que elabora,</p><p>transforma, cria e interpreta as informações e os conhecimentos,</p><p>buscando compreendê-los.</p><p>Finalmente, é importante ressaltar que só aprendemos a</p><p>interpretar se interpretarmos. Toda estratégia de leitura demanda</p><p>tempo, conhecimento linguístico e planejamento por parte do</p><p>leitor. Este, mesmo diante de dificuldades de compreensão, não</p><p>deve desistir e precisa montar diariamente sua estratégia para</p><p>análise e ressignificação.</p><p>Leitura e interpretação na prática 27</p><p>Ampliando seus conhecimentos</p><p>• NA PRÁTICA. 10 dicas para estudar melhor segundo a</p><p>ciência. Época Negócios, 30 maio 2018. Disponível em: https://</p><p>epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2018/05/10-dicas-</p><p>para-estudar-melhor-segundo-ciencia.html. Acesso em: 10</p><p>out. 2019.</p><p>Nessa matéria sobre como a ciência nos ensina a estudar melhor,</p><p>especialistas dão dez dicas possíveis de serem colocadas em</p><p>prática na hora da prova, do concurso ou vestibular.</p><p>• ROSENFELD, A. Texto/contexto I. 5. ed. São Paulo:</p><p>Perspectiva, 2009.</p><p>Nesse livro, o autor transita entre teatro, poesia, literatura,</p><p>cinema e pintura, estabelecendo contextos críticos que, até</p><p>hoje, impressionam e ensinam os leitores mais ávidos por</p><p>conhecimento.</p><p>• WEIL, P.; TOMPAKOW, R. O corpo fala. 74. ed. Petrópolis:</p><p>Vozes, 2015.</p><p>O livro trata da comunicação não verbal do corpo humano,</p><p>apresentando gestos, expressões e posições que as pessoas</p><p>utilizam diante de diferentes situações (como risco, medo e</p><p>domínio) e que acabam por revelar sentimentos, crenças ou</p><p>posicionamentos inconscientes.</p><p>• MALÉVOLA. Direção: Robert Stromberg. Los Angeles: Walt</p><p>Disney Pictures, 2014. 1 DVD (97 min). Aventura e fantasia.</p><p>Esse é um filme com a atriz Angelina Jolie, que traz a vilã</p><p>Malévola no papel principal, contando a história a partir de</p><p>seu ponto de vista. Ele traz como intertexto o conto/filme</p><p>A bela adormecida, o qual tem seu enredo marcado pelo</p><p>enfeitiçamento da jovem Aurora pela vilã.</p><p>28 Produção e interpretação de textos</p><p>Atividades</p><p>1. Com qual(is) finalidade(s) de leitura você costuma ler?</p><p>Exemplifique algumas situações em que utiliza essa(s)</p><p>finalidade(s).</p><p>2. Lembre-se de um livro que você tenha lido e comente seu</p><p>contexto.</p><p>3. Dê um exemplo de intertextualidade de uma cena de filme ou</p><p>livro que você tenha assistido ou lido.</p><p>Referências</p><p>ANTUNES, I. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola,</p><p>2005.</p><p>BRASIL. Direção defensiva: trânsito seguro é um direito de todos. Ministério</p><p>das Cidades, maio 2005. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.</p><p>br/download/texto/dt000002.pdf. Acesso em: 2 out. 2019.</p><p>CABADA, G. 3001 pensamentos. São Paulo: Loyola, 2001.</p><p>CURTO, L. M.; MORILLO, M. M.; TEIXIDÓ, M. M. Escrever e ler: como as</p><p>crianças aprendem e como o professor pode ensiná-las a escrever e a ler. v. 1.</p><p>Porto Alegre: Artmed, 2000.</p><p>LAUTENSCHLAGER, L. A cidade maravilhosa além da paisagem. São</p><p>Paulo: Biblioteca 24Horas, 2016.</p><p>MARCUSCHI, L. A. A questão do suporte dos gêneros textuais. DLCV:</p><p>Língua, Linguística e Literatura, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 9-40, 2003.</p><p>RIBEIRO, J.; EUSTACHIO, J. Entenda propaganda: 101 perguntas e</p><p>respostas sobre como usar poder da propaganda para gerar negócios. São</p><p>Paulo: Senac, 2003.</p><p>ROSA, N. Google revela os assuntos mais buscados no Brasil em 2018.</p><p>Canaltech, 12 dez. 2018. Seção Internet. Disponível em: https://canaltech.</p><p>com.br/internet/google-revela-os-assuntos-mais-buscados-no-brasil-</p><p>em-2018-128917/. Acesso em: 2 out. 2019.</p><p>http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/dt000002.pdf</p><p>http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/dt000002.pdf</p><p>2</p><p>A linguagem nua e crua</p><p>A temática deste capítulo está centrada nas interações</p><p>comunicativas, as quais são mediadas de acordo com a</p><p>intencionalidade do interlocutor e com as funções e significados que</p><p>a língua assume. Sendo assim, para descobrir a linguagem “nua e</p><p>crua”, dividimos esse assunto em três partes: funções da linguagem;</p><p>denotação e conotação; e polissemia e ambiguidade.</p><p>Na primeira parte, conceituamos discurso e discutimos como as</p><p>linguagens assumem diferentes funções conforme as pretensões do</p><p>emissor. Na análise da sua recorrência em um texto, especificamos</p><p>algumas características que permitem enquadrar as linguagens de</p><p>acordo com suas especificidades.</p><p>Na segunda parte, abordamos os sentidos literais e figurados</p><p>encontrados em um discurso. O objetivo é entender de que modo</p><p>essas formas de uso da linguagem influenciam, diretamente, na</p><p>distância entre aquilo que se quer dizer e aquilo que realmente foi</p><p>dito. Esse entendimento parte do pressuposto de que, dependendo de</p><p>como construímos um texto, ele pode tanto significar rigorosamente</p><p>o que foi escrito quanto deixar algo subentendido.</p><p>Então, trazemos o assunto polissemia e ambiguidade, visto que</p><p>ambos possuem conceitos que caracterizam um aspecto muito</p><p>usado pelos sujeitos no cotidiano: uma palavra que apresenta</p><p>multiplicidade de sentidos no discurso. Dependendo de como se</p><p>dá essa construção de significados, dizemos que o discurso ficou</p><p>polissêmico ou ambíguo.</p><p>30 Produção e interpretação de textos</p><p>Assim, este capítulo procura explicar a linguagem para auxiliar</p><p>você a realizar uma compreensão mais efetiva do texto e se tornar</p><p>cada vez mais experiente frente às construções linguísticas.</p><p>2.1 Funções da linguagem</p><p>Para comunicar algo a alguém, utilizamos a</p><p>linguagem a todo momento, seja ela verbal ou</p><p>não verbal. Mas você já pensou em como ela está</p><p>presente em sua vida?</p><p>A essa ação comunicativa damos o nome de</p><p>discurso. Dizemos que o discurso é uma das principais condições</p><p>mentais que os membros de uma sociedade linguística têm em</p><p>comum. Assim, ele deve ser influente ou convincente para que faça</p><p>sentido na mente dos seus leitores.</p><p>Você já deve estar se lembrando de muitos discursos que</p><p>produziu durante toda a sua vida, com a intenção de influenciar ou</p><p>convencer sua mãe, seu pai, seu amigo ou, talvez, seu chefe, não é</p><p>mesmo? Se você é bom nisso, tenho uma boa e uma má notícia para</p><p>te dar.</p><p>A boa notícia é que, se você já conseguiu muitas coisas que</p><p>queria ao longo da sua vida, desde conseguir a autorização dos</p><p>seus pais para ir àquela festa, ou aquele meio ponto a mais dado</p><p>pelo seu professor, até aquele projeto concedido pelo seu chefe,</p><p>talvez isso signifique que você é um excelente comunicador e tem</p><p>a competência e a habilidade necessárias para usar a língua a seu</p><p>favor.</p><p>A ruim é que, infelizmente, você não inventou (e dificilmente</p><p>irá inventar) todos aqueles argumentos que costumam ser usados</p><p>em casa, na escola, no trabalho, ou em outro espaço qualquer.</p><p>Isso porque, enquanto usuários de uma língua, nossa mente tem</p><p>a tendência de reter e aprender modelos preestabelecidos na</p><p>Vídeo</p><p>A linguagem nua e crua 31</p><p>sociedade no qual estamos inseridos, com a finalidade de utilizá-los</p><p>nas mais diversas formas de interação/comunicação.</p><p>Esses modelos são aprendidos, adquiridos, formados e</p><p>transformados, tanto no nível individual quanto nas interações</p><p>sociais. A sociedade compreende os mais</p><p>diferentes grupos,</p><p>instituições e organizações em que há interação coordenada e</p><p>negociada entre os indivíduos; e, se há interação, há também o</p><p>compartilhamento de conhecimentos e crenças, feito por meio do</p><p>discurso.</p><p>Considerando que o discurso é, assim, toda situação que envolve</p><p>a comunicação dentro de um determinado contexto, para estudá-</p><p>lo devemos considerar quem o produz, para quem se produz</p><p>e sobre o que se fala. Portanto, todo discurso é constituído de</p><p>componentes específicos que desempenham funções na construção</p><p>de significados.</p><p>Toda ação comunicativa advém de um contexto, que pressupõe</p><p>a existência de dois ou mais participantes em um ato discursivo, e</p><p>apresenta os seguintes elementos:</p><p>• Remetente (ou emissor): quem produz a mensagem;</p><p>• Destinatário (ou receptor): a quem se destina a mensagem;</p><p>• Mensagem: conteúdo estabelecido pelo emissor para o</p><p>receptor;</p><p>• Referente: o foco da mensagem, aquilo de que se trata o</p><p>conteúdo da mensagem; ou o contexto;</p><p>• Contato (ou canal): o suporte textual ou digital; no caso da</p><p>linguagem falada, as ondas sonoras;</p><p>• Código: em que linguagem se veicula a mensagem.</p><p>32 Produção e interpretação de textos</p><p>Definidos os elementos, é possível, então, definir as funções da</p><p>linguagem (Figura 1), de acordo com os objetivos que se pretende</p><p>alcançar na comunicação.</p><p>Figura 1 – Funções da linguagem</p><p>Funções da</p><p>linguagem</p><p>Metalinguística</p><p>Apelativa</p><p>Poética</p><p>Referencial</p><p>FáticaEmotiva</p><p>Código Mensagem</p><p>Canal</p><p>ContextoReceptor</p><p>Emissor</p><p>Fonte: Elaborada pela autora.</p><p>Então, vamos estudar cada uma dessas funções!</p><p>2.1.1 Função emotiva</p><p>A principal característica da função emotiva é evidenciar o</p><p>ponto de vista de quem está produzindo a mensagem, ou seja, do</p><p>remetente. O emissor explicita uma mensagem com o objetivo de</p><p>emocionar o destinatário e provocar seus sentimentos, deixando vir</p><p>à tona as mais diferentes sensações e emoções.</p><p>Por exemplo, quando ouvimos a canção Eu sei que vou te amar,</p><p>de Tom Jobim1, é fácil identificar que o remetente (o eu-lírico)</p><p>1 Letra disponível em: https://genius.com/Antonio-carlos-jobim-eu-sei-que-vou-te-</p><p>amar-lyrics. Acesso em: 4 out. 2019.</p><p>eu-lírico: voz</p><p>no poema que</p><p>expressa o</p><p>pensamento</p><p>daquele que</p><p>narra.</p><p>A linguagem nua e crua 33</p><p>expressa um sentimento, uma emoção – o amor. Podemos perceber</p><p>que há o despertar de uma tristeza e da amargura profunda pelo fato</p><p>de o remetente não se sentir amado e prometer devoção à pessoa</p><p>amada por uma vida inteira.</p><p>Portanto, ao ler esse texto, o leitor pode se sentir tomado por</p><p>sentimentos de saudade e perda, fazendo com que o discurso alcance</p><p>seu objetivo. O leitor é influenciado por aquilo que lê de modo</p><p>empático, em uma espécie de inclusão nessa atmosfera expressiva</p><p>que foi criada por meio da organização linguística entre versos e</p><p>estrofes.</p><p>2.1.2 Função apelativa ou conativa</p><p>Quando a mensagem está voltada ao destinatário, dizemos que</p><p>sua função é apelativa ou conativa. Sabemos que há muitas formas</p><p>de persuadir alguém; porém, é por meio das palavras que isso pode</p><p>se efetivar de modo mais eficaz. A persuasão existe em todas as</p><p>informações e consegue ganhar mais força, principalmente, pelas</p><p>várias formas de comunicação, tentando muitas vezes limitar nossas</p><p>escolhas de propósito e, dessa forma, nos manipular, mesmo que de</p><p>modo inconsciente.</p><p>Você já comprou aquela roupa ou aquele</p><p>produto de beleza porque foi influenciado por uma</p><p>propaganda na televisão, revista ou outdoor?</p><p>Se você respondeu sim, não se preocupe! A linguagem</p><p>do anúncio apenas fez o papel dela: convencer você.</p><p>PARA PENSAR</p><p>persuasão:</p><p>discurso que</p><p>pretende agir</p><p>sobre o outro</p><p>por meio do uso</p><p>da linguagem,</p><p>causando</p><p>reação de</p><p>aceitação.</p><p>34 Produção e interpretação de textos</p><p>Leia e analise a linguagem não verbal a seguir:</p><p>Figura 2 – Mistura de chocolate e leite</p><p>Observe que essa figura serviria tranquilamente para fazer a</p><p>propaganda de um chocolate que tivesse a cremosidade do leite em</p><p>sua composição. Além da linguagem verbal que anuncia “chocolate</p><p>& leite” (em inglês, chocolate & milk), toda linguagem não verbal</p><p>também tem a função de apelar para o visual do leitor, tentando fazer</p><p>com que ele seja tomado pela vontade de experimentar o produto e,</p><p>consequentemente, adquiri-lo o mais rápido possível.</p><p>2.1.2.1 Uso da forma verbal imperativa afirmativa</p><p>ou negativa</p><p>É muito comum encontrarmos, em textos que apresentem</p><p>a função apelativa da linguagem, verbos na forma imperativa</p><p>afirmativa ou negativa, como: “Não viva sem ...!”; “Compre!”;</p><p>“Leve!”. Essa forma verbal expressa o que o emissor quer que o leitor</p><p>faça; nesse caso, a compra de algum produto. Por meio de uma</p><p>ordem, conselho ou súplica, o destinatário da mensagem pode se</p><p>sentir coagido e, por isso, acabar adquirindo determinado produto.</p><p>Ve</p><p>ct</p><p>or</p><p>po</p><p>ck</p><p>et</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>A linguagem nua e crua 35</p><p>O uso de uma linguagem com a função conativa objetiva os</p><p>destinatários, incitando o seu desejo ao consumismo. Guareshi (2000)</p><p>explica três movimentos em que o remetente deve pensar ao produzir</p><p>uma propaganda: 1. incitar o afeto de modo inconsciente; 2. exteriorizar</p><p>esse afeto por meio de expressões verbais, faciais ou de qualquer outra</p><p>forma; e 3. concretizar esse afeto, ou seja, realizar a aquisição do produto.</p><p>Orlandi (2000) afirma que não há</p><p>neutralidade no uso dos signos e que o sentido de</p><p>um determinado discurso se dá na sua relação com</p><p>um determinado sujeito. Então, em tempos de uso</p><p>intenso de tecnologia digital, podemos nos lembrar da</p><p>publicidade on-line e analisar todos os signos que ela</p><p>permite integrar.</p><p>Por essa possibilidade de integração e interação,</p><p>podemos considerar que essa publicidade se</p><p>diferencia de qualquer outra tecnologia tradicional,</p><p>podendo não apenas seduzir o leitor, mas também o</p><p>incorporar ao ato da leitura, a qual pode proporcionar</p><p>hiperlinks, banners, botões das mais variadas formas,</p><p>cores e gráficos para chamar ainda mais a atenção do</p><p>consumidor.</p><p>hiperlink: links</p><p>que levam o</p><p>usuário da rede</p><p>de uma página</p><p>a outra quando</p><p>clicados.</p><p>banner: forma</p><p>publicitária</p><p>em forma de</p><p>bandeiras, que</p><p>aparecem em</p><p>algum canto</p><p>da página da</p><p>internet.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Envolvido na função apelativa da linguagem, o destinatário</p><p>tende a criar significação entre o sujeito e o sentido, sofrendo os</p><p>efeitos diretos da persuasão sobre si mesmo.</p><p>Portanto, ao produzir uma propaganda, ou qualquer texto em</p><p>que a função apelativa da linguagem seja necessária, devemos utilizar</p><p>a força sedutora e poderosa da palavra e relacionar as linguagens</p><p>verbal e não verbal da melhor forma possível para a construção dos</p><p>sentidos e transmissão da mensagem.</p><p>36 Produção e interpretação de textos</p><p>2.1.3 Função poética</p><p>Leia o poema a seguir e reflita sobre qual sentimento é despertado</p><p>no leitor.</p><p>DESEJOS VÃOS</p><p>Eu queria ser o Mar de altivo porte</p><p>Que ri e canta, a vastidão imensa!</p><p>Eu queria ser a Pedra que não pensa,</p><p>A pedra do caminho, rude e forte!</p><p>Eu queria ser o Sol, a luz imensa,</p><p>O bem do que é humilde e não tem sorte!</p><p>Eu queria ser a árvore tosca e densa</p><p>Que ri do mundo vão e até a morte!</p><p>Mas o Mar também chora de tristeza ...</p><p>As árvores também, como quem reza,</p><p>Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!</p><p>E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,</p><p>Tem lágrimas de sangue na agonia!</p><p>E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...</p><p>(ESPANCA, 1978).</p><p>Nesse poema, é nítido que a poeta transmite uma mensagem de</p><p>profunda tristeza e dor, juntamente a um lirismo desmesurado, ao</p><p>selecionar e combinar palavras entre os versos, a ponto de transmitir</p><p>ao leitor o desejo do eu-lírico de ser uma pessoa diferente. Para isso,</p><p>ela faz combinações entre elementos da natureza (mar, sol, pedra)</p><p>e características humanas (rir, cantar, chorar), buscando nesses</p><p>elementos aquilo que, provavelmente, lhe faria mais forte e corajosa.</p><p>Porém, nas duas últimas estrofes, acaba por perceber que até mesmo</p><p>a natureza tem seus momentos de tristeza.</p><p>Assim, estamos diante da função poética da linguagem.</p><p>Essa</p><p>função está intimamente relacionada à mensagem do discurso.</p><p>Apesar do seu nome, não encontramos a função poética apenas</p><p>em poemas, mas também em textos em que há uma seleção e</p><p>A linguagem nua e crua 37</p><p>combinação da linguagem para atender um objetivo específico.</p><p>Como mostra Chalhub (2003, p. 34):</p><p>Qualquer sistema de sinal, no sentido de sua organização,</p><p>pode carregar em si a concentração poética, ainda que não</p><p>predominantemente. Uma foto pode estar contaminada</p><p>de traços poéticos, uma roupa pode coordenar, na sua</p><p>montagem sintagmática, o equilíbrio de cor, corte e textura</p><p>do tecido, um prato de comida pode desenhar, sensualmente,</p><p>a forma e cheiro do cardápio, uma arquitetura pode exibir</p><p>relações de sentido entre o espaço e a construção, a prosa</p><p>pode aspirar à poeticidade.</p><p>Em todo caso, a função poética tem o propósito de chamar a</p><p>atenção do leitor para a mensagem que se quer transmitir por meio</p><p>de uma construção linguística elaborada, que foi construída para tal</p><p>fim. Por isso, diante da necessidade da escrita ou da interpretação</p><p>de um texto cuja função linguística é a poética, sempre é necessário</p><p>voltar nossa atenção para as palavras e para o que elas estão</p><p>comunicando a partir da análise do seu contexto.</p><p>2.1.4 Função referencial</p><p>Observe esta manchete e seu título auxiliar, retirados de um jornal:</p><p>Mato Grosso lidera número de</p><p>queimadas em 20192</p><p>Após dez dias, incêndio na</p><p>Chapada dos Guimarães é</p><p>controlado</p><p>JORNAL</p><p>2 Fonte: Jornal Folha de S.Paulo, 19 ago. 2019. Disponível em: https://www1.folha.</p><p>uol.com.br/ambiente/2019/08/apos-10-dias-incendio-na-chapada-dos-guimaraes-e-</p><p>controlado.shtml. Acesso em: 4 out. 2019.</p><p>38 Produção e interpretação de textos</p><p>Ao contrário do que acontece no poema Desejos vãos, ao lermos</p><p>o título dessa notícia, percebemos que ela tem como objetivo expor</p><p>um fato de maneira objetiva, utilizando uma linguagem clara e</p><p>direta.</p><p>Isso acontece porque, diferentemente da função poética, a função</p><p>referencial é centrada no referente, ou contexto, de modo que o foco</p><p>deve ser a mensagem que se quer transmitir em si, com a exposição</p><p>objetiva dos fatos e, de preferência, de modo impessoal.</p><p>Apesar de sabermos que é praticamente impossível desprover de</p><p>um discurso de pessoalidade, ao construirmos um texto que pretende</p><p>ser referencial, devemos optar pelas palavras mais neutras possíveis</p><p>e tentar identificar o conhecimento partilhado na constituição de</p><p>sentidos do enunciado.</p><p>Veja o exemplo:</p><p>Após dez dias, incêndio na</p><p>Chapada dos Guimarães</p><p>finalmente é controlado</p><p>JORNAL</p><p>Perceba que a simples inserção do advérbio finalmente na</p><p>manchete analisada anteriormente já muda seu sentido, uma vez que</p><p>a palavra inserida forma um novo sentido: o controle do incêndio</p><p>foi conseguido depois de muita espera, luta ou tentativa.</p><p>conhecimento</p><p>partilhado: que</p><p>é reconhecido</p><p>pela maioria das</p><p>pessoas em um</p><p>determinado</p><p>grupo ou local.</p><p>A linguagem nua e crua 39</p><p>A função referencial é caracterizada, então, pela produção de</p><p>informações de modo claro e objetivo, evitando ambiguidades</p><p>e juízos de valor. Por isso, é comum observarmos essa função em</p><p>textos como artigos científicos, livros didáticos, notícias jornalísticas</p><p>e documentos oficiais.</p><p>2.1.5 Função fática</p><p>Muitas vezes, em uma conversa, o foco está no canal, ou seja,</p><p>no meio pelo qual se transmitem os sinais que evidenciam uma</p><p>comunicação. Assim, considerando que o canal seja o telefone, por</p><p>exemplo, a comunicação é bastante marcada por palavras como</p><p>Alô?, Quem? e Oi, que têm o objetivo de reafirmar a comunicação ou</p><p>até mesmo prolongá-la.</p><p>Figura 3 – Exemplo de função fática pela linguagem não verbal</p><p>Vo</p><p>in</p><p>au</p><p>P</p><p>av</p><p>el</p><p>/p</p><p>ig</p><p>gu</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Aham</p><p>Hein?!</p><p>É muito comum que os sujeitos se empenhem em manter a</p><p>comunicação em um discurso, pois isso garante a atenção tanto do</p><p>emissor quanto do remetente, além de servir como um teste para a</p><p>comprovação do bom funcionamento do canal.</p><p>Com certeza, você já passou por alguma situação em que, falando</p><p>no telefone ou em uma chamada de vídeo, quis chamar a atenção</p><p>40 Produção e interpretação de textos</p><p>do seu interlocutor, seja porque ele fez um silêncio prolongado ou</p><p>para ter certeza de que ele entendeu o que foi falado. Nesses casos,</p><p>é muito comum utilizarmos frases prontas ou expressões próprias,</p><p>como né?, não é mesmo? e hein!.</p><p>Seja qual for a opção, o foco está sempre voltado ao canal, que</p><p>também pode ser marcado por simples ruídos, balbucios ou barulhos</p><p>ininteligíveis; mas, principalmente, por frases prontas, peculiares do</p><p>discurso de nossa língua. Imagine a seguinte conversa:</p><p>Figura 4 – Conversa entre duas pessoas</p><p>Vo</p><p>in</p><p>au</p><p>P</p><p>av</p><p>el</p><p>/p</p><p>ig</p><p>gu</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Oi! Como vai?</p><p>Tudo bem, e</p><p>você?</p><p>Nesse exemplo, veja que a resposta da segunda pessoa pode não</p><p>ser verdadeira, pois talvez ela nem esteja bem, mas sim triste e cheia</p><p>de problemas. Porém, diante da pergunta inicial, feita pela primeira</p><p>pessoa, ela acaba respondendo “tudo bem”, apenas para manter a</p><p>função fática da linguagem, que é de prosseguir a conversa.</p><p>Do mesmo modo, analisamos a pergunta inicial “como vai você?”,</p><p>que tem como objetivo apenas iniciar uma comunicação, e não</p><p>realmente saber como a outra pessoa está. Vale lembrar que, nesse</p><p>exemplo, caso uma das pessoas viole a função fática da linguagem,</p><p>a comunicação pode ficar truncada, mal-educada e, até mesmo, ser</p><p>encerrada. É o caso, por exemplo, de quando alguém diz “bom dia”</p><p>e o outro responde “bom dia para quem?”, em que logo nos calamos</p><p>e saímos de fininho.</p><p>A linguagem nua e crua 41</p><p>Há um vício de linguagem na língua portuguesa</p><p>chamado de tautologia, o qual caracteriza uma repetição</p><p>desnecessária, utilizando palavras diferentes, com o</p><p>objetivo de expressar uma mesma ideia. Por exemplo:</p><p>“hemorragia de sangue” (hemorragia é sempre de</p><p>sangue), ou “há anos atrás” (há anos já indica passado).</p><p>Esse vício de linguagem acaba deixando o discurso</p><p>redundante. Porém, geralmente, caracteriza a função</p><p>fática da linguagem.</p><p>CURIOSIDADE</p><p>Hoje, com os novos canais de comunicação e tecnologias digitais,</p><p>podemos encontrar novas formas que evidenciam a função fática da</p><p>linguagem. Em aplicativos de mensagens de texto, por exemplo, é</p><p>muito comum encontrar o uso desse emoji como forma de aceitar</p><p>ou concordar com o que foi falado pela outra pessoa. É uma espécie</p><p>de “tudo bem” na tela do aparelho digital.</p><p>2.1.6 Função metalinguística</p><p>Você já assistiu a algum filme que falasse sobre filmes? Se você se</p><p>lembrar de algum filme com essa temática saiba que, então, você já</p><p>se deparou com a função metalinguística no cinema, na sala da sua</p><p>casa ou no local em que assiste à televisão.</p><p>Isso porque a função metalinguística é aquela que utiliza</p><p>o próprio conteúdo da linguagem como tema ou conteúdo da</p><p>mensagem a ser elaborada pelo remetente. Assim, ela tem como</p><p>foco o código utilizado para comunicar algo a alguém, o qual</p><p>pode ser verbal ou não verbal e utilizado de diferentes formas para</p><p>garantir a comunicação.</p><p>42 Produção e interpretação de textos</p><p>Leia os dois poemas a seguir e pense sobre o que eles têm em</p><p>comum.</p><p>Autopsicografia</p><p>O poeta é um fingidor.</p><p>Finge tão completamente</p><p>Que chega a fingir que é dor</p><p>A dor que deveras sente.</p><p>E os que lêem o que escreve,</p><p>Na dor lida sentem bem,</p><p>Não as duas que ele teve,</p><p>Mas só a que eles não têm.</p><p>E assim nas calhas de roda</p><p>Gira, a entreter a razão,</p><p>Esse comboio de corda</p><p>Que se chama coração.</p><p>(PESSOA, 1942)</p><p>O poema de Fernando Pessoa tem como tema a poesia. Perceba</p><p>que esse texto é um poema falando sobre poemas, o que nos faz</p><p>afirmar que existe a função metalinguística da linguagem. Do mesmo</p><p>modo, dizemos que o dicionário tem essa função por ser um livro</p><p>que usa a língua para falar da própria língua, considerando-se que</p><p>todos os seus verbetes e respectivos significados são estruturados e</p><p>definidos por meio de uma língua.</p><p>Portanto, a função metalinguística manipula os elementos</p><p>linguísticos não só para retomar determinado assunto,</p><p>mas também</p><p>como ponto de partida. Essa função pode ser utilizada em diferentes</p><p>campos de conhecimento como a música, cinema, pintura,</p><p>publicidade e, até mesmo, no dia a dia.</p><p>A linguagem nua e crua 43</p><p>2.2 Denotação e conotação</p><p>Leia os balões a seguir e observe o sentido das</p><p>palavras destacadas.</p><p>Já assinei o papel que</p><p>me deixaram.</p><p>Fiz papel de bobo.</p><p>No primeiro exemplo, a palavra papel está sendo utilizada</p><p>em seu sentido próprio, técnico e científico, portanto, no sentido</p><p>denotativo; já no segundo exemplo, a mesma palavra assume um</p><p>significado figurado, no sentido conotativo.</p><p>Dizemos que na denotação o significado é delimitado por um</p><p>uso específico de caráter informativo, rigoroso e específico. Já a</p><p>conotação tem um sentido mais amplo, pelo fato de permitir que</p><p>sejam feitas associações a outros seres ou a situações que dão um</p><p>entendimento figurado ao vocábulo. Por exemplo, na frase “Fiz</p><p>papel de bobo”, a palavra papel abandona o significado literal de</p><p>substância de matéria fibrosa, originada das árvores, para dar lugar</p><p>ao sentido figurado de atuação, desempenho.</p><p>Devemos nos atentar para o fato de que o sentido denotativo</p><p>nem sempre é aquele que está descrito no dicionário, uma vez que</p><p>o sentido conotativo também pode aparecer descrito como um</p><p>dos significados do verbete, com a rubrica pop. (popular) ou fig.</p><p>(figurativo). Assim, para entendermos os sentidos denotativo e</p><p>conotativo, é fundamental observarmos as impressões e os valores</p><p>acumulados discursivamente, os quais podem ser positivos ou</p><p>negativos, dependendo dos valores afetivos, sociais ou emocionais</p><p>impregnados nos vocábulos.</p><p>Vídeo</p><p>rubrica: situada</p><p>antes da</p><p>definição do</p><p>verbete em</p><p>um dicionário;</p><p>em geral, é</p><p>apresentada</p><p>abreviada.</p><p>44 Produção e interpretação de textos</p><p>Veja o exemplo a seguir.</p><p>Figura 5 – Criança fazendo duas afirmações</p><p>Aquele menino</p><p>é meu vizinho.</p><p>Aquele moleque</p><p>é meu vizinho.</p><p>Considerando as palavras em destaque, podemos dizer que</p><p>elas são denotativas e significam “criança do sexo masculino”.</p><p>Poderíamos dizer também as palavras criança, garoto e pivete, por</p><p>exemplo. Porém, dependendo do grupo social, vocábulos como</p><p>moleque ou pivete podem ser considerados pejorativos, o que faz</p><p>com que essas palavras ganhem uma conotação diferente, ou seja, o</p><p>sentido conotativo, com um sentido menos literal e mais figurativo.</p><p>2.3 Polissemia e ambiguidade</p><p>2.3.1 Polissemia: vários sentidos para</p><p>uma só palavra</p><p>Leia a placa a seguir.</p><p>Vendo pôr do sol</p><p>Nessa placa, há duas leituras possíveis para a frase “vendo pôr</p><p>do sol”: 1. a pessoa está vendendo (verbo vender) o pôr do sol; e 2. a</p><p>pessoa está vendo (verbo ver) o pôr do sol.</p><p>Isso acontece porque as palavras podem assumir mais de um</p><p>sentido e ser definidas em uma lista de significados. Você já parou</p><p>para pensar quantos significados algumas palavras que usamos</p><p>comumente têm?</p><p>Vídeo</p><p>A linguagem nua e crua 45</p><p>Observe o seguinte verbete, por exemplo.</p><p>fa.zer</p><p>Verbo transitivo direto.</p><p>1. Dar existência ou forma a; criar.</p><p>2. Construir (prédios, estradas, etc.).</p><p>3. Fabricar; manufaturar.</p><p>4. Produzir intelectualmente.</p><p>5. Executar, realizar (uma ação física ou movimento).</p><p>6. Pintar, esculpir, gravar, talhar, etc. (obra de arte).</p><p>7. Preparar, cozinhando.</p><p>8. Aparar, cortar, etc. ou mandar que o façam.</p><p>9. Dar origem a; produzir.</p><p>10. Levar a efeito; realizar: fazer um pagamento.</p><p>11. Restr. Proferir (discurso, promessa, votos, etc.).</p><p>12. Conceber; imaginar.</p><p>13. Cursar: Fez química.</p><p>14. Formar: Fez um círculo.</p><p>15. Obter (um resultado) por esforço, competência ou sorte.</p><p>16. Pop. Excretar.</p><p>17. Ser a causa, a razão ou o motivo de: O terremoto fez</p><p>a cidade tremer. [Neste caso é seguido de outro verbo no</p><p>infinitivo.] « Impess.</p><p>18. Ter decorrido (período de tempo); haver: Faz dois anos</p><p>que ele nasceu.</p><p>19. Ocorrer (estado atmosférico); haver: Faz frio. Faz sol.</p><p>Verbo transitivo direto e indireto.</p><p>20. Prestar (favor, obséquio) a alguém.</p><p>21. Transformar, converter: fazer das tripas coração.</p><p>22. Fazer (15): Fez 58 pontos na prova.</p><p>23. Causar, ocasionar.</p><p>Verbo transobjetivo.</p><p>24. Tornar: Os problemas fizeram brancos os seus cabelos.</p><p>Verbo transitivo indireto.</p><p>25. Esforçar-se: Faça por ser um bom aluno.</p><p>Verbo intransitivo.</p><p>26. Proceder, portar-se.</p><p>Verbo pronominal.</p><p>27. Tornar-se, transformar-se.</p><p>28. Fingir-se: fazer-se de bobo. [C.: 18]</p><p>(FERREIRA, 2004).</p><p>46 Produção e interpretação de textos</p><p>Veja que uma só palavra, como fazer, pode assumir até 28</p><p>significados distintos! Assim, podemos considerar que esses são</p><p>os sentidos polissêmicos de uma palavra, os quais, dentro de uma</p><p>análise linguística, devem ser questionados sempre a partir do</p><p>contexto, o responsável pela modificação do valor de unidade de</p><p>sentido do vocábulo.</p><p>Veja como isso acontece a seguir.</p><p>Figura 6 – Exemplos de significados do verbo fazer</p><p>Vou fazer um bolo.</p><p>(A)</p><p>H</p><p>Q</p><p>ua</p><p>lit</p><p>y/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Fazer o quê?</p><p>(C)</p><p>M</p><p>ar</p><p>co</p><p>s</p><p>M</p><p>es</p><p>a</p><p>Sa</p><p>m</p><p>W</p><p>or</p><p>dl</p><p>ey</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Vou fazer teatro.</p><p>(B)</p><p>Fe</p><p>r G</p><p>re</p><p>go</p><p>ry</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>A linguagem nua e crua 47</p><p>No caso da Figura 6 (A), temos o verbo fazer assumindo o valor</p><p>do verbo cozinhar ou assar. Na Figura 6 (B), o verbo pode assumir</p><p>tanto o sentido do verbo estudar quanto do verbo representar. Já na</p><p>Figura 6 (C), o verbo fazer não pode ser entendido separadamente,</p><p>mas sim em conjunto com os outros dois vocábulos, já que só assim</p><p>é possível manter o sentido da expressão como sendo “E agora?”.</p><p>Portanto, essa dinâmica polissêmica das unidades só é construída</p><p>a partir do reconhecimento do contexto, da linguagem usada e dos</p><p>valores referenciais no discurso e pelo discurso. Só a partir desse</p><p>tipo de análise é possível determinar a relação de sentidos de uma</p><p>palavra, frase, ou expressão, e explicitar a produção dos sentidos, a</p><p>qual acaba disseminando uma ideologia e visa certa produção de</p><p>efeitos sobre o interlocutor.</p><p>2.3.2 Extra! Extra! Estudante procura livro</p><p>sequestrado via internet: um estudo sobre a</p><p>ambiguidade</p><p>Quando um enunciado escrito gera duplo sentido ao ser lido,</p><p>dizemos que ele é ambíguo. Por exemplo, no caso do subtítulo desta</p><p>seção, ficamos em dúvida se o estudante procura o livro na internet</p><p>ou se o livro foi sequestrado por meio da internet, o que seria muito</p><p>estranho, mas, mesmo assim, possível, devido à construção sintática</p><p>da frase.</p><p>Desse modo, segundo Henriques (2011, p. 87), ambiguidade</p><p>acontece quando “um enunciado traz em si duas ou mais</p><p>interpretações”. De acordo com Ilari (2010), a ambiguidade pode ser</p><p>causada por motivos sintáticos (construção e organização da frase),</p><p>como a má colocação de um adjunto adverbial, ou semânticos</p><p>(sentido das palavras), como o mau uso do pronome dentro de</p><p>um mesmo período. O primeiro dá a possibilidade de construção</p><p>de duas ou mais análises sintáticas ao texto, enquanto o segundo</p><p>permite que se encontrem dois ou mais antecedentes.</p><p>48 Produção e interpretação de textos</p><p>Vamos observar como isso acontece!</p><p>• “Eu fiquei sabendo do incêndio no shopping”.</p><p>Ao ler essa frase, ficamos em dúvida se o emissor ficou sabendo</p><p>do incêndio no momento em que visitava ou fazia compras no</p><p>shopping ou se o shopping pegou fogo. Assim, dizemos que essa</p><p>ambiguidade é sintática, porque a dúvida advém das funções que os</p><p>termos exercem nas orações e suas relações.</p><p>• “Antônio recebeu uma mesada”.</p><p>Já nessa frase, podemos ficar em dúvida se Antônio recebeu uma</p><p>mesada porque bateram nele com uma mesa, ou se ele recebeu uma</p><p>quantidade de dinheiro de alguém. Nesse caso, a dúvida é originada</p><p>pelos diversos significados assumidos pelo vocábulo. Por isso,</p><p>dizemos que essa ambiguidade é semântica.</p><p>Para tirarmos a ambiguidade de um texto, é importante</p><p>refazermos a construção sintática ou semântica, procurando sempre</p><p>deixar o texto simples, conciso e sem muitos rebuscamentos. A</p><p>simplicidade, o cuidado com os referentes e a clareza são elementos</p><p>essenciais de um texto, pois ajudam a evitar construções ambíguas</p><p>e facilitam o entendimento daquilo</p><p>que se quis transmitir. Como</p><p>afirma Henriques (2011, p. 90):</p><p>– A ambiguidade é um vício de linguagem?</p><p>– Depende! Diga-me em que texto está a ambiguidade</p><p>e eu te direi se é um vício de linguagem ou se é uma</p><p>experimentação.</p><p>Porém, em alguns gêneros textuais, a ambiguidade é essencial,</p><p>pois provoca humor, convence o leitor ou direciona a leitura para</p><p>um determinado ponto do texto. São exemplos a propaganda e o</p><p>anúncio publicitário.</p><p>A linguagem nua e crua 49</p><p>Móveis por estes</p><p>preços não vão durar</p><p>nada!</p><p>Nesse caso, a construção sintática gera ambiguidade, visto que</p><p>ficamos na dúvida se serão os móveis (pela qualidade) ou o estoque</p><p>(por causa do preço) que não vão durar nada.</p><p>Muitas vezes, esses gêneros usam da ambiguidade para atingir</p><p>um público-alvo ou objetivo predeterminado. Esse não é o caso no</p><p>exemplo apresentado, já que nenhuma propaganda tem interesse</p><p>em colocar a qualidade de seu produto em dúvida. Nos casos</p><p>propositais, a ambiguidade não deve ser reformulada, o ideal é que</p><p>ela seja analisada para que possamos compreender quais são os</p><p>diferentes entendimentos que podemos ter do(s) período(s) e qual é</p><p>o resultado do discurso.</p><p>Outros gêneros que fazem uso frequente da ambiguidade são:</p><p>textos poéticos, textos humorísticos, histórias em quadrinhos, trovas</p><p>e anedotas. Dependendo da intencionalidade de cada um deles, a</p><p>ambiguidade se torna um instrumento de escrita; do contrário, ela</p><p>é apenas um vício de linguagem. Textos científicos, informativos</p><p>e com caráter acadêmico jamais podem ser ambíguos, pois devem</p><p>primar pela clareza e pela concisão.</p><p>50 Produção e interpretação de textos</p><p>Considerações finais</p><p>O falante de uma língua, enquanto remetente e destinatário</p><p>de discursos, deve estudar e desenvolver as funções da linguagem</p><p>e as diversas facetas que uma palavra pode assumir, uma vez que</p><p>isso lhe oportuniza o entendimento da função social de uma</p><p>língua e o desenvolvimento da potencialidade discursiva. Esse</p><p>desenvolvimento exige uma continuidade, um processo das ações</p><p>de escrita e leitura que devem ser analisadas linguisticamente.</p><p>Assim sendo, não se comunica algo a alguém de qualquer</p><p>forma. A comunicação é um processo que depende de estratégias</p><p>de produção que proporcionem uma reflexão independente e</p><p>autônoma dos indivíduos durante o uso da língua.</p><p>Nesse contexto, as funções da linguagem garantem aos indivíduos</p><p>o acesso ao processo de participação social, posto que conseguem</p><p>compreender as dimensões dialógicas do universo linguístico,</p><p>superando a mera decodificação e transpondo as mais diferentes</p><p>práticas comunicativas.</p><p>Vale ressaltar que o sentido de um texto não pode ser estabelecido</p><p>somente sob um único ponto de vista. É importante observar</p><p>que a compreensão de uma palavra ou de um texto só é possível</p><p>a partir da relação autor-texto-leitor-contexto, a qual oportuniza</p><p>uma multiplicidade de sentidos, mas sempre dentro de um limite</p><p>de informações explícitas ou implícitas, denotativas ou conotativas,</p><p>ambíguas ou polissêmicas.</p><p>Finalmente, procurar avançar linguisticamente representa um</p><p>desafio grande, porém fundamental, para as pessoas que buscam</p><p>novos conhecimentos e o aprimoramento do uso da língua.</p><p>A linguagem nua e crua 51</p><p>Ampliando seus conhecimentos</p><p>• FIORIN, J. L. Figuras de retórica. São Paulo: Contexto, 2014.</p><p>Aprofunde seus estudos sobre funções da linguagem com</p><p>esse livro, que traz reflexões valiosas acerca do processo de</p><p>comunicação com base na intencionalidade do produtor.</p><p>• EMOTICON do WhatsApp com significado. Disponível</p><p>em: https://www.emoticonsignificado.com.br/. Acesso em:</p><p>4 out. 2019.</p><p>Descubra o significado dos emojis mais usados nos aplicativos</p><p>de envio de mensagens de texto. Lembramos que eles podem,</p><p>vez ou outra, assumir a função fática da linguagem.</p><p>• BOLDRIN, R. Autobiografia de mim mesmo, à maneira de</p><p>mim próprio. [S.l: s.n.], 2012. 1 vídeo (4 min). Publicado</p><p>pelo canal TV Cultura Digital. Disponível em: https://www.</p><p>youtube.com/watch?v=3nLtHcLwSuI. Acesso em: 4 out. 2019.</p><p>Podemos observar a função emotiva da linguagem nesse</p><p>vídeo, em que Rolando Boldrin recita o texto Autobiografia</p><p>de mim mesmo, à maneira de mim próprio, escrito por Millôr</p><p>Fernandes. Mantendo o foco na linguagem, o texto reflete</p><p>emoções e sentimentos segundo a visão do remetente.</p><p>• A INVENÇÃO de Hugo Cabret. Direção de Martin Scorsese.</p><p>Los Angeles: Paramount Pictures, 2012. 1 DVD (127 min).</p><p>Drama.</p><p>O filme conta a história de um menino que mora em uma</p><p>estação de trem e começa a viver aventuras em busca de</p><p>desvendar o mistério que gira em torno de uma chave que</p><p>tem o fecho em forma de coração. Usando a metalinguagem,</p><p>o filme relembra, em vários momentos, a trajetória do francês</p><p>George Méliès, ilusionista e cineasta francês, detalhando</p><p>peculiaridades de seu trabalho.</p><p>52 Produção e interpretação de textos</p><p>Atividades</p><p>1. Por que é importante reconhecermos as funções da linguagem?</p><p>2. Alguns gêneros textuais, como um artigo científico ou notícia</p><p>de jornal, exigem impessoalidade. Explique quais estratégias</p><p>linguísticas podem ser utilizadas para garantir esse objetivo.</p><p>3. Qual é a função que mais utiliza a conotação? Como ela faz</p><p>uso desse recurso?</p><p>4. Qual é a relação entre polissemia e ambiguidade? Cite um</p><p>exemplo em que há ambiguidade e/ou polissemia.</p><p>Referências</p><p>CHALHUB, S. Funções da linguagem. 11. ed. São Paulo: Ática, 2003.</p><p>ESPANCA, F. Sonetos. Portugal: Bertrand, 1978.</p><p>FERREIRA, A. B. H. Dicionário Mini Aurélio. Curitiba: Positivo Informática</p><p>Ltda., 2004. Eletrônico. Versão 5.12.</p><p>GUARESHI, P. A. Comunicação e controle social. Petrópolis: Vozes, 2000.</p><p>HENRIQUES, C. C. Léxico e semântica: estudos produtivos sobre palavra e</p><p>significação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.</p><p>ILARI, R. Introdução ao estudo do léxico: brincando com as palavras. São</p><p>Paulo: Contexto, 2010.</p><p>ORLANDI, E. P. Análise de discurso. São Paulo: Pontes, 2000.</p><p>PESSOA, F. Poesias. Lisboa: Ática, 1942. Disponível em: http://arquivopessoa.</p><p>net/textos/4234. Acesso em: 4 out. 2019.</p><p>3</p><p>Estratégias de leitura e de escrita</p><p>Como visto até agora, não devemos praticar sem fundamento</p><p>as atividades que exigem o uso da língua. Afinal, escrever, ler e</p><p>compreender são processos que dependem de estratégias que exigem</p><p>reflexão independente dos falantes da língua. Essas atividades estão</p><p>constantemente presentes no dia a dia do cidadão, que deve garantir</p><p>o processo de compreensão, pois assim pode auxiliar sua família, a</p><p>sociedade e até a si mesmo das mais diversas formas, por exemplo,</p><p>ao ler uma placa ou conseguir um bom emprego.</p><p>Fica claro que os indivíduos têm um grande desafio: ler, escrever</p><p>e interpretar além do que está posto na escrita, já que saber assinar</p><p>o nome, conseguir reconhecer o alfabeto e as sílabas e fazer cálculos</p><p>simples não é mais garantia de ser letrado.</p><p>Para auxiliar nessas atividades, apresentamos, neste capítulo,</p><p>uma reflexão sobre os aspectos envolvidos no processo de leitura</p><p>em diferentes níveis, e as diversas estratégias para alcançá-los. Essas</p><p>estratégias poderão ser usadas, em diversos momentos do cotidiano,</p><p>na exploração de diferentes linguagens, sejam elas escritas ou</p><p>faladas, lidas ou ouvidas, verbais ou não verbais.</p><p>Neste capítulo, trazemos três assuntos relevantes para os</p><p>processos de leitura e escrita: os níveis de leitura; o tópico frasal</p><p>e o desenvolvimento de um parágrafo; e o resumo. Na primeira</p><p>seção, veremos os níveis de leitura objetivo, inferencial e avaliativo,</p><p>que compreendem desde a interpretação mais básica até a mais</p><p>requintada. Não se trata de uma hierarquia de níveis, mas sim de</p><p>competências e habilidades que devemos desenvolver e dominar</p><p>durante uma leitura.</p><p>54 Produção e interpretação de textos</p><p>Na segunda seção, abordamos como um parágrafo costuma</p><p>apresentar o tópico frasal, ou seja, um assunto nuclear, para que</p><p>então sejam feitos desdobramentos. Essa identificação auxilia o</p><p>processo tanto de escrita quanto de leitura. Por fim, veremos como</p><p>se faz um resumo, gênero</p>