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FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE
A ESTRUTURA DINÂMICA DA MENTE
HUMANA
Fernanda Nogueira Campos Rizzi
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Olá!
Você está na unidade . Conheça aqui a primeira e segunda tópica A estrutura dinâmica da mente humana
freudiana em seu funcionamento dinâmico. Entenda a primeira tópica retomando conceitos básicos da
psicanálise, a evolução para a segunda tópica e seus fundamentos.
Aprenda aqui sobre a Teoria do Complexo de Édipo e sua influência nas estruturas de personalidade. Conheça o
conceito de pulsão e sua importância na teoria freudiana e ainda, algumas mudanças em demais abordagens
deste conceito.
Tenha nesta unidade uma visão mais clara de como Freud compreendeu o funcionamento psíquico, articulando
os conceitos mais conhecidos da psicanálise como inconsciente, consciente, ID, EGO, SUPEREGO, recalque,
complexo de édipo e personalidade.
Bons estudos!
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1 Aparelho psíquico: primeira e segunda tópica
Ao longo deste estudo, mobilizaremos conceitos basilares da teoria psicanalítica, inserindo-os no modelo
topográfico e psicodinâmico do psiquismo e aprendendo mais sobre o funcionamento da mente.
O termo é oriundo da palavra grega “topos” que indica lugar. Desta forma, Freud estabeleceu lugares com tópica
funções específicas e suas relações entre si para criar o modelo topográfico do parelho psíquico.
A primeira de suas teorias foi a primeira tópica, que inicia claramente sua tentativa de organizar o sistema
mental no seu trabalho conhecido tardiamente como “Projeto para uma Psicologia Científica”, escrito em 1895,
tendo sido publicado apenas após a morte do autor.
A segunda tópica trará a percepção do movimento pulsional e dos conflitos psíquicos travados durante o
processo de construção da personalidade. Permitirá situar o Eu, sua construção e sua relação com as demais
instâncias.
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1.1 Primeira tópica
A teoria do recalque levou Freud a construir o que veio a chamar de primeira tópica, o recalque está ao centro,
produzindo o que chamamos de processos inconscientes. O recalque, como aquilo que afasta da consciência o
que deve ser evitado, acaba por se constituir ele mesmo no primeiro inconsciente, e daí por diante as
representações psíquicas que se ligarão ao que foi isolado do saber consciente. "Obtemos assim o nosso conceito
de inconsciente a partir da teoria da repressão. O reprimido é, para nós, o protótipo do inconsciente" (Freud,
1923, p. 27 apud BARATTO, 2002, s/n).
Breuer em seu texto “Ideias inconscientes e insuscetíveis de consciência”, publicado no livro “Estudos sobre a
histeria (1893-1895)” juntamente ao seu parceiro Freud, traz a questão da cisão da psique apresentando não
apenas o conceito do inconsciente, mas a primeira noção de espaço e funcionalidade do mesmo.
Freud, por sua vez, aprofundou-se nos estudos da aparelhagem psíquica, em 1895 em seu “Projeto” que integra
as três instâncias da primeira tópica: inconsciente-pré-consciente-consciente ( ). No Projeto éIcs-Pcs-Cs
proposto que a dupla Cs/Pcs é formada como reação aos estímulos externos captados pela percepção,
apresentado uma ideia econômica em relação à energia que pode se manter em equilíbrio, abaixo do necessário,
chegar ao limiar ou ainda se exceder até uma medida aceitável. Neste esquema, o excesso quantitativo de energia
geraria uma excitação com direção ao “escoamento ou descarga do excesso de energia insuportável” (BRANDT,
2017, p.58).
Freud teria começado a traçar não só o funcionamento e tópicas, como também gerar a hipótese explicativa
sobre sintomas repetitivos, entendendo que, num primeiro episódio, o excesso de energia exige mais do sistema
que busca a descarga de uma maneira nova e, em episódios que se repetem, o sistema tende a repetir os
caminhos anteriores que se tornaram já programados como possíveis. Explicando de forma simplificada, se uma
excitação gera um desequilíbrio no aparelho psíquico de uma moça que está muito culpada por ter mentido aos
pais, e tem descarga na autoflagelação, provavelmente, nesta teoria, se somará a seu funcionamento mental a
estratégia do autoflagelo como forma de auto equilíbrio.
O Projeto para uma Psicologia Científica, é a tentativa mais clara de Freud de associar as ciências naturais ao seu
explicativo pois, neste projeto, consegue propor que células neuronais sãomodelo metapsicológico
responsáveis pela passagem de energia psíquica, escoamento e regulação de acúmulo energético (BRANDT,
2017).
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O Projeto, assim como a primeira tópica, teoriza sobre as três instâncias já mencionadas, a consciente e a
inconsciente mediadas pelo pré-consciente. O Pcs neste modelo topológico possui relação com ambas as outras
instâncias, com o Cs atuando como passagem daquilo que estaria no Ics e que busca escoamento na Cs (BRANDT,
2017).
Os estímulos externos chegam ao sujeito por meio da percepção primeiramente na forma inconsciente, e passam
por uma trajeto que pode desembocar numa ligação com traços mnêmicos (registros inconscientes), ou
escoarem pelo sistema motor.
Baratto (2002) afirma que a primeira tópica freudiana situa o inconsciente em funcionamento à margem da
consciência, o que o constitui são representações de desejos que surgiram na infância. As representações podem
ser entendidas como ideias de um desejo que são dinamizadas neste espaço inconsciente por meio de alguns
mecanismos, como o recalque, a .condensação e o deslocamento
Freud sugere uma cadeia de representantes que se ligam e se desligam, formando um sistema “organizado e
caracterizado por modos próprios de expressão, capaz de subsistir de forma autônoma em relação à consciência,
fazendo desta mero efeito de superfície, tão fugaz quanto ilusória” (BARATTO, 2002, s/p).
É no capítulo VII do livro “A interpretação dos Sonhos” de 1900, que Freud retoma seu Projeto de uma nova
maneira, sem localizar anatomicamente as instâncias e sim metaforicamente e ainda, indicando o investimento
energético em ideias e não mais em neurônios. Apesar a concepção tópica de não totalmente concluída, que será
melhor explicada em 1915 com os escritos da “Metapsicologia”, desenha-se claramente a inseparabilidade da
concepção tópica da dinâmica (GARCIA-ROZA, 2009).
A preocupação com a compreensão e esquematização desta organização do aparelho psíquico deixa de ser
fisiológica e passa a ser mais funcional. Os lugares indicam a constância de uma posição em que determinados
processos se dão. Ao invadirem, os estímulos internos e externos passam por processos e findam em uma
experiência: a descarga motora ou o escoamento psíquico (GARCIA-ROZA, 2009; BRANDT, 2017).
Para ficar claro, um sistema perceptivo ( ) que recebe um estímulo externo ou interno, sem registrar ouPept
associar, trata-se apenas de um receptor aberto a outros estímulos. Sistemas mnêmicos, parte do conteúdo
inconsciente, traços de memórias das mais arcaicas, estão disponíveis para receber este estímulo e gerar as
associações possíveis com ele. Esta força para o trajeto inconsciente é conhecida como , porém orepressão
sentido do estímulo é de . O estímulo tende assim a regredir em direção ao recalcado.regressão
O termo Mnem refere-se a traços de memória ou apenas traços armazenados que estão no inconsciente. O Pept
exerce seu papel de recepção, porém o estímulo pode se associar aos vários sistemas mnêmicos pelos quais
passa.
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Freud identificou uma instância crítica que se encontrava na extremidade deste aparelho, decidindo o resultado
do processo de filtragem e transformação de qualquer estímulo.
A substituição da noção descritiva de inconsciente pelo conceito de inconsciente sistemático é um dos
momentos fundamentais da construção teórica de Freud. Já foi dito que a representação esquemática do
aparelho psíquico apresentada por Freud não pretende ser a transcrição de nenhuma estrutura anatômica
existente, mas sim uma construção topológica que visa oferecer uma descrição do funcionamento do aparelho.
Mais do que tudo, importa a sua orientação progressivo-regressivae a posição relativa dos sistemas (GARCIA-
ROSA, 2009, p. 78).
A funcionalidade e movimento do inconsciente, seu caráter de armazenamento e movimento, possibilita essa
definição topológica clara na relação com as demais instâncias psíquicas que, por sua vez, permitem ou rejeitam
os conteúdos que são impulsionados do Ics para o sistema Pcs/Cs. Este último sistema sendo responsável então
pela censura, ou codificação, estão a pleno vapor no estado de vigília.
Vemos que o processo de excitação segue de forma progressiva pelo sistema buscando equilíbrio, escoamento.
Caso parte desta excitação não sofra a descarga necessária, ocorre um movimento contrário, regressivo. A
excitação se volta novamente no sentido sistema perceptivo (Pept) e cria assim a possibilidade de se tornar
“coisa sensorial” e se satisfazer. Nesta hipótese, a excitação reinvestiu traços mnêmicos e construiu percepções
não conscientes, como é o caso do sonho e da alucinação.
A regressão é dividida em três modos de ação que ajudam a compreendê-la, a indicando umatemporal
regressão a traços cronológicos da vida, a que consiste na passagem de um sistema ao outro, e atópica formal
que indica a mudança de forma (signos). Por exemplo, um estímulo em forma de pesamento ou palavra invade o
sistema e é regredido até a condição de coisa, representações tais como imagens, sons, sensações, coisas não
nomeáveis, pois quando foram experienciadas o sujeito ainda não tinha acesso à linguagem pela palavra.
Essa organização topológica se divide em três instâncias e em dois grupos de representações, sendo uma
instância e grupo o próprio inconsciente, que é regido pelo princípio de prazer e quer se aliviar da tensão
acumulada o quanto antes. O outro grupo pertence ao sistema pré-consciente/consciente que opera com censura
impedindo a descarga imediata e cedendo ao princípio da realidade.
As leis que regem o aparelho psíquico também se distinguem. O inconsciente é regido pelo processo primário
em que a energia circula livremente e busca se descarregar por meio da satisfação imediata, atendendo ao
. No sistema pré-consciente/consciente, o organiza a energiaprincípio do prazer processo secundário
investindo-a em representações e adia a satisfação de acordo com a realidade, atendendo ao princípio da
.realidade
O sistema parece simples quando se pensa que são três instâncias já popularizadas e quase tidas como senso
comum, no entanto, para além de espaços hipotéticos que nos auxiliam a entender a mente humana, são
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conceitos dinâmicos e funcionais que nos permite ter alguma teoria acerca de formações de ideias, pensamentos,
alucinações, sonhos e movimentos, ou seja, permite vislumbrar a construção do mundo imersa no nosso
desconhecimento, no esquecido.
Assista aí
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/008d1a386ba8e6178c0cf0abe956103d
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1.2 Segunda tópica
A é popular sendo origem de piadas e jargões cotidianos. Sabe-se de antemão que Freud dividiusegunda tópica
o Eu psíquico com , e e, com um conhecimento bem superficial dos conceitos e da proposta doID Ego Superego
mestre, escuta-se por aí alguém chamar um colega repressor de Superego, uma pessoa que age por impulso e é
avisada “olha o ID”, ou sobre alguém que se exibe, diz-se “que ego inflado”. De certo modo, estes usos não estão
totalmente desvinculados dos conceitos reais destes termos. Mas é necessário perceber que além de
características, existem funções e alocações em relação ao sistema consciente-inconsciente, e um histórico de
construção e amadurecimento de cada uma destas estruturas do eu.
No texto de Freud “O Ego e o Id”, publicado em 1923, o autor retoma a questão do inconsciente como cerne da
Psicanálise, deixando claro que é perceptível que uma ideia que está agora à mente em pouco tempo não estará
mais, podendo estar latente ou não. Para Freud, o importante nesta apresentação é ressaltar que seus estudos
conseguiram identificar o processo formador de sinais até então inacessíveis, como os sonhos, os fenômenos
físicos e psíquicos sem origem orgânica e os estados hipnóticos. Freud realça ainda a descoberta de técnicas
psicanalíticas capazes de remover a repressão em análise, a qual neste caso é nomeada resistência, com a
finalidade de acessar conteúdos reprimidos que imprimem sofrimentos no mundo observável.
Freud então discute que o sistema composto descritivamente como Ics e Pcs/Cs, mostra claramente a distinção e
relação entre duas instâncias, que na dinâmica energética podem ser compreendidos como um, afinal, a
economia é relativa ao aparelho psíquico. Procura-se neste aparelho algo individual, uma parte do aparelho
ligada à motilidade, à consciência, que descansa no rebaixamento da consciência, mas que não é a consciência,
chamou-se esse regulador eu-mundo (interno-externo) de (FREUD, 1923/1976). EGO
O EGO, como instância que operava tanto no nos espaços conscientes e inconscientes da mente, faz surgir a
necessidade de criar-se um novo sistema interligado, em alemão nomeado Das Es- Das ICH – ÜBERICH. Brandt
(2017), trazendo a uma tradução coerente, indica que se tratava de O ISSO (coisa)- O EU – O SOBRE EU OU
. As traduções que chegaram no Brasil foram realizadas a partir do inglês e se convencionaram como SUPRAEU
.ID-EGO-SUPEREGO
ISSO, ou , contém a parte do inconsciente ligada à coisa, aos registros sem significação de palavra, o ISSO então ID
é forjado pelas primeiras experiências infantis quando a criança ainda não tem domínio da linguagem adulta
(BRANDT, 2017). O ISSO também é lugar do trauma que, apesar de registrado, não foi assimilado e significado
pela linguagem inteligível.
Por outro lado, o Eu - ou - é construído por representações já investidas das palavras e mantém relação comEGO
as sensações, percepções. É a instância que vivencia o ambiente externo. Para entender um pouco a diferença
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entre ISSO e EU, ou ID e EGO, pode-se pensar que o que constitui o ID só pode estar no EGO se significado pela
palavra, desta forma, o mundo de coisas do ISSO, ao ter investimento de sentidos pela linguagem, começa a se
tornar coisa de EU (BRANDT, 2017).
O ou surge a partir do este, por sua vez, tem bases no eSUPRAEU SUPEREGO Ideal de Eu narcisismo infantil
no . Trabalharemos estes dois conceitos no próximo tópico, porém é importante já Complexo de Édipo
compreender que o SUPEREU é fruto de processos cruciais do amadurecimento infantil, em que se formam
idealizações sobre ser, a partir da entrada da criança na cultura, por meio da palavra que significa suas condutas.
E ainda, após a estruturação do sujeito ocorrida pela intervenção da lei do incesto no âmago do seu desejo, que o
posiciona diante do mundo moral, cultural e das limitações impostas introjetadas que pretendem ser
ultrapassadas, o SUPRAEU está em busca de realizar um (BRANDT, 2017).Ideal de Eu
O que Freud procura deixar claro em sua elaboração deste novo sistema é que o EGO está em contato com todos
os lugares da primeira tópica. Por ser o receptor dos estímulos sensoriais, e incapaz de decifrar todo e qualquer
estímulo, grande parte permanece no inconsciente.
Ao mesmo tempo é a razão, a percepção, a atenção e aquela parte que dá o contorno do sujeito na realidade, que
se apresenta como real, nesta função que parece consciente e pré-consciente, pois muitos pensamentos, ideias e
memórias estão latentes e são fáceis de acessar.
O termo EGO ou EU havia aparecido desde o Projeto, com outras significações para Freud, e ganha lugar de
instância psíquica em 1920. No texto de 1923, Freud deixa claro que a maior parte deste ego é inconsciente.
Quando falamos de relações psicodinâmicas entre as instâncias EU-ISSO-SUPRAEU (EGO-ID-SUPEREGO),
identifica-sena obra freudiana a relação de dependência do EU/EGO das exigências do ID, e é necessário
orquestrá-las estando sujeito aos imperativos do SUPRAEU/SUPEREGO e às limitações e possibilidades da
realidade.
Fique de olho
É necessário compreender que leituras diferentes se seguiram a partir da . A deteoria do ego
Anna, Freud enfatiza o caráter defensivo e adaptativo do ego, a escola francesa divide o Ego em
dois e realiza leitura do sujeito a partir da linguística. Escolas inglesas, como a deMoi e Je
Meanie Klein realizaram intensa investigação sobre um EGO incipiente que se desenvolve
desde o nascimento na relação com objetos internos e externos. Winnicott, influenciado por
Klein tem um referencial ainda mais fenomenológico de Ego buscando como um EU que é
parte do , o aparelho psíquico, seu corpo em relação com o mundo.Self
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O EU, embora ocupe espaço de mediação e de trabalho para a organização da pessoa como um todo, não há como
se esquivar de todas as exigências, é necessário criar resoluções a partir das ferramentas (mecanismos de
defesa) que cria, e acaba por ser o agente do sofrimento neurótico. Afirma-se isso pensando no ponto de vista
dinâmico do aparelho, e do ponto de vista econômico, tão importante para que a energia represada seja escoada
mantendo o equilíbrio do sistema?
O EU/EGO, no esforço de ligar os sistemas e garantir a homeostase energética, acaba por buscar o prazer da
descarga criando meios para tal, entre estes meios há o risco da compulsão e repetição, pode repetir por
exemplo uma exigência externa, adiando o prazer para evitar o desprazer. Neste sentido, o EU/EGO inclusive
pode desempenhar um papel, um mascaramento de si, para evitar a retaliação da realidade e o desprazer da
mesma.Afirma-se assim, que o EU/EGO obedece ao .princípio de realidade
A figura abaixo finaliza este tópico apresentando o entrelaçacamento entre a primeira tópica e a segunda tópica,
em que processos do ID são considerados totalmente inconscientes, e os do EGO e SUPEREGO ocorrem de
maneira consciente e inconsciente, considerando que as percepções e o julgamento estão presentes na
consciência, porém suas consequências ou motivações não acessam a razão consciente do sujeito.
Figura 1 - ID, EGO, SUPEREGO e níveis de consciência
Fonte: Crystal Eye Studio, Shutterstock, 2020.
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#PraCegoVer: Iceberg demonstrando o consciente como a parte aparente sobre a água e o inconsciente como a
parte submersa. O Superego como parte consciente e parte consciente. O Ego do lado oposto do iceberg, também
consciente e inconsciente, e o ID, totalmente alocado na parte submersa, inconsciente.
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2 Complexo de Édipo e as estruturas da personalidade
Para a teoria freudiana da Psicanálise, o complexo de Édipo é basal, sendo considerado como central e reeditado
em estudos posteriores de sucessores da psicanálise. Na visão leiga, ou senso comum, o Complexo de Édipo pode
ser entendido às vezes como uma vivência quase patológica, ou uma ocorrência desastrosa na vida de uma
criança que se apaixona por um de seus progenitores. O caráter universal do Complexo e natural do complexo
traz à tona muitas discussões, que serão abordadas nos tópicos seguintes. Freud indica que a resolução edípica é
fundante da personalidade, tal tema finalizará os estudos trazendo contribuições para a compreensão da teoria
psicanalítica da personalidade e psicopatologia psicanalítica.
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2.1 Édipo: do mito à clínica
A lenda de Édipo é um mito grego que inspirou a tragédia escrita por Sófocles em 427 a.C., chamada Édipo Rei,
uma das obras mais importantes do teatro grego. A tragédia conta a história do Rei Laio que se casou com
Jocasta e foi avisado pelo Oráculo de que não poderia ter filhos, pois se tivesse, seu primogênito o mataria e se
casaria com sua esposa. Laio, ignorando este aviso, concebeu com Jocasta um menino, porém arrependido,
resolveu abandoná-lo à morte para evitar a tragédia. No entanto, Édipo foi salvo e criado por outro reinado, e ao
se tornar moço ouviu do Oráculo o que o destino lhe reservava. Para poupar os próprios pais ele foge para Tebas
e no caminho encontra Rei Laio e acaba o matando.
Posteriormente, Édipo enfrenta a Esfinge, uma criatura metade mulher e metade leoa, que devorava quem não
adivinhasse seus enigmas. Édipo vence a criatura e salva o povo de Tebas, tornando-se o rei e desposando
Jocasta, sua mãe. Édipo e Jocasta tiveram quatro filhos, e quando a verdade veio à tona, o Rei furou seus próprios
olhos, pois não queria testemunhar a verdade, e sua mãe Jocasta se mata enforcada. Na peça, a parte mais trágica
dos fatos é narrada por um mensageiro, que conta que Édipo gritava “Onde está a rainha?”, pedindo pela mãe e
não pela esposa.
Freud era um amante da literatura antiga e da mitologia, logo, o mito de Édipo tornou-se inspiração para seu
célebre conceito de Complexo de Édipo. O fenômeno do amor do filho pela mãe, aparece de tal maneira para
Freud que o interpela a se lembrar de seu próprio amor e apreciação por sua mãe.
De acordo com Garcia-Roza (2009, p. 218), “não há, nos textos freudianos, uma concepção unitária do Édipo,
sendo que a própria expressão ‘Complexo de Édipo’ aparece apenas em 1910, 13 anos depois de Freud ter
comunicado a Fliess o resultado de sua autoanálise e portanto seu próprio drama edipiano”.
É importante entender a noção de para Freud, e alguns aspectos que não podem ser ignorados ao se Complexo
tratar do tema, como a ambivalência afetiva que se instaura na criança a partir da fase anal e tem sequência
neste período.
Estudos iniciais de Freud sinalizam um Complexo como um conjunto de experiências infantis que vão direcionar
a conduta da criança e as futuras escolhas desta, logo tem-se a leitura desse complexo reprimido e também de
uma estrutura estruturante da personalidade conhecida como lei. Estas duas formas de pensar o Édipo
aparecem de alguma maneira na obra de Freud, mas é o psicanalista francês Jacques Lacan que propõe o Édipo
como estruturante.
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Assista aí
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/c88fdeca7f658d8c39837b2dd2881a03
O discurso antropológico não é mesmo perseguido por Freud, ele identifica o drama infantil nas fases oral e anal,
as ambivalências que vão se estabelecendo a partir da frustração de seus anseios de satisfação total. O ambiente
da criança é centralizado pela figura dos pais que vão limitando, educando, incentivando ou desmotivando a
criança em suas buscas de obter prazer, e a resposta a isso é a ambivalência emocional, amor e ódio são
direcionados para esses adultos provedores e privadores da demanda infantil.
O Édipo parece começar após a fase anal, ou seja, quando o esfíncter anal e a uretra se tornam o centro das
atenções e a fonte do prazer da criança é deslocada para a região, através da curiosidade e das descobertas.
Uma delas é a da diferença sexual. As meninas descobrem que não possuem pênis e os meninos notam que
algumas pessoas semelhantes a eles, não possuem pênis, o que os leva a temer a possibilidade de perder uma
parte do corpo (BRANDT, 2017).
É importante atualizar estas constatações de um momento edípico na história infantil, traz-se exemplos
cotidianos de relatos de mães de uma escola infantil. Uma mãe conta que o filho de quatro anos gosta de se deitar
sobre ela e se esfregar, o que ela notou como estranho o pedindo para parar. Outra mãe conta que o filho lhe
perguntou “o que aconteceu com seu pipiu?”, e a mãe lhe respondeu “ele caiu”, pensando psicanaliticamente, a
mãe acabou por confirmar suas fantasias de castração. Uma mãe havia proibido a filha de tomar banho junto a
ela e o esposo, pois a menina perguntou ao pai quando ela teria um como o dele e se ainda ia crescer.
Esta fantasia de castração inicial feminina e de medo de castração do menino parece garantir que o processo de
inveja, identificação e interesse se inicie.
A menina, reconhecendo que não tem pênis, considerando-se discriminadapor sua mãe tê-la feito com essa
“falha”, mas também identificada com ela nessa falta, procura o pênis no pai para, com ele, poder ter bebês.
Fique de olho
Lévi-Strauss é trazido por Garcia-Roza (2009) para a discussão da lei como estruturante do
sujeito que rompe com a natureza. O para a antropologia é responsávelpacto civilizatório
pela fundação de um sujeito que não se identifica com o natural, a lei do incesto é aquela com
maior impacto na vivência animal.
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Assim, a menina mantém sua identificação com a mãe e, ao mesmo tempo, torna-se sua rival. Já o menino,
temendo a castração e, ao mesmo tempo, percebendo que se diferencia de sua mãe, identifica-se com seu pai,
portador do pênis, e com ele rivalizar pelo amor da mãe (BRANDT, 2017, p. 96).
A teoria psicanalítica defende que a menina sente inveja do pênis. Freud parte aqui de uma convicção cultural de
que existe socialmente uma , este tem sentido metafórico e não só anatômico, é um algo a mais primazia do falo
ligado aos sujeitos que detinham o poder social naquele tempo. A gerou muita discussão entreinveja do pênis
as mulheres feministas do século XX e XXI, afinal ressaltavam que o mesmo não era o centro das questões, e sim
a inferiorização da mulher. O desejo da menina para, Freud e Melanie Klein, seria de qualquer forma obter o
poder conferido pelo falo, o qual poderia ser substituído pela gestação, e por isso a ideia de se obter filhos e fazer
deles o falo.
Ao final da trama entre filhos e pais, o que resta é a culpa e a obediência. As fantasias edipianas geram culpa e o
comportamento dos pais, os limites e frustrações impostos são interpretados pela criança como castigos
merecidos, devido aos seus desejos incestuosos (HERRMANN, 2013). A paz se dá quando a criança renuncia ao
objeto de amor, afinal a rivalidade com o genitor de mesmo sexo é injusta e assimétrica, os riscos são altos, e o
objeto amado o rejeitou. A luta se finda e é preciso então imitar o vencedor, identificando-se com ele. Assim, esse
complexo terá dissolução a partir da resolução que sustenta os .processos de identificação e escolha objetal
Ocorreram modificações na Teoria do Complexo de Édipo, tanto em relação à idade em que acontece a
experiência, quanto em relação ao modo como ela se dá e seus desdobramentos. O psicanalista inglês Donald
Winnicott, por exemplo, é acusado de ignorar a centralidade do complexo de édipo dando ênfase aos processos
de amadurecimento do self em tempos remotos da vida, afirmando que as patologias graves eram oriundas de
falhas neste amadurecimento. Édipo?! Seria um processo pelo qual se passaria melhor quem amadureceu de
forma mais coesa.
A visão estruturalista de Lacan, já mencionada, permite por outro lado situar o Édipo ao lado da lei de incesto e
da estruturação, o autor desenvolve os trẽs tempos do Édipo como processo para a estruturação da
personalidade como consta no próximo tópico. O método investigativo da psicanálise trata-se da postura do
pesquisador diante de seu objeto de estudo, no caso da psicanálise este método é exatamente o que a permite
investigar aquilo que não é observável. Assunto que aprofundaremos ainda nesta unidade.
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2.2 Estruturas de personalidade de acordo as vivências edípicas
A escolha objetal, de acordo com Freud, ocorre com a resolução do Édipo. Desta forma, a homossexualidade,
heterossexualidade e bissexualidade seriam definidas a partir das primeiras relações de amor e rivalidade dos
filhos com os pais. Existe o velho ditado “amar se aprende amando”, mais uma vez é a relação com o ambiente
que possibilita com que os caminhos se abram para as futuras escolhas infantis. O que não significa que exista
um caminho correto ou melhor, um patológico ou um normal.
Nossa sociedade considera a neurose como normalidade, ou seja, após a resolução edípica a criança transforma
rivalidade e medo em ternura. Essa mutação se dá no nível inconsciente, a energia libidinal concentrada nas
fantasias e na trama edípica agora sublima-se cultura, arte, jogos, estudos, afeto. Isto se dá no período de latência
da criança até quando chegar à puberdade e puder reviver a intensidade de suas pulsões sexuais com direção a
um objeto de amor possível. A culpa do período anterior vem em forma de asco, nojo e vergonha. É comum nesta
fase percebermos os grupos separados de meninas e meninos, como se a união fosse vergonhosa.
Na puberdade há um retorno das vivências anteriores mas agora, aquele corpo que era incapaz de satisfazer o
outro sexualmente, pode vivenciar a relação sexual de forma verdadeira.
Essas são as únicas consequências da resolução do Édipo? Na verdade, não. Freud deixou claro que a forma de
ser dos neuróticos e neuróticas, e o sofrimento da histeria, estavam diretamente ligados às fantasias e conteúdos
reprimidos, quando já desenha aí o famoso complexo.
Lacan, por sua vez, fica atento às saídas possíveis. De fato, a neurose parece aquela saída comum a grande parte
da humanidade, mas e as demais formas de funcionamento, como vivenciaram a trama edípica, como saíram
dela?
A compreensão de Lacan, a partir de uma reelaboração da teoria freudiana, é de que o triângulo edípico sempre
existiu. Primeiramente havia a criança, a mãe e o falo imaginário, ou seja, essa coisa poderosa capaz de
completar e satisfazer totalmente o outro, o objeto de amor insuperável que faz com que o filho seja preterido. A
impossibilidade de completar o outro, de estar neste lugar da falta do outro e preenchê-lo de graça e gozo
eternos com a simples existência, faz com que a criança, em busca disso, crie uma imagem de poder com a qual
se identifica.
A chegada do pai, ou da função paterna melhor dizendo, torna quadrado aquilo que antes era um triângulo.
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Figura 2 - Triângulo
Fonte: Elaborada pelo autor, 2020.
#PraCegoVer: A imagem mostra mostra duas figuras geométricas representando a estrutura, primeiro um
triângulo entre mãe, criança e falo imaginário e, em seguida, um quadrado, indicando a inserção da figura do pai
na relação da família.
De acordo com a figura acima, é possível perceber que o , representado pelo primeiro momento do Édipo
triângulo, indica o falo como percebido pela criança, ou seja, a criança compreende que tanto ela quanto a mãe
são seres faltantes. A mãe é incompleta porque algo deseja, e a criança não é capaz de fazê-la cessar esse desejo.
Ambas assim, mãe e criança são sujeitos desejantes.
O do Complexo de Édipo é a intervenção do pai imaginário castrador da mãe, ou seja, elesegundo tempo
apresenta a lei que a priva de acessar o objeto fálico, aponta sua incompletude. Aqui se instala a rivalidade da
criança com essa função paterna, devido a privação que é imposta à dupla.
O trata-se da intervenção do pai, direta, com a interdição e apresentação do falo, ele o tem e aterceiro tempo
criança é incapaz de competir, cede assim ao pai e o investe como ideal de eu. O sujeito enfim é castrado,
simbolicamente destituído de um falo. A questão neste tempo é que ele não o possui, essa é a castração simbólica
apresentada por Lacan, a que efetiva um corte entre o sujeito e este falo/Mãe, que o assujeitaria, o reduziria ao
império da pulsão.
É importante salientar que o pai apresentado por Lacan, assim como as instâncias psíquicas de Freud, só existe
enquanto modelo funcional, por isso pode ser substituído pelo termo de função paterna, no caso da mãe, por
função materna, sendo esses possíveis de ser exercidos por pessoas e instituições.
Finalmente, o terceiro tempo liberta a criança de ser escrava deste lugar de cobrança imensa, o lugar do prazer
sem fim do outro, está agora livre para ela mesma desejar.
Nem todas as pessoas passam por todos estes tempos da mesma maneira oO neurótico atravessa os três tempos
doÉdipo, e castrado, armazena a história de sua derrota no inconsciente que pode emergir em forma de
sintomas, ou sublimar-se por meio de recursos aceitos socialmente. Ninguém sai totalmente ileso da vivência
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edípica, como já foi mencionado anteriormente, a lei da proibição ao incesto marca duramente a diferença do
bicho humano para o humano civilizado, não existe explicação de fato biológica para a proibição, observe que
entre os demais animais as relações sexuais entre filhos e pais acontecem, na civilização estas relações só
acontecem num contexto de perversidade.
Estrutura perversa
A vivencia apenas o primeiro e segundo tempo de Édipo, o terceiro tempo ele recusa,estrutura perversa
entende que a Mãe possui o falo e o busca como fetiche, identifica-se com esse falo que ela possui. Uma sedução
ou carícia em tenra idade pode contribuir com a identificação da criança com aquele lugar em que a lei não age
sobre ele, fica assim, acima da Lei.
Estrutura fóbica
A , ao contrário das outras neuroses, tem uma implicação diferente no processo. A intervençãoestrutura fóbica
do pai real não acontece, e a fobia vem para levá-lo ao último tempo, temer estar submetido ao lugar de falo.
Estrutura psicótica
A , por sua vez, permanece no primeiro tempo do Édipo, não identificado com o falo, masestrutura psicótica
fundido com o mesmo, sendo que o pai imaginário e o real estão foracluídos dessa triangulação, o corte
sujeitador não delimita o ser desejante.
Não é simples compreender Lacan, pois trata-se de um autor erudito, linguista e filósofo, parece inacessível a
alguns, para simplificar buscamos não utilizar alguns termos do mesmo, vale a pena, no entanto conhecer a obra
e entender sua narrativa.
A teorização de Lacan ao mesmo tempo que complica, implica o leitor e estudioso a pensar na psicanálise
freudiana. Pois se por um lado Freud apresenta uma sociedade formal em que os filhos convivem com pais e
mães em um sistema patriarcal centrado no matriarcado doméstico, Lacan fala de função, Função Materna e
Função Paterna, se atentando à cultura que muda constantemente e promove alterações discursivas em seu
processo de mutação.
Estas funções continuam sendo exercitadas, objetos de amor e figuras legisladoras e identificatórias
permanecem necessárias em contextos diversos. Uma criança pode ter crescido em uma instituição para órfãos e
ter como objeto de amor um cuidador e legislador, uma igreja e seus dogmas. De alguma forma haverá condições
para amar, desejar ser amado e perceber-se desamparado neste desejo.
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3 Conceito de pulsão em Freud: elementos e características
Em no lugar de instinto sexual Freud apresenta a pulsão sexual, busca definir suas características em ou “A
pulsão e seus destinos” (1915). A seguir, apresentaremos o conceito de pulsão e suas características principais
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3.1 Trieb, a pulsão
O conceito de parece simples, porém devido a confusões múltiplas é necessário diferenciar pulsão depulsão
outros termos como instinto e estímulo. Ora, o instinto está no interior dos organismos e torna-se impossível
escapar do mesmo, fugir ou evitar que ele ocorra, o estímulo, por outro lado, está de fora e se pode reagir de
forma a evitá-lo. Assim, conclui-se que um estímulo instintual vem de dentro e é necessário dar a ele uma
finalidade para eliminá-lo. E um estímulo externo, que vem de fora, tem a possibilidade de recuo ou qualquer
outra ação motora que lide com o estímulo (BRANDT, 2017).
Ao contrário dos estudos do atentos aos estímulos externos, Freud estava atento aoscomportamentalismo
estímulos internos e sua dinamicidade, o nível de prazer e desprazer e como se aliviar de sua constante e
inevitável intervenção. Como aliviar o fato de viver com o próprio corpo?
O que Freud identificou é que, quanto maior a intensidade de ação dos estímulos, maior o desprazer, e quanto
maior a descarga e eliminação dos mesmos, maior o prazer. Em muitos momentos nos textos escritos por Freud,
encontra-se o termo Instinkt e Trieb, este último liga-se melhor à definição do autor devido seu significado
semântico, pois a terminação Trieb tem sentido de “tráfego, movimento, dinamismo a partir de uma impulsão”
(BRANDT, 2017, p. 132).
O termo Trieb já foi utilizado na termodinâmica e na filosofia com esse sentido de movimento que cria algo a
partir de si, associado ainda ao carro ou motor, parece que a escolha de Freud dizia respeito a essa força que
movimento o humano em busca de algo.
O termo "pulsão" ("Trieb") aparece em Freud, pela primeira vez, no "Projeto" de 1895 (e não em 1905, nos "Três
Ensaios sobre a Teoria Sexual", como afirmam Laplanche e Pontalis, 1967/1970, p. 507). No "Projeto", Freud
([1895]/1975, parte I, item 10, p. 324-325) propõe a ideia de que o sistema psi está exposto a quantidades de
excitação provenientes do interior do corpo (os estímulos endógenos) "e nisto se encontra a mola pulsional
[Triebfeder] do mecanismo psíquico". A vontade ("Wille"), diz ele, é "o derivado das pulsões [Triebe]" (GOMES,
2011, p s/n).
O conceito de pulsão surge em 1915 em “Pulsão e seus destinos”, afirmando-se que trata da fronteira entre o
somático e o psíquico, a pulsão seria enfim um “representante psíquico dos estímulos oriundos do interior do
corpo e que atingem o sistema psíquico, como uma medida do trabalho imposto à psique por ligação com o
corpo” (BRANDT, 2017,p. 132).
Gomes (2001) esclarece que que a pulsão ultrapassa a fronteira, o divórcio entre o corpo e mente, logo, um
estímulo físico tem representação no psíquico e ultrapassa a organicidade comum do instinto animal.
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3.2 Características da pulsão
A pulsão deve ser compreendida levando em conta conceitos auxiliares. O impulso, ou seja, a , forçapressão
medida de trabalho, a que é seu alvo, o e a , que consiste no processo somático que origina a meta objeto fonte
pulsão (BRANDT, 2017).
Meta
A meta é a satisfação, é isso que sempre pretende alcançar, e logo algumas metas
adjacentes surgem como facilitadoras da meta final, algumas oferecem ainda satisfação
parcial (BRANDT, 2001). A meta indica o objetivo e a direção, ao mesmo tempo que aceita
estratégias ou simplesmente cede à menor satisfação em troca do menor desprazer. O
organismo sempre pleiteia o equilíbrio.
Objeto
O é o que permite a satisfação, a realização da meta, podendo ser uma pessoa, coisa,objeto
ou até parte do próprio corpo do sujeito. É importante saber que o objeto se altera por
meio do deslocamento da energia pulsional, assim, um objeto pode ser inicialmente o seio
materno e deslocar-se para uma chupeta ou para a própria boca do bebê.
De acordo com Brandt (2017), um objeto pode satisfazer várias pulsões o que é nomeado
. O fenômeno da está relacionado à tendência deentrelaçamento pulsional fixação
repetição do objeto, a pulsão se liga a um objeto de tal maneira que tende a ele retornar, o
que é comum nos períodos iniciais do desenvolvimento psicossexual.
Pressão
Já foi dito que o impulso, ou seja, a pressão, é o conceito que representa a soma força de
trabalho empregada, a exigência de trabalho psíquico para que se encontre meios de haver
alívio desta pressão por meio do corpo, fonte da pulsão (GOMES, 2001).
Fonte
A pode ter natureza química ou mecânica, é o pedido que sai diretamente do corpo, efonte
por conta das múltiplas possibilidades desta fonte é que se diferencia a pulsão. Como
sintetiza Brandt (2017),
As pulsões chamadas do eu visam a conservação de si, não é importante o imperativo biológico da reprodução.
As sexuais, embora visem satisfação, em última análise se dirigem à conservação da espécie. Os interesses não
correlatos destas duas pulsões acabam por diferenciá-las (GOMES, 2001).
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As pulsões sexuais são diversas e mesmo tendo fonte independente, acabam se entrelaçando e buscando meta e
objeto em comum. Na maioria das vezes, o objeto é o prazer do órgão, ao serem psiquicamente representadas,
passam a atuar a favor da reprodução, devido as forçasinstintuais presentes.
As pulsões fundamentais são as do Eu, ou de autoconservação, e as sexuais, as quais se confundem como um
único instinto de início da vida. Sua diferenciação ocorre gradativamente, devido ao conflito primordial entre
as exigências do Eu e as da sexualidade, simultaneamente à criação da representatividade do instinto, o que
leva a pulsão (BRANDT,2017, p. 133).
Freud descreveu as variações nos destinos ou vicissitudes das pulsões, sendo eles a reversão ao seu contrário, o
voltar-se contra o próprio sujeito, a repressão e a sublimação (BRANDT, 2017).
No caso da , a pulsão modifica a meta que ia ao encontro da ação e a agora é revertidareversão ao seu contrário
para a passividade, ao invés de agir, ser objeto da ação, caso do sadismo-masoquismo. Neste caso, o próprio
corpo torna-se objeto da ação.
Quando se fala de , diz-se da inversão de amor em ódio. Brandt (2017) ressalta que amar inversão de conteúdo
admite três posições: amor-ódio, amar-ser amado, amor e ódio juntos gerando insensibilidade ou indiferença.
Chega-se ao amor, estágio considerado narcísico e passa-se ao amor pelo objeto. Existe enfim uma consciência de
um Eu que se separa do outro e que, para obter a satisfação, passa a precisar deste outro, o objeto.
A pulsão não é conhecida, ela chega ao inconsciente e se liga a um traço mnemônico, cria um representante
pulsional ou seja, ela não pode nunca se tornar objeto da consciência. Assim, deve-se ter clareza que não se deve
confundir a pulsão com o seu representante psíquico, ela representa as fontes somáticas porém só é
representada pela ideia ou pelo afeto. O objeto da pulsão por sua vez não a determina, a pulsão é anterior ao
objeto, este surge como atrativo por suas habilidades de satisfazer a pulsão em sua descarga.
A fonte da pulsão não escolhe o objeto. Por exemplo, um bebê não escolhe o seio e não é a existência deste que
gera a fonte, existe no seio uma oferta de satisfação que o coloca como provedor da meta, ou seja, da satisfação
ao mamar. Poderia de outra forma mamar um dedo, uma chupeta, mas a autoconservação não seria garantida,
assim a satisfação torna-se parcial.
Muitos autores dão ênfase ao objeto da pulsão, entres estes quem mais estudou o objeto e as relações sujeito-
objeto foi Malanie Klein, propondo formas agressivas ou depressivas e culpadas de se usar e se agradar o objeto.
O objeto de amor pode ser também o objeto de compulsão, para o qual não se destina nada além de seu lugar
idealizado de produto a servir.
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Winnicott, que sofreu muitas influencias de Melanie Klein, notou que o objeto tem lugar de transição entre o
sujeito e o mundo, e deu a ele um caráter fenomenológico dando ao objeto mais funções do que a disciplina
freudiana. O objeto para Winnicott não é receptor de pulsões, mas responsável pelo amadurecimento do sujeito
que cresce ao deparar-se com o mundo e consigo na relação com este mundo.
Assista aí
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/5e8a44ec49b98e2355d155dd32d130a9
é isso Aí!
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
• Identificar as três instâncias psíquicas e dinâmicas denominadas de primeria tópica.
• Conhecer os conceitos de ID, EGO e SUPEREGO que também podem ser chamados de ISSO, EU e
SUPRAEU ou SUPEREU, elencados por Freud como instâncias da segunda tópica e ainda vislumbrar a
relação destas com a primeria tópica.
• Conhecer o conceito do complexo central da psicanálise identificado como Complexo de Édipo e
reconhecer as estruturas de personalidade provenientes de sua resolução, numa perspectiva da escola
francesa lacaniana que divide o Édipo em três tempos.
• Compreender o conceito de pulsão e suas caraterísticas básicas ajudando a perceber como as mesmas se
dirigem ao mundo externo em busca de satisfação.
• Compreender as características da pulsão, fonte, pressão, meta e objeto, e ainda que a pulsão não pode
ser conhecida e sim sua representação que chega ao consciente representada pela ideia.
Referências
BARATTO, G. Descobrindo o encobrimento da descoberta freudiana: a psicanálise e a "Ego Psychology". Estilos
, São Paulo , v. 7, n. 12, p. 156-177,2002.Disponível em . acessos em 22 abr. 2020.clin.
BRANDT, J. A. . São Paulo: Zagodoni editora, 2017.A psicanálise de Freud explicada
GARCIA-ROZA, L. A. . 24.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.Freud e o inconsciente
GOMES, G. Os Dois Conceitos Freudianos de Trieb. , Brasília , v. 17, n. 3, p. 249-255, Sept.Psic.: Teor. e Pesq.
2001. Disponível em http://www.scielo.br/scielo. Access 25 de abril, 2020.
FREUD, S. (1923). Rio de Janeiro: Imago, 1976.O ego e o id
HERRMANN, F. . São Paulo: Blucher, 2015.O que é psicanálise: para iniciantes ou não
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http://www.scielo.br/scielo.
Olá!
1 Aparelho psíquico: primeira e segunda tópica
1.1 Primeira tópica
Assista aí
1.2 Segunda tópica
2 Complexo de Édipo e as estruturas da personalidade
2.1 Édipo: do mito à clínica
Assista aí
2.2 Estruturas de personalidade de acordo as vivências edípicas
3 Conceito de pulsão em Freud: elementos e características
3.1 Trieb, a pulsão
3.2 Características da pulsão
Assista aí
é isso Aí!
Referências