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SEMANA 1 – O SIGNIFICADO O significado se constitui no processo de enunciação, ou seja, o sentido de uma proposição dependerá do contexto em que ela seja dita, do modo como o falante e o ouvinte a compreendem. A semântica tem como objetivo compreender o processo de significação nas línguas naturais. SENTIDO E REFERENTE Segundo Luiz Francisco Dias, o termo referência se aplica à associação que nomes e expressões linguísticas contraem com entidades do mundo extralinguístico. O termo referente, por sua vez, designa as entidades que são identificadas, localizadas, percebidas, constituídas pela referência. Aqui, o termo “entidade” é compreendido em sentido amplo, e abarca, por exemplo, cidades, como Belo Horizonte; pessoas e animais, como Pedro, elefante; objetos, como lápis; eventos naturais, como chuva; fatos, como Segunda Guerra Mundial; conceitos, como machismo ou raiz quadrada de 36. Significado > Conceito Significante > Imagem acústica Segundo Cançado (2012, p. 24) “a semântica não pode ser estudada somente com a interpretação de um sistema abstrato, mas também tem que ser estudada como um sistema que interage com outros sistemas no processo de comunicação e expressão do pensamento humano” A organização da frase (a sintaxe) também afeta o significado e é tarefa da semântica explicar como essas operações afetam o sentido das frases. Uma definição é uma pequena fórmula em que aparecem: 1º A palavra a ser explicada 2º O verbo “ser” 3º Uma espécie de tradução que utiliza outras palavras da língua Semântica é o estudo do significado das línguas, o semanticista busca descrever o conhecimento linguístico e o conhecimento semântico que o falante tem de sua língua. Entende-se por Gramática o sistema de regras e princípios que governam o uso dos signos da língua. Estudo Léxico: Investiga o conjunto de palavras de uma língua e sua possível sistematização. Estudo da Fonologia: Focaliza os sons de uma língua e de como esses sons se combinam para formar palavras. Estudo da Morfologia: Investiga processos de construção de palavras. Estudo da Sintaxe: Investiga como as palavras podem ser combinadas em sentenças. Estudo da Semântica: Focaliza o significado das palavras e das sentenças. Fica claro, pois, que o objeto de estudo da Semântica é a menção das sentenças e das palavras, isoladas de seu contexto. O estudo da Pragmática é o uso das palavras e das sentenças, inseridas em determinado contexto. PROPRIEDADES SEMÂNTICAS · Hiponímia, Acarretamento, Pressuposição e Implicatura conversacional (João parou de fumar > João fumava) · Paráfrase e Sinonímia (O menino chegou = O garoto chegou) · Contradição e Antonímia (João está feliz ≠ João está triste) · Anomalia e Adequação (Ideias verdes incolores dormem furiosamente – é uma sentença com significado incoerente na maioria dos contextos) · Ambiguidade e Vagueza (João pulou em cima do banco – mais de um significado) · Papéis temáticos (...o colega ...sua mãe ...a bola – faz um paralelismo) · Os Protótipos e as Metáforas (incapacidade de conceituar um objeto no mundo por estar no limiar entre dois ou mais objetos, mesmo abstratos) · Atos de fala (quando a língua faz função de atos, como ordenar, perguntar e sugerir) Nos estudos Semânticos, é importante considerar que o significado não está apenas no sistema linguístico, pois há fatores extralinguísticos, seja no contexto de uso, seja por questões de referência, que atuam também na produção da significação, fato relevante a ser considerado pela semântica dentro dos estudos linguísticos. Leia a seguinte frase abaixo, extraída do texto O que é Semântica, de Márcia Cançado: 1. A gatinha da minha vizinha anda doente. Um falante da língua portuguesa pode compreender duas significações a partir dela, devido à polissemia da palavra “gatinha”, a qual pode se referir à fêmea do animal gato ou pode ser um elogio à beleza da vizinha. Conhecimento semântico A Semântica é um dos ramos de estudo da Linguística e dedica-se à descrição e reflexão a respeito do conhecimento semântico dos usuários. Observe as afirmações a respeito dessa área de estudo: I. A semântica enfatiza a interpretação das expressões linguísticas, sem a interferência de elementos como intenção, gestos e entonação. II. A semântica enfatiza o estudo do sistema de regras que rege a língua. III. O uso concreto das regras gramaticais é o objeto de estudo da semântica. IV. Por conhecimento semântico entende-se o conhecimento que os usuários possuem a respeito do significado de palavras e sentenças. Segundo o linguista Rodolfo Ilari, na sua definição de Semântica para o Glossário CEALE (Centro de Alfabetização de Leitura e Escrita - UFMG), é papel da semântica também: Explicar como determinadas operações sintáticas, como por exemplo completar o verbo com termos integrantes (objeto direto e indireto) ou colocar artigos ou determinantes, afetam os sentidos das orações. A linha que divide o campo da semântica e da pragmática é muito TÊNUE. Nem sempre sendo possível determinar o que é do arcabouço da semântica e o que consiste em área de abordagem da pragmática. A linha que divide o campo da semântica e da pragmática é muito frágil. E, embora nem sempre seja possível determinar o que é do arcabouço da semântica e o que consiste em área de abordagem da pragmática, os campos ainda permanecem divididos, cada qual com sua categoria de análise. 1. Semântica. I) Tem como objeto de estudo os significados das palavras... III) Desconsidera o contexto das palavras. 2. Pragmática. II) Tem como objeto de estudo o uso das palavras e das sentenças, considerando o contexto em que estão inseridas SEMANA 2 - ADENTRANDO NA HISTÓRIA DA SEMÂNTICA Michel Bréal: precursor da Semântica nos estudos linguísticos (O pai da semântica, teórico que cunhou o termo semântica, primeiro teórico a usar o termo semântica) A CONJUNTURA TEÓRICA DO SÉCULO XIX: Gramática Comparada, Neogramáticos (críticos). Os estudos da gramática comparativa, que analisava a língua a partir de uma perspectiva histórica-comparativa, e os neogramáticos, que buscavam compreender a língua a partir do momento presente, ou seja, uma PERSPECTIVA SINCRÔNICA. Olhar para essas duas perspectivas de estudo linguístico, contemporâneas de Bréal, é relevante para entender como ele concebe o sentido. PARA BRÉAL, NA OBRA ENSAIO DE SEMÂNTICA: O sentido tem a ver com a história: o sentido das palavras é passível de mudança ao longo do tempo. Para Bréal “as mudanças de sentido das palavras são obra do povo” (1992, p.181). O sentido das palavras e as mudanças nesses sentidos têm a ver com a vontade do falante, mas é uma vontade pensada no coletivo. “Concebendo o significado como sendo construído durante a interação por ambas as partes do processo comunicativo, Bréal explica que, no caso de mudanças semânticas em nível lexical, elas são causadas pela intenção daquele que fala e pela percepção dessa intenção por parte de quem ouve” (SEIDE, 2012: 104). “O histórico não é em Bréal uma relação entre o que veio antes e o que veio depois, em virtude de uma lei mecânica e necessária. Não é uma relação atomizada entre algo antes e depois. O histórico diz respeito à intervenção do sujeito na linguagem, da vontade na linguagem, que é inclusive uma intervenção da vontade na inteligência.” (Guimarães 1992, p.11) Ideias que ressoam na SEMÂNTICA LEXICAL: · A restrição dos sentidos · Ampliação dos sentidos · Polissemia Ideias que ressoam na SEMÂNTICA ENUNCIATIVA: Apresenta a ideia da subjetividade, que também aparece nos trabalhos de Benveniste. Para Bréal, segundo Guimarães (1992, p.14), “a história diz respeito a uma relação do sujeito (do homem) com a linguagem, e há a marca da subjetividade daquele que fala naquilo que fala.” “a subjetividade é uma relação homem/mundo, que instala um tu, também uma subjetividade, destacada do mundo. Subjetividade é uma relação com o mundo” (GUIMARÃES, 1992, 14) Na concepção de língua sustentada por Bréal, conforme nos apontam Seide (2012) e Lima (2019), importa, nas análises linguísticas referentesao sentido, a função e uso das formas linguísticas pelos falantes, ou seja, para Bréal, é no processo de interação entre os falantes que os sentidos das palavras podem sofrer mudanças, podem adquirir outros sentidos. Bréal consagrou-se como um dos mais importantes linguístas do século XIX graças a sua obra "Ensaio de Semântica", na qual a ideia de uso da língua é central para a discussão sobre seus sentidos. Os sentidos se modificam ao longo do tempo e da relação entre os falantes, dialogando com suas necessidades. Na obra "Ensaio de Semântica", Bréal discute o processo de mudança do sentido das palavras. Tendo como base suas reflexões, esse processo de mudança deve-se: Um empreendimento coletivo em relação ao uso da linguagem. Para Bréal, a mudança de sentido é obra do povo. Ferdinand de Saussure e Michel Bréal são dois personagens de relevância na história da linguística. Ao primeiro é dado o título de “pai da Linguística Moderna”, e ao segundo o título de “fundador da semântica". Porém é senso comum afirmar que a obra “Magna”, de Saussure, não foi escrita por ele, e sim por dois editores. “Curso de Linguística Geral”, editada por Charles Bally e Albert Sechehaye. SEMANA 3 - SEMÂNTICA LEXICAL: UM OLHAR A PARTIR DAS PERSPECTIVAS DIACRÔNICA E SINCRÔNICA Mudança de significado ao longo do tempo e o significado do léxico na relação com o seu uso no discurso. MUDANÇA SEMÂNTICA Para Ullmann (1964), conforme lemos em Godois e Dalpian (2010), o que favorece a mudança de significados das palavras é a estrutura do vocabulário, pois esse é “uma estrutura instável em que as palavras individuais podem adquirir e perder significados” (ULLMANN, 1964, p. 390). Para Bréal (1992), as mudanças dos significados das palavras se explicam pela própria natureza das palavras. “Essas mudanças estão relacionadas à restrição do sentido, à ampliação do sentido, à metáfora, às palavras abstratas e ao espessamento do sentido, à polissemia, aos nomes compostos e aos grupos articulados” (GODOIS E DALPIAN, 2010). • Restrição de sentidos: usuário de app ou usuário de drogas • Extensão de sentido: embarcar (na ideia/no navio), navegar (pelo mar/pela web) • Metáfora: flor • Metonímia: leite para crianças (diz respeito à alimentos) SEMÂNTICA LEXICAL SINCRÔNICA O Significado “não é um objeto do mundo, mas uma construção de linguagem” (PIETROFORTE e LOPES, 2010). (Visão advinda das reflexões de Saussure sobre o signo linguístico.) Sentido E Verdade: Em uma visão não referencialista, o foco não é buscar a relação linguagem/mundo; palavra-coisa, mas sim entender que a verdade é uma construção dos homens, ou seja, apresenta um caráter múltiplo em função do ponto de vista humano. MODELO PROPOSTO POR POTTIER (1968): · Lexema: entrada no dicionário · Semas: traços distintivos de conteúdo (diferença “terra” apesar da palavra cadeira abarcar a todas) · Semema: conjunto de semas admitidos em uma determinada sociedade SEMAS CONTEXTUAIS “A incorporação de traços semânticos provenientes do contexto é processo observável a cada uso discursivo, alternado parcialmente a identidade das acepções das unidades de que se trata” (PIETROFORTE e LOPES, 2010: 127). “Não significa que a passagem ao discurso implique um abandono completo das acepções dicionarizadas: significa sua transformação parcial, no interior de limites aceitos intersubjetivamente pelos falantes da língua focalizada” (PIETROFORTE e LOPES, 2010: 127). O signo é uma relação entre um significante e um significado, e não entre uma palavra e uma coisa. CAMPO LEXICAL Rodolfo Ilari define campo lexical como “uma lista de palavras que, juntas, dão conta de um certo tipo de experiência ou atividade”. (Glossário CEALE – verbete: campo semântico) Ex.: Mãe, maternar, criar, educar > todas as palavras são formas possíveis de expressar o conceito de maternidade. CAMPO SEMÂNTICO 1. Conjunto de possibilidades de sentido que uma palavra pode ter, sendo usada em diferentes contextos. (Polissemia) 2. Formado por conceitos próximos e fortemente relacionados. (ILARI – Glossário CEALE- verbete: campo semântico) “A incorporação de traços semânticos provenientes do contexto é processo observável a cada uso discursivo, alternado parcialmente a identidade das acepções das unidades de que se trata”. (PIETROFORTE e LOPES, 2010: 127). O racismo age naturalizando situações que não são naturais, que consistem em produtos da nossa história brasileira de mais de 300 anos de escravidão. O vídeo de Lilia Schwarcz mostra a necessidade de se conhecer a origem do uso das palavras e apresenta alguns termos racistas que precisam ser excluídos do nosso vocabulário. I. ( V ) Denegrir. II. ( V ) Mercado negro. III. ( V ) A coisa tá preta. IV. ( V ) Dia de branco. Para Saussure, o signo consiste na relação entre um SIGNIFICANTE e um significado, e não entre uma palavra e uma coisa. Assim, significante não é a mesma coisa que palavra, bem como, significado não é uma coisa. O significante é uma imagem acústica do SIGNO, e significado, o seu conceito. Leia a explicação da origem da palavra idiota e do seu significado atual, encontrada no dicionário etimológico online: Origem da palavra idiota Houve um processo de restrição de sentido, pois a palavra idiota, que, em um momento, significou homem comum, passa a ser usada apenas para se referir a indivíduo ignorante, com pouca inteligência. Não é nova a preocupação com os fenômenos relacionados à linguagem. A preocupação referente ao significado é bastante remota, datando do século I a. C., ainda em uma época em que se privilegiavam os estudos morfológicos, sintáticos e etimológicos. Porém a semântica propriamente dita, que estuda o significado das palavras, nasceu, em 1883, por meio dos estudos de um filólogo francês. Michel Bréal, em sua obra “Ensaio sobre Semântica”. Aquele móvel simples que fica ao lado da cama, geralmente possibilitando que se coloque copos de água, remédios, roupas ou qualquer objeto, tem na base do seu nome uma concepção racista. O criado-mudo, como conhecemos, é mais um termo racista que deve ser excluído do nosso vocabulário. I. ( V ) Um criado-mudo consistia em escravos que ficavam parados em pé perto da cama segurando objetos. I. ( V ) Com o surgimento do móvel de madeira, passou a existir o criado e o criado-mudo (o escravo). I. ( F ) O criado-mudo, embora de origem escravocrata, não possui racismo na concepção de seu termo. I. ( V ) Alguns escravos perderam a língua pelo fato de os senhores acharem incômodo que falassem. SEMANA 4 - SEMÂNTICA FORMAL: NO NÍVEL DA SENTENÇA Para Frege, os problemas filosóficos deveriam ser tratados como problemas de linguagem. Cria uma lógica matemática para analisar as expressões linguísticas (analisar as expressões linguísticas a partir de uma linguagem exata, livre de ambiguidades, vagueza e indeterminações). Em seu texto “Sobre sentido e referência”, Frege apresenta uma distinção sobre os conceitos de sentido e referente, fundamental para a Semântica Formal. Distinção entre sentido e referente: Referente: objeto do qual falamos. Sentido: modo de falar daquele objeto. “Um nome próprio (palavra, sinal, combinação de sinais, expressão) exprime seu sentido e designa ou refere-se a sua referência. Por meio de um sinal exprimimos seu sentido e designamos sua referência” (FREGE, 1892, p. 66-67). Sentenças assertivas: Para Frege (1892, p. 67), “tal sentença contém um pensamento. Deve agora, este pensamento ser considerado como o seu sentido ou como sua referência?” “O pensamento não pode ser a referência da sentença, pelo contrário, deve ser considerado como sentido.” (p. 67) Valor de verdade de uma sentença é reconhecido como sendo sua referência. O Valor de verdade de uma sentença é a circunstância de ela ser verdadeira ou falsa. “Se o valor de verdade de uma sentença é sua referência, então, por um lado, todas as sentenças verdadeiras têm a mesma referência e, por outro lado, o mesmo ocorre com todas as sentenças falsas. Vemos, a partir disto, que na referência da sentença tudo que é específico édesprezado. Nunca devemos, pois, nos ater apenas à referência de uma sentença; porém o pensamento, isoladamente, não nos dá nenhum conhecimento, mas somente o pensamento junto com a sua referência, isto é, seu valor de verdade.” (p. 70-71) SOBRE A SEMÂNTICA FORMAL “A semântica formal considera como uma propriedade central das línguas humanas o “ser sobre algo”, isto é, o fato de que as línguas naturais são utilizadas para estabelecermos uma referencialidade, para falarmos sobre objetos, indivíduos, fatos, eventos, propriedades, descritos como externos à própria língua” (MÜLLER e VIOTTI, 2010, p. 141). “Conhecer as condições de verdade de uma sentença significa saber em que circunstâncias, no mundo, aquela sentença pode ser verdadeira ou falsa” (MÜLLER e VIOTTI, 2010, p. 141). Se não conhecemos as condições em que uma sentença é verdadeira, não conhecemos o seu significado! Sentido: Modo de falar do objeto. Referência: Objeto do qual falamos. Representação: Impressões pessoais e internas de um falante sobre um objeto. A área da semântica formal procura responder às seguintes perguntas: 1. O que “denotam” ou “representam” as expressões linguísticas? 2. Como calculamos o significado de expressões complexas a partir do significado de suas partes? RELAÇÕES SEMÂNTICAS ENTRE SENTENÇAS · ACARRETAMENTO O sentido de uma sentença está contido em outra sentença. (INFERÊNCIA) Conceito de hiponímia: Relação de sentido entre palavras em que o significado de uma está contido no significado de outra: Ex.: As baleias são mamíferas. “Uma sentença acarreta uma outra sentença se a verdade da primeira garante, necessariamente, a verdade da segunda, e a falsidade da segunda garante, necessariamente, a falsidade da primeira” (MÜLLER e VIOTTI, 2010, p. 147). · PRESSUPOSIÇÃO (MUDANÇA DO DISCURSO/ARGUMENTAÇÃO) “Uma pressuposição é uma suposição que é pano de fundo de uma asserção. Ela é considerada parte do conhecimento partilhado pelo falante e pelo ouvinte” (MÜLLER e VIOTTI, 2010, p. 148). Ex.: ‘Devia ter um dia por semana em que os noticiários enganassem a gente e dessem boas notícias.’ (Pressuposição e Acarretamento) – Toda pressuposição supõe um acarretamento, mas não necessariamente o inverso. Acarretamento se limita ao conteúdo informacional da sentença. Pressuposição: além do conteúdo informacional, envolve o contexto, ou seja, as condições de uso no discurso. “A informação pressuposta é condição de emprego da oração que a pressupõe” (MÜLLER e VIOTTI, 2010, p. 150). Segundo Regina Dell’Isola, “Na leitura de um texto, o resultado da compreensão depende da qualidade das inferências geradas. Os textos possuem informações explícitas e implícitas; existem sempre lacunas a serem preenchidas.” “O leitor infere ao associar as informações explícitas aos seus conhecimentos prévios e, a partir daí, gera sentido para o que está, de algum modo, informado pelo texto ou através dele. A informação fornecida direta ou indiretamente é uma pista que ativa uma operação de construção de sentido.” Pressuposição, como nos ensina Müller e Viotti (2010, p. 151), “é um mecanismo de atuação no discurso. A partir do que o falante escolhe apresentar como pressuposto, ele direciona o discurso.” > ENSINO DA CONSTRUÇÃO DA ARGUMENTAÇÃO · AMBIGUIDADE Puramente semânticas, sem caráter lexical (DIFERENTES INTERPRETAÇÕES DE UMA SENTENÇA) A ambiguidade pode ser gerada pela construção da sentença (A amiga do meu colega de trabalho gosta dele.) dele quem? Pela relação de escopo: Todo homem ama uma mulher – Uma mulher diferente e única, ou todos amam uma mulher no geral? É comum encontrar definições de Semântica como sendo o campo da linguística que estuda o significado das línguas naturais, porém ela é pouco elucidativa, haja vista que o seu entendimento convida, antes, a entendermos o que é significado, e essa tarefa se demonstra bastante árdua. Os semanticistas possuem diferentes visões sobre o que é significado e significação Considerando as ideias de Frege a respeito dos problemas de linguagem, reflita sobre as afirmações a seguir: (V) A abordagem de Frege busca entender os problemas filosóficos como problemas de linguagem. (V) Para Frege, “sentido” é o modo como nos referimos a um objeto. (V) Para Frege, “referência” é o objeto propriamente dito. (V) A proposta de Frege baseia-se em uma perspectiva lógica para a análise de proposições linguísticas. A noção de referência/denotação deve ser estendida, haja vista que as palavras podem representar não apenas os indivíduos do mundo, mas também objetos complexos. Assim, a noção de referência deve ser compreendida de modo muito mais amplo que o “falar sobre indivíduos concretos no mundo real”, já que admite que falemos de indivíduos de "outros universos” e que possamos usar a língua para descrever nossos estados mentais. Assinale a alternativa que apresenta frases que usam a noção de referência para falar de indivíduos de "outros universos" ou para descrever estados mentais: I. O presidente da Armênia iniciou uma guerra. II. A mula sem cabeça ronda a casa toda noite. III. Mário está muito feliz por ganhar na loteria. IV. O Homem de Ferro é um super-herói. A Semântica também possui ferramentas para verificar relações existentes entre linguística, ideologia e cultura. É possível, ainda, a pesquisa sobre as redes de relações que determinada expressão estabelece com outras expressões da mesma língua. As perspectivas para a Semântica são várias. O significado possui vários ângulos O significado possui vários ângulos, e isso permite a existência de variadas perspectivas do uso da Semântica. É normal que elas se complementem, pois, dentro de cada uma das possibilidades, haverá limites em seu alcance. Assim, por exemplo, as ferramentas da Semântica Cognitiva podem contribuir com a Semântica Lexical, a depender do significado pesquisado, bem como do recorte do objeto de estudo. O que as teorias semânticas fazem é recortar seu objeto de estudo de formas variadas SEMANA 5 - SEMÂNTICA DA ENUNCIAÇÃO: SUJEITO E DISCURSO Semântica da Enunciação: estuda o sentido que decorre da enunciação, ou seja, analisa a língua em sua totalidade. E é compreendido de diferentes formas, dependendo da perspectiva de linguagem que adotamos. A semântica da enunciação compreende a significação como sendo modos sociais com que vemos o mundo, ou seja, o sentido é uma construção social. A relação estabelecida entre a Semântica da Enunciação e a Análise de Discurso compreende o modo como a significação se constitui no âmbito social. O SIGNIFICADO NA VISÃO DE BENVENISTE Semântica da enunciação considera o significado como decorrente da atividade linguística. Os sentidos se constituem na instância da enunciação, ou seja, no momento em que o sujeito se apropria da linguagem e fala. Assim, a referência se dá no processo de enunciação, ou seja, a referência se constitui no discurso, assim como o modo de significar está atrelado ao modo como o sujeito compreende o mundo. O modo de significação, para Benveniste, está atrelado a um modo de subjetivação. Segundo Flores (2013) A análise semântica, na perspectiva benvenistiana, relaciona a ordem semiótica à ordem semântica, em que: · Ordem semiótica: formas linguísticas que considera o significado como distintivo. · Ordem semântica: lugar em que essas formas adquirem sentido singular devido ao ato enunciativo. DA SUBJETIVIDADE NA LINGUAGEM "É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito." (BENVENISTE, 1991, p. 286) "A linguagem é, pois, a possibilidade da subjetividade, pelo fato de conter sempre as formas linguísticas apropriadas à sua expressão, e o discurso provoca a emergência da subjetividade, pelo fato de consistir de instâncias discretas. A linguagem de algum modo propõe formas" vazias" das quais cada locutor em exercício de discurso se apropria e as quais refere à sua "pessoa", definindo-se ao mesmo tempo a si mesmo como 'eu' e a um parceiro como ‘tu’.” (BENVENISTE, 1991, p. 289) · Índices de pessoa: “O 'eu' se refere ao ato de discurso individualno qual é pronunciado, e lhe designa o locutor.” (BENVENISTE, 1991, p. 288) · Indicadores da dêixis: Pronomes demonstrativos, advérbios, adjetivos, "que organizam as relações espaciais e temporais em torno do ‘sujeito’ tomado como ponto de referência” (BENVENISTE, 1991, 288). Assim, a língua é empregada de forma a mostrar uma certa relação com o mundo: o mundo construído pelos sujeitos falantes, na e pela linguagem. Um mundo construído na enunciação. A REFERENCIAÇÃO “Não seria o referente uma entidade previamente concebida no mundo, mas o resultado de uma referenciação, entendida como uma construção de objetos do discurso elaborada pelos interlocutores. Nessa direção, o sentido dos termos e expressões, captados no desenvolvimento dos textos orais ou escritos, produz a criação do referente, e não a sua localização no mundo.” (In: DIAS, Glossário CEALE. Disponível em https://www.ceale.fae.ufmg.br/glossarioceale/verbetes/r eferente) SEMÂNTICA DA ENUNCIAÇÃO E ENSINO Quais implicações para o ensino de leitura e escrita? "Se para Benveniste a enunciação implica o ato de apropriação da língua pelo locutor na sua relação com o outro e com o mundo via discurso, sendo, portanto, o valor da enunciação essencialmente ligado à intersubjetividade, então, no estudo do texto, deve-se levar em conta mais do que as marcas linguísticas, mas, principalmente, os lugares de enunciação ocupados por eu e tu e a situação enunciativa criadora de referência no discurso, uma vez que disso depende o valor das escolhas linguísticas do locutor.” (JUCHEM, 2014, p. 463) No trabalho com o texto, importa analisar o porquê e como se diz algo e não o que se diz! Importa entender como o sujeito se apropria da língua e quais efeitos de sentido isso produz! Leia o seguinte trecho da música “Amor e Sexo”, interpretada por Rita Lee: Segundo nos explica o professor Luís Francisco Dias, as relações de sinônimo e antônimo são determinadas no próprio processo da enunciação. Nesse sentido, assinale a alternativa que apresenta uma análise correta sobre os termos “amor” e “sexo” presentes no trecho acima: Amor e sexo, no trecho acima, são apresentados como antônimos, devido à relação que se estabelece a partir das palavras que definem essas duas palavras, como “cristão” e “pagão”. Antes de adentrar o campo da Linguística, o termo “enunciação” movimentou-se bastante. A “Encyclopédie” expõe que a palavra latina “enuntiatio” e o seu sucessor francês “énonciation” possuem sentidos diversos e, até contraditórios. Isso acontece principalmente quando são considerados dois campos de estudo específicos. Assinale a alternativa que indica em quais campos a enunciação apresenta sentidos contraditórios. Lógica e gramática Na perspectiva da Semântica da Enunciação, os sentidos se constituem na enunciação, a qual é definida como: Modos de o sujeito ver, compreender, observar o mundo e formas de o sujeito participar da língua. Para fins didáticos, a história da semântica da enunciação pode ser dividida em dois momentos. O primeiro está relacionado à noção de enunciação, isto é, a sua ideia, antes do advento da linguística contemporânea. O segundo relaciona-se com a regularização do campo enunciativo no arcabouço da Linguística Moderna. A publicação do “Curso de Linguística Geral”, de Ferdinand de Saussure Sobre a metodologia de análise da semântica da enunciação, podemos dizer que: A semântica da enunciação tem como objetivo compreender o significado na enunciação, assim, não se restringe a apenas um nível linguístico (lexical, sintático, morfológico, fonológico), já que no ato enunciativo, todos esses níveis estão presentes. As afirmações abaixo tratam da questão da subjetividade na língua a partir das reflexões de Benveniste: 0. Os pronomes pessoais não denominam nenhuma entidade lexical. São preenchidos de sentido no ato enunciativo. 2. A linguagem permite que o locutor se aproprie da língua designando “eu”. 3. Apenas os pronomes pessoais revelam a subjetividade na língua. 4. O pronome pessoal “eu” não pode ser identificado a não ser dentro da instância do discurso, pois sua referenciação se dá na enunciação. Apenas no século XX que o termo “enunciação” é considerado solidificado. Isso acontece por volta dos anos 1920, quando um linguista francês, por meio de sua extensa produção acadêmica, faz com que o termo assuma o uso técnico contíguo ao do que recebeu na Linguística Moderna. Charles Bally. A Semântica da Enunciação possui uma história que é difícil de ser recuperada; a história do uso atribuído à palavra "enunciação" é outro desafio aos profissionais da área. A realidade é que existem poucos trabalhos dedicados ao resgate das origens epistemológicas, terminológicas, históricas e conceituais de ambas. Atualmente, foram identificados 3 trabalhos que auxiliam os pesquisadores da área. O verbete “Énonciation” na “Encyclopédie philosophique universelle”. Todo e qualquer fenômeno linguístico tem potencialidade de ser estudado sob a ótica da enunciação, afinal, não há um nível de língua que possa ser priorizado no ato enunciativo. Isso acontece, pois, quando um locutor enuncia, ele utiliza a língua como um todo. Assim, são abundantes os exemplos de como um fenômeno linguístico, de qualquer nível, pode ser estudado com as ferramentas enunciativas. Culioli estudou a negação e a prosódia. SEMANA 6 - SOBRE A SEMÂNTICA ARGUMENTATIVA: A ARGUMENTAÇÃO NA LÍNGUA Teoria desenvolvida por Oswald Ducrot e Jean-Claude Ascombre entre os anos 70 e 80; Argumentação voltada para uma abordagem linguística; Busca compreender os meios oferecidos pela língua para a construção de uma orientação argumentativa. Defendem que a língua impõe restrições para os encadeamentos argumentativos, pois elas estão ligadas às estruturas linguísticas dos enunciados; A argumentação depende das nossas escolhas linguísticas para obter eficácia: o valor argumentativo está inscrito na palavra. DIRECIONAMENTO ARGUMENTATIVO: A escolha da palavra é uma estratégia do interlocutor de direcionamento do discurso para uma determinada conclusão. CONTEXTO E ARGUMENTAÇÃO NA LÍNGUA Ducrot faz uma revisão da sua hipótese sobre o valor argumentativo intrínseco nas palavras e passa a considerar também o contexto (situação extralinguística e o conjunto de afirmações que estão em volta de um dizer) para a construção da argumentação. "O texto acima foi escrito a partir dos fatos reais ocorridos neste ano no Rio de Janeiro e de uma pesquisa sobre os comentários postados nos sites e redes sociais sobre esses fatos, por aqueles que se apresentavam como “cidadãos de bem” ou termos similares. Criar esse texto na primeira pessoa, juntando numa só voz os principais argumentos em circulação, foi uma tentativa de tornar esse discurso de ódio visível. Não da forma habitual, já banalizada, mas a partir do seu deslocamento para um lugar onde ele é estranho. E, assim, produzir estranhamento e incômodo.” (Eliane Brum, Eca do B) Ducrot (1984, 1990): Sujeito empírico: ✔ Locutor: ser de fala responsável pelo enunciado. ✔ Enunciadores: não são pessoas, mas pontos de vista abstratos, ou seja, atribuem diferentes perspectivas ao dizer do locutor. Desenvolvimento da Teoria da Argumentação da Língua apresentada por Ducrot e Carrel. Busca-se aprofundar a noção de valor argumentativo: “Para Ducrot e Carrel, a TBS serve para definir as palavras do léxico; para esses teóricos, descrever semanticamente uma palavra é indicar os aspectos que constituem, de maneira estrutural sua argumentação interna e argumentação externa, fazendo aparecer os encadeamentos argumentativos que a língua lhes associa ou, ainda, seu potencial argumentativo.” (CABRAL, 2011, p. 209) Encadeamento argumentativo: “Dois discursos evocados por uma entidade linguística e articulados por um conector (portanto ou no entanto) são denominados agora encadeamentos argumentativos. Estes são constituídos por dois seguimentos que recebem sentido na relação de um com outro produzindo um único sentido por dependência semântica.” (BARBISAN, 2013, p. 26)Argumentação interna de uma expressão linguística: Está inscrita no significado da palavra. Seria o encadeamento que parafraseia o sentido contido em uma expressão lexical. Contém encadeamentos que prolongam o significado da palavra. Sentido e Significação são conceitos diferentes, sendo que o sentido é constituído na linguagem e a significação está ligada à orientação dada ao discurso. Para nos referirmos à distinção entre significação e sentido na Teoria da Argumentação da Língua, é preciso considerar a noção de valor linguístico, advinda da teoria de Saussure. "Pensar a argumentação de uma perspectiva materialista, tendo a língua, a enunciação e o discurso como objetos, é pensar os modos pelos quais a linguagem verbal (e outras materialidades significantes) permitem direcionar o dizer para uma conclusão, inscrevendo-o nos conflitos ideológicos que constituem uma sociedade." (p. 127) Ao questionar a unicidade do sujeito no discurso, Oswald Ducrot (1984, 1990) apresenta a teoria da polifonia, na qual afirma que, na produção de um enunciado, há o sujeito empírico, o locutor (ser que fala e é responsável pelo dizer) e os enunciadores (que apresenta pontos de vistas diferentes, seria uma entidade abstrata). O meme apresenta um enunciado irônico e um dos pontos de vista apresentados pelo enunciador tende ao absurdo, buscando ridicularizar discursos sustentados pelo machismo e patriarcalismo. A Semântica Argumentativa, também chamada Teoria da Argumentação na Língua, se fundamenta na percepção de que o sentido do enunciado está nas relações em que ele se insere. A respeito do processo de produção de sentidos e sua relação com a linguagem na ótica da Semântica Argumentativa, está correto o que se afirma em: A prática da linguagem se estabelece entre dois seres, locutor e alocutário, sendo que o sujeito, ao escolher uma direção argumentativa dentre todas as possibilidades, espera uma resposta ou continuação do seu alocutário. Para Oswald Ducrot, em seus trabalhos, o primeiro pressuposto que se deve considerar na Teoria dos Blocos Semânticos (TBS) é que: A argumentação está intrínseca na língua.