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MÉTODO PSICANALÍTICO 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Juliana Santos 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
 Para darmos continuidade em nossos estudos sobre os métodos 
psicanalíticos, abordaremos os outros cincos conceitos que completam o 
conjunto de técnica assinalada por Freud: a dinâmica da transferência, a 
interpretação em análise, a função do divã, o tempo da sessão e a escuta clínica. 
 Todos esses temas, somados aos que já trabalhamos na primeira parte 
(a associação livre, atenção flutuante, entrevistas preliminares, e o dinheiro na 
psicanálise), dizem sobre os métodos, técnicas, e conceitos da clínica. 
Compreender a função de cada uma delas se faz importante para o bom 
funcionamento da prática 
TEMA 1 – A DINÂMICA DA TRANSFERÊNCIA 
Como vimos anteriormente, as entrevistas preliminares são um “portal” 
para a entrada em análise. Freud mencionou que a duração desses “tratamentos 
experimentais” podia ser de uma até duas semanas, mas é importante lembrar 
que em sua época, as consultas aconteciam cinco vezes por semana, diferente 
da nossa realidade – em que as consultas raramente ocorrem mais de uma vez 
por semana. Sendo assim, a duração das entrevistas preliminares, que antecede 
a entrada em análise, pode ter um tempo maior de espera. De todo modo, o 
objetivo é que, passado esse tempo, ela cumpra a função de estabelecer uma 
“transferência operativa”, ou seja, uma transferência na qual o analista esteja 
permitido a intervir por meio da interpretação. Antes disso, qualquer tentativa por 
parte do analista poder adquirir um aspecto invasor, ou sem efeito algum. Assim, 
é necessária a observação de uma primeira transferência para dar uma 
interpretação. 
A transferência é dita por Freud como o motor de uma análise. A 
transferência, diz Coutinho Jorge em Fundamentos da Psicanálise, é a única 
forma do inconsciente se presentificar de modo sistemático na análise, e não 
apenas pontualmente, como também na formação da vida cotidiana (lapso, ato 
falho e chistes) (p. 156) . 
Freud (1912), em A Dinâmica da Transferência, distinguia duas atitudes 
básicas do analisando em relação ao tratamento: de um lado, a cooperação, e 
de outro, a resistência. Estas atitudes, que se contrapõem entre si, receberam o 
nome de transferência positiva, constituída de amor e ternura e, 
 
 
3 
respectivamente, transferência negativa, vetor de sentimentos hostis e 
agressivos. 
Já sob o olhar de Roudinesco, em seu Dicionário de Psicanálise (1998), 
a transferência é designada como um processo constitutivo do tratamento 
psicanalítico mediante o qual os desejos inconscientes do analisando, 
concernentes a objetos externos, passam a ser repetir no âmbito da relação 
analítica, na pessoa do analista, colocado na posição desses diversos objetos. 
(p. 766-767). E Lacan (1964), finalmente, no Seminário 11, reconhece o conceito 
da transferência com sendo um dos quatro conceitos fundamentais da 
psicanálise, pois trata-se de uma operação pela qual o inconsciente se atualiza 
na realidade. 
1.1 Reconhecendo a transferência 
O termo Übertragung foi introduzido na literatura psicanalítica por Freud e 
traduzido por “transferência” – o que, segundo o autor, diz respeito aos 
sentimentos deslocados na direção do analista. No entanto, dada a sua presteza, 
Freud pode observar que não se tratava apenas da situação produzida no 
tratamento, mas que a origem desses afetos emergia de outro lugar e que, na 
verdade, o que surgia em análise era uma “nova edição” ou cópias idênticas dos 
impulsos e fantasias que substituem uma pessoa por aquela que ocupa o lugar 
do analista, ou seja, as experiências vividas no passado são revividas e 
deslocadas para a pessoa do analista, no momento presente. 
Fink (2017) em Fundamentos da Técnica Psicanalítica, delimita as formas 
como as transferências, ditas na sua literalidade como uma transposição, podem 
surgir em análise: 
• Em nível perceptível – seja visual, auditivo, olfativo, tátil ou outro sentido. 
Ou seja, é algum aspecto do analista que faz com que o paciente se 
lembre de um de seus pais (ou de qualquer outra pessoa importante de 
seu passado), tais como o som de voz, a cor dos olhos, cabelo ou pele, 
gestos, forma de se cumprimentar e assim por diante. Não é que 
realmente haja alguma dessas características no analista, mas o que 
ocorre é uma projeção no analista de algo preso em algum momento do 
ente querido do paciente, que passa a ser associado. O paciente vê seu 
analista como se fosse um registro perceptivo. 
 
 
4 
• Característica “codificada” – a companhia ou o próprio ambiente faz 
com que o paciente se lembre de um de seus pais (ou de qualquer outra 
pessoa importante de seu passado), tais como idade, jeito de se vestir, 
maquiagem ou acessório, o vocabulário usado, o modo de falar ( que pode 
indicar classe social ou aspiração social, região ou país), localização do 
consultório, decoração, etc. Todos esses aspectos, envolvendo sinais de 
um tipo ou de outro, produzem no imaginário do paciente uma livre 
interpretação que pode promover a transferência. 
• Expressão de emoção por parte do analista – todas as emoções 
detectáveis podem ser associadas pelo paciente como vista em outras 
pessoas do seu passado e são colocadas sob o título de efeitos afetivos, 
envolvendo a libido. “Na verdade, a analista não precisa sentir ou 
manifestar qualquer emoção para o paciente “perceber” uma determinada 
emoção que venha dela: em vários casos o paciente projeta na analista, 
emoções que percebia em sua mãe – emoções que o perturbaram e com 
as quais ele ainda luta” (p. 216). 
Mas o conceito da transferência em análise é bem mais do que tudo isso, 
é preciso um reconhecimento maior desse conceito para não nos equivocarmos 
e acreditarmos que qualquer sentimento do paciente seja o de transferência. 
Pois bem, um sentimento só pode existir se consciente, ou seja, se ele for 
inconsciente, não é, em sentido estrito, um sentimento, pois o sentimento só 
pode ser quando sentido. No entanto, aspectos reprimidos podem criar posturas 
contrárias ao que ele perceba, - portanto, quanto maior a resistência, mais 
extensiva a atuação. 
No texto Recordar, repetir e elaborar (1914), Freud traz novas 
recomendações sobre essa técnica, quando diz que a transferência é, ela 
própria, apenas um fragmento da repetição e que a repetição é uma 
“transferência do passado esquecido”, não apenas para o médico, mas também 
para todos os outros aspectos da situação atual. (p. 166) 
 Desse modo, a transferência pode envolver uma repetição de alta 
complexidade, na qual se reflete toda a estrutura familiar nas sessões de análise, 
não se restringindo apenas ao sentimento dirigido ao analista, mas podendo se 
estender a uma passagem traumática da vida do paciente – e com a qual o 
setting analítico se torna um palco para a “encenação”. 
 
 
5 
1.2 A contratransferência 
A contratransferência refere-se a uma dimensão fundamental do modo 
como o analista se coloca diante do paciente e se deixa ser por ele afetado. Dito 
de outro modo, é a forma como o analista responde à transferência. Nesse 
aspecto, a contratransferência se inclui também na dinâmica do trabalho 
analítico. 
Para pensar nessa modalidade, Luís Claudio Figueiredo, em Elementos 
para a clínica contemporânea (2018), diz que a contratransferência primordial 
configura-se como um “deixar-se colocar” diante do sofrimento antes mesmo de 
se saber do que e de quem se trata, sendo essa, justamente, a disponibilidade 
humana para funcionar como suporte da transferência, de modo que “todo 
psicanalisar, no que implica lidar com as transferências – e as outras coisinhas 
mais, que emergem e podem ser tratadas nesses processos – dependem, 
portanto, dessa contratransferência primordial” (p. 132). 
Para Lacan, em comentário de Roudinesco (1998), a ideia de 
contratransferênciaé desprovida de objetivo, ou seja, se torna apenas um 
impasse para o processo analítico, visto que não designa nada além dos efeitos 
da transferência que atingem o desejo do analista, não como pessoa, mas como 
alguém que é colocado no lugar do Outro pela fala do analisando. Lacan vai 
dizer, portanto, que não é necessário fazer intervir a contratransferência, como 
se ela fosse algo que constituísse a parte própria e, muito mais do que isso, a 
parte falha do analista (p. 134). 
TEMA 2 – A INTERPRETAÇÃO 
A transferência e a interpretação andam lado a lado na situação analítica. 
Freud recomendou que o analista só interpretasse após o aparecimento da 
transferência, já Lacan apontou para uma via aparentemente oposta, na qual a 
interpretação é o que, de fato, instaura a transferência. 
Coutinho Jorge (2017) destaca que, para Lacan, é na medida em que o 
analisando se perceba sendo escutado, enquanto sujeito, que emerge a 
dimensão do sujeito de suposto saber, sendo essa a mola essencial para a 
transferência (p. 156). 
Dessa forma, é essencialmente a posição do psicanalista que permite que 
se instaure a transferência, por meio do modo que ele acolhe a demanda do 
 
 
6 
analisando e recebe a fala do seu sofrimento. Sendo que é do desdobramento 
da fala do analisando e de sua interpretação que pode advir uma possível 
consolidação da transferência. 
A interpretação está no cerne da teoria e da técnica freudiana. O primeiro 
modelo de interpretação foi apresentado através do sonho, onde ele destacou o 
simbolismo singular da pessoa. A formulação de Freud a respeito da 
interpretação, nesse ponto, é a seguinte: 
A) É a partir do relato do sonho de quem sonhou que se constitui a 
interpretação (o conteúdo manifesto do sonho). 
B) As associações livres conduzem para o sentido do sonho (o conteúdo 
latente). 
C) A interpretação visa lançar luz sobre o desejo inconsciente que no sonho 
se realiza. 
Na psicanálise, o sentido técnico da interpretação está desde sua origem, 
na Interpretação do sonho, e aplica-se a toda produção inconsciente que no 
discurso e comportamento surge como uma marca defensiva. 
2.1 O que se interpreta? 
Laplanche e Pontalis, em Vocabulário de Psicanálise (2001), discorrem 
sobre dois pontos da interpretação (p. 245): 
A) Destaque para a investigação analítica do sentido latente nas palavras e 
nos comportamentos de um sujeito. A interpretação traz à luz as 
modalidades do conflito defensivo e, em última análise, tem em vista o 
desejo inconsciente. 
B) No tratamento, a comunicação feita ao sujeito, visando dar-lhe acesso à 
esse sentido latente, segundo as regras determinadas pela direção do 
tratamento. 
Portanto, o objetivo da interpretação é trazer um modelo inconsciente para 
a atenção do paciente, cuja finalidade é fazer com ele reconheça o seu 
funcionamento e possa, no futuro, deter-se antes de repetir um comportamento 
compulsivo da repetição inconsciente. 
Bruce Fink (2017) declara que no setting analítico a interpretação que visa 
amarrar um único significado tende a fazer com que o paciente pare de falar, em 
 
 
7 
um certo sentido, interrompendo o fluxo de suas associações, ou seja, acaba 
fechando portas ao invés de abrir. “Resumindo, alguém pode dizer que o 
pensamento do paciente (ou seu ego) recristaliza em torno das interpretações 
facilmente apreensíveis, ao passo que o objetivo do trabalho psicanalítico com 
neuróticos seja frustrar tais cristalizações” (p. 140). 
A dimensão do trabalho analítico no que tange a interpretação, pode ser 
equacionada pela seguinte fórmula: o psicanalista sabe que o sujeito sabe, sem 
saber que sabe. 
Coutinho Jorge (2017) indica que enquanto o analisando se situa, de 
início, numa relação dual, num eixo imaginário, o analista deve tomar a relação 
analítica no seu conjunto ternário, onde inclui o Outro (o inconsciente). Tais 
etapas da relação analítica são representadas pelo autor da seguinte forma: 
Quadro 1 – Etapas de relação analítica 
 
Fonte: Elaborado com base em Coutinho Jorge, 2017. 
No primeiro quadro, o analisando se dirige ao analista como sujeito do 
suposto saber, estabelecendo a raiz do vetor transferencial. O segundo quadro, 
o que especifica a posição do analista, diz o autor, é o fato do analista não 
responder desde esse lugar, pois ele não está identificado com o sujeito que 
sabe, mas sim de semblante do objeto a causa de desejo. 
No terceiro quadro observa-se o analista por sua posição de escuta, que 
aciona a fala do analisando pela associação livre, indicando assim, o lugar 
terceiro – o inconsciente. O efeito desse acionamento é visto no quarto quadro, 
onde a interpretação surge do lugar do Outro, o saber inconsciente. 
 
Entrevistas preliminares 
Analisando analista 
Vetor transferencial 
SsS 
Desdobramento da transferência 
Analisando analista 
 
O analista não responde do lugar 
de mestre 
Associação livre – o lugar do inconsciente 
 $ 
 
 
Analisando analista 
 
 
SsS 
Associação 
livre 
Associação livre – o lugar do inconsciente 
 $ 
 
 
Analisando analista 
 
 
SsS 
Associação 
livre 
Interpretação 
 
 
8 
TEMA 3 – A FUNÇÃO DO DIVÃ 
“Das entrevistas preliminares à conquista do divã” – foi dessa forma que 
Lacan passou a tratar o divã, como uma “conquista” em análise para os 
neuróticos, onde se deixa a posição de “face a face” com o analista, para deitar-
se no divã. 
Nos ensinos de Lacan, o divã é uma condição que marca o fim das 
entrevistas preliminares e pontua a entrada em análise. Quinet (1991) se 
questiona se o ato de deitar o paciente no divã trata-se apenas de procedimento 
técnico. O autor definiu que o divã tem um “fundamento ético” que orienta a sua 
técnica e, por seu turno, Lacan buscou esse fundamento ao promulgar o retorno 
a Freud. 
O uso do divã foi uma insistência de Freud trazida do método de hipnose. 
No texto Sobre o Início do Tratamento (1912) ele enuncia diversas razões para 
se manter o divã. O primeiro motivo foi para evitar ser olhado pelo paciente. Além 
de ter seus próprios motivos para isso, ele explica que as expressões faciais do 
analista não deveriam fornecer elementos a serem interpretados pelo analisando 
quee pudessem influenciar na direção de sua fala. Freud ainda diz que mesmo 
que o paciente se sinta incomodado com essa posição, isso não deve ser 
negociado, visto que ela também tem o objetivo de impedir que a transferência 
se misture imperceptivelmente às associações do paciente. 
Antonio Quinet declara, então, que a principal razão do divã na análise 
deve-se à estrutura da transferência. Trata-se de uma tática, cujo objetivo é 
dissolver a pregnância do imaginário da transferência, para que o analista possa 
distingui-la no momento de sua pura emergência nos dizeres do analisando. 
(p.39) 
O analista por trás do divã ocupa o lugar da invisibilidade, na medida em 
que seu ato surge como real e não atuação. Dessa forma a indicação ao divã na 
entrada em análise tem o estatuto de ato analítico que produz em cada análise 
o ínicio da psicanálise. 
Quinet, seguindo as orientações lacanianas, expõe o campo da visão no 
campo do engodo do desejo, na medida em que ele é protegido pela imagem 
[i(a)]. O olho institui, na relação do sujeito com o outro imaginário, o 
desconhecimento de que sob esse desejável há um desejante. O “desejo do 
analista”, enquanto função, deve ir contra esse desconhecimento e fazer surgir 
 
 
9 
para o analisante a interrogação sobre sua própria posição em relação ao desejo 
do Outro (p. 39). 
Assim, pela função de se deitar no divã, o analisante é levado a deixar a 
imagem do outro i(a), que representa a persona do analista, dando lugar ao ideal 
do Outro I(A).Sendo, portanto, este procedimento, um meio de esvaziar o 
imaginário e ir contra o desconhecimento do eu, fazendo, por fim, emergir o 
discurso do Outro. 
Por último, Quinet sublinha que para não fazer do divã um uso padrão, é 
necessário aprender as particularidades de cada caso, assim como qualquer 
outro aspecto da experiência analítica. 
TEMA 4 – O TEMPO DE ANÁLISE 
 Para o tempo, nos deparamos com duas vertentes: o tempo de duração 
da análise, onde o que entra em cena é o final da análise e o tornar-se 
psicanalista; e o tempo de duração de cada sessão, sendo essa, para os que 
seguem as orientações lacanianas, a que mais causa embates no meio 
psicanalítico e no campo das psicologias. 
 Quinet (1991) enumerou cinco proposições, extraídas dos ensinos de 
Lacan, para demonstrar a ressignificação da experiência psicanalítica após a 
introdução da questão do “tempo lógico”. Em seu texto Que tempo para a 
análise? as proposições são listadas como: 
• 1ª proposição – O tempo em psicanálise deve corresponder à estrutura 
do campo freudiano. Isso significa que o tempo não pode ser algo 
meramente técnico ou empírico, mas deve responder aos conceitos 
fundamentais da psicanálise. 
• 2ª proposição – As sessões sem tempo determinado se estabelecem num 
plano que não é o da burocracia e sim o da lógica do inconsciente e da 
ética da psicanálise. Assim, somos conduzidos pela própria transferência 
que é o conceito mesmo da análise, porque é o tempo da análise. 
• 3ª proposição – As sessões psicanalíticas sem tempo determinado 
encontram sua lógica em duas definições distintas de estrutura, que 
implicam dois aspectos do sujeito: 
o A estrutura do campo psicanalítico é equivalente à estrutura da 
linguagem. O sujeito é definido a partir de sua determinação pelo 
 
 
10 
significante, definição essa correlata à formulação do inconsciente 
estruturado como uma linguagem. 
o A estrutura não é apenas definida pela linguagem, visto que a 
estrutura não é toda feita de linguagem, mas contém o objeto a, 
real, exterior à linguagem e que está fora do significante. Trata-se, 
aqui, da estrutura do ato psicanalítico, ato fundamentado por 
Lacan, a partir de uma estrutura paradoxal em que o objeto seja 
ativo e o sujeito subvertido (a $). 
• 4ª proposição – O tempo em análise deve ir contra o tempo do neurótico. 
• 5ª proposição – O tempo da sessão deve incluir em si mesmo e a cada 
sessão a finitude da análise. Assim, cada sessão de análise contém o final 
da análise. 
Partindo do entendimento dessas proposições, Lacan rompeu com a 
tradição psicanalítica, que estabelecia a regra das sessões com tempo 
determinado de 50 minutos, e insere as “sessões curtas”, nas quais o que se é 
evocado é a experiência analítica na função da fala e no campo de linguagem. 
4.1 Sessão curta – tempo lógico 
 O tempo das sessões foi proposto por Freud em seus Artigos sobre 
Técnica (1912), texto no qual ele assinalou que trabalhava com seus pacientes 
seis vezes por semana, interrompendo os atendimentos nos fins de semana, e 
disponibilizava a eles uma hora por dia (p. 51). E, muito embora Freud não tenha 
estabelecido uma rigidez em relação a isso, a duração das sessões foi 
padronizada pela IPA, que convencionou que as sessões deviam ocorrer mínimo 
três vezes por semana e tivessem cinquenta minutos de duração, sem dar 
nenhuma justificativa para tal adoção. 
 Lacan se opôs enfaticamente a esse conjunto de convenções e propôs 
que os analistas se orientassem apenas pela fala dos seus analisantes para 
conduzir o tempo de análise. Para época, a declaração de sessão orientada pelo 
tempo do inconsciente pareceu um escarnio. 
No entanto, Lacan não renunciou às sessões curtas, visto que, para ele, 
o inconsciente tem estrutura de linguagem, então caberia ao analista pontuar na 
fala do analisante aquilo que evocaria o inconsciente, transformando um 
discurso comum em manifestação do inconsciente. Ou seja, essa técnica se 
 
 
11 
colocava em oposição a técnica que, até então, era a empregada pelos 
psicanalistas, em que o objetivo era tornar consciente aquilo que estava 
inconsciente – e que, para isso, não se abstinha de dar interpretação. 
4.2 A pontuação 
 Lacan esclarece que a suspensão da sessão deve obedecer não ao 
tempo do relógio, mas, sim, à trama do discurso do analisando. Para isso, ele 
evidencia um esquema de comunicação que diz respeito não só a análise, mas 
também a experiência comum do dia a dia. 
 O esquema de comunicação que Lacan evidenciou corresponde ao 
entendimento freudiano de “posteriori”, no qual, só num depois que uma frase 
seja terminada é que se entenderá o seu sentido. Quinet explica desse modo: 
“se eu disser ‘agora vou’, ninguém entenderá”. Mas quando ele diz a frase inteira: 
“agora vou ao quadro escrever o que estou dizendo”, nesse momento o “agora 
vou” fará sentido. Portanto, se uma frase é considerada uma cadeia de 
significantes, só conseguiremos entender o seu sentido inicial por meio de uma 
retroação, ou seja, só após uma frase terminada é que se pode entender o seu 
sentido (p. 52). 
Esse esquema de retroação é fundamental na psicanálise, pois 
corresponde ao esquema da constituição do trauma. Para que haja 
trauma são necessários dois tempos. Se tomarmos o trauma por 
excelência, o da castração, teremos: no primeiro momento, quando da 
masturbação infantil, o menino ouve ameaças reais de castração. 
Essas falas provocarão angústia quando o menino se defrontar à falta 
de pênis na mulher (da mãe), ou seja, quando se defronta com a 
castração do Outro. O efeito de ameaça adquire seu sentido nesse 
processo de retroação, em que a primeira experiência será 
ressignificada. 
 Para exemplo, pensemos num individuo que chega em análise com 
pontos enigmáticos em sua história, de tal forma condensados que apontam para 
determinado gozo que sempre retorna em seu discurso. Esse ponto enigmático 
e pleno de sentido, surge para o individuo de forma completamente irracional, 
mas na medida em que o analista aponte para o esquecimento de algo, ou dê 
ênfase a uma palavra, ou interprete algo de sua fala, faz com que a frase que 
vinha numa cadeia de significantes retroaja, permitindo novas ressignificações. 
Quinet apresenta-nos um gráfico: 
 
 
 
12 
Gráfico 1 - Retroação 
 
Fonte: Elaborado com base em Quinet, 1991. 
 O corte em sessão tem para Lacan o mesmo valor: “é por isso que a 
suspensão da sessão [...] desempenha aí o papel de uma escansão que tem 
todo o valor de uma intervenção, precipitando os momentos conclusivos” (Lacan 
1953, p. 253). Isto é, não podemos ser indiferentes à trama do discurso do sujeito 
em detrimento puramente cronológico. 
TEMA 5 – A ESCUTA CLÍNICA 
“Que se diga fica esquecido detrás do que se diz no que se ouve.” Essa 
declaração feita por Lacan no seminário 20 (1972-73) pode ser desdobrada em 
várias vertentes, mas, para início, tomemos a primeira delegação aos 
psicanalistas – ouça o seu paciente. 
O psicanalista, ao se colocar como ouvinte, ouve a dor, o mal-estar, a 
queixa do sintoma e tudo que apareça no campo da fala, e através do seu 
acolhimento e pontuações, todas essas queixas são transformadas em uma 
demanda de análise. 
Agora, nesse percurso de análise, o que surgirá pela frente? De fato, é a 
escuta do psicanalista que dará norte a essa caminhada, e se foi através do 
princípio de prazer que Freud regulou o psiquismo, Lacan soube extrair as 
consequências lógicas dessa trama e desbravou o campo do gozo, para além 
do princípio de prazer. Assim, o que se segue a partir da entrada em análise, é 
a “travessia do rochedo” da castração. 
Dominique Fingermann e Mauro Mendes Dias confluem, no livro Por 
causa do pior (2005), as exigências lógica, ética e clínica propostas por Lacan 
ao incluir o campo do gozo na escuta clínica (p. 44): 
1. No ponto de origem do sujeito, dizem os autores, há um trauma, umaincompatibilidade: castração, impasse, spaltung, divisão. 
 
Cadeia X 
significante 
pontuação 
 
 
13 
2. Inibição, sintoma, angústia, repetição, obsessão, conversão, depressão, 
pânico, pesadelo, estranheza, culpa, masoquismo etc., testemunham 
essa dimensão no mundo e na clínica. 
3. Diversos destinos e avatares dessa causa comum indicam que é possível 
haver transformação e remanejamentos. A psicanálise propõe-se a 
explorar as condições de tratamento da causa do pior/ gozo: analisar, 
descolar, desmontar, demonstrar, esvaziar, matemizar, poetizar, inverter, 
retroverter, subverter, sublimar, enlaçar. 
A psicanálise ao acolher o sujeito e sua dor singular, ela também se coloca 
a escuta do modo como o sujeito trata a impossibilidade. E de certo, há infinitas 
formas. E sobre todas essas formas possíveis, todos sofrem com algo que dizem 
aos berros ou sussurros: “tem algo em mim que é mais forte do que eu”1, dão 
vários nomes a essa “coisa”. Na psicanálise, Freud nomeou de isso, ou pulsão 
de morte e ainda sobre conotação de unheimlich, um estranho íntimo, que não 
cabe no eu, no Ideal e nem na lei. 
Fingermann e Dias expõem que Lacan, ao interpretar Freud, colocou a 
experiência analítica à altura do Pior/gozo e não mais ao nível do Pai. “O Pai é 
o que dá sentido às coisas; a experiência da psicanálise trata do sem sentido da 
Coisa” (p. 46). Assim: 
O sofrimento do sintoma testemunha a verdade esquecida, a essência 
nunca ocorrida, foracluída, que retorna no real do corpo, da vida ou dos 
pensamentos. O sintoma, na repetição lancinante de seu tormento, 
insiste como eco que dá presença ao oco que dá substância, ao vazio 
da identidade, insiste como se quisesse dizer alguma coisa. 
É, então, desde a ausência de sentido que se pode ouvir o que atormenta 
e obtém a consistência do sintoma, e se configura como uma queixa tentando 
dizer alguma coisa, foi dessa conjugação entre sintoma e demanda que Freud 
respondeu com a invenção da psicanálise. 
NA PRÁTICA 
Os conceitos de transferência e interpretação são elementos 
extremamente orgânicos que cabem muito mais no campo da experimentação 
do que em conceitos teóricos. É de fato na experiência analítica que se pode 
 
1 Fingermann e Dias citam aqui um trecho de autoria de João Guimarães Rosa 
 
 
14 
dimensionar o modo como cada um se presentifica uma do lado do analisante e 
outra do lado do analista que responde com a interpretação. 
A escuta por sua vez, embora seja muito enfatizada no campo 
psicanalítico, não se engane, os bons ouvintes são escassos e existem vários 
fatores para isso, inclusive razões estruturais, pois o que nosso narcisismo gosta 
de ouvir mesmo é sobre nós mesmo, portanto, só através da análise pessoal que 
podemos reduzir essa dimensão imaginaria, que constitui o campo do narcisismo 
para podermos ouvir de fato a alteridade do outro. 
Outro fator importantíssimo de lembrarmos para a nossa prática é que a 
lógica capitalista - tempo e dinheiro - não deve ser confundida com o princípio 
de realidade, mas pode haver outra relação possível para isso, por isso a lógica 
do tempo da psicanálise é transferencial e deve ser buscada no discurso do 
sujeito. 
Por exemplo, um analisando que, após algumas sessões, de muitas 
associações que o fizeram entrar em contato com a sua dor, subitamente tem 
uma melhora. Chega na análise dizendo que está ótima, que a analista é 
maravilhosa e que não tem nada a dizer. O analista diz: “se não tem nada pra 
falar, me fale o que você fez da última sessão pra cá”. A analisanda, então, 
começa a relatar de forma minuciosa tudo que ela fez, registrava até o horário 
de cada coisa, então, ela conta que quando foi estacionar o carro, bateu no carro 
do vizinho, e sorrindo diz: “ah, mas essa sou eu, né?” e a analista responde: essa 
qual é você?” E, depois de uma pausa, vem o choro: “a que sempre estraga 
tudo”. Deste ponto, se abre para uma nova cadeia significante... 
FINALIZANDO 
A transferência é o motor de uma análise. É a única forma do inconsciente 
se presentificar de modo sistemático na análise, e não apenas pontual, como na 
formação da vida cotidiana (lapso, ato falho e chistes). 
A interpretação tem sua fórmula delimitada na interpretação do sonho: 
A) É a partir do relato do sonho de quem sonhou que se constitui a 
interpretação (o conteúdo manifesto do sonho). 
B) As associações livres conduzem para sentido do sonho (o conteúdo 
latente). 
 
 
15 
C) A interpretação viso lançar luz sobre o desejo inconsciente que no sonho 
se realiza. 
Pela função de deitar-se no divã, o analisante é levado a deixar a imagem 
do outro i(a), que representa a persona do analista, dando lugar ao ideal do Outro 
I(A). Sendo, então, o procedimento de deitar-se no divã, um meio de esvaziar o 
imaginário e ir contra o desconhecimento do eu, fazendo por fim, emergir o 
discurso do Outro. 
O tempo da sessão não obedece ao tempo cronológico, mas tempo logico 
do inconsciente. Assim, a suspenção da sessão deve obedecer, não ao tempo 
do relógio, mas, sim, a trama do discurso do analisando. Para isso, ele evidencia 
um esquema de comunicação que diz respeito não só a análise, mas também a 
experiência comum do dia a dia. 
A escuta do analista é, então, desde a ausência de sentido que se pode 
ouvir o que atormenta e em que se obtém a consistência do sintoma, e se 
configura como uma queixa tentando dizer alguma coisa. Foi dessa conjugação 
entre sintoma e demanda que Freud correspondeu com a invenção da 
psicanálise. 
 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
COUTINHO JORGE. M. A. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan. 
Vol. 3, Rio de Janeiro: Zahar, 2017 
FIGUEIREDO, L. C. Elementos da Clínica Contemporânea. São Paulo: 
Escuta, 2018 
FINGERMANN, D., DIAS, M. M. Por Causa do Pior. São Paulo: Iluminuras, 
2005. 
FINK, B. Fundamentos da técnica psicanalítica. Uma abordagem lacaniana 
para a prática. São Paulo: Blucher, 2017. 
FREUD, S. Artigos sobre técnicas. In Obras Completas. vol. XII. Rio de Janeiro: 
Imago, 1996. 
LACAN, J. Função e campo da fala e linguagem. In Escritos. Rio de Janeiro: 
Zahar, 1998. 
________. Seminário 20: Mais ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 
LAPLANCHE, J., PONTALIS, J. B. L. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: 
Martins Fontes, 2001. 
QUINET. A. As 4+1 condições da análise. Rio de Janeiro: Zahar, 1991. 
ROUDINESCO, E. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998

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