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Séamus P. J. Higson Química Analítica ISBN: 978-85-7726-029-4 A reprodução total ou parcial deste volume por quaisquer formas ou meios, sem o consentimento, por escrito, da editora é ilegal e confi gura apropriação indevida dos direitos intelectuais e patrimoniais dos autores. © 2009 by McGraw-Hill Interamericana do Brasil Ltda. Todos os direitos reservados. Av. Brigadeiro Faria Lima, 201, 17o andar São Paulo – SP – CEP 05426-100 © 2009 by McGraw-Hill Interamericana Editores, S.A. de C.V. Todos os direitos reservados. Prol. Paseo de la Reforma 1015 Torre A Piso 17, Col. Desarrollo Santa Fé, Delegación Alvaro Obregón México 01376, D.F., México Tradução de Analytical Chemistry Publicado por Oxford University Press Inc., Nova York © Séamus Higson ISBN da obra original: 978-0-19-850289-0 Coordenadora Editorial: Guacira Simonelli Editora de Desenvolvimento: Mel Ribeiro Produção Editorial: RevisArt Supervisora de Pré-impressão: Natália Toshiyuki Preparação de Texto: Mônica Rocha Design de Capa: megaart design Diagramação: Crontec ________________________________________________________________ H634q Higson, Séamus. Química analítica [recurso eletrônico] / Seamus Higson ; tradução: Mauro Silva ; revisão técnica: Denise de Oliveira Silva. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : AMGH, 2011. Editado também como livro impresso em 2009. ISBN 978-85-8055-001-6 1. Química analítica. I. Título. CDU 543 ________________________________________________________________ Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052 180 7: A espectroscopia atômica na química analítica 7.1 As origens das transições atômicas — uma introdução Nos Capítulos 4 e 6, vimos como a promoção e a relaxação dos elétrons de valência podem ser aproveitadas nas espectroscopias de UV-visível e de fluorescência. Com raras exceções, essas aplicações envolvem a determi- nação de compostos, já que existem muito poucos elementos no estado elementar livre e são os elétrons de valência que participam da ligação, seja ela iônica, seja covalente. Os orbitais envolvidos na ligação, e portan- to os elétrons, estão fundamentalmente associados ao composto e não a cada átomo individualmente. Neste capítulo, veremos técnicas de espectroscopia atômica que tam- bém têm como base as transições eletrônicas. Os métodos de espectrosco- pia atômica envolvem transições de elétrons que não participam das ligações, ou seja, de elétrons que não estão na camada de valência de áto- mos ou compostos (ou elétrons de valência de átomos ou íons). De modo geral, as técnicas de espectroscopia atômica podem basear-se em processos de emissão atômica ou de absorção atômica. A espectrosco- pia de emissão atômica normalmente envolve a emissão de fótons à medida que ocorre a relaxação de elétrons em estados excitados que retornam ao estado fundamental. As técnicas de absorção atômica, por outro lado, ba- seiam-se na captura de fótons à medida que os elétrons são promovidos ou liberados na formação de um íon. 7.2 A natureza dos espectros de absorção atômica Os espectros atômicos originam-se de transições eletrônicas entre orbitais atômicos e geram linhas de absorção extremamente finas, cuja largura de banda é da ordem de aproximadamente 0,1 nm. Lembre-se de que tanto as transições eletrônicas dirigidas aos orbitais envolvidos em ligações quanto as provenientes deles dão origem a bandas de absorção bem mais largas na es- pectroscopia molecular UV-visível. Os picos de absorção atômica, por sua vez, são muito mais estreitos, porque não existem orbitais ligantes na camada eletrônica de valência (mais externa). Os espectros de absorção atômica ocor- rem nas regiões do UV, visível e IV do espectro eletromagnético. 7.3 Fatores que afetam os espectros atômicos Há vários fatores que podem influenciar a largura, a intensidade ou mesmo a freqüência de uma linha de emissão ou absorção atômica. Geralmente, os fato- res que afetam as absorções atômicas também afetam as emissões atômicas. Fatores que afetam os espectros atômicos 181 7.3.1 Tempo de vida do estado de transição, o princípio da incerteza de Heisenberg e as larguras de banda Segundo a teoria quântica, se o tempo de vida do estado de transição apro- ximar-se do infinito, a largura de linha espectral se aproximará de zero. Do mesmo modo, à medida que aumenta o tempo da transição, a largura de banda também aumentará. O princípio da incerteza de Heisenberg afirma que não podemos, ao mesmo tempo, prever a posição exata e o momento de um elétron em um dado instante. Se não podemos prever essas proprie- dades em nenhum instante antes ou durante a transição eletrônica, então ficamos com a incerteza quanto ao tempo de transição e, portanto, quanto às larguras das linhas espectrais. As larguras de linhas teóricas, conforme descritas pela mecânica quântica, às vezes são chamadas de larguras de li- nhas naturais, e geralmente são da ordem de 10-4 Å. 7.3.2 Alargamento por pressão e alargamento colisional Colisões entre as espécies emissoras e absorventes com outros átomos ou íons provocam pequenas alterações em níveis energéticos do estado fundamental e, portanto, uma ampliação nos comprimentos de onda da radiação absorvi- da ou emitida. Em uma chama, as colisões ocorrem, em grande parte, entre os átomos do analito e vários produtos de combustão, e isso pode resultar em um alargamento das linhas naturais em duas ou três ordens de magnitude. Efeitos similares são freqüentemente observados em conseqüência de colisões no interior dos ambientes de excitação do plasma na espectroscopia de plas- ma indutivamente acoplado (ICP). O alargamento de linha em lâmpadas de cátodo oco e em lâmpadas de descarga elétrica é causado, em grande parte, por colisões entre os próprios átomos emissores. 7.3.3 Alargamento Doppler O efeito Doppler, pelo qual se observa uma mudança aparente de comprimen- to de onda ao se aproximar ou ao se afastar rapidamente de uma fonte sonora, é bem conhecido. Os deslocamentos Doppler geralmente ocorrem na espec- troscopia atômica e podem resultar em deslocamentos aparentes nos compri- mentos de onda em que são observadas as linhas de absorção ou emissão atômica, o que provoca seu alargamento. Esse fenômeno deve-se ao fato de as espécies emissoras ou absorventes deslocarem-se a altas velocidades em virtude da excitação térmica da chama ou do plasma. Átomos que se movem direta- mente em direção ao detector emitirão radiação que será interpretada pelo detector como de comprimento de onda um pouco menor que o da radiação emitida por átomos que se deslocam em ângulo reto com o detector. De modo semelhante, a radiação emitida por átomos que se afastam do detector será interpretada como de comprimento de onda maior que aquela emitida por átomos que se movem em ângulo reto com o detector. Será observada uma variedade de velocidades atômicas relativas ao detector em virtude: (a) da variação natural nas velocidades dos átomos; e (b) das dife- 182 7: A espectroscopia atômica na química analítica rentes direções em que os átomos se movimentam com relação ao detector. Esses fatores, conjuntamente, fazem o detector registrar vários comprimentos de onda diferentes na forma de uma distribuição gaussiana centralizada, em termos de intensidade, em torno da largura de linha natural. Esse espalhamento nos comprimentos de onda observados devido ao efeito Doppler provoca um alargamento efetivo das linhas de emissão. O efeito Doppler provoca o alargamento de linha na espectroscopia de absorção atômica exatamente pelas mesmas razões. O alargamento Dop- pler das linhas de absorção ou de emissão atômica torna-se mais pronun- ciado em chamas ou plasmas de temperaturas mais altas em razão do aumento da velocidade efetiva dos átomos. Esse alargamento leva à dupli- cação da largura de linhas naturais. 7.3.4 Efeitos de temperatura e espectros atômicos Efeitos de temperatura podem alterar a natureza dos espectros atômicos de muitas maneiras. Jávimos que o aquecimento, via efeito Doppler, resulta no alargamento das linhas espectrais atômicas acompanhado de uma dimi- nuição na altura dos picos. O aquecimento (por chama, forno ou plasma) é utilizado com freqüên- cia para completar a atomização de uma amostra para espectroscopia de absorção atômica. Geralmente, quanto mais calor é fornecido, maior será a eficiência do processo de atomização; e isso, por sua vez, resulta em um aumento do número de átomos e, portanto, da intensidade do espectro atômico. Embora deva ser observado que à medida que a temperatura aumenta, um maior número de átomos será ionizado, esse efeito normal- mente é insignificante em comparação com o aumento na eficiência do processo de atomização. A espectroscopia de emissão atômica é também afetada pela temperatu- ra da chama ou do plasma à medida que o calor é utilizado diretamente ou como um fator que contribui para excitar eletronicamente os átomos até um estado em que emitem radiação com a relaxação. Sendo assim, quanto mais calor é fornecido, maior será a proporção de átomos excitados; e isso, por sua vez, resultará em uma linha de emissão de maior intensidade. Já que a temperatura tem um efeito mais pronunciado sobre a espectroscopia de emissão atômica, é mais importante que a temperatura da chama seja mais bem controlada do que nas técnicas de absorção atômica, especial- mente se se trata de análises quantitativas. As técnicas de absorção atômica baseiam-se em uma população maior de átomos na amostra do que as técnicas de emissão, pois a amostra só precisa estar no estado eletrônico fundamental para ser monitorada. Lem- bre-se de que na espectroscopia de emissão atômica apenas aquela parcela termicamente excitada da amostra pode gerar linhas espectrais atômicas. A razão entre átomos não excitados e átomos excitados pode variar de 103 a 1010, ou mais. Teoricamente, as técnicas baseadas em absorção devem, portanto, oferecer uma sensibilidade consideravelmente maior em compa- ração com os métodos de emissão. Existem, de fato, tantas outras variáveis que influenciam a sensibilidade desses dois métodos que as técnicas com base em emissão e absorção atômica acabam oferecendo sensibilidade com- parável às outras e limites mais baixos de detecção. 7.4 Uma introdução à espectroscopia de absorção atômica As técnicas espectroscópicas de absorção atômica envolvem a quantifica- ção da energia (via monitoração do comprimento de onda e da intensidade) absorvida de uma fonte de radiação incidente para a promoção de elétrons de elementos em seu estado fundamental. O comprimento de onda e a ab- sorção podem então ser monitorados e registrados na forma de um espec- tro. Nas próximas seções deste capítulo, apresentaremos diferentes formas de espectroscopia de absorção. 7.5 Espectroscopia de absorção atômica com chama A espectroscopia de absorção atômica com chama é a forma mais utilizada de espectroscopia atômica. Níveis da ordem de partes por milhão (ppm) de muitos íons metálicos podem ser prontamente determinados por meio de um procedimento experimental que se tornou relativamente simples. Na prática, a técnica baseia-se na excitação eletrônica de átomos ou íons por meio de luz monocromática. O equipamento permite medir a absorção. O primeiro problema a ser superado é o fornecimento de uma fonte de átomos na forma elementar (ou de íons livres elementares). Para tanto, utiliza-se um nebulizador (Figura 7.1) acoplado a uma chama de ar/acetile- no. O primeiro passo é produzir um aerossol de microgotículas por meio da solução do analito com ajuda de um nebulizador. No processo, uma bomba peristáltica introduz continuamente essa solução no trajeto de um jato de ar comprimido para produzir uma nuvem tênue de minúsculas gotículas. O spray pode então ser direcionado para o trajeto de uma longa e estreita chama de ar/acetileno, provocando assim a atomização do analito. Os gases de combustão são previamente misturados (Figura 7.2). A cha- ma é dirigida através de uma fenda para jato de gás de aproximadamente 10 cm de comprimento e 2 mm a 3 mm de largura. A queima do acetileno fornece temperaturas entre 2 000 ºC e 2 200 ºC. Se for necessário atingir temperaturas ainda maiores, pode-se usar misturas de gás combustível ace- tileno/óxido nitroso (veja a Seção 7.5.5). Na espectroscopia atômica com chama, o acetileno e o ar são mistura- dos antes de atravessar os jatos de gás. Nesse ponto, a mistura entra em O gás combustível acetileno, utilizado para a chama, deve ser fornecido com ar ou com oxigênio puro como oxidante. As chamas resultantes são conhecidas como chama de ar/ acetileno ou chama de oxi/ acetileno, respectivamente. Espectroscopia de absorção atômica com chama 183 184 7: A espectroscopia atômica na química analítica ignição. É importante dispersar os gases de escape e, também, como prá- tica normal, colocar um exaustor diretamente sobre a saída do espectro- fotômetro. O solvente que se encontra dentro das gotículas do analito (quase sem- pre água) evapora-se com extrema rapidez nessas temperaturas. O sal me- tálico, por sua vez, vaporiza-se e é reduzido dentro da chama de alta temperatura, completando-se assim o processo de atomização. A chama tem um formato que permite que a radiação incidente atraves- se a amostra atomizada continuamente introduzida (Figura 7.3). Um detec- tor (normalmente um tubo fotomultiplicador) pode então monitorar a intensidade da radiação e, portanto, a absorção. Vimos no Capítulo 4 que quando usamos a espectroscopia UV-visível, a largura de banda da fonte de radiação incidente deverá ser, em termos ideais, consideravelmente mais estreita que a da banda de absorção. A mes- ma regra aplica-se à espectroscopia de absorção atômica, se desejamos evi- tar erros inaceitáveis. É bom lembrar que as larguras da absorção de muitos espectros UV-visível geralmente abrangem várias dezenas de nanômetros, e nessa situação um monocromador com largura de banda menor que ~0,5 nm é perfeitamente aceitável. As larguras de banda da absorção atômica, no Figura 7.1 Esquema de um nebulizador a jato. Figura 7.2 Mistura de combustível, amostra e oxidante antes da combustão. Aerossol Fluxo de líquido Tubo capilar Fluxo de gás a alta pressão Placas de desvio Escoamento Nebulizador Amostra Ar ou outro oxidante Combustível Chama Fenda do jato de gás entanto, são extremamente estreitas, da ordem de <0,01 nm. Por essa ra- zão, é importante que a fonte de luz utilizada seja capaz de produzir radia- ção centralizada exatamente no comprimento de onda correto, e com uma largura de banda extremamente estreita. Isso pode ser obtido com uma lâmpada de cátodo oco (Figura 7.4), uma lâmpada de descarga gasosa que utiliza a emissão característica do mesmo elemento que desejamos monito- rar. Sendo assim, é preciso uma lâmpada de cátodo oco específica para cada elemento a ser monitorado, e um de cada vez. Espectrofotômetros de absor- ção atômica modernos costumam ter um carrossel com várias lâmpadas distintas, de modo que diferentes elementos possam ser determinados à vontade, bastando para isso girar até a posição correta a lâmpada que que- remos utilizar. A lâmpada de cátodo oco (Figura 7.4) consiste em um cátodo tubular oco — daí seu nome — acoplado a um pequeno ânodo em forma de anel (Figura 7.4). Ambos os eletrodos são encapsulados em um envoltório reple- to de gás neônio a baixa pressão. Cada lâmpada torna-se específica para determinado metal, cobrindo-se a superfície do cátodo com o elemento a ser analisado. Quando se aplica uma alta voltagem entre os eletrodos, o neônio se ioniza e a colisão de íons de carga positiva com a superfície do cátodo faz com que parte do revestimento do cátodo se vaporize. Outras colisões provocam excitação eletrônica desses íons e, com a relaxação, a luz emitida corresponderá exatamente à absorção característica do determina- do elemento. Lembre-se de que, nesse contexto, as configuraçõeseletrôni- cas dos íons que estão no interior da lâmpada de cátodo oco serão idênticas Figura 7.3 Esquema de um espectrofotômetro de absorção atômica com chama. Figura 7.4 Esquema de uma lâmpada de cátodo oco. Lâmpada de cátodo oco Feixe de referência Combustor Detector fotomultiplicador Conversor Janela de quartzoÂnodo Cátodo oco – + Espectroscopia de absorção atômica com chama 185 186 7: A espectroscopia atômica na química analítica às do analito na chama de ar/acetileno. Com a relaxação, o íon retorna para o cátodo e mais uma vez passa a fazer parte do revestimento. Assim, essa camada não é consumida, mas dinamicamente arrancada e recuperada com o tempo. Não podemos esquecer que a largura de banda do comprimento de onda da emissão deve ser mais estreita que a largura de banda da absorção do analito. De fato, a lâmpada de cátodo oco sempre fornecerá uma banda de emissão mais estreita do que aquela da absorção do analito na chama de ar/ acetileno. Nesse contexto, as larguras de banda da absorção e da emissão de um elemento aumentam com a elevação da temperatura. O analito é aquecido a uma temperatura de aproximadamente 2 000 ºC no ar/acetile- no. A lâmpada de cátodo oco, por outro lado, opera em temperaturas ape- nas pouco mais elevadas que a temperatura ambiente. 7.5.1 Medidas de absorção e interferências encontradas na espectroscopia de absorção atômica O detector de tubo fotomultiplicador monitora continuamente a intensida- de da luz transmitida, e portanto a absorção. Assim, o sinal depende de uma constante introdução da amostra com o analito, na chama, por meio do nebulizador. A maioria dos espectrofotômetros são construídos de modo que um sistema de tubos de polipropileno ligados a uma bomba peristáltica possa ser introduzido na amostra por alguns segundos, como se vê no regis- tro para o níquel (Figura 7.5). O espectrofotômetro normalmente registra um sinal quase estável por alguns segundos (Figura 7.5). A maior parte dos aparelhos modernos automaticamente calcula um valor médio para a ab- sorção, gravando-o em um arquivo de computador ou imprimindo-o. As- sim como acontece com muitas técnicas analíticas, a natureza quantitativa do procedimento pode ser comprometida por várias interferências. No caso da espectroscopia de absorção atômica, as interferências geralmente sur- gem de erros na determinação da intensidade da radiação transmitida du- rante a atomização do analito. Figura 7.5 Registro da absorção atômica para diferentes concentrações de Ni. Tempo 10 ppm Ni R es po st a 20 ppm Ni 30 ppm Ni QUÍMICA ANALÍTICA As origens das transições atômicas — uma introdução A natureza dos espectros de absorção atômica Fatores que afetam os espectros atômicos Tempo de vida do estado de transição, o princípio da incerteza de Heisenberg e as larguras de banda Alargamento por pressão e alargamento colisional Alargamento Doppler Efeitos de temperatura e espectros atômicos Uma introdução à espectroscopia de absorção atômica Espectroscopia de absorção atômica com chama