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AULA 1 SISTEMA DE SEGURANÇA E DEFESA CIBERNÉTICA NACIONAL Prof. Luiz A. O. Santiago 2 CONVERSA INICIAL O objetivo desta aula é fazer uma introdução aos temas abordados na disciplina. Vamos demonstrar o quanto esse assunto já está presente no nosso dia a dia, enfatizando a importância de o futuro gestor estar preparado para lidar com esse tema. Para isso, inicialmente vamos apresentar um estudo de caso, destacando o papel da questão cibernética e seu impacto no mundo. A seguir serão abordados, numa análise histórica, temas conceituais que definem os parâmetros de conflitos, presentes em toda história da humanidade, e que engendram o tema geral da nossa aula: segurança e defesa. TEMA 1 – UMA NOITE CALMA NO DESERTO 1.1 O caso do prédio abandonado Os jornais, nos dias seguintes, pouco noticiariam o que seria, no mínimo, uma falha de cobertura, dada a dimensão do evento que iria acontecer em breves instantes. A verdade é que naquela madrugada de 6 de setembro de 2007, um novo tipo de ataque estava prestes a acontecer, um ataque que começaria pelo ciberespaço. A inteligência israelense já havia levantado suspeitas sobre um enorme prédio em construção no lado leste do território sírio, a pouco mais de 100 quilômetros da fronteira sul da Turquia e próximo ao Rio Eufrates. Levantamentos indicavam que inúmeros trabalhadores norte-coreanos iam e vinham naquele prédio. O turno de trabalho se encerrava por volta das 18 horas, indicando que, naquele momento, o local deveria estar esvaziado, contando apenas com guardas no local. Para uma área em construção, o local era estranhamente escuro e desprotegido, quase como se o construtor quisesse evitar chamar qualquer tipo de atenção. Sem aviso, o mundo desabou para os poucos sírios e coreanos que ainda estavam lá. Uma forte luz seguida de uma onda sonora destruidora indicavam uma forte explosão e destroços desabaram do céu. O choque (físico e sensorial) possivelmente embotou a percepção dos presentes em terra que, consequentemente, não puderam reparar nos emblemas desbotados contendo a Estrela de Davi nas asas e fuselagens de jatos F-15 Eagle e F-16 Falcon retornando para o norte em direção à Turquia. Atrás de si, os caças israelenses deixavam, totalmente destruídos e após somente um rápido momento de ação, anos de trabalho secreto realizados no vale do Eufrates. Ataques aéreos sobre prédios ocorrem a cada momento de guerra ou mesmo, conflitos de menor intensidade. Cada ataque é respondido, pela fração 3 agredida, com reclamações junto a foros internacionais ou fazendo uso intensivo da mídia. Neste caso, houve uma mudez política sobre o evento. A Síria, que sofreu o bombardeio, nada falou. Talvez Israel tivesse se enganado e o prédio fosse relativamente inocente, como a “fábrica de leite de criança” em 1990 ou a suposta fábrica de aspirina em 1998 de Saddam Hussein, ambas destruídas por ataques americanos. (Clarke; Knake, 2015, p. 7-8) O governo israelense, contraparte da Síria, igualmente silenciou sobre o assunto. No entanto, pouco a pouco, relatos começaram a aparecer na mídia: “Israel bombardeia complexo industrial construído por norte-coreanos”. Fontes anônimas acrescentaram que o complexo “estaria ligado à produção de armas de destruição em massa”. Diante desse quadro e ante à pressão da mídia israelense, o governo de Tel Aviv resolve autorizar a citação de fontes norte- americanas, mas não autoriza a produção de material próprio, alegando razões de segurança nacional. Enfim, já que pipocavam na mídia internacional notícias sobre o ataque, o presidente sírio Bashar Al-Assad finalmente admitiu, muito discretamente, ter havido um ataque num prédio vazio em seu território. No coro do discreto protesto, curiosamente se somaram vozes do governo norte-coreano. A curiosidade da mídia deixava revelar, por meio de supostas fontes governamentais israelenses, que o alvo seria uma planta de fabricação de armas nucleares projetada pela Coreia do Norte que estaria violando, seriamente, acordos internacionais sobre venda de know how de fabricação de armas nucleares. Pior, revelava que a Síria, tradicional adversária de Israel, mas que vinha, secretamente, estabelecendo conversas com Tel Aviv, por meio do governo turco estaria planejando ingressar no rol de potências atômicas. Ante a negação do governo sírio deste viés, a dúvida foi instalada. Independentemente de o prédio ser uma instalação nuclear clandestina, o que geraria nos meses seguintes idas e vindas de opiniões sobre a real finalidade do lugar, o fato é que toda a história estava mal esclarecida, desde o apoio (se positivo ou não e com qual intensidade) da inteligência americana, passando pela cessão do espaço aéreo turco para encobrir o ataque e, principalmente o silêncio inicial sobre o ataque, de ambas as partes. No que todos concordavam era que algo muito estranho havia ocorrido. Ao final, devido inclusive a relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica da ONU (AIEA), ficou-se praticamente confirmado que a Síria estava, de fato, trabalhando secretamente na produção de armas nucleares com a colaboração do governo norte-coreano. Era necessário repensar o papel dos 4 governos de ambos os países (Síria e Coreia do Norte). No entanto, havia uma questão, ainda mais complexa, a ser esclarecida. Poucas horas antes, Israel havia posicionado fortes unidades militares nas Colinas de Golan, forçando os sírios a redobrarem sua atenção. Note-se que a Síria havia gasto milhões de dólares em um sofisticado sistema de defesa aérea e, certamente, os militares estariam ainda mais atentos do que o normal. Assim sendo, de que maneira os caças israelenses penetraram no espaço aéreo sírio, bombardearam seu alvo e escaparam sem que, no mínimo, nenhum tiro fosse dado, quando tal tipo de ataque seria facilmente detectado pelos radares sírios? O que os sírios concluíram na manhã seguinte de forma relutante, lenta e dolorosa foi que Israel havia “dominado” a rede de defesa aérea de Damasco durante a noite anterior. O que apareceu em suas telas de radar foi o que a Força Aérea Israelense implantou lá, uma imagem de um dia qualquer. A imagem vista pelos sírios não tinha nenhuma relação com a realidade: seus céus orientais tinham se tornado, naquele dia, uma raia de bombardeio da Força Aérea Israelense. Os mísseis da defesa antiaérea síria não puderam ser disparados porque não existiam alvos no sistema para eles seguirem. Durante a tarde daquele mesmo dia, os sírios queriam saber do Ministério da Defesa russo: como os seus sistemas de defesa aérea poderiam ter sido cegados? Moscou prometeu enviar especialistas e técnicos imediatamente. Poderia ter acontecido algum problema na implementação, talvez um erro de usuário, mas isso seria consertado imediatamente. O complexo militar industrial russo não precisava desse tipo de má publicidade sobre seus produtos. Afinal, o Irã estava prestes a comprar de Moscou um moderno sistema com mísseis e radares de defesa aérea. Tanto em Teerã quanto em Damasco, os comandantes da defesa aérea estavam em choque. No entanto, havia uma classe de guerreiros que não se assustaram com o que viram: os denominados “guerreiros cibernéticos”. Era assim que seria a guerra na Era da Informação, isso era a guerra cibernética. Quando usamos a expressão “guerra cibernética”, nos referimos a ações de um estado-nação para invadir computadores ou redes de outra nação com a intenção de causar danos ou transtornos. Quando os israelenses atacaram a Síria, eles utilizaram pulsos de luz e elétricos, não para cortar como um laser ou eletrocutar com um taser, mas para transmitir “0s” e “1s” e controlar o que os radares da defesa aérea síria viam. Em vez de estourar as defesas antiaéreas sírias, como já o haviam feito seus aliados norte-americanos, anos antes, na Guerra do Golfo e desistir do elementosurpresa antes do ataque aos alvos principais, na era da guerra cibernética, os israelenses se asseguraram de que os inimigos não poderiam sequer levantar suas defesas. Os israelenses tinham planejado e executado seu ataque cibernético sem falhas. (Clarke; Knake, 2015, p. 10-11) Um ataque limpo, preciso, com baixo custo material e, principalmente, a custo zero em vidas humanas para o seu lado. 5 TEMA 2 – A HUMANIDADE E A QUESTÃO DO CONFLITO 2.1 O surgimento do conflito O que se pretende, neste tema, é apresentar uma análise histórica da evolução da Humanidade perante a expressão máxima do conflito humano: a guerra. É também explicar que, por mais abjeto que seja esse conceito, ele é uma realidade que permeia a história da Humanidade. Assim, será mais fácil entender onde se encaixam os conceitos de Defesa e Segurança, bases do nosso estudo. A história bíblica de Abel e Caim reflete bem, como um ícone, a presença do conflito na história da Humanidade. Afinal, se vamos tratar de Segurança e Defesa, é necessário abordar de maneira histórica os fatos que levam a tais conceitos. A guerra precede o Estado e ela é tão antiga quanto é a humanidade. Eu costumo afirmar que a guerra é atávica ao homem. As suas origens estão patentes nos primórdios da humanidade. No decurso da evolução humana, a guerra evoluiu e revestiu-se de várias características. Na modernidade, ela assumiu outra dimensão e continuou a determinar o curso da história. Ela esteve na origem do surgimento e derrubada de impérios e suas sociedades, bem como proporcionou o aparecimento e desmoronamento de Estados. Ela contribuiu para o avanço técnico-científico da humanidade, como também esteve na origem dos grandes desastres e hecatombes por que esta passou. (Jornal Cultura, 2016) O propósito é apresentá-la como fenômeno social, ver como ela evoluiu e como se caracterizou em certos períodos históricos a fim de contextualizar a origem dos conceitos de segurança e defesa. A origem da guerra encontra ponto de partida nas diversas sociedades (grupos, tribos etc.) que procuravam ou adquirir para si um território ou bem que lhes era negado ou, ainda, defender seu status quo. A guerra, apesar de não desejada, estabelece-se como parte da vida do homem. A guerra ganhou forma no seio das civilizações pré-clássicas. Estas civilizações surgiram no fim da pré-história e mantiveram-se até ao século V a.C. As civilizações egípcia, mesopotâmica e siro-palestiniana viveram a guerra, mas cada uma a sua maneira. Penetrando na história da guerra da Mesopotâmia, vamos encontrar informações que atestam que a guerra civilizada, com carácter ininterrupto, começou na Suméria. No decurso do tempo, a guerra tornou-se intensa e começaram a despontar, no seu seio, os primeiros líderes militares. Enquanto você tinha o artesão, o político, o curandeiro, cada qual trabalhando num ramo para atender a sociedade em que vivia, eis que surge o líder militar. Fruto dessa liderança militar, 6 a especialização militar começou a ter lugar e a metalurgia das armas foi-se fazendo sentir. (Jornal Cultura, 2016) 2.2 A guerra como parte da vida de uma sociedade Ainda na Mesopotâmia, diversos conceitos e inovações tecnológicas dedicadas, exclusivamente, ao fazer a guerra foram surgindo tais como o conceito de campanha militar (incursão de longa duração), o aparecimento de carros de guerra, arcos mais poderosos e soldados mais bem preparados e treinados. É graças à guerra que a Assíria, por ter incorporado esse modus vivendi, se transformou numa potência militar à época. Nações que não haviam incorporado esse estilo para si foram obrigadas a adotá-lo, em função de agressões recebidas, como os egípcios com os hicsos. Subjugados num primeiro momento em função da maior tecnologia militar dos hicsos, os egípcios souberam reagir, com o tempo, os expulsando e adquirindo novo status militar perante os vizinhos. Com as civilizações ocidentais (cidades-estados da Antiga Grécia) florescendo, surgiu o conceito de organização militar, isto é, o exército tinha caráter permanente e seus integrantes passavam por treinamento constante. Segue-se Roma, centro cultural da humanidade de então. Inegável a contribuição de seu poder militar no alcance de seu império e na disseminação de suas leis e organização, bases para o mundo ocidental de hoje. Segue-se a figura do grande líder militar Carlos Magno, fundador do Império Carolíngio. Com ele, o objetivo das guerras passa a ter motivação política. O Islão faz uso da guerra com motivação religiosa para expansão de sua doutrina religiosa assim como a cultura e valores dos árabes. Chegamos à Idade Moderna, com a expansão da cultura ocidental às Américas e África, por força do colonialismo. O surgimento dos primeiros Estados Nações deu origem ao processo de transformação de exércitos de mercenários para exércitos profissionais. O sistema de conscrição possibilitou que as massas pudessem aderir aos exércitos até como forma de meio de vida. Dessa forma, surgiram os exércitos de massa, o de Napoleão tendo sido o de maior sucesso. Em meados do século XIX já se podia distinguir a organização dos exércitos nos moldes encontrados hoje. Uma organização regida por forte 7 estamento burocrático, subordinado ao Estado, com a finalidade de exercer, segundo aspectos jurídicos legais internacionais, o exercício da força em nome desse Estado. Assim sendo, cada vez mais os exércitos se profissionalizaram, se equiparam a fim de fazer face aos desafios de segurança e defesa que se lhe apresentam. Rapidamente, pode-se verificar a importância que tanto a evolução tecnológica dos armamentos, quanto o comportamento humano foram primordiais na evolução da guerra. É lícito entender que os exércitos farão uso de todas as inovações tecnológicas da humanidade,. Se no passado tivemos o aparecimento dos carros de guerra, do arco e flecha e da pólvora e, mais recentemente, do avião, da energia atômica e do foguete, no presente e no futuro próximo podemos visualizar os instrumentos de segurança e defesa dos Estados fazendo face a essa nova dimensão do campo de batalha. É nesse contexto que a cibernética se encaixa. TEMA 3 – SEGURANÇA E DEFESA 3.1 Os conceitos de defesa e segurança Diversos autores já procuraram conceituar a diferença existente entre defesa e segurança. Não é propósito dessa aula tecer comentários sobre esses estudos, uma vez que o foco aqui é a interação entre esses campos e a cibernética. O contra-almirante Alberto Casaes (2017) define defesa e segurança da seguinte maneira: o que uma nação madura deve esperar de suas Forças Armadas é que elas se preparem e estejam prontas para a defesa; assim bem entendidas, a preservação da soberania nacional, a integridade territorial e a proteção do país contra quaisquer ameaças externas. Já a segurança, atribuição da autoridade policial, há que preservar a lei e a ordem dentro do país. Há quem defenda, ainda, que segurança é uma sensação abstrata, subjetiva, que não pode ser mensurada enquanto a defesa é o conjunto de ações e medidas necessárias para se contrapor a ameaças que justamente possam colocar a sensação de segurança em cheque. Segundo Casaes (2017), “a sensação de segurança decorreria da ausência de ameaças que possam alterar esse estado. As ameaças, sim, têm de 8 ser identificadas, avaliadas e devidamente neutralizadas, reduzidas ou eliminadas, através de ações e medidas (papel da defesa) adequadas a cada caso.” Segundo o Ministério da Defesa: Cabe ao Estado brasileiro prover os meios necessários para que a sociedade alcance seus objetivos de prosperidade, assegurando condições que lhe permitam ser capaz de, livremente, afirmar seus interesses e se dedicar ao próprio desenvolvimento. Apesar de se projetar como nação que defende o entendimento e a cooperaçãointernacional, o Brasil sustenta que ser um país pacífico não significa ser passivo e indefeso. Assim, o artigo 142 da nossa Constituição Federal define: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.” Por isso, investe numa capacidade militar de dissuasão que lhe possibilite reagir não apenas contra ameaças externas convencionais, mas também contra riscos contemporâneos como o terrorismo, o crime organizado transnacional, a pirataria e os ataques cibernéticos. Já em relação à segurança, observa-se um direcionamento às questões relativas ao art. 144 da Constituição de 1988 que prevê: “A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio [...]” (Brasil, 1988). Dito isso, o objeto de nosso estudo estará enquadrado neste pensamento: defesa envolve as Forças Armadas e segurança envolve órgãos de Segurança Pública. No decorrer de nossas aulas veremos, com mais detalhes, uma aproximação nessa divisão. TEMA 4 – O QUE É CIBERNÉTICA? 4.1 Definindo cibernética Uma definição amplamente encontrada numa rápida pesquisa nos sites nos diria que “ A cibernética é a ciência da comunicação e do controle (seja nos seres vivos, ou nas máquinas). A comunicação é que torna os sistemas integrados e coerentes e o controle é que regula o seu comportamento. A cibernética compreende os processos físicos, fisiológico, psicológico etc. de transformação da informação”. 9 De acordo com a Wikipédia (S.d.): a cibernética está associada ao uso de sistemas de comunicação e consequentemente aos seus componentes, que são vitais para troca de informações da organização com o ambiente e dentro dela mesma. Com a mecanização que se iniciou com a Revolução Industrial (que será visto na próxima aula), o esforço muscular do homem passou para a máquina. Porém, com a automação provocada pela cibernética, muitas tarefas que cabiam ao cérebro humano passaram para a máquina. A cibernética está levando a uma substituição do cérebro humano. O computador tende a substituir o homem em uma gama crescente de atividades, e com grande vantagem. As principais consequências da cibernética na administração são duas: a automação e a informática. Fica claro, portanto, que essa ciência vai impactar a sociedade como um todo. Como não poderia deixar de ser, também será afetada a esfera dos conflitos, da guerra, gerando antagonismos e forçando os países ao desenvolvimento de sistemas de segurança e defesa cibernéticas. TEMA 5 – O CENÁRIO CIBERNÉTICO NA GUERRA 5.1 Fechando o circuito Para melhor explicar como a questão do conflito, da cibernética e das definições de segurança e defesa se entrelaçam, fechando um circuito, faremos uso do caso visto anteriormente, o do ataque israelense ao prédio na Síria. Para o melhor entendimento, faz-se a pergunta: como isso foi feito? Ninguém foi alertado, ninguém viu? Enfim, como isso foi possível? 5.2 Apresentando soluções no campo da cibernética Ainda, como nos contam Clarke e Knake: Existem pelo menos três possibilidades para explicar como eles “dominaram” os sírios. Primeiro, existe a possibilidade sugerida por algumas reportagens na mídia, que o ataque israelense tenha sido precedido por um veículo aéreo não tripulado (VANT) furtivo que intencionalmente voou dentro do feixe de radar da defesa antiaérea síria. Radares ainda funcionam da mesma forma que na batalha da Inglaterra setenta anos atrás: o radar manda um feixe direcional de ondas de rádio; se esse feixe bater em alguma coisa, ele retorna ao receptor. O processador então calcula onde o objeto estava quando o feixe o atingiu, em qual altitude estava voando, a que velocidade estava se movendo, e talvez até mesmo quão grande era o objeto. O ponto-chave aqui é que o radar permite que um feixe eletrônico venha do ar para dentro de seu computador em terra. Um radar é naturalmente uma porta aberta em um computador, de forma que ele possa receber de volta as buscas eletrônicas que faz de alvos no céu. 10 Um VANT furtivo israelense poderia não ser visto pela defesa aérea síria se o drone fosse revestido com material que absorvesse ou desviasse feixes de radar. Mas poderia ter a capacidade de detectar o feixe de radar, vindo da base em sua direção, e, utilizando a mesma frequência de rádio, transmitir pacotes de volta para o computador do radar e dali para a rede de defesa antiaérea síria. Esses pacotes fariam o sistema não funcionar direito, mas também diriam para ele agir como se não houvesse nada de errado. Eles podem ter repetido um cenário igual ao céu de antes do ataque. Então, quando o feixe de radar refletiu nos Eagles e Falcons atacantes, o sinal que retornou não foi registrado nos computadores do sistema de defesa antiaérea sírio. O céu lhes pareceria exatamente como se estivesse vazio, mesmo que estivesse cheio de aviões israelenses. Reportagens na mídia americana mencionaram que os Estados Unidos têm um sistema de ataque cibernético similar, de codinome Senior Suter. Segundo, existe a possibilidade de que o código dos computadores russos que controlavam a rede de defesa aérea da Síria tenha sido comprometido por agentes israelenses. Em algum momento, talvez nos laboratórios de computação russos ou em algum complexo militar sírio, alguém a serviço de Israel ou um de seus aliados pode ter colocado um backdoor dentro das milhões de linhas de código do programa de defesa aérea. Um backdoor ou cavalo de Troia (Trojan horse) são simplesmente algumas linhas de código semelhantes a qualquer outra linguagem que faça parte das instruções de um sistema operacional ou aplicação (testes feitos pela NSA determinaram que nem mesmo os mais bem treinados especialistas, observando as milhares de linhas de código a olho nu, conseguiriam encontrar erros que tivessem sido introduzidos em uma parte do software). O backdoor poderia conter instruções sobre como responder em certas circunstâncias. Por exemplo, se o processador do radar encontrasse um sinal eletrônico particular, ele deveria mostrar um céu limpo por um determinado período, por exemplo, nas próximas três horas. Tudo o que o VANT israelense teria que fazer seria enviar pequenos sinais eletrônicos. O backdoor seria um ponto de acesso eletrônico secreto que permitiria explorar a rede de defesa antiaérea, contornando o sistema de detecção de intrusos e o firewall, por meio da criptografia, e assumir o seu controle, com direitos e privilégios de administrador. A terceira possibilidade é um agente israelense ter encontrado um cabo de fibra ótica da rede do sistema de defesa antiaérea em algum lugar da Síria e feito uma emenda na linha (por mais difícil que pareça, é possível). Uma vez “conectado”, o agente israelense poderia digitar um comando para que o backdoor o tornasse acessível. Mesmo sendo arriscado para um agente israelense ficar andando pela Síria cortando cabos de fibra ótica, isso está longe de ser impossível. Informes sugerem que durante décadas Israel vem colocando seus espiões dentro das fronteiras sírias. Os cabos da rede de fibra ótica da defesa antiaérea nacional da Síria correm por todo o país, não apenas dentro de instalações militares. A vantagem de colocar um agente hackeando a rede é que essa operação não depende do sucesso de um “pacote de controle” em entrar na rede a partir de um VANT voando pelo céu. Na verdade, um agente teoricamente poderia até preparar um link do seu local até o posto de comando da Força Aérea Israelense. Um agente israelense, utilizando métodos de comunicação debaixa probabilidade de interceptação (low-probability-of-intercept), poderia estabelecer comunicações secretas, mesmo no centro de Damasco, direcionando suas comunicações para um satélite israelense com poucas chances de ser percebido pela Síria. (2015, p. 11-12) 11 O que permitiu a manobra foi a manipulação da defesa aérea síria que ficou totalmente cega naquela noite, não permitindo o rastreamento das aeronaves atacantes. Fica, portanto, mais do que comprovada a eficácia do uso da arma cibernética em situações atuais de conflito. 12 REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988. CLARKE, R. A.; KNAKE, R. K. Guerra cibernética. 1 ed. Rio de Janeiro: 2015. CASAES, A. A diferença entre segurança e defesa. DefesaNet, 1 mar. 2017. Disponível em: <http://www.defesanet.com.br/defesa/noticia/24947/A-diferenca- entre-defesa-e-seguranca/>. Acesso em: 2 jul. 2019. CIBERNÉTICA E ADMINISTRAÇÃO. Wikipédia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Cibernética_e_administração>. Acesso em: 2 jul. 2019. JORNAL CULTURA. A Humanidade e a Guerra. Jornal Angolano de Artes e Letras, 15 ago. 2016. Disponível em: <http://jornalcultura.sapo.ao/historia/a- humanidade-e-a-guerra/fotos>. Acesso em: 2 jul. 2019. MINISTÉRIO DA DEFESA. Disponível em: <https://www.defesa.gov.br/estado-e- defesa>. Acesso em: 2 jul. 2019. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA. Disponível em: <https://www.justica.gov.br/sua-seguranca/seguranca-publica>. Acesso em: 2 jul. 2019.