Prévia do material em texto
TÍTULO subtítulo AVALIAÇÃO, PARECER E REVISÃO POR PARES Os textos que compõem esta obra foram avaliados por pares e indicados para publicação. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Bibliotecária responsável: Aline Graziele Benitez CRB-1/3129 E26 É de menina ou menino? Imagens de gêneros, sexualidades e educação. 1.ed. [recurso eletrônico] / [org.] João Paulo Baliscei. – 1.ed. – Curitiba-PR, Editora Bagai, 2022. Recurso digital. Formato: e-book Acesso em www.editorabagai.com.br ISBN: 978-65-5368-021-0 1. Educação. 2. Gênero. 3. Sexualidade. 4. Cultura Visual I. Baliscei, João Paulo. CDD 370.7 10-2022/20 CDU 37.01 Índice para catálogo sistemático: 1. Educação: Gênero. https://doi.org/10.37008/978-65-5368-021-0.05.01.22 Este livro foi composto pela Editora Bagai. www.editorabagai.com.br /editorabagai /editorabagai contato@editorabagai.com.br https://editorabagai.com.br http://www.editorabagai.com.br https://www.instagram.com/editorabagai/?hl=pt-br https://www.instagram.com/editorabagai/ https://www.facebook.com/editorabagai/ https://www.facebook.com/editorabagai malito:contato@editorabagai.com.br mailto:contato%40editorabagai.com.br?subject= É DE MENINA OU MENINO? Imagens de gêneros, sexualidades e educação JOÃO PAULO BALISCEI organizador 1.ª Edição - Copyright© 2021 dos autores Direitos de Edição Reservados à Editora Bagai. O conteúdo de cada capítulo é de inteira e exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) respectivo(s) autor(es). As normas ortográficas, questões gramaticais, sistema de citações e referencial bibliográfico são prerrogativas de cada autor(es). Editor-Chefe Cleber Bianchessi Revisão Os autores Projeto Gráfico Alexandre Lemos Capa João Paulo Baliscei Conselho Editorial Dr. Adilson Tadeu Basquerote – UNIDAVI Dr. Anderson Luiz Tedesco – UNOCHAPECÓ Dra. Andréa Cristina Marques de Araújo - CESUPA Dra. Andréia de Bem Machado – UFSC Dra. Andressa Graziele Brandt – IFC - UFSC Dr. Antonio Xavier Tomo - UPM - MOÇAMBIQUE Dra. Camila Cunico – UFPB Dr. Carlos Luís Pereira – UFES Dr. Claudino Borges – UNIPIAGET - CV Dr. Cledione Jacinto de Freitas – UFMS Dra. Clélia Peretti - PUCPR Dra. Daniela Mendes V da Silva – SEEDUCRJ Dra. Denise Rocha – UFC Dra. Elnora Maria Gondim Machado Lima - UFPI Dra. Elisângela Rosemeri Martins – UESC Dr. Ernane Rosa Martins – IFG Dr. Helio Rosa Camilo – UFAC Dra. Helisamara Mota Guedes – UFVJM Dr. Humberto Costa – UFPR Dr. Jorge Henrique Gualandi - IFES Dr. Juan Eligio López García – UCF-CUBA Dr. Juan Martín Ceballos Almeraya - CUIM-MÉXICO Dra. Karina de Araújo Dias – SME/PMF Dra. Larissa Warnavin – UNINTER Dr. Lucas Lenin Resende de Assis - UFLA Dr. Luciano Luz Gonzaga – SEEDUCRJ Dr. Luiz M B Rocha Menezes – IFTM Dr. Magno Alexon Bezerra Seabra - UFPB Dr. Marciel Lohmann – UEL Dr. Márcio de Oliveira – UFAM Dr. Marcos A. da Silveira – UFPR Dr. Marcos Pereira dos Santos - SITG/FAQ Dra. María Caridad Bestard González - UCF-CUBA Dra. Nadja Regina Sousa Magalhães – FOPPE-UFSC/UFPel Dra. Patricia de Oliveira - IF BAIANO Dr. Porfirio Pinto – CIDH - PORTUGAL Dr. Rogério Makino – UNEMAT Dr. Reginaldo Peixoto – UEMS Dr. Ricardo Cauica Ferreira - UNITEL - ANGOLA Dr. Ronaldo Ferreira Maganhotto – UNICENTRO Dra. Rozane Zaionz - SME/SEED Dra. Sueli da Silva Aquino - FIPAR Dr. Tiago Tendai Chingore - UNILICUNGO – MOÇAMBIQUE Dr. Thiago Perez Bernardes de Moraes – UNIANDRADE/UK-ARGENTINA Dr. Tomás Raúl Gómez Hernández – UCLV e CUM - CUBA Dr. Willian Douglas Guilherme – UFT Dr. Yoisell López Bestard- SEDUCRS SUMÁRIO “É DE MENINA *E* DE MENINO!”: TROCANDO O “OU” PELO “E”: ..8 João Paulo Baliscei GÊNERO COMO PRIMEIRO APRENDIZADO DE VIDA ..................................17 “PARABÉNS, É UMA CRIANÇA!”: CULTURA VISUAL (HETERO- TERRORIZANTE) NOS CHÁS DE REVELAÇÃO: ..............................18 João Paulo Baliscei “NÃO IMPORTA O SEXO, EU SÓ QUERO QUE SEJA MENINO”: CISHETERONORMATIZAÇÃO DOS CORPOS EM CHÁS DE REV ELAÇÃO ............................................................................................32 Isabela Daiane Pironi | Jean Pablo Guimarães Rossi | Eliane Rose Maio MÁSCARAS COMO ARTEFATOS DEMARCADORES DE MASCU- LINIDADES E FEMINILIDADES: GÊNERO, CULTURA VISUAL E INFÂNCIAS ...............................................................................................47 Regina Ridão Ribeiro de Paula | Thalia Mendes Rocha “BONECA É COISA DE MENINA”: A VIRILIZAÇÃO E A DOCILIZAÇÃO DE MENINOS E DE MENINAS NO MUNDO DE DOIS SEXOS ..............................................................................................57 Andréa Zíngara Miranda ANUNCIAMOS, SENHOR(A), O VOSSO GÊNERO .............................71 Rodrigo Pedro Casteleira “EU POSSO FAZER ISSO”: GÊNERO, EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO FÍSICA ........................................................................................................80 Márcia Gonçalves Vieira | Samilo Takara NARRATIVAS QUE MOLDAM GÊNERO E SEXUALIDADE: DIÁLOGOS SOBRE EDUCAÇÃO AO FALAR DE SI ............................88 Marcos da Cruz Alves Siqueira | Igor Micheletto Martins | Harryson Júnio Lessa Gonçalves A CONSTRUÇÃO VISUAL DO FEMININO .................................................... 102 ONDE ESTÃO AS ARTISTAS MULHERES? UMA BUSCA EM LIVROS DIDÁTICOS PARA O ENSINO MÉDIO ............................................... 103 Vinícius Stein | Zuleika de Paula Bueno | José Henrique Rollo Gonçalves | Rose Mari Ramos MULHERES E NATUREZA: APROXIMAÇÕES E AFASTAMENTOS GENERIFICADOS .................................................................................. 116 Fernanda Amorim Accorsi | Judie Maria Rodrigues de Goes Souza | Ana Claudia Aragão Santos MENSTRUAÇÃO E MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: UM CAMI- NHO PARA CONSTRUIR E RECONSTRUIR SIGNIFICADOS .......128 Jéssica Fiorini Romero | Julia Tiemi Kurihara “ELA SERÁ SALVA PELA SUA MATERNIDADE”: REPRESENTA- ÇÕES FEMININAS ENTRE EVAS E MARIAS ....................................139 Ana Carla Vagliati | Geiva Carolina Calsa “GAROTA?” DORIS, A “IRMÃ FEIA” DA ANIMAÇÃO SHREK: CULTURA VISUAL E TRANSGENERIDADES .................................. 153 Arthur Zanetti Ghizellini | João Paulo Baliscei | Lua Lamberti “O MEU IRMÃO TINHA UMA BONECA O MEU IRMÃO MAIS NOVO USAVA ISSO COMO CHANTAGEM”: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE EDUCADORAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA SOBRE GÊNERO .... 166 Fabiane Freire França | Geiva Carolina Calsa TECNOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS DE CONTROLE DE GÊNEROS E SEXUALIDADES ..............................................................................................179 “MENINA FEMININA E MENINO MASCULINO”: DISCUSSÕES ACERCA DE RAÇA, GÊNERO, SEXUALIDADE E COR NO VIDEO- CLIPE NOSSO GÊNERO VEM DE DEUS (2019) ..................................180 Andrey Gabriel Souza da Cruz | Gabriela Narumi Inoue DESENHOS ANIMADOS COMO TECNOLOGIAS DE GÊNERO: (DES)CONSTRUINDO MASCULINIDADE ....................................... 192 Marcus Turíbio | Julia Moreira Guimarães | Jocy Meneses dos Santos Junior “SERÁ QUE ELE É”: A CONSTRUÇÃO DO PRECONCEITO TRANS- FÓBICO NO VILÃO ELE DO DESENHO AS MENINAS SUPERPO- DEROSAS .................................................................................................207 Cristiano Aparecido da Silva ILUSTRAÇÃO E LITERATURA INFANTIL: UMA PERSPECTIVA A PAR- TIR DA CULTURA VISUAL NA COLETÂNEA CORPIM, DE ZIRALDO .220 Gabrielle Nayara do Prado Ramos | Eloiza Amália Bergo Sestito Silva A GENERIFICAÇÃO ENDEREÇADA PELA PLATAFORMA POR- NHUB NA ERA DA FARMACOPORNOGRAFIA: HORNY BOY FUCKED HIS STEPMOM (2017) ................................................................................232 Larissa Nayara Coelho Kimura “OS OUTROS QUE TINHAM PROBLEMA COMIGO”: HISTÓRIA PÚBLICA E A HOMOFOBIA NA HISTÓRIA EM QUADRINHOS DOS JOVENS VINGADORES .........................................................................243 Leonardo Stabele Santos SOBRE O ORGANIZADOR................................................................... 256 ÍNDICE REMISSIVO .............................................................................. 257 8 João Paulo Baliscei (org.) Figura 1: Imagens de gêneros, sexualidades e educação. Fonte: Elaboração própria. 2021. “É DE MENINA *E* DE MENINO!”: TROCANDO O “OU” PELO “E” João Paulo Baliscei1 EPÍGRAFE É bastante comum que os artefatos da cultura visual, tais como brinquedos, roupas, cores, materiais escolares, sapatos, produtos de higiene pessoal e até mesmo medicamentos, sejam divididos conforme o gênero ao qual são endereçados. Visualmente, uma série de estratégias é acionada para identificar as coisas como masculinas ou femininas e, com isso, atribui-se gênero àquilo que, na verdade, não o tem. "É de menina ou menino?". Essa pergunta – problematizada inclusive, no título deste livro - limita as escolhas a uma visão binária e, sob diferentes configurações linguísticas, poderia ser encontrada em qualquer lugar. Concorda comigo? Poderíamos nos deparar com essa pergunta em uma loja - quando 1 Doutor em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá - UEM. Professor na UEM. Coordenador do grupo de pesquisa em Arte, Educação e Imagens – ARTEI; e artista visual. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6980650407208999. http://lattes.cnpq.br/6980650407208999 9 É de menina ou menino? na compra de um brinquedo; em um cinema - durante uma conversa depois de um filme; em um vestiário - enquanto provam-se roupas; em um encontro entre crianças - comentando sobre uma brincadeira; em uma aula de dança - referindo-se a uma postura ou movimento específico; num almoço familiar – decidindo-se entre quem deve preparar o churrasco ou lavar a louça; e mesmo na escola - durante a atribuição de tarefas às crianças ou quando elas são solicitadas a imaginarem suas futuras profissões. Esses exemplos refletem que "ser mulher" e "ser homem", assim como “ser menina” e “ser menino”, são identidades produzidas também em níveis visuais. A imagem que criei para constituir a capa deste livro, uma espécie de visão caleidoscópica constituída por artefatos da cultura visual relacionados às infâncias, demonstram que há cores, formas, pesos, texturas, estampas, padronagens, linhas e cheiros acionados na e para a produção de masculinidades e outros, acionados na e para a produção de feminilidades. A peculiaridade dos artefatos que compõem esse fractal e a convenção socialmente estabelecida de que eles não podem ser usados pelas pessoas sem que se levem em consideração o gênero delas, cha- mam atenção para uma outra leitura. Não são só as feminilidades e as masculinidades que são incentivadas, elogiadas e até mesmo censuradas pelas imagens com as quais convivemos, mas também as sexualidades. É bastante provável que, socialmente, interesse-se por saber quanto à sexualidade de um homem que goste da cor rosa, assim como em se perguntar quanto à sexualidade de uma mulher que prefira vestir calças ao invés de saias. Se um menino pinta as unhas e cuida de seu caligrafia com apresso, ou se uma menina, ao contrário, não compartilha desses hábitos, eventualmente, receberão por parte de outras crianças, de adul- tos/as e mesmo de professores/as olhares suspeitos em relação ao modo como, futuramente, desempenharão suas sexualidades. A exemplo disso, menciono as pesquisas da brasileira Susana Ran- gel Vieira da Cunha (2010), quem demonstra que as imagens de gêneros e de sexualidades são apresentadas às crianças desde seus primeiros anos de vida e que lhes ensinam sobre como experimentar as feminilidades e as masculinidades sob regras restritas, circunscritas ao binarismo de 10 João Paulo Baliscei (org.) gênero e à heteronormatividade. As brasileiras Luciana Borre (2020) e Megg Rayara Gomes de Oliveira (2020), semelhantemente, indicam que essas lógicas se mostram presentes nos espaços escolares, “vigiando” as crianças, e também nos espaços universitários, durante a formação de profissionais de cursos de licenciatura. O currículo e a organização escolar como um todo se mostram bastante eficientes na intenção de ensinar às crianças como elas precisam performar suas masculinidades e feminilidades, como sublinha o espanhol Paul Preciado (2019). Desde o início da escrita de minha tese de doutorado em Educação, defendida em 2018, com o título Vilões, heróis e coadjuvantes: um estudo sobre Masculinidades, Ensino de Arte e Pedagogias Disney (BALISCEI, 2018), e posteriormente publicada como livro - PROVOQUE: Cultura Visual, Masculinidades e Ensino de Artes Visuais (BALISCEI, 2020) – tenho pensado sobre os aspectos educativos das imagens de gêneros e sexualidades. Essa preocupação é recorrente não só em minhas pesquisas científicas – como mais recentemente no livro Não se nasce azul ou rosa, torna-se: Cultura Visual, Gênero e Infâncias (BALISCEI, 2021) – mas também nos trabalhos acadêmicos que oriento, nas produções que realizo como artista visual2 e, sobretudo, em minhas vivências como homem gay. De modo similar, os/as 37 autores/as convidados/as para compor essa coletânea debatem sobre as imagens de gêneros e sexualidades, estabelecendo interfaces com a educação. Para além de pesquisadores/ as e estudiosos/as das Relações de Gênero, a essas pessoas chamo, tam- bém, como colegas e amigos/as, integrantes ou pelo menos conhecidos/ as do grupo de pesquisa que coordeno, o Grupo de Pesquisa em Arte, Educação e Imagens – ARTEI. Nesses últimos anos, por conta das restrições ocasionadas pela pandemia da Covid-193 e pela ineficiência do poder público em buscar reparar e solucionar os desdobramentos dela, 2 Exemplifico com (PIN)Ken (2020), Bar(BLUE) (2020) e 32 (2021), que podem ser localizadas em meu perfil do Instagram: @joaopaulobaliscei. 3 Resultante da transmissão de um novo vírus da família do coronavírus, o qual teve seu primeiro registro em seres humanos em 2019, na cidade de Wuhan, na China. Para prevenção, entre outros cuidados, recomenda-se manter o distanciamento social e usar máscaras. 11 É de menina ou menino? foi com essas pessoas que eu me comuniquei - em salas virtuais, eventos científicos on-line, trocas de e-mails e conversas pelo WhatsApp - para expressar meus pensamentos sobres assuntos afetos às imagens de gêneros e sexualidades, assim como para saber o que elas pensavam sobre isso. Os 19 artigos que compõem essa coletânea, então, não apenas atualizam essa temática, pensando-a em um momento em que nossas interações e rotinas foram modificadas e intensificadas pelo distancia- mento social, mas também operam na tentativa de mudar o título do livro, trocando o "ou" por um "e". É como se, ao invés da pergunta “É de menina ou menino?”, esses textos, juntos, intentassem afirmar “É de menina e menino!”. É isso e ponto – ponto de exclamação. Para apresentar os pensamentos dos/as autores/as convidados/as, optei por agrupar os capítulos em três eixos, cada um com seis ou sete textos. Essa combinação fora pensada conforme as semelhanças e proximidades que eu identifiquei entre as reflexões durante as leituras que fiz, porém, caso deseje, trace seu próprio roteiro para a leitura. O primeiro eixo, intitulado GÊNERO COMO PRIMEIRO APRENDIZADO DE VIDA, reúne capítulos que abordam, semelhan- temente, a generificação das crianças em seus primeiros momentos de vida. Os textos analisam diferentes artefatos da cultura visual, tais como festas de chá de revelação, máscaras de proteção, brinquedos, práticas esportivas em aulas de Educação Física e mesmo memórias de sujeitos adultos acerca de como se lembram das suas infâncias. Em “Parabéns, é uma criança!”: Cultura Visual (heteroterrorizante) nos Chás de Revelação, eu, João Paulo Baliscei, denuncio as práticas que subjazem as visualidades criadas para as infâncias antes mesmo de elas virem ao mundo. Caracterizo tais práticas como heteroterrorizantes e chamo atenção para um evento específico: um cháde revelação organizado pela família Bolsonaro em maio de 2020. “Não importa o sexo, eu só quero que seja menino”: cisheteronormatização dos corpos em Chás de Revelação, é o texto em que Isabela Daiane Pironi, Jean Pablo Guimarães Rossi e Eliane Rose Maio sublinham a lógica cisheteronormativa por trás dos eventos de chá de revelação e analisam três vídeos localizados no You- 12 João Paulo Baliscei (org.) tube. Em comum, os registros indicam que as revelações são recebidas e comemoradas de maneiras assimétricas, conforme o sexo revelado. Regina Ridão Ribeiro de Paula e Thalia Mendes Rocha chamam atenção para a generificação das máscaras, artefatos populares durante a pandemia da Covid-19. Em Máscaras como artefatos demarcadores de masculinidades e feminilidades: Gênero, cultura visual e infâncias, as autoras analisam os resultados obtidos em uma busca no Google, a partir dos termos “máscaras de menino” e “máscaras de menina”. Andréa Zíngara Miranda, em “Boneca é coisa de menina”: a virilização e a docilização de meninos e de meninas no mundo de dois sexos, demonstra como as crianças são vítimas de construções sociais que as fabricam a partir de uma visão heterossexual compulsória. Para tanto, problematiza práticas como o manuseio de bonecas e a perfuração de orelhas, para o uso de brincos. Rodrigo Pedro Casteleira, em Anunciamos, Senhor(a), o vosso gênero, problematiza o simbolismo falocêntrico que, desde a colonização, tem operado tanto para a genitalização de deus, quanto para demarcar, como pecaminosos e extermináveis, os corpos indígenas e suas práticas sexuais. Esse processo referencia (e reverencia) culturas brancas eurocentradas, heterossexuais e cristãs. Em "Eu posso fazer isso?": gênero, experiência e Educação Física, Márcia Gonçalves Vieira e Samilo Takara destacam a escola como um dos espaços onde se regula e se conduz a construção dos corpos, tanto de alunos/as como de professores/as. Chamam atenção para o controle exercido, sobretudo, nas aulas de Educação Física, a partir dos jogos, brincadeiras e esportes separados por gênero. Por fim, há o capítulo Narrativas que moldam gênero e a sexualidade: Diálogos sobre educação ao falar de si, elaborado por Marcos da Cruz Alves Siqueira, Igor Micheletto Martins e Harryson Júnio Lessa Gonçalvez. Nele, os autores transcrevem suas falas em um encontro quando, afetiva- mente, puderam compartilhar, uns com os outros, as histórias, sonhos e medos que marcaram suas infâncias dissidentes à norma heterossexual. O eixo A CONSTRUÇÃO VISUAL DO FEMININO é integrado por capítulos que, de modo semelhante, problematizam como produções 13 É de menina ou menino? artísticas, viagens espaciais, ativismo ambiental, museus, desenhos ani- mados, representações de funcionárias da educação e demais artefatos da cultura visual caracterizam as mulheres em condições de inferioridade em relação aos homens. Em Onde estão as artistas mulheres? Uma busca em livros didáticos para o Ensino Médio, Vinícius Stein, Zuleika de Paula Bueno, José Henrique Rollo Gonçalves e Rosi Mari Ramos identificam quais artis- tas e grupos artísticos são expostos em livros didáticos para o Ensino Médio. A pergunta que intitula o capítulo dá indícios dos resultados (não) encontrados. Fernanda Amorim Accorsi, Judie Maria Rodrigues de Goes Souza e Ana Claudia Aragão Santos, por sua vez, problematizam a lógica de dominação que objetifica as mulheres e coisifica a Natureza. No capítulo Mulheres e Natureza: aproximações e afastamentos generificados, as autoras se ancoram nas perspectivas Ecofeministas para denunciar a fusão entre a prerrogativa patriarcal, os dogmas cristãos e pressupostos capitalistas que, juntos, oprimem a feminilidade e a Natureza. Menstruação e manifestações artísticas: um caminho para construir e reconstruir significados, escrito por Jéssica Fiorini Romero e Julia Tiemi Kurihara, é um texto que traça diálogos entre os tabus que circundam a menstruação, processo natural que, devido à moral cristã e o patriarcado, passou de sagrado a impuro. Ao final, as autoras mencionam dez artistas cujos trabalhos conferem positividade à menstruação. Ana Carla Vagliati e Geiva Carolina Calsa são autoras do texto “Ela será salva pela sua maternidade”: representações femininas entre Evas e Marias. Nele, as autoras se debruçam sobre metáforas bíblicas para demonstrar como, socialmente, as mulheres têm sido aproximadas ora da figura da (virgem) Maria, ora da figura de Eva. Indicam, ainda, as conquistas dos movimentos feministas como importantes à ampliação de significados e vivências associados ao feminino. Em “Garota?” - Doris, a “ irmã feia” da animação Shrek: Cultura Visual e Transgeneridades, Arthur Zanetti Ghizellini, João Paulo Baliscei e Lua Lamberti analisam duas cenas de Shrek II (2004) e questionam as 14 João Paulo Baliscei (org.) imagens, falas, caracterizações e espaços que a história atribui a Doris - a única personagem dissidente da norma cisgênero. O último capítulo desse eixo tem como título “O meu irmão tinha uma boneca e o meu irmão mais novo usava isso como chantagem”: Represen- tações Sociais de educadoras da Educação Básica sobre Gênero. Ele é escrito por Fabiane Freire França e Geiva Carolina Calsa, que investigam as representações sociais de 18 mulheres, professoras e funcionárias dos anos iniciais de uma escola da rede pública, no que diz respeito às questões de gênero. Por fim, o terceiro e último eixo, o qual tem como título TECNO- LOGIAS CONTEMPORÂNEAS DE CONTROLE DE GÊNEROS E SEXUALIDADES. Ele agrupa textos que, em comum, verificam como diferentes mídias virtuais, digitais e impressas balizam e conduzem os sujeitos a adotarem uma única sexualidade e identidades de gênero específicas. Os artefatos analisados pelos textos que integram esse eixo são: perfis em redes sociais, desenhos animados, histórias em quadri- nhos, pornografia, um videoclipe gospel e livros de literatura infantil. O primeiro texto desse eixo tem como título “Menina feminina e Menino Masculino”: discussões acerca de raça, gênero, sexualidade e cor no videoclipe nosso gênero vem de deus (2019). Nele, Andrey Gabriel Souza da Cruz e Gabriela Narumi Inoue se debruçam sobre o conceito de inter- seccionalidade para verificar enunciados de gênero, raça e sexualidade em um videoclipe de uma canção gospel que se propõe a caracterizar meninas como femininas e meninos como masculinos. Em Desenhos animados como tecnologias de gênero: (des)construindo masculinidades, Marcus Turíbio, Julia Moreira Guimarães e Jocy Meneses dos Santos Junior abordam os desenhos animados como tecnologias de gênero, e dão ênfase aos enunciados afetos às masculinidades. Anali- sam duas publicações feitas no Instagram, as quais problematizam e elogiam referências de masculinidade, respectivamente, em Homer, de Os Simpsons, e em Ash, de Pokémon. Cristiano Aparecido da Silva, em seguida, investiga os aspectos transfóbicos que atravessam a caracterização de um personagem vilão, de 15 É de menina ou menino? uma série de desenho animado. No capítulo “Será que Ele é”? A construção do preconceito transfóbico no vilão Ele do desenho As Meninas Superpodero- sas, o autor confronta a caracterização diabólica e animalesca do vilão queer com dados de violências e assassinatos cometidos no Brasil contra pessoas transgênero e travestis. Em Ilustração e Literatura Infantil: uma perspectiva a partir da Cultura Visual na coletânea Corpim, de Ziraldo, Gabrielle Nayara do Prado Ramos e Eloiza Amália Bergo Sestito Silva investigam dois livros endereçados às crianças. Nas análises, problematizam ilustrações que recorrem à cor rosa como marcador da pele e de legitimação da raça e etnia branca, e elogiam outras, em que há sutis fissuras às lógicas de gênero. Larissa Nayara Coelho Kimura, autora do capítulo A generificação endereçada pela plataforma Pornhub na era farmacopornográfica: horny boy fucked his stepmom, analisa o vídeocom mais acessos em uma plataforma de conteúdo pornô. Diante dessa produção cuja narrativa exibe uma madrasta transando com seu enteado, a autora associa o feminino à disponibilidade e o masculino à sensação de identificação por parte do expectador. O último capítulo foi escrito por Leonardo Stabele Santos e tem como título “Os outros que tinham problemas comigo”: história pública e a homofobia na História em Quadrinhos dos Jovens Vingadores. Nele, o autor comenta sobre os super-heróis Wiccano e Hulkling, da história em quadrinhos Jovens Vingadores, e debate sobre a potencialidade desses artefatos em tematizar as vivências de pessoas não heterossexuais. Tendo apresentado os textos que integram esses três eixos, explico, ainda, que há outros caminhos, combinações e ordens que podem ser estabelecidas, e que, de diversas formas, os capítulos que compõem esta coletânea estabelecem flertes e se abraçam. Seja seguindo a linearidade que estabeleci, ou criando a sua própria, desejo que, conforme avance nas páginas (impressas ou digitais), você passe a se incomodar com as imagens de gêneros e sexualidades endereçadas às crianças; e que, com isso, também suspeite, problematize e coloque em xeque brinquedos, vídeos, músicas, animações, produtos alimentícios, roupas, livros e 16 João Paulo Baliscei (org.) demais artefatos frente aos quais, socialmente, as pessoas insistem em perguntar: “É de menina ou menino?”. Boa leitura. REFERÊNCIAS BALISCEI, João Paulo. Vilões, heróis e coadjuvantes: um estudo sobre Masculinida- des, Ensino de Arte e Pedagogias Disney. 2018. Tese (Doutorado) – Pós- graduação em Educação, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2018. . PROVOQUE: cultura visual, masculinidades e ensino de artes visuais. Rio de Janeiro: Metanoia, 2020. . Não se nasce azul ou rosa, torna-se: Cultura Visual, Gênero e Infâncias. Salvador: Devires, 2021. BORRE, Luciana. Bordado afetos na formação docente. Conceição da Feira: Andarilha edições, 2020. CUNHA, Susana Rangel Vieira da. Menin@s nas tramas da cultura visual. In: BUS- SOLETTI, Denise; MEIRA, Mirela (org.). Infâncias em passagens. Pelotas: Editora e Gráfica Universitária da UFPel, 2010, p. 55-78. OLIVEIRA, Megg Rayara Gomes de. O diabo em forma de gente: (r)existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação. Salvador: Editora Devires, 2020. PRECIADO, Paul. Um apartamento em Urano: Crônicas da travessia. Rio de Janeiro, Editora Schwarcz S.A., 2019. 17 É de menina ou menino? GÊNERO COMO PRIMEIRO APRENDIZADO DE VIDA “Parabéns, é uma criança!”: Cultura Visual (heteroterrorizante) nos Chás de Revelação; “Não importa o sexo, eu só quero que seja menino”: cisheteronormatização dos corpos em Chás de Revelação; Máscaras como artefatos demarcadores de masculinidades e feminilidades: gênero, cultura visual e infâncias; “Boneca é coisa de menina”: a virilização e a docilização de meninos e de meninas no mundo de dois sexos; Anunciamos, Senhor(a), o vosso gênero; "Eu posso fazer isso?": gênero, experiência e Educação Física. Narrativas que moldam gênero e a sexualidade: diálogos sobre educação ao falar de si. 18 João Paulo Baliscei (org.) Figura 1: Registro de chá revelação da filha de Eduardo Bolsonaro. Fonte: <https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/celebridades/eduardo-bolsonaro-da- -tiro-em-cha- revelacao-e-descobre-que-deu-uma-fraquejada-36660>. Acesso em 5 de ago. de 2021. “PARABÉNS, É UMA CRIANÇA!”: CULTURA VISUAL (HETEROTERRORIZANTE) NOS CHÁS DE REVELAÇÃO João Paulo Baliscei4 INTRODUÇÃO Na contemporaneidade é bastante comum que diante da notícia de uma gravidez, sujeitos - pais, mães, avós, madrinhas, padrinhos e demais familiares e colegas – reúnam-se para criar e levantar expectativas a respeito do corpo da criança, que ainda está sendo gerada. Dentre essas expectativas, ressalto, neste capítulo, aquelas que preparam a criança para assumir (com êxito) os papéis de gênero que lhes são socialmente atribuídos, e destaco que essa atribuição acontece não apenas a partir do 4 Doutor em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá - UEM. Professor na UEM. Coordenador do grupo de pesquisa em Arte, Educação e Imagens – ARTEI; e artista visual. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6980650407208999. http://lattes.cnpq.br/6980650407208999 19 É de menina ou menino? nascimento, mas, também, antes disso, quando se identificam o sexo biológico. Tenho denominado como Projeto de masculinização dos meninos e Projeto de feminilização das meninas (BALISCEI, 2021) as práticas culturais que intentam generificar os corpos das crianças, desde muito cedo, a fim de adequá-las às normas binárias, cisgênero e heterossexuais vigentes na contemporaneidade. Esses conceitos reforçam minha compreensão de que ser menino e ser menina não são consequências espontâneas do existir no mundo. Contrariamente, são identidades resultantes de intensos, porém sutis, projetos, nos quais ações, advertências, censuras, parabenizações e cons- trangimentos atingem os corpos infantis na tentativa de fazê-los ou masculinos ou femininos. Os enunciados que os/as adultos/as lançam para e sobre as crianças, diferenciando-as conforme os gêneros, por exemplo, ilustram que se têm expectativas distintas para os meninos e para as meninas. “Não se sente de pernas abertas”; “seja gentil e obediente”; “você tem a letra mais bonita da turma”; “não corra para não sujar e amas- sar a roupa”. Ainda que essas quatro assertivas não possuam, em suas redações, marcadores de gênero, suponho que enquanto você fazia a leitura delas tenha imaginado que se dirigiam a uma criança menina. Semelhantemente “aperte a mão direito”, “não fuja de uma briga”, “você precisa ser forte” e “que feio chorar em público” são frases que também não levam gênero, contudo, durante a leitura é provável que você as tenha imaginado endereçadas a um menino. Somadas aos artefatos da cultura visual - tais como cores, brin- quedos, roupas, acessórios, sapatos, produtos alimentícios, materiais escolares, jogos, brincadeiras, móveis e talheres - essas e outras frases operam em concordância aos projetos de masculinização dos meninos e aos projetos de feminilização das meninas. Tais projetos ensinam às crianças que, para serem reconhecidas como meninos ou meninas, precisam fazê-lo de maneiras específicas e não naturais, portanto, for- jadas e performáticas. Em um estudo recente, dediquei-me, com mais profundidade, a investigar como as cores azul e rosa foram associadas à 20 João Paulo Baliscei (org.) masculinidade e à feminilidade, respectivamente (BALISCEI, 2021). Em outros, preocupei-me em investigar de que formas filmes de ani- mações (BALISCEI, 2020) ensinam meninos e homens a desempenha- rem masculinidades socialmente aceitáveis; e de que formas cadernos universitários (BALISCEI, SILVA e CALSA, 2018) e imagens de super- heroínas (ROMERO e BALISCEI, 2020) envolvem as meninas e mulheres em práticas feminilizantes. A obsessão da sociedade em ensinar os meninos e as meninas a assumirem posturas, vozes, comportamentos e preferências distintas entre si é abordada pela artista sueca Liv Strömquist, no livro de história em quadrinhos intitulado A origem do mundo: uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado (2018). No capítulo Homens que se interessaram um pouco demais por aquilo que se costuma chamar de “genitália feminina”, a artista recorre à ironia e ao sarcasmo para organizar uma lista de nomes de homens – santos, médicos e paleontólogos, por exem- plo – cujas invenções e pensamentos não só privilegiaram os interesses masculinos, como censuraram os modos como as mulheres se relacio- navam com seus próprios corpos, sexualidades e prazeres. Menciona o inglês Isaac Baker-Brown (1811-1873), por exemplo, quem, no século XIX, defendera a remoção do clitóris alegando que, assim, “curaria” as mulheres da depressão, da histeria, da dor de cabeça, da desobediênciae da perda de apetite. Segundo Strömquist (2018), nos Estados Unidos, esse procedimento cirúrgico chamado de clitoridectomia foi realizado pela última vez em 1948, e na ocasião fora acionado para impedir que uma menina de cinco anos se masturbasse. Isso atesta que a linguagem e a cultura, para além de caracteri- zarem os sexos dos sujeitos conforme eles “naturalmente” são, acabam, também, por atribuir-lhes características. Portanto, as práticas culturais não apenas descrevem corpos, mas também criam corpos; não apenas descrevem gênero, mas também criam gênero. Para tanto, recorrem a procedimentos, estratégias, dogmas religiosos, imagens e mesmo a teses científicas que privilegiam os homens, a quem, conforme defendem, os corpos e as sexualidades das mulheres deveriam prestar subordinação. Nesse ponto, menciono um último exemplo dado por Strömquist (2018): 21 É de menina ou menino? a sonda espacial estadunidense Pioneer, lançada ao espaço em 1972 pela Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço – NASA. Em duas de suas versões, essa sonda recebeu em sua superfície placas douradas, sobre as quais foram gravadas mensagens, como uma tentativa de comunica- ção com as possíveis vidas extraterrestres. Uma das mensagens era um desenho de habitantes da terra - um homem e uma mulher, ambos nus. No caso do homem, o desenho deu visibilidade ao pênis, aos testículos e ao volume da glande, ainda que de modo estilizado; no caso da mulher, não. Na ilustração, a ausência de linhas, volumes, pelos e marcações na região pubiana feminina sugere, mesmo aos/às extraterrestres, que a fêmea da raça humana não possui genitália e que seu corpo e sexualidade têm como referência e devoção o sujeito masculino. Em outras palavras: homens têm pênis, mulheres não. Considero, pois, que desde meados do século XX, os interesses e curiosidades por separar os sujeitos a partir da anatomia de suas geni- tálias têm se intensificado, já que tal “descoberta” se tornou acessível e popular mesmo às famílias comuns, não necessariamente constituídas por pais e mães cientistas, médicos/as e abastados/as. Com a invenção e aperfeiçoamento de exames médicos, tais como a ecografia e a sexagem fetal, os sujeitos não precisavam mais aguardar por todo o período da gestação para se informar quanto à genitália da criança que estão rece- bendo. Com essas tecnologias, podem antecipar algo que, em geral, só seria realizado após o parto: a socialização do gênero. “É um menino ou uma menina?” - perguntam os/as curiosos/as quando veem uma grávida na fila do banco, no ponto de ônibus, no balcão de atendimento e nas salas de espera de consultórios. O desenvolvimento tecnológico tem possibilitado que a “desco- berta” do sexo biológico da criança ocorra já na 13ª semana da gravidez; e a popularização e acessibilidade de tais recursos - combinados com as questões ideológicas, machistas e heteronormativas da sociedade a qual organiza cores e profissões a partir do gênero - acarretaram práticas culturais que celebram a espera de uma criança já generificada. A isso, neste texto, exemplifico com as festas de chás de bebê e chás de revelação. 22 João Paulo Baliscei (org.) Não te parece emblemático que, dentre tantas outras coisas que poderiam ser investigadas quanto à nova vida que está por vir, social- mente, interessam-se justamente por algo tão íntimo quanto à genitália? Por que não se revelam o signo da criança, seu peso, sua altura, a cor de seu cabelo, o time para o qual torcerá ou mesmo o dia em que ocorrerá o seu nascimento, mas sim, se ela possui um pênis ou uma vulva? Quem se beneficia desse sistema de classificação onde tudo – as cores, a decoração, as expectativas para o futuro e até mesmo o nome – depende estritamente do gênero a partir do qual a criança é socializada nas práticas culturais? A figura que abre esse capítulo, inclusive antecedendo o título, é exemplo da prática de chá de revelação e será analisada e problematizada por mim com mais aprofundamento nas próximas páginas. Trata-se de um registro feito em maio de 2020, quando a família Bolsonaro se reuniu para “revelar” o sexo da filha do deputado Eduardo Bolsonaro (1984--) e da psicóloga e coach Heloísa Wolf (1991--), à época, com três meses de gravidez. Nesse capítulo, portanto, proponho como objetivo denunciar as práticas heteroterrorizantes que subjazem a cultura visual celebrada nas práticas de chá de revelação. Para tanto, primeiro apresento as caracte- rísticas do que me refito como heteroterrorismo; e depois, debruço-me sobre o episódio ocorrido em maio de 2020, sobre o qual trata a imagem já mencionada. Por fim, apresento minhas considerações finais cha- mando atenção para o enunciado que intitula essa discussão: “Parabéns! É uma criança”. O HETEROTERRORISMO ASSOMBRANDO CORPOS O heteroterrorismo é apresentado pela brasileira Berenice Bento (2011) como uma espécie de imposição da norma heterossexual. Da necessidade de ser e de parecer ser heterossexual resultam uma série de práticas culturais, a partir das quais se separam tudo por gênero: há cores, formas, preços, tamanhos, medidas, texturas, cheiros, timbres, músicas, roupas, brinquedos e maneiras de mexer as mãos exclusivas “para eles” e outras (diferentes, é óbvio) “para elas”. Ao contrário do que 23 É de menina ou menino? se supõem socialmente, a heterossexualidade não é natural e espontânea aos corpos. Daí que, para fazer com que os sujeitos sejam heterossexuais - e mais importante ainda, para que passem a impressão de sê-lo - há um controle bastante rigoroso, porém, minucioso, de seus corpos. Em outras palavras: há produção de heterossexualidade. Como explica a brasileira Letícia Nascimento (2021, p. 19) “[...] não somos naturalmente generificados”, ao contrário “[...] há um processo de produção de nós, de nossos gêneros, de nossos corpos”. Como socialmente as práticas sexuais e os modos como os sujeitos vivenciam (ou não) seus prazeres sexuais foram delegados para o âmbito do privado e do íntimo, recorrem-se a uma outra instância para operar na produção da heterossexualidade: o gênero. As reiterações que produzem os gêneros e a heterosse- xualidade são marcadas por um terrorismo contínuo. Há um heteroterrorismo a cada enunciado que incentiva ou inibe comportamentos, a cada insulto ou piada homo- fóbica. Se um menino gosta de brincar de boneca, os heteroterroristas afirmarão: “Pare com isso! Isso não é coisa de menino!”. A cada reiteração do/a pai/mãe ou professor/a, a cada “menino não chora!”, “comporta-se como menina!”, “isso é coisa de bicha!”, a subjetividade daquele que é o objeto dessas reiterações é minada (BENTO, 2011, p. 551). O heteroterrorismo assombra, pois, os corpos de meninos e meni- nas para que, em suas escolhas, habilidades, desejos e movimentos eles/ as se mostrem convergentes àquilo que a estrutura binária de gênero legitima: eles se comportam de uma forma; elas, de outra. Desse modo, é possível afirmar que, mais do que vigiar e constranger as práticas sexuais diferentes da heterossexual, o heteroterrorismo tenta vigiar e constranger as expressões de gênero que não passam a impressão de heterossexualidade. Com isso, confundem-se gênero e orientação sexual. Entende- se, equivocadamente, que se um menino usar azul, brincar de carrinho, for habilidoso no futebol, não fugir de uma briga e cumprir com todas as outras exigências do projeto de masculinização ao qual fora submetido, será heterossexual. Semelhantemente, não suspeitarão 24 João Paulo Baliscei (org.) da heterossexualidade de uma menina caso ela brinque com bonecas, seja obediente e vaidosa e mantenha seus cabelos penteados e adornados com laços de fita. Questionam-se somente aqueles/as que se “desviam”. O menino ou menina que manifestar algum “desvio” ao que estabelece o binarismo de gênero – coitado/a! - mais cedo ou mais tarde receberá olhares denunciantes e constrangedores indicando que há suspeita quanto à sua não-heterossexualidade.Se o menino for delicado ou caprichoso com seu caderno, será “xingado”5 de viado, bicha ou mulherzinha; se a menina for forte ou determinada em suas escolhas, será xingada de sapatão, mulher-homem ou mamão-macho, como indicam, respectiva- mente, as brasileiras Megg Rayara Gomes de Oliveira (2018) e Suellen Aquino e Luciana Borre (2017). É preciso destacar, ainda, que o heteroterrorismo não se manifesta apenas durante a infância; ele continua acompanhando e amedrontando os sujeitos durante a vida adulta, inclusive aqueles que, socialmente, já se mostraram “heterossexuais” em outros momentos. É bastante comum, por exemplo, que se suspeitem da heterossexualidade de um homem caso ele se mostre sensível ou covarde, não torça para nenhum time de futebol ou ainda se recuse a consumir álcool - ainda que ele esteja se relacionando sexualmente com uma mulher. Para apontar alguém como “desviante”, a expressão de gênero vale tanto ou mais do que a própria vida sexual. Também se suspeita da heterossexualidade de uma mulher se ela vier a demonstrar iniciativa, coragem ou conhecimento sobre política e engenharia, ou se cortar os cabelos curtos ou não usar brincos - ainda que ela se relacione afetiva e sexualmente com um homem. Em outras palavras, o heteroterrorismo amedronta mesmo os sujeitos heterossexuais. A isso, acrescento os estudos da australiana Raewyn Connell (2016) que, dando ênfase às masculinidades, analisa que “ser homem” não é um status vitalício, o qual, uma vez “conquistado”, permanece 5 Uso o verbo entre aspas pois não concordo que “viado”, “bicha” e “mulherzinha” e tampouco “sapatão”, “mulher-homem” e “mamão-macho” sejam palavras negativas, contudo, preciso reconhecer a intenção de ofensa que subjaz a iniciativa daqueles/as que escolhem essas palavras, entre tantas outras, para evidenciar o “desvio” que outro corpo acarreta à norma. 25 É de menina ou menino? assegurado por toda a vida. Ao contrário disso, a autora destaca que as identidades masculinas dos homens, sobretudo dos heterossexuais, são frequentemente contestadas. Para se mostrarem e serem reconhecidos como “homens”, eles precisam oferecer provas públicas, as quais, dentre outras coisas, passam pelo risco, violência, força, coragem, atividade sexual, prática de esporte, consumo de álcool e não demonstração de medo ou fraqueza. Caso não “passem” por essas provas, é provável que esses homens sejam apontados como gays, ainda que não o sejam. Sob esse funcionamento, o heteroterrorismo acaba por revelar o caráter artificial da heterossexualidade. Afinal, se as normas e condições para alguém ser reconhecido/a como heterossexual precisam ser insis- tentemente lembradas, cobradas e repetidas, é porque tal sexualidade não se manifesta natural e espontaneamente. Recorro mais uma vez a Nascimento (2021, p. 126), quem afirma que “[...] não existem corpos generificados/sexuados de modo essencial e imutável”. São muitas as práticas culturais que, associadas ao heteroterrorismo, tentam generificar os corpos das crianças, o quanto antes possível. Criam uma espécie de cultura visual generificante, a qual atribui aos meninos e às meninas marcas não dúbias para não deixar dúvidas quanto ao gênero a partir do qual eles e elas são socializados/as. Furam-se as orelhas delas, as deles não. Cortam-se os cabelos deles, os delas não. Pintam-se as unhas delas, as deles não. Eles usam gravatas, elas não. Elas usam saias, eles não. Dentre essas práticas heteroterrorizantes que assombram as crian- ças desde antes mesmo do nascimento, proponho, a seguir, reflexões e análises sobre os chás de revelação. É MENINO OU MENINA? REVELANDO E PRODUZINDO CORPOS Os chás de revelação são uma espécie de atualização e glamouriza- ção daquilo que já estabelecem os chás de bebês nas versões “tradicionais”, onde se celebra a vinda de uma criança. No caso dos chás de revelação, contudo, é comum que a maioria das pessoas envolvidas – incluindo os pais e as mães – não saiba ainda quanto ao sexo da criança. “É menino ou menina?”. A resposta a essa pergunta é justamente aquilo que os/ 26 João Paulo Baliscei (org.) as convidados/as buscam revelar. Para a decoração das festas, é comum que os/as anfitriões/ãs recorram ao uso dicotômico do azul e do rosa, indicando a dúvida que se têm (ainda) sobre a criança. Para “solucionar” esse mistério e, enfim, anunciar o sexo e gênero da criança, recorrem-se a modos criativos e inusitados para dar ênfase a uma dessas duas cores. Azul, se for menino; rosa, se for menina. O sexo da criança é, então, “revelado” em âmbito visual, a partir de uma surpresa, a qual fora pre- parada por alguém quem, antecipadamente, teve acesso ao resultado indicado pelo exame médico. Cortar um bolo, estourar um balão, acionar fumaça, abrir uma caixa, quebrar ovos e misturar líquidos são algumas das ações a partir das quais o sexo da criança é “descoberto”. Em algumas variações, outras crianças e mesmo animais participam da festividade, trazendo laços ou outros adereços que anunciam a chegada de um menino ou de uma menina. A figura abaixo reúne uma série de fotos e vídeos postados na rede social Instagram, em um perfil intitulado “Chá de revelação” e que possui mais de 220 mil seguidores/as. A primeira imagem exibe um bolo decorado de azul e rosa, e cuja cor do recheio indicará se a criança gestada é um menino ou uma menina. A primeira imagem da segunda linha, por sua vez, foi retirada de um vídeo em que dois bebês gigantes, feitos de material inflável, lutam entre si. A vitória do bebê de chupeta rosa e com cabelos longos e amarrados indica aos/às convidados/as o sexo da criança: é uma menina! A imagem imediatamente ao lado, por fim, mostra um casal heterossexual acionando um dispositivo que faz surgir, de dentro do bolo, um dildo ereto e azul indicando o sexo do bebê: é um menino! A isso acrescento que, ainda que as outras imagens não deem visibilidade a representações de pênis e vulvas, assim, de modo tão explícito como essa, considero que elas também estão comprometidas a marcar o corpo, o sexo e a sexualidade da criança cuja vinda está sendo celebrada de modo generificado. 27 É de menina ou menino? Figura 2: Chás revelação. Fonte: <https://www.instagram.com/chaderevelacao>. Acesso em 19 de jun. 2021. Chamo atenção para a cultura visual valorizada nessas imagens e retomo, agora, os aspectos visuais e culturais do registro apresentado na primeira página deste capítulo: a imagem que registra o chá de revelação da filha de Eduardo Bolsonaro. Para manter a surpresa quanto ao sexo da criança, a família em questão recorreu a um balão preto; e para revelá-la, fez uso de uma arma de fogo. A cor preta e os pontos de interrogação do balão (que na Figura 1 já fora estourado) indicavam que, antes do evento, o sexo biológico da criança não havia sido determinado. Poderia ser menino tanto quanto poderia ser menina. Os balões menores, orga- nizados em círculos crescentes e alternados entre as cores azul e rosa, por sua vez, sugeriam que, apesar do desconhecimento sobre o sexo da criança, os/as convidados/as já esperavam que ela seria ou apenas femi- nina (rosa), ou apenas masculina (menino). Não eram possíveis outras alternativas. Um menino feminino ou uma menina masculina não eram cogitáveis ou bem-vindos/as. Ademais, sob essa configuração, o artefato visual que guardava o segredo me remete a um alvo; a algo que tenha que ser acertado com certa precisão; sem margens para desvio ou erro. A cultura visual nitidamente binária dos chás de revelação me faz recordar das pesquisas do espanhol Paul Preciado (2013) quando argumenta que, sob justificativas religiosas e moralistas, os sujeitos que http://www.instagram.com/chaderevelacao http://www.instagram.com/chaderevelacao http://www.instagram.com/chaderevelacao 28 João Paulo Baliscei (org.) se apresentam como “cidadãos/ã de bem” ou “defensores/as da família” apelam unicamente à estrutura de família política que privilegiaa eles/ as mesmos. A família “verdadeira”, então, seria a heterossexual. Tais sujeitos constroem um modelo familiar e uma concepção de infância na qual, de antemão, todos/as são, indiscutivelmente, heterossexuais e adequados/as às normas de gênero. Qualquer variação a isso é considerada um “desvio” a ser corrigido, se não, exterminado. Semelhantemente ao autor, importo-me em perguntar sobre quem acolhe e defende as crianças que não correspondem às expectativas heteroterroristas que pais, mães, tios e tias e demais familiares constroem e celebram juntos/as. A polícia de gênero vigia o berço dos seres que estão por nascer, para transformá-los em crianças heterossexuais. A norma ronda os corpos meigos. Se você não é hete- rossexual, é a morte o que te espera. A polícia de gênero exige qualidades diferentes do menino e da menina. Dá forma aos corpos com o objetivo de desenhar órgãos sexuais complementares. Prepara a reprodução da norma, da escola até o Congresso, transformando isso numa questão comercial (PRECIADO, 2013, p. 98). Voltando-me, de novo, à cultura visual do chá de revelação da família Bolsonaro, debruço-me sobre um outro artefato: aquele utilizado para estourar o balão e para revelar o sexo biológico da criança - a arma de fogo. Sobre ele faço, ainda, algumas observações. Além da despropor- cionalidade entre a força da arma e a fragilidade do balão, me provoca certo estranhamento que, nesse caso, não tenha sido a mãe quem revelara o sexo da criança gerada em seu ventre, mas sim o pai. Na cena, a mãe permanece ao lado do homem adulto, assistindo-o, e surpresa àquilo que o balão revela. Para mim, a arma de fogo, nesse caso, fora utilizada pelo pai como uma espécie de símbolo intermediário; a partir do qual ele pôde acessar espaços, brincadeiras e assuntos socialmente tidos como “femininos”, como a parentalidade, o afeto e o cuidado para com a vida de uma criança. O que implica descobrir o sexo de um sujeito se utili- zando de uma arma de fogo? O que, exatamente, pretende-se atingir? E se fosse a mãe a estourar o balão, não seria estranho que ela o fizesse recorrendo a uma arma de fogo? Sendo o protagonista do estouro um 29 É de menina ou menino? homem, por que ele precisou fazê-lo com uma arma? Soaria afetado e feminino demais para ele estourar o balão com uma agulha ou outro objeto delicado? Os estudos da brasileira Marcia Tiburi (2020) quanto às questões políticas, culturais e estéticas do Brasil bolsonarista oferecem significativas contribuições para essa análise. Conforme explica a autora, no Brasil contemporâneo sob o governo bolsonarista, tem se intensificado aquilo a que ela denomina como turbotecnomachonazifascismo. Dentre outras coisas, essa força opera com a “[...] barbárie e a brutalidade de homens apresentados como ‘machos’ como tecnologia política”. Semelhantemente ao heteroterrorismo, o turbotecnomachonazifacismo, então, não só vigia os corpos das crianças para que elas sejam lidas e classificadas de modos binários antes mesmo do nascimento, como também assombra os corpos dos sujeitos adultos. Atribui o churrasco a eles, e a sobremesa a elas; confere valentia a eles, e passividade a elas; armas de fogo a eles e surpresa a elas. Para que a sexualidade e mesmo a masculinidade de um homem, branco, cristão, cisgênero e supostamente heterossexual não fosse ques- tionada quando envolvido em uma brincadeira de “descobrir” o sexo da criança – ainda que sua filha - ele teve que recorrer ao uso da arma de fogo. De certa forma, esse artefato, como símbolo intermediário, auto- riza-o a acessar jogos e valores tidos como “femininos” sem que tenha sua masculinidade e heterossexualidade colocadas em xeque. CONSIDERAÇÕES “É um menino ou uma menina?”. O fato de que, diante de uma gravidez, socialmente, perguntem-se primeiro sobre o sexo do bebê revela a importância que tem sido atribuída às normas de gênero a partir de concepções binárias. É como se, o quanto antes, houvesse que saber sobre o gênero da vida que está por vir, não só para que ela receba um nome, - masculino ou feminino - mas também uma cor, um quarto, um brinquedo, uma roupa, um apelido carinhoso, etc. A construção de expectativas sobre esse corpo ocorre, então, apenas 30 João Paulo Baliscei (org.) mediante à sua generificação. Terá um enxoval azul ou rosa? Brincará com carrinhos ou com bonecas? Frequentará escolinha de futebol ou de balé? Terá interesse por dinossauros ou por panelas? Cursará Direito ou Odontologia? Aproveitará a juventude e a solteirice ou se casará aos 20 anos? Essas perguntas, que soam como uma espécie de sondagem do futuro de uma criança generificada, sublinham a necessidade que o heteroterrorismo impõe de aniquilação do “outro”. Aniquilam-se o não masculino e o não feminino; o não cristão; o não branco; o não heterossexual; o não cisgênero. Esse compromisso tratado e reforçado em práticas heteroterrorizantes se materializa, inclusive, em estéticas e visualidades específicas – como as dos chás de revelação. E se ao invés de se parabenizar pelo gênero, parabenizassem-se pela vida? “Parabéns! É uma criança”. Tal cumprimento vai ao encontro de minha defesa nestas considerações finais, que é a de que os sujeitos, sobretudo os infantis, possam usufruir de sua experiência de vida sem as amarras e restrições impostas pelas normas de gênero e pelos efeitos hete- roterrorizantes que elas lhes causam. A infância - etapa de experimentação do mundo, na qual os meninos e meninas deveriam ser incentivados/as a testar cores, cheiros, brincadeiras, sentimentos e sensações, indiscrimi- nadamente – é justamente quando, pelo contrário, as crianças aprendem que há coisas específicas para meninos, e outras, para meninas. Por fim, é preciso explicar que quando tematizo e problematizo a cultura visual dos chás de revelação não pretendo demonizar tal prática cultural e tampouco atribuir a ela toda a responsabilidade das forças heteroterrorizantes que assombram as crianças. Infelizmente, a divisão binária e dicotômica que separa meninos de meninas não se manifesta apenas nesses eventos, e nem mesmo apenas em âmbitos visuais. Os espaços escolares, religiosos, familiares, políticos, públicos, trabalhis- tas, de lazer e artísticos, dentre outros, revelam que as assimetrias e preconceitos decorrentes do heteroterrorismo ocorrem de maneiras tão sutis e peculiares que chegam a ser naturalizados, ainda que provoquem tristeza, violência e morte contra aqueles/es que não conseguem ou não querem corresponder às suas normas. 31 É de menina ou menino? REFERÊNCIAS AQUINO, Suellen; BORRE, Luciana. “Tu é Menino ou Menina?” possibilidades a/r/ tográficas em artes visuais e teoria queer. VIS – Revista do Programa de Pós- graduação em Arte da UnB, Brasília, v.16, n. 2, p.69-86, 2017. Disponível em <https://periodicos. unb.br/index.php/revistavis/article/view/20652>. Acesso em 19 de jun. 2021. BALISCEI, João Paulo. Provoque: Cultura Visual, Masculinidades e Ensino de Artes Visuais. Rio de Janeiro: Metanoia, 2020. BALISCEI, João Paulo; SILVA, Carolina Vendrame da; CALSA, Geiva Carolina. Feminismos, Imagens e Educação: análise visual das representações femininas nas capas dos cadernos universitários da marca Tilibra. Revista Textura, Canoas, v.20, n.42, p.244-278, jan./abr.2018. Disponível em <http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/ txra/article/view/3219/2779>. Acesso em 19 de jun. 2021. CONNELL, Raewyn. Gênero em termos reais. São Paulo: nVersos, 2016 NASCIMENTO, Letícia. Transfeminismo. São Paulo: Jandaíra, 2021. OLIVEIRA, Megg Rayara Gomes de. Trejeitos e trajetos de gayzinhos afeminados, viadinhos e bichinhas pretas na educação! Revista Periódicus, Salvador, n. 9, v. 1 maio/ out., p. 161-191,2018.Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaperio- dicus/article/view/25762. Acesso em: 19 jun. 2021. PRECIADO, Paul B. Quem defende a criança queer? Revista Jangada, Viçosa, n. 1, p. 96-99, 2013. Disponível em:https://www.revistajangada.ufv.br/Jangada/article/view/17. Acesso em 19 jun. 2021. ROMERO, Jéssica; BALISCEI, João Paulo. “Deixar o mundo ser salvo pelos homens? claro que não!”: Estudo sobre protagonismo feminino em filmes de animação. In: DICKMANN, Ivanio (org.). Educar é um ato de coragem, v.3, Veranópolis: Diálogo Freiriano, 2020, p. 23-62. Disponível em: <https://drive.google.com/drive/u/4/folder- s/1gnHHOSGHyap9ytNJGeBFU8Oklxkvae Gj>. Acesso em 19 de jun. 2021. STRÖMQUIST, Liv. A origem do mundo: Uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado. São Paulo: Quadrinhos na cia, 2018. TIBURI, Marcia. Como derrotar o turbotecnomachonazifascismo ou seja lá o nome que se queira dar ao mal que devemos superar. Rio de Janeiro: Record, 2020. http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/view/3219/2779 http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/view/3219/2779 http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/view/3219/2779 http://www.revistajangada.ufv.br/Jangada/article/view/17 32 João Paulo Baliscei (org.) Figura 1: Registros de chá de revelação. Fonte: Vídeos no Youtube, 2021. “NÃO IMPORTA O SEXO, EU SÓ QUERO QUE SEJA MENINO”: CISHETERONORMATIZAÇÃO DOS CORPOS EM CHÁS DE REVELAÇÃO Isabela Daiane Pironi6 Jean Pablo Guimarães Rossi7 Eliane Rose Maio8 INTRODUÇÃO Saber o sexo da criança se transformou em um verdadeiro evento. Os chás de revelação no Brasil e no mundo têm crescido cada vez mais 6 Mestranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá – UEM. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Diversidade Sexual – NUDISEX. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5201767164101890. 7 Doutorando em Educação pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Estadual de Maringá. Professor na Universidade Estadual do Paraná - UNESPAR. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Diversidade Sexual - NUDISEX. Lates: http://lattes.cnpq.br/8403751902893496. 8 Pós-doutora e Doutora em Educação Escolar pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP. Professora na UEM. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Diversidade Sexual - NUDISEX. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9562371036022440. http://lattes.cnpq.br/5201767164101890 http://lattes.cnpq.br/8403751902893496 http://lattes.cnpq.br/9562371036022440 33 É de menina ou menino? e se tornando uma tendência nas redes sociais, tanto entre pessoas anô- nimas, quanto entre famosos/as. Esses chás acontecem da seguinte forma: geralmente se trata de um casal heterossexual que está à espera de uma criança, e a algum/a conhecido/a da família, é pedido que vá até a sala de ultrassom e veja qual é o sexo do/a bebê, sem dizer nada a ninguém. Posteriormente, o casal organiza uma festa para que o sexo do/a bebê seja revelado de algum modo criativo, como: o estouro de balões, sprays com conteúdos em azul ou rosa, fatias de bolo, fumaças coloridas, entre outros. E a partir disso, são filmadas as reações dos/as convidados/as diante da anunciação do sexo. É menino ou menina? Estes são os únicos gêneros possíveis, enunciados nesses chás diante do sexo biológico que a criança apre- senta. É comum que se utilizem apenas de duas cores para a decoração desses eventos, sendo a cor rosa mais empregada para se referir ao sexo feminino, e a cor azul, ao sexo masculino - acompanhado de diversos estereótipos sobre o “ser menino” ou o “ser menina”. Relacionamos tais episódios àquilo que Judith Butler (2003) conceitua como “gêneros inteligíveis”, que diz respeito aos corpos que apresentarão relação e coerência entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. Conforme acrescenta Berenice Bento (2011), esses corpos, obedecerão, então, a lógica vulva-mulher-feminilidade se opondo ao pênis-homem- -masculinidade. Sendo assim, por meio dos chás de revelação podemos observar que mesmo antes do nascimento da criança, já são cristalizados práticas e discursos para a manutenção das normas que regularão os gêneros dos/as bebês, no sentido de vigiá-los/as para que se encaixem dentro da perspectiva dos “gêneros inteligíveis”. Posto isso, Paul B. Pre- ciado (2020) discute que é por meio da criança que se normalizará o/a adulto/a e que este/a é responsável por naturalizar essa norma. Há uma intensa vigilância nos berços para converter todos os corpos das crianças em sujeitos/as que vivam sua sexualidade dentro da heterossexualidade. A partir dessa discussão, ancorados nos Estudos de Gênero e nos Estudos Feministas, sob a ótica de uma perspectiva pós-estruturalista, 34 João Paulo Baliscei (org.) buscamos, com esse estudo, discutir sobre como se dá o processo de cisheteronormatização dos corpos a partir dos chás de revelação. Para tanto, utilizamos a rede social YouTube como lócus de pesquisa, de onde coletamos três vídeos de chás de revelação, os quais são apresentados visualmente na Figura 1, que abre este capítulo. Os três vídeos (sendo um deles, Parte 1 e Parte 2) passaram pelo processo de transcrição e tiveram as narrativas de seus/suas interlocutores/as (pais, mães, avô, avó, amigas/os e convidadas/os) problematizadas no intuito de evidenciar como a cisheteronormatização ocorre nestes eventos. REVELANDO OU “LIMITANDO?” CHÁS REVELAÇÃO E O PROCESSO DE CISHETERONORMATIZAÇÃO DOS CORPOS De acordo com o site de notícias BBC News (British Broadcas- ting Corporation), em notícia publicada por Rafael Barifouse (2019), o primeiro registro que se tem sobre a prática chá de revelação se refere ao ano de 2008, em que uma estadunidense chamada Jenna Karunidis, ao engravidar de sua primeira filha, realizou uma festa para revelar qual seria o sexo da criança. Para isso, ela cortou uma fatia de bolo que, em seu interior, estava pintada na cor rosa, dando o indicativo de que a criança seria do sexo feminino. Após esse fato, ela fez um post em seu blog sobre o acontecimento e ele acabou viralizando. Todavia, onze anos após esse episódio, Jenna alega que se arrepende por ter contribuído para que esse fato se tornasse uma moda. E informa que tampouco quer ter seu nome atrelado como a pessoa que criou essa prática. Isso porque Jenna, ainda conforme a notícia, reconhece que a realização do chá de revelação acaba por criar expectativas em relação ao gênero da criança, e que esses eventos passaram a ser apropriados por pessoas conservadoras que possuem maneiras específicas de pensar o gênero, limitando a criança a partir da sua genitália. Diante disso, se faz necessário pensar como se dá o processo de cisheterormatização nos corpos a partir da designação do sexo biológico, como se houvesse apenas duas formas possíveis de existência, feminina ou masculina, excluindo e levando para o campo do abjeto a diversidade sexual e de gênero. Butler (2000) aponta que desde o nascimento, aos/às sujeitos/as são impostos determinados papéis 35 É de menina ou menino? que devem ser seguidos, obedecendo a uma lógica cisheterormativa. Butler (2003), em relação ao conceito de heterormatividade, apresenta-o como o processo de regularização da prática heterossexual, prescrita aos corpos como uma norma imposta não somente pela cultura, mas também pela biologia, no sentido de ser uma ordem compulsória de combinação entre sexo, gênero e desejo. Assim sendo, todas as outras formas de identidades e sexualidades são vistas como uma dispersão à norma, compreendidas como desvios que precisarão ser reintegrados à normatização. O termo heteronormatividade só pode ser usado dessa maneira porque guarda relações com a cisheteronormatividade. Todo sistema de relações que tem como base a heterossexualidade presume que os/as sujeitos/as também sejam cisgêneros/as. Nesta lógica, um corpo feminino irá sempre corresponder a um corpo que contém uma biovagina, e um corpo masculino com um corpo que contém um biopênis (PRECIADO, 2018). Guacira Lopes Louro (2000) aponta que, nesse processo, apenas uma forma de sexualidade se apresenta como possível, sendo reconhecidacomo um padrão de referência para todas as pessoas. Louro (2000) problematiza: se a heterossexualidade fizesse parte da natureza intrínseca do ser humano, qual seria o motivo de todo esse investimento para uma rigorosa vigilância na manutenção dessa hete- rossexualidade? A partir desse questionamento se faz oportuno pensar que o fato de existirem pessoas que têm um processo subjetivo e de iden- tidade que não corresponde a essas expectativas sobre a masculinidade e feminilidade, revela que a perspectiva da naturalidade desse sexo não é real. Há todo um processo de construção por trás dessa perspectiva. Bento (2011) explica que é nas instituições sociais, como a família, igreja, escola e a ciência, por meio de contínuas repetições, que a sociedade vê formas de materializar, nos corpos, as verdades em relação aos gêneros. Michel Foucault (1998) categoriza o conceito de sexualidade como um “dispositivo histórico”, afirmando que ela é uma invenção social, que foi sendo construída, reforçada e repetida historicamente por meio dos discursos de legitimação. Diante dessa discussão, vale pensar na necessidade de normati- zação dos corpos que há por trás dos discursos dos chás de revelação. 36 João Paulo Baliscei (org.) Nessas festas, estão inclusos diversos estereótipos sobre os papéis sociais a serem desempenhados por essas crianças, manifestados, desde a tenra idade, quando, por exemplo, ao menino são associados a cor azul e brin- quedos que remetem ao campo público, como carrinho, bola e esportes, e à menina são atribuídos a cor rosa e brinquedos ligados ao privado. como casinha, bonecas e utensílios domésticos. Preciado9 (2002) argu- menta que ao se dar a notícia “é um menino ou uma menina”, criamos expectativas e geramos suposições em como será o futuro desse corpo que passará a ter visibilidade a partir da resposta dessa notícia. Dessa forma, aqueles e aquelas que não se enquadram nessas idealizações, passam a ser invisibilizados/as e considerados/as abjetos pela lógica da cisheterormatividade, como se não tivessem direto de festejar os seus gêneros, seus corpos e suas sexualidades. SOBRE OS VÍDEOS ESCOLHIDOS Elencamos três vídeos disponíveis na plataforma Youtube para a discussão que aqui empreendemos e, para a busca, utilizamos o descritor: “chá de revelação”. Optamos pela análise do conteúdo narrativo presente entre os/as interlocutores/as que aparecem nos vídeos. Sistematizamos as informações acerca dos vídeos, coletadas em agosto de 2021, no quadro abaixo: 9 O livro Manifiesto contra-sexual – Prácticas subversivas de identidad sexual (2002) foi publicado durante a transição de gênero do autor, por isso ainda fora associado ao seu nome morto. Neste texto, para referenciá-lo, recorremos ao seu nome após a transição. 37 É de menina ou menino? Vídeo 1 Vídeo 2 Vídeo 3 Aurora ou Théo? O meu Baby é... Chá revelação10 Parte 1 - Chá de revelação emo- cionante pai desmaia!11 Chá revelação papai e mamãe do Guilherme. (Pai des- trói tudo)12 Canal: No Pique na Nique Tempo: 13 min. e 15 seg. Visualizações: 7.789 Likes: 525 Dislikes: 7 Comentários: 45 Canal: Fortes emoções Tempo: 5 min. e 40 seg. Visualizações: 4.713.475 Likes: 68.000 Dislikes: 8.300 Comentários: 4.751 Canal: Érika da Silva Britto Tempo: 2 min. e 39 seg. Visualizações: 117.481 Likes: 959 Dislikes: 391 Comentários: 197 Parte 2 - Chá revelação pai tentando levantar após desmaiar, enquanto é lida a cartinha que o impactou Canal: Fortes emoções Tempo: 1 min. e 39 seg. Visualizações: 1.055.492 visualizações Likes: 9.400 Dislikes: 674 Comentários: 688 Fonte: elaboração das autoras e autor, 2021. Após realizarmos a transcrição dos diálogos presentes nos vídeos, frente à observação dos aspectos de maior ênfase, organizamos a discussão do tópico seguinte, onde explanamos sobre alguns excertos narrativos dos vídeos escolhidos, a fim de discutir os modos como a generificação dos corpos, a partir da noção de sexo biológico, acontecem em chás de revelação. 10 Vídeo disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=TPVvyF3ZseM>. Acesso em: 17 ago. 2021. 11 Vídeo parte 1 disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=NdR7i7mtY-8>. Acesso em: 17 ago. 2021.Vídeo parte 2 disponível em <https://www.youtube.com/ watch?v=EqtJS49GKaM>. Acesso em: 17 ago. 2021. 12 Vídeo disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=KBPakHumFQA>. Acesso em: 17 ago. 2021. https://www.youtube.com/watch?v=TPVvyF3ZseM https://www.youtube.com/watch?v=NdR7i7mtY-8 https://www.youtube.com/watch?v=EqtJS49GKaM https://www.youtube.com/watch?v=EqtJS49GKaM http://www.youtube.com/watch?v=KBPakHumFQA http://www.youtube.com/watch?v=KBPakHumFQA http://www.youtube.com/watch?v=KBPakHumFQA http://www.youtube.com/watch?v=KBPakHumFQA 38 João Paulo Baliscei (org.) “NÃO, PAPAI, A MAMÃE ENGANOU VOCÊ, SOU EU, A SUA PRINCESINHA”: GENERIFICANDO O CORPO EM CHÁS DE REVELAÇÃO O Video 1, postado no canal No Pique da Nique, é referente ao evento organizado para a revelação do sexo do/da bebê de um casal heterossexual. A festa foi intitulada “Charraiá #theo#aurora”, - como nos é mostrado nas filmagens dos copos personalizados - possivelmente em alusão aos “arraiás” que ocorrem no mês de julho, quando as festas juninas são celebradas no Brasil. Também fica evidente que se trata de uma produção com muitos requintes, já que o próprio vídeo foi produzido por uma equipe de pro- fissionais contratados/as para a captação audiovisual, além da equipe de massagista, maquiadora, fotógrafo/a e demais organizadores/as presentes em um sítio locado para este fim. A mãe conta que nos planos iniciais, a revelação aconteceria por meio de um avião que lançaria uma fumaça no céu, mas que, por problemas técnicos com a companhia aérea, isto não pôde acontecer, portanto, ao invés do avião, a revelação dar-se-ia com um helicóptero. No vídeo em questão, fica evidente o marcador não apenas de gênero, mas também de classe. Diferentemente da festa no Vídeo 1, em que há uma superprodução, envolvendo a formação de equipe, contratação de diversos/as profissionais, personalização de enfeites e até um helicóptero... nos outros vídeos, notamos que as festas são mais simples, organizadas pelos/as próprios/as familiares e amigas/ os, realizadas em casa e com registro audiovisual feito por um celular de uma/um das/dos participantes. Além disso, a revelação do sexo aconteceu por meios mais econômicos, como um bolo com glacê azul e rosa e uma caixa de papelão decorada com essas duas mesmas cores. De toda maneira, apesar dos modos de diferenciação sobre como os chás de revelação ocorrem, compreendemos que a lógica que sustenta essas três situações é a mesma. A idealização e, principalmente, a grande expectativa oriunda do reducionismo sexo/gênero pode ser observada no Vídeo 1, o qual registra uma espécie de torcida, a partir da qual cada uma/um das/os 39 É de menina ou menino? convidados/as devia fazer suas apostas: #teamtheo, para quem acredi- tava que a criança seria do sexo masculino; e #theamaurora, para quem apostava que ela seria do sexo feminino, como apresentam os excertos das falas a seguir: Mãe: Então gente, a cor do chá não é rosa e nem azul, a gente, tipo, optou pelo verde e laranja. Então quem entrar acreditando que é menina, vai usar uma pulseira laranja, e quem entrar acreditando que é menino, vai entrar usando uma pulseira verde [...] (Trecho 1 - Vídeo 1) Pai: Então galera, chegou o grande dia, nem tô com a roupa da revelação ainda, mas já estou nervoso [...] já queria deixar claro aqui, antes de mais nada, eu torço por menino, a Monique por menina, mas quero deixar bem claro aqui que isso é indiferente pra gente, prin- cipalmente pra mim, se vier menino será amado pra caramba, se vier menina, será amada da mesma forma, então é isso, sabe, foi uma semana de ansiedade, de nervosismo e... (Trecho 2 – Vídeo 1) Avô: Espero que esse neném chegue bem bonitinho, com muita saúde, o Theo vai ser lindo, lindover o garotinho correndo saindo com o vovô passeando com o vovô, mas se for a Aurora, vou passear do mesmo jeito, vou ensinar andar de bicicleta igual ensinei o pai. Avó: Não importa o sexo. Avô: Não importa o sexo, eu só quero que seja menino, não tem problema nenhum, pode ser qualquer coisa, não tem problema. Matheus (pai): Seu neto ou neta, no caso. Avó: Que venha com saúde, amor vai ter de sobra (Tre- cho 3 – Vídeo 1). Sobre os trechos supracitados, gostaríamos de destacar dois pontos. Em primeiro lugar, problematizamos o recorrente discurso “o importante é que venha com saúde” (Trecho 3), já que perpassa a lógica de um corpo ideal. Podemos pensar, que corpo “saudável” é tão esperado? No caso dos chás de revelação, podemos pensar que se trata de uma idealização que enquadra a composição corpóreo-fetal dentro dos parâmetros de uma 40 João Paulo Baliscei (org.) “normalidade” biomédica, que implica uma pressuposição da identidade física da criança frente ao sexo biológico. Desta forma, compreendemos que chás de revelação avigoram o que Catherine Mathelin (1999, p. 66) se refere, ao explicar que a preparação do “enxoval”, por exemplo, fabrica “[...] para além da roupa, os braços, as pernas, a imagem do corpo do bebê na cabeça da mãe [pais/responsáveis]. Instalar a cama, preparar o seu espaço lhe permite conceber uma representação de seu filho[/a]”. O segundo ponto diz respeito à expectativa, tanto do pai, quanto do avô, de que este/a bebê fosse, preferencialmente, um “menino”. Além disso, em vários momentos eles se referem ao feto a partir de uma perspectiva e linguagem masculinista, ainda que não tenham tomado ciência do sexo biológico deste/a bebê. Em outras palavras, o corpo (que até o momento está “assexuado”) é tomado como suposto “neutro”, mas, linguisticamente já é referido nas fronteiras centrais do “ser universal”: homem, hétero, cisgênero. Na continuidade dessa discussão, também fica evidente a lógica binária, em que o primeiro polo (masculino) é per- cebido com valor, esmero e desejo e se opõe ao segundo polo (feminino), tomado como secundário e menos desejável, como percebemos nas falas: “se for menina”, “mas, caso seja menina”, “porém, se for menina”, “se vier menina, também será amada” etc. Para Montserrat Moreno (1999), o efeito disto é o fato de que a menina aprenderá, desde muito cedo, a ocupar um papel subalterno e a renunciar a sua identidade sexolinguís- tica, incorporando e também reproduzindo a lógica androcêntrica. Tal fato pode ser percebido na fala do pai: “[...] se vier menino será amado pra caramba, se vier menina, será amada da mesma forma [...]”. Neste exemplo, o pai situa, primeiramente, o menino e coloca a possibilidade da menina em segundo plano ao afirmar que ela “também” será amada “da mesma forma”. A expressão “da mesma forma”, pode ser problema- tizada aqui, já que nesse discurso o menino está situado como referência central de afeto, e a menina como aquela que pode ser amada tal qual ele. De modo semelhante, o avô, ao comentar que gostaria de ter um neto menino, também diz que caso seja uma menina vai “ensinar andar de bicicleta igual ensinei o pai”. Novamente temos a figura masculina 41 É de menina ou menino? enquanto centro de referência e a menina como uma possibilidade secundária e que deverá se moldar em alusão ao homem. No vídeo 2 (partes 1 e 2), em que o “papai desmaia”, acontece uma situação inusitada. Trata-se de um chá de revelação, em que a des- coberta do sexo biológico se deu por meio de um bolo com glacê azul e rosa, de modo que a cor do recheio revelaria o sexo da criança. Nesta situação, o pai fez um discurso aos/às convidados/as anunciando que a criança seria “bem-vinda independendo do sexo”. Depois, ao cortarem o bolo, verificaram o recheio azul, indicando o sexo masculino. Durante a leitura de uma carta, o pai logo desmaia, porém, na continuidade da leitura da carta (na parte 2 do vídeo), ele descobre que a revelação era uma brincadeira feita para enganá-lo, pois aquele era um chá de revelação de uma bebê do sexo feminino. Pai: Eu quero agradecer a Deus por cada um que veio em segurança, que essa criança seja bem-vinda independendo do sexo, que cada um volte tranquilo na volta para casa, quem vai com seu carro, com sua moto, quem vai de a pé, quem vai de bicicleta. Eu amo cada um que tá aqui, porque ninguém é melhor que ninguém, Deus preparou tudo isso, não porque nós merecemos, é porque Ele é bom. Deus abençoe cada um grandemente. Convidados/as: Corta, corta! [cortam o bolo, a fatia é na cor azul indicando que é do sexo masculino. O pai começa a ler a carta e desmaia, convidado/as prestam assistência] (Trecho 4 - Vídeo 2, Parte 1). Convidadas gritam: Lê a cartinha! Mãe: Eu vou ler [começa ler a carta] Papai, se prepara, estou chegando, em pouco tempo serei a mais nova inte- grante da família. Papai, você deve estar se perguntando: como assim a mais nova integrante da família? Não seria novo integrante? Não, papai, a mamãe enganou você, sou eu, a sua princesinha [o pai se levanta a esposa o abraça] (Trecho 5 - Vídeo 2, Parte 2). Nos trechos supracitados é possível perceber como há um ápice de emoção, ressaltado pelo desmaio do pai, provocado pela notícia da 42 João Paulo Baliscei (org.) revelação do sexo masculino. Posteriormente, há a quebra/declínio dessa expectativa, ao ser declarado que aquela não passava de uma brincadeira e que a criança, na verdade, seria uma “menina”. Essa situação reforça a polarização masculino/feminino, em que o polo masculino se aloca como figura central, e o feminino como polo opositor e secundário, utilizado nesta situação como forma de “pegadinha”. Tal afirmação coaduna ao que Simone de Beauvoir (2009) se refere ao explicar o quanto o termo “fêmea” não está inscrito no polo do desejo primário. Ser fêmea, para a autora, soa como insulto, já que historicamente o “ser mulher” foi alocado ao secundário, para o lugar do “segundo sexo”, assimetricamente inferior. Além disso, no Trecho 5, a mãe, ao ler cartinha, revelou que se tratava de uma “princesinha”. Chimamanda Ngozi Adichie (2017, p. 35), problematiza que geralmente revestida de uma suposta ideia de “boa intenção”, a expressão “princesa” “vem carregada de pressupostos sobre sua fragilidade, sobre o príncipe que virá salvá-la etc”. Há, nesse ponto, uma conotação de que o “ser mulher” se inscreve numa posição de fragilidade e, o “ser homem”, garante um patamar de superioridade. No vídeo 3, em que o “papai destrói tudo”, notamos as performan- ces de gênero (BULTER, 2003) que são acionadas no comportamento e nas falas do pai, antes e após a descoberta de que o bebê é do sexo masculino. Trata-se de um vídeo caseiro, que mostra o momento da revelação, quando o homem, evidentemente alvoroçado, dispara alguns xingamentos à esposa e destrói alguns enfeites da festa: [As/os convidadas/os gritam alvoroçadas/os para que abram a caixa contendo a revelação, decorada com figuras e interrogações em azul e rosa]. Convidado 1: Bora, porra! Vou dar tiro pro alto, ein!? Mãe: Calma, gente. Pai: Quer saber? Abre isso. Eu vou rasgar essa merda. Abre logo! Você já tá vendo, cara! [dirigindo-se à esposa] Você é retardada? [Euforicamente, o pai abre a caixa gritando, visualiza os balões azuis e começa a derrubar a decoração] Porra! Me dá minha Jurupinga! [pega a caixa da revelação, coloca na cabeça e começa a rir] Mais um, mais um! 43 É de menina ou menino? Mãe: [dá um tapa no braço do marido] Para, Thiago! [pega o resultado do exame médico que estava dentro da caixa, enquanto o marido anda com a caixa da revelação sobre a cabeça]. Convidado 2: Ai ai, compra paracetamol. Convidado 3: [ouve-se ao fundo] É menino, né, cara! [aparentemente em resposta ao questionamento de outra pessoa]. Convidada 4: Eu fiquei o dia inteiro pra fazer isso [em tom de indignação] (Trecho 4, Vídeo 2). Sobre o trecho supracitado, é pertinente notar de que modo ospadrões de masculinidade hegemônica se revelam a partir das falas do pai e dos convidados homens que estavam ali presentes. Um dos pontos em que essa expressão da masculinidade se mostra pode ser notado na fala “me dá minha Jurupinga”, dita pelo pai, no momento em que descobre que o bebê é do sexo masculino. Segundo Eduardo Zoering Zanella (2011) e Pedro Nascimento (2016), há uma relação intrínseca entre o consumo de bebidas alcóolicas e a delimitação de fronteiras simbólicas da masculinidade, uma vez que os corpos masculinos são entendidos como mais fortes e resistentes do que os das mulheres. Homens são vistos como fisicamente e emocionalmente dotados de maior autocontrole - daí advém a expressão “beber como um homem”. O consumo de bebida alcoólica e a sociabilidade masculina são aprendizados que ditam determinados códigos de masculinidade. Além disso, notamos que não é só a bebida alcóolica em si que anuncia o compromisso com a masculinização da criança, mas o tipo de bebida: a Jurupinga, já que esta é uma bebida mais potente, logo, supostamente mais apropriada aos homens. Além do mais, percebemos que um dos convidados afirmou em resposta a outra pessoa “é menino, né, cara!”, assumindo um tom de “obviedade”, frente à reação do pai com a revelação. Explanando em pormenores, podemos interpretar como se o convidado estivesse respon- dendo ao outro: “É lógico que é um menino! Não está vendo a reação dele? É obvio!”. Entendemos que se (re)produz um reducionismo sexo/ gênero ao estabelecer uma associação entre o comportamento agressivo 44 João Paulo Baliscei (org.) do pai, com o sexo (masculino) do bebê. Consideramos muito expres- siva essa associação, pois as falas e comportamentos do adulto aferem diretamente ao que é esperado de um menino, caracterizando-se como uma noção bastante restrita de masculinidade, que abafa quaisquer traços de humanidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho, buscamos discutir como os chás de revelação são práticas que generificam os corpos, desde o útero, a partir de uma lógica cisheteronormativa. Os vídeos analisados evidenciaram que, apesar dos diferentes modos que essas festas podem se utilizar para a pressuposição de um gênero a partir da noção de sexo biológico, a lógica que sustenta a sua existência é mesma: a (de)limitação de fronteiras existenciais que tomam como base de apoio, o discurso da suposta “normalidade” cisheterocentrada. Notamos que performances de gênero são acionadas a partir das expectativas sociais de gênero. Tais performances tendem a colocar o sexo masculino enquanto objeto de desejo primário, evidenciado pela emoção e entusiasmo nos gestos e discursos, sobretudo do pai/mãe, enquanto a menina é alocada ao objeto de desejo secundário, situada nos interditos, como: “e se for menina”, “mas caso seja menina”, “tam- bém será amada” etc. Tais atitudes trazem à tona diversos estereótipos de gênero, sobre “ser homem” e “ser mulher”. Reconhecemos, por fim, que, apesar de ter se popularizado nos últimos anos, a prática do chá de revelação não inaugura uma nova lógica. Muito pelo contrário, apenas dá respaldo à uma lógica já muito antiga e que se apresenta como um artifício de reforço à cisheteronormatividade como elemento suposta- mente “natural” da humanidade. REFERÊNCIAS ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto. Tradução: Denise Bottmann. Sâo Paulo: Companhia das Letras, 2017. 45 É de menina ou menino? BARIFOUSE, Rafael. Por que a ‘criadora do chá de revelação’ se arrepende de ter ajudado a lançar a moda. BBC News Brasil. 5 dezembro 2019. Disponível em: <https://www. bbc.com/portuguese/internacional-50663535>. Acesso em 17 de ago. 2021. BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. BENTO, Berenice. Na escola se aprende que a diferença faz a diferença. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 19(2): 336, maio-agosto, 2011, p. 549-559. BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: editora Autêntica, 2ª edição, 2000. . Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2003. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. 13ª ed. Trad. Maria T. da C. Albuquerque e J.A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro, Graal, 1988. LOURO, Guacira Lopes. Gênero, Sexualidade e Educação: Uma perspectiva pós- estruturalista. Petrópolis, Rj: Vozes, 1997. . O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2.ed. Tradução dos artigos: Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. . Currículo, gênero e sexualidade – O “normal”, o “diferente” e o “excêntrico”. In: LOURO, Guacira Lopes; FELIPE, Jane; GOELLNER, Silvana Vilodre. Corpo, Gênero e Sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Petrópolis/Rio de Janeiro: Vozes, 2013. p. 43-53. MATHELIN, Cathelin. O sorriso da Gioconda: clínica psicanalítica com bebês pre- maturos (Le sourire de la Joconde). Tradução de Procopio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999. MORENO, Montserrat. Como se ensina a ser menina. Tradução de Ana Venite Fuzatto. São Paulo: Moderna, 1999. NASCIMENTO, Pedro. Beber como homem: dilemas e armadilhas em etnografias sobre gênero e masculinidades. Revista Brasileira de Ciências Sociais. v. 31, n. 90, p; 57-71, fev/2016. PRECIADO, Paul B. Manifiesto contra-sexual – Prácticas subversivas de identidad sexual. Madrid: Opera Prima, 2002. . Testo junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica; tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1 edições, 2018. . Um Apartamento em Urano: Crônicas da Travessia. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50663535 https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50663535 46 João Paulo Baliscei (org.) ZANELLA, Eduardo Doering. Masculinidade e consumo de bebidas alcoólicas: a construção de maneiras de beber. Ponto Urbe, São Paulo, n. 9, 2011. Disponível em: <https://pontourbe.revues.org/1820>. Acesso em 28 de ago. 2021. 47 É de menina ou menino? Figura 1: Kit Máscaras infantis. Fonte: Michele Diovana (2021). MÁSCARAS COMO ARTEFATOS DEMARCADORES DE MASCULINIDADES E FEMINILIDADES: GÊNERO, CULTURA VISUAL E INFÂNCIAS Regina Ridão Ribeiro de Paula13 Thalia Mendes Rocha14 INTRODUÇÃO A mais de um ano, com o surgimento da Covid-19, passamos a adotar medidas de prevenção contra este vírus, dentre elas o uso de más- caras. A partir disso, temos a seguinte problemática: como as máscaras, dispositivos de proteção individual, tornaram-se artifícios para reforçar a divisão de gênero? A fim de encontrar possíveis respostas, temos como objetivo problematizar as visualidades presentes nas máscaras, identi- ficando aspectos que as caracterizam como artefatos demarcadores de masculinidades e feminilidades. Por meio de uma pesquisa bibliográfica 13 Licenciada em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Maringá – UEM. Parte da comissão organizadora do Grupo de Pesquisa em Arte, Educação e Imagens – ARTEI. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9337254115191656. 14 Licenciada e laureada em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Maringá – UEM. Cursa “Especialização em Arte e Educação Contemporânea” na Universidade Federal do Tocantins – UFT. Lattes: http://lattes.cnpq.br/0974002199620959. http://lattes.cnpq.br/0974002199620959 48 João Paulo Baliscei (org.) de caráter qualitativo, pautada nos Estudos da Cultura Visual - ECV e de Gênero, ressaltamos os impactos de uma cultura patriarcal, com dualidades generificadas sobre as infâncias. Com o surgimento da Covid-19 em dezembro de 2019, e com o anúncio de uma Pandemia, feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o surto de Coronavírus (SARS-CoV-2), causador da Covid-19, ocasionou milhares de mortes em nível nacional e mundial. Até o atual momento, com um ano e seis meses de pandemia, foram computadas 569,788mil vítimas fatais só no Brasil, o que, dentre outras coisas, acarretou no distanciamento social como principal método de prevenção (AQUINO, et al. 2021). A partir de março de 2020 nossos hábitos diá- rios foram modificados com mais intensidade e, desde então, o mundo inteiro passou a adotar medidas de proteção obrigatórias como o uso de máscaras, álcool em gel e o distanciamento social. Já se passou mais de um ano do início da pandemia, e até o presente momento, ainda nos apresentamos de forma diferente ao sair de casa, e a máscara passou a ser componente indispensável e obrigatório15 para todos/as. Sendo assim, a máscara, equipamento de proteção individual (EPI), passou a ocupar outros espaços. Antes da pandemia, ela era comumente relacionada apenas às áreas da saúde e beleza, agora, expandiu-se ao uso domiciliar e cotidiano, tornando-se dispositivo indispensável à toda população mundial. Após o início da pandemia houve uma grande oferta de máscaras como produto de comercialização, sobretudo quando nos referimos às máscaras de tecido, que são as escolhidas e adotadas pela maioria das pessoas16 aqui no Brasil. Com a grande demanda devido à expansão do consumo destas máscaras, cresceu também a variedade deste 15 A Lei nº 14.019/2020 dispõe sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras de proteção individual para circulação em espaços públicos e privados acessíveis à população, em vias de circulação e em transportes coletivos, sobre a adoção de medidas de assepsia de locais de acesso à população, durante a vigência das medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente da pandemia da Covid-19. 16 Apesar da grande utilização das máscaras de tecido pela população no início da pandemia em virtude da grande demanda de outros modelos (inicialmente restritos aos/às profissionais da área da saúde), estudos recentes recomendam a utilização de máscaras tipo (PFF2), pois estas possuem maior poder de filtração contra o vírus. 49 É de menina ou menino? produto, que pode ser encontrado em diversos modelos, tamanhos, cores e estampas, fabricadas tanto por grandes empresas como por pequenos/ as empreendedores/as. Desta forma, organizamos este capítulo, em dois momentos para além desta introdução e das considerações finais. Em um primeiro momento levantamos dados que nos respaldam ao problematizar as visualidades presentes no uso de máscaras, questionando possíveis mar- cadores de gênero, como por exemplo, cores, personagens, modelos e estampas que reforçam as distinções entre comportamentos taxados como exclusivos de meninos ou meninas, homens ou mulheres, acentuando determinados padrões, ações e discursos a respeito das feminilidades e masculinidades que culturalmente vêm sendo estabelecidas. No segundo momento, que antecede nossas considerações finais, apresentamos imagens que reforçam e dão vazão para a problemática aqui proposta, argumentando que os indivíduos, desde suas infâncias, têm seus corpos demarcados por identidades fabricadas visualmente, estigmatizando-as a partir do feminino e masculino, mesmo que por meio do uso de artefatos, como os que aqui problematizamos: as máscaras. Perante o exposto, estas reflexões, apontam para um olhar crítico diante das visualidades que compõem os artefatos da cultura visual contemporânea. Por mais sutis que eles sejam, acompanham-nos em nosso dia a dia, produzindo identidades que reforçam (ou não) modelos restritos de feminilidades e masculinidades. Intentamos assim, apontar as visualidades presentes nas máscaras, como exemplo de imagens que precisam ser repensadas na contemporaneidade, relacionando-as com as identidades de gênero que produzem, a quem são endereçadas e a quais comportamentos e padrões elas reforçam e estabelecem. “PAÍS DE MARICAS”: mASCULINIDADE FRÁGIL E O USO DE MÁSCARAS Neste primeiro momento, ao problematizar o uso de máscaras, realizamos um levantamento bibliográfico de materiais publicados até agora. Pedro Kascher Silva, Camilla Costa Ribeiro e Marta Cristina Duarte (2021) levantaram dados a partir de um questionário online 50 João Paulo Baliscei (org.) disponibilizado nas redes sociais, entre os meses de agosto e setembro de 2021, direcionado a indivíduos residentes na cidade de Juiz de Fora, MG, e maiores de 18 anos de idade. Esses dados, junto aos ECV e de Gênero, nos auxiliam a apontar para pensamentos e visualidades que fazem alusão às identidades tidas como femininas e masculinas. Possibilitam inclusive a identificação de marcadores de gênero que, de formas tóxicas e sexistas, perpassam pensamentos e comportamentos tidos como “naturais” e culturais em pleno século XXI, inclusive aos relacionados à proteção individual. De acordo com a pesquisa, os principais motivos que os/as entre- vistados/as apontaram para justificar o não uso de máscara foi: por achar incômodo (17,04%), por não acreditar na efetiva proteção das másca- ras contra o Covid-19 (4,6%) e por achar feio (1,1%). Silva, Ribeiro e Duarte (2021), ao comparar variáveis relacionadas ao uso de máscaras, apontam para uma maior exposição de homens sem o uso de máscaras em possíveis situações de contágio (9,76%), enquanto para as mulheres entrevistadas, esses dados são de (4,4%). O autor e as autoras destacam que outras pesquisas também indicam que o uso de máscaras pelos homens é menos recorrente do que pelas mulheres. Nelas as justificativas são de que os homens não “acham legal”, têm vergonha e até consideram o uso de máscara como sinal de fraqueza. A pesquisa também apresenta outro fator relevante: o de que os homens são mais negligentes com a própria saúde. As inferências de Silva, Ribeiro e Duarte (2021) aproximam-se das reflexões apontadas pelos ECV, como destaca João Paulo Baliscei (2020) que, a partir desse aporte teórico, identifica socialmente carac- terísticas típicas de uma sociedade machista e heteronormativa. Baliscei (2020, p. 16) destaca, por exemplo, algumas das características cobradas socialmente como as que estabelecem [...] que homens não choram; que homens não falam fino e nem desmedidamente; que homens não sentem (ou ao menos não demonstram) dor, medo e saudade; que homens têm métodos específicos de andar, sentar e cumprimentar; que homens não põem a mão na cintura, 51 É de menina ou menino? não mexem o quadril, nem consideram outro homem bonito e atraente. Ao refletir e levantar dados sobre a violência que essas caracte- rísticas machistas podem acarretar para sociedade, o autor considera que esses comportamentos socialmente aceitos e atribuídos aos homens podem acarretar consequências negativas como o consumo excessivo do álcool, o uso agressivo da força, a velocidade em meios de transportes, o estímulo à competição e, inclusive, o apagamento do sentimento de medo. Atitudes que se ampliam ao menor sinal de ameaça ou em situações que questionam tais masculinidades, apontando-as como “frágeis”. Desse modo, estes comportamentos se tornam nocivos a quaisquer pessoas que ofereçam ameaças à “normalidade” machista hegemônica e heterossexual. Notícias de homens que se recusam a utilizar máscaras têm se tornado cada vez mais frequentes no Brasil e também no mundo, desde o início da pandemia. Dentre tantos destacamos o caso de uma funcionária de uma padaria em Palmares Paulista, São Paulo (G1, 2021), que teve o braço quebrado por um cliente que adentrou o estabelecimento com a máscara na altura do queixo. Quando ele foi advertido pela funcionária quanto à necessidade de utilizar a máscara da forma correta, revoltou- -se e a agrediu fisicamente. A vítima foi encaminhada ao hospital com hematomas e fratura em um dos braços. O homem foi encaminhado à delegacia e liberado logo depois. Outro exemplo que vai ao encontro daquilo que apontam Silva, Ribeiro e Duarte (2021) e Baliscei (2021) é o comportamento do atual presidente da república Jair Messias Bolsonaro (1955--) que, desde o início da pandemia, demonstra-serelutante a adotar medidas de proteção como distanciamento social, o lockdown e principalmente o uso de máscaras. Ele se apresentou sem o equipamento de proteção individual em várias ocasiões ao se expor publicamente e promoveu aglomerações, como as motociatas realizadas em diversas regiões do país. Recentemente, Bol- sonaro voltou a defender a desobrigatoriedade (ESTADÃO, 2021a) do uso de máscaras pelos/as brasileiros/as e solicitou ao ministro da saúde, Marcelo Quiroga (1931), um estudo sobre a dispensação do uso de más- caras por pessoas que já foram vacinadas ou infectadas (ESTADÃO, 52 João Paulo Baliscei (org.) 2021b), o que contraria as recomendações da Organização Mundial da Saúde – OMS e também muitas pesquisas científicas. Assim como no título deste tópico o uso do termo “maricas”, guarda relação com as inferências apontadas por Baliscei (2020, p. 107) ao descrever os termos “mocinha”, “mulherzinha” e “mariquinha” como sendo provocações e ataques homofóbicos utilizados para insultar os sujeitos masculinos. O autor destaca existir uma condição imposta socialmente de “insubordinação” comum aos sujeitos masculinos que se afastam de ideais hegemônicos, sendo esta condição tanto para os homens não heterossexuais, como para os que são mas, mesmo assim, não se identificam com as características indicadas socialmente com sendo “masculinas”. Baliscei (2020, p. 107) completa inferindo ser necessário um “[...] olhar para a homofobia como uma violência que não atinge apenas os homens e mulheres homossexuais”. Ao analisarmos os dados e reflexões relatados acima, consideramos que o uso de um simples equipamento de proteção pode se tornar mais um artifício para a divisão de gênero e para reforçar determinados padrões de masculinidades e feminilidades, concordando com Luciana Borre (2010. p. 60) quando aponta que “gênero é uma identidade fabricada, produzida ao longo da vida por diversas pedagogias culturais, pois se aprende a viver como homem e como mulher''. Assim sendo, consideramos relevante apresentar imagens que, desde a infância, como indica a Figura 1 que abre este capítulo, contribuem culturalmente para reforçar e dar vazão a demarcadores de identidades que são fabricados socialmente e que estigmatizam os corpos a partir do feminino e masculino. MÁSCARA DE MENINO E MÁSCARA DE MENINA! REFLEXOS DA IDENTIFICAÇÃO DE GÊNERO NOS CORPOS INFANTIS Quando fazemos referência às crianças e ao uso de máscaras, consideramos as recomendações da médica Alessandra Marins Pala à Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), ao recomendar que crianças com menos de dois anos não podem utilizar o equipamento de proteção pois pode lhes ocasionar sufocamento. Para as demais crianças, assim como 53 É de menina ou menino? para os/as adultos/as, há uma grande variedade de modelos, estampas e tamanhos de máscaras. No que diz respeito às máscaras endereçadas às crianças é possível notar uma gama de produtos coloridos, que fazem referência a personagens de desenhos e filmes infantis. Figura 2: Máscaras de tecido endereçadas aos meninos e meninas Fonte: Google.com. A partir do termo de busca “máscaras para meninos” e “máscara para meninas”, respectivamente. Acesso em: 29 jun. 2021. A partir do termo “máscaras para meninas” e “máscaras para meninos” no navegador de pesquisa do Google, localizamos as imagens apresentadas na figura 2. Na imagem à esquerda, observamos a pre- sença de personagens que são considerados socialmente endereçados aos meninos, segundo resposta do navegador do Google. São eles: o Homem de Ferro, Capitão América, Homem Aranha e o Ben 10. Além desses, encontramos uma estampa de dinossauro, brinquedo considerado típico “de meninos”, um pirata destemido e o personagem de desenho animado Mickey. Notamos ainda certa predominância das cores verde, azul, ama- relo, vermelho e preto. Nesta imagem em específico observamos que o formato das máscaras endereçadas aos meninos é mais geométrico, com linhas retas e firmes. As máscaras encontradas pela busca de “máscaras para meninas”, conforme a imagem localizada à direita da Figura 2, indicam a presença de personagens de desenhos e filmes infantis endereçadas às meninas, sendo elas, a Mulher Maravilha, Patrulha Canina, Peppa Pig e Minnie. Diferentemente das máscaras “de meninos”, as “de meninas” apresentam predominância da cor rosa, e de tons pastel, estampas mais delicadas, 54 João Paulo Baliscei (org.) com arco-íris, nuvens, bolinhas, flores, laços, sapatos de salto, ursos pandas e unicórnios. Além de apresentar um formato mais “delicado” com formas arredondadas e linhas curvas e fluidas. Frisamos ainda, que, ao procurarmos por máscaras infantis em lojas físicas de roupas e brinquedos, a primeira pergunta que recebe- mos por parte de quem nos atendeu foi: “de menino” ou “de menina"? Posteriormente às respostas que demos, percebemos que as visualidades apresentadas pelos/as vendedores/vendedoras envolveram as cores e personagens semelhantes aos das imagens que aqui apresentamos. Vale ressaltar, que as máscaras também compõem e adentram os espaços formais e não formais de ensino, como escolas, creches e Centros de Educação Infantil - CMEIs. Desta forma destacamos que: As imagens que os estudantes trazem para a sala de aula ilustram e promovem, certa “precisão”, os gostos, os desejos e os comportamentos aceitos para cada gênero. As crianças, através de suas preferências por determi- nados brinquedos, personagens e materiais escolares, demonstram que vivenciam diversas experiências visuais que delimitam o que meninos e meninas podem fazer pensar e desejar (BORRE, 2010. p. 70). Como a autora destaca, assim como os inúmeros artefatos que já adentram o universo infantil e sobretudo os espaços escolares - como livros, cadernos, estojos, roupas, bolsas, brinquedos, sapatos, dentre outros - acrescentamos, mais recentemente, as máscaras. Acreditamos que, diante do atual contexto, esses artefatos da cultura visual permane- cerão fazendo parte da rotina das crianças por algum tempo, visto que as vacinas têm sido aplicadas por faixas etárias, e, no Brasil, este grupo ainda não tem previsão de vacinação. É importante destacar que mesmo após tomar as duas doses da vacina, ou a dose única ainda é necessário o uso da máscara e das demais medidas de prevenção. Dessa forma, o papel de profissionais da educação, conforme teóricos/as que se debruçam sobre os ECV, não é o de evitar ou proibir o uso de artefatos promovidos e padronizados culturalmente, como as cores e personagens presentes nas imagens aqui apresentadas, mas sim, 55 É de menina ou menino? como defende Baliscei (2020, p. 54) “Ao invés disso, incentivam-se que as imagens da cultura visual – que há tantos anos vêm sendo evitadas pelos/as profissionais, currículo e espaços escolares – sejam inseridas e debatidas nas discussões educativas.” CONSIDERAÇÕES FINAIS Perante o exposto, estas reflexões apontam para um olhar crítico diante das visualidades que compõem os artefatos da cultura visual na contemporaneidade, inclusive as endereçadas às crianças. As caracte- rísticas atribuídas culturalmente sobre os artefatos, considerando-os como sendo “de menino” ou “de menina” são passíveis de reflexões e transformações por meio de uma análise crítica e transformadora. Neste ponto, os ECV e os Estudos de Gênero contribuem fortemente para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e humanitária, que não subvaloriza a disputa de poder em detrimento às identidades dos indivíduos. Contudo, as reflexões até aqui elencadas, apesar de identificarem que na contemporaneidade também existem e persistem o uso e a prá- tica de pensamentos e ações que caracterizam e delimitam identidades de gênero, também revelam a sensibilidade que os ECV têm tido em abordar esse tema e em contribuir consideravelmente para diferentes construções de significados. Chamamos atenção para os discursos que permeiam o simples ato de utilizar um itemde proteção individual, e como as visualidades das máscaras contribuem para a manutenção de masculinidades e feminilidades hegemônicas. Por fim, ressaltamos a importância de olhar, por meio de outras lentes, determinados comporta- mentos e ações que ainda estão enraizados, naturalizados e reproduzidos de forma “automática” em nosso dia a dia, inclusive nos espaços escolares. REFERÊNCIAS AMARANTE, Suely. Covid-19: Especialista do IFF/Fiocruz orienta sobre o uso de máscaras em crianças. Portal FioCruz. Rio de Janeiro, 09 set. 2020. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/covid-19-especialista-do-iff/fiocruz-orienta-sobre-o- uso-de-mascaras-em-criancas. Acesso em: 29 jun. 2021. https://portal.fiocruz.br/noticia/covid-19-especialista-do-iff/fiocruz-orienta-sobre-o-uso-de-mascaras-em-criancas https://portal.fiocruz.br/noticia/covid-19-especialista-do-iff/fiocruz-orienta-sobre-o-uso-de-mascaras-em-criancas 56 João Paulo Baliscei (org.) AQUINO. Estela Maria Leão de et al. Medidas de distanciamento social no controle da pandemia de COVID-19: potenciais impactos e desafios no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, 25 (Supl.1):2423-2446, 2020. Disponível em: https://www. scielosp.org/article/csc/2020.v25suppl1/2423-2446/pt/. Acesso em 25 jun. 2021. BALISCEI, João Paulo. Provoque: cultura visual, masculinidades e ensino de artes visuais. Rio de Janeiro: Metanoia, 2020. BORRE, Luciana. As imagens que invadem as salas de aula: reflexões sobre a cultura visual. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2010. BRASIL. Lei Nº 14.019/2020 de 2 de Julho de 2020. Dispõe sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras de proteção individual para circulação em espaços públicos e privados acessíveis ao público. Brasília: Diário Oficial da União. 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/ en/web/dou/-/lei-n-14.019-de-2-de-julho-de-2020-264918074. Acesso em: 24 jun. 2021. DIOVANA, Michele. Kit 3 Mascaras 3d Infantil. Taquara, Rio Grande do Sul, 2021. Disponível em/: https://www.elo7.com.br/kit-3-mascaras-3d-infantil/dp/12DCFAD. Acesso em: 9 jul. 2021. ESTADÃO. Bolsonaro volta a defender a desobrigatoriedade do uso de máscara no Brasil. Nd+ Notícias. Santa Catarina, 11. jun. 2021a. Disponível em: https://ndmais.com.br/ saude/bolsonaro-volta-a-defender-desobrigatoriedade-do-uso- de-mascara-no-brasil/. Acesso em: 29 jun. 2021. ESTADÃO. Uso de máscara deve ser decisão de Estados e municípios, diz Bolsonaro. Nd+ Notícias. Santa Catarina, 11 ago. 2020b. Disponível em: https://ndmais.com.br/ saude/estados-e-municipios-devem-decidir-sobre-uso-de- mascara-diz-bolsonaro/. Acesso em: 30 ago. 2021. HERNÁNDEZ, Fernando. Catadores da cultura visual: transformando fragmentos em nova narrativa educacional. Porto Alegre: Mediação, 2007. SILVA, Pedro Kascher; RIBEIRO, Camilla Costa; DUARTE, Marta Cristina. Avaliação do uso de máscaras de acordo com sexo, idade e situação laboral durante a pandemia de COVID-19. Revista: Brazilian Journal of Health Review. Curitiba, v.4, n.1, p.465- 474 jan./feb. 2021. Disponível em: https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJHR/ article/view/22735/18221. Acesso em: 29 jun. 2021. TV TEM. Funcionária de padaria tem braço quebrado por cliente após pedir para homem usar máscara contra a Covid. São José do Rio Preto, 14 ago. 2021. G1 Globo. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-jose-do-rio-preto- aracatuba/noticia/2021/06/14/funcio- naria-de-padaria-e-agredida-apos-pedir-para- cliente-usar-mascara-contra-a-covid-19. ghtml. Acesso em: 30 ago.2021. http://www.scielosp.org/article/csc/2020.v25suppl1/2423-2446/pt/ http://www.scielosp.org/article/csc/2020.v25suppl1/2423-2446/pt/ https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.019-de-2-de-julho-de-2020-264918074 https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.019-de-2-de-julho-de-2020-264918074 http://www.elo7.com.br/kit-3-mascaras-3d-infantil/dp/12DCFAD http://www.elo7.com.br/kit-3-mascaras-3d-infantil/dp/12DCFAD https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJHR/article/view/22735/18221 https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJHR/article/view/22735/18221 57 É de menina ou menino? Figura 1: Menino e menina brincando de boneca. Fonte: <https://gq.globo.com/Paternidade/noticia/2019/05/meninos-podem-e-devem- -brincar-de- boneca-se-eles-quiserem.html>. Acesso em 6 de set. de 2021. “BONECA É COISA DE MENINA”: A VIRILIZAÇÃO E A DOCILIZAÇÃO DE MENINOS E DE MENINAS NO MUNDO DE DOIS SEXOS Andréa Zíngara Miranda17 INTRODUÇÃO A imagem de abertura deste capítulo é uma foto-divulgação que ilustra a notícia intitulada Meninos podem (e devem) brincar de bonecas se eles quiserem, veiculada pela revista digital GQ em maio de 2019. A imagem poderia ser apenas uma fotografia realizada em um dia qualquer, com crianças que se inserem nas atividades banais da casa onde vivem, e brincam despreocupadamente, não é mesmo? A resposta a essa questão seria muito óbvia, caso se compreendesse que toda e qualquer criança em fase de desenvolvimento busca interação com tudo aquilo que a cerca, sem ao menos suspeitar de que os objetos com os quais ela interage, se 17 Doutora em Letras pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá-UEM. Professora na Rede Pública de Ensino. Membra do Grupo de Estudos Foucaultianos da UEM – GEF. Lattes: http://lattes.cnpq.br/0907423423858609. 58 João Paulo Baliscei (org.) identifica ou que ela refuta, marcariam para sempre sua sexualidade, podendo, inclusive “manchar” a honra de seu sexo. Consoante às percepções de Baliscei e Cunha (2021) quando sugerem haver “projetos de masculinização dos meninos”, propõe-se, aqui, problematizar os efeitos de evidência de uma cultura visual hete- rocêntrica, cuja base se solidifica ora na docilização ora na virilização18 dos sujeitos meninos e meninas, desde seu nascimento. Para isso, esco- lheu-se, para esta discussão, uma série enunciativa composta por duas imagens que, juntas, formam um discurso emblemático da materialização de um mundo de dois sexos, a saber: Figura 1) imagem composta por um menino e uma menina brincando de boneca (GQ , 2019); e Figura 2) imagem de uma bebê recém-nascida com um brinco que atua como uma espécie de identificador de seu sexo (Reportagem UOL, 2017). Figura 2: Bebê recém-nascida, portando brinco. Fonte: <https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce- -precisa-saber- antes-de-furar-a-orelha-de-um-recem-nascido.htm>. Acesso em: 06 de set. 2021. 18 As noções de docilização e de virilização serão explicadas em momento oportuno, mais à frente. http://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce-precisa-saber- http://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce-precisa-saber- http://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce-precisa-saber- http://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce-precisa-saber- 59 É de menina ou menino? Buscou-se, para isso, analisar o funcionamento do dispositivo da sexualidade na e para a instituição de saberes que possibilitam o estabe- lecimento e a naturalização de verdades concernentes à sexualidade de meninas e de meninos. Desse objetivo mais geral, desdobram-se dois questionamentos mais específicos: i) entender como o dispositivo da sexualidade promove saberes sobre o sexo e a sexualidade dos sujeitos; ii) compreender como os acontecimentos históricos atravessam a prática discursiva social e instauram uma hierarquia entre os sexos, naturali- zando discursos que ora docilizam e ora virilizam o menino e a menina. Articularam-se, aqui, conceitos como os elaborados por Michel Fou- cault (1985, 2009, 2020), cujos contributos possibilitaram uma análise arqueogenealógica, isto é, uma análise que prioriza o imbricamento entre a descrição dos enunciados e a análise das estratégias de poder neles circunscritas, portanto, arqueológica e genealógica respectivamente. A CONSTRUÇÃO DO MUNDO DE DOIS SEXOS O sintagma provocativo “As confissões da carne”, quedá nome ao último volume da História da Sexualidade (2020), dá continuidade à investigação histórica sobre o cuidado de si mesmo e a consequente con- dução das condutas, discutidos sobremaneira por Foucault nos volumes I, II e III, aos quais se está, de certa forma, habituada ou habituado a encontrar em pesquisas científicas. Entretanto, com a publicação póstuma, em 2018, na França, do volume IV dessa densa e complexa pesquisa, intensifica-se a problematização dos aphrodisia. É na terceira parte da referida obra, intitulada Ser casado, que se percebe uma atualização das já conhecidas técnicas estratégicas da arte cristã de governar. Tendo como cenário o matrimônio, a submissão da mulher ao homem e todas as consequências disso um tanto naturalizadas, encontram-se nessa terceira parte sinais da proveniência de um machismo bem alicerçado e cristalizado no Ocidente. Se por um lado, o homem pode ser considerado “vilão” e “domi- nador” do “sexo frágil”, por outro lado, houve tempos em que a mulher foi considerada causa de todos os males. Somente no deserto os homens 60 João Paulo Baliscei (org.) estariam a salvo das tentações e, especialmente, das mulheres, suge- ria Santo Agostinho (CATTONÉ, 1994). Essa imagem ameaçadora, concebida pelo cristianismo primitivo, sobrevive durante toda a Idade Média, passando pelo Renascimento, indo até o século XVII. O cris- tianismo, maior responsável pela construção da concepção da mulher maléfica, instituiu uma relação entre a feminilidade, o sexo e o mal. Nessa perspectiva, a mulher era traiçoeira, pois lançava os homens uns contra os outros, semeando luxúria e ciúmes e, a partir da crença de seu surgimento da “costela de Adão”, “[...] a mulher passa a corporificar a corrupção material associada à carne” (NUNES, 2000, p. 22). Concebida, então, como filha e herdeira de Eva, cria-se que ela era inerentemente inferior, não apenas fonte do pecado original, mas também um instrumento do diabo por ter sucumbido à tentação. Conforme Nunes (2000), o clero, mesmo devendo pensar a humanidade, a sociedade e a Igreja, incluindo aí orientações no plano da salvação, distanciava-se das mulheres, enclausurado que estava no universo masculino em prol do celibato e, portanto, de uma vida imaculada. Distanciava-se, enfim, da portadora do mal e da morte, tendo como única imagem salvadora a da Virgem Mãe, esta, inacessível às “Evas mortais”. O que se tinha até aí era uma inferioridade contra a qual era inútil lutar, visto que a mulher era tida como naturalmente inferior ao homem, já que somente graças a ele, ela pôde vir a existir. Considerando essa perspectiva, identifica-se aí sinais sólidos de fabricação de sujeitos segundo o modelo de mascu- linidade heterossexual. No âmbito da razão, há quem diga que a ciência e a filosofia, por exemplo, não são compatíveis às mulheres. Entretanto, Nunes (2000) retoma dados de estudos como o do filósofo de La Barre que, ancorado em preceitos cartesianos para os quais a razão independe do corpo, postulava a possibilidade de igualdade, ao menos intelectual, entre os dois sexos. Para ele, a vocação das mulheres à maternidade é uma superioridade moral, pois do contrário, não se lhe atribuiria uma responsabilidade tão grande como a maternidade a um ser tão desqualificado. Foi preciso muito tempo, todavia, para que a imagem diabólica da mulher come- çasse a mudar. Com a chegada do século XVIII, transformam-na em 61 É de menina ou menino? um ser sensato e indulgente. Finalmente, Eva, sem espaço para sê-lo, dá lugar à Maria. O novo perfil feminino, surpresa nenhuma, traz em seu bojo mudanças na forma de pensar o perfil masculino. A mulher maléfica e pecadora é disciplinada e as diferenças entre homens e mulheres passam, assim, a ser vinculadas à diferença sexual, diferentemente do que se fazia em períodos anteriores ao século XVIII. O segundo sexo, de que falava Beauvoir (1986), parece ser fruto de um período bem anterior à sua existência, período em que a mulher é percebida como um homem incompleto, pensamento que dominou o Ocidente da Antiguidade tardia à Renascença. A teoria dos humores de Aristóteles e de Galeno e a descrição judaico- cristã formam dois sistemas que alicerçam tal pensamento. Na passagem a seguir, descrita por Foucault (1985) quando de sua interpretação das análises de Galeno a propósito dos aphrodisia no tratado Do uso das partes, compreende-se a teoria dos humores relacio- nada à diferença sexual: [...] para ele como para toda uma tradição filosófica, é na falta de eternidade que se enraíza a necessidade da separação dos sexos, a intensidade de sua atração recíproca e a possibilidade da geração. [...] ‘vire para fora as partes da mulher, vire e volte para dentro as do homem, e encontrareis a ambas muito semelhantes’. Ele supõe a emissão de esperma da mulher como no homem, a diferença consistindo em que a elaboração desse humor é menos perfeita e menos completa na mulher: o que explica seu papel menor na formação do embrião. (FOUCAULT, 1985, p. 110-112). As análises de Galeno se inserem na temática antiga das relações entre morte, imortalidade e reprodução. A questão da extensão do cará- ter sexual para além da reprodução ficou fadada a um longo silêncio, do século XVII ao início do século XVIII, por parte de filósofos e de anatomistas, quando finalmente o silêncio rompido deu lugar a ques- tionamentos, o que resultou em uma nova forma de pensar a diferença 62 João Paulo Baliscei (org.) sexual. Nessa nova forma, tal diferença é considerada determinante do caráter de homens e de mulheres. O período da Renascença, citado há pouco, é marcado pela escrita de vários textos nos quais se sublinham o masculino ao confrontar “[...] a masculinidade à questão da impotência como à percepção do poder e o lugar das mulheres na sociedade” (KRITZMAN, 2013, p. 217). Ao transpor a formulação de Beauvoir para quem não se nasce, mas torna- -se homem ou mulher, Kritzman (2013) enfatiza que a virilidade não é um efeito comandado pelo corpo, mas é uma construção social e um fenômeno psicológico, os quais dão acesso à virilidade. Mas, perguntará a/o leitor/a, o que isso tem a ver com a virilização e a docilização de meninos e de meninas? É com intuito de compreender como os acon- tecimentos históricos atravessam a prática discursiva social e instauram, por conseguinte, a hierarquia entre os sexos, que se responderá a essa questão na próxima seção. A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA HIERARQUIA ENTRE OS SEXOS Para discutir sobre a construção histórica da hierarquia entre os sexos, é preciso, primeiramente, deixar evidente o que se pretende dizer quando se reporta às noções de docilização e de virilização. Em uma perspectiva foucaultiana, docilizar significa tornar o indivíduo dócil, domesticado, isto é, tornar o indivíduo disciplinado; virilizar o homem ou a mulher, por sua vez, significa, aqui, torná-la e torná-lo conforme o modelo de masculinidade heterossexual. Fazer alusão a essas duas noções significa entender que tanto o menino quanto a menina são, ambos, vítimas de construções sociais que o e a fabricam a partir de uma visão heterossexual compulsória. Sob esse mirante, meninos e meninas são, desde muito cedo, disciplinados para se comportarem de tal ou tal maneira segundo o seu sexo. Pode- se buscar em vários momentos da história a edificação da hierarquia entre os sexos, mas basta recuar ao século XVIII, com a importante figura do filósofo das Luzes, Jean- Jacques Rousseau, para quem meninas e meninos devem ter seus papéis sociais cuidadosamente definidos. Contrariando sua proposta de 63 É de menina ou menino? igualdade universal, Rousseau negou às mulheres o estatuto de cidadã, mas não deixava de valorizá-las ao atribuir-lhes a perfeição. Perfeição, porém, quanto às suas características morais e biológicas condizentes com as funções maternas e com a vida doméstica, sob o argumento de que isso não era uma imposição social, mas umdesígnio da natureza, ideais eternizados em Emilio, quando esse pensador apregoava que “Sem mãe, não há filho”. (ROUSSEAU, 1995, p. 22). O pai é dispensável, caso se desconsidere esse determinismo biológico? A essa pergunta, o próprio filósofo respondeu: “Se as mulheres voltarem a ser mães, logo os homens voltarão a ser pais e maridos” (ROUSSEAU, 1995, p. 21). Se a natureza, esse princípio normativo, advoga que cada sexo tem sua especificidade e seu lugar no mundo, como preconizava o “grande” filó- sofo Rousseau, e se, a dependência do sexo frágil em relação ao seu oposto é condição natural, por que esse mesmo filósofo fez prescrições severas no tocante à educação da menina? Ele sugeriu, por exemplo, disciplinar seu corpo, seus sentimentos e seus desejos para que seu caráter dócil, passivo e subserviente estivesse a salvo, como se pode observar nesta passagem: Justificai sempre os trabalhos que impondes às meninas, mas não deixeis de impô-los. O ócio e a indocilidade são os dois defeitos mais perigosos para elas, e os de cura mais difícil uma vez que os tenham adquirido. As meninas devem ser vigilantes e laboriosas; não é só isso: elas devem ser incomodadas cedo. Essa infelicidade, se é que se trata de uma infelicidade, é inseparável de seu sexo, e nunca se livrarão dela, a não ser para sofrer outras muito mais cruéis. Devemos treiná- las primeiro para as coisas obrigatórias, para que nunca lhes custem; devemos ensiná-las a domar todas as suas fantasias, para submetê- las às vontades de outrem. Nas nossas loucas instituições, a vida da mulher de bem é uma luta perpétua contra si mesma, e é justo que a mulher compartilhe o sofrimento pelos males que nos causou (ROUSSEAU, 1995, p. 509). Os meninos também não teriam escapado à “rigidez” rousseau- niana. Quando de sua extensa descrição a propósito da escolha de uma 64 João Paulo Baliscei (org.) profissão para Emílio, sob a justificativa de que o trabalho é um dever indispensável ao homem social, afirmou: Daí ao homem um ofício que convenha a seu sexo e ao jovem um ofício que convenha à sua idade; toda profissão sedentária e caseira, que efemina e amolece o corpo não lhe agrada nem lhe convém. Nunca um jovem rapaz aspirou a ser alfaiate; é preciso ter arte para levar a esse ofício de mulheres o sexo para o qual ele não foi feito. A agulha e a espada não poderiam ser manejadas pelas mesmas mãos. Se eu fosse rei, só permitiria a costura e os ofícios de agulha às mulheres e aos coxos reduzidos a trabalhar como elas. Todo homem fraco, delicado, temeroso, é condenado por ela à vida sedentária; é feito para viver com as mulheres ou à maneira delas. Que exerça alguma profissão que lhes seja própria, muito bem; e, se forem absolutamente necessários verdadeiros eunucos, que se reduzam a tal estado os homens que desonram seu sexo exercendo empregos que não lhes convêm. Sua escolha anuncia o erro da natureza; corrigi tal erro de uma maneira ou de outra, e só tereis feito o bem. Proíbo ao meu aluno os ofícios insalubres, mas não os ofícios penosos, nem mesmo os ofícios perigosos. Eles exercitam ao mesmo tempo a força e a coragem; são próprios unicamente para os homens; (ROUSSEAU, 1995, p. 256-257). Ao se considerar os papéis definidos a um e a outra, tal qual descrito por Rousseau (1995), compreende-se, desde logo, que um menino não só não pode, como não deve manusear bonecas, pois isso desonra seu sexo, uma vez que efemina e amolece seu corpo. Tal escolha anunciaria o erro da natureza. De qualquer modo seria um ledo engano e uma inge- nuidade imputar ao filósofo a construção da hierarquia entre meninos e meninas ou homens e mulheres, na qual as leis da complementaridade, da essência e, por consequência, do determinismo biológico, criariam a fatal incompatibilidade, seja física, moral ou intelectual. Reportando a Foucault (2009), para quem os discursos não se formam no fundo confuso das ideias, mas, ao contrário, sua emergência é possibilitada por outros enunciados que tratam do mesmo objeto, ainda que disper- sos, compreende-se que é justamente nessa dispersão, no tempo e no 65 É de menina ou menino? espaço, que se buscam a “ruptura acontecimental”; os estilhaços da(s) história(s), enfim, para fazer aparecer certa regularidade a partir da qual se configura um acontecimento discursivo, isto é, certa evidência de uma cultura visual heterocêntrica, cuja base se solidifica ora na docilização, ora na virilização dos sujeitos meninos e meninas. A partir do conceito de contrassexualidade, Preciado (2014) propõe justamente ultrapassar a ideia de gênero e de sexo diferenciados por visões essencialistas e biológicas pautadas na heteronormatividade e no binarismo “construção social e natureza”. A proposta contrassexual convida a deslocar os referidos conceitos e entendê-los como sistemas tecnológicos mais amplos. Embora suas reflexões estejam em consonân- cia com as teorias do dispositivo da sexualidade tratadas por Foucault e com as identidades performativas discutidas por Butler 2012), tendo com a última um diálogo teórico mais consistente, Preciado (2014) prefere apostar no gênero como algo prostético e que só se daria na materialidade dos corpos. Ao se deparar com os enunciados-imagens das Figuras 1 e 2, muito provavelmente a menina com brinco não causa estranhamento. Pelo contrário, ratifica a imagem que se espera de uma menina recém-nascida. O primeiro brinco é parte indispensável de tudo o que é pensado como sendo essencial a uma criança identificada como possuidora do sexo feminino. Normalmente uma criança, ao nascer, tem poucos cabelos e seus traços físicos nem sempre estão bem definidos a ponto de se estabelecer, e isso é uma necessidade social, uma “identidade de gênero” ao novo membro ou membra da família. Assim, o brinco é, em muitas sociedades, mas principalmente no Brasil, o símbolo, por excelência, da feminilidade. Já a primeira Figura não só causa estranhamento, como gera intrigas familiares com relação à conduta da mãe que permite que seu filho, menino, brinque com um boneco ou boneca. Diz-se “mãe” porque normalmente a figura paterna fica isenta dessas tarefas, isto é, o pai não é convocado pela sociedade para os cuidados diários da criança sob justificativa de que passa mais tempo fora de casa que a mãe ou de que homem não “leva jeito” com infantes. Hoje, sabe-se que homens e mulheres trabalham e passam igualmente um tempo relativo fora de 66 João Paulo Baliscei (org.) casa, mas ainda assim, principalmente quando se trata de crianças muito pequenas, os cuidados são deixados a cargo da mãe. O menino que vê no boneco ou boneca apenas um brinquedo e, muitas vezes, imita o que outras crianças ou adultos/as fazem, pode estar “manchando” a honra de seu sexo. Advindo de uma concepção equivocada de sexo, o discurso heteronormativo naturaliza as categorias de masculino e de feminino, ancorado em um determinismo biológico, como critica Butler (2012), confundindo sexo e sexualidade. Com isso, exclui-se a possibilidade de o menino também aprender a lidar com um ou uma bebê para quando for solicitado a fazê-lo. Voltando ao campo do sexo, uma das metas da educação das jovens no século XIX era evitar o desenvolvimento inadequado de um apetite sexual. Em lugar do instinto sexual, busca-se produzir o instinto materno. Para tanto, recomenda-se para a adolescente a criação de um animal, como um gato, por exemplo. Quando mais velha, pode participar da educação de uma criança. Nunes (2000) explica que a boneca, como um brinquedo, chega com força total no século XIX e foi considerada pelo filósofo Michelet uma maneira de aprender a ser mãe e um instrumento capaz de desenvolver a habilidade de amar. É DE MENINO OU DE MENINA? Embora estudos sobre as diferenças sexuais tenham ganhado força no século XIX, a ideia de uma diferença de essência permanece sobre bases indissolúveis. A mulher frágil, dócil e essencialmente passiva preconizada pelofilósofo Rousseau caminha a passos firmes ao lado daquela descrita pelos ideais cristãos, cuja organização física e moral, dotada de um excesso sexual que deve ser controlado, são suas carac- terísticas principais. Nesse século, anatomistas a classificavam como o ser mais ínfimo na cadeia da evolução, ao lado das crianças e dos povos primitivos. A ideia de que a mulher foi feita para ter filhos e criá-los é reforçada, assim como se reforçou a lei da complementaridade entre homens e mulheres. A figura, por excelência, da feminilidade do século XX é, então, a bailarina: etérea, desencarnada, assexuada. Assim, nos 67 É de menina ou menino? dias atuais ainda causa estranhamento visualizar meninos brincarem com bonecas ou com outros brinquedos considerados objetos de meninas ou visualizar meninas que não portem brincos ou que desejem jogar bola, por exemplo. A leitura dos enunciados-imagens (Figuras 1 e 2) autoriza entender que os discursos por eles veiculados replicam a ideia de docilização e de virilização de meninos e de meninas. Embora a legenda da Figura 1, cujo enunciado da manchete “Meninos podem (e devem) brincar de boneca se eles quiserem” induza a leitora ou o leitor a pensarem que a sociedade, finalmente, está liberta de pré-concebidos estabilizados acerca do sexo e da sexualidade dos sujeitos, o próprio uso dos verbos “podem” e “devem”, denunciam que, pelo menos em algum momento, isso não era permitido. Ademais, na linha fina da referida notícia, há explicação de um especialista afirmando que a brincadeira não trans- forma ninguém em homossexual. Pelo contrário, a proibição, sim, pode gerar não só curiosidade, mas frustração e, pior, insegurança. Com isso, meninos e meninas submetem-se a discursos que ora os tornam dóceis, disciplinados e ora os fabricam conforme um modelo de masculinidade heterossexual. Perseguindo a ideia de que ambos estão imersos nesse processo de docilização e de virilização compulsórias em momentos distintos da história, pensa-se tratar de uma estruturação do disposi- tivo da sexualidade que ajusta os efeitos de verdade aos acontecimentos múltiplos e independentes. Se a boneca chegou com força total no século XIX e tinha a capa- cidade de desenvolver nas meninas competências ligadas à maternidade, o menino, ao brincar de boneca desenvolve, igualmente, capacidades afetivas para cuidar de crianças e pode, inclusive, tornar-se um ótimo pai, explicou Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório Trans- disciplinar de Identidade de Gênero e Orientação sexual do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP- AMTIGOS- IPq-HCFMUSP). Se enunciados como esses ainda precisam ser ditos e escritos, significa que a necessidade de problematizar o funcionamento do dispositivo da sexualidade na e para a instituição de saberes que naturalizam verdades sobre os sujeitos, é urgente. Se 68 João Paulo Baliscei (org.) meninas recém-nascidas são mutiladas para reafirmarem sua anatomia e, com isso, estão fadadas à maternidade inerente, a problematização ganha contornos ainda mais amplos. Enquanto se classificar pessoas pela sua anatomia, desprezando sua sexualidade, a pergunta “é de menino ou de menina?” permanecerá muito viva nas práticas discursivas sociais que continuarão a fabricar sujeitos ora docilizados ora virilizados, mas nunca compreendidos em sua essência. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Certo incômodo acerca dos efeitos de evidência de uma cultura visual heterocêntrica, cuja base se solidifica ora na docilização ora na virilização dos sujeitos meninos e meninas, desde seu nascimento, motivou a realização desse texto. Esteve- se, ao longo da discussão, calcado em duas grandes inquietações: a primeira delas tem relação à multiplicidade de saberes sobre a sexualidade do menino e da menina cujos contornos delineiam subjetividades e, por conseguinte, comportamentos para um e para o outro; a segunda inquietação se deve ao fato de o referido processo de docilização/virilização não ser problematizado como um construto sócio-histórico, no qual meninos e meninas são submetidos a um jogo e, nele, ambos estão em processos de perdas. A discussão permitiu entender que os efeitos de verdade concer- nentes à sexualidade dos sujeitos, só podem ser formulados graças a um conjunto heterogêneo de discursos construídos socialmente. A discussão permitiu, também, compreender que a hierarquia entre os sexos, assim como os saberes sobre a sexualidade dos sujeitos, é construída social- mente graças a saberes oriundos de discursos religiosos, discursos da medicina, da antropologia, ou discursos do senso comum, entre outros. Fruto de pensamentos biologicistas e de correntes sexistas, a hierarquia entre os sexos prevalece nos dias atuais. Assim, verificou-se que não há verdades a serem buscadas nas diferentes etapas constitutivas do saber. Menino e menina são ora docilizados ora virilizados, segundo o saber que se tem sobre eles em determinado momento. Disso decorre que não deve existir a questão “é de menino ou de menina?” e, se a questão não 69 É de menina ou menino? tem lugar, não deve haver divisão de brinquedos, de tarefas e nem deve haver mutilações como forma de identificar sexo ou gênero. Essa análise permite entender que a violência de gênero se inscreve nos corpos dos infantes muito antes de eles ou elas terem tempo para compreender sua própria existência ou até mesmo de se decidirem se querem ou não perfurar ou mutilar seus corpos, como no caso do uso compulsório do acessório auricular, ou se prefere boneco/as ou aviões, enfim. A docilização e a virilização são, em última instância, resultado da concepção equivocada de sexo e de sexualidade. Ao apreendê-los com um dado material, como a verdade de si, acolhem como verdadeiro aquilo que lhe atribuem como sendo natural de um e de outro sem considerar a experiência particular de cada indivíduo que só é possível pela sua sexualidade. REFERÊNCIAS BALISCEI, João Paulo; CUNHA, Susana Rangel Vieira da. “Faça como homem”: cultura visual e o projeto de masculinização dos meninos. Revista Textura, Canoas, v. 23, n. 54, p. 367-391, 2021. Disponível em: http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/ txra/article/view/5926/4074. Acesso em: 25 junho 2021. BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Tradução Sérgio Milliet. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução Renato Aguiar. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. CATTONÉ, Jean-Philippe. A sexualidade, ontem e hoje. São Paulo: Cortez, 1994. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade III: o cuidado de si. Tradução Maria Thereza da Costa Albuquerque. Revisão José Augusto Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1985. . A arqueologia do saber. Tradução Luiz Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. . História da sexualidade IV: as confissões da carne. [compilação] Frédéric Gros; tradução Heliana de Barros Conde Rodrigues, Vera Portocarrero. 2ª ed. - São Paulo: Paz e Terra, 2020. GUTIERRES, Zeca. Meninos podem (e devem) brincar de bonecas se eles quiserem. GQ, globo.com, 15 de maio de 2019. Disponível em: <https://gq.globo.com/Paternidade/ http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/view/5926/4074 http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/view/5926/4074 https://gq.globo.com/Paternidade/noticia/2019/05/meninos-podem-e-devem-brincar-de-boneca-se-eles-quiserem.html 70 João Paulo Baliscei (org.) noticia/2019/05/meninos-podem-e-devem-brincar- de-boneca-se-eles-quiserem.html>. Acesso em: 25 de jun de 2021. KRITZMAN, Lawrence D. A virilidade e seus “outros”: a representação da masculi- nidade paradoxal. In: CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges (Org.). História da virilidade 1: a invenção da virilidade da antiguidade às luzes. Tradução Francisco Morás. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 217-241. NUNES, Sílvia Alexim. O corpodo diabo entre a cruz e a caldeirinha: um estudo sobre a mulher, o masoquismo e a feminilidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. PRADO, Carolina; GUIMARÃES, Gabriela. Mães e filhos [UOL]. O que você precisa saber antes de furar a orelha de um recém-nascido. Disponível em: <https://www.uol. com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce-precisa- saber-antes-de-fu- rar-a-orelha-de-um-recem-nascido.htm>. Acesso em 25 jun 2021. PRECIADO, Beatriz. Manifesto contrassexual: Práticas subversivas de identidade sexual. São Paulo: N-1 Edições, 2014. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou da Educação. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 1995. https://gq.globo.com/Paternidade/noticia/2019/05/meninos-podem-e-devem-brincar-de-boneca-se-eles-quiserem.html https://gq.globo.com/Paternidade/noticia/2019/05/meninos-podem-e-devem-brincar-de-boneca-se-eles-quiserem.html https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce-precisa-saber-antes-de-furar-a-orelha-de-um-recem-nascido.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce-precisa-saber-antes-de-furar-a-orelha-de-um-recem-nascido.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce-precisa-saber-antes-de-furar-a-orelha-de-um-recem-nascido.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/12/28/o-que-voce-precisa-saber-antes-de-furar-a-orelha-de-um-recem-nascido.htm 71 É de menina ou menino? Figura 1: Chá de revelação de sexo de bebê termina em incêndio florestal de uma semana. Fonte: <https://www.hypeness.com.br/2018/11/cha-de-revelacao-de-sexo-de- -bebe-termina-em- incendio-florestal-de-uma-semana/>. Acesso em 04 de out. de 2021. ANUNCIAMOS, SENHOR(A), O VOSSO GÊNERO Rodrigo Pedro Casteleira19 INTRODUÇÃO Do alto de um caralho, a Terra de Vera Cruz é avistada/batizada pelos lusonautas. Realidade semântica ou ficcional, esse caralho pode ser descrito como um cesto em que um marujo (ROSELLI-CRUZ, 2011), balançando ordinariamente ao sabor dos mares, olha à volta para locali- zar obstáculos ou terra firme e gritar, não sem pensarmos no escândalo do grito desse marujo – traço de sua masculinidade salinizada oriunda do Velho Mundo –, seus avisos. Essa comitiva toda, lusa, com certeza, aporta em Pindorama junto de seu currículo europeu colonizador capaz 19 Doutor em Educação, pela Universidade Estadual de Maringá, professor do Depar- tamento Acadêmico de Ciências da Educação, na Fundação Universidade Federal de Rondônia, performer e artivista. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2234110887343110. http://www.hypeness.com.br/2018/11/cha-de-revelacao-de-sexo-de-bebe-termina-em- http://www.hypeness.com.br/2018/11/cha-de-revelacao-de-sexo-de-bebe-termina-em- http://www.hypeness.com.br/2018/11/cha-de-revelacao-de-sexo-de-bebe-termina-em- http://lattes.cnpq.br/2234110887343110 72 João Paulo Baliscei (org.) de pecaminar os corpos já existentes no Novo Mundo, afinal, tudo é permitido abaixo da linha do Equador, ao mesmo tempo em que se deve mortificar a carne para a ascensão da alma ao novo deus propagandeado aos povos originários (Figura 2). Figura 2: Sem título, série Tecnofaloterrorismo ou de como cis-falos usurpam, mani- pulação digital, 2021, acervo do artista20. Parto, então, da ficção do descobrimento luso para ensaiar, aqui, não o ‘terra a vista’, mas o ‘gênero a vista’ sob princípios de deboches (meus) para estabelecer diálogos entre o falo, imagens de gênero e sexualidade à luz da ocidentalidade desembarcada das naus portuguesas. As conexões, aparentemente anacrônicas, enredaram-se para pensar o falo, mesmo em uma linha temporal distante ainda das provocações freudianas, no contato com os pênis e vulvas dos povos originais e seus usos. Aportados, os portugueses avistaram as genitais dos povos ori- ginários. Os corpos normais (originários), imagino, viram descer de grandes objetos singrando pelo mar homens com os corpos encobertos, 20 Caso queira ver a imagem em cores, acesse: <https://photos.app.goo.gl/ pEb6YcW35viCuSwv8>. https://photos.app.goo.gl/pEb6YcW35viCuSwv8 https://photos.app.goo.gl/pEb6YcW35viCuSwv8 73 É de menina ou menino? talvez envergonhados de suas genitais, estes sim, os corpos alienígenas regressando para casa. Os brancos foram criados em nossa floresta por Omama mas ele os expulsou porque temia sua falta de sabedoria e porque eram perigosos para nós. Ele lhes deu uma terra, muito longe daqui, pois queria nos proteger das epidemias e de suas armas. Foi por isso que os afastou. Mas esses ancestrais dos brancos falaram a seus filhos dessa floresta e suas palavras propagaram por muito tempo. Eles se lembraram: “É verdade! Havia lá, ao longe, uma outra terra muito bela!”, e voltaram para nós. Na margem desta terra do Brasil aonde eles chegaram viviam outros índios. Esses brancos eram pouco nume- rosos e começaram a mentir: “Nós, os brancos, somos bons e generosos! Damos presentes e alimentos! Vamos viver a seu lado nessa terra com vocês! Seremos seus amigos!” (Davi Kopenawa YANOMAMI, 1999, p. 18). A imagem de gênero dos corpos que desceram das naus era narrada (também) por indumentárias europeias. As vestimentas de marujos e jesuítas, conforme a Figura 2, centralizam o entorno da haste cruzada erguida, margeada pelos corpos dos povos originários. O símbolo falo- cêntrico imprime, minimamente, dois movimentos: a) a genitalização de deus; e b) demarca a égide pecaminosa dos corpos indígenas e suas práticas. Ao genitalizar com o pênis o deus cristão europeu, a figura- ção paterna, da proteção e da guerra subsidia as campanhas militares ocidentais. Achille Mbembe (2020) demarca bem como as forças das expedições, de conquista e/ou de repressão às contra insurgências da colonização foram nevrálgicas no processo de colonização. Rebelar-se era preciso. Em nome de deus, o pai, no entanto, a criação pela des- truição ocidental materializa-se. E é em nome dele, também, que seus/ suas filhos/filhas precisam da correção para encontrar a retidão da vida. Assim, pretendo articular este ensaio para pensar as ações orques- tradas contra os corpos que verteram seus desejos (também) genitais contrários ao que pregava os colonizadores cristãos para pensar a orga- nização ocidental falocentrada. Problematizo, ainda, a ideia do falo como algo não pensando desde e para corpos indígenas e negros, talvez 74 João Paulo Baliscei (org.) uma das justificativas no (in)consciente coletivo ocidental para o campo do fetiche e/ou violência contra eles. Finalizo aproximando a ideia de punição pública pelo suplício junto da impressão da imagem de gênero nos corpos em gestação e mesmo depois de nascidos pelas revelações espetacularizadas. OS FAÇO À MINHA IMAGEM, DISSE O OCIDENTE As transfigurações das novas imagens, ou discursos, em circu- lação no Novo Mundo eram conduzidas à luz da luz do deus cristão, portanto, qualquer corpo, indiferente de seu gênero e cultura, precisava ser purificado sob o toque da cultura ocidental. Ademais, essa cultura ocidental jamais poderia ser confundida com qualquer outra ordinária por ser “intocável”: só ela teria a capacidade de vincular qualquer cultura a si sem perder sua posição “porque era somente por meio dela que outras culturas existiam, e elas só existiam em relação a ela” (MBEMBE, 2020, p. 118). Dividir para conquistar. Aglutinar para apagar. Escrever para criar. Se, conforme a filosofia ocidental, existem “povos sem história”, nada mais justo do que escrever sobre essa gente sob perspectivas sub- jetivas, mas orquestradas como ‘ciência’. Davi Kopenawa Yanomami (1999, p. 19), por exemplo, compreende essa dinâmica da narrativa ficcional desde os livros para a imposição da noção de verdade cunhada como ideia de descobrimento, mas não só: ““Nós descobrimos estas terras! Possuímos os livros e, por isso, somos importantes!”, dizem os brancos. Mas são apenas palavras de mentira. Eles não fizeram mais que tomar as terras das gentes da florestapara se pôr a devastá-las””. ‘Possuímos os livros’: bíblias, manuais, mapas, contratos, tratados, diários e toda sorte escrita para possuir o corpo alheio, despossuí- lo e repossuí-lo, segundo sua própria noção cultural. Despossuindo a sexualidade cá encontrada, intentaram toda a sorte para criar pela destruição a sexualidade em conformidade com os livros, leia-se ‘racionalidade a serviço da fé’. A sodomia, pederastia, fela- ção e afins verteram-se em problemática de gênero e sexualidade, capaz de eliminação pela (des)graça sacra cristã. Um dos primeiros registros 75 É de menina ou menino? de assassinato, em decorrência da sexualidade, é o de um Tupinambá. O termo tupimbá ‘tibira’ lhe adjetivava como homossexual, portanto, praticante de sodomia, por isso, em 1613 em São Luís do Maranhão, por ordem dos invaso- res franceses, instigados pelos missionários capuchi- nhos, um índio Tupinambá, publicamente infamado e reconhecido como tibira, foi amarrado na boca de um canhão sendo seu corpo estralhaçado com o estourar do morteiro, “para purificar a terra de suas maldades”. Em 1678, um segundo mártir homossexual é executado na Capitania de Sergipe del Rei: um jovem negro, escravo, “foi morto de açoites por ter cometido o pecado de sodomia” (MOTT, 1998, p. 7-8). A marca imagética dos corpos sodomitas explodidos pelos ares traça as punições espetacularizadas sob cunhos pedagógicos para ensinar pelo horror. É pelo horror público, já escreveu Foucault (1987), que o suplício fazia parte do projeto de punição, o projeto disciplinar. O caso de sodomia de tibira, julgada pelos missionários capuchinhos e executada pelos ‘invasores franceses’, bem como a do negro açoitado até morrer, disciplinaria publicamente os demais corpos. A sodomia é tornada monstruosa pois transgredia o ficcionado limite natural, abalando toda lei divina, religiosa e mesmo a civil (FOUCAULT, 2010), justificando, portanto, uma punição pelo horror. Os invasores franceses – em terras invadidas – atestam apenas os acordos eurocentrados entre seus iguais, partilhantes de princípios do repovoamento da terra “pela via da preda- ção humana, da extração de riquezas naturais e do trabalho de grupos sociais subalternos” (MBEMBE, 2020, p. 28), assim, tudo é permitido abaixo da linha do Equador, desde que a Europa defina. A subversão (?) da sexualidade/genitais do Tupinambá e do negro pelo olhar europeu evoca, talvez, a figura do marinheiro do alto do caralho para observar e julgar os desejos dos corpos não brancos cami- nhantes, agora na terra chamada Brasil, os primeiros que cá estavam e os segundos trazidos. Ambos com corpos potencialmente demonizados, ambos com seus corpos espiados pois suas sexualidades não estavam em conformidade com seus gêneros. Há, na perspectiva fanoniana de 76 João Paulo Baliscei (org.) Mbembe (2020), um sadismo e racismo declarados nas decapitações, mutilações, torturas e afins, uma espécie de desejo Implacável de não saber de nada, de não sentir a menor empatia pelas vítimas, de se convencer da vilania dos nativos, de considerá-los responsáveis pelas atrocidades que lhes eram infligidas e pelas extorsões e enormes prejuízos que sofriam – essa era a lei. (MBEMBE, 2020, p. 127) A ordem dessa discursividade, segundo essas passagens que trouxe, dá os indícios de controle da suposta criminalidade observada pelos colonizadores, afinal, eles já estavam em meio ao terror de uma terra composta por existências selvagens para dar cabo ao projeto civilizatório, assim, os fins justificariam os efeitos negativos. A inimizade era a tônica conectiva, não a semelhança, e era ela a presença ordinária internalizada nesses processos todos (MBEMBE, 2020). Talvez por isso a correção sádica pública e expiatória se materializava: exortava a si pelo desejo, violentava as etnias outras, condenava a sexualidade considerada impura e educava a plateia. A CELEBRAÇÃO DE QUEM NÃO SE ANUNCIA Na esteira de pensar os gêneros e sexualidades como posicionalida- des, performatividades, existências, etc, problematizo não as teorizações em suas explicações para tentar defini-los, mas o combo familiar quando da ciência acerca da genitália escrutinada nos exames. Do alto de seus caralhos há o orquestramento das definições da criança-paciente e da criança-filho/a sem que a mesma possa anunciar- se em determinado gênero e sexualidade. A construção da ideia de homem e mulher carece de cuidado pois, segundo Amara Moira Rodovalho (2017, p. 370), “‘Homem’ e mulher’ são palavras polissêmicas, palavras que comportam sentidos bastante divergentes, até contraditórios, fazendo-se então necessário todo um cuidado ao interpretá-las”. A inexistência de uma interpretação caute- losa dessas palavras cria as ficções familiares da criança por vir: ela já tem nome, sexo, sexualidade, às vezes um casamento definido, enxoval, 77 É de menina ou menino? quarto, brinquedos e toda sorte de marcadores de gênero amparados apenas na possibilidade de nascer e ser/estar homem ou mulher. Essas possibilidades fomentam, hoje, a prática dos chás de revelação. A apoteose do evento, do mais recatado ao mais dantesco, rei- naugura uma nova explosão dos corpos e seus desejos, mesmo sem o anúncio da pessoa envolvida diretamente, a saber, a criança não nascida. Explosão no sentido mais belicoso e literal quando temos contato com notícias, como a do caso de um pai que provocou um incêndio florestal ao disparar contra os alvos que revelariam o ‘sexo’ da criança (Figura 1). Não parece haver qualquer limite para limitar o projeto de quem não se anuncia, ademais, eventos como esses parecem uma projeção fálica-e- dípica herdada de Freud e Lacan, carregada em seu próprio bojo com o masculino como paradigma, “uma versão masculina da diferença, na qual o outro, o feminino, só pode ser pensado em simetria ou dessimetria ao referencial fálico e formulado como ‘um a menos’ (castrado e invejoso em Freud) ou ‘um a mais” (bi-gozo em Lacan)’” (NERI, 2004, p. 156). Acrescento, ainda, a possibilidade de assimetrias pensadas em outridades materializadas em existências travestis ou trans, e/ou naquelas em que as práticas de desejos sexuais seriam facilmente monstrificadas. Ouso em pensar nessa diretriz freudiana-lacaniana ficcionada no cotidiano mais reiterando o paradigma sexo-gênero-sexualidade do que problematizando-o. O falo, para além da matriz masculina, diz sobre a reificação branca-ocidental-europeia- descendente e não sobre indígenas e negritude, por exemplo, no entanto, ele está no meio de nós. O falo não é a pica do preto ou a jeba da travesti, no limite apenas uma genitália fetichizada para atender as prerrogativas dos que possuem falo, sobretudo heterossexuais. Voltando ao chá de revelação, o mesmo parece um tribunal, não menos sádico, do exercício fálico do poder para o projeto de outrem de gênero e sexualidade, antecipando o estouro do canhão e as chibatas por sobre os desejos alheios dos filhos e filhas, ou mesmo já anunciar a desgraça dadivosa do olhar do pai ou da mãe ao saber o ‘sexo’ do bebê – vídeos não faltam com as reações humanas das mais diversas ao ver a fumaça quase papal de cor azul ou rosa. 78 João Paulo Baliscei (org.) A decepção pode ser compreendida quando lemos a definição de hétero- nação de Ochy Curiel (2013, p. 56), nada mais do que uma [...] construcción de Nación a través de la Constitución Política, lo cual se sintetiza en lo que propongo llamar la Heteronación, es decir, cómo la nación y su construcción imaginaria tienen como base fundamental el régimen de la heterosexualidad, a través de la ideología de la diferencia sexual, y ésta, a su vez, en las instituciones como la familia, al parentesco, a la nacionalidad, todo ello expressado en los pactos sociales que son reflejados en un texto normativo como la Constitución. A construção de nações orquestradas nesses princípios só são possíveis graças à articulação política, familiar e heterossexual. Tibiras,sodomitas, invertidos, travestis e toda sorte de gente não está na lista desses chás, Amara Moira Rodovalho (2017), por exemplo, chama a atenção para o caso das travestis que nunca foram criadas desde o berço para serem travestis, restando apenas o tornar-se. A apoteose desse evento não esconde, em absoluto, a colonização de um corpo pela via do afeto familiar, menos ainda as estruturas cis-heterocentradas de vigilância e possíveis punições a toda e qualquer criança não cis e/ou não heterossexual (quando o desejado era que fosse. DE BAIXO As produções dos gêneros, sexualidades e desejos desde o ocidente revelam os atravessamentos belicosos do controle por sobre os corpos. A constante articulação de saberes ocidentais, capaz de aglutinar e apagar as demais culturas e delas escrever sobre, instaura as artificialidades e materializam discursos de uma verdade. O desejo sádico pela definição do gênero e sexualidade alheia parece recorrente no âmbito colonial, primeiro utilizado para punir as práticas sexuais indígenas e pessoas negras e depois para antecipar as práticas sexuais, e de gênero, das crianças que ainda não nasceram. O canhão cede lugar para fumaças, balões com confetes, galinhas (vivas) coloridas artificialmente e até armas para anunciar o que se vê do alto de um caralho que balança. A marcação falocêntrica ocidental 79 É de menina ou menino? eclipsa os pênis e as vulvas indígenas junto do jugo cristão marcado já na primeira missa, conforme a segunda imagem que abre estas discus- sões. Posteriormente, as das negras e dos negros, e, em um movimento mais contemporâneo, os chás de revelação. Não igualo os sofrimentos vivenciados por esses corpos assassinados pelo desejo sádico do branco, mas compreendo uma indústria dispositiva reorganizada e sedutora para deixar bem marcado para a sociedade a criança que se espera. REFERÊNCIAS CASTELEIRA, Rodrigo Pedro. Sem título, série Tecnofaloterrorismo ou de como cis-falos usurpam. Manipulação digital. Acervo do artista, 2021. CURIEL, Ochy. La nación heterosexual: análisis del discurso jurídico y el régimen heterossexual desde la antropología de la dominación. Bogotá: Brecha lésbica y en la frontera, 2013. FOUCAULT, Michel. Os Anormais. 2. ed. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2010. . Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis/RJ: Vozes, 1987. HYPENESS. Chá de revelação de sexo de bebê termina em incêndio florestal de uma semana. Disponível em: <https://www.hypeness.com.br/2018/11/cha-de-revelacao- de-sexo-de-bebe-termina-em-incendio-florestal-de-uma-semana/>. Acesso em 04 de out. de 2021. MBEMBE, Achille. Políticas da inimizade. São Paulo: N-1 Edições, 2020. MOTT, Luiz. Etno-história da homossexualidade da América Latina. História em Revista, Pelotas, v. 4, 1998, p. 1-15. NERI, Regina. Falo ou feminilidade: uma discussão instigante: gramáticas do erotismo. Joel Birman. Rio de Janeiro: Record, 2001. Ágora v. VII n. 1 jan/jun 2004. p. 155-159. RODOVALHO, Amara Moira. O cis pelo trans. Estudos feministas, Florianópolis, 25(1): 422, jan.-abr., 2017, p. 365-373. ROSELLI-CRUZ, Amadeu. Homossexualidade, homofobia e a agressividade do palavrão. Seu uso na educação sexual escolar. Educar em Revista, Curitiba, Brasil,n. 39, jan./abr. 2011. Editora UFPR, p. 73-85. YANOMAMI, Dav Kopenawa. Descobrindo os brancos. Adauto Novaes (org.). A outra margem do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 15-31. http://www.hypeness.com.br/2018/11/cha-de-revelacao- http://www.hypeness.com.br/2018/11/cha-de-revelacao- 80 João Paulo Baliscei (org.) Figura 1: Meninos podem brincar com bonecas? E as meninas podem brincar com bolas? Fonte: <https://novaescola.org.br/conteudo/7723/brincadeiras-nao-tem-sexo>. Acesso em 06 de set. 2021. “EU POSSO FAZER ISSO”: GÊNERO, EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO FÍSICA Márcia Gonçalves Vieira21 Samilo Takara22 INTRODUÇÃO Ao ocupar as posições de mães e pais, surgem as inquietações para descobrir qual é o sexo biológico da criança e isso mobiliza a família e amigas/os, pois querem saber sobre esse detalhe para comprar o enxoval de acordo com o estereótipo de gênero. Ao nascer, a criança se depara 21 Graduada em Licenciatura em Educação Física, pela Universidade Federal de Brasília, pós-graduada em Psicomotricidade Clínica e Relacional, pela Universidade Cândido Mendes, mestranda em Educação pela Universidade Federal de Rondônia, 2021. Lattes: http://lattes.cnpq.br/0846504158119583. 22 Doutor em Educação (UEM/PR). Professor do Departamento de Educação e da Especialização de Gênero e Diversidade na Escola no Campus Rolim de Moura e do Programa de Pós-Graduação em Educação no Campus José Ribeiro Filho da Universi- dade Federal de Rondônia (DAED/GDE/PPGE- UNIR). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Estudos Culturais e Educação Contemporânea – GEPECEC/UNIR. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9453815210695929. https://wwws.cnpq.br/cvlattesweb/PKG_MENU.menu?f_cod=2895764ACC1FC24DAEA4CE8E692DCFF3 http://lattes.cnpq.br/9453815210695929 81 É de menina ou menino? com um mundo “cor de rosa ou azul”, identificando-a “como menino ou menina”, sob imposições de que ela deve se desenvolver com base nesses atributos, quer se identifique ou não. Louro (1997) explica que desde a ecografia, a construção de gênero começa a ser realizada sobre o corpo da criança. Assim, o corpo é educado por parâmetros culturais que se iniciam tendo por base características biológicas que são dicotômicas e binárias para o pensamento médico. Entretanto, é relevante compreender que as construções de gênero e sexualidade se constituem, também, por características da cultura e da sociedade e, assim, como nos ensina Louro (2003, p. 11), os “[...] corpos ganham sentido socialmente”. Entre os espaços que produzem corpos, a escola se torna uma instituição que regula e conduz a construção de modos de enxergar o mundo, os/as outros/as e a nós mesmos/as. Educativo, esse movimento contribui para compreendermos como existem intervenções e controles que atravessam a ação escolar na construção de pessoas e que se valem “[...] de um investimento científico na intimidade de sua fisiologia, na gestão de seus desejos” (SOARES, 2015, p. 65). Desse modo, o corpo passa a ser regulado e as experiências que produzem nossas relações ficam tuteladas, também pelo trabalho escolar, em disciplinar corpos. Assim, o corpo educado pela escola é adestrado por sistemas de representação e por experiências que geram posturas, modos de agir e responder aos sentidos que constituem a representação do que é ser aluno/a no espaço escolar. Um corpo escolarizado é capaz de ficar sentado por muitas horas e tem, provavelmente, a habilidade para expressar gestos ou comportamentos indicativos de interesse e de atenção, mesmo que falsos. Um corpo disciplinado pela escola é treinado no silêncio e num determinado modelo de fala; concebe e usa o tempo e o espaço de uma forma particular. Mãos, olhos e ouvidos estão adestrados para tarefas intelectuais, mas possivelmente desatentos ou desajeitados para outras tantas (LOURO, 2003, p. 21-22). 82 João Paulo Baliscei (org.) É por essas possibilidades que se faz necessário compreender o aspecto da experiência na formação docente. Larrosa (2011, p. 5) explica que a experiência é “isso que me passa”. E, ao pensarmos em gênero e sexualidade nos espaços escolares, a discussão sobre os corpos está voltada à docilização dos corpos dos/as alunos/as, mas é relevante compreender como o corpo docente também é esquadrinhado, produzido e se torna o corpo que deve representar padrões de gênero específicos. “Ao tentar recordar os corpos de meus professores e professoras, eu me sinto incapaz de lembrar deles. Eu ouço vozes, lembro de detalhes fragmentados, mas muito pouco de corpos inteiros” (HOOKS, 2003, p. 115). A pensadora nos mostra como o corpo docente é entendido no espaço escolar. Takara (2021) problematiza como esses corpos são esquadrinhados e são definidoscomo corretos ou incorretos para o espaço escolar. A experiência docente também precisa ser compartilhada para que alunos/as possam pensar sobre suas dimensões e compreensões sobre os corpos e suas práticas. As habilidades, os gestos e as formas como empreendemos as ações que produzimos geram efeitos diferentes ao sabermos como o processo educacional produziu nossas relações com as práticas educativas que produzimos. No que diz respeito à educação, essas concepções de discriminações de gênero e sexualidade se tornam evidentes, pois no espaço escolar as crianças passam a conviver com pessoas de culturas diferentes das suas. Na Educação Física, mais especificamente, é visível tais discrimina- ções, ou seja, observa-se que ocorrem separações por grupos (meninos e meninas) no decorrer do desenvolvimento da aula. Finco (2010, p. 123) explica que essas separações advêm do modo como os professores/ as interagem com estes alunos/as: Os brinquedos oferecidos às crianças também estão carregados de expectativas, simbologias e intenções. As expectativas em relação à diferença de comporta- mento que se deseja para o menino e para a menina, justificadas pelas diferenças biológicas, acabam propor- cionando distintas vivências corporais e determinando 83 É de menina ou menino? os corpos infantis: meninos e meninas têm no corpo a manifestação de suas experiências. Ao longo de minha carreira de magistério e, posteriormente, como professora de Educação Física, pude observar em alguns momentos como se desenvolve um/a aluno/a no decorrer da vida escolar, desde a sala de aula até os espaços como a quadra ou campo aberto. Escolho este último local por ser o mais utilizado em minhas aulas. Recorro a ambientes grandes que se diferenciam da sala de aula, pelo modo como deixam os alunos/as mais à vontade nos movimentos e interações. Egle Becchi (2003 apud FINCO, 2010) afirma que se deve pesquisar mais sobre a linguagem dos gestos por estarem relacionados aos movimentos corporais, gestuais de exploração e contato com o outro/a. A relação com o corpo também se dá nos processos em que as crianças que estão na escola aprendem a conhecer como as culturas diferenciam os processos de gênero, as diferenças que estão dispostas no cotidiano e quais são as possibilidades que se encontram nos espaços em que vivem. As pedagogias culturais que inscrevem as noções de gênero no espaço escolar fixam para meninos e meninas um modo correto de atuar e atividades que devem ser compreendidas como proibidas e permitidas para os corpos. E, na Educação Física, cabe questionar de que modo as práticas esportivas, os jogos, as brincadeiras e os fazeres foram generificados e determinados para meninos ou meninas. Essa separação que parece natu- ralizada precisa ser questionada para que se possam construir possibilida- des de uma educação que contribua para a formação e o desenvolvimento pleno das crianças, pois na Lei de Diretrizes e Bases da Educação LDB 9394/96, não há recomendação, nem distinção por separações de gênero no contexto das aulas no contexto escolar. Os Parâmetros Curriculares da Educação Física - PCNs (BRASIL, 1998, p. 19) trazem que: O princípio da diversidade aplica-se na construção dos processos de ensino e aprendizagem e orienta a escolha de objetivos e conteúdos, visando a ampliar as relações entre os conhecimentos da cultura corporal de movimento e os sujeitos da aprendizagem. Busca-se legitimar as diversas possibilidades de aprendizagem 84 João Paulo Baliscei (org.) que se estabelecem com a consideração das dimensões afetivas, cognitivas, motoras e socioculturais dos alunos. Os documentos curriculares mencionados mostram a relevância de haver planejamentos que possibilitem que o/a aluno/a desenvolva suas capacidades máximas, sem constrangimentos. Nas aulas, em que verificamos, é visível que a maioria dos alunos/as participa das atividades propostas, mas existe uma minoria que não participa. Quando observa- mos, analisamos que as práticas propõem distinções de grupos (meninos e meninas), podendo reforçar os sentimentos de disputas e até mesmo os distanciamentos entre ele e elas, como relata Finco (2010, p. 127 e 128): Além das expectativas as interações entre professoras e crianças revelaram práticas e estratégias de organização do dia a dia caracterizadas por uma intencionalidade pedagógica na forma de uma organização institucional que tem no sexo um critério para a organização e o uso dos tempos e dos espaços. Práticas cotidianas da pré-escola, como a organização da fila e a distribuição das crianças nas mesas, mostram que a escola acaba por reforçar a separação entre meninas e meninos ao estabelecer dinâmicas de atividades baseadas em disputa de dois grupos (meninas e meninos). Assim, ao invés de proporcionar vivências que possibilitem a integração, acabam por rivalizá-las ainda mais. Observamos que existem preferências por agrupar os/as alunos/ as por tipo de jogo, brincadeira e até mesmo por práticas esportivas. Por vezes, a quadra é dividida ao meio: de um lado, futebol para os meninos e do outro, voleibol para as meninas. As crianças que se identificam com determinada atividade que não é vista como “comum” ao seu gênero, como aquelas que integram a Figura 1, no início deste capítulo, sofrem discriminações com impedimentos ou comentários agressivos. Em determinado dia, por exemplo, uma mãe veio ao meu encontro e relatou que a filha não poderia participar das aulas por causa da religião ou porque ela não queria que a criança se relacionasse com outro aluno do gênero “masculino”. Compreendemos, também, que as crianças, ao realizarem as ati- vidades propostas, tendem a escolher as que irão participar, a partir de 85 É de menina ou menino? discriminações entre o que seria “masculino” ou “feminino”, e a formar grupos distintos durante as aulas. Verificamos até mesmo separação de caixa contendo brinquedos “de menino” e “de menina”. Entre os/as alunos/ as na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental já são observados comportamentos de afastamento, conforme Finco (2010). Esse comportamento gera prejuízos no processo de desenvolvi- mento psíquico, individual, cognitivo e social dos alunos/as, pois produz inquietações que os/as deixam confusos/as e amedrontados/as diante do que os/as outros/as pensam sobre seu ser, sendo que o conhecimento de corpo é particular de cada um/uma de nós. Torna-se necessário ao/à professor/a, intervir de forma sábia diante dessas situações de modo que os/as alunos/as que transgridam aquilo que é considerado “normal” ao seu gênero sejam acolhidos/as. Silveira (2009, p. 14), após analisar o livro O mundo dos garotos, chegou à seguinte conclusão: As dificuldades de comunicação constituem um dos traços marcantes atribuídos aos meninos – eventual- mente, eles podem apresentar “imaturidade”, não notar que algo está incomodando as meninas, ser inseguros (“são tão inseguros quanto qualquer garota”), sequiosos de elogios sobre suas habilidades. E, entre os conselhos, um nos chama a atenção em especial: é aquele que avisa às leitoras que “Alguns garotos (mal acostumados pelas mães), podem acreditar que todas as coisas chatas da vida devem ser feitas por garotas”, arrolando-se as tais coisas chatas: “limpar a casa, lavar e passar roupas e cozinhar”. E prosseguem as autoras: “Para eles, restam as coisas boas: esportes radicais, bandas de rock e brincadeiras ousadas”. Uma exortação arremata tal conselho: “Não deixe que essa tendência aumente!” A professora ou professor de Educação Física tem várias possibi- lidades de trabalhar relações de gênero no contexto das aulas, desde a relação entre as/os coleguinhas até com os professores/as, sem definição de atividades, jogos ou esportes que favoreçam determinados grupos. É um componente que, segundo Altemann (2001), proporciona aos alunos/ as momentos de trocas de experiências de aprendizagens que mobilizam os aspectos afetivos,sociais, éticos e de sexualidade. 86 João Paulo Baliscei (org.) Entender que a docência é um gesto envolvido com a realidade das crianças que participam daquele contexto e a necessidade de dis- cutir sobre os objetivos que se referem ao desenvolvimento do corpo são possibilidades de constituir uma prática pedagógica diferente, que possibilite ao/à aluno/a desenvolver-se de modo integral com equidade de direitos de aprendizagem, como indica a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2019), partindo do entendimento de que podemos sair dos estereótipos de gênero para discutir contribuições para que o/a aluno/a respeite sua identidade e a do outro/a e não para a reprodução de valores, ideias, experiências estereotipadas. Ao flertar com a experiência, também se lida com a pluralidade. “A experiência produz pluralidade” (LARROSA, 2011, p. 17). Olhar para o corpo como uma possibilidade de experimentar o gesto e de ser ensinado/a por ele é uma oportunidade de constituir uma relação positiva com o corpo, com a vivência dos movimentos e o entendimento de que existem as leituras sociais sobre as identidades de gênero. CONSIDERAÇÕES FINAIS Logo se vê que a Educação Física tem relevância no contexto esco- lar por ser dinâmica, de infinitas oportunidades de vivências corporais e culturais que proporcionam aos/às alunos/as experiências imprescindíveis à construção de identidades de corpo e cultura. O/a professor/a, então, pode ser sensível aos acontecimentos durante as aulas, identificando e evi- tando que formas de agressões, exclusões e violências aconteçam no espaço escolar, seja por parte dos/as alunos/as, pais/mães e ou funcionários/as. Desta forma entendemos que os/as alunos/as, no decorrer da Educação Básica, têm a oportunidade de vivenciar trocas de experiên- cias que serão importantes para a construção de identidade; e que o/a professor/a pode tematizar e pôr sob questionamentos os padrões e expectativas de comportamentos que evidenciam práticas de exclusão e agressões discriminatórias. 87 É de menina ou menino? REFERÊNCIAS ALTMANN, Helena. Estudos feministas. 2001. Disponível em: https://www.scielo. br/j/ref/a/PthD6cgdcDC7MMvJw5zxXDr/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 29 de junho de 2021. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Educação Física / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC / SEF, 1998. . Base Nacional Comum Curricular/ Brasília: MEC / 2019. Disponível: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_sit e.pdf. Acesso em: 06 de julho de 2021. FINCO, Daniela. Brincadeiras, invenções e transgressões de gênero na educação infantil. Revista Múltiplas Leituras. 2010. Disponível em: https://www. metodista.br/revistas/revistas- ims/index.php/ML/article/viewFile/1905/1908. Acesso em: 29 de agosto de 2010. HOOKS, Bell. Eros, erotismo e o processo pedagógico. In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2. ed. 2. reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. (113-123). LARROSA, Jorge. Experiência e alteridade em Educação. Revista Reflexão e Ação. v. 19, n. 2. Santa Cruz do Sul, 2011. (04-27). LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: Uma perspectiva pós- estruturalista. Petrópolis/RJ: Vozes, 1997. . Guacira Lopes. Pedagogias da Sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2. ed. 2. reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. (7-34). SILVEIRA, Rosa Maria Hessel, Livros perigosos para garotos e maravilhosos para meninas: O gênero social diferenciando o gênero discursivo. Simpósio Internacional de Estudos de Gêneros textuais. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2009. Disponível em: https://www.ucs.br/ucs/extensao/agenda/eventos/vsiget/portugues/anais/arquivos/ livr os_perigosos_para_garotos_e_maravilhosos_para_meninas_o_genero_social_difer enciando.pdf. Acesso em: 26 de agosto de 2021. SOARES, Carmem Lúcia. Escultura da carne: o bem-estar e as pedagogias totalitárias do corpo. In: RAGO, Margareth; VEIGA-NETO, Alfredo. (Orgs.). Pra uma vida não- fascista. 1. reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. (63-82). http://www.scielo.br/j/ref/a/PthD6cgdcDC7MMvJw5zxXDr/?lang=pt&format=pdf http://www.scielo.br/j/ref/a/PthD6cgdcDC7MMvJw5zxXDr/?lang=pt&format=pdf http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_sit http://www.metodista.br/revistas/revistas- http://www.metodista.br/revistas/revistas- http://www.ucs.br/ucs/extensao/agenda/eventos/vsiget/portugues/anais/arquivos/livr http://www.ucs.br/ucs/extensao/agenda/eventos/vsiget/portugues/anais/arquivos/livr 88 João Paulo Baliscei (org.) Figura 1: “Contracorrente” Fonte: <https://www.acessa.com/cultura/arquivo/cinematografica/2017/08/22-vic- tor-antes-depois-dzi- croquettes/>. Acesso em 30º de set. de 2021. NARRATIVAS QUE MOLDAM GÊNERO E SEXUALIDADE: DIÁLOGOS SOBRE EDUCAÇÃO AO FALAR DE SI Marcos da Cruz Alves Siqueira23 Igor Micheletto Martins24 Harryson Júnio Lessa Gonçalves25 PRÓLOGO: INTRODUÇÃO Este capítulo faz uma interface entre gênero, sexualidade e edu- cação por meio de narrativas de três pesquisadores da área de Educação e de suas vivências na infância, na educação e no universo de Lésbicas, 23 Doutor em Educação, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Lattes: http://lattes.cnpq.br/8097738870620043. 24 Bicha doutoranda em Educação para a Ciência pela Universidade Estadual Pau- lista (Unesp). Pesquisador no Grupo de Pesquisa em Currículo: Estudos, Práticas e Avaliação. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8544286037876527. 25 Livre-Docente pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Professor associado da Faculdade de Engenharia da Unesp, no campus de Ilha Solteira. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3260745033583199. http://www.acessa.com/cultura/arquivo/cinematografica/2017/08/22-victor-antes-depois-dzi- http://www.acessa.com/cultura/arquivo/cinematografica/2017/08/22-victor-antes-depois-dzi- http://www.acessa.com/cultura/arquivo/cinematografica/2017/08/22-victor-antes-depois-dzi- http://lattes.cnpq.br/8097738870620043 http://lattes.cnpq.br/8544286037876527 http://lattes.cnpq.br/3260745033583199 89 É de menina ou menino? Gays Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (LGBTI+). Ques- tionamos, de modo a conduzir este trabalho, de que modos as narrativas tecem gênero e a sexualidade, propiciando uma reflexão sobre a educação? Nesse percurso, discutimos sobre como as narrativas de si coproduzem significados de gênero, de sexualidade e de raça, e sobre os limites de pensar como a educação perpassa as fronteiras culturais e as relações pedagógicas influenciando no modo de ser e de viver em sociedade. Nosso objetivo é demonstrar narrativas de pesquisadores da área de gênero e de sexualidade, por meio de suas reminiscências, trajetórias e resistências, criando, assim, um diálogo sobre a Educação. Para tanto, destacamos que a proposta de escrita deste texto se inspira em uma postura de desobediência epistêmica e civil, à luz de Ramón Grosfogue (2009), visando reconhecer a experiência, e dialogando com Jorge Larossa (2002), como locus de conhecimento. O estilo de nar- rativa do texto desencadeou atos, produzidos a partir de uma conversa como construção de entendimentos entre, e a partir de, três amigos, educadores, pesquisadores e LGBTI+. Cabe destacar, assim, que esta escrita se manifesta como um posicionamento de outra(s) possibilidade(s) mais respeitosas e honestas de vislumbrar as experiências, oportunizando conhecer e aprender sobre outras formas de produzir conhecimento, a partir da experiência de outros sujeitos, por vezes, objetificados e vio- lentados, que se fazem presentes no mundo e que suas “existências” são, por vezes, tão depreciadas pela Universidade (isso mesmo Universidade com “U” maiúsculo). Universidade essa que finca suas estacas em uma “dada Ciência” hegemônicae colonizada, talvez, descolada de outras “epistemes”, que, mesmo sem se observar colonizada, reproduz as rela- ções de poder, eurocêntricas, legitimando apenas certos conhecimentos (tidos como válidos para ela) e silenciando outros e, consequentemente, outras formas de “existências” no mundo, tornando-se, na esteira de Sueli Carneiro (2005), de quando em quando, epistemicida. Desse modo, analisar as memórias por meio das narrativas e pro- blematizar as tensões em nossas trajetórias e resistências desloca os modos de pensar a educação. Assim, apresentamos, por meio de diálogos, os sentidos de existir e de resistir, os quais se manifestam a partir de pautas 90 João Paulo Baliscei (org.) sociais sobre gênero, sexualidade e raça e que desenvolvem conhecimentos sobre si. Para a realização do trabalho foi desenvolvido um encontro com os três pesquisadores na Universidade Estadual Paulista (Unesp), para que pudessem dialogar sobre suas vivências, trajetórias e experiências com a temática de gênero e sexualidade. Além disso, as vivências e as experiências cotidianas desse grupo, por meio de conversas, de entrevistas e de participação em locais de convivências, propiciaram pensar as relações educacionais. Nesse processo de experiência, entendemos as narrativas como ação educativa, que se valem da história de vida para manifestar seu posicionamento político e para instabilizar discursos de violência, de opressão e, ao mesmo tempo, para aprender e ensinar sobre gênero e sexualidade. Consideramos que as tecituras elaboradas nessas falas podem incidir em tensões políticas e pedagógicas que afetam os modos de ser e de viver. Assim, reconhecemos as reminiscências apresentadas por meio das narrativas como um corpo político, com significação social e educacional capaz de aproximar grupos identitários, de mobilizar ações em prol da educação e de resistir frente à violência LGBTIfóbicas. ATO I: ENCONTRO PARA FALAR DE SI26 Os pesquisadores Igor Micheletto Martins, Marcos da Cruz Alves Siqueira e Harryson Júnio Lessa Gonçalves estão sentados em cadeiras na sala da Unesp. O professor Harryson prepara um café na máquina de expresso. Há um silêncio. A expressão facial dos pesquisadores é de aflição, de riso e de deboche. Tentam achar coragem para falar sobre suas vivências no ambiente escolar. Começam a falar sobre outros assuntos, como, por exemplo, artigos, festas, trabalho, lazer entre outros. De repente, Igor interrompe27. 26 Utilizamos, durante o trabalho, uma escrita em terceira pessoa do plural. Quando necessário, valemo- nos da primeira pessoa do plural para generalizações. 27 As narrativas que se seguem são transcrições dos diálogos. Os diálogos foram gra- vados por meio de um celular smartphone e depois transcritos. Após isso, cada pessoa participante conferiu a transcrição e verificou se concordava ou não com o conteúdo. 91 É de menina ou menino? Igor: Eu falava de forma afeminada e afinando a voz na escola. Marcos: Engraçado como você reprime o desejo durante a escolarização. Eu sentia desejo por homens e mulheres na escola e isso era uma grande confusão. As pessoas falavam que eu tinha de decidir se eu sentia desejo por homens ou por mulheres. Até minha mãe falou isso, quando eu me assumi bissexual para ela, indicando que eu não poderia sentir desejo por dois gêneros. Na minha escola, era difícil achar pessoas bissexuais ou que transitavam com seu desejo: ou você era gay e da turma dos “viadinhos” ou você era da turma dos héteros. Então, minha postura na escola era enrijecida, era diferente. Harry: Então, eu fico me perguntando: como era minha sexualidade e meu gênero durante a escola? Eu não sei, não consigo saber se eu tinha atração pelos meninos, mas eu sabia que era uma figura estranha. Eu tive um carinha por quem eu acho que fui meio apaixonadinho. Eu tinha um carinho por ele e meio que escondia meus desejos sexuais. Só que eu me sentia a pessoa errada. Eu não me sentia um homem e não me sentia uma mulher. Então, por exemplo, eu não tinha uma vontade de ser uma mulher, mas eu queria ser homem. Eu queria ser homem, nesse sentido de ser homem relacionado à masculinidade hegemônica. Porém, eu não conseguia, tinha uma voz e um jeito que não condiziam com a hegemonia masculina. Eu acho que foi isso que me atravessou. Então, eu era uma criança tímida, que não falava, que não conversava, que não participava. Eu era excluído pelos meninos. Então, eu vivenciei esses momentos durante a escolarização. Igor: Eu não sei se eu tinha esse desejo de performar essa figura de homem da masculinidade hegemônica durante a escola. Eu me lembro que eu escutava muito pop e adorava a Lady Gaga, mas eu não era a Lady Gaga da escola, no sentido de ser o mais afeminado. Eu já sabia que eu sentia atração por homens e não sentia atração por mulheres. Eu era pressionado a ficar com mulheres e cheguei a ter namoradinhas durante a escola, mas nunca cheguei a transar com elas. Por mais que eu sentisse prazer em me relacionar com as meninas, 92 João Paulo Baliscei (org.) eu não tinha um desejo incessante de transar com elas. Esse desejo, durante a escolarização e até os dias atuais, foi direcionado para os homens. Eu ficava olhando os meninos jogarem futebol e sentia muito desejo ao ver seus corpos. Isso, nos Ensinos Fundamental e Médio. Harry: Acredito que essa conversa é intergeracional! Eu venho de uma cidade do interior, pequena, que é a cidade ocidental de Brasília. É uma cidade muito pequena. Eu era de uma família evangélica, por parte de mãe. Meus pais eram separados. A família do meu pai era constituída de católicos fervorosos: meus tios por parte de pai frequentavam as igrejas todo domingo e suas casas eram repletas de imagens religiosas. Eu acho que estamos falando, no meu caso, do início dos anos de 1980. Então, a situação era mais pesada. Ser gay representava você ter AIDS (ser soropositivo) e carregar as piores mazelas da sociedade. Eu não sei em uma cidade grande, mas onde eu vivenciei, em uma cidade pequena, representava isso. Por conta disso, eu não queria ser o que eu era. Eu acredito que, por isso, vivenciei essas frustrações. Acredito que foi muito sofri- mento psíquico o que eu vivi. Eu não tive referências de ser gay saudável. Todas as referências de ser gay que eu tinha eram relacionadas à confusão: você precisava aceitar Jesus em sua vida, pois estava praticando um pecado ou, então, você teria AIDS. Talvez, existissem outros gays no contexto em que vivi, mas eles eram reprimidos e/ou casados. Estou falando da minha rea- lidade, onde eu morava. Harry se direciona ao Igor e pergunta: E você? Quando você nasceu? Igor: Eu nasci em 1995 Harry: Então, estamos falando dos anos 2000. Igor: A minha referência de ser gay tinha relação com o HIV e com ser soropositivo. Só que a minha referência de ser gay, também, estava relacionada com as femini- lidades. Então, ser gay como uma pessoa afeminada, que feminiliza a voz e é espalhafatoso. Então, eu tinha essa referência. A drag queen era uma referência de ser gay. Por mais que eu saiba que, hoje em dia, uma pessoa 93 É de menina ou menino? que faz arte drag e se monta não é necessariamente gay, na minha época, era essa a referência. Harry então questiona: Mas, Igor, isso não é positivo? Igor: É, mas não. Neste caso, ao ser espalhafatoso e muito afeminado, a pessoa gay acaba sendo sinônimo de mulher. Harry: E isso é legal, mas, para mim, não tinha nem essa referência. Para mim, ser gay era sinônimo de demônio, de assombração. Igor pergunta a Harry: Isso era em que época mais ou menos? Harry: Início dos anos de 1980. Igor: Então, foi a época que teve a explosão de pessoas gays com HIV. Marcos: Então, a minha infância foi na década de 1990. Eu venho de uma cidade do interior do Paraná, que fica ao lado de uma colônia de alemães: alemães rígidos e católicos. A questão do gay ali na minha região, além de estar associado à AIDSe ao HIV, estava, também, associada à questão da prostituição. Estava associada de uma forma muito forte e, posso até dizer, violenta, pois não era essa imagem da prostituição como um trabalho, como estamos discutindo hoje em dia. A prostituição era vista como “você se assumiu gay, então você vai se prostituir e não tem outro caminho”. Eu me lembro dos meus pais falando, por exemplo, para não me relacionar com outras pessoas gays, pois você poderia pegar alguma doença e me prostituir. Igor complementa o que Marcos disse: Eu me lembro dessa associação com as pessoas. Se você se relacionar com gay, você vai virar gay. Isso, eu também vivenciei na minha família. Eu venho do interior de São Paulo, de uma cidade chamada Araçatuba. Agora, estou lem- brando dos motivos da minha referência de ser gay se associar com as feminilidades! Na minha rua, morava uma pessoa negra que, hoje em dia, eu sei que é uma pessoa trans e/ou travesti, pois ela performava o gênero mulher. Todo mundo da minha família e da rua falava 94 João Paulo Baliscei (org.) que ele era gay. No fundo, eu acredito que, provavel- mente, ele se enxergava enquanto mulher. Marcos complementa o que Igor disse: Nesse tempo não estava muito claro essa questão de identidade, não é? Igor continua: Sim! Então, a referência que eu tenho de ser gay é essa pessoa, que morava na minha rua e era afeminada e espalhafatosa. Todo dia, ele passava na frente de casa, porque a gente morava perto. Ele passava com short curto, o cabelo repleto de tranças longas, um andar afeminado e rebolando. Minha mãe usava isso como referência de ser gay. Ela até me dizia quando eu expressava trejeitos afeminados: então, agora você virou essa pessoa? Então, a referência era esse corpo negro, afeminado e feminino. Marcos vem à tona com outras provocações e lembran- ças: É muito importante você comentar essa questão de identidades. Eu me lembro de quando eu comecei a entender as identidades sexuais, de gênero, todas as letras da sigla LGBTI+. Antes, na minha rua, o pessoal pichava a sigla GLS (gays, lésbicas e simpatizantes). Eu não tinha essas informações do ser bissexual, da pessoa trans e travesti. Tanto que eu achava que eu era corpo destoante, pois eu gostava de homens e de mulheres. A única via possível para mim era a psi- quiatria e a psicologia. Eu tentava tratar isso, porque, se eu não conseguisse definir se eu gostava de homem ou de mulher, escolhendo apenas um gênero, eu estava errado. Então, eu me sentia muito errado. Quando eu assumi para minha família a bissexualidade e levava para casa um dia um homem e no outro uma mulher, minha família achava que eu era rebelde, que isso tudo era apenas uma fase e que eu estava querendo chamar a atenção. Na verdade, não era. Eu estava tentando me compreender enquanto pessoa. Harry: Então, nós temos três momentos de infância, três décadas diferentes. Elas não representam caracte- rísticas das décadas, mas, sim, das nossas histórias. Uma era relacionada a essa questão demoníaca, talvez pela minha história com a Igreja. Eu não tinha referência nenhuma dessas questões identitárias, como GLS. Essa discussão estava ausente. Estou resgatando essa memó- 95 É de menina ou menino? ria, que eu vivi o que era para mim. As memórias do Marcos estavam relacionadas à prostituição. E o Igor, essa questão do feminino. O Marcos falou que para ele, naquela época, já eram apresentadas essas siglas, não é? Marcos responde o Harry: Sim, eram. Essas siglas como GLS. Não tinha outras identidades visíveis. Ou você era gay ou você era lésbica. Harry complementa o que o Marcos disse: Ou era simpatizante. Marcos: Isso! Igor: Engraçado, eu não conhecia a sigla GLS quando eu era criança. Eu conheci depois. Eu conhecia a Parada Gay de São Paulo, assistia quando transmitia na TV. Agora, a sigla, eu não sabia da sigla. Eu não tenho uma memória forte. Harry comenta: Eu conheci a sigla quando era ado- lescente. No Ensino Médio, eu ouvi falar da sigla e descobri os significados. Essa discussão para mim era ausente na escola, em casa e na Igreja. No ciclo de amizades na escola, de maneira informal e pelo meu relacionamento com os colegas, essa discussão era muito presente. Ela se fazia presente no ciclo de amizades de forma bem violenta: era a “bixinha”, o “viado”. Porém, em momento algum se discutia. Igor comenta: Na minha escola também. Eu não lembro de discutir essas questões de gênero e sexualidade. As discussões de sexualidade eram associadas à prevenção. Tinha até um jogo que eles desenvolviam na minha escola e as professoras de Ciências e Biologia tomavam a frente. Elas ensinavam como colocar a camisinha, como se prevenir de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e toda aquela pedagogia do horror e do medo, apresentando imagens de pessoas contaminadas com ISTs. Elas até falavam enquanto apresentavam as imagens: “Se você não usar camisinha, você pode ficar assim, você pode ser contaminado desse jeito”. Não tinha uma discussão sobre vivenciar seus diversos prazeres. Marcos comenta: Sim, isso é bizarro. Eu comecei a fazer teatro muito cedo e lá existiam pessoas que eram 96 João Paulo Baliscei (org.) declaradamente homossexuais e lésbicas. Só que eu comecei a conhecer pessoas dissidentes das normas da sexualidade no Ensino Fundamental e Médio, na escola, quando eu assumi minha sexualidade. Quando você (Igor) começou a falar dessas questões de preven- ção e do uso da camisinha, eu tinha amigas lésbicas que comentavam comigo: “poxa, elas não tratam das questões de prevenção das lésbicas, não tratam como a mulher lésbica deve se prevenir para não pegar nenhuma doença”. Então, era realmente focado no homem. Até hoje, quando você ouve uma enfermeira falar sobre o uso da camisinha, é pensando no homem. Harry interrompe Marcos: Você discutiu isso na escola? Você tinha amigas lésbicas. Marcos responde: Sim, eu tinha/tenho amigas lésbicas. Harry questiona: E vocês conversavam sobre isso? Marcos responde: Sim, mas conversávamos entre nós. O engraçado é que, quando eu leio sobre a história do movimento LGBTI+ que fala sobre os guetos, eu me lembro de nós marcando reuniões de estudo na casa de um amigo ou de outra. Eu morava na periferia e a maioria das pessoas que estavam no meu convívio, ali da escola, era de periferia. Então, essas reuniões de estudo aconteciam quando os pais saiam de casa e ficávamos sozinhos. Era uma reunião para nos rela- cionarmos entre si. Igor interrompe Marcos: Nossa, o Marcos era libertário! Marcos diz: Eu não era libertário. Eu tive uma expe- riência de enfrentamento. Igor questiona: Você já fazia teatro nessa época? Marcos responde: Sim. A homossexualidade e a les- bianidade eram coisas naturalizadas no teatro. Era uma forma muito livre. Eu passei a conviver com pessoas que já discutiam isso. Então, eu tive um contato muito cedo com isso. Só que nós conversávamos entre nós, era o nosso gueto. 97 É de menina ou menino? Igor comenta: Eu não tinha amigos gays ou lésbicas. Eu tinha amigas que jogavam futebol e eram mais masculinizadas. No Ensino Médio, uma das minhas amigas veio me confessar que estava se relacionando com uma mulher, mas ela não assumia a identidade lésbica. No Ensino Fundamental, eu não vivenciei essas saídas de armário, do tipo: “sou lésbica”, “sou gay”. No Ensino Médio, eu já vivenciei isso. Marcos comenta: Eu me lembro da primeira vez que tive contato com a palavra sapatão. Foi engraçado. Tinha uma menina, na minha rua, que era mais masculini- zada, tinha uma voz grossa e muitos pelos no corpo. A sociedade e o bairro onde eu morava falavam que ela era sapatão. Sempre observava os meninos chamando-a de sapatão e, por conta disso, eu passei a chamar de sapatão também. Teve um momento que eu perguntei a uma amiga: “mas, por que sapatão? É por que ela tem um pé grande?”. Minha amiga respondeu: “não, é porque ela gosta de mulher, de couro e sapato”. Então, foiassim que eu tive contato e comecei a conhecer. Isso acontecia na escola, para você ser aceito em um grupo de amigos, você tinha que se enquadrar naquele perfil. Igor comenta: Estou recordando sobre a referência de ser gay associado às feminilidades. Eu tinha uma pessoa na família que todos suspeitavam da sexualidade, porque ele já morou com um gay durante a faculdade, falava de forma afeminada e pintava o cabelo. Então, a referência de ser gay, associada à feminilidade é muito forte na minha família. O pessoal da minha família até comenta: “que bom que você já se assumiu, ao contrário daquela outra pessoa que conhecemos”. Harry comenta: Eu não vivi nada disso. As escolas em que estudei eram completamente binárias. Meninos e meninas. Não tem figura lésbica e não me lembro de figuras afeminadas. Tinha um menino que, hoje, per- cebo o quanto ele era forte, pois ele enfrentava as opres- sões. Eu estava na sétima série e tinha medo de estar perto desse menino. Ele era forte no sentido afeminado. Marcos questiona: Mas, Harry, você era um corpo gay nessa escola. Então, acredito que não era uma questão binária. Você silenciou seu prazer. 98 João Paulo Baliscei (org.) Harry responde: Eu era um corpo gay. Sim, eu silenciei meu prazer. Eu me silenciei completamente, pois sentia que eu era o holofote de tudo. Eu não conseguia nem ficar atento a outras coisas. Eu não tinha nenhuma referência. Era como se eu estivesse em uma viagem sem destino. A única referência que tinha era de ser menino masculino. A única referência do corpo gay era essa forma depreciativa. Eu não tinha com quem conversar. Eu tinha uma grande amiga e sinto que eu era um grande amigo para ela também, pois nós nos acolhemos. Ela era oriunda de uma família, em que a maioria eram mulheres que criaram seus filhos sozinhas. Ela fugia das normas de ser mulher na escola e, por isso, era excluída. Logo, os dois excluídos se juntaram. Nós nunca tratávamos de sexualidade. Ela comentava, às vezes, mas, eu nunca me permiti falar sobre isso. Essa amiga atravessou minha vida por muito tempo. Então, eu vivi em uma escola muito complicada e foram muitas violências, inclusive os professores que não souberam me acolher. Hoje, vivenciando a condição de ser professor, eu vejo tudo isso de forma assustada. Enquanto pro- fessor, eu sempre presto atenção nos alunos que ficam no fundo da sala e se estão vivenciando algum tipo de violência. Não é possível que um professor não perceba essas questões na sala de aula. Igor e Marcos ficam em silêncio. Harry continua: Na época da escola, os professores faziam chamada por número e, todo ano, eu tinha pavor de ser o número 24 da sala. Eu sofri muita violência na escola. Eu respondia a chamada com vergonha da minha voz. Por vezes, eu respondia de maneira um pouco afeminada e as opressões já começavam ali mesmo, na chamada. Então, eu tinha pavor de falar qualquer coisa. O único lugar em que me sentia acolhido era em casa, com a minha mãe. Mesmo não falando sobre sexuali- dade em casa, eu era querido pela minha mãe e pelas minhas irmãs. Era o único espaço em que eu podia ser quem eu era, sem ficar tenso, atento. Eu passava o dia pensando nesses momentos de opressões. Parecia que eu estava escondendo algo e precisava esconder ou ser escondido. Ninguém podia ver. É como se você fosse uma fraude. Isso é comum entre as pessoas LGBTs 99 É de menina ou menino? e negras, pelo menos entre as pessoas com quem eu converso. Muitas vezes, essas pessoas sentem que não são capazes de ocupar aquele lugar e se sentem uma fraude quando ocupam este lugar. Eu acredito que nós, enquanto LGBTs, vivenciamos algo que não somos, uma fraude. Por exemplo, somos uma fraude ao performar uma masculinidade pura, pois nós não somos isso. Marcos comenta: O meu contexto é de muita miséria social, material mesmo. Eu me lembro de uma conversa que tive com um amigo declaradamente homossexual. Ele comentou comigo: “Marcos, nós não temos nada a perder. Então, não se perca de você.” Isso fez muito sentido para mim. Os maiores problemas que eu tinha no meu bairro era a questão material. Eu, por exemplo, quando fui expulso de casa, não fui expulso por conta da minha sexualidade. Eu fui expulso de casa com 13 anos por conta do meu pai alcoólatra, dependente químico. Então, nós tínhamos problemas maiores. Minha mãe falava: “nós temos problemas maiores para resolver, ao invés de ficar discutindo se você é viado ou não”. Os problemas eram a fome, a falta de dinheiro, as contas de água e de luz que sempre cortavam. Então, assumir a sua sexualidade no contexto em que eu vivia era uma forma de enfrentamento e demarcar: sou assim mesmo. Por mais que as pessoas naquele contexto associavam a doenças e outras questões, essa era forma de garantir o respeito delas. Após a última narrativa, os pesquisadores se entreolharam, em silêncio. Mesmo que os diálogos tenham fluído, por meio de suas remi- niscências, talvez, fosse o momento de parar e de digerir tudo o que vivenciaram naqueles poucos minutos. ATO FINAL: CONCLUSÃO Para Manuela Carneiro da Cunha (2009), os resultados de uma pesquisa que se utiliza de narrativas para compreender a história de vida privada apresentam como a cultura é um traço marcante na formação do indivíduo com seus hábitos, seus costumes, seus valores, sua educação, entre outros aspectos que o constituem. Assim, destacando como as 100 João Paulo Baliscei (org.) diferenças culturais por meio das narrativas de si contribuem para os modos de ser e de viver em sociedade. Dessa forma, os pesquisadores, ao dialogarem sobre gênero e sexualidade, interseccionaram com a Educação. Teceram, assim, caminhos para compreender quais traços culturais se formaram e se desenvolveram no processo educacional e, assim, implicaram questões de gênero e sexualidade. À guisa de conclusão, identificamos, por meio das reminiscências e das narrativas, como a estrutura do machismo, da homofobia e do sexismo se consolidara na Educação dos pesquisadores. Dessa forma, as narrativas, que se propõem a pensar as temáticas de gênero e de sexualidade dentro do âmbito educativo, por meio do diálogo para o enfrentamento à violência homofóbica, é uma provocação constante. Acreditamos ser importante analisar as narrativas voltadas para o respeito à diversidade sexual, pois, segundo Sílvio Gallo (2007), é por meio dessas narrativas que se consolidam políticas públicas educacionais. Compreendê-las, então, possibilita que novos projetos sejam execu- tados em acordo com as necessidades mais primárias sobre o assunto. Além disso, oportunizar que pessoas LGBTI+ possam dialogar sobre suas vivências, suas trajetórias e suas resistências no meio educativo é uma forma de deslocar os modos de pensar a educação e o modo de aprender e ensinar. REFERÊNCIAS CARNEIRO, Aparecida Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese (Doutorado em Educação). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. (org.). Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009. GALLO, Sílvio. Educação menor: produção de heterotopias no espaço escolar. In: RIBEIRO, Paula Regina Costa; SILVA, Méri Rosane Santos da; GOELLNER, Silvana Vilodre. Corpo, gênero e sexualidade: composições e desafios para a formação docente. Rio Grande: FURG, 2007. p. 93-102. GROSFOGUEL, Ramón. Para descolonizar os estudos da economia política e os estudos póscoloniais: transmodernidade, pensamento de fronteira e colonialidade glo- 101 É de menina ou menino? bal. In: SANTOS, B. S.; MENESES, M. P. (org.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009. p. 383-417. LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Trad. de João Wanderley Geraldi. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20-28, jan/fev/mar/abr 2002. 102 João Paulo Baliscei (org.) A CONSTRUÇÃO VISUAL DO FEMININO Onde estão as artistas mulheres?Uma busca em livros didáticos para o Ensino Médio; Mulheres e Natureza: aproximações e afastamentos generificados; Menstruação e manifestações artísticas: um caminho para construir e reconstruir significados; “Ela será salva pela sua maternidade”: representações femininas entre Evas e Marias; “Garota?” - Doris, a “irmã feia” da animação Shrek: Cultura Visual e Transgeneridades; “O meu irmão tinha uma boneca e o meu irmão mais novo usava isso como chantagem”: Representações Sociais de educadoras da Educação Básica sobre gênero. 103 É de menina ou menino? Figura 1: Cartaz As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?, do coletivo Guerrilla Girls. Fonte: MASP. Disponível em: <https://masp.org.br/busca?search=guerrilla>. ONDE ESTÃO AS ARTISTAS MULHERES? UMA BUSCA EM LIVROS DIDÁTICOS PARA O ENSINO MÉDIO Vinícius Stein28 Zuleika de Paula Bueno29 José Henrique Rollo Gonçalves30 Rose Mari Ramos31 CONSIDERAÇÕES INICIAIS Neste texto apresentamos os resultados iniciais de uma pesquisa vinculada ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência 28 Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Maringá - UEM. Professor no Curso de Artes Visuais da UEM. Integra o Grupo de pesquisa em Arte, Educação e Imagens – ARTEI (CNPq/UEM). Lattes: http://lattes.cnpq.br/2140194065685423. 29 Doutora em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Professora no Curso de Ciências Sociais e no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UEM. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3201079249245037. 30 Doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Professor no Curso de História, no Mestrado Profissional em Ensino de História (Profhistória) e no Mestrado Profissional em Políticas Públicas na UEM. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3295232368887413. 31 Graduada em Arte-Educação pela Universidade Estadual do Centro-Oeste - Uni- centro. Professora de Arte na Educação Básica pela Secretaria de Estado da Educação e do Esporte - Seed-PR. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6015913801265315. 104 João Paulo Baliscei (org.) (Pibid), da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Referimo-nos às ações realizadas entre os meses de outubro de 2020 e junho de 2021, pelo núcleo de Arte32 do subprojeto interdisciplinar nas áreas de Arte, História e Sociologia, vinculado ao projeto institucional da UEM. O Pibid integra a “Política Nacional de Formação de Professores do Ministério da Educação, visando intensificar a formação prática nos cursos de licenciat ura e promover a integração entre a educação básica e a educação superior” (BRASIL, 2019). Por meio de bolsas de iniciação à docência33, possibilita aos estudantes que estão na primeira metade dos cursos de licenciatura, a inserção em escolas públicas de Educação Básica, com o propósito de contribuir para o aprimoramento da formação de docentes em nível superior (BRASIL, 2019). A pandemia de Covid-19, cujos impactos foram agravados devido à má gestão realizada pelo governo federal brasileiro (BBC, 2021), impediu o desenvolvimento de ações em campo, isto é, no espaço escolar. Diante disso, as atividades de formação docente foram conduzidas e realizadas de modo remoto. Dedicamos os primeiros meses do subprojeto para pesquisas e estudos interdisciplinares34 e, além disso, cada núcleo realizou ações orientadas para suas especificidades. Entre os integrantes do núcleo 32 O núcleo de Arte é composto pelo coordenador de área (Vinícius Stein), pela professora supervisora (Beatris Ribeiro Rocha, de outubro a fevereiro de 2021; e Rose Mari Ramos, a partir de março de 2021) e por estudantes dos cursos de graduação em Artes Cênicas e Artes Visuais da UEM (Brenda Monique Romanoski Ferreira, Camila Ferreira de Oliveira, Carol Eduarda Schavaren de Lima, Carolina Von Der Osten Mocelin, Daniel Macedo Lanes, Gabrielle Faria de Souza, Heron Gabriel Alvares, Julia Harume Fujii, Letícia Garbuggio Armelin, Marjorie Donizeti Assano e Mérily Nunes Monteiro da Silva). 33 Apesar de o Pibid contribuir significativamente para a formação de professores desde seu lançamento em 2007 (GATTI, ANDRE, GIMENES e FERRAGUT, 2014), ao longo dos anos, o programa tem sido alvo de disputas políticas e tem tido sua execução afetada por ameaças de extinção e cortes orçamentários (CASTILHOS e KNOBLAUCH, 2019), com expressiva redução no número de bolsas a partir de 2018 (BRUNS e RAUSCH, 2021). 34 Parte das ações realizadas nesse período são descritas no texto Aproximações entre arte-educação e o ensino de Sociologia: exercícios de Image Watching, de Zuleika de Paula Bueno, Vinícius Stein, José Henrique Rollo Gonçalves e Danilo Cesar Macri Lazare (2021), apresentado no 7º Encontro nacional sobre o ensino de Sociologia na Educação Básica - ENESEB, promovido pela Universidade Federal do Pará - UFPA. 105 É de menina ou menino? de Arte, tratamos sobre o objeto de estudo dessa área de conhecimento na educação escolar, especialmente no Ensino Médio, atendendo a questões comuns entre os estudantes, tais como: Quem define quais artistas e exemplos de criações artísticas são expostos? O professor tem autonomia para selecionar as temáticas e exemplos de Arte em suas aulas? Mobilizados por essas perguntas, iniciamos uma investigação, ainda em desenvolvimento, amparada metodologicamente em princípios da Pesquisa Educacional Baseada nas Artes - PEBA35 (DIAS, 2013; IRWIN, 2013) e da A/r/tografia36 (BORRE, 2020; DIAS, 2013; HER- NÁNDEZ, 2013; IRWIN, 2013). Nela, temos como objetivo identificar quais artistas e grupos artísticos são expostos em livros didáticos para o Ensino Médio e, com isso, mensurar quais nacionalidades, identidades de gênero, etnias e modalidades de criação artísticas são visibilizadas e invisibilizadas nas publicações pesquisadas. Neste texto, tratamos especificamente sobre a desigual distribui- ção e representatividade entre artistas homens e mulheres37 nos livros consultados. Inicialmente apresentamos exemplos de criações artísticas que nos mobilizaram a analisar os livros didáticos de Arte para o Ensino Médio. Adiante, mencionamos os critérios utilizados para análise dos livros e os resultados identificados. Por fim, indicamos as ações em desenvolvimento mediante a constatação da baixa representatividade de mulheres artistas nas publicações. 35 Belidson Dias (2013) utiliza a tradução literal da expressão em língua inglesa Art- s-based educational research (ABER). Segundo o autor, no Brasil também é utilizada a terminologia Investigação Educacional Baseada nas Artes (IEBA). 36 Conforme Dias (2013, p.25) “A/R/T é uma metáfora para: Artist (artista), Resear- cher (Pesquisador), Teacher (Professor) e graph (grafia): escrita/representação. Na a/r/ tografia saber, fazer e realizar se fundem”. Assim, ao elegermos a a/r/tografia como orientação metodológica, pretendemos que os participantes do Pibid vinculados ao núcleo Arte vivenciem três formas de ser próprias às práticas a/r/tográficas (ser artista, ser pesquisador e ser professor). Os resultados apresentados aqui referem- se particu- larmente à dimensão da pesquisa. 37 Discutimos a representatividade de homens e mulheres artistas, pois não identifi- camos nas publicações artistas com outras identidades de gênero. 106 João Paulo Baliscei (org.) ARTE CONTEMPORÂNEA, DESIGUALDADES DE GÊNERO E EDUCAÇÃO ESCOLAR Uma das propostas que mobilizou nossa investigação foi o projeto História da_rte, desenvolvido por Ananda Carvalho, Bruno Moreschi e Gabriel Pereira, por meio do qual investigaram a construção dos dis- cursos oficiais da história da arte em 11 livros38 utilizados em cursos de graduação em Artes Visuais no Brasil. Moreschi convidou pesquisadores de diferentes áreas para a rea- lização de um projeto capaz de “[...] mensurar o cenário excludente da História da Arte oficial estudada no país” (HISTÓRIA..., 2021). Após analisar mais de 5000 páginas dos 11 livros, a equipe sistematizou pla- nilhascom os nomes; anos de nascimento e morte; locais de nascimento, trabalho e morte; identidade de gênero e etnias; e técnicas principais utilizadas pelos 2.443 artistas identificados. Mediante análise quantitativa e qualitativa desses dados, os pesquisadores verificaram que a narrativa acerca da história da arte apresentada pelos livros é estruturada para excluir mulheres, artistas negros/as e não-europeus e valoriza a pintura como meio de criação. Conforme registram: de um total de 2.443 artistas, apenas 215 (8,8%) são mulheres, 22 (0,9%) são negras/negros e 645 (26,3%) são não europeus. Dos 645 não europeus, apenas 246 são não estadunidenses. Em relação às técnicas utilizadas, 1.566 são pintores (HISTÓRIA..., 2021). 38 Os livros analisados pela equipe do projeto História da _rte foram: 1) A História da Arte (de Ernst Hans Gombrich, Editora LTC, 2000, 688 páginas). 2) Arte Moderna (de Giulio Carlo Argan, Cosac Naify, 1992, 709 páginas). 3) Arte Contemporânea: Uma História Concisa (de Michael Archer, Martins Fontes, 2001, 263 páginas). 4) Arte Contemporânea: Uma Introdução (de Anne Cauquelin, Martins Fontes, 2005, 169 páginas). 5) Conceitos Fundamentais da História da Arte (de Heinrich Wölfflin, Martins Fontes, 2015, 348 páginas). 6) Estilos, Escolas & Movimentos: Guia Enci- clopédico da Arte (de Amy Dempsey, Cosac Naify, 2005, 304 páginas). 7) Guia de História da Arte (de Giulio Carlo Argan e Maurizio Fagiolo, Editorial Estampa, 1994, 158 páginas). 8) Iniciação à História da Arte (de Horst W. Janson e Anthony F. Janson, Martins Fontes, 2009, 475 páginas). 9) Teorias da Arte Moderna (de Hers- chel B. Chipp, Martins Fontes, 1988, 675 páginas). 10) Tudo sobre Arte (de Stephen FarthingSextante, 2010, 576 páginas). 11) História da Cidade (de Leonardo Benevolo, Perspectiva, 2009, 728 páginas) (CARVALHO, MORESCHI e PEREIRA, 2019)., 107 É de menina ou menino? Além do texto, a equipe analisou e identificou algumas recorrências nas imagens e verificou que “[...] o discurso de exclusão e normatividade dos livros não se restringe ao seu conteúdo textual, mas também ao imagético”. Conforme detalham: Das 5.516 imagens dos 11 livros, um total de 1.060 possui pelo menos uma figura feminina, sendo que 44,3% delas são de corpos femininos nus ou seminus. Já a figura masculina aparece em 763 imagens, sendo que 18,95% delas com homens nus ou seminus – e, dessa porcentagem, 48,2% são na verdade representações de Jesus (CARVALHO, MORESCHI e PEREIRA, 2019, p. 36). Segundo a equipe, os resultados apresentaram uma “[...] narrativa excludente, branca, misógena, eurocêntrica e extremamente autoritá- ria”. Em oposição a esta lógica, eles buscaram dar uma resposta “[...] a partir de uma prática que fosse acessível e ativista” (CARVALHO, MORESCHI e PEREIRA, 2019, p.39), materializada na forma de um panfleto39. O material, criado pelo designer Guilherme Falcão, apresenta textos, gráficos e mapas que mostram os principais dados encontrados. A estratégia de apresentação das informações se aproxima da linha de experiências do campo do ativismo de dados. Outra referência para nossa pesquisa foram as proposições do coletivo Guerrilla Girls. Em seu website, o grupo se apresenta da seguinte maneira: As Guerrilla Girls são artistas ativistas feministas. Usamos máscaras de gorila em público e usamos fatos, humor e visuais ultrajantes para expor preconceitos étnicos e de gênero, bem como corrupção na política, arte, cinema e cultura pop. Nosso anonimato mantém o foco em nossas questões e não em quem somos: podemos ser qualquer uma e estamos em todos os lugares. Acre- ditamos em um feminismo intersetorial que combate a 39 O panfleto teve tiragem de 13 mil exemplares em português e 2 mil em inglês e foi distribuído gratuitamente ao longo do ano de 2017 na entrada de museus do Brasil e de outros países selecionados pela equipe. Também está disponível no website do projeto (https://historiadrte.cargo.site/resultados). 108 João Paulo Baliscei (org.) discriminação e apoia os direitos humanos de todas as pessoas e de todos os gêneros. [...]. (Tradução nossa, 2021). Um exemplo de como o coletivo expressa artisticamente seus princípios pode ser visualizado na composição intitulada As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?, Figura 1, que abre esse capítulo, a qual foi exibida na exposição Guerrilla Girls: Gráfica 1985 - 2017, realizada pelo Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - MASP, entre setembro de 2017 e fevereiro de 2018. Sobre um fundo amarelo vibrante e acompanhada de uma reprodução da personagem feminina da tela A Grande Odalisca40, cujo rosto origi- nal fora coberto pela cabeça de uma gorila, a pergunta feita em letras garrafais no topo do cartaz é respondida logo abaixo: “Apenas 6% dos artistas do acervo em exposição são mulheres, mas 60% dos nus são femininos”. A composição faz referência ao cartaz Do women have to be naked to get into the Met. Museum? [As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met. Museum?] realizado pelo coletivo em 1989, atualizada às informações do museu brasileiro. O apagamento de mulheres artistas nas narrativas hegemônicas da história da arte também foi questionado pelas artistas EvaMarie Lindahl e Ditte Ejlerskov Viken, por meio do projeto About: The Blanck Pages [Sobre: as páginas brancas]. As autoras problematizaram a coleção Basic Art [Arte Básica], publicada pela destacada editora alemã Taschen, na qual cada livro apresenta um estudo monográfico sobre a obra de um artista. Em 2014, as artistas realizaram um levantamento dos títulos da coleção e constataram que dos 97 artistas publicados, apenas 5 eram mulheres. Mediante uma extensa pesquisa, a dupla realizou um levan- tamento de 100 artistas mulheres que atendiam aos requisitos da editora para compor a série, como ter participado em exposições de museus e a representação em importantes coleções (MASP, 2019). A lista foi enviada em abril de 2014 à editora por meio de uma carta. Até 2019, 40 A Grande Odalisca (1814) - Pintura de Jean Auguste Dominique Ingres (1780 - 1867), disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ingre,_Grande_Oda- lisque.jpg. 109 É de menina ou menino? quando a instalação Sobre: as páginas brancas (Figura 2) foi apresentada na exposição Histórias Feministas, a carta não havia sido respondida. A instalação consiste na exposição dos 100 livros cujas capas fazem referência às artistas pesquisadas pela dupla e imitam o design da série Basic Art [Arte Básica] da editora Taschen, misturados aos demais títulos publicados na coleção. Os exemplares são apresentados em estantes, como as de livrarias, contudo, aqueles criados pela dupla, e que atri- buem protagonismo às artistas mulheres, têm suas páginas em branco, “[...] materializando a ausência dessas histórias, ainda a serem escritas e publicadas” (MASP, 2019, p. 240). Figura 2 - EvaMarie Lindahl e Ditte Ejlerskov Viken. Sobre: as páginas brancas. Insta- lação. 200 livros e cartaz em impressão digital sobre papel. Em exposição no MASP. Fotografia de Eduardo Ortega. Fonte: MASP. Disponível em: <https://masp.org.br/acervo/obra/sobre-as-pagi- nas-brancas>. Esses três projetos artísticos problematizam os discursos oficiais de legitimação da história da arte, investigando tanto as narrativas ofe- recidas em livros, quanto aquelas promovidas em exposições realizadas por instituições, como os museus. Partem de uma pesquisa quantitativa e apresentam os dados levantados por meio intervenções artísticas. 110 João Paulo Baliscei (org.) IDENTIFICANDO ARTISTAS EM LIVROS DIDÁTICOS DE ARTE Como mencionamos anteriormente, os procedimentos utilizados pelos artistas nos motivaram a analisar livros didáticos entregues aos estudantes do Ensino Médio. Selecionamos o livro Percursos da Arte, da Editora Scipione, escrito por Beá Meira, Silvia Soter e Rafael Presto (2016), pois consistia no material didático disponível aos estudantesdo Ensino Médio na escola vinculada ao Pibid. O livro, de 376 páginas, foi distribuído pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) no ano de 2018 (BRASIL, 2017) e seu uso será descontinuado e substituído pela escolha feita pelas escolas no PNLD 2021 (BRASIL, 2020). Tendo em vista a continuidade do subprojeto do Pibid no próximo ano, também selecionamos um exemplar que integra a lista de títulos aprovada para o PNLD 2021. Como a escola vinculada ao subprojeto ainda não havia selecionado a obra para o próximo ciclo, elegemos o livro #Novo Ensino Médio, de 208 páginas, escrito por Mariana Lima Muniz, Murilo Andrade Rocha e Gabriela Córdova Chirstófaro (2020), pois também fora publicado pela editora Scipione. A primeira etapa para pesquisa nos livros selecionados consistiu na identificação dos nomes de todas as pessoas e grupos41 mencionados, mediante leitura das publicações na íntegra. Após a listagem dos nomes, tendo como referência a sistematização feita pela equipe do projeto His- tória da _rte (História..., 2019), criamos planilhas para complementar dados sobre as pessoas e grupos identificados. Para preencher a planilha referente às pessoas, buscamos informações biográficas sobre cada uma delas e organizamos nas seguintes categorias: Nome, identidade de gênero, etnia, ano de nascimento e morte, continente e país de nascimento e morte, modalidade de criação e fonte da pesquisa42. Aqui, apresenta- 41 Realizamos a opção de registrar também os nomes de grupos, para não legitimar a ideia comum de que a Arte é produzida apenas individualmente. Neste texto tra- tamos apenas dos dados sobre o gênero dos artistas. Informações sobre etnia, ano de nascimento e morte, continente e país de nascimento e morte, modalidade de criação e sobre os grupos serão objeto de análise em outras publicações. 42 Priorizamos as buscas nas seguintes plataformas: Oxford Art Online, Enciclopédia Itaú Cultural e Wikipédia. 111 É de menina ou menino? mos os quantitativos referente ao número de artistas mencionados e à distribuição entre homens e mulheres, pois os demais dados coletados serão objeto de análise em outras publicações. Tabela 1 - Dados sobre pessoas identificados nas publicações Percursos da Arte #Novo Ensino Médio Total de nomes citados 646 100% 105 100% Artistas43 522 80.80% 49 46.66% Outros44 124 19.19% 56 53.33% Fonte: Os autores. Tabela 2 - Dados sobre gênero e etnia dos/as artistas Percursos da Arte #Novo ensino Médio Número total Percentual do número total de artistas Valor total Percentual do número total de artistas Homens (total) 437 83.71%45 40 81.63% Mulheres (total) 85 16.28% 9 18.36% Fonte: Os autores. Destacamos, a diferença no quantitativo de referências artísticas entre uma publicação e outra. Enquanto Percursos da Arte nomeia 522 artistas, #Novo Ensino Médio traz apenas 49. Avaliamos que essa redução está relacionada ao enfraquecimento da Arte na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), conforme analisa José Roberto Pereira Peres Peres 43 Consideramos como artistas as pessoas cujas criações estão relacionadas às seguintes modalidades de criação: Artes Visuais - inclui pessoas com produção nas áreas de arte digital, body art, curadoria, desenho, design (moda, gráfico, têxtil e objetos), escultura, fotografia, gravura, instalação, intervenção, performance, pintura e quadrinhos; Teatro - inclui pessoas envolvidas com criação teatral, isto é, dramaturgos, atores, diretores e cenógrafos; Música - inclui pessoas envolvidas com a criação musical, tal como, compositores, letristas, arranjadores, instrumentistas e cantores; Dança - inclui pessoas envolvidas com a criação em dança, ou seja, coreógrafos, dançarinos, bailarinos, cenógrafos e diretores; e Audiovisual - inclui pessoas que se dedicam a criação de vídeos para cinema e televisão (diretores, roteiristas, produtores e atores) e jogos eletrônicos (animadores, roteiristas, programadores, etc.). 44 Listamos como Outros as pessoas que não se dedicam a nenhuma das modalidades de criação anteriores, como, por exemplo, antropólogos, arquitetos, biólogos, cartógrafos, colecionadores, educadores, empresários, escritores, filósofos, historiadores, jornalistas, militares, nobres, pensadores, pesquisadores, poetas, políticos, religiosos, sociólogos, etc.). 45 Devido ao arredondamento, a soma dos percentuais é diferente de 100% em algu- mas tabelas. 112 João Paulo Baliscei (org.) (2017). Esta situação também foi anunciada por Ana Mae Barbosa, em 2016, quando versões preliminares da BNCC estavam disponíveis para consulta pública. Para a autora, a inserção da Arte na área de Linguagens e suas Tecnologias no Ensino Médio, como um “sub-componente”, con- siste em uma estratégia “SUB-repticiamente intencional com o objetivo de, sem ferir a Lei de Diretrizes e Bases, retirar Arte do currículo, ou melhor, não contratar professores de Artes, que ficarão atreladas às outras disciplinas” (BARBOSA, 2016). De fato, o PNLD 2021, amparado pela BNCC, não apresentou um livro didático específico para Arte, como no PNLD 2018, mas sim, de Linguagens e suas Tecnologias. Apesar da diferença no quantitativo de referências artísticas, de modo geral, as publicações reproduzem a lógica de inviabilização da Arte produzida por mulheres: Em Percursos da Arte, dos 522 artistas, 437 são homens e 85 mulheres e em #Novo ensino médio, dos 49 artistas, 40 são homens e 9 mulheres. Em ambos, cerca de 80% dos artistas men- cionados são homens. Essa desigualdade, além de ser problematizada pelos projetos artísticos que apresentamos, também tem sido discutida no âmbito acadêmico por Luciana Loponte (2005, 2008, 2014) e Ana Mae Barbosa e Vitória Amaral (2019). CONSIDERAÇÕES FINAIS Tendo em vista que esta pesquisa foi realizada em um projeto de iniciação à docência, compreendemos que mensurar o cenário excludente dos livros didáticos é uma ação relevante, mas, para além disso, é neces- sário propor alternativas para superar a desigualdade constatada e no esforço de gerar mudanças significativas por meio da educação escolar. É nesse contexto que se inserem as próximas etapas das ações do núcleo de Arte, em uma perspectiva a/r/tográfica, como anunciamos em nossa introdução. Nesse momento os estudantes trabalham motivados por outras questões: Como transformar os dados da pesquisa em Arte? Como dar visibilidade à desigualdade de gênero na Arte por meio de outros suportes? Como articular diferentes modos de ser (ser artista/ser professor/ser pesquisador) em uma mesma ação? 113 É de menina ou menino? Mobilizados por elas, iniciamos um processo de criação coletivo tendo como referência alguns encaminhamentos propostos por Luciana Borre (2020, p. 123) para investigações de cunho a/r/tográfico: combinar a produção poética (imagens/artefatos/pro- cessos) com a escrita, preocupando-se com o potencial comunicativo de seus possíveis resultados com realidades educacionais; (b) utilizar metáforas, metonímia e símbo- los, como elo de comunicação desses conhecimentos; (c) dialogar entre as identidades do artista, do professor e do investigador, em suas dimensões pessoais e sociais, pois as experiências individuais podem ressoar em muitas outras pessoas ou grupos; (d) utilizar de práticas/técnicas/ações artísticas para criar, interpretar e retratar conhecimentos significativos, criando e explorando novas formas de estruturar e conceber ideias, abarcando aquilo que se torna difícil colocar em palavras; (e) conectar experiências e narrativas autobiográficas; (f) privilegiar nossas emoções, sentidos, intuições e vibrações corporais, como elementos primários de processos de criação. Assim, a análise dos livros didáticos, como uma primeira ação de pesquisa no Pibid, potencializará outras, de caráter artístico e pedagó- gico. Com isso, esperamos que os estudantes em iniciação à docência compreendam que as instituições escolares podem ser um campo aberto a experimentações e processosde criação que, por sua vez, podem contribuir para visibilização e redução de desigualdades, especialmente, de gênero. REFERÊNCIAS BARBOSA, Ana Mae. Políticas públicas para o Ensino da Arte no Brasil: o perde e ganha das lutas. 2016. Disponível em: <http://www3.eca.usp.br/sites/default/files/form/ biblioteca/acervo/producao- academica/002791825.pdf>. Acesso em: 16 de jun. 2021. BARBOSA, Ana Mae; AMARAL,Vitória (Orgs). Mulheres não devem ficar em silêncio: arte, design, educação. São Paulo: Cortez, 2019. BBC. Brasil é último em ranking que analisa reação de países à covid-19. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55870630>. Acesso em: 16 de jun. 2021. BORRE, Luciana. Desalinhos: sobre abordagens a/r/tográficas. In.: BORRE, Luciana. Bor- dando afetos na formação docente. Conceição da Feira: Andarilha Edições, 2020. 122-134 p. http://www3.eca.usp.br/sites/default/files/form/biblioteca/acervo/producao- http://www3.eca.usp.br/sites/default/files/form/biblioteca/acervo/producao- http://www.bbc.com/portuguese/brasil-55870630 114 João Paulo Baliscei (org.) BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF. 1996/2021. Disponível em: <http://www.planalto.gov. br/ccivil_03/leis/l9394.htm>. Acesso em: 16 de jun. 2021. . Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Edital Pibid nº 2/2020. Brasília, DF: Ministério da Educação: 2020. Disponível em: <https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e- pro- gramas/educacao-basica/pibid/editais-e-selecoes>. Acesso em: 16 de jun. 2021. . Ministério da Educação. Guia Digital PNLD 2021 - Projetos integradores e projetos de vida. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Básica – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Brasília, DF: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2020. 36p. Disponível em: <https://pnld.nees.ufal.br/ assets- pnld/guias/Guia_pnld_2021_proj_int_vida_Apresentacao.pdf>. Acesso em: 16 de jun. 2021. . Ministério da Educação. PNLD 2018: Arte – Guia de livros didáticos – Ensino médio. Ministério da Educação. Secretária de Educação Básica – SEB. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Brasília, DF: Ministério da Educação, Secretária de Educação Básica, 2017. 56 p. Disponível em: <https://www.fnde.gov.br/index.php/centrais-de-conteudos/ publicacoes/category/165- editais?download=11347:guia-pnld-arte-2018>. Acesso em: 16 de jun. 2021. . Programas do livro. Brasília, DF: Ministério da Educação. Disponível em: <http://www.fnde.gov.br/index.php/programas/programas-do- livro/legislacao/item/ 9787-sobre-os-programas-do-livro>. Acesso em: 27 mar. 2021. BRUNS, Juliana Pedroso; FURB, Rita Buzzi. Formação de professores no Pibid: Mapea- mento das teses publicadas no Brasil no período de 2010 a 2019. Teoria e Prática da Educação, v. 24, n. 1, p. 133-154, 15 jun. 2021. Disponível em: <https://periodicos.uem. br/ojs/index.php/TeorPratEduc/article/view/51034>. Acesso em: 16 de jun. 2021. CARVALHO, Ananda; MORESCHI, Bruno; PEREIRA, Gabriel. A História da _rte: desconstruções da narrativa oficial da Arte. Revista do centro de pesquisa e formação. nº 8, 2019. Sesc: São Paulo. Disponível em: <https://www.sescsp.org.br/online/artigo/13479_anan- da+carvalho+bruno+moreschi+ e+gabriel+pereira>. Acesso em: 16 de jun. 2021. CASTILHOS, Grasiela Pereira da Silva de; KNOBLAUCH, Adriane. Análise da produção acadêmica sobre Pibid após uma década de programa (2007 a 2017): Pedagogia em questão. Imagens da Educação, v. 9, n. 3, p. 55-65, 19 dez. 2019. Disponível em: <https://periodicos. uem.br/ojs/index.php/ImagensEduc/article/view/43245>. Acesso em: 16 de jun. 2021. DIAS Belidson. A/r/tografia como metodologia e pedagogia em artes: uma introdução. In.: DIAS, Belidson; IRWIN, Rita L (org.). Pesquisa educacional baseada em arte: a/r/tografia. Santa Maria: Ed. Da UFSM, 2013. 21-26 p. GATTI, Bernardete A.; ANDRÉ, Marli E. D. A.; GIMENES, Nelson A. S.; FERRAGUT, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e- http://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e- http://www.fnde.gov.br/index.php/centrais-de-conteudos/publicacoes/category/165- http://www.fnde.gov.br/index.php/programas/programas-do- http://www.sescsp.org.br/online/artigo/13479_ananda%2Bcarvalho%2Bbruno%2Bmoreschi%2B http://www.sescsp.org.br/online/artigo/13479_ananda%2Bcarvalho%2Bbruno%2Bmoreschi%2B http://www.sescsp.org.br/online/artigo/13479_ananda%2Bcarvalho%2Bbruno%2Bmoreschi%2B 115 É de menina ou menino? Laurizete. Um estudo avaliativo do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid). São Paulo: FCC/SEP, 2014. Disponível em: <http:// publicacoes.fcc.org.br/index.php/textosfcc/issue/view/298/6>. Acesso em: 16 de jun. 2021. HERNÁNDEZ, Fernando H. A pesquisa baseada nas artes: propostas para repensar a pesquisa educativa. Tradução: Tatiana Fernandez. In.: DIAS, Belidson; IRWIN, Rita L (org.). Pesquisa educacional baseada em arte: a/r/tografia. Santa Maria: Ed. Da UFSM, 2013. 39-62 p. IRWIN, Rita L. A/r/tografia. In.: DIAS, Belidson; IRWIN, Rita L. (org.). Pesquisa educacional baseada em arte: a/r/tografia. Santa Maria: Ed. Da UFSM, 2013. 27- 35 p. LOPONTE, Luciana Gruppelli. Artes visuales, feminismos y educación en Brasil: la invisibili- dad de un discurso. Universitas Humanística, [S. l.], v. 79, n. 79, 2014. Disponível em: <https:// revistas.javeriana.edu.co/index.php/univhumanistica/article/view/6414>. Acesso em: 28 jun. 2021. . Luciana Gruppelli. Gênero, educação e docência nas artes visuais. Educação e Realidade, v. 30, p. 243-259, 2005. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/educacaoe- realidade/article/view/12469>. Acesso em: 28 jun. 2021. . Luciana Gruppelli. Mulheres e artes visuais no Brasil: caminhos, veredas e descon- tinuidades. Visualidades (UFG), v. 6, p. 13-31, 2008. Disponível em: <https://files.cercomp.ufg. br/weby/up/459/o/Visualidades- V._06 n._1_e_2 2008.pdf>. Acesso em: 28 jun. 2021. MASP. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Histórias das mulheres, Histórias Feministas. Organização editorial: Mariana Leme, Adriano Pedrosa e Isabella Rjeille; cura- doria Histórias das mulheres de Julia Bryan-Wilson, Mariana Leme e Lilia Moritz Schwarcz; curadoria de Histórias feministas de Isabella Rjeille. São Paulo: MASP, 2019. 320p., il. MEIRA, Beá; SOTER, Silvia; PRESTO, Rafael. Percursos da arte: volume único: ensino médio. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2016. MUNIZ, Mariana Lima; ROCHA, Murilo Andrade; CHIRSTÓFARO, Gabriela Córdova. #Novo Ensino Médio. Projetos integradores: Linguagens e suas tecnologias. 1 ed. São Paulo: Scipione, 2020. PERES, José Roberto Pereira Peres. Questões atuais do Ensino de Arte no Brasil: O lugar da Arte na Base Nacional Comum Curricular. Colégio Pedro II, Revista do Departamento de Desenho e Artes Visuais, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 24- 36, 2017. Disponível em: <https://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/revistaddav/article/view/1163>. Acesso em: 16 de jun. 2021. http://publicacoes.fcc.org.br/index.php/textosfcc/issue/view/298/6 http://publicacoes.fcc.org.br/index.php/textosfcc/issue/view/298/6 http://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/revistaddav/article/view/1163 http://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/revistaddav/article/view/1163 116 João Paulo Baliscei (org.) Figura 1: Elas envolvidas com o ambiente. Fonte: Elaboração própria, 2021. MULHERES E NATUREZA: APROXIMAÇÕES E AFASTAMENTOS GENERIFICADOS46 Fernanda Amorim Accorsi47 Judie Maria Rodrigues de Goes Souza48 Ana Claudia Aragão Santos49 INTRODUÇÃO Neste trabalho, acentuamos a Natureza como Pacha Mama, entendida como integralidade de ecossistemas, cujos direitos estão intrínsecos a sua existência. 46 Este trabalho é um desdobramento do projeto de pesquisa intitulado Pedagogias não-violentas: ecofeminismose articulações para a cultura da paz, cuja realização incide na Universidade Federal de Sergipe (UFS), com incentivo da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (FAPITEC). 47 Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Líder do Grupo de Pesquisas e Estudos em Práticas Educativas, Corpo e Ambiente (PEPECA). Lattes: http://lattes.cnpq.br/9618868352125200. 48 Acadêmica do 3º período do curso de Letras - Língua Portuguesa, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Participante do Grupo de Pesquisas e Estudos em Práticas Edu- cativas, Corpo e Ambiente (PEPECA). Lattes: http://lattes.cnpq.br/3312996011679232. 49 Acadêmica do 7º período do curso de Pedagogia, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Participante do Grupo de Pesquisas e Estudos em Práticas Educativas, Corpo e Ambiente (PEPECA) Lattes: http://lattes.cnpq.br/7911547645870040. http://lattes.cnpq.br/9618868352125200 http://lattes.cnpq.br/3312996011679232 http://lattes.cnpq.br/7911547645870040 117 É de menina ou menino? Esquivamo-nos da concepção utilitarista de que ela serve ao ser humano como propriedade de valor de troca (GUDYNAS, 2019). Nas próximas linhas planificamos a Pacha Mama, que é tratada no femi- nino, e foi submetida à hierarquia cultural da exploração e da morte. No entanto, a opressão a que nos referimos não se restringe à Natureza, ela se estende às pessoas, não todas, mas especialmente às mulheres (ROSENDO, 2015; ANGELIN, 2015). Problematizamos a lógica de dominação que objetifica as mulhe- res e coisifica a Natureza. A lógica discutida é praticada pelos mesmos algozes, os quais têm obsessão pelo controle, pela inferiorização e pela exploração de outrem. O compromisso de preservação do planeta é uma tarefa ético-política de todas as espécies, afinal, o vínculo entre elas faz a manutenção das existências (GUDYNAS, 2019). Entretanto, são os homens, os brancos, bem-sucedidos, cristãos e heterossexuais os principais responsáveis pela deterioração ambiental e pelas tentativas de controle da vida das mulheres e da Natureza. A prerrogativa patriarcal se funde com os pressupostos capitalistas que, juntos, instituem a dominação masculina sobre a Pacha Mama e sobre o gênero feminino (ROSENDO, 2015; ANGELIN, 2015). Angelin (2015) discute a trindade masculina do Cristianismo, representada pelo pai, filho e espírito santo, como uma das perspectivas que afastaram os seres humanos da Natureza e, ainda, instituíram os Tribunais de Inquisição, que perseguiram e exterminaram milhares de mulheres porque as consideravam desordeiras. A Natureza e a mulher seriam os desvios da ordem estabelecida pela sociedade da época, e ambas, neste sentido, exigiriam controle e domínio para participarem dos processos civilizatórios. Diante disso, nosso objetivo é problematizar as relações de gênero articuladas à Natureza. Adotamos como suporte teórico- metodológico as discussões dos povos originários (KRENAK, 2019; GUDYNAS, 2019), que anunciam um sistema de vida generoso e místico, que nada se parece com a concepção de sustentabilidade e ambiente reverberada pelo mercado, pelas marcas e pelas empresas. 118 João Paulo Baliscei (org.) Ancoramo-nos nas teorizações Ecofeministas, as quais traba- lham pela abolição de todas as formas de opressões por compreender que elas se conectam, se fortalecem e se retroalimentam (ROSENDO, 2015; LESSA; TOSO, 2017; LERNER, 2019; ADAMS, 2018). Para orientar nosso texto, perguntamos: Quais relações possíveis entre gênero e Natureza? Nossa hipótese é de que as mulheres estão mais envolvidas com o ambiente. Reivindicamos espaço para elas criarem seus próprios significados e articulações, ainda que reconheçamos a existência de este- reótipos, preconceitos e violências, em razão das práticas de dominação e hierarquia estarem presentes na sociedade ocidental. APROXIMAÇÕES E AFASTAMENTOS A sociedade antropocêntrica especista machista determina a exploração animal e a opressão de mulheres. Por meio da cultura, ela institui grupos de seres vivos como “de baixo” e “de cima” (ROSENDO, 2015). A responsabilidade pela divisão entre marginalização e suprema- cia é endossada pela religião e pela ciência (LERNER, 2019; SAINI, 2018). As relações de gênero com base na religião argumentam que “[...] a mulher é submissa ao homem porque assim foi criada por Deus” (LERNER, 2019, p. 26). Na ciência, os corpos, anseios, intelectualidades e necessidades femininas foram ignorados por séculos, uma vez que a exclusão e/ou sub-representação estavam – e ainda estão – associadas ao machismo e ao especismo, porque ambos conferem poderes superiores aos homens (SAINI, 2018). O consumo de carne e o trabalho doméstico são, respectivamente, exemplos dos tentáculos da supremacia masculina. Adams (2018, p. 69) critica que a “masculinidade de um sujeito é afirmada pelo que ele come”, logo o alimento tem relação direta com os papéis sociais generificados, ao passo que, o ato de comer, assim como o paladar e os rituais em torno da nutrição humana, conduz ao binarismo estereotipado de gênero. Em outras palavras, a carne animal está ligada à caça, cuja prática envolveria, supostamente, virilidade, agressividade, destemor e vitória. O cadáver animal é o troféu patriarcal. Entretanto, a caça foi, cultu- 119 É de menina ou menino? ralmente, substituída pelo preparo e pelo consumo (LESSA; TOSO, 2017). Adams (2018) explica que os livros de culinária sobre churrasco são os únicos sobre o assunto endereçados aos homens. Ocorre que a generificação não se restringe à alimentação, pois se estende aos papéis desempenhados no espaço doméstico, que correspondem à segregação sexual em que as mulheres são desvalorizadas e sobrecarregadas. A elas são destinados os significados de passivas, inertes, dóceis, controláveis e menos evoluídas, assim como os vegetais, alimentos que, conforme a misoginia, possuem papéis secundários no cardápio ocidental (ADAMS, 2018; ROSENDO, 2015). A obsessão dos homens pelo poder tem levado o mundo a guerras suicidas, ao envenenamento e à destruição do planeta, à devastação das florestas para alimentar gado que engorda os bolsos e corpos dos homens ditos carnívo- ros, nomeados pelos antiespecistas de carniceiros, pois a carne não foi caçada, foi comprada já em processo de deterioração e putrefação (LESSA; TOSO, 2017, p. 31). No entanto, as proximidades entre as mulheres e a Natureza são múltiplas, históricas e culturais. Ainda que existam movimentos politizados de resgate do enaltecimento feminino, os quais proble- matizamos mais adiante, observamos que os significados circulantes são retirados do contexto, distorcidos e adaptados conforme deseja o sistema capitalista-patriarcal. Na mitologia grega, Gaia, a Mãe Terra, é considerada a criadora do universo, articulada à vida, à magia e à fertilidade. A dança cósmica de origem da vida é induzida, pelos donos do poder, de modo violento quando abarca as mulheres. São lançados significados que condenam as mulheres cisgênero à homogeneidade da compulsoriedade da maternidade para, assim, elas serem comparadas à Gaia (ANGELIN, 2015). O patriarcado consolida culturalmente o que é natural, a exemplo da menstruação, da gravidez, da amamentação e da menopausa. Entre- tanto, por meio da medicina, da publicidade, da escola, da família e da igreja oprime as mulheres quando, por exemplo, denota o ciclo mens- trual como vergonha, a gravidez como responsabilidade individual da 120 João Paulo Baliscei (org.) mulher, a amamentação como um ataque se for realizada em público, e a menopausa como o fim da vida feminina. Ou seja, o patriarcado esta- belece que para ser mulher é preciso menstruar, engravidar, amamentar e entrar no climatério, porém, essa lógica violenta os processos que ela mesma defende - porque são processos de mulher. Sugere-se, portanto, que a transgeneridade estaria livre das opres- sões,mas não. A ausência dos processos tidos como “de mulher” é o mecanismo usado para violentar as mulheres trans, estruturando-as em um não lugar. Assim, a ausência também oprime. Por isso, Angelin (2015) e Saini (2019) explicam que a inferiorização e a dominação de mulheres se baseiam na concepção de natureza feminina, porque foi uma invenção da masculinidade hegemônica para definir o que é ser mulher. Oyewúmí (2004) é taxativa ao afirmar que a categoria mulher, que conhecemos, é uma invenção do patriarcado-colonial, assim como também o é a concepção de família nuclear generificada, cuja raiz está na figura da esposa passiva, domesticada e materna, valores que, sob nossa ótica, decantam no trato com a Natureza. A violência contra as mulheres e contra a Pacha Mama é um método de domesticação, a partir do qual ambas são alocadas em proces- sos de subordinação, que configuram a estrutura social antropocêntrica, ancorada na desigualdade de gênero. Neste cenário, a vida no concreto prevalece porque é normalizada. As pessoas são consumidoras, não cida- dãs. Ocupadas com o trabalho nem sempre remunerado, são seduzidas a viver no automático, “[...] em ambientes artificiais produzidos pelas mes- mas corporações que devoram florestas, montanhas e rios” (KRENAK, 2019, p. 20). O afastamento cultural da Natureza é proposital, porque é rentável. Rosendo (2015) explica que é intencional a discriminação dos humanos sobre os outros terrestres, porque a dominação, exploração e comercialização, que a autora intitula de Naturismo, fomenta as estru- turas conceituais opressoras. Esse afastamento se organiza a partir da dicotomia excludente que trabalha pela oposição entre forte/fraco/a, civilizado/a/bárbaro/a, razão/emoção, cultura/natureza e homem/mulher. Proposital tam- 121 É de menina ou menino? bém é o silenciamento e/ou o apagamento da relação entre mulheres e Natureza em razão delas serem menos exploradoras e mais atentas à manutenção da vida. Como coletoras, elas adquiriram um conhecimento dos vegetais, flores e frutos e puderam aprender, pela experiência direta e pela observação contínua, o processo de semeadura e germinação do mundo natural. Passo seguinte, o reproduziram intencionalmente (KOSS, 2000, p. 73-74). Portanto, a agricultura é uma invenção cultural das mulheres cam- ponesas, as quais observaram o tempo, o solo, as sementes, os processos e trabalharam para alimentar a família, bem como colocaram em xeque a inferioridade feminina. Elas foram indispensáveis para os processos evolutivos e conceberam, sobretudo, a possibilidade de uma alimentação sem carne (ADAMS, 2018; ROSENDO, 2015; LERNER, 2019). Logo, nossa hipótese de que elas estão mais envolvidas com o ambiente se confirma parcialmente com a historicidade das mulheres, cuja imagem apresentamos na Figura 1, que abre esse capítulo: Dian Fossey, primatologista, fundadora da instituição contra a caça de gorilas em Ruanda; Dorothy Mae Stang, missionária estadunidense, envolvida com o reflorestamento de áreas degradadas no Pará, no Brasil; Berta Cáceres, líder indígena de Honduras, que recebeu o prêmio Goldman por proteger a terra da deterioração; e Dilma Ferreira Silva, coordenadora do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), no Brasil. As quatro ativistas estampam politicamente a abertura de nosso capítulo e, ainda, compartilham o gênero e o final trágico: foram assassinadas, respec- tivamente em 1985, 2005, 2016 e 2019, durante a prática de ativismo ambiental. Neste sentido, entendemos que a relação entre mulheres e Natureza se dá, também, pelo extermínio. O genocídio dos povos originários, guardiões da Pacha Mama, a matança de ativistas ambientais, bem como o feminicídio, cuja recor- rência sedimentou a criação da Lei 13.104/2015, são o modus operandi da “[...] barbárie colonial, que ampliam as relações de poder, uma vez que a cidadania corresponde à imagem de um sujeito masculino, branco, 122 João Paulo Baliscei (org.) heterossexual, proprietário de bens e letrado” (ACCORSI e MAIO, 2019, p. 36). Os demais seres vivos, que não se enquadram no referido perfil são “de baixo” e passam por processos de docilização e aniquila- mento para não criarem raízes que desequilibrem as estruturas opressoras (ROSENDO, 2015). O traquejo patriarcal desvaloriza as ações das mulheres porque organiza as instituições, como as mídias, as escolas, as igrejas e a ciência, para sedimentarem os pressupostos hierárquicos que as colocam em segundo plano. Entretanto, nem todo sofrimento é igual e, ainda, nem todas as mulheres sofrem, uma vez que carinho e dominação podem andar juntos. Para obter cumplicidade e adesão, inclusive de mulheres, os mecanismos de controle podem possuir o caráter de gentileza (HOOKS, 2017; FREIRE, 1989). Neste sentido, o sistema se solidifica porque há, entre os/as opri- midos/as, cúmplices de suas próprias opressões. Exemplo disso é a viagem espacial realizada, em julho de 2021, por Jeff Bezos, fundador da empresa de eletrônicos Amazon, que levou a bordo a aviadora Wally Funk, de 82 anos. Ainda que treinada para o voo, na década de 60, a aviadora foi excluída da viagem por ser mulher. O empresário bilionário inaugura o ramo do turismo espacial e sugere, por meio do convite à Funk, rever as falhas do passado e enaltecer a história feminina. Aos olhos mais desatentos, o voo de 11 minutos, que custou um bilhão de dólares, em meio à Pandemia do Covid- 19, parece um ato de genero- sidade sem precedentes. Entretanto, a pseudo redenção com o passado das mulheres esconde a emergência de estratégias de fuga do planeta, que tem sido devastado como se houvesse outra possibilidade de morada. Existem especulações sobre a construção de bunkers espaciais para proteger os seres humanos com poder aquisitivo do caos que tem tomado a vida na Terra. Diante da emergência climática, representada por inundações, ondas de calor, desmatamento, escassez de água potável, extinção de espécies e derreti- mento de geleiras, o egocentrismo patriarcal é evidenciado pela viagem à estratosfera, que emite, entre outras coisas, fuligem capaz de colaborar 123 É de menina ou menino? com o aumento de temperaturas no planeta, o mesmo que deseja ser visto pela janela do foguete em formato fálico. Em vez de repensar os estilos de vida ancorados nas cidades, no consumo exacerbado, cuja prática consolida o faturamento da Amazon, e, ainda, na visão dualista de sujeitos-Natureza, o voo bilionário sugere que a vivência na Terra está ultrapassada, obsoleta e popular. Diferente mesmo é mercantilizar outros lugares, outras possibilidades exclusivas de manter a hierarquia com base na extinção, assim como o modus operandi do Covid-19. O modo de vida predatório instituído pelos “de cima” é minimi- zado porque junto da injustiça e da depredação, suas ações são apresen- tadas como atos heroicos de generosidade (HOOKS, 2017; FREIRE, 1989; ROSENDO, 2015). Deste modo, ocorre o afastamento entre as mulheres e a Natureza porque na medida que elas são seduzidas pelo patriarcado, se beneficiam do capitalismo. Logo, o capitalismo não favorece somente os homens, porque existe a dominação de mulheres, com aspecto de gentileza, seduzindo o grupo oprimido à cumplicidade, à manutenção de significados pré-estabelecidos, os quais não subvertem a lógica patriarcal, pelo contrário, a sedimenta. O sistema do patriarcado só pode funcionar com a cooperação das mulheres. Assegura-se essa cooperação por diversos meios: doutrinação de gênero, carência educacional, negação às mulheres do conhecimento da própria história, divisão de mulheres pela definição de “respeitabilidade” e “desvio” de acordo com suas atividades sexuais; por restrições e coerção total; por meio de discriminação no acesso a recursos econômicos e poder político e pela concessão de privilégios de classe a mulheres que obedecem (LERNER, 2019, p. 267). Nessa ótica, a hipótese deste trabalho é refutada porque Wally Funk é um objetode manobra do patriarcado, enquanto o planeta é coisa que pode ser descartada. Identificamos a renovação da obsessão do homem branco ocidental pelo controle. Não satisfeito com o domí- nio das mulheres, das florestas, das espécies, ele amplia o processo de exploração por meio do turismo espacial, ocorrido em aeronaves de 124 João Paulo Baliscei (org.) anatomia falocêntrica, que demonstram mais uma dualidade entre os/ as que podem sair do planeta devastado e os/as que não podem deixá-lo. Novamente, há os/as “de baixo”, que enxergam, vivem e sofrem com a devastação, e os/as “de cima”, que olham a tragédia do alto, porque não são assolados/as por ela. Do foguete, tudo parece menor, entretanto, a aeronave não é para toda e qualquer pessoa. Nesta perspectiva, quem contraria a postura abusiva com a Natureza, intuindo a manutenção da vida na Terra, promovendo as relações multiespécies, deve ser exter- minada. A mensagem é que a exploração antropocêntrica é definitiva e não pode ser contrariada. Às mulheres de grupos ecológicos, comunidades camponesas e movimentos de justiça ambiental, a morte compulsória. Aquelas, seduzidas pelos seus algozes, recebem destaque, tornam-se símbolos de avanço feminino, mesmo que estes sejam construídos com o patrocínio e, especialmente, a autorização do patriarcado. Petrificadas no universo masculino, não percebem que o planeta apresentado, finalmente a elas, tem sido produzido pelos e para os homens. A generosidade é, portanto, injustiça, porque não altera a ordem das coisas, mas as atualiza, conforme a necessidade da época em que elas acontecem. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesse cenário, as mulheres, somadas às crianças e às/aos idosas/ os, são as que mais sofrem com a degradação ambiental. A preservação do planeta é obrigação de todas as pessoas, mas na lógica capitalista-pa- triarcal, o sofrimento é desproporcional para as mulheres, uma vez que elas são, culturalmente, as responsáveis pelas crianças e pelas/os idosas/ os, em razão de ambos os grupos necessitarem de cuidado, este que é naturalizado, estereotipado e generificado. Diante das crises econômi- cas, sociais, políticas e sanitárias, as mulheres são as primeiras a serem afastadas dos bens materiais. São elas que reivindicam água potável e alimentos saudáveis e, ainda, são injustiçadas na distribuição dos recursos naturais. A sustentabilidade liberal constrói a crise humana-ambiental 125 É de menina ou menino? porque faz da sociedade uma grande fazenda lucrativa, que se baseia na opressão de quem ali existe. A Mãe Natureza é feminilizada e as mulheres, animalizadas, significados depreciativos que estabelecem o domínio e o controle dos homens machistas, que visam ao lucro como eixo fundador de existên- cia. Entendemos que a divisão de poder, de propriedade, de práticas de cuidado e de segmentação sexual do trabalho fomenta a relação entre gênero e Natureza, ainda que o compromisso de sobrevivência do planeta - e suas múltiplas espécies - seja atribuição de todos/as. As mulheres têm transgredido a regra de exploração, porque são as protagonistas na revisão das injustiças sociais e ambientais. São elas que têm proposto alternativas e soluções em um horizonte coletivo, por uma ética construída a partir da liberdade e da justiça plural, o que somente é possível com reais condições de trabalho, moradia, alimentação, direitos reprodutivos, consciência de classe e de gênero. Entretanto, constatamos a existência do deslumbre patriarcal, que ocorre pelo fetiche capitalista, em que as mulheres são usadas como símbolos de uma era histórica em que, mais uma vez, o homem branco, heterossexual, abastado, é o responsável pelos (tidos) avanços dos processos civilizatórios. A preocupação do patriarca não é com a mulher, nunca foi, é com o que a aliança com ela pode representar aos seus negócios. O afastamento das mulheres com a Natureza beneficia o patriarcado porque a divisão entre humano e não humano, razão e emoção, Natureza e cultura e civilizados/as e bárbaros/as não são meras divisões, são hie- rarquias que instituem as relações de poder e colonizam os imaginários e os comportamentos dos diferentes grupos identitários. As relações entre gênero e Natureza nos provocam a pensar que, mesmo diante das conquistas feministas, as quais vão desde à resistência indígena, perpassam pelo período escravagista e se estendem até os dias atuais, há ambivalências e paradoxos que, ainda, instituem às mulheres o espaço de coadjuvantes, e quando lideram em prol da Pacha Mama, são exterminadas como as espécies que já não podem ser encontradas na Terra. 126 João Paulo Baliscei (org.) O aniquilamento de Dian Fossey, Dorothy Mae Stang, Berta Cáceres e Dilma Ferreira Silva indica a ausência de direitos das mulheres e da Natureza, ao passo que a vida delas estava associada à preserva- ção. Sem vida, sem preservação. O extermínio indica a abertura de caminhos que, antes, pelas existências femininas, estavam repletos de obstáculos. Agora os trajetos para a exploração estão (mais) livres para aqueles que consideram as riquezas naturais infindáveis, mas já têm orientado outros modos de vida fora da Terra. Ao convidar/convocar Wally Funk à experiência de voo que lhe foi negada décadas atrás, ele, Jeff Bezos, se apropria da história da aviadora, dando outros contrastes e contornos conforme sua autorização. Este mecanismo de controle das histórias femininas não é novo, mas é resiliente e se reinventa, porque demonstra uma pseudo melhoria no status das mulheres, o que significa certa vantagem no patriarcado para algumas delas. O ideal, levando em conta o horizonte coletivo, é uma reforma integrada de transformação social para abolição do patriarcado. Não há como fazer pactos com os opressores, é preciso questionar as prerrogativas deste sistema que, ao destruir a Natureza, desumaniza as mulheres. REFERÊNCIAS ACCORSI, Fernanda Amorim. MAIO, Eliane Rose. O objeto jogado do quarto andar era um corpo – de mulher. Diversidade e Educação, v. 7, n. 1, 2019, p.27-38. Disponível em: < https://periodicos.furg.br/divedu/article/view/8681>. Acesso em: 06 de jul de 2021. ADAMS, Carol J. A política sexual da carne: uma teoria feminista-vegetariana. São Paulo: Alaúde, 2018. ANGELIN, Rosângela. Mulheres e ecofeminismo: uma abordagem voltada ao desen- volvimento sustentável. Revista Universidade em Diálogo, v.7, n.1, jan-jun, 2017, p. 51-68. Disponível em: < https://www.revistas.una.ac.cr/index.php/dialogo/article/ view/9512>. Acesso em: 02 de jul de 2021. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. GUDYNAS, Eduardo. Direitos da natureza: ética biocêntrica e políticas ambientais. São Paulo: Elefante, 2019. HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017. http://www.revistas.una.ac.cr/index.php/dialogo/article/view/9512 http://www.revistas.una.ac.cr/index.php/dialogo/article/view/9512 127 É de menina ou menino? KOSS, M. V. Feminino + masculino: uma nova coreografia para a eterna dança das polaridades. São Paulo. Escrituras, 2000. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. São Paulo: Cultrix, 2019. LESSA, Patrícia. TOSO, Sarah Mendes. Narrativas visuais em campanhas de cerveja: sexismo, especismo e racismo. In: LESSA, Patrícia. GALINDO, Dolores. Relações Multiespécies em rede: Feminismos, animalimos e veganismo. Maringá/PR, EDUEM: 2017, p. 21-36. OYĚWÙMÍ, Oyèrónké. Conceituando o gênero: os fundamentos eurocêntricos dos conceitos feministas e o desafio das epistemologias africanas. CODESRIA Gender Series, v. 1, p. 1-8, 2004. Disponível em:< < https://filosofia- africana.weebly.com/ uploads/1/3/2/1/13213792/oy%C3%A8r%C3%B3nk%C3%A9_o y%C4%9Bw%C3%B- 9m%C3%AD_-_conceitualizando_o_g%C3%AAnero._os_fundamentos_euroc%- C3%AAntrico_dos_ conceitos_feministas_e_o_desafio_das_epistemologias_africanas.pdf>. Acesso em: 02 de jul. de 2021. ROSENDO, Daniela. Sensível ao cuidado: uma perspectiva ética ecofeminista. Curitiba: Editora Prismas, 2015. SAINI, Angela. Inferior é o caralho. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2018. 128 João Paulo Baliscei (org.) Figura 1: Ilustração de Nicole Miles (edição própria). Fonte: <https://www.instagram.com/p/CFmjeKGB5r2/>. Acesso em 4 de set. de 2021. MENSTRUAÇÃO E MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: UM CAMINHO PARA CONSTRUIR E RECONSTRUIR SIGNIFICADOS Jéssica Fiorini Romero50 Julia Tiemi Kurihara51 INTRODUÇÃO “É de menina ou menino?”. Respondemos a esse questionamento argumentando que os gêneros são construídos socialmente, cultural- mente e historicamente. Reforçamos nosso ponto de vista a partir das definições e conceitos propostos por Jaqueline Gomes de Jesus (2012, p. 8), quem argumenta que Sexo é biológico, gênero é social, construído pelas diferentes culturas. E o gênero vai além do sexo: O que importa, na definição do que é ser homem ou mulher, não são os cromossomos ou 50 Licenciada em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Maringá. Integrante do Grupo de Pesquisa em Arte, Educação e Imagens – o ARTEI. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9775136825060582. 51 Acadêmica do curso de Artes Visuais na Universidade Estadual de Maringá. Inte- grante do Grupo de Pesquisa em Arte, Educação e Imagens – o ARTEI. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9116958700778961. http://www.instagram.com/p/CFmjeKGB5r2/ http://www.instagram.com/p/CFmjeKGB5r2/ http://www.instagram.com/p/CFmjeKGB5r2/ http://lattes.cnpq.br/9775136825060582 http://lattes.cnpq.br/9116958700778961 129 É de menina ou menino? a conformação genital, mas a auto-percepção e a forma como a pessoa se expressa socialmente. Dessa forma, afirmamos, a menstruação pode acontecer com mulheres, meninas, homens trans, pessoas intersexuais, queer e não binárias. A figura que apresenta este capítulo, produzida pela artista Nicole Miles, ilustra, de maneira sutil e bem-humorada, essa afirmação. Recorremos também a Guacira Lopes Louro (2003, s/p), que reforça que “Gênero e sexualidade não são definições seguras e estáveis, mas históricas e cambiantes”. A autora expõe que os corpos vão sendo cons- truídos a partir de marcas carregadas de significados que são lidos e entendidos de maneiras diferentes em cada cultura, momento histórico ou local geográfico, incluindo, até mesmo, a hierarquização entre elas, como marcas mais relevantes que outras. São marcas, conforme afirma Louro (2003, s/p), “[...] de raça, de gênero, de etnia, de classe ou de nacionalidade, decisivas para dizer do lugar social de cada um”. Em vista disso, entendemos que a menstruação, enquanto uma marca identitária, passa a ser significada historicamente como um traço inferiorizado e como constituinte da identidade da mulher (e apenas dela). Essa marca é notável em construções sociais que ensinam os corpos que menstruam a esconderem ou mesmo repudiarem o sangue menstrual, constituindo uma violência de gênero que é normalizada. Nesse cenário, elaboramos o seguinte questionamento: Como produções artísticas podem ressignificar tabus acerca da menstruação no contexto atual? A fim de encontrar respostas para esta pergunta, objetivamos reunir trabalhos e artistas que manifestam formas de protesto, crítica e reflexão às questões que envolvem a menstruação. Utilizamos da pesquisa bibliográfica para traçar diálogos entre tabus que circundam as temáticas menstruação e manifestações artísticas na atualidade. Para que esse diálogo fosse possível, recorremos aos aportes teó- ricos e metodológicos dos Estudos da Cultura Visual e também dos Estudos de Gênero. Os Estudos da Cultura Visual, em concordância com Luciana Gruppelli Loponte (2010), são um campo de estudos e pesquisas que se propõe a pensar criticamente as imagens ao nosso redor, 130 João Paulo Baliscei (org.) especialmente aquelas que ensinam, produzem e reproduzem modos de ser e estar no mundo. Já os Estudos de Gênero, conforme Jesus (2012) e Louro (2003), investigam e se preocupam com as limitações, restrições e formas de regular os corpos no meio social. Nessa escrita, de início, apresentamos o processo de transição a partir do qual a menstruação passa de sagrada, a ser tratada como nojenta e impura. A isso relacionamos com a inserção da moral cristã e/ou patriarcal. Em sequência, atentamo- nos sobre como a cultura oportuniza a disseminação de tabus a respeito da menstruação através da falta de diálogo sobre o assunto, motivando, muitas vezes, constrangimento e repulsa. Por último, em outro tópico, buscamos manifestações artísticas que ressignificam tais práticas. Apontamos que a arte possui potencial para a criação de outros significados à menstruação. DO SAGRADO AO NOJENTO Liv Strömquist (2018) expõe que anterior à disseminação de cren- ças e religiões patriarcais na sociedade, a menstruação fora tratada por sociedades de estruturas matrilineares como misteriosa, mágica, divina, sobrenatural e sagrada - em função da sincronicidade com forças cósmicas, marés e ciclos lunares. E afirma que “[...] a menstruação passou de fazer parte do ‘sagrado’ a se tornar a antítese do sagrado” (STRÖMQUIST, 2018, p. 111). Recorremos também a Caluã Eloi52 (2018) quem reforça que representações de culto ao feminino e de religiões matrilineares foram destruídas e demonizadas com a propagação da moral cristã e a formação de um pensamento patriarcal na sociedade. Mencionamos, como exemplo, o livro de Levítico, da Bíblia cristã, no qual é declarado que a mulher, quando menstruar, “[...] ficará impura durante sete dias. Quem a tocar ficará impuro até a tarde. O lugar em que ela deitar ou sentar, enquanto está impura, ficará impuro." (LEVÍTICO, cap. 15, v. 19-20). 52 Em respeito à sua identidade de gênero, utilizamos o pronome masculino para nos referirmos ao autor, um homem transsexual, ainda que na autoria de sua publicação conste seu nome civil. 131 É de menina ou menino? Em outro exemplo, abordado pelo documentário Absorvendo o tabu (2018) que se refere ao interior da Índia, expõe-se que o sangue mens- trual é tratado como ruim, sujo e vergonhoso. Devido à desinformação e à falta de recursos básicos, como absorventes, coletores ou calcinhas menstruais, as garotas enfrentam muitas dificuldades após a menarca durante o período escolar. Inclusive no documentário é apresentada uma jovem que desiste de seus estudos em razão desses problemas. Essa questão, apresentada no documentário, caracteriza um pro- blema de saúde pública que não está limitado ao contexto rural indiano. No Brasil, por exemplo, temos que “Uma em cada quatro adolescentes brasileiras não tem acesso a absorventes” (FOLHA DE SÃO PAULO, 17/03/2021)53. A pobreza menstrual, termo que se refere à falta de acesso de itens essenciais de higiene íntima e saneamento básico durante o período de menstruação, prejudica a saúde física e psíquica de pessoas que menstruam, amplia a disparidade econômica entre gêneros, além de prejudicar ainda mais pessoas em situação de vulnerabilidade social. Sobre isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou, em 2014, que o acesso à higiene menstrual é uma questão de saúde pública e direitos humanos. Somado à pobreza menstrual, o silenciamento de discussões relacionadas à menstruação implica a construção e reprodução de tabus e o desconhecimento do próprio corpo. Acerca dos períodos menstruais, Chimamanda Ngozi Adichie (2017) argumenta que estes são essenciais para a criação da espécie humana, logo, não deveriam existir motivos para se envergonhar deles. A autora explica que “A vergonha que atribuímos à sexualidade feminina se refere a uma questão de controle. Muitas cul- turas e religiões controlam o corpo feminino de uma ou de outra forma” (ADICHIE, 2017, p. 67). A respeito desses controles, mencionamos as variadas maneiras de se educar um corpo, dentre elas, as que propõem às meninas serem quietas; educadas; boas donas de casa,esposas e mães; cozinharem bem; serem sensuais e não sexuais; não serem agressivas e 53 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/2021/03/ uma-em-cada-quatro- adolescentes-brasileiras-nao-tem-acesso-a-absorventes.shtml> Acesso em: 04 set. 2021. https://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/2021/03/uma-em-cada-quatro-adolescentes-brasileiras-nao-tem-acesso-a-absorventes.shtml https://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/2021/03/uma-em-cada-quatro-adolescentes-brasileiras-nao-tem-acesso-a-absorventes.shtml https://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/2021/03/uma-em-cada-quatro-adolescentes-brasileiras-nao-tem-acesso-a-absorventes.shtml 132 João Paulo Baliscei (org.) se arrumarem. Essas são algumas atribuições que (re)produzem padrões e estereótipos pautados em um ideal de ser mulher. Quando casadas, é exigido, em determinados contextos, que engravidem. Boas moças são as que respeitam tais exigências. Essas atribuições classificam as ações que as mulheres fazem e devem fazer, apagando-lhes suas individualidades. De acordo com Loponte (2010), vemos as imagens a partir de marcas identitárias de gênero e sexualidade específicas de um período histórico e local geográfico, nas quais, normalmente, predomina-se a arte ocidental e se apaga representações marginais, como por exemplo a arte de mulheres. Com isso, temos a prática artística como potência para a produção de outras histórias, de forma a romper com o padrão de controle, a partir de produções realizadas por pessoas que são agentes protagonistas da construção de suas próprias existências. DIÁLOGOS ENTRE GÊNEROS, SEXUALIDADES, CORPOS E SANGUE MENSTRUAL Ao nos voltarmos para o campo da arte, deparamo-nos com artistas que fazem do período menstrual um processo de reflexão aos tabus sociais e culturais, em especial aqueles que remetem aos temas de gênero e sexualidade. Justificamos a escolha da arte enquanto meio de ressignificação mencionando os estudos sobre performances e feminismo de Renata Andrea Santana de Lucia e João Paulo Baliscei (2020). Nesses estudos, afirmam, que no meio artístico, produções de mulheres são despreza- das, ignoradas ou diminuídas sob a hegemonia do reconhecimento de produção artística de homens. E, ainda, Loponte (2010) colabora com essa discussão ao entender que as imagens de mulheres difundidas e exaltadas na narrativa dominante e hegemônica da História da Arte são, em seus sentidos e construções, endereçadas ao olhar masculino. Quando nos voltamos para corpos que menstruam, em seu contexto amplo e, aqui, abrimos esses parênteses para as diversas manifestações de gêneros, percebemos que suas representações na História da Arte são ainda mais invisibilizadas. 133 É de menina ou menino? Reunir trabalhos de artistas que tratam temas como gêneros, sexualidades, corpos e menstruação faz com que atravesse [...] o discurso masculino de modo a subvertê-lo, de transmutar o lugar dado para a nudez feminina, inclusive na Arte, e tirá-la do aspecto erótico (o corpo-objeto de prazer) ou sagrado (o corpo que produz vida), e colocá-la num lugar de enfrentamento, de força e coragem, no lugar da denúncia da violência de gênero. (LUCIA e BALISCEI, 2020, p. 105-106). O sangue menstrual, mesmo que não vindo das diversas violências que atacam diariamente populações de mulheres, crianças e comuni- dade de pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis, Intersexuais e outras - LGBTTI+, é ainda o sangue que, em diversos contextos sociais e culturais, provoca nojo, repulsa, violência de gênero e privações na vida de muitas pessoas. Desse modo, nós, autoras, pesquisadoras, artistas, mulheres cis, que menstruam e tivemos acesso a informações e condições básicas de higiene menstrual, elaboramos esta pesquisa com base em nossas vivências e a partir do nosso recorte de privilégios. Porém, esperamos que essas reflexões contemplem todas/os aquelas/es que podem mens- truar, além de atravessar outras pessoas que possam tomar posse das discussões aqui colocadas e ressignificar relações negativas construídas acerca da menstruação. Para isso, agrupamos dez produções de artistas que dialogam com esse tema, os quais têm seus trabalhos representados na Figura 1 e também, abaixo, na Figura 2. 134 João Paulo Baliscei (org.) Figura 2: Taste Flower de Anna Volpi; Visión (2009) de Isa Sanz, Tecitura de um EU mulher (2019) de Beatriz Nolli; Period piece de Nolwen Cifuentes; Ummeli (2011) de Zanele Muholi; fotografia de Yung Cheng Lin, The Vulva Gallery de Hilde Atalanta, performance de Cass Clemmer e Corpo que flui (2019) de Jacqueline Amadio. Fontes: <http://annavolpi.com/albums-work/flower/>; <https://www.isasanz.com/english/ art-work/i- bleed-but-do-not-die/>; NOLLI, Beatriz Marques, 2019; <https://phmuseum.com/nolwencif/story/period-piece-6bc7e1ed82>; <https://www.designindaba.com/articles/creative-work/period-pains>; <https://www.hypeness.com.br/2015/07/serie-fotografica-retrata-temas-do-universo-feminino- -que- ainda-sao-alvo-de-preconceito/>; <https://www.thevulvagallery.com/the-vulva-gallery>; <https://www.allure.com/story/artist-cass-clemmer-viral-photo-periods-women-men>; ABREU, Jacqueline Amadio de, 2019. Acesso em: 04 de set. de 2020. Ao nos voltarmos para as diversas manifestações artísticas que exploram as questões de gênero, sexualidades, corpos e menstruação, selecionamos, no campo da fotografia, por exemplo, as artistas fotógrafas Anna Volpi, italiana, e Isa Sanz, espanhola. Ambas registram suas visões acerca da menstruação e expõem suas relações com o sangue, de forma a revelar beleza, levantar reflexões e ressignificar tabus sobre o período menstrual. Nolwen Cifuentes, por sua vez, quem nasceu em Califórnia http://annavolpi.com/albums-work/flower/ https://www.isasanz.com/english/art-work/i-bleed-but-do-not-die/ https://www.isasanz.com/english/art-work/i-bleed-but-do-not-die/ https://www.isasanz.com/english/art-work/i-bleed-but-do-not-die/ https://phmuseum.com/nolwencif/story/period-piece-6bc7e1ed82 https://www.designindaba.com/articles/creative-work/period-pains https://www.hypeness.com.br/2015/07/serie-fotografica-retrata-temas-do-universo-feminino-que-ainda-sao-alvo-de-preconceito/ https://www.hypeness.com.br/2015/07/serie-fotografica-retrata-temas-do-universo-feminino-que-ainda-sao-alvo-de-preconceito/ https://www.hypeness.com.br/2015/07/serie-fotografica-retrata-temas-do-universo-feminino-que-ainda-sao-alvo-de-preconceito/ https://www.thevulvagallery.com/the-vulva-gallery https://www.allure.com/story/artist-cass-clemmer-viral-photo-periods-women-men 135 É de menina ou menino? e, hoje, mora em Los Angeles, captura momentos de afeto em relações sexuais de casais durante a menstruação. Yung Cheng Lin, fotógrafa taiwanesa, faz uso do incômodo e sarcasmo para provocar reflexão e crítica aos tabus menstruais. A artista brasileira Jacqueline Amadio emprega, em suas pinturas, uma estética feminista, na qual sua própria existência apresenta maneiras de ser mulher. Ressalta o poder criador e cíclico feminino em seus trabalhos, nos quais é notável a presença da cor vermelha ao se referir ao sangue como símbolo de vitalidade, ciclicidade e sagrado. Beatriz Nolli, também brasileira, faz o resgate dos ciclos femininos e ancestralidade, com o aporte do sagrado feminino. Nolli se utiliza da tecitura com os fios como ferramenta de autoconhecimento e de transformar a relação com o próprio corpo. Em meio às temáticas de inclusão e representatividade, encontra- mos Cass Clemmer, Hilde Atalanta, Nicole Millo e Zanele Muholi. O artista e ativista estadunidense Cass Clemmer afirma que “Nem todas as pessoas que menstruam são mulheres, e nem todas as mulheres mens- truam”54 (tradução livre). Em suas ações, promove reflexões a respeito da menstruação de pessoas que se identificam como transsexuais, não binárias, queers e/ou intersexuais. Hilde Atalanta, de Amsterdã, traba- lha com ilustração e pintura, e une temas comoidentidade de gênero, sexualidade e inclusão. Desenvolve o projeto The Vulva Gallery, o qual, por meio de ilustrações em aquarela de vulvas em diversos aspectos, for- matos e tamanhos, trata de positividade corporal e educação para saúde corporal. Dentre essas ilustrações, podemos encontrar algumas em que o sangue menstrual se faz presente. Também no campo da ilustração, Nicole Miles, de Bahamas e quem hoje mora no Reino Unido, em uma ilustração exposta no Museu da Vagina, representa uma série de roupas íntimas, algumas com sangue menstrual e outras não, para expor essa diversidade de corpos que menstruam. Em protesto às diversas formas de preconceito contra a homossexualidade feminina, em especial, a de mulheres africanas, no trabalho Ummeli (2011), da coleção Isilumo siya- 54 “Not all women menstruate and not those who menstruate are women”. Period. Inc. “Let Us Bleed” Ft. The Period Prince, 3 jul. 2018. Disponível em: <https://www. facebook.com/periodmovement/videos/850952811771443/> Acesso em: 04 jul. 2021. https://www.facebook.com/periodmovement/videos/850952811771443/ https://www.facebook.com/periodmovement/videos/850952811771443/ 136 João Paulo Baliscei (org.) luma (“dores da menstruação”, em zulu), Zanele Muholi, sul-africana, ativista e fotógrafa, traz manchas de sangue menstrual como forma de expressão perante aos assassinatos cometidos por discriminação e às ameaças de estupro coletivo que violentam mulheres lésbicas negras da África do Sul. Por último, destacamos um espaço artístico, o Museu da Vagina, localizado em Londres. Ele foi criado como uma forma de protesto a um museu do pênis, na Islândia, uma vez que espaços voltados para vaginas são raros. Destacamos que o museu, para além do espaço físico expositivo, conta com divulgação em redes sociais, sites e materiais educativos que conversam com temáticas como, por exemplo, anatomia, sexo, gravidez, menstruação e higiene. CONSIDERAÇÕES FINAIS Consideramos que, enquanto mulheres cisgênero, aprendemos, desde pequenas, a esconder manchas de sangue menstrual de nossas roupas; assustamo- nos com a possibilidade de ter vazado sangue de nossos absorventes e coletores; temos vergonha de expor nosso bem estar durante o período menstrual; evitamos dialogar sobre tais temáticas com homens cisgênero; além de recebermos, cotidianamente, argumentações falhas - sejam elas vindas de homens ou mulheres - acerca do “mau” cheiro, da “sujeira” e da “impureza” a respeito da menstruação. Nesse contexto, concordamos que a arte contribui como potência de (re)criação de significados e atua como forma de protesto aos diversos modos de inferiorizar e excluir pessoas que menstruam, sejam mulheres, homens trans, pessoas intersexuais, queers e/ou não binárias. Essa pesquisa nos aproximou de uma relação mais íntima e sig- nificativa com a menstruação. (Res)significamos nossas memórias que foram capturadas por pensamentos que inferiorizam a menstruação ao ponto de sentirmos vergonha de um processo que nos é natural. Deparamo-nos com artistas que nos eram desconhecidas/os e que tra- tam o sangue menstrual, seus corpos e suas sexualidades com tamanha potencialidade e sensibilidade em suas produções. Consideramos, enfim, 137 É de menina ou menino? que o campo artístico se torna um meio de disseminação e exploração de novos significados, exposição de outros corpos e novas expressões que não foram atingidas pelos interesses da hegemonia dominante da História da Arte. REFERÊNCIAS ABREU, Jacqueline Amadio de. Da carne de dentro e da carne para fora: Formas de habitar o corpo e figurações possíveis para um devir-mulher. 2019. 116f. Gradua- ção (Trabalho de Conclusão de Curso em Artes Visuais) - Universidade Estadual de Maringá, Maringá. ABSORVENDO O TABU. Direção: Rayka Zehtabchi. Produção de Melissa Berton, Garrett Schiff, Rayka Zehtabchi e Lisa Taback. Estados Unidos: Netflix, 2018. ABOUT. Hilde Atalanta, 2021. Disponível em: <https://www.hildeatalanta.com/> Acesso em 04 jul. 2021. ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. ANDRADE, Giane Rodrigues de Souza. O corpo gordo na novela Carrossel e a Pedagogia Cultural. In: ACCORSI, Fernanda Amorim; BALISCEI, João Paulo; TAKARA, Samilo (Org.) Como pode uma pedagogia viver fora da escola? Estudos sobre Pedagogias Culturais. Londrina: Syntagma Editores, 2021. p. 261-275. ASSAD, Beatriz Flüegel. Políticas públicas acerca da pobreza menstrual e sua contri- buição para o combate da desigualdade de gênero. Revista Antinomias. v.2, n.1, jan/ jun 2021. p. 140-160. BÍBLIA, Levítico. In BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. p 110-140. ELOI, Carla Luã. Não se nasce Malévola, torna-se: A representação da mulher nos contos de fada. Rio de Janeiro: Metanoia, 2018. FLOWER WORK CATEGORIES. Anna Volpi, [s.d.]. Disponível em:<h- ttp://annavolpi.com/albums-work/flower/> Acesso em: 04 jul. 2021. HYPENESS, Redação da. Série fotográfica quebra tabus ao retratar temas do universo feminino que ainda são alvo de preconceito. Hypeness, 2016. Disponível em: <https:// www.hypeness.com.br/2015/07/serie-fotografica-retrata-temas-do- universo-feminino- -que-ainda-sao-alvo-de-preconceito/> Acesso em: 04 jul. 2021. JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos (e-book). Brasília, 2012. Disponível em:<http://www.diversidadesexual.com.br/ https://www.hildeatalanta.com/ http://annavolpi.com/albums-work/flower/ http://annavolpi.com/albums-work/flower/ https://www.hypeness.com.br/2015/07/serie-fotografica-retrata-temas-do-universo-feminino-que-ainda-sao-alvo-de-preconceito/ https://www.hypeness.com.br/2015/07/serie-fotografica-retrata-temas-do-universo-feminino-que-ainda-sao-alvo-de-preconceito/ https://www.hypeness.com.br/2015/07/serie-fotografica-retrata-temas-do-universo-feminino-que-ainda-sao-alvo-de-preconceito/ https://www.hypeness.com.br/2015/07/serie-fotografica-retrata-temas-do-universo-feminino-que-ainda-sao-alvo-de-preconceito/ http://www.diversidadesexual.com.br/wp-content/uploads/2013/04/G%C3%8ANERO-CONCEITOS-E-TERMOS.pdf 138 João Paulo Baliscei (org.) wp- content/uploads/2013/04/G%C3%8ANERO-CONCEITOS-E-TERMOS.pdf>. Acesso em: 04 de set. de 2021. LOPONTE, Luciana Gruppelli. Gênero, visualidade e arte. In: ICLE, Gilberto (Org.) Pedagogia da arte. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010. LOURO, Guacira Lopes. Corpos que escapam. Labrys - estudos feministas. n. 4, 2003. Disponível em: <https://www.labrys.net.br/labrys4/textos/guacira1.htm>. Acesso em: 21 de fev. de 2021. LUCIA, Renata Andrea Santana de; BALISCEI, João Paulo. Poéticas de duas artistas mulheres: A vagina da artista em performances feministas. In: RIGUE, Fernanda Mon- teiro; AMESTOY, Micheli Bordoli; MALAVOLTA, Ana Paula Parise (org.). O que pode a educação no Brasil hoje? 2. Veranópolis: Diálogo Freiriano, 2020. v.2. p.95- 115. MCNAMARA, Brittney. Period Activist Cass Clemmer Responds to hate after posting period photo. Teen Vogue, 2017. Disponível em: <https://www.teenvogue.com/story/ period-activist-cass-clemmer-what-its-like-to-get- perios-while-transgender>. Acesso em: 06 de abril de 2021. NOLLI, Beatriz Marques. Tecitura de um eu mulher. 2019. 148f. Graduação (Trabalho de Conclusão de Curso em Artes Visuais) - Universidade Estadual de Maringá, Maringá. PERIOD PAINS. Design Indaba, 2011. Disponível em: <https://www.designindaba. com/articles/creative-work/period-pains>. Acesso em: 07 de abril de 2021. PERIOD PIECE. Photographic Museum of Humanity, [s.d.]. Disponível em: <https:// phmuseum.com/nolwencif/story/period-piece-6bc7e1ed82> Acesso em: 04 jul. 2021. SANGRO, PERO NO MUERO. Isa Sanz, [s.d.]. Disponível em: <https://www. isasanz.com/espa%C3%B1ol/ensayos/sangro-pero-no-muero/> Acesso em: 04 jul. 2021. STRÖMQUIST, Liv. A origem do mundo: uma história cultural da vagina ou a vulva vs.o patriarcado. Tradução de Kristin Lie Garrubo, 1ª ed. São Paulo: Quadrinhos na Cia, 2018. http://www.diversidadesexual.com.br/wp-content/uploads/2013/04/G%C3%8ANERO-CONCEITOS-E-TERMOS.pdf http://www.diversidadesexual.com.br/wp-content/uploads/2013/04/G%C3%8ANERO-CONCEITOS-E-TERMOS.pdf https://www.labrys.net.br/labrys4/textos/guacira1.htm https://www.teenvogue.com/story/period-activist-cass-clemmer-what-its-like-to-get-perios-while-transgender https://www.teenvogue.com/story/period-activist-cass-clemmer-what-its-like-to-get-perios-while-transgender https://www.teenvogue.com/story/period-activist-cass-clemmer-what-its-like-to-get-perios-while-transgender https://www.designindaba.com/articles/creative-work/period-pains https://www.designindaba.com/articles/creative-work/period-pains https://phmuseum.com/nolwencif/story/period-piece-6bc7e1ed82 https://phmuseum.com/nolwencif/story/period-piece-6bc7e1ed82 https://www.isasanz.com/espa%C3%B1ol/ensayos/sangro-pero-no-muero/ https://www.isasanz.com/espa%C3%B1ol/ensayos/sangro-pero-no-muero/ 139 É de menina ou menino? Figura 1: Eva e Maria, juntas. Fonte: <https://www.salusincaritate.com/2016/10/maria-e-eva-na-historia-da-redencao. html>. Acesso em 1º de jun. de 2021. “ELA SERÁ SALVA PELA SUA MATERNIDADE”: REPRESENTAÇÕES FEMININAS ENTRE EVAS E MARIAS Ana Carla Vagliati55 Geiva Carolina Calsa56 INTRODUÇÃO Por que apresentar a história dos movimentos sociais e políticos das mulheres em um capítulo que dialoga sobre as representações das mulheres? Em nosso ponto de vista, a compreensão das representações sobre o gênero feminino neste início de século é produto de movimentos históricos que envolvem o corpo feminino, a sexualidade feminina, seu 55 Doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Esta- dual de Maringá – UEM. Professora na Universidade Cesumar – UniCesumar. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5245170435261805. 56 Doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Professora na Universidade Estadual de Maringá – UEM. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3457378901881611. http://www.salusincaritate.com/2016/10/maria-e-eva-na-historia-da-redencao.html http://www.salusincaritate.com/2016/10/maria-e-eva-na-historia-da-redencao.html http://www.salusincaritate.com/2016/10/maria-e-eva-na-historia-da-redencao.html http://www.salusincaritate.com/2016/10/maria-e-eva-na-historia-da-redencao.html http://lattes.cnpq.br/5245170435261805 http://lattes.cnpq.br/3457378901881611 140 João Paulo Baliscei (org.) sexo e a violência a que continuam sendo submetidas na vida privada e pública. Ser mulher é, muitas vezes, pensado como ser mãe e boa esposa, identidades associadas à imagem da virgem Maria. Outras vezes ser mulher é o avesso disto – a mulher que optou por não ser mãe e não casar, esta última, por distanciar-se do modelo ideal de mulher cunhado pelo cristianismo, é representada pela figura de Eva. Tais representações, que se estendem até os dias atuais, ancoram-se no ideal cristão predominante no Brasil desde o século XVI. Para tanto, queremos salientar que esta dualidade entre Maria e Eva pode ser revista ao considerarmos que ambas identidades podem conviver em uma mesma mulher. Conforme a imagem escolhida para abrir esse capítulo, Maria e Eva, num gesto de acolhimento das suas diferenças, podem coexistir, possibilitando que a mulher pós-moderna seja múltipla. Com o objetivo de, nesse capítulo, conhecer as representações femininas e entender a construção das identidades das mulheres de hoje em dia, faremos uma breve visita a história contada sobre o gênero feminino. Assim, na primeira parte, denominada “Entre Eva e Maria” apresentaremos a construção de um modelo ideal de mulher – associada à imagem da virgem Maria e o seu avesso – associada à imagem de Eva. Descreveremos ainda, sobre as relações entre o cristianismo e a medicina que contribuíram para que o corpo e a sexualidade feminina permane- cessem restritos ao estatuto biológico e patológico. Acompanhando as mudanças advindas da Proclamação da República, no século XIX, as mulheres brasileiras protagonizaram a Primeira Onda do movimento feminista por meio do qual buscaram o direto ao voto e organizaram-se contra a obrigatoriedade da maternidade e da vida doméstica. Nesse contexto, métodos contraceptivos passaram a ser pesquisados e adotados pelas mulheres em sua luta pela liberdade e independência sobre seu corpo e sua vida. A segunda parte, que chamamos de “Fases de Transição”, bus- camos mostrar como, apesar das conquistas das mulheres quanto à sua 141 É de menina ou menino? sexualidade, no início do século XX, ainda se mantinham representações do feminino pautadas no determinismo biológico de seu sexo e gênero. Neste momento, a Segunda Onda do movimento feminista destaca o caráter social, político e cultural das desigualdades entre homens e mulheres, enquanto posteriormente, na segunda metade do século, a Terceira Onda introduz a categoria de gênero como uma forma de com- preender as relações entre gênero, sexo e sexualidades na organização social burguesa. ENTRE EVA E MARIA Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes, se enfeitem com pudor e modéstia; Nem tranças, nem objetos de ouro, pérolas ou vestuário suntuoso; Mas que ornem, ao contrário, com boas obras, como convém a mulheres que se professam piedosas. Durante a instrução, a mulher conserve o silêncio, com toda submissão. Eu não permito que a mulher ensine ou dotrine o homem. Que ela conserve, pois, o silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, caiu em transgressão. Entretanto, ela será salva pela sua maternidade, desde que, com modéstia, permaneça na fé, no amor e na santidade. (Timóteo, 2: 9-15) Durante séculos a Igreja Católica em aliança com os poderes seculares ditou as normas sociais e protagonizou o discurso moralizador sobre o uso dos corpos no ocidente. Ademais, exerceu seu pensamento moralizante na nova terra, a Terra de Santa Cruz, o Brasil colonizado por Portugal no século XVI. Neste percurso, uma de suas atividades mais significativas foi o adestramento da sexualidade e dos corpos de nativos/as e colonizadores/as para o estabelecimento de famílias como eixo da moral da nova sociedade. Para que esse objetivo se concretizasse, 142 João Paulo Baliscei (org.) tornou-se essencial demarcar o padrão da mulher ideal para a constituição das novas famílias em solo brasileiro. Como indicam os versículos bíblicos que iniciam este capítulo, para os ensinamentos cristãos, a mulher ideal para o casamento é aquela dedicada aos cuidados da casa, do marido e dos/as filhos/as, com o corpo recatado e obediente às regras estabelecidas pela Igreja, pelo marido e, posteriormente, será pela medicina e pelo Estado. Conforme Emanuel Araújo (2015), a mulher não deve chamar a atenção dos homens para si, com exceção de seu marido, para quem, discretamente, pode se enfeitar. É preciso que conserve o silêncio e a submissão, para que, assim, alcance seu destino essencial, a maternidade, que a salvará de todo o mal que traz em si. De acordo com a Igreja, essa é a mulher que pode, finalmente, se aproximar da Virgem Maria, ou seja, o ideal feminino a ser cultuado. No entanto, se há um ideal feminino para o casamento, há também o seu avesso, que, conforme o versículo, seria Eva, a mulher naturalmente corrompida e sedutora, que utiliza penteados, objetos de ouro e vesti- mentas chamativas; a transgressora. Para Mary Neide Damico Figueiró (2010) e Emanuel Araújo (2015), a existência de Eva leva a mulher à condenação de pagar eternamente por seu pecado original. Foi Eva, pecadora e sedutora, quem levou Adão a pecar, e toda mulher partilha da “[...] essência de Eva [e] tinha que ser permanentemente controlada” (ARAÚJO, 2015, p. 46). No seguimento do versículo está posto que a única forma da mulher se livrar desse male conseguir sua salvação, é através da maternidade, que, segundo a autora, seria o “[...] ápice da vida da mulher. Doravante, ela se afastava de Eva e aproximava-se de Maria” (ARAÚJO, 2015, p. 52). Conforme Mary Del Piore (1994), essa normatização dos corpos femininos, sobretudo a partir do século XVII, esvaziou as mulheres de qualquer uso prazeroso de seu corpo, camuflado sob os panos da boa mulher, contida e obediente, pois “[...] o acordo epistolar entre autores/as laicos/as ou religiosos/as gira sempre em torno das mesmas questões: o casamento como elemento de equilíbrio social, e dentro dele, a ausência de paixões, a obediência e a subordinação feminina” (ARAÚJO, 2015, p. 143 É de menina ou menino? 20). É exaltada, assim, a suposta pureza feminina, consolidada na ideia de maternidade e santidade para melhor controlar seu comportamento e pensamento. Vale ressaltar que a urgência em vigiar o sexo feminino para que se mantivessem honradas e aptas ao casamento faz parte da organização das novas famílias, as famílias burguesas, para quem o corpo da mulher e sua sexualidade passava a ser considerada “[...] coisa importante, frágil tesouro, segredo de conhecimento indispensável”, e responsável pela manutenção das famílias, como aponta Michel Foucault (2014, p. 131). Assim, enquanto instância social de controle dos/as cidadãos/ãs, a família burguesa sexualizou a mulher, “ociosa” no antigo regime, e à ela atribuiu obrigações sociais, conjugais, domésticas e maternais. No entanto, apesar dos regramentos sociais e econômicos e dos dogmas cristãos, as mulheres das camadas populares, ainda que submeti- das à valorização do casamento cristão e da fecundidade, diferentemente das burguesas, mantiveram-se alheias a um controle tão rigoroso de sua sexualidade mantendo certa liberdade (FOUCAULT, 2014). Referindo-se ao nosso país, Del Priore (1994, p. 20), destaca o quão distante da pregação religiosa “[...] se encontravam as mulatas e negras forras e as brancas empobrecidas. Ao discurso monocórdio sobre seus comportamentos, [...] elas respondiam com práticas tidas por desa- busadas, mas apenas resultantes de suas condições materiais de vida”, incluindo a prostituição e a violência sexual. Como enfrentamento do regramento religioso e político-moral, as mulheres casadas também lutavam para se livrar de maridos indesejados, como os adúlteros ou violentos, recorrendo aos tribunais eclesiásticos para denunciá-los com o argumento de que os maridos não contribuíam para formar uma família cristã. Além disso, muitas vezes elas cometiam adultérios e abortos como forma de se defender das rígidas normas de conduta moral do casamento. Acompanhando esse movimento de regramento moral, curiosamente, a prostituição foi tornando-se a única forma de manter relações sexuais lícitas antes do casamento e fora do casamento e não direcionadas para procriação, consideradas, portanto, 144 João Paulo Baliscei (org.) como “[...] pacificadoras da violência sexual contra as donzelas casa- douras e do desejo que pusesse em risco a fidelidade às esposas” (DEL PRIORE, 1994, p. 22). Prostitutas e donzelas casadoiras reforçavam a cisão das mulheres em Marias e Evas, cuja linha divisória era considerada bastante tênue devido aos comportamentos tidos como moralmente desviantes, e que transformavam rapidamente Marias em Evas. Com o desenvolvimento dessa divisão entre as mulheres, os homens assumiram uma dupla moral aceita socialmente: em casa um comportamento e na rua, outro, afinal, faziam com as prostitutas aquilo que não era aceito que fizessem com suas esposas. Invadindo o leito conjugal, as normas religiosas pregavam a abstinência e relações sexuais destinadas exclusivamente à procriação, como indicam as autoras Marilena Chauí (1984) e Mary Neide Damico Figueiró (2010). Durante o século XIX, além da Igreja e do Estado, o discurso da medicina acabou reforçando a restrição do papel feminino à reprodu- ção, agora visto sob o estatuto biológico da mulher. A medicina nutria grande interesse pelo útero, que passou a desempenhar um duplo papel: conceder à mulher a salvação, ao gestar uma ou mais crianças, ou à maldição, caso não exercesse sua função reprodutora dentro dos moldes aceitos para a época. Ao final do século XIX, começaram a aparecer os primeiros grupos de mulheres brasileiras que, inspiradas em movimentos internacionais, buscavam desestabilizar as representações femininas que reduziam a mulher ao biológico e à vida doméstica. Como parte da Primeira Onda do movimento feminista, as suffragettes, inicialmente na Inglaterra, organizavam-se para lutar pelo direito da mulher ao voto nas eleições, até então exclusivamente decididas pelo voto dos homens. No Brasil, a Primeira Onda do feminismo também se pautou na luta pelo direito ao voto, conquistado em 1932, com a promulgação do Novo Código Eleitoral brasileiro (DEL PRIORE, 2015). Em meio à Primeira Onda e devido às políticas de controle da natalidade em vários países, como os da Europa, dos Estados Unidos 145 É de menina ou menino? e do Brasil, o começo do século XX foi marcado pelo desenvolvimento de métodos contraceptivos centrados nos corpos das mulheres, com objetivo inicial de controlar a natalidade. Isso também contribuiu para uma nova forma de entender a sexualidade feminina, relacionando-a à liberdade e autonomia para as próprias mulheres decidirem sobre sua vida e seu corpo, conforme explicam as autoras Joana Maria Pedro (2010) e Céli Regina Jardim Pinto (2010). O ato sexual deixou de servir apenas à procriação e, em fins dos anos 1960, já se viam slogans sobre o direito das mulheres ao prazer. A nova forma de controlar o crescimento da família contribuiu para ampliar os horizontes femininos, como poder estudar ou participar do mercado de trabalho. FASES DE TRANSIÇÃO Sofrendo as influências da década anterior no que diz respeito ao casamento e à sexualidade feminina, na metade do século XX, se desenvolve com maior ímpeto a ideia de que um casamento satisfatório dependia do afeto entre as/os cônjuges. No entanto, o controle sobre a sexualidade feminina permanecia em pauta como um problema. As jovens deveriam aprender a se controlar e distinguir o “certo” do “errado”, de forma a conservar suas virtudes e conter sua sexualidade em limites bem estreitos. Mantêm-se como características próprias do gênero feminino o instinto materno, a pureza, a resignação e a doçura, e de acordo com Carla Bassanezi Pinsky (2015, p. 609) “[...] a mulher que não seguisse seus caminhos estaria indo contra a natureza” Até a segunda metade do século XX, mulheres e homens continuam acredi- tando que “[...] a felicidade conjugal depende fundamentalmente dos esforços femininos para manter a família unida e o marido satisfeito”, inclusive sexualmente (PINSKY, 2015, p. 607-608). Essas perspectivas, porém, não significam que todas as mulheres pensavam e agiam de acordo com o esperado, e sim que essas expecta- tivas sociais faziam parte de sua realidade, influenciando suas atitudes e pesando em suas escolhas pessoais, morais e sociais. Nesse âmbito, vontade e coragem de transgredir percorriam desde o ato fumar, ler 146 João Paulo Baliscei (org.) textos proibidos, explorar a sensualidade de roupas e penteados, investir no futuro profissional, até contestar secreta ou abertamente a moral sexual, chegando a abrir mão da virgindade e, com isso, por vezes, do casamento. Sem dúvida, segundo Pinsky (2015, p. 622), esses “[...] questionamentos, e contestações colocaram em perigo as normas de comportamento e contribuíram para a ampliação dos limites estabele- cidos para o feminino”. A partir da década 1960, com o crescimento da participação feminina no mercado de trabalho, em setores menos relacionados à sua suposta natureza maternal como ser professora e enfermeira, as mulheres passam a trabalhar no comércio, serviços públicos e escritórios. O que exigia delas maior escolaridade, qualificaçãoprofissional e mudanças em seu status social, mas que não evitava os preconceitos quanto ao trabalho fora do lar. Predominavam, portanto, as representações de que lugar de mulher é no lar e na família, implicando, assim, que trabalhar seria viver como homem durante o dia e como mulher durante a noite; essa seria uma das causas dos lares infelizes. Com a ascensão da Segunda Onda do movimento feminista ao longo da segunda metade do século XX, mudanças nas representações da mulher se aceleram. A afirmação de Simone de Beauvoir de que “não se nasce mulher, torna-se mulher” denuncia as raízes culturais da desigualdade sexual e oferece sustentação às novas perspectivas desses movimentos. Essa nova fase fundou-se na diversidade de mundos sociais e culturais nos quais a mulher se torna mulher, diversidade essa que, mais tarde, veio a ser denominada como identidade de gênero, inscrita na cultura. Nesta visão, as identidades de gênero se constituem por meio do processo de socialização o qual determina funções sociais específicas para cada gênero. Assim, o movimento da Segunda Onda reivindicou a igualdade em todos os níveis, seja no mundo externo – predominan- temente masculino, seja no âmbito doméstico – predominantemente feminino (ALVES; PITANGUY, 1981; SARTI, 2004). Betty Friedan (1963), apoiando-se em Beauvoir, recolhe, nos Estados Unidos, uma série de depoimentos de mulheres da classe média e 147 É de menina ou menino? publica o livro A Mística Feminina. Nele, ao observar as mulheres estadu- nidenses e seus comportamentos em meados da década de 1950, a autora aborda o papel da mulher na função de dona de casa e suas implicações na sociedade. No Brasil, dentre as mulheres que escreveramm sobre a condição feminina, Heleieth Iara Bongiovani Saffioti (1976) publicou a obra A Mulher na Sociedade de Classes, em que faz uma análise da condição da mulher no sistema capitalista brasileiro. Semelhantemente, Cyntia Andersen Sarti (2004) explica que os movimentos feministas brasileiros foram marcados pela contestação à ordem política instituída no país, desde o Golpe Militar de 1964 até o final dos anos de 1980. Parte desses movimentos estava articulada a organizações clandestinas de vertente marxista, o que imprimiu ao movimento características próprias, como a presença de mulheres na luta armada. Além do enfrentamento da ordem política e cultural vigente, essa participação implicava uma profunda transgressão nas representações do que era considerado feminino. As militantes brasileiras questionavam o lugar tradicionalmente atribuído à mulher, que ainda permanecia rígido e fixo, e assumiam uma postura mais liberal diante do sexo e da sexualidade, colocando em questão a virgindade e a instituição do casamento. A família brasileira dos anos 1970 foi resultado desse cenário de enfrentamentos e resistências. Com métodos contraceptivos mais eficien- tes e segurança profissional, as mulheres buscavam se reinventar dentro da casa e da família. As relações verticais de autoridade do marido sobre a esposa passaram a ser questionadas, rompendo-se lentamente ou pelo menos flexibilizando o ciclo de dependência e subordinação da mulher. Apesar disso, a imprensa geral e a destinada às mulheres continuaram a difundir as representações da mulher como mãe e da dona de casa, ao seguirem repletas de fórmulas para “agarrar maridos”, receitas culinárias e cuidados com a beleza (DEL PRIORE, 2014). Em 1979, com a anistia, as mulheres exiladas começaram a retornar para o Brasil, reencontro que contribuiu para fortalecer o movimento feminista brasileiro, pois elas traziam em sua bagagem vivências políticas em outros movimentos feministas nos quais foram atuantes, sobretudo 148 João Paulo Baliscei (org.) da Europa. O movimento feminista brasileiro ganhou novo fôlego, proliferando pelo país e assumindo novas bandeiras, como os direitos de reprodução, o combate à violência doméstica e sexual contra a mulher e a liberdade de sua sexualidade. Organizados próximos aos movimentos populares de mulheres, esses grupos abarcaram, também, as lutas por educação, saneamento, habitação e saúde. Além dos movimentos populares, os movimentos feministas introduziram-se nos meios de comunicação por meio de pro- gramas femininos e personagens de novelas e seriados, nos quais, junto às tradicionais informações sobre culinária, moda, educação de filhos/ as, traziam temas como sexualidade, orgasmo feminino, anticoncepção e violência doméstica, como explica Ana Alice Alcantara Costa (2005). Com uma pesquisa publicada pela revista Veja, em 1980, Del Priore (2014, p. 82) descreve as representações de mulher sobre ela mesma, predominantes e concomitantes aos movimentos feministas em desenvolvimento. Segundo a autora, a mulher brasileira se considerava “[...] nem Amélia nem ativista, a brasileira dos anos 1980 era conservadora e tímida, mas sabia que sua filha precisava conquistar independência”. A mulher passava a comprar roupas feitas e aos poucos deixava de ser necessário que soubesse manusear uma máquina de costura. Quanto à vida sexual livre para solteiras e à legalização do aborto, não tinham certeza. Mostravam- se divididas entre valores novos e tradicionais, mas rejeitavam a ideia da submissão da mulher. A Terceira Onda do movimento feminista, nos anos 1980, trans- formou o conceito de gênero como uma categoria de análise das socieda- des modernas com inspiração nos estudos de Joan Scott (1989). Como categoria conceitual e de análise, o gênero passou a investigar as relações entre homens e mulheres dentro da organização social, política, cultural e moral em que ambos/as estão inseridos/as. No plano governamental, essa perspectiva teve consequência na criação de políticas públicas e de conselhos federais, estaduais e municipais sobre a condição da mulher. Com o advento do século XXI, aspectos significativos da sexualidade feminina passaram a ser levados em conta, como a preocupação dos 149 É de menina ou menino? parceiros homens com a satisfação sexual das mulheres, e liberdade de carícias e posições nas relações sexuais como menor estigmatização do que é sexo saudável e sexo depravado. Para as mulheres, de modo geral, a busca pelo prazer sexual consolida-se como desejável e o orgasmo feminino passou a ser alcançado e debatido por uma maior quantidade de mulheres, que antes não percebiam seu corpo e suas sensações íntimas (DEL PRIORE, 2014). Entre idas e vindas, mesmo no século XXI, as representações femininas permanecem pautadas em comportamentos e valores conven- cionais relacionados à divisão entre Marias e Evas. Estas representações são visíveis em estudos mais recentes, como demonstra uma pesquisa sobre sexualidade e sexo, realizada em 2011 e apresentada por Del Priore (2014). À pergunta: “Você casou virgem?”, 98% dos homens disseram “não”, enquanto uma menor quantidade de mulheres, 42,5%, respondeu “não”. Outra questão lançada pela pesquisa foi: “Você manteve relações sexuais fora do casamento?”. Entre os homens casados, o reconhecimento de traições foi de 50%, contra 13% entre as mulheres casadas. Além disso, um terço das mulheres que participaram da pesquisa declarou não ter orgasmo nem desejo sexual, assim como mencionou ter relações sexuais com menos frequência que os homens. De acordo com Del Priore (2014), esses dados sugerem que estamos em uma fase de transição, em que é possível reconhecer avanços e, ao mesmo tempo, persistência de valores e condutas femininas cristalizadas. Avanços são constatados em áreas importantes como a contracepção e a concepção, uma vez que hoje há possibilidades da dúvida em ser ou não ser mãe, por parte das mulheres. As mulheres já podem retardar a maternidade e escolher o melhor momento para serem mães, ou mesmo escolher não as ser. Socialmente, a maternidade ainda é explicada e justificada pelo desejo de continuidade, pela busca de um sentido para a vida, pela necessidade de valorização e reconhecimentosocial, pelo amor às crianças e pelo modelo de família tradicional. Nesse contexto, as marchas feministas contemporâneas, consi- deradas como a Quarta Onda, não diferem muito das pautas das ondas 150 João Paulo Baliscei (org.) feministas anteriores, como violência, assédio, sexualidade, aborto, trabalho, sexismo, padrões compulsórios de beleza e de comportamento, superação das desigualdades econômicas, sociais, de gênero, raça e etnia. A diferença parece estar localizada nas formas de encaminhamento dessas questões, por meio da capacidade multiplicadora e articuladora da internet (COSTA, 2005). Para Costa (2005), a Quarta Onda se destaca por não apresentar uma estrutura hierárquica e sim, prezar pela descentralização e hori- zontalidade; uma linguagem política que passa pela performance e pelo uso do corpo como a principal plataforma de expressão. Nesses novos momentos, a coletividade se sobrepõe à ação individual e sua organi- zação se dá em torno de interesses diversos. Movimentos nas ruas, por exemplo, vêm adquirindo força e permitindo novas formas políticas de afeto, no sentido de afetar e ser afetado pela multidão. A força das ruas, em conjunto com a web, parece constituir fatores estratégicos e centrais das marchas feministas contemporâneas. CONSIDERAÇÕES Entre Maria e Eva. Ao longo da história das mulheres, é possível constatar instituições como a Igreja Católica, o Estado e a Medicina contribuindo para que as representações de ser mulher a restrinjam ao estatuto biológico, logo, representações do que seria uma boa mulher, que para a religião católica é consagrada na imagem da virgem Maria, uma mulher comum que, escolhida para ser mãe do filho de Deus, preserva a doçura e a virgindade. Já a figura de Eva, a mulher que desobedeceu a regra do paraíso ao comer a fruta proibida, representa a mulher transgressora das normas. Assemelha-se à Eva a mulher que opta por não vivenciar a maternidade e não constituir casamento, também aquela que vive sua sexualidade de forma irrestrita etc. Coexiste com essas representações o acolhimento de Evas e Marias e o reconhecimento de que é possível a existência e a coexistência de 151 É de menina ou menino? ambas identidades. Esta última forma de representação advém dos movimentos femininos individuais, sociais e políticos. Por fim, frente ao breve histórico apresentado nesse capítulo, consideramos que, por muito tempo, propagou-se representações sobre a mulher pautadas em comportamentos e valores convencionais rela- cionados à essa divisão entre Marias e Evas, e que persistem no século XXI. Para tanto, como vimos, os avanços nos campos sociais e políticos têm contribuído para que representações cristalizadas sejam ampliadas. REFERÊNCIAS ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. São Paulo: Brasiliense, 1981. ARAÚJO, Emanuel. A arte da sedução: sexualidade feminina na colônia. In: DEL PRIORE, M. (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015. CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1984 COSTA, Ana Alice Alcantara. O movimento feminista no Brasil: dinâmicas de uma intervenção política. Revista Gênero, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p.1-20, 2005. Disponível em: <https://periodicos.uff.br/revistagenero/article/view/31137/18227>. Acesso em: 21 de setembro de 2021. DEL PRIORE, Mary. A mulher na história do Brasil. 4 ed. – São Paulo: Contexto, 1994. . Histórias e conversas de mulher. 2 ed. – São Paulo: Planeta, 2014. . Magia e medicina na colônia: o corpo feminino. In: DEL PRIORE, M. (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015. FIGUEIRÓ, Mary Neide Damico. Educação sexual: retomando uma proposta, um desafio. 3 ed. rev. e atual. Londrina: Eduel, 2010. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1: A vontade de saber. 1 ed. – São Paulo, Paz e Terra, 2014. PEDRO, Joana Maria. A trajetória da pílula anticoncepcional no Brasil (1960-1980). In: MONTEIRO, N. Y. História da saúde: olhares e veredas. São Paulo: Instituto de Saúde, 2010. PINSKY, Carla Bassanezi. Mulheres dos anos dourados. In: DEL PRIORE, Mary. (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015. https://periodicos.uff.br/revistagenero/article/view/31137/18227 152 João Paulo Baliscei (org.) PINTO, Céli Regina Jardim. Feminismo, história e poder. Rev. Sociol. Polít., Curi- tiba, v. 18, n. 36, p.1-11, 2010. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/rsp/article/ view/31624/20159>. Acesso em: 10 de setembro de 2021. SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. A mulher na sociedade de classes: mito e rea- lidade. Petrópolis, Vozes, 1976. SARTI, Cynthia Andersen. O feminismo brasileiro desde os anos 1970: revisitando uma trajetória. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. 264, p. 35-50, 2004. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104- 026X2004000200003/7860>. Acesso em: 09 de setembro de 2021. SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para análise histórica. 1989. Tradução: Chris- tine Rufino Dabat e Maria Betânia Ávila. Disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/ pluginfile.php/185058/mod_resource/content/2/G%C3%A Anero-Joan%20Scott.pdf>. Acesso em: 25 de setembro de 2021. https://revistas.ufpr.br/rsp/article/view/31624/20159 https://revistas.ufpr.br/rsp/article/view/31624/20159 https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2004000200003/7860 https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2004000200003/7860 153 É de menina ou menino? Fonte: Print Screen do 28’17’’ da animação Shrek 2 (2004). Disponível em <www.netflix. com/br>. Acesso em 1º de maio de 2021. “GAROTA?” DORIS, A “IRMÃ FEIA” DA ANIMAÇÃO SHREK: CULTURA VISUAL E TRANSGENERIDADES Arthur Zanetti Ghizellini57 João Paulo Baliscei58 Lua Lamberti59 INTRODUÇÃO A infância contemporânea, dentre outras coisas, é marcada pelo acesso a imagens advindas da mídia, filmes, televisão, jogos, brinquedos, roupas e materiais escolares, por exemplo. Esse repertório imagético compartilhado e distribuído pelos meios de comunicação faz parte 57 Graduado no curso de Licenciatura em Artes Visuais através da Universidade Estadual de Maringá. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8067557049468786. 58 Doutor em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá - UEM. Professor na UEM. Coordenador do grupo de pesquisa em Arte, Educação e Imagens – ARTEI; e artista visual. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6980650407208999. 59 Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Educação pela Universidade Estadual de Maringá. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9222816124433562. http://www.netflix.com/br http://www.netflix.com/br http://lattes.cnpq.br/8067557049468786 http://lattes.cnpq.br/6980650407208999 http://lattes.cnpq.br/9222816124433562 154 João Paulo Baliscei (org.) daquilo que, conceitualmente, temos nos referido como artefatos da cultura visual. Essas imagens são propagadas por pessoas e ou marcas e difundem padrões e discursos de gênero, sexualidade, infância, entre outros, a serem imitados, ressignificados ou transgredidos pela sociedade. Crianças estão suscetíveis aos artefatos da cultura visual, pois também são consideradas consumidoras em potencial. Sobre isso, Mariângela Momo (2008) argumenta que mães, pais e professores/as nem sempre se questionam ou se preocupam com as imagens que chegam até as crianças e, com isso, os significados que tais imagens valorizam tendem a ser naturalizados. Segundo a autora, as mudanças culturais têm ressig- nificado o conceito de infância: enquanto no passado se aprendia a “ser criança” através de instituições mais tradicionais, como a igreja, a escola e o círculo familiar, hoje a infância é vivida e transformada também por meio da mídia e do consumo. Como pesquisadora da infância, de suas subjetividades e identidades tanto nas escolas quanto fora dela, a autora sublinha, a partir da concepção de Infância Pós-Moderna,que os sentidos atribuídos às crianças, em outras épocas, já não abrangem mais a multiplicidade de vivências e formas a partir das quais as infâncias são construídas na contemporaneidade. Tendo em vista que crianças e adolescentes estão suscetíveis aos artefatos da cultura visual e que dialogam constantemente com (e sobre) estas representações que eles fazem circular, mencionamos a pesquisa de Ruth Sabat (2003) que vê, nas animações infantis, maneiras pelas quais a cultura formula e regula os indivíduos, sutilmente. Para a autora, as animações não só entretêm, como também produzem significados acerca dos gêneros, sexualidades e raças e etnias, por exemplo, ao passo que regula os corpos dos/as espectadores/as, convocando-os/as a se identificar com os padrões dos heróis e heroínas, e a desprezar os padrões assu- midos pelos vilões e vilãs. Como artefatos da cultura visual, os filmes – as narrativas, personagens, cores, falas, canções, cenários, discursos e desfechos - exercem poderes que, por vezes, podem se configurar como controle social quando, por exemplo, apresentam de forma recorrente identidades estereotipadas, desejadas, tipos físicos específicos para corpos masculinos e femininos, como João Paulo Baliscei (2020) exemplifica 155 É de menina ou menino? em outra pesquisa. Nela, debruça-se sobre 20 personagens masculinos da Disney, dentre vilões, heróis e coadjuvantes, personagens humanos, animais e seres fantásticos, para verificar de que maneira a empresa contribui para a construção visual e identitária de masculinidades. Caluã Eloi (2018) contribui para essa discussão quando argumenta que as animações, semelhantemente aos contos de fadas e às fábulas contadas oralmente, de modo geral, apresentam um princípio moral constituído por dogmas cristãos e por interesses capitalistas e políti- cos: há uma protagonista virgem que precisa ser salva por um homem branco, para que, ao final, celebrem um casamento cristão, monogâmico e heterossexual. O autor se refere a esses artefatos como “contos morais”, explicando que, socialmente, têm-se utilizado deles, há séculos, como forma de prestar manutenção aos interesses de grupos dominantes: homens cisgênero, brancos, heterossexuais e cristãos. Afinado a isso, Preciado (2020), ao analisar o império Playboy, propõe que as mídias desempenham um papel de produzir novas formas de ser e estar, um novo tropo social que se relacionava diretamente com o tropo da utopia erótica de seu criador, o estadunidense Hugh Hefner (1926-2017). O autor considera a Playboy como uma espécie de Disney- lândia para adultos, lembrando “[...] que em 1983 o Playboy Channel e o Disney Channel (aparentes polos opostos nos debates morais e religiosos que opõe sexo e família, a liberdade de decisão sobre o próprio corpo e a defesa da infância) compartilham suas redes televisivas” (PRECIADO, 2020, p. 206). É possível entender que as narrativas expostas nas visualidades instauram formas de se relacionar com determinadas figuras, no caso do presente trabalho, pessoas trans e travestis, que estão intrinsicamente amarradas ao projeto de mundo de quem cria, de quem propõe. Portanto, entendemos Doris como uma representação trans partindo de uma noção cisgênero hegemônica. O documentário Disclosure: trans lives on screen (2020), dirigido pelo estadunidense Sam Feder, reúne depoimentos de artistas trans, em sua maioria de Hollywood, comentando as supostas representações trans 156 João Paulo Baliscei (org.) no cinema, nas séries e no campo audiovisual. As discussões giram em torno da insistência no estereótipo, na narrativa sem final feliz, pautada na dor, na violência e na transfobia, além de tornar muito gritante a não identificação das pessoas trans para com as figuras que se propõe a representá-las, e, por isso, saber sob qual perspectiva a identidade trans será veiculada faz toda a diferença. As pesquisas até então mencionadas, somadas aos nossos interesses pessoais, políticos e acadêmicos, impulsiona-nos ao questionamento: Como, no âmbito da infância e da representação das animações, os artefatos da cultura visual caracterizam e produzem corpos dissidentes da norma? Para responder a essa pergunta, lançamos como objetivo analisar as imagens de transgeneridades produzidas pela cultura visual, mas especificamente pela série de animações Shrek. Por transgeneridades nos referimos às identidades dos sujeitos que se identificam com o gênero diferente daquele a partir do qual foram identificados e socializados. Com isso, como explicam Letícia Nascimento (2021), Paul Preciado (2019) e Jaqueline Gomes de Jesus (2012), diferentemente das pessoas cisgênero, as pessoas transgênero precisam, ao longo da vida, reivindicar e lutar pelo reconhecimento de suas identidades como homens e mulheres, o que, colide com as violências transfóbicas praticadas socialmente. Em três dos quatro filmes que até então integram a série de ani- mações Shrek, da companhia Dreamworks Animation, é apresentada a personagem Doris. Em comum Shrek II (2004); Shrek Terceiro (2007); Shrek para sempre (2010) representam Doris como uma das “irmãs feias” de Cinderela. Diferentemente da feminilidade “tradicional” declarada na caracterização de personagens como Cinderela, e até mesmo da feminilidade “inusitada” explícita na caracterização da princesa Fiona60, a feminilidade de Doris é colocada em xeque. Como demonstramos nas 60 Durante a animação, as princesas Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida e Rapunzel são personificadas reforçando a “normalidade” estereotipada da heterossexua- lidade feminina de modo visual: corpos brancos, magros, cabelos lisos e bem penteados, adereços e joias, personalidades frágeis, doces, meigas, delicadas, sensuais, ingênuas, puras, contidas e pacientes. A princesa Fiona, em contrapartida, apresenta sua femini- lidade de forma inusitada, pois, mesmo seguindo alguns dos estereótipos endereçados às princesas, é uma Ogra e suas características físicas e corporais são diferenciadas. 157 É de menina ou menino? análises de duas cenas problematizadas no desenvolvimento deste artigo, as imagens, falas, caracterizações e narrativas dos filmes sugerem que Doris, a única personagem dissidente da norma cisgênero, seja alguém de quem os/as demais personagens (e o público) possam rir e debochar, e contra quem possam exercer a transfobia. “VAI LÁ GAROTA, VÊ SE FAZ UMA TRANSFORMAÇÃO TOTAL”! Em nenhum momento das três animações às quais nos referimos, a identidade de gênero de Doris é anunciada, explicitamente. Sua trans- generidade, neste caso, fora percebida por nós, em sua caracterização, como destacamos na figura que abre esse capítulo. Nela, evidencia-se uma personagem que reúne roupas, cabelo, maquiagem, seios e outros marcadores de feminilidade, combinando-os com outras características tidas como masculinas. Posteriormente, em material extra na mídia DVD do filme Shrek II (2004) é confirmada a identidade trans da personagem, além de outras pesquisas como a de Belidson Dias e Alice Maria Lara (2012) indicarem análises bastante similares, com outras personagens que apresentam signos de gênero não conforme, como Pinóquio de calcinha, o Lobo Mau e Mabel, a outra irmã feia. A figura que demos destaque se refere à primeira aparição de Doris, que ocorre no segundo filme da série de Shrek, intitulado Shrek II (2004). Ela acontece no momento em que o Rei de “Tão Tão distante” entra no bar “Maçã Envenenada” e pergunta pela “Irmã-feia”. A figura é um frame do exato momento em que Doris, por trás do balcão, volta-se para atender o Rei de “Tão Tão distante” que, encapuzado, permanece de costas para o enquadramento da cena, à esquerda. Ao fundo, além de barris com bebidas, há outros elementos como armas, crânios humanos e velas que cooperam para a criação de um cenário escuro e sinistro. Na primeira aparição de Doris, portanto, nos é revelado que ela trabalha como bartender em um bar frequentado por personagensvilões e vilãs, como bruxas, árvores amaldiçoadas, a Rainha Má, Capitão Gancho, Cavaleiro sem cabeça e Ciclope. De certa forma, o bar representa uma 158 João Paulo Baliscei (org.) das divisões sociais da vida real que é reproduzida pelo reino fictício e fantástico que integra a série de animações Shrek. Ainda que Doris expresse uma personalidade gentil, respeitosa e ética, nessa cena ela é equiparada aos vilões e vilãs. Apesar de sua bon- dade, ela é, portanto, localizada como má, inclusive fisicamente. Além disso, para nós, quando optam por apresentar Doris como bartender na “Maçã Envenenada”, não é apenas sugerido que ela ocupa um lugar de igualdade e semelhança entre os/as antagonistas no que diz respeito ao repúdio e desaprovação por parte do público, mas também, que ela está em um nível inferior ao deles/as. Enquanto vilões e vilãs bebem e se divertem em um momento de lazer, Doris trabalha, servindo-os/as. Ainda sobre a cena ilustrada pela figura, verificamos que o foco da câmera evidencia o rosto de Doris. Ela é apresentada utilizando vestido roxo, cabelo preso e maquiagem “carregada”. Suas sobrancelhas grossas, o maxilar largo e arqueado, a voz grave, os ombros largos, e sobretudo a cor acinzentada da parte inferior de seu rosto (indicativos de resquícios de barba), podem ser associados ao que socialmente se entende como masculino. Se por um lado não há “transparência” quanto à identidade de gênero de Doris, por outro, é bastante “transparente” sua condição de sujeito à margem dos/as demais personagens. Isso fica evidente, por exemplo, nas piadas que lançam sobre e contra ela. Nesse sentido, pensando com Preciado (2020, p. 218), ao colocar uma figura que não responda à norma, no caso, uma personagem trans, é preciso entender os contrapontos que, ao invés de a estruturarem e complexificarem, têm mais a ver com a validação de uma forma específica, o que o autor chama de “encenação da diferença (desde os freak shows estadunidenses que confir- mavam ao visitante sua própria normalidade [...])”. Em outras palavras, as relações que circulam Doris servem para legitimar as feminilidades cisgênero em cima da negação ou violação de sua identidade. Ela está ali para que as princesas cis sejam naturalizadas, em contraponto à aberração, o que fica muito nítido nos espaços que ela ocupa dentro da narrativa. Ainda em Shrek II (2004) há, por exemplo, uma cena pós-créditos, que integra a versão especial e estendida do filme, na qual a transfobia é 159 É de menina ou menino? disfarçada de humor e provoca riso e deleite às/aos personagens cisgênero. Nela, é mostrada uma competição de canto nomeada “Ídolos de Tão Tão Distante” em alusão e referência ao programa televisivo American Idol. A cena conta com uma versão animada do britânico Simon Cowell (1959- -)61, jurado de diversos programas de talentos internacionais. Nesta cena em particular, Shrek, Fiona e Simon se reúnem diante de uma mesa, como júri da competição, como indicamos na Figura 2. Nessa referência ao programa, outros/as personagens coadjuvan- tes se apresentam em grupos ou individualmente. Ao chegar a vez de Doris, a personagem canta sozinha a música “Girls Just want to have Fun”, da cantora estadunidense Cyndi Lauper (1953--), e é avaliada por seu desempenho pelo júri. Diante da apresentação de Doris, Fiona demonstra entusiasmo e satisfação, e incentiva a personagem gritando “É, vai lá...!”, com o intuito de animar a performance. Porém, antes de terminar a frase, ela olha em direção a Shrek e questiona “...Garota?”, como se não estivesse certa ou segura o bastante para se referir àquela personagem com um substantivo no feminino. Figura 2: “Vai lá garota, vê se faz uma transformação total”. Fonte: Print Screen entre 00’48’ e 02’07”, da cena pós-créditos da animação Shrek 2 (2004). Montagem e elaboração nossas, 2021. 61 Simon é conhecido por alavancar a carreira de diversos grupos de sucesso, como o One Direction - grupo de meninos cantores - mas também conhecido por ser muito rígido em suas críticas. 160 João Paulo Baliscei (org.) Nessa cena, Shrek, semelhantemente, realiza uma expressão de questionamento e incógnita por também não estar certo quanto ao gênero da personagem. Por fim, chamamos atenção para a atitude agres- siva de Simon, quem permaneceu de braços cruzados e com expressão mal-humorada durante toda a performance de Doris. Ele ridiculariza a personagem ao afirmar “É, vai lá garota, vê se faz uma transformação total e algumas aulas de canto”, criticando-a não somente por sua voz, como também por sua aparência, e principalmente pelo fato de, segundo ele sugere, não ter realizado “completamente” sua transição de gênero. A desconfiança com as quais o júri questionou o gênero de Doris exemplifica a denúncia de Jaqueline Gomes de Jesus (2012, p. 8) de que “[...] a sociedade em que vivemos dissemina a crença de que os órgãos genitais definem se uma pessoa é homem ou mulher”. A isso, recorremos a Lua Lamberti (2021, p. 22), quem argumenta que as “[...] perfor- matividades queers são, nesse sentido, o escancaro do teor fictício das construções hegemonicamente naturalizadas de ‘homem’ e ‘mulher’”, já que denunciam que cores, cortes de cabelo, roupas, acessórios e mesmo as genitálias não são signos “fixos” aos corpos biológicos, mas espécies de próteses que podem ser modificadas, acrescentadas e retiradas, conforme os desejos, condições e práticas culturais. Ainda sobre o conjunto de imagens que reunimos na Figura 2, no que diz respeito especificamente à agressividade expressada pelo personagem Simon contra Doris, lembramo-nos dos relatos que Preciado (2019) fez durante seu processo de transgenerização. Em um conjunto de crônicas o autor relata algumas das vezes em que seu corpo, em transição do feminino para o masculino, fora parado, barrado e revis- tado por transgredir aquilo que socialmente se entende como “norma”. Além disso, comenta sobre os trâmites burocráticos para a solicitação de novos documentos. Referindo-se a uma viagem específica, em 2018, após uma sucessão de questionamentos sobre seu passaporte que exibia uma fotografia que não mais o representava, o autor escreveu: “Com uma aparência cada vez mais masculina e um documento de identidade feminino, perdi o privilégio da invisibilidade social e da impunidade de gênero. Tornei-me um migrante de gênero” (PRECIADO, 2019, p. 34). 161 É de menina ou menino? Entendemos essa inspeção não só como reflexo do estranhamento que um corpo trans acarreta à uma sociedade cisnormativa, como também reflexo da transfobia. Em comum, os julgamentos que o júri de Shrek II (2004) conferiu ao corpo de Doris, uma mulher trans, e os estranhamentos provocados pela aparência de Preciado (2019), um homem trans, sublinham os privi- légios das pessoas cisgênero, cujos corpos, aparências e identidades – por coincidirem com a norma - não são colocados em xeque, inspecionados, tocados, apontados, violentados e mortos. Sobre isso, Nascimento (2021, p. 97) explica que “[...] os corpos cis gozam de um privilégio capaz de coloca-los em uma condição natural, com sexo/gênero real, verdadeiro, na medida em que as transgeneridades são caracterizadas como uma produção artificial e falseada”. A autora exemplifica esse privilégio na prática de cirurgias, mencionando que ainda que homens e mulheres cisgênero também modifiquem cirurgicamente seus narizes, abdomens, bundas, pênis, seios e vulvas, apenas os corpos de pessoas transgênero são vistos (e julgados) como produzidos e modificados. Concordamos com a autora, então, quanto a necessidade de tomar a cisgeneridade como um conceito que desvela o caráter construtivo e artificial da norma. Vale ressaltar, também, que as representações midiáticas são loca- lizáveis, não só por quem as cria, mas para quem é pensada enquanto consumo. Ou seja, tendo em vista que a franquia de filmes Shrek é de ordem cisnormativa, sem deixar passar o detalhe de que a personagemDoris é dublada por um homem (JUNIOR; LARA, 2012), resta-nos questionar: de quem e para quem é essa representatividade? O humor está em favor de subverter, ou de reiterar uma narrativa transfóbica? CONSIDERAÇÕES FINAIS Nossa subjetividade - bem como a forma como nos identificamos, como agimos, as escolhas que realizamos, nossos relacionamentos com outras pessoas e com o mundo ao nosso redor - sofre influências dos artefatos da cultura visual que nos atravessam cotidianamente. Estes 162 João Paulo Baliscei (org.) artefatos formam e transformam as infâncias pós-modernas e afetam diretamente a constituição de suas identidades culturais. Em uma sociedade marcada pelo efêmero, estamos constante- mente em busca de representatividade - o que nos leva a embates entre grupos hegemônicos e grupos marginalizados que disputam por poder. O que nos interessa nesta reflexão é o fato de que esses embates são, muitas vezes, travados com subsídios visuais, simbólicos e midiáticos. As imagens e demais sistemas de comunicação visual, portanto, oferecem também referências para constituição e manutenção dos preconceitos, do ódio e das violências praticadas socialmente e para sinalizar – como um alvo – os corpos que “merecem” ser corrigidos e punidos. Através das animações destinadas ao público infantil, por exem- plo, é possível visualizar maneiras pelas quais a cultura formula e regula os indivíduos. Esses artefatos, então, não só entretêm, mas também produzem significados acerca de gêneros, sexualidades e padrões de beleza, e buscam regular e constranger os corpos dos/as espectadores/as, convocando-os/as a assumir determinadas concepções de normalidade. É também um traço comum das produções midiáticas – e em mui- tas outras áreas – uma predominância da narrativa cisgênero e branca, em função da manutenção de uma ordem naturalizada hetero-cis-normativa. Podemos identificar isso no filme na repulsa que outras personagens demonstram por Doris, na abjeção e no não pertencimento, conforme é medida, por faltas ou excessos, ou quando é cobrada uma “transfor- mação total” - o que supõe que aquela forma particular de ser e estar no mundo não é o suficiente, não é legítima enquanto uma identidade feminina. Como demonstramos na análise de duas cenas de Shrek II (2004) os recursos visuais, sonoros e representacionais que atravessam a caracterização de Doris e seus papéis na narrativa investem na construção de uma personagem abjeta e marginal. Neste caso, normaliza e auto- riza o riso, deboche e violência quando destinados a corpos de pessoas transgênero. Os demais filmes da série, reiteram a abordagem marginal e cômica atribuída a Doris. Em Shrek Terceiro (2007), por exemplo, ela é retratada com mais frequência no castelo, na companhia das princesas 163 É de menina ou menino? e nos eventos da realeza, e não mais em um bar. Contudo, fica nítido que, mesmo próxima às princesas, Doris não tem lugar como “igual” entre elas. Em uma celebração de chá de bebê, enquanto as princesas se encontram reunidas em círculo e sentadas sobre um sofá, Doris per- manece em pé e atrás delas. Mais adiante, Branca de Neve exclui Doris da contagem do grupo, afirmando “Somos apenas quatro, quer dizer... três princesas super gostosonas, dois monstrengos de circo, uma ogra grávida e uma velha”. Interessante observar que mesmo os personagens não humanos (como o Burro e o Gato de Botas, a quem a princesa se refere como “monstrengos de circo”) são considerados nessa contagem, o que posiciona Doris em uma categoria inferior aos animais. Por fim, no quarto e último filme da série, Shrek para sempre (2010), Doris faz uma única e breve aparição. Durante a festa de aniversário dos/as filhos/ as do casal protagonista, mesmo Doris sendo amiga de Fiona e tendo a ajudado nos filmes anteriores, a personagem não participa como convidada ou amiga, mas sim fantasiada e trabalhando como garçonete na festa. Há de se suspeitar sobre a responsabilidade que esses e outros artefatos da cultura visual têm em relação às violências cometidas contra pessoas transgênero para além do âmbito ficcional, como documenta a Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil – REDETRANS Brasil62. A instituição registrou o assassinato de 105 pessoas transgênero no ano de 2019 - em sua grande maioria mulheres. Somente no mês de dezembro, foram registradas sete vítimas de mortes violentas. Mais recentemente, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA63 registrou 175 casos de assassinato contra travestis e transgêneros no ano de 2020 no Brasil. Em 2021, só nos quatro primeiros meses, já foram contabilizados 56 assassinatos. Esses dados refletem que apesar de vivermos em um país que se anuncia como “plural” e onde as diferenças são supostamente “valorizadas”, a existência de corpos dissidentes à norma é condicionada pelos preconceitos e violências que constituem a transfobia. 62 Site oficial REDETRANS Brasil: <http://redetransbrasil.org.br/>. Acesso em: 15 de nov. de 2020. 63 Site oficial ANTRA: <http://antrabrasil.org.>. Acesso em: 16 de maio de 2021. http://redetransbrasil.org.br/ http://antrabrasil.org/ 164 João Paulo Baliscei (org.) Em vista disso, como a “representatividade” de Doris atinge as existências trans e travestis fora das telas? Nessa narrativa a figura trans é a marginalizada, bondosa demais para ser vilã e grotesca demais para ser princesa, ocupando um “não lugar” que, em partes, existe para endossar o lugar normativo dos personagens cis centrados e heteronormativos. O “final feliz” da norma é casar, ter uma lua de mel, ser uma princesa, enquanto que para a pessoa trans, estar ali já é o suficiente. Será que essa narrativa, se produzida sob uma ótica trans, teria esse mesmo desenrolar? Será que apenas pessoas trans e travestis conseguem vislumbrar narrativas em que o final feliz não seja um privilégio cis? Enquanto dispositivo pedagógico, essa representação está em função de legitimar e empoderar identidades trans e travestis ou em marcar um lugar de não pertencimento para endossar um estigma social? Faz-se necessário, portanto, reconhecer os limites da suposta representatividade e voltar nosso olhar para as potências da autorrepresentação, reconhe- cendo que uma voz terceira não dá conta de contemplar as sujeitas que não são convidadas a falar. REFERÊNCIAS BALISCEI, João Paulo. Provoque: cultura visual, masculinidades e ensino de artes visuais. Rio de Janeiro: Metanoia, 2020. BEZERRA JUNIOR, Belidson Dias, LARA, Alice Maria Vasconcelos. O Lobo Mau, Pinóquio e as Irmãs Más como imagens transgêneras em Shrek: traços pedagógicos. Visualidades, Goiânia, v.1, n.8, 2012, p.177-189. Disponível em<https://www.revistas. ufg.br/VISUAL/article/view/18225/10889>. Acesso em 31 de jul. 2021. ELOI, Caluã. Não se nasce Malévola, torna-se: a representação da mulher nos contos de fadas. Rio de Janeiro: Metanoia, 2018. JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações sobre identidade de gênero: Conceitos e termos. Guia técnico sobre pessoas transexuais, travestis e demais transgêneros, para formadores de opinião. [Online] Brasília: 2012. Disponível em:<http://www.diversidadesexual.com. br/wp- content/uploads/2013/04/G%C3%8ANERO-CONCEITOS-E-TERMOS. pdf>.Acesso em 29 de mai. 2020. LAMBERTI, Lua. Pe-drag-ogia. Rio de Janeiro: Metanoia, 2021. http://www.revistas.ufg.br/VISUAL/article/view/18225/10889 http://www.revistas.ufg.br/VISUAL/article/view/18225/10889 http://www.revistas.ufg.br/VISUAL/article/view/18225/10889 http://www.diversidadesexual.com.br/wp- http://www.diversidadesexual.com.br/wp- 165 É de menina ou menino? MOMO, Mariângela. Condições culturais contemporâneas na produção de uma infância: o pós-moderno que vai à escola. In: 30ª reunião da Associação Nacional de Pós-Gra- duação e Pesquisa em Educação - ANPED, Caxambu, 2008. Acesso em: 19 de fev. 2019. NASCIMENTO, Letícia. Transfeminismo. São Paulo: Jandaíra, 2021. PRECIADO, Paul B. Um apartamento em Urano: Crônicas da travessia.Rio de Janeiro, Editora Schwarcz S.A., 2019. PRECIADO, Paul B. Pornotopia: PLAYBOY e a invenção da sexualidade multimídia. São Paulo: N-1 edições, 2020. SABAT, Ruth. Filmes infantis e a produção performativa da heterossexualidade. Tese (Doutorado). Pós-graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul Porto Alegre, 2003. 166 João Paulo Baliscei (org.) Figura 1: Meninos podem (e devem) brincar de boneca se eles quiserem Fonte: https://gq.globo.com/Paternidade/noticia/2019/05/meninos-podem-e-devem- -brincar-de-boneca- se-eles-quiserem.html Acesso em: 20 de set. de 2021. “O MEU IRMÃO TINHA UMA BONECA E O MEU IRMÃO MAIS NOVO USAVA ISSO COMO CHANTAGEM”: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE EDUCADORAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA SOBRE GÊNERO64 Fabiane Freire França65 Geiva Carolina Calsa66 INTRODUÇÃO O presente capítulo consiste em investigar as representações sociais de professoras e funcionárias dos anos iniciais de uma escola da rede pública no que diz respeito às questões de gênero. Nessa direção buscamos responder a seguinte questão: quem representa e quem é 64 Parte dessas discussões foram publicadas em França e Calsa (2017) e França (2014). 65 Doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Uni- versidade Estadual de Maringá - UEM. Professora da UNESPAR. Coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação, Diversidade e Cultura - GEPEDIC. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8009677334152001. 66 Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Professora da UEM. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3457378901881611. https://gq.globo.com/Paternidade/noticia/2019/05/meninos-podem-e-devem-brincar-de-boneca-se-eles-quiserem.html https://gq.globo.com/Paternidade/noticia/2019/05/meninos-podem-e-devem-brincar-de-boneca-se-eles-quiserem.html https://gq.globo.com/Paternidade/noticia/2019/05/meninos-podem-e-devem-brincar-de-boneca-se-eles-quiserem.html http://lattes.cnpq.br/8009677334152001 http://lattes.cnpq.br/3457378901881611 167 É de menina ou menino? representado pelas educadoras da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental? Do ponto de vista empírico, as respostas a estas questões e objetivos foram buscadas em grupos de estudos configurados como um círculo dialógico (FREIRE, 1987; JOVCHELOVITCH, 2008; ACCOR- SSI, 2011; FRANÇA, 2014, FRANÇA; CALSA, 2015, FRANÇA; CALSA, 2017), realizados com 18 participantes que trabalham em uma escola pública da cidade de Campo Mourão-PR. Em diálogos, essas profissionais manifestaram suas representações e foram incitadas a refletir sobre maneiras de perceber as relações de gênero e sexualidade. A escola, lócus desta investigação, indicada pelo Núcleo Regional de Educação de Campo Mourão- PR, foi selecionada após seu aceite para o desenvolvimento da pesquisa. Os dados obtidos na pesquisa de campo e as discussões resul- tantes de sua análise foram organizados em eixos dialógicos. Inicial- mente propomos estabelecer uma relação entre gênero e representações sociais no campo da Psicologia Social e realizar uma discussão voltada à educação. No segundo eixo dialógico, apresentamos a metodologia da pesquisa da qual faz parte a descrição das trilhas metodológicas de caráter quantiqualitativo, com o intuito de evidenciar as representações sociais de gênero que circularam no grupo de docentes. Este grupo foi considerado um círculo dialógico por representar discussões, debates, temas, problemáticas acerca do gênero no cotidiano escolar. As representações das participantes durante um dos círculos dialógicos são apresentadas no terceiro eixo de discussões por meio de reflexões, organizadas sob a nossa interpretação, fornecendo-lhes signi- ficados abertos a novas possibilidades de sistematização. Os resultados da pesquisa evidenciam que há uma gama de representações sociais de gênero que circulam na escola investigada. Ao estabelecer as discussões sobre as mesmas em um círculo dialógico foi perceptível a coexistência de saberes sobre gênero em uma mesma situação, em um mesmo sujeito. 168 João Paulo Baliscei (org.) TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E OS ESTUDOS DE GÊNERO Para compreender a relação entre gênero e representações sociais é necessário entender em qual campo, como e o porquê esta teoria foi pensada e elaborada. Em vista disso, trazemos para a discussão algumas das contribuições da Psicologia Social. Nogueira (2001) explana que a Psicologia Social teve influência do Construcionismo Social, da Aná- lise do Discurso, do Estruturalismo e Pós-estruturalismo, bem como outras áreas. Para a autora, estas vertentes contribuem à área de ciências humanas com potencial para sustentar as instituições sociais, o status quo, ou por outro lado problematizá-los, sendo a vertente feminista um dos caminhos de questionamento e levantamento de dúvidas. “É dado grande valor a novas formas de trabalhos que lentamente fazem caminho nas ciências humanas e à frente deste movimento está a produção da teoria feminista” (NOGUEIRA, 2021, p. 125). A Teoria das Representações Sociais teve origem na Europa no campo da Psicologia Social. Jovchelovitch (2008,) define representação como um processo fundamental da vida humana que envolve o desen- volvimento do indivíduo, da sociedade e da cultura. “Representar, isto é, tornar presente o que está de fato ausente por meio do uso de sím- bolos, é fundamental para o desenvolvimento ontogenético da criança” (JOVCHELOVITCH, 2008, p. 32). Representar, para a autora, seria “apresentar de novo” a sua leitura sobre o mundo. O saber, por exemplo, seria como uma representação que expressa o desejo de representar de tal maneira, de determinada perspectiva mediante relações de poder e de interesse envolvidos na comunicação entre o “Eu” e “Outro”. Moscovici (2011) salienta que as representações sociais com- preendem teorias científicas, bem como, valores e crenças religiosas que são representações de alguém ou de alguma coisa. É nesta direção que Jovchelovitch (2008) nos convida a compreender a diversidade do saber nos instigando a pensar como os sujeitos conhecem o mundo (JOVCHE- LOVITCH, 2008, p. 83). Em vista disso, criar padrões comparativos pode contribuir e ao mesmo tempo nos trazer perigos, pois produzem entendimentos, expressões mediante a experiência do outro, mas podem 169 É de menina ou menino? também produzir hierarquias ao definir o que é bom ou ruim, melhor ou pior, superior ou inferior evidenciando sistemas bipolares. É nesta direção que propomos uma pesquisa voltada ao diálogo, sendo que as narrativas podem unir acontecimentos, produzir uma his- tória coerente sobre a identidade social e individual do grupo. Foi este processo dialógico que nos permitiu constituir narrativas de cada uma das participantes, seus mitos, seus contos, suas histórias que correspondem às suas origens, às suas morais, as maneiras como lhes foram ensinadas a serem mulheres, mães, professoras, profissionais. Narrar nossas pró- prias histórias nos faz pensar e problematizar como fomos ensinadas e ensinados a fazer, a pensar, a dizer, a nos comportar. As pessoas ouvem, assistem, falam sobre si e sobre o outro de uma maneira tão naturalizada que reforçam práticas preconceituosas, androcêntricas, sexistas, dentre outras centradas em um discurso nor- matizador ancorado em práticas sociais históricas. Investigar, dialogar e problematizar estas práticas pode nos possibilitar um posicionamento político que não mais tolere e aceite ações como estas. É nesta direção, que repensar as representações de gênero pode ser um caminho para a escola reler e rever suas práticas. TRILHAS INVESTIGATIVAS DA PESQUISA O desenvolvimento empírico da presente pesquisa se iniciou com a obtenção da autorização da escola selecionada para a participação de seus/suas professores/as e funcionários/as nas atividades pedagógicas. O consentimento da equipe pedagógica, da direção e dos/as profissionais da escola foi obtido após a exposição do projeto de pesquisa. Comos aceites em mãos e a assinatura dos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido, a pesquisa cumpriu as normas do Conselho Nacional de Saúde e do Comitê de Ética/UEM. Os dados foram coletados durante os meses de agosto, setembro, outubro e novembro de 2011 por meio de oito encontros coletivos, às terças-feiras, das 17h h às 18h30, corres- pondentes às discussões sobre as temáticas de gênero e sexualidade. O 170 João Paulo Baliscei (org.) trabalho contou com a participação de 18 profissionais, mulheres67 - 11 professoras, 2 orientadoras, 2 auxiliares de serviços gerais, 1 diretora, 1 auxiliar de cozinha e 1 servente geral, funcionárias de uma Escola Municipal da cidade de Campo Mourão-PR. Jovchelovitch (2008) cita o educador Paulo Freire e sua metodo- logia de alfabetização de adultos/as como um exemplo metodológico de encontros dialógicos entre diversos conhecimentos. A autora comple- menta que Freire postulou uma teoria da comunicação entre sujeitos com diferentes saberes, a partir da qual o autor considera que a construção dos diálogos entre os/as interlocutores/as deve ser reconhecida sem haver uma hierarquização de um determinado saber sobre o outro. Sugeriu a comunicação mediante círculos de culturas. Com base na premissa freiriana, Accorssi (2011) e Romão, Cabral, Carrão e Coelho (2006) salientam que o círculo epistemológico se cons- titui um recurso no qual pesquisados/as se tornam pesquisandos/as, enquanto o/a pesquisador/a é desafiado/a a questionar suas próprias representações. As discussões do círculo epistemológico produzido por Accorssi (2011, p. 90) e a sugestão de Jovchelovitch (2008) em pensar a pesquisa como um ato dialógico, ambas ancoradas em Paulo Freire, permitiram-nos a organização de um novo recurso metodológico: o círculo dialógico. A proposta adaptada do círculo de cultura de Paulo Freire (1987) foi utilizada nesta pesquisa como um recurso pedagógico capaz de favorecer e acompanhar o movimento de conflitos e negociações das reflexões e falas dos sujeitos acerca dos temas gênero e sexualidade no transcorrer dos encontros de observação e diálogo em grupo, por isso o nominamos de círculo dialógico. Estes pontos de encontro nos permitiram construir um diálogo entre o “eu” pesquisadora e as “outras” participantes ou as “eus” partici- pantes e a “outra” pesquisadora, ao evidenciar os nossos pontos de vistas de gênero e sexualidade. Este processo não foi harmonioso, tampouco consensual, esteve carregado de conflitos e contradições. Neste sentido, 67 Embora tivessem dois homens – um professor da quarta série e um técnico responsável pelo laboratório de informática-, apenas as professoras aceitaram aderir à pesquisa. 171 É de menina ou menino? apresentamos, na sequência, as representações das participantes durante um dos círculos dialógicos com base na Teoria das Representações Sociais e dos Estudos de Gênero. Devido a quantidade de material coletado em cada círculo dialógico, optamos por apresentar a análise de um dos encontros. QUEM REPRESENTA E QUEM É REPRESENTADO NOS JOGOS DAS IDENTIDADES DE GÊNERO? Neste encontro nos propusemos a repensar o “quem” das represen- tações sociais sobre gênero apresentado pelas participantes da pesquisa. A organização deste círculo dialógico nos expôs que a maior parte das docentes e funcionárias compreende que quem representa majoritaria- mente a sociedade é o projeto normatizador de homem, branco, masculino, cristão e heterossexual, enquanto quem é representado por este projeto padrão é o “outro” que de alguma maneira não se enquadra no padrão. Apesar de haver uma norma, as falas das participantes evidenciaram momentos em que elas próprias tentaram se convencer deste projeto naturalizado de quem deve ser o sujeito social padrão com o jeito “certo” de ser no mundo. Tais movimentos ambivalentes nos apontam para um processo de polifasia cognitiva, em que os sujeitos produzem diferentes lógicas para explicar suas representações de mundo. A representação social de gênero predominante neste encontro do círculo dialógico é ancorada e objetivada em um parâmetro – sexo, gênero e sexualidade – homem macho deve ser masculino e heteros- sexual, mulher fêmea, feminina e heterossexual – como identidades naturalizadas. Para problematizar essas representações sociais do grupo buscamos favorecer a construção de novas ancoragens e objetivações, bem como o reconhecimento da polifasia cognitiva de cada participante e do grupo em seu conjunto. A primeira manifestação do grupo sobre o tema proposto ocorreu após comentarmos sobre a vida cotidiana das mulheres em comparação com a dos homens. Mencionamos que, embora nós, mulheres, tenha- mos conquistado alguns espaços sociais, parece natural que o espaço 172 João Paulo Baliscei (org.) predominante das mulheres seja o campo privado, o cuidado dos lares e de suas crianças. Destacamos como somos desvalorizadas profissional- mente, por sermos mulheres, a dupla jornada que temos, como cuidar da vida profissional e pública e ser também responsável, unicamente, pela vida privada e pelo cuidado com a família (FRANÇA, 2014; FRANÇA, 2016). A professora P368, então, falou ao grupo: “Na verdade é uma jornada tripla, a mulher que tem que trabalhar, cuidar da casa e dos filhos”. É curioso que, após termos abordado aspectos sobre gênero e identidade, somente quando nos referimos ao cotidiano das mulheres uma das participantes se manifestou verbalmente. Mediante sua fala, o grupo pareceu explicitar quem são elas: mulheres, professoras, funcioná- rias, trabalham fora e cuidam da casa e dos/as filhos/as. Cogitamos que, neste momento, a participante tenha se identificado com a representação social sobre mulher, sobre quem é, ou sente ser. Aproveitamos sua fala para perguntar ao grupo: como vocês mulhe- res vão se dedicar aos seus trabalhos da mesma maneira que o homem tendo uma jornada tripla? Ao que a mesma professora, P3, respondeu: “é aquela ideia sexista também, o homem ganha mais, portando se ele ganha mais ele é o provedor da casa, tem mais direito na casa, direito de não fazer nada” (risos do grupo). Sua fala expressa a objetivação das representações sociais de gênero como uma norma social binária, de um lado as tarefas do homem e do lado oposto as tarefas da mulher, acrescentadas do trabalho remunerado. Essa posição corresponde ao explicitado por Lessa (2005, p. 52): “As mulheres, além do trabalho remunerado, exercem todo ou quase todo trabalho doméstico e formam maioria no trabalho voluntário em escolas, hospitais e outros locais na comunidade. Elas teriam, então, uma tripla jornada de trabalho?”. No entanto, no decorrer dessas discussões sobre o binarismo, P3 pergunta: “E quem reproduz isso são as mulheres também, né? Começa com a mãe, depois com as professoras” Ao que a pesquisadora, FF, acrescenta: “Mas, 68 Identificação das participantes – P (professoras); F: Funcionárias; FF: Pesquisadora (Fabiane França). A numeração é aleatória para diferenciação das participantes. 173 É de menina ou menino? será que nós nos damos conta que fazemos isso? Que reproduzimos essa divisão entre homens e mulheres?”. Essa discussão nos lembra a obra de Alícia Fernández (1994), A mulher escondida na professora, na qual assi- nala que, embora as mulheres se sintam insatisfeitas e sobrecarregadas com a quantidade de afazeres que assumem, são também responsáveis por consolidar as desigualdades nas relações de gênero ao assumirem o papel de quem deve cuidar da casa e da família, tanto como mãe quanto como professora. A fala e o silêncio das participantes condizem com o comentário da autora ao indicar que a mulher em seu papel de mãe e professora contribui para manter este “quem” é a mulher nas interações com seus filhos e filhas, com seus alunos e alunas. Essa influência foi evidenciada pelo grupo ao relatar duas dife- rentes representações sociais sobre o brincar de boneca apresentadas pelas participantes, P13 e P3, em quedenunciam o modo como o olhar do/a adulto/a direciona as escolhas das crianças. Na primeira situação, um menino que gosta de brincar de boneca e tem de esconder isso por ser chantageado (P13), enquanto na segunda, a ausência da boneca da menina é substituída por um carrinho (P3). P13: o meu irmão tinha uma boneca e o meu irmão mais novo usava isso como chantagem e ele guardava embaixo da cama. Quando fazia alguma coisa, o outro dizia eu vou contar que você brinca de boneca (risos do grupo, grifo nosso). P3: tem uma psicóloga que escreveu um livro dizendo que queria mudar isso quando tivesse filhos. Quando ela teve uma filha não deu pra ela uma boneca, dava só brinquedos masculinos, mas ela tam- bém fez uma inversão né [...] é uma coisa tão natural da mulher, que a menina, uma vez ela se pegou com a filha fazendo o carrinho dormir, dando mamadeira e colocando no berço, ou seja, o carrinho era a boneca dela, então daí ela percebeu que era uma coisa natural que não pode forçar uma situação (grifo nosso). As representações sociais assinaladas pelas duas professoras refor- çam a tradição de quem é a mulher, sobretudo quando P3 salienta o brincar de “mamãe” como algo natural da mulher. Tais afirmações denotam as ancoragens das professoras em uma mulher universal, a 174 João Paulo Baliscei (org.) mulher que foi objetivada pelo discurso religioso e médico, hegemônico. Este entendimento reforça a mulher como um ser de essência materna, designado ao campo privado. Intrigante a afirmação de P3 de que não se pode forçar uma situação, no caso a menina que brinca de carrinho e imagina uma boneca, pois, ao mesmo tempo, manifesta como natural que meninas brinquem com bonecas. Não seria esta naturalização um tipo de imposição? Mulheres só podem brincar de bonecas, porque é o “natural” e é assim que são representadas. Estamos aqui novamente diante da polifasia cognitiva, em que a professora problematiza uma situação – menina brincar de carrinho – como uma imposição da mãe e ao mesmo tempo legitima a representação social de que meninas devem brincar de bonecas porque é o natural. Esta naturalização do brincar de boneca e ser “mamãe” por parte da mulher expressa no círculo dialógico apareceu também em uma das situações observadas na escola. Durante uma aula do quarto ano, uma das tarefas solicitada aos/às alunos/as foi que respondessem se tinham bonecas. Em um primeiro momento, os meninos disseram que “não”, porém, alguns, após certa hesitação, responderam que “sim” quando, então, a professora P8 disse o seguinte: “Se a estagiária (refere-se a auxi- liar de pesquisa) não estivesse aqui eu diria que os meninos não podem ter bonecas, mas como ela está aqui eu vou dizer que podem! (risos)” (Anotações do diário de campo durante as observações). A manifestação da professora em sala de aula nos remeteu a Foucault (1988), quando alerta sobre a maneira sutil como as práticas cotidianas nos disciplinam conforme as normas vigentes. Somos insen- síveis à legitimação de discriminações e preconceitos que nós mesmos exercemos. Na mesma direção, Jovchelovitch (2008, p. 176) afirma que “o que importa nestes casos é garantir a continuação de tradições e saberes sobre ‘quem somos nós’ e a lógica dos saberes é governada pela força do subjetivo”. Ou seja, as representações das participantes sugerem que eles são homens que não podem brincar com bonecas e nós somos mulheres que temos essa autorização. A objetivação dessa representação social por parte da professora sobre gênero, manifestada em sua fala e seu riso, evidencia a lógica da tradição sobre gênero. 175 É de menina ou menino? Constatamos que o “quem” das representações sociais das parti- cipantes está ancorado no ser mulher como mãe, como aquele indivíduo cuja função é aprender a cuidar quando menina e cuidar do outro, quando adulta. Tal representação social orienta as vivências e experiências do cotidiano de meninos e meninas na escola. A boneca é compreendida como parte exclusiva do universo feminino, e meninos são repreendi- dos por gostarem deste tipo de brinquedo e o que decorre dele como o cuidado com o outro. Com o objetivo de desestabilizar certezas do grupo e fortalecer a polifasia cognitiva das participantes, procuramos trazer posicionamentos destoantes dos seus, verbalizados e observados69. Argumentamos que vivências não convencionais de brincadeiras por parte de meninos e meninas não implicariam a inversão de papéis (as meninas passarem a brincar de carrinho e os meninos de boneca), mas experimentação de outras possibilidades de ser. Oportunizar este tipo de vivência signifi- caria apresentar outras alternativas de ser ao que a escola costuma fazer como as filas de meninos e meninas, a atribuição de cores azul e rosa aos gêneros, competições sexistas, entre outras atividades que influenciam a formação da identidade de alunos e alunas. Advertimos ao grupo que pretendemos evidenciar esta dinâmica, que não há uma organização rígida e única do que acreditamos ser homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, há uma flexibi- lidade na formação de nossas identidades. O fato de um homem ser “mais feminino” não significa que ele gosta de homens. Em respostas, P10 comenta, “Mas, é muito estranho!” (todas riem). FF responde “É estranho porque não estamos acostumadas, é que nós já fomos forma- das para acharmos estranho”. Encontramos em Moscovici e Marková (2011) uma explicação para as falas das participantes quando salienta que a comunicação produz representações sociais e serve também para tornar familiar o não familiar – o estranho; o exótico. 69 Tais posicionamentos foram recolhidos de materiais didáticos (BRASIL, 2007; PARANÁ, 2011), da literatura especializada (LOURO, 1997; 2013; WEEKS, 2007), dentre outros destacados no decorrer da pesquisa. 176 João Paulo Baliscei (org.) CONSIDERAÇÕES FINAIS A estratégia de fazer com que os sujeitos se questionassem todo o tempo e saíssem de cada encontro com mais dúvidas do que chegas- sem foi um recurso que nos pareceu interessante para a pesquisa. Este processo de discussão não buscou uma receita e/ou respostas prontas sobre como trabalhar o gênero e a sexualidade em sala de aula, pelo contrário, no círculo dialógico foram levantadas possibilidades para que as participantes refletissem e permitissem a si e aos seus alunos e alunas fazerem o mesmo processo, repensarem suas atitudes e seus valores. Verificamos que muitas das representações das professoras e das funcionárias da escola condizem com um discurso hegemônico sobre o que esperam das discussões de gênero e sexualidade nas instâncias sociais. Ao realizarmos o círculo dialógico, tivemos como intuito abrir possibilidades, evidenciar outras abordagens destes conceitos em suas práticas e vivências. Após a conclusão da pesquisa, em 2014, seguimos com a utilização dos círculos dialógicos com destaque a potencialidade do pensamento de Paulo Freire para a efetivação de propostas voltadas à educação em direitos humanos. Temos realizado pesquisas em rede para a efetivação do processo de dialogicidade. Um dos exemplos são os trabalhos que temos desenvolvido por meio de WebQuest (FRANÇA; SASSO, CORDEIRO, 2021; ROSSI; FRANÇA, 2020). Essa experiência tem nos propiciado, além de elaboração de uma website didática, troca de saberes e de sensibilização com as narrativas do outro, das diferenças e da diversidade, da interseccionalidade de gênero, raça, classe, dentre outros marcadores sociais. Além disso o Grupo de Pesquisa em Educação, Diversidade e Cultura (GEPEDIC/CNPq) tem sido um canal para expandir essas discussões a outros espaços. Esse movimento possibilitou compreender como as mídias têm ocupado as nossas vidas, uma vez que o papel de ensinar deixa de ser atribuído apenas às escolas, afinal, os meios de comunicação também exercem o estatuto pedagógico. 177 É de menina ou menino? Ao considerar o contexto pandêmico precisamos exercer ainda mais as práticasdialógicas propostas por Freire para derrubar as notícias falsas e problematizar o senso comum que desconhece a real função da educação em direitos humanos e relações de gênero. Tendo em vista a atual conjuntura política, reforçamos que pesquisas como essas com- provam a necessidade da utilização de materiais educativos acerca do gênero e da diversidade sexual na escola. Os resultados evidenciam que mesmo os/as professores/as que querem trabalhar esses temas em sala de aula sentem-se desamparados/as pela falta de formação e diálogo. REFERÊNCIAS ACCORSSI, Aline. Materializações do pensamento social sobre a pobreza. 184 p. Tese (Doutorado em Psicologia Social) – Faculdade de Psicologia, Pós-Graduação Psicologia Social. PUCRS. Porto Alegre, 2011. DUVEEN, Gerard. O poder das ideias. In: MOSCOVICI, Serge. Representações Sociais: investigações em psicologia social. Rio de Janeiro: Vozes, 2011, p. 7- 29. FOUCAULT, Michel. A história da sexualidade: a vontade de saber. V. 1. 18. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988. FRANÇA, Fabiane Freire. Os estudos de gênero na Educação Básica: intervenção pedagógica na formação docente. 1. ed. Curitiba: Editora CRV, 2016. _______. Representações Sociais de gênero na escola: diálogo com educadoras. 2014. 186 f. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, 2014. FRANÇA, Fabiane Freire. CALSA, Geiva Carolina. A escola como um ambiente que (re)produz representações de gênero: como repensá-las? Revista Educação Cultura e Sociedade. Sinop/MT/Brasil, v. 7, n. 1, p. 14-31, 2017. Disponível em: http://sinop.unemat. br/projetos/revista/index.php/educacao/article/view/2583. Acesso em: 31 de ago. 2021. _______. A contribuição da dialogicidade de Paulo Freire aos Estudos de Gênero e à Teoria das Representações Sociais: um relato de experiência. In: MILITÃO, S. C. N.; DI GIORGI, C. A. C.; MILITÃO, A. N. FRANCISCO, M. V.; LIMA, M. R. C.. (Orgs.). A atualidade de Paulo Freire frente aos desafios do século XXI. Curitiba: CRV, 2015. p. 153-163. FRANÇA, Fabiane Freire; GERALDI SASSO, Andrea; FERNANDA CORDEIRO, Aline. EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS: um relato de experiência do estágio de docência com o uso de WebQuest. Communitas, v. 5, n. 9, p. 312–333, 2021. http://sinop.unemat.br/projetos/revista/index.php/educacao/article/view/2583 http://sinop.unemat.br/projetos/revista/index.php/educacao/article/view/2583 178 João Paulo Baliscei (org.) Disponível em: https://periodicos.ufac.br/index.php/COMMUNITAS/article/view/4645. Acesso em: 6 set. 2021. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido.13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. JOVCHELOVITCH, Sandra. Os contextos do saber: representações, comunidade e cultura. Petrópolis: Vozes, 2008. (Coleção Psicologia Social). LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade. In: LOURO, G. L. (Org.). O corpo educado. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. p. 7-34. MOSCOVICI, Serge. Representações Sociais: investigações em psicologia social. Rio de Janeiro: Vozes, 2011. _______. La psychanalyse: son image et son public, Paris: PUF. 1961. NOGUEIRA, Conceição. Um novo olhar sobre as relações sociais de género: femi- nismo e perspectiva crítica na psicologia social. Lisboa: Fundação Gulbenkian, 2001. OLIVEIRA, João, AMÂNCIO, Lígia. Teorias feministas e representações sociais: desafios dos conhecimentos situados para psicologia social. Revista Estudos Feministas, nº 14, vol. 3, Florianópolis, Set./Dez., 2006. (Disponível em http://www.scielo.br) ROMÃO, José Eustáquio; CABRAL, Ivone. E; CARRÃO, Eduardo Vítor de M. COE- LHO, Edgar P. Círculo epistemológico círculo de cultura como metodologia de pesquisa. Revista Educação & Sociedade. N° 13. Universidade Metodista de São Paulo. 2006. ROSSI, J. P. G.; FRANÇA, F. F(b). A metodologia WEBQUEST no contexto das questões de gênero: experiências de educadoras em debate. Interfaces da Educ., Para- naíba, v.11, n.32, p. 213- 243, 2020. Disponível em: https://periodicosonline.uems.br/ index.php/interfaces/article/view/4492. Acesso em: 06 de set. 2020. WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO. G. L. (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. p. 7-34. https://periodicosonline.uems.br/index.php/interfaces/article/view/4492 https://periodicosonline.uems.br/index.php/interfaces/article/view/4492 179 É de menina ou menino? TECNOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS DE CONTROLE DE GÊNEROS E SEXUALIDADES “ “Olha o que a cor me faz”: discussões acerca de raça, gênero, sexualidade e cor no videoclipe Nosso gênero vem de Deus; Desenhos animados como tecnologias de gênero: (des)construindo masculinidades; “Será que Ele é”? A construção do preconceito transfóbico no vilão Ele do desenho As Meninas Superpoderosas; Ilustração e Literatura Infantil: uma perspectiva a partir da Cultura Visual na coletânea Corpim, de Ziraldo; “Os outros que tinham problemas comigo”: história pública e a homofobia na História em Quadrinhos dos Jovens Vingadores. 180 João Paulo Baliscei (org.) Figura 1: Frame do videoclipe de Nosso gênero vem de Deus (2019). Fonte: <https://youtu.be/vXo7cyfRLAc>. Acesso em: 03 de set. 2021. “MENINA FEMININA E MENINO MASCULINO”: DISCUSSÕES ACERCA DE RAÇA, GÊNERO, SEXUALIDADE E COR NO VIDEOCLIPE NOSSO GÊNERO VEM DE DEUS (2019)70 Andrey Gabriel Souza da Cruz71 Gabriela Narumi Inoue72 DIÁLOGOS ANTECEDENTES Durante a realização do evento de extensão intitulado II Ciclo de Debates do ARTEI: O que as visualidades (não) dizem sobre mim, organi- zado pelo Grupo de Pesquisa em Arte, Educação e Imagens - ARTEI, 70 Esse texto reúne dados elaborados em duas pesquisas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC. São elas: Ser homem negro - Representações e performances de masculinidade e negritude na série Sex Education (2019) e Para além do azul e do rosa: o uso pedagógico das cores na Educação Infantil, ambas orientadas pelo prof. Dr. João Paulo Baliscei. 71 Licenciado em História - Universidade Estadual de Maringá - UEM. Bolsista do CNPq, processo nº 1899/2020. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2646641732876596. 72 Graduanda de Artes Visuais - Licenciatura pela Universidade Estadual de Maringá - UEM. Bolsista da Fundação Araucária, processo nº 1713/ 2020. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3576708408741455. http://lattes.cnpq.br/2646641732876596 https://wwws.cnpq.br/cvlattesweb/PKG_MENU.menu?f_cod=8FA0CFD15CF20C492BF28EDB723859D7 181 É de menina ou menino? no ano de 2021, experienciamos a mediação de dois encontros, os quais nomeamos como: Olha o que a cor me faz: (re) produção de significados em torno de cor, raça, gênero e sexualidade (2021). Nesses encontros, temati- zamos as representações dos marcadores raciais, de gênero e sexualidade nas e por meio das cores, em diálogo com a leitura do capítulo Mulher negra: o outro do outro, de Djamila Ribeiro (2017). As reuniões ocorreram quinzenalmente por meio da plataforma Google Meet, assim como toda a programação do evento, devido à pan- demia da Covid-1973 vivenciada no contexto em que fora executado. Apesar desse cenário, os encontros virtuais oportunizaram que pessoas de diferentes instituições e regionalidades do Brasil participassem das discussões, totalizando, 141 inscrições. As discussões foram introduzidas por um momento expositivo no qual apresentamos o tema, o texto base e outras referências teóricas, seguidas pelos conceitos de raça, gênero, sexualidade e cor, respectivamente. Por conseguinte, dialogamos sobre esses marcadores, dispondo de algumas imagens e produções artísticas que reafirmam ou refutam determinados estereótipos. Diante disso, neste capítulo, tomamos da experiência de mediação dos dois encontros junto ao Grupo ARTEI para discutir sobre os ende- reçamentos imagéticos às infâncias. Tal investigação foi perpassada pela seguinte problemática: Como as (re)produções de significados em torno de cor, raça, gênero e sexualidade estão atreladas às imagens direcionadas às infâncias?Nesse sentido, procuramos problematizar as construções de identidades culturais associadas às (re)produções de significados que envolvem cor, raça, gênero e sexualidade. Para isso, inicialmente apre- sentamos os conceitos supracitados, bem como de interseccionalidade, tendo como base os/as autores/as Berenice Bento (2011), Guacira Lopes Louro (2007), Silvio Almeida (2019), Jaqueline Gomes de Jesus (2012) e Djamila Ribeiro (2017). Posteriormente, entrelaçamos as (re)produções 73 A Pandemia da COVID-19 foi originada pela transmissão de um novo vírus (SAR- S-CoV-2) da família do coronavírus, tendo seu primeiro registro em seres humanos na cidade de Wuhan, na China, ano de 2019. Os procedimentos de prevenção da doença são: manter o distanciamento social, manter ambientes arejados, higienizar as mãos frequentemente e usar máscaras, entre outros cuidados. 182 João Paulo Baliscei (org.) de significados em torno de raça, gênero, sexualidade e cor às infâncias, a partir da análise do videoclipe Nosso gênero vem de Deus (2019), do qual, inclusive, trata a Figura 01, trazida para a abertura deste capítulo. Por fim, trazemos como considerações finais, as problematizações acerca dos direcionamentos de imagens que determinam e validam existências e modos de atuar o gênero e a sexualidade em detrimento de outras, limitando, assim, as vivências e potencialidades das crianças. RAÇA, GÊNERO, SEXUALIDADE E COR Em Mulher Negra: o outro do outro, inserido no livro O que é lugar de fala, Ribeiro (2017) discorre sobre a mulher negra enquanto o "outro do outro", aquelas que ocupam um espaço vazio, às margens da raça e do gênero devido à sua dupla carência: não ser nem branca e nem homem. Ao questionar a invisibilidade das mulheres negras em determinados espaços da sociedade e refutar a universalidade das categorias identitá- rias, o texto propõe um deslocamento do pensamento hegemônico e a ressignificação das identidades, a fim de construir novos lugares de fala e possibilidade de existência. Nesse sentido, nos debruçamos inicialmente sobre a compreensão quanto à racialidade, enfatizando como tratar de raça está para além de uma mera contemplação de traços e fenótipos que compõem as estéticas e corpos. Mais que isso, atrela-se a evidenciar como tal marcador social fixa narrativas históricas e culturais nos indivíduos. Almeida (2019, p. 31) entende que "[...] raça é um elemento essencialmente político, sem qualquer sentido fora do âmbito socioantropológico", para que assim possamos entender como não há justificativas biológicas ou culturais para tratamentos desiguais entre os indivíduos. Contudo, a desigualdade e hierarquização dos corpos operam e geram indagações quanto aos "porquês" e “como” se mantêm. Compreender raça é também entender que inúmeros termos e adjetivos que utilizamos de modo geral na nossa linguagem perpassam por significações distintas, conforme o campo de estudo. Enquanto conceito inserido no campo da biologia, raça portaria outros signifi- 183 É de menina ou menino? cados, além de dar margem para um “racismo científico” que imperou por séculos e que até mesmo nos dias de hoje flerta com pensamentos discriminatórios. É justamente no campo da biologia que muitos/as se ancoram para se opor às ideias de raça no quesito sociológico e, usando de uma visão biologizante, expressam como “somos todos/as iguais”, por pertencermos à mesma “raça”, a humana. Todavia, no teor socioantro- pológico, raça não é uma só, e se constitui imersa em peculiaridades e marcadores específicos, atrelando-se diretamente à hierarquização dos corpos, isso variando segundo cultura e geografia. Na sequência, abordamos gênero enquanto uma construção social, histórica e cultural, em contraposição às proposições biológicas e essen- cialistas, conforme afirma Jesus (2012, p. 08): “[...] a grande diferença que percebemos entre homens e mulheres é construída socialmente, desde o nascimento, quando meninos e meninas são ensinados a agir de acordo como são identificadas, a ter um papel de gênero ‘adequado'”. Nesse momento, também recorremos a Bento (2011) para complementar que, com o advento da ultrassonografia, as construções sobre gênero se iniciam antes mesmo do nascimento, como podemos observar na tradição do “Chá de bebê”. Além disso, aproximamo-nos ao texto de Ribeiro (2017, p. 21), quem argumenta que “[...] a mulher não é definida em si mesma, mas em relação ao homem e através do olhar do homem. Olhar este que a confina num papel de submissão que comporta significações hierarquizadas”, enfatizando, assim, a lógica comparativa e dessemelhante na constituição dos seres. Deste modo, o gênero opera como meio de garantir adequações no corpo social, ressaltando a variabilidade quanto à cultura e geografia, visto que o perfil masculino e feminino valorizado por determinados setores e grupos da sociedade brasileira não necessariamente é idêntico às prerrogativas de outras sociedades, ainda que portem similaridades quanto aos postos de hegemonia e normalidade. Assim, gênero a partir da perspectiva construtivista, é utilizado, semelhantemente à raça, para alocar indivíduos em posições, postos condicionados a ações, pensamentos e formas de ser. 184 João Paulo Baliscei (org.) Similarmente, o conceito de sexualidade tem sido compreendido como um constructo histórico e cultural, oposto às perspectivas essencia- listas e deterministas, que são pautadas em um híbrido de justificativas biológicas e religioso-dogmáticas sobre a sexualidade humana. Produzido na cultura cambiante e carregado da possibilidade de instabilidade, mul- tiplicidade e provisoriedade, o conceito de sexualidade, para os Estudos de Gêneros, envolve não só o corpo, como “[...] fantasias, valores, lin- guagens, rituais, comportamentos, representações mobilizados ou postos em ação para expressar desejos e prazeres” (LOURO, 2007, p. 210). Relacionamos o conceito de sexualidade ao termo “heteroter- rorismo” cunhado por Bento (2011), segundo a qual as infâncias são atravessadas por afirmações e proibições que visam assegurar a hete- rossexualidade por meio da disciplinarização dos gêneros hegemônicos. Conforme a autora: “A cada reiteração do/a pai/mãe ou professor/a, a cada ‘menino não chora!’, ‘comporta-se como menina!’, ‘isso é coisa de bicha!’, a subjetividade daquele que é o objeto dessas reiterações é minada. (BENTO, 2011, p. 552) Com isso, observamos as violências decorrentes da normatização do gênero e da sexualidade, bem como instigamos à reflexão e ao reconhecimento das marcas do heteroterrorismo em práticas cotidianas, endereçadas às crianças por meio dos enunciados e outros artefatos culturais que permeiam diversas instâncias das infâncias. Ao abordarmos as questões cromáticas, por exemplo, consideramos que, para além de um componente visual e expressivo, as cores também guardam relações de significados atreladas às construções sociais de um deter- minado contexto cultural e histórico, sendo utilizadas, inclusive, para propagar conteúdos que produzem valores e saberes; regulam condutas e modos de ser; formam identidades e representações. Nesse sentido, as significações cromáticas perpassam as questões identitárias, como as étnico-raciais, as de gênero e sexualidade, já mencionadas. Entrelaçamos todos os marcadores apresentados a partir do con- ceito de interseccionalidade, criado pela feminista Kimberlé Crenshaw (1959--), que amplia a compreensão de como as formas de opressões caminham de mãos dadas, intensificando ou amenizando as violências conferidas contra as identidades socialmente inferiorizadas. Segundo 185 É de menina ou menino? Crenshaw (2002, p. 177), “A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação", evidenciando como indivíduos/identidades que comportam mais de um marcador social tido como abjeto têm que lidar constantementecom diversos atravessamentos opressivos. REDUZINDO AS INFÂNCIAS EM “MENINA FEMININA” E “MENINO MASCULINO” A trajetória teórica que até aqui nos ancorou servirá para embasar e ampliar nossa criticidade quanto ao artefato cultural que nos instiga inquietação devido aos endereçamentos ao público infantil e às mensa- gens que comporta e propaga. O objeto de análise selecionado se trata do clipe musical Nosso gênero vem de Deus (2019), interpretado pelo Trio R3 - composto por duas meninas e um menino. Para melhor analisar- mos e discorrermos sobre as imagens advindas do objeto, optamos por utilizar como metodologia o conjunto de procedimentos que orienta investigações visuais críticas e inventivas, denominado PROVOQUE, de João Paulo Baliscei (2020a). Para isso, seguindo a trajetória do PROVOQUE (BALISCEI, 2020a), somos incitado/a ao flerte com o objeto de análise, sendo esse o momento que evidencia nossos interesses e aproximações com o video- clipe. Ainda que sejamos interpelado/a por motivações diferentes e atravessamentos sociais diversos, bem como inquietações e incômodos subjetivos (que tocam um homem negro e uma mulher nipo- brasileira, respectivamente), justificamos a escolha desta produção audiovisual pelas possíveis limitações de expressões de gênero, assim como de raça e sexualidade implícitas nos discursos e nas visualidades, principalmente por meio das cores. Percebemos, já nas cenas iniciais de Nosso gênero vem de Deus (2019), a divisão dos grupos de meninas e de meninos, demarcados visualmente. No videoclipe, todos os meninos utilizam alguma peça de roupa com a cor azul, ao passo que as meninas usam vestidos, laços e a 186 João Paulo Baliscei (org.) cor rosa. Além disso, os dois grupos se diferenciam pelos brinquedos que carregam em cenas do videoclipe: os meninos manuseiam carrinhos e as meninas seguram bonecas. Para reforçar tais diferenciações, a canção irrompe com a exclamação das crianças intérpretes “Sou menino! Sou menina!” e tem seu refrão marcado pelos versos: “Sou menina, menina feminina/ Sou menino, menino masculino/ Não somos acidentes/ Nem erros divergentes/ Fomos feitos pelo criador”. Durante todo o percurso do vídeo, o cenário permanece segregado entre meninos e meninas, sem que eles e elas se misturem. Diante dessas observações, direcionamos o olhar de estranhamento para questões como: de que modo os conceitos de raça, gênero, sexuali- dade e cor atravessam as visualidades e os discursos de Nosso gênero vem de Deus (2019)? Qual a concepção de masculinidade e feminilidade (re) produzidas nesse videoclipe? A quem se referem os termos “acidentes” e “erros divergentes” apresentados na canção? Por que as crianças intér- pretes negam ser essas identidades? Para investigar essas problematizações, confrontamos as narrativas visuais e discursivas do videoclipe com os conceitos de raça, gênero, sexualidade, cor e interseccionalidade, abordados anteriormente. Assim, ainda que durante a análise reforcemos um conceito ou outro, salientamos que todos os marcadores operam de modos interligados e confluem na legitimação de determinados estereótipos. Ao analisar a canção, nos chama a atenção a performatividade incitada e esperada desse “menino masculino” e dessa “menina feminina” - afirmativas enfatizadas na letra da música. Pois, advindas do senso comum, observa-se como ambas as atuações de gênero supracitadas, além de serem tratadas exclusivamente como dicotômicas, são expostas e apresentadas como as únicas possíveis. Vemos que na música há uma ênfase nos gêneros de modo binário, fixo, inato e resultante da decisão (inquestionável) de um “ser superior” que determinaria a aparência bio- lógica dos sujeitos. Mencionando as expressões de gênero no singular (masculino e feminino), a letra se vincula à crença e à visão ideológica que molda e oportuniza apenas um único jeito de ser homem e mulher, 187 É de menina ou menino? restringindo e excluindo corpos e performances diversas, daqueles/as que escapam da norma. Verificamos também, que as diferenciações entre “menino mas- culino” e “menina feminina” no videoclipe são (re)produzidas por meio das cores, mais especificamente a cor azul e rosa, presentes nas vesti- mentas e nos brinquedos que são manuseados pelas crianças nas cenas. Como podemos observar no frame da Figura 1, as meninas apresentam em comum as cores rosa em suas vestimentas, adereços e nas bonecas com que brincam, ao passo que os meninos utilizam a coloração azul e brinquedos como carrinhos. Essas visualidades se aproximam aos estudos de Chimamanda Ngozi Adichie (2017, p. 14), quem observa diante das seções de brinquedos e roupas infantis, as separações entre meninos e meninas por meio das cores e das características atribuídas ao gênero: “Os brinquedos para meninos geralmente são “ativos”, pedindo algum tipo de “ação” — trens, carrinhos — , e os brinquedos para meninas geralmente são ‘passivos’, sendo a imensa maioria bonecas”. Semelhan- temente, Bento (2011) problematiza que os brinquedos como bonecas, fogãozinhos e panelinhas, preparam a criança para atuar o gênero feminino conforme as características de passividade, cuidado e bondade, estritamente vinculadas à maternidade e à vida privada. Já os revólve- res, carros, bolas e outros brinquedos que aguçam a competitividade, conduzem a construção do masculino e sua atuação no mundo público. Além disso, sobretudo no tocante às cores, Baliscei (2020b) destaca que os elementos cromáticos são utilizados como pedagogias que ensinam a performar o gênero e disciplinam os corpos infantis. O autor também demonstra que a associação do masculino ao azul e do feminino ao rosa são construções recentes historicamente, derivados de transformações culturais, econômicas, religiosas e de gênero dos séculos XX e XXI. Mais especificamente sobre a cor rosa, Marcia Gobbi (2015) percebe durante uma investigação na Educação Infantil que há uma predominância dessa cor nos desenhos em que representavam práticas convencionadas como femininas, atuando como uma marca do universo feminino. Para a autora, as associações entre cor rosa e a feminilidade “[...] denotam a existência de uma didática de gênero que, perversa e vagarosamente, vai 188 João Paulo Baliscei (org.) ensinando e constituindo qual é o lugar das meninas e das mulheres e do feminino” (GOBBI, 2015, p. 150). Quando essas demarcações entre “menino masculino” e “menina feminina” são transgredidas, identificamos uma censura por parte tanto dos/as adultos/as como das próprias crianças, envolvendo não só a ques- tão de gênero como também a sexualidade. Observamos no relato de Susana Rangel Vieira da Cunha (2010, p. 18) que no espaço da Educação Infantil, uma aluna afirmou que “[...] se um menino usasse a mochila rosa, da Barbie, ele seria diferente, um gay”. Tais expressões ganham continuidade em outros níveis da Educação Básica, como identificamos nas transcrições de Luciana Borre Nunes (2010) em diálogo com uma turma da 3ª série do Ensino Fundamental. Na ocasião, os/as estudan- tes afirmaram ser proibido um menino usar “coisas de menina”. Caso contrário, esse menino é percebido pelos/as demais como “estranho” ou “bichinha”, sendo ridicularizado principalmente por outros garotos. Essas reações das crianças, percebidas por Cunha (2010) e Nunes (2010) se associam às constatações de Baliscei (2020b), segundo o qual o medo de ser identificado como homossexual se faz presente desde às infâncias principalmente entre meninos, vigiando e conduzindo seus comportamentos em público. Tal temor deriva “[...] em parte, pelos tra- tamentos distintos que os/as próprios/as docentes e toda a comunidade escolar direcionam aos/às estudantes conforme seu gênero” (BALISCEI, 2020b, p. 99). No videoclipe o temor é reforçado nos versos “Não somos acidentes/ Nem erros divergentes” - aqui referindo-se a quem apresenta atuações de gênero e sexualidades distintas da heteronormatividade. A ótica excludentee discriminatória presente na produção, especificamente na adjetivação de indivíduos como “acidentes”, encontra-se alinhada e com similaridade direta às concepções sociais que hierarquizam corpos os segregando entre hegemônicos (norma) e dissidentes. Segundo Douglas Kellner (2001, p. 83), a norma encontra-se disposta então especificamente sobre um corpo ideologicamente “elevado”, sendo, branco, masculino, “[...] ocidental, de classe média ou superior; são posições que veem raças, classes, grupos e sexos diferentes dos seus como secundários, derivativos, inferiores e subversivos”. 189 É de menina ou menino? Assim, passamos a compreender que tendo como perspectiva de mundo as lentes hegemônicas, possivelmente nosso artefato cultural, pro- paga pressupostos opressivos, que alocam dissidentes no posto pejorativo de “acidentes”, uma vez que a conformidade (no caso a cisgeneriedade) é o oposto. A funcionalidade da canção não está pautada então apenas na interpelação de valores e tradições, mas também está em descredi- tar a pluralidade/diversidade apresentada em nossa sociedade. De tal forma que os discursos expressos na música permeiam e perpetuam a norma para todos/as os/as ouvintes. Em síntese, o clipe trata-se de um indicativo que naturaliza o gênero masculino e feminino como sendo possibilidades de existências fixas, ao passo que, contraditoriamente nos ensina como desempenhá-las a cada instante. Segundo Raewyn Connell (1995), pioneira nos Estudos das Mas- culinidades, é na cultura que se constitui o padrão ideológico do que é “ser homem” e de como desempenhar a masculinidade, conforme características físicas, psicológicas, econômicas e intelectuais específicas que validam formas de ser e existir e invalidam outras. Todavia, para a autora, o singular não revela a completude quanto aos assuntos de gêneros, haja visto sua concordância com a existência de diversas formas de masculinidades, e aqui acrescentamos também a pluralidade quanto as feminilidades. Assim, ser um “menino masculino” traz consigo ligações diretas quanto à raça, sexualidade, desejos, status e afins, e tais “peculiaridades” modificam as performances de gênero e suas leituras sociais. Conseguinte, o mesmo se aplica para "menina feminina”. Seus marcadores sociais que transcendem o gênero alocam os corpos diversos em outros espaços e intensificam a contemplação da existência de performatividades plurais. Nesse sentido, inferimos, então, que o uso do singular nas nomenclaturas não está unicamente ali com a ambição de “aglutinar os indivíduos”, tornando-os iguais, mas sim, desempenhando o papel de excluir a diversidade, dado que a visão ideológica hegemônica não convida todos/ as ao topo social. Logo, ser um “menino masculino” e uma “menina feminina" ainda não garante ascensão social, isso especificamente para aqueles/as que divergem das características preconizadas pela norma, 190 João Paulo Baliscei (org.) quanto à racialidade e à sexualidade, por exemplo. Dialogando com Ribeiro (2019), sobre as implicações de ser “divergente”, salientamos as dificuldades recorrentes do apagamento social que sofrem mulheres negras, que “[...] por serem nem brancas e nem homens, ocupam um lugar muito difícil na sociedade supremacista branca por serem uma espécie de carência dupla, a antítese de branquitude e masculinidade’” (RIBEIRO, 2019, p. 22). O ímpeto no discurso sobre ser “menino masculino” e “menina feminina" nos direciona à questão com mais afinco quanto à racialidade atrelada a tal concepção de gênero. O masculino e feminino não se des- prendem dos demais marcadores, e aqui enfatizamos raça e sexualidade. Ainda que as visualidades do clipe minimamente nos apresentem corpos com racialidades diversas, ancorados em Kellner (2001), temos nota de como o mundo se encontra pensado e organizado para o domínio de homens brancos, o que nos leva à dúvida da funcionalidade de tais corpos diversos em um clipe que preconiza a padronização. Sobre isso mencionamos bell hooks (2019), quem, especificamente tratando sobre o patriarcado e os benefícios que ele carrega e descarrega sobre os homens, enfatiza como o corpo masculino esperado é branco, haja vista que o patriarcado fora idealizado para tais indivíduos. Segundo a pesquisadora, ainda que homens negros ambicionem serem contemplados em todos os benefícios do patriarcado, este, por ser pensado e idealizado para/por homens brancos, não apenas os exclui, como atrela narrativas pejorativas sobre tais corpos, pela ação de a “[...] supremacia branca bloquear continuamente seu acesso ao ideal patriarcal.” (HOOKS, 2019, p. 178). Deste modo, pensar aqui em um “menino masculino”, dado as constatações de hooks (2019), nos leva a entender que as masculinidades têm narrativas diversas, e não obstante, estão atreladas à racialidade dos indivíduos. O mesmo se aplica para à “menina feminina”. Logo enfatizamos mais uma vez que não basta ser um “menino masculino” ou uma “menina feminina” visto que os pressupostos ideo- lógicos escapam do gênero e imbricam a racialidade e a sexualidade, demarcadas conforme a normatização e seus dissidentes. Contemplar o 191 É de menina ou menino? singular presente no videoclipe de Nosso gênero vem de Deus (2019) nos evidencia, até o momento, a visão limitada de masculinidade e femini- lidade, interpelada pelo machismo, racismo, LGBTfobia. Essas forças impregnam nossa sociedade e excluem a pluralidade de existências para além do “menino masculino” e da “menina feminina” coloridos de azul e rosa, respectivamente. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao percorrermos pelos conceitos de raça, gênero, sexualidade e cor, sob a ótica da interseccionalidade que reúne e imbrica estes marcadores, bem como analisarmos o videoclipe Nosso gênero vem de Deus (2019) em seus discursos verbais e visuais, verificamos que há uma legitimação de modos de “ser menino” e “ser menino” bastante singulares e excludentes. Contrariando o inatismo pressuposto na afirmação "nosso gênero vem de Deus” presente no título e no decorrer da música, observamos que a produção desempenha o papel de ensinar e reforçar visões ideológicas que hierarquizam existências, marginalizando todos/as que transgridem o singular “masculino” e “feminino” e circundado também por questões raciais e sexuais. Nesse sentido, as cores azul e rosa não são empregadas por acaso, mas são estratégia dupla de diferenciar os grupos de meninos e meninas, ao mesmo tempo que aglutina e padroniza os indivíduos dentro do mesmo gênero, desconsiderando questões raciais e sexualidades que não sejam a hegemônica. REFERÊNCIAS ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto. São Paulo: Companhia das letras, 2017. ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. BALISCEI, João Paulo. Provoque: cultura visual, masculinidades e ensino de artes visuais. Rio de Janeiro: Metanoia, 2020a. . Abordagem histórica e artística do uso das cores azul e rosa como pedagogias de gênero e sexualidade. Revista Teias, Rio de Janeiro, v. 21, p. 223- 244, ago. 2020b. 192 João Paulo Baliscei (org.) BENTO, Berenice. Na escola se aprende que a diferença faz a diferença. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 19, n. 2, p. 549-559, maio a agosto de 2011. CONNELL, Robert W. Políticas da masculinidade. Revista Educação & Realidade, Porto Alegre, v.20, n.2, p.185-206, 1995. Disponível em:<https://seer.ufrgs.br/educa- caoerealidade/article/view/71725/40671>. Acesso em: 15 dez. 2019. CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero, Estudos feministas, p. 171-189, 2002. CUNHA, Susana Rangel Vieira da. Menin@s nas tramas da cultura visual. In: BUS- SOLETTI, Denise; MEIRA, Mirela (Org.). Infâncias em Passagens. Pelotas: Editora e Gráfica Universitária da UFPel, v. 1, 2010, p. 55-78. GOBBI, Marcia Aparecida. Lápis vermelho é de mulherzinha. In: FINCO, Daniela; GOBBI,Marcia Aparecida; FARIA, Ana Lúcia Goulart (Org.). Creche e feminismo: desafios atuais para uma educação descolonizadora. Campinas: Edições Leitura Crítica, 2015, p. 137-162. HOOKS, Bell. Olhares negros: raça e representação. Trad. Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2019. JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. Brasília: Autora, 2012.KELLNER, Douglas. A cultura da mídia – estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno, Bauru: SP: EDUSC, 2001. LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: das afinidades políticas às tensões teórico-metodológicas. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 46. p. 201-218, 2007. RIBEIRO, Djamila. Mulher negra: o outro do outro. In: RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala. Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2017, p. 20-29. https://seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/view/71725/40671 https://seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/view/71725/40671 193 É de menina ou menino? Figura 1: Fred carrega Daphne nos braços para fora da piscina. Fonte: Print Screen do 12’20’’ do desenho animado Scooby-Doo! Mistério S/A (2010- 2013), Temporada 1, Episódio 17. Exibido na emissora Cartoon Network. DESENHOS ANIMADOS COMO TECNOLOGIAS DE GÊNERO: (DES)CONSTRUINDO MASCULINIDADES Marcus Turíbio74 Julia Moreira Guimarães75 Jocy Meneses dos Santos Junior76 INTRODUÇÃO Segundo De Lauretis (2019, p. 124), “o gênero é (uma) repre- sentação”. O gênero, para a autora, é “produto de diferentes tecnologias 74 Discente na Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. Participante do PIP- UFG 2021/2022. Bolsista CNPq (PIBIC). Lattes: http://lattes.cnpq.br/4126308941378703. 75 Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Univer- sidade Federal de Goiás. Auxiliar de atividades educativas na SME/Goiânia. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5435151879610085. 76 Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás. Bolsista FAPEG. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1046601120345232. http://lattes.cnpq.br/4126308941378703 http://lattes.cnpq.br/5435151879610085 http://lattes.cnpq.br/1046601120345232 194 João Paulo Baliscei (org.) sociais, como o cinema, por exemplo, e de discursos, epistemologias e práticas críticas institucionalizadas, bem como das práticas da vida cotidiana” (DE LAURETIS, 2019, p. 123). Aprofundando a discussão sobre esse tema, De Lauretis (2019, p. 124) explica que “a representação de gênero é a sua construção” – o que, paradoxalmente, implica que “a construção do gênero também se faz por meio de sua desconstrução”. Tanto a construção quanto a desconstrução do gênero ocorrem, segundo a autora, por meio de “tecnologias de gênero”, dispositivos discursivos hegemônicos ou contra hegemônicos através dos quais ele é, por um lado, criado e mantido, e, por outro, recriado e subvertido. Neste escrito, que é uma ressonância das discussões ocorridas no grupo de estudos em Cultura Visual e Práticas Pedagógicas77, abor- damos os desenhos animados como uma dessas tecnologias de gênero, buscando compreender de que modo eles operam na (des)construção da(s) masculinidade(s). Essa abordagem implica dois desdobramentos. Em um primeiro momento, discutimos de que modo os desenhos ani- mados (re)produzem discursos normativos e filiados a binarismos no que diz respeito à uma masculinidade hegemônica. Em um segundo momento, utilizamos de publicações extraídas da página do Instituto para el Desarrollo de Masculinidades Anti Hegemónicas na rede social Ins- tagram (@demachosahombres) para debater como esses mesmos produtos audiovisuais servem também para questionar e subverter as ideias que pautam a masculinidade hegemônica, instaurando novas possibilidades de ser homem. HOMENS APRENDEM A SER HOMENS Se, por um lado, construímos a sociedade, por outro, é evidente que a sociedade nos constrói. Vigotskii (2017) demonstra, em seus escritos, que é a partir do contato com o social que nossas aprendizagens são desenvolvidas. Desse modo, é através de nossa inserção e imersão 77 Composto por discentes da Universidade Federal de Goiás com vínculo na Licen- ciatura em Artes Visuais, Julliany Oliveira e Marcus Turíbio e no Mestrado em Arte e Cultura Visual, Jocy Meneses do Santos Junior e Julia Moreira Guimarães, com orientação da Prof.ª Dr.ª Carla Luzia de Abreu. 195 É de menina ou menino? na sociedade que conhecemos as normas vigentes nela, e delas nos apropriamos. Nossos modos de agir, pensar, sentir, estabelecer relações conosco e com o nosso entorno são mediados por sistemas simbólicos externos. Quando assimilamos e reproduzimos as normas da sociedade em que estamos inseridos – adequando-nos a elas e fiscalizando nossos comportamentos e os daqueles que nos cercam com base nelas – acabamos por nos filiar a um círculo viciado de ensino e aprendizagem. As normas sancionadas socialmente vão além daqueles pactos que preconizam a necessidade de usar roupas ou talheres, por exemplo. Em sociedades como a brasileira, é possível verificar que algumas dessas normas instituem e banalizam, por exemplo, o sexismo, a LGBTQIA- P+fobia78, o racismo, o classismo, a gordofobia e o etarismo. Dessa maneira, a sociedade legitima algumas existências, enquanto marginaliza outras. Considerando que nossa construção enquanto sujeitos depende do meio em que estamos inseridos, é possível depreender que as regras que instituem o “normal” e o “desviante” de forma binária, arbitrária, rígida e opressora influenciam nossas percepções e relações não apenas com os outros, mas também conosco. Dentro desse sistema, gênero e sexualidade são importantes marcadores sociais da diferença, construídos socialmente, que formatam identidades e subjetividades. E como a masculinidade é normatizada em sociedades como a nossa? “Pare de chorar!”, “Recomponha-se!”, “Pare com essas emoções!”, “Não seja covarde!”, “Seja maneiro e um pouco babaca!”, “Amigos vêm antes de vadias!”, “Não deixe sua mulher mandar na sua vida!” e “Seja homem!” são algumas das frases que iniciam o documentário “The mask you live in” (2015). Frases como essas são escutadas, assimiladas e reproduzi- das desde a infância. O documentário em questão mostra como uma definição estreita e castradora de masculinidade influencia o processo de desenvolvimento dos meninos, evidenciando, através de experiências 78 A sigla LGBTQIAP+ refere-se às pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, trans- sexuais, transgêneros, queer, intersexo, assexuais, agênero, pansexuais e às demais que não seguem às imposições cisheteronormativas mas também não se sentem abrangidas por essas nomenclaturas. 196 João Paulo Baliscei (org.) reais, como eles são obrigados a (tentar) atender a padrões socialmente construídos e impostos e a provar constantemente que são homens. É flagrante que a masculinidade hegemônica é construída em oposição àquilo que é atribuído socialmente como “próprio” das mulheres, como carinhos, afetos e vulnerabilidades, bem como àqueles que não aderem ao que prescreve a cisheteronormatividade. Essa oposição evi- dencia o sexismo e a LGBTQIAP+fobia que (infelizmente) são marcas registradas da nossa sociedade. QUAIS MASCULINIDADES OS DESENHOS ANIMADOS (DES) LEGITIMAM? Conforme explica Zanello (2018, p. 46) a partir do pensamento de De Lauretis (2019), o gênero é (re)produzido “por meio de códigos linguísticos e representações culturais”. Assim, a imposição da mas- culinidade se faz presente nas vidas de homens através de múltiplas instâncias discursivas. Os desenhos animados, que constituem o foco deste estudo, não estão isentos de discursos que instituem características e comportamentos “naturais” e “corretos” com base no gênero. Conforme explica Sabat (2001, p. 3), Longe de serem simples mecanismos de diversão, tais filmes podem ser considerados artefatos que exercem uma determinada pedagogia cultural. [...] Freqüen-