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ANAIS DO 
III SEMINÁRIO INTERNACIONAL 
GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2015 
 
 
 
 
 
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 ISBN: 978-85-98176-73-4 
 
 
 
 
 
 
Coordenação Geral 
 
Prof. Dr.ª Larissa Pelúcio (UNESP/Bauru) 
Prof. Dr. Richard Miskolci (UFSCar) 
 
 
 
Comitê Científico 
 
• Larissa Pelúcio (Unesp-Bauru) 
• Richard Miskolci (UFSCar) 
• Berenice Bento (UFRN) 
• Leandro Colling (UFBA) 
• Paula Sibilia (UFF) 
• Miriam Aldelman (UFPR) 
• Pedro Paulo Pereira (UNIFESP) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
© A reprodução na íntegra ou em parte é permitida, desde que citados os 
créditos. 
 
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 ISBN: 978-85-98176-73-4 
 
 
SESSÕES DE COMUNICAÇÃO ORAL 
 
Sessão 1 - Conexões de gênero, sexualidade e mídias digitais 
Sessão 2 - Ciberativismos e questões de gênero 
Sessão 3 - Tecnologias e Intimidades 
Sessão 4 - Movimentos Sociais, Gênero e Culturas Digitais 
Sessão 5 - Raça, etnia e mídias 
Sessão 6 - Mídias digitais e novas subjetividades 
 
 
SESSÃO TEMÁTICA 1 
CONEXÕES DE GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIAS 
 
 
1. “Transversus: um panorama da transexualidade em reportagem 360º” - 
MORA, Ana Carolina; LABORÃO, Virggínia; ASSIS, Maurício; 
PINCINATO, Gabriela; DE SORDI, Marina. 
 
2. “#SomosTodosVerônica”? – FALEIROS, Juliana Leme; BRASIL, 
Patricia Cristina. 
 
3. “Comunicar no jornalismo: a dissonância na reportagem multimídia 
“transgêneros”, do TAB” - ITO, Liliane de Lucena 
 
4. “A jornalista esportiva em jogo: a produção de sentido sobre a 
apresentadora Renata Fan em comentários no Facebook” – LOPES, 
Mariana Ferreira; DORIGON, Bruna Tamanini. 
 
5. “A Transexualidade nos Grupos Virtuais do Facebook” - PONTES, Júlia 
Clara de; SILVA, Cristiane Gonçalves da. 
 
6. “Namorada sinistra: gênero e ciúme no Facebook” - UNGER, Lynna 
Gabriella Silva; SANTOS, Flaviane Viera; OLIVEIRA, Francis Fonseca; 
SANTANA, Valéria Santos; SANTOS, Claudiene. 
 
7. “Espaços e convergências nas representações midiáticas femininas” - 
BUENO, Noemi Correa; MARQUES, José Carlos. 
 
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 ISBN: 978-85-98176-73-4 
 
 
 
8. “Narrativas transviadas: reportagens em livros Sobre gêneros e 
sexualidades dissidentes” - GONÇALVES, Gean Oliveira. 
 
9. “Ambientes Digitais e relações de gênero – Uma análise do Museu da 
Pessoa” – LANDIM, Lais Alpe. 
 
10. “Fotografias de corpos femininos: o caso Marianna Lively” - BOROSKI, 
Marcia. 
 
11. “O tabu como formador de identidade: uma análise de documentários 
e filmes relacionados a formação da sexualidade e gênero” – MARTINS, 
Hellen Damas; JUNQUEIRA, Lilian Cláudia Ulian. 
 
12. “(As)sexualidade(s): intersecção no mundo virtual e no real” - TODO, 
Gabriela Alves Martins Guimarães Lyrio. 
 
13. “Diversidade de Gênero nas Organizações: Novas Perspectivas em 
Estratégias de Comunicação para o Reconhecimento de Grupos 
LGBTs nas Empresas Vigor e Carrefour” - SOARES, Karen Greco. 
 
14. Todas putas? Sobre feminismos e sala de aula na escola da Fundação 
Casa Feminina. FALCHI, Cinthia Alves 
 
 
SESSÃO TEMÁTICA 2 
CIBERATIVISMOS E QUESTÕES DE GÊNERO 
 
1. Torcidas livres e queer em campo: sexualidade e novas práticas 
discursivas no futebol – PINTO, Maurício Rodrigues; ALMEIDA, Marco 
Antônio Bettine. 
 
2. Feminismo Negro e Interseccional: práticas e discursos sobre raça, 
gênero e sexualidade nas redes sociais – RIOS, Flávia Mateus; 
MACIEL, Regimeire Oliveira 
 
3. As (re)existências de mulheres brasileiras imigrantes em Portugal via 
mídias digitais: um estudo exploratório – ROSSI, Jéssica de Cássia 
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 ISBN: 978-85-98176-73-4 
 
 
 
4. Mídias rizomáticas, controvérsias e ativismos: resistências e 
politizações – MORELLI, Fábio; SOUZA, Leonardo Lemos de 
 
5. Ciberespaço e a Coletiva Marcha das Vadias Sampa – FERREIRA, 
Juliana Cristina da Silva 
 
6. A qualidade da informação sobre políticas públicas de combate à 
violência doméstica no portal da Secretaria de Políticas para as 
Mulheres – GIORGI, Bruna Silvestre Innocenti 
 
7. Uma questão de gênero: ofensas direcionadas à presidenta Dilma 
Rousseff nos comentários da página da Folha de S. Paulo no Facebook 
– STOCKER, Pâmela 
 
8. Travestis em situação de rua e a segregação aos bens sociais dentre 
eles as tecnologias digitais – SANTOS, Robson silva 
 
 
 
SESSÃO TEMÁTICA 3 
TECNOLOGIAS E INTIMIDADES 
 
1. A influência da mídia nas relações de gênero e costume nas 
Assembleias de Deus. COSTA, Otávio Barduzzi Rodrigues da. 
 
2. Treinadores Pokémon e Machos Alpha: masculinidades do abjeto ao 
venerável. CAMPOS, Myatã Sanches Pedrini. 
 
3. Pornografia de vingança e pornografia sem consentimento: uma 
análise. BARQUETTE, Rachel Gomes. 
 
4. A exposição da intimidade: consentimento e vulnerabilidade na era das 
redes sociais – caso Revista TPM. SILVEIRA, Daniella Orsi da; 
BELELLI, Iara Aparecida 
5. Desejos comodificados: dos classificados aos perfis nos aplicativos na 
busca por parceiros do mesmo sexo. FERREIRA, João Paulo; 
MISKOLCI, Richard. 
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 ISBN: 978-85-98176-73-4 
 
 
 
 
 
SESSÃO 4 
MOVIMENTOS SOCIAIS, GÊNERO E CULTURAS DIGITAIS 
 
1. Ativismo digital e a proteção e promoção dos direitos das mulheres no 
Brasil. BONVICINO , Mariana Torelly R. 
 
2. "A Joanna sou eu, mas a casa é nossa": a emergência de um locus 
midiático colaborativo feminista. TEIXEIRA, Thainá Battestini; BURIGO, 
Joanna; DELAJUSTINE, Ana Claudia; BURIGO, Beatriz Demboski; 
AZEVEDO, Debora. 
 
3. NTICs e Revenge Porn: Pode a tecnologia ser instrumento de 
emancipação e de promoção dos direitos humanos das mulheres? 
FAZIO; Luísa Helena Marques de. 
 
4. Viralizou: Redes digitais e ação política para os estudos de gênero e a 
educação. AZEVEDO, Lílian Henrique de. 
 
5. Ondas diferenciais para otrxs inadequadxs: experiências radiofônicas 
feministas e sociedaderede. MENDES, Júlia Araújo. 
 
6. A “cura gay” em revista: Formulação e circulação de discursos em Veja 
e Júnior. CAMPO, Amanda; ORMANEZE, Fabiano. 
 
7. A Primavera dos Direitos das Mulheres Árabes. PEREIRA JÚNIOR, 
Cláudio Aparecido 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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 ISBN: 978-85-98176-73-4 
 
 
 
 
SESSÃO 5 
RAÇA, ETNIA E MÍDIAS 
 
 
1. O Feminismo Negro em Rede: reflexões sobre o site blogueiras negras 
enquanto prática de empoderamento. OLIVEIRA, Laila Thaíse Batista 
de 
 
2. A mulher negra na mídia televisiva brasileira. Venâncio, Karen. 
 
3. Diversidade étnica em painéis externos de midia de escolas no 
município de Marília (2014): Ausências e presenças. SILVA, Cláudio 
Rodrigues 
 
 
SESSÃO 6 
MÍDIAS DIGITAIS E NOVAS SUBJETIVIDADES 
 
1. As damas do prazer: relações sociais de sexo no cinema da boca do 
lixo paulistana. ALMEIDA, Ricardo Normanha R. de. 
 
2. Fábrica de Monstros: corpo e gênero tratados na rede virtual. DARCIE, 
Marina; DORIA, Aline; COSTA, Cauê; BROSENS, Thiago 
 
3. Entre a perversão e o estereótipo dos gêneros no filme “Macho, fêmea 
e cia – a vida erótica de Caim e Abel”. AMARAL, Muriel Emídio Pessoa 
do 
 
4. A dominação masculina e representação feminina no judô a partir da 
análise dos Jogos Olímpicos de Londres 2012. FIRMINO, Carolina 
Bortoleto 
 
5. Psicanálise, educação sexual e novas tecnologias digitais. 
RODRIGUES, Gelberton Vieira 
 
 
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 ISBN: 978-85-98176-73-4 
 
 
 
6. A representação das masculinidades (policiais) militares nas mídias: a 
evidente falta de Críticas. GONÇALVES, Arthur Rocha. 
 
7. Aborto em caso de abuso sexual infantil: uma análise de reportagens 
brasileiras e chilenas. SOUZA, Marcelle C. de 
 
8. Gênero, cultura popular e fãs: a emergência de um campo de estudos 
no Brasil. CASTILHO, Fernanda 
 
9. Imagens da aids em The Normal Heart e Clube de Compras Dallas. 
SILVA, Pedro Paulo 
 
10. Frescáh no Círio: escracho e resistência ao fundamentalismo religioso 
noclipe de Leona Vingativa. BARBOSA, Mônica 
 
11. O MURO DOS FREAKS – Capitalismo, inclusão e a “quebra” do 
self-made man. GAVÉRIO, Marco Aurélio. 
 
12. A Propaganda de Perfume como Ilustração do Imaginário da 
Subjetividade Contemporânea. PÉRA, Beatriz C, S; CAMPOS, Érico 
B.V. 
 
 
 
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 ISBN: 978-85-98176-73-4 
 
 
PROGRAMAÇÃO 
 
 
 PRIMEIRO DIA - 04 DE NOVEMBRO DE 2015 
 
 
17h00 
Credenciamento e entrega do material 
 
18h30 
Mesa abertura: Diretores FAAC, Chefia CHU, Organizadores evento 
Local: Auditório Adriana Chaves 
 
19h00 
Mesa-redonda: Tecnologias e intimidades 
Profa. Dra. Iara Beleli (Pagu – Unicamp) 
Prof. Ms. Felipe Padilha (PPGS – UFSCAR) 
Debatedor: Prof. Dr. Richard Miskolci (UFSCar) 
Local: Auditório Adriana Chaves 
 
21h00 
Lançamentos de livros e performance artística com Glamour Garcia 
Local: Hall da FAAC 
 
 
 
 
 
 
 SEGUNDO DIA - 05 DE NOVEMBRO DE 2015 
 
 
09h00 - 12h00 
Sessões de Apresentação de Trabalhos: 
Sessão 1 - Conexões de gênero, sexualidade e mídias – Juliana Jardim 
Local: Sala 77 
Sessão 2 - Ciberativismos e questões de gênero – Késia Maximiano 
Local: Sala: 79 
Sessão 3 - Tecnologias e Intimidades – Keith Diego Kurashige e Felipe Padilha 
Local: Sala 73 
Sessão 4 - Movimentos Sociais, Gênero e Culturas Digitais – Marcela Pastana 
Local: Sala 75 
Sessão 5 - Raça, etnia e mídias – Alexandre Eleotério 
Local: Sala 82 
Sessão 6 - Mídias digitais e novas subjetividades – Fernando Balieiro e Tom Rodrigues 
Local: Sala 76 
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14h30 - 17h30 
 
 
MINICURSOS 
 
Minicurso 1: 
Feminismos e negritudes nas mídias digitais 
Local: Sala 77 
 
 
 Coordenadora: Aline Ramos 
 
Minicurso 2: 
Pornografia, pós-pornografias: política, gênero e representação 
Local: Sala 74 
 
 
 Coordenador: Prof. Dr. Jorge Leite Jr. (UFSCar) 
 
Minicurso 3: 
Metodologias de pesquisa em mídias digitais 
Local: Sala 72 
 
 
 Coordenadora: Profa. Dra. Juliana do Prado (UEMS) 
 
Minicurso 4: 
Subjetividades e Diferenças nas Mídias 
Local: Sala 70 
 
 
 Coordenadora: Profa. Dra. Simone Ávila (UFSC) 
 
 
 
15h00 - 16h30 
Sessão cine queer: Além das Sete Cores 
Debate com a diretora Camila Biau (Brodagem Filmes) e Daniela Garcia (performer protagonista do 
documentário) 
Local: Sala 83 
 
 
 
18h00 
Performance: Tigrela 
Daniela Glamour 
Local: Auditório Adriana Chaves 
 
19h00 
Mesa-redonda: Mídias e gêneros - Vozes dissonantes 
Profa. Dra. Heloísa Buarque de Almeida (USP) 
Prof. Dr. Fernando de Figueiredo Balieiro (UF Pelotas) 
Debatedora: Iara Beleli (Pagu – Unicamp) 
Local: Auditório Adriana Chaves 
 
21h00 
Programação Cultural: Performopalestra Helena Vadia 
Pâmella Villanova 
Local: Hall da Graduação 
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 TERCEIRO DIA - 06 DE NOVEMBRO DE 2015 
 
 
09h00 - 12h00 
Sessões de Apresentação de Trabalhos: 
Sessão 1 - Conexões de gênero, sexualidade e mídias – Juliana Jardim 
Local: Sala 77 
Sessão 4 - Movimentos Sociais, Gênero e Culturas Digitais – Marcela Pastana 
Local: Sala 75 
Sessão 6 - Mídias digitais e novas subjetividades – Fernando Balieiro e Tom Rodrigues 
Local: Sala 76 
 
 
14h30 
Mesa-redonda: Ciberativismo e políticas da diferença 
Prof. Dr. Mário Carvalho (UERJ) 
Doutoranda Amara Moira (Unicamp) 
Debatedor: Larissa Pelúcio (UNESP) 
Local: Auditório Educação Física 
 
 
 
16h00 – 18h30 
Projeção: Folia - a micropolítica da felicidade escancarada 
Ana Ferri e Olivia Pavani 
Local: sala de dança da Praça da Educação Física 
 
17h30 
Projeção: Curta - Todo Mundo Nasce Nu 
Gabriel Pereira e Rafael Bizzarro – discussão com o diretor e com Amara Moira 
Local: Auditório Educação Física 
 
18h30 
Mesa-redonda: Mídias e Transformações Sociais 
Prof. Dr. Emile Devereaux (University of Sussex) 
Profa. Dra. Karla Bessa (Unicamp) 
Debatedora: Profa. Dra. Heloísa Buarque de Almeida (USP) 
Local: Auditório Educação Física 
 
 
III SEMINÁRIO INTERNACIONAL GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIA 
SESSÃO 1 
Conexões de gênero, sexualidade e mídias 
 
AUTOR / CO-AUTORES TÍTULO 
MORA, ANA CAROLINA; LABORÃO, 
VIRGGÍNIA 
TRANSVERSUS: UM PANORAMA DA 
TRANSEXUALIDADE EM REPORTAGEM 360º 
JULIANA LEME FALEIROS; PATRÍCIA 
CRISTINA BRASIL 
#SOMOSTODOSVERÔNICA? 
LILIANE DE LUCENA ITO 
COMUNICAR NO JORNALISMO: A DISSONÂNCIA NA 
REPORTAGEM MULTIMÍDIA “TRANSGÊNEROS”, DO 
TAB 
MARIANA FERREIRA LOPES; BRUNA 
TAMANINI DORIGON 
A JORNALISTA ESPORTIVA EM JOGO: A PRODUÇÃO 
DE SENTIDO SOBRE A APRESENTADORA RENATA FAN 
EM COMENTÁRIOS NO FACEBOOK 
JÚLIA CLARA DE PONTES; CRISTIANE 
GONÇALVES DA SILVA 
A TRANSEXUALIDADE NOS GRUPOS VIRTUAIS DO 
FACEBOOK 
LYNNA GABRIELLA SILVA UNGER; 
FLAVIANE VIERA SANTOS; FRANCIS 
FONSECA OLIVEIRA; VALÉRIA 
SANTOS SANTANA; CLAUDIENE 
SANTOS 
NAMORADA SINISTRA: GÊNERO E CIÚME NO 
FACEBOOK 
NOEMI CORREA BUENO 
ESPAÇOS E CONVERGÊNCIAS NAS REPRESENTAÇÕES 
MIDIÁTICAS FEMININAS 
 
 
 
AUTOR / CO-AUTORES TÍTULO 
GEAN OLIVEIRA GONÇALVES 
NARRATIVAS TRANSVIADAS: REPORTAGENS EM 
LIVROS SOBRE GÊNEROS E SEXUALIDADES 
DISSIDENTES 
LAÍS ALPI LANDIM 
AMBIENTES DIGITAIS E RELAÇÕES DE GÊNERO – UMA 
ANÁLISE DO MUSEU DA PESSOA 
MARCIA BOROSKI 
FOTOGRAFIAS DE CORPOS FEMININOS: O CASO 
MARIANNA LIVELY 
HELLEN DAMAS MARTINS; LILIAN 
CLÁUDIA ULIAN JUNQUEIRA 
O TABU COMO FORMADOR DE IDENTIDADE: UMA 
ANÁLISE DE DOCUMENTÁRIOS E FILMES 
RELACIONADOS A FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE E 
GÊNERO 
GABRIELA ALVES MARTINS 
GUIMARÃES LYRIO TODO 
(AS)SEXUALIDADE(S): INTERSECÇÃO NO MUNDO 
VIRTUAL E NO REAL 
KAREN GRECO SOARES 
DIVERSIDADE DE GÊNERO NAS ORGANIZAÇÕES: 
NOVAS PERSPECTIVAS EM ESTRATÉGIAS DE 
COMUNICAÇÃO PARA O RECONHECIMENTO DE 
GRUPOS LGBTS NAS EMPRESAS VIGOR E CARREFOUR 
CINTHIA ALVES FALCHI 
TODAS PUTAS? SOBRE FEMINISMOS E SALA DE AULA 
NA ESCOLA DA FUNDAÇÃO CASA FEMININA 
 
TRANSVERSUS: UM PANORAMA DA TRANSEXUALIDADE EM 
REPORTAGEM 360º 
MORA, Ana Carolina 
LABORÃO, Virggínia 
ASSIS, Maurício 
PINCINATO, Gabriela 
DE SORDI, Marina 
Artigo para o III Seminário Internacional Gênero, Sexualidade e Mídia: do pessoal ao 
Político – Pontifícia Universidade Católica de Campinas – Centro de Linguagem e 
Comunicação, Faculdade de Jornalismo, Campinas, 2015. 
O trabalho Transversus tem como proposta problematizar a classificação de “transtornos 
de identidade de gênero”, categoria estabelecida pela Organização Mundial da Saúde 
(OMS). Sendo assim, o pano de fundo que perpassa o projeto, bem como o seu principal 
gancho de atualidade é a “patologização” da condição de transgênero, e, por 
consequência, os desdobramentos sociais, culturais e jurídicos desse panorama. Para 
explorar com a abrangência e profundidade que o tema indubitavelmente exige e, além 
disso, para se estabelecer um fazer jornalístico sob uma perspectiva estética e interativa, 
a modalidade escolhida foi a multimídia, especificamente o gênero de reportagem 360°. 
Em suma, o Transversus busca problematizar e expor jornalisticamente as histórias de 
vida e os obstáculos em diversas esferas dos transgêneros, a fim de que se traga 
publicamente o que circunda essa temática, ou seja, aquilo que na academia é explorado 
cuidadosamente e de maneira profunda, mas que ao consciente coletivo permanece um 
tanto esquecido, por trás de preconceitos e receios advindos da insipiência ou da 
incompreensão da complexidade do tema. Portanto, o projeto se baseia em discutir os 
preconceitos sociais com as diferentes identidades de gênero, geralmente confundida 
com orientação sexual; revelar histórias daqueles que passaram pela experiência da 
descoberta de um “transtorno de identidade de gênero”; tudo isso mesclado com os 
conflitos de opiniões dos especialistas sobre o tema nas ciências humanas e nas 
biomédicas. 
Palavras-chave:transexualidade, jornalismo, transmídia. 
1. Introdução 
 O projeto Transversus, website jornalístico de reportagem 360º, tem como 
proposta problematizar a classificação de “transtornos de identidade de gênero”, 
categoria estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que patologiza a 
condição das pessoas transgêneras (que transitam entre os gêneros) e, por consequência, 
descontextualiza os desdobramentos sociais, culturais e jurídicos desse panorama. Para 
explorar com a abrangência e a profundidade que o tema indubitavelmente exige e, além 
disso, estabelecer um fazer jornalístico sob uma perspectiva estética e interativa, foi 
selecionado o gênero de reportagem 360º. 
Os estudos acadêmicos sobre reportagem 360° ainda são lacunar, tendo em vista 
o desenvolvimento contínuo da web e a proliferação de diversas terminologias. No 
entanto, é possível apreender que o gênero propicia pelo intermédio de imagens e sons 
de ambientes exibidos em documentários e fotografias a possibilidade de “transportar o 
leitor” ao conteúdo e permitir a interação com ele. Além disso, o leitor pode optar por 
onde deseja começar sua leitura de informações por diferentes ângulos disponibilizados 
na plataforma multimídia, conferindo autonomia no caminho a ser traçado pelo 
internauta, possibilitando a chamada leitura não-linear. 
Segundo argumenta Ormaneze (2012), na reportagem 360°, o leitor pode, a 
partir de uma tela introdutória sobre um determinado assunto, escolher qualquer 
percurso de leitura e sobre qual perspectiva temática deseja ter informação, desde dados 
estatísticos até perfis de personagens, como é pensado este projeto experimental. 
 
Com essa definição simples, no entanto, o jornal conseguiu criar uma 
reportagem que utiliza os hiperlinks de forma que não distancia o leitor do 
assunto principal e mostra que o webjornalismo não precisa se prender apenas 
ao imediatismo e à competição para saber quem traz a informação mais rápida, 
elementos importantes, mas não únicos no ciberespaço (ORMANEZE, 2012, 
p.4) 
 
 Quando abordado pelos meios de comunicação – fundamentalmente de massa e, 
em consequência, aquele que assenta o imaginário popular – o tema da transgeneridade 
apresenta-se de maneira consideravelmente superficial, sem que se leve em conta os 
reais entraves que o cercam, tampouco a rede de relações extremamente delicada que se 
desenvolve nos – assim cunhados pela OMS – portadores de “transtorno de identidade 
de gênero”. Com o formato 360º, foi possível romper o lugar comum jornalístico sobre 
o tema através de sua variedade de propostas imagéticas e o próprio caráter abrangente 
do jornalismo online. 
 Como pano de fundo para o projeto há o conceito de que o jornalismo deve 
incansavelmente informar de maneira a representar parcelas da sociedade cuja cultura, a 
sociedade e o Estado coagem de alguma forma, seja por frear liberdades individuais, 
seja por imbróglios advindos das ramificações burocráticas. Portanto, o projeto tem o 
objetivo de discutir os preconceitos sociais com as diferentes identidades de gênero, 
geralmente confundida com orientação sexual; revelar histórias daqueles que passaram 
pela experiência da descoberta de um “transtorno de identidade de gênero”; tudo isso 
mesclado com os conflitos de opiniões dos especialistas sobre o tema nas ciências 
humanas e nas biomédicas. 
 Em suma, o Transversus busca – a partir de textos, vídeos, áudio e fotografia em 
um website – problematizar e expor jornalisticamente as histórias de vida e os 
obstáculos em diversas esferas sofridos pelos transgêneros, a fim de que se traga 
publicamente o que circunda essa temática, ou seja, aquilo que na academia é explorado 
cuidadosamente e de maneira profunda, mas que ao consciente coletivo permanece um 
tanto oculto, por trás de preconceitos e receios advindos da insipiência ou da 
incompreensão da complexidade do tema. 
2. Metodologia 
 A leitura preliminar de obras de Judith Butler e Berenice Bento, estudiosas das 
ciências humanas que analisam a transgeneridade sob um viés antropológico e 
sociológico, abriu os horizontes para que este trabalho jornalístico pudesse ir além do 
senso comum e tratar a transgeneridade de uma perspectiva social e despatologizante. 
Tendo em vista o caráter de conflito inerente ao jornalismo, o grupo também 
empreendeu pesquisas sobre o assunto no âmbito médico e das ciências biológicas, 
tendo como exemplos de autores lidos John Money e Alexandre Saadeh. 
 O processo de pesquisa sobre o tema contou também com uma imersão em 
grupos de discussão de transgêneros, transexuais e travestis em redes sociais durante um 
período de aproximadamente seis meses no qual foi possível elucidar as problemáticas, 
discussões de representações e lutas pelos direitos desses grupos, além da participação 
presencial em um grupo no Centro de Referência LGBT de Campinas. 
 
2.1. Produção 
 Tendo em vista que o projeto Transversus conta com perfis de transgêneros e 
também com pautas sobre assuntos correlacionados à existência transgênera na qual os 
especialistas podem refletir sobre questões conflitantes como mudança de nome e 
tratamento no Sistema Único de Saúde, a seleção das fontes atrelou-se à possibilidade 
de revelar conflitos entre as conceituações e vivências. Os personagens escolhidos como 
perfilados também foram selecionados de maneira que diferentes experiências de 
transgeneridade pudessem ser explicitadas no trabalho, isto é, priorizou-se pessoas com 
histórias de vida diversas entre si. 
 Com relação à edição do site, o grupo teve como percepção que o layout da 
página de reportagem 360° é um dos fatores mais cruciais para que sejam possíveis 
características próprias do gênero como a leitura não-linear e a imersão em imagens. A 
escolha da cor foi um ponto delicado, tendo em vista que há cores claramente 
relacionadas com o gênero feminino e masculino. Sendo assim, o grupo optou pelo 
roxo, tendo em vista que consiste em uma mistura das cores máximas do binarismo de 
gênero, isto é, o rosa e o azul. 
 Para o logo do site, a ideia era de que o nome do projeto experimental 
permanecesse em três linhas, mas não separadas pela silabação de acordo com a norma 
padrão. O grupo entendeu tal ideia transparecia justamente o pressuposto do projeto de 
que o fenômeno da transgeneridade é mais complexo do que o senso comum preconiza 
e que deve ser lida atentamente, mesmo que seja de difícil compreensão a priori. 
 Rompendo com padrões tradicionais, os elementos no layout permite que o leitor 
possa fazer mais "descobertas" de conteúdo do que simplesmente se utilize do layout 
(MOHERDAUI, 2008). O layout do Transversus teve como inspiração o design de 
informação do El País 360°. No entanto, é preciso ressaltar que a natureza do tema do 
projeto experimental diz respeito a histórias de pessoas que vivenciam a transgeneridade 
e quais as implicações sociais disso. 
 A navegação do site foi pensada de forma que o internauta pudesse escolher qual 
caminho seguir, tendo acesso ao conteúdo de várias formas diferentes. Na home do site, 
isto é, na página de abertura, uma sequência rotativa de fotos é vislumbrada pelo 
internauta, sendo a porta de entrada para os perfis multimídia produzidos sobre cada um 
dos perfilados. Outra possibilidade do internauta é clicar em um dos links para as 
reportagens multimídia, distribuídas dos dois lados da sequência rotativa de fotografias. 
A partir disso, o grupo realizou o planejamento de hiperlinks que constroem a teia de 
navegação pelo site. 
 Nos perfis dos personagens, o internauta pode assistir ao vídeo, ler o texto ou ver 
a galeria de fotos. Através do perfil escrito, é possível acessar as reportagens multimídia 
que possuem mais relação com as questões que o perfilado vivencia, como, por 
exemplo, problemas com a mudança de nome nos documentos oficiais ou opiniões que 
se sobressaem sobre a patologizaçãoda transexualidade. O internauta sempre terá 
também a opção de retornar para a home e escolher se informar por um novo 
personagem ou reportagem. 
 É preciso ressaltar que a plataforma multimídia na qual foi produzido o trabalho 
possibilita a mobilização de mais fontes em diversas mídias e páginas interligadas por 
hiperlinks. 
As fontes do projeto podem ser divididas nas categorias de perfilados e fontes 
especializadas. Os perfilados são pessoas transgêneras, transexuais ou travestis, que têm 
histórias interessantes da perspectiva dos valores-notícia jornalísticos além de serem 
pertinentes para as discussões as quais o projeto se propôs. 
 
2.2. Perfilados 
No que diz respeito às fontes perfiladas, escolheu-se sete personagens. Entre 
eles, Phedra de Córdoba, 72 anos, atriz e transexual que realizou a cirurgia de 
readequação sexual e Michele dos Santos, 31 anos, profissional do sexo e travesti. Para 
mostrar as diversas faces da transgeneridade, buscamos, além de travesti e uma 
transexual que realizou a cirurgia, histórias de transexuais ainda em sua transição de 
gênero: Leila Dumaresq, 35 anos, designer de jogos, e Esther Pereira, 50 anos, artesã. 
Também foram escolhidos três homens transexuais. Juliano Maziero, 39 anos, agente 
penitenciário na Cadeia Pública Feminina de Rio Claro; Régis Vascon, 41 anos, assessor 
jurídico do Centro de Referência LGBT de Campinas e Erick Barbi, 34 anos, músico. 
- Fontes especializadas 
É importante ressaltar que todas as fontes especializadas em transgeneridade – e todas 
as identidades abarcadas por esse conceito – confrontam saberes e provocam um debate 
ético para romper o senso comum e fazer com que o projeto experimental Transversus 
fuja da superficialidade dos meios de comunicação de massa. No âmbito das ciências 
biomédicas: Alexandre Saadeh, psiquiatra e coordenador do Ambulatório de 
Transtornos de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas (HC) 
da Universidade de São Paulo (USP), por sua tese sobre estudo psicopatológico de 
transexualismo masculino e feminino; Judit Lia Busanello, psicóloga e diretora do 
Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais da Secretaria de Saúde do 
governo do estado de São Paulo, referência no acolhimento de saúde integral de 
transgêneros; Bárbara Menezes, psicóloga, coordenadora de atendimentos no Centro de 
Referência LGBT de Campinas. Em termos de cirurgia fora dos moldes propostos pelo 
SUS e pelo HC da Universidade de São Paulo, selecionamos Jalma Jurado, PhD em 
medicina pela USP e pioneiro em cirurgia de readequação sexual no Brasil. Já no 
âmbito das ciências humanas: o doutor Jorge Leite Júnior, professor da Universidade 
Federal de São Carlos, estudioso da questão sociológica da transexualidade; a filósofa 
Marcia Tiburi, doutora em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e 
pensadora contemporânea sobre gênero e sexualidade. O mestre e professor da PUC-
Campinas, Tiago Duque, que trabalha com as nuances por trás da descoberta da 
identidade de gênero na adolescência pelas travestis. Para questões legais: o advogado 
Eduardo Mazzilli, especialista em Direito Civil, que elucida a legislação para mudança 
de nome e sexo nos documentos oficiais, e o juiz Luiz Antonio Torrano, para expressar 
o posicionamento do Judiciário em relação à questão. 
 
2.3. Edição 
 Edição O projeto é composto por 14 vídeos subdivididos em três partes: perfis, 
os quais foram escolhidos sete personagens; seis reportagens audiovisuais, com a 
participação de nove especialistas e um vídeo de abertura que está na página inicial do 
site. Para a produção audiovisual que abre o site, os produtores decidiram diferenciá-lo 
do todo o deixando em preto e branco. Optou-se por realizar os conteúdos audiovisuais 
sem offs ou passagens, de acordo com a predileção dos produtores pela linguagem 
documental. Como aponta Oliveira, Carmo-Roldão e Bazi (2006): 
A produção desse tipo de vídeo requer cuidados especiais: a seleção de fontes 
necessita ser muito planejada, pois são elas que darão estrutura ao vídeo; o 
roteiro de perguntas deve ser realizado com continuidade, ou seja, obedecer a 
uma sequência de sonoras, levando-se em consideração o que a primeira 
fonte disse de importante, passando para a segunda e, assim, sucessivamente. 
(OLIVEIRA, CARMO ROLDÃO, BAZI, 2006, p.16) 
 
Logo, foi necessário construir uma linha narrativa, compreensível ao internauta, a partir 
dos depoimentos gravados dos especialistas e dos perfilados, utilizando recursos como 
enquadramento e trilha sonora para conceder dinamismo. Tendo como pressuposto a 
linguagem multimídia a qual a reportagem 360° Transversus se propõe, o foco na edição 
final do projeto foi possibilitar que textos, vídeos e fotografias dialogassem entre si, mas 
não se repetissem no que diz respeito ao conteúdo. Os produtores optaram por títulos 
subjetivos para as, tendo em vista que o próprio tema objeto do projeto experimental 
não está dado de forma simples. Por exemplo, a pauta sobre a patologização das 
identidades transgêneras recebeu o nome de CID 10 F.64 que é o código que classifica 
esses fenômenos como um transtorno na Classificação Internacional de Doenças (CID). 
A fotografia, além de ser uma rememoração do passado, é também condicionada pelo 
social, sendo assim, o Transversus se apegou as particularidades de cada perfilado e 
uniu ao convencional, ao comum, gerando um ensaio fotográfico de cada um, uma vez 
que o ensaio, mesmo não tendo uma definição exata, conta uma história, tem unidade 
entre as imagens e, sobretudo, não é redundante, pois cada foto revela uma nova nuance 
por meio de reflexões sensoriais e subjetivas. De acordo com Simonetta Persichetti 
(2000), crítica de fotografia, “o ensaio está intima e diretamente ligado ao jornalismo”. 
 
3. Resultados 
 Sacramentada a escolha do tema, muitas perguntas vieram à tona: O que 
desejamos mostrar? Quais serão nossos enfoques? Será que não precisamos ler mais 
sobre o tema? Conversar com mais pessoas? Os debates foram diversos e por algumas 
vezes com tons inconclusivos fantasmagóricos. As dificuldades apareceram quando 
notamos – após os primeiros contatos com as fontes - a complexidade do tema e a 
disparidade de opiniões, algo que, por um lado, nos assustava pelo tempo que diminuía, 
e por outro tornava o assunto ainda mais atraente jornalisticamente. 
 A fuga dos clichês, categorizações e idiossincrasias que circundam a abordagem 
de temas que, indubitavelmente, questionam padrões sociais vigentes foi algo pelo qual 
o grupo prezou, fazendo com que confrontássemos a nós mesmos, nossos preconceitos 
(nem sempre anunciados ou sequer conhecidos) e nossa própria bagagem cultural. Para 
isso, nos alertávamos cada vez mais para a importância de sempre revisitarmos a 
bibliografia e o principal: conceber a arte jornalística de entrevistar uma fonte, como, de 
fato, uma negociação. Negociação esta que exige – a fim de alcançar o horizonte 
pretendido – sensibilidade, atenção e serenidade. 
 Tivemos em nossa frente não só o desafio de retratar uma temática 
extremamente intrincada, com uma miríade de relações em diversas áreas do 
conhecimento humano, mas também a provocação de podermos experimentar um 
gênero jornalístico completamente novo. Mesmo com a dificuldade de termos escassa 
bibliografia teórica em mãos e até mesmo pouco conhecimento prático do novo gênero, 
vivenciar uma experiência inovadora no jornalismo multimídia nos estimulou para que a 
todo momento trabalhássemos para produzir textos, vídeos e fotografias de qualidade. 
 Sem receio de soar piegas, é totalmente justo dizer que o aprendizado do grupo 
foi imenso, não apenas no que tange o jornalismo, mas mais ainda – e talvez até de 
maneira mais decisiva – em nossas visões de mundo e noções de vivência no meio 
social. Ao abordarmos pessoas com histórias de vida das mais variadas possíveis,que, 
todavia, se interligavam por sofrimentos semelhantes (de, no limite, mesmas origens e 
mesmos fundamentos) os conceitos e análises presentes na bibliografia ecoavam em 
nossas mentes e realizávamos uma interpretação íntima com basicamente quatro 
componentes: o conteúdo da bibliografia; o aprendizado agregado na faculdade de 
jornalismo; a fala das fontes; e a ruína da imparcialidade jornalística: o que nós 
pensávamos daquilo tudo. 
 A lição que incorporamos é a de que o jornalista, entre outras milhares de 
competências um tanto mais especificas, deve ser um militante da liberdade, seja lá o 
que essa palavra expressa e significa, mas de fácil compreensão de todos. Parafraseando 
Cecília Meireles em “O Romanceiro da Inconfidência”: “Liberdade é uma palavra que o 
sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. 
Seria pretensão demais acreditar ser capaz de explicar o que é a liberdade, mas após a 
conclusão desse projeto, fica em nós a utopia de possibilitar pessoas a alimentarem suas 
liberdades através do jornalismo. 
 
Bibliografia 
 
ANDRIGUETI, Analu. O jornalista no mundo dos games. In: FERRARI, Pollyana 
(Org.). Hipertexto hipermídia - as novas ferramentas da comunicação digital. São Paulo: 
Editora Contexto, 2012. p. 91-106. 
BENTO, Berenice. A diferença que faz a diferença: 1 corpo e subjetividade na 
transexualidade. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2009. 
LEITE JÚNIOR, Jorge. Transitar para onde? Monstruosidade, (des)patologização, 
(in)segurança social e identidades. Florianópolis: Revista de Estudos Feministas, maio-
agosto 2012. 
MANOVICH, Lev. The Language of New Media. Massachusetts: The MIT Press, 2001. 
MOHERDAUI, Luciana. Em busca de um modelo de composição para os jornais 
digitais. São Paulo: Contemporânea, vol.6, 2008. 
MONEY, John. Gay, Straight, and In-Between: The Sexology of Erotic Orientation. 
New York: Oxford University Press, 1998. P. 87 – 112. 
ORMANEZE, Fabiano. Jornalismo na internet: reflexões sobre transmídia e 
reportagem 360° como propostas de produção. In: JUNQUER, Ângela et al. Novas 
competências na sociedade do conhecimento. Campinas: Leitura Crítica, 2012, p. 73-
80. 
PERSHICHETTI, Simone. Fotografia Brasileira II. São Paulo: Estação Liberdade, 
2000. 
SAADEH, Alexandre. Transtorno de identidade sexual: um estudo psicopatológico de 
transexualismo masculino e feminino. São Paulo, 2004. 
#SomosTodosVerônica? 
 
O sonho que acho mais fascinante é de uma sociedade 
andrógina e sem gênero (mas não sem sexo), em que a 
anatomia de cada um é irrelevante para o que cada um 
é, faz ou com quem cada um faz amor. 
Gayle Rubin 
 
___________________________________________________________________________ 
Resumo 
O texto apresentado propõe uma reflexão comparativa entre o filme “Uma nova amiga”, sob a 
perspectiva dada à transgeneridade e à sexualidade das personagens, e a abordagem da 
situação de Verônica Bolina pela mídia brasileira. A ideia principal é comparar os dois casos 
e refletir o papel da mídia frente à heteronormatividade cisgênera. 
Palavras-chave: corpos; sexualidade; gênero. 
___________________________________________________________________________ 
 
Sumário 
Introdução. 1. O filme “Uma nova amiga”. 2. O Caso Verônica Bolina. 3. A mídia como 
instrumento de transformação ou reprodução? Considerações finais. Referências 
bibliográficas 
 
Introdução 
 
A partir da comparação da atuação de diferentes mídias, entendidas como 
instrumentos de pedagogia sobre linguagem, corpos e identidades, pretende-se refletir sobre o 
seu papel frente à heteronormatividade cisgênera reconhecida como padrão social. 
Para tanto, abordar-se-á o retrato das transgressões de gênero e sexualidade 
apresentadas pelo cinema, no filme “Uma Nova Amiga” originado do conto “The new 
girlfriend”, de Ruth Rendell, que trata da construção da relação entre David/Virgínia e Claire 
e, principalmente, da transgressão de identidades e manifestações de sexualidade das 
personagens. A película se utiliza de características que estimulam o espectador a ponderar as 
possibilidades que extrapolam o binarismo cisgênero marcante na sociedade contemporânea. 
Como antítese, abordar-se-á o incidente que tornou conhecida a travesti, Verônica 
Bolina. O caso foi coberto pelas mídias por vezes de forma depreciativa, exacerbando a 
atmosfera de marginalidade em que vive parte das travestis no Brasil, sem considerar a 
situação de exclusão social e desamparo estatal em que vivem. 
Nesse aspecto, ao contrário do cenário afetuoso de “Uma Nova Amiga”, a 
marginalização de Verônica começou pelo silenciamento do social e da sua identidade de 
gênero, realçadas como justificadores de sua condenação antecipada por um crime sequer 
apurado, e da violência à dignidade e à integridade que sofreu no cárcere. Tratar-se-á, ainda, 
do ativismo digital como instrumento de controle em face dos abusos dos agentes do Estado e 
da mídia dominante no exercício dos papéis ideológicos, a partir do movimento 
#SomosTodasVerônica. 
Passando pelos direitos humanos e pela teoria de gênero, em especial a elaborada por 
Judith Butler, a ideia é articular os modos como as mídias se referem aos temas gênero e 
sexualidade e refletir sobre o papel delas na educação, ainda que informal, da sociedade e na 
definição de direitos. 
 
1. O filme “Uma nova amiga” 
 
O filme “Uma nova amiga”, lançado neste ano de 2015 e dirigido pelo cineasta francês 
François Ozon e se passa em um centro urbano, nos dias atuais, no qual as personagens, de 
elevado padrão de vida, vivem uma história de amor e descoberta de identidades e 
sexualidades. A história inicia com a amizade de Claire (Anaïs Demoustier) e Laura (Isild Le 
Besco) desde a infância até a vida adulta, sugerindo uma tensão amorosa e sexual não 
concretizada de Claire em relação a sua amiga Laura. Laura e Claire se casam, 
respectivamente, com David (Romain Duris) e Gilles (Raphaël Personnaz). Laura parece feliz 
com seu casamento, mas falece logo após dar à luz à primeira filha. Claire, madrinha da 
criança, promete à amiga cuidar de Lucie, a bebê, e de David, mas, demora um pouco a 
procurar os dois após o funeral. Quando vai até à casa deles, Claire é surpreendida com David 
vestido de mulher, maquiado, com peruca loira e unhas pintadas, ninando a filha. O primeiro 
momento retrata o choque de Claire, logo afastado quando David comenta do consentimento 
de Laura com essa performance. A partir de então, David e Claire passam a construir uma 
relação oscilante entre cumplicidade e estranhamento, incertezas e, sobretudo, travas 
decorrentes de paradigmas rigidamente construídos sobre suas identidades e sexualidades no 
processo de socialização. 
A aproximação das personagens opera a desconstrução e construção de identidades. 
David se transforma em personagem de sua verdadeira identidade, Virgínia, que encontra em 
Claire a segurança necessária para se expor à sociedade. Claire, nitidamente investida em uma 
relação matrimonial marcada por estereótipos de gênero, especialmente nos jogos de sexo e 
prazer, em que performatizava o recato da esposa tradicional e abdicava da prerrogativa de 
satisfação própria, passa a exercer seu prazer sexual como um corte repentino na dinâmica do 
casal a partir da aproximação com sua nova amiga, Virgínia, e causa espanto em Gilles, o 
marido. 
A constância da convivência entre Virgínia e Claire faz com que identidade ou 
transidentidade da primeira já não fosse uma questão para o relacionamento entre elas e abre 
espaço para o questionamento da bissexualidade de Claire que transfere para Virgínia a tensão 
que sentia por Laura. Como reflexo dos próprios sentimentos, Claire questiona Virgínia sobre 
sua atração por homens em uma cena em que essa é assediada por um homem no cinema. 
Essa é uma das partes mais didáticas do filme, em que se torna clara a diferença entre 
identidadee sexualidade, pois Virgínia revela não se sentir atraída por homens, mas que se 
sente feliz que um homem desconhecido a tenha visto como mulher, ou seja, tenha 
reconhecido a sua identidade. 
A relação entre as duas personagens se transforma de amizade em amor, quando 
ocorre a primeira cena de sexo. Cena impactante, em que o peso da vinculação do desejo às 
designações socialmente construídas em torno dos diferentes órgãos sexuais. Claire então 
resiste, dizendo que Virgínia é homem e por isso não pode prosseguir. Há nesta parte um sutil 
questionamento em relação ao próprio casamento de Claire, haveria permissividade para 
relações com outra mulher? Ou simplesmente Claire pensou exclusivamente na satisfação de 
um desejo reprimido pela socialização? 
A negativa da identidade de Virgínia por Claire, naquele momento, leva ao ápice da 
narrativa, em que Virgínia sai em desespero com a rejeição de Claire e é atropelada. Levada 
em estado comatoso ao hospital, Virgínia é internada como David e tratada como homem. A 
personagem só desperta quando Claire a chama e veste de Virgínia, ainda no leito, e canta 
“Une femme avec toi” (uma mulher com você). 
O filme revela uma história de amor com um final feliz, destoando da história contada 
no livro em que se baseia, que tem um final trágico decorrente das dificuldades de 
enfrentamento cotidiano das questões ligadas à construção e performance de identidade e da 
sexualidade, destoantes do “legítimo” inscrito continuamente pela socialização dos corpos 
(LOURO, 2015: 17) 
Nesse caso, o cinema como veículo de comunicação foi capaz de tratar de gênero e 
sexualidade com delicadeza ímpar e fazer o espectador ponderar sobre o espectro de 
possibilidades desse universo marcado pela binaridade, sob o prisma do afeto, utilizando-se 
para isso elementos de aceitação, como a estética dos corpos, da cor e da classe social das 
personagens. 
 
2. O Caso Verônica Bolina 
 
Verônica Bolina é negra, pobre e travesti. Antes de ser presa, exibia um corpo forte, 
mas enquadrado nos padrões de beleza femininos ditados pelas revistas e desenhados em 
academias, tinha longos cabelos negros, e zelo com a maquiagem, aparecendo sempre 
maquiada em suas fotos. De fato, nada poderia diferenciar sua identidade em relação a 
qualquer outra mulher. 
Em abril de 2015, Verônica passou a ser, também, famosa. Não por mérito, mas por 
ser “O Travesti que arrancou a dentadas a orelha de um policial. Acusada de agredir uma 
idosa, Verônica foi presa em abril e levada uma delegacia da capital paulista, onde foi 
colocada em uma cela junto com homens. Rapidamente as imagens do policial com a orelha 
machucada chegaram ao conhecimento público pelas redes sociais e pelas manchetes dos 
principais noticiários do ramo do crime como espetáculo. Verônica foi então triplamente 
criminalizada e prejulgada, era agora negra, pobre, travesti, assassina de uma idosa e a 
agressora de um policial. 
No entanto, com a mesma velocidade, foram “vazadas” fotos de Verônica após o 
incidente com policial. Verônica apareceu com a cabeça raspada, os seios à mostra, o rosto 
deformado, com uniforme de presos homens, rasgado em sua região anal, ensanguentada. 
Essa imagem de Verônica veio a se somar com o assassinato que não cometeu e com a orelha 
quase arrancada do policial. Verônica estava “condenada”, ao melhor estilo da criminologia 
de Lombroso, assassina sem que houvesse morte, agressora sem que lhe fosse reconhecida a 
possibilidade de defesa. Verônica foi arrancada de sua identidade, portanto, de sua 
humanidade, foi transformada em escória, em um não ser humano pelos aparelhos de 
socialização e dominação cultural de massa. Verônica foi monstrificada, seu corpo abjeto 
(MISKOLCI, 2015: 43), despido de identidade, criou repulsa, deu audiência e retórica para 
conservadores e fundamentalistas acríticos ao que era óbvio. 
O óbvio não veio dos veículos oficiais de informação, mas de uma reação 
especialmente impulsionada pelas redes sociais, que denunciava a nítida tortura que Verônica 
sofreu em sua cela, a pretexto de suposta resistência e mau comportamento. A aplicação de 
pena sem processo, sem julgamento, a exacerbação de uma violência não autorizada por parte 
da polícia, a institucionalização da barbárie pelo Estado, a gravação de uma confissão 
induzida por um agente público que deveria protege-la, a supressão de todas as garantias que 
lhe ratificam o caráter de ser humano e são reconhecidas constitucionalmente a qualquer 
pessoa, inclusive a criminosos, a espetacularização de sua condição de não ser foram 
denunciadas por ativistas nas redes sociais, através da campanha #SomosTodosVerônica. 
A campanha conseguiu visibilidade e garantiu que Verônica fosse transferida para 
outro estabelecimento. Verônica ainda está presa aguardando julgamento pela agressão à 
idosa, foi assistida pela Defensoria Pública e processa o Estado de São Paulo pela tortura 
sofrida. Processa o Estado que lhe retirou a identidade e a humanidade, que a pretexto de 
garantir sua integridade, expos toda a sua vulnerabilidade, alimentando a espetacularização de 
sua miserabilidade humana. 
 
3. A mídia como instrumento de reprodução ou de transformação? 
 
A Constituição da República, em seus artigos 220 a 224, estabelece regras para a 
Comunicação Social. Ao lado da compreensão dos direitos fundamentais, é possível dizer que 
o livre pensamento é resguardado pela Lei máxima do Brasil, mas que, por certo, é necessário 
respeitar os direitos das demais pessoas bem como promover “os valores éticos e sociais da 
pessoa e da família”. 
Ainda que haja uma tentativa de redefinir o conceito ‘família’ pelo Legislativo 
brasileiro e por isso debates acalorados têm acontecido, é possível afirmar que a intenção do 
constituinte foi inserir parâmetros ao que se veicula nos meios de comunicação. 
Vale dizer que a leitura da Constituição é sistêmica; não se lê dispositivos isolados e, 
por isso, o artigo 221, IV, deve ser compreendido sob as lentes dos direitos fundamentais 
como mencionado acima. 
Tanto os direitos fundamentais previstos no artigo 5º quanto os fundamentos da 
República estabelecidos no artigo 1º, em especial a dignidade da pessoa humana. 
Além disso, em 2006, foi editada a Lei 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, 
que dentre outros preceitos, o artigo 8º, III estabelece que os entes federativos devem agir 
articuladamente a fim de incitar os meios de comunicação a promover o respeito aos valores 
éticos e sociais da pessoa e da família, coibindo estereótipos que perpetuem violências. 
Ao lado disso e no mesmo sentido, a Convenção de Belém do Pará, também estabelece 
no artigo 8, alínea ‘g’ que os Estados incitem os meios de comunicação a agirem em 
consonância com os ditames nacionais e internacionais. 
É evidente que tanto a Lei 11.340/2006, quanto a Convenção de Belém do Pará se 
valem do termo “mulheres”. No entanto, como dito acima, a leitura é feita globalmente e o 
respeito à dignidade da pessoa humana se sobrepõe ao preciosismo linguístico. Ademais, é 
forçoso compreender o sistema legislativo à luz dos fundamentos do Estado Brasileiro, 
elencados nos art. 1o e 3o da Constituição de uma república livre, justa e solidária, fundada 
para bem de todos sem preconceitos ou qualquer forma de discriminação. 
Além disso, é de se reconhecer a eficácia supraconstitucional dos tratados, incluindo a 
CEDAW e, sobretudo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, no sentido de se 
garantir a intepretação da legislação e dos direitos fundamentais como corolário da existência 
humana e princípios aplicáveis entre si e sobre toda a produção legislativa e judicial. 
Pondera-se, ainda, que em recente decisão o Tribunal de Justiça do Estado de São 
Paulo determinou que as medidas protetivas previstas na Lei Maria da penha sejam aplicadas 
em favor de transexual (BRASIL, 2015) ameaçada por ex-companheiro. 
Os meios de comunicação,ao lado do Estado, são atores sociais de suma importância 
no enfrentamento da violência de gênero contra a mulher, aqui entendida como 
autoidentificação, e, portanto, devem ser convocados a assumirem esse compromisso. 
Judith Butler (2015, 69) ressalta que 
 
Se há algo de certo na afirmação de Beauvoir de que ninguém nasce e sim 
torna-se mulher decorre que mulher é um termo em processo, um devir, um 
construir de que não se pode dizer com acerto que tenha origem ou um fim. 
Com uma prática discursiva contínua, o termo está aberto a intervenções e 
ressignificações. (grifo no original) 
 
Somente a coordenação de ações entre os principais atores – com atenção à mídia - é 
que resultados positivos poderão ser alcançados em especial no sentido de impedir a 
reprodução da violência contra as mulheres. Até lá, muitos embates calorosos serão 
vivenciados porque de fato nem todos são Verônicas, nem todos reconhecem o que há de 
humano em cada um de nós, mas apenas o que há de condenação inscrita em cada corpo pelos 
dispositivos de pedagogia e ordem social (FOUCAULT, 2015:86). 
 
Referências bibliográficas 
 
BRASIL. Tribunal de Justiça de São Paulo. Acórdão em segredo de justiça. São Paulo, 19 out. 2015. 
Disponível em: <http://www.tjsp.jus.br/Institucional/Imprensa/Noticias/Noticia.aspx?Id=28416>. 
Acesso em: 26 out. 2015. 
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Tradução Renato 
Aguiar. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. 
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Trad. Maria Thereza da Costa 
Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2015. 
LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. 2. ed. Belo 
Horizonte: Autêntica, 2015. 
MISKOLCI, Richard. Teoria queer: um aprendizado pelas diferenças. 2. ed. rev. ampl. Belo 
Horizonte: Autêntica, 2015. 
Comunicar no jornalismo: a dissonância na reportagem multimídia 
“transgêneros”, do TAB 
 
 
ITO, Liliane de Lucena 
Departamento de Comunicação Social (PPG-COM) 
UNESP (Bauru, SP) 
Bolsista CAPES (Doutorado) 
 
 
 
 
Palavras-chave: transgêneros; reportagem multimídia; TAB 
 
 
 
Introdução 
 
Lançada em outubro de 2014 e publicada semanalmente até a atualidade, a série 
de reportagens TAB, do Uol (tab.uol.com.br), é um exemplo de novas formas narrativas 
aplicadas ao jornalismo. Com conteúdo interativo, contém diversos recursos multimídia 
e, de certa forma, introduz um formato jornalístico muito pouco explorado pelo portal 
até então. O texto do TAB se enquadra em estilo, profundidade e tamanho no gênero da 
reportagem, sem se prender às amarras da pirâmide invertida e do lead. O layout é 
produzido conforme o tema da edição, dando ao TAB uma liberdade maior em relação 
ao projeto gráfico de conteúdos jornalísticos do Uol. 
 
 
Metodologia 
 
Neste trabalho, foi escolhida para análise a edição de número 26ª, publicada em 
27 de abril de 2015, intitulada “Transgêneros”. Buscou-se aplicar o metáporo 
(MARCONDES FILHO, 2013), com foco no relato metapórico do Acontecimento 
comunicacional no momento em que a leitura foi feita. A possibilidade de autoanálise é 
permitida nos estudos que seguem a linha da Nova Teoria da Comunicação, desde que o 
observador realize uma divisão interna entre o eu-observador e o eu-receptor do mesmo 
fato (MARCONDES FILHO, 2013). 
 
 
 
 
 
 
Resultado: O relato metapórico 
 
As imagens nos abalam. Falam-nos diretamente à alma. Envolvem e trazem o 
que há de humano em nós. Atingem um limiar profundo que nos remete ao passado, 
num movimento repleto de memória, sentimentos, reminiscências. Quando acessei a 
reportagem, senti um espanto interno. “Como pode? Tão naturalmente adaptados ao 
gênero oposto e tão violentados durante toda uma vida”, era a minha pergunta inicial, 
antes mesmo de conhecê-los, de me envolver em suas histórias. As fotografias de 
abertura, dispostas em movimento constante, ora lentas, ora mais rápidas, mostram duas 
pessoas que, para mim, são totalmente desconhecidas. Mas que, ao final da reportagem, 
me parecem próximas. Elas me fizeram pensar na minha trajetória, imaginando como 
seria se eu também fosse transgênero. 
Quando vejo as imagens de abertura, sei que são dois indivíduos que fizeram a 
transição. E, então, tudo o que se passa em minha cabeça é muito rápido e é preciso 
atenção para não me perder nos pensamentos e inviabilizar este relato. De certa forma, 
me choco, por mais contra quaisquer preconceitos que eu seja. Ao ver uma pessoa 
transgênero, nascida homem, à vontade como uma mulher de meia idade, tão 
confortável em suas roupas, com seu estilo moderno, adequadamente maquiada, 
enfeitada com colares e braceletes, além de um piercing embaixo do lábio inferior, 
chego a invejar, em um relance de interiorização daquela imagem, a cor branca e o corte 
moderno dos seus cabelos, o tom chumbo das unhas extremamente bem-feitas. 
Pergunto-me se serei tão estilosa quando chegar aos 50. 
Ao surgirem as fotos da outra pessoa, me surpreendo ainda mais. Não há 
qualquer traço feminino num corpo nascido como tal. É mesmo difícil lembrar que ele 
já fora mulher em algum momento de sua vida. Barba, pelos no corpo, unhas 
carcomidas. E agora, escrevendo este relato, percebo a força dos estereótipos no meu 
sentimento, na minha necessidade em marcar-me como feminina. E acredito que, ao 
mesmo tempo, essas marcações, por mais socialmente criadas que sejam, foram 
essenciais para a libertação desses dois sujeitos. São seus instrumentos de 
posicionamento no mundo. 
Nesta reportagem, são oferecidos caminhos para a construção da minha leitura. 
Há cinco links para conhecer um pouco mais da história dela, cuja imagem está ao 
fundo, como se olhasse para ele. E, à direita, outro caminho de leitura com a mesma 
quantidade de opções, para saber mais sobre ele que, por sua vez, parece olhar para a 
direção dela. O olhar dela me parece sereno; o dele me parece pensativo. Mas não posso 
ter certeza dessas percepções. 
Ela e ele são Letícia e Alexandre. 
Nos olhos dela e dele, há um cintilar diferente. Denotariam as agruras 
testemunhadas no decorrer de uma vida? Revelariam um sentimento de desencaixe de 
mundo? Mostrariam a força interna, a liberdade conquistada? Não sei. Mas mexem 
comigo. Não são olhares comuns, que passam por mim e não me dizem nada. Tocam-
me. Fazem-me refletir sobre o quanto ainda estamos presos a parâmetros, padrões, 
modelos, conceitos, “normalidade”. A luta não foi fácil para eles. E ainda não o é, para 
ela e ele e para tantos outros que se escondem por trás de máscaras eternas. Uma forma 
de prisão em seu próprio corpo. 
 
 
 
Leio as frases que se referem a ele e a ela, mas preciso repetir a leitura para 
entender melhor, mesmo que sejam tão simples. O que me causa dificuldade não é a 
sintaxe ou a semântica. É a transposição da frase para o meu interior. “Letícia Lanz é 
escritora e psicanalista. É casada com Angela, pai e avô. Aos 50, após um infarto, disse 
adeus a Geraldo”. 
Ok, até o primeiro ponto final tudo está claro. Tudo está normal. Até casada com 
Angela, também quase comum. Tenho vários amigos gays e alguns, casados no papel. A 
união gay é possível no estado de São Paulo, nos Estados Unidos e em outros pontos do 
mundo. É um direito conquistado. Mas quando vem o trecho “pai e avô”... parece que 
Figura 1. Imagem de abertura da reportagem analisada 
não entendi bem a frase. Volto a lê-la e vejo que não houve erro de escrita. E sei que o 
estranhamento não é por preconceito. Mas porque automaticamente penso como seria 
viver dentro de parâmetros sociais tradicionais, casar e ter filhos e, depois de tudo, 
existir uma mudança tão geral. A ruptura de todo o transgênero com o gênero do 
nascimento é um rompimento com o passado. Mas há laços e relações que não podem 
ser rompidos. Então, martela a dúvida na cabeça: se foi pai,continua sendo pai, depois 
que se torna mulher? Ou será que é mãe e avó, ao invés de pai e avô? A mudança de 
gênero, ainda pouco debatida, é capaz de causar esse tipo de indagação. 
Mas daí, reflito: “Ela, Letícia, é quem tem o direito de ser chamada como bem 
entender. É ela quem, durante muito tempo, lutou, mesmo que internamente, contra a 
imagem que a denominava como Geraldo. E, se hoje, deseja ser ainda chamada de pai 
e avô, mesmo num corpo de aparência feminina, é seu direito também”. 
Opto por ler primeiro a história de Letícia. É uma guerreira. Uma intelectual. 
Cita Simone de Beauvoir, Lacan... Admiro-a. Mas o que me toca mais é o fato de como 
lidou com a situação de ter uma vida dupla: “montando-se” como mulher em viagens e 
longe da família; construindo um quarto secreto onde teria liberdade para ser quem 
gostaria de ser, com bonecas, maquiagens, roupas e sapatos femininos. Compreendendo 
que a vontade em ser mulher não era apenas no estético, no exterior, mas algo que vinha 
realmente da alma. Uma maneira de enxergar o mundo. 
E me chama a atenção principalmente a história de amor entre Letícia e Angela. 
Coloco-me no lugar de Angela. Imagino quão forte é essa mulher para aceitar a 
transição do marido. Penso que esse é um tipo de amor verdadeiro; não se preocupa com 
o julgar alheio, não se dobra diante das maiores dificuldades; é capaz de enxergar o 
outro em sua alteridade e, ainda assim, amá-lo. Sinto-me emocionada com isso. 
A reportagem me agrada em seu aspecto visual. Gosto do layout, da maneira 
como foram dispostos fotos, legendas, texto. E principalmente porque colocam a 
história na boca de quem viveu. Em alguns vídeos curtos, Letícia conta sua história. É 
ela quem diz, por exemplo, como escolheu seu nome. Letícia significa alegria e Lanz, 
guerreira. “Sou uma pessoa apaixonada pela vida. Descobri isso quando tive um infarto. 
E pensei ou fico aqui na UTI para o resto da vida, não voltava para o mundo, ou eu 
voltava e ia ser uma amante da vida”, diz. 
Pausa, respira e pondera: “é o que eu sou hoje”. 
Num dos vídeos, feito em sua casa, uma residência confortável e bem decorada, 
ela mostra os porta-retratos espalhados pela mobília cujas fotos são de antes da 
transição. Para mim, revela como esta mudança foi bem-resolvida. Não há uma negação 
total do passado, uma necessidade em apagar a todo custo aquilo que aconteceu antes. 
Foi uma vida feliz, de certa forma, e agora ainda é, com a diferença de Letícia se sentir 
mais livre. 
Agora, vou ao encontro da história de Alexandre Peixe. Assim como eu, quando 
vi as fotos dele na abertura, a jornalista que escreve o texto também inicia dizendo que, 
não fosse ele a andar em sua direção no local marcado para a entrevista, a Igreja 
Consolação, em São Paulo, ela também certamente não saberia de sua identidade. 
Alexandre não tem nenhum traço feminino. Barbado, braços cruzados, olhar receoso. 
Os braços cruzados são para esconder as mamas. Outras estratégias para camuflar o 
volume dos seios são permanecer mais gordinho e usar, diariamente, colete e blusa bem 
apertados por baixo da camiseta. 
 
 
A história de Alexandre é diferente da de Letícia. Ela, que conquistou o sucesso 
profissional, se assumiu, defendeu dissertação sobre gênero, não parece (em meu 
julgamento interior) sofrer grandes barreiras profissionais. Ao menos não foi dito no 
texto. Alexandre, por sua vez, não consegue emprego, mas sonha em trabalhar com 
crianças, algo que já foi, um dia, antes da transição, seu ganha-pão. Imagino, nessa hora, 
os olhos preconceituosos de alguns pais que encaram deixar o filho aos cuidados de um 
transgênero como algo perigoso para a formação da criança. E me dói, pois penso que 
Alexandre faria seu trabalho com muito mais amor e vocação do que tantos por aí. 
Figura 2. Alexandre e sua tática em cruzar os braços para camuflar os seios 
Parto para os vídeos. O primeiro, em que ele se apresenta, revela o único traço 
feminino: a voz. Apesar do corpo masculinizado, a voz tem um resquício de seu gênero 
anterior. Não seria perceptível a alguém que não sabe o sexo de nascimento de 
Alexandre. Mas como tenho esta informação, percebo que a voz é diferente. E me dou 
conta de que talvez seja assim mesmo no geral: quando se tem consciência do gênero 
biológico de um transgênero, nos esforçamos para captar algum resquício que o 
relacione ao biológico. 
Isso me faz compreender porque, no caso de Alexandre e no caso de Letícia, 
ambos querem ser reconhecidos por suas identidades construídas por eles: como Xande 
(como ele mesmo se refere) e Letícia. Sem que haja esse estranhamento ou essa 
indagação do outro em relação a algo tão íntimo da vida deles: o gênero e a sexualidade. 
“Eu quero ser o Xande. Ninguém pergunta pra você: ‘você é trans? É lésbica?”. Não, eu 
quero ser o Xande”, explica, à repórter, em vídeo feito num local público, onde se 
podem ver outras pessoas transitando enquanto se dá a gravação. 
Neste mesmo vídeo, ele conta que tem 42 anos e é pai de uma garota de 24 e avô 
de uma menina de pouco menos de dois anos. Agora, não sinto a estranheza inicial que 
senti quando li a frase sobre Letícia. Por quê? Indago-me, quero saber. Essa diferença 
em sentir o que ouvi e li deve ter uma razão. Esforço-me para entender. Isso causa uma 
irritação em mim. Por quê? 
Chego a uma questão que me abala: haveria certo machismo de minha parte 
achar mais chocante uma pessoa nascida, socialmente mostrada e aceita como homem 
durante muito tempo mudar de gênero após os filhos estarem em fase adulta? Por que a 
frase de Alexandre não me surpreende tanto? Será que internalizo em mim, mesmo sem 
conseguir desdobrar cognitivamente, ou seja, mesmo que em um relance muito rápido, a 
história dos dois transgêneros? Sentiria mais, no meu caso, se meu pai revelasse, depois 
de muito tempo, a real identidade de gênero com a qual quer ser aceito dali pra frente? 
Talvez. Ou talvez isso aconteça porque, no decorrer da primeira história, a de Letícia, 
eu tenha me aberto mais ao tema. Teria acontecido uma criação de sentido? Para mim, 
sim. Mas acredito que sejam as duas coisas. E a ideia de ser machista, mesmo que de 
uma maneira involuntária, arraigada, mínima e inconsciente, me abala. Irrita-me e me 
faz refletir. 
Assisto ao segundo vídeo. Não tem mais do que um minuto e meio. Mas prendo 
a respiração antes do play. A razão é o título: “Estupro”. Sei que dali não virá coisa boa. 
Não vem, realmente. Choro um choro contido quando Alexandre diz que, se em 
seu grupo de amigos nunca houvera grandes problemas em ser o que era, um dia, aos 19 
anos, num jogo de futebol, foi estuprado por quatro rapazes no banheiro da escola. A 
justificativa? Ele tinha que gostar das coisas que as meninas gostam. Lembro-me de 
outros casos, em outros textos jornalísticos, filmes e seriados, de violência sexual contra 
gays e transgêneros. 
Começo a ver outro vídeo, em que Alexandre relata que sua filha é fruto desse 
estupro coletivo. Choro novamente. É impossível não se comover com seu relato. É 
impossível ficar imune à sua fala, quando diz que criou a filha com amor e só teve 
coragem de dizer como foi gestada muito tempo depois. Mergulho no paradoxo por 
comparar o amor desse pai/mãe com o desamor de tantos pais por aí. Preciso me 
recompor. Passa, mas um aperto no peito continua. 
Alexandre é transgênero e sempre namorou meninas. Desde muito pequeno, já 
se interessava pelo universo masculino. Seu arsenal infantil eram bolinhas de gude e 
carrinhos de rolemã; as bonecas ganhadas pela mãe ficavam esquecidas de canto. E 
desde tão criancinha, a garotinha da foto que aparece no vídeo (e faz lembrar-me da 
minha filha, de quatro anos) queria parecer um menino. A ponto de se manter próxima 
das crianças que tinham piolho para que a mãe cortasse seu cabelo curtinho. Nesse 
momento, rio por dentro. Acho graça na forma como Alexandre, então Alexandra,conseguia se tornar mais próxima da imagem à qual claramente pertence. 
 
 
Considerações finais 
 
Finalizo a leitura com a sensação de ter mergulhado em histórias fantásticas. 
Porque me apresentaram um mundo muito longe da minha realidade cotidiana. E me 
comunicaram, no sentido de me violentarem, ao mostrarem a complexidade envolvida 
na questão de gênero. Em vários momentos, a reportagem foi, para mim, um fato 
estético, porque me fez sentir, fez com que me abrisse ao entendimento, chegando ao 
questionamento de mim mesma, sobre o que eu acredito que sou e defendo. 
Neste artigo, intencionou-se realizar um relato metapórico de uma reportagem 
multimídia. Considero que, em minha leitura, houve realmente um Acontecimento 
comunicacional (propositalmente com “a” maiúsculo), uma vez que inevitavelmente 
ocorreu um entendimento à alteridade do outro e uma apreensão do que foi descrito no 
texto. Os componentes da reportagem – texto, imagens e vídeos – certamente 
influenciaram nessa comunicação efetiva. Foi com esta leitura que houve a faísca e a 
agitação do que estava em mim sedimentado e, agora, não está mais. 
 
Referências 
 
CUNHA, K. M. R. da. (2013). Entre Hermes e Poseidon: o jornalismo na teoria do 
acontecimento comunicacional. Tese (Doutorado em Teoria e Pesquisa em Comunicação) - 
Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: 
<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27152/tde-06052014-143942/>. Acesso em: 
2015-07-25. 
 
 
LUHMANN, N. (2005). A realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Paulus. 
 
 
MARCONDES FILHO. (2002). O espelho e a máscara: o enigma da comunicação no caminho 
do meio. Ijuí-RS: Editora Unijuí. 
 
 
MARCONDES FILHO, C. (2004). O escavador de silêncios. Formas de construir e 
desconstruir sentido na Comunicação. São Paulo: Paulus. 
 
 
MARCONDES FILHO, C. (2008). Para entender a comunicação: contatos antecipados com a 
Nova Teoria. São Paulo: Paulus. 
 
 
MARCONDES FILHO, C. (2013). O rosto e a máquina. O fenômeno da comunicação visto 
pelos ângulos humano, medial e tecnológico. São Paulo: Paulus, volume 1. 
 
 
MARCONDES FILHO, C. (2014). Das coisas que nos fazem pensar. O debate sobre a Nova 
Teoria da Comunicação. São Paulo: Ideias & Letras. 
 
 
QUEIROGA, B. A. de. (2012). Percepção e impacto no fotojornalismo. Fotografia e 
comunicação. Dissertação (Mestrado em Teoria e Pesquisa em Comunicação) - Escola de 
Comunicações e Artes, University of São Paulo, São Paulo, 2012. Disponível em: 
<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27152/tde-17042013-111232/>. Acesso em: 
2015-08-17. 
 
 
TEIXEIRA, R. E. (2010). Encanto e entorpecimento: um caminhar por entre imagens 
contemporâneas. Dissertação (Mestrado em Teoria e Pesquisa em Comunicação) - Escola de 
Comunicações e Artes, University of São Paulo, São Paulo, 2010. Disponível em: 
<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27152/tde-17082011-111807/>. Acesso em: 
2015-08-17. 
 
 
A jornalista esportiva em jogo: a produção de sentido sobre a apresentadora 
Renata Fan em comentários no Facebook 
 
Mariana Ferreira Lopes 
Bruna Tamanini Dorigon 
Universidade Norte do Paraná, Londrina, PR 
Universidade Estadual Paulista, Bauru, SP 
 
Introdução 
No campo jornalístico, assim como em grande parte das profissões, as mulheres 
percorreram um longo caminho até que pudessem ocupar seu espaço. Segundo Maria 
João Silveirinha (2012, p. 169), “a linha de participação das mulheres nos jornais [...] é 
diversa, descontínua e ao pulso de um país onde os homens dominavam os meios de 
comunicação que garantiam a continuidade da sua visão cultural, social e política”. É 
importante destacar que autora fala em relação à representatividade feminina na Europa, 
mais especificamente em Portugal. Observa-se, no entanto, que, também no Brasil, o 
gênero era fator determinante para o ingresso de um profissional no mercado 
jornalístico. 
Hoje em dia, após muitos anos de luta e engajamento, tal realidade vem sendo 
modificada. Segundo uma pesquisa realizada pelo programa de pós-graduação em 
Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em convênio 
com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em 2013, existiam 145 mil 
jornalistas com registro profissional no Brasil. Desses, 64% eram mulheres brancas, 
solteiras e com até 30 anos. Os homens representavam os outros 36%. No entanto, a 
presença feminina no jornalismo esportivo ainda é menor do que a masculina e é nesta 
área jornalística, marcadamente androcêntrica, que nossa pesquisa está focada. 
Dentre as jornalistas esportivas da televisão aberta brasileira, Renata Fan1 foi a 
primeira a comandar uma mesa redonda esportiva diária. Por essa característica, nossa 
pesquisa objetiva identificar como a ideologia da dominação masculina se faz presente 
na produção de sentido sobre a apresentadora do programa Jogo Aberto. Para tanto, 
 
1
 Nascida na cidade de Santo Ângelo no Rio Grande do Sul, Renata Fan é formada em Direito e Jornalismo. Antes 
disso trabalhou como modelo e em junho de 2003, Renata teve sua primeira oportunidade na Rede Record ao gravar 
um programa piloto para a área de esportes. Aprovada no teste, ela passou a apresentar o programa Terceiro Tempo 
ao lado de Milton Neves, todos os domingos à noite, e o Debate Bola, ao meio-dia, no mesmo canal. Desde 2007, 
Renata apresenta o programa Jogo Aberto, de segunda à sexta, na Rede Bandeirantes. 
 
foram analisados os comentários sobre dois vídeos postados no seu facebook, cuja 
amostragem dos textos analisados foi realizada de maneira aleatória, buscando 
compreender a já-dito presente neles. Trata-se de um estudo exploratório, cujos 
apontamentos servirão de base para interpretações futuras sobre a mulher no jornalismo 
esportivo. 
 
Metodologia 
As formas do sujeito ser, estar e experienciar o mundo têm se reconfigurado 
devido à midiatização, definida por José Luiz Braga (2012, p.39) como um processo 
interacional de referência. Um importante conceito que deriva da midiatização consiste 
na circulação e na ideia do fluxo adiante. A premissa de que o receptor é um sujeito 
ativo no processo de comunicação modificou o sentido de circulação, que passou a ser 
vista como “o espaço de reconhecimento e dos desvios produzidos pela apropriação” 
(BRAGA, 2012, p.38). O autor propõe que alarguemos esta noção de circulação das 
relações diretas que se configuram entre emissão e recepção. Braga nos convida a 
pensarmos sobre os encaminhamentos que o receptor dá a sua produção de sentido em 
diferentes espaços que vão além do seu contato direto com o meio de comunicação. 
Trata-se do fluxo adiante que, segundo Braga (2012), pode ocorrer de diversas formas: 
de comentários à geração de outros produtos midiáticos, como, por exemplo, os 
comentários de facebook. 
A circulação e o fluxo adiante se articulam diretamente com o entendimento de 
Orozco-Gómez (2014) sobre a recepção midiática enquanto processo que não se finda 
na interação entre indivíduo e mídia, mas se estende para outros cenários onde os 
conteúdos transmitidos são rearticulados nas experiências concretas do receptor. Estas 
recepções que acontecem em cenários além do contato direto com o televisor são 
denominadas por Orozco-Gómez como recepções secundárias e terciárias, já a recepção 
televisiva de primeira ordem corresponde à recepção direta, suscetível às mediações 
situacionais e às decisões prévias do receptor. 
Nossa pesquisa se debruça na análise da ideologia da dominação masculina 
presente na produção de sentido dos telespectadores do programa Jogo Aberto sobre a 
apresentadora Renta Fan, configurada nas recepções secundárias e terciárias a partir da 
análise dos comentários na página oficial2 da jornalista no facebook. Foram 
selecionados aleatoriamente os comentários sobre dois vídeos postados em setembro de 
2015,que são trechos da mesa redonda veiculada nos dia 10 e 17. Nestas postagens, a 
apresentadora comemora a vitória de seu time, o Internacional de Porto Alegre, sobre o 
Palmeiras e o Corinthians, respectivamente, e zomba dos outros apresentadores, 
torcedores de tais equipes. 
 A metodologia empregada foi a Análise do Discurso, tendo em vista que, o 
texto dos comentários, enquanto nossa unidade inicial de estudo, nos remete ao discurso 
que “se explicita pela sua referência a uma outra formação discursiva que, por sua vez, 
ganha sentido porque deriva do jogo definido pela formação ideológica dominante 
naquela conjuntura” (ORLANDI, 2007, p.63). O foco da nossa pesquisa consiste na 
identificação dos interdiscursos, ou seja, “todo o conjunto de formulações já feitas e já 
esquecidas que determinam o que dizemos”(ORLANDI, 2007, p.32) e que nos remetem 
à noção da dominação masculina, a partir de uma ideologia adrocêntrica. Selecionamos 
para este estudo comentários representativos de grupos de enunciados que nos remetem 
ao discurso de uma ideologia de supremacia do homem. Assumimos aqui, sustentadas 
por Orlandi (2007) que o dizer é marcadamente ideológico e se filia a uma rede de 
sentidos do já dito, “uma memória afetada pelo esquecimento” (p. 34). Desta forma, os 
interdiscursos afetam a maneira pela qual o sujeito significa em uma determinada 
situação discursiva. 
 
Resultados 
Simone de Beauvoir (2009, p. 207) nos explica que os homens definiram sua 
superioridade em relação ao feminino, criando um sistema codificado, formado por 
estruturas e configurações que se voltaram contra as mulheres, que passaram a ser 
compreendidas como o Outro, o ser que se opõe ao homem e coloca-o frente a si 
mesmo. Isso, segundo a autora (2009), faz com que eles sintam necessidade de se 
reafirmarem. Para Pierre Bourdieu (2003), este cenário de submissão é produto de uma 
espécie de violência simbólica, abrigada no patamar psicológico, ideológico e social da 
humanidade e vivenciada através de regras e condutas, estas que se conjugam no 
habitus, ou seja, no sistema estruturado que age no inconsciente dos indivíduos, 
determinando o viés de suas atitudes e pensamentos. 
 
2
 A página oficial no Facebook de Renata Fan existe desde e 2010 e possui 2.450.543 curtidas 
O esporte e o jornalismo podem ser consideradas instituições legitimadoras de 
uma percepção tradicionalmente androcêntrica (BUENO, 2015b). Ao analisar os 17 
programas de esportes veiculados na televisão aberta brasileira, Noemi Bueno (2015a) 
verificou a existência de 64 profissionais – entre repórteres, editores e apresentadores – 
dentre os quais 12 são mulheres e 52 homens. Tal noção se reafirma quando analisamos 
o enunciado “mulher e futebol não combinam”, comentário postado por um homem no 
dia 10/09, e percebemos a presença de um discurso que reforça a ideia de que apenas o 
sexo masculino é capaz de analisar e gostar desta modalidade esportiva, assim como de 
que à mulher só competiriam assuntos mais frívolos. 
 Pierre Bourdieu (2003) afirma que a diferença biológica e anatômica entre os 
sexos pode ser compreendida como justificativa da diferença entre os gêneros e também, 
se não principalmente, da divisão social do trabalho na realidade social. De acordo com 
Paulo Vinícius Coelho (2003, p. 34), as mulheres começaram a aparecer no jornalismo 
esportivo brasileiro, de fato, em meados da década de 1970. Antes disso era quase 
impossível vê-las na editoria esportiva, já que este era um dos locais prioritariamente 
masculinos. Segundo Anelise Farencena Righi (2006), a participação mais efetiva das 
mulheres no jornalismo esportivo vem ao encontro ao acesso ao esporte que também se 
democratizava. Antes disso, os mesmos, em geral, eram praticados, discutidos e 
assistidos por uma grande maioria de homens. Foi com as mulheres tornando-se atletas e 
tendo acesso à prática esportiva que cresceu seu entendimento sobre o assunto. 
O enunciado postado por um homem, em 18/09, “ So ta apresentando porq eh 
gostosa né!! Talento vem beeeemm depois! ! E já repararam q a maioria das 
apresentadoras de esportes são gostosas! ! Porq será? !! (sic)”, é exemplo de um 
discurso para qual Maria Rita Khel (2004, p.175) nos chama a atenção: o fato de que o 
corpo, na sociedade atual, “pode determinar oportunidades de trabalho. Pode significar a 
chance de uma rápida ascensão social”. Neste caso, sendo o jornalismo e o esporte 
também responsáveis pela perpetuação da dominação masculina, a produção de sentido 
recai na premissa de que é pelas características do seu corpo que Renata Fan se mantém 
em sua posição de trabalho. 
A produção de sentido da apresentadora enquanto objeto, em comentários sobre 
o seu corpo, é um dos mais contundentes vieses pelo qual a ideologia da dominação 
masculina se materializa. Tal noção ideológica pode ser observada no comentário mais 
curtido, foram 1353 likes, entre as postagens analisadas. O enunciado “renata minha 
querida, foda-se o Internacional, o povo brasileiro só quer saber quando vc (sic) vai 
posar pelada? um grande beijo”, postado por um homem em 17/09, remete à ideia de 
que a mulher, em nossa sociedade, é vista como objeto erótico, enquanto associada 
sexual do homem (BEAUVOIR, 2009). 
A redução do corpo feminino ao estado de objeto se concretiza como um 
exercício de poder masculino também observado em comentários que tratam da 
vestimenta de Renata Fan, sobretudo na postagem do dia 17/09, quando ela trajava um 
vestido vermelho justo e decotado. Observamos este discurso em textos tais como “eu 
assisti alegre pq esse decote ai ta loco pq a mao chega a treme (sic)”; “ficou louco 
quando ela vai com esse vestido vermelho. Fico na torcida quando o inter joga e torço 
pra ele ganha. Renata Fan gostosa pra caralho. Posa nua (sic)”; “Gostei do decote, dava 
pra abrir mais kkk (sic)”, “Na moral Renata Fan, não prestei atenção em mais nada no 
programa, a não ser no seu decote”. A mesma formação discursiva é constatada no texto 
postado em 18/09, no qual um homem inicialmente carrega um discurso de ruptura da 
concepção que mulher não deve tratar de futebol 
 
„Grande Renata Fan‟, jornalista e comentarista de futebol competentíssima da 
TV Band!!! É uma grande torcedora de seu querido clube Internacional de 
Porto Alegre, no sul. Sabemos que o ambiente futebolístico é muito machista, 
onde trabalha (sic) muito mais homens do que mulher, pois bem, é nesse 
universo masculino que ela comanda com grande maestria, grandes debates 
esportivos entre seus colegas e convidados que comentam sobre as vitórias e 
derrotas do seu clube durante e final de semana!!!! Ao falar sobre os clubes, 
ela fala com tal charme e graciosidade, que sem saber, ela nem percebe que 
enlouquece o universo masculino, UAU (sic)!!!!!!!!!!!!!!! 
 
Bourdieu defende que o próprio ato sexual em si exerce uma relação de 
dominação, já que é construído e reproduzido de acordo com o princípio de divisão 
fundamental entre o feminino e o masculino: o desejo masculino reflete uma intenção 
de posse, de dar prazer para se sentir fonte de prazer, enquanto o desejo feminino é o de 
ser possuída, de entregar-se à dominação, e tal condição se reflete também no assédio 
sexual (BOURDIEU, 2003, p. 31). O reconhecimento erotizado de dominação é 
observado nos discursos para os quais os enunciados nos remetem: “Renata vem deitar e 
rolar na minha cama e deixa o Inter pra outro dia (sic)” e “ eu também quero ir nessa 
mamãe gostosa e chupar esses peitos lindos”, ambos postados por homens, nos dias 
17/09 e 30/09 respectivamente. 
Em suma, os comentários analisados neste ensaio, que se mostraram 
representativos de outros textos, remetem à ideologia da dominação masculina a partir 
de dois discursos. O primeiro refere-se à ideia de que o esporte, especificamente o 
jornalismo esportivo, não é um espaço a serocupado pelas mulheres e quando o é, trata-
se de uma presença marcada preponderantemente pelos atributos do corpo feminino. O 
segundo, relacionado ao primeiro, reforça a noção da mulher como objeto associado ao 
homem, que na sexualidade exerce a sua dominação. Sabemos que tal análise não 
esgota a produção de sentido sobre a jornalista Renata Fan pelos seus telespectadores, 
mas esperamos contribuir para discussões sobre os discursos em torno da mulher 
enquanto jornalista esportiva. 
 
Referências bibliográficas 
BRAGA, J. Circuito versus campos sociais. In: JANOTTI JUNIOR, J.; MATTOS, M.; 
JACKS, N. (orgs). Mediação & Midiatização. Salvador: EDUFBA; Brasília, Compós, 
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BEAUVOIR, S. Os mitos. In: BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova 
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BRAVO, D. V. T. Elas assumiram o comando. As mulheres jornalistas no mundo do 
telejornalismo esportivo. Viçosa: s.n., 2009. 
BORDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro. 3ª ed., 2003. 
BUENO, N.P. A participação quantitativa feminina em programas esportivos na 
televisão aberta In: Caderno de resumos da XVII Jornada Multidisciplinar – 2015: 
"Diversidade, Acessibilidade e Direitos: Diálogos com a Comunicação" e VIII 
Encontro de Direitos Humanos da Unesp: "Universidade, Violências e Educação 
em Direitos Humanos"/ Larissa Pelucio e Clodoaldo Meneguello Cardoso – Bauru: 
UNESP-FAAC, 2015a. Disponível em < 
http://www.faac.unesp.br/Home/Departamentos/CienciasHumanas45/2015-/caderno-de-
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Sociedade, vol. 21, 2012, p. 165 – 182. 
 
 
 
 
A Transexualidade nos Grupos Virtuais do Facebook 
 
Pontes, Júlia Clara de 1 
Silva, Cristiane Gonçalves da 2 
 
1 Graduanda de Psicologia – Universidade Federal de São Paulo campus Baixada 
Santista. 
2 Professora Adjunta do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva, 
Universidade Federal de São Paulo campus Baixada Santista. 
Financiador: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 
 
Palavras-chave: transexualidade, mídias digitais, gênero. 
 
INTRODUÇÃO: 
A internet, dentro do campo das redes virtuais, inaugura, anuncia transformações e 
deslocamentos que parecem produzir novas possibilidades de emergência no que diz 
respeito a modos de subjetivação e de relação entre sujeitos, inserindo-se rapidamente 
no cotidiano (NUSSBAUMER, 2008). Nesse contexto, debruçar-se sobre as 
problemáticas que se desenham no contemporâneo instala novos desafios e tensões nos 
caminhos metodológicos mais usuais, abrindo para as experiências em rede, os espaços-
outros de sociabilidade virtual e demais composições inventivas nos seus desafios e 
potenciais que, por fim, exigem novas estratégias de experimentação e de produção de 
conhecimento. Assim, neste estudo, interessou-nos a intersecção de campos eleitos 
como ponto de partida e de reflexão – redes sociais e dissidências de gênero. Objetivou-
se compreender como são constituídas e tecidas as redes discursivas sobre 
transexualidade entre participantes autodeclarados/as transexuais de grupos virtuais da 
rede social Facebook e compreender como atuam essas redes nos processos de produção 
de subjetividade desses sujeitos e na configuração dos próprios espaços de sociabilidade 
virtual. 
 
METODOLOGIA: 
Estudo qualitativo realizado em etapas, sendo a primeira etapa delas, mapeamento dos 
grupos virtuais existentes no Facebook e organizados a partir da temática da 
transexualidade. Foi utilizada a própria ferramenta de busca do Facebook, inserindo 
palavras-chave que tinham ligação com o nosso tema de interesse (ex. transexualidade, 
transexuais, transgêneros etc.). Os dados foram organizados em uma planilha, 
totalizando 170 grupos encontrados e registrados. Destes grupos, foi feita uma seleção 
de grupos, chegando a 21 grupos organizados a partir de três eixos: descrição, número 
de participantes e movimentação/dinâmica. Os grupos selecionados tinham em comum 
a promoção de debates que giravam em torno de temáticas de gênero, sexualidade, 
corpo e identidade, se reunindo sob a égide da transexualidade, produção de 
corporalidades e tecnologias do corpo, agenciamento de encontros afetivos, discussões 
políticas e exercício de cidadania. 
Concluída a etapa de mapeamento e seleção, nos detivemos na escolha de uma 
ferramenta como forma de aproximação e experimentação do campo, levando em conta 
a intersecção entre transexualidade e a dimensão virtual das redes sociais no Facebook. 
Como possibilidade frente aos desafios das nossas inquietações e a dimensão virtual do 
campo, elegemos a Plataforma Google Docs. como estratégia de contato com as 
participantes1 dos grupos. Apostamos em um questionário constituído por questões 
abertas, tendo em vista a preocupação em dar margem aos fluxos de informação e 
conhecimento produzidos, agenciados e referidos pelos/as interlocutores/as dentro e 
como parte do contexto da rede, na tentativa de identificar suas implicações em relação 
ao tema proposto no estudo. 
Após ter sido produzido e estruturado, o questionário foi inserido na plataforma 
Formulários do Google Docs., tornando-se assim disponível para acesso mediante o 
compartilhamento do link dentro dos grupos virtuais selecionados após o mapeamento. 
O contato com as interlocutoras foi feito via grupos virtuais, de maneira que não 
houveram encontros presenciais para a aplicação do questionário, sendo este acessado e 
preenchido online por meio de computadores ou outros equipamentos conectados à 
internet. Os dados inseridos pelas interlocutoras no questionário online foram 
armazenados no servidor Google, já vinculados a uma planilha eletrônica que pôde ser 
acompanhada durante toda etapa de aplicação, oferecendo a possibilidade de 
 
1 Optamos por usar apenas a flexão feminina nos substantivos 
visualização do andamento da pesquisa em tempo real. O questionário ficou disponível 
para preenchimento no intervalo de dezembro de 2014 a fevereiro de 2015. 
Ao final da coleta de dados, constatou-se mediante a categoria de autodeclaração do 
questionário, que participaram do estudo um número de 35 pessoas, sendo que dentre 
essas, estavam homens e mulheres transexuais, transexuais não-binários/es, além de 
outras denominações que não constavam como opção inicial. Para participar do estudo, 
os critérios estabelecidos consistiam em: se (auto) declarar como transexual; ter 
completado 18 anos ou mais na data de início das entrevistas; participar dos grupos 
virtuais que reúnem pessoas transexuais; aceitar participar do estudo, através da leitura 
do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. 
O manejo dos dados seguiu os mencionados por Minayo (2012), com parte dos 
procedimentos empregadosna análise de conteúdo utilizada na pesquisa qualitativa, 
onde se encontram: a categorização, que compreende a classificação dos elementos já 
decompostos que integram o material a ser analisado, diferenciado e posteriormente 
reagrupando esses elementos de acordo com critérios previamente definidos em 
categorias; Inferência, como fase intermediária entre a descrição e a interpretação onde 
se opera uma dedução lógica sobre o conteúdo da análise em questão; Interpretação, 
onde discute-se os resultados da pesquisa interpretando-os com o auxílio dos referencias 
teóricos adotados com a intenção mesma de produzir conhecimento. As categorias 
utilizadas para agrupar os dados foram elaboradas de acordo com a aproximação com o 
tema e a partir da leitura das respostas dos/as interlocutores/as, pensando igualmente 
nos objetivos do estudo. 
O diálogo com os dados foi realizado a partir dos referenciais que se organizam como 
parte da Teoria Queer, que pressupõem uma posição epistemológica que não se delimita 
apenas à identidade, mas como um movimento voltado para os processos de produção 
das diferenças, buscando pensar a instabilidade e a precariedade das identidades como 
forma de tocar o campo de forças e tensões implicado nessas figuras, bem como as 
negociações, conflitos e disputas constitutivas das posições ocupadas pelos sujeitos. 
(LOURO, 2001). Utilizou-se também como subsídio teórico a Teoria Construcionista, 
tomando os conhecimentos e as informações a respeito do tema como construções 
sociais históricas, atravessadas por formações sociais e culturais específicas. 
(MINAYO, 2012, pg. 39). 
 
 
RESULTADOS: 
Ao nos debruçarmos sobre as falas das interlocutoras, um dos elementos que 
atravessavam constantemente os relatos, era a caracterização dos espaços de 
sociabilidade dos grupos virtuais como abertura à produção e agenciamento de vínculos. 
O grupo emergia como dimensão proporcionadora de estabelecimento de contato entre 
as participantes, aproximando-as mediante operações dialógicas de troca que, enquanto 
processo, criavam condições de identificação e compartilhamento de sentidos e 
significados nas experiências e relatos das participantes, parecendo assim compor uma 
rede que, virtualmente, se construía na composição comum a partir das singularidades. 
"Foi através do debate com outros indivíduos trans que eu me descobri 
enquanto trans não-binário, em particular ao conhecer pessoas com 
experiências muito parecidas com as minhas. Acredito que os grupos 
colaborem para a integração e união das pessoas transexuais, que são 
excluídas de todos os espaços da sociedade binarista patriarcal, fazendo com 
que vejam que têm outras pessoas passando pelas mesmas situações, e 
podendo assim se apoiar mutuamente nesse processo doloroso” 
(TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO). 
 
Um dos elementos em jogo nessa rede trazido pelas interlocutoras era seu potencial de, 
paradoxalmente, romper com um sentimento de isolamento, mesmo que as participantes 
eventualmente não se deslocassem geograficamente com a finalidade de um encontro 
presencial, oferecendo nesse movimento, condições para a produção de uma experiência 
de coletividade e pertencimento, como efeito do acolhimento e compreensão das 
experiências compartilhadas entre os sujeitos. É nesse inter-jogo de trocas que as 
interlocutoras localizaram também processos de identificação e (re)significação das 
próprias experiências e de si enquanto sujeitos, aparecendo em alguns relatos a noção de 
uma construção identitária. 
Observado como elemento comum dos relatos, a possibilidade de encontro com outras 
pessoas que compartilhavam algo em semelhante relativo à sua experiência de gênero, 
dentro do contexto de uma rede dialógica de trocas virtuais, surgia em contrapartida aos 
espaços off-line da vida das interlocutoras, que afirmavam ser essa sua única forma de 
contato com outras pessoas transexuais. Estabelece-se uma dualidade, tendo em vista o 
que se realiza fora do espaço das redes sociais, e o que é ofertado virtualmente por ela, 
desenhando uma demanda e, ao mesmo tempo, uma interlocução entre esses dois 
âmbitos. Os espaços off-line foram caracterizados, em oposição ao espaço on-line, como 
excludentes, marcados pela possibilidade de não-acolhimento. Contudo, não se excluiu 
dos espaços dos grupos virtuais os tensionamentos, riscos, disputas e aspectos 
relacionados a uma violência que ganha forma específica no campo virtual. 
Quando interpelados a respeito dos possíveis desconfortos vividos dentro dos grupos, as 
interlocutoras mencionaram a reprodução de estereótipos de gênero, bem como a 
afirmação de uma legitimidade da performance de gênero, frente à outras menos 
legítimas, que seriam autorizadas pela conformação às representações estéticas 
normativas dos corpos, 
 
“Alguns grupos viram verdadeiros campos de batalha para ver quem é a mais 
feminina, a mais bonita, a mais desejada” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO) 
 
Essas disputas eram mais presentes nos grupos específicos sobre uso de hormônios e 
outras tecnologias do corpo, de forma que seu emprego é feito, segundo as 
interlocutoras, com o intuito de produzir um corpo que seja inteligível a partir da matriz 
binária de gênero. Nesse sentido, esse corpo se estabelece também como linguagem, 
uma vez que é nele e através dele que os significados do feminino e do masculino se 
realizam, conferindo às pessoas suas qualidades sociais. (BENEDETTI, 2005). A 
constante estilização do corpo, que produz o gênero de acordo com Butler, faz parte dos 
procedimentos que integram as pessoas à sociabilidade, evidenciando que “todos os 
corpos são genereficados desde o começo de sua existência social” (SALIH, 2012, 
pg.89) 
 
“O senso comum, preconceitos, estereótipos e a visão machista sobre o que é 
"mulher e homem" fazem muitas abduzirem esses padrões como forma de 
autoafirmação de seu gênero” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO) 
 
Ainda que algumas dessas violências se configurem a partir do sequestro e reprodução 
de concepções identitárias normativas, os grupos se mostraram também como espaço 
vetor de forças contra-identitárias; no emaranhado de fios que compõem a rede dos 
espaços de sociabilidade virtual emergem tanto figuras mais duras, quanto se elucidam 
as linhas de força de desmonte, criação e inventividade, 
“[...], o processo de produção da identidade pode oscilar entre dois 
movimentos: um que tende a fixar e a estabilizar a identidade, o outro que 
tende a subvertê-la e a desestabilizá-la” (NUSSBAUMER, 2009, pg.225) 
 
Assim, alguns dos pontos de conflito entre os participantes reside justamente no fato 
destas vivências não-binárias se contraporem aos estereótipos de gênero reproduzidos 
por alguns participantes. 
 
“Muitas pessoas trans não aceitam a existência da transexualidade não-
binária nem a ideia de que há pessoas trans que não querem tomar hormônios 
e fazer cirurgias” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO). 
 
As tecnologias de produção de corporalidades, articuladas com aberturas e criação de 
novas formas de operações linguísticas, como o uso do E no do A e O (ex.: menine), se 
apresentam nas narrativas das interlocutoras como re-apropriações, investidas de 
potência, que apontam para rupturas e deslocamentos dentro de um contexto de 
dissidência de gênero, tendências de estabilização e desestabilização de identidades. 
Nesse contexto de identificação heterogênea, também situam-se as articulações que se 
constituem nos espaços dos grupos virtuais, o ingresso na militância surgiu nos relatos 
de algumas interlocutoras, relacionando o compartilhamento de informações e 
conhecimentos a respeito dos direitos relativos a população transexual e os impasses no 
exercício de cidadania à mobilização de participantes a pensar e compor estratégias de 
reivindicação e fortalecimento coletivo, corroborando com a percepção de que “as 
pessoas começam a participar mais quando passam a sentir, pensar e agircomo 
membros efetivos de seu grupo, o que, por solidariedade, estimula-os a desenvolverem 
uma identidade politizada.” (JESUS & ALVES, 2012) 
 
“Eu pude adquirir mais conhecimento sobre pautas da transexualidade, me 
compreender mais como uma pessoa transexual e saber de todos os meus 
direitos como membro de uma sociedade” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO) 
 
Entretanto, e demonstrando a observação de Jesus & Alves (2012), a mobilização 
política dos movimentos, principalmente os transfeministas, ainda é restrita a meios 
acadêmicos, assim como aos movimentos sociais da população transgênero, que têm se 
articulado principalmente na internet, por meio das redes sociais virtuais, destacando-se 
a comunidade. 
“Passei a me sentir menos sozinho, fiz novas amizades, comecei a militar na 
causa trans e transfeminista e aumentei meus conhecimentos” (TRANSEXUAL 
NÃO BINÁRIO) 
 
A movimentação política nos grupos nos chamou atenção por também abrir espaço para 
a formulação de estratégias para acesso de serviços específicos e realização de 
demandas que, nos seus encaminhamentos, implicam diálogos entre o âmbito off-line e 
online das trajetórias das interlocutoras. Assim, a rede composta pelos espaços de 
sociabilidade virtual, nas suas potencialidades de troca de formação e fluxo de 
conhecimento, aproxima os sujeitos dos serviços oferecidos pelo SUS constituintes do 
processo transexualizador, retificação dos documentos e demais questões que aparecem 
implicadas em algumas experiências. 
 
“Muitas pessoas trans acabam não tendo a bagagem necessária para lidar 
com a sociedade preconceituosa, não conhecem seus direitos, não conhecem 
os procedimentos para buscar ajuda no SUS e tantos outros direitos e até 
argumentos para lidar com a própria família” (TRANSEXUAL NÃO 
BINÁRIO). 
 
Por fim, a partir da apresentação dos grupos virtuais e das pistas que seguimos a partir 
das trocas com as interlocutoras, tocamos em percursos e trajetória intermediados e 
construídos no inter-jogo dos âmbitos online dos espaços virtuais e a dimensão off-line 
da vida dos sujeitos. Os relatos que acompanhamos desenharam parte de uma rede 
complexa, irredutível e virtualmente potente, que nos força a buscar novas formas de 
experimentação e aproximação. A produção de vínculo, as trocas de experiências e 
informação, assim como a articulação política em torno da militância e na criação de 
estratégias para encaminhamento de demandas, nos apresentam um trânsito difícil de 
apreender, e que responde pelas novas formas de associação e produção de 
subjetividade contemporânea. 
 
 
 
 
 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 
 
BENEDETTI, Marcos Renato. Toda feita: o corpo e o gênero das travestis. Rio de 
Janeiro: Garamond Universitária, 2005. 
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de 
Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. 
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mulheres transexuais. Revista Cronos, v. 11, n. 2, 2012. 
LOURO, Guacira Lopes. Teoria queer: uma política pós-identitária para a educação. 
Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, p. 541-553, 2001. 
MINAYO, Maria Cecília de S (Org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 31. 
ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2012. 
NUSSBAUMER, Gisele Marchiori. Identidade e sociabilidade em comunidades virtuais 
gays. Revista Baoas, n. 2, p. 211-230, 2012. 
SALIH, Sara. Judith Butler e a Teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. 
 
NAMORADA SINISTRA: GÊNERO E CIÚME NO FACEBOOK 
Unger, Lynna Gabriella Silva¹, ³; Santos, Flaviane Vieira², ³; Oliveira, Francis Fonseca²,³; 
Santana, Valéria Santos², ³; Santos, Claudiene¹, ², ³ 
¹Programa de Pós – Graduação em Psicologia Social, Universidade Federal de Sergipe 
²Departamento de Biologia, Universidade Federal de Sergipe 
³Grupo de Pesquisa Gênero, Sexualidade e Estudos 
Culturais/GESEC/CNPq/UFS 
 
Resumo 
Este estudo se insere no campo das discussões dos estudos culturais e de gênero e visa 
refletir como a mídia (re)produz o ciúme na atualidade. Com a facilidade de acesso e o 
elevado uso das redes sociais, destacamos o facebook como artefato cultural de 
amplitude. Com foco nas pedagogias culturais acerca do ciúme, analisamos a página 
“Namorada Sinistra”. A construção de saberes, permeada por características sociais, 
culturais, históricas e políticas e a análise desse artefato cultural, apresentam-se aqui 
como palco de discussões sobre o ciúme e os relacionamentos afetivo-sexuais. Os 
achados da página nos instigam a redirecionar nossos olhares às redes sociais, a fim de 
(re)pensar possíveis caminhos para desnaturalizar, (re)construir e disseminar um leque 
distinto de outros significados alicerçados no respeito e em relações mais igualitárias. 
Palavras-chave: Ciúme; Gênero; Mídia. 
 
Atualmente, estamos sujeitos a imenso volume de informações, que fluem 
instantaneamente, ensinam formas de ser/estar no mundo e, são transmitidas em 
distintos meios, com destaque para os de comunicação em massa. 
Giroux (1995), Steinberg e Kincheloe (2004) evidenciam a ampliação do espaço 
pedagógico e sua diversidade de espaços culturais, entre eles a mídia. Há pedagogias 
culturais (STEINBERG; KINCHELOE, 2004) que educam fora do âmbito escolar e 
difundem ensinamentos e significados. A mídia, é uma pedagogia cultural que põe em 
circulação, veloz, global e intensamente, significados que ensinam modos de ser aos 
sujeitos, no que se refere às questões de gênero, sexualidade e relacionamentos na 
juventude, foco desse trabalho. 
Inspirados/as nos Estudos Culturais e de Gênero e, em face do acesso elevado 
das redes sociais por jovens, destacamos o Facebook como artefato cultural, no qual as 
informações são apreendidas instantaneamente. Para compreender as pedagogias 
culturais acerca do ciúme, analisamos a página “Namorada Sinistra”, vista como uma 
matriz que possibilita a (re)significação e (re)produção deste sentimento, tomado como 
“tempero da relação” ou “prova de amor”. 
Tais significados reiteram preceitos de uma cultura machista, essencialista e 
heteronormativa, que incita a comportamentos violentos, que nos impulsionam a um 
conjunto de problematizações, pela forma como representam a conduta ciumenta de 
jovens nos relacionamentos afetivos-sexuais, perpassada pela noção de gênero. 
 
Juventude, internet e conflitos nos relacionamentos afetivo-sexuais 
As múltiplas possibilidades das inovações tecnológicas, dentre as quais, a ampla 
rede de relações sociais virtuais disponíveis, demarcam novas esferas relacionais de 
jovens, por meio de interações online, rompendo assim barreiras geográficas e 
temporais. Nesse ethos, surgem novos padrões de ética, ocorre a ruptura de paradigmas, 
a valorização da estética e do consumo, que levam à lógica das paixões consumistas e 
efêmeras, cujas repercussões vêm afetando os vínculos afetivo-sexuais (BRUNS; 
SANTOS, 2006). 
A utilização dos serviços online para atividades diversificadas, como compras, 
jogos, pesquisas e relacionamentos, facilitou o intercâmbio entre pessoas e, modificou a 
forma de ser e de interagir com o mundo. Assim, os fenômenos da globalização e da 
informatização marcam a sociedade do espetáculo e colaboram com o paradigma do 
risco e da incerteza, moldando a maneira de expressão das emoções, dos corpos e dos 
papéis sociais e de gênero (BRUNS; SANTOS, 2006). 
Paradoxalmente, observam-se avanços e retrocessos na utilização da internet. Se 
por um lado, permite a propagação de informações, conhecimentos e conexões, não 
obstante, difundem-se manifestações abusivas, por meio de discursos que reforçam 
estereótipos preconceituosos, discriminatórios, coercitivos e atitudes de violência 
(ROCHA, 2010). 
Buscamos analisar as manifestações de ciúme, que geram em jovens, 
sentimentos de raiva e ódio, que motivam diversos episódios, significados como 
“demonstrações de amor”,que podem resultar em situações de violências entre 
parceiros/as. 
 
Ciúme, prova de amor? 
O ciúme é visto, comumente, como um sentimento característico das relações 
humanas intra e interpessoais que atravessa o tempo, as culturas e as gerações. O ciúme 
romântico, exaltado pelos filmes, romances, músicas e pela mídia tem sido alvo da 
comunidade científica em diferentes áreas, devido à gravidade que se reconhece nas 
manifestações excessivas motivadas por ele, que (re)produzem reflexos de uma 
sociedade ainda dominada pela cultura patriarcal (ALMEIDA, 2007). 
Para Carotenuto (2004), no relacionamento amoroso, cada parceiro/a sente 
necessidade de controlar o/a outro/a e, o ciúme pode funcionar como justificativa para 
exercer controle e vigilância, quando não existem outros pretextos plausíveis. A ideia de 
ciúme como “bem querer” ou “prova de amor” baliza os relacionamentos interpessoais 
e, é motivo frequente de desentendimento entre os casais, em seus diversos graus e 
formas de expressão (ALMEIDA, 2007). 
Consideramos o ciúme como construção social, histórica, política e cultural, 
reiterada pela mídia e, buscamos desvelar como esse sentimento é retratado na rede 
social mais utilizada por jovens, Facebook, por meio da página Namorada Sinistra. 
Enfatizamos o papel da linguagem como (re)produtora de significados (GIROUX, 1995; 
STEINBERG; KINCHELOE, 2004) 
O Ciúme no Facebook 
Com a ferramenta busca do site, com a palavra “ciúme”, realizada em Julho de 
2015, foram encontradas 101 páginas que abordam a temática. No geral, essas páginas 
tem uma quantidade de seguidores/as, que varia de cerca de 3 mil a 1,5 milhões. As 
páginas são intituladas com frases como: “Ciumenta sim, otária jamais!; Sou ciumenta 
sim, e daí?; #Ciumentizei; Ciúme é normal”. 
A Namorada Sinistra (NS) é uma página do Facebook classificada como 
personagem “fictício”, criada em 2012 e possui mais de 1 milhão de seguidores/as, 
cujas extensões nas redes sociais são o perfil do Instagram, blog, além de e-mail. Seu 
foco, assim como a maioria das páginas, são mulheres jovens que estão/estiveram em 
um relacionamento heteroafetivo, com ênfase na postura ciumenta associada à mulher. 
Com alta interatividade, a NS e suas internautas discutem formas de rebater as 
“amigas indesejáveis” de seus parceiros, ou formas de como punir ambos em situações 
cotidianas. Para isso, além de vídeos e status, a NS propõe o compartilhamento de 
vivências cotidianas em forma de print ou vídeos feitos pelas próprias seguidoras, em 
que a NS aconselha e incentiva outros/as internautas a opinarem. 
A seguir, descrevemos como a página (re)produz os significados sobre o ciúme. 
Destacamos alguns conteúdos publicados na página entre aspas e itálico ao longo do 
texto, que abrangem o sentido do todo e, utilizamos nomes fictícios para garantir o 
sigilo das informações. 
 
“Não é ciúme, só cuido do que é meu”: de que ciúme estamos falando? 
Por meio de imagens, vídeos, status, a NS, simultaneamente com suas internautas, 
propaga formas de controle sobre o parceiro. O ciúme exposto na página (re)produz 
variados comportamentos, que evidenciam o sentimento de posse. 
A objetificação e posse do outro são visíveis na página, como na postagem, que 
obteve mais de 6 mil curtidas e relata o diálogo de um casal. “Zé: Amor porque tem que 
ser tudo do seu jeito? Ju: Porque eu mando”. Essa possessividade, uma vez 
exacerbada, leva o sujeito enciumado a distorções da realidade, que passa a confiar 
cegamente em suas fantasias, justificando e naturalizando o seu ciúme (BOTTURA, 
2003). 
A incorporação do ciúme possessivo contribui para um ideal imaginário que 
naturaliza a conduta das namoradas ciumentas como algo “normal”, fomentando a ideia 
de ciúme como sinônimo de amor. Em uma das postagens, uma seguidora agradece à 
página por mostrar que ela é “normal”, pois há outras pessoas como ela. Em outra 
publicação, com mais de 18 mil curtidas e 8 mil compartilhamentos, fica clara a questão 
da ameaça de um outro indivíduo à relação e, a tradução do ciúme como prova de amor: 
“Uma namorada ciumenta é uma namorada fiel. Se ela não fica com ciúmes quando 
alguém tem a sua atenção é porque alguém tem a dela”. 
Um fato que chama a atenção é que parte dos comentários relacionados a esse 
post são masculinos, em que discordam da publicação, pontuando que o ciúme é para 
pessoas inseguras. Essa participação masculina e discordante na página é rara, pois 
geralmente, quando ocorre, são comentários que reiteram a mensagem compartilhada, 
em especial, quando são citados pelas namoradas. 
Nesse contexto, o ciúme propagado pela página, legitima comportamentos e tece 
papéis de como a mulher e o homem devem ser na relação. O ideal de amor romântico e 
seus componentes, como o ciúme, a honra, o mito da metade laranja, do amor eterno, 
fortalece a lógica de complementaridade assimétrica que ambos devem exercer no 
relacionamento (SILVA; MEDRADO; MELO, 2013). Assim, diante dos riscos, nem 
sempre reais, que envolvem os relacionamentos, no lugar do amor eterno do passado e, 
diante da incerteza e da possibilidade do fim do amor, alguns indivíduos buscam no 
controle e vigilância da parceria uma resposta possível para manutenção da relação 
(BARONCELLI, 2011). 
 
Sujeito do ciúme – papéis de gênero na Namorada Sinistra 
Ciumenta, possessiva, sinistra, a namorada/mulher - em todo conteúdo da página 
é a figura que representa o sujeito do ciúme. O próprio nome “sinistra” remete ao 
estranho, assustador, temível, que é o feminino. Diversas postagens publicadas pela 
página e cooptadas pelas seguidoras explicitam e reiteram o suposto desequilíbrio 
feminino diante da raiva, de conflitos, do convívio com outras pessoas além da relação 
entre o casal, naturalizando-o como se fosse próprio da “essência feminina”, pelo viés 
do humor (LOURO, 1997) 
Nesse panorama, em que a desqualificação da mulher impera, o recado está 
direcionado para as “amigas indesejáveis” de seus namorados. Em seus comentários, as 
internautas expressam o ódio dirigido às amigas de seus namorados com a hashtag 
“#facanavadia”. Além de vários comentários, em que, as seguidoras citam seus 
parceiros com frases do tipo: “Quero ver quem é a vagabunda! Vou cortar o pescoço 
dela que nem galinha e fazer cabidela com o sangue dela, é servido amor? 
Parece ser consenso que toda namorada sinistra deve cuidar de seu parceiro. O 
ciúme, então, é entendido como sinônimo de cautela e amor. Contudo, as ameaças 
(des)veladas indicam que este sentimento disseminado pode se tornar perigoso: “Sam, 
todo cuidado do mundo é pouco, te amo. As respostas dos namorados aos comentários, 
por sua vez, banalizam os comentários de ameaça, às vezes com ironia, mas em sua 
maioria, os rapazes expõem achar engraçadas as reações das namoradas: “Noossaa 
kkkk”; - Cortar quem? Que não seja eu!”. 
O cunho humorístico no discurso dos homens reitera a situação de comodidade 
do masculino nas relações afetivas, reproduzidas pela NS. Os homens não se implicam 
como protagonistas dos conflitos, pois além terem uma mulher que briga por ele, 
brigam com a outra e não com ele. Assim, a página reforça a insegurança e a suposta 
rivalidade feminina e mantém inalterado o privilegiado lugar de poder masculino na 
relação. 
Às mulheres, a página ensina a dependência, o controle, a vigilância, como 
forma de garantir a estabilidade da relação, em um simulacro de cuidado e atenção. 
Vejamos comentários de um print entre a NS e uma seguidora: “-Meu namorado não 
vai ao Rock´n Rio sozinho, na verdade, ele não vai a lugar nenhum sem mim”; “- O 
meu vai para todo lugar sozinho. Ganhei o troféu de otária do ano!” 
Essa lógica que predomina e, é difundida pela página, reitera os discursos 
heteronormativos, machistas e essencialistas, que caracterizam uma natureza hostil e 
submissa feminina e demarcam o lugar de poder masculino. Além de responsabilizaras 
atitudes femininas como responsáveis pelo bem estar e segurança da relação, em que a 
presença de terceiras é o fator desestabilizador. 
Para Baroncelli (2011) a manifestação de ciúme, sua aceitação social e a própria 
experiência de ciúme no interior das relações amorosas entre homens e mulheres foi, ao 
longo do tempo, marcada pelas especificidades de cada contorno sociocultural no que 
diz respeito à fidelidade. Nos discursos (re)produzidos pela NS é perceptível como a 
lógica que naturaliza a tolerância da infidelidade masculina, provocada pela outra, é 
difundida e aceita pelas seguidoras. 
Tais discursos banalizam as condutas agressivas, motivadas pelo ciúme e 
dificultam a percepção da violência (CÓRIA, 2007). O ciúme disfarçado de amor 
contribui para a invisibilização das possíveis tensões e conflitos, intra e interpessoais, 
geradas em face do ideal de amor romântico, modelo de amor propagado, (re)produzido 
e compartilhado como próprio das relações afetivo-sexuais. 
Entre linhas e likes: a violência mascarada 
Emergem das narrativas sinais de alerta relativos ao ciúme como motivo para a 
violência perpetrada e silenciada nas relações. Muitas postagens incitam, de forma 
direta, a conduta violenta como maneira aceitável para resolução de conflitos, nem 
sempre reais, que poderiam por em risco a estabilidade do relacionamento. 
 A página induz à violência em suas diversas faces: verbal, pelos ataques 
ofensivos numa discussão; psicológica, pelas chantagens emocionais para obter a 
atenção do parceiro; patrimonial, ao incitar a quebra de objetos num momento de raiva; 
física, ao naturalizar as agressões físicas como reações pertinentes durante a 
contrariedade; simbólica, ao ressaltar a dominação masculina legitimada na relação, 
como no controle do uso de roupa curta, representado como cuidado. 
As violências físicas e verbais, frequentemente, estão presentes em 
relacionamentos marcados pelo ciúme (ALMEIDA, 2007). Atos violentos são 
mascarados no cotidiano de muitos casais ditos apaixonados, camuflados pelas “provas 
de amor” e cuidado/posse. Por vezes, é preciso que saltem aos olhos, situações de alta 
gravidade e consequências drásticas para que se (re)conheça a violência na relação. A 
crença distorcida de que o ciúme é prova de amor estimula uma cultura da banalização 
da violência, que reforça a ideia de que por amor tudo é permitido. 
 
“Você está formando monstras!” – Algumas considerações sobre o cunho 
pedagógico da página 
A guisa de conclusão, a frase que intitula este tópico foi retirada de comentários 
de um dos posts da página, em que, uma seguidora ao ser questionada pelo parceiro 
sobre o crescimento de seu ciúme, afirma: “Mas agora aquela página abriu melhor 
meus olhos e eu sou, e você vai ter que se acostumar com isso”. 
Tal frase ilustra a pedagogia cultural sobre ciúme que circula na página e, por se 
tratar de uma rede interativa, as opiniões expostas convocam os/as seguidores/as a se 
posicionarem diante destes discursos, reiterando-os e disseminando significados a um 
número incalculável de pessoas, pelos compartilhamentos. 
Na postagem em destaque, muitas mulheres concordam e apoiam os conceitos 
veiculados, justificados, principalmente, pelo suposto cunho humorístico. Todavia, 
algumas pessoas expressam resistências e discordâncias (ainda que em menor número), 
como pode ser visto aqui: “Você está formando monstras, futuras pessoas sozinhas que 
pensa que ciúme é excesso de amor”; “Lú, essa página está mexendo com você amor, 
pode parar”. 
Os significados compartilhados constroem sentidos e delimitam modos de 
ser/estar nas relações afetivo-sexuais. A mídia e as diversas instâncias sociais alicerçam 
os processos de constituição das representações de conceitos como o corpo, 
relacionamentos, ciúmes, etc. (WORTMANN, 2001). 
Interpeladxs por essas narrativas, convidamos à reflexão, desnaturalização e 
ressignificação dos sentidos sobre o ciúme nas relações amorosas. Por um olhar que 
almeja a construção de relações igualitárias, rompendo com as delimitações de um 
modelo hierarquizado, machista, heteronormativo e violento que distancia, ao invés de 
agregar. 
Referências Bibliográficas 
ALMEIDA, T. Ciúme romântico e infidelidade amorosa: incidências e relações 
entre paulistanos. 2007. 234f. Dissertação (Mestrado). Instituto de Psicologia, 
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. 
 
BARONCELLI, L. Amor e ciúme na contemporaneidade: reflexões 
psicossociológicas. Psicol. Soc., v. 23, n. 1, p. 163-170, 2011. 
 
BOTTURA JUNIOR, W. Ciúme: entre o amor e a loucura. São Paulo: República 
Literária, 2003. 
 
BRUNS, M. A. T.; SANTOS, C. Diversidades sexuais, corpos e desejos em 
transformação. Revista da Sociedade de Psicologia do Triângulo Mineiro – SPTM, 
Uberlândia, v. 10, n. 2, p. 105-108, 2006. 
 
CAROTENUTO, A. (Ed.). Amar, Trair: quase uma apologia da traição. São Paulo: 
Paulus, 2004. 
 
CÓRIA, C. (Ed.). El amor no es como nos contaron…ni como lo inventamos. 
Buenos Aires: Paidós, 2007. 
 
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<https://www.facebook.com/NamoradaSinistra?ref=br_rs>. Acesso em: 04/07/2015. 
 
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T. T. da, (org.). Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais em 
educação. Rio de Janeiro: Vozes, 1995. p. 85-103. 
 
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2ª. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. 
ROCHA, T. B. Scr@ps de ódio no Orkut: cyberbullying, contextos e 
ressonâncias da violência virtual que atinge o professor. 2010. 200f. Tese 
(Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, 2010. 
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construindo sentidos para o ciúme em suas relações afetivo-sexuais: violência 
disfarçada de amor!? In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 10: Desafios atuais 
dos feminismos. Florianópolis. Anais Eletrônicos..., Florianópolis, 2013, p. 111-119. 
STEINBERG, S. R.; KINCHELOE, J. L. (orgs.). Cultura infantil: a construção 
corporativa da infância. 2 ed. Trad. George Japiassú Bricio. Rio de Janeiro: Civilização 
Brasileira, 2004. 
 
WORTMANN, M. L. C. O uso do termo representação na Educação em Ciências e nos 
Estudos Culturais. Pro-Posições, v. 12, n. 1, p. 151 – 161, 200l. 
https://www.facebook.com/NamoradaSinistra?ref=br_rs
Espaços e convergências na representação midiática feminina 
 
 
Bueno, Noemi Correa 
Doutoranda em Comunicação (UNESP – FAAC) 
Bolsista Capes 
 
Marques, José Carlos 
Professor Doutor da Universidade Estadual Paulista (UNESP – FAAC) 
 
 
Palavras-chave: mulher; mídia; representação. 
 
 
Introdução 
 
Após conquistas de diversos direitos para mulheres, os movimentos feministas 
contemporâneos lidam com novas pautas de reivindicações, como por representações 
mediáticas adequadas, respeitosas e que exprimam as idiossincrasias e possibilidades de 
atuações femininas nas diferentes esferas econômica, política, social e cultural. 
Esta reivindicação é coerente com a suposição de Pierre Bourdieu (2003, p. 
08). Segundo o sociólogo francês, as conquistas feministas ainda não alcançaram sua 
totalidade de transformações almejadas, pois ainda não romperam com o estereótipo 
realimentado pela representação social e pelo poder simbólico (violência invisível às 
vítimas e que se exerce pelas vias simbólicas da comunicação). 
Diante disso, este artigo realizará uma análise bibliográfica a respeito dos 
conceitos relacionados às representações mediáticas e à nova pauta de reivindicações do 
movimento feminista relacionada à veiculação adequada da imagem feminina pelos 
meios de comunicação. Nosso objetivo é comparar os conceitos teóricos a respeito de 
representações com os discursos feministas sobre o cenário mediático contemporâneo. 
 
 
Metodologia 
 
Este trabalho apresentauma revisão bibliográfica sobre representação 
mediática feminina e pautas de reivindicações de movimentos feministas que lutam por 
participações femininas nos meios de comunicação. 
Para tal, a fundamentação teórica é constituída principalmente pelas 
formulações de Pierre Bourdieu, João Freire Filho, Juan Diaz Bordenave, Eduardo 
Coutinho e Raquel Paiva. Relacionada a esta fundamentação encontram-se as posições 
de Rachel Moreno (feminista) e Articulação Mulher e Mídia (reunião de diversas 
entidades do movimento de mulheres que atua na fiscalização de conteúdos mediáticos 
a respeito de mulheres). 
 
 
Meios de comunicação, representações sociais e poder 
 
Eduardo Coutinho, João Freire Filho e Raquel Paiva (2008, p. 07) apontam que 
os meios de comunicação consistem em espaços de poder, pois interferem na formação 
das consciências e conduções sociais. Assim, possuem função importante na “disputa 
pela hegemonia, na promoção de ideais identitários, na regulação de comportamentos, 
na administração da memória, na constituição da opinião pública e na formulação de 
agenciamentos democráticos”. 
Os meios de comunicação, portanto, podem intervir na forma como a 
sociedade age, pensa, discute, sente, lembra, convive e resiste, afinal, consistem em 
instituições com crédito perante à sociedade, uma vez que apresentam o discurso de 
reproduzir valores, padrões e espaços reais (no caso de programas jornalísticos, de 
novelas, livros e filmes baseados em história real, programas com viés de utilidade 
pública, por exemplo). 
Nestes casos, os meios de comunicação, ao mesmo tempo em que possuem a 
função de representar situações “reais”, atuam como incentivadoras da formação e 
perpetuação destas representações veiculadas. Em relação a estas representações, vale 
ressaltar que os meios não abordam todos os assuntos possíveis, a partir de todos os 
olhares e possibilidades, pois “não há forma de evitar a reconstrução seletiva da 
realidade pela simples possibilidade material de abrangê-la em sua totalidade. E mais, as 
próprias características tecnológicas dos meios de comunicação colaboram para a 
configuração de um verdadeiro código do meio que traduz a realidade e a transmite” 
(BORDENAVE, 2002, p.81). Assim, os meios escolhem os assuntos que desejam 
debater e a maneira como irão abordá-los, deixando fora da pauta assuntos considerados 
de não interesse. 
Mesmo havendo esta seletividade, os meios de comunicação 
imprimem marcas indeléveis no modo como compreendemos o mundo, tanto 
no nível intelectual quanto sensitivo. Os meios de comunicação, assim como 
a cultura produzida por eles, forma, nessa perspectiva, um campo autônomo, 
capaz de representar o social, construir diferentes realidades, criar distintas 
modalidades de socialização e influenciar e mediar outras esferas da vida 
social (Henrique Mazetti apud COUTINHO; FREIRE FILHO; PAIVA, 2008, 
p. 256). 
 
Por isso, a discussão das representações mediáticas se torna importante na 
sociedade contemporânea, pois seu “discurso possui um papel importante na construção 
de identidades, ao estabelecer sentidos e representações que interferem na construção do 
cotidiano e na forma como a sociedade configura as relações sociais e a memória” 
(BUENO, 2010, p. 49). 
Considerando estes aspectos, movimentos feministas têm inserido em suas 
pautas de reivindicações a discussão a respeito de adequadas representações de gênero, 
como pode ser observado a partir das práticas do Instituto Patrícia Galvão, Articulação 
Mulher e Mídia e a feminista Rachel Moreno (atuante no movimento feminista e 
integrante do movimento Articulação Mulher e Mídia, que consiste em uma reunião de 
diferentes entidades do movimento de mulheres do Estado de São Paulo com intuito de 
debater e atuar em relação à visibilidade feminina nos meios de comunicação). 
 
 
A mulher mediática sob a ótica feminista 
 
O Instituto Patrícia Galvão é uma organização fundada com objetivo de atuar 
em relação ao direito à comunicação e aos direitos das brasileiras. Para a instituição, os 
meios de comunicação consistem em possibilidades de campos estratégicos de debates a 
respeito de políticas públicas voltadas à igualdade de gênero. 
Em 2011, em uma pesquisa realizada juntamente com ANDI – Comunicação e 
Direitos e a Secretaria de Políticas para Mulheres, no âmbito do Observatório Brasil da 
Igualdade de Gênero, relatou-se que no jornalismo praticado neste período não houve 
um aproveitamento das oportunidades vigentes (como a candidatura inédita de duas 
mulheres para presidência da república) para trazer ao debate público questões de 
gênero ocultas na sociedade. Diante disso, a pesquisa afirma que 
o jornalismo analisado é um meio que se volta apenas para a urgência dos 
fatos, para o relato da notícia, não pensa a realidade em seu todo e em seus 
aspectos mais complexos, mas reduz a vida em comunidade aos problemas 
mais cotidianos. Esse tipo de mídia colabora pouco para a formação da 
opinião pública crítica, capaz de efetivamente cobrar atitudes e soluções do 
Poder Público (ANDI; INSTITUTO PATRÍCIA GALVÃO, 2011, p. 53). 
 
Rachel Moreno aponta que os meios de comunicação possuem o poder de 
refletir imagens sobre o que se espera e deseja das mulheres na contemporaneidade, e, 
por isso, o questionamento das imagens femininas veiculadas por estes é importante 
para a discussão de construção de práticas que promovam a equidade de gênero. 
Segundo ela, a mídia impõe uma invisibilidade seletiva, pois não divulga as 
demandas e diversidades das mulheres e não fornece espaço para a exposição de 
diferentes pontos de vista. As mulheres retratadas seguem o mesmo padrão de beleza 
(jovens, altas, magras e loiras) e o mesmo padrão de comportamento: são emocionais, 
ou seja, sentem, acham e choram, mas dificilmente pensam. 
A reprodução de um padrão estético que é distante da realidade da maioria das 
mulheres é constante nos meios, independentemente do programa ou formato. Ou seja, 
o padrão de corpo feminino é o mesmo utilizado na publicidade, jornalismo, programas 
de auditório, programas infantis, novelas, filmes e programas esportivos (MORENO, 
2015, p. 05). 
Ao estudar os meios de comunicação, a feminista aponta que 
a mulher retratada na mídia tem que ser casada ou aspirar ao casamento, ter 
filhos ou aspirar à maternidade, ser ou parecer jovem, ser vaidosa, cuidada. 
Ser branca, heterossexual, monogâmica, fiel, comportada, decidir mais com 
emoção do que com a razão, ser sensível e delicada, preocupar-se mais em 
cuidar dos outros do que com qualquer outra questão, mesmo que trabalhe e 
tenha grandes responsabilidades profissionais ou políticas (MORENO, 2008, 
p. 45). 
 
Semelhante a essa visão da mulher retratada nos meios, encontramos o 
posicionamento de Bourdieu a respeito dos papeis femininos considerados “adequados”. 
Neste sentido, podemos observar uma coerência entre o que “se espera” das mulheres e 
como estas são representadas pelos meios de comunicação: 
Delas se espera que sejam ‘femininas’, isto é, sorridentes, simpáticas, 
atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas. E a 
pretensa ‘feminilidade’ muitas vezes não é mais que uma forma de 
aquiescência em relação às expectativas masculinas, reais ou supostas, 
principalmente em termos de engrandecimento do ego. Em consequência, a 
dependência em relação aos outros (e não só aos homens) tende a se tornar 
constitutiva de seu ser (BOURDIEU, 2003, p. 82). 
 
Além disso, esta retratação da mulher é utilizada, majoritariamente, para 
enfeite de cenários e programas ou para a demonstração da possibilidade de o corpo 
feminino assumir o papel de brinde, como costuma acontecer em propagandas de 
cervejas. Vale ainda reforçar que este corpo feminino é explorado por partes e não em 
sua totalidade (menos ainda na complexidade psicológica e social), ou seja, valorizam-
se partes eróticas, reduzindo sujeitos a pedaçosde carne, o que, de acordo com Rachel 
Moreno, afeta negativamente a autoestima, a saúde e a rotina da mulher brasileira. 
Essa sub-representação feminina facilita a consagração deste modelo de mulher 
mediática, em detrimento de outras formas possíveis. Conforme Foucault (apud 
MORENO, 2008, p. 31), a reprodução destas imagens socialmente valorizadas consiste 
em uma maneira sutil, mas eficiente de controle social, pois ao serem envolvidas por 
um discurso de veracidade, constroem práticas, verdades e subjetividades que reprimem 
modelos diferentes dos padrões mediáticos. 
Diante disso, Rachel Moreno sublinha a reivindicação dos movimentos 
feministas a respeito da veiculação pelos meios dos problemas e pautas dos movimentos 
de mulheres (como por exemplo, equidade salarial, extinção da violência contra 
mulheres, entre outros), representações femininas adequadas que respeitem a 
diversidade ético-social-etária da mulher brasileira e visibilidade dos movimentos 
feministas (que quando aparecem são representados de maneira minimizada, 
criminalizada ou ridicularizada). 
Por sua vez, o Instituto Patrícia Galvão considera principalmente a importância 
do jornalismo, por isso, atua de maneira reivindicar que a imprensa cumpra sua função 
na esfera pública, a partir de contemplação de direitos femininos. Ou seja, procura 
contribuir para qualificação de coberturas jornalísticas a respeito de questões femininas 
com o intuito de fomentar a promoção de notícias que incentivem o debate e mudanças 
de gênero (AGÊNCIA PATRÍCIA GALVÃO, 2015). 
 
 
Considerações finais 
 
Ao abordar a dominação masculina, Pierre Bourdieu (2003) ressalva a 
importância dos meios de comunicação nas representações de gênero e como estas 
instituições atuam na perpetuação de valores androcêntricos. 
Paralelo a isto, Rachel Moreno (2008) e Articulação Mulher e Mídia criticam o 
papel feminino explorado pelos meios de comunicação, apontando que há um apelo 
erótico que privilegia atributos físicos e ignora outras possibilidades de papeis 
reduzindo a figura feminina aos campos da sedução. 
A partir disto, grupos feministas contestam as representações mediáticas, 
alegando que as participações femininas nos meios em seu formato contemporâneo não 
condizem com a realidade da mulher brasileira e colaboram para formação de 
estereótipos de gênero. 
Os meios de comunicação retratam a condição da mulher na sociedade, 
portanto, discutir a imagem da mulher nestes meios é discutir a imagem e papel 
femininos, o que afeta as mulheres e seu cotidiano. 
Além disso, os meios são importantes ferramentas de veiculação e perpetuação 
de representações sociais, por isso, é fundamental que a imagem feminina demonstrada 
por estes seja uma imagem coerente com os valores igualitários, que não minimizem as 
possibilidades de atuações femininas, mas que alcancem toda a complexidade de papeis, 
posições e diversidades das mulheres brasileiras (não se restringindo aos papeis 
subalternos, domésticos ou decorativos, representados por apenas um modelo padrão 
feminino). 
 
 
Referências 
 
AGÊNCIA PATRÍCIA GALVÃO. Quem somos. Disponível em: 
http://www.patriciagalvao.org.br/. Acesso em: 02 out 2015. 
 
ANDI; INSTITUTO PATRÍCIA GALVÃO. Imprensa e agenda de direitos das 
mulheres: uma análise das tendências da cobertura jornalística. Disponível em: 
http://agenciapatriciagalvao.org.br/wp-content/uploads/2011/12/imprensa-e-agenda-dos-
direitos-das-mulheres-2011.pdf. Acesso em: 02 out 2015. 
 
BORDENAVE, Juan Diaz. Além dos meios e mensagens. Petrópolis: Vozes, 2002. 
 
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 
 
BUENO, Noemi Correa. Jornalismo impresso e relações de gênero: enquadramentos 
da Folha de S. Paulo e d'O Estado de S. Paulo de um caso de hostilização a uma 
estudante. Dissertação de mestrado, FAAC/UNESP, 2010. 
 
COUTINHO, Eduardo G.; FREIRE FILHO, João; PAIVA, Raquel. Mídia e poder: 
ideologia, discurso e subjetividade. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008. 
 
MORENO, Rachel. Mulheres pela democratização da comunicação. Disponível em: 
http://soscorpo.org/wp-
content/uploads/DemocratizacaodaComunica%C3%A7%C3%A3o_e_DireitosdasMulhe
res_RachelMoreno_SOSCorpo_CadernosdeCriticaFeministaAnoIXN8_2015.pdf. 
Acesso em: 15 out 2015. 
 
______. A beleza impossível. São Paulo: Ágora, 2008. 
NARRATIVAS TRANSVIADAS: REPORTAGENS EM LIVROS 
SOBRE GÊNEROS E SEXUALIDADES DISSIDENTES 
 
GONÇALVES, GEAN OLIVEIRA 
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA - USP) 
 
Resumo: O presente texto sintetiza a pesquisa de mestrado em desenvolvimento no 
Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da ECA-USP que aborda os 
modos como se conduz o panorama da diversidade de corpos, identidades de gêneros e 
expressões das sexualidades nas narrativas da contemporaneidade. Para isto, é proposta 
uma análise queer de livros-reportagens sobre pessoas LGBT como meio para 
compreensão do jornalismo e de demais práticas midiáticas que se lançam à tarefa 
complexa da dialogia da solidariedade. 
Palavras-chave: narrativas da contemporaneidade; Teoria Queer; epistemologia do 
jornalismo. 
 
Introdução 
O desafio da construção de uma sociedade solidária implica na compreensão e no 
conhecimento dos dilemas enfrentados pelos grupos sociais historicamente vitimados, 
fragilizados e vulneráveis em relações constituídas como assimétricas. 
Hegemonicamente, as ciências médicas e as ciências analíticas (psicanálise e a 
psicologia social), bem como sua intersecção – a sexologia, adotaram a prerrogativa de 
falar e produzir conhecimento a cerca dos campos de Gênero e Sexualidade. No entanto, 
a Antropologia e as Ciências Sociais vêm conduzindo um movimento de 
desnaturalização do que é ser mulher e do que é ser homem, bem como das práticas 
condicionantes de sexo, prazer e desejo. 
Nesse sentido, é mais do que eminente o desafio de refletir sobre gênero e sexualidade 
junto ao campo da Comunicação. O campo do agir comunicacional abarca a diversidade 
de trocas de signos representativos, interpretativos e afetivos, de forma a registrar e 
organizar os fenômenos do mundo. É responsável pela descoberta e pela promoção de 
uma ética da compreensão entre atores sociais e saberes plurais. Assim como pela 
produção de vínculos, de uma comunhão. 
Não raras vezes, tanto os estudos comunicacionais quanto os estudos de gênero e 
sexualidade foram vistos como campos subalternos do saber. Áreas vistas como 
“particularistas”, “irrelevantes”, “impertinentes” ou “menores”. Tal hiato em pesquisas 
nesses campos vem sendo desmontado por meio de práticas de pesquisa e mobilização 
nas últimas décadas que apontam a ilusão de neutralidade do campo científico e o 
potencial investigativo desses objetos. 
Com o objetivo de não só refletir sobre a problemática da visibilidade e qualidade 
representativa das pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) nas 
esferas midiáticas, o presente estudo surgiu com a meta de elaborar uma análise sobre a 
produção de conhecimento sobre gênero e sexualidade nas narrativas da 
contemporaneidade. Por narrativas contemporâneas se entende a produção discursiva 
sobre o saber da contemporaneidade, visto que é no processo de formulação de histórias 
e narrativas - na encenação das notícias, reportagens e demais mensagens 
comunicacionais - que se pode revelar e avaliar os mecanismos de produção das 
diferenças no âmbito da Comunicação Social. 
Pelo desejo e pelo poder, revestidos da vontade de verdade, os discursos 
jornalísticos tornam se expressões máximas do que é verdadeiro; e é com 
eles, vale dizer, que construímos os nossos modos de compreender e ver o 
mundo, visões que tecem nossa percepção do outro e nossa maneira de lidar 
com o diferente ou o semelhante (REZENDE, 2009, p. 4). 
O lugar onde se tece sobre a vida do(s) outro(s) é um espaço de privilégiocomunicacional. Questão que se complexifica quando se põe em paralelo as denúncias 
dos estudos epistemológicos das Ciências da Comunicação de que à luz das práticas das 
narrativas, em escritura ou audiovisual, a perspectiva dialógica foi reduzida a uma 
dimensão iluminista e racionalista, como se o mundo estivesse aí para ser alvo da 
explicação objetiva e científica. 
Na Era da Informação, após um aprofundamento da produção global de informações e 
dos avanços tecnológicos, há muito se faz notar a sensação de que o conteúdo 
comunicacional tornou-se mercadoria que fragmenta e mutila o saber, isto é, quanto 
mais se produz informação, menos as pessoas se sentem inseridas em redes de 
compreensão, mas em esferas de incomunicação. 
“[...] a compreensão reforça a dialogia, a não-arrogância e a não-violência, 
esses sentimentos e práticas inscritos numa epistemologia que não se 
contenta em se dizer e praticar complexa: quer ser, também, intelectual e 
humanamente compreensiva”. (KUNSCH, 2006, p.9). 
Forma-se um arsenal de veículos de comunicação, mergulhados em lacunas e 
fragilidades, altamente capazes de ir atrás de informações e de difundi-las, mas muito 
pouco conectados a missão da cumplicidade, de aprofundar e costurar as informações 
em uma narrativa afetiva e complexa. 
Dessa forma, o detentor da autoria por meio das mídias acaba sendo um eu que 
deslegitima o outro. De alguém que se diz conhecedor de uma realidade, após execução 
dos procedimentos e técnicas de mediação, o que se vê como produto é algo sedutor, 
mas que no âmbito de apresentação das diferenças, configura-se como uma narrativa 
reduzida e pouco atenta à polissemia que reveste a vida. Trata-se de um sintoma do 
déficit de abrangência do autor das narrativas da contemporaneidade (MEDINA, 2008). 
Para Medina (2003) é necessário expandir três virtualidades – intuição afetiva/razão 
complexa/ação solidária. Ela aponta que o exercício da narrativa e da autoria carrega 
consigo dificuldades racionais, intuitivas e operacionais. Porém, o que se capta é o não 
exercício do signo da relação (MEDINA, 2006), da cumplicidade dialógica. 
Compreender, lembra Edgar Morin (2000), “inclui, necessariamente, um processo de 
empatia, de identificação e de projeção. Sempre intersubjetiva, a compreensão pede 
abertura, simpatia e generosidade”. 
Dada a importância da experiência sensível do contato com o mundo vivo, estariam as 
narrativas da contemporaneidade que abordam gênero e sexualidade também em volta a 
uma hipertrofia racionalizante? As obras e autorias coletivas das LGBT estão se 
constituindo em pedagogias para se explicar, com objetividade, simplesmente o 
fenômeno das diversidades de gênero e sexualidade? Ao invés de se conectar as ideias 
complexas, tais pedagogias contemporâneas são uma nova parcela dispersa de saber e 
comunicação afogada em certezas? 
 
Reportar o queer 
Como pudemos perceber a prática da mediação e da midiatização pressupõe uma 
moldura teórica que envolve uma significação narrativa: quem são e quais são as ações 
dos protagonistas sociais, seus contexto, relações de poder e negociação a partir dos 
lugares ocupados em sua teia social. Há narrares com intuito meramente informativo e 
explicativo do mundo e caminhos afetivos e de cumplicidade na produção midiática. 
A questão da representação dos dissidentes de gênero e sexualidade vem se 
apresentando como um tema central na contemporaneidade. Reportar o queer implica 
mediar o protagonismo e mobilização de um grupo social que possibilitou redefinições 
sobre os conceitos culturais de gênero e sexualidade, uma vez que a construção binária 
do ser masculino e do ser feminino foi dissociada da economia da reprodução. 
A atuação política das LGBT marca o nascimento de políticas de identidade como 
movimentação contemporânea para a promoção de direitos e da dignidade da pessoa 
humana com base na denúncia de sistemas de produção social da discriminação e 
opressão que operam a partir da classificação, hierarquização e diferenciação étnica, 
sexual, de gênero, econômica e linguística. 
Quando se fala em queer, termo do inglês, não se trata da iniciativa de retomar um 
termo identitário “da moda” que engloba as multidões de gêneros e sexualidades, que 
politicamente são lidos como LGBT; é um modo de se falar em subversão. Diz respeito 
ao debate lançado por teóricos e militantes gays, lésbicos, bissexuais e transgêneros 
sobre a constituição da categoria de performances sexuais e de gênero como primeiro 
passo para legitimar todo um contingente de pessoas que não se contemplam em normas 
de gênero e sexualidade. Um projeto epistemológico que questiona a cultura e os 
significados histórico-sociais de deter um corpo que é reconhecido como performativo 
do diferente (“estranho”, “dissidente”, “anormal” ou “abjeto”), que impede o domínio 
heteronormativo. 
De acordo com Guacira Lopes Louro (2008), há instâncias e espaços sociais com o 
poder de inscrever em nossos corpos marcas e normas. De forma sutil, a construção de 
aprendizagens e práticas dos gêneros e das sexualidades se dá por potentes pedagogias 
contemporâneas, entre elas, é possível destacar o papel de sedução e orientação 
informativa das narrativas da contemporaneidade: telenovelas, anúncios publicitários, 
jornais, revistas, filmes, programas de TV, sites e blogs da internet. 
Nestas esferas, muitas vezes, se dá a pedagogia da heterossexualidade enquanto sistema 
biopolítico (lógica de gênero binário e de desejo sexual pré-determinado pelo sexo 
oposto), que por consequência, atuam como definidores dos sujeitos e corpos 
enquadrados nos valores sócio-morais hegemônicos. 
[...] os movimentos sociais organizados (dentre eles o movimento feminista e 
os das “minorias” sexuais) compreenderam, desde logo, que o acesso e o 
controle dos espaços culturais, como a mídia, o cinema, a televisão, os 
jornais, os currículos das escolas e universidades, eram fundamentais. A voz 
que ali se fizera ouvir, até então, havia sido a do homem branco 
heterossexual. Ao longo da história, essa voz falara de um modo quase 
incontestável. Construíra representações sociais que tiveram importantes 
efeitos de verdade sobre todos os demais. (LOURO, 2008, p. 20) 
Uma vez que os profissionais de comunicação – em especial, os jornalistas – podem 
moldar culturalmente o respeito à diversidade humana, já que exercem um papel 
fundamental de promoção da compreensão sobre os dilemas que envolvem o 
reconhecimento dos gêneros e sexualidades como componentes de uma multiplicidade e 
riqueza da diversidade humana. 
Em suma, teorizar sobre a reportagem que aborda gênero e sexualidade é pensar em 
narrativas queer ou transviadas. É olhar para narrativas como contradiscursos que irão 
propor uma nova interpretação para o sistema corpo-sexualidade-gênero. É entrar em 
disputa com saberes instituídos em torno das sexualidades, gêneros e outros marcadores 
sociais da diferença (BRAH, 2006). É descobrir possíveis ferramentas para invadir e 
desnaturalizar as áreas do saber tidas como as verdadeiras porta-vozes. 
 
Narrativas Transviadas 
A pesquisadora e jornalista Cremilda Medina (2008) compreende a reportagem-ensaio 
como principal expressão das narrativas da contemporaneidade, espaço de possível 
captação dos caminhos e descaminhos da complexidade nas práticas narrativas. 
No âmbito da Escola de Comunicações e Artes da USP, a pesquisa de mestrado 
“Narrativas Transviadas” se lança ao desafio de observar a produção simbólica de 
cunho social realizada por jornalistas que ambicionam uma narrativa plural e 
complexificadora dos laços humanos. 
Para isto, a pesquisa realizará uma leitura cultural de três livros-reportagem: 
- “Muito Prazer - Vozes da Diversidade”, de Karla Lima, edição da autora, 2013; 
Sinopse: Como era assumir-se lésbica no Brasil da ditadura? Como é ser lésbica em 
2013? Quanto havia de culpa e leveza e em que proporçõesse misturam, hoje, 
vergonha e tranquilidade? Como as mães reagiam à homossexualidade das filhas nas 
décadas de 1980 e 90? A maternidade lésbica é diferente da heterossexual? O que 
pensam os filhos de mães homossexuais? A jovem que sai do armário na escola ou 
faculdade sofre perseguição, quem se assume no trabalho perde promoções? Como 
reagem as adolescentes quando seu líder religioso afirma que amar uma moça é 
errado? O que pensam aquelas que se apaixonaram por outra mulher já na 
maturidade? Este livro não oferece uma resposta definitiva a nenhuma dessas questões. 
- “Entre A Cruz e o Arco-Íris”, de Marília de Camargo César, Editora Gutenberg, 2013; 
Sinopse: Como alguém que é homossexual pode expressar sua fé cristã publicamente? 
Seria esse um direito negado a quem não é heterossexual? É a homoafetividade um 
pecado sem perdão, e que exclui da religião todos os que são assim? Existiria “cura”? 
Como as igrejas tratam os gays? De questionamentos como esses nasceu este livro, 
uma reportagem contundente e abrangente sobre a complexa relação entre os cristãos, 
especialmente os evangélicos, e a homossexualidade. Em um tom jornalístico fluido e 
investigativo, a jornalista Marília de Camargo César traz à tona fatos e informações a 
partir de pesquisas sólidas em fontes históricas, nas quais procura a origem do 
pensamento de exclusão social e religiosa dos homossexuais pelos cristãos. Além disso, 
evidencia sentimentos e opiniões sobre o tema por meio de dezenas de entrevistas com 
religiosos, pastores, gays, ex-gays, ex-ex-gays, familiares, historiadores, teólogos, 
psicólogos, sociólogos e especialistas da área médica e das ciências humanas. O 
resultado é um mosaico de histórias profundamente humanas, que mostram, além de 
argumentos e discussões em torno de questões polêmicas, muitos conflitos e atitudes 
causadoras de sofrimento. É a riqueza de pontos de vista, no entanto, que lança mais 
luz à questão: leituras fundamentalistas do livro sagrado, leituras mais liberais da 
chamada teologia inclusiva, relatos de gays ateus, posturas dos que optaram pela 
castidade para professar sua religião e opiniões de quem entende que fé tem pouco a 
ver com orientação sexual. A dúvida que pode emergir de uma discussão assim talvez 
consiga romper a casca rígida das certezas cristalizadas e definitivas e origine uma 
nova visão de mundo com menos dor e mais humanidade. 
- “O Nascimento de Joicy”, de Fabiana Moraes, Arquipélago Editorial, 2015. 
Sinopse: Neste livro arrebatador, a jornalista Fabiana Moraes conta a história da 
transexual Joicy, ex-agricultora que procura o serviço público de saúde para adequar 
seu corpo masculino ao feminino que deseja para si. Também escreve sobre os 
bastidores da reportagem, vencedora do Prêmio Esso, e expõe a complicada relação 
com sua personagem, além de apresentar um ensaio no qual defende um jornalismo 
mais subjetivo. 
Em conjunto com entrevistas dialógicas com as autoras, as tendências dessas 
reportagens serão lidas pelo protagonismo (perfis, histórias de vida), contextos sociais, 
raízes histórico-culturais e diagnósticos-prognósticos das fontes especializadas, 
conforme ilustra a proposta de Cremilda Medina, em "A Arte de tecer o presente" 
(2003), para um jornalismo que promova o signo da relação. 
Com tal proposta plurimetodológica, espera-se alcançar uma avaliação do como se dá a 
perspectiva de geração de informação, diagnóstico e conhecimento sobre corpos 
transviados das normas condicionantes de gênero e sexualidade em obras que se 
propõem a ampliação da reportagem, do exercício do jornalismo e da comunicação. 
Trata-se, portanto, de por em questão os enquadramentos hegemônicos feitos por boa 
parte das práticas jornalísticas e comunicacionais e possibilitar caminhos para a 
transgressão, a perturbação, a intuição criativa e a transformação. Uma comunicação 
que incita novas questões, novos diálogos. Que se quer libertadora e transformadora 
para as pessoas LGBT. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bibliografia 
BRAH, Avtar. Diferença, diversidade, diferenciação. Campinas: cadernos pagu (26), jan-jun. 
2006, p. 329-376. 
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: 
Civilização Brasileira, 2003. 
GONÇALVES, Gean. Narrativas Queer no Jornalismo: o desafio da complexidade e das 
compreensões sobre gêneros e sexualidades. Rio de Janeiro: XXXVIII Congresso Brasileiro de 
Ciências da Comunicação – Intercom, 2015. Disponível em: 
<http://portalintercom.org.br/anais/nacional2015/resumos/R10-0754-1.pdf>. Acesso em 30 out. 
2015. 
KÜNSCH, Dimas. Comunicação, Conhecimento e Compreensão. Brasília: VI Encontro dos 
Núcleos de Pesquisa em Comunicação – INTERCOM, 2006. Disponível em: 
<http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R1091-1.pdf>. Acesso em 30 out. 
2015. 
LOURO, Guacira. Gênero e Sexualidade: pedagogias contemporâneas. Pro-Posições, v. 19, 
n. 2 (56) - maio/ago. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf>. 
Acesso em 30 out. 2015. 
MEDINA, Cremilda. A Arte de Tecer o Presente, Narrativa e Cotidiano. São Paulo: 
Summus, 2003. 
MEDINA, Cremilda. Deficit de abrangência nas narrativas da contemporaneidade. Revista 
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MEDINA, Cremilda. Jornalismo e a epistemologia da complexidade. Novo Pacto da Ciência 
1, ECA, 1992. 
MEDINA, Cremilda. O signo da relação: comunicação e pedagogia dos afetos. São Paulo: 
Paulus, 2006. 
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2ª edição. São Paulo: 
Cortez; Brasília: Unesco, 2000. 
REZENDE, Fernando. A narratividade do discurso jornalístico – A questão do outro. 
Revista Rumores, v. 3, n 1. São Paulo: USP, 2009. 
Ambientes Digitais e relações de gênero – Uma análise do Museu da Pessoa 
 
 
Landim, Laís Alpi. 
Departamento de Ciência da Informação 
UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília. 
 
 
Resumo 
Neste trabalho, nos propomos a refletir a questão da representação das mulheres no ambiente 
digital do Museu da Pessoa a partir da categoria gênero, ou seja, problematizando as relações 
entre as construções sociais do masculino e do feminino neste ambiente. O Museu da Pessoa é 
um museu virtual onde qualquer pessoa pode registrar sua própria história de vida e ser 
curadora de sua própria coleção, caracterizando-se assim como ambiente digital colaborativo. 
No acervo do Museu, destacam-se coleções onde as mulheres são protagonistas, tanto dos 
itens de acervo quanto de coleções que tratam especificamente de mulheres. A História é 
composta de narrativas e, muitas vezes, o poder de produção e registro dessas narrativas se 
concentra nas mãos de poucos, constituindo o que conhecemos por História Oficial. Porém, 
cada grupo social pode ser produtor e difusor de sua história, e isso é de suma importância 
para a construção de uma sociedade com menos desigualdades e injustiças. Como ainda 
constatamos, socialmente, desigualdades de gênero em diversos aspectos, inclusive com 
relação à representatividade das mulheres na História e nos museus, nos colocamos as 
seguintes questões: Será o Museu da Pessoa um espaço que contribui para a diminuição 
dessas desigualdades, enquanto aberto às mulheres para a expressão de sua própria história? 
Como as mulheres estão se apropriando deste ambiente digital para escrever sua própria 
história? Como estas narrativas estão sendo produzidas, organizadas e disponibilizadas? 
Assim, realizamos uma pesquisa bibliográfica à luz de obras das áreas da Ciência da 
Informação, da Museologia Social, das Ciências Sociais e do Design da Informação para 
melhor compreender o que dizem diversos autores com relação ao tema e realizamos uma 
pesquisa exploratória no ambiente digital do Museu da Pessoa no intuito de melhor 
compreender os problemas levantados. 
 
 
Palavras-chave: informação e tecnologia, ambientes digitais, museu da pessoa. 
 
INTRODUÇÃOO Museu da Pessoa é um museu digital e colaborativo que nasceu em 1991, em São 
Paulo, e se caracteriza por permitir que qualquer pessoa conte suas histórias de vida, que são 
registradas, preservadas e transformadas em informação pelo Museu. Seu acervo conta com 
depoimentos em áudio, vídeo e texto, além de fotos e documentos digitalizados, alguns dos 
quais estão organizados em coleções temáticas. (MUSEU...). 
De acordo com sua página de apresentação, o Museu acredita ser importante a 
valorização da diversidade cultural e da história das pessoas para contribuir para a 
“construção de uma cultura de paz” e sua missão principal é ser um Museu “aberto e 
colaborativo que transforme as histórias de vida de toda e qualquer pessoa em fonte de 
conhecimento, compreensão e conexão entre pessoas e povos”. (MUSEU...). 
Nas coleções e depoimentos disponíveis no site, encontram-se alguns em que as 
mulheres são protagonistas, tanto dos itens de acervo quanto de coleções que tratam 
especificamente de experiências sociais femininas. A História é composta de narrativas e, 
muitas vezes, o poder de produção e registro dessas narrativas se concentra nas mãos de 
poucos, constituindo o que conhecemos por História Oficial. Porém, cada grupo social pode 
ser produtor e difusor de sua história, e isso é de suma importância para a construção de uma 
sociedade com menos desigualdades e injustiças. Por isso, a presença de tais coleções 
despertou a curiosidade em analisar se o Museu da Pessoa é um espaço que contribui para a 
diminuição das desigualdades de gênero quanto à representação das mulheres em museus e na 
História, já que é aberto a elas para a expressão de suas próprias histórias; e se contribui, 
dessa forma, a promover uma sociedade com menos desigualdades de gênero, pois sabemos 
que as mulheres têm sido, ao longo da história, excluídas de diversos ambientes e contextos 
sociais, inclusive dos museus. Além disso, procuramos compreender como as mulheres estão 
se apropriando deste ambiente digital para escrever sua própria história e como estas 
narrativas estão sendo produzidas, organizadas e disponibilizadas. 
Para realizar esta análise, nos baseamos em uma área da Museologia chamada de 
Museologia Social, que, de acordo com Aida Rechena (2014, p. 155), "define-se como uma 
vertente da museologia que considera o museu como uma instituição dinâmica e 
comprometida com a sociedade" e tem como linhas de força as expressões "função social dos 
museus, responsabilidade social, acessibilidade, igualdade". Dessa forma, a partir da 
museologia social, analisamos os museus como instituições vivas que devem ter um 
comprometimento com a sociedade no sentido de contribuir com a diminuição de suas 
desigualdades. 
Rechena (2014) defende, dentro da museologia social, a integração de uma perspectiva 
de gênero, pois esta permitiria perceber como se reproduzem relações de gênero na sociedade, 
que se traduzem nas suas relações de poder mais básicas. Assim, para a autora, uma 
museologia social com uma perspectiva de gênero constitui-se numa ferramenta de análise 
"que possibilita tornar claras as hierarquias, as relações de dominação e as desigualdades 
sociais entre mulheres e homens", podendo atuar "no sentido de valorizar a participação e 
contribuição das mulheres na sociedade, realçar a produção cultural das mulheres, [e] analisar 
os bens patrimoniais existentes nos museus à luz das relações de gênero". (RECHENA, 2014, 
p. 155) 
O conceito de gênero é bastante amplo. Ele começa a ser introduzido como categoria de 
análise social focando nas diferenças entre homens e mulheres quanto ao seu posicionamento 
na organização social. Porém, com o tempo, o conceito foi se ampliando para o campo das 
sexualidades, tratando também das diversas formas de expressão da sexualidade, indo além da 
divisão binária homem-mulher. De acordo com Miriam Grossi, 
 
em linhas gerais, gênero é uma categoria usada para pensar as relações sociais que 
envolvem homens e mulheres, relações historicamente determinadas e expressas 
pelos diferentes discursos sociais sobre a diferença sexual. Gênero serve, portanto, 
para determinar tudo que é social, cultural e historicamente determinado. (GROSSI, 
1998, p. 05-06) 
 
Adotamos esta definição da categoria gênero, porém reconhecemos que se trata de um 
conceito em constante modificação, posto que as relações de gênero na sociedade estão 
constantemente se transformando. Como afirma Miriam Grossi (1998, p.06), “[...] o gênero 
está sendo, todo o tempo, ressignificado pelas interações concretas entre indivíduos do sexo 
masculino e feminino. Por isso, diz-se que o gênero é mutável.” É importante também 
diferenciar os conceitos de sexo, gênero, identidade de gênero e sexualidade, que muitas vezes 
são usados como sinônimos ou confundidos, mas que não possuem o mesmo significado. Para 
esclarecer esta diferença, recorremos ainda às reflexões de Miriam Grossi, que afirma que: 
 
sexo é uma categoria que ilustra a diferença biológica entre homens e mulheres; que 
gênero é um conceito que remete à construção cultural coletiva dos atributos de 
masculinidade e feminilidade (que nomeamos de papéis sexuais); que identidade de 
gênero é uma categoria pertinente para pensar o lugar do indivíduo no interior de 
uma cultura determinada e que sexualidade é um conceito contemporâneo para se 
referir ao campo das práticas e sentimentos ligados à atividade sexual dos 
indivíduos. (GROSSI, 1998, p. 12) 
 
Para fins de análise, quando falamos em mulheres em museus e na história, nos 
referimos à identidade de gênero das pessoas que se encontram nestes âmbitos. Integramos, 
assim, à ideia de "mulheres", a pluralidade de suas características, tendo em vista a existência 
de uma diversidade de "feminilidades", ou seja, diferentes formas de expressão feminina 
independentes do sexo biológico com que se nasce, da idade, sexualidade, classe social e das 
etnias às quais possam pertencer. 
 
 
METODOLOGIA 
 
Para isso, seguimos uma metodologia de pesquisa exploratória. Para Antônio Carlos 
Gil, (1999, p. 43), as pesquisas exploratórias “têm como principal finalidade desenvolver, 
esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais 
precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores” e “envolvem levantamento 
bibliográfico e documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso”. Dessa forma, 
realizamos uma pesquisa bibliográfica nas áreas da Ciência da Informação, da Museologia 
Social, das Ciências Sociais e do Design da Informação para melhor compreender o que 
dizem diversos autores com relação ao tema e realizamos uma pesquisa exploratória no 
ambiente digital do Museu da Pessoa no intuito de melhor compreender os problemas 
levantados. 
Recorremos também a elementos de análise advindos do Design da Informação que, 
para Horn (1999, n.p., tradução nossa), se define como “a arte e a ciência de preparar a 
informação para que ela possa ser usada por seres humanos com eficiência e eficácia.” Como 
escreveu Joaquim Redig (2004, p. 66), não há cidadania sem informação, e não há informação 
sem design. Na área da Ciência da Informação, uma de nossas maiores preocupações é que a 
informação cumpra sua função social e seu potencial de gerar conhecimento. Para isso, ela 
deve ser gerenciada para que sua recuperação seja eficiente, mas também precisa estar 
adequada, em termos de design, para que ela se realize em seu potencial e, consequentemente, 
contribua para um exercício de cidadania mais autônoma por parte dos sujeitos que com ela 
interagem. 
 
 
CONCLUSÃO 
 
A página inicial do Museu da Pessoa (MUSEU...) apresentava, no dia 25 de outubro de 
2015, na parte superior, um banner com os destaques do museu, referentes a coleções, 
projetos realizados e publicações recentes; logo abaixo, encontra-se o “Vídeo do Dia”, com 
alguns destaques ao lado, e, naparte inferior, uma área onde apresenta duas sessões, a 
“Histórias” e a “Coleções”. Além disso, conta com uma área para buscas, os links “Conte sua 
História” e “Monte sua Coleção”, entre outros elementos comuns em ambientes digitais cuja 
análise não é relevante no momento. 
Dentre as 6774 histórias disponíveis no Museu encontra-se a de Maria da Paz, 
intitulada “Ele era um homem muito agressivo”. Ela traz um trecho do depoimento de Maria 
em vídeo, produzido pelo Museu da Pessoa (2014a), em que ela relata como conheceu o pai 
dos filhos mais velhos, quando estava para fazer doze anos e com quem teve oito filhos. Nas 
palavras de Maria: “Acho que eu me ajuntei a ele por medo, não foi por amor, por gostar. Foi 
só pelas ameaças. Dizia que se eu não o quisesse ele me matava, que faria isso e aquilo. Eu 
tinha medo e me ajuntei com ele.” Ela relata ainda que não teve oportunidade de brincar na 
infância e que passou muita coisa ruim com ele, principalmente quando ele bebia. 
 Na mesma página, é possível ler a sinopse da história de Maria, o texto completo 
baseado em seu depoimento, e fazer o download da entrevista completa que o gerou, 
disponibilizado em PDF, além de quatro fotos de seu acervo pessoal. (MUSEU..., 2014a) Na 
história, Maria conta como foi sua infância, quando “as coisas eram muito difíceis porque a 
pessoa trabalhava mas o dinheiro que ganhava não dava para comprar o necessário para se 
alimentar” e o que a levou a se separar do primeiro marido: “Além de me bater, ele arranjou 
outras mulheres. Eu decidi que eu não queria mais viver com ele, que não aceitou, pois não 
queria que eu fosse embora de Fortaleza. Ele ficava sempre perturbando.” Em seguida, ela 
conta como mudou de cidade por conta da construção de uma siderúrgica, que causou 
desapropriações, e conheceu seu novo companheiro, com quem vive até hoje. Ela relata 
também como eram seus partos, os primeiros em casa, quando alguns dos filhos nasceram 
mortos, e como ajudou outra mulher a ter seu filho. 
A história da Maria expressa diversas questões relacionadas às desigualdades de gênero 
existentes em nossa sociedade. Uma delas é a violência contra a mulher, que, segundo o IBGE 
(2012), teve 47.555 registros de atendimento na Central de Atendimento à Mulher em 2012, 
no Brasil. A presença dessa história no acervo do Museu parece relevante pois traz um 
potencial de gerar reflexão e conhecimento sobre este grave problema social ainda não 
superado no Brasil. Porém, não há nenhum comentário na página. Quando seguimos o link 
para o vídeo no Youtube, constam 140 visualizações, um número baixo em comparação com 
outros vídeos, e nenhum comentário desde sua publicação, em outubro de 2014. 
Além das histórias, o Museu da Pessoa disponibiliza também coleções temáticas, onde 
histórias produzidas com temas similares são reunidas num mesmo grupo de depoimentos em 
vídeo, texto ou imagens. Umas das 99 coleções disponíveis se denomina “TransHistórias” e 
traz histórias de mulheres travestis e transexuais apoiadas por um programa não 
governamental chamado “SOS Dignidade”. Segundo a própria descrição encontrada no site, a 
iniciativa “tem como objetivo resgatar a memória e a dignidade de indivíduos vítimas de 
tráfico humano, exploração, violência, DST/HIV/AIDS e discriminação, que têm seus direitos 
humanos, civis e políticos fundamentais expropriados”, além de transformar essas histórias 
em acervo “contribuindo para que o preconceito seja cada vez mais banido do dia a dia e 
reiterando que todos têm uma história para contar e são importantes na construção da 
memória de uma sociedade” (MUSEU..., 2014b) 
 Uma das histórias que fazem parte da coleção é a de Heloísa, denominada 
“Aprendendo com a vida”, que conta com um vídeo, um texto e a entrevista completa 
disponível para download. No vídeo, Heloisa narra a situação que passou quando um cliente 
que se mostrou interessado em seus serviços a convenceu a ir para um lugar distante e isolado, 
num dia frio e chuvoso, onde acabou abandonando-a. Ela também menciona a exploração e 
violência que sofreu na casa da cafetina onde morava, que, neste dia, não acreditou em sua 
história, fazendo-a vítima de mais violência física: “Cheguei, contei que eu fui assaltada, ela 
não acreditou, me bateu, puxou meu cabelo, me chutou, foi isso.” (MUSEU..., 2014b) Na 
entrevista completa, conhecemos outros aspectos da vida de Heloísa, como sua infância, 
adolescência, como se mudou de Rondônia para São Paulo e que não há a possibilidade de 
trabalhar de forma independente, sem a intervenção de cafetões e cafetinas, pois seria muito 
perigoso. Heloísa relata também violências sofridas por parte de policiais, o principal motivo 
pelo qual foi para a cadeia algumas vezes, e a difícil situação que vivenciou lá, desde a 
humilhação de ficar nua entre homens até a ameaça de ser violentada e do corte forçado de 
seus longos cabelos. 
O depoimento de Heloísa expõe questões sociais relevantes como a prostituição, a 
violência de gênero, física e psicológica, entre outras. É um material que possui um potencial 
de gerar discussão, reflexão e conhecimento por seu conteúdo enriquecedor, que fornece 
elementos para inúmeras discussões relacionadas aos elementos ali contidos, além de 
contribuir para a diminuição do preconceito e de dar voz a sujeitos que normalmente não 
encontram espaço para contar sua história e fazer parte da memória social. Não há nenhum 
comentário na página, mas quando seguimos o link para o vídeo no Youtube, o número de 
visualizações é um pouco maior que o da história de Maria, 755, ainda pequeno comparado 
aos vídeos mais vistos no ambiente. 
A partir da análise exposta, constatamos que o Museu da Pessoa representa um espaço 
interessante quando se trata de oportunidades de expressão das mulheres. Como disponibiliza 
esses materiais publicamente, pode contribuir para gerar reflexão e conhecimento sobre 
diversas questões de gênero e, consequentemente, contribuir para uma sociedade com menos 
desigualdades e injustiças. Porém, o baixo número de interações nas páginas em que se 
encontram tais materiais deixa em aberto a questão sobre o porquê desse fenômeno e como 
ampliar a difusão desses conteúdos. 
 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
 
GIL, A.C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5.ed. São Paulo: Atlas, 1999. 
 
 
GOUVEIA, I ; CHAGAS, M. Museologia social: reflexões e práticas (à guisa de 
apresentação). Cadernos do CEOM, Chapecó, v. 27, n. 41, p. 9-22, dez. 2014. Disponível 
em: < https://bell.unochapeco.edu.br/revistas/index.php/rcc/article/view/2592/1523>. Acesso 
em: 22 out. 2015. 
 
 
GROSSI, M. P. “Identidade de Gênero e Sexualidade”. Antropologia em Primeira 
Mão, n. 24, Florianópolis, PPGAS/UFSC, 1998. Disponível em: 
<http://miriamgrossi.paginas.ufsc.br/livros-artigos-e-publicacoes/artigos/>. Acesso em: 23 
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HORN, R. E. Information Design: Emergence of a New Profession. Chapter 2, in 
Information Design, ed. by Robert Jacobson, MIT Press, 1999. Disponível em: 
<http://web.stanford.edu/~rhorn/a/topic/vl%26id/artclInfoDesignChapter.html>. Acesso em: 
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IBGE. Violência contra mulher. 2012. Disponível em: < http://teen.ibge.gov.br/es/noticias-
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Acesso em: 22 out. 2015. 
 
 
________. História de Maria da Paz Teófilo da Silva. 2014a. Disponível em: 
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________. História de Heloisa Alves Belfort. 2014b. Disponível em: 
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REDIG, J. Não há cidadania sem informação, nem informação sem design. InfoDesign - 
Revista Brasileira de Design da Informação. Vol. 1, n.1, 2004, p. 58-66;Disponível em: 
<http://www.infodesign.org.br/infodesign/article/view/4>. Acesso em: 25 out. 2015. 
https://bell.unochapeco.edu.br/revistas/index.php/rcc/article/view/2592/1523
http://teen.ibge.gov.br/es/noticias-teen/2822-violencia-contra-mulher?fb_action_ids=767055233312852
http://teen.ibge.gov.br/es/noticias-teen/2822-violencia-contra-mulher?fb_action_ids=767055233312852
http://www.infodesign.org.br/infodesign/article/view/4
Fotografias de corpos femininos: o caso Marianna Lively 
BOROSKI, Marcia 
Departamento de Jornalismo 
Universidade Estadual de Ponta Grossa 
Palavras-chave: fotografia, gênero, transfobia. 
 
O objetivo deste trabalho é identificar de que maneira as fotografias de corpos 
femininos constituem invisibilidades e/ou marcas normativas em peças jornalísticas. 
Considerando o processo de representatividade que vai auxiliar na ascensão ou na 
invisibilização de um processo, classe ou sujeito, as marcas normativas das quais 
falamos são os traços, principalmente visuais, já que o objeto são representações visuais 
em fotografias, que vão dizer, dentro da moral aceita, o que é ser uma mulher. Ao 
contrário, as invisibilidades apresentação mediante subversão desta norma, ou ao 
requere direitos sociais para cidadãos que fogem a esta moral aceita. 
Entendemos que parte da opressão das relações de gênero vem de da construção 
histórica do controle corpo feminino pelo discurso médico-jurídico masculino. 
Natansohn (2005) explica que “Quando se fala das mulheres e para as mulheres, o 
discurso sobre a corporalidade parece tomar rumos precisos: o corpo parece a âncora da 
mulher no mundo, sua razão de ser” (p. 2), e que estas falas estão ancoradas em saberes 
médicos, apropriados pela imprensa e pela publicidade. 
Neste artigo busca-se discutir como as fotografias de corpos femininos podem 
constituir como dispositivos de sexualidade para basear a discussão de gênero. Analisa-
se as fotografias da trans Marianna Lively veiculadas nas notícias da própria divulgação 
indevida destas fotos - feitas por um interno do quartel onde Marianna alistou-se. As 
fotos contêm: ela transitando pelo local, sua Certidão de Alistamento Militar, 
documentos pessoais e contatos. 
O alistamento aconteceu no em um quartel do Estado de São Paulo e Marianna 
soube suas fotos estavam em grupos do Whatsapp e no Facebook quando uma amiga a 
alertou. Imediatamente, retornou ao quartel e procurou uma advogada. O caso de 
Mariana repercutiu em diversos veículos online da mídia nacional 
 
Reflexão teórico-metodológica 
Faz-se uma reflexão teórico-metodológica sobre os modos de construção visual 
deste feminino. A divulgação das fotografias da trans pelo interno reflete a não 
aceitação da sexualidade e identificação de gênero, conceituada como transfobia. 
Cicillini e Franco (2015), recuperando César (2009), explicam que transfobia é: 
 
[...] o processo de recusa histórica, social e cultural da forma como pessoas 
trans constroem seu gênero e vivem suas sexualidades. O aspecto mais 
marcante seria as diversas dimensões de vulnerabilidade que esses sujeitos 
são expostos em razão de se constituírem como ‘o/a outro/a’ do gênero e da 
sexualidade, portanto, ‘o/a outro/a’ na condição de direitos humanos. 
(CICILLINI; FRANCO, 2015, p. 330) 
 
Ainda sobre o tema, os autores explicam a necessidade de apoiar-se na expressão 
‘universo trans’ na intenção de ampliar as definições e acompanhar as transformações 
históricas do gênero. Em contra partida, discutem a visibilidade que a transfobia tem no 
espaço social, sobretudo no educacional. Assim, indicam que a: 
emergência de professoras transexuais indica que existem sinais de uma 
direção do processo social em que transexuais conseguem acessar o mundo 
do trabalho e estabelecerem redes de solidariedade, contudo não se pode 
afirmar uma superação da transfobia nas figurações sociais. (TORRES, 2010, 
p.51) 
 
Já o Texto Base da Conferência Nacional GLBT diz que a transfobia acontece 
quando não se reconhece as distintas identidades de gênero, caindo num binarismo 
sexual e normativo. 
 
Ao superarem as barreiras postas pelas normas de gênero e uma visão 
essencialista acerca dos corpos, dos sexos e dos gêneros, as pessoas travestis 
e transexuais são expostas a um duro quadro de vulneralibilidades, que fazem 
delas alvo das mais acirradas manifestações de desaprovação e repulsa social. 
A transfobia as exclui de praticamente todos os espaços de convivência 
cidadã e, ao mesmo tempo, as coloca entre os principais alvos da violência 
letal contra GLBT. (GLBT, 2008, p. 60) 
 
Importante compreender também que os elementos de sexualidade por muito 
tempo foram organizadores de subjetividades (Foucault, 1984). Quando Foucault 
elabora sexualidade como um dispositivo de disciplina biopolítico, desvenda-se também 
a construção histórica da sexualidade por meio dos corpos que são qualificados como 
normais ou não, caracterizando suas práticas sexuais como normais, anormais, e lícitas, 
ou não, as práticas sociais, entendimento também feito por César (2009). 
O sustento dos argumentos vieram, sem dúvidas, de discursos médicos e jurídicos. 
Ao criar a doença nestes corpos o ajuste é necessário, como também explica César 
(2009), por meio dos conceitos de disciplina e biopoder: 
Ao final desse processo, a nominação e a inserção de certos corpos no campo 
da anomalia e da doença produziu a necessidade de conserto e ajuste desses 
corpos, tanto por meio de práticas médicas e pedagógicas sobre os 
indivíduos, como pela delimitação de práticas sociais abrangendo toda uma 
população por meio de práticas de governo do sexo e das práticas sexuais. 
(CÉSAR, 2009, p. 3) 
 
Sem dúvidas, o caso de Mariana Lively parece exemplificar o conceito de 
biopoder, quando a ação do Poder do Estado, disseminada numa lógica de que todos 
controlam todos, reforçada pelo uso exacerbado de smartphones, com acesso à internet e 
conectado em redes sociais, faz o controle daquilo que apresenta-se fora do padrão. A 
sexualidade que então estrutura-se como um dispositivo discursivo por meio da trans, 
carece que reintegração ao sexo verdadeiro, com o qual nasceu, conforme os saberes 
instituídos. (FOUCAULT, 1984; CÉSAR, 2009) 
O que parece atravessar esta repulsa ao que não se enquadra, ao anormal, é que a 
partir do momento que não se corresponde gênero com o sexo biológico, há um 
descontrole de todos os desejos que possam vir a nascer desta subversão. 
 
Gêneros no jornalismo 
Para aprofundar os sentidos presentes nesta relação entre corpo, gênero e imagem, 
exemplificados pelo caso da trans Marianna, é preciso também discutir os traços 
jornalísticos presentes nas fotos. Silva (2014) identificou em sua pesquisa que a 
distribuição de pautas, os critérios de noticiabilidade e as abordagens das notícias 
também seguem uma lógica heteronormativa, reforçando os contornos binários de 
gênero e sexualidade. Assim, a autora identificou que as questões de gênero estavam 
presentes em várias orientações dos e das jornalistas, por meio da lógica da 
normatividade social vigente, e, com isso, foi possível identificar “que os valores-
notícia estavam permeados dos valores sociais e da subjetividade dos jornalistas” 
(SILVA, 2014, p. 228) 
 Ainda sobre essa projeção do gênero nas produções midiática, sobretudo nas 
jornalísticas, Sandra Chaher (2007) explica a necessidade de se lançar um olhar 
transversal, apesar das dificuldades de se escrever com enfoque de gênero, ocasionadas 
principalmente pela falta desta discussão na formação e pela hierarquia das redações. 
El enfoque transversal, a su vez, puede adaptarse a otros temas como la 
classe social, etnia, edad, discapacidad, identidad sexual, etc. La idea es que 
podamos observar los hechos teniendo en cuenta su diversidad, sea del tipo 
que sea. (CHAHER, 2007, p. 126) 
 
Esta transversalidade propõe que todas as pautas possam ter enfoque de gênero, 
bem como todas aseditorias, mesmo as de hardnews, que aparentam não ter gênero. A 
notícia da divulgação dos documentos pessoais de Mariana, por exemplo, na Folha de 
S.Paulo, foi divulgada na editoria de Cidades. Aqui, a dificuldade tem um novo 
elemento: o fato de não ser um assunto propriamente feminino, como por exemplo a 
amamentação, ligada ao sexo biológico. 
 
Fotografia, realidade e construção social 
O status documental das fotografias é discutido desde o início do pensamento 
fotográfico. É evidente que tal perspectiva é resultado de uma produção por aparato 
técnico, por isso, a necessidade de relativizar estas fronteiras, conforme Buitoni (2011), 
Sousa (2002) e Dubois (1994). De saída já compreendemos que a composição do 
documental exige a naturalidade da cena. 
Philippe Dubois, no ensaio O Ato Fotográfico, discute o realismo na fotografia. 
Para o autor, pode-se pensar a fotografia por três grandes discursos: espelho do real 
(quando é percebida como cópia objetiva do real), transformação do real (fotografia está 
envolvida e codificada culturalmente, composta por um sujeito e feita por um aparelho 
com possibilidade técnicas para congelar e distorcer cenas) e, por fim, índice ou marcas 
do real (ela comprova a existência daquele referente, em tempo e espaço determinados, 
estabelecendo-se como um traço do real). Para Buitoni (2011) fotografia enquanto 
índice “atesta e existência daquele objeto naquele momento”. E Dubois complementa: 
 
A imagem foto torna-se inseparável de sua experiência referencial, do ato que 
a funda. Sua realidade primordial nada diz além de uma afirmação de 
existência. A foto é primeiro índice. Só depois ela pode tornar-se parecida 
(ícone) e adquirir sentido (símbolo). (DUBOIS, 1994, p. 53) 
 
Mesmo que as fotografias do corpus deste artigo não configurem-se como 
fotojornalismo, elas contém alguns elementos passíveis de discussão, como é o caso do 
instantâneo. Dentro de uma lógica de produção jornalística Buitoni (2011) e Sousa 
(2002), deve-se incluir o instantâneo como qualidade jornalística, e também “A 
relevância social e política, a relação com a atualidade e um caráter noticioso [...]” 
(BUITONI, 2011, p. 90). E ainda existem diversas categorias que qualificam tais fotos, 
como flagrante ou denúncia, que junto com o embrião narrativo, reforçam sua força 
jornalística. 
 
Gêneros e binarismos 
Historicamente, a construção da imagem feminina deu-se pelo observador 
masculino por meio da estratégia de lhe conferir qual papel lhe cabia. Tatiana Cova 
(2011) recupera comentários de viajantes brasileiros dos séculos XVIII e XIX para 
fundamentar seu argumento de que o controle sobre o corpo feminino tem 
características específicas na cultura ocidental (pintura e literatura, principalmente), e 
relação com o cristianismo e a sociedade burguesa. 
Assim, Cova (2011) relembra as estruturas binárias sob as quais é construída esta 
filosofia ocidental. Elas são “pares de oposição, entre eles, mente, representado pelos 
paradigmas de masculinidade e corpo, associado à feminilidade, constituíram-se como 
chave de compreensão das relações humanas ao longo dos séculos.” (COVA, 2011, p.2) 
E, entendendo que para operar como estrutura, os pares binários têm polarizações, 
que vão determinar a valorização de um em detrimento de outro. Assim, a mulher 
estaria associada ao corpo, e subordinada ao homem (mente), excluindo possibilidades 
de relações diretas entre o feminino e o racional. 
 
Se a filosofia cristã já não tinha no corpo a base de suas reflexões, a mulher – 
historicamente associada a ele – figurava como objeto estranho e indecifrável 
às suas questões. Outro par de elementos opostos: natureza x cultura também 
passava a ser mobilizado pela filosofia cristã a fim de reforçar tal 
dependência. (COVA, 2011, p.2) 
 
Assim, a figura da mulher é historicamente constituída desprovida de razão, de 
intelecto, de pensamento. Evidentemente, esta é uma condição primeira. O 
desenvolvimento das teorias de gênero, bem como do estado de direito e de militância 
em prol da diversidade de gênero contribuíram para alguns esfarelamentos desta 
perspectiva brutalmente sexista. Ainda assim, o feminino com traços de intelecto e de 
razão, recorrentemente, é interpretado como um feminino masculinizado, capaz de 
“emprestar” estas características genuinamente másculas. 
Ainda sobre a subordinação, Mireya Suárez explica: “a emoção é percebida como 
o termo privado e menor, por ser pré-social, da dicotomia que a opõe ao pensamento já 
que o termo público é mais importante por ser evidentemente social” (1997, p.46). 
Tais reflexões teóricas são recuperadas neste texto para indicar o posicionamento 
das profissionais do sagrado (majoritariamente mulheres) nestes pares binários. Dada 
sua tradição religiosa, com atuação do âmbito privado, atendendo demandas 
historicamente não compreendidas e/ou controladas pelo homem e sua ciência, 
certamente são qualificadas em uma categoria mística, enquanto o masculino estaria 
alinhado à ciência. 
Podemos entender a relação de subordinação deste par mediante a valorização da 
ciência, cujo pensamento orienta a formação social do homem moderno ocidental. Seus 
indicadores determinam comportamentos pela condição sexual biológica, “revelam” 
verdades absolutas, com estudos que são convocados para justificar políticas públicas, 
reforçar estereótipos e morais excludentes e preconceituosas. Enquanto isso, o feminino 
(místico) é um entendimento anterior do mundo, cujas explicações e soluções estariam 
previstas num plano paralelo ao da ciência, com menos comprovações exatas e 
evidentes, e exigindo da crença naquilo que não se vê. 
 
Considerações 
Em um espaço majoritariamente masculino, como o quartel, Mariana cumpria 
seus deveres militares de cidadã nascida com sexo biológico masculino. Estas 
fotografias, veiculadas em peças jornalísticas, em diversos sites, analisadas à luz das 
teorias de gênero e do real na fotografia, considerando a produção multimodal, são 
exemplos de ação do biopoder. Uma ação multimodal graças ao saber de que todos 
podem controlar todos, instituído também pelo estatuto da realidade da fotografia, caro 
a Dubois (1994), o instantâneo, a relevância social e política, a atualidade e o caráter 
noticioso. 
Verificamos que as peças veicularam as mesmas fotos que impulsionaram a 
transfobia, revelando assim não só o reforço do uso de fotografias não produzidas por 
jornalistas (pelo seu caráter informativo e instantâneo) mas, principalmente, a 
orientação da pauta e produção jornalística por padrões de gênero e sexualidade, 
identificada por Silva (2014). 
A inferiorização, consolidada pelo ódio, qualifica o outro como anormal, não 
comum aos humanos, e situa ele num local externo, impossibilitando o acesso a direitos 
sociais, como proteção e reconhecimento social, equiparando a vida deste como a dos 
demais. Além de indicar claramente o processo de polarização, discutido por Cova 
(2011). 
 
 
 
 
 
 
 
 
Referências 
 
BELELI, Iara. “Eles[as] parecem normais”: visibilidade de gays e lésbicas na mídia. 
Cadernos Pagu, Campinas, n. 4, 2009. 
BUITONI, Dulcilia Schroeder. Fotografia e Jornalismo: a informação pela imagem. 
São Paulo: Saraiva, 2011. 
CÉSAR. Maria Rita de Assis. “Um nome próprio: transexuais e travestis nas escolas 
brasileiras”. In: XAVIER FILHA, Constantina. (Org.). Educação para a sexualidade, 
para a equidade de gênero e para a diversidade sexual. Campo Grande, MS: Ed. 
UFMS, 2009. 
CHAHER, Sandra; SANTORO, Sonia. Las palabras tienen sexo: introducción a un 
periodismo con perspectiva de género. Buenos Aires, Artemisa Comunicación 
Ediciones, 2007. 
COVA, Tatiane Paiva. Corpo feminino: repensando feminilidades e masculinidades. 
Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011. 
Disponível 
em: http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1308149344_ARQUIVO_Corpo
feminino-repensandofeminilidadesemasculinidades.ANPUHNacional.pdf.Acesso em 
27 de set. 2011 
DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas, SP: Papirus, 1993. 
FOUCAULT, Michel. A história da sexualidade I: a vontade de saber. 5ª ed. São 
Paulo: Graal, 1984. 
FRANCO, Neil; CICILLINI, Graça Aparecida. Professoras trans brasileiras em seu 
processo de escolarização. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 23, n. 2, 
mai./ago. 2015. 
NATANSOHN, L. Graciela. O corpo feminino como objeto médico e "mediático". 
In: Revista Estudos Feministas. Florianópolis, v. 13, n. 2, mai./ago., 2005. 
SOUSA, Jorge Pedro. Fotojornalismo: uma introdução à história, às técnicas e à 
linguagem da fotografia na imprensa. Porto, 2002. Biblioteca On-Line de Ciências da 
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SUÁREZ, Mireya. A problematização das diferenças de gênero e a antropologia. In: 
AGUIAR, Neuma (org.). Gênero e ciências humanas: desafio às ciências desde a 
perspectiva das mulheres. Rio de Janeiro: Record; Rosa dos Tempos, 1997. p. 31-48. 
Disponível 
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nero%20e%20Ci%C3%AAncias%20Humanas.pdf#page=45. Acesso em 27 de set. 
2011. 
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https://we.riseup.net/assets/127559/versions/1/Aguiar,%20Neuma%20G%C3%AAnero%20e%20Ci%C3%AAncias%20Humanas.pdf#page=45
UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP 
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS 
GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
O tabu como formador de identidade: uma análise de documentários e filmes 
relacionados a formação da sexualidade e gênero 
 
 
 
MARTINS, Hellen Damas 
JUNQUEIRA, Lilian Claudia Ulian 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ribeirão Preto – SP 
Novembro de 2015 
 
Resumo 
 
Os tabus, em sua história são temas com pouca abordagem nas mídias digitais. Assuntos 
ligados à sexualidade e gênero sempre foram proibidos, sendo interditos e diretamente 
influentes na formação da identidade humana. A presente pesquisa objetivou 
compreender à luz das representações sociais presentes em filmes e documentários 
como os tabus influenciam e direcionam a formação da identidade e subjetividade dos 
indivíduos. Na coleta de dados foram utilizados 10 filmes acessados online em diversas 
fontes da internet, onde foram lidas as sinopses e buscadas as convergências dos temas, 
por meio da análise de conteúdo temática. As mídias foram analisadas sob a ótica dos 
pesquisadores, elencando as convergências em suas falas na compreensão de como os 
temas tabu influenciaram na formação de suas identidades. E como as mídias de 
comunicação influenciaram na formação e desconstrução desta ideologia. Os resultados 
apresentam o tema tabu como social e culturalmente pré-estabelecido em normas de 
conduta social, tornando fator primordial na construção da subjetividade humana, 
compreendendo as mídias como o meio fortemente perpetuador nesta relação. 
Palavras-chave: Tabu; mídia e formação da identidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
A construção de uma identidade é um processo inerente à vida humana e 
corresponde as percepções de mundo que se constroem dialeticamente, sendo resultado 
das interações sociais, que inicialmente ocorrem no seio da família ou unidade 
socializadora e são elaboradas no convívio com outros núcleos que a pessoa venha a se 
agregar ao longo da vida. 
Em relação à constituição da identidade existem diversos fatores que contribuem 
permeando desde características individuais, fatores interpessoais de identificação e a 
influencia da cultura e valores sociais expostos ao indivíduo. Nessa perspectiva, 
entende-se que a construção de uma identidade é multifacetada, sendo que cabe ao 
indivíduo em sua existência e constituição definir-se em determinadas características e 
diferenciais, qual grupo pertence e suas preferências, em um longo processo de 
desenvolvimento. 
Sobre a identidade, Bauman (2005, p. 23) elucida “a identidade é o papo do 
momento”, sendo um assunto de extrema importância e evidência. Sob sua 
compreensão ela nos é revelada como algo a ser inventado, e não descoberto e neste 
processo há um esforço que as coisas precisam ser construídas a partir do zero ou 
escolher entre alternativas já existentes, e então lutar ainda mais para sua proteção. 
(BAUMAN, 2005). 
A construção da sexualidade está na relação de gênero e identidade, entendendo 
como o primeiro como uma dimensão biológica do sexo (feminino ou masculino) e o a 
identidade como a percepção individual relacionada a experiências internas e externas 
de gênero do indivíduo. As definições de masculino e feminino enfatizam o caráter 
social e histórico das concepções baseadas nos papéis designados para homens e 
mulheres. Através de suas relações sociais, suas representações e as práticas que 
vivencia, os sujeitos vão se constituindo (VINHOLES, 2012). A partir desta premissa 
entende-se que a elaboração ocorre a partir de autopercepções em sentir-se masculino 
ou feminino, que desenrolam constituição da na orientação sexual dos indivíduos. 
Neste sentido, sexo, identidade de gênero e orientação sexual são valores ou 
conceitos fechados, pré-construídos e compartilhados pelas instituições sociais. De tal 
forma que, se uma pessoa ousar questionar seu próprio sexo, ou tiver outra identidade 
de gênero além daquela pré-estabelecida, ou ainda que se expresse sexualmente fora do 
padrão heterossexual, esta pessoa estará convidando a sociedade a uma "revolução de 
valores" (TURKE et al, 2015). 
Ainda sobre o processo de construção da identidade de gênero, Costa e Antoniazzi 
(1999) elucidam, que: 
“O processo de construção da identidade de gênero tem importância 
fundamental para o desenvolvimento dos indivíduos, pois determina 
interesses, atitudes e comportamentos que o acompanharão ao longo da vida. 
O ponto de maior interesse sobre este tema refere-se à maneira pela qual 
ocorre a formação do conceito de identidade de gênero, através da qual os 
indivíduos irão perceber a existência da diferença sexual, posteriormente 
identificando-se como homens ou mulheres.” 
 
É possível, portanto, compreender a importância dos discursos produzidos e 
reproduzidos acerca das relações de gênero, considerando que servem como referência 
para desde a infância, sendo significativos em relação à construção da imagem do que é 
ser menino e do que é ser menina, e automaticamente influenciados pelos valores 
predominantes da cultura midiática, devido à alta exposição desde a infância precoce. 
(VINHOLES, 2012). 
A mídia atua na propagação das representações sociais, agindo de forma a tornar 
comuns ideias e assuntos de interesse a comunidade em geral. A sexualidade nesta 
perspectiva penetra cada vez mais nas programações, sendo a partir de programas mais 
apelativos e na inserção de personagens homossexuais desde novelas até filmes. No 
entanto, há muita controvérsia neste movimento, já que a mídias em sua história sempre 
fizeram representações estereotipadas e cristalizadas de temas ligados à sexualidade. 
Os meios de comunicação em massa refletem diretamente no estabelecimento dos 
comportamentos sociais, normatizando condutas e normas padrão sobre o que é certo e 
errado e formando os tabus. Informar, divertir e persuadir são funções os meios 
executam, sendo um veículo mercadológico e democrático, já queatende uma 
população, mesmo que esta seja muito heterogênea, variando de classes sociais, local de 
habitação, idade, cor, sexo, etnia e religião. E principalmente na era pós-moderna em 
que vivemos, onde as informações e as relações são cada vez mais rápidas e líquidas 
configurando as identidades atuais (BAUMAN, 2005). 
 
OBJETIVO 
Investigar a influência da mídia na construção da identidade de gênero e sexualidade 
através das as representações sociais presentes em filmes e documentários, buscando 
identificar os discursos predominantes. 
JUSTIFICATIVA 
 Percebemos que no levantamento do tema tabu em mídias existe um número 
limitado de publicações e discussões teóricas que aprofundem o assunto, uma vez que é 
de grande relevância para a compreensão do fenômeno da identidade construída na pós-
modernidade. Dentro desta temática nos propusemos a investigar as representações 
sociais que os filmes apresentam sobre a identidade e a sexualidade como processos 
interligados e reforçados pela influência da mídia. Faz-se necessário se ater a pontos que 
reforçam e enraízam cada vez mais na sociedade temas tabus na formação da 
identidade, por isso é imprescindível entender como acontece as representações sociais 
de sexualidade e gênero que operam em formações de identidades reforçando 
preconceitos e como esse olhar é influenciado pelas mídias. 
METODOLOGIA 
Referencial Teórico- Metodológico 
 Trata-se de uma pesquisa qualitativa apoiada no referencial teórico das 
representações sociais, que se sucederá através do trabalho de pesquisa bibliográfico, 
por meio do levantamento de filmes e documentários que tratem do tema tabu na 
formação da identidade. Optou-se pela adoção dessa metodologia por possibilitar a 
captação subjetiva a partir da percepção de quem vivencia tal situação. A teoria das 
representações conforme Moscovici (2009) “toma como ponto de partida, a diversidade 
dos indivíduos, atitudes e fenômenos, em toda sua estranheza e imprevisibilidade. Seu 
objetivo é descobrir como os indivíduos e grupos podem construir um mundo estável, 
previsível, a partir de tal diversidade”. 
As representações sociais são conceitos podem ser alinhados a formação da 
identidade, já que segundo Moscovici (2009) nós percebemos o mundo tal como é e 
nossas percepções, ideias e atribuições a estímulos do ambiente físico que nós vivemos. 
Nessa perspectiva nota-se que elas possuem duas funções: onde há uma 
convencionalização dos objetos, coisas e acontecimentos que nos é oferecido, 
possibilitando a formação de um modelo determinado, distinto e a ser partilhado por um 
grupo de pessoas; a outra função refere-se a prescrição das mesmas, que diz respeito a 
forma como elas são apresentadas sendo impostas com grande eficácia. 
A partir destas ideias, nota-se que a formação da sexualidade e identidade sofre 
influencia das representações sociais já existentes e inquestionáveis, que se tornam 
padrões comuns a todos, cabendo a cada indivíduo a identificação os discursos pré-
estabelecidos. Como consequência da relação de gênero em uma dimensão biológica do 
sexo (feminino ou masculino) e a identidade como a percepção individual relacionada a 
experiências internas e externas de gênero do indivíduo. 
As definições de masculino e feminino já existentes e propagadas socialmente pelos 
diversos meios de comunicação enfatizam o caráter social e histórico destes conceitos, 
baseando-se nos papéis designados para homens e mulheres. Através de suas relações 
sociais, suas representações e as práticas que vivencia, os sujeitos vão se constituindo. 
(VINHOLES, 2012). 
Neste sentido, sexo, identidade de gênero e orientação sexual são valores ou 
conceitos fechados, pré-construídos e compartilhados pelas instituições sociais, mídias e 
senso. De tal forma que o ato questionar seu próprio sexo, ou houver uma dissonância 
em relação a identidade de gênero, além daquela pré-estabelecida o indivíduo a estará 
convidando a sociedade a uma "revolução de valores" (TURKE et al, 2015). 
É possível, portanto, compreender a importância dos discursos produzidos e 
reproduzidos acerca das relações de gênero, considerando que servem como referência 
para desde a infância, sendo significativos em relação à construção da imagem do que é 
ser menino e do que é ser menina. (VINHOLES, 2012). 
Análise dos dados 
A análise será a partir do método de Análise de Conteúdo temático em que seu foco 
é a significação dos dados e não somente sua descrição, por isso são consideradas as 
variáveis e as convergências dos discursos e o modo como vão ser interpretadas, após 
serem transcritas na integra (MINAYO, 2008). 
Bogdan e Biklen (1994) tomam o significado como idéia-chave. Afirmam que o 
pesquisador qualitativista não quer explicar as ocorrências com as pessoas, individual 
ou coletivamente, listando e mensurando seus comportamentos ou correlacionando, 
quantitativamente, eventos de suas vidas. Ele pretende conhecer a fundo suas vivências 
e que representações essas pessoas têm dessas experiências de vida. 
 Os dados foram organizados em categorias e subcategorias, levando-se em conta a 
variedade e regularidade das respostas e os padrões convergentes de conteúdo dos 
relatos. Fazer uma análise temática implica em descobrir os núcleos de sentido que 
compõem uma comunicação, cuja presença ou frequência signifiquem algo para o 
objeto visado. Para tanto serão seguidos os passos metodológicos recomendados pela 
literatura (MINAYO, 2008): 
1) Pré-análise (leituras flutuantes e exaustivas, organização do material e 
sistematização de ideias e eixos estruturantes que constituirão o corpus da análise); 
2- Exploração do material (categorização de dados, a partir de expressões ou 
palavras significativas que dão origem a unidades de registros, por similaridade dos 
conteúdos); 
3- Tratamento dos dados obtidos e interpretação (tratamento de dados e 
interpretação dos significados dos conteúdos temáticos com base no referencial teórico 
assumido pela pesquisadora, podendo também abrir caminhos para novas dimensões 
teóricas e interpretativas) 
RESULTADOS E DISCUSSÃO 
 
Na coleta de dados foram utilizados 10 filmes acessados online em diversas 
fontes da internet, onde foram lidas as sinopses e buscadas as convergências dos temas, 
por meio da análise de conteúdo temática. As mídias foram analisadas sob a ótica dos 
pesquisadores, elencando as convergências em suas falas na compreensão de como os 
temas tabu influenciaram na formação de suas identidades. O método constitui a análise 
e levantamento dos filmes, nos últimos 15 anos, que envolvem o tema de identidade 
sexual na pós-modernidade, conforme a tabela abaixo: 
 
FILMES ANO TEMÁTICA PRINCIPAL 
Amores Impossíveis 2001 Comédia Romântica 
Do começo ao fim 2009 Romance homoafetivo 
Elvis e Madona 2010 Romance 
Bruna Surfistinha 2011 Prostituição 
Programa Tabu Brasil 
Mudança de sexo 
2013 Identidade de gênero e Transsexualidade 
Programa Tabu Brasil: 
Prostituição 
2013 Prostituição 
Azul é a cor mais quente 2013 Romance homoafetivo 
De gravata e unha vermelha 2014 Identidade de gênero, orientação sexual e 
transexualismo 
Praça da Luz 2014 Prostituição mulheres com idade avançada 
Hoje eu quero voltar sozinho 2014 Orientação homossexual e Romance 
homoafetivo 
 
Os filmes utilizados para análise, em sua maioria, correspondem a produções 
cinematográficas brasileiras, que abordam diversas temáticas envolvendo a sexualidade 
em diversos contextos, como nos relacionamento hetero e homoafetivo, formação da 
identidade de gênero e orientação sexual e prostituição. 
Nos filmes em que o enredo envolve os relacionamentos homoafetivos os 
personagens principais são alvos de preconceito. A família e os amigos, na maioria dos 
casos não compreende a orientação sexual dos personagens. No entanto, os personagens 
são firmes na luta pela afirmação da sua sexualidade e resistemconta todas situações 
adversas. Existe um cuidado por parte dos roteiristas ao trabalhar a temática, já que na 
dos os conflitos que surgem a partir da sexualidade são trabalhados com delicadeza e o 
desenrolar da história os conflitos focam na aceitação social da sexualidade dos casais. 
A prostituição, por ser um assunto um pouco mais discutido nas mídias foi 
explicitada nos filmes e documentários. Os personagens envolvidos expressavam um 
sentimento de prazer e na afirmação do exercício profissional. Em todos os discursos 
havia casos de vulnerabilidade social como fator desencadeante para o início da 
profissão. Além de relatos que o dinheiro é grande motivador da prática. 
Em relação à temática de identidade de gênero e orientação sexual os 
personagens transgênero em seu discurso a dissonância da não identificação do corpo 
biológico com a concepção sexual que cada um percebe de si. Nas falas aparecem 
histórias de bulling, preconceito, homofobia, além do desejo de passar por alterações no 
corpo. 
A mídia atua na propagação das representações sociais, atuando de forma a 
tornar comuns ideias e assuntos de interesse a comunidade em geral. A atenção pelo 
modo que os temas são tratado nas mídias refletem no modo como eles são 
representados e abordados, uns como muito mais influência e predominância em relação 
aos outros, como no caso os assuntos ligados à sexualidade, que se insere neste contexto 
como um assunto tabu, sendo um tema com pouca abordagem por confrontar conceitos 
e normas morais, éticas, políticas e religiosas. As representações sociais sobre 
sexualidade interditas pelos tabus são perpetuadas pela mídia sem que a população pare 
para se questionar se aquele valor realmente é verdade ou apenas uma representação e 
assim vai se construído seu imaginário reprimido em sua identidade, carregado de 
preconceitos que o social lhe aculturou cotidianamente sobre sexualidade e gênero. 
Fischer ressalva a importância de nos atentarmos bem para o modo como são 
elaborados inúmeros produtos midiáticos, há um sem-número de técnicas através das 
quais se propõe a todos nós que façamos minuciosas operações sobre nosso corpo, sobre 
nossos modos de ser, sobre as atitudes a assumir. (FICHER, 2002) 
Aprendemos a viver o gênero e a sexualidade na cultura, através dos discursos 
repetidos da mídia, da Igreja, da ciência e das leis e também, contemporaneamente, 
através dos discursos dos movimentos sociais e dos múltiplos dispositivos tecnológicos. 
As muitas formas de experimentar prazeres e desejos, de dar e de receber afeto, de amar 
e de ser amada/o são ensaiadas e ensinadas na cultura, são diferentes de uma cultura 
para outra, de uma época ou de uma geração para outra. (LOURO, 2008) 
Os meios de comunicação em massa refletem diretamente no estabelecimento 
dos comportamentos sociais, normatizando condutas e normas padrão sobre o que é 
certo e errado. Informar, divertir e persuadir são funções os meios executam, sendo um 
veículo mercadológico e democrático, já que atende uma população, mesmo que esta 
seja muito heterogênea, variando de classes sociais, local de habitação, idade, cor , sexo 
e religião. E principalmente na era pós-moderna em que vivemos, onde as informações 
e relações são cada vez mais rápidas e líquidas. 
Os resultados apresentam o tema tabu como social e culturalmente pré-
estabelecido em normas de conduta social, tornando fator primordial na construção da 
subjetividade humana, compreendendo as mídias como o meio fortemente perpetuador 
nesta relação. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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http://www.sies.uem.br/trabalhos/2015/636.pdf
(AS)SEXUALIDADE(S): INTERSECÇÃO NO MUNDO VIRTUAL E NO REAL 
 
TODO, GABRIELA ALVES MARTINS GUIMARÃES LYRIO 
Universidade Federal do Triângulo Mineiro/ Instituto de Educação, Letras, Artes, 
Ciências Humanas e Sociais/ Departamento de Psicologia 
 
Palavras-chave: assexualidade; diversidade sexual; sexualidade. 
 
Introdução: A assexualidade é compreendida como forma de viver a sexualidade 
caracterizada por desinteresse pela prática sexual, podendo ou não haver o desinteresse 
por relacionamentos amorosos. O desinteresse sexual/amoroso tem uma construção 
social de transtorno psicológico/fisiológico. Este fenômeno é compreensível dada 
dinâmica científica, gerida por uma epistemologia baseada na ciência moderna, 
fortemente marcada pelo conhecimento biomédico. Neste contexto, a Neurofisiologia e 
a Psicanálise encontram solo fértil para contribuir com a patologização de pessoas que 
não apresentam a atração sexual esperada. O intento deste trabalho é contribuir para um 
olhar diferente, acerta deste tema, possibilitando a despatologização dessa forma de 
existência. A comunidade científica brasileira precisa abrir campo para pesquisas que 
tratem deste assunto. A presença desses sujeitos dá-se, sobremaneira em comunidades 
assexuais virtuais, com vários graus de mobilização e tem criado visibilidade a esta 
categoria. O olhar científico tem de atentar-se a este recente fenômeno e suas possíveis 
consequências. Metodologia: Este trabalho trata-se de um relato de experiência em 
minha nova posição de administradora em um grupo no facebook, que tem 1482 
membros. O grupo conta com 10 administradores e pedi para que eles me enviassem um 
texto livre que tratasse sobre a temática, de modo a explicar como chegaram até o grupo 
e qual a expectativa com o grupo virtual na vida real. Resultados: Quadro de 
administradores do grupo transformado. Uma das participantes disse que disse que 
acredita que o grupo no facebook tenha um papel importante em auxiliar os assexuais e 
até mesmo esclarecer a sociedade; a partir do momento que há uma identificação, 
sabendo que isso tem nome e é normal, as pessoas se sentem livres para reafirmar sua 
condição perante a sociedade sem medo,consequentemente desmistificando a visão que 
se tem sobre assexualidade. 
 
A assexualidade é compreendida como forma de viver a sexualidade 
caracterizada por desinteresse pela prática sexual, podendo ou não haver o desinteresse 
por relacionamentos amorosos. O desinteresse sexual/amoroso tem uma construção 
social de transtorno psicológico/fisiológico. Este fenômeno é compreensível dada 
dinâmica científica, gerida por uma epistemologia baseada na ciência moderna, 
fortemente marcada pelo conhecimento biomédico. 
Deve-se ressaltar que nesta temática, a Neurofisiologia e a Psicanálise 
encontram solo fértil para contribuir com a patologização de pessoas que não 
apresentam a atração sexual esperada. O intento deste trabalho é contribuir para um 
olhar diferente, acerta deste tema, possibilitando a despatologização dessa forma de 
existência. A comunidade científica brasileira precisa abrir campo para pesquisas que 
tratem deste assunto. A presença desses sujeitos dá-se, sobremaneira em comunidades 
assexuais virtuais, com vários graus de mobilização e tem criado visibilidade a esta 
categoria. O olhar científico tem de atentar-se a este recente fenômeno e suas possíveis 
consequências. Afinal, essas pessoas existem para além das telas de informática e das 
redes virtuais. 
De acordo com a tese de doutoramento de Elisabete Oliveira (2014), as 
comunidades virtuais e redes sociais têm peso significativo na afirmação da 
assexualidade. Deve considerar-se o fato de que o conceito de assexualidade brotou na 
internet e nela tem sido sua propagação. Segundo a mesma pesquisadora, a escola é um 
ambiente importante para a imposição dos padrões de gênero e sexualidade que 
chancelam scripts hetero e sexonormativos (neste local, há a ausência de debates 
sobre as especificidades da assexualidade), prejudicando por conseguinte o 
reconhecimento da diversidade sexual em suas ações no âmbito da educação em 
sexualidade. 
Segundo Elisabete Oliveira (2014), no Brasil, existem diversos grupos 
assexuais na rede social Facebook nos quais se relatam questões pessoais 
enfrentadas pelos membros no cotidiano. Atualmente, sou administradora de um 
grupo na rede social Facebook, com outras 9 pessoas; o grupo é composto por 1624 
membros. Há menos de um mês, quando submeti o trabalho, havia o número de 1482 
membros, deste modo, nota-se um aumento significativo na quantidade de pessoas no 
grupo. Dentro deste período de tempo, houve a semana de visibilidade da assexualidade, 
e algumas pessoas veicularam informações acerca da temática, o que favorece esse 
fenômeno. 
Este trabalho trata-se de um relato de experiência em minha nova posição de 
administradora deste grupo no Facebook. O grupo conta com 10 administradores e pedi 
para que eles me enviassem um texto livre que tratasse sobre a temática, de modo a 
explicar como chegaram até o grupo e qual a expectativa com o grupo virtual na vida 
real. Não obtive respostas muitos na maioria dos casos. Apenas outras duas pessoas que 
administram o grupo me responderam. 
O intuito deste trabalho, inicialmente era colher relatos de 4 administradores 
deste grupo no Facebook. Antes de escrever qualquer coisa, enviei mensagens a estes 
sujeitos. Uma das administradoras iniciou uma mudança de gestão, convocando novos 
administradores voluntários. Deste modo, candidatei-me, hesitando num primeiro 
momento e meu trabalho mudou um pouco sua dinâmica e realidade. 
Tornar administradora do grupo foi algo que questionei em um primeiro 
momento, hesitei. Tanto que quando demonstrei meu interesse em administrar o grupo, 
a antiga administradora que havia proposto a entrada de novos administradores e 
informado a sua futura saída havia saído no dia anterior da administração do grupo e 
haviam 9 administradores (6 novos). Ela me orientou a falar com os administradores e 
eles criaram uma conversa com os 9 participantes para decidir sobre a minha entrada na 
administração do grupo. Esta conversa ainda existe e é um local no qual nos 
comunicamos de modo coletivo, desde então. 
Encaro como um resultado positivo o quadro de administradores do grupo 
transformado, com uma comunicação mais efetiva. Obtive resposta de duas pessoas que 
administram o grupo. Uma das participantes disse que disse que acredita que o grupo no 
facebook tenha um papel importante em auxiliar os assexuais e até mesmo em 
esclarecer a sociedade; segundo ela, a partir do momento que há uma identificação, 
sabendo que isso tem nome e é normal, as pessoas se sentem livres para reafirmar sua 
condição perante a sociedade sem medo, consequentemente desmistificando a visão que 
se tem sobre assexualidade. A outra disse que deveríamos nos apresentar melhor uns 
aos outros (o que fizemos de modo bastante contido, posteriormente). Ambas, assim 
como eu, nunca participaram de encontros de assexuais no espaço público. Contudo, a 
intersecção entre as questões LGBT 
Pude constatar que assim como Elisabete Oliveira (2014) encontrou em seu 
doutorado, participar esporadicamente de um grupo no Facebook não requer um 
esforço maior dos indivíduos na construção do senso de comunidade, nem requer a 
aprendizagem e uso dos recursos necessários para a atuação em comunidade 
virtual. Contudo, ao contrário da inexistência que a mesma pesquisadora encontrou 
acerca da inexistência de ação de grupos assexuais brasileiros para se aproximar do 
movimento LGBT, como ocorre nos Estados Unidos, da inexistência da construção 
de agenda política/existencial, a não ser a visibilidade(de modo limitado), noto que 
há uma certa mudança neste aspecto (contudo ainda deveras incipiente e repleto de 
limitações). A maior limitação deste trabalho é a incipiência dos estudos dessa temática 
em solo brasileiro. 
 
Bibliografia: 
 
OLIVEIRA, Elisabete Regina Baptista de. “Minha vida de ameba”: os scripts sexo-
normativos e a construção social das assexualidades na internet e na escola. São 
Paulo: Banco de Teses da USP, 2014. 225p. 
Diversidade de Gênero nas Organizações: Novas Perspectivas em Estratégias 
de Comunicação para o Reconhecimento de Grupos LGBTs nas Empresas 
Vigor e Carrefour 
SOARES, Karen Greco 
Universidade Federal do Paraná, Curitiba-PR 
Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM- UFPR) 
Agencia financiadora: Capes 
 
Resumo: Este estudo tem por objetivo compreender como duas organizações trabalham 
o discurso da diversidade de gênero em estratégias de comunicação para o segmento 
LGBT. Partindo-se do levantamento bibliográfico sobre a comunicação social e relações 
públicas em diálogo com os estudos de gênero, busca-se observar como se realoca o 
discurso sobre a diversidade de gênero nas organizações. Nessa perspectiva, pode-se 
inferir que há um processo de reconhecimento contra-hegemônico por parte das duas 
organizações, que dentro de um contexto capitalista de produção, reformulam suas 
práticas comunicativas para incluir em seu discurso segmentos minoritários e 
historicamente invisibilizados da sociedade como o LGBT. 
Palavras-chave: Diversidade de Gênero; LGBTs; Organizações. 
 
1. Comunicação e Relações Públicas: agentes estratégicos em ambientes 
organizacionais 
A moderna comunicação social compreende um campo de estudos voltado à 
reflexão crítica e científica de três principais práticas profissionais: o jornalismo, a 
publicidade e propaganda e as relações públicas. De formas diferentes, estas 
habilitações abrangem um mix de atividades que colocam a comunicação como ponto 
fundamental das relações sociais em todos os níveis, seja por interação face a face, 
mediada por dispositivos midiáticos ou, até mesmo, em um âmbito macro, de 
organizações para com seus públicos, respingando à construção de uma opinião pública, 
da formação de novas práticas culturais e hábitos de consumo na sociedade. 
Não énovidade o potencial da comunicação enquanto espaço de construção de 
discursos e disputa de sentidos (BALDISSERA, 2008). Em um contexto de 
globalização no qual o ambiente socioeconômico aquece a busca por um diferencial 
competitivo, a comunicação se torna estratégica e fundamental para as organizações. Os 
discursos das organizações devem estar em consonância com aspectos de 
responsabilidade social, de reconhecimento de grupos culturais e étnicos, saindo assim 
em certa medida da lógica hegemônica lucrativa que sempre permeou os espaços 
organizacionais. 
Nessa construção de sentidos, as organizações e seus públicos de relacionamento 
podem ser vistos como agentes de práticas discursivas responsáveis pelos sentidos 
atribuídos às ações comunicativas (OLIVEIRA; PAULA, 2008). Ou seja, a forma como 
se constrói o discurso das organizações na contemporaneidade passa a ser visto e 
avaliado por grupos tanto internos ou externos à organização. O seu feedback é 
termômetro para a organização planejar suas ações. 
Nesse sentido, as modernas relações públicas representam, dentre as três 
habilitações, a atividade que reforça este espaço de troca entre organizações e seus 
grupos de relacionamento. Nos últimos anos, impulsionada por lutas sociais como as de 
gênero, de raça e etnia, grupos sociais minoritários como o LGBT passam a receber um 
olhar mais apurado das organizações e o campo de atividades das relações públicas se 
abrem a estas novas formações socioculturais. O que se tem percebido é uma nova 
locução por parte das organizações em relação à diversidade de gênero e sexual, 
provocando uma ressignificação nas estratégias de comunicação dessas organizações. 
Porém, necessário é compreender a própria conceituação de gênero dentro deste 
processo, principalmente dentro dos estudos de gênero, que foram grandes propulsores 
da abertura dessa discussão em esferas diversas da sociedade, como a política, a 
acadêmica e também a organizacional. Entende-se, neste trabalho, que os estudos de 
gênero em diálogo com a comunicação são o pano de fundo para a compreensão dessas 
novas estratégias e desse novo discurso nas organizações acerta das pessoas LGBT. 
 
2. Estudos de gênero, grupos LGBTs e um novo campo para a comunicação 
Desde a fundação das disciplinas científicas que estudam o social, as 
diferenciações de sexo são objetos de estudo recorrentes. Porém, até meados de 1960 os 
estudos entendiam, em sua grande maioria, que as masculinidades e feminilidades 
tratavam-se de classificações universais e naturais, ou seja, inerentes a “espécie” 
humana (SUÁREZ, 1997, p 31). 
A palavra gênero, no entanto, só vem a surgir no espaço científico quando um 
movimento genuinamente feminino começa a prospectar a desnaturalização da condição 
da mulher na organização da sociedade. Diferentemente da visão naturalista e universal, 
a busca era pela compreensão dos papéis de homem e mulher como modelados 
culturalmente. 
No entanto, inicialmente, dentro desta discussão, o termo gênero era considerado 
apenas como sinônimo de mulher. Só posteriormente, com a ampliação do campo de 
investigação científica, que a conceituação de gênero passou a abarcar uma relação com 
outras categorias como diferentes sistemas de gênero, que romperiam com o binarismo 
das categorias ‘mulher’ e ‘homem’. Para SCOTT (1990), gênero é uma categoria de 
análise histórica, cultural e política, que expressa relações de poder. Essa conceituação 
permite o diálogo com outras categorias, como raça, classe ou etnia, e, também, levar 
em conta a possibilidade da mudança, inserindo-se aí as relações sociais de sexo e 
sexualidade também. 
Já a partir dos anos 1990, uma nova guinada foi dada nos estudos de gênero pela 
chamada teoria queer, a cabo da filósofa feminista Judith Butler (2003). Seu estudo 
questiona o regime de normatividade heterossexual das sociedades, apresentando o 
aspecto socialmente transformável e relacional dos corpos e da sexualidade (gays, 
lésbicas, transexuais, travestis, bissexuais). Nesse sentido, os estudos queer inserem no 
guarda-chuva do conceito de gênero também os segmentos não-heterossexuais, ou seja, 
concebendo-se aí e entendida nesse estudo como diversidade de gênero. 
Nesse sentido, gênero, enquanto categoria para este estudo, adota-se a seguinte 
definição, proposta por BIROLI e MIGUEL (2014, p. 79): “é a organização social da 
diferença sexual”. O que não significa que reflita algo fixo; ao contrário, “gênero é o 
conhecimento que estabelece sentidos para as diferenças físicas”. Entendido dessa 
forma, gênero não é uma “identidade”, mas uma “posição social e atributo das 
estruturas sociais”. Dessa maneira, a categoria LGBT enquadra-se como um segmento 
de gênero, um grupo social que possui determinada posição em relação à construção do 
discurso das organizações. 
 Ora, se gênero é o conhecimento que estabelece sentidos para as diferenças 
físicas, a comunicação, com a inserção dessa questão em suas pautas, ações, estratégias, 
renova também, o seu sentido, constituindo-se como uma ferramenta para a 
ressignificação necessária ao enfrentamento que a temática ainda recebe em setores 
mais conservadores da sociedade. 
3. Diversidade de gênero nas organizações: os casos Vigor e Carrefour 
Para este estudo, foram escolhidas duas ações de comunicação com perspectivas 
diferentes de abordagem em duas organizações que representam este novo cenário 
contemporâneo em que a comunicação estratégica se faz diferencial: a Vigor, empresa 
do ramo alimentício brasileiro e o Carrefour, rede de hipermercados da multinacional 
americana Walmart. 
De um lado, tem-se a Cartilha Carrefour “Valorizamos a diversidade”: Ação de 
diversidade sexual da empresa Carrefour destinada ao público interno (colaboradores da 
organização), e do outro, uma ação veiculada pela página no facebook da empresa 
Vigor, o anúncio “Famílias Diferentes”, ação veiculado pela página do facebook da 
empresa Vigor no dia 16 de julho de 2014. A análise que se dará compreende uma 
perspectiva de análise do discurso segundo a linha francesa, especialmente em 
Pêcheaux, pois sua abordagem se alinha com a referência macro desta pesquisa que 
compreende a comunicação como espaço de disputa de sentidos. Em Pecheaux (1988), a 
linguagem não é entendida apenas como um sistema de regras formais, estrutural. Nessa 
perspectiva, ela é pensada como simbólica, como uma “divisão política de sentidos” 
(BRASIL, 2011, p. 172). 
Segundo os critérios Pecheauxianos, este estudo se debruça sobre a busca de dois 
aspectos fundamentais: o sujeito do discurso e a formação discursiva (FD). Entende-se que o 
mapeamento destes âmbitos nas duas estratégias elencadas permite inferir como ocorreu o 
discurso da diversidade de gênero nessas empresas. 
 
3.1. Sujeito do discurso: 
 
Nos dois casos analisados, entendem-se os sujeitos do discurso como os grupos 
LGBTs, ou seja, indivíduos não heterossexuais. O sujeito apresenta aí viés histórico, 
pois trata-se de uma formação sociocultural que já existia muito anteriormente de ser 
reconhecida em âmbitos organizacionais, datando seu histórico de luta e 
reconhecimento político, bem como discussões a nível científico sobre suas pautas, etc. 
Para Pêcheux (1988), o sujeito do discurso não se pertence, ele se forma pelo esquecimento 
daquilo que o determina. Isso significa que o sujeito não emerge como um personagem 
estanque, mas sim, como a interpelação deste indivíduo em relação à língua e a história: “pois 
para se constituir, para (se) produzir sentidos ele é afetado por elas. (...) Ou seja, se ele 
não se submeter à língua e à história, ele não se constitui, ele não fala, não produz 
sentidos (ORLANDI, 2005, p. 50). 
Nesse caso, as organizações fazem-se valer, mesmo que intrinsecamente, a todo este 
histórico quando tornam visível este grupo através de suas ações comunicativas. 
Entretanto, esse histórico é causapróprio no interior de seu efeito, indo no sentido de 
acobertamento que Pêcheaux falava, quando outros recursos comunicativos se tornam 
mais explícitos que o próprio viés histórico do sujeito nas duas ações. 
A Cartilha da Diversidade Sexual do Carrefour aborda o sujeito logo em seu 
enunciado primeiro: “Como lidar com pessoas LGBTs”, contendo sete perguntas sobre 
situações que envolvam direta e indiretamente grupos LGBTs no ambiente 
organizacional. Não aborda a questão do histórico de opressão social e estigma que este 
grupo sofreu ao longo dos anos, porém, é na análise do discurso que este fator se 
salienta como algo dobrado nesta estratégia, ficando explícito somente com a análise. 
Neste ponto, identifica-se a posição do sujeito na estratégia, tópico que será visitado 
posteriormente. 
 
 
Imagem 1: Parte interna da Cartilha Valorizamos a Diversidade Carrefour. Fonte: Autora do trabalho. 
 
 
 
3.2. Formação discursiva 
 
O conceito de formação discursiva em Pêcheaux é oriundo de formulação 
elaborada por Michel Foucault (2004), que se relaciona a formação ideológica 
construída ao longo discurso. Em outras palavras, o sujeito do discurso traz para o 
debate um grupo de representações individuais a respeito de si mesmo, do interlocutor e 
do assunto abordado. A FD formação discursiva é a projeção da ideologia no dizer 
(ORLANDI, 2005, p. 55). 
Passando para análise da formação discursiva, tem-se o anúncio veiculado pelo 
facebook da empresa Vigor. A imagem, acompanhada da legenda: “Famílias diferentes. 
Contextos diferentes. Uma coisa em comum: o amor. Inclusive pelo mesmo requeijão”. 
 
 
Imagem 2: Anúncio veiculado pelo facebook da Vigor. Fonte: Página da Vigor 
 
 
Na formação discursiva, o objeto de apreciação de estudo deixa de ser a frase, e 
passa a ser o discurso, uma vez que foge da apreciação palavra por palavra na 
interpretação como uma sequência fechada em si mesma. Dessa forma, este anúncio se 
faz pertinente para compreender o discurso da organização sobre o grupo LGBT, pois 
está disposta em forma de imagem, dando uma ideia mais lúdica do que imperativa 
sobre a noção da diversidade para esta empresa. 
O anúncio fornece a visão de cima de uma mesa disposta com elementos que 
remetem a um café da manhã, estando duas mãos de dois homens de um lado 
entrelaçadas, supondo um casal homoafetivo. Os anúncios envolvendo cafés da manhã e 
os chamados “comerciais de margarina” notadamente sempre representaram um modelo 
heterocentrado de família, que neste anúncio da Vigor se realoca, dando outros 
significados ao sentido de família. Da mesma forma que na Cartilha Valorizamos a 
Diversidade, o sujeito são os grupos LGBTs, interpelados por sua posição sujeito 
variante no decorrer do enunciado. A fita com as cores do movimento político LGBT ao 
canto da imagem reforçam a interpelação da ideologia intrínseca ao sujeito, dessa forma 
sendo a formação discursiva da organização indo de encontro ao reconhecimento deste 
grupo. 
Entende-se então, que o grupo LGBT, constitui-se como sujeito a partir do momento 
em que torna-se presente, visível, nas duas estratégias de comunicação observadas. 
Ainda que, em certa medida, de forma tímida, o sujeito está ali interpelado por sua 
história e ideologia, que transcende o mero agregar valor ao produto, a lógica 
competitiva das organizações estudadas. A formação discursiva tanto na Cartilha da 
Diversidade Sexual do Carrefour, quanto no anúncio do Facebook da Vigor, interpõe a 
discussão do gênero como não mais algo invisível ou velado na sociedade, propondo o 
seu reconhecimento e ressignificação deste grupo historicamente condicionado a 
desigualdade. 
 
Considerações 
O ensejo deste estudo, antes de tudo, foi a tentativa de um exercício de aproximar da 
comunicação social esta problemática tão recorrente na sociedade atual que são as 
discussões de gênero. O momento político e cultural é oportuno para as organizações, 
que cada vez mais repensam suas práticas e ressignificam suas lógicas de lucro em prol 
do reconhecimento de grupos não hegemônicos e minoritários como o LGBT. 
Especificamente no que concerne a esta pesquisa, a fusão comunicação, 
organizações e gênero pode ser um âmbito profícuo de reforço de identidades 
estigmatizadas, de conscientização e valorização da diferença. É na dimensão 
comunicativa que as organizações podem corroborar para uma sociedade mais justa e 
igualitária em relação às questões de gênero. 
Da mesma forma, para serem vistas com credibilidade por seus públicos, as 
organizações precisam assumi também a sua função política, que nas palavras de um 
teórico das relações públicas pode ser compreendida como: “a contribuição que elas 
devem dar para a manutenção da continuidade do sistema social do qual elas fazem 
parte, o que só lhes será possível se, da lógica econômica, elas migrarem para a lógica 
social” (SIMÕES apud FERRARI, 2011: 141). 
 
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TODAS PUTAS? SOBRE FEMINISMOS E SALA DE AULA NA ESCOLA DA 
FUNDAÇÃO CASA FEMININA 
Falchi, Cinthia Alves. Programa de Pós-Graduação em Educação – bolsista CNPq – 
UNESP – Marília. 
 
Palavras-chaves: Narrativa; feminismo; educação. 
 
Resumo: 
Como pesquisadora da educação, e diversas vezes do ensino, acabo por me tornar tão 
diferentes e, por vezes, divergentes da minha maneira de atuar em sala de aula, visto que as 
exigências, fronteiras e limites me parecem dissociados, por que, então, não tentar uma 
exposição que esteja mais harmoniosa com minha presença e trabalho como professora? 
Assim, para esse texto acadêmico me propus uma narrativa. Não uma narrativa qualquer, 
se é que há alguma qualquer (acredito que não), mas a narrativa de uma experiência que 
mexeu com minha vida, que modificou minhas atuações posteriores em sala de aula e que 
até hoje me faz pensar e refletir a respeito das experiências que tenho cotidianamente com 
meus/minhas estudantes. Esse trabalho partirá de uma discussão em que utilizei um texto 
retirado de um blog brasileiro, que problematizava a respeito de questionamentos 
feministas, para debater com minhas alunas sobre gêneros. Alunas estas que se 
encontravam em uma Fundação Casa da cidade de São Paulo. 
 
Introdução 
 
Lembro de Walter Benjamin quando diz que a arte de narrar é como uma “faculdade de 
intercambiar experiências” (2012, p.213). Pois, nessas linhas, será justamente isso que 
tentarei fazer. Não sei se com tanto êxito visto a pouca experiêncianarrativa que tenho e o 
pouco espaço que a narrativa tem na produção acadêmica. Procurarei pelo gesto, de acordo 
com Agamben, opor-me as narrativas sintéticas. E não podemos nos esquecer que nessas 
páginas transitaremos por vidas infames, vidas essas que o mesmo Agamben cita: 
A vida infame não parece pertencer integralmente nem a uns nem a outros, nem aos 
registros dos nomes que no final deverão responder por isso, nem aos funcionários do 
poder que, em todo o caso, e no final das contas, decidirão a respeito dela. Ela é apenas 
jogada, nunca possuída, nunca representada, nunca dita – por isso ela é o lugar possível, 
mas vazio, de uma ética, de uma forma-de-vida. (2007, p.60) 
Acho importante ressaltar tal vazio, pois é nesse lugar, desse lugar, que essa narrativa se 
faz. Uma forma-de-vida de quem é contato, mas muito também de quem conta, de quem 
narra. Vale lembrar que : 
A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio artesão – no campo, no mar e 
na cidade – é, ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela 
não está interessada em transmitir o “puro em si” da coisa narrada, como uma 
informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida 
retirá-la dele. (BENJAMIN, 2012, p.221) 
Quero, portanto, deixar explícito meu interesse primeiro nessa narrativa: narrar. Pois se o 
próprio Benjamin alude à utilidade da narrativa, para mim é claro que essa utilidade deva 
ser debatida por você que me lê, e não por mim, que escrevo. E com Agamben, novamente 
reafirmo o entorno no infame e no gesto: 
Se chamamos de gesto o que continua inexpressivo em cada ato de expressão, 
poderíamos afirmar então que, exatamente como o infame, o autor está presente 
no texto apenas em um gesto que possibilita a expressão na mesma medida em 
que nela instala um vazio central. (2007, p.59) 
Estou, portanto, nas linhas desse texto. Sou eu quem o escreve, é de meu incômodo que ele 
parte, de minhas memórias e conexões. 
Na atribuição de aulas aos/às professores/as de 2013 em São Paulo capital, encontrei uma 
conhecida que me perguntou se eu não gostaria de trabalhar na Fundação Casa Feminina. 
Achei ótima a oportunidade. Assim, já fui apresentada para a supervisora daquela área que 
agendou um horário para me entrevistar na Diretoria de Ensino da região de atuação. 
Diferente do cargo de professora de escola regular, para trabalhar na Fundação Casa é 
necessário passar por alguns processos. 
Após alguns procedimentos fui ao encontro do que seria meu ambiente de trabalho durante 
o ano letivo. Em um prédio de muros altos, pintado de verde, como a maioria das escolas 
da região havia uma portaria que parecia blindada. Recordei-me dos modelos disciplinares 
descritos por Michel Foucault e do panóptico como técnicas de controle social. 
No fundo, em todos esses empreendimentos, dos quais eu lhes citei somente dois 
exemplos, tratavam-se de quatro coisas: seleção, normalização, hierarquização e 
centralização. São essas quatro operações que podemos ver em andamento num estudo 
um pouco mais detalhado daquilo que é denominado o poder disciplinar. (1999b, p.217) 
Identifiquei-me e fui informada que não poderia entrar com celular, tesoura, comida, bala, 
chicletes, nada de diferente que as meninas pudessem querer, nem quaisquer instrumentos 
que elas pudessem utilizar para ameaças. Fui obrigada a retirar piercings e alargador de 
orelha, para minha própria segurança. Desde quando entrei a Fundação Casa me pareceu 
uma mescla de prisão e escola com uma pitada de casa. Entrei para atuar na escola, mas 
meus pensamentos e corpo seguiam para o rumo da prisão. 
Cheguei à sala da coordenação e fui aconselhada a ir para o andar de cima conhecer as 
alunas. A aula começaria em breve e não era possível deixar a sala sozinha: nunca! Outra 
coisa que eu nunca deveria fazer em sala era falar mal da polícia, do governo ou incitar 
qualquer discussão que fizesse com que as meninas tivessem vontade de se organizar. Para 
isso sorri com sarcasmo (tenho que admitir) e disse que era impossível trabalhar Sociologia 
sem vontade de se organizar. “Faça o seu melhor, professora, e tome cuidado”, foi a 
resposta do coordenador. 
Como em qualquer outra sala de aula, logo que entrei fui analisada pelas alunas. Entrei, me 
apresentei e comecei a falar a meu respeito: como eu havia me tornado professora, o que 
eu gostava na profissão e por que escolhi ser professora. Depois pedi para dizerem o que 
lembravam da disciplina de Sociologia e o que esperavam dela. Silêncio. Olhares. E a 
primeira pergunta que escuto é: o que você fez de errado para te colocarem para dar aulas 
aqui? Foi só isso que obtive. Eram duas aulas seguidas e sabia que não seria fácil. Ao 
término das aulas fui solicitada a comparecer novamente à coordenação que me perguntou: 
“E então, desesperada ou ansiosa para voltar? Pelo seu rosto me parece que volta, não?” Eu 
estava mais do que ansiosa para voltar, sabia que iria enfrentar situações ainda mais 
complicadas, mas eu tinha que voltar. Então ela me disse: “quem entra e se desespera 
nunca mais volta, mas quem sai querendo voltar, ah...aí a Casa nunca mais sairá dessa 
pessoa”. 
Em pouco tempo pude perceber quais delas estavam lá por tráfico, por roubo, por 
assassinato. Percebi também que a maioria que estava lá era pobre. Lembro-me novamente 
de Foucault 
[...], o tema da sociedade binária, dividida entre duas raças, dois grupos estrangeiros, 
pela língua, pelo direito, etc., vai ser substituído pelo de uma sociedade que será, ao 
contrário, biologicamente monística. Ela será evidentemente ameaçada por certo 
número de elementos heterogêneos, mas que não lhe são essenciais, que não dividem o 
corpo social, o corpo vivo da sociedade, em duas partes, mas que são de certo modo 
acidentais. Será a ideia de estrangeiros que se infiltraram, será o tema dos transviados 
que são os subprodutos dessa sociedade. (1999a, p.95) 
Em minha sala de aula havia desde meninas que utilizavam tudo o que era possível 
trazerem para a instituição com o intuito de se feminilizar até garotos que passavam pelo 
processo trans e já se apresentavam com nome masculino. A lista de chamada também 
mudava bastante, visto que tínhamos que lidar com ingressos e cumprimento de medida. 
Falarei sobre um dos trabalhos temáticos que realizei na Casa sobre sexualidades e luta 
feminista. Para essa discussão utilizei um texto intitulado: “Francisca é Puta” de Vinícius 
Cardoso (2013). Estudioso do Direito pela Universidade de Brasília, Vinícius obteve uma 
repercussão expressiva perante seus outros textos expostos no Medium, que se auto 
classifica como uma comunidade para escritores/as e leitores/as que oferece uma 
perspectiva única ou exclusiva para interação entre pequenas e/ou grandes 
ideias/histórias/contos. 
 
Metodologia 
 
Durante cerca de um mês realizei atividades e mostrei conceitualizações a respeito de 
sexualidades e gêneros. Questionei a respeito do tratamento que recebiam, das 
necessidades que tinham e se conseguiam pensar como seria uma Fundação Casa 
Masculina. Levantei questionamentos sobre suas próprias atitudes, se já haviam sido 
ofendidas ou sofrido por serem mulheres. Muitas haviam formado um padrão de mulher 
praticamente inatingível pela maioria ali, inclusive eu. Em várias aulas voltamos a falar a 
respeito desse padrão, tentando achar alguém que se enquadrasse nele, e era difícil. Muitas 
jovens ali presentes estavam grávidas ou já estavam com os/as filhos/as convivendo com 
elas. Foi muito complicado, tanto para elas como para mim, admitir que o padrão pré 
estabelecido de mulher realmente massacra nossos estilos de vida. 
Gayatri Spivak em sua obra Pode o subalterno falar?(2010) nos faz repensar o local em 
que a família se insere e as possibilidades que muitas vezes enxergamos quando estamos 
diante de situações que são tão rotineiras nas salas de aulas, como pensar a famíliae seus 
graus de importância, inclusive como chegamos a pensar essas importâncias. Diz ela 
Sem dúvida que a exclusão da família, ainda que seja uma família pertencente a uma 
formação de classe específica, é parte da estrutura masculina na qual o marxismo marca 
seu nascimento. Tanto no contexto histórico como na economia global da atualidade, o 
papel da família nas relações sociais patriarcais é tão heterogêneo e controverso que 
simplesmente substituir a família nessa problemática não vai romper essa estrutura. 
Tampouco estaria a inclusão positivista de uma coletividade monolítica de “mulheres” 
na lista dos oprimidos cuja subjetividade inquebrantável lhes permita falar por si 
mesmas contra um “mesmo sistema” igualmente monolítico (2010, p.39) 
Resolvi introduzir às alunas o texto “Francisca é puta”. Achei conveniente que eu 
realizasse a primeira leitura enquanto elas acompanhavam. 
Em linguagem sarcástica o texto complicava a aceitação e compreensão, visto as 
limitações que tínhamos, como a dificuldade de leitura e também as moralidades 
envolvidas naquele espaço. Muitas meninas eram convertidas ao cristianismo e tinham 
uma leitura literal dos contextos apresentados. 
O primeiro trecho do texto de Cardoso (2013) diz: 
Assim como se nasce arquiteta, jurista ou artesã, também se nasce puta. Francisca 
nasceu puta. Mulher. Vadia. Vagabunda. Dada. Puta. Poderia ter escolhido ser dona-
de-casa, confeiteira ou até mesmo artista. Mas escolheu ser puta. Gostava de ser a 
outra. De ser a objeto. De ser a usada. De ser a puta. Gostava de sentir prazer. De 
falar palavras sujas. De chupar. De dar. De ser puta. Puta. Puta. Puta. 
Antes mesmo de chegar ao ponto final desse primeiro parágrafo a sala estava inquieta, 
estavam prestando atenção, estavam se sentindo naquele ambiente que criamos e que 
falava a respeito de algo que não se deve falar: ser puta. Eu estava sentindo assim, eu 
estava experienciando dessa maneira. Pedro Ângelo Pagni argumenta, a partir de Foucault 
e Deleuze que 
É nesse movimento antiassujeitamento e pró-subjetivação de si que Foucault e Deleuze 
desenvolvem que podemos encontrar, no estranhamento suscitado pela arte do viver e 
pela arte do transmitir a verdade experienciada em que compreende a psicagogia, a 
criação de novos modos de resistência e de subjetivação por meio da filosofia e da 
pedagogia do presente. Nele também podemos encontrar certa reversão do ideal 
moderno de formação e proposta de uma alternativa que poderia se não nos auxiliar a 
criar outra concepção formativa ou de autoformação, ao menos fazer que nos ocupemos 
de nossa própria transformação, mesmo que seja na relação com o outro compreendida 
pela ação formativa que exercemos como educadores. (2014, p.164) 
Diante desse quadro, continuei a leitura até o fim do texto. Lembro-me como era doloroso 
para mim permanecer sentada em sala de aula quando eu era estudante do Ensino Médio, e 
algumas vezes na universidade também. Cadeiras duras e assuntos mais duros ainda, ou 
porque eram novos demais para mim, ou porque não me interessavam em nada. Então, 
quando olho os rostos dos/as estudantes que tenho em sala, costumo associar suas 
experiências às minhas, visto que falo a partir de mim. Mas o cenário que eu tinha a minha 
frente era diferente, era instigador para mim. 
Após a leitura quase todas queriam expressar suas opiniões. Começaram a falar entre si e a 
julgar Francisca a partir de suas interpretações. Perguntei se seria necessária nova leitura 
ao que todas concordaram. Pedi atenção à interpretação para que pudessem contextualizar 
a leitura com as maneiras e modos que estávamos trabalhando a temática já há algum 
tempo. 
Após uma segunda leitura pedi para que expusessem algumas ideias centrais. Algumas 
começaram a problematizar se a interpretação da palavra puta era realmente a utilizada 
como pejorativo ou para um trabalho de prostituição. Lembro-me novamente de Pagni 
quando, ao falar do parresíasta, enfatiza que ele se posiciona em duas vertentes. A 
primeira como uma espécie de sujeito que acolhe o acontecimento para um processo de 
autotransformação nos limites das possibilidades e, a segunda, nas próprias palavras do 
autor “[...] coloca esse mesmo discurso e seu sujeito em risco, provocando os seus 
interlocutores, antes de os acomodar e os deixar apaziguados” (ibdem, p.166) 
 
Conclusão 
 
Muitas internas tinham um vocabulário limitado ao vocabulário das ruas visto que quando 
estavam no “mundão”, como costumam nomear a vida fora da Casa elas não frequentavam 
a escola. Suas falas estavam rotineiramente permeadas de palavras novas para mim. Então, 
da mesma maneira como me ensinavam um vocabulário novo, eu introduzia a elas novas 
palavras para expressarem o que gostariam de dizer, mas de maneiras distintas. Acho 
pertinente a análise que Pagni faz a respeito das genealogias da parresía e da psigagogia 
foucaultianas quando adentra a questão da escola moderna. Diz ele 
[...], é possível cotejar em sua obra todo um delineamento da escola como instituição 
que emerge na sociedade disciplinar e que desempenha, por meio de uma das artes de 
governo sobre a infância, a pedagógica, uma série de processos de assujeitamento e 
moralização das novas gerações nessa instituição, contribuindo para o delineamento de 
uma biopolítica da população na qual professores, alunos e mais funcionários aparecem 
como elemento e ator. (idbem, p.173) 
Eu fazia parte daquele ambiente, aquela sala só existia daquela maneira por eu também 
estar ali presente. E naquele momento eu era um elemento, um pedaço da discussão que eu 
havia iniciado, mas da qual eu não era dona. 
Sobre otexto, algumas linhas de pensamentos foram formadas. Uma era que Francisca 
diminuía o significado de ser mulher, já que era puta e com isso fazia sua família sofrer. 
Recordo-me aqui de uma história narrada por Berenice Bento em Política da Diferença 
quando relata o ocorrido com Gabriela Leite em 2010 nos EUA. 
Em um evento nos EUA, organizado por feministas, houve um espanto geral diante de 
sua afirmação “sou feminista”. Segundo Gabriela, a moderadora do debate afirmou: 
“você não pode ser feminista, você é prostituta”. Gabriela argumentou: “sou uma puta 
feminista”. A moderadora rebate: “é impossível uma feminista vender o corpo”. (2011, 
p.95) 
 E, para minhas estudantes, esse foi um primeiro marco significativo. Por isso ela virou 
nada, por isso sumiu. 
Costurou. Costurou. E, enquanto costurava outro mundo, perdeu tudo de si. Francisca 
perdeu o que a fazia Francisca. O patriarcado e a masmorra a tornaram invisível. Não 
era costureira. Não era apenas emoção. Não era invisível. Era forte. Era corajosa. Era 
a frente de seu tempo. Era puta. Mas a padronização reduziu Francisca. Virou um 
nada. Ficou invisível. Sumiu. 
Uma dupla, no entanto, debatia que o texto falava a respeito delas. Que elas eram 
Francisca. Diziam que a Francisca era a mulher que tinha tentado algo diferente, que não 
aguentava mais ser do jeito que era, que não entendia o porquê de ser daquele jeito. O que 
mais marcou essa segunda linha de pensamento foi 
Puta? Na rua? Vergonha. Desonra. Afronta. Tirem-na daqui. Levem-na daqui. E 
tiraram. E levaram. E colocaram Francisca, a puta, na masmorra. Porque puta tem que 
ser presa. Porque puta tem que sofrer. Porque a cidade não precisa de puta. Porque 
ninguém precisa de puta. Porque ninguém precisa ser puta. Porque ser puta é doença. 
É loucura. É crime. 
Algumas ficaram em silêncio, ou por conta da medicação, que era visivelmente presente na 
Fundação Casa, ou por diversos outros motivos. 
 Por fim, pedi para que escrevessem suas ideias e o que acharam do texto, individualmente. 
Pedi para que expressassem o que achavam de Francisca, se conheciam alguma história 
semelhante e como esperavam que Francisca terminasse. 
Achei necessária a utilização dessa narrativa e das conclusões que algumas estudantes 
chegaram, visto que me abriuespaço para poder terminar meu ano letivo fazendo um 
trabalho que julguei importante para elas sim, mas também muito importante para mim. 
Em um ambiente em que a maioria se classifica como mulher, e as que não se classificam 
estão, mesmo assim sendo classificadas como tal, o peso do gênero visto como frágil e 
emocional, pejorativamente, ganhou outros atributos e ficou evidente em cada conversa, 
em cada experiência. 
De todas as redações que eu li como retorno dessa aula, uma até hoje marca minha 
trajetória. Antes da formação e revista para sair para o intervalo, quando todas estavam 
entregando seus textos, uma estudante ficou por último, me entregou a folha e pediu para 
que eu não lesse seu texto ali. Pediu também para que eu não falasse a respeito e não 
mostrasse para ninguém ali de dentro, para que ninguém soubesse que ela era a pessoa do 
papel. Confiou a mim um segredo que não queria, realmente, que ninguém ali soubesse. 
Sorri e confirmei afirmativamente que não mostraria a qualquer pessoa ali dentro, que 
ficasse tranquila. Ela não estava tranquila, não ficaria tranquila. 
Chegando em casa peguei o material e comecei a corrigir. Eis que me deparo com o escrito 
que interpretei como sendo o de Francisca. Ousou ser puta, a viver na rua, a não ser 
padronizada, a viver o perigo e o julgamento. Era usável, a mercadoria e assim se 
descrevia. Se descreveu como puta. E como Francisca, cansou. Tentou se adequar. Tinha 
que trabalhar. Traficou, roubou. Foi presa. 
Se arrependeu de traficar. Se arrependeu de roubar. Se arrependeu de deixar de ser puta. 
Como puta nunca feriu ninguém, sempre trabalhou por si. Deixar de ser puta, para ela, foi a 
pior decisão que tomou. Se pudesse, voltava atrás. Não podia. 
 
Referências Bibliográficas 
 
AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007. 
 
BENJAMIN, Walter. O narrador. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre a 
literatura e história da cultura. 8ª Ed. Revista. São Paulo: brasiliense, 2012. Obras 
escolhidas V.1, p.213 – p.240 
 
BENTO, Berenice. Política da Diferença: feminismos e transexualidades. In: Stonewall 
40+ o que no Brasil? Org: Leandro Colling. Salvador: EDUFBA, 2008. p. 79 – 110. 
 
CARDOSO, Vinícius. Francisca é puta. Medium [blog], 24 out. 2013 disponível em < 
https://medium.com/@manufaturados/francisca-e-puta-4062c78073dc> , acesso em 20 fev 
2015. 
 
FOUCAULT, Michel. Aula de 28 de Janeiro de 1976. Em defesa da Sociedade. São 
Paulo: Martins Fontes, 1999a, p.75 – p.98. 
 
______. Aula de 25 de fevereiro de 1976. Em defesa da Sociedade. São Paulo: Martins 
Fontes, 1999b, p.199 – p.224. 
 
PAGNI, Pedro Ângelo. O entoar da estética da existência no canto da experiência de si e 
da arte do viver. Experiência estética, formação humana e arte de viver: desafios 
filosóficos à educação escolar. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p.149 – 176. 
 
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 
2010, p.19 – 47. 
 
 
III SEMINÁRIO INTERNACIONAL GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIA 
SESSÃO 2 
Ciberativismos e questões de gênero 
 
AUTOR / CO-AUTORES TÍTULO 
MAURÍCIO RODRIGUES PINTO ; 
MARCO ANTÔNIO BETTINE DE 
ALMEIDA 
TORCIDAS LIVRES E QUEER EM CAMPO: SEXUALIDADE 
E NOVAS PRÁTICAS DISCURSIVAS NO FUTEBOL 
FLÁVIA MATEUS RIOS; REGIMEIRE 
OLIVEIRA MACIEL 
FEMINISMO NEGRO E INTERSECCIONAL: PRÁTICAS E 
DISCURSOS SOBRE RAÇA, GÊNERO E SEXUALIDADE 
NAS REDES SOCIAIS 
JÉSSICA DE CÁSSIA ROSSI 
AS (RE)EXISTÊNCIAS DE MULHERES BRASILEIRAS 
IMIGRANTES EM PORTUGAL VIA MÍDIAS DIGITAIS: 
UM ESTUDO EXPLORATÓRIO 
FÁBIO MORELLI; LEONARDO LEMOS 
DE SOUZA 
MÍDIAS RIZOMÁTICAS, CONTROVÉRSIAS E 
ATIVISMOS: RESISTÊNCIAS E POLITIZAÇÕES 
JULIANA CRISTINA DA SILVA 
FERREIRA 
CIBERESPAÇO E A COLETIVA MARCHA DAS VADIAS 
SAMPA 
BRUNA SILVESTRE INNOCENTI 
GIORGI 
A QUALIDADE DA INFORMAÇÃO SOBRE POLÍTICAS 
PÚBLICAS DE COMBATE À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NO 
PORTAL DA SECRETARIA DE POLÍTICAS PARA AS 
MULHERES 
PÂMELA STOCKER 
UMA QUESTÃO DE GÊNERO: OFENSAS 
DIRECIONADAS À PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF NOS 
COMENTÁRIOS DA PÁGINA DA FOLHA DE S. PAULO 
NO FACEBOOK 
ROBSON SILVA SANTOS 
TRAVESTIS EM SITAUÇÃO DE RUA E A SEGREGAÇÃO 
AOS BENS SOCIAIS DENTRE ELES AS TECNOLOGIAS 
DIGITAIS 
 
 
 
TORCIDAS LIVRES E QUEER EM CAMPO: SEXUALIDADE E NOVAS 
PRÁTICAS DISCURSIVAS NO FUTEBOL 
 
Resumo 
PINTO, Maurício Rodrigues e ALMEIDA, Marco Antônio Bettine – Programa de Pós-
Graduação Mudança Social e Participação Política da Escola de Artes, Ciências e 
Humanidades da Universidade de São Paulo 
 
Palavras-chave: futebol, homofobia e Facebook. 
 
Ainda um segmento em que a opressão em torno de identidades sexuais não 
normativas é muito acentuada, o esporte vem se convertendo em um espaço de debate 
de questões de gênero e sexualidade, sobretudo no futebol, esporte considerado “paixão 
nacional”. O trabalho buscará compreender o universo simbólico e discursivo que 
orienta os comportamentos de diferentes agentes (jogadores, torcidas, dirigentes e mídia 
esportiva) que vivem mais intensamente a experiência social do futebol no Brasil. Na 
história do futebol brasileiro, intersecções entre raça, gênero e sexualidade contribuíram 
para naturalizar a ideia de que o futebol é “coisa pra macho”, sendo a homofobia uma 
estratégia para a desqualificação do adversário. 
Na contramão dessa normatização, surgem torcidas criadas como comunidades 
na rede social Facebook, que propõem práticas discursivas que questionam a visão 
hegemônica do futebol como um reduto de dominação masculina. Três dessas torcidas 
que se autointitulam como livres ou queer, estão sendo analisadas mais detidamente: a 
Galo Queer (torcida do Clube Atlético Mineiro), a Bambi Tricolor (torcida do São 
Paulo Futebol Clube) e a Palmeiras Livre (torcida da Sociedade Esportiva Palmeiras). 
Tomando como base as práticas discursivas dessas torcidas, serão feitas inferências 
sobre as dificuldades de transposição desses grupos para a reunião e apropriação de 
espaços públicos, como os estádios de futebol, mas também do potencial dessas 
articulações pelo Ciberespaço de desestabilizar a norma de que o homem é o legítimo 
participante das práticas e lugares que dão sentido ao jogo de futebol. 
 
 
I - Introdução 
 
No mês de agosto de 2013, o jogador de futebol Emerson Sheik, à época 
atacante do Corinthians e herói da conquista do título da Libertadores da América de 
2012, postou uma foto, na sua página pessoal na rede social Instagram, em que dava um 
selinho em um amigo. A foto era acompanhada da seguinte mensagem: 
 
“Tem que ser muito valente para celebrar a amizade sem medo do que os 
preconceituosos vão dizer. Tem que ser muito livre para comemorar uma 
vitória assim, de cara limpa, com um amigo que te apoia sempre. Hoje é 
um dia especial. Vencemos, estamos mais perto dos líderes...” 
 
A reação à foto e à mensagem por parte da mídia esportiva e de torcedores foi 
imediata. No dia seguinte, cinco torcedores ligados a uma das torcidas organizadas do 
Corinthians foram até o Centro de Treinamento do clube e fizeram um protesto contra o 
jogador, ganhando amplo destaque da mídia. 
Pela primeira vez um jogador de renome do futebol brasileiro posicionava-se de 
forma contundente contra a homofobia. Em resposta, um pequeno grupo, atribuindo 
para si a condição de representantes da torcida e da própria instituição Corinthians, 
expressa um sentimento de indignação e de defesa da integridade do time, como pode 
ser observado na seguinte fala de um dos torcedores participantes do referido protesto: 
“A nação inteira está freneticamente indignada. Pode até ser a opção dele, mas nós 
estamos sempre tirando sarro dos bambis. O mínimo que ele tem de fazer é um pedido 
de desculpas”. 
Essa fala revela o medo de torcedores serem marcados pelos adversários como 
desprovidos de um determinado modelo de masculinidade que é reverenciadodentro do 
universo do futebol. Outro detalhe importante é o uso do termo “bambi”, alusão 
pejorativa à homossexualidade, para referir-se aos torcedores do São Paulo Futebol 
Clube, um dos principais rivais do Corinthians. 
No campo futebolístico, valendo-me da formulação de Bourdieu, existe um 
universo simbólico moldado pelas relações e atos de agentes historicamente ligados a 
ele, como torcedores, jogadores, dirigentes e a mídia especializada. A feminização dos 
corpos é estratégia “naturalizada” para a desqualificação do adversário (seja torcedor ou 
jogador), muitas vezes visto como inimigo, assim como a reverência a um padrão de 
dominação masculina, calcada no modelo ideal da virilidade: “... que tem de ser 
validada por outros homens, em sua verdade de violência real ou potencial, e atestada 
pelo reconhecimento de fazer parte do grupo de ‘verdadeiros homens’”. (BOURDIEU: 
2002, p.64) 
Um episódio marcante da história do futebol brasileiro, o famoso “Maracanazo” 
que ocorreu na Copa do Mundo de 1950, disputada no país, ajuda a mostrar como se 
consolidou a ideia de que futebol é “coisa pra macho” e como esse discurso apresenta 
intersecções entre sexualidade, gênero e raça, estas também presentes no processo de 
construção da identidade brasileira, durante a primeira metade do século XX. Por trás de 
um discurso que valorizava a miscigenação, na configuração social era (é) evidente uma 
hierarquização que “... alçou o homem branco e heterossexual à norma relegando 
mulheres e não-brancxs à subalternidade...” (MISKOLCI: 2014, p.20). 
Na decisão da Copa de 1950, a Seleção Brasileira foi derrotada pelo Uruguai de 
virada, pelo placar de 2 a 1. O futebol reflete tensões e conflitos presentes na sociedade. 
O que durante a boa campanha na competição era visto como uma maneira alegre e 
única de jogar futebol, fruto da miscigenação, com a derrota na final, passou a ser um 
atestado do fracasso desse projeto nacional, com a culpa recaindo sobretudo nos 
jogadores de ascendência negra, principalmente o lateral-esquerdo, Bigode, e o goleiro, 
Barbosa, que teria falhado no gol que deu a vitória aos uruguaios: 
 
A culpa pelo Maracanazo recaiu sobretudo sobre os jogadores negros do 
time, especialmente o lateral-esquerdo Bigode e o goleiro Barbosa. Na 
Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil, a derrota para o Uruguai na 
final foi atribuída à falta de hombridade e a fatores raciais. Ou melhor, a 
‘falta de masculinidade de negros e mulatos’ seria responsável pela nossa 
derrota. O negro e o mulato são representados quase como afeminados. 
Foram considerados os maiores culpados da derrota brasileira: o goleiro 
Barbosa, que teria falhado no segundo gol do Uruguai, e o jogador 
Bigode, que teria levado um tapa de Obdulio Varela, capitão do time 
uruguaio, ambos escolhidos, justamente, por possuírem ascendência negra 
(SOUZA: 1996, p.127) 
 
Mais de 60 anos depois, o selinho de Sheik contribuiu para que o debate já 
estabelecido em outras esferas da sociedade brasileira, questionando a prevalência de 
uma matriz heterossexual masculina que recorre a estratégias misóginas e homofóbicas 
para restringir oportunidades e a garantia de igualdade de direitos de cidadania para 
mulheres e pessoas LGBT1, também alcançasse o esporte, especialmente o futebol, 
modalidade considerada uma das paixões nacionais. O que antes, pela via da violência 
simbólica (BOURDIEU:2002), era visto, em geral, por mulheres e pessoas LGBT como 
 
 
um espaço e universo que não lhes pertencia, passou também a ser mais um campo de 
disputa pela apropriação e garantia de direitos. 
Nesse cenário ganham visibilidade comunidades criadas na rede social Facebook 
que se apresentam como torcidas de alguns dos times mais populares do Brasil, mas 
com um importante diferencial. Para além do torcer pelo “time de coração”, essas 
comunidades se diferenciam por externarem posicionamentos contrários às 
manifestações homofóbicas e machistas recorrentes nos estádios de futebol no Brasil. 
 Essas comunidades virtuais são resultantes da articulação de torcedorxs, que 
produzem e divulgam conteúdos com o propósito de colocar em xeque a ideia tão 
propalada de que futebol é “coisa pra macho”, reivindicando o reconhecimento da 
participação de mulheres e pessoas LGBT, figuras historicamente segregadas de 
experiências que dão sentido ao esporte, como o jogar, o torcer e, mesmo, o falar a 
respeito. 
Este artigo tem como base um trabalho inicial de campo em que são analisadas a 
articulação desses grupos no Ciberespaço e as práticas discursivas que elaboram. Dessa 
forma, serão feitas inferências sobre as dificuldades enfrentadas na tentativa de 
transposição da esfera virtual para a reunião e apropriação de espaços públicos, assim 
como do caráter político dessas ações no esforço de desestabilizar a norma hegemônica 
em torno das práticas e lugares que dão sentido ao jogo de futebol. 
 
II – As torcidas queer e livres: articulações, práticas discursivas e resistências na 
desconstrução de que futebol é “coisa pra macho” 
 
Em abril de 2013 apareceram na rede social Facebook comunidades virtuais que 
se apresentavam como torcidas queer e livres de alguns dos principais times do Brasil. 
Para Pierre Lévy: 
 
Uma comunidade virtual é construída sobre as afinidades de interesses, de 
conhecimentos, sobre projetos mútuos em um processo de cooperação ou de 
troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das 
filiações institucionais. (...) As comunidades virtuais exploram novas formas 
de opinião pública (...) e oferecem, para debate coletivo, um campo de prática 
mais aberto, mais participativo (LEVY: 2000, 130-131) 
 
Criadas a partir da iniciativa e articulação de pequenos grupos que são 
responsáveis pela postagem de conteúdos próprios ou publicados em canais da grande 
mídia, mídias alternativas, blogs, fazem uso de práticas discursivas com o objetivo de 
problematizar e questionar a heteronormatividade e o privilégio de um modelo ideal de 
masculinidade como legítimo participante das práticas do futebol. São acompanhadas e 
curtidas por milhares de pessoas, na maioria, entre os 25 e 34 anos. 
Em comum carregam o sentimento de indignação frente as ofensas e 
experiências de opressão às quais estão expostas, principalmente mulheres e gays em 
estádios de futebol. É essa indignação que impulsiona a manifestação pública a partir 
das comunidades virtuais. 
 
“A ideia da página foi minha, sozinha, mas logo que criei, chamei 
algumas amigas e amigos para participar e formamos um grupo de 5 a 10 
pessoas meio flutuantes. O evento que me motivou foi uma ida ao estádio, 
depois de um ano na Alemanha (onde comecei a estudar gênero e 
portanto ser mais sensível ao tema), ao jogo do Galo contra o Arsenal, no 
qual todas as pessoas (incluindo os meus amigos teoricamente não 
homofóbicos) gritavam "Arsenal é maricón". Além disso, me incomodou 
muito ser mulher naquele ambiente extremamente machista, no qual a 
maioria dos homens pensa que mulher não entende de futebol e ainda por 
cima nos assediam” (Nathalia, representante da Galo Queer, em 
21/03/2014) 
 
“O contexto da criação foi simples demais. Éramos já um grupo de 
amigos, todos são paulinos, que concordava que o apelido bambi merecia 
uma recepção diferente da torcida tricolor. Sem nenhuma pretensão, coisa 
de conversa de bar e só. Quando a Galo Queer surgiu, nós achamos a 
ideia genial e esperamos uma semana para ver se alguém na torcida do 
nosso time encararia. Várias torcidas foram se apresentando, mas nada do 
São Paulo. Decidimos, então, fazer a nossa, pelo menos pra ‘marcar 
presença’ e participar desse movimento, sem nenhuma ideia de por 
quanto tempo manteríamos a página, nem o que adviria dela” (Aline, 
representante da Bambi Tricolor, em 11/03/2014) 
 
 
A pesquisa concentra-se em três comunidades: Galo Queer, formada por 
torcedoresdo Atlético Mineiro, primeira torcida a apresentar-se contrária à homofobia e 
ao machismo nos estádios; Bambi Tricolor e Palmeiras Livre, torcidas de dois dos 
grandes da cidade de São Paulo (respectivamente São Paulo e Palmeiras), que surgem 
na esteira da Galo Queer e são bastante atuantes no Ciberespaço. 
Criadorxs dessas comunidades têm sido constantemente alvos de hostilidades e 
ameaças, por supostamente “desrespeitarem” a “cultura do futebol”, mas, 
principalmente, por “macularem” símbolos de um time, como o nome e o distintivo, ao 
associarem estes a referências ligadas aos movimentos LGBT, como as cores do arco-
íris. Ou, ainda, a apropriação e ressignificação daquilo que teria conteúdo de ofensa, 
como é o caso da Bambi Tricolor, que tem no seu nome a provocação normalmente feita 
aos são paulinos. Tais ameaças fazem com que, até o momento, as ações dessas 
torcidas aconteçam unicamente na esfera virtual. 
 
“Nós nos encontramos esporadicamente, uns mais outros menos, cada 
um tem uma rotina e uma vida bastante cheias, então não temos condição 
de promover encontros oficiais de "integrantes", nossa relação se mantém 
exatamente como antes da criação da página e por enquanto permanecerá 
assim. Sim, os três rapazes, principalmente, frequentam bastante os 
estádios e por isso eles evitam a todo custo aparecer em matérias, eles têm 
receio de serem identificados e reconhecidos pela torcida, por integrantes 
violentos Nossos compromissos da vida "offline" tomam nosso tempo 
quase inteiro, a Bambi é feita com o que nos resta de tempo livre e 
disposição e, tomara, os textos que postamos já contribuam pelo menos 
um pouquinho pro debate, pra essa realocação de ideias que começa a 
ganhar força” (Aline, representante da Bambi Tricolor, em 11/03/2014) 
 
A fala de Aline evidencia os receios de alguns integrantes da comunidade, que 
ao frequentar os estádios, preferem a condição de “clandestinidade” em meio aos 
agentes estabelecidos e legitimados. Também expõe os limites de atuação que a 
comunidade se propõe, reconhecendo-se, no momento, muito mais como um 
instrumento de crítica à ideia de dominação masculina no futebol, que venha a ampliar a 
visibilidade dos debates em torno da superação da homofobia e do machismo. 
Mas, se a demarcação de espaços nos estádios ainda é um objetivo distante, a 
possibilidade de articulação pelas redes sociais fez com que as práticas discursivas das 
torcidas livres e queer atingissem um número maior de pessoas, repercutindo, inclusive, 
na grande mídia. De acordo com Rancière (RANCIÈRE: 1996), é possível reconhecer o 
caráter político desses grupos, pela apropriação que fazem da palavra cujo teor de 
contestação à norma é ouvido, reconhecido, justamente pelo seu potencial para 
desestabilizar a dominação masculina no esporte: 
 
Conforme Derrida, a lógica ocidental opera, tradicionalmente, através de 
binarismos: este é um pensamento que elege e fixa como fundante ou 
como central uma ideia, uma entidade ou um sujeito, determinando, a 
partir desse lugar, a posição do ‘outro’, o seu oposto subordinado. O 
termo inicial é compreendido sempre como superior, enquanto que o 
outro é o seu derivado, inferior. Derrida afirma que essa lógica poderia 
ser abalada através de um processo desconstrutivo que estrategicamente 
revertesse, desestabilizasse e desordenasse esses pares. Desconstruir um 
discurso implicaria em minar, escavar, perturbar e subverter os termos 
que afirma e sobre os quais o próprio discurso se afirma. (...) Está se 
indicando um modo de questionar ou de analisar e está se apostando que 
esse modo de análise pode ser útil para desestabilizar binarismos 
linguísticos e conceituais (ainda que se trate de binarismos tão seguros 
como homem/mulher, masculinidade/feminilidade) (LOURO:2001, 
p.548) 
 
 
III – Considerações Finais 
 
O presente trabalho, resultado de pesquisa bibliográfica e incursões iniciais de 
campo, procurou mostrar como se consolidou a ideia de que o futebol brasileiro seria 
um reduto exclusivo do “macho” e como a violência simbólica (BOURDIEU: 2002) 
presente nas injúrias machistas, homofóbicas e nas estratégias de feminização do rival, 
compeliam mulheres e pessoas LGBT a não se reconhecerem como participantes do 
jogo, seja na condição de torcedorxs ou de jogadorxs. 
Mais recentemente, tem iniciado um movimento de denúncia dessa violência, 
antes “naturalizada” e não questionada, e emergiram grupos e ações que reivindicam o 
direito de externar a sua paixão pelo jogo, mas recusando adequar-se ou aderir à norma 
que estabelece uma dada masculinidade como legítima participante das práticas e 
espaços que dão sentido à experiência social do futebol. 
Em meio a ações diversas promovidas por instituições culturais, coletivos e, 
mesmo, academia que têm contribuído para ampliar o debate em torno das relações 
entre o futebol, gênero e sexualidades, as torcidas anti-homofobia são ainda os 
principais alvos de ameaça e perseguições. Possivelmente essa maior hostilidade seja 
justamente pelo uso de símbolos do clube, o que, segundo os agentes regidos pela 
norma dominação masculina, desrespeitam e ameaçam a “pureza” do time, na medida 
em que este passa também a ser alvo da paixão e apropriado por aqueles que antes eram 
visto como abjetos e indesejáveis. 
Nessa perspectiva, o futebol é o pano de fundo, ou mais um campo de um debate 
de uma disputa que é muito mais ampla e abrange o conjunto da sociedade. Trata-se da 
superação das barreiras que ainda segregam mulheres e pessoas LGBT de usufruírem 
plenos direitos de cidadania, assim como o de poderem livremente se apropriar de todos 
os espaços públicos, sem serem vítimas de constrangimentos e violência. 
 
 
Bibliografia: 
 
• BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 
2002. 
• ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Ed., 2000. 
• 
• LOURO, Guacira Lopes. “Teoria Queer: Uma Política Pós-Identitária para a 
Educação”. In: Revista Estudos Feministas. V.9, n.2 Florianópolis: IFCH, 2001. 
• MISKOLCI, Richard. “Estranhando as Ciências Sociais: Notas introdutórias 
sobre Teoria Queer”. Revista Florestan Fernandes, v.2, pp. 8-25, 2014. 
• RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento – Política e Filosofia. São Paulo: 
Editora 34, 1996. 
1. RODRIGUES FILHO, Mário. O Negro no futebol. Petrópolis: Editora Firmo, 1994. 
• SOUZA, Marcos Alves de. “Gênero e raça: a nação construída pelo futebol 
brasileiro”. In Cadernos Pagu, Campinas, nº 6-7, p. 109-152, 1996. 
 
Sites usados na pesquisa: 
 
• http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2013/08/19/torcedores-de-
organizada-fazem-protesto-contra-emerson-no-ct.htm 
• https://www.facebook.com/BambiTricolor/ 
• https://www.facebook.com/PalmeirasLivre/ 
• https://www.facebook.com/Galo-Queer-941232029242434/ 
 
http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2013/08/19/torcedores-de-organizada-fazem-protesto-contra-emerson-no-ct.htm
http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2013/08/19/torcedores-de-organizada-fazem-protesto-contra-emerson-no-ct.htm
https://www.facebook.com/BambiTricolor/
https://www.facebook.com/PalmeirasLivre/
https://www.facebook.com/Galo-Queer-941232029242434/
 
III SEMINÁRIO INTERNACIONAL GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIA: DO 
PESSOAL AO POLÍTICO 
 
Sessão 2 - Ciberativismos e questões de gênero 
 Por Flavia Rios e Regimeire Maciel 
 
Títulos: Feminismo Negro e Interseccional: práticas e discursos sobre raça, gênero 
e sexualidade nas redes sociais 
Um dos grandes desafios a ser enfrentado nas análises das práticas, discursos e redes de 
ativismo no mundo contemporâneo é o uso da Internet como instrumento (ferramenta) e 
espaço privilegiado para a construção das identidades, estratégias e dos objetivos para a 
ação coletiva que pode ganhar, ou não, os espaços tradicionais do ativismo político, 
como as ruas ou as organizações civis. Como intuito de examinar, no detalhe, a 
formação e organização de coletivos políticos brasileiros que atuam nas redes sociais no 
último biênio, decidimos fazer um estudo de caso. Trata-se da formação de uma rede de 
jovens ativistas que reivindicam para sí múltiplos pertencimentos identitários, valendo-
se preferencialmente de discursos que envolvem as dimensões de gênero, raça e 
sexualidade. Para tanto, recorremos à análise qualitativa de discursos em blogs e em 
postagens do facebook, além de entrevistar algumas das principais ativistas da nova 
geração, que se valem tanto dos recursos midiáticos e das práticas presenciais de 
encontros para a consolidação da rede de mobilização coletiva, como se apoiam no 
feminismo e no antirracismo como linguagem de contestação contra as múltiplas formas 
de opressão. Nessa perspectiva, a identidade coletiva assume caráter ambivalente, ora 
destacando o feminismo negro, ora propondo o feminismo interseccional, onde o tema 
da sexualidade pode potencialmente ganhar maior espaço de interlocução. 
 
Palavras Chaves: Feminismo negro, cyberativismo e Interseccionalidade 
 
INTRODUÇÃO: 
Evento I: ¨Ela não nos representa” - Na terça-feira à noite do 16 de setembro de 2014, 
a série semanal “Sexo e as Negas” estreou na TV Globo. De autoria e direção de Miguel 
Falabella, tratava-se de uma paródia do famoso seriado norte-americano ‘Sex and the 
City’, a versão nacional foi ambientada no subúrbio carioca e retratava a intimidade e o 
cotidiano de quatro mulheres negras. Logo que “Sexo e as Negas” começou a ser 
divulgado houve um profusão de protestos virtuais de pessoas incomodadas com o 
estereótipo sexista e racista apresentado nas fotos e propagadas da minissérie. Na voz 
das ativistas, a hastag “Sexo e as negas não me representa” parecia a forma mais 
acabada de expressar o descontentamento. Fez parte do repertório de ação das ativistas a 
 
proposta de boicote coletivo, fóruns de discussão virtuais, denúncias na Ouvidoria da 
SEPPIR; Manifesto Público e produção de artigos para a blogs e redes sociais. Contudo, 
protesto político e virtual não impediu a estreia do seriado, mas gerou um debate 
público nas redes sociais e em alguns outros meios de comunicação, recebendo resposta 
pública de artistas. No fim, o seriado não conseguiu espaço para alcançar uma nova 
temporada. 
 
Evento II : “Mulher negra não é fantasia de carnaval” - No início de Maio de 2015, 
o instituto Itaú Cultural anunciou sua programação mensal, que incluía a obra “A 
Mulher do Trem”, da companhia teatral paulistana Os Fofos Encenam. O espetáculo, 
encenado há 12 anos(desde 2003) em diversas temporadas e festivais, pela primeira vez 
foi cancelado devido a manifestações, na internet, que questionavam o teor racista da 
peça. Na foto de divulgação, uma personagem (uma empregada doméstica) era 
caracterizada por uma pessoa branca com maquiagem escura (preta), com traços 
exagerados. Ativistas e apoiadores dos movimentos negros acusaram a peça de 
perpetuar um estereótipo preconceituoso, resgatando o blackface – uma caricatura dos 
negros que surgiu nos circos e apresentações de menestréis do século XIX ( num 
momento histórico em que as sociedades americanas estavam em transformação com o 
fim recente da escravidão, e as sociedades europeias ainda estavam amplamente 
envolvidas em questões coloniais na África, Ásia e Oceania). Tal técnica projetava uma 
representação depreciada dos negros, como vistos pela sociedade hegemônica branca – 
e ao longo do século XX ainda foi amplamente reproduzida não apenas no teatro e no 
circo, mas também na televisão e no cinema. Os artistas responsáveis pela apresentação 
defendiam que aquela representação tinha um contexto: toda a linguagem utilizada na 
peça pretendia resgatar uma tradição estética do circo-teatro brasileiro do início do 
século XX. Devido à polêmica, a apresentação foi cancelada e, em seu lugar, houve um 
debate sobre racismo, num importante centro cultural, na avenida Paulista. Centenas de 
pessoas, dentre elas ativistas de organizações reconhecidas, blogueiras negras, 
pesquisadores de universidades públicas renomadas, artistas e jornalistas, reuniam-se 
num encontro para debater o caso. Na linguagem contenciosa dos ativistas, via-se a 
seguinte frase: “ racistas NÃO PASSARÃO”. 
 Esses dois eventos são expressões do estilo de ativismo político contemporâneo, 
que envolvem raça e gênero enquanto categorias políticas em contextos contenciosos 
 
no Brasil. O uso de tecnologia da informação como ferramenta de protesto político 
marca a especificidade dessas mobilizações coletivas. Além disso, as redes sociais 
aparecem como espaço de formação de comunidades virtuais, cuja atuação não se 
restringem ao ambiente da internet. Não por acaso, muitos dos protesto que começam 
na internet podem ganhar outros espaços públicos, como o caso do evento II, que 
arrastou dezenas de ativistas, especialmente as mulheres negras organizadas. 
Nessa perspectiva, o interesse desse artigo é investigar a formação e as formas 
de ação coletiva de ativistas que se valem de múltiplas identidades sociais. Como 
estudo de caso, tomaremos os coletivos de mulheres negras, porque essas já em sua 
autonomeação carregam a articulação de identidades diversas. Além desse ativismo, 
tomaremos como contra ponto a formação de uma comunidade de ativistas 
interseccionais, porque estas, além da dimensão do gênero e da Raça, também acenam 
para a dimensão da sexualidade. Por se tratar de uma mobilização recente e nova no 
Brasil, parece pertinente comparar repertórios de ação e de discurso das novas gerações 
de ativismo, contrastando com as formas mais estabelecidas do feminismo negro, que 
deita suas raízes no fim do regime militar. 
Para desenvolver esse trabalho, compararemos duas ações desenvolvidas no 
último biênio. A primeira delas é um curso à distância, organizado por uma associação 
de mulheres negras, sediada em São Paulo, mas que tem integrantes em várias partes do 
país. Mostraremos como essa organização desenvolve projetos de formação coletivas 
em torno da Raça, Gênero e Sexualidade, em particular analisaremos um projeto de 
formação denominado “Produção Intelectual de mulheres Negras”. A segunda escolha 
é um coletivo de mulheres negras que se autodenominam feministas negras 
interseccionais, as quais desenvolvem ações nas redes sociais, polemizando temas dos 
grandes meios de comunicação e pautando os temas de raça, sexualidade e gênero nas 
mídias eletrônicas. Além do ativismo virtual, esta última rede de ativistas também 
desenvolve encontros presenciais, tomaremos o “Acampa Interseccional” como 
referência para analisar os discursos e práticas dessas militantes. Na seção final, 
faremos uma breve consideração dos primeiros achados de pesquisas, que foram 
encontrados nessa investigação, que ainda se encontra em estágio exploratório. 
 
 
 
 Trajetórias de Mulheres Negras na Rede 
Iniciamos nossa comparação pela apresentação da primeira ação mencionada, o 
curso de formação “Produção Intelectual de Mulheres Negras”, encaminhado pela 
Associação Mulheres de Odun (AMO), organização constituída em 2010, na cidade de 
São Paulo. Voltada para a promoção e divulgação de bens culturais com recorte de 
gênero e raça, a associação tem como eixo fundamental o desenvolvimento de 
estratégias capazes de empoderar mulheres negras e suas experiências em diversos 
espaços da vida social. Nas palavras da própria associação, sua missão é 
Construir caminhos para acesso aos bens culturais por meio do 
empoderamento e instrumentalização de mulheres negras para 
elaboração e desenvolvimento de ações e metodologias 
estratégicas que possam propiciar melhores condições de vida à 
população negra. Inspirados nos princípios feministas de 
equidade, pluralidade e solidariedade ( Site oficial da 
organização). 
 
Podemos dizer, dessa forma, que os interesses eobjetivos da AMO estão 
intimamente relacionados ao perfil das suas fundadoras e associadas: mulheres negras, 
com formação acadêmica e na faixa etária dos trinta anos. A constituição dessa 
associação se conecta a um movimento mais amplo que toma a formação coletiva como 
indispensável para a construção das lutas empreendidas por grupos em condição de 
subalternidade. Este talvez seja o principal elemento aglutinador e motivador da atuação 
desse grupo de mulheres. É, pela descrição da sua missão, ao mesmo tempo, o seu ponto 
de partida e de chegada. 
Na perspectiva dessa organização, a formação educacional é encarada como 
fundamental. No entanto, o aspecto formativo que se visa criar é aquele que, por 
exemplo, agrega à escolarização formal as trajetórias de cada integrante. Trata-se da 
necessidade de construção de processos de troca e fortalecimento. 
E é dessa compreensão que esse grupo de mulheres - antenadas com as novas 
ferramentas e tecnologias de comunicação – parte para propor caminhos nos quais esse 
espaço de formação e troca seja ampliado e atinja mais mulheres Brasil afora. Foi nesse 
sentido que a AMO elaborou e executou o curso a distância denominado “Produção 
Intelectual de Mulheres Negras”. Segundo informações contidas no seu blog, este curso 
foi uma das motivações para a constituição formal do coletivo, em 2010. Em 2009, o 
grupo mulheres do qual a associação se originou realizou uma edição piloto do curso. O 
grande número de pessoas interessadas em acompanhar a discussão, associado aos 
 
resultados obtidos após a sua execução, demandou a institucionalização do grupo e a 
ampliação da proposta de trabalho. Assim, em 2010, já formalizada, a AMO realizou 
uma segunda edição do curso “Produção Intelectual de Mulheres Negras”. 
A terceira edição do curso, sobre a qual nos debruçaremos para a nossa análise 
comparativa, ocorreu em 2015 e contou com mais de cinco mil inscrições. O fato de o 
curso ser a distância pode ser um importante indicativo dessa alta procura. Mesmo 
sendo ofertado apenas para o estado de São Paulo, foram recebidas inscrições de várias 
regiões do país. Mas, parece-nos, a princípio, que são mesmo os objetivos do curso que 
chamaram atenção das/dos interessadas/os em realizá-lo e, nesse sentido, a possibilidade 
de discutir a trajetória de mulheres negras invisibilizadas pela história oficial pode ser 
tomado como ponto central desse aspecto. Formulados na edição piloto de 2009, os 
objetivos foram se ampliando e na edição de 2015 (março - agosto) ganharam o reforço 
de novas referências biográficas, além de destacarem a necessidade das/dos cursistas 
refletirem suas próprias realidades à luz das trajetórias trabalhadas. 
Do ponto de vista do conteúdo, o curso foi iniciado com a discussão da grandeza 
e importância das rainhas africanas, das mulheres negras que fortaleceram a luta nos 
quilombos, de outras que aproveitaram o espaço religioso para preservar crenças e 
conhecimentos ancestrais e daquelas que fizeram das diversas formas de trabalho 
instrumentos para lutar por uma vida digna. Ele seguiu abordando alguns aspectos da 
história brasileira, discutindo, por exemplo, a luta pela sobrevivência das mulheres 
negras no contexto após a abolição, apontando como essas mulheres desempenharam 
inúmeras funções no trabalho doméstico, como algumas desafiaram valores e 
imposições da sua época e se lançaram em espaços exclusivamente ocupados por 
homens. Um outro momento significativo da abordagem trazida pelo curso foi o 
destaque dado ao processo de organização da luta das mulheres negras – via espaços 
próprios – ao não se conformarem com a indiferença das organizações feministas e 
negras às suas especificidades. Para cada momento desse, foram destacadas a vida e a 
produção intelectual de mulheres negras1 nem sempre presentes nas versões elaboradas 
sobre a nossa história. 
Executado na plataforma de educação a distância MOODLE, o curso “Produção 
Intelectual de Mulheres 2015” selecionou 600 cursistas de um total de 5.115 inscritos. 
Esses foram distribuídos em doze salas e acompanhadas/os diariamente por seis tutoras. 
 
 
 
Com o conteúdo divido em oito módulos, as/os cursistas tinham, em média, dez dias 
para se apropriarem do material disponibilizado e partilharem impressões, relatos e 
análises com as/os demais cursistas e com a sua tutora de referência. Os chats e fóruns 
visavam ampliar ainda mais esses espaços de troca. Ao final do curso, todas/os foram 
convidados a produzirem uma intervenção no seu ambiente de convivência e/ou 
atuação, tomando por referência os debates produzidos em cada módulo ou demandas 
suscitadas a partir dos mesmos. 
Quando passamos a analisar o perfil das pessoas inscritas no curso (tabela 01), 
percebemos que mais de 86% eram mulheres, 71,45% se declarou heterossexual, 
47,50% era negra/o e 82,17% possuíam nível superior. 
 
Tabela 1 – Inscrições no curso Produção Intelectual de Mulheres Negras2 
Origem Sexo Orientação 
sexual 
Raça Escolaridade 
(nível) 
São Paulo 
2194 
Homens 
403 
Heterossexual 
3655 
Brancos 
984 
Superior 
4203 
Outros estados 
2921 
Mulheres 
4439 
Bissexual 
500 
Negros 
2930 
Técnico 
148 
Total 
5115 
Outros 
15 
Homossexual 
42 
Pardos 
770 
Médio 
459 
 Lésbica 
121 
Outros 
126 
Fundamental 
27 
 Gay 
22 
 Outros 
3 
 Outros 
192 
 
Fonte: Banco de dados da Associação Mulheres de Odun (2014-2015). 
 
Na análise das questões abertas, a maioria das pessoas inscritas disse que ficou 
sabendo do curso via redes sociais ou por meio de sites de organizações culturais ou 
educativas. De todo modo, foi a internet a principal ferramenta de divulgação do curso e 
aliado ao fato dele se desenvolver à distância, esse aspecto reforça a nossa compreensão 
de que as principais bandeiras de luta das organizações de mulheres negras no Brasil – o 
combate ao racismo e ao sexismo – contam hoje com estratégias que podem ser 
 
2 Dados organizados e disponibilizados pela Associação Mulheres de Odun. É importante destacar que 
nem todas as pessoas inscritas responderam a todas questões do formulário. Por isso, o total de algumas 
categorias diverge do total geral de inscritos. 
 
formuladas e consolidadas no plano das novas tecnologias de informação, com 
destaque para as mídias sociais. 
 As ações da Associação Mulheres de Odun dentro das chamadas novas redes de 
comunicação e interação pode ser tomada, a exemplo de outros movimentos e 
organizações, como alternativa à ampliação do seu espaço de visibilidade e atuação. 
Porém, talvez seja importante ressaltar que a internet pode ser veículo de mobilização e 
ação não apenas porque se “oferece” a isso, mas também porque o contexto cultural e 
político das sociedades contemporâneas exige dos organismos sociais novos caminhos 
para sua manutenção e fortalecimento, mesmo que muitas demandas permaneçam as 
mesmas de décadas passadas. 
 
2.0: Ciberativismo e o Feminismo Interseccional 
 
 A rede de ativismo que se autodenomina feminismo interseccional surgiu há um 
ano e meio e é formado por maioria de mulheres negras, jovens, cuja faixa etária varia 
de 20 a 30 anos. Trata-se de um grupo de jovens feministas que atua fortemente nas 
redes sociais, que lhes serve como espaço comunitário de troca de experiência, 
informações e ideias, tornando-se assim ambiente de formação de identidade coletiva, 
mas também de ferramenta para projetar seus objetivos e formas de atuação política. 
Embora a base da rede se constitua no ambiente virtual, as ativistas também promovem 
encontros presenciais em lugares públicos,ondem discutem problemas relacionados ao 
racismo, machimo, homofobia, e especialmente a transfobia e a questão da visibilidade 
lésbica. 
Em sua primeira atividade de abrangência nacional, as ativistas definiram-se da 
seguinte forma: 
“Somos uma frente de mulheres mães, negras, indígenas, 
lésbicas, bixessuais, periféricas, acadêmicas, organizadas e 
autônomas e defendemos o feminismo interseccional, que parte 
da complexidade de pensar a mulher a partir do gênero, raça, 
classe e orientação sexual” (Apresentação do Caderno DO I 
ACAMPA Intersec, 2015). 
 
 Os principais referenciais teóricos e de prática de ativismo das feministas 
interseccionais vêm do ativismo de mulheres negras brasileiras e do feminismo negro 
norte-americano. Das tradições do hemisfério Norte e dos trópicos, a rede 
interseccional toma como legado proposta de formação de uma identidade política 
baseada na raça e no gênero, buscando dar visibilidade as mulheres negras como 
sujeitos coletivos de direitos. A visibilidade pública e a luta por reconhecimento 
(FRASER, 2001) desse grupo social é uma das bandeiras que é compartilhada pela 
geração mais antiga e a geração mais recente de feministas negras. 
 Assim como a geração do pós-ditadura, as feministas negras dessa nova geração 
vivem em conflito como o que chamam de “feminismo branco”. Apesar das 
divergências, as feministas negras da atualidade defendem as pautas clássicas do 
feminismo no Brasil, como a luta pela legalização do aborto e pelos demais direitos 
sexuais reprodutivos. No bojo dessas reivindicações, assumem também as plataformas 
discursivas das mulheres negras, as quais destacam as desigualdades desse segmento 
populacional em vários campos da vida, como o da saúde, do mercado de trabalho e dos 
meios de comunicação. Intelectuais brasileiras da velha guarda que são referências para 
o feminismo interseccional são, especialmente, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. 
 Do feminismo norte-americano, as feministas interseccionais valorizam os 
trabalho de Bell Hooks, Patrícia Hill Collins, Angela Davis, contudo as autoras que 
realmente parecem ganhar centralidade na produção dessas ativistas são Aldre Lorde e 
Kimberle Crenshaw. Da primeira autora retiram a dimensão da sexualidade, em 
particular das identidades não heteronormativas; enquanto que da segunda inspiram-se 
propriamente no conceito de interseccionalidade, para quem, tal noção poderia ser assim 
definida: 
A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca 
capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre 
dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da 
forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e 
outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que 
estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e 
outras (CRENSHAW, 2002:177). 
 
Contudo, não somente a dimensão dos eixos de opressão são temas dos discursos 
das feministas interseccionais, mas, sobretudo, a dimensão da identidade coletiva. Nesse 
sentido, a interseccionalidade na rede feminista está diretamente relacionada 
diretamente à construção identitária. 
 
 Importante notar que no ativismo da rede feminista interseccional há uma 
preocupação em remontar o legado dos movimentos feministas já existentes na cultura 
nacional há algumas décadas, dando destaque para o feminismo negro brasileiro e o 
norte americano, além da interlocução com a rede de mulheres lésbias e trans, 
principalmente. A ideia de chamar para si essa identidade é justamente marcar a 
dimensão interseccional das relações de opressão social, sem subordinar esses eixos. 
Contudo, as feministas negras interseccionais, ainda oscilam entre se chamar de 
feministas interseccionais ou feminismo negro interseccional. Essa ambivalência na 
autodefinição merece destaque, pois indica a formação de uma rede, que como tal ora 
pende para a manutenção da tradição de ativismo, ora indica uma novidade, que abre 
maior interlocução não apenas com os movimentos que rompem com a 
heteronormatividade, como também abrem diálogo com os coletivos de mulheres não 
negras. 
 
3.0 Algumas considerações: um breve histórico comparativo do ativismo de 
mulheres negras no Brasil 
 
A mobilização autônoma de mulheres negras emergiu no fim da ditadura militar 
e teve elevado crescimento na década da democratização. Importante notar que esse 
movimento nasceu em interface com o movimento negro e com o movimento feminista 
(RODRIGUES e PRADO, 2010). Nesse período, esse ativismo se auto-denominava 
movimento de mulheres negras, embora grande parte desse segmento se visse como 
feminista , elas não adotaram essa terminologia em sua identidade coletiva. Durante os 
anos noventa, esse feminismo ganhou destaque durante a formalização de suas 
organizações civis, além disso houve um avanço importante no que toca à formação de 
redes transnacionais e suas relações com o Estado, especialmente com a criação da 
secretaria para a Igualdade Racial, a SEPPIR, em 2003. 
Já na virada do novo século, emergiu um novo ciclo de ativismo, marcado pela 
presença das jovens feministas negras, que atuaram em franca articulação com 
organizações estrangeiras e também com os ministérios ligados à igualdade de gênero e 
raça. Essas jovens feministas já se valiam da internet como meio de comunicação, 
contudo, seu perfil de atuação não diferia muito do ativismo de mulheres negras do 
contexto da democratização, uma vez que ainda mantinham grande parte do seu 
 
repertório de discurso. Contudo, introduziam a dimensão geracional, até então ausente 
no ativismo de mulheres negras. 
Num novo ciclo de ativismo, especialmente com a difusão das redes sociais e 
das grandes mobilizações ocorridas no Brasil em 2013, nas chamadas jornadas de 
junho, uma nova rede de ativistas, especialmente àquelas emergentes nos contextos das 
novas tecnologias de informação, passa a atuar fortemente valendo-se preferencialmente 
da Internet como ferramenta de circulação de informação e de mobilização coletiva 
contra situações de violência simbólica que envolvem as dimensões de raça, gênero e 
sexualidade, principalmente. Há que se notar que o discurso que envolve a periferia 
também tem destaque na articulação dessas mulheres. 
Além dos cursos de formação, como aquela desenvolvido por organizações de 
mulheres negras, há sobretudo a crescente mobilização via redes sociais, que passam a 
formar comunidades interepretativas da realidade social, pautando um discurso contra 
as formas depreciadas que grupos minoritários são representados na sociedade 
dominante. 
 
Bibliografia: 
CRENSHAW, Kimberlé(2002). “Documento para o encontro de especialistas em 
aspectos da discriminação racial relativos ao gênero”. In: Rev. Estud. Fem. [online]. 
vol.10, n.1, pp. 171-188. 
 RODRIGUES, C. S. & Prado, M. A. M. (2010) “Movimento de mulheres negras: trajetória 
política, práticas mobilizatórias e articulações com o estado brasileiro”. Psicol. 
Soc. vol.22 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2010. 
FRASER, Nancy (2001). “Redistribuição ou reconhecimento? Classe e status na 
sociedade contemporânea”. In: Revista Intersecções, RJ, UERJ. Ano 4, n. 1, 7-32. 
HIRATA, Helena (2014). Gênero, Classe e Raça: Interseccionalidade e 
consubstancialidade das relações sociais. Tempo Social. Revista de sociologia da USP, 
v. 26, n. 1. 
SOUZA, Nelson Rosário de. Aculturação e identidade: o caso do seriado ‘sexo e as 
negas’. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Comunicação e Sociedade Civil do 
VI Congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política 
(VI COMPOLÍTICA), na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-
Rio), de 22 a 24 de abril de 2015. 
TARROW, Sidney (2014). The Language of Contention. Cambridge Universidade 
Press. 
 
 
Fontes de pesquisa: 
Folder do I Acampamento de Feminismo Interseccional, 19-20de setembro de 2015. 
Site da Amo: https://comunicaamo.wordpress.com/about/ 
https://comunicaamo.wordpress.com/about/
 
As (re)existências de mulheres brasileiras imigrantes em Portugal via mídias 
digitais: um estudo exploratório 
Jéssica de Cássia Rossi 
RESUMO: A presença das mulheres imigrantes brasileiras em Portugal impõe uma 
série de desafios a esse grupo, como o combate a imagem negativa que os portugueses 
têm dela, a qual, em algumas situações, está relacionada à hipersexualidade. Por isso, o 
objetivo do trabalho é analisar como as mulheres imigrantes brasileiras discutem, via 
mídias digitais como o Facebook, os estereótipos que parte da sociedade portuguesa têm 
as associado na contemporaneidade. Para tanto, fundamentamo-nos nas reflexões dos 
“Estudos Pós-Coloniais”, as quais desconstroem as essencializações ocidentais que 
desvalorizam grupos sociais subalternos. Em seguida, abordamos como as mulheres 
brasileiras imigrantes que moram em Portugal na atualidade (re)existem à essas 
situações. Dessa forma, desenvolvemos um estudo exploratório no grupo Mulheres 
Brasileiras em Portugal, na rede social Facebook, que monitorou o conteúdo das 
postagens realizadas pelos membros do grupo, de abril a setembro de 2015 a fim de 
verificar o tema em questão. A partir disso, apontamos algumas considerações a respeito 
do tema e algumas contribuições desse estudo exploratório. 
 
PALAVRAS-CHAVE: Estudos Pós-Coloniais; Mulheres Brasileiras Imigrantes em 
Portugal; Mídias Digitais. 
 
INTRODUÇÃO 
 A presença das mulheres imigrantes brasileiras em Portugal impõe uma série de 
desafios a esse grupo, como o combate a imagem negativa que os portugueses têm dela, 
a qual, em algumas situações, está relacionada à hipersexualidade. Por isso, algumas 
mulheres imigrantes brasileiras têm respondido a essa situação ao criticar e denunciar 
essa discriminação como fez o Manifesto em Repúdio ao Preconceito contra as 
Mulheres Brasileiras em Portugal. Essas mulheres têm usado ferramentas digitais como 
blogs, e-mails e redes sociais para discutir essa questão. Por isso, o objetivo do trabalho 
é analisar como as mulheres imigrantes brasileiras discutem, via mídias digitais como o 
Facebook, os estereótipos que parte da sociedade portuguesa têm as associado na 
contemporaneidade. 
 Para tanto, fundamentamo-nos nas reflexões dos “Estudos Pós-Coloniais”, as 
quais desconstroem as essencializações ocidentais que desvalorizam grupos sociais 
subalternos. Em seguida, abordamos como as mulheres brasileiras imigrantes que 
moram em Portugal na atualidade (re)existem à essas situações. Dessa forma, 
desenvolvemos um estudo exploratório no grupo Mulheres Brasileiras em Portugal, na 
rede social Facebook, em que se encontram algumas mulheres brasileiras imigrantes 
que residem atualmente em Portugal. 
O estudo exploratório monitorou o conteúdo das postagens realizadas pelos 
membros do grupo, de abril a setembro de 2015 a fim de verificar o tema em questão. 
Entre os resultados obtidos, verificamos que o grupo é utilizado para a discussão de 
assuntos variados, mas que entre esses assuntos há alguns conteúdos que abordam e 
questionam a discriminação que as mulheres brasileiras imigrantes são alvo na 
sociedade portuguesa. A partir disso, apontamos algumas considerações a respeito do 
tema e algumas contribuições desse estudo exploratório. 
 
ESTUDOS PÓS-COLONIAIS 
Quando pensamos no termo “pós-colonialismo”, temos a noção de que ele se 
refere aos processos de descolonização ocorridos em nações, consideradas de “terceiro 
mundo”, a partir da primeira metade do século XX. Contudo, há outro significado para 
o qual este termo também é utilizado. Atualmente, refere-se ao conjunto de reflexões 
teóricas provenientes “[...] dos estudos literários e culturais, que a partir dos anos 1980 
ganharam evidência em algumas universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra” 
(BALESTRIN, 2013, p.90), e, após isso, expandiu-se para outros lugares e disciplinas, o 
qual é conhecido como “Estudos Pós-Coloniais” (COSTA, 2005). 
Trata-se de uma linha de reflexões teóricas bastante complexa devido às suas 
diferentes perspectivas, mas o que há em comum entre os seus estudiosos são: “[...] a 
crítica ao modernismo enquanto teologia da história [...], a busca de um lugar de 
enunciação ‘híbrido’ pós-colonial [...], crítica à concepção de sujeito nas ciências 
sociais (COSTA, 2005, p.2). É uma linha de estudos que se propõe a desconstruir e 
criticar o conhecimento ocidental dominante, o qual chegou tardiamente ao Brasil e se 
tornou uma espécie de “moda acadêmica” (BALESTRIN, 2013). 
O termo “pós” de pós-colonial não significa simplesmente um “depois”, trata-
se de uma operação de reconfiguração do campo discursivo, no qual as relações 
hierárquicas são significadas. Já o termo “colonial” alude a situações de opressão 
diversas. Não é fácil delimitar os “Estudos Pós-Coloniais”, pois é uma reflexão que vai 
além da teoria. As principais perspectivas teóricas que contribuíram com a elaboração 
dos “Estudos Pós-Coloniais” foram o “Pós-Estruturalismo”, “Estudos Culturais” e 
autores como Foucault, Derrida, Gramsci (com as noções de hegemonia e subalterno) 
(COSTA, 2005). 
Para essa concepção teórica, em algumas situações ainda estaríamos expostos à 
alguma forma de exploração, como na época da colonização. A diferença é que essa 
dominação agora é descentralizada e indireta, ela se constitui por meio de um discurso 
que valoriza o ocidente em detrimento de outros povos “não-ocidentais”. 
Os “Estudos Pós-Coloniais” se desenvolveram a partir de autores “[...] 
qualificados como intelectuais da diáspora negra ou migratória – fundamentalmente 
imigrantes oriundos de países pobres que vivem na Europa Ocidental e na América do 
Norte” (COSTA, 2005, p.1). Além disso, é difícil delimitar quais seriam os principais 
autores desta escola teórica, entretanto, há uma noção partilhada sobre a relevância e o 
destaque dos pensadores da chamada “tríade francesa”, composta por Aimé Césaire, 
Albert Memmi e Franz Fanon, os quais desenvolveram argumentos pós-coloniais de 
forma mais ou menos simultânea. Eles “[...] foram os porta-vozes que intercederam pelo 
colonizado quando este não tinha voz” (BALESTRIN, 2013, p.92). Junto da “tríade 
francesa” podemos citar também Edward Said, intelectual e ativista palestino, com a 
produção da obra “Orientalismo – o oriente como invenção do ocidente” em 1978, a 
qual “[...] denunciou a funcionalidade da produção do conhecimento no exercício de 
dominação sobre o ‘outro’ [...]” (IBIDEM). Aimé Césaire, Albert Memmi, Franz Fanon 
e Edward Said ajudaram no processo de transformação da base epistemológica das 
Ciências Sociais, de modo lento e não intencionado, e foram os pioneiros dos “Estudos 
Pós-Coloniais”. Entre outros autores, também podemos apontar: Homi Bhabha, Stuart 
Hall, Paul Gilroy, etc. 
Ademais, vale salientarmos que os pensadores pós-coloniais já existiam antes 
mesmo da institucionalização desta corrente teórica e também que o pós-colonialismo 
surgiu devido à relação antagônica entre colonizado e colonizador. Sobre isso, por um 
lado, os “Estudos Pós-Coloniais” conseguiram romper com esse binarismo de 
identidades essencializadas por meio de autores como Albert Memmi, Edward Said e 
Homi Bhabha; já, por outro lado, essa relação antagônica levou a um processo de 
identificação entre colonizado e colonizador, em que “[...] a presença do outro me 
impede de ser totalmente eu mesmo. A relação não surge de identidades plenas, mas da 
impossibilidade de construção das mesmas” (LACLAU; MOUFFE, 1985, p.125). 
 
(RE)EXISTÊNCIAS DAS MULHERES BRASILEIRAS IMIGRANTES EM 
PORTUGAL 
Os discursos sobre a “mulher brasileira” existente no imaginário português são 
marcados pela “geopolítica do saber” que, às vezes, dá vozes à alguns grupos 
ocidentais, no caso alguns sujeitos e grupos sociais portugueses, e silencia outros,no 
caso as mulheres brasileiras imigrantes. Dessa forma, discutimos como algumas 
mulheres brasileiras imigrantes se subjetivam enquanto sujeitos. Buscamos 
compreender como elas deslocam e transcendem o discurso português hegemônico. 
Gomes (2013) classifica as (re)existências em passiva, afirmativa e combativa, 
conforme verificamos abaixo: 
- (Re)existência Passiva: Trata-se de um tipo de resistência que se aproxima da 
conformação ou submissão (GARCIA, 2008) ao discurso hegemônico “mulher 
brasileira”. Segundo Gomes (2013), algumas mulheres brasileiras imigrantes tendem a 
se aproximar da portugalidade ao invés da brasilidade ao adotar estratégias como: 
mudar a forma de se vestir, o corte de cabelo, camuflar o sotaque, elaborar um discurso 
que elas são diferentes das outras brasileiras, buscar por amigos portugueses 
(PADILHA; GOMES; FERNANDES, 2010). Ao fazer isso, as migrantes brasileiras 
parecem estar resignadas ao imaginário “mulher brasileira”: 
 
[...] ou seja, já que não podem alterá-lo, afastam-se dele 
individualmente, aproximando-se da portugalidade e, assim, resistem 
de forma passiva. Resistência, porque sobrevivem ao preconceito e à 
discriminação; passiva, porque se resignam, compartilham a ordem 
discursiva hegemônica. (GOMES, 2013, p.881-882). 
 
 Dessa forma, parece haver uma conformação às práticas discursivas 
hegemônicas, sem questionamentos às essencializações lusitanas. Essa estratégia é 
comum entre mulheres brasileiras imigrantes de classe média alta, que tentam 
demonstrar por meio do seu capital cultural que não têm ligação com a migração 
econômica (RODRIGUES, 2010). 
- (Re)existência Afirmativa: Além da aportuguesação, Gomes (2013) destaca que há 
mulheres brasileiras imigrantes em Portugal que exaltam a brasilidade. E devido a isso, 
alguns pesquisadores da área, segundo a mesma autora, parecem culpar essas mulheres 
pela reprodução do estereótipo ou apontam que algumas mulheres tiram vantagem desse 
estigma. Isso ocorre, por exemplo, quando as brasileiras usam sua “sexualidade 
agressiva” para se aproximar do imaginário português e obter vagas de trabalho 
destinadas às brasileiras (associadas à brasilidade) como entretenimento, mercado do 
sexo, cuidado de crianças e idosos ou atendimento ao público (MACHADO, 2009). 
Trata-se de um mercado de trabalho que racializa as brasileiras em posições específicas 
e inferiores ou, até mesmo, uma forma não consciente de internalização dos estigmas a 
que as mulheres brasileiras imigrantes estão associadas (PADILHA; GOMES; 
FERNANDES, 2010). 
- (Re)existência Combativa: Embora não haja muitas reflexões sobre o que se entende 
por (re)existência combativa, podemos dizer que o termo está bastante próximo da visão 
dos “Estudos Pós-Coloniais” e “Estudos Decoloniais Latino-Americanos” ao buscar a 
dessencialização de um discurso hegemônico e ao buscar outras perspectivas 
identitárias. Isso porque: 
 
[...] a resistência combativa é a tentativa de desconstrução do discurso 
hegemônico, a demonstração da possibilidade de outras definições 
identitárias, a emergência de múltiplas brasilidades ou, ainda, 
identidades não nacionais. Pode ocorrer tanto no cotidiano quanto 
através do ativismo organizado. (GOMES, 2013, p.887). 
 
 
 Percebemos que é uma forma de criticar práticas discursivas vigentes em uma 
sociedade, de modo individual ou coletivo. 
 
METODOLOGIA - PESQUISA EXPLORATÓRIA 
 É o que fizemos em nosso trabalho, escolhemos elaborar um estudo exploratório 
no grupo Mulheres Brasileiras em Portugal, na mídia digital Facebook, em que há a 
participação de algumas mulheres brasileiras imigrantes, as quais moram ou já moraram 
em Portugal recentemente. Dessa forma, por meio de alguns exemplos sobre como o as 
mulheres brasileiras imigrantes respondem às situações de discriminação e violência 
que elas são alvo na sociedade lusitana, temos como entender a maneira como elas 
subjetivam isso, ou seja, se (re)existem de forma passiva, afirmativa ou combativa. 
 A escolha do grupo Mulheres Brasileiras em Portugal no Facebook se justifica 
porque foi um dos primeiros grupos que tivemos contato e, de alguma forma, apresenta 
postagens que discutem o preconceito sobre a “mulher brasileira” entre os portugueses. 
Tendo isso em vista, monitoramos o conteúdo das postagens realizadas pelos membros 
do grupo, entre os meses de abril e setembro de 2015 para verificar o tema em questão. 
 
RESULTADOS 
O grupo Mulheres Brasileiras em Portugal, o qual foi criado em 21 de abril de 
2015, por Sidineia Yamaguchi, advogada, proveniente do Estado do Paraná no Brasil, 
que reside em Portugal há 16 anos e atualmente mora na cidade Foz do Douro, Porto, 
Portugal. Conforme Gomes (2013) apontou em sua pesquisa, a (re)existência combativa 
é mais comum entre mulheres intelectualizas, como parecer ser o intuito de Yamaguchi 
ao ter criado o grupo. Isso se torna mais explicito quando ela descreve o grupo e seus 
objetivos: “Somos um grupo de partilha de experiências (as boas e as más), de 
denúncia, de apoio e entre ajuda (social, jurídica, profissional, familiar) e tbm grupo de 
convívio.” (YAMAGUCHI, 2015, p.1). 
Trata-se de um grupo fechado, cujos membros precisam pedir autorização para 
participar, ou seja, é uma participação por adesão. Entre os objetivos do grupo, está a 
denúncia e o apoio entre as mulheres imigrantes brasileiras que participam do grupo. 
Tanto que a imagem de apresentação do grupo é composta pela bandeira do Brasil de 
fundo com a seguinte legenda “valorização mulher brasileira”. Até o momento o grupo 
conta com 65 participantes, sendo que destes há somente 1 homem e 1 organização que 
participam do grupo. A maioria das participantes, ou seja, aproximadamente 97% são 
mulheres brasileiras que moram, já moraram ou tem interesse em morar em Portugal. 
A partir disso, realizamos uma pesquisa exploratória entre os meses de abril e 
setembro de 2015 em que monitoramos o grupo a fim de analisar como algumas 
mulheres brasileiras imigrantes (re)existem em relação ao preconceito existente sobre a 
“mulher brasileira” em Portugal. Como elas respondem a esse preconceito, ou seja, 
como elas (re)existem em relação a isso. 
Entre os conteúdos monitoramos, foi possível contabilizarmos 25 postagens 
entre o período de abril a setembro de 2015. Os conteúdos postados foram classificados 
da seguinte forma: orientações e opiniões sobre o grupo: 4 postagens (16%); dúvidas 
sobre direitos e a vida de imigrantes brasileiras em Portugal: 4 postagens (16%); 
denúncias sobre discriminação sobre a “mulher brasileira” em Portugal: 3 postagens 
(12%); Convites para eventos: 2 postagens (8%); Anúncios Publicitários: 7 postagens 
(28%); Depoimentos Gerais: 2 postagens (8%); Outros: 3 postagens (12%). 
A partir das postagens levantadas, percebemos que predominância de postagens 
cujo conteúdo trata-se de anúncios publicitários e há também conteúdos bastantes 
diversificados discutidos pelos membros do grupo e de seu interesse como dúvidas 
sobre os direitos de imigrantes em Portugal. Em relação as denúncias sobre a 
discriminação sobre a “mulher brasileira”, verificamos que somente 12% dos conteúdos 
discutem o preconceito e a discriminação que as mulheres imigrantes brasileiras estão 
expostas na sociedade lusitana. 
Embora as respostas ao preconceito que essas mulheres vivem em Portugal 
sejam minoria no grupo analisado. Percebemos que existe alguma consciência delas em 
relação a isso, de alguma maneira, elas reagem e denunciam a atitudes preconceituosas 
e de violência dos portugueses. Isso quer dizer que grupos colonizados, como o caso 
pesquisado, buscam formas de denúncias em espaços como as mídias digitais para que 
sejam ouvidos. Estes reivindicam um lugar de fala, há muito dominado pelo discurso 
ocidental. 
 
REFERÊNCIAS 
BALESTRIN, Luciana. América Latina e o Giro Decolonial. Revista Brasileira de 
Ciência Política. Universidadede Brasília, Brasília - DF. Maio – Ago. 2013, p. 89-117, 
n.11. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n11/04.pdf. Acesso em: 15 nov. 
2014. 
 
COSTA, Sérgio. Dois Atlânticos: teoria social, anti-racismo e cosmopolitismo. Belo 
Horizonte: Editora UFMG. 2006. 
______. Muito além da diferença: (im)possibilidades de uma teoria social pós- 
colonial. 2005. Disponível em: 
< http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/poscolonialismomana-
S%E9rgio%20Costa.pdf.>. Acesso em: 15 jul. 2015. 
 
FRANÇA, Thais. Excluindo Sexo, Raça e Etnia: Mulheres Brasileiras Trabalhadoras 
em Portugal. Atas do 1º Seminário de Estudos sobre Imigração Brasileira na 
Europa. Barcelona, Espanha. 2010. 
 
GOMES, Mariana Selister. O Imaginário Social <Mulher Brasileira> em Portugal: uma 
análise da construção de saberes, das relações de poder e os modos de subjetivação. 
Dados – Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro. 2013. v.56. n.4. p.867-900. 
 
http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n11/04.pdf
http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/poscolonialismomana-S%E9rgio%20Costa.pdf
http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/poscolonialismomana-S%E9rgio%20Costa.pdf
LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemony and socialist strategy: towards a 
radical democratic politics. Londres: Verso. 1985. 
 
MACHADO, Igor. Cárcere Público: processos de exotização entre imigrantes 
brasileiros no Porto. Lisboa: ICS. 2009. 
 
PADILHA, Beatriz; GOMES, Mariana; FERNANDES, Gleciani. Ser brasileira em 
Portugal: Imigração, Gênero e Colonialidade. Actas de 1º Seminário de Estudos sobre 
Imigração Brasileira na Europa. Barcelona, Espanha. 2010. 
 
RODRIGUES, Elsa. Do Brasil Palhaço ao Portugal Europa: a importância do “onde se 
vem” na construção do “para onde se vai” nas estratégias de imigrantes femininas 
brasileiras em Portugal. Actas do 1º Seminário de Estudos sobre a Imigração 
Brasileira na Europa. Barcelona, Espanha. 2010. 
 
 
 
YAMAGUCHI, Sidinéia. Mulheres Brasileiras em Portugal – grupo fechado. 
Facebook. Brasil. 2015. Disponível 
em: https://www.facebook.com/groups/1436312650013154/. Acesso em: 29 out. 2015. 
 
 
 
 
 
 
https://www.facebook.com/groups/1436312650013154/
MÍDIAS RIZOMÁTICAS, CONTROVÉRSIAS E ATIVISMOS: RESISTÊNCIAS 
E POLITIZAÇÕES 
 
Autorxs: Fábio Morelli e Leonardo Lemos de Sousa – Mestrando e Professor do 
Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social/UNESP-Assis. 
Resumo: Este trabalho possui como objetivo problematizar questões teóricas, 
epistemológicas e políticas sobre as pesquisas relacionadas às mídias digitais e locativas 
em articulações com os estudos de gênero e de sexualidades a partir dos princípios da 
Teoria Ator-Rede. A projeção, confecção, desenvolvimento e produção de dispositivos 
eletrônicos e demais aparatos tecnológicos são, hoje, resultados de uma história na qual 
as ciências modernas – não sozinhas – possuem responsabilidades em suas produções, 
pois, em grande medida, foi sob a lógica de seus pressupostos e princípios que tais 
aparatos foram pesquisados, incitados e finalmente, produzidos. Tal afirmação não leva 
em consideração somente a necessidade de conhecimentos e saberes para a produção de 
mercadorias, produtos e objetos, mas também a própria produção de como seres 
humanos e não-humanos estabeleceram e estabelecem suas relações. Significa que 
também é responsabilidade das ciências modernas – mais uma vez, não sozinhas – o 
modo como as relações sociais se deram e se dão quando em interação e encontro. Se a 
própria ciência – e junto com ela a academia – é também um espaço de produção de 
uma tecnologia do saber e dos conhecimentos que, muitas vezes, invisibiliza e 
marginaliza diversas expressões – humanas e não-humanas –, mudanças em 
pressupostos metodológicos e epistemológicos também fazer parte da necessidade de 
novas estratégias políticas e de enfrentamento das desigualdades e hierarquizações. 
Portanto, para se pensar politização e resistência é, antes de mais nada, necessário 
buscar conhecer qual(is) é(são) a(s) rede(s) que as sustentam, seja na produção do 
conhecimento e/ou nos usos de seus resultados ou de seus fiascos. 
Palavras-chave: Teoria Ator-Rede; Ciberativismos; Mídias. 
 
Introdução 
 As opiniões acerca das relações que são estabelecidas a partir dos usos de 
dispositivos eletrônicos são divergentes e, muitas vezes, causam polêmicas. Há aquelxs 
que acreditam que a internet – desde a sua popularização por meio dos desktops até 
mais atualmente por meio da internet móvel – através de diversos dispositivos – 
acabarão com as relações num futuro próximo. Há aquelxs que também acreditam na 
divisão das relações entre reais/verdadeiras em detrimento das virtuais/falsas. Ale´m 
desses há ainda os/as que acreditam que esses novos recursos possibilitam outras 
experimentações e experiências tanto consigo mesmo quanto quando em interações com 
outrxs sujeitxs. 
Longe de pretender polarizar e dividir as opiniões em somente duas, dentre esses 
dois extremos podem haver diversas outras posições no que se refere a como as relações 
vêm se transformando quando em contato com dispositivos eletrônicos que permitem 
acesso à rede. E é justamente a problematização desses contatos que se trata este 
trabalho. Lembrando que esta problematização não parte de pressupostos teóricos que 
acreditam que a ciência exista para explicar e desvelar a realidade, caracterizando-a de 
essencialismos e universalismos, pelo contrário, parte de concepções que afirmam que 
qualquer produção de conhecimento é situada e parcial (HARAWAY, 1995). 
Compreende-se aqui que tais interações não são meros encontros ao acaso, mas 
que são produzidas e producentes de subjetividades. Percebe-se que a palavra 
subjetividade está sendo tratada no plural propositalmente, pois pensamos que não há 
uma única subjetividade emergindo dessas interações, mas muitas possíveis no que se 
refere aos modos de sentir, afetar, pensar, agir e ver o mundo. Isso não quer dizer que 
não haja linhas de homogeneização de seus usos, mas preferimos visar e buscar pensar 
as emergentes linhas heterogêneas. Nas palavras de Guattari (2012, p. 15): 
As transformações tecnológicas nos obrigam a considerar simultaneamente 
uma tendência à homogeneização universalizante e reducionista da 
subjetividade e uma tendência heterogenética, quer dizer, um reforço da 
heterogeneidade e da singularização de seus componentes. (...) é preciso evitar 
qualquer visão progressista ou qualquer visão sistematicamente pessimista. A 
produção maquínica de subjetividade pode trabalhar tanto para o melhor como 
para o pior. Existe uma atitude antimodernista que consiste em rejeitar 
maciçamente as inovações tecnológicas, em particular, as que estão ligadas à 
revolução informática. Entretanto, tal evolução maquínica não pode ser julgada 
nem positiva nem negativamente; tudo depende de como for sua articulação 
com os agenciamentos maquínicos de enunciação. 
 
Mais do que somente problematizar o conceito de subjetividade, Guattari busca, 
em Caosmose, articulá-lo com a produção de epistemologias mais heterogêneas que 
visem romper com paradigmas cientificistas a fim de se aproximarem de paradigmas 
ético-estéticos que possuem como finalidade não invisibilizar subjetividades pelas 
universalizações científicas, neutras e objetivas, mas, antes à pluralidade de 
subjetividades singulares. É deixar de verticalizar a aplicação de saberes cientificistas às 
subjetividades e, assim, produzir saberes localizados. Este texto se trata, portanto, de 
uma tentativa de se pensar uma articulação mais heterogênea entre subjetividades e usos 
de mídias e, por isso só, já se trataria de uma postura política frente às produções 
científicas hegemônicas. Entretanto, no que se refere à política, tal texto também busca 
pensar estratégias de enfrentamento de normatividades e preconceitos, principalmente, 
os referentes aos gêneros, à classe e à raça. 
É seguindo esse sentido heterogêneo que denominamos as mídias derizomáticas. O rizoma se tornou um importante conceito na filosofia de Deleuze e 
Guattari (2011) e possui origem nos termos da biologia. A fim de diferenciá-lo de 
outros tipos de formação das raízes, como as raízes fasciculadas ou pivotantes em que é 
possível acompanhar as divisões e as respectivas origens de suas ramas e 
desmembramentos, numa formação rizomática os pontos de conexões e as origens das 
ramas que dão sustentabilidade, mesmo que momentânea, a um ser vivo – ou uma 
existência – são indecifráveis quanto suas origens e possíveis de tomar quaisquer 
dimensões ou territórios e, portanto, imprevisíveis. Deleuze e Guattari destacam seis 
qualidades do rizoma: múltiplo, heterogêneo, conectivo, possível de se romper por meio 
de linhas desterritorializantes, cartográfico (mapeável parcialmente) e é também 
decalque (reprodutível ao infinito). Pensar em rizoma é trata-lo como n-1 no qual o n é a 
multiplicidade e o 1 representa o único sendo subtraído da multiplicidade, ou seja, 
somos um na multidão e nas possibilidades. Somos sempre uma subtração do múltiplo. 
Tratar as mídias como rizomas possui uma intenção muita clara de flexibilizar 
não só as noções de espaço e tempo quando estamos em interação com a internet, mas 
também os processos de subjetivação que marcam e apresentam modos de existir. 
Pensar as mídias como rizomáticas é dificultar encontrar uma resposta para a seguinte 
pergunta: o que pode emergir dos encontros e usos entre smartphones, tablets, desktops, 
etc. e seres humanos? Parece-nos que as respostas são muitas e possíveis, e por isso 
cabe perguntar: estamos longe de uma homogeneização quanto aos modos de se 
relacionar via os mecanismos atuais de comunicação? O máximo que podemos alcançar, 
no caso de encontrar uma resposta, é que ela será no mínimo provisória e muito 
particular. 
Teoria Ator-Rede 
 Nascida dentre os estudos de Ciência e Tecnologia e proposta, primordialmente, 
por Bruno Latour, Michel Callon e John Law (LEMOS, 2013) consideramos a Teoria 
Ator-Rede como uma das possíveis saídas no que tange à produção de uma nova 
epistemologia que contemple a singularidade e aniquile os essencialismos. Também 
conhecida em sua sigla em inglês “ANT” (Actor-Network Theory), muitxs autorxs 
preferem manter essa referência de formiga (Ant em inglês significa formiga) por se 
tratar de um trabalho que exige minúcias e o trilhar de pequenos e estreitos caminhos 
(TSALLIS & RIZO, 2010). 
 Em uma de suas recentes produções traduzida no Brasil, Bruno Latour (2012) a 
inicia destacando a importância de tensionar o adjetivo “social”. Segundo ele, nas 
teorias sociais clássicas este adjetivo é tratado como a busca de uma explicação social, 
mas isso pode ocorrer de duas formas: 1) um tipo de categoria que pode ser separada de 
outras e que possui componentes específicos, como por exemplo, as tradicionais 
separações entre natureza/cultura, biológico/social, etc. ou 2) algo em movimento que 
está em processo de agregar-se a alguma outra coisa para ser considerada social, por 
exemplo, uma bicicleta parada por si só não entraria numa pesquisa do social sem que 
estivesse ligada a umx sujeitx ou a algum movimento de pessoas – nota-se que o social 
aqui está restrito aos seres humanos. Dessa tensão problematizada pelo autor, ele não 
descarta o termo “social”, mas o resignifica como “(...) um tipo de conexão entre coisas 
que não são, em si mesmas, sociais” (LATOUR, 2012, p. 23) e que ele chamará de 
associações. Se coisas e seres humanos não são sociais, mas tornam-se sociais, isso 
significa que tanto coisas quanto seres humanos não possuem uma essência a priori e 
que o resultado de suas interações depende de suas associações, distanciando-se assim 
dos universalismos e da homogeneização. 
 Antes de adentrarmos as concepções de Ator e de Rede, é crucial 
problematizarmos o “princípio de simetria”. Bruno Latour (2013) envereda o seu 
trabalho buscando pensar como as ciências produzem os seus conhecimentos. Desse 
modo, afirma que a modernidade, constituída primordialmente pelas produções 
científicas, se deu por meio de uma purificação por meio da qual as ciências buscaram 
explicar, nomear e teoriza sobre o real de modo que a produzisse e não a descobrisse. 
Para isso, alguns cientistas utilizaram laboratórios que funcionavam como um tribunal 
em que o veredito era dado por seres humanos por meio de experiências e adaptações de 
não-humanos (substâncias químicas, aparatos tecnológicos, registros, relatórios, etc.), 
enquanto outrxs cientistas construíam e teorizavam sobre o que se chamava de social 
utilizando de tabelas, esboços e, muitas vezes, produzindo ideias de Estado, de 
representação e de organização política. Na disputa pelo desvelamento do real 
produziram não só a ideia de “fato científico”, mas uma assimetria, uma hierarquia de 
saberes e uma pluralidade de explicações sobre um fenômeno e, assim, produziram os 
híbridos. 
 A partir disso, também fica muito difícil responder às questões: quem somos 
nós? O que nos constitui? Basta tentar responde-las que você provavelmente buscará 
explicações biológicas e/ou sociológicas que transitarão entre os polos na busca de qual 
possui mais interferência, o fato é que elas não se equivalerão no modo como foram 
produzidas. Ambas as perspectivas mencionadas buscaram purificar as associações 
utilizando um arcabouço de argumentos produzidos, colocando nós, seres humanos, em 
um lugar de avançados, enquanto a natureza e as coisas ficaram em outro lugar, o de 
primitivos, prontos para serem explorados para as invenções dos seres humanos. Para 
que uma sociedade seja reconhecida como civilizada e em constante progresso há uma 
dependência direta do quanto elas conseguem inovar, criar e explorar os recursos 
naturais, os objetos e a vida de uma forma mais ampla, seja ela de animais, de plantas 
ou de coisas. Portanto, a modernidade é marcada pela assimetria e dominação garantida 
pela hierarquia entre humanos e não-humanos. 
Para Latour (ibidem), se nem pessoas e nem coisas possuem uma essência, então 
o que acontecerá entre não-humanos (quase-coisas) e seres humanos (quase-humanos) 
poderá ser visto somente em suas associações, de modo que nem um, nem outro esteja 
sobreposto, isto é, devem ser levados em grau de simetria quanto as ações que decorrem 
de suas associações: “(...) Tudo acontece no meio, tudo transita entre as duas, tudo 
ocorre por mediação, por tradução e por redes, mas este lugar não existe, não ocorre. É 
o impensado, o impensável dos modernos.” (LATOUR, 2013, p. 43). É nesse sentido 
que “Jamais fomos modernos” – e nem seremos –, porque embora a modernidade tenha 
conseguido produzir inovações inacreditáveis, agimos, pensamos e sentimos de formas 
inimagináveis, somos capazes de produzir quaisquer associações e isso não está – e nem 
será – contemplado, tampouco previsto pelas ciências. 
Sendo assim, para o autor só há uma forma de pensar a produção de 
conhecimento e é por meio do rastreamento da rede que se forma por meio das 
associações. Como já mencionado, as associações não ocorrem de forma neutra, pelo 
contrário, cada ator/atriz, seja elx não-humano ou seres humanos, realiza uma mediação, 
ou seja, produz o movimento que x ator/atriz (actante) dá à rede. A/o ator/atriz é 
chamadx de actante que é o não-humano ou o ser humano que produz alguma ação e 
movimento na rede. Entretanto, essa rede não é a rede que é habitualmente reconhecida 
pelos usos da internet, mas são as associações estabelecidas entre humanos e não-
humanos. 
Entretanto, essa rede de associações não é visível. Quando as associações se 
estabilizam surge a caixa-preta e aí, a rede de associações que produz a existência de 
alguém ou de algo se invisibiliza. Para que a rede seja aberta e visível é preciso que 
surja uma(s) controvérsia(s), pois será a partir dela que os actantes e suas associações 
(rede) emergirão. Por exemplo,se um celular está funcionando de acordo com que 
esperamos de suas funções ele está como uma caixa-preta, estabilizado e dando conta do 
que se espera, mas se de repente ele parar de funcionar e você recorrer a um técnico 
emergirão as controvérsias para resolvê-las e, assim, a rede de saberes, de ferramentas e 
expectativas sobre sua utilidade estarão desestabilizadas e será necessário rastrear as 
associações a fim de estabilizar a situação. Nesse caso, o celular foi um actante que se 
tornou uma caixa-cinza (NOBRE & PEDRO, 2010), isto é, uma rede desestabilizada e 
agora visível, rastreável. 
As interações que se dão por meio do encontro entre dispositivos que permitem 
o acesso à internet (não humanos) e entre seres humanos é uma constante 
movimentação de caixas-pretas e caixas-cinzas, de actantes ora humanos, ora não 
humanos e de uma associação em redes rizomáticas. Entretanto, neste texto será dada 
maior atenção às controvérsias desiguais e assimétricas que permeiam as mídias 
rizomáticas e seu respectivo potencial de problematização, resistência e politização, ou 
seja, ao potencial de transformação quando elencamos as mídias como actantes de 
associações ainda longe de se estabilizarem. 
Resistência e politização 
 Pensar uma forma de produzir conhecimento que não se pretenda universal e 
nem se paute em essencialismos já se apresenta como uma proposta política por meio da 
qual a linguagem utilizada não é necessariamente com bases na sofisticação e eleição 
meticulosa do vocabulário científico que, muitas vezes, silencia, invisibiliza e fala pelos 
actantes, mas, ao contrário, abre espaços para que os actantes falem por meio de suas 
próprias linguagens que nem sempre se aproximam da erudição acadêmica (LATOUR, 
2012). Ainda assim, busca-se aqui pensar uma possível construção da cidadania por 
meio das mídias rizomáticas de modo que se aproxime de uma equidade quanto às 
desigualdades de gênero, de sexo, de classe e de raça. As mídias aqui podem funcionar 
como máquinas enunciadoras quando em conjunto com outros agenciamentos de 
subjetivação (GUATTARI, 2012), isto é, como produtoras de subjetivação parcial que 
não se dão somente por meio das mídias, mas que por meio delas também podem ser 
espaços de uma singularização da subjetividade individual e coletiva. 
 Aos/Às sujeitxs que corresponderem aos valores normativos de gênero 
(masculino em detrimento do feminino), de raça (brancos em detrimento de negros, 
pardos, vermelhos e amarelos) e de classe (atendimento aos princípios neoliberais) é 
garantido, nos termos de Butler (2014), uma inteligibilidade enquanto cidadão, isto é, 
a/o sujeitx é reconhecidx enquanto cidadã/o de direitos e, portanto, ganha 
reconhecimento de trânsito em liberdade pelos espaços públicos, bem como proteção 
por parte do Estado. Enquanto aos/às sujeitxs que se afastam desses valores, se 
distanciam das garantias de direitos, dentre eles o direito à proteção e, assim, 
aproximam-se da ininteligibilidade e da abjeção. Assim, essa inteligibilidade estaria 
garantida – ou não – por meio das expressões corporais e discursivas (performance) 
quanto ao gênero, raça e classe. 
 Para Allucquère Stone (1998) a história das tecnologias se apresenta como uma 
frequente (re)negociação entre os aparentes limites entre corpo e máquina que 
possibilita novas formações existenciais e, assim, traz novas problematizações e 
discussões quando se trata de interações via ambientes ditos virtuais, interferindo no 
reconhecimento da (in)inteligibilidade. Usar do “anonimato” aparente na rede – em que 
se negocia a (in)visibilidade – tem permitido uma série de violências e de promoção de 
discursos intolerantes motivados pelo ódio e pelos preconceitos que ferem os princípios 
de Estado Democrático de Direto como é o caso do Brasil. Essas violências não partem 
somente dxs usuárixs da rede, como também da evidente vigilância e controle que tais 
plataformas têm possibilitado às administrações governamentais no que se refere ao 
acúmulo e ao acesso a dados de uma nação. 
Devemos então aniquilar o anonimato e dissolver o Estado como controlador das 
informações? A resposta não seria tão simples, mas teria que se aproximar das 
controvérsias que surgem dos seus espaços no que se refere às garantias da cidadania no 
sentido de elaborar estratégias e práticas que se aproximem de uma resistência aos jogos 
do poder que oprime e estigmatiza alguns grupos sociais, tais como: mulheres, travestis, 
gays, lésbicas, negros, imigrantes, etc. Nesse sentido, a resistência se aproximaria do 
que se entende por poder em Foucault (2014, p. 360): “(...) Tão inventiva, tão produtiva 
quanto ele. Que, como ele, venha de “baixo” e se distribua estrategicamente”. 
No que se refere ao enfretamento em relação aos/às usuárixs que destilam ódio e 
intolerância em seus discursos e ações em redes sociais seria uma estratégia não só o 
investimento em políticas públicas educacionais que fosse mais inclusiva ou na clara 
delimitação de crimes cibernéticos (como a atual comissão criada no Congresso 
Nacional) e, portanto, mais promotora de uma cidadania ampla e contemplativa nas 
diferenças, mas também por meio de fóruns e debates nas próprias redes que 
possibilitariam outras experiências e vivências com os preconceitos. 
Já no que se refere ao Estado, as estratégias de resistência têm sido promovidas 
basicamente por hackers (que visam decifrar o funcionamento e as informações que 
correm na internet, mas ainda é uma prática em que a presença de homens é 
predominantemente maior quando comparada à presença de mulheres, o que interfere 
diretamente em suas demandas e análises), como os que atuam junto o WikiLeaks 
(ASSANGE, 2013) buscando romper a estrutura de proteção dos poderosos e de 
vigilância dxs menos favorecidxs em que o lema de seus trabalho gira em torno da 
seguinte máxima: “Privacidade para os fracos e transparência para os poderosos”. Nesse 
sentido, pensar a promoção da cidadania não se restringe à rua, mas também aos/às 
usuárixs das redes e dos serviços de acesso à internet. 
Referências Bibliográficas 
ASSANGE, J. Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet. São Paulo: Boitempo, 
2013. 
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 7ª ed. Rio 
de Janeiro: Civilização brasileira, 2014. 
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 1. 2ª 
ed. São Paulo: Editora 34, 2011. 
FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 28ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014. 
GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. 2ª ed. Rio da Janeiro: 
editora 34, 2012. 
HARAWAY, D. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o 
privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n .5, p. 07-41, 1995. 
LATOUR, B. Jamais fomos modernos. 3ª ed. Rio de Janeiro: editora 34, 2013. 
_____. Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede. Salvador: 
Edufba, 2012; Bauru: Edusc, 2012. 
LEMOS. A. A comunicação das coisas: Teoria ator-rede e cibercultura. São Paulo: 
Annablume, 2013. 
NOBRE, J. C. A.; PEDRO, R. M. L. R. Reflexões sobre possibilidades metodológicas 
da Teoria Ator-Rede. Cadernos UNIFOA, Volta Redonda/RJ, n. 14, dez., p. 47-56, 
2010. 
STONE, A. R. The war of desire and technology ate the close of the mechanical age. 
3rd ed. Cambridge/MA: The MIT Press, 1998. 
TSALLIS, A. C.; RIZO, G. Teoria Ator-Rede: um olhar sobre o trabalho de campo em 
psicologia. In: FERREIRA, A. A. L. et al (orgs.). Teoria Ator-Rede e psicologia. Rio 
de Janeiro: Nau. Editora, 2010. 
 
Ciberespaço e a Coletiva Marcha das Vadias Sampa 
 
FERREIRA, Juliana Cristina da Silva1 
Resumo. 
A Marcha das Vadias Sampa é um coletivo feminista que surgiu em 2012 e é 
organizador do ato com esse nome, na cidade de São Paulo. O ato é composto, 
majoritariamente por mulheres jovens que vão às ruas, entre os meses de maio e junho, 
exigir o direito sobreo próprio corpo. O movimento, importado do Canadá, tem uma 
forma de organização que se diferencia de outros atos feministas, como a Marcha das 
Margaridas e a Marcha Mundial das Mulheres, não apenas pelo enfoque principal ao 
direito sobre o próprio corpo e pela liberdade sexual - pauta que obteve grande destaque 
no movimento feminista da década de 70 (GARCIA; BIROLI, MIGUEL), mas 
principalmente por ser organizado no universo do ciberativismo (BERALDO; MALINI, 
ANTOUN), em especial no Facebook,em que as manifestantes são convidadas para o 
ato e são debatidos temas do feminismo. Até o mês de setembro de 2015 a página 
oficial do movimento trazia 20.400 curtidas, o que a configura como a Fanpage mais 
popular do Brasil. Neste artigo analisamos a página no Facebook da Marcha das Vadias 
Sampa durante os quatro meses que antecederam o V ato das Vadias, ou seja, de 
fevereiro a maio de 2015. Buscamos entender como o evento é organizado no 
ciberespaço e quais outras ações e debates são promovidos pela Coletiva Marcha das 
Vadias Sampa. 
Palavras chaves: ciberativismo; feminismo; marcha das vadias; Facebook 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1
 Mestranda no Programa de Comunicação e Semiótica da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo. 
Bolsita Capes. 
 
Introdução 
Marchas promovidas por mulheres existem há séculos. Não há dados precisos 
dos primeiros movimentos de ruas promovidos e exclusivos delas. Mas, destacamos a 
Marcha de Versalhes em 1789, em que seis mil mulheres marcharam até Versalhes para 
apresentar uma petição a Assembleia Nacional, que abolisse os privilégios dos homens 
sobre as mulheres (GARCIA, 2015). Passados duzentos anos, as mulheres continuam 
marchando nas ruas a fim de conquistar o seus direitos. No século XXI proliferou-se 
uma nova forma de reinventar o feminismo e sua militância: as tecnologias da 
comunicação. 
O presente artigo aborda como a Coletiva Marcha das Vadias Sampa promove o 
ato com este mesmo nome, publitiza e questiona as questões do feminismo. A Marcha é 
um movimento contemporâneo – surgiu em 2011 - que considera a violência sexual e a 
lógica de divisão “mulher para casar” e “mulher para o sexo”, a mais perversa opressão 
do sistema patriarcal. 
Por isso, vão às ruas, onde sofrem grande parte da violência, para defender o 
direito da mulher em ser livre e quebrar à ideia de que o desejo e o corpo devem ser 
escondidos por serem considerados ofensas. Apesar de o movimento ter como bandeira 
principal, o direito da mulher em ser livre, outras demandas de lutas também se 
integram a manifestação. 
O primeiro ato ocorreu no Canadá, no dia 3 de abril de 2011, em repulsa ao 
discurso da cultura do estupro, em que a mulher é a culpada pelo assedio causada a ela, 
seja por não se proteger, por usar roupas provocantes, entre outros. A cultura do estupro 
é comum em diversos países. Por isso, manifestações aconteceram em países da 
América e Europa. O movimento das Vadias chega ao Brasil, primeiramente em São 
Paulo, no dia 04 de junho de 2011. 
O ciberespaço e a mobilização das mulheres fizeram que em poucas semanas o 
protesto se espalham-se por mais de 200 cidades (HELENE, 2013). Para a autora, as 
Vadias se organizam e se reproduzem no universo virtual de forma descentralizada, 
característica comum aos movimentos contemporâneos. Devido à internet estar aliada a 
celulares multifuncionais, máquinas fotográficas e filmadoras e esses em contato direto 
com blogs e redes sociais há uma gama de conteúdos ativistas. 
A ideia inicial era que o movimento das Vadias fizesse apenas uma alusão ao 
evento acontecido no Canadá. Mas, a manifestação tomou novos rumos e aderiu pautas 
locais. O corpo ganha pauta na agenda feminista no século XIX, pela herança do 
pensamento liberal que estabelece o direito ao controle do corpo, o direito de ser dono 
de si e pela dominação masculina em que o homem tem direito ao acesso do corpo da 
mulher. A luta pelo controle do corpo inclui o direito ao aborto, combate estupro e a 
liberdade sexual. (MIGUEL, 2014). 
Ciberespaço e Coletiva Marcha das Vadias 
Existem diversas noções de ciberespaço, nos apropriamos de Malini e Antoun 
(2013). Para os autores os ciberespaços são: “ambientes virtuais comunitários e 
participativos de discussões” (p.20). Onde se configuram espaços de ativismo e de 
articulações de minorias. A definição de hacker, para os autores, se diferencia da do 
senso comum e da pejorativa negativa. O hacker seria o mesmo de midialivrista: 
(...) um tipo de sujeito que produz, continuamente, narrativas sobre 
acontecimentos sociais que desatam de visões, editadas pelos jornais, 
canais de TV e emissoras de rádios de grandes conglomerados de 
comunicação (...) Essa narrativa hackeada, ao ser submetida ao 
compartilhamento de muitos e muitos, gera um ruído cujo o principal 
valor é de dispor de uma visão múltipla, conflitiva, subjetiva e perspectiva 
sobre o acontecimento passado e sobre os desdobramentos futuros de um 
fato (AUTORES, ANO, p. 23). 
O conceito de midialivrista não se refere a um único sujeito, mas a um 
aparelhamento, ou seja, blogs e perfis sociais de movimentos de gênero, racial, gay, 
ambiental e organizações não governamentais. Esses produzem novas agendas, debates 
e se distanciam da visão hegemônica de grande veículos midiáticos. 
 Prado (2008) afirma que grande parte da mídia brasileira não retrata a mulher 
em sentido coletivo, sua ligação com movimentos sociais ou conquistas de gênero. A 
mídia constrói a mulher a partir do olhar masculino e não para ela mesma. É uma 
idealização da mulher que está de acordo com os padrões da dominação masculina: 
“mulher bonita, gostosa, consumista, boa mãe, boa dona de casa, profissional e 
companheira” (idem) 
Na rede social a Marcha das Vadias, assim como outros coletivos, encontram um 
furo, um espaço para debater outra visão sobre mulher e o seu corpo. Com o 
ciberespaço e uma geração jovem conectada é possível gerar novos discursos, 
compartilha-los, comentar e curtir. Além de organizar um evento e publitiza-lo no 
Facebook. 
Beatriz Beraldo (2014), em sua dissertação de mestrado, aponta que as marchas 
juvenis, ganham força a partir do ano de 2010. Ela ressalta que nesses casos há uma 
interação no universo virtual e durante a ocupação das ruas. A organização do ato é feita 
pelas redes de comunicação, em especial, o Facebook pela: 
(....) possibilidade de mobilizar grande número de pessoas sem ter que 
sair de casa ou recorrer a reuniões, patrocínios, apoios, etc.., o Facebook, 
sem dúvida, é o grande destaque do ativismo político deste século, 
especialmente nos setores juvenis (BERALDO, 2014, p. 67). 
A Marcha Mundial das Mulheres e a Marcha das Margaridas importantes 
movimentos de rua se mobilizam de forma divergente das Vadias. O primeiro fator é a 
edição do ato que não é anual. O segundo, a centralidade do evento que ocorre em uma 
única cidade. Tais fatores exigem uma organização ampla com mobilidade, 
hospedagem, infraestrutura e divulgação, pois participam movimentos de mulheres do 
país inteiro e que nem sempre estão conectadas ou com a facilidade do celular em mãos 
para acompanhar a organização do evento. Terceiro, a dimensão do chegando a reunir 
mais de cinquenta mil mulheres. 
O fato da Marcha das Vadias acontecer em 23 estados brasileiros (BERALDO, 
2014), em que cada um escolhe a data e o tema que convém com a realidade vivida faz 
com que o evento seja facilmente organizado nas redes sociais. Entretanto, vale ressaltar 
que as integrantes da Coletiva de São Paulo não se limitam as redes sociais. 
Frequentemente são feitas reuniões presenciais e abertas na qual as integrantes definem 
tema, data, trajeto, performance, venda de objetos, atividades, entre outros. 
Fanpage Marcha das Vadias Sampa 
O ato de 2015 foi a 5ª edição do evento da Marcha das Vadias, na cidade de SãoPaulo e aconteceu no dia 30 de maio. O protesto apesar de ser um movimento 
importado aderiu pautas locais e faz alusão a brasileiras que foram vitimas do aborto, da 
violência e do estupro, como o caso, Elisa Samudio. O tema central foi o aborto como 
feminicidio do Estado, visto que mulheres morrem ao fazer o aborto clandestino. 
Apesar dessa pauta, outros discursos foram evidenciados pelas manifestantes 
como: igualdade para mulheres; apoio às trabalhadoras em greve; crítica à idealização 
da mulher maravilha; crítica à mulher como objeto sexual; fim da revista vexatória nos 
presídios; liberdade sexual, entre outros. 
Tais bandeiras de luta foram presentificadas em cartazes, nas palavras de ordem 
proferidas durante a manifestação, encenações, pinturas corporais e broches. Nota-se 
uma pluralidade de discursos e formas de expressão que são incorporados em um único 
ato. Não há dados precisos de quantas pessoas participaram do evento, na mídia os 
números variam de 150 a 300 manifestantes. 
Nessa análise, nos especificamos na página do Facebook “Marcha das Vadias 
Sampa”. A página foi criada em 2012 e possuía até o mês de outubro 20.400 mil 
curtidas, o que a configura como a Fanpage das Vadias, mais popular do Brasil. O 
número ainda é pequeno se comparado a Marcha de Las Putas, de Buenos Aires que 
possuía até outubro 84 mil curtidas. 
Faz parte do corpus desse artigo os quatro meses que antecederam ao ato das 
Vadias. Isso inclui a primeira publicação de fevereiro que aconteceu no dia 2, a última 
publicação que ocorreu no dia do ato, 30 de maio. Esse recorte se dá pelo período em 
que a mobilização do ato ocorre. 
Foram contabilizadas 42 postagens nos quatro meses da análise. Dessas, vinte e 
uma são divulgação de reportagens sobre diversos temas do feminismo. Sete 
publicações se referiam a descriminalização do aborto, esse assunto, talvez, por se tratar 
do tema do ato foi o que mais apareceu na Fanpage. O Coletivo compartilhou 
reportagens que mostram países onde aborto é legalizado, aborto como uma questão de 
saúde pública e a luta dos movimentos sociais feministas para que muitos países 
legalizem o aborto. 
Outras cinco reportagens referente ao abuso sexual, três sobre machismo em 
propagandas publicitarias, três sobre violência contra mulheres, uma sobre a militante 
Laudina Campos, uma sobre transexuais, uma sobre a opressão dos movimentos sociais 
no Oriente. Além de seis publicações ligadas ao ato das Vadias, a primeira foi no dia 22 
de fevereiro com informe que o ato de 2015 tinha data definida e em breve seria 
divulgado. As próximas publicações informam data, tema e convite ao ato. 
Também foram postados três convites para participar das reuniões da Coletiva 
Marcha das Vadias. Seis divulgando eventos feministas. Três convites a eventos que a 
Marcha das Vadias promoveu, dois dele a aula sobre o aborto que aconteceu na praça 
pública e outro sobre uma festa para arrecadação de fundos. 
Além de uma nota produzida pela Coletiva sobre o dia das mães, postada no dia 
10 de maio. No post o Coletivo não desvirtua a data do intuito comercial, mesmo assim, 
parabeniza as mães e desmistificam há maternidade cor de rosa e a imposição social que 
toda mulher sofre ao decidir não ser mãe. O aborto é um tema citado e chamado para 
debate. 
A Coletiva Marcha das Vadias Sampa utilizou da estratégia de criar um evento 
no Facebook intitulado “5ª Marcha das Vadias de São Paulo – ABORTO Feminicio do 
Estado”, para propagar o evento. Na descrição do mesmo, a Coletiva convida as 
militantes ir às ruas debater as implicações da política de criminalização do aborto. 
Mesmo que exista a lei de proibição, as mulheres praticam o aborto em clínicas 
clandestinas ou na própria casa, colocando assim a sua vida risco. Países como 
Inglaterra, Suíça, Uruguai, Cuba e Estados Unidos são citados pela legalidade do 
aborto. 
Quando se cria um evento no Facebook é permitido convidar pessoas a fazer 
parte, e essas tem a opção de comparecer, demonstrar interesse ou não comparecer. As 
pessoas que clicam nas opções comparecer ou tenho interesse também podem convidar 
seus amigos das redes sociais a participar do evento. No total 12.773 pessoas foram 
convidadas, 424 demostraram interesse e 6.112 confirmaram presença, número muito 
maior do que compareceu no ato. 
A dinâmica dessa página do evento é diferente da Fanpage. Há uma interação 
maior entre as manifestantes, isso porque qualquer pessoa pode fazer uma postagem. 
Assim, militantes combinam pontos de encontros, caronas, tiram dúvidas e convidam 
amigas e frentes feministas. A Coletiva passa efetivamente a atuar nesse canal para 
difundir ainda mais o ato com postagens convidando para concentração, oficina de 
cartazes e para marchar pelas ruas de São Paulo. 
Durante o protesto e após há diversos vídeos, álbuns e fotos das manifestantes 
publicadas na página do evento. Algumas, em tempo real, informando o andamento da 
concentração, as oficinas de cartazes, a saída, o ponto em que a Marcha se encontrava e 
o encerramento do evento. Momento no qual qualquer pessoa pode dar o seu relato 
sobre a dominação patriarcal. O espaço se tornou livre, em 2015 foram debatidos temas 
como o aborto, uso de preservativo, liberdade sexual, igualdade, estupro, entre outros. 
Considerações Finais 
 A Fanpage da Coletiva Marcha das Vadias Sampa é o seu principal canal de 
comunicação, ou seja, é no ciberespaço que se divulgar o ato, eventos, matérias e se 
posicionar sobre determinados fatos, como a data do dia das mães. O ato em si é quase 
que exclusivamente divulgado na rede social. Não encontramos, por exemplo, em site 
de notícias referencias a data da ocupação das ruas, as matérias vinculadas são posterior 
ao ato. 
 O midialivrismo é esse espaço de produção de conteúdos não vinculados a 
monopólios econômicos ou ao consumismo. A maior parte, das reportagens 
compartilhadas são de blogs de movimentos ativistas. Apenas duas matérias são de 
fontes de grandes meios de comunicação. Uma da revista Carta Capital e outra da 
revista TPM. Entretanto, ambas têm linha editorial flexível. 
Canais alternativos de ideias sempre existiram, antes a atuação, por exemplo, era 
feita por rádios e jornais clandestinos. Com as redes sociais o custo de se produzir uma 
crítica, artigo, nota ou reportagem é muito menor e emissão, possivelmente, maior pela 
interatividade que a internet proporciona. 
A Marcha das Vadias promove tanto no ciberespaço, como na rua uma interação 
entre movimentos feministas diversos. No ato reúnem-se diversos coletivos. Em 2015, 
em uma pesquisa inicial, foram encontrados os movimentos Juventude Anticapitalista, 
Juntas, Movimento de Mulheres, Coletivo Fanfarronas, Coletivo Pagu, Frente Feminista 
Mackenzi, Frente na Rua, Coletivo Mães Feministas, Movimentos Parir não é Parar, 
Coletivo Dandara, entre outros. A Marcha das Vadias é um movimento plural e agrupa 
diferentes diferenças, ou seja, um espaço de troca de frentes feministas. 
Existem criticas da predominância de mulheres jovens e brancas no movimento. 
Porém, isso não exclui movimentos de periferias que também se fazem presente, pois o 
direito do corpo livre, do aborto, e de usar a roupa que quiser é plural a todas as 
mulheres. 
 
Referencias 
BERALDO, Beatriz. Por saias e causas justas: Feminismo, comunicação e consumo na 
Marcha das Vadias. Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em 
Comunicação e Práticas de Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing, 
São Paulo, 2014. 
HELENE, DIANA. A Marcha das Vadias: o corpo da mulher e a cidade. Revista 
Redobra, Salvador, n. 11. Ano, 4 2013. Disponível em: www.redobra.ufba.br/wp-
content/uploads/2013/06/redobra11_08.pdf Visualizado em 02 de maio de 2015. 
GARCIA, Carla. Breve História do Feminismo. São Paulo: Claridade, 2015. 
MALINI, Fábio. AUNTOUN, Henrique. A internet e a rua: ciberativismo e 
mobilizaçõesnas redes sociais. Porto Alegre: Sulina, 2013. 
MIGUEL, Luis Felipe. A igualdade e a diferença IN: MIGUEL, Luís Felipe. BIROLI, 
Flávia. Feminismo e Política. São Paulo: Boitempo, 2014. 
PRADO, José Luiz Aidar. Convocações Biopoliticas dos Dispositivos 
Comunicacionais. São Paulo: Educ, 2013. 
 
http://www.redobra.ufba.br/wp-content/uploads/2013/06/redobra11_08.pdf
http://www.redobra.ufba.br/wp-content/uploads/2013/06/redobra11_08.pdf
A qualidade da informação sobre políticas públicas de combate à violência 
doméstica no portal da Secretaria de Políticas para as Mulheres 
 
Bruna Silvestre Innocenti GIORGI, 
mestranda do programa de Pós-Graduação em Comunicação Midiática, da Faculdade de 
Arquitetura, Artes e Comunicação, da Unesp de Bauru 
 
Palavras-chave: violência; comunicação pública; informação. 
 
INTRODUÇÃO 
Nos últimos anos, por esforços de grupos feministas de todo o mundo e tratados 
internacionais, a violência contra as mulheres foi apontada como um desrespeito aos 
direitos humanos. Entretanto, estudos como o Social Watch Report, de 2004, 
demonstram que a violência é observada de maneiras diferentes por homens e mulheres, 
além de ser um dos principais mecanismos de impedimento para proporcionar a 
igualdade de gênero em todas as esferas da vida social e privada. 
A definição de gênero é algo importante para combater a violência doméstica. 
Entretanto, essa discussão que envolve a conceituação de gênero é ampla e suscita 
divergências ao que tange a sexualidade e ao papel social. O grupo HERA (1998), após 
a Conferência de Pequim, definiu gênero como o aglomerado de relações, 
características, crenças e condutas que ajudam a identificar o significado de ser mulher e 
homem no meio social. O grupo sustenta que esses papeis e atributos não são 
determinados pelo sexo biológico, mas edificados historicamente e socialmente, com 
possibilidade de constante transformação. 
A desigualdade de gênero inflamado pelo patriarcalismo é o principal motor para 
a violência contra a mulher, que “tem sido um dos mecanismos sociais principais para 
impedi-las a ter acesso a posições de igualdade em todas as esferas da vida social, 
incluindo a vida privada” (BARSTED, 2011, p. 348). No âmbito familiar, essa questão 
ainda é mais alarmante e é configurada como violência doméstica, que, segundo a Lei 
Maria da Penha (Lei 11.340/06), é “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que 
lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou 
patrimonial”, considerando o convívio doméstico como o espaço de trato com pessoas 
familiares ou sem vínculos familiares, mas que tenham laços afetivos ou de intimidade. 
As transformações econômicas, sociais, culturais, tecnológicas e políticas do 
século XXI minimizaram o aspecto patriarcalista das sociedades, principalmente 
brasileira. Em 2003, foi criada a Secretaria de Politicas para as Mulheres (SPM), 
vinculada ao Poder Executivo Federal, com o objetivo de combater o preconceito e 
fomentar a igualdade de gênero e a valorização da mulher. 
Por meio de ações que envolvem o planejamento de programas específicos, a 
Secretaria tem se tornado visível por melhorar consubstancialmente a vida de inúmeras 
mulheres. A comunicação e a publicização das ações são algumas das formas de 
viabilizar os objetivos. 
A informação pública de qualidade é uma forma de proporcionar governos 
transparentes, incentivar a participação e, assim, promover a melhoria de políticas 
públicas e programas com esse viés. Nesse sentido, a Internet, como resultado da 
transformação tecnológica, possibilita a publicização de ações públicas e ferramentas 
que geram interatividade e participação, sendo a comunicação pública a base para o 
desenvolvimento de ações mais transparentes e informações consistentes. Matos e 
Nobre (2013) diferenciam a comunicação pública como aquela que ocorre na esfera 
pública. Ou seja, a esfera pública habermasiana pontua que todos os indivíduos têm 
possibilidade de se expor e, a partir da periferia, os problemas pessoais de grupo tornam 
pauta na administração institucionalizada (HABBERMAS, 1997). Desse modo, a esfera 
pública pode ser vista como uma ambiência intermediária, em que assuntos 
interpessoais ou grupos transformam-se em públicos. 
Desse modo, com o contexto de esforços de todo o mundo e também do Brasil 
em garantir a igualdade de gênero e do combate à violência doméstica, o presente 
trabalho tem o objetivo de refletir sobre os tipos de informações essenciais para a 
fomentação de uma comunicação pública genuína, no sentido de disponibilizar para as 
mulheres conteúdo sobre as políticas públicas que combatem a violência e, assim, 
emponderá-las com os seus direitos na luta da igualdade de gênero. Para isso, serão 
analisadas nove páginas do site da Secretaria de Políticas paras as Mulheres 
(www.spm.gov.br) sobre o tema de violência doméstica, por meio da pesquisa 
bibliográfica e a análise de conteúdo, descritas a seguir. 
 
METODOLOGIA 
Informações objetivas, claras e completas sobre políticas públicas de combate à 
violência doméstica são fundamentais para divulgar os direitos das mulheres e 
http://www.spm.gov.br/
incentivar a participação delas no aprimoramento de programas e políticas. Assim, a 
pesquisa bibliográfica, disponibilizada brevemente no item “Introdução” permitiu a 
imersão nos temas de comunicação pública e igualdade de gênero, que são bases para a 
pesquisa. 
A partir da metodologia de pesquisa bibliográfica foi possível perceber a 
importância da comunicação pública na luta de combate à igualdade de gênero e, então, 
possibilitou a formulação do objetivo do presente trabalho. Após as leituras de 
periódicos, livros, artigos, pesquisas e sites, observou-se que o portal da Secretaria de 
Políticas para as Mulheres era o principal sítio da Internet do país sobre o tema e se 
reconheceu a análise de conteúdo como a forma de quantificar os tipos de informações 
existentes nas páginas. 
A análise de conteúdo, “em concepção ampla, se refere a um método das 
ciências humanas e sociais destinado à investigação de fenômenos simbólicos por meio 
de várias técnicas de pesquisa” (FONSECA JÚNIOR, 2006, p. 280). Pela promoção de 
dados e o panorama crítico do objeto, a análise de conteúdo tem a função de organizar 
as informações das páginas do portal, para facilitar a observação da abrangência do 
conteúdo. 
Por tratar-se de uma pesquisa empírica, as técnicas de coleta se basearão na 
observação, basicamente pela leitura. Assim, a estrutura seguirá a de Bardin (1979), que 
estipula cinco etapas para a análise de conteúdo: 
1ª) Organização da análise: consiste em uma pré-análise, na exploração do 
material (objeto), tratamento dos resultados brutos obtidos e interpretação. 
2ª) Codificação: é a sistematização dos dados brutos. 
3ª) Categorização: os critérios usados serão semânticos. Em cada política ou 
programa serão codificadas as informações relevantes para o público-alvo: as mulheres. 
4ª) Inferência: estudo dos dados, pretendendo deduzir aspectos implícitos. 
5ª) Tratamento informático: os dados serão tabelados, conforme existe a 
informação (pontuando com 1 ponto) ou não (0 ponto). 
Baseando-se na metodologia utilizada por Rothberg (2014), composta por 
variáveis de avaliação das informações a respeito das políticas públicas, serão criadas 
cinco categorias para investigar a abrangência das informações sobre políticas públicas 
existentes nos portais eletrônicos: 
- Antecedentes e diagnósticos subdividida em: (a) contexto social em que dada 
política se insere; (b) condições econômicas; (c) cenário político; (d) Informações 
legais: deve ser identificada a presença de leis, decretos, regulamentos e portarias 
relacionados a uma política. 
- Propósitos composta por: (e) objetivos e metas; (f) recursos e critérios de 
eficiência; (g) ações realizadas e planejadas; (h) informações operacionais.- Públicos e setores beneficiados formadas pelas categorias: (i) públicos-alvo; 
(j) instrumentos de relacionamento 
- Indicadores de impactos sociais composto por: (k) benefícios da política; (l) 
satisfação do usuário; (m) igualdade. 
- Indicadores de impactos econômicos: (n) eficácia; (o) efetividade; (p) custo-
efetividade. 
A partir desse método foram analisadas no dia 23 de setembro de 2015 nove 
páginas da seção fixa do site da Secretaria de Políticas para as Mulheres, referentes à 
violência contra a mulher, que são: 1. Lei Maria da Penha; 2. Serviço Ligue 180; 3. 
Programa Mulher, Viver sem Violência – Casa da Mulher Brasileira; 4. Programa 
Mulher, Viver sem Violência – Ampliação da Central de Atendimento à Mulher; 5. 
Programa Mulher, Viver sem Violência – Organização e humanização do atendimento 
às vítimas; 6. Programa Mulher, Viver sem Violência – Implantação e Manutenção dos 
Centros de Atendimento às Mulheres nas regiões de fronteira seca; 7. Programa Mulher, 
Viver sem Violência – Campanhas continuadas de conscientização; 8. Programa 
Mulher, Viver sem Violência – Unidades Móveis para atendimento a mulheres em 
situação de violência no campo e na floresta; e 9. Pesquisas e publicações. 
A seguir, serão apresentados os resultados obtidos como forma de avaliar a 
informação presente sobre programas e ações do governo federal de combate à violência 
doméstica. 
 
RESULTADOS 
Após a análise e tabelação dos dados, foi notado que a pontuação total ideal das 
páginas poderia ser 144. Entretanto, na realidade o valor foi de 43,75% da média ideal, 
contabilizando 63 pontos. Esse dado já demonstra que há déficit em informação, 
podendo servir de alerta aos profissionais responsáveis pela atualização desse sítio. 
A categoria com a avaliação mais baixa de pontos foi a Impactos Econômicos, 
que teve uma média de 14,8%; seguida de Impactos sociais (25%); Propósitos e 
Públicos e Setores Beneficiados (55,5% cada); e Antecedentes e diagnósticos (61%). 
Esses dados demonstram algo muito discutido no Brasil, que é a omissão de dados 
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/implantacao-e-manutencao-dos-centros-de-atendimento-as-mulheres-nas-regioes-de-fronteira-seca
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/implantacao-e-manutencao-dos-centros-de-atendimento-as-mulheres-nas-regioes-de-fronteira-seca
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/campanhas-continuadas-de-conscientizacao
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/unidades-moveis-para-atendimento-a-mulheres-em-situacao-de-violencia-no-campo-e-na-floresta
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/unidades-moveis-para-atendimento-a-mulheres-em-situacao-de-violencia-no-campo-e-na-floresta
referentes a gastos financeiros com políticas e ações governamentais, o que provoca o 
distanciamento da sociedade nos temas políticos. 
As subcategorias: Satisfação do usuário (Impactos Sociais); Eficácia e Custo-
efetividade (Impactos Econômicos) não tiveram conteúdo disponível. Essas categorias 
de informação representam a preocupação com a interação e participação da mulher 
com o programa, sendo uma forma de proporcionar abertura às usuárias em opinar e 
melhorar o beneficiamento das ações. Já Contexto social e Objetivos e metas foram as 
subcategorias com o índice máximo, encontrados em todas as páginas, o que é positivo, 
pois deixa claro do que o programa ou a política se trata. 
O que foi percebido é que muitas das informações referentes aos resultados dos 
programas, serviços ou leis, que tangem principalmente às categorias Impactos Sociais e 
Impactos Econômicos, estão presentes em cartilhas e balanços periódicos publicados em 
formato impresso e disponibilizado nas páginas em PDF, o que pode justificar a falta de 
informação dessas categorias nas páginas. 
Já em relação a cada página, a pontuação máxima de nove pontos foi encontrada 
nas páginas denominadas de “Lei Maria da Penha”, “Ligue 180” e “Casa da Mulher 
Brasileira”. Com oito pontos foram avaliadas as páginas “Ampliação da Central de 
Atendimento à Mulher” e “Implantação e Manutenção dos Centros de Atendimento às 
Mulheres nas regiões de fronteira seca”. As informações de “Organização e 
humanização do atendimento às vítimas” foram classificadas com sete pontos; e seis 
pontos foram categorizadas as páginas: “Campanhas continuadas de conscientização” e 
“Unidades Móveis para atendimento a mulheres em situação de violência no campo e na 
floresta”. “Pesquisas e publicações” foi a página com menos pontos, contabilizando 
apenas três. 
O índice médio resultante é 7,2, que demonstra que há três páginas com média 
inferior. A menor pontuação, de “Pesquisas e publicações”, é resultado da forma como 
as informações são disponibilizadas no site, pois há a divulgação de 21 resumos de 
pesquisa e publicações em parceria com outras organizações e empresas com a 
indicação de links para download para outra mídia de caráter impresso em formato PDF, 
tornando reduzidas as informações na página analisada. 
O que pode ser inferido é que as informações disponíveis sobre programas que 
combatem a violência doméstica contra a mulher contribuem para ações práticas das 
usuárias, mas não são suficientes para promover a transparência. Nas cartilhas 
disponíveis em PDF essas informações são mais completas, entretanto, nas páginas, por 
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/implantacao-e-manutencao-dos-centros-de-atendimento-as-mulheres-nas-regioes-de-fronteira-seca
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/implantacao-e-manutencao-dos-centros-de-atendimento-as-mulheres-nas-regioes-de-fronteira-seca
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/campanhas-continuadas-de-conscientizacao
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/unidades-moveis-para-atendimento-a-mulheres-em-situacao-de-violencia-no-campo-e-na-floresta
http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/unidades-moveis-para-atendimento-a-mulheres-em-situacao-de-violencia-no-campo-e-na-floresta
possibilitar uma linguagem interativa e de fácil compreensão, alguns temas – como os 
relacionados a Impactos socias e, principalmente, Econômicos – não são tratados de 
forma visível e claro. 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
A condição da mulher na esfera pública e privada melhorou nas últimas décadas 
e tornou visível em todos os níveis da sociedade. A violência contra a mulher dentro do 
seu próprio círculo familiar e afetivo a exclui da sociedade com medo de ser 
repreendida ou vergonha da exposição. Desse modo, os programas e políticas públicas 
do governo destinadas especificamentea amparar essa mulher são importantes e 
precisam ser bem comunicados. 
A informação, assim, se torna a base para a luta conta a igualdade de gênero e o 
combate à violência doméstica contra a mulher. Desse modo, a análise das informações 
do site da Secretaria de Políticas para as Mulheres é preponderante para compreender 
como as propostas públicas são emitidas para a sociedade com a intenção de tornar as 
ações transparentes e incentivar a participação. 
O presente trabalho mostrou que as informações sobre violência doméstica no 
site da SPM não estão completas, principalmente no quesito que gera mais 
transparências das ações, mas é um passo importante na igualdade de gênero. Nesse 
sentido, a mulher vítima de agressão, por meio do sítio, pode se informar quais ações 
podem ser tomadas para se proteger. 
Entretanto, os programas que protegem e acolhem mulheres do campo e da 
floresta, que são mais vulneráveis à repressão por se localizarem longe dos centros 
urbanos, possuem pouca informação no meio digital. 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edição 70, 1979. 
 
BARSTED, L. L. O Progresso das Mulheres no Enfrentamento da Violência. In: 
BARSTED, L. L; PITANGUY, J (org). O Progresso das Mulheres no Brasil 2003-2010. Rio de 
Janeiro: CEPIA; Brasília: ONU Mulheres, 2011, p. 346-382. 
 
BRASIL. Constituição (2006). Lei nº 11.340/2006, de 7 de agosto de 2006. Lei Maria da 
Penha. Brasília, DF. 
 
HABERMAS, J. Direito e Democracia: entre facticidade e validade. Vol.II. Rio de Janeiro: 
Tempo Brasileiro, 1997. 
 
FONSECA JÚNIOR, W. C.. Análise de conteúdo. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio 
(org). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. Editora Atlas, São Paulo: 2ª edição, 
2006. 
 
HERA. Direitos sexuais e reprodutivos e saúde das mulheres: ideias para ação. Nova York, 
1998. 
 
MATOS, H. H.; NOBRE, P. G.. Alternativas ao conceito e à prática da comunicação 
pública. Revista Eptic Online, Sergipe, v. 15, n. 2, p.12-27, 15 maio 2013. 
 
ROTHBERG, D. Teoria e Pesquisa da Comunicação Digital para Sustentabilidade. In: 
XXIII Encontro da Compós - Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em 
Comunicação, 2014, Belém. Anais do XXIII Encontro da Compós - Associação Nacional dos 
Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 2014. 
 
SECRETARIA DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES. Disponível 
em: http://www.spm.gov.br/. Acesso em: 28 de setembro de 2015. 
 
SOCIAL WATCH REPORT. Fear and Want: Obstacles to Human Security. 2004. 
 
http://www.spm.gov.br/
Uma questão de gênero: ofensas direcionadas à presidenta Dilma Rousseff nos 
comentários da página da Folha de S. Paulo no Facebook 
 
Pâmela Stocker 
Doutoranda no PPGCOM/UFRGS - Bolsista da Capes 
 
Resumo: A proposta deste artigo é mapear os comentários ofensivos de leitores direcionados à 
presidenta Dilma Rousseff e analisar os sentidos relacionados ao preconceito de gênero em duas 
publicações da página do jornal Folha de S. Paulo no Facebook. As postagens, realizadas no dia 
16 de março de 2015, são relativas à primeira declaração oficial da presidenta após os protestos 
pró-impeachment do dia 15 de março. Por meio da Análise do Discurso e ancorando-se nos 
estudos feministas pós-estruturalistas, foram mapeados 1.158 comentários de leitores. 
Verificou-se que 56% dos comentários constituem-se de ofensas que contêm preconceito de 
gênero. A análise destes textos levou a seis núcleos de sentido, cinco deles estritamente ligados 
a questões de gênero: Gaslighting e Manplaining; Misticismo e Religiosidade; Ódio e 
Misoginia; Machismo e Sexismo; e Bropriating. 
 
Palavras-chave: jornalismo; Facebook; preconceito; gênero; análise de discurso. 
 
Introdução 
O dia 15 de março de 2015 ficou marcado no Brasil por protestos que reuniram 
milhares de pessoas em todas as capitais do País. Entre as variadas reivindicações dos 
manifestantes, predominavam o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o fim da 
corrupção. A temática pautou os principais veículos de comunicação e teve grande 
repercussão nos sites de redes sociais. No dia seguinte ao ato, a presidenta fez seu 
primeiro pronunciamento a respeito dos protestos. A página do jornal Folha de S. Paulo 
publicou duas notícias referentes à entrevista de Dilma, que provocaram forte interação 
dos leitores no espaço de comentários da rede social. Somadas, as duas postagens 
receberam 6.677 comentários. 
Os modos de desqualificar ou criticar o trabalho de uma mulher que ocupa 
posição de poder, neste caso, a presidência da República, retratam uma face permeada 
por construções histórias e culturais relativas ao gênero. Veiga da Silva (2014) relembra 
que é através da linguagem que se instituem significados aos gêneros e que se 
demarcam os lugares de cada um na sociedade. As adjetivações diferenciadas atribuídas 
aos sujeitos femininos e masculinos não servem apenas para transmitir e expressar 
relações de poder, mas também ajudam em sua produção e instituição (LOURO, 1999). 
Nessa direção, Scott (1995, p.72) afirma que o uso do termo gênero é importante 
“como uma maneira de referir-se à organização social da relação entre os sexos” e o 
conceitua a partir de duas proposições centrais, onde pode ser tanto um elemento 
constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, 
quanto uma forma primária de dar significado às relações de poder (SCOTT, 1995). 
Assim, o estudo do gênero como categoria de análise propicia uma reflexão “sobre os 
modos como as convenções sociais sobre o masculino e o feminino são produzidas, 
associadas a distintas formas de relações de poder e os modos como estas convenções 
produzem hierarquias e desigualdades” (VEIGA DA SILVA, 2014, p.480). 
Considerando a linguagem caminho profícuo para compreender como o 
masculino e o feminino são dotados de sentidos e como seus reflexos cristalizam e 
reiteram determinadas relações de poder e saber na sociedade, este artigo propõe-se a 
analisar os comentários das postagens das notícias intituladas “Após protestos Dilma diz 
estar disposta a ‘dialogar com todos, com humildade’” e “ ‘A corrupção é uma senhora 
idosa’ diz Dilma após os protestos”, divulgadas no dia 16 de março de 2015 na página 
da Folha no Facebook. O objetivo deste estudo é identificar e mapear os núcleos de 
sentido presentes nos 1.158 comentários de caráter ofensivo dirigidos à presidenta e 
analisar aqueles estritamente ligados a questões de gênero. O mapeamento e a análise 
serão realizados por meio da Análise do Discurso, especialmente a partir do conceito de 
paráfrase (ORLANDI, 2007), ancorando-se nos estudos feministas pós-estruturalistas, 
onde gênero configura-se como categoria de análise (SCOTT, 1995). 
 
Metodologia e Análise 
Com base nos pressupostos da Análise de Discurso de linha francesa (AD), a 
questão central da análise é perceber como o texto significa: “na análise de discurso 
procura-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do 
trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história” (ORLANDI, 2007, p. 
15). Cabe ao analista buscar as regularidades na linguagem e relacioná-las à 
exterioridade, tendo em vista que o discurso é “opaco, não transparente, pleno de 
possibilidades de interpretação” (BENETTI, 2007, p. 108). 
Nesse prisma, a língua, a cultura, a ideologia e o imaginário, em sua 
complexidade, além de processos sociais e históricos, influenciam e afetam os sujeitos, 
e consequentemente os seus discursos e seu processo de leitura: “Os sentidos não estão 
presos ao texto nem emanam do sujeito que lê, ao contrário eles resultam de um 
processo de inter-ação texto/leitor” (MARIANI, 1999, p. 106). Segundo a autora, a 
discussão é complexificada ao considerar-se que o sujeito-leitor também é constituído 
por processos sociais e históricos que não são totalmente visíveis para ele. Estas 
nuances, de caráter social e individual que envolvem os sujeitos, tambémdevem ser 
consideradas quando se analisa os discursos por eles produzidos. 
O primeiro mapeamento dos 6.677 comentários relativos às publicações (figuras 
1 e 2) do jornal Folha de S. Paulo eliminou manifestações de caráter publicitário, 
compartilhamento de links/vídeos e comentários com escrita ilegível ou superficial 
(apenas um emoticon, uma hashtag ou uma risada, por exemplo). Essa primeira triagem 
resultou numa mostra de 1.158 comentários. Porém, para a construção do corpus 
consolidado da pesquisa, foram selecionados apenas aqueles que continham ofensas e 
xingamentos direcionados à presidenta, o que resultou em uma mostra de 645 
comentários. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A etapa inicial da análise consistiu em mapear os sentidos nucleares no 
movimento de identificação das formações discursivas, ou seja, a região de sentidos que 
é circunscrita por um limite interpretativo. A partir disso, observaram-se os processos 
parafrásicos que, segundo Orlandi (2007, p. 36), “são aqueles pelos quais em todo dizer 
há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória”. Assim, identificar as 
paráfrases nos comentários dos leitores significa observar o retorno aos mesmos espaços 
do dizer por meio de diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado. 
Por meio da identificação dos sentidos mais prevalentes e do mapeamento das 
paráfrases (sentidos que se repetem), foram encontrados seis núcleos de sentido (gráfico 
Figura 1: captura de tela da publicação da 
Folha de S. Paulo no Facebook: Após 
protestos, Dilma diz estar disposta a “dialogar 
com todos, com humildade”. 
Figura 2: captura de tela da publicação da 
Folha de S. Paulo no Facebook: “A corrupção 
é uma senhora idosa”, diz Dilma após os 
protestos. 
1): Desqualificações Profissionais (44%); Machismo e Sexismo (16%); Gaslighting e 
Mansplaining (12%); Bropriating (12%); Misticismo e Religiosidade (8%); e Ódio e 
Misoginia (8%); 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Os 513 comentários que apresentaram desqualificações e ofensas de caráter 
profissional formaram o núcleo mais numeroso da mostra, representando 44% dos 
comentários coletados. As sequências discursivas (SDs) apresentaram núcleos de 
sentido ligados a ideias de senilidade (197), corrupção (75), arrogância (48), cara de pau 
(48) e incompetência (26), entre outras. Chamam atenção também as ofensas relativas à 
incapacidade intelectual, como “anta” (150) ou “presidAnta” (28), e ainda ofensas 
diversas como “mentirosa” (69), “terrorista” (26) e “bandida” (27); lembrando que 
alguns comentários expressam mais de uma das palavras ao mesmo tempo. Como esses 
tipos de ofensas poderiam ser também direcionados a um homem, esse núcleo não será 
analisado neste artigo, visto que serão privilegiados os demais núcleos de sentido 
estritamente ligados a questões de gênero. 
Constituintes de mais da metade do corpus consolidado (56%), esses 
comentários ofensivos que evocam preconceitos de gênero foram organizados em cinco 
núcleos de sentido, que serão apresentados a seguir: 
 
Machismo e sexismo 
Representando 16% da mostra, esse núcleo de sentidos agrupou 182 comentários de 
leitores que reiteraram sentidos ligados à cultura machista e sexista. Manifestações que 
Gráfico 1: Núcleos de sentido dos corpus consolidado (1158 comentários que contém 
ofensas direcionadas à presidenta Dilma Rousseff). 
relacionam a mulher a papéis tipicamente associados ao feminino, como o cuidado com 
o ambiente doméstico (lavar a louça, limpar a casa) ou a preocupação com a beleza 
(plásticas, perda de peso) e xingamentos como “vaca” (56), “safada” (31) e 
“vagabunda” ou “vagaba” (23) dividem espaço com diferentes menções relativas ao 
falo, como “rola” e “rabo” (22), conforme explicitam os exemplos a seguir: 
 
[SD06] Parece que ela esticou o rosto. Fez plástica? 
 
[SD07] CALA ESSA BOCA IMUNDA SUA VAGABUNDA! 
 
[SD51] ninguem quer dialogar com a Sra. vai lavar uma boa pia de louças va!! 
 
[SD01] Enfia a sua humildade no C* 
 
[SD42] Dialoga com a minha rola, Dilma! 
 
Segundo Sau (2004), o termo machismo é utilizado primordialmente no âmbito 
coloquial e popular. Seu sentido estaria relacionado a um conjunto de leis, normas, 
atitudes e traços socioculturais do homem cuja finalidade, explícita ou implícita, é 
produzir, reproduzir e manter a submissão da mulher. A própria menção falocêntrica das 
SDs 01 e 42, por exemplo, pode ser interpretada simbolicamente como demarcação da 
diferença por meio de uma virilidade abstrata, que posiciona o masculino e o feminino 
assimetricamente. 
Importa sublinhar que, ao contrário do sexismo, o machismo é inconsciente; isto 
é, o machista atua como tal sem necessariamente ser capaz de explicar ou dar conta da 
razão interna de seus atos, já que unicamente se limita a reproduzir e a por em prática o 
sexismo da sua cultura. 
 
Gaslighting e Mansplaining 
 
Esse núcleo de sentidos contabilizou 138 comentários, ou seja, 12% da mostra. 
Gaslighting é o termo utilizado para se referir à violência emocional por meio de 
manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela 
enlouqueceu ou que é incapaz. “É uma forma de fazer a mulher duvidar de seu senso de 
realidade, de suas próprias memórias, percepção, raciocínio e sanidade” (THINK 
OLGA, online). Os comentários de leitores trouxeram estes sentidos à tona, como se 
pode verificar nos exemplos de SDs a seguir, que reiteram sentidos de insanidade e 
incapacidade de compreensão direcionados à presidenta Dilma Rousseff: 
 
[SD05] Alguém conseguiu entender o que ela tentou dizer no seu pronunciamento? Não falou coisa 
com coisa. E ainda riu da nossa cara. 
 
[SD17] É piada dessa vermelha demente. Renuncia Dilma. 
 
[SD23] Essa louca esta institucionalizando à corrupção em nosso país 
 
[SD30] como pode essa senhora náo tem mas condiçóes alguma pra administrar esse imenso país serar q 
ela é táo idiota assim cara ela estar totalmente perdida ela náo tem humildade pra conduzir esse país ela 
tar totalmente disorientada sem noçáo fala bobagens de mais... 
 
[SD32] Não acredito em nada que saia da boca dessa VACALOUCA 
 
Por sua vez, o termo Mansplaining é uma junção de man (homem) e explaining 
(explicar). Consiste em uma fala didática direcionada à mulher, como se ela não fosse 
capaz de compreender ou executar determinada tarefa, justamente por ser mulher. 
Comentários com essas características também foram recorrentes, como se pode 
verificar a seguir: 
 
[SD04] será que essa mulher ainda nao nos entendeu??? nimguem quer asunto com ela nao. queremos 
intervençao militar já 
 
[SD09] depois de um evento impactante...a senhora presidenta me vem com uma frase tão débil 
....sinceramente esperava um pouco mais... 
 
[SD11] Na próxima manifestação temos que desenhar o que queremos pq ela ainda não entendeu o 
#foradilma 
 
[SD24] pelo jeito não mudará nada, a ficha dela ainda não caiu, q nós não à queremos mais, fora 
Dilma.... 
 
[SD26] É surda ou se faz de surda, essa Dilma ladra, a dissimulada, da voz da rua, não entendeu nada. 
VAZA! 
 
A verdadeira intenção do mansplaining é desmerecer o conhecimento de uma 
mulher, desqualificando seus argumentos. Foram identificados sentidos ligados a 
“entender/ aprender” (49) e “explicar/desenhar” (9), que desclassificam a fala de Dilma 
Rousseff, procurando fornecer informações e explicações para corrigi-la. O 
mansplaining vale-se de tirar a confiança, autoridade e o respeito da mulher sobre o que 
está falando, além de tratá-la como inferior e menos capaz intelectualmente. 
 
Bropriating 
Este núcleo de sentidos agrupa 141 comentários de leitores, o que representa 12% da 
mostra analisada. O mandato e a atuação da presidenta Dilma são associados ao ex-
presidente Lula (128), sendo ela denominada “marionete”, “fantoche” e “boneca de 
ventríloquo” (13). O termo bropriating é uma junção de bro (abreviação de brother, 
https://www.facebook.com/hashtag/foradilma?hc_location=ufiirmão, mano) e appropriating (apropriação) e se refere a situações em que um homem 
se apropria da ideia de uma mulher ou leva o crédito por ela (THINK OLGA, online). A 
expressão surge da metáfora da sala de reuniões, local onde muitas vezes a mulher não é 
ouvida quando expõe suas ideias, mas tem o seu raciocínio cooptado por algum homem 
que assume a palavra, repete exatamente o que ela disse, e é aplaudido por isso. No caso 
dos comentários classificados aqui, percebe-se o apagamento da presidenta Dilma 
enquanto protagonista do seu governo, tendo suas decisões, ações, erros e acertos 
atribuídos a um “mentor” homem que a estaria manipulando, já que não teria “cacife” 
para tomar as próprias decisões. 
 
[SD01] Sra. Coração Valente não confunda humildade com "cara de pau"... E pessoal não a chamem de 
ditadora.. Ela não tem cacife pra isso coitada.. Não tá consegindo nem ser marionete do Lulladrao... 
 
[SD07] Humildade NUNCA foi a tônica dos discursos da presidANTA Boneca de Ventríloquo nem de 
seu antecessor e mentor, o Nove Dedos Molusco da Silva. Fora PT. Fora PeTralhas malditos!!! 
 
[SD08] Tem que pegar o mentor de tudo: LULA! !! Esse q precisa ser pego. Devagar chega lá 
 
[SD09] Fantoche do Lula, não tem o que falar, fique quieta 
 
[SD12] ela falou um verdade mas a corrupção foi institucionalizada pelo mestre lula e pela sua 
discípula 
 
Como os papéis de gênero comumente associados às mulheres são de 
delicadeza, suavidade e gentileza, posicionamentos enfáticos ou assertivos são vistos 
como masculinizados na sociedade. De acordo com o site do THINK OLGA (online), o 
bropriating ajuda a explicar, por exemplo, porque existem poucas mulheres ocupando 
posições de liderança. 
Misticismo e religiosidade 
Composto por 8% da mostra, contabilizando 93 recorrências, esse núcleo de 
sentidos agrupou comentários com viés místico e religioso. As paráfrases trouxeram à 
tona palavras como “capeta”, “diabo”, “demônio” e “satanás” (35), “inferno” (22), 
“bruxa” (16) e “cobra” (11). Cabe sublinhar que essas figuras míticas estão 
correlacionadas historicamente. De acordo com Zordan (2005), tanto a história como a 
imaginação popular mitificaram as mulheres como “bruxas”. As bruxas foram 
torturadas e queimadas para sinalizar os perigos de práticas e saberes à margem da 
Igreja e de outras instituições dominantes na Idade Moderna. Conforme a autora, o 
manual de inquisidores do século XIV, o Malleus Maleficarum, descreve os poderes da 
bruxa, sua aliança com o demônio e sua ameaça para o cristianismo: 
Fêmea inebriante ou velha decrépita, a figura da bruxa exprime alguns 
conceitos que o pensamento ocidental legou ao que se entende por 
feminino. Trata-se de uma imagem construída por diferentes 
discursos, um romântico, propagado ao longo do século XIX, e outro 
eclesiástico, expresso nos enunciados seculares da cristandade contra 
arcaicas práticas pagãs. (ZORDAN, 2005, p. 331). 
 
Os comentários reunidos neste núcleo de sentidos trazem menções a bruxas e 
também a palavras que remetem à religiosidade, como exposto a seguir: 
 
[SD04] bruxa macumbeira 
 
[SD043] #foradilmaligna para essa bruxa malvada do centro-oeste dialogar significa "eu falo e TODOS 
VOCÊS SÓ escutam, seus vermes" 
 
[SD05] Dialogue com o demônio, amaldiçoada! 
 
[SD015] Pronto, quero que ela dialogue com satanás no inferno! 
 
[SD021] Enviada do diabo!!! 
 
Zordan explica que a figura da bruxa ensina certo modo de enxergar a mulher, 
principalmente quando esta expressa poder. Ao fazer uma análise da farta literatura 
sobre o assunto, a autora mostra que a caracterização da bruxa, que vigorou durante a 
Inquisição e que ressoa até os dias de hoje, constitui-se como um dos elementos mais 
perversos produzidos na sociedade patriarcal do Ocidente, já que expurga todos os 
males atribuídos ao feminino: desde o pecado original, até a desobediência da “primeira 
mulher”, pintada como colaboradora de Satã e personificação do demônio (ZORDAN, 
2005). 
 
Ódio e Misoginia 
Esse núcleo de sentidos reuniu 91 comentários de leitores e representa 8% da 
mostra. Foram agrupados aqui os comentários de teor violento, que mencionam 
agressões físicas (22) e morte (54), além de comentário misóginos (de desprezo ou 
repulsa ao gênero feminino e às características a ele associadas) (40). A extrema 
violência inclui desde menções ao câncer da presidenta, dizendo que voltará a se 
manifestar, até armas de fogo, murros, chicotadas, estupro e morte. Foram agrupados 
aqui também os comentários que expressam nojo e repulsa pela figura de Dilma ou a 
sua atuação. 
[SD07] VONTADE DE DAR UM MURRO NA CARA DESTA INDECENTE. 
https://www.facebook.com/hashtag/foradilmaligna?hc_location=ufi
[SD09] sai daí nojenta,vc vai ser empalada ! XÔ ! XAU ! 
[SD13] e vc entao ne sua DEGRASSADA tenho nojo de mulher 
[SD16] Chega a dar nojo, qualquer coisa que venha desta mulher, hipócrita, mentirosa, dissimulada 
com o todos os outros da sua laia! 
[SD20] Só tomando chicotadas, para aprender 
 
O discurso do ódio, conforme SILVA, R.L et al (2011), se estrutura em duas 
frentes: na discriminação, ou seja, na manifestação segregacionista baseada na ideia de 
que o autor do discurso é superior à pessoa atingida ou alvo do ódio; e na externalidade, 
na publicização do ódio com a finalidade de incitar e conquistar adeptos. 
Esse ódio, que já está presente na sociedade, ganha grande visibilidade e 
ressonância nos sites de redes sociais, o que amplia sua força e reprodutibilidade 
(RECUERO, 2014, online). O fato dos comentários se concretizarem no espaço virtual, 
sem a dimensão face a face da interação, também pode implicar uma aceleração da 
hostilidade em determinadas situações, pois o leitor, ao se sentir distante dos demais 
participantes da conversação e da própria presidenta, que é o foco principal da notícia, 
não receia em expor o que pensa. “Por isso, a conversação em rede é um espaço 
frutuoso para a emergência de discussões inflamadas, discursos agressivos e ofensivos 
e, mesmo, pela propagação da violência” (RECUERO, 2013, p 62). 
 
Considerações finais 
A partir da identificação e sistematização dos núcleos de sentido dos 1.158 
comentários do corpus, percebeu-se que aqueles que evocam preconceito de gênero 
correspondem a 56% do material analisado. Os cinco núcleos de sentido relacionados às 
questões de gênero mostraram que as ofensas e agressões se expressaram por meio de 
ridicularização, deboche e ironias no caso do Gaslighting e Mainsplaining; na ligação 
entre a mulher e personagens que simbolizam o mal, a rebeldia e o poder no Misticismo 
e na Religião; na violência dos xingamentos e expressões de repulsa e ojeriza que 
denotam a Misoginia e o Ódio; nas ofensas sexistas, sectárias e discriminatórias do 
Machismo e Sexismo; e nas ideias de submissão, apagamento e inferioridade da mulher 
que caracterizam os sentidos do Bropriating. Estes cinco núcleos de sentido revelam as 
diferentes referências que mobilizam os discursos dos leitores e mostram como o 
preconceito e o machismo ainda são latentes na sociedade e se concretizam de forma 
explícita no espaço jornalístico. 
Cabe aqui também destacar a responsabilidade do jornalismo com as reações e 
desdobramentos gerados pela notícia publicada, ainda que no ambiente da rede social. O 
espaço destinado para os comentários de leitores no Facebook, apesar de amplamente 
utilizado, não recebe nenhuma atenção ou monitoramento por parte da Folha. Mais do 
que isso, a grande recorrência de comentários que expressaram preconceito de gênero 
de forma violenta e desrespeitosa não apenas à presidenta, mas a todas as mulheres, 
denotam a urgência de se discutir e problematizar a desigualdade de gênero em nossa 
sociedade, principalmente no campo da comunicação. 
 
Referências 
 
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Claudia, BENETTI, Marcia. Metodologia de Pesquisa emJornalismo. Petrópolis: Vozes, 
2007. 
 
LOURO, Guacira Lopes. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: 
Autêntica, 1999. 
 
ORLANDI, Eni. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2007. 
 
MARIANI, Bethania. Sobre um percurso de análise do discurso jornalístico: a Revolução de 30. 
In: INDURSKY, Freda; FERREIRA, Maria Cristina Leandro (Org.). Os múltiplos territórios 
da Análise do Discurso. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1999. 
 
RECUERO, Raquel. A questão do ódio nos sites de rede social. 2014. Online. Disponível em: 
<http://www.raquelrecuero.com/arquivos/2014/10/a-questao-do-odio-nos-sites-de-rede-
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_____. Atos de Ameaça a Face e a Conversação em Redes Sociais na Internet. In: Alex Primo. 
(Org.). Interações em Rede. 1ed.Porto Alegre: Sulina, 2013, v. 1, p. 51-70. 
 
SAU, Victória. Dicionário Ideológico Feminista. 3 ed. Barcelona: Ed. Icaria, 2000. 
 
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. In: Educação e Realidade. Porto 
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SILVA, R.L. ; MARTINS, Anna Clara L. ; NICHEL, Andressa. ; BORCHARDT, Carlise 
Kolbe. . Discursos de ódio em redes sociais: jurisprudência brasileira. In: Revista Direito GV, 
v. 7, p. 445-468, 2011. 
 
THINK OLGA. “O machismo também mora nos detalhes”. In: <http://thinkolga.com/> 
Disponível em: <http://thinkolga.com/2015/04/09/o-machismo-tambem-mora-nos-
detalhes/>. Acesso em: 20 Jul. 2015. 
 
VEIGA DA SILVA, Marcia. Masculino, o Gênero do Jornalismo: Modos de Produção das 
Notícias. Série Jornalismo a rigor, Vol.8. Florianópolis: Editora Insular, 2014. 
 
ZORDAN, Paola Basso Menna Barreto Gomes. Bruxas: figuras de poder. In: Estudos 
http://www.raquelrecuero.com/arquivos/2014/10/a-questao-do-odio-nos-sites-de-rede-social.html
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http://www.pontomidia.com.br/raquel/arquivos/rascunhoatosdeameaca.pdf
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Feministas, Florianópolis, v. 13, n. 2, p. 331, jan. 2005. ISSN 0104-026X. Disponível em: 
<https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X200500020007>. Acesso em: 
20 Jul. 2015. 
 
https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X200500020007
 
TRAVESTIS EM SITUAÇÃO DE RUA E A SEGREGAÇÃO AOS 
BENS SOCIAIS DENTRE ELES AS TECNOLOGIAS DIGITAIS 
 
ROBSON SILVA SANTOS 
Mestre em Políticas Sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul (Políticas 
Sociais, Famílias e Desigualdades Sociais) com orientação da professora 
doutora Eunice Terezinha Fávero e Pós Graduando em Educação Sexual pela 
Universidade Salesiana (UNISAL). 
 
Resumo: 
 
O trabalho hora apresentado trata das travestis em situação de rua e a segregação 
aos bens sociais dentre eles as tecnologias digitais, no centro velho ou centro histórico 
da cidade de São Paulo, que engloba os bairros Sé e República, em articulação com o 
“Projeto Centro”, um projeto desenvolvido pelo Mestrado em Políticas Sociais da 
Universidade Cruzeiro do Sul, outro ponto motivador da delimitação dessa região para a 
pesquisa foi à observação de uma grande concentração de travestis em situação de rua, 
sendo segregadas dos bens e serviços que dentre estes o acesso às informações globais 
como as tecnologias digitais. 
Merece destaque o fato de que este tema de pesquisa surgiu do meu trabalho 
profissional, desde meus primeiros contatos como assistente social na Tenda Bela Vista, 
quando observei que mesmo pertencendo a um grupo populacional heterogêneo, as 
travestis não participavam do mesmo acesso assistencial que os demais integrantes da 
população em situação de rua, sem antes sofrerem desrespeito à cidadania e constantes 
violações dos direitos humanos. 
 
INTRODUÇÃO: 
A grande concentração de travestis nessa região se deve às facilidades 
proporcionadas pelo centro da cidade. De acordo com Nakano, Kohara (2013, p. 71), 
“as localizações urbanas estão em terras mais ou menos consolidadas do ponto de vista 
da articulação com o restante da cidade e da provisão de serviços, equipamentos e 
infraestruturas coletivas”. Portanto, ainda de acordo com esse autor (2013, p. 71), “as 
configurações socioeconômicas, funcionais, físicas, ambientais e territoriais dessas 
localizações geram condições de vida com diferentes graus de vulnerabilidade”, nas 
quais se enquadram este grupo estudado. 
As travestis em situação de rua do centro da cidade de São Paulo têm no seu 
cotidiano a pobreza visível, de todos os dias, e a invisível, referente à sua identidade de 
gênero, que ao ser visualizado potencializa maior exclusão. 
A incompreensão, por grande parte da sociedade, sobre a construção da 
sexualidade da população LGBT, acarreta num significativo processo de 
exclusão social, que implica: na dificuldade à acessibilidade à escola 
(ocasionando baixa escolaridade); no despreparo técnico e profissional; na 
discriminação no mercado de trabalho; na violência social e institucional, ou 
seja, num processo de sofrimento ético-político. (SALGADO, 2011, p. 65). 
A visibilidade não as tira dos processos excludentes, como segregação 
socioespacial e a segregação dos meios tecnológicos digitais mais especificamente a 
Internet, enquanto uma dimensão segregadora. 
Nesta pesquisa, foi possível adentrar seus “mundos de origem” e suas 
experiências, desde a infância, passando pela adolescência e chegando à juventude - 
fase atual -, em que buscam um local para o descanso do dia a dia nas ruas, um 
cotidiano no qual são tão visíveis quanto invisíveis, como afirma Chiaverini (2007, p. 
9), “tão próximas e tão visíveis, mas, ao mesmo tempo, tão distantes e tão invisíveis. É 
como se fizessem parte de outra nação, tivessem diferentes códigos, costumes e 
línguas”. 
O Centro de Referência da Diversidade (CRD), instalado no centro velho do 
município de São Paulo, tem como localização o distrito da República e tem como 
missão oferecer apoio e acolhida às pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, 
transexuais (LGBT) em situação de violação dos direitos sociais. 
Neste serviço socioassistencial, encontramos vários computadores à disposição 
das travestis, para que não fiquem distante dos códigos de linguagem digitais, enquanto 
aproximação dos familiares, amigos e sua rede de apoio como também confecção de 
currículos para emprego em uma tentativa para diminuição da segregação dos bens 
digitais. 
 
 
METODOLOGIA: 
Esta pesquisa foi realizada por meio da descrição e de uma breve aproximação 
analítica das entrevistas de três travestis que estão na situação de rua, usuárias dos 
serviços socioassistenciais e em situação de vulnerabilidade, situação vivida por essas 
pessoas desde a tenra idade, gerando várias perdas que as levaram, também, ao uso e 
abuso de drogas e às constantes violências sofridas por conta da transfobia, tão presente 
em suas vidas. As entrevistas foram realizadas por meio de roteiros semiestruturados, 
visando recuperar a história de vida de cada travesti. 
Realizamos, também, uma pesquisa documental na Constituição Federal (CF-
88), na Política Nacional da Inclusão da População em Situação de Rua e em conteúdos 
da Política Nacional de Assistência Social e do Sistema Único de Assistência Social. O 
percurso realizado para a presente pesquisa – estudos bibliográficos, estudos 
documentais relacionados à política de assistência social e à identidade de gênero – foi 
necessário para que pudéssemos, na sequência, ouvir as histórias e adentrar no 
conhecimento e compreensão da vida de cada travesti em situação de rua, fenômeno que 
ganhou visibilidade na década de 1990. 
RESULTADOS: 
As conquistas sociais em diversas áreas da sociedade nos anos 1990 e até o ano 
vigente de 2015 foram significativas, sendo expressivas as ações programáticas voltadas 
para a população em situação

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