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ANAIS DO III SEMINÁRIO INTERNACIONAL GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIA 2015 [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 Coordenação Geral Prof. Dr.ª Larissa Pelúcio (UNESP/Bauru) Prof. Dr. Richard Miskolci (UFSCar) Comitê Científico • Larissa Pelúcio (Unesp-Bauru) • Richard Miskolci (UFSCar) • Berenice Bento (UFRN) • Leandro Colling (UFBA) • Paula Sibilia (UFF) • Miriam Aldelman (UFPR) • Pedro Paulo Pereira (UNIFESP) © A reprodução na íntegra ou em parte é permitida, desde que citados os créditos. [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 SESSÕES DE COMUNICAÇÃO ORAL Sessão 1 - Conexões de gênero, sexualidade e mídias digitais Sessão 2 - Ciberativismos e questões de gênero Sessão 3 - Tecnologias e Intimidades Sessão 4 - Movimentos Sociais, Gênero e Culturas Digitais Sessão 5 - Raça, etnia e mídias Sessão 6 - Mídias digitais e novas subjetividades SESSÃO TEMÁTICA 1 CONEXÕES DE GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIAS 1. “Transversus: um panorama da transexualidade em reportagem 360º” - MORA, Ana Carolina; LABORÃO, Virggínia; ASSIS, Maurício; PINCINATO, Gabriela; DE SORDI, Marina. 2. “#SomosTodosVerônica”? – FALEIROS, Juliana Leme; BRASIL, Patricia Cristina. 3. “Comunicar no jornalismo: a dissonância na reportagem multimídia “transgêneros”, do TAB” - ITO, Liliane de Lucena 4. “A jornalista esportiva em jogo: a produção de sentido sobre a apresentadora Renata Fan em comentários no Facebook” – LOPES, Mariana Ferreira; DORIGON, Bruna Tamanini. 5. “A Transexualidade nos Grupos Virtuais do Facebook” - PONTES, Júlia Clara de; SILVA, Cristiane Gonçalves da. 6. “Namorada sinistra: gênero e ciúme no Facebook” - UNGER, Lynna Gabriella Silva; SANTOS, Flaviane Viera; OLIVEIRA, Francis Fonseca; SANTANA, Valéria Santos; SANTOS, Claudiene. 7. “Espaços e convergências nas representações midiáticas femininas” - BUENO, Noemi Correa; MARQUES, José Carlos. [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 8. “Narrativas transviadas: reportagens em livros Sobre gêneros e sexualidades dissidentes” - GONÇALVES, Gean Oliveira. 9. “Ambientes Digitais e relações de gênero – Uma análise do Museu da Pessoa” – LANDIM, Lais Alpe. 10. “Fotografias de corpos femininos: o caso Marianna Lively” - BOROSKI, Marcia. 11. “O tabu como formador de identidade: uma análise de documentários e filmes relacionados a formação da sexualidade e gênero” – MARTINS, Hellen Damas; JUNQUEIRA, Lilian Cláudia Ulian. 12. “(As)sexualidade(s): intersecção no mundo virtual e no real” - TODO, Gabriela Alves Martins Guimarães Lyrio. 13. “Diversidade de Gênero nas Organizações: Novas Perspectivas em Estratégias de Comunicação para o Reconhecimento de Grupos LGBTs nas Empresas Vigor e Carrefour” - SOARES, Karen Greco. 14. Todas putas? Sobre feminismos e sala de aula na escola da Fundação Casa Feminina. FALCHI, Cinthia Alves SESSÃO TEMÁTICA 2 CIBERATIVISMOS E QUESTÕES DE GÊNERO 1. Torcidas livres e queer em campo: sexualidade e novas práticas discursivas no futebol – PINTO, Maurício Rodrigues; ALMEIDA, Marco Antônio Bettine. 2. Feminismo Negro e Interseccional: práticas e discursos sobre raça, gênero e sexualidade nas redes sociais – RIOS, Flávia Mateus; MACIEL, Regimeire Oliveira 3. As (re)existências de mulheres brasileiras imigrantes em Portugal via mídias digitais: um estudo exploratório – ROSSI, Jéssica de Cássia [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 4. Mídias rizomáticas, controvérsias e ativismos: resistências e politizações – MORELLI, Fábio; SOUZA, Leonardo Lemos de 5. Ciberespaço e a Coletiva Marcha das Vadias Sampa – FERREIRA, Juliana Cristina da Silva 6. A qualidade da informação sobre políticas públicas de combate à violência doméstica no portal da Secretaria de Políticas para as Mulheres – GIORGI, Bruna Silvestre Innocenti 7. Uma questão de gênero: ofensas direcionadas à presidenta Dilma Rousseff nos comentários da página da Folha de S. Paulo no Facebook – STOCKER, Pâmela 8. Travestis em situação de rua e a segregação aos bens sociais dentre eles as tecnologias digitais – SANTOS, Robson silva SESSÃO TEMÁTICA 3 TECNOLOGIAS E INTIMIDADES 1. A influência da mídia nas relações de gênero e costume nas Assembleias de Deus. COSTA, Otávio Barduzzi Rodrigues da. 2. Treinadores Pokémon e Machos Alpha: masculinidades do abjeto ao venerável. CAMPOS, Myatã Sanches Pedrini. 3. Pornografia de vingança e pornografia sem consentimento: uma análise. BARQUETTE, Rachel Gomes. 4. A exposição da intimidade: consentimento e vulnerabilidade na era das redes sociais – caso Revista TPM. SILVEIRA, Daniella Orsi da; BELELLI, Iara Aparecida 5. Desejos comodificados: dos classificados aos perfis nos aplicativos na busca por parceiros do mesmo sexo. FERREIRA, João Paulo; MISKOLCI, Richard. [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 SESSÃO 4 MOVIMENTOS SOCIAIS, GÊNERO E CULTURAS DIGITAIS 1. Ativismo digital e a proteção e promoção dos direitos das mulheres no Brasil. BONVICINO , Mariana Torelly R. 2. "A Joanna sou eu, mas a casa é nossa": a emergência de um locus midiático colaborativo feminista. TEIXEIRA, Thainá Battestini; BURIGO, Joanna; DELAJUSTINE, Ana Claudia; BURIGO, Beatriz Demboski; AZEVEDO, Debora. 3. NTICs e Revenge Porn: Pode a tecnologia ser instrumento de emancipação e de promoção dos direitos humanos das mulheres? FAZIO; Luísa Helena Marques de. 4. Viralizou: Redes digitais e ação política para os estudos de gênero e a educação. AZEVEDO, Lílian Henrique de. 5. Ondas diferenciais para otrxs inadequadxs: experiências radiofônicas feministas e sociedaderede. MENDES, Júlia Araújo. 6. A “cura gay” em revista: Formulação e circulação de discursos em Veja e Júnior. CAMPO, Amanda; ORMANEZE, Fabiano. 7. A Primavera dos Direitos das Mulheres Árabes. PEREIRA JÚNIOR, Cláudio Aparecido [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 SESSÃO 5 RAÇA, ETNIA E MÍDIAS 1. O Feminismo Negro em Rede: reflexões sobre o site blogueiras negras enquanto prática de empoderamento. OLIVEIRA, Laila Thaíse Batista de 2. A mulher negra na mídia televisiva brasileira. Venâncio, Karen. 3. Diversidade étnica em painéis externos de midia de escolas no município de Marília (2014): Ausências e presenças. SILVA, Cláudio Rodrigues SESSÃO 6 MÍDIAS DIGITAIS E NOVAS SUBJETIVIDADES 1. As damas do prazer: relações sociais de sexo no cinema da boca do lixo paulistana. ALMEIDA, Ricardo Normanha R. de. 2. Fábrica de Monstros: corpo e gênero tratados na rede virtual. DARCIE, Marina; DORIA, Aline; COSTA, Cauê; BROSENS, Thiago 3. Entre a perversão e o estereótipo dos gêneros no filme “Macho, fêmea e cia – a vida erótica de Caim e Abel”. AMARAL, Muriel Emídio Pessoa do 4. A dominação masculina e representação feminina no judô a partir da análise dos Jogos Olímpicos de Londres 2012. FIRMINO, Carolina Bortoleto 5. Psicanálise, educação sexual e novas tecnologias digitais. RODRIGUES, Gelberton Vieira [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 6. A representação das masculinidades (policiais) militares nas mídias: a evidente falta de Críticas. GONÇALVES, Arthur Rocha. 7. Aborto em caso de abuso sexual infantil: uma análise de reportagens brasileiras e chilenas. SOUZA, Marcelle C. de 8. Gênero, cultura popular e fãs: a emergência de um campo de estudos no Brasil. CASTILHO, Fernanda 9. Imagens da aids em The Normal Heart e Clube de Compras Dallas. SILVA, Pedro Paulo 10. Frescáh no Círio: escracho e resistência ao fundamentalismo religioso noclipe de Leona Vingativa. BARBOSA, Mônica 11. O MURO DOS FREAKS – Capitalismo, inclusão e a “quebra” do self-made man. GAVÉRIO, Marco Aurélio. 12. A Propaganda de Perfume como Ilustração do Imaginário da Subjetividade Contemporânea. PÉRA, Beatriz C, S; CAMPOS, Érico B.V. [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 PROGRAMAÇÃO PRIMEIRO DIA - 04 DE NOVEMBRO DE 2015 17h00 Credenciamento e entrega do material 18h30 Mesa abertura: Diretores FAAC, Chefia CHU, Organizadores evento Local: Auditório Adriana Chaves 19h00 Mesa-redonda: Tecnologias e intimidades Profa. Dra. Iara Beleli (Pagu – Unicamp) Prof. Ms. Felipe Padilha (PPGS – UFSCAR) Debatedor: Prof. Dr. Richard Miskolci (UFSCar) Local: Auditório Adriana Chaves 21h00 Lançamentos de livros e performance artística com Glamour Garcia Local: Hall da FAAC SEGUNDO DIA - 05 DE NOVEMBRO DE 2015 09h00 - 12h00 Sessões de Apresentação de Trabalhos: Sessão 1 - Conexões de gênero, sexualidade e mídias – Juliana Jardim Local: Sala 77 Sessão 2 - Ciberativismos e questões de gênero – Késia Maximiano Local: Sala: 79 Sessão 3 - Tecnologias e Intimidades – Keith Diego Kurashige e Felipe Padilha Local: Sala 73 Sessão 4 - Movimentos Sociais, Gênero e Culturas Digitais – Marcela Pastana Local: Sala 75 Sessão 5 - Raça, etnia e mídias – Alexandre Eleotério Local: Sala 82 Sessão 6 - Mídias digitais e novas subjetividades – Fernando Balieiro e Tom Rodrigues Local: Sala 76 [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 14h30 - 17h30 MINICURSOS Minicurso 1: Feminismos e negritudes nas mídias digitais Local: Sala 77 Coordenadora: Aline Ramos Minicurso 2: Pornografia, pós-pornografias: política, gênero e representação Local: Sala 74 Coordenador: Prof. Dr. Jorge Leite Jr. (UFSCar) Minicurso 3: Metodologias de pesquisa em mídias digitais Local: Sala 72 Coordenadora: Profa. Dra. Juliana do Prado (UEMS) Minicurso 4: Subjetividades e Diferenças nas Mídias Local: Sala 70 Coordenadora: Profa. Dra. Simone Ávila (UFSC) 15h00 - 16h30 Sessão cine queer: Além das Sete Cores Debate com a diretora Camila Biau (Brodagem Filmes) e Daniela Garcia (performer protagonista do documentário) Local: Sala 83 18h00 Performance: Tigrela Daniela Glamour Local: Auditório Adriana Chaves 19h00 Mesa-redonda: Mídias e gêneros - Vozes dissonantes Profa. Dra. Heloísa Buarque de Almeida (USP) Prof. Dr. Fernando de Figueiredo Balieiro (UF Pelotas) Debatedora: Iara Beleli (Pagu – Unicamp) Local: Auditório Adriana Chaves 21h00 Programação Cultural: Performopalestra Helena Vadia Pâmella Villanova Local: Hall da Graduação [Digite texto] ISBN: 978-85-98176-73-4 TERCEIRO DIA - 06 DE NOVEMBRO DE 2015 09h00 - 12h00 Sessões de Apresentação de Trabalhos: Sessão 1 - Conexões de gênero, sexualidade e mídias – Juliana Jardim Local: Sala 77 Sessão 4 - Movimentos Sociais, Gênero e Culturas Digitais – Marcela Pastana Local: Sala 75 Sessão 6 - Mídias digitais e novas subjetividades – Fernando Balieiro e Tom Rodrigues Local: Sala 76 14h30 Mesa-redonda: Ciberativismo e políticas da diferença Prof. Dr. Mário Carvalho (UERJ) Doutoranda Amara Moira (Unicamp) Debatedor: Larissa Pelúcio (UNESP) Local: Auditório Educação Física 16h00 – 18h30 Projeção: Folia - a micropolítica da felicidade escancarada Ana Ferri e Olivia Pavani Local: sala de dança da Praça da Educação Física 17h30 Projeção: Curta - Todo Mundo Nasce Nu Gabriel Pereira e Rafael Bizzarro – discussão com o diretor e com Amara Moira Local: Auditório Educação Física 18h30 Mesa-redonda: Mídias e Transformações Sociais Prof. Dr. Emile Devereaux (University of Sussex) Profa. Dra. Karla Bessa (Unicamp) Debatedora: Profa. Dra. Heloísa Buarque de Almeida (USP) Local: Auditório Educação Física III SEMINÁRIO INTERNACIONAL GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIA SESSÃO 1 Conexões de gênero, sexualidade e mídias AUTOR / CO-AUTORES TÍTULO MORA, ANA CAROLINA; LABORÃO, VIRGGÍNIA TRANSVERSUS: UM PANORAMA DA TRANSEXUALIDADE EM REPORTAGEM 360º JULIANA LEME FALEIROS; PATRÍCIA CRISTINA BRASIL #SOMOSTODOSVERÔNICA? LILIANE DE LUCENA ITO COMUNICAR NO JORNALISMO: A DISSONÂNCIA NA REPORTAGEM MULTIMÍDIA “TRANSGÊNEROS”, DO TAB MARIANA FERREIRA LOPES; BRUNA TAMANINI DORIGON A JORNALISTA ESPORTIVA EM JOGO: A PRODUÇÃO DE SENTIDO SOBRE A APRESENTADORA RENATA FAN EM COMENTÁRIOS NO FACEBOOK JÚLIA CLARA DE PONTES; CRISTIANE GONÇALVES DA SILVA A TRANSEXUALIDADE NOS GRUPOS VIRTUAIS DO FACEBOOK LYNNA GABRIELLA SILVA UNGER; FLAVIANE VIERA SANTOS; FRANCIS FONSECA OLIVEIRA; VALÉRIA SANTOS SANTANA; CLAUDIENE SANTOS NAMORADA SINISTRA: GÊNERO E CIÚME NO FACEBOOK NOEMI CORREA BUENO ESPAÇOS E CONVERGÊNCIAS NAS REPRESENTAÇÕES MIDIÁTICAS FEMININAS AUTOR / CO-AUTORES TÍTULO GEAN OLIVEIRA GONÇALVES NARRATIVAS TRANSVIADAS: REPORTAGENS EM LIVROS SOBRE GÊNEROS E SEXUALIDADES DISSIDENTES LAÍS ALPI LANDIM AMBIENTES DIGITAIS E RELAÇÕES DE GÊNERO – UMA ANÁLISE DO MUSEU DA PESSOA MARCIA BOROSKI FOTOGRAFIAS DE CORPOS FEMININOS: O CASO MARIANNA LIVELY HELLEN DAMAS MARTINS; LILIAN CLÁUDIA ULIAN JUNQUEIRA O TABU COMO FORMADOR DE IDENTIDADE: UMA ANÁLISE DE DOCUMENTÁRIOS E FILMES RELACIONADOS A FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE E GÊNERO GABRIELA ALVES MARTINS GUIMARÃES LYRIO TODO (AS)SEXUALIDADE(S): INTERSECÇÃO NO MUNDO VIRTUAL E NO REAL KAREN GRECO SOARES DIVERSIDADE DE GÊNERO NAS ORGANIZAÇÕES: NOVAS PERSPECTIVAS EM ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO PARA O RECONHECIMENTO DE GRUPOS LGBTS NAS EMPRESAS VIGOR E CARREFOUR CINTHIA ALVES FALCHI TODAS PUTAS? SOBRE FEMINISMOS E SALA DE AULA NA ESCOLA DA FUNDAÇÃO CASA FEMININA TRANSVERSUS: UM PANORAMA DA TRANSEXUALIDADE EM REPORTAGEM 360º MORA, Ana Carolina LABORÃO, Virggínia ASSIS, Maurício PINCINATO, Gabriela DE SORDI, Marina Artigo para o III Seminário Internacional Gênero, Sexualidade e Mídia: do pessoal ao Político – Pontifícia Universidade Católica de Campinas – Centro de Linguagem e Comunicação, Faculdade de Jornalismo, Campinas, 2015. O trabalho Transversus tem como proposta problematizar a classificação de “transtornos de identidade de gênero”, categoria estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Sendo assim, o pano de fundo que perpassa o projeto, bem como o seu principal gancho de atualidade é a “patologização” da condição de transgênero, e, por consequência, os desdobramentos sociais, culturais e jurídicos desse panorama. Para explorar com a abrangência e profundidade que o tema indubitavelmente exige e, além disso, para se estabelecer um fazer jornalístico sob uma perspectiva estética e interativa, a modalidade escolhida foi a multimídia, especificamente o gênero de reportagem 360°. Em suma, o Transversus busca problematizar e expor jornalisticamente as histórias de vida e os obstáculos em diversas esferas dos transgêneros, a fim de que se traga publicamente o que circunda essa temática, ou seja, aquilo que na academia é explorado cuidadosamente e de maneira profunda, mas que ao consciente coletivo permanece um tanto esquecido, por trás de preconceitos e receios advindos da insipiência ou da incompreensão da complexidade do tema. Portanto, o projeto se baseia em discutir os preconceitos sociais com as diferentes identidades de gênero, geralmente confundida com orientação sexual; revelar histórias daqueles que passaram pela experiência da descoberta de um “transtorno de identidade de gênero”; tudo isso mesclado com os conflitos de opiniões dos especialistas sobre o tema nas ciências humanas e nas biomédicas. Palavras-chave:transexualidade, jornalismo, transmídia. 1. Introdução O projeto Transversus, website jornalístico de reportagem 360º, tem como proposta problematizar a classificação de “transtornos de identidade de gênero”, categoria estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que patologiza a condição das pessoas transgêneras (que transitam entre os gêneros) e, por consequência, descontextualiza os desdobramentos sociais, culturais e jurídicos desse panorama. Para explorar com a abrangência e a profundidade que o tema indubitavelmente exige e, além disso, estabelecer um fazer jornalístico sob uma perspectiva estética e interativa, foi selecionado o gênero de reportagem 360º. Os estudos acadêmicos sobre reportagem 360° ainda são lacunar, tendo em vista o desenvolvimento contínuo da web e a proliferação de diversas terminologias. No entanto, é possível apreender que o gênero propicia pelo intermédio de imagens e sons de ambientes exibidos em documentários e fotografias a possibilidade de “transportar o leitor” ao conteúdo e permitir a interação com ele. Além disso, o leitor pode optar por onde deseja começar sua leitura de informações por diferentes ângulos disponibilizados na plataforma multimídia, conferindo autonomia no caminho a ser traçado pelo internauta, possibilitando a chamada leitura não-linear. Segundo argumenta Ormaneze (2012), na reportagem 360°, o leitor pode, a partir de uma tela introdutória sobre um determinado assunto, escolher qualquer percurso de leitura e sobre qual perspectiva temática deseja ter informação, desde dados estatísticos até perfis de personagens, como é pensado este projeto experimental. Com essa definição simples, no entanto, o jornal conseguiu criar uma reportagem que utiliza os hiperlinks de forma que não distancia o leitor do assunto principal e mostra que o webjornalismo não precisa se prender apenas ao imediatismo e à competição para saber quem traz a informação mais rápida, elementos importantes, mas não únicos no ciberespaço (ORMANEZE, 2012, p.4) Quando abordado pelos meios de comunicação – fundamentalmente de massa e, em consequência, aquele que assenta o imaginário popular – o tema da transgeneridade apresenta-se de maneira consideravelmente superficial, sem que se leve em conta os reais entraves que o cercam, tampouco a rede de relações extremamente delicada que se desenvolve nos – assim cunhados pela OMS – portadores de “transtorno de identidade de gênero”. Com o formato 360º, foi possível romper o lugar comum jornalístico sobre o tema através de sua variedade de propostas imagéticas e o próprio caráter abrangente do jornalismo online. Como pano de fundo para o projeto há o conceito de que o jornalismo deve incansavelmente informar de maneira a representar parcelas da sociedade cuja cultura, a sociedade e o Estado coagem de alguma forma, seja por frear liberdades individuais, seja por imbróglios advindos das ramificações burocráticas. Portanto, o projeto tem o objetivo de discutir os preconceitos sociais com as diferentes identidades de gênero, geralmente confundida com orientação sexual; revelar histórias daqueles que passaram pela experiência da descoberta de um “transtorno de identidade de gênero”; tudo isso mesclado com os conflitos de opiniões dos especialistas sobre o tema nas ciências humanas e nas biomédicas. Em suma, o Transversus busca – a partir de textos, vídeos, áudio e fotografia em um website – problematizar e expor jornalisticamente as histórias de vida e os obstáculos em diversas esferas sofridos pelos transgêneros, a fim de que se traga publicamente o que circunda essa temática, ou seja, aquilo que na academia é explorado cuidadosamente e de maneira profunda, mas que ao consciente coletivo permanece um tanto oculto, por trás de preconceitos e receios advindos da insipiência ou da incompreensão da complexidade do tema. 2. Metodologia A leitura preliminar de obras de Judith Butler e Berenice Bento, estudiosas das ciências humanas que analisam a transgeneridade sob um viés antropológico e sociológico, abriu os horizontes para que este trabalho jornalístico pudesse ir além do senso comum e tratar a transgeneridade de uma perspectiva social e despatologizante. Tendo em vista o caráter de conflito inerente ao jornalismo, o grupo também empreendeu pesquisas sobre o assunto no âmbito médico e das ciências biológicas, tendo como exemplos de autores lidos John Money e Alexandre Saadeh. O processo de pesquisa sobre o tema contou também com uma imersão em grupos de discussão de transgêneros, transexuais e travestis em redes sociais durante um período de aproximadamente seis meses no qual foi possível elucidar as problemáticas, discussões de representações e lutas pelos direitos desses grupos, além da participação presencial em um grupo no Centro de Referência LGBT de Campinas. 2.1. Produção Tendo em vista que o projeto Transversus conta com perfis de transgêneros e também com pautas sobre assuntos correlacionados à existência transgênera na qual os especialistas podem refletir sobre questões conflitantes como mudança de nome e tratamento no Sistema Único de Saúde, a seleção das fontes atrelou-se à possibilidade de revelar conflitos entre as conceituações e vivências. Os personagens escolhidos como perfilados também foram selecionados de maneira que diferentes experiências de transgeneridade pudessem ser explicitadas no trabalho, isto é, priorizou-se pessoas com histórias de vida diversas entre si. Com relação à edição do site, o grupo teve como percepção que o layout da página de reportagem 360° é um dos fatores mais cruciais para que sejam possíveis características próprias do gênero como a leitura não-linear e a imersão em imagens. A escolha da cor foi um ponto delicado, tendo em vista que há cores claramente relacionadas com o gênero feminino e masculino. Sendo assim, o grupo optou pelo roxo, tendo em vista que consiste em uma mistura das cores máximas do binarismo de gênero, isto é, o rosa e o azul. Para o logo do site, a ideia era de que o nome do projeto experimental permanecesse em três linhas, mas não separadas pela silabação de acordo com a norma padrão. O grupo entendeu tal ideia transparecia justamente o pressuposto do projeto de que o fenômeno da transgeneridade é mais complexo do que o senso comum preconiza e que deve ser lida atentamente, mesmo que seja de difícil compreensão a priori. Rompendo com padrões tradicionais, os elementos no layout permite que o leitor possa fazer mais "descobertas" de conteúdo do que simplesmente se utilize do layout (MOHERDAUI, 2008). O layout do Transversus teve como inspiração o design de informação do El País 360°. No entanto, é preciso ressaltar que a natureza do tema do projeto experimental diz respeito a histórias de pessoas que vivenciam a transgeneridade e quais as implicações sociais disso. A navegação do site foi pensada de forma que o internauta pudesse escolher qual caminho seguir, tendo acesso ao conteúdo de várias formas diferentes. Na home do site, isto é, na página de abertura, uma sequência rotativa de fotos é vislumbrada pelo internauta, sendo a porta de entrada para os perfis multimídia produzidos sobre cada um dos perfilados. Outra possibilidade do internauta é clicar em um dos links para as reportagens multimídia, distribuídas dos dois lados da sequência rotativa de fotografias. A partir disso, o grupo realizou o planejamento de hiperlinks que constroem a teia de navegação pelo site. Nos perfis dos personagens, o internauta pode assistir ao vídeo, ler o texto ou ver a galeria de fotos. Através do perfil escrito, é possível acessar as reportagens multimídia que possuem mais relação com as questões que o perfilado vivencia, como, por exemplo, problemas com a mudança de nome nos documentos oficiais ou opiniões que se sobressaem sobre a patologizaçãoda transexualidade. O internauta sempre terá também a opção de retornar para a home e escolher se informar por um novo personagem ou reportagem. É preciso ressaltar que a plataforma multimídia na qual foi produzido o trabalho possibilita a mobilização de mais fontes em diversas mídias e páginas interligadas por hiperlinks. As fontes do projeto podem ser divididas nas categorias de perfilados e fontes especializadas. Os perfilados são pessoas transgêneras, transexuais ou travestis, que têm histórias interessantes da perspectiva dos valores-notícia jornalísticos além de serem pertinentes para as discussões as quais o projeto se propôs. 2.2. Perfilados No que diz respeito às fontes perfiladas, escolheu-se sete personagens. Entre eles, Phedra de Córdoba, 72 anos, atriz e transexual que realizou a cirurgia de readequação sexual e Michele dos Santos, 31 anos, profissional do sexo e travesti. Para mostrar as diversas faces da transgeneridade, buscamos, além de travesti e uma transexual que realizou a cirurgia, histórias de transexuais ainda em sua transição de gênero: Leila Dumaresq, 35 anos, designer de jogos, e Esther Pereira, 50 anos, artesã. Também foram escolhidos três homens transexuais. Juliano Maziero, 39 anos, agente penitenciário na Cadeia Pública Feminina de Rio Claro; Régis Vascon, 41 anos, assessor jurídico do Centro de Referência LGBT de Campinas e Erick Barbi, 34 anos, músico. - Fontes especializadas É importante ressaltar que todas as fontes especializadas em transgeneridade – e todas as identidades abarcadas por esse conceito – confrontam saberes e provocam um debate ético para romper o senso comum e fazer com que o projeto experimental Transversus fuja da superficialidade dos meios de comunicação de massa. No âmbito das ciências biomédicas: Alexandre Saadeh, psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Transtornos de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade de São Paulo (USP), por sua tese sobre estudo psicopatológico de transexualismo masculino e feminino; Judit Lia Busanello, psicóloga e diretora do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais da Secretaria de Saúde do governo do estado de São Paulo, referência no acolhimento de saúde integral de transgêneros; Bárbara Menezes, psicóloga, coordenadora de atendimentos no Centro de Referência LGBT de Campinas. Em termos de cirurgia fora dos moldes propostos pelo SUS e pelo HC da Universidade de São Paulo, selecionamos Jalma Jurado, PhD em medicina pela USP e pioneiro em cirurgia de readequação sexual no Brasil. Já no âmbito das ciências humanas: o doutor Jorge Leite Júnior, professor da Universidade Federal de São Carlos, estudioso da questão sociológica da transexualidade; a filósofa Marcia Tiburi, doutora em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pensadora contemporânea sobre gênero e sexualidade. O mestre e professor da PUC- Campinas, Tiago Duque, que trabalha com as nuances por trás da descoberta da identidade de gênero na adolescência pelas travestis. Para questões legais: o advogado Eduardo Mazzilli, especialista em Direito Civil, que elucida a legislação para mudança de nome e sexo nos documentos oficiais, e o juiz Luiz Antonio Torrano, para expressar o posicionamento do Judiciário em relação à questão. 2.3. Edição Edição O projeto é composto por 14 vídeos subdivididos em três partes: perfis, os quais foram escolhidos sete personagens; seis reportagens audiovisuais, com a participação de nove especialistas e um vídeo de abertura que está na página inicial do site. Para a produção audiovisual que abre o site, os produtores decidiram diferenciá-lo do todo o deixando em preto e branco. Optou-se por realizar os conteúdos audiovisuais sem offs ou passagens, de acordo com a predileção dos produtores pela linguagem documental. Como aponta Oliveira, Carmo-Roldão e Bazi (2006): A produção desse tipo de vídeo requer cuidados especiais: a seleção de fontes necessita ser muito planejada, pois são elas que darão estrutura ao vídeo; o roteiro de perguntas deve ser realizado com continuidade, ou seja, obedecer a uma sequência de sonoras, levando-se em consideração o que a primeira fonte disse de importante, passando para a segunda e, assim, sucessivamente. (OLIVEIRA, CARMO ROLDÃO, BAZI, 2006, p.16) Logo, foi necessário construir uma linha narrativa, compreensível ao internauta, a partir dos depoimentos gravados dos especialistas e dos perfilados, utilizando recursos como enquadramento e trilha sonora para conceder dinamismo. Tendo como pressuposto a linguagem multimídia a qual a reportagem 360° Transversus se propõe, o foco na edição final do projeto foi possibilitar que textos, vídeos e fotografias dialogassem entre si, mas não se repetissem no que diz respeito ao conteúdo. Os produtores optaram por títulos subjetivos para as, tendo em vista que o próprio tema objeto do projeto experimental não está dado de forma simples. Por exemplo, a pauta sobre a patologização das identidades transgêneras recebeu o nome de CID 10 F.64 que é o código que classifica esses fenômenos como um transtorno na Classificação Internacional de Doenças (CID). A fotografia, além de ser uma rememoração do passado, é também condicionada pelo social, sendo assim, o Transversus se apegou as particularidades de cada perfilado e uniu ao convencional, ao comum, gerando um ensaio fotográfico de cada um, uma vez que o ensaio, mesmo não tendo uma definição exata, conta uma história, tem unidade entre as imagens e, sobretudo, não é redundante, pois cada foto revela uma nova nuance por meio de reflexões sensoriais e subjetivas. De acordo com Simonetta Persichetti (2000), crítica de fotografia, “o ensaio está intima e diretamente ligado ao jornalismo”. 3. Resultados Sacramentada a escolha do tema, muitas perguntas vieram à tona: O que desejamos mostrar? Quais serão nossos enfoques? Será que não precisamos ler mais sobre o tema? Conversar com mais pessoas? Os debates foram diversos e por algumas vezes com tons inconclusivos fantasmagóricos. As dificuldades apareceram quando notamos – após os primeiros contatos com as fontes - a complexidade do tema e a disparidade de opiniões, algo que, por um lado, nos assustava pelo tempo que diminuía, e por outro tornava o assunto ainda mais atraente jornalisticamente. A fuga dos clichês, categorizações e idiossincrasias que circundam a abordagem de temas que, indubitavelmente, questionam padrões sociais vigentes foi algo pelo qual o grupo prezou, fazendo com que confrontássemos a nós mesmos, nossos preconceitos (nem sempre anunciados ou sequer conhecidos) e nossa própria bagagem cultural. Para isso, nos alertávamos cada vez mais para a importância de sempre revisitarmos a bibliografia e o principal: conceber a arte jornalística de entrevistar uma fonte, como, de fato, uma negociação. Negociação esta que exige – a fim de alcançar o horizonte pretendido – sensibilidade, atenção e serenidade. Tivemos em nossa frente não só o desafio de retratar uma temática extremamente intrincada, com uma miríade de relações em diversas áreas do conhecimento humano, mas também a provocação de podermos experimentar um gênero jornalístico completamente novo. Mesmo com a dificuldade de termos escassa bibliografia teórica em mãos e até mesmo pouco conhecimento prático do novo gênero, vivenciar uma experiência inovadora no jornalismo multimídia nos estimulou para que a todo momento trabalhássemos para produzir textos, vídeos e fotografias de qualidade. Sem receio de soar piegas, é totalmente justo dizer que o aprendizado do grupo foi imenso, não apenas no que tange o jornalismo, mas mais ainda – e talvez até de maneira mais decisiva – em nossas visões de mundo e noções de vivência no meio social. Ao abordarmos pessoas com histórias de vida das mais variadas possíveis,que, todavia, se interligavam por sofrimentos semelhantes (de, no limite, mesmas origens e mesmos fundamentos) os conceitos e análises presentes na bibliografia ecoavam em nossas mentes e realizávamos uma interpretação íntima com basicamente quatro componentes: o conteúdo da bibliografia; o aprendizado agregado na faculdade de jornalismo; a fala das fontes; e a ruína da imparcialidade jornalística: o que nós pensávamos daquilo tudo. A lição que incorporamos é a de que o jornalista, entre outras milhares de competências um tanto mais especificas, deve ser um militante da liberdade, seja lá o que essa palavra expressa e significa, mas de fácil compreensão de todos. Parafraseando Cecília Meireles em “O Romanceiro da Inconfidência”: “Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Seria pretensão demais acreditar ser capaz de explicar o que é a liberdade, mas após a conclusão desse projeto, fica em nós a utopia de possibilitar pessoas a alimentarem suas liberdades através do jornalismo. Bibliografia ANDRIGUETI, Analu. O jornalista no mundo dos games. In: FERRARI, Pollyana (Org.). Hipertexto hipermídia - as novas ferramentas da comunicação digital. São Paulo: Editora Contexto, 2012. p. 91-106. BENTO, Berenice. A diferença que faz a diferença: 1 corpo e subjetividade na transexualidade. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2009. LEITE JÚNIOR, Jorge. Transitar para onde? Monstruosidade, (des)patologização, (in)segurança social e identidades. Florianópolis: Revista de Estudos Feministas, maio- agosto 2012. MANOVICH, Lev. The Language of New Media. Massachusetts: The MIT Press, 2001. MOHERDAUI, Luciana. Em busca de um modelo de composição para os jornais digitais. São Paulo: Contemporânea, vol.6, 2008. MONEY, John. Gay, Straight, and In-Between: The Sexology of Erotic Orientation. New York: Oxford University Press, 1998. P. 87 – 112. ORMANEZE, Fabiano. Jornalismo na internet: reflexões sobre transmídia e reportagem 360° como propostas de produção. In: JUNQUER, Ângela et al. Novas competências na sociedade do conhecimento. Campinas: Leitura Crítica, 2012, p. 73- 80. PERSHICHETTI, Simone. Fotografia Brasileira II. São Paulo: Estação Liberdade, 2000. SAADEH, Alexandre. Transtorno de identidade sexual: um estudo psicopatológico de transexualismo masculino e feminino. São Paulo, 2004. #SomosTodosVerônica? O sonho que acho mais fascinante é de uma sociedade andrógina e sem gênero (mas não sem sexo), em que a anatomia de cada um é irrelevante para o que cada um é, faz ou com quem cada um faz amor. Gayle Rubin ___________________________________________________________________________ Resumo O texto apresentado propõe uma reflexão comparativa entre o filme “Uma nova amiga”, sob a perspectiva dada à transgeneridade e à sexualidade das personagens, e a abordagem da situação de Verônica Bolina pela mídia brasileira. A ideia principal é comparar os dois casos e refletir o papel da mídia frente à heteronormatividade cisgênera. Palavras-chave: corpos; sexualidade; gênero. ___________________________________________________________________________ Sumário Introdução. 1. O filme “Uma nova amiga”. 2. O Caso Verônica Bolina. 3. A mídia como instrumento de transformação ou reprodução? Considerações finais. Referências bibliográficas Introdução A partir da comparação da atuação de diferentes mídias, entendidas como instrumentos de pedagogia sobre linguagem, corpos e identidades, pretende-se refletir sobre o seu papel frente à heteronormatividade cisgênera reconhecida como padrão social. Para tanto, abordar-se-á o retrato das transgressões de gênero e sexualidade apresentadas pelo cinema, no filme “Uma Nova Amiga” originado do conto “The new girlfriend”, de Ruth Rendell, que trata da construção da relação entre David/Virgínia e Claire e, principalmente, da transgressão de identidades e manifestações de sexualidade das personagens. A película se utiliza de características que estimulam o espectador a ponderar as possibilidades que extrapolam o binarismo cisgênero marcante na sociedade contemporânea. Como antítese, abordar-se-á o incidente que tornou conhecida a travesti, Verônica Bolina. O caso foi coberto pelas mídias por vezes de forma depreciativa, exacerbando a atmosfera de marginalidade em que vive parte das travestis no Brasil, sem considerar a situação de exclusão social e desamparo estatal em que vivem. Nesse aspecto, ao contrário do cenário afetuoso de “Uma Nova Amiga”, a marginalização de Verônica começou pelo silenciamento do social e da sua identidade de gênero, realçadas como justificadores de sua condenação antecipada por um crime sequer apurado, e da violência à dignidade e à integridade que sofreu no cárcere. Tratar-se-á, ainda, do ativismo digital como instrumento de controle em face dos abusos dos agentes do Estado e da mídia dominante no exercício dos papéis ideológicos, a partir do movimento #SomosTodasVerônica. Passando pelos direitos humanos e pela teoria de gênero, em especial a elaborada por Judith Butler, a ideia é articular os modos como as mídias se referem aos temas gênero e sexualidade e refletir sobre o papel delas na educação, ainda que informal, da sociedade e na definição de direitos. 1. O filme “Uma nova amiga” O filme “Uma nova amiga”, lançado neste ano de 2015 e dirigido pelo cineasta francês François Ozon e se passa em um centro urbano, nos dias atuais, no qual as personagens, de elevado padrão de vida, vivem uma história de amor e descoberta de identidades e sexualidades. A história inicia com a amizade de Claire (Anaïs Demoustier) e Laura (Isild Le Besco) desde a infância até a vida adulta, sugerindo uma tensão amorosa e sexual não concretizada de Claire em relação a sua amiga Laura. Laura e Claire se casam, respectivamente, com David (Romain Duris) e Gilles (Raphaël Personnaz). Laura parece feliz com seu casamento, mas falece logo após dar à luz à primeira filha. Claire, madrinha da criança, promete à amiga cuidar de Lucie, a bebê, e de David, mas, demora um pouco a procurar os dois após o funeral. Quando vai até à casa deles, Claire é surpreendida com David vestido de mulher, maquiado, com peruca loira e unhas pintadas, ninando a filha. O primeiro momento retrata o choque de Claire, logo afastado quando David comenta do consentimento de Laura com essa performance. A partir de então, David e Claire passam a construir uma relação oscilante entre cumplicidade e estranhamento, incertezas e, sobretudo, travas decorrentes de paradigmas rigidamente construídos sobre suas identidades e sexualidades no processo de socialização. A aproximação das personagens opera a desconstrução e construção de identidades. David se transforma em personagem de sua verdadeira identidade, Virgínia, que encontra em Claire a segurança necessária para se expor à sociedade. Claire, nitidamente investida em uma relação matrimonial marcada por estereótipos de gênero, especialmente nos jogos de sexo e prazer, em que performatizava o recato da esposa tradicional e abdicava da prerrogativa de satisfação própria, passa a exercer seu prazer sexual como um corte repentino na dinâmica do casal a partir da aproximação com sua nova amiga, Virgínia, e causa espanto em Gilles, o marido. A constância da convivência entre Virgínia e Claire faz com que identidade ou transidentidade da primeira já não fosse uma questão para o relacionamento entre elas e abre espaço para o questionamento da bissexualidade de Claire que transfere para Virgínia a tensão que sentia por Laura. Como reflexo dos próprios sentimentos, Claire questiona Virgínia sobre sua atração por homens em uma cena em que essa é assediada por um homem no cinema. Essa é uma das partes mais didáticas do filme, em que se torna clara a diferença entre identidadee sexualidade, pois Virgínia revela não se sentir atraída por homens, mas que se sente feliz que um homem desconhecido a tenha visto como mulher, ou seja, tenha reconhecido a sua identidade. A relação entre as duas personagens se transforma de amizade em amor, quando ocorre a primeira cena de sexo. Cena impactante, em que o peso da vinculação do desejo às designações socialmente construídas em torno dos diferentes órgãos sexuais. Claire então resiste, dizendo que Virgínia é homem e por isso não pode prosseguir. Há nesta parte um sutil questionamento em relação ao próprio casamento de Claire, haveria permissividade para relações com outra mulher? Ou simplesmente Claire pensou exclusivamente na satisfação de um desejo reprimido pela socialização? A negativa da identidade de Virgínia por Claire, naquele momento, leva ao ápice da narrativa, em que Virgínia sai em desespero com a rejeição de Claire e é atropelada. Levada em estado comatoso ao hospital, Virgínia é internada como David e tratada como homem. A personagem só desperta quando Claire a chama e veste de Virgínia, ainda no leito, e canta “Une femme avec toi” (uma mulher com você). O filme revela uma história de amor com um final feliz, destoando da história contada no livro em que se baseia, que tem um final trágico decorrente das dificuldades de enfrentamento cotidiano das questões ligadas à construção e performance de identidade e da sexualidade, destoantes do “legítimo” inscrito continuamente pela socialização dos corpos (LOURO, 2015: 17) Nesse caso, o cinema como veículo de comunicação foi capaz de tratar de gênero e sexualidade com delicadeza ímpar e fazer o espectador ponderar sobre o espectro de possibilidades desse universo marcado pela binaridade, sob o prisma do afeto, utilizando-se para isso elementos de aceitação, como a estética dos corpos, da cor e da classe social das personagens. 2. O Caso Verônica Bolina Verônica Bolina é negra, pobre e travesti. Antes de ser presa, exibia um corpo forte, mas enquadrado nos padrões de beleza femininos ditados pelas revistas e desenhados em academias, tinha longos cabelos negros, e zelo com a maquiagem, aparecendo sempre maquiada em suas fotos. De fato, nada poderia diferenciar sua identidade em relação a qualquer outra mulher. Em abril de 2015, Verônica passou a ser, também, famosa. Não por mérito, mas por ser “O Travesti que arrancou a dentadas a orelha de um policial. Acusada de agredir uma idosa, Verônica foi presa em abril e levada uma delegacia da capital paulista, onde foi colocada em uma cela junto com homens. Rapidamente as imagens do policial com a orelha machucada chegaram ao conhecimento público pelas redes sociais e pelas manchetes dos principais noticiários do ramo do crime como espetáculo. Verônica foi então triplamente criminalizada e prejulgada, era agora negra, pobre, travesti, assassina de uma idosa e a agressora de um policial. No entanto, com a mesma velocidade, foram “vazadas” fotos de Verônica após o incidente com policial. Verônica apareceu com a cabeça raspada, os seios à mostra, o rosto deformado, com uniforme de presos homens, rasgado em sua região anal, ensanguentada. Essa imagem de Verônica veio a se somar com o assassinato que não cometeu e com a orelha quase arrancada do policial. Verônica estava “condenada”, ao melhor estilo da criminologia de Lombroso, assassina sem que houvesse morte, agressora sem que lhe fosse reconhecida a possibilidade de defesa. Verônica foi arrancada de sua identidade, portanto, de sua humanidade, foi transformada em escória, em um não ser humano pelos aparelhos de socialização e dominação cultural de massa. Verônica foi monstrificada, seu corpo abjeto (MISKOLCI, 2015: 43), despido de identidade, criou repulsa, deu audiência e retórica para conservadores e fundamentalistas acríticos ao que era óbvio. O óbvio não veio dos veículos oficiais de informação, mas de uma reação especialmente impulsionada pelas redes sociais, que denunciava a nítida tortura que Verônica sofreu em sua cela, a pretexto de suposta resistência e mau comportamento. A aplicação de pena sem processo, sem julgamento, a exacerbação de uma violência não autorizada por parte da polícia, a institucionalização da barbárie pelo Estado, a gravação de uma confissão induzida por um agente público que deveria protege-la, a supressão de todas as garantias que lhe ratificam o caráter de ser humano e são reconhecidas constitucionalmente a qualquer pessoa, inclusive a criminosos, a espetacularização de sua condição de não ser foram denunciadas por ativistas nas redes sociais, através da campanha #SomosTodosVerônica. A campanha conseguiu visibilidade e garantiu que Verônica fosse transferida para outro estabelecimento. Verônica ainda está presa aguardando julgamento pela agressão à idosa, foi assistida pela Defensoria Pública e processa o Estado de São Paulo pela tortura sofrida. Processa o Estado que lhe retirou a identidade e a humanidade, que a pretexto de garantir sua integridade, expos toda a sua vulnerabilidade, alimentando a espetacularização de sua miserabilidade humana. 3. A mídia como instrumento de reprodução ou de transformação? A Constituição da República, em seus artigos 220 a 224, estabelece regras para a Comunicação Social. Ao lado da compreensão dos direitos fundamentais, é possível dizer que o livre pensamento é resguardado pela Lei máxima do Brasil, mas que, por certo, é necessário respeitar os direitos das demais pessoas bem como promover “os valores éticos e sociais da pessoa e da família”. Ainda que haja uma tentativa de redefinir o conceito ‘família’ pelo Legislativo brasileiro e por isso debates acalorados têm acontecido, é possível afirmar que a intenção do constituinte foi inserir parâmetros ao que se veicula nos meios de comunicação. Vale dizer que a leitura da Constituição é sistêmica; não se lê dispositivos isolados e, por isso, o artigo 221, IV, deve ser compreendido sob as lentes dos direitos fundamentais como mencionado acima. Tanto os direitos fundamentais previstos no artigo 5º quanto os fundamentos da República estabelecidos no artigo 1º, em especial a dignidade da pessoa humana. Além disso, em 2006, foi editada a Lei 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, que dentre outros preceitos, o artigo 8º, III estabelece que os entes federativos devem agir articuladamente a fim de incitar os meios de comunicação a promover o respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família, coibindo estereótipos que perpetuem violências. Ao lado disso e no mesmo sentido, a Convenção de Belém do Pará, também estabelece no artigo 8, alínea ‘g’ que os Estados incitem os meios de comunicação a agirem em consonância com os ditames nacionais e internacionais. É evidente que tanto a Lei 11.340/2006, quanto a Convenção de Belém do Pará se valem do termo “mulheres”. No entanto, como dito acima, a leitura é feita globalmente e o respeito à dignidade da pessoa humana se sobrepõe ao preciosismo linguístico. Ademais, é forçoso compreender o sistema legislativo à luz dos fundamentos do Estado Brasileiro, elencados nos art. 1o e 3o da Constituição de uma república livre, justa e solidária, fundada para bem de todos sem preconceitos ou qualquer forma de discriminação. Além disso, é de se reconhecer a eficácia supraconstitucional dos tratados, incluindo a CEDAW e, sobretudo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, no sentido de se garantir a intepretação da legislação e dos direitos fundamentais como corolário da existência humana e princípios aplicáveis entre si e sobre toda a produção legislativa e judicial. Pondera-se, ainda, que em recente decisão o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo determinou que as medidas protetivas previstas na Lei Maria da penha sejam aplicadas em favor de transexual (BRASIL, 2015) ameaçada por ex-companheiro. Os meios de comunicação,ao lado do Estado, são atores sociais de suma importância no enfrentamento da violência de gênero contra a mulher, aqui entendida como autoidentificação, e, portanto, devem ser convocados a assumirem esse compromisso. Judith Butler (2015, 69) ressalta que Se há algo de certo na afirmação de Beauvoir de que ninguém nasce e sim torna-se mulher decorre que mulher é um termo em processo, um devir, um construir de que não se pode dizer com acerto que tenha origem ou um fim. Com uma prática discursiva contínua, o termo está aberto a intervenções e ressignificações. (grifo no original) Somente a coordenação de ações entre os principais atores – com atenção à mídia - é que resultados positivos poderão ser alcançados em especial no sentido de impedir a reprodução da violência contra as mulheres. Até lá, muitos embates calorosos serão vivenciados porque de fato nem todos são Verônicas, nem todos reconhecem o que há de humano em cada um de nós, mas apenas o que há de condenação inscrita em cada corpo pelos dispositivos de pedagogia e ordem social (FOUCAULT, 2015:86). Referências bibliográficas BRASIL. Tribunal de Justiça de São Paulo. Acórdão em segredo de justiça. São Paulo, 19 out. 2015. Disponível em: <http://www.tjsp.jus.br/Institucional/Imprensa/Noticias/Noticia.aspx?Id=28416>. Acesso em: 26 out. 2015. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Tradução Renato Aguiar. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2015. LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. MISKOLCI, Richard. Teoria queer: um aprendizado pelas diferenças. 2. ed. rev. ampl. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. Comunicar no jornalismo: a dissonância na reportagem multimídia “transgêneros”, do TAB ITO, Liliane de Lucena Departamento de Comunicação Social (PPG-COM) UNESP (Bauru, SP) Bolsista CAPES (Doutorado) Palavras-chave: transgêneros; reportagem multimídia; TAB Introdução Lançada em outubro de 2014 e publicada semanalmente até a atualidade, a série de reportagens TAB, do Uol (tab.uol.com.br), é um exemplo de novas formas narrativas aplicadas ao jornalismo. Com conteúdo interativo, contém diversos recursos multimídia e, de certa forma, introduz um formato jornalístico muito pouco explorado pelo portal até então. O texto do TAB se enquadra em estilo, profundidade e tamanho no gênero da reportagem, sem se prender às amarras da pirâmide invertida e do lead. O layout é produzido conforme o tema da edição, dando ao TAB uma liberdade maior em relação ao projeto gráfico de conteúdos jornalísticos do Uol. Metodologia Neste trabalho, foi escolhida para análise a edição de número 26ª, publicada em 27 de abril de 2015, intitulada “Transgêneros”. Buscou-se aplicar o metáporo (MARCONDES FILHO, 2013), com foco no relato metapórico do Acontecimento comunicacional no momento em que a leitura foi feita. A possibilidade de autoanálise é permitida nos estudos que seguem a linha da Nova Teoria da Comunicação, desde que o observador realize uma divisão interna entre o eu-observador e o eu-receptor do mesmo fato (MARCONDES FILHO, 2013). Resultado: O relato metapórico As imagens nos abalam. Falam-nos diretamente à alma. Envolvem e trazem o que há de humano em nós. Atingem um limiar profundo que nos remete ao passado, num movimento repleto de memória, sentimentos, reminiscências. Quando acessei a reportagem, senti um espanto interno. “Como pode? Tão naturalmente adaptados ao gênero oposto e tão violentados durante toda uma vida”, era a minha pergunta inicial, antes mesmo de conhecê-los, de me envolver em suas histórias. As fotografias de abertura, dispostas em movimento constante, ora lentas, ora mais rápidas, mostram duas pessoas que, para mim, são totalmente desconhecidas. Mas que, ao final da reportagem, me parecem próximas. Elas me fizeram pensar na minha trajetória, imaginando como seria se eu também fosse transgênero. Quando vejo as imagens de abertura, sei que são dois indivíduos que fizeram a transição. E, então, tudo o que se passa em minha cabeça é muito rápido e é preciso atenção para não me perder nos pensamentos e inviabilizar este relato. De certa forma, me choco, por mais contra quaisquer preconceitos que eu seja. Ao ver uma pessoa transgênero, nascida homem, à vontade como uma mulher de meia idade, tão confortável em suas roupas, com seu estilo moderno, adequadamente maquiada, enfeitada com colares e braceletes, além de um piercing embaixo do lábio inferior, chego a invejar, em um relance de interiorização daquela imagem, a cor branca e o corte moderno dos seus cabelos, o tom chumbo das unhas extremamente bem-feitas. Pergunto-me se serei tão estilosa quando chegar aos 50. Ao surgirem as fotos da outra pessoa, me surpreendo ainda mais. Não há qualquer traço feminino num corpo nascido como tal. É mesmo difícil lembrar que ele já fora mulher em algum momento de sua vida. Barba, pelos no corpo, unhas carcomidas. E agora, escrevendo este relato, percebo a força dos estereótipos no meu sentimento, na minha necessidade em marcar-me como feminina. E acredito que, ao mesmo tempo, essas marcações, por mais socialmente criadas que sejam, foram essenciais para a libertação desses dois sujeitos. São seus instrumentos de posicionamento no mundo. Nesta reportagem, são oferecidos caminhos para a construção da minha leitura. Há cinco links para conhecer um pouco mais da história dela, cuja imagem está ao fundo, como se olhasse para ele. E, à direita, outro caminho de leitura com a mesma quantidade de opções, para saber mais sobre ele que, por sua vez, parece olhar para a direção dela. O olhar dela me parece sereno; o dele me parece pensativo. Mas não posso ter certeza dessas percepções. Ela e ele são Letícia e Alexandre. Nos olhos dela e dele, há um cintilar diferente. Denotariam as agruras testemunhadas no decorrer de uma vida? Revelariam um sentimento de desencaixe de mundo? Mostrariam a força interna, a liberdade conquistada? Não sei. Mas mexem comigo. Não são olhares comuns, que passam por mim e não me dizem nada. Tocam- me. Fazem-me refletir sobre o quanto ainda estamos presos a parâmetros, padrões, modelos, conceitos, “normalidade”. A luta não foi fácil para eles. E ainda não o é, para ela e ele e para tantos outros que se escondem por trás de máscaras eternas. Uma forma de prisão em seu próprio corpo. Leio as frases que se referem a ele e a ela, mas preciso repetir a leitura para entender melhor, mesmo que sejam tão simples. O que me causa dificuldade não é a sintaxe ou a semântica. É a transposição da frase para o meu interior. “Letícia Lanz é escritora e psicanalista. É casada com Angela, pai e avô. Aos 50, após um infarto, disse adeus a Geraldo”. Ok, até o primeiro ponto final tudo está claro. Tudo está normal. Até casada com Angela, também quase comum. Tenho vários amigos gays e alguns, casados no papel. A união gay é possível no estado de São Paulo, nos Estados Unidos e em outros pontos do mundo. É um direito conquistado. Mas quando vem o trecho “pai e avô”... parece que Figura 1. Imagem de abertura da reportagem analisada não entendi bem a frase. Volto a lê-la e vejo que não houve erro de escrita. E sei que o estranhamento não é por preconceito. Mas porque automaticamente penso como seria viver dentro de parâmetros sociais tradicionais, casar e ter filhos e, depois de tudo, existir uma mudança tão geral. A ruptura de todo o transgênero com o gênero do nascimento é um rompimento com o passado. Mas há laços e relações que não podem ser rompidos. Então, martela a dúvida na cabeça: se foi pai,continua sendo pai, depois que se torna mulher? Ou será que é mãe e avó, ao invés de pai e avô? A mudança de gênero, ainda pouco debatida, é capaz de causar esse tipo de indagação. Mas daí, reflito: “Ela, Letícia, é quem tem o direito de ser chamada como bem entender. É ela quem, durante muito tempo, lutou, mesmo que internamente, contra a imagem que a denominava como Geraldo. E, se hoje, deseja ser ainda chamada de pai e avô, mesmo num corpo de aparência feminina, é seu direito também”. Opto por ler primeiro a história de Letícia. É uma guerreira. Uma intelectual. Cita Simone de Beauvoir, Lacan... Admiro-a. Mas o que me toca mais é o fato de como lidou com a situação de ter uma vida dupla: “montando-se” como mulher em viagens e longe da família; construindo um quarto secreto onde teria liberdade para ser quem gostaria de ser, com bonecas, maquiagens, roupas e sapatos femininos. Compreendendo que a vontade em ser mulher não era apenas no estético, no exterior, mas algo que vinha realmente da alma. Uma maneira de enxergar o mundo. E me chama a atenção principalmente a história de amor entre Letícia e Angela. Coloco-me no lugar de Angela. Imagino quão forte é essa mulher para aceitar a transição do marido. Penso que esse é um tipo de amor verdadeiro; não se preocupa com o julgar alheio, não se dobra diante das maiores dificuldades; é capaz de enxergar o outro em sua alteridade e, ainda assim, amá-lo. Sinto-me emocionada com isso. A reportagem me agrada em seu aspecto visual. Gosto do layout, da maneira como foram dispostos fotos, legendas, texto. E principalmente porque colocam a história na boca de quem viveu. Em alguns vídeos curtos, Letícia conta sua história. É ela quem diz, por exemplo, como escolheu seu nome. Letícia significa alegria e Lanz, guerreira. “Sou uma pessoa apaixonada pela vida. Descobri isso quando tive um infarto. E pensei ou fico aqui na UTI para o resto da vida, não voltava para o mundo, ou eu voltava e ia ser uma amante da vida”, diz. Pausa, respira e pondera: “é o que eu sou hoje”. Num dos vídeos, feito em sua casa, uma residência confortável e bem decorada, ela mostra os porta-retratos espalhados pela mobília cujas fotos são de antes da transição. Para mim, revela como esta mudança foi bem-resolvida. Não há uma negação total do passado, uma necessidade em apagar a todo custo aquilo que aconteceu antes. Foi uma vida feliz, de certa forma, e agora ainda é, com a diferença de Letícia se sentir mais livre. Agora, vou ao encontro da história de Alexandre Peixe. Assim como eu, quando vi as fotos dele na abertura, a jornalista que escreve o texto também inicia dizendo que, não fosse ele a andar em sua direção no local marcado para a entrevista, a Igreja Consolação, em São Paulo, ela também certamente não saberia de sua identidade. Alexandre não tem nenhum traço feminino. Barbado, braços cruzados, olhar receoso. Os braços cruzados são para esconder as mamas. Outras estratégias para camuflar o volume dos seios são permanecer mais gordinho e usar, diariamente, colete e blusa bem apertados por baixo da camiseta. A história de Alexandre é diferente da de Letícia. Ela, que conquistou o sucesso profissional, se assumiu, defendeu dissertação sobre gênero, não parece (em meu julgamento interior) sofrer grandes barreiras profissionais. Ao menos não foi dito no texto. Alexandre, por sua vez, não consegue emprego, mas sonha em trabalhar com crianças, algo que já foi, um dia, antes da transição, seu ganha-pão. Imagino, nessa hora, os olhos preconceituosos de alguns pais que encaram deixar o filho aos cuidados de um transgênero como algo perigoso para a formação da criança. E me dói, pois penso que Alexandre faria seu trabalho com muito mais amor e vocação do que tantos por aí. Figura 2. Alexandre e sua tática em cruzar os braços para camuflar os seios Parto para os vídeos. O primeiro, em que ele se apresenta, revela o único traço feminino: a voz. Apesar do corpo masculinizado, a voz tem um resquício de seu gênero anterior. Não seria perceptível a alguém que não sabe o sexo de nascimento de Alexandre. Mas como tenho esta informação, percebo que a voz é diferente. E me dou conta de que talvez seja assim mesmo no geral: quando se tem consciência do gênero biológico de um transgênero, nos esforçamos para captar algum resquício que o relacione ao biológico. Isso me faz compreender porque, no caso de Alexandre e no caso de Letícia, ambos querem ser reconhecidos por suas identidades construídas por eles: como Xande (como ele mesmo se refere) e Letícia. Sem que haja esse estranhamento ou essa indagação do outro em relação a algo tão íntimo da vida deles: o gênero e a sexualidade. “Eu quero ser o Xande. Ninguém pergunta pra você: ‘você é trans? É lésbica?”. Não, eu quero ser o Xande”, explica, à repórter, em vídeo feito num local público, onde se podem ver outras pessoas transitando enquanto se dá a gravação. Neste mesmo vídeo, ele conta que tem 42 anos e é pai de uma garota de 24 e avô de uma menina de pouco menos de dois anos. Agora, não sinto a estranheza inicial que senti quando li a frase sobre Letícia. Por quê? Indago-me, quero saber. Essa diferença em sentir o que ouvi e li deve ter uma razão. Esforço-me para entender. Isso causa uma irritação em mim. Por quê? Chego a uma questão que me abala: haveria certo machismo de minha parte achar mais chocante uma pessoa nascida, socialmente mostrada e aceita como homem durante muito tempo mudar de gênero após os filhos estarem em fase adulta? Por que a frase de Alexandre não me surpreende tanto? Será que internalizo em mim, mesmo sem conseguir desdobrar cognitivamente, ou seja, mesmo que em um relance muito rápido, a história dos dois transgêneros? Sentiria mais, no meu caso, se meu pai revelasse, depois de muito tempo, a real identidade de gênero com a qual quer ser aceito dali pra frente? Talvez. Ou talvez isso aconteça porque, no decorrer da primeira história, a de Letícia, eu tenha me aberto mais ao tema. Teria acontecido uma criação de sentido? Para mim, sim. Mas acredito que sejam as duas coisas. E a ideia de ser machista, mesmo que de uma maneira involuntária, arraigada, mínima e inconsciente, me abala. Irrita-me e me faz refletir. Assisto ao segundo vídeo. Não tem mais do que um minuto e meio. Mas prendo a respiração antes do play. A razão é o título: “Estupro”. Sei que dali não virá coisa boa. Não vem, realmente. Choro um choro contido quando Alexandre diz que, se em seu grupo de amigos nunca houvera grandes problemas em ser o que era, um dia, aos 19 anos, num jogo de futebol, foi estuprado por quatro rapazes no banheiro da escola. A justificativa? Ele tinha que gostar das coisas que as meninas gostam. Lembro-me de outros casos, em outros textos jornalísticos, filmes e seriados, de violência sexual contra gays e transgêneros. Começo a ver outro vídeo, em que Alexandre relata que sua filha é fruto desse estupro coletivo. Choro novamente. É impossível não se comover com seu relato. É impossível ficar imune à sua fala, quando diz que criou a filha com amor e só teve coragem de dizer como foi gestada muito tempo depois. Mergulho no paradoxo por comparar o amor desse pai/mãe com o desamor de tantos pais por aí. Preciso me recompor. Passa, mas um aperto no peito continua. Alexandre é transgênero e sempre namorou meninas. Desde muito pequeno, já se interessava pelo universo masculino. Seu arsenal infantil eram bolinhas de gude e carrinhos de rolemã; as bonecas ganhadas pela mãe ficavam esquecidas de canto. E desde tão criancinha, a garotinha da foto que aparece no vídeo (e faz lembrar-me da minha filha, de quatro anos) queria parecer um menino. A ponto de se manter próxima das crianças que tinham piolho para que a mãe cortasse seu cabelo curtinho. Nesse momento, rio por dentro. Acho graça na forma como Alexandre, então Alexandra,conseguia se tornar mais próxima da imagem à qual claramente pertence. Considerações finais Finalizo a leitura com a sensação de ter mergulhado em histórias fantásticas. Porque me apresentaram um mundo muito longe da minha realidade cotidiana. E me comunicaram, no sentido de me violentarem, ao mostrarem a complexidade envolvida na questão de gênero. Em vários momentos, a reportagem foi, para mim, um fato estético, porque me fez sentir, fez com que me abrisse ao entendimento, chegando ao questionamento de mim mesma, sobre o que eu acredito que sou e defendo. Neste artigo, intencionou-se realizar um relato metapórico de uma reportagem multimídia. Considero que, em minha leitura, houve realmente um Acontecimento comunicacional (propositalmente com “a” maiúsculo), uma vez que inevitavelmente ocorreu um entendimento à alteridade do outro e uma apreensão do que foi descrito no texto. Os componentes da reportagem – texto, imagens e vídeos – certamente influenciaram nessa comunicação efetiva. Foi com esta leitura que houve a faísca e a agitação do que estava em mim sedimentado e, agora, não está mais. Referências CUNHA, K. M. R. da. (2013). Entre Hermes e Poseidon: o jornalismo na teoria do acontecimento comunicacional. Tese (Doutorado em Teoria e Pesquisa em Comunicação) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27152/tde-06052014-143942/>. Acesso em: 2015-07-25. LUHMANN, N. (2005). A realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Paulus. MARCONDES FILHO. (2002). O espelho e a máscara: o enigma da comunicação no caminho do meio. Ijuí-RS: Editora Unijuí. MARCONDES FILHO, C. (2004). O escavador de silêncios. Formas de construir e desconstruir sentido na Comunicação. São Paulo: Paulus. MARCONDES FILHO, C. (2008). Para entender a comunicação: contatos antecipados com a Nova Teoria. São Paulo: Paulus. MARCONDES FILHO, C. (2013). O rosto e a máquina. O fenômeno da comunicação visto pelos ângulos humano, medial e tecnológico. São Paulo: Paulus, volume 1. MARCONDES FILHO, C. (2014). Das coisas que nos fazem pensar. O debate sobre a Nova Teoria da Comunicação. São Paulo: Ideias & Letras. QUEIROGA, B. A. de. 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A jornalista esportiva em jogo: a produção de sentido sobre a apresentadora Renata Fan em comentários no Facebook Mariana Ferreira Lopes Bruna Tamanini Dorigon Universidade Norte do Paraná, Londrina, PR Universidade Estadual Paulista, Bauru, SP Introdução No campo jornalístico, assim como em grande parte das profissões, as mulheres percorreram um longo caminho até que pudessem ocupar seu espaço. Segundo Maria João Silveirinha (2012, p. 169), “a linha de participação das mulheres nos jornais [...] é diversa, descontínua e ao pulso de um país onde os homens dominavam os meios de comunicação que garantiam a continuidade da sua visão cultural, social e política”. É importante destacar que autora fala em relação à representatividade feminina na Europa, mais especificamente em Portugal. Observa-se, no entanto, que, também no Brasil, o gênero era fator determinante para o ingresso de um profissional no mercado jornalístico. Hoje em dia, após muitos anos de luta e engajamento, tal realidade vem sendo modificada. Segundo uma pesquisa realizada pelo programa de pós-graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em 2013, existiam 145 mil jornalistas com registro profissional no Brasil. Desses, 64% eram mulheres brancas, solteiras e com até 30 anos. Os homens representavam os outros 36%. No entanto, a presença feminina no jornalismo esportivo ainda é menor do que a masculina e é nesta área jornalística, marcadamente androcêntrica, que nossa pesquisa está focada. Dentre as jornalistas esportivas da televisão aberta brasileira, Renata Fan1 foi a primeira a comandar uma mesa redonda esportiva diária. Por essa característica, nossa pesquisa objetiva identificar como a ideologia da dominação masculina se faz presente na produção de sentido sobre a apresentadora do programa Jogo Aberto. Para tanto, 1 Nascida na cidade de Santo Ângelo no Rio Grande do Sul, Renata Fan é formada em Direito e Jornalismo. Antes disso trabalhou como modelo e em junho de 2003, Renata teve sua primeira oportunidade na Rede Record ao gravar um programa piloto para a área de esportes. Aprovada no teste, ela passou a apresentar o programa Terceiro Tempo ao lado de Milton Neves, todos os domingos à noite, e o Debate Bola, ao meio-dia, no mesmo canal. Desde 2007, Renata apresenta o programa Jogo Aberto, de segunda à sexta, na Rede Bandeirantes. foram analisados os comentários sobre dois vídeos postados no seu facebook, cuja amostragem dos textos analisados foi realizada de maneira aleatória, buscando compreender a já-dito presente neles. Trata-se de um estudo exploratório, cujos apontamentos servirão de base para interpretações futuras sobre a mulher no jornalismo esportivo. Metodologia As formas do sujeito ser, estar e experienciar o mundo têm se reconfigurado devido à midiatização, definida por José Luiz Braga (2012, p.39) como um processo interacional de referência. Um importante conceito que deriva da midiatização consiste na circulação e na ideia do fluxo adiante. A premissa de que o receptor é um sujeito ativo no processo de comunicação modificou o sentido de circulação, que passou a ser vista como “o espaço de reconhecimento e dos desvios produzidos pela apropriação” (BRAGA, 2012, p.38). O autor propõe que alarguemos esta noção de circulação das relações diretas que se configuram entre emissão e recepção. Braga nos convida a pensarmos sobre os encaminhamentos que o receptor dá a sua produção de sentido em diferentes espaços que vão além do seu contato direto com o meio de comunicação. Trata-se do fluxo adiante que, segundo Braga (2012), pode ocorrer de diversas formas: de comentários à geração de outros produtos midiáticos, como, por exemplo, os comentários de facebook. A circulação e o fluxo adiante se articulam diretamente com o entendimento de Orozco-Gómez (2014) sobre a recepção midiática enquanto processo que não se finda na interação entre indivíduo e mídia, mas se estende para outros cenários onde os conteúdos transmitidos são rearticulados nas experiências concretas do receptor. Estas recepções que acontecem em cenários além do contato direto com o televisor são denominadas por Orozco-Gómez como recepções secundárias e terciárias, já a recepção televisiva de primeira ordem corresponde à recepção direta, suscetível às mediações situacionais e às decisões prévias do receptor. Nossa pesquisa se debruça na análise da ideologia da dominação masculina presente na produção de sentido dos telespectadores do programa Jogo Aberto sobre a apresentadora Renta Fan, configurada nas recepções secundárias e terciárias a partir da análise dos comentários na página oficial2 da jornalista no facebook. Foram selecionados aleatoriamente os comentários sobre dois vídeos postados em setembro de 2015,que são trechos da mesa redonda veiculada nos dia 10 e 17. Nestas postagens, a apresentadora comemora a vitória de seu time, o Internacional de Porto Alegre, sobre o Palmeiras e o Corinthians, respectivamente, e zomba dos outros apresentadores, torcedores de tais equipes. A metodologia empregada foi a Análise do Discurso, tendo em vista que, o texto dos comentários, enquanto nossa unidade inicial de estudo, nos remete ao discurso que “se explicita pela sua referência a uma outra formação discursiva que, por sua vez, ganha sentido porque deriva do jogo definido pela formação ideológica dominante naquela conjuntura” (ORLANDI, 2007, p.63). O foco da nossa pesquisa consiste na identificação dos interdiscursos, ou seja, “todo o conjunto de formulações já feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos”(ORLANDI, 2007, p.32) e que nos remetem à noção da dominação masculina, a partir de uma ideologia adrocêntrica. Selecionamos para este estudo comentários representativos de grupos de enunciados que nos remetem ao discurso de uma ideologia de supremacia do homem. Assumimos aqui, sustentadas por Orlandi (2007) que o dizer é marcadamente ideológico e se filia a uma rede de sentidos do já dito, “uma memória afetada pelo esquecimento” (p. 34). Desta forma, os interdiscursos afetam a maneira pela qual o sujeito significa em uma determinada situação discursiva. Resultados Simone de Beauvoir (2009, p. 207) nos explica que os homens definiram sua superioridade em relação ao feminino, criando um sistema codificado, formado por estruturas e configurações que se voltaram contra as mulheres, que passaram a ser compreendidas como o Outro, o ser que se opõe ao homem e coloca-o frente a si mesmo. Isso, segundo a autora (2009), faz com que eles sintam necessidade de se reafirmarem. Para Pierre Bourdieu (2003), este cenário de submissão é produto de uma espécie de violência simbólica, abrigada no patamar psicológico, ideológico e social da humanidade e vivenciada através de regras e condutas, estas que se conjugam no habitus, ou seja, no sistema estruturado que age no inconsciente dos indivíduos, determinando o viés de suas atitudes e pensamentos. 2 A página oficial no Facebook de Renata Fan existe desde e 2010 e possui 2.450.543 curtidas O esporte e o jornalismo podem ser consideradas instituições legitimadoras de uma percepção tradicionalmente androcêntrica (BUENO, 2015b). Ao analisar os 17 programas de esportes veiculados na televisão aberta brasileira, Noemi Bueno (2015a) verificou a existência de 64 profissionais – entre repórteres, editores e apresentadores – dentre os quais 12 são mulheres e 52 homens. Tal noção se reafirma quando analisamos o enunciado “mulher e futebol não combinam”, comentário postado por um homem no dia 10/09, e percebemos a presença de um discurso que reforça a ideia de que apenas o sexo masculino é capaz de analisar e gostar desta modalidade esportiva, assim como de que à mulher só competiriam assuntos mais frívolos. Pierre Bourdieu (2003) afirma que a diferença biológica e anatômica entre os sexos pode ser compreendida como justificativa da diferença entre os gêneros e também, se não principalmente, da divisão social do trabalho na realidade social. De acordo com Paulo Vinícius Coelho (2003, p. 34), as mulheres começaram a aparecer no jornalismo esportivo brasileiro, de fato, em meados da década de 1970. Antes disso era quase impossível vê-las na editoria esportiva, já que este era um dos locais prioritariamente masculinos. Segundo Anelise Farencena Righi (2006), a participação mais efetiva das mulheres no jornalismo esportivo vem ao encontro ao acesso ao esporte que também se democratizava. Antes disso, os mesmos, em geral, eram praticados, discutidos e assistidos por uma grande maioria de homens. Foi com as mulheres tornando-se atletas e tendo acesso à prática esportiva que cresceu seu entendimento sobre o assunto. O enunciado postado por um homem, em 18/09, “ So ta apresentando porq eh gostosa né!! Talento vem beeeemm depois! ! E já repararam q a maioria das apresentadoras de esportes são gostosas! ! Porq será? !! (sic)”, é exemplo de um discurso para qual Maria Rita Khel (2004, p.175) nos chama a atenção: o fato de que o corpo, na sociedade atual, “pode determinar oportunidades de trabalho. Pode significar a chance de uma rápida ascensão social”. Neste caso, sendo o jornalismo e o esporte também responsáveis pela perpetuação da dominação masculina, a produção de sentido recai na premissa de que é pelas características do seu corpo que Renata Fan se mantém em sua posição de trabalho. A produção de sentido da apresentadora enquanto objeto, em comentários sobre o seu corpo, é um dos mais contundentes vieses pelo qual a ideologia da dominação masculina se materializa. Tal noção ideológica pode ser observada no comentário mais curtido, foram 1353 likes, entre as postagens analisadas. O enunciado “renata minha querida, foda-se o Internacional, o povo brasileiro só quer saber quando vc (sic) vai posar pelada? um grande beijo”, postado por um homem em 17/09, remete à ideia de que a mulher, em nossa sociedade, é vista como objeto erótico, enquanto associada sexual do homem (BEAUVOIR, 2009). A redução do corpo feminino ao estado de objeto se concretiza como um exercício de poder masculino também observado em comentários que tratam da vestimenta de Renata Fan, sobretudo na postagem do dia 17/09, quando ela trajava um vestido vermelho justo e decotado. Observamos este discurso em textos tais como “eu assisti alegre pq esse decote ai ta loco pq a mao chega a treme (sic)”; “ficou louco quando ela vai com esse vestido vermelho. Fico na torcida quando o inter joga e torço pra ele ganha. Renata Fan gostosa pra caralho. Posa nua (sic)”; “Gostei do decote, dava pra abrir mais kkk (sic)”, “Na moral Renata Fan, não prestei atenção em mais nada no programa, a não ser no seu decote”. A mesma formação discursiva é constatada no texto postado em 18/09, no qual um homem inicialmente carrega um discurso de ruptura da concepção que mulher não deve tratar de futebol „Grande Renata Fan‟, jornalista e comentarista de futebol competentíssima da TV Band!!! É uma grande torcedora de seu querido clube Internacional de Porto Alegre, no sul. Sabemos que o ambiente futebolístico é muito machista, onde trabalha (sic) muito mais homens do que mulher, pois bem, é nesse universo masculino que ela comanda com grande maestria, grandes debates esportivos entre seus colegas e convidados que comentam sobre as vitórias e derrotas do seu clube durante e final de semana!!!! Ao falar sobre os clubes, ela fala com tal charme e graciosidade, que sem saber, ela nem percebe que enlouquece o universo masculino, UAU (sic)!!!!!!!!!!!!!!! Bourdieu defende que o próprio ato sexual em si exerce uma relação de dominação, já que é construído e reproduzido de acordo com o princípio de divisão fundamental entre o feminino e o masculino: o desejo masculino reflete uma intenção de posse, de dar prazer para se sentir fonte de prazer, enquanto o desejo feminino é o de ser possuída, de entregar-se à dominação, e tal condição se reflete também no assédio sexual (BOURDIEU, 2003, p. 31). O reconhecimento erotizado de dominação é observado nos discursos para os quais os enunciados nos remetem: “Renata vem deitar e rolar na minha cama e deixa o Inter pra outro dia (sic)” e “ eu também quero ir nessa mamãe gostosa e chupar esses peitos lindos”, ambos postados por homens, nos dias 17/09 e 30/09 respectivamente. Em suma, os comentários analisados neste ensaio, que se mostraram representativos de outros textos, remetem à ideologia da dominação masculina a partir de dois discursos. O primeiro refere-se à ideia de que o esporte, especificamente o jornalismo esportivo, não é um espaço a serocupado pelas mulheres e quando o é, trata- se de uma presença marcada preponderantemente pelos atributos do corpo feminino. O segundo, relacionado ao primeiro, reforça a noção da mulher como objeto associado ao homem, que na sexualidade exerce a sua dominação. Sabemos que tal análise não esgota a produção de sentido sobre a jornalista Renata Fan pelos seus telespectadores, mas esperamos contribuir para discussões sobre os discursos em torno da mulher enquanto jornalista esportiva. Referências bibliográficas BRAGA, J. Circuito versus campos sociais. In: JANOTTI JUNIOR, J.; MATTOS, M.; JACKS, N. (orgs). Mediação & Midiatização. Salvador: EDUFBA; Brasília, Compós, 2012, p. 31-52. BEAUVOIR, S. Os mitos. In: BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009, p.207-355 . BRAVO, D. V. T. Elas assumiram o comando. As mulheres jornalistas no mundo do telejornalismo esportivo. Viçosa: s.n., 2009. BORDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro. 3ª ed., 2003. BUENO, N.P. A participação quantitativa feminina em programas esportivos na televisão aberta In: Caderno de resumos da XVII Jornada Multidisciplinar – 2015: "Diversidade, Acessibilidade e Direitos: Diálogos com a Comunicação" e VIII Encontro de Direitos Humanos da Unesp: "Universidade, Violências e Educação em Direitos Humanos"/ Larissa Pelucio e Clodoaldo Meneguello Cardoso – Bauru: UNESP-FAAC, 2015a. Disponível em < http://www.faac.unesp.br/Home/Departamentos/CienciasHumanas45/2015-/caderno-de- resumos---jornada-2015-with-numbers-ilovepdf-compressed-1.pdf>. Acesso em: 10 de out. 2015. ____________. Quem é Quem nos Programas Esportivos de Televisão: Uma Análise das Questões de Gênero no Cartãozinho Verde, da TV Cultura. In: Anais do XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. São Paulo: Intercom, 2015b. 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A Transexualidade nos Grupos Virtuais do Facebook Pontes, Júlia Clara de 1 Silva, Cristiane Gonçalves da 2 1 Graduanda de Psicologia – Universidade Federal de São Paulo campus Baixada Santista. 2 Professora Adjunta do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva, Universidade Federal de São Paulo campus Baixada Santista. Financiador: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Palavras-chave: transexualidade, mídias digitais, gênero. INTRODUÇÃO: A internet, dentro do campo das redes virtuais, inaugura, anuncia transformações e deslocamentos que parecem produzir novas possibilidades de emergência no que diz respeito a modos de subjetivação e de relação entre sujeitos, inserindo-se rapidamente no cotidiano (NUSSBAUMER, 2008). Nesse contexto, debruçar-se sobre as problemáticas que se desenham no contemporâneo instala novos desafios e tensões nos caminhos metodológicos mais usuais, abrindo para as experiências em rede, os espaços- outros de sociabilidade virtual e demais composições inventivas nos seus desafios e potenciais que, por fim, exigem novas estratégias de experimentação e de produção de conhecimento. Assim, neste estudo, interessou-nos a intersecção de campos eleitos como ponto de partida e de reflexão – redes sociais e dissidências de gênero. Objetivou- se compreender como são constituídas e tecidas as redes discursivas sobre transexualidade entre participantes autodeclarados/as transexuais de grupos virtuais da rede social Facebook e compreender como atuam essas redes nos processos de produção de subjetividade desses sujeitos e na configuração dos próprios espaços de sociabilidade virtual. METODOLOGIA: Estudo qualitativo realizado em etapas, sendo a primeira etapa delas, mapeamento dos grupos virtuais existentes no Facebook e organizados a partir da temática da transexualidade. Foi utilizada a própria ferramenta de busca do Facebook, inserindo palavras-chave que tinham ligação com o nosso tema de interesse (ex. transexualidade, transexuais, transgêneros etc.). Os dados foram organizados em uma planilha, totalizando 170 grupos encontrados e registrados. Destes grupos, foi feita uma seleção de grupos, chegando a 21 grupos organizados a partir de três eixos: descrição, número de participantes e movimentação/dinâmica. Os grupos selecionados tinham em comum a promoção de debates que giravam em torno de temáticas de gênero, sexualidade, corpo e identidade, se reunindo sob a égide da transexualidade, produção de corporalidades e tecnologias do corpo, agenciamento de encontros afetivos, discussões políticas e exercício de cidadania. Concluída a etapa de mapeamento e seleção, nos detivemos na escolha de uma ferramenta como forma de aproximação e experimentação do campo, levando em conta a intersecção entre transexualidade e a dimensão virtual das redes sociais no Facebook. Como possibilidade frente aos desafios das nossas inquietações e a dimensão virtual do campo, elegemos a Plataforma Google Docs. como estratégia de contato com as participantes1 dos grupos. Apostamos em um questionário constituído por questões abertas, tendo em vista a preocupação em dar margem aos fluxos de informação e conhecimento produzidos, agenciados e referidos pelos/as interlocutores/as dentro e como parte do contexto da rede, na tentativa de identificar suas implicações em relação ao tema proposto no estudo. Após ter sido produzido e estruturado, o questionário foi inserido na plataforma Formulários do Google Docs., tornando-se assim disponível para acesso mediante o compartilhamento do link dentro dos grupos virtuais selecionados após o mapeamento. O contato com as interlocutoras foi feito via grupos virtuais, de maneira que não houveram encontros presenciais para a aplicação do questionário, sendo este acessado e preenchido online por meio de computadores ou outros equipamentos conectados à internet. Os dados inseridos pelas interlocutoras no questionário online foram armazenados no servidor Google, já vinculados a uma planilha eletrônica que pôde ser acompanhada durante toda etapa de aplicação, oferecendo a possibilidade de 1 Optamos por usar apenas a flexão feminina nos substantivos visualização do andamento da pesquisa em tempo real. O questionário ficou disponível para preenchimento no intervalo de dezembro de 2014 a fevereiro de 2015. Ao final da coleta de dados, constatou-se mediante a categoria de autodeclaração do questionário, que participaram do estudo um número de 35 pessoas, sendo que dentre essas, estavam homens e mulheres transexuais, transexuais não-binários/es, além de outras denominações que não constavam como opção inicial. Para participar do estudo, os critérios estabelecidos consistiam em: se (auto) declarar como transexual; ter completado 18 anos ou mais na data de início das entrevistas; participar dos grupos virtuais que reúnem pessoas transexuais; aceitar participar do estudo, através da leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O manejo dos dados seguiu os mencionados por Minayo (2012), com parte dos procedimentos empregadosna análise de conteúdo utilizada na pesquisa qualitativa, onde se encontram: a categorização, que compreende a classificação dos elementos já decompostos que integram o material a ser analisado, diferenciado e posteriormente reagrupando esses elementos de acordo com critérios previamente definidos em categorias; Inferência, como fase intermediária entre a descrição e a interpretação onde se opera uma dedução lógica sobre o conteúdo da análise em questão; Interpretação, onde discute-se os resultados da pesquisa interpretando-os com o auxílio dos referencias teóricos adotados com a intenção mesma de produzir conhecimento. As categorias utilizadas para agrupar os dados foram elaboradas de acordo com a aproximação com o tema e a partir da leitura das respostas dos/as interlocutores/as, pensando igualmente nos objetivos do estudo. O diálogo com os dados foi realizado a partir dos referenciais que se organizam como parte da Teoria Queer, que pressupõem uma posição epistemológica que não se delimita apenas à identidade, mas como um movimento voltado para os processos de produção das diferenças, buscando pensar a instabilidade e a precariedade das identidades como forma de tocar o campo de forças e tensões implicado nessas figuras, bem como as negociações, conflitos e disputas constitutivas das posições ocupadas pelos sujeitos. (LOURO, 2001). Utilizou-se também como subsídio teórico a Teoria Construcionista, tomando os conhecimentos e as informações a respeito do tema como construções sociais históricas, atravessadas por formações sociais e culturais específicas. (MINAYO, 2012, pg. 39). RESULTADOS: Ao nos debruçarmos sobre as falas das interlocutoras, um dos elementos que atravessavam constantemente os relatos, era a caracterização dos espaços de sociabilidade dos grupos virtuais como abertura à produção e agenciamento de vínculos. O grupo emergia como dimensão proporcionadora de estabelecimento de contato entre as participantes, aproximando-as mediante operações dialógicas de troca que, enquanto processo, criavam condições de identificação e compartilhamento de sentidos e significados nas experiências e relatos das participantes, parecendo assim compor uma rede que, virtualmente, se construía na composição comum a partir das singularidades. "Foi através do debate com outros indivíduos trans que eu me descobri enquanto trans não-binário, em particular ao conhecer pessoas com experiências muito parecidas com as minhas. Acredito que os grupos colaborem para a integração e união das pessoas transexuais, que são excluídas de todos os espaços da sociedade binarista patriarcal, fazendo com que vejam que têm outras pessoas passando pelas mesmas situações, e podendo assim se apoiar mutuamente nesse processo doloroso” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO). Um dos elementos em jogo nessa rede trazido pelas interlocutoras era seu potencial de, paradoxalmente, romper com um sentimento de isolamento, mesmo que as participantes eventualmente não se deslocassem geograficamente com a finalidade de um encontro presencial, oferecendo nesse movimento, condições para a produção de uma experiência de coletividade e pertencimento, como efeito do acolhimento e compreensão das experiências compartilhadas entre os sujeitos. É nesse inter-jogo de trocas que as interlocutoras localizaram também processos de identificação e (re)significação das próprias experiências e de si enquanto sujeitos, aparecendo em alguns relatos a noção de uma construção identitária. Observado como elemento comum dos relatos, a possibilidade de encontro com outras pessoas que compartilhavam algo em semelhante relativo à sua experiência de gênero, dentro do contexto de uma rede dialógica de trocas virtuais, surgia em contrapartida aos espaços off-line da vida das interlocutoras, que afirmavam ser essa sua única forma de contato com outras pessoas transexuais. Estabelece-se uma dualidade, tendo em vista o que se realiza fora do espaço das redes sociais, e o que é ofertado virtualmente por ela, desenhando uma demanda e, ao mesmo tempo, uma interlocução entre esses dois âmbitos. Os espaços off-line foram caracterizados, em oposição ao espaço on-line, como excludentes, marcados pela possibilidade de não-acolhimento. Contudo, não se excluiu dos espaços dos grupos virtuais os tensionamentos, riscos, disputas e aspectos relacionados a uma violência que ganha forma específica no campo virtual. Quando interpelados a respeito dos possíveis desconfortos vividos dentro dos grupos, as interlocutoras mencionaram a reprodução de estereótipos de gênero, bem como a afirmação de uma legitimidade da performance de gênero, frente à outras menos legítimas, que seriam autorizadas pela conformação às representações estéticas normativas dos corpos, “Alguns grupos viram verdadeiros campos de batalha para ver quem é a mais feminina, a mais bonita, a mais desejada” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO) Essas disputas eram mais presentes nos grupos específicos sobre uso de hormônios e outras tecnologias do corpo, de forma que seu emprego é feito, segundo as interlocutoras, com o intuito de produzir um corpo que seja inteligível a partir da matriz binária de gênero. Nesse sentido, esse corpo se estabelece também como linguagem, uma vez que é nele e através dele que os significados do feminino e do masculino se realizam, conferindo às pessoas suas qualidades sociais. (BENEDETTI, 2005). A constante estilização do corpo, que produz o gênero de acordo com Butler, faz parte dos procedimentos que integram as pessoas à sociabilidade, evidenciando que “todos os corpos são genereficados desde o começo de sua existência social” (SALIH, 2012, pg.89) “O senso comum, preconceitos, estereótipos e a visão machista sobre o que é "mulher e homem" fazem muitas abduzirem esses padrões como forma de autoafirmação de seu gênero” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO) Ainda que algumas dessas violências se configurem a partir do sequestro e reprodução de concepções identitárias normativas, os grupos se mostraram também como espaço vetor de forças contra-identitárias; no emaranhado de fios que compõem a rede dos espaços de sociabilidade virtual emergem tanto figuras mais duras, quanto se elucidam as linhas de força de desmonte, criação e inventividade, “[...], o processo de produção da identidade pode oscilar entre dois movimentos: um que tende a fixar e a estabilizar a identidade, o outro que tende a subvertê-la e a desestabilizá-la” (NUSSBAUMER, 2009, pg.225) Assim, alguns dos pontos de conflito entre os participantes reside justamente no fato destas vivências não-binárias se contraporem aos estereótipos de gênero reproduzidos por alguns participantes. “Muitas pessoas trans não aceitam a existência da transexualidade não- binária nem a ideia de que há pessoas trans que não querem tomar hormônios e fazer cirurgias” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO). As tecnologias de produção de corporalidades, articuladas com aberturas e criação de novas formas de operações linguísticas, como o uso do E no do A e O (ex.: menine), se apresentam nas narrativas das interlocutoras como re-apropriações, investidas de potência, que apontam para rupturas e deslocamentos dentro de um contexto de dissidência de gênero, tendências de estabilização e desestabilização de identidades. Nesse contexto de identificação heterogênea, também situam-se as articulações que se constituem nos espaços dos grupos virtuais, o ingresso na militância surgiu nos relatos de algumas interlocutoras, relacionando o compartilhamento de informações e conhecimentos a respeito dos direitos relativos a população transexual e os impasses no exercício de cidadania à mobilização de participantes a pensar e compor estratégias de reivindicação e fortalecimento coletivo, corroborando com a percepção de que “as pessoas começam a participar mais quando passam a sentir, pensar e agircomo membros efetivos de seu grupo, o que, por solidariedade, estimula-os a desenvolverem uma identidade politizada.” (JESUS & ALVES, 2012) “Eu pude adquirir mais conhecimento sobre pautas da transexualidade, me compreender mais como uma pessoa transexual e saber de todos os meus direitos como membro de uma sociedade” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO) Entretanto, e demonstrando a observação de Jesus & Alves (2012), a mobilização política dos movimentos, principalmente os transfeministas, ainda é restrita a meios acadêmicos, assim como aos movimentos sociais da população transgênero, que têm se articulado principalmente na internet, por meio das redes sociais virtuais, destacando-se a comunidade. “Passei a me sentir menos sozinho, fiz novas amizades, comecei a militar na causa trans e transfeminista e aumentei meus conhecimentos” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO) A movimentação política nos grupos nos chamou atenção por também abrir espaço para a formulação de estratégias para acesso de serviços específicos e realização de demandas que, nos seus encaminhamentos, implicam diálogos entre o âmbito off-line e online das trajetórias das interlocutoras. Assim, a rede composta pelos espaços de sociabilidade virtual, nas suas potencialidades de troca de formação e fluxo de conhecimento, aproxima os sujeitos dos serviços oferecidos pelo SUS constituintes do processo transexualizador, retificação dos documentos e demais questões que aparecem implicadas em algumas experiências. “Muitas pessoas trans acabam não tendo a bagagem necessária para lidar com a sociedade preconceituosa, não conhecem seus direitos, não conhecem os procedimentos para buscar ajuda no SUS e tantos outros direitos e até argumentos para lidar com a própria família” (TRANSEXUAL NÃO BINÁRIO). Por fim, a partir da apresentação dos grupos virtuais e das pistas que seguimos a partir das trocas com as interlocutoras, tocamos em percursos e trajetória intermediados e construídos no inter-jogo dos âmbitos online dos espaços virtuais e a dimensão off-line da vida dos sujeitos. Os relatos que acompanhamos desenharam parte de uma rede complexa, irredutível e virtualmente potente, que nos força a buscar novas formas de experimentação e aproximação. A produção de vínculo, as trocas de experiências e informação, assim como a articulação política em torno da militância e na criação de estratégias para encaminhamento de demandas, nos apresentam um trânsito difícil de apreender, e que responde pelas novas formas de associação e produção de subjetividade contemporânea. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BENEDETTI, Marcos Renato. Toda feita: o corpo e o gênero das travestis. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2005. BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. JESUS, Jaqueline Gomes de; ALVES, Hailey. Feminismo transgênero e movimentos de mulheres transexuais. Revista Cronos, v. 11, n. 2, 2012. LOURO, Guacira Lopes. Teoria queer: uma política pós-identitária para a educação. Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, p. 541-553, 2001. MINAYO, Maria Cecília de S (Org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 31. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2012. NUSSBAUMER, Gisele Marchiori. Identidade e sociabilidade em comunidades virtuais gays. Revista Baoas, n. 2, p. 211-230, 2012. SALIH, Sara. Judith Butler e a Teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. NAMORADA SINISTRA: GÊNERO E CIÚME NO FACEBOOK Unger, Lynna Gabriella Silva¹, ³; Santos, Flaviane Vieira², ³; Oliveira, Francis Fonseca²,³; Santana, Valéria Santos², ³; Santos, Claudiene¹, ², ³ ¹Programa de Pós – Graduação em Psicologia Social, Universidade Federal de Sergipe ²Departamento de Biologia, Universidade Federal de Sergipe ³Grupo de Pesquisa Gênero, Sexualidade e Estudos Culturais/GESEC/CNPq/UFS Resumo Este estudo se insere no campo das discussões dos estudos culturais e de gênero e visa refletir como a mídia (re)produz o ciúme na atualidade. Com a facilidade de acesso e o elevado uso das redes sociais, destacamos o facebook como artefato cultural de amplitude. Com foco nas pedagogias culturais acerca do ciúme, analisamos a página “Namorada Sinistra”. A construção de saberes, permeada por características sociais, culturais, históricas e políticas e a análise desse artefato cultural, apresentam-se aqui como palco de discussões sobre o ciúme e os relacionamentos afetivo-sexuais. Os achados da página nos instigam a redirecionar nossos olhares às redes sociais, a fim de (re)pensar possíveis caminhos para desnaturalizar, (re)construir e disseminar um leque distinto de outros significados alicerçados no respeito e em relações mais igualitárias. Palavras-chave: Ciúme; Gênero; Mídia. Atualmente, estamos sujeitos a imenso volume de informações, que fluem instantaneamente, ensinam formas de ser/estar no mundo e, são transmitidas em distintos meios, com destaque para os de comunicação em massa. Giroux (1995), Steinberg e Kincheloe (2004) evidenciam a ampliação do espaço pedagógico e sua diversidade de espaços culturais, entre eles a mídia. Há pedagogias culturais (STEINBERG; KINCHELOE, 2004) que educam fora do âmbito escolar e difundem ensinamentos e significados. A mídia, é uma pedagogia cultural que põe em circulação, veloz, global e intensamente, significados que ensinam modos de ser aos sujeitos, no que se refere às questões de gênero, sexualidade e relacionamentos na juventude, foco desse trabalho. Inspirados/as nos Estudos Culturais e de Gênero e, em face do acesso elevado das redes sociais por jovens, destacamos o Facebook como artefato cultural, no qual as informações são apreendidas instantaneamente. Para compreender as pedagogias culturais acerca do ciúme, analisamos a página “Namorada Sinistra”, vista como uma matriz que possibilita a (re)significação e (re)produção deste sentimento, tomado como “tempero da relação” ou “prova de amor”. Tais significados reiteram preceitos de uma cultura machista, essencialista e heteronormativa, que incita a comportamentos violentos, que nos impulsionam a um conjunto de problematizações, pela forma como representam a conduta ciumenta de jovens nos relacionamentos afetivos-sexuais, perpassada pela noção de gênero. Juventude, internet e conflitos nos relacionamentos afetivo-sexuais As múltiplas possibilidades das inovações tecnológicas, dentre as quais, a ampla rede de relações sociais virtuais disponíveis, demarcam novas esferas relacionais de jovens, por meio de interações online, rompendo assim barreiras geográficas e temporais. Nesse ethos, surgem novos padrões de ética, ocorre a ruptura de paradigmas, a valorização da estética e do consumo, que levam à lógica das paixões consumistas e efêmeras, cujas repercussões vêm afetando os vínculos afetivo-sexuais (BRUNS; SANTOS, 2006). A utilização dos serviços online para atividades diversificadas, como compras, jogos, pesquisas e relacionamentos, facilitou o intercâmbio entre pessoas e, modificou a forma de ser e de interagir com o mundo. Assim, os fenômenos da globalização e da informatização marcam a sociedade do espetáculo e colaboram com o paradigma do risco e da incerteza, moldando a maneira de expressão das emoções, dos corpos e dos papéis sociais e de gênero (BRUNS; SANTOS, 2006). Paradoxalmente, observam-se avanços e retrocessos na utilização da internet. Se por um lado, permite a propagação de informações, conhecimentos e conexões, não obstante, difundem-se manifestações abusivas, por meio de discursos que reforçam estereótipos preconceituosos, discriminatórios, coercitivos e atitudes de violência (ROCHA, 2010). Buscamos analisar as manifestações de ciúme, que geram em jovens, sentimentos de raiva e ódio, que motivam diversos episódios, significados como “demonstrações de amor”,que podem resultar em situações de violências entre parceiros/as. Ciúme, prova de amor? O ciúme é visto, comumente, como um sentimento característico das relações humanas intra e interpessoais que atravessa o tempo, as culturas e as gerações. O ciúme romântico, exaltado pelos filmes, romances, músicas e pela mídia tem sido alvo da comunidade científica em diferentes áreas, devido à gravidade que se reconhece nas manifestações excessivas motivadas por ele, que (re)produzem reflexos de uma sociedade ainda dominada pela cultura patriarcal (ALMEIDA, 2007). Para Carotenuto (2004), no relacionamento amoroso, cada parceiro/a sente necessidade de controlar o/a outro/a e, o ciúme pode funcionar como justificativa para exercer controle e vigilância, quando não existem outros pretextos plausíveis. A ideia de ciúme como “bem querer” ou “prova de amor” baliza os relacionamentos interpessoais e, é motivo frequente de desentendimento entre os casais, em seus diversos graus e formas de expressão (ALMEIDA, 2007). Consideramos o ciúme como construção social, histórica, política e cultural, reiterada pela mídia e, buscamos desvelar como esse sentimento é retratado na rede social mais utilizada por jovens, Facebook, por meio da página Namorada Sinistra. Enfatizamos o papel da linguagem como (re)produtora de significados (GIROUX, 1995; STEINBERG; KINCHELOE, 2004) O Ciúme no Facebook Com a ferramenta busca do site, com a palavra “ciúme”, realizada em Julho de 2015, foram encontradas 101 páginas que abordam a temática. No geral, essas páginas tem uma quantidade de seguidores/as, que varia de cerca de 3 mil a 1,5 milhões. As páginas são intituladas com frases como: “Ciumenta sim, otária jamais!; Sou ciumenta sim, e daí?; #Ciumentizei; Ciúme é normal”. A Namorada Sinistra (NS) é uma página do Facebook classificada como personagem “fictício”, criada em 2012 e possui mais de 1 milhão de seguidores/as, cujas extensões nas redes sociais são o perfil do Instagram, blog, além de e-mail. Seu foco, assim como a maioria das páginas, são mulheres jovens que estão/estiveram em um relacionamento heteroafetivo, com ênfase na postura ciumenta associada à mulher. Com alta interatividade, a NS e suas internautas discutem formas de rebater as “amigas indesejáveis” de seus parceiros, ou formas de como punir ambos em situações cotidianas. Para isso, além de vídeos e status, a NS propõe o compartilhamento de vivências cotidianas em forma de print ou vídeos feitos pelas próprias seguidoras, em que a NS aconselha e incentiva outros/as internautas a opinarem. A seguir, descrevemos como a página (re)produz os significados sobre o ciúme. Destacamos alguns conteúdos publicados na página entre aspas e itálico ao longo do texto, que abrangem o sentido do todo e, utilizamos nomes fictícios para garantir o sigilo das informações. “Não é ciúme, só cuido do que é meu”: de que ciúme estamos falando? Por meio de imagens, vídeos, status, a NS, simultaneamente com suas internautas, propaga formas de controle sobre o parceiro. O ciúme exposto na página (re)produz variados comportamentos, que evidenciam o sentimento de posse. A objetificação e posse do outro são visíveis na página, como na postagem, que obteve mais de 6 mil curtidas e relata o diálogo de um casal. “Zé: Amor porque tem que ser tudo do seu jeito? Ju: Porque eu mando”. Essa possessividade, uma vez exacerbada, leva o sujeito enciumado a distorções da realidade, que passa a confiar cegamente em suas fantasias, justificando e naturalizando o seu ciúme (BOTTURA, 2003). A incorporação do ciúme possessivo contribui para um ideal imaginário que naturaliza a conduta das namoradas ciumentas como algo “normal”, fomentando a ideia de ciúme como sinônimo de amor. Em uma das postagens, uma seguidora agradece à página por mostrar que ela é “normal”, pois há outras pessoas como ela. Em outra publicação, com mais de 18 mil curtidas e 8 mil compartilhamentos, fica clara a questão da ameaça de um outro indivíduo à relação e, a tradução do ciúme como prova de amor: “Uma namorada ciumenta é uma namorada fiel. Se ela não fica com ciúmes quando alguém tem a sua atenção é porque alguém tem a dela”. Um fato que chama a atenção é que parte dos comentários relacionados a esse post são masculinos, em que discordam da publicação, pontuando que o ciúme é para pessoas inseguras. Essa participação masculina e discordante na página é rara, pois geralmente, quando ocorre, são comentários que reiteram a mensagem compartilhada, em especial, quando são citados pelas namoradas. Nesse contexto, o ciúme propagado pela página, legitima comportamentos e tece papéis de como a mulher e o homem devem ser na relação. O ideal de amor romântico e seus componentes, como o ciúme, a honra, o mito da metade laranja, do amor eterno, fortalece a lógica de complementaridade assimétrica que ambos devem exercer no relacionamento (SILVA; MEDRADO; MELO, 2013). Assim, diante dos riscos, nem sempre reais, que envolvem os relacionamentos, no lugar do amor eterno do passado e, diante da incerteza e da possibilidade do fim do amor, alguns indivíduos buscam no controle e vigilância da parceria uma resposta possível para manutenção da relação (BARONCELLI, 2011). Sujeito do ciúme – papéis de gênero na Namorada Sinistra Ciumenta, possessiva, sinistra, a namorada/mulher - em todo conteúdo da página é a figura que representa o sujeito do ciúme. O próprio nome “sinistra” remete ao estranho, assustador, temível, que é o feminino. Diversas postagens publicadas pela página e cooptadas pelas seguidoras explicitam e reiteram o suposto desequilíbrio feminino diante da raiva, de conflitos, do convívio com outras pessoas além da relação entre o casal, naturalizando-o como se fosse próprio da “essência feminina”, pelo viés do humor (LOURO, 1997) Nesse panorama, em que a desqualificação da mulher impera, o recado está direcionado para as “amigas indesejáveis” de seus namorados. Em seus comentários, as internautas expressam o ódio dirigido às amigas de seus namorados com a hashtag “#facanavadia”. Além de vários comentários, em que, as seguidoras citam seus parceiros com frases do tipo: “Quero ver quem é a vagabunda! Vou cortar o pescoço dela que nem galinha e fazer cabidela com o sangue dela, é servido amor? Parece ser consenso que toda namorada sinistra deve cuidar de seu parceiro. O ciúme, então, é entendido como sinônimo de cautela e amor. Contudo, as ameaças (des)veladas indicam que este sentimento disseminado pode se tornar perigoso: “Sam, todo cuidado do mundo é pouco, te amo. As respostas dos namorados aos comentários, por sua vez, banalizam os comentários de ameaça, às vezes com ironia, mas em sua maioria, os rapazes expõem achar engraçadas as reações das namoradas: “Noossaa kkkk”; - Cortar quem? Que não seja eu!”. O cunho humorístico no discurso dos homens reitera a situação de comodidade do masculino nas relações afetivas, reproduzidas pela NS. Os homens não se implicam como protagonistas dos conflitos, pois além terem uma mulher que briga por ele, brigam com a outra e não com ele. Assim, a página reforça a insegurança e a suposta rivalidade feminina e mantém inalterado o privilegiado lugar de poder masculino na relação. Às mulheres, a página ensina a dependência, o controle, a vigilância, como forma de garantir a estabilidade da relação, em um simulacro de cuidado e atenção. Vejamos comentários de um print entre a NS e uma seguidora: “-Meu namorado não vai ao Rock´n Rio sozinho, na verdade, ele não vai a lugar nenhum sem mim”; “- O meu vai para todo lugar sozinho. Ganhei o troféu de otária do ano!” Essa lógica que predomina e, é difundida pela página, reitera os discursos heteronormativos, machistas e essencialistas, que caracterizam uma natureza hostil e submissa feminina e demarcam o lugar de poder masculino. Além de responsabilizaras atitudes femininas como responsáveis pelo bem estar e segurança da relação, em que a presença de terceiras é o fator desestabilizador. Para Baroncelli (2011) a manifestação de ciúme, sua aceitação social e a própria experiência de ciúme no interior das relações amorosas entre homens e mulheres foi, ao longo do tempo, marcada pelas especificidades de cada contorno sociocultural no que diz respeito à fidelidade. Nos discursos (re)produzidos pela NS é perceptível como a lógica que naturaliza a tolerância da infidelidade masculina, provocada pela outra, é difundida e aceita pelas seguidoras. Tais discursos banalizam as condutas agressivas, motivadas pelo ciúme e dificultam a percepção da violência (CÓRIA, 2007). O ciúme disfarçado de amor contribui para a invisibilização das possíveis tensões e conflitos, intra e interpessoais, geradas em face do ideal de amor romântico, modelo de amor propagado, (re)produzido e compartilhado como próprio das relações afetivo-sexuais. Entre linhas e likes: a violência mascarada Emergem das narrativas sinais de alerta relativos ao ciúme como motivo para a violência perpetrada e silenciada nas relações. Muitas postagens incitam, de forma direta, a conduta violenta como maneira aceitável para resolução de conflitos, nem sempre reais, que poderiam por em risco a estabilidade do relacionamento. A página induz à violência em suas diversas faces: verbal, pelos ataques ofensivos numa discussão; psicológica, pelas chantagens emocionais para obter a atenção do parceiro; patrimonial, ao incitar a quebra de objetos num momento de raiva; física, ao naturalizar as agressões físicas como reações pertinentes durante a contrariedade; simbólica, ao ressaltar a dominação masculina legitimada na relação, como no controle do uso de roupa curta, representado como cuidado. As violências físicas e verbais, frequentemente, estão presentes em relacionamentos marcados pelo ciúme (ALMEIDA, 2007). Atos violentos são mascarados no cotidiano de muitos casais ditos apaixonados, camuflados pelas “provas de amor” e cuidado/posse. Por vezes, é preciso que saltem aos olhos, situações de alta gravidade e consequências drásticas para que se (re)conheça a violência na relação. A crença distorcida de que o ciúme é prova de amor estimula uma cultura da banalização da violência, que reforça a ideia de que por amor tudo é permitido. “Você está formando monstras!” – Algumas considerações sobre o cunho pedagógico da página A guisa de conclusão, a frase que intitula este tópico foi retirada de comentários de um dos posts da página, em que, uma seguidora ao ser questionada pelo parceiro sobre o crescimento de seu ciúme, afirma: “Mas agora aquela página abriu melhor meus olhos e eu sou, e você vai ter que se acostumar com isso”. Tal frase ilustra a pedagogia cultural sobre ciúme que circula na página e, por se tratar de uma rede interativa, as opiniões expostas convocam os/as seguidores/as a se posicionarem diante destes discursos, reiterando-os e disseminando significados a um número incalculável de pessoas, pelos compartilhamentos. Na postagem em destaque, muitas mulheres concordam e apoiam os conceitos veiculados, justificados, principalmente, pelo suposto cunho humorístico. Todavia, algumas pessoas expressam resistências e discordâncias (ainda que em menor número), como pode ser visto aqui: “Você está formando monstras, futuras pessoas sozinhas que pensa que ciúme é excesso de amor”; “Lú, essa página está mexendo com você amor, pode parar”. Os significados compartilhados constroem sentidos e delimitam modos de ser/estar nas relações afetivo-sexuais. A mídia e as diversas instâncias sociais alicerçam os processos de constituição das representações de conceitos como o corpo, relacionamentos, ciúmes, etc. (WORTMANN, 2001). Interpeladxs por essas narrativas, convidamos à reflexão, desnaturalização e ressignificação dos sentidos sobre o ciúme nas relações amorosas. Por um olhar que almeja a construção de relações igualitárias, rompendo com as delimitações de um modelo hierarquizado, machista, heteronormativo e violento que distancia, ao invés de agregar. Referências Bibliográficas ALMEIDA, T. Ciúme romântico e infidelidade amorosa: incidências e relações entre paulistanos. 2007. 234f. Dissertação (Mestrado). Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. BARONCELLI, L. Amor e ciúme na contemporaneidade: reflexões psicossociológicas. Psicol. Soc., v. 23, n. 1, p. 163-170, 2011. BOTTURA JUNIOR, W. Ciúme: entre o amor e a loucura. São Paulo: República Literária, 2003. BRUNS, M. A. T.; SANTOS, C. Diversidades sexuais, corpos e desejos em transformação. Revista da Sociedade de Psicologia do Triângulo Mineiro – SPTM, Uberlândia, v. 10, n. 2, p. 105-108, 2006. CAROTENUTO, A. (Ed.). Amar, Trair: quase uma apologia da traição. São Paulo: Paulus, 2004. CÓRIA, C. (Ed.). El amor no es como nos contaron…ni como lo inventamos. Buenos Aires: Paidós, 2007. FACEBOOK. Namorada Sinistra. Disponível em: <https://www.facebook.com/NamoradaSinistra?ref=br_rs>. Acesso em: 04/07/2015. GIROUX, H. A. Praticando estudos culturais nas faculdades de educação. In: SILVA, T. T. da, (org.). Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais em educação. Rio de Janeiro: Vozes, 1995. p. 85-103. LOURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 2ª. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. ROCHA, T. B. Scr@ps de ódio no Orkut: cyberbullying, contextos e ressonâncias da violência virtual que atinge o professor. 2010. 200f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, 2010. SILVA, T. L.; MEDRADO, B.; MELO, D. S. P. Meninas e meninos adolescentes construindo sentidos para o ciúme em suas relações afetivo-sexuais: violência disfarçada de amor!? In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 10: Desafios atuais dos feminismos. Florianópolis. Anais Eletrônicos..., Florianópolis, 2013, p. 111-119. STEINBERG, S. R.; KINCHELOE, J. L. (orgs.). Cultura infantil: a construção corporativa da infância. 2 ed. Trad. George Japiassú Bricio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. WORTMANN, M. L. C. O uso do termo representação na Educação em Ciências e nos Estudos Culturais. Pro-Posições, v. 12, n. 1, p. 151 – 161, 200l. https://www.facebook.com/NamoradaSinistra?ref=br_rs Espaços e convergências na representação midiática feminina Bueno, Noemi Correa Doutoranda em Comunicação (UNESP – FAAC) Bolsista Capes Marques, José Carlos Professor Doutor da Universidade Estadual Paulista (UNESP – FAAC) Palavras-chave: mulher; mídia; representação. Introdução Após conquistas de diversos direitos para mulheres, os movimentos feministas contemporâneos lidam com novas pautas de reivindicações, como por representações mediáticas adequadas, respeitosas e que exprimam as idiossincrasias e possibilidades de atuações femininas nas diferentes esferas econômica, política, social e cultural. Esta reivindicação é coerente com a suposição de Pierre Bourdieu (2003, p. 08). Segundo o sociólogo francês, as conquistas feministas ainda não alcançaram sua totalidade de transformações almejadas, pois ainda não romperam com o estereótipo realimentado pela representação social e pelo poder simbólico (violência invisível às vítimas e que se exerce pelas vias simbólicas da comunicação). Diante disso, este artigo realizará uma análise bibliográfica a respeito dos conceitos relacionados às representações mediáticas e à nova pauta de reivindicações do movimento feminista relacionada à veiculação adequada da imagem feminina pelos meios de comunicação. Nosso objetivo é comparar os conceitos teóricos a respeito de representações com os discursos feministas sobre o cenário mediático contemporâneo. Metodologia Este trabalho apresentauma revisão bibliográfica sobre representação mediática feminina e pautas de reivindicações de movimentos feministas que lutam por participações femininas nos meios de comunicação. Para tal, a fundamentação teórica é constituída principalmente pelas formulações de Pierre Bourdieu, João Freire Filho, Juan Diaz Bordenave, Eduardo Coutinho e Raquel Paiva. Relacionada a esta fundamentação encontram-se as posições de Rachel Moreno (feminista) e Articulação Mulher e Mídia (reunião de diversas entidades do movimento de mulheres que atua na fiscalização de conteúdos mediáticos a respeito de mulheres). Meios de comunicação, representações sociais e poder Eduardo Coutinho, João Freire Filho e Raquel Paiva (2008, p. 07) apontam que os meios de comunicação consistem em espaços de poder, pois interferem na formação das consciências e conduções sociais. Assim, possuem função importante na “disputa pela hegemonia, na promoção de ideais identitários, na regulação de comportamentos, na administração da memória, na constituição da opinião pública e na formulação de agenciamentos democráticos”. Os meios de comunicação, portanto, podem intervir na forma como a sociedade age, pensa, discute, sente, lembra, convive e resiste, afinal, consistem em instituições com crédito perante à sociedade, uma vez que apresentam o discurso de reproduzir valores, padrões e espaços reais (no caso de programas jornalísticos, de novelas, livros e filmes baseados em história real, programas com viés de utilidade pública, por exemplo). Nestes casos, os meios de comunicação, ao mesmo tempo em que possuem a função de representar situações “reais”, atuam como incentivadoras da formação e perpetuação destas representações veiculadas. Em relação a estas representações, vale ressaltar que os meios não abordam todos os assuntos possíveis, a partir de todos os olhares e possibilidades, pois “não há forma de evitar a reconstrução seletiva da realidade pela simples possibilidade material de abrangê-la em sua totalidade. E mais, as próprias características tecnológicas dos meios de comunicação colaboram para a configuração de um verdadeiro código do meio que traduz a realidade e a transmite” (BORDENAVE, 2002, p.81). Assim, os meios escolhem os assuntos que desejam debater e a maneira como irão abordá-los, deixando fora da pauta assuntos considerados de não interesse. Mesmo havendo esta seletividade, os meios de comunicação imprimem marcas indeléveis no modo como compreendemos o mundo, tanto no nível intelectual quanto sensitivo. Os meios de comunicação, assim como a cultura produzida por eles, forma, nessa perspectiva, um campo autônomo, capaz de representar o social, construir diferentes realidades, criar distintas modalidades de socialização e influenciar e mediar outras esferas da vida social (Henrique Mazetti apud COUTINHO; FREIRE FILHO; PAIVA, 2008, p. 256). Por isso, a discussão das representações mediáticas se torna importante na sociedade contemporânea, pois seu “discurso possui um papel importante na construção de identidades, ao estabelecer sentidos e representações que interferem na construção do cotidiano e na forma como a sociedade configura as relações sociais e a memória” (BUENO, 2010, p. 49). Considerando estes aspectos, movimentos feministas têm inserido em suas pautas de reivindicações a discussão a respeito de adequadas representações de gênero, como pode ser observado a partir das práticas do Instituto Patrícia Galvão, Articulação Mulher e Mídia e a feminista Rachel Moreno (atuante no movimento feminista e integrante do movimento Articulação Mulher e Mídia, que consiste em uma reunião de diferentes entidades do movimento de mulheres do Estado de São Paulo com intuito de debater e atuar em relação à visibilidade feminina nos meios de comunicação). A mulher mediática sob a ótica feminista O Instituto Patrícia Galvão é uma organização fundada com objetivo de atuar em relação ao direito à comunicação e aos direitos das brasileiras. Para a instituição, os meios de comunicação consistem em possibilidades de campos estratégicos de debates a respeito de políticas públicas voltadas à igualdade de gênero. Em 2011, em uma pesquisa realizada juntamente com ANDI – Comunicação e Direitos e a Secretaria de Políticas para Mulheres, no âmbito do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, relatou-se que no jornalismo praticado neste período não houve um aproveitamento das oportunidades vigentes (como a candidatura inédita de duas mulheres para presidência da república) para trazer ao debate público questões de gênero ocultas na sociedade. Diante disso, a pesquisa afirma que o jornalismo analisado é um meio que se volta apenas para a urgência dos fatos, para o relato da notícia, não pensa a realidade em seu todo e em seus aspectos mais complexos, mas reduz a vida em comunidade aos problemas mais cotidianos. Esse tipo de mídia colabora pouco para a formação da opinião pública crítica, capaz de efetivamente cobrar atitudes e soluções do Poder Público (ANDI; INSTITUTO PATRÍCIA GALVÃO, 2011, p. 53). Rachel Moreno aponta que os meios de comunicação possuem o poder de refletir imagens sobre o que se espera e deseja das mulheres na contemporaneidade, e, por isso, o questionamento das imagens femininas veiculadas por estes é importante para a discussão de construção de práticas que promovam a equidade de gênero. Segundo ela, a mídia impõe uma invisibilidade seletiva, pois não divulga as demandas e diversidades das mulheres e não fornece espaço para a exposição de diferentes pontos de vista. As mulheres retratadas seguem o mesmo padrão de beleza (jovens, altas, magras e loiras) e o mesmo padrão de comportamento: são emocionais, ou seja, sentem, acham e choram, mas dificilmente pensam. A reprodução de um padrão estético que é distante da realidade da maioria das mulheres é constante nos meios, independentemente do programa ou formato. Ou seja, o padrão de corpo feminino é o mesmo utilizado na publicidade, jornalismo, programas de auditório, programas infantis, novelas, filmes e programas esportivos (MORENO, 2015, p. 05). Ao estudar os meios de comunicação, a feminista aponta que a mulher retratada na mídia tem que ser casada ou aspirar ao casamento, ter filhos ou aspirar à maternidade, ser ou parecer jovem, ser vaidosa, cuidada. Ser branca, heterossexual, monogâmica, fiel, comportada, decidir mais com emoção do que com a razão, ser sensível e delicada, preocupar-se mais em cuidar dos outros do que com qualquer outra questão, mesmo que trabalhe e tenha grandes responsabilidades profissionais ou políticas (MORENO, 2008, p. 45). Semelhante a essa visão da mulher retratada nos meios, encontramos o posicionamento de Bourdieu a respeito dos papeis femininos considerados “adequados”. Neste sentido, podemos observar uma coerência entre o que “se espera” das mulheres e como estas são representadas pelos meios de comunicação: Delas se espera que sejam ‘femininas’, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas. E a pretensa ‘feminilidade’ muitas vezes não é mais que uma forma de aquiescência em relação às expectativas masculinas, reais ou supostas, principalmente em termos de engrandecimento do ego. Em consequência, a dependência em relação aos outros (e não só aos homens) tende a se tornar constitutiva de seu ser (BOURDIEU, 2003, p. 82). Além disso, esta retratação da mulher é utilizada, majoritariamente, para enfeite de cenários e programas ou para a demonstração da possibilidade de o corpo feminino assumir o papel de brinde, como costuma acontecer em propagandas de cervejas. Vale ainda reforçar que este corpo feminino é explorado por partes e não em sua totalidade (menos ainda na complexidade psicológica e social), ou seja, valorizam- se partes eróticas, reduzindo sujeitos a pedaçosde carne, o que, de acordo com Rachel Moreno, afeta negativamente a autoestima, a saúde e a rotina da mulher brasileira. Essa sub-representação feminina facilita a consagração deste modelo de mulher mediática, em detrimento de outras formas possíveis. Conforme Foucault (apud MORENO, 2008, p. 31), a reprodução destas imagens socialmente valorizadas consiste em uma maneira sutil, mas eficiente de controle social, pois ao serem envolvidas por um discurso de veracidade, constroem práticas, verdades e subjetividades que reprimem modelos diferentes dos padrões mediáticos. Diante disso, Rachel Moreno sublinha a reivindicação dos movimentos feministas a respeito da veiculação pelos meios dos problemas e pautas dos movimentos de mulheres (como por exemplo, equidade salarial, extinção da violência contra mulheres, entre outros), representações femininas adequadas que respeitem a diversidade ético-social-etária da mulher brasileira e visibilidade dos movimentos feministas (que quando aparecem são representados de maneira minimizada, criminalizada ou ridicularizada). Por sua vez, o Instituto Patrícia Galvão considera principalmente a importância do jornalismo, por isso, atua de maneira reivindicar que a imprensa cumpra sua função na esfera pública, a partir de contemplação de direitos femininos. Ou seja, procura contribuir para qualificação de coberturas jornalísticas a respeito de questões femininas com o intuito de fomentar a promoção de notícias que incentivem o debate e mudanças de gênero (AGÊNCIA PATRÍCIA GALVÃO, 2015). Considerações finais Ao abordar a dominação masculina, Pierre Bourdieu (2003) ressalva a importância dos meios de comunicação nas representações de gênero e como estas instituições atuam na perpetuação de valores androcêntricos. Paralelo a isto, Rachel Moreno (2008) e Articulação Mulher e Mídia criticam o papel feminino explorado pelos meios de comunicação, apontando que há um apelo erótico que privilegia atributos físicos e ignora outras possibilidades de papeis reduzindo a figura feminina aos campos da sedução. A partir disto, grupos feministas contestam as representações mediáticas, alegando que as participações femininas nos meios em seu formato contemporâneo não condizem com a realidade da mulher brasileira e colaboram para formação de estereótipos de gênero. Os meios de comunicação retratam a condição da mulher na sociedade, portanto, discutir a imagem da mulher nestes meios é discutir a imagem e papel femininos, o que afeta as mulheres e seu cotidiano. Além disso, os meios são importantes ferramentas de veiculação e perpetuação de representações sociais, por isso, é fundamental que a imagem feminina demonstrada por estes seja uma imagem coerente com os valores igualitários, que não minimizem as possibilidades de atuações femininas, mas que alcancem toda a complexidade de papeis, posições e diversidades das mulheres brasileiras (não se restringindo aos papeis subalternos, domésticos ou decorativos, representados por apenas um modelo padrão feminino). Referências AGÊNCIA PATRÍCIA GALVÃO. Quem somos. Disponível em: http://www.patriciagalvao.org.br/. Acesso em: 02 out 2015. ANDI; INSTITUTO PATRÍCIA GALVÃO. Imprensa e agenda de direitos das mulheres: uma análise das tendências da cobertura jornalística. Disponível em: http://agenciapatriciagalvao.org.br/wp-content/uploads/2011/12/imprensa-e-agenda-dos- direitos-das-mulheres-2011.pdf. Acesso em: 02 out 2015. BORDENAVE, Juan Diaz. Além dos meios e mensagens. Petrópolis: Vozes, 2002. BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. BUENO, Noemi Correa. Jornalismo impresso e relações de gênero: enquadramentos da Folha de S. Paulo e d'O Estado de S. Paulo de um caso de hostilização a uma estudante. Dissertação de mestrado, FAAC/UNESP, 2010. COUTINHO, Eduardo G.; FREIRE FILHO, João; PAIVA, Raquel. Mídia e poder: ideologia, discurso e subjetividade. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008. MORENO, Rachel. Mulheres pela democratização da comunicação. Disponível em: http://soscorpo.org/wp- content/uploads/DemocratizacaodaComunica%C3%A7%C3%A3o_e_DireitosdasMulhe res_RachelMoreno_SOSCorpo_CadernosdeCriticaFeministaAnoIXN8_2015.pdf. Acesso em: 15 out 2015. ______. A beleza impossível. São Paulo: Ágora, 2008. NARRATIVAS TRANSVIADAS: REPORTAGENS EM LIVROS SOBRE GÊNEROS E SEXUALIDADES DISSIDENTES GONÇALVES, GEAN OLIVEIRA Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA - USP) Resumo: O presente texto sintetiza a pesquisa de mestrado em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da ECA-USP que aborda os modos como se conduz o panorama da diversidade de corpos, identidades de gêneros e expressões das sexualidades nas narrativas da contemporaneidade. Para isto, é proposta uma análise queer de livros-reportagens sobre pessoas LGBT como meio para compreensão do jornalismo e de demais práticas midiáticas que se lançam à tarefa complexa da dialogia da solidariedade. Palavras-chave: narrativas da contemporaneidade; Teoria Queer; epistemologia do jornalismo. Introdução O desafio da construção de uma sociedade solidária implica na compreensão e no conhecimento dos dilemas enfrentados pelos grupos sociais historicamente vitimados, fragilizados e vulneráveis em relações constituídas como assimétricas. Hegemonicamente, as ciências médicas e as ciências analíticas (psicanálise e a psicologia social), bem como sua intersecção – a sexologia, adotaram a prerrogativa de falar e produzir conhecimento a cerca dos campos de Gênero e Sexualidade. No entanto, a Antropologia e as Ciências Sociais vêm conduzindo um movimento de desnaturalização do que é ser mulher e do que é ser homem, bem como das práticas condicionantes de sexo, prazer e desejo. Nesse sentido, é mais do que eminente o desafio de refletir sobre gênero e sexualidade junto ao campo da Comunicação. O campo do agir comunicacional abarca a diversidade de trocas de signos representativos, interpretativos e afetivos, de forma a registrar e organizar os fenômenos do mundo. É responsável pela descoberta e pela promoção de uma ética da compreensão entre atores sociais e saberes plurais. Assim como pela produção de vínculos, de uma comunhão. Não raras vezes, tanto os estudos comunicacionais quanto os estudos de gênero e sexualidade foram vistos como campos subalternos do saber. Áreas vistas como “particularistas”, “irrelevantes”, “impertinentes” ou “menores”. Tal hiato em pesquisas nesses campos vem sendo desmontado por meio de práticas de pesquisa e mobilização nas últimas décadas que apontam a ilusão de neutralidade do campo científico e o potencial investigativo desses objetos. Com o objetivo de não só refletir sobre a problemática da visibilidade e qualidade representativa das pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) nas esferas midiáticas, o presente estudo surgiu com a meta de elaborar uma análise sobre a produção de conhecimento sobre gênero e sexualidade nas narrativas da contemporaneidade. Por narrativas contemporâneas se entende a produção discursiva sobre o saber da contemporaneidade, visto que é no processo de formulação de histórias e narrativas - na encenação das notícias, reportagens e demais mensagens comunicacionais - que se pode revelar e avaliar os mecanismos de produção das diferenças no âmbito da Comunicação Social. Pelo desejo e pelo poder, revestidos da vontade de verdade, os discursos jornalísticos tornam se expressões máximas do que é verdadeiro; e é com eles, vale dizer, que construímos os nossos modos de compreender e ver o mundo, visões que tecem nossa percepção do outro e nossa maneira de lidar com o diferente ou o semelhante (REZENDE, 2009, p. 4). O lugar onde se tece sobre a vida do(s) outro(s) é um espaço de privilégiocomunicacional. Questão que se complexifica quando se põe em paralelo as denúncias dos estudos epistemológicos das Ciências da Comunicação de que à luz das práticas das narrativas, em escritura ou audiovisual, a perspectiva dialógica foi reduzida a uma dimensão iluminista e racionalista, como se o mundo estivesse aí para ser alvo da explicação objetiva e científica. Na Era da Informação, após um aprofundamento da produção global de informações e dos avanços tecnológicos, há muito se faz notar a sensação de que o conteúdo comunicacional tornou-se mercadoria que fragmenta e mutila o saber, isto é, quanto mais se produz informação, menos as pessoas se sentem inseridas em redes de compreensão, mas em esferas de incomunicação. “[...] a compreensão reforça a dialogia, a não-arrogância e a não-violência, esses sentimentos e práticas inscritos numa epistemologia que não se contenta em se dizer e praticar complexa: quer ser, também, intelectual e humanamente compreensiva”. (KUNSCH, 2006, p.9). Forma-se um arsenal de veículos de comunicação, mergulhados em lacunas e fragilidades, altamente capazes de ir atrás de informações e de difundi-las, mas muito pouco conectados a missão da cumplicidade, de aprofundar e costurar as informações em uma narrativa afetiva e complexa. Dessa forma, o detentor da autoria por meio das mídias acaba sendo um eu que deslegitima o outro. De alguém que se diz conhecedor de uma realidade, após execução dos procedimentos e técnicas de mediação, o que se vê como produto é algo sedutor, mas que no âmbito de apresentação das diferenças, configura-se como uma narrativa reduzida e pouco atenta à polissemia que reveste a vida. Trata-se de um sintoma do déficit de abrangência do autor das narrativas da contemporaneidade (MEDINA, 2008). Para Medina (2003) é necessário expandir três virtualidades – intuição afetiva/razão complexa/ação solidária. Ela aponta que o exercício da narrativa e da autoria carrega consigo dificuldades racionais, intuitivas e operacionais. Porém, o que se capta é o não exercício do signo da relação (MEDINA, 2006), da cumplicidade dialógica. Compreender, lembra Edgar Morin (2000), “inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e de projeção. Sempre intersubjetiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade”. Dada a importância da experiência sensível do contato com o mundo vivo, estariam as narrativas da contemporaneidade que abordam gênero e sexualidade também em volta a uma hipertrofia racionalizante? As obras e autorias coletivas das LGBT estão se constituindo em pedagogias para se explicar, com objetividade, simplesmente o fenômeno das diversidades de gênero e sexualidade? Ao invés de se conectar as ideias complexas, tais pedagogias contemporâneas são uma nova parcela dispersa de saber e comunicação afogada em certezas? Reportar o queer Como pudemos perceber a prática da mediação e da midiatização pressupõe uma moldura teórica que envolve uma significação narrativa: quem são e quais são as ações dos protagonistas sociais, seus contexto, relações de poder e negociação a partir dos lugares ocupados em sua teia social. Há narrares com intuito meramente informativo e explicativo do mundo e caminhos afetivos e de cumplicidade na produção midiática. A questão da representação dos dissidentes de gênero e sexualidade vem se apresentando como um tema central na contemporaneidade. Reportar o queer implica mediar o protagonismo e mobilização de um grupo social que possibilitou redefinições sobre os conceitos culturais de gênero e sexualidade, uma vez que a construção binária do ser masculino e do ser feminino foi dissociada da economia da reprodução. A atuação política das LGBT marca o nascimento de políticas de identidade como movimentação contemporânea para a promoção de direitos e da dignidade da pessoa humana com base na denúncia de sistemas de produção social da discriminação e opressão que operam a partir da classificação, hierarquização e diferenciação étnica, sexual, de gênero, econômica e linguística. Quando se fala em queer, termo do inglês, não se trata da iniciativa de retomar um termo identitário “da moda” que engloba as multidões de gêneros e sexualidades, que politicamente são lidos como LGBT; é um modo de se falar em subversão. Diz respeito ao debate lançado por teóricos e militantes gays, lésbicos, bissexuais e transgêneros sobre a constituição da categoria de performances sexuais e de gênero como primeiro passo para legitimar todo um contingente de pessoas que não se contemplam em normas de gênero e sexualidade. Um projeto epistemológico que questiona a cultura e os significados histórico-sociais de deter um corpo que é reconhecido como performativo do diferente (“estranho”, “dissidente”, “anormal” ou “abjeto”), que impede o domínio heteronormativo. De acordo com Guacira Lopes Louro (2008), há instâncias e espaços sociais com o poder de inscrever em nossos corpos marcas e normas. De forma sutil, a construção de aprendizagens e práticas dos gêneros e das sexualidades se dá por potentes pedagogias contemporâneas, entre elas, é possível destacar o papel de sedução e orientação informativa das narrativas da contemporaneidade: telenovelas, anúncios publicitários, jornais, revistas, filmes, programas de TV, sites e blogs da internet. Nestas esferas, muitas vezes, se dá a pedagogia da heterossexualidade enquanto sistema biopolítico (lógica de gênero binário e de desejo sexual pré-determinado pelo sexo oposto), que por consequência, atuam como definidores dos sujeitos e corpos enquadrados nos valores sócio-morais hegemônicos. [...] os movimentos sociais organizados (dentre eles o movimento feminista e os das “minorias” sexuais) compreenderam, desde logo, que o acesso e o controle dos espaços culturais, como a mídia, o cinema, a televisão, os jornais, os currículos das escolas e universidades, eram fundamentais. A voz que ali se fizera ouvir, até então, havia sido a do homem branco heterossexual. Ao longo da história, essa voz falara de um modo quase incontestável. Construíra representações sociais que tiveram importantes efeitos de verdade sobre todos os demais. (LOURO, 2008, p. 20) Uma vez que os profissionais de comunicação – em especial, os jornalistas – podem moldar culturalmente o respeito à diversidade humana, já que exercem um papel fundamental de promoção da compreensão sobre os dilemas que envolvem o reconhecimento dos gêneros e sexualidades como componentes de uma multiplicidade e riqueza da diversidade humana. Em suma, teorizar sobre a reportagem que aborda gênero e sexualidade é pensar em narrativas queer ou transviadas. É olhar para narrativas como contradiscursos que irão propor uma nova interpretação para o sistema corpo-sexualidade-gênero. É entrar em disputa com saberes instituídos em torno das sexualidades, gêneros e outros marcadores sociais da diferença (BRAH, 2006). É descobrir possíveis ferramentas para invadir e desnaturalizar as áreas do saber tidas como as verdadeiras porta-vozes. Narrativas Transviadas A pesquisadora e jornalista Cremilda Medina (2008) compreende a reportagem-ensaio como principal expressão das narrativas da contemporaneidade, espaço de possível captação dos caminhos e descaminhos da complexidade nas práticas narrativas. No âmbito da Escola de Comunicações e Artes da USP, a pesquisa de mestrado “Narrativas Transviadas” se lança ao desafio de observar a produção simbólica de cunho social realizada por jornalistas que ambicionam uma narrativa plural e complexificadora dos laços humanos. Para isto, a pesquisa realizará uma leitura cultural de três livros-reportagem: - “Muito Prazer - Vozes da Diversidade”, de Karla Lima, edição da autora, 2013; Sinopse: Como era assumir-se lésbica no Brasil da ditadura? Como é ser lésbica em 2013? Quanto havia de culpa e leveza e em que proporçõesse misturam, hoje, vergonha e tranquilidade? Como as mães reagiam à homossexualidade das filhas nas décadas de 1980 e 90? A maternidade lésbica é diferente da heterossexual? O que pensam os filhos de mães homossexuais? A jovem que sai do armário na escola ou faculdade sofre perseguição, quem se assume no trabalho perde promoções? Como reagem as adolescentes quando seu líder religioso afirma que amar uma moça é errado? O que pensam aquelas que se apaixonaram por outra mulher já na maturidade? Este livro não oferece uma resposta definitiva a nenhuma dessas questões. - “Entre A Cruz e o Arco-Íris”, de Marília de Camargo César, Editora Gutenberg, 2013; Sinopse: Como alguém que é homossexual pode expressar sua fé cristã publicamente? Seria esse um direito negado a quem não é heterossexual? É a homoafetividade um pecado sem perdão, e que exclui da religião todos os que são assim? Existiria “cura”? Como as igrejas tratam os gays? De questionamentos como esses nasceu este livro, uma reportagem contundente e abrangente sobre a complexa relação entre os cristãos, especialmente os evangélicos, e a homossexualidade. Em um tom jornalístico fluido e investigativo, a jornalista Marília de Camargo César traz à tona fatos e informações a partir de pesquisas sólidas em fontes históricas, nas quais procura a origem do pensamento de exclusão social e religiosa dos homossexuais pelos cristãos. Além disso, evidencia sentimentos e opiniões sobre o tema por meio de dezenas de entrevistas com religiosos, pastores, gays, ex-gays, ex-ex-gays, familiares, historiadores, teólogos, psicólogos, sociólogos e especialistas da área médica e das ciências humanas. O resultado é um mosaico de histórias profundamente humanas, que mostram, além de argumentos e discussões em torno de questões polêmicas, muitos conflitos e atitudes causadoras de sofrimento. É a riqueza de pontos de vista, no entanto, que lança mais luz à questão: leituras fundamentalistas do livro sagrado, leituras mais liberais da chamada teologia inclusiva, relatos de gays ateus, posturas dos que optaram pela castidade para professar sua religião e opiniões de quem entende que fé tem pouco a ver com orientação sexual. A dúvida que pode emergir de uma discussão assim talvez consiga romper a casca rígida das certezas cristalizadas e definitivas e origine uma nova visão de mundo com menos dor e mais humanidade. - “O Nascimento de Joicy”, de Fabiana Moraes, Arquipélago Editorial, 2015. Sinopse: Neste livro arrebatador, a jornalista Fabiana Moraes conta a história da transexual Joicy, ex-agricultora que procura o serviço público de saúde para adequar seu corpo masculino ao feminino que deseja para si. Também escreve sobre os bastidores da reportagem, vencedora do Prêmio Esso, e expõe a complicada relação com sua personagem, além de apresentar um ensaio no qual defende um jornalismo mais subjetivo. Em conjunto com entrevistas dialógicas com as autoras, as tendências dessas reportagens serão lidas pelo protagonismo (perfis, histórias de vida), contextos sociais, raízes histórico-culturais e diagnósticos-prognósticos das fontes especializadas, conforme ilustra a proposta de Cremilda Medina, em "A Arte de tecer o presente" (2003), para um jornalismo que promova o signo da relação. Com tal proposta plurimetodológica, espera-se alcançar uma avaliação do como se dá a perspectiva de geração de informação, diagnóstico e conhecimento sobre corpos transviados das normas condicionantes de gênero e sexualidade em obras que se propõem a ampliação da reportagem, do exercício do jornalismo e da comunicação. Trata-se, portanto, de por em questão os enquadramentos hegemônicos feitos por boa parte das práticas jornalísticas e comunicacionais e possibilitar caminhos para a transgressão, a perturbação, a intuição criativa e a transformação. Uma comunicação que incita novas questões, novos diálogos. Que se quer libertadora e transformadora para as pessoas LGBT. Bibliografia BRAH, Avtar. Diferença, diversidade, diferenciação. Campinas: cadernos pagu (26), jan-jun. 2006, p. 329-376. BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. GONÇALVES, Gean. Narrativas Queer no Jornalismo: o desafio da complexidade e das compreensões sobre gêneros e sexualidades. Rio de Janeiro: XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom, 2015. Disponível em: <http://portalintercom.org.br/anais/nacional2015/resumos/R10-0754-1.pdf>. Acesso em 30 out. 2015. KÜNSCH, Dimas. Comunicação, Conhecimento e Compreensão. Brasília: VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa em Comunicação – INTERCOM, 2006. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R1091-1.pdf>. Acesso em 30 out. 2015. LOURO, Guacira. Gênero e Sexualidade: pedagogias contemporâneas. Pro-Posições, v. 19, n. 2 (56) - maio/ago. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf>. Acesso em 30 out. 2015. MEDINA, Cremilda. A Arte de Tecer o Presente, Narrativa e Cotidiano. São Paulo: Summus, 2003. MEDINA, Cremilda. Deficit de abrangência nas narrativas da contemporaneidade. Revista Matrizes, ano 2, nº1, p. 77-96, São Paulo: USP, 2008. MEDINA, Cremilda. Jornalismo e a epistemologia da complexidade. Novo Pacto da Ciência 1, ECA, 1992. MEDINA, Cremilda. O signo da relação: comunicação e pedagogia dos afetos. São Paulo: Paulus, 2006. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2ª edição. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2000. REZENDE, Fernando. A narratividade do discurso jornalístico – A questão do outro. Revista Rumores, v. 3, n 1. São Paulo: USP, 2009. Ambientes Digitais e relações de gênero – Uma análise do Museu da Pessoa Landim, Laís Alpi. Departamento de Ciência da Informação UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília. Resumo Neste trabalho, nos propomos a refletir a questão da representação das mulheres no ambiente digital do Museu da Pessoa a partir da categoria gênero, ou seja, problematizando as relações entre as construções sociais do masculino e do feminino neste ambiente. O Museu da Pessoa é um museu virtual onde qualquer pessoa pode registrar sua própria história de vida e ser curadora de sua própria coleção, caracterizando-se assim como ambiente digital colaborativo. No acervo do Museu, destacam-se coleções onde as mulheres são protagonistas, tanto dos itens de acervo quanto de coleções que tratam especificamente de mulheres. A História é composta de narrativas e, muitas vezes, o poder de produção e registro dessas narrativas se concentra nas mãos de poucos, constituindo o que conhecemos por História Oficial. Porém, cada grupo social pode ser produtor e difusor de sua história, e isso é de suma importância para a construção de uma sociedade com menos desigualdades e injustiças. Como ainda constatamos, socialmente, desigualdades de gênero em diversos aspectos, inclusive com relação à representatividade das mulheres na História e nos museus, nos colocamos as seguintes questões: Será o Museu da Pessoa um espaço que contribui para a diminuição dessas desigualdades, enquanto aberto às mulheres para a expressão de sua própria história? Como as mulheres estão se apropriando deste ambiente digital para escrever sua própria história? Como estas narrativas estão sendo produzidas, organizadas e disponibilizadas? Assim, realizamos uma pesquisa bibliográfica à luz de obras das áreas da Ciência da Informação, da Museologia Social, das Ciências Sociais e do Design da Informação para melhor compreender o que dizem diversos autores com relação ao tema e realizamos uma pesquisa exploratória no ambiente digital do Museu da Pessoa no intuito de melhor compreender os problemas levantados. Palavras-chave: informação e tecnologia, ambientes digitais, museu da pessoa. INTRODUÇÃOO Museu da Pessoa é um museu digital e colaborativo que nasceu em 1991, em São Paulo, e se caracteriza por permitir que qualquer pessoa conte suas histórias de vida, que são registradas, preservadas e transformadas em informação pelo Museu. Seu acervo conta com depoimentos em áudio, vídeo e texto, além de fotos e documentos digitalizados, alguns dos quais estão organizados em coleções temáticas. (MUSEU...). De acordo com sua página de apresentação, o Museu acredita ser importante a valorização da diversidade cultural e da história das pessoas para contribuir para a “construção de uma cultura de paz” e sua missão principal é ser um Museu “aberto e colaborativo que transforme as histórias de vida de toda e qualquer pessoa em fonte de conhecimento, compreensão e conexão entre pessoas e povos”. (MUSEU...). Nas coleções e depoimentos disponíveis no site, encontram-se alguns em que as mulheres são protagonistas, tanto dos itens de acervo quanto de coleções que tratam especificamente de experiências sociais femininas. A História é composta de narrativas e, muitas vezes, o poder de produção e registro dessas narrativas se concentra nas mãos de poucos, constituindo o que conhecemos por História Oficial. Porém, cada grupo social pode ser produtor e difusor de sua história, e isso é de suma importância para a construção de uma sociedade com menos desigualdades e injustiças. Por isso, a presença de tais coleções despertou a curiosidade em analisar se o Museu da Pessoa é um espaço que contribui para a diminuição das desigualdades de gênero quanto à representação das mulheres em museus e na História, já que é aberto a elas para a expressão de suas próprias histórias; e se contribui, dessa forma, a promover uma sociedade com menos desigualdades de gênero, pois sabemos que as mulheres têm sido, ao longo da história, excluídas de diversos ambientes e contextos sociais, inclusive dos museus. Além disso, procuramos compreender como as mulheres estão se apropriando deste ambiente digital para escrever sua própria história e como estas narrativas estão sendo produzidas, organizadas e disponibilizadas. Para realizar esta análise, nos baseamos em uma área da Museologia chamada de Museologia Social, que, de acordo com Aida Rechena (2014, p. 155), "define-se como uma vertente da museologia que considera o museu como uma instituição dinâmica e comprometida com a sociedade" e tem como linhas de força as expressões "função social dos museus, responsabilidade social, acessibilidade, igualdade". Dessa forma, a partir da museologia social, analisamos os museus como instituições vivas que devem ter um comprometimento com a sociedade no sentido de contribuir com a diminuição de suas desigualdades. Rechena (2014) defende, dentro da museologia social, a integração de uma perspectiva de gênero, pois esta permitiria perceber como se reproduzem relações de gênero na sociedade, que se traduzem nas suas relações de poder mais básicas. Assim, para a autora, uma museologia social com uma perspectiva de gênero constitui-se numa ferramenta de análise "que possibilita tornar claras as hierarquias, as relações de dominação e as desigualdades sociais entre mulheres e homens", podendo atuar "no sentido de valorizar a participação e contribuição das mulheres na sociedade, realçar a produção cultural das mulheres, [e] analisar os bens patrimoniais existentes nos museus à luz das relações de gênero". (RECHENA, 2014, p. 155) O conceito de gênero é bastante amplo. Ele começa a ser introduzido como categoria de análise social focando nas diferenças entre homens e mulheres quanto ao seu posicionamento na organização social. Porém, com o tempo, o conceito foi se ampliando para o campo das sexualidades, tratando também das diversas formas de expressão da sexualidade, indo além da divisão binária homem-mulher. De acordo com Miriam Grossi, em linhas gerais, gênero é uma categoria usada para pensar as relações sociais que envolvem homens e mulheres, relações historicamente determinadas e expressas pelos diferentes discursos sociais sobre a diferença sexual. Gênero serve, portanto, para determinar tudo que é social, cultural e historicamente determinado. (GROSSI, 1998, p. 05-06) Adotamos esta definição da categoria gênero, porém reconhecemos que se trata de um conceito em constante modificação, posto que as relações de gênero na sociedade estão constantemente se transformando. Como afirma Miriam Grossi (1998, p.06), “[...] o gênero está sendo, todo o tempo, ressignificado pelas interações concretas entre indivíduos do sexo masculino e feminino. Por isso, diz-se que o gênero é mutável.” É importante também diferenciar os conceitos de sexo, gênero, identidade de gênero e sexualidade, que muitas vezes são usados como sinônimos ou confundidos, mas que não possuem o mesmo significado. Para esclarecer esta diferença, recorremos ainda às reflexões de Miriam Grossi, que afirma que: sexo é uma categoria que ilustra a diferença biológica entre homens e mulheres; que gênero é um conceito que remete à construção cultural coletiva dos atributos de masculinidade e feminilidade (que nomeamos de papéis sexuais); que identidade de gênero é uma categoria pertinente para pensar o lugar do indivíduo no interior de uma cultura determinada e que sexualidade é um conceito contemporâneo para se referir ao campo das práticas e sentimentos ligados à atividade sexual dos indivíduos. (GROSSI, 1998, p. 12) Para fins de análise, quando falamos em mulheres em museus e na história, nos referimos à identidade de gênero das pessoas que se encontram nestes âmbitos. Integramos, assim, à ideia de "mulheres", a pluralidade de suas características, tendo em vista a existência de uma diversidade de "feminilidades", ou seja, diferentes formas de expressão feminina independentes do sexo biológico com que se nasce, da idade, sexualidade, classe social e das etnias às quais possam pertencer. METODOLOGIA Para isso, seguimos uma metodologia de pesquisa exploratória. Para Antônio Carlos Gil, (1999, p. 43), as pesquisas exploratórias “têm como principal finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores” e “envolvem levantamento bibliográfico e documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso”. Dessa forma, realizamos uma pesquisa bibliográfica nas áreas da Ciência da Informação, da Museologia Social, das Ciências Sociais e do Design da Informação para melhor compreender o que dizem diversos autores com relação ao tema e realizamos uma pesquisa exploratória no ambiente digital do Museu da Pessoa no intuito de melhor compreender os problemas levantados. Recorremos também a elementos de análise advindos do Design da Informação que, para Horn (1999, n.p., tradução nossa), se define como “a arte e a ciência de preparar a informação para que ela possa ser usada por seres humanos com eficiência e eficácia.” Como escreveu Joaquim Redig (2004, p. 66), não há cidadania sem informação, e não há informação sem design. Na área da Ciência da Informação, uma de nossas maiores preocupações é que a informação cumpra sua função social e seu potencial de gerar conhecimento. Para isso, ela deve ser gerenciada para que sua recuperação seja eficiente, mas também precisa estar adequada, em termos de design, para que ela se realize em seu potencial e, consequentemente, contribua para um exercício de cidadania mais autônoma por parte dos sujeitos que com ela interagem. CONCLUSÃO A página inicial do Museu da Pessoa (MUSEU...) apresentava, no dia 25 de outubro de 2015, na parte superior, um banner com os destaques do museu, referentes a coleções, projetos realizados e publicações recentes; logo abaixo, encontra-se o “Vídeo do Dia”, com alguns destaques ao lado, e, naparte inferior, uma área onde apresenta duas sessões, a “Histórias” e a “Coleções”. Além disso, conta com uma área para buscas, os links “Conte sua História” e “Monte sua Coleção”, entre outros elementos comuns em ambientes digitais cuja análise não é relevante no momento. Dentre as 6774 histórias disponíveis no Museu encontra-se a de Maria da Paz, intitulada “Ele era um homem muito agressivo”. Ela traz um trecho do depoimento de Maria em vídeo, produzido pelo Museu da Pessoa (2014a), em que ela relata como conheceu o pai dos filhos mais velhos, quando estava para fazer doze anos e com quem teve oito filhos. Nas palavras de Maria: “Acho que eu me ajuntei a ele por medo, não foi por amor, por gostar. Foi só pelas ameaças. Dizia que se eu não o quisesse ele me matava, que faria isso e aquilo. Eu tinha medo e me ajuntei com ele.” Ela relata ainda que não teve oportunidade de brincar na infância e que passou muita coisa ruim com ele, principalmente quando ele bebia. Na mesma página, é possível ler a sinopse da história de Maria, o texto completo baseado em seu depoimento, e fazer o download da entrevista completa que o gerou, disponibilizado em PDF, além de quatro fotos de seu acervo pessoal. (MUSEU..., 2014a) Na história, Maria conta como foi sua infância, quando “as coisas eram muito difíceis porque a pessoa trabalhava mas o dinheiro que ganhava não dava para comprar o necessário para se alimentar” e o que a levou a se separar do primeiro marido: “Além de me bater, ele arranjou outras mulheres. Eu decidi que eu não queria mais viver com ele, que não aceitou, pois não queria que eu fosse embora de Fortaleza. Ele ficava sempre perturbando.” Em seguida, ela conta como mudou de cidade por conta da construção de uma siderúrgica, que causou desapropriações, e conheceu seu novo companheiro, com quem vive até hoje. Ela relata também como eram seus partos, os primeiros em casa, quando alguns dos filhos nasceram mortos, e como ajudou outra mulher a ter seu filho. A história da Maria expressa diversas questões relacionadas às desigualdades de gênero existentes em nossa sociedade. Uma delas é a violência contra a mulher, que, segundo o IBGE (2012), teve 47.555 registros de atendimento na Central de Atendimento à Mulher em 2012, no Brasil. A presença dessa história no acervo do Museu parece relevante pois traz um potencial de gerar reflexão e conhecimento sobre este grave problema social ainda não superado no Brasil. Porém, não há nenhum comentário na página. Quando seguimos o link para o vídeo no Youtube, constam 140 visualizações, um número baixo em comparação com outros vídeos, e nenhum comentário desde sua publicação, em outubro de 2014. Além das histórias, o Museu da Pessoa disponibiliza também coleções temáticas, onde histórias produzidas com temas similares são reunidas num mesmo grupo de depoimentos em vídeo, texto ou imagens. Umas das 99 coleções disponíveis se denomina “TransHistórias” e traz histórias de mulheres travestis e transexuais apoiadas por um programa não governamental chamado “SOS Dignidade”. Segundo a própria descrição encontrada no site, a iniciativa “tem como objetivo resgatar a memória e a dignidade de indivíduos vítimas de tráfico humano, exploração, violência, DST/HIV/AIDS e discriminação, que têm seus direitos humanos, civis e políticos fundamentais expropriados”, além de transformar essas histórias em acervo “contribuindo para que o preconceito seja cada vez mais banido do dia a dia e reiterando que todos têm uma história para contar e são importantes na construção da memória de uma sociedade” (MUSEU..., 2014b) Uma das histórias que fazem parte da coleção é a de Heloísa, denominada “Aprendendo com a vida”, que conta com um vídeo, um texto e a entrevista completa disponível para download. No vídeo, Heloisa narra a situação que passou quando um cliente que se mostrou interessado em seus serviços a convenceu a ir para um lugar distante e isolado, num dia frio e chuvoso, onde acabou abandonando-a. Ela também menciona a exploração e violência que sofreu na casa da cafetina onde morava, que, neste dia, não acreditou em sua história, fazendo-a vítima de mais violência física: “Cheguei, contei que eu fui assaltada, ela não acreditou, me bateu, puxou meu cabelo, me chutou, foi isso.” (MUSEU..., 2014b) Na entrevista completa, conhecemos outros aspectos da vida de Heloísa, como sua infância, adolescência, como se mudou de Rondônia para São Paulo e que não há a possibilidade de trabalhar de forma independente, sem a intervenção de cafetões e cafetinas, pois seria muito perigoso. Heloísa relata também violências sofridas por parte de policiais, o principal motivo pelo qual foi para a cadeia algumas vezes, e a difícil situação que vivenciou lá, desde a humilhação de ficar nua entre homens até a ameaça de ser violentada e do corte forçado de seus longos cabelos. O depoimento de Heloísa expõe questões sociais relevantes como a prostituição, a violência de gênero, física e psicológica, entre outras. É um material que possui um potencial de gerar discussão, reflexão e conhecimento por seu conteúdo enriquecedor, que fornece elementos para inúmeras discussões relacionadas aos elementos ali contidos, além de contribuir para a diminuição do preconceito e de dar voz a sujeitos que normalmente não encontram espaço para contar sua história e fazer parte da memória social. Não há nenhum comentário na página, mas quando seguimos o link para o vídeo no Youtube, o número de visualizações é um pouco maior que o da história de Maria, 755, ainda pequeno comparado aos vídeos mais vistos no ambiente. A partir da análise exposta, constatamos que o Museu da Pessoa representa um espaço interessante quando se trata de oportunidades de expressão das mulheres. Como disponibiliza esses materiais publicamente, pode contribuir para gerar reflexão e conhecimento sobre diversas questões de gênero e, consequentemente, contribuir para uma sociedade com menos desigualdades e injustiças. Porém, o baixo número de interações nas páginas em que se encontram tais materiais deixa em aberto a questão sobre o porquê desse fenômeno e como ampliar a difusão desses conteúdos. REFERÊNCIAS GIL, A.C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5.ed. São Paulo: Atlas, 1999. GOUVEIA, I ; CHAGAS, M. Museologia social: reflexões e práticas (à guisa de apresentação). Cadernos do CEOM, Chapecó, v. 27, n. 41, p. 9-22, dez. 2014. Disponível em: < https://bell.unochapeco.edu.br/revistas/index.php/rcc/article/view/2592/1523>. Acesso em: 22 out. 2015. GROSSI, M. P. “Identidade de Gênero e Sexualidade”. Antropologia em Primeira Mão, n. 24, Florianópolis, PPGAS/UFSC, 1998. Disponível em: <http://miriamgrossi.paginas.ufsc.br/livros-artigos-e-publicacoes/artigos/>. Acesso em: 23 out. 2015. HORN, R. E. Information Design: Emergence of a New Profession. Chapter 2, in Information Design, ed. by Robert Jacobson, MIT Press, 1999. Disponível em: <http://web.stanford.edu/~rhorn/a/topic/vl%26id/artclInfoDesignChapter.html>. Acesso em: 25 out. 2015. IBGE. Violência contra mulher. 2012. Disponível em: < http://teen.ibge.gov.br/es/noticias- teen/2822-violencia-contra-mulher?fb_action_ids=767055233312852>. Acesso em: 25 out. 2015. MUSEU DA PESSOA. Entenda. Disponível em: <http://www.museudapessoa.net/pt/home> Acesso em: 22 out. 2015. ________. História de Maria da Paz Teófilo da Silva. 2014a. Disponível em: <http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/ele-era-um-homem-muito-agressivo- 96317>; Acesso em: 25 out. 2015. ________. História de Heloisa Alves Belfort. 2014b. Disponível em: <http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/aprendendo-com-a-vida--53262>; Acesso em: 25 out. 2015. REDIG, J. Não há cidadania sem informação, nem informação sem design. InfoDesign - Revista Brasileira de Design da Informação. Vol. 1, n.1, 2004, p. 58-66;Disponível em: <http://www.infodesign.org.br/infodesign/article/view/4>. Acesso em: 25 out. 2015. https://bell.unochapeco.edu.br/revistas/index.php/rcc/article/view/2592/1523 http://teen.ibge.gov.br/es/noticias-teen/2822-violencia-contra-mulher?fb_action_ids=767055233312852 http://teen.ibge.gov.br/es/noticias-teen/2822-violencia-contra-mulher?fb_action_ids=767055233312852 http://www.infodesign.org.br/infodesign/article/view/4 Fotografias de corpos femininos: o caso Marianna Lively BOROSKI, Marcia Departamento de Jornalismo Universidade Estadual de Ponta Grossa Palavras-chave: fotografia, gênero, transfobia. O objetivo deste trabalho é identificar de que maneira as fotografias de corpos femininos constituem invisibilidades e/ou marcas normativas em peças jornalísticas. Considerando o processo de representatividade que vai auxiliar na ascensão ou na invisibilização de um processo, classe ou sujeito, as marcas normativas das quais falamos são os traços, principalmente visuais, já que o objeto são representações visuais em fotografias, que vão dizer, dentro da moral aceita, o que é ser uma mulher. Ao contrário, as invisibilidades apresentação mediante subversão desta norma, ou ao requere direitos sociais para cidadãos que fogem a esta moral aceita. Entendemos que parte da opressão das relações de gênero vem de da construção histórica do controle corpo feminino pelo discurso médico-jurídico masculino. Natansohn (2005) explica que “Quando se fala das mulheres e para as mulheres, o discurso sobre a corporalidade parece tomar rumos precisos: o corpo parece a âncora da mulher no mundo, sua razão de ser” (p. 2), e que estas falas estão ancoradas em saberes médicos, apropriados pela imprensa e pela publicidade. Neste artigo busca-se discutir como as fotografias de corpos femininos podem constituir como dispositivos de sexualidade para basear a discussão de gênero. Analisa- se as fotografias da trans Marianna Lively veiculadas nas notícias da própria divulgação indevida destas fotos - feitas por um interno do quartel onde Marianna alistou-se. As fotos contêm: ela transitando pelo local, sua Certidão de Alistamento Militar, documentos pessoais e contatos. O alistamento aconteceu no em um quartel do Estado de São Paulo e Marianna soube suas fotos estavam em grupos do Whatsapp e no Facebook quando uma amiga a alertou. Imediatamente, retornou ao quartel e procurou uma advogada. O caso de Mariana repercutiu em diversos veículos online da mídia nacional Reflexão teórico-metodológica Faz-se uma reflexão teórico-metodológica sobre os modos de construção visual deste feminino. A divulgação das fotografias da trans pelo interno reflete a não aceitação da sexualidade e identificação de gênero, conceituada como transfobia. Cicillini e Franco (2015), recuperando César (2009), explicam que transfobia é: [...] o processo de recusa histórica, social e cultural da forma como pessoas trans constroem seu gênero e vivem suas sexualidades. O aspecto mais marcante seria as diversas dimensões de vulnerabilidade que esses sujeitos são expostos em razão de se constituírem como ‘o/a outro/a’ do gênero e da sexualidade, portanto, ‘o/a outro/a’ na condição de direitos humanos. (CICILLINI; FRANCO, 2015, p. 330) Ainda sobre o tema, os autores explicam a necessidade de apoiar-se na expressão ‘universo trans’ na intenção de ampliar as definições e acompanhar as transformações históricas do gênero. Em contra partida, discutem a visibilidade que a transfobia tem no espaço social, sobretudo no educacional. Assim, indicam que a: emergência de professoras transexuais indica que existem sinais de uma direção do processo social em que transexuais conseguem acessar o mundo do trabalho e estabelecerem redes de solidariedade, contudo não se pode afirmar uma superação da transfobia nas figurações sociais. (TORRES, 2010, p.51) Já o Texto Base da Conferência Nacional GLBT diz que a transfobia acontece quando não se reconhece as distintas identidades de gênero, caindo num binarismo sexual e normativo. Ao superarem as barreiras postas pelas normas de gênero e uma visão essencialista acerca dos corpos, dos sexos e dos gêneros, as pessoas travestis e transexuais são expostas a um duro quadro de vulneralibilidades, que fazem delas alvo das mais acirradas manifestações de desaprovação e repulsa social. A transfobia as exclui de praticamente todos os espaços de convivência cidadã e, ao mesmo tempo, as coloca entre os principais alvos da violência letal contra GLBT. (GLBT, 2008, p. 60) Importante compreender também que os elementos de sexualidade por muito tempo foram organizadores de subjetividades (Foucault, 1984). Quando Foucault elabora sexualidade como um dispositivo de disciplina biopolítico, desvenda-se também a construção histórica da sexualidade por meio dos corpos que são qualificados como normais ou não, caracterizando suas práticas sexuais como normais, anormais, e lícitas, ou não, as práticas sociais, entendimento também feito por César (2009). O sustento dos argumentos vieram, sem dúvidas, de discursos médicos e jurídicos. Ao criar a doença nestes corpos o ajuste é necessário, como também explica César (2009), por meio dos conceitos de disciplina e biopoder: Ao final desse processo, a nominação e a inserção de certos corpos no campo da anomalia e da doença produziu a necessidade de conserto e ajuste desses corpos, tanto por meio de práticas médicas e pedagógicas sobre os indivíduos, como pela delimitação de práticas sociais abrangendo toda uma população por meio de práticas de governo do sexo e das práticas sexuais. (CÉSAR, 2009, p. 3) Sem dúvidas, o caso de Mariana Lively parece exemplificar o conceito de biopoder, quando a ação do Poder do Estado, disseminada numa lógica de que todos controlam todos, reforçada pelo uso exacerbado de smartphones, com acesso à internet e conectado em redes sociais, faz o controle daquilo que apresenta-se fora do padrão. A sexualidade que então estrutura-se como um dispositivo discursivo por meio da trans, carece que reintegração ao sexo verdadeiro, com o qual nasceu, conforme os saberes instituídos. (FOUCAULT, 1984; CÉSAR, 2009) O que parece atravessar esta repulsa ao que não se enquadra, ao anormal, é que a partir do momento que não se corresponde gênero com o sexo biológico, há um descontrole de todos os desejos que possam vir a nascer desta subversão. Gêneros no jornalismo Para aprofundar os sentidos presentes nesta relação entre corpo, gênero e imagem, exemplificados pelo caso da trans Marianna, é preciso também discutir os traços jornalísticos presentes nas fotos. Silva (2014) identificou em sua pesquisa que a distribuição de pautas, os critérios de noticiabilidade e as abordagens das notícias também seguem uma lógica heteronormativa, reforçando os contornos binários de gênero e sexualidade. Assim, a autora identificou que as questões de gênero estavam presentes em várias orientações dos e das jornalistas, por meio da lógica da normatividade social vigente, e, com isso, foi possível identificar “que os valores- notícia estavam permeados dos valores sociais e da subjetividade dos jornalistas” (SILVA, 2014, p. 228) Ainda sobre essa projeção do gênero nas produções midiática, sobretudo nas jornalísticas, Sandra Chaher (2007) explica a necessidade de se lançar um olhar transversal, apesar das dificuldades de se escrever com enfoque de gênero, ocasionadas principalmente pela falta desta discussão na formação e pela hierarquia das redações. El enfoque transversal, a su vez, puede adaptarse a otros temas como la classe social, etnia, edad, discapacidad, identidad sexual, etc. La idea es que podamos observar los hechos teniendo en cuenta su diversidad, sea del tipo que sea. (CHAHER, 2007, p. 126) Esta transversalidade propõe que todas as pautas possam ter enfoque de gênero, bem como todas aseditorias, mesmo as de hardnews, que aparentam não ter gênero. A notícia da divulgação dos documentos pessoais de Mariana, por exemplo, na Folha de S.Paulo, foi divulgada na editoria de Cidades. Aqui, a dificuldade tem um novo elemento: o fato de não ser um assunto propriamente feminino, como por exemplo a amamentação, ligada ao sexo biológico. Fotografia, realidade e construção social O status documental das fotografias é discutido desde o início do pensamento fotográfico. É evidente que tal perspectiva é resultado de uma produção por aparato técnico, por isso, a necessidade de relativizar estas fronteiras, conforme Buitoni (2011), Sousa (2002) e Dubois (1994). De saída já compreendemos que a composição do documental exige a naturalidade da cena. Philippe Dubois, no ensaio O Ato Fotográfico, discute o realismo na fotografia. Para o autor, pode-se pensar a fotografia por três grandes discursos: espelho do real (quando é percebida como cópia objetiva do real), transformação do real (fotografia está envolvida e codificada culturalmente, composta por um sujeito e feita por um aparelho com possibilidade técnicas para congelar e distorcer cenas) e, por fim, índice ou marcas do real (ela comprova a existência daquele referente, em tempo e espaço determinados, estabelecendo-se como um traço do real). Para Buitoni (2011) fotografia enquanto índice “atesta e existência daquele objeto naquele momento”. E Dubois complementa: A imagem foto torna-se inseparável de sua experiência referencial, do ato que a funda. Sua realidade primordial nada diz além de uma afirmação de existência. A foto é primeiro índice. Só depois ela pode tornar-se parecida (ícone) e adquirir sentido (símbolo). (DUBOIS, 1994, p. 53) Mesmo que as fotografias do corpus deste artigo não configurem-se como fotojornalismo, elas contém alguns elementos passíveis de discussão, como é o caso do instantâneo. Dentro de uma lógica de produção jornalística Buitoni (2011) e Sousa (2002), deve-se incluir o instantâneo como qualidade jornalística, e também “A relevância social e política, a relação com a atualidade e um caráter noticioso [...]” (BUITONI, 2011, p. 90). E ainda existem diversas categorias que qualificam tais fotos, como flagrante ou denúncia, que junto com o embrião narrativo, reforçam sua força jornalística. Gêneros e binarismos Historicamente, a construção da imagem feminina deu-se pelo observador masculino por meio da estratégia de lhe conferir qual papel lhe cabia. Tatiana Cova (2011) recupera comentários de viajantes brasileiros dos séculos XVIII e XIX para fundamentar seu argumento de que o controle sobre o corpo feminino tem características específicas na cultura ocidental (pintura e literatura, principalmente), e relação com o cristianismo e a sociedade burguesa. Assim, Cova (2011) relembra as estruturas binárias sob as quais é construída esta filosofia ocidental. Elas são “pares de oposição, entre eles, mente, representado pelos paradigmas de masculinidade e corpo, associado à feminilidade, constituíram-se como chave de compreensão das relações humanas ao longo dos séculos.” (COVA, 2011, p.2) E, entendendo que para operar como estrutura, os pares binários têm polarizações, que vão determinar a valorização de um em detrimento de outro. Assim, a mulher estaria associada ao corpo, e subordinada ao homem (mente), excluindo possibilidades de relações diretas entre o feminino e o racional. Se a filosofia cristã já não tinha no corpo a base de suas reflexões, a mulher – historicamente associada a ele – figurava como objeto estranho e indecifrável às suas questões. Outro par de elementos opostos: natureza x cultura também passava a ser mobilizado pela filosofia cristã a fim de reforçar tal dependência. (COVA, 2011, p.2) Assim, a figura da mulher é historicamente constituída desprovida de razão, de intelecto, de pensamento. Evidentemente, esta é uma condição primeira. O desenvolvimento das teorias de gênero, bem como do estado de direito e de militância em prol da diversidade de gênero contribuíram para alguns esfarelamentos desta perspectiva brutalmente sexista. Ainda assim, o feminino com traços de intelecto e de razão, recorrentemente, é interpretado como um feminino masculinizado, capaz de “emprestar” estas características genuinamente másculas. Ainda sobre a subordinação, Mireya Suárez explica: “a emoção é percebida como o termo privado e menor, por ser pré-social, da dicotomia que a opõe ao pensamento já que o termo público é mais importante por ser evidentemente social” (1997, p.46). Tais reflexões teóricas são recuperadas neste texto para indicar o posicionamento das profissionais do sagrado (majoritariamente mulheres) nestes pares binários. Dada sua tradição religiosa, com atuação do âmbito privado, atendendo demandas historicamente não compreendidas e/ou controladas pelo homem e sua ciência, certamente são qualificadas em uma categoria mística, enquanto o masculino estaria alinhado à ciência. Podemos entender a relação de subordinação deste par mediante a valorização da ciência, cujo pensamento orienta a formação social do homem moderno ocidental. Seus indicadores determinam comportamentos pela condição sexual biológica, “revelam” verdades absolutas, com estudos que são convocados para justificar políticas públicas, reforçar estereótipos e morais excludentes e preconceituosas. Enquanto isso, o feminino (místico) é um entendimento anterior do mundo, cujas explicações e soluções estariam previstas num plano paralelo ao da ciência, com menos comprovações exatas e evidentes, e exigindo da crença naquilo que não se vê. Considerações Em um espaço majoritariamente masculino, como o quartel, Mariana cumpria seus deveres militares de cidadã nascida com sexo biológico masculino. Estas fotografias, veiculadas em peças jornalísticas, em diversos sites, analisadas à luz das teorias de gênero e do real na fotografia, considerando a produção multimodal, são exemplos de ação do biopoder. Uma ação multimodal graças ao saber de que todos podem controlar todos, instituído também pelo estatuto da realidade da fotografia, caro a Dubois (1994), o instantâneo, a relevância social e política, a atualidade e o caráter noticioso. Verificamos que as peças veicularam as mesmas fotos que impulsionaram a transfobia, revelando assim não só o reforço do uso de fotografias não produzidas por jornalistas (pelo seu caráter informativo e instantâneo) mas, principalmente, a orientação da pauta e produção jornalística por padrões de gênero e sexualidade, identificada por Silva (2014). A inferiorização, consolidada pelo ódio, qualifica o outro como anormal, não comum aos humanos, e situa ele num local externo, impossibilitando o acesso a direitos sociais, como proteção e reconhecimento social, equiparando a vida deste como a dos demais. Além de indicar claramente o processo de polarização, discutido por Cova (2011). Referências BELELI, Iara. “Eles[as] parecem normais”: visibilidade de gays e lésbicas na mídia. Cadernos Pagu, Campinas, n. 4, 2009. BUITONI, Dulcilia Schroeder. Fotografia e Jornalismo: a informação pela imagem. São Paulo: Saraiva, 2011. CÉSAR. Maria Rita de Assis. “Um nome próprio: transexuais e travestis nas escolas brasileiras”. In: XAVIER FILHA, Constantina. (Org.). Educação para a sexualidade, para a equidade de gênero e para a diversidade sexual. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 2009. CHAHER, Sandra; SANTORO, Sonia. Las palabras tienen sexo: introducción a un periodismo con perspectiva de género. Buenos Aires, Artemisa Comunicación Ediciones, 2007. COVA, Tatiane Paiva. Corpo feminino: repensando feminilidades e masculinidades. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011. Disponível em: http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1308149344_ARQUIVO_Corpo feminino-repensandofeminilidadesemasculinidades.ANPUHNacional.pdf.Acesso em 27 de set. 2011 DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas, SP: Papirus, 1993. FOUCAULT, Michel. A história da sexualidade I: a vontade de saber. 5ª ed. São Paulo: Graal, 1984. FRANCO, Neil; CICILLINI, Graça Aparecida. Professoras trans brasileiras em seu processo de escolarização. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 23, n. 2, mai./ago. 2015. NATANSOHN, L. Graciela. O corpo feminino como objeto médico e "mediático". In: Revista Estudos Feministas. Florianópolis, v. 13, n. 2, mai./ago., 2005. SOUSA, Jorge Pedro. Fotojornalismo: uma introdução à história, às técnicas e à linguagem da fotografia na imprensa. Porto, 2002. Biblioteca On-Line de Ciências da Comunicação (BOCC). Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/sousa-jorge-pedro- fotojornalismo.pdf. Acesso em 09 de ago. 2015. SUÁREZ, Mireya. 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Assuntos ligados à sexualidade e gênero sempre foram proibidos, sendo interditos e diretamente influentes na formação da identidade humana. A presente pesquisa objetivou compreender à luz das representações sociais presentes em filmes e documentários como os tabus influenciam e direcionam a formação da identidade e subjetividade dos indivíduos. Na coleta de dados foram utilizados 10 filmes acessados online em diversas fontes da internet, onde foram lidas as sinopses e buscadas as convergências dos temas, por meio da análise de conteúdo temática. As mídias foram analisadas sob a ótica dos pesquisadores, elencando as convergências em suas falas na compreensão de como os temas tabu influenciaram na formação de suas identidades. E como as mídias de comunicação influenciaram na formação e desconstrução desta ideologia. Os resultados apresentam o tema tabu como social e culturalmente pré-estabelecido em normas de conduta social, tornando fator primordial na construção da subjetividade humana, compreendendo as mídias como o meio fortemente perpetuador nesta relação. Palavras-chave: Tabu; mídia e formação da identidade. INTRODUÇÃO A construção de uma identidade é um processo inerente à vida humana e corresponde as percepções de mundo que se constroem dialeticamente, sendo resultado das interações sociais, que inicialmente ocorrem no seio da família ou unidade socializadora e são elaboradas no convívio com outros núcleos que a pessoa venha a se agregar ao longo da vida. Em relação à constituição da identidade existem diversos fatores que contribuem permeando desde características individuais, fatores interpessoais de identificação e a influencia da cultura e valores sociais expostos ao indivíduo. Nessa perspectiva, entende-se que a construção de uma identidade é multifacetada, sendo que cabe ao indivíduo em sua existência e constituição definir-se em determinadas características e diferenciais, qual grupo pertence e suas preferências, em um longo processo de desenvolvimento. Sobre a identidade, Bauman (2005, p. 23) elucida “a identidade é o papo do momento”, sendo um assunto de extrema importância e evidência. Sob sua compreensão ela nos é revelada como algo a ser inventado, e não descoberto e neste processo há um esforço que as coisas precisam ser construídas a partir do zero ou escolher entre alternativas já existentes, e então lutar ainda mais para sua proteção. (BAUMAN, 2005). A construção da sexualidade está na relação de gênero e identidade, entendendo como o primeiro como uma dimensão biológica do sexo (feminino ou masculino) e o a identidade como a percepção individual relacionada a experiências internas e externas de gênero do indivíduo. As definições de masculino e feminino enfatizam o caráter social e histórico das concepções baseadas nos papéis designados para homens e mulheres. Através de suas relações sociais, suas representações e as práticas que vivencia, os sujeitos vão se constituindo (VINHOLES, 2012). A partir desta premissa entende-se que a elaboração ocorre a partir de autopercepções em sentir-se masculino ou feminino, que desenrolam constituição da na orientação sexual dos indivíduos. Neste sentido, sexo, identidade de gênero e orientação sexual são valores ou conceitos fechados, pré-construídos e compartilhados pelas instituições sociais. De tal forma que, se uma pessoa ousar questionar seu próprio sexo, ou tiver outra identidade de gênero além daquela pré-estabelecida, ou ainda que se expresse sexualmente fora do padrão heterossexual, esta pessoa estará convidando a sociedade a uma "revolução de valores" (TURKE et al, 2015). Ainda sobre o processo de construção da identidade de gênero, Costa e Antoniazzi (1999) elucidam, que: “O processo de construção da identidade de gênero tem importância fundamental para o desenvolvimento dos indivíduos, pois determina interesses, atitudes e comportamentos que o acompanharão ao longo da vida. O ponto de maior interesse sobre este tema refere-se à maneira pela qual ocorre a formação do conceito de identidade de gênero, através da qual os indivíduos irão perceber a existência da diferença sexual, posteriormente identificando-se como homens ou mulheres.” É possível, portanto, compreender a importância dos discursos produzidos e reproduzidos acerca das relações de gênero, considerando que servem como referência para desde a infância, sendo significativos em relação à construção da imagem do que é ser menino e do que é ser menina, e automaticamente influenciados pelos valores predominantes da cultura midiática, devido à alta exposição desde a infância precoce. (VINHOLES, 2012). A mídia atua na propagação das representações sociais, agindo de forma a tornar comuns ideias e assuntos de interesse a comunidade em geral. A sexualidade nesta perspectiva penetra cada vez mais nas programações, sendo a partir de programas mais apelativos e na inserção de personagens homossexuais desde novelas até filmes. No entanto, há muita controvérsia neste movimento, já que a mídias em sua história sempre fizeram representações estereotipadas e cristalizadas de temas ligados à sexualidade. Os meios de comunicação em massa refletem diretamente no estabelecimento dos comportamentos sociais, normatizando condutas e normas padrão sobre o que é certo e errado e formando os tabus. Informar, divertir e persuadir são funções os meios executam, sendo um veículo mercadológico e democrático, já queatende uma população, mesmo que esta seja muito heterogênea, variando de classes sociais, local de habitação, idade, cor, sexo, etnia e religião. E principalmente na era pós-moderna em que vivemos, onde as informações e as relações são cada vez mais rápidas e líquidas configurando as identidades atuais (BAUMAN, 2005). OBJETIVO Investigar a influência da mídia na construção da identidade de gênero e sexualidade através das as representações sociais presentes em filmes e documentários, buscando identificar os discursos predominantes. JUSTIFICATIVA Percebemos que no levantamento do tema tabu em mídias existe um número limitado de publicações e discussões teóricas que aprofundem o assunto, uma vez que é de grande relevância para a compreensão do fenômeno da identidade construída na pós- modernidade. Dentro desta temática nos propusemos a investigar as representações sociais que os filmes apresentam sobre a identidade e a sexualidade como processos interligados e reforçados pela influência da mídia. Faz-se necessário se ater a pontos que reforçam e enraízam cada vez mais na sociedade temas tabus na formação da identidade, por isso é imprescindível entender como acontece as representações sociais de sexualidade e gênero que operam em formações de identidades reforçando preconceitos e como esse olhar é influenciado pelas mídias. METODOLOGIA Referencial Teórico- Metodológico Trata-se de uma pesquisa qualitativa apoiada no referencial teórico das representações sociais, que se sucederá através do trabalho de pesquisa bibliográfico, por meio do levantamento de filmes e documentários que tratem do tema tabu na formação da identidade. Optou-se pela adoção dessa metodologia por possibilitar a captação subjetiva a partir da percepção de quem vivencia tal situação. A teoria das representações conforme Moscovici (2009) “toma como ponto de partida, a diversidade dos indivíduos, atitudes e fenômenos, em toda sua estranheza e imprevisibilidade. Seu objetivo é descobrir como os indivíduos e grupos podem construir um mundo estável, previsível, a partir de tal diversidade”. As representações sociais são conceitos podem ser alinhados a formação da identidade, já que segundo Moscovici (2009) nós percebemos o mundo tal como é e nossas percepções, ideias e atribuições a estímulos do ambiente físico que nós vivemos. Nessa perspectiva nota-se que elas possuem duas funções: onde há uma convencionalização dos objetos, coisas e acontecimentos que nos é oferecido, possibilitando a formação de um modelo determinado, distinto e a ser partilhado por um grupo de pessoas; a outra função refere-se a prescrição das mesmas, que diz respeito a forma como elas são apresentadas sendo impostas com grande eficácia. A partir destas ideias, nota-se que a formação da sexualidade e identidade sofre influencia das representações sociais já existentes e inquestionáveis, que se tornam padrões comuns a todos, cabendo a cada indivíduo a identificação os discursos pré- estabelecidos. Como consequência da relação de gênero em uma dimensão biológica do sexo (feminino ou masculino) e a identidade como a percepção individual relacionada a experiências internas e externas de gênero do indivíduo. As definições de masculino e feminino já existentes e propagadas socialmente pelos diversos meios de comunicação enfatizam o caráter social e histórico destes conceitos, baseando-se nos papéis designados para homens e mulheres. Através de suas relações sociais, suas representações e as práticas que vivencia, os sujeitos vão se constituindo. (VINHOLES, 2012). Neste sentido, sexo, identidade de gênero e orientação sexual são valores ou conceitos fechados, pré-construídos e compartilhados pelas instituições sociais, mídias e senso. De tal forma que o ato questionar seu próprio sexo, ou houver uma dissonância em relação a identidade de gênero, além daquela pré-estabelecida o indivíduo a estará convidando a sociedade a uma "revolução de valores" (TURKE et al, 2015). É possível, portanto, compreender a importância dos discursos produzidos e reproduzidos acerca das relações de gênero, considerando que servem como referência para desde a infância, sendo significativos em relação à construção da imagem do que é ser menino e do que é ser menina. (VINHOLES, 2012). Análise dos dados A análise será a partir do método de Análise de Conteúdo temático em que seu foco é a significação dos dados e não somente sua descrição, por isso são consideradas as variáveis e as convergências dos discursos e o modo como vão ser interpretadas, após serem transcritas na integra (MINAYO, 2008). Bogdan e Biklen (1994) tomam o significado como idéia-chave. Afirmam que o pesquisador qualitativista não quer explicar as ocorrências com as pessoas, individual ou coletivamente, listando e mensurando seus comportamentos ou correlacionando, quantitativamente, eventos de suas vidas. Ele pretende conhecer a fundo suas vivências e que representações essas pessoas têm dessas experiências de vida. Os dados foram organizados em categorias e subcategorias, levando-se em conta a variedade e regularidade das respostas e os padrões convergentes de conteúdo dos relatos. Fazer uma análise temática implica em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação, cuja presença ou frequência signifiquem algo para o objeto visado. Para tanto serão seguidos os passos metodológicos recomendados pela literatura (MINAYO, 2008): 1) Pré-análise (leituras flutuantes e exaustivas, organização do material e sistematização de ideias e eixos estruturantes que constituirão o corpus da análise); 2- Exploração do material (categorização de dados, a partir de expressões ou palavras significativas que dão origem a unidades de registros, por similaridade dos conteúdos); 3- Tratamento dos dados obtidos e interpretação (tratamento de dados e interpretação dos significados dos conteúdos temáticos com base no referencial teórico assumido pela pesquisadora, podendo também abrir caminhos para novas dimensões teóricas e interpretativas) RESULTADOS E DISCUSSÃO Na coleta de dados foram utilizados 10 filmes acessados online em diversas fontes da internet, onde foram lidas as sinopses e buscadas as convergências dos temas, por meio da análise de conteúdo temática. As mídias foram analisadas sob a ótica dos pesquisadores, elencando as convergências em suas falas na compreensão de como os temas tabu influenciaram na formação de suas identidades. O método constitui a análise e levantamento dos filmes, nos últimos 15 anos, que envolvem o tema de identidade sexual na pós-modernidade, conforme a tabela abaixo: FILMES ANO TEMÁTICA PRINCIPAL Amores Impossíveis 2001 Comédia Romântica Do começo ao fim 2009 Romance homoafetivo Elvis e Madona 2010 Romance Bruna Surfistinha 2011 Prostituição Programa Tabu Brasil Mudança de sexo 2013 Identidade de gênero e Transsexualidade Programa Tabu Brasil: Prostituição 2013 Prostituição Azul é a cor mais quente 2013 Romance homoafetivo De gravata e unha vermelha 2014 Identidade de gênero, orientação sexual e transexualismo Praça da Luz 2014 Prostituição mulheres com idade avançada Hoje eu quero voltar sozinho 2014 Orientação homossexual e Romance homoafetivo Os filmes utilizados para análise, em sua maioria, correspondem a produções cinematográficas brasileiras, que abordam diversas temáticas envolvendo a sexualidade em diversos contextos, como nos relacionamento hetero e homoafetivo, formação da identidade de gênero e orientação sexual e prostituição. Nos filmes em que o enredo envolve os relacionamentos homoafetivos os personagens principais são alvos de preconceito. A família e os amigos, na maioria dos casos não compreende a orientação sexual dos personagens. No entanto, os personagens são firmes na luta pela afirmação da sua sexualidade e resistemconta todas situações adversas. Existe um cuidado por parte dos roteiristas ao trabalhar a temática, já que na dos os conflitos que surgem a partir da sexualidade são trabalhados com delicadeza e o desenrolar da história os conflitos focam na aceitação social da sexualidade dos casais. A prostituição, por ser um assunto um pouco mais discutido nas mídias foi explicitada nos filmes e documentários. Os personagens envolvidos expressavam um sentimento de prazer e na afirmação do exercício profissional. Em todos os discursos havia casos de vulnerabilidade social como fator desencadeante para o início da profissão. Além de relatos que o dinheiro é grande motivador da prática. Em relação à temática de identidade de gênero e orientação sexual os personagens transgênero em seu discurso a dissonância da não identificação do corpo biológico com a concepção sexual que cada um percebe de si. Nas falas aparecem histórias de bulling, preconceito, homofobia, além do desejo de passar por alterações no corpo. A mídia atua na propagação das representações sociais, atuando de forma a tornar comuns ideias e assuntos de interesse a comunidade em geral. A atenção pelo modo que os temas são tratado nas mídias refletem no modo como eles são representados e abordados, uns como muito mais influência e predominância em relação aos outros, como no caso os assuntos ligados à sexualidade, que se insere neste contexto como um assunto tabu, sendo um tema com pouca abordagem por confrontar conceitos e normas morais, éticas, políticas e religiosas. As representações sociais sobre sexualidade interditas pelos tabus são perpetuadas pela mídia sem que a população pare para se questionar se aquele valor realmente é verdade ou apenas uma representação e assim vai se construído seu imaginário reprimido em sua identidade, carregado de preconceitos que o social lhe aculturou cotidianamente sobre sexualidade e gênero. Fischer ressalva a importância de nos atentarmos bem para o modo como são elaborados inúmeros produtos midiáticos, há um sem-número de técnicas através das quais se propõe a todos nós que façamos minuciosas operações sobre nosso corpo, sobre nossos modos de ser, sobre as atitudes a assumir. (FICHER, 2002) Aprendemos a viver o gênero e a sexualidade na cultura, através dos discursos repetidos da mídia, da Igreja, da ciência e das leis e também, contemporaneamente, através dos discursos dos movimentos sociais e dos múltiplos dispositivos tecnológicos. As muitas formas de experimentar prazeres e desejos, de dar e de receber afeto, de amar e de ser amada/o são ensaiadas e ensinadas na cultura, são diferentes de uma cultura para outra, de uma época ou de uma geração para outra. (LOURO, 2008) Os meios de comunicação em massa refletem diretamente no estabelecimento dos comportamentos sociais, normatizando condutas e normas padrão sobre o que é certo e errado. Informar, divertir e persuadir são funções os meios executam, sendo um veículo mercadológico e democrático, já que atende uma população, mesmo que esta seja muito heterogênea, variando de classes sociais, local de habitação, idade, cor , sexo e religião. E principalmente na era pós-moderna em que vivemos, onde as informações e relações são cada vez mais rápidas e líquidas. Os resultados apresentam o tema tabu como social e culturalmente pré- estabelecido em normas de conduta social, tornando fator primordial na construção da subjetividade humana, compreendendo as mídias como o meio fortemente perpetuador nesta relação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN, Z. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. BOGDAN, R. C. ; BIKLEN, S. K. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. (Maria J Alvarez, Sara B. Santos & Telmo M. Batista- Trad.). Porto, Portugal: Ciência da Educação,1994. COSTA, F. O.; ANTONIAZZI, A. S. A Influência da Socialização Primária na Construção da Identidade de Gênero: Percepções dos pais. Paidéia (Ribeirão Preto) [online]1999, vol.9, n.16, pp. 67-75. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103863X1999000100007& lang=pt> Acessado 28 de outubro de 2015. FISCHER, R. M. B. O dispositivo pedagógico da mídia: modos de educar na (e pela) TV Educação e Pesquisa. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, São Paulo, v.28, n.1, p. 151-162, jan./jun. 2002 Disponível em http://www.scielo.br/pdf/%0D/ep/v28n1/11662.pdf> Acessado em 28 de outubro de 201 LOURO, G. L. Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas. Pro-Posições, v. 19, n. 2 (56) - maio/ago. 2008 MINAYO, M. C. S. O Desafio do Conhecimento Científico: Pesquisa Qualitativa em Saúde. 11ª Ed. São Paulo/ Rio de Janeiro: Hucitec, 2008. MOSCOVICI, S. Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social. Trad. Pedrinho A. Guareschi. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. 404 p. TURKE, N.H., PAULA DE, C. P., MAISTRO, V. I. Relações de gênero e diversidade sexual: utilizando o cinema na desmistificação de tabus e preconceitos. Simpósio Internacional de Educação Sexual. UEM, 2015 Disponível < http://www.sies.uem.br/trabalhos/2015/636.pdf> Acessado 26 de outubro de 2015 VINHOLES, A. Gênero e Identidade: Reflexões sobre o contexto escolar. IX ANPED SUL: Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul. 2015 Disponível em<http://www.portalanpedsul.com.br/admin/uploads/2012/Educacao_e_Infancia/Trab alho/07_42_15_2216-6670-1-PB.pdf> Acessado 26 de outubro de 2015 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103863X1999000100007&lang=pt http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103863X1999000100007&lang=pt http://www.scielo.br/pdf/%0D/ep/v28n1/11662.pdf http://www.sies.uem.br/trabalhos/2015/636.pdf (AS)SEXUALIDADE(S): INTERSECÇÃO NO MUNDO VIRTUAL E NO REAL TODO, GABRIELA ALVES MARTINS GUIMARÃES LYRIO Universidade Federal do Triângulo Mineiro/ Instituto de Educação, Letras, Artes, Ciências Humanas e Sociais/ Departamento de Psicologia Palavras-chave: assexualidade; diversidade sexual; sexualidade. Introdução: A assexualidade é compreendida como forma de viver a sexualidade caracterizada por desinteresse pela prática sexual, podendo ou não haver o desinteresse por relacionamentos amorosos. O desinteresse sexual/amoroso tem uma construção social de transtorno psicológico/fisiológico. Este fenômeno é compreensível dada dinâmica científica, gerida por uma epistemologia baseada na ciência moderna, fortemente marcada pelo conhecimento biomédico. Neste contexto, a Neurofisiologia e a Psicanálise encontram solo fértil para contribuir com a patologização de pessoas que não apresentam a atração sexual esperada. O intento deste trabalho é contribuir para um olhar diferente, acerta deste tema, possibilitando a despatologização dessa forma de existência. A comunidade científica brasileira precisa abrir campo para pesquisas que tratem deste assunto. A presença desses sujeitos dá-se, sobremaneira em comunidades assexuais virtuais, com vários graus de mobilização e tem criado visibilidade a esta categoria. O olhar científico tem de atentar-se a este recente fenômeno e suas possíveis consequências. Metodologia: Este trabalho trata-se de um relato de experiência em minha nova posição de administradora em um grupo no facebook, que tem 1482 membros. O grupo conta com 10 administradores e pedi para que eles me enviassem um texto livre que tratasse sobre a temática, de modo a explicar como chegaram até o grupo e qual a expectativa com o grupo virtual na vida real. Resultados: Quadro de administradores do grupo transformado. Uma das participantes disse que disse que acredita que o grupo no facebook tenha um papel importante em auxiliar os assexuais e até mesmo esclarecer a sociedade; a partir do momento que há uma identificação, sabendo que isso tem nome e é normal, as pessoas se sentem livres para reafirmar sua condição perante a sociedade sem medo,consequentemente desmistificando a visão que se tem sobre assexualidade. A assexualidade é compreendida como forma de viver a sexualidade caracterizada por desinteresse pela prática sexual, podendo ou não haver o desinteresse por relacionamentos amorosos. O desinteresse sexual/amoroso tem uma construção social de transtorno psicológico/fisiológico. Este fenômeno é compreensível dada dinâmica científica, gerida por uma epistemologia baseada na ciência moderna, fortemente marcada pelo conhecimento biomédico. Deve-se ressaltar que nesta temática, a Neurofisiologia e a Psicanálise encontram solo fértil para contribuir com a patologização de pessoas que não apresentam a atração sexual esperada. O intento deste trabalho é contribuir para um olhar diferente, acerta deste tema, possibilitando a despatologização dessa forma de existência. A comunidade científica brasileira precisa abrir campo para pesquisas que tratem deste assunto. A presença desses sujeitos dá-se, sobremaneira em comunidades assexuais virtuais, com vários graus de mobilização e tem criado visibilidade a esta categoria. O olhar científico tem de atentar-se a este recente fenômeno e suas possíveis consequências. Afinal, essas pessoas existem para além das telas de informática e das redes virtuais. De acordo com a tese de doutoramento de Elisabete Oliveira (2014), as comunidades virtuais e redes sociais têm peso significativo na afirmação da assexualidade. Deve considerar-se o fato de que o conceito de assexualidade brotou na internet e nela tem sido sua propagação. Segundo a mesma pesquisadora, a escola é um ambiente importante para a imposição dos padrões de gênero e sexualidade que chancelam scripts hetero e sexonormativos (neste local, há a ausência de debates sobre as especificidades da assexualidade), prejudicando por conseguinte o reconhecimento da diversidade sexual em suas ações no âmbito da educação em sexualidade. Segundo Elisabete Oliveira (2014), no Brasil, existem diversos grupos assexuais na rede social Facebook nos quais se relatam questões pessoais enfrentadas pelos membros no cotidiano. Atualmente, sou administradora de um grupo na rede social Facebook, com outras 9 pessoas; o grupo é composto por 1624 membros. Há menos de um mês, quando submeti o trabalho, havia o número de 1482 membros, deste modo, nota-se um aumento significativo na quantidade de pessoas no grupo. Dentro deste período de tempo, houve a semana de visibilidade da assexualidade, e algumas pessoas veicularam informações acerca da temática, o que favorece esse fenômeno. Este trabalho trata-se de um relato de experiência em minha nova posição de administradora deste grupo no Facebook. O grupo conta com 10 administradores e pedi para que eles me enviassem um texto livre que tratasse sobre a temática, de modo a explicar como chegaram até o grupo e qual a expectativa com o grupo virtual na vida real. Não obtive respostas muitos na maioria dos casos. Apenas outras duas pessoas que administram o grupo me responderam. O intuito deste trabalho, inicialmente era colher relatos de 4 administradores deste grupo no Facebook. Antes de escrever qualquer coisa, enviei mensagens a estes sujeitos. Uma das administradoras iniciou uma mudança de gestão, convocando novos administradores voluntários. Deste modo, candidatei-me, hesitando num primeiro momento e meu trabalho mudou um pouco sua dinâmica e realidade. Tornar administradora do grupo foi algo que questionei em um primeiro momento, hesitei. Tanto que quando demonstrei meu interesse em administrar o grupo, a antiga administradora que havia proposto a entrada de novos administradores e informado a sua futura saída havia saído no dia anterior da administração do grupo e haviam 9 administradores (6 novos). Ela me orientou a falar com os administradores e eles criaram uma conversa com os 9 participantes para decidir sobre a minha entrada na administração do grupo. Esta conversa ainda existe e é um local no qual nos comunicamos de modo coletivo, desde então. Encaro como um resultado positivo o quadro de administradores do grupo transformado, com uma comunicação mais efetiva. Obtive resposta de duas pessoas que administram o grupo. Uma das participantes disse que disse que acredita que o grupo no facebook tenha um papel importante em auxiliar os assexuais e até mesmo em esclarecer a sociedade; segundo ela, a partir do momento que há uma identificação, sabendo que isso tem nome e é normal, as pessoas se sentem livres para reafirmar sua condição perante a sociedade sem medo, consequentemente desmistificando a visão que se tem sobre assexualidade. A outra disse que deveríamos nos apresentar melhor uns aos outros (o que fizemos de modo bastante contido, posteriormente). Ambas, assim como eu, nunca participaram de encontros de assexuais no espaço público. Contudo, a intersecção entre as questões LGBT Pude constatar que assim como Elisabete Oliveira (2014) encontrou em seu doutorado, participar esporadicamente de um grupo no Facebook não requer um esforço maior dos indivíduos na construção do senso de comunidade, nem requer a aprendizagem e uso dos recursos necessários para a atuação em comunidade virtual. Contudo, ao contrário da inexistência que a mesma pesquisadora encontrou acerca da inexistência de ação de grupos assexuais brasileiros para se aproximar do movimento LGBT, como ocorre nos Estados Unidos, da inexistência da construção de agenda política/existencial, a não ser a visibilidade(de modo limitado), noto que há uma certa mudança neste aspecto (contudo ainda deveras incipiente e repleto de limitações). A maior limitação deste trabalho é a incipiência dos estudos dessa temática em solo brasileiro. Bibliografia: OLIVEIRA, Elisabete Regina Baptista de. “Minha vida de ameba”: os scripts sexo- normativos e a construção social das assexualidades na internet e na escola. São Paulo: Banco de Teses da USP, 2014. 225p. Diversidade de Gênero nas Organizações: Novas Perspectivas em Estratégias de Comunicação para o Reconhecimento de Grupos LGBTs nas Empresas Vigor e Carrefour SOARES, Karen Greco Universidade Federal do Paraná, Curitiba-PR Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM- UFPR) Agencia financiadora: Capes Resumo: Este estudo tem por objetivo compreender como duas organizações trabalham o discurso da diversidade de gênero em estratégias de comunicação para o segmento LGBT. Partindo-se do levantamento bibliográfico sobre a comunicação social e relações públicas em diálogo com os estudos de gênero, busca-se observar como se realoca o discurso sobre a diversidade de gênero nas organizações. Nessa perspectiva, pode-se inferir que há um processo de reconhecimento contra-hegemônico por parte das duas organizações, que dentro de um contexto capitalista de produção, reformulam suas práticas comunicativas para incluir em seu discurso segmentos minoritários e historicamente invisibilizados da sociedade como o LGBT. Palavras-chave: Diversidade de Gênero; LGBTs; Organizações. 1. Comunicação e Relações Públicas: agentes estratégicos em ambientes organizacionais A moderna comunicação social compreende um campo de estudos voltado à reflexão crítica e científica de três principais práticas profissionais: o jornalismo, a publicidade e propaganda e as relações públicas. De formas diferentes, estas habilitações abrangem um mix de atividades que colocam a comunicação como ponto fundamental das relações sociais em todos os níveis, seja por interação face a face, mediada por dispositivos midiáticos ou, até mesmo, em um âmbito macro, de organizações para com seus públicos, respingando à construção de uma opinião pública, da formação de novas práticas culturais e hábitos de consumo na sociedade. Não énovidade o potencial da comunicação enquanto espaço de construção de discursos e disputa de sentidos (BALDISSERA, 2008). Em um contexto de globalização no qual o ambiente socioeconômico aquece a busca por um diferencial competitivo, a comunicação se torna estratégica e fundamental para as organizações. Os discursos das organizações devem estar em consonância com aspectos de responsabilidade social, de reconhecimento de grupos culturais e étnicos, saindo assim em certa medida da lógica hegemônica lucrativa que sempre permeou os espaços organizacionais. Nessa construção de sentidos, as organizações e seus públicos de relacionamento podem ser vistos como agentes de práticas discursivas responsáveis pelos sentidos atribuídos às ações comunicativas (OLIVEIRA; PAULA, 2008). Ou seja, a forma como se constrói o discurso das organizações na contemporaneidade passa a ser visto e avaliado por grupos tanto internos ou externos à organização. O seu feedback é termômetro para a organização planejar suas ações. Nesse sentido, as modernas relações públicas representam, dentre as três habilitações, a atividade que reforça este espaço de troca entre organizações e seus grupos de relacionamento. Nos últimos anos, impulsionada por lutas sociais como as de gênero, de raça e etnia, grupos sociais minoritários como o LGBT passam a receber um olhar mais apurado das organizações e o campo de atividades das relações públicas se abrem a estas novas formações socioculturais. O que se tem percebido é uma nova locução por parte das organizações em relação à diversidade de gênero e sexual, provocando uma ressignificação nas estratégias de comunicação dessas organizações. Porém, necessário é compreender a própria conceituação de gênero dentro deste processo, principalmente dentro dos estudos de gênero, que foram grandes propulsores da abertura dessa discussão em esferas diversas da sociedade, como a política, a acadêmica e também a organizacional. Entende-se, neste trabalho, que os estudos de gênero em diálogo com a comunicação são o pano de fundo para a compreensão dessas novas estratégias e desse novo discurso nas organizações acerta das pessoas LGBT. 2. Estudos de gênero, grupos LGBTs e um novo campo para a comunicação Desde a fundação das disciplinas científicas que estudam o social, as diferenciações de sexo são objetos de estudo recorrentes. Porém, até meados de 1960 os estudos entendiam, em sua grande maioria, que as masculinidades e feminilidades tratavam-se de classificações universais e naturais, ou seja, inerentes a “espécie” humana (SUÁREZ, 1997, p 31). A palavra gênero, no entanto, só vem a surgir no espaço científico quando um movimento genuinamente feminino começa a prospectar a desnaturalização da condição da mulher na organização da sociedade. Diferentemente da visão naturalista e universal, a busca era pela compreensão dos papéis de homem e mulher como modelados culturalmente. No entanto, inicialmente, dentro desta discussão, o termo gênero era considerado apenas como sinônimo de mulher. Só posteriormente, com a ampliação do campo de investigação científica, que a conceituação de gênero passou a abarcar uma relação com outras categorias como diferentes sistemas de gênero, que romperiam com o binarismo das categorias ‘mulher’ e ‘homem’. Para SCOTT (1990), gênero é uma categoria de análise histórica, cultural e política, que expressa relações de poder. Essa conceituação permite o diálogo com outras categorias, como raça, classe ou etnia, e, também, levar em conta a possibilidade da mudança, inserindo-se aí as relações sociais de sexo e sexualidade também. Já a partir dos anos 1990, uma nova guinada foi dada nos estudos de gênero pela chamada teoria queer, a cabo da filósofa feminista Judith Butler (2003). Seu estudo questiona o regime de normatividade heterossexual das sociedades, apresentando o aspecto socialmente transformável e relacional dos corpos e da sexualidade (gays, lésbicas, transexuais, travestis, bissexuais). Nesse sentido, os estudos queer inserem no guarda-chuva do conceito de gênero também os segmentos não-heterossexuais, ou seja, concebendo-se aí e entendida nesse estudo como diversidade de gênero. Nesse sentido, gênero, enquanto categoria para este estudo, adota-se a seguinte definição, proposta por BIROLI e MIGUEL (2014, p. 79): “é a organização social da diferença sexual”. O que não significa que reflita algo fixo; ao contrário, “gênero é o conhecimento que estabelece sentidos para as diferenças físicas”. Entendido dessa forma, gênero não é uma “identidade”, mas uma “posição social e atributo das estruturas sociais”. Dessa maneira, a categoria LGBT enquadra-se como um segmento de gênero, um grupo social que possui determinada posição em relação à construção do discurso das organizações. Ora, se gênero é o conhecimento que estabelece sentidos para as diferenças físicas, a comunicação, com a inserção dessa questão em suas pautas, ações, estratégias, renova também, o seu sentido, constituindo-se como uma ferramenta para a ressignificação necessária ao enfrentamento que a temática ainda recebe em setores mais conservadores da sociedade. 3. Diversidade de gênero nas organizações: os casos Vigor e Carrefour Para este estudo, foram escolhidas duas ações de comunicação com perspectivas diferentes de abordagem em duas organizações que representam este novo cenário contemporâneo em que a comunicação estratégica se faz diferencial: a Vigor, empresa do ramo alimentício brasileiro e o Carrefour, rede de hipermercados da multinacional americana Walmart. De um lado, tem-se a Cartilha Carrefour “Valorizamos a diversidade”: Ação de diversidade sexual da empresa Carrefour destinada ao público interno (colaboradores da organização), e do outro, uma ação veiculada pela página no facebook da empresa Vigor, o anúncio “Famílias Diferentes”, ação veiculado pela página do facebook da empresa Vigor no dia 16 de julho de 2014. A análise que se dará compreende uma perspectiva de análise do discurso segundo a linha francesa, especialmente em Pêcheaux, pois sua abordagem se alinha com a referência macro desta pesquisa que compreende a comunicação como espaço de disputa de sentidos. Em Pecheaux (1988), a linguagem não é entendida apenas como um sistema de regras formais, estrutural. Nessa perspectiva, ela é pensada como simbólica, como uma “divisão política de sentidos” (BRASIL, 2011, p. 172). Segundo os critérios Pecheauxianos, este estudo se debruça sobre a busca de dois aspectos fundamentais: o sujeito do discurso e a formação discursiva (FD). Entende-se que o mapeamento destes âmbitos nas duas estratégias elencadas permite inferir como ocorreu o discurso da diversidade de gênero nessas empresas. 3.1. Sujeito do discurso: Nos dois casos analisados, entendem-se os sujeitos do discurso como os grupos LGBTs, ou seja, indivíduos não heterossexuais. O sujeito apresenta aí viés histórico, pois trata-se de uma formação sociocultural que já existia muito anteriormente de ser reconhecida em âmbitos organizacionais, datando seu histórico de luta e reconhecimento político, bem como discussões a nível científico sobre suas pautas, etc. Para Pêcheux (1988), o sujeito do discurso não se pertence, ele se forma pelo esquecimento daquilo que o determina. Isso significa que o sujeito não emerge como um personagem estanque, mas sim, como a interpelação deste indivíduo em relação à língua e a história: “pois para se constituir, para (se) produzir sentidos ele é afetado por elas. (...) Ou seja, se ele não se submeter à língua e à história, ele não se constitui, ele não fala, não produz sentidos (ORLANDI, 2005, p. 50). Nesse caso, as organizações fazem-se valer, mesmo que intrinsecamente, a todo este histórico quando tornam visível este grupo através de suas ações comunicativas. Entretanto, esse histórico é causapróprio no interior de seu efeito, indo no sentido de acobertamento que Pêcheaux falava, quando outros recursos comunicativos se tornam mais explícitos que o próprio viés histórico do sujeito nas duas ações. A Cartilha da Diversidade Sexual do Carrefour aborda o sujeito logo em seu enunciado primeiro: “Como lidar com pessoas LGBTs”, contendo sete perguntas sobre situações que envolvam direta e indiretamente grupos LGBTs no ambiente organizacional. Não aborda a questão do histórico de opressão social e estigma que este grupo sofreu ao longo dos anos, porém, é na análise do discurso que este fator se salienta como algo dobrado nesta estratégia, ficando explícito somente com a análise. Neste ponto, identifica-se a posição do sujeito na estratégia, tópico que será visitado posteriormente. Imagem 1: Parte interna da Cartilha Valorizamos a Diversidade Carrefour. Fonte: Autora do trabalho. 3.2. Formação discursiva O conceito de formação discursiva em Pêcheaux é oriundo de formulação elaborada por Michel Foucault (2004), que se relaciona a formação ideológica construída ao longo discurso. Em outras palavras, o sujeito do discurso traz para o debate um grupo de representações individuais a respeito de si mesmo, do interlocutor e do assunto abordado. A FD formação discursiva é a projeção da ideologia no dizer (ORLANDI, 2005, p. 55). Passando para análise da formação discursiva, tem-se o anúncio veiculado pelo facebook da empresa Vigor. A imagem, acompanhada da legenda: “Famílias diferentes. Contextos diferentes. Uma coisa em comum: o amor. Inclusive pelo mesmo requeijão”. Imagem 2: Anúncio veiculado pelo facebook da Vigor. Fonte: Página da Vigor Na formação discursiva, o objeto de apreciação de estudo deixa de ser a frase, e passa a ser o discurso, uma vez que foge da apreciação palavra por palavra na interpretação como uma sequência fechada em si mesma. Dessa forma, este anúncio se faz pertinente para compreender o discurso da organização sobre o grupo LGBT, pois está disposta em forma de imagem, dando uma ideia mais lúdica do que imperativa sobre a noção da diversidade para esta empresa. O anúncio fornece a visão de cima de uma mesa disposta com elementos que remetem a um café da manhã, estando duas mãos de dois homens de um lado entrelaçadas, supondo um casal homoafetivo. Os anúncios envolvendo cafés da manhã e os chamados “comerciais de margarina” notadamente sempre representaram um modelo heterocentrado de família, que neste anúncio da Vigor se realoca, dando outros significados ao sentido de família. Da mesma forma que na Cartilha Valorizamos a Diversidade, o sujeito são os grupos LGBTs, interpelados por sua posição sujeito variante no decorrer do enunciado. A fita com as cores do movimento político LGBT ao canto da imagem reforçam a interpelação da ideologia intrínseca ao sujeito, dessa forma sendo a formação discursiva da organização indo de encontro ao reconhecimento deste grupo. Entende-se então, que o grupo LGBT, constitui-se como sujeito a partir do momento em que torna-se presente, visível, nas duas estratégias de comunicação observadas. Ainda que, em certa medida, de forma tímida, o sujeito está ali interpelado por sua história e ideologia, que transcende o mero agregar valor ao produto, a lógica competitiva das organizações estudadas. A formação discursiva tanto na Cartilha da Diversidade Sexual do Carrefour, quanto no anúncio do Facebook da Vigor, interpõe a discussão do gênero como não mais algo invisível ou velado na sociedade, propondo o seu reconhecimento e ressignificação deste grupo historicamente condicionado a desigualdade. Considerações O ensejo deste estudo, antes de tudo, foi a tentativa de um exercício de aproximar da comunicação social esta problemática tão recorrente na sociedade atual que são as discussões de gênero. O momento político e cultural é oportuno para as organizações, que cada vez mais repensam suas práticas e ressignificam suas lógicas de lucro em prol do reconhecimento de grupos não hegemônicos e minoritários como o LGBT. Especificamente no que concerne a esta pesquisa, a fusão comunicação, organizações e gênero pode ser um âmbito profícuo de reforço de identidades estigmatizadas, de conscientização e valorização da diferença. É na dimensão comunicativa que as organizações podem corroborar para uma sociedade mais justa e igualitária em relação às questões de gênero. Da mesma forma, para serem vistas com credibilidade por seus públicos, as organizações precisam assumi também a sua função política, que nas palavras de um teórico das relações públicas pode ser compreendida como: “a contribuição que elas devem dar para a manutenção da continuidade do sistema social do qual elas fazem parte, o que só lhes será possível se, da lógica econômica, elas migrarem para a lógica social” (SIMÕES apud FERRARI, 2011: 141). Referências bibliográficas BALDISSERA, R. Comunicação organizacional: uma reflexão possível a partir do paradigma da complexidade. In: OLIVEIRA, I. L.; SOARES, A. T. N. (Orgs.). Interfaces e tendências da comunicação. São Caetano do Sul: Difusão, 2008. BIROLI, Flávia. MIGUEL, Luis Felipe. Feminismo e política: uma introdução. Brasília: Boitempo, 2014. BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. BRASIL, Luciana Leão. Michel pêcheux e a teoria da análise de discurso: desdobramentos importantes para a compreensão de uma tipologia discursiva. Linguagem: estudos e pesquisas. Vol. 15, n. 1, p. 171-182, jan/jun, 2011. OLIVEIRA, I. L.; PAULA, C. F. C. Comunicação no contexto das organizações: produtora ou ordenadora de sentidos. In: OLIVEIRA, I. L.; SOARES, A. T. N. (Orgs.). Interfaces e tendências da comunicação. São Caetano do Sul: Difusão, 2008. ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 6. ed. Campinas, SP: Pontes, 2005. PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso. Campinas: Pontes, 1988. SCOTT, Joan W. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, jul./dez, 1995. SUÁREZ, Mireya. A problematização das diferenças de gênero e a antropologia. In: AGUIAR, Neuma (Org.). Gênero e ciências humanas: desafios às ciências desde a perspectiva das mulheres. Rio de Janeiro: Record; Rosa dos Tempos, 1997. TODAS PUTAS? SOBRE FEMINISMOS E SALA DE AULA NA ESCOLA DA FUNDAÇÃO CASA FEMININA Falchi, Cinthia Alves. Programa de Pós-Graduação em Educação – bolsista CNPq – UNESP – Marília. Palavras-chaves: Narrativa; feminismo; educação. Resumo: Como pesquisadora da educação, e diversas vezes do ensino, acabo por me tornar tão diferentes e, por vezes, divergentes da minha maneira de atuar em sala de aula, visto que as exigências, fronteiras e limites me parecem dissociados, por que, então, não tentar uma exposição que esteja mais harmoniosa com minha presença e trabalho como professora? Assim, para esse texto acadêmico me propus uma narrativa. Não uma narrativa qualquer, se é que há alguma qualquer (acredito que não), mas a narrativa de uma experiência que mexeu com minha vida, que modificou minhas atuações posteriores em sala de aula e que até hoje me faz pensar e refletir a respeito das experiências que tenho cotidianamente com meus/minhas estudantes. Esse trabalho partirá de uma discussão em que utilizei um texto retirado de um blog brasileiro, que problematizava a respeito de questionamentos feministas, para debater com minhas alunas sobre gêneros. Alunas estas que se encontravam em uma Fundação Casa da cidade de São Paulo. Introdução Lembro de Walter Benjamin quando diz que a arte de narrar é como uma “faculdade de intercambiar experiências” (2012, p.213). Pois, nessas linhas, será justamente isso que tentarei fazer. Não sei se com tanto êxito visto a pouca experiêncianarrativa que tenho e o pouco espaço que a narrativa tem na produção acadêmica. Procurarei pelo gesto, de acordo com Agamben, opor-me as narrativas sintéticas. E não podemos nos esquecer que nessas páginas transitaremos por vidas infames, vidas essas que o mesmo Agamben cita: A vida infame não parece pertencer integralmente nem a uns nem a outros, nem aos registros dos nomes que no final deverão responder por isso, nem aos funcionários do poder que, em todo o caso, e no final das contas, decidirão a respeito dela. Ela é apenas jogada, nunca possuída, nunca representada, nunca dita – por isso ela é o lugar possível, mas vazio, de uma ética, de uma forma-de-vida. (2007, p.60) Acho importante ressaltar tal vazio, pois é nesse lugar, desse lugar, que essa narrativa se faz. Uma forma-de-vida de quem é contato, mas muito também de quem conta, de quem narra. Vale lembrar que : A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio artesão – no campo, no mar e na cidade – é, ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o “puro em si” da coisa narrada, como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. (BENJAMIN, 2012, p.221) Quero, portanto, deixar explícito meu interesse primeiro nessa narrativa: narrar. Pois se o próprio Benjamin alude à utilidade da narrativa, para mim é claro que essa utilidade deva ser debatida por você que me lê, e não por mim, que escrevo. E com Agamben, novamente reafirmo o entorno no infame e no gesto: Se chamamos de gesto o que continua inexpressivo em cada ato de expressão, poderíamos afirmar então que, exatamente como o infame, o autor está presente no texto apenas em um gesto que possibilita a expressão na mesma medida em que nela instala um vazio central. (2007, p.59) Estou, portanto, nas linhas desse texto. Sou eu quem o escreve, é de meu incômodo que ele parte, de minhas memórias e conexões. Na atribuição de aulas aos/às professores/as de 2013 em São Paulo capital, encontrei uma conhecida que me perguntou se eu não gostaria de trabalhar na Fundação Casa Feminina. Achei ótima a oportunidade. Assim, já fui apresentada para a supervisora daquela área que agendou um horário para me entrevistar na Diretoria de Ensino da região de atuação. Diferente do cargo de professora de escola regular, para trabalhar na Fundação Casa é necessário passar por alguns processos. Após alguns procedimentos fui ao encontro do que seria meu ambiente de trabalho durante o ano letivo. Em um prédio de muros altos, pintado de verde, como a maioria das escolas da região havia uma portaria que parecia blindada. Recordei-me dos modelos disciplinares descritos por Michel Foucault e do panóptico como técnicas de controle social. No fundo, em todos esses empreendimentos, dos quais eu lhes citei somente dois exemplos, tratavam-se de quatro coisas: seleção, normalização, hierarquização e centralização. São essas quatro operações que podemos ver em andamento num estudo um pouco mais detalhado daquilo que é denominado o poder disciplinar. (1999b, p.217) Identifiquei-me e fui informada que não poderia entrar com celular, tesoura, comida, bala, chicletes, nada de diferente que as meninas pudessem querer, nem quaisquer instrumentos que elas pudessem utilizar para ameaças. Fui obrigada a retirar piercings e alargador de orelha, para minha própria segurança. Desde quando entrei a Fundação Casa me pareceu uma mescla de prisão e escola com uma pitada de casa. Entrei para atuar na escola, mas meus pensamentos e corpo seguiam para o rumo da prisão. Cheguei à sala da coordenação e fui aconselhada a ir para o andar de cima conhecer as alunas. A aula começaria em breve e não era possível deixar a sala sozinha: nunca! Outra coisa que eu nunca deveria fazer em sala era falar mal da polícia, do governo ou incitar qualquer discussão que fizesse com que as meninas tivessem vontade de se organizar. Para isso sorri com sarcasmo (tenho que admitir) e disse que era impossível trabalhar Sociologia sem vontade de se organizar. “Faça o seu melhor, professora, e tome cuidado”, foi a resposta do coordenador. Como em qualquer outra sala de aula, logo que entrei fui analisada pelas alunas. Entrei, me apresentei e comecei a falar a meu respeito: como eu havia me tornado professora, o que eu gostava na profissão e por que escolhi ser professora. Depois pedi para dizerem o que lembravam da disciplina de Sociologia e o que esperavam dela. Silêncio. Olhares. E a primeira pergunta que escuto é: o que você fez de errado para te colocarem para dar aulas aqui? Foi só isso que obtive. Eram duas aulas seguidas e sabia que não seria fácil. Ao término das aulas fui solicitada a comparecer novamente à coordenação que me perguntou: “E então, desesperada ou ansiosa para voltar? Pelo seu rosto me parece que volta, não?” Eu estava mais do que ansiosa para voltar, sabia que iria enfrentar situações ainda mais complicadas, mas eu tinha que voltar. Então ela me disse: “quem entra e se desespera nunca mais volta, mas quem sai querendo voltar, ah...aí a Casa nunca mais sairá dessa pessoa”. Em pouco tempo pude perceber quais delas estavam lá por tráfico, por roubo, por assassinato. Percebi também que a maioria que estava lá era pobre. Lembro-me novamente de Foucault [...], o tema da sociedade binária, dividida entre duas raças, dois grupos estrangeiros, pela língua, pelo direito, etc., vai ser substituído pelo de uma sociedade que será, ao contrário, biologicamente monística. Ela será evidentemente ameaçada por certo número de elementos heterogêneos, mas que não lhe são essenciais, que não dividem o corpo social, o corpo vivo da sociedade, em duas partes, mas que são de certo modo acidentais. Será a ideia de estrangeiros que se infiltraram, será o tema dos transviados que são os subprodutos dessa sociedade. (1999a, p.95) Em minha sala de aula havia desde meninas que utilizavam tudo o que era possível trazerem para a instituição com o intuito de se feminilizar até garotos que passavam pelo processo trans e já se apresentavam com nome masculino. A lista de chamada também mudava bastante, visto que tínhamos que lidar com ingressos e cumprimento de medida. Falarei sobre um dos trabalhos temáticos que realizei na Casa sobre sexualidades e luta feminista. Para essa discussão utilizei um texto intitulado: “Francisca é Puta” de Vinícius Cardoso (2013). Estudioso do Direito pela Universidade de Brasília, Vinícius obteve uma repercussão expressiva perante seus outros textos expostos no Medium, que se auto classifica como uma comunidade para escritores/as e leitores/as que oferece uma perspectiva única ou exclusiva para interação entre pequenas e/ou grandes ideias/histórias/contos. Metodologia Durante cerca de um mês realizei atividades e mostrei conceitualizações a respeito de sexualidades e gêneros. Questionei a respeito do tratamento que recebiam, das necessidades que tinham e se conseguiam pensar como seria uma Fundação Casa Masculina. Levantei questionamentos sobre suas próprias atitudes, se já haviam sido ofendidas ou sofrido por serem mulheres. Muitas haviam formado um padrão de mulher praticamente inatingível pela maioria ali, inclusive eu. Em várias aulas voltamos a falar a respeito desse padrão, tentando achar alguém que se enquadrasse nele, e era difícil. Muitas jovens ali presentes estavam grávidas ou já estavam com os/as filhos/as convivendo com elas. Foi muito complicado, tanto para elas como para mim, admitir que o padrão pré estabelecido de mulher realmente massacra nossos estilos de vida. Gayatri Spivak em sua obra Pode o subalterno falar?(2010) nos faz repensar o local em que a família se insere e as possibilidades que muitas vezes enxergamos quando estamos diante de situações que são tão rotineiras nas salas de aulas, como pensar a famíliae seus graus de importância, inclusive como chegamos a pensar essas importâncias. Diz ela Sem dúvida que a exclusão da família, ainda que seja uma família pertencente a uma formação de classe específica, é parte da estrutura masculina na qual o marxismo marca seu nascimento. Tanto no contexto histórico como na economia global da atualidade, o papel da família nas relações sociais patriarcais é tão heterogêneo e controverso que simplesmente substituir a família nessa problemática não vai romper essa estrutura. Tampouco estaria a inclusão positivista de uma coletividade monolítica de “mulheres” na lista dos oprimidos cuja subjetividade inquebrantável lhes permita falar por si mesmas contra um “mesmo sistema” igualmente monolítico (2010, p.39) Resolvi introduzir às alunas o texto “Francisca é puta”. Achei conveniente que eu realizasse a primeira leitura enquanto elas acompanhavam. Em linguagem sarcástica o texto complicava a aceitação e compreensão, visto as limitações que tínhamos, como a dificuldade de leitura e também as moralidades envolvidas naquele espaço. Muitas meninas eram convertidas ao cristianismo e tinham uma leitura literal dos contextos apresentados. O primeiro trecho do texto de Cardoso (2013) diz: Assim como se nasce arquiteta, jurista ou artesã, também se nasce puta. Francisca nasceu puta. Mulher. Vadia. Vagabunda. Dada. Puta. Poderia ter escolhido ser dona- de-casa, confeiteira ou até mesmo artista. Mas escolheu ser puta. Gostava de ser a outra. De ser a objeto. De ser a usada. De ser a puta. Gostava de sentir prazer. De falar palavras sujas. De chupar. De dar. De ser puta. Puta. Puta. Puta. Antes mesmo de chegar ao ponto final desse primeiro parágrafo a sala estava inquieta, estavam prestando atenção, estavam se sentindo naquele ambiente que criamos e que falava a respeito de algo que não se deve falar: ser puta. Eu estava sentindo assim, eu estava experienciando dessa maneira. Pedro Ângelo Pagni argumenta, a partir de Foucault e Deleuze que É nesse movimento antiassujeitamento e pró-subjetivação de si que Foucault e Deleuze desenvolvem que podemos encontrar, no estranhamento suscitado pela arte do viver e pela arte do transmitir a verdade experienciada em que compreende a psicagogia, a criação de novos modos de resistência e de subjetivação por meio da filosofia e da pedagogia do presente. Nele também podemos encontrar certa reversão do ideal moderno de formação e proposta de uma alternativa que poderia se não nos auxiliar a criar outra concepção formativa ou de autoformação, ao menos fazer que nos ocupemos de nossa própria transformação, mesmo que seja na relação com o outro compreendida pela ação formativa que exercemos como educadores. (2014, p.164) Diante desse quadro, continuei a leitura até o fim do texto. Lembro-me como era doloroso para mim permanecer sentada em sala de aula quando eu era estudante do Ensino Médio, e algumas vezes na universidade também. Cadeiras duras e assuntos mais duros ainda, ou porque eram novos demais para mim, ou porque não me interessavam em nada. Então, quando olho os rostos dos/as estudantes que tenho em sala, costumo associar suas experiências às minhas, visto que falo a partir de mim. Mas o cenário que eu tinha a minha frente era diferente, era instigador para mim. Após a leitura quase todas queriam expressar suas opiniões. Começaram a falar entre si e a julgar Francisca a partir de suas interpretações. Perguntei se seria necessária nova leitura ao que todas concordaram. Pedi atenção à interpretação para que pudessem contextualizar a leitura com as maneiras e modos que estávamos trabalhando a temática já há algum tempo. Após uma segunda leitura pedi para que expusessem algumas ideias centrais. Algumas começaram a problematizar se a interpretação da palavra puta era realmente a utilizada como pejorativo ou para um trabalho de prostituição. Lembro-me novamente de Pagni quando, ao falar do parresíasta, enfatiza que ele se posiciona em duas vertentes. A primeira como uma espécie de sujeito que acolhe o acontecimento para um processo de autotransformação nos limites das possibilidades e, a segunda, nas próprias palavras do autor “[...] coloca esse mesmo discurso e seu sujeito em risco, provocando os seus interlocutores, antes de os acomodar e os deixar apaziguados” (ibdem, p.166) Conclusão Muitas internas tinham um vocabulário limitado ao vocabulário das ruas visto que quando estavam no “mundão”, como costumam nomear a vida fora da Casa elas não frequentavam a escola. Suas falas estavam rotineiramente permeadas de palavras novas para mim. Então, da mesma maneira como me ensinavam um vocabulário novo, eu introduzia a elas novas palavras para expressarem o que gostariam de dizer, mas de maneiras distintas. Acho pertinente a análise que Pagni faz a respeito das genealogias da parresía e da psigagogia foucaultianas quando adentra a questão da escola moderna. Diz ele [...], é possível cotejar em sua obra todo um delineamento da escola como instituição que emerge na sociedade disciplinar e que desempenha, por meio de uma das artes de governo sobre a infância, a pedagógica, uma série de processos de assujeitamento e moralização das novas gerações nessa instituição, contribuindo para o delineamento de uma biopolítica da população na qual professores, alunos e mais funcionários aparecem como elemento e ator. (idbem, p.173) Eu fazia parte daquele ambiente, aquela sala só existia daquela maneira por eu também estar ali presente. E naquele momento eu era um elemento, um pedaço da discussão que eu havia iniciado, mas da qual eu não era dona. Sobre otexto, algumas linhas de pensamentos foram formadas. Uma era que Francisca diminuía o significado de ser mulher, já que era puta e com isso fazia sua família sofrer. Recordo-me aqui de uma história narrada por Berenice Bento em Política da Diferença quando relata o ocorrido com Gabriela Leite em 2010 nos EUA. Em um evento nos EUA, organizado por feministas, houve um espanto geral diante de sua afirmação “sou feminista”. Segundo Gabriela, a moderadora do debate afirmou: “você não pode ser feminista, você é prostituta”. Gabriela argumentou: “sou uma puta feminista”. A moderadora rebate: “é impossível uma feminista vender o corpo”. (2011, p.95) E, para minhas estudantes, esse foi um primeiro marco significativo. Por isso ela virou nada, por isso sumiu. Costurou. Costurou. E, enquanto costurava outro mundo, perdeu tudo de si. Francisca perdeu o que a fazia Francisca. O patriarcado e a masmorra a tornaram invisível. Não era costureira. Não era apenas emoção. Não era invisível. Era forte. Era corajosa. Era a frente de seu tempo. Era puta. Mas a padronização reduziu Francisca. Virou um nada. Ficou invisível. Sumiu. Uma dupla, no entanto, debatia que o texto falava a respeito delas. Que elas eram Francisca. Diziam que a Francisca era a mulher que tinha tentado algo diferente, que não aguentava mais ser do jeito que era, que não entendia o porquê de ser daquele jeito. O que mais marcou essa segunda linha de pensamento foi Puta? Na rua? Vergonha. Desonra. Afronta. Tirem-na daqui. Levem-na daqui. E tiraram. E levaram. E colocaram Francisca, a puta, na masmorra. Porque puta tem que ser presa. Porque puta tem que sofrer. Porque a cidade não precisa de puta. Porque ninguém precisa de puta. Porque ninguém precisa ser puta. Porque ser puta é doença. É loucura. É crime. Algumas ficaram em silêncio, ou por conta da medicação, que era visivelmente presente na Fundação Casa, ou por diversos outros motivos. Por fim, pedi para que escrevessem suas ideias e o que acharam do texto, individualmente. Pedi para que expressassem o que achavam de Francisca, se conheciam alguma história semelhante e como esperavam que Francisca terminasse. Achei necessária a utilização dessa narrativa e das conclusões que algumas estudantes chegaram, visto que me abriuespaço para poder terminar meu ano letivo fazendo um trabalho que julguei importante para elas sim, mas também muito importante para mim. Em um ambiente em que a maioria se classifica como mulher, e as que não se classificam estão, mesmo assim sendo classificadas como tal, o peso do gênero visto como frágil e emocional, pejorativamente, ganhou outros atributos e ficou evidente em cada conversa, em cada experiência. De todas as redações que eu li como retorno dessa aula, uma até hoje marca minha trajetória. Antes da formação e revista para sair para o intervalo, quando todas estavam entregando seus textos, uma estudante ficou por último, me entregou a folha e pediu para que eu não lesse seu texto ali. Pediu também para que eu não falasse a respeito e não mostrasse para ninguém ali de dentro, para que ninguém soubesse que ela era a pessoa do papel. Confiou a mim um segredo que não queria, realmente, que ninguém ali soubesse. Sorri e confirmei afirmativamente que não mostraria a qualquer pessoa ali dentro, que ficasse tranquila. Ela não estava tranquila, não ficaria tranquila. Chegando em casa peguei o material e comecei a corrigir. Eis que me deparo com o escrito que interpretei como sendo o de Francisca. Ousou ser puta, a viver na rua, a não ser padronizada, a viver o perigo e o julgamento. Era usável, a mercadoria e assim se descrevia. Se descreveu como puta. E como Francisca, cansou. Tentou se adequar. Tinha que trabalhar. Traficou, roubou. Foi presa. Se arrependeu de traficar. Se arrependeu de roubar. Se arrependeu de deixar de ser puta. Como puta nunca feriu ninguém, sempre trabalhou por si. Deixar de ser puta, para ela, foi a pior decisão que tomou. Se pudesse, voltava atrás. Não podia. Referências Bibliográficas AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007. BENJAMIN, Walter. O narrador. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre a literatura e história da cultura. 8ª Ed. Revista. São Paulo: brasiliense, 2012. Obras escolhidas V.1, p.213 – p.240 BENTO, Berenice. Política da Diferença: feminismos e transexualidades. In: Stonewall 40+ o que no Brasil? Org: Leandro Colling. Salvador: EDUFBA, 2008. p. 79 – 110. CARDOSO, Vinícius. Francisca é puta. Medium [blog], 24 out. 2013 disponível em < https://medium.com/@manufaturados/francisca-e-puta-4062c78073dc> , acesso em 20 fev 2015. FOUCAULT, Michel. Aula de 28 de Janeiro de 1976. Em defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999a, p.75 – p.98. ______. Aula de 25 de fevereiro de 1976. Em defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999b, p.199 – p.224. PAGNI, Pedro Ângelo. O entoar da estética da existência no canto da experiência de si e da arte do viver. Experiência estética, formação humana e arte de viver: desafios filosóficos à educação escolar. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p.149 – 176. SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, p.19 – 47. III SEMINÁRIO INTERNACIONAL GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIA SESSÃO 2 Ciberativismos e questões de gênero AUTOR / CO-AUTORES TÍTULO MAURÍCIO RODRIGUES PINTO ; MARCO ANTÔNIO BETTINE DE ALMEIDA TORCIDAS LIVRES E QUEER EM CAMPO: SEXUALIDADE E NOVAS PRÁTICAS DISCURSIVAS NO FUTEBOL FLÁVIA MATEUS RIOS; REGIMEIRE OLIVEIRA MACIEL FEMINISMO NEGRO E INTERSECCIONAL: PRÁTICAS E DISCURSOS SOBRE RAÇA, GÊNERO E SEXUALIDADE NAS REDES SOCIAIS JÉSSICA DE CÁSSIA ROSSI AS (RE)EXISTÊNCIAS DE MULHERES BRASILEIRAS IMIGRANTES EM PORTUGAL VIA MÍDIAS DIGITAIS: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO FÁBIO MORELLI; LEONARDO LEMOS DE SOUZA MÍDIAS RIZOMÁTICAS, CONTROVÉRSIAS E ATIVISMOS: RESISTÊNCIAS E POLITIZAÇÕES JULIANA CRISTINA DA SILVA FERREIRA CIBERESPAÇO E A COLETIVA MARCHA DAS VADIAS SAMPA BRUNA SILVESTRE INNOCENTI GIORGI A QUALIDADE DA INFORMAÇÃO SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NO PORTAL DA SECRETARIA DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES PÂMELA STOCKER UMA QUESTÃO DE GÊNERO: OFENSAS DIRECIONADAS À PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF NOS COMENTÁRIOS DA PÁGINA DA FOLHA DE S. PAULO NO FACEBOOK ROBSON SILVA SANTOS TRAVESTIS EM SITAUÇÃO DE RUA E A SEGREGAÇÃO AOS BENS SOCIAIS DENTRE ELES AS TECNOLOGIAS DIGITAIS TORCIDAS LIVRES E QUEER EM CAMPO: SEXUALIDADE E NOVAS PRÁTICAS DISCURSIVAS NO FUTEBOL Resumo PINTO, Maurício Rodrigues e ALMEIDA, Marco Antônio Bettine – Programa de Pós- Graduação Mudança Social e Participação Política da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo Palavras-chave: futebol, homofobia e Facebook. Ainda um segmento em que a opressão em torno de identidades sexuais não normativas é muito acentuada, o esporte vem se convertendo em um espaço de debate de questões de gênero e sexualidade, sobretudo no futebol, esporte considerado “paixão nacional”. O trabalho buscará compreender o universo simbólico e discursivo que orienta os comportamentos de diferentes agentes (jogadores, torcidas, dirigentes e mídia esportiva) que vivem mais intensamente a experiência social do futebol no Brasil. Na história do futebol brasileiro, intersecções entre raça, gênero e sexualidade contribuíram para naturalizar a ideia de que o futebol é “coisa pra macho”, sendo a homofobia uma estratégia para a desqualificação do adversário. Na contramão dessa normatização, surgem torcidas criadas como comunidades na rede social Facebook, que propõem práticas discursivas que questionam a visão hegemônica do futebol como um reduto de dominação masculina. Três dessas torcidas que se autointitulam como livres ou queer, estão sendo analisadas mais detidamente: a Galo Queer (torcida do Clube Atlético Mineiro), a Bambi Tricolor (torcida do São Paulo Futebol Clube) e a Palmeiras Livre (torcida da Sociedade Esportiva Palmeiras). Tomando como base as práticas discursivas dessas torcidas, serão feitas inferências sobre as dificuldades de transposição desses grupos para a reunião e apropriação de espaços públicos, como os estádios de futebol, mas também do potencial dessas articulações pelo Ciberespaço de desestabilizar a norma de que o homem é o legítimo participante das práticas e lugares que dão sentido ao jogo de futebol. I - Introdução No mês de agosto de 2013, o jogador de futebol Emerson Sheik, à época atacante do Corinthians e herói da conquista do título da Libertadores da América de 2012, postou uma foto, na sua página pessoal na rede social Instagram, em que dava um selinho em um amigo. A foto era acompanhada da seguinte mensagem: “Tem que ser muito valente para celebrar a amizade sem medo do que os preconceituosos vão dizer. Tem que ser muito livre para comemorar uma vitória assim, de cara limpa, com um amigo que te apoia sempre. Hoje é um dia especial. Vencemos, estamos mais perto dos líderes...” A reação à foto e à mensagem por parte da mídia esportiva e de torcedores foi imediata. No dia seguinte, cinco torcedores ligados a uma das torcidas organizadas do Corinthians foram até o Centro de Treinamento do clube e fizeram um protesto contra o jogador, ganhando amplo destaque da mídia. Pela primeira vez um jogador de renome do futebol brasileiro posicionava-se de forma contundente contra a homofobia. Em resposta, um pequeno grupo, atribuindo para si a condição de representantes da torcida e da própria instituição Corinthians, expressa um sentimento de indignação e de defesa da integridade do time, como pode ser observado na seguinte fala de um dos torcedores participantes do referido protesto: “A nação inteira está freneticamente indignada. Pode até ser a opção dele, mas nós estamos sempre tirando sarro dos bambis. O mínimo que ele tem de fazer é um pedido de desculpas”. Essa fala revela o medo de torcedores serem marcados pelos adversários como desprovidos de um determinado modelo de masculinidade que é reverenciadodentro do universo do futebol. Outro detalhe importante é o uso do termo “bambi”, alusão pejorativa à homossexualidade, para referir-se aos torcedores do São Paulo Futebol Clube, um dos principais rivais do Corinthians. No campo futebolístico, valendo-me da formulação de Bourdieu, existe um universo simbólico moldado pelas relações e atos de agentes historicamente ligados a ele, como torcedores, jogadores, dirigentes e a mídia especializada. A feminização dos corpos é estratégia “naturalizada” para a desqualificação do adversário (seja torcedor ou jogador), muitas vezes visto como inimigo, assim como a reverência a um padrão de dominação masculina, calcada no modelo ideal da virilidade: “... que tem de ser validada por outros homens, em sua verdade de violência real ou potencial, e atestada pelo reconhecimento de fazer parte do grupo de ‘verdadeiros homens’”. (BOURDIEU: 2002, p.64) Um episódio marcante da história do futebol brasileiro, o famoso “Maracanazo” que ocorreu na Copa do Mundo de 1950, disputada no país, ajuda a mostrar como se consolidou a ideia de que futebol é “coisa pra macho” e como esse discurso apresenta intersecções entre sexualidade, gênero e raça, estas também presentes no processo de construção da identidade brasileira, durante a primeira metade do século XX. Por trás de um discurso que valorizava a miscigenação, na configuração social era (é) evidente uma hierarquização que “... alçou o homem branco e heterossexual à norma relegando mulheres e não-brancxs à subalternidade...” (MISKOLCI: 2014, p.20). Na decisão da Copa de 1950, a Seleção Brasileira foi derrotada pelo Uruguai de virada, pelo placar de 2 a 1. O futebol reflete tensões e conflitos presentes na sociedade. O que durante a boa campanha na competição era visto como uma maneira alegre e única de jogar futebol, fruto da miscigenação, com a derrota na final, passou a ser um atestado do fracasso desse projeto nacional, com a culpa recaindo sobretudo nos jogadores de ascendência negra, principalmente o lateral-esquerdo, Bigode, e o goleiro, Barbosa, que teria falhado no gol que deu a vitória aos uruguaios: A culpa pelo Maracanazo recaiu sobretudo sobre os jogadores negros do time, especialmente o lateral-esquerdo Bigode e o goleiro Barbosa. Na Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil, a derrota para o Uruguai na final foi atribuída à falta de hombridade e a fatores raciais. Ou melhor, a ‘falta de masculinidade de negros e mulatos’ seria responsável pela nossa derrota. O negro e o mulato são representados quase como afeminados. Foram considerados os maiores culpados da derrota brasileira: o goleiro Barbosa, que teria falhado no segundo gol do Uruguai, e o jogador Bigode, que teria levado um tapa de Obdulio Varela, capitão do time uruguaio, ambos escolhidos, justamente, por possuírem ascendência negra (SOUZA: 1996, p.127) Mais de 60 anos depois, o selinho de Sheik contribuiu para que o debate já estabelecido em outras esferas da sociedade brasileira, questionando a prevalência de uma matriz heterossexual masculina que recorre a estratégias misóginas e homofóbicas para restringir oportunidades e a garantia de igualdade de direitos de cidadania para mulheres e pessoas LGBT1, também alcançasse o esporte, especialmente o futebol, modalidade considerada uma das paixões nacionais. O que antes, pela via da violência simbólica (BOURDIEU:2002), era visto, em geral, por mulheres e pessoas LGBT como um espaço e universo que não lhes pertencia, passou também a ser mais um campo de disputa pela apropriação e garantia de direitos. Nesse cenário ganham visibilidade comunidades criadas na rede social Facebook que se apresentam como torcidas de alguns dos times mais populares do Brasil, mas com um importante diferencial. Para além do torcer pelo “time de coração”, essas comunidades se diferenciam por externarem posicionamentos contrários às manifestações homofóbicas e machistas recorrentes nos estádios de futebol no Brasil. Essas comunidades virtuais são resultantes da articulação de torcedorxs, que produzem e divulgam conteúdos com o propósito de colocar em xeque a ideia tão propalada de que futebol é “coisa pra macho”, reivindicando o reconhecimento da participação de mulheres e pessoas LGBT, figuras historicamente segregadas de experiências que dão sentido ao esporte, como o jogar, o torcer e, mesmo, o falar a respeito. Este artigo tem como base um trabalho inicial de campo em que são analisadas a articulação desses grupos no Ciberespaço e as práticas discursivas que elaboram. Dessa forma, serão feitas inferências sobre as dificuldades enfrentadas na tentativa de transposição da esfera virtual para a reunião e apropriação de espaços públicos, assim como do caráter político dessas ações no esforço de desestabilizar a norma hegemônica em torno das práticas e lugares que dão sentido ao jogo de futebol. II – As torcidas queer e livres: articulações, práticas discursivas e resistências na desconstrução de que futebol é “coisa pra macho” Em abril de 2013 apareceram na rede social Facebook comunidades virtuais que se apresentavam como torcidas queer e livres de alguns dos principais times do Brasil. Para Pierre Lévy: Uma comunidade virtual é construída sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais. (...) As comunidades virtuais exploram novas formas de opinião pública (...) e oferecem, para debate coletivo, um campo de prática mais aberto, mais participativo (LEVY: 2000, 130-131) Criadas a partir da iniciativa e articulação de pequenos grupos que são responsáveis pela postagem de conteúdos próprios ou publicados em canais da grande mídia, mídias alternativas, blogs, fazem uso de práticas discursivas com o objetivo de problematizar e questionar a heteronormatividade e o privilégio de um modelo ideal de masculinidade como legítimo participante das práticas do futebol. São acompanhadas e curtidas por milhares de pessoas, na maioria, entre os 25 e 34 anos. Em comum carregam o sentimento de indignação frente as ofensas e experiências de opressão às quais estão expostas, principalmente mulheres e gays em estádios de futebol. É essa indignação que impulsiona a manifestação pública a partir das comunidades virtuais. “A ideia da página foi minha, sozinha, mas logo que criei, chamei algumas amigas e amigos para participar e formamos um grupo de 5 a 10 pessoas meio flutuantes. O evento que me motivou foi uma ida ao estádio, depois de um ano na Alemanha (onde comecei a estudar gênero e portanto ser mais sensível ao tema), ao jogo do Galo contra o Arsenal, no qual todas as pessoas (incluindo os meus amigos teoricamente não homofóbicos) gritavam "Arsenal é maricón". Além disso, me incomodou muito ser mulher naquele ambiente extremamente machista, no qual a maioria dos homens pensa que mulher não entende de futebol e ainda por cima nos assediam” (Nathalia, representante da Galo Queer, em 21/03/2014) “O contexto da criação foi simples demais. Éramos já um grupo de amigos, todos são paulinos, que concordava que o apelido bambi merecia uma recepção diferente da torcida tricolor. Sem nenhuma pretensão, coisa de conversa de bar e só. Quando a Galo Queer surgiu, nós achamos a ideia genial e esperamos uma semana para ver se alguém na torcida do nosso time encararia. Várias torcidas foram se apresentando, mas nada do São Paulo. Decidimos, então, fazer a nossa, pelo menos pra ‘marcar presença’ e participar desse movimento, sem nenhuma ideia de por quanto tempo manteríamos a página, nem o que adviria dela” (Aline, representante da Bambi Tricolor, em 11/03/2014) A pesquisa concentra-se em três comunidades: Galo Queer, formada por torcedoresdo Atlético Mineiro, primeira torcida a apresentar-se contrária à homofobia e ao machismo nos estádios; Bambi Tricolor e Palmeiras Livre, torcidas de dois dos grandes da cidade de São Paulo (respectivamente São Paulo e Palmeiras), que surgem na esteira da Galo Queer e são bastante atuantes no Ciberespaço. Criadorxs dessas comunidades têm sido constantemente alvos de hostilidades e ameaças, por supostamente “desrespeitarem” a “cultura do futebol”, mas, principalmente, por “macularem” símbolos de um time, como o nome e o distintivo, ao associarem estes a referências ligadas aos movimentos LGBT, como as cores do arco- íris. Ou, ainda, a apropriação e ressignificação daquilo que teria conteúdo de ofensa, como é o caso da Bambi Tricolor, que tem no seu nome a provocação normalmente feita aos são paulinos. Tais ameaças fazem com que, até o momento, as ações dessas torcidas aconteçam unicamente na esfera virtual. “Nós nos encontramos esporadicamente, uns mais outros menos, cada um tem uma rotina e uma vida bastante cheias, então não temos condição de promover encontros oficiais de "integrantes", nossa relação se mantém exatamente como antes da criação da página e por enquanto permanecerá assim. Sim, os três rapazes, principalmente, frequentam bastante os estádios e por isso eles evitam a todo custo aparecer em matérias, eles têm receio de serem identificados e reconhecidos pela torcida, por integrantes violentos Nossos compromissos da vida "offline" tomam nosso tempo quase inteiro, a Bambi é feita com o que nos resta de tempo livre e disposição e, tomara, os textos que postamos já contribuam pelo menos um pouquinho pro debate, pra essa realocação de ideias que começa a ganhar força” (Aline, representante da Bambi Tricolor, em 11/03/2014) A fala de Aline evidencia os receios de alguns integrantes da comunidade, que ao frequentar os estádios, preferem a condição de “clandestinidade” em meio aos agentes estabelecidos e legitimados. Também expõe os limites de atuação que a comunidade se propõe, reconhecendo-se, no momento, muito mais como um instrumento de crítica à ideia de dominação masculina no futebol, que venha a ampliar a visibilidade dos debates em torno da superação da homofobia e do machismo. Mas, se a demarcação de espaços nos estádios ainda é um objetivo distante, a possibilidade de articulação pelas redes sociais fez com que as práticas discursivas das torcidas livres e queer atingissem um número maior de pessoas, repercutindo, inclusive, na grande mídia. De acordo com Rancière (RANCIÈRE: 1996), é possível reconhecer o caráter político desses grupos, pela apropriação que fazem da palavra cujo teor de contestação à norma é ouvido, reconhecido, justamente pelo seu potencial para desestabilizar a dominação masculina no esporte: Conforme Derrida, a lógica ocidental opera, tradicionalmente, através de binarismos: este é um pensamento que elege e fixa como fundante ou como central uma ideia, uma entidade ou um sujeito, determinando, a partir desse lugar, a posição do ‘outro’, o seu oposto subordinado. O termo inicial é compreendido sempre como superior, enquanto que o outro é o seu derivado, inferior. Derrida afirma que essa lógica poderia ser abalada através de um processo desconstrutivo que estrategicamente revertesse, desestabilizasse e desordenasse esses pares. Desconstruir um discurso implicaria em minar, escavar, perturbar e subverter os termos que afirma e sobre os quais o próprio discurso se afirma. (...) Está se indicando um modo de questionar ou de analisar e está se apostando que esse modo de análise pode ser útil para desestabilizar binarismos linguísticos e conceituais (ainda que se trate de binarismos tão seguros como homem/mulher, masculinidade/feminilidade) (LOURO:2001, p.548) III – Considerações Finais O presente trabalho, resultado de pesquisa bibliográfica e incursões iniciais de campo, procurou mostrar como se consolidou a ideia de que o futebol brasileiro seria um reduto exclusivo do “macho” e como a violência simbólica (BOURDIEU: 2002) presente nas injúrias machistas, homofóbicas e nas estratégias de feminização do rival, compeliam mulheres e pessoas LGBT a não se reconhecerem como participantes do jogo, seja na condição de torcedorxs ou de jogadorxs. Mais recentemente, tem iniciado um movimento de denúncia dessa violência, antes “naturalizada” e não questionada, e emergiram grupos e ações que reivindicam o direito de externar a sua paixão pelo jogo, mas recusando adequar-se ou aderir à norma que estabelece uma dada masculinidade como legítima participante das práticas e espaços que dão sentido à experiência social do futebol. Em meio a ações diversas promovidas por instituições culturais, coletivos e, mesmo, academia que têm contribuído para ampliar o debate em torno das relações entre o futebol, gênero e sexualidades, as torcidas anti-homofobia são ainda os principais alvos de ameaça e perseguições. Possivelmente essa maior hostilidade seja justamente pelo uso de símbolos do clube, o que, segundo os agentes regidos pela norma dominação masculina, desrespeitam e ameaçam a “pureza” do time, na medida em que este passa também a ser alvo da paixão e apropriado por aqueles que antes eram visto como abjetos e indesejáveis. Nessa perspectiva, o futebol é o pano de fundo, ou mais um campo de um debate de uma disputa que é muito mais ampla e abrange o conjunto da sociedade. Trata-se da superação das barreiras que ainda segregam mulheres e pessoas LGBT de usufruírem plenos direitos de cidadania, assim como o de poderem livremente se apropriar de todos os espaços públicos, sem serem vítimas de constrangimentos e violência. Bibliografia: • BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. • ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. • • LOURO, Guacira Lopes. “Teoria Queer: Uma Política Pós-Identitária para a Educação”. In: Revista Estudos Feministas. V.9, n.2 Florianópolis: IFCH, 2001. • MISKOLCI, Richard. “Estranhando as Ciências Sociais: Notas introdutórias sobre Teoria Queer”. Revista Florestan Fernandes, v.2, pp. 8-25, 2014. • RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento – Política e Filosofia. São Paulo: Editora 34, 1996. 1. RODRIGUES FILHO, Mário. O Negro no futebol. Petrópolis: Editora Firmo, 1994. • SOUZA, Marcos Alves de. “Gênero e raça: a nação construída pelo futebol brasileiro”. In Cadernos Pagu, Campinas, nº 6-7, p. 109-152, 1996. Sites usados na pesquisa: • http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2013/08/19/torcedores-de- organizada-fazem-protesto-contra-emerson-no-ct.htm • https://www.facebook.com/BambiTricolor/ • https://www.facebook.com/PalmeirasLivre/ • https://www.facebook.com/Galo-Queer-941232029242434/ http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2013/08/19/torcedores-de-organizada-fazem-protesto-contra-emerson-no-ct.htm http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2013/08/19/torcedores-de-organizada-fazem-protesto-contra-emerson-no-ct.htm https://www.facebook.com/BambiTricolor/ https://www.facebook.com/PalmeirasLivre/ https://www.facebook.com/Galo-Queer-941232029242434/ III SEMINÁRIO INTERNACIONAL GÊNERO, SEXUALIDADE E MÍDIA: DO PESSOAL AO POLÍTICO Sessão 2 - Ciberativismos e questões de gênero Por Flavia Rios e Regimeire Maciel Títulos: Feminismo Negro e Interseccional: práticas e discursos sobre raça, gênero e sexualidade nas redes sociais Um dos grandes desafios a ser enfrentado nas análises das práticas, discursos e redes de ativismo no mundo contemporâneo é o uso da Internet como instrumento (ferramenta) e espaço privilegiado para a construção das identidades, estratégias e dos objetivos para a ação coletiva que pode ganhar, ou não, os espaços tradicionais do ativismo político, como as ruas ou as organizações civis. Como intuito de examinar, no detalhe, a formação e organização de coletivos políticos brasileiros que atuam nas redes sociais no último biênio, decidimos fazer um estudo de caso. Trata-se da formação de uma rede de jovens ativistas que reivindicam para sí múltiplos pertencimentos identitários, valendo- se preferencialmente de discursos que envolvem as dimensões de gênero, raça e sexualidade. Para tanto, recorremos à análise qualitativa de discursos em blogs e em postagens do facebook, além de entrevistar algumas das principais ativistas da nova geração, que se valem tanto dos recursos midiáticos e das práticas presenciais de encontros para a consolidação da rede de mobilização coletiva, como se apoiam no feminismo e no antirracismo como linguagem de contestação contra as múltiplas formas de opressão. Nessa perspectiva, a identidade coletiva assume caráter ambivalente, ora destacando o feminismo negro, ora propondo o feminismo interseccional, onde o tema da sexualidade pode potencialmente ganhar maior espaço de interlocução. Palavras Chaves: Feminismo negro, cyberativismo e Interseccionalidade INTRODUÇÃO: Evento I: ¨Ela não nos representa” - Na terça-feira à noite do 16 de setembro de 2014, a série semanal “Sexo e as Negas” estreou na TV Globo. De autoria e direção de Miguel Falabella, tratava-se de uma paródia do famoso seriado norte-americano ‘Sex and the City’, a versão nacional foi ambientada no subúrbio carioca e retratava a intimidade e o cotidiano de quatro mulheres negras. Logo que “Sexo e as Negas” começou a ser divulgado houve um profusão de protestos virtuais de pessoas incomodadas com o estereótipo sexista e racista apresentado nas fotos e propagadas da minissérie. Na voz das ativistas, a hastag “Sexo e as negas não me representa” parecia a forma mais acabada de expressar o descontentamento. Fez parte do repertório de ação das ativistas a proposta de boicote coletivo, fóruns de discussão virtuais, denúncias na Ouvidoria da SEPPIR; Manifesto Público e produção de artigos para a blogs e redes sociais. Contudo, protesto político e virtual não impediu a estreia do seriado, mas gerou um debate público nas redes sociais e em alguns outros meios de comunicação, recebendo resposta pública de artistas. No fim, o seriado não conseguiu espaço para alcançar uma nova temporada. Evento II : “Mulher negra não é fantasia de carnaval” - No início de Maio de 2015, o instituto Itaú Cultural anunciou sua programação mensal, que incluía a obra “A Mulher do Trem”, da companhia teatral paulistana Os Fofos Encenam. O espetáculo, encenado há 12 anos(desde 2003) em diversas temporadas e festivais, pela primeira vez foi cancelado devido a manifestações, na internet, que questionavam o teor racista da peça. Na foto de divulgação, uma personagem (uma empregada doméstica) era caracterizada por uma pessoa branca com maquiagem escura (preta), com traços exagerados. Ativistas e apoiadores dos movimentos negros acusaram a peça de perpetuar um estereótipo preconceituoso, resgatando o blackface – uma caricatura dos negros que surgiu nos circos e apresentações de menestréis do século XIX ( num momento histórico em que as sociedades americanas estavam em transformação com o fim recente da escravidão, e as sociedades europeias ainda estavam amplamente envolvidas em questões coloniais na África, Ásia e Oceania). Tal técnica projetava uma representação depreciada dos negros, como vistos pela sociedade hegemônica branca – e ao longo do século XX ainda foi amplamente reproduzida não apenas no teatro e no circo, mas também na televisão e no cinema. Os artistas responsáveis pela apresentação defendiam que aquela representação tinha um contexto: toda a linguagem utilizada na peça pretendia resgatar uma tradição estética do circo-teatro brasileiro do início do século XX. Devido à polêmica, a apresentação foi cancelada e, em seu lugar, houve um debate sobre racismo, num importante centro cultural, na avenida Paulista. Centenas de pessoas, dentre elas ativistas de organizações reconhecidas, blogueiras negras, pesquisadores de universidades públicas renomadas, artistas e jornalistas, reuniam-se num encontro para debater o caso. Na linguagem contenciosa dos ativistas, via-se a seguinte frase: “ racistas NÃO PASSARÃO”. Esses dois eventos são expressões do estilo de ativismo político contemporâneo, que envolvem raça e gênero enquanto categorias políticas em contextos contenciosos no Brasil. O uso de tecnologia da informação como ferramenta de protesto político marca a especificidade dessas mobilizações coletivas. Além disso, as redes sociais aparecem como espaço de formação de comunidades virtuais, cuja atuação não se restringem ao ambiente da internet. Não por acaso, muitos dos protesto que começam na internet podem ganhar outros espaços públicos, como o caso do evento II, que arrastou dezenas de ativistas, especialmente as mulheres negras organizadas. Nessa perspectiva, o interesse desse artigo é investigar a formação e as formas de ação coletiva de ativistas que se valem de múltiplas identidades sociais. Como estudo de caso, tomaremos os coletivos de mulheres negras, porque essas já em sua autonomeação carregam a articulação de identidades diversas. Além desse ativismo, tomaremos como contra ponto a formação de uma comunidade de ativistas interseccionais, porque estas, além da dimensão do gênero e da Raça, também acenam para a dimensão da sexualidade. Por se tratar de uma mobilização recente e nova no Brasil, parece pertinente comparar repertórios de ação e de discurso das novas gerações de ativismo, contrastando com as formas mais estabelecidas do feminismo negro, que deita suas raízes no fim do regime militar. Para desenvolver esse trabalho, compararemos duas ações desenvolvidas no último biênio. A primeira delas é um curso à distância, organizado por uma associação de mulheres negras, sediada em São Paulo, mas que tem integrantes em várias partes do país. Mostraremos como essa organização desenvolve projetos de formação coletivas em torno da Raça, Gênero e Sexualidade, em particular analisaremos um projeto de formação denominado “Produção Intelectual de mulheres Negras”. A segunda escolha é um coletivo de mulheres negras que se autodenominam feministas negras interseccionais, as quais desenvolvem ações nas redes sociais, polemizando temas dos grandes meios de comunicação e pautando os temas de raça, sexualidade e gênero nas mídias eletrônicas. Além do ativismo virtual, esta última rede de ativistas também desenvolve encontros presenciais, tomaremos o “Acampa Interseccional” como referência para analisar os discursos e práticas dessas militantes. Na seção final, faremos uma breve consideração dos primeiros achados de pesquisas, que foram encontrados nessa investigação, que ainda se encontra em estágio exploratório. Trajetórias de Mulheres Negras na Rede Iniciamos nossa comparação pela apresentação da primeira ação mencionada, o curso de formação “Produção Intelectual de Mulheres Negras”, encaminhado pela Associação Mulheres de Odun (AMO), organização constituída em 2010, na cidade de São Paulo. Voltada para a promoção e divulgação de bens culturais com recorte de gênero e raça, a associação tem como eixo fundamental o desenvolvimento de estratégias capazes de empoderar mulheres negras e suas experiências em diversos espaços da vida social. Nas palavras da própria associação, sua missão é Construir caminhos para acesso aos bens culturais por meio do empoderamento e instrumentalização de mulheres negras para elaboração e desenvolvimento de ações e metodologias estratégicas que possam propiciar melhores condições de vida à população negra. Inspirados nos princípios feministas de equidade, pluralidade e solidariedade ( Site oficial da organização). Podemos dizer, dessa forma, que os interesses eobjetivos da AMO estão intimamente relacionados ao perfil das suas fundadoras e associadas: mulheres negras, com formação acadêmica e na faixa etária dos trinta anos. A constituição dessa associação se conecta a um movimento mais amplo que toma a formação coletiva como indispensável para a construção das lutas empreendidas por grupos em condição de subalternidade. Este talvez seja o principal elemento aglutinador e motivador da atuação desse grupo de mulheres. É, pela descrição da sua missão, ao mesmo tempo, o seu ponto de partida e de chegada. Na perspectiva dessa organização, a formação educacional é encarada como fundamental. No entanto, o aspecto formativo que se visa criar é aquele que, por exemplo, agrega à escolarização formal as trajetórias de cada integrante. Trata-se da necessidade de construção de processos de troca e fortalecimento. E é dessa compreensão que esse grupo de mulheres - antenadas com as novas ferramentas e tecnologias de comunicação – parte para propor caminhos nos quais esse espaço de formação e troca seja ampliado e atinja mais mulheres Brasil afora. Foi nesse sentido que a AMO elaborou e executou o curso a distância denominado “Produção Intelectual de Mulheres Negras”. Segundo informações contidas no seu blog, este curso foi uma das motivações para a constituição formal do coletivo, em 2010. Em 2009, o grupo mulheres do qual a associação se originou realizou uma edição piloto do curso. O grande número de pessoas interessadas em acompanhar a discussão, associado aos resultados obtidos após a sua execução, demandou a institucionalização do grupo e a ampliação da proposta de trabalho. Assim, em 2010, já formalizada, a AMO realizou uma segunda edição do curso “Produção Intelectual de Mulheres Negras”. A terceira edição do curso, sobre a qual nos debruçaremos para a nossa análise comparativa, ocorreu em 2015 e contou com mais de cinco mil inscrições. O fato de o curso ser a distância pode ser um importante indicativo dessa alta procura. Mesmo sendo ofertado apenas para o estado de São Paulo, foram recebidas inscrições de várias regiões do país. Mas, parece-nos, a princípio, que são mesmo os objetivos do curso que chamaram atenção das/dos interessadas/os em realizá-lo e, nesse sentido, a possibilidade de discutir a trajetória de mulheres negras invisibilizadas pela história oficial pode ser tomado como ponto central desse aspecto. Formulados na edição piloto de 2009, os objetivos foram se ampliando e na edição de 2015 (março - agosto) ganharam o reforço de novas referências biográficas, além de destacarem a necessidade das/dos cursistas refletirem suas próprias realidades à luz das trajetórias trabalhadas. Do ponto de vista do conteúdo, o curso foi iniciado com a discussão da grandeza e importância das rainhas africanas, das mulheres negras que fortaleceram a luta nos quilombos, de outras que aproveitaram o espaço religioso para preservar crenças e conhecimentos ancestrais e daquelas que fizeram das diversas formas de trabalho instrumentos para lutar por uma vida digna. Ele seguiu abordando alguns aspectos da história brasileira, discutindo, por exemplo, a luta pela sobrevivência das mulheres negras no contexto após a abolição, apontando como essas mulheres desempenharam inúmeras funções no trabalho doméstico, como algumas desafiaram valores e imposições da sua época e se lançaram em espaços exclusivamente ocupados por homens. Um outro momento significativo da abordagem trazida pelo curso foi o destaque dado ao processo de organização da luta das mulheres negras – via espaços próprios – ao não se conformarem com a indiferença das organizações feministas e negras às suas especificidades. Para cada momento desse, foram destacadas a vida e a produção intelectual de mulheres negras1 nem sempre presentes nas versões elaboradas sobre a nossa história. Executado na plataforma de educação a distância MOODLE, o curso “Produção Intelectual de Mulheres 2015” selecionou 600 cursistas de um total de 5.115 inscritos. Esses foram distribuídos em doze salas e acompanhadas/os diariamente por seis tutoras. Com o conteúdo divido em oito módulos, as/os cursistas tinham, em média, dez dias para se apropriarem do material disponibilizado e partilharem impressões, relatos e análises com as/os demais cursistas e com a sua tutora de referência. Os chats e fóruns visavam ampliar ainda mais esses espaços de troca. Ao final do curso, todas/os foram convidados a produzirem uma intervenção no seu ambiente de convivência e/ou atuação, tomando por referência os debates produzidos em cada módulo ou demandas suscitadas a partir dos mesmos. Quando passamos a analisar o perfil das pessoas inscritas no curso (tabela 01), percebemos que mais de 86% eram mulheres, 71,45% se declarou heterossexual, 47,50% era negra/o e 82,17% possuíam nível superior. Tabela 1 – Inscrições no curso Produção Intelectual de Mulheres Negras2 Origem Sexo Orientação sexual Raça Escolaridade (nível) São Paulo 2194 Homens 403 Heterossexual 3655 Brancos 984 Superior 4203 Outros estados 2921 Mulheres 4439 Bissexual 500 Negros 2930 Técnico 148 Total 5115 Outros 15 Homossexual 42 Pardos 770 Médio 459 Lésbica 121 Outros 126 Fundamental 27 Gay 22 Outros 3 Outros 192 Fonte: Banco de dados da Associação Mulheres de Odun (2014-2015). Na análise das questões abertas, a maioria das pessoas inscritas disse que ficou sabendo do curso via redes sociais ou por meio de sites de organizações culturais ou educativas. De todo modo, foi a internet a principal ferramenta de divulgação do curso e aliado ao fato dele se desenvolver à distância, esse aspecto reforça a nossa compreensão de que as principais bandeiras de luta das organizações de mulheres negras no Brasil – o combate ao racismo e ao sexismo – contam hoje com estratégias que podem ser 2 Dados organizados e disponibilizados pela Associação Mulheres de Odun. É importante destacar que nem todas as pessoas inscritas responderam a todas questões do formulário. Por isso, o total de algumas categorias diverge do total geral de inscritos. formuladas e consolidadas no plano das novas tecnologias de informação, com destaque para as mídias sociais. As ações da Associação Mulheres de Odun dentro das chamadas novas redes de comunicação e interação pode ser tomada, a exemplo de outros movimentos e organizações, como alternativa à ampliação do seu espaço de visibilidade e atuação. Porém, talvez seja importante ressaltar que a internet pode ser veículo de mobilização e ação não apenas porque se “oferece” a isso, mas também porque o contexto cultural e político das sociedades contemporâneas exige dos organismos sociais novos caminhos para sua manutenção e fortalecimento, mesmo que muitas demandas permaneçam as mesmas de décadas passadas. 2.0: Ciberativismo e o Feminismo Interseccional A rede de ativismo que se autodenomina feminismo interseccional surgiu há um ano e meio e é formado por maioria de mulheres negras, jovens, cuja faixa etária varia de 20 a 30 anos. Trata-se de um grupo de jovens feministas que atua fortemente nas redes sociais, que lhes serve como espaço comunitário de troca de experiência, informações e ideias, tornando-se assim ambiente de formação de identidade coletiva, mas também de ferramenta para projetar seus objetivos e formas de atuação política. Embora a base da rede se constitua no ambiente virtual, as ativistas também promovem encontros presenciais em lugares públicos,ondem discutem problemas relacionados ao racismo, machimo, homofobia, e especialmente a transfobia e a questão da visibilidade lésbica. Em sua primeira atividade de abrangência nacional, as ativistas definiram-se da seguinte forma: “Somos uma frente de mulheres mães, negras, indígenas, lésbicas, bixessuais, periféricas, acadêmicas, organizadas e autônomas e defendemos o feminismo interseccional, que parte da complexidade de pensar a mulher a partir do gênero, raça, classe e orientação sexual” (Apresentação do Caderno DO I ACAMPA Intersec, 2015). Os principais referenciais teóricos e de prática de ativismo das feministas interseccionais vêm do ativismo de mulheres negras brasileiras e do feminismo negro norte-americano. Das tradições do hemisfério Norte e dos trópicos, a rede interseccional toma como legado proposta de formação de uma identidade política baseada na raça e no gênero, buscando dar visibilidade as mulheres negras como sujeitos coletivos de direitos. A visibilidade pública e a luta por reconhecimento (FRASER, 2001) desse grupo social é uma das bandeiras que é compartilhada pela geração mais antiga e a geração mais recente de feministas negras. Assim como a geração do pós-ditadura, as feministas negras dessa nova geração vivem em conflito como o que chamam de “feminismo branco”. Apesar das divergências, as feministas negras da atualidade defendem as pautas clássicas do feminismo no Brasil, como a luta pela legalização do aborto e pelos demais direitos sexuais reprodutivos. No bojo dessas reivindicações, assumem também as plataformas discursivas das mulheres negras, as quais destacam as desigualdades desse segmento populacional em vários campos da vida, como o da saúde, do mercado de trabalho e dos meios de comunicação. Intelectuais brasileiras da velha guarda que são referências para o feminismo interseccional são, especialmente, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. Do feminismo norte-americano, as feministas interseccionais valorizam os trabalho de Bell Hooks, Patrícia Hill Collins, Angela Davis, contudo as autoras que realmente parecem ganhar centralidade na produção dessas ativistas são Aldre Lorde e Kimberle Crenshaw. Da primeira autora retiram a dimensão da sexualidade, em particular das identidades não heteronormativas; enquanto que da segunda inspiram-se propriamente no conceito de interseccionalidade, para quem, tal noção poderia ser assim definida: A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras (CRENSHAW, 2002:177). Contudo, não somente a dimensão dos eixos de opressão são temas dos discursos das feministas interseccionais, mas, sobretudo, a dimensão da identidade coletiva. Nesse sentido, a interseccionalidade na rede feminista está diretamente relacionada diretamente à construção identitária. Importante notar que no ativismo da rede feminista interseccional há uma preocupação em remontar o legado dos movimentos feministas já existentes na cultura nacional há algumas décadas, dando destaque para o feminismo negro brasileiro e o norte americano, além da interlocução com a rede de mulheres lésbias e trans, principalmente. A ideia de chamar para si essa identidade é justamente marcar a dimensão interseccional das relações de opressão social, sem subordinar esses eixos. Contudo, as feministas negras interseccionais, ainda oscilam entre se chamar de feministas interseccionais ou feminismo negro interseccional. Essa ambivalência na autodefinição merece destaque, pois indica a formação de uma rede, que como tal ora pende para a manutenção da tradição de ativismo, ora indica uma novidade, que abre maior interlocução não apenas com os movimentos que rompem com a heteronormatividade, como também abrem diálogo com os coletivos de mulheres não negras. 3.0 Algumas considerações: um breve histórico comparativo do ativismo de mulheres negras no Brasil A mobilização autônoma de mulheres negras emergiu no fim da ditadura militar e teve elevado crescimento na década da democratização. Importante notar que esse movimento nasceu em interface com o movimento negro e com o movimento feminista (RODRIGUES e PRADO, 2010). Nesse período, esse ativismo se auto-denominava movimento de mulheres negras, embora grande parte desse segmento se visse como feminista , elas não adotaram essa terminologia em sua identidade coletiva. Durante os anos noventa, esse feminismo ganhou destaque durante a formalização de suas organizações civis, além disso houve um avanço importante no que toca à formação de redes transnacionais e suas relações com o Estado, especialmente com a criação da secretaria para a Igualdade Racial, a SEPPIR, em 2003. Já na virada do novo século, emergiu um novo ciclo de ativismo, marcado pela presença das jovens feministas negras, que atuaram em franca articulação com organizações estrangeiras e também com os ministérios ligados à igualdade de gênero e raça. Essas jovens feministas já se valiam da internet como meio de comunicação, contudo, seu perfil de atuação não diferia muito do ativismo de mulheres negras do contexto da democratização, uma vez que ainda mantinham grande parte do seu repertório de discurso. Contudo, introduziam a dimensão geracional, até então ausente no ativismo de mulheres negras. Num novo ciclo de ativismo, especialmente com a difusão das redes sociais e das grandes mobilizações ocorridas no Brasil em 2013, nas chamadas jornadas de junho, uma nova rede de ativistas, especialmente àquelas emergentes nos contextos das novas tecnologias de informação, passa a atuar fortemente valendo-se preferencialmente da Internet como ferramenta de circulação de informação e de mobilização coletiva contra situações de violência simbólica que envolvem as dimensões de raça, gênero e sexualidade, principalmente. Há que se notar que o discurso que envolve a periferia também tem destaque na articulação dessas mulheres. Além dos cursos de formação, como aquela desenvolvido por organizações de mulheres negras, há sobretudo a crescente mobilização via redes sociais, que passam a formar comunidades interepretativas da realidade social, pautando um discurso contra as formas depreciadas que grupos minoritários são representados na sociedade dominante. Bibliografia: CRENSHAW, Kimberlé(2002). “Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero”. In: Rev. Estud. Fem. [online]. vol.10, n.1, pp. 171-188. RODRIGUES, C. S. & Prado, M. A. M. (2010) “Movimento de mulheres negras: trajetória política, práticas mobilizatórias e articulações com o estado brasileiro”. Psicol. Soc. vol.22 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2010. FRASER, Nancy (2001). “Redistribuição ou reconhecimento? Classe e status na sociedade contemporânea”. In: Revista Intersecções, RJ, UERJ. Ano 4, n. 1, 7-32. HIRATA, Helena (2014). Gênero, Classe e Raça: Interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais. Tempo Social. Revista de sociologia da USP, v. 26, n. 1. SOUZA, Nelson Rosário de. Aculturação e identidade: o caso do seriado ‘sexo e as negas’. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Comunicação e Sociedade Civil do VI Congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (VI COMPOLÍTICA), na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC- Rio), de 22 a 24 de abril de 2015. TARROW, Sidney (2014). The Language of Contention. Cambridge Universidade Press. Fontes de pesquisa: Folder do I Acampamento de Feminismo Interseccional, 19-20de setembro de 2015. Site da Amo: https://comunicaamo.wordpress.com/about/ https://comunicaamo.wordpress.com/about/ As (re)existências de mulheres brasileiras imigrantes em Portugal via mídias digitais: um estudo exploratório Jéssica de Cássia Rossi RESUMO: A presença das mulheres imigrantes brasileiras em Portugal impõe uma série de desafios a esse grupo, como o combate a imagem negativa que os portugueses têm dela, a qual, em algumas situações, está relacionada à hipersexualidade. Por isso, o objetivo do trabalho é analisar como as mulheres imigrantes brasileiras discutem, via mídias digitais como o Facebook, os estereótipos que parte da sociedade portuguesa têm as associado na contemporaneidade. Para tanto, fundamentamo-nos nas reflexões dos “Estudos Pós-Coloniais”, as quais desconstroem as essencializações ocidentais que desvalorizam grupos sociais subalternos. Em seguida, abordamos como as mulheres brasileiras imigrantes que moram em Portugal na atualidade (re)existem à essas situações. Dessa forma, desenvolvemos um estudo exploratório no grupo Mulheres Brasileiras em Portugal, na rede social Facebook, que monitorou o conteúdo das postagens realizadas pelos membros do grupo, de abril a setembro de 2015 a fim de verificar o tema em questão. A partir disso, apontamos algumas considerações a respeito do tema e algumas contribuições desse estudo exploratório. PALAVRAS-CHAVE: Estudos Pós-Coloniais; Mulheres Brasileiras Imigrantes em Portugal; Mídias Digitais. INTRODUÇÃO A presença das mulheres imigrantes brasileiras em Portugal impõe uma série de desafios a esse grupo, como o combate a imagem negativa que os portugueses têm dela, a qual, em algumas situações, está relacionada à hipersexualidade. Por isso, algumas mulheres imigrantes brasileiras têm respondido a essa situação ao criticar e denunciar essa discriminação como fez o Manifesto em Repúdio ao Preconceito contra as Mulheres Brasileiras em Portugal. Essas mulheres têm usado ferramentas digitais como blogs, e-mails e redes sociais para discutir essa questão. Por isso, o objetivo do trabalho é analisar como as mulheres imigrantes brasileiras discutem, via mídias digitais como o Facebook, os estereótipos que parte da sociedade portuguesa têm as associado na contemporaneidade. Para tanto, fundamentamo-nos nas reflexões dos “Estudos Pós-Coloniais”, as quais desconstroem as essencializações ocidentais que desvalorizam grupos sociais subalternos. Em seguida, abordamos como as mulheres brasileiras imigrantes que moram em Portugal na atualidade (re)existem à essas situações. Dessa forma, desenvolvemos um estudo exploratório no grupo Mulheres Brasileiras em Portugal, na rede social Facebook, em que se encontram algumas mulheres brasileiras imigrantes que residem atualmente em Portugal. O estudo exploratório monitorou o conteúdo das postagens realizadas pelos membros do grupo, de abril a setembro de 2015 a fim de verificar o tema em questão. Entre os resultados obtidos, verificamos que o grupo é utilizado para a discussão de assuntos variados, mas que entre esses assuntos há alguns conteúdos que abordam e questionam a discriminação que as mulheres brasileiras imigrantes são alvo na sociedade portuguesa. A partir disso, apontamos algumas considerações a respeito do tema e algumas contribuições desse estudo exploratório. ESTUDOS PÓS-COLONIAIS Quando pensamos no termo “pós-colonialismo”, temos a noção de que ele se refere aos processos de descolonização ocorridos em nações, consideradas de “terceiro mundo”, a partir da primeira metade do século XX. Contudo, há outro significado para o qual este termo também é utilizado. Atualmente, refere-se ao conjunto de reflexões teóricas provenientes “[...] dos estudos literários e culturais, que a partir dos anos 1980 ganharam evidência em algumas universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra” (BALESTRIN, 2013, p.90), e, após isso, expandiu-se para outros lugares e disciplinas, o qual é conhecido como “Estudos Pós-Coloniais” (COSTA, 2005). Trata-se de uma linha de reflexões teóricas bastante complexa devido às suas diferentes perspectivas, mas o que há em comum entre os seus estudiosos são: “[...] a crítica ao modernismo enquanto teologia da história [...], a busca de um lugar de enunciação ‘híbrido’ pós-colonial [...], crítica à concepção de sujeito nas ciências sociais (COSTA, 2005, p.2). É uma linha de estudos que se propõe a desconstruir e criticar o conhecimento ocidental dominante, o qual chegou tardiamente ao Brasil e se tornou uma espécie de “moda acadêmica” (BALESTRIN, 2013). O termo “pós” de pós-colonial não significa simplesmente um “depois”, trata- se de uma operação de reconfiguração do campo discursivo, no qual as relações hierárquicas são significadas. Já o termo “colonial” alude a situações de opressão diversas. Não é fácil delimitar os “Estudos Pós-Coloniais”, pois é uma reflexão que vai além da teoria. As principais perspectivas teóricas que contribuíram com a elaboração dos “Estudos Pós-Coloniais” foram o “Pós-Estruturalismo”, “Estudos Culturais” e autores como Foucault, Derrida, Gramsci (com as noções de hegemonia e subalterno) (COSTA, 2005). Para essa concepção teórica, em algumas situações ainda estaríamos expostos à alguma forma de exploração, como na época da colonização. A diferença é que essa dominação agora é descentralizada e indireta, ela se constitui por meio de um discurso que valoriza o ocidente em detrimento de outros povos “não-ocidentais”. Os “Estudos Pós-Coloniais” se desenvolveram a partir de autores “[...] qualificados como intelectuais da diáspora negra ou migratória – fundamentalmente imigrantes oriundos de países pobres que vivem na Europa Ocidental e na América do Norte” (COSTA, 2005, p.1). Além disso, é difícil delimitar quais seriam os principais autores desta escola teórica, entretanto, há uma noção partilhada sobre a relevância e o destaque dos pensadores da chamada “tríade francesa”, composta por Aimé Césaire, Albert Memmi e Franz Fanon, os quais desenvolveram argumentos pós-coloniais de forma mais ou menos simultânea. Eles “[...] foram os porta-vozes que intercederam pelo colonizado quando este não tinha voz” (BALESTRIN, 2013, p.92). Junto da “tríade francesa” podemos citar também Edward Said, intelectual e ativista palestino, com a produção da obra “Orientalismo – o oriente como invenção do ocidente” em 1978, a qual “[...] denunciou a funcionalidade da produção do conhecimento no exercício de dominação sobre o ‘outro’ [...]” (IBIDEM). Aimé Césaire, Albert Memmi, Franz Fanon e Edward Said ajudaram no processo de transformação da base epistemológica das Ciências Sociais, de modo lento e não intencionado, e foram os pioneiros dos “Estudos Pós-Coloniais”. Entre outros autores, também podemos apontar: Homi Bhabha, Stuart Hall, Paul Gilroy, etc. Ademais, vale salientarmos que os pensadores pós-coloniais já existiam antes mesmo da institucionalização desta corrente teórica e também que o pós-colonialismo surgiu devido à relação antagônica entre colonizado e colonizador. Sobre isso, por um lado, os “Estudos Pós-Coloniais” conseguiram romper com esse binarismo de identidades essencializadas por meio de autores como Albert Memmi, Edward Said e Homi Bhabha; já, por outro lado, essa relação antagônica levou a um processo de identificação entre colonizado e colonizador, em que “[...] a presença do outro me impede de ser totalmente eu mesmo. A relação não surge de identidades plenas, mas da impossibilidade de construção das mesmas” (LACLAU; MOUFFE, 1985, p.125). (RE)EXISTÊNCIAS DAS MULHERES BRASILEIRAS IMIGRANTES EM PORTUGAL Os discursos sobre a “mulher brasileira” existente no imaginário português são marcados pela “geopolítica do saber” que, às vezes, dá vozes à alguns grupos ocidentais, no caso alguns sujeitos e grupos sociais portugueses, e silencia outros,no caso as mulheres brasileiras imigrantes. Dessa forma, discutimos como algumas mulheres brasileiras imigrantes se subjetivam enquanto sujeitos. Buscamos compreender como elas deslocam e transcendem o discurso português hegemônico. Gomes (2013) classifica as (re)existências em passiva, afirmativa e combativa, conforme verificamos abaixo: - (Re)existência Passiva: Trata-se de um tipo de resistência que se aproxima da conformação ou submissão (GARCIA, 2008) ao discurso hegemônico “mulher brasileira”. Segundo Gomes (2013), algumas mulheres brasileiras imigrantes tendem a se aproximar da portugalidade ao invés da brasilidade ao adotar estratégias como: mudar a forma de se vestir, o corte de cabelo, camuflar o sotaque, elaborar um discurso que elas são diferentes das outras brasileiras, buscar por amigos portugueses (PADILHA; GOMES; FERNANDES, 2010). Ao fazer isso, as migrantes brasileiras parecem estar resignadas ao imaginário “mulher brasileira”: [...] ou seja, já que não podem alterá-lo, afastam-se dele individualmente, aproximando-se da portugalidade e, assim, resistem de forma passiva. Resistência, porque sobrevivem ao preconceito e à discriminação; passiva, porque se resignam, compartilham a ordem discursiva hegemônica. (GOMES, 2013, p.881-882). Dessa forma, parece haver uma conformação às práticas discursivas hegemônicas, sem questionamentos às essencializações lusitanas. Essa estratégia é comum entre mulheres brasileiras imigrantes de classe média alta, que tentam demonstrar por meio do seu capital cultural que não têm ligação com a migração econômica (RODRIGUES, 2010). - (Re)existência Afirmativa: Além da aportuguesação, Gomes (2013) destaca que há mulheres brasileiras imigrantes em Portugal que exaltam a brasilidade. E devido a isso, alguns pesquisadores da área, segundo a mesma autora, parecem culpar essas mulheres pela reprodução do estereótipo ou apontam que algumas mulheres tiram vantagem desse estigma. Isso ocorre, por exemplo, quando as brasileiras usam sua “sexualidade agressiva” para se aproximar do imaginário português e obter vagas de trabalho destinadas às brasileiras (associadas à brasilidade) como entretenimento, mercado do sexo, cuidado de crianças e idosos ou atendimento ao público (MACHADO, 2009). Trata-se de um mercado de trabalho que racializa as brasileiras em posições específicas e inferiores ou, até mesmo, uma forma não consciente de internalização dos estigmas a que as mulheres brasileiras imigrantes estão associadas (PADILHA; GOMES; FERNANDES, 2010). - (Re)existência Combativa: Embora não haja muitas reflexões sobre o que se entende por (re)existência combativa, podemos dizer que o termo está bastante próximo da visão dos “Estudos Pós-Coloniais” e “Estudos Decoloniais Latino-Americanos” ao buscar a dessencialização de um discurso hegemônico e ao buscar outras perspectivas identitárias. Isso porque: [...] a resistência combativa é a tentativa de desconstrução do discurso hegemônico, a demonstração da possibilidade de outras definições identitárias, a emergência de múltiplas brasilidades ou, ainda, identidades não nacionais. Pode ocorrer tanto no cotidiano quanto através do ativismo organizado. (GOMES, 2013, p.887). Percebemos que é uma forma de criticar práticas discursivas vigentes em uma sociedade, de modo individual ou coletivo. METODOLOGIA - PESQUISA EXPLORATÓRIA É o que fizemos em nosso trabalho, escolhemos elaborar um estudo exploratório no grupo Mulheres Brasileiras em Portugal, na mídia digital Facebook, em que há a participação de algumas mulheres brasileiras imigrantes, as quais moram ou já moraram em Portugal recentemente. Dessa forma, por meio de alguns exemplos sobre como o as mulheres brasileiras imigrantes respondem às situações de discriminação e violência que elas são alvo na sociedade lusitana, temos como entender a maneira como elas subjetivam isso, ou seja, se (re)existem de forma passiva, afirmativa ou combativa. A escolha do grupo Mulheres Brasileiras em Portugal no Facebook se justifica porque foi um dos primeiros grupos que tivemos contato e, de alguma forma, apresenta postagens que discutem o preconceito sobre a “mulher brasileira” entre os portugueses. Tendo isso em vista, monitoramos o conteúdo das postagens realizadas pelos membros do grupo, entre os meses de abril e setembro de 2015 para verificar o tema em questão. RESULTADOS O grupo Mulheres Brasileiras em Portugal, o qual foi criado em 21 de abril de 2015, por Sidineia Yamaguchi, advogada, proveniente do Estado do Paraná no Brasil, que reside em Portugal há 16 anos e atualmente mora na cidade Foz do Douro, Porto, Portugal. Conforme Gomes (2013) apontou em sua pesquisa, a (re)existência combativa é mais comum entre mulheres intelectualizas, como parecer ser o intuito de Yamaguchi ao ter criado o grupo. Isso se torna mais explicito quando ela descreve o grupo e seus objetivos: “Somos um grupo de partilha de experiências (as boas e as más), de denúncia, de apoio e entre ajuda (social, jurídica, profissional, familiar) e tbm grupo de convívio.” (YAMAGUCHI, 2015, p.1). Trata-se de um grupo fechado, cujos membros precisam pedir autorização para participar, ou seja, é uma participação por adesão. Entre os objetivos do grupo, está a denúncia e o apoio entre as mulheres imigrantes brasileiras que participam do grupo. Tanto que a imagem de apresentação do grupo é composta pela bandeira do Brasil de fundo com a seguinte legenda “valorização mulher brasileira”. Até o momento o grupo conta com 65 participantes, sendo que destes há somente 1 homem e 1 organização que participam do grupo. A maioria das participantes, ou seja, aproximadamente 97% são mulheres brasileiras que moram, já moraram ou tem interesse em morar em Portugal. A partir disso, realizamos uma pesquisa exploratória entre os meses de abril e setembro de 2015 em que monitoramos o grupo a fim de analisar como algumas mulheres brasileiras imigrantes (re)existem em relação ao preconceito existente sobre a “mulher brasileira” em Portugal. Como elas respondem a esse preconceito, ou seja, como elas (re)existem em relação a isso. Entre os conteúdos monitoramos, foi possível contabilizarmos 25 postagens entre o período de abril a setembro de 2015. Os conteúdos postados foram classificados da seguinte forma: orientações e opiniões sobre o grupo: 4 postagens (16%); dúvidas sobre direitos e a vida de imigrantes brasileiras em Portugal: 4 postagens (16%); denúncias sobre discriminação sobre a “mulher brasileira” em Portugal: 3 postagens (12%); Convites para eventos: 2 postagens (8%); Anúncios Publicitários: 7 postagens (28%); Depoimentos Gerais: 2 postagens (8%); Outros: 3 postagens (12%). A partir das postagens levantadas, percebemos que predominância de postagens cujo conteúdo trata-se de anúncios publicitários e há também conteúdos bastantes diversificados discutidos pelos membros do grupo e de seu interesse como dúvidas sobre os direitos de imigrantes em Portugal. Em relação as denúncias sobre a discriminação sobre a “mulher brasileira”, verificamos que somente 12% dos conteúdos discutem o preconceito e a discriminação que as mulheres imigrantes brasileiras estão expostas na sociedade lusitana. Embora as respostas ao preconceito que essas mulheres vivem em Portugal sejam minoria no grupo analisado. Percebemos que existe alguma consciência delas em relação a isso, de alguma maneira, elas reagem e denunciam a atitudes preconceituosas e de violência dos portugueses. Isso quer dizer que grupos colonizados, como o caso pesquisado, buscam formas de denúncias em espaços como as mídias digitais para que sejam ouvidos. Estes reivindicam um lugar de fala, há muito dominado pelo discurso ocidental. REFERÊNCIAS BALESTRIN, Luciana. América Latina e o Giro Decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política. Universidadede Brasília, Brasília - DF. Maio – Ago. 2013, p. 89-117, n.11. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n11/04.pdf. 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Rio de Janeiro. 2013. v.56. n.4. p.867-900. http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n11/04.pdf http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/poscolonialismomana-S%E9rgio%20Costa.pdf http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/poscolonialismomana-S%E9rgio%20Costa.pdf LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemony and socialist strategy: towards a radical democratic politics. Londres: Verso. 1985. MACHADO, Igor. Cárcere Público: processos de exotização entre imigrantes brasileiros no Porto. Lisboa: ICS. 2009. PADILHA, Beatriz; GOMES, Mariana; FERNANDES, Gleciani. Ser brasileira em Portugal: Imigração, Gênero e Colonialidade. Actas de 1º Seminário de Estudos sobre Imigração Brasileira na Europa. Barcelona, Espanha. 2010. RODRIGUES, Elsa. Do Brasil Palhaço ao Portugal Europa: a importância do “onde se vem” na construção do “para onde se vai” nas estratégias de imigrantes femininas brasileiras em Portugal. Actas do 1º Seminário de Estudos sobre a Imigração Brasileira na Europa. Barcelona, Espanha. 2010. YAMAGUCHI, Sidinéia. Mulheres Brasileiras em Portugal – grupo fechado. Facebook. Brasil. 2015. Disponível em: https://www.facebook.com/groups/1436312650013154/. Acesso em: 29 out. 2015. https://www.facebook.com/groups/1436312650013154/ MÍDIAS RIZOMÁTICAS, CONTROVÉRSIAS E ATIVISMOS: RESISTÊNCIAS E POLITIZAÇÕES Autorxs: Fábio Morelli e Leonardo Lemos de Sousa – Mestrando e Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social/UNESP-Assis. Resumo: Este trabalho possui como objetivo problematizar questões teóricas, epistemológicas e políticas sobre as pesquisas relacionadas às mídias digitais e locativas em articulações com os estudos de gênero e de sexualidades a partir dos princípios da Teoria Ator-Rede. A projeção, confecção, desenvolvimento e produção de dispositivos eletrônicos e demais aparatos tecnológicos são, hoje, resultados de uma história na qual as ciências modernas – não sozinhas – possuem responsabilidades em suas produções, pois, em grande medida, foi sob a lógica de seus pressupostos e princípios que tais aparatos foram pesquisados, incitados e finalmente, produzidos. Tal afirmação não leva em consideração somente a necessidade de conhecimentos e saberes para a produção de mercadorias, produtos e objetos, mas também a própria produção de como seres humanos e não-humanos estabeleceram e estabelecem suas relações. Significa que também é responsabilidade das ciências modernas – mais uma vez, não sozinhas – o modo como as relações sociais se deram e se dão quando em interação e encontro. Se a própria ciência – e junto com ela a academia – é também um espaço de produção de uma tecnologia do saber e dos conhecimentos que, muitas vezes, invisibiliza e marginaliza diversas expressões – humanas e não-humanas –, mudanças em pressupostos metodológicos e epistemológicos também fazer parte da necessidade de novas estratégias políticas e de enfrentamento das desigualdades e hierarquizações. Portanto, para se pensar politização e resistência é, antes de mais nada, necessário buscar conhecer qual(is) é(são) a(s) rede(s) que as sustentam, seja na produção do conhecimento e/ou nos usos de seus resultados ou de seus fiascos. Palavras-chave: Teoria Ator-Rede; Ciberativismos; Mídias. Introdução As opiniões acerca das relações que são estabelecidas a partir dos usos de dispositivos eletrônicos são divergentes e, muitas vezes, causam polêmicas. Há aquelxs que acreditam que a internet – desde a sua popularização por meio dos desktops até mais atualmente por meio da internet móvel – através de diversos dispositivos – acabarão com as relações num futuro próximo. Há aquelxs que também acreditam na divisão das relações entre reais/verdadeiras em detrimento das virtuais/falsas. Ale´m desses há ainda os/as que acreditam que esses novos recursos possibilitam outras experimentações e experiências tanto consigo mesmo quanto quando em interações com outrxs sujeitxs. Longe de pretender polarizar e dividir as opiniões em somente duas, dentre esses dois extremos podem haver diversas outras posições no que se refere a como as relações vêm se transformando quando em contato com dispositivos eletrônicos que permitem acesso à rede. E é justamente a problematização desses contatos que se trata este trabalho. Lembrando que esta problematização não parte de pressupostos teóricos que acreditam que a ciência exista para explicar e desvelar a realidade, caracterizando-a de essencialismos e universalismos, pelo contrário, parte de concepções que afirmam que qualquer produção de conhecimento é situada e parcial (HARAWAY, 1995). Compreende-se aqui que tais interações não são meros encontros ao acaso, mas que são produzidas e producentes de subjetividades. Percebe-se que a palavra subjetividade está sendo tratada no plural propositalmente, pois pensamos que não há uma única subjetividade emergindo dessas interações, mas muitas possíveis no que se refere aos modos de sentir, afetar, pensar, agir e ver o mundo. Isso não quer dizer que não haja linhas de homogeneização de seus usos, mas preferimos visar e buscar pensar as emergentes linhas heterogêneas. Nas palavras de Guattari (2012, p. 15): As transformações tecnológicas nos obrigam a considerar simultaneamente uma tendência à homogeneização universalizante e reducionista da subjetividade e uma tendência heterogenética, quer dizer, um reforço da heterogeneidade e da singularização de seus componentes. (...) é preciso evitar qualquer visão progressista ou qualquer visão sistematicamente pessimista. A produção maquínica de subjetividade pode trabalhar tanto para o melhor como para o pior. Existe uma atitude antimodernista que consiste em rejeitar maciçamente as inovações tecnológicas, em particular, as que estão ligadas à revolução informática. Entretanto, tal evolução maquínica não pode ser julgada nem positiva nem negativamente; tudo depende de como for sua articulação com os agenciamentos maquínicos de enunciação. Mais do que somente problematizar o conceito de subjetividade, Guattari busca, em Caosmose, articulá-lo com a produção de epistemologias mais heterogêneas que visem romper com paradigmas cientificistas a fim de se aproximarem de paradigmas ético-estéticos que possuem como finalidade não invisibilizar subjetividades pelas universalizações científicas, neutras e objetivas, mas, antes à pluralidade de subjetividades singulares. É deixar de verticalizar a aplicação de saberes cientificistas às subjetividades e, assim, produzir saberes localizados. Este texto se trata, portanto, de uma tentativa de se pensar uma articulação mais heterogênea entre subjetividades e usos de mídias e, por isso só, já se trataria de uma postura política frente às produções científicas hegemônicas. Entretanto, no que se refere à política, tal texto também busca pensar estratégias de enfrentamento de normatividades e preconceitos, principalmente, os referentes aos gêneros, à classe e à raça. É seguindo esse sentido heterogêneo que denominamos as mídias derizomáticas. O rizoma se tornou um importante conceito na filosofia de Deleuze e Guattari (2011) e possui origem nos termos da biologia. A fim de diferenciá-lo de outros tipos de formação das raízes, como as raízes fasciculadas ou pivotantes em que é possível acompanhar as divisões e as respectivas origens de suas ramas e desmembramentos, numa formação rizomática os pontos de conexões e as origens das ramas que dão sustentabilidade, mesmo que momentânea, a um ser vivo – ou uma existência – são indecifráveis quanto suas origens e possíveis de tomar quaisquer dimensões ou territórios e, portanto, imprevisíveis. Deleuze e Guattari destacam seis qualidades do rizoma: múltiplo, heterogêneo, conectivo, possível de se romper por meio de linhas desterritorializantes, cartográfico (mapeável parcialmente) e é também decalque (reprodutível ao infinito). Pensar em rizoma é trata-lo como n-1 no qual o n é a multiplicidade e o 1 representa o único sendo subtraído da multiplicidade, ou seja, somos um na multidão e nas possibilidades. Somos sempre uma subtração do múltiplo. Tratar as mídias como rizomas possui uma intenção muita clara de flexibilizar não só as noções de espaço e tempo quando estamos em interação com a internet, mas também os processos de subjetivação que marcam e apresentam modos de existir. Pensar as mídias como rizomáticas é dificultar encontrar uma resposta para a seguinte pergunta: o que pode emergir dos encontros e usos entre smartphones, tablets, desktops, etc. e seres humanos? Parece-nos que as respostas são muitas e possíveis, e por isso cabe perguntar: estamos longe de uma homogeneização quanto aos modos de se relacionar via os mecanismos atuais de comunicação? O máximo que podemos alcançar, no caso de encontrar uma resposta, é que ela será no mínimo provisória e muito particular. Teoria Ator-Rede Nascida dentre os estudos de Ciência e Tecnologia e proposta, primordialmente, por Bruno Latour, Michel Callon e John Law (LEMOS, 2013) consideramos a Teoria Ator-Rede como uma das possíveis saídas no que tange à produção de uma nova epistemologia que contemple a singularidade e aniquile os essencialismos. Também conhecida em sua sigla em inglês “ANT” (Actor-Network Theory), muitxs autorxs preferem manter essa referência de formiga (Ant em inglês significa formiga) por se tratar de um trabalho que exige minúcias e o trilhar de pequenos e estreitos caminhos (TSALLIS & RIZO, 2010). Em uma de suas recentes produções traduzida no Brasil, Bruno Latour (2012) a inicia destacando a importância de tensionar o adjetivo “social”. Segundo ele, nas teorias sociais clássicas este adjetivo é tratado como a busca de uma explicação social, mas isso pode ocorrer de duas formas: 1) um tipo de categoria que pode ser separada de outras e que possui componentes específicos, como por exemplo, as tradicionais separações entre natureza/cultura, biológico/social, etc. ou 2) algo em movimento que está em processo de agregar-se a alguma outra coisa para ser considerada social, por exemplo, uma bicicleta parada por si só não entraria numa pesquisa do social sem que estivesse ligada a umx sujeitx ou a algum movimento de pessoas – nota-se que o social aqui está restrito aos seres humanos. Dessa tensão problematizada pelo autor, ele não descarta o termo “social”, mas o resignifica como “(...) um tipo de conexão entre coisas que não são, em si mesmas, sociais” (LATOUR, 2012, p. 23) e que ele chamará de associações. Se coisas e seres humanos não são sociais, mas tornam-se sociais, isso significa que tanto coisas quanto seres humanos não possuem uma essência a priori e que o resultado de suas interações depende de suas associações, distanciando-se assim dos universalismos e da homogeneização. Antes de adentrarmos as concepções de Ator e de Rede, é crucial problematizarmos o “princípio de simetria”. Bruno Latour (2013) envereda o seu trabalho buscando pensar como as ciências produzem os seus conhecimentos. Desse modo, afirma que a modernidade, constituída primordialmente pelas produções científicas, se deu por meio de uma purificação por meio da qual as ciências buscaram explicar, nomear e teoriza sobre o real de modo que a produzisse e não a descobrisse. Para isso, alguns cientistas utilizaram laboratórios que funcionavam como um tribunal em que o veredito era dado por seres humanos por meio de experiências e adaptações de não-humanos (substâncias químicas, aparatos tecnológicos, registros, relatórios, etc.), enquanto outrxs cientistas construíam e teorizavam sobre o que se chamava de social utilizando de tabelas, esboços e, muitas vezes, produzindo ideias de Estado, de representação e de organização política. Na disputa pelo desvelamento do real produziram não só a ideia de “fato científico”, mas uma assimetria, uma hierarquia de saberes e uma pluralidade de explicações sobre um fenômeno e, assim, produziram os híbridos. A partir disso, também fica muito difícil responder às questões: quem somos nós? O que nos constitui? Basta tentar responde-las que você provavelmente buscará explicações biológicas e/ou sociológicas que transitarão entre os polos na busca de qual possui mais interferência, o fato é que elas não se equivalerão no modo como foram produzidas. Ambas as perspectivas mencionadas buscaram purificar as associações utilizando um arcabouço de argumentos produzidos, colocando nós, seres humanos, em um lugar de avançados, enquanto a natureza e as coisas ficaram em outro lugar, o de primitivos, prontos para serem explorados para as invenções dos seres humanos. Para que uma sociedade seja reconhecida como civilizada e em constante progresso há uma dependência direta do quanto elas conseguem inovar, criar e explorar os recursos naturais, os objetos e a vida de uma forma mais ampla, seja ela de animais, de plantas ou de coisas. Portanto, a modernidade é marcada pela assimetria e dominação garantida pela hierarquia entre humanos e não-humanos. Para Latour (ibidem), se nem pessoas e nem coisas possuem uma essência, então o que acontecerá entre não-humanos (quase-coisas) e seres humanos (quase-humanos) poderá ser visto somente em suas associações, de modo que nem um, nem outro esteja sobreposto, isto é, devem ser levados em grau de simetria quanto as ações que decorrem de suas associações: “(...) Tudo acontece no meio, tudo transita entre as duas, tudo ocorre por mediação, por tradução e por redes, mas este lugar não existe, não ocorre. É o impensado, o impensável dos modernos.” (LATOUR, 2013, p. 43). É nesse sentido que “Jamais fomos modernos” – e nem seremos –, porque embora a modernidade tenha conseguido produzir inovações inacreditáveis, agimos, pensamos e sentimos de formas inimagináveis, somos capazes de produzir quaisquer associações e isso não está – e nem será – contemplado, tampouco previsto pelas ciências. Sendo assim, para o autor só há uma forma de pensar a produção de conhecimento e é por meio do rastreamento da rede que se forma por meio das associações. Como já mencionado, as associações não ocorrem de forma neutra, pelo contrário, cada ator/atriz, seja elx não-humano ou seres humanos, realiza uma mediação, ou seja, produz o movimento que x ator/atriz (actante) dá à rede. A/o ator/atriz é chamadx de actante que é o não-humano ou o ser humano que produz alguma ação e movimento na rede. Entretanto, essa rede não é a rede que é habitualmente reconhecida pelos usos da internet, mas são as associações estabelecidas entre humanos e não- humanos. Entretanto, essa rede de associações não é visível. Quando as associações se estabilizam surge a caixa-preta e aí, a rede de associações que produz a existência de alguém ou de algo se invisibiliza. Para que a rede seja aberta e visível é preciso que surja uma(s) controvérsia(s), pois será a partir dela que os actantes e suas associações (rede) emergirão. Por exemplo,se um celular está funcionando de acordo com que esperamos de suas funções ele está como uma caixa-preta, estabilizado e dando conta do que se espera, mas se de repente ele parar de funcionar e você recorrer a um técnico emergirão as controvérsias para resolvê-las e, assim, a rede de saberes, de ferramentas e expectativas sobre sua utilidade estarão desestabilizadas e será necessário rastrear as associações a fim de estabilizar a situação. Nesse caso, o celular foi um actante que se tornou uma caixa-cinza (NOBRE & PEDRO, 2010), isto é, uma rede desestabilizada e agora visível, rastreável. As interações que se dão por meio do encontro entre dispositivos que permitem o acesso à internet (não humanos) e entre seres humanos é uma constante movimentação de caixas-pretas e caixas-cinzas, de actantes ora humanos, ora não humanos e de uma associação em redes rizomáticas. Entretanto, neste texto será dada maior atenção às controvérsias desiguais e assimétricas que permeiam as mídias rizomáticas e seu respectivo potencial de problematização, resistência e politização, ou seja, ao potencial de transformação quando elencamos as mídias como actantes de associações ainda longe de se estabilizarem. Resistência e politização Pensar uma forma de produzir conhecimento que não se pretenda universal e nem se paute em essencialismos já se apresenta como uma proposta política por meio da qual a linguagem utilizada não é necessariamente com bases na sofisticação e eleição meticulosa do vocabulário científico que, muitas vezes, silencia, invisibiliza e fala pelos actantes, mas, ao contrário, abre espaços para que os actantes falem por meio de suas próprias linguagens que nem sempre se aproximam da erudição acadêmica (LATOUR, 2012). Ainda assim, busca-se aqui pensar uma possível construção da cidadania por meio das mídias rizomáticas de modo que se aproxime de uma equidade quanto às desigualdades de gênero, de sexo, de classe e de raça. As mídias aqui podem funcionar como máquinas enunciadoras quando em conjunto com outros agenciamentos de subjetivação (GUATTARI, 2012), isto é, como produtoras de subjetivação parcial que não se dão somente por meio das mídias, mas que por meio delas também podem ser espaços de uma singularização da subjetividade individual e coletiva. Aos/Às sujeitxs que corresponderem aos valores normativos de gênero (masculino em detrimento do feminino), de raça (brancos em detrimento de negros, pardos, vermelhos e amarelos) e de classe (atendimento aos princípios neoliberais) é garantido, nos termos de Butler (2014), uma inteligibilidade enquanto cidadão, isto é, a/o sujeitx é reconhecidx enquanto cidadã/o de direitos e, portanto, ganha reconhecimento de trânsito em liberdade pelos espaços públicos, bem como proteção por parte do Estado. Enquanto aos/às sujeitxs que se afastam desses valores, se distanciam das garantias de direitos, dentre eles o direito à proteção e, assim, aproximam-se da ininteligibilidade e da abjeção. Assim, essa inteligibilidade estaria garantida – ou não – por meio das expressões corporais e discursivas (performance) quanto ao gênero, raça e classe. Para Allucquère Stone (1998) a história das tecnologias se apresenta como uma frequente (re)negociação entre os aparentes limites entre corpo e máquina que possibilita novas formações existenciais e, assim, traz novas problematizações e discussões quando se trata de interações via ambientes ditos virtuais, interferindo no reconhecimento da (in)inteligibilidade. Usar do “anonimato” aparente na rede – em que se negocia a (in)visibilidade – tem permitido uma série de violências e de promoção de discursos intolerantes motivados pelo ódio e pelos preconceitos que ferem os princípios de Estado Democrático de Direto como é o caso do Brasil. Essas violências não partem somente dxs usuárixs da rede, como também da evidente vigilância e controle que tais plataformas têm possibilitado às administrações governamentais no que se refere ao acúmulo e ao acesso a dados de uma nação. Devemos então aniquilar o anonimato e dissolver o Estado como controlador das informações? A resposta não seria tão simples, mas teria que se aproximar das controvérsias que surgem dos seus espaços no que se refere às garantias da cidadania no sentido de elaborar estratégias e práticas que se aproximem de uma resistência aos jogos do poder que oprime e estigmatiza alguns grupos sociais, tais como: mulheres, travestis, gays, lésbicas, negros, imigrantes, etc. Nesse sentido, a resistência se aproximaria do que se entende por poder em Foucault (2014, p. 360): “(...) Tão inventiva, tão produtiva quanto ele. Que, como ele, venha de “baixo” e se distribua estrategicamente”. No que se refere ao enfretamento em relação aos/às usuárixs que destilam ódio e intolerância em seus discursos e ações em redes sociais seria uma estratégia não só o investimento em políticas públicas educacionais que fosse mais inclusiva ou na clara delimitação de crimes cibernéticos (como a atual comissão criada no Congresso Nacional) e, portanto, mais promotora de uma cidadania ampla e contemplativa nas diferenças, mas também por meio de fóruns e debates nas próprias redes que possibilitariam outras experiências e vivências com os preconceitos. Já no que se refere ao Estado, as estratégias de resistência têm sido promovidas basicamente por hackers (que visam decifrar o funcionamento e as informações que correm na internet, mas ainda é uma prática em que a presença de homens é predominantemente maior quando comparada à presença de mulheres, o que interfere diretamente em suas demandas e análises), como os que atuam junto o WikiLeaks (ASSANGE, 2013) buscando romper a estrutura de proteção dos poderosos e de vigilância dxs menos favorecidxs em que o lema de seus trabalho gira em torno da seguinte máxima: “Privacidade para os fracos e transparência para os poderosos”. Nesse sentido, pensar a promoção da cidadania não se restringe à rua, mas também aos/às usuárixs das redes e dos serviços de acesso à internet. Referências Bibliográficas ASSANGE, J. Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet. São Paulo: Boitempo, 2013. BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 7ª ed. 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O movimento, importado do Canadá, tem uma forma de organização que se diferencia de outros atos feministas, como a Marcha das Margaridas e a Marcha Mundial das Mulheres, não apenas pelo enfoque principal ao direito sobre o próprio corpo e pela liberdade sexual - pauta que obteve grande destaque no movimento feminista da década de 70 (GARCIA; BIROLI, MIGUEL), mas principalmente por ser organizado no universo do ciberativismo (BERALDO; MALINI, ANTOUN), em especial no Facebook,em que as manifestantes são convidadas para o ato e são debatidos temas do feminismo. Até o mês de setembro de 2015 a página oficial do movimento trazia 20.400 curtidas, o que a configura como a Fanpage mais popular do Brasil. Neste artigo analisamos a página no Facebook da Marcha das Vadias Sampa durante os quatro meses que antecederam o V ato das Vadias, ou seja, de fevereiro a maio de 2015. Buscamos entender como o evento é organizado no ciberespaço e quais outras ações e debates são promovidos pela Coletiva Marcha das Vadias Sampa. Palavras chaves: ciberativismo; feminismo; marcha das vadias; Facebook 1 Mestranda no Programa de Comunicação e Semiótica da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo. Bolsita Capes. Introdução Marchas promovidas por mulheres existem há séculos. Não há dados precisos dos primeiros movimentos de ruas promovidos e exclusivos delas. Mas, destacamos a Marcha de Versalhes em 1789, em que seis mil mulheres marcharam até Versalhes para apresentar uma petição a Assembleia Nacional, que abolisse os privilégios dos homens sobre as mulheres (GARCIA, 2015). Passados duzentos anos, as mulheres continuam marchando nas ruas a fim de conquistar o seus direitos. No século XXI proliferou-se uma nova forma de reinventar o feminismo e sua militância: as tecnologias da comunicação. O presente artigo aborda como a Coletiva Marcha das Vadias Sampa promove o ato com este mesmo nome, publitiza e questiona as questões do feminismo. A Marcha é um movimento contemporâneo – surgiu em 2011 - que considera a violência sexual e a lógica de divisão “mulher para casar” e “mulher para o sexo”, a mais perversa opressão do sistema patriarcal. Por isso, vão às ruas, onde sofrem grande parte da violência, para defender o direito da mulher em ser livre e quebrar à ideia de que o desejo e o corpo devem ser escondidos por serem considerados ofensas. Apesar de o movimento ter como bandeira principal, o direito da mulher em ser livre, outras demandas de lutas também se integram a manifestação. O primeiro ato ocorreu no Canadá, no dia 3 de abril de 2011, em repulsa ao discurso da cultura do estupro, em que a mulher é a culpada pelo assedio causada a ela, seja por não se proteger, por usar roupas provocantes, entre outros. A cultura do estupro é comum em diversos países. Por isso, manifestações aconteceram em países da América e Europa. O movimento das Vadias chega ao Brasil, primeiramente em São Paulo, no dia 04 de junho de 2011. O ciberespaço e a mobilização das mulheres fizeram que em poucas semanas o protesto se espalham-se por mais de 200 cidades (HELENE, 2013). Para a autora, as Vadias se organizam e se reproduzem no universo virtual de forma descentralizada, característica comum aos movimentos contemporâneos. Devido à internet estar aliada a celulares multifuncionais, máquinas fotográficas e filmadoras e esses em contato direto com blogs e redes sociais há uma gama de conteúdos ativistas. A ideia inicial era que o movimento das Vadias fizesse apenas uma alusão ao evento acontecido no Canadá. Mas, a manifestação tomou novos rumos e aderiu pautas locais. O corpo ganha pauta na agenda feminista no século XIX, pela herança do pensamento liberal que estabelece o direito ao controle do corpo, o direito de ser dono de si e pela dominação masculina em que o homem tem direito ao acesso do corpo da mulher. A luta pelo controle do corpo inclui o direito ao aborto, combate estupro e a liberdade sexual. (MIGUEL, 2014). Ciberespaço e Coletiva Marcha das Vadias Existem diversas noções de ciberespaço, nos apropriamos de Malini e Antoun (2013). Para os autores os ciberespaços são: “ambientes virtuais comunitários e participativos de discussões” (p.20). Onde se configuram espaços de ativismo e de articulações de minorias. A definição de hacker, para os autores, se diferencia da do senso comum e da pejorativa negativa. O hacker seria o mesmo de midialivrista: (...) um tipo de sujeito que produz, continuamente, narrativas sobre acontecimentos sociais que desatam de visões, editadas pelos jornais, canais de TV e emissoras de rádios de grandes conglomerados de comunicação (...) Essa narrativa hackeada, ao ser submetida ao compartilhamento de muitos e muitos, gera um ruído cujo o principal valor é de dispor de uma visão múltipla, conflitiva, subjetiva e perspectiva sobre o acontecimento passado e sobre os desdobramentos futuros de um fato (AUTORES, ANO, p. 23). O conceito de midialivrista não se refere a um único sujeito, mas a um aparelhamento, ou seja, blogs e perfis sociais de movimentos de gênero, racial, gay, ambiental e organizações não governamentais. Esses produzem novas agendas, debates e se distanciam da visão hegemônica de grande veículos midiáticos. Prado (2008) afirma que grande parte da mídia brasileira não retrata a mulher em sentido coletivo, sua ligação com movimentos sociais ou conquistas de gênero. A mídia constrói a mulher a partir do olhar masculino e não para ela mesma. É uma idealização da mulher que está de acordo com os padrões da dominação masculina: “mulher bonita, gostosa, consumista, boa mãe, boa dona de casa, profissional e companheira” (idem) Na rede social a Marcha das Vadias, assim como outros coletivos, encontram um furo, um espaço para debater outra visão sobre mulher e o seu corpo. Com o ciberespaço e uma geração jovem conectada é possível gerar novos discursos, compartilha-los, comentar e curtir. Além de organizar um evento e publitiza-lo no Facebook. Beatriz Beraldo (2014), em sua dissertação de mestrado, aponta que as marchas juvenis, ganham força a partir do ano de 2010. Ela ressalta que nesses casos há uma interação no universo virtual e durante a ocupação das ruas. A organização do ato é feita pelas redes de comunicação, em especial, o Facebook pela: (....) possibilidade de mobilizar grande número de pessoas sem ter que sair de casa ou recorrer a reuniões, patrocínios, apoios, etc.., o Facebook, sem dúvida, é o grande destaque do ativismo político deste século, especialmente nos setores juvenis (BERALDO, 2014, p. 67). A Marcha Mundial das Mulheres e a Marcha das Margaridas importantes movimentos de rua se mobilizam de forma divergente das Vadias. O primeiro fator é a edição do ato que não é anual. O segundo, a centralidade do evento que ocorre em uma única cidade. Tais fatores exigem uma organização ampla com mobilidade, hospedagem, infraestrutura e divulgação, pois participam movimentos de mulheres do país inteiro e que nem sempre estão conectadas ou com a facilidade do celular em mãos para acompanhar a organização do evento. Terceiro, a dimensão do chegando a reunir mais de cinquenta mil mulheres. O fato da Marcha das Vadias acontecer em 23 estados brasileiros (BERALDO, 2014), em que cada um escolhe a data e o tema que convém com a realidade vivida faz com que o evento seja facilmente organizado nas redes sociais. Entretanto, vale ressaltar que as integrantes da Coletiva de São Paulo não se limitam as redes sociais. Frequentemente são feitas reuniões presenciais e abertas na qual as integrantes definem tema, data, trajeto, performance, venda de objetos, atividades, entre outros. Fanpage Marcha das Vadias Sampa O ato de 2015 foi a 5ª edição do evento da Marcha das Vadias, na cidade de SãoPaulo e aconteceu no dia 30 de maio. O protesto apesar de ser um movimento importado aderiu pautas locais e faz alusão a brasileiras que foram vitimas do aborto, da violência e do estupro, como o caso, Elisa Samudio. O tema central foi o aborto como feminicidio do Estado, visto que mulheres morrem ao fazer o aborto clandestino. Apesar dessa pauta, outros discursos foram evidenciados pelas manifestantes como: igualdade para mulheres; apoio às trabalhadoras em greve; crítica à idealização da mulher maravilha; crítica à mulher como objeto sexual; fim da revista vexatória nos presídios; liberdade sexual, entre outros. Tais bandeiras de luta foram presentificadas em cartazes, nas palavras de ordem proferidas durante a manifestação, encenações, pinturas corporais e broches. Nota-se uma pluralidade de discursos e formas de expressão que são incorporados em um único ato. Não há dados precisos de quantas pessoas participaram do evento, na mídia os números variam de 150 a 300 manifestantes. Nessa análise, nos especificamos na página do Facebook “Marcha das Vadias Sampa”. A página foi criada em 2012 e possuía até o mês de outubro 20.400 mil curtidas, o que a configura como a Fanpage das Vadias, mais popular do Brasil. O número ainda é pequeno se comparado a Marcha de Las Putas, de Buenos Aires que possuía até outubro 84 mil curtidas. Faz parte do corpus desse artigo os quatro meses que antecederam ao ato das Vadias. Isso inclui a primeira publicação de fevereiro que aconteceu no dia 2, a última publicação que ocorreu no dia do ato, 30 de maio. Esse recorte se dá pelo período em que a mobilização do ato ocorre. Foram contabilizadas 42 postagens nos quatro meses da análise. Dessas, vinte e uma são divulgação de reportagens sobre diversos temas do feminismo. Sete publicações se referiam a descriminalização do aborto, esse assunto, talvez, por se tratar do tema do ato foi o que mais apareceu na Fanpage. O Coletivo compartilhou reportagens que mostram países onde aborto é legalizado, aborto como uma questão de saúde pública e a luta dos movimentos sociais feministas para que muitos países legalizem o aborto. Outras cinco reportagens referente ao abuso sexual, três sobre machismo em propagandas publicitarias, três sobre violência contra mulheres, uma sobre a militante Laudina Campos, uma sobre transexuais, uma sobre a opressão dos movimentos sociais no Oriente. Além de seis publicações ligadas ao ato das Vadias, a primeira foi no dia 22 de fevereiro com informe que o ato de 2015 tinha data definida e em breve seria divulgado. As próximas publicações informam data, tema e convite ao ato. Também foram postados três convites para participar das reuniões da Coletiva Marcha das Vadias. Seis divulgando eventos feministas. Três convites a eventos que a Marcha das Vadias promoveu, dois dele a aula sobre o aborto que aconteceu na praça pública e outro sobre uma festa para arrecadação de fundos. Além de uma nota produzida pela Coletiva sobre o dia das mães, postada no dia 10 de maio. No post o Coletivo não desvirtua a data do intuito comercial, mesmo assim, parabeniza as mães e desmistificam há maternidade cor de rosa e a imposição social que toda mulher sofre ao decidir não ser mãe. O aborto é um tema citado e chamado para debate. A Coletiva Marcha das Vadias Sampa utilizou da estratégia de criar um evento no Facebook intitulado “5ª Marcha das Vadias de São Paulo – ABORTO Feminicio do Estado”, para propagar o evento. Na descrição do mesmo, a Coletiva convida as militantes ir às ruas debater as implicações da política de criminalização do aborto. Mesmo que exista a lei de proibição, as mulheres praticam o aborto em clínicas clandestinas ou na própria casa, colocando assim a sua vida risco. Países como Inglaterra, Suíça, Uruguai, Cuba e Estados Unidos são citados pela legalidade do aborto. Quando se cria um evento no Facebook é permitido convidar pessoas a fazer parte, e essas tem a opção de comparecer, demonstrar interesse ou não comparecer. As pessoas que clicam nas opções comparecer ou tenho interesse também podem convidar seus amigos das redes sociais a participar do evento. No total 12.773 pessoas foram convidadas, 424 demostraram interesse e 6.112 confirmaram presença, número muito maior do que compareceu no ato. A dinâmica dessa página do evento é diferente da Fanpage. Há uma interação maior entre as manifestantes, isso porque qualquer pessoa pode fazer uma postagem. Assim, militantes combinam pontos de encontros, caronas, tiram dúvidas e convidam amigas e frentes feministas. A Coletiva passa efetivamente a atuar nesse canal para difundir ainda mais o ato com postagens convidando para concentração, oficina de cartazes e para marchar pelas ruas de São Paulo. Durante o protesto e após há diversos vídeos, álbuns e fotos das manifestantes publicadas na página do evento. Algumas, em tempo real, informando o andamento da concentração, as oficinas de cartazes, a saída, o ponto em que a Marcha se encontrava e o encerramento do evento. Momento no qual qualquer pessoa pode dar o seu relato sobre a dominação patriarcal. O espaço se tornou livre, em 2015 foram debatidos temas como o aborto, uso de preservativo, liberdade sexual, igualdade, estupro, entre outros. Considerações Finais A Fanpage da Coletiva Marcha das Vadias Sampa é o seu principal canal de comunicação, ou seja, é no ciberespaço que se divulgar o ato, eventos, matérias e se posicionar sobre determinados fatos, como a data do dia das mães. O ato em si é quase que exclusivamente divulgado na rede social. Não encontramos, por exemplo, em site de notícias referencias a data da ocupação das ruas, as matérias vinculadas são posterior ao ato. O midialivrismo é esse espaço de produção de conteúdos não vinculados a monopólios econômicos ou ao consumismo. A maior parte, das reportagens compartilhadas são de blogs de movimentos ativistas. Apenas duas matérias são de fontes de grandes meios de comunicação. Uma da revista Carta Capital e outra da revista TPM. Entretanto, ambas têm linha editorial flexível. Canais alternativos de ideias sempre existiram, antes a atuação, por exemplo, era feita por rádios e jornais clandestinos. Com as redes sociais o custo de se produzir uma crítica, artigo, nota ou reportagem é muito menor e emissão, possivelmente, maior pela interatividade que a internet proporciona. A Marcha das Vadias promove tanto no ciberespaço, como na rua uma interação entre movimentos feministas diversos. No ato reúnem-se diversos coletivos. Em 2015, em uma pesquisa inicial, foram encontrados os movimentos Juventude Anticapitalista, Juntas, Movimento de Mulheres, Coletivo Fanfarronas, Coletivo Pagu, Frente Feminista Mackenzi, Frente na Rua, Coletivo Mães Feministas, Movimentos Parir não é Parar, Coletivo Dandara, entre outros. A Marcha das Vadias é um movimento plural e agrupa diferentes diferenças, ou seja, um espaço de troca de frentes feministas. Existem criticas da predominância de mulheres jovens e brancas no movimento. Porém, isso não exclui movimentos de periferias que também se fazem presente, pois o direito do corpo livre, do aborto, e de usar a roupa que quiser é plural a todas as mulheres. Referencias BERALDO, Beatriz. Por saias e causas justas: Feminismo, comunicação e consumo na Marcha das Vadias. Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing, São Paulo, 2014. HELENE, DIANA. A Marcha das Vadias: o corpo da mulher e a cidade. Revista Redobra, Salvador, n. 11. Ano, 4 2013. Disponível em: www.redobra.ufba.br/wp- content/uploads/2013/06/redobra11_08.pdf Visualizado em 02 de maio de 2015. GARCIA, Carla. Breve História do Feminismo. São Paulo: Claridade, 2015. MALINI, Fábio. AUNTOUN, Henrique. A internet e a rua: ciberativismo e mobilizaçõesnas redes sociais. Porto Alegre: Sulina, 2013. MIGUEL, Luis Felipe. A igualdade e a diferença IN: MIGUEL, Luís Felipe. BIROLI, Flávia. Feminismo e Política. São Paulo: Boitempo, 2014. PRADO, José Luiz Aidar. Convocações Biopoliticas dos Dispositivos Comunicacionais. São Paulo: Educ, 2013. http://www.redobra.ufba.br/wp-content/uploads/2013/06/redobra11_08.pdf http://www.redobra.ufba.br/wp-content/uploads/2013/06/redobra11_08.pdf A qualidade da informação sobre políticas públicas de combate à violência doméstica no portal da Secretaria de Políticas para as Mulheres Bruna Silvestre Innocenti GIORGI, mestranda do programa de Pós-Graduação em Comunicação Midiática, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, da Unesp de Bauru Palavras-chave: violência; comunicação pública; informação. INTRODUÇÃO Nos últimos anos, por esforços de grupos feministas de todo o mundo e tratados internacionais, a violência contra as mulheres foi apontada como um desrespeito aos direitos humanos. Entretanto, estudos como o Social Watch Report, de 2004, demonstram que a violência é observada de maneiras diferentes por homens e mulheres, além de ser um dos principais mecanismos de impedimento para proporcionar a igualdade de gênero em todas as esferas da vida social e privada. A definição de gênero é algo importante para combater a violência doméstica. Entretanto, essa discussão que envolve a conceituação de gênero é ampla e suscita divergências ao que tange a sexualidade e ao papel social. O grupo HERA (1998), após a Conferência de Pequim, definiu gênero como o aglomerado de relações, características, crenças e condutas que ajudam a identificar o significado de ser mulher e homem no meio social. O grupo sustenta que esses papeis e atributos não são determinados pelo sexo biológico, mas edificados historicamente e socialmente, com possibilidade de constante transformação. A desigualdade de gênero inflamado pelo patriarcalismo é o principal motor para a violência contra a mulher, que “tem sido um dos mecanismos sociais principais para impedi-las a ter acesso a posições de igualdade em todas as esferas da vida social, incluindo a vida privada” (BARSTED, 2011, p. 348). No âmbito familiar, essa questão ainda é mais alarmante e é configurada como violência doméstica, que, segundo a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), é “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”, considerando o convívio doméstico como o espaço de trato com pessoas familiares ou sem vínculos familiares, mas que tenham laços afetivos ou de intimidade. As transformações econômicas, sociais, culturais, tecnológicas e políticas do século XXI minimizaram o aspecto patriarcalista das sociedades, principalmente brasileira. Em 2003, foi criada a Secretaria de Politicas para as Mulheres (SPM), vinculada ao Poder Executivo Federal, com o objetivo de combater o preconceito e fomentar a igualdade de gênero e a valorização da mulher. Por meio de ações que envolvem o planejamento de programas específicos, a Secretaria tem se tornado visível por melhorar consubstancialmente a vida de inúmeras mulheres. A comunicação e a publicização das ações são algumas das formas de viabilizar os objetivos. A informação pública de qualidade é uma forma de proporcionar governos transparentes, incentivar a participação e, assim, promover a melhoria de políticas públicas e programas com esse viés. Nesse sentido, a Internet, como resultado da transformação tecnológica, possibilita a publicização de ações públicas e ferramentas que geram interatividade e participação, sendo a comunicação pública a base para o desenvolvimento de ações mais transparentes e informações consistentes. Matos e Nobre (2013) diferenciam a comunicação pública como aquela que ocorre na esfera pública. Ou seja, a esfera pública habermasiana pontua que todos os indivíduos têm possibilidade de se expor e, a partir da periferia, os problemas pessoais de grupo tornam pauta na administração institucionalizada (HABBERMAS, 1997). Desse modo, a esfera pública pode ser vista como uma ambiência intermediária, em que assuntos interpessoais ou grupos transformam-se em públicos. Desse modo, com o contexto de esforços de todo o mundo e também do Brasil em garantir a igualdade de gênero e do combate à violência doméstica, o presente trabalho tem o objetivo de refletir sobre os tipos de informações essenciais para a fomentação de uma comunicação pública genuína, no sentido de disponibilizar para as mulheres conteúdo sobre as políticas públicas que combatem a violência e, assim, emponderá-las com os seus direitos na luta da igualdade de gênero. Para isso, serão analisadas nove páginas do site da Secretaria de Políticas paras as Mulheres (www.spm.gov.br) sobre o tema de violência doméstica, por meio da pesquisa bibliográfica e a análise de conteúdo, descritas a seguir. METODOLOGIA Informações objetivas, claras e completas sobre políticas públicas de combate à violência doméstica são fundamentais para divulgar os direitos das mulheres e http://www.spm.gov.br/ incentivar a participação delas no aprimoramento de programas e políticas. Assim, a pesquisa bibliográfica, disponibilizada brevemente no item “Introdução” permitiu a imersão nos temas de comunicação pública e igualdade de gênero, que são bases para a pesquisa. A partir da metodologia de pesquisa bibliográfica foi possível perceber a importância da comunicação pública na luta de combate à igualdade de gênero e, então, possibilitou a formulação do objetivo do presente trabalho. Após as leituras de periódicos, livros, artigos, pesquisas e sites, observou-se que o portal da Secretaria de Políticas para as Mulheres era o principal sítio da Internet do país sobre o tema e se reconheceu a análise de conteúdo como a forma de quantificar os tipos de informações existentes nas páginas. A análise de conteúdo, “em concepção ampla, se refere a um método das ciências humanas e sociais destinado à investigação de fenômenos simbólicos por meio de várias técnicas de pesquisa” (FONSECA JÚNIOR, 2006, p. 280). Pela promoção de dados e o panorama crítico do objeto, a análise de conteúdo tem a função de organizar as informações das páginas do portal, para facilitar a observação da abrangência do conteúdo. Por tratar-se de uma pesquisa empírica, as técnicas de coleta se basearão na observação, basicamente pela leitura. Assim, a estrutura seguirá a de Bardin (1979), que estipula cinco etapas para a análise de conteúdo: 1ª) Organização da análise: consiste em uma pré-análise, na exploração do material (objeto), tratamento dos resultados brutos obtidos e interpretação. 2ª) Codificação: é a sistematização dos dados brutos. 3ª) Categorização: os critérios usados serão semânticos. Em cada política ou programa serão codificadas as informações relevantes para o público-alvo: as mulheres. 4ª) Inferência: estudo dos dados, pretendendo deduzir aspectos implícitos. 5ª) Tratamento informático: os dados serão tabelados, conforme existe a informação (pontuando com 1 ponto) ou não (0 ponto). Baseando-se na metodologia utilizada por Rothberg (2014), composta por variáveis de avaliação das informações a respeito das políticas públicas, serão criadas cinco categorias para investigar a abrangência das informações sobre políticas públicas existentes nos portais eletrônicos: - Antecedentes e diagnósticos subdividida em: (a) contexto social em que dada política se insere; (b) condições econômicas; (c) cenário político; (d) Informações legais: deve ser identificada a presença de leis, decretos, regulamentos e portarias relacionados a uma política. - Propósitos composta por: (e) objetivos e metas; (f) recursos e critérios de eficiência; (g) ações realizadas e planejadas; (h) informações operacionais.- Públicos e setores beneficiados formadas pelas categorias: (i) públicos-alvo; (j) instrumentos de relacionamento - Indicadores de impactos sociais composto por: (k) benefícios da política; (l) satisfação do usuário; (m) igualdade. - Indicadores de impactos econômicos: (n) eficácia; (o) efetividade; (p) custo- efetividade. A partir desse método foram analisadas no dia 23 de setembro de 2015 nove páginas da seção fixa do site da Secretaria de Políticas para as Mulheres, referentes à violência contra a mulher, que são: 1. Lei Maria da Penha; 2. Serviço Ligue 180; 3. Programa Mulher, Viver sem Violência – Casa da Mulher Brasileira; 4. Programa Mulher, Viver sem Violência – Ampliação da Central de Atendimento à Mulher; 5. Programa Mulher, Viver sem Violência – Organização e humanização do atendimento às vítimas; 6. Programa Mulher, Viver sem Violência – Implantação e Manutenção dos Centros de Atendimento às Mulheres nas regiões de fronteira seca; 7. Programa Mulher, Viver sem Violência – Campanhas continuadas de conscientização; 8. Programa Mulher, Viver sem Violência – Unidades Móveis para atendimento a mulheres em situação de violência no campo e na floresta; e 9. Pesquisas e publicações. A seguir, serão apresentados os resultados obtidos como forma de avaliar a informação presente sobre programas e ações do governo federal de combate à violência doméstica. RESULTADOS Após a análise e tabelação dos dados, foi notado que a pontuação total ideal das páginas poderia ser 144. Entretanto, na realidade o valor foi de 43,75% da média ideal, contabilizando 63 pontos. Esse dado já demonstra que há déficit em informação, podendo servir de alerta aos profissionais responsáveis pela atualização desse sítio. A categoria com a avaliação mais baixa de pontos foi a Impactos Econômicos, que teve uma média de 14,8%; seguida de Impactos sociais (25%); Propósitos e Públicos e Setores Beneficiados (55,5% cada); e Antecedentes e diagnósticos (61%). Esses dados demonstram algo muito discutido no Brasil, que é a omissão de dados http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019 http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019 http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019 http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019 http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019 http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/implantacao-e-manutencao-dos-centros-de-atendimento-as-mulheres-nas-regioes-de-fronteira-seca http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/implantacao-e-manutencao-dos-centros-de-atendimento-as-mulheres-nas-regioes-de-fronteira-seca http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019 http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019 http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/campanhas-continuadas-de-conscientizacao http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019 http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/programa-2018mulher-viver-sem-violencia2019 http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/unidades-moveis-para-atendimento-a-mulheres-em-situacao-de-violencia-no-campo-e-na-floresta http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/unidades-moveis-para-atendimento-a-mulheres-em-situacao-de-violencia-no-campo-e-na-floresta referentes a gastos financeiros com políticas e ações governamentais, o que provoca o distanciamento da sociedade nos temas políticos. As subcategorias: Satisfação do usuário (Impactos Sociais); Eficácia e Custo- efetividade (Impactos Econômicos) não tiveram conteúdo disponível. Essas categorias de informação representam a preocupação com a interação e participação da mulher com o programa, sendo uma forma de proporcionar abertura às usuárias em opinar e melhorar o beneficiamento das ações. Já Contexto social e Objetivos e metas foram as subcategorias com o índice máximo, encontrados em todas as páginas, o que é positivo, pois deixa claro do que o programa ou a política se trata. O que foi percebido é que muitas das informações referentes aos resultados dos programas, serviços ou leis, que tangem principalmente às categorias Impactos Sociais e Impactos Econômicos, estão presentes em cartilhas e balanços periódicos publicados em formato impresso e disponibilizado nas páginas em PDF, o que pode justificar a falta de informação dessas categorias nas páginas. Já em relação a cada página, a pontuação máxima de nove pontos foi encontrada nas páginas denominadas de “Lei Maria da Penha”, “Ligue 180” e “Casa da Mulher Brasileira”. Com oito pontos foram avaliadas as páginas “Ampliação da Central de Atendimento à Mulher” e “Implantação e Manutenção dos Centros de Atendimento às Mulheres nas regiões de fronteira seca”. As informações de “Organização e humanização do atendimento às vítimas” foram classificadas com sete pontos; e seis pontos foram categorizadas as páginas: “Campanhas continuadas de conscientização” e “Unidades Móveis para atendimento a mulheres em situação de violência no campo e na floresta”. “Pesquisas e publicações” foi a página com menos pontos, contabilizando apenas três. O índice médio resultante é 7,2, que demonstra que há três páginas com média inferior. A menor pontuação, de “Pesquisas e publicações”, é resultado da forma como as informações são disponibilizadas no site, pois há a divulgação de 21 resumos de pesquisa e publicações em parceria com outras organizações e empresas com a indicação de links para download para outra mídia de caráter impresso em formato PDF, tornando reduzidas as informações na página analisada. O que pode ser inferido é que as informações disponíveis sobre programas que combatem a violência doméstica contra a mulher contribuem para ações práticas das usuárias, mas não são suficientes para promover a transparência. Nas cartilhas disponíveis em PDF essas informações são mais completas, entretanto, nas páginas, por http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/implantacao-e-manutencao-dos-centros-de-atendimento-as-mulheres-nas-regioes-de-fronteira-seca http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/implantacao-e-manutencao-dos-centros-de-atendimento-as-mulheres-nas-regioes-de-fronteira-seca http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/campanhas-continuadas-de-conscientizacao http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/unidades-moveis-para-atendimento-a-mulheres-em-situacao-de-violencia-no-campo-e-na-floresta http://www.spm.gov.br/assuntos/violencia/programa-mulher-viver-sem-violencia/unidades-moveis-para-atendimento-a-mulheres-em-situacao-de-violencia-no-campo-e-na-floresta possibilitar uma linguagem interativa e de fácil compreensão, alguns temas – como os relacionados a Impactos socias e, principalmente, Econômicos – não são tratados de forma visível e claro. CONSIDERAÇÕES FINAIS A condição da mulher na esfera pública e privada melhorou nas últimas décadas e tornou visível em todos os níveis da sociedade. A violência contra a mulher dentro do seu próprio círculo familiar e afetivo a exclui da sociedade com medo de ser repreendida ou vergonha da exposição. Desse modo, os programas e políticas públicas do governo destinadas especificamentea amparar essa mulher são importantes e precisam ser bem comunicados. A informação, assim, se torna a base para a luta conta a igualdade de gênero e o combate à violência doméstica contra a mulher. Desse modo, a análise das informações do site da Secretaria de Políticas para as Mulheres é preponderante para compreender como as propostas públicas são emitidas para a sociedade com a intenção de tornar as ações transparentes e incentivar a participação. O presente trabalho mostrou que as informações sobre violência doméstica no site da SPM não estão completas, principalmente no quesito que gera mais transparências das ações, mas é um passo importante na igualdade de gênero. Nesse sentido, a mulher vítima de agressão, por meio do sítio, pode se informar quais ações podem ser tomadas para se proteger. Entretanto, os programas que protegem e acolhem mulheres do campo e da floresta, que são mais vulneráveis à repressão por se localizarem longe dos centros urbanos, possuem pouca informação no meio digital. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edição 70, 1979. BARSTED, L. L. O Progresso das Mulheres no Enfrentamento da Violência. In: BARSTED, L. L; PITANGUY, J (org). O Progresso das Mulheres no Brasil 2003-2010. Rio de Janeiro: CEPIA; Brasília: ONU Mulheres, 2011, p. 346-382. BRASIL. Constituição (2006). Lei nº 11.340/2006, de 7 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Brasília, DF. HABERMAS, J. Direito e Democracia: entre facticidade e validade. Vol.II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. FONSECA JÚNIOR, W. C.. Análise de conteúdo. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio (org). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. Editora Atlas, São Paulo: 2ª edição, 2006. HERA. Direitos sexuais e reprodutivos e saúde das mulheres: ideias para ação. Nova York, 1998. MATOS, H. H.; NOBRE, P. G.. Alternativas ao conceito e à prática da comunicação pública. Revista Eptic Online, Sergipe, v. 15, n. 2, p.12-27, 15 maio 2013. ROTHBERG, D. Teoria e Pesquisa da Comunicação Digital para Sustentabilidade. In: XXIII Encontro da Compós - Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 2014, Belém. Anais do XXIII Encontro da Compós - Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 2014. SECRETARIA DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES. Disponível em: http://www.spm.gov.br/. Acesso em: 28 de setembro de 2015. SOCIAL WATCH REPORT. Fear and Want: Obstacles to Human Security. 2004. http://www.spm.gov.br/ Uma questão de gênero: ofensas direcionadas à presidenta Dilma Rousseff nos comentários da página da Folha de S. Paulo no Facebook Pâmela Stocker Doutoranda no PPGCOM/UFRGS - Bolsista da Capes Resumo: A proposta deste artigo é mapear os comentários ofensivos de leitores direcionados à presidenta Dilma Rousseff e analisar os sentidos relacionados ao preconceito de gênero em duas publicações da página do jornal Folha de S. Paulo no Facebook. As postagens, realizadas no dia 16 de março de 2015, são relativas à primeira declaração oficial da presidenta após os protestos pró-impeachment do dia 15 de março. Por meio da Análise do Discurso e ancorando-se nos estudos feministas pós-estruturalistas, foram mapeados 1.158 comentários de leitores. Verificou-se que 56% dos comentários constituem-se de ofensas que contêm preconceito de gênero. A análise destes textos levou a seis núcleos de sentido, cinco deles estritamente ligados a questões de gênero: Gaslighting e Manplaining; Misticismo e Religiosidade; Ódio e Misoginia; Machismo e Sexismo; e Bropriating. Palavras-chave: jornalismo; Facebook; preconceito; gênero; análise de discurso. Introdução O dia 15 de março de 2015 ficou marcado no Brasil por protestos que reuniram milhares de pessoas em todas as capitais do País. Entre as variadas reivindicações dos manifestantes, predominavam o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o fim da corrupção. A temática pautou os principais veículos de comunicação e teve grande repercussão nos sites de redes sociais. No dia seguinte ao ato, a presidenta fez seu primeiro pronunciamento a respeito dos protestos. A página do jornal Folha de S. Paulo publicou duas notícias referentes à entrevista de Dilma, que provocaram forte interação dos leitores no espaço de comentários da rede social. Somadas, as duas postagens receberam 6.677 comentários. Os modos de desqualificar ou criticar o trabalho de uma mulher que ocupa posição de poder, neste caso, a presidência da República, retratam uma face permeada por construções histórias e culturais relativas ao gênero. Veiga da Silva (2014) relembra que é através da linguagem que se instituem significados aos gêneros e que se demarcam os lugares de cada um na sociedade. As adjetivações diferenciadas atribuídas aos sujeitos femininos e masculinos não servem apenas para transmitir e expressar relações de poder, mas também ajudam em sua produção e instituição (LOURO, 1999). Nessa direção, Scott (1995, p.72) afirma que o uso do termo gênero é importante “como uma maneira de referir-se à organização social da relação entre os sexos” e o conceitua a partir de duas proposições centrais, onde pode ser tanto um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, quanto uma forma primária de dar significado às relações de poder (SCOTT, 1995). Assim, o estudo do gênero como categoria de análise propicia uma reflexão “sobre os modos como as convenções sociais sobre o masculino e o feminino são produzidas, associadas a distintas formas de relações de poder e os modos como estas convenções produzem hierarquias e desigualdades” (VEIGA DA SILVA, 2014, p.480). Considerando a linguagem caminho profícuo para compreender como o masculino e o feminino são dotados de sentidos e como seus reflexos cristalizam e reiteram determinadas relações de poder e saber na sociedade, este artigo propõe-se a analisar os comentários das postagens das notícias intituladas “Após protestos Dilma diz estar disposta a ‘dialogar com todos, com humildade’” e “ ‘A corrupção é uma senhora idosa’ diz Dilma após os protestos”, divulgadas no dia 16 de março de 2015 na página da Folha no Facebook. O objetivo deste estudo é identificar e mapear os núcleos de sentido presentes nos 1.158 comentários de caráter ofensivo dirigidos à presidenta e analisar aqueles estritamente ligados a questões de gênero. O mapeamento e a análise serão realizados por meio da Análise do Discurso, especialmente a partir do conceito de paráfrase (ORLANDI, 2007), ancorando-se nos estudos feministas pós-estruturalistas, onde gênero configura-se como categoria de análise (SCOTT, 1995). Metodologia e Análise Com base nos pressupostos da Análise de Discurso de linha francesa (AD), a questão central da análise é perceber como o texto significa: “na análise de discurso procura-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história” (ORLANDI, 2007, p. 15). Cabe ao analista buscar as regularidades na linguagem e relacioná-las à exterioridade, tendo em vista que o discurso é “opaco, não transparente, pleno de possibilidades de interpretação” (BENETTI, 2007, p. 108). Nesse prisma, a língua, a cultura, a ideologia e o imaginário, em sua complexidade, além de processos sociais e históricos, influenciam e afetam os sujeitos, e consequentemente os seus discursos e seu processo de leitura: “Os sentidos não estão presos ao texto nem emanam do sujeito que lê, ao contrário eles resultam de um processo de inter-ação texto/leitor” (MARIANI, 1999, p. 106). Segundo a autora, a discussão é complexificada ao considerar-se que o sujeito-leitor também é constituído por processos sociais e históricos que não são totalmente visíveis para ele. Estas nuances, de caráter social e individual que envolvem os sujeitos, tambémdevem ser consideradas quando se analisa os discursos por eles produzidos. O primeiro mapeamento dos 6.677 comentários relativos às publicações (figuras 1 e 2) do jornal Folha de S. Paulo eliminou manifestações de caráter publicitário, compartilhamento de links/vídeos e comentários com escrita ilegível ou superficial (apenas um emoticon, uma hashtag ou uma risada, por exemplo). Essa primeira triagem resultou numa mostra de 1.158 comentários. Porém, para a construção do corpus consolidado da pesquisa, foram selecionados apenas aqueles que continham ofensas e xingamentos direcionados à presidenta, o que resultou em uma mostra de 645 comentários. A etapa inicial da análise consistiu em mapear os sentidos nucleares no movimento de identificação das formações discursivas, ou seja, a região de sentidos que é circunscrita por um limite interpretativo. A partir disso, observaram-se os processos parafrásicos que, segundo Orlandi (2007, p. 36), “são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória”. Assim, identificar as paráfrases nos comentários dos leitores significa observar o retorno aos mesmos espaços do dizer por meio de diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado. Por meio da identificação dos sentidos mais prevalentes e do mapeamento das paráfrases (sentidos que se repetem), foram encontrados seis núcleos de sentido (gráfico Figura 1: captura de tela da publicação da Folha de S. Paulo no Facebook: Após protestos, Dilma diz estar disposta a “dialogar com todos, com humildade”. Figura 2: captura de tela da publicação da Folha de S. Paulo no Facebook: “A corrupção é uma senhora idosa”, diz Dilma após os protestos. 1): Desqualificações Profissionais (44%); Machismo e Sexismo (16%); Gaslighting e Mansplaining (12%); Bropriating (12%); Misticismo e Religiosidade (8%); e Ódio e Misoginia (8%); Os 513 comentários que apresentaram desqualificações e ofensas de caráter profissional formaram o núcleo mais numeroso da mostra, representando 44% dos comentários coletados. As sequências discursivas (SDs) apresentaram núcleos de sentido ligados a ideias de senilidade (197), corrupção (75), arrogância (48), cara de pau (48) e incompetência (26), entre outras. Chamam atenção também as ofensas relativas à incapacidade intelectual, como “anta” (150) ou “presidAnta” (28), e ainda ofensas diversas como “mentirosa” (69), “terrorista” (26) e “bandida” (27); lembrando que alguns comentários expressam mais de uma das palavras ao mesmo tempo. Como esses tipos de ofensas poderiam ser também direcionados a um homem, esse núcleo não será analisado neste artigo, visto que serão privilegiados os demais núcleos de sentido estritamente ligados a questões de gênero. Constituintes de mais da metade do corpus consolidado (56%), esses comentários ofensivos que evocam preconceitos de gênero foram organizados em cinco núcleos de sentido, que serão apresentados a seguir: Machismo e sexismo Representando 16% da mostra, esse núcleo de sentidos agrupou 182 comentários de leitores que reiteraram sentidos ligados à cultura machista e sexista. Manifestações que Gráfico 1: Núcleos de sentido dos corpus consolidado (1158 comentários que contém ofensas direcionadas à presidenta Dilma Rousseff). relacionam a mulher a papéis tipicamente associados ao feminino, como o cuidado com o ambiente doméstico (lavar a louça, limpar a casa) ou a preocupação com a beleza (plásticas, perda de peso) e xingamentos como “vaca” (56), “safada” (31) e “vagabunda” ou “vagaba” (23) dividem espaço com diferentes menções relativas ao falo, como “rola” e “rabo” (22), conforme explicitam os exemplos a seguir: [SD06] Parece que ela esticou o rosto. Fez plástica? [SD07] CALA ESSA BOCA IMUNDA SUA VAGABUNDA! [SD51] ninguem quer dialogar com a Sra. vai lavar uma boa pia de louças va!! [SD01] Enfia a sua humildade no C* [SD42] Dialoga com a minha rola, Dilma! Segundo Sau (2004), o termo machismo é utilizado primordialmente no âmbito coloquial e popular. Seu sentido estaria relacionado a um conjunto de leis, normas, atitudes e traços socioculturais do homem cuja finalidade, explícita ou implícita, é produzir, reproduzir e manter a submissão da mulher. A própria menção falocêntrica das SDs 01 e 42, por exemplo, pode ser interpretada simbolicamente como demarcação da diferença por meio de uma virilidade abstrata, que posiciona o masculino e o feminino assimetricamente. Importa sublinhar que, ao contrário do sexismo, o machismo é inconsciente; isto é, o machista atua como tal sem necessariamente ser capaz de explicar ou dar conta da razão interna de seus atos, já que unicamente se limita a reproduzir e a por em prática o sexismo da sua cultura. Gaslighting e Mansplaining Esse núcleo de sentidos contabilizou 138 comentários, ou seja, 12% da mostra. Gaslighting é o termo utilizado para se referir à violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz. “É uma forma de fazer a mulher duvidar de seu senso de realidade, de suas próprias memórias, percepção, raciocínio e sanidade” (THINK OLGA, online). Os comentários de leitores trouxeram estes sentidos à tona, como se pode verificar nos exemplos de SDs a seguir, que reiteram sentidos de insanidade e incapacidade de compreensão direcionados à presidenta Dilma Rousseff: [SD05] Alguém conseguiu entender o que ela tentou dizer no seu pronunciamento? Não falou coisa com coisa. E ainda riu da nossa cara. [SD17] É piada dessa vermelha demente. Renuncia Dilma. [SD23] Essa louca esta institucionalizando à corrupção em nosso país [SD30] como pode essa senhora náo tem mas condiçóes alguma pra administrar esse imenso país serar q ela é táo idiota assim cara ela estar totalmente perdida ela náo tem humildade pra conduzir esse país ela tar totalmente disorientada sem noçáo fala bobagens de mais... [SD32] Não acredito em nada que saia da boca dessa VACALOUCA Por sua vez, o termo Mansplaining é uma junção de man (homem) e explaining (explicar). Consiste em uma fala didática direcionada à mulher, como se ela não fosse capaz de compreender ou executar determinada tarefa, justamente por ser mulher. Comentários com essas características também foram recorrentes, como se pode verificar a seguir: [SD04] será que essa mulher ainda nao nos entendeu??? nimguem quer asunto com ela nao. queremos intervençao militar já [SD09] depois de um evento impactante...a senhora presidenta me vem com uma frase tão débil ....sinceramente esperava um pouco mais... [SD11] Na próxima manifestação temos que desenhar o que queremos pq ela ainda não entendeu o #foradilma [SD24] pelo jeito não mudará nada, a ficha dela ainda não caiu, q nós não à queremos mais, fora Dilma.... [SD26] É surda ou se faz de surda, essa Dilma ladra, a dissimulada, da voz da rua, não entendeu nada. VAZA! A verdadeira intenção do mansplaining é desmerecer o conhecimento de uma mulher, desqualificando seus argumentos. Foram identificados sentidos ligados a “entender/ aprender” (49) e “explicar/desenhar” (9), que desclassificam a fala de Dilma Rousseff, procurando fornecer informações e explicações para corrigi-la. O mansplaining vale-se de tirar a confiança, autoridade e o respeito da mulher sobre o que está falando, além de tratá-la como inferior e menos capaz intelectualmente. Bropriating Este núcleo de sentidos agrupa 141 comentários de leitores, o que representa 12% da mostra analisada. O mandato e a atuação da presidenta Dilma são associados ao ex- presidente Lula (128), sendo ela denominada “marionete”, “fantoche” e “boneca de ventríloquo” (13). O termo bropriating é uma junção de bro (abreviação de brother, https://www.facebook.com/hashtag/foradilma?hc_location=ufiirmão, mano) e appropriating (apropriação) e se refere a situações em que um homem se apropria da ideia de uma mulher ou leva o crédito por ela (THINK OLGA, online). A expressão surge da metáfora da sala de reuniões, local onde muitas vezes a mulher não é ouvida quando expõe suas ideias, mas tem o seu raciocínio cooptado por algum homem que assume a palavra, repete exatamente o que ela disse, e é aplaudido por isso. No caso dos comentários classificados aqui, percebe-se o apagamento da presidenta Dilma enquanto protagonista do seu governo, tendo suas decisões, ações, erros e acertos atribuídos a um “mentor” homem que a estaria manipulando, já que não teria “cacife” para tomar as próprias decisões. [SD01] Sra. Coração Valente não confunda humildade com "cara de pau"... E pessoal não a chamem de ditadora.. Ela não tem cacife pra isso coitada.. Não tá consegindo nem ser marionete do Lulladrao... [SD07] Humildade NUNCA foi a tônica dos discursos da presidANTA Boneca de Ventríloquo nem de seu antecessor e mentor, o Nove Dedos Molusco da Silva. Fora PT. Fora PeTralhas malditos!!! [SD08] Tem que pegar o mentor de tudo: LULA! !! Esse q precisa ser pego. Devagar chega lá [SD09] Fantoche do Lula, não tem o que falar, fique quieta [SD12] ela falou um verdade mas a corrupção foi institucionalizada pelo mestre lula e pela sua discípula Como os papéis de gênero comumente associados às mulheres são de delicadeza, suavidade e gentileza, posicionamentos enfáticos ou assertivos são vistos como masculinizados na sociedade. De acordo com o site do THINK OLGA (online), o bropriating ajuda a explicar, por exemplo, porque existem poucas mulheres ocupando posições de liderança. Misticismo e religiosidade Composto por 8% da mostra, contabilizando 93 recorrências, esse núcleo de sentidos agrupou comentários com viés místico e religioso. As paráfrases trouxeram à tona palavras como “capeta”, “diabo”, “demônio” e “satanás” (35), “inferno” (22), “bruxa” (16) e “cobra” (11). Cabe sublinhar que essas figuras míticas estão correlacionadas historicamente. De acordo com Zordan (2005), tanto a história como a imaginação popular mitificaram as mulheres como “bruxas”. As bruxas foram torturadas e queimadas para sinalizar os perigos de práticas e saberes à margem da Igreja e de outras instituições dominantes na Idade Moderna. Conforme a autora, o manual de inquisidores do século XIV, o Malleus Maleficarum, descreve os poderes da bruxa, sua aliança com o demônio e sua ameaça para o cristianismo: Fêmea inebriante ou velha decrépita, a figura da bruxa exprime alguns conceitos que o pensamento ocidental legou ao que se entende por feminino. Trata-se de uma imagem construída por diferentes discursos, um romântico, propagado ao longo do século XIX, e outro eclesiástico, expresso nos enunciados seculares da cristandade contra arcaicas práticas pagãs. (ZORDAN, 2005, p. 331). Os comentários reunidos neste núcleo de sentidos trazem menções a bruxas e também a palavras que remetem à religiosidade, como exposto a seguir: [SD04] bruxa macumbeira [SD043] #foradilmaligna para essa bruxa malvada do centro-oeste dialogar significa "eu falo e TODOS VOCÊS SÓ escutam, seus vermes" [SD05] Dialogue com o demônio, amaldiçoada! [SD015] Pronto, quero que ela dialogue com satanás no inferno! [SD021] Enviada do diabo!!! Zordan explica que a figura da bruxa ensina certo modo de enxergar a mulher, principalmente quando esta expressa poder. Ao fazer uma análise da farta literatura sobre o assunto, a autora mostra que a caracterização da bruxa, que vigorou durante a Inquisição e que ressoa até os dias de hoje, constitui-se como um dos elementos mais perversos produzidos na sociedade patriarcal do Ocidente, já que expurga todos os males atribuídos ao feminino: desde o pecado original, até a desobediência da “primeira mulher”, pintada como colaboradora de Satã e personificação do demônio (ZORDAN, 2005). Ódio e Misoginia Esse núcleo de sentidos reuniu 91 comentários de leitores e representa 8% da mostra. Foram agrupados aqui os comentários de teor violento, que mencionam agressões físicas (22) e morte (54), além de comentário misóginos (de desprezo ou repulsa ao gênero feminino e às características a ele associadas) (40). A extrema violência inclui desde menções ao câncer da presidenta, dizendo que voltará a se manifestar, até armas de fogo, murros, chicotadas, estupro e morte. Foram agrupados aqui também os comentários que expressam nojo e repulsa pela figura de Dilma ou a sua atuação. [SD07] VONTADE DE DAR UM MURRO NA CARA DESTA INDECENTE. https://www.facebook.com/hashtag/foradilmaligna?hc_location=ufi [SD09] sai daí nojenta,vc vai ser empalada ! XÔ ! XAU ! [SD13] e vc entao ne sua DEGRASSADA tenho nojo de mulher [SD16] Chega a dar nojo, qualquer coisa que venha desta mulher, hipócrita, mentirosa, dissimulada com o todos os outros da sua laia! [SD20] Só tomando chicotadas, para aprender O discurso do ódio, conforme SILVA, R.L et al (2011), se estrutura em duas frentes: na discriminação, ou seja, na manifestação segregacionista baseada na ideia de que o autor do discurso é superior à pessoa atingida ou alvo do ódio; e na externalidade, na publicização do ódio com a finalidade de incitar e conquistar adeptos. Esse ódio, que já está presente na sociedade, ganha grande visibilidade e ressonância nos sites de redes sociais, o que amplia sua força e reprodutibilidade (RECUERO, 2014, online). O fato dos comentários se concretizarem no espaço virtual, sem a dimensão face a face da interação, também pode implicar uma aceleração da hostilidade em determinadas situações, pois o leitor, ao se sentir distante dos demais participantes da conversação e da própria presidenta, que é o foco principal da notícia, não receia em expor o que pensa. “Por isso, a conversação em rede é um espaço frutuoso para a emergência de discussões inflamadas, discursos agressivos e ofensivos e, mesmo, pela propagação da violência” (RECUERO, 2013, p 62). Considerações finais A partir da identificação e sistematização dos núcleos de sentido dos 1.158 comentários do corpus, percebeu-se que aqueles que evocam preconceito de gênero correspondem a 56% do material analisado. Os cinco núcleos de sentido relacionados às questões de gênero mostraram que as ofensas e agressões se expressaram por meio de ridicularização, deboche e ironias no caso do Gaslighting e Mainsplaining; na ligação entre a mulher e personagens que simbolizam o mal, a rebeldia e o poder no Misticismo e na Religião; na violência dos xingamentos e expressões de repulsa e ojeriza que denotam a Misoginia e o Ódio; nas ofensas sexistas, sectárias e discriminatórias do Machismo e Sexismo; e nas ideias de submissão, apagamento e inferioridade da mulher que caracterizam os sentidos do Bropriating. Estes cinco núcleos de sentido revelam as diferentes referências que mobilizam os discursos dos leitores e mostram como o preconceito e o machismo ainda são latentes na sociedade e se concretizam de forma explícita no espaço jornalístico. Cabe aqui também destacar a responsabilidade do jornalismo com as reações e desdobramentos gerados pela notícia publicada, ainda que no ambiente da rede social. O espaço destinado para os comentários de leitores no Facebook, apesar de amplamente utilizado, não recebe nenhuma atenção ou monitoramento por parte da Folha. Mais do que isso, a grande recorrência de comentários que expressaram preconceito de gênero de forma violenta e desrespeitosa não apenas à presidenta, mas a todas as mulheres, denotam a urgência de se discutir e problematizar a desigualdade de gênero em nossa sociedade, principalmente no campo da comunicação. Referências BENETTI, Marcia. Análise do Discurso em Jornalismo: estudo de vozes e sentidos. In: LAGO, Claudia, BENETTI, Marcia. Metodologia de Pesquisa emJornalismo. Petrópolis: Vozes, 2007. LOURO, Guacira Lopes. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. ORLANDI, Eni. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2007. MARIANI, Bethania. Sobre um percurso de análise do discurso jornalístico: a Revolução de 30. In: INDURSKY, Freda; FERREIRA, Maria Cristina Leandro (Org.). Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1999. RECUERO, Raquel. A questão do ódio nos sites de rede social. 2014. Online. Disponível em: <http://www.raquelrecuero.com/arquivos/2014/10/a-questao-do-odio-nos-sites-de-rede- social.html>. Acesso em: 20 jul 2015. _____. Atos de Ameaça a Face e a Conversação em Redes Sociais na Internet. In: Alex Primo. (Org.). Interações em Rede. 1ed.Porto Alegre: Sulina, 2013, v. 1, p. 51-70. SAU, Victória. Dicionário Ideológico Feminista. 3 ed. Barcelona: Ed. Icaria, 2000. SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. In: Educação e Realidade. Porto Alegre, v. 20, n.2, 1995. SILVA, R.L. ; MARTINS, Anna Clara L. ; NICHEL, Andressa. ; BORCHARDT, Carlise Kolbe. . Discursos de ódio em redes sociais: jurisprudência brasileira. In: Revista Direito GV, v. 7, p. 445-468, 2011. THINK OLGA. “O machismo também mora nos detalhes”. In: <http://thinkolga.com/> Disponível em: <http://thinkolga.com/2015/04/09/o-machismo-tambem-mora-nos- detalhes/>. Acesso em: 20 Jul. 2015. VEIGA DA SILVA, Marcia. Masculino, o Gênero do Jornalismo: Modos de Produção das Notícias. Série Jornalismo a rigor, Vol.8. Florianópolis: Editora Insular, 2014. ZORDAN, Paola Basso Menna Barreto Gomes. Bruxas: figuras de poder. In: Estudos http://www.raquelrecuero.com/arquivos/2014/10/a-questao-do-odio-nos-sites-de-rede-social.html http://www.raquelrecuero.com/arquivos/2014/10/a-questao-do-odio-nos-sites-de-rede-social.html http://www.pontomidia.com.br/raquel/arquivos/rascunhoatosdeameaca.pdf http://thinkolga.com/2015/04/09/o-machismo-tambem-mora-nos-detalhes/ http://thinkolga.com/2015/04/09/o-machismo-tambem-mora-nos-detalhes/ Feministas, Florianópolis, v. 13, n. 2, p. 331, jan. 2005. ISSN 0104-026X. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X200500020007>. Acesso em: 20 Jul. 2015. https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X200500020007 TRAVESTIS EM SITUAÇÃO DE RUA E A SEGREGAÇÃO AOS BENS SOCIAIS DENTRE ELES AS TECNOLOGIAS DIGITAIS ROBSON SILVA SANTOS Mestre em Políticas Sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul (Políticas Sociais, Famílias e Desigualdades Sociais) com orientação da professora doutora Eunice Terezinha Fávero e Pós Graduando em Educação Sexual pela Universidade Salesiana (UNISAL). Resumo: O trabalho hora apresentado trata das travestis em situação de rua e a segregação aos bens sociais dentre eles as tecnologias digitais, no centro velho ou centro histórico da cidade de São Paulo, que engloba os bairros Sé e República, em articulação com o “Projeto Centro”, um projeto desenvolvido pelo Mestrado em Políticas Sociais da Universidade Cruzeiro do Sul, outro ponto motivador da delimitação dessa região para a pesquisa foi à observação de uma grande concentração de travestis em situação de rua, sendo segregadas dos bens e serviços que dentre estes o acesso às informações globais como as tecnologias digitais. Merece destaque o fato de que este tema de pesquisa surgiu do meu trabalho profissional, desde meus primeiros contatos como assistente social na Tenda Bela Vista, quando observei que mesmo pertencendo a um grupo populacional heterogêneo, as travestis não participavam do mesmo acesso assistencial que os demais integrantes da população em situação de rua, sem antes sofrerem desrespeito à cidadania e constantes violações dos direitos humanos. INTRODUÇÃO: A grande concentração de travestis nessa região se deve às facilidades proporcionadas pelo centro da cidade. De acordo com Nakano, Kohara (2013, p. 71), “as localizações urbanas estão em terras mais ou menos consolidadas do ponto de vista da articulação com o restante da cidade e da provisão de serviços, equipamentos e infraestruturas coletivas”. Portanto, ainda de acordo com esse autor (2013, p. 71), “as configurações socioeconômicas, funcionais, físicas, ambientais e territoriais dessas localizações geram condições de vida com diferentes graus de vulnerabilidade”, nas quais se enquadram este grupo estudado. As travestis em situação de rua do centro da cidade de São Paulo têm no seu cotidiano a pobreza visível, de todos os dias, e a invisível, referente à sua identidade de gênero, que ao ser visualizado potencializa maior exclusão. A incompreensão, por grande parte da sociedade, sobre a construção da sexualidade da população LGBT, acarreta num significativo processo de exclusão social, que implica: na dificuldade à acessibilidade à escola (ocasionando baixa escolaridade); no despreparo técnico e profissional; na discriminação no mercado de trabalho; na violência social e institucional, ou seja, num processo de sofrimento ético-político. (SALGADO, 2011, p. 65). A visibilidade não as tira dos processos excludentes, como segregação socioespacial e a segregação dos meios tecnológicos digitais mais especificamente a Internet, enquanto uma dimensão segregadora. Nesta pesquisa, foi possível adentrar seus “mundos de origem” e suas experiências, desde a infância, passando pela adolescência e chegando à juventude - fase atual -, em que buscam um local para o descanso do dia a dia nas ruas, um cotidiano no qual são tão visíveis quanto invisíveis, como afirma Chiaverini (2007, p. 9), “tão próximas e tão visíveis, mas, ao mesmo tempo, tão distantes e tão invisíveis. É como se fizessem parte de outra nação, tivessem diferentes códigos, costumes e línguas”. O Centro de Referência da Diversidade (CRD), instalado no centro velho do município de São Paulo, tem como localização o distrito da República e tem como missão oferecer apoio e acolhida às pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais (LGBT) em situação de violação dos direitos sociais. Neste serviço socioassistencial, encontramos vários computadores à disposição das travestis, para que não fiquem distante dos códigos de linguagem digitais, enquanto aproximação dos familiares, amigos e sua rede de apoio como também confecção de currículos para emprego em uma tentativa para diminuição da segregação dos bens digitais. METODOLOGIA: Esta pesquisa foi realizada por meio da descrição e de uma breve aproximação analítica das entrevistas de três travestis que estão na situação de rua, usuárias dos serviços socioassistenciais e em situação de vulnerabilidade, situação vivida por essas pessoas desde a tenra idade, gerando várias perdas que as levaram, também, ao uso e abuso de drogas e às constantes violências sofridas por conta da transfobia, tão presente em suas vidas. As entrevistas foram realizadas por meio de roteiros semiestruturados, visando recuperar a história de vida de cada travesti. Realizamos, também, uma pesquisa documental na Constituição Federal (CF- 88), na Política Nacional da Inclusão da População em Situação de Rua e em conteúdos da Política Nacional de Assistência Social e do Sistema Único de Assistência Social. O percurso realizado para a presente pesquisa – estudos bibliográficos, estudos documentais relacionados à política de assistência social e à identidade de gênero – foi necessário para que pudéssemos, na sequência, ouvir as histórias e adentrar no conhecimento e compreensão da vida de cada travesti em situação de rua, fenômeno que ganhou visibilidade na década de 1990. RESULTADOS: As conquistas sociais em diversas áreas da sociedade nos anos 1990 e até o ano vigente de 2015 foram significativas, sendo expressivas as ações programáticas voltadas para a população em situação