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CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI LIBRAS GUARULHOS – SP 2 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 4 1 PARÂMETROS EM LIBRAS E ESPECTOS LINGUÍSTICOS ................................ 5 1.1 Configuração de mão........................................................................................ 5 1.2 Pontos de articulação ....................................................................................... 7 1.3 Movimento ...................................................................................................... 10 1.4 Orientação ...................................................................................................... 11 1.5 Expressão faciocorporal ................................................................................. 11 2 ASPECTOS LINGUÍSTICOS DE LIBRAS ............................................................ 12 2.1 Classificadores ............................................................................................... 14 2.2 Aspectos fonológicos da Libras ...................................................................... 15 2.3 Léxico, vocabulários icônicos, arbitrários e soletrados ................................... 15 3 ASPECTOS MORFOLÓGICOS DA LIBRAS ....................................................... 21 3.1 Aspecto sintático ............................................................................................. 24 3.2 Aspectos semântico e pragmático .................................................................. 26 4 O SISTEMA DE TRANSCRIÇÃO PARA A LIBRAS ............................................ 33 4.1 O sistema de notação em palavras ................................................................ 34 4.2 Sistema de transcrição SignWriting ................................................................ 38 5 INTERLÍNGUA — CARACTERIZAÇÃO, SEMELHANÇAS, INTERFERÊNCIA E FOSSILIZAÇÃO ........................................................................................................ 42 5.1 Os estágios de interlíngua na aprendizagem da língua brasileira de sinais ... 42 6 TRADUÇÃO AUTOMÁTICA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO PARA LIBRAS .. 50 6.1 Aplicativos brasileiros de tradução automática PB-LIBRAS ........................... 52 7 A PRODUÇÃO DO SPREADTHESIGN NO BRASIL E SUAS POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES .................................................................................................... 58 7.1 Procedimentos metodológicos do SpreadTheSign-Brasil ................................... 62 7.2 Registros das variações linguísticas: Um desafio ............................................... 64 3 8 PROPOSTAS EDUCACIONAIS DIRECIONADAS À PESSOA SURDA ............. 66 8.1 Propostas sociais direcionadas para a pessoa surda ..................................... 69 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 76 4 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 5 1 PARÂMETROS EM LIBRAS E ESPECTOS LINGUÍSTICOS O termo “fonologia” é usado no contexto da pesquisa em língua de sinais para enfatizar os paralelos na estrutura entre a língua oral e a língua de sinais. Antecedendo a década de 60, 40 anos antes da legalização da Libras como língua oficial no Brasil, os sinais eram considerados como simples gestos independentes, não consideráveis, portanto, não contendo nenhum nível análogo ao fonológico. Brito (1995) reconhecia que os sinais da Língua Brasileira de Sinais poderiam ser vistos como composicionais, com subelementos contrastando entre si, ao contrário dos gestos. Pesquisas mais recentes buscaram aplicar abordagens à teoria fonológica em linguagens oralizadas, como a fonologia autossegmental, para sinalizar por uma estrutura própria. É amplamente reconhecido na literatura de língua de sinais que os parâmetros da Libras enquanto configuração de mão, ponto de articulação, movimento orientação e expressões faciocorporais têm um papel significativo no nível fonológico de maneira semelhante à linguagem oralizada, com propriedades de articulação, forma e vocalização. Pinto, em seu livro Língua Brasileira de Sinais, destaca que: […] os 5 parâmetros da Libras são comparados aos fonemas no português e, às vezes, aos morfemas e estas estruturas sublexicais, fazem parte da gramática da Língua de Sinais com características distintivas ou características notáveis usadas para criar sinais com significado em Libras. Para produzir um sinal e retransmitir uma palavra com significado, esse sinal deve seguir cinco parâmetros que determinam sua definição e tom como: Configuração de Mãos, Ponto de Articulação, Movimento, Orientação e Expressão faciocorporal (PINTO, 2018 p. 87). Como visto, a língua de sinais é muito mais complexa do que somente aprender sinais ou fazer alguns gestos, pois deve-se ter a capacidade visuoespacial, a qual tem sua base estruturada nos cinco parâmetros básicos dessa língua. Diferentemente das demais línguas que utilizam quase que exclusivamente a modalidade oral-auditiva, falar e escutar, a língua de sinais é única e possui suas próprias regras gramaticais estruturadas nestes parâmetros, os quais, em conjunto, formam o que se define como um sinal ou entendimento semântico. 1.1 Configuração de mão De acordo com Capovilla (2002), o parâmetro configuração de mão (CM) pode não existir em outras línguas de sinais, assim como alguns padrões de som que existem em uma língua oralizada não existem em outra linguagem. Uma mudança na 6 forma (desenho) da mão pode resultar em um significado totalmente diferente do pensado, ou, ainda, ser sem sentido, da mesma forma que uma unidade de som alterada em uma palavra resulta em um significado diferente, como, por exemplo, “colher” (talher) para “colher” (colheita). Em um sinal, a forma da mão consiste em um ou mais dedos selecionados em uma posição particular para configurar a mão (CM) que, posteriormente, é realizada na efetivação dos sinais. Todo sinal tem um formato que a mão toma no momento de sinalizar, e este poderá ser oriundo do alfabeto manual ou dos números, ou, ainda, de outras configurações que não existem no grupo do alfabeto manual e dos números (não oriunda). Constate os exemplos a seguir: Fonte: bit.ly/3zOiuvx Observe que o sinal da palavra “segunda-feira” tem CM em “V” ou em “2” (ordinal). Fonte: bit.ly/3zOiuvx “Remédio” tem configuração de mão em “1” (cardinal). 7 Fonte: bit.ly/3zOiuvx A palavra “tio” tem CM em “C”. Os sinais das palavras “segunda-feira”, “remédio” e “tio” são oriundas do alfabeto e dos números, uma vez que a configuração da sua mão predominanteestá relacionada a uma letra do alfabeto ou a números. 1.2 Pontos de articulação Conforme Capovilla (2002), assim como na configuração de mão, os pontos de articulação (PA) são representados na estrutura dos recursos inerentes. Essa organização reflete a generalização de que existem cinco regiões do corpo (tronco, cabeça, braço, mão e espaço neutro), assim, precisa-se da mão configurada e do ponto de articulação para dar início ao sinal. Assim como na configuração de mão, que consiste em categorias dominantes e subordinadas, o mesmo ocorre com a categoria de PA. Cada morfema livre é restrito a uma única área corporal principal, como a cabeça, o tronco, a mão e o braço não dominante ou o espaço neutro. 8 Cabeça: Para toda regra pode haver uma exceção, o que ocorre no ponto de articulação. Nem todos os sinais idealizados na região da cabeça precisam encostar na face, mas devemos observar que a mão predominante está na região da cabeça ou da face, tendo como ponto de alicerce o queixo, o nariz, o olho, a boca, a bochecha, a orelha, a maçã da face, a testa ou o topo da cabeça. Observe os exemplos a seguir: Fonte: bit.ly/3zOiuvx Observe que o sinal de “bonito” tem movimento à frente da face, mas não exatamente precisa ser feito varrendo (encostando) o rosto; “mulher” e “telefone” também tiveram como apoio a bochecha, e todos os sinais tiveram como ponto de articulação “cabeça”. Braço: Os sinais que têm como ponto de articulação “braço” terão seu apoio no braço, no antebraço, no punho ou no cotovelo. Fonte: bit.ly/3zOiuvx Para o sinal de “banheiro”, o apoio é no antebraço, e, para o sinal de “ciúmes”, o apoio é no cotovelo, assim, seu PA é “BRAÇO”! Mão: Para este PA, os sinais serão feitos no dorso da mão, na palma da mão e nos dedos da mão. 9 Fonte: bit.ly/3zOiuvx Em ambos os exemplos os sinais estão sendo feitos na palma da mão, assim, o seu PA é “mão”. Tronco: O ponto de articulação “tronco” tem como referência os sinais onde as mãos serão posicionadas na barriga, na cintura, no peito, no pescoço ou no ombro. Fonte: bit.ly/3zOiuvx Ambos os sinais têm como PA “tronco”, visto que sua mão configurada está incidindo no peito. Espaço neutro: Para o ponto de articulação “espaço neutro”, há somente duas localizações: a frente do tronco ou acima da cabeça, ou seja, a mão não encostará em nenhum outro membro do corpo. Neste PA, a mão predominante do sinalizador estará, no mínimo, a dez centímetros de distância do tronco ou acima da cabeça. 10 Fonte: bit.ly/3zOiuvx Para o sinal da palavra “demitir”, o movimento será concluído após soltar o dedo médio para a frente; e o sinal de “vôlei” é feito simulando o lance de jogo acima da cabeça. 1.3 Movimento O terceiro parâmetro, “movimento” (MV), pode ser caracterizado por sinais lexicais, pois são atos dinâmicos com uma trajetória, um começo e um fim. Sua representação fonológica varia conforme a parte do corpo usada para articular o movimento (são as setas nas imagens). O movimento utilizado entre um sinal e outro é uma mudança natural e não prevalece no movimento do sinal. Capovilla (2002), explica que as partes do corpo envolvidas no movimento são organizadas dentro de uma característica própria de cada sinal, começando com as articulações proximais e terminando com as articulações mais distais. Em alguns sinais, é possível que não haja movimentos, fazendo o sinal ser sem movimento, bem como é possível ter dois tipos simultâneos de movimentos articulados em conjunto, ou seja, o movimento das duas mãos simultaneamente, e, ainda, há uma gama de movimentos possíveis para realizar um sinal. Já sabemos que os movimentos são parte da fonologia, não apenas de pares mínimos, sendo bastante escassos, mas também porque a especificação de movimento é ativa na gramática, morfológica e fonologicamente. Observe os exemplos a seguir: 11 Fonte: bit.ly/3zOiuvx O sinal da palavra “brincar” tem movimento circular, ao passo que o movimento da palavra “verdade” tem movimento para cima e para baixo. 1.4 Orientação A orientação é tradicionalmente considerada um parâmetro secundário, uma vez que há menos pares mínimos baseados apenas na orientação (BRITO, 1995). Alguns autores se baseiam na direção da palma da mão e das pontas dos dedos da mão (p. ex., a palma da mão está voltada para a esquerda e as pontas dos dedos estão voltadas para a frente). Pinto cita, ainda, que: […] quando um sinal tem sua direção e há uma inversão, significa a oposição, contrário ou concordância. Esta se refere à direção onde a palma da mão fique virada para produzir um sinal. Podendo ser: palma da mão para cima, palma para baixo, palma da mão direita, palma da mão esquerda, com a palma para frente ou palma da mão para trás (palma virada para você). (PINTO, 2018 p. 106). 1.5 Expressão faciocorporal O quinto e último parâmetro, as expressões faciocorporais (ECF), também é conhecido como “expressões não manuais”. Esse recurso é idealizado com a face e/ou o corpo, podendo ser feito em conjunto com a utilização das mãos ou para transcorrer um contexto. Esse item é extremamente importante, e, caso não seja idealizado concomitantemente, os sinais tornam-se comprometidos e até sem sentido. Diante de todos os parâmetros apresentados, forma-se o sinal em Libras. Observe um sinal em que são aplicados os cinco parâmetros de Libras: 12 Fonte: bit.ly/3zOiuvx Agrupando os dados da tabela, conseguimos obter as informações necessárias para que um sinal seja realizado adequadamente. Todos os sinais têm esses parâmetros, e uma pequena falha na execução de algum deles altera o seu significado, inclusive trazendo consequências à morfologia da Libras. 2 ASPECTOS LINGUÍSTICOS DE LIBRAS Conforme Brito (1995), as noções linguísticas de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) são as mesmas de qualquer língua natural, como a língua portuguesa, por exemplo. Algumas das noções linguísticas mais importantes são: Fonologia: a fonologia da LIBRAS é o estudo dos sons e da organização desses sons em sinais. Cada sinal é composto por uma configuração de mão, ponto de articulação, orientação de mão e movimento, que, combinados, formam unidades mínimas de significado. Morfologia: a morfologia da LIBRAS é o estudo da estrutura das palavras em relação aos sinais. Na LIBRAS, os sinais podem ser compostos por prefixos, sufixos e outros elementos morfológicos, assim como as palavras em português. Sintaxe: a sintaxe da LIBRAS é o estudo da organização das palavras em frases e sentenças. Na LIBRAS, a ordem das palavras pode ser diferente da do 13 português, mas segue padrões próprios, como a marcação de tópicos e a presença de verbos de ligação. Semântica: a semântica da LIBRAS é o estudo do significado dos sinais e como eles se relacionam entre si. Na LIBRAS, como em qualquer língua natural, o significado dos sinais é construído a partir do contexto em que são usados. Pragmática: a pragmática da LIBRAS é o estudo das regras sociais e culturais que governam o uso da língua em contextos sociais e culturais específicos. Isso inclui, por exemplo, as regras de conversação, a linguagem corporal e as expressões faciais que acompanham os sinais. Essas noções linguísticas são fundamentais para o estudo e a compreensão da LIBRAS como uma língua completa e complexa, com sua própria gramática e sintaxe. É importante lembrar que a LIBRAS é a língua materna de muitos surdos no Brasil e é reconhecida como uma língua oficial no país desde 2002. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é proveniente da Língua de Sinais Francesa, em uma relação similar à que a Língua Portuguesa tem com o português falado em Portugal. Assim, as línguas de sinais que existem não são universais, cada país tem a sua, podendo ou não se assemelhar com de outros países. Além disso,ela sofre influências culturais com o decorrer do tempo e, como qualquer outra, língua é carregada de expressões (sinais) que se diferenciam conforme a região. Em função disso, ao se comunicar com uma pessoa surda de outra região do país, certamente notará que serão diferentes os sinais usados por ela, pois cada região tem suas próprias palavras e gírias. As línguas de sinais têm seu alicerce de produção e percepção em características gesto-visual, ou seja, usa o corpo para fazer gesticulações no espaço que constituem e compõe os sinais e as frases. Normalmente, são usadas as mãos como instrumento de comunicação, o que, para um desconhecedor do assunto, pode aparentar que a pessoa está fazendo mímica ou simplesmente acenos, mas na verdade, esses sinais vão muito além disso, pois são repletos de regras próprias e, devido à sua estrutura fonológica, morfológica, sintática e semântica, elas não podem ser tratadas de outra forma que não seja uma língua. 14 2.1 Classificadores Dentre as estratégias ou meios de comunicação utilizada pela língua de sinais é o classificador, que, inicialmente, como já dito, pode parecer apenas mímica, mas não são, como você verá a seguir. Os classificadores são estratégias linguísticas que passam determinados significados ou mensagens, molda sinais, incorpora personagens ou apenas usa a criatividade espacial para expressar um conhecimento. Eles podem usar as configurações de mãos para explicar o plural de algo, por exemplo. (vários pratos), e aparecer em situações de nível semântico (significado), sintático (organização e estrutura da frase) e morfológico (gênero, plural, modo, tamanho, etc.). Segundo Pizzio et al. (2009), os classificadores em Libras, podem ser divididos em cinco grupos principais: Fonte: adaptada de Pizzio et al. (2009) O classificador não é considerado uma mímica, apesar de utilizar esse recurso espacial para auxiliar no entendimento da mensagem, porque ele se apoia ou usa os parâmetros das línguas de sinais na produção de significado linguístico, e a mímica não os utiliza. 1. Descritivos: descrevem paisagens, prédios, imagens, entre outros. 2. Especificadores: são uma descrição mais detalhada sobre algo, descrevendo visualmente a forma, a textura, o tamanho, o cheiro, etc. do objeto, do corpo de uma pessoa ou de animais. 3. Plural: são as configurações de mãos ou o sinal que substituem o objeto que se deseja descrever, repetidas diversas vezes para passar a ideia de plural. Por exemplo, vários copos. 4. Instrumental: é a incorporação de personagem descrevendo a ação ao utilizar um determinado instrumento. Por exemplo, usar um martelo. 5. De corpo: descreve a ação por meio da expressão facial e/ou corporal dos seres que se deseja especificar. Por exemplo, um gato afiando as unhas. 15 Em razão desse aspecto e de tantos outros que a língua de sinais é tão fascinante, pois tem particularidades que a tornam tão fascinante, entretanto, sem se separar do que ela tanto lutou para conquistar: ser reconhecida como uma língua. 2.2 Aspectos fonológicos da Libras A fonética da Língua Brasileira de Sinais expande nossos conhecimentos em relação às estruturas dos sinais em Libras e nos aproxima ainda mais da gramática da modalidade visuoespacial (Libras). Como a fonética é a camada da linguagem que interage diretamente com os sinalizadores, as discrepâncias anatômicas, nesse aspecto, têm a capacidade de influenciar a estrutura fonética da língua entre suas modalidades. Essa discrepância é visível em termos de produção, uma vez que os articuladores utilizados na fala e no movimento das mãos variam: na língua oral, os articuladores são os lábios, os dentes, a língua, a garganta e a laringe, enquanto que na Libras, os articuladores são as mãos, os braços, a cabeça, o corpo e a face. Ademais dessa discrepância evidente, há diferenças fundamentais entre esses conjuntos de articuladores. Os sinais da Língua Brasileira de Sinais podem ter uma importância menor na análise fonológica em comparação com a língua oral, uma vez que os sinalizadores são visíveis. Em outras palavras, a linguagem oral é mais suscetível a reanálise devido à decodificação acústica da produção. A Libras, por sua vez, é capaz de transmitir múltiplos eventos visuais simultaneamente, com a articulação envolvendo duas mãos e braços. Em contrapartida, a oralização é transmitida por meio do fluxo único de um sinal acústico. 2.3 Léxico, vocabulários icônicos, arbitrários e soletrados De acordo com Pinto (2018), o léxico é o conjunto de palavras e expressões que uma língua possui, e é fundamental para a comunicação efetiva em qualquer idioma, inclusive na Língua Brasileira de Sinais (Libras). No entanto, é importante ressaltar que conhecer sinais isoladamente, sem compreender o contexto em que eles são utilizados, não é suficiente para se tornar um profissional intérprete de Libras ou um usuário fluente da língua. Simplesmente sinalizar palavra por palavra pode resultar em uma forma de comunicação semelhante ao português sinalizado, mas não necessariamente em Libras. Isso pode prejudicar a compreensão dos surdos, que não 16 terão acesso à informação de forma precisa e fidedigna. Para ilustrar melhor esse conceito, vejamos um exemplo prático. Considere a seguinte frase: Figura 1- Frase por datilologia. Figura 2- Frase soletrada. Fonte: bit.ly/3zOiuvx Usar apenas datilologia em uma conversa não é adequado, já que essa técnica não tem a função de expressar todo o significado de uma frase em Libras. Além disso, traduzir uma frase palavra por palavra para a Libras é equivalente a produzir um português sinalizado, o que não é o mesmo que utilizar a Língua Brasileira de Sinais. 17 A datilologia tem sua utilidade quando precisamos comunicar nomes próprios, termos científicos ou elementos que ainda não possuem sinal estabelecido na língua. Desta forma, não se pode utilizar somente a datilologia em uma conversa, pois ela não substitui a estrutura da língua em si. Um exemplo de como essa frase seria sinalizada em Libras é o seguinte: Figura 3- Frase representada apenas pelo sinal de idade. Fonte: bit.ly/3zOiuvx Na figura apresentada, é possível notar o sinal para "idade" acompanhado de uma expressão interrogativa que confere o contexto completo à frase: "Quantos anos você tem?". Sinais icônicos A fonologia da Libras apresenta sinais icônicos que podem proporcionar mais iconicidade do que as línguas orais, uma vez que objetos no mundo externo tendem a ter associações mais visuais do que auditivas. É importante destacar que, embora as línguas de sinais não possam mostrar um vínculo arbitrário entre símbolo e referente ou forma e significado, esse vínculo é tão convencionado quanto nas línguas orais. Além disso, é relevante observar que os oralizadores não têm verdadeira ciência do simbolismo sonoro que existe nas palavras, como "dor", "choro", "risada", etc., o que também é importante para os surdos, podendo resultar na falta de conhecimento das origens icônicas dos sinais. De acordo com Pinto (2018), os sinais icônicos são visualmente parecidos com os gestos comuns utilizados em nosso dia a dia, o que os torna familiares para 18 muitas pessoas, mas não são considerados universais. Esses sinais são comuns na Libras e transmitem significados de forma icônica, observe a figura (Figura 4). Figura 4- Para sinalizar a palavra “feliz”, basta fazer a expressão de felicidade. Dessa forma, você já idealiza a comunicação. Fonte: mimagephotography/Shutterstock.com. Mesmo sendo um leitor leigo em Libras, é possível entender o significado de diversos sinais em Libras, bem como fazer sinais de palavras com estas características. Observe e reflita as palavras no quadro a seguir: Quadro 1. Fonte: bit.ly/3zOiuvx Apósessa reflexão, tente idealizar sinais com as mãos e com o corpo que poderiam expressar essas palavras. É certo que não encontrou dificuldade para sinalizá-las! De modo simplificado, essas palavras fáceis de sinalizar e que todos entenderiam são os sinais icônicos. Inverteremos, agora, esses exemplos. Observe os sinais a seguir: 19 Figura 5- Sinais de não/casa/beber. Fonte: bit.ly/3zOiuvx Embora possa ser possível reconhecer alguns sinais em Libras mesmo sem conhecimento prévio da língua, é importante ressaltar que a compreensão dos significados e a habilidade de produzir sinais de forma adequada requerem um aprendizado formal da língua. Como você pôde ver na Figura 5, diversas palavras e seus sinais em Libras para reflexão. Sinais arbitrários A arbitrariedade é um aspecto importante da fonologia da Libras que suscita questões sobre sua legitimidade e autenticidade enquanto língua própria. Enquanto os sinais icônicos possuem uma associação visual direta com o referente, os sinais arbitrários não possuem tal relação e requerem conhecimento prévio da língua para sua identificação e produção adequada. É fundamental compreender essa distinção para compreender plenamente a fonologia da Libras. Segundo Pinto (2018), os sinais arbitrários são sinais que não possuem uma aparência que remeta a gestos convencionais, nem uma relação com a realidade, tornando difícil para um leigo em Libras entender o seu significado. Se alguém pedir para você, que é leigo em Libras, sinalizar as palavras: admirar, desculpe, quarta-feira provavelmente não conseguirá, justamente por essas palavras serem arbitrariamente sinalizadas. Os sinais arbitrários são a maioria na Língua Brasileira de Sinais, o que destaca a importância de conhecer e compreender essa língua. 20 Figura 6- sinais arbitrários: “admirar", "desculpe" e "quarta-feira” Fonte: bit.ly/3zOiuvx Como você viu, na Figura 6, os sinais arbitrários da fonologia em Libras não têm relação direta com o significado das palavras. Um exemplo disso são os sinais para as palavras "admirar", "desculpe" e "quarta-feira". Provavelmente, sem conhecimento prévio da Língua Brasileira de Sinais, não seria possível compreender esses sinais. Sinais soletrados Algumas palavras em Libras não possuem sinais sistematizados dentro dos cinco parâmetros, o que pode levar a variações regionais nos sinais utilizados. Por exemplo, em São Paulo, uma palavra pode ser soletrada, enquanto em Goiás existe um sinal específico para ela. É relevante salientar que a datilologia não deve ser confundida com a soletração de uma palavra em Libras. A datilologia pode ser utilizada para representar qualquer palavra quando não se conhece o sinal correspondente, enquanto o sinal 21 soletrado é o próprio sinal da palavra e é uma opção minoritária entre o vocabulário da língua de sinais. De acordo com Hirata (2018), é relevante considerar o regionalismo, visto que as línguas de sinais ofertam possibilidades exclusivas para experenciar ideias sobre a natureza da própria linguagem, ideias geralmente formuladas exclusivamente a partir de observações na língua oral. Entre todas as diferenças e semelhanças entre línguas orais e línguas de sinais, as áreas que apresentam as divergências mais marcantes ocorrem na morfofonética e na fonologia. A área de interação entre morfologia e fonologia é divergente, de fato, em razão das liberdades e restrições dispostas para cada sistema. 3 ASPECTOS MORFOLÓGICOS DA LIBRAS Conforme Faders (2010), em caráter morfológico, existem algumas questões bem específicas das línguas de sinais. As línguas orais empregam o “s” para indicar o plural, os sufixos “inha” ou “inho” para os diminutivos, e “o” e “a” para os gêneros masculino e feminino. Por outro lado, as línguas de sinais possuem formas diferentes de apresentar esses itens morfológicos, como ilustrado na imagem abaixo. Imagem 1- Sinal de homem e sinal de mulher. 22 Fonte: Adaptada Faders (2010) Em diversas situações, na língua de sinais, utiliza-se o sinal de homem ou de mulher para designar o gênero, assim como nas línguas orais, é necessário concordar o gênero com o sujeito. Por exemplo, "o dentista", "a dentista", "o cantor" e "a cantora". Conforme Capovilla e Raphael (2001), ao falar sobre o plural em língua de sinais, é importante lembrar que não é possível simplesmente adicionar um "s" ao final de uma palavra, como é feito nas línguas orais, para indicar que se trata de mais de um item, como no caso da palavra "copos". Para expressar essa ideia, é necessário utilizar o recurso morfológico da repetição, como mostrado no exemplo na imagem abaixo. Imagem 2- Sinal de três copos. 23 Adaptado de Capovilla e Raphael (2001) Segundo o que é discutido por Capovilla e Raphael (2001), quando se trata de modificar uma palavra adicionando-lhe um modo, como intensidade, as línguas orais costumam utilizar sufixos para atribuir essa condição. Por exemplo, rápido (rapidamente); devagar (vagarosamente). Nas línguas de sinais, o processo é semelhante, uma vez que se utiliza expressão facial/corporal e movimento para dar maior ou menor intensidade ao sinal. Nas imagens a seguir, é possível observar como isso acontece: Imagem 3- Sinais de andar rápido e rapidamente. 24 Fonte: Alves e Silva (2009). Imagem 4 - Sinais de andar devagar e vagarosamente Fonte: Alves e Silva (2009). 3.1 Aspecto sintático As línguas orais dispõem de estruturas sintáticas que variam muito, uma vez que, a estrutura escrita da língua portuguesa normalmente obedece a seguinte 25 construção: sujeito — verbo — objeto (SVO). Equiparando com as línguas de sinais e, mais especificamente, com a Libras, a estrutura mais usada também é a SVO. Isso não significa que não há outros modelos ou arranjos de frases e sentenças igualmente usadas na Libras. Assim como, a escrita em Língua Portuguesa feita pela pessoa surda, que não usa conjunções, preposições, artigos, conjugação verbal, etc.), como a sua sinalização em Libras é capaz de seguir as tais estruturas: sujeito — objeto — verbo (SOV); verbo — objeto — sujeito (VOS); objeto — sujeito — verbo (OSV). Exemplos de construção da frase em português “eu vou para casa”: eu ir casa (SVO); eu casa ir (SOV); ir casa eu (VOS); casa eu ir (OSV). Conforme Quadros, Pizzio e Rezende (2008), é muito provável, que nem todas as construções de frases sejam viáveis vai dos contextos que são aplicados. Além disso, há marcações não manuais que identificam e classificam as sentenças como negativas, interrogativas, afirmativas, condicionais, relativas, e também com tópicos e focos. No quadro abaixo, é possível verificar os detalhes de cada uma dessas marcações. 26 Fonte: Quadros, Pizzio e Rezende (2008). 3.2 Aspectos semântico e pragmático Conforme Faders (2010), quanto à semântica e a pragmática em línguas de sinais, é preciso compreender o significa cada uma delas. A semântica prioriza os 27 estudos linguísticos ao nível lexical, que engloba a relação de polissemia, sinonímia, antonímia e parônimos dos sinais, assim como no nível de sentença, o qual estuda as estruturas e a ambiguidades das frases. Observe o nível lexical (palavra) a seguir. Sinonímia: são sinais de sinais diferentes que tem o mesmo significado, como você pode observar nas imagens 5 e 6: Imagem 5 – Sinal de fácil. Fonte: Faders (2010). Imagem 6 – Outro sinal de fácil. Fonte: Vivendo Libras diariamente (2017). 28 Antonímia: são sinais que representam significados opostos. Veja os exemplos das figuras: Imagem 7 – Sinal de coragem. Fonte: Faders (2010, p. 24). Imagem 8 – Sinal de medo. Fonte: Faders (2010, p. 62). 29 Parônimos: trata-se de sinais parecidoscom significados diferentes. Nas figuras você pode ver nas imagens 9 e 10: Imagem 9 – Sinal de educação. Fonte: Faders (2010, p. 30). Imagem 10 – Sinal de acostumar. Fonte: Faders (2010, p. 8). 30 Polissemia: são sinais iguais com significados diferentes. Veja os exemplos na imagem: Imagem 11 – Sinal de sábado, sinal de laranja (fruta ou cor). Capovilla e Raphael (2001, p. 799). Já no nível semântico da sentença, é possível estudar a língua de sinais para verificar os diferentes modos de expressar o mesmo significado por meio da construção de frases. Vejamos agora na imagem 12 como fica a sentença: Você é sempre nervoso! Em libras Imagem 12 - Você é sempre nervoso! 31 Fonte: Silva (2017) Vejamos agora como fica a sentença: Você nunca é calmo! Em libras Imagem 13- Você nunca é calmo. 32 Fonte: Faders (2010). No nível da pragmática, no que lhe concerne, deve-se levar em conta o contexto linguístico de uso nos princípios de comunicação dos falantes e sinalizantes. Ela faz a análise do significado extralinguístico, o qual os próprios nativos de uma língua associam por convenção de utilização. Um bom exemplo são as metáforas, usadas tanto por línguas orais como pelas de sinais: Imagem 14- Gíria: esquentado. 33 Fonte: Hirata (2018) 4 O SISTEMA DE TRANSCRIÇÃO PARA A LIBRAS Com o intuito de apresentar um instrumento didático para o ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras) a pessoas ouvintes, Felipe e Monteiro (2007), adequaram um padrão de combinações que possibilitou a explicação dos movimentos articulatórios visuais em forma de escrita “Libras em Contexto”. Essa pesquisa deixou mais próximo dos recursos textuais da Língua Portuguesa o estudo e o ensino da Libras, por meio do uso de filmes em DVD realizados por surdos, uma vez, que a língua de sinais possui aspectos próprios que requerem tecnologia apropriada para sua propagação e reprodução no ensino, como a exibição de vídeos. Combinado com vídeos, esse protótipo de códigos se tornou uma formula padronizada utilizada por diversos pesquisadores e especialistas do ensino da língua de sinais. O Signwriting também é uma possibilidade e espécie de escrita para a língua 34 de sinais, contudo, esse método requer um tempo significativo para ser estudada e aprendida. Entretanto, é uma técnica bem vista por diversos tradutores, discentes e cientistas de línguas de sinais por todo mundo. 4.1 O sistema de notação em palavras É um método de representação de línguas de sinais por meio de palavras em uma língua falada. Nesse sistema, cada sinal da língua de sinais é associado a uma palavra ou expressão da língua falada que o descreve ou o traduz. Por exemplo, o sinal em língua de sinais para "cachorro" pode ser representado no sistema de notação em palavras como a palavra "cachorro" ou a expressão "animal de estimação que late e tem quatro patas". Esse sistema é amplamente utilizado em contextos educacionais e de interpretação, permitindo que pessoas surdas e ouvintes se comuniquem por meio de uma língua comum, a língua falada. No entanto, ele tem algumas limitações. Uma delas é que ele não é capaz de representar completamente a riqueza e a complexidade das línguas de sinais, que possuem sua própria gramática e estrutura linguística. Além disso, a tradução direta para a língua falada pode não ser precisa ou adequada em todos os casos, o que pode levar a mal-entendidos e incompreensões. O sistema de notação em palavras é nomeado assim pelo fato de o léxico da língua oral-auditiva serem usadas para descrever de forma realista a execução da comunicação em língua de sinais, que é tridimensional e espaço-visual. Abaixo, veremos de que forma a apresentação dos sinais manuais e não manuais em Libras é feita na forma escrita: 1- Todas palavras da Língua Portuguesa que tenha um sinal correspondente em Libras deverá ser grafada em letras maiúsculas. Exemplos: Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). 35 2- Na Língua Portuguesa, o hífen é utilizado quando um sinal único representa uma ação constituída por mais de uma palavra. Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). 3- Quando dois ou mais sinais em Libras são executados à parte, porém comprometido a formar um único conceito, as palavras que o constituem são escritas separadamente e unidas pelo símbolo “^”. Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). 4- Quando uma palavra não tem um sinal próprio em Libras, ou quando se quer representar nomes próprios (como nomes de pessoas, lugares, objetos etc.), a técnica da "datilologia" é utilizada e, com isso, cada letra é escrita separadamente e unida por hifens "-". Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). Quando a soletração ou datilologia de uma palavra é utilizada como um sinal na Libras, esse sinal é acrescido ao léxico da língua de sinais. Esse recurso é conhecido como "empréstimo linguístico", e a essa prática de escrita desse sinal deve ser impressa em itálico. 36 Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). 6- Para a formação de gêneros e números em Libras, não existe desinência, como ocorre em línguas orais. Em vez disso, é utilizado o sinal de "HOMEM" para "masculino" ou o sinal de "MULHER" para "feminino", juntamente com os "classificadores" ou "intensificadores". Dessa forma, a desinência de gênero é representada pelo símbolo "@" em Libras. Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). 7- Quando um sinal em Libras carrega consigo uma Expressão Não Manual (ENM) simultaneamente, as expressões serão exibidas ao lado do sinal para indicar ideias como frases interrogativas (?), negativas (-), exclamativas (!), advérbios de modos, (<) menor ou (>) maior, ou (+) para um intensificador. Os símbolos, tais como?! + - < >, são escritos em "subscrito", Felipe e Monteiro (2007). Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). 8- Não há concordância de gênero (masculino ou feminino) para pessoas, coisas ou animais para os verbos em Libras. No entanto, para especificar o tipo de entidade envolvida na ação, são utilizados os "classificadores" (CL), que são sinais 37 específicos que acompanham o verbo. Quando necessário, o tipo de classificador utilizado será indicado em subscrito. Felipe e Monteiro (2007). Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). 9- Felipe e Monteiro (2007), explica que os verbos que possuem características locativas ou de número-pessoal e são representados por movimentos direcionados, são grafados com a palavra correspondente acompanhada por uma letra em subscrito, indicando: Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). a) Variável de lugar: i = ponto próximo à 1º pessoa j = ponto próximo à 2º pessoa k e k’ = próximos à 3º pessoa b) Pessoas gramaticais 1s, 2s, 3s = (1º, 2º, 3º pessoas do singular) 1d, 2d, 3d = (1º, 2º, 3º pessoas do dual²) 1p, 2p, 3p = (1º, 2º, 3º pessoas do plural) D e E = Direita e Esquerda 38 10- Quando um sinal exigir que se use uma mão exclusiva ou o uso simultâneo de ambas, é indicado (md) para "mão direita" e (me) para "mão esquerda” Felipe e Monteiro (2007). Fonte: adaptada de Felipe e Monteiro (2007). 4.2 Sistema de transcrição SignWriting De acordo com Sutton (1999), o SignWriting é um sistema de escrita visual que permite a representação gráfica de linguagens de sinais (LS). Esse sistema foi desenvolvido na década de 1970 por Valerie Sutton, que buscava um método de transcrição que permitisse uma representação precisa e completa das línguas de sinais. Desde então, o SignWriting tem sido utilizado por pesquisadores, professores e comunidades surdas em todo o mundo como uma ferramenta para documentação, educação e comunicação. O SignWriting tem como base símbolos gráficos que representam os movimentos das mãos, expressõesfaciais e outras características da língua de sinais. Esses símbolos são organizados em um sistema de escrita que permite a interpretação de frases, histórias e outras formas de comunicação. O sistema é bastante flexível e pode ser adaptado para representar diferentes línguas de sinais, bem como diferentes dialetos ou variações regionais dentro de uma língua. Uma das vantagens do SignWriting é a sua precisão e clareza. Diferentemente de outros sistemas de escrita para línguas de sinais, como o glossário ou a notação HamNoSys, o SignWriting é capaz de representar com precisão os detalhes dos movimentos das mãos, expressões faciais e outros aspectos da língua de sinais. Isso torna o sistema útil para a documentação de línguas de sinais que ainda não foram completamente descritas ou que são pouco conhecidas. Além disso, o SignWriting pode ser uma ferramenta valiosa para a educação de surdos e ouvintes. O sistema pode ser utilizado para a criação de materiais didáticos, como livros, vídeos e apresentações, que ensinam as línguas de sinais de 39 modo claro e preciso. Também pode ser usado para a comunicação entre pessoas surdas e ouvintes, permitindo que as informações sejam trocadas de forma mais eficiente e precisa. Entretanto, como qualquer sistema de escrita, o SignWriting possui suas limitações. Uma delas é a dificuldade de aprendizado para pessoas que não estão familiarizadas com o sistema. Embora seja possível aprender a escrever e ler SignWriting com a prática, pode levar tempo para se tornar proficiente no sistema. Além disso, como o SignWriting é um sistema relativamente novo, ainda há muitas línguas de sinais que não foram completamente transcritas no sistema. No sistema de escrita SignWriting, a posição das mãos é representada por três símbolos: fechada, aberta ou plana, conforme demonstrado nas Figuras 1 a, b e c, respectivamente. A transcrição dos sinais é feita considerando o panorama da pessoa de quem está demonstrando, ou seja, observando as próprias mãos. Assim, é possível representar a palma, o dorso ou o lado da mão. Para indicar o espaço de sinalização, o SignWriting utiliza setas. Figura 1: Representação de mãos em SignWriting Fonte: adaptada de Amaral (2012). Afora a descrição da expressão facial, uma das principais características distintivas da técnica de escrita SignWriting é a apresentação do dinamismo das movimentações. Em SignWriting, há símbolos específicos para representar a dinâmica dos movimentos, que suportam ser agregados aos símbolos de movimento 40 ou expressões faciais para indicar simultaneidade ou outras características, como movimentos alternados, rápidos, suaves, tensos ou relaxados. Por exemplo, é possível representar o movimento das duas mãos es simultaneamente, bem como indicar se o movimento é rápido ou suave. A Figura 2 apresenta o sinal CASA descrito em SignWriting, demonstrando como os símbolos de dinâmica são incorporados aos símbolos de movimento e expressões faciais para fornecer informações mais detalhadas sobre o sinal em questão. Fonte: adaptada de Amaral (2012). Os sinais estruturados com a palma da mão voltada para o lado são realizados em SignWriting por meio do símbolo apresentado na Figura 3 (a), conforme demonstrado na Figura 3 (b). Fonte: adaptada de Amaral (2012). 41 O símbolo presente na descrição do sinal CASA é inclinado devido à inclinação das mãos. O asterisco que aparece no topo da notação aponta que há contato entre as pontas dos dedos. As mãos se movem na diagonal para baixo, contornando o telhado de uma casa, como indicado pelos sinais de flecha para baixo na Figura 4. A seta preenchida (escura) corresponde à mão direita, enquanto a seta não preenchida (branca) corresponde à mão esquerda. Fonte: adaptada de Amaral (2012). O sinal de parênteses horizontais abaixo das setas significa que o movimento ocorre sincronicamente, mas não descreve o contato preciso entre as mãos. Embora o SignWriting seja abrangente, ele não oferece detalhes geométricos suficientes para a reprodução computacional dos sinais, pois é um sistema icônico/imagético. Além disso, ele reproduz somente sinais isolados, sem contextualização. Para demonstrar repetição de movimento, o símbolo de movimento é duplicado. Por exemplo, a seta semicircular na Figura 5 (a) indica um movimento curvo para cima, enquanto o símbolo ao lado (Figura 5 b) representa o mesmo movimento, mas articulado duas vezes. entretanto, é importante notar que alguns sinais repetem movimentos inúmeras vezes, ou até que outro movimento acabe. 42 Fonte: adaptada de Amaral (2012). O sistema de transcrição SignWriting não é capaz de descrever sinais compostos, condições de simetria e a parametrização e contextualização de sinais. 5 INTERLÍNGUA — CARACTERIZAÇÃO, SEMELHANÇAS, INTERFERÊNCIA E FOSSILIZAÇÃO De acordo com Capovilla, (2012), a interlíngua representa uma linguagem produzida por falante que não é nativo de uma língua ao iniciar o seu aprendizado e é caracterizada pela interferência da língua materna ou natural (L1) durante o processo de aprendizagem. Em alguns casos, a L1 possui um maior ou menor aproveitamento na formação de uma interlíngua, quando as habilidades linguísticas prévias da L1 encontram semelhanças na língua-alvo a ser aprendida. Se em algumas situações existe semelhança entre a L1 e a que será aprendida, em outras, pode ocorrer uma interferência entre elas e, consequentemente, na formação da interlíngua. Nesse último caso, há certa interferência ou ocorrência de formas de uma língua na outra, o que cria desvios perceptíveis na pronúncia, na formação de vocabulário, na estruturação de frases, etc. Já a fossilização (ou congelamento) seria a existência de erros ou desvios no uso da segunda língua (L2) que ficam internalizados nela e, por isso, são difíceis de serem reparados futuramente. 5.1 Os estágios de interlíngua na aprendizagem da língua brasileira de sinais Capovilla, (2012), explica que do ponto de vista do sujeito surdo, deve-se ter em mente que existem diversos cenários em que a criança pode ser enquadrada, e cada um deles gera um tipo diferente de estágio de interlíngua. Veja no Quadro 1 43 como funciona o cenário de aprendizado de uma L2 por uma criança ouvinte filha de pais ouvintes. Quadro 1. Aprendizado de uma segunda língua por criança ouvinte, filha de pais ouvintes . Fonte: adaptada de Capovilla, (2003). Conforme Capovilla, (2012), nesse cenário, o qual é o mais comum de acontecer, independentemente do país, desde o nascimento, a criança ouvinte tem contato com sua L1 e, a partir da escolarização, começa a ter contato com sua L2. A partir desse ponto, ela utilizará sua L1 como interlíngua para desenvolver e aprender sua L2 no contexto de sala de aula. Se puder passar um período fora, em contato com os nativos da L2 que deseja aprender, será melhor ainda, mas, se isso não acontecer, ela ainda terá sua L1 sendo fortemente adquirida todos os dias no contato com os falantes de língua portuguesa. No Quadro 2, você pode ver como funciona o cenário de aprendizado/ aquisição de uma L2 por uma criança ouvinte filha de pais surdos. 44 Quadro 2. Aprendizado de uma segunda língua por criança ouvinte, filha de pais surdos. Fonte: adaptada de Capovilla, (2012). Nesse exemplo, há uma criança ouvinte que nasceu em um lar surdo e o seu único contato, na maior parte do dia, será com os pais. O ideal seria que pelo menos um dos pais fosse ouvinte, pois, assim, ela teria uma referência das duas línguas (português e Libras) no seu espaço de criação, o que resultaria em um ambiente bilíngue de aquisição de linguagem. Contudo, como seus pais são surdos, a criança pode ter ou não um maior contato com ouvintes, o que dependerá de cada caso — se ela ficaparte do dia em uma creche ou somente com um dos pais em casa. Ao iniciar a escolarização, ela possivelmente apresentará algumas particularidades no uso da língua portuguesa, tanto na pronúncia como na escrita (caso ela já domine o alfabeto, o que é possível, por ele ser um elo importante para utilizar a datilologia em Libras). Ao iniciar a educação básica, em escola regular, ela certamente utilizará seu conhecimento da Libras como interlíngua para desenvolver a aquisição da língua portuguesa oral e escrita. Nesse ponto, em sala de aula, o profissional não deve confundir a dificuldade da criança em usar a língua portuguesa com algum problema de aprendizagem, pois as línguas de sinais possuem uma modalidade diferente das orais — as de sinais são de modalidade visuo-espacial; e as orais, de modalidade oral-auditiva. Com o passar do tempo, a criança filha de pais surdos (CODA, um acrônimo para Child ofDeafAdults), terá sua evolução na língua portuguesa de forma natural, tanto aprendendo em sala de aula como no contato com outros ouvintes, e 45 continuará usando a língua de sinais, naturalmente adquirida, no contato com seus pais surdos. Veja no Quadro 3 como funciona o cenário de aprendizado de uma L2 por uma criança surda filha de pais surdos. Quadro 3. Aprendizado de uma segunda língua por criança surda, filha de pais surdos. Fonte: adaptada de Capovilla, (2012). Nesse caso, há o exemplo que representa os 5% de casos de crianças surdas que nascem em lar surdo, contra 95% daquelas que nascem em lar ouvinte. Ela terá acesso à língua de sinais desde o primeiro dia e, provavelmente, será matriculada em uma escola bilíngue para surdos, em que seu desenvolvimento da L1 será muito similar ao de uma criança ouvinte, que nasce em lar ouvinte, cresce rodeada de ouvintes e vai à escola para aprender em língua portuguesa. Para o filho surdo de pais surdos, acontece o mesmo, pois ele nasceu em um lar surdo, crescerá no meio da comunidade surda e irá à escola de surdos, onde assistirá as aulas sendo ministradas em língua de sinais. Quando esse aluno tiver que desenvolver a sua L2 (português), pois o ensino e o uso da Libras não substituem o aprendizado da língua portuguesa escrita, ele usará a sua L1 (Libras) como interlíngua para desenvolver sua escrita em L2. Pelo fato de as duas línguas serem de modalidades distintas, a construção do aluno surdo e do futuro adulto surdo dificilmente será igual ao de um ouvinte, cuja L1 é o português. Veja a seguir como é a escrita de uma criança surda filha de pais surdos, em um texto redigido por um aluno da 7a série do Ensino Fundamental: 46 Fonte: adaptada de Bertó e Gabriel (2007). Nota-se que a construção desse aluno apresenta falta de acentuação em algumas palavras, dificuldade de concordância verbal e nominal, bem como pouco uso de artigos, preposições e conjunções. Nesse contexto, na opinião de Chaves e Rosa (2014): [...] enunciados curtos, vocabulário reduzido, ausência de artigos, de preposições, de concordância nominal e verbal, uso reduzido de diferentes tempos verbais, ausência de conectivos (conjunções, pronomes relativos e outros), falta de afixos e verbos de ligação, além de uma suposta colocação aleatória de constituintes na oração. [...] devido ao fato de os surdos se encontrarem em estágios do processo de ensino--aprendizagem de uma segunda língua, no caso o português, e porque a língua que o surdo tem como legítima e usa não é a mesma que serve como base ao sistema escrito, por ser um sistema visuomanual, portanto muito diferente do oral-auditivo. (CHAVES E ROSA, 2014, p. 14). Entretanto, existe uma grande importância no uso da Libras como interlíngua na educação de surdos, principalmente, no aprendizado da língua portuguesa como L2. De acordo com Capovilla (2012), “a língua materna, de sinais, é que deve servir de ponte para a introdução do português. Mas, como as crianças custam a aprender Libras, ela tem sido uma ponte quebrada”. Quanto a uma criança surda filha de pais surdos, o uso da sua L1 (Libras) como uma interlíngua para fazer uma ponte de aprendizado da língua portuguesa escrita é muito importante, bem como para ampliar seu vocabulário no momento em que ela usar a datilologia de palavras, tanto na produção de palavras que não tenham 47 sinal como na visualização de alguém fazendo a datilologia. Nesse último exemplo, é comum o ouvinte que não sabe direito a língua de sinais usar muito o datilológico de palavras e, se o surdo tiver um vocabulário bom de palavras em português, ele conseguirá automaticamente fazer a ponte interlingual para o sinal ou o equivalente em significado em Libras. No Quadro 4, você pode observar como funciona o cenário de aprendizado de uma L2 por uma criança surda filha de pais ouvintes. Quadro 4. Aprendizado de uma segunda língua por criança surda, filha de pais surdos. Fonte: adaptada de Capovilla, (2012). Esse exemplo é o mais clássico e preocupante de todos, em que a criança surda nascida em lar ouvinte representa 95% dos casos no mundo. Nesse cenário, há os quadros mais graves de privação linguística, no qual a criança pode ficar anos sem exercitar a fundo algum tipo de linguagem humana, oral ou sinalizada. Além disso, ela dificilmente tem acesso à língua de sinais nos primeiros anos e, por mais que tenha acesso ao português oralizado pelos pais, não fará diferença, pois é surda e vê somente bocas se mexendo. Antes de chegar à educação básica, a criança já passou por diversos médicos especialistas, usa aparelho auditivo e faz terapia da fala com o fonoaudiólogo, e seus pais podem estar cogitando que ela faça uma cirurgia de implante coclear (se já não tiverem colocado o aparelho na sua cabeça antes dos 5 anos). Essa criança surda que nasce em lar ouvinte, em geral, sofre com a falta da língua de sinais e a resistência dos pais em leva-la para conhecer a comunidade e a cultura surda. Os abalos psicológicos e emocionais que surgem na infância e se 48 mantêm quando adulto, devem ser evitados, o que é possível ao possibilitar que a criança tenha acesso à construção de sua identidade como ser surdo. Ainda com base nesse cenário, ao chegar à educação básica, geralmente em escola regular, essa criança tem pouco ou quase nenhum conhecimento da língua portuguesa oral e escrita, por isso, é muito difícil criar uma interlíngua baseada no português para fazer uma ponte de aquisição da Libras. Na verdade, deveria ocorrer o contrário. Se a criança não tem base nenhuma de sua L1 (Libras), como ela fará a ponte de interlíngua? Seria o mesmo que deixar uma criança brasileira que ainda não domina o português oral e não sabe Libras para viver com uma família de surdos por um tempo, por exemplo, 5 anos, e dizer para ela usar a língua portuguesa como interlíngua para aprender a Libras. A relação de interlíngua que a criança surda pode criar, servindo como ponte entre a língua portuguesa e a Libras, é o sistema datilológico, em que saber o alfabeto em português é fundamental para aprender as configurações de mãos. Para ela usar sinais e a própria Libras independe de já conhecer o alfabeto, porém, mais tarde, esse conhecimento será necessário como um recurso de empréstimo linguístico, em que as palavras em português são utilizadas por empréstimo na falta de um sinal em língua de sinais ou para reforçar a sinalização. Por exemplo, o surdo faz o sinal de empoderamento e, logo após, usa o datilológico para reforçar exatamente a qual palavra aquele sinal se refere. 49 Você pode ver, a seguir, como é a escrita de uma criança surda filha de pais ouvintes, em um texto redigido por um aluno da 7a série do Ensino Fundamental: Fonte: adaptada de Bertó e Gabriel (2007). Nota-se que, em comparação ao primeiro exemplo do texto, produzido por um aluno surdo filho de pais surdos, este,que é filho de pais ouvintes, tem uma construção de escrita mais fácil de compreender, e muito dessa diferença se deve a influência dos pais. Bertó e Gabriel (2007), cita que, algo muito importante nessa relação entre L1 e L2 é ter em mente que a criança surda filha de pais ouvintes e a filha de pais surdos terão uma escrita do português mais enraizada na estrutura de produção da língua de sinais, que se caracteriza na sinalização por suprimir proposições e conjunções, bem como por ter outras formas de conjugar verbos, atribuir plural e gênero aos elementos da frase. Devido a isso, não se deve esperar que a escrita do sujeito surdo, ao chegar na fase adulta, seja muito melhor do que os textos que serviram de exemplos. Contudo, você pode estar se questionando que conhece um surdo que escreve muito melhor do que no exemplo citado. Cada caso é diferente, e todos os indivíduos têm sua própria bagagem de aprendizado ou vivência. Por isso, existem diferenças nas produções de escrita em português entre os surdos, sendo que alguns deles, inclusive, chegam muito próximo ao nível de um ouvinte, mas são exceções 50 construídas por meio de uma boa capacidade intelectual e muito estudo da língua portuguesa escrita. 6 TRADUÇÃO AUTOMÁTICA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO PARA LIBRAS Os aplicativos de tradução automática ou tradução por máquina (do inglês machine translation), no escopo da pesquisa aqui apresentada, realizam traduções do PB escrito ou falado (via captura de voz) para a Libras por meio da sinalização apresentada por agentes animados em 3D, comumente denominados avatares. Esta última denominação inclusive foi adotada em parte das pesquisas apresentadas neste capítulo. Contudo, em pesquisas recentes foi encontrado o uso de “agente animado” ou “agente animado em 3D” para referir-se à entidade animada com forma humana que produz os sinais da Libras nos aplicativos. Para apresentar as diferenças conceituais entre “avatar” e “agente animado”, toma-se o conceito proposto por Badler (1997), que classifica a representação em 3D de humanos em ambientes virtuais/interfaces digitais em duas categorias: avatares e agentes animados/virtuais, os quais comportam similitudes, mas se diferenciam em relação ao controle e à representação. Na medida em que um avatar é representado por uma entidade humana real individual, que exerce controle direto sobre suas ações, os agentes animados/virtuais são entidades relativamente autômatas controladas por software. Desse modo, entende-se que o conceito de avatar (BADLER, 1997) é aplicado aos humanos virtuais que assumem física e psicologicamente a representação de um sujeito humano real, de aparência humana ou humanoide, sendo por ele completamente controlado quanto à interação, ao movimento, à aparência e à expressão. Portanto, o usuário tem autonomia, podendo guiar seu avatar dentro de um mundo digital, que lhe permite ir e vir, parar, conversar, construir, trocar sua caracterização física, etc., assim como interagir com objetos, cenários e outros avatares (MODESTO et al., 2006). Em contrapartida, um agente animado/virtual diferencia-se do conceito de avatar, pois este é autônomo aos comandos de seu usuário quanto à execução de movimentos, fala, nome, aparência e, sobretudo, às tomadas de decisões no espaço digital em que está inserido, embora possa permitir que o usuário interfira ligeiramente em algumas de suas funcionalidades (BADLER, 1997). O usuário, ao inserir uma informação, em caráter de código de entrada, faz a animação mobilizar ações para as quais fora previamente programada, como é o caso dos aplicativos de tradução 51 automática PB-Libras, os quais apenas realizam sinalizações em Libras. O desafio nessas traduções automáticas diz respeito a traduções que contemplem a complexidade da Libras, seja quanto aos parâmetros manuais ou expressões não manuais, entendendo que nada pode ser desconsiderado ao traduzir digitalmente conteúdo de uma língua para outra. Na continuidade da conceituação sobre tradução automática, infere-se que ela está compreendida na literatura como uma subárea do processamento de línguas naturais (PLN) e direcionada aos estudos em linguagem (DIAS-DA-SILVA, 1996), abarcando o desenvolvimento, o (re) design e a análise da qualidade de sistemas computacionais. Há, sem dúvida, no encalço dessa subárea, o desejo de construir cada vez mais diálogos consistentes entre os cientistas das ciências da computação e da linguística aplicada (DIAS-DA-SILVA, 1996; DI FELIPPO, DIAS-DA-SILVA, 2009; BIDERMAN, 1978; BERBER SARDINHA, 2005). Diante de uma sociedade digital (CASTELLS, 1999), como é a contemporânea, há o despertar de um interesse no campo científico cada vez mais voltado à área do PLN, de modo a tornar os diferentes tipos de sistemas computacionais mais eficientes, muito embora esse segmento ainda seja visto como desafiador, sobretudo quanto à tradução automática (WINOGRAD, 1972; CHOWDHURY, 2003), sob o escopo das tecnologias de apoio à tradução (MELO, 2013). A área do PLN tem por objetivo dar conta de questões relativas às línguas naturais, utilizadas socialmente pelos indivíduos, por meio de linguagens de programação aplicadas a interfaces gráficas computacionais. O PLN marcou seu território nessa área do conhecimento a partir do surgimento dos primeiros sistemas de tradução automática (CHOWDHURY, 2003; DI FELIPPO; DIAS-DA-SILVA, 2009). Um sistema computacional de tradução automática, por exemplo, precisa considerar a ambiguidade (lexical e estrutural), a complexidade sintática e as estruturas agramaticais. Um exemplo de um obstáculo na tradução automática em um aplicativo seria o de traduzir apenas um sentido para uma palavra homógrafa perfeita quando inserida isoladamente ou em sentenças nas quais o sentido da palavra homógrafa não será o mesmo. De acordo com Gauche (2013), é possível afirmar que são restritas as pesquisas científicas que abordam investigações sobre a tradução automática de línguas orais para línguas de sinais; no entanto, considerando o contexto social tecnológico atual, a área vem conquistando o olhar dos pesquisadores, 52 seja no âmbito nacional ou internacional (BIDARRA, 2015). A partir desse interesse pelo campo da tradução automática, ela configura-se como um campo próspero. Em geral, a tradução automática está dividida em três estratégias: 1.A tradução automática baseada em regras (RBMT, do inglês rule-based machine translation) (GALLEY et al., 2004; GÜVENIR; CICEKLI, 1998) é orientada por regras morfossintáticas elaboradas de forma manual por linguistas com expertise nas áreas das línguas envolvidas (alvo e fonte) na tradução automática. 2.A tradução automática estatística (SMT, do inglês statistical machine translation) (EL MAAZOUZI; EL MOHAJIR; AL ACHHAB, 2017; GULCEHRE et al., 2015) é caracterizada pelo processo de geração da tradução da língua-fonte para a língua-alvo, de modo a adequar coerentemente o significado das palavras/sentenças traduzidas, preservando a naturalidade da língua-alvo. A adequação está apoiada em um modelo de tradução a partir de frequências por número de incidência de palavras/sentenças na língua-alvo, tendo por base um corpus de treinamento. 3.A tradução automática neural (NMT, do inglês neural machine translation) (KALCHBRENNER; BLUNSOM, 2013; CHO et al., 2014; SUTSKEVER et al., 2014; LUONG; PHAM; MANNING, 2015; LUONG et al., 2015) conta com o uso de redes neurais artificiais, que se baseiam nos dados de treinamento e aspectos linguísticos, a fim de aprender a traduzir de maneira apropriada da língua-fonte para a língua-alvo. 6.1 Aplicativos brasileiros de tradução automática PB-LIBRAS No que tange à identificação desses aplicativos, a busca realizada em diferentes dispositivos móveis, smartphones (Samsung, Motorola, Windows Phone [Microsoft] e iPhone) e tablets(Samsung Galaxy, Apple e Lenovo), quando do acesso às lojas virtuais Google Play Store (Android), Apple Store (iPhone, iPad e iPod) e Windows Phone Store, a partir da palavra-chave “tradução automática para Libras”, permitiu a identificação de quatro aplicativos brasileiros gratuitos de tradução automática PB-Libras: Hand Talk, ProDeaf Móvel, Rybená e VLibras (FIGURA 1). 53 Figura 1 - Aplicativos de tradução PB-LIBRAS disponíveis para dispositivos móveis. Fonte: adaptada Corrêa (2017). Os aplicativos em questão, que visam ao rompimento de barreiras linguísticas entre pessoas surdas e ouvintes, foram selecionados por serem gratuitos e por fazerem uso de agentes animados em 3D para fins de apresentação do processo tradutório de palavras ou frases do PB para Libras, quando da inserção de conteúdo digitado ou registrado por meio de captura de voz. Portanto, mediante um aplicativo de tradução automática, o estabelecimento de interações sociais pode se constituir de modo mais equânime, superando, assim, entraves de ordem linguística. Dessa forma, nessas interações está em jogo a concretização de contratos conversacionais entre usuários de códigos linguísticos distintos, mas que habitam espaços sociais comuns, nos quais a Libras, uma língua natural com origem na comunidade surda brasileira (QUADROS; KARNOPP, 2004), foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão pela Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002 (BRASIL, 2002). O aplicativo Hand Talk é proveniente de pesquisas realizadas na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e foi lançado em 2012 por uma startup de nome homônimo ao aplicativo. O Hand Talk diferencia-se dos outros três aplicativos identificados devido a sua gama de funcionalidades, conforme é apresentado na TABELA 1. O aplicativo ProDeaf Móvel, por sua vez, é oriundo de pesquisas conduzidas na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e foi lançado em 2013 por uma startup que também utiliza nome homônimo ao aplicativo. Após o lançamento dos 54 aplicativos Hand Talk e ProDeaf Móvel, os quais se tornaram precursores no mercado brasileiro de aplicativos gratuitos para dispositivos móveis, principalmente smartphones e tablets, houve o lançamento dos aplicativos Rybená e VLibras, sendo essas tecnologias digitais desenvolvidas com o mesmo propósito dos outros aplicativos, ou seja, a inclusão social e o rompimento de barreiras comunicacionais entre a comunidade ouvinte e surda. O aplicativo Rybená foi desenvolvido pelo Grupo de Usuários Java do Distrito Federal (DFJUG) em parceria com o Instituto CTS e CTS Ltda. e lançado em 2014. Por fim, tem-se o aplicativo VLibras, lançado oficialmente em 2016, e se originou de pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em parceria com o Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão (MP), por meio da Secretaria de Tecnologia da Informação (STI), Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital (LAVID/UFPB), Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e Laboratório de Sistemas Distribuídos (LSD). A pesquisa voltada à origem dos aplicativos possibilitou verificar que todos foram projetados por instituições localizadas em duas das cinco regiões do Brasil: Nordeste (Hand Talk, ProDeaf Móvel e VLibras) e Centro-Oeste (Rybená). Os aplicativos Hand Talk, ProDeaf Móvel e Rybená possuem versões compatíveis com sistemas operacionais e linguagem de programação para tradução automática de conteúdo de sites, porém esse serviço não é gratuito como as versões aqui descritas, sendo ele ofertado em pacotes de tradução automática pelas empresas desenvolvedoras. Já o aplicativo VLibras disponibiliza de forma gratuita uma versão para tradução automática de sites. Acredita-se que isso se deva à parceria com o Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Após o levantamento e a identificação dos aplicativos brasileiros de tradução automática PB-Libras disponíveis, eles foram instalados nos dispositivos móveis mencionados anteriormente, a fim de viabilizar a elaboração de uma lista com as principais características e funcionalidades (TABELA 1), as quais constituem essas tecnologias digitais. A descrição das características e funcionalidades dos aplicativos teve como objetivo a apresentação de particularidades de cada um e, por isso, não foram realizadas análises relacionadas à qualidade da tradução automática PB-Libras. Na TABELA 1 é possível perceber que os aplicativos se diferenciam entre si pelas suas características e funcionalidades relativas à tradução automática PB- 55 Libras. Quanto à compatibilidade com os sistemas operacionais listados na TABELA 1 que são disponibilizados em dispositivos móveis, apenas o ProDeaf Móvel pode ser utilizado no sistema Windows Phone 8. Com relação ao tipo de inserção de conteúdo (texto ou voz) a ser traduzido de PB para Libras, todos os aplicativos permitem que o conteúdo seja digitado ou falado, com exceção do aplicativo Rybená, que não possibilita captura de voz. Convém ressaltar que o processo de captura de voz é convertido em texto, mas não há distinção fonética entre vogais abertas e fechadas, como em “colher” (talher) e “colher” (verbo). 56 Fonte: adaptada Corrêa (2017). Em relação à categorização de um vocabulário específico conforme regiões brasileiras, o aplicativo VLibras é o único a oferecer a opção de acesso a um conteúdo que, possivelmente, contemple a noção de regionalismos linguísticos. Em dissonância às demais tecnologias digitais, o aplicativo Rybená é o único a vocalizar o conteúdo digitado, sem permitir que este seja, em seguida, traduzido. Para que o conteúdo vocalizado seja traduzido, ele precisa ser digitado novamente, sem a ativação da funcionalidade de vocalização. Uma vez que os aplicativos em questão comportam duas línguas em seus sistemas computacionais, uma oral e seu registro escrito, o PB, e a outra visual-gestual, a Libras, torna-se interessante que permitam aos usuários recursos para ativar e desativar a legenda em PB. Entretanto, o aplicativo Rybená não possibilita que a ação mencionada seja realizada, gerando assim traduções automáticas que são visualizadas nas duas línguas. Os aplicativos ProDeaf Móvel e VLibras disponibilizam uma funcionalidade denominada “dicionário”. O aplicativo Hand Talk é o único a oferecer acesso à funcionalidade “Hugo Ensina”, que apresenta vídeos temáticos direcionados à aprendizagem da Libras. No formato de vídeos com curta duração, o agente animado Hugo sinaliza um conjunto de termos temáticos para cada vídeo. Convém ressaltar que a partir de 2018 o aplicativo Hand Talk parece estar se voltando cada vez mais para a oferta de conteúdos que possam auxiliar os usuários interessados não apenas em se comunicar por meio da Libras, mas também em aprendê-la. Tanto é que em 2018 a empresa desenvolvedora do aplicativo divulgou em sua página uma ação institucional, enquanto chamada para usuários voluntários, denominada “Catalogação 57 de Sinais Educativos”, divulgada via aplicativo e fanpage1 da empresa na rede social Facebook. A tradução automática apresentada pelos aplicativos, em geral, pode ser pausada e retomada, sendo que o único aplicativo que apresenta botões específicos para isso é o Rybená. O pleno funcionamento dos aplicativos ocorre quando estão conectados à internet, mas o Hand Talk, o ProDeaf Móvel e o VLibras funcionam parcialmente sem conexão, informando por meio de uma mensagem na tela do aplicativo que o usuário está sem internet e que, portanto, será usada datilologia. Neste momento, o usuário pode selecionar “Ok” ou “Cancelar”, dando ou não continuidade ao uso do aplicativo. Os agentes animados virtuais em 3D dos aplicativos Hand Talk, VLibras e Rybená podem ser rotacionados em um ângulo de 360º, o que permite visualizar melhor o sinal traduzido, sob vários ângulos, enquantoo ProDeaf Móvel permite rotação em apenas 180º. No que concerne à aparência dos agentes animados em 3D, é possível notar na FIGURA 1 que os aplicativos Hand Talk e VLibras possuem traços mais cartunescos, ou seja, remetem a personagens caricaturados, se comparados aos personagens dos aplicativos ProDeaf Móvel e Rybená. As expressões corporais e faciais dos aplicativos Hand Talk e ProDeaf Móvel mostram-se mais estético- realísticas em relação aos aplicativos VLibras e Rybená. A notificação de erros de sinalização, a solicitação de sinais novos e a realização de sugestões somente são possíveis no aplicativo Hand Talk e parecem ser representativas em se tratando de um sistema computacional disponível para diferentes usuários (surdos, ouvintes, intérpretes, professores). Os aplicativos identificados têm por objetivo romper barreiras na comunicação entre ouvintes e surdos e, não obstante, no caso do Hand Talk, também contribuir para a aprendizagem da Libras. Neste cenário, permitir a seleção de diferentes níveis da velocidade da sinalização em Libras apresentada pelos agentes animados virtuais em 3D é de significativa relevância, seja para fins de comunicação ou aprendizagem da Libras como primeira língua (L1) ou segunda língua (L2). No entanto, apenas os aplicativos Hand Talk e VLibras possibilitam que a velocidade selecionada seja escolhida livremente, ao passo que no aplicativo ProDeaf Móvel são disponibilizados apenas três níveis (lenta, normal e rápida). 58 Acredita-se que a oferta de apenas três níveis não contemple a vasta gama de distintos estilos de comunicação e aprendizagem dos usuários. Já o aplicativo Rybená apresenta botões com os sinais mais (+) e menos (–), sem quaisquer informações sobre níveis e de que efetivamente se trata da velocidade da sinalização. Para o fácil acesso às últimas palavras inseridas, seja via digitação ou captura de voz, Hand Talk e ProDeaf Móvel oferecem um pequeno histórico de pesquisa e a seleção de palavras como favoritas, enquanto os demais aplicativos não ofertam tais funções. No que se refere à disponibilização de tutoriais para fins de utilização dos aplicativos, Hand Talk e ProDeaf Móvel – ao serem instalados e usados pela primeira vez – apresentam um breve tutorial aos usuários. O Hand Talk concede acesso a uma lista de “Perguntas Frequentes”, a fim de elucidar possíveis dúvidas de utilização. O aplicativo VLibras oferece um tutorial fixo que pode ser consultado de forma contínua. Já o aplicativo Rybená não apresenta tutorial inicial ao ser instalado nem dispõe dele de modo fixo. A função “Ajuda” está presente apenas no aplicativo Hand Talk, o que sugere que os demais também possam futuramente disponibilizar tais recursos em suas plataformas digitais de tradução automática. 7 A PRODUÇÃO DO SPREADTHESIGN NO BRASIL E SUAS POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES O SpreadTheSign (STS) é um dicionário multilíngue de línguas de sinais. Trata-se de uma ferramenta on-line que promove a disseminação e o aprendizado de línguas de sinais nacionais, por meio da tradução de palavras escritas para várias línguas de sinais. O propósito do STS é divulgar e tornar as línguas de sinais nacionais acessíveis às pessoas surdas, bem como a todos os interessados de um modo mais geral, sendo útil, por exemplo, quando se viaja para fora do país, seja a negócios ou turismo. É um instrumento de autoaprendizagem, de utilização livre e ilimitada. Apresentado como um dicionário virtual internacional que possui um grande número de línguas de sinais nacionais já registradas ou em processo de registro, incluindo línguas de sinais como a sueca, inglesa, americana, alemã, francesa, espanhola, portuguesa, russa, estoniana, lituana, islandesa, polaca, tcheca, turca, finlandesa, japonesa, entre outras. Adicionalmente, o aplicativo permite incluir as variações dialetais da língua de sinais. 59 No âmbito da educação, o STS tem sido utilizado como instrumento pedagógico para tornar acessíveis as línguas de sinais a todos os estudantes, para busca de informações, desenvolvimento de pesquisas, consultas, comparações, documentação das línguas de sinais nacionais, entre outras possibilidades. O projeto STS é administrado pelo European Sign Language Center, uma organização não governamental e sem fins lucrativos. Na Europa, o projeto conta com financiamento da União Europeia, sendo que, entre 2006 e 2010, vários países europeus inseriram vocábulos das línguas de sinais relacionados a diferentes áreas profissionais. Desde 2012, novas funções no sistema foram inseridas ou melhoradas, e o STS pode ser acessado a partir de diferentes dispositivos, como computadores, tablets e smartphones. É importante destacar que o projeto também conta com colaborações voluntárias e parcerias de diferentes países de outros continentes para o desenvolvimento da documentação das línguas de sinais nacionais. Nestes casos, não há apoio financeiro, e cada país busca apoios locais para o desenvolvimento dessa proposta. Cada país tem a sua equipe, com a responsabilidade de divulgar sua língua de sinais nesse site. A participação de vários países tem possibilitado a constante ampliação e parceria com novos países e patrocinadores dessa ferramenta de uso livre. O dicionário pode ser acessado pelo navegador, bem como via aplicativo para dispositivos móveis, por meio da busca pelas palavras “Spread Signs” nos locais de download de aplicativos. O dicionário está disponível tanto para o sistema Android como para iOS. A busca de palavras no STS pode ser iniciada por grupos (p. ex., famílias semânticas, como cores ou emoções) ou digitando-se uma palavra na caixa de busca. Dentre as traduções disponibilizadas, o consulente pode optar pela língua de sinais de diferentes países, identificada pelo ícone da bandeira nacional. O trabalho desenvolvido no projeto STS inclui produção de dados, tradução, revisão, pesquisa e colaboração de surdos, intérpretes e pesquisadores bilíngues, com conhecimento da língua de sinais do país, da língua nacional e do inglês. No caso do Brasil, a equipe conta com surdos usuários da Libras, profissionais tradutores- intérpretes da Libras, da língua portuguesa e da língua inglesa. 60 Anualmente, a equipe de colaboradores, por meio de representantes de todos os países que integram o STS, realiza reuniões com a coordenação geral do projeto, com o objetivo de discutir o andamento, as dificuldades e os desafios do STS nos diferentes países. No Brasil, esse projeto apresenta relevância política, educacional e linguística. Destaca-se a necessidade de ações que promovam o direito à educação escolar bilíngue de surdos, bem como ao uso e à documentação da Libras. Podem ser citadas aqui as leis e decretos promulgados nas últimas décadas, que ampliaram o campo de atividades no âmbito cultural, social, educacional e linguístico, como o reconhecimento da Libras (Lei no 10.436/2002 regulamentada pelo Decreto no 5.626/2005). É pertinente destacar que antes mesmo da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, tem-se a 24ª Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, promovida pela Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas (Unesco), em Barcelona, em 1996, a qual enfatiza que: Todas as comunidades linguísticas têm direito a decidir qual deve ser o grau de presença da sua língua, como língua veicular e como objeto de estudo, em todos os níveis de ensino no interior do seu território: pré-escolar, primário, secundário, técnico e profissional, universitário e formação de adultos. (UNESCO, 1996) A 24ª Declaração Universal dos Direitos Linguísticos se mantém na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e, em relação aos surdos e às línguas de sinais, destacam-se propostas nos seguintes artigos: Artigo 24: (a) Facilitação do aprendizado dalíngua de sinais e promoção da identidade linguística da comunidade surda; e (b) Garantia de que a educação de pessoas, inclusive crianças cegas, surdo- cegas e surdas, seja ministrada nas línguas e nos modos e meios de comunicação mais adequados às pessoas e em ambientes que favoreçam ao máximo seu desenvolvimento acadêmico e social. UNESCO, 1996). Artigo 30, § 4: 61 As pessoas com deficiência deverão fazer jus, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, a que sua identidade cultural e linguística específica seja reconhecida e apoiada, incluindo as línguas de sinais e a cultura surda. (UNESCO, 1996). Além dos textos supracitados, em 2010 foi promulgado o Decreto no 7.387, que institui a ação governamental de realizar o primeiro inventário nacional das línguas brasileiras. O compromisso estatal com as línguas inventariadas e reconhecidas pelo governo federal está explicitado por meio dos seguintes artigos: Art. 2º - As línguas inventariadas deverão ter relevância para a memória, a história e a identidade dos grupos que compõem a sociedade brasileira. Art. 3º - A língua incluída no Inventário Nacional da Diversidade Linguística receberá o título de “Referência Cultural Brasileira”, expedido pelo Ministério da Cultura. Art. 4º - O Inventário Nacional da Diversidade Linguística deverá mapear, caracterizar e diagnosticar as diferentes situações relacionadas à pluralidade linguística brasileira, sistematizando esses dados em formulário específico. (BRASIL, 2010). Em seu artigo 5, o Decreto no 7.387 determina que: “As línguas inventariadas farão jus a ações de valorização e promoção por parte do poder público” (BRASIL, 2010). O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/Ministério da Cultura adotou e categorizou as línguas minoritárias brasileiras, sendo elas línguas indígenas, variedades regionais da língua portuguesa, línguas de imigração, línguas de comunidade afro-brasileiras, Libras e línguas crioulas. Como um dos resultados desse inventário, houve, novamente, o reconhecimento da Libras como língua nacional e, por conseguinte, o direito dos brasileiros oriundos das comunidades surdas à preservação de sua língua – Libras – e de seu patrimônio cultural. Considerando os termos da 24ª Declaração e os direitos garantidos aos surdos a partir da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e do Decreto no 7.387 (BRASIL, 2010) supracitados, o projeto STS no Brasil visa: ➢ A disponibilização da Libras no STS, para facilitação do aprendizado da Libras e promoção da identidade linguística da comunidade surda. 62 ➢ A disponibilização de um dicionário on-line (STS-Brasil) para a garantia de um material de consulta na educação escolar bilíngue de pessoas surdas, favorecendo ao máximo o desenvolvimento acadêmico e social dos surdos. ➢ A contribuição para o Inventário Nacional da Diversidade Linguística, a partir do mapeamento, caracterização e documentação da pluralidade linguística no Brasil. ➢ O fomento de pesquisas no âmbito da educação e dos estudos linguísticos sobre o processo de registro, documentação, uso e divulgação da Libras no STS. No Brasil, desde 2017, o projeto STS-Brasil vem sendo desenvolvido por pesquisadores do Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação de Surdos (GIPES), especificamente por professores, alunos e técnicos fluentes em Libras e língua inglesa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Além destes, participam pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), que foi a pioneira no desenvolvimento do projeto. 7.1 Procedimentos metodológicos do SpreadTheSign-Brasil A execução do STS-Brasil segue as orientações fornecidas a todas as equipes dos diferentes países que são colaboradores neste projeto. Os procedimentos e materiais utilizados no desenvolvimento do projeto no Brasil incluem: ➢ Tradução das listas de palavras e sentenças em inglês para o português brasileiro (PB). Esta etapa é feita pela equipe brasileira composta por professores-pesquisadores, doutorandos, mestrandos, tradutores- intérpretes de Libras e graduandos usuários de Libras, PB e inglês (surdos e ouvintes). ➢ Após as traduções da lista em inglês para PB, verificação da dicionarização da Libras e de variantes lexicais dos sinais (pois sinais variantes podem ser inclusos no dicionário). Nesta etapa, voluntários 63 surdos e usuários de Libras, que atuam em universidades com ensino ou tradução da Libras, ou surdos usuários da Libras, vinculados às associações ou federação de surdos, são convidados a participar e colaborar no registro e na documentação dos sinais. ➢ Filmagens dos sinais e sentenças em Libras. ➢ Verificação da qualidade das filmagens (reunião coletiva). ➢ Refilmagem dos sinais e sentenças quando necessário. ➢ Edição das filmagens conforme guia disponibilizado pelo projeto STS. ➢ Envio das filmagens para postagem no site do projeto 10 na área do administrador do projeto STS-Brasil. O registro dos sinais encontrados segue uma série de regras de edição e cenarização. Os vídeos são gravados em filmadora Canon DSRL, e a edição e finalização dos arquivos selecionados é feita no software Adobe Premier Pro CC 2017, seguindo estritamente (por se tratar de um projeto internacional) as orientações de padronização para os arquivos. O resultado final pode ser observado na FIGURA 1. Após a renderização dos vídeos, o formato final fica em H264 Vimeo SD 480p. Figura 1 - Captura de tela de uma variação do verbete intervalo, em libras, no STS. 64 Fonte: European Sign Language Center (2018). 7.2 Registros das variações linguísticas: Um desafio Os linguistas nunca foram inconscientes dos problemas da variação estilística. A prática normal consiste em deixá-la de lado, não porque a considerem sem importância, mas porque pensam que as técnicas da linguística não são adequadas para estudá-las. (LABOV, 1972, p. 70-71) Os linguistas passaram a reconhecer as línguas de sinais como línguas naturais11 a partir do trabalho pioneiro de William C. Stokoe em 1960, que as considerou como sistemas linguísticos autônomos, independentes das línguas orais e que podem coexistir em qualquer comunidade (LUCAS; BAYLEY; VALLI, 2002). Um dos fatores para que elas obtivessem esse status deveu-se a pesquisas como a de Klima e Bellugi (1979) na língua de sinais americana (ASL, do Inglês American Sign Language), demonstrando que elas têm as mesmas propriedades e seguem princípios universais comuns tal qual nas línguas faladas. Nas últimas décadas foi bem estabelecido que as línguas de sinais dos surdos são sistemas linguísticos completamente desenvolvidos que se apoiam fortemente no uso do espaço e nos movimentos das mãos – em lugar das modulações acústicas do trato vocal. As línguas de sinais mostram sistemas gramaticais complexos, mas, diferentemente das línguas faladas, esses sistemas linguísticos fazem uso de padrões e contrastes espaciais. (EMMOREY, BELLUGI, KLIMA 1993, p. 19-20) A Libras teve forte influência da língua de sinais francesa, uma vez que E. Huet, professor surdo e fundador da primeira escola de surdos no país, foi ex-aluno 65 do Instituto de Surdos de Paris. Baseadas nisso, muitas pessoas acreditam que as línguas de sinais sejam universais, ou seja, que em qualquer lugar do mundo os surdos utilizam-se de um mesmo código linguístico. Nesse sentido, Quadros e Karnopp (2003) apresentam uma problematização acerca dos mitos da Libras e desmistificam a sua universalidade, pois cada país possui a sua própria língua de sinais, as quais sofrem influências da cultura nacional, além de apresentarem regionalismos, o que confirma seu statusde língua, e não linguagem. No Brasil, foram encontradas poucas pesquisas sobre as variações linguísticas na Libras. É nesse sentido que a plataforma STS vem ao encontro da difusão das variantes da Libras mais recorrentes, uma vez que as línguas de sinais variam da mesma maneira como observado nas línguas orais. Idade, escolaridade, grau de contato com a comunidade surda, personalidade, sexo, entre outros, são as possíveis causas para essas variações. Em outros países, existem pesquisadores que se dedicam ao estudo das variações linguísticas das línguas de sinais, a exemplo do Instituto de Sociolinguística da Gallaudet University, nos Estados Unidos, onde se desenvolvem pesquisas sobre as variações linguísticas na ASL, havendo diversas publicações nessa área. Ao iniciar sua obra, Lucas, Bayley e Valli (2002), reafirmam que as variações não acontecem por acaso, mas preferencialmente pelas escolhas que os usuários da língua fazem ao serem influenciados por inúmeros fatores, como linguísticos e sociais, os quais refletem sistemas gramaticais subjacentes. No nível fonológico, a variação existe em segmentos individuais que compõem palavras ou sinais ou em partes desses segmentos. Para exemplificar, falantes de um extenso dialeto do inglês em alguns momentos deletam a consoante final das palavras que terminam em uma consoante que se agrupam (encontros consonantais) como test, round ou past, resultando em uma pronúncia de tes', roun' e pas'. (LABOV et al., 1968; GUY 1980, apud LUCAS; BAYLEY; VALLI, 2002, p. 2). A variação sociolinguística leva em consideração o fato de diferentes variantes linguísticas poderem estar relacionadas com fatores sociais, incluindo idade, classe econômica, gênero, etnia, região e orientação sexual. Por exemplo, pessoas mais velhas podem fazer uso mais frequente de uma determinada variante em comparação com pessoas mais jovens; mulheres podem usar certa variante em 66 menor frequência que homens; outra determinada variante pode ser mais usada por pessoas de classe operária do que pessoas da classe média. Na história da educação de surdos, foram encontrados registros de escolas que tinham seus alunos separados pelo sexo: escolas de meninas e escolas de meninos, ou escolas com alunos oriundos de determinados grupos sociais. Essas divisões resultavam no desenvolvimento de variações linguísticas que, muitas vezes, geravam “disputas” sobre a adequação linguística – essas observações são frequentes nos relatos de surdos mais velhos sobre suas experiências de escolarização em períodos de internato, principalmente, como comenta Strobel (2008). Bettencourt e colaboradores (2016) citam, em sua experiência na tradução do STS-Portugal, os desafios de tradução com relação às variações linguísticas: “O fato de cada país ter sistemas diferentes de divisão territorial, religiosa ou jurídica, bem como as respectivas administrações, pode ser um grande desafio para a tradução de algumas palavras.” (2016, p. 4). Considera-se um desafio para a equipe do STS-Brasil o registro das variantes linguísticas da Libras, pelo fato de que há a necessidade de uma escolha lexical que represente a língua usada na maioria dos estados brasileiros; além disso, devido à grande extensão de território nacional, não há como realizar o registro de todas as variantes. Nesse sentido, o grupo preocupa-se em registrar as variantes mais usadas e, para isso, conta com um grupo de “reconhecimento” das variantes a serem enviadas à plataforma. Por exemplo, no sinal “intervalo”, referente a “um descanso ou intervalo, geralmente do trabalho”, foram encontradas seis variantes, entre fonológicas e lexicais. Houve a necessidade de se optar pelas mais utilizadas, o que não é tarefa fácil. 8 PROPOSTAS EDUCACIONAIS DIRECIONADAS À PESSOA SURDA Ao falarmos de propostas educacionais direcionadas às pessoas surdas, primeiramente, temos que ter em mente que grande parte das famílias que possuem filhos surdos são famílias ouvintes e, devido a isso, essas famílias apresentam dificuldade na aceitação da língua de sinais como a língua natural da pessoa surda. Portanto, este é o primeiro desafio a ser superado para uma proposta educacional de qualidade. 67 Nesse contexto, o estado falhou durante muito tempo em seu papel, pois não forneceu assistência social que aconselhasse ou direcionasse estes pais a criar seus filhos surdos. Ao longo da história, em diversos países, o estado proibiu o uso da sinalização dos sujeitos surdos e os privou de direitos que os ouvintes tinham assegurado. Quando o estado permitia que o sujeito surdo aprendesse, era através de um modelo que refletia a hegemonia ouvintista. Por séculos isso se manteve até os dias atuais, em que, até poucas décadas atrás, a única forma de educação oferecida as pessoas surdas eram por meio da oralização. Além disso, a criança por não falar, demonstrava agressividade e frustração com os familiares que não a entendiam. Ela era diagnosticada erroneamente com deficiência intelectual e isso dificultava ainda mais o processo educacional e social da criança surda. Continuando nessa mesma linha de estudo, o primeiro programa educacional utilizado para pessoas surdas foi o oralismo, em que o intuito era reintegrar a pessoa surda para que pudesse falar e escrever como um ouvinte. Esse modelo ficou marcado pela opressão e pela dificuldade dos sujeitos surdos em conquistar o direito ao ensino em sua língua natural (língua de sinais), uma vez que no programa oralista a língua de sinais não tinha reconhecimento e, por isso, era proibida, restando ao sujeito surdo a sua utilização de forma clandestina. Segundo Capovilla e Capovilla (2004, p. 23) “apesar das intenções de integração, não se pode dizer que o método oralista tenha tido sucesso em atingir seus objetivos, quer em termos de desenvolvimento da fala, quer em termos de leitura e escrita”. A segunda proposta que o sujeito surdo teve a oportunidade de experimentar ao longo da história foi a comunicação total. Nesse modelo, podia ser utilizado qualquer tipo de comunicação, inclusive a língua de sinais. Essa proposta, no Brasil, ficou conhecida como português sinalizado. O objetivo principal do português sinalizado era fazer com que a interação e o aprendizado da língua portuguesa (oral e escrita) se tornasse mais fácil para o sujeito surdo, uma vez que poderia utilizar a língua de sinais como apoio para o aprendizado. Na opinião de Capovilla e Capovilla (2004): Embora, por princípio, a comunicação total apoiasse o uso simultâneo de língua de sinais com a língua falada, na prática, tal conciliação nunca foi e nem poderia ser efetivamente possível devido à natureza extremamente distinta da língua de sinais com sua morfologia e sintaxe simultânea e espacial e, logo, à descontinuidade entre ela e a língua falada. (CAPOVILLA E CAPOVILLA, 2004, p. 28). 68 A terceira proposta educacional é o bilinguismo, o qual ainda possui estudos muito recentes por se tratar de uma proposta relativamente recente na história de educação dos surdos. Para Quadros (1997, p. 27): O bilinguismo é uma proposta de ensino usada por escolas que se propõe a tornar acessível à criança duas línguas no contexto escolar. Os estudos têm apontado para essa proposta como sendo a mais adequada para o ensino de crianças surdas, tendo em vista que considera a língua de sinais como língua natural e parte desse pressuposto para o ensino da língua escrita. (QUADROS, 1997, p. 27). Atualmente, há tanto escolas regulares quanto escolas de surdos que trabalham com essa proposta de educação bilíngue, em que a língua de sinais é ensinada como primeira língua e o português escrito como segunda língua. Contudo, os dois espaços mencionados possuem características de ensino e formas de aprender totalmente distintas. Enquanto a primeira foca em integrar a criança surda comoutras crianças ouvintes, por meio de uma escola regular e comum a todas, ensinando-a em língua portuguesa oral, contando com o apoio de um tradutor e intérprete de língua de sinais para fazer a ponte comunicacional entre o aluno surdo e os demais colegas e professores ouvintes e com as salas de AEE — atendimento educacional especializado. Já a segunda tem como objetivo inserir a criança surda em uma escola específica para surdos, onde a mesma terá o contato com outras crianças surdas e com professores surdos ou ouvintes que saibam a língua de sinais, onde as estratégias de ensino sejam com base na visualidade (imagens, fotos, vídeos e filmes com legenda, gravação de atividades usando a libras, entre outras estratégias), e, onde a língua de ensino para o sujeito surdo será a língua de sinais. Para Quadros (1997), a proposta educacional bilíngue também não se mostra totalmente eficaz, porque além de bilíngue, ela também precisa focar em uma educação bicultural, já que o surdo possui cultura própria que se diferencia da cultura ouvinte. Para Goldfeld (1997), o surdo não precisa almejar uma vida semelhante ao ouvinte, podendo assumir sua surdez. Outra proposta educacional bem recente é a pedagogia surda, que é caracterizada por focar nos traços culturais do sujeito surdo, nas suas diferenças e na mediação intercultural. Isso significa que a “normalidade” e os “métodos clínicos” deixam de ser o foco, abrindo o caminho para uma modalidade focada. Esta verdade sublime, o surdo encontra quando entra para o mundo totalmente visual-espacial da comunidade surda, interagindo com a cultura 69 surda, com as artes surdas, a identidade surda, a língua de sinais dos surdos urbanos e dos índios surdos, a pedagogia surda em toda a sua complexidade e diferenças (VILHALVA, 2004). Atualmente, o foco está em uma proposta educacional que favoreça a construção da identidade e da diferença do sujeito surdo. Isso significa que para o sujeito surdo ser formado, ele precisa ter acesso a ambas as culturas da qual ele faz parte, ou seja, a cultura surda e a ouvinte. Entretanto, a prioridade inicial é a construção de uma identidade surda pelo sujeito, por meio do contato com nativos da língua de sinais, da cultura própria da comunidade surda, já que, em algum momento o contato com suas diferenças será necessário, para que ocorra a criação do sujeito através das trocas culturais. Em outras palavras, a pedagogia surda além de ser bilíngue foca na biculturalidade também, assim como defende Quadros (2005). Nesse modelo de educação pedagógica surda não existe mais a submissão ou dependência do que é da comunidade ouvinte. Nesse caso, acontece um modelo de ensino-aprendizagem própria do sujeito surdo, que com o passar do tempo, irá aprender a se posicionar como surdo, evoluindo como sujeito através da mediação intercultural baseada nas diferenças e não nas semelhanças que impõe ao sujeito surdo o modelo hegemônico ouvintista. 8.1 Propostas sociais direcionadas para a pessoa surda A história mostra que o Estado por muito tempo deixou as pessoas com deficiência excluídas do restante da sociedade sem poder requerer seus direitos como pessoa. Com o tempo, a exclusão tomou ares de segregação em que todas as pessoas com deficiência eram jogadas no mesmo lugar para serem cuidadas. O tempo passou e hoje fala-se muito sobre a inclusão dessas pessoas, principalmente no contexto escolar, profissional e social. Mas que inclusão é essa? Do ponto de vista escolar a inclusão mais integrada inclui o surdo, e, ao mesmo tempo, retira do sujeito surdo o contato com a cultura e com a identidade surda. Por outro lado, a dita exclusão que as crianças surdas vivenciam nas escolas específicas para surdos, possibilita a inclusão do sujeito surdo na cultura de sua comunidade e permite a construção da sua identidade como surdo; mas, também exclui do sujeito surdo a possibilidade de interagir com outras pessoas ouvintes durante o período escolar. 70 Sobre o direito ao emprego, uma importante conquista veio somente na década de 1990, com a criação da Lei n° 8.213, em 24 de julho de 1991, que dispõe sobre os planos de benefícios da Previdência e dá outras providências à contratação de pessoas com deficiência. Essa lei é conhecida também como a lei de cotas para pessoas com deficiência, e, segundo o art. 93 desta lei: Art. 93. A empresa com 100 ou mais funcionários está obrigada a preencher de 2 (dois) a 5 (cinco) por cento dos seus cargos com beneficiários reabilitados, ou pessoas com deficiência, na seguinte proporção: Até 200 funcionários........................2% De 201 a 500 funcionários...............3% De 501 a 1.000 funcionários.............4% De 1.001 em diante funcionários......5% (BRASIL, 1991). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional — Lei Federal no 9.394/96 — estabelece a metodologia baseada na lógica das competências para o desenvolvimento da educação profissional. Com base na Lei Federal no 9.394/96, percebe-se que os efeitos da exclusão social podem ser minimizados pelo acesso à informação e à formação, bem como por experiências pessoais a serem proporcionadas nas relações humanas do ambiente de trabalho e no aprendizado de atividades laborais que ajudem na construção de um perfil profissional adequado ao mercado de trabalho. Esse entendimento permite que o indivíduo seja incluído no cenário profissional, além de possibilitar sua inclusão como cidadão na sociedade. Entretanto, na prática, percebemos que as empresas fazem vista grossa para contratar pessoas com deficiência e, assim, preencher seu quadro de colaboradores com o percentual mínimo exigido por lei. Ao contratar, querem uma pessoa com deficiência que não tenha problemas, isto é, um surdo que escute. Nesse caso, buscam por uma pessoa com perda leve de audição e seja oralizada, mas, o surdo que não é oralizado e usa língua de sinais não serve. Se uma empresa tiver a opção de escolher entre os dois exemplos irá optar pelo primeiro sempre, visto que o surdo na visão da empresa vai dar mais trabalho para incluir (terão que contratar intérprete de libras, capacitar os funcionários para poderem se comunicar com o colega surdo, etc.). No contexto social, há várias propostas de acessibilidade que têm sido debatidas ao longo dos anos, principalmente, nas duas últimas décadas. No Brasil, a língua brasileira de sinais — Libras — foi oficializada como língua de uso dos sujeitos surdos, por meio da Lei n° 10.436, de 24 de abril de 2002. Referente à oficialização 71 das libras em abrangência nacional, antes mesmo de 2002, ela já era garantida pelo nosso Congresso Nacional desde 1996, através da Lei Federal no 9.394 já mencionada: Art. 1o. A Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 26-B: Art. 26-B. Será garantida às pessoas surdas, em todas as etapas e modalidades da educação básica, nas redes públicas e privadas de ensino, a oferta da língua brasileira de sinais — Libras, na condição de língua nativa das pessoas surdas. (BRASIL, 1996). Contudo, somente em 2004, com o Projeto de Lei do Senado no 180, a Lei nº 9.394/96 foi alterada, estabelecendo nas diretrizes e bases da educação nacional, fazendo o enquadramento no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da oferta da língua brasileira de sinais — Libras — em todas as etapas e modalidades da educação básica. Já o Decreto no 5.626, de 22 de dezembro de 2005, diz o seguinte: Art. 23. As instituições federais de ensino, de educação básica e superior, devem proporcionar aos alunos surdos os serviços de tradutor e intérprete de libras-língua portuguesa em sala de aula e em outros espaços educacionais, bem como equipamentos e tecnologias que viabilizem o acesso à comunicação, à informação e à educação. § 2º As instituições privadas e as públicas dos sistemasde ensino federal, estadual, municipal e do Distrito Federal buscarão implementar as medidas referidas neste artigo como meio de assegurar aos alunos surdos ou com deficiência auditiva o acesso à comunicação, à informação e à educação. Art. 24. A programação visual dos cursos de nível médio e superior, preferencialmente os de formação de professores, na modalidade de educação a distância, deve dispor de sistemas de acesso à informação, como janela com tradutor e intérprete de libras-língua portuguesa e subtitulação por meio do sistema de legenda oculta, de modo a reproduzir as mensagens veiculadas às pessoas surdas, conforme prevê o Decreto no 2004. (BRASIL, 2005). Uma das mais frequentes reinvindicações por parte do sujeito surdo diz respeito ao artigo 23 § 2º. A grande problemática é que ao se dirigir a uma instituição privada que oferte ensino técnico, cursos de extensão ou de ensino superior, o sujeito surdo frequentemente não é atendido por um atendente que use a língua de sinais (99% dos casos é por meio da escrita em língua portuguesa ou com o auxílio de um amigo do próprio surdo, que faz a ponte comunicacional). Essa é somente a primeira barreira comunicacional a ser transposta. Depois, ainda falta convencer a instituição de que o surdo tem assegurado por lei o direito a um intérprete de libras durante as aulas e que é a instituição de 72 ensino que deve pagar pelo serviço. Muitas instituições se negam a fornecer o intérprete, pois isso encarece o custo do curso; então, elas já dizem que não conhecem nenhum intérprete de libras para contratar ou que enviarão uma mensagem para o surdo para avisar “se” fechar a turma de um curso de extensão, por exemplo, só que não dão retorno nenhum. A única pessoa prejudicada nessa situação é o surdo. É válido mencionar que não somente no contexto educacional se limitam as propostas sociais para pessoas surdas. Existe um forte movimento para a criação de leis que viabilizem propostas por maior acessibilidade comunicacional para os surdos. A Lei n° 10.098, de 19 de dezembro de 2000, garante acessibilidade comunicacional aos sujeitos surdos, no que tange aos meios mais comuns e essenciais de comunicação, informação e de participação social: CAPÍTULO VII DA ACESSIBILIDADE NOS SISTEMAS DE COMUNICAÇÃO E SINALIZAÇÃO. Art. 17. O Poder Público promoverá a eliminação de barreiras na comunicação e estabelecerá mecanismos e alternativas técnicas que tornem acessíveis os sistemas de comunicação e sinalização às pessoas com deficiência sensorial e com dificuldade de comunicação, para garantir-lhes o direito de acesso à informação, à comunicação, ao trabalho, à educação, ao transporte, à cultura, ao esporte e ao lazer. Art. 18. O Poder Público implementará a formação de profissionais intérpretes de escrita em braile, língua de sinais e de guias-intérpretes, para facilitar qualquer tipo de comunicação direta à pessoa com deficiência sensorial e com dificuldade de comunicação (Regulamentação: Decreto no 5.626, de 22 de dezembro de 2005). Art. 19. Os serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens adotarão plano de medidas técnicas com o objetivo de permitir o uso da língua de sinais ou outra subtitulação, para garantir o direito de acesso à informação às pessoas com deficiência auditiva, na forma e no prazo previstos em regulamento. (BRASIL, 2000). O acesso à exibição de legenda na televisão brasileira, por meio do recurso de closed caption, foi testado pela primeira vez no Brasil pela emissora Rede Globo de Televisão, em 1997 e, se mantém até hoje. Por muito tempo, nem todas as emissoras ofertavam esse tipo de recurso, contudo, a portaria 310/2006 do Ministério das Comunicações diz que a partir de 2012 as emissoras precisam reservar 12 horas de programação com recursos de acessibilidade, entre eles, o da legenda oculta. Desde o ano de 2017, a totalidade da programação, isto é, 24 horas de exibição, deverá conter os recursos de acessibilidade. Uma outra possibilidade de acessibilidade para as pessoas com deficiência auditiva é a janela com o intérprete 73 de libras, onde a imagem do intérprete é mostrada no canto da tela do vídeo original que está sendo transmitido. Ao falarmos de acesso à cultura, como cinema ou teatro, a história muda um pouco. Hoje, toda a comunidade surda luta por maior acessibilidade nos cinemas, que só fornecem legenda para filmes estrangeiros. No caso de filmes nacionais e desenhos animados a situação não é a mesma, visto que a legenda não é fornecida. Devido a isto, existe a um bom tempo, no meio da comunidade surda, uma campanha (Figura 1) para que seja adotada a legenda como forma de inclusão. Figura 1. Campanha para maior inclusão da comunidade surda. Fonte: Witt (2013). Alguns municípios já decretaram por lei municipal a obrigatoriedade de um número mínimo de sessões de filmes nacionais e de animações infantis, com acessibilidade através da legenda. Contudo nem todas as cidades do Brasil pensam 74 igual, sendo que a maioria ainda não oferta esse tipo de acessibilidade. No contexto do teatro a situação é a mesma, pois, a maioria das peças não possui acessibilidade através do intérprete. Como resposta à falta de acessibilidade em teatros, temos o grupo Signa- tores de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, sendo um dos poucos grupos de teatro surdo existentes e que faz suas apresentações inteiramente em libras, com a tradução para a língua portuguesa oral como forma de acessibilidade para pessoa ouvintes que queiram assistir à peça (Figura 2). Figura 2. Apresentação teatral para surdos sobre a obra Alice no País das Maravilhas. Fonte: culturasurda.net Com relação a comunicação em diferentes espaços sociais, o Decreto no 5.626, de 22 de dezembro de 2005, em seu art. 28, traz o seguinte: Os órgãos da administração pública federal, direta e indireta, devem incluir em seus orçamentos anuais e plurianuais dotações destinadas a viabilizar ações previstas neste decreto, prioritariamente as relativas à formação, capacitação e qualificação de professores, servidores e empregados para o uso e difusão das libras e à realização da tradução e interpretação de libras- língua portuguesa, a partir de um ano da publicação deste decreto. (BRASIL, 2005). 75 Isso significa que na esfera pública o sujeito surdo tem maiores chances de ser atendido por um servidor, professor ou empregados em geral que saibam a língua de sinais, sem falar na obrigatoriedade do fornecimento do interprete em questões mais pontuais, tipo: audiências públicas, eventos promovidos por entidades municipais, estaduais ou federais para todos os públicos, atendimento por médico de rede pública, abrir uma conta bancária em instituição pública, etc. Contudo, na esfera privada a situação é bem diferente. Por exemplo, temos inúmeros casos de surdos que vão viajar e ao chegar no hotel não encontram acessibilidade no atendimento inicial e, nem durante a estadia, necessitando sair do seu quarto de hotel e se dirigir até a recepção, caso deseje solicitar alguma coisa, pois, o único contato entre a recepção e os quartos dos hóspedes é por meio do telefone, sendo esse tipo de atendimento inútil para o surdo. Outra situação recorrente é quando o surdo precisa ir ao médico particular e o mesmo não sabe libras, o que dificulta muito a procura por ajuda. Nesse caso, para não perder a viajem o surdo leva o seu próprio intérprete, já que as chances de um médico, independente da especialidade, saber libras são muito pequenas. Diante disso, é comum que surdos solicitem para amigos e familiares que saibam língua de sinais para auxiliar nesse tipo de situação, pois, do contrário, a única forma de comunicação é o português escrito, ou, em casos muito específicos o uso de leitura labial e/ou oralização. 769 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMANRAL, W. M. Sistema de transcrição da língua brasileira de sinais voltado à produção de conteúdo sinalizado por avatares 3D. Tese de Doutorado apresentada à Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação como parte dos requisitos para obtenção do título de Doutor em Engenharia Elétrica. Área de concentração: Engenharia de Computação. Campinas, SP. 2012. BADLER, N. 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