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O r g a n i z a d o r e s
Dalízia Amaral Cruz
Organizadores
Edilson Coelho Sampaio Elson Ferreira Costa
editora científica
INTERFACES
na sáude, educação e sociedade
a PSICOLOGIA E SUAS
O r g a n i z a d o r e s
Dalízia Amaral Cruz
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Edilson Coelho Sampaio Elson Ferreira Costa
INTERFACES
na sáude, educação e sociedade
a PSICOLOGIA E SUAS
2021 - GUARUJÁ - SP
1ª EDIÇÃO
editora científica
Copyright© 2021 por Editora Científica Digital
Copyright da Edição © 2021 Editora Científica Digital
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Universidade Federal de Pernambuco, Brasil
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APRESENTAÇÃO
Esta obra in t i tu lada A PSICOLOGIA E SUAS INTERFACES: NA SAÚDE, EDUCAÇÃO E SOCIEDADE const i tu iu-se
a p a r t i r d e u m p ro c e s s o c o l a b o ra t i v o e n t re e s t u d a n t e s e p ro f e s s o re s / p e s q u i s a d o re s q u e c o n t r i b u í ra m c o m
d i s c u s s õ e s p e r t i n e n t e s n a á re a d a p s i c o l o g i a n e s t e e s p a ç o f o r m a t i v o . T ra t a - s e d e i n c e n t i v o à d i v u l g a ç ã o
d e p e s q u i s a s c o m a p o r t e t e ó r i c o d e d i v e r s a s a b o r d a ge n s d a p s i c o l o g i a e d e d i f e r e n t e s I n s t i t u i ç õ e s d e
E n s i n o S u p e r i o r , p ú b l i c a s e p r i v a d a s , d e a b r a n g ê n c i a n a c i o n a l e i n t e r n a c i o n a l . E s t a o b r a , a s s i m , t e m
c o m o o b j e t i v o a p r e s e n t a r à c o m u n i d a d e c i e n t í f i c a p r o d u ç õ e s r e l e v a n t e s n o â m b i t o d a p s i c o l o g i a e s u a s
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c o m u n i d a d e e s c o l a r e v i o l ê n c i a , e v e n t o s e s t re s s o re s à s a ú d e m e n t a l d e p ro f e s s o re s , m a s c u l i n i d a d e t óx i c a ,
s a ú d e e q u a l i d a d e d e v i d a d a s p o p u l a ç õ e s , e n t re o u t ro s . A g ra d e c e m o s a t o d o s o s a u t o re s p e l a d e d i c a ç ã o ,
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Dalízia Amaral Cruz
Elson Ferreira Costa
Edilson Coelho Sampaio
SUMÁRIO
CAPÍTULO 01
A DESAUTORIZAÇÃO NO CONTEXTO CLÍNICO PSICANALÍTICO COM PACIENTES DIFÍCEIS
Émily Laiane Aguilar Albuquerque
DOI: 10.37885/210203407 .................................................................................................................................................................................. 13
CAPÍTULO 02
A SAÚDE FÍSICA E MENTAL DE PROFESSORES DE EDUCAÇÃO FÍSICA: APTIDÃO FÍSICA, BURNOUT E ESTADOS DE HUMOR
Silvia Regina Cassan Bonome-Vanzelli; Carlos Eduardo Lopes Verardi
DOI: 10.37885/210203325 .................................................................................................................................................................................24
CAPÍTULO 03
AS RELAÇÕES DE PODER ENTRE OS GÊNEROS NA CONJUGALIDADE
Diana Maria da Silva Sousa
DOI: 10.37885/201202392 ................................................................................................................................................................................ 48
CAPÍTULO 04
ATENÇÃO PSICOSSOCIAL NA ATENÇÃO BÁSICA: PROFISSIONAIS, SERVIÇOS E INTERVENÇÕES EM RURALIDADES
PARAIBANAS
Karolina Mirella Oliveira Pereira Costa; Josevânia da Silva; Ludwig Félix Machado Leal; Mísia Carolyne Pereira de Morais
DOI: 10.37885/210102845 ................................................................................................................................................................................. 66
CAPÍTULO 05
COMO VOCÊ ESTÁ? RESULTADOS DE UM PROJETO DE PSICOLOGIA DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19
Jonatan dos Santos Franco; Mariela da Cruz Santos; Vanilce Farias Gomes; Felipe Maciel dos Santos Souza; Beatriz Irala Mariano;
Beatriz de Matos Manoel
DOI: 10.37885/210203043 ................................................................................................................................................................................ 82
CAPÍTULO 06
DOR CRÔNICA E IMPLICAÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS: ANÁLISE DOS ASPECTOS NEUROPSICOLÓGICOS ENVOLVIDOS
NAS SÍNDROMES DOLOROSAS QUE AFETAM A CONDIÇÃO MÉDICA GERAL
Olímpia Maria Dornelles Couto
DOI: 10.37885/210303586 ................................................................................................................................................................................ 93
SUMÁRIO
CAPÍTULO 07
ENTRE O MEDO E A PREVENÇÃO: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS ACERCA DA VACINAÇÃO ENTRE JOVENS E ADULTOS DO
ENSINO MÉDIO
Luciano Luz Gonzaga; Andrea Velloso; Denise Lannes
DOI: 10.37885/201202453 ................................................................................................................................................................................111
CAPÍTULO 08
ESTRESSE NO AMBIENTE DE TRABALHO DOS PROFESSORES DE EDUCAÇÃO FÍSICA ATUANTES NO ENSINO MÉDIO DA
REDE ESTADUAL DO MUNICÍPIO DE PONTA GROSSA-PR
Iverson Rene Troyan Junior; Mateus Nunes; Weslley da Silva Barreto; Nelson da Rocha França Junior
DOI: 10.37885/210203248 ...............................................................................................................................................................................124
CAPÍTULO 09
MASCULINIDADE TÓXICA NA VIVÊNCIA EMOCIONAL DE HOMENS: UMA ÓTICA A PARTIR DO FILME MOONLIGHT
Anderson Alexandre de Araújo Sá; Jonathas da Silva Rodrigues; Pedro Cabral de Oliveira Júnior; Ruan Phablo da Silva Oliveira;
Lúcia Maria Temóteo
DOI: 10.37885/210303613 ............................................................................................................................................................................... 138
CAPÍTULO 10
PADRÕES ARQUETÍPICOS DAS DEUSAS EM NARRATIVAS DE VIDA DE MULHERES DO SERTÃO POTIGUAR
Pammella Lyenne Barbosa de Carvalho; Ailton Siqueira de Sousa Fonseca
DOI: 10.37885/210203273 ............................................................................................................................................................................... 149
CAPÍTULO 11
PESQUISAS COM SERES HUMANOS: A ÉTICA E A RELEVÂNCIADOS COMITÊS DE ÉTICA
Hermínia Dias de Freitas; Lahana Giacomini de Vasconcellos; Luciana Stefano; Ana Carolina Cadermatori
DOI: 10.37885/210303540 .............................................................................................................................................................................. 166
CAPÍTULO 12
PSICOLOGIA NO CONTEXTO ESCOLAR: POSSÍVEIS INTERVENÇÕES COM ADOLESCENTES NA PREVENÇÃO AO SUICÍDIO
Luciane Melchiors; Camila de Freitas Moraes; Maria Gabriela Junqueira Pernambuco Barboza Gomes
DOI: 10.37885/201001910 ................................................................................................................................................................................175
SUMÁRIO
CAPÍTULO 13
UM ESTUDO SOBRE O SUICÍDIO A PARTIR DO OLHAR DA JUVENTUDE, NO MUNICÍPIO DE VIÇOSA-CE
Carla Vieira Cardoso; Elis Sales Muniz Lima
DOI: 10.37885/210203415 ............................................................................................................................................................................... 186
SOBRE OS ORGANIZADORES ............................................................................................................................. 212
ÍNDICE REMISSIVO ............................................................................................................................................. 213
“
01
A desautorização no contexto clínico
psicanalítico com pacientes difíceis
Émily Laiane Aguilar Albuquerque
UEM
10.37885/210203407
https://dx.doi.org/10.37885/210203407
14A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Psicanálise, Trauma, Sándor Ferenczi, Desautorização, Pacientes Difíceis.
RESUMO
O objetivo deste estudo teórico foi uma tentativa de compreender como a relação entre
analista e analisando em casos de pacientes difíceis podem contribuir para a ocorrência
ou a permanência de um trauma psíquico. Partindo dos pressupostos psicanalíticos
de Sándor Ferenczi foram utilizados textos ferenczianos e de outros psicanalistas que
contribuíram para o aprofundamento e para a lapidação das análises realizadas. Assim,
algumas considerações finais foram compreendidas acerca da noção de trauma psíquico
para Ferenczi. Uma delas foi a necessidade de ampliar as teorizações e práticas psicana-
líticas que utilizam como base teórica e recurso apenas a técnica clássica freudiana para
todos os pacientes, sem levar em consideração as diferenças e os rearranjos conforme
os sintomas e as vivências reais dos pacientes, desautorizando-os em seus sofrimentos.
15A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade14A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
Ao pensarmos na fundamentação teórica que Ferenczi (1873-1933) escreveu ao longo
de sua trajetória de estudos, compreendemos que sua teoria nos conduz a um embasamento
acerca do contexto clínico, mais especificamente, em relação aos pacientes não-neuróticos.
Talvez, pelo fato de Ferenczi ter tido a oportunidade de atender diversos tipos de pacientes
que rompiam com o modelo de clínica tradicional e elitizado na qual Freud estava acostu-
mado a atender seus pacientes histéricos e neuróticos.
Podemos compreender que Ferenczi nos leva a pensar nos casos clínicos de narcisis-
mo, melancolia e de paranoia, isto é, pacientes fronteiriços, limítrofes em que Freud afirmou
não serem muito tratáveis por meio da terapia estabelecida para o tratamento das neuroses
de transferência, e que puderam ser compreendidos a partir das teorizações ferenczianas.
Os pacientes que Freud afirmou não serem tratáveis por meio da transferência, no
método psicanalítico clássico, vêm sendo muito frequentes na clínica contemporânea e são
denominados por autores psicanalíticos mais atuais, como pacientes limítrofes ou borderline.
Segundo Nasio (1995), diferentemente de Freud, Ferenczi se encontrava envolvido com
as demandas da realidade social, pois seu trabalho como médico assistente permitia que
estivesse bem perto de pacientes em vulnerabilidade social. Porquanto, Ferenczi trabalhou
em asilos nos quais atendeu homossexuais, prostitutas, casos limítrofes (então conside-
rados difíceis) que não se encaixavam no método utilizado na época para tratar pacientes
neuróticos (BARANDE, 1972).
Além disso, segundo Dean-Gomes (2019), Ferenczi foi médico do exército austro-
húngaro na Primeira Guerra Mundial e, depois, trabalhou com pacientes acometidos de
neuroses de guerra em um hospital em Budapeste. Essas experiências, somadas a várias
situações de impasses na clínica psicanalítica e intuições sobre a educação e constituição
do psiquismo infantil, levaram Ferenczi a se interessar pelo problema do trauma, percor-
rendo a questão do trauma dos campos de batalha até o contexto doméstico. Assim, foi
revendo algumas questões da técnica e procurando trabalhar de forma a acolher situações
de traumatismo precoce.
A autora Judith Dupont, em seu artigo de 1988, intitulado La “locura” de
Ferenczi:, coloca que:
As habilidades terapêuticas de Ferenczi e sua considerável experiência clí-
nica eram muito bem conhecidas. Colegas de todo o mundo o consultavam
sobre casos considerados críticos. Essencialmente, eram casos que hoje em
dia seriam diagnosticados como limítrofes ou psicóticos; estes são pacientes
que muitas vezes não se pode colocar no divã. Eles vão passear na sala de
consulta ou adotar posições diferentes na frente do analista (DUPONT, 1988,
p. 03, tradução da autora).
16A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Sendo assim, devido a uma demanda clínica diferenciada dos casos de neurose que
eram mais comuns na clínica tradicional, Ferenczi se preocupou em buscar uma estrutu-
ração teórica que estava mais atrelada a noção de trauma e desautorização, ou seja, que
levava em consideração não somente a realidade fantasiosa, interna dos pacientes mas
os acontecimentos do mundo real, contribuindo, assim para um desenvolvimento de uma
clínica diferenciada, que compreendeu como a noção de desautorização também pode ser,
infelizmente, estabelecida no vínculo terapêutico entre analista e analisando.
Para compreendermos a noção de desautorização desenvolvida no decorrer da obra
de Ferenczi, é preciso, antes, nos debruçarmos sobre o pilar da construção ferencziana,
isto é, a noção de trauma. Isso porque o conceito de desautorização está imerso no desen-
volvimento da traumatogênese ferencziana.
Sobre a noção de trauma elaborado por Ferenczi no percurso de suas obras,
Kuppermann (2015) afirma que o traumático aconteceria no período infantil podendo advir
de uma confusão entre a linguagem de adultos e crianças. Pois, as relações de afeto entre a
criança e o adulto são compreendidas de formas diferentes, segundo Ferenczi (1933/1992),
para a criança, o afeto é nutrido sob forma de brincadeira, de fantasias lúdicas em relação
ao adulto, essa sedução caracterizaria a linguagem da ternura. O adulto, caso tiver predis-
posição psicopatológica, não reconheceria a linguagem infantil, e poderia confundir a relação
lúdica entre ele e a criança com a relação sexual de dois adultos, respondendo sob a forma
de linguagem da paixão, e não sob a forma da linguagem infantil, a de ternura.
Conforme descreve Ferenczi (1933) em relação à criança, a linguagem estaria sendo
desenvolvida sob forma de brincadeira e a sedução caracterizaria a linguagem da ternura,
cuja organização sexual e psíquica estaria anterior à sexualidade adulta, isto é, não apresen-
tando fins genitais. Entretanto, os adultos não reconhecem a linguagem infantil, respondendo
sob forma de linguagem diferente da de ternura, sob a linguagem da paixão:
O jogo pode assumir uma forma erótica [para a criança] mas conserva-se,
porém, sempre no nível da ternura. Não é o que se passa com os adultos se
tiverem tendências psicopatológicas, sobretudo se seu equilíbrio ou autodo-
mínio foram perturbados por qualquer infortúnio,pelo uso de estupefacientes
ou de substâncias tóxicas. (FERENCZI, 1992/1932, p. 102)
Nesse sentido, Ferenczi (1933) afirma que quando a criança possui uma experiência
real e incompreensível para sua capacidade subjetiva, ocorre o processo de negação. Já,
para o adulto, essa negação incompreensível, é chamada de desautorização. O trauma,
assim, constituiria na vivência real e violenta (que podem ser vivenciadas pela criança); e na
negação dessa experiência (passível de ser vivenciada pelo adulto, devido a incompreensão
entre a linguagem diferenciada do adulto e a da criança). Após passar pela experiência de
17A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade16A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
agressividade, a criança ao contar para um adulto cuidador e este não a escutar ou não
acreditar na verdade da criança acabaria por caracterizar a vivência traumática. Nessa úl-
tima parte do trauma, a criança sofreria a clivagem narcísica, em que a atividade psíquica
ficaria suspensa, estado em que as resistências e as percepções se encontram suspensas,
incapazes de serem elaboradas.
Assim como aconteceria a desautorização entre os adultos e a criança, Ferenczi (1933)
faz um paralelo entre o analista e o paciente. Ambos por estarem num contexto de imaginário
social hierárquico onde o analista ocuparia o lugar de quem detém o conhecimento ao de-
sautorizar alguma vivência ou sofrimento psíquico do paciente, negando-o ou não dando a
devida atenção para que haja um processo de elaboração da angustia experenciada poderia
estar repetindo uma cena traumática infantil ou provocando um trauma ao não escutar e dar
espaço para possíveis elaborações.
DESENVOLVIMENTO
Segundo Figueiredo (2018), os pacientes limítrofes, que não se enquadravam nas
neuroses de transferência sofreram de algum tipo de abandono e falhas no cuidado durante
a infância, gerando traumas precoces. Nesse contexto, o trabalho transferencial na clínica
necessita de uma postura diferente do tradicional viabilizados em pacientes neuróticos. Pois
os sintomas seriam diferentes nos processos psicopatológicos derivados de traumas preco-
ces, exigindo uma postura diferenciada do analista, bem como o manejo clínico se tornaria
mais amplo, flexível como veremos no decorrer deste capítulo.
Assim, na clínica contemporânea, esses pacientes são muito comuns, sendo com-
preendidos como pacientes-limites, que seriam considerados pacientes difíceis, exatamente
devido à dificuldade de enquadramento clínico, não estando no campo das neuroses, mas
também não sendo considerados psicóticos, estando no limite, na borda das estruturas
psíquicas formuladas por Freud.
De acordo com Figueiredo (2018), os pacientes-limites requerem uma psicoterapia
de análise diferenciada, em que o modo de análise psicanalítica tradicional necessita de
modulações, embora ainda mantenha os principais preceitos da abordagem psicanalítica.
Pois, uma das preocupações de Ferenczi era a de construir suas teorizações tomando como
base os textos freudianos e de outros autores psicanalíticos a fim de ampliar seus preceitos
no campo da psicanálise, como fez com seu estudo teórico sobre a noção de trauma e suas
implicações para o desenvolvimento do ego na infância e na vida adulta.
Ferenczi considerava um caso difícil, conforme Kahtuni e Sanches (2009), quando os
recursos psicanalíticos da época não davam conta de compreender o paciente que não se
enquadrava nas técnicas e teorias propostas por Freud. Os pacientes então eram chamados
18A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
de difíceis devido as dificuldades encontradas pelos analistas durante os atendimentos.
Que acabavam sendo um desafio para Ferenczi, conduzindo-o a se esforçar para encontrar
meios de atender esses pacientes que até então eram inanalisáveis. Atualmente, os pa-
cientes que na época eram considerados traumatizados e difíceis foram organizados como
personalidades borderline.
Os casos difíceis passaram a ser conhecidos como borderline a partir de 1945 com
Otto Fenichel, o qual assinalou a existência como um tipo de sofrimento psíquico que antes
fazia parte “do vocabulário anglo-saxão próprio da corrente da Psicologia do self e, em certos
aspectos, do movimento pós-kleiniano da década de 1960” (KATHTUNI; SANCHES, 2009,
p. 277). Tal conceito foi ampliado com os trabalhos publicados de Kohut e de Kernberg que
nominou como ‘organizações limite’ a fim de representar uma configuração de personalidade
que seja diagnosticada segundo uma diversidade de sinais e sintomas. Isto é, organizações
psíquicas fronteiriças que apresentam funcionamento neurótico coexistindo com áreas cujo
funcionamento também é psicótico.
Assim, de acordo com Green (2018), os casos-limite situam-se em um território onde
as fronteiras não estão definidas, são vagas. Portanto, devemos considerar o limite como
uma fronteira movediça, flutuante, tanto com relação a normalidade quanto com relação a
patologia. Dessa forma, apesar das variações semânticas ao longo dos anos, neste estu-
do optamos em utilizar o termo pacientes difíceis tomando como base a terminologia que
Ferenczi utilizou em seus textos para descrever os pacientes traumatizados, que se distan-
ciavam da neurose clássica e que hoje são denominados como borderline.
Destarte, para compreendermos os pacientes considerados difíceis é necessário reto-
marmos a noção de trauma. Porquanto, foi a partir dos estudos com os pacientes trauma-
tizados que Ferenczi ampliou suas teorizações psicanalíticas, abrindo o caminho para que
outros psicanalistas pudessem pensar e atender a clínica de pacientes com diferentes tipos
de sofrimento psíquico. Pois, segundo Kathuni e Sanches (2009), a concepção de Ferenczi
acerca do trauma criou a necessidade de uma grande mudança no setting analítico. Em que
a clínica psicanalítica com a qual Freud tratava seus pacientes precisou ser adaptada aos
pacientes que tinham diferentes tipos de organizações psíquicas, como os borderline, psi-
cóticos, psicossomáticos etc.
Nesse sentido, é possível pensar que a noção de desautorização e seus desdobramen-
tos no psiquismo está relacionada com a compreensão dos diferentes tipos de adoecimento
encontrado nos casos considerados difíceis. Visto que para Ferenczi (1933) o paciente que
sofreu uma violência externa, ao relatar sua vivência angustiante para uma outra pessoa,
e ela a desautoriza, isto é, nega ou ignora o que lhe aconteceu acaba tendo como conse-
quência o sofrimento de angústia. De tal modo, que a vítima não consegue simbolizar sua
19A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade18A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
vivência, dar outros significados, resultando em inúmeros sintomas, tais como: sentimento
de incapacidade, de autodestruição e de culpa; desorientação psíquica; medo da loucura
(chegando a repensar se o que vivenciou foi realmente verdade); mania de perseguição,
dentre outros sintomas.
Apesar da inscrição dos pacientes borderline nos DSMs, Shiozaki (2016) salienta que
é necessário repensar toda a atribuição generalista da gravidade com que esses pacientes
difíceis foram catalogados pelos DSMs. Visto que, há uma grande variedade de pacientes
borderline em que alguns estão desadaptados socialmente, mas que muitos conseguem
relativamente se inserir e se adaptar de alguma forma. Assim, é importante considerar que
tais pacientes fazem parte do meio social e cultura que caracteriza a subjetividade contem-
porânea, que devido a indústria farmacológica tende a medicalizar ou enquadrar em um tipo
de transtorno qualquer sofrimento humano.
Destarte, o objetivo aqui não é cessar as teorizações acerca dos pacientes difíceis, mas
compreender a partir de um olhar ferencziano ampliado, que compreende o adoecimento
psíquico inter-relacionado com o meio cultural que vivenciamos na atualidade, bem como
suas implicações para a clínica psicanalítica contemporânea.Nesse contexto, as consequências da angústia traumática descritas no período em
que se encontrava Ferenczi foram denominadas por André Green como patologias do va-
zio. Sendo, muito frequentes nos pacientes ferenczianos, que carregavam “áreas de seus
psiquismos silenciadas e agonizantes, buracos negros internos” (FIGUEIREDO, 2018, p.
189). Tais sintomas podem ser consequências do que Ferenczi (1933) descreveu acerca da
desautorização, em que haveria algumas possibilidades de o traumatismo reverberar pelo
psiquismo. Uma delas seria por meio da cisão do eu, no qual as memórias infantis trauma-
tizantes são cristalizadas e dissociadas no aparelho psíquico.
Podemos pensar, assim, que as cisões e progressões do trauma no psiquismo são
resultados de desautorizações. Ou seja, é devido a relação com o objeto externo que os
pacientes difíceis são levados a desestruturação do eu, ao vazio depressivo e a ausência de
imagens constitutivas de si mesmo. Para Pinheiro (1995), no trauma ferencziano a clivagem
egoica mantem o objeto desautorizante (a pessoa que desacredita, silencia) internalizada
no próprio eu, mantendo-a aprisionada pela vivência traumática, provocando defesas que
visam apagar sua história. Assim, o trauma é afastado das trocas psíquicas do próprio eu,
a pessoa que sofre a desautorização apaga uma parte de si mesma, sendo assassina e
vítima ao mesmo tempo.
Nesse contexto, pensar nos processos psíquicos que ocorrem na desautorização e
que levam aos sintomas dos pacientes difíceis, podem nos conduzir a refletir que há uma
auto desautorização, na medida em que o próprio eu se sabota. Pois, para ressignificar as
20A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
vivências traumáticas infantis, é necessário a ajuda de um outro e quando este apoio é falho
“o trauma age unicamente as custas do ego” (PINHEIRO, p. 82, 1995), que sem recursos
submerge em seu próprio sofrimento. Esse agravamento da defesa se relaciona com o
aumento na quantidade de cisões, de modo que quanto maior o choque psíquico, maior as
cisões que o eu precisará fazer para se defender das lembranças psíquicas traumáticas.
Com a fragmentação do eu, apesar da pessoa não ter acesso as partes faltantes para
integrá-las, estas ainda residem no psiquismo, trazendo um vazio, uma angústia desprovi-
da de sentido. Segundo Ferenczi (1930), com o choque a psique apressa-se em reunir os
diversos fragmentos em uma única unidade para retomar o controle do psiquismo. Mas, a
consciência acaba não tendo o menor conhecimento acerca dos conteúdos e eventos que
sobrevieram após o traumatismo. O que nos conduz a pensar nos pacientes difíceis, pois,
conforme Figueiredo e Coelho Junior (2018), os adoecimentos devido a traumatismos con-
duziram os pacientes a uma extinção do aparelho de pensar, gerando as patologias do vazio.
Quando a vivência dolorosa é desautorizada pelo outro, seja um adulto cuidador, os
pais, ou outra pessoa de confiança, Ferenczi (1933) escreve que ocorre a solidão traumática,
isto é, o ser que fica só precisa ajudar a si mesmo, para isso, fissura o próprio psiquismo,
clivando-o. Assim, a desautorização e a não-integração egoica das vivências e emoções
traumáticas podem provocar um vazio depressivo, típico da patologia esquizoide.
Segundo Shiozaki (2016), o paciente borderline estaria entre uma problemática esqui-
zoide e outra narcísica, por apresentar dificuldades em construir e sustentar uma imagem
integrada e estável de si mesmo, bem como dos objetos externos. Além de apresentar
problemas em constituir as fronteiras externas e internas do eu devido a impedimentos pro-
venientes de objetos externos, por exemplo, pela figura materna ou outra figura que pode
de forma ativa impedir o processo de constituição do psiquismo.
Outra maneira de preencher o vazio depressivo da patologia esquizoide seria por meio
do uso de psicotrópicos. Sendo esse tipo de recurso muito frequente entre os pacientes
borderlines: “o uso de drogas, anestesiantes e excitantes, que não precisam, necessaria-
mente ser químicos (pois, alguns se excitam ou relaxam com ideias, ações e fantasias)
(SHIOZAKI, 2016, p. 156)”.
Uma outra saída encontrada pelos pacientes difíceis para se defender da angústia pro-
veniente do trauma seria por meio da progressão traumática. Conforme Figueiredo (2018),
a parte do psiquismo que se desenvolve de maneira autossuficiente e onipotente, responde
também ao traumatismo pela via do sofrimento esquizoide. Como podemos conferir em um
dos casos clínicos que Ferenczi apresentou em seu Diário clínico (1932):
[...] completamente desprovida de emoção, no sentido de uma performance
de pura adaptação, através da identificação com os objetos de terror. A pa-
21A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade20A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
ciente torna-se terrivelmente inteligente. [...] O trauma reduzira-a a um esta-
do emocionalmente embrionário, mas, ao mesmo tempo, ela tinha adquirido
uma sabedoria intelectual como a de um filósofo compreensivo, inteiramente
objetivo e sem emoção. O que é novo em todo esse processo é que ao lado
da fuga diante da realidade no sentido regressivo, há também uma fuga no
sentido progressivo, um desenvolvimento súbito de inteligência. (p. 250-251,
grifo da autora)
O caso acima exemplifica o fenômeno da progressão traumática nos casos de pacientes
considerados difíceis. Assim, a progressão traumática aconteceria juntamente com o senti-
mento de apatia, em que as emoções sentidas acabam sendo intelectualizadas. O paciente
difícil ao tentar superar seu sofrimento em que foi desautorizado, por um lado desenvolve
uma sabedoria muito avançada, mas, por outro lado, não consegue vivenciar suas emoções.
É possível pensarmos que tamanha sabedoria advém da necessidade em superar
a angústia decorrente do trauma. Para Pinheiro (1995) esse recurso seria uma forma de
proteção e de cuidado para que não venha sofrer uma outra vivência traumática, devendo
então ser racional e mantenedora de um equilíbrio psíquico para que a pessoa, longe das
emoções, retorne as suas atividades cotidianas.
Além disso, Pinheiro (1995) salienta que o trabalho clínico com os pacientes difíceis,
traumatizados levaram a teorização de que somente o corpo guardou a lembrança do trau-
ma. A voz se calou quando foi desautorizada, aparecendo por meio de expressões do corpo
que fala, somatiza, sendo o portador de uma voz silenciada. “As lacunas da memória do
paciente traumatizado vibram em algum lugar do corpo sem encontrar, contudo, uma tradu-
ção possível em sua fala” (p. 99).
Essa passagem da autora e de outros autores citados acima nos permitem pensar que
o trauma propriamente dito, segundo os avanços feitos nesse campo por Ferenczi, reverbera
por inúmeros mecanismos de defesa no aparelho psíquico. Sendo que, a ausência de uma
escuta verdadeira e apropriada pode conduzir a um reforço da desautorização, levando os
pacientes difíceis ao silenciamento ou ao ‘apagamento’ de sua vivência angustiante. Ou seja,
o trauma não sendo traduzido, se expressa por meio das patologias do vazio, somatizações,
apatia, abusos de substâncias psicotrópicas, dentre outros sintomas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com essa pesquisa percebeu-se que a teoria nos ajuda, e muito, na ampliação da téc-
nica psicanalítica, assim como numa maior compreensão dos casos clínicos considerados
difíceis. Visto que, tanto o analisando quanto o analista possuem limites, como coloca Candi
(2010) dizendo que há um movimento dialético entre as forças que organizam o campo e
os limites de sua ação de um lado e as forças que constantemente desafiam esses limites,
22A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
de outro. De modo a entender que “se existe evolução na teoria e na prática psicanalíticas,
é porque essas duas coexistem exercendo pressões opostas e complementares, capazes
de se organizarem em uma articulação interna” (CANDI, p. 12, 2010).Assim, compreender a noção de desautorização com os pacientes limítrofes é saber
se colocar para muito além de uma atuação clássica, interpretativa, de neurose de trans-
ferência. Muito pelo contrário, é compreender que a clínica está aberta para o processo de
escuta, de integração e de diálogo. De maneira a colocar de lado o modo interpretativo na
tentativa de uma presença empática, sensível que permite tanto o analista quanto o ana-
lisando abrir-se para as fronteiras do diferente, do indizível. É vivenciar a experiência de
análise sentindo com o paciente.
Ferenczi em sua teorização acerca da técnica psicanalítica demonstra, portanto, uma
ênfase no papel do outro para que a relação terapêutica possa avançar. Outro este que
suscitaria em uma compreensão do que há de mais infantil no paciente. De modo que,
caberia ao analista por meio de uma relação transferencial, “entre os extremos caricaturais
representados pelas figuras de um pai severo ou de uma mãe bondosa, dispor da intuição
necessária para lidar de forma adequada com cada paciente” (HONDA, 2018, p. 77). Nesse
sentido, é possível pensarmos que a figura do analista para Ferenczi, teria o papel diferen-
ciado, conforme cada analisando, estabelecendo um vínculo que possibilitasse uma relação
terapêutica satisfatória.
Além disso, Ferenczi (1930) reitera que a relação verticalizada entre o analista e o ana-
lisando, pode se assemelhar a uma relação de professor e aluno. O autor relata um exemplo
de que começou a perceber que seus pacientes não se sentiam confortáveis o suficiente
para demonstraram ou falarem que estavam descontentes. Assim, não havia abertura e
liberdade no processo analítico para os pacientes irem contra o dogmatismo e pedantismo
da relação entre analista e analisando.
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao Programa de Pós-graduação de Psicologia da Universidade Estadual de
Maringá – UEM e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CAPES
pelo incentivo financeiro que possibilitou o desenvolvimento desta pesquisa e ao meu orien-
tador Helio Honda, pelo cuidado e paciência que sempre teve comigo e com esta pesquisa,
além das sugestões sempre muito pertinentes que possibilitaram maiores discussões e ricos
aprofundamentos teóricos.
23A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade22A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
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Cabral, Trad.) São Paulo: Martins Fontes, p. 45, 1930.
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e Letras de Assis – Universidade Estadual Paulista, 2016.
http://www.alsf-chile.org/Indepsi/Articulos/Revisiones/LaLocura-de-
http://www.alsf-chile.org/Indepsi/Articulos/Revisiones/LaLocura-de-
“
02
A SAÚDE F ÍS ICA E MENTAL DE
PROFESSORES DE EDUCAÇÃO FÍSICA:
Aptidão física, Burnout e Estados de
Humor
Silvia Regina Cassan Bonome-Vanzelli
UNESP/Bauru
Carlos Eduardo Lopes Verardi
UNESP/Bauru
10.37885/210203325
https://dx.doi.org/10.37885/210203325
25A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Professores de Educação Física, Aptidão Física, Síndrome de Burnout,
Estados de Humor.
RESUMO
São escassos os estudos que associam a saúde do professor de educação física à aptidão
física, estados de humor e à Síndrome de Burnout. A temática em questão foi escolhida
pela percepção observada na estrutura física e organizacional das escolas públicas,
principalmente ao analisar o contexto desses profissionais. O presente capítulo traz um
estudo bibliográfico com o objetivo de identificar a relação do trabalho de professores de
educação física e suas condições físicas e mentais, analisadas por dados sobre a rela-
ção da aptidão física com a Síndrome de Burnout e estados de humor. O estudo indicou
que estados negativos de humor e a Síndrome de Burnout afetam consideravelmente
a saúde do professor, inclusive do professor de educação física, que mesmo sendo um
profissional voltado para a saúde, por suas altas cargas de trabalho e condições estru-
turais, pode não manter a atividade física e de lazer de maneira efetiva. Para tanto, um
equilíbrio na saúde do trabalhador, também voltado para a manutenção da saúde com
a prática de atividade física regular parece ser uma saída interessante quando ofertada
pelas empresas, principalmente tendo em vista que a atividade física pode ser realizada
em espaços públicos e com baixos custos. Para que essas atividades sejam efetivas,
recomenda-se, portanto, no mínimo 30 minutos de atividade física moderada em cinco
dias ou mais por semana, ou no mínimo 20 minutos de atividade aeróbica vigorosa em
03 dias ou mais por semana.
26A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
São escassos os estudos que associam a saúde do professor de educação física à
aptidão física e aos estados de humor, que quando em níveis negativos, podem levar a
transtornos mentais mais graves como a Síndrome de Burnout. Nesse sentido, a temática
em questão foi escolhida pela percepção observada na estrutura física e organizacional das
escolas públicas, principalmente ao analisar o contexto desses professores, que parece
bastante afetado por fatores estressores.
A Organização Mundial de Saúde considera o estresse como uma epidemia global
com característica multicausal. Fatores estressores e depressivos ocasionados pelo tra-
balho podem levar a comorbidades como o aparecimento de doenças mentais e crônicas,
também intensificadas pela pandemiade COVID-19 (WHO, 2009, UNITED NATIONS, 2020,
tradução nossa). Os professores podem chegar ao esgotamento profissional com desem-
penho e satisfação no trabalho diminuídos por conta do estresse e de emoções negativas,
tais efeitos podem afetar negativamente também o desempenho dos alunos (LAYBOURN,
FRENZEL, FENZL, 2019).
O estresse e os altos índices de transtornos psicológicos no trabalho público carac-
terizam um fenômeno universal, como relatado por Codo et al (2020). Ele conclui, ainda,
que o adoecimento do professor relacionado ao Burnout pode levar a casos de depressão
grave. Assim, confirmando o fator universal, estudos nacionais e internacionais indicam tal
realidade. Um estudo alemão traz que os problemas de saúde mental em docentes ocorrem
por estressores internos e externos, sendo difícil a conquista de mudanças, principalmente
em relação aos estressores externos relacionados à escola (ESKIC et al., 2019, tradução
nossa). Quarenta e dois porcento dos trabalhadores da educação na Holanda indicam saúde
em risco por conta do estresse no trabalho (ROOZEBOOM, 2020, tradução nossa). No Brasil,
ainda, o estudo de Guedes e Gaspar (2016) indica que professores em nível de graduação,
que atuam no ensino básico possuem maior predisposição à Burnout.
A estrutura da escola pública mantém-se a mesma há mais de um século, adotando ain-
da medidas tradicionais pouco inovadoras para o momento contemporâneo, não levando em
consideração a participação efetiva de professores e comunidade escolar para os melhores
caminhos de cada instituição (PARO, 2017). Tal realidade gera fatores estressores relevantes,
sendo intensificada pelas atitudes e indisciplina dos alunos (ASSUNÇÃO; ABREU, 2019).
Estágios extremos de estresse podem levar à Síndrome de Burnout, que por sua vez,
é uma síndrome psicológica de estresse e esgotamento no trabalho com três dimensões, a
Exaustão Emocional, a Despersonalização e redução da Realização Profissional (MASLACH,
2017, tradução nossa). Portanto, a Síndrome de Burnout foi reconhecida como um grave
problema de saúde pública, atualmente relacionada a doenças laborais, fato que prova a
27A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade26A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
importância de estudos que investiguem sua prevalência em diferentes profissões, como é o
caso dos professores de educação física (GUEDES; GASPAR, 2016) É importante identificar
o estresse crônico em seus estágios iniciais e evitar o esgotamento totalmente desenvolvido
(BUDEN et al., 2016, tradução nossa). Estes dados indicam que os transtornos mentais e
comportamentais, como o Burnout e os Estados de Humor, representam não apenas uma
dificuldade pessoal para o sujeito individualmente, mas também um sério problema de saú-
de pública, dado aos altos custos humanos e financeiros, já que funcionários afetados por
doenças oneram as empresas, no caso, o dinheiro público é utilizado.
Enquanto possibilidade de prevenção a tais doenças, considera-se o combate a fatores
de risco significativos como o uso nocivo do tabaco, álcool, a poluição do ar e o sedentarismo
(WHO, 2018, tradução nossa). Constatou-se que mais de 50% do dia de um adulto é preen-
chido por comportamento sedentário, principalmente em meios eletrônicos. O comportamento
sedentário, portanto, está associado a maiores riscos a todas as causas de doenças crônicas
como doenças cardíacas, diabetes, câncer e transtornos mentais, tais quais, a ansiedade e
a depressão. Para combater esta realidade e também o sedentarismo, é importante que as
pessoas aumentem o nível de aptidão física, mantendo sua saúde física com energia para
atividades de lazer e evitando a fadiga (ACSM, 2018, tradução nossa). Tendo em vista que
mais da metade da população mundial não realiza atividade física regular (ACSM, 2018,
tradução nossa), o estímulo à vida ativa deve ser mais efetivo com políticas públicas capazes
de alcançar toda esta parcela humana. Neste sentido, muitos são os fatores capazes de
afastar ou aproximar as pessoas da atividade física, dentre eles os sociais, os ambientais,
como a acessibilidade, a própria história pessoal do indivíduo em relação à atividade física,
o apoio social para a vida ativa e o emprego que possui grande influência como o tipo de
ocupação, do total de horas trabalhadas por semana, de horas extras realizadas, sendo
trabalho fixo diurno, por turnos e trabalhos em tempo integral (CHOI, 2017, tradução nossa).
Para tanto, o primeiro capítulo traz a metodologia utilizada na pesquisa, o segundo
capítulo indica uma explicação mais aprofundada sobre a Síndrome de Burnout e também
sua relação com o trabalho do professor. No terceiro capítulo, explana-se sobre estados de
humor e como seus fatores negativos vêm afetando significativamente a carreira docente,
por fim, no capítulo quatro, trazemos a relação da aptidão física como meio à prevenção do
Burnout e estados de humor em professores.
Metodologia
O presente trabalho traz uma revisão bibliográfica fruto da Dissertação de Mestrado
finalizada em meados de 2020: Aptidão física, Burnout e humor em professores de educação
física de escolas públicas, realizada através do Programa de Mestrado em Educação Física
28A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Escolar, PROEF/ polo UNESP-Bauru/2018-2020. Esse teve por objetivo analisar o trabalho
de professores de educação física de redes públicas de ensino e suas condições físicas e
mentais, relacionando dados sobre aptidão física, Síndrome de Burnout e estados de humor.
Utilizou-se, para tanto, as bases de dados Scielo (total 84) e Pubmed (total 310), com filtro
de busca para os últimos 05 anos, bem como livros de autores clássicos relacionados à
Síndrome de Burnout, Estados de Humor e às áreas de Medicina e Psicologia do Esporte.
Na busca foram empregados os termos em inglês Estados de Humor (Mood states), ou
Aptidão física (Physical fitness) ou Síndrome de Burnout (Burnout) e Professor de educação
física (Physical teacher). Foram relevantes à pesquisa estudos que relacionassem ambas
as palavras a professores ou professores de educação física.
Síndrome de Burnout (SB) e a Carreira Docente
A Síndrome de Burnout vem sendo estudada há mais de 40 anos. Possui um processo
histórico conceitual bastante interessante descrita por Maslach (2017, tradução nossa) em
duas fases. A fase pioneira tem início nos Estados Unidos, em 1974, através do psiquiatra
e psicanalista alemão Herbert J. Freundenberg. O médico observou que os voluntários em
que trabalhava apresentavam um esgotamento gradual com perda de motivação acompa-
nhada de muitos sintomas mentais e físicos. Na mesma época Christina Maslach, psicóloga
social, estava preocupada com a desumanização, isolamento e o comportamento profissio-
nal e percebeu que advogados que lidavam com casos de pobreza descreviam comporta-
mentos parecidos, os quais denominavam “Burnout”, de onde nasceu a expressão para o
conceito (MASLACH, 2017, tradução nossa). Ainda nesta fase, a partir dos anos 70, foram
considerados os fatores econômicos, sociais e históricos característicos do Burnout. Com
o crescimento das indústrias, em busca da realização profissional e gratificação por seu
trabalho, o trabalhador americano apresentava mais expectativas de realização, mas não
sabia lidar com as frustrações. Muitos problemas surgiram com a burocratização do trabalho,
levando a uma grande demanda de profissionais altamente especializados, com autonomia
e ideais de realização. Diante disso, a partir de 1970 a 1975, surgiram muitos estudos sobre
Burnout, principalmente nas áreas da educação e da saúde que apresentavam contextos
de trabalho com relacionamento direto entre provedor e destinatário, característica impor-
tante da Síndrome. Por ser tratado pelo meio profissional e não acadêmico, se tornou um
modismo de época, seguindo um caminho contrário, ao invés de ter início a partir de teorias
científicas, surgiupelas situações complexas e reais das organizações (MASLACH, 2017,
tradução nossa).
A segunda fase do conceito – fase empírica – teve um maior reconhecimento cientí-
fico a partir dos anos 80. Nesta, foram publicados livros e artigos escritos de maneira mais
29A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade28A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
precisa e metodológica com modelos delineados a partir de evidência corroborativa. Com
a ampla aceitação do Inventário Maslach de Burnout (MBI), e a Medida de Tédio de Pines
e Aronson (TM) de 1988, medidas padronizadas surgiram para estudar o fenômeno. Após
os anos 80, o fenômeno se expandiu, passando a ser estudado em outros países de lín-
gua inglesa como Canadá e Grã-Bretanha. Nesses países, os modelos de medição foram
utilizados, ignorando-se toda a fase pioneira. Com o MBI, a SB passou a ser considerada
uma Síndrome Multidimensional por apresentar as três dimensões (MASLACH, 2017, tra-
dução nossa). A primeira é a Exaustão Emocional (EE) que trata de uma desistência afeti-
va diante do trabalho por conta do nível elevado de problemas, com esgotamento físico e
mental. A segunda é a Despersonalização (DE), atribuída ao desenvolver-se sentimentos e
atitudes negativas aos clientes, ou seja, o trabalhador se torna frio e impessoal em relação
às pessoas a quem presta o serviço. Por sua vez, a baixa Realização Profissional (RP) surge
pela falta de envolvimento pessoal no trabalho, com insatisfação, dificuldades nas habilida-
des e realização do trabalho, pensa-se até no abandono da carreira (LEITER; MASLACH;
FRAME, 2015, tradução nossa).
Maslach e Jackson (2017, p. 14, tradução nossa) conceituam Burnout como “uma
síndrome de exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal que
pode ocorrer entre indivíduos que exercem algum tipo de trabalho com pessoas”.
Outras definições foram formuladas e mesmo com suas diferenças há um consenso
em cinco características entre os autores, a primeira é sobre a predominância em sintomas
disfóricos como esgotamento mental ou emocional, fadiga e depressão; em segundo, há uma
maior ênfase em sintomas mentais e comportamentais do que nos físicos, apesar de queixas
físicas atípicas; em terceiro, os sintomas se relacionam exclusivamente ao trabalho; em quarto
os sintomas se manifestam em pessoas “normais” que não apresentavam psicopatologias
anteriormente; por fim, a diminuição da eficácia e desempenho no trabalho ocorrem devido
a atitudes e comportamentos negativos (MASLACH, 2017, tradução nossa).
Critérios diagnósticos subjetivos e objetivos para a Síndrome de Burnout foram aponta-
dos por Bibeau et al. (1989, tradução nossa apud MASLACH, 2017, tradução nossa). Os sub-
jetivos tratam da baixa autoestima com o sentimento de incompetência profissional, sem que
apresentem identificação de doença orgânica, os pacientes demonstram sintomas físicos de
angústia, tornam-se mais irritados, negativos e com baixa concentração. Dentre os critérios
objetivos, há a diminuição no desempenho do trabalho geralmente observado por todos
os envolvidos com o sujeito com Burnout, sejam clientes, supervisores ou colegas. Algo
importante a mencionar é que o critério diagnóstico para o Burnout deve ser diferenciado,
com uma ampla avaliação, mostrando que não se trata de incompetência profissional, já
que apresentava bom desempenho no trabalho por período significativo e depois passou a
30A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
declinar. Outro ponto são as psicopatologias que não ocorriam, mas depois de um tempo
passaram a se apresentar e, por fim, não se deve confundir os sintomas do Burnout com
os ocasionados por problemas relacionados à família ou fora do contexto de trabalho, daí
a necessidade de um levantamento aprofundado do médico para um diagnóstico efetivo
(MASLACH, 2017, tradução nossa).
As pesquisas sobre Burnout se estenderam a outros grupos como policiais, agentes
penitenciários, guardas prisionais, bibliotecários, ao mundo dos negócios, nos esportes, em
ativismo político e até nas famílias, porém, concentrou-se mais em questões do trabalho,
levando em conta a satisfação, cargas de trabalho, estresse, absenteísmo, expectativas de
emprego, relações entre pessoas, com os clientes, tipo de posição e tempo no cargo e po-
líticas da empresa. Além destes, fatores pessoais como sexo, idade e estado civil também
foram estudados, além de aspectos da personalidade como controle e vigor no trabalho,
saúde pessoal, apoio social em casa, valores pessoais e comprometimento (MASLACH,
2017, tradução nossa). O Burnout, portanto, esteve em pesquisas, em muitas disciplinas
acadêmicas e profissionais desde a sua descoberta, inspirando o desenvolvimento de cons-
truções teóricas e métodos práticos para aliviar a síndrome (MASLACH; LEITER, 2016,
tradução nossa).
As dimensões do Burnout não são alcançadas individualmente, daí sua teoria multidi-
mensional, ou seja, elas se entrelaçam com uma afetando a outra, podendo agravar sintomas
e situações cotidianas do trabalho (MASLACH, 2017, tradução nossa). Desta forma, a exaus-
tão emocional que ocorre pela sobrecarga no trabalho, por exemplo em um professor, pode
levá-lo a ter menor autoconfiança. Com uma percepção negativa para suas capacidades,
há a diminuição na realização pessoal, reduzindo a qualidade do ensino e afastamento dos
alunos, levando à despersonalização, com as três dimensões afetadas, chega-se então, ao
grau final da síndrome (BIANCHI; SCHONFELD, 2014, tradução nossa).
Assim, o Burnout trata de um fenômeno psicossocial que ocorre pelo estresse crônico
no ambiente do trabalho (DALCIN; CARLOTTO, 2018) que foi reconhecida no Brasil pela
Previdência Social a partir de 1999. O Ministério da Saúde, em sua Portaria n.º 1.339 de
18 de novembro de 1999, apresenta, de acordo com o Grupo V da CID-10, uma lista de
Transtornos Mentais e do Comportamento relacionados com o trabalho (Lista B – anexo
II), dentre eles está a “Sensação de Estar Acabado (Síndrome de Burn-out), Síndrome do
Esgotamento Profissional (Z73.0)”. Ela ainda especifica, enquanto agentes etiológicos ou
fatores de risco de natureza ocupacional, o “ritmo de trabalho penoso (Z56.3) e outras difi-
culdades físicas e mentais relacionadas com o trabalho (Z56.6)” (BRASIL, 1999).
Apesar de estar presente na CID-10, o Burnout ainda não é declarado como um trans-
torno psiquiátrico e esse diagnóstico proporcionaria um reconhecimento oficial como problema
31A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade30A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
pessoal legítimo, mas enquanto não é reconhecida, seu laudo diagnóstico deve tratar do
estágio final de um longo processo de adoecimento (MASLACH, 2017). Nesse caso, em 28
de maio de 2019, a Organização Mundial da Saúde declarou que a Síndrome de Burnout será
incluída como um fenômeno ocupacional na próxima revisão da Classificação Internacional
de Doenças (CID-11) de forma mais detalhada que na versão anterior fazendo parte de
“Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com os serviços de saúde”. Esta
nova revisão entrará em vigor em 2022 (WHO, 2019, tradução nossa).
Assim, no Brasil, o profissional que apresentar diagnóstico da Síndrome de Burnout
possui assegurado por lei seu afastamento não como licença saúde, mas como acidente de
trabalho, cabendo ao empregador adotar as medidas necessárias de segurança ao traba-
lhador, como mostra o artigo 19 da lei n.º 8.213/1991 e seu inciso 1.º a seguir:
Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a ser-
viço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho
dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesão
corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução,
permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. § 1.º A empresa é
responsável pela adoção e uso dasmedidas coletivas e individuais de proteção
e segurança da saúde do trabalhador (BRASIL, 1991, p. 14809).
Inicialmente, o trabalhador adoecido entra pela Previdência com Auxílio-Doença, B31
(auxílio doença comum, com período de carência), recebendo um CID Securitário com
um dos sintomas da Síndrome como depressão ou ansiedade, por exemplo. Após diag-
nóstico completo de Burnout dado pelo médico, o trabalhador terá conversão de B31 a
B91 como acidente do trabalho ou doença ocupacional. Quando é dada entrada ao código
B91 da Previdência pelo médico assistente é realizada a CAT (Comunicação de Acidente
de Trabalho), tornando-se um caso notificado no Sistema do INSS – Instituto Nacional do
Seguro Social (BRASIL, 2013). E a CAT deve ser efetivada pelo empregador como previs-
ta pelo artigo 22 da lei n.º 8.213/1991. No caso do pedido B91, não há período mínimo de
carência. Após o retorno do afastamento é garantido ao securitário, estabilidade de um ano
como previsto na Resolução n.º 1.236/2004 (BRASIL, 2013).
Nesse sentido, em 2006 foi criado o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP)
para a caracterização do acidente do trabalho, permitindo assim ao médico perito do INSS
vincular o problema de saúde à atividade profissional do securitário. Essa lei, portanto, trouxe
garantias em relação às doenças ocupacionais clássicas e às que apresentavam novos ris-
cos, como por exemplo, as psicossociais, no caso, os transtornos mentais (BRASIL, 2013).
A Síndrome de Burnout é causada por cargas excessivas de trabalho, principalmente
em atividades laborais que apresentam problemas inerentes às relações, por isso afeta
profissões que lidam diretamente com pessoas como é o caso da medicina, enfermagem
32A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
e a do professor. Na profissão docente encontram-se presentes inúmeros estressores ocu-
pacionais que causam no educador um desequilíbrio entre as demandas do trabalho e sua
percepção de capacidade em realizá-las ou não. Além destes, existem também os estres-
sores psicossociais, seja por conta do contexto institucional e social que a escola apresenta,
como também, pelas inúmeras funções do professor (CARLOTTO; CÂMARA, 2017). Há,
na área, grandes responsabilidades, porém, a sociedade atual estabelece uma contradição
ao trabalho docente, pois deixa de lado o ensino cultural e científico para dar primazia à
adaptação às novas tecnologias, com foco na eficiência, produtividade e racionalidade. Com
essa dualidade, surgem cada vez mais dificuldades para o trabalho do professor, que além
da atividade de ensinar os conteúdos escolares, possui outros encargos como “estimular o
potencial de aprendi zagem dos alunos, ensiná-los a conviver em sociedade, cobrir as lacu-
nas da instituição escolar, garantir a articulação entre escola e comunidade, e buscar, por
conta própria, sua requalificação profissional” (TOSTES et al., 2018, p. 89).
Diante de tantas dificuldades, a saúde do professor pode acabar se comprometendo, tor-
nando-se uma das categorias mais sujeitas ao sofrimento mental. A Organização Internacional
do Trabalho (OIT) coloca como a segunda categoria mais comprometida em doenças ocu-
pacionais (TOSTES et al., 2018). Esta realidade se justifica, também, pela necessidade de
se criar um professor flexível, esvaziando o trabalho docente de significados (TOSTES et al.,
2018). Neste sentido, independentemente do contexto em que os professores atuam, as
taxas para as dimensões da síndrome geralmente são altas, caracterizando esta categoria
profissional como vulnerável ao Burnout (SILVA; BOLSONI-SILVA; LOUREIRO, 2018).
No trabalho, as necessidades da pessoa devem ser levadas em conta, visto que os
indicadores positivos a elas se relacionam ao bem-estar físico, mental e à saúde somática.
Caso não sejam alcançadas, com o passar do tempo, podem levar à Síndrome de Burnout
e outros transtornos como a ansiedade e a depressão. Assim, a adaptação da pessoa em
seu ambiente de trabalho pauta-se em dois fatores, o primeiro trata do ajuste da demanda do
ambiente de trabalho e a capacidade/habilidades que a pessoa tem para suas responsabili-
dades e o outro leva às necessidades do próprio colaborador e o que o ambiente de trabalho
tem a lhe oferecer. Nesse sentido, será que um professor possui habilidades e capacidade
para lidar com as demandas de seu ambiente de trabalho, a escola? Suas necessidades
e vontades condizem com o que a escola tem a lhe oferecer? Caso essas questões sejam
alcançadas positivamente, provavelmente esse professor está realizado em seu ambiente de
trabalho e, consequentemente, os ajustes destas necessidades se relacionam a indicadores
positivos de bem-estar físico e mental (BRANDSTÄTTER; JOB; SCHULZE, 2016, tradução
nossa). As mulheres são as mais afetadas pela síndrome de Burnout. Alguns estudos jus-
tificam isso, pois, além do estresse laboral, possuem características sociais que as fazem
33A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade32A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
atuar também em casa com a família, sobrecarregando-as com maiores responsabilidades
que os homens (MORAES; CALAIS; VERARDI, 2019, tradução nossa; STIER-JARMER
et al., 2017, tradução nossa).
As estimativas de Burnout em relação à docência em Educação Física não são favo-
ráveis. Por se tratar de uma profissão estressante caracterizada por altos níveis de Burnout,
pode acarretar problemas mentais e físicos. A Educação Física apresenta, ainda, mais um
agravante, no caso, o baixo status social da própria profissão, pois esta não possui impor-
tância tanto entre o corpo docente, gestão e funcionários da escola, como entre alunos,
comunidade escolar e no ambiente de sala de aula, tornando-a frustrante (RUFINO, 2017).
A revisão sistemática de Nascimento et al. (2019) buscou analisar textos sobre a satis-
fação no trabalho de professores de educação física que atuam na educação básica. Uma
conclusão importante colocada é que os docentes se encontram satisfeitos com a avaliação
global do trabalho, tanto em relevância social, leis e normas, progressão na carreira e auto-
nomia, porém descontentes sobre a remuneração e condições de trabalho.
A análise quantitativa sobre a atuação do professor de Educação Física, colocada por
Rufino (2017), traz como principais barreiras para o trabalho a análise do plano de carreira,
com cargas elevadas de trabalho e baixa remuneração; a falta de infraestrutura (materiais
e locais adequados à prática profissional); as barreiras do currículo imposto quando os pro-
fessores pouco participam da organização deste currículo, tendo que ao mesmo tempo ser
protagonistas dele e a falta de reconhecimento social. Assim, estes são parte dos problemas
apontados por professores na educação brasileira, sendo fatores que elevam os níveis da
Síndrome de Burnout entre os docentes (TOSTES et al., 2018).
Ainda sobre a satisfação no trabalho de professores de Educação Física, Castillo et al.
(2017, tradução nossa) ao identificarem questões sobre a paixão pelo ensino, perceberam
que quando utilizada a paixão obsessiva, a qual resulta de uma internalização controlada da
atividade na identidade da pessoa, os indivíduos não estavam completamente no controle
da atividade, elevando aos indicadores de Burnout, ou seja, quando os professores sentiam
paixão harmoniosa (HP) para o trabalho, relatavam menos cansaço emocional, já com a
paixão obsessiva (OP), eles relatavam estarem emocionalmente exaustos, portanto, ao
sentirem-se no controle de suas funções, apresentavam níveis mais baixos para o Burnout.
Geralmente, estudos apresentam classificação média em todas as Dimensões do
Burnout (BARRET et al., 2016, tradução nossa; CARRARO et al., 2010, tradução nossa).
Esse nível moderado pode estar associado a dois fatores, os organizacionais, onde as
condições de trabalho têm um papel importante ao Burnout e; aos individuais, como traços
de personalidade neuróticos,que geram maiores índices de esgotamento (BARRET, 2016,
tradução nossa).
34A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Ao verificar a presença da Síndrome de Burnout entre 94 professores de Educação
Física de escolas municipais de Pelotas identificou-se que 60,6% estavam com alta exaustão
emocional; 22,3% com alta despersonalização; 34% com baixa realização profissional. Dentre
eles, 8,5% sinalizaram a Síndrome. Indicando a necessidade de atenção dos gestores para
a prática de políticas públicas na prevenção de doenças em professores (SINOTT et al.,
2014). Outro estudo que buscou investigar a Síndrome em professores de Educação Física
de várias áreas de atuação inclusive a da escola, indicou a presença de Burnout em 10,2%
da amostra selecionada de 588 professores, ou seja, apresentam a Síndrome um em cada
dez professores participantes (GUEDES; GASPAR, 2016). Em Sergipe, foram avaliados 164
professores de Educação Física de escolas públicas sobre o nível da Síndrome de Burnout,
encontrou-se um nível moderado de Burnout na amostra, com maiores índices de Exaustão
Emocional e Despersonalização. Profissionais acima de trinta anos de carreira possuíram
maiores níveis de Despersonalização (SILVA et al., 2017, tradução nossa).
Estados de Humor
Dalgalarrondo define o humor ou estado de ânimo como “o tônus afetivo do indiví-
duo” (2019, p. 155). Ele coloca essa expressão para caracterizar o humor como um estado
emocional do momento em que a pessoa se encontra, aumentando ou reduzindo o impacto
das percepções que se tem em determinada vivência. O humor pode ser caracterizado
mais a fundo a partir de três itens: Estabilidade, por sua consistência durante um dia; pela
Reatividade, quando há a mudança em resposta a eventos ou acontecimentos externos e
pela Duração, com a persistência do humor por dias, semanas, ou até por anos, como nos
casos da depressão, por exemplo, (BALDAÇARA et al., 2018) mostrando a importância da
avaliação dos estados de humor, tendo em vista a evolução para transtornos de humor.
Os estados de humor são relativamente duradouros, podem durar horas ou dias, es-
tados mentais que não são desencadeados por um estímulo específico não têm correlatos
neurofisiológicos observáveis ou mensuráveis e não são controláveis. Já as emoções, são
desencadeadas por um estímulo específico e relativamente curtas (duram segundos ou
minutos), estão associadas a mudanças neurofisiológicas mensuráveis e podem ser con-
troladas (THOM et al., 2019, tradução nossa).
Os estudos e as escalas de avaliações sobre os Estados de Humor têm início com
McNair, Lorr e Droppleman em 1971. Eles desenvolveram a escala Multidimensional de autor-
relato, POMS (Profile Of Moods State – Perfil dos Estados de Humor) ao analisar a resposta
ao tratamento farmacológico e psicoterapêutico em pacientes psiquiátricos, identificando
comportamentos e emoções que se modificavam antes e depois das sessões e medica-
ções (SEARIGHT; MONTONE, 2017, tradução nossa). Essa escala passou a ser bastante
35A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade34A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
utilizada no contexto esportivo, com uma versão unipolar, em estudos que relacionavam
humor-desempenho. Durante os anos de 1970 e 1980, Morgan et al. (1987, tradução nossa)
realizaram estudos para avaliar o perfil de humor e, consequentemente, o desempenho de
atletas de remo, atletismo, natação e lutas. Morgan declarou que se tratava do “teste dos
campeões”, pois acreditava que o desempenho de sucesso do atleta deveria ser classificado
em relação ao Perfil de Iceberg para as seis dimensões, tensão, depressão, irritação, vigor,
fadiga e confusão, como mostra o Quadro 1 com essas variáveis e suas contextualizações.
Quadro 2. Variáveis dos Estados de Humor
Variáveis do Humor Definições Emoções
Tensão Estado de tensão musculoesquelético e preocupação. em pânico, ansioso, preocupado,
nervoso
Depressão Estado emocional de desânimo, infelicidade. deprimido, desanimado, infeliz
Raiva Estado de hostilidade, relativamente aos outros. irritado, amargo, zangado, mal-humo-
rado;
Vigor Estado de energia, vigor físico. vivo, enérgico, ativo, em alerta
Fadiga Estado de cansaço, baixa energia. desgastado, exausto, sonolento,
cansado;
Confusão Estado de atordoamento, instabilidade nas emoções. confuso, incerto
Fonte: Adaptado de Rohlfs, et al. (2008), Brandt, et al. (2016, tradução nossa).
Tratava-se, portanto, do “teste dos campeões” porque perceberam que atletas de elite
alcançavam resultados inferiores à média da população normal nos fatores negativos (ten-
são, depressão, irritação, fadiga e confusão) e, por outro lado, resultados maiores no vigor
psíquico (MORGAN, 1987, tradução nossa).
Figura 1. Perfil de Iceberg e Perfil de Iceberg invertido com alterações nos estados de humor proposto por Morgan (1987).
Fonte: Adaptada de Morgan (1987, tradução nossa).
36A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Compreende-se o Perfil de Iceberg, pelas dimensões negativas posicionadas abaixo
da “superfície” (linha da água) onde está a média da população normal. Seu único fator po-
sitivo (vigor) encontra-se acima da média normal como mostra a Figura 2. De acordo com
Morgan (1987, tradução nossa), os atletas que alcançassem este perfil se enquadravam
nos padrões de saúde mental positiva, já aqueles que não se enquadravam, apresentavam
um Perfil de Iceberg invertido, ou seja, indicavam saúde mental negativa.
A partir de estudos com populações compostas por adultos e adolescentes, surgiu a
Escala de Humor de Brunel, em 2003. Terry, Lane e Fogarty adaptaram a versão unipolar
mais curta de POMS, capaz de avaliar os atletas rapidamente antes e após os treinos ou
competições (LANE, 2007, tradução nossa). No Brasil, foi posteriormente adaptada por
Rohlfs (2008) admitindo seus 24 itens que avaliam as mesmas seis dimensões.
De acordo com Brandt et al. (2016, tradução nossa), há relação positiva entre estados
de humor e saúde mental, quando investigada a consistência da escala de BRUMS entre uma
população aparentemente ativa e saudável, identificou-se uma consistência interna adequada
a todas as dimensões, apontando também, suporte de validade à diferentes populações.
No contexto esportivo, observou-se entre 37 corredores de rua amadores, a influência
positiva no estado de humor ao analisar antes e pós corrida, principalmente para tensão,
vigor, fadiga e confusão, essa avaliação com a escala, demonstrou o quão importante é a
avaliação dos fatores psicológicos antes de competir, a fim de encontrar soluções de enfren-
tamento para reduzir o estresse, pois a competição traz cargas psíquicas e comportamentais
que podem comprometer o desempenho do participante (MELO et al., 2018).
Fora do contexto esportivo, em estudo com professores de educação física de aca-
demias identificou-se que 32% dos profissionais apresentaram Perfil de Iceberg invertido,
demonstrando estressores psicossociais relacionados ao trabalho/vida moderna (VIANA
et al., 2018, tradução nossa). Em estudo com 3 grupos (n = 2,364, n = 2,303, n = 1,865) de
pessoas de idades, etnias e níveis de estudo variados, identificou que 11% da população
geral apresentou perfil inverso de iceberg, esse resultado é suficiente para justificar investi-
gações em outros ambientes além do esporte (PARSONS-SMITH; TERRY; MACHIN, 2017,
tradução nossa).
Assim, percebe-se que os níveis de estresse no trabalho afetam significativamente
os professores e geram dificuldades nos âmbitos mental e emocional. Nesse sentido, são
necessárias estratégias que previnam e reduzam os níveis de estresse e, consequentemen-
te, a aquisição da Síndrome de Burnout e problemas nos Estados de Humor dos sujeitos.
Assim, a seguir, identifica-se o potencial da aptidão física para a prevenção dos transtornos
mentais descritos.
37A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade36A Psicologia e SuasInterfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Aptidão Física, Síndrome de Burnout e Estados de Humor em professores de educação
física
A busca por uma vida mais saudável é pauta de muitas discussões ao redor do mun-
do. Em uma sociedade do consumo, onde o trabalho possui extremo valor, é dada prioridade
a hábitos de entretenimento geralmente mais sedentários, como é o caso da televisão, vídeo
games, computadores, celulares, internet e, portanto, as pessoas acabam deixando de lado
muitas vezes hábitos saudáveis como se exercitar, perdendo foco na aptidão física, algo
potencialmente importante para melhorias nas condições físicas e no dia a dia de cada um.
Por aptidão física compreende-se a “capacidade de realizar tarefas diárias como vigor e
vigilância, sem fadiga excessiva, e com ampla energia para desfrutar de atividades de lazer
e enfrentar emergências imprevistas”, sendo a Aptidão Física considerada em dois âmbitos,
com componentes relacionados à saúde como resistência cardiorrespiratória, composição
corporal, flexibilidade, força e resistência muscular ou relacionados à habilidade, tais quais, a
agilidade, a coordenação motora, o equilíbrio, o poder (capacidade de realizar um trabalho),
o tempo de reação e a velocidade (ACSM, 2018, p. 2, tradução nossa). Nesse caso, quando
possível, a orientação profissional pode ser uma boa opção para sistematizar a atividade
física na busca de potencializar os objetivos do treinamento e, consequentemente, conquistar
mudanças significativas no que tange a esses objetivos como melhoria na aptidão cardior-
respiratória, aquisição de massa muscular, maior flexibilidade e equilíbrio, emagrecimento,
dentre outros (ACSM, 2018, tradução nossa).
Assim, sobre a manutenção da Aptidão Física, a American College of Sports Medicine
coloca ainda que adultos mais ativos possuem menor taxa de mortalidade por doenças
crônicas como as cardíacas, diabetes e a depressão. Nesse sentido, para manter a saúde
e diminuir a probabilidade de doenças crônicas, recomenda-se a todos os adultos, entre
18 e 65 anos, no mínimo 30 minutos de atividade física moderada em cinco dias ou mais
por semana, ou no mínimo 20 minutos de atividade aeróbica vigorosa em 03 dias ou mais
por semana. Pode haver combinações entre atividades moderadas e vigorosas, atendendo
esta recomendação. Além disso, é prevista a necessidade de atividades que mantenham
ou aumentem a força e resistência muscular ao menos 2 dias na semana (ACSM, 2018,
tradução nossa).
A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, indica que, para uma melhor manuten-
ção da saúde, adultos com idades de 18 a 64 anos pratiquem atividade física aeróbica de
intensidade moderada por pelo menos 150 minutos por semana, ou 75 minutos de atividade
aeróbica vigorosa por semana, ou ainda, uma combinação das duas propostas (WHO, 2010,
tradução nossa).
38A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Ao realizar a prática de atividade física recomendada, obtêm-se benefícios como me-
lhorias na função cardiovascular e respiratória, redução dos fatores de risco de doenças
cardiovasculares, função física aprimorada e vida independente em indivíduos mais velhos,
sentimentos melhorados de bem-estar, melhor desempenho no trabalho, em atividades
recreativas e esportivas, redução do risco de quedas e lesões por quedas em indivíduos
mais velhos, prevenção ou mitigação de limitações funcionais em idosos, terapia eficaz para
muitas doenças crônicas, melhorias nas funções cognitivas e também redução da ocorrência
de transtornos mentais como ansiedade e depressão (ACSM, 2018, tradução nossa).
O efeito da Atividade Física, enquanto benefício para o enfrentamento da Síndrome
de Burnout e saúde mental nas mais variadas áreas de atuação ocupacional, é indicado
em muitos estudos (HATCH et al., 2018, tradução nossa; MORAES; CALAIS; VERARDI,
2019, tradução nossa; STIER-JARMER et al., 2016, tradução nossa). Acredita-se, portan-
to, que a Síndrome de Burnout é um mal que pode ser combatido também por meio de
atividades físicas que levem à aptidão física. Em estudo sobre Demandas de Autocontrole
(Self-Control Demands – SCDs), concluiu-se que a aptidão física é de extrema importância
enquanto recurso pessoal para diminuir a influência adversa de SCDs em vários indicado-
res de tensão psicológica como os sintomas de Burnout e necessidades de recuperação
(SCHMIDT et al., 2016).
A revisão sistemática de Naczenski et al. (2017, tradução nossa) aponta poucos es-
tudos que relacionam atividade física e Burnout. Dentre esses estudos, identificou-se que
se engajar em atividade física por uma ou duas vezes por semana durante quatro a dezoito
semanas tem efeitos promissores na redução de sintomas do Burnout. Embora entenda-se
que essa redução é possível, não se sabe qual atividade e quanto de intensidade é mais
eficaz para tanto. Infelizmente a dificuldade em se engajar em atividades físicas encontra-se
em empregados mais exaustos. A maioria dos estudos que fazem a relação de atividade
física e Burnout, descrevem o exercício aeróbico como eficaz, porém, exercícios de força
e flexibilidade como ioga, treinamento de resistência e pilates também são capazes de
reduzir os sintomas do Burnout, assim como os da depressão (NACZENSKI et al., 2017,
tradução nossa).
O comportamento de professores em relação à saúde é bastante preocupante, mais de
1/3 dos professores pesquisados por Wirth et al. (2016, tradução nossa) relataram distúrbios
musculoesqueléticos ou transtorno mental. Para o índice de padrões alimentares, 46% dos
professores/assistentes de Jardim de Infância tinham padrões desfavoráveis. Em comparação
a enfermeiros, os professores possuem 2,9 vezes mais chances de sofrerem de transtornos
mentais (WIRTH et al., 2016, tradução nossa).
39A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade38A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Diante dessa preocupante realidade, a revisão sistemática de Ferreira et al. (2016) sobre
a Síndrome de Burnout e atividade física em professores, constatou que os níveis de ativi-
dade física desses docentes foram considerados muito baixos. Em relação à atividade física
e Burnout, percebeu-se que os índices da síndrome eram menores quando a intensidade,
frequência e duração dos exercícios eram maiores, o mesmo ocorreu para o absenteísmo
e a exaustão emocional, assim, professores fisicamente ativos são menos propensos ao
Burnout. Portanto, para contribuir com a prevenção de problemas de saúde (físicos e men-
tais) dos professores, a atividade física pode servir como estratégia eficaz, de baixo custo,
acessível, com bons resultados e de manutenção prolongada para as instituições de ensino.
Outro estudo com 978 professores de ensino fundamental e médio, constatou que
71,9% dos professores apresentaram atividade física insuficiente, sendo que as mulheres
tiveram maiores índices da falta de atividade física que homens, esta realidade se repetiu
também naqueles com dores crônicas, com pior estado de saúde e IMC alto. Acredita-se
que essa realidade ocorre, pois, o trabalho docente dificulta a prática de atividade física no
tempo livre. Se comparados com professores de outras áreas, os professores de Educação
Física apresentaram maior nível de atividade fora do tempo de trabalho, porém, dentre
os 85 pesquisados, mais da metade indicaram índices abaixo dos 150 minutos/ semana
(DIAS et al., 2017).
Em estudo que relaciona o nível de aptidão física (VO2) com o estresse no trabalho
(Burnout) em professores e médicos, Moraes, Calais, Verardi (2019, tradução nossa) sepa-
raram os participantes em dois grupos, um de risco e outro de baixo risco. Na amostra, 18%
possuíam elevados níveis de Despersonalização (DE) e Exaustão Emocional (EE), baixos
níveis de Realização Profissional (RP) e inatividade física. Aos que não apresentaram altos
índices de Burnout, percebeu-se melhor aptidão física. Para tanto, os autores concluíram que
a prática de exercíciosfísicos quando de acordo com as recomendações à saúde servem
como estratégia eficiente para a diminuição de sintomas e para reverter o quadro da doença
em categorias com grandes cargas de trabalho.
Encontrou-se apenas dois estudos que relacionam aptidão física e Síndrome de Burnout
em professores de educação física. O primeiro ressalta a importância da aptidão física dos
professores e os efeitos positivos que pode exercer na prevenção do esgotamento dos
mesmos, além disso, a autopercepção de boa condição física pode ser desejável para que
o docente lide com ou evite sintomas de Burnout, particularmente se a realização pessoal
for reduzida (CARRARO et al., 2010, tradução nossa). Assim, a realização de atividades
físicas frequentes parece estar positivamente ligada à melhora sobre os sintomas de Burnout
e estado de humor. Deste modo, as organizações que desejam reduzi-lo de forma proativa
40A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
podem fazê-lo incentivando seus funcionários a ter acesso a programas de exercícios re-
gulares (BRETLAND; Thorsteinsson, 2015, tradução nossa).
O segundo estudo, de Reyes-Oyola e Palomino-devia (2019) sobre professores de
educação física e Burnout, traz uma amostra de 111 professores e relacionou níveis de
Burnout com o Índice de massa copórea (IMC). Os níveis de Burnout são baixos no geral,
porém, 22 professores (19,8%) apresentaram níveis elevados, sendo 15 indicados para o
perfil 1 (síndrome sem sentimento de culpa) e 07 com perfil 2 (síndrome com sentimento de
culpa). Constatou-se ainda, que a maioria dos 111 professores apresentavam sobrepeso e
obesidade, o que aumenta o risco de DCNTs. Mas não encontrou correlação entre peso e
Burnout. Nos homens a prevalência da síndrome foi maior, enquanto nas mulheres os nú-
meros foram maiores nas dimensões exaustão física e emocional, indolência e sentimento
de culpa. Uma correlação significativa foi encontrada com os níveis de exaustão mental e
a idade dos participantes, que indicaram altos níveis principalmente depois dos 40 anos.
Nesse sentido, Silva et al. (2017, p. 83, tradução nossa), coloca que “quanto maior o tempo
de serviço, maior o contato com estressores e o desencadeamento de patologias relacio-
nadas ao trabalho.
Ao relacionar o trabalho do professor e sua saúde mental, indica-se a implementa-
ção de programas de treinamento capazes de indicar o que é e como se dá a Síndrome
de Burnout, quais estratégias efetivas para prevenir e intervir. Para tanto, intervenções
individuais e laborais são importantes e não devem ser negligenciadas (REYES-OYOLA;
PALOMINO-DEVIA, 2019).
Tendo em vista que a atividade física é fator decisivo para melhoras dos sintomas de
ansiedade e depressão, considera-se também as melhorias nos estados de humor (ACSM,
2018, tradução nossa). Um estudo que relacionou aptidão física em professores, concluiu-se
que durante um período de 12 semanas de exercícios aeróbicos houve ganhos à autoestima
e aos níveis de energia, diminuindo o pessimismo. Os sintomas de humor melhoraram, in-
cluindo estresse, depressão e ansiedade, com melhorias também na capacidade psicossocial,
pois a oportunidade de se conectar com o grupo impactou positivamente no apoio social
percebido (sentimento de amizade) elevando assim, os resultados de humor (KEATING,
2018, tradução nossa).
Em outro estudo, o exercício aeróbico de intensidade moderada reduziu o humor rai-
voso entre homens com níveis elevados de raiva e suavizou o aumento da raiva quando
induzido pela visualização de imagens. Para o humor ansioso ocorreu o mesmo quadro,
o que justifica que os exercícios podem servir para a prevenção dos estados negativos de
humor. A redução dos sentimentos de raiva após o exercício é significativa de acordo com
41A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade40A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
dados negativos de saúde pública em relação aos níveis do estado de raiva (THOM et al.,
2019, tradução nossa).
É consenso a relação positiva entre estados de humor e saúde mental (BRANDT, 2016,
tradução nossa; INDRA et al., 2018, tradução nossa; MELO, 2018). O nível de estados de
humor positivo entre os homens mostra-se maior que entre mulheres, indicando a vulnera-
bilidade das mulheres para a síndrome do excesso de treinamento. Analisar as mudanças
no estado de humor pode ser indicador na percepção do excesso de treinamento, ou seja,
do estresse (INDRA et al., 2018, tradução nossa).
Estudos apontam o valor positivo da atividade/exercício físico sobre os Estados de
Humor desde os constructos apontados pela Escala de Humor de Brunel (POMS), até o
desenvolvimento de ansiedade e depressão e outros transtornos mentais (MIKKELSEN
et al., 2017, tradução nossa).
Os dados aqui apresentados sobre Burnout e Perfil de Humor podem servir de incentivo
às empresas e espaços de trabalho para investirem em projetos que estimulem a atividade/
exercício físico a seus funcionários como medida de prevenção a doenças crônicas sejam
elas físicas ou mentais. Assim, uma academia de ginástica ou projetos para professores na
própria escola com um programa que integre bem-estar, pode melhorar a saúde de profes-
sores e funcionários, bem como os relacionamentos entre os pares, como visto no estudo
de Parker et al. (2019, tradução nossa).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Compreender as doenças que estão alcançando a população atual é importante para
encontrar medidas capazes de auxiliar na prevenção e combate das mesmas. Com o alto
índice de transtornos mentais afetando a população, o trabalho deve ser foco de mais estu-
dos que sejam capazes de identificar fatores estressores e formas de melhorias para mudar
efetivamente as condições do trabalhador, principalmente no ambiente escolar, ao qual é
extremamente afetado por muitos fatores estressantes, como vistos, a estrutura da escola,
questões burocráticas e o comportamento dos alunos.
O professor de educação física, por sua vez, além de ter os fatores citados acima,
apresenta a realidade do baixo status social da própria profissão, já que tanto os professo-
res, a gestão e funcionários da escola, como alunos e comunidade escolar desvalorizam
o trabalho apontando a educação física como menos importante que as outras disciplinas.
Porém, esses profissionais parecem ser menos afetados por transtornos mentais e outras
doenças crônicas, tendo em vista maiores índices de aptidão física.
Os estados de humor são afetados negativamente durante a relação do professor
com o trabalho levando a altos índices de tensão, raiva e depressão, fatores que interferem
42A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
significativamente na capacidade do trabalho do professor com os alunos, equipe e co-
munidade escolar.
A Síndrome de Burnout é uma doença multidimensional que afeta consideravelmente
os professores e em seu estágio mais grave, é capaz de leva-los à alta exaustão emocional,
pouca ou nenhuma realização profissional e principalmente, a se tornarem frios diante de
seus alunos gerando um processo de despersonalização.
O estudo indicou que mesmo os transtornos de humor como a própria Síndrome de
Burnout afetam consideravelmente a saúde do professor, inclusive do professor de educação
física, que mesmo sendo um profissional voltado para a saúde, por suas altas cargas de
trabalho e condições estruturais, pode não manter a atividade física e de lazer de maneira
efetiva. Assim, essa má qualidade na saúde onera as empresas, que podem ser de cunho
público ou privado. Para tanto, são indicadas práticas de atividade física regular que alcancem
a prevenção e manutenção da saúde do trabalhador, enquanto saída interessante quando
ofertada por essas empresas, principalmente tendo em vista que a atividade física pode
ser realizada em espaços públicos e com baixos custos. Para que essas atividades sejam
efetivas, recomenda-se, portanto, no mínimo 30 minutos de atividade física moderada porpelo menos cinco dias na semana, ou no mínimo 20 minutos de atividade aeróbica vigorosa
em 03 dias ou mais por semana.
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao professor Dr. Carlos Verardi pela parceria, paciência e confiança nesse
processo de trabalho e aos professores que participaram da minha banca de defesa do
mestrado, profa. Dra. Adriana Campos Meiado e ao querido professor Dr. Willer Maffei,
que com muita sabedoria nos acompanhou em todo o curso. Gratidão também aos colegas
do grupo de pesquisa em Morfologia, Fisiologia e Psicologia Aplicadas ao Desempenho
Humano e Saúde no Exercício Físico da UNESP-Bauru, em especial aos parceiros Mayra
Grava, Anderson Malmonge e Igor Malinosqui. Finalmente a todos os professores e amigos
da primeira turma do PROEF-Bauru, à Coordenação do curso e à CAPES pela possibilidade
do mestrado se concretizar.
43A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade42A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
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03
As relações de poder entre os gêneros
na conjugalidade
Diana Maria da Silva Sousa
10.37885/201202392
https://dx.doi.org/10.37885/201202392
49A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Relações de Poder, Gênero, Sexualidade, Conjugalidade.
RESUMO
Este artigo tem por objetivo compreender como se estrutura a relação de poder entre os
gêneros na conjugalidade, assim como identificar elementos que efetivam a submissão
feminina na relação conjugal. Sendo assim, o referente trabalho é de caráter bibliográfico,
pois foi efetivado por meio de fontes e autores que permitiram uma análise, contendo
uma abordagem realística e executável da temática, valorizando conceitos, ideias prin-
cipais, a problemática da pesquisa e seus objetivos. Mesmo com o crescente aumento
nos estudos referentes a questões de gênero e sexualidade, principalmente a partir do
surgimento dos estudos “Queer” por volta da década de 1980 - estudos que deram início
a partir das teorias sociais de Foucault e movimentos feministas e LGBT - ainda existem
lacunas, que se diferenciam conforme cada contexto cultural, ou seja, variam de acor-
do com a crença e religião. Tais lacunas referem-se a questionamentos como “Porque
mulheres que sofrem violências domésticas permanecem na relação?”; “Porque mesmo
mulheres socialmente estruturadas – formação acadêmica, inseridas no mercado de
trabalho - permeiam seus desejos e ações a partir da ‘permissão do companheiro’?”; “O
que determina a hierarquia na relação conjugal?”; entre outros. A partir dos estudos rea-
lizados nos foi permitido compreender que a sexualidade é entendida como um produto
tanto da linguagem quanto da cultura e da natureza.
50A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
O homem que constituia mulher como um Outro encontrará, nela, profun-
das cumplicidades. Assim, a mulher não se reivindica como sujeito, porque
não possui os meios concretos para tanto, porque sente o laço necessário
que a prende ao homem sem reclamar a reciprocidade dele, e porque, mui-
tas vezes, se compraz no seu papel de Outro.
Simone de Beauvoir, 1970, p. 15
Este artigo aborda as relações de poder na conjugalidade mediante um diálogo entre
as teorias sociais e as pedagogias da sexualidade. Abordar estas temáticas na contempo-
raneidade não é apenas necessário, mas sim fundamental. Pois, dentro de uma perspec-
tiva sócio- histórica, em determinadas épocas, falar sobre sexo, sexualidade, submissão,
era proibido, no qual o sexo era realizado apenas para fins de procriação, mantenedor da
espécie, e inquestionável, principalmente com base nos discursos religiosos e, com isso, o
sexo biológico seria o responsável por determinar o nível de hierarquia na conjugalidade.
Atualmente a sexualidade não é apenas uma questão pessoal, mas social e política, não
sendo considerada como algo apenas biológico, mas construída ao longo de toda a vida,
de muitos modos, por todos os sujeitos.
Neste interim, o objeto deste trabalho é tratar da relação de poder existente na conjuga-
lidade como determinante da submissão feminina. Com isso, se faz necessário compreender
e dialogar sobre crenças e paradigmas acerca da constituição cultural das relações de poder
na conjugalidade, submissão feminina, assim como o assujeitamento que em muitos casos
resulta em violência doméstica, de caráter físico e, sobretudo, a violência psicológica. Este
diálogo se dá a partir do crescente aumento nos estudos referentes a questões de gênero e
sexualidade, principalmente a partir do surgimento dos estudos “Queer” por volta da déca-
da de 1980 - estudos que iniciaram com base nas teorias sociais de Foucault, movimentos
feministas e movimentos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – LGBT.
Porém, ainda existem lacunas, que variam de acordo com cada contexto cultural. Tais lacunas
referem-se a diversos questionamentos, entre eles: “Porque mulheres que sofrem violências
domésticas permanecem na relação?”; “Porque mesmo mulheres socialmente estruturadas,
com alto nível de formação acadêmica, inseridas no mercado de trabalho, permeiam seus
desejos e ações a partir da permissão do companheiro?”; “O que determina a hierarquia na
relação conjugal?”; entre outros.
A partir do exposto, surge como pergunta norteadora deste estudo: “Como as relações
de poder se constituem na relação conjugal em termos da submissão feminina?”. E sendo
assim, na busca por responder este questionamento, temos como objetivos compreender
51A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade50A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
como se estrutura a relação de poder entre os gêneros na conjugalidade, assim como
identificar elementos que efetivam a submissão feminina na relação conjugal, partindo da
diferença biológica para a construção cultural da identidade social de cada sujeito.
O referido estudo foi constituído com base em um levantamento bibliográfico de au-
tores que permitiram uma análise da temática, valorizando conceitos, ideias principais, a
problemática da pesquisa e seus objetivos. Neste sentido, a pesquisa bibliográfica como
método é indispensável na realização de estudos para análise e compreensão de dados
culturais e históricos (CARVALHO et al, 2004). As leituras de materiais que focalizam a te-
mática central do trabalho - a submissão feminina na relação conjugal - iniciaram-se no ano
de 2015. Durante o levantamento realizado, selecionamos os seguintes livros, que foram
usados como bibliografia básica: História da Sexualidade: a vontade de saber, de Michel
Foucault; O Corpo educado: pedagogias da sexualidade, de Guacira Lopes Louro (org);
Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade, de Judith Butler; Gênero,
Corpo, Conhecimento, de Alison Jaggar e Susan Bordo; Teoria Queer: um aprendizado pelas
diferenças, de Richard Miskolci. Além da leitura de artigos que compreendem o período de
2007 à 2016, por trazerem a construção do corpo como fenômeno cultural e as relações de
poder existentes na conjugalidade.
Portanto, a partir dos estudos realizados e das abordagens teóricas destacadas neste
trabalho, realizou-se um diálogo sobre gênero, sexualidade e submissão feminina na con-
jugalidade, à luz da teoria da sexualidade de Foucault (2015), no qual aborda a repressão
sexual e o casal hétero como modelo, em que o poder é definido e incitado através de
discursos por meio da igreja, escola, família e saber médico; estudos de gênero de Butlher
(2015), como uma oposição a regimes de poder baseados em categorias estritas de gênero
e sexualidade, sendo o gênero uma temporalidade socialmente construída; pedagogias da
Sexualidade de Louro (2013), em que a autora aborda a sexualidade como um processo
que envolve rituais, linguagens, fantasias, representações, símbolos, convenções, processos
profundamente culturais, e sendo assim, a sexualidade não seria inerente ao ser humano,
mas sim construída ao longo de toda a vida.
Dentro desse diálogo, fez-se necessária a utilização de artigos que fazem referência
à temática em estudo, trazendo uma visão mais contemporânea do objeto de estudo, as-
sim como uma síntese de teorias bases e a visão de diversos autores. Desta forma, foram
utilizados os seguintes artigos: Gênero, sexualidade e educação: das afinidades políticas
às tensões teórico- metodológicas de Louro (2007), no qual a autora traz a importância em
refletir sobre questões de gênero e sexualidade, devido às distintas formas de conceber o
gênero, além de uma diversidade teórica e metodológica, bem como a pluralidade de práti-
cas pedagógicas ou de intervenção; Simone de Beauvoir. “Não se nasce mulher, torna-se
52A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
mulher” de Santos (2010), este texto trata da vida e obra de Simone de Beauvoir, trazendo
uma análise dos textos de uma feminista, pensadora e filósofa polêmica nos registros aca-
dêmicos da contemporaneidade; Relação de poder entre cônjuges e representações sociais
das estratégias de influência no casal de Poeschl (2016), a autora traz a relação de poder no
casal como um objeto de difícil abordagem pela falta de consenso sobre a definição de poder
familiar e os enviesamentos constatados nos estudos baseados em autorrelatos de tomada
de decisão; A teoria Queer e a questão das diferenças: por uma analítica da normalização
de Miskolci (2007), este artigo afirma que os teóricos Queer delimitavam um novo objeto de
investigação: a dinâmica da sexualidade e do desejo na organização das relações sociais.
Sendo assim, ao longo do trabalho, é trazida de forma mais aprofundada e reflexiva
os diálogos citados anteriormente.
GÊNERO E SEXUALIDADE
Haraway (1995, p. 221) citada por Louro (2007), traz gênero como um conceito que foi
desenvolvido para contestar a naturalização da diferença sexual em múltiplos terrenos de luta.
Ainda que a maioria das sociedades tenha estabelecido, ao longo dos séculos,
a divisão masculino/feminino como uma divisão fundamental e tenha compreen-
dido tal divisão como relacionada ao corpo, não se segue daí, necessariamente,
a conclusão de que as identidades de gênero e sexuais sejam tomadas da
mesma forma em qualquer cultura (LOURO, 2007, p. 207).
Mesmo existindo essa divisão de masculino e feminino em diversas culturas, o signi-
ficado, papéis atribuídos a estes, varia de cultura para cultura e são construídos de formas
distintas no decorrer da história tanto individual quanto cultural. O gênero não deve ser enten-
dido como uma simples categoria analítica; ele funciona como relação de poder. Padrões de
sexualidade feminina são um produto de poder dos homens para definir o que é necessário
e desejável – um poder historicamente enraizado (WEEKS, 2013).
Louro (2007)faz referência a Nicholson (2000), para lembrar que em um determinado
período da história humana, a bíblia era fonte de autoridade e nela se pautavam as explica-
ções para o relacionamento entre homens e mulheres, assim como as diferenças existentes
entre eles. Portanto, nesta época, ao corpo era dada menos importância. Posteriormente,
o corpo passa a ser primordial e torna-se causa e justificativa das diferenças. Onde as
caraterísticas físicas passaram a ser consideradas como o fator primordial para as distin-
ções, e não somente como marca, sinal ou manifestação das distinções. E essa mudança
causa efeitos sobre a forma de conceber e exercitar o poder entre homens e mulheres
(LOURO, 2007, p. 208).
53A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade52A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Essas formas de conceber o poder dependiam e dependem de inúmeros fatores, dentre
eles, geração, raça, nacionalidade, religião, classe, etnia, entre outros, que afetam as múlti-
plas dimensões da vida de mulheres e homens e alteram concepções. As muitas formas de
constituir-se homem ou mulher, assim como as várias possibilidades de vivenciar, regular,
condenar ou negar estas constituições, são promovidas socialmente.
Sendo assim, somos remetidos a compreender que a sexualidade não é apenas uma
questão pessoal, mas social e política, ou seja, tem a ver com nossas crenças, ideologias e
imaginações quanto ao nosso corpo. Assim como, o fato de que a sexualidade é construída
ao longo da vida e não algo dado pela natureza, inerente ao ser humano, ou seja, a sexua-
lidade é um constructo histórico (WEEKS, 2013).
Ainda segundo Weeks (2013) o termo sexo, traz como significado inicial simplesmente
a divisão da humanidade nos segmentos masculino e feminino, ou seja, fazia referência às
diferenças entre homens e mulheres, assim como as formas que se relacionavam. Porém,
nos dois últimos séculos, o termo “sexo” adquiriu um sentido mais preciso: ele faz referência
às diferenças anatômicas entre homens e mulheres, a corpos marcadamente diferenciados.
Diante disso a palavra “sexo” é usada no sentido descritivo para as diferenças básicas anatô-
micas, tanto externas quanto internas, usadas para diferenciar homens e mulheres, e mesmo
que estas diferenças sejam dadas no nascimento, os significados que a estas diferenças
são associados são sociais e históricos. Na sociedade contemporânea a concepção de que
a sexualidade é um constructo histórico que funciona para regular, organizar e modelar os
corpos e os comportamentos individuais e entrelaçados a isto estão várias relações de po-
der e dominação que modelam nossas vidas sexuais, definindo o que é normal ou anormal,
aceitável ou inaceitável (WEEKS, 2013).
Foucault ( 1977 citado por WEEKS, 2013, p. 51) afirma que o poder não deve ser visto
apenas como uma força negativa atuando apenas como proibição, mas sim que o mesmo
também é positivo, ao paço que se preocupa com a administração e o cultivo da vida, sen-
do este tipo de poder, denominado como ‘biopoder’ e assim a sexualidade passa a ter um
papel crucial, pois como afirma Foucault (1993 citado por WEEKS 2013, p. 51) o sexo é o
agente principal ao redor do qual todo o processo da vida se desenvolve, sendo um meio de
acesso tanto à vida do corpo quanto à vida da espécie, oferecendo um meio para regulação
tanto dos corpos individuais quanto do comportamento da população (o corpo político) como
um todo. Sobre esta construção e regulação dos corpos, Parker, faz uma diferenciação do
que significa macho e fêmea, lembrando que estes não dependem somente da dicotomia
biológica, sendo assim, ele afirma que:
O que significa ser macho ou fêmea, masculino ou feminino, em contextos
sociais e culturais diferentes, pode variar enormemente, e a identidade de
54A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
gênero não é claramente redutível a qualquer dicotomia biológica subjacente.
Todos os machos e fêmeas biológicos dever ser submetidos a um processo de
socialização sexual no qual noções culturalmente específicas de masculinida-
de e feminilidade são modeladas ao longo da vida. É através desse processo
de socialização sexual que os indivíduos aprendem os desejos, sentimentos,
papéis e práticas sexuais típicos de seus grupos de idade ou de status dentro
da sociedade, bem como as alternativas sexuais que suas culturas que lhe
possibilitam (PARKER, 2013, p. 135).
Portanto, não é o sexo biológico que definirá o gênero, mas sim o contexto cultural,
que através de experiências distintas e normas sociais formarão a identidade social e de
gênero. Já a sexualidade é abordada por Louro (2013, p.11) como processos profundamente
culturais e plurais – rituais, linguagens, fantasias, representações, símbolos, convenções.
Os corpos ganham sentido socialmente. A inscrição dos gêneros nos corpos,
é feita, sempre, no contexto de uma determinada cultura e, portanto, com
as marcas dessa cultura. As possibilidades da sexualidade – das formas de
expressar os desejos e prazeres – também são sempre socialmente estabe-
lecidas e codificadas.
Sendo assim, as identidades de gênero e sexuais são compostas e definidas por
relações sociais, configuradas pelas redes de poder de uma sociedade. Foucault (1988)
citado por Louro (2013, p. 11) afirma que a sexualidade é um “dispositivo histórico”, pois se
constitui historicamente, a partir de vários discursos (que regulam, instauram, normatizam)
sobre o sexo, produzindo verdades. E, portanto, definem identidades sociais. Jeffrey Weeks
(2013) levanta o questionamento de que a linguagem da sexualidade se evidencia de forma
masculina pelo fato de que os homens são considerados agentes sexuais ativos, por outro
lado, as mulheres, por causa de seus corpos altamente sexualizados, eram vistas como
meramente reativas, sendo despertadas para a vida pelos homens.
Em seu livro História da Sexualidade - Vontade de Saber - Foucault (2015) afirma
que o discurso da sexualidade humana é sustentado em sua razão de ser pelo regime de
poder- saber-prazer. Com isso, decorrendo o fato de que o mais importante é saber quais
são as técnicas polimorfas do poder. Sendo tais técnicas utilizadas na forma de controle
social, atravessando séculos, funcionando como um filtro para a sexualidade dos casais,
dos pais, dos filhos. Até o final do século XVIII as práticas sexuais eram regidas pelo di-
reito canônico, a pastoral cristã e a lei civil “...o sexo dos cônjuges era sobrecarregado de
regras e recomendações. A relação matrimonial era o foco mais intenso das constrições! ”
(FOUCAULT, 2015, p.41). E dentro deste contexto Foucault fala em uma Onipresença do
poder, pois o mesmo se produz a cada instante, em todos os pontos, em toda relação entre
um ponto e outro. Sendo assim o poder está em toda parte, “Poder é o nome dado a uma
situação estratégica complexa numa sociedade determinada” (FOUCAULT, 2015, p. 101).
55A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade54A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Mais adiante o mesmo autor acrescenta que o poder se exerce a partir de inúmeros pontos
e em meio a relações desiguais e móveis e que ao mesmo tempo são intencionais e não
subjetivas. Assim, segundo Weeks (2013), Foucault entende a história da sexualidade como
uma história dos nossos discursos sobre a sexualidade, pois, através deste, a sexualidade
é construída como um corpo de conhecimento que molda as formas como pensamos e
conhecemos nosso corpo.
Portanto, o conceito de gênero, surge para contrapor a determinação biológica do sexo,
e o significado atribuído ao feminino e masculino ganha sentido de acordo com o contexto
cultural no qual o sujeito está inserido, determinando assim os papéis a serem desempe-
nhados por cada um. E nessa construção, do feminino e masculino, o corpo exerce papel
essencial, pois no mesmo são impressos durante o curso de construção pessoal, as marcas
das relaçõesde poder, as quais o sujeito é submetido.
CORPO E RELAÇÕES DE PODER
Segundo Bordo (1997) o corpo funciona como uma metáfora da cultura, fornecendo um
esquema, através do qual se é possível um diagnóstico e/ou a visão social e política. É no
corpo que são inscritas as normas centrais e hierarquias de uma cultura. Portanto, o corpo
não é apenas um texto da cultura, mas sim um lugar prático e direto de controle social ex-
presso em normas práticas que são convertidas em atividades automáticas e habituais, nos
mostrando que a cultura se faz no corpo, um corpo dócil e regulado, colocado a serviço das
normas da vida cultural e habituado às mesmas. Nossos corpos são treinados, moldados e
marcados pelas normas históricas predominantes de individualidade, desejo, masculinida-
de e feminilidade.
Os corpos femininos tornam-se o que Foucault chama de corpos dóceis, e como afir-
ma Bordo (1997) aqueles que suas forças e energias são moldados ao controle externo, à
sujeição, à transformação e ao aperfeiçoamento. E dessa forma:
Somos convertidas em pessoas menos orientadas para o social e mais cen-
tradas na automodificação. Induzidas por essas disciplinas, continuamos a
memorizar em nossos corpos o sentimento e a convicção de carência e insu-
ficiência, a achar que nunca somos suficientemente boas. Nos casos extre-
mos, as práticas da feminidade podem nos levar à absoluta desmoralização,
à debilidade e à morte. (BORDO, 1997, p. 20)
A dominação do corpo feminino apresenta-se como uma opressão de gênero, variando
em grau e forma, de acordo com a classe, raça, idade e orientação sexual, sendo difícil de
confrontar tais mecanismos, ao passo que o sujeito em questão torna-se conivente com as
forças que os oprimem. E em seguida, esse corpo passa a expressar em seus limites as
56A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
desordens ligadas ao gênero feminino, resultadas do sofrimento da construção do feminino
historicamente localizado: Histeria, agorafobia e anorexia nervosa, estas podem fornecer
um modelo desse processo no qual a resistência é utilizada na manutenção e reprodução
das relações de poder existentes (BORDO, 1997).
Weeks (1995, p. 90-91 citado por LOURO, 2013, p. 14) afirma que “[...] O corpo é visto
como a corte de julgamento final sobre o que somos ou o que podemos nos tornar”. Sendo
assim, nossos corpos são significados pela cultura, assim como são alterados por ela. São
os nossos corpos que ancoram nossa identidade, ou seja, são nos corpos que são inscritas
as marcas da identidade e consequentemente de diferenciação. E é nesse sentido que Louro
(2013) nos convida a refletir que são esses processos de reconhecimento de identidades
que se inscrevem ao mesmo tempo, a atribuição das diferenças. Em que estas implicam na
instituição das desigualdades, dos ordenamentos, das hierarquias, estando imbricados com
as redes de poder que circundam na sociedade.
O reconhecimento do “outro”, daquele ou daquela que não partilha dos atri-
butos que possuímos, é feito a partir do lugar social que ocupamos. De modo
mais amplo, as sociedades realizam esses processos e, então, constroem os
contornos demarcadores das fronteiras entre aqueles que representa a norma
(que estão em consonância com seus padrões culturais) e aqueles que ficam
fora dela, ás suas margens. Em nossa sociedade, a norma que se estabelece,
historicamente, remete ao homem branco, heterossexual, de classe média
urbana e cristão, e essa passa a ser referência que não precisa ser nomeada
(LOURO, 2013, p. 15, grifo da autora).
Assim sendo, ainda segundo Louro (2013) quem não está entre estas determinações
serão os “outros”, sujeitos sociais que serão “marcados”, com isso, a mulher torna-se o
“segundo sexo”, e os gays e lésbicas desviantes das normas. Mais adiante, a autora com-
plementa dizendo que quando os sujeitos são classificados em toda a sociedade são esta-
belecidos divisões e rótulos que tem a pretensão de fixar identidades, definindo, separando
e de formas sutis ou violentas, também distingue e discrimina.
Tomas Tadeu da Silva (1998 citado por LOURO, 2013, p. 16):
Os diferentes grupos sociais utilizam a representação para forjar a sua iden-
tidade e as identidades dos outros grupos sociais. Ela não é, entretanto, um
campo equilibrado de jogo. Através de representação se travam batalhas de-
cisivas de criação e imposição de significados particulares: esse é um campo
atravessado por relações de poder. [...] o poder define a forma como se pro-
cessa a representação; a representação, por sua vez, tem efeitos específicos,
ligados, sobretudo, à produção de identidades culturais e sociais, reforçando,
assim, as relações de poder.
A partir destas representações distintas e divergentes, que são produzidos os efeitos so-
ciais. Porém, algumas dessas representações deixam de serem vistas como representações
57A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade56A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
e são tidas como realidade, diante da grande força e visibilidade, sendo marcadas pe-
las relações de poder e, com isso, as identidades sociais e culturais são também políti-
cas (LOURO, 2013).
Louro (2013) fala em seus textos sobre uma ‘pedagogia do corpo’, ou seja, uma escola-
rização do corpo, através de processos sociais e culturais, produzindo uma masculinidade e
feminilidade, muitas vezes de forma sutil, discreta, contínua, mas em quase todos os casos
duradoura e eficiente, inscrevendo nos corpos indicações de que tipo de mulher se deve ser
e que tipo de homem se deve ser, tornando-se referência para todos. “O homem de verda-
de deveria ser ponderado, provavelmente contido na expressão de seus sentimentos [...] a
expressão de emoções e o arrebatamento seriam considerados, características femininas”
(LOURO, 2013, p.22). O que muitos estudiosos elucidam de um culto a insensibilidade ou
dureza masculina.
Segundo Foucault (1993, p. 146 citado por LOURO, 2013) a consciência, assim como
o controle do próprio corpo, só pode ser adquirida a partir do resultado do investimento do
poder no corpo, através de exercícios físicos, ginástica, nudez, desenvolvimento muscular,
ou seja, a exaltação da beleza corporal. Os sujeitos se tornam conscientes de seu corpo na
medida em que existem investimentos disciplinares sobre ele. Quando o poder é exercido
sobre nosso corpo insurge a exigência do próprio corpo contra o poder. Com isso, vive-se na
busca de formas de reposta, assim como de resistência, de transformação ou de subversão
para as imposições e os investimentos disciplinares feitos sobre nossos corpos. Louro afirma
que os significados destas marcas no corpo são atribuídos às instituições sociais das quais
fazemos partes, portanto:
Homens e mulheres adultos contam como determinados comportamentos ou
modos de ser parecem ter sido gravados em suas histórias pessoais. Para
que se efetivem essas marcas, um investimento significativo é posto em ação:
família, escola, mídia, igreja, lei, participam dessa produção. Todas essas
instâncias realizam uma pedagogia, fazem um investimento que,
frequentemente, aparece de forma articulada, reiterando identidades e práticas
hegemônicas enquanto subordina, nega ou recusa outras identidades e prá-
ticas; outras vezes, contudo, essas instâncias disponibilizam representações
divergentes, alternativas, contraditórias (LOURO, 2013, p. 25).
Contudo, a sociedade busca, através de diversas formas, fixar uma identidade social
masculina e/ou feminina normal e duradoura, a despeito de todas as oscilações, fragilida-
des e contradições, articulando as identidades de gênero a um único modelo de identidade
sexual: a identidade heterossexual (LOURO, 1997-1998 citada por LOURO, 2013). E como
afirma Weeks (2013) a identidade sexual fornece um sentimento de unidade pessoal, de
ambientação social e até mesmo de empenho político.
58A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Portanto, está incutidona identidade social e sexual um padrão de obtenção e/ou
manutenção da estética corporal, visto que este é um dos fatores que causam exacerbada
angústia nas mulheres, a busca pelo corpo perfeito, seguir a padrões de beleza, e como
traz Studart (1986, p. 27-30) em seu livro, Mulher objeto de cama e mesa, algumas frases
em referência a visão do corpo feminino: objeto sexual; único ser racional que precisa abo-
nar suas teorias com um rosto bonito ou um belo par de pernas; o corpo como objeto de
marketing para vender qualquer produto; não estar dentro dos padrões de beleza é não ter
espaço na sociedade. Logo, se não tem beleza não há espaço para a mesma, nem deve
ser ouvida, por outro lado se tem beleza seus méritos e conquistas são reduzidas a isto.
Isso perpetua durante todo o curso da vida feminina:
O homem envelhece com dignidade e a mulher com terror e insegurança. Dos
objetos da sociedade de consumo (feitos para se deteriorar depressa) ela é
o que mais cedo entra em obsolescência. O mercado pede Lolítas. Que fazer
se o tempo passa, e ela não tem nenhuma tarefa histórica, mas apenas deve
agradar ao seu homem? (STUDART, 1986, p. 31).
Com isso, vai se tornando manifesto e perceptível a afirmação das identidades histo-
ricamente subjugadas em nossa sociedade. Porém, em contramão, é perceptível também,
que esses indivíduos modelos necessitam do outro, do segundo sexo, como identidades
subjugadas para se definir e se afirmar, já que estas são feitas na medida em que conta-
riam e rejeitam as demais. O discurso funciona como forma de dominação e constrói corpos
masculino e feminino como versão hierárquica e verticalmente ordenada de um único sexo.
O modelo hierárquico interpreta o corpo feminino como uma versão inferior do corpo
masculino, este modelo hierárquico enfatiza também a importância do papel do feminino
no prazer sexual, especialmente no processo de reprodução (WEEKS, 2013). O discurso
hierárquico e esta forma de interpretar o corpo feminino resultam nas relações de poder
estabelecidas na conjugalidade, enfatizando que estas relações são o resultado de relações
estabelecidas desde a infância, vivenciadas de formas diferentes por meninos e meninas.
RELAÇÕES DE PODER NA CONJUGALIDADE
No texto Poder, Sexualidade e Intimidade, Muriel Dimen relata um mito familiar mui-
to usado por diversos autores para explicar os arranjos sexuais humanos, como: Browm,
1959; Freud, 1961; Marcuse, 1955. Neste mito intitulado O mito da horda primitiva do crime
primordial, o patriarca guarda para si todas as mulheres e obriga seus filhos a trabalharem
para ele, causando revolta nos mesmos, que matam e comem o pai, copulam com as mu-
lheres e depois, dominados pela culpa prometem ser bons meninos (DIMEN, 1997). Ainda
59A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade58A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
sobre este mito Dimen faz uma reflexão, dividindo-o em três partes, trazendo, o que na sua
opinião, falta a este mito:
O crime primordial original tinha três partes: primeiro, a dominação do patriarca
em relação à sua esposa; segundo, a resistência desta – física, emocional,
comportamental – ao seu poder; e terceiro, sua conivência em ser menos do
que poderia ter sido, sua participação em todos aqueles momentos inevitáveis
quando, porque estão intimidadas fisicamente, dependentes economicamente
ou carentes emocionalmente, as mulheres se entregam ao patriarcado. O que
está faltando nesse mito são as mulheres, sua subordinação e, de fato, tudo
o que simbolizam – vida pessoal, reprodutividade, alteridade (DIMEN, 1997,
p. 42).
E sendo assim, a experiência feminina é marcada pela junção e exploração da mente
e do corpo, da mente e da matéria, na qual a mulher acaba sendo conivente com esta ex-
ploração mesmo quando está resistindo. No patriarcado o gênero significa uma estrutura de
poder político, como citado por Foucault anteriormente, disfarçada em sistema de diferença
natural, onde a partir dos dados biológicos, ele constrói a diferença anatômica entre os se-
xos. Para tanto, o gênero é o modo pelo qual a consciência do ser e o consequente senso
do próprio poder são mais imediatamente vivenciados (DIMEN, 1997).
Heloneida Studart (1986) em seu livro Mulher objeto de cama e mesa nos traz diversas
colocações que apesar de ter passado décadas continuam bem contemporâneas. A autora
afirma no decorrer de seu trabalho que a mulher começa a ser treinada para o casamento
por volta dos 6-7 anos de idade. Este treinamento causa uma espécie de retardo mental
nas mulheres, e para melhor entender, a autora cita Piaget e sua definição de psicogenética
para se referir a idade mental da mulher doméstica, que seria em torno de 8 anos, utilizando
o termo “retardada” para as mesmas, e que diante desta situação é consagrado à mulher o
papel de rainha do lar e o constante incentivo para não mudar este posto. Tal incentivo, é
imbricado por meio das mídias e instituições sociais e religiosas que a mulher está inserida.
Como exemplo dessas afirmações, Studart (1974) cita os assuntos que estavam em pauta
para serem editados, assim que assumiu a redação de uma revista feminina em 1970: como
prender um homem para toda a vida; a melhor maneira de aproveitar os vestidos do ano
passado; e o teste você se considera bonita? Enquanto isso, acontecimentos importantes
para a história da humanidade não estavam nesta pauta, como o fato dos norte-americanos
estarem remetendo outro Apolo à Lua; os soviéticos estarem enviando uma sonda a Marte;
dois cientistas italianos pesquisavam a possibilidade de criar bebês em provetas. Percebe-
se a disparidade de conteúdos que são selecionados e encarados como de interesse e
necessário para as mulheres.
60A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
De acordo com o que foi citado no parágrafo anterior, sobre o treinamento das mulhe-
res, Studart (1974) afirma que desde muito cedo há uma separação daquilo que deve ser
apresentado aos meninos e o que deve ser apresentado para as meninas:
Menina, deixam-na em casa, com a convivência mais ou menos infantilizada
da mãe e da empregada. Só lhe despertam a atenção para insignificâncias:
o vestidinho novo, o laço do cabelo, a pulseira da vizinha. Ninguém acena
com as aventuras da Ciência ou com as alegrias da inteligência. É como se
lhe dissessem, desde muito pequena: deixa para os machos a medicina, a
Geofísica, a Astronáutica, a Matemática pura, a Arte. Vai ser rainha do lar
(STUDART, 1974, p. 11).
Estes acontecimentos são entendidos como a derrota feminina ou choco psicológico
que deu início nos primórdios da história da humanidade quando a mulher ficou na caverna
e o homem saiu e estabeleceu novas relações com o mundo e outros homens. Dentro des-
ta perspectiva, o que resta então para as mulheres, aquelas que são consideradas como
derrotadas, é ser a esposa do seu marido e a mãe dos seus filhos. E por isso, suas funções
são minimamente inspecionadas pelos maridos, que em muitos casos usam de violência
física e psicológica, diante de suas avaliações e cobranças frente às atividades domésticas.
Além disso, a mulher casada não deve apresentar frigidez, desajustamento ou cansaço físi-
co. Se engorda demais, devido à gravidez, contraceptivos ou outros motivos, todos a acusam
como se cometesse um crime (STUDART, 1974). São por estes motivos que a mulher recebe
o status do outro, do segundo sexo, submissa ao homem considerado como sexo padrão e
superior, pautados nas distintas diferenças físicas e desigualdades das identidades sociais.
Há várias formas de compreender as diferenças, sendo que a mais conheci-
da as associa às vivências de desigualdades e injustiças que caracterizam
grupos socialmente marcados como inferiores, anormais ou abjetos. As “mi-
norias” étnico-raciais, de gênero e sexuais explicitam maneiras tão diversas
de vivenciar a diferença que tornam patente o fato de que, ainda que sejam
mais ou menos relacionadas, cadadiferença denota uma forma particular de
opressão (MISKOLCI, 2007, p. 1).
Esta citação remete mais uma vez a Foucault (1976) e sua afirmação de que a sexua-
lidade é um dispositivo histórico do poder, e que como diz Miskolci (2007) a determinação
do outro como diferente e inferior utiliza vários marcadores ao mesmo tempo, e assim in-
feriorizados é atribuída ao gênero feminino, como o gênero socialmente menos valorizado.
Segundo Studart (1974) as relações de poder presentes na conjugalidade geram cír-
culos viciosos, entre eles, o fato de a dominação produzir uma debilidade mental e por sua
vez a debilidade mental facilitar a dominação. Esse círculo, evidencia também o fato de
que todo dominado exercer dominação sobre alguém mais fraco, como todos os fracos e
dependentes, só existe uma pessoa sobre quem a mulher, independente de classe, raça ou
61A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade60A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
etnia exerce autoridade: aqueles que são mais fracos do que ela, os filhos. A autora ainda
completa afirmando que não existe alguém mais autoritário com os filhos, do que mulheres
submissas ao homem e a todos.
Richard Parker (2013) em seu artigo Cultura, Economia, Política e Construção Social
da Sexualidade chama a atenção para os diferenciais de poder social e culturalmente sancio-
nados, especificamente entre homens e mulheres, e a partir das possibilidades dos contatos
sociais a estruturação das comunidades sexuais. O mesmo autor afirma que culturas sexuais
diferentes organizam a desigualdade sexual de formas específicas, através de normas e
regras culturais específicas que colocam limitações específicas ao potencial para a transa-
ção nas interações sexuais e, sendo assim, essas limitações condicionam as possibilidades
para a ocorrência de violência sexual. É importante ressaltar que as relações de poder e de
gênero, aos quais as mulheres estão submetidas nas diversas relações sociais, mas princi-
palmente no contexto conjugal, possibilitam a ocorrência não somente da violência sexual,
mas também outras formas mais frequentes de violência, como por exemplo, a violência
física, a violência psicológica e a violência patrimonial.
Além disso, Parker (2013) aborda a concepção de Rubim (1984) acerca da definição
do sistema sexo/gênero para desenvolver sua análise sobre a gênese da opressão sobre as
mulheres, desde modo o sistema sexo/gênero é definido como “o processo social através
do qual a sexualidade biológica é culturalmente traduzida em ação” (RUBIM, 1984 citado
por PARKER, 2013, p. 140). Rubim trata de resolver as lacunas e localizar a origem da
opressão no tráfico de mulheres:
A troca de mulheres por propriedade ou por casamento, em sistemas de pa-
rentesco, estava baseada na noção de que as mulheres, pela natureza de seu
gênero, não possuíam direitos plenos. A conceptualização que Levi-Strauss
faz do sistema de parentesco está baseada em várias suposições sobre a
universalidade e sobre a organização da sexualidade humana em todas as
culturas: a existência do tabu do incesto, a heterossexualidade obrigatória e
a desigualdade entre os sexos.
Com isso ao descrever o corpo como uma obra material e simbólica da cultura e da
sociedade, propicia uma forma adicional de reformular os estudos sobre a sexualidade.
Dentro desta perspectiva se retoma o termo sexo e frisa que este não funciona apenas como
uma norma, mas é parte de uma prática que regula e produz os corpos que governa. Toda
força regulatória manifesta-se como uma espécie de poder produtivo, o poder de produzir
os corpos que ela controla (BUTLER, 2013).
Sobre desigualdade entre os sexos e opressão feminina na conjugalidade, Blood e
Wolfe (1960 citado por POESCHL, 2016, p. 110) elaboram a teoria dos recursos nos quais,
segundo a mesma, “o poder era distribuído entre marido e mulher com base nos recursos
62A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
que traziam para a família (dinheiro, prestígio profissional e/ou educação), o que levava os
homens a terem a última palavra em muitas decisões”. Porém, segundo Kellerhals et al.
(1993, citado por POESCHL, 2016) a divisão das áreas de competência entre os dois cônju-
ges, e a decisão sobre a importância do capital destinado a cada área de competência, são
decididas a um outro nível de determinação dos recursos, em que a autoridade masculina
permanece intocável. Portanto:
Mesmo quando o poder parece dividido mais ou menos igualitariamente entre
marido e mulher, devido, devido ao facto de os cônjuges serem responsáveis
por diferentes esferas de competência ao nível das decisões quotidianas, a
autoridade dos homens fica intacta ao nível mais elevado do poder familiar.
[...] um parceiro pode controlar o comportamento do outro porque o outro con-
sidera que o parceiro tem o direito de exercer esse controle (poder legítimo),
tem mais conhecimentos e competências (poder e perícia), porque o outro se
identifica com o parceiro (poder de referência) ou, ainda, porque o parceiro tem
a possibilidade de distribuir recompensas (poder de recompensa) ou infligir
castigo (poder coercivo). O medo de ser desaprovado, tal como o desejo de
ser aprovado, constituem também importantes fontes de poder coercivo ou
de recompensa (SAFILIOS-ROTHSCHILD, 1970 citado por POESCHL, 2016,
p. 111).
Por conseguinte, as normas estabelecidas pelos papéis de gênero exercem um efeito
primordial sobre a relação de poder entre cônjuges, variando o poder legítimo do marido
de acordo com o grau de tradicionalismo dos casais. Foram verificados outros estudos que
apontam outros recursos que interferem nas relações de poder na relação conjugal, portanto,
além dos recursos econômicos, são perceptíveis recursos sociais, de saúde, psicológicos e
afetivos, atratividade, inteligência, entre outros, variando de acordo com o nível de tradicio-
nalidade do casal. Desta forma, conclui-se que para alguns estudos as relações de poder
são pautadas no poder econômico e controle sobre o dinheiro, enquanto outros sugerem
que independente da contribuição da mulher para o rendimento familiar, são os homens que
tem o poder de decisão familiar e controle do dinheiro (POESCHL, 2016).
A partir disso, Lukes (1974 citado por POESCHL, 2016, p. 113) distingue três faces
do poder, sendo: manifesto, latente e o invisível. Onde o poder manifesto pode ser obser-
vado nos resultados das tomadas de decisões e é revelado no momento em que surgem
conflitos. O poder latente permite o impedimento de tentativas de mudanças ou surgimento
de conflitos, causando, assim, resignação devido ao medo de reações negativas. Já o po-
der invisível tem base nas construções ideológicas que expõem algum tipo de dominação
como natural e desejável, tornando os conflitos irrelevantes. E ao aplicar estas perspectivas
ao estudo do poder nas relações conjugais, Komter (1989 citado por POESCHL, 2016, p.
113) constatou que: As formas de expressão do poder manifesto eram mais frequentes nos
casais das classes mais elevadas, ao passo que as manifestações do poder latente eram
63A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade62A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
mais aparentes nos casais das classes mais baixas. Por sua vez, o poder invisível era uma
resposta mais adequada à ameaça que constituem as desigualdades entre os maridos e
mulheres nos casais de classes elevadas, mais igualitaristas. Em suma, o poder masculino
na família seria preservado em virtude das expectativas generalizadas de que os maridos
detêm mais poder.
Portanto, na conjugalidade, os homens fazem uso de estratégias que tem origem no
fato de lhes serem atribuídos, por diversos fatores, maior poder, enquanto que as mulheres
cabem desenvolver estratégias que compensem a sua ausência de poder. E com isso, é
inevitável o reconhecimento de que as definições de sexo, corpo, e os papéis de gênero,
evidenciem as diferençasde estatuto, e tornando difícil de fazer os desligamentos das estra-
tégias de influência no casal e da relação de poder entre os cônjuges, evidenciando também
a grande necessidade dos maridos de terem suas decisões respeitadas, fazendo uso da
persuasão ou da submissão (FALBO & PEPLAU, 1980 citado por POESCHL, 2016, p. 114).
Após a Segunda Guerra, Simone de Beauvoir sentiu a necessidade de investigar quem
são esses indivíduos “apátridas, sem identidade, sem direitos constituídos” denominados
pela cultura de mulher, e é então que Simone percebe que mesmo achando que era sujeito
cognoscente da pesquisa, ela estava investigando sua própria identidade (SANTOS, 2010).
Diante disso, Simone de Beauvoir levanta o questionamento: Como pensar e entender
o que é ser mulher? Diante desse questionamento ela afirma e indaga ao mesmo tempo:
Todo indivíduo que se preocupa em justificar sua existência a sente como uma ne-
cessidade indefinida de se transcender. Ora, o que define de maneira singular a situação
da mulher é que, sendo, como todo ser humano, uma liberdade autônoma, descobre-se e
escolhe-se num mundo em que os homens lhe impõem a condição do Outro. Pretende-se
torna-la objeto, votá-la à imanência, porquanto sua transcendência será perpetuamente
transcendida por outra consciência essencial e soberana. O drama da mulher é esse conflito
entre a reivindicação fundamental de todo sujeito, que se põe sempre como o essencial,
e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial. Como pode realizar-se
um ser humano dentro da condição feminina? (BEAUVOIR, DS, 1980, p. 23 citada por
SANTOS, 2010, p. 116).
Simone de Beauvoir entende que a mulher ao longo dos tempos, assumiu o lugar do
outro, da pura alteridade com valorização negativa, na qual sua identidade é determinada a
partir do homem. Com sua assertiva trazida no livro O segundo sexo – “Não se nasce mu-
lher, torna-se mulher” – Beauvoir vem explicar que nenhum destino biológico, psíquico ou
econômico deve definir a forma que a mulher ou a fêmea humana assume. Frente a essas
afirmações de Beauvoier, Judith Butler afirma que mesmo que se nasça com a composição
de um corpo físico de mulher, o ato de tornar-se uma Mulher pressupõe, ainda, um processo
64A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
de apropriação e reinterpretação advindas de possibilidades culturais. Portanto, para assu-
mir características do gênero faz-se necessário uma intervenção cultural (SANTOS, 2010).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise bibliográfica apresentada neste trabalho, pode-se compreender, à
luz de algumas perspectivas teóricas, como se estrutura a relação de poder entre os gêneros
na conjugalidade, assim como identificar os elementos que efetivam a submissão feminina
na relação conjugal, partindo da diferença biológica para a construção cultural da identidade
social de cada sujeito, através da apresentação dos conceitos de gênero, conceito que foi
desenvolvido para contestar a naturalização da diferença sexual (LOURO, 2013); de sexo,
faz referência às diferenças anatômicas entre homens e mulheres, a corpos marcadamente
diferenciados (WEEKS, 2013); de sexualidade, pois não é apenas uma questão pessoal,
mas social e política, ou seja, tem a ver com nossas crenças, ideologias e imaginações
quanto ao nosso corpo (LOURO, 2013); de corpo, uma vez que o corpo funciona como uma
metáfora da cultura, fornecendo um esquema, através do qual, se é possível um diagnóstico
e/ou a visão social e política (LOURO, 2013); de relações de poder na conjugalidade, onde
poder é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada
(FOUCAULT, 2015).
A partir de tais perspectivas teóricas, observou-se que na conjugalidade o poder pode
fazer surgir uma desigualdade sexual de formas específicas através de normas e regras
culturais que colocam limitações específicas ao potencial para a transação nas interações
sexuais e, sendo assim, essas limitações condicionam as possibilidades para a ocorrência
de violência sexual. É importante ressaltar que as relações de poder e de gênero, aos quais
as mulheres estão submetidas nas diversas relações sociais, principalmente no contexto
conjugal, possibilitam a ocorrência não somente da violência sexual, mas também a outras
formas mais frequentes de violência.
Consequentemente, é diante disso que se faz necessário a realização de estudos e
produções, constantes e efetivas, voltadas à diversidade cultural e significação de cada
conceito citado anteriormente. Com o intuito de compreender, lidar e modificar formas de
compreensão das relações de poder na conjugalidade que resultam na submissão feminina
de forma, muitas vezes, impositiva acarretando distintas formas de violência, já que à mu-
lher é dado o posto de segundo sexo, inferior, fundamentando esta posição, nas diferenças
anatômicas e fixadas na construção social do corpo.
65A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade64A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
REFERÊNCIAS
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Livro, 1970.
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R. Gênero, corpo, conhecimento. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997.
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Terra, 2015.
6. JAGGAR, Alison M.; BORDO, Susan R. Gênero, corpo, conhecimento. Rio de Janeiro: Re-
cord: Rosa dos Tempos, 1997.
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sões teórico-metodológicas. Educação em Revista. Belo Horizonte, n 46, p. 201-218, dez.
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8. LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade. In : LOURO, Guacira Lopes (Org).
O corpo educado. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.
9. MISKOLCI, Richard. A teoria queer e a questão das diferenças: por uma analítica da nor-
malização. Congresso de Leitura do Brasil, 2007. Disponível em: https://scholar.google.com.br/
scholar?oi=bibs&hl=pt- BR&q=related:uTusLtCDiBsJ:scholar.google.com/ Acesso em agosto
de 2016.
10. MISKOLCI, Richard. Teoria queer: um aprendizado pelas diferenças. 2º ed. Belo Horizonte:
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: LOURO, Guacira Lopes (Org). O corpo educado. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora,
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estratégias de influência no casal. Revista Crítica de Ciências Sociais, 111, 2016. Disponível
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pucminas.br/index.php/SapereAude/article/view/2081 acesso em janeiro de 2017.
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cado. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.
http://www.scielo.br/pdf/edur/n46/a08n46
http://rccs.revues.org/6482
http://periodicos.pucminas.br/index.php/SapereAude/article/view/2081
http://periodicos.pucminas.br/index.php/SapereAude/article/view/2081
“
04
Atenção psicossocial na atenção básica:
profissionais, serviços e intervenções
em ruralidades paraibanas
Karolina Mirella OliveiraPereira Costa
UFPE
Josevânia da Silva
UEPB
Ludwig Félix Machado Leal
UFPB
Mísia Carolyne Pereira de Morais
UFPB
10.37885/210102845
https://dx.doi.org/10.37885/210102845
67A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Ruralidades, Atenção Básica, Saúde Mental.
RESUMO
Sabendo da importância de discutir a articulação entre atenção psicossocial e território,
esta pesquisa teve por objetivo analisar a percepção de profissionais da Atenção Básica
sobre os serviços e ações em saúde mental em cidades rurais das quatro macrorregiões
de saúde do estado da Paraíba, a partir do quadro teórico da vulnerabilidade. Participaram
40 profissionais de saúde com idades variando de 23 a 67 anos (M=37,4; DP=10,54),
sendo a maioria do sexo feminino (33 profissionais). Foram utilizados como instrumen-
tos um questionário sócio laboral e entrevista semiestruturada. Os dados referentes ao
questionário sociolaboral foram analisados através de estatística descritiva. Já os dados
das entrevistas foram analisados por meio da Análise de Conteúdo do tipo Categorial
Temática. A análise de conteúdo das entrevistas evidenciou a emergência de 202 uni-
dades de conteúdo, as quais formaram quatro categorias temáticas (Caracterização da
demanda, Pessoas com Transtornos Mentais Comuns, Atendimento na Atenção Básica e
Atendimento na cidade) e 16 subcategorias. Verificou-se uma preocupação em identificar
a demanda em saúde mental, porém, na maioria dos casos, essa prática não implica na
responsabilização da equipe pelo usuário em sofrimento psíquico. Essa identificação é
seguida de encaminhamentos e/ou prescrição medicamentosa. Tais práticas não têm
favorecido intervenções orientadas por uma perspectiva territorial, a qual convida o pro-
fissional a considerar as múltiplas determinações e singularidades dos modos de vida,
que reverberam nas formas de adoecimento e sofrimento, bem como nas possibilidades
de suporte e cuidado.
68A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
A instituição do direito à saúde nos países capitalistas centrais assumiu diversos arran-
jos e conformou diversos modelos de bem-estar social, com diferentes modos de inserção do
setor público e privado na prestação de serviços. Apesar das diferentes modalidades assumi-
das por causa das diferenças territoriais, a partir da segunda metade do século XX as políticas
de proteção social se disseminaram e se consolidaram como políticas de Estado na maioria
dos países ocidentais, representando uma resposta às demandas por igualdade, seguridade
socioeconômica e às lutas em defesa da cidadania (MIRANDA; MENDES; SILVA, 2017).
No Brasil, a partir dos preceitos de Reforma Sanitária, a Constituição Federal (CF) de
1988 deu nova forma à saúde, que passou a ser dever constitucional em todas as esferas do
governo. A promulgação da Lei Orgânica da saúde definiu a instauração do Sistema Único
de Saúde (SUS), com os princípios de integralidade, equidade e universalidade e as dire-
trizes de descentralização, hierarquização e regionalização com ênfase na preservação da
autonomia, no direito à informação e na participação da comunidade, dessa forma, o conceito
de saúde foi ampliado e vinculado às políticas sociais e econômicas (SPINK; MATTA, 2007).
Desde então, as políticas públicas de saúde integram o campo de ação social do governo e
orientam-se, conforme a CF, no sentido de melhorar as condições de saúde da população.
Sua tarefa específica consiste em organizar funções governamentais para a viabilização do
cumprimento dos princípios e diretrizes do SUS e para a promoção, proteção e recuperação
da saúde. Entretanto, passados mais de 30 anos desde sua implantação, o SUS e seus
defensores continuam enfrentando inúmeros desafios para promover um modelo de atenção
coerente com o proposto.
Um esforço importante no intuito de superar os desafios da efetivação do SUS foi a
definição das Redes de Atenção à Saúde (RAS). Tais redes foram criadas a partir de debates
em grupos técnicos de trabalho e pactuadas durante os anos de 2011 e 2012. Organizaram-
se em cinco: Rede Cegonha, Rede de Atenção Psicossocial, Rede de Atenção às Urgências
e Emergências; Rede de Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas e Rede de Cuidado
à Pessoa com Deficiência (BRASIL, 2011).
O Decreto 7.508/2011 atualizou conceitos e instrumentos e regulamentou o processo
de regionalização vigente, ademais, estabeleceu que as regiões de saúde passassem a ser
definidas a partir de identidades culturais, econômicas, sociais, de redes de comunicação e
infraestrutura de transportes compartilhados, com a finalidade de integrar a organização, o
planejamento e a execução de ações e serviços de saúde, operando pela lógica do territó-
rio. O referido instrumento normativo preconiza que a região de saúde, para instituir-se, deve
conter, no mínimo, os serviços de 1) atenção primária/básica; 2) urgência e emergência; 3)
69A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade68A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
atenção psicossocial; 4) atenção ambulatorial especializada e hospitalar; 5) vigilância em
saúde (BRASIL, 2011).
Pressupõe-se, para o funcionamento de uma região de saúde, a integração dos servi-
ços acima citados tendo a atenção primária/básica como base de referência para os atendi-
mentos. Assim, compreende-se a atenção primária/básica como “porta de entrada” do SUS,
constituindo-se como uma assistência ambulatorial não especializada que pode conjugar
atividades clínicas e preventivas, desenvolvidas em serviços de fácil acesso, orientados a
cobrir agravos e condições de saúde mais comuns e resolver parte significativa dos proble-
mas de saúde de uma população.
Visa, ainda, desenvolver uma atenção integral que favoreça a autonomia das pes-
soas, sem perder de vista os determinantes e condicionantes de saúde. Seus pontos de
atenção são: Unidades Básicas de Saúde (UBS), Núcleos de Atenção à Saúde da Família
(NASF), Equipes de Atenção Básica para populações específicas e Centros de Convivência
e Cultura (BRASIL, 2013).
Nesse âmbito, ressalta-se, para alguns autores, uma dubiedade entre os termos “aten-
ção básica” e “atenção primária”, porém, conforme Giovanella (2018), o termo Atenção Básica
(AB) pode substituir o termo Atenção Primária, superando o reducionismo presente na ideia
de Atenção Primária, promovendo, dessa forma, uma concepção mais ampliada do serviço.
Ainda a despeito da AB, constitui-se como um espaço privilegiado para intervenções
em saúde mental. A partir da promulgação da Lei da Reforma Psiquiátrica em 2001 e da
instauração da Rede de Apoio Psicossocial (RAPS) em 2011, a atenção psicossocial passou
a ampliar e articular diversos pontos de atenção à saúde visando garantir a integralidade
do cuidado às pessoas em sofrimento psíquico no SUS. Os princípios fundamentais da
articulação entre a atenção psicossocial e a AB e centram-se na noção de territorialização,
modelo de cuidados em rede, intersetorialidade, reabilitação psicossocial, atendimento mul-
tiprofissional e interdisciplinar, desinstitucionalização, promoção da cidadania dos usuários
e construção da autonomia de usuários e familiares (BRASIL, 2011; MACEDO et. al., 2017).
Sobre a questão da territorialização, sabe-se que há muita potência e desafios. Operar
nessa lógica, conforme Yasui, Luzio e Amarante (2018), implica em “ver e ouvir a vida que
pulsa em cada território” (Idem, p. 186), considerando ainda que a saúde deve ser promovida
no espaço onde a vida acontece como ela é, mantendo-nos, atentos para que não sejamos
capturados pela lógica do conformismo, exigindo, dessa forma, um movimento contínuo de
desconstrução e construção. Entretanto, evidencia-se conflitos e contradições da formação
dos trabalhadores, que ainda estão norteados pelo modelo biomédico e pouco se interes-
sam em superar as iniquidades e desigualdades. Nesse sentido, os princípios do SUS e
70A Psicologia eSuas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
da Reforma Psiquiátrica só podem ser efetivados por profissionais que se transformam em
sintonia com a transformação das próprias práticas de saúde.
Sabendo que os processos de produção de saúde estão alicerçados nas determinações
sócio-históricas e territoriais, no Brasil, quando se trata de contextos rurais, a situação da
atenção à saúde mental na AB é ainda mais preocupante. De acordo com Dimenstein et. al.
(2017), as populações rurais atravessam dificuldades para acessar os serviços e não têm
cobertura satisfatória do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), da Estratégia
de Saúde da Família (ESF) e Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF).
As fragilidades existentes nos serviços de saúde de cidades rurais aumentam as chan-
ces de exposição ao adoecimento dos moradores destas localidades, ou seja, colaboram para
as vulnerabilidades em saúde. As análises sob a perspectiva da vulnerabilidade consideram
três planos ou dimensões, a primeira é a individual, onde são reconhecidos os aconteci-
mentos vivenciados pelos indivíduos, suas trajetórias e diferentes condições econômicas e
intersubjetivas; na dimensão social, analisa-se cenários socioculturais, relações de poder e de
proteção ou discriminação de direitos; e o terceiro plano, a dimensão programática, abarca a
dimensão social e individual, além de analisar políticas e serviços de diversos setores como
elementos intervenientes no processo de vulnerabilidade. Essas dimensões se relacionam
mutualmente para constituir a especificidade de uma situação em saúde, visando superar a
dicotomia entre o indivíduo e social (AYRES; PAIVA; FRANÇA JR., 2012).
Acredita-se que é necessário que do ponto de vista acadêmico, haja formas diferen-
ciadas de pesquisar, ensinar e intervir no modo de fazer saúde nos mais diferentes contex-
tos. Dessa forma, esta pesquisa teve por objetivo analisar a percepção de profissionais da
Atenção Básica sobre os serviços e ações em saúde mental em cidades rurais das quatro
macrorregiões de saúde do estado da Paraíba, a partir do quadro teórico da vulnerabilidade,
vislumbrando a possibilidade de contribuir com a construção de instrumentos e conhecimentos
para que os serviços, mais precisamente a Atenção Básica, cumpram com os princípios da
universalidade, equidade, integralidade, descentralização, participação popular e responsa-
bilidade social junto às pessoas em sofrimento psíquico.
MÉTODOLOGIA
Tratou-se de um estudo exploratório, descritivo e analítico de caráter transversal, com
abordagem quantitativa e qualitativa. A pesquisa foi realizada em unidades de saúde da
atenção básica nas cidades rurais paraibanas. Para a escolha das cidades, levou-se em
consideração, primeiramente, a organização da assistência em saúde na Paraíba, que é
dividida em quatro macrorregiões de saúde e 16 microrregiões de saúde. Cada macrorre-
gião é composta por um determinado número de regiões de saúde e estas, por sua vez,
71A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade70A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
abrangem um determinado número de municípios (Paraíba, 2015). A figura 01 apresenta
esta distribuição.
Figura 1. Mapa das macrorregiões de saúde do estado da Paraíba, com seus municípios abrangentes.
Dentre os 223 municípios paraibanos, 155 (69,5%) possuem população com menos
de 10.000 habitantes. Assim, para melhor caracterizar as cidades rurais, esta pesquisa foi
realizada em municípios com população de 10.000 habitantes. Para tanto, foram sorteadas
quatro cidades de cada macrorregião de saúde, totalizando 16 cidades.
Participaram do procedimento de entrevista 40 profissionais de saúde, sendo 10 da
primeira macrorregião de saúde da Paraíba, 10 da segunda, 9 da terceira e 11 da quar-
ta. O número de participantes se explica em razão dos profissionais que estavam presentes
nos serviços de saúde no momento em que foi realizada a coleta de dados; bem como em
razão daqueles que aceitaram realizar o procedimento de entrevista. Assim, participaram
profissionais que fazem parte da equipe mínima da atenção básica, abarcando as seguintes
categorias: enfermeiros, médicos, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde
e dentistas. Os profissionais foram abordados em seus ambientes de trabalho e adotou-se
dois critérios de inclusão: a) ser profissional da atenção básica de cidades rurais há no mí-
nimo seis meses; b) ser profissional de saúde da equipe mínima da atenção básica.
Para a produção dos dados foram utilizados os seguintes instrumentos: a) Questionário
sócio laboral com questões versando sobre renda, escolaridade, cidade de residência, ida-
de, religião, estado civil, sexo e aspectos da atividade profissional; b) Entrevista semies-
truturada com questões sobre a avaliação dos serviços de saúde e sobre as demandas
em saúde mental.
Após a aprovação da pesquisa pelo comitê de ética, foi iniciada a coleta de dados. Ao se-
rem contatados, os participantes foram informados acerca do estudo, explicitando o cará-
ter voluntário da participação, seguido da assinatura do “Termo de consentimento livre
e esclarecido”. Por conseguinte, foi solicitado a cada participante, individualmente, que
72A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
respondesse aos instrumentos (questionário e entrevista). As entrevistas foram gravadas,
mediante autorização dos participantes, para posterior transcrição e análise. O tempo médio
de entrevista foi 25 minutos.
Os dados referentes ao questionário sociolaboral foram processados através do soft-
ware SPSS e analisados através de estatística descritiva (frequência, porcentagem e mé-
dia). Já os dados das entrevistas foram analisados por meio da Análise de Conteúdo do tipo
Categorial Temática, conforme Bardin (2011).
Todos os participantes foram esclarecidos sobre os propósitos do estudo e assinaram
termos de consentimento livre e esclarecido conforme a Resolução 466/2012 do Conselho
Nacional de Saúde. Além disso, foram fornecidas referencias de telefones de contato dos
pesquisadores para eventuais esclarecimentos de dúvidas ou qualquer outra questão.
Garantiu-se, ainda, a confidencialidade dos dados e da identidade dos participantes, bem
como assegurado seu direito de retirar o consentimento em qualquer momento da pesquisa,
sem nenhum ônus pessoal ou para a sua atividade profissional.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Perfil sociodemográfico e laboral dos profissionais de saúde
A idade dos participantes variou de 23 a 67 anos (M=37,4; DP=10,54), sendo a maioria
do sexo feminino (33 profissionais). Em relação à faixa etária, 10 participantes tinham idades
entre 23 e 29 anos, 17 profissionais tinham entre 30 e 39 anos, 11 profissionais com idades
entre 40 e 49 anos, e 04 possuíam idades acima de 50 anos (54 a 67 anos). A maioria dos
profissionais se declararam casados (23 participantes), 11 eram solteiros, 04 se declararam
divorciados e 02 viúvos. Quanto à religião, a maioria afirmou ser católico (33 profissionais),
04 se declararam evangélicos, 02 espíritas e uma pessoa se declarou sem religião.
Quanto aos dados do perfil laboral, a maioria dos participantes trabalhavam na atenção
básica e em serviços de cidades rurais há mais de cinco anos. Semanalmente, a maioria
dos profissionais trabalhavam cinco dias (30 profissionais), outros trabalhavam três dias (04
profissionais) ou quatro dias (06 profissionais). Quanto a carga horária diária de trabalho, 33
profissionais trabalhavam 8 horas, seis trabalhavam 6 horas e um profissional trabalhava 5
horas. Outros dados estão apresentados na tabela 2 abaixo:
73A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade72A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Tabela 1. Perfil sociolaboral
Variáveis Frequência
Categoria profissional
Enfermeiro 11
Técnico de enfermagem 10
ACS 09
Médicos 08
Dentista 02
Tempo de atuação no serviço
De 6 meses a 1 ano 07
Entre 1 e4 anos 11
Entre 5 e 9 anos 06
Entre 10 e 14 anos 06
Entre 15 a 20 anos 07
Mais de 20 anos 03
Tempo de atuação na Atenção Básica
De 6 meses a 1 ano 04
Entre 1 e 4 anos 10
Entre 5 e 9 anos 05
Entre 10 e 14 anos 08
Entre 15 a 20 anos 06
Mais de 20 anos 07
Tempo de formação profissional
Menos de 1 ano 02
Entre 1 e 5 anos 07
Entre 6 e 10 anos 09
Entre 11 e 14 anos 04
Entre 15 e 20 anos 05
Mais de 20 anos
Carga horária semanal
20 a 29 horas 04
30 a 39 horas 07
40 horas 29
ANÁLISE CATEGORIAL TEMÁTICA DAS ENTREVISTAS
A análise do conteúdo das entrevistas, a partir do procedimento de análise do tipo
categorial temático (Bardin, 2011), evidenciou a emergência de 202 unidades de conteúdo,
as quais formaram quatro categorias temáticas e 16 subcategorias. As categorias estão
demonstradas no quadro abaixo:
74A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Quadro 1. Saúde mental em cidades rurais, segundo os profissionais de saúde da Atenção Básica (AB)
Categorias Subcategorias Unidades de Conteúdo (f) Unidades de Conteúdo %
Caracterização da de-
manda
Ansiedade e depressão 16
27,7%
Baixa demanda 13
Procura por medicação/receita 22
Outros transtornos 05
Pessoas com Transtornos
Mentais Comuns
Explicações para TMC 05
23,3%
Sintomas 11
Comportamento 24
Uso de medicamento 07
Atendimento na Atenção
Básica
Ausência de ações 05
42,6%
Aconselhamento/ conversa 06
Encaminhamento 31
Tratamento pautado na medicação 12
Acompanhamento domiciliar 06
Articulação com a rede de atenção psicossocial 26
Atendimento na cidade
Ausência de profissionais 05
6,4%
CAPS 08
Total 202 100
Caracterização da demanda
Na primeira categoria, os profissionais falaram sobre as demandas de saúde que
chegam à AB. Segundos os entrevistados, os quadros de ansiedade e depressão são co-
muns entre as pessoas em sofrimento psíquico que procuram o serviço, bem como ocorre a
existência de outros transtornos. Outros profissionais afirmaram que a demanda em saúde
mental é baixa. Destaca-se que a maior frequência de unidade de conteúdo desta categoria
foi de relatos que apontavam para as demandas que circundam em torno dos usuários que
utilizam a AB com o propósito de renovação de receitas medicamentosas e procura por
medicação, conforme afirmam os médicos José e Marcos1:
“Já tem essa demanda bem definida de pacientes que fazem uso, principal-
mente, de benzodiazepinos”.
“Gente que toma remédio controlado aqui é grande [...] tudo viciado em Ben-
zodiazepino né? Tudo tomando Diazepan, Rivotril que é a mesma coisa”.
1 Por questão de sigilo, os nomes dos entrevistados foram modificados.
75A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade74A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Percebe-se nos relatos analisados que quase nenhuma ação é feita em contramão a
esse tipo de demanda e os profissionais acabam de forma acrítica fornecendo receitas e con-
sequentemente acatando a premissa de que a renovação da medicação é única ou principal
forma de fornecer atendimento no serviço. Dessa forma, verificamos que as intervenções
em saúde mental direcionadas para as pessoas que procuram a AB estão centradas no
diagnóstico e na medicação. Este tipo de intervenção, segundo Dantas et al. (2018), produz
efeitos tanto na organização do processo de trabalho e na vida cotidiana dos usuários, quanto
na capacidade de produzir interferências em um cenário onde a pobreza, a desigualdade, a
exclusão e a violação de direitos têm ampla visibilidade. Essa forma de promover o cuidado
pode fazer com que os serviços reproduzam o adoecimento e o sofrimento, deixando fissuras
nas possibilidades de promoção saúde.
No âmbito das políticas públicas de saúde, deve-se conceber a doença como um
processo complexo e atravessado pelo conjunto de condições de existência da população
e seus determinantes nos processos saúde-doença, ou seja, deve-se considerar a deter-
minação social no processo saúde-doença-cuidado (DIMENSTEIN et.al,2015). Ao se tratar
de intervenções e cuidado em saúde mental, outros estudos perceberam a persistência um
modus operandi voltado para práticas individualizantes, no processo saúde-doença-cuidado
na AB (DIMENSTEIN et.al, 2017; DIMENSTEIN; LEITE, 2014; HIRDES; SCARPARO 2015;
MACEDO et. al., 2017; PARREIRA et.al 2017).
Tais condutas não têm proporcionado produções de conhecimentos e intervenções
orientadas numa perspectiva que considere o caráter histórico e territorial, no qual implica
as várias determinações e singularidades dos modos de vida.
Pessoas com Transtornos Mentais Comuns (TMC).
No tocante à segunda categoria, os resultados evidenciam que o Transtorno Mental
Comum (TMC) foi frequentemente assinalado pelos profissionais de saúde. Trata-se de
uma terminologia vastamente utilizada na literatura da epidemiologia psiquiátrica para a
caracterização de quadros sintomáticos que não tenham patologia orgânica associada. Tem
como principais sintomas insônia, fadiga, queixas somáticas, dificuldade de concentração
que causam intenso sofrimento psíquico e geram incapacidade funcional.
Segundo Dantas et. al, (2018), os chamados TMC correspondem à maior parte da
demanda de saúde mental que chega à rede de atenção básica, principalmente relativos à
ansiedade e depressão, corroborando com os dados desta pesquisa, através da categoria
“caracterização da demanda”. Outras pesquisas apontam (DANTAS et.al, 2018; DIMENSTEIN
et. al, 2016; PARREIRA et. al, 2017) a associação dos TMC com variáveis relativas às con-
dições de vida, trabalho e perspectivas de futuro, tais como a pouca escolaridade, o menor
76A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
número de bens duráveis, condições precárias de moradia, baixa renda, desemprego e
informalidade nas relações de trabalho.
Nesse cenário, destacamos que as populações rurais, tal como as urbanas, são atraves-
sadas por condicionantes sociais e culturais que produzem territórios singulares e requerem
atenção especial quando se trata do processo saúde-doença-cuidado. Conforme Dimenstein
et. al. (2017), as situações de vulnerabilidade como por exemplo a falta de estradas, de
transporte adequado, de meios de comunicação, poucos recursos hídricos, existência de
riscos ambientais tais como destinação inadequada do lixo, uso de agrotóxicos e realização
de queimadas como forma de preparação do solo para plantio, é realidade no meio rural e
são desencadeadores de sofrimento.
Dessa forma, emerge a necessidade de discutir os laços entre saúde mental e território,
entendendo que este último se configura como uma trama complexa entre processos so-
ciais e espaço material, escapando à superação da dicotomia social-espacial, uma vez que
é componente constituinte de subjetividades e não apenas um mero lócus. É o solo onde
relações sociais se processam incessantemente e de forma particular, por mais elementares
ou parciais que sejam, carregam consigo elementos das relações globais e transcendem
seus limites geográficos. As condições de vida e, consequentemente, de saúde, estão rela-
cionadas aos espaços utilizados pelas pessoas, onde circulam, vivem e desenvolvem suas
atividades diárias. É necessário, nas intervenções em saúde, investigar o que já se realiza
cotidianamente e o que o território tem a oferecer como recurso aos profissionais de saúde
para contribuir no manejo dessas questões.
Atendimento na Atenção Básica
Observa-se, na terceira categoria, que o atendimento na AB segue um modelo de atua-
ção pautado, predominantemente, pelo encaminhamento para o psiquiatra, para serviços e/
ou profissionais especializados, como nos mostra o agente comunitário de saúde Jasmim:
“[...] se for necessário uma medicação é aqui que o médico vê que resolve,
caso não... na maioria das vezes eles encaminham. Pro (Sic) CAPS, ou...
Primeiro o CAPS, né, porque é a primeira referência [...] então ele sempre fica
acompanhado pelo CAPS.”
Como já evidenciado na primeira categoria, quandoos usuários iniciam o acompanha-
mento na AB já têm um histórico de tratamento medicamentoso, que passa a ser continua-
do, geralmente, sem associação com outros recursos terapêuticos e centrado na atuação
dos médicos. Reconhecer o encaminhamento ao Psiquiatra ou a um serviço especializado
como estratégia de suporte, evidencia desdobramentos da predominância do modelo médico
77A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade76A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
hegemônico, modelo este que postula saberes e fazer acerca do sofrimento psíquico pau-
tados pelo paradigma da normatização.
Apesar do encaminhamento aparecer com maior frequência nessa categoria, identifica-
mos que os profissionais realizam acompanhamento domiciliar e escuta junto aos usuários
em sofrimento psíquico. No entanto, a realização de tais práticas apresenta limitações, já
que muitas vezes as visitas dependem de um transporte ofertado pela prefeitura que nem
sempre está disponível para as equipes de saúde. No mais, foi identificado que essas visitas
são norteadas pela nosologia psiquiátrica e pela perspectiva do controle da medicalização,
conforme relata a ACS Margarida:
“Sempre a essas pessoas a gente faz uma visita domiciliar pra saber como
é que tá sendo, se tá tomando a medicação certa, se tá tomando... Eu faço
essa visita”.
No tocante à articulação com outros pontos de atenção da RAPS, nota-se que esta
realiza-se, na maioria das vezes, através de encaminhamentos. A dentista Tulipa descreve
a articulação da seguinte forma:
“É... o CAPS tem uma relação bacana, né, toda vez que a gente precisa,
encaminhamos”.
A associação entre características sociais, econômicas, territoriais e sofrimento psí-
quico já foi evidenciada em estudos anteriores (ROCHA et al., 2011; SOUZA et al., 2017),
sendo imprescindível a construção de políticas e ações intersetoriais, para que o tratamento
farmacológico e o encaminhamento para os serviços especializados não sejam os recur-
sos centrais. Andrade (2017), mostra que cogitar os casos de sofrimento psíquico como
responsabilidade exclusiva do CAPS, dificulta a inserção desses usuários nas atividades
desenvolvidas na Atenção Básica, dessa forma, faz-se necessário maiores debates que co-
loquem a AB como uma diretriz prioritária da política municipal, sendo primordial o incentivo
à criação de estratégias de cuidado em saúde mental voltadas para o eixo territorial. Para
Dimenstein e Leite (2014), o apoio matricial emerge como possibilidade de criar encontros no
campo da saúde mental. Além de fomentar a discussão sobre as possibilidades do cuidado
no território, estimula a ampliação dos conhecimentos e a oferta terapêutica, dando suporte
às equipes. Isso permite a construção de fluxos e projetos terapêuticos mais eficazes, em
diálogo com outros serviços da rede de saúde. Nesse caminho, Moura e Silva (2015), des-
tacam que os profissionais, com a inclusão do apoio matricial, passaram a questionar os
encaminhamentos, considerando-os excessivos. Assim, o matriciamento pode constituir um
potente arranjo para a qualificação dos cuidados em saúde mental, pois constrói espaços de
78A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
troca de conhecimento entre os diversos profissionais, avançando em direção à superação
do trabalho fragmentado pela especialização.
Atendimento na cidade
A partir da fala dos participantes, evidencia-se que o atendimento voltado para a saúde
mental, em algumas cidades, não acontece devido à falta de médicos psiquiatras e/ou é feito
exclusivamente pelo CAPS, como afirma o Médico João:
A saúde mental eu vejo não só aqui como em todas as cidades (...) muito
deficiente, há poucos médicos psiquiatras nos serviços polos, no CAPS por
exemplo. Aqui é uma cidade que não tem visita de nenhum psiquiatra.
Percebe-se que a articulação entre os serviços é frágil, e geralmente não há o retorno
do usuário unidades da AB. Tais práticas se contrapõem às diretrizes de funcionamento
da RAPS. Podemos pensar ainda que atribuir a centralidade ao CAPS no tratamento do
sofrimento psíquico torna-se uma dificuldade no sentido de alcançar a responsabilização
compartilhada, um desafio que está relacionado à intersetorialidade.
A falta da vinculação com os recursos do território se reflete na baixa oferta de ações
ampliadas de saúde mental no âmbito da AB, que acaba por congestionar os serviços es-
pecializados. Segundo Dimenstein e Leite (2014), a efetivação da promoção e do cuidado
em saúde mental nos diferentes níveis de atenção, teria como desdobramento a redução
na demanda dos usuários em sofrimento psíquico aos serviços substitutivos.
Como já mencionado nesse texto, discutir atenção psicossocial na AB implica em pensar
o território como espaço, como processo, como relação e como composição que extrapola os
limites geográficos. Conforme Yasui, Luzio e Amarante (2018), trata-se de construir/inventar
um espaço possível de subjetivação e pensar em estratégias de cuidado que promovam
diversidade e multiplicidade.
Por fim, ressaltamos que para o Ministério da Saúde (2013), a AB constitui um ponto
de referência nos cuidados em saúde mental para usuários egressos de outras intervenções,
desde consultas até internações psiquiátricas, realizadas em outros serviços:
As intervenções em saúde mental devem promover novas possibilidades de
modificar e qualificar as condições e modos de vida, orientando-se pela produ-
ção de vida e de saúde e não se restringindo à cura de doenças. Isso significa
acreditar que a vida pode ter várias formas de ser percebida, experimentada
e vivida. Para tanto, é necessário olhar o sujeito em suas múltiplas dimen-
sões, com seus desejos, anseios, valores e escolhas. Na Atenção Básica, o
desenvolvimento de intervenções em saúde mental é construído no cotidiano
dos encontros entre profissionais e usuários, em que ambos criam novas
ferramentas e estratégias para compartilhar e construir juntos o cuidado em
saúde. (BRASIL, 2013. p. 23)
79A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade78A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
CONCLUSÃO
Entende-se que o atendimento psicossocial na Atenção Básica pode e deve ser rea-
lizado por todos os profissionais de saúde, pautados na premissa que o cuidado em saúde
mental deve considerar o território e a relação de vínculo da equipe de saúde com os usuá-
rios. No tocante às demandas relacionadas ao sofrimento psíquico, os resultados apontam
que a identificação é referida pelos profissionais da Atenção Básica como prática interventiva
em saúde mental. Nesse sentido, há uma preocupação em identificar o diagnóstico, porém,
na maioria dos casos, essa prática não implica na responsabilização da equipe pelo usuário
em sofrimento psíquico, por conseguinte, a identificação é seguida de encaminhamentos e/
ou prescrição medicamentosa.
Percebe-se que essas práticas não têm favorecido a produção de conhecimentos,
competências e habilidades orientadas por uma perspectiva territorial, assim como é pro-
posto pela própria política que rege o serviço, a qual convida o profissional a considerar as
múltiplas determinações e singularidades dos modos de vida, das relações afetivas, das
sociabilidades e vínculos entre sujeitos e instituições, que reverberam nas formas de adoe-
cimento e sofrimento, bem como nas possibilidades de suporte e cuidado. Aponta-se, como
ferramentas capazes de promover uma aproximação com o que proposto pela política, o
apoio matricial e a intersetorialidade para que o serviço supere a fragmentação do processo
de trabalho através da abertura de canais comunicacionais e formulação de ações conjuntas.
Ressaltamos que este estudo não tem por objetivo a generalização dos dados. Assim,
as limitações da pesquisa devem ser consideras por tratar-se da percepção dos profissio-
nais de uma amostra específica e que atuam em cidades que foram definidas através de
sorteio. Em pesquisas futuras,sugere-se estudos que contemplem profissionais e usuários
dos 223 municípios da Paraiba, o que possibilitaria, inclusive, a comparação entre contextos
rurais e urbanos.
Por fim, percebe-se, a partir dos resultados, a necessidade de maior investimento na
qualificação técnica e ético-política dos profissionais para a efetivação de um trabalho inte-
gral, localmente formulado, e que tenha força para romper com a racionalidade hegemônica
e universalizante em que determinadas formas de conhecimento do mundo, práticas sociais
e modos de vida são naturalizados.
80A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
REFERÊNCIAS
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“
05
Como você está? Resultados de um
projeto de psicologia durante a Pandemia
de COVID-19
Jonatan dos Santos Franco
UFGD
Mariela da Cruz Santos
UNIME
Vanilce Farias Gomes
UFGD
Felipe Maciel dos Santos Souza
UFGD
Beatriz Irala Mariano
UFGD
Beatriz de Matos Manoel
UFGD
10.37885/210203043
https://dx.doi.org/10.37885/210203043
83A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: COVID-19, Intervenção, Saúde.
RESUMO
O presente capítulo apresenta o projeto Como Você Está? Orientações para o período
de distanciamento físico, que foi realizado com o objetivo de diminuir os efeitos negativos
produzidos pela COVID-19 no âmbito social, econômico e atender demandas psicoló-
gicas da sociedade, como por exemplo, depressão, ansiedade e estresse. O projeto foi
realizado no ano de 2020, entre abril e agosto do mesmo ano, através das plataformas:
YouTube e Instagram. Foram realizados 16 vídeos, e uma live. Ao final do projeto, ob-
teve-se, pela plataforma do YouTube, 64 inscritos, 612 visualizações, 91 likes, 1 deslike
e 19 comentários. Pelo Instagram, obteve-se, 200 seguidores, 1185 visualizações, 156
likes e 3 comentários. O projeto teve algumas dificuldades ao decorrer de sua execução,
são elas: a) o alcance do projeto foi baixo, não possibilitando um maior engajamento por
parte do público e consequentemente retraindo as outras variantes de avaliação: no que
o projeto deveria melhorar, quais conteúdos interessariam o público, etc; b) ainda existe
uma parcela da população (26%) que não possui acesso à internet, então não teria como
alcançá-los por meios virtuais. No capítulo, sugere-se outras possíveis pesquisas que
poderão ser feitas com base no conceito de promoção e prevenção da saúde através
de meios virtuais.
84A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
Pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020), “a disseminação mundial de uma
nova doença” é definida como uma pandemia, caracterizando, assim, a COVID-19 como
tal. O mundo enfrentou outras pandemias tais como: Peste Bubônica, Gripe Russa, Gripe
Espanhola, Varíola, entre outras. O cenário pandêmico pede cautela e atenção, nas palavras
de Ghebreyesus (OPAS, 2020) “Primeiro, prepare-se e esteja pronto. Em segundo lugar,
detectar, proteger e tratar. Terceiro, reduza a transmissão. Quarto, inove e aprenda”.
Não se pode prever, assim como nas pandemias passadas, a duração desse cenário,
tão pouco quantas pessoas sobreviverão a essa crise sanitária. O que há de comum em ce-
nários de perigo iminente – morte, em específico – é o terror da população quanto ao medo da
morte, de perder seus entes queridos, como acontece nos contextos pandêmicos (IANNINI;
EDITORIAL, 2020). Em pandemias passadas não se tinha diversas tecnologias como hoje,
mas se tinha, talvez, menos desinformação do que se observa hoje com as fake news.
Não havia, em 1918, antibióticos para tratar doenças como: pneumonia, gonorreia ou
febre reumática. O primeiro antibiótico surge com AlexanderFleming e a primeira vacina
para combater o vírus influenza e a isolá-lo foi a do médico e virologista Thomas Francis e
seu aluno Jonas Salk. A Gripe Espanhola durou cerca de 2 anos, 50 milhões de pessoas
morreram. Algumas medidas semelhantes as adotadas para conter o coronavírus foram
adotadas, tais como: isolamento físico, uso de máscaras, aumento na quantidade de leitos
disponíveis. Diferente das mortes por Gripe Espanhola no Brasil, cerca de 300 mil (TORRES,
2009), as mortes causadas por COVID-19 ultrapassam 150 mil (BRASIL, 2020) (KIND;
CORDEIRO, 2020).
O novo coronavírus (Sars-Cov-2) é um Betacoronavírus, da subfamília
Orthocoronavirinae, pertencente à família Coronavirinae. Existem 6 (seis) linhagens/ce-
pas, identificadas por uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, são elas: A.2, B.1, B.1.1,
B.2.1, B.2.2 e B.6. No Brasil, existe a linhagem do clade B.1, especificamente o sub-clade
B.1.1. O vírus Sars-Cov-2 causa a doença conhecida por COVID-19 descoberta em 2019
os primeiros casos surgiram na província de Hubei, na China. Com a hipótese amplamen-
te compartilhada nos principais veículos de comunicação, o vírus surgiu no mercado de
Wuhan. O Governo chinês aplicou o método lockdown em toda a cidade no dia 23 de janeiro,
segundo Yuan et al. (2020).
Os fatores responsáveis pelo aumento da taxa de estresse, ansiedade e depressão no
período inicial (31/01/2020 – 02/02/2020) do distanciamento social foram avaliados por Wang,
Pan, Wan, Tan, Ho e Ho (2020). Os resultados que: a maioria dos entrevistados (53,8%)
considerou o efeito psicológico gerado pela quarentena (84,7% dos entrevistados disseram
ficar em casa de 20-24h por dia) como moderado ou grave. Outros estudos, palestras, mesa
85A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade84A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
redonda, eventos etc., vêm trazendo como tema a saúde mental, um exemplo é a ação
promovida pela Fiocruz em uma série de vídeos sobre os Impactos sociais, econômicos,
culturais e políticos na pandemia, abordado em 3 (três) subeixos: COVID nas favelas, Saúde
indígena e Ética e bioética.
A pandemia afetou a sociedade e as problemáticas socioeconômicas (tais como de-
sigualdade racial, social, etc) foram intensificadas. De acordo com o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) (2020), entre 20 de setembro e 26 de setembro de 2020,
15,3 milhões de pessoas não buscaram emprego ou por falta de vagas disponíveis na sua
localidade ou por conta da pandemia, dentre os 15,3 milhões, 7,0% são pessoas brancas
e 11,3% são pretas e pardas. É possível identificar diferenças entre a empregabilidade da
população minoritária, com uma grande concentração de pessoas desempregadas na região
Norte e Nordeste (16,9% - 19,6%) de acordo com a mesma pesquisa deste ano, há intensa
desigualdade na distribuição de renda nessa mesma região.
O aumento de consumo de bebidas alcoólicas no período de distanciamento social
aumentou. O consumo excessivo de álcool ocasiona, de acordo com a OMS dependência
química e serve como fator agravante em quadros de depressão e consequentemente –
mas não obrigatoriamente – de suicídio. Franco (2020) apresenta o aumento das menções
nas redes sociais sobre ‘suicídio’ em pelo menos 12% (de 6,3% em 2017 para 23,5% em
2020), indicando que as pessoas estão mais à vontade para falar sobre o tema, as piadas
diminuíram e a busca por ajuda de profissionais na área da saúde aumentou.
Com este capítulo, pretende-se apresentar os resultados do projeto de extensão Como
você está? Orientações para o período de distanciamento físico, realizado entre maio e
outubro de 2020, o qual foi aprovado pelo Edital COE nº 01, de 30 de março de 2020:
Chamada de Propostas de Projetos e Ações de Ensino, Pesquisa, Inovação e Extensão
Para o Combate ao COVID-19 da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Para
isto, além da introdução, é caracterizado o projeto e são apresentados os resultados obtidos
durante a execução do projeto.
DESCRIÇÃO DO PROJETO
Percebe-se que a pandemia impôs um novo status quo à sociedade, e que profissionais
das mais diversas áreas têm trabalhado arduamente para diminuir os efeitos provenientes
da COVID-19. Diante deste cenário, o trabalho da Psicologia apresenta-se de suma impor-
tância, visto que constitui possibilidade de exercício profissional a atuação em emergências
e desastres, em contextos clínicos, de assistência social e de políticas públicas, amenizando
os impactos e criando estratégias de enfrentamento.
https://portal.fiocruz.br/covid-nas-favelas
https://portal.fiocruz.br/saude-indigena
https://portal.fiocruz.br/saude-indigena
https://portal.fiocruz.br/etica-e-bioetica
86A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
É neste cenário que o projeto Como Você Está? Orientações para o período de distan-
ciamento físico foi aprovado em edital de 30 de março de 2020 da UFGD, sendo sua equipe
constituída por constituído por: 2 graduandos(as) em Psicologia [um da UFGD e uma da
União Metropolitana de Educação e Cultura (UNIME)]; 3 pós-graduandas de mestrado [uma
do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) e duas do Programa de
Pós-Graduação em Psicologia (PPGPSI) da UFGD]) e um professor do curso de Psicologia
da UFGD, que foi coordenador do projeto.
O projeto relatado foi uma ação para minimizar os efeitos negativos da COVID-19
na população em geral, proporcionando acolhimento de demandas e melhorias na saúde
mental. Respeitando as orientações da UFGD e dos órgãos de Saúde esta proposta foi
executada sem aglomeração de pessoas, produzindo-se vídeos, os quais foram disponibili-
zados, gratuitamente, na internet, a qual se tornou grande aliada no combate à depressão,
à ansiedade e ao estresse em meio ao isolamento social provocado pela pandemia, sendo
possível alcançar com mais facilidade as pessoas que sofrem com esses transtornos.
Os canais utilizados para a divulgação escolhidos pela equipe foram: Instagram1 e
YouTube2. Os vídeos foram publicados no YouTube com frequência semanal, postados no
sábado, totalizando dezesseis vídeos e uma live feita pelo Instagram, cujos conteúdos são
apresentados no Quadro 1. Houve uma dificuldade quanto ao alcance dos vídeos publicados
pela plataforma do YouTube, pode-se notar essa diferença comparando com a plataforma
do Instagram, onde teve-se uma taxa de aproximadamente 193,62% de visualizações à
mais (1.185) que o YouTube (com 612 visualizações). Entretanto, houve uma diferença
fundamental na interação, no YouTube obteve-se mais comentários que no Instagram, o
que possibilita uma formulação de hipóteses para explicar esses fatos (feitas logo a seguir).
Quadro 1. Temas dos vídeos e da live abordados:
Tema Data Formato
Apresentação da equipe 15/abr Vídeo
Conheça o nosso projeto 20/abr Vídeo
COVID-19: Distantes sim, sozinhos não! 25/abr Vídeo
A importância do distanciamento social 03/mai Vídeo
COVID-19 e as fakes news 09/mai Vídeo
Aonde procurar ajuda 16/mai Vídeo
Cuidados com a alimentação 23/mai Vídeo
Cuidados com a saúde física 01/jun Vídeo
Ansiedade 13/jun Vídeo
Estresse 27/jun Vídeo
Depressão 04/jul Vídeo
Psicossomatização 06/jul Vídeo
O que fazer em casa? 11/jul Vídeo
Cuidados com as crianças 18/jul Vídeo
1 Instagram.com/projetopsico2020
2 https://www.youtube.com/channel/UCnXkSScNrQI8oDXsYgjRuKQ
87A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade86A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Tema Data Formato
Relacionamento interpessoal 25/jul Live
Cuıdados com a economıa 01/ago Vídeo
Como estudar na quarentena 11/ago Vídeo
RESULTADOS ALCANÇADOS
O projeto teve recepção distinta nas duas plataformas. Pela estatística disponibiliza-
da pela plataforma YouTube (YouTube Studio) até o início de novembro/2020, o canal do
projeto obteve 64 inscritas(os); 91 curtidas/likes; uma descurtida/deslike e 12 comentá-
rios. No Instagram, obteve-se duzentos e seis seguidoras(es); trezentase dezessete curtidas
e sete comentários.
No Instagram, houve pouca interação com os/as seguidores/as (comentários, curtidas,
compartilhamentos etc), porém alcançou-se mais pessoas. No Youtube, embora tenha-
-se alcançado um número significativo de visualizações, teve-se pouca interação com os
seguidores, embora tenha-se recebido mais comentários; e poucos alcances em visuali-
zações. A retenção do público na plataforma do YouTube também foi um desafio, dada a
duração média dos vídeos.
Diante de tais constatações, pode-se levantar as seguintes hipóteses: a) o Instagram
facilita a interação entre produtor de conteúdo e público, tem pouca burocracia, já o YouTube
permite interações entre produtor de conteúdo e público através da aba comunidade apenas
a partir de 1 milhão de inscritos; b) o Instagram é a segunda rede social com maior engaja-
mento por post; c) a divulgação do projeto se concentrou na página do Instagram, em virtude
do alcance nessa plataforma.
O vídeo mais acessado na plataforma do Youtube foi sobre economia (01/08), com
175 (cento e setenta e cinco) visualizações. Para explicar a diferença de views nesse vídeo
foram levantadas as seguintes hipóteses: a) os apresentadores do vídeo possuem grande
quantidade de seguidores em outra rede social e divulgaram o link do Youtube; b) o conteú-
do estava em alta por conta da pandemia, aumentando o alcance e as visualizações; (c) a
aparência do vídeo (edição, local de gravação, etc).
O vídeo com o menor acesso no Youtube foi sobre estresse, publicado no dia 27 de
junho. A baixa visualização pode ser explicada por: (a) não foi divulgado como os outros
vídeos, (b) a forma de expor o tema pode ter sido diferente dos outros vídeos; c) a edição
do vídeo (cor, cortes, edição nos textos, etc) não contribuiu para que o vídeo fosse atrativo
ao público, alcançando poucas pessoas.
O vídeo do Instagram com mais visualizações foi a live, realizada no dia 25 de julho
e teve 119 visualizações. Para explicar a quantidade de views, as seguintes hipóteses fo-
ram levantadas: a) o tema proposto foi interessante e contundente ao público que segue o
88A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
projeto, (b) o tema levantou questões de como se relacionar com os filhos, com o cônjuge,
e lidar com relacionamentos abusivos; c) a convidada possuía um público grande na rede
social; (d) a live foi bem divulgada.
O vídeo com o menor acesso no Instagram foi Aonde procurar ajuda publicado no dia
29 de junho com 5 (cinco) visualizações. Para explicar esse dado, as seguintes hipóteses
foram levantadas: a) a abordagem utilizada no vídeo não foi compatível com o público que
nos segue; b) a edição do vídeo pode não ter sido efetiva quanto dos outros vídeos ; c) a
thumbnail 3 não chamou a atenção, diminuindo a porcentagem de cliques/toques4 e conse-
quentemente a visualização; (d) o vídeo foi pouco divulgado.
Para analisar os comentários recebidos no canal do Youtube, apresenta-se duas figu-
ras em que foram preservadas as identidades dos usuários, aplicando-se um efeito de blur
(embaçar) na foto e riscando o nome com a cor vermelha.
Figura 1. Comentários publicados no vídeo COVID-19: distantes sim, sozinhos não!
Fonte: Elaborada pelas(os) autoras(es).
Figura 2. Comentários publicados no vídeo A importância do distanciamento social
Fonte: Elaborada pelas(os) autoras(es).
3 Miniatura do vídeo – a “capa”
4 Conhecido, formalmente, como CTR (Clik Through Rate)
89A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade88A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Figura 3. Comentários publicados no vídeo COVID-19 e as fake news.
Fonte: Elaborada pelas(os) autoras(es)
A maioria dos comentários foi de incentivo, como apresentado nas Figuras 1 e 2. Com
exceção de uma crítica feita ao vídeo ‘COVID-19 e as fakes news (Figura 3). Para responder
ao porquê de terem sido recebidos mais comentários positivos (elogios, críticas construtivas)
do que negativos (críticas destrutivas) as seguintes hipóteses foram levantadas: a) vídeos
tentavam trazer uma certa dinâmica, facilitando o entendimento do conteúdo passado, e
então os comentários foram de elogio; b) as pessoas começaram a se interessar mais por
temas ligados a área de saúde no período de distanciamento social; c) os vídeos tiveram
uma boa edição (textos, músicas etc).
Com relação ao comentário crítico, pode-se levantar as seguintes hipóteses: a) algum
subtema do vídeo não foi muito bem abordado, deixando dúvidas no público e possibilida-
des de crítica; b) o internauta não entendeu muito bem o tema e achou por bem colocar sua
crítica; o conteúdo do vídeo desafiou sua tese sobre o que é considerado ‘verdade’ para ele,
fazendo com que sustente seu ponto mesmo diante dos fatos.
90A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Segundo Nascimento (2020), as fake news estão presentes em todas as sociedades
e também em todas as épocas, a título de exemplo, ele cita o boato que ocorreu em 1815,
ao final das guerras Napoleônicas, quando Natan Rothschild, ao presenciar a vitória das
forças inglesas sobre os franceses, parte para a Inglaterra, conta aos ingleses o que viu, as
bolsas despencam, ele compra todas elas e no dia seguinte, quando os ingleses souberam
da verdade, Rothschild ficou rico. Essa teria sido a possível explicação para a riqueza de
uma das famílias mais ricas da Europa, sendo esse boato (fake news – notícia falsa) des-
mentido posteriormente por um artigo elaborado pelo jornalista Brian Cathcart e publicado
no jornal britânico The Independent.5
Nascimento (2020), define fake news da seguinte forma:
[...] são característica da era da pós-verdade, mas não surgiram com ela,
estando presente em toda a história da humanidade: o que mudou foi sua ca-
pacidade de propagação pelas novas tecnologias; O discurso das fake news
possui ideologia e intenção, que é a negação da realidade, substituindo-a por
outra que proporcione ganho material ao enunciador; Elas são largamente
utilizadas em tempos de conflito, seja ele militar, social ou de interesses eco-
nômicos, porque são mais facilmente recebidas como verdade em tempos de
crise. As fake news nunca contam uma história isolada, sempre apresentando
uma narrativa em laços que produzem aspecto de veracidade a si mesmas.
Poder-se-ia hipotetizar que, como Nascimento (2020) disse, as fake news distorcem a
realidade substituindo-a por outra e para fazer isso com eficiência, deve-se prestar atenção
na maneira que essa outra realidade é mostrada, então se toma um maior cuidado e apli-
cabilidade de técnicas para “simular” essa realidade negada e assim passar uma segunda,
que é a falsa (fake). Nesse sentido também, Pennycook (2019) mostra que a tendência
em aceitar notícias fracas se deve ao fato de as pessoas aceitarem afirmações fracas, ou
seja, as conclusões não seguem as premissas (o que faz de um argumento válido)6, ora a
conclusão é falsa contendo premissas verdadeiras, ora a conclusão é verdadeira contendo
premissas falsas (não na estrutura do argumento, mas sim no conteúdo).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com este capítulo, buscou-se refletir sobre os resultados alcançados pelo projeto ‘Como
você está?’, divulgado por duas plataformas digitais (YouTube e Instagram) visando minimizar
os efeitos negativos do COVID-19 na população em geral. Pretendeu-se descrever o método
adotado (periodicidade dos vídeos, temas abordados, etc), tecer comentários concernentes
5 https://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/rothschild-libel-why-has-it-taken-200-years-anti-semitic-slur-emerged-battle-wa-
terloo-be-dismissed-10216101.html
6 Valid Argument (Argumento Válido): https://web.stanford.edu/~bobonich/terms.concepts/valid.sound.html#:~:text=Valid%3A%20
an%20argument%20is%20valid,argument%20that%20is%20not%20valid
91A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade90A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
à eficácia do projeto de acordocom seu objetivo e como podem ser desenvolvidos outros
projetos ligados à essa área.
Com a classificação da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 11 de março de
2020, de uma pandemia decorrente da COVID-19, a demanda por profissionais da área de
saúde mental aumentou consideravelmente se comparada a meses anteriores à pandemia.
Sendo assim, é necessário abordar a saúde mental nas diversas áreas. Este projeto visou
contribuir na área científica (Sociologia – entendendo como a sociedade se organiza para
enfrentar suas crises/doenças psicológicas/medo/solidão e como busca ajuda; Psicologia
– com enfoque ao atendimento online, prevenção e promoção da saúde através das redes
sociais e mídias de comunicação no geral entre outras áreas do campo científico).
Com enfoque direcionado à saúde mental, a partir do projeto podem ser realizados
treinamentos com psicólogas/os (ou estudantes de Psicologia sob supervisão) para dar apoio
à comunidade local que tenha demanda para tratar do seu sofrimento mental, através de
sessões de psicoterapia feitas semanalmente e de forma gratuita, tendo como público-alvo
pessoas em situação de vulnerabilidade social e com doenças/transtornos mentais graves,
como: depressão, ansiedade, esquizofrenia, estresse pós-traumático, etc, doenças mais
comuns na classe que se encontra abaixo da linha da pobreza, principalmente em mulheres
onde a prevalência de transtornos mentais comuns (TMC) são mais evidentes (SILVA, 2010).
Outrossim, podem ser realizadas web conferências com o objetivo de atender a co-
munidade universitária a nível local (seja a universidade a qual o projeto se originou ou
instituições de ensino superior do mesmo estado) ou a nível nacional, como: professores,
técnicos, acadêmicos, etc., podendo assim, colaborar de maneira assertiva nos problemas
levantados pela comunidade acadêmica, ajudando-os a atingirem melhor qualidade de vida.
Percebe-se que a pandemia acentuou a aproximação de forma exponencial que as
pessoas estão tendo maior acesso às redes sociais e o meio virtual como um todo, sendo
viável fazer propostas de prevenção e promoção de saúde justamente, neste momento,
utilizando estas ferramentas. É possível observar o quanto as ferramentas virtuais estão
sendo utilizadas nesse período de distanciamento físico, pela quantidade de lives sendo
feitas, cursos, palestras, conferências, workshops, propagandas nas redes sociais, vídeos
no YouTube, etc.
Por fim, percebe-se a importância da elaboração e divulgação de vídeos sobre saúde
neste momento de pandemia, visando à promoção de saúde, entendendo-se como um
processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida
e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo. Sendo assim, não é
responsabilidade exclusiva do setor saúde, e vai para além de um estilo de vida saudável,
na direção de um bem-estar global, como preconizado por Brasil (2002, p.19).
92A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
REFERÊNCIAS
1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Projeto Promoção da Saúde.
As Cartas da Promoção da Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2002.
2. BRASIL. Ministério da Saúde. Sobre a Doença, 2020. Disponível em: https://www.paho.org/
pt/covid19. Acesso em: 22 out. 2020.
3. FRANCO, M. Crescem publicações sobre suicídio no Brasil durante a pandemia; veja como
buscar ajuda. Folha de São Paulo, São Paulo, 3 de jul. de 2020.
4. IANNINI, G., EDITORIAL, C. Sonhos confinados – uma pesquisa sobre a vida onírica no
contexto de uma pandemia. Mosaico: Estudos Em Psicologia, v. 7, n. 1, p. 103–113, 2020.
5. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Trabalho: Desocupação,
renda, afastamentos, trabalho remoto e outros efeitos da pandemia no trabalho. Rio de
Janeiro: IBGE, 2020.
6. KIND, L.; CORDEIRO, R. Narrativas sobre a morte: a Gripe Espanhola e a COVID-19 no Brasil.
Psicol. Soc., Belo Horizonte, v. 32, 2020.
7. NASCIMENTO, F. Por que acreditamos em fake news? In: ABREU, Janaina M.; PADILHA,
Paulo Roberto (org.). Paulo Freire em tempos de fake news. São Paulo: Instituto Paulo
Freire, 2020, p. 87-94.
8. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. O que é pandemia? OMS, 2020. Disponível em:
<https://www.who.int/csr/disease/swineflu/frequently_asked_questions/pandemic/en/>. Acesso
em: 21 out. 2020.
9. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE (OPAS). Folha informativa COVID-19. Dis-
ponível em: <https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#como-se-proteger>. Acesso
em: 22 out. 2020.
10. PENNYCOOK, G. Who falls for fake news? The roles of bullshit receptivity, overclaiming, fa-
miliarity, and analytic thinking. Journal of Personality, v. 88, n. 2, p. 185-200, 2019.
11. SILVA, D. F. Transtornos mentais e pobreza no Brasil: uma revisão sistemática. Monografia
(Especialização em Saúde Pública) – Fundação Oswaldo Cruz, Recife, p. 21. 2010.
12. TORRES, L. H. O vírus da gripe espanhola desembarca na cidade: a visão do Echo do Sul.
Biblos, v. 23, n. 1, p. 91-99, 2009.
13. WAN, C., PAN, R., WAN, X., TAN, Y., XU, L., HO, C. S., HO, R. Immediate Psychological
Responses and Associated Factors during the Initial Stage of the 2019 Coronavirus Disease
(COVID-19) Epidemic among the General Population in China. National Center for Biotech-
nology Information, v. 17, n. 5, 2020.
14. YUAN, M.; WU, F.; ZHAO, S.; YU, B.; CHEN, Y.; WANG, W.; SONG, Z.; HU, Y.; TAO, Z.;
TIAN, J.; PEI, Y.; ZHANG, Y.; DAI, F.; LIU, Y.; WANG, Q.; ZHENG, J.; XU, L.; HOLMES, E.C.;
ZHANG, Y. A new coronavirus associated with human respiratory disease in China. Nature,
v. 579, n. 7798, p. 265-269, 2020.
https://www.paho.org/pt/covid19
https://www.paho.org/pt/covid19
https://www.who.int/csr/disease/swineflu/frequently_asked_questions/pandemic/en/
https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#como-se-proteger>.
“
06
DOR CRÔNICA E IMPL ICAÇÕES
NEUROPSICOLÓGICAS: Análise dos
aspectos neuropsicológicos envolvidos
nas Síndromes dolorosas que afetam a
condição médica geral
Olímpia Maria Dornelles Couto
IEPHAE
10.37885/210303586
https://dx.doi.org/10.37885/210303586
94A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Neurociências, dor Crônica, Neuropsicologia.
RESUMO
A dor crônica tem sido expressivo problema de saúde pública e grande desafio aos
profissionais da saúde e às neurociências por causar atroz sofrimento e prejuízo huma-
no. A literatura médica a descreve como uma experiência subjetiva sensitiva e emocional,
frequentemente atroz e inexplicável que afeta a condição médica geral, manifestando
sintomas dolorosos e persistentes mesmo após tratamento ou na ausência de lesão
tecidual. A neurociência demonstra que a patologia tem oferecido dados importantes
acerca da relação entre cérebro e o comportamento. A neuropsicologia estuda as bases
neurais do comportamento e possui interconexões com a neurologia, psiquiatria e psico-
logia, despertando grande interesse em conhecer a dinâmica exercida entre elas. Esta
análise, alicerçada na revisão de literatura nacional e internacional, apresenta achados
sobre implicações neuropsicológicas e dor crônica e norteia o estudo final.
95A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade94A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
A dor crônica tem sido grande desafio ao meio médico e às neurociências por ser um
acometimento que persiste além do tempo de recuperação normal do tecido, frequentemen-
te mantido por um período acima de três meses, mesmo na ausência de lesão tecidual ou
após tratamento desta lesão e considerada fenômeno psicofisiológico e neuropsicológico
complexo3, sugerindo ser um acometimento integral multidimensional neurológico, fisiológico
e comportamental que demanda compreensão na mesma magnitude em que se apresenta.
A neuropsicologia é a neurociência que estuda as bases neurais do comportamento
humano20, possui interfaces com diversas áreas, notadamente, com a medicinaneurológica
e psiquiátrica, com a psicologia, fisioterapia, psicopedagogia, fonoaudiologia, entre outras.
Apesar do grande interesse científico e de inúmeros trabalhos publicados nesse campo,
obras na língua portuguesa são escassas, especialmente aquelas de caráter multidisciplinar,
voltadas para a área clínica21 e de compreensão integral do indivíduo.
Resultante das considerações acima, conjectura-se que a dor crônica seja um aco-
metimento ‘neuropsicofisiológico e comportamental” que causa atroz sofrimento e prejuízo
humano, frequentemente manifesto e mantido mesmo na ausência de lesão tecidual ou
após tratamento desta lesão.
Este estudo objetivou demonstrar a existência de implicações neuropsicológicas nas
síndromes dolorosas que afetam a condição médica geral, e, evidenciar a importância da
neuropsicologia para propor formulação diagnóstica e implementação de programa de tra-
tamento à pacientes com dor crônica.
Através de revisão de literatura nacional e internacional abordando sobre implicações
neuropsicológicas, especialmente relacionadas ao “funcionamento cerebral superior” incluindo
aspectos cognitivos, comportamentais, neurológicos, psiquiátricos e demenciais, envolvidos
nas manifestações dolorosas crônicas, como na Fibromialgia, Artrite Reumatoide, Lúpus
Eritematoso Sistêmico, Lyme, Câncer, Enxaqueca, Dor Complexa Regional, Dor Lombar,
Esclerose Múltipla, Fadiga Crônica e uso de Opióides.
A PROBLEMÁTICA DA DOR CRÔNICA E NEUROPSICOLOGIA
Aspectos teóricos
A neurociência, visando compreender as instabilidades envolvendo o sofrimento hu-
mano, tem observado e procurado entender as estruturas e o funcionamento de áreas po-
tenciais correlacionadas como a neurológica, psicológica cognitiva e comportamental e tem
96A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
demonstrado que a patologia humana tem oferecido informações preciosas sobre a relação
entre o cérebro e o comportamento19.
A dor é definida como experiência objetiva sensitiva e emocional, associada com le-
são tissular real ou potencial dos tecidos ou descrita em termos dessa lesão2 e considerada
fenômeno psicofisiológico e neurofisiológico complexo3, sugerindo ser um acometimento
integral multidimensional neurológico, psicológico, fisiológico e comportamental que demanda
compreensão e intervenção na mesma proporção em que se apresenta.
Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP)4, a dor é definida
como uma experiência sensorial (sensitiva) e emocional desagradável associada ou descrita
em termos de lesão tecidual.
A dor pode ser classificada quanto a duração, a origem, ao padrão e quanto a in-
tensidade: quanto a duração5, classifica-se como aguda e crônica; quanto a origem, clas-
sifica-se como dor nociceptiva, neuropática, mista e psicogênica; quanto ao padrão6–7,
classifica-se como contínua e episódica; e. quanto a intensidade, classifica-se como leve,
moderada ou intensa.
A duração da dor em pacientes que procuram tratamentos em centros especializados
de dor crônica é de aproximadamente sete anos7. Estimativas conservadoras de frequên-
cia de algum tipo de dor crônica na faixa de população só dos EUA é de 75 milhões de
pessoas3. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que, em média, 30% da popu-
lação global sofra com dores crônicas e, só no Brasil, esse número equivale a 60 milhões
de brasileiros10.
A dor crônica envolve não só o aspecto físico denunciado pelo sintoma, e sim, a inte-
gralidade que compromete diversos domínios da vida da pessoa, inclusive o estado men-
tal. As estimativas sugerem que pelo menos um diagnóstico de transtorno mental esteja
presente em 59% dos pacientes com dor lombar crônica tratados em centros de dor11.
A dor crônica é classificada e descrita como transtorno Somatoforme, incluindo ma-
nifestações de sintomas físicos para os quais pode ou não ser encontrada uma explicação
médica adequada, cujo os sintomas e queixas somáticas são suficientemente sérios para
causarem um sofrimento emocional ou prejuízo significativo à capacidade do paciente para
funcionar em papeis sociais e ou ocupacionais. Os transtornos somatoformes12 diferem
dos fatores psicológicos que afetam a condição médica, na medida em que não existe uma
condição médica geral diagnosticável que explique plenamente os sintomas físicos.
Toda a manifestação dolorosa, objetiva ou subjetiva, real ou potencial, demanda espe-
cial compreensão e intervenções adequadas. A dor crônica com característica neuropática
ainda é pouco estudada, e os poucos estudos epidemiológicos evidenciaram que a dor neu-
ropática é um problema de saúde pública com elevada prevalência e grande influência na
97A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade96A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
vida das pessoas. A realização de estudos populacionais deve ser incentivada objetivando
implementar políticas de prevenção e controle dessa doença13.
A dor crônica é uma experiência individual, ou seja, peculiar à cada pessoa. Referindo-
se à dor crônica, Schneider (1976)14, aponta que “(...) certos indivíduos se tornam doentes
crônicos pela simples razão de apresentarem alterações somáticas tão importantes que são
forçados a renunciar a qualquer possibilidade de adaptação e de desenvolvimento, mesmo
restrito e sentem necessidade de cuidados constantes”.
Múltiplas e contingentes funções cerebrais superiores podem estar envolvidas na
gênese, exacerbação ou manutenção das síndromes dolorosas crônicas. A presença de
déficits cognitivos em pacientes com dor pode ser explicada considerando-se diversas
dimensões15–16–17.
Segundo Sardá Jr. e Garcia18, primeiramente, é sabido que a dor mobiliza nosso sistema
nervoso central por ser uma mensagem de alta valência; em segundo lugar, se percebido
como um evento estressante, as respostas à dor produzem alterações no sistema nervoso
neurovegetativo e demandam atenção, processamento de informações e tomada de decisões.
Ainda, segundo Sardá Jr e Garcia18, transtornos mentais como depressão e ansiedade
são frequentes em pacientes com dor e podem causar déficits cognitivos também. Associado
a isso, essa população usa frequentemente diversas medicações opióides, antidepressivos,
ansiolíticos entre outros que podem causar efeitos indesejáveis tais como sonolência, torpor,
déficits cognitivos.
A avaliação neuropsicológica clínica difere da avaliação psicológica clínica. Os procedi-
mentos utilizados em avaliações psicológicas clínicas em geral diferem dos empregados em
avaliações neuropsicológicas, embora possa, às vezes, haver uma pequena sobreposição.
Por exemplo, as avaliações psicológicas com alguma assiduidade incluem um teste de inteli-
gência, que é essencialmente uma medição cognitiva, e muitas avaliações neuropsicológicas
contêm uma medição de personalidade para triar dificuldades emocionais22.
A avaliação psicológica clínica utiliza testes projetados para prover informações sobre
a personalidade e o funcionamento emocional dos pacientes22. A avaliação neuropsicológi-
ca utiliza medidas comportamentais e de funcionamento cerebral, visando caracterizar de
maneira mais compreensiva o status cognitivo e emocional do paciente23 e objetiva corre-
lacionar as funções preservadas e as prejudicadas, na tentativa de compreender como a
lesão ou disfunção cerebral afeta a realização das atividades de vida diária e o desempenho
escolar e vocacional24.
Os instrumentos de avaliação neuropsicológica têm procedência da medicina neuro-
lógica e ciência psicológica. Os testes neuropsicológicos, como a própria ciência neurop-
sicológica, derivam de várias das práticas do Exame Neurológico Clínico, da Psicologia
98A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Experimental e Clínica, e da pesquisa em Neuropsicologia; poucos dos testes foram origi-
nalmente desenvolvidos por neuropsicólogos25–26.
No aspecto histórico da Neuropsicologia, autores23–25 relatam que nas décadas de 50 e
60,a Avaliação Neuropsicológica deveria responder às perguntas sobre “sinais de organici-
dade”, nos dados do paciente. A partir da década de 60, com a proliferação de procedimentos
mais especializados, os clínicos começam a expandir seu papel para localizar lesões nos
hemisférios cerebrais.
Em termos de correlações clínicas, não se pode considerar apenas sítios, órgãos ou
sistemas acometidos, a percepção da dor é um fenômeno complexo que depende da natu-
reza dos estímulos fisiológicos que ativam receptores sensoriais, assim como da condição
afetiva da pessoa27–28.
Fatores psicopatológicos envolvendo qualidade de vida afetiva, social, espiritual, sexual
e financeira da pessoa podem ser peculiaridades fundamentais na gênese e manutenção
da dor. O terapeuta deve ter consciência de que a sensação de dor é subjetiva e não pode
ser expressa numa terminologia científica ou médica porque possui um componente emo-
cional importante. Ao implementar uma interação terapêutica, o desafio para o terapeuta é
ser sensível aos fatores físicos e emocionais que contribuem para a condição do paciente29.
Auxiliar o paciente com dor, demanda mais do que amparar somente clínica, fraternal-
mente ou puramente medicamentosa, se faz necessário conhecer amplamente o dinamismo
envolvido no acometimento para intervir com artes medicinais, abalizadas, norteando res-
postas efetivas. A assistência ao paciente com dor requer não só acolhimento, mas também
ações científicas para identificar e sanar esse sintoma e minimizar o sofrimento10.
Sob a perspectiva neuropsicológica30, a descoberta do sintoma não constitui o fim, mas
o ponto inicial para o estudo das estruturas internas do distúrbio e identificação de fatores
subjacentes. O exame neuropsicológico aplica-se, desta forma, a uma série de propósitos,
tais como: auxílio em diagnósticos; suporte no manejo, cuidado e planejamento de progra-
mas de reabilitação; avaliação da eficácia de tratamentos; fornecimento de informações para
propósitos jurídicos; e pesquisa25.
ASPECTOS PRÁTICOS
1. Fibromialgia, Artrite Reumatoide e Lúpus Eritematoso
A fibromialgia é considerada uma síndrome musculoesquelética de dor crônica e di-
fusa, devido a seu grande número de sintomas. É diagnosticada na presença de dor ge-
neralizada durante três meses, em combinação com sensibilidade em 11 ou mais dos 18
pontos sensíveis à palpação das diversas partes do corpo, conforme o American College
99A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade98A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
of Rheumathology. A cronicidade da doença afeta a qualidade de vida dos pacientes, bem
como suas relações sociais, hábitos e rotinas, provocando aumento das anormalidades
psicológicas à doença, especialmente em estados de depressão e alterações psiquiátricas.
A artrite reumatoide é uma doença inflamatória sistêmica crônica, autoimune, que
afeta as articulações e associa-se com manifestações sistêmicas como rigidez, fadiga e
perda de peso. O envolvimento com outros órgãos reduz a expectativa de vida em cinco a
10 anos. A progressão da doença torna os pacientes incapazes de realizar atividades da
vida diária. As alterações psicológicas também se desenvolvem quando correlacionadas ao
comprometimento físico. No entanto, o tratamento com fármacos não surte efeito sobre os
quadros psiquiátricos, quando então são necessários outros recursos.
O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença de causa desconhecida. Ela envolve
processos autoimunes e inflamatórios de forma multisistêmica, que atingem frequentemente
o sistema nervoso central, periférico e autônomo, podendo gerar acometimentos neurológi-
cos, síndromes neuropsiquiátricas e psicofuncionais, como convulsões, cefaleia, síndrome
orgânica cerebral e psicose. O comprometimento neurológico pode ocorrer simultaneamente
a outros sintomas ou após o início da doença.
O diagnóstico do lúpus eritematoso sistêmico deve ser realizado tendo como base ao
menos quatro de 11 critérios: eritema malar, lesão discoide, fotosensibilidade, úlceras orais
e nasais, artrite, serosite, comprometimento renal, alterações neurológicas, alterações he-
matológicas, alterações imunológicas e anticorpos nucleares.
Estudo
Uma análise neuropsicológica de distúrbios cognitivos em pacientes com fribromialgia,
artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistemico, realizado na UNB em 2012, objetivan-
do analisar a possível existencia de distúrbios cognitivos associados a fibromialgia, artrite
reumatoide, lúpus eritematoso e a influencia das variáveis idade, escolaridade e sintomas
psiquiatricos sobre esses distúrbios, revelou a presença de distúrbios cognitivos associados
às três patologias, porém com diferenças significativas entre os grupos, concluindo que ren-
dimento neuropsicológico está significativamente afetado pela dor e o nível de ansiedade
explica parte da variabilidade nos testes neuropsicológicos que não é explicado pela dor.
2. Síndrome de Fibromialgia (SF)
Estudos prévios têm mostrado a presença de alterações cognitivas em síndromes de
fibromialgia (SF), contudo, não tem determinado a possível influência das distintas variáveis
clínicas nestas alterações.
100A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Estudo
Um estudo sobre Neuropsicologia dos pacientes com Síndrome de Fibromialgia, realiza-
do em Psicothema, Oviedo, em 2008, visando determinar as diferenças na função cognitiva
entre pacientes com SF e controles hígidos, e, determinar a influência da ansiedade e a dor
na função cognitiva em pacientes com SF, observou que as pacientes com SF apresentaram
rendimento cognitivo significativamente inferior aos controles hígidos em todos os parâmetros
avaliados e que o rendimento neuropsicológico em pacientes com SF está associado a dor,
sendo esta relação independentemente do nível de ansiedade e concluiu que o rendimento
neuropsicológico está significativamente afetado pela dor, e o nível de ansiedade explica
parte da variabilidade nos testes neuropsicológicos que não é explicado pela dor.
3. Esclerose Múltipla (EM)
Os déficits cognitivos são uma manifestação comum na esclerose múltipla e têm um
efeito grande sobre a qualidade de vida do paciente. O alívio dos efeitos nocivos causa-
dos por esses déficits deve ser um dos principais objetivos da pesquisa e da prática no
tratamento da EM.
Estudo
Estudo sobre reabilitação neuropsicológica para esclerose múltipla, realizado no Centro
de reabilitação neurológica Masku – Finlândia, em 2011, visando avaliar os efeitos da rea-
bilitação neuropsicológica/cognitiva em EM através da realização de uma revisão sistemá-
tica, encontrou quatorze estudos, cujos resultados foram agrupados evidencia redução de
sintomas cognitivos em EM em baixo nível, porém, significativos em doze estudos, quando
analisados individualmente. Não havia métodos de reabilitação neuropsicológica sobre as
funções cognitivas e emocionais. A qualidade global dos estudos, bem como a comparabili-
dade dos estudos incluídos foram relativamente baixos devido as limitações metodológicas
e heterogeneidade de medidas utilizadas e concluiu que Baixo nível de evidência de efeitos
positivos na reabilitação neuropsicológica em EM intervenções incluídas na revisão foram
heterogêneas. Consequentemente, inferências clínicas só podem ser desenhadas a partir
de estudos individuais.
4. Esclerose Múltipla (EM)
A esclerose múltipla é uma doença progressiva, autoimune e de etiologia desconhe-
cida. Caracteriza-se por uma disfunção do sistema nervoso que causa a perda da ba-
inha de mielina que envolve os neurônios, associada a uma inflamação e à destruição dos
axônios, prejudicando a condução dos impulsos nervosos e gerando sintomas físicos e
101A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade100A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
cognitivos. Os sintomas da EM incluem comprometimentos motores (tremores, paralisias,
parestesias, dores, etc.),alterações emocionais (depressão, estresse, ansiedade exacerbada)
e cognitivas (déficits de memória, atenção, funções executivas, velocidade de processamento
da formação, etc.).
A EM possui quatro manifestações clínicas distintas: 1. Forma recorrente remitente:
em que os sintomas costumam exacerbar-se por cerca de uma ou duas horas (período de
crise), seguidos por uma melhora gradual, com duração de dois ou três meses. No início
da doença, a duração dos sintomas pode ser total durante o período de remissão, contudo,
com a repetição das crises, alguns déficits passam a se acumular; 2. Forma Progressiva
Secundária: nesse quadro a doença inicia como forma surto-remissiva, mas com o decorrer do
tempo os comprometimentos tornam-se progressivos, sem fases de melhora dos sintomas; 3.
Forma Progressiva Primária: em que o comprometimento progressivo está presente desde o
início da doença; 4. Forma Progressiva com Surtos: quando a doença se mostra progressiva
desde o surgimento, apresenta surtos claros de exacerbação dos sintomas, com ou sem
recuperação total das funções afetadas e piora progressiva fora de manifestações de surto.
A avaliação neuropsicológica pode auxiliar no diagnóstico e tratamento de pacien-
tes com transtornos neurodegenerativos, mas ainda enfrenta problemas com a escolha
e a qualidade dos instrumentos, especialmente ao avaliar patologias específicas, como a
Esclerose Múltipla .
Estudo
Estudo sobre as dificuldades na Avaliação Neuropsicológica de pacientes com Esclerose
Múltipla, realizado em UFTM em 2012, objetivando apresentar os resultados e as dificuldades
enfrentadas ao realizar a avaliação neuropsicológica de pacientes com EM atendidos em
um ambulatório público de uma cidade do interior de Minas Gerais, observou que a maioria
dos pacientes apresentou algum déficit nas funções executivas, especialmente na memória
ou na capacidade motora. O processo de avaliação evidenciou a dificuldade para utilizar
provas de longa duração em pacientes que sofrem de fadiga crônica e para obter material
validado específico para avaliar pacientes com EM e concluiu que é necessário avaliar os
pacientes no período da manhã, com instrumentos menos extensos e também avaliar o
estado emocional dos pacientes com EM.
7. Síndrome da dor complexa regional (SDCR)
Estudo
Estudo sobre déficits neuropsicológicos associados a Síndrome Complexa Regional,
realizado em Drexel University, Colégio de Medicina, Departamento de Neurologia em 2010,
102A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
visando elucidar a existência de subtipos neuropsicológicos em Síndrome Dolorosa Complexa
Regional, analisou cento e trinta e sete pacientes em três grupos: grupo 1, pacientes ob-
tiveram escores mais elevados do que os grupos 2 e 3 em todos os testes. Entretanto, os
grupos 2 e 3 foram igualmente prejudicados em testes executivos. O grupo 3 foi prejudicado
na avaliação de nomeação/memória em comparação com os outros grupos e concluiu que,
significativos déficits neuropsicológicos estão presentes em 65% dos pacientes. Muitos dos
pacientes apresentam elementos de comprometimento executivo e alguns pacientes com
comprometimento cognitivo global.
8. Dor Lombar
A lombalgia é uma doença que exerce um profundo impacto em várias esferas de
funcionamento psicossocial, incluindo emocional, limitações funcionais e decréscimos nos
contatos sociais.
Estudo
Estudo sobre as peculiaridades das funções cognitivas em pacientes com dor crôni-
ca nas costas, realizado na Universidade Korsakova, Centro de Neurologia e Psiquiatria,
Sechenova – Moskva em 2009, objetivando estudar os fatores cognitivos que influencia em
pacientes com dor lombar crônica, observou que, diferenças significativas nos testes neu-
ropsicológicos, ou seja, flexibilidade mental, memória de atraso, velocidade psicomotora,
que se refere ao comprometimento cognitivo sutil com distúrbios de função executiva, foram
encontrados em ambos os grupos de pacientes com dor lombar crônica em comparação com
adultos sem dor e concluiu que, características sensório-discriminativo (dor de intensidade)
e afetivo-emocionais (emoções negativas, em particular, ansiedade) teve efeito sobre as
funções cognitivas em pacientes mais jovens, sem sintomas depressivos. Características
afetivo-emocionais (ansiedade, angústia psicológica) e cognitivos (catastrofização) contribuiu
para os distúrbios cognitivos em pacientes mais velhos.
9. Dor Lombar Crônica e Somatoforme
Doença psicossomática é toda a perturbação que comporta no seu determinismo um
fator psicológico intervindo não só de modo contingente, como pode acontecer qualquer que
seja a afecção, mas por uma contribuição essencial à gênese da doença.
A dor lombar crônica, como principal sintoma de um transtorno de dor somatoforme é
uma categoria diagnóstica remanescente para muitos médicos, clínicos gerais e cirurgiões
ortopédicos. Pacientes com transtorno de dor somatoforme (CID-10:F45.4), muitas vezes
não são diagnosticados até depois de vários anos e vários procedimentos de diagnóstico,
103A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade102A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
em alguns casos, após a imparidade iatrogênica. Um conhecimento mais preciso da doença
pode evitar a cronificação.
Estudo
Exame sobre características psiquiátricas, psicológicas e neurológicas de pacientes
com dor lombar crônica, realizado na Universidade Korsakova, Centro de Neurologia e
Psiquiatria, Sechenova – Moskva em 2003, visando examinar particularidades psiquiátricas,
psicológicas e neurológicas em pacientes com síndrome de dor crônica (SDC) causada pela
patologia da coluna e pacientes diagnosticados com transtorno de dor crônica somatoforme
(TDCS), observou que, os sintomas depressivos predominaram em pacientes com TDCS,
que exibiram distúrbios psicopatológicos mais pronunciados e duas vezes maior frequên-
cia de transtornos de personalidade, em comparação com os SDC. Em pacientes TDCS
a intensidade da dor e a reação à síndrome de dor significativamente maiores do que em
pacientes do SDC e concluiu que ansiedade, depressão e desadaptação sociopsicológicas é
muito significativamente maior em TDCS. Avaliação neuropsicodiagóstica revela expressiva
diferença entre os grupos: tônica muscular miofascial em TDCS e disfunção da articulação
iliosacral em SDC.
10. Lombalgia e Lombociatica
A compreensão da dor como um fenômeno multidimensional é fundamental pelas
abordagens mais efetivas das síndromes dolorosas, as quais reconhecem a mediação de
aspectos emocionais e comportamentais sobre as mesmas.
Estudo
Estudo sobre diagnóstico de aspectos emocionais associados à Lombalgia e a
Lombociatica, realizado na UFSC, Departamento NIDI Neurociências em 2003, objetivando
verificar a presença da depressão, ansiedade e somatização em um grupo de pacientes com
lombalgia e lombociática, atendidos no Núcleo de Intervenção e Diagnóstico por Imagem
(NIDI), em Florianópolis, constatou que a Avaliação Neuropsicológica evidencia uma asso-
ciação significativa entre depressão, ansiedade e somatização associadas à lombalgia e à
lombociática e concluiu que as alterações associadas à lombalgia e à lombociática, apontadas
neste estudo, vão de encontro à Teoria do Portal e aos resultados similares de pesquisas
apresentadas no exterior. O estudo demonstra a importância da avaliação neuropsicológica
no diagnóstico e tratamento de síndromes dolorosas de origem lombar.
104A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
11. Cefaleia
É situação frequente na prática clínica neurológica os pacientes com cefaleias, prin-
cipalmente migrânea, queixarem-se de problemas de memória, aprendizagem, atenção e
concentração. Eles relatam, por exemplo, dificuldades para lembrar números de telefones,
recados, nomes de pessoas e endereços, esquecendo-se do que estavam indo fazer ou dizer
em determinado momento. Essas queixas podem interferir no funcionamentodos pacientes,
comprometendo a qualidade de vida dos mesmos.
Estudo
Estudo sobre Neuropsicologia das cefaleias, realizado na UFMG, Faculdade de
Medicina, Departamento de Clínica Médica em 2008, objetivando analisar os achados neu-
ropsicológicos de pacientes com cefaleia do tipo tensional e migrânea, descobriu que as
alterações cognitivas observadas em pacientes adultos com migrânea parecem estar pre-
sentes desde a infância e não poderiam ser explicadas por comorbidades psiquiátricas ou
o uso de medicamentos. Estariam possivelmente relacionadas ao processo fisiopatológico
subjacente à migrânea e concluiu que pacientes com cefaleia tipo tensional exibem fun-
cionamento cognitivo similar a controles assintomáticos. Portadores de migrânea tendem
a apresentar pior desempenho em todas as tarefas, mesmo em períodos livre de dor. A in-
vestigação neuropsicológica deveria ser parte integrante da abordagem dos pacientes com
cefaleia, especialmente do tipo migrânea.
12. Enxaqueca e Alodinia
Alodinia cutânea (AC) na enxaqueca é uma manifestação clínica de sensibilização
do sistema nervoso central. Várias síndromes de dor crônica e transtornos de humor são
comorbidades com a enxaqueca.
Estudo
Estudo sobre Alodínia na enxaqueca, associação com condições de dor e de comor-
bidades, realizado na Universidade de Toledo, Colégio de Medicina, Toledo, OH, EUA em
2009, buscou analisar a relação da enxaqueca associada a Alodínia cutânea e comorbida-
des, constatou que a prevalência de diagnóstico médico de auto relato de dor e condições
de comorbidades (síndrome do intestino irritável, síndrome da fadiga crônica, fibromialgia) e
condições psiquiátricas (depressão e ansiedade) foram amplamente associadas a sintomas
de Alodínia. A probabilidade de relatar sintomas de Alodinia grave foi muito maior em pes-
soas com 3 ou mais condições de dor e concluiu que Alodinia cutânea na enxaqueca é uma
105A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade104A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
manifestação clínica de sensibilização do sistema nervoso central. Os sintomas de Alodínia na
enxaqueca estão associados com ansiedade, depressão e várias condições de dor crônica.
13. Sequela Neuropsicológicas da Quimioterapia
Resultados contraditórios sobre as sequelas neuropsicológicas da quimioterapia como
único tratamento pediátrico para leucemia linfoblástica aguda, sem radiação, indicam a ne-
cessidade de uma ampla revisão meta-analítica.
Estudo
Estudo em metanálise sobre sequelas neuropsicológicas do tratamento quimioterápico
pediátrico em leucemia linfoblástica aguda, realizado na Universidade de Missouri-Kansas,
Instituto do Câncer em 2008, objetivando avaliar diferenças no funcionamento neuropsico-
lógico e acadêmico entre crianças com leucemia linfoblástica aguda tratados apenas com
quimioterapia e grupos de comparação, constatou que efeito significativamente diferente
para vários domínios de realização inteligência e acadêmico; velocidade de processamen-
to, memória verbal, e alguns aspectos do funcionamento executivo e habilidades motoras
finas, indicando pior funcionamento em todos os sobreviventes e concluiu que os resultados
comprovaram a presença de sequelas neuropsicológicas e acadêmicas para todos os so-
breviventes tratados apenas com quimioterapia e destaca a necessidade do acompanha-
mento contínuo em crianças com LLA, utilizando uma bateria de testes neuropsicológicos
padronizados e metodologia de pesquisa.
14. Efeitos neuropsicológicos no tratamento de câncer em adultos
Estudo
Estudo em meta-análise e revisão de literatura sobre os efeitos neuropsicológicos no
tratamento de câncer em adultos, realizado na Universidade de Missouri-Kansas, Instituto do
Câncer em 2004, objetivando avaliar os possíveis efeitos neuropsicológicos de tratamentos
para o câncer em adultos, constatou que resultados com efeito negativo estatisticamente
significativos foram encontrados de forma consistente. Nas amostras para aqueles com diag-
nóstico relativamente “menos grave”, os efeitos permaneceram e concluiu que os resultados
apontam para efeitos cognitivos específicos da terapia contra o câncer sistêmico em geral.
Mais pesquisas são necessárias para esclarecer quais os tratamentos que podem ou não
produzir decréscimos cognitivos, o tamanho dos efeitos e a sua duração.
106A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
15. Performance neuropsicológica no uso de Opióides a longo prazo
Estudo
Estudo sobre a performance neuropsicológica prejudicada em pacientes com dores
crônicas não malignas que recebem a terapia de Opióides orais a longo prazo, realizado em
Bispebjerg Hospital, Departamento de Medicina Paliativa Copenhagen, Dinamarca em 2000,
objetivando investigar o desempenho neuropsicológico em pacientes com dor crônica não
oncológica recebendo terapia de Opióides orais a longo prazo, constatou o desempenho
neuropsicológico significativamente mais pobres do que os controles em todos os testes
neuropsicológicos aplicados no presente estudo e concluiu que o uso de opióides orais a
longo prazo evidenciou performance neuropsicológica significativamente prejudicada.
16. Lyme
Doença de Lyme é causada pela espiroqueta carrapatos Borrelia burgdorferi, está as-
sociada com uma grande variedade de anormalidades neurológicas. No início da doença,
muitos pacientes com episódios de cefaleias e menigismo leve. Dentro de algumas semanas,
cerca de 15 por cento apresentam anormalidades neurológicas objetivas, mais comumente
meningite linfócitica, motora ou sensorial radiculoneurite ou neuropatia craniana, em parti-
cular paralisia facial.
O envolvimento neurológico crônico afeta tanto o sistema nervoso central ou perifé-
rico e também pode ocorrer em borreliose de Lyme. Pode ocorrer encefalomielite borrelial
progressiva, uma doença neurológica grave caracterizada por parestesia estática ou tetra-
paresia, ataxia, déficit cognitivo, disfunção da bexiga e neuropatia craniana, principalmente
déficits do sétimo ou oitavo nervo craniano. Pode ocorrer acrodermatite crônica atrofiante,
uma manifestação tardia da pele borreliose de Lyme relatada principalmente na Europa, tem
sido associada com uma polineuropatia sensitiva e com muitos distúrbios mentais.
Estudo
Estudo sobre o funcionamento neuropsicológico na doença de Lyme crônica, realizado
no Departamento de Psiquiatria e Comportamento Humano, Brown Medial School, Província,
Rhode Island, EUA em 2001, objetivando mostrar se os déficits observados em indivíduos
com a doença de Lyme crônica são consistentes com os déficits que podem ser vistos em
processos envolvendo o sistema nervoso frontal, constatou observações consistentes com os
resultados neurorradiológicos dos déficits neuropsicológicos e concluiu que déficits neurop-
sicológicos significativos são observados na doença clínica de Lyme crônica, especialmente
envolvendo o sistema nervoso frontal.
107A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade106A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
17. Lyme
Estudo
Estudo controlado de déficits cognitivos em crianças com doença de Lyme crôni-
ca, realizado em Columbia University, Departamento de Psiquiatria, Divisão de Medicina
Comportamental, New York, NY em 2001, objetivando mostrar a dinâmica cognitiva e psiquiá-
trica de crianças com a doença de Lyme crônica, constatou que as crianças com a doença
de Lyme crônica tiveram significativamente mais perturbações cognitivas e psiquiátricas em
relação a amostra comparada. Os déficits cognitivos ainda foram encontrados depois de
controlar a ansiedade, depressão e fadiga e concluiu que doença de Lyme em crianças pode
ser acompanhada por distúrbios neuropsiquiátricos a longo prazo, resultando em prejuízos
psicossociais e acadêmicos. Sugere estudos neuropsicológicos ainda mais aprofundados.
18. Lyme
Estudo
Estudo sobre síndrome pós Lyme e síndrome da fadiga crônica, semelhanças e dife-
renças neuropsiquiátricas,realizado na Universidade Estadual de Nova York, Departamento
de Neurologia, Stony Brook em 2007, objetivando examinar as diferenças nestes distúrbios
neuropsiquiátricos para melhorar a compreensão de como o humor, fadiga e desempenho
cognitivo se inter-relacionam em doença crônica de Lyme, concluiu que apesar da sobrepo-
sição de sintomas, os pacientes com PLS apresentam maiores déficits cognitivos do que os
pacientes com SFC comparados com controles saudáveis. Isto é particularmente evidente
entre os pacientes com PLS que não têm a doença psiquiátrica pré-mórbida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Compreender e tratar a dor crônica tem sido um grande desafio ao meio médico e des-
pertado importante interesse às neurociências, especialmente a neuropsicológica visando
compreender o envolvimento entre a mente, o cérebro e o comportamento nas síndromes
dolorosas crônicas e têm fornecido informações cruciais em todos os estudos ora analisa-
dos, evidenciando a importância da Neuropsicologia ser inserida à prática em diagnósticos
e indicações de programas de tratamento.
A dor crônica é uma manifestação dolorosa, objetiva e subjetiva, uma experiência indi-
vidual frequentemente acompanhada por transtornos mentais e cognitivos, envolve múltiplas
e contingentes funções cerebrais superiores e em diversas dimensões, apresenta alterações
no sistema neurovegetativo, a natureza da dor depende dos estímulos que ativam receptores
108A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
sensoriais e emocionais, assim como, fatores psicopatológicos envolvendo a vida afetiva,
social, espiritual, sexual e financeira, podem ser peculiaridades fundamentais na gênese e
manutenção da dor, demandando investigação integral.
Assim, a presente análise desnuda a dor crônica como sendo um fenômeno “psicofi-
siológico e neuropsicológico complexo”, em que, a própria patologia oferece informações
preciosas sobre a relação entre cérebro e o comportamento, descortinando, amplamente, a
ação exercida entre mente, cérebro, e comportamento, envolvendo a estrutura neurológica,
psicológica e fisiológica geral, portanto, com conteúdos “neuropsicofisiológicos”, expressos
por problemas observáveis e não observáveis no funcionamento do corpo.
CONCLUSÃO
Conclui-se que, a análise demonstra robustamente a existência de implicações neurop-
sicológicas nas síndromes dolorosas que afetam a condição médica geral em uma importante
variabilidade de problemas físicos e oferece evidências fartamente sólidas sobre a importân-
cia da Neuropsicologia ser incluída em indicações diagnósticas e programas de tratamento.
A dor crônica, considerada fenômeno psicofisiológico e neuropsicológico complexo,
envolvendo a estrutura neurológica, psicológica e fisiológica, com conteúdos, portanto, as-
sociados a fatores neurológicos, psicológicos, fisiológicos e comportamentais, confirma ser
um acometimento “Neuropsicofisiológico e comportamental”, acima conjecturado.
Conclui-se, ainda, que ao auxiliar o paciente com dor, especialmente com síndrome
dolorosa crônica, pode ser de fundamental importância incluir à pratica clínica multiprofis-
sional, um saber que vise conhecer mais amplamente o dinamismo neuro-psico-fisiológico
e comportamental, propondo, assim, uma abordagem “Neuropsicofisiológica e comporta-
mental” que auxilie na formulação diagnóstica e implementação de programas de tratamento
à pacientes com dor crônica.
Por fim, a abordagem “Neuropsicofisiológica e Comportamental”, pode ser aplicada a
uma série de propósitos, tais como na pesquisa, para auxiliar em diagnósticos, dar suporte
no manejo, cuidado e planejamento de programas de reabilitação, avaliação da eficácia
de tratamentos, fornecimento de informações para propósitos jurídicos, tais como, perícias
judiais e outros. Norteando o presente trabalho, por demonstrar fundamental importância
e ter conquistado destaque no meio científico e neurocientífico, avança em stricto senso.
109A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade108A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
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“
07
E n t r e o m e d o e a p r e v e n ç ã o :
representações sociais acerca da
vacinação entre jovens e adultos do
Ensino Médio
Luciano Luz Gonzaga
SEEDUC
Andrea Velloso
UNIGRANRIO
Denise Lannes
UFRJ
10.37885/201202453
https://dx.doi.org/10.37885/201202453
112A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Representações Sociais, Vacinação, Medo.
RESUMO
Há na atualidade um movimento antivacinas e que talvez a gênese deste movimento
esteja ancorada em representações aversivas acerca da imunização vacinal, na qual
se acentua e reverbera com as redes sociais. Comprometendo, por conseguinte, no
reaparecimento de doenças consideradas extintas ou controladas pelo Ministério da
Saúde. Assim, o objetivo fulcral desta pesquisa é identificar e analisar as Representações
Sociais de estudantes, da Educação de Jovens e Adultos – EJA, da periferia da capital
do Rio de Janeiro, acerca da imunização vacinal. Caracterizando, portanto, os códigos,
as regras e os valores que são compartilhados. Participaram desta pesquisa 57 estudan-
tes, dos quais 64,9% autodeclaram-se não brancos e 50,9 afirmaram ser evangélicos.
Apresentam uma média de idade de 30, 6 anos e 61% possuem filhos com menos de 18
anos. O teste de Associação Livre de Palavras (TALP) e a análise de coocorrência das
evocações serviram para identificar a centralidade das Representações Sociais acerca
da vacinação, a partir da abordagem estrutural de Abric. Os resultados demonstraram
que ‘prevenção’, ‘medo’, ‘importante’ e ‘doenças’ foram as evocações mais citadas e com
maior prevalência. Contudo, o ‘medo’ é quem suporta a centralidade das Representações
Sociais do grupo social pesquisado, constituindo-se, portanto, como o principal elemento
de resistência à imunização vacinal particularmente entre os homens. No que tange às
mulheres há um reconhecimento de que as vacinas são importantes porque protegem
as crianças. Como considerações finais, sugerimos que a prevenção, dessa possível
fobia, deva começar o quanto antes e, de preferência, durante a primeira infância quando
ocorrem as primeiras experiências com agulhas. Neste propósito, pensamos o quanto as
escolas e creches poderiam ser boas aliadas neste enfrentamento juntamente com uma
efetiva parceria com a secretaria de saúde. Ademais, importante enfatizar a relevância
do atendimento aos pais, preferencialmente por profissionais da saúde mental, para que
o ciclo do medo não se perpetue.
113A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade112A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
O Conselho Federal de Medicina (2017) afirma que a imunização vacinal é uma prática
cientificamente comprovada e que não existe motivo de recusa ou medo. Ao contrário, o ato
de não se imunizar pode ser desastroso, culminando no aumento da morbimortalidade de
crianças, adolescentes e população adulta, assim como o reaparecimento de doenças con-
sideradas sob controle ou extintas, consolidando um retrocesso na saúde pública (MÜLLER,
2012; REIS, 2017; CARNEIRO, 2017).
Sato (2018, p.7) acrescenta que a queda das coberturas vacinais no território brasileiro
parece estar atrelada não pela “avaliação racional das evidências, mas sim na sensação de
incertezas e ambiguidades”.
Nesta finalidade, Cardoso e colaboradores (2018, p.108) apostam na humanização
do atendimento em saúde e declaram que “a informação, orientação e acolhimento é uma
forma de facilitar a aderência do serviço de vacinação, pois o usuário sente-se acolhido pelo
profissional e seguro em relação ao procedimento que será realizado”.
Além do atendimento humanizado que imprime confiança, segurança e apoio ao usuá-
rio. É inegável a importância das campanhas de vacinação para que pontos ambíguos sejam
esclarecidos, tais como:
I. “as vacinas são rigorosamente testadas e monitoradas por seus fabricantes e pelos
sistemas de saúde dos países onde são aplicadas” (SATO; et al, 2018);
2. quem não se vacina não coloca somente a sua própria saúde em risco, mas as de
outras pessoas com quem tem contato (DOMINGUES; TEIXEIRA; CARVALHO,
2012; ESCOBAR-DÍAZ; OSORIO-MERCHÁN; DE LA HOZ-RESTREPO, 2017, SIL-
VA, et al, 2019); iii) as vacinas são medicamentos feitos por “microrganismos ate-
nuados”, fazendo com que o corpo não desenvolva a doença, mas se torne prepa-
rado para combatê-la se for necessário (MALAGUTTI, 2011; RIBEIRO; VASQUES;
JACINTO, 2015).
Contudo, parece que a queda nas coberturas vacinais não se resume apenas na falta
de um tratamento humanizado ou de campanhas bem sucedidas. Há, na atualidade, um
crescente movimento antivacinas e que talvez a gênese deste movimento esteja ancorada
em representações aversivas, “na distorção das informações concernentes ao objeto re-
presentado” (JODELET, 1989, p. 12) que se acentua e reverbera com o suporte das redes
sociais (VASCONCELLOS-SILVA; CASTIEL; GRIEP, 2015).
Neste propósito, o objetivo fulcral desta pesquisa é identificar e analisar as
Representações Sociais de estudantes, da Educação de Jovens e Adultos – EJA, acerca
114A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
da imunização vacinal, caracterizando o tipo de conhecimento socialmente elaborado pelos
mesmos, assim como os códigos, as regras e os valores que são compartilhados.
Além disto, este artigo pretende contribuir para um possível entendimento, mesmo que
de forma incipiente, sobre um contexto histórico social, o qual é organizado e dispersado
no cotidiano, produzindo identidade e orientando as condutas sociais (MOSCOVICI 1978).
O movimento antivacinas
O processo de imunização vacinal, no Brasil, teve seu marco histórico em 1904 com a
Revolta da Vacina. Na referida época, a imunização foi implantada de maneira compulsória
com o objetivo de imunizar a sociedade que sofria de varíola. Esta atitude autoritária do go-
verno foi determinante para que se criasse, no imaginário social das pessoas, representações
aversivas acerca da imunização vacinal (SEVCENKO, 1993; BROWN,2018; SHIMIZU, 2018).
Na atualidade, segundo o médico infectologista Guido Carlos Levi, o movimento an-
tivacionista se apoia na crença ao medo das reações adversas, em critérios filosóficos
diversos e, em menor proporção, em concepções religiosas (LEVI, 2013, grifos nossos).
Para Vasconcellos-Lima, Castiel e Griep (2015), as mídias parecem influenciar ne-
gativamente para o agravamento dos movimentos antivacionais e, por isso, precisam ser
melhores analisadas.
Os discursos acerca dos perigos da vacinação, enunciados e reproduzidos
pelas mídias de maior influência cultural, não serão aqui tratados como asser-
tivas de poder ilocucionário próprio, pontual, mas como fenômenos culturais
nascidos e reproduzidos em tessitura social especialmente afeita às mensa-
gens desse feitio. Sua energia de plausibilidade e força de expansão parecem
ser nuclear em terrenos contemporâneos de conformação complexa e, por
isso mesmo, dignos de serem devidamente estudados e analisados à luz do
caso que se apresenta (VASCONCELLOS-LIMA, CASTIEL; GRIEP, p.609).
De acordo com Shimizu (2018, p. 91), no Brasil, as redes sociais,em particular o
Facebook, “têm provocado a resistência das pessoas, que desconfiam do governo e da
indústria farmacêutica, temem os efeitos colaterais, defendem a liberdade de escolha e o
direito ao próprio corpo” (grifos nossos).
À vista disso, será que existe pressão à inferência das mídias no processo de constru-
ção das representações sociais dos participantes da pesquisa acerca da vacinação?
Representações Sociais – aporte teórico
Ao propor esta pesquisa, na perspectiva da Teoria das Representações Sociais, retoma-
mos em Moscovici (1978) a compreensão dos processos simbólicos das condutas, atitudes
e comportamentos humanos (JODELET, 1996; MOSCOVICI, 2005; MORERA et al, 2015).
115A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade114A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
As Representações Sociais (RS) possuem sempre caráter prático e preditivo por
orientar as ações dos indivíduos e dos grupos (WACHELKE; CAMARGO, 2007; GOMES;
NUNES, 2015). Neste intento, Abric elenca quatro funções específicas das Representações
Sociais (2000, p.28):
1) Função de saber: as RS permitem compreender e explicar a realidade. Elas
permitem que os atores sociais adquiram os saberes práticos do senso comum
em um quadro assimilável e compreensível, coerente com seu funcionamento
cognitivo e os valores aos quais eles aderem.
2) Função identitária: as RS definem a identidade e permitem a proteção da
especificidade dos grupos. As representações têm por função situar os indiví-
duos e os grupos no campo social, permitindo a elaboração de uma identidade
social e pessoal gratificante, compatível com o sistema de normas de valores
socialmente e historicamente determinados.
3) Função de orientação: as RS guiam os comportamentos e as práticas. A
representação é prescritiva de comportamentos ou de práticas obrigatórias.
Ela define o que é lícito, tolerável ou inaceitável em um dado contexto social.
4) Função justificadora: por essa função as representações permitem, a poste-
riori, a justificativa das tomadas de posição e dos comportamentos. As repre-
sentações têm por função preservar e justificar a diferenciação social, e elas
podem estereotipar as relações entre os grupos, contribuir para a discriminação
ou para a manutenção da distância social entre eles.
Concordamos com Raiol (2017, p.114) ao afirmar que “não basta somente entender a
Representações Sociais como discursos isolados [...]. É necessário analisar sua historicidade
e sua influência na transformação social”.
Em suma, “as Representações Sociais são capazes de influenciar o comportamento
do indivíduo participante de uma coletividade. [...] o próprio processo coletivo penetra, como
fator determinante, dentro do pensamento individual” (MOSCOVICI, 2003, p.40). Assim, o
que pensa o grupo de estudantes do Ensino Médio – modalidade EJA, acerca da vacinação?
Procedimentos metodológicos
A pesquisa é quali-quantitativa realizada com 57 estudantes do Ensino Médio na moda-
lidade de Educação de Jovens e Adultos, moradores da periferia da capital do Rio de Janeiro.
Os estudantes possuem uma média de idade de 30,6 anos (desv.pad= 10,1). Destes,
61% possuem filhos. 36 (63,2%) são do sexo feminino e 21 (36,8%) do sexo masculino.
Quanto à orientação religiosa, 50,9% declararam-se Evangélicos, 8,8% Católicos,
1,7% Umbandistas, 1,7% Candomblecistas, 1,7% Kardecistas e 35,2 % não souberam ou
não quiseram informar.
116A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Quanto à autodeclaração da cor da pele, 35,1% consideram-se pardos, 29,8% negros,
29,8% brancos e 5,3% amarelos.
Para a coleta de dados da análise prototípica das Representações Sociais utilizamos
um formulário para o registro de evocações, a partir da Técnica de Associação Livre de
Palavras – TALP (MERTEN, 1992), que teve como termo indutor ‘vacinação’.
As evocações dos estudantes foram tratadas a partir do software Ensemble de
Programmes Permettant L‟analyse des Évocations – EVOCATION 2000 (VÈRGES; SCANO;
JUNIQUE, 2002), para obtenção do quadro de quatro casas – quadro de Vergès.
Para o cálculo das frequências e ordem média de evocação, extraímos do total de
palavras evocadas aquelas que obtiveram uma frequência igual ou superior a 50% da
frequência total.
No que tange à análise de coocorrência das palavras, utilizamos a ferramenta AIDECAT,
presente no software Evocation 2000. O cálculo do índice entre os cognemas centrais e
periféricos foi dividido pelo número de cada uma das coocorrências pelo número de partici-
pantes, conforme proposto por Pécora (2011).
Importante informar que antes da coleta de dados foi esclarecido aos estudantes o
caráter acadêmico da pesquisa, o sigilo e a privacidade sobre os dados, e em seguida soli-
citamos a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o termo de
assentimento assinado pela gestão escolar.
Revelando os resultados
A fim de compreendermos a organização interna das Representações Sociais acerca
do termo indutor ‘vacinação’, solicitamos aos 57 estudantes que listassem as seis palavras
que viessem à mente, no tempo de cinco minutos, referentes ao termo indutor supracitado.
De um universo de 342 evocações, as palavras mais citadas foram: prevenção (37%),
medo (32%), dor (28%) e saúde (28%). Sugerindo, a priori, uma representação na qual a
vacinação é importante para a prevenção e manutenção da saúde, mas causa medo e dor.
Contudo, de acordo com Abric (2003), a simples quantificação do conteúdo de uma
representação não é suficiente para sua definição e validação. Neste caso, importa saber
a frequência das evocações e a prevalência das mesmas – o poder de saliência, isto é, a
ordem em que tais evocações foram citadas e quantidade de evocações.
Portanto, o estudo das Representações Sociais, pela abordagem estrutural de Abric,
só é possível a partir do levantamento dos núcleos central e periféricos. Abric (1998, p.28)
esclarece que “os elementos da representação são hierarquizados e toda representação é
organizada em torno de um Núcleo Central, constituído de um ou de alguns elementos que
dão à representação o seu significado”.
117A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade116A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
No Núcleo Central da representação é possível identificar as regras compartilhadas ou
até mesmo revelar a identidade do grupo que, por sua vez, será protegido por um sistema peri-
férico, o qual suportará a heterogeneidade do grupo e acomodará as contradições do contexto
em que estão inseridos os indivíduos (ALVES-MAZZOTI, 2007; GONZAGA; LANNES, 2016).
Deste modo, ao analisarmos a RS dos estudantes do Ensino Médio – modalidade
de Educação de Jovens e Adultos (EJA), independentemente do sexo biológico (Quadro
2 - quadrante superior esquerdo), verificamos um Núcleo Central formado pelos seguintes
cognemas: ‘prevenção’, ‘medo’, ‘importante’, ‘doenças’ e ‘proteção’.
Quadro 2. Análise do Núcleo Central ao termo indutor ‘vacinação’ entre estudantes do Ensino Médio – modalidade
Jovens e Adultos. Ano: 2019.
Alta
Frequência
Grande Força de Evocação Pequena Força de Evocação
f
≥
10
f OME
< 3,3 f OME≥
3,3
Prevenção
Medo
Importante
Doenças
Proteção
21
18
13
13
10
2,43
3,17
2,46
2,69
2,80
Dor
Saúde
16
16
3,37
3,69
Baixa
Frequência
f
<
10
Imunização
Agulhada
Não funciona
Necessária
Sarampo
9
8
7
6
5
3,50
2,62
2,57
2,50
2,20
Febre
Criança
Preocupação
Campanhas
7
6
6
5
3,70
3,83
4,67
4,00
No quadro: f é a frequência simples da evocação. A mediana da Frequência de Evocações é igual a 10. A Ordem Média
das Evocações (OME) é igual a 3,3. As evocações com frequência menor do que 10 foram desprezadas. A Força de
Evocação está associada à prevalência na evocação, ou seja, onde a palavra citada na primeira posição tem força
maior do que a citada na segunda posição e assim sucessivamente. Portanto, quanto menor o valor da OME maior a
força de evocação.
Neste contexto, verificamosque os estudantes compreendem que a vacinação é ‘impor-
tante’ porque ‘previne’ e ‘protege’ contra as ‘doenças’, mas o ‘medo’ parece ser o elemento
que desperta à atenção para o perigo de se vacinar.
Este dado parece corroborar com a recente pesquisa desenvolvida pela Faculdade
São Leopoldo Mandic em parceria com a London School of Hygiene and Tropical Medicine
ao verificar que, dos 1000 voluntários que responderam ao questionário, 16,5% informaram
ter medo de se vacinar (BROWN, 2018).
No Núcleo Periférico Limítrofe (Quadro 2 - quadrante superior à direita) há os cogne-
mas que possuem alta frequência e, por isso, existe a forte possibilidade de perpetrarem
a centralidade da representação. No entanto, este núcleo parece reforçar o caráter aver-
sivo à vacinação quando traz os cognemas ‘dor’ e ‘saúde’ como elementos de blindagem
ao Núcleo Central.
Na periferia mais externa da representação (Quadro 2 - quadrante inferior à direita), onde
os elementos são os mais instáveis e mais próximos do contexto socioambiental, identifica-
mos uma ‘preocupação’ com um dos efeitos colaterais da vacinação em ‘crianças’ – a ‘febre’.
118A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Na periferia interna da representação (Quadro 2 - quadrante inferior à esquerda) onde
há os elementos muito importantes, mas para poucas pessoas, identificamos uma blindagem
incongruente ao afirmarem que a ‘imunização’ é ‘necessária’, ‘mas não funciona’.
Entretanto, uma vez identificados os núcleos Central e Periféricos da Representação,
passamos à investigação do poder associativo dos elementos que a constituem. O poder
associativo diz respeito à capacidade dos cognemas centrais coocorrerem com outros cog-
nemas da representação. Uma vez que, a confirmação da centralidade dos mesmos confere
força e propriedade às conotações de cada grupo social (FLAMENT, 1981; VERGÉS, 2002).
Assim, ao identificarmos a centralidade da representação dos estudantes desta pes-
quisa, constatamos que ‘proteção’ perde o caráter de centralidade e que a ‘prevenção’ está
fortemente associada as ‘doenças’, da mesma forma que o ‘medo’ está para a ‘dor’ (Figura 1).
Figura 1. Análise de coocorrência da Representação Social acerca da vacinação entre os 57 estudantes do Ensino Médio
– modalidade Educação de Jovens e Adultos. Ano: 2019
Na figura: as palavras destacadas em negrito pertencem ao Núcleo Central da
Representação. A espessura das arestas representa a porcentagem de estudantes que
citaram quatro ou mais palavras ao mesmo tempo.
Neste aspecto, parece que os estudantes possuem plena convicção da ‘importância
da imunização vacinal, porém o medo da dor das agulhadas funciona como um anteparo
para a não adesão às campanhas de vacinação.
Diante da possibilidade do medo e da dor serem os elementos que proporcionam a
baixa adesão vacinal, nos interessa saber em qual dos gêneros esta característica é mais
contundente. Assim, para esta finalidade nos apropriamos das análises de coocorrência de
ambos os sexos, separadamente, para fins de comparação.
Nossas análises indicam que as mulheres desta pesquisa compartilham a crença na
‘importância da vacinação para prevenir as crianças de doenças imunopreveníveis’ (imuno-
lógicas) e infectocontagiosas (Figura 2). Neste sentido, parece que o instinto de proteção à
prole prevalece sobre o medo e a dor.
119A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade118A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Figura 2. Análise de coocorrência da Representação Social acerca da vacinação entre as 36 estudantes do Ensino Médio
– modalidade Educação de Jovens e Adultos. Ano: 2019
Na figura: as palavras destacadas em negrito pertencem ao Núcleo Central da
Representação. A espessura das arestas representa a porcentagem de estudantes que
citaram quatro ou mais palavras ao mesmo tempo.
Acreditamos que talvez a crença das mulheres na imunização vacinal como um benefí-
cio à saúde da criança colabore para uma melhor adesão ao programa de imunização infantil.
Por outro lado, os homens parecem encontrar maiores dificuldades emocionais (Figura 3).
Figura 3. Análise de coocorrência da Representação Social acerca da vacinação entre os 21 estudantes do Ensino Médio
– modalidade Educação de Jovens e Adultos. Ano: 2019
Na figura: a palavra destacada em negrito pertence ao Núcleo Central da
Representação. A espessura das arestas representa a porcentagem de estudantes que
citaram quatro ou mais palavras ao mesmo tempo.
Embora haja uma preocupação entre os homens desta pesquisa sobre o valor da
imunização vacinal na ‘prevenção de doenças’. O ‘nervosismo e o medo’ parecem sobrepor
tal importância, não contribuindo de fato para a criação de uma nova cultura, culminando,
talvez, na redução da cobertura vacinal.
120A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Neste intento, parece que uma contínua e ampla campanha esclarecedora, bem como
maior aproximação entre as secretarias de saúde e de educação poderiam contribuir para
o processo de desconstrução deste tipo de comportamento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conhecer as representações sociais nos ajuda a traduzir o modo como se dá a relação
dos sujeitos com a realidade. Esta pesquisa, embora seja um estudo de caso e, por con-
seguinte não ter a pretensão de ser generalizável, fornece uma base exploratória sobre as
representações sociais de homens e mulheres acerca da imunização vacinal.
Nesta perspectiva, concluímos que entre as mulheres há um reconhecimento de que
as vacinas são importantes porque protegem as crianças. Entretanto, para os homens, mes-
mo alegando terem conhecimento da importância da imunização vacinal, ainda prevalece o
medo objetivado na dor provocada pelas agulhas.
Este ensaio corrobora com a pesquisa realizada, em 2012, na Universidade de Toronto,
com 883 pais e 1.024 crianças sobre a não conformidade com a imunização devido ao medo
de agulhas. “No total, 24% dos pais e 63% das crianças relataram este medo. O medo da
agulha foi o principal motivo da não adesão à imunização para 7% e 8% dos pais e filhos,
respectivamente” (TADDIO et al, 2012, p. 4807).
Recentemente, a pedido do Ministério da Saúde, médicos da USP examinaram diver-
sas crianças no estado do Acre que relatavam contraindicações após a vacinação contra o
vírus HPV. O resultado da pesquisa revelou que os sintomas não tinham nenhuma causa
biológica ligada à vacina, sendo o medo da agulha o elemento disparador dos sintomas de
um possível distúrbio psicogênico (JORNAL DA USP, 2019).
Diante dessas informações, concluímos que a prevenção, dessa possível fobia, deva
começar o quanto antes e, de preferência, durante a primeira infância quando ocorrem as
primeiras experiências com agulhas. Neste propósito, pensamos o quanto as escolas e
creches poderiam ser boas aliadas neste enfrentamento.
Ademais, importante enfatizar a relevância do atendimento aos pais, preferencialmente
por profissionais da saúde mental, para que o ciclo do medo não se perpetue.
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“
08
Estresse no ambiente de trabalho dos
professores de educação física atuantes
no ensino médio da rede estadual do
município de Ponta Grossa-PR
Iverson Rene Troyan Junior
FACULDADE SANT'ANA
Mateus Nunes
FACULDADE SANT'ANA
Weslley da Silva Barreto
FACULDADE SANT'ANA
Nelson da Rocha França Junior
FACULDADE SANT'ANA
10.37885/210203248
https://dx.doi.org/10.37885/210203248
125A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Estresse, Educação Física, Professores.
RESUMO
Este artigo trata-se de uma pesquisa referente ao estresse vivenciado pelos professores
de Educação Física. Nos últimos anos o profissional da educação visto pela sociedade,
que teria menos probabilidade de apresentar um quadro de estresse, seria o professor
de Educação Física, por conta das características que envolvem a prática de atividades
físicas que comprovadamente proporcionam a alegria, prazer e satisfação. Contudo,
estudos comprovam que mesmo nestas circunstâncias os professores da área, experi-
mentam o estresse profissional. Nesse sentido o problema central da pesquisavem a
trazer informações relevantes de aspectos a verificar os níveis de estresse dos profes-
sores de Educação Física que ministram aulas no ensino médio dos colégios estaduais
da cidade de Ponta Grossa (PR), assim também analisar possíveis causas que estão
levando os profissionais a um quadro de estresse trazendo como propósito geral alertar
os professores a se prevenirem e levarem um estilo de vida mais saudável sem que
possam passar por um quadro de estresse profissional, a pesquisa de campo de caráter
quanti-qualitativa envolve 24 professores de Educação Física de 15 colégios estaduais
da cidade de Ponta Grossa(PR). Os dados das pesquisas nos mostraram que sintomas
como o da ansiedade, distúrbio do sono e cansaço ao levantar foram os mais assinalados
pelos professores, sintomas esses que podem estar relacionado a um caso de estresse
entre esses profissionais da educação brasileira, os professores de Educação Física.
126A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
O estresse nos últimos anos vem sendo bastante investigado, ele é silencioso e às
vezes passageiro, mas quando ele deixa de se tornar passageiro e fica continuo e excessivo
traz riscos à saúde e a qualidade de vida do indivíduo. A população de maneira geral hoje
em dia leva um estilo de vida muito preocupante, as pessoas vivem em constante correria,
a procura e busca por dar conta de tudo e de todos seus problemas e isso acaba por de-
sencadear o estresse que até mesmo leva a outras doenças.
De acordo com Vidal e Santos (2017, p.281):
Não há como negar que o estresse vem sendo um dos grandes problemas
dos tempos modernos. A vida corrida, o desrespeito aos horários de comer,
dormir, descansar, sem reservar tempo algum para o lazer, tudo isso resulta
em fadiga crônica ou o famoso estresse. Mesmo sendo um problema crescente
que se vêm dando maior atenção e que vem atingindo a classe trabalhadora
em grande parte, os estudos sobre o estresse ocupacional não são ainda
suficientes para que os efeitos causados por ele sejam minimizados.
Segundo Lipp et al.(2000), o estresse já é considerado o “Mal do Século” a “Doença
do Milênio”, as pessoa podem ser tomadas por problemas, crises, falta de dinheiro, ou seja,
fatores do dia a dia que acabam a levar a esse estado.
A preocupação com os professores referente ao estresse mostra que já existem al-
guns estudos e dados que falam sobre tema, Monteiro, Dalagasperina e Quadros (2012),
nos mostra que em uma pesquisa sobre estresse 58,4% dos professores tem estresse e
41,6% não tem, e que os sintomas que mais predominaram foram cansaço excessivo e a
tensão muscular. Nota-se que na área da educação vem se tornando mais fácil encontrar
professores com sintomas de Estresse.
Para Vidal e Santos (2017,p. 283):
Podemos observar que o estresse vem causando diversos problemas na vida
das pessoas e, para o professor, não é diferente. A sua dedicação, às vezes
demasiada, causa uma entrega engajada ao trabalho e, por muitas vezes,
o não reconhecimento dessa dedicação causa desilusão, raiva, frustração,
diminuição na produtividade.
O estresse profissional é um dos principais motivos de licenças médicas e falta de
motivação dos professores hoje em dia, notasse que a um desgaste físico e também emo-
cional por parte dos educadores. Os profissionais têm vivido sobre constante tensão que
pode ser associada a um ritmo continuo de muitas exigências e sobre carga de traba-
lhos. De acordo com Lipp (2000), um estado de tensão que acaba a desequilibrar o orga-
nismo é chamado de stress.
127A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade126A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
De modo geral Morostica e Sampaio (2015), nos traz que o conjunto de sintomas do
estresse acessivo pode estar também associado as exigências que a profissão coloca sobre
os profissionais, excedendo a capacidade de resposta do professor e trazendo consequências
para a saúde do mesmo podendo evoluir para a depressão e a ansiedade.
O profissional da educação que aparentemente visto pela sociedade teria menor risco
de se encaixar num quadro de estresse seria o Professor de Educação Física.
Segundo Santini e Molina Neto, (2005, p.209):
Muitas vezes, quando se observa a aula de Educação Física no pátio de uma
escola, e vê-se os alunos jogando bola e o professor ao lado, costuma-se,
de modo precipitado, dizer: lá está um professor da bola um professor que
não quer mais nada com nada. Contudo, esse fato pode estar refletindo um
processo, uma situação dramática que enfrentam muitos professores de Edu-
cação Física [...].
O professor de Educação Física atualmente ainda se encontra um pouco desvalorizado
na sua profissão, às vezes seu ambiente de trabalho não é propicio para o desenvolvimento
de boas aulas e até mesmo de um bom convívio com seus alunos e colegas.
Segundo Santini e Molina Neto (2005, p.209):
Embora os professores de Educação Física se sintam realizados e recompen-
sados pela função social de sua atividade, parece existir outro profissional do
ensino que remete à figura do professor cansado, desiludido com a profissão,
sem vontade de ensinar, implicando, assim, baixo nível de qualidade de ensi-
no. Por sentir- se frustrado e esgotado, o professor encontra-se internamente
incapaz de estabelecer melhores relações com seus alunos.
A situação em que a educação brasileira se encontra juntamente com a saúde, que para
a maioria da população não é a melhor, acabam por desanimar esses profissionais. Os au-
tores Santini e Molina Neto (2005), citam alguns dos fatores que levaram os profissionais
da área entrar num quadro crítico de estresse a ponto de desistirem da profissão, a escolha
pouco acertada da profissão, limitações da formação acadêmica, condições de trabalho
do professor, clima desfavorável, ambiente inadequado, são algumas condições de sobre-
carga de trabalho.
De acordo ainda com Arcanjo, Feijão e Melo (2018), a profissão de educador apesar
de ser de tamanha importância e considerada gratificante pra muitos, há uma dificuldade
que vem crescendo e que envolve diversas fontes geradoras de tensão em seu exercícios,
tais como a valorização do profissional, o elevado números de alunos em salas de aulas,
salários descabidos, elevada carga horaria de trabalho em conjunto com as atividades fora
da sala de aula, as atividades extra classe, planejamento de suas aulas e de suas funções,
128A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
correção e formulação de provas, acabam por diminuir os horários de lazer em família acar-
retando assim a queda da qualidade de vida.
Todo esses fatores são desanimadores para os profissionais, porém muito comum
na área da educação, professores que se sentem frustrados por não desempenharem sua
função como desejariam.
OBJETIVO
Ao observar a realidade da educação brasileira, os professores são as maiores vítimas
devido a vários fatores, existe um constante ambiente estressante hoje em dia e os profes-
sores estão cada vez mais aparecendo com casos de Estresse.
Nesse sentido esse artigo vem a trazer como objetivo geral averiguar a existência do
estresse no ambiente de trabalho dos professores de Educação Física, e como objetivos
específicos verificar os níveis de estresse dos mesmos e analisar as possíveis causas que
levam ao estresse profissional.
Para a investigação dos objetivos propostos foi realizado uma pesquisa de campo de
caractere quanti-qualitativo no qual foram aplicados os questionários, “Inventário de Sintomas
de Stress para Adultos de Lipp Simplificado (ISSL)” e “Cuestionario para La Evaluación del
Síndrome de Quemarse por El Trabajo (CESQT)”.
Nota-se que cada vez mais os professores estão sofrendo em suas escolas, seu am-
biente de trabalho com o estresse. Em estudos realizados no estado do Rio Grande do Sul,
expostos no livro “Professores no Limite” de Janine Kieling Monteiro, Patrícia Dalagasperina
e Maríndia Oliveira de Quadros,constatam que a maioria dos professores em geral, de todas
as áreas sofre de estresse, esse estresse se manifesta de diferentes formas.
MÉTODOS
Sabendo de todos esses dados e as condições que os professores de Educação
Física se encontram, esse presente artigo vem trazer resultados de uma investigação com
esses professores em seu ambiente de trabalho, que procurou compreender o que levam
a essa doença e principalmente alertar os profissionais a tomarem cuidados e se prevenir
contra o estresse.
Os instrumentos da pesquisa que foram utilizados para coletar os dados são os ques-
tionários “Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp Simplificado (ISSL)”, que
tem nas perguntas uma lista de sintomas físicos que permite dizer se o professor está com
estresse e a fase que se encontra.
129A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade128A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
O outro questionário é o “Cuestionario para La Evaluacióndel Síndrome de Quemarse
por El Trabajo (CESQT)”, versão brasileira para profissionais da Educação, validada por
Gil- Monte, Carlotto e Câmara (2010), que apresenta 20 perguntas.
A pesquisa de campo com natureza quanti-qualitativa foi realizada com professores
da área de Educação Física de ambos os sexos do quadro efetivo funcional da rede pú-
blica atuantes no ensino médio da cidade de Ponta Grossa(PR). Foram analisados pro-
fessores de Educação Física de 15 colégios estaduais com ensino médio, avaliando 24
Professores no total.
RESULTADOS
O resultado da pesquisa surpreende por alguns motivos, de 24 professores pesquisados
todos estão com sintomas de estresse, isso não quer dizer que todos eles sofrem da doença,
mas sim que o resultado é alarmante já que os 24 professores tem sintomas da doença.
Gráfico 1. Nível de Estresse
Fonte: Dados coletados do questionário (ISSL)
O gráfico 1 nos permite analisar o nível de porcentagem que o estresse afeta os pro-
fessores, ou seja, dos 24 professores pesquisados 17% tem um nível de estresse baixo,
54% com um nível alto, 29% com um nível altíssimo de estresse.
130A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Tabela 1. Nível de estresse
Nível Professores
Baixo estresse 04
Alto estresse 13
Altíssimo estresse 07
Total 24
Fonte: Dados coletados do questionário (ISSL)
A tabela 1 nos mostra que de 24 professores, 04 estão com um Nível de estresse baixo,
ou seja, pouco estressante, quer dizer que quatro professores assinalaram positivamente
de 1 a 3 sintomas; já 13 professores estão com nível Alto de estresse eles assinalaram po-
sitivamente de 4 a 8 sintomas; e 07 professores estão com um nível Altíssimo de estresse
eles assinalaram positivamente mais que 8 sintomas.
Tabela 2. Sintomas Assinalados
Sintoma Assinaladas
1 14-Tensão muscular
2 10-Hiperacidez estomacal
3 17-Esquecimento
4 14-Irritabilidade
5 08-Vontade de sumir
6 09-Sensação de incompetência
7 04-Repetir assuntos
8 19-Ansiedade
9 19-Distúrbio do sono
10 18-Cansaço ao levantar
11 15-Trabalhar abaixo de seu nível
12 07-Sentir que nada vale a pena
Fonte: Dados coletados questionário (ISSL)
Vemos na tabela 2 que os Sintomas que mais foram assinalados são os referente à
Ansiedade; Distúrbio do sono; e Cansaço ao levantar, se pegarmos o primeiro a Ansiedade
19 professores á assinalaram, assim ela se torna como um dos sintomas mais frequentes
entre professores.
131A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade130A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Vendo de uma forma percentual o gráfico com os sintomas fica equilibrado, nos mos-
trando que temos sintomas na qual grande parte dos professores assinalou frequentemente,
no gráfico abaixo vemos o seguinte:
Gráfico 2. Porcentagem de Sintomas Assinalados
Fonte: Dados coletados questionário (ISSL)
A tabela 3, indica 20 itens dividido em que apresentam a porcentagem de respostas dos
professores, os 20 itens são perguntas relacionada a ilusão pelo trabalho, desgaste psíquico,
indolência e culpa, essas perguntas são avaliadas mediante uma escala de frequência de 5
pontos, 0 Nunca, 1 Raramente, 2 Às vezes, 3 Frequentemente, 4 Muito Frequente.
132A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Tabela 3. Porcentagem de Respostas CESQT
Perguntas
Porcentagem das Respostas
0 1 2 3 4
1 0% 12,5% 20,83% 45,83% 20,83
2 29,16% 41,66% 16,66% 12,5% 0%
3 12,5% 45,83% 20,83% 12,5% 8,33%
4 29,16% 20,83% 20,83% 16,66% 12,5%
5 4,16% 16,66 8,83 37,5 33,33
6 25% 54,16% 20,83% 0% 0%
7 41,66% 37,5% 16,66% 0% 4,16%
8 12,5% 29,16% 25% 12,5% 20,83%
9 12,5% 33,33% 29,16% 8,33% 16,66%
10 4,16% 4,16% 4,16% 41,66% 45,83%
11 50% 16,66% 4,16% 12,5% 16,66%
12 20,83% 29,16% 29,16% 20,83% 4,16%
13 29,16% 45,83% 20,83% 0% 4,16%
14 45,83% 33,33% 20,83% 0% 0%
15 0% 8,69% 8,69% 52,17% 30,43%
16 37,5% 33,33% 12,5% 8,33% 8,33%
17 8,33% 16,66% 25% 25% 25%
18 4,16% 33,33% 29,16% 12,5% 16,66%
19 4,16% 20,83% 16,66% 37,5% 20,83%
20 29,16 33,33% 33,33% 4,16% 0%
Fonte: Dados coletados questionário (CESQT)
Na tabela 3 vemos que o item que teve maior porcentagem de frequência (4 muito
frequente), foi a número 10 com 45,83%, apontando que muito dos professores pensam que
seu trabalho lhe dá coisas positivas, mostrando que os professores pesquisados detém um
pensamento positivo sobre o que recebem de seu trabalho, assim de alguma forma o traba-
lho desses professores, ou seja, a escola lhe traz um sentimento agradável para trabalhar
e desenvolver suas aulas com os alunos e turmas do ensino médio.
O item com maior porcentagem de frequência na escala de frequência (3 Frequentemente)
foi a pergunta número 15 com 52,17%, apontando que é gratificante o meu trabalho, esses
52,17% dos professores pesquisados, de alguma forma se sentem gratificados em seu am-
biente de trabalho, mostrando também que a escola em que atuam torna a ser agradável a
esses profissionais.
O item que teve maior porcentagem de frequência (0 Nunca), foi a número 11 com
50% dos professores pesquisados á assinalaram, dizendo que gosto de ser irônico com
alguns alunos, isso demonstra que os professores pelo menos 50% deles não os tratam
com ironia seus alunos.
133A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade132A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
DISCUSSÃO
Os resultados permitem identificar os sintomas mais assinalados, ou seja, que os
professores mais sofrem. Esses resultados torna-se preocupante, pois os professores de
Educação Física estão carregando uma carga, um estilo de vida prejudicial para sua saúde
e seu bem estar.
De acordo com Vidal e Santos (2017), O modo de vida que os professores levam afeta
suas relações e como desempenham suas atividades laborais. A profissão de ser professor
vem sendo uma das mais estressantes na atualidade.
Para Barbosa e Bordginon (2018), os professores da atividade docente sofrem o estres-
se devido a uma variedade de efeitos adversos em sua saúde global. E uma das formas de
controla- lo seria o uso de medidas de tratamentos preventivos que são rápidos e eficazes,
uma seria a regular pratica de atividades físicas, pois elas trazem o bem estar e inúmeros
benefícios ao corpo e a mente, podendo representar no seu dia a dia uma distração frente
aos agentes estressores.
Vemos assim que os profissionais devem analisar que seu modo de vida, ou seja o seu
modo de viver pode estar contribuindo para a tensão que estão sentindo.
Segundo Lipp et al.(2000. P.53):
A ansiedade é um sentimento difuso de medo, diante de algo que não sabemos
exatamente o que é, e para o qual também não temos uma resposta precisa.
Quando temos medo de alguma coisa, fugimos dela. Se eu tenho medo de
cachorro, fujo deles, ou evito confrontar-me com eles. Já a ansiedade pode nos
deixar parados, sem saber o que fazer. Altos níveis de ansiedade frequente
podem nos deixar estressados. Assim, a ansiedade, o medo e o stress estão
relacionados entresi.
Num caso de estresse muitos sintomas estão relacionados, isso tudo está afetando os
professores e a cada dia está piorando, por isso tamanha importância dos professores se
cuidarem antes que esses sintomas de estresse acabem gerando outras doenças
CONCLUSÃO
Com os resultados da pesquisa os profissionais de Educação Física vêm a indicar um
nível altíssimo de estresse no ambiente de trabalho, trabalho esse que não se tem mais es-
tímulos para se dedicar e efetuar da melhor forma possível e apesar de sua profissão já ter
sido uma realização pessoal hoje se encontram desmotivados. Alguns fatores que podem ser
os causadores desse estresse e desmotivação, são as condições de trabalho do professor,
e o mal relacionamento com os outros profissionais no ambiente escolar.
134A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Essa questão do estresse tem demonstrado um professor cansado isso reflete uma
menor qualidade de ensino, prejudicando o sistema de educação.
Acredita-se que esse estudo vem por trazer maneiras de refletir e questionar a reali-
dade da vida cotidiana dos professores de Educação Física, vemos que os resultados da
pesquisa nos trouxe e possibilitou analisar e saber os níveis de estresse dos professores,
também trazendo as possíveis causas que mais afetam os educadores desta área mostran-
do que sim, os professores estão sofrendo de estresse e estão trabalhando num constante
ambiente estressante. A pesquisa se torna um alerta para os professores, vemos que 54%
deles tem um nível alto de estresse, isso é muito preocupante.
Os profissionais da educação brasileira, tem que se prevenir desses sintomas que po-
dem levar ao estresse, a educação proposta na atualidade junto com a desvalorização e um
ambiente de trabalho inadequado são os principais fatores que deixam nossos professores
de Educação Física desmotivados a trabalhar e tudo isso junto acaba por desencadear o
tão falado estresse profissional.
135A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade134A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
ANEXOS
Anexo 1
Questionário de Lipp Versão Simplificada
Assinale X se você tem tido os sinais de estresse:
Na última semana você sentiu:
1. Tensão muscular, como por exemplo, aperto de mandíbula, dor na nuca, por exem-
plo; ( ) Sim ( ) Não
2. Hiperacidez estomacal (azia) sem causa aparente;
( ) Sim ( ) Não
3. Esquecimento de coisas corriqueiras, como esquecer o número de um telefone que
usa com frequência, onde colocou a chave, por exemplo;
( ) Sim ( ) Não
4. Irritabilidade excessiva;
( ) Sim ( ) Não
5. Vontade de sumir de tudo;
( ) Sim ( ) Não
6. Sensação de incompetência, de que não vai conseguir lidar com o que está ocor-
rendo;
( ) Sim ( ) Não
7. Pensar em um só assunto ou repetir o mesmo assunto;
( ) Sim ( ) Não
8. Ansiedade;
( ) Sim ( ) Não
9. Distúrbio do sono, ou dormir demais ou de menos;
136A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
( ) Sim ( ) Não
10. Cansaço ao levantar;
( ) Sim ( ) Não
11. Trabalhar com um nível de competência abaixo do seu normal;
( ) Sim ( ) Não
12. Sentir que nada mais vale a pena.
( ) Sim ( ) Não
ANEXO 2
“Cuestionario para la Evaluación del Síndromede Quemarse por el Trabajo”, versão
brasileira para profissionais da educação.
Nunca 0 / Raramente: algumas vezes por ano 1 / Às vezes: algumas vezes por mês 2
/ Frequentemente: algumas vezes por semana 3 / Muito frequentemente: todos os dias – 4.
1.O meu trabalho representa para mim um desafio estimulante. 0 1 2 3 4
2.Não gosto de atender alguns alunos. 0 1 2 3 4
3.Acho que muitos alunos são insuportáveis. 0 1 2 3 4
4.Preocupa-me a forma como tratei algumas pessoas no trabalho. 0 1 2 3 4
5.Vejo o meu trabalho como uma fonte de realização pessoal. 0 1 2 3 4
6.Acho que os familiares dos alunos são uns chatos. 0 1 2 3 4
7.Penso que trato com indiferença alguns alunos. 0 1 2 3 4
8.Penso que estou saturado(a) pelo meu trabalho. 0 1 2 3 4
9.Sinto-me culpado(a) por alguma das minhas atitudes no trabalho. 0 1 2 3 4
10.Penso que o meu trabalho me dá coisas positivas. 0 1 2 3 4
11.Gosto de ser irônico(a) com alguns alunos. 0 1 2 3 4
12.Sinto-me pressionado(a) pelo trabalho. 0 1 2 3 4
13.Tenho remorsos por alguns dos meus comportamentos no trabalho. 0 1 2 3 4
14.Rotulo ou classifico os alunos segundo o seu comportamento. 0 1 2 3 4
15.O meu trabalho me é gratificante. 0 1 2 3 4
16.Penso que deveria pedir desculpas a alguém pelo meu comportamento
no trabalho. 0 1 2 3 4
17.Sinto-me cansado(a) fisicamente no trabalho. 0 1 2 3 4
18.Sinto-me desgastado(a) emocionalmente. 0 1 2 3 4
19.Sinto-me encantado(a) pelo meu trabalho 0 1 2 3 4
20.Sinto-me mal por algumas coisas que disse no trabalho. 0 1 2 3 4
137A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade136A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
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http://www.estresse.com.br/ipcn-na
“
09
Masculinidade tóxica na vivência
emocional de homens: uma ótica a partir
do Filme Moonlight
Anderson Alexandre de Araújo Sá
Jonathas da Silva Rodrigues
Pedro Cabral de Oliveira Júnior
Ruan Phablo da Silva Oliveira
Lúcia Maria Temóteo
10.37885/210303613
https://dx.doi.org/10.37885/210303613
139A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Masculinidade, Homens, Saúde Mental.
RESUMO
Objetivo: Explanar sobre os impactos da masculinidade tóxica na vivência emocional do
homem levando em conta as experiências do personagem Chiron, no filme Moonlight: sob
a luz do luar. Método: Trata-sede uma pesquisa de abordagem qualitativa e explorató-
ria que buscou destacar os efeitos da masculinidade tóxica infligida nos homens e suas
consequências, se baseando na análise de cada etapa do desenvolvimento, infância,
adolescência e fase adulta, do personagem Chiron do filme. Resultados: Na infância
Chiron sofreu com o bullying devido ao desvio da sua masculinidade. Em sua adolescên-
cia, Kevin e Chiron vivenciaram um momento de experiência sexual no qual se beijaram.
Posteriormente, assume o papel de agressor e de homem esperado por todos. Em sua
fase adulta, Chiron assume um comportamento de ostentação e poder e se envolve
no tráfico. Depois de muito tempo, se reencontra com Kevin e mais uma vez resgata
lembranças e sentimentos em seu encontro, na cidade em que viviam. Conclusão:
Depreende-se que a masculinidade de Chiron foi questionada inúmeros momentos no
decorrer da sua vida, impactando a sua saúde mental, reprimindo-o. Ademais, esta per-
cepção da masculinidade que envolve o gênero permite transformar a prática e visão de
ser de diversos profissionais e indivíduos para além das concepções apreendidas em
suas formações e experiências.
140A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
A obra cinematográfica Moonlight: sob a luz do luar (2017), do diretor Barry Jenkins, é
um longa-metragem ganhador do Oscar na categoria de melhor filme, premiado pela AMAPS
– Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Trata-se da história de um garoto negro
chamado Chiron que enfrenta abusos psicológicos e físicos em seu cotidiano. No enredo
do filme, é perceptível uma representatividade através da identidade do Chiron, pelo fato
de ser um indivíduo negro e pela representatividade LGBTQIA+, expressa pelo seu desejo
homossexual que é questionado e negado perante a demanda advinda do modelo hege-
mônico de masculinidade.
Chiron, uma criança moradora de uma comunidade pobre de Miami, é perseguido
pelos colegas da escola por julgarem-no diferente, sofre bullying de praticamente todos a
sua volta, até mesmo de sua própria mãe, Paula. Certo dia, enquanto se refugiava, após
ser perseguido por garotos, foi encontrado por um homem chamado Juan, que simpatizou
rapidamente pelo garoto e tentou ajudá-lo, levando-o para a sua casa. Lá, a criança conhe-
ceu Tereza, a namorada do Juan, e ambos estabeleceram um forte vínculo mesmo após a
morte de seu companheiro, Juan, e era para onde recorria sempre quando se desentendia
com sua mãe que era usuária de drogas e com a qual tinha um relacionamento muito con-
turbado. Na escola, ele tinha apenas um único amigo, chamado Kevin, que gostava dele e
o defendia. Em um determinado momento, agora não mais criança, mas um jovem, Chiron
vive uma experiência sexual com Kevin.
Algum tempo depois, enquanto estavam na escola, o seu amigo Kevin foi desafiado
por um colega a agredir Chiron. Chiron é esmurrado pelo amigo, enquanto todos obser-
vam a situação, em simultâneo, Chiron lembra de um dia quando era criança em que foi
desafiado/ensinado por seu amigo Kevin a não baixar a cabeça diante de outros garotos
e se mostrar forte diante daqueles que o queriam mal. Assim, ele permaneceu firme e de
cabeça erguida até o último momento da agressão, sendo completamente encurralado e
machucado pelos garotos.
Kevin e todos ao redor esperavam que Chiron revidasse contra aquele que o ma-
chucava, até mesmo a diretora esperava isso ao afirmar que “se você fosse homem, teria
outros quatro rapazes ao seu lado”, esperando que o garoto revidasse e ainda entregasse
quem o feriu. Chiron foi tomado por uma raiva e finalmente tomou uma atitude que todos
esperavam de um homem: agrediu o rapaz que provocou a violência contra ele, o que acar-
retou sua prisão.
Após sair da prisão, entrou para o tráfico, seguindo o exemplo do único referencial de
homem que teve, o Juan, se tornando uma verdadeira réplica, ao menos na aparência. Um dia
141A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade140A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
ao voltar à cidade que desde sua adolescência não voltara, reviveu grandes lembranças da
infância. Lá reencontrou com Kevin e voltaram a se relacionar.
Masculinidade tóxica é um termo recente utilizado para se referir ao comportamento
machista impregnado na sociedade. Nesse sentido, pelo fato de ser recente esta temática,
existem muitas nomenclaturas para esse assunto, com conteúdo semelhante. Lehnen (2015)
evidencia que a masculinidade tradicional que se naturalizou na sociedade é um domínio
masculino garantido pelos modelos de virilidade, no qual consta a força física e potência
sexual, assim, causando episódios de violência e acarretando danos morais e psicológicos
às vítimas que são justamente os homens.
Diante disso, a masculinidade tradicional é um parâmetro para entender a masculinida-
de tóxica, pois ambas se relacionam em seu viés de dominação masculina sobre o gênero
feminino ou sobre qualquer masculinidade que não contemple o seu modelo hegemônico,
uma vez que possuem a mesma ideologia (LEHNEN, 2015).
Há dificuldade em quebrar esses padrões comportamentais, visto que expressões de
masculinidade impõem regras tão intrínsecas e naturalizadas na sociedade que não são
percebidas e, por consequência, são repetidas. Há uma exigência de coerência total entre um
sexo, um gênero e um desejo/prática. Estas envolvem, por exemplo, os nossos ambientes
sociais e políticos, visto que, em nossa sociedade, essas normas, estabelecidas e seguidas
de maneira quase automática, são repassadas por meios como a cultura (BUTLER, 2019).
Simone de Beauvoir (1967) discute, no século XX, papéis femininos e de gêne-
ro, destacando que:
Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico,
econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade;
é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o
macho e o castrado que qualificam de feminino (p.9).
Dessa forma, quando atribuídos papéis sociais ao feminino e ao masculino, inibe-se a
possibilidade de novos paradigmas ‘de ser homem’, visto que estes já são preestabelecidos
socialmente, tanto na forma de comportar-se, quanto de vivenciar emoções. Ainda assim,
nessa afirmativa aparece o gênero como construto, uma vez que os padrões heteronorma-
tivos que regem a sociedade contemporânea estabelecem o conceito de gênero a partir do
binarismo entre masculino e feminino, no qual é entendido, também, seguindo a relação
binária de homem e mulher, associada ao sexo. Butler (2019) discorre sobre a construção
binária, quando o corpo de ‘homens’ se aplica exclusivamente aos corpos masculinos, ou
que o termo ‘mulheres’ interprete somente corpos ‘femininos’. Logo, nota-se que de maneira
intrínseca ‘o homem’ tem uma forma e um modo de agir e aquilo que diverge é tratado de
forma a ‘não ser homem’.
142A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Diante disso, Silva et al. (2012) aponta que os modelos de masculinidade que perpe-
tuam na nossa sociedade, determinam que os homens lidem com o processo saúde-doença
e os comportamentos nos quais repercutem em uma maior predisposição a desenvolver
riscos de doenças e mortes. Tal fato se relaciona ao modo como a socialização masculina
se processa, podendo fragilizá-los ou mesmo afastá-los da preocupação com o autocuidado
e com a busca pelos serviços de saúde.
Este autor também menciona que os valores da cultura masculina como: as tendências
à exposição a riscos, associação da masculinidade com a fragilidade e também a própria
educação familiar que o orienta para um papel social de provedor e protetor, produzem,
consequentemente, modelos masculinos que estão pouco interessados a aderir às práti-
cas de autocuidado, podendo estimular o comportamento agressivo violento e de descui-
do consigo mesmo.
Considerando o contexto histórico, o homem sempre recebeu estímulos para poder
conter as suas emoções e, porvezes, emoções inapropriadas para o gênero, e foram poucos
os eventos em que as emoções apropriadas para o gênero fizeram parte de sua educação
sobre como ser homem. A emoção positiva está relacionada às emoções como êxtase,
satisfação, alegria, esperança, etc. Enquanto anseios negativos dizem respeito às emo-
ções como ódio e raiva, o indivíduo não se sente mal por experimentá-las. Neste sentido, o
sentimento positivo seria experimentado em momentos em que ele pode se reafirmar como
macho dominador, não sendo os únicos momentos, mas que supostamente são os que mais
se repetem (PAULA; ROCHA, 2019; SELIGMAN, 2011).
Portanto, este artigo objetiva explanar sobre os impactos da masculinidade tóxica na
vivência emocional do homem levando em conta as experiências do personagem Chiron, do
filme “Moonlight: sob a luz do luar”. Sendo assim, esta temática proporciona a ressignificação
dos conceitos de ‘masculinidade’ que estão enraizados em nossa cultura, apontando para a
reestruturação de discursos preconceituosos e discriminatórios que se encontram em nossas
relações intra e interpessoais em contextos profissional, familiar, entre amigos e entre outros.
MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa e exploratória, visto que, segundo
Gil (2009), este modelo de pesquisa possibilita uma visão geral acerca de determinado fato,
de tipo aproximativo, e também de desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias.
Assim, situações e atitudes do personagem principal do filme foram analisadas e discutidas,
destacando os efeitos da masculinidade tóxica infligida nos homens e suas consequências,
por meio do referencial necessário através de momentos específicos que marcaram a sua
vida, seja na infância, adolescência e na fase adulta.
143A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade142A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Fase da infância de Chiron
Chiron é um garoto negro que na infância passa por sérias dificuldades, como a pobreza,
a má relação com a mãe e ainda lida com o bullying. Neste sentido, a cena que evidencia sua
história problemática é em uma conversa delicada entre Juan e Teresa acerca do bullying
que vinha sofrendo de outros garotos da escola.
Diante disso, a cena mostra a cautela que Juan e Teresa têm de conversar com Chiron
sobre suas vivências, visto que ambos não são os pais dele. Chiron faz vários questiona-
mentos a respeito do preconceito que vinha sofrendo. Uma dessas perguntas é sobre a sua
sexualidade, pois os garotos insinuavam que ele fosse homossexual, entretanto, ele não
parece entender essa insinuação.
Na cena, Juan explica a Chiron sobre o bullying que ele estava enfrentando, e ainda
o advertiu para que ele não se reprimisse diante dos insultos, deixando evidente que não
tinha nada de errado em ser homossexual. Assim, a cena ainda mostra que Chiron e Juan
tinham algo em comum, uma vez que ambos tinham uma relação ruim com a mãe.
Dessa maneira, Teresa mediou a fala de Juan para que ele construísse um diálogo
mais confortável com Chiron. Isso é sugerido nas trocas de olhares entre ambos no decorrer
da cena. Ademais, Teresa amenizou a cobrança de Chiron em querer respostas sobre sua
sexualidade, esclarecendo que esses questionamentos iriam ser respondidos com o tempo,
logo ele não precisava se preocupar com essa questão no momento.
Diante do que foi exposto, é possível destacar que Chiron passava por conflitos inter-
nos, entretanto buscava respostas a respeito dos questionamentos que o rodeavam com
pessoas que ele se identificava. Portanto, era possível observar a relação do bullying que
estava sofrendo com a imposição social advinda da masculinidade.
“Eu sou uma bicha?”
Nessa pergunta feita por Chiron, nota-se como o bullying homofóbico o impactou de
forma conflituosa. De acordo com Elipe, Munoz e Del Rey (2018), o bullying homofóbico é
uma violência sofrida através de provocações, discriminação e outras categorias devido à
sexualidade da vítima. Neste contexto, o bullying é observado na palavra “bicha”, visto que
é um termo pejorativo usado no intuito de discriminar os homossexuais.
Ademais, a violência contra quem não se encaixa nos padrões normativos de gênero e
sexualidade, está associada com os valores relacionados à homofobia, sexismo e heteros-
sexismo, e devido a isso, a violência tende a ser contínua. Desse modo, é possível perceber
144A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
que o bullying que Chiron sofre é devido a não seguir os padrões normativos, pois esses
valores tendem a reprimir as vítimas (GRAVE; OLIVEIRA; BOGUEIRA, 2016).
Neste contexto, o conceito do que seria a masculinidade na contemporaneidade é
decorrente de um processo histórico. Segundo Engels (1986), com o domínio do homem
sobre a natureza e a origem da propriedade privada, surge a necessidade da formação de
uma família, assim, originando a família patriarcal, na qual é fundamentada na supremacia
do homem, tornando os filhos e a mulher submissos às vontades deste indivíduo.
Outrossim, a heteronormatividade demarca, conforme Mello (2012), a criação de cor-
pos sexuados e heterossexuais, corpos que são tatuados pela natureza e que ditam como
devemos habitá-los, constituindo símbolo principal que se encontra nas genitálias. As con-
sequências são demarcações pautadas na diferenciação dos corpos, sendo o feminino
perfeito à maternagem, portanto ao privado, e o masculino perfeito à guerra, portanto ao
público. A normalidade se encontra na união perfeita entre um homem com uma mulher e
a heterossexualidade como um modelo a ser seguido.
De acordo com Butler (2019), as expressões da masculinidade impõem regras de forma
imiscuídas, por isso, é mais dificultosa a quebra desses padrões comportamentais que são
impostos cautelosamente aos indivíduos, consequentemente, repetindo-se. Dessa maneira,
através dos insultos que Chiron sofria, os garotos estavam impondo esses padrões.
Além disso, é notável também o racismo que Chiron sofria advindo dos padrões com-
portamentais consolidados na sociedade. Foucault (1999) evidencia uma passagem da
guerra das raças para um racismo institucionalizado, chamado de racismo de Estado, sendo
considerada letal e agressiva. Em decorrência disso, Chiron é vítima de mais de um precon-
ceito, visto que a cor da sua pele e sexualidade são discriminadas.
Por essa conjuntura, conclui-se que o bullying mostrado no filme e a masculinidade
se relacionam, pois, como dito anteriormente, sua imposição de forma incisiva reprime
quem foge dos padrões, consequentemente gerando a perseguição daqueles que não se
adequam a essas regras como vivenciado pelo Chiron. Por este motivo, o homem negro e
homossexual está mais sujeito a sofrer de forma letal, devido ao racismo que está consoli-
dado na sociedade.
Fase da adolescência de Chiron
Em sua segunda fase no filme, agora Chiron adolescente, mostra um jovem sendo
totalmente indesejado pela sua comunidade, demonstrando o preconceito que a população
negra, LGBTQIA+ e periféricos vivenciam em sua comunidade, se encontrando em diversas
categorias de violência tanto escolar como em seu grupo, tendo apenas a companhia do
seu melhor amigo de infância Kevin.
145A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade144A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Desta forma, os impactos à vivência emocional de Chiron compactuam com a pro-
dução cultural acerca da categoria masculina enquanto fator social. O indivíduo ao nascer
é determinado a partir do seu sexo biológico e isso acaba determinando a maneira como
será tratado pela família, comunidade das quais pertencem. Este fato, é compreensível a
partir da adolescência de Chiron, cuja masculinidade foi questionada inúmeros momentos,
colocando-o como objeto não-inteligível, isto é, como minoria e não integrado aos demais
por não fazer parte de uma sociedade heteronormativa (BUTLER, 2019).
Chiron, aindaprecisa lidar com muitas situações em sua adolescência, como o fato
de morar em uma periferia dominada pelo tráfico. Nesse sentido, a obra revisita um este-
reótipo e preconceito de masculinidade negra, como traficantes e homens marginalizados.
Martins (2012) destaca que o processo de construção dos estereótipos permite a criação
de uma identidade social grupal, tanto para o grupo a que o indivíduo pertence quanto para
os outros grupos.
Em diversas cenas é mostrado momentos de alegria que acontecem apenas na presen-
ça do seu amigo de infância Kevin. Em um de seus encontros com Kevin, eles se beijam, em
que Kevin expressa seu desejo a Chiron. Chiron, a princípio, não entende muito bem esta
situação e acaba tentando descobrir mais sobre ele. Durante muito tempo, os estudos sobre
gênero enxergaram a heterossexualidade como algo essencial, determinado biologicamen-
te. Assim, a concepção de alguns comportamentos tipicamente colocados como femininos
ou masculinos se baseiam, por exemplo, na possibilidade da procriação, amparada por um
conjunto de valores e pela moral, construídos social e historicamente (MARTINS, 2012).
Outra cena que merece destaque é no momento em que Chiron assume o papel de
agressor e de homem esperado por todos. Neste sentido, tal conduta pode ser refletida
conforme Soares e Belo (2015) apontam, as identidades de gênero são formadas a partir de
uma cultura machista, sendo necessário que ocorra o processo de reafirmação da maneira
violenta com que frequentemente o homem reage, diante da ameaça de perder a disputa pela
virilidade que é duramente conquistada. Assim, é pela via do psiquismo em que o desejo de
ser apassivado é tão inconsciente que é inadmissível, improvável para que o homem o exerça.
A cena em que o jovem age de forma agressiva, sob uma ótica psicanalítica, caracteriza
o homem e o seu sofrimento diante da angústia e do desprazer em relação à passividade
originária, bem como do retorno do recalcado daquilo que o é impedido e interditado pela
produção cultural e imposição social (SOARES; BELLO, 2015).
Fase adulta de Chiron
O reencontro com Kevin proporcionou aos dois diálogos descontraídos. Por um mo-
mento, o rapaz decide questionar sobre o homem que Chiron tinha se tornado, com dentes
146A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
exoticamente adornados, carro chamativo e com marra de durão. Assim, o vestir, o andar,
o comportar-se, a entonação de voz, bem como a supervalorização das formas físicas, as
qualidades como agilidades, coragem, bravura, heroísmo, constituem aspectos que são
exigidos pela sociedade em torno do modelo masculino. O homem contemporâneo inicia
sua trajetória, incorporando a sua construção pessoal e social comportamentos que antes
pertenciam ao universo feminino, como admitir sua fraqueza, fragilidade, assim como a
sensibilidade (IVALDO, ITAMAR, VARGAS, 2019).
O protagonista parece ganhar espaço, e como na infância, meio sem jeito, tenta expli-
cá-lo que ainda era o mesmo rapaz de sempre. Ainda meio tímido, começa a falar sobre o
quanto foi difícil crescer, se fortalecer e sobreviver diante de tantos conflitos vivenciados na
juventude. Simultaneamente, buscou entender como foi esse processo de desenvolvimento
para Kevin, que expôs quanto tempo passou apenas aceitando ser o que queriam que ele
fosse e nunca o que seria de verdade. Então, no meio de outra inquietude, que parece trazer
tantos sentimentos, Chiron expõe sobre o significado que Kevin havia ganhado na sua vida,
como o único homem que havia lhe tocado.
Essa é uma das cenas que representa a influência e predominância da masculinidade
tóxica sobre a vida e a personalidade do Chiron. Foi o momento exato no qual seu amigo
Kevin (que na juventude Chiron tinha uma atração platônica confusa), o questiona de forma
direta “Quem ele seria?”, pergunta essa que parece carregar um certo conflito, pois o prota-
gonista apresenta uma certa ambiguidade, já que o mesmo não era mais aquele amigo de
infância, porém, simultaneamente apresentava características daquele tempo.
Desde a infância, os seres humanos são ensinados a responder às exigências que a
sociedade impõe, sobre como devem ser e se posicionar, dando continuidade ao padrão
de sociedade regida pelas relações desiguais entre os gêneros e uma hierarquia funda-
mentada em questões sexuais biológicas. Isso é evidente no comportamento dos jovens
que repetem determinados padrões dessa mesma sociedade (OLIVEIRA, 2011; WIESE;
SALDANHA, 2011).
A adolescência é uma fase que apresenta intensos processos de transformações,
sendo estes, anatômicas, fisiológicas, psicológicas e sociais, para o desenvolvimento da
identidade. O indivíduo vive novas experiências de descoberta no campo da sexualidade,
das quais influenciam as relações sociais que influenciam as relações de gênero construídas
desde quando esse indivíduo ainda é uma criança (HEILBORN, 2012).
Seguindo o desenrolar do enredo, Chiron reafirma que ao ser preso foi necessário
crescer e se reinventar, em um ambiente desprezado pela sociedade, sendo necessário fazer
amizades com traficantes para crescer na vida, considerando a ausência de oportunidades
para a comunidade negra. Neste sentido, a realidade retratada no filme funciona como uma
147A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade146A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
denúncia da perversão de uma sociedade que condena as pessoas negras e mais ainda a
sua sexualidade divergente do modelo social da época.
CONCLUSÃO
Este estudo possibilitou informações em torno da masculinidade tóxica e como esta
impacta negativamente a saúde mental dos homens a partir da análise da vivência de Chiron.
Depreende-se que o fenômeno da masculinidade tóxica ocorre em diversos homens, impe-
dindo-os de se expressarem de outros modos e exerçam o seu gênero para além daquilo
que foi atribuído.
Além disso, vale ressaltar que esta percepção de gênero que demarca cada indivíduo,
permite que profissionais e indivíduos em geral, direta ou indiretamente, consigam transcen-
der suas percepções de ‘ser’, transformem suas maneiras de atuação e discursos para além
das concepções apreendidas ao longo de suas formações e experiências acerca do gênero.
Outro aspecto importante a ser levantado é que esta temática contribui para a educa-
ção, uma vez que permite a diminuição do preconceito e discriminação atrelados a posicio-
namentos baseados em uma visão de masculinidade rígida e estática que dita aquilo que
é enquadrado como algo ‘de ser ou não de homem’, sejam modos de falar, de se compor-
tar, de se vestir, de se expressar sobre seus sentimentos, de se atrair por alguém, entre
outros contextos.
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“
10
Padrões arquetípicos das deusas em
narrativas de vida de mulheres do
Sertão Potiguar
Pammella Lyenne Barbosa de Carvalho
UERN
Ailton Siqueira de Sousa Fonseca
UERN
10.37885/210203273
https://dx.doi.org/10.37885/210203273
150A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Mitos, Arquétipos, Deusas, Mulheres, Saúde Mental.
RESUMO
Objetivo: Compreender as experiências de vida das mulheres a partir das suas narrati-
vas, percebendo como se manifesta o arquétipo feminino na experiência de cada uma.
Método: A pesquisa foi de abordagem qualitativa, do tipo narrativa de vida. A popula-
ção para esta pesquisa foi composta de mulheres que residem na área de abrangência
de uma Unidade Básica de Saúde no município de Mossoró - Rio Grande do Norte, e
estavam em acompanhamento terapêutico no grupo de apoio Espaço da Palavra no
momento da pesquisa. A amostra foi do tipo intencional, quatro mulheres foram esco-
lhidas como colaboradoras. Como instrumento de pesquisa foi utilizado a entrevista
aberta, norteada pela escuta sensível de René Barbier. Resultados: Das mulheres que
foram colaboradoras na pesquisa cinco padrões de deusas emergiram: Héstia, Hera,
Deméter, Perséfone e Afrodite. Os arquétipos de Héstia, Deméter e Afrodite aparecem
na colaboradora Afrodite. Na colaboradora Deméter aparecem os arquétipos de Hera e
Deméter. Na colaboradora Hera apenas o arquétipo da deusa Hera, e na colaboradora
Perséfone apenas o arquétipo da deusa Perséfone. Considerações finais: As colabora-
doras que pareceram estar mais fixadas em um padrão apresentavam mais sintomas de
adoecimento psíquico. Naquelas que aparecem aspectos de outras deusas havia mais
fluidez no comportamento e menos obstruções ao desenvolvimento saudável.
151A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade150A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
Estés (2014), na obra Mulheres que correm com os lobos, defende que toda mulher
possui um arquétipo próprio do feminino: “a mulher selvagem”, o distanciamento desse
arquétipo, para a autora, gera o adoecimento psíquico. É com base nessa compreensão
que abordaremos os fenômenos discutidos nesse artigo. Para nós, o conceito de da autora
supracitada é a junção dos arquétipos das deusas da mitologia grega.
A carrega todas as facetas importantes da feminilidade, e quando se está em contato
com esse arquétipo têm-se a sabedoria e a intuição necessárias para escolha de parceiros
e manutenção ou rompimento de vínculos afetivos. “Suas vidas criativas florescem; seus
relacionamentos adquirem significado, profundidade e saúde; seus ciclos de sexualidade,
criatividade, trabalho e diversão são reestabelecidos” (ESTÉS, 2014, p. 20).
Toda mulher contém, em sua psique, as representações do feminino expressas na
mitologia, havendo predominância de uma ou mais deusas. O desenvolvimento saudável
acontece quando há a possibilidade de integração dos aspectos arquetípicos presentes
nessas deusas, quando a mulher tem seu comportamento cristalizado em apenas uma
dessas deusas, ela tem dificuldades de se desenvolver plenamente. A obstrução desse
desenvolvimento se manifesta na interrupção da capacidade de dar respostas criativas a
situações específicas e às suas necessidades internas, traduzindo-se em adaptação ex-
cessiva ao meio, acomodação, dependência, aprisionamento ao passado, comportamento
estereotipado, refletindo na estagnação do crescimento pessoal.
Os mitos estão presentes na vida das pessoas desde que a humanidade existe. São os
mitos que narram as origens do mundo, do homem, da vida, e de todos os ciclos vitais. O mito
integra o homem aos demais homens, e integra o homem a um sentido maior de existência,
liga o homem ao sagrado, ao divino. São pistas para as potencialidades espirituais da vida
humana. São o caminho para o transcendente (CAMPBELL, 2008).
Para Joseph Campbell (1990), aquilo que os seres humanos têm em comum se re-
vela nos mitos. Mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significa-
ção através dos tempos. “A primeira função de uma mitologia viva é conciliar a consciên-
cia com as precondições da sua própria existência – quer dizer, com a natureza da vida”
(CAMPBELL, 2008, p. 31).
Todos seguimos um caminho muito parecido do berço até o túmulo no que diz respeito
ao desenvolvimento psicológico, afirma Campbell (2008), e os mitos podem nos auxiliar nes-
sa jornada interior em busca da individuação. A essência do mito é que sua narrativa faça
sentido para aquele momento da vida, que a imagem que ele traz seja a fonte que sustenta
a existência daquela pessoa e daquele povo.
152A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
A existência de narrativas míticas foi comprovada em todas as sociedades, e essas
narrativas geralmente giram em torno de um núcleo comum: um elemento que está presente
em todas as outras narrativas, com roupagens diferentes. “É como se a mesma peça fosse
levada de um lugar a outro, e em cada lugar os atores locais vestissem costumes locais
e encenassem a mesma velha peça” (CAMPBELL, 1990, p. 40). Os personagens míticos
funcionam como arquétipos daquilo que nós podemos ser. Nesse sentido é que falamos
em arquétipos, e a partir deles chegaremos aos mitos das deusas como arquétipos orien-
tadores do feminino.
Arquétipo da deusa
Os arquétipos são conteúdos do inconsciente coletivo presentes na psique de todos
os humanos, segundo Jung (2000), são elementos comuns, instintos, impulsos, conflitos,
medos. Por estarem presentes no inconsciente, os arquétipos não se manifestam facilmente
a consciência, precisam que seu conteúdo se apresente disfarçado nos sonhos, nos contos
de fada, e nos mitos. Éstes (2014), afirma que os mitos e os contos de fada são o caminho
para encontrar mais facilmente o arquétipo.
O arquétipo é ativado quando algo ocorre na vida da pessoa que se liga àquela repre-
sentação. Para Bolen (1990), os arquétipos refletem diferentes aspectos da nossa perso-
nalidade, e o seu conhecimento permite que compreendamos melhor nossos sentimentos e
comportamentos. Nesse sentido, “a deusa surge como uma metáfora para o reconhecimento
da energia feminina divina em todos nós” (MOURA, 2017, p. 24). Ela é a forma que um ar-
quétipo feminino pode assumir no contexto de uma narrativa mitológica (WOOLGER, 2007).
A primeira manifestaçãoda deusa nas tradições agrárias do Neolítico e a mais simples
é a da Mãe Terra, a qual contém todas as energias das outras deusas, é uma deusa total.
Antes do aparecimento das religiões centradas na figura masculina, tínhamos uma cultural
matriarcal, que venerava a Grande Deusa (Bolen, 1990).
Para Woolger (2007), a Grande Deusa foi desintegrada com o surgimento das religiões
patriarcais, de modo que os atributos e símbolos que um dia foram investidos numa Grande
Deusa foram divididos entre muitas deusas, imagens simbólicas representadas pelas deusas
gregas. Na psique de cada mulher, entretanto, há a tendência de busca pela recuperação
da inteireza da Grande Deusa.
As deusas podem ser classificadas em três grupos. O primeiro grupo é o das deusas
virgens: Ártemis, Atenas e Héstia, elas representam a qualidade de independência e autossu-
ficiência das mulheres. O segundo grupo inclui Hera, Deméter e Perséfone, elas representam
os papéis tradicionais de esposa, mãe e filha, são deusas orientadas para os relacionamentos.
Afrodite, a deusa da beleza e do amor, está sozinha na terceira categoria (BOLEN, 1990).
153A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade152A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Artémis é a mais antiga deusa da metodologia grega, filha de Zeus e Leto, irmã gêmea
de Apolo, logo após nascer ajudou sua mãe no parto do irmão. É a deusa da caça, protetora
dos animais e da natureza. Em Éfeso foi considerada deusa da fertilidade e protetora das
mulheres em trabalho de parto. O arquétipo de Artémis tem como característica um espírito
independente e aventureiro, valorização da liberdade e luta contra toda forma e opressão
e violência. Valoriza mais os relacionamentos amorosos e de amizade entre as mulheres.
Manifesta-se na preferência em morar no campo, nas cidades pequenas; e numa alimentação
mais orgânica. Quando está em desarmonia nega sua sensualidade, por achar que esse
é um atributo explorado pelos homens; ou, não consegue encontrar seu papel, de esposa,
mãe, profissional, pois sente que são espaços dominados pelo patriarcado (MOURA, 2017).
Uma das versões para origem de Atena conta que Métis, sua mãe, profetizava que sua
filha seria corajosa, imponente, guerreira, e que roubaria o trono de seu pai, Zeus. Zeus,
temendo perder o poder engoliu Métis. Atena, porém, continuou a crescer na cabeça de
Zeus, que tomado por uma dor de cabeça profunda, pediu a Hefesto que lhe abrisse a ca-
beça, de dentro dela sai Atena, já adulta, com trajes de guerreira. Atena não se casou, nem
teve amantes. Era a deusa guerreira, protetora das cidades e conselheira de Zeus. A mulher
regida pelo arquétipo de Atena tem a tendência de ser bem sucedida no mundo, deseja
realizar-se profissionalmente, engaja-se na luta contra desigualdade e geralmente sente-se
à vontade no mundo patriarcal. Dá pouca importância ao seu corpo, sua sexualidade e be-
leza. Afasta-se das suas emoções e das dos outros, por sentir-se vulnerável ao que não é
objetivo. Quando em desarmonia, expressa pouca compaixão pela dor do outro, torna-se fria
emocionalmente, o que a afasta de outras pessoas e a coloca em um estado de constante
solidão. A sua excessiva racionalidade pode afastá-la do contato com a natureza e com a
espiritualidade (MOURA, 2017).
Héstia era a filha primogênita de Reia e Crono, mas não fez nenhuma questão para
assumir seu lugar. Conta o hino homérico que Afrodite induziu Posídon e Apolo a se apaixo-
narem por Héstia, mas ela os recusou firmemente, prestando solene juramento que perma-
neceria virgem para sempre. Zeus então lhe concedeu como presente o centro da casa e do
templo, para que ela recebesse as oferendas dos mortais. Héstia era conhecida através da
sua importância nos rituais, era comum ser representada através do fogo nas lareiras. Nem
o lar, nem o templo ficavam santificados até a sua entrada. Héstia é o arquétipo ativo nas
mulheres que priorizam o cuidar da casa, o estar reclusa, as atividades sacerdotais. Cuidar
dos detalhes do lar é uma atividade fundamental para Héstia. São mulheres que, muitas
vezes, ficam no anonimato. Héstia também confere a mulher o lugar de sábia anciã, voltada
para sua interioridade. As maiores dificuldades que podem se apresentar a Héstia são o
isolamento e a solidão. Ela também pode ser desvalorizada e isso ter um efeito negativo em
154A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
sua autoestima, ela pode sentir-se incompetente em adotar padrões que outras mulheres
desenvolvem e são cobrados pela sociedade atual (BOLEN, 1990).
Na mitologia, Hera é filha de Cronos e Réia, e casa-se com seu irmão Zeus, tornando-se
rainha do Olimpo. Simboliza o poder, o casamento. É a única mulher entre as deusas que
apresenta-se ao lado de Zeus. Apesar das muitas traições de Zeus, Hera permanece como
a esposa fiel, monogâmica, vingativa. A relação conjugal de Zeus e Hera é o protótipo do
casamento humano, com brigas, separações e repetidas voltas. A mulher que é motivada
pelo arquétipo de Hera é a guardiã das tradições, do poder. Tem uma imponência natural,
é aquela que sabe seu lugar no mundo, decidida, com espírito de liderança. Restringir seu
papel ao lar a torna insatisfeita, precisa estar no mundo dos homens, tomando as decisões,
governando. Preza mais o casamento que os filhos (MOURA, 2017). Quando está em de-
sarmonia, torna-se uma pessoa amarga, exigente, dominadora do marido e dos filhos, com
quem luta pelo poder. Torna-se intolerante com as mudanças nas estruturas da sociedade e
com os novos valores que venham a abalar a moral e os bons costumes. Se traída, torna-se
extremamente ciumenta e vingativa, mas não considera a separação, pois precisa sustentar
e manter a relação conjugal (MOURA, 2017).
Conta a mitologia que Deméter é filha de Cronos e Réia, irmã de Zeus, Hades, Poseidon,
Hera e Héstia. Foi devorada, junto com seus irmãos, pelo seu pai, temeroso de perder o
trono para os filhos. Mais tarde, todos foram resgatados de dentro de Cronos por Zeus, que
tornou-se o detentor do trono. Ela representa os ciclos da vida e o poder de gerar a vida,
simboliza a figura da mãe. Sua história está intimamente relacionada a de Coré-Perséfone,
sua filha que foi raptada por Hades. Deméter passa o resto da vida sofrendo pela perda de
sua filha: os ciclos de outono e inverno; com raros momentos de alegria, quando esta reen-
contra a filha, gerando os ciclos de verão e primavera. A mulher motivada pelo arquétipo de
Deméter expressa desejo pela maternidade, seja de filhos biológicos, ou adotivos, ou mesmo
tornando-se mãe de pais idosos. Torna-se a cuidadora de quem precisar. Doa sua vida em
função dos outros, sem esperar ser gratificada por isso. Sua realização é servir aos que ama.
Gosta de criar trabalhos com suas próprias mãos, de cozinhar, de plantar. Desequilíbrios
podem surgir se a mulher que tem a motivação do arquétipo da deusa Deméter desenvolver
comportamentos de superproteção, possessão, controle demasiado (MOURA, 2017).
Homero narra que Coré, filha de Zeus e Deméter, estava no campo colhendo flores,
quando a terra se abriu e ela é tomada por Hades, que a arrasta para o mundo subterrâneo.
Zeus havia permitido o casamento de Hades com Coré, sem o consentimento de sua mãe,
Deméter. Após casar-se com Hades, adquire o nome de Perséfone e torna-se a rainha do
reino dos mortos. Sem poder tomar sua filha de Hades, ao ver o sofrimento de Deméter,
Zeus estabelece períodos no ano em que Perséfone passa junto ao seu esposo e outro
155A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade154A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
junto a sua mãe. A mulher regida pelo arquétipo de Perséfone tem a predisposição a ges-
tos discretos, meiguice e misteriosidade. Tem uma vida simbólica muito expressiva, sente
necessidade de ligar-se aos mistérios da vida, de isolar-se do resto do mundo. Sendo mal
compreendida por essa necessidade de ligar-seao mundo interior, é a curandeira, a bruxa,
a sacerdotisa, aquela que atravessa os dois mundos, que lida bem com as dores e sofrimen-
tos humanos. É a filha dependente da mãe, apegada, que mesmo depois de casada não
desliga-se da casa materna. Inspira no outro o desejo de ser cuidada pela sua passividade e
fragilidade, deixando-se, muitas vezes, conduzir-se pelo outro. Quando está em desarmonia
tende a apresentar falta de ímpeto para buscar seus objetivos, dependência e passividade
em relação às imposições dos outros. Pode ter dificuldade em vivenciar os prazeres do
corpo e da sexualidade, por sentir que este é efêmero, sem importância (MOURA, 2017).
Já a narrativa mais aceita para origem de Afrodite é contada por Hesíodo, ela nasceu
quando Cronos cortou os órgãos genitais de Urano e arremessou-os no mar; da espuma
surgida ergueu-se Afrodite. Ela é a deusa do amor, da beleza e da sexualidade. No seu mito,
amou muitos deuses, como Poseidon, Hermes, Ares e Dionisio. Sua beleza imponente des-
perta os desejos mais profundos da alma humana. A mulher que é motivada pelo arquétipo
de Afrodite tende a irradiar beleza, sedução e fertilidade, pode ser acolhedora, generosa,
capaz de compreender as dores causadas pelo amor. Tem seus comportamentos motiva-
dos para atender suas necessidades básicas, como fome, sede, sono, sexo. Realiza-se no
contato com o outro, no encontro amoroso. Quando encontra-se em desarmonia, banaliza
os sentimentos de amor e amizade, o que a impede de formar vínculos mais profundos com
o outro, podendo vir a vulgarizar o corpo e a sexualidade (MOURA, 2017).
OBJETIVO
Compreender as experiências de vida das mulheres a partir das suas narrativas, perce-
bendo como se manifesta o arquétipo feminino na experiência de cada uma, e identificando
se há obstrução do desenvolvimento saudável.
MÉTODO
Esta pesquisa foi de abordagem qualitativa, do tipo narrativa de vida. Na perspectiva
das narrativas de vida, o método consiste no relato que uma pessoa faz de um episódio
qualquer de sua experiência vivida, cabendo aqui as descrições, explicações, gestos, pausas
que, mesmo não sendo formas narrativas, contribuem para construção de significados. Tal
narrativa é orientada pela intenção de conhecimento do pesquisador. Busca apreender um
discurso que se esforça para contar uma história real, durante uma relação dialógica com
156A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
um pesquisador, orientado para a descrição de experiências pertinentes ao objeto de estudo
(BERTAUX, 2010). A função da análise dos dados não é verificar hipóteses anteriormente
elaboradas, mas de construir hipóteses (BERTAUX, 2010).
A presente pesquisa encontra-se na “categoria de situação”, que consiste no estudo
de casos individuais, variando ao máximo as características destes, de modo a permitir a
elaboração de hipóteses sobre os processos que fazem com que as pessoas se encontrem
na situação estudada (BERTAUX, 2010).
População e amostra
A população para esta pesquisa foi composta de mulheres que residem na área de
abrangência de uma unidade básica de saúde, em Mossoró, cidade do interior do Rio
Grande do Norte, e estavam em acompanhamento terapêutico no grupo de apoio Espaço
da Palavra. A escolha dessa comunidade se deu por esta ser o lócus de atuação da primei-
ra autora durante o período da pesquisa. O Espaço da Palavra tem o objetivo de ser uma
terapêutica alternativa para os usuários de saúde mental da comunidade. O grupo tem pe-
riodicidade semanal, como forma de fortalecer o vínculo entre o profissional e os usuários,
e entre usuários e usuários.
No momento da pesquisa participavam do grupo cerca de 15 mulheres. A amostra foi do
tipo intencional, dentre essas mulheres foram escolhidas quatro, levando-se em consideração
a disponibilidade para participação da pesquisa e tempo de participação no grupo. Deu-se
preferência às mulheres que participam do grupo há mais de um ano, e com idade acima de
30 anos por entender que elas possuem um patrimônio histórico mais extenso que as demais.
Instrumento de coleta e análise dos dados
Como instrumento de pesquisa foi utilizado a entrevista aberta, norteada pela escuta
sensível de René Barbier. A entrevista foi gravada e posteriormente transcrita para análi-
se. A partir de questões norteadoras, ou temas, no nosso caso “Me conte um pouco sobre
sua infância/casamento/relação com os filhos”, iniciou-se o diálogo com a colaboradora e, a
partir daí, formulamos questões de acordo com o que foi trazido pelas narrativas, procurando
interferir o mínimo possível na fala das participantes.
A escuta sensível parte de um conceito de transversalidade, entendendo que o indi-
víduo é composto de uma rede simbólica na qual misturam-se referências, valores, mitos,
símbolos internos e externos que dão sentido, significado à sua existência. A escuta sensível
recusa-se a fixar cada pessoa num lugar, mas oferece possibilidade para outros modos de
existência. No primeiro momento, ela não busca interpretar, suspende qualquer juízo de valor
157A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade156A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
em busca da compreensão dos fatos, para posteriormente arriscar-se a “oferecer sentido”
aos dados encontrados (BARBIER, 1998).
Desse modo, procuramos escutar a história de vida de cada mulher, decodificando o
que é nuclear, o que as sustenta e as faz ser como são, agir como agem. As interpretações
acerca de qual deusa rege naquele momento aquela mulher são uma tentativa de entender
a experiência pessoal e única de cada uma delas, não reivindica o status de verdade.
Procedimentos éticos
Este estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa - CEP da Universidade do
Estado do Rio Grande do Norte – UERN, aprovado com o parecer número 2.216.107.
RESULTADOS
Trazer a imagem das deusas para dialogar com o modo de ser das mulheres possibilita
um despertar para as forças e fragilidades que existem dentro de cada uma, além de identifi-
car as tendências descritas na literatura. Para além dessa função, Moura (2017) afirma que
ao reconhecer-se cristalizada em aspectos de apenas uma deusa, a mulher pode iniciar um
caminho de integração e encontrar cura para suas feridas e resgatar suas potencialidades.
Para Bolen (1990), quando a mulher sabe qual o seu padrão dominante de deusa ela
adquire autoconhecimento a respeito da força de certas tendências, das suas habilidades,
das prioridades de suas escolhas e das possibilidades de encontrar sentido no que faz.
Das mulheres que foram colaboradoras na pesquisa cinco padrões de deusas emer-
giram: Héstia, Hera, Deméter, Perséfone e Afrodite. Os arquétipos de Héstia, Deméter e
Afrodite aparecem na colaboradora Afrodite. Na colaboradora Deméter aparecem os arqué-
tipos de Hera e Deméter. Na colaboradora Hera apenas o arquétipo da deusa Hera, e na
colaboradora Perséfone apenas o arquétipo da deusa Perséfone. Essas duas últimas por
estarem mais fixadas em um padrão apresentam mais rigidez e mais sintomas de adoeci-
mento psíquico. Adoecimento aqui, compreendido na perspectiva da Clarissa Estés (2014),
para a autora, a desintegração das deusas, o distanciamento do arquétipo da , provoca
adoecimento psíquico, que pode ser percebido a partir de sensações de extraordinária
aridez, fragilidade, depressão, confusão, sentimento de estar amordaçada, impotente, inse-
gura, demasiada preocupação com a opinião dos outros, distanciamento da espiritualidade,
exagerado envolvimento com a domesticidade ou com o intelectualismo.
As mulheres participantes receberam codinomes relacionados às deusas com as quais
houve maior identificação. A participante Hera é uma mulher de 51 anos, casada, com
duas filhas, relata histórias de violência física, psicológica e patrimonial. Outra participante,
158A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Afrodite, se apresenta com características de outras duas deusas além destaprincipal: Héstia
e Deméter, Afrodite é casada, tem um filho, 57 anos. A terceira participante, Deméter, tem
41 anos, é mãe de dois filhos, avó, e casada, Hera também aparece como um arquétipo
condutor da vida dessa mulher. A última participante possui identificação com Perséfone,
ela é casada, tem um filho, está com 47 anos.
DISCUSSÃO
Hera
Apesar das vivências de sofrimento no casamento, Hera não considera a possibilidade
de uma separação. Para ela a manutenção do casamento é muito importante.
Eu esperava que ele melhorasse, eu ia dormir, ele batia em mim, mas eu
esperava que no outro dia ele se arrependesse. Como ele chorava aos meus
pés e dizia que não ia fazer mais aquilo, que tinha se arrependido. Sempre
era assim. Aí, eu como mulher, eu acreditava. Aí depois, com o passar do
tempo foi ficando assim, aquela angústia, porque eu vi que ele não mudava,
ele só prometia, mas ele não mudava. Entendeu?
Tá com uns oito anos, oito anos que ele não me bate. Mas as agressões
verbais ele nunca deixou. Ele me chama de vagabunda. (choro). Diz que eu
não sou nada.
Eu não queria que ninguém me visse como uma mulher sem marido. Eu
nunca me vi assim.
Não me arrependo assim, do esforço que eu fiz pra construir e manter a
minha família.
Apesar disso, a todo momento Hera espera que sua relação seja de companheirismo,
que o marido a valorize e faça as coisas com ela, em parceria.
Eu acho muito bonito as meninas que trabalham comigo dizerem que passa-
ram o final de semana em tal canto com o marido e os filhos. Eu tinha muita
vontade. Tinha não, eu tenho vontade. Mas lá em casa se eu falar isso, cai a
casa. Como é que eu vou? Não é pelas condições, é porque o homem não vai.
Eu sinto muita falta dele me acompanhar.
Hera também se apresenta como a guardiã das tradições familiares, no seu cuidado
com os filhos apresenta uma postura conservadora.
Com a mais nova é diferente. Ela me atende mais. Assim, ela quer ir pra
algum canto, ela me pede, ela me diz, ela completou 29 anos, mas ela me
diz. Ela arrumou um namorado, no ano novo ela me pediu pra ir pra praia
com ele, se abro exceção hoje pra ela ir pra praia, quando for amanhã ela vai
querer ir dormir na casa dele. E eu não concordo. Não adianta eu dar uma de
moderna se eu não sou. Tudo bem ela sair, 22h ela chegar em casa. Mas ela
sair e dormir na casa dele, chegar em casa no outro dia, eu não concordo.
159A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade158A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Hera também direciona sua energia para organizar sua casa, seu trabalho. Ela assume
todas as responsabilidades do lar para si, e demonstra sua utilidade. Mas não há uma plena
satisfação em ocupar esse lugar, o que a torna uma pessoa amarga, exigente, dominadora
do marido e dos filhos, com quem luta pelo poder.
Eu casei muito jovem na vida. Eu nunca gozei de uma verdadeira felicidade.
(suspiro). Desde que eu casei eu alcancei só responsabilidade. Eu só sei o
que é responsabilidade. Então por isso que eu acho ás vezes que eu me torno
grosseira, não é porque eu seja uma pessoa mau, é porque eu encontro a
minha defesa aí.
É muito ruim viver assim. Eu trabalho, financeiramente eu sou independente,
mas não sou por conta disso, porque são muitas pessoas ao meu redor e eu
que tenho que dar conta de tudo.
Fixada nesse arquétipo, Hera cria relacionamentos frios e distantes, e isso é motivo
de muito sofrimento para ela.
Eu acho assim, que poderia até ter sido diferente, poderia ter tido mais com-
preensão de ambas as partes, eu sou uma pessoa de gênio muito forte, não
vou negar, eu tenho as minhas opiniões.”
“Eu vivo naquela casa, mas eu não vivo né nem pisando em ovos, é pisando
em pregos, em cacos de vidro, com aquele cuidado pra não me cortar.
Tem dias que eu acho tão difícil. Tem dias que eu não tenho força. Eu digo
assim, eu vou morrer. (choro).
As obstruções para o desenvolvimento saudável em Hera estão: na ausência de empatia
e aceitação pelas diferenças do outro, no congelamento em certos padrões conservadores,
e na dificuldade de transformar a raiva e frustrações em algo criativo.
Vemos no relato de Hera um lamento profundo por não ter nada que possa ser feito
para alterar sua situação. Para Éstes (2014), toda mulher cristalizada em um arquétipo acaba
cansando-se e tornando-se por demais exigente, perfeccionista, insatisfeita com ela própria,
com a família, com o mundo, mas não consegue fazer nada a respeito. Ela pode também
fingir ser uma fonte ilimitada para os outros e não faz o possível para se ajudar. Sem seus
instintos, ela agarra-se às coisas quando seria melhor afastar-se delas. Exige demais, de
menos ou nada. Cala quando, de fato, está ardendo por dentro (ESTÉS, 2014).
Afrodite
Na sua juventude, Afrodite afirma gostar dos prazeres e da beleza, aspectos que estão
sendo deixados de lado, talvez pela crescente força do arquétipo de Héstia em sua psique.
Héstia se manifesta quando Afrodite decide dedicar-se integralmente ao serviço religioso.
Uma vez eu tava na cama com ele, a gente terminou de namorar, e eu tava
160A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
com ele, e a gente era muito foguento, nós dois, hoje eu virei uma geladeira,
mas antigamente, na juventude né.
Hoje eu me sinto uma pessoa sexualmente sem desejo nenhum, não tenho
desejo nenhum.
Às vezes eu digo pra ele que eu me sinto tão acabada, tão velha. Ele diz que
é porque eu me entreguei, mas que me vê como uma mulher linda. Só é pra
mim se arrumar, pintar os cabelos, vestir um vestido, botar um batonzinho,
um lapisinho, como eu gostava antes.
Mas ultimamente o desejo que eu mais tinha era me batizar, dedicar minha
vida ao soberano Deus e a Jesus. E eu consegui né. Sou feliz por eu ter
participado, me dedicado ao santo pai celestial e a Jesus porque é o melhor
modo de vida.
Afrodite traz uma idealização do sentimento de amor e o quanto valoriza esse senti-
mento. O amor pela natureza, pela divindade, pelo marido, pelo filho, pelo irmão, pela huma-
nidade. A todo momento ela parece estar contemplando a beleza nas coisas mais simples.
Afrodite apresenta-se como acolhedora, generosa, capaz de compaixão e empatia.
Sente necessidade do contato, do abraço, do aconchego, do encontro amoroso. Não só
expresso na relação carinhosa com o marido, mas com o filho.
Apesar de tudo isso que a gente passou, eu sinto assim, que três coisas que
a gente não deve deixar nunca acabar num relacionamento, é o amor, a ad-
miração e o respeito. Até hoje eu sinto amor por ele, admiração e respeito. E
eu também sinto que ele tem essas mesmas coisas por mim ainda.
Então, acho amor pra ele não faltou. Assim, nesse sentido de dar atenção.
Eu deitava com ele na cama, ficava fazendo carinho. Até agora, com 21 anos.
Eu chego perto, fico cheirando ele, e só faz isso só quando tá eu e ele, nem
na frente do pai ele faz.
No seu relato é possível perceber a valorização do amor e até uma certa idealização
desse sentimento, característica da deusa Afrodite. Talvez por isso consiga incluir seu rela-
cionamento como nutridor ainda que o prazer da excitação sexual tenha se abrandado e ela
reconheça as fragilidades da relação. Ela e o parceiro parecem ter a habilidade de amenizar
o sofrimento, de sobreviver à dor, e demonstrarem devoção ao amor.
O arquétipo de Deméter aparece numa relação de superproteção com o filho, e de
abnegação de si mesma pelo outro.
Eu acho que eu sou uma mãe que por eu ter só ele, e ter visto que ele tinha
uma certa dificuldade em algumas coisas, eu protegi muito ele, sabe. Eu de-
veria, se eu fosse uma mulher jovem, e fosse criar outro filho, eu já deixaria
cair, pra se levantar, eu não teria protegido tanto meu filho, assim, eu criaria
diferente. De ter deixado ele se libertar mais.
Ultimamente eu tô me sentindo assim, são tantas perturbações, não tanto do
meu marido e do meu filho, mas do meu irmão que saiu da cadeia (...) Então,
ele liga pra mim, bota a bomba em cima demim, aí eu ligo pros outros meus
irmãos, nenhum quer, aí eu fico me sentindo assim, com as mãos atadas,
sem poder fazer nada. Porque ele diz assim que eu sou a única irmã que o
161A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade160A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
ajuda. Tá entendendo como é, como é difícil. Aí ele joga isso em mim. Eu fico
doente, fico atordoada.
Identificamos como obstruções para o desenvolvimento pleno, ou saudável, a dificuldade
de aceitar o envelhecimento como algo natural e conseguir fortalecer sua autoestima apesar
disso. Além disso, o comportamento de superproteção e abnegação acima mencionados
contribuem para o aparecimento de sintomas de adoecimento psíquico.
Deméter
Nos relatos de Deméter podemos perceber o cuidado dela com os filhos, e o prazer
em assumir a função materna.
Toda vida eu coloquei meus filhos em primeiro lugar, como até hoje, tudo,
o que eu puder, eu faço por eles. [...] Eu pensava assim, em ainda ter uns
quatro filhos, acho bonito, uma família grande.
Eu me achava uma mãe muito boa. Eles até hoje dizem que eu sou uma mãe
muito boa. Eu cuidava. Levantava cedo, ia deixar na creche. Quando não
tinha, eu conseguia um jeito deles ficar comigo no trabalho, e eles ficavam
quieto. Pra onde eu ia, levava eles. Nunca troquei eles por festa. Ainda são
minha prioridade. Mesmo crescido, na casa deles, ainda são.
Geralmente, como ocorreu na vida de Deméter, as mulheres regidas pelo arquétipo
dessa deusa casam-se cedo, o que dificulta, muitas vezes, a continuidade dos seus estudos,
desenvolvimento e ascensão profissional (MOURA, 2017). O arquétipo de Hera aparece
quando, mesmo tendo de se submeter a situações de violação, permanece na relação pela
dificuldade em se imaginar como uma mulher sem marido.
Estudar, eu vim estudar, já tava com 14 anos quando eu fui pra escola a
primeira vez. Eu não aprendi mais porque meu marido era muito ciumento,
como ainda é. (...). Dizia que não adiantava eu ir pra colégio, que eu não
ia aprender. Tudo aquilo ficou martelando na minha cabeça. ‘Você não vai
aprender. Você não vai aprender’. Até hoje tem coisa que eu sei e sei lá, fica
preso na minha cabeça, como se eu não soubesse.
Às vezes, as vezes eu penso, mas ao mesmo tempo peço a Deus e volto
atrás. Se meu pai fosse vivo, eu não estaria mais morando aqui. (pausa). Eu
já tinha ido embora morar perto dele. Ele sempre deu muito apoio a gente.
Eu me sinto sem chão hoje. Às vezes eu olho, o que importa pra mim é meus
filhos. Eu não gosto mais nem de casa (choro). Aí só em pensar em deixar,
como vai ser a minha vida? Sozinha?!
Eu acho que o que me faz ficar com ele é segurança, de não ficar só. Só isso.
Creio que só isso.
A mulher regida por Deméter possui ímpeto e grande vigor para gerar e cuidar da vida.
Gosta de organizar a casa, cozinhar, cuidar de plantas, animais (MOURA, 2017). Deméter
gosta de criar trabalhos com suas próprias mãos, de bordar, de cozinhar, de plantar.
162A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Eu gosto muito de criança. [...] Criança é tudo de bom, se eu pudesse tinha
um monte de menino. É bom demais. Gosto muito de flores. De plantar assim,
um jardinzinho, de hortas, eu gosto também de plantar.
Quando se encontra em desarmonia tem a tendência de ser possessiva, demasiada-
mente controladora e apegada aos filhos, vivencia o ninho vazio de modo doentio e auto-
destrutivo, criando chantagens e uma cobrança de atenção constante, o que não aparece
na narrativa de Deméter. Entretanto, por sempre assumir o papel de cuidadora, sente falta
de ser cuidada e tem dificuldade de expor suas necessidades.
Eu penso que desde nova as pessoas já olham pra mim com uma segurança,
como se eu fosse só pra cuidar, como se eu não precisasse de cuidado. (cho-
ro). Só querem como se eu fosse pra cuidar, só pra cuidar. Mas eu também
preciso de cuidado.
Na narrativa de Deméter há poucos sinais de obstrução do desenvolvimento saudável,
parece que ela consegue ajustar-se as demandas e necessidades que surgem. Mas, pode-
ríamos apontar a dificuldade de expressar suas necessidades e o priorizar as necessidades
do outro em detrimento das suas como pontos de adoecimento. Para Estés (2014), durante
sua vida, a mulher tem suas necessidades silenciadas, à custa de agradar os outros, com
o tempo, perde seu instrumento regulador, sua intuição, “a mulher selvagem”.
Perséfone
A mulher regida pelo arquétipo de Perséfone tem a tendência de se comportar de for-
ma doce e meiga, no entanto tem muita inclinação para a solidão. Inspira no outro o desejo
de ser cuidada pela sua passividade e fragilidade, deixando-se, muitas vezes, conduzir-se
pelo outro (MOURA, 2017).
Eu queria muito ter o apoio de todos, como eu digo a você, eu gostaria de
ter muita gente perto de mim, eu queria ser uma pessoa muito amada por
todos. E eu não tenho.
Eu me sinto muito só. Entendeu? Devido a minha religião a gente não come-
morar e não se agrupar, aí eu me sinto só. (...) Eu tenho uma inveja delas
serem mais amigas de outras do que de mim, entendeu? Eu me sinto um
peixinho fora d’água. Excluída.
É a filha dependente da mãe, apegada, que mesmo depois de casada não desliga-se da
casa materna. Perséfone também tem uma extrema sensibilidade para ligar-se aos mistérios
da vida e conectar-se ao transcendente, daí vem sua facilidade em continuar convivendo
com sua mãe nos sonhos, sem que isso lhe cause estranhamento, como nos relata:
163A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade162A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Eu dizia pra não deixarem a minha mãe ir embora. ‘Ela é meu amor, minha
mãe, minha amiga, é tudo na minha vida. Ela não pode ir’. (choro). E eu fi-
cava muito desesperada. Foi muito triste, e até hoje eu lembro dessa cena,
eu choro. Hoje eu choro pouco, não é que eu esqueça dela, é porque toda
hora que eu durmo, se eu durmo a meio-dia, se eu durmo a noite, eu estou
com ela, eu sonho com ela direto, direto. Eu vejo ela, eu converso com ela.
Ela vive direto nos meus sonhos.
Quando está em desarmonia mostra falta de ímpeto para buscar seus objetivos, torna-
-se dependente, passiva aos desejos e imposições dos outros. Não vivencia os prazeres do
corpo e da sexualidade de forma satisfatória porque é desconectada do seu corpo e dos seus
ciclos (MOURA, 2017). Perséfone, assim como a deusa, é uma mulher frágil, dependente
da confirmação do outro, de que o outro valide suas experiências. E, ao mesmo tempo, não
consegue ter fluidez, espera que o outro faça por ela, que conduza sua vida, pois sente-se
incapaz de realizar qualquer movimento.
Se eu tivesse coragem de deixar de ser uma testemunha de Jeová, eu iria
ser o meio termo. Eu ia ficar neutra.
Mas a minha convivência com ele é muito boa, a gente tenta concordar um
com o outro, conversar e entrar num acordo sempre que a gente quer fazer
alguma coisa, e ele é muito feliz, sabe? Eu não vou dizer assim que eu sou.
Eu sou feliz porque eu tenho o que eu não tinha, que é uma casa, uma fa-
mília. Mas acho que falta paixão. Aquela paixão, aquela coisa avassaladora,
aquela coisa forte. (pausa). Eu acho que se tivesse isso seria perfeito. Mas
nada é perfeito. Eu não posso ter tudo. Eu tenho muito pouco desejo por ele.
(pausa). Ele sabe que eu não sinto prazer, mas ele acredita que seja por
conta da medicação.
Eu gostaria de mudar, de viver outra vida, outras coisas. (pausa). Gostaria
de me libertar, de voar, acho que é isso, eu vivo muito assim sabe, acuada.
Aquela coisa encolhida. Sabe, eu queria me soltar, queria viver (abre os bra-
ços). Minha vida é muito limitada.
Percebemos que Perséfone encontra-se em desarmonia, a obstrução do desenvolvi-
mento saudável aparece nos seus relatos como passividade diante das situações e a vivência
desprazerosa da sexualidade. Para Moura (2017), o caminho para cura é ela assumir sua
responsabilidade e vencer a dependência nas escolhas da vida.
CONSIDERAÇÕESFINAIS
Iniciamos este artigo falando sobre a importância da mitologia para a compreensão da
forma de ser e de se relacionar de cada um de nós, focando nas imagens arquetípicas das
deusas, mitos que representam tendências do comportamento. Identificamos, nas narrativas
das mulheres participantes da pesquisa, aproximações com as descrições dos arquétipos
das deusas, bem como sintomas de adoecimento psíquico decorrentes da fixação em um
aspecto desse arquétipo, como proposto pela Clarissa Estés.
164A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Hera e Perséfone, que pareceram estar mais fixadas em um padrão apresentavam
mais sintomas de adoecimento psíquico. Nas outras duas mulheres, identificadas como
Afrodite e Demeter, nas quais aparecem aspectos de outras deusas, havia mais fluidez no
comportamento e menos obstruções ao desenvolvimento saudável.
Entendemos que não há apenas a Hera, a Afrodite, a Deméter e a Perséfone descri-
tas aqui, muitas mulheres podem ter identificações com esses arquétipos, algumas estão
mais integradas – quando apresentam características das seis deusas; outras, devido a
fixação em uma tendência podem apresentar comprometimento no desenvolvimento sau-
dável. As vivências aqui relatadas refletem a singularidade de cada mulher, mas também a
coletividade, uma vez que são experiências que revelam a representação do feminino em
nossa sociedade.
É importante pontuar que, no decorrer deste trabalho, buscamos colocar a subjetivi-
dade de cada mulher em primeiro lugar, não estabelecendo diagnósticos ou enquadrando
as participantes em modos de ser cristalizados, nosso intuito foi compreender a expressão
de determinados comportamentos a partir da história de vida de cada mulher e de suas
relações. Compreensão que corrobora a perspectiva dos arquétipos. A escuta acolhedora
dessas histórias permitiu que elas pudessem falar sobre suas experiências sem julgamentos
ou interpretações preconceituosas.
Por fim, insistimos na importância de que as narrativas continuem a serem contadas,
Estés (1998) fala que as histórias mais poderosas são aquelas que surgem em decorrência
do sofrimento, pois essas mesmas histórias quando contadas a um outro podem fornecer
as curas mais intensas para os males passados, presentes ou futuros. “As histórias podem
ensinar, corrigir erros, aliviar o coração e a escuridão, proporcionar abrigo psíquico, auxiliar
a transformação e curar ferimentos” (ESTÉS, 1998, p. 37).
REFERÊNCIAS
1. BARBIER, René. A escuta sensível na abordagem transversal. In: BARBOSA, J. G. (coord)
Multirreferencialidade ns ciências e na educação. São Carlos: EdUFSCar, 1998.
2. BERTAUX, Daniel. Narrativas de vida: a pesquisa e seus métodos. São Paulo: Paulus, 2010.
3. BOLEN, Jean Shinoda. As deusas e a mulher: nova psicologia das mulheres. São Paulo:
Paulus, 1990.
4. CAMPBELL, Joseph. Mito e transformação. São Paulo: Àgora, 2008.
5. _____. O poder do mito, com Bill Moyers. São Paulo: Palas Athena, 1990.
6. ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo
da mulher selvagem. Rio de janeiro: Rocco, 2014.
165A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade164A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
7. _____. O dom da história: uma fábula sobre o que é suficiente. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
8. JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
9. MOURA, Betania. A roda das deusas: deusa, arquétipo do feminino. Fortaleza: Expressão
Gráfica e editora, 2017.
10. WOOLGER, Jennifer Barker. A deusa interior: um guia sobre os eternos mitos femininos que
moldam nossas vidas. São Paulo: Cultrix, 2007.
“
11
Pesquisas com seres humanos: A ética
e a relevância dos comitês de ética
Hermínia Dias de Freitas
Lahana Giacomini de Vasconcellos
Luciana Stefano
FISMA
Ana Carolina Cadermatori
FISMA
10.37885/210303540
Artigo original publicado em: 2016.
Revista Eletrônica Acervo Saúde - ISSN 1646-6977.
Oferecimento de obra científica e/ou literária com autorização do(s) autor(es) conforme Art. 5, inc. I da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98
https://dx.doi.org/10.37885/210303540
167A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Palavras-chave: Comitês de Ética em Pesquisa, Ética, Seres Humanos.
RESUMO
Os Comitês de Ética em Pesquisa são responsáveis pela avaliação dos projetos, im-
prescindíveis no campo das pesquisas e publicações científicas envolvendo seres huma-
nos. A ética dos profissionais envolvidos deve ser uma prática comum na realização das
mesmas. No Brasil, o sistema foi criado pela resolução de 1988 do Conselho Nacional de
Saúde (CNS) e revisado pela Resolução 196/96, que definiu a criação e a consolidação
do sistema brasileiro de revisão ética das pesquisas. O presente trabalho busca uma
reflexão sobre a Ética e a relevância dos Comitês de Ética frente às pesquisas com seres
humanos; para tanto se realizou uma revisão de cunho bibliográfico através de consultas
online a literatura especializada referente ao assunto.
168A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
INTRODUÇÃO
No decorrer dos anos, os avanços tecnológicos em todas as áreas da ciência tornaram-
-se cada vez maiores. Neste contexto, a bioética tem assumido um papel científico e social
cada dia mais importante, já que responde à necessidade de dar sentido moral às práticas
científicas envolvendo seres vivos, notadamente seres humanos, constituindo-se também
em uma ferramenta para o enfrentamento de dilemas éticos (SCHRAMM, 2002).
Ciência e tecnologia, independente da área do conhecimento, não podem prescindir
da bioética para que possam avançar no desenvolvimento de uma ciência eticamente res-
ponsável, associada a uma tecnologia a serviço da humanidade e a uma democracia real,
que concilie liberdade e justiça, incentivando o desenvolvimento da ciência dentro de suas
fronteiras humanas (COSTA; GARRAFA; OSELKA, 1998).
A pesquisa com seres humanos tem o compromisso de resguardar a integridade de
todos os envolvidos. Este resguardo envolve questões sobre a preservação da privacidade,
a minimização de riscos e desconfortos, a busca de benefícios, a não discriminação e a
proteção de grupos de pessoas vulneráveis. Duas estratégias têm sido utilizadas no intuito
de proteger os indivíduos estudados: a utilização de consentimento livre e esclarecido e a
avaliação por Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs). Conforme Oliveira (2013), os CEPs
foram criados, fundamentalmente, para defender os interesses dos sujeitos da pesquisa, a
fim de salvaguardar sua integridade e contribuir no desenvolvimento da mesma, dentro de
padrões éticos, por meio de avaliação e acompanhamento, tendo como princípios nortea-
dores os referenciais da justiça, equidade, beneficência e não maleficência.
Os Comitês de Ética em Pesquisa têm por objetivo proteger o bem-estar dos indivíduos
pesquisados promovendo a aplicação dos princípios pautados na ética dos direitos humanos
em todas as pesquisas envolvendo seres humanos, de forma interdisciplinar, ou seja, cons-
tituído por profissionais de diversas especialidades, além de pelo menos, um representante
da comunidade. As decisões do CEP independem dos interesses particulares institucionais
ou pessoais. Em relação a isso, Batista (2012, p.151) complementa dizendo que:
Na formação do comitê deve haver, no máximo, 50% de seus membros de uma
mesma categoria profissional, devendo também ser garantida a participação
de pessoas que não sejam voltadas à pesquisa. Em outras palavras, não se
trata de um comitê de pesquisadores, mas sim de um grupo representativo
da sociedade.
Ainda de acordo com Batista (2012) os comitês devem ser legitimamente constituí-
dos e habilitados funcionando como instância primária de orientação, instrução, análise de
validade das pesquisas e deliberação de assuntos éticos pertinentes aos protocolos, como
http://www.ufrgs.br/bioetica/res24097.htm
http://www.ufrgs.br/bioetica/res24097.htm169A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade168A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
também receber e quando necessário, apurar denúncias e determinar a interrupção de
projetos de pesquisa.
Na avaliação de um projeto de pesquisa na área da saúde, quatro pontos são funda-
mentais: a qualificação da equipe de pesquisadores e do próprio projeto; a avaliação da
relação risco- benefício; o consentimento informado e a avaliação prévia por um Comitê de
Ética. (FRANSCICONI E GOLDIM, 1995).
A avaliação prévia dos projetos de pesquisa feita por um Comitê de Ética em Pesquisa
visa assegurar que os aspectos éticos e metodológicos estejam adequados. Este Comitê,
devido a sua independência e representatividade acadêmica e social, deve garantir que
as pesquisas tenham um aval institucional, além da responsabilidade já assegurada
pelo pesquisador.
Baseado nos pressupostos acima, o presente trabalho busca uma reflexão sobre a Ética
e a relevância dos Comitês de Ética frente às pesquisas com seres humanos, para tanto se
realizou uma revisão de cunho bibliográfico através de consultas a literatura especializada
referente ao assunto.
O surgimento dos Comitês de Ética em Pesquisas no Brasil
As Diretrizes Internacionais para Pesquisas Biomédicas Envolvendo Seres Humanos,
elaboradas pelo Conselho das Organizações Internacionais de Ciências Médicas em acordo
com a Organização Mundial de Saúde, definem que a partir de 1993, todos os projetos de
pesquisas relativos a esse assunto devem ser submetidos à revisão de um ou mais comitês
independentes, sendo necessária a aprovação da pesquisa antes do início de seu desen-
volvimento (BRASIL, 2008a, s.p).
Ainda conforme Brasil (2008a, s.p) em 1988, o Conselho Nacional de Saúde já ha-
via publicado a primeira regulamentação a respeito das pesquisas com seres humanos, a
Resolução 01/88. Por esta não ter apresentado a eficácia esperada, após um processo de
divulgação, debates e consultas, o Conselho elaborou e aprovou a Resolução 196/96, que
criou instâncias regionais, ou seja, os Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) e a Comissão
Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), órgão nacional de controle de pesquisas envol-
vendo seres humanos (FREITAS E LOBO, 2006). Estes regulam assim, tanto a constitui-
ção e o funcionamento dos comitês de ética em pesquisas com seres humanos, quanto os
procedimentos a serem seguidos pelos pesquisadores para o processo de submissão de
seus projetos à análise dos comitês. Após ter sido sancionada pelo Ministério da Saúde,
o cumprimento desta resolução passou a ser considerado como obrigatório a todas as
pesquisas envolvendo seres humanos em território nacional, sejam elas de aspecto saú-
de- doença ou não.
http://www.ufrgs.br/bioetica/risco.htm
http://www.ufrgs.br/bioetica/conspesq.htm
http://www.ufrgs.br/bioetica/cep.htm
http://www.ufrgs.br/bioetica/cep.htm
170A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
Em 2001, a CONEP criou o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres
Humanos (SISNEP) com objetivo de constituir um sistema nacional de informação e acom-
panhamento dos aspectos éticos das pesquisas realizadas em todo o território brasileiro.
Este sistema facilita o controle social das pesquisas e a análise de dados de interesse do
Ministério da Saúde e de órgãos relacionados às políticas de Ciência e Tecnologia (FREITAS,
LOBO & GONÇALVES, 2009).
Segundo a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (2013), em nosso país os CEPs
começaram a ser implantados a partir de 1997, logo após a edição da Resolução 196/96 e
em 2012, estes já somavam 645 unidades, aprovadas e em funcionamento, disseminadas por
todas as regiões do país. A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) foi igualmente
criada pela Resolução 196/96; trata-se de uma comissão assessora do Conselho Nacional
de Saúde; tem por função programar as normas e diretrizes regulamentadoras de pesquisa
envolvendo seres humanos e ainda, função consultiva, deliberativa, normativa e educativa,
atuando conjuntamente com uma rede de CEPs, organizados em diferentes instituições e
outras instâncias (MUSSIOLI, 2004).
A Resolução nº 196/96 assume claramente que os CEPs foram criados para defender
os interesses dos sujeitos que serão submetidos à pesquisa, protegendo-os em sua integri-
dade e dignidade, foram também criados não para isentar de responsabilidade quem quer
que seja inclusive o pesquisador, mas para contribuir no desenvolvimento da pesquisa dentro
de padrões éticos (FREITAS e HOSSNE 2002).
Segundo a mesma Resolução, toda pesquisa com seres humanos envolve risco com
graus variados. O dano eventual pode ser imediato ou tardio, comprometendo o indivíduo
ou a coletividade. A tipificação do risco nas diferentes metodologias de pesquisa deverá ser
definida pelo Conselho Nacional de Saúde, em norma própria desse órgão (BRASIL, 2012).
A ética nas pesquisas com seres humanos
Os valores éticos sofrem modificações de acordo com as épocas históricas, ideias
filosóficas e conquistas científicas. Os códigos, as normas, os princípios e as tradições são
os critérios que se propõem a dirigir a ação humana de diretrizes efetivas que determinam
o caminho a ser seguido.
Para Guareschi (2008), estamos vivendo um paradoxo, pois em vez de superarmos o
individualismo e o liberalismo da sociedade em geral, para entrar numa fase de super-hu-
manização e de socialização, com base em uma percepção da realidade e da vida como
relação, estamos presenciando a exaltação do individualismo, o egocentrismo, as lutas e as
competições que estão levando o mundo a uma situação de separação e exclusão.
De acordo com Tomanick (2008, p. 397):
171A Psicologia e Suas Interfaces>na Saúde, Educação e Sociedade170A Psicologia e Suas Interfaces na Saúde, Educação e Sociedade
O termo ética vem sendo usado em dois sentidos diferentes, porém comple-
mentares. Num destes sentidos, a palavra ética designa uma forma de direcio-
namento das tomadas de decisões individuais diante de situações específicas,
ou mesmo um princípio direcionador do conjunto das ações do indivíduo.
Neste sentido, a ética é parte de processos individuais de reflexão e de ação
e pode estar presente na vida de qualquer ser humano. No outro sentido, o
termo ética (frequentemente grafado com inicial maiúscula) serve para indicar
um campo de estudos e de reflexões sistemáticas, normalmente classificado
como uma subárea da Filosofia. Este é o campo das teorias sobre os princí-
pios que envolvem e permitem a formação de reflexões éticas e a atuação
destas reflexões no cotidiano dos indivíduos. Normalmente, apenas os que
se dedicam a algumas áreas específicas de estudo transitam por este campo.
As condutas individuais ou coletivas também são de certa forma, controladas pela ética;
porém, diferentemente das leis e das normas, ela atua a partir das convicções do próprio
indivíduo que age. Não é a existência de uma regra, externa e anterior ao ato, que rege a
decisão ética, é a ponderação do agente, sua reflexão e suas decisões diante da situação
que se apresenta; do ato a ser executado; das consequências que espera, deseja ou supõe
que vão resultar de sua ação e da confrontação entre essas consequências e seu sistema
de valores, ou seja, o conjunto das convicções que já possuía anteriormente sobre o que
seria certo e errado (TOMANICK, 2008).
Em se tratando de pesquisas com seres humanos, o tema da ética em pesquisa precisa
ser objeto de permanente reflexão e crítica, inclusive pelo próprio movimento e provisorie-
dade que caracterizam a ciência ou mesmo os valores e a moral de uma sociedade. Zanella
(2008, p. 50) mostra sua preocupação com o assunto:
Entro aqui com a reflexão sobre ética, ou melhor, sobre o necessário diálogo
a ser entabulado pelos cientistas da relação entre ética e ciência. Afirmo a
necessidade do compromisso dos pesquisadores, independente do objeto,
dos objetivos e do método delineado em suas investigações, tanto