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Em conformidade com suas contribuições singulares na área da missiologia, essa última obra de Paul Hiebert nos faz compreender a cosmovisão com uma profundidade jamais vista. O livro Transformando cosmovisões começa com uma investigação detalhada dos conceitos de cosmovisão, depois apresenta uma análise filosófica e cultural sobre o assunto, segue com uma reflexão bíblica saudável e, então, finaliza com um chamado à transformação. Essa obra promete se tornar um clássico no estudo de missões. É o melhor de Hiebert! Doug McConnell, Fuller Theological Seminary Nesse estudo notável, um dos maiores missionários antropólogos dos últimos cinquenta anos apresenta a análise mais abrangente e completa disponível atualmente sobre cosmovisões e sua relação com a fé cristã. Como fruto do auge de uma vida inteira de reflexão e ministério transcultural, Transformando cosmovisões é uma obra magistral que influenciará os debates sobre missiologia e teologia nos próximos anos. É indispensável para qualquer pessoa que tenha interesse em questões de fé e cultura. Harold Netland, Trinity Evangelical Divinity School Que jornada maravilhosa é caminhar uma vez mais com nosso irmão Paul Hiebert ao longo dessas páginas, dar atenção à sua ponderada sabedoria, à sua última palavra e testamento para os que, em nossos dias, estão buscando amar o mundo de Deus! Teoria e prática, padrões culturais e questões missiológicas — há material suficiente para instigar nossa reflexão por um longo tempo. Miriam Adeney, Seattle Pacific University Esse livro é produto de um Hiebert maduro, reunindo em um único volume sua reflexão original sobre a dinâmica cultural da conversão cristã. Baseando-se em uma vida inteira de estudo, reflexão e produção de texto sobre o tema, essa obra promete ser a referência sobre cosmovisão nos próximos anos. O livro está repleto de percepções culturais e teológicas sobre “o que” significa “não nos amoldarmos ao esquema deste mundo, mas sermos transformados pela renovação da nossa mente”, e “como” isso ocorre. Escrito com a clareza e a originalidade que destacaram as obras de Hiebert na reflexão sobre a teoria e a prática missionária no século 20, esse livro é um tributo adequado à vida e à obra desse extraordinário autor, que partiu para o lar eterno em 11 de março de 2007. Jonathan J. Bonk, Overseas Ministries Study Center; editor da revista International Bulletin of Missionary Research Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Hiebert, Paul G. Transformando cosmovisões: uma análise antropológica de como as pessoas mudam / Paul G. Hiebert; tradução de Carlos E. S. Lopes. - São Paulo: Vida Nova, 2016. 400 p. Bibliografia ISBN 978-65-5967-194-6 Título original: Transforming worldviews: an anthropological understanding of how people change 1. Missão da igreja – Aspectos antropológicos 2. Missões – Teorias 3. Cristianismo 4. Religião e cultura 5. Filosofia I. Título II. Lopes, Carlos E. S. 15-0470 CDD – 266.001 Índice para catálogo sistemático: 1. Missão da igreja ©2008, de Eloise Meneses, Barbara Rowe e John Hiebert Título do original: Transforming worldviews: an anthropological understanding of how people change, edição publicada por B AKER A CADEMIC, uma divisão do B AKER P UBLISHING G ROUP (Grand Rapids, Michigan, EUA). Todos os direitos em língua portuguesa reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA Caixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602-970 www.vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br 1.a edição: 2016 Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em citações breves, com indicação da fonte. Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram extraídas da Almeida Século 21. Citações bíblicas com a sigla TA se referem a traduções feitas pelo autor. GERÊNCIA EDITORIAL Fabiano Silveira Medeiros COORDENAÇÃO EDITORIAL Valdemar Kroker EDIÇÃO DE TEXTO Arthur Wesley Dück REVISÃO DA TRADUÇÃO Tiago Abdalla PREPARAÇÃO DE TEXTO Mauro Nogueira Sylmara Beletti REVISÃO DE PROVAS Rosa M. Ferreira COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO Sérgio Siqueira Moura DIAGRAMAÇÃO Luciana Di Iorio CAPA Souto Crescimento de Marca CONVERSÃO PARA E BOOK Cumbuca Studio SUMÁRIO Lista de figuras Introdução 1. O conceito de cosmovisão 2. Características das cosmovisões 3. Cosmovisões em contextos humanos 4. Métodos para a análise de cosmovisões 5. Cosmovisões de pequenas sociedades tradicionais (orais) 6. Cosmovisões de sociedades rurais 7. A cosmovisão moderna 8. A cosmovisão da modernidade tardia ou pós-modernidade 9. A cosmovisão pós-pós-moderna ou glocal 10. Rumo a uma cosmovisão bíblica 11. Transformando cosmovisões Apêndice 1: Um modelo para análise de cosmovisões Apêndice 2: Uma comparação entre a cosmovisão americana e a cosmovisão indiana Apêndice 3: Mudança moderna/pós-moderna Bibliografia Índice remissivo LISTA DE FIGURAS 1.1 Grupo e indivíduo como temas de uma cosmovisão 1.2 As dimensões da cultura 1.3 Temas de cosmovisão e análise cultural 2.1 Níveis de cultura 2.2 Uma tipologia de conjuntos 2.3 Lógica relacional 2.4 A natureza estrutural do conhecimento 2.5 Algumas cosmovisões de tempo 2.6 Diferentes visões sobre o tempo 2.7 Cosmovisões e a organização do espaço 2.8 Tipos afetivos em cultos protestantes americanos 2.9 Uma classificação dos pecados no Japão na Era Engi 2.10 Imagens da ordem moral 2.11 Normas para a avaliação no plano da cosmovisão 2.12 O aspecto central de uma cosmovisão 3.1 Uma abordagem reducionista à integração 3.2 Uma abordagem estratigráfica ao estudo dos seres humanos 3.3 Causalidade linear e sistêmica 3.4 Uma abordagem sistêmica ao estudo dos seres humanos 3.5 Sistemas mecanicista e orgânico 3.6 Níveis de conhecimento cultural 3.7 Como sistemas moldam e são moldados 4.1 Um teste etnossemântico 4.2 Os domínios na cultura masai 4.3 Visão hindu da vida 4.4 A cosmovisão moderna 4.5 Análise etnossemântica 4.6 Métodos etnossemânticos para descobrir cosmovisões 4.7 Termos para descrever a amizade na cultura igede 4.8 Domínios da cosmovisão em Konia, Turquia 4.9 Comparações transculturais de temas de cosmovisões 5.1 Cosmovisão tribal 5.2 Os elos de vida 6.1 Culturas orais e literárias 6.2 Regras para empréstimo de dinheiro 6.3 Questões centrais de cada nível 6.4 Sistemas de crenças indianas 6.5 Seres e poderes no islamismo 6.6 Sistemas de crenças chinesas 7.1 O surgimento da cosmovisão moderna 7.2 Esferas da vida 7.3 Os conceitos de alma e “eu” 7.4 Sistemas econômicos 9.1 Movimentos de revitalização 10.1 Níveis de autoridade na busca pela compreensão da cosmovisão bíblica 10.2 O Rei e seu reino 10.3 Visões sobre os seres humanos 10.4 O significado na história 11.1 Três níveis de conversão 11.2 A natureza das mudanças de cosmovisão 11.3 Outras mudanças de cosmovisão 11.4 A natureza de várias etapas nas decisões de um grupo INTRODUÇÃO A apresentação do auto de Natal havia terminado — ao menos era isso que eu pensava. Na igreja, em uma vila no sul da Índia, garotos vestidos como pastores subiram cambaleando no palco, como se estivessem muito bêbados, para a euforia do público. Naquela região, pastor é sinônimo de bêbado. Entretanto, quando os anjos apareceram detrás das cortinas, os pastores imediatamente ficaram sóbrios, e o momento hilário passou. Os magos chegaram ao palácio de Herodes buscando orientações, e a estrela os guiou até a manjedoura, onde Maria, José, os pastores, os próprios magos e os anjos se reuniram em torno do bebê Jesus. “A mensagem foi captada”, pensei. Então, de trás das cortinas surge o Papai Noel, o maior garoto daquele grupo, dando presentes de aniversário a todos. Fiquei atordoado. O que deu errado? Meu primeiro pensamento foi “sincretismo”. Os cristãos da vila haviam misturado o cristianismo com o hinduísmo. Mas depois percebi que não era o caso. Os missionários haviam trazido àquelas pessoas tanto Cristo quanto Papai Noel. Então, por quefiquei perturbado? A mensagem do nascimento de Cristo evidentemente foi captada, bem como a mensagem do Papai Noel que trazia os presentes. O problema era que os moradores da vila tinham unido o que, em minha mente, eram dois tipos diferentes de Natal. Um deles estava centrado em Cristo: o clima era quente, havia árvores (palmeiras), animais (jumentos, vacas e ovelhas) e figurantes (Maria, José, os pastores e os magos). O outro estava focado no Papai Noel: o clima era frio, havia árvores (sempre-vivas), animais (coelhos, ursos e, principalmente, renas) e figurantes (Papai Noel e os duendes). O que deu errado? De algum modo, a mensagem que os missionários anunciaram estava deturpada. As peças estavam todas ali, porém foram unidas da forma errada. Para entender essa confusão, precisamos perguntar: “O que é o evangelho? Quais mudanças devem ocorrer quando alguém se torna um cristão?”. Será que um camponês analfabeto poderia se tornar um cristão depois de ouvir o evangelho apenas uma vez? Imagine, agora, Papayya, um camponês indiano, 1voltando para a vila depois de um dia de trabalho árduo na lavoura. Sua esposa está preparando a refeição da noite; por isso, para passar o tempo, ele caminha para a praça da vila. Ali, ele nota um estranho rodeado por algumas pessoas curiosas e interessadas. Cansado e faminto, Papayya senta para escutar o que o homem está dizendo. Por uma hora, ouve a mensagem de um novo deus e algo que escuta o comove profundamente. Mais tarde, pergunta ao estranho sobre o novo caminho e, então, quase que por impulso, inclina sua cabeça e ora a esse deus que dizem ter aparecido aos humanos na forma de Jesus. Ele não compreende toda a mensagem muito bem. Como hindu, ele adora Vishnu, o deus que se encarnou muitas vezes como ser humano, animal ou peixe para salvar a humanidade. Papayya também conhece muitos dos outros 330 milhões de deuses hindus. O estranho, porém, diz que há somente um Deus, e esse Deus se mostrou aos seres humanos apenas uma vez. Além disso, ele também fala que esse Jesus é o Filho de Deus, mas nada diz sobre a esposa de Deus. Tudo isso é muito confuso para Papayya. Papayya volta para casa, e uma nova série de perguntas toma conta de sua mente. Ele ainda pode ir ao templo hindu para orar? Deve contar à família sobre sua nova fé? E como pode aprender mais a respeito de Jesus se não consegue ler as poucas páginas que o estranho lhe deu e não há outros cristãos que morem próximo de sua vila? Quem garante que o estranho retornará? Papayya pode ser tornar um cristão depois de ouvir o evangelho apenas uma vez? Nossa resposta só pode ser “sim”. Se a pessoa precisa ser culta, ter um grande conhecimento da Bíblia ou levar uma vida correta, então as boas-novas são apenas para poucas pessoas. Entretanto, qual mudança fundamental ocorre quando Papayya responde à mensagem do evangelho com uma fé sincera? Certamente, ele obteve alguma informação nova. Ele ouviu a respeito de Cristo e de sua obra redentora na cruz e escutou uma ou duas histórias sobre a vida de Cristo na Terra; porém, tal conhecimento é muito limitado. Ademais, o que ele sabe é moldado por suas crenças culturais. Papayya não teria condições de ser aprovado no teste mais simples de conhecimentos bíblicos ou teologia. Se o aceitamos como irmão, não estamos abrindo as portas para a “graça barata”, o sincretismo e uma igreja nominal? Se pedirmos que ele espere e aprenda mais, o afastaremos. O que deve acontecer para que uma conversão seja genuína? Quando buscamos levar pessoas para Cristo, procuramos algumas evidências de conversão. Nossa primeira tendência é observar mudanças em seu comportamento e nos rituais que pratica. Essa ideia era uma verdade estabelecida entre os missionários do século 19.¹ Muitos missionários buscavam evidências de conversão verdadeira na 13vida das pessoas, tais como: usar roupas; abandonar o álcool, o tabaco e os jogos de azar; recusar-se a se curvar diante dos ancestrais; aceitar o batismo e participar da ceia do Senhor; frequentar uma igreja regularmente. Essas mudanças são importantes como indicação de conversão, mas é claro que não implicam necessariamente que as crenças fundamentais foram transformadas. As pessoas poderiam adequar seu comportamento para conseguir empregos, ganhar status e obter poder, sem abandonar as antigas crenças. Elas poderiam dar nomes cristãos a seus deuses e espíritos pagãos, “cristianizando” assim sua religião tradicional. No século 20, missionários protestantes começaram a enfatizar a necessidade de transformação nas crenças das pessoas. Elas deveriam crer na divindade, no nascimento virginal, na morte e na ressurreição de Cristo para ser salvas. Precisavam se arrepender interiormente de seus pecados e buscar a salvação que Cristo oferecia aos que nele creem. As crenças corretas eram vistas como fundamentais para a conversão cristã, e as missões fundaram escolas e seminários bíblicos para ensinar a doutrina ortodoxa. No entanto, está se tornando cada vez mais claro que a transformação das crenças professadas não é suficiente para plantar igrejas fiéis ao evangelho. As pessoas frequentemente dizem as mesmas palavras, mas com sentidos diferentes. Subjacente às crenças professadas, há um nível mais profundo da cultura que molda as categorias e a lógica com as quais as pessoas pensam e compreendem a realidade. Por exemplo, Jacob Loewen, missionário entre o povo waunana, do Panamá, perguntou aos líderes das igrejas recém-formadas do que mais gostavam por terem se tornado cristãos. Alguns disseram que era da paz que o cristianismo trazia às pessoas, que tradicionalmente viviam em guerra com seus vizinhos. Outros responderam que gostavam mais da adoração e da comunhão de que desfrutavam nos cultos das igrejas. Quando foram pressionados a aprofundar um pouco mais, finalmente admitiram que o que mais apreciavam eram as novas “palavras poderosas” que o cristianismo lhes trouxe. Loewen pediu que explicassem o que queriam dizer com isso, e um homem disse: “Quando você deseja causar dano a um inimigo, senta-se imediatamente à frente dele no culto de oração. Assim, quando você se vira para ajoelhar e orar, ele está exatamente à sua frente. Então, você diz: ‘re-den-ção’, ‘sal-va-ção’, ‘amém’, e a pessoa ficará doente”. Em uma vila no sul da Índia, todos os cristãos pintaram uma enorme cruz branca na parede externa de suas casas. Pensei que isso fosse um bom testemunho de sua nova fé, mas eles explicaram que a cruz era um poderoso símbolo para defendê-los de mau-olhado. Em ambos os casos, as pessoas haviam reinterpretado o cristianismo como uma nova e poderosa forma de magia que os capacitava a obter êxito e causar danos a seus inimigos por meio de fórmulas corretas. Essa reinterpretação do cristianismo por meio de uma compreensão essencialmente pagã da realidade não é incomum. Nós a vemos no entendimento equivocado de Simão em relação à oração de Pedro e João (At 8.14-24). De fato, ela é um dos maiores e mais comuns perigos que ameaçam a igreja. A conversão ao cristianismo precisa envolver três níveis: comportamento, crenças e a cosmovisão subjacente a eles. Os cristãos devem viver de modo diferente porque são cristãos. Entretanto, se o comportamento de um cristão está fundamentado principalmente em crenças tradicionais e não cristãs, ele pratica uma religiosidade pagã. A conversão precisa envolver a transformação das crenças, mas, se for uma mudança somente das crenças e não do comportamento, é uma fé falsa (Tg 2). A conversão pode incluir uma mudança de crenças e comportamento, mas, se a cosmovisão não for transformada, com o passar do tempo o evangelho é corrompido, e o resultado é um sincrético paganismo cristão que tem a forma de cristianismo, mas não a essência dele. O cristianismo se torna uma nova magia e uma forma nova e mais sutil de idolatria. Se a mudança comportamental era o foco do movimento missionário no século 19 e a mudança de crenças era o foco no século 20, a transformação de cosmovisões precisa ser a tarefa central no século 21. Nesseponto, é importante distinguir entre conversão como transformação pessoal e conversão como transformação coletiva. Conduzir indivíduos à fé em Jesus Cristo é a dimensão evangelística da missão. As pessoas vêm como estão, com suas histórias e culturas. Não podemos esperar uma transformação instantânea de seu comportamento, suas crenças e cosmovisões. Portanto, é importante discipulá-las para que alcancem a maturidade cristã. Isso envolve uma transformação não somente em como pensam e se comportam, mas também em sua cosmovisão. A conversão também deve ser coletiva. A igreja em cada localidade, como uma comunidade de fé, precisa estabelecer o que significa ser cristão em seu contexto sociocultural e histórico específico. Isso requer responsabilidade para definir e preservar a ortodoxia bíblica, e deve ser feito com o objetivo de mostrar como o cristianismo é diferente de seu ambiente pagão. Esse é o aspecto da fidelidade da missão. O apóstolo Paulo diz claramente que devemos viver neste mundo, mas não ser do mundo. Ele utiliza termos como sarx, archeon e eon para se referir aos contextos em que vivemos. Com muita frequência, interpretamos esses termos como uma referência a um mundo caído do qual devemos fugir. Entretanto, mesmo quando nos retiramos para colônias cristãs, levamos o “mundo” conosco. Não podemos simplesmente banir o pecado e viver em comunidades santas. A carne, o mundo e a presente era são o nosso contexto atual. Eles são bons, porque os seres humanos foram criados à imagem de Deus e podem desenvolver culturas e sociedades que sejam boas. Os governos são instituídos por Deus porque ajudam a manter a ordem em um mundo caído. Mas a 15carne, o mundo e a presente era também são caídos e pecaminosos. Seres humanos caídos criam estruturas caídas que praticam o mal. A característica fundamental da carne, do mundo e da presente era não é serem bons ou maus — são as duas coisas —, mas serem temporários. Estão em contraste com o reino de Deus, que é eterno, totalmente justo e bom. O processo de preservar a verdadeira fé neste mundo e na presente era é contínuo, pois cada geração precisa aprender a pensar biblicamente sobre como ser cristã em seu contexto particular. Como as cosmovisões podem ser transformadas? Antes de responder a essa questão, precisamos investigar mais a natureza das cosmovisões e como elas operam. ¹A mudança de comportamento era central nas missões católicas depois do século 16. Francisco Xavier batizou convertidos que podiam recitar de memória a oração do Pai-Nosso, os doze artigos do Breve Credo Católico e os Dez Mandamentos. A teologia católica não faz a distinção clara que faz a protestante entre crenças e comportamento, entre a forma e o significado dos símbolos. Consequentemente, entendia-se que a transformação comportamental implicava uma transformação das crenças. 1 O CONCEITO DE COSMOVISÃO O conceito de cosmovisão surgiu durante as duas últimas décadas como um importante conceito na filosofia , na filosofia da ciência, na história, na antropologia e no pensamento cristão. É uma dessas palavras fascinantes e frustrantes que chamam nossa atenção. Sua ambiguidade gera grande quantidade de estudos e ideias, mas também muita confusão e equívocos. Não há uma única definição com que todos concordem. Na melhor das hipóteses, podemos examinar a história do conceito junto com as definições e as teorias que surgiram. Assim, é possível desenvolver um modelo que nos auxilie a entender a natureza de nossa missão como cristãos no mundo. Origens do conceito O conceito de cosmovisão tem várias origens. Uma delas é a filosofia ocidental, em que a palavra alemã Weltanschauung foi introduzida por Immanuel Kant e utilizada por autores como Kierkegaard, Engels e Dilthey quando refletiram sobre a cultura ocidental.¹ Por volta de 1840, ela havia se tornado uma palavra comum na Alemanha. Albert Wolters (1985, p. 9) observa: Um aspecto básico da ideia de Weltanschauung é uma perspectiva do mundo e das coisas, um modo de observar o cosmo de um determinado ponto de vista. A ideia, portanto, tende a ter a conotação de ser pessoal, datada, particular e limitada em sua validade pelas próprias condições históricas. Mesmo quando uma cosmovisão é coletiva (isto é, compartilhada por todos os que pertencem a determinada nação, classe social ou época), ela não deixa de partilhar da individualidade histórica dessa nação, classe ou época específica. No século 19, os historiadores alemães passaram do estudo da política , das guerras e de grandes personalidades para o estudo de pessoas comuns. Por não poderem examinar a vida de cada indivíduo ou cada evento, eles concentraram a atenção nas sociedades como um todo, buscando padrões culturais mais abrangentes. Por exemplo, Jacob Burckhardt, em sua obra Civilization of the Renaissance in Italy [Civilização da Renascença na Itália], procurou explicar diversos aspectos da cultura na Itália renascentista, como festivais, etiqueta, crenças populares e ciência, da perspectiva de um tema principal: o individualismo. Oswald Spengler delineou como as culturas seletivamente se apropriaram de características de outras culturas e como reinterpretaram essas características de acordo com as próprias cosmovisões fundamentais. Por exemplo, ele mostrou como os egípcios tinham uma “profunda” preocupação com o tempo. Eles mantiveram registros detalhados de eventos passados e construíram grandes monumentos para os mortos , a fim de lembrar o povo de seu grande passado. Os gregos, por outro lado, tinham um conceito “superficial” de tempo e viviam basicamente no presente. Seus historiadores argumentavam que nenhum evento importante havia ocorrido antes deles. Não estavam interessados em história (passado), mas na estrutura e no funcionamento do mundo a seu redor. Wilhelm Dilthey explicou diferentes períodos da história da perspectiva do Zeitgeist ou “espírito dos tempos”. Da perspectiva da história, essa análise das atividades humanas diárias levantou novas questões. Como se desenvolvem os padrões culturais, como eles se propagam de uma região para outra, e por que alguns desaparecem enquanto outros permanecem por séculos e milênios? Por exemplo, as culturas do Ocidente são profundamente moldadas pelo mundo greco-romano, do qual elas se formaram. São moldadas mais pela filosofia grega do que pela filosofia hindu ou hebraica, e mais moldadas pelos conceitos de lei e ordem social romanos do que pelos de Confúcio. Os historiadores alemães utilizaram o termo Weltanschauung para se referir aos profundos e permanentes padrões culturais de um povo. Outra origem do conceito é encontrada na antropologia . Os antropólogos estudaram de forma empírica os povos ao redor do mundo e descobriram cosmovisões profundas e radicalmente diferentes por trás de suas culturas. Quanto mais estudavam essas culturas, mais se tornavam conscientes de que cosmovisões influenciam profundamente as maneiras de as pessoas verem o mundo e viverem suas vidas.² Eles descobriram que algumas culturas têm características semelhantes e outras são radicalmente diferentes entre si. Isso resultou na teoria de núcleos culturais ou difusionismo, que defende que padrões culturais geralmente se propagam de um grupo de pessoas para outro. Franz Boas , Robert Lowie, Edward Sapir e especialmente A. L. Kroeber utilizaram o difusionismo para desenvolver a ideia de áreas culturais constituídas de sociedades que compartilham estruturas culturais comuns. Essa noção gerou a ideia de que cada cultura tem uma estrutura básica, ou Volksgeist . À medida que os antropólogos estudaram culturas diferentes mais profundamente, descobriram que, abaixo da superfície do discurso e do comportamento, estão as crenças e os valores que produzem o que é dito e feito. Eles se tornaram conscientes de níveis culturais ainda mais profundos que influenciaram o modo em que as crenças são formadas — os pressupostos que as pessoas adotam sobre a natureza das coisas, as categorias nas quais elas pensam e a lógica que organiza essas categoriasem uma compreensão coerente da realidade. Ficava cada vez mais claro que as pessoas não vivem no mesmo mundo, com diferentes rótulos colados a ele, mas em mundos conceituais radicalmente diferentes. Essa crescente percepção levou a pesquisas sobre aspectos mais profundos da cultura e ao uso de palavras e expressões como éthos, Zeitgeist , “cosmologia”, “cosmo interior”, “perspectiva de vida”, “evento no plano mundial”, “metáfora universal”, “ordem mundial”, “teoria universal”, “hipóteses de mundo”, “formação de mundo”, “quadro mundial”, “núcleo cultural”, “paradigma-raiz ”, “inconsciente coletivo”, “inconsciente cultural”, “estruturas de plausibilidade ”, “ todo universo visto da perspectiva interna” e “cosmovisão”. Como as outras palavras e expressões dessa lista, “cosmovisão” tem muitos problemas associados a ela. Primeiro, devido à sua origem na filosofia , ela focaliza as dimensões cognitivas das culturas e não trata das dimensões morais e afetivas, igualmente importantes, nem lida com a maneira em que essas três dimensões do ser humano se relacionam entre si. Segundo, ela está baseada na superioridade da visão, ou do ponto de vista, em relação à audição e ao som. Todas as culturas usam tanto a visão quanto o som, mas, na maioria, o som é a experiência sensorial dominante. Palavras faladas são mais imediatas, relacionais e íntimas do que palavras impressas. Palavras escritas são impessoais, separadas de seu contexto específico e atrasadas. As Escrituras dizem que, no princípio, Deus falou e o mundo passou a existir. Em muitas sociedades, as palavras faladas têm o poder da magia, da maldição e da bênção. O terceiro problema com o termo é que ele é aplicado tanto a indivíduos quanto a comunidades. A. F. C. Wallace (1956) observa que, enquanto os indivíduos têm os próprios “labirintos mentais ”, a cosmovisão dominante nas culturas é moldada principalmente pelo poder e pelas dinâmicas sociais da comunidade. Apesar desses problemas, utilizaremos o termo “cosmovisão” porque ele é bem conhecido e porque não temos uma palavra mais precisa. Entretanto, definiremos o conceito quando utilizado neste estudo como os “pressupostos fundamentais cognitivos, afetivos e avaliadores que um grupo de pessoas adota sobre a natureza das coisas e que utiliza para organizar sua vida”. Cosmovisão é aquilo que as pessoas, em uma comunidade, presumem como realidade certa, são os mapas que elas têm da realidade e que utilizam para viver. Por este estudo ser elaborado conforme a estrutura da antropologia teórica, é importante traçar algumas origens do conceito nessa disciplina. História do conceito na antropologia A ideia de cosmovisão na antropologia se originou do conceito de “cultura”. Os primeiros antropólogos utilizaram o termo “civilizado”. Eles classificaram as sociedades humanas em uma escala que variava de “primitiva” a “civilizada”, de pré-lógica a lógica. Franz Boas e seus sucessores rejeitaram essa classificação de sociedades como etnocêntrica e arrogante. Eles introduziram o termo “cultura” para os diferentes conjuntos de crenças e práticas de qualquer povo, as quais fazem sentido para o povo que nelas vive. À medida que foram estudando outras culturas com profundidade, perceberam que havia muitos padrões a ser utilizados para comparar a maneira de viver adotada por povos diferentes, além de perceber que nenhum povo é superior a outro em todos ou na maioria desses padrões. Franz Boas e seu discípulo A. L. Kroeber foram responsáveis em grande medida por introduzir o conceito de “cultura” na antropologia norte-americana. Por “cultura” eles se referiam aos padrões de crenças e comportamentos aprendidos que organizam as atividades humanas. Clark Wissler , um dos alunos de Boas, usou o conceito para mapear áreas culturais distintas entre os índios norte- americanos, observando semelhanças e diferenças profundas e subjacentes entre as tribos . Implícita nessa visão estava a ideia de que uma cultura não é um agrupamento aleatório de características, mas um modo coerente e integrado de organizar mentalmente o mundo. Em outras palavras, um “padrão” ou “estrutura” subjacente “confere a qualquer cultura sua coerência ou organização e evita que ela seja um simples acúmulo de elementos aleatórios” (Kroeber 1948, p. 311). Além disso, a cultura tem profundidade. Enquanto aspectos superficiais podem mudar rapidamente, certos padrões subjacentes e profundos permanecem por longo período de tempo. Essa perspectiva foi resumida por Edward Sapir , outro aluno de Boas, que definiu cultura como uma “perspectiva de mundo” que abrangia, em uma única expressão, “aquelas atitudes gerais, visões da vida e manifestações específicas de civilização que outorgam a um povo específico seu lugar distintivo no mundo. Não se enfatiza tanto o que um povo faz e em que acredita quanto o modo em que as ações e crenças funcionam na vida desse povo como um todo — na importância que isso tem para ele” (Sapir 1949, p. 11). Ruth Benedict Uma das primeiras antropólogas a observar com profundidade as estruturas integradoras subjacentes à cultura explícita foi Ruth Benedict , aluna de Boas e romancista que se tornou antropóloga. Ela argumentou que as culturas não são simplesmente coleções de características e que um padrão subjacente une essas características em um todo coerente. Portanto, as características culturais deveriam ser entendidas à luz de uma cultura em sua totalidade. Em seu clássico estudo de três culturas, Patterns of culture [Padrões de cultura] (1934), ela procurou entender seus éthos ou espírito subjacentes, observando primeiro o todo, em vez das partes. Baseada em seu trabalho anterior como romancista e poeta,³ ela utilizou três figuras mitológicas gregas para descrever as tribos . Segundo ela, o povo zuni do Novo México tem a natureza do deus Apolo: eles são apolíneos. Enfatizam uma vida organizada, o controle coletivo, a discrição na expressão das emoções, a sobriedade, a modéstia e o caráter inofensivo como virtudes supremas. Eles têm uma atitude de suspeita em relação ao individualismo. Seus sacerdotes realizam rituais sempre da mesma forma. O povo kwakiutl da ilha de Vancouver tem natureza oposta. Eles valorizam experiências frenéticas violentas para fugir da rotina sensorial habitual e expressam emoções pessoais com grande liberdade, buscando o êxtase por meio de jejum, tortura, drogas e dança frenética. Em suas cerimônias, o dançarino principal entra em transe profundo, espuma pela boca, treme violentamente e é amarrado com quatro cordas para evitar que cause algum tipo de dano. A seita mais sagrada do povo kwakiutl é a Sociedade Canibal, cujos membros comiam os corpos dos escravos sacrificados nos rituais. Benedict denominou-os dionisíacos, devido ao deus da mitologia grega. Eles acumulavam enormes quantidades de mercadorias de subsistência e as destruíam para demonstrar sua riqueza, ganhar prestígio e humilhar os rivais. O povo dobuan da Melanésia é diferente de ambos. Benedict observou que suas virtudes supremas são a hostilidade e a traição. Eles praticam a bruxaria e, se alguém tem uma boa colheita de inhame, pressupõe-se que ele praticou bruxaria contra os que não obtiveram uma boa colheita. Segundo Benedict, os dobuans vivem em uma condição de constante medo uns dos outros e consideram isso normal. Alan Barnard (2000, p. 104) observa: “Assim, o que é normal para o povo zuni não é normal para os kwakiutl . O que é normal na América Central não é normal para os dobuans, e vice-versa. Da perspectiva psiquiátrica ocidental, podemos considerar os zuni como neuróticos, os kwakiutl como megalomaníacos e os dobuans como paranoicos. Em Dobu, a paranoia é ‘normal’”. Benedict procurou nos dar uma “percepção” de diferentes culturas no que diz respeito a temas afetivos profundos que moldam a visão do povo da organização humana. Mary Douglas Mary Douglas (1966) investigou a relação entre crenças culturais sobre pureza e poluição, dois opostos ao longo de um eixo contínuo. Ela ressalta que a limpeza tem a ver com ordem,bem como com a higiene. A sujeira é algo que está fora de lugar no sistema de classificação cultural. Ela escreve (1966, p. 48): Os sapatos não são sujos em si, mas são sujos para ser colocados sobre a mesa de jantar; a comida não é suja em si, mas é sujo deixar utensílios de cozinha no quarto ou alimentos salpicados na roupa; da mesma forma, é sujo deixar as coisas de banheiro na sala de estar; roupas nas cadeiras; coisas de fora da casa dentro dela; as coisas da parte de cima na parte de baixo; a roupa íntima aparecendo sobre a roupa de sair; e assim por diante. Em algumas culturas, como a Índia , conceitos de pureza e poluição definem a ordem moral. O pecado não é a quebra de leis impessoais nem a quebra de relacionamentos, mas a profanação . A restauração à justiça não requer a punição prescrita nas leis nem uma reconciliação com as pessoas ofendidas, mas rituais de purificação que restaurem a ordem moral. Mais tarde, Douglas analisou as relações entre ações individuais e culturas (1969). Ela postulou dois eixos para examinar isso: grades e grupos. Por grades, ela se refere à liberdade e à restrição cultural. Pessoas com uma grade baixa têm a liberdade de interagir com as outras como iguais. Fazer parte de uma cultura com grade alta implica ser coagido por normas culturais rígidas e bem definidas, que precisam ser obedecidas. Com grupos, ela quer dizer pessoas realizando coisas juntas (grupo elevado) ou agindo como indivíduos autônomos (grupo baixo). Combinados, os dois eixos formam uma grade bidimensional que nos auxilia a entender diferentes tipos de situações, de indivíduos e até mesmo de culturas. Edward Sapir e Benjamin Whorf Antes da obra de Boas, acreditava-se que todas as línguas fossem essencialmente semelhantes. Suas palavras utilizavam sons diferentes, mas se referiam às mesmas coisas. Sua gramática básica era a mesma. Benjamin Whorf mostrou que não é assim. Edward Sapir e Benjamin Whorf argumentaram que as pessoas que falam línguas diferentes têm maneiras distintas de observar o mundo. Em outras palavras, há muitas formas diferentes de pensar, cada uma associada com uma língua particular que personifica a maneira de compreender a realidade. Eles ressaltaram que as chamadas línguas primitivas, como a hopi, são mais sofisticadas em certos aspectos do que a inglesa. Robert Redfield Robert Redfield é outro antropólogo que fez uma importante contribuição ao nosso entendimento de cosmovisões (1968). Ele foi mais influenciado por antropólogos sociais britânicos, como Bronislaw Malinowski, do que por antropólogos culturais americanos, como Boas. Malinowski escreveu: “O que me interessa realmente é o estudo do nativo, sua perspectiva sobre as coisas, sua Weltanschauung , o sopro de vida e a realidade que ele respira e pelas quais ele vive. Cada cultura humana dá a seus membros uma visão definitiva sobre o mundo, um interesse decisivo pela vida” (1922, p. 517). Redfield estava preocupado com a questão: Quais são as maneiras universais pelas quais todas as pessoas observam o universo exterior? Ele definiu cosmovisão como “a perspectiva do universo que é característica de um povo. [...] É a imagem que os membros da sociedade têm das propriedades e condições de sua plataforma de ação. [...] [Cosmovisão] observa especificamente a maneira pela qual um homem, em determinada sociedade, vê a si mesmo em relação a tudo o mais. E é essa organização de ideias que responde às perguntas de um homem: ‘Onde estou?’, ‘Entre o que eu caminho?’, ‘Qual é a minha relação com essas coisas?’. [...] Em resumo, é a ideia do homem a respeito do universo” (1968, p. 30, 270). Redfield concentrou sua atenção nas dimensões cognitivas de cultura, argumentando que, embora os seres humanos vejam o mundo de forma diferente uns dos outros, todos vivem no mesmo mundo e todos devem lidar com certos elementos universais da cosmovisão. Estes, ele afirmou, envolvem concepções de tempo, espaço, “eu”, outros seres humanos, mundo não humano, noções de casualidade e experiências universais humanas, como nascimento, morte, sexo e idade adulta. O objetivo de Redfield era comparar cosmovisões e formular uma teoria geral de cosmovisão. Suas categorias cognitivas universais são úteis por fornecer uma estrutura para estudar todas as cosmovisões. Essas categorias também nos capacitam a comparar essas cosmovisões e elaborar teorias etnológicas mais amplas a respeito da natureza das cosmovisões em geral. O modelo de Redfield tem suas limitações. Por estar centralizado nas dimensões cognitivas das culturas, ele não trata de sentimentos e valores . Além disso, define os temas em categorias externas, ou éticas, que os antropólogos impõem, como um molde único, a todas as cosmovisões. Há pouco espaço para outros temas que possam surgir do estudo das diferentes culturas. Ademais, ele é descritivo, não apresentando critérios para avaliar culturas ou prescrever soluções para os males culturais. O modelo de Redfield tem outra grande fraqueza: está baseado em uma visão sincrônica ou estruturalista de cultura que desconsidera mudanças sociais e culturais, compreendendo as cosmovisões como estruturas estáticas e abstratas, alheias ao discurso da vida cotidiana e de épocas históricas. Redfield via essas estruturas funcionando de modo harmonioso e integral, em que as forças da cultura operam em direção à homeostasia. Toda mudança é interpretada como inerentemente patológica e destrutiva. O modelo não pode lidar com o fato de que todas as culturas estão constantemente mudando, estão repletas de conflitos internos e carecem de integração plena. Ele também não trata ou explica as mudanças que ocorrem ao longo de toda a história. Finalmente, o modelo de Redfield é essencialmente descritivo. Não há espaço para o pecado coletivo e males estruturais. Não oferece orientação para quem deseja mudar culturas e cosmovisões a fim de ajudar pessoas presas à pobreza, à opressão e ao pecado. Michael Kearney Michael Kearney desenvolveu a cosmovisão de Redfield da perspectiva da ideologia marxista. Ele define a cosmovisão de um povo como “sua maneira de olhar a realidade. Ela consiste em pressupostos básicos e imagens que fornecem uma maneira de pensar sobre o mundo de uma forma mais ou menos coerente, embora não necessariamente acurada” (1984, p. 41). Como Redfield , Kearney argumenta que todos os seres humanos vivem em um mundo real e que isso, aliado ao modo que os sentidos humanos operam, fornece uma forma comum a todas as cosmovisões. Em outras palavras, todas as cosmovisões devem ter alguma ligação com a realidade externa. Por isso, Kearney argumenta, todos os seres humanos devem lidar com temas ou características invariáveis da realidade para viver neste mundo.⁴ Para determinar esses temas universais, que podem ser usados para comparar cosmovisões, Kearney baseia-se em temas de Redfield . Primeiro, a pessoa deve adquirir uma compreensão de si mesma, de quem ela é no mundo. Isso deve ser definido em contraste com os outros, que incluem outros seres humanos, animais, natureza, espíritos, deuses e tudo o que é “não- eu”. Segundo, a pessoa deve ter alguma noção dos relacionamentos entre ela mesma e os outros. Por exemplo, em algumas sociedades, as pessoas se veem como partes de comunidades mais amplas constituídas de grupos de pessoas, ou da natureza, ou do universo, e falam de “identidade coletiva ”, “responsabilidade” e “vergonha por desapontar o grupo”. No Ocidente, as pessoas se veem como indivíduos autônomos e falam de “liberdade”, “dos direitos inalienáveis dos indivíduos”, “da autorrealização” e “da culpa por desobedecer a uma lei moral impessoal”. O terceiro tema universal de Kearney é a classificação. Para dar sentido a seus mundos, as pessoas devem classificar suas realidades percebidas em taxonomias e organizá-las em categorias mais amplas. Ao fazê-lo, elas dão nome às “realidades” com as quais têm de se relacionar, sejam objetos materiais, sejam seres vivos, sejam espíritos invisíveis, sejam forças cósmicas. Seu quarto tema é causalidade.As pessoas procuram explicar suas experiências em termos de causa e efeito. Suas explicações estão baseadas em observações da natureza e no uso do senso comum. Finalmente, todas as pessoas têm noções de tempo e espaço. A primeira noção inclui não apenas imagens sobre o espaço geográfico, como também sobre o espaço sagrado, moral e pessoal, bem como conceitos de outros mundos, céus e infernos. A segunda noção inclui ideias sobre passado, presente e futuro, como eles se relacionam uns com os outros e qual deles é mais importante. O modelo de Kearney , como o de Redfield , é essencialmente estático. Há pouco espaço para mudanças e conflitos como elementos essenciais da vida humana e não há maneira de avaliar sistemas culturais como bons ou maus. Morris Opler Morris Opler apresentou um modelo de cosmovisões mais dinâmico (1945). Ele rejeitou a redução de Benedict de uma cultura inteira a um simples padrão dominante. Como Redfield , ele introduz a noção de múltiplos “temas de cosmovisão” — pressupostos profundos encontrados em número limitado em cada cultura e que estruturam a natureza da realidade para seus membros. Ele ressalta que, embora as culturas compartilhem semelhanças, cada uma é singular em aspectos fundamentais. As pessoas sentem que há uma “percepção”, um “espírito” ou um “caráter predominante” distinto correspondente a um modo de vida particular. Os temas de cosmovisão, ele argumenta, surgem no interior de uma cultura e devem ser descobertos ao se estudar como o próprio povo observa o mundo. Entender esses temas e as relações entre eles é fundamental para a descoberta da cosmovisão subjacente. Opler define tema como um “postulado ou uma posição, declarada ou implícita, que geralmente controla o comportamento ou estimula a atividade, que é tacitamente aprovada ou abertamente promovida em uma sociedade” (1945, p. 198). Os temas são expressos em diversas áreas da vida cultural. Um exemplo é o foco norte-americano no indivíduo como a base da sociedade. Isso se reflete na importância dada à liberdade individual, à autorrealização, aos direitos humanos e às leis que garantem a posse da propriedade (fig. 1.1). Os temas variam em importância. Alguns são encontrados em muitas áreas da vida e provocam fortes reações públicas quando violados. Outros são menos comuns e influenciam apenas áreas limitadas da cultura. Os temas dominantes são frequentemente codificados em rituais formais que prescrevem os detalhes de comportamento e etiqueta e ressaltam sua importância. Os temas menos comuns podem ser pouco visíveis, mas não menos importantes na formação da vida cotidiana. Além disso, as expressões não materiais de um tema são geralmente mais difíceis de compreender do que as manifestações materiais. Opler argumenta que nenhuma cultura pode sobreviver se desenvolvida em torno de apenas um conjunto de temas, pois cada tema leva a cultura ao extremo. Os contratemas , portanto, surgem como fatores limitadores que evitam que os temas se tornem muito poderosos e destruam a cultura. Por exemplo, o individualismo é um tema dominante na cultura norte-americana atual, mas, levado ao extremo, conduz à solidão e ao narcisismo. Os pais não cuidariam de seus filhos, as comunidades não se preocupariam com seus integrantes, ou a nação não se importaria com seus cidadãos. Consequentemente, as pessoas organizam famílias, associam-se a clubes e igrejas, elegem líderes e obedecem às leis da sociedade para desenvolver um senso de comunidade. Quando os temas conflitam com os contratemas, a maioria dos americanos, por fim, se posiciona a favor da autonomia e dos direitos do indivíduo. Um marido ou uma esposa pode se divorciar sem o consentimento do outro, os filhos podem deixar seus pais quando crescerem, para viver com os cônjuges, e as pessoas podem reclamar quando o governo interferir demais em sua vida. Figura 1.1 GRUPO E INDIVÍDUO COMO TEMAS DE UMA COSMOVISÃO Sociedades voltadas para a comunidade • As pessoas nascem em famílias estendidas em que vivem durante toda a vida. • A identidade é baseada no nascimento e na posição que uma pessoa ocupa no grupo. • As crianças aprendem a pensar como “nós”. • A harmonia deve ser sempre mantida e confrontos, evitados. • A violação das normas produz um sentimento de vergonha e de humilhação para si e para o grupo. • As relações entre patrão e empregado são vistas da perspectiva moral familiar. O patrão é responsável pelo bem-estar geral de seu empregado. • Contratação e promoção devem considerar o parentesco e a amizade. • O relacionamento é mais importante do que a tarefa. As pessoas não devem ser demitidas. Fonte: Adaptado de Hofstede 1994, p. 67. Opler criticou o modelo proposto por Redfield de temas estáticos, que são integrados em uma estrutura geral mais ampla. Ele argumentou que em qualquer cosmovisão há temas conflitantes e contratemas , as culturas mudam constantemente devido à interação entre temas dominantes e contratemas, e os temas dominantes mudam ao longo do tempo. A interação entre temas e contratemas tem implicações importantes para nossa compreensão de cultura. O que é vagamente chamado de “estrutura” na sociedade e na cultura não são normas e padrões fixos de comportamento aprendido e imitado cegamente, mas o inter-relacionamento e o equilíbrio de temas e contratemas aplicados pelas pessoas em situações específicas. Essa visão compreende a cultura como diretrizes e princípios mentais que são utilizados nas relações sociais, mas que são recriados ou modificados em cada transação social. Por exemplo, quando os americanos apertam as mãos, eles reforçam o comportamento de um ritual de saudação, mas as pessoas podem iniciar uma nova forma de se cumprimentar e, com o tempo, a cultura pode mudar. Temas e contratemas não devem ser vistos invariavelmente como opostos, mas como polos — muitas vezes reforçando-se mutuamente — ao longo de um continuum. Sozinhos, tornariam a vida em sociedade impossível: um está em tensão com o outro, tensão nunca resolvida. Nesses casos, a realidade não pode ser dividida em categorias nítidas (branco e preto); em vez disso, ela se move entre tons de cinza à medida que um ou outro tema passa a predominar. Temas e contratemas estão relacionados de modo complexo para formar uma cosmovisão mais ou menos coerente, mas nenhuma cosmovisão é totalmente integrada. Todas apresentam temas que estão em tensão mútua na estrutura mais ampla que compõe o todo. Um ponto forte do modelo de Opler é sua abordagem êmica ao estudo de temas culturais. Os temas são descobertos por meio da análise de uma cultura da perspectiva de seu povo, não pela imposição externa de temas sobre a cultura. Outro ponto forte do modelo de Opler é sua natureza dinâmica. A maioria dos modelos de cosmovisão trata as cosmovisões como integradas, harmoniosas e estáticas. Opler vê as culturas como arenas em que diferentes grupos de uma sociedade procuram impor suas perspectivas sobre os outros. Poder e conflito são intrínsecos ao modelo. Por exemplo, os ricos enxergam o mundo de modo diferente dos pobres, e as minorias o fazem de maneira distinta dos que estão em posição de domínio e poder. Além disso, as cosmovisões estão constantemente mudando à medida que o mundo ao redor se altera. Essa perspectiva pressupõe que os conflitos sejam normais — não necessariamente bons, mas sempre presentes — em uma sociedade. Isso esclarece a mudança na cultura quando o equilíbrio de poder se desloca de um grupo para outro e de um segmento cultural para outro. Por exemplo, à medida que os hispânicos crescem em número e em força em Los Angeles, eles influenciam a cosmovisão dominante da região. Um segundo ponto forte do modelo de Opler é que ele corresponde à nossa atual compreensão dos sistemas orgânicos. A maioria dos outros modelos observa as culturas como sistemas mecânicos em que a mudança é ruim, enquanto a estagnação e limites claramente definidos são bons. Mais adiante, examinaremos a diferença entre os sistemas orgânico e mecânico. O modelo de Opler concentrasua atenção na dimensão avaliadora da cultura. Embora não faça distinção entre temas cognitivos e avaliadores, a maioria de seus exemplos estabelece valores e avaliações como centrais em uma cultura. Seu modelo nos permite ver os efeitos do pecado e do mal nas cosmovisões. Ele reconhece que os conflitos e a luta pelo poder são endêmicos a todas as sociedades e diferentes segmentos da sociedade procuram oprimir os outros para obter vantagem. O modelo também nos torna conscientes de que cosmovisões são, muitas vezes, ideologias usadas pelos que estão no poder para subjugar os outros. As cosmovisões nos capacitam a ver a realidade, mas ao mesmo tempo nos impedem de vê-la integralmente. Um ponto fraco do modelo de Opler é que cada cosmovisão é apresentada como entidade autônoma, com o próprio conjunto de temas e contratemas ; portanto, não há uma maneira fácil de desenvolver teorias mais abrangentes de cosmovisão por meio de comparações sistemáticas. Outro ponto fraco é que ele não leva em conta as dimensões afetivas, ou emocionais, de uma cultura. Finalmente, o modelo de Opler é sincrônico. Ele examina a maneira que as cosmovisões são estruturadas, mas não observa as mudanças históricas ocorridas em cosmovisões específicas. E. A. Hoebel Como Opler , E. Adamson Hoebel postulou que as culturas são organizadas com base em múltiplos temas ou pressupostos fundamentais sobre como o mundo está organizado (1954). Ele compreende que esses temas formam um todo estruturado e logicamente coerente. Como pesquisador pioneiro no campo da antropologia legal, Hoebel distingue entre “postulados existenciais ” (que tratam da natureza da realidade, da organização do universo e dos fins e propósitos da vida humana) e “postulados normativos ” (que definem a natureza do bem e do mal, do certo e do errado). Para Hoebel , a integração subjacente das cosmovisões está fundamentada em uma estrutura racional. Ele argumenta que os diferentes temas não estão aleatoriamente associados, mas relacionados entre si de maneira lógica, o que não significa que eles sejam totalmente lógicos, mas que as contradições lógicas internas levam à dissonância cognitiva e tentativas de resolver a tensão. W. J. Ong W. J. Ong ressalta que a palavra “cosmovisão” em si reflete uma cosmovisão, ou seja, a cosmovisão moderna que dá prioridade à visão sobre o som (1969, p. 637). Ele observa que, na maioria das sociedades tradicionais , os sons são considerados mais importantes do que a visão. Essas sociedades carecem de registro escrito e preservam suas informações oralmente, por meio de histórias, provérbios, canções e catecismos. Essas sociedades são geralmente pequenas e muito imediatistas, pessoais e relacionais. Para as pessoas, os sons são imediatos, porque precisam ser produzidos de forma ativa a fim de realmente existirem. As palavras são proferidas no contexto de relações específicas e morrem logo após terem sido pronunciadas. Portanto, a comunicação é um fluxo de encontros imediatos entre os humanos e outros seres, e é repleta de emoções e interesses pessoais. As palavras faladas são igualmente poderosas. Os sons corretos podem fazer chover e levar o inimigo ao fracasso. Outros sons, tais como toques de tambor e gritos, protegem as pessoas dos maus espíritos. Os sons apontam para o invisível e remetem ao mistério . Na selva, o caçador ouve o tigre antes de vê-lo; a mãe escuta um barulho durante a noite e é avisada de um ataque inimigo. Portanto, não é de se admirar que os sons levem as pessoas a crer em espíritos, ancestrais , deuses e outros seres que não podem ver. A visão, ao contrário, tem raro senso de mistério e deixa pouco espaço para o que não é visto. Ong defende que as perspectivas fundamentais da realidade em comunidades orais são radicalmente diferentes das sociedades alfabetizadas e propõe o emprego da expressão “evento no plano mundial”, em vez do termo “cosmovisão”. Stephen Pepper Stephen Pepper propõe que as cosmovisões, que ele denomina hipóteses de mundo, baseiam-se em metáforas profundas, ou metáforas-raiz , para organizar sua compreensão de mundo (1942). Muitas vezes as pessoas usam objetos das experiências cotidianas como analogia para a compreensão de realidades complexas. Por exemplo, o apóstolo Paulo se refere à igreja como um corpo, cuja cabeça é Cristo. Arnold Toynbee fala sobre as civilizações como se fossem seres vivos, analisando seu nascimento, desenvolvimento, enfermidade, decadência e morte. Pepper apresenta quatro metáforas fundamentais que norteiam as cosmovisões. Uma delas é a metáfora orgânica, que vê o mundo e a realidade suprema como seres vivos. Outra é a metáfora mecânica, que trata o mundo como uma máquina impessoal, um relógio, dirigida por forças invisíveis que atuam de acordo com leis fixas. Vamos discutir esses aspectos adiante com mais profundidade.⁵ Clifford Geertz Clifford Geertz distingue cosmovisão de éthos. Ele define cosmovisão como a “representação [feita por um povo] das coisas como são em sua pura realidade, seu conceito de natureza, da pessoa e da sociedade. A cosmovisão contém suas ideias mais abrangentes de ordem”. O éthos de um povo, por outro lado, é “o tom, a natureza e a qualidade de sua vida, seu estilo ou sua inclinação moral e estética, é a atitude subjacente em relação a si mesmo e a seu mundo que a vida representa” (1973, p. 303). Ele observa: “A crença religiosa e o ritual se confrontam e se confirmam mutuamente; o éthos se torna intelectualmente compreensível quando se demonstra que ele representa um estilo de vida decorrente do verdadeiro estado das coisas que a cosmovisão descreve, e a cosmovisão se torna emocionalmente aceitável por ser apresentada como uma imagem do verdadeiro estado das coisas do qual determinado modo de vida é uma expressão autêntica” (p. 303). Geertz argumenta que, embora possamos distinguir entre cosmovisão (pressupostos cognitivos) e éthos (pressupostos afetivos e avaliadores), os dois são essencialmente correspondentes uma vez que se completam e conferem significado um ao outro. A natureza do bem e do mal é amplamente vista como arraigada na própria natureza da realidade — o bem sendo o modo que a realidade foi designada para ser. Talcott Parsons , Edward Shils , Clyde Kluckhohn Em um seminário muito importante, sociólogos, psicólogos e antropólogos de destaque desenvolveram uma abordagem sistêmica para o estudo dos seres humanos. Talcott Parsons , Edward Shils , Clyde Kluckhohn e seus colaboradores concluíram que os seres humanos — sociedades e pessoas — possuem três dimensões: cognitiva, afetiva e avaliativa (Parsons ; Shils 1952). Eles consideraram que a dimensão avaliativa é o cerne, pois ela julga a cognitiva para determinar o que é verdadeiro e falso, a afetiva para determinar o que é belo e feio, e a si mesma para determinar o que é certo e errado. Além disso, a dimensão avaliativa do pensamento toma decisões que levam a ações. Parsons e seus colegas delinearam seis dimensões avaliativas que alegam ser universais. Cada dimensão é um continuum de um tema até seu oposto. Por exemplo, eles postulam um continuum de culturas, estendendo-se daquelas em que a autonomia individual, a liberdade pessoal e a autorrealização são altamente valorizadas para aquelas em que o grupo, os interesses coletivos e a responsabilidade coletiva são mais importantes. No plano emocional, as culturas vão desde as que enfatizam o autocontrole, a disciplina moral e a renúncia aos desejos (hopi, ética protestante e monasticismo) até as que celebram a autossatisfação imediata e o abandono das regras morais e sociais (kwakiutl , hippies, hindus tântricos). Examinaremos esses seis temas avaliativos com mais detalhes no próximo capítulo. Um modelo Precisamos de um modelo para que possamos analisar cosmovisões específicas. Preliminarmente definiremos “cosmovisão”, da perspectiva antropológica, como “as pressuposições e estruturas cognitivas, afetivas e avaliativas fundamentais que um grupo adota em relação à natureza da realidade e que utiliza para organizarsua vida”. Ela envolve as imagens ou mapas mentais que as pessoas fazem da realidade de todas as coisas que os seres humanos empregam para viver sua vida. É o cosmo considerado verdadeiro, desejável e moral por uma comunidade. Usaremos o modelo de temas e contratemas de Opler para analisar cosmovisões, mas o modificaremos de maneira significativa. Primeiro, utilizaremos as ideias de Parsons , Shils , Kluckhohn e seus colegas ao tratar das três dimensões da cosmovisão: cognitiva, afetiva e moral, que distinguiremos para fins analíticos. Na realidade, todas as três atuam simultaneamente nas experiências humanas. As pessoas pensam a respeito de determinadas coisas, têm sentimentos em relação a elas e julgam entre o certo e o errado baseadas em seus pensamentos e sentimentos (fig. 1.2). A dimensão moral envolve os conceitos das pessoas sobre justiça e pecado e suas principais lealdades — seus deuses. Examinaremos essas três dimensões, com mais detalhes, no próximo capítulo. Figura 1.2 AS DIMENSÕES DA CULTURA Para comparação e elaboração teórica, podemos iniciar com as sete categorias de Redfield , não como categorias de uma análise externa (ética) dos fenômenos culturais imposta a uma cosmovisão, mas como temas sugestivos que podem ser investigados em uma cultura. Ao fazer isso, precisamos deixar a cosmovisão que estamos examinando determinar a natureza e o papel nela do tempo, do espaço, da própria pessoa e dos outros, dos não humanos, da causalidade e da experiência humana comum. Também podemos usar os temas e contratemas que encontramos em uma cultura para ver se há temas e contratemas semelhantes em outras cosmovisões. Por exemplo, os norte-americanos pressupõem que o mundo à sua volta é real, ordenado e previsível, e que eles podem experimentá-lo com uma medida de precisão por meio de seus sentidos. Portanto, levam a sério o mundo material. Se observarmos como os hindus ortodoxos veem o mundo material, descobriremos que, para eles, o mundo natural não tem uma realidade final. Ele é maya — um mundo de experiências subjetivas, uma criação transitória de nossas mentes que muda constantemente. Nesse mundo caótico e imprevisível, significado e verdade só podem ser encontrados na própria pessoa, nas experiências mais íntimas e profundas do próprio ser. Por outro lado, descobrimos que a hierarquia é um tema importante na cultura hindu. As pessoas pertencem a castas , classificadas de acordo com seu grau de pureza ritual. Voltando para a cosmovisão norte-americana, encontramos uma ênfase na igualdade de todos os seres humanos. Na realidade, também existe muita hierarquia no Ocidente, mas não é considerada ideal. Tais comparações de temas e contratemas em duas ou mais cosmovisões podem nos ajudar a investigar cada uma delas de forma mais profunda, a compará-las e a elaborar teorias gerais sobre cosmovisões. Figura 1.3 TEMAS DE COSMOVISÃO E ANÁLISE CULTURAL O valor de entender as cosmovisões como temas e contratemas é visto na obra de Emmanuel Todd (1987). Todd , um demógrafo holandês, analisa as cosmovisões europeias com base em duas dimensões de cosmovisão que se cruzam: a dimensão de liberdade-controle e a de hierarquia-igualdade (fig. 1.3). Ele observou que a Escandinávia e o norte da França enfatizam igualdade e liberdade, mas permitem certo controle para alcançar a igualdade. A Alemanha, por outro lado, valoriza a ordem e o controle e, consequentemente, defende a hierarquia. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos valorizam a liberdade acima de tudo e aceitam uma boa dose de hierarquia, apesar de defenderem a igualdade de todas as pessoas. A Rússia afirma a igualdade e utiliza um rígido controle para alcançá-la. Essa análise nos ajuda a compreender algumas das tensões entre democracia , socialismo , marxismo e fascismo. Até aqui, temos um modelo sincrônico de cosmovisões que nos ajuda a entender como as pessoas veem a estrutura do mundo. Precisamos acrescentar uma dimensão diacrônica para observar como as pessoas analisam a história humana. Essas perspectivas estão, geralmente, incorporadas nos mitos de um povo. Infelizmente, a palavra “mito”, no uso popular, passou a significar ficção e fantasia. Em seu sentido técnico-científico, significa a grande narrativa em que a história está inserida, a narrativa pela qual a história e as histórias de vidas humanas são interpretadas. Em outras palavras, os mitos são histórias transcendentes que se creem verdadeiras, trazendo ordem cósmica, coerência e sentido para as experiências, emoções e ideias aparentemente sem sentido do mundo cotidiano, ao dizer às pessoas o que é real, eterno e duradouro. Robert Antoine observa: “Os mitos não são mentiras ou abordagens ‘não cientificas’ de segunda mão, mas um método sui generis e insubstituível de entender verdades que, de outro modo, permaneceriam inacessíveis a nós. ‘A linguagem de um mito é a memória da comunidade’, de uma comunidade que se mantém unida porque é uma ‘comunidade de fé’” (1975, p. 57). Deve-se tomar cuidado para não reduzir mitos a discursos intelectuais que respondem às perguntas “Por quê?” e “Para quê?”. Eles transcendem a racionalidade pura e a ciência, pois falam de coisas que as pessoas podem não perceber diretamente e de mistérios e realidades infinitas que elas não conseguem compreender plenamente. Os mitos lidam com o que está sob a superfície do mundo para compreender o que realmente está acontecendo nele. São a linguagem não apenas do pensamento, mas também da imaginação. Falam de verdade eterna, que transcende o tempo, em contraste com a verdade empírica, restrita ao tempo e à linguagem. Dão às pessoas um senso de significado, não em termos de análise abstrata, como o pensamento ocidental, mas atraindo-as para as grandes narrativas que dão sentido à sua vida, explicando o passado e o presente e apontando o futuro. Nos mitos, as pessoas não veem a verdade, mas a realidade, porque a verdade é sempre a respeito de algo, e a realidade é aquilo a que a verdade diz respeito (Lewis 1960, p. 66).⁷ Portanto, para entender uma cosmovisão, é essencial estudar as histórias e os temas sincrônicos e diacrônicos. Em nosso estudo, podemos nos concentrar em um ou outro, mas precisamos manter os dois em mente para entender os mundos em que as pessoas vivem. No entanto, as cosmovisões são mais que visões da vida. Brian Walsh e Richard J. Middleton argumentam que “uma visão de vida, ou cosmovisão, que realmente não conduz uma pessoa ou um povo a um modo de vida particular não é cosmovisão alguma. Nossa cosmovisão determina nossos valores [...]. Ela seleciona o que é importante e o que não é, distingue o que é de maior valor do que é de menor valor [...]. Portanto, ela orienta como seus adeptos devem se portar no mundo” (1984, p. 54). Cosmovisões não são ideias, sentimentos e valores fundamentais, mas “mundos” habitados — o que Peter Berger chama de “dossel sagrado”, fornecendo uma cobertura protetora para a vida, sob a qual é possível a edificação de lares, a formação de comunidades e o sustento da vida (1967). Funções das cosmovisões Quando são unidos, os pressupostos básicos de uma cultura fornecem às pessoas uma forma mais ou menos coerente de analisar o mundo. Como Clifford Geertz ressalta, as cosmovisões são modelos da realidade — descrevem e explicam a natureza das coisas — e modelos para a ação — fornecem-nos as plantas baixas mentais que orientam nosso comportamento (1973, p. 169). Os modelos influenciam as ações humanas, mas modelos e ações não são a mesma coisa. Nosso comportamento é determinado não apenas por normas e ideais, mas também por forças conflitantes e circunstâncias variáveis que pressionam nossa vida cotidiana. Além disso, as plantas baixas mentais não levam em conta variações idiossincráticas. Cosmovisões servem a várias funções sociais e culturais importantes. Em primeiro lugar, como observa Brian Walsh (2006, p. 244-5), as cosmovisões são nossas estruturas de plausibilidade que proporcionam respostas às perguntas fundamentais: “Onde estamos (qual é a naturezado mundo)?”; “Quem somos (o que significa ser humano)?”; “O que está errado (como explicamos o mal e a destruição da vida)?”; “Qual é a solução (qual o passo a ser dado da destruição e insegurança para uma vida plena e segura)?”. Elas fazem isso ao nos prover modelos mentais de pressupostos, generalizações ou quadros e imagens profundamente arraigados, que moldam nossa compreensão do mundo e nossa maneira de agir. As cosmovisões são o fundamento sobre o qual elaboramos nossos sistemas de explicação e fornecem justificativa racional para as crenças nesses sistemas. Em outras palavras, se aceitarmos os pressupostos de nossa cosmovisão, nossas crenças e explicações fazem sentido. Tomamos nossos pressupostos por óbvios e raramente os examinamos. Como observa Geertz , as cosmovisões nos fornecem modelos ou mapas da realidade que estruturam nossa percepção da realidade, mas os utilizamos como mapas para viver. Em outras palavras, elas nos fornecem as plantas baixas mentais que orientam nosso comportamento. As cosmovisões surgem de nossa interação com o mundo, tanto individual quanto coletivamente. A cultura é externa ao indivíduo. Em segundo lugar, nossa cosmovisão nos dá segurança emocional. Diante de um mundo perigoso, cheio de forças caprichosas e incontroláveis, de crises de seca, de doenças e morte, e atormentadas pela ansiedade em relação a um futuro incerto, as pessoas se voltam para suas mais profundas crenças culturais em busca de conforto e segurança. Não é de estranhar, portanto, que os pressupostos da cosmovisão sejam mais evidentes em nascimentos, iniciações, casamentos, funerais, celebrações de colheita e outros rituais praticados pelas pessoas para reconhecer e renovar a ordem na vida e na natureza. Nossa cosmovisão fortalece nossas crenças fundamentais com reforços emocionais para que elas não sejam facilmente destruídas. Em terceiro lugar, nossa cosmovisão ratifica nossas normas culturais mais profundas, que usamos para avaliar as experiências e escolher cursos de ação. Ela estabelece nossas ideias de justiça e pecado e as formas de lidar com elas. Molda nossa percepção de que isso é do jeito que é e do jeito que deveria ser. Também funciona como um mapa para guiar nosso comportamento. Cosmovisões servem tanto a funções preditivas quanto prescritivas. Em quarto lugar, nossa cosmovisão ajuda a integrar nossa cultura. Ela organiza nossas ideias, sentimentos e valores em uma visão da realidade mais ou menos unificada. Embora, de fato, haja temas e contratemas e compartimentalização em diferentes domínios de nossas experiências, nossa cosmovisão proporciona a sensação de que vivemos em um mundo que faz sentido. Em quinto lugar, como Charles Kraft observa, nossa cosmovisão monitora as mudanças culturais (1979, p. 56). Somos constantemente confrontados com novas ideias, novos comportamentos e novos produtos que vêm de dentro ou de fora da sociedade. Eles podem introduzir pressupostos que destroem nossa ordem cognitiva. Nossa cosmovisão nos ajuda a selecionar os pressupostos que se encaixam em nossa cultura e a rejeitar os demais. Também nos ajuda a reinterpretar os que adotamos, de modo que correspondam a nosso padrão cultural geral. Por exemplo, os moradores dos vilarejos da América do Sul começaram a ferver a água de beber não para matar germes, mas (como eles enxergavam) para expulsar os espíritos malignos. Assim, as cosmovisões tendem a conservar velhos costumes e a proporcionar estabilidade em culturas por longos períodos. Finalmente, as cosmovisões fornecem a confiança psicológica de que o mundo é realmente como o vemos e uma sensação de paz e de estar em casa no mundo em que vivemos. A cosmovisão das pessoas entra em crise quando há um abismo entre sua cosmovisão e sua experiência da realidade. Agora examinaremos algumas das características fundamentais das cosmovisões. ¹David K. Naugle (2002) apresenta uma excelente história do conceito na filosofia ocidental. ²Para excelentes estudos sobre as cosmologias africanas, veja Forde, 1954. ³Benedict se baseou na psicologia da gestalt e na análise da estrutura cultural ocidental de Oswald Spengler, em The decline of the West [O declínio do Ocidente], que contrapõe a visão de Apolo dos seres humanos do mundo grego clássico e a visão de Fausto do mundo moderno. Ela também se baseia nos estudos de Nietzsche sobre a tragédia grega, em que ele faz distinção entre a cultura de Dionísio, que busca significado existencial por meio de experiências emocionais extremas e das iluminações do frenesi, e a cultura de Apolo , que desconfia de tudo isso e enfatiza a moderação e a ordem por meio do autocontrole. ⁴Kearney reconhece que os seres humanos usam processos racionais para integrar essas características em conjuntos estruturais, mas ele argumenta que essa integração lógica é secundária a temas empiricamente fundamentados. Nesse aspecto, ele rejeita a noção de R. G. Collingwood e de outros mentalistas, segundo os quais as cosmovisões são, em grande parte, concepções mentalmente moldadas sobre a realidade. Ironicamente, Kearney elabora seu modelo por meio da plausibilidade lógica e não de estudos empíricos. ⁵Pepper também inclui o “formalismo” e o “contextualismo” como metáforas- raiz. Nenhuma delas será utilizada mais adiante, por isso não serão discutidas aqui. Os críticos pós-modernos acusam todas as metanarrativas de serem suspeitas e opressivas, porque atuam no inconsciente. Argumentamos que, sem as metanarrativas imbuídas de autoridade, as pessoas não têm senso de lugar ou propósito no universo e estão alienadas umas das outras e da realidade. ⁷C. S. Lewis se tornou cristão após uma longa discussão com J. R. R. Tolkien sobre a natureza do mito. Os dois escreveram mitos clássicos que nos fornecem profundas percepções sobre a narrativa do evangelho. 2 CARACTERÍSTICAS DAS COSMOVISÕES Antes de utilizar nosso modelo para estudar e comparar cosmovisões específicas, precisamos examinar a estrutura fundamental das cosmovisões de forma mais completa. Observaremos primeiro a estrutura sincrônica das cosmovisões e, depois, a diacrônica. Há um perigo nessa abordagem, porque ela pode levar à crença elaborada por Platão de que a realidade absoluta é uma estrutura estática, desprovida de transição, e de que a mudança é uma questão de aparência. Para ele, a matemática pertence à eternidade imutável (Whitehead 1938, p. 93). Seguindo Ferdinand Eisenstein, Alfred North Whitehead, Ludwig von Bertalanffy e outros, agora vemos as estruturas humanas, incluindo as culturas e suas cosmovisões, como estruturas orgânicas e dinâmicas em um estado de fluxo e de mudanças constantes, de modo que qualquer tentativa de defini-los em determinado momento é apenas uma aproximação. Precisamos perceber que o sentido supremo em nossa vida não é encontrado em um entendimento das estruturas humanas, mas nas histórias humanas. Entretanto, não podemos separar as abordagens sincrônica e diacrônica. Na realidade, ambas fazem parte de um todo. Com propósitos analíticos e por causa das limitações da mente humana, nós as dividimos. Analisaremos a natureza sincrônica e diacrônica das cosmovisões simplesmente como dispositivos heurísticos que nos capacitam, como seres humanos finitos, a estudar as realidades que são demasiadamente grandes e complexas para serem compreendidas. Precisamos também estudar o papel das cosmovisões conforme elas moldam e são moldadas por nossas visões da história humana. Estruturas sincrônicas Apesar de as cosmovisões, como totalidades amorfas, serem difíceis de analisar, elas compartilham características comuns passíveis de ser examinadas. Profundidade Há uma característica das cosmovisões definida por expressões como “cerne da cultura” e “estrutura profunda”.¹ Esses termos transmitem a ideia de que as cosmovisões subjazem aos aspectos mais explícitos da cultura. É útil nesse momento pensar na cultura como composta de vários níveis. Na superfície, estão os elementos visíveis, como produtos culturais e padrões de comportamento, incluindoo discurso. Abaixo dela, estão os mitos e rituais — dramas culturais encenados —, que dão expressão consciente às crenças , aos sentimentos e aos valores da cultura. Eles fornecem as diretrizes para a definição e o estabelecimento de profundos temas culturais e normas sociais que as pessoas veem como indispensáveis para a preservação de sua cultura e sociedade. No patamar abaixo dos mitos e rituais, estão sistemas de crenças que codificam nosso conhecimento cultural. Finalmente, abaixo desses sistemas de crenças estão as estruturas não visíveis que fundamentam toda a cultura explícita — a cosmovisão (figura 2.1). Edward T. Hall (1983, p. 6-7) escreve: Há um nível de cultura subjacente e oculto que é altamente padronizado — um conjunto não mencionado de regras implícitas de comportamento e pensamento que controla tudo o que fazemos. Essa gramática cultural oculta define a maneira pela qual as pessoas veem o mundo, determinam seus valores e estabelecem o ritmo e o tempo básico da vida [...]. Uma das principais características do NB [nível básico] da cultura é que ela é particularmente resistente às tentativas manipuladoras de mudá-la com pressões externas. As regras podem ser violadas ou corrompidas, mas as pessoas estão plenamente conscientes de que algo errado ocorreu. Entretanto, as regras permanecem intactas e mudam de acordo com uma dinâmica interna própria. A palavra “profundidade” pode ser enganosa. Em nosso estudo, ela não significa fundacionalismo , a ideia de que as cosmovisões são os fundamentos sobre os quais as culturas são formadas. Isso implicaria uma causalidade de sentido único: as cosmovisões determinam a forma exterior das culturas. Na verdade, a causalidade ocorre nos dois sentidos. As mudanças acontecem com regularidade nos níveis explícitos de uma cultura. Novas tecnologias, como automóveis e internet, surgem e transformam as cosmovisões subjacentes. Da mesma forma, no nível explícito das crenças , as pessoas se tornam cristãs, mas, muitas vezes, passam vários anos, até mesmo gerações, antes de a cosmovisão de sua igreja ser transformada. Quando vão para outros países, as pessoas descobrem novas culturas e maneiras de ver o mundo, sendo compelidas, no nível da cosmovisão, a lidar com os outros e com a diversidade. Como veremos, as transformações da cosmovisão podem ocorrer, mas isso geralmente se dá para manter a congruência com as transformações que acontecem na superfície da cultura. As cosmovisões frequentemente agem mais como guardiãs das tradições do que como iniciadoras de novos mundos. Figura 2.1 NÍVEIS DE CULTURA FORMAÇÃO DE CATEGORIAS Ao observarmos a profundidade, surge a pergunta se há diferentes níveis de profundidade em uma cosmovisão propriamente dita. Vários níveis são discerníveis. Fundamental para qualquer cultura é a criação de categorias ou conjuntos que podem ser formados de maneiras diferentes. Conjuntos digitais e analógicos Em um nível fundamental, as cosmovisões estão baseadas em como as pessoas formam categorias mentais (Hiebert 1994, p. 107-36). Alguns temas da cosmovisão são elaborados principalmente com base em conjuntos cantorianos digitais ou “bem-ordenados”, claramente delineados, com um número finito de categorias em um domínio. O resultado é a lei do “meio excluído” — os membros não podem pertencer a dois conjuntos ao mesmo tempo. Conjuntos digitais são associados à lógica proposicional, à geometria euclidiana e à álgebra cantoriana. Os objetos nesses conjuntos delimitados são vistos como uniformes em suas características essenciais. Suas diferenças e singularidades são de pouca importância. Portanto, tudo pode ser analisado em seus elementos constituintes e tudo pode ser separado e unido em relação a esses componentes. Outras cosmovisões, como as da Índia , são elaboradas com base em conjuntos analógicos ² ou fuzzy, que têm um número infinito de passos entre dentro e fora e entre um conjunto e outro. Por exemplo, a música clássica ocidental está fundamentada em sete notas e cinco sustenidos, e os cantores se envaidecem quando conseguem cantar uma escala bem afinada. Na música clássica hindu, baseada em conjuntos fuzzy , há 64 intervalos entre sa (dó) e ri (ré), e 64 entre ri (ré) e ga (mi). Se o músico precisa de mais, ele ainda pode subdividir esses microintervalos. O resultado é que os músicos deslizam em vez de pular de uma nota para outra. Deslizar e emitir notas trêmulas, não escalas precisas, constitui a beleza da música.³ Conjuntos fuzzy conduzem a uma “lógica fuzzy”, “álgebra fuzzy” e “geometria fuzzy”.⁴ Um exemplo da diferença entre os conjuntos bem-ordenados e os conjuntos fuzzy é visto na maneira que as pessoas compreendem as chamadas raças humanas. A maioria dos americanos usa conjuntos bem-ordenados e classifica as pessoas como “brancas”, “negras”, “hispânicas” e assim por diante. Não há espaço em sua cosmovisão para as posições intermediárias. Durante a época da escravidão, as pessoas com um dos avós negro e os outros três brancos eram consideradas “negras” e conhecidas como “quadrarões”; aquelas com um bisavô negro e os outros sete brancos eram consideradas “negras” e conhecidas como “oitavões”. Todo mundo era ou “branco” ou “negro”. Os que pensam em termos de conjuntos fuzzy entendem as raças como variações, passando de uma para outra sem linhas rígidas dividindo-as. Há “brancos”, “negros”, “hispânicos”, “branco-negros”, “hispânicos brancos”, “hispânicos negros”, “hispânicos branco-negros” e muitas outras combinações. Todas as culturas usam tanto conjuntos bem-ordenados quanto conjuntos fuzzy . A diferença está em qual deles é mais determinante na maneira de pensar do povo. A modernidade está baseada principalmente em conjuntos digitais. As estradas são marcadas por pistas e meios-fios, as pinturas são emolduradas, e as ciências iniciam criando taxonomias , uma prática já vista na organização de Aristóteles dos seres vivos em gêneros, espécies e subespécies (embora Platão estivesse certo quando observou que não há limites claros entre espécies, como, aliás, para a maioria das coisas). Uma americana no mercado pede por “uma maçã”. Ela pode qualificá-la com adjetivos como meio madura, totalmente madura ou verde, que são categorias fuzzy. Na Índia , uma pessoa pode pedir por uma fruta “meio madura” porque ela quer comer algo amanhã e não importa qual o tipo de fruta. Ela não quer uma fruta que esteja madura agora, mas estragada amanhã, ou que esteja verde e não poderá ser comida no dia seguinte. Quando o comerciante pergunta que tipo de fruta meio madura, o comprador responde que pode ser tanto maçã quanto laranja ou banana. Aqui, a categoria fuzzy, “meio madura”, é o substantivo, e laranja, maçã e banana são adjetivos modificando o substantivo. Conjuntos intrínsecos e relacionais Outra diferença na formação de categorias inclui o que define um conjunto — por que os membros são designados para este conjunto e não para outro? Algumas categorias são estabelecidas com base nas características intrínsecas dos membros. Em inglês, uma “maçã” é uma maçã por causa do que ela é. Todas as maçãs compartilham as mesmas características. Estes são conjuntos intrínsecos — os membros pertencem ao conjunto por causa do que são em si mesmos. Nas culturas modernas, conjuntos intrínsecos são predominantes. O mundo é visto como formado por categorias autônomas e discretas. Esta pessoa é um “homem”, “adulto”, “dirige um Mercedes” e “tem doutorado”. Na maioria das culturas tradicionais, os conjuntos extrínsecos ou relacionais são predominantes.⁵ Esta mulher de meia-idade pode ter doutorado, mas isso é secundário em relação ao fato de que, em casa e na comunidade, ela é esposa de Pedro, filha de João e Maria, e mãe de Sara. Em outras palavras, sua identidade não é definida principalmente em termos intrínsecos, mas a quem ou a que ela está relacionada. Em muitas culturas, esse sentimento de “estar relacionado” se estende muito além dos seres humanos, incluindo também a terra em que se nasceu e de cuja produção se recebe alimento,os animais que se cria e os espíritos da vizinhança. Uma pessoa só pode ser uma pessoa quando pertence a uma comunidade e a um lugar, por isso, há o provérbio: “Eu pertenço, portanto, sou”. Todas as culturas usam as categorias intrínseca e extrínseca. Conjuntos intrínsecos e digitais são fundamentais nas ciências, com suas extensas taxonomias de partículas, substâncias químicas, plantas, animais, doenças e outras esferas do conhecimento. Eles são também a base para estabelecer ordem na vida: ruas têm meios-fios, faixas, semáforos e canteiros centrais. O ato de dirigir é regido por normas impessoais. As casas estão limpas quando os limites entre as categorias estão nítidos e as coisas estão em seu devido lugar. Na Índia , conjuntos relacionais fuzzy são fundamentais. As ruas são áreas em que o ato de dirigir é realizado pela negociação de relacionamentos com todos os outros participantes — caminhões, carros, motos, riquixás, pedestres, vacas, cachorros e galinhas. As reuniões não começam em um tempo abstrato estabelecido, mas quando há um número suficiente de pessoas presentes para se começar. A tinta que respinga no assoalho não torna o assoalho “sujo”. O uso de conjuntos intrínsecos e extrínsecos conduz a duas lógicas diferentes. Nos conjuntos intrínsecos, o observador está fora do quadro, sem relação com as pessoas ou objetos que está estudando. Procura dados objetivos e impessoais que possa verificar por meio da lógica algorítmica abstrata. Para permanecer objetivo, ele deve colocar de lado os próprios sentimentos e princípios morais, uma vez que são subjetivos e deturpam os resultados. Nos conjuntos relacionais, o observador está no quadro e deve compreender seu lugar nele, pois isso molda o que ele observa. Ele não pode “isolar” seus sentimentos e princípios morais, pois são elementos essenciais de qualquer relacionamento. O conhecimento relacional rompe a barreira entre conhecimento cognitivo e conhecimento afetivo e moral. O uso de categorias relacionais exige um modo de pensar em termos de uma lógica relacional , em vez de uma lógica analítica abstrata. Os gregos, com sua ênfase no indivíduo autônomo, desenvolveram a lógica algorítmica abstrata em sua busca por teorias universais baseadas em fatos impessoais. Para eles, o conhecimento era “conhecimento sobre” a realidade — imparcial e impessoal. Os hebreus ressaltaram os relacionamentos e o conhecimento relacional dos outros nas particularidades da vida. Para “conhecer” o outro era necessário conhecer essa pessoa em um relacionamento, íntima e pessoalmente, não abstrata e objetivamente. Eles compreendiam o mundo não como simplesmente um sistema mecânico de objetos empíricos conectados pela lógica, mas como um corpo orgânico de relações e respostas pessoais, uma comunidade viva e envolvente de criatividade e compaixão . Esse conhecimento nos leva a uma resposta pessoal e à responsabilidade de aprender a conhecer o outro. Se combinarmos conjuntos digitais e fuzzy com conjuntos intrínsecos e extrínsecos, temos quatro maneiras fundamentais de organizar nosso mundo. É importante lembrar que todas as culturas usam essas diferentes maneiras, ainda que as ênfases variem entre as diversas culturas (fig. 2.2). Figura 2.2 UMA TIPOLOGIA DE CONJUNTOS Taxonomias populares e formais Todas as culturas usam taxonomias populares na vida cotidiana, que são, por natureza, altamente contextualizadas e concretamente funcionais. Elas tentam nos informar não a respeito da natureza intrínseca das coisas, mas sim sobre seu lugar na vida cotidiana. Elas comunicam acerca de entidades e organismos a pessoas que já conhecem as propriedades culturalmente importantes dos organismos que estão sendo analisados. Por exemplo, as taxonomias populares muitas vezes distinguem entre folhas, nozes e carne de caça que podem ser consumidas e as que não podem, ou entre alimentos crus e cozidos. Taxonomias formais , geralmente utilizadas nas ciências e na filosofia , são categorias pouco contextualizadas e altamente abstratas. São elaboradas para nos informar sobre a natureza fundamental da realidade e para fazer distinção entre categorias no mesmo domínio. Embora pareçam comunicar muito sobre o organismo e o conjunto em análise, na verdade elas comunicam pouco, porque, na maioria dos casos, apenas o descritor viu o organismo, e ninguém com quem ele está se comunicando compartilha de sua compreensão a respeito desse organismo (Hall 1977, p. 122). SIGNOS Uma questão importante da cosmovisão é a relação entre categorias e outros signos da realidade (Hiebert 1989). Uma concepção é a de que os signos, como a palavra “árvore”, apontam para realidades objetivas. Consequentemente, frases podem transmitir verdade objetiva. Como veremos mais adiante, essa concepção foi essencial para a ciência moderna, baseada, na época, em uma epistemologia positivista que exigia símbolos e palavras precisos para expressar verdades que correspondiam exatamente à realidade. Um grande esforço foi feito para superar “o aspecto fuzzy” e as ambiguidades dos signos comuns. Significados precisos exigem palavras exatas e matemática , caso contrário os significados são perdidos. Uma segunda concepção é a de que os signos, como palavras, por exemplo, são elaborações culturais que moldam a maneira de as pessoas verem o mundo. Em outras palavras, pessoas de diferentes culturas organizam suas experiências de forma diferente, embora vivam no mesmo mundo. Como estudaremos, linguistas como Ferdinand de Saussure (1916) argumentaram que os signos não apontam para realidades objetivas. Eles evocam imagens mentais subjetivas. Por isso, não há maneira de determinar plenamente se o que dizemos é verdade. Trata-se simplesmente do modo de vermos as coisas, não o que elas são objetivamente. Categorias conceituais se tornam criações arbitrárias da mente, e as culturas tornam-se ilhas isoladas de significados, entre as quais não pode haver verdadeira comunicação. Pessoas de outras culturas interpretam o que dizemos conforme as próprias categorias culturais, e não há maneira alguma de testar se as ideias delas correspondem às nossas. Uma terceira concepção, defendida por Charles Peirce (1955), é a de que os signos apontam para realidades externas e evocam imagens subjetivas na mente. Eles são as pontes pela quais conhecemos o mundo exterior. Ou seja, os signos são triádicos: a forma simbólica (a palavra “árvore”), a realidade objetiva a que se referem (árvores no mundo exterior) e as imagens subjetivas que os signos criam na mente (categoria mental “árvore”). Aqui, a correspondência não é como a de uma fotografia, cuja asserção de verdade é uma correspondência exata da realidade. Ao contrário, ela é como um mapa da realidade, ou seja, a correspondência é complexa e variada. Em alguns pontos, um mapa deve corresponder exatamente à realidade, ou é inútil. Os mapas também têm um foco específico, afirmando ser verdadeiros em alguns aspectos e em outros não. Um mapa de estradas não contém todos os prédios ou árvores — acrescentar todos os elementos o tornaria inútil. Os mapas revelam também as realidades ocultas não visíveis aos olhos. Por exemplo, um mapa político colore um país de verde e outro, de amarelo. Isso não significa que os países sejam dessas cores, e sim que cada território pertence a um país diferente. Finalmente, os mapas e plantas baixas devem ser complementares. Um construtor precisa de plantas baixas diferentes para a estrutura, para a instalação elétrica e para a parte hidráulica. Mas as plantas baixas das partes elétrica e hidráulica devem se adequar ao projeto estrutural. Ninguém quer fiação e canos passando pelo meio dos quartos. As relações entre realidades externas e imagens internas mediadas por signos variam muito. Em algumas, a relação é arbitrária. Pais jovens, no ocidente, dão nomes aos filhos com base na escolha pessoal. A maioria das palavras usadas no discurso cotidiano é essencialmente arbitrária. Em português, observamos uma árvore e dizemos “árvore”. Poderíamos ter dito chettuou yidak. Não há uma ligação ideográfica essencial entre a palavra “árvore” e os objetos a que chamamos de árvores. Entretanto, uma vez que tenhamos concordado em nossa comunidade de chamar este objeto de “árvore”, o vínculo se torna uma definição social e histórica, não particular. Ele é transmitido de geração em geração e já não é mais arbitrário. Posso tentar mudá-lo, mas meus esforços serão inúteis se eu não for capaz de levar a comunidade a aceitar as mudanças. A linguagem discursiva é a base da maior parte da comunicação verbal. Nós a utilizamos para falar sobre as coisas simples da vida — coisas que podemos ver e experimentar diretamente. Nós a mudamos facilmente quando novas palavras são inventadas para representar realidades diferentes que observamos ou criamos, bem como conceitos que precisamos expressar. Em alguns signos, a ligação entre o mundo externo e o interno não é arbitrária. Por exemplo, os símbolos icônicos ligam os dois por meio de semelhanças visuais e orais. Em um computador, as imagens de impressoras, setas, arquivos e lupas fazem com que o usuário saiba a função de cada botão. Da mesma forma, muitas placas de trânsito e faixas na pista comunicam sem o emprego de palavras. De muitas maneiras, os ícones são mais fáceis de usar em ambientes multilíngues porque sua mensagem é transmitida através de imagens, não de letras e palavras. Há poucos casos em que o signo e a realidade são uma coisa só. Por exemplo, quando um ministro ou juiz de paz profere: “Agora eu vos declaro marido e mulher”, ele não está apenas transmitindo informações. Suas palavras são performativas. Elas mudam o status legal da noiva e do noivo. Minutos antes, qualquer um dos noivos poderia desistir do casamento sem consequências legais. Após o pronunciamento, o casal tem de passar por um divórcio legal para desfazer o casamento. A compreensão desses três tipos de signo é particularmente importante no tratamento das questões religiosas, como orações e rituais. Os protestantes tendem a ver a ceia do Senhor como um ritual que ajuda os cristãos a lembrar e a refletir sobre a morte de Cristo. Algumas igrejas do ramo ortodoxo veem a natureza da ceia mais como a de um ícone. O pão e o vinho não se tornam literalmente o corpo e o sangue de Cristo, no entanto, são muito mais do que símbolos arbitrários. Outras igrejas consideram a eucaristia transformadora. O pão e o vinho se tornam real e literalmente o corpo e o sangue de Cristo. No plano da cosmovisão, é importante lembrar que diferentes culturas usam tipos distintos de signos de várias maneiras e, muitas vezes, nossa compreensão equivocada de suas práticas, como a magia e a feitiçaria, tem muito a ver com a compreensão dessas culturas e a nossa compreensão da natureza dos signos envolvidos, bem como com as crenças por trás deles. Finalmente, precisamos distinguir entre signos paramétricos e não paramétricos. Os signos paramétricos, como a maioria das palavras comuns, referem-se diretamente a realidades percebidas. Os signos não paramétricos transmitem significados, sentimentos e valores que não podem ser reduzidos a signos discursivos. Eles apontam para além de si mesmos, para mistérios, sentimentos e juízos morais que não podem ser reduzidos a palavras. Por exemplo, um jovem pode dar à sua noiva um buquê de flores para demonstrar a ela que a ama. Essas flores devem ser especiais, e não uma porção de dente-de-leão. Ele não está simplesmente dizendo: “Aqui estão algumas plantas para você”; através das flores, ele está comunicando profundos sentimentos de afeição. Do mesmo modo, rituais como o batismo apontam para além da experiência imediata, para mistérios que não podem ser reduzidos a palavras. Tudo o que podemos fazer é usar signos comuns e dizer: “Não entenda isso literalmente”. Para isso, frequentemente embutimos nossa comunicação em rituais. LÓGICA Em um nível mais elevado, embora as pessoas usem lógicas diferentes em contextos distintos, qualquer uma dessas lógicas é vista como fundacional e maior credibilidade é atribuída a ela. Por exemplo, a modernidade confia bastante na lógica algorítmica ou proposicional. Outras lógicas são vistas como menos exatas e confiáveis. Em outras culturas, as lógicas analógicas ou relacionais são consideradas mais importantes (Wilson 1970). Lógica abstrata e algorítmica Um sistema lógico subjacente à maioria das ciências é o da lógica abstrata e algorítmica. Esta lógica é abstrata porque cria conceitos como “molécula”, “átomo”, “elétron”, “onda” e “cadeia”, em que os aspectos relevantes de certos fenômenos protótipos são separados dos aspectos irrelevantes. Por exemplo, não se pergunta sobre a “cor” ou o “cheiro” de uma molécula, que frequentemente é retratada como uma bola esférica localizada no espaço e no tempo. O processo é uma tentativa de formular teorias gerais que se apliquem a domínios de experiência cada vez mais amplos. A lógica algorítmica inicia com as unidades básicas e fundamentais de análise: átomos, pessoas e estrelas. Ela busca fórmulas mecanicistas impessoais que descrevam o comportamento e a interação entre essas partes. É por isso que ela (utilizando conjuntos digitais) pode ser mais bem executada por computadores programados para processar os bits de informação segundo fórmulas específicas. Uma das limitações da lógica algorítmica e abstrata é que ela reduz realidades bem distintas a algumas categorias muito abstratas. Ela trata os seres humanos como uma única categoria e negligencia sua infinita variedade. Outra limitação é que é difícil relacionar as abstrações de alto nível às particularidades da vida real. Somos orientados a não mentir, mas como sabemos quando alguém está mentindo e quando está “colorindo os fatos” da vida cotidiana? Lógica analógica A lógica algorítmica trabalha com conjuntos digitais intrínsecos. Ela não funciona com conjuntos analógicos , ou conjuntos fuzzy , nem com conjuntos relacionais. Por exemplo, a matemática baseada em conjuntos digitais, que é a base da álgebra moderna, não pode responder de maneira precisa à questão sobre quanto é dois terços de pi porque nem a fração numérica dois terços nem pi podem ser reduzidos a números digitais. Podemos estipular aproximações, nunca respostas exatas. Nos últimos anos, novas formas de matemática surgiram, incluindo “conjuntos fuzzy ”, “álgebra fuzzy”, “lógica fuzzy” e “gestão fuzzy” (Zadeh 1965; Grint 1997). O termo fuzzy (ingl, “confuso”, “não claro”, “indistinto”, não coerente”) transmite uma impressão errada, porque a lógica fuzzy não é imprecisa nem desordenada. Na verdade, ela é mais efetiva e exata do que a lógica digital algorítmica, porque lida com níveis mais elevados de complexidade. Ela não reduz o mundo a antíteses binárias e à lógica de um computador. Está baseada em conjuntos analógicos ou racionais (proporcionais) que têm um número infinito de pontos entre zero e um, e entre um e dois.⁷ Ela desafia a lógica aristotélica binária que passou a dominar a modernidade, dividindo tudo entre bom e mau, certo e errado, verdade e mentira, vida e morte, 0 e 1 — um dualismo que molda o modo de vermos o mundo. Keith Grint escreve: “A gestão eficaz depende da tomada de decisão certa em vez da decisão errada, após ter analisado os dados corretamente, ao invés de incorretamente, e depois de considerar ambos os lados do argumento. A boa gestão está verdadeiramente preocupada com a boa gestão da linha divisória: decidir de que lado da linha divisória estabelecida algo deve ser colocado, e o restante é fácil. Essa lógica formal fundamenta a maior parte da matemática contemporânea” (1997, p. 10). As categorias digitais e a lógica analítica formal nelas baseada são exatas e podem nos ajudar a lidar com a complexidade do mundo real, reduzindo-o a um número finito de conjuntos, mas isso não corresponde muito à realidade. Poucas categorias no mundo real são digitais por natureza. Atualmente, pesquisas estão sendo feitas com base em conjuntos intrínsecos fuzzy e na lógica fuzzy. Lógica topológica Outra forma de lógicaé a lógica topológica ou analógica. Nela, examinamos realidades complexas comparando-as com as realidades já conhecidas. Robin Horton escreve: “Ao elaborar um sistema teórico, a mente humana parece compelida a extrair inspiração da analogia entre as observações intrigantes a serem explicadas e alguns fenômenos já familiares [...]. Quer examinemos átomos, elétrons e ondas, quer observemos deuses, espíritos e enteléquias, descobrimos que as noções teóricas quase sempre têm suas raízes na experiência relativamente familiar do dia a dia, em analogias com as quais estamos familiarizados” (1970, p. 146). A lógica topológica é potente porque se baseia na imaginação e gera investigações mentais. Comparamos A com B: em alguns aspectos, A e B são iguais e, em outros, são diferentes. Mas as analogias nos convidam a investigar áreas não examinadas, em que não temos certeza se a analogia pode ser sustentada. Analogias são fundacionais para a formação de categorias. O mundo que experimentamos é infinitamente variado. Não há duas árvores ou duas pessoas iguais. Utilizamos analogias para criar categorias mentais ao observar padrões comuns e ao ignorar outras características como irrelevantes. Por exemplo, uma pessoa é um ser humano, mesmo se ela for alta ou baixa, tiver uma ou duas mãos, falar espanhol ou inglês. Whitehead observa que “o procedimento do racionalismo é a discussão da analogia. [...] O desenvolvimento do pensamento civilizado [nós acrescentaríamos de todo o pensamento] pode ser descrito como a descoberta de identidades em meio à diversidade” (1938, p. 98). A analogia é fundacional para o direito moderno. Embora nossa crença geral seja a de que o direito é um conjunto de regras conhecidas e aplicadas por um juiz, as leis são, na verdade, generalizações. Elas nunca são claras nem há quaisquer fórmulas simples com as quais aplicá-las à variedade de casos particulares. Edward Levi escreve: “O padrão básico do raciocínio jurídico é o raciocínio por meio do exemplo. É o raciocínio de caso a caso. É um processo de três etapas descrito pela doutrina do precedente, em que uma proposição descritiva do primeiro caso se torna uma regra da lei e, em seguida, é aplicada a uma próxima situação semelhante. As etapas são as seguintes: a semelhança é observada entre os casos; em seguida, a regra da lei inerente ao primeiro caso é anunciada; por fim, a regra da lei se torna aplicável ao segundo caso” (1949, p. 2). Em níveis mais elevados, a analogia nos ajuda a entender realidades estranhas e complexas, comparando-as com as coisas que entendemos. Portanto, os antigos físicos viam os átomos como miniaturas de sistemas solares; os cristãos compreendiam Deus como um ser vivo, utilizando os humanos como sua metáfora; e aldeões indianos viam ammas, ou excêntricos espíritos territoriais locais, como seres com forma humana feminina. Horton observa que as analogias profundas usadas pelas culturas moldam intensamente o modo de as pessoas compreenderem seu mundo (1970, p. 147). Como veremos mais tarde, a modernidade tende a usar metáforas-raiz impessoais. Seu mundo complexo e em rápida transformação é composto essencialmente por coisas inanimadas, e a mente moderna busca explicação, em grande parte, em analogias impessoais. É por isso que muitas pessoas se sentem menos confortáveis com outros seres humanos do que com as coisas. Nas culturas tradicionais, em que o cenário humano é central e sentir-se menos confortável com pessoas do que com coisas é inimaginável, as analogias são extraídas naturalmente das pessoas e de suas relações — em outras palavras, de metáforas-raiz pessoais. Nesse nível, uma diferença fundamental entre a modernidade e a maioria das culturas tradicionais consiste nas metáforas-raiz que empregam na busca de respostas a questões importantes. Stephen Pepper introduz a ideia de metáforas-raiz , as metáforas que formam as bases sobre as quais as cosmovisões são desenvolvidas (1942). Usaremos duas, a orgânica e a mecanicista, encontradas em todas as culturas. A metáfora-raiz orgânica vê os seres vivos, especialmente os seres humanos, como sua analogia fundacional. Pepper observa: “Adotar o homem, tudo a respeito dele, seu corpo, sua forma, suas ações, suas expressões, suas motivações, suas emoções e todas as outras coisas sobre o homem que atraem a imaginação dele como fonte de explicação de todas as coisas no mundo: o que poderia estar mais de acordo com a inclinação do homem, ou o que lhe pareceria mais natural” (1942, p. 120). Isso dá origem a um mundo cheio de vida e de seres vivos — deuses, espíritos, seres humanos, animais, plantas, até a própria terra — que vivem em um relacionamento uns com os outros. A metáfora-raiz mecanicista vê a máquina, um relógio, por exemplo, ou, mais recentemente, o campo eletromagnético, como o modelo definitivo para a compreensão de todas as coisas. Essas duas metáforas levam a dois tipos de conhecimento: interpessoal e impessoal. Em um mundo orgânico, conhecer outro ser humano intimamente envolve não apenas observações exteriores, como também um processo hermenêutico que possibilita a compreensão do ser interior do outro. Aqui, estamos aprendendo a conhecer e a sermos conhecidos, e a nos relacionarmos com outras pessoas semelhantes a nós — não apenas como objetos, mas como sujeitos independentes. Esse conhecimento interpessoal envolve mais do que simples observações materiais; inclui a compreensão da mente, bem como do cérebro, reconhecendo as pessoas como seres humanos. O conhecimento interpessoal também se estende à nossa relação com Deus e com outros seres espirituais. Em uma cosmovisão mecanicista, o conhecedor está fora da máquina, observando-a de forma objetiva. Ele tem um conhecimento imparcial dela, embora, como observa Michael Polanyi, até esse conhecimento envolva a participação ativa do conhecedor — ele não é simplesmente um receptor passivo da informação que processa (1962). A metáfora orgânica procura uma ordem subjacente, mas não algo que se torne essencialmente uma fórmula. Ela utiliza a análise qualitativa para discernir essa ordem. A metáfora mecanicista procura fórmulas baseadas em “leis” naturais impessoais e utiliza métodos quantitativos para testar suas hipóteses. Outra diferença entre essas metáforas-raiz diz respeito à certeza. Cosmovisões mecanicistas valorizam a lógica algorítmica ou proposicional. Um processo algorítmico, se executado corretamente, gera a resposta certa. Exemplos são as lógicas proposicionais, matemáticas e computacionais. Uma fórmula matemática é exata porque pode ser manipulada para gerar a resposta certa. Mas a lógica algorítmica só funciona se os dados são precisos e completos. Em grande parte da vida, temos de tomar decisões baseadas em dados aproximados e incompletos. Como observou Eisenstein, se as leis da matemática se referem à realidade, elas não são incontestáveis; se são incontestáveis, elas não se referem à realidade (Schroeder 1991, p. 139). Lógica relacional Um quarto tipo de lógica é a relacional, ou lógica concreta funcional . Nós, como pessoas modernas, vemos a realidade fundamental como categorias intrínsecas independentes. Uma rosa é uma rosa porque partilha características intrínsecas com outras rosas. A premissa da ciência moderna é o desenvolvimento de taxonomias e subtaxonomias ampliadas de esferas diferentes do mundo: físico, biológico, social, espiritual, cultural e assim por diante. Na maior parte do mundo, as pessoas definem a realidade no nível mais profundo em termos relacionais. Este homem é o marido de Luíza, o pai de Maria e João, e avô de Susana e Marcos. Como o homem mais velho, ele é chefe de seu clã e um ancião no conselho da aldeia. Categorias relacionais conduzem à lógica funcional concreta, assim como categorias intrínsecas prestam-se à lógica analítica e altamente abstrata. A importância dessa mudança pode ser vista na maneira que as categorias fundamentais modernas se comparam com as de muitas sociedades tradicionais por todo o planeta. A maioria das pessoas em sociedadesnão modernas pensa em categorias funcionais relacionais. Ela é a mãe de Maria, o primo do chefe ou o amigo de João. Ela ou ele é uma mulher ou um homem, mas isso é secundário para as identidades relacionais da pessoa. A. R. Luriia ilustra isso em seu estudo sobre o povo quirguiz da Ásia Central (1976). Ele apresentou às pessoas um retrato de três adultos e uma criança, e perguntou a elas qual deles não pertence aos outros (fig. 2.3). A maioria das pessoas modernas diria que é a “criança”, pois ela não é um “adulto”. Os quirguizes disseram que a primeira pessoa é o pai, a segunda é a mãe, e eles precisam de filhos, portanto, a criança faz parte da família. O terceiro adulto deve ser um tio, e ele pode ser eliminado do conjunto. Quando lhes foi mostrada uma foto de um machado, uma tora de madeira, um martelo e uma serra, as pessoas modernas eliminam a tora de madeira, pois não é uma “ferramenta”. Os quirguizes, no entanto, argumentaram que, com a madeira, poderiam fazer fogo se tivessem um machado ou uma serra. Um jovem disse: “A serra vai serrar a madeira e o machado vai cortá-la em pequenos pedaços. Se uma dessas coisas tem de ser descartada, eu lançaria fora a serra. O trabalho dela não é tão bom quanto o de um machado”. Quando Luriia sugeriu que a serra, o martelo e o machado eram ferramentas e assim pertenciam ao mesmo grupo, um outro quirguiz disse: “Sim, porém, mesmo se tivermos as ferramentas, ainda precisamos da madeira — caso contrário, nada podemos construir”. Além disso, o martelo é inútil, pois não há pregos. Figura 2.3 LÓGICA RELACIONAL Sabedoria Em outro nível, falamos de sabedoria. Quando examinamos realidades e mistérios complexos demais para ser reduzidos a palavras, números e algoritmos, precisamos de uma lógica ou sabedoria avaliadora que possa fazer análises ponderadas com base no conhecimento disponível, nos fatores envolvidos e em comparação com experiências anteriores. Esse é o tipo de conhecimento enfatizado em cosmovisões orgânicas. A lógica da sabedoria é encontrada em provérbios, parábolas, enigmas e na literatura. É o fundamento para os sistemas jurídicos britânico e norte-americano, que são pautados pelos casos precedentes, não simplesmente por formulações legais, e utilizam a inferência, os paralelos e os precedentes (Tiénou; Hiebert 2006).⁸ Na sabedoria, não há uma fórmula simples que produza os resultados corretos. As decisões devem se basear em uma compreensão profunda da situação atual e na experiência. As questões relacionadas à verdade, aos sentimentos e aos valores são levadas em conta, bem como os fatos objetivos e as percepções subjetivas dos participantes. Soluções alternativas devem ser consideradas. Para cada provérbio, existe um contraprovérbio: “Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”, porém, “a pressa é inimiga da perfeição”. A diferença entre a lógica algorítmica e a lógica avaliadora pode ser vista na resposta à seguinte pergunta: “Qual é o melhor caminho da Sears Tower [Torre Sears], em Chicago, até o aeroporto de O’Hare?”. A lógica algorítmica pode medir a distância e nos mostrar a rota mais curta ou mesmo a rota que levaria menos tempo, considerando as distâncias e os limites de velocidade permitidos. Entretanto, ela não pode nos dizer qual é o “melhor” caminho, se por “melhor” entendermos o percurso que nos levará até lá de forma mais rápida, segura e com menos estresse. Esta resposta deve considerar o período do dia, o clima, as obras na pista e os acidentes. O motorista de táxi experiente escuta os relatórios de tráfego, fala no rádio com outros taxistas e usa seu conhecimento das ruas da cidade para levar seus clientes a O’Hare o mais rápido possível. Ele emprega o que chamamos de “sabedoria” que utiliza a lógica algorítmica, mas que considera aspectos mais amplos na tomada de decisão, formada com base no conhecimento à disposição. Todas as culturas usam lógicas abstrata, analítica, topológica e avaliadora, mas muitas vezes valorizam uma em detrimento das demais, especialmente no plano das análises formais realizadas por especialistas religiosos, filosóficos e científicos. Na maioria das sociedades, o conhecimento relacional é o tema dominante. Elas usam categorias mecanicistas para lidar com questões como a obtenção de alimentos e a construção de casas, porém, mais importantes são as categorias interpessoais na comunidade e na caça de animais. Na modernidade, a concepção mecanicista do mundo é predominante. Esta era a visão dos filósofos jônicos, culminando no pensamento de Demócrito e, posteriormente, defendida por Galileu, que argumentou que somente as propriedades mecânicas das coisas são primárias, e que as outras propriedades são derivadas ou secundárias (Polanyi 1962, p. 8). CAUSALIDADE A maioria das pessoas, quando está se esforçando para ter uma boa vida e é acometida por desgraças, não se limita a ficar desesperada sem fazer nada. Elas se esforçam para obter êxito e superar as crises. O primeiro passo é descobrir o sistema de crença adequado para explicar a situação. Uma vez feito isso, então elas podem diagnosticar a situação e selecionar o tratamento adequado. A maior parte das culturas tem uma “caixa de ferramentas” de diferentes sistemas de crenças que utilizam para explicar o que está acontecendo (Hiebert; Shaw; Tiénou 1999, p. 133-74). Algumas delas envolvem seres como humanos, espíritos, demônios, jinn, rakshasa, nats e Deus. Esses sistemas de explicação incluem xamanismo, bruxaria, perda da alma , ancestrais e juízos morais. Outros dizem respeito a poderes impessoais, como magia, astrologia, destino, sorte, poluição e fatores biofísicos. As religiões filosóficas ou formais e as ciências procuram encontrar causalidades verdadeiras e utilizam o pensamento analítico abstrato para fazê-lo. As pessoas comuns estão mais preocupadas com cura e sucesso do que com sistemas de explicação e, muitas vezes, empregam diversos sistemas de explicação e de tratamento ao mesmo tempo, a maioria dos quais no nível popular, esperando que algum deles funcione. Se os sistemas que utilizarem não funcionar, estão dispostas a experimentar outros. Se esses outros também não funcionarem, as pessoas podem recorrer a explicações formais como último recurso — é o destino, ou a vontade de Deus, ou o inevitável processo da natureza. A maioria das pessoas distingue entre o nível imediato e o segundo e terceiro níveis de explicação. Quando as luzes de uma sala de repente se apagam, podemos especular que a lâmpada ou um fusível queimou, ou que ocorreu um curto-circuito. A investigação mostra que a bondosa mulher da casa desligou o interruptor de luz. Uma investigação mais profunda indica que seu marido, sentado no sofá lendo uma história de mistério , perguntou se ela se importaria de desligar a luz porque ele não a queria acesa, a fim de economizar energia elétrica, e uma cirurgia recente o impedia de se levantar. TEMAS E CONTRATEMAS Em um nível mais elevado, Morris Opler (1945), Robert Redfield (1968) e outros utilizam o conceito de temas para examinar as cosmovisões. Stephen Pepper (1942), Jacques Ellul (1964), Peter Berger e seus associados (Berger; Berger; Kellner 1973) e outros usam metáforas-raiz de uma maneira muito parecida. Vamos usar temas de cosmovisão e metáforas-raiz como a estrutura para examinar cosmovisões ao longo deste estudo. O modelo de Opler é particularmente útil. Ele define um tema cultural como “postulado ou posição declarada ou implícita, que geralmente controla o comportamento ou estimula a atividade e é tacitamente aprovado ou abertamente promovido em uma sociedade” (1945, p. 198). Opler observa que há um número limitado desses temas em qualquer cultura. E vai além. Também nota que nenhuma cultura e nenhuma cosmovisão é estática e totalmente integrada. Sempre há tensões e conflitos. Ele explica isso, em parte, ao introduzir a ideia de que há temas e contratemas em qualquer cosmovisão. Os temas são dominantes, mas, se levados ao extremo, destroem uma sociedade. Por exemplo, o indivíduo e o grupo estãoem tensão um com o outro. Se houver forte orientação para o grupo, isso levará à supressão do indivíduo, mas o individualismo extremo acarreta a morte da sociedade. Da mesma forma, como já vimos, há tensão entre liberdade e ordem, e entre igualdade e hierarquia. Como Opler reconhece, na maioria dos casos, temas e contratemas são polos em um continuum. Diferenças entre cosmovisões são muitas vezes uma questão de ênfase. Em algumas culturas, uma é dominante, em outras, a outra é enfatizada. A tensão leva à constante mudança e movimento quando diferentes indivíduos e grupos tentam impor suas perspectivas à sociedade. Como veremos adiante, as culturas e suas cosmovisões são mais bem compreendidas como sistemas orgânicos em constante transformação, em vez de sistemas estáticos e harmoniosos em que mudanças são ruins. PRESSUPOSTOS EPISTEMOLÓGICOS Em outro nível estão os pressupostos epistemológicos que uma cultura faz sobre a natureza da realidade e do conhecimento humano (Hiebert 1999). Um exemplo é a diferença fundamental entre o realismo materialista moderno, que pressupõe um mundo real e material fora de nossa percepção dele, e o idealismo hindu, que pressupõe que o mundo exterior é maya, ou uma ilusão criada na mente. A maioria dos norte-americanos acredita que o mundo em torno deles é real, ordenado e previsível, e que eles podem experimentá-lo com certa precisão através de seus sentidos. Portanto, consideram o mundo material seriamente. Muitos hindus veem a realidade final como existente no interior da pessoa. O mundo exterior é uma soma de experiências subjetivas internas — uma criação transitória, em constante mudança, de nossas mentes. Não há uma realidade final. Ela é maya, ou virtual. Neste mundo caótico e imprevisível, significado e verdade só podem ser encontrados em si mesmos, nas experiências profundas e íntimas do ser. A experiência sensorial e a análise racional são ilusórias — não se pode confiar nelas. Consequentemente, a verdadeira realidade não pode ser descoberta pela experiência e análise empíricas, mas deve vir como lampejos de uma percepção interior que, finalmente, nos mostra que até nós mesmos não existimos verdadeiramente como indivíduos independentes, mas como partes de um campo de energia cósmico superior. Implícito Visto que as cosmovisões são profundas, geralmente não são examinadas e em grande parte são implícitas, da mesma forma que os óculos moldam nossa visão do mundo, mas raramente estamos conscientes de sua presença. Na verdade, outros frequentemente podem observá-las melhor do que nós mesmos. Para mudar a metáfora, elas são como a parte submersa de um iceberg, que o mantém boiando, mas não fica à vista. Um exemplo de estrutura implícita é o idioma. Quando falamos, pensamos nas ideias e sentimentos que queremos expressar. Não paramos para pensar sobre como fazemos sons com a boca, os sons específicos que nossa cultura utiliza para formar palavras ou as maneiras em que combinamos as palavras para formar frases. Na verdade, se pararmos para analisar as estruturas fonéticas e morfológicas de nossa fala, esqueceremos a mensagem que pretendemos transmitir. Quando aprendemos outro idioma, simplesmente usamos os sons de nossa língua para vocalizar as palavras, porque pressupomos que todas os idiomas usam as mesmas vogais e consoantes que usamos. Ficamos chocados quando descobrimos que outros idiomas produzem sons de forma diferente: existem quatro diferentes “t”s e quatro diferentes “d”s em telugu, e a mudança de tons nas palavras chinesas altera totalmente seus significados. Podemos aprender novos hábitos vocais ao examinar atentamente como os sons são produzidos em outro idioma. Se não conseguirmos fazer isso, embora possamos aprender a falar o novo idioma, vamos fazê-lo com forte sotaque. De modo semelhante, estamos pouco conscientes de nossa própria cosmovisão e como ela molda nossos pensamentos e ações. Simplesmente presumimos que o mundo é como nós o vemos e que outros o veem da mesma forma. No Ocidente, presumimos que há um mundo real fora dos nossos corpos, que o tempo é linear e se move do passado através do presente para o futuro, e que a liberdade é um bem inquestionável. Em outras culturas, o tempo se repete em ciclos intermináveis, sem começo nem fim, e a conformidade com o grupo é o valor mais elevado. É essa natureza implícita das cosmovisões que torna tão difícil examiná-las. Elas são o que empregamos para pensar, e não sobre o que pensamos. Edward Hall observa: “O inconsciente cultural, aqueles sistemas culturais dos quais não estamos conscientes e que ainda não se tornaram explícitos, provavelmente excede em número os sistemas explícitos por um coeficiente de mil ou mais. Esses sistemas [...] se aplicam aos aspectos formativos e ativos da comunicação, aos discursos, à percepção [...], às transações entre as pessoas e às cadeias de ação pelas quais os seres humanos alcançam os diversos objetivos de vida” (1977, p. 166). Nós nos tornamos conscientes de nossas cosmovisões quando elas são desafiadas por eventos externos que não conseguem explicar. Imigrantes, refugiados , crianças biculturais e outras pessoas pegas entre cosmovisões conflitantes também se tornam conscientes dos próprios pressupostos profundos. As cosmovisões podem também se tornar visíveis pelo exame consciente do que está abaixo da superfície do pensamento comum. Como veremos, este exercício de trazer à tona pressupostos da cosmovisão é uma parte importante no discipulado de novos convertidos. Isso se aplica para os convertidos que procuram viver como Cristo em um mundo moderno/pós-moderno, bem como para os convertidos do hinduísmo e do islamismo . Elaborado e contestado O conhecimento humano consiste em constructos mentais, modelos que nos ajudam a dar sentido à experiência. Para ser úteis, eles devem corresponder mais ou menos adequadamente à realidade. Eles não são cópias da realidade, mas modelos isomórficos entre os quais a experiência pode nos capacitar a escolher. Ao longo do tempo, tornam-se progressivamente adequados (Piaget 1970, p. 15; Rossi 1983, p. 10-1). Criamos modelos alternativos e escolhemos um no lugar do outro com base em adaptação, adequação e utilidade. O conhecimento do mundo físico está baseado em experiências empíricas, mas envolve reflexões abstratas sobre essas experiências que são diferentes dos próprios objetos. Essa abstração não registra simplesmente dados empíricos na “tábula rasa” de nossas mentes ou descobre o que já existe na realidade externa — que, portanto, não pode produzir uma nova realidade, como o empirismo argumenta —, pois assim não haveria nenhuma “explicação” ou “entendimento” dos dados, apenas uma cópia passiva da realidade. Em outras palavras, a mente não fica inativa. Ela não se limita a refletir a realidade. A mente reage à realidade e desenvolve o conhecimento a seu respeito em um sistema. Procura integrar todas as experiências, passadas e presentes, em um sistema ideológico de acordo com processos mentais culturalmente moldados. Esses processos mentais também não são predeterminados no indivíduo antes da experiência, como argumentam os idealistas. Em vez disso, os sistemas de conhecimento envolvem processos de reflexão que implicam uma reorganização do pensamento. Essa reorganização ocorre por meio da aplicação de processos mentais (como a formação de categorias e lógica), da formação de modelos alternativos e da seleção de certos modelos em vez de outros, após a avaliação. Ao longo do tempo, os sistemas se tornam progressivamente mais adequados. Em resumo, a cultura não é a mera soma dos dados sensoriais. Ela é composta de Gestalts, ou seja, a estruturação de dados sensoriais mais a memória, a formação de conceitos, elementos verbais e outros elementos simbólicos, comportamento condicionado e muitos outros fatores. As cosmovisões também são contestadas. Como Michael Foucault observa, visto que as cosmovisões são criações humanas, diferentes grupos em uma sociedade têm interesses particulares em propor aquelas queos privilegiam (1980). Conhecimento é poder, e os poderosos buscam preservar seus interesses particulares controlando a cosmovisão dominante. Eles silenciam visões subordinadas e tentam aculturar as comunidades imigrantes, que são uma ameaça à sua visão de mundo. Essa tensão entre grupos sociais explica, em parte, por que as cosmovisões estão constantemente mudando. Sistemas parcialmente integrados Cosmovisões são elaborações mentais parcialmente integradas. O conhecimento não é a soma de bits de informação.¹ É o sistema de interpretação que surge das relações entre as partes e dá sentido ao todo. Cosmovisões dizem respeito a padrões e veem o todo como maior que a soma das partes. Em outras palavras, cosmovisões são paradigmáticas por natureza e demonstram uma lógica interna e regularidades estruturais que permanecem por longos períodos de tempo.¹¹ Figura 2.4 A NATUREZA ESTRUTURAL DO CONHECIMENTO Um exemplo da natureza paradigmática ou estrutural do conhecimento é visto na figura 2.4. A maioria das pessoas, observando os pontos, tenta dar-lhes significado, organizando-os em um “padrão” maior que une os pontos e assim lhes dá “sentido”. Alguns veem uma “estrela”, outros, dois “círculos”. Será que as estrelas ou os círculos existem na realidade, ou são criados pela mente do observador? A resposta é “ambos”. Observadores individuais interpretam os pontos como uma estrela, ou como dois círculos. No entanto, não veriam uma estrela ou círculos se os pontos não estivessem dispostos de modo que pudessem interpretar dessa forma. Se os pontos fossem colocados de forma aleatória na página, os observadores concluiriam que não há ordem alguma em seu arranjo. É a natureza estrutural do conhecimento que dá significado às experiências não interpretadas ao ver a ordem ou a história por trás delas. A estrutura propicia ao conhecimento uma coerência que faz sentido a partir de uma avalanche confusa de dados experimentais que entram na mente. Ela ajuda as pessoas a ter um “retrato” da realidade. Generatividade As cosmovisões são generativas. Elas não são casos específicos de discurso e comportamento humanos. Elas geram discursos e comportamentos. Na superfície, as atividades humanas são infinitamente variadas. Vamos para as lojas e compramos produtos sem pensar nas regras que regulam o comportamento econômico em nossa sociedade. Assistimos a um jogo de futebol na televisão e sabemos o que está acontecendo. Isso é possível porque a desconcertante variedade de fenômenos sociais e culturais que experimentamos pode ser considerada inteligível ao explicá-los em termos de certos elementos e regras que regulam a relação entre eles. Uma boa ilustração da generatividade é o jogo de xadrez. Cada jogo é diferente, mas por trás de todos os jogos estão certos aspectos determinados. Há trinta e duas peças, cada uma delas com as próprias características. Há regras para o movimento de cada peça e para o que se constitui em uma vitória. Os jogadores desenvolvem estratégias com base nesses aspectos determinados. Tais aspectos capacitam os participantes a realizar um número quase infinito de jogadas, uma diferente da outra, mas todas devem estar em conformidade com a ordem estrutural fundamental. Outro exemplo de generatividade é a linguagem. Pronunciamos frases que nunca foram ditas antes, e os ouvintes as entendem. Isso é possível porque podemos gerar um número quase infinito de frases empregando sons, palavras e regras de linguagem. Um terceiro exemplo são os programas de computador. Usando um único programa, os jogadores podem participar de uma grande quantidade de jogos diferentes ou dirigir loucamente em várias pistas de corrida cada vez que jogarem. As cosmovisões são os elementos e as regras de uma cultura que geram um comportamento cultural. Dimensões da cosmovisão Como vimos, as culturas são formadas por três dimensões que interagem: ideias, sentimentos e valores . As cosmovisões, as bases sobre as quais as culturas são desenvolvidas, têm as mesmas dimensões. Vamos examinar cada uma delas e, em seguida, a interação de uma com a outra. TEMAS COGNITIVOS As cosmovisões têm uma dimensão cognitiva. Essa dimensão inclui os profundos pressupostos sobre a natureza da realidade compartilhada pelos membros de um grupo. Ela abrange as categorias mentais e a lógica que as pessoas usam para pensar, bem como os temas e contratemas cognitivos que formam a base da cultura. Ela fornece à cultura as estruturas mentais fundamentais que as pessoas usam para definir e explicar a realidade. Por exemplo, os cristãos falam de Deus, anjos, demônios, pecado e salvação . Por salvação, eles se referem à vida eterna com Deus no céu. Os hindus falam de devas (deuses), rakshasas (demônios), carma (a lei cósmica do bem e do mal que pune e recompensa deuses, seres humanos e animais, bem como determina suas vidas futuras), samsara (o ciclo de renascimentos) e moksha (salvação). Este último termo significa libertação da vida infinita e refusão na totalidade do cosmo. O povo tiv da Nigéria fala de Deus, antepassados, espíritos (bons e ruins) e força da vida. Eles atribuem muitas doenças às feiticeiras. Sem crenças em comum, a comunicação e a vida em comunidade são impossíveis. Tempo Robert Redfield ressalta que um tema cognitivo encontrado em todas as sociedades é a percepção de tempo (1968). As pessoas experimentam repetição — algumas coisas se repetem, como os ciclos de dias, luas, estações e da vida. Elas também experimentam a não repetição — algumas coisas acontecem antes das outras, e algumas aparecem e não reaparecem. Embora todas as pessoas experimentem repetição e sequência, elas as organizam de forma diferente em suas cosmovisões de tempo (fig. 2.5).¹² Por exemplo, nós, ocidentais, presumimos que o tempo é linear e uniforme. Ele se move como uma linha reta de um começo a um fim. Além disso, pode ser dividido em intervalos uniformes, como séculos, anos, dias, minutos, segundos e nanossegundos. Edward Hall comenta “Como regra, os norte-americanos pensam no tempo como uma estrada ou uma fita que se estende para o futuro, ao longo da qual a pessoa progride. A estrada tem segmentos ou compartimentos que devem ser mantidos com discrição (‘uma coisa de cada vez’). As pessoas que não conseguem organizar o tempo são desprezadas como inúteis” (1959, p. 28). O tempo visto dessa forma é unidirecional e irreversível. As pessoas que falam inglês usam tempos verbais — passado, presente ou futuro — e também identificam a declaração ao longo de uma linha do tempo. Sir Isaac Newton escreveu: “Tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si só e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com qualquer coisa externa”.¹³ Apesar da teoria de Einstein — que afirma que o tempo é uma dimensão do universo e é relativo ao observador, que diferentes observadores podem experimentar a sequência de eventos de maneira diferente, que o tempo para você não precisa ser o mesmo para mim e que a realidade abarca passado, presente e futuro —, a maioria das pessoas contemporâneas ainda vê o tempo como um relógio absoluto pelo qual o universo opera. Figura 2.5 ALGUMAS COSMOVISÕES DE TEMPO 1. Tempo linear uniforme • tem início e fim; • todas as unidades são de igual duração e valor; • não é repetitivo, não se repete; • conta uma história única; • é tempo científico moderno. 2. Tempo cíclico • repete-se em ciclos de vida, estações e anos; • não tem começo nem fim; • é renovado pelo retorno à origem em um “renascimento” ou um novo começo (e.g., os ritos de Ano Novo); • está geralmente associado às sociedades agrícolas e a um ciclo de fertilidade . 3. Tempo pendular • oscila, avança e retrocede; • se move mais lentamente e mais rapidamente; • tem momentos de parada completa. 4. Tempo de acontecimentos decisivos • é linear, tem início e fim; • envolve diferentes tipos de tempo com diferentes valor e duração; • é medido por uma sequência de eventos (e.g., hora de almoçar, hora de trabalhar, hora de dormir). 5. Tempo de sonho • envolve abandonaro tempo e entrar no eterno “Agora”, em que os mortos , os vivos e os (ainda) não nascidos se unem; • envolve reentrar no tempo; • está geralmente associado a rituais e estados alterados de consciência. O tempo linear uniforme é compatível com uma cosmovisão mecanicista, com noções de progresso e evolução e com uma orientação para o futuro. Essa concepção surgiu na Idade Média, com a invenção do relógio.¹⁴ O relógio desassocia o tempo da experiência humana e, assim, fomenta a crença em uma quarta dimensão independente do universo, que pode ser matematicamente medida de acordo com intervalos sequenciais uniformes. O relógio nos transformou em pessoas que cronometram o tempo, depois em pessoas que poupam tempo e, finalmente, em pessoas que se aproveitam do tempo (oportunistas). Lewis Mumford observa que a preocupação popular de cronometrar o tempo e marcar os horários seguiu-se à produção em massa de relógios nos anos 1800. Hoje o agendamento de horário e a pontualidade são essenciais para organizar o transporte e a produção em uma sociedade industrial. Mumford escreve: “O relógio, não a máquina a vapor, é o mecanismo principal da era industrial moderna” (1934, p. 14). Em muitas sociedades, usar um relógio é um dos sinais de que a pessoa é moderna. Essa mudança para o horário do relógio influenciou profundamente a modernidade. Neil Postman escreve: “Com a invenção do relógio, a eternidade deixou de servir como medida e foco dos eventos humanos. E assim, embora poucos tivessem imaginado a relação, o inflexível tique-taque do relógio pode ter tido mais a ver com o enfraquecimento da supremacia de Deus do que todos os tratados produzidos por filósofos do Iluminismo” (1985, p. 11-2). Outras culturas, como as da antiga Grécia e China, interpretam o tempo como se ele operasse em ciclos. Ainda outras culturas veem o tempo oscilando como um pêndulo. Em muitas sociedades, o processo do tempo não é visto como linear, indo na mesma direção, ou cíclico, dando voltas e voltas. Antes, é experimentado como a oscilação entre opostos: dia e noite, verão e inverno, seca e inundações, vida e morte. O passado não tem longa duração. Todo o passado é igualmente passado. É simplesmente o oposto de agora. Nessa perspectiva, o tempo se move em ritmos diferentes, vai para trás e para frente, e às vezes para completamente. Psicologicamente, experimentamos o tempo dessa forma. Um bom filme termina sem nossa percepção de que várias horas se passaram, uma palestra chata se prolonga eternamente, e às vezes o tempo parece parar completamente. Outra concepção de tempo é o tempo-evento. Nela, os eventos são vistos como unidades distintas, cada qual com o próprio início, desenvolvimento e fim. Por exemplo, o tempo para o povo nuer , uma tribo africana do Sudão, está relacionado aos processos familiares de cuidar do gado e realizar tarefas domésticas. E. E. Evans-Pritchard escreve: “O relógio diário é o tempo de trabalho com o gado — o ciclo de tarefas pastoris, a hora do dia e a passagem do tempo ao longo de um dia são, para um indivíduo nuer, principalmente a sucessão dessas tarefas e sua relação umas com as outras” (citado em Kearney 1984, p. 103). John Mbiti sustenta que o tempo tradicional africano separa os eventos entre os que ocorreram no passado (zamani) e os que estão ocorrendo agora ou estão prestes a ocorrer (sasa). O tempo, portanto, tem um passado distante, utilizado na forma de história para recontar calamidades passadas; um passado recente de meses e anos de eventos recordados; um presente; e a atual antecipação de um futuro indefinido. Não é difícil para nós entender o tempo-evento, porque frequentemente planejamos nosso “tempo livre” de acordo com nossas atividades diárias. Pensamos no culto da igreja como um “evento” com um início, uma atividade e um fim. Quando ele termina, passamos para a “hora da refeição” ou “vamos para um tempo de piquenique”. Então, há um “tempo de descanso” ou para “assistir ao jogo de futebol”. Planejamos ir às compras no supermercado depois de passar pelo consultório médico. O conceito de Morris Opler sobre temas e contratemas deixa claro que nenhuma cultura é controlada por um único conceito de tempo. Um deles pode ser predominante em uma cultura, mas outras percepções de tempo funcionam em diferentes esferas da vida. Por exemplo, nos Estados Unidos, os negócios e a indústria operam conforme o horário linear, mas os pacientes precisam esperar até que o médico esteja pronto para atendê-los. O horário do relógio domina a semana de trabalho, mas o tempo livre assume o controle nos finais de semana. As pessoas percebem a passagem do tempo de diferentes maneiras. A cultura tradicional chinesa era orientada basicamente para o passado. As pessoas olhavam para ele como o modelo para o presente e como a principal fonte de informação sobre como construir uma boa sociedade, a questão que mais preocupava os chineses. O homem moderno vê a passagem do tempo como dividida em passado, presente e futuro, e dá grande ênfase ao planejamento e ao desenvolvimento de um futuro melhor. Hoje, cada vez mais pessoas estão se tornando orientadas para o presente. Elas querem experiências imediatas e não querem adiar a gratificação de seus desejos. Outras cosmovisões dividem o tempo em duas partes: passado e presente. O futuro não “existe” no sentido real. É apenas a antecipação das coisas por vir que as pessoas experimentam no presente. O futuro é irreal, incerto e intangível. Uma ilustração de como as diferenças de cosmovisão influenciam nossa vida diária é apresentada por Edward Hall (1959). Os americanos, por exemplo, recompensam a pontualidade e definem estar “no horário” como sendo de cinco minutos antes a cinco minutos depois da hora marcada (fig. 2.6). Se alguém chega quinze minutos após a hora marcada, um pedido de desculpas é esperado, mas uma explicação detalhada não é necessária. Se alguém chegar mais de quinze minutos depois da hora marcada, precisa apresentar um pedido de desculpas e uma justificativa crível. Na Arábia tradicional, espera-se somente que os serviçais apareçam na hora marcada e, ainda assim, como um ato de obediência. O horário de chegada adequado para os homens de mesma posição, que querem mostrar sua independência e status social, é de aproximadamente uma hora depois da hora marcada. Só depois de uma hora e meia considera-se que estejam “atrasados”. Não há confusão quando dois americanos ou dois árabes combinam determinado horário para a reunião, pois eles compartilham as mesmas pressuposições sobre o que significa “estar no horário”. Mas, quando um árabe e um americano marcam uma reunião, frequentemente isso resulta em confusão. O americano chega “no horário” da hora marcada, o árabe, “no horário” de uma hora mais tarde. O norte-americano fica frustrado por ter de esperar e reclama que os árabes não têm noção de tempo, e o árabe fica perplexo com o comportamento subserviente do americano, que chegou, conforme entende, uma hora antes do combinado. É importante lembrar que os norte- -americanos têm conceitos diferentes e complexos de pontualidade para diferentes ocasiões, o que muitas vezes confunde os estrangeiros nos Estados Unidos. Para ver isso, basta comparar as diferenças de conceitos de pontualidade para consultas médicas, piqueniques, jantares formais e trabalho. Figura 2.6 DIFERENTES VISÕES SOBRE O TEMPO Espaço Todos os seres humanos têm mapas mentais do mundo a seu redor. Na Idade Média, a terra era vista pelos cristãos ocidentais como uma ilha (Orbis Terrarum), constituída de Europa, Ásia e África, com a cidade santa de Jerusalém no centro¹⁵ e Deus no controle. Esse espaço sagrado era cercado por um vazio escuro, desumano e maligno de águas profundas. Os europeus tinham muitas histórias de monstros: gigantes, ogros e sátiros, que eram vistos como encarnações das forças do mal ou como “os descendentes de Caim”. Essas criaturas deveriam ser mortas. Essa concepção da geografia como espaço sagrado é difundida em todo o mundo. Para os muçulmanos, o centrodo mundo é Meca. Para os hindus, os deuses residem nas montanhas. Como observa Raja Rao, para os aldeões indianos, os principais aspectos geográficos em torno deles têm histórias mitológicas associadas: “Não há uma aldeia na Índia , não importa quão pobre seja, que não tenha uma rica stala-purana, ou história lendária, sobre si mesma. Algum deus ou herói divino passou pela vila — Rama poderia ter descansado sob esta figueira-dos-pagodes, Sita pode ter secado suas roupas, após o banho, sobre esta pedra amarela, ou o próprio Mahatma, em uma de suas peregrinações por todo o país, pode ter dormido nessa cabana, a mais baixa, ao lado do portão da aldeia. Desta forma, o passado se mistura com o presente, e os deuses se misturam com os homens” (1967, p. vii). Em tais sociedades, o espaço é mais importante que o tempo. O tempo separa o passado do presente. O espaço os une. Essa terra foi comprada por nosso ancestral que agora está enterrado sob a árvore. Na Terra Santa, podemos nos sentar no poço de Jacó: quatro mil anos atrás — mas exatamente aqui — Jacó cavou o poço. Dois mil anos depois — mas exatamente aqui — podemos tocar o poço onde Jesus falou com a mulher samaritana. É a modernidade que muda a prioridade do espaço para o tempo. A compreensão do espaço local também varia de cultura para cultura. No sul da Índia , os aldeões acreditam que as paredes projetam campos de força, que se estendem de três a seis metros além de seu término na direção em que elas apontam. Se essa energia atinge um ponto fraco de uma parede próxima, causará rachaduras nela. As casas geralmente são construídas sobre uma grade imaginária de aproximadamente três metros por três, e as paredes são reforçadas nos pontos de interseção da grade. Se a casa do vizinho não for erigida sobre a mesma grade, a outra casa pode causar rachaduras na casa dele. Portanto, ao se levantar uma casa, é importante certificar-se de que as paredes sejam construídas sobre a mesma grade que as casas vizinhas. O conceito de espaço homogêneo, que se estende uniformemente em todas as direções em que os eventos ocorrem, surgiu na Europa depois de 1250 d.C., quando os cartógrafos começaram a fazer mapas para viagens além da terra conhecida. No século 14, a ideia de Ptolomeu de tratar a superfície da Terra como espaço neutro e nela fixar linhas verticais e horizontais havia se espalhado por toda a Europa. Por fim, divisões cartográficas locais foram integradas em uma cartografia global de meridianos. No século 16, Giordano Bruno escreveria: “Há um único espaço geral [...] que podemos chamar livremente de Vazio: nele há inumeráveis globos como este em que vivemos e crescemos; esse espaço declaramos ser infinito, pois nem a razão, a conveniência, a sensopercepção ou a natureza atribuem um limite a ele” (citado em Crosby 1997, p. 105). Mas esse espaço homogêneo era essencialmente secular. Nele não havia lugar para Deus ou espaço sagrado. A mudança para o espaço secular pode ser vista na arte ocidental. Alfred Crosby afirma: “Os artistas medievais estavam certos de que a posição hierárquica das pessoas representadas era mais importante do que a real forma do rosto, a cor dos olhos ou de que maneira seus braços se encaixavam nos ombros. Os artistas, muitas vezes, indicavam a importância pelos meios mais óbvios: por tamanho, tornando o protagonista — Cristo, a Virgem Maria, os imperadores — relativamente grandes e os colocando na posição central. As pessoas e as coisas sem importância eram pequenas e dispostas no canto ou onde quer que houvesse um espaço sobrando” (1997, p. 168). Os artistas da Renascença, no entanto, estavam mais preocupados com percepções espaciais precisas por meio da utilização de “pontos de fuga” e ortogonais convergentes do que com mensagens mais profundas. Retratar realisticamente a natureza e o espaço tornou-se um fim em si.¹ Os artistas procuravam apresentar um retrato da realidade como se a cena tivesse sido vista num relance por um único olhar humano (Crosby 1997, p. 191). No início da era moderna, o espaço na terra era medido conforme as características geográficas locais. Por exemplo, os antigos colonos americanos usavam um método de avaliação conhecido como metes-and-bounds (descrição exata das demarcações de uma área) ou o sistema “indistinto” para demarcar suas terras. Um campo seria delimitado nos dois lados por um rio e uma estrada, e no terceiro por uma linha que encontrava o rio em sua confluência e unia-se à estrada no cume do monte. Quando as cidades eram planejadas, as ruas eram organizadas de acordo com as principais características topográficas da área, como rios, vales ou os trilhos da ferrovia. Quando a fronteira se expandiu para oeste, o uso de pontos de referência local para medir o espaço revelou-se inadequado no mar e em viagens de longa distância por terra. Os pontos de referência global eram necessários para permitir que os viajantes percorressem longas distâncias e chegassem a seus destinos. Imagine, por exemplo, viajar pelos Estados Unidos usando apenas mapas municipais locais, não relacionados aos mapas das comunidades vizinhas. Uma nova maneira de orientar o espaço, conhecida como sistema township-and-range , surgiu, utilizando os polos Norte e Sul e a Linha do Equador como pontos de referência. Eles forneceram um cartograma mundial que permitiu às pessoas localizarem cada ponto na Terra em sua relação com todos os outros pontos do planeta. Esse sistema possibilitou a navegação oceânica e a aviação transcontinental. Nos Estados Unidos, a mudança de pontos de referência local para pontos de referência global na localização das posições na Terra ocorreu no início do século 19. Essa mudança teve profunda influência na maneira em que os campos e as cidades foram projetados (fig.2.7). Nos estados do leste, como Pensilvânia e Maine, estradas seguiam os caminhos de menor esforço para o viajante. Elas não foram estruturadas como um tabuleiro de xadrez e não eram “perpendiculares” para o mundo. As estradas e os campos no Meio-Oeste foram planejadas na direção norte-sul e leste-oeste, frequentemente em quadrantes de uma milha. As cidades também sentiram o impacto da mudança. A cidade de Fresno, na Califórnia, foi originalmente estabelecida paralela à ferrovia que desce o vale de San Joaquin, na direção noroeste-sudoeste. Quando os meridianos e as longitudes foram introduzidos, as novas ruas foram estabelecidas nas direções norte-sul e leste-oeste. Confusão considerável surgiu quando as duas concepções diferentes colidiram na parte central da cidade. Mudanças semelhantes nas divisões das ruas ocorreram em muitas outras cidades dos Estados Unidos quando um tema de cosmovisão foi substituído por outro. Figura 2.7 COSMOVISÕES E A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO A ênfase moderna no individualismo influenciou a percepção americana de espaço. Os campos estão divididos em fazendas, e cada fazendeiro vive na própria fazenda. Os quarteirões das cidades são divididos em lotes e casas individuais, e, até mesmo nas casas, alguns aposentos são considerados pertencentes a certos membros da família. Em muitas partes do mundo, os agricultores vivem juntos em pequenos povoados por companheirismo e segurança e caminham até seus campos.¹⁷ Orgânica/mecanicista Como observamos anteriormente, Stephen Pepper escreve acerca das metáforas- raiz , duas das quais, a mecanicista e a orgânica, têm sido amplamente usadas para analisar cosmovisões (Ellul 1964; Berger; Berger; Kellner 1973; Dijksterhuis 1986). Por elas serem fundamentais para a maioria das cosmovisões, vamos utilizá-las como tema e contratema em nossa análise das culturas. Indivíduo/grupo Todas as pessoas têm uma percepção de si mesmas. Os habitantes da Índia têm três personalidades: a pessoal, a social (determinada pela casta em que se nasce) e a cósmica. A personalidade cósmica é como uma gota de água originada das ondas de Brâman, o oceano impessoal de poder e do ser cósmicos. Enquanto ela flutua no ar, pode dizer “eu”. No final, ela retorna ao oceano e continua aexistir, mas já não tem identidade própria. É incorporada ao campo de força cósmica. Todas as pessoas pertencem a grupos. Elas fazem parte de famílias, clãs, clubes, grupos étnicos e instituições. Essa identidade corporativa proporciona a elas um lugar na sociedade. Como estudamos anteriormente, as sociedades divergem na prioridade que dão ao grupo em relação ao indivíduo autônomo. Em sociedades orientadas para o grupo, as pessoas encontram sua identidade nos relacionamentos com os outros e em seu lugar na sociedade. Por exemplo, no Japão, a personalidade relacional é a mais importante. A personalidade autônoma deve ser esvaziada. Em contrapartida, a modernidade enfatiza a personalidade autônoma. A personalidade individual é o centro da identidade de uma pessoa; sua personalidade relacional é menos importante. Alexis de Tocqueville, ao descrever a cultura americana, após suas longas viagens pelos Estados Unidos em 1831, distinguiu entre egoísmo e individualismo. Ele escreveu: O egoísmo é um amor apaixonado e exagerado por si mesmo, que leva o homem a relacionar tudo a si mesmo e a se preferir a todas as coisas no mundo. O individualismo é um sentimento maduro e tranquilo, que dispõe cada membro da comunidade a se separar da massa de seus companheiros e a se retirar com sua família e amigos, de modo que, depois que formou o próprio pequeno círculo, ele voluntariamente deixa a sociedade como um todo entregue à própria sorte [...]. O individualismo, a princípio, apenas corrói as virtudes da vida pública, mas, em longo prazo, ataca e destrói todas as outras e é, finalmente, absorvido por um egoísmo categórico (1863, p. 119-20). Grupo/outros Todas as pessoas pertencem a grupos humanos e distinguem entre “nós” e “eles”. Essa distinção nós-eles subjaz à maioria das distinções nos sistemas sociais, seja baseada na etnia, classe social, gênero , idade ou associação. Nas sociedades totêmicas, o termo “nós” pode ser estendido para incluir certos animais e plantas em determinados grupos humanos. Finalmente, todas as pessoas têm uma concepção da natureza dos seres humanos e distinguem entre humanos e não humanos — uma distinção entre seres humanos e animais, árvores, estrelas e certos tipos de espíritos. A maioria das sociedades tradicionais de pequena escala vê os seres humanos como parte da natureza e pressupõe relacionamentos, até mesmo de parentesco, entre os seres humanos e os animais, plantas e espíritos, mas observam as diferenças entre seres humanos e não humanos. Por exemplo, os povos nativos da floresta Ituri distinguem quatro categorias de seres vivos: pessoas, pigmeus, chimpanzés e outros animais. Os europeus, no século 16, consideravam-se civilizados, enquanto os africanos e os americanos nativos eram vistos como selvagens e sub-humanos, o que justificava sua escravidão. No século 18, esses “outros” se tornaram primitivos e aborígenes — pessoas como nós, mas atrás de nós na evolução da civilização. Agora eles são, muitas vezes, classificados como nativos — como nós, mas diferentes. Este mundo/outros mundos Muitas culturas veem este mundo em que vivem os seres humanos como o único cosmo. Por exemplo, na ciência moderna secular não há seres de outro mundo, nenhum céu e nenhum inferno. Em muitas culturas, este universo é repleto de seres e forças. Há seres humanos, animais, plantas e até mesmo a Terra, que é vista como Mãe porque dá à luz muita vida. O céu está cheio de deuses celestiais, deuses da chuva, o deus-sol, o deus-lua e de planetas impessoais, e todos fazem parte deste mundo e interagem com as criaturas terrestres. Outras culturas acreditam em universos paralelos distintos do nosso. Os gregos acreditavam em sete céus e sete infernos. Estima-se que dois terços das sociedades tribais acreditam em um Deus supremo que vive fora deste universo. Ele é o Criador , mas, como veremos adiante, em muitas culturas ele ficou irado com os seres humanos e foi embora, deixando-os à própria sorte. Os hebreus entendiam que Deus estava fora do universo físico, mas reconheciam seu envolvimento constante com os seres humanos ao longo da história. No pensamento hebraico, Deus era da maior importância. Os gregos acreditavam em um universo em que a ordem era natural, sem referência alguma a Deus. Quando ele realmente intervinha neste universo, isso era algo excepcional e extraordinário. No pensamento grego, Deus era desnecessário. Outros temas Até agora utilizamos as categorias de Redfield para iniciar a investigação de temas e contratemas em diferentes cosmovisões. É importante lembrar, entretanto, que estes são apenas dispositivos heurísticos preliminares e que descobriremos a maioria dos temas de uma cosmovisão específica por meio de uma análise cuidadosa da cultura da qual ela faz parte. Por esses temas se diferenciarem, de forma notável, de uma cultura para outra, não podemos listá- los, mas devemos lembrar que são centrais para o estudo de qualquer cosmovisão. Exemplos desses temas de cosmovisão serão apresentados nos capítulos 5 a 10. TEMAS AFETIVOS As cosmovisões também moldam sentimentos profundos de alegria e tristeza, medo e repulsa, reverência e adoração. Elas influenciam o gosto das pessoas na música, na arte, no vestuário, na alimentação e na arquitetura, e igualmente influenciam como elas se sentem em relação às outras pessoas e em relação à vida em geral. Esses pressupostos afetivos fundamentam as noções de beleza, estilo e estética encontradas em uma cultura. Por exemplo, em culturas influenciadas pelo budismo teravada, a vida corresponde ao sofrimento. Mesmo os alegres momentos produzem sofrimento, pois se percebe que terão um fim. Há, portanto, pouca utilidade na luta por uma vida melhor aqui na Terra. Em contrapartida, nos Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas estavam otimistas. Acreditavam que, com muito trabalho e planejamento, poderiam alcançar uma vida feliz e confortável. Temas afetivos intensos, abrangentes e duradouros atuam como uma parede, protegendo as crenças de ataques internos e externos ao fornecer apoio emocional à sua veracidade. Figura 2.8 TIPOS AFETIVOS EM CULTOS PROTESTANTES AMERICANOS Igreja formal/ritualística Estado de espírito dominante mistério , reverência, santidade Comportamento extremo ascetismo, monasticismo Prédio catedral Formas de expressão rituais, cantochão, liturgia, velas, procissão, estrutura hierárquica Postura ajoelhar-se, prostrar-se Foco Deus Pai Mensagem central criação, ordem, providência de Deus História central história cósmica Diferentes temas afetivos são expressos de maneiras diversas. Nas igrejas formais/ritualísticas, as emoções dominantes são reverência e admiração na presença do grande mistério manifestas em rituais bem formais. Em muitas igrejas evangélicas tradicionais, sentimentos de paz e tranquilidade são evocados por meio da meditação e da pregação metódica. Muitos carismáticos buscam o êxtase por intermédio de dança, música e ritmo (fig. 2.8). Em resumo, as religiões variam muito nas emoções que valorizam e nas maneiras de expressar essas emoções. Por um lado, os estudiosos e líderes que enfatizam a pregação cognitiva da verdade nos cultos da igreja e desvalorizam a importância dos sentimentos nos cultos tendem a negligenciar a importância dos sentimentos na vida das pessoas comuns. Eles pressionam para o trabalho ser feito e não conseguem ver o sofrimento emocional causado por suas ações. Muitas vezes as pessoas saem da igreja com a cabeça cheia e o coração vazio. A maioria das pessoas toma decisões religiosas com base em emoções e experiências, tanto quanto em argumentos racionais. Por outro lado, enfatizar somente a afetividade deixa as pessoas com o coração cheio e a cabeça vazia. Tanto a cognição quanto a afetividade são imprescindíveis para a vida religiosa. TEMAS AVALIADORES Os pressupostos avaliadores ou normativos dão origem à ordem social e moral em uma cultura. Eles incluem noções como virtude , padrões, moralidade e costumes, que, por sua vez, fornecem as normasque as pessoas usam para fazer juízos de valor, incluindo os critérios para determinar verdade e falsidade, certo e errado, o que se gosta e o que não se gosta. Por exemplo, na América do Norte, é pior mentir do que ferir os sentimentos das pessoas. Em outras culturas, é mais importante incentivar outras pessoas, mesmo que isso signifique “torcer” a verdade. Na América do Norte, a imoralidade sexual é um dos maiores pecados. No sul da Ásia, perder a paciência é a pior ofensa. Na Europa medieval, os clérigos valorizavam a reflexão, o caráter e a sabedoria; a nobreza enfatizava a coragem, a bravura, a cortesia e a exibição; e os comerciantes priorizavam a eficiência, a precisão e a especificidade (Crosby 1997, p. 230). Ordem moral Robert Redfield observa a distinção entre culturas em que a moralidade está no centro da cosmovisão e aquelas em que ela não é tão importante. Ele observa que, na maioria dos bandos , tribos e sociedades camponesas, os seres humanos vivem em um universo que tem importância moral. Humanos e não humanos estão unidos por relacionamentos, e relacionamentos corretos são a base da moralidade. A moralidade se baseia no dever e no juízo ético. Esse senso de moralidade é violado quando os relacionamentos são quebrados, como se vê nas definições de pecado no Japão durante a Era Engi (fig. 2.9). Nessas sociedades orientadas para o grupo, a violação das normas leva a um profundo sentimento de vergonha, e o maior castigo é o ostracismo. As pessoas não veem ou falam com a pessoa excluída e, finalmente, ou ela se arrepende ou vai embora. Redfield escreve: Na cosmovisão básica, o Homem e o Não Homem estão unidos em uma ordem moral. O universo é moralmente significativo. Ele se importa. O que o homem vê lá fora, que não é ele e em que ele ainda assim participa de alguma forma, é um grande drama de conduta [...]. O universo opera pelo dever e pelo juízo ético. Mesmo quando o Não Homem não age de uma maneira que o homem deveria agir, em que os seres sobrenaturais são injustos ou indecentes, a conduta desses deuses é pensada de acordo com a moralidade que prevalece sobre a Terra. O universo não é um sistema indiferente. É um sistema de consequências morais (1968, p. 112). Figura 2.9 UMA CLASSIFICAÇÃO DOS PECADOS NO JAPÃO NA ERA ENGI (ENCONTRADA NOS 70 VOLUMES DE THE LITURGY OF GREAT EXORCISM AND PURIFICATION) Pecados celestiais (pecados contra a ordem cósmica): 1. ahanchi: alterar as linhas divisórias entre os campos de arroz; 2. mizoume: violar o caminho da água dos campos de arroz; 3. shikimaki: plantar sementes em terrenos já plantados por outros; 4. tikihagi: esfolar um cavalo sagrado vivo; 5. kusohe: urinar ou defecar em um lugar sagrado. Pecados terrenos (pecados contra a comunidade): 1. ikihadatachi: assassinar ou ferir uma pessoa; 2. shihadatachi: profanar o corpo do morto; 3. kokumi: ser um corcunda; 4. onogahaha okaseru tsumi: ter relações sexuais com a própria mãe; 5. onoga ko okaseru tsumi: ter relações sexuais com uma mulher e sua filha; 6. kemono okaseru tsumi: ter relações sexuais com um animal; 7. takatsu kami no wazawai: ser atingido por raio. (Minoru Hayashi) Essa unidade dos seres humanos com a natureza é rompida nas sociedades urbanas e modernas. Redfield observa: “O homem sai da unidade do universo em que ele é orientado agora como algo separado da natureza e passa a enfrentar a natureza como algo apenas com qualidades físicas, em que ele pode realizar sua vontade. À medida que isso ocorre, o universo perde seu caráter moral e se torna indiferente para ele, um sistema que não se importa com o homem. Hoje, a existência de sistemas éticos e religiosos apenas qualifica essa declaração; a ética e a religião se esforçam de uma forma ou de outra para levar em conta um universo físico que é indiferente para com o homem” (1968, p. 114). Nas sociedades modernas, as leis são baseadas em normas impessoais estabelecidas pela cultura. Elas mantêm o indivíduo autônomo responsável perante tais leis. A violação pessoal delas não o leva a um sentimento de vergonha, mas de culpa. Outras sociedades equiparam moralidade à pureza, e as violações levam a um sentimento de profanação e contaminação (fig. 2.10). Figura 2.10 IMAGENS DA ORDEM MORAL Foco ordem legal relacionamentos corretos Pecado violação da lei quebra de relacionamentos Resposta culpa vergonha Salvação punição, restauração da moralidade , ordem perdão, reconciliação , restauração de relacionamentos Imagem retidão shalom , paz Exemplo EUA Japão Heróis e vilões As normas avaliadoras determinam em cada sociedade como o homem e a mulher ideais devem ser, o que constitui um bom casamento e como as pessoas devem se relacionar entre si e com estranhos. No nível mais profundo, os pressupostos de avaliação determinam as lealdades fundamentais — os deuses que as pessoas adoram, os propósitos para os quais elas vivem. Durante o século passado, os americanos deram alto valor à tecnologia e aos bens materiais, e os negócios são hoje sua atividade central. Seu status é determinado principalmente pela riqueza, e sua cultura tem o foco em temas econômicos. A paisagem urbana das cidades modernas americanas é dominada por edifícios bancários e de seguradoras. No interior da Índia , ao contrário, as pessoas dão alto valor à pureza religiosa; a maior honra é dada aos membros da casta sacerdotal. Sua cultura é organizada em torno de temas religiosos, e os templos são o centro das vilas. As cidades medievais, com seus reis, vassalos, senhores, cavaleiros e bispos, tinham o foco no poder, nas conquistas e na religião. Os castelos e as catedrais eram, assim, as estruturas dominantes. Temas avaliadores de Parsons Talcott Parsons e seus colegas estruturaram sete dimensões morais que acreditam existir em todas as sociedades (fig. 2.11). Como Morris Opler , eles organizaram cada dimensão ao longo de um continuum de um polo a outro. Como observou Ruth Benedict , as sociedades variam entre as que expressam emoções publicamente e as que mantêm as emoções sob controle. Um segundo tema diz respeito à identidade da pessoa. Em algumas sociedades, a pessoa tem identidade apenas como membro de um grupo; em outras, a pessoa é vista como um indivíduo autônomo. Um terceiro tema envolve um continuum que vai de uma propensão para este mundo até uma orientação para outro mundo. Por exemplo, na Europa medieval, as preocupações dominantes envolviam Deus, o juízo divino e a salvação eterna. Jovens de ambos os sexos eram incentivados a entrar para os mosteiros e a negar os prazeres deste mundo. Catedrais e mosteiros eram prósperos centros da vida cultural. Uma grande mudança ocorreu na Renascença, quando o foco mudou para este mundo, para uma vida de conforto e sucesso na Terra e para a autorrealização. Consequentemente, a ciência, a tecnologia, os negócios e o entretenimento floresceram. Um quarto tema de avaliação na lista de Parsons diz respeito à valorização do que uma pessoa alcança em oposição ao que uma pessoa adquire por nascimento, como realeza, etnia e herança. Em grande parte, as pessoas da América do Norte são valorizadas pelo que fazem, pela educação que adquirem, pelo dinheiro que ganham, pelo poder que têm à sua disposição. Por meio dessas realizações, elas podem ascender na ordem social. Esses fatores, no entanto, não podem levá-las à alta sociedade, à nobreza. Isso só ocorre por meio do nascimento, do casamento e de sua admissão nos círculos sociais da elite. Na Inglaterra, as pessoas nascidas em famílias nobres são vistas como pertencentes à classe alta e à realeza. Na Índia , a casta em que uma pessoa nasce determina seu cônjuge, sua profissão, seu local de residência e sua condição na vida. A realização pessoal funciona somente em áreas restritas dentro desse sistema social mais amplo. A quinta dimensão de valores no modelo de Parsons é a da difusão versus a especificidade. Ela é mais difícil de compreender. Por difusão, Parsons e seus colegas se referem às sociedades que levam em conta todos os contextos ao tratar dasatividades sociais. Em certo sentido, essas sociedades veem as coisas “de forma holística” e levam em conta todos os fatores para determinar as ações. Por exemplo, em uma aldeia africana, quando os pacientes fazem fila para uma consulta ao médico, o líder é colocado à frente da fila, mesmo quando chega depois dos outros. Nos panchayats, que ocorrem nas aldeias da Índia , tanto o acusador quanto o acusado vão a julgamento por violação da paz. Ao discutir o caso, os anciãos avaliam o caráter das pessoas envolvidas, a história de seu comportamento anterior na aldeia, a posição que ocupam na classificação das castas , sua formação e riqueza, e todas as circunstâncias atenuantes em que o conflito surgiu. Sociedades caracterizadas pela especificidade, por outro lado, se concentram apenas nas questões específicas em questão. Grande parte dos tribunais americanos exclui caráter e fatores alheios ao analisar casos e dão o veredito somente com base nas considerações prescritas pela lei, não nas atitudes da comunidade em geral. Figura 2.11 NORMAS PARA A AVALIAÇÃO NO PLANO DA COSMOVISÃO 1. Expressão emocional • busca satisfação dos sentidos e desejos • permissiva • exemplos: kwakiutl , cultura consumista atual, tantrismo 2. Centrada no grupo • interesses coletivos • decisões e responsabilidades coletivas • exemplos: bunyoro, tribalismo 3. Orientada para o mundo por vir • ênfase nas recompensas no mundo por vir • exemplos: Europa medieval, budismo 4. Enfatiza atribuição • relações baseadas no nascimento • valoriza atributos • exemplo: sistema de castas na Índia 5. Foco no quadro geral • leva em conta o contexto mais amplo • exemplo: casos judiciais nos panchayats das aldeias indianas 6. Universalista • trata todos da mesma forma • enfatiza verdades universais, leis, parâmetros • busca a padronização • teorias absolutas e universais • ética absoluta • exemplo: religião judaico-cristã, modernidade 7. Hierarquia é correta • compreende as pessoas como intrinsecamente desiguais • dá privilégios ao superior • relacionamentos senhor-serviçal [clientelismo] • exemplo: sociedade de castas da Índia Fonte: Adaptado de Parsons e Shils , 1952. Outro valor fundamental em muitas sociedades diz respeito à tensão entre hierarquia e igualdade . Na cultura tradicional indiana, a hierarquia é reconhecida não apenas como real, mas também como boa. O status de uma pessoa está baseado no que ela fez em sua vida anterior. Portanto, nascer em uma classe baixa é uma forma de punição pelos pecados passados. Quando se ajuda a melhorar as circunstâncias de uma pessoa de nascimento humilde isso implica abreviar sua punição e levá-la a nascer novamente em uma condição pobre. O resultado é um sistema de castas que classifica todas as pessoas de acordo com uma hierarquia baseada em pureza e poluição. Ao contrário, a Escandinávia enfatiza a igualdade e procura reduzir as diferenças entre ricos e pobres, homens e mulheres , velhos e jovens. A Inglaterra e os Estados Unidos defendem a igualdade de todas as pessoas, mas, na verdade, permitem uma grande medida de hierarquia que se manifesta na limitação da igualdade às oportunidades teoricamente iguais, mas sem tornar a habitação, a riqueza, o nível de escolaridade e os cuidados médicos iguais para todos. Também temos de analisar como os conjuntos de valores de uma cultura se relacionam entre si. Por exemplo, muitas pessoas nos Estados Unidos afirmam a igualdade, mas valorizam muito mais a liberdade. Consequentemente, quando os dois aspectos entram em conflito, a igualdade é sacrificada em favor da liberdade. TRÊS DIMENSÕES Embora as diferentes culturas possam ser localizadas ao longo desses continua de temas e contratemas , é melhor compreender esses polos como são encontrados na maioria das cosmovisões. Em uma cultura, enquanto um polo pode ser o tema dominante, algumas pessoas da sociedade podem de fato defender o contratema. Em outra, o polo oposto pode ser predominante, e o outro, subordinado ou contracultural. Além disso, o equilíbrio entre temas e contratemas em uma cultura também pode variar entre vida pública e privada. Juntos, os pressupostos cognitivos, afetivos e avaliadores proporcionam às pessoas uma maneira de observar o mundo que faça sentido para elas, que lhes dê uma sensação de conforto e que lhes assegure que estão corretas. Essa cosmovisão serve como a estrutura profunda sobre a qual elas desenvolvem suas crenças explícitas, seus sistemas de valores e as instituições sociais em que vivem suas vidas cotidianas. Características diacrônicas Os seres humanos são contadores de histórias. O conhecimento diário é fragmentado e desassociado. Para encontrar sentido na vida, as pessoas contam histórias que dão significado a este mundo, mostrando que ele é um drama — um mistério , um romance, uma tragédia ou uma comédia. O conhecimento narrativo é diferente do conhecimento crítico e analítico (Camery-Hoggatt 2006). A análise racional é baseada em provas objetivas e concretas e na análise lógica e discursiva, e cria abstrações a partir da realidade concreta. As histórias, por outro lado, baseiam-se em análise racional e imaginativa e lidam com as complexidades da experiência humana que não podem ser investigadas apenas pela mente racional. Elas incluem contradições, fazer concessões, conflitos e crise. Afirmam que o conhecimento narrativo é conhecimento verdadeiro, incluindo verdade e falsidade reais. A análise racional se concentra no conhecimento cognitivo, mas a racionalidade não mitigada pela virtude e beleza conduz à feiura e ao mal. As narrativas combinam racionalidade e imaginação com as dimensões cognitiva, afetiva e avaliadora da vida em um todo único. Jerry Camery-Hoggatt escreve: Onde o discurso racional define a verdade de acordo com a precisão e as proposições verificáveis, a narração de histórias abrange esses termos, mas os coloca em um cenário mais amplo, que inclui a fidelidade, a integridade, a coragem, a descoberta, a empatia e, algumas vezes, as emoções negativas de medo, raiva e ódio. O discurso racional visa à coerência lógica, à clareza de exposição, à simplicidade da linguagem [...] e ao rigoroso esclarecimento da ambiguidade. As narrativas se movem em outra direção: elas desenvolvem e exploram a ambiguidade e a polivalência, escolhem o momento para transmitir a informação a fim de criar suspense, surpreender ou envolver seus ouvintes em novas perspectivas sobre a condição humana (2006, p. 461). As histórias não são uma farsa sem sentido. Elas recolhem as partes espalhadas e as unem em um todo significativo. Eugene Peterson escreve: “Aprender histórias não é o mesmo que aprender tabuada. Uma vez que aprendemos que três vezes quatro é igual a doze, já o sabemos e não há o que acrescentar. É um fato que não muda. Os dados são armazenados em nossa memória prontos para serem acessados. Mas as histórias não são assim; elas crescem e se aprofundam [...]. As histórias continuam apresentando novas percepções a cada nova situação. À medida que trazemos novas experiências e percepções à história, ela reúne esse enriquecimento e o devolve em formas novas a nós” (1997, p. 36-7). No cerne das cosmovisões, estão mitos e histórias fundacionais ou de raiz que moldam nossa forma de ver e interpretar nossa vida. Para as pessoas modernas, os mitos trazem o conceito de histórias fictícias que não são verdadeiras, apenas imaginadas; ou são filosofias primitivas pré-lógicas que as pessoas pré-modernas “em algum tempo” consideraram verdadeiras e usaram para acalmar seus temores, projetando-os para esses misteriosos seres; ou eles não são fundamentalmente diferentes das lendas e fábulas. Na antropologia , o termo assume um significado técnico. Um mito é uma narrativa abrangente, maior que a história e tida como verdade, que serve como paradigma para as pessoas entenderem as histórias mais abrangentes, em que as vidas comuns estão incorporadas. Os mitos são histórias paradigmáticas, narrativas supremas que trazem ordem cósmica, coerência e sentido paraas experiências aparentemente sem sentido, para as emoções, ideias e decisões da vida cotidiana, dizendo às pessoas o que é real, eterno e duradouro. Robert Antoine observa: “Os mitos não são mentiras ou abordagens ‘não cientificas’ de segunda mão, mas um método sui generis e insubstituível de assimilar verdades que, de outra forma, permaneceriam inacessíveis a nós”. E completa: “‘A linguagem dos mitos é a memória da comunidade’, de uma comunidade que mantém seus vínculos unidos porque é uma ‘comunidade de fé’” (1975, p. 57). Os mitos são “uma ressurreição narrativa de uma realidade primitiva, contada para satisfazer os profundos desejos religiosos, anseios morais, submissões sociais, afirmações e até mesmo requisitos práticos” (Malinowski 1926, p. 19). A mitologia de um povo serve como um repositório cultural de verdade, sentimentos e costumes que funciona para validar seus sistemas de crenças . Os mitos codificam e transmitem crenças, expressam os sentimentos mais profundos e definem e impõem a moralidade . Eles não são contos inúteis, mas forças ativas e diligentes. Não são explicações intelectuais ou imagens artísticas, e sim constituições de vida e de sabedoria moral. Os mitos dão sentido, olham abaixo da superfície para o que está realmente acontecendo neste mundo. São arquétipos da existência humana, contados em forma de história por pessoas comuns, que não são filósofos, para dar sentido a sua vida e expressão ao profundo estresse emocional e moral que enfrentam. As histórias humanas mudam, mas os mitos permanecem e dão vida. Ao falar indiretamente de coisas que, de outra forma, seriam muito difíceis de os seres humanos ouvirem, eles obrigam as pessoas a descobrir o significado por meio da imaginação e do pensamento ativos até que as verdades penetrem nelas. Os mitos falam da verdade eterna que transcende o tempo em oposição à verdade empírica, que é restrita ao tempo e à linguagem. Os mitos são também constituições morais, estabelecendo o que é aceitável e inaceitável na sociedade. Definem e ilustram o bem e o mal nas histórias de heróis e vilões. Finalmente, os mitos informam às pessoas sobre a comunidade a que elas pertencem, seu lugar nela e a ordem moral da sociedade. Ser parte de um povo é ser parte de sua história. Rollo May escreve: “nossa intensa fome por mitos é a fome por comunidade [...]. Ser membro de uma comunidade é compartilhar seus mitos, sentir o mesmo orgulho que brilha dentro de nós [...]. A pessoa de fora, o estrangeiro ou o estranho, é alguém que não partilha de nossos mitos” (1991, p. 45). Neste sentido técnico, o Êxodo no AT é tanto história como mito. Historicamente ele ocorreu. Mitologicamente, tornou-se a história que os israelitas usavam para interpretar sua história. Sempre que eles estavam em dificuldades, recordavam o Êxodo e atribuíam seus problemas a seus pecados e à sua rejeição de Deus. O que eles precisavam fazer, portanto, era se arrepender e se voltar para o Senhor, e ele os libertaria exatamente como havia feito no tempo de Moisés. Os mitos-raiz, como as metáforas-raiz , são elementos importantes nas cosmovisões (fig. 2.12). No hinduísmo, os humanos vivem no tempo humano, os deuses no tempo dos deuses, e os animais no tempo animal. O que demora uma vida inteira para o ser humano é apenas um momento na vida dos deuses. Muitos mitos têm deuses renascendo na Terra, vivendo uma vida inteira e voltando à esfera dos deuses — tudo em um piscar de olhos no tempo celestial. Vishnu, um dos grandes deuses hindus, vive por cem anos divinos — ou 3,15 trilhões de anos humanos. Toda noite ele dorme doze horas e sonha com o mundo, que passa por mil ciclos de quatro eras cada. Todo dia ele acorda, e o mundo deixa de existir. Figura 2.12 O ASPECTO CENTRAL DE UMA COSMOVISÃO Metáforas-raiz Mitos-raiz • sincrônicas • estrutura da realidade • entender como a realidade opera • diacrônicos • história da realidade • dar significado à realidade Mircea Eliade observa que os antigos hebreus viam o tempo como linear (1975). Eles tinham um forte senso de história, compreendendo-a como uma série de eventos ordenados em uma ampla sequência, começando com a Criação e prosseguindo com o nascimento de Moisés, o Êxodo, o período dos juízes, a época dos reis e o Exílio na Babilônia.¹⁸ Esses eventos não apenas eram parte de uma narrativa contada na história, mas a própria história era parte de um drama cósmico. Os hebreus estavam interessados em organizar esses eventos não de maneira uniforme ao longo de uma linha de tempo linear de datas impessoais, mas em revelar uma história ou enredo em que os eventos designavam diferentes etapas de seu relacionamento com Deus. Para os primeiros cristãos, a história também era real, não em termos da passagem do tempo cronológico impessoal, mas da revelação gradual de um drama cósmico registrado na história. Eles dividiam a história em dois períodos — do início do mundo até a encarnação , e da primeira vinda de Cristo a seu retorno final. Na Idade Média, os historiadores europeus não estavam preocupados com datas. “O tempo, além do período de vida do indivíduo, não era concebido como uma linha reta dividida em partes iguais, mas como um palco para a representação do maior de todos os dramas: salvação versus condenação” (Crosby 1997, p. 28). A ênfase judaica na descoberta de significado na história também moldou as cosmovisões modernas, incluindo o cristianismo , o marxismo e o capitalismo . O marxismo vê o início da humanidade em um mundo idílico de comunidades tribais caracterizadas pela igualdade e pelo cuidado mútuo. A história humana declinou à medida que sistemas sociais e culturais opressivos desumanizaram as pessoas. O que é necessário é uma revolução e uma restauração do estado ideal. O capitalismo, por outro lado, vê os seres humanos iniciando em um estado primitivo ou atrasado e a história como um processo de crescimento. Este conceito de tempo está por trás das ideias modernas de desenvolvimento e progresso. Combinando as análises sincrônica e diacrônica, temos um modelo para estudar as cosmovisões (“Apêndice 1”). Utilizaremos esse modelo para estudar cosmovisões específicas depois de examinarmos a relação das cosmovisões com os sistemas culturais e sociais. Implicações missiológicas Os cristãos devem levar a sério as cosmovisões de outras pessoas, não porque concordem com elas, mas porque desejam entender as pessoas a quem servem para compartilhar com elas, de forma eficaz, as boas-novas do evangelho. As cosmovisões não são apenas retratos imaginários criados por uma comunidade para unir seus membros e controlá-los. A maioria das pessoas considera que suas crenças são mais do que ficções úteis. Para elas, suas cosmovisões declaram como as coisas realmente são, além de serem verdadeiras em sentido final. É importante entender as cosmovisões das pessoas com base em suas experiências, seus pressupostos e sua lógica. Uma descrição fenomenológica do seu mundo não é suficiente. É igualmente importante comparar diferentes religiões para desenvolver parâmetros metaculturais que facilitem a compreensão e a avaliação delas. Essas comparações fornecem percepções valiosíssimas sobre a natureza não só de diferentes religiões, mas também das aspirações religiosas do coração humano. Finalmente, é importante estudar as cosmovisões para transformá-las. Com muita frequência, a conversão ocorre em níveis superficiais de crenças e comportamentos, mas, se as cosmovisões não são transformadas, o evangelho é interpretado segundo as cosmovisões pagãs, e o resultado é o cristianismo - paganismo. ¹O conceito de “profundidade” tem surgido em várias áreas do conhecimento. Na linguística estrutural, Ferdinand de Saussure (1916), Roman Jakobson e Noam Chomsky (1986) investigaram o que está por trás dos fenômenos linguísticos para estudar sua infraestrutura profunda e inconsciente. Na psicologia, Sigmund Freud analisou o poder do ego inconsciente na formação do comportamento humano. Na antropologia , Claude Levi-Strauss (1978) pesquisou oselementos inconscientes das estruturas de parentesco e a temática que dá suporte aos mitos. Todos esses estudos examinam os sistemas profundos e subjacentes que permitem aos seres humanos criar línguas e culturas. ²O termo “analógico” é utilizado de duas maneiras distintas, o que gera grande confusão. No que diz respeito à lógica, ele se refere às analogias. Na teoria dos conjuntos, o termo trata dos conjuntos analógicos como distintos dos conjuntos digitais. ³Depois de ouvir música indiana com seus melismas contínuos [deslizar de uma nota para outra], os ocidentais frequentemente perguntam quando os músicos irão “tocar uma nota limpa”. Eles estão querendo ouvir escalas bem definidas, que soam, para os ouvidos orientais, como algo mecânico e sem vida. ⁴Conjuntos fuzzy foram analisados pela primeira vez por L. A. Zadeh (1965). Para uma discussão sobre a lógica fuzzy, veja H. Zimmerman (1985). O termo fuzzy transmite uma ideia errada. Em matemática , os números têm quatro níveis crescentes de mensuração: nominal, ordinal, intervalar e de razão (proporcional). Conjuntos determinados são intervalares e levam a uma lógica intervalar. Conjuntos fuzzy são proporcionais e geram uma lógica proporcional. Essa é a diferença entre a álgebra e o cálculo. A matemática analógica é mais pujante que a matemática digital, porque lida com um conjunto infinito de categorias. ⁵A intersecção de conjuntos bem-ordenados e conjuntos fuzzy , bem como de conjuntos intrínsecos e conjuntos extrínsecos conduz a quatro maneiras de gerar categorias. As implicações desse fenômeno para o evangelismo e a plantação de igrejas são examinadas em Hiebert 1994, p. 107-36. Aqui, utilizaremos a definição de signos proposta por Peirce . Para ele, signos são a categoria abrangente das formas que representam alguma realidade, seja ela real, seja percebida. Os signos se dividem em símbolos, ícones e índices. Nos símbolos, a ligação entre signo e realidade é elaborada socialmente e de maneira arbitrária. Exemplos de símbolos seriam o alfabeto da língua portuguesa e a maioria das palavras. Nos ícones, há uma semelhança entre o signo e a realidade. A maioria dos ícones é polissêmica e tem muitos sentidos. Exemplos são os ícones de uma tela de computador: um desenho de uma impressora, uma seta e uma pasta. Índices transmitem o significado não do objeto em si, mas de seu lugar em uma ordem mais ampla das coisas. Exemplos seriam pastas organizadas alfabeticamente e a classificação de livros utilizando o método de catalogação da Biblioteca Nacional. ⁷Os números têm quatro níveis de mensuração: nominal, ordinal, intervalar e de razão (proporcional). Os numerais nominais exprimem números absolutos que não precisam se referir ao mesmo tipo de coisa. Uma mulher tem quatro animais de estimação, e outra tem um — mas os quatro animais da primeira são gatos, e o animal da segunda é um leopardo. Números ordinais mostram uma sequência, mas sem um intervalo uniforme. Em uma corrida, o primeiro e o segundo a cruzarem a linha de chegada podem ter feito isso com uma diferença de segundos, ao passo que o terceiro cruzou a linha de chegada minutos depois. Números intervalares são discretos e têm uma distância uniforme entre si. Números de razão (proporcionais) são os mais complexos e se referem a números ao longo de um continuum infinito. ⁸Diferentemente do direito francês, que está baseado no Código Napoleônico aplicado mediante a lógica algorítmica a casos específicos, o direito britânico se fundamenta no conjunto de leis e na comparação com os casos precedentes: stare decisis. Paul Radin demonstra que, em sociedades tribais pequenas, às vezes consideradas “primitivas”, há filósofos e cientistas que refletem sobre questões mais profundas da realidade (1927). ¹ N. Troubetzkoy, o fundador da linguística estrutural, alterou a análise linguística do estudo dos fenômenos linguísticos conscientes para o estudo de sua infraestrutura inconsciente. Ao fazê-lo, ele se concentrou na natureza estrutural fundamental da linguagem. Em vez de focalizar as unidades, ele examinou as relações entre as unidades e introduziu o conceito de sistema/estrutura na linguística. ¹¹Thomas Kuhn (1970) introduziu o conceito de paradigma ao estudo dos sistemas de conhecimento humano. Margaret Masterman (1970) e Ian Barbour (1974) o elaboraram com base na natureza e nas funções dos paradigmas de conhecimento. ¹²Ludwig von Bertalanffy argumenta, contra a posição de Kant , que as categorias de espaço, tempo, número, causalidade, ego e outras não são estabelecidas de uma vez por todas como conceitos apriorísticos válidos para cada ser racional, mas são produtos de um longo e tortuoso desenvolvimento cultural (1981, p. 97). ¹³Citado por Alfred Crosby (1997, p. 93). Para uma análise das concepções científicas modernas sobre o tempo, veja Hawking 1988. ¹⁴Ironicamente, isso ocorreu em monastérios, onde os relógios foram inventados para ordenar a agenda diária dos monges. ¹⁵Em 1459, o frade Mauro fez um mapa-múndi em que a Ásia era tão grande que empurrava Jerusalém para fora do centro. Ele explicou: “Jerusalém é de fato o centro do mundo habitado, em sua latitude, ainda que, em termos de longitude, ela esteja um pouco mais para o ocidente; mas como a parte ocidental tem maior densidade populacional por causa da Europa, então Jerusalém também é o centro longitudinal do mundo, se desconsiderarmos os espaços vazios e nos concentrarmos na densidade populacional” (citado em Crosby 1997, p. 57). ¹ Quando usamos o adjetivo “realista” nos referimos a um quadro da natureza que é geometricamente exato conforme a visão do observador. De modo diferente, os quadros muçulmanos tradicionais têm as superfícies extraordinariamente decoradas, sem ilusão da profundidade real, e as paisagens das pinturas chinesas, que apresentam uma impressão de grande profundidade, não têm um ponto de vista fixo (Crosby 1997, p. 190). ¹⁷George Jennings indica que a maioria dos missionários protestantes enviados dos Estados Unidos entre 1890 e 1950 veio de fazendas do Centro-Oeste. Eles levaram consigo sua mentalidade espacial quando saíram do país. Dividiram as terras entre as denominações usando o princípio da política de boa vizinhança [comity]. Cada denominação dividia seus territórios em “campos” e designava uma família missionária para cada um deles. A maioria dos missionários em áreas rurais vivia isolada em seu campo. Eles se encontravam com colegas de ministério em reuniões missionárias, que aconteciam duas ou três vezes no ano, para ter comunhão e tratar de questões administrativas. ¹⁸Mircea Eliade argumenta que a concepção de que o sentido é encontrado na história real, que contém uma “narrativa ” ou um “enredo”, originou-se com os hebreus e tem moldado cosmovisões de cristãos, muçulmanos, marxistas e ocidentais secularizados (1975). Isso está em nítido contraste com as cosmovisões do hinduísmo e do budismo, em que uma clara distinção é feita entre história e lenda. 3 COSMOVISÕES EM CONTEXTOS HUMANOS Um estudo das cosmovisões deve examinar não só sua natureza, mas também o papel delas nos contextos mais amplos da vida humana. Para isso, devemos começar com a fenomenologia , com estudos detalhados sobre os seres humanos e seus contextos a fim de entendê-los e descobrirmos de que forma veem seus mundos. Mas como faremos isso? Como vimos, duas vertentes principais de análise humana surgiram: a sincrônica e a diacrônica. A primeira observa a estrutura da realidade através de uma fração de tempo, analisando as partes e como elas se relacionam entre si. Seu ponto forte está no fato de que considera a estrutura básica dos seres humanos — comum a todos eles — e como ela opera para tornar a vida possível. Por exemplo, os seres humanos são estudados por físicos, químicos, biólogos, psicólogos, sociólogos, antropólogos e teólogos sistemáticos. Cada um acrescenta sua perspectiva e lança luz sobre a natureza integral do ser humano. Mas os estudos sincrônicos têm suas limitações. Eles deixam de lado o fato deque os seres humanos estão no tempo e em constante mudança. Suas teorias são apresentadas como supra-históricas e universais, aplicáveis a todos os seres humanos. Essas teorias tendem também a ser altamente abstratas e difíceis de aplicar às particularidades da vida cotidiana. Em certo sentido, são como uma visão dos seres humanos de um helicóptero, que os capta em termos gerais e negligencia a singularidade de cada indivíduo. Além disso, devido à especialização, as teorias são separadas em diferentes tradições de pesquisa, e há poucas tentativas de elaboração de uma teoria integrada baseada nas percepções de todas as áreas. A segunda abordagem ao estudo dos seres humanos é diacrônica. Nela, o tempo é a variável central. O foco está na história de cada indivíduo, comunidade e nação, e em como eles se encaixam em uma única história humana abrangente. Essa abordagem tem dois pontos fortes: reconhece os seres humanos como pessoas reais, com todas as suas particularidades e idiossincrasias, e escuta as histórias que dão sentido às suas vidas. O ponto fraco é que as percepções dos estudos diacrônicos não são tão facilmente concatenadas. As duas análises, sincrônica e diacrônica, são necessárias para entender os seres humanos. Essas perspectivas não são concorrentes, mas complementares. No entanto, quando uma está em foco, a outra não está, o que torna difícil manter as duas em mente ao olharmos através das lentes de cada uma delas. Integrando perspectivas múltiplas Como podemos utilizar as percepções de maneiras diferentes e potencialmente complementares de estudo das pessoas? Primeiro, analisaremos as abordagens sincrônicas, seus componentes e como eles são organizados em modelos mais amplos. A seguir, observaremos os seres humanos diacronicamente: suas histórias pessoais, comunitárias e humanas. Reducionismo A maneira mais simples de integrar diferentes perspectivas sincrônicas (física, biológica, psicológica, social, cultural e espiritual) é por meio do reducionismo, que reduz todas as percepções a um único nível de análise. Verdades religiosas são reduzidas a crenças culturais; crenças culturais, a elaborações sociais; sociedades são reduzidas a agrupamentos de indivíduos humanos; humanos, a animais; animais, a reações químicas; reações químicas, a partículas atômicas; partículas atômicas, a partículas quânticas. No final, tudo é um epifenômeno, incluindo os seres humanos. No entanto, essa forma de integrar o conhecimento é autodestrutiva. Ludwig von Bertalanffy escreve: “Quanto a essa teoria, discordo fundamentalmente dela não por causa [...] de preconceitos metafísicos, mas porque a teoria não corresponde aos fatos. [...] Seres humanos (e organismos em geral) não são máquinas de estímulo-resposta, como a teoria pressupõe” (1981, p. 15). Visto que os cientistas estão basicamente estudando a si mesmos, eles e suas teorias nada mais são do que cordas vibrando em sequências diferentes. Uma aplicação particularmente devastadora do reducionismo envolve a ciência e a teologia. Uma forma é o reducionismo científico (fig. 3.1). Ele é comum entre os cientistas não cristãos que rejeitam as asserções do cristianismo . Alguns argumentam que o cristianismo é uma ficção útil, que mantém as sociedades unidas. Outros o veem como ópio prejudicial, que justifica os sistemas sociais opressivos. Muitos consideram o cristianismo uma elaboração humana que tem pouca relação com asserções da verdade. Um dos pressupostos fundamentais sobre o qual muitas teorias científicas são desenvolvidas é o de que a ciência é verdadeira e a religião não o é. Isso exclui Deus de nosso mundo cotidiano e destrói nossa fé nele. Poucos cristãos conscientemente admitiriam esse reducionismo, mas sua influência pode ser observada no pensamento e na vida cristã. Figura 3.1 UMA ABORDAGEM REDUCIONISTA À INTEGRAÇÃO Uma segunda forma de reducionismo é o reducionismo teológico (fig. 3.1). Alguns cristãos rejeitam completamente o conhecimento científico. Atribuem todos os problemas humanos, como doenças, a causas espirituais e se recusam a buscar respostas na ciência, com medo de que ela os afaste da fé. Outros estão dispostos a fazer uso do conhecimento científico porque é útil, mas não examinam com seriedade suas bases conceituais. Há um perigo real nesse reducionismo teológico. Em primeiro lugar, certa desonestidade intelectual é inerente a ele. Por um lado, a maioria de nós está disposta a usar o que as ciências têm a oferecer — medicina moderna, automóveis, televisão, aviões, computadores, telefones celulares, teorias da comunicação, dicas de aconselhamento e conhecimento das sociedades humanas. Por outro, não estamos dispostos a dar o devido crédito por esses avanços no conhecimento humano e na tecnologia. Em segundo lugar, e mais grave, ao usar as ideias e os produtos das ciências para propósitos práticos, sem querer trazemos seus pressupostos para nosso modo de pensar. Não é incomum, por exemplo, encontrar cristãos que expressam fé nas Escrituras, mas que vivem suas vidas com base no pragmatismo e no materialismo . Estratificação Uma segunda maneira de integrar diferentes perspectivas sobre os seres humanos é a compartimentalização — que Clifford Geertz chama de “método estratigráfico”. A validade de cada sistema de pensamento é aceita, mas cada uma é designada a um compartimento diferente (fig. 3.2). Muitas pessoas, incluindo teólogos como Friedrich Schleiermacher, argumentam que as ciências são questões de fatos e verdade. A religião, dizem elas, é uma questão de sentimentos — ela oferece às pessoas experiências transcendentes significativas. Alguns, como Immanuel Kant , alegam que religião é uma questão de moralidade — ela proporciona às pessoas os valores que regulam seu comportamento e tornam a vida coletiva possível. A maioria dos cristãos rejeita essa visão. Eles defendem que o cristianismo está relacionado a fatos e verdade, bem como a sentimentos e moralidade. A modernidade nos impõe outro dualismo estratigráfico. Como Lesslie Newbigin (1989) observa, no Ocidente a ciência é vista como verdade pública. Todos os estudantes, incluindo os de escolas cristãs, devem estudar Matemática, Física, Química e Ciências Sociais. No entanto, a religião é vista como uma questão de verdade pessoal, uma questão de fé, não de fatos e verificação experimental. Não se exigem aulas sobre cristianismo , islamismo ou hinduísmo. Aliás, as religiões não podem ser ensinadas como verdades em escolas públicas. Embora essa compartimentalização permita que pessoas de diferentes áreas de conhecimento e religiões convivam pacificamente, ela abala a convicção de que suas crenças fazem parte da verdade maior. As “crenças” cristãs acabam dirigindo somente a vida dos cristãos no lar, enquanto a “verdade” científica rege suas vidas públicas. Figura 3.2 UMA ABORDAGEM ESTRATIGRÁFICA AO ESTUDO DOS SERES HUMANOS Uma forma mais sutil de compartimentalização encontra ampla aceitação nos círculos cristãos. Muitos cristãos afirmam a verdade cristã em relação ao evangelho e a assuntos sobrenaturais, como pecado, salvação , milagres e profecias, mas utilizam teorias científicas para explicar e responder aos “eventos naturais” imediatos, como doenças, tecnologia e tomada de decisões comerciais. Isso resulta em um cristianismo voltado para o outro mundo e na secularização da vida cotidiana. Também produz uma clara distinção entre evangelismo, visto como uma questão espiritual, e obra social, como o cuidado com a saúde e a educação, que são deixados para as ciências. Uma variação recente desse dualismo é o uso da teologia para definir o evangelho, por um lado, e o emprego de métodos das ciências sociais e dos negócios para o crescimento de igrejas, por outro. Essa abordagem corresponde à cosmovisão ocidental, com sua ênfase no controle humano, no planejamento, no pragmatismo, na resolução de problemas e na necessidade “de fazer algo”. Reduzir o cristianismo a emoções, valores , opiniões pessoais ou verdade sobrenatural seculariza grandes áreasde nossa vida. Se pregamos a Cristo, mas nos voltamos para as ciências seculares buscando respostas para os problemas cotidianos, nós o perdemos de vista. Embora estejamos ocupados planejando e trabalhando, há muito pouco de Deus no que fazemos. A Bíblia é clara: Deus criou os céus e a terra, incluindo os seres humanos, e ele continua constantemente envolvido com ambos. Integração Uma terceira abordagem para combinar diferentes perspectivas no estudo dos seres humanos é integrá-las em uma única teoria. De maneira ideal, gostaríamos de que uma grande teoria unificadora reunisse todo o conhecimento em um único sistema de explicação. Na realidade, isso é impossível, porque somos seres humanos finitos e não podemos, ao mesmo tempo, compreender a história completa de Deus e deste universo e sua infinita complexidade. Na melhor das hipóteses, nossas teorias são explicações parciais da realidade. Também é verdade que vivemos em culturas humanas que moldam nossa forma de pensar e viver. Não podemos ocupar uma posição fora das sociedades e culturas. Até mesmo nossas tentativas de estabelecer parâmetros metaculturais comparativos são desenvolvidos com símbolos e padrões de pensamento de determinadas culturas. Para unir diferentes perspectivas, precisamos reconhecer que cada uma se concentra em certos aspectos dos seres humanos e, por necessidade, exclui muitos outros. A analogia com os mapas nos ajuda a compreender a natureza do conhecimento humano. Para entender uma cidade, precisamos de vários mapas: cada um deles nos informa alguma verdade sobre ela. Precisamos de mapas de estradas, jurisdições políticas, sistemas de esgoto e elétrico, zonas de construção e assim por diante. É impossível esboçar todos os fatos acerca de uma cidade em um único mapa. Da mesma forma, para descrever as realidades humanas, precisamos de mapas diferentes, incluindo a teologia, a antropologia , a sociologia, a psicologia, a biologia, a química e a física. Cada disciplina contribui para a compreensão do todo. Nenhuma é completa em si mesma. Outra analogia útil são as plantas baixas de uma construção. Para construir uma casa, precisamos de vários tipos de plantas diagramando diferentes partes do edifício: estrutura, fiação, encanamento e paisagismo. A analogia das plantas é adequada porque há uma planta principal que apresenta a estrutura básica da casa. Como cristãos, sustentamos que essa planta principal é uma cosmovisão bíblica que nos ajuda a ver o grande quadro da realidade apresentada nas Escrituras e na natureza. Essa planta começa com o Deus da Bíblia e abrange a realidade de uma criação ordenada, seres humanos criados à imagem de Deus, a Queda , a Redenção por meio da morte e ressurreição de Cristo, e a vida eterna em Cristo. A expressão plena dessa cosmovisão é encontrada no Novo Testamento e nos ensinamentos de Jesus . A teologia, a ciência e as ciências humanas mapeiam os detalhes e as aplicações dessa cosmovisão. Quando entram em conflito, precisamos reexaminar nossas diferentes compreensões, como também nossa cosmovisão, para encontrar uma solução. As plantas da mesma casa precisam se complementar, ou seja, as informações que fornecem devem se encaixar sem conflito algum. Por exemplo, a planta da fiação elétrica não deve apresentar a passagem de fios onde a planta estrutural não mostra nenhuma parede. Do mesmo modo, consideramos seriamente as teorias de cada disciplina em relação ao próprio contexto, as perguntas que levantam, os dados que coletam e os métodos que legitimam, mas precisamos verificar também se elas são congruentes com outras teorias. SISTEMAS Nos últimos anos, as abordagens de sistemas têm surgido como um modelo convincente para o estudo de realidades complexas. O pioneiro dessa abordagem foi Ludwig von Bertalanffy (1968). Desde sua introdução, o conceito passou por elaboração e crítica e agora oferece uma teoria bem desenvolvida de organizações complexas. A teoria dos sistemas é usada atualmente para entender campos complexos, como a ecologia, a psicologia, a vida, as forças armadas e instituições organizacionais. Figura 3.3 CAUSALIDADE LINEAR E SISTÊMICA O que é um sistema? Howard Brody e David Sobel apresentam uma boa definição: “Um sistema é um conjunto organizado de elementos considerados como um todo composto de partes interdependentes. As partes podem ser substituídas por partes semelhantes sem prejudicar seriamente o sistema, mas a alteração da organização entre as partes danificará o sistema. Cada sistema pode ser parte de outro sistema mais elevado. Um padrão hierárquico de sistemas pode ser formado para representar os sistemas vivos ” (1979, p. 3). Os sistemas veem a causalidade como multidirecional. Tanto abordagens reducionistas quanto estratigráficas à integração são baseadas em lógica linear. A causa B, que, por sua vez, causa C. Para integrar as diferentes partes, precisamos de uma visão sistêmica de causalidade. A pode causar B e C, mas B e C também podem causar A (fig. 3.3). Os três estão relacionados, e a mudança em qualquer um deles afeta os outros dois. Bertalanffy escreve: “Não se pode resumir o comportamento do todo com base nas partes isoladas, e deve-se levar em conta as relações entre os vários sistemas subordinados e os sistemas que são supraordenados a eles a fim de compreender o comportamento das partes” (1968, p. 68). Em sistemas, nenhuma variável é a causa fundamental para a mudança. Mudanças sociais podem levar a mudanças culturais, psicológicas e biológicas. Mas mudanças originárias da cultura provocarão transformações na organização social, nos tipos de personalidade e na cultura material . Da mesma forma, transformações espirituais afetarão as dimensões sociais, culturais e outras dimensões da vida humana. Figura 3.4 UMA ABORDAGEM SISTÊMICA AO ESTUDO DOS SERES HUMANOS A causalidade multidirecional muitas vezes leva a ciclos de feedback em que mudanças em uma variável acarretam mudanças em outras variáveis, que, por sua vez, afetam a variável original. Há basicamente dois tipos de feedback: um feedback negativo, para fazer o sistema voltar ao equilíbrio anterior, e um feedback positivo, para estimular o crescimento e a maturação. Cada nível hierárquico tem seus padrões de informação específicos. Além disso, o fluxo de informação não se limita a um nível hierárquico. Ele pode influenciar os níveis adjacentes e até mesmo transpor esses níveis para influenciar níveis bem mais distantes. Os sistemas têm duas características. Em primeiro lugar, o todo é maior que a soma de suas partes e diferente dela. Os elementos individuais não podem ser adequadamente compreendidos fora de seu lugar no sistema. Na verdade, os sistemas vivos complexos não podem ser entendidos como a soma de suas partes, mas precisam ser entendidos de acordo com a maneira pela qual as partes e os subsistemas funcionam, sobretudo como elas mudam continuamente sua relação umas com as outras e com o sistema — e com o ambiente ao redor. O elemento intrigante nessa visão sistêmica é que todos os seres vivos e todos os seus subsistemas estão espontaneamente ativos. Segundo, os sistemas são frequentemente estruturados de tal forma que os membros individuais são sistemas no nível imediatamente inferior. As estruturas hierárquicas resultantes combinam sistemas em níveis de ordem cada vez mais elevados. No nível mais elevado, estão o que alguns chamam de um “sistema de sistemas” (fig. 3.4). SISTEMAS MECÂNICO E ORGÂNICO Os sistemas podem ser divididos em dois tipos gerais: mecânico e orgânico. Exemplos do primeiro são as máquinas complexas, como automóveis e computadores. São sistemas fechados baseados na noção de equilíbrio ou de estase, para a qual a ameaça de desorganização se origina principalmente de forças externas.¹ Os sistemas vivos , por outro lado, são sistemas abertos. Exemplos deles são seres vivos, como células, órgãos (e.g., fígado, coração) e organismos (e.g., plantas, animais, seres humanos). Abrangem também sistemas maiores formados por seres vivos, como um formigueiroou uma colmeia. Em sistemas humanos, esses sistemas maiores incluem grupos, organizações, sociedades e, por fim, a rede humana global. Os limites dentro e entre os sistemas vivos são frequentemente difusos ou fuzzy. Vamos nos concentrar aqui apenas em sistemas humanos vivos (fig. 3.5). Os sistemas vivos compartilham diversas características. Primeiro, em contraste com sistemas mecânicos saudáveis, que são estáticos e em que a maioria das mudanças são sinais de mau funcionamento, tudo o que é vivo está em desequilíbrio e alterações constantes. Nenhum sistema vivo é estável por muito tempo. Mudanças podem ser boas ou ruins, mas equilíbrio é uma forma de morte. Esse atributo de mudar é notavelmente semelhante entre um espectro inesperado de coisas vivas, que abrange desde simples células a seres humanos, corporações, Estados-nação, sistemas globais e a Terra. Os sistemas podem mudar em qualquer momento que seus contextos se alterem. O oposto pode ser compreendido com uma ilustração. Aviões são máquinas voadoras. No voo, eles permanecem essencialmente inalterados. As aves são seres que voam. Durante o voo, elas constantemente alteram suas asas, penas e a forma do corpo para regular seu voo. Os aviões consomem combustível de modo impessoal. As aves digerem os alimentos e os convertem em muitos compostos diferentes, necessários para mantê-las vivas e voando. Em segundo lugar, as mudanças em organismos são sistêmicas. Elas podem se iniciar em qualquer uma das partes ou sistemas, e estes afetam outros sistemas ou o sistema dos sistemas como um todo. Um ciclo de feedback é a propriedade que define os sistemas não lineares. Os sistemas vivos não operam simplesmente; eles mudam. Nessa visão, os seres vivos em um sistema não são apenas partes mecânicas ou objetos controlados pelo sistema, são partes ativas na formação do todo. O resultado é o foco não apenas no sistema, mas nos indivíduos que o constituem. Isso introduz questões morais porque trata as partes como seres vivos, não como objetos inanimados. Em terceiro lugar, mudanças nos sistemas vivos resultam da mudança na relação com seus ambientes. “Os sistemas vivos estão continuamente trocando matéria, energia e informação com seus ambientes e precisam periodicamente adaptar suas atividades internas para acomodar mudanças no ambiente. O ambiente é simples e relativamente definido como todas as coisas fora dos limites do sistema” (Brody; Sobel 1979, p. 7). Finalmente, novos elementos introduzidos em um sistema normalmente são reinterpretados na estrutura dele. Por exemplo, quando os comprimidos foram apresentados pela primeira vez a povos tribais de Papua Nova Guiné, eles os viram como formas novas e mais poderosas de magia. NÍVEIS DE SISTEMAS Ao observar sistemas vivos , podemos examinar os diferentes níveis de organização. Os órgãos humanos são constituídos de células diferentes, cada uma das quais nasce, vive, realiza sua função em todo o sistema e morre. Os órgãos, por sua vez, podem ser vistos como subsistemas dentro do corpo humano biofísico. Do mesmo modo, as dimensões físicas, biológicas, psicológicas e espirituais de um ser humano interagem para formar uma pessoa completa. Mas as pessoas não são seres autônomos. São produtos de sistemas humanos coletivos e contribuem com eles — sistemas sociais que as organizam em sociedades e sistemas culturais que codificam suas crenças , sentimentos e valores . Além deles, devemos acrescentar os sistemas espirituais, pois os seres humanos são realidades espirituais e, portanto, estão relacionados aos anjos, aos anjos caídos e a Deus, a fonte de toda a criação. Figura 3.5 SISTEMAS MECANICISTA E ORGÂNICO Mecanicista • são estáticos; a mudança é ruim; novos modelos aperfeiçoados substituem os antigos; • são dirigidos pela causalidade linear; a mudança se inicia em um ponto e afeta outras áreas; • envelhecem, fomentam o enrijecimento das categorias, a rigidez aumenta, morrem; • exemplos: antigas corporações, burocracias com gerência de cima para baixo, comunicação que precisa ser transmitida por canais; • são gerenciados por engenharia e controle. Por último, ao interpretar os seres humanos, é importante que façamos uma abordagem de um sistema de sistemas que evite o reducionismo e as abordagens estratigráficas para estudo de seres humanos e também evite a negação de realidades espirituais. Devemos reconhecer que os limites são “permeáveis” dentro e entre os sistemas vivos . Precisamos perceber que mudanças podem ser iniciadas em qualquer um dos sistemas ou subsistemas e perceber que elas afetam todos os outros sistemas humanos. Além disso, quando as mudanças ocorrem, devemos distinguir entre causas e sintomas. Por exemplo, problemas biológicos podem causar rupturas em nossa família (sistema social) e, por fim, nos obrigam a reexaminar nossas explicações teológicas (sistema cultural) e nossa vida de oração (sistema espiritual). De modo semelhante, viver conscientemente em pecado pode causar sintomas biológicos, sociais e culturais. Muitas vezes, ao examinar os seres humanos individual e coletivamente, é difícil encontrar a causa originária das mudanças e, portanto, é mais fácil simplesmente tratar os sintomas com a esperança de que o problema desapareça. Por um lado, os sistemas humanos são influenciados por mudanças no ambiente externo. Mudanças climáticas podem alterar radicalmente a vida social, cultural e pessoal dos indivíduos em uma sociedade. Por outro, mudanças nos sistemas humanos afetam os sistemas do ambiente externo, por exemplo, mediante o desmatamento e a expansão urbana. A abordagem sistêmica não é a resposta completa, pois sempre há a tendência de estratificar o sistema em análise. Os economistas tratam a economia como fundacional e definem o bem-estar humano, em última análise, em termos econômicos. Os sociólogos o definem da perspectiva da saúde social. Os cristãos correm o risco de definir o bem-estar da perspectiva espiritual. Uma verdadeira abordagem de um sistema de sistemas precisa classificar as prioridades do bem- estar humano, mas, ao fazê-lo, também deve reconhecer a contribuição de todos os sistemas para alcançar esse estado. Em nossa análise das cosmovisões, concentraremos nossa atenção em sistemas culturais e sociais, embora também devam ser vistos em sua relação com os sistemas físico, biológico, psicológico e espiritual dos quais fazem parte. Cosmovisões e sistemas culturais Cosmovisões fazem parte das culturas. Elas são as subestruturas sobre as quais as culturas são construídas. É importante, portanto, examinar a relação entre as estruturas profundas e de superfície de uma cultura. Como observamos anteriormente, é útil analisar a cultura como tendo três dimensões — cognitiva, afetiva e avaliadora. Começaremos examinando as estruturas cognitivas de uma cultura. Conhecimento cultural Larry Laudan fornece um modelo útil de conhecimento cultural (1977, fig. 3.6 deste volume). Ele observa que as mentes humanas funcionam em diversos níveis de abstração. Entender esses níveis é crucial para a compreensão das cosmovisões e de sua relação com as crenças e práticas culturais explícitas. Figura 3.6 NÍVEIS DE CONHECIMENTO CULTURAL CULTURA MATERIAL Na superfície, a cultura se revela no mundo material. As pessoas produzem roupas e ferramentas, constroem casas, cultivam a terra, cozinham e voam de avião. Esses produtos culturais exibem o conhecimento das pessoas e frequentemente manifestam profundos pressupostos sobre a natureza da realidade. Por exemplo, Brian Walsh mostra como as casas refletem pressupostos da cosmovisão (2006). PADRÕES DE COMPORTAMENTO Uma segunda manifestação evidente da cultura e da cosmovisão são os padrões de comportamento que as pessoas compartilham em uma sociedade: como elas se cumprimentam, como dirigem seus automóveis, como cozinham os alimentos, como dividem o trabalho na sociedade e como se relacionam entre si e com estranhos que entram em suas comunidades. Não estamos interessados no comportamento casual, mas nos padrõesde comportamento prescritos pela comunidade. SIGNOS Nosso conhecimento do mundo ao redor está fundamentado em um fluxo interminável de experiências, e cada uma delas é ímpar. Para dar sentido às experiências (dados os limites de nosso cérebro), precisamos reduzi-las a um número limitado de categorias; por isso, criamos palavras que reúnem um grande número de experiências em uma. Vemos muitos objetos diferentes e chamamos todos de “árvores”. Vemos um grande número de pessoas, cada uma com um rosto diferente, e as chamamos de “seres humanos”. É essa capacidade de generalizar e criar linguagens que nos possibilita pensar a respeito do mundo e decidir sobre os modos de ação. Além de palavras, criamos um grande número de outros sinais para experimentar e comunicar o mundo em que vivemos. Um signo é qualquer coisa que representa algo diferente na mente dos que o utilizam. Usamos expressões faciais para comunicar sentimentos, faixas para criar pistas em estradas, sinos para anunciar o culto, e perfumes e flores para falar de amor. Como seres humanos, experimentamos e compreendemos a realidade mediada por palavras, gestos, desenhos e outros signos que ligam nossas experiências a imagens em nossas mentes. Vivemos em redes de signos que criamos para classificar e compreender nosso mundo. Mary Douglas (1966, p. 36-7) descreve o processo: Como pessoas com percepções, escolhemos dentre todos os estímulos que afetam nossos sentidos apenas os que nos interessam, e nossos interesses são regidos por uma tendência de criar padrões [...]. Em um caos de impressões que mudam constantemente, cada um de nós constrói um mundo estável, em que os objetos têm formas reconhecíveis, são estabelecidos com profundidade e têm permanência. Por nossas percepções, estamos construindo esse mundo, aceitando algumas sugestões e rejeitando outras. As sugestões mais aceitáveis são as que se adaptam mais facilmente ao padrão que está sendo elaborado [...]. Com o passar do tempo e com o acúmulo de experiências, fazemos um investimento cada vez maior em nossos sistemas de classificação. Portanto, uma tendência conservadora é estabelecida e gera confiança. A qualquer momento podemos ter de modificar nossa estrutura de pressupostos para acomodar uma nova experiência, mas a experiência mais consistente está relacionada ao passado, a maior confiança que podemos ter em nossos pressupostos [...] em geral tudo o que consideramos é pré-selecionado e organizado no próprio ato de perceber. Os signos compactam um grande número de experiências em uma única categoria para que a mente humana possa compreendê-las. Os signos são blocos de construção que permitem aos seres humanos construir mundos mentais da realidade como eles a percebem. Usam esses mundos internos para viver no mundo exterior e para manipulá-lo. Em suas mentes, pensam em suas casas e se locomovem a elas. Eles mentalmente criam a imagem de uma vaca roxa, de modo que pintam sua vaca de roxo. Em resumo, é essa capacidade de criar signos que nos permite, como seres humanos, pensar e nos comunicar uns com os outros sobre o mundo em que vivemos. Os signos não são unidades isoladas. Eles fazem parte de sistemas maiores. Em português, falamos da cor “vermelha”. Esta pertence à nossa taxonomia das cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta. Assim, quando dizemos que um objeto é “vermelho”, também estamos dizendo que não é laranja, amarelo, verde, azul ou violeta. Culturas diferentes criam taxonomias diferentes² e, como veremos mais adiante, essas taxonomias refletem e reforçam as cosmovisões subjacentes. Para entender as cosmovisões como partes de sistemas culturais, é importante estudar os signos usados pelas pessoas para refletir suas crenças , sentimentos e valores , porque, ao fazê-lo, aprendemos a entender os mundos mentais das pessoas que os utilizam. RITUAIS No centro do comportamento cultural, estão os rituais. Eles variam de ritos simples — como o aperto de mãos, o ato de se inclinar ou o abraço — até festas, celebrações de Ano Novo, feiras, festivais, casamentos, bailes de máscaras, peregrinações, banquetes, dias comemorativos e rituais sagrados. Hoje, de modo geral, as pessoas consideram os rituais como interlúdios inofensivos ou como representações sem sentido. Mas os rituais desempenham um papel central na maioria das sociedades. São procedimentos de várias camadas, em que o discurso e o comportamento são socialmente prescritos. Em determinado nível, os rituais mantêm a ordem social nas comunidades humanas ao encenar as normas que organizam as relações entre as pessoas à medida que elas formam famílias, grupos, comunidades e sociedades. Em outro nível, eles dão expressão visível a profundas normas culturais que organizam como as pessoas pensam, sentem e avaliam seus mundos. Os rituais dão expressão pública à ordem moral que as pessoas acreditam ter sido criada pelos deuses, definida pelos ancestrais ou instituída pelos heróis da cultura quando ensinaram as pessoas a serem civilizadas e humanas. Pelo fato de os rituais dramatizarem de forma visível as crenças , sentimentos e valores profundos de uma sociedade, eles são de importância particular no estudo das cosmovisões. MITOS No centro das culturas, estão mitos profundos, as narrativas cósmicas que explicam como a realidade passou a existir por meio de eventos que ocorreram nos primórdios, muitas vezes resultando de atos de seres sobrenaturais. No mundo atual, a palavra “mito” transmite a ideia de histórias fictícias, que não são verdadeiras, sendo apenas fruto da imaginação. Em termos antropológicos, eles são histórias transcendentes que se acredita serem verdadeiras e que servem de paradigmas para as pessoas entenderem as histórias maiores em que as vidas das pessoas comuns estão inseridas. Os mitos são as narrativas supremas que produzem ordem cósmica, coerência e sentido às experiências, emoções e ideias aparentemente sem sentido do mundo cotidiano, dizendo às pessoas o que é real, eterno e duradouro. Os mitos observam por baixo da superfície o que realmente está acontecendo neste mundo. Eles são a linguagem não só do pensamento, mas da imaginação. Eles falam de coisas muito difíceis para o ser humano suportar, declarando-lhes essas coisas de maneira indireta, obrigando as pessoas a descobrir seus significados por meio da imaginação e pensamento ativos até que as verdades “façam sentido” a eles. Como os mitos-raiz são arquétipos da existência humana, contados em forma de história, eles são muito importantes em nossa tentativa de entender as cosmovisões. SISTEMAS DE CRENÇA Nas culturas, os signos são usados para organizar teorias mentais, que são sistemas explicativos limitados, de nível inferior, que procuram responder a perguntas específicas sobre determinado âmbito restrito da realidade. Eles fazem isso ao relacionar percepções, conceitos, noções de causalidade, comparações lógicas, etc., para formar entendimentos explícitos da realidade. Por exemplo, algumas pessoas atribuem as doenças a vírus e bactérias; outras, à ira dos ancestrais ; outras, a maldições, tabus quebrados, feitiçarias; e outras, ainda, ao destino ou carma ruim. Todas são explicações lógicas para a realidade percebida pelas pessoas em um contexto particular. São explicações alternativas para o mesmo conjunto de perguntas, neste caso: “Por que as pessoas ficam doentes?”. As próprias teorias podem consistir em diferentes níveis de generalidade, com as teorias mais amplas incluindo as mais específicas. As teorias estão embutidas em sistemas de alto nível de conhecimento. Thomas Kuhn os chama de “paradigmas”, Peter Berger fala de “esferas de consciência” e Larry Laudan se refere a eles como “tradições de pesquisa”. Vamos identificá-los como “sistemas de conhecimento”. Sistemas de conhecimento são geralmente formados por ao menos três elementos principais: (1) um conjunto de crenças sobre tipos de entidades e processos que formam o domínio de investigação; (2) um conjunto de perguntas importantes; (3) um conjunto das normasepistêmicas e metodológicas sobre como o domínio deve ser investigado, como as teorias devem ser testadas e como os dados devem ser coletados. Os sistemas de conhecimento têm funções importantes na produção de teorias. Eles indicam qual é o conhecimento contextual incontestável para as pessoas daquela tradição, identificam as partes das teorias que são problemáticas e necessitam de modificação, estabelecem normas para a coleta de dados e a verificação das teorias, e desafiam as teorias que violam as suposições fundamentais da tradição (Laudan 1996, p. 83-4). Um sistema de conhecimento ativo é composto geralmente de uma família de teorias, algumas das quais coerentes entre si, enquanto teorias rivais não apresentam a mesma coerência. O que essas teorias têm em comum é que elas procuram responder às mesmas perguntas e podem ser testadas e avaliadas utilizando as normas metodológicas da tradição de pesquisa. As ciências — por exemplo, a física, a química, a biologia, a medicina e a sociologia — são sistemas de crenças . Na teologia, as disciplinas de teologia sistemática e teologia bíblica são sistemas de crenças. Os sistemas cotidianos de crenças norte-americanos incluem mecânica de automóveis, engenharia elétrica, culinária, futebol, música erudita e agricultura. Os sistemas de conhecimento guiam os processos de pensamento e capacitam as pessoas a se concentrar na experiência, bem como a formular teorias para ajudá-las a resolver os problemas da vida e a buscar seus objetivos. Dessa forma, eles ajudam a dar sentido à vida. COSMOVISÕES Como Laudan (1977) e Kuhn (1970) ressaltam, no mais alto nível de abstração, os sistemas de crenças e uma grande medida de conhecimento de senso comum são livremente integrados em uma cosmovisão mais ampla. Uma cosmovisão é a visão mais fundamental e abrangente da realidade compartilhada por pessoas de uma mesma cultura. É a sua imagem mental da realidade que “dá sentido” ao mundo a seu redor. Essa cosmovisão está baseada em pressupostos fundacionais sobre a natureza da realidade, os “pressupostos” da vida, e reveste esses sistemas de crenças com uma aura de certeza de que, de fato, é assim que a realidade é. Questionar as cosmovisões é desafiar os próprios fundamentos da vida, e as pessoas resistem a esses desafios com profundas reações emocionais. Há poucos temores humanos maiores que a perda de um sentido de ordem e significado. As pessoas estão dispostas a morrer por suas crenças, se essas crenças tornarem suas mortes significativas. INTERLIGAÇÕES Para entender o papel das cosmovisões nos sistemas culturais, é preciso estudar sua relação com os sistemas de crenças , teorias e símbolos. É importante mostrar a ligação entre teorias e práticas explícitas e os sistemas de conhecimento mais amplos em que elas estão inseridas. É fácil ouvir o que as pessoas dizem e ver o que fazem e, em seguida, descrever sua cultura em relação a crenças e práticas específicas, como aquelas associadas à mecânica de automóveis, cozinhar, física e religião. Mas isso não leva em conta o fato de que crenças e doutrinas específicas fazem parte de sistemas de conhecimento mais amplos que buscam dar sentido à vida. É fundamental estudar as questões, os dados e os métodos que estão por trás de teorias específicas. Por exemplo, deve- se saber não só por que as pessoas acreditam que uma pessoa está possuída por espíritos, como também no que elas creem em relação à possessão em geral: quais são as suas manifestações? Quando e por que ela ocorre? Quais são as possíveis soluções? Como ela se relaciona com outras crenças? Sistemas de conhecimento legitimam as questões-chave, dados e métodos de análise que são respondidos por meio de crenças explícitas. Em seguida, é necessário mostrar como os sistemas de conhecimento estão inseridos nas cosmovisões e como eles se relacionam entre si. As cosmovisões fornecem os pressupostos fundamentais sobre a natureza da realidade e sobre o certo e o errado que os sistemas de crenças usam para elaborar suas teorias. As cosmovisões também fazem a mediação entre os sistemas de crenças quando surgem conflitos. Por exemplo, no Ocidente, a tensão entre ciência e religião não pode ser resolvida simplesmente por meio da conciliação das duas no nível de teorias específicas, como as relacionadas com a origem da humanidade. A integração pode ocorrer somente quando ambas estão inseridas em uma cosmovisão única, que faz a mediação entre suas divergências. Valores e sentimentos culturais A maioria das pesquisas até o momento focaliza a dimensão cognitiva de culturas e cosmovisões. Deve-se ter em mente que as dimensões afetivas são igualmente importantes para moldar o modo de as pessoas viverem suas vidas. Aqui também há níveis. Na superfície, os sentimentos são manifestos por meio de objetos materiais e padrões comportamentais, que, muitas vezes, são moldados pelas cosmovisões das pessoas. Em um nível mais profundo, a afetividade é expressa em signos, ritos e sistemas de crenças . Diferentes sociedades têm formas distintas de lidar com alegria , tristeza, raiva, ódio e amor. Vamos examinar essa dimensão mais detalhadamente quando observarmos cosmovisões específicas. A terceira dimensão da cultura é a moralidade , o juízo que as pessoas fazem sobre certo e errado, justiça e pecado. Como nas dimensões cognitiva e afetiva, esses juízos são manifestos em todos os níveis de cultura, desde produtos culturais e padrões de comportamento até signos, rituais e sistemas de crenças . Analisaremos também temas morais da cosmovisão ao examinarmos cosmovisões específicas. Cosmovisões e sistemas sociais Cosmovisões culturais são criações sociais, produzidas e sustentadas pelas comunidades para entender seu mundo e nele viver. Por exemplo, os americanos criaram muitas palavras para descrever tipos diferentes de veículos motorizados, porque eles desempenham um importante papel em suas vidas. Em um nível mais profundo, a introdução de carros influenciou profundamente a forma de os americanos agora verem o mundo. Do mesmo modo, a invenção dos computadores está mudando não somente as palavras, como também as cosmovisões dos jovens ao redor do mundo. As sociedades humanas vivem em mundos diferentes, tanto externos quanto perceptivos, por isso suas cosmovisões são muitas vezes radicalmente diferentes. Por exemplo, o povo nuer vive próximo da natureza, como horticultores. Sua noção de tempo é moldada pela passagem das estações e pelos ciclos de nascimento, amadurecimento e morte. Também calculam o tempo em termos de eventos socialmente elaborados, como levantar acampamento, casamentos, festas e invasões (Evans-Pritchard 1940, p. 104). Como muitas sociedades tribais e agrícolas, eles formam seus conceitos de tempo mais pelas mudanças diárias, mensais e anuais da natureza do que as sociedades industriais contemporâneas costumam fazer. Estas, com suas luzes elétricas, fornos, aparelhos de ar condicionado e escritórios sem janelas, são, em grande medida, afastadas das influências ambientais e dos ciclos sazonais. Elas são movidas mais pelos conceitos socialmente elaborados de tempo, como horas, semanas, meses, séculos e milênios. Visto que as pessoas em uma sociedade compartilham mais ou menos a mesma cosmovisão, elas podem se comunicar umas com as outras. Os indivíduos podem ter os próprios mapas mentais, mas a vida social só é possível se eles compartilham idiomas, crenças e cosmovisões em comum. Além disso, eles usam seus signos, crenças e cosmovisões em comum em toda transação social, embora, ao fazê-lo, reforcem ou alterem essa cultura compartilhada. É importante lembrar que as cosmovisões estão entrelaçadas com os sistemas sociais. Os poderosos as utilizam para justificar a opressão dos pobres, e os pobres, para justificar rebeliões. Por exemplo, os hindus das castas mais altas explicam e justificam o sofrimento dos pobres das castas inferiores, atribuindo a eles os pecados cometidos em vidas anteriores. As cosmovisões refletem classes sociais, etnias, religiões e outras identidadescoletivas e moldam essas identidades. Os americanos ricos atribuem seu status elevado à sua raça, inteligência ou trabalho, e, muitas vezes, acusam os pobres de serem preguiçosos. Nas igrejas e escolas , muitas vezes, ocorrem debates sobre ideologia, debates que são frequentemente originados das diferenças de cosmovisão. Considerável energia é gasta e outras atividades são prejudicadas até que essas diferenças sejam resolvidas. A interação entre cosmovisões e sistemas sociais é evidente quando as normas são quebradas. Quando isso acontece, os indivíduos e grupos na sociedade traçam estratégias para impor o que acreditam ser as normas do grupo. Cada lado quer que o outro participe do jogo de acordo com suas regras. Em suma, as cosmovisões moldam o comportamento, mas, quando o comportamento é violado, o poder social tenta impor cosmovisões particulares à comunidade. Cosmovisões e outros sistemas As culturas com suas cosmovisões estão ligadas a outros sistemas, que as moldam e são moldados por elas. Não podemos entrar em detalhes aqui sobre esses contextos em que as cosmovisões operam, mas devemos mantê-los em mente para entender o papel das cosmovisões nas atividades humanas. Um desses contextos é o sistema pessoal . Cada ser humano pode ser estudado como um sistema, e cada pessoa tem uma compreensão parcial do mundo em que vive. Experiências pessoais desempenham um papel importante no modo de cada indivíduo adaptar a cosmovisão aprendida de sua cultura. Geralmente, essas variações são mínimas. Para uma sociedade existir, deve haver uma grande medida de consenso sobre os pontos essenciais da cosmovisão, mas é permitido aos indivíduos terem as próprias perspectivas sobre certas coisas.³ As cosmovisões também são moldadas pelos sistemas físicos e biológicos em que se encontram. As pessoas que vivem em climas frios enfrentam problemas e desenvolvem sistemas de conhecimento diferentes daquelas que vivem em ambientes desérticos ou tropicais. As pessoas urbanas tendem a desenvolver cosmovisões diferentes daquelas de seus parentes do campo (Hiebert 1999). Também devemos levar a sério os sistemas espirituais. Satanás procura cegar as pessoas, mantendo-as presas por falsas ideologias, e Deus busca abrir suas mentes para a verdade. Em certo sentido, batalha espiritual é uma batalha entre cosmovisões e em favor de uma delas. É importante lembrar que mudanças podem iniciar-se em qualquer um dos sistemas. Os efeitos da mudança se espalham por todo sistema de sistemas. Nenhum sistema é a força motriz, a causa originária da transformação. Mudanças no sistema social afetam os sistemas espirituais, culturais, psicológicos, biológicos e físicos a que o sistema social está ligado. Mas as mudanças podem ser iniciadas no sistema cultural, que, por sua vez, afeta os demais sistemas. Assim, frequentemente é difícil determinar a origem de determinadas mudanças porque seus efeitos são vistos em todo o macrossistema. Assim como no caso do corpo humano, em que a causa geralmente invisível de uma doença pode ser biológica, psicológica, física, social, cultural ou espiritual, os sintomas visíveis são manifestos em outros subsistemas. História Finalmente, devemos ter em mente que as cosmovisões existem e são moldadas, de forma profunda, por seus contextos históricos. O Ocidente tem sido profundamente moldado pelas cosmovisões greco-romanas e hebraicas; a China, pelas de Confúcio e Buda; e a América Latina, pelas cosmovisões da Península Ibérica, da África, dos astecas e dos maias. Uma abordagem completa de sistema de sistemas deve compreender as cosmovisões como moldadas e moldando um mundo em constante mudança (fig. 3.7). Figura 3.7 COMO SISTEMAS MOLDAM E SÃO MOLDADOS Culturas e sociedades existem no tempo e são constantemente recriadas pelas pessoas em suas relações sociais. As pessoas aprendem as cosmovisões de seus pais e de suas comunidades. Portanto, são principalmente as ideias do passado que moldam as do presente. Mas as pessoas podem e de fato mudam suas cosmovisões, motivadas pelas mudanças que ocorrem no mundo a seu redor e pelas mudanças na própria maneira de pensar. Mais adiante, examinaremos as mudanças na cosmovisão. ¹Talcott Parsons, Edward Shils (1952) e outros cientistas de renome utilizaram uma abordagem de sistema geral em seus estudos sobre as pessoas, mas, como os antropólogos sociais e culturais anteriores, empregaram abordagens mecanicistas à análise dos sistemas, o que os levou a compreender os sistemas culturais e sociais como harmoniosos e estáticos. Essa deficiência deveria nos induzir a não rejeitar uma abordagem de sistema de sistemas, mas a observar os seres humanos como sistemas orgânicos — sistemas caracterizados por tensão e conflito constantes dentro dos subsistemas e entre eles, bem como por mudanças constantes. ²Taxonomias que se relacionam com o mundo material não são totalmente arbitrárias nem relacionadas umas às outras. Berlin e Kay (1969) demonstram que as culturas seguem a mesma sequência na categorização das cores, e Wick Miller e Eugene Hunn provam que culturas diferentes, em geral, concordam na taxonomia dos pássaros e plantas. Os signos transmitem imagens na mente, mas muitos deles também se referem a objetos no mundo real. ³Há um debate sobre sociedades “abertas” e “fechadas”. Na primeira, as pessoas são encorajadas a analisar as coisas de maneiras alternativas. Na segunda, permite-se pouco desvio comportamental das visões da sociedade. Esse fenômeno pode ser observado nas famílias. Alguns pais exigem que os filhos vivam de acordo com suas crenças . Outros estabelecem limites de referência para os filhos, mas os encorajam a pensar por si mesmos. 4 MÉTODOS PARA A ANÁLISE DE COSMOVISÕES Pes soas de culturas diferentes discordam não apenas quanto às crenças explícitas, como também quanto aos pressupostos básicos usados para organizar seus mundos conceituais. Elas podem realmente compreender umas às outras? Quais métodos poderiam utilizar ao tentar fazer isso? Suponha-se, por exemplo, que uma pessoa em uma sociedade diferente nos diga que suas enfermidades são causadas por demônios e que ela realmente os viu. O que devemos fazer diante dessa situação? Obviamente, devemos evitar a tentação etnocêntrica de julgar a pessoa e concluir que ela é ignorante e tola, sem primeiro tentar entendê-la da perspectiva dos próprios conceitos e valores culturais. No entanto, a resposta à nossa pergunta não é tão simples. Ao buscar compreender outra cultura, o estrangeiro pode observar o comportamento e os produtos humanos, mas não pode ver as crenças e as cosmovisões. Elas podem ser apenas deduzidas das ações e dos comentários do povo. Talvez não haja informante que possa ou consiga verbalizar a cosmovisão da cultura, pois ela é, em grande parte, implícita, está na mente das pessoas. Se um antropólogo precisa depender de inferência para chegar a conclusões abstratas, o que estamos querendo dizer quando afirmamos que a pessoa sabe algo sobre a cultura? Além disso, os próprios antropólogos têm seus conjuntos de pressupostos. Será que eles deveriam analisar outras culturas baseados nesses pressupostos (análise “ética”) ou em conceitos e valores da própria cultura (análise “êmica”)? Ambos os modelos, ético e êmico , são úteis, mas a questão permanece: um antropólogo pode, dados os próprios preconceitos culturais, realmente compreender outra cultura nos termos dela? E, mesmo se o fizesse, será que poderia efetivamente comunicá-la a outros que não viveram com profundidade naquela cultura? Esse problema de entendimento pode ser ilustrado observando os conceitos de maya, carma e darma , fundamentais para o pensamento indiano. Poderíamos traduzi-los de forma exata para o português? Nenhuma palavra em português tem exatamente o mesmo significado ou as mesmas associações emocionais e morais com qualquer uma dessas palavras de origem indiana. Para ser preciso, deveríamos usar esses mesmos termos em sânscrito. Se levarmos esse raciocínio ao extremo, podemos compreender e descreveruma cultura somente de acordo com sua própria língua e contexto sociocultural, mas isso torna a comunicação e o entendimento transcultural praticamente impossíveis. Cada cultura, então, continua a ser uma ilha conceitual e, na melhor das hipóteses, só podemos passar de uma para outra, nunca construir uma ponte de compreensão entre elas. Evidentemente, nossa compreensão de outra cultura é apenas aproximada, assim como seu modelo do mundo ao redor é aproximado. Mas isso não significa que não temos nenhum entendimento dela. Um estudo cuidadoso pode nos dar muitas percepções sobre outra cultura e, à medida que desenvolvemos novos métodos de aprendizagem sobre o pensamento e processos conceituais de outras pessoas, essas aproximações deveriam se tornar mais precisas e mais fáceis de ratificar. O problema da comparação transcultural será resolvido apenas quando formularmos conceitos e métodos de investigação cada vez mais livres da tendenciosidade de qualquer cultura específica. O processo é lento e cansativo, pois nossa tendenciosidade está profundamente arraigada. No entanto, um progresso considerável tem sido feito ao longo dessa linha de pesquisa no campo da antropologia . As cosmovisões são basicamente implícitas. Como então podemos estudá-las? Não há resposta fácil para a questão nem nossas conclusões estão sempre corretas. À medida que estudamos a cultura de um povo, temos de deduzir os pressupostos básicos de suas crenças e práticas explícitas. Procuramos semelhanças e padrões que pareçam funcionar como um fio condutor que perpassa uma vasta gama de produtos e práticas culturais, e também investigamos crenças que fazem sentido a partir delas. Examinamos o idioma para descobrir as categorias que as pessoas usam em sua maneira de pensar. Estudamos seus símbolos e rituais, como festas e ritos de nascimento, casamento e morte, que, com frequência, revelam seu entendimento mais profundo da realidade. Muitas vezes discernimos os pressupostos básicos subjacentes a outra cultura mais claramente do que aqueles que subjazem à nossa. Aprendemos nossa cultura básica quando somos crianças e, posteriormente, aceitamos seus pressupostos como certos. Outras culturas, no entanto, são estranhas para nós; por isso, investigamos suas bases a fim de entendê-las. Da mesma forma, os estrangeiros frequentemente veem nossos pressupostos mais claramente do que nós mesmos, e precisamos ouvir o que eles dizem a nosso respeito. Nossa reação inicial é muitas vezes rejeitar suas observações como excessivamente críticas. Em uma reflexão mais aprofundada, no entanto, muitas vezes descobrimos que elas são verdadeiras. Também vemos nossa cultura de forma mais clara quando retornamos para ela depois de viver em outro contexto. Passar a viver em outra cultura nos obriga a desenvolver uma medida de distanciamento da nossa, bem como a elaborar uma estrutura metacultural que esteja fora de ambas e traduza uma para a outra. Quando voltamos para “casa”, vemos nossa cultura com novos olhos. Métodos para a análise de uma cosmovisão Não há um conjunto abrangente de métodos para descobrir cosmovisões; antes, vários métodos podem ser utilizados. É melhor triangular as descobertas de qualquer método com aquelas realizadas por outros métodos. Por fim, desvendar cosmovisões muitas vezes é tanto uma arte como uma ciência. Como Peter Berger e seus colegas ressaltam: “Nossas cautelas metodológicas, portanto, não são feitas com uma postura de autoconfiança agressiva, mas com uma atitude de (se é que podemos cunhar um termo da psicologia da ciência) apreensão cognitiva. Recomendamos a mesma apreensão para todos os outros interessados nesse problema” (Berger; Berger; Kellner 1973, p. 5). Análise etnossemântica Um poderoso método para descobrir cosmovisões é estudar as palavras que as pessoas usam e como elas são organizadas em conjuntos e domínios semânticos maiores. Os idiomas codificam e moldam as categorias e os temas das cosmovisões de seus falantes nativos. Estudá-los abre as portas para o modo de as pessoas pensarem, porque as palavras são uma das principais maneiras pelas quais as pessoas comunicam os pensamentos. O pressuposto aqui é que as palavras são importantes indicadores de cognição. Devemos, portanto, estudar a língua das pessoas para aprender como veem seu mundo. O perigo é que constantemente traduzimos seus termos para nossa língua nativa e, ao fazê-lo, não percebemos a cosmovisão implícita em sua língua. Precisamos deixar de lado o poder totalizador da nossa língua, percebendo que ela influencia nossa compreensão da realidade. Signos, como por exemplo as palavras, estão sempre relacionados a membros de um mesmo conjunto. Portanto, dizer “vermelho” é também dizer “não amarelo, verde, azul ou violeta”. A análise etnossemântica focaliza a organização interna de grupos de palavras, como substantivos e verbos, para encontrar as taxonomias e domínios comuns das pessoas, a fim de descrever o conhecimento, as regras e as normas culturais que representam os tipos adequados de conduta em contextos específicos e de um modo geral. Essas normas de conduta são muitas vezes descobertas quando são violadas, e as pessoas fofocam ou agem com o propósito de impingir as normas. Com base no estudo das estruturas cognitivas, analistas procuram descobrir os temas da cosmovisão e o quadro conceitual subjacente a essas estruturas etnossemânticas (Werner; Schoepfle 1989). Isso pressupõe um relacionamento lógico formal entre os diferentes domínios semânticos . A natureza e a força da análise etnossemântica podem ser mais bem vistas por meio de uma ilustração. Pessoas de diferentes culturas foram convidadas a combinar um conjunto de palavras em inglês em domínios maiores e explicar por que elas reuniram as palavras dessa maneira (fig. 4.1) Figura 4.1 UM TESTE ETNOSSEMÂNTICO pedra leão homem arbusto demônio Mickey Mouse anjo árvore vaca peixe veado vírus Um jovem masai , do Quênia, agrupou as palavras da seguinte forma (fig. 4.2). Ele reuniu “homem”, “leão” e “baleia” e disse que todos eram governantes: o homem governava a sociedade; o leão, a selva; e a baleia, o mar. Ele reuniu “mulher”, “menina” e “vaca” em um conjunto. Na cultura masai , quando um homem quer se casar, ele deve dar aos pais da noiva um grande número de vacas. Os antigos antropólogos chamaram isso de “preço da noiva”, mas essa designação foi um completo equívoco. O homem não está comprando a noiva. Posteriormente, outros antropólogos denominaram isso de “o preço da progênie”, porque o jovem pode se casar com a mulher antes de dar todas as vacas, mas os filhos dela pertencem ao pai dela até que o número combinado de vacas seja entregue. Isso também está incorreto. As mulheres e as vacas são muito valorizadas na sociedade masai porque elas dão à luz vida. Quando um homem dá as vacas ao futuro sogro, ele está dando o presente mais valioso que pode oferecer em troca da mulher, um presente para a família estendida dele. Quanto maior o número de vacas dadas, mais o jovem valoriza o casamento, então procura dar o maior número possível.¹ A fim de reunir dez ou vinte vacas, ele trabalha e cria algumas, seu pai contribui com várias, e seus tios, primos e irmãos dão mais algumas. O sogro fica com algumas das vacas recebidas como uma expressão de gratidão por entregar sua filha ao jovem, e o restante ele distribui entre seus irmãos, filhos e outros membros da família estendida. Figura 4.2 OS DOMÍNIOS NA CULTURA MASAI homem mulher pedra Deus leão menina areia anjo baleia vaca árvore demônio arbusto ancestral peixe vírus veado Esta rede de trocas de presentes mostra a importância das mulheres na comunidade e proporciona a elas uma grande medida de segurança, pois uma mulher terá as vacas para suprir suas necessidades se o marido a deixar. Se um homem tenta se divorciar de sua esposa, todos os seus parentes do sexo masculino o repreenderão por ser um mau marido, pois não querem devolver as vacas. Se a jovem mulher quer deixar o marido, todos os seus parentes do sexo femininoa admoestarão para ser uma esposa melhor. Na cultura masai , as taxas de divórcio são muito baixas. O jovem masai reuniu pedra, areia, árvore, arbusto, peixe e veado. Ele disse que esses elementos não pertencem a ninguém até que sejam pegos por alguém. Um peixe ou um pássaro pertence à pessoa que os caça. Da mesma forma, os frutos em árvores e arbustos são livres para qualquer pessoa pegar. Ninguém pode possuí-los. Finalmente, ele agrupou Deus, anjo, demônio, ancestral e vírus, e disse que todos eles podem matar os seres humanos. Indianos hindus, fazendo o mesmo teste, não agruparam as palavras em domínios maiores. Eles organizaram as palavras conforme uma hierarquia de vida (fig. 4.3). Um pressuposto da cosmovisão é que a vida é uma só. Diferentes unidades de vida, como deuses, seres humanos, animais, plantas e pedras, são fragmentos dessa vida. Alguns seres, como deuses, anjos e demônios, têm mais vida e pureza e uma classificação mais elevada na escala. Outros seres, como animais, plantas e pedras, têm menos vida, são impuros e recebem uma classificação mais baixa na escala. Os seres humanos estão no meio. Eles também são classificados ao longo de uma hierarquia de pureza e poluição. No topo estão os sacerdotes brâmanes. Abaixo deles, estão as castas de guerreiros, as castas de comerciantes e as castas dos trabalhadores. Na parte mais baixa da escala, estão os intocáveis, vistos como muito impuros e, portanto, fora dos limites da sociedade normal. Quando as pessoas morrem, elas renascem em uma posição superior ou inferior na escala, dependendo de sua maneira de viver. Os que mantêm a ordem de castas e fazem o bem renascem como anjos ou até como deuses. Os que perturbam a ordem social e fazem o mal renascem como animais para sofrer por suas más ações. Salvação significa ser libertado do ciclo interminável de vidas e imergir novamente na vida cósmica. Figura 4.3 VISÃO HINDU DA VIDA Pessoas modernas em geral agrupam as palavras em domínios e campos mais amplos, baseadas em categorias digitais intrínsecas (fig. 4.4). A maioria faz uma distinção fundamental entre a realidade natural e a sobrenatural. Elas colocam Deus, anjos e demônios no primeiro domínio e os seres reais restantes, no último. Mickey Mouse e trolls (gigantes do folclore escandinavo) são excluídos como personagens fictícios. Elas dividem o mundo natural em domínios de humanos, animais, plantas e matéria. A diferença entre as plantas e a matéria é a mesma que entre vida e não vida; a diferença entre animais e plantas é aquela entre a vida que se move e se alimenta de outra vida e a vida que permanece imóvel e é alimento; e a diferença entre humanos e animais é entre seres que têm alma ou criam culturas elaboradas e os que não têm alma nem criam culturas. Há discordâncias entre os que são influenciados pela ciência, que colocam baleias com animais terrestres porque são mamíferos, e o povo em geral, que coloca baleias com peixes como subcategoria de animais. Apesar de todos os ocidentais distinguirem diferentes tipos de vida, eles não concordam sobre quantas espécies existem.² Figura 4.4 A COSMOVISÃO MODERNA Essa comparação de como as pessoas de diferentes culturas organizam uma lista de palavras nos ajuda a ver como a análise etnossemântica — o estudo sobre como as palavras são organizadas em sistemas maiores de pensamento — pode nos ajudar a descobrir temas de cosmovisão profundos. A análise inicia com um exame dos significados associados com as palavras. Depois, observa como as palavras são agrupadas em domínios e como os domínios se relacionam entre si. É particularmente útil descobrir a ordem êmica que as pessoas estabelecem sobre o mundo. Figura 4.5 ANÁLISE ETNOSSEMÂNTICA O método etnossemântico para a análise das cosmovisões foi utilizado pela primeira vez por Edward Sapir e Benjamin Whorf , que argumentaram que a língua e suas categorias filtram nossas percepções da realidade, moldam nossas crenças e organizam nossa compreensão do mundo. O método foi desenvolvido em detalhes por James Spradley (1980) e por Oswald Werner e G. M. Schoepfle (1989), que examinam palavras e outros símbolos para determinar as categorias, taxonomias e domínios em uma cultura e a lógica que os une em sistemas cognitivos que revelam cosmovisões subjacentes. Spradley esboça um método de análise etnossemântica (fig. 4.5). O primeiro passo é reunir palavras ou categorias em um domínio. Por exemplo, podemos reunir palavras relacionadas a crenças religiosas, ou à agricultura, ou a laços familiares. Elas podem ser deduzidas por meio da observação de eventos ou de respostas a perguntas como: “Quais tipos de X existem?”, ou: “Que tipo de coisa é X?”. Por esse meio podemos delinear um domínio cultural. Às vezes, associações de palavras são usadas para deduzir taxonomias populares. Pede-se ao informante para dizer um número de palavras que ele associa a determinada categoria. Por exemplo, podemos perguntar quais são as características de um “bom homem” ou de uma “boa mulher”. O segundo passo é organizar as categorias e os domínios em uma hierarquia de domínios de níveis crescentes de generalização. Esse mapeamento de domínios é conhecido como análise componencial, e com base nela é possível então deduzir alguns dos temas básicos da cosmovisão de uma cultura (Werner; Schoepfle 1989). Spradley lista oito passos na utilização de métodos etnossemânticos para descobrir os temas das cosmovisões (fig. 4.6). Um exemplo de análise etnossemântica é o exame dos níveis de “amizade” entre o povo igede da África Ocidental (fig. 4.7). Complete a frase Intimamente relacionado com a análise etnossemântica está o método de completar a frase. Os testes de completar as frases fornecem percepções sobre os conceitos de um povo acerca de si mesmo e de seus propósitos, oportunidades e valores . Por exemplo, ao estudar as características de uma pessoa “boa” ou “má”, podem-se propor questões como: “Eles o elogiam porque ele...”; “Se for uma verdadeira amiga, ela...”; “Ele é uma boa pessoa porque sempre...”; “Ela é uma má pessoa porque sempre...”; “Ele fica nervoso com seus amigos/familiares se...”; “Seus parentes a rejeitam porque ela...”. Figura 4.6 MÉTODOS ETNOSSEMÂNTICOS PARA DESCOBRIR COSMOVISÕES A etnossemântica procura descobrir temas de cosmovisões por meio do exame de palavras, com o objetivo de determinar as categorias, os domínios e as taxonomias que as pessoas usam para organizar seus mundos. J. Spradley lista oito técnicas que podem ser utilizadas no processo. • Mergulhe na cultura. • Reúna um inventário cultural, isto é, uma compilação e um registro dos dados coletados. Fonte: Adaptado de Spradley , 1980. Figura 4.7 TERMOS PARA DESCREVER A AMIZADE NA CULTURA IGEDE (Cada nível tem várias subcategorias.) amizade sem resposta ( Oligwuh Ojwugwume) amizade com um estranho ( Oligwuh Olabadoweh) amizade casual ( Oligwuh Ochakala) amizade ritual ( Oligwuh Oliyaka): “companheiros da mesma idade” amizade de apoio ( Oligwuh Odubwo): “ajudante” amizade íntima ( Oligwuh Olikeje): literalmente “amigo de fígado” Os testes de completar as frases também podem nos ajudar a compreender as estratégias usadas pelas pessoas para viver. Por exemplo, podemos propor que completem: “Se está em dificuldade, ela...” e “Se está com medo, ele deveria...”. Tais imagens de si, do grupo e do mundo são incorporadas pelos indivíduos no grupo como pressupostos fundamentais sobre a natureza da realidade e as estratégias de ação que as pessoas deveriam usar para viver nesse mundo. Análise de outros signos Steve Moon (1998) expandiu o método etnossemântico para incluir outros signos culturais, como comida, vestuário, construções, meios de transporte e produtos culturais como canetas, relógios, carros, computadores, música e arte. Ele coletou diversos signos culturais em Konya, na Turquia, e os organizou em conjuntos maiores com base na associação comum deles na mente das pessoas. Depois disso analisou os temas de cosmovisão subjacentes que surgiram com base na comparaçãoentre esses domínios cognitivos (fig. 4.8). Figura 4.8 DOMÍNIOS DA COSMOVISÃO EM KONIA, TURQUIA Turquia atual Islamismo ortodoxo Sinais culturais • shopping centers • mesquita • sala de cinema • madrasa • pôsteres de estrelas de cinema • pôsteres de Khomeini • estátuas de Ataturk • mulheres de jeans, camisetas • mulheres com hijab • lanchonetes fast-food: cachorros-quentes, hambúrgueres, comida ocidental • faláfel • literatura contemporânea, revistas • Corão Temas da cosmovisão • secularismo • ortodoxia religiosa Análise de rituais Os rituais são dramas culturalmente estruturados, estilizados, repetidos regularmente, organizados dramaticamente, designados por autoridades e intrinsecamente valorizados (Turner 1974). Eles comunicam as crenças profundas, os sentimentos intensos (admiração, tristeza, lealdade, ternura, respeito e atração) e os valores (pessoa ideal, questões morais centrais) de uma sociedade por meio de códigos simbólicos formais. Os rituais recriam as ordens social, cultural, pessoal e cósmica necessárias para a vida humana ao tornar as normas cósmicas explícitas de forma visível. Como já estudamos, subjacentes à vida social e cultural cotidiana, existem estruturas profundas que permitem que as pessoas pensem, sintam e julguem o mundo a seu redor. Suas crenças arraigadas organizam suas experiências; seus profundos sentimentos as ajudam a experimentar e a compreender o que é belo e feio, esteticamente desejável e indesejável; e sua moral profunda as capacita a julgar entre o bem e o mal. Os rituais trazem à superfície e reforçam, por meio da reencenação, os fundamentos basicamente invisíveis de suas sociedades e culturas — em outras palavras, suas cosmovisões. Eles mostram como as coisas deveriam ser. Eles definem modelos para as pessoas do que significa ser plenamente humano, plenamente homem ou mulher, ou uma pessoa de Deus. Por exemplo, em um casamento numa igreja norte-americana, a noiva está vestida de branco e o noivo está com trajes formais. Eles tratam um ao outro com enorme amor e respeito e se comprometem a viver somente para o outro. São corteses com os novos sogros. Poucos meses depois, em casa, sozinhos, as coisas muitas vezes são diferentes. Os novos marido e mulher discutem, ignoram-se mutuamente e querem viver à sua maneira. Por que há, então, a conversa poética de amor e autossacrifício na cerimônia de casamento? Aqui, o ritual não apenas estabelece publicamente a nova relação entre eles, a de um casal, como também declara os ideais da sociedade para o casamento, como um casamento realmente deveria ser. O fato de ninguém viver consistentemente conforme os ideais não torna os ideais irrelevantes. Sem crenças, sentimentos, valores e ideais profundos, nenhuma sociedade verdadeiramente humana conseguiria existir. De modo geral os rituais podem ser divididos em três tipos, e cada um lança luz sobre diferentes temas de cosmovisões. O primeiro são os ritos de intensificação , às vezes chamados de ritos de restauração ou de renovação. Eles defendem publicamente a ordem social e cultural existente, que se torna turva e esquecida na vida cotidiana. Em certo sentido, eles são como uma faxina. À medida que as pessoas moram em suas casas, estas ficam sujas: poeira gruda nas prateleiras, alimentos caem no chão, roupas são deixadas nas cadeiras e tapetes ficam manchados. Periodicamente, a família para e limpa todas as coisas. Ritos de restauração agem como rituais de faxina sociais e religiosos, restaurando significado e ordem a um mundo que está se tornando caótico e sem sentido. Os rituais de transformação marcam transições na vida de indivíduos e de grupos. Eles incluem ritos de ciclo de vida como nascimento, iniciação, casamento e óbito; ciclos do ano, como Ano Novo, época de plantio de sementes e de colheita; e peregrinação religiosa, como as vias-sacras. São como a reforma de uma casa. Para isso, é preciso primeiro destruir o velho e passar por um período de caos antes de o novo ser concluído. Os ritos de transformação, como a conversão , permitem que mudanças duradouras nas cosmovisões sejam possíveis em períodos curtos e intensos. Os ritos de recriação ajudam as pessoas a reconstruir seu mundo quando o mundo antigo foi totalmente destruído. É como reconstruir uma cidade após um tsunami, quando não restou nada que pudesse ser salvo. Em muitas sociedades tradicionais , o mundo atual não pode ser reparado. Deve ser recriado pela reencenação ritual da criação original. Se isso não ocorrer, o mundo cairá no caos e na escuridão. Em algumas culturas, a celebração anual de Ano Novo é um ritual desses, recriando um mundo que se deteriorou. Uma vez que os rituais reencenam visivelmente as mais profundas crenças , sentimentos e valores de um povo, eles são um elemento fundamental para compreender sua cosmovisão.³ Ao estudar os rituais, iniciamos pela coleta de dados mediante nossa observação e pela observação participante. Notamos as diferentes partes do ritual, os participantes, seus papéis e relações entre si, os atos do discurso, a música, as ações, os objetos rituais e os símbolos. Estudamos a estrutura de espaço (desenhar mapas é uma maneira) e percebemos como é usada. Mantemos uma linha de tempo e observamos a sequência de eventos ou a narrativa no ritual. Damos atenção aos contextos social e cultural e aos eventos que conduzem ao evento e aos que o sucedem — toda a esfera de ação do ritual. Reunimos relatos dos nativos: coletamos textos escritos e textos folclóricos, e entrevistamos informantes selecionados e especialistas no ritual. O segundo passo na análise do ritual é interpretar os dados — descobrir significado no ritual. Nessa etapa, iniciamos analisando os símbolos principais e seus significados no rito e os comparamos com os significados associados a esses símbolos em outros contextos culturais. Por exemplo, o sangue é muitas vezes um símbolo importante em rituais, mas também tem significados relevantes em outros contextos culturais. O terceiro passo é analisar os símbolos conforme seus maiores domínios simbólicos para observar oposições binárias, ligações e redundâncias. Em seguida, examinamos o processo ritual como um todo, estudando os tipos e as fases rituais de transição, afirmação e aflição. Aqui podemos notar características, como separação, liminaridade e agregação, e o papel do ritual na vida sociocultural do povo como um todo. Finalmente, buscamos os temas profundos da cosmovisão, que muitas vezes são trazidos à tona, tornam-se visíveis e são reafirmados nos rituais. Análise de folclore e mitos Quando se busca entender os temas diacrônicos das cosmovisões, é essencial estudar o folclore e os mitos do povo (Dundes 1965). Os mitos são as narrativas mais abrangentes sobre a natureza final das coisas que as pessoas consideram verdadeiras. Eles fornecem os paradigmas — as fôrmas de biscoitos — que ajudam as pessoas a entender sua cosmologia, a história da humanidade e suas biografias, mostrando a elas o “enredo” ou “a linha da história” básica em que vivem. Os mitos proporcionam os mapas de origem e destino das pessoas. Os mitos muitas vezes estabelecem os temas fundamentais que são subjacentes à cultura. Eles lidam com as contradições inerentes da vida humana e procuram resolvê-las movendo-as para patamares cada vez mais elevados de abstração estrutural até que percam suas tensões (Levi-Strauss 1984). Uma abordagem para o estudo dos mitos é a observação de temas que os percorrem. Por exemplo, em romances ocidentais, “apaixonar-se” e se casar, apesar das muitas oposições, é um tema comum. Nos épicos indianos (Mahabharata, Ramayanam), as histórias dos deuses (Puranas) apresentam batalhas cósmicas entre deuses bons e maus e entre reis bons e maus, rodeados por cortesãos, exércitos e guarda-costas. Frequentemente, os inimigos pertencem às mesmas famílias. A maioria tem esposa e filhos que também acabam envolvidos nas batalhas. Os mitos capacitam as pessoas a investigar as contradições em suas vidas — as tensões entre bem e mal,amor e ódio, aceitação e rejeição — e mostram a elas que algo se encontra abaixo da superfície do mundo audível e visível. Comunicam algo que é “tão real, talvez até mais real do que o que estamos vendo, ouvindo e tocando” (Peterson 1997, p. 38). Os mitos ajudam a dar sentido a um mundo confuso e muitas vezes assustador. Eles integram e validam a realidade em que as pessoas vivem. Ao estudar os mitos, é importante examinar não apenas as histórias conhecidas por todos, como também aquelas contadas em comunidades específicas, os mitos folclóricos locais. Por exemplo, em um vilarejo do sul da Índia , a casta komati mantém seu senso de identidade contando a história de sua deusa padroeira, que é escrita em pequenos panfletos vendidos nas lojinhas. Eles narram a história de uma linda jovem virgem komati que viveu há cerca de três séculos. O rei local a viu e ordenou que ela fosse preparada para ser sua noiva quando ele retornasse na semana seguinte. Ela ficou agoniada com o casamento. Se ela se casasse com o rei, tornar-se-ia rainha, mas também profanaria sua casta ao se casar com alguém que não pertencia a ela. No final, ela decidiu que a pureza da casta era mais importante, por isso, quando o rei veio para se casar com ela, ela pulou em uma cova enorme com fogo ardente, da qual ressuscitou como um espírito visto por todos. Agora ela é a deusa padroeira da casta komati. Apesar de 102 líderes das linhagens familiares da casta haverem pulado na cova com ela, os líderes das outras 612 gotras não o fizeram. Com o tempo, a casta se dividiu entre “os que pularam” e “os que não pularam”. Os primeiros são de categoria superior porque seus líderes estavam dispostos a sacrificar suas vidas pela pureza da casta, e agora eles não se casam com as pessoas da casta dos que não pularam. A tensão subjacente é entre a pureza da casta e a prerrogativa real com uma vida luxuosa. A conclusão é que a primeira é mais importante que a segunda. Literatura de sabedoria Um dos modos importantes de descobrir temas da cosmovisão é examinar as tradições de sabedoria de um povo: suas canções, provérbios, aforismos, poemas, enigmas, parábolas e histórias (Dundes 1965). Nas sociedades orais, esses são os depósitos em que as crenças profundas, os sentimentos e os costumes da sociedade são preservados e transmitidos de geração em geração. As tradições de sabedoria observam os paradoxos da vida humana: as tensões entre nascimento e morte, alegria e tristeza, riqueza e pobreza, amor e ódio, bem e mal. Ao fazer isso, focalizam as questões importantes de uma cultura e reafirmam os temas centrais e os contratemas de sua cosmovisão. Análise narrativa Uma das principais maneiras de as pessoas atribuírem sentido à experiência é estruturá- -la em forma narrativa . Isso se aplica particularmente às difíceis transições da vida e aos traumas. As pessoas criam enredos de experiências desordenadas e atribuem significado a elas indo além dos acontecimentos históricos em sua compreensão mais profunda da história do mundo e de seu lugar nela (Riessman 1993). A análise narrativa estuda os relatos das experiências individuais contados na primeira pessoa para ver como ordenam o fluxo de experiências, a fim de dar sentido aos acontecimentos e ações em suas vidas. Como as pessoas encaram a vida determina o que é incluído ou excluído de suas histórias, como os eventos são estruturados e o que eles supostamente significam. Os indivíduos interpretam e elaboram os eventos passados em suas narrativas pessoais para afirmar sua identidade e construir sua vida. “Como os indivíduos contam suas histórias — o que eles enfatizam e omitem, suas posturas como protagonistas ou vítimas, a relação que a história estabelece entre narrador e público —, tudo molda o que eles podem alegar sobre as próprias vidas. As histórias pessoais não são apenas uma maneira de contar a alguém (ou a si mesmo) sobre a própria vida; elas são os meios pelos quais as identidades podem ser formadas” (Rosenwald; Ochberg 1992, p. 1). As pessoas criam narrativas autobiográficas que usam para entender e explicar suas vidas. Essas histórias são normalmente entrelaçadas em uma comunidade de histórias de vida que, juntas, nos ajudam a compreender as estruturas profundas da natureza da própria vida. Cultura estética Ao estudar os temas afetivos das cosmovisões, é importante examinar a cultura estética, como arte, música, performances bárdicas, teatro, dança, obras dramáticas, filmes e revistas. Com frequência assumimos, de maneira incorreta, que as pequenas sociedades orais e camponesas têm muito pouco entretenimento ou expressões artísticas. A maioria dessas sociedades apresenta diversas formas de arte e música que são usadas em contextos variados para expressar diferentes emoções. Por exemplo, muitas vezes há cânticos de lamento, de guerra, de alegria e celebração e de adoração. Nas aldeias indianas, encontramos várias formas diferentes de performances bárdicas e teatrais para entreter as pessoas. Ideais avaliadores Os temas normativos podem ser identificados ao se estudarem os heróis e vilões de uma cultura. Por exemplo, na China, os grandes homens são os sábios que trazem sabedoria e reconciliação à sociedade. Nas culturas hindus, os heróis são os sadhus, ou homens santos, que estão acima da desordem da vida e meditam com tranquilidade interior (como Mahatma Gandhi e Sadhu Sundar Singh). Nas culturas muçulmanas, são os aiatolás e mulás, os líderes religiosos que proclamam a palavra de Deus. Nas culturas cristãs, são os santos, os líderes da igreja (papa, bispos) e os evangelistas (Billy Sunday, Dwight Moody, Billy Graham). Na modernidade, são os estudiosos, chefes de Estado, prósperos empresários, empreendedores e os artistas importantes (celebridades do esporte, cinema e TV, cantores e músicos). Em filmes de faroeste, os heróis são xerifes e cowboys, os vilões são bandoleiros e índios. No hinduísmo, o herói é Rama; seu inimigo é Ravana. Os principais informantes Em qualquer sociedade, certos indivíduos tornam-se conhecidos como especialistas em seus campos: o melhor oleiro, o melhor cantor, o melhor médico. Há também aqueles conhecidos por sua sabedoria. Como Paul Radin destaca, esses são os filósofos nativos encontrados em todas as sociedades (1927). Uma vez que as cosmovisões são, em certo sentido, a abordagem da realidade utilizada pelo filósofo, Robert Redfield escreve: “O estrangeiro espera. Ele escuta para saber se um ou muitos dos nativos conceberam uma ordem no todo. É a ordem deles, as categorias deles e a ênfase deles sobre isso em vez daquilo que o estudante quer ouvir. Toda cosmovisão é elaborada com material da filosofia , a natureza de todas as coisas e de suas inter-relações, e é para a ordenação das coisas que o filósofo nativo faz que nós, os investigadores estrangeiros, atentamos” (1968, p. 88). São as concepções fundamentais — cognitiva, afetiva e normativa — que as pessoas têm da realidade que formam sua cosmovisão. O estrangeiro precisa guardar suas sugestões para sistematizar o todo até que tenha ouvido o povo com atenção. Descrições densas Clifford Geertz foi o primeiro a propor a ideia de antropologia interpretativa usando o método de “descrição densa” (1983). Descrição densa consiste na análise de determinados eventos socioculturais para compreender como as próprias pessoas os veem e os interpretam e para nos auxiliar a entender essas perspectivas da realidade. Um dos perigos é considerar os outros povos como estranhos e primitivos, diferentes de nós. Outro perigo é vê-los exatamente igual a nós e negligenciar as diferenças. A antropologia interpretativa procura construir pontes de entendimento que nos ajudem a traduzir e a trazer entendimento entre as diferentes culturas e cosmovisões. Esse método consiste em uma profunda análise social e cultural de contextos ou dramas humanos específicos para entender os significados cognitivos, afetivos e avaliadores associados a eles e para observar como esses significados são moldados por seus sistemas sociais.Estudos de caso Fundamental para grande parte da pesquisa antropológica é a coleta de dados sobre casos específicos. Casos são acontecimentos sociais determinados que têm um começo, um processo e um fim. Cada execução de um ritual é um caso. Assim também acontece com a vida do indivíduo, a qual, na Terra, começa com o nascimento e termina com a morte. O mesmo ocorre em um caso judicial, que se inicia com alguma perturbação da paz e da ordem da comunidade e termina quando o caso é resolvido. Na verdade, muitas situações humanas podem ser estudadas como casos. Ao estudar os casos para descobrir sua ordem básica e seus significados profundos, reunimos um número de casos no mesmo domínio. Por exemplo, podemos coletar vários casos envolvendo disputas judiciais e suas resoluções mediante a lei comunitária. Depois de analisar o que é evidente nos acontecimentos e as explicações dadas pelo povo, procuramos por princípios fortes que revelem as compreensões profundas do povo sobre a justiça e os meios para alcançá-la. Um antropólogo escreve: “Brinque com os dados coletados: a menos que você mude e se torne como uma criança jamais entrará no reino de pesquisa”. O primeiro nível da análise de casos é a fenomenologia , ou a análise detalhada da situação. Aqui o objetivo é investigar e entender situações particulares. Fazemos isso em busca de padrões no caso ou nos casos e de previsibilidade. Com o tempo, ao observar muitos casos, normalmente aparecem padrões que nos ajudam a entender a natureza do caso e a desenvolver hipóteses sobre suas causas e efeitos. Na descrição, podemos também comparar diferentes casos, desde que sejam comparáveis, e desenvolver categorias neutras para comparação. A segunda etapa é passar da descrição para a explicação em termos de teorias. Nesse ponto também criamos hipóteses adicionais para um estudo mais aprofundado. Na análise diacrônica, analisamos as causas das mudanças ao longo do tempo. Por exemplo, podemos estudar a história de uma pessoa, um país ou uma comunidade. Nosso objetivo é entender por que as coisas aconteceram da forma que aconteceram. Na análise sincrônica, examinamos a dinâmica de sistemas complexos para entender como funcionam. Por exemplo, analisamos como os rituais da aldeia funcionam ou como os conflitos são resolvidos. Também podemos começar a formular teorias comparativas gerais. Por exemplo, podemos comparar rituais fúnebres em várias sociedades diferentes ou comparar diferentes sistemas econômicos. Análise filosófica profunda Os estudos filosóficos das crenças profundas de um povo fornecem percepções sobre sua cosmovisão. Exemplos desses estudos são: Sources of Indian tradition [Fontes da tradição indiana], organizado por William Theodore De Bary (1958); African worlds: studies in the cosmological ideas and social values of African peoples [Mundos africanos: estudos sobre as ideias cosmológicas e valores sociais dos povos africanos], organizado por Daryll Forde (1954), e The Indian mind [A mente indiana], organizado por Charles Moore (1967). Comparações transculturais Uma efetiva ferramenta heurística para revelar cosmovisões é a comparação de culturas para descobrir temas correspondentes ou opostos. Isso é feito mais facilmente com temas éticos impostos a todas as culturas — como os temas de tempo, espaço, pessoa, os outros e causalidade de Robert Redfield . Esses conjuntos de temas obrigam o observador a examinar áreas da cultura relevantes para o tema e a formular uma cosmovisão desse tema. Uma abordagem mais difícil é o estudo, como um passo inicial, de temas êmicos que surgem do estudo de diferentes culturas. Como cada cultura é diferente, os temas de uma cultura nem sempre podem ser comparados diretamente com os de outra. Nesses casos, um diálogo entre as cosmovisões pode ajudar a fornecer pontes de compreensão e comparação. Por exemplo: a cultura A pode ter os temas 1, 2, 3 e 4; a cultura B pode ter os temas 1 e 4 paralelos com os temas da cultura A, mas também tem os temas 5 e 6. Pode-se então perguntar o que, na cultura B, se compara com os temas 2 e 3 na cultura A, e o que, na cultura A, se compara com os temas 5 e 6 na cultura B. Essa comparação estabelece um dispositivo heurístico para nos guiar na busca por semelhanças e diferenças em áreas que podem não ter sido conscientemente investigadas em ambas as culturas. Tal “diálogo” entre cosmovisões pode nos ajudar a encontrar conjuntos paralelos de temas em duas culturas. O processo pode ser estendido a três ou mais culturas (fig. 4.9; para um exemplo específico, veja apêndice 2). Figura 4.9 COMPARAÇÕES TRANSCULTURAIS DE TEMAS DE COSMOVISÕES Cultura A Cultura B Cultura C Tema 1 ← comparação → Tema 1 ← → ? Tema 2 ← → ? → Tema 2 ? ← → Tema 3 ← → Tema 3 Tema 4 ← → Tema 4 ← → Tema 4 As comparações nos permitem não apenas entender determinadas cosmovisões, mas também compreender as mudanças que ocorrem nas cosmovisões ao longo do tempo. Por exemplo, elas nos ajudam a compreender o que acontece com as cosmovisões das pessoas que se tornam cristãs e a examinar se uma conversão profunda de fato aconteceu. Elas também nos ajudam a entender a comunicação transcultural e os equívocos nessa comunicação. Ambas as áreas são fundamentais na expansão de nossa missão ao redor do mundo. Agora voltemos nossa atenção para o estudo de cosmovisões específicas. ¹Com certeza, isso seria o ideal. Na realidade, um homem tenta dar o menor número de vacas por uma esposa, mas a premissa básica é a mesma: doadoras de vida são trocadas como presentes. ²Os cristãos veem a distinção fundamental como a presença ou a ausência de uma alma eterna. Cientistas seculares buscam definir a diferença de acordo com a habilidade de produzir ferramentas, usar a língua, criar cultura ou pensar de forma abstrata, mas nenhum desses critérios tem sido satisfatório. Muitos cientistas argumentam que não há diferença essencial entre seres humanos e animais e eliminam a linha que os separa. A questão sobre a existência de uma linha que distinga os humanos dos animais é um debate fundamental de cosmovisão entre cientistas seculares e cristãos. ³Para um excelente exemplo da análise de rituais na descoberta de cosmovisões, veja Meade 2005. 5 COSMOVISÕES DE PEQUENAS SOCIEDADES TRADICIONAIS (ORAIS) Ao longo da história, pequenas sociedades têm sido a forma básica da organização social humana. Elas incluem o que os cientistas sociais chamam de bandos e tribos . ¹ É impossível fazer justiça ao grande número de cosmovisões encontradas nessas sociedades. Na melhor das hipóteses, podemos examinar alguns temas comuns em muitas delas, os quais são difíceis para as pessoas contemporâneas entenderem. O propósito deste estudo não é analisar as milhares de sociedades chamadas tradicionais, mas ajudar as pessoas do século 21 a compreendê-las melhor. Um problema enfrentado hoje é a falta de compreensão dessas sociedades e culturas por parte do mundo moderno, que têm sido o fundamento da existência humana na maior parte da história. Pressuposições básicas sobre a natureza da realidade fundamentam o conhecimento cultural de bandos e sociedades tribais. Embora haja considerável variação nessas cosmovisões, podem ser feitas algumas generalizações aplicáveis à maioria delas. Estudá-las pode nos ajudar não só a compreender suas culturas, como também nos conscientizar da cosmovisão que invariavelmente trazemos conosco quando entre elas ministramos. Temas cognitivos Aqui, analisaremos alguns temas e contratemas de cosmovisão comuns em muitos bandos e sociedades tribais. Há diferenças entre bandos e tribos , mas também existem aspectos comuns que podemos investigar. Orgânico e holístico Os mundos de pequenas sociedades são vivos e dinâmicos. Os seres humanos são parte de um mundo cheio de seres vivos e forças invisíveis. Em tal mundo, a vida não é dividida em segmentos, como religião, ciência e humanidades; domínios público e privado; esferas social, econômica, política e legal. Essa cosmovisão holística está no cerne de toda a vidae afeta tudo o que fazemos: de que forma comemos, com quem nos casamos, como plantamos sementes e onde seremos enterrados. SERES E FORÇAS Em sociedades pequenas , a terra que parece não ter vida produz vida exibida de forma exuberante — é a mãe de toda a vida. Aonde quer que olhemos, há gramados, arbustos, árvores e flores de vários tipos. Uma miríade de insetos quebra o silêncio da noite. Esse mundo é povoado por peixes, pássaros e animais, seres humanos, ancestrais e os (ainda) não nascidos, bem como por espíritos de montanhas e de rios, céu e terra, doença e prosperidade. Muitas vezes há um deus supremo que criou a terra e sua abundância de vida, mas que agora está nos céus. Todas essas criações brotam da terra, que é a força vital da comunidade. Todas as formas de vida coexistem no mesmo espaço. A aldeia e suas florestas e planícies ao redor são habitadas por seres vivos de vários tipos: seres humanos — vivos, mortos e por nascer —, bruxas e fantasmas; espíritos de árvores, rios, campos e montanhas; espíritos de doenças e de poder; animais, pássaros, peixes, insetos e plantas. Todos esses seres vivem juntos, experimentando amor, alianças mútuas, rivalidades, ira e inveja. Rochas, montanhas e a terra com sua fertilidade estão vivas e compartilham a mesma energia vital e o mesmo mundo (fig. 5.1). Em um mundo assim, não há distinção entre natural e sobrenatural. Todas as formas de vida estão inter-relacionadas. Plantas e animais são tratados como intimamente ligados aos humanos, ou como totens e auxiliadores espirituais, e as forças da natureza são vistas da perspectiva do equilíbrio da medicina, da feitiçaria e de vários poderes. Em muitas sociedades pequenas , o povo acredita em um Grande Espírito ou deus supremo, que vive no céu e não se envolve em questões cotidianas dos seres humanos. De acordo com diversos mitos, ele criou os seres humanos, que o ofenderam de alguma forma, impelindo-o a abandoná-los. Todos os seres, incluindo os humanos, estão ligados à terra. Eles formam as próprias comunidades e interagem na vida cotidiana. Como os seres humanos, os animais e os espíritos não são bons nem maus — são ambos. Se os humanos aplacarem os espíritos, estes serão generosos e abençoarão os seres humanos com filhos, saúde, boas colheitas e vida longa. Se os seres humanos os negligenciarem ou os ofenderem, eles serão vingativos, trazendo doenças, seca, esterilidade e o fracasso na caça. Figura 5.1 COSMOVISÃO TRIBAL O mundo também está cheio de poderes impessoais: magia, mana, poções medicinais de vários tipos, mau-olhado, maldições, sorte, forças da natureza, influências astrológicas. Toda a matéria é animada pela energia do universo. Certas montanhas, florestas ou rios são lugares de poder em que as pessoas vão para meditar, ter experiências mais intensas com o mundo dos espíritos e obter poder espiritual. Outros lugares, como cemitérios, muitas vezes são evitados porque as pessoas temem ser atacadas por espíritos e poderes malévolos. A fim de usar esses poderes impessoais para benefício pessoal, algumas pessoas se voltam para a magia, a adivinhação, a astrologia e seu conhecimento da natureza, que lhes fornecem fórmulas rituais e práticas para controlar essas forças; ou então usam os serviços de especialistas, como magos, xamãs e astrólogos, que controlam essas forças. CENTRADAS NOS SERES HUMANOS As cosmovisões tribais em grande parte são centradas nos seres humanos. O universo está vivo com deuses, espíritos e seres da natureza de muitos tipos, mas são os ancestrais , os membros vivos da sociedade e seus descendentes (ainda) não nascidos que ocupam o centro do palco. É a vida em comum que partilham — como família, linhagem ou clã e como tribo — que deve ser preservada ao suplicar, coagir ou subornar os deuses e os espíritos poderosos, mas caprichosos, que estão presentes. Em muitas sociedades tribais, as pessoas não se veem como indivíduos autônomos e separados, mas como parte de uma corrente interminável que flui de pai para filho e de geração a geração (fig. 5.2). O mesmo sangue, a mesma vida que receberam dos primeiros ancestrais corre pelas veias de todos os que pertencem à mesma linhagem, clã e até tribo. Em relação ao povo akan da África Ocidental, J. B. Danquah escreve: “O Grande Ancestral é o grande pai, e todos os homens com o sangue do ancestral são Dele e são do mesmo sangue com todos os outros homens criados de Seu sangue e sopro. A vida, a vida humana, é o sangue que flui continuamente do sangue originário da Grande Fonte desse sangue” (1965, p. 28). Figura 5.2 OS ELOS DE VIDA Os indivíduos são importantes apenas porque são os pontos de conexão na rede mais ampla da consanguinidade. O seu bem-estar depende do bem-estar do grupo de parentes, e sua vida só tem sentido quando é compartilhada. A obrigação mais importante das pessoas, especialmente dos líderes, é proteger e sustentar essa vida. Ser um indivíduo autônomo é equivalente a ser um indivíduo morto. O vínculo entre pais e filhos é considerado muito maior do que o aspecto biológico. É principalmente social e espiritual. Os filhos não apenas recebem seus corpos dos pais, mas também adquirem suas personalidades, identidades sociais e espíritos desse fluxo de vida. Portanto, a retidão dos pais traz bênçãos a seus filhos, e os pecados dos pais resultam em punição aos filhos e aos filhos de seus filhos (cf. Êx 20.5,6). No curso do rio da vida, há pessoas mais velhas e mais jovens: avós, pais, filhos e netos. A geração mais nova é responsável por prover alimentos à geração mais velha trabalhando em seus campos, fazendo serviços manuais e mostrando-lhe respeito e deferência em todos os sentidos. Em troca, a geração mais velha abençoa os mais jovens, dando-lhes conselhos e compartilhando sua herança com eles. Por exemplo, entre o povo mende de Serra Leoa, se um filho sai de casa sem permissão, o pai pode amaldiçoá-lo. “Quando o filho cai em desgraça, ele pode voltar para casa arrependido. Procura primeiro a sua mãe, que o leva ao pai com presentes, como arroz, aves comestíveis e dinheiro. Ele se assenta ou se ajoelha aos pés de seu pai, segurando o pé direito dele com sua mão direita. O pai faz uma oração de perdão e abençoa o filho pródigo que retornou ao lar. A desobediência de um filho [...] é uma ofensa grave, trazendo as mais sérias consequências, e o pecado só pode ser expiado por meio de um ritual” (Little 1954, p. 122). Os ancestrais desempenham um papel central na vida humana. Os seres espirituais se dividem geralmente em duas categorias: ancestrais e não ancestrais. Os ancestrais são os espíritos dos membros falecidos da comunidade. Muitos acreditam que uma pessoa sobrevive após a morte e que sua personalidade vai para a terra dos mortos . Animais e grãos podem ser fornecidos para a jornada, e dinheiro e artigos pessoais são enterrados com o corpo, que a pessoa falecida usa para saudar os espíritos e para demonstrar sua posição e classe social terrenas a eles. Os mortos precisam dos parentes para realizar esses ritos funerários, pois a não realização dos ritos condena o espírito da pessoa a permanecer na terra e assombrá-la. A relação entre os vivos e os mortos é geralmente expressa em uma série de rituais em que os ancestrais imediatos progridem gradativamente em direção à esfera dos ancestrais mais distantes e, finalmente, alcançam o grande grupo de ancestrais desconhecidos. Frequentemente, as pessoas fazem súplicas aos ancestrais em épocas de arar a terra, plantar as sementes e realizar as colheitas para garantir as bênçãos deles. Apresentam-se ofertas especiais quando alguém sonha com um ancestral, ou quando há doenças ou tragédias na família, pois os ancestrais estão irados e querem ser alimentados. Em geral, acredita-se que os ancestrais podem ajudar os vivos e interceder em seu favor perante os deuses. O terceiro grupo de seres humanos é o dos (ainda) não nascidos. Se não há filhos, a família desaparece e os ancestrais são esquecidos. É importante, portanto, preservar as terras tribaisa fim de que os (ainda) não nascidos tenham algo quando nascerem. No sudoeste dos Estados Unidos, investidores tentaram comprar a terra de uma tribo de americanos nativos para construir um shopping center. Os anciãos disseram que seria necessário discutir o assunto com a tribo inteira e decidiram que não poderiam vendê-la. Os vivos e os ancestrais eram a favor da venda, pois isso ajudaria os vivos a ficarem ricos, mas os (ainda) não nascidos disseram que, se a terra fosse vendida, eles nada teriam quando nascessem. Em algumas tribos , o rio da vida não somente une os seres humanos em linhagens, clãs e tribos, como também abrange os animais e às vezes até as plantas. Uma linhagem ou clã específico podem estar associados a determinada espécie de animais e/ou plantas, no que é conhecido como totemismo. Um mito comum é que o primeiro ancestral teve três filhos: o primeiro era um ser humano e se tornou o fundador do Clã Tigre; o segundo era um animal e progenitor dos tigres; e o terceiro era uma planta, o antepassado dos lírios de tigre. As redes de vida se estendem para incluir toda a natureza. VOLTADOS PARA O GRUPO Pequenos bandos nômades são geralmente caracterizados com ênfase na liberdade do indivíduo, mas situada no contexto de relacionamento com os outros, isto é, com base no grupo ou em relações interpessoais próximas, e não por meio de papéis formais e instituições. O acúmulo de riqueza , arrogância, vanglória, competição , o desejo por status, a tendência de dominar os outros e todos os comportamentos que causam discórdias são condenados. Há uma forte ética da humildade. Um caçador bem-sucedido toma cuidado para evitar dar a impressão de que ele deseja ou espera honra ou privilégio especial. Entre os algonquin do Canadá, por exemplo, um caçador bem-sucedido dá a maior parte da caça aos outros. Quando dois homens caçam, cada um tenta persuadir o outro a matar um alce, assegurando ao mesmo tempo que o alce não fuja. Essa ética da humildade está intimamente ligada a um valor de partilha. Grandeza não consiste em acumular riqueza, mas na capacidade de compartilhar com os outros sem ter mérito por isso. Um líder não é o que exige honra, mas o que lidera fazendo com que os outros se sintam bem. Em sociedades de horticultores, a vida humana encontra sua expressão máxima mais na comunidade do que no indivíduo. Poucos temas nas cosmovisões tribais são mais difíceis para as pessoas do mundo atual entender do que essa mentalidade centrada no grupo. A maioria dos modernistas toma como certo que todas as pessoas se veem como autônomas, seres humanos individuais. Autossuficiência, realização pessoal, escolha individual e direitos individuais inalienáveis são, sem dúvida, coisas boas em suas mentes. As pessoas orientadas para o grupo, no entanto, necessitam de unidade, harmonia, categorias flexíveis e mistério . Elas precisam estar cercadas de outras pessoas, em vez de ficar sozinhas. Ficam horrorizadas com o que divide e separa. O feiticeiro é o solitário. Na maioria das pequenas sociedades hortícolas, as pessoas veem os grupos como as unidades importantes da sociedade — famílias, linhagens, clãs, bandos e tribos . Indivíduos existem apenas em grupos e para o bem deles. Enquanto o grupo existir, eles não podem morrer, pois serão lembrados como ancestrais . Sua existência está ligada à unidade e ao bem-estar de seu grupo. Os desejos pessoais estão subordinados às necessidades do grupo. Lealdade ao grupo, autonegação, autossacrifício, partilha e hospitalidade são virtudes fundamentais. Egocentrismo, acúmulo, mesquinhez e envergonhar o grupo por seu comportamento são pecados. Nesse mundo, a vida adquire um grande significado. D. Zahan escreve: “O cosmo não constitui um mundo fixo, frio e mudo. Ao contrário, é um mundo cheio de significados e pleno de mensagens, um mundo que ‘fala’. Assim, o homem encontra em seu entorno um parceiro com quem ele pode se comunicar, com o qual deve, de fato, manter um diálogo quase constante se quiser obter informação sobre si mesmo” (1979, p. 81). A harmonia é essencial para a vida em grupo, mas é precária e ameaçada pelos conflitos e incertezas da vida cotidiana. A mudança, portanto, é muitas vezes vista como uma ameaça. Os controles sociais e os rituais comunitários desempenham um papel importante para criar e realçar a harmonia. Eles fornecem a cada pessoa um lugar no grupo e prescrevem seu comportamento. Afirmam a importância da comunidade na vida das pessoas. Para as sociedades particularistas, orientadas para o grupo e orientadas para o presente, as categorias relacionais são a base para a vida. As mulheres são primeiro mães, depois esposas, filhas, anciãs e ancestrais em relação a pessoas específicas. O fato de serem do sexo feminino é secundário. Além disso, as categorias são frequentemente fuzzy. Estrangeiros que se casam com os membros dessas sociedades progridem através de etapas para fazer parte do grupo. Muitos signos em sociedades orais são símbolos apontando para realidades e evocando imagens na mente.² Mas os signos importantes, como o nome da pessoa, são muitas vezes vistos como ícones em que o signo não se refere apenas à pessoa, também molda sua personalidade. Dar o nome a uma criança de Águia Corajosa é conceder à criança as características da águia. Quando uma pessoa assume nova identidade, como na iniciação da idade adulta ou na conversão a outra religião, ela recebe um novo nome. Por exemplo, as pessoas no AT receberam novos nomes quando entraram em novos relacionamentos com Deus (Gn 17.5; 32.28; Nm 13.16). Dizer o nome de uma pessoa é invocar sua presença. Muitas vezes é proibido para membros de um povo falar o nome do cacique, esposas usarem os nomes de seus maridos e os vivos pronunciarem os nomes dos falecidos. Em um mundo concebido como pleno de vida, manter relacionamentos harmoniosos com outros seres vivos é essencial à vida. O esquimó derrama água doce na boca da foca que caçou porque ela estava cansada da água salgada e por isso se permitiu ser pega. O agricultor faz uma oferenda à terra, pedindo perdão pela dor que ele inflige durante o plantio da semente. O pecuarista abençoa seu gado, a fim de que dê à luz crias. Uma vez que os relacionamentos devem ser constantemente negociados, é impossível para os seres humanos planejar completamente suas vidas. Um homem pode concordar em se encontrar com um amigo na manhã seguinte, mas, se na última hora parentes aparecerem, os ancestrais exigirem comida, sua vaca parir um bezerro ou os espíritos o perturbarem, pode ser que ele só consiga encontrá-lo no final da tarde. Pessoas aprendem a viver em constante fluxo de mudança de relacionamentos no cotidiano. A vergonha desempenha um papel mais importante do que a culpa nas comunidades orientadas para o grupo. Quando as pessoas erram, elas se sentem envergonhadas por ter decepcionado seu grupo, seus ancestrais e seus deuses. Elas não se sentem culpadas por haver violado pessoalmente alguma lei moral universal. Na verdade, pode haver uma pequena consciência dessas leis. Todas as normas importantes são normas do grupo. A vergonha também está relacionada ao sucesso e à honra. Uma estudante orientada para o grupo se envergonha quando o professor pede para ela se levantar porque tem a melhor nota da classe. Isso faz com que ela se destaque do grupo. A vergonha é uma dinâmica que pressiona as pessoas a se adaptarem ao grupo, dessa forma ela mantém a harmonia e a paz. Intimamente associado à vergonha está o valor atribuído à reconciliação e à preservação da reputação. Os malfeitores são punidos, mas, no final, devem ser restaurados à vida cotidiana da comunidade. Se não puderem conservar algum senso de dignidade humana, carregarão ressentimentos que destroem relacionamentos, e os problemas continuarão sem resolução. Consequentemente, depois que a pessoa fez a restituição, muitas vezes há um ritual de reconciliação para deixar o passado para trás e reintegrá-la ao grupo. O maior castigo para uma pessoa nessas sociedades é ser banida ou evitada.Quem não se submete à decisão do grupo sofre ostracismo. A pessoa continua a viver na aldeia, mas todos a tratam como inexistente. Essa é uma punição muito maior do que ser colocada na cadeia. FERTILIDADE A fertilidade é importante em uma cosmovisão orgânica. A reprodução é essencial para a continuação da vida. O ciclo de fertilidade molda a visão das pessoas sobre o tempo. As safras são plantadas, colhidas e replantadas. Animais e seres humanos têm os seus ciclos de nascimento, casamento ou acasalamento e morte. Os rituais são realizados nessas épocas para garantir a fertilidade da natureza e dos seres humanos. Orações são oferecidas à caça que é abatida e morta, a fim de que seus parentes não fiquem ofendidos e permitam ser caçados. A água é derramada na terra para saciar sua sede e incentivá-la a proporcionar uma colheita abundante. Danças são realizadas para garantir boas chuvas. Sementes e campos são abençoados, e os primeiros frutos da colheita são oferecidos aos ancestrais , aos espíritos e aos deuses em agradecimento. Nas sociedades pastoris, rituais são realizados para garantir a reprodução dos animais. Igualmente importantes são os ritos que asseguram a fertilidade entre os seres humanos. Há poucos males tão terríveis quanto a esterilidade, que é muitas vezes vista como resultado da maldição de uma bruxa ou como um sinal de que os ancestrais ou os deuses estão irados. Consequentemente, há muitos rituais associados a casamento, gravidez e nascimento, rituais para tornar as mulheres férteis e para proteger a elas e aos bebês durante os meses de maior risco, os próximos ao nascimento, quando eles estão particularmente vulneráveis aos seres e forças malévolas. Igualmente importantes são outros ritos de ciclo de vida que marcam outras transições importantes da vida: a iniciação na vida adulta e a transformação em um ancestral. Espaço e tempo Para as pessoas em pequenas sociedades tradicionais , a terra é o lugar em que os vivos, os ancestrais e Deus se encontram. Para as pessoas modernas, a terra é uma realidade bruta e passiva, objeto de exploração e de lucratividade econômica e industrial. TERRA No centro da vida tribal está a mãe-terra, a base da vida. A terra provê o alimento que mantém as pessoas vivas e sustenta o mundo em que vivem. A terra é também onde os ancestrais estão enterrados. Os aspectos importantes dela contam as histórias de suas vidas: “Aqui é onde o Grande Cacique Big Hawk [Grande Falcão] derrotou o inimigo na batalha”; “Aquela árvore foi plantada sobre o túmulo do nosso bisavô, que salvou o povo da seca”; “Ali está o lugar em que nossos antepassados vivem agora”. Brian Walsh escreve: Se “onde estamos” é a terra que experimentamos como nossa mãe, um mundo de profunda harmonia em que animais, plantas, estrelas, lua, sol e vento fazem parte de “todas as minhas relações”, e descobrimos nossa identidade básica (respondendo à pergunta “quem somos”) como filhos da terra, amáveis com os animais e membros de um clã, então a edificação de um lar exigirá que preservemos um equilíbrio sensível entre os relacionamentos. Os lares humanos não podem ser dissociados dos lares dos animais nem deveriam ser construídos de uma forma que deixem nossos parentes animais desabrigados (2006, p. 245). Walsh observa que o uso do espaço nas aldeias em pequenas sociedades reflete a ordem social. A localização e o tamanho das casas caracterizam os líderes, os anciãos dos clãs e as pessoas comuns. As terras cobertas de florestas e os direitos de pesca nos rios pertencem a diferentes clãs. A organização das casas é culturalmente influenciada e reflete profundos pressupostos da cosmovisão. Certas partes da casa e da aldeia são controladas pelas mulheres , outras, pelos homens. Casas e terras se tornam lares quando passam a ser depósitos de memórias pessoais e coletivas, moldadas e abastecidas por mitos e histórias das origens. “Esta sala é onde nossos ancestrais e os (ainda) não nascidos moram”; “Aqueles arco e flecha foram esculpidos por meu avô quando fui iniciado na vida adulta”. Os mitos fundamentais e as histórias não são registrados em páginas impressas, mas associados a locais geográficos e contados e recontados pelos pais a seus filhos quando passam por esses lugares.³ O tempo separa as pessoas de diferentes gerações, mas o espaço as reúne: “Certo ancestral viveu há mais de cem anos, mas ele construiu esta casa”. Em certo sentido, os cristãos entendem essa visão religiosa do espaço quando andam pelas estradas da Terra Santa. Nós nos sentamos no poço que Jacó cavou; caminhamos no jardim do Getsêmani e recordamos que é o local em que Jesus andou na noite anterior à sua crucificação. O espaço traz o passado para o presente. Acima de tudo, a terra é importante porque é sagrada. Ela pertence aos deuses, que a deram para as pessoas, que a protegeram de grandes inimigos. Vemos isso no AT, quando os hititas, os filisteus, os moabitas e outras tribos equiparavam seus deuses a seu povo e suas terras. A terra nessas sociedades não é uma mercadoria que as pessoas podem comprar e vender. Ela pertence às linhagens e tribos, que distribuem seu uso a seus membros. Se há terra sobrando, pode-se dar permissão aos estrangeiros para usá-la até que o povo precise dela. Em troca, espera-se que os estrangeiros deem presentes de agradecimento e devolvam a terra quando solicitada, pois ela pertence não só aos vivos, como também aos mortos -vivos e aos (ainda) não nascidos.⁴ Em muitas pequenas sociedades hortícolas, uma nítida distinção é feita entre os mundos geográficos de homens e de mulheres . Por exemplo, entre os lele do sudoeste do Congo, os homens estão associados com a floresta e as mulheres com a vila e os campos ao redor (Douglas 1954). O prestígio da floresta é grande. Deus a deu aos lele como a fonte de todas as coisas boas e necessárias, os medicamentos sagrados e, acima de tudo, a caça e a carne. Carne boa, como a dos antílopes e porcos selvagens, vem da floresta. Cabras, cães e ratos, encontrados ao redor da aldeia, são considerados impuros. Os homens caçam na floresta usando armas e medicamentos sagrados, alardeando que podem trabalhar o dia todo nela sem sentir fome. A floresta é a fonte de todas as coisas boas e ao mesmo tempo é um lugar de perigo, não apenas para as mulheres, como também, muitas vezes, para os homens. Uma árvore pode cair em suas cabeças, eles podem torcer o tornozelo ou se cortar com uma faca, mas esses acontecimentos são consequências da própria condição moral. Se as mulheres entram na floresta, elas colocam em risco toda a aldeia. As mulheres estão associadas com as casas, a vila e os campos, onde limpam pequenas áreas e plantam milho, mandioca e palmeiras de ráfia. Elas cozinham a carne da caça que os homens trazem para casa, mas não podem subir em árvores para colher vinho de palmeira ou tecer e costurar roupas de ráfia. Estas são tarefas dos homens. Mulheres buscam água, recolhem a lenha, criam peixes em viveiros nos rios pantanosos, cultivam plantas que produzem sal e preparam o sal das cinzas. Em partes de Papua Nova Guiné, as mulheres vivem na aldeia e cuidam da lavoura, além de cuidar das crianças, enquanto os homens caçam. À noite, os homens se reúnem na grande casa dos homens para comunhão e para planejar as coisas importantes da vida — política , caças futuras e ataques a aldeias vizinhas. Ocasionalmente, eles visitam suas famílias, mas a vida dos homens está centrada na grande casa. TEMPO De um modo geral a maioria das pessoas ao redor do mundo está preocupada com a vida aqui e agora. Elas buscam significado nesta existência e querem uma boa vida na Terra. São confrontadas com os problemas da vida diária, como doenças, secas, inundações e morte súbita. Quando o alimento está disponível, comem até se fartar. Quando ele falta, as pessoas suportam as dores da fome com coragem, assim como fazem as outras criaturas. Elas oferecem sacrifícios aos espíritos e usam a magia para influenciar a natureza. No final, entretanto, estão conscientes de que suasvidas dependem dos espíritos e das forças da natureza. A vida focaliza o tempo do evento, e não o tempo do relógio. Os acontecimentos cotidianos estão vagamente relacionados aos ciclos do dia e da noite e às estações do ano. As pessoas organizam suas vidas com base em eventos específicos, como plantio e colheita, nascimento, casamento e morte. Tempo não é uma mercadoria a ser comprada e vendida, ou algo que possa ser medido ou que se esgote. Além disso, muitos eventos são parte de ciclos maiores de dia e noite e das estações do ano. Por exemplo, agora é hora de trabalhar no campo. Vamos trabalhar por algum tempo e continuaremos a trabalhar um pouco mais. O evento atual, portanto, tem passado, presente e futuro. Quando terminarmos o trabalho no campo, será o momento de alimentar os animais. Agora o tempo de trabalhar está totalmente no passado. Depois será tempo de jantar e tempo de dormir, e, então, virá o tempo de trabalhar no campo novamente. A vida também é marcada pelos ciclos de nascimento, iniciação na vida adulta, casamento e morte. Os indivíduos vêm e vão, mas, da perspectiva do grupo, a vida continua, renovando-se constantemente por meio da descendência. O passado não é claramente distinguido do presente. As pessoas não pensam que têm uma história que se estende linearmente atrás delas. Ao contrário, o passado é o depósito atemporal dos ancestrais e das tradições — as histórias contadas hoje a respeito daqueles que ainda são lembrados. Da mesma forma, o futuro é uma extensão do presente. As pessoas não pensam muito sobre o futuro distante. A concepção de tempo pode ser descrita como o evento atual com passado, presente e futuro contidos nele (em um culto na igreja, o passado, o presente e o futuro são partes do evento), o passado recente e a presente antecipação do futuro próximo. Visto que o tempo se repete indefinidamente, há muitas vezes pouca percepção de uma história de longo prazo como uma progressão de eventos levando a alguma culminação futura. As histórias importantes são as do deus supremo e das origens da tribo, que pertencem ao passado. Os eventos atuais têm pouca importância duradoura, e poucas sociedades orientadas para o grupo se mantêm informadas sobre histórias e biografias. Para a maioria, a terra e o espaço são mais importantes do que o tempo e a história. Uma exceção importante a essa visão não histórica do tempo é a dos israelitas no AT. Para eles, a história de Israel estava intimamente ligada à história cósmica dos atos de Deus e, portanto, tinha grande importância. Além disso, suas biografias tinham significado porque eram parte da história de Israel. Isso não significa que povos tradicionais não tenham interesse em realidades derradeiras além da morte. Paul Radin comenta que, em todas as sociedades, há filósofos que debatem as questões principais da vida e buscam o deus supremo que está além do mundo imediato dos deuses, espíritos e ancestrais locais (1927). Oralidade W. J. Ong (1969) observa que a maioria dos bandos e tribos é de sociedades orais. Seus mundos são construídos mais com base no som do que na visão. Tais mundos são altamente imediatos, pessoais e relacionais. As palavras são proferidas em contextos de relacionamentos específicos e deixam de existir assim que tenham sido pronunciadas. A comunicação é um fluxo de encontros imediatos entre seres humanos, repletos de emoções e de interesses pessoais. Foi somente com o advento dos gravadores que os sons puderam ser preservados. Como visto no capítulo 1, os sons apontam para o invisível e falam acerca de mistérios; portanto, levam as pessoas a acreditar em seres que não podem ver. Admite-se, de maneira geral, que os sons são poderosos e sagrados. Emitir os sons corretos é fazer as coisas acontecerem. Ong afirma: “Os sons sinalizam o presente uso do poder, uma vez que devem estar em produção ativa para que existam de fato” (1969, p. 637). Os sons corretos podem fazer chover. Outros sons, como os dos tambores e gritos, protegem as pessoas de espíritos malignos. A comunicação oral é eminentemente relacional. Ela ocorre em contextos específicos, é dirigida a um público ou pessoa específica e se concentra em mensagens particulares. Comunica paramensagens, como sentimentos e juízos de valor, pelo tom da voz, pelos gestos, pelas expressões faciais e pela distância entre as pessoas que se comunicam. Ela exige o ato de ouvir e o de responder, bem como o de lembrar. Provoca juízo moral e resposta. Nas sociedades orais, o conhecimento é armazenado na forma de histórias, parábolas, canções, aforismos, provérbios, enigmas, poemas, credos e catecismos que podem ser facilmente lembrados. Também é armazenado em rituais, que são reconstituições vivas de eventos originários. Quanto às sociedades orais, Neil Postman (1985, p. 18) escreve: Quando surge um litígio, os pleiteantes comparecem diante do cacique da tribo e apresentam suas queixas. Sem lei escrita para guiá-lo, a tarefa do cacique é buscar em seu vasto repertório de provérbios e ditos um que corresponda à situação e que seja igualmente satisfatório para ambos os pleiteantes. Isso feito, todas as partes concordam que a justiça foi realizada e que a verdade prevaleceu. Você reconhecerá, obviamente, que este foi, em grande parte, o método utilizado por Jesus e outras personagens bíblicas, que, vivendo em uma cultura essencialmente oral, faziam uso de todos os recursos de expressão, incluindo dispositivos mnemônicos, expressões formulares e parábolas, como meios de descobrir e revelar a verdade. Provérbios, parábolas e ditos não são complementares ao argumento lógico. Eles são a essência do próprio pensamento, o depósito da sabedoria.⁵ Particularismo As pequenas sociedades têm uma visão particularista da realidade. Ao contrário dos povos modernos, que buscam leis universais abstratas que se apliquem igualmente a todos os seres humanos (sejam leis científicas, sejam jurídicas, sejam morais), os povos tribais focalizam a particularidade de cada evento. Cada tribo tem os próprios deuses e ancestrais que vivem em seu solo. Cada uma reconhece que outras tribos têm outros deuses e ancestrais e não tenta convertê- las às suas crenças . Na verdade, é impossível adotar as crenças de outra tribo sem se tornar parte de sua sociedade por meio do casamento ou da adoção. Quando as guerras surgem, cada tribo clama a seus deuses e ancestrais por auxílio, e as vitórias e derrotas são atribuídas a seu poder. Por exemplo, os sírios e outras tribos pensavam que o Deus de Israel era o Deus dos montes, porque era ali que os israelitas viviam (1Rs 20.23-28). Entretanto, Yahweh se declarou não um deus territorial, mas o Deus do universo. Este foco na particularidade pode ser visto nos eventos cotidianos. Quando o cacique aparece em um hospital moderno, o médico espera que ele fique na fila como todos os outros, embora seu povo espere que vá para o início da fila, porque ele é mais importante. O missionário médico cobra de todos o mesmo valor pelos medicamentos. As pessoas esperam que os ricos paguem mais pelo mesmo tratamento. As particularidades de cada caso devem ser levadas em consideração para determinar como uma pessoa deve agir. O particularismo também se aplica à identidade. As pessoas da própria tribo são humanas. As de outras tribos não são plenamente humanas. A palavra usada para estrangeiros é frequentemente “sub-humanos” e assim eles podem ser tratados. Lógica funcional concreta Todos os seres humanos dependem da razão humana , mas culturas diferentes usam lógicas distintas para organizar seus pensamentos. Por exemplo, as elites modernas com boa formação valorizam o pensamento analítico abstrato baseado em categorias digitais intrínsecas. Elas acreditam que os princípios lógicos por elas estabelecidos são universais ou verdadeiros para todas as pessoas em todos os lugares. Sociedades tradicionais orientadas para o grupo de fato usam raciocínio abstrato em situações específicas, mas sua lógica fundamental é funcional-concreta, baseada em categoriasrelacionais, frequentemente difusas (fuzzy). LÓGICA FUNCIONAL Como observamos anteriormente, A. R. Luriia descobriu que, quando se apresentavam aos quirguizes da Ásia Central fotos de pessoas e objetos, eles agrupavam dois adultos com uma criança e não com um terceiro adulto, e escolhiam duas rodas e um alicate em vez de três rodas juntas. Eles argumentaram que, com duas rodas e um alicate, poderiam fazer um carro. Além disso, o que fariam com três rodas? Precisavam de duas ou quatro rodas. Luriia descobriu que eles relutavam em depender apenas da lógica abstrata proposicional e de conjuntos intrínsecos. Ele disse a um homem quirguiz: “O algodão só cresce em lugares quentes e secos. Na Inglaterra, é frio e chove o tempo todo. O algodão poderia crescer lá?”. O homem respondeu: “Eu não sei, tenho ouvido sobre a Inglaterra, mas não sei se o algodão pode crescer ali”. Quando Luriia repetiu o silogismo, outro homem respondeu: “Eu não sei [...] Se for frio, não vai crescer, mas, se for quente, crescerá. Com base em suas palavras, eu teria de dizer que o algodão não cresceria lá. Mas eu precisaria saber como é a primavera na Inglaterra e que tipos de noites eles têm” (1976, p. 111). Isso não significa que as pessoas em sociedades orais sejam incapazes de pensamento proposicional abstrato. Colocadas em escolas que ensinam essa forma de pensar, logo aprenderiam a pensar assim. Na vida cotidiana, no entanto, elas pensam a respeito das coisas em contextos concretos, não conforme categorias abstratas intrínsecas. Portanto, muitas vezes elas são classificadas pelas pessoas do mundo moderno como detentoras apenas de uma mentalidade primitiva. A inexatidão desse juízo se torna mais clara quando percebemos que nós mesmos não usamos esse tipo de lógica abstrata em nossas vidas cotidianas. Se houver mais pessoas do que lugares em nosso carro, deixaremos de levar a criança porque ela “não pertence ao grupo dos adultos”? A LÓGICA DA MAGIA De modo geral, a magia é o controle das forças deste mundo, como o mana, pelo uso apropriado dos cantos, amuletos e rituais. Não consiste em suplicar aos seres espirituais na esperança de que eles responderão. As pessoas acreditam que proferir as fórmulas sonoras corretas causa a chuva ou as protege de doenças ou espíritos malignos. Nesse sentido, a magia é mais parecida com a lógica da ciência moderna do que com a da religião. A tendência atual é considerar a magia como sem sentido, como fantasias infantis e pensamento pré-lógico. Mas a lógica da magia traz significado à vida das pessoas e as controla, criando um mundo harmonioso em que tudo está ligado a tudo, e acontecimentos ocorridos em uma parte do mundo causam mudanças em outras partes. Essa associação não está baseada apenas em ligações biofísicas, mas em realidades interdimensionais presumidas subjacentes ao mundo. Sir James Frazer observou duas leis que estão por trás do pensamento mágico (1922). A primeira é a “lei da similaridade”, ou homeopatia — o princípio de que “o semelhante produz o semelhante”. Por exemplo, um xamã derrama água para produzir chuva e um mago faz um boneco parecido com seu inimigo e enfia agulhas nele, causando a doença e a morte do inimigo. Da mesma forma, a multidão em um jogo de futebol se inclina em direção à linha do gol para tentar ajudar o time a marcar um gol. A segunda é a “lei do contágio”, o princípio de que as coisas que já estiveram em contato continuam, depois disso, atuando umas nas outras. Por exemplo, o mago pode fazer magia sobre uma peça de roupa, uma unha cortada ou um chumaço de cabelo da vítima, fazendo com que essa pessoa fique cada vez mais fraca; uma mulher pode secretamente realizar magia na comida de seu marido, se suspeitar que ele está tendo um caso; ou um jovem pode lançar um feitiço sobre uma jovem mulher para fazer com que ela se apaixone por ele. O uso de magia é essencialmente pragmático — se algo parece funcionar, então continue a fazê-lo até que não funcione mais. Há pouca necessidade de explicar por que as coisas funcionam, basta saber que elas funcionam. A magia é amoral, pode ser usada para o bem ou para o mal. Na verdade, o que é bom aos olhos do que realiza a magia pode ser destrutivo para a pessoa que a recebe. A maior parte da magia é usada para beneficiar as pessoas, particularmente quando é praticada pela comunidade. Um xamã ou um curandeiro realiza rituais para uma família, uma vila ou para uma tribo para controlar o tempo, prevenir doenças, garantir vitórias nas batalhas contra os inimigos, punir os transgressores e trazer prosperidade. No entanto, praticada individual e secretamente, a magia é frequentemente utilizada para fins egoístas e maléficos. Um homem procura levar vantagem sobre um vizinho usando magia “malévola”. Ele amaldiçoa um inimigo para matá-lo ou lança um feitiço de amor a uma mulher para forçá-la a se envolver em um relacionamento ilícito. Temas afetivos Pouco se tem estudado sobre temas afetivos em bandos e em sociedades tribais. Como observamos anteriormente, Ruth Benedict , com base em seu trabalho anterior de romancista e poetisa, usou três figuras míticas gregas para descrever os profundos temas afetivos de diferentes culturas. Os zuni do Novo México enfatizam a discrição emocional, a sobriedade, a autonegação e a não agressividade. Os kwakiutl da ilha de Vancouver buscam experiências violentas e frenéticas para sair da rotina sensorial habitual e expressar emoções pessoais com grande liberdade, buscando o êxtase por meio do jejum, da tortura, das drogas e da dança frenética. As emoções dominantes dos dobuans da Melanésia são hostilidade e traição, e as pessoas vivem em permanente estado de medo mútuo. As pequenas sociedades são ricas em cultura estética. Canções, danças, pintura, decoração do corpo, roupas, teatro dramático, decorações de casa e narração de histórias expressam os sentimentos profundos das pessoas. Infelizmente, devido à ênfase moderna na verdade e à negligência dos sentimentos e da moral na comunidade acadêmica, essa cultura estética é pouco compreendida. É vital que pastores e missionários pesquisem os temas afetivos nas culturas em que atuam, pois os sentimentos e as ideias determinam como as pessoas vivem. Temas avaliadores Um mundo de relações interpessoais é um mundo moral. Forças impessoais, como a gravidade e o fogo, não pecam. O pecado nas sociedades orientadas para o grupo envolve violação nas relações entre seres humanos, ancestrais , deuses, espíritos, animais e natureza. O resultado é a perda da paz e o colapso da comunidade. Reconciliação é a restauração dos relacionamentos e da harmonia. Em um mundo relacional, alto valor é atribuído ao ato de partilhar e assumir responsabilidade em relação às pessoas de seu grupo. Pessoas admiradas não são as que guardam o que possuem para si mesmas, mas as que compartilham seus bens livremente com os necessitados. Os ancestrais desempenham um papel importante na manutenção dos padrões morais em bandos e tribos . Eles punem as falhas e recompensam o bem com paz, saúde e fertilidade . A feitiçaria também molda o senso de moral das pessoas. Fornece uma possibilidade a elas de culparem os outros por seus infortúnios e absolverem a si mesmas. Temas diacrônicos Como estudamos, os mitos são parte indispensável da vida dos povos orais. Eles dão significado ao universo, expressam os sentimentos mais profundos do povo e sua ordem moral. Os mitos armazenam informações em formas facilmente lembradas — eles são contados e recontados em muitas ocasiões. Mitos de origem Os mitos de origem, que explicam como o mundo passou a existir, são os tipos mais universais de mitos. Muitas vezes, eles falam de deuses e deusas que criaram a Terra ou a trouxeram à existência por meio de suas mortes e desmembramentos. Outros descrevem a origem dos primeiros seres humanos e explicam como eles passaram a sofrer e a morrer. Outros mitos de origem narram como os seres humanos adquiriram fogo, arcos e flechas e casas, e como conseguiram domesticar as plantas e os animais.Mitos de separação Os mitos de separação também são muito comuns. Eles explicam como os seres humanos perderam o estado de pureza no paraíso e passaram a sofrer com o trabalho pesado e a separação de Deus. De acordo com os criadores de gado do sul do Sudão do povo nuer , o céu e a terra eram originalmente ligados por uma corda presa à árvore da Criação, pela qual os seres humanos entraram pela primeira vez no mundo. Todos os dias, as pessoas desciam do céu pela corda para obter alimento. Quando elas morriam na terra, ascendiam ao céu por meio da corda por um curto período de tempo e rejuvenesciam. Os nuer têm diferentes versões explicando como a corda foi cortada, tornando a morte uma condição humana permanente. Em uma delas, uma menina desceu do céu com alguns companheiros para obter alimento na terra. Ela conheceu um jovem e teve relações sexuais com ele. Originalmente ele tinha vindo do céu, mas passou sua vida toda na terra, nunca subindo de volta. Quando chegou a hora de a menina retornar, ela se recusou, declarando seu amor pelo jovem. Seus companheiros subiram ao céu e cortaram a corda, interrompendo para sempre o caminho para a imortalidade. Por isso, as pessoas estão agora separadas de Kwoth, o deus supremo, não por causa do pecado, mas por causa de uma jovem menina impetuosa e de seus companheiros vingativos. Os dinka do Sudão acreditam que, no princípio, Nhialic, o deus supremo, e os seres humanos eram grandes amigos, e as pessoas subiam ao céu por uma corda. Não havia morte ou doença, e um mínimo de trabalho era necessário para produzir os alimentos. Mas o céu estava próximo da terra, assim os seres humanos precisavam ter cuidado para não atingir Nhialic ao plantar e moer o milho. Um dia, uma mulher, usando uma enxada de cabo longo para plantar o milho, levantou em demasia o cabo da enxada e feriu Nhialic. Ele ficou com raiva e se retirou para longe da terra. Depois disso, as pessoas foram obrigadas a trabalhar para se alimentar e sofriam com doenças e a morte. Em outra versão, a mulher usou uma longa vara para socar o milho e atingiu Nhialic, que estava sentado acima dela. Heróis da cultura Muitos mitos nas sociedades pequenas falam de figuras míticas que vivem entre o mundo dos seres humanos e o dos deuses. Em épocas antigas, elas transformaram as pessoas em seres humanos completos, ensinando cultura para elas. Normalmente, esses heróis culturais trouxeram o fogo que transformou a carne crua em alimento, e as rochas derretidas em metais. Eles introduziram a língua, a agricultura e as técnicas para produção de cerveja e pão. Ensinaram artes, artesanato, leis, cerimônias e organização social às pessoas. Eles eram o elo entre a esfera sagrada original e o universo mundano da vida humana comum. Os heróis culturais também derrotaram monstros e outras forças do mal que ameaçavam a existência humana. No entanto, muitas vezes, eles, por fim, como os deuses, ficaram ofendidos com a inépcia humana e abandonaram os seres humanos à própria sorte. Catástrofes Os mitos de cataclismos cósmicos são bem comuns. Alguns ocorreram no passado, outros se repetem periodicamente, e espera-se que alguns levem ao fim do mundo ou a uma nova criação no futuro. Histórias de dilúvios são comuns. Outras catástrofes cósmicas incluem terremotos, incêndios destruidores, desmoronamento de montanhas e pragas. Muitas vezes, elas são causadas pela ira dos deuses devido aos pecados dos seres humanos. Em muitos desses mitos de calamidades, a maioria dos seres humanos é morta, e apenas alguns sobrevivem para repovoar uma terra virgem, agora purificada dos males anteriores. O juízo é seguido pela ordem e pela moralidade . Em alguns mitos apocalípticos, o juízo ocorrerá no futuro, e o mundo deixará de existir. Em um mito das ilhas Carolinas, Aurepick, o filho do Criador , submergirá a ilha com um ciclone, quando vir que o chefe não tem mais nenhuma preocupação com os súditos. Os nigritos da Península da Malásia acreditam que Kavei, um deus mau, destruirá a terra e todos os seus habitantes quando as pessoas não lhe obedecerem mais (Eliade 1975, p. 56-7). Nesses mitos, a destruição é final. Outros mitos falam de uma destruição seguida pela recriação de um paraíso terrestre em que os mortos ressuscitarão, e as enfermidades e a velha Terra serão abolidas. Os índios choctaw e os esquimós da América do Norte acreditam que o mundo será destruído pelo fogo, mas que o espírito dos seres humanos retornará e será recoberto de carne para habitar suas terras tradicionais. Subjacente a esses mitos está a crença de que o mundo está degenerando e que a destruição e a recriação são necessárias para restaurar a ordem cósmica. Em muitos mitos escatológicos, criação, degeneração e destruição são seguidos por recriação, degeneração e destruição em um ciclo interminável de tempo. Na cosmologia judaico-cristã, o juízo final ocorre uma vez. O tempo não é circular, mas linear e irreversível. Nela, a história humana inicia na história sagrada e termina na história sagrada. A crença em um fim iminente da atual história humana e na vinda de Cristo foi marcante durante as perseguições da igreja primitiva, mas diminuiu depois que o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano. O milenarismo é muito comum nas sociedades tribais ao redor do mundo atual e, muitas vezes, é resultado do encontro de cosmovisões tradicionais com o cristianismo . Eles incluem os cargo cults da Melanésia, os movimentos da Native American Ghost Dance [Dança dos fantasmas dos índios americanos] e muitas das igrejas independentes africanas e chinesas. Frequentemente, esses movimentos milenaristas não ocidentais aguardam o dia em que o povo local obterá todos os bens materiais — o “cargo” — que os povos ocidentais aparentemente têm. Isso acontecerá, dizem eles, somente por meio de cataclismos cósmicos, em que Deus lhes dará o que é seu por direito e punirá os colonialistas que são ricos porque roubaram os bens que Deus lhes enviou. Quando pessoas de sociedades pequenas se convertem a Cristo, é importante que a sua conversão afete todos os níveis de sua cultura e sociedade, e que ela seja tanto coletiva quanto pessoal. Se a conversão ocorre no nível consciente da cultura, mas não no nível da cosmovisão, o resultado é cristianismo -paganismo — um sincretismo em que as formas do evangelho estão presentes, mas sua essência está ausente. Nosso estudo aqui não é um estudo definitivo ou exaustivo das cosmovisões das pequenas sociedades. Ao contrário, é um modelo demasiadamente simples, que precisa de mais estudos, mas pode nos ajudar a examinar a cosmovisão específica das pessoas a quem servimos. Esperamos que também nos torne conscientes de quão distantes nossas cosmovisões modernas e pós-modernas estão das pessoas em sociedades tradicionais e de uma cosmovisão bíblica. Como veremos adiante, as cosmovisões tribais estão, de muitas maneiras, mais próximas das Escrituras do que as dos missionários contemporâneos que vão servir nessas sociedades. ¹Em algumas partes do mundo, “tribo” se tornou um termo pejorativo, que implica que os povos tribais são primitivos porque não são “modernos”. O problema não está na palavra “tribo”, mas na palavra “moderno”, pois qualquer termo referindo-se a sociedades que não são modernas indica que elas, por definição, são menos civilizadas. Essas conotações são remanescentes da teoria da evolução cultural. ²Aqui estamos seguindo a teoria dos signos de Charles Peirce , que afirma que todos os signos são triádicos: há uma forma, uma realidade para a qual ela aponta (dimensão externa ou objetiva) e a imagem que ela evoca na mente (dimensão subjetiva). Em outras palavras, os signos fazem a mediação entre o mundo exterior e o mundo interior da mente. Peirce também divide os signos em índices, símbolos e ícones. ³Brian Walsh observa que a realocação de pessoas, como a dos nativos americanos, destrói suas culturas e desintegra sua ordem social, porque elas são levadas de suas terras, tão ricamente ligadas a suas histórias, e sãoestabelecidas em habitações padronizadas que não têm histórias ou memórias para as pessoas (2006). Elie Wiesel escreve: “Em última análise, pode-se dizer que o oposto dos lares não é a distância, mas o esquecimento. Quem se esquece, se esquece de tudo, incluindo as estradas que o levam para casa” (citado em Walsh 2006, p. 246). ⁴Os nativos americanos deixaram os primeiros imigrantes europeus se estabelecerem em suas terras e aceitaram mercadorias e dinheiro como presentes de agradecimento. Quando pediram aos colonos para devolverem a terra, os colonos os chamaram de “índios doadores ”, porque pensavam que haviam comprado a terra. ⁵Postman observa que, em sociedades alfabetizadas, os provérbios são relegados ao ensino das crianças. Juízes e advogados, professores universitários e pastores não consideram os provérbios respostas relevantes para as disputas. Eles dependem de material escrito para definir e organizar o método de descobrir a verdade. No mundo acadêmico, a palavra publicada tem mais prestígio e autenticidade do que a palavra falada. Certamente, presidentes, primeiros-ministros e chefes de Estado do mundo moderno não ficam na fila em hospitais, aeroportos e supermercados. 6 COSMOVISÕES DE SOCIEDADES RURAIS Durante os primórdios da história humana, a maioria das pessoas vivia em pequenas sociedades. Hoje, mais de dois bilhões de camponeses vivem em mais de um milhão de aldeias. Essas comunidades rurais formam a espinha dorsal das grandes civilizações da China, Índia , Europa, Rússia, bem como de muitas partes da América do Norte e da América do Sul. Há enorme diversidade entre as sociedades e cosmovisões rurais. Os camponeses vivem em zonas costeiras, no nível do mar, quentes e planas, ou em montanhas escarpadas, altas e frias. São agricultores rurais, usam arados puxados por animais, e muitos irrigam seus campos. Eles criam animais para trabalho e alimentação. Os camponeses vivem em dois mundos. Por um lado, são pobres, orientados para a subsistência, populações rurais que moram em comunidades relativamente isoladas. Preocupam-se basicamente com o que está acontecendo em suas famílias, campos e aldeias. Por outro lado, estão ligados ao mundo exterior a suas comunidades. Eles estão sujeitos ao Estado e a mercados externos; tributos, alistamento militar e as forças de mercado se intrometem em suas preocupações diárias. Eric Wolf (1955) faz uma distinção útil entre as comunidades rurais abertas e fechadas. As fechadas estão mais voltadas para si mesmas do que as abertas e tendem a produzir os grãos básicos para o próprio consumo, em vez de safras para comercialização; elas são mais isoladas da vida cultural, histórica e política dos grandes sistemas sociais e nacionais em que estão inseridas. As comunidades abertas têm mais vínculos econômicos, políticos e culturais com o mundo exterior. As influências externas são mais diretas e importantes na vida cotidiana dos camponeses. Hoje, a Coca-Cola, o rádio, os fertilizantes e as máquinas de costura são encontrados em muitas aldeias rurais. Temas cognitivos Por causa da grande diversidade das sociedades rurais, é difícil falar de uma “cosmovisão rural”. No entanto, despontam alguns temas comuns. Esses temas, em vez de fornecer respostas, podem servir como ferramentas heurísticas preliminares para refletirmos mais profundamente sobre as comunidades camponesas específicas a que servimos. Comunidade geograficamente pequena/Estado As comunidades camponesas são sistemas microcósmicos inseridos em sistemas socio-culturais maiores. Em sua maior parte, são autossuficientes e autônomas. A agricultura e a aquicultura são os pilares básicos de suas vidas. Tal como horticultores, a maioria dos camponeses é gente da terra. Por isso, o tema da fertilidade e o foco nas colheitas e no ritmo das estações do ano têm um papel central na mente das pessoas, bem como as preocupações com o poder e com soluções pragmáticas para os problemas concretos do cotidiano. Essas semelhanças com as cosmovisões tribais, no entanto, ocultam uma mudança fundamental na forma que a terra é concebida. Na maioria das tribos , a terra pertence a Deus e é dada a tribos, clãs e linhagens para o uso. Não pode ser comprada ou vendida. O oposto ocorre na maioria das sociedades camponesas: a terra, em última análise, pertence ao Estado. Indivíduos podem possuí-la, mas o Estado pode taxá-la e confiscá-la porque tem o direito de domínio eminente. Além disso, as pessoas podem comprar e vender terras. A terra é um bem econômico e não uma herança divina. Essa mudança conduz a diferenças de cosmovisão entre os camponeses e os governantes. Os camponeses estão próximos da terra e cuidam dela para sua subsistência; os governantes consideram a terra um meio político e econômico de exploração para ganho pessoal ou nacional. Se o seu controle sobre a terra e sobre os camponeses se perde, o Estado deixa de existir. Consequentemente, os órgãos governamentais devem manter exércitos para defender sua terra, atacar outros Estados para expandir seus territórios e controlar os camponeses para evitar revoltas. Comunidade/indivíduo Aldeias rurais são comunidades com um forte senso de identidade e integralidade. Os aldeões sentem que fazem parte de uma comunidade maior do que a soma de seus membros. São moradores locais que cresceram ali e veem as aldeias como seu mundo, delimitado e microcósmico, onde esperam viver desde o berço até o túmulo. A maioria dos membros tem pouco ou nenhum desejo de sair e adentrar no grande e perigoso mundo exterior. Em suas aldeias, sabem como viver e têm um senso de segurança e identidade. A COMUNIDADE COMO UM TODO A aldeia é formada pela terra e por seus habitantes. Isso inclui as pessoas, mas muitas vezes abrange também os ancestrais ; espíritos terrestres locais; animais; plantas, como antigas árvores associadas às memórias históricas; colinas e rios determinados; e ainda lugares sagrados distintos, como o túmulo de um santo ou um templo em que habitam deuses conhecidos por possuírem certos poderes. Todos residem dentro dos limites tradicionais, muitas vezes sagrados, que os separam das aldeias vizinhas. Os espíritos locais não têm poder além dessas fronteiras. Aqui, rituais envolvendo relacionamentos entre as aldeias são realizados. O senso de comunidade em pequenas sociedades está baseado no conhecimento íntimo e recíproco entre seus membros e em sua compreensão comum da história local. A fofoca espalha as notícias; as festas tradicionais unem a comunidade em rituais coletivos; e as feiras unem os agricultores com os artesãos da aldeia, líderes religiosos, políticos e mendigos. Robert Redfield escreve: As pessoas de um bando, uma aldeia ou uma pequena cidade consideram cada um dos outros membros daquela comunidade como partes um do outro; cada indivíduo está profundamente consciente de que somente esse grupo de pessoas se pertence mutuamente: o “nós” que cada habitante emprega reconhece a separação desse bando ou aldeia de todos os outros. Além disso, para o membro do bando ou aldeia mais isolada, a comunidade é uma esfera de vida, um pequeno cosmo; as atividades e instituições passam de um membro a todos os outros, de modo que, para o próprio nativo, a comunidade não é uma lista de ferramentas e costumes, mas um todo integrado (1989, p. 10). Essa forma de pensar não divide a comunidade em partes que são agregadas. A totalidade é mais real e maior que a soma das partes. Em outras palavras, a comunidade funciona como um sistema orgânico, não mecanicista. A integração nas comunidades camponesas varia muito. Na China, na América do Norte nativa e em outras partes do mundo, a comunidade é social e culturalmente bastante homogênea: os membros normalmente compartilham língua, etnia, religião e rituais comunitários, e nelas podem ser compartilhados até os relacionamentos familiares. Em outras comunidades camponesas, como aldeias no sul da Índia , a integração não é alcançada pelo forte senso de pertencimento a um grupo ou a um tipo de pessoas. Nessaregião, muitas vezes habitam, na mesma aldeia, mulçumanos, hindus e cristãos. Os hindus são divididos em castas intocáveis e castas tocáveis. Os ciganos e outras castas móveis vivem dentro dos limites da aldeia como enclaves culturais muito diferentes e separados dos outros. Além disso, as vilas indianas são, em essência, marcantemente individualistas. A integração nesse caso está fundamentada em sistemas sociais e culturais que unem os diferentes tipos de povos em um todo e cuja ligação se baseia na interdependência para a sobrevivência mútua. Os brâmanes — sacerdotes hindus — mantêm o relacionamento entre a aldeia e os deuses superiores. Os sudras superiores são os fazendeiros; os sudras inferiores são os tecelões, oleiros, lavadeiros, barbeiros e extratores de vinho de palmeira, bem como magos e sacerdotes dos espíritos locais. Os intocáveis são os trabalhadores do campo e os garis que limpam os lugares públicos da aldeia, inclusive removendo as carcaças de animais mortos . A integração não acontece por causa da noção compartilhada por todos de que são um único povo, mas de uma percepção de que, como diferentes tipos de pessoas, eles formam uma grande comunidade orgânica em que cada casta precisa desempenhar seu papel, caso a comunidade queira sobreviver. Pequenas comunidades têm um forte senso de identidade coletiva . Os membros são nativos que nasceram e cresceram na aldeia, pessoas cujas histórias são conhecidas e estão ligadas a famílias e linhagens determinadas e à aldeia como um todo. Essas pessoas são “nós”. Pode haver enclaves de minorias em uma aldeia, mas eles são formados por moradores locais e parte da comunidade como um todo. Em uma aldeia no sul da Índia , esses enclaves incluiriam muçulmanos que vivem em palems, ou setores separados, têm a própria cultura e religião e o próprio sistema social. Esses enclaves também abrangem os ciganos, que vivem em tandas separadas, ou vilas, próximas à aldeia e têm a própria cultura, organização social e deuses, não sendo hindus nem muçulmanos. OS FORASTEIROS Embora indivíduos e grupos de pessoas que vêm de fora e passam pela aldeia possam participar de sua vida, eles permanecem sendo os “outros” ou “eles”. Comumente, são pessoas das aldeias vizinhas. Podem estar ligados à aldeia por meio de casamento, comércio e política , mas não são membros dela. De muitas maneiras, os relacionamentos combinam tensões de amizade e rivalidade, conforme as vilas competem entre si ou se aliam umas às outras na vida regional. Nas aldeias do sul da Índia , esses forasteiros podem estar caçando ou reunindo pessoas da floresta vizinha, que vêm para trocar bens florestais por alimentação e vestuário. Entre eles, também estão os homens de castas itinerantes tradicionais, como bardos, menestréis, membros de grupos de dramatizações, atores, especialistas religiosos e homens santos — todos fazem parte da tradição do país. Visitam a aldeia regularmente e são hospedados durante sua estadia, mas não são membros da aldeia (Hiebert 1971). Na maior parte do mundo, entre os forasteiros estão os funcionários do governo, que visitam as cidades que são o coração dos estados-nação para cobrar impostos e fazer cumprir a lei e a ordem. Os agentes do governo, como oficiais da polícia e coletores de impostos, podem permanecer um tempo na aldeia, mas também são forasteiros — tratados com o devido respeito, mas a distância. Informar a polícia de má conduta na aldeia é violar a lealdade à aldeia e enfrentar as ameaças de ostracismo da comunidade. Outro grupo de forasteiros é o de comerciantes e empresários que visitam regularmente a feira semanal da aldeia para comprar e vender bens aos artesãos e comerciantes locais, além de emprestar dinheiro aos agiotas do lugar. Há também o grupo dos líderes religiosos provenientes de centros da religião formal na cidade. Entre eles, estão os mulás muçulmanos, os sacerdotes e homens santos hindus, os bispos cristãos e os sacerdotes xintoístas.¹ Em muitas partes do mundo, eles são grandemente honrados, até mesmo reverenciados. Muitas vezes, têm mais poder sobre os aldeões locais do que os líderes do governo e os principais negociantes. Entre os forasteiros religiosos, estão também os peregrinos que passam pela aldeia em seu caminho a santuários distantes. Finalmente, há aqueles que são completamente forasteiros: desconhecidos que atravessam a zona rural do país, estrangeiros que visitam a aldeia como missionários e, agora, turistas e artistas. Eles são de fato “outros”, não seres humanos no mesmo sentido que são os moradores locais. O MUNDO EXTERIOR Além da aldeia e das regiões vizinhas, encontra-se o mundo exterior, formado por cidades e estados-nação, empresas de fora da aldeia e centros da religião formal. Esse mundo é estranho, perigoso e “outro”. Há um poder diferenciado entre macrossistemas e microssistemas, entre o poder político e a riqueza dos centros e os da comunidade camponesa, entre o letramento da cidade e a oralidade da aldeia, e entre as instituições religiosas formais e letradas e a religiosidade popular. Oral/literário Uma das invenções que mudaram a história da humanidade é a escrita. As sociedades orais utilizam pictogramas e ideogramas, mas a criação das escritas logo-silábicas permitiu que as pessoas proferissem tanto palavras quanto sílabas. Os caracteres utilizados eram principalmente não pictóricos e arbitrários.² A palavra escrita transformou o modo de organização das sociedades. Ela permitiu que as pessoas se comunicassem através de longas distâncias e armazenassem grande quantidade de informação que estava vinculada ao tempo. Deu origem a cidades, cidades-estados, nações e ao mundo global. Ela também proporcionou o surgimento de culturas cultas em oposição às culturas populares, que muitas vezes são de natureza mais oral (fig. 6.1). A escrita dividiu as aldeias rurais em pessoas alfabetizadas e não alfabetizadas, mas seu impacto não foi igual ao que vemos nas culturas modernas. Antes, as pessoas alfabetizadas se destacaram como classes de especialistas, por exemplo, os sacerdotes, cuja principal função era se comunicar com Deus e falar a seu respeito, e os escribas e secretários, que serviam aos chefes e governantes locais muitas vezes analfabetos, registrando os eventos históricos e fazendo tratados. Os textos eram usados por esses especialistas principalmente para armazenar e registrar informações. Na prática, sua principal forma de comunicação com o povo era oral. O sacerdote brâmane pode usar um texto da mesma forma que um pregador utiliza suas anotações como um roteiro para seus cantos, mas é o cântico oral, não o escrito, que tem poder. Quando as escolas foram fundadas, eram centros de formação religiosa — como as madraçais muçulmanas, as muts hindus e os mosteiros cristãos — que preparavam as pessoas para os ministérios religiosos. A formação escolar não era um meio para o desenvolvimento individual ou um caminho para o mundo mais amplo, ela proporcionava segurança de emprego para os especialistas religiosos. Figura 6.1 CULTURAS ORAIS E LITERÁRIAS Orais Literárias • audíveis; • visuais; • imediatas, face a face; • mediadas, atrasadas, indiretas; • pessoais, relacionais, envolvem feedback; • impessoais, sem feedback; • vinculada a contextos locais específicos; • independentes de contextos de tempo e espaço; • dialógicas, transacionais; • unidirecionais; • multivocais: cognitivas, afetivas e avaliadoras; • monovocais: principalmente cognitivas; • transitórias, fluidas, de curta duração, lembradas; • armazenadas, permanentes, podem ser reproduzidas de forma exata; • armazenadas em histórias, canções, provérbios, poemas, dramas e rituais; • armazenadas em pedras, pergaminhos e papel; • acreditam no invisível e que é possível ouvi-las; • acreditam no que veem e não no invisível; • discussões com várias nuances; • argumento linear; • progressão espiral e difusa; • progressão linear; • lógica funcional concreta; • lógica linear; • afirmam a subjetividade do conhecimento; • afirmama objetividade do conhecimento; • defendem a diversidade. • produzem homogeneidade. Nos negócios, letramento é poder. Quando um camponês discute com um comerciante a respeito de um empréstimo, trazendo pessoas para testemunhar que ele tomou emprestados quatro potes de sementes de arroz, e o comerciante apresenta um papel, com a impressão digital do camponês, em que estão registrados cinco potes, o comerciante ganha a ação se o caso for levado aos tribunais fora da aldeia. Os bardos, historiadores e filósofos itinerantes também são alfabetizados; vão de aldeia em aldeia compartilhando sua erudição. O letramento também é utilizado em transações comerciais com o mundo exterior, mas a forma oral continua a ser o método dominante de comunicação na vida diária da aldeia, que é baseada no relacionamento face a face. Pluralismo Sociedades pequenas são relativamente homogêneas. Nelas, as pessoas compartilham parcialmente a mesma cosmovisão. Nas sociedades rurais, muitos grupos sociais diferentes coexistem, o que significa que, na mesma aldeia, comunidades diversas adotam cosmovisões distintas. As diferenças podem ser religiosas: por exemplo, na mesma aldeia indiana pode haver grupos hindus, muçulmanos e cristãos, com os ciganos, grupos tribais e nômades a seu redor. Diversos grupos étnicos também podem viver na mesma aldeia, como as aldeias na Índia com suas inúmeras castas e as várias cidades latino-americanas com muitos imigrantes étnicos. Diferenças culturais e de cosmovisão existem ainda em comunidades cujas distinções de classes sociais acontecem entre ricos e pobres, letrados e orais, funcionários administrativos e operários braçais, governantes e governados, a elite e os cidadãos comuns. No plano da cosmovisão, o pluralismo tem consequências profundas. As pessoas precisam incorporar em sua cosmovisão o fato de que há outras cosmovisões e de que elas fazem sentido para outras pessoas. A maioria assegura que as próprias crenças são corretas em comparação com as de outros grupos em sua comunidade, mas muitas vezes elas imitam as crenças e práticas da elite dominante em suas aldeias, porque essas elites têm status elevado. A segunda consequência é que a cultura e a cosmovisão perdem cada vez mais sua função integradora nas sociedades rurais. Há, geralmente, uma linguagem comercial usada por todos em assuntos públicos, e as pessoas sabem como devem se comportar com membros de outros grupos. Entretanto, elas compartilham uma cosmovisão plena somente com os membros de seu próprio grupo e buscam preservar as próprias crenças e identidade. Economia de mercado /clientelismo Muitos camponeses dividem as atividades econômicas em dois domínios conceituais. Terra, trabalho agrícola, colheitas, animais, arados, enxadas e outros bens e atividades ligados à agricultura estão associados à subsistência. Eles produzem os alimentos necessários para manter as pessoas vivas. Prédios, camas, roupas, cestas, potes e outros bens que não são de subsistência estão associados com o dinheiro e o comércio. Eles não são essenciais para a sobrevivência das pessoas. Os dois domínios são mantidos separados. Trabalho de subsistência não é pago em dinheiro, mas em grãos e outros alimentos que os trabalhadores armazenam para se sustentar no futuro. Outro tipo de trabalho é pago em dinheiro, que muitas vezes é rapidamente gasto. Um fazendeiro pode se endividar para construir uma casa, mas o agiota não pode tomar sua terra para pagar a dívida porque a terra está relacionada à subsistência, não aos negócios. Tomar a terra de uma pessoa é matá-la. No cerne de atividades de subsistência, estão os relacionamentos clientelistas. Os senhores são os proprietários de terras que organizam a agricultura. Seus empregados, como os trabalhadores do campo, ferreiros, carpinteiros, oleiros, lavadeiros, barbeiros, coureiros e varredores, são seus serviçais. Espera-se que os serviçais forneçam os serviços necessários para produzir as colheitas e manter a vida do senhor. Este é responsável pela sobrevivência e bem-estar de seus empregados. Além dos grãos que lhes dá para mantê-los vivos, ele também deve fornecer roupas e cobertores quando estiverem com frio, bem como um lugar para construir seus barracos. Os serviçais, por sua vez, têm o direito hereditário e a responsabilidade de realizar o trabalho que o senhor lhes atribuir. Além do trabalho nos campos e em casa, eles devem estar dispostos a levar a bagagem do senhor, ajudar em casamentos e funerais da família e a lutar por ele se os conflitos dele descambarem para a violência. Não é um sistema de contratos econômicos visto na economia de mercado, mas de trocas simbióticas, em que as necessidades de subsistência e as aspirações sociais de todos são satisfeitas por meio de uma rede de obrigações sociais.³ As atividades econômicas em sistemas de clientelismo não são calculadas com base nos lucros e perdas ou numa troca igual e justa. Em um ano de más colheitas, o proprietário da terra recebe pouco mais que para a própria subsistência, porque ele precisa prover o suficiente para os trabalhadores viverem, havendo trabalho ou não. Em anos bons, o senhor tem um belo lucro, porque deve dar aos trabalhadores apenas um pouco mais do que uma porção da colheita para a subsistência e compartilhar com eles uma pequena bonificação. O sistema provê aos trabalhadores segurança em tempos de necessidade e aos senhores, trabalhadores, poder, prestígio e, ocasionalmente, riqueza. A diferença entre a economia de clientelismo e a de mercado pode ser vista nas regras de empréstimo de dinheiro (fig. 6.2). Nas economias de mercado, como as do mundo moderno, as razões básicas para os empréstimos são econômicas. Uma pessoa toma dinheiro emprestado para as necessidades básicas ou para ganhar mais dinheiro. Em economias de clientelismo, os empréstimos fortalecem as relações sociais com o senhor. Logo que uma pessoa tem um senhor, ela faz empréstimos para aumentar a dependência mútua. Os governos atuais e as agências missionárias e de desenvolvimento raramente entendem esta separação entre subsistência e atividades comerciais. O resultado tem sido muitas vezes devastador para os camponeses. Quando o governo toma a terra e dá dinheiro aos camponeses por ela, os agiotas, parentes e amigos têm direito a uma parte desse dinheiro. Logo os camponeses não têm terra nem dinheiro. Se os camponeses, em seguida, quiserem comprar terras em outro lugar, os seus credores vão cobrar suas dívidas primeiro, e os parentes dos camponeses pedirão a ajuda dos credores, porque agora estes têm dinheiro. Figura 6.2 REGRAS PARA EMPRÉSTIMO DE DINHEIRO Economia de mercado • Empresta-se por razões econômicas. • É preciso pagar o empréstimo de acordo os termos acordados. • Toma-se a iniciativa de pagar o empréstimo em prestações regulares. • Salda-se a dívida com o acréscimo de juros. O objetivo é a independência financeira. A segurança de uma pessoa está na riqueza pessoal. Acúmulo de riquezas Nas aldeias, o acúmulo de riquezas torna-se um valor dominante. Nas sociedades tribais, a riqueza é importante não como um fim em si, mas como um meio para edificar relacionamentos e ganhar status por meio da partilha. Nas sociedades camponesas, particularmente entre a elite dominante, acumula-se riqueza acima do necessário porque ela é considerada símbolo de status e poder. Esse acúmulo de bens materiais é estimulado pela produção de excedentes agrícolas que permitem que a vida sedentária seja possível. Ao contrário das sociedades nômades e seminômades, em que um excedente de bens materiais implica em responsabilidade, nas aldeias permanentes, os bens se transformam em símbolos de status social. O efeito dessa mudança do compartilhamento para o acúmulo tem amplo alcance. A fabricação de bens não essenciais, como joias, roupas finas, palacetes e outros luxos, aumenta drasticamente. Os governantes e a elite esbanjam suas riquezas. Eles constroem grandes palácios, empregam enormes comitivas de guardas, funcionários e serviçais e vivemluxuosamente. A diferença de riqueza nas sociedades rurais muitas vezes é imensa. Enquanto a classe alta vive em grande luxo, os camponeses vivem à beira da inanição. A crescente desigualdade econômica e política , associada à consciência dos camponeses desse desequilíbrio, fomenta a hostilidade e o ressentimento dos cidadãos comuns, que muitas vezes se revoltam. Devido à falta de habilidade organizacional e de tecnologia militar dos camponeses, essas insurreições geralmente terminam em derramamento de sangue seguido por um aumento de repressão. Cultura formal /popular A crescente complexidade das aldeias rurais causa o surgimento da cultura formal da elite em contraste com a cultura do povo comum. Isso dá origem à ciência formal em oposição à ciência popular. Por exemplo, na Índia , ayurveda e unani são dois sistemas altamente desenvolvidos de ciência médica que contrastam com a medicina alopática do Ocidente. As crescentes complexidade e estratificação social também dão origem a religiões formais junto com as religiões populares. No nível formal, as religiões filosóficas, como confucionismo, budismo, hinduísmo e cristianismo , lidam com questões fundamentais e alegam ter a verdade universal. Em contraste, a vida cotidiana da maioria dos aldeões é dominada por religiões populares que lidam com questões cotidianas e creem em espíritos terrenos locais, ancestrais , feitiçaria, magia, mau-olhado e outros poderes invisíveis para explicar os dilemas humanos e dar- lhes resposta. O surgimento da cultura da elite também conduz à literatura formal e às artes. Música erudita, literatura sofisticada, peças teatrais e óperas extravagantes e músicos bem preparados são encontrados em cortes de reis, rajás e sultões. As pessoas comuns, por outro lado, cantam canções populares, usam instrumentos locais, narram contos comuns e participam das danças locais. Figura 6.3 QUESTÕES CENTRAIS DE CADA NÍVEL Religião formal • origem, propósito e destino supremos do Universo, da sociedade e do indivíduo Religião popular • o sentido nesta vida e o problema da morte • o bem-estar nesta vida e o problema dos infortúnios • conhecimento para decidir e o problema do desconhecido • retidão e justiça e o problema do mal e da injustiça Ciência • organização das relações humanas • controle da natureza A religião formal da elite leva a reflexões filosóficas sobre a natureza das coisas e a perguntas ontológicas fundamentais relacionadas à origem, ao propósito e ao destino do Universo, da sociedade e do indivíduo. Também conduz à especialização e à distinção entre os líderes formais, como sacerdotes, pastores e profetas, e os leigos. Ao contrário, as religiões populares lidam com os problemas existenciais da vida cotidiana (fig. 6.3). Seus líderes são os xamãs, curandeiros, magos e outras pessoas às quais se creditam poderes especiais. Um modelo analítico pode ajudar a esclarecer as relações entre a religião formal e a religião popular no plano da cosmovisão. A dimensão vertical diz respeito à transcendência . Existem três níveis: este mundo visível, esse mundo invisível e outros mundos invisíveis. A dimensão horizontal envolve duas metáforas-raiz encontradas em todas as sociedades: (1) uma metáfora mecânica, que vê as coisas como partes inanimadas de sistemas mecânicos maiores, controlados por forças ou leis impessoais da natureza; (2) uma metáfora orgânica, em que se pensa que as coisas examinadas estão vivas em certo sentido, passam por processos semelhantes aos da vida humana e se relacionam entre si de maneira análoga aos relacionamentos interpessoais. A combinação dessas duas dimensões de transcendência e metáfora produz uma tabela ou matriz em que se podem comparar diferentes sistemas de crenças (figs. 6.4 a 6.6). O modelo cria seis setores, dois em cada nível da escala imanente- transcendente. Cada nível lida com diferentes entidades ontológicas. Na parte inferior, estão as ciências, sistemas de crenças em que as pessoas usam explicações “naturais” para esclarecer fenômenos empiricamente percebidos. As ciências naturais utilizam analogias mecânicas ou impessoais, e as ciências humanas, analogias orgânicas ou transacionais. Na parte superior, está o que normalmente chamamos de “religiões” — sistemas de crenças preocupados com as realidades cósmicas supremas: deuses celestiais, demônios, destino, carma , céu e inferno. O nível intermediário é de difícil compreensão para as pessoas modernas. Trata-se das realidades transempíricas deste mundo — como magia, mau-olhado, os espíritos terrestres, ancestrais que continuam a viver na aldeia, feitiçaria, adivinhação etc. Um estudo de sociedades rurais específicas revela grande diversidade de religiões formais e populares (Hiebert; Shaw; Tiénou 1999). Temas afetivos Um grande número de estudos se dedica à análise dos sistemas sociais e temas cognitivos e avaliadores das culturas rurais. Poucas pesquisas têm se dedicado aos temas afetivos . É fácil imaginar que a vida nas sociedades camponesas consista principalmente em trabalho duro, com pouco entretenimento e entusiasmo. Isso está muito longe Figura 6.4 SISTEMAS DE CRENÇAS INDIANAS Orgânico Outros mundos Brâman, Vishnu, Shiva Outros deuses superiores Rakshasas, yakshas, outros demônios Este mundo invisível Deusas desta terra Espíritos impulsivos e imprevisíveis Ancestrais, os (ainda) não nascidos Este mundo visível Seres humanos vivos Seres sub-humanos Animais, plantas Figura 6.5 SERES E PODERES NO ISLAMISMO Seres Outros mundos Alá Arcanjos Anjos, demônios Este mundo invisível Jinn Quarina Zar Aisha Quandisha Ancestrais, almas dos mortos Este mundo visível Walis, santos Seres humanos Animais, plantas Figura 6.6 SISTEMAS DE CRENÇAS CHINESAS Orgânico Outros mundos Imperador Jade (T’ein) Deuses, deusas Este mundo invisível Deuses terrenos Espíritos, fantasmas Seres mitológicos Ancestrais Espíritos de animais (totens) Este mundo visível Pessoas Animais Plantas da realidade. Os rituais familiares e comunitários, festas tradicionais e feiras regionais unem as pessoas de perto e de longe. Há também muitas formas de entretenimento. Em uma aldeia indiana, há um fluxo constante de bardos e menestréis itinerantes, comediantes, ilusionistas, domadores de animais, circos, grupos itinerantes de teatro e teatros de rua organizados por associações locais. Uma forma particularmente comum de entretenimento são as festas comemorando dias importantes do ano. Essas celebrações muitas vezes duram dois ou três dias. É preciso mais estudos etnográficos sobre os temas afetivos das comunidades rurais. Temas avaliadores Agora analisaremos alguns temas avaliadores fundamentais da ordem moral nas sociedades rurais. Embora haja muitas exceções em sociedades específicas, todas as sociedades camponesas precisam lidar com essas questões de uma forma ou de outra. Hierarquia O surgimento do pluralismo social nas aldeias rurais conduz, em quase todos os casos, à hierarquia. Um ou mais grupos adquirem riqueza, poder e status e governam a vila. As outras castas , classes ou comunidades são pobres e oprimidas. No nível estatal, um pequeno grupo de pessoas controla as aldeias por meio de exércitos e forças policiais. Na maioria dos casos, a realidade social de dominação leva a uma cosmovisão que aceita a hierarquia não apenas como fato da vida, mas também como certa e necessária. Uma família, aldeia e estado devem ter um líder com poder para governar e manter a ordem. A desordem é vista como um grande mal. A hierarquia nas culturas rurais é frequentemente justificada pela religião. Nas aldeias indianas, a hierarquia de castas é vista como divinamente ordenada. A posição que a pessoa ocupa na casta é determinada por suas boas e más ações na vida anterior. Tentar livrar-se do sistema de castas e alcançar um status mais elevado do que aquele determinado no nascimento é instigar o juízo cósmico sobre si e sobre a comunidade. Na Europa e na Rússia medieval, acreditava-se que os governantes eram divinamente escolhidos. Nasaldeias chinesas, riqueza e poder são frequentemente considerados bênçãos dos deuses. A dominação é acompanhada pela aceitação da violência como um meio necessário para manter a ordem social. O valor dominante é a manutenção da ordem, e os líderes devem preservá-la a qualquer custo. Para isso, precisam de policiais para controlar o povo e exércitos para refrear os inimigos. O maior pecado é a traição — rejeitar a autoridade do Estado e de seus governantes. A dominação em um mundo caído resulta no que os cristãos chamam de injustiça. Os poderosos exploram os pobres, em vez de cuidar deles. Os que têm uma alta posição não buscam incluir os de condição humilde; antes, desprezam os inferiores e os excluem de seus círculos sociais. No nível da cosmovisão, essa opressão é normalmente justificada culpando os que estão em classes mais baixas por sua situação. Eles pecaram contra os deuses, têm uma vida impura, sofrem por causa dos erros de suas vidas anteriores, ou não são plenamente humanos. A escravidão também é justificada, de uma forma ou de outra, como moralmente correta. O bem limitado A vida na aldeia é pública — todos e quase tudo são conhecidos. Isso propicia um senso de comunidade e responsabilidade mútua em tempos de crise. O lado negativo é que frequentemente a intimidade resulta em inveja e fofocas sobre a boa sorte dos outros, particularmente dos que pertencem a outro grupo étnico ou classe. O fato de que a aldeia é um pequeno sistema fechado muitas vezes leva a uma visão da realidade que George Foster chamou de “imagem do bem limitado”. Por “imagem do bem limitado” quero dizer que grandes áreas do comportamento camponês são moldadas de tal forma a sugerir que ele vê seus universos social, econômico e natural — seu ambiente total — como um ambiente em que todas as coisas desejáveis da vida, como terra, riqueza, saúde, amizade e amor, coragem e honra, respeito e status, poder e influência, proteção e segurança, existem em quantidade finita e são sempre escassas para os camponeses. Não somente essas e todas as outras “coisas boas” existem em quantidades finitas e limitadas, mas, além disso, não há nenhuma maneira direta de o camponês aumentar as quantidades disponíveis [...]. Se o “bem” existe em quantidades limitadas, que não podem ser expandidas, e se o sistema é fechado, então um indivíduo ou uma família pode melhorar sua posição apenas à custa de outros (1965, p. 296-8). Por se pensar que o progresso de uma pessoa ocorre somente à custa de outra, a ambição manifesta se torna uma ameaça a outros membros da comunidade. O ganho de uma pessoa implica a perda de outra. Portanto, um indivíduo deveria se contentar com o que tem e não se esforçar para ter mais. Há uma grande quantidade de fofocas sobre quem ganhou o quê e como conseguiu isso. Os que prosperam por meio do empreendimento e do trabalho são alvos de fofocas, ódio e ostracismo. Em casos extremos, suas colheitas são destruídas durante a noite, e suas casas recém-construídas são alvos de vandalismo. A lição é clara: não tente prosperar, porque, para isso, você precisa roubar de outros, e eles se voltarão contra você. As pessoas protegem com ciúme o que têm, inclusive os relacionamentos. Elas defendem e cultivam com zelo suas relações com pessoas poderosas e procuram manter a atenção desses senhores sobre si. Elas pressupõem que a generosidade de um senhor facilmente acaba. Também não querem admitir que aprenderam algo com outra pessoa (Pike 1980). Isso significaria que estão em dívida com ela. Consequentemente, os indivíduos aprendem a maior parte do que sabem observando e imitando os outros. Há pouca educação formal. A noção do “bem limitado” contribui muito para o conservadorismo da maioria dos camponeses. As pessoas têm medo da reação de seus vizinhos a novas maneiras. Essa crença também contribui para a inveja e a desconfiança dos outros e para a fofoca como um poderoso meio de controle social. Há uma exceção ao conceito do bem limitado. Os bens que alguém recebe vindos de fora do sistema não são vistos como uma ameaça para a aldeia, mas como uma sorte inesperada. Outros sentem inveja, mas não se sentem ameaçados se alguém recebe um presente do governo, herda riquezas de um parente distante ou encontra um pote de ouro. Tesouros enterrados são um tema comum em sociedades rurais. Servem como forma de legitimar a riqueza. Uma pessoa pode esconder suas economias e, de repente, “descobrir” um pote de ouro. Os demais talvez aceitem isso como uma bênção dos deuses. Temas diacrônicos Os mitos são importantes na vida rural e são narrados às crianças pelos avós, recontados por bardos, representados em dramas de rua e ilustrados em imagens. Inundações e desastres Um dos temas mais comuns em todo o mundo é o de um dilúvio catastrófico (Kluckhohn 1965, p. 162). Ele é particularmente difundido em Taiwan, no sul da China, no sudeste da Ásia e na Malásia. Se acrescentarmos os mitos sobre terremotos, fomes e pragas, a “catástrofe” é um tema praticamente universal na mitologia. Bandidos heróis Outra história comum envolve bandidos heróis como Robin Hood, na Inglaterra; Janosik, na Polônia; Pancho Villa, no México; Shenka Razin, na Rússia; e os bandidos exaltados na sabedoria camponesa da China. Os camponeses muitas vezes protestam contra as condições adversas de suas vidas ao contar histórias sobre bandidos heróis que desafiam abertamente uma ordem social opressiva. Esses personagens são os heróis dos camponeses. Eles se vingam, corrigem o mal e reivindicam terra para os sem-terra. Restauram a justiça e a igualdade . Milênio iminente Intimamente relacionados às histórias de bandidos heróis estão os mitos de um milênio vindouro em que o mundo será perfeito. Podem falar sobre um retorno a uma era dourada de justiça e igualdade ou de uma nova era na Terra. Esse novo mundo virá por meio do juízo dos deuses ou pela revolta dos camponeses. O marxismo, com sua promessa de um mundo novo, encontrou nas sociedades camponesas um público interessado. Às vezes, os mitos dos bandidos heróis e do milênio iminente provocam revoltas camponesas sangrentas e cruéis. As revoltas camponesas na Europa, após o século 11, a rebelião Taiping na China no século 19, as insurreições dos anarquistas espanhóis no mesmo século e a revolta camponesa mexicana de 1917 são exemplos disso. E. J. Hobsbawm (1959, p. 24-5) observa que esses mitos e revoluções não são protestos contra o fato de que as pessoas são pobres e oprimidas, mas porque são excessivamente pobres e oprimidas. Não se espera que as revoltas criem um mundo de igualdade . Elas só podem corrigir erros e provar que, às vezes, a opressão pode ser revertida. Além disso, o herói é apenas parte de um sonho de como as coisas poderiam ser maravilhosas. Condição restaurada Um quarto tipo de mito trata da queda de determinado grupo de pessoas na aldeia de sua elevada condição e seu retorno a ela. Por exemplo, muitas castas intocáveis na Índia têm mitos narrando que elas foram castas elevadas e que seu status inferior atual se deve às ações enganosas de outros ou aos erros de seus ancestrais . Mas, algum dia, essa injustiça será revertida e eles regressarão à antiga posição privilegiada na sociedade. Essas histórias de queda e ascensão funcionam de duas formas. Primeira, elas dão dignidade aos intocáveis, que podem alegar, ao menos entre eles, que não são o que parecem ser publicamente. Segunda, as histórias justificam as ações da casta com o propósito de ascender em seu status social. À medida que as castas intocáveis adquirem poder e riqueza e assumem os símbolos e práticas das castas altas, podem alegar que não estão perturbando a ordem social, e sim, em vez disso, restaurando-a à condição original. Devido ao grande número e à diversidade das sociedades camponesas, nenhum tema ou mito se aplica a todas elas. Nossa investigação aqui tem o propósito principal de introduzir conceitos de orientação para nosso estudo da cosmovisão dos camponeses a quem ministramos. Outros estudos mais detalhados sobresociedades específicas nos ajudariam a entender as pessoas e a nos comunicar com elas de maneira mais significativa. Aldeias e modernidade As aldeias camponesas tradicionais, principalmente orais, têm enfrentado uma relação difícil com o mundo exterior de cidades e estados, onde a alfabetização é essencial para a vida. Quando as aldeias tinham escolas , estas eram principalmente religiosas e preparavam os líderes religiosos para vocações especiais. O domínio colonial mudou radicalmente essa situação. Com o colonialismo, vieram os valores do Iluminismo. Um deles era o ensino de todas as pessoas por meio de escolas estabelecidas pelo governo e por missionários. Jack Goody escreve: O valor da alfabetização como um meio de desenvolvimento social e pessoal ficou imediatamente claro. Os novos conquistadores utilizaram a escrita em todas as fases da administração do país. Assim que trancaram as metralhadoras automáticas em seu arsenal, a caneta e o telégrafo assumiram o lugar das armas. A dependência crescente da comunicação escrita se manifestou não só internamente, como também nas comunicações com os povos subjugados, que tiveram de ser treinados para atender à crescente burocracia e estender essa comunicação ao povo como um todo (1987, p. 141-2). A alfabetização criou um novo meio de ascensão social e mudou o foco do status com base na atribuição para o status com base na realização. O resultado foi um novo conjunto de recompensas que conduziu a um novo sistema de estratificação, ou seja, classes baseadas na realização em vez de grupos étnicos e castas com base no nascimento. Isso permitiu aos indivíduos bem-sucedidos deixarem a aldeia e atuarem em âmbito nacional e até internacional. A nova elite se certificou de que seus filhos fossem bem formados, e o sistema educacional que tornou possível a ascensão social passou a ser o meio de manter o status. Com a escolaridade moderna, vieram os sistemas sociais modernos. O crescimento das cidades, os sistemas de desenvolvimento econômico e político regional com base na participação das massas e o crescimento da mídia dependiam da alfabetização. Com a escolaridade, também veio a cosmovisão moderna com sua ênfase no indivíduo autônomo, a disseminação do secularismo e o avanço da ciência como verdade pública. A introdução da escola pública para todos dividiu a população ao meio: uma metade era principalmente rural; a outra, essencialmente urbana. Havia inevitavelmente um sentimento de inferioridade por parte da população oral por causa do poder do letramento no mundo moderno. Goody escreve que “muitos dos alfabetizados trabalhando no país estarão fazendo isso relutantemente, com os olhos na cidade e em sua vida, pois a alfabetização alcançada mediante a educação formal é o principal método de autopromoção, indo além do nível de subsistência agrícola. Aliás, não é apenas no nível de subsistência que a agricultura é considerada provedora de uma vida inadequada; a ênfase nos valores aprendidos na escola está em todo lugar, favorecendo os empregos de colarinho branco [...] de preferência em um ambiente urbano (1987, p. 141). A escrita e o registro de mapas em papel alteraram as categorias básicas de tempo e espaço. A vida camponesa é regida pelos ciclos das estações: época de arar, época de plantar as sementes, época de colher as safras. A alfabetização introduziu um senso de cronologia: os ciclos semanais, mensais e anuais que nem sempre correspondem às estações do ano.⁴ Além disso, ela dividiu o dia em horas, minutos e segundos. Goody observa: “Geralmente, as sociedades não alfabetizadas ajustam os dois (ciclos solar e lunar) por um processo de adequação. A lua cheia aparece quando a colheita está madura. Apenas as sociedades alfabetizadas têm de separar o mês da lua, ou o ano do sol” (1987, p. 132). A escrita também introduziu um sentido técnico de história. Os mapas mudaram a forma pela qual a terra era medida e registrada. O rio, a rocha enterrada no canto e a velha árvore no pé da colina já não serviam mais como pontos de referência, que passaram a ser registrados de acordo com linhas invisíveis determinadas pelos polos e pela Linha do Equador, um diagrama global que abrangia todo o espaço terrestre. Estudaremos agora o surgimento da modernidade e seu impacto no mundo. ¹Líderes de rituais e práticas religiosas locais, como magos, xamãs, espiritualistas e sacerdotes dos deuses e deusas locais, são geralmente membros da comunidade local, não forasteiros. ²Jack Goody (1987, p. 28) relaciona a origem dos verdadeiros sinais alfabéticos aos sumérios que habitavam a parte mais baixa da Mesopotâmia, por volta de 3100 a.C. ³Para um exemplo de relacionamentos de clientelismo em aldeias indianas, veja Hiebert 1971. ⁴A semana de sete dias foi baseada nos ciclos planetários da astronomia dos caldeus. 7 A COSMOVISÃO MODERNA Uma das grandes mudanças de cosmovisão na história ocorreu no século 17, com o advento da ciência moderna e da modernidade. A modernidade é a primeira cultura verdadeiramente global. “É um sistema e um espírito mundial que hoje nos abarca como indivíduos e também envolve o globo” (Guinness 1994a, p. 324). Após o triunfo do cristianismo no quarto século, a mente ocidental era antes de tudo teísta. Praticamente sem qualquer questionamento, considerava-se que toda a vida e a natureza estavam sob a supervisão de um Deus pessoal cujas intenções para com os seres humanos eram perfeitas e cujo poder era ilimitado. Deus era visto como pai amoroso, que sustentava seus filhos e dirigia o curso dos acontecimentos terrenos conforme sua vontade; a natureza era obediente às suas ordens e às suas intervenções extraordinárias no cotidiano. Para os cristãos, a vida era a implementação dos propósitos de Deus. Em um mundo assim, as pessoas entendiam o objetivo da história e de suas vidas e, portanto, a vida tinha sentido. Elas não tentavam compreender o mundo natural nem se consideravam capazes disso, pois o mundo estava, em todos os seus aspectos, sob a vontade de Deus. Após o século 13, as ideias de Aristóteles, Platão e Ptolomeu foram introduzidas na Europa pelos peregrinos que regressavam das Cruzadas¹ e por eruditos que estudaram em universidades muçulmanas na Espanha (Crosby 1997, p. 56). Charles Malik escreve: “Se examinarmos a história escrita de praticamente cada ciência e disciplina intelectual, descobriremos que a concepção original dessa ciência ou disciplina era grega e quase sempre (exceto a matemática ) aristotélica [...]. Aristóteles está na base de praticamente metade da civilização ocidental” (1987, p. 4). Por volta do século 13, as escolas das catedrais foram sendo substituídas pelas universidades , que ensinavam o novo paradigma, o qual se tornou, mais tarde, a base da modernidade. Isso incluía o foco na compreensão do mundo material por meio da investigação sistemática e do uso da lógica abstrata sistemática, e envolvia também fé na razão humana . Pensava-se no mundo como um sistema coerente, obediente às leis e inteligível aos seres humanos. O Sacro Império Romano estava em declínio desde o final da Idade Média, mas foi a Revolução Francesa que abalou os fundamentos sagrados da história. O Estado secular surgiu com base no racionalismo e na vontade dos cidadãos. A vida pública era agora somente a esfera da razão e não tinha espaço para um Deus aparentemente incognoscível. A religião foi relegada para a esfera privada e vista como fruto da imaginação. Deus deixou de ser relevante para a vida pública. Surgiu uma filosofia da história rigidamente materialista e ateísta, que reduziu o espírito à matéria e questões morais a elaborações sociais definidas como progresso material. Os ideais da razão e da liberdade defendidos pelo Iluminismo do século 18 se desenvolveram na modernidade. Andrew Fix escreve: Entre 1650 e 1700, uma transformação intelectual de importância fundamental e de amplo alcance mudou a própria natureza dos pressupostos e atitudes nos quais o pensamento europeu havia se baseado durante séculos e, dessa forma,mudou a estrutura intelectual com a qual os europeus instruídos entendiam a si mesmos e o mundo a seu redor [...]. Poucas transformações de cosmovisões foram tão decisivas e influentes como a transformação da cosmovisão religiosa da Europa tradicional na cosmovisão racional e secular da Europa moderna (1991, p. 3, 5). René Descartes iniciou a busca pela verdade objetiva pura, não corrompida por pressupostos culturais. Procurou alcançar isso através da aplicação do raciocínio grego abstrato, algorítmico e digital à experiência. Ele iniciou sua investigação do mundo duvidando de tudo, até mesmo da própria existência. Confiava apenas na razão para fornecer as respostas. A razão tornou-se o juiz supremo do que é verdadeiro, correto e bom. Após o século 18, a ênfase na análise racional e empírica desempenhou um papel muito importante na substituição gradual da cosmovisão medieval tradicional. O mundo era entendido como material e não espiritual, como mecânico e não teleológico. Era um grande relógio ao qual, no passado, o Criador deu corda, mas que agora funcionava de acordo com as leis naturais . Fix observa que “o empirismo de Francis Bacon e a cosmologia mecanicista de Descartes estimularam uma rejeição do princípio da autoridade intelectual em favor da investigação livre e racional, desencadeando uma grande transformação cultural e intelectual. A tentativa de compreender o mundo físico segundo a razão foi acompanhada de perto por um desejo de entender a relação da humanidade com a natureza, com a sociedade e com Deus em termos racionais semelhantes” (1991, p. 7). Embora o termo “moderno” tenha uma história, o que Jürgen Habermas chama de projeto da modernidade passou a ser enfatizado somente durante o século 18: “Esse projeto resultou em um extraordinário esforço intelectual por parte dos pensadores iluministas ‘para desenvolver uma ciência objetiva, moralidade e lei universais e uma arte autônoma de acordo com sua lógica interna’ [...]. O domínio científico da natureza prometia o fim da escassez, da miséria e da arbitrariedade das calamidades naturais” (Harvey 1990, p. 12). Nos últimos dois séculos, a modernidade se difundiu pelo mundo e assumiu diferentes formas no Japão, na Índia e na América Latina. Vinoth Ramachandra observa: “A modernidade é a primeira civilização verdadeiramente global a surgir na história da humanidade [...]. Seu impacto é sentido até mesmo nas aldeias mais remotas do mundo, quase no mesmo patamar que nas universidades , centros comerciais e sedes de governos das grandes cidades. Está repleta de paradoxos e ambiguidades, trazendo como consequências bênçãos enormes e terríveis sofrimentos” (1996, p. 143). A modernidade oferece uma visão uniforme do mundo e promete, por meio do domínio científico da natureza, o fim da escassez, da miséria e das calamidades. Precisamos estudar a cosmovisão da modernidade para entender como ela está moldando não só o mundo a nosso redor, como também nossa maneira de pensar. A maioria dos leitores deste livro tem uma cosmovisão moderna ou pós- moderna.² Temas cognitivos da modernidade A modernidade é complexa e varia muito de cultura para cultura, mas alguns temas centrais estão presentes em todas essas manifestações. Aqui examinaremos apenas alguns. Naturalismo /sobrenaturalismo A reintrodução do dualismo aristotélico no pensamento ocidental foi fundamental para o surgimento da modernidade (fig. 7.1). A Europa na Idade Média foi influenciada pelo dualismo contingente de Criador e criação, em que o primeiro era a realidade suprema, dominante e eterna, e a última era contingente, subordinada e temporal. A criação estava intrinsecamente ligada ao Criador. Figura 7.1 O SURGIMENTO DA COSMOVISÃO MODERNA Uma consequência disso foi a orientação “para o outro mundo”, em que a adoração e o culto a Deus eram tidos em alta estima e o ato de ganhar dinheiro e conforto terreno eram desprezados. Essa visão também colocava os anjos, bons e caídos, na esfera da criação. A arte, geralmente centrada em temas religiosos, retratava realidades espirituais com símbolos visíveis, como auréolas, e mostrava anjos e demônios como parte da vida cotidiana das pessoas. A arquitetura estava focalizada em catedrais frequentemente decoradas com anjos e gárgulas; a música, em temas sagrados; e os rituais da igreja, concentrados em um encontro com um Deus transcendente e em uma renúncia do diabo e de todos os seus caminhos. A introdução do dualismo grego alterou radicalmente essa visão da realidade, dividindo-a em duas grandes esferas independentes: o sobrenatural e o natural. Por um lado, há a esfera espiritual, em que Deus e outros seres espirituais vivem e agem. É o mundo da religião. Por outro, há a esfera natural — o mundo material da ciência. Nicholas Lash escreve: No século 17, pela primeira vez, o prefixo “super” [...] começou a conotar uma esfera do ser, um território de existência, “fora” do mundo que conhecemos. Com a “natureza” agora considerada única, homogênea e completa, nós designamos “super” aquele “outro” mundo habitado (alguns disseram) por fantasmas, espíritos, demônios, anjos e outras entidades extraterrestres semelhantes — e por Deus [...]. Ao final do século 17, “acreditar em Deus” havia se tornado uma questão de supor que existe, fora do mundo conhecido, uma grande e poderosa entidade chamada “Deus” (1996, p. 168-9). O mundo da ciência se tornou cada vez mais secular. A Terra do século 15 era vista como uma ilha (Orbis Terrarum) formada por Europa, Ásia e África, com a cidade santa de Jerusalém no centro e Deus no controle. Esse espaço sagrado era cercado pelo vazio escuro, desumano e maligno das águas profundas. As grandes navegações e a descoberta de novas terras mudaram radicalmente a forma de os europeus verem a Terra. Pela primeira vez, o mundo era visto como um espaço uniforme, contínuo e secular coberto por continentes e oceanos. Nesse novo mundo, os “outros” não eram mais “caídos” e necessitados de redenção. Eram seres humanos seculares e poderiam ser comparados a outros seres humanos. Quando comparados, eram considerados “bárbaros” e “selvagens”. Foram os ocidentais que exploraram o mundo, deram nomes e estudaram os “outros”. No final do século 17, as esferas do céu e da terra estavam começando a se separar na mente dos intelectuais europeus. Deus se tornava cada vez mais irreal, e o universo material passava a ser a realidade suprema. Muitos abandonaram a ideia do envolvimento divino na natureza, mas mantiveram a da providência geral, em que Deus estabelece a ordem por meio de leis. Mas, como observa Fix: “Uma vez que o senso crescente de separação entre o homem e Deus tinha introduzido a influência corrosiva da dúvida na crença das pessoas na intervenção divina direta no mundo temporal, não demoraria muito para que este ácido atacasse também os fundamentos da crença no controle divino indireto do mundo” (1991, p. 9). Deus, anjos e demônios foram relegados a outros mundos e a religião tornou-se limitada às questões celestiais. A natureza estava relacionada a este mundo, não habitado por seres espirituais. A realidade era vista exclusivamente como energia e matéria, e a natureza, como completamente encerrada em si, autossuficiente e auto-ordenada. O domínio sobrenatural foi relegado a crenças , emoções e ética imaginárias. Angelo Rentas escreve: “A ciência se tornou uma fonte universalmente válida de conhecimento para nossa cultura. As afirmações de verdade da ciência são muitas vezes levadas mais a sério do que as afirmações de verdade da religião ou das artes. Na prática, a verdade científica foi reconhecida como a única verdade objetiva. A ciência fala, e a maioria das pessoas ouve e acredita” (2006, p. 24). Os dois domínios eram vistos como autônomos e desconectados. A única maneira de superar esse abismo seria a intervenção divina na esfera natural por meio de visões, milagres e outros acontecimentos anômalos que violam as “leis da natureza”, e cada vez mais sua facticidade era posta em dúvida. Mesmo rituaisrelacionados com a verdade cósmica e sagrada eram paulatinamente substituídos por espetáculos públicos que produziam significado momentâneo e entretenimento. Este dualismo entre natural e sobrenatural, ciência e religião, fato e fé, leis naturais e milagres, corpo e espírito domina a cosmovisão da maioria das pessoas comuns modernas. Ela relega as religiões a questões de fé pessoal e conduz à secularização da vida cotidiana. O cientificismo defende que a natureza constitui a soma total da realidade. A mudança de Criador /criação para sobrenatural/natural suscitou questões filosóficas profundas. Se Deus está no céu, quem está no comando na Terra? John Locke argumentou que os seres humanos são os deuses do mundo e que podem planejar e administrar o mundo por meio da razão, da ciência e do governo. Essa teoria resultou em uma ênfase na racionalização de todas as áreas da vida e no desenvolvimento de técnicas para construir um mundo melhor. O resultado foi uma explosão de inovação tecnológica e administrativa que atingiu todas as áreas da vida moderna.³ No final, as formas naturalistas da modernidade negaram a transcendência religiosa e a revelação e afirmaram que tudo é encontrado em um único e organizado sistema da natureza regido por leis. Deus é invenção da imaginação humana. A religião está baseada em fé cega e, portanto, é irracional. “Apelos ao ‘super’ em qualquer nível eram rejeitados como superstições ou, pelo menos, como ‘fora dos âmbitos’ da discussão acadêmica” (Meneses 1997, p. 8). A cosmovisão naturalista sustenta que o universo material é a soma total da realidade. O sobrenatural não existe. Philip Johnson escreve: “De acordo com o naturalismo, o que é real, em última análise, é a natureza, que consiste em partículas fundamentais que formam o que chamamos de matéria e energia, junto com as leis naturais que determinam o modo de agir dessas partículas. A própria natureza é, no final, tudo o que existe [...]. Explicando de outra maneira, a natureza é um sistema permanentemente fechado de causas e efeitos materiais que nunca pode ser influenciado por algo fora de si — como Deus, por exemplo. Portanto, classificar algo como ‘sobrenatural’ é deduzir que isso é imaginário” (1995, p. 37-8). O naturalismo é a cosmovisão dos sistemas culturais dominantes da Europa e da América do Norte. É o fundamento da academia científica, da educação, do sistema legal e dos meios de comunicação. Como observa Lesslie Newbigin, a ciência se transformou em fatos públicos, ensinados a todos (1991). A religião se tornou uma questão de fé privada. O resultado foi a secularização do domínio por meio da desmistificação e dessacralização do conhecimento, um secularismo que continua a se espalhar pelo mundo com a modernidade, apesar da resistência das comunidades religiosas. O secularismo também consagrou a ideia dos seres humanos inseridos na natureza como outros animais, ainda que, paradoxalmente, eles possam transcender a natureza e observá-la e desenvolvê-la. Esse dualismo sobrenatural/natural levou a vários subtemas e contratemas . ESTE MUNDO/OUTROS MUNDOS Na Idade Média, os cristãos viam o mundo como um lugar repleto de vida. Ele era cheio de mistério e majestade e tinha significado e propósito. Era um lar para ser desfrutado, e não simplesmente uma casa para se viver. Na modernidade, o foco está neste mundo, não no céu, no inferno ou nos outros mundos. Este mundo tem sido cada vez mais considerado um universo material desenvolvido a partir de partículas sem vida — átomos, quarks e, agora, cordas ou loops (anéis) — cujos movimentos podem ser explicados em termos de leis naturais independentes de Deus. Compreender essas leis pode ajudar os seres humanos a desenvolver um mundo melhor. Há pouco espaço para mistério e transcendência . As realidades não materiais, como Deus e espíritos, são relegadas a questões de fé, não de fatos. Como Max Weber observou, o mundo perdeu seu encanto. Não é mais do que uma realidade material. O senso de transcendência desapareceu da vida cotidiana. Mas isso provocou um problema complicado. Nas ciências humanas, os seres humanos são objetos de análise, mas também são os sujeitos da análise. Se os seres humanos são totalmente reduzidos à natureza, então não há espaço para um conhecedor. Como Allan Bloom observa: “Podemos conhecer tudo na natureza, exceto o que conhece a natureza” (1987, p. 77). A ciência, prevalecendo como única estrutura de plausibilidade dominante da modernidade, concentra sua atenção no estudo deste mundo material utilizando métodos racionais. O materialismo é a água em que os cientistas nadam, o princípio cuja falsidade é literalmente inimaginável. Em uma pesquisa realizada em 1998, Edward J. Larson e Larry Witham descobriram que 90% dos membros da National Association of Sciences [Associação Nacional de Ciências] são materialistas. O número sobe para 95% se forem considerados apenas os biólogos. Franklin Harold escreve: “Por uma questão de princípio, não deveríamos aceitar que o diálogo sobre o acaso e a necessidade fosse substituído pela teoria do design inteligente, mas temos de admitir que não há atualmente nenhum relato darwiniano detalhado da evolução de algum sistema bioquímico, apenas uma variedade de especulações fantasiosas” (citado em Behe 2005, p. 18). Michael Behe acrescenta que “o problema não é o materialismo explícito e deliberado. O problema é mais propriamente o materialismo socialmente elaborado, disseminado mais por pressão social do que pelo argumento racional. A pressão social não tem de ser explícita; ela não precisa envolver ridicularização ou ameaças constrangedoras. Muitas vezes, é apenas um clima intelectual em que a maioria das pessoas não reconhece que suas opções teóricas foram artificialmente limitadas” (2005, p. 19). O questionamento deste pressuposto materialista é tratado como heresia não por meio da argumentação racional, mas pela hostilidade emocional. As ciências físicas, as ciências primordiais, examinaram dados empíricos e ofereceram explicações de fenômenos passíveis de verificação em uma estrutura materialista. Posteriormente, as ciências humanas tentaram seguir o mesmo caminho. Por definição, as ciências limitam o escopo de sua análise ao mundo, utilizando explicações materialistas. Elas excluem explicações sobrenaturais e teleológicas, tais como Deus e os propósitos humanos. Para muitos pensadores modernos, isso resultou no pressuposto metafísico de que o mundo é tudo o que existe e as realidades espirituais não existem. O princípio básico do secularismo é que o bem supremo para os seres humanos consiste em algo alcançável nesta vida. As religiões são rejeitadas porque sustentam que o bem para os seres humanos não pode ser totalmente obtido nesta vida. A preocupação com a vida presente e não com a eternidade redundou na ênfase no conforto físico e na abundância material. Essa é a mensagem central de muitas propagandas. As pessoas são encorajadas a dirigir um carro com bancos de couro macios, no conforto do ar condicionado, com som ambiente e amortecedores que impedem os solavancos. Ninguém pergunta para onde estão indo. Devido a essa obsessão com a boa vida aqui na Terra, não é de surpreender que a modernidade tenha pouco espaço para sofrimento, sacrifício ou morte (Becker 1973). A mudança de foco — de outros mundos para este mundo — foi acompanhada de uma mudança de interesse: antes era pela eternidade e agora passou a ser pelo presente. A época medieval estava inserida na história cósmica. As pessoas eram importantes porque faziam parte da história da igreja, que era maior do que elas. A história da igreja ganhou significado porque era parte da história divina, iniciando com Deus e a criação e terminando na eternidade. A modernidade focaliza o presente e a felicidade momentânea como questões mais importantes que a história de gerações passadas ou que o bem-estar das futuras gerações. Ela não é tão fascinada com a história quanto com as notícias, com o imediato. Os jornais, o rádio, a televisão e a internetinformam as pessoas instantaneamente à medida que os eventos ocorrem em todo o mundo. As notícias se transformam em entretenimento, e divulgá-las é uma atitude honrosa. Este foco no agora requer respostas e satisfação “instantâneas”. CENTRADO NO HOMEM/CENTRADO EM DEUS Com o dualismo sobrenatural/natural veio a mudança de um mundo teocêntrico para um mundo centrado no ser humano. Na Idade Média, a cultura ocidental era centrada em Deus e em suas obras. Sob seu reinado estavam as comunidades humanas, principalmente a igreja, em que as pessoas encontravam suas identidades e lares. Servir a igreja era algo muito valorizado, e as catedrais eram o coração da vida urbana. A modernidade substituiu essa vida de cima para baixo por um mundo de baixo para cima, em que seres humanos autônomos e livres se tornaram o centro do universo e a medida de todas as coisas. Eles eram os árbitros da verdade. Construíram sociedades e culturas e eram responsáveis pela história. O mundo se tornou um “quadro” observado por eles. O resultado foi uma mudança de um universo ordenado por Deus para um mundo planejado pelos seres humanos. Esse humanismo foi enunciado por Descartes, que escreveu: “Agora o livre- arbítrio é em si a capacidade mais nobre que podemos ter, pois nos torna, de certa maneira, iguais a Deus e nos isenta de sermos seus súditos: portanto, seu uso legítimo é o maior de todos os bens que possuímos, e ainda não há nada que seja mais nosso ou que seja mais importante para nós” (1991, p. 326). Ramachandra observa: “Aqui se expressa o projeto iluminista de autocriação, o de criar um território que é exclusivamente nossa possessão” (1996, p. 161). A mudança do teocentrismo para o humanismo é uma revolução copernicana que muda radicalmente a maneira de os seres humanos modernos verem o mundo. A própria essência dos seres humanos se altera, porque agora eles são o centro do universo; são sujeitos autônomos que estudam o mundo. Podem descobrir as leis da natureza e utilizá-las para melhorar suas vidas. O que pensam sobre Deus e sobre o mundo é o que importa, não o que Deus pensa sobre eles. São eles que determinam o que é verdadeiro e o que é falso. Não é que os cientistas refutaram a existência de Deus ou que a maioria das pessoas modernas o tenha conscientemente rejeitado. Antes, elas o relegaram à esfera do “super” — igrejas, rituais sagrados, milagres e as coisas que a ciência não pode explicar — e, gradualmente, Deus desapareceu da vida cotidiana. Não o ateísmo, mas o deísmo — a noção de que Deus criou o mundo, mas deixou que ele funcionasse de acordo com as próprias leis inerentes — foi a resposta religiosa inicial da modernidade. As pessoas poderiam viver cada vez mais sem ele porque estavam cada vez mais no controle do próprio destino. No final, os seres humanos se tornaram a essência da realidade. O resultado foi o humanismo secular.⁴ Na filosofia moderna, o lugar de Deus no universo se tornou problemático. Inicialmente, Deus era visto como o grande Criador do mundo, que o fez para funcionar segundo uma precisão matemática , pois, sem essa ordem, o mundo seria incompreensível. Ele também era o sustentador dessa ordem. O exercício principal de seu poder providencial era manter, em vez de interromper, a exata regularidade matemática. Com o passar do tempo, filósofos e cientistas começaram a se perguntar se a máquina autoperpetuadora estava realmente precisando de um “super” começo. O único espaço que restava para Deus estava no fato irredutível de que havia uma ordem inteligível das coisas e uma necessidade de ordem moral. Mas, como E. A. Burtt ressalta: “A maior parte dos homens pensantes, sempre e inevitavelmente antropomórficos em sua teologia, dificilmente poderia perceber a validade religiosa nesses substitutos teístas. Para eles, à medida que foram convencidos de modo significativo pela ciência ou pela filosofia, Deus foi sendo completamente eliminado de cena” (1954, p. 299-300). No final, o Iluminismo matou Deus. Para muitos, como Marx, isso representou a libertação da tirania moral e social das religiões. Nietzsche substituiu esse ateísmo casual e presunçoso pelo ateísmo agonizante, pois entendia as consequências dessa libertação. Ele tratou com desprezo o “Último Homem”, que, aceitando a notícia de que Deus está morto, continua a viver como se a verdade e a mentira, o certo e o errado, o bem e o mal ainda fizessem sentido. As pessoas modernas perderam a cobertura sagrada que dava significado e segurança aos esforços humanos. Elas viviam em um mundo cada vez mais sem sentido, mas insistiam que suas vidas tinham significado. Agora elas eram os deuses do mundo, mas deuses de poder, violência e crueldade, não de amor e benevolência. Rousseau viu a necessidade da religião para dar sentido e moralidade às sociedades e postulou uma religião civil em que os governantes aparentassem estar vestidos com as cores da religião (Bloom 1987, p. 196). Com a centralização no ser humano, vieram as doutrinas de liberdade e igualdade , a ênfase na liberdade e nos direitos humanos e uma grande valorização da propriedade privada e do capitalismo . CIÊNCIA/RELIGIÃO Com o dualismo sobrenatural/natural, houve a separação entre ciência e religião, distinção que não acontece na maioria das culturas, e a predominância da ciência como um sistema de explicação abrangente. Esse processo de secularização desvalorizou instituições, crenças e práticas religiosas e as substituiu pela razão e pela ciência. Inicialmente, a cosmovisão materialista não tinha uma orientação secular nem conflitava com as crenças em um Criador divino que teria posto o mundo em movimento e dado ordens que a criação segue. Até mesmo Locke , um cético, admitiu que a racionalidade do universo e a ordem da natureza eram de origem divina. Mas a ciência introduziu a racionalidade científica e fez das religiões objetos de estudo empírico. Com isso, declarou que elas eram irracionais e fictícias. Se diferentes religiões alegavam ser válidas e verdadeiras, então qualquer uma delas poderia ser questionada e ter sua verdade final colocada em dúvida. Nicholas Lash afirma que, à medida que a ciência se desenvolveu, definiu a “religião” como uma categoria que representava o “outro” em contraposição à maneira que definia a si mesma (1996, p. 188). Antes do século 17, o prefixo “super” era usado adverbialmente ou adjetivamente para se referir à característica essencial de objetos ou de pessoas que os capacitava a se comportar de uma forma que ultrapassava sua condição, isto é, de uma maneira sobre-humana. Vinoth Ramachandra observa: “Nessa compreensão, apenas a Deus o termo ‘super’ nunca poderia ser aplicado. Pois, quem ou o que pode elevar a natureza da divindade?” (1996, p. 142). Depois do Iluminismo, a religião é descrita pela ciência como aquilo que a ciência não era, ou seja, com características que lhe eram opostas. A ciência era objetiva, racional, empírica e verdadeira para todos; as religiões eram subjetivas, emocionais e relacionadas à fé pessoal. Os cientistas podiam discordar em aspectos secundários, mas todos compartilhavam da mesma cosmovisão, e seus trabalhos conduziram ao progresso. Eles acreditavam que o “domínio científico da natureza prometia o fim da escassez, da miséria e da arbitrariedade das calamidades. O desenvolvimento de formas racionais de organização social e de métodos racionais de reflexão era a promessa de libertação da irracionalidade dos mitos, das religiões, das superstições, o livramento do uso arbitrário do poder, bem como do lado escuro de nossa natureza. Somente por meio de um projeto como esse as qualidades imutáveis, universais e eternas de toda a humanidade poderiam ser reveladas” (Harvey 1990, 12). As pessoas religiosas tinham divergências fundamentais e seus debates não conduziam a um avanço do conhecimento. A ciência fez das religiões um objeto de estudo, dividindo-as em espécies, comparando-as e classificando-as conforme a escala da lógica. Ao fazê-lo, relegou as religiões ao mundo das crenças e superstiçõesparticulares e alegou estabelecer a verdade na esfera pública . Não tolerou qualquer coisa que se opusesse à sua dominação no campo do conhecimento. Conrad Waddington escreve: “A ciência por si só é capaz de fornecer à humanidade um modo de vida, que é, em primeiro lugar, autoconsistente e harmonioso e, em segundo lugar, livre para o exercício dessa razão objetiva da qual nosso progresso material depende. Até o ponto que consigo perceber, a atitude científica da mente é a única que é, nos dias atuais, adequada nesses dois aspectos. Há muitos outros ideais dignos que poderiam complementá-la, mas não consigo entender que algum deles pudesse tomar seu lugar como a base de uma sociedade progressista e rica” (1941, p. 170, deste autor). Uma consequência desse culto à ciência é que não só os dados científicos, como também as teorias científicas são consideradas “fatos”, não elaborações mentais. Esse pressuposto é reforçado pelo alto grau de especialização do conhecimento científico, que torna difícil para os leigos distinguir entre fato e elaboração mental. Essa visão resulta na crença de que, em última análise, as descobertas da ciência podem nos ajudar a dominar a natureza e a nos libertar dos problemas da vida. Para entender a modernidade hoje, devemos compreender o papel que as universidades e os centros de pesquisa desempenham na formação do pensamento moderno (Malik 1987). A convicção de que a realidade física é a única realidade e que a ciência é o caminho para a verdade inequívoca se estendeu para muito além da Academia, atingindo o cotidiano da maioria das pessoas modernas. O cientificismo e os esforços para encontrar explicações definitivas para os fenômenos humanos formam a base de grande parte do pensamento moderno. Esse reducionismo planejado pressupõe que todos os fenômenos possam ser plenamente compreendidos a partir do conhecimento de suas estruturas fundamentais e de suas partes constituintes. Para obter credibilidade, uma disciplina deve mostrar que é uma ciência.⁵ O resultado é o cientificismo, que relega o conhecimento religioso, ético e estético ao domínio da mera fantasia. Dado o dualismo sobrenatural/natural, não deveria nos surpreender o fato de que religião e ciência são vistas por muitos como dois sistemas muito diferentes e potencialmente hostis de explicação. É apropriado para a ciência estudar a religião. Não há nenhum interesse geral para as religiões estudarem a ciência — a ciência não precisa levar as afirmações de verdade delas a sério. A ciência, segundo a modernidade, é elaborada sobre as bases sólidas da experiência e da razão. A religião é baseada na fé. A ciência procura leis que organizam o mundo material e sejam independentes de Deus; a religião busca milagres como evidência de realidades sobrenaturais. À medida que, de maneira crescente, a ciência explica os mistérios da natureza, a religião é confinada a esferas menores de explanações, tornando-se cada vez mais irrelevante. As realidades espirituais transcendentes, como Deus, anjos e demônios, não servem para explicar os acontecimentos terrenos, e a realidade de espíritos e poderes deste mundo, como a feitiçaria e a magia, é negada. Isso levou a um secularismo crescente, que procura desmistificar e dessacralizar o mundo a nosso redor. Para muitos, a ciência é a explicação suprema da realidade, uma nova religião. SECULARISMO MATERIALISTA/ESPIRITUALISMO CELESTE O triunfo da ciência levou à secularização do pensamento em todos os campos das ideias ao mesmo tempo. Crenças, práticas e instituições religiosas, que haviam sido centrais para a vida, passaram a ter importância secundária. Tempo e espaço sagrados deram lugar a tempo e espaço seculares. Esse secularismo crescente não foi resultado de uma rejeição consciente de Deus e da realidade transcendente nem de provas científicas de sua inexistência. A princípio, essa realidade espiritual foi utilizada para responder a perguntas fundamentais sobre a origem, o propósito e o destino do universo e para tratar de questões éticas (entre elas, as leis morais de Kant ), sendo relegada a rituais especiais, estabelecidos em tempo e local sagrados. Depois, Deus foi confinado a assuntos do outro mundo ou esquecido como uma relíquia do passado. A vida foi se tornando, assim, competência da ciência. Essa secularização da natureza pode ser vista no entendimento do tempo. Na Europa medieval, a história era um grande drama com propósito e significado. O tempo científico rejeitou essa ideia. Como Burtt observa: O tempo para nós parece nada mais que um continuum mensurável, somente o momento presente existe, e esse momento não tem em si qualidade temporal alguma, mas é apenas uma linha divisória entre o trecho infinito de um passado que se extingue e a extensão igualmente infinita do futuro inexplorado. Para tal visão, é impossível considerar o movimento temporal como a absorção do futuro no momento atual ou presente, pois não há nada realmente atual [...]. Banimos de nossa metafísica o tempo como algo que é vivido (Burtt 1954, p. 95). As pessoas modernas perderam o significado de tempo como uma dimensão em um drama cósmico. Mircea Eliade sugere que os seres humanos modernos procuraram preservar um senso de significado reconstruindo toda a história humana, acreditando que, ao fazê-lo, darão sentido ao mundo. Mas, como ele observa, sem uma narrativa cósmica para lhes dar significado, as histórias e as biografias são reduzidas a histórias interessantes, porém sem importância. ESFERA PÚBLICA/ESFERA PRIVADA Na modernidade, a divisão entre o “secular” e o “religioso” conduziu a uma distinção entre as esferas pública e privada da vida e entre o conhecimento público e privado (fig. 7.2). Peter Berger e seus colegas de pesquisa argumentam que essa dicotomia é entre “as instituições públicas enormes e poderosas [...] e a esfera privada [...] deixada de lado, por assim dizer, pelas grandes instituições” (Berger; Berger; Kellner 1973, p. 133). Essas instituições são as grandes corporações, sindicatos, estruturas governamentais, partidos políticos e instituições acadêmicas que dominam a vida pública. A esfera privada envolve as áreas da vida em que os indivíduos têm controle, como famílias, associações voluntárias e vizinhanças. O resultado desse divórcio é a fragmentação da consciência humana entre escritório e lar e entre trabalho e diversão. A verdade pública é secular, humanista, materialista e racionalista, portanto não está sujeita a considerações morais. Ela inclui a ciência e fatos amorais, que são os bens mais valorizados de nossa cultura. Barry Smart escreve: “Existindo em sua maior parte no domínio denso, impessoal ou anônimo do ‘social’, na prática um vácuo moral regulado pelos mecanismos racionais-legais de governo, os seres humanos são constituídos tanto como objetos de formas de conhecimento quanto como sujeitos das tecnologias terapêuticas, gerenciais e burocráticas associadas, que prometem a manipulação de seres humanos em padrões condescendentes de comportamento” (1993, p. 80). Figura 7.2 ESFERAS DA VIDA Pública • trabalho • organização mecanicista • controle público • racionalizada • emoções controladas • controle hierárquico • gerenciamento • verdade pública objetiva, baseada em fatos • produção, lucros • igreja oficial • ciência A verdade privada é vista como uma questão de crença pessoal e, portanto, não é uma questão de verdade e falsidade, mas de diferentes percepções da verdade pessoal. A verdade, os sentimentos, a moralidade e as tradições religiosas são relegados ao domínio privado, em que o princípio de conduta é o pluralismo e o respeito pela liberdade de cada pessoa escolher os valores que adotará em sua vida. A única exigência imposta a quase todos é que não se deve impor a própria verdade ou moral religiosa aos outros. As religiões, incluindo o cristianismo , são vistas como um assunto de fé pessoal sem certeza e validade gerais. O pluralismo das religiões e denominações, em contraste com a aparente unidade monolítica da ciência, apenas