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Origem da Psicologia Científica Tânia Maria de Carvalho Câmara Monte Origem da Psicologia Científica 2 Introdução Neste conteúdo, apresentaremos as primeiras teorias em Psicologia: o Mentalismo, o Estruturalismo, o Behaviorismo Metodológico, o Behaviorismo Radical e o Cognitivismo. Objetivos da Aprendizagem • Descrever os avanços técnicos em ciências e suas implicações sobre as ori- gens da Psicologia Científica; • Compreender os pressupostos filosóficos (suposições), que norteiam o pen- samento científico em Psicologia; • Descrever o conceito de ciência e suas características; • Comparar e diferenciar o conhecimento científico de outros tipos de conheci- mento (senso comum, religioso, filosófico etc.); • Compreender a definição de comportamento, enquanto relação entre o indi- víduo e o seu ambiente; • Reconhecer os tipos de comportamento existentes (reflexo e operante); e • Conhecer as características do método experimental e a possibilidade de sua aplicação em relação ao comportamento. 3 Origem da Psicologia Científica Figura 1 - Psicologia. Fonte: Plataforma Deduca (2021). #PracegoVer: A imagem de uma escada vermelha em uma caverna com contornos de uma face humana. A Psicologia científica tem suas origens na Universidade de Leipzig (Alemanha), com Wilhelm Wundt. Nesta universidade, Wundt cria o primeiro laboratório de Psicologia Experimental do mundo para o estudo dos chamados processos psicológicos básicos; e, ao fazê-lo, permite que profissionais de diferentes lugares sejam treinados em relação ao uso do método experimental aplicado à experiência consciente (SAMPAIO, 2005; GAUER, 2007). Após as revoluções científicas coperniciana, galileana e newtoniana, o método experimental tornou-se a base para o estabelecimento da Física como o modelo acabado de ciência natural. Com Copérnico, o mundo deixou de ser o centro do universo; Galileu provou que o experimento era a base para a explicação dos fenômenos físicos que se passam 4 nesse universo; e depois de Newton, o universo passou a ser entendido como uma máquina que funciona como um relógio, regida por um parcimonioso e elegante conjunto de leis matemáticas. Em comum, essas revoluções tinham como base o método científico ou experimental. A orientação nomotética da mecânica newtoniana e a prática do método experimental introduzido por Galileu foram, desde o século XVII, aplicados às mais diversas realidades que alguém pretendesse conhecer, e entre essas realidades estava a psicológica. O século XIX presenciou diversas tentativas de transformar a psicologia em uma ciência autônoma, ou, de maneira mais genérica, de conceber uma prática científica que desse conta da vida mental. As iniciativas mais bem-sucedidas, na medida em que estabeleceram marcos amplamente reconhecidos na história da psicologia científica, foram aquelas que levaram os problemas psicológicos para o laboratório (GAUER, 2007, p. 1). A fundação do primeiro laboratório de Psicologia Experimental e as contribuições da Fisiologia Figura 2 - Wilhelm Wundt (1832-1926). Fonte: https://psicoeduca.com.br #PraCegoVer: Retrato de Wilhelm Wundt. Ele é um homem branco e apare- ce dos ombros para cima. Tem os cabelos curtos, lisos e pretos. Usa barba e bigodes pretos. Está de óculos de grau e usa uma roupa preto com golas brancas. A fundação do primeiro Laboratório de Psicologia Experimental do mundo, na Universidade de Leipzig (Alemanha), por Wilhelm Wundt (1832-1926), em dezembro https://psicoeduca.com.br 5 de 1879, representa um marco simbólico, tanto em relação à utilização do método experimental para o estudo de processos psicológicos (consciência, sensação, percepção, emoções e sentimentos), quanto em relação ao surgimento da Psicologia Moderna ou Científica. Em outras palavras, diz respeito ao avanço da Psicologia, enquanto uma ciência independente da Filosofia e do seu método de estudo, a especulação (SAMPAIO, 2005). Considerado o pai da Psicologia Moderna ou Científica, Wundt: [...] era um paralelista psicológico em sua atitude em relação ao problema corpo- mente. De um lado havia o mundo físico, o mundo dos objetos materiais; de outro havia o mental, o mundo da experiência. A psicologia devia tratar primordialmente do último, e podia, por isso, ser definida como 'a ciência da experiência imediata'. Por experiência Wundt incluía fenômenos como as sensações, percepções, sentimentos, emoções e que tais. [...] O problema para a psicologia era, na verdade, de o que fazer cientificamente a propósito desta experiência, e Wundt dava uma dupla resposta: a experiência deveria ser analisada em seus elementos; os elementos deviam, por sua vez, ser examinados com a natureza de suas conexões uns com os outros; e, finalmente, as leis destas conexões deveriam ser determinadas (KELLER, 1970, p. 21). Acreditava que as atividades ou processos mentais possuíam o seu correspondente físico, ou seja, que mudanças em: [...] estímulos do mundo exterior, agindo sobre os órgãos dos sentidos, provocavam impulsos nervosos que, por sua vez, davam lugar à atividade do cérebro. Com a atividade do cérebro vinha a atividade mental, mas a primeira, na realidade, não 'causava' a segunda, nem poderia a segunda causar a primeira. Eram duas esferas de atividade distintas, uma fisiológica e a outra psicológica; e 'psicologia fisiológica' parecia a Wundt a melhor maneira de designar o interesse duplo da nova psicologia e a íntima relação entre as duas áreas de pesquisa (KELLER, 1970, p. 22-23). Por exemplo, uma estimulação física, como uma picada de agulha na pele de um indivíduo, teria uma correspondência psicológica na mente deste indivíduo. Para explorar a mente ou consciência do indivíduo, Wundt cria um método que denomina introspeccionismo. Nesse método, o experimentador pergunta ao sujeito, especialmente treinado para a auto-observação, os caminhos percorridos no seu interior por uma estimulação sensorial (a picada da agulha, por exemplo) (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001, p. 51). 6 Figura 3 - Estimulação física. FONTE: HTTPS://BLOG.MAXIEDUCA.COM.BR #PraCegoVer: Um menino sendo vacinado por um profissional de saúde, que aproxima uma injeçãoe um chumaço de algodão de seu braço esquerdo. Cabe salientar que Wundt teve em seus trabalhos, na Universidade de Leipzig, a contribuição de Weber e Fechner, além de cientistas como Edward B. Titchner (Estruturalismo), William James (Funcionalismo), de Edward L. Thorndike (Associacionismo) (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001). Figura 4. Fonte: https://blog.maxieduca.com.br #PraCegoVer: as primeiras experiências feitas no laboratório por Wilhelm Wundt. Foto preto e branca. Um homem de barba e bigodes brancos sentado em uma cadeira com uma mesa à frente com objetos por cima. Ao redor deste homem, cinco homens em pé. https://blog.maxieduca.com.br 7 As primeiras teorias em Psicologia Neste tópico apresentaremos as primeiras teorias em Psicologia: o Mentalismo, o Estruturalismo, o Behaviorismo Metodológico, o Behaviorismo Radical e o Cognitivismo. Segundo Skinner (1974), todas elas buscaram, de alguma forma, descrever, compreender e/ou explicar o porquê as pessoas agem de determinada maneira. Nas palavras de Skinner (1974, p. 13): Por que as pessoas se comportam de uma certa maneira? Esta era, no começo, uma questão prática provavelmente: Como poderia alguém antecipar e, a partir daí, preparar-se para aquilo que uma pessoa faria? Mais tarde, o problema tornou-se prático num outro sentido: Como poderia alguém ser induzido a comportar-se de uma certa forma? Eventualmente, tornou-se um problema de compreensão e explicação do comportamento. Tal problema poderia ser sempre reduzido a uma questão acerca de causas (SKINNER, 1974, p. 13). Na sequência, confira as “explicações” formuladas a respeito dos “motivos” pelos quais agimos de certa maneira. O Mentalismo Dá-se o nome de "mentalistas" àquelas teorias que compreendem as nossas ações ou o nosso comportamentocomo resultante de processos mentais ou de agentes internos, imateriais (SKINNER, 1974). Em outras palavras, chamamos de mentalista qualquer descrição que faça uso de "eventos mentais” para explicar uma ação, como se estes eventos (mentais e comportamentais) possuíssem naturezas diferentes (SKINNER, 1974). Segue um exemplo, oferecido por BAUM (2019, p. 59): [...] Suponha que você pergunte a um amigo por que ele comprou certo par de sapatos, e o amigo responde: 'Eu só os queria' ou "Fiz isso por impulso". 8 EVENTO MENTAL (CAUSA) EVENTO FÍSICO(EFEITO) Pensamentos e sentimentos Comportamentos (ações) Quadro 1 - Modelo mentalista. Evento mental como causa de eventos físicos. Fonte: elaborada pela autora (2021) #PraCegoVer Tabela com duas linhas e duas colunas. Na primeira coluna: Evento Mental (causa), abaixo: Pensamentos e sentimentos. Na segunda coluna: Evento físico (efeito) e abaixo Comportamentos (ações) EVENTO MENTAL (CAUSA) EVENTO FÍSICO (EFEITO) Vontade Impulso Comprar um par de sapatos Quadro 2 - Vontade e Impulso. Fonte: elaborada pela autora (2021) #PraCegoVer Tabela com duas linhas e duas colunas. Na primeira coluna: Eve- to Mental (causa), abaixo: Vontade Impulso. Na segunda coluna: Evento físico (efeito) e abaixo Comprar um par de tênis. O exemplo anterior e sua representação nos conduzem à seguinte conclusão: agimos em função da nossa vontade ou do nosso impulso. Ou ainda, é a vontade ou o impulso, que causam determinadas ações, por exemplo, a compra de sapatos (BAUM, 2019). Descrições como essas são comuns em nosso dia a dia. Comumente dizemos que brigamos, porque estamos nervosos; que choramos, porque estamos tristes (SKINNER, 1974); que um amigo não muda de opinião, porque é teimoso. Em outras palavras: Tendemos a dizer, muitas vezes de modo precipitado, que se uma coisa se segue a outra, aquela foi provavelmente causada por esta. [...] Dos múltiplos exemplos de explicação do comportamento humano, um deles é aqui especialmente importante. A pessoa com a qual estamos mais familiarizados é a nossa própria pessoa; muitas coisas que observamos pouco antes de agir ocorrem em nossos próprios corpos [pensamentos e sentimentos, por exemplo] e é fácil tomá-las como causas do nosso comportamento (SKINNER, 1974, p. 13, negrito nosso). 9 Tais descrições podem ser classificadas por Skinner (1974) como: Mentalistas (a mente causa a ação ou o comportamento) Dicotômicas (existem eventos mentais e eventos comportamentais) Causais (é sempre um evento anterior e mental que causa um evento posterior, comportamental). Se tais afirmações (mentalistas) estiverem corretas, devemos nos perguntar: pode um evento imaterial (mente) causar um evento material (comportamento, ação)? Como essa relação causal acontece? Como podemos levar uma pessoa a agir de determinada forma, se o que causa o seu comportamento é imaterial (mental)? Podemos prever o que uma pessoa fará se ela age baseada em coisas que acontecem exclusivamente em sua mente? Essas perguntas são a base de uma ciência psicológica: a definição de um objeto de estudo, de um método, a busca por previsão e controle e a formulação de uma teoria (SKINNER, 1974). O Estruturalismo Correspondem às descrições estruturalistas o dizer aquilo que as pessoas fazem sem se ater às questões causais (SKINNER, 1974). Nesse caso, entende-se que: [...] as pessoas provavelmente farão outra vez aquilo que fazem com frequência; elas obedecem a certos costumes porque é usual obedecer- lhes, demonstram certos hábitos de voto ou de compra e, assim por diante. A descoberta de princípios organizadores na estrutura do comportamento – tais como os ‘universais’ culturais ou linguísticos, padrões arquetípicos em literatura, ou tipos psicológicos – pode possibilitar a previsão de casos de comportamento que não tinham ainda ocorrido anteriormente (SKINNER, 1974, p. 15). 10 Exemplo de casos de comportamento que não tinham ainda ocorrido anteriormente: dizemos que entre os 10 e 16 meses de vida uma criança começa a exibir as primeiras palavras. Tal descrição nos oferece uma previsão de quando uma criança irá falar. Passagem do tempo (entre os 10 e 16 meses de idade) Falar Quadro 3 - Evento comportamental. Fonte: elaborada pela autora (2021) PraCegoVer: Tabela com duas colunas: Na primeira Passagem do tempo (entre os 10 e 16 meses de idade). Na segunda: Falar O exemplo anterior, nos permite afirmar que é esperado (possível ou provável) que uma criança fale suas primeiras palavras entre os 10 e 16 meses, uma vez que essa ação ocorre com frequência entre crianças da mesma idade. Nessa direção, podemos afirmar que não estamos diante de uma relação causal, em que a mera passagem do tempo causa um evento comportamental (falar) e, por isso, os termos “causa e efeito” foram retirados (suprimidos) da tabela anterior. Outra forma de compreender as concepções estruturalistas se refere à possibilidade de reconhecer a estrutura das coisas. O estruturalismo, criado por Edward Titchner, afirmava que as nossas experiências conscientes podem ser subdivididas em componentes. Para identificar esses componentes, treinou voluntários em um procedimento chamado introspecção (olhar para dentro). Neste, os participantes recebiam um estímulo simples e, após sua suspensão deveriam reconstruir suas sensações e sentimentos, descrevendo o que viram e o que sentiram (KELLER, 1974; BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001). O Estruturalismo está preocupado com a compreensão do mesmo fenômeno que o Funcionalismo: a consciência. Mas, diferentemente de W. James, Titchner irá estudá-la em seus aspectos estruturais, isto é, os estados elementares da consciência como estruturas do sistema nervoso central. Esta escola foi inaugurada por Wundt, mas foi Titchner, seguidor de Wundt, quem usou o termo estruturalismo pela primeira vez, no sentido de diferenciá-la do Funcionalismo. O método de observação de Titchner, assim como o de Wundt, é o introspeccionismo, e os conhecimentos psicológicos produzidos são eminentemente experimentais, isto é, produzidos a partir do laboratório (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001, p. 52). 11 Em ambos os casos (organização temporal do que as pessoas fazem com frequência e descrição dos componentes de uma experiência consciente) podemos dizer que previsão do comportamento (e não o controle) foi alcançada pela proposta Estruturalista. Basicamente, esta teoria se propõe a descrever (em sequência) ou estruturar o que ocorre sem se ater às causas do que ocorre. Retomando o exemplo de que crianças frequentemente falam entre os 10 meses e os 16 meses de idade, encontramos um desafio: não podemos manipular o tempo para fazer com que uma pessoa fale antecipadamente; o que significa que a busca pela estrutura ou ordem das coisas não nos oferece controle sobre o comportamento (SKINNER, 1974). Behaviorismo Metodológico O termo Behaviorismo é oriundo do inglês behavior e significa comportamento. Em 1913, o psicólogo americano John Watson se utilizou do termo para designar uma teoria, que propõe o comportamento observável como o objeto de estudo da Psicologia. De acordo com Baum (2019), Watson afirmava que: A psicologia era a ciência da mente, assinalando que nem a introspecção, nem analogias com a consciência animal produziam os resultados confiáveis produzidos pelos métodos de outras ciências. Ele argumentou que somente se estudasse o comportamento a psicologia poderia atingir a confiabilidade e a generalidade que precisava para se tornar uma ciência natural (BAUM, 2019, p. 37). Segundo Skinner (1974 p. 17), o behavorismo metodológico, "obteve sucesso, por desfazer-se de muitos problemas decorrentes do mentalismo e por formular de outras maneiras alguns conceitos previamente associados com eventos privados". 12 Exemplo behavorismo metodológico: De acordo com esta teoria, , não dizemos que corremos porque estamos com medo (premissa mentalista na qual os sentimentos atuam como causado comportamento), mas que corremos porque vimos um ladrão (causa imediatamente anterior a nossa ação e que pode ser observada em comum acordo). Quadro 4 - Modelo behaviorista metodológico: Evento ambiental anterior e observável causa um evento comportamental posterior e igualmente observável. Fonte: elaborada pela autora (2021) #PraCegoVer Tabela com duas linhas e três colunas. Na primeira linha: Evento Físico(causa). Evento mental e evento físico (efeito). Na linha de baixo: Evento ambiental anterior e observável; Sentimentos e pensamentos e Evento comportamental posterior. Quadro 5 - Ladrão (causa). Fonte: elaborada pela autora (2021) #PraCegoVer: Tabela com duas linhas e três colunas. Na primeira linha: Evento Mental (causa); Evento Físico (causa); Evento mental e evento físico (efeito). Na segunda linha: Ladrão; medo; correr. Ao privilegiar o estudo daquilo que poderia ser observado em comum acordo como causa do comportamento, o Behaviorismo Metodológico exclui a introspecção como método da Psicologia, cria condições para que o ambiente seja observado e corrige (compensa) “[...] uma injustificada concentração na vida interior" (SKINNER, 1974, p. 17). Entretanto, a ênfase no ambiente imediatamente anterior e observável como causa do comportamento deixa em aberto o papel dos estados mentais (pensamentos e sentimentos) sobre o comportamento. Nas palavras de Skinner (1974): EVENTO FÍSICO (CAUSA) EVENTO MENTAL EVENTO FÍSICO (EFEITO) Evento ambiental anterior e observável Sentimentos e pensamentos Evento comportamental posterior EVENTO FÍSICO (CAUSA) EVENTO MENTAL EVENTO FÍSICO (EFEITO) Ladrão Medo Corre 13 A maioria dos behavioristas metodológicos admitia a existência dos fatos mentais, ao mesmo tempo que os excluía de consideração. Pretendiam eles realmente dizer que tais acontecimentos não importavam? Que o estágio intermediário na tripla sequência do físico-mental-físico não contribuía para nada - em outras palavras, que os sentimentos e estados mentais eram simplesmente epifenômenos? [...] Os sentimentos que experimentamos imediatamente antes de agir não terão nenhuma relação com o nosso comportamento? (p. 18). Dito de outra maneira, no Behaviorismo Metodológico, temos a explicação de como um evento físico (ambiental) causa outro evento físico (comportamental), o que nos confere previsão e controle sobre o objeto de estudo da Psicologia, mas não nos oferece uma explicação acerca do papel dos eventos mentais (sentimentos e pensamentos) nesta relação. Behaviorismo Radical O Behaviorismo Radical, filosofia da Análise do Comportamento, corresponde a uma das inúmeras teorias que se dedicaram a elucidar (esclarecer) os motivos pelos quais nos comportamos (SKINNER, 1974; SÉRIO, 2005). Diferente do Behaviorismo Metodológico, o Behaviorismo Radical atribui aos sentimentos, emoções e pensamentos uma natureza física e, assim, os inclui em uma análise do comportamento (SKINNER, 1974; TOURINHO, 2003; SÉRIO, 2005). Nas palavras de Tourinho (2003): “Para Skinner, a inacessibilidade de sentimentos e pensamentos à observação pública direta não os exclui do campo de interesses de uma ciência do comportamento. Ao abordá-los, a análise do comportamento apenas refuta a suposição de que são fenômenos ‘mentais’, preferindo interpretá-los como eventos com dimensões físicas, ainda que inacessíveis à observação pública” (p. 03). Nessa direção, podemos afirmar que os pensamentos, as emoções e os sentimentos fazem parte daquilo que um behaviorista radical deve explicar (SKINNER, 1998). No capítulo X (Emoções), do livro "Ciência e Comportamento Humano", de Skinner (1998), podemos observar o posicionamento desse autor em relação às emoções e o tratamento que estas devem ter em uma ciência do comportamento: 14 "Se o problema da emoção for concebido apenas como questão de estados internos, não é provável que se consiga progressos em tecnologia prática. Não é de qualquer auxílio, na solução de um problema prático, dizer-se que algum aspecto do comportamento do homem se deve à frustração ou à ansiedade; precisamos também saber como a frustração ou a ansiedade foi induzida e como pode ser alterada. No final, encontramo-nos lidando com dois eventos - o comportamento emocional e as condições manipuláveis das quais esse comportamento é função - que constituem o objeto próprio do estudo da emoção" (p. 184). Ainda sobre as características do Behaviorismo Radical em comparação com as demais filosofias da ciência, podemos observar que o ambiente posterior à resposta (e não apenas o ambiente anterior a ela, como no caso do Behaviorismo Metodológico e do Mentalismo) passa a ser considerado (SKINNER, 1974; SÉRIO, 2005). Segundo Skinner (1957): “Muitas vezes, estamos mais interessados, entretanto, no comportamento que produz algum efeito no mundo ao redor. Este comportamento origina a maioria dos problemas práticos nos assuntos humanos e é também de um interesse teórico especial por suas características singulares. As consequências do comportamento podem retroagir sobre o organismo. Quando isto acontece, podem alterar a probabilidade de o comportamento ocorrer novamente” (p. 65). E, finalmente, numa lógica Behaviorista Radical, o ambiente que antecede a resposta ganha um novo significado (em comparação com a lógica mecanicista do Mentalismo e do Behaviorismo Metodológico, na qual o antes causa do depois): surge como efeito das consequências de nossas ações e, num segundo momento e em situações similares, tornam as respostas mais prováveis no futuro mediante a sua apresentação (SKINNER, 1974). Vejamos como as informações acima (a importância do ambiente posterior à resposta; a noção de que todas as nossas ações são materiais; e a ideia de ambiente antecedente como àquele sinaliza a ocasião da resposta, mas que não possui com esta uma relação causal) podem ser representadas, segundo o Behaviorismo Radical. 15 EVENTO FÍSICO EVENTO FÍSICO EVENTO FÍSICO Ambiente anterior à resposta ou ação Resposta, ação ou atividade do organismo Ambiente posterior à resposta ou ação Quadro 6 - Exemplo. Modelo Behaviorista Radical. Fonte: elaborada pela autora (2021) #PraCegoVer: Tabela com duas linhas e três colunas. Na primeira linha: Evento físico (ambiente anterior à ação); Evento físico (resposta, ação ou atividade do organismo); Evento físico (ambiente posterior à ação). Na segunda linha: res- posta, ação ou atividade do organismo; ambiente posterior à ação; e ambiente anterior à ação. EVENTO FÍSICO (Ambiente) EVENTO FÍSICO (Resposta) EVENTO FÍSICO (Ambiente) País invadido por um grupo terrorista Deixar o país Buscar asilo em outros lugares, medo Suspender o contato um grupo terrorista evitar danos à vida Quadro 7 - Modelo Behaviorista Radical. Fonte: elaborada pela autora (2021) #PraCegoVer: Tabela com duas linhas e três colunas. Na primeira linha: Evento físico; Ambiente; Evento físico Resposta e novamente Evento Físico Ambiente. Na segunda linha, na coluna relacionada ao Evento Físico (ambiente), Pais invadido por um grupo terrorista, próxima coluna, relacionado com evento fí- sico (resposta) Deixar o país, Buscar asilo em outros lugares e Medo, na outra coluna, relacionado ao evento físico ambiente, suspender o contato com grupo terrorista e Evitar danos à vida. Em uma perspectiva Skinneriana (e operante), esse exemplo pode ser assim descrito: respostas, ações ou atividades do organismo (ex.: deixar o país, buscar asilo em outros lugares) produzem como consequências (a suspensão do contato com um grupo terrorista; e a evitação de danos à vida) que, por sua vez, afetam as próprias respostas (no sentido de torná-las mais prováveis no futuro) e marcam a ocasião na qual estas ações ocorreram (país invadido por um grupo terrorista). Constituem “descrições Behavioristas Radicais”, àquelas que destacam o papel da consequência como causa do comportamento; que entendem que o que sentimos e pensamos tema mesma natureza física daquilo que fazemos abertamente; e que atribuem aos eventos antecedentes outro papel: o de modular a probabilidade de nossas ações em função das consequências com as quais estiveram relacionados no passado (SKINNER, 1974; 1998; SÉRIO, 2005). 16 Destaca-se aqui que controle e previsão são possíveis em uma ciência do comportamento. Podemos controlar ações, no sentido de aumentar ou reduzir temporariamente a sua frequência pela apresentação de uma determinada consequência; e prever sua ocorrência pela apresentação daqueles eventos antecedentes que estiveram relacionados com o seu fortalecimento (SÉRIO, 2005). Cognitivismo Constituem descrições cognitivistas, àquelas que privilegiam a cognição, o raciocínio, a interpretação, a recuperação e uso de informações perante os fatos dos fatos como a causa do comportamento. Trata-se de uma escola de pensamento da Psicologia que teve suas origens em oposição ao behaviorismo; e conectada à inteligência artificial e à linguística de Chomsky (OLIVEIRA, 1990; CASTANÕN, 2010). “Uma maneira conveniente de esboçar a postura ontológica e metodológica que caracteriza o cognitivismo é contrastando-o com o behaviourismo e com o que se pode denominar “neuropsicologia” - ou seja, a tentativa de explicar os fenômenos mentais em termos dos sistemas nervosos que hipoteticamente constituem seu substrato. Em comum com estas duas alternativas, o cognitivismo é ontologicamente materialista; ao contrário destas, entretanto, ele não procura a redução do estudo dos fenômenos mentais seja ao estudo dos comportamentos, seja ao do sistema nervoso. As explicações que os cognitivistas tentam elaborar envolvem deliberadamente termos mentais; pode-se dizer portanto que o cognitivismo é mentalista porém não dualista” (OLIVEIRA, 1990, p. 88). 17 Segue abaixo um exemplo de como o objeto de estudo do Cognitivismo pode ser representado. EVENTO FÍSICO EVENTO FÍSICO EVENTO FÍSICO EVENTO FÍSICO Ambiente anterior a interpretação dos fatos e à resposta Raciocínio Cognição Memória Interpretação dos fatos Resposta do indivíduo modulada pelas cognições Ambiente posterior à resposta Quadro 8 - Modelo Cognitivista. Fonte: elaborada pela autora (2021). #PraCegoVer: Tabela com duas linhas e quatro colunas. Na primeira linha de todas as colunas: Evento físico Na segunda linha, primeira coluna (ambiente anterior à interpretação dos fatos e à resposta); na segunda coluna (raciocínio, cognição, memória e interpretação dos fatos); na terceira coluna (resposta do indivíduo modulada pelas cognições) e na quarta coluna (ambiente posterior à ação). AMBIENTE ANTE- RIOR A INTERPRE- TAÇÃO DOS FA- TOS E À RESPOSTA RACIOCÍNIO COG- NIÇÃO MEMÓRIA INTERPRETAÇÃO DOS FATOS RESPOSTA DO INDIVÍDUO MO- DULADA PELAS COGNIÇÕES AMBIENTE POSTERIOR À RESPOSTA Cachorro “Pode me ferir” Sair correndo Afastar-se do cachorro Quadro 9 - Modelo Cognitivista. Fonte: elaborada pela autora (2021). #PraCegoVer: Tabela com duas linhas quatro colunas. Na primeira linha: Ambiente anterior à interpretação dos fatos e à resposta; raciocínio, cognição, memória e interpretação dos fatos; resposta do indivíduo modulada pelas cognições; ambiente posterior à ação. Na segunda linha: cachorro; "pode me ferir"; sair correndo; afastar-se do cachorro. 18 Observe os estudos de Atkinson e Shifrin, que falam sobre memória, esquecimento e cognição. ATKINSON, Richard C.; SHIFFRIN, Richard M. Memória humana: Um sistema proposto e seus processos de controle. In: Psicologia da aprendizagem e motivação. Academic Press, 1968. p. 89-195. Disponível em < https://www.sciencedirect. com/science/article/pii/S0079742108604223. Acesso em: 13 ago 2021. Saiba mais O cognitivismo busca explicar como a mente humana recebe um processo e armazena informações. Segundo essa teoria existem três diferentes sistemas de memórias interagindo entre si que são: a memória sensorial, que capta informações; a memória de curto prazo, que processa essas informações; e à memória de longo prazo, que armazena tudo. 19 Conclusão Mentalismo abordagem que enfatiza que o comportamento é produto da manifestação da mente. Tem-se como principal abordagem ou representação dessa forma de pensar, a Psicanálise. Estruturalismo Representa a possibilidade de compreensão da ação humana em função das fases do desenvolvimento. Seu principal representante é a Psicologia do Desenvolvimento (Piaget, Vigotsky etc.). 20 Cogntivismo Conjunto de teorias. Estuda a maneira como as pessoas constroem modelos mentais. Análises a partir de um estímulo, coordenando ideias e a cognição, o raciocínio, processando as informações para ofertar-se uma resposta. 21 Referências ATKINSON, Richard C.; SHIFFRIN, Richard M. Memória humana: um sistema proposto e seus processos de controle. In: Psicologia da aprendizagem e motivação. Academic Press, 1968. p. 89-195. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/ article/pii/S0079742108604223. Acesso em: 02 ago. 2021 BAUM, Willian M. Compreender o behaviorismo comportamento cultura e evolução. Porto Alegre, RS: Editora Artmed, 2019. BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia. São Paulo, SP: Editora Saraiva, 2001. GAUER, Gustavo. Desenvolvimento da psicologia experimental. Manuscrito não publicado. Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/cogvila/dischistoria/gauer2. pdf. Acesso em: 13 abr 2021. KELLER, Fred Simmons. A definição da psicologia. 2ª ed. São Paulo, SP: E.P.U. Editora Pedagógica e Universitária Ltda, 1970. SAMPAIO, Angelo Augusto Silva. Skinner: sobre ciência e comportamento humano. Revista Psicologia Ciência e Profissão, v. 25, n. 3, p. 370-383, 2005. SKINNER, Burrhus Frederic. Sobre o behaviorismo. São Paulo, SP: Editora Cultrix, 1974. TOURINHO, Emmanuel Zagury Tourinho. A produção de conhecimento em psicologia: a análise do comportamento. Revista Psicologia Ciência e Profissão, v. 23, n. 2, p. 30-41, 2003. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0079742108604223. Acesso https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0079742108604223. Acesso http://www.fafich.ufmg.br/cogvila/dischistoria/gauer2.pdf http://www.fafich.ufmg.br/cogvila/dischistoria/gauer2.pdf