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Siga: @institutofratelli_ / @nomundopsi Psicologia, Saúde, Educação Grupo de Estudos SUMÁRIO: MÓDULO 1 – CUIDADOS PALIATIVOS E O PERCURSO HISTÓRICO; Texto – Cuidados Paliativos MÓDULO 2 – ÉTICA E BIOÉTICA EM CUIDADOS PALIATIVOS; Textos – Dilemas Éticos em Cuidados Paliativos: Revisão de Literatura; Questões Éticas Referentes às Preferências do paciente em Cuidados Paliativos. MÓDULO 3 – CUIDADOS PALIATIVOS PEDIÁTRICOS; Textos – Percepção de Familiares de Crianças Internadas em Unidade Pediátrica sobre Cuidados Paliativos. Cuidados Paliativos Pediátricos MÓDULO 4 – CUIDADOS PALIATIVOS: ADULTO E IDOSO; Textos – Percepção sobre Envelhecer e Adoecer: Um Estudo com Idosos em Cuidados Paliativos. O Significado da Morte para adolescentes, Adultos e Idosos MÓDULO 5 – ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO EM CUIDADOS PALIATIVOS. Textos – Comunicação de Más Notícias. Formação de Profissionais da Saúde na Comunicação de Más Notícias em Cuidados Paliativos Oncológicos. MÓDULO 1 MÓDULO 2 704 Rev. bioét. (Impr.). 2020; 28 (4): 704-9 Pe sq ui sa 704 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422020284434 Dilemas éticos em cuidados paliativos: revisão de literatura Fabíola Alves Alcântara Resumo Em qualquer sociedade, assuntos concernentes ao início e fim da vida são imenso desafio, pois envolvem diversos conceitos relacionados a ciência e religião, de caráter humanístico, social, jurídico, bioético e moral. O objetivo deste estudo é apresentar os dilemas éticos explicitados por profissionais de saúde ao enfrentar processos de finitude. Dentre os diversos tipos de dilemas éticos encontrados, os principais perpassam a limitação de recursos, a dificuldade de comunicação e a dificuldade em tomar decisões. Esses dilemas levam a refletir sobre uma série de cuidados necessários, como estabelecer comunicação integrada, sempre dizer a verdade e entender renúncias, descontinuações e recusas ao tratamento. Palavras-chave: Bioética. Tomada de decisões. Assistência terminal. Pessoal de saúde. Resumen Dilemas éticos en cuidados paliativos: revisión de la literatura En cualquier sociedad, las cuestiones relativas al inicio y al final de la vida constituyen un inmenso desafío, ya que involucran varios conceptos relacionados con la ciencia y la religión, de carácter humanista, social, jurídico, bioético y moral. El objetivo del estudio es presentar los dilemas éticos explicitados por profesionales de la salud cuando están frente a procesos de finitud. Entre los diversos tipos de dilemas éticos encontrados, los principales son los recursos limitados, las dificultades de comunicación y las dificultades para tomar decisiones. Estos dilemas nos llevan a reflexionar sobre una serie de cuidados que debemos emplear en esos procesos de finitud, como establecer una comunicación integrada, decir siempre la verdad y comprender las renuncias, interrupciones y negativas al tratamiento. Palabras clave: Bioética. Toma de decisiones. Cuidado terminal. Personal de salud. Abstract Ethical dilemmas in palliative care: a literature review Issues concerning the beginning and end of life are an immense challenge for they involve various concepts related to science and religion, and have humanistic, social, legal, bioethical, and moral character. This study aimed to present the ethical dilemmas experienced by health professionals when facing death. Among the various ethical impasses, the main ones are resource limitations, the difficulty in communication and decision-making. They make us reflect on various end-of-life factors, such as establishing integrated communication, always telling the truth, and understanding non-adherence, discontinuations, and treatment refusals. Keywords: Bioethics. Decision making. Terminal care. Health personnel. Doutoranda alcantara.fabiola@outlook.com – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ, Brasil. Correspondência Av. Franklin de Campos Sobral, 1.580 CEP 49027-000. Aracaju/SE, Brasil. Declara não haver conflito de interesse. 705Rev. bioét. (Impr.). 2020; 28 (4): 704-9 Dilemas éticos em cuidados paliativos: revisão de literatura http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422020284434 Com seu formato peculiar de cuidado, as médi- cas Cicely Saunders e Elisabeth Kübler-Ross muito influenciaram o desenvolvimento dos cuidados palia- tivos 1. De acordo com Doyle e colaboradores 2, o movi- mento hospice, idealizado por Saunders, contraria o tratamento então dispensado aos doentes em final de vida, cujo sofrimento se fundava na dor, sendo grande a preocupação em elaborar formas de controlar esse sintoma 3. Criado na Grã-Bretanha, esse novo modelo se disseminou pelos Estados Unidos, pela França e por diversos outros países, tornando Saunders a precur- sora dos cuidados paliativos no mundo 4-5. A Organização Mundial da Saúde (OMS) pri- meiro definiu “cuidados paliativos” em 1986, mas o conceito foi ampliado de acordo com realidades e perfis epidemiológicos locais, sendo redefinido em 2002 como abordagem para melhoria da qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentem (…) doença ameaçadora da vida, por meio de prevenção e alívio do sofrimento com identificação precoce e impecável avaliação e tratamento da dor e de outros problemas físicos, psicossociais e espirituais 6. Matsumoto elencou os princípios norteadores da prática multiprofissional em cuidados paliativos preconizados pela OMS: promover alívio da dor e outros sintomas desagradáveis; afirmar a vida e con- siderar a morte como um processo normal da vida; não acelerar nem adiar a morte; integrar os aspectos psicológicos e espirituais no cuidado ao paciente; ofe- recer um sistema de suporte que possibilite ao paciente viver tão ativamente quanto possível, até o momento da sua morte; oferecer sistema de suporte para auxiliar os familiares durante a doença do paciente e a enfren- tar o luto; abordagem multiprofissional para focar as necessidades dos pacientes e seus familiares, incluindo acompanhamento no luto; melhorar a qualidade de vida e influenciar positivamente o curso da doença; deve ser iniciado o mais precocemente possível e incluir todas as investigações necessárias para melhor com- preender e controlar situações clínicas estressantes 7. A assistência nos cuidados paliativos precisa ser integral, abrangendo diversos segmentos, entre eles o físico, espiritual, psicológico e social, envol- vendo olhar cuidadoso e equipe multidisciplinar 8. O enfoque multiprofissional permite à equipe trocar conhecimentos e facilita o entendimento das fragili- dades e condições do enfermo sem possibilidade de cura 9,10. Esse enfoque tem grande importância para os cuidados paliativos porque demonstra o quão fundamental é cada profissão, que individualmente não consegue abarcar todas as nuances do aten- dimento a esses pacientes, destacando o papel da coletividade para a adequada assistência 9,11. Assuntos concernentes ao início e fim da vida são imenso desafio em qualquer sociedade, pois envolvem conceitos relacionados a ciência e religião, de caráter humanístico, social, jurídico, bioético e moral 12,13. As diferenças culturais levam cada nação a abordar a questão de modo diverso, e Vasconcelos e Pereira 14 apontam que Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia são os países que mais investem em cuida- dos paliativos, conforme relatório sobre qualidade de morte de 2015. Concentrando-se nas implicações do fim da vida, as decisões tomadas sobre o tratamento e o processo de morte são relevantes. Tais dilemas éticos demandam reflexões que envolvem toda a sociedade acerca das condutas mais apropriadas 15,16. Para Medeiros e colaboradores, o dilema ético está permeado pela cultura, filosofia e pelos valores que [as] baseiam (…). A pluralidade dos diferentes con- textos culturais de uma sociedade que são constituídas (sic) de indivíduos que hierarquizamseus valores de maneira singular baseados pela autonomia permite constantes indagações sobre as questões que envolvem a vida e, principalmente, sua terminalidade 17. Os dilemas éticos carregam consigo duas ou mais opções terapêuticas ou direcionamentos adequados a determinada situação, permeando a prática dos profissionais da saúde, a qual é susce- tível à indagação moral ou social 18,19. A temática dos dilemas traz diversas preocupações, moti- vando a coletividade científica a estudá-la inces- santemente nos eixos legal e ético 20. Com isso, este trabalho objetiva identificar na literatura os dilemas éticos vivenciados por profissionais de saúde no atendimento a pacientes sem possibili- dades terapêuticas de cura. Método Trata-se de revisão de literatura incluindo artigos cujo texto completo está disponível online. Foi realizada busca nas bases de dados Medical Literature Analysis and Retrieval System Online, Biblioteca Regional de Medicina, Scientific Electronic Library Online e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde. Utilizaram-se descrito- res em português e seus correspondentes em inglês e espanhol: “bioética”, “bioethics”, “bioética”; “tomada de decisões”, “decision making”, “toma de decisio- nes”; “assistência terminal”, “terminal care”, “cuidado terminal”; e “pessoal de saúde”, “health personnel”, “personal de salud”. Foram excluídos relatos de caso e trabalhos que, apesar de apresentarem os descri- tores elencados, referiam dilemas éticos vivenciados Pe sq ui sa 706 Rev. bioét. (Impr.). 2020; 28 (4): 704-9 Dilemas éticos em cuidados paliativos: revisão de literatura continua... http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422020284434 Quadro 1. Corpus da revisão não sistemática da literatura Autor(es)/ano Título Periódico Objetivo Método Araújo, Neves; 2003 21 “A bioética e a fisioterapia nas unidades de terapia intensiva” Revista de Fisioterapia da Universidade de São Paulo Traçar o perfil dos profissionais da fisioterapia que trabalham em unidades de terapia intensiva e identificar sua opinião acerca de temas como pacientes terminais, autonomia do paciente, eutanásia e distanásia. Pesquisa de campo Barnitt; 1998 22 “Ethical dilemmas in occupational therapy and physical therapy: a survey of practitioners in the UK National Health Service” Journal of Medical Ethics Identificar os dilemas éticos experimentados por terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas que trabalham no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido e comparar contextos éticos, temas e princípios entre os dois grupos. Pesquisa de campo Bélanger, Rodríguez, Groleau; 2011 23 “Shared decision-making in palliative care: a systematic mixed studies review using narrative synthesis” Palliative Medicine Sintetizar o conhecimento sobre o processo de tomada de decisão compartilhada em cuidados paliativos. Revisão de literatura Chih e colaboradores; 2016 24 “The changes of ethical dilemmas in palliative care: a lesson learned from comparison between 1998 and 2013 in Taiwan” Medicine (Baltimore) Investigar os dilemas éticos encontrados por médicos e enfermeiros de cuidados paliativos em 2013 e comparar os resultados com pesquisa realizada em 1998. Pesquisa de campo Gjerberg e colaboradores; 2010 25 “Ethical challenges in the provision of end-of-life care in Norwegian nursing homes” Social Science and Medicine Examinar os tipos e a prevalência dos desafios éticos nos cuidados de fim de vida. Pesquisa de campo Mobasher e colaboradores; 2013 26 “Ethical issues in the end of life care for cancer patients in Iran” Iranian Journal of Public Health Identificar os dilemas éticos que os oncologistas iranianos podem enfrentar no ambiente de saúde e determinar os fatores que influenciam o processo de tomada de decisão. Pesquisa de campo Sorta-Bilajac e colaboradores; 2011 27 “How nurses and physicians face ethical dilemmas: the Croatian experience” Nursing Ethics Avaliar os dilemas éticos de enfermeiros e médicos na prática clínica. Pesquisa de campo Granero- Moya e colaboradores; 2016 28 “Dificultades de las enfermeras de atención primaria en los procesos de planificación anticipada de las decisiones: un estudio cualitativo” Atención Primaria Conhecer as dificuldades encontradas por enfermeiras de atenção primária para estabelecer as diretivas antecipadas de vontade de pessoas em estado terminal. Pesquisa de campo Guardia Mancilla e colaboradores; 2018 29 “Percepciones de los profesionales sobre la atención prestada, obstáculos y dilemas éticos relacionados con el final de la vida en hospitales, centros de atención primaria y residencias de ancianos” Anales del Sistema Sanitario de Navarra Comparar a percepção da prática profissional e os dilemas éticos de médicos e enfermeiros na assistência terminal na atenção primária, hospitalar e em residências de idosos. Estudo descritivo, transversal e multicêntrico por pacientes ou seus familiares. Foram identificados 51 artigos sobre o tema e, depois de empregados os critérios, obteve-se amostra de 14 artigos. Fontes e descritores foram selecionados visando enfocar artigos que referiam os dilemas éticos vivenciados por profissionais de saúde no atendimento a pacientes em fim de vida, sem delimitar seu ano de publicação. Para viabilizar a análise, a amostra foi classificada quanto a auto- ria, ano de publicação, título do artigo, objetivo, método e nome do periódico em que foi publicado. O Quadro 1 apresenta os artigos selecionados. Pe sq ui sa 707Rev. bioét. (Impr.). 2020; 28 (4): 704-9 Dilemas éticos em cuidados paliativos: revisão de literatura http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422020284434 Autor(es)/ano Título Periódico Objetivo Método Sánchez- García e colaboradores; 2017 30 “Dificultades y factores favorables para la atención al final de la vida en residencias de ancianos: un estudio con grupos focales” Atención Primaria Identificar dificuldades e fatores enfrentados por profissionais que atuam em residências de idosos. Pesquisa de campo Motta e colaboradores; 2016 31 “Tomada de decisão em (bio)ética clínica: abordagens contemporâneas” Revista Bioética Identificar situações que angustiam profissionais de saúde e/ou pesquisadores na prática clínica e apresentar sucintamente reflexões ou abordagens correlacionadas ao processo decisório. Revisão de literatura Renner, Goldim, Prati; 2002 18 “Dilemas éticos presentes na prática do fisioterapeuta” Revista Brasileira de Fisioterapia Identificar tipos de dilemas éticos presentes na prática do fisioterapeuta. Pesquisa de campo Pereira; 2007 32 “Dilemas éticos ligados à prática do fisioterapeuta no atendimento da criança com deficiência física ou mental” Dissertação de mestrado Verificar na prática profissional de fisioterapeutas os dilemas éticos que orientam sua relação terapêutica com a criança com deficiência física e/ou mental e sua família. Pesquisa de campo Lorenzo, Bueno; 2013 33 “A interface entre bioética e fisioterapia nos artigos brasileiros indexados” Fisioterapia em Movimento Estudar as temáticas e a fundamentação teórica dos artigos indexados que pretendiam discutir a interface entre fisioterapia e bioética. Revisão de literatura Resultados e discussão Gjerberg e colaboradores 25 buscaram identifi- car os tipos de desafios éticos e sua prevalência na visão de 664 profissionais de saúde que atuavam em enfermarias de lares de idosos da Noruega. Os entrevistados apontaram com maior frequência a inadequação do cuidado pela escassez de recursos e o desrespeito à autonomia e integridade do indiví- duo 25. Essas observações corroboram os resultados encontrados por Lorenzo e Bueno 33, que descrevem vários conflitos na prática profissional de fisiotera- peutas, com destaque para os relacionados a início e fim de vida, autonomia do sujeito, recusa detrata- mento e tomada de decisão quando a autonomia é de alguma forma limitada. Guardia Mancilla e colaboradores 29 aplicaram questionário a 378 profissionais espanhóis que atua- vam em hospitais, atenção primária e asilos, verifi- cando que os dilemas éticos mais frequentes rela- cionados ao fim de vida estavam voltados ao uso das diretivas antecipadas de vontade. Granero-Moya e colaboradores 28 investigaram as dificuldades enfren- tadas por enfermeiros na atenção primária em pro- cessos de tomada de decisão em casos terminais. Constataram pouco conhecimento sobre o assunto, dificuldades comunicativas, falta de tempo e relação interprofissional deficiente 28. Em estudo com oncologistas iranianos, Mobasher e colaboradores 26 perceberam como dilemas éticos dizer a verdade, a definição incerta do quadro do enfermo e a relação equipe-paciente. Esses achados reforçam o estudo de Motta e cola- boradores 31, que detectaram as inquietudes dos profissionais de saúde na atuação clínica e a dificul- dade enfrentada no processo de tomada de decisão, em que casos de origem e finitude de vida causam mais aflição e atritos. Observa-se que dois aspectos da clínica muito difíceis para profissionais e equipes de saúde são a comunicação de más notícias e o momento de estabelecer cuidados paliativos 31. Sánchez-García e colaboradores 30 identificaram problemas na comunicação da equipe com as famí- lias e falta de incentivo à participação dos doentes na tomada de decisão como as principais dificuldades vivenciadas por profissionais na atenção a idosos que moravam em casas de repouso espanholas. Já para Sorta-Bilajac e colaboradores 27, os dilemas éticos enfrentados por médicos e enfermeiros croatas em sua prática clínica estão voltados a eutanásia, suicídio assistido e limitação de terapias para manutenção da vida. Em estudo comparativo, Chih e colaboradores 24 descreveram as mudanças nos dilemas éticos em cui- dados paliativos entre 1998 e 2013 em Taiwan. Em 1998 observaram-se dificuldade em orientar os enfer- mos, famílias que não queriam levar o paciente para Quadro 1. Continuação Pe sq ui sa 708 Rev. bioét. (Impr.). 2020; 28 (4): 704-9 Dilemas éticos em cuidados paliativos: revisão de literatura http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422020284434 casa e omissão da verdade por parte da família aos doentes, enquanto em 2013 os dilemas éticos esta- vam relacionados à alocação de recursos. De acordo com Barnitt 22, os dilemas éticos com os quais se deparam fisioterapeutas em sua prática ainda são pouco conhecidos. Em seu estudo com esses profissionais do Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra, os resultados apontaram alocação injusta e falta de recursos, baixa eficácia do tratamento fisioterapêutico, decisões terapêuticas divergen- tes entre a equipe, desrespeito à confidencialidade e autonomia do paciente e omissão da verdade. A ocorrência de dilemas éticos prevaleceu, segundo participantes da pesquisa, no ambiente hospitalar 22. Renner, Goldim e Prati 18, por sua vez, identifi- caram, por meio de questionário, que a maioria dos dilemas relatados por fisioterapeutas atuantes em Porto Alegre/RS se baseava no limite de atuação pro- fissional, seguido por omissão da verdade e falta de recursos e eficiência da terapia, chamando atenção o considerável número de questionários que acusa- vam ausência de dilemas. O resultado corrobora o estudo de Pereira 32, que investigou a mesma catego- ria profissional, mas no atendimento a crianças com deficiência física e/ou mental e familiares na cidade de Campinas/SP. A autora concluiu que muitos dos respondentes, a maioria com menos de 15 anos de profissão, estão preocupados e comprometidos com a ética, mas não identificaram dilemas em sua atua- ção profissional, e sim questões cotidianas, como as relacionadas com a alta fisioterapêutica 32. Considerações finais Os dilemas éticos enfrentados em situações de terminalidade por profissionais de saúde levam a refletir sobre diversos cuidados necessários ao processo de morte. Exemplos desses cuidados são a comunicação integrada entre profissional, paciente e familiares, o dever de informar sempre a verdade e a necessidade de compreender renúncias, descon- tinuações e recusa de tratamentos. O processo de tomada de decisão vem sendo um dos principais obstáculos para os profissionais de saúde em assistência terminal, destacando-se a insegurança, a falta de preparo profissional e a carência de conhecimento sobre a temática discu- tida. Vale ressaltar a importância de realizar outros estudos com a intenção de avaliar o que esses pro- fissionais ponderam no processo de tomada de deci- são quando se deparam com algum desses dilemas. Referências 1. Menezes RA. Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos. Rio de Janeiro: Garamond; 2004. 2. Doyle D, Hanks G, Cherny N, Calman K. Introduction. In: Doyle D, Hanks G, Cherny N, Calman K, editores. Oxford textbook of palliative medicine. 3ª ed. New York: Oxford University Press; 2003. p. 1. 3. Clark D, Seymour J. Reflections on palliative care. Buckingham: Open University Press; 1999. 4. Marinho SO. Cuidados paliativos e práticas de saúde: um estudo sobre a gestão da morte na sociedade contemporânea [tese] [Internet]. 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(Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos Carolina Becker Bueno de Abreu 1 , Paulo Antonio de Carvalho Fortes 2 Resumo O respeito à autonomia do paciente é um princípio ético reconhecido em diversas áreas da assistência à saúde, incluindo os cuidados paliativos, porém nem sempre as preferências do paciente são respeitadas. Uma melhor compreensão das questões éticas relacionadas ao exercício da autonomia do paciente em cuidados paliativos é importante passo para embasar juízos éticos ponderados no cotidiano da assistência. Tendo isso em vista, este trabalho objetivou identificar e analisar questões éticas relacionadas às preferências do paciente e reco- nhecidas por profissionais no cotidiano de uma equipe de cuidados paliativos à luz do referencial bioético da casuística. Foram entrevistados onze profissionais de nível superior. As principais questões éticas identificadas foram: respeito à autonomia do paciente; veracidade e direito à informação; habilidades de comunicação; cerco do silêncio; participação no processo de deliberação; escolha do local de tratamento e morte. Palavras-chave: Cuidados paliativos. Autonomia pessoal. Preferência do paciente. Resumen Las cuestiones éticas relacionadas con las preferencias del paciente en los cuidados paliativos El respeto a la autonomía del paciente es un principio ético reconocido en muchas áreas de la salud, incluyen- do los Cuidados Paliativos, pero no siempre se respetan las preferencias del paciente. Una mejor comprensión de las cuestiones éticas relacionadas con el ejercicio de la autonomía del paciente en los Cuidados Paliativos es un paso importante para apoyar los juicios éticos ponderados en la práctica diaria de la asistencia. Tenien- do esto en cuenta, este estudio tuvo como objetivo identificar y analizar las cuestiones éticas relacionadas con las preferencias del paciente y reconocidas por los profesionales en el día a día de un equipo de cuidados paliativos en el marco bioético de la casuística. Se entrevistó a once profesionales de nivel superior. Se iden- tificaron las principales cuestiones éticas: el respeto a la autonomía del paciente, veracidad y el derecho a la información, habilidades de comunicación, asedio del silencio, participación en el proceso de deliberación, elección del lugar de tratamiento y muerte. Palabras-clave: Cuidados paliativos. Autonomía personal. Prioridad del paciente. Abstract Ethical issues related to patient preferences in palliative care The respect for patient’s autonomy is an ethical principle recognized in many areas of health care including palliative care, but not always the patient’s preferences are respected. A better understanding of ethical is- sues related to the exercise of patient’s autonomy in Palliative Care is an important step to support ethical judgments in daily practice. Therefore, this study aimed to identify and analyze ethical issues related to pa- tient preferences recognized by professionals in the daily life of a Palliative Care team under the framework of Casuistry. Eleven practitioners were interviewed. The main ethical issues identified are: respect for patient autonomy, veracity and right to information, communication skills, conspiracy of silence, participation in the deliberation process, choice of place of treatment and death. Key words: Palliative care. Personal autonomy. Patient preference. Aprovação Coep 181/11 1. Doutora caro@becker.eng.br – Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo/Faculdade de Ceilândia, Universidade de Brasília, Ceilândia/DF, Brasil 2. Doutor pacfusp@usp.br – Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, São Paulo/SP, Brasil. Correspondência Carolina Becker Bueno de Abreu – Faculdade de Ceilândia, Universidade de Brasília (UnB). Centro Metropolitano, Conjunto A, Lote 1 CEP 72220-900. Ceilândia/DF, Brasil. Declaram não haver conflito de interesse.http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a 300 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos Jonsen, Siegler e Winslade 1 entendem prefe- rências do paciente no contexto da ética clínica como sendo as escolhas que a pessoa faz quando se de- para com decisões sobre sua saúde e tratamentos, a partir de suas experiências, crenças e valores. Cons- tituem assim o núcleo ético e legal da relação clínica, a partir do qual o paciente deve ser respeitado em suas decisões após analisar a recomendação médica. O princípio moral subjacente é o da autonomia. Na relação terapêutica devem ser respeitadas a au- tonomia do profissional e do paciente. O profissional deve ter respeitado o seu melhor julgamento e a ob- jeção de consciência. O paciente, por sua vez, deve ser estimulado a manifestar suas preferências ou pro- por alternativas às propostas feitas pelo profissional. O respeito à autonomia do paciente tem signi- ficância clínica, legal e psicológica. Do ponto de vista clínico, favorece confiança na relação terapêutica, maior cooperação do paciente e satisfação com re- lação ao tratamento. Em termos legais, respalda os direitos individuais sobre o próprio corpo. Do ponto de vista psicológico, oferece ao paciente senso de controle sobre a própria vida e de valor pessoal ¹. Sendo princípio ético reconhecido em diversas áreas da assistência à saúde, o respeito à autonomia do paciente inclui os cuidados paliativos. Interessan- te observar, inclusive, que as mudanças na relação médico-paciente, que passou de forte paternalismo ao respeito pela autonomia do paciente, foi um dos fatores que levaram a mudanças no enfrentamento da proximidade da morte na atualidade, reforçando a necessidade de se reconhecer a finitude da vida humana, evitar sua conservação de forma incondi- cional, aplicar todas as medidas necessárias e dis- poníveis para melhorar sua qualidade, e não sua quantidade, manter o paciente (e seu representan- te) devidamente informado e respeitar seu critério para que possa participar da deliberação e decidir, dentro da legalidade vigente, sobre o tratamento e alguns aspectos relacionados às circunstâncias de sua morte ². Em paralelo, Tapiero ² ressalta que apesar da crescente tendência de se respeitar a autonomia do paciente, na prática não é habitual que decida so- bre as circunstâncias de sua morte, mesmo porque é frequente se lhe ocultar a condição de moribun- do e, por isso, não é comum que a forma de morrer dependa de seus critérios, valores e crenças. Bélan- ger, Rodríguez e Groleau ³ também concluem que a maioria dos pacientes em cuidados paliativos deseja exercer autonomia, preferindo participar na toma- da de decisão sobre o tratamento em algum grau, enquanto só a minoria prefere delegar esse papel. Estes autores constatam, entretanto, que na prática os pacientes são pouco encorajados a par- ticipar da deliberação, as opções são pouco discuti- das e o consentimento fica apenas implícito, devido a barreiras relativas à forma como as opções são apresentadas, à tentativa de manter expectativas irrealistas por parte do paciente e família e, ainda, à tendência de adiamento da deliberação. Conclui- se, então, que há diversos obstáculos para que o exercí- cio da autonomia e as preferências do paciente se- jam de fato respeitados. Em geral, as dificuldades podem estar na for- mação do profissional, na capacidade de comuni- cação, compreensão e discussão entre os sujeitos envolvidos na relação terapêutica para a tomada de decisão e nos mecanismos que possibilitem sua con- cretização. Nos cuidados paliativos, o fato de lidar com pessoas com diagnósticos de doenças ameaça- doras à vida, de curso progressivo e incapacitante, torna frequentes os problemas acima listados. Uma melhor compreensão das questões éticas relacionadas ao exercício da autonomia do paciente em cuidados paliativos é, assim, importante passo para o aprofundamento da reflexão necessária para embasar juízos éticos ponderados no cotidiano da assistência. Objetivos Identificar e analisar questões éticas relaciona- das à autonomia do paciente e reconhecidas por pro- fissionais no cotidiano de uma equipe de cuidados paliativos, sob o referencial bioético da casuística. Procedimentos metodológicos Trata-se de pesquisa exploratória, de aborda- gem qualitativa, em que todos os profissionais de nível superior atuantes há pelo menos um ano na equipe de cuidados paliativos de um hospital geral da cidade de São Paulo/SP, exceto a coordenadora da equipe, foram convidados a participar. As entrevistas foram aplicadas em agosto de 2011, durante o expediente dos trabalhadores, com duração média de 30 minutos. À exceção de uma entrevista por telefone, as demais foram apli- cadas no local de trabalho dos sujeitos. Foi manti- do o anonimato dos sujeitos que aceitaram parti- cipar da pesquisa, sendo apresentados sob forma numérica. http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a 301Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos Foram aplicadas entrevistas semiestruturadas, cujo roteiro foi elaborado pelos pesquisadores e validados por meio de pré-teste. A análise temáti- ca adotou a casuística como referencial teórico. As questões norteadoras foram: “Por favor, comente sobre como é o trabalho desenvolvido pela equipe de cuidados paliativos e quais as principais dificulda- des enfrentadas”; “Com quais problemas éticos o(a) senhor(a) se depara ao atuar nesse serviço?”; “O que facilita a discussão e tomada de decisão nessas situações?”; “Que tipo de apoio seria interessante para ajudar a lidar com esses problemas éticos?” A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Éti- ca em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (Ofício 181/11) e os en- trevistados foram esclarecidos acerca do caráter da pesquisa, objetivos, procedimentos e possibilidade de recusa a qualquer momento, manifestando o consentimento mediante assinatura de termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). Resultados e discussão Foram entrevistados onze profissionais: três enfermeiros, cinco médicos, um nutricionista, um fi- sioterapeuta e um assistente social. A média de ida- de dos entrevistados é 41,3 anos, variando de 28 a 51. A média de tempo de exercício profissional geral foi de 14,5 anos, variando de 5 a 25 anos. Os entre- vistados trabalham na área de cuidados paliativos há 5,6 anos em média, variando de um ano e meio a 12 anos. Com relação à crença religiosa, três se declara- ram católicos, três protestantes de diversas confis- sões, um espírita e um judeu, e três afirmaram não ter religião definida. Alguns participantes já tinham experiência em cuidados paliativos previamente ao ingresso na equipe estudada. A média de tempo de- dicada especificamente ao trabalho na equipe estu- dada é de 3,77 anos, variando de 1 a 4 anos. Ao longo das entrevistas foram observadas as seguintes questões éticas relacionadas às preferên- cias do paciente: respeito à autonomia do paciente; veracidade e direito à informação; comunicação e respeito no recebimento de más notícias; cerco do silêncio; participação na deliberação e tomada de decisão: paciente, equipe e família; preferências quanto ao local de tratamento e morte. Respeito à autonomia do paciente Quando o paciente tem condições de jul- gamento, a equipe esclarece a situação e leva em conta sua opinião. Quando há recusa de alguma intervenção, a documentação em prontuário se faz necessária para respaldar a equipe: “Se o pacien- te tem possibilidade de julgamento a gente chega muito no paciente e pergunta, conversa, esclarece. O que o paciente não quer, a gente procura deixar tudo muito bem documentado em prontuário pra que isso não venha trazer problemas” (E4). A existência de limite ao respeitoà autono- mia do paciente que recusa uma intervenção sobre a qual o profissional tem segurança de que seria proveitosa é, por sua vez, questionada: “Quando eu chego pra um paciente que precisa fazer exercício, um paciente que se beneficiaria muito de um exercí- cio, enfim... E ele me diz que ele não quer fazer (...). Quando, até onde respeitar a vontade do paciente se eu profissional sei que aquilo faria diferença pra ele? Até onde respeitar? Até quando deixá-lo exercer a sua autonomia?” (E2). No discurso a seguir verificamos que, ao longo do tempo em que atua nos cuidados paliativos, E2 tem amadurecido com relação ao respeito à autono- mia do paciente: “E eu fui entendendo que nem sem- pre a minha vontade era soberana aqui”. A entrevista- da reconhece que a formação profissional direciona e cria expectativas com relação à proatividade do pro- fissional em promover mudanças substanciais a partir dos recursos terapêuticos de que dispõe. Entretanto, a experiência que adquiriu atuan- do em cuidados paliativos agregou a consciência de que, por vezes, a atuação é restrita ao que ela cha- ma “vigilância”, e se refere à atenção dada aos pa- cientes que não desejam a atuação específica que tem a oferecer: “A minha formação é essa: eu tenho que promover alguma mudança. Então eu demorei, até hoje isso pra mim é uma coisa que me incomo- da quando eu acho que... Somente... Somente vi- giar...” (E2). Neste exemplo podemos notar um conflito en- tre os princípios de beneficência e respeito à auto- nomia. Essa postura pode ser paternalista caso con- trarie as preferências do paciente e seja justificada pelo objetivo de beneficiar o paciente ou evitar que sofra danos 4. As circunstâncias concretas de cada caso devem ser analisadas a fim de verificar se é uma atitude paternalista justificável. Há situações em que, ao contrário da acima re- latada, o paciente opta por intervenções agressivas apesar da avaliação do profissional de que isso seria fútil ou lhe traria mais desconforto que benefício 5. De acordo com Macauley 5, muitas vezes o consenso é atingido depois de necessário esclarecimento, po- rém há casos em que a decisão do paciente é mais http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a 302 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos emocional que racional e desistir de intervenções com foco curativo desafiaria o senso de esperança, impondo intensa percepção de fracasso, fraqueza ou covardia 5. O autor argumenta que paliativistas conside- ram a complexidade do sofrimento humano, expres- sa inclusive no conceito de “dor total” proposto por Cicely Saunders, mas paradoxalmente resistem a aceitar a possibilidade de o sofrimento emocional de um paciente que aceitou o tratamento paliativo ser mais severo que o sofrimento físico esperado como consequência de um tratamento agressivo. Conclui, então, que cuidados paliativos também têm suas bases valorativas, o que por vezes gera confli- tos por propor-se, ao mesmo tempo, uma aborda- gem centrada no cliente e que prioriza o respeito à autonomia 5. Podemos notar, ainda, a valorização da opi- nião dos familiares nas decisões sobre o paciente e o consequente compromisso de compartilhar com a família todas as informações necessárias: “Porque em cuidado paliativo normalmente a gente não es- conde, principalmente do familiar” (E1). Essa realidade reflete o fato de ser frequen- te o paciente em cuidados paliativos não estar em condições de deliberar e decidir e, portanto, de exercer autonomia, passando a ser crucial, então, a participação da família a fim de representar os seus valores e interesses, ou o recurso às diretivas anteci- padas de vontade, sempre que o paciente as tenha manifestado. De acordo com Kovács, parte importante dos cuidados no final da vida é facilitar o exercício da autonomia e decisões de pessoas enfermas, que tra- zem consigo sua biografia 6. Veracidade e direito à informação A ideia de que a veracidade entre paciente e profissional de saúde (incluindo, muitas vezes, tam- bém os familiares do paciente) é fundamental para o exercício da autonomia e para a construção ou manutenção de uma relação permeada de confian- ça foi explicitada: “Só a verdade. Entre o médico, equipe, família e pa- ciente. Tenho uns chavões: ‘a gente só pode brigar com inimigos que conhece’. Não posso esperar que a família ajude numa decisão – não pode compre- ender – se eu disser meias verdades. Então dividir 100% com a família, porque se a família não se sen- tir segura e acolhida não vai funcionar” (E6). O direito à informação é amplamente reco- nhecido pela equipe que estudamos: “Se o paciente tem desejo de saber, como tem um caso aqui, que a paciente ela é totalmente esclarecida e ela induziu a equipe a contar tudo pra ela do que ela tinha e o porquê dos sintomas. Então o próprio paciente mui- tas vezes induz a equipe a isso e deseja, e também é um direito que o paciente tem” (E1). As informações acerca do estado clínico são necessárias, ainda, para o paciente poder planejar sobre sua vida e tomar providências frente à proxi- midade do seu fim: “Eu acho que ele tem o direito de saber aquilo que ele tem e de se planejar em cima do tempo que ele ainda tem pra fazer as suas coisas. Então se ele achar que tá tudo bem, ele pode até morrer achando que tá tudo bem” (E2). A comunicação foi reconhecida, inclusive, como instrumento fundamental para resolver pro- blemas éticos entre profissionais e paciente/família: “A boa comunicação. Acho que é o principal instru- mento entre equipe e estender isso para os familia- res do paciente” (E6). Mediante comunicação, res- peito à diversidade de opiniões e unidade os con- sensos devem ser alcançados, iniciando-se entre os próprios membros da equipe: “Eu acho que é justamente a questão de todos fa- larem a mesma língua, sabe, de você ter a cabeça aberta e você ter o discernimento pra poder discuti- las. Inclusive discuti-las não só na equipe, mas pe- rante a família, né? Perante todo o restante da equi- pe multidisciplinar. (...) Cada um respeita a sua opi- nião, mas eu acho que no fundo todos conseguimos chegar num ponto comum. Eu acho que isso minimi- za muito a questão dos impasses médicos, a questão de bater de frente em relação a condutas mesmo da equipe em si” (E4). Comunicação e respeito no recebimento de más notícias A compreensão de uma informação depende do sucesso do processo de comunicação. No caso da comunicação entre profissional de saúde e paciente e/ou família, muitas dificuldades de comunicação podem impor-se. Os pacientes podem ter sua capacidade de compreensão ameaçada ou diminuída em decor- rência de estados de humor como ansiedade e depressão, rebaixamento de nível de consciência, comprometimento cognitivo, sensorial ou pela pró- pria dor e outros sintomas intensos. A participação da família ou representante legal do paciente em http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a 303Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos relação às decisões sobre a condução do caso passa a ser maior. Além disso, profissionais de saúde podem ter dificuldades para empreender uma eficaz interação com o paciente/família por falta de habilidade em comunicar-se de forma simples, acessível e de acor- do com as características dos interlocutores, ou pelo receio de sobrecarregar emocionalmente o paciente com uma má notícia ou mitigar sua esperança. Vale considerar que assim como o acesso à informação é identificado como elemento ético im- portante na relação terapêutica, a qualidade da co- municação também traz implicações éticas, vez que deve beneficiar o paciente e evitar os danos emocio- nais que uma má notícia pode trazer. Muitos profissionais, e por vezes familiares, se questionam sobre se o paciente desejareal- mente saber a verdade, se isso pode lhe prejudicar, se seria melhor omitir a verdade ou não ser veraz para preservar a esperança. Essa preocupação foi apresentada: “Até onde a gente vai? (...) Então é lícito a gente expô-la diante de uma verdade que às vezes ela não quer ver?” (E9). Esta colocação remete a uma exceção à regra de consentimento informado reconhecida no âmbito da assistência à saúde. Trata-se do chamado privilégio terapêutico, caracterizado pela omissão de informações sobre o estado de saúde do paciente baseado num julga- mento fundamentado do médico de que divulgar a informação seria potencialmente prejudicial a um paciente que está deprimido, emocionalmente es- gotado ou instável 4. Compreende-se assim que as informações devem ser oferecidas ao paciente com cuidado, res- peitando também o direito de “não saber”. Foi reco- nhecida uma diferença cultural entre o Brasil e paí- ses de cultura anglo-saxônica, que permite que, no Brasil, a informação seja dada de forma mais caute- losa: “A gente tem a sorte ética... uma sorte humana de não estar em uma cultura anglo-saxônica, dentro de uma cultura ainda não tão litigiosa, que eu pre- cise dizer pro paciente: tempo de vida; perspectivas; chances etc. A gente tem a possibilidade latina de contar o que ele aguenta ouvir, na velocidade que ele aguenta ouvir, oferecer silêncio... e esperar” (E7). Nesse sentido, Pessini 7 concorda que a atitude anglo-saxã em relação à comunicação de diagnósti- co/prognóstico vai mais na direção da verdade obje- tiva dos fatos, o que contrasta com a nossa cultura latina, que faz uma leitura emocional da verdade médica com a preocupação de proteger o paciente da verdade. Reconhece-se também que ter acesso à informação não priva o paciente do sofrimento, mas a comunicação respeitosa lhe traz benefícios: “Quando o paciente sabe, a gente toca isso na lin- guagem que ele aguenta, do jeito que ele quer. É muito legal. Geralmente quem viveu muito bem, vai morrer muito bem. Quem consegue ter transparên- cia nessa hora, não quer dizer que não sofre, que não angustia” (E7). Enquanto a mentira e a omissão isolam o pa- ciente, a oportunidade de partilhar os medos, an- gústias e preocupações pode trazer benefício tera- pêutico, sempre que se tenha cuidado com relação ao que, como, quando, quanto e a quem se deve in- formar 7. Assim, foi feita referência à forma na qual as informações devem ser oferecidas ao paciente: “Lógico que a verdade não precisa ser “entuxada”, mas com delicadeza...” (E6). Fallowfield e colaboradores 8 ressaltam ser frequente profissionais de saúde alegarem que a maioria dos pacientes não deseja saber a verdade, pois perderiam a esperança, ficariam oprimidos e deprimidos, se tornando assim incapazes de apro- veitar o tempo que lhes resta. Entretanto, há pouca evidência desse processo. Ao contrário, a omissão de informações importantes sobre a realidade do estado de saúde do paciente não o protege do sofri- mento psicológico. O resultado mais frequente des- sa atitude evasiva do profissional é, para o paciente, maior angústia, dificuldade e lentidão no processo de ajustamento necessário. Oliveira e colaboradores 9 observaram que 90% dos médicos entrevistados afirmaram prover suporte emocional ao paciente, porém 20% infor- maram não conversar sobre a doença nem comu- nicar o diagnóstico verdadeiro ao paciente em fase terminal. Além disso, apesar de 70% dos médicos concordarem que a discussão aberta sobre questões de vida e morte não causa danos ao paciente, 80% deles preferem não esclarecer a estimativa de tem- po de vida para os pacientes. A comunicação dos médicos participantes do estudo acima citado com os familiares dos pacientes também é restrita. Oitenta por cento dos entrevis- tados afirmaram apenas esclarecer dúvidas dos pa- rentes e 30% relataram não dar apoio nem conver- sar abertamente com eles acerca da doença do pa- ciente 9. Em revisão de literatura sobre comunicação entre profissional de saúde e paciente de cuidados paliativos, Slort et al. 10 constataram que as barreiras mais frequentemente citadas para a comunicação foram: a falta de tempo do profissional; a ambiva- http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a 304 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos lência ou falta de desejo do paciente em saber sobre o prognóstico; e o fato de o profissional não falar honestamente sobre diagnóstico ou prognóstico. Em contrapartida, os facilitadores à comunica- ção mais citados foram: a disponibilidade do profis- sional; relacionamentos duradouros entre paciente e profissional; o profissional manifestar compromis- so, abertura e permissão para discutir qualquer as- sunto, sendo honesto e amigável, ouvindo de forma ativa e levando o paciente a sério; tomar iniciativa em tocar temas relacionados à finitude, sem omitir informações; negociar opções terapêuticas, dese- jando falar sobre diagnóstico e prognóstico, prepa- ração para a morte, questões psicológicas, sociais e espirituais do paciente e suas preferências. Foi identificada ambivalência por parte de pa- ciente e profissional acerca da discussão de prog- nóstico. Muitos pacientes manifestam querer infor- mação completa, mas às vezes são relutantes em saber de um mau prognóstico. Por sua vez, profis- sionais referem ser conscientes do impacto das in- formações sobre a esperança do paciente e acham difícil julgar o momento adequado para começar a discussão sobre essas questões 10. Comparando sua pesquisa com a literatura sobre comunicação entre profissional e paciente em contextos gerais, Slort et al. 10 concluíram que a comunicação em cuidados paliativos não é tão dife- rente. O que poderia ser entendido como questões específicas são: a maior dificuldade de predizer o curso clínico da doença, que leva a maior incerteza acerca do prognóstico; a ambivalência sobre como lidar com informações referentes a um mau prog- nóstico; a relevância de reavaliar continuamente as necessidades de pacientes e família no tocante à oferta de informação, vez que as ideias e preferên- cias do paciente podem mudar ao longo do tempo. Além disso, profissionais devem distinguir en- tre problemas do paciente e suas necessidades per- cebidas, pois o paciente pode não querer abordar determinados problemas. Com relação aos temas da comunicação, questões mais específicas dos cui- dados paliativos são a explanação sobre a fase final da doença, preferências e emoções relativas ao fim da vida, questões espirituais, futilidade terapêutica, opções de tratamento que prolonguem a vida, deci- sões relativas ao fim da vida e crenças sobre o que há para além da vida 10. Os autores sugerem que os profissionais de cuidados paliativos estejam disponíveis para o pa- ciente, tenham uma abordagem aberta e compro- metida, ouçam ativamente, tomem iniciativa para falar sobre questões referentes à finitude, reconhe- çam suas ambivalências e as do paciente sobre de- terminados assuntos, reavaliem continuamente as necessidades e preferências do paciente e tenham alto nível de habilidades de comunicação para dis- cutir, adicionalmente, questões emocionais e espiri- tuais com o paciente 10. Cerco do silêncio A dificuldade de falar sobre o processo de doença e a expectativa da brevidade da vida é fre- quente entre profissionais de saúde e também para os próprios pacientes e seus familiares. É comum observar o designado “cerco”, “conspiração” ou “pacto” de silêncio, identificado pelos entrevistados como problema ético: “Do ponto de vista ético, o que me chama muita atenção ainda acho que é o cerco do silêncio” (E7). O cerco do silêncio é definido como o acordo implícito ou explícito, por parte de familiares, ami- gos e/ou profissionais, de alterar a informação que se dá ao paciente com a finalidade de ocultar-lhe o diagnóstico e/ou prognóstico e/ou gravidade da si-tuação 11. E7 afirma que o cerco do silêncio: “É um diagnóstico em cuidado paliativo onde você percebe que esse paciente não está participando ativamen- te das escolhas sobre si porque não sabe o que tá acontecendo”. Quando quem detém a informação é a família, ela detém o poder de decidir sobre o paciente: “As famílias tomarem conta das decisões, das escolhas, e do diagnóstico que pertence ao paciente” (E7). O intuito de quem impõe o cerco do silêncio é evitar o sofrimento do outro: “Ele não vai aguentar sa- ber”; “Vai sofrer muito” (E7). Porém, de acordo com a entrevistada, além de não excluir o sofrimento o cerco do silêncio priva a pessoa da possibilidade de exercer autonomia: “Na verdade, essas pessoas es- tão sofrendo... privando o paciente da escolha (...) causa um grande desgaste na família e também na gente, é os pacientes que não sabem o que tá acon- tecendo” (E7). Foi descrita cena em que o cerco do silêncio permeia as relações: “Lá na casa, no portão, alguém da família me pede pra não falar sobre o assunto, sobre o diagnóstico, sobre prognóstico, sobre tempo de vida, sobre nada praticamente, né? Na maioria das vezes, a gente sabe que o paciente já sabe e existe a tal conspiração do silêncio” (E10). Ao res- saltar a dialética do cerco do silêncio entre paciente e família, a entrevistada afirma que, muitas vezes, o contrário das situações relatadas também ocorre, http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a 305Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos sendo o paciente quem detém a informação, sem querer que a família saiba: “O paciente não fala pra família, eu imagino que pra família não sofrer... mais... E a família não fala nada pro paciente, também com o mesmo objetivo. E fica tudo muito... fica uma situação calada e sofrida” (E10). Além de causar sofrimento à família e ao pa- ciente, o cerco do silêncio impõe um dilema para os profissionais: “Quem que eu vou acatar? E a gente vai tateando e... né? E... deixando a coisa fluir um pouco devagar. E acaba... no final, eu acho que acaba tudo dando certo. Mas é um dilema” (E10); “Essa questão do cerco do silêncio é uma coisa que sempre me angustiou porque eu não sei de que lado eu fico... Então eu prefiro ficar na minha mesmo. Eu prefiro ficar bem quieta” (E2). Fallowfield, Jenkins e Beveridge 8 afirmam que embora a motivação por trás do cerco do silêncio seja bem intencionada, resulta em elevado estado de ansiedade, medo e confusão, e não serenidade e segurança. Além disso, nega aos sujeitos a opor- tunidade de reorganizar e adaptar suas vidas para realizar metas mais plausíveis, pautadas por espe- ranças e aspirações realistas. No caso dos cuidados paliativos, pacientes necessitam de informações claras para planejar e tomar decisões sobre o local da assistência e da morte, colocar assuntos penden- tes em ordem, despedir-se, fazer pazes e proteger- se de terapias fúteis. Os autores concluem que a oferta de informações honestas ao paciente é um imperativo ético 8. Participação na deliberação e tomada de decisão: paciente, equipe e família Um entrevistado considerou como importante problema ético a tomada de decisão unilateral por parte da equipe médica sobre questões relativas ao investimento terapêutico: “O que me deixa absolu- tamente chocada, horrorizada, é a decisão unilate- ral de uma equipe médica de não mais investir em paciente ou não. E o termo é ‘investir’, como se o paciente fosse uma bolsa, um mercado de ações, né? Então, em geral, os médicos avisam que não vão mais fazer... Ainda avisam... talvez...” (E7). Na fala acima transcrita verificamos o incômo- do pelo fato de a equipe médica não permitir que paciente e família participem de decisão tão impor- tante e também com relação a um termo bastante utilizado que é o “investir”, que, em sua opinião, é ambíguo e permite uma visão depreciativa e utilitá- ria sobre o paciente. Jonsen, Siegler e Winslade 1 aconselham a nunca alegar futilidade para justificar decisões unila- terais, evitando assim conversas difíceis com pacien- te ou família, e que se evite o uso do termo futilida- de com a família, haja vista sua conotação negativa. Sugerem, ao invés disso, direcionar os esforços para oferecer conforto e paliação ao paciente, pois os prejuízos de uma intervenção mais agressiva podem exceder os benefícios possíveis. A autonomia do paciente (exercida por ele ou por seu representante) foi reconhecida como importante elemento para a definição da condu- ta, cabendo à equipe legitimar sua participação no processo deliberativo: “Como a ideia das condutas tem muito a ver com o respeito à autonomia do pa- ciente (...) é uma questão de legitimar esse pacien- te, essa família” (E7). A questão da participação da família na tomada de decisão é trazida também com outro foco. Entre- vistados manifestaram preocupação pela atribuição, a pessoas leigas, da função de decidir sobre ques- tões técnicas sobre as quais não têm competência: “Eu vejo acontecer na clínica médica, na geriatria, não com a gente é... Passar pro paciente e pra famí- lia dilemas que é da equipe decidir. Por exemplo, se o paciente tem a indicação de algum procedimento e aquele procedimento ele é muito específico, você precisa de formação pra discernir sobre aquele pro- cedimento. Muitas vezes aquilo, ele é jogado a res- ponsabilidade para o familiar (...) Não acho que é ético discutir isso com uma pessoa leiga” (E5). E6 concorda, ao afirmar que: “Tem coisa que é conduta médica. Daí não existe “o que você quer?”, porque é conduta médica, não algo que a família pode escolher”. Ante tais constatações as entrevis- tadas remetem à discussão sobre quais questões e de que forma a família deve participar no processo de deliberação em cuidados paliativos: “Tudo bem (a família participar de decisões) em questões como analgesia, sonda para não vomitar... ajudar a escolher entre sonolência ou um pouco de dor... Mas operar ou não, ir para UTI ou não, são outra coisa, são decisões de conduta médica” (E6). Os discursos expressam, assim, que caberia à equipe discernir sobre quais questões relacionadas ao tratamento do paciente a família pode opinar, e em quais circunstâncias deve ser esclarecida a fim de compreender a conduta decidida pela equipe: “Muitas coisas a família não tem que decidir, mas compreender a sua decisão, porque a conduta é mé- http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a 306 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos dica. O profissional tem que ter isso claro pra ele de até onde a família pode opinar” (E6). Delegar à famí- lia do paciente a responsabilidade por decisões de conduta médica foi identificado como problema, es- pecialmente quando há discordâncias entre mem- bros da família ou entre família e equipe. As situações citadas pelos entrevistados, em que tais conflitos emergem, vão desde o enca- minhamento aos cuidados paliativos, incluindo a indicação de procedimentos menos invasivos e a contraindicação de medidas desproporcionais, ao dilema, de modo especial, entre reanimar ou não o paciente. Nesse sentido, foi referido como problema o fato de muitas vezes a equipe médica que encami- nha o paciente ou pede interconsulta não zelar pelo esclarecimento prévio da família: “A gente esbarra muitas vezes no não falar da equi- pe médica que está, digamos assim, gerenciando o caso do paciente. O fato de não falar das condições que realmente ele está... A possibilidade de cura que não existe mais, de controle dos sintomas” (E4). De acordo com um dos entrevistados, a falta de informação da família ocorre mais em função de limitações da própria família do que devido à indisponibilidade da equipe: “Que se houve uma desinformação ou uma não informação, às vezes é muito mais poruma família que não era presen- te porque o paciente não deixava, ou porque não conseguia ser presente, e que a gente acaba tendo que contar todo o final da história e... Contar qual que é o melhor tratamento para aquele paciente. E induzir essa família a acreditar na gente. A gente tem um problema ético, que é o problema de comu- nicação” (E7). Como problema ético, E10 aponta a rejeição da família frente à proximidade da perda do familiar, dificultando entender a ideia de cuidados paliativos, bem como o quanto é inócuo manter alguns proce- dimentos: “A questão do... principalmente da famí- lia, não aceitar cuidados paliativos. É não aceitar que se falem os procedimentos desnecessários... fúteis. É muito frequente, também. (...) É muito difícil as pes- soas aceitarem que não se faça mais procedimentos, que não se invista em medidas que não vão dar em nada”. Pautadas nas mesmas dificuldades as entre- vistas também fazem referência a problemas no mo- mento do óbito: “No prontuário estava escrito, mas a gente sabia que havia um litígio entre equipe mé- dica e família. Então, o que fazer?” (E6). A preocupação dos entrevistados que se pro- nunciaram a respeito da participação da família na tomada de decisão advém do risco das possíveis implicações jurídicas contra a equipe ou determina- do profissional. A próxima fala representa bem essa posição: “Juridicamente, não importa o que a família escolha. A tomada de decisão da família não tem ne- nhum valor. Aliás, sempre tem um familiar que chega de ‘Titirica da Serra’ e chega cansando, põe carami- nhola na cabeça e vai até o juiz. Se se agarrar ao fato que a família escolheu, certamente pagará indeniza- ção. Mas se for a conduta, é respaldado” (E6). Tal observação chama atenção à necessida- de de integração e coerência entre os membros da equipe e entre eles e a família, para evitar proble- mas judiciais: “É imprescindível que todos os passos estejam friamente compassados, e também dife- renciar o que é conduta médica e no que o familiar pode interferir” (E9). Ressalte-se ainda que: “Acaba- se chegando a um acordo, mas sempre com muito desgaste, às vezes, com um desgaste muito... muito grande, né. Tem pessoas até agressivas... Até violen- tas” (E10). Kovács 6 relaciona a dificuldade da participa- ção de pessoas leigas nas reflexões e tomada de de- cisão sobre cuidados no final da vida a atitudes cul- turais muito arraigadas de negação da morte. A au- tora sugere debates e esclarecimentos à população como estratégias que possibilitem a preservação da dignidade e qualidade no processo de morrer. Preferências quanto ao local de tratamento e morte É comum o paciente internado desejar ser tra- tado em casa. Nesses casos a equipe deve, então, se empenhar para que esse objetivo se cumpra. O fato de o serviço de cuidados paliativos estudado oferecer assistência domiciliar favorece essa possi- bilidade: “O paciente quer muito ir pra casa. Então a equipe se empenha mais ainda pra tentar mandar essa pessoa pra casa” (E2). Muitas vezes o paciente deseja falecer em casa, mas isso traz implicações legais importantes: “E essa é uma questão até ética que não é bem acei- ta, entendeu? E que a gente tem muitas barreiras em caso de óbito no domicílio. Não pelo lado da fa- mília, mas pelo lado burocrático mesmo, lá do siste- ma. Quando uma pessoa morre em casa os trâmites normais quais são? Polícia... IML...” (E1). Além dos motivos legais apontados, a dificul- dade de o paciente falecer em casa mesmo quando http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a 307Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos assim o deseja está, de acordo com os entrevistados, relacionada à incapacidade de a família acompanhar o processo até o final: “Porque a família não tem es- trutura pra suportar esse... O falecimento no domicí- lio” (E10). Os entrevistados também aludem à falta de recursos, por parte da equipe, para que possam dar suporte ao paciente e família nessa situação: “Uma coisa que seria, que talvez cairia na questão do princípio ético da justiça nos cuidados paliativos é às vezes não ter tantos recursos quanto eu gosta- ria... pra um paciente que quer estar em casa e a gente não tem um curativo diário, ou a gente não tem uma garantia de transporte imediato, ou a gente não dá conta de uma demanda que poderia ser visita médica semanal, porque a gente tem limi- te de equipe mesmo” (E7). Em decorrência, um problema ético muito frequente é o não cumprimento do combinado entre paciente, equipe e família com relação ao local e contexto da morte, quando falecer em casa é desejo manifesto do paciente: “Então ficou certo, o paciente manifestou o desejo de falecer em casa, a família por um momento concorda e quando chega o momento eles não suportam e trazem o paciente que, às vezes, falece na ambu- lância, no trajeto, ou no pronto-socorro de uma forma bem ruim. Longe dos familiares, longe do seu ambiente” (E10). Por todas essas questões a escolha do local do cuidado e da morte é apontada como algo de- safiador do ponto de vista ético 12. Por vezes, o pa- ciente prefere determinado local para ser cuidado e morrer, porém isso pode não ser factível ou ético. Os autores sugerem que o planejamento para alta hospitalar do paciente com doença ameaçadora da vida considere se ele tem condições mentais para tomar essa decisão. Devem ser analisados, ainda, os riscos que o cuidado domiciliar pode significar para os cuidadores, suas opiniões, as fontes de re- cursos necessários e a qualidade do relacionamen- to entre paciente e familiares 12. A escolha do paciente deve ser facilitada sem- pre que possível, respeitando assim sua autonomia, mas deve-se evitar causar dano quando o cuidado domiciliar não for plausível, utilizando como crité- rio o melhor interesse do paciente e o bem-estar dos envolvidos no cuidado. É papel da equipe de saúde, inclusive, explicar ao paciente por que suas preferências não podem ser facilitadas 12. Considerações finais Os resultados da pesquisa permitiram identifi- car importantes questões pertinentes à autonomia do paciente em cuidados paliativos, sob o paradig- ma bioético da casuística. O dever de respeitar a au- tonomia do paciente foi reconhecido, porém foram identificados conflitos entre esse princípio e o de beneficência, principalmente quando o paciente re- cusa intervenção. A experiência em cuidados paliati- vos foi apontada como estímulo a uma atuação com maior respeito às preferências do paciente. Entrou em discussão, também, a moralidade de o paciente/ família participar de decisões sobre conduta médica. O dever de veracidade foi reconhecido e a comunicação apontada como componente neces- sário para a relação terapêutica, sendo condição elementar para o paciente exercer autonomia. Pa- ralelamente, o respeito aos limites emocionais do paciente com relação à ciência de más notícias foi colocado como necessário. Para fazer frente a essas demandas, ressalta-se a importância de os profis- sionais desenvolverem habilidades de comunicação. O cerco do silêncio foi colocado como impor- tante obstáculo para a autonomia e resolução de pendências por parte do paciente que ainda teria condições de decidir e atuar socialmente. Além dis- so, os profissionais de saúde podem enfrentar como um dilema ético a escolha da postura a adotar pe- rante este cerco. A escolha do local de tratamento e morte foi citada como importante aspecto dentre as preferên- cias do paciente, embora seja reconhecida a dificul- dade de viabilizar uma assistência adequada quando a escolha é pela própria residência. Nesse caso, faz- se necessária a avaliação das necessidades e prefe- rências do paciente juntamente com a disponibilida- de de assistência formal e informal no domicílio. O estudo evidenciou o destaque do tema da comunicação. O fato de a comunicação em cuida- dos paliativos muitasvezes incluir questões de forte conteúdo emocional a torna desafiadora para todos os envolvidos, o que frequentemente resulta na omissão de determinadas informações e atitudes paternalistas perante o paciente. Em paralelo, é re- conhecido o seu papel enquanto instrumento para enfrentar problemas éticos, e ainda como prerroga- tiva para o exercício da autonomia, para a relação terapêutica, ajustamento psicológico e resolução de pendências. http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a 308 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 299-308 Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos Recebido: 2.12.2013 Revisado: 2. 4.2014 Aprovado: 1. 7.2014 Referências 1. Jonsen AR, Siegler M, Winslade WJ. Clinical ethics: a practical approach to ethical decisions in clinical medicine. 7a ed. New York: Mc-Grraw-Hill; 2010. 2. Tapiero AA. Las diferentes formas de morir: reflexiones éticas. An Med Interna. 2004;21(7):355-8. 3. Bélanger E, Rodríguez C, Groleau D. Shared decision-making in palliative care: a systematic mixed studies review using narrative synthesis. Palliat Med. 2011;25(3):242-61. 4. Beauchamp TL, Childress JF. Princípios de ética biomédica. 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Wheatley VJ, Baker JI. ‘‘Please, I want to go home’’: ethical issues raised when considering choice of place of care in palliative care. Postgrad Med J. 2007;83(984):643-8. Participação dos autores Este manuscrito é parte dos resultados da tese de Carolina Becker, orientada pelo prof. dr. Paulo Antonio de Carvalho Fortes. Ambos colaboraram na condução da pesquisa e na elaboração do artigo, compartilhando, dessa forma, sua autoria. http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Ar ti go s de p es qu is a MÓDULO 3 Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74424 Percepção de familiares de crianças internadas em unidade pediátrica sobre cuidados paliativos Perception of family members of children in a pediatric unit about palliative care DOI:10.34117/bjdv6n10-026 Recebimento dos originais: 08/09/2020 Aceitação para publicação: 02/10/2020 Beatriz Molina Carvalho Formação Acadêmica mais alta: Enfermeira especialista em Saúde da Criança, Mestranda em Enfermagem em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP) Instituição de atuação atual: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP) Endereço completo: Av. Bandeirantes, 3900 – Monte Alegre. Ribeirão Preto – SP, Brasil E-mail: beatriz.molinacarv@hotmail.com Raquel Matioli Vieira Formação Acadêmica mais alta: Enfermeira especialista em Saúde da Criança, Mestranda em Enfermagem pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) Instituição de atuação atual: Universidade Estadual de Londrina (UEL) Endereço completo: Av. Robert Koch, 60 – Operária. Londrina – PR, Brasil E-mail: raquelmatioli@hotmail.com Mauren Teresa Grubisich Mendes Tacla Formação Acadêmica mais alta: Professor Associado do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL) – Área de Saúde da Criança Instituição de atuação atual: Universidade Estadual de Londrina (UEL) Endereço completo: Av. Robert Koch, 60 – Operária. Londrina – PR, Brasil E-mail: maurentacla@gmail.com Enedina Beatriz Porto Braga Misael Formação Acadêmica mais alta: Enfermeira especialista em Saúde da Criança pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Enfermeira do Pronto Atendimento do Hospital do Câncer de Londrina Instituição de atuação atual: Hospital do Câncer de Londrina Endereço completo: Rua Lucilla Ballalai, 212 – Jardim Petrópolis. Londrina – PR, Brasil E-mail: enedina_braga.porto@hotmail.com Natalia de Godoi Barros Formação Acadêmica mais alta: Enfermeira especialista em Saúde da Criança, Mestranda em Enfermagem pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) Instituição de atuação atual: Universidade Estadual de Londrina (UEL) Endereço completo: Av. Robert Koch, 60 – Operária. Londrina – PR, Brasil E-mail: naatalia.godoi@hotmail.com Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74425 RESUMO Introdução: O Cuidado Paliativo (CP) é a promoção de qualidade de vida aos pacientes e familiares diagnosticados com patologias incuráveis, por meio do alívio dos sintomas dos âmbitos biológicos, psicossociais e espirituais e não a cura da doença. Dessa forma torna-se necessário a informação para o empoderamento nas tomadas de decisão, incluindo a família. O objetivo do estudo foi apresentar a percepção de familiares/cuidadores de crianças sobre cuidados paliativos no contexto hospitalar. Método: Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, desenvolvido em uma unidade de internação pediátrica de um hospital universitário público de alta complexidade. Participaram do estudo acompanhantes de crianças internadas na unidade, sendo realizado entrevistas semiestruturadas em fevereiro e março de 2019. Após a transcrição das entrevistas, a exploração de dados ocorreu por meio da análise de conteúdo. Estudo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da instituição, com parecer n° 2.377.162, CAAE nº 78934117.5.0000.5231. Resultados e Discussão: Participaram do estudo 12 responsáveis, sendo que a maior parte referiu não compreender o CP; alguns participantes foram contrários a explicar para a criança sobre sua condição de saúde, no caso de CP; já outros relataram ser importante comunicá- las. A maioria dos familiares considerou que a equipe deve explanar a verdade sobre as condições da doença e os desfechos possíveis para a criança. Considerações finais: O estudo revelou que os pais/responsáveis consideram a verdade e a sinceridade a forma mais adequada de abordagem pelos profissionais de saúde. Para que isso ocorra é preciso realizar nos ambientes de atendimento à saúde debates e discussões sobre CP, além de ser necessário o assunto percorrer o processo de ensino aprendizagem. Conclui-se que os CP são importantes para o cuidado integral à criança e ao adolescente. Palavras-chave: Saúde da criança. Enfermagem pediátrica. Cuidados paliativos. Família. ABSTRACT Introduction: Palliative Care (PC) is the promotion of quality of life to patients and family members diagnosed with incurable pathologies, through the relief of symptoms in the biological, psychosocial and spiritual spheres and not the cure of the disease. In this way it becomes necessary the information for empowerment in decision making, including the family. The objective of the study was to present the perception of family members/caregivers of children about palliative care in the hospital context. Method: This is a qualitative approach research,developed in a pediatric admission unit of a public university hospital of high complexity. Accompanying children in the unit participated in the study, and semi-structured interviews were conducted in February and March 2019. After the transcription of the interviews, data exploration took place through content analysis. Study approved by the Research Ethics Committee Involving Human Beings of the institution, with opinion n° 2.377.162, CAAE n° 78934117.5.0000.5231. Results and Discussion: 12 responsible people participated in the study, and most of them reported not understanding the PC; some participants were against explaining to the child about his health condition, in the case of PC; others reported that it was important to communicate them. Most family members considered that the team should explain the truth about the disease conditions and possible outcomes for the child. Final considerations: The study revealed that parents/guardians consider truth and sincerity the most appropriate form of approach by health professionals. For this to happen, it is necessary to hold debates and discussions on PC in health care environments, and the subject must go through the teaching learning process. It is concluded that PCs are important for the integral care of children and adolescents. Keywords: Child health. Pediatric Nursing. Palliative care. Family. Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74426 1 INTRODUÇÃO O Cuidado Paliativo (CP) é a promoção de qualidade de vida aos pacientes e familiares diagnosticados com patologias incuráveis, por meio do alívio de sinais e sintomas dos âmbitos biológicos, psicossociais e espirituais (WHO, 2002; WORLDWIDE PALLIATIVE CARE ALLIANCE, 2014). A Organização Mundial da Saúde (OMS) apresenta a definição de CP para o público infantil, como “[…] o cuidado total ativo do corpo, mente e espírito da criança e também envolve o suporte à família”. Iniciam-se quando a doença é diagnosticada e continua independente de a criança receber ou não tratamento para a doença. Os profissionais de saúde devem avaliar e aliviar os sintomas físicos, psicológicos e sociais da criança (WHO, 1998 apud WHO, 2002, p. 85). Anteriormente compreendia-se que os CP eram voltados aos pacientes em estágios terminais, em que os tratamentos curativos não apresentavam a resposta esperada. Entretanto, a OMS salienta que tal olhar deve ocorrer desde o início, com o diagnóstico de uma patologia crônica e fatal (WHO, 2002). Neste campo do cuidado tem-se como foco a qualidade de vida e não a cura de uma doença. Dessa forma torna-se necessário a informação para o empoderamento em tomadas de decisão, incluindo a família, com intuito de amenizar o sofrimento, atendendo aos sinais e sintomas (CREMESP, 2008). O CP tem sido direcionado em grande parte aos pacientes com câncer. Mas também tem sido aplicado em outras condições crônicas como HIV/Aids, doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, demências, esclerose múltipla. No âmbito infantil as patologias direcionadas aos CP são câncer, doenças cardiovasculares, cirrose hepática, anomalias congênitas, HIV/Aids, meningite e doenças neurológicas (WORLDWIDE PALLIATIVE CARE ALLIANCE, 2014). De fato, ainda há um espaço entre o que preconiza a teoria e sua aplicação na prática, mesmo com a maior compreensão sobre o tema e a necessidade de sua implantação (WHO, 2002). Nesse sentido, o intuito do CP “[...] não é prolongar ou diminuir a vida, mas melhorar sua qualidade para que o tempo restante – sejam dias ou meses ou anos – possam ser tão proveitosos quanto possível” (LAVY, 2009). Há ainda a necessidade de diferenciar o CP dos cuidados ao fim da vida (CFV), sendo, respectivamente, o cuidado desde o diagnóstico, durante o curso e o desfecho da patologia e a assistência no final da vida com o processo da morte existente (BURLÁ; PY, 2014). Ademais, deve- se ter como base que o paciente e sua família não se resumem a sintomas físicos, logo o cuidado holístico deve ocorrer agregando importância aos CP (LAVY, 2009). Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74427 1.1. CUIDADOS PALIATIVOS NO BRASIL O CP no país necessita de regularização por meio de lei, pois ainda ocorre falta de entendimento e preconceito sobre tal questão, presente também entre os profissionais de saúde. Outro ponto é a escassa abordagem sobre o tema durante a formação destes profissionais, além de poucos cursos de especialização na área, ocorrendo, muitas vezes, a falha no controle de um sintoma, a dor, por desconhecimento na utilização de opioides para seu alívio (ANCP, 2017). A Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) ressalta que ocorrerá num futuro próximo a mudança da compreensão sobre CP, desde a formação à legislação, levando em consideração o papel importante deste cuidado na saúde pública (ANCP, 2017). O Ministério da Saúde publicou a normatização, por meio de resolução, referente a oferta de CP enquanto cuidados continuados integrados no Sistema Único de Saúde (SUS). Tal resolução prevê a melhoria da qualidade de vida do paciente em CP e seus familiares, com cuidados psicológicos e medicamentos para alívio de queixas álgicas, entre outros. A partir disso, tem-se a definição de diretrizes de cuidado e aprimoramento de sua oferta. Para além, a proposta ainda traz que seja identificado nas redes de atenção (atenção primária, ambulatorial, domiciliar, hospitalar), a partir do diálogo com o paciente e de acordo com suas preferências, o tipo de cuidado e tratamento médico que o mesmo receberá (PORTAL DO GOVERNO BRASILEIRO, 2018). A Comissão de Saúde Pública da Assembleia Legislativa do estado do Paraná aprovou um projeto de lei que institui uma rede de cuidados paliativos, aguardando o parecer da Comissão de Direitos Humanos da Casa. Inspirado em outros países, este projeto irá proporcionar ao estado um cuidado direcionado a portadores de doenças crônicas e progressivas, sem possibilidades de cura, com abrangência à pacientes nos hospitais, bem como em seus domicílios (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO PARANÁ, 2019). 1.2 CUIDADOS PALIATIVOS NA FAMÍLIA A interação e troca de informações entre os profissionais de saúde, a família e o paciente corroboram para a abordagem sobre a morte, sendo que cada ator desse processo terá um papel a desempenhar durante o diagnóstico, o cuidado e posterior morte do indivíduo. A equipe de saúde deverá proporcionar aos demais envolvidos no cuidado momentos de apoio e educação, cujo objetivo será a qualidade do cuidar e de vida (REIGADA et al., 2014). A família pode ficar esquecida devido a patologia e internação de seus entes queridos, contudo ela é um agente do cuidado e, para realizar sua função, necessita de incentivo e apoio. O profissional de saúde pode contribuir neste contexto de tomada de decisões. Uma das formas de Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74428 colaborar é fornecer informações e esclarecer dúvidas sobre procedimentos, condutas e cuidados, proporcionando um aumento na autonomia e qualidade de vida tanto para o paciente, quanto para os seus acompanhantes (REIGADA et al.,2014). Em unidade de internação pediátrica tem-se na admissão um momento propício para a realização de um acolhimento e assim, fornecimento de informações sobre as condições da criança; além da abordagem sobre os direitos e deveres da família nesse momento de hospitalização. Para realizar esse contato de forma efetiva é preciso atentar-se à linguagem escolhida. Tal relação e aproximação entre equipe e família vão ao encontro do cuidado centrado na família. Entretanto,os profissionais necessitam de melhor preparo para aceitar e compreender a importância desses acompanhantes no cotidiano hospitalar e no planejamento do cuidado (CORRÊA et al.,2015). Corrêa et al. (2015) trazem como resultado de seu estudo a percepção de alguns profissionais sobre a relevância da presença da família na hospitalização, enfatizando ganhos a crianças, familiares e equipe, implicando na melhora da qualidade de vida e bem-estar do agente principal do cuidado, fortalecendo vínculos e amenizando os danos de uma internação. Outra limitação para a não efetivação de um cuidado colaborativo entre todos os envolvidos é a falta de participação da família em decisões sobre o cuidado da criança (CORRÊA et al., 2015). Frente ao exposto, essa pesquisa justifica-se ao desvendar o conhecimento dos familiares em relação ao CP e quais seriam os cuidados necessários para a educação e promoção da saúde às crianças em CP e suas famílias. Também visa favorecer o empoderamento dos mesmos, contribuindo para a efetiva participação nas tomadas de decisão, de forma fundamentada. O objetivo deste trabalho foi apresentar a percepção de familiares/cuidadores de crianças sobre CP no contexto hospitalar, identificando o conhecimento dos mesmos sobre o tema e revelando o entendimento do cuidador quanto à assistência ao paciente em CP. 2 MATERIAL E MÉTODO 2.1. DELINEAMENTO DO ESTUDO Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, a qual envolveu o estudo sobre os fenômenos e o significado dos mesmos para familiares/cuidadores. 2.2. LOCAL DO ESTUDO O estudo foi realizado em uma unidade de internação pediátrica de uma cidade do sul do Brasil. A referida unidade tem 20 leitos, destinados a crianças entre zero e 12 anos idade. A equipe de Enfermagem é composta por seis técnicos de enfermagem e um enfermeiro responsável por Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74429 período e conta com a presença de residentes em Enfermagem em Saúde da Criança. Coordenada por uma enfermeira, a unidade tem no momento uma criança em CP, devido a patologia crônica, para a qual foi realizada conferência familiar para explicação e determinação do CP. A enfermaria pediátrica recebe ao longo do ano alunos do curso técnico de enfermagem, das graduações de enfermagem, medicina, fisioterapia, fonoaudiologia, serviço social, os quais realizam estágio no setor. Em um mês a média de entradas de pacientes na unidade é de 57 (dados informados pelo setor de estatística do hospital), procedentes da cidade e região, além de transferências de distintos municípios, para além do estado do Paraná. Ademais, atende-se nesta enfermaria diversas clínicas, como pediatria, cirurgia pediátrica, neurocirurgia, ortopedia, otorrinolaringologia, reumatologia, nefrologia e oftalmologia. 2.3. PARTICIPANTES Participaram do estudo acompanhantes de crianças internadas na unidade pediátrica supracitada que compreenderam e aceitaram a abordagem, selecionados dessa forma por conveniência. Na ocasião, os pacientes internados e abordados para a pesquisa não se encontravam em CP. Os acompanhantes foram familiares: mãe (7), pai (1), avó (2), tia-avó (1) e tia (1). Totalizaram 12 entrevistas, finalizada a abordagem por ocorrência de saturação de informações. Durante a abordagem três acompanhantes recusaram-se a participar. 2.4. COLETA DOS DADOS Os dados foram coletados por meio de gravação das falas dos participantes e posterior transcrição das mesmas, sem anotações de campo durante ou após abordagem. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com cada participante, conduzida pelo pesquisador pessoalmente, em sua maioria de forma particular, em uma sala na unidade pediátrica sem interrupções, no período de fevereiro a março de 2019. Em três entrevistas houve a presença de outro familiar/funcionário na mesma enfermaria, sem prejuízo para a coleta. A duração das entrevistas variou de três a 17 minutos. Os temas para discussão sobre CP foram identificados antecipadamente e para a entrevista semiestruturada a pesquisadora lançou mão de questões norteadoras referentes aos CP em crianças, sendo elas: ✓ Para você o que é cuidado paliativo? ✓ Pensando que seu filho possua uma doença elegível para cuidados paliativos, como você gostaria que este assunto fosse abordado? Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74430 ✓ O que você pensa ser essencial ser conversado com o responsável e com a criança no contexto dos cuidados paliativos? Foram aplicadas três entrevistas piloto, sem mudança de abordagem ou questões, sendo integradas às outras nove realizadas na sequência. Ao realizar o convite ao acompanhante a pesquisadora identificou-se como enfermeira residente em Enfermagem em Saúde da Criança e explicou a intenção do estudo como forma de conhecer com profundidade os conhecimentos sobre CP e, posteriormente, corroborar para a orientação e acolhimento de crianças e familiares em tal condição de tratamento. Considera-se que o estudo poderia trazer riscos aos participantes, dessa forma, após cada entrevista o pesquisador questionou se o familiar/cuidador se sentiu triste, agoniado, chateado ou com outro tipo de sentimento, para que, se necessário, fosse oferecida ajuda de outro profissional (psicólogo, assistente social, entre outros), porém todos negaram a existência de tais sentimentos. Os benefícios esperados foram colaborar com o conhecimento técnico-científico de profissionais e estudantes da área da saúde da instituição cenário deste estudo, além da difusão do conhecimento para a comunidade em geral sobre CP e, consequentemente, melhorar a qualidade da assistência aos pacientes e familiares/cuidadores. 2.5. ANÁLISE DE DADOS Após a transcrição das entrevistas, a exploração de dados ocorreu por meio da análise de conteúdo em três fases: pré-análise; exploração do material e tratamento dos resultados; a inferência e interpretação. Os dados foram separados em três categorias, neste estudo, porém outros agrupamentos seriam possíveis. A primeira fase deu-se pela organização com a escolha dos documentos os quais seriam analisados, a elaboração de hipóteses e dos objetivos; já a segunda referiu-se à administração e codificação dos achados; por último a fase de exploração em que os resultados foram analisados, categorizados, propondo inferências e interpretando-os à luz dos objetivos do estudo (BARDIN, 2011). 2.6.ASPECTOS ÉTICOS Esta pesquisa é parte integrante de um estudo mais amplo, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da instituição, com Parecer n° 2.377.162, CAAE nº 78934117.5.0000.5231. Os preceitos éticos foram seguidos para sua realização, conforme orientações desse comitê. Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74431 Cada participante recebeu e assinou, após a explicação sobre o estudo e sua finalidade, o termo de consentimento livre esclarecido, oferecido em duas cópias, sendo que a pesquisadora entregou uma via e a outra arquivou. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Participaram do estudo 12 responsáveis (sete mães, um pai, uma tia, uma tia-avó e duas avós) de pacientes internados na enfermaria pediátrica, nos meses de fevereiro e março de 2019. Dentre eles, a maioria apresentou-se como acompanhante fixo da criança, sem haver troca com demais familiares. Os dados dessa pesquisa foram separados em categorias, sendo selecionadas três para a discussão: a) Conhecimento sobre cuidados paliativos; b) Abordagem com a criança; c) Abordagem com pais/responsáveis. a) Conhecimento sobre cuidados paliativos Para iniciar a entrevistasemiestruturada foi abordado na primeira questão o tema CP. Perguntou-se ao familiar o conhecimento sobre o tema: quatro participantes referiram já terem escutado sobre CP, sendo que duas apresentaram elementos do conceito, uma não soube explicar e uma apresentou erroneamente o significado deste cuidado. Em um estudo realizado em Campina Grande (PB), foram analisadas falas de cuidadores profissionais e não profissionais (familiares), sendo que os últimos consideraram o carinho, amor e atenção como o cuidado ofertado por eles. Percebe-se com este discurso a importância destinada a outros cuidados para além de medicamentos e intervenções. Mesmo com o entendimento sobre a importância dos cuidados direcionados às necessidades dos pacientes, como os supracitados, o estudo comprovou que o termo CP não era conhecido por todos os não profissionais (ALVES et al., 2015). A partir deste resultado associamos a essa pesquisa no âmbito do desconhecimento do termo ou da não compreensão total e verdadeira, gerando conflitos e negações para sua aceitação. Além do ambiente hospitalar, onde este tema deve ser discutido, percebe-se, a partir das entrevistas realizadas, que o conceito de CP não é disseminado pelos meios de comunicação. Durante as entrevistas foi questionado se o termo em questão havia sido abordado em algum canal de comunicação que o responsável possa ter visto, a maior parte dos entrevistados negaram. Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74432 “Não. Não, nunca ouvi falar de paliativos.”E1 “Nunca ouvi falar.” E2 “Também já ouvi, são cuidados com crianças que vivem na cama, que precisam da mãe e enfermeira em cima. Que são assim crianças vegetativas, que não conseguem andar, que precisa de um cuidado a mais [...] especial.”E3 “Eu já ouvi falar. CP é quando a pessoa tem uma doença, que é assim, uma doença que não tem cura, mas ele recebe todo o cuidado, apoio, tanto ele quanto a família, assim pelo tempo de sobrevivência que ele tem. Assim meu entendimento é esse sobre CP.”E8 “Não sei. Já escutei, mas assim te falar exatamente não sei o que é.”E11 “Não. Uma coisa paliativa é uma coisa que dá resultado, não é uma coisa pra mim... Como se diz, convencional, mas dá resultado.”E12 Baseado no fato de a maior parte dos entrevistados não saberem definir os CP, bem como referirem não terem conhecimento sobre o tema, busca-se na divulgação do assunto a disseminação correta sobre esse cuidado, a fim de proporcionar às crianças elegíveis qualidade de vida em seu cotidiano, entretanto, tem-se a falha da informação. Isso também pode ocorrer, pois os profissionais envolvidos precisam enfrentar o processo de morte e morrer, compreendendo que apenas salvar vidas pode não ser a necessidade presente de seu paciente, gerando sentimentos de frustração e incapacidade (SANTOS, 2017). A falha na comunicação entre os profissionais referentes ao paciente e seu planejamento de cuidado (SANTOS, 2017) também corrobora para a falha na disseminação correta sobre os CP. Os depoimentos apresentados são de responsáveis, os quais não estão com suas crianças em CP, contudo se assim vierem a ser, a possível não integração da equipe prejudicaria o entendimento adequado. Como evidenciado por Santos (2017) a dificuldade em apresentar claramente as condições dos pacientes, reconhecendo-os em um momento com possibilidades de cura e em outros momentos não, descreve uma deficiência na relação da equipe. Decisões atreladas por prognósticos médicos, com imposição de condutas, são comuns na determinação do cuidado empregado, outro impedimento para a comunicação. O cuidado paliativo, quando implantado, possui o objetivo de sanar sintomas físicos como dor, náusea, fadiga, bem como assistir aos pacientes no que diz respeito ao psicossocial. Englobar a família na busca do entendimento sobre o cuidado e os medos neste momento de tratamento, partindo de uma comunicação efetiva, ofertando suporte necessário, além de considerar o âmbito espiritual, também é importante (ANCP, 2012). Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74433 b) Abordagem com a criança Na discussão sobre contar para a criança no caso dela ser diagnosticada com uma patologia ameaçadora de vida e estar em CP, alguns familiares relataram não quererem que as crianças soubessem, outros afirmam que a partir de determinada idade, quando a criança compreendesse, seria importante abordar. Em uma pesquisa realizada nos EUA, alguns pais e crianças referiram ser importante a criança estar ativa no processo das decisões e cuidado. Outros entrevistados afirmaram que gostariam que o médico tivesse conversado com os pais primeiramente, sem a criança, pois referiram que poderiam abordar a notícia com seus filhos de uma forma diferente. A pesquisa mostra que os pais e os filhos não concordaram na totalidade sobre o envolvimento das crianças no processo. Uma mãe referiu que algumas especificações deveriam ser direcionadas aos pais, já seu filho relatou que preferia as informações verdadeiras advindas do médico e não depois passada pelo seu pai (HSIAO; EVAN; ZELTZERM, 2007). Alguns participantes do presente estudo eram contrários a que a criança fosse informada sobre sua condição: “Ah, na minha opinião, não. Ah não eu acho, que sei lá, na minha opinião se ela fosse entendida, que nem eu tenho uma adolescente de 14 anos, imagino ela saber que tem uma doença que tem pouco tempo de vida, apesar que hoje a mídia informa muito...”E8 “Eu acho que não. Se fosse alguma coisa assim muito séria...não.” E10 “Não. Não, porque eu acho que... ahn, se você falar pra ela, de repente, porque ela já entende, ela já tem né, já sabe do caso, eu preferia que ela não soubesse, e deixasse acontecendo entendeu, de repente você ia falando mais, [...] se fosse grave tal, você ia falando aos poucos.” E12 O adequado tratamento e resolução dos sintomas em final de vida no campo da pediatria apresentam-se deficitários. Além da parte clínica têm-se as questões psicológicas, sociais e espirituais, as quais não recebem todo o cuidado necessário, não ocorrendo um atendimento eficaz aos pacientes (ANCP, 2012). Diante disso, a apresentação do tema aos pais/responsáveis corrobora para que todos compreendam e se empoderem sobre tratamentos e cuidados, assim os sinais e sintomas podem ser compreendidos, referidos e resolvidos. Defende-se abordar com as crianças sobre sua patologia e desfechos possíveis, para que possam preparar-se para o futuro e lutar para que recebam o conforto e o cuidado mais adequados para sua situação. Documento científico sobre CP da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP, 2017) aborda princípios necessários para o CP em pediatria. Os cuidados devem ser direcionados à Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74434 criança/adolescente, envolvendo a família, considerando os valores e crenças desse paciente. Para trabalhar com o indivíduo e sua rede de apoio pode ser necessário fazê-lo com a presença de equipe multidisciplinar, com a percepção de que os envolvidos devem estar participando das tomadas de decisão. Já outros participantes afirmaram que o diálogo seria interessante para a criança, assim a mesma poderia compreender as limitações de sua doença e saber conviver com elas. Medo da opinião de indivíduos fora do âmbito familiar também percorreu a fala dos familiares. Outros profissionais foram citados neste momento de abordagem. “Uhum. Deveria. Para ela saber o que ela tem, para depois de grande ela não falar pra gente que a gente não falou pra ela que ela tinha, quenão explicou pra ela.”E1 “Com certeza. Ele tem que saber o que está acontecendo. Porque no caso assim meu neto, ele vai ser uma criança diferente das outras, não que eu vou passar isso pra ele, que ele é diferente das outras, mas vou ter que fazer ele entender de um modo que ele não sofra... Porque assim, hoje em dia se você não fala os amiguinhos falam...vai estar fortalecido.” E2 “Pra mim também, a mãe e o pai, que nem ele falou, porque a mãe e o pai, a criança se sente melhor... Sim, porque, senão a criança vai criando muita, assim, muita expectativa de alguma coisa e tal, sempre está falando a verdade pra criança nunca está mentindo.” E3 “É melhor os pais, os pais, uma psicóloga falar com ele, porque outras pessoas não vão ajudar muito [...], tem que falar pra pessoa que ele se sente mais seguro falar com ele. Vamos supor que o filho tem mais confiança com a mãe, a mãe com jeito pra ele é melhor, do que o médico chegar e falar com a criança.”E4 “Sim, seria. Eu acho que sobre a doença essas coisas, orientar as crianças... Com certeza, acho muito importante. É melhor explicar essas coisas, esses cuidados de doença [...].”E9 “Sim. Eu acho que daí a mãe vai saber. Então tem tipo, que conversar com a mãe primeiro e perguntar ai mãe você acha que”... na minha opinião, mas eu, se fosse meu filho, eu gostaria que ele soubesse sim. Se ele fosse grandinho e entendesse sim.”E11 É necessário avaliar as preocupações psicossociais advindas da criança e seus familiares, avaliando assim os medos presentes. Como forma de apoiar nesse sentido, deve ser realizada uma conversa honesta, mostrando-se presente aos envolvidos, deixando que os mesmos explanem sobre as inquietações existentes. Debater sobre momentos anteriores que tenham passado, pela morte e morrer e demais eventos impactantes torna-se importante, assim o profissional de saúde pode adaptar seu plano de cuidados a partir da vivência trazida pelas próprias crianças. Ter como apoio outros profissionais, como os especialistas em saúde mental, pode ser uma ferramenta essencial para o trabalho e o cuidado tornarem-se efetivos (HIMELSTEIN; HILDEN; BOLDT, 2004 apud ANCP, 2012, p. 465). Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74435 Ainda sobre como conversar com a criança/adolescente, foi perguntado meios que os responsáveis achavam efetivos para nos aproximarmos dos pacientes. “Sim, um filme! Uma criança assim e especial também, e mostrando também, um filme legal, bem legal assim, não deixando a criança pra baixo, mas pra cima, mostrando que ela é uma criança como as outras assim, só que é mais especial que precisa de mais cuidados.”E3 “Acho que uma historinha serviria. Ah, caso de uma pessoa né, que tem problema, não sei, é isso.”E5 A diversão durante o cuidado com a criança, proporciona o bem-estar e deve ocorrer com intuito de ser um recurso terapêutico, fortalecendo o vínculo entre o profissional e a criança e sua família (SANTOS; RODRIGUES; MARTINS, 2018). c) Abordagem com os pais/responsáveis Na última questão foi questionado sobre como os responsáveis acreditam ser a maneira mais adequada para conversar sobre a inclusão nos CP. De fato, a apresentação da verdade sobre as condições da doença e os desfechos possíveis para a criança, apareceu na maioria das falas. Neste momento também foi perguntado quais os assuntos essenciais a serem abordados durante uma conferência familiar. Algumas etapas devem ser seguidas para o êxito na compreensão dos CP e sua implantação em um paciente. O diagnóstico, tratamento e percurso da doença devem estar estabelecidos e conhecidos entre os profissionais. Os pacientes com doenças ameaçadoras à vida, mesmo não estando em fase de terminalidade, podem se favorecer com a implantação deste cuidado. A reunião para determinação de CP deve ocorrer entre a equipe e depois com a família, podendo ser realizada mais de uma vez, se necessário (SBP, 2017). Visto a necessidade de se falar a verdade e dessa forma apresentar a patologia presente, bem como o tratamento disponível, tem-se no planejamento uma possibilidade de estabelecer prioridades e as ações necessárias para uma assistência apropriada, almejando o estabelecimento de um cuidado biopsicossocial e espiritual, corroborando, assim, para a qualidade de vida (SANTOS, 2017). A compreensão sobre a orientação dos cuidados necessários é presente nas falas. “Os cuidados. Coisas que poderia melhorar o dia a dia dele. O que eu não sei você poderia passar pra mim.”E2 “Conversar na reunião? Acho que explicar né, quais seriam as maneiras corretas de cuidar, os remédios, não sei se até um curso, não sei...”E11 Um estudo de Santos (2017), sobre adultos em UTI, apresenta depoimentos de profissionais, os quais afirmam que uma das formas de oferecer conforto é apresentar ao paciente o conhecimento que o mesmo desejar sobre sua patologia, por vezes o desconforto pode ser caracterizado pela Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74436 dúvida. A família torna-se importante também para o bem-estar desse paciente, sendo integrante da discussão sobre tratamentos e intervenções e sobre os CP. A explanação pelos profissionais da situação de saúde real dos pacientes aparece nos discursos dos responsáveis, como algo importante durante o cuidado, “Sempre falar a verdade, fala o que vai acontecer e o que não vai [...] do estado da criança, sempre falar. Falar de tudo que ta acontecendo da criança, falar qual vai ser a vida dela, dentro do hospital.”E4 “Ele (o profissional) sendo sincero, assim, ta bom, porque não adianta mentir, porque quanto mais mentir é pior, a dor é maior.”E3 “Ah! Eu acho que tinha que falar sobre a verdade. Se o médico descobre alguma coisa, falar certinho o que tem e o que não tem. A pessoa fica sabendo já, daí tem mais cuidado com a criança. Logo no início já falar. [...] A mãe e o pai eles querem saber a verdade, que aí fica mais fácil o cuidado, a pessoa não saber fica complicado.”E5 Compreender a família enquanto parte integrante do cuidado e foco da assistência torna-se um dos objetivos dos CP, ofertando cuidado a essa família do início do processo até o período de luto (SANTOS, 2017). A escuta ativa e qualificada para alcançar a qualidade de vida nestes momentos deve ser empregada. O estudo de Alves et al. (2015) ainda menciona dificuldades para a prática do CP, como profissionais não capacitados, a não sistematização do serviço e a dedicação esgotante dos familiares aos pacientes. O estudo também evidencia a necessidade de abordar o tema entre os profissionais e familiares, visto que a prática se tornará mais adequada com a compreensão sobre o cuidado humanizado, com intuito de proporcionar qualidade de vida e não prolongar sofrimentos. A atuação dos profissionais junto aos pacientes e familiares torna-se essencial em todo o decorrer da internação, como apoio aos envolvidos. “Onde eu poderia me apoiar, para ter ajuda, esclarecimento, conselho, tipo assim, se eu precisasse de uma fisioterapia, psicóloga, um atendimento mais assim, de acompanhamento, que auxilie no tratamento e me auxiliasse pra eu ter disposição pra cuidar [...] Dentro da necessidade da criança, acredito que sim né, precisa ter o treinamento.” E7 Pais e crianças (em condições limitantes de vida) de um estudo realizado em Los Angeles (EUA) relataram que a confiança e amizade foram importantes para o conforto em conversar com o médico, além de valorizarem aqueles que desprenderam tempo para conhecer as crianças. As crianças citaram ficar a vontade com os médicos que perguntaram sobre as preocupações pessoais e sociais e não somente os sintomas físicos, e aqueles que acreditavamnas suas falas. Os pais Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74437 também se mostraram mais confiantes conversando com médicos que apresentavam conhecimento sobre a patologia e cuidado da criança, ao contrário de como se sentiam quando percebiam que o médico estava escondendo sobre as condições da criança, não os preparando para os desfechos esperados. Os responsáveis e as crianças referiram que gostavam de conversar com médicos que respondiam às dúvidas mais rapidamente (HSIAO; EVAN; ZELTZERM, 2007). 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS O CP é um modo de cuidado que busca alcançar o paciente em sua totalidade, levando em consideração sua família, sua história, sua dignidade e suas vontades. Quanto maior for a aproximação da expectativa apresentada pelo paciente e a realidade explicada sobre sua condição de saúde e de suas possibilidades, maior será a qualidade de vida. Dessa forma, os profissionais de saúde, presentes diariamente com esse público, devem proporcionar o melhor e mais adequado cuidado, frente ao que o indivíduo esteja apto e necessite receber. O presente estudo revelou que os pais/responsáveis consideram que a verdade e a sinceridade, por parte dos profissionais, ao esclarecerem as condições das crianças é a forma mais adequada de abordagem. Desse modo, estes profissionais tornam-se a referência para o entendimento sobre os cuidados específicos que cada criança pode necessitar. Para o alcance deste objetivo é preciso realizar nos ambientes de atendimento à saúde debates e discussões sobre o CP. De fato, para que haja sincronismo entre a equipe multiprofissional é preciso que o tema seja amplamente discutido e evidenciado desde o processo de ensino aprendizagem, em cursos técnicos, de graduação e pós-graduação. Ademais, torna-se relevante para a sociedade em geral que o assunto seja abordado e esclarecido pelos meios de comunicação, de forma coerente com seu significado e importância. A partir do exposto, conclui-se que os CP são importantes para o cuidado integral à criança e ao adolescente. Dessa forma, desenvolver materiais próprios à faixa etária e período de desenvolvimento dos pacientes pode ser uma estratégia interessante de abordagem do tema, visto que assim, poderão compreender sobre sua saúde e lutar pelo maior conforto e melhor cuidado possível. Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n. 10, p. 74424-74438 , oct. 2020. ISSN 2525-8761 74438 REFERÊNCIAS ACADEMIA NACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS (ANCP). ANCP e cuidados paliativos no Brasil, 2017. Disponível em: <https://paliativo.org.br/cuidados-paliativos/cuidados-paliativos- no-brasil/>. Acesso em: 10 jun. 2019. ACADEMIA NACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS (ANCP). Manual de Cuidados Paliativos ANCP. 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WORLDWIDE PALLIATIVE CARE ALLIANCE. Global atlas of palliative care at the end of life, 2014. 46 Residência Pediátrica 2016;6(supl 1):46-54. Cuidados paliativos pediátricos Resumo Simone Brasil de Oliveira Iglesias1, Ana Cristina Ribeiro Zollner2, Clóvis Francisco Constantino3 Pediatric palliative care 1 Médica Pediatra e Intensivista. Assistente da Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos do Hospital São Paulo - Departamento de Pediatria - Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Presidente do Departamento Científico de Dor e Medicina Paliativa da Sociedade Brasileira de Pediatria. Doutora em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Membro do Departamento de Bioética da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Membro da Comissão de Ética Médica e do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital São Paulo – Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP/EPM. 2 Mestre em Saúde Materno Infantil pela UNISA - Universidade de Santo Amaro. Professora de Ética e Bioética do Curso de Medicina UNISA. Membro do Departamento de Bioética da SBP e da SPSP. 3 Primeiro vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Doutor em Bioética pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). Professor de Ética Médica e Bioética da Universidade de Santo Amaro (UNISA). Membro do Conselho de Curso da UNISA. Presidente do Departamento de Bioética da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Endereço para correspondência: Clóvis Francisco Constantino. E-mail: clovisbioped@hotmail.com. Em Pediatria, os cuidados paliativos são aqueles que previnem, identificam e tratam crianças que sofrem com doença crônica, progressiva e avançada, suas famílias e equipes que os atendem. Eles são apropriados, em qualquer fase da doença, e oferecem mais vantagens quando oferecidos cedo, juntamente com outras terapêuticas orientadas para curar ou controlar a doença subjacente. Abstract In Pediatrics , Palliative Care are those that prevent , identify and treat children suffering with chronic, progressive and advanced , their families and Health teams that serve them. They are suitable, in any phase of the disease. However, PC offer further advantages as offered earlier , along with other targeted therapies to cure or control the underlying disease. Palavras-chave: cuidados paliativos, manejo da dor, comunicação, espiritualidade, luto. Keywords: palliative care, pain management, communication, spirituality, grief. ARTIGOS DE REVISÃO 47 Residência Pediátrica 2016;6(supl 1):46-54. “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.” Fernando Pessoa 1 – DEFINIÇÃO O termo palliare tem origem no latim e significa proteger, amparar, cobrir, abrigar. Essa nominação traz uma nova perspectiva à Medicina ocidental tradicional: a de cuidar, para além de curar. Entende-se por paliação o alívio do sofrimento do doente e, por ação paliativa, qualquer medida terapêutica, sem intuito curativo, que visa diminuir as repercussões negativas da doença sobre o seu bem-estar global. Com esta perspectiva, em 2002 a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu que “Cuidados Paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, da identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais”. Em Pediatria, os Cuidados Paliativos são aqueles que previnem, identificam e tratam crianças que sofrem com doença crônica, progressiva e avançada, suas famílias e equipes que os atendem. Eles são apropriados, em qualquer fase da doença, e oferecem mais vantagens quando oferecidos cedo, juntamente com outras terapêuticas orientadas para curar ou controlar a doença subjacente. Ato contínuo, têm o compromisso de promover o bem-estar do paciente, permitindo trabalhar o conceito de morte sem dor, em paz, de maneira digna, sem tirar da pessoa qualquer outra possibilidade existencial. 2 - ASPECTOS HISTÓRICOS O resgate do conceito de Cuidados Paliativos data do século V, com os hospices, abrigos (hospedarias) destinados a receber e cuidar de peregrinos e viajantes. Na Europa, estes locais eram organizados por instituições religiosas católicas e protestantes que, no século XIX, passaram a ter características de hospitais. Em 1905, em Londres, foi fundado o St. Joseph’s Hospice por uma ordem religiosa irlandesa. O Movimento Hospice Moderno foi iniciado no Reino Unido por Cicely Saunders, médica e humanista, com a criação do St. Christopher’s Hospice (1967), e se disseminou pelo mundo uma nova filosofia sobre o cuidar, contendo dois elementos fundamentais que pregavam o controle efetivo da dor e de outros sintomas decorrentes dos tratamentos em fase avançada das doenças e o cuidado abrangendo as dimensões psicológicas, sociais e espirituais de pacientes e suas famílias. Na década de 1970, o encontro de Cicely Saunders com Elisabeth Kluber-Ross, nos Estados Unidos, fez com que o Movimento Hospice também crescesse naquele país. Assim, começou a ser introduzido um novo conceito de cuidar e não só curar, focado no paciente até o final de sua vida. Também no Reino Unido, em 1982, foi fundado o primeiro hospice pediátrico, o Helen House, em Oxfordshire. Em 1982, o Comitê de Câncer da Organização Mundial da Saúde (OMS) criou um grupo de trabalho responsável por definir políticas para o alívio da dor e cuidados paliativos (CP). A OMS publicou sua primeira definição de CP em 1990: “cuidado ativo e total para pacientes cuja doença não é responsiva a tratamento de cura. O controle da dor, de outros sintomas e de problemas psicossociais e espirituais é primordial.” Essa definição foi revisada em 2002 e substituída pela atual. No Brasil, os cuidados paliativos foram normatizados a partir da Portaria 3535, de 2 de setembro de 1998, que realizou o cadastramento de todas as instituições que trabalhavam com cuidados paliativos em oncologia. Depois dela, a portaria nº 19, de 3 de janeiro de 2002, inseriu no Sistema Único de Saúde (SUS) o Programa Nacional de Assistência à Dor e Cuidados Paliativos. Além desses, a portaria nº 1, de 23 de julho de 2002, criou no SUS os Centros de Referência em Tratamento da Dor, e a portaria nº 881, de 19 de julho de 2001, instituiu o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar que dá subsídios à implementação de serviços de cuidados paliativos no país. 3 - ASPECTOS BIOÉTICOS E PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS Para aquelas crianças portadoras de doenças limitadoras ou ameaçadoras à vida, durante o curso da vida podem-se identificar dois momentos distintos: a fase inicial da vida, quando o foco recai sobre a Medicina preventiva e curativa, e o momento em que a morte torna-se inevitável. Inicialmente, a conduta médica deve fazer prevalecer a beneficência, sem esquecer a autonomia do paciente e sua família. A não maleficência situa-se como um valor ético secundário neste momento: aqui se justificam medidas invasivas, ainda que causem algum grau de sofrimento, pois o primeiro objetivo neste momento é a preservação da vida. Na fase em que a morte torna-se inevitável, prevalece a Medicina paliativa e a prioridade se torna o alívio do sofrimento, a não maleficência. No caso de crianças e pacientes com incapacidade mental, o princípio da autonomia deve ser exercido pela família ou seu responsável legal, buscando a defesa dos seus melhores interesses. O princípio da justiça, considerado um mínimo ético, deve sempre reger as condutas médicas, havendo bom senso na priorização e indicação dos recursos terapêuticos em cada fase. A indicação de cuidados paliativos se estende inclusive ao período neonatal. 48 Residência Pediátrica 2016;6(supl 1):46-54. Os Cuidados Paliativos inicialmente tinham como prioridade os pacientes adultos com doença oncológica. Os Cuidados Paliativos Pediátricos se diferenciam dos em adultos em vários aspectos e se caracterizam por terem algumas particularidades, quais sejam: - O número de crianças que morre em Cuidados Paliativos Pediátricos é baixo em relação ao Cuidado Paliativo em pacientes adultos. - Os diagnósticos pediátricos geralmente são raros e ocorrem apenas da infância, entretanto, algumas crianças podem sobreviver até a idade adulta. - O período de intervenção dos Cuidados Paliativos em Pediatria é diferente dos em adultos, podendo incluir dias, meses ou muitos anos. - As doenças muitas vezes são familiares e há mais de um filho afetado, necessitando de aconselhamento genético. - Os cuidados geralmente envolvem toda a família, sendo os irmãos especialmente vulneráveis. - Os pais experimentam situação de ambiguidade, apresentando dor antecipatória pela provável perda e são, simultaneamente, também os cuidadores da criança. - As doenças ocorrem em fase da vida em que há grande desenvolvimento físico, emocional e cognitivo, sendo essencial garantir a continuidade do processo educativo. É importante também estar atento no quanto a doença pode refletir na capacidade da criança de se comunicar e compreender sua situação patológica e a morte. Os Cuidados Paliativos Pediátricos, como um campo específico de saúde, ampliam alguns aspectos em relação aos Cuidados Paliativos de adultos: • consistem no cuidado ativo e abrangente com o corpo, mente e espírito da criança, proporcionando apoio à família. • começam no momento do diagnóstico e continuam ao longo da doença, independentemente de a criança receber ou não tratamento para controlar a doença subjacente. • exigem que os provedores de saúde avaliem e aliviem o sofrimento físico, psicológico e social da criança. • requerem uma abordagem ampla e interdisciplinar. • incluem a família e fazem uso de recursos disponíveis na comunidade; podem ser implementados com sucesso, mesmo que os recursos sejam limitados. • podemser fornecidos em instituições de qualquer nível de cuidados ou lares de idosos ou em casa. • devem ser adaptadas ao nível de desenvolvimento da criança e conforme os valores familiares. A OMS propôs os seguintes princípios para orientar a prática dos cuidados paliativos em geral (adultos e crianças). Os Cuidados Paliativos: • proporcionam alívio da dor e outros sintomas que causam sofrimento. • afirmam vida e consideram a morte como um processo natural. • não são destinados nem para apressar nem para adiar a morte. • integram os aspectos psicológicos e espirituais da assistência ao paciente. • fornecem um sistema de apoio para ajudar os pacientes a viver tão ativamente quanto possível até a morte. • fornecem um sistema de apoio para ajudar a família a atravessar o processo de doença do paciente e o próprio luto. • usam uma abordagem em equipe para atender as necessidades dos pacientes e suas famílias, incluindo seguimento do luto. • melhoram a qualidade de vida e também podem influenciar positivamente o curso da doença. • são aplicáveis desde as fases iniciais da doença, juntamente com outras terapias dirigidas à doença subjacente, e incluem as investigações necessárias para compreender e gerir complicações clínicas que causam sofrimento. 4 - PACIENTES ELEGÍVEIS Na América Latina, geralmente se utiliza a classificação desenvolvida pela Associação Pediátrica para Cuidados Paliativos (ACT) e do Royal College de Pediatria e Saúde da Criança (RCPCH) no Reino Unido. Esta classificação divide os pacientes em quatro grupos de acordo com o curso clínico esperado. São eles: I) Condições para as quais o tratamento curativo é possível, mas pode falhar. Exemplos: doenças oncológicas progressivas, avançadas ou com prognóstico reservado, cardiopatias congênitas complexas ou adquiridas e doenças candidatas a transplante. II) Condições sem chances realistas de cura da doença, mas cuja sobrevivência pode ser prolongada significativamente (por tratamentos intensivos que permitem longos períodos de atividade normal). Exemplos: infecção pelo HIV, fibrose cística, distrofia muscular progressiva, insuficiência respiratória crônica, imunodeficiências graves e epidermólise bolhosa grave. III) Doenças progressivas sem chances realistas de cura (deterioração progressiva a partir – ou antes – do diagnóstico). Exemplos: doenças metabólicas progressivas, osteogênese imperfecta grave, doenças neurodegenerativas. 49 Residência Pediátrica 2016;6(supl 1):46-54. IV) Doenças não progressivas, mas irreversíveis (com altas chances de causar morte prematura devido a complicações). Exemplos: encefalopatia crônica não progressiva, anoxia grave, malformações cerebroespinhais graves, sequela de trauma grave. 5 – PILARES DOS CUIDADOS PALIATIVOS PEDIÁTRICOS a) Manejo da dor e outros sintomas Pilar do Cuidado Paliativo Pediátrico: alívio do sofrimento por meio de manejo adequado dos sintomas físicos e dos agravos emocionais de pacientes e familiares. Em 1967, Cicely Saunders formulou o conceito de dor total, que inclui o sofrimento físico, psíquico, espiritual, mental, social e financeiro do paciente, abrangendo também o sofrimento dos familiares e da equipe médico-hospitalar. Assim, a Academia Americana de Pediatria considera que o sofrimento social, espiritual e emocional do paciente pode influenciar a experiência dos sintomas. Os principais sintomas físicos pediátricos são dor, anorexia, fadiga, dispneia, sintomas gastrointestinais, sintomas psíquicos, dentre outros. A Associação Internacional para o Estudo da Dor (International Association for the Study of Pain” – I.A.S.P.), conceitua a dor como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a lesões teciduais reais ou potenciais ou descrita em termos de lesões teciduais. O manejo adequado da dor é fundamental para o cuidado, sendo ponto inicial para toda abordagem posterior. Na investigação dos parâmetros de dor é importante identificar suas características (localização, intensidade, qualidade, duração, frequência e sintomas associados); fatores de alívio e de agravo; uso e efeito de medidas farmacológicas e não farmacológicas; formas de comunicar/expressar a dor; experiências anteriores traumatizantes e medos; habilidades e estratégias de enfrentamento; comportamentos da criança no ambiente familiar; efeitos da dor na vida diária; impacto emocional e socioeconômico. No manejo da dor, é importante seguir os seguintes passos: • 1º Passo: Avaliação e Explicação da dor • 2º Passo: Manejo terapêutico e Monitoramento • 3º Passo: Atenção aos detalhes A avaliação da dor deve ser realizada regularmente, com o uso de escalas adequadas para cada faixa etária e situação clínica. Há que se ressaltar que as escalas podem ser de difícil utilização em algumas situações clínicas, como nas crianças sedadas, com restrição de movimentos, ou submetidas à intubação traqueal. No período neonatal, utiliza-se habitualmente a escala NIPS (Neonatal Infant Pain Scale) para prematuros e recém- nascidos de termo; PIPP (Premature Infant Pain Profile) na avaliação da dor em procedimentos e N-PASS (Neonatal Pain, Agitation & Sedation Scale) para recém-nascidos em ventilação assistida. Para crianças menores de 4 anos ou com dificuldade de verbalização da dor, utiliza-se a escala “Face, Legs, Activity, Cry, Consolability” (FLACC). Para crianças maiores de 4 a 6 anos, utiliza-se a Escala Facial de Dor - Revisada (FPS-R) e, a partir de 6 anos, pode ser utilizada a escala EVA (Escala Visual Analógica), dentre outras. O tratamento dos sintomas deve incluir abordagens não farmacológicas e farmacológicas. O tratamento farmacológico da dor inclui drogas analgésicas não opiáceas, opiáceas e adjuvantes (antidepressivos, anticonvulsivantes, corticoides). A OMS revisou a escala analgésica de dor para a população pediátrica em 2012, dando preferência a pequenas doses de opioides fortes ao invés da utilização de opioides fracos como codeína e tramadol, quando os analgésicos não opioides forem insuficientes para o alívio da dor. Os principais aspectos desta orientação terapêutica são: a) Uso de estratégia bifásica, dependendo da intensidade da dor medida (“by analgesic ladder”); b) A dose apropriada de analgésico que efetivamente alivia a dor, de forma individualizada (“by the child”); c) Uso de via de administração de medicação apropriada, evitando vias dolorosas ou invasivas (“by appropriate route”); d) Intervalos de administração regularmente definidos, com doses adicionais para tratar a dor incidental quando necessário (“by the clock”). Desta forma, a OMS recomenda para crianças: - Paracetamol e ibuprofeno são os fármacos de eleição na dor leve. Ambos devem estar disponíveis para esta primeira fase de tratamento. Em menores de 3 meses, usar apenas paracetamol. - Opioides são os fármacos de eleição na dor de intensidade moderada a grave. A primeira opção é a morfina, porém devem ser consideradas outras opções quando seus efeitos colaterais forem intoleráveis. A seleção de analgésicos opioides alternativos à morfina deve ser guiada por considerações de segurança, disponibilidade, custo e adequação. - O tratamento com opioide deve ser individualizado e ajustado de forma progressiva. - Quando a dor for constante, deve-se administrar o fármaco em intervalos regulares e não de acordo com a “demanda”, vigiando os efeitos colaterais. Dores intermitentes e intercorrentes podem ser tratadas com doses de resgate. - A via de administração deve ser a mais simples, mais eficaz e menos dolorosa, em geral a via oral. Quando a via oral não está disponível, a 50 Residência Pediátrica 2016;6(supl 1):46-54. escolha de vias alternativas de administração (IV, SC, retal ou transdérmica) deve ser baseada no julgamento clínico, a disponibilidade, a viabilidade e preferências dos pacientes. Evitar a via intramuscular. - Recomenda-se a troca de opioides e/ou via de administraçãoquando houver um efeito analgésico insuficiente com efeitos secundários intoleráveis. A rotação sistemática de opioides não é recomendada. O aspecto não farmacológico do tratamento dos sintomas inclui intervenções integrativas, como técnicas psicoterapêuticas/comportamentais (relaxamento, hipnose, imaginação terapêutica, meditação, musicoterapia, arteterapia, yoga), físicas (massagem, estimulação nervosa elétrica transcutânea - TENS, posicionamento, calor/frio), e terapias energéticas (acupuntura, Reiki, toque terapêutico), dentre outras. A escolha terapêutica deve seguir critérios clínicos individuais. É fundamental manter uma atitude proativa em relação ao tratamento dos sintomas e efeitos colaterais das medicações, antecipando-os tanto quanto possível, e garantindo boa comunicação com a criança e sua família. b) Processos de comunicação e de decisão Processo de Comunicação Comunicar significa “tornar comum” e pressupõe a compreensão e entendimento entre as partes envolvidas. Capacidade de trocar ou discutir ideias, de dialogar, com vista ao bom entendimento entre pessoas. Contrapõe-se a informar, que significa dar informe ou parecer; instruir, avisar e cientificar. A comunicação eficaz dá-se a partir de uma relação médico-paciente/família harmônica, equilibrada, respeitosa e tolerante. O comunicador deve ser capaz de ouvir, respeitar os valores e incluir o outro nas decisões referentes à sua própria vida. Humildade, transparência, paciência, segurança e boa didática são elementos para uma boa comunicação. O profissional de saúde deve respeitar e reconhecer o grau de compreensão e absorção do paciente e sua família; enfim, sua competência. Deve favorecer a tomada de decisões autônomas, livres e sem influências externas, quando estas se tornarem necessárias. Seu papel é auxiliar o paciente e/ ou família a eleger, dentre todos os valores relacionados com a saúde, aqueles que forem os melhores para eles, aceitando suas escolhas e acompanhando-os durante o tratamento, ainda que estas escolhas estejam embasadas em valores e crenças diversas das do profissional. A comunicação entre seres humanos é complexa e ocorre em três níveis: - verbal (as palavras); - paraverbal (como falamos – silêncios, sons, ênfases, pausas entre frases e palavras); - não verbal (expressões faciais, posturas corporais, toque, distâncias interpessoais, gestos). Alguns sinais podem ser identificados como ausência de compreensão da mensagem: negar com a cabeça, desviar o olhar, reclinar-se para trás, cruzar os braços, expressões como “não” e “mas”. Outros sinais podem ser percebidos como de compreensão da informação e boa escuta, como: afirmar com a cabeça, olhar atento e com empatia, inclinar o corpo para frente e o uso de expressões como “sim e “claro”. Geralmente, não temos controle voluntário de todos os sinais não verbais e, mesmo quando não dizemos tudo o que pensamos ou sentimos, a sinalização não verbal não consciente expressa as emoções ocultas. A comunicação de más notícias é frequentemente uma situação delicada em Cuidados Paliativos. Ser honesto, porém sem anular as esperanças do paciente, é considerado o aspecto mais difícil referente a este processo. Alguns princípios para a comunicação de uma má notícia: • escolher um momento em que o paciente e o médico estejam descansados e tenham um tempo adequado; • avaliar o estado emocional e psicológico do paciente; • preparar o paciente ou familiar dizendo ter um assunto difícil para discutir; • usar uma linguagem clara e simples; • expressar empatia pela dor do paciente; • ser humanitário tendo compaixão; • dar informação de forma gradual e programar outro encontro posterior; • ser realista evitando minimizar o problema, mas não tirar todas as esperanças; • verificar como pacientes e familiares sentem-se, depois de receber a notícia; • reassegurar a continuidade do cuidado, não importando o que houver; • assegurar que o paciente tenha suporte emocional de outras pessoas. Existem protocolos desenvolvidos para auxiliar os profissionais na tarefa de dar más noticias, visando diminuir os riscos e prejuízos da comunicação não empática. A abordagem SPIKES, protocolo de comunicação em seis passos, coordenada por um grupo de oncologistas norte-americanos, sintetiza as principais diretrizes a serem seguidas pelos profissionais de saúde (Baile, 2000). A seguir, o conceito inerente a cada um destes seis passos: Primeiro passo: “Setting up the interview” (S) 51 Residência Pediátrica 2016;6(supl 1):46-54. Diz respeito ao setting, que aqui pode ser traduzido como contexto. A preparação (preparar a família/paciente dizendo ter um assunto difícil para discutir), o momento (em que a família, o paciente e o médico estejam descansados e tenham tempo para conversar), o local (adequado, reservado, sem que ocorram interrupções) e a diligência (a comunicação deve ser feita o mais precocemente possível, evitando a angústia da espera) fazem parte do setting ideal. Segundo passo: “Accessing the patient’s perception” (P) Acessar as expectativas, percepções e crenças do paciente é possível quando o profissional da saúde coloca-se disponível para ouvir. Aqui, procuramos descobrir o que a família/paciente sabe e o quanto quer saber sobre a doença. Busca-se a compreensão da maneira como o paciente percebe o que está acontecendo com ele e seu grau de prontidão para ouvir as más notícias. Terceiro passo: “Obtaining the patient’s invitation” (I) Estar em sintonia com os desejos do paciente permite ao médico informar na medida em que seja dada abertura para isso. O objetivo é compartilhar a informação de forma gradual, observando a compreensão da família/paciente, verificando como eles se sentem depois de receber a notícia, atentando para a comunicação verbal e não verbal. Quando existe negação e ambivalências, o médico não deve discutir ou se colocar em embate com a família. As ambivalências são comuns neste momento, e o médico deve aceitá-las. No caso de crianças, a comunicação de notícias exige concordância e cumplicidade dos pais. Algumas vezes, estes podem desejar que informações sejam omitidas na intenção de proteger seus filhos. O pediatra deve compreender a situação, ser solidário aos pais, ajudá-los nesta decisão, avaliar o nível de compreensão da criança e facilitar a comunicação entre os pais e a criança. Quarto passo: “Giving knowledge and information to the patient” (K) É função do médico dizer a verdade ao paciente, da melhor maneira possível. A linguagem deve ser clara e simples, se necessário recorrendo a materiais audiovisuais para facilitar a compreensão e a atitude deve ser realista, evitando minimizar o problema. Jamais recorrer a palavras negativas que demonstrem desesperança. Ao informar, procurar dar apoio ao paciente, utilizando habilidades de comunicação que permitam reduzir o impacto emocional e a experiência de isolamento que a má notícia desencadeia no receptor. Quinto passo: “Addressing the patient´s emotions with empathic responses” (E) Avaliando a todo o momento o estado emocional e psicológico da família/paciente, o profissional deve expressar empatia pela sua dor, ser humanitário e ter compaixão, assegurando que haja suporte emocional de outras pessoas, se necessário. A empatia também se expressa em ações, na medida em que estar atento às opiniões e solicitações da família/paciente implica no compromisso do médico em atendê-las sempre que possível. Sexto passo: “Strategy and summary” (S) Ao desenvolver um plano de tratamento que tenha plena cooperação do paciente, não devemos estabelecer limites nem prazos. As decisões devem ser tomadas com cumplicidade e colaboração. Programar encontros posteriores com a família/paciente faz parte do compromisso de envolvimento no processo, dando-lhes segurança da continuidade do cuidado ativo durante todos os estágios da doença, não importando o que houver. TOMADA DE DECISÃO O processodecisório envolve todos os indivíduos comprometidos com o bem-estar da criança, desde os profissionais envolvidos na assistência direta (equipe de saúde), familiares, instâncias administrativas, instituições governamentais, e até os profissionais de comitês hospitalares de bioética. Os pais geralmente possuem fortes vínculos afetivos e preocupações com seus filhos, por isso, acredita-se que sejam as pessoas mais capazes de reconhecer e lutar pelos seus interesses. Estão também comprometidos com a dinâmica familiar e com o desenvolvimento biopsicossocial, afetivo, espiritual e cultural de suas crianças. Entretanto, a reflexão sobre a morte, o risco de vida ou o sofrimento de um filho é de profunda complexidade e dolorosa para os pais que, frequentemente, se encontram em fase de negação, e podem experimentar sentimentos contraditórios, tristeza, raiva e culpa. Por estarem envolvidos no processo decisório lidando com a incerteza e sem vivência prévia deste tipo de situação, precisam ter confiança na equipe de saúde. Os profissionais de saúde tendem a crer que devem “proteger” os pais das situações complexas e dos dilemas éticos que envolvem seus filhos. Esta atitude protetora procura evitar sentimentos de culpa ou remorso dos pais em situações de desfechos fatais ou indesejáveis. Entretanto, serão os pais e familiares que lidarão diariamente com as decisões que não lhes couberam inicialmente e com todas as suas implicações médicas e não médicas. O sujeito do tratamento (paciente e família) deve ser percebido como um ser biopsicossocial e cultural singular, com suas expectativas, susceptibilidades, angústias e temores neste momento de grande vulnerabilidade. No Modelo Deliberativo da relação médico-paciente/ família, a atitude ideal do profissional de saúde é integrar informação e valores para realizar uma recomendação terapêutica, favorecendo o diálogo, a autonomia do paciente e a reflexão. Durante este processo de deliberação conjunta e humanizada, o desenvolvimento moral de cada indivíduo é favorecido. Vale ressaltar que os valores dos profissionais de 52 Residência Pediátrica 2016;6(supl 1):46-54. saúde são importantes para o paciente e servem como base para que o eleja como seu cuidador. Diferenças socioculturais e religiosas entre os pais e os profissionais podem dificultar o processo de comunicação e, em uma relação assimétrica de poder, pode haver desvalorização das opiniões da família. Respeitar as diferenças, sem pré-julgamento e com empatia, independentemente do diagnóstico ou prognóstico do paciente, é fundamental para a construção uma relação de confiança mútua. As crianças, do ponto de vista legal, no Brasil, são consideradas autônomas para tomar decisões sobre suas vidas apenas após os 18 anos. A determinação deste limite de idade pode não estar em equilíbrio com o desenvolvimento etário, cognitivo e maturidade. A percepção da autonomia da criança e do adolescente, permitindo-lhes a manifestação de sua plena capacidade, promove dilemas entre beneficência e autonomia. Crianças com doenças crônicas encontram-se em situação ainda mais delicada, pois é comum que pais e profissionais negligenciem sua crescente habilidade em participar de decisões. Entretanto, é essencial o acompanhamento desta evolução, levando em conta a maturidade e percepção para conceder o adequado respeito à autodeterminação destes indivíduos. Os limites entre a dependência e a independência e a competência e a incompetência são frequentemente pouco nítidos. Além dos desejos dos pais e da criança, os profissionais de saúde possuem a obrigação ética e legal de salvaguardar o “melhor interesse” de seu paciente, de acordo com sua idade e maturidade. Qualquer discussão relacionada aos cuidados às crianças deve incluir os aspectos éticos, legais, sociais, contextuais, culturais e do desenvolvimento individual. O processo decisório, realizado de forma compartilhada entre pais e profissionais de saúde, é considerado a estratégia ideal para promover as melhores escolhas possíveis em situações complexas e difíceis. Esta atitude requer respeito e compreensão pelo momento delicado e difícil da família, bem como plena consciência de seus direitos de decisão. c) Espiritualidade A espiritualidade e religiosidade são aspectos fundamentais no acompanhamento de pacientes com doenças graves e limitantes, bem como no fim de vida. Estas podem influenciar no processo de significação e enfrentamento da doença, bem como em suas decisões referentes ao tratamento proposto. Religião e espiritualidade não são termos intercambiáveis. Espiritualidade é aquilo que dá sentido e propósito à vida de um indivíduo. Para Jung (1986), ela se refere a uma relação transcendental da alma com a divindade e à mudança que daí resulta, ou seja, espiritualidade está relacionada a uma atitude, a uma ação interna, a uma ampliação da consciência, que pode acontecer, por exemplo, pela oração, mentalização ou meditação. Os indivíduos podem estar em contato com sua espiritualidade por meio de rituais religiosos formais ou mediante a interação com a natureza, a humanidade ou às artes. Religião geralmente se refere a um sistema de fé organizado em crenças, práticas, rituais e linguagem que caracteriza uma comunidade em busca de sentido transcendente de uma maneira particular, geralmente se baseiam na crença a um ser divino. A religião representa apenas uma das muitas formas de expressão espiritual. Uma enfermidade grave constitui uma crise para o espírito e surgem perguntas espirituais sobre o sentido da vida. Questões ambíguas sobre a existência humana não respondidas pela nossa capacidade racional e pragmática ganham sentido quando desenvolvemos o aspecto espiritual, fazendo com que o indivíduo entre em contato com sentimentos e pensamentos superiores, fortalecendo a personalidade e gerando mecanismos mais amadurecidos para lidar com as adversidades. Na abordagem a pacientes em Cuidados Paliativos, se não se alivia a dor, a mente se vê assoberbada de pensamentos negativos e obsessivos, havendo pouco espaço para ocupar-se de pensamentos espirituais. Portanto, após o controle adequado dos sintomas, é importante abordar as questões emocionais e espirituais. As crianças podem expressá-las pela linguagem verbal e não verbal, de acordo com sua personalidade e grau de amadurecimento. Em geral, a esfera espiritual, que só emerge na adolescência, começa a surgir prematuramente para compensar a perda da capacidade física. Entretanto, é comum que a equipe não aborde a questão da religiosidade/espiritualidade por não saber como o fazer, deixando de lado, assim, uma esfera importante do cuidado. A “anamnese” espiritual é o espaço onde o paciente e a família podem contar sua história e partilhar os seus valores. É também o lugar que ajuda a revelar quais as fontes de força e esperança, além dos mecanismos de enfrentamento e resiliência que eles já possuem. São informações valiosíssimas para o planejamento da abordagem multidisciplinar terapêutica. Devemos identificar as preocupações dos pacientes, suas angústias, crenças, medos e sofrimento espiritual. Para abordar os aspectos espirituais em crianças em Cuidados Paliativos, Davies sugere algumas questões como: - O que é mais difícil em estar doente como você está? - Quem ou o que lhe dá o maior apoio para lidar com a sua doença? - O que lhe dá uma sensação de esperança? - Por que você acredita você está doente? (às vezes, crianças/adolescentes pensam que é por causa de algo que eles fizeram). Você já se perguntou sobre isso? - Como você acha que “Deus” (ou usar o nome de Alá ou Buda, conforme o caso) é? (qual brinquedo, 53 Residência Pediátrica 2016;6(supl 1):46-54. objeto, animal que a criança tem que lhe lembra de como é Deus?) - Como você acha que Deus se sente sobre a doença? - O que assusta você, quando você pensa sobre o futuro? Sabe-se que a espiritualidade/religiosidadepodem ajudar as pessoas lhes dando senso de controle e força, reconciliando-as consigo mesmas e com os outros, e principalmente, na ressignificação da morte. Esse processo de aceitação é fundamental no fim da vida. d) Multidisciplinaridade O ser humano nasce num ambiente socialmente organizado, interligado interpessoalmente, onde nada é executado só. Cuidado Paliativo, cujo objetivo é a abordagem das dimensões física, psíquica, emocional, social, cultural e espiritual do ser humano, é um conjunto de atos multiprofissionais. Desta forma, é necessária uma abordagem ampla que requer profissionais especializados e treinados nestas diversas esferas do indivíduo. A equipe multiprofissional deve ser composta pelos seguintes profissionais: médico, enfermeiro, assistente social, capelão/assistente espiritual, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, nutricionista, profissional de psicologia (psicólogo, psicoterapeuta, psiquiatra, psicanalista); fonoaudiólogo, pedagogo, odontólogo, farmacêutico, profissionais de arteterapia, profissionais de musicoterapia, dentre outros profissionais que podem cooperar com o cuidado holístico da criança e sua família. Estes profissionais devem atuar de forma interdisciplinar com reciprocidade, enriquecimento mútuo, tendência à horizontalização das relações de poder, e favorecendo a troca entre as áreas de conhecimento, participando da tomada de decisões e do plano terapêutico. Importante ressaltar o papel fundamental do Cuidador Informal (mãe, pai, avós, etc.), na abordagem paliativa, auxiliando na garantia de uma terapia mais integral e com conforto e amor para a criança com doença ameaçadora de vida. 6 – SUPORTE AO LUTO Luto é o conjunto de reações a uma perda significativa. Pais de crianças que estiveram em programas de Cuidados Paliativos e durante o processo participaram da tomada de decisões, se envolveram no cuidado e estabeleceram boa comunicação com a equipe, têm melhor chance de ressignificar a morte e elaborá-la de maneira menos patológica. Em Cuidados Paliativos, o processo de luto se inicia no momento em que é recebido o diagnóstico de uma doença ameaçadora de vida, com consequentes perdas concretas ou simbólicas que essa doença possa trazer para a pessoa e sua família. Portanto, o luto antecipatório é um processo que vai aos poucos sendo elaborado pela família à medida que se vivencia o adoecer e a terminalidade. E, neste contexto, a família vivencia a ambiguidade entre a ameaça da perda e a necessidade de cuidado pela vida de seu filho. Segundo Franco (2008), neste processo de enfrentamento da doença há fatores facilitadores, quais sejam: uma adequada comunicação com a equipe profissional e entre os membros da família; estrutura familiar flexível que permita reajuste de papéis, participação nas diferentes fases, para obter senso de controle, conhecimento dos sintomas e ciclo da doença e sistemas de apoio informal e formal disponíveis. Por outro lado, fatores complicadores como padrões disfuncionais de relacionamento, interação, comunicação e solução de problemas, sistemas de suporte formal e informal não existentes ou ineficientes, outras crises familiares simultâneas à doença, falta de recursos econômicos e sociais, cuidados médicos de pouca qualidade e dificuldades na comunicação com a equipe médica e a presença de doenças estigmatizantes podem comprometer o processo de luto. É importante que criança e família tenham apoio psicológico e espiritual, podendo resignificar a vida, o processo de doença e a morte. A criança deve se sentir parte importante e amada do núcleo familiar, e não um peso. Deve-se percebê-la e dar voz aos seus sentimentos, evitando o silêncio e o isolamento (Conspiração do silêncio). Após a morte, a família necessitará de apoio e tempo de elaboração, e é função da equipe estar disponível e apoiar as dores geradas, oferecendo espaços empáticos para a colocação e o trabalho psicoterapêutico dos sentimentos de luto. Neste sentido, é função da equipe de Cuidados Paliativos: - Desenvolver intervenções para tratar a dor dos pais e promover habilidades de enfrentamento; - Desenvolver grupos de apoio ao luto para melhor atender às necessidades dos pais que perderam sua criança; - Valorizar a disponibilidade de grupos de apoio ao luto para aumentar a participação dos pais após a morte de uma criança; - Encorajar e apoiar atos de gentileza dos profissionais e comemoração durante o período de luto. 7 - COMENTÁRIOS FINAIS Os Cuidados Paliativos são uma realidade importante e um avanço na Medicina como um todo. O ato de cuidar do paciente, dentro de suas limitações e anseios, é basilar na assistência às crianças e adolescentes. Além disso, a participação da família e da equipe multiprofissional no conjunto das ações a serem implementadas nos conduz a um caminho em que as ações conjuntas imprimem qualidade à assistência prestada ao pequeno paciente, baseados nos princípios do conhecimento, do respeito e da dignidade. 54 Residência Pediátrica 2016;6(supl 1):46-54. O conceito de cuidado nos leva a entender a ter cautela, algo que implica em não fazer algo que poderia prejudicar alguém ou alguma coisa. Por tal motivo, a concepção de Cuidado Paliativo é tão nobre, um direito humano de elevada relevância a ser posto em prática. O Cuidado Paliativo abrange um elenco importantíssimo de cuidados paliativos técnicos, científicos e humanitários que, como vimos, são multiprofissionais e interdisciplinares. De forma óbvia, a Medicina está nessa multiprofissionalidade e interdisciplinaridade. A Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) 1973/2011, publicada no Diário Oficial da União, criou, nessa época, três novas áreas de atuação médica: medicina do sono, medicina paliativa e medicina tropical. Área de atuação é um ramo de uma ou mais especialidades médicas. A resolução do CFM associa a área de Medicina paliativa às especialidades Clínica Médica, Cancerologia, Geriatria e Gerontologia, Medicina de Família e Comunidade, Pediatria e Anestesiologia. Os Cuidados Paliativos Pediátricos, título deste artigo, além de constituírem imprescindível área de concentração de conhecimentos, bem como de reflexão e consensos éticos e bioéticos, estão normatizados na configuração formal da Medicina brasileira. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 1. Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Manual de Cuidados Paliativos. Rio de Janeiro: Diagraphic; 2009. 2. American Academy of Pediatrics. Committee on Bioethics and Committee on Hospital Care. Palliative care for children. 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MÓDULO 4 725 Art igo s O rig ina is / O rig ina l A rtic les Percepções sobre envelhecer e adoecer: um estudo com idosos em cuidados paliativos Perceptions of aging and falling ill: a study with elderly persons in palliative care Mariana dos Santos Ribeiro1 Moema da Silva Borges¹ 1 Universidade de Brasília, Programa de Pós-graduação em Enfermagem. Brasília, Distrito Federal, Brasil. Correspondência Mariana dos Santos Ribeiro smarianaribeiro@gmail.com Resumo Objetivo: apreender as percepções de idosos, em cuidados paliativos, sobre o enfrentamento do envelhecer e adoecer. Método: estudo exploratório, descritivo, de natureza qualitativa. Participaram do estudo 11 idosos em cuidados paliativos, devido à doença oncológica. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, analisadas com auxílio do software ALCESTE. Resultados: a partir da análise de conteúdo, foram identificados dois eixos. O primeiro, Resistir para Sobreviver e Viver possui duas categorias: a primeira, envelhecer com integridade retrata a percepção positiva que os participantes possuíam do processo de envelhecimento e as estratégias de enfrentamento por eles utilizadas para lidar com o envelhecer e adoecer; a outra categoria, o desenvolvimento resiliente, faz menção às trajetórias de vida dos participantes e as adversidades do processo de desenvolvimento e envelhecimento. O segundo eixo, Resistir para Morrer bem, possui uma única categoria e faz referência às percepções dos idosos acerca do estresse relacionado ao adoecimento. Conclusão: os resultados evidenciam que as percepções sobre envelhecer e adoecer foram de resiliência, já que os participantes focaram em ganhos em vez das perdas. Neste contexto, utilizaram estratégias de enfrentamento resilientes: o suporte espiritual, a reestruturação cognitiva e a aceitação. Abstract Objective: to learn the perceptions of elderly persons in palliative care regarding coping with aging and illness. Method: an exploratory, descriptive, qualitative study was carried out. The study included 11 elderly persons in palliative care because of oncologic disease. Semi-structured interviews were carried out which were analyzed with the aid of the ALCESTE software. Results: two axes were identified from the content analysis. The first, Resist to Survive and Live, has two categories: the first, aging with integrity, portrays the positive perception of the participants regarding the aging process, and coping strategies used to deal with aging and with illness; the other category, resilient development, refers to the life trajectories of the participants and the adversities of the process of development and aging. The second axis, Resist to Die Well, has only one category and refers to the Palavras-Chave: Envelhecimento. Oncologia. Cuidados Paliativos. Adaptação Psicológica. Resiliência Psicológica. http://dx.doi.org/10.1590/1981-22562018021.180139 Keywords: Aging. Medical Oncology. Palliative Care. Adaptation, Psychological. Resilience, Psychological. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., Rio de Janeiro, 2018; 21(6): 725-734 726 INTRODUÇ ÃO O envelhecimento é o principal fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas, incluindo o câncer. As neoplasias representam mais de 45% dos óbitos em indivíduos acima de 80 anos, com tendência a um aumento gradativo de suas taxas de mortalidade1. O câncer afeta o corpo, a mente, o bem-estar social, as relações familiares e o espírito. Em virtude dessa complexidade, o cuidado ao paciente oncológico requer uma abordagem que extrapole as necessidades biológicas e proporcione uma terapêutica integral, com inclusão dos componentes psicológicos, sociais e espirituais2. Dificilmente as dimensões psico-sócio-espirituais ocupam lugar de destaque na assistência aos idosos portadores de doenças oncológicas que ameaçam a vida; as terapêuticas focam, sobretudo, no aumento da sobrevida e provocam sofrimento. A fim de transtornar esta perspectiva para uma visão de alívio, se insere a filosofia dos cuidados paliativos3. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define os cuidados paliativos como uma abordagem que busca proporcionar a melhor qualidade de vida possível para pacientes e familiares que enfrentam doenças que ameaçam a vida por meio do alívio do sofrimento, tratamento da dor e de outros problemas físicos, psicológicos e espirituais4. Na velhice, umas das causas de sofrimento psico- sócio-espiritual consistem nas perdas sucessivas ao longo da vida que incluem: a consciência da própria finitude, perda na saúde e/ou capacidade física, perda na qualidade das relações emocionais, a morte de entes queridos, menor integração social, redução da qualidade de vida em um sentido material e redução da qualidade de vida em um sentido cognitivo5,6. Toda perda gera uma reação denominada luto que pode ser vivenciado diferentemente por cada idoso a depender de suas características prévias de personalidade, estilo de vida, a história das perdas e dos recursos internos e externos utilizados para lidar com elas7. Nesta perspect iva, pode-se dizer que a capacidade para adaptar-se às perdas decorrentes do envelhecimento e de seus desafios, incluindo o adoecimento, depende necessariamente da resiliência desenvolvida ao longo da trajetória de vida de cada pessoa8,9. A resiliência consiste na capacidade de resistir às adversidades com flexibilidade e adaptação. Quando compreendida como um processo que se desenvolve ao longo da vida, a resiliência é interpretada como uma ponte entre os processos de enfrentamento e desenvolvimento8,10. Por sua vez, oenfrentamento consiste na resposta frente a um agente estressor, sendo que, na velhice, as experiências passadas de enfrentamento funcionam como um guia para lidar com situações estressoras atuais9. Neste contexto, o presente estudo visa responder a seguinte questão norteadora: Como idosos em cuidados paliativos enfrentam o envelhecer e adoecer? Espera-se sensibilizar profissionais da saúde para a importância de realizar a escuta da trajetória de vida das pessoas idosas a fim de compreender as estratégias de enfrentamento já utilizadas em situações de perdas pregressas, com a finalidade de auxiliar os profissionais a prestar um cuidado personalizado e qualificado. Diante do exposto, o objetivo desse estudo foi apreender as percepções de idosos em cuidados paliativos sobre o enfrentamento do envelhecer e adoecer. MÉTODO Trata-se de um estudo exploratório, transversal, descritivo, de natureza qualitativa. A escolha pelo delineamento qualitativo deveu-se ao fato de sua adequação às pesquisas que buscam compreender os participantes a partir do significado que eles perceptions of the elderly about the stress related to illness. Conclusion: the results show that the perceptions of aging and falling ill involved resilience, as the participants focused on what they had gained rather than their losses. In this context, they used resilient coping strategies: spiritual support, cognitive restructuring, and acceptance. Percepções sobre envelhecer e adoecer 727 atribuem às suas experiências, assim como o objetivo do presente estudo11. Os dados foram coletados ao longo dos meses de agosto e dezembro de 2016 na Clínica Médica e no Centro de Alta Complexidade em Oncologia de um Hospital Universitário em Brasília - Distrito Federal (DF). Participaram do estudo 11 idosos em cuidados paliativos portadores de doença oncológica. Os critérios de inclusão foram: pessoas com idade igual ou superior a 60 anos que possuíam registro de acompanhamento paliativo de doença oncológica em prontuário. Foram excluídas as pessoas com dificuldade de verbalização, de expressão e de organização das ideias. Os dados foram coletados em três momentos distintos de encontros entre a pesquisadora e o participante: 1) Conversa inicial sobre a história de vida do participante a fim de favorecer o rapport entre ele e a pesquisadora, esse passo serviu como preparo para os momentos subsequentes. 2) Aplicação de questionário sociodemográfico para delineamento do perfil. 3) Entrevista com roteiro semiestruturado, elaborado após extensa revisão da literatura em sete bases de dados e que incluiu temas sobre envelhecimento, adoecimento e enfrentamento12. As entrevistas foram realizadas pessoalmente pela pesquisadora que, após obtenção do consentimento dos participantes, foram gravadas. Elas tiveram duração média de 30 minutos e, após cada entrevista, a pesquisadora anotou as suas impressões e aspectos relevantes do discurso; o registro contínuo constituiu um diário de campo. As entrevistas foram realizadas até o momento em que foi identificada redundância na fala dos entrevistados, o que dispensou a necessidade de inserção de novos participantes na pesquisa e caracterizou, portanto, o ponto de saturação. Os dados obtidos foram transcritos e submetidos à análise de conteúdo temático com o auxílio do software ALCESTE (Analyse Lexicale par Contexte d’un Ensemble de Segment de text). O software realiza uma análise estatística a partir da individualização do texto de cada entrevista que passam a ser chamadas de Unidades de Contexto Inicial (UCI), quando estas são processadas dentro do programa, são elaboradas as Unidades de Contexto Elementar (UCE), organizadas em classes que são interpretadas a partir de suas significações13. O software ALCESTE, por meio do agrupamento quantitativo, gerou um dendograma apresentado em dois eixos e três classes. A partir das palavras e verbos de maior qui-quadrado destacados no dendograma e do diário de campo, buscou-se extrair os significados dando prosseguimento à análise de conteúdo14. A análise de conteúdo busca descrever o conteúdo emitido no processo de comunicação por meio de procedimentos sistemáticos que permitem a inferência de conhecimentos14. Os referenciais teóricos utilizados para embasar a análise de conteúdo foram: a classificação de enfrentamento segundo Skinner, et al. e a concepção de resiliência de acordo com Anaut10,15. O estudo foi desenvolvido em conformidade com a Resolução nº 466 do Conselho Nacional de Saúde e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília sob o parecer número 1.667.697. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e os nomes reais foram substituídos por pseudônimos. RESULTADOS Participaram do estudo 11 idosos: seis homens e cinco mulheres, com média de idade de 68,9 anos e média de escolaridade de 4,54 anos. Oito idosos tinham ciência do seu diagnóstico há mais de um ano, indicando certa familiaridade com a doença. Cinco deles precisaram deixar sua cidade de origem, lar e familiares para buscar tratamento na capital, evidenciando as dificuldades de acesso ao tratamento em determinados locais do país. Quanto à análise de conteúdo emergiram três categorias distribuídas em dois eixos (Figura 1). O software ALCESTE evidenciou as palavras de maior qui-quadrado em cada categoria conforme Figura 1. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., Rio de Janeiro, 2018; 21(6): 725-734 728 *UCE: Unidade de Contexto Elementar Figura 1. Dendograma do corpus das entrevistas organizado em dois eixos e três categorias. Brasília, DF, 2016. DISCUSSÃO O primeiro eixo, denominado Resistir para sobreviver e viver bem, faz menção às trajetórias de vida dos participantes e às estratégias utilizadas para sobreviver aos inúmeros desafios enfrentados no processo do envelhecimento. Esse eixo foi composto pelas categorias nomeadas envelhecer com integridade e o desenvolvimento resiliente. As duas categorias juntas compreenderam 61% do discurso (Figura 1). O segundo eixo denominado Resistir para morrer bem foi formado por uma única categoria, denominada Fatores estressores no adoecer, e explanou as dificuldades vivenciadas durante o adoecimento, causadas, sobretudo, devido ao difícil acesso ao tratamento. Essa categoria representou 39% das falas dos participantes (Figura 1). Os percentuais que foram identificados no primeiro e segundo eixo indicam que os entrevistados estavam, durante suas narrativas, mais focados no Percepções sobre envelhecer e adoecer 729 processo de viver que na perspectiva de morrer. Resultados semelhantes foram narrados em um estudo realizado na Noruega que descreveu a experiência de vida diária de idosos com câncer incurável e apontou a necessidade dessas pessoas de manter uma forte conexão com a vida16. Resistir para Sobreviver e Viver Esse eixo ressalta que o comportamento dos idosos ao longo da vida se manteve focado no enfrentamento e na superação das adversidades ao invés de esquivar-se delas. Categoria 2: Envelhecer com integridade Os trechos com as palavras de destaque da categoria 2 apontam para uma percepção positiva do envelhecimento ainda que os idosos mencionassem as perdas em suas trajetórias. Conforme a teoria de Erik Erikson, na velhice, as pessoas podem experimentar o sentimento de desespero quando não reconhecem um sentido em sua trajetória de vida, ou podem experimentar a integridade, quando são capazes de distinguir suas perdas e conquistas e atribuir um significado a elas17. Pôde-se aprender que os idosos deste estudo elaboraram suas perdas de forma positiva e utilizaram, segundo a classificação de Skinner, et al., as seguintes estratégias de enfrentamento: 1) reestruturação cognitiva, 2) suporte espiritual e 3) aceitação15. Reestruturação cognitiva A reestruturação cognitiva é uma estratégia de enfrentamentoque busca ativamente mudar a visão de uma situação estressante para enxergá-la sob uma luz positiva15. Foi nessa perspectiva que os participantes centraram-se preferencialmente nos ganhos em detrimento dos aspectos negativos do envelhecer. “Então quer dizer que o envelhecimento trouxe ganhos para mim, eu pude sair mais, frequento as minhas coisas de igreja, porque antes não podia, porque às vezes tinha que cuidar de menino.” (Lúcia) “As coisas que você queria ter quando era novo e não tinha, você tem quando fica velho, depois de mais velho, você vai ter.” (Fernando) Ao se focarem nos aspectos positivos, os participantes ressaltaram as conquistas materiais que estavam sendo desfrutadas. Chamou atenção a referência à liberdade como ganho de autonomia e emancipação. Essas percepções valorizaram os aspectos positivos do envelhecer e são corroboradas pelo estudo realizado com idosos que frequentavam uma Universidade Aberta da Terceira Idade. No referido estudo, identificou-se um equilíbrio entre ganhos e perdas tanto nos aspectos biológicos como emocionais e sociais do envelhecer18. Observou-se que eles não aludiram negação ou fuga dos problemas e restrições que advieram em decorrência do envelhecimento, retiraram o foco da dor, das restrições e das dificuldades para viver melhor. “Com toda a atribulação, você sabendo viver, tudo vai bem. Se você não souber viver, você vai mal.” (Alexandre) Ao reconhecer, no processo de envelhecer, os aspectos que foram benéficos buscando manter o bem-estar apesar das atribulações, a estratégia cognitiva configurou-se como uma importante tática de enfrentamento. Suporte Espiritual A espiritualidade busca uma conexão com Deus ou com um poder maior, com aquilo que dá sentido à vida e transcende o tangível em busca por algo maior que si próprio e que pode ou não incluir filiação religiosa19,20. Na fala dos idosos pôde-se apreender que o suporte espiritual se configurou como estratégia de enfrentamento que contribuiu para manejar o estresse do envelhecimento e adoecimento, favorecendo a atribuição de significado ao processo de viver. Nos discursos, identificou-se que as bases do suporte espiritual, foram ancoradas na fé, na leitura dos livros sagrados e na prática da oração20. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., Rio de Janeiro, 2018; 21(6): 725-734 730 A fé contribui na atribuição de sentido à existência, ela constitui uma preocupação humana universal que permite seguir caminhos religiosos em prol de uma vida organizada e orientada por valores19. A partir da fé, os idosos buscaram a aproximação à forma divina que tudo rege. “É a fé que vai tirando a gente, você vai pensando que tudo está nas mãos de Deus e que não adianta, não adianta você se preocupar, porque o que tiver de ser vai ser.” (Lúcia) Os livros religiosos constituíram a base dos valores de suas vidas e argumentação para o enfrentamento das dificuldades vivenciadas. “A bíblia nos fala que quando chegar à velhice, você vê, vem fadiga da vida alheia, angústia.” (Alexandre) E a oração constitui um importante meio de aproximação com o sagrado visando proteção e apoio frente às situações adversas no processo de envelhecer e adoecer. “Apega com Deus e vai rezando, e eu rezo muito, vai rezando, ai parece que vai amenizando as coisas.” (Lúcia) A prática religiosa pautada na leitura de livros sagrados, associada ao ato de rezar, teceu as bases do suporte espiritual. Estudo realizado na Croácia encontrou que as crenças religiosas aliadas ao ato de rezar contribuíram para uma melhor aceitação da doença e para a confrontação de adversidades psicológicas que ocorreram com o diagnóstico do câncer21. Aceitação Os idosos perceberam a velhice como um processo natural e como parte integrante da vida. Apesar de reconhecerem as evidências de alguma limitação, eles aceitaram a velhice de maneira serena e natural ao invés de se opor à situação vivenciada e tentar modificá-la. “Aceito a velhice assim sem me incomodar. E tem esse ditado: se não quer ficar velho, morra com trinta, mais ou menos a metade. Não quer envelhecer, morra novo [...] Desde que você aceite que isso é um ciclo natural, desde que você aceite, tem perda não.” (Fernando) Pôde-se inferir que a doença, foi percebida como parte do processo de envelhecer. A aceitação é a última fase dos estágios da morte e do morrer, quando a pessoa teve o tempo necessário para elaborar a sua situação22. Parece que os idosos despojaram-se dos seus medos e angústias, sendo capazes de manifestar sentimentos de paz e tranquilidade. “Agora recuperei mesmo. É bom morrer feliz, melhor do que morrer triste, agora não estou com medo mais não, morrer feliz em vez de morrer triste, pior coisa; morrer feliz é a melhor coisa. Sente segurança, a morte feliz sabe? É assim, sente mais segurança, aqui eu estou seguro.” (Samuel) Na narrativa de Samuel foi possível estabelecer a comparação entre a “morte feliz” com a “morte triste”; denotou-se que os sentimentos de segurança, ausência de medo e sentir-se bem cuidado no ambiente hospitalar conformaram a expressão da “morte feliz”. Discurso semelhante foi evidenciado em um estudo conduzido na Austrália com 40 pacientes internados em uma unidade de cuidados paliativos, em que os participantes relataram um sentimento de alívio ao encontrarem um lugar que poderia ajudá-los no final de suas vidas23. Categoria 3: O desenvolvimento resiliente Nessa categoria, emergiu da narrativa dos idosos a luta pela vida que foi permeada por inúmeros desafios: poucas oportunidades de acesso aos estudos, dificuldades financeiras, necessidade de trabalhar ainda na infância para complementar a renda familiar, precárias condições de moradia, ausência de saneamento básico e a perda dos genitores e cônjuges. Dos 11 participantes, apenas dois conseguiram finalizar o ensino fundamental. Percepções sobre envelhecer e adoecer 731 “Não tivemos oportunidade de estudar, meu pai morava na roça, e em roça nós andávamos léguas para ir para uma escola, naquele tempo, não tinha escola gratuita, era pago e só para aqueles que podiam pagar.” (Maria) O depoimento de Maria evidencia as barreiras para o acesso à educação por dificuldades financeiras. No contexto de escassez, as crianças precisaram trabalhar para contribuir com a renda familiar. “Todo mundo tinha que trabalhar para ajudar em casa, era pobre, não tinha [...] só o pai e a mãe para sustentar tanto filho, aí tinha que trabalhar todo mundo, já ia pegando uma idadezinha, já tinha que correr para trabalhar, para ajudar.” (Lúcia) A realidade descrita pelos participantes corrobora o resultado de um estudo brasileiro que relaciona a renda familiar com o trabalho infantil, indicando que essa situação se mantém ainda nos dias atuais. Sabe-se que quando a renda familiar é baixa, os pais não têm alternativa e optam que seus filhos trabalhem ao invés de estudarem. Essa escolha tem uma consequência significativa no futuro, porque impacta na qualificação profissional com consequente dificuldade para aumentar a renda, perpetuando, assim, o ciclo da pobreza24. No Brasil, em 2015, 17,6% das crianças de zero a quatro anos de idade e 18,0% das crianças e adolescentes de cinco a 14 anos viviam em domicílios cujo rendimento mensal máximo per capita era um quarto do salário mínimo25. Os entrevistados mencionaram as condições precárias de habitação e a falta de acesso ao saneamento básico que vivenciaram durante a infância. “Minha vida foi de luta! Naquele tempo, lá em Formosa, tinha muita casa de palha, de pau a pique, minha mãe morou em casa assim... era pau a pique, não tenho vergonha de falar não, era pau a pique, chão puro.” (Maria) Entretanto, frente a todos os desafios, a perda da morte dos pais na infância e a viuvez configuraram os episódios mais difíceis de superar. “Outra perda foi que eu não conheci pai, meu pai largou minha mãe no interior da Bahia, foi em cinquentae dois, quando eu nasci eles vieram para Goiás, ele e mais dois irmãos meus, para mim, foi uma perda também.” (Alexandre) Na infância, as necessidades primárias de afeto são satisfeitas pelos pais. A sensação de segurança, reconhecimento, autoestima e o desenvolvimento emocional da pessoa são influenciados pela presença ativa dos pais. Nessa perspectiva, a perda do genitor, quando se é jovem, produz um vazio que pode gerar repercussões, inclusive, em situações da vida adulta, como construir uma família e na criação de seus próprios filhos7. Nessa mesma perspectiva, a viuvez sobrecarrega a velhice com o peso da solidão contínua. Perde-se o companheiro de muitos anos e de uma vida construída a dois, permanecendo uma sensação de vazio7. “Aí perdi o segundo marido, porque eu sou viúva duas vezes. Eu perdi o pai dela, eu tinha dezenove anos, com um tempo depois eu me casei de novo, aí faz dezessete anos que eu perdi o segundo.” (Regina) Entretanto, apesar das inúmeras dificuldades e perdas, os participantes relataram enfrentar cada adversidade que surgiu em suas vidas com força e determinação; imprimiram na trajetória da vida, uma marca de luta e jamais de esquiva. Manifestaram orgulho de seus valores e de suas origens humildes. “Nunca roubei, nunca herdei, tudo pelo suor; desde criança, lutando até o fim.” (Marcelo) A luta pela sobrevivência conferiu sentido à vida; apesar das adversidades, o orgulho pelo vivido e valores aprendidos fizeram parte do conceito de integridade. A narrativa dos idosos confirma que a integridade descrita por Erikson permite a pessoa ser capaz de vivenciar a velhice reconhecendo suas realizações e conquistas17. Nesse contexto, percebe-se que a resiliência construída ao longo da vida se sobressaiu para lidar com as adversidades vivenciadas, assim, os participantes puderam lidar com o estresse a partir de uma perspectiva positiva10. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., Rio de Janeiro, 2018; 21(6): 725-734 732 Resistir para Morrer bem Esse eixo relata os principais estressores do adoecimento e a percepção dos idosos sobre a sua condição de saúde. Categoria 1: Fatores estressores no adoecer Na narrativa dos idosos, chamou atenção que a doença e o tratamento constituíram fatores estressores, eles destacaram: os sinais e sintomas da doença, o diagnóstico e, sobretudo, a falta de acesso ao tratamento. O câncer consiste em um crescimento de células que invadem os tecidos e órgãos, criando massas que alteram a estrutura inicial de um órgão e que podem, inclusive, espalhar-se para outras regiões do corpo26. A descoberta de massas no próprio corpo foi o primeiro sinal e estressor percebido pelos participantes. “Ela disse: doutor tem um caroço debaixo da língua, bem aqui, ela meteu o dedo, caroço duro é esse.” ( Alexandre) Além de massas, os participantes referiram a dor e a anorexia como sintomas que os fizeram suspeitar de uma doença grave. “O que eu estou sentindo mesmo, vou falar aqui para você, essa dor aqui não pára.” (Eduardo) “E cortava meu apetite, minha fome, eu não suportava ver a comida mesmo, eu cheguei para cá com sessenta quilos.” (Samuel) As queixas dos entrevistados corroboram um estudo que apontou os sintomas prevalentes nos portadores de câncer avançado: dor (78,4%), anorexia (64,4%) e constipação (63,5%)27. A dor é um dos sintomas mais comuns vivenciados por pessoas idosas com câncer e é difícil de ser avaliado e manejado por sua natureza subjetiva. As consequências de um mau manejo da dor incluem: depressão, ansiedade, abuso de substâncias, problemas cardiovasculares, delirium, insônia, comprometimento funcional e redução do apetite que geralmente vem acompanhado de perda de peso28. Em processo de adoecimento oncológico, a anorexia também se faz presente e se associa ao aumento da atividade inflamatória, com reduzida capacidade de absorção intestinal e perda de massa muscular por estados hipercatabólicos, caracterizando uma perda de peso acentuada28,29. Além disso, em pessoas idosas, associam-se outros fatores que contribuem para a perda de apetite: fatores sociais, físicos, psicológicos e médicos. Nesse contexto, o contato próximo com familiares que os estimule a comer constitui um dos fatores que pode contribuir para evitar que a anorexia se agrave30. A partir dos sinais físicos em seus corpos, iniciou- se a suspeita de uma doença grave que culminou em elevação do nível de estresse. Apesar de já suspeitarem da doença, a má notícia não deixou de causar impacto significativo na vida deles. A má notícia pode levar os pacientes a experimentarem dor antecipatória relacionada a todas as perdas que tiveram e que ainda irão ter no futuro: perda de funcionalidade, do seu papel social e possível morte. Em função disso, uma parte das pessoas com doenças graves preferem não saber toda a verdade sobre o seu diagnóstico31. Ainda que a literatura descreva a hesitação no momento do diagnóstico, os idosos do presente estudo foram unânimes em afirmar que gostariam de ter acesso à verdade e receber a informação completa acerca de sua condição de saúde. “Eu disse: qual é a notícia ruim doutor? Se amarrando né? Uma conversinha para aqui para acolá, eu digo: eu já sei, pode abrir a boca e falar a verdade!” ( João) Apesar dos sentimentos negativos derivados do recebimento do diagnóstico de câncer, o maior fator estressor foi o acesso penoso ao tratamento, descrito como angustiante. Alguns avaliaram que o atendimento em suas cidades de origem era inadequado e, por esse motivo, optaram pela mudança para a capital do país em busca de diagnóstico assertivo e de tratamento adequado. Percepções sobre envelhecer e adoecer 733 “Vim para aqui, porque as coisas estavam meio embaraçadas da vida, mas o cara constatou lá diabetes, eu vim para cá fazer esse tratamento. Quando eu cheguei, o médico falou: rapaz, eu vou te encaminhar; me encaminhou, fazer um exame numa clínica lá...” ( João) Além da dificuldade em iniciar o tratamento, os participantes também referiram a necessidade de interrompê-lo, devido à falha dos recursos técnicos: “Muita gente saiu né? Procurar outro estado, diz que a máquina quebrou, uns fala que sim, uns fala não, ai tive que sair, nessa saída custou mais um mês, atrasou, porque lá foi perdição, lá no Rio de Janeiro.” (Samuel) O relato dos entrevistados valida outro estudo que encontrou como as principais barreiras nos casos de doenças oncológicas: a descoberta da doença e as dificuldades de acesso ao tratamento; incluindo a demora no diagnóstico, dificuldades no acesso aos exames, os efeitos colaterais e as barreiras para se realizar o tratamento32. É preciso reconhecer que o presente estudo apresenta limitações que residem no fato da pesquisa ter sido realizada em uma única instituição pública de cuidados oncológicos, o que impede a comparação com outros cenários. Futuros estudos podem expandir os cenários de pesquisa a fim de identificar estratégias de enfrentamento em outros contextos. CONCLUSÃO Os resultados evidenciam que, ao longo da trajetória de vida do grupo estudado, o enfrentamento das adversidades forjou a capacidade de manejar de forma positiva os fatores estressores identificados em suas narrativas. As percepções sobre o processo do envelhecer e adoecer denotaram que, para eles, envelhecer constituiu um privilégio e, apesar das dificuldades, estavam gratos pela vida, por isso experimentaram integridade em vez de desesperança. Não obstante, o adoecimento e o acesso ao tratamento foram percebidos como eventos geradores de estresse, constituindo fonte de angústia e sofrimento. Para fazer frente às perdas e adversidades do envelhecer e adoecer utilizaram, sobretudo, as estratégias de enfrentamento características de um processo resiliente, destacando- se: o suporte espiritual, a reestruturação cognitiva e a aceitação. Entende-se que a compreensão, pela equipe de saúde, das estratégiasde enfrentamento dos doentes pode agregar qualidade no cuidado prestado a eles. Logo, sugere-se que essa temática seja difundida principalmente entre os profissionais que prestam cuidados aos idosos em cuidados paliativos por meio de discussões em grupo e atividades de educação continuada nas instituições de saúde. REFERÊNCIAS 1. Oliveira TC, Medeiros WR, Lima KC. Diferenciais de mortalidade por causas nas faixas etárias limítrofes de idosos. Rev Bras Geriatr Gerontol. 2015;18(1):85-94. 2. Best M, Aldridge L, Butow P, Olver I, Webster F. Conceptual analysis of suffering in cancer: a systematic Review. Psychooncology. 2015;24(9):977-86. 3. Gawande A. Mortais: nós, a medicina e o que realmente importa no final. Rio de janeiro: Objetiva; 2015. 4. World Health Organization. Global Atlas of Palliative Care at the End of Life. Inglaterra: Worldwide Palliative Care Alliance; 2014. 5. Farber SS. 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Para isso, 7 adolescentes, 14 adultos de meia-idade e 10 idosos foram entrevistados, e os dados foram compreendidos mediante análise de conteúdo. Entre os participantes, os adultos foram os que mostraram mais aflição e inquietação, ao falarem sobre a própria finitude e sobre a possibilidade da morte de pessoas queridas. Os adolescentes abordaram-na como um acontecimento distante e impessoal, enquanto os idosos se referiram a ela com maior proximidade e aceitação. Sugere-se a realização de es- tudos que aprofundem tais compreensões, relacionando-as às diferentes religiões, classes sociais e experiências com perdas. Palavras-chave: morte, psicologia do desenvolvimento, adolescentes, meia-idade, idosos. The meaning of death for adolescents, middle aged and elderly geriatrics Abstract: Despite the increase in the quantity of works that aim to study death as a research topic is observed that it still prevails the prohibition of the subject death, what can make difficult how the issue is discussed. This study aimed to increase the understanding of how people in different ages deal with losses and with their end. Seven adolescents, 14 middle aged and 10 elderly people were interviewed and the dates were analyzed using content analysis. Among these participants, the middle aged were who showed most distress and anxiety when talking about death and about the possibility of losing people they love. The adolescents showed a relation to death as a distant and impersonal issue, while the elderly accepted it and kept a closely relationship with it. It is suggested the conduction of studies to deepen these understandings, relating them to different religions, social classes and loss experiences. Keywords: death, developmental psychology, adolescents, middle aged, geriatrics. El sentido de la muerte para adolescentes, mediana edad y ancianos Resumen: A pesar del aumento en la cantidad de trabajos que pretenden estudiar la muerte como un tema de investigación, se observa que predomina la prohibición sobre la question de la muerte, lo que impide que ella sea discutida. Este estudio trató de ampliar la comprensión de cómo las personas en diferentes edades trabajan con las pérdidas ycon su propia finitud. Siete adolescentes, 14 adultos y 10 ancianos fueron entrevistados y los datos fueron analizados mediante el análisis del contenido. Entre los participantes, los adultos mostraron la mayor angustia y ansiedad cuando se hablaba de la muerte y sobre la posi- bilidad de pérdidas. Los adolescentes reportaron la muerte como un asunto distante e impersonal, mientras que los ancianos mantienem una relación estrecha con la muerte. Se sugiere llevar a cabo estudios para profundizar en estos conocimientos, relacionándolos con las diferentes religiones, clases sociales y las experiencias con la pérdida. Palabras clave: muerte, psicologia del desarrollo, adolescente, mediana edad, geriatria. 1 Este texto foi revisado seguindo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), em vigor a partir de 1º de janeiro de 2009. Este artigo é derivado da Dissertação de Mestrado da primeira autora, sob orientação da segunda autora e coorientação da terceira. Apoio: FAPESP. 2 Endereço para correspondência: Caroline Garpelli Barbosa. Rua Maria Térci, 87. CEP 18.085-610. Sorocaba-SP, Brasil. E-mail: psica_ca@yahoo.com.br O tema da morte tem sido relegado ao ostracismo, tor- nando-se um assunto tabu ao longo da história das sociedades ocidentais no século XX (Ariès, 1975/2003). Alves (1991), ao ponderar sobre a ambiguidade de sentimentos existentes ao redor da morte, diz que, na verdade, ela aterroriza por nos falar sobre a vida e sobre aquilo que estamos fazendo ou deixando de fazer com ela. Para Kovács (2002), a tentativa de manter a morte dis- tante, como algo a ser tratado apenas no final da vida, é um dispêndio inútil de energia, uma vez que ela pode ocorrer em qualquer etapa desenvolvimental. O entrelaçamento entre vida e morte, ao longo do desenvolvimento humano, leva ao questionamento de como as pessoas, em diferentes etapas do curso vital, significam as questões que envolvem a morte e o morrer em suas existências. A morte ao longo do desenvolvimento A criança, o adolescente e a morte Embora a criança pequena não compreenda as três di- mensões do conceito de morte: irreversibilidade, não funcio- nalidade e universalidade, pesquisas apontam que ela sofre quando não há o suporte necessário para o enfrentamento de situações de perda. Ao não ter com quem conversar e obter 176 Paidéia, 21(49), 175-185 esclarecimentos a respeito, ela pode sentir-se confusa e de- samparada em sua dor (Nunes, Carraro, Jou, & Sperb, 1998; Vendruscolo, 2005). Na adolescência, a capacidade cognitiva é semelhante à do adulto, possibilitando a compreensão dos aspectos de irreversibilidade, não funcionalidade e universalidade da morte, tornando-a um evento mais real. O adolescente, co- mumente, encontra-se em uma de suas melhores condições físicas e cognitivas, ocupando-se em seu universo de desco- bertas sobre si mesmo e sobre o mundo, rumo à construção de uma identidade pessoal (Kovács, 2002). Por se caracterizar como a porta para a liberdade, a adolescência acaba por ser uma fase em que ocorre gran- de número de mortes inesperadas devido a acidentes e a comportamentos de alto risco. Tal sensação de liberdade, frequentemente, leva o adolescente a sentir-se onipotente, motivando-o a envolver-se em situações ameaçadoras, sem que perceba o quanto pode prejudicar sua saúde ou mesmo morrer precocemente. Assim, embora exista o domínio cog- nitivo sobre o fenômeno da morte em seus elementos cons- titutivos, a consciência sobre sua universalidade parece não ter ainda se estabelecido nessa etapa do desenvolvimento (Kovács, 2003a; Rodriguez & Kovács, 2005). O adulto e a morte Na primeira fase da vida adulta, os jovens procuram as- sumir seu lugar na sociedade mediante a aquisição, aprendi- zado e desempenho de três papéis fundamentais: profissional, conjugal e parental (Bee, 1997). Aumentam as responsabili- dades com relação à vida social; há o desejo de construção de uma família e a necessidade de deixar a casa dos pais. Muitos querem desenvolver-se mais no campo profissional e formar uma família. Assim, há grande dispêndio de energia com as novas tarefas, e a morte não é grande preocupação (Kovács, 2002). Por volta dos 40 a 50 anos, muitas funções físicas po- dem apresentar mudanças e certos declínios apresentam-se com maior vivacidade. Os sinais de envelhecimento mani- festam-se de modo mais evidente, e as mortes de pessoas próximas, muitas vezes dos próprios genitores, passam a ser recorrentes (Carter & McGoldrick, 1989/2001). Um trabalho de revisão bibliográfica de Sartori e Zil- berman (2008) apontou que a vida adulta é uma fase de maior estabilidade, em que a vida profissional se encontra no auge, e a satisfação conjugal volta a elevar-se com a saída dos filhos de casa. Por outro lado, em algumas situações, a ausência dos filhos pode levar os casais a uma diminuição na qualidade de vida, especialmente se eram dependentes finan- ceira ou emocionalmente dos mesmos. O adulto, também, pode passar por crises, como a cha- mada “crise da meia-idade”, caracterizada por um período em que vai se conscientizando da inevitabilidade da própria finitude, à medida que reconhece novas limitações físicas e riscos à sua saúde e vivencia perdas e importantes mudanças nos principais papéis até então desempenhados. Os adultos começam a fazer um balanço de suas vidas até aquele mo- mento, e a morte deixa de ser tão distante (Kovács, 2002). É escassa a literatura nacional e internacional abordando a concepção de morte na fase adulta, e os estudos com essa população, geralmente, focalizam apenas as experiências de perdas e seus impactos (Burton, Haley, & Small, 2006; Gud- mundsdottir, 2009; Gudmundsdottir & Chesla, 2006; Olivei- ra & Lopes, 2008). O idoso e a morte A etapa desenvolvimental da velhice, ou terceira ida- de, inicia-se por volta dos 65 anos e estende-se até a morte. Nessa etapa, há maior aceleração no declínio de algumas funções, e o acometimento por doenças apresenta-se de ma- neira tão próxima, que preocupações com o adoecimento e consequentes limitações tornam-se bastante frequentes para muitos idosos, mesmo que ainda tenham boa saúde (Walsh, 1989/2001). Ainda, durante a velhice ocorrem perdas sociais decor- rentes das mudanças de papéis que geralmente se dão nesse período. Há o abandono da função profissional devido à apo- sentadoria; o papel de filho deixa de existir com a morte do último genitor; a viuvez traz a perda do papel de cônjuge; o adoecimento pode inverter os papéis entre genitores e filhos, além das perdas de outros papéis socialmente desempenha- dos (Rabelo & Néri, 2005). É frequente a concepção de que o medo da morte é mais presente entre os idosos. Todavia, o que parece mais assustá- los são as incertezas relacionadas ao período que antecede a morte, como as dúvidas quanto ao local em que irão residir no futuro, ou mesmo quem vai cuidar deles, se adoecerem (Bee, 1997). Um estudo realizado com três grupos de idosos – asi- lados, hospitalizados e envolvidos em atividades de lazer – visou a compreender o significado da velhice, bem como as perspectivas de futuro para essa população. Os resultados indicaram que os asilados convivem quase que diariamente com a ideia de morte, tomando-a como a única alternativa para a saída da condição de desprovimento familiar e da falta de objetivos em que se encontram. Quanto aos idosos hospi- talizados, a ideia de morte também se fez presente, contudo, de maneira mais contida e velada. Para estes, há a perspectiva de retorno às atividades rotineiras junto à família, e o medo da morte vinculou-se apenas aos que estavam em estágio ter- minal. Os idosos que desempenhavam atividades sociais e de lazer não tinham presente a ideia de morte, aparecendo depoimentos que faziam um balanço da vida e estabeleciam planos apenas em curto prazo. Portanto, os idosos com vida ativa e compromissada permaneciam abertos às possibilida- des da vida, e a morte não foi objeto de preocupação (Boe-mer, Zanetti, & Valle, 1991). Se a morte de si mesmo não é objeto principal da preocupação de boa parte dos idosos, as perdas de pessoas 177 Barbosa, C. G., Melchiori, L. E., & Neme, C. M. B. (2011). Morte e desenvolvimento humano. significativas podem levá-los, em alguns casos, ao desen- volvimento de quadros depressivos e até mesmo ao suicídio, especialmente quando se trata da morte do cônjuge (Brown, 1989/2001; Hansson & Stroebe, 2007). Estudo de Burton e cols. (2006) apontou que, nos casos em que a morte do côn- juge é repentina, os índices de depressão são mais elevados, quando comparados aos casos em que a morte se deu após longo período de doença incapacitante. Outro estudo, realiza- do com idosos asilados que perderam amigos que viviam no mesmo local, mostrou que as mortes dos únicos companheiros que ainda lhes restavam significaram, para alguns, a perda de parte de si (Silva, Carvalho, Santos, & Menezes, 2007). No entanto, a maneira como a velhice será vivenciada relaciona-se ao processo de desenvolvimento, à consciência de cada pessoa em particular e à sua história de vida (Kovács, 2002; Rosenberg, 2002). Para Borges e cols. (2006), o medo de morrer é uma experiência que apenas o próprio indivíduo pode saber como é. Se vista como algo que proporciona cres- cimento e aprendizado, a ideia de morte não causará tanto sofrimento. Cada etapa do desenvolvimento parece apresentar pe- culiaridades quanto à percepção e ao modo de lidar com a morte, bem como alguns elementos comuns que devem ser identificados e compreendidos. Com esse propósito, o pre- sente trabalho buscou identificar as concepções de morte de pessoas na adolescência, na idade adulta e na velhice, de modo a ampliar a compreensão de como elas lidam com as perdas e com a própria finitude. Método Participantes Participaram 31 pessoas, sendo sete adolescentes, 14 adultos e dez idosos. Os adolescentes tinham idades entre 14 e 17 anos (média = 15,6 anos), sendo três do sexo masculino e quatro do feminino, todos são solteiros e sem filhos. Dois cursavam o ensino fundamental, e os demais, o ensino mé- dio. Quatro eram católicos; um era espírita; um, evangélico, e um não tinha religião. Entre os adultos, as idades variaram de 40 a 52 anos (média = 45 anos), sendo sete homens e sete mulheres, to- dos casados e com filhos. Cinco tinham nível universitário, um estava com a graduação em andamento, e um era pós- graduado; um tinha o ensino fundamental, quatro possuíam o ensino médio completo e dois, incompleto. Nove praticavam a religião católica, dois, a espírita, e três eram evangélicos. Quanto aos idosos, as idades variaram de 66 a 86 anos (média = 73,9 anos), sendo cinco homens e cinco mulheres. Nove eram casados e um era viúvo. Seis não terminaram o ensino fundamental e um não concluiu o ensino médio. Um idoso estudou até o ensino médio, um tinha nível universi- tário e outro fez pós-graduação. Cinco eram católicos, três, evangélicos, um era espírita e um disse não ter religião, em- bora acredite na existência de Deus. Procedimento Coleta dos dados Dado o tabu envolvendo a temática a ser abordada, esta- beleceu-se uma aproximação com os participantes mediante conveniência. A pesquisadora realizou um levantamento de pessoas conhecidas que poderiam indicar possíveis colabo- radores com o estudo, de acordo com os critérios: adoles- centes com idade igual ou superior a 14 anos; adultos com mais de 40 anos e idosos com mais de 65 anos, independen- temente de gênero, escolaridade ou religião. Foi solicitado que fizessem uma consulta prévia com potenciais partici- pantes, cientificando-os da temática do estudo e do posterior contato a ser estabelecido pela pesquisadora, caso quisessem colaborar. Os que aceitaram eram todos desconhecidos da pesquisadora e foram contatados por telefone, recebendo explicações detalhadas quanto ao estudo. Foram adotadas, como critério de exclusão, pessoas que tivessem perdido, por morte, alguém significativo nos últimos seis meses, visto que esta experiência recente poderia alterar a concepção ou o significado da morte para elas. Entre as pessoas consultadas, dois adolescentes, dois adultos e um idoso se recusaram a participar, sem justificar. Com os que aceitaram participar, foram agendadas entrevistas individuais em seus domicílios ou no local de trabalho, de acordo com sua disponibilidade. No caso dos adolescentes, eles e seus responsáveis assinaram o Termo de Consentimento. Cada entrevista foi realizada em um único encontro, a partir de um roteiro se- miestruturado que se iniciava com um preâmbulo da pes- quisadora introduzindo a temática, e, a seguir, iniciava-se a entrevista, gravada em áudio, a partir das seguintes questões: (a) Gostaria de saber como é a morte para você? Como você vê esta questão? (b) Diante dessa sua visão da morte, como você vê a vida? (c) O que você acha que foi determinante ou importante para que você desenvolvesse esta maneira de ver a morte e a vida? Foram, também, coletados dados demográficos dos participantes: idade, sexo, escolaridade e religião, além da informação sobre perdas de entes queridos (quem e quando morreu). Análise dos dados Foi utilizada a análise de conteúdo proposta por Bardin (1977) e Minayo (1996), seguindo as seguintes etapas: (a) Transcrição literal e na íntegra das entrevistas; (b) Diversas leituras dos relatos, numa tentativa preliminar de apreender os conteúdos presentes nas falas de cada participante; (c) Sepa- ração de trechos dos relatos e classificação de acordo com seu conteúdo, obtendo-se núcleos de sentidos que, posteriormente, foram agrupados em categorias temáticas criadas a partir dos temas que emergiram das falas dos participantes. Este proce- dimento foi escolhido, por permitir uma abordagem mais am- pla e aberta do tema do estudo, buscando corresponder, com mais exatidão, aos relatos dos participantes. 178 Paidéia, 21(49), 175-185 Após a leitura e a compreensão dos discursos, foi possível construir quatro grandes categorias temáticas e subcategorias que estão apresentadas em tabelas, facilitando as comparações entre adolescentes, adultos e idosos. Todos os relatos apresen- tados seguem as seguintes legendas: pequena pausa (…); cor- tes nos relatos […]; som de negação (tsc); riso (rs). Considerações éticas Antes da realização da entrevista, os objetivos do estu- do foram retomados, e os Termos de Consentimento Livre e Significado da morte Adolescente Adulto Idoso Total n % n % n % n % Processo natural do desenvolvimento 4 40 8 38 8 61 20 45 Continuação da vida 3 30 7 34 4 31 14 32 Aniquiladora da vida 2 20 3 14 1 8 6 14 Encerramento de uma missão 1 10 3 14 - - 4 9 Total 10 100 21 100 13 100 44 100 Esclarecido foram lidos e assinados, ressaltando-se o caráter voluntário de cada participação e as questões de sigilo, anoni- mato, liberdade para desistir da participação a qualquer tem- po e a utilização científica dos resultados, conforme projeto de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Ciências da UNESP de Bauru (Processo nº 1059/46/01/08). Resultados e Discussão A Tabela 1 apresenta os Significados da morte, com suas respectivas subcategorias. Tabela 1 Frequência absoluta e relativa dos relatos apresentados por adolescentes, adultos e idosos com relação à categoria Significa- dos da morte Nas três faixas etárias estudadas, a subcategoria que mais se destaca é a visão da morte como algo natural no de- senvolvimento humano, ou seja, como fato universal e ine- vitável, do qual não há como fugir: “Faz parte da vida de todo mundo, né, então, eu não tenho receio nenhum em falar da morte” (Adolescente 4); “É o natural da sua vida, você nasceu, viveu, automaticamente você vai morrer também, entendeu” (Adulto 4). Entre os relatos, observou-se que os idosos foram os que mais recorreram ao discurso de resignação e familiari- dade com o morrer (61%): “É por causa que todo mundo um dia vai morrer mesmo. Então, eu acho que tem aceitarisso numa boa. Ou cedo, ou mais tarde, eu acho que é normal. Enquanto a gente está vivo, eu acho que é o lógico, né, um dia a gente vai morrer mesmo” (Idoso 8). No entanto, mesmo atribuindo um caráter natural à mor- te, 32% do total de participantes acredita que a vida continua após a morte, para a evolução espiritual. Ainda, na categoria Significados da morte, nota-se que, em dois relatos (20%), os adolescentes falam da morte como aniquiladora dos projetos de vida: Eu nunca pensei nesse assunto. Não sei se eu morrer (rs). Eu ainda não fiz tudo o que eu queria. Eu tenho muita coisa para fazer ainda e não quero morrer sem fazer isso. Tenho tantos sonhos, sei lá. Agora que eu saí do ensino médio, agora que eu sei que eu consigo, que eu posso fazer o que eu quero. Acho que não seria uma boa eu morrer agora (rs). Eu ia deixar muita coisa pelo meio do caminho (Adoles- cente 6). Na adolescência, a morte é vista como impeditiva da realização de sonhos e objetivos, em uma época da vida em que há todo um universo a ser construído (Kovács, 2002; Ro- driguez & Kovács, 2005). Três adultos também se inseriram nesta subcategoria. Entretanto, para eles, a aniquilação da vida seria o impedimento de apreciarem os frutos plantados ao longo da vida, enquanto, para os adolescentes, seria o fim da possibilidade de lançar as sementes construtoras de sua história pessoal. A Tabela 2 apresenta a categoria A morte própria e suas respectivas subcategorias. 179 Barbosa, C. G., Melchiori, L. E., & Neme, C. M. B. (2011).Morte e desenvolvimento humano. Tabela 2 Frequência absoluta e relativa dos relatos apresentados por adolescentes, adultos e idosos com relação à categoria A morte própria A morte própria Adolescente Adulto Idoso Total n % n % n % n % Preocupação com os familiares 2 29 11 46 5 23 18 34 Preferência em não pensar 1 14 6 25 4 18 11 21 Naturalização do morrer próprio 3 43 3 12,5 7 32 13 24 Medo do sofrimento e da necessidade de ser cuidado 1 14 4 16,5 6 27 11 21 Total 7 100 24 100 22 100 53 100 O conteúdo mais presente nas falas dos adultos deno- tou Preocupação com os familiares (46%), com apreensões sobre o futuro dos filhos e do cônjuge, uma vez que todos esses participantes eram casados e tinham filhos ainda de- pendentes: A gente sabe que um dia todo mundo vai morrer, mas eu nunca parei para pensar e hoje eu paro porque eu tenho dois filhos [...] o meu maior medo é que eu venha a faltar, quem vai fazer por ele o que eu faço? Eu tenho pavor de que me aconteça alguma coisa e que eu deixe meus filhos [...] Dependem muito de mim. Eu tenho pavor só de pensar (Adulto 3). A preocupação com o outro foi mais frequente nas falas dos homens (63%) do que entre as mulheres (37%), confir- mando o estereótipo de que os pais são os principais prove- dores financeiros no núcleo familiar, principalmente quando o casal tem filhos (Bornholdt, Wagner, & Staudt, 2007; Fleck, Falcke, & Hackner, 2005): “Com a minha [morte] eu não me preocupo muito, mas eu me preocupo com quem vai ficar, como que eles vão estar, como eles vão se manter, é difícil, viu” (Adulto 10). Ainda, para os adultos, outro conteúdo presente em 25% das respostas foi a Preferência em não pensar a respeito da própria morte: Tenho medo que me aconteça alguma coisa, mas não fico pensando não. Se um dia tiver que chegar, que chegue e vá logo, porque não adianta a gente sofrer por antecipação, né [...] Para mim é difícil [...] Por mais que a gente saiba que faz parte da vida da gente, é uma coisa que ninguém quer en- carar (Adulto 3). De acordo com a literatura, a vida adulta intermediária é a fase em que as pessoas começam a fazer um balanço de suas vidas, pois geralmente já se encontram profissional- mente estáveis e com a família estruturada (Kovács, 2002). Segundo Bee (1997), trata-se do período em que o temor da morte encontra-se em seu pico mais elevado, pois é o mo- mento em que parece existir um contato mais próximo com a ideia de sua inevitabilidade, em decorrência dos declínios advindos com a idade. Alguns participantes relataram não querer pensar sobre o assunto, uma vez que tais reflexões po- deriam remetê-los a sentimentos com os quais não saberiam como lidar. Já os conteúdos das falas dos adolescentes (43%) e dos idosos (32%) apresentaram maior frequência da Naturaliza- ção do próprio morrer: “Basta estar vivo para morrer, então, eu não preciso ficar me preocupando tanto nisso [...] É, vai acontecer eu querendo ou não. Pode ser hoje ou pode ser daqui dez anos, mas vai acontecer” (Adolescente 3); “Ah, eu acho que a vida tem que ser assim e a hora que chega o dia a gente tem que ir, né. Não penso, não fico nervosa não. Até para o médico eu falo, já vivi setenta anos, o que mais. Tem gente que não chega nem nos trinta, né” (Idoso 6). Apesar de alguns adolescentes e idosos compartilharem da mesma linha de pensamento, é possível notar diferenças entre os relatos. Para os primeiros, a proximidade da morte não é tão presente como na fala dos segundos. A naturaliza- ção adquire, principalmente, a conotação de “afastamento” da ideia de morte, e não de “aproximação”, por vê-la com natu- ralidade. Esse resultado corrobora o encontrado na literatura, indicando que durante a adolescência, o morrer é tratado oni- potentemente como algo muito distante (Kovács, 2002). Diferentemente, para os idosos, a consciência da pró- pria idade e a expectativa de um futuro mais curto parecem levá-los a uma maior aproximação com a ideia de morte, aceitando-a como etapa inevitável: A minha própria morte é o seguinte, eu estou pre- parado, quando Deus achar que eu preciso ir em- bora. Eu já tenho que preparar para isso aí, é ou não é? Que a idade já não vai ter mais futuro. Vocês não. Mas a gente que está nessa idade não tem mais futuro. Então, vamos esperar o fim, né [...] Já vivi bastante. Nós espera qualquer hora, né, pode ser agora, pode ser daqui dois anos, daqui três. Pode até ser dez, né [...] Não pode esperar outra coisa. (Idoso 10) Mas, ainda que os idosos reconheçam a proximidade do próprio morrer, esse processo não se dá sem receios, 180 Paidéia, 21(49), 175-185 principalmente no que diz respeito ao Medo do sofrimento e da necessidade de ser cuidado. Em 27% dos relatos, aparece o medo de sofrer no momento da morte, o que os leva a ideali- zarem a boa morte como repentina e silenciosa. O receio da dependência de outras pessoas reflete o medo que os idosos sentem do sofrimento e de se tornarem inúteis. De acordo com Khoury e Günter (2008), a liberdade de ação e a privacidade constituem-se importantes necessidades de pessoas idosas. Walsh (1989/2001) assinala que o avanço da idade poder vir acompanhado de degenerações físicas e do te- mor da invalidez, sendo esta uma preocupação mais comum do que o temor da morte entre os idosos mais velhos. Na Tabela 3, encontra-se a categoria A morte do outro e suas respectivas subcategorias. Tabela 3 Frequência absoluta e relativa dos relatos apresentados por adolescentes, adultos e idosos com relação à categoria A morte do outro A morte do outro Adolescente Adulto Idoso Total n % n % n % n % Tristeza, dor e saudade 5 31 13 43 8 38 26 39 Melhor aceitação quando há sofrimento e/ou idade avançada 4 25 2 7 4 19 10 15 Aceita com naturalidade 3 19 6 20 3 14 12 18 Recordações 1 6 5 17 5 24 11 16 Reflexões sobre a vida 3 19 4 13 1 5 8 12 Total 16 100 30 100 21 100 67 100 Ao falarem sobre a morte de pessoas queridas, a sub- categoria mais frequente e que melhor descreveu o que re- presenta vivenciar a morte de alguém afetivamente próximo, para as três faixas etárias, independentemente da religião dos participantes, foi o sentimento de Tristeza, dor e sau- dade (31% de relatos dos adolescentes, 43% dos adultos e 38% dos idosos), denotando que, em qualquer fase da vida, a morte significa perda geradora de sofrimento. Considerando as respostas alocadas nesta categoria, somadas às respostas na categoria Recordações, observa-seque, para os adultos (60%) e idosos (43%), mais do que para os adolescentes (37%), a morte do outro significa a convivência com a falta, a saudade e as recordações. Nas falas dos participantes, per- cebe-se que esta diferença pode estar ligada a uma história mais longa de perdas na vida de adultos e idosos, do que na de adolescentes: “Angústia de pensar assim, ah, eu não vou ver aquela pessoa mais, não vou mais poder conversar. É [...] você fica, tipo, sentido, bastante” (Adolescente 2). Que nem o meu sogro, meu sogro era de eu e meu marido sentar ali e a gente ficar conversando, fa- lando de coisas que tinham acontecido. Foram vá- rios meses. Ia lá, ele não estava mais lá. Então tudo isso porque era muito próximo, entendeu. Aí o senti- mento, eu acho que é o mesmo, de pena, de [...], mas a dor eu acho que é maior, entendeu. Eu acho que é maior (Adulto 3). Eu perdi tudo. Perdi meu pai com 16 anos, mas não sofri tanto como quando perdi minha mãe. A minha mãe eu senti muito mais, porque a gente conviveu mais com ela [...] ela morreu com 69 anos de idade. Eu já era casado, já tinha os filhos que tenho até hoje, todos vivos. É, é difícil, é difícil. (Idoso 3) A morte de pessoas queridas traz um profundo senti- mento de tristeza por significar o rompimento dos laços e da proximidade com a pessoa amada. A dor vivenciada é in- tensa, e, para alguns participantes, pensar na possibilidade dessa separação gera mais apreensão do que pensar em suas próprias mortes: “Eu acho que eu tenho mais medo de perder um filho, né, uma pessoa próxima, do que eu mesmo partir, entende. Sentimos ainda medo dela por a gente gostar muito, curtir muito uma pessoa, ela estar muito próxima, então a gente não quer essa distância, né” (Adulto 8). De acordo com Brown (1989/2001), o ajustamento à morte de um membro do sistema familiar parece ser mais difícil do que o ajustamento a outras transições da vida, pois rompe o equilíbrio existente neste sistema, podendo levar a um distanciamento entre seus integrantes. Por outro lado, para os participantes do presente estudo, há algumas ocasiões em que a morte é aceita com mais facilidade, como, por exemplo, quando há Sofrimento e/ou o morto já se encontra- va em Idade avançada. Os relatos dos adolescentes foram os que apresentaram essas considerações com mais frequência (25%), seguidos dos idosos (19%): “Para mim foi fácil por- que ela já estava meio doente; ela estava no hospital e daí quando ela morreu, para a gente já estava assim, já esperava isso” (Adolescente 6); Se morrer um pai, uma mãe da gente e estão de idade, a gente se conforma. Agora, Deus o livre 181 Barbosa, C. G., Melchiori, L. E., & Neme, C. M. B. (2011).Morte e desenvolvimento humano. se morre um da gente mais novo, a gente fica ali, vê que a pessoa estava boa, foi assim de repente, a gente fica naquele, né, naquele nervo, e acho que a gente demora para conformar (Idoso 6). Esses resultados confirmam dados apresentados por Brown, mostrando que, quando a figura que morre estava doente ou era idosa, o luto terá consequências menos drásti- cas no sistema familiar, uma vez que a pessoa é vista como alguém que estava sofrendo ou que já cumpriu a maior parte de suas responsabilidades no curso vital. Geralmente, quem mais sofre com a situação será o cônjuge que ficou viúvo, pois, para os filhos que constituíram suas próprias famílias, a morte de um dos genitores, quando estes se encontram na velhice, parece ser mais bem aceita. Segundo Parkes (1972/1998), o casamento e a existência de filhos parecem protegê-los dos efeitos traumáticos que essa perda poderia gerar em suas vidas. Já, os adultos, apesar de relatarem tristeza e dor diante da perda de pessoas queridas, parecem encarar tal fato como algo inevitável, com o qual devem conviver: Daí, com o amadurecimento, quando eu perdi a mi- nha mãe, aquela coisa toda, você já está maduro, então você sabe que realmente aquilo é matéria, chegou a hora de ir embora (...) e tem que ir embo- ra. Então é isso. É aceitar (Adulto 6). Com relação aos idosos, falar sobre as perdas de pesso- as significativas levou-os a vívidas Recordações, o que não ocorreu da mesma maneira com os adultos e adolescentes entrevistados: Ela morreu em 29 de agosto de 2006 (...) ela esta- va respirando forte, né (...) e tinha mania de ron- car. Então, estava roncando, né, e roncando forte e roncou, roncou e parou. Quando parou, eu achei esquisito, fui ver e já estava falecida. (Idoso 1, refe- rindo-se à esposa) Falar sobre a morte deixou os idosos face a face com suas recordações. Uma das participantes idosas lembrou-se de seus irmãos, pai e mãe, enquanto outro idoso se recordou do falecimento de seu cunhado cuja morte ocorreu no dia de sua festa de bodas de ouro. Um deles havia perdido a esposa, dois anos antes da realização da entrevista, e recordou-se de- talhadamente do ocorrido. Os idosos já experienciaram maior quantidade de si- tuações de perdas do que seus filhos e netos. Tais perdas, associadas às limitações da idade e à diminuição dos conta- tos sociais, podem impeli-los rumo a um mundo solitário e vazio, o qual, muitas vezes, eles não se sentem capacitados a enfrentar. A Tabela 4 apresenta a categoria O viver frente à inevi- tabilidade do morrer e suas subcategorias. Tabela 4 Frequência absoluta e relativa dos relatos apresentados por adolescentes, adultos e idosos com relação à categoria O viver frente à inevitabilidade do morrer O viver frente à inevitabilidade do morrer Adolescente Adulto Idoso Total n % n % n % n % Aproveitar a vida 7 78 11 50 - - 18 42 Viver segundo preceitos morais e/ou religiosos 2 22 10 45 7 58 19 44 Viver é superar as dificuldades - - 1 5 5 42 6 14 Total 9 100 22 100 12 100 43 100 Ao falarem sobre como significar suas vidas diante da inevitabilidade do morrer, 78% dos relatos dos adolescentes apontaram para a necessidade de Aproveitar a vida, viven- ciando o momento presente, sem preocupações com a pos- sibilidade da morte: “Tem que aproveitar enquanto pode, ir lá, assim, sem pensar no amanhã. Faz hoje, por que você não sabe se amanhã você vai estar vivo ou vai estar morto” (Adolescente 2). Esse resultado confirma e ilustra o modo de ser dos ado- lescentes que, em geral, olham para o presente e desejam o futuro com um sentimento de aparente invulnerabilidade (Rodriguez & Kovács, 2005). Com relação aos adultos, metade de suas falas (50%) ressalta a necessidade de aproveitar a vida. Contudo, entendem que o desfrute deve ser acompanhado da preserva- ção de valores fundamentais, como o respeito pelo outro, o cultivo da espiritualidade e a vivência junto à família. Além disso, resgatam as conquistas obtidas e a superação de adver- sidades, reconhecendo-se transformados por suas experiên- cias existenciais: Para mim a vida é isso daí, viver intensamente [...] Nós temos que saber viver em todos os momentos, e saber compreender que se você está passando por alguma coisa, algum momento difícil, é passageiro. É só você continuar vivendo, respeitando, que passa por aquilo, por esse momento ruim e virão outras coisas boas (Adulto 8). 182 Paidéia, 21(49), 175-185 Diferentemente, entre os idosos, nenhuma resposta inseriu-se na categoria Aproveitar a vida. Mais da metade de seus relatos (58%) referiu-se à necessidade de Viver de acordo os ensinamentos morais e religiosos: Nós temos dois caminhos, o da perdição e o da sal- vação. Cada um escolhe aquele que acha que é cer- to. Eu vou levando a minha vida aí até o fim [...] Eu, graças a Deus com a esposa nós sempre vivemos bem; quase nunca tivemos desgosto na vida, no ca- samento, né, e nunca também dei desgosto para o meu sogro, minha sogra (Idoso 10). O fato de serem idosos parece não lhes permitir proje- tarem suas vidas para um futuro distante. Então, olham para suas vidas e recordam-se das conquistas e dos obstáculos que superaram, enfatizando a boa convivência com o outro, o respeito e a preservação de valoresque, para eles, contri- buíram para que colhessem bons frutos ao longo da vida. Quase metade (42%) de suas falas também relacionou essas conquistas à Superação das dificuldades enfrentadas ao lon- go da vida: A vida para mim é um caminho [...] Acredito que para que a gente evolua há muita necessidade de muitos obstáculos para que a gente consiga enfren- tar a força de vencer, né. Você vai indo, está no ca- minho, está trabalhando com a própria evolução, vencendo obstáculos. (Idoso 4) A análise das entrevistas e as observações referentes à forma como tais conteúdos foram abordados pelos en- trevistados permitem algumas considerações. No que diz respeito aos adolescentes, observou-se que eles encaram a morte como algo real, universal, inevitável e irreversível, contudo parece que não se preocupam muito com ela, uma vez que o presente e o futuro exigem maior atenção. Para eles, a própria morte é algo distante, e, talvez por essa ra- zão, suas falas apresentem certa dose de despreocupação com esta possibilidade. De acordo com Rodriguez e Kovács (2005), uma das principais características da adolescência é o desejo de “aproveitar a vida” que, frequentemente, leva- os a “desafiar a morte”. No entanto, no que diz respeito às perdas de pessoas próximas, esta possibilidade é vista com tristeza e dor, fazendo parte das preocupações dos adoles- centes entrevistados. Quanto aos adultos, de maneira geral, compreendem a morte como um acontecimento universal, do qual não têm como escapar. Contudo, ao falarem sobre como lidam com a própria finitude, vários preferiram evitar pensar sobre o assunto. Foram poucos os momentos em que conseguiram falar abertamente sobre seus temores e angústias. Na maior parte dos relatos, a preocupação com a morte foi associada aos familiares e em como estes se sustentariam sem eles. Tal apreensão foi uma característica marcante entre os adultos, principalmente entre os homens. Quanto às perdas, esta pos- sibilidade é vista com sofrimento, dor e saudade, sendo que a manifestação de tais sentimentos ocorreu de maneira mais explícita do que quando apresentada pelos adolescentes. O avanço da idade pareceu propiciar reflexões sobre a brevi- dade da própria vida, especialmente nos momentos de per- da. Ao abordarem a questão da morte do outro e a ideia da própria finitude, os participantes falaram da necessidade de aproveitar bem a vida e o momento presente, num movimen- to de aparente afastamento do tema da morte, deixando-a para mais tarde. Ao refletirem sobre suas histórias de vida, relembram as dificuldades e os obstáculos encontrados. Per- cebem a necessidade de atentarem para o presente e para o futuro, a fim de desfrutarem o que a vida já lhes proporcio- nou e para o que podem ainda desejar, distanciando-se da perspectiva da finitude. Quanto aos idosos, suas falas denotam certa aceitação com a proximidade da própria morte e das perdas de pessoas queridas. Vários disseram pensar sobre a própria finitude e parecem sentir-se conformados em não desejar nada mais de suas vidas além de saúde, felicidade e uma morte tranquila e sem sofrimento. Em seus relatos, a morte do outro foi vista com grande sofrimento, suscitando lembranças nostálgicas e solitárias. Quando questionados sobre como veem a vida, disseram saber que estão no fim de suas jornadas e que a in- certeza, com relação ao tempo que ainda lhes resta, não lhes permite traçar grandes planos futuros. Contudo, ao longo das entrevistas, quase todos os idosos aproveitaram a oportuni- dade de falar livremente para se recordarem de eventos sig- nificativos de suas vidas, em que superaram sofrimentos e obtiveram conquistas. De modo geral, adolescentes e idosos mostraram menos aflição ao falarem de morte, quando comparados aos adultos. Entretanto, apesar da naturalidade apresentada por ambos, os significados de seus discursos revelaram importantes di- ferenças. Isso porque, enquanto os idosos falaram da morte com maior conformidade, denotando estar se preparando para ela, os adolescentes apresentaram um discurso de ba- nalização da morte, esquivando-se dela e colocando-a como uma possibilidade remota. Os adultos, entre as três gerações entrevistadas, são aqueles que mantiveram uma relação mais conflituosa com o morrer. Todos são genitores e, em certa medida, ainda sentem-se responsáveis pelo cuidado dos filhos, de modo a projetarem suas perspectivas de vida em virtude deles. No entanto, à medida que envelhecem e experienciam a morte de diversas pessoas ao redor, passam a temer o próprio fu- turo que, de um lado, pode trazer a perda de seus genitores, e, de outro, pode lhes retirar desse mesmo papel. Diante de tal ameaça, portanto, eles foram os que mais demonstra- ram temer a morte, negando-a mais do que adolescentes e idosos. Com relação à religião, excetuando-se um adolescente que se declarou sem religião e um idoso, na mesma situação, mas que disse acreditar em Deus, os demais participantes 183 Barbosa, C. G., Melchiori, L. E., & Neme, C. M. B. (2011).Morte e desenvolvimento humano. (93,5%) declararam pertencer a alguma denominação reli- giosa, sendo: 18 católicos (58%); quatro espíritas (13%); sete evangélicos (23%). Esses dados são similares aos en- contrados por Nascimento e Roazzi (2007), ao estudarem a representação social da morte na interface com as religiosi- dades cristãs que acreditam na vida eterna e na sobrevivên- cia da alma ou espírito após a morte. A concepção de morte como etapa esperada e natural da vida foi mais frequente entre os entrevistados evangélicos, aparecendo em 86% de suas falas, em 50% das falas dos espíritas e em 33% dos relatos dos católicos. O adolescente que se mostrou mais re- ticente ao falar da morte e que mais evitou o tema da própria morte foi o que se declarou sem religião. Os participantes que praticavam a religião espírita foram os únicos a relatar que trazem a reflexão sobre a morte para suas vidas diárias. Não se observaram outras diferenças entre os participantes nas demais categorias de respostas ou entre as faixas etárias com relação à religião declarada e, neste estudo, não houve aprofundamento dessa questão. Estudo realizado por Torres (1986) mostrou que a orto- doxia religiosa leva a um menor temor da morte. As diferen- ças entre evangélicos, espíritas e católicos, quanto à forma de se referir à morte, na categoria Processo natural do de- senvolvimento, podem ser decorrentes das peculiaridades de cada religião quanto à crença do que ocorre após a morte e à ortodoxia da crença na ressurreição e vida eterna, notada- mente maior entre evangélicos do que entre a maioria dos ca- tólicos. Entre os espíritas, a crença na reencarnação leva seus adeptos a encarar a morte como uma simples “passagem” entre vidas, tornando mais confortadora a ideia da morte (Nascimento & Roazzi, 2007; Torres, 1986). De acordo com Horta, Neme, Capote e Gibran (2003), Kovács (2003b) e Neme (2005), a fé e a religiosidade, independentemente da denominação religiosa, auxiliam no enfrentamento da doen- ça grave e da morte, permitindo reflexões sobre o significado da vida e a manutenção da esperança frente a uma realidade que traz insegurança e sofrimento. A despeito das diferenças nas três faixas etárias estuda- das, os resultados obtidos mostram que a morte foi abordada com maior inquietação por adolescentes e adultos, visto que eles ainda têm projetos futuros e, por essa razão, encaram a morte como aniquilação da vida ou finalização de projetos existenciais. Os idosos, mais do que adultos e adolescentes, falaram da morte como processo natural da vida, consideran- do mais concretamente os temores de adoecer, de se torna- rem dependentes e de morrer com sofrimento. O sentimento de perda, vazio, saudade e tristeza pela morte de entes queri- dos é mais presente para os idosos, levando-os a reflexões e falas que revelam suas recordações. Considerações finais A realização deste trabalho possibilitou aos participan- tesabertura para falarem e compartilharem seus sentimentos, opiniões, crenças e temores sobre um tema complexo e difi- cilmente abordado. Ao criar espaços para que o silêncio ao redor do assunto fosse quebrado, este estudo permitiu lançar um olhar reflexivo ao modo como os seres humanos de três faixas etárias concebem a inevitável finitude em suas vidas. Assim, foi possível perceber que, embora a morte seja trata- da como um fenômeno natural, na maior parte dos relatos, o aprofundamento da reflexão sobre o tema possibilitou trazer à tona os medos, as preocupações, as aflições e as dificulda- des de encará-la sem sofrimento. Em linhas gerais, os resultados confirmam o que a lite- ratura sobre o desenvolvimento humano descreve sobre as concepções de morte nas diferentes faixas etárias. Também confirmam possíveis relações entre a religiosidade e o modo de ver a vida e a morte, independentemente da faixa etária estudada. Contudo, acredita-se que tais resultados poderiam ser diferentes, caso se considerassem diferentes classes so- ciais e condições de vida entre os indivíduos das mesmas faixas etárias estudadas. A entrevista permitiu aos participantes a exposição e a reflexão de suas experiências de vida, bem como possibili- tou que a relutância inicial para falar sobre o assunto fosse gradativamente substituída por uma postura de maior aber- tura. Falar sobre a morte permitiu vislumbrar muito da vida de cada participante, obtendo-se mais que uma simples e superficial descrição. Evidenciou-se que o tema da morte é mobilizador de sentimentos em qualquer etapa da vida, e a possibilidade de abordá-lo gerou reflexões frequentemente ausentes nos diálogos e contextos familiares e educacio- nais. Que benefícios educativos o poder falar abertamente sobre suas angústias e temores frente à ideia da morte po- deriam trazer às crianças, adolescentes e adultos jovens? Esse tipo de diálogo, ainda constrangedor, poderia auxiliar adultos e idosos que, gradativamente, vão se conscientizan- do dessa realidade no decorrer do curso vital? Como educa- dores e profissionais de saúde poderiam melhor se preparar para atuar como facilitadores quando se trata de abordar a morte e o morrer? As crenças religiosas sobre a continua- ção da vida após a morte seriam uma maneira de aceitação/ negação do próprio fim? Tais questões, suscitadas por este estudo, sugerem a realização de outros trabalhos, nos quais poderiam ser contemplados aspectos não abordados, am- pliando-se os limites do presente estudo. Sugere-se a realização de pesquisas com outras faixas etárias (crianças e adultos jovens), com maior número de participantes, em diversos contextos e classes sociais e em diferentes áreas de conhe- cimento, bem como estudos comparativos entre gêneros e diferentes religiosidades. As dificuldades observadas para abordar a questão da morte mostram que ela precisa ser reconduzida ao seu lugar originário, qual seja, o interior da existência humana. Espera-se que o desenvolvimento de estudos dessa natureza diminua o silêncio que cerca o assunto, propiciando, assim, abertura para novas possibili- dades de viver e de significar a vida. 184 Paidéia, 21(49), 175-185 Referências Ariès, P. (2003). História da morte no Ocidente (P. V. Siqueira, Trad.). Rio de Janeiro: Ediouro. 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Recebido: 03/03/10 1ª revisão: 26/08/10 Aceite final: 14/10/2010 MÓDULO 5 49 O M un do d a Sa úd e, S ão P au lo - 20 12 ;3 6( 1) :4 9- 53 A rt ig o de R ev is ão • R ev ie w P ap er Comunicação de Más Notícias Communicating bad news Maria Júlia Paes da Silva* Resumo Trata-se de um artigo de revisão sobre o tema “comunicação de notícias difíceis”, que questiona as possíveis razões pelas quais os profissionais de saúde têm dificuldade em falar sobre o processo de terminalidade do paciente e que aponta aspectos que podem tornar esse momento mais suportável e acolhedor. Apresenta propostas de ação nas dimensões ver- bal e não verbal da comunicação interpessoal que propiciam reduzir o estresse e ansiedade do paciente, da família e do próprio profissional. Palavras-chave: Cuidados Paliativos. Morte. Comunicação não Verbal. Abstract This paper presents a review on the theme “communicating bad news”, discussing the possible reason health care pro- fessionals have difficulties to talk about the terminally sick patient process and showing factors able to make this moment more bearable and hospitable. It presents proposals for action in the verbal and nonverbal dimensions of interpersonal communication aiming to reduce stress and anxiety affecting patients, their families and professionals. Keywords: Hospice Care. Death. Nonverbal Communication. * Enfermeira. Professora Titular da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisa em Co- municação Interpessoal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Co m un ic aç ão d e M ás N ot íc ia s O M un do d a Sa úd e, S ão P au lo - 20 12 ;3 6( 1) :4 9- 53 50 Gracias a la vida que me ha dado tanto Me ha dado el sonido y el abecedario Con él, las palabras que pienso y declaro Madre, amigo, hermano Y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando Violeta Parra Será que existe “má notícia” quando temos consciência de que estamos trilhando o caminho da nossa vida sendo fiel a nossa alma? Será que a “má notícia” não é o desafio do aprendizado do desapego? Desapegar-se do que “se esperava”, para o que a vida nos apresenta? Com toda sua grandeza de possibilidades e, claro, o final de seus ciclos? Estar ou não estar presente... Conviver ou não com quem nos faz bem... Mas, como profissionais de saúde, somos mensageiros de “más notícias”. Daquelas notí- cias que também não gostaríamos de dar por nos lembrar dos nossos próprios desafios e finitude. Fizemos cursos na área de saúde para au- xiliar as pessoas a ficarem “bem”, para comba- ter doenças, para assistir o indivíduo, doente ou sadio, na execução daquelas atividades que contribuem para a saúde, ou sua recuperação. Mas poucos de nós aprendemos a ser profissio- nais de saúde que podem auxiliar esse mesmo indivíduo a ter uma morte serena ou a conviver/ elaborar o luto de alguém amado que encerra seu ciclo e morre1. A “morte”, geralmente, é uma “má notícia”, embora deixar de ver alguém sofrer, de ver al- guém cada vez mais dependente e triste, de ver alguém “definhando”, possa, às vezes, ser um alí- vio, mesmo trazendo sofrimento. Da mesma for- ma, se estamos “com muitos planos”, a notícia de alguma grave doença pode ser uma “má notícia”. Como tornar esse “momento” da má notícia (que na maioria das vezes não é um momento, mas um processo gradativo) mais suportável e acolhedor? Nesse caso, estamos falando de habi- lidades de comunicação interpessoal, comunica- ção verbal e não verbal. Sabe-se que a habilidade de comunicação de notícias nos encontros iniciais desse processo pode produzir duas grandes reações: se adequa- da, a família e o paciente “nunca a esquecerão”, se inadequada, eles “nunca a perdoarão”2. Comunicação verbal são todas as palavras usadas na interação; comunicação não verbal são todas as outras formas de emissão de mensagem que não a palavra, propriamente dita, ou seja, as expressões faciais, os gestos, as posturas corpo- rais, a maneira de tocar ou ser tocado, a distância que mantemos da outra pessoa, por exemplo3,4. Essas duas dimensões da comunicação, a verbal e a não verbal, são fundamentais quando pensamos na melhor maneira de darmos uma má notícia, pois toda comunicação tem duas partes: o conteúdo – o fato ou informação que queremos ou necessitamos transmitir – e o sentimento que temos em relação à própria notícia, à pessoa para quem estamos transmitindo a mensagem e a situa- ção/contexto em que a interação está ocorrendo4,5. Essas dimensões se complementam (dizer “sinto muito” e estar com a fisionomia séria, olhando nos olhos da pessoa, por exemplo), se contradizem (dizer “sinto muito” e sair andando imediatamente, sem dar tempo para a outra pes- soa se expressar) e expressam sentimentos (dizer “sinto muito” e demonstrar tristeza no tom de voz e na expressão facial)4. Estudiosos da comunicação não verbal chegam a afirmar que 7% dos pensamentos são transmitidos por palavras e o restante por essa di- mensão; por isso, permanecer ao lado de uma pessoa em silêncio, por exemplo, após dizer “sin- to muito” pode até substituir o verbal. Implicita- mente, a permanência ao lado, a disponibilidade para ficar junto “mais um pouco”, a disposição para ouvir substitui o falar, em um contexto que o mais adequado pode ser o acolher o sofrimento, a dúvida ou as reflexões da outra pessoa3,5. A mente é como o vento e o corpo como a areia. Se você quer conhecer o vento, observe o movimento da areia Provérbio árabe Cada processo de comunicação exige uma técnica adequada ao seu conteúdo. Não existe uma técnica que sirva para todas as situações. A maneira de dar uma má notícia varia de acordo com a ida- de, o sexo, o contexto cultural, social, educacional, a doença que acomete o indivíduo, seu contexto fa- miliar... Enfim, a eficácia do processo de comunica- ção depende da flexibilidade para utilizar a técnica adequada em cada circunstância. 51 Co m un ic aç ão d e M ás N ot íc ia s O M un do d a Sa úd e, S ão P au lo - 20 12 ;3 6( 1) :4 9- 53 Na dimensão verbal, vale lembrar que a in- teração tende a ser positiva se as mensagens são enviadas de maneira1,2,6: a) nítida: com códigos que o outro também entenda. O uso dos termos/ palavras deve ser adequado ao grau de escolari- dade e área de atuação do indivíduo; b) específi- ca: com detalhes suficientes para que o receptor saiba/entenda sobre o que está sendo falado; c) não punitiva: evitando “sermões”, censuras, raiva ou sarcasmo ao falarmos. Na dimensão não verbal, é fundamental estarmos atentos3,4: a) a fatores do meio am- biente – existe “adequação” para que senti- mentos e angústias sejam expostos?Há algum grau de isolamento e privacidade para que a exposição de angústias e medos seja feita? Há cadeira, cama para que o outro se sente?; b) à Cinésica – a linguagem do corpo. Como nos expressamos através dos gestos, das nossas ex- pressões faciais, das nossas posturas corporais. E também o que a linguagem do corpo do ou- tro está nos dizendo (sem “abrir a boca”!); c) à Proxêmica – a distância que mantemos da pes- soa, o uso adequado do espaço interpessoal, sabendo se nos aproximamos mais ou menos e a forma como nos aproximamos (respeitando seu espaço pessoal e entendendo os gestos que mostram desejo de isolamento e distanciamen- to: fechar os olhos, virar o corpo para a parede, cobrir o rosto com o lençol, por exemplo); d) à Tacêsica – maneira como tocamos as pessoas, lembrando que a interpretação do toque varia de acordo com a parte do corpo tocada, o tem- po que dura esse contato, a força aplicada ao tocar, a frequência com que o toque ocorre. Na cultura ocidental, aceitamos melhor o toque nos membros superiores (braços e mãos) do que em qualquer outra parte do corpo (mesmo o to- que em pernas e pés pode ser percebido como invasivo); e) à Paralinguagem ou à linguagem Paraverbal – maneira como falamos algo, inde- pendentemente da palavra, propriamente dita. São os sons usados pelo aparelho fonador que qualificam o que falamos. É só imaginar a di- ferença de interpretação ao frisarmos a palavra que está em maiúsculo: “eu não faria isso se fosse você”; “eu não faria isso se fosse você”; “eu não faria isso se fosse você”; eu não faria isso se fosse você”. O desafio em ancorarmos todas essas dimen- sões da comunicação de forma adequada é que de algumas dessas mensagens temos consciência e controle (por exemplo, podemos decidir olhar ou não, sorrir ou não, apertar a mão ou não, se aproximar ou não), porém de outras temos cons- ciência, mas não temos controle (o rubor facial, o tremor da voz, o suor, a palidez...). Como sabe- mos, não é porque não temos controle voluntário que as mensagens deixam de existir e transmitir significados. E o mais desafiador: de uma parte do nosso comportamento, do que emitimos, não temos nem consciência, nem controle4. O exem- plo mais adequado por estarmos refletindo so- bre “más notícias” é a dilatação pupilar. Em um contexto de adequada luminosidade, sem inter- ferências físicas e químicas, nossa pupila dilata quando gostamos do que estamos ouvindo, do contexto que estamos vivendo. Por não termos consciência de toda essa si- nalização, muitas vezes emitimos o que não gos- taríamos de emitir e deixamos de perceber o que é mais sutil perceber. É mais difícil perceber a dor, o sofrimento, a angústia, a tristeza... É mais fácil ser objetivo, técnico e prático! Porém, no contexto das “más notícias” (se é que não podemos afirmar que em qualquer contexto), são os sentimentos que qualificam a notícia como “má” ou “boa”. Ou seja, se é a dimensão não verbal da comunicação que qualifica a relação, que demonstra respeito, empatia, compaixão, solidariedade, acolhimento, ela precisa ser aprendida e ensinada. Em estudo desenvolvido na década de 70, concluiu-se que a empatia (postura adequada e desejada nos profissionais de saúde) é, basicamen- te, ser capaz de7: a) prestar atenção, que envolve: aproximação; orientação corporal adequada; cor- po “descruzado”; contato ocular...; b) ouvir sensi- velmente: identificar a mensagem central; esperar o outro concluir as frases; usar meneio positivo...; c) verbalizar sensivelmente: identificar e relacio- nar o sentimento, o contexto e a perspectiva. Reconhecer as barreiras mais comuns de uma comunicação interpessoal adequada nos aju- da em cada encontro. Dar notícias difíceis é um processo gradativo, vale repetir, que envolve mais do que um único encontro. As verdades podem ser ditas, desde que se respeite o limite do outro em querer ouvi-las8. Podemos “ler” no compor- Co m un ic aç ão d e M ás N ot íc ia s O M un do d a Sa úd e, S ão P au lo - 20 12 ;3 6( 1) :4 9- 53 52 tamento e na fala do indivíduo seu interesse em continuar ou não uma conversa, um tema (olhar na direção de quem fala ou não, ficar em silêncio ou não, perguntar sobre o tema ou não, esclarecer detalhes sobre o que está sendo dito ou não...) Listando algumas barreiras de comunicação interpessoal, temos1,4,6: a) excesso de estímulos – auditivos, visuais; b) avaliação do emissor – há vínculo entre o profissional e o cliente? A postura, a aparência despertam confiança e segurança no paciente?; c) audição seletiva – ouvimos, muitas vezes, o que esperamos ouvir, o que conseguimos entender, o que estava de acordo com nossa ex- pectativa! Quando algo é dito, não quer dizer que seja ouvido, assim como qualquer coisa falada não quer dizer que seja compreendida; d) diver- sidade de intenções – o profissional quer contar o que sabe e o cliente quer contar suas dúvidas, medos, expectativas e ouvir o que o profissional não sabe: “vou ficar bom? O senhor pode me dar essa certeza?”; e) percepções diferentes – as ex- periências, a cultura, os sentimentos podem gerar uma compreensão diferente de um mesmo fato ou fenômeno. Fatos e opiniões são coisas diferentes: um fato é algo ocorrido, ao passo que opinião é a maneira como vemos esse fato e como queremos/ conseguimos percebê-lo. A diferença entre fatos e opiniões é grande, mas, diante de uma notícia di- fícil, pode parecer mínima. Talvez, muitas dessas barreiras ocorram por- que ignoramos os sinais da comunicação não verbal expressos, ininterruptamente, pelo outro e por nós. É adequado lembrar que podemos dei- xar de falar, mas não de nos comunicar, visto que a sinalização do não verbal existe sempre. Calar é mensagem, falar é mensagem; sentar é mensa- gem, levantar é mensagem; olhar é mensagem, desviar o olhar também... Ajuda, portanto, mesmo que não haja “estar atento aos seguintes aspectos fórmulas únicas” para dar uma notícia difícil1,2,6: a) alguma privaci- dade (sempre que possível). A disponibilidade de tempo nesse momento precisa ser maior, portanto o telefone e as interrupções devem ser evitados, para que o máximo de atenção seja oferecida; identificar o que a pessoa sabe e o que ela de- seja saber. Usar uma linguagem inteligível e em “pequenas doses”, observando sua compreensão com pequenas pausas no falar; reduzir barreiras físicas. Toques afetivos podem ser adequados, se o paciente for receptivo e não o rejeitar; evitar interrupções enquanto o outro fala (é demons- tração de respeito e interesse). Repita, se houver necessidade, uma palavra-chave da última fala do paciente e torne claros, ao final, tópicos am- bíguos ou obscuros; usar o meneio positivo da cabeça (na nossa cultura, normalmente, signifi- ca: “estou te ouvindo”, “entendo”, “pode conti- nuar falando”...); olhar para a pessoa enquanto ela fala e enquanto falamos; identificar a emoção e a causa da emoção da pessoa e a aceitar, an- tes de propor alguma estratégia de ajuda; estar sempre atentos ao não verbal do outro (que nos avisa “quanto” falar e “como” falar); após uma má notícia, é importante não subestimar o valor de apenas ouvir, ficar junto, disponível. Validar o que foi compreendido. De maneira geral, os protocolos que ten- tam auxiliar os profissionais de saúde para que transmitam uma má notícia orientam: antes de dizer, pergunte; tome conhecimento das emo- ções do paciente e lide com elas por meio de respostas empáticas; ofereça apoio ao paciente ouvindo suas preocupações; não subestime o va- lor de apenas ouvir e, às vezes, não faça nada: mas fique por perto9. E todo bom profissional sabe como é difícil esse “faça nada” carregado de ação amorosa e benéfica. Podemos afirmar que comunicação adequa- da é aquela que tenta diminuir os conflitos, mal- -entendidos e atingir os objetivos definidos para a solução de problemas detectados na interação com as pessoas4. Problemas, no contexto das no- tícias difíceis,talvez possam ser entendidos como tudo que afaste o outro da possibilidade de viver uma vida boa, confortável e tranquila, enquanto for possível, enquanto viver. As pessoas precisam da verdade durante toda a vida, não apenas no fim dela, por respeito, para poderem desenvolver sua autonomia e arbí- trio. Por essa razão receber más notícias faz parte da nossa vida. Talvez estejamos em um bom momen- to para refletir que a morte não é um “erro do sistema”, mas uma dimensão fundamental da natureza humana. A morte existe e, por sermos mortais, devemos morrer. Porém, refletir sobre a morte permite que questionamos uma socie- 53 Co m un ic aç ão d e M ás N ot íc ia s O M un do d a Sa úd e, S ão P au lo - 20 12 ;3 6( 1) :4 9- 53 dade que coloca o foco na eficiência, eficácia e efetividade de todos os processos. Refletir so- bre a morte nos tempos e contextos atuais tam- bém permite que questionamos uma sociedade em que as pessoas morrerem sós, abandonadas, muitas vezes rodeadas apenas de tubos e má- quinas. Questiona uma sociedade que despe os indivíduos de sua identidade e os transforma em algo (um número, uma doença, um “caso”). A má notícia é que somos finitos, ou a má notícia é que, talvez, não tenhamos sido educados para viver a vida, em toda sua grandeza e beleza? Gracias a la vida que me ha dado tanto Me ha dado la risa y me ha dado el llanto Así yo distingo dicha de quebranto Los dos materiales que forman mi canto Y el canto de ustedes que es el mismo canto Y el canto de todos que es mi propio canto Violeta Parraa REFERÊNCIAS 1. Silva MJP, Araújo MMT. Comunicação em cuidados paliativos. In: Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Manual de Cuidados Paliativos. Rio de Janeiro: Dia Grafic; 2009. p. 49-57. 2. Petrilli AS, Pascalicchio APA, Dias CG, Petrilli RT. O processo de comunicar e receber o diagnóstico de uma doença grave. Diag Tratamento. 2000;5(1):35-9. 3. Knapp ML, Hall JA. Comunicação não-verbal na interação humana. São Paulo: JSN Editora; 1999. 492 p. 4. Silva MJP. Comunicação tem remédio: a comunicação nas relações interpessoais em saúde. São Paulo: Loyola; 2010. 5. Ekman P. 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Recebido em: 6 de dezembro de 2011 Versão atualizada em: 20 de dezembro de 2011 Aprovado em: 3 de janeiro de 2012 263 Artigo de Opinião Comunicação em Cuidados Paliativos Oncológicos Artigo submetido em 18/7/16; aceito para publicação em 19/1/17 Revista Brasileira de Cancerologia 2016; 62(3): 263-266 Formação dos Profissionais de Saúde na Comunicação de Más Notícias em Cuidados Paliativos Oncológicos Health Care Professionals’ Training in Communicating Bad News in Oncologic Palliative Care Formación de Profesionales de la Salud en la Comunicación de Malas Noticias en los Cuidados Paliativos Oncológica ¹ enfermeira. residente em oncologia: cuidados Paliativos pela universidade do estado do Pará (uePa). Belém (Pa), Brasil. E-mail: barbararafaela1@gmail.com ² Psicóloga. residente em oncologia: cuidados Paliativos pela uePa. Belém (Pa), Brasil. E-mail: adrya-karolinne@hotmail.com ³ enfermeira. residente em oncologia: cuidados Paliativos pela uePa. Belém (Pa), Brasil. E-mail: carolina.galvaofonseca@gmail.com 4 assistente social. residente em oncologia: cuidados Paliativos pela uePa. Belém (Pa), Brasil. E-mail: lorranysouza_18@hotmail.com Endereço para correspondência: Barbara rafaela Bastos. travessa timbó, 1.839 - Marco. Belém (Pa), Brasil. ceP: 66095-128. E-mail: barbararafaela1@gmail.com barbara Rafaela bastos¹; Ana Carolina galvão da Fonseca²; Adrya Karolinne da Silva Pereira³; Lorrany de Cássia de Souza e Silva4 IntRodução a medicina tem passado por diversas modificações ao longo do tempo. é notável os avanços na prática médica, sobretudo nas tecnologias dos procedimentos invasivos e na prevenção/tratamento de doenças infectocontagiosas, esse fato tem originado melhorias relevantes na saúde. em consequência disso, tornaram-se cada vez mais raros os casos de morte por alguns tipos de doença como, por exemplo, varíola e tuberculose¹. Fatores como a redução da taxa de natalidade e mortalidade por doenças infectocontagiosas, o aumento das medidas preventivas em saúde e as práticas de vida saudável têm contribuído para o aumento da expectativa de vida populacional; em consequência disso, é maior a exposição a fatores de risco, levando ao aumento da incidência de doenças crônico-degenerativas, especialmente as cardiovasculares e câncer². dados do instituto Brasileiro de Geografia e estatística (iBGe) mostram que a expectativa de vida dos brasileiros aumentou em quase 30 anos de 1940 para 2014³. esse fato, juntamente com o incremento das novas técnicas de diagnóstico, rastreamento e registro dos casos, como, por exemplo, os registros de câncer de bases populacionais e hospitalares, contribui para que mais pessoas sejam diagnosticadas com câncer4. no Brasil, as estimativas, para o biênio 2016-2017, apontam a ocorrência de aproximadamente 596.070 novos casos de câncer 4. se por um lado, os avanços da medicina junto às condições de vida e saúde têm proporcionado uma melhoria na qualidade de vida das pessoas, principalmente nas sociedades desenvolvidas; por outro, a questão do aumento da expectativa de vida não pode ser confundido com prolongamento muitas vezes desnecessário e tratamentos injustificáveis, com a obstinação terapêutica a qualquer custo5. conceitua-se cuidados paliativos “como uma abordagem que visa a melhorar a qualidade de vida dos doentes, e das suas famílias, que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável e com prognóstico limitado6. é importante frisar que a essência do cuidado paliativo só é efetiva se houver envolvimento da equipe multidisciplinar e uma comunicação efetiva, proporcionando uma assistência harmônica e convergente ao indivíduo sem possibilidades de cura e a sua família7,8. a comunicação é um processo essencial nas relações humanas, e é imprescindível para que se possa obter uma assistência de qualidade, além de estar voltada para o processo de humanização. a prática da comunicação é a medida terapêutica, comprovadamente eficaz, para os pacientes que carecem desses cuidados, sobretudo, os que se encontram em fase final de vida7,8. a maneira de como comunicar uma má notícia pode ter um grande impacto no modo como a pessoa doente irá viver o processo saúde/doença e seu respectivo tratamento. se a comunicação for feita de maneira 264 Bastos BR, Fonseca ACG, Pereira AKS, Silva LCS Revista Brasileira de Cancerologia 2016; 62(3): 263-266 inadequada, pode desencadear equívocos, sofrimento prolongado e ressentimento; se for feita adequadamente, pode gerar compreensão, aceitação e ajustamento8,9. todos os profissionais de saúde precisam entender o processo de morte, e desenvolver principalmente a capacidade de se comunicar e “estar ao lado” quando a morte for inevitável10. Visto que a comunicação é uma ferramenta essencial para essa modalidade de cuidado, como vem sendo aplicada à comunicação de más notícias em cuidados paliativos nos serviços de saúde? os profissionais da área estariam preparados para estabelecer uma comunicação adequada? as instituições de ensinoestariam fornecendo a formação necessária para efetivar o processo de comunicação nos cuidados paliativos? COMuNICAçãO DE MáS NOTíCIAS EM CuIDADOS PALIATIvOS NOS SERvIçOS DE SAúDE na prática dos cuidados de saúde, principalmente as voltadas para o processo de comunicação, são várias as questões éticas que se apresentam aos profissionais de saúde. no domínio da relação entre profissionais de saúde e pacientes em processo de finitude, a comunicação de más notícias continua a ser uma das situações mais delicadas, difíceis e complexas, quer pela gravidade das notícias, quer pelas indagações que ainda existem em torno de quem, como, quando e o que comunicar à pessoa doente e sua família11. Por isso, levando em consideração a prática do cuidado paliativo, consideramos que a comunicação de más noticiais precisa ser aplicada e treinada por todos os profissionais envolvidos nesse contexto, pois sabemos que a maneira como a notícia é transmitida é um fator crucial para o enfrentamento de doenças que ameaçam a continuidade da vida. um projeto realizado pelo Ministério da saúde, por intermédio do instituto nacional de câncer José alencar Gomes da silva (inca), e a sociedade Beneficente israelita Brasileira albert einstein, teve como tema central as dificuldades de comunicação de más notícias na prática clínica dos profissionais da saúde. esse projeto foi descrito em um livro lançado em 2010 pelo inca, sendo resultado de um laboratório de práticas com a intenção de beneficiar diretamente os profissionais envolvidos nessa atuação. esse tipo de prática torna-se um valioso recurso para os profissionais da saúde, pois proporciona um espaço para a troca de experiências relacionadas às dificuldades enfrentadas no dia a dia ao lidar com comunicação de más notícias12. Para que o repasse de más notícias seja adequado, os profissionais atuantes em cuidados paliativos precisam, além de aprender a se comunicar, reconhecer que o doente sempre tem alguma coisa a ensinar a toda equipe. Quando se enxerga a possibilidade de se comunicar algo a alguém, deve-se estar preparado para responder aos questionamentos que forem apresentados de maneira segura e equilibrada. se a equipe multidisciplinar estiver treinada para a comunicação de más notícias, isso será o início da terapêutica paliativa, proporcionando transparência na comunicação e estabelecendo vínculo de confiança com a equipe. Vale ressaltar que a comunicação não verbal; ou seja, expressões que não utilizam palavras, é também um componente essencial em todo esse processo, sendo que, muitas vezes, pode ser dedicada pouca atenção por parte dos profissionais de saúde. a comunicação não verbal vai até mais além, pois permite a percepção e compreensão de sentimentos, dúvidas e angústias do paciente por meio de olhares e linguagem simbólica, típicos de quem está vivenciando a fase em que a cura não é objetivo do tratamento13. destacamos a importância da comunicação de más notícias, pois implica diretamente na atitude do paciente, por isso, é indispensável e importante que o profissional estabeleça esse vínculo e esclareça todas as dúvidas em relação à assistência prestada proporcionando-lhe autonomia, elucidação e qualidade de vida. além disso, precisa-se estar atento às tentativas de pacientes ao final da vida em descrever o que estão vivendo, porque as informações podem se perder se mal interpretadas ou ignoradas. CuIDADOS PALIATIvOS E COMuNICAçãO NA FORMAçãO DOS PROFISSIONAIS DE SAúDE aprender a lidar com as perdas num contexto amplo é um desafio que poucos se propõem enfrentar, e muito menos conduzir. ajudar indivíduos com doenças avançadas, sem possibilidades de cura, e ainda prestar apoio aos seus familiares em um dos momentos mais cruciais de suas vidas são atividades de extrema importância na atenção à saúde14. sendo assim, a falta de preparo dos profissionais para a comunicação e o suporte emocional aos pacientes geram silenciamentos, falsas promessas de cura ou comunicações abruptas de prognósticos adversos, com sérios prejuízos à relação terapêutica. Percebemos que, embora seja importantíssimo saber se comunicar, ainda é escassa a inclusão do tema no ensino superior em saúde e nos programas de educação continuada de muitas instituições hospitalares. diante da falta de preparo, os profissionais de saúde necessitam constantemente aprimorar suas habilidades de comunicação, para saber o que, como e quando falar, assim como o momento de calar-se e ouvir paciente e familiares, mostrando-se solidário à dor do outro. estudo realizado em instituições hospitalares de são Paulo sobre estratégias de comunicação utilizadas por profissionais de saúde na atenção a pacientes sob cuidados paliativos mostrou que todos os 303 profissionais estudados valorizavam imensamente a comunicação 265 Comunicação em Cuidados Paliativos Oncológicos Revista Brasileira de Cancerologia 2016; 62(3): 263-266 interpessoal no contexto da terminalidade. contudo, o estudo evidenciou escasso conhecimento de estratégias de comunicação para a interação com pacientes sob cuidados paliativos: a maioria dos sujeitos (57,7%) não foi capaz de citar ao menos uma estratégia adequada de comunicação verbal e apenas 15,2% mencionaram sinais ou estratégias solicitadas. isso pode sinalizar deficiência no processo de formação dos profissionais de saúde perante a comunicação de más notícias14. O PAPEL DAS INSTITuIçõES DE ENSINO NA FORMAçãO DO PROCESSO DE COMuNICAçãO NOS CuIDADOS PALIATIvOS alguns motivos que justificam a necessidade e a urgência da inclusão dos cuidados paliativos, juntamente com o manejo da comunicação de más notícias na grade curricular de formação dos profissionais de saúde, são o crescimento da expectativa de vida e o consequente aumento na ocorrência de doenças crônicas, como o câncer, que, por muitas vezes, se tornam uma ameaça à continuidade da vida15,16. deve-se dar maior ênfase nas escolas de ensino superior, pois, como são considerados espaços privilegiados para a construção de identidades sociais e profissionais, vêm se caracterizando por apresentar inúmeras limitações, sobretudo quanto à formação no contexto paliativo e demandas psicossociais. as competências, habilidades e os conhecimentos adquiridos na qualificação profissional são insatisfatórios para atender às necessidades de assistência e de compreensão da subjetividade do indivíduo que lida com as perdas de autonomia e de esperança15,16. estudo sobre os cuidados paliativos, realizado em alunos de licenciatura em enfermagem, com o objetivo de identificar os conhecimentos sobre o tema, mostrou os seguintes resultados: 40,4% dos estudantes apresentam conhecimentos de nível insuficiente; 29,1% suficiente; e 30,5% de nível bom16. os dados revelam déficit de conhecimento dos alunos, mostrando que as instituições de ensino devem capacitar seus alunos para uma comunicação eficaz diante da necessidade de fornecer más notícias. sabemos que, no mundo competitivo em que vivemos, a procura por profissionais tecnicamente capazes é cada vez mais intensa, isso faz com que o profissional procure aprimorar seu saber técnico-cientifico, entretanto, deixando de lado as habilidades emocionais e sociais, importantes nas relações humanas. é evidente a deficiência na formação dos profissionais de saúde de habilidades relacionadas aos cuidados paliativos, sendo as instituições de ensino espaços estratégicos para difundir essa modalidade de cuidado. todos os profissionais de saúde e funcionários de instituições hospitalares, de forma geral, devem ser capazes de fornecer cuidados paliativos adequados e, portanto, precisam ser treinados para fornecer o mais elevado padrão de cuidados. tudo isso com o objetivo de atender às necessidades e aos desafios dos pacientes e de seus familiares, independentemente do seu prognóstico17. sabe-se que, no Brasil, existem vários desafios a serem vencidos e, entre eles,está a possível deficiência na educação de profissionais de saúde no que diz respeito à terminalidade. Para superar essa deficiência, é preciso incluir o tema nas instituições de ensino, assim como instituir ou ampliar programas de educação continuada que promovam a mudança de mentalidade dos profissionais para que possam conduzir adequadamente situações relacionadas à terminalidade e à comunicação de más notícias. conclusão tendo em vista os aspectos ressaltados, consideramos que, na prática do cuidado paliativo oncológico, a comunicação, embora seja considerada uma ferramenta essencial na vida humana, ainda se faz complexa e deficiente. apesar do aumento do número de doenças crônico- -degenerativas e do aumento da valorização da comunicação interpessoal no contexto da terminalidade, os profissionais de saúde ainda encontram dificuldades em desenvolver habilidades e conhecimentos necessários na comunicação de más notícias. acredita-se que a formação dos profissionais de saúde deve incluir a comunicação de más notícias tanto na graduação quanto na educação continuada de instituições hospitalares. sugerimos que esses temas sejam inseridos como disciplina fundamental durante a graduação, pós- -graduação, assim como no processo de educação continuada dentro das instituições de saúde. contRIBuIçÕes todas as autoras participaram igualmente em todas as etapas de elaboração do artigo. Declaração de Conflito de Interesses: Nada a Declarar. RefeRêncIas 1. Machado KdG, Pessini l, Hossne Ws. a formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética. Bioethikos. 2007;1(1):34-42. 2. carboni rM, reppetto Ma. uma reflexão sobre a assistência à saúde do idoso no Brasil. rev eletrônica enferm. 2007;9(1):251-60. 266 Bastos BR, Fonseca ACG, Pereira AKS, Silva LCS Revista Brasileira de Cancerologia 2016; 62(3): 263-266 3. instituto Brasileiro de Geografia e estatística. tábua completa de mortalidade para o Brasil – 2014: breve análise da evolução da mortalidade no Brasil. rio de Janeiro: iBGe; 2015. 4. instituto nacional de câncer José alencar Gomes da silva. estimativa 2016: incidência de câncer no Brasil. rio de Janeiro: inca; 2015. 5. santos cKc, andrade cG, costa icP, lopes Mel, silva ceG, santos KFo. comunicação em cuidados paliativos: revisão integrativa da literatura. rev Bras ciênc saúde. 2014;18(1):63-72. 6. 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