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GERHARD LOHFINK
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DIMENSÃO COMUNITÁRIA DA FÉ CRISTA
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CRISTA PAULUS
A IGREJA QUE JESUS QUERIADimensão Comunitária da Fé Cristã
GERHARD LOHFINK
A IGREJA QUE JESUS QUERIA
Dimensão Comunitária da Fé Cristã
Tradução: Johann Piber
Santo André
2011
s
ACADEMIA
CRISTÃ PAULUS
Título original
Wie hat Jesus Gemeinde gewollt?
Diagmmação
Dálet - Diagramações - (11) 6382-0697
Revisão
A. M. da Torre
Caio de Albuquerque
Assuntos relacionados com biblioteconomia
Rafael Neves
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Lohfink, GerhardA igreja que Jesus queria: dimensão comunitária da fé cristã / Gerhard Lohfink; tradução Johann Piber. - Santo André (SP): Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2011.
Título original: Wie hat Jesus Gemeinde gewollt?Bibliografia.ISBN 978-85-98481-44-9
1. Jesus Cristo - Ensinamentos 2. Igreja - Ensinamento bíblico 3. Povo de Deus - Ensino bíblico I. Título.
CDD-232.9
índices para catálogo sistemático:
1. XXXXXX2. XXXXXX
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Dedicado a Anne, Barbara, Dorothea, Fritz, Georg,
Christina, Gudrun, Heinz, Michael, Erika, Christine, Johannes,
Josel, Susanne, Wilma, Birgitta, Felicitas, Helmut, Renate,
Stephanie, Brigitte, Nicola, Rupert, Sibylle, Gabriele, Bernadette,
Hans-Konrad, Albert, Andreas, Franziska, Georg, Judit,
Angela, Anja, Claudia, Wolfgang, David, Hanna, Hans, Katja,
Marianne, Teresa, Etienne, Isabelle, Peter, Philipp.
SUMÁRIO
PREFÁCIO......................................................................................9
INTRODUÇÃO.............................................................................11
A HERANÇA DO INDIVIDUALISMO.....................................11
Primeira Parte
JESUS E ISRAEL........................................................................... 21
1. A PREGAÇÃO DO BATISTA............................................. 21
2. A CONSTITUIÇÃO DOS DOZE........................................ 24
3. OS DOENTES DO POVO DE DEUS.................................. 28
4. O PEDIDO DE RECONSTITUIÇÃO NO PAI-NOSSO ....31
5. A PEREGRINAÇÃO DAS NAÇÕES................................. 35
6. A CRISE DE ISRAEL............................................................ 39
7. A MORTE EM FAVOR DE MUITOS................................43
8. O REINO DE DEUS E SEU POVO.....................................47
Segunda Parte
JESUS E SEUS DISCÍPULOS......................................................55
1. O GRUPO DOS DISCÍPULOS............................................. 55
2. O SERMÃO DA MONTANHA.......................................... 60
3. A NOVA FAMÍLIA.............................................................. 65
4. O FIM DOS PAIS................................................................... 73
5. A NÃO-VIOLÊNCIA............................................................ 80
6. O FARDO LEVE.................................................................... 89
7. A CIDADE SOBRE O MONTE........................................... 98
8. A VONTADE DE FORMAR COMUNIDADE
EM JESUS..............................................................................108
8 Sumário
Terceira Parte
AS COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS
NO SEGUIMENTO DE JESUS.............................................115
1. A IGREJA COMO POVO DE DEUS.............................115
2. A PRESENÇA DO ESPÍRITO........................................124
3. A ABOLIÇÃO DAS BARREIRAS SOCIAIS................132
4. A PRÁXIS DA RECIPROCIDADE................................148
5. O AMOR FRATERNO...................................................158
6. A RENÚNCIA À DOMINAÇÃO.................................171
7. A IGREJA COMO SOCIEDADE DE CONTRASTE....180
8. SINAL PARA AS NAÇÕES...........................................195
Quarta Parte
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS.............219
1. O POVO ESCOLHIDO DENTRE AS NAÇÕES.............220
2. A RELIGIÃO DA CURA.................................................... 223
3. A FRATERNIDADE CRISTÃ............................................ 226
4. A SOCIEDADE DE CONTRASTE DE DEUS................. 231
5. A INSUBORDINAÇÃO CRISTÃ...................................... 240
6. A IGREJA E A GUERRA.................................................... 248
7. O CUMPRIMENTO DE ISAÍAS 2.................................... 251
8. A PROVA DA VERDADE PELA PRÁTICA................... 258
CONCLUSÃO............................................................................ 265
A HERANÇA DE AGOSTINHO.......................................... 265
BIBLIOGRAFIA.......................................................................... 271
ÍNDICE DE AUTORES.............................................................. 275
ÍNDICE DAS CITAÇÕES BÍBLICAS...................................... 277
PREFACIO
Há muito tempo que a teologia crítica pergunta, com in
sistência, se o Jesus histórico fundou, de fato, uma Igreja. No
entanto, torna-se cada vez mais claro que se trata de uma
questão mal colocada. Formulando exageradamente: Jesus
não pôde fundar uma Igreja porque ela já existia há muito
- a saber, o povo de Deus, Israel. Jesus dirige-se a Israel. Ele
quer reuni-lo e fazer dele o verdadeiro povo de Deus, em
vista do Reino de Deus que se aproxima. O que nós, hoje,
chamamos Igreja, não é nada mais do que a comunidade
daqueles que estão dispostos a viver no povo de Deus reu
nido por Jesus e santificado por sua morte. A partir daqui
não faz sentido procurar no Jesus histórico um ato formal
da instituição da Igreja. Contudo faz muito sentido pergun
tar de que maneira Jesus reuniu Israel e como ele imaginou
a comunidade do verdadeiro Israel. Pois assim chegamos à
pergunta decisiva: como a Igreja deveria ser hoje? Para respon
der essa pergunta vamos, em seguida, preparar os caminhos
à luz do Novo Testamento.
Para isto, recorro às palestras que realizei, no ano de
1981, diante dos párocos das dioceses de Limburg e Rotten-
burg - Stuttgart. Elas tinham por tema: "A ideia de comuni
dade em Jesus e na Igreja primitiva". Ao mesmo tempo que
ro continuar, na área do Novo Testamento, a temática que
meu irmão Norbert expôs, a partir do Antigo Testamento,
em seus livros "Die messianische Alternative" e "Kirchen-
tràume" ("A alternativa messiânica" e "A Igreja dos meus
10 Prefácio
sonhos”). Devo muito a estes dois livros e à conversa com
meu irmão. Através dele e de Rudolf Pesch, entrou neste
livro algo das experiências e da teologia da “comunidade
integrada”. Para mim abriu-se, desta maneira, uma nova di
mensão da Sagrada Escritura.
Agradeço mais ainda a todos aqueles, cujos nomes estão
no começo do livro, na dedicatória. Em Rottenburg começa
mos como círculo de famílias e, hoje, já estamos muito além
disso. Sem esta experiência gratificante da nossa fé vivida
em comum, este livro não poderia ter sido escrito.
Enfim agradeço a meus colaboradores Thomas Kant,
marius Reiser e Agatha Ströbele por sua incansável ajuda
no preparo e correção do manuscrito.
Gerhard Lohfink
INTRODUçãO
A HERANçA DO INDIvIDUALISMO
No semestre do inverno de 1899 a 1900, Adolf von HAr
nAck pronunciou 16 palestras na universidade de Berlim
para estudantes de todas as faculdades sob o título “A es
sência do cristianismo”. Estas palestras foram acompanha
das por cerca de 600 estudantes. mas o livro, baseado nestas
palestras, que HArnAck editou meses mais tarde, tornou-se
um acontecimento público. mais ainda: ele iniciou uma série
de discussões teológicasque não terminariam tão cedo.
Ainda hoje vale a pena ler o livro “A essência do cristia
nismo” (WdChr).1 Não apenas para apreciar o estilo admirável
das palestras de HArnAck ou para ouvir a voz de um dos mais
importantes e influentes teólogos protestantes do começo deste
século. Especialmente para sentir a força de uma corrente teoló
gica fundamental do fim do século XIX que o próprio HArnAck
qualifica de Individualismo religioso e Subjetivismo (WdChr 31).
Ele utiliza ambos conceitos sem que se perceba nele a
menor sombra de crítica. Ele está convicto que estes dois
conceitos também descrevem corretamente a pregação de
Jesus. No fim da terceira palestra encontra-se o famoso e
muitas vezes citado trecho:
1 Recomendamos a edição econômica: A. von Harnack. Das Wesen des
Christentums (Gutersloher Taschenbucher Siebenstern 227), Gutersloh,
1977. As citações deste livro são tiradas daí.
12 introdução
“Quem quer saber o que significa o Reino de Deus e a
vinda deste Reino no anúncio de Jesus, deve ler suas pará
bolas e refletir sobre elas. Aí ele vai entender de que se trata.
O Reino de Deus vem, aborda os indivíduos, instalando-se
em suas almas, e eles o captam. O Reino de Deus é a soberania
de Deus, disso não há dúvida - mas é a soberania do Deus
santo nos corações dos indivíduos, é o próprio Deus com sua
força. Todo o aspecto dramático no sentido externo, históri
co-universal, desapareceu aqui, perdeu-se também toda es
perança externa de futuro. Tomem a parábola que quiserem,
do semeador, da pérola preciosa, do tesouro escondido - a
palavra de Deus, ele próprio é o Reino, e não se trata de an
jos e demônios, de tronos e principados, mas de Deus e da
alma, da alma e seu Deus” (WdChr 43).
Conforme HArnAck, portanto, o Reino de Deus, não vem
a uma comunidade; ele vem ao indivíduo. “O indivíduo deve
ouvir a Boa-nova da misericórdia e da filiação e decidir, pos
tar-se do lado de Deus e da eternidade ou do lado do mundo
e do tempo” (WdChr 90). “Agora tudo que é exterior e ape
nas vindouro apresenta-se desfeito: o indivíduo é remido,
não o povo ou o Estado” (WdChr 45). Assim como o Reino
de Deus não acontece numa comunidade, mas no indivíduo,
ele também não atinge o exterior, mas o interior, o homem
interior, a alma. “O Evangelho está acima das questões das
evoluções terrestres; ele não se preocupa com as coisas, mas
com as almas das pessoas” (WdChr 76). De fato, “o indiví
duo” e “o interior” são palavras-chave que sempre voltam a
aparecer em HArnAck. A expressão “Deus e a alma, a alma e
seu Deus” é repetida por ele muitas vezes, quase como um
refrão (WdChr 31.43.90.155).
mas HArnAck conhece muito bem o Novo Testamento
para não ver a ideia da comunidade que acompanha o Evan
gelho do Reino de Deus. Ele sabe que o movimento cristão,
introdução 13
desde a ruptura com a comunidade do povo de Israel, se
considerava como “Igreja”, e isto significa: o verdadeiro Isra
el (WdChr 111). Ele sabe que a jovem Igreja se compreendia
como um povo novo formado de judeus e gregos, de gregos
e bárbaros (WdChr 114s). E ele sabe também que a Igreja pri
mitiva via como sua tarefa mais nobre cumprir plenamente a
vontade de Deus, e, assim “apresentar-se como uma comuni
dade santa” (WdChr 103). De maneira alguma HArnAck está
do lado daqueles que acreditam que a Igreja em sua natureza
deva ser apenas interior e, consequentemente, invisível.2
mas, o individualismo extremo de sua teologia sobre
pôs-se a todos estes conhecimentos corretos e os absorveu.
A “justiça melhor” do sermão da montanha, então, torna
se apenas uma atitude correta do indivíduo3 e a Igreja, em
última análise, apenas uma “aliança fraterna” de todos os
homens de boa vontade no mundo inteiro (WdChr 73), ou
melhor, uma associação fraterna de muitos indivíduos, que
pela fé na Boa-nova - isto é, a Boa-nova de seu contato di
reto com Deus, o Pai - como indivíduos já estão salvos. Por
mais que HArnAck saiba que a Igreja é visível, enquanto
tem de se concretizar sempre em associações concretas -
em última análise, para ele, ela continua sendo apenas uma
comunidade espiritual, uma societas in cordibus que não
pode ser identificada com nenhuma das igrejas concretas
do seu tempo.
O decisivo é que HArnArk não está sozinho com esta ima
gem individualista de Igreja e de redenção. Pelo contrário,
ele é representante de uma ampla corrente de teologia liberal
2 Esta questão está sendo elaborada por K. H. neufeld, Adolf Harnacks
Konflikt mit der Kirche. Weg-Stationen zum “Wesen des Christentums”
(Innsbrucker theologische Studien 4), Innsbruck, 1979.
3 Cf. WdChr 51-53.73.75.
14 introdução
do fim do século XIX e do começo do século XX. A ideia de
que o Reino de Deus podia vir somente ao indivíduo, que
ele era algo profundamente interior, e, que, por isso, a Igreja
devia ser em primeiro lugar, uma sociedade espiritual, es
tava bem difundida na teologia protestante daquele tempo.
Somente naquele tempo? A posição individualista da
teologia liberal, como se apresenta em Harnack, - apesar
de todas as correntes opostas - ainda hoje é ativa em muitas
ramificações e metamorfoses. Assim, apenas poucos anos
atrás, E. Grasser, cuja posição eclesiológica, aliás, não pode
ser identificada com a de HArnAck escreveu o seguinte:4
“Com a mensagem da salvação de Jesus acontece uma
mudança completa de acentuação do coletivo para o indi
víduo. A tendência individualizante é palpável em toda a
parte. A prefiguração do relacionamento com Deus do An
tigo Testamento e do judaísmo, constituída pela relação
Iahweh/povo, aliança/culto, Torá, perde sua força normati
va. Jesus passa, de modo crítico, através dela e vai, para trás,
até à situação e relação básica decisiva: ‘Deus - indivíduo',
‘Pai - Filho do homem (= Homem)”.
Não podemos minimizar posições desse tipo - dizendo,
por exemplo, que se trata de um traço de individualismo
típico de determinadas correntes: esta é uma expressão da
teologia protestante, que mesmo nela está praticamente su
perada e que nunca existiu dentro da Igreja católica.
Pois poderia bem ser que a Igreja católica tivesse man
tido conceitos, fórmulas e instituições que originariamente
estavam marcados por intenso espírito comunitário, mas
que esses conceitos, fórmulas e instituições, mais tarde,
4 E. GräSSer, Jesus und das Heil Gottes. Bemerkungen zur sog. “Individualisie
rung des Heils”, em: G. Strecker (Ed.), Jesus Christus in Historie und Theolo
gie. Festschrift fur Hans Conzelmann, Tübingen, 1975, 167-184, la 182s.
introdução 15
(inconscientemente) tivessem sido interpretados e vividos
de um modo muito mais individualista do que tenham sido
concebidos antes. Há muitos indícios de que a teologia e pie
dade católicas participaram com muito mais intensidade no
individualismo da teologia protestante do que elas próprias
imaginaram. E seria bem possível, que as ideias individua
listas de redenção da teologia do fim do século XIX ainda
nem de longe estivessem superadas, mas determinassem
nossos projetos pastorais, nossos conceitos de Igreja e a ima
gem concreta de nossas comunidades paroquiais com muito
mais intensidade do que gostaríamos de admitir.
Há pouco tempo, apareceu uma notícia nos jornais di
zendo que agora existia em Berlim um posto volante da par
te da Igreja. mais exatamente: um carro aparelhado com rá
dio, no qual um padre, um médico e um psicólogo poderiam
ser chamados imediatamente, dia e noite.
Parece altamente moderno: por assim dizer, a Igreja lu
tando na frente, ou: técnica moderna a serviço do Reino de
Deus! Na realidade, este posto volante é um símbolo alta
mente problemático daquilo que a Igreja se tornou, em larga
escala, dentro da nossa sociedade moderna: uma Igreja que
cuida do indivíduo; uma instituição de fazer “ofertas livres”
a uma quantidade de indivíduos.
Isto corresponde exatamente à situação da nossa socie
dade de consumo, que G. GreSHAke comparou, há pouco,
com um grande supermercado: cada um anda com seu carrinho e escolhe o que lhe agrada e aquilo de que precisa.5
Neste enorme “Supermercado República Federal Alemã”
existe, entre outras, também uma repartição, onde são feitas
5 G. GreSHAke, Einige Uberlegungen zu den Ursachen des mangelnden Pries
ternachwuchses, em: Priesterliche Existenz heute - Sorge um giestliche Beru
fe (Handreichungen zur Pastoral), Viena, 1980, 5-19, la 8s.
16 introdução
ofertas religiosas para o indivíduo. Ela está sob os cuidados
das Igrejas. A sociedade faz questão que esta repartição es
teja funcionando. Pois a oferta da mercadoria deve ser com
pleta. - Este posto volante religioso em Berlim parece-me
um símbolo perfeito desta Igreja-oferta, que cuida, abastece e
deixa os homens em sua anonimidade.
Estruturas pastorais deste gênero não são apenas uma
imagem perfeita das estruturas da nossa sociedade atual;
elas são, além disso, uma herança resistente daquele indi
vidualismo religioso, que foi explicado com o exemplo de
Adolf von HArnAck. Não deveríamos aceitar, pois, como
evidência inabalável o modo como se faz pastoral hoje nas
paróquias comuns das Igrejas grandes da Europa. E os cris
tãos católicos não deveriam estar tão certos de que a questão
de comunidade para eles, não é um problema, pois a Igreja
deles sempre manteve a ideia da comunidade - a ideia da
comunidade visível e palpável. Naturalmente é verdade: até
o fim da Idade média, “Igreja” significa comunidade concreta,
identificável, medianeira da salvação.6 A Igreja católica nunca o
negou e, de fato, nunca esqueceu esta realidade. mas perma
nece a pergunta, se, neste ponto, ela não sobrepôs, deslocou
e perdeu muito mais de vista suas próprias tradições do que
ela mesma sabe.
É necessário, portanto, tornar-se novamente conscien
te das próprias tradições. E onde aparecem estas tradições
melhor e de modo mais original do que a Sagrada Escritu
ra? E onde é que elas podem brilhar de modo mais claro e
normativo do que na práxis do próprio Jesus? Perguntemos,
portanto: como é que Jesus está com relação à comunidade?
Ele abandonou, de fato, o relacionamento básico do Antigo
6 Cf. a pesquisa ainda não superada de H. de lubAc, Katholizismus als
Gemeinschaft, Einsiedeln-Köln, 1943.
introdução 17
Testamento Deus/povo de Deus? Ele dirigiu-se, de fato, só ao
indivíduo? Ele está realmente interessado somente em Deus
e a alma, na alma e seu Deus?
Aqui coloca-se uma série de questões dificílimas, em
cuja análise, na ciência do Novo Testamento, ainda nem de
longe se chegou a um consenso. Sua resposta, porém, joga
ria luz sobre a nossa situação hodierna e poderia clarear o
caminho que temos de andar. Ao mesmo tempo tornar-se-
ia claro o que é que o anúncio do Reino de Deus por Jesus
tem a ver com a Igreja. Tentemos, portanto, uma resposta:
como é que Jesus está com relação à igreja? Qual a igreja
que Jesus queria?
Primeira Parte
JESUS E ISRAEL
1. A PREGAçãO DO BATISTA
Quando Jesus começou a pregar, o campo já estava pre
parado para ele. Pois precedeu-o a pregação de conversão
de João Batista, a qual causou uma estupefação extraordi
nária em Israel e abalou muita gente. Há divergências im
portantes entre Jesus e João. Por exemplo, Jesus não prega
o juízo iminente pelo fogo, mas anuncia que a salvação está
próxima. Por outro lado existem muitos pontos comuns
entre os dois. E o mais importante é que Jesus considera o
Batista pessoa autorizada por Deus (Cf. mc 11,30) e o cha
ma de “o maior entre os nascidos de mulher” (mt 11,11 par.
Lc 7,28). Antes de começar a pregar sua mensagem de salva
ção, Jesus batizou, provavelmente, por algum tempo, como
João, às margens do Jordão (cf. Jo 3,22.26; 4,1). Somente se
admitirmos que Jesus foi, por algum tempo, discípulo de
João ou, pelo menos, esteve estreitamente ligado ao movi
mento de João Batista, é que tudo isto - os pontos comuns
entre Jesus e João, a alta estima de Jesus pelo Batista e a ati
vidade de Jesus como batista - se torna compreensível.7
Acontece que João Batista se dirige a Israel. Ele quer reu
nir e preparar o povo para o fim que está próximo. J. becker,
7 Para uma fundamentação mais detalhada cf. J. becker, Johannes der Täu
fer und Jesus von Nazareth (BSt 63), munique, 1972.
22 A iGreJA que JeSuS queriA
que recentemente estudou a fundo a figura de João Batista,
diz com razão: “João não se dirige simplesmente à humani
dade ou a todos os pecadores do mundo, mas aos descen
dentes de Abraão, isto é, a Israel em sua totalidade (Lc 3,8
par.). Ele insiste no juízo para o povo de Deus. Na certa, sua
mensagem não tem um cunho político-nacional; mesmo as
sim ele chama a atenção do povo da salvação para seu com
promisso com Deus que não é levado a sério. Deus vai julgar
implacavelmente este comportamento”.8
O fato de o Batista ter escolhido o deserto para palco de
sua pregação (mc 1,4), e obrigado o povo a sair para chegar
até ele (mc 1,5), só se torna compreensível se considerarmos
como pano de fundo as tradições do êxodo de Israel. Pois
é lá que se fala em recomeço, em conversão, ou na reunião
escatológica do povo de Deus no deserto. É assim que o pro
feta Oseias diz num oráculo de Deus sobre a prostituta Israel
(Os 2,16):9
Por isso, eis que vou, eu mesmo, seduzi-la, conduzi-la ao deserto e
falar-lhe ao coração.
Isto quer dizer: na situação do deserto, os falsos aman
tes ficam longe de Israel. Lá o povo está novamente sozinho
com seu Deus. Lá Israel, como outrora, pode reconhecer seu
Deus (cf. Os 2,22.25).
Também a ameaça do machado, que já está posto à raiz
da árvore (mt 3,10 par. Lc 3,9) fala de Israel. Pois outra vez
temos como pano de fundo o contexto de uma tradição do
Antigo Testamento: Israel como plantação de Deus, firmemente
8 Id. 30.
9 Cf. também as atualizações da tradição do êxodo em Is 40,3s; 41.17-20;
43,19s; 48,20s; 49.9-13; Jr 2,1-6; Os 12,10.
JeSuS e iSrAel 23
enraizada na terra.10 No judaísmo do tempo intermediário
entre o Antigo e o Novo Testamento, esta linha de tradição
foi ampliada: Israel, então, se apresentava como plantação
de Deus, que não seria exterminada por toda a eternidade.11 O
Batista repudia veementemente esta segurança de salvação
coletiva. O juízo vem justamente para o povo de Deus. O
machado já está posto à raiz das árvores que Deus mesmo
plantou. Deus vai limpar sua plantação, Israel. Toda árvore
que não der fruto, será cortada e lançada ao fogo.
Em Lc 3,8 par. mt 3,9 torna-se ainda mais evidente que a
pregação do Batista está relacionada com Israel:
Não comeceis a dizer em vós mesmos:
“Temos por pai a Abraão”.
Pois eu vos digo
que até mesmo destas pedras
Deus pode suscitar filhos de Abraão!
Aqui é afirmado de modo incisivo, que a descendência
de Abraão, isto é, a filiação de Israel, não salva do juízo que
se aproxima. E justamente aqui João mostra com exatidão
que o destinatário de sua pregação é Israel. E tanto é o povo
de Israel que ele até pode ameaçar: se for preciso, Deus vai
suscitar das pedras do deserto um novo Israel para Abraão.
Agora é evidente: João Batista não se dirige à humanida
de em sua totalidade nem ao indivíduo, mas aos membros
do povo de Deus. Ele está preocupado com a sobrevivên
cia de Israel, da mesma forma como os fariseus, os essênios
e os zelotes. Também estes grupos e movimentos estavam
10 Cf. êx 15,17; 2Sm 7,10; Is 60,21;61,3; Jr 32,41; 42,10; mt 15,13.
11 Cf. especialmente o livro dos jubileus 36,6 e os salmos de Salomão
14,3s.
24 A iGreJA que JeSuS queriA
preocupados com a sobrevivência de Israel. E, assim, no
fundo todos eles se esforçam por renovar Israel, por reunir o
verdadeiro Israel, por formar um Israel que cumpra a vonta
de de Deus. E em termos modernos podemos dizer: naquele
tempo, muitos grupos e movimentos em Israel buscavam a
verdadeira identidade do povo de Deus.12
E podemos ajuntar também Jesus com sua mensagem
e sua maneira de agir precisamente a esta constelação his
tórica. Não prejudicamos com isso a unicidade e divinda
de de sua missão. Também Jesusquer reunir o povo de
Deus.13 Também Jesus quer preparar Israel para Deus.
Também Jesus quer dar uma resposta à profunda crise de
identidade de Israel. Só que é uma resposta infinitamente
mais profunda do que todas as respostas que foram tenta
das naquela época.
Já a vinculação entre Jesus e o Batista esclarece a ativida
de de Jesus relacionada com a comunidade, ou melhor, relacio
nada com Israel.
2. A CONSTITUIçãO DOS DOzE
um segundo fenômeno, porém, fala muito mais cla
ramente: Jesus escolheu - com certeza de entre um grupo
maior de discípulos - Doze, e os enviou de dois em dois
(mc 3,13-19; 6,7-13). Importante aqui é mc 3,14:
12 Cf. R. Geist, Jesus vor Israel - der Ruf zur Sammlung, em: K. Muller (Ed.),
Die Aktion Jesus und die Re-Aktion der Kirche Jesus von Nazareth und die
Anfänge der Kirche, Wurzburg, 1972, 31-61. lá 31-44; G. tHeiSSen, Soziolo
gie der Jesusbewegung. Ein Beitrag zur Entstehungsgeschichte des Urchris
tentums (TER 194), Munique, 1977, 33-90, esp. 74-88.
13 A expressão “reconstituição” impõe-se sempre mais na exegese, para
descrever a atuação específica de Jesus frente a Israel. Cf. especialmen
te R. PeScH, Der Anspruch Jesu: Orientierung 35 (1971) 53 56.67-70.77-81.
JeSuS e iSrAel 25
E constituiu Doze, para que ficassem com ele, para enviá-los a pre
gar, e terem autoridade para expulsar os demônios. Ele constituiu,
pois, os Doze...
O verbo “ele constituiu” aponta para um fato único
num determinado lugar e num determinado tempo. Na
quele momento, como marcos quer dizer, Jesus constituiu
doze dos discípulos como os Doze. Eles deveriam fazer o
que ele mesmo fez: anunciar o Reino de Deus e, como si
nal do poder do Reino que estava a despontar, expulsar os
demônios.
Por conseguinte, Jesus não só constituiu discípulos em
função do testemunho escatológico do Reino de Deus, mas
constituiu doze discípulos. E, evidentemente, ele fez isto
num gesto demonstrativo, que foi comentado e gravado
na memória. Porque este gesto e porque exatamente doze
discípulos?
Naquela época, o significado de uma ação como esta
deve ter sido tão evidente, que os transmissores do cristia
nismo primitivo nem sequer fizeram questão de explicá-lo
melhor: o número de doze discípulos só pode estar em re
lação com as doze tribos de Israel. Com a menção das doze
tribos, porém, se faz lembrar um ponto essencial da espe
rança escatológica em Israel. Pois, embora naquela época o
sistema das tribos já não existisse mais - conforme opinião
contemporânea apenas existiam ainda duas tribos e meias:
Judá, Benjamim e a metade de Levi14 - espera-se, para o tem
po escatológico da salvação, a restauração completa do povo
das doze tribos. Assim, o capítulo final do livro do profeta
Ezequiel narra, num programa profético, como, no fim dos
14 Cf. J. JeremiAS. Teologia do Novo Testamento, Editora Hagnos. São Paulo,
2008.
26 A iGReJA que JeSuS queRiA
tempos, as doze tribos, novamente chamadas à vida, rece
bem seu quinhão reservado do país.15
Vista sobre o pano de fundo desta viva esperança, a
constituição de doze discípulos, feita por Jesus, só pode ser
entendida como ação simbólica profética:16 os Doze represen
tam o despertar e a reconstituição de Israel, agora iniciados
por Jesus, para constituir a comunidade escatológica de
salvação. Eles representam esta reconstituição pelo fato de
serem constituídos Doze e, ainda mais, por serem enviados
depois para todo Israel. Constituição e missão são dois lados
da mesma ação simbólica profética.
Substimaríamos muito a dimensão profunda de uma
ação simbólica como esta, se a considerássemos apenas uma
ilustração ou demonstração. Sem dúvida ela é tanto uma como
outra coisa. mas é mais; é iniciação do futuro que já se reali
za antecipadamente no símbolo profético colocado, e que na
sua realização, ora iniciada, já projeta o futuro. Com a cons
tituição dos Doze e o anúncio do Reino de Deus já começa a
existência do Israel escatológico.
Evidentemente, o simbolismo do número doze implica
que os discípulos enviados se dirigem apenas a Israel como
a nação concreta e empírica do seu tempo. Por isso faz parte
deste contexto uma palavra muito antiga, transmitida ape
nas por mateus (mt 10,5s):
Não tomeis o caminho dos gentios,
nem entreis em cidade de Samaritanos.
Dirigi-vos, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel.
15 Cf. Ez 37; 39,23-29; 40-48.
16 Para provar cf. m. trAutmAnn, Zeichenhafte Handlungen Jesu. Ein
Beitrag zur Frage nach dem geschichtlichen Jesu (FzB 37), Wurzburg,
1980, 167-233.
JeSuS e iSrAel 27
Pode ficar em aberto se a primeira parte da sentença é
do próprio Jesus. De qualquer maneira, a sua última parte
(“dirigi-vos às ovelhas perdidas da casa de Israel”) encaixa-
se muito bem nesta situação histórica do envio dos Doze.17
Estes são enviados por Jesus, para anunciar a mensagem do
Reino de Deus a toda a casa de Israel. Eles representam o arro
go de Jesus a Todo-Israel.
As ovelhas perdidas (mt 10,6) não representam apenas
uma parte do povo - por exemplo, os pecadores e excluídos
- mas o povo todo. Ele é comparado a um rebanho disperso,
que foi conduzido ao erro. Já Ezequiel, no seu capítulo do
pastor (Ez 34), descreve extensamente a situação do povo
de Deus seduzido e depravado. É evidente que Jesus lembra
Ezequiel quando fala das ovelhas perdidas da casa de Israel.
mas isto significa: Jesus está convencido de que agora, nesta
hora, já começou a reconstituição escatológica das ovelhas
doentes e perdidas de Israel, anunciada pelo profeta. Deus
mesmo reúne seu povo, e isto por ele, seu pastor messiânico
(cf. Ez 34,23s).
Em resumo, a constituição dos Doze é uma das indica
ções mais explícitas de que Jesus se dirige decididamente
a Israel.18 Jesus quer a reconstituição do povo de Israel, ele
quer o restabelecimento do Israel perdido e disperso. Pro
vavelmente a ação simbólica profética da constituição dos
17 Id., 220-225.
18 É de se estranhar que l. ettmAyer, em sua dissertação “Der theologis
che Ort Israels in der Botschaft Jesu” (manuscrito), Innsbruck, 1979,
155 páginas, não menciona com nenhuma palavra a constituição dos
Doze. Por isso não precisamos admirar-nos mais sobre o resultado da
pesquisa (Israel foi abolido como “princípio da salvação”). A disser
tação passa por alto de fenômenos essenciais da práxis do Reino de
Deus em Jesus, trabalha com expressões não explicadas (princípio da
salvação?) e inverte as realidades.
28 A iGReJA que JeSuS queRiA
Doze tinha um significado muito mais profundo do que
nós podemos imaginar hoje. muita coisa indica que Jesus
escolheu conscientemente os Doze das diversas regiões do
país e dos diversos grupos do judaísmo do seu tempo, para
manifestar a reconstituição de todos os israelitas.19 Na certa,
os Doze eram um grupo diversificado - começando com o
cobrador de impostos mateus (mt 10,3) até ao zelote Simão
(Lc 6,15). Nas pessoas de um cobrador de impostos e de um
zelote encontraram-se num único grupo representantes das
correntes mais opostas que existiam em Israel. Pois os cobra
dores de impostos trabalhavam em união com os romanos,
ao passo que os zelotes rejeitavam decididamente a ocupa
ção romana como incompatível com a soberania de Deus.
Jesus, porém, quer reunir a nação de Israel despedaçada
por lutas de partidos e grupos. Por isso, ele vai aos cobrado
res de impostos e zelotes, aos pobres e ricos, à população da
zona rural da Galileia e à capital, Jerusalém.
3. OS DOENTES DO POvO DE DEUS
Devemos falar agora do fato de Jesus ter-se dirigido
aos doentes. Os tempos, em que a exegese Bíblica não dava
muita atenção aos milagres de cura realizados por Jesus ou
mesmo negava a sua historicidade, estão chegando ao fim.
Desde que ficou claro que curas divinas e curas naturais
- psicogênicas não se excluem (também aqui tem valor o
provérbio antigo: a graça pressupõe a natureza e a comple
ta), não existe mais motivo para não levar muito a sério os
milagres de cura do Novo Testamento. Com certeza, Jesuscurou doentes frequentemente e em muitas circunstâncias.
E exatamente seus milagres de cura fizeram com que ele
19 Cf. R. PeScH, op. cit., 68. (Cf. nota 13)
JeSuS e iSrAel 29
fosse conhecido da maneira mais rápida e eficaz no país
inteiro.
De fato não entenderíamos as curas de doentes feitas por
Jesus às quais se devem juntar também as curas de pessoas
consideradas possessas de demônios, se as considerássemos
apenas milagres realizados em indivíduos por motivos de
compaixão. Depois que foi redescoberto o horizonte escato-
lógico da atividade de Jesus, tornou-se claro que os milagres
de cura realizados por Jesus só podem ser compreendidos
em conjunto com o anúncio do Reino de Deus.
Suas obras de poder são sinais da aproximação do Rei
no. É este, por exemplo, o sentido original20 da parábola da
figueira (mc 13,28s). Quando seus ramos se tornam tenros,
sabe-se na Palestina, o verão está próximo. Da mesma forma
deve-se saber, quando se vê tudo isto, ou seja, as obras de
poder de Jesus: o Reino de Deus está próximo (cf. Lc 21,31).
As obras de poder de Jesus, realizadas nos doentes e
marginalizados, porém, não são apenas sinais da aproxima
ção do Reino futuro. Elas mostram ainda, que o Reino de
Deus já está presente:
Contudo, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, en
tão o Reino de Deus já chegou a vós (Lc 11,20 par. mt 12,28).
Resumindo podemos dizer: os milagres de cura ocu
pam um lugar de destaque na vida de Jesus. Eles estão in
separavelmente ligados ao anúncio do Reino de Deus. Lá,
onde o Reino de Deus irrompe, a doença simplesmente há
de acabar.
20 A respeito da diferença entre o sentido da parábola em marcos e seu
sentido original cf. R. PeScH, Das Markusevangelium II (HThK II 2), Fri-
burgo, 1977, 305-313.
30 A iGReJA que JeSuS queRiA
Existe hoje, até este ponto, um certo consenso na exe
gese do Novo Testamento. mas a relação dos milagres de
cura, realizados por Jesus, com o povo de Deus, com o
Israel escatológico, ainda passa muitas vezes despercebi
da. mas justamente a relação estreita das obras de poder,
realizadas por Jesus, com o Reino de Deus que está para
irromper, faz com que elas também sejam decisivas para
o povo de Deus. Num horizonte escatológico os milagres
de Jesus também estão inseparavelmente ligados à comu
nidade: eles servem à restauração do povo de Deus, em
que, no tempo escatológico da salvação, não pode haver
mais doentes.
Esta relação das obras de poder, realizadas por Jesus,
com a comunidade torna-se especialmente clara na exclama
ção de júbilo de (Lc 7,22 par. mt 11,5):
Os cegos recuperam a vista,
os coxos andam,
os leprosos são purificados,
os surdos ouvem,
os mortos ressuscitam
e aos pobres é anunciado o Evangelho.
Não existe motivo válido para dizer que este texto não é
do próprio Jesus. Ele menciona, de uma maneira livre e so
berana, as profecias de salvação contidas no livro de Isaías.
Estas profecias, juntamente com as de Ezequiel, são eviden
temente o background bíblico decisivo para Jesus poder, com
seu auxílio, interpretar sua própria mensagem e atividade.
Ele faz alusão especialmente a Is 35,5s:
Então se abrirão os olhos dos cegos,
e os ouvidos dos surdos se desobstruirão.
JeSuS e iSrAel 31
Então o coxo saltará como o cervo,
e a língua do mudo cantará canções alegres.21
É importante dizer que, no profeta Isaías, o olhar dos
cegos, o ouvir dos surdos, o saltar dos coxos e o exultar dos
mudos é parte integrante da restauração escatológica de Is
rael. No tempo escatológico da salvação, anunciado no livro
de Isaías, Deus vai curar e guiar seu povo (57,18); ele vai
curar as feridas (30,26); ninguém mais vai dizer em Israel na
queles dias: “Eu estou doente” (33,24); o povo inteiro, então,
vai ver o que as mãos de Deus realizam no meio dele (29,23).
Não precisamos excluir a compaixão de Jesus para com
as pessoas doentes, quando realiza os milagres de cura (cf.
mc 1,41). mas não os entendemos suficientemente, se deixa
mos de lado o pano de fundo do Antigo Testamento: tam
bém as curas de Jesus têm em vista a imediata reconstituição
e restauração de Israel. No povo de Deus escatológico nin
guém deve ser excluído da salvação: nem os marginaliza
dos, nem os pecadores, nem os doentes.
E assim encontramos constantemente em Jesus, muitas
vezes inesperadamente, a vontade de reunir Israel - mesmo
no Pai-nosso que, à primeira vista, não fala nada de Israel.
4. O PEDIDO DE RECONSTITUIçãO NO PAI-NOSSO
Na redação do Pai-nosso que o evangelista Lucas nos ofere
ce (Lc 11,2-4) encontramos, ao contrário da redação de mateus
(mt 6,9-13), após a alocução, apenas dois pedidos na forma tu:
Santificado seja teu nome.
Venha teu reino.
21 Cf. também Is 26,19; 29,18; 42,7.16; 61,1.
32 A iGReJA que JeSuS queRiA
Estes dois pedidos correspondem um ao outro na sua
estrutura formal com uma tal exatidão, que se distinguem
com facilidade dos pedidos seguintes, apresentados na
forma nós: 1. Os dois pedidos são muito curtos. Cada um
consta de quatro palavras, no texto grego, e, na retradução
aramaica, de apenas duas. 2. Em ambas as frases, o verbo
está isolado (assindeticamente) no começo. 3. No grego (e
também no aramaico) cada prece termina com o pronome
possessivo “teu”. 4. mas o que surpreende em ambos os
casos é uma circunlocução da atividade de Deus na forma
passiva, característica da piedade judaica, na qual o nome
respectivamente o reino se torna sujeito da frase. O sujeito
lógico, em ambas as frases, porém, é Deus. Podemos tradu
zir assim:
Santifica teu nome.
Deixa vir teu reino!
Esta correspondência formal muito clara nos dois pri
meiros pedidos do Pai-nosso mostra claramente que os dois
pedidos estão intimamente ligados no seu conteúdo. Em am
bos os pedidos, não se trata da atividade do homem, mas da
obra específica de Deus, de sua ação escatológica. No entan
to, não se pede que Deus aja num futuro remoto. Isto não
corresponderia, de forma alguma, à pregação de Reino de
Deus feita por Jesus. Para ele, o Reino de Deus não só está
muito próximo, mas já está despontando. Quem consegue
interpretar os portentos, realizadas por Jesus, sabe: o Reino
já se impõe.
Ao segundo pedido que pede a vinda do Reino corres
ponde o primeiro. Aí trata-se de um acontecimento que, em
última análise, coincide com a vinda do Reino, porém abor
da a vinda do Reino em outra perspectiva. Por isso, pode ser
JeSuS e iSrAel 33
desenvolvido num pedido diferente. Este acontecimento, no
qual Deus santifica seu nome, está na mesma tensão tempo
ral entre o Já e o Ainda não, entre o presente que se realiza e
o futuro que ainda está para vir, que é a vinda do Reino. Já
no futuro próximo Deus vai santificar seu nome com ação
poderosa - esta ação poderosa, porém, já desponta. Ela já
começou como também o Reino de Deus já começou.
mas o que quer dizer esta fórmula, que Deus santifique
seu nome, que nos é tão estranha hoje em dia? O Antigo Tes
tamento nos dá novamente a resposta, e ela está no capítu
lo 36 do profeta Ezequiel. Lá se diz que, pela dispersão do
povo de Israel entre os gentios o nome de Deus foi profana
do. Pois os gentios de todos os lugares caçoam: este, então é
o povo de Iahweh! Este Iahweh deve ser um deus miserável,
incapaz de livrar o próprio povo, da perda do seu país! (cf.
Ez 36,20). Nesta situação, Deus fala por Ezequiel:
Não em consideração a vós é que estou agindo assim, ó casa de
Israel, mas sim por causa do meu santo nome que vós profanastes
entre as nações para as quais vos dirigistes. Santificarei o meu
grande nome, profanado entre as nações, porque vós o profanastes
entre elas e saberão que eu sou Iahweh, oráculo do Senhor Iahweh.
Santificarei o meu grande nome que foi profanado entre as nações,
porque vós profanastes no meio delas e saberão as nações que eu
sou Iahweh - oráculo do Senhor Iahweh, - quando eu for santifi
cado em vós aos seus olhos, quando eu vos tomar dentre as nações
e vos reunir de todos os países, reconduzindo-vos a vossaterra
(Ez 36,22-24).
O texto mostra claramente: Deus mesmo santifica seu
nome. E ele santifica seu nome, reunindo Israel de todos
os cantos, no fim dos tempos, renovando-o e fazendo dele
novamente um povo santo. A expressão: Deus santifica seu
34 A iGReJA que JeSuS queRiA
nome tem, pois, um sentido preciso, um conteúdo perfeita
mente delimitado; e imutável. Em todo o Antigo Testamen
to a expressão só é encontrada no livro de Ezequiel.22 E lá
a relação entre santificação do nome / reconstituição do povo
de Deus é tão estreita, que em Ez 20,41.44 se pode dizer em
poucas palavras:
Quando eu vos fizer sair dentre os povos e vos reunir do meio dos
países em que estivestes espalhados e serei santificado por vós aos
olhos das nações... Então sabereis que eu sou Iahweh, quando eu
agir em consideração ao meu nome.
Embora, para Jesus, a recondução de Israel do cativei
ro não pudesse desempenhar mais papel algum, mesmo
assim ele estava em condições de assumir a linguagem de
Ezequiel. Pois, no profeta Ezequiel, a reconstituição de Israel
não era apenas reconduzir o povo do cativeiro, mas, ao mes
mo tempo, a volta do povo para seu Deus (36,25-32). Ele fala
em “coração novo” e em “espírito novo”, que Deus vai dar
a Israel (36,26s), para que se possa tornar verdadeiramente
povo santo de Deus (36,28).
“Santificado seja teu nome” - não significa outra coisa
que: “Reconstitui e renova teu povo! Faze dele, de novo,
verdadeiramente povo de Deus”. Evidentemente Jesus está
convencido, de que esta reconstituição escatológica, realiza
da por Deus, começou já agora, como também o advento do
Reino acontece agora. E Jesus está convencido de que a re
constituição do povo e a vinda do Reino acontecem através
dele. Onde ele age, lá age Deus. Este é o segredo de Jesus.
A precisão do conteúdo de “santificado seja teu nome”
ilumina ainda mais a ligação já constatada, entre o primeiro
22 Muito menos claro: Lv 22,32; Is 42,8; 48,11.
JeSuS e iSrAel 35
e o segundo pedido do Pai-nosso. Deus deve santificar seu
nome agindo em Israel e fazendo dele o verdadeiro povo
de Deus (1° pedido). Também deve fazer vir o seu Reino (2°
pedido). Evidentemente ambos estão numa conexão profun
da: exatamente pelo fato de Deus criar Israel de novo, pelo fato de
Deus santificar seu nome em Israel, irrompe também o Reino de
Deus. Ele brilha no povo de Deus.
5. A PEREGRINAçãO DAS NAçõES
Num primeiro momento, uma ligação tão profunda en
tre o Reino de Deus e o povo de Deus pode causar estranhe
za. Estamos acostumados a pensar universalmente. Afinal,
por trás do nosso universalismo, está uma experiência cris
tã antiga, vivida pela Igreja desde o início; é o Evangelho
superando todas as fronteiras. O universalismo da salvação
recebe dela seu direito e sua verdade. Pois o universalismo
também existe em Jesus. Apenas deve ser visto de maneira
correta. Jesus não faz questão de excluir os gentios da salvação.
Mas ele mesmo dirige-se apenas a Israel. Ambas as frases de
vem ser consideradas e explicadas como unidade cheia de
tensões.
Para começar: Jesus não tem em mente uma missão aos
gentios. A regra “Dirigi-vos, antes, às ovelhas perdidas da
casa de Israel” (mt 10,6), que ele dá aos Doze, quando os
envia para pregar, tem valor também para ele. Por isso, em
mateus 15,24, Jesus fala de maneira objetiva: “Eu não fui en
viado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. É verda
de que, às vezes, Jesus anda em regiões pagãs, mas não para
pregar ali o Reino de Deus. Encontros com gentios aconte
cem apenas esporadicamente, e não é Jesus que os procura.
E justamente estes encontros, quando acontecem, mostram
que - apesar de toda uma abertura para os gentios - o assunto
36 A iGreJA que JeSuS queriA
é exclusivamente Israel. A mulher pagã da Siro-fenícia, que
pede a Jesus a cura de sua filha, no princípio é rejeitada. E
ainda com esta frase bem significativa: “Deixa que primeiro
os filhos se saciem!” (mc 7,27). Jesus até se mostra muito re
servado com seu poder de milagres diante dos gentios. Seu
poder de tornar presente o Reino de Deus com sinais e mila
gres deve beneficiar os filhos de Israel.
Como é que, então, os gentios chegam à salvação? A so
lução está na ameaça (mt 8,11 par. Lc 13,28s), que Jesus disse
quando o endurecimento de todo-Israel ficou evidente. Pro
vavelmente essa ameaça deva ter soado assim:23
Eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente e se assenta
rão à mesa do Reino dos Céus, com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto
os filhos do Reino serão postos para fora, nas trevas.
Esta palavra pressupõe a realização da salvação: Abraão,
Isaac e Jacó, os patriarcas do povo de Israel, ressuscitaram
dos mortos e estão unidos ao povo de Deus do fim dos tem
pos, mais precisamente, eles são o núcleo do Israel escatoló-
gico. Evidentemente eles são mencionados apenas como os
representantes mais importantes do povo de Deus. Com eles
ressuscitaram todos os justos de Israel. O Reino de Deus che
ga em sua plenitude. Esta plenitude é descrita na imagem do
banquete escatológico, tirada de Is 25,6-8. Aqui a refeição é
imagem da fartura, da festa, da vida que não acaba mais.
Nesta situação chegam os muitos do oriente e do ociden
te, do leste e do oeste. Na ameaça, os muitos formam o con
traste para os ouvintes judeus de Jesus. Fala-se, pois, dos
23 Cf. a construção do discurso um pouco mudada em S. ScHulz, Q. Die
Spruchquelle der Evangelisten, zurique. 1972, 323s. Völkerwallfahrt”:
Bz 15 (1971) 222-237; 16 (1972) 84-93, apontou.
JeSuS e iSrAel 37
gentios. “muitos” - é uma formulação semítica e significa
um número imenso, incontável. um número incontável de
gentios toma parte no banquete da consumação preparado
para Israel. Eles vão sentar-se à mesa com os santos patriar
cas do povo de Deus. Aquele Israel, porém, que rejeita Jesus,
vai ser posto para fora, nas trevas.24
Também aqui, nesta palavra, Jesus recorre ao Antigo
Testamento. uma parte dos profetas, especialmente os pro
fetas do livro de Isaías, profetizam uma peregrinação dos
gentios para Jerusalém - e isto para o fim dos tempos, quan
do Israel se tiver tornado o verdadeiro povo de Deus. Im
portante, neste contexto, é Is 2,1-3:
Dias virão em que o monte da casa de Iahweh
será estabelecido no mais alto das montanhas
e se alçará acima de todos os outeiros.
A ele acorrerão todas as nações,
muitos povos virão, dizendo:
“Vinde, subamos ao monte de Iahweh,
à casa do Deus de Jacó”.25
Decisivo nesta ideia profética da peregrinação das nações
pagãs a Sião26 é o seguinte: os gentios, fascinados pela salva
ção visível em Israel; são impulsionados espontaneamente
24 D. zeller, “Das Logion mt 8,11f/LK 13,38f und das motiv der
Volkerwallfahrt B2 15(1971) 222-237; 16 (1972) 84-93. Apontou com ra
zão que Jesus usa a ideia da peregrinação dos povos exatamente para
provocar Israel. O que não exclui, mas muito mais prova, que Jesus
aceita a ideia. Ele apenas está convencido que de Israel, como ele se
apresenta agora, não sai brilho nenhum que possa atrair as nações.
25 Tradução: N. Lohfink, Die messianische Alternative. Advenstsreden, 2a ed.,
Friburgo, 1981, 12s. Cf. também a exegese de Is 2.1-5, aí apresentada.
26 Para a ideia de peregrinação dos povos em Jesus cf. J. JeremiAS, Jesu
Verheissung fur die Völker, 2a ed., Stuttgart, 1959.
38 A iGreJA que JeSuS queriA
para o povo de Deus. Eles não chegam à fé através de um
trabalho missionário, mas a fascinação que sai do povo de
Deus os atrai. Neste tópico, os textos proféticos geralmente
falam de uma luz irradiante que sai de Jerusalém. Esta luz é
o próprio Deus, que se tornará “luz eterna” de Israel no fim
dos tempos (Is 60,19):
Com efeito, as trevas cobrem a terra,
a escuridão envolve as nações,
mas em ti brilha Iahweh
e a sua glória se mostra no meio de ti.
As nações caminharão na tua luz,
e os reis, no clarão do teu sol nascente (Is 60,2s).
O impulso dos gentios para junto do povo de Deus,
acontece unicamente graças a Deus. A peregrinaçãodas na
ções é sua obra escatológica. Se ele não irradiasse sua luz so
bre Israel, se não santificasse seu nome em Israel, os gentios
não poderiam chegar. E, no entanto, a luz de Deus não pode
irradiar de verdade, se o próprio povo de Deus não brilhar
como luz de Deus. Por isso o apelo em Is 60,1: “Põe-te em pé,
resplandece, porque a tua luz é chegada!” e por isso a exor
tação em Is 2,5: “O casa de Jacó, vinde, andemos na luz de
Iahweh”. A salvação, que Deus prepara, deve irradiar den
tro do próprio Israel, para poder atrair outros para a vida
com o povo de Deus.
Deus, portanto, quer a salvação dos gentios. mas esta
salvação só é alcançada em Israel. As nações pagãs rece
bem sua parte na salvação, recebendo sua parte em Israel.
Elas peregrinam a Jerusalém. Elas vão sentar-se à mesa com
Abraão, Isaac e Jacó.
Somente a partir daqui se torna compreensível, porque
Jesus, apesar de toda uma abertura para os gentios, limita
JeSuS e iSrAel 39
sua atividade a Israel, e ainda porque se dirige com tanta na
turalidade apenas a Israel. Jesus, de modo algum, exclui os
gentios da salvação. Ele fica admirado com a fé de pessoas
pagãs, que, muitas vezes, é maior do que a fé em Israel (cf.
mt 8,5-10). mas Jesus tem que atuar em Israel, pois somente
quando a luz da soberania de Deus irradia no povo de Deus,
os gentios podem iniciar sua peregrinação escatológica das
nações.
Este pressuposto básico da atividade de Jesus apareceria
mais nitidamente ainda, se sua ação repressora no Templo
de Jerusalém (mc 11,15-19) não se dirigisse apenas negati
vamente contra o abuso do Templo, mas, além disso, positi
vamente em favor da abertura escatológica do Templo para as
nações, que, no fim dos tempos, vão chegar a Jerusalém para
adorar.27 uma tal interpretação da ação no Templo tem algo
a seu favor, pois Jesus limpa o “pátio dos gentios”. Também
o texto usado por marcos aponta nesta direção:28
Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos
(Is 56,7; mc 11,17).
6. A CRISE DE ISRAEL
No capítulo precedente falamos de mt 8,11 sob o aspec
to da peregrinação universal das nações. Não podemos, po
rém, perder de vista que esta sentença é uma ameaça contra
Israel. Jesus quer dizer a seus ouvintes: se vocês não acei
tarem a mensagem do Reino de Deus, não se sentarão, de
modo algum - como acreditam - à mesa com Abraão, Isaac e
Jacó. Os gentios terão parte na luz do Reino de Deus. Vocês,
27 Cf. Is 2,1-4; 60,1-22; Jr 3,17; Sf 3,8-11; Ag 2,6.9; zc 2,10-13; 8,20-23.
28 Cf. r. PeScH, op. cit., 56.
40 A igreja que Jesus queria
porém, que, na verdade, deveriam ser luz dos gentios, vão
ser postos para fora, nas trevas.
Existe uma série de ameaças semelhantes nas palavras
de Jesus, que, como em mt 8,11s, confrontam os gentios
com o Israel descrente. Assim, por exemplo, mt 12,41s (par.
Lc 11,31s):
Os habitantes de Nínive se levantarão no julgamento, juntamen
te com esta geração, e a condenarão, porque eles se converteram
pela pregação de Jonas. Mas aqui está algo mais do que Jonas! A
Rainha do Sul se levantará no julgamento juntamente com esta
geração e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir
a sabedoria de Salomão. Mas aqui está algo mais do que Salomão!
“Aqui está algo mais do que Jonas! Aqui está algo mais
do que Salomão!” Com certeza, os evangelistas já compre
endem estas exclamações em sentido cristológico. mas, nos
lábios de Jesus, elas devem ter sido relacionadas principal
mente com o Reino de Deus - e, com certeza, no seguinte
sentido: o Evangelho do Reino de Deus, anunciado por Jesus
no meio de Israel e confirmado por muitas obras de poder,
tem infinitamente mais importância do que a pregação da
conversão de Jonas e a sabedoria de Salomão, no tempo de
les. E, no entanto, naquele tempo, os gentios ouviram o apelo
e o seguiram. O povo eleito, porém, não aceita o Evangelho.
Em mt 11,21s (par. Lc 10,13s), Jesus contrapõe, numa
linguagem ainda mais radical, duas cidades que, de acordo
com a concepção veterotestamentária, eram profundamente
ímpias e pagãs, com duas cidades de Israel, onde realizou
muitos sinais:
Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e Sidônia
tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há
JeSuS e iSrAel 41
muito se teriam arrependido, vestindo-se de cilício e cobrindo-se
de cinza. Mas eu vos digo: no dia do julgamento haverá menos
rigor para Tiro e Sidônia do que para vós.
Todas estas ameaças, que foram escolhidas aqui de uma
tradição muito mais ampla, têm duas coisas em comum:
1. Elas visam Todo-Israel. Corazim e Betsaida apenas
estão representando as demais cidades do país. E o trecho
mt 12,41s fala - como também muitos outros textos na tra
dição de Jesus - “desta geração”. Com esta expressão não
se entende toda a humanidade, mas daquela geração con
creta de Israel em que se vê confrontada com a mensagem
de Jesus Cristo. O que está em jogo é, portanto, o destino
de Todo-Israel. Este assunto é mais esclarecido ainda em mt
8,11s; 11,21s e 12,41s, onde os gentios são confrontados anti-
teticamente com o povo de Deus.
2. As ameaças aqui mencionadas têm em mente um
fracasso de Israel. Jesus, com certeza, não as pronunciou no
começo de sua atividade pública; elas pressupõem uma ati
vidade prolongada. Elas são pronunciadas numa situação
em que a morte violenta de Jesus já se anuncia. mas elas
também mostram que, para Jesus, o povo entrou na crise
decisiva de sua história. Com certeza, a crise de Israel não é
traçada a partir de uma visão pós-pascal, de uma experiên
cia negativa da missão do cristianismo primitivo em Israel,
como muitos exegetas acreditam. A prova disso está na pa
rábola do grande banquete em Lc 14,16-24, e esta parábola,
sem dúvida, é do próprio Jesus. Esta parábola quer dizer:
quem for convidado, mas mesmo assim não comparecer, exclui-se
a si mesmo da refeição. O banquete, porém, vai acontecer mesmo
sem a presença dele. Lc 14,16-24 fala numa maneira igualmen
te radical da crise de Israel como as palavras de ameaça, aci
ma mencionadas. Contudo, a decisão do povo ainda não é
42 A iGreJA que JeSuS queriA
definitiva. Ainda existe uma última esperança de que os
ouvintes de Jesus compreendam os sinais dos tempos e en
tendam a própria situação. Por isso, o tom da ameaça tão
extremamente severo. O rigor da ameaça quer provocar
conversão na última hora.
Aqui, neste contexto, devemos voltar ao sinal profético
que Jesus colocou com a constituição dos Doze. Temos visto:
os Doze representam o arrogo de Jesus a Todo-Israel. Ainda
mais: eles são um sinal eficaz da ressurreição e reconstitui
ção do povo escatológico das doze tribos.
mas é característico das palavras e ações simbólico-pro
féticas poderem adquirir novas dimensões de sentido. Por
isso, devemos contar desde já, que o conceito dos Doze pos
sa ser mudado numa situação nova e diferente, ou melhor,
possa ser ampliado - e até mesmo pelo próprio Jesus.
Chegando perto do fim de sua atividade pública, quan
do se torna evidente que os líderes do povo querem eliminar
Jesus, enquanto o povo mesmo permanece indiferente, os
Doze recebem, provavelmente do próprio Jesus, uma nova
função: a partir daí, eles não são apenas testemunhas da sal
vação próxima, mas também do juízo iminente sobre um Is
rael endurecido. Neste sentido devemos entender a palavra
(mt 19,28 par. Lc 22,30):
Em verdade vos digo que, quando as coisas forem renovadas, e o
Filho do Homem se assentar no seu trono de glória, também vós,
que me seguistes, sentareis em doze tronos para julgar as doze
tribos de Israel.
Esta palavra é dirigida exclusivamente ao círculo dos
Doze. Por isso, ela mostra definitivamente, que os Doze só
podem ser compreendidos como sinal para o povo de Deus.
mostra também, que eles não são apenas sinal que promete
JeSuS e iSrAel 43
salvação, mas também sinal que julga. No juízo final, eles vão
testemunhar contra Israel, se este não se converter.
Seria tolice querer jogar as duasfunções dos Doze, a po
sitiva e a negativa, uma contra a outra.29 Palavras e sinais
proféticos não são definições matemáticas, eles pertencem a
uma linguagem simbólica, a qual admite sempre novas (se
bem que não indefinidamente) interpretações atualizantes.
O significado pleno do sinal resulta da situação a partir da
qual ele é colocado e para a qual ele fala.
Para Jesus, num dado momento, pelo fim de sua ativi
dade pública, os Doze tornam-se testemunhas contra Israel.
Assim, em mt 19,28 fica claro que, na opinião de Jesus, a
crise de Israel está para alcançar seu ponto culminante.
7. A MORTE EM FAvOR DE MUITOS
Quando, então, a crise alcança seu ponto culminante, Je
sus fala, na última ceia, perante a morte certa, da entrega de
sua vida “em favor de muitos”. Esta expressão encontra-se,
na tradição de marcos, dentro da interpretação que acompa
nha o cálice da bênção (mc 14,24):
Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança,
que é derramado em favor de muitos.
Antes de perguntarmos quem são esses “muitos”, va
mos observar duas coisas:
1. Até hoje, discute-se a historicidade das palavras da úl
tima ceia. muitos exegetas do Novo Testamento acham que
a tradição da última ceia é uma tradição demasiadamente
29 mesmo porque a função de julgar desempenha um certo papel já no
envio dos Doze; cf. mc 6,11.
44 A iGreJA que JeSuS queriA
litúrgica, e daí vem a impossibilidade de pesquisar o seu fun
do histórico com perspectivas de êxito. Este ceticismo não
é justificado. A tradição litúrgica não exclui a conservação
cuidadosa da tradição verbal, muito pelo contrário, favore
ce-a. mesmo o argumento de que, em parte alguma, se pode
observar em Jesus a ideia da aliança ou expiação, pouco pro
va. Devemos conceder que Jesus, numa situação como esta,
única em sua vida, possa ter dito algo de novo. Perante a
necessidade de explicar sua morte próxima a partir de Deus,
ele usa categorias de interpretação novas para ele, mas co
nhecidas dentro das Escrituras Sagradas: as ideias da alian
ça e da expiação em substituição.
2. A segunda dificuldade é esta: Paulo transmite a inter
pretação que acompanha o cálice da bênção de forma dife
rente da de marcos. 1Cor 11,25 reza:
Este cálice
é a nova Aliança
em meu sangue.
A diferença entre as duas redações da palavra do cálice,
na verdade, é bem menor do que pode parecer a primeira
vista; nos dois textos a morte sangrenta de Jesus é interpre
tada como colocação divina de nova salvação (nova aliança).
Por detrás delas, porém, estão textos bíblicos diferentes:
êx 24,8 na tradição de marcos, e Jr 31,31 na de Paulo. mais:
em ambas as correntes da tradição, a morte de Jesus é morte
de expiação em substituição; o texto correspondente de Paulo
somente não está na palavra do cálice, mas na palavra do pão,
e ele não reza: “em favor de muitos” mas: “para vós” (1Cor
11,24). Pelo menos neste último ponto, a aplicação da mor
te de Jesus em favor de muitos, a tradição de marcos con
servou a forma original com mais exatidão. Evidentemente
JeSuS e iSrAel 45
Jesus interpretou sua morte próxima à luz da teologia do
Servo de Deus em Is 52,13; 53,12. Lá se diz do Servo de Deus
(53,11s):
O justo, meu Servo, justificará a muitos
e levará sobre si as suas transgressões.
Eis porque lhe darei um quinhão entre as multidões;
com os fortes repartirá os despojos,
visto que entregou a sua alma à morte
e foi contado com os transgressores,
mas na veredade levou sobre si o pecado de muitos
e pelos transgressores fez, intercessão.
mas, afinal, quem são esses muitos, a quem é concedida
a força salvadora da morte de Jesus? A resposta na maioria
das vezes é: todos os homens! Pois aqui a maneira de pen
sar universalista de Jesus e dos evangelistas se mostraria em
plena luz. No fim de sua vida, o olhar de Jesus abrir-se-ia
para a salvação do mundo inteiro.
Vamos, porém, diferenciar cuidadosamente: de qual
quer modo, a interpretação universal alcança o sentido, que
marcos mesmo quis dar a sua tradição. mas, quanto, a Jesus,
devemos olhar melhor.30
Pressupondo que o próprio Jesus interpretou sua morte
próxima, com o auxílio da Sagrada Escritura, como morte sal
vadora em favor de outros, podemos excluir, que ele, deixando
Israel de lado, somente pensasse naqueles que, futuramente,
30 Não é insignificante que, em Hb 13,12, a morte de Jesus seja inter
pretada como morte em favor de Israel. De resto deve-se perguntar,
se uma interpretação universal de sua morte pelo próprio Jesus não
levaria imediatamente ao início da missão dos gentios. Cf. R. PeScH,
“Voraussetzungen und Anfänge der urchristlichen mission”, em: K.
Kertelge, Mission im Neuen Testament (QD 93), Friburgo, 1982, 41.
46 A iGreJA que JeSuS queriA
no mundo inteiro, na fé em sua palavra e sua obra, encontra
riam a salvação. Será que toda a existência de Jesus não foi
vida, em primeiro lugar e exclusivamente, em favor de Israel?
Como poderia abandonar seu povo, ao qual dedicou toda
sua missão, exatamente nesta hora? A linguagem empre
gada e, especialmente, as interpretações judaicas da época
de Is 53 nos permitem tranquilamente relacionar os muitos,
primeiramente com o próprio Israel, do mesmo modo como
também a (nova) aliança, primeiramente deve ser relaciona
da com Israel. Jesus, pois, daria conscientemente sua vida
por aquele Israel, que repelia sua mensagem e se preparava
para eliminá-lo.
Ele entenderia sua morte como colocação da salvação de
Deus, que cura as feridas que o Israel sem fé lhe faz. A ação
terrível de Israel seria, então anulada, e o caminho para a con
versão ficaria livre de novo. Aqueles que merecem a morte
por causa do endurecimento contra Jesus receberiam de Deus
nova vida gratuitamente e sem mérito próprio (expressão bí
blica: expiação). Deus converte o assassínio de seu enviado em
colocação de sua fidelidade a Israel (expressão bíblica: aliança),
mais ainda, ele converte a morte do seu enviado, planejada
e executada por homens, numa colocação de fidelidade defi
nitiva e irrevogável a Israel (expressão bíblica: nova aliança) e,
deste modo, confirma sua pretensão ao povo eleito de Deus.
Somente se levarmos a sério em toda a sua abrangência
esta relação da morte expiatória e da renovação da aliança
para com Israel, podemos ir um passo adiante: a expressão
“em favor de muitos” é, no seu caráter linguístico, uma ex
pressão aberta. mesmo que ela fale primeiramente de Israel
que se tornou culpado e foi expiado sem mérito próprio, ela
não exclui os muitos do mundo das nações de quem mt 8,11
fala. Quando Israel acolhe a expiação oferecida e se conver
te, ele torna-se sinal para os povos, que assim poderão tomar
JeSuS e iSrAel 47
parte na salvação estabelecida numa forma mais profunda e
irrevogável, pela morte de Jesus.
Se nossas considerações são corretas, Jesus dá provas,
mesmo diante da morte, de que se dirige a Israel. E, neste
momento, ele dá provas mais profundas e radicais do que
antes desta sua atitude. Fica evidente, pois, que as ameaças
contra “esta geração” são apelos extremos a fim de ganhar
seu povo. Quando estas tentativas também fracassam, aí
resta somente o caminho do Servo de Deus, que carrega a
culpa dos muitos.
8. O REINO DE DEUS E SEU POvO
Os dois capítulos precedentes, mais uma vez, mostram
com clareza, como Jesus estava empenhado na reconstitui
ção e restauração do povo de Deus. Pois todas as ameaças,
todos os ais, todas as parábolas da crise, todas as palavras
contra “esta geração” e mesmo as palavras de Jesus pronun
ciadas na última ceia mostram com clareza: toda a sua ati
vidade é dirigida a Israel. Por isso não podemos separar a
pregação do Reino de Deus realizada por Jesus da sua volta
para o povo de Deus. Necessariamente, ela leva à reconsti
tuição de Israel.
As palavras de Jesus a nós transmitidas quase não fa
lam explicitamente da reconstituição de Israel (cf., porém,
mt 23,37 par. Lc 13,34; mt 12,30 par. Lc 11,23). É explicado
pelo fato que a ideia do Reino de Deus em Jesus pressupõea reconstituição de Israel como coisa natural. Simplesmente
não existe Reino de Deus sem um povo de Deus. Com razão
diz r. ScHnAckenburG:31 Quem nega a intenção de Jesus de
31 R. ScHnAckenburG. Gottes Herrschaft und Reich. Eine biblisch-theologische
Studie, Friburgo, 1959, 150.
48 A iGreJA que JeSuS queriA
congregar uma comunidade, “não entende a maneira messi
ânica - escatológica de pensar em Israel, onde a salvação es-
catológica não pode ser separada do povo de Deus e onde a
comunidade de Deus pertence necessariamente ao Reino de
Deus”. Por isso, a espera do Reino próximo em Jesus não ex
clui, de maneira alguma, o empenho para formar um povo
santo de Deus. “Ao contrário, exatamente porque Jesus viu
o fim aproximar-se, ele sentiu-se na obrigação de reunir o
povo de Deus para o tempo da salvação. Porque junto do
enviado de Deus está o povo e Deus, junto do profeta estão
os discípulos. Devemos expressar mais radicalmente ainda:
o único motivo de toda atividade de Jesus é a reconstituição
do povo escatológico de Deus”. Assim se expressa J. Jere-
miAs.32 De fato, ele se expressa radicalmente, mas tem razão.
Acontece que a discussão exegética sempre acentua
que Jesus tenha entendido a ideia do Reino de Deus to
talmente universal e a tenha livrado de todos os concei
tos judaico-nacionais. O que é verdade. Não existem traços
nacionais-restaurativos em Jesus. Jesus faz os discípulos
orar, no Pai-nosso, pela reconstituição do povo de Deus,
mas não pela glorificação de Jerusalém ou pela libertação
do país do domínio dos romanos. Jesus rejeita as preten
sões dos zelotes (cf. mc 12,13-17). Ele evita a linguagem
metafórica da guerra santa, empregada pelos essênios. Ele
entra em conflito com a teologia restaurativa dos saduceus,
que o leva à morte.
No conceito do Reino de Deus em Jesus, de fato, exis
te universalidade,33 indicada pela ideia da peregrinação das
32 J. JeremiAS, op. cit., 365ss.
33 Cf. também G. loHfink, “universalismus und Exklusivität des Heils
im Neuen Testament”, em: W. kASPer, Absolutheit des Christentums (QD
79), Friburgo, 1977, 63-82.
JeSuS e iSrAel 49
nações em mt 8,11; indicada também pela missão posterior
aos gentios, que seria impossível sem a abertura de Jesus
para os gentios. mas tudo isso não modifica nada na teo
ria que a pregação do Reino de Deus tem seu “sitz im le-
bem” na volta de Jesus para Israel. Ele quer que a soberania
de Deus se imponha totalmente, que apareça visivelmente.
E onde esta soberania de Deus pode ser mais visível, mais
perceptível, onde ela pode realizar-se mais eficientemente
senão no povo de Deus?34 Nas obras da salvação de Jesus em
Israel, nas expulsões de demônios, nas curas de doentes, no
acolhimento dos pecadores, já brilha a soberania de Deus.
“A soberania escatológica de Deus não deveria estar geral
mente e simplesmente no mundo, mas deveria atingir um
povo concreto, escolhido há muito, e definido com exatidão
no seu perfil”, diz k. muller com razão.35
É muito instrutivo, neste contexto, que mateus chame
os judeus “filhos do Reino” (mt 8,12; 13,38). Para ele, pois,
os membros do povo de Deus estão numa ligação profunda
com o Reino de Deus. mateus até pode dizer que o Reino
de Deus será tirado de Israel e dado a um outro povo (mt
21,43). O que chama a atenção, neste contexto, é a ligação
inequívoca da soberania de Deus primeiramente a Israel
e depois a um outro povo (singular!). Ele não fala “a outros
povos”. A soberania de Deus, pois, sempre pressupõe um
povo, isto é, o povo de Deus, no qual ela se realiza e brilha.
Não podemos ler, por isso, os textos do Novo Testamento,
com uma visão de um individualismo teológico, que ape
nas é capaz de imaginar o Reino de Deus como realidade
34 Bem visto por J. R. W. Stott, “Reich Gottes und Gemeinschaft”, em:
Theologische Beiträge 8 (1977), 1-24; G. E. lAdd. Jesus and the Kingdom.
The Eschatology of Biblical Realism, 1969.
35 K. muller, “Jesu Naherwartung und die Anfänge der Kirche”, em: o
mesmo, op. cit., 20.
50 A iGreJA que JeSuS queriA
universal e íntima, dentro das almas de gente piedosa, espa
lhada como indivíduos no mundo inteiro.
É fundamental, na linha principal da tradição do An
tigo Testamento, que Deus escolha das muitas nações que
existem no mundo um único povo, para fazer dele sinal de
salvação. O que não diminui a atenção dada às outras na
ções. Pois, quando o povo de Deus brilha como sinal entre
as nações (cf. especialmente Is 2,1-4), elas vão aprender des
te povo de Deus, elas vão reunir-se em Israel, para receber
parte da salvação em Israel e através de Israel. mas isto só
pode acontecer, quando Israel é reconhecido como sinal da
salvação, quando Deus tiver transformado o povo perceptí
vel, palpável e visivelmente.
Jesus não imaginou o povo de Deus a ser reconstituído
como comunidade meramente espiritual e religiosa - como
societas in cordibus. Tais teorias que continuamente aparecem
disfarçada ou abertamente, não correspondem às intenções
de Jesus. O seguimento, ao qual Jesus chamou, não foi um
seguimento invisível, as refeições com os pecadores não fo
ram refeições invisíveis, suas curas dos doentes não foram
curas invisíveis - como também sua morte na cruz não foi
um acontecimento invisível.
O movimento da reunião conduzido por Jesus é algo
muito concreto e visível. O fato, de Jesus não dar a este mo
vimento um perfil bem estruturado e um cunho institucio
nal, não pode levar-nos a crer que ele pensava em uma “co
munidade invisível”. Porque aqui se trata de Israel, e este
como comunidade diante de Deus (se bem, como comuni
dade doente e dividida), há tempo, já existe.
Constatemos, pois: dentre as muitas nações existentes
no mundo Deus escolhe um único povo, para fazer dele si
nal visível da salvação. Portanto, conforme teologia bíblica,
Deus impõe sua soberania escatológica, que em princípio
JeSuS e iSrAel 51
deve incluir o mundo inteiro, da seguinte maneira: ele co
meça bem pequeno: numa família (em termos bíblicos: em
Abraão), num clã, num grupo, num povo pequeno. Assim,
em virtude desta pedagogia divina, soberania de Deus não
significa violentação do mundo, mas apelo para a liberdade;
um apelo, melhor ainda, uma atração para seguir o exemplo
daqueles que foram chamados primeiro.
Jesus, com certeza, adotou profundamente esta inter
pretação profética da história de Deus com o mundo e da
escolha de Israel. Pois, mesmo naquela hora quando Israel
recusa a sua vocação, Jesus não renuncia à ideia de comuni
dade, isto é, da ideia que a soberania de Deus deve ter um
povo. E assim, ele se concentra no círculo dos discípulos. Ele,
então, vincula o Reino de Deus com a comunidade de seus
discípulos, sem perder de vista a totalidade de Israel:
Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso
Pai dar-vos o Reino (Lc 12,32; cf. 22,29).
Segunda Parte
JESUS E SEUS DISCIPULOS
Como é que Jesus quis uma comunidade? Até agora,
nossa análise já conseguiu juntar pontos importantes para
responder a esta pergunta. Pois tornou-se evidente: o pensa
mento de Jesus está estreitamente relacionado com Israel, mas
não limitado a Israel. Para ele, Israel é o caminho para uma
meta mais ampla: ele é sinal da salvação universal. mas, sen
do sinal, não pode ser deixado de lado.
No entanto, o que foi dito até agora, não pode ser a
resposta total à pergunta deste livro. Temos que pergun
tar ainda: como Jesus imaginou, de maneira mais concreta, o
Israel a ser reconstituído, o verdadeiro povo de Deus? A res
posta decisiva é dada pela instrução de Jesus aos discípu
los. mas, antes, vamos esclarecer o que vem a ser o grupo
dos discípulos.
1. O GRUPO DOS DISCIPULOS
Para começar, devemos distinguir dois grupos entre as
pessoas em Israel que ouvem Jesus e nele acreditam.
Primeiramente temos aqueles que acolhem a mensa
gem de Jesus, mas permanecem em suas aldeias ou cida
des para esperar o Reino de Deus lá mesmo. “Onde Jesus
aparece, deixa discípulos que, com suas famílias,esperam o
Reino e que o acolhem e também seus mensageiros. Eles es
tão espalhados no país inteiro, especialmente na Galileia, e
também na Judeia, por exemplo, em Betânia, e na Decápole
56 A iGreJA que JeSuS queriA
(mc 5,19s)”.36 Assim se diz de José de Arimateia, ilustre
membro do Conselho, que ele esperava o Reino de Deus
(mc 15,43). Com certeza não o fazia independentemente da
mensagem de Jesus. E, como mostra a história do sepulta-
mento de Jesus em mc 15,42-47, ele estimava e venerava Je
sus. - Neste contexto deve-se recordar também zaqueu de
Jericó que, pelo encontro com Jesus, se transformou em ou
tra pessoa. Ele promete, para o futuro, dar a metade dos seus
bens aos pobres e restituir o quádruplo, se tivesse prejudica
do alguém. Jesus, porém, fala da salvação, que aconteceu a
esta casa, isto é, a zaqueu e sua família (Lc 19,8s). - O melhor
exemplo, porém, de um seguidor de Jesus “fixo no lugar” é
Lázaro, que mora em Betânia (Jo 11,1). Ele é chamado amigo
de Jesus e de seus discípulos (Jo 11,11).
Desta espécie de seguidores, que acabamos de descrever,
devemos distinguir os “discípulos” no sentido próprio.37 A
palavra grega correspondente (mathetes), deveria ser traduzi
da por “aluno”. Então ficaria imediatamente claro que - pelo
menos quanto à terminologia - encerra a relação mestre-alu
no costumeira entre os rabinos. O mesmo vale do termo “se
guir”. Quando, nos evangelhos, se diz, constantemente, que
os discípulos seguiam Jesus, isto deve compreender-se literal
mente: quando Jesus percorria o país, eles iam alguns passos
atrás dele, do mesmo modo que os estudantes da Torá cami
nhavam à distância respeitosa atrás do seu rabi.
O grupo dos discípulos que segue Jesus é um grupo bem
delimitado. Quando, num sábado, os discípulos colhem
espigas, Jesus é interpelado: “Vê! Como fazem eles o que
36 J. JeremiAS, op. cit., 350ss.
37 Cf. a respeito do conceito de discípulo especialmente m. HenGel, Na
chfolge und Charisma. Eine exegetisch- religionsgeschichtliche Studie zu Mt
8.21 und Jesu Ruf in die Nachfolge, Berlim, 1968; além disso H. merklein,
Der Jungerkreis Jesu, em: K. muller, op. cit., 65-100.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 57
não é permitido fazer no sábado?” (mc 2,24). D acordo com
isso, Jesus, aos olhos de seus vigias, é responsável por seus
discípulos, assim como os doutores da lei são responsáveis
por seus alunos.
Apesar disso, em muitos pontos, seus discípulos se dis
tinguem dos alunos dos rabinos. Eles não vêm a Jesus por
que querem aprender a Torá, mas porque ouviram a men
sagem de Jesus do Reino de Deus que estava próximo. Não
são eles que escolhem seu mestre, como fazem os alunos dos
rabinos: Jesus chama-os (cf. Lc 9,59). Ele chama-os para um
seguimento, que os obriga a abandonar a profissão até então
exercida e a deixar a própria família (cf. mc 1,16-20).
A dureza dessa exigência fica clara num dito de Jesus,
que originalmente deveria ter soado assim:38
Aquele que não odeia pai e mãe,
não pode ser meu discípulo.
Aquele que não odeia
filho e filha, não pode ser
meu discípulo.
Jesus exige, portanto, dos seus discípulos a renúncia
decidida à própria família - é isto o que significa odiar. Em
vez de sua família e de todas as ligações de sangue e ami
zade entra a comunhão de vida com Jesus. Esta comunhão
de vida significa mais do que estar com o mestre, ouvi-lo e
observá-lo, para aprender a Torá através das suas exigências
e do seu estilo de vida. A comunhão de vida do discípulo
com Jesus é comunhão de destino. Ela vai ao ponto de exigir
do discípulo estar disposto a sofrer o mesmo que Jesus - até
perseguição e execução:
38 Cf. mt 10,37 e Lc 14,26.
58 A igreja que Jesus queria
Aquele que não toma a sua cruz
e me segue
não é digno de mim (mt 10,38).
Apesar destas exigências radicais não devemos pensar
que o grupo dos discípulos fosse muito reduzido. Em todo
caso era maior do que o círculo dos Doze. A identificação do
grupo dos discípulos com o círculo dos Doze é uma apresen
tação esquematizada de mateus. Conhecemos pelo nome,
pelo menos, três homens que pertenciam ao grupo dos dis
cípulos sem fazer parte do círculo pré-pascal dos Doze: Cléo-
fas (Lc 24,18), José Barsabás e matias (At 1,23). Também são
conhecidas pelo nome cinco mulheres que seguiam a Jesus e
o serviam com seus bens: maria de magdala; Joana, mulher
de Cuza; Susana; maria, a mãe de Tiago, e Salomé (Lc 8,1-3;
mc 15,40s). É recomendável, pois, não considerar pequeno
demais o grupo dos discípulos de Jesus.
mas muito mais importante é o seguinte: afinal, porque
Jesus chamou discípulos (além dos Doze)? A melhor respos
ta é dada em Lc 10,2 (par. mt 9,37s):
A messe é grande,
mas os operários são poucos.
Pedi, pois, ao Senhor da messe
que envie operários para sua messe.
O “Senhor da messe” evidentemente é Deus. A colhei
ta é uma antiquíssima imagem bíblica do juízo, mas tam
bém do tempo escatológico da salvação. Fazer a colheita é
reconstituir Israel para ser o povo escatológico de Deus. É
impossível, diz Jesus, que haja pessoas suficientes para cola
borar neste movimento da reconstituição. Pois o tempo es
casseia como nos dias da colheita.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 59
Lc 10,2 mostra: a proclamação do Reino de Deus e a
reconstituição do povo de Deus são acontecimentos escatoló-
gicos. Sendo assim, podemos admitir que Jesus não apenas
chamasse os Doze, mas também outros discípulos para co
laborar. Como os Doze, os discípulos são, portanto, primei
ramente, colaboradores no serviço do Reino de Deus e na
reconstituição de Israel.
Quando, porém, Israel como um todo recusa a mensa
gem de Jesus, o grupo dos discípulos recebe mais uma ou
tra função. É a tarefa de representar simbolicamente aquilo,
que deveria ter acontecido em Todo-Israel: entrega total ao
Evangelho do Reino de Deus, conversão radical a um novo
estilo de vida, reunião para formar comunidade de irmãos
e irmãs.39 Evidentemente a intenção de Jesus, é que o grupo
dos discípulos não se feche a Israel e, muito menos, se una
contra Israel, mas que permaneça aberto e sempre orientado
para Israel.
O grupo dos discípulos não forma, portanto, uma nova
comunidade fora do antigo povo de Deus, chamado por Je
sus para substituir Israel. uma ideia como esta seria comple
tamente anti-bíblica.
Bíblica seria, no máximo, a ideia do “resto sagrado” (cf.
1Rs 19,18; Is 10,20-22). Será que Jesus compreendeu a sua
comunidade de discípulos como “resto sagrado” de Israel?
Hoje sabemos que, no tempo de Jesus, esta ideia era
teologicamente atualíssima. Os essênios de Qumram inter
pretavam a existência da sua comunidade no meio de Israel
com o auxílio da ideia do “resto”. Eles consideravam-se a
si mesmos como o resto sagrado de Israel, eleito por Deus;
39 Cf. o artigo importante de H. ScHurmAnn, Der Jungerkreis Jesu als Zei
chen fur Israel, em: o mesmo, Ursprung und Gestalt. Erörterungen und
Besinnungen zum Neuen Testament (KBANT) , Dusseldorf, 1970, 45-60.
60 A iGreJA que JeSuS queriA
todos os outros judeus que não pertenciam a sua comunida
de e não se santificavam junto com eles, eram considerados
massa damnata. Eles consideravam-se a si mesmos como “fi
lhos da luz”, e todos os outros, “filhos das trevas”.
É característico que Jesus não usou a ideia de Isaías
do “resto” para interpretar sua atividade junto ao povo de
Deus.40 Ele continua com sua pretensão a Todo-Israel. A ideia
de um “resto sagrado” ou de uma comunidade separada de
Israel não entra em questão, porque em parte alguma Jesus
exige a participação no grupo dos discípulos como condição
para entrar no Reino de Deus. Em parte alguma ele exige o
seguimento como condição geral da salvação. Por conseguinte,
não se poderá compreender a comunidade dos discípulos
de Jesus seguindo o modelo de Qumram. A comunidade
dos discípulos de Jesus só se faz compreender em sua rela
ção simbólica com Todo-Israel. Ela deve prefigurar o povo
escatológico de Deus. Ela deve iniciar, desde já, a existência
escatológica deIsrael.
2. O SERMãO DA MONTANHA
A esta correlação de comunidade de discípulos e Todo-
Israel corresponde uma observação no nível ético que se faz
sempre quando se examina o ensinamento moral de Jesus
nos seus pormenores: é muito difícil distinguir entre instru
ções de Jesus, dadas somente para os discípulos, e instruções
dadas a todo Israel. Estas dificuldades de diferenciar estão
fundadas no próprio assunto: o ensinamento moral de Jesus
deve ser vivido no grupo dos discípulos, ao mesmo tempo
é ensinamento para o povo todo. Esta obscuridade aparente
Com respeito ao não uso da “ideia do resto” em Jesus cf. J. JeremiAs, op.
cit., 360ss.
40
JeSuS e SeuS diScíPuloS 61
é explicada pelo fato de o grupo dos discípulos representar
simbolicamente o Israel escatológico.
Seja como for, o “sermão da montanha” - a expressão
está aqui como representante de todo o ensinamento mo
ral de Jesus - não foi dirigido a indivíduos isolados ou,
o que seria o mesmo, à humanidade como um todo. O
destinatário do sermão da montanha é Israel, respectivamente o
grupo dos discípulos que representa Israel. O reconhecimen
to deste fato é muito importante para a tese fundamental
deste livro, como também para a discussão atual sobre
a validade do sermão da montanha na política. Por isso
devemos aprofundar mais detalhadamente o contexto do
sermão da montanha em mateus e do “discurso do cam
po” em Lucas.
O sermão da montanha, bem como o discurso do campo
remontam, em seus núcleos, à primeira composição progra
mática de sentenças dentro da chamada fonte Q.41 Lucas está
mais próximo do original, mateus ampliou-o significativa
mente com material tirado da tradição. Trata-se, portanto,
tanto na fonte Q, como em Lucas e sobretudo em mateus,
de composições secundárias de sentenças originariamente
dispersas (que são, no entanto, muito antigas e, na maior
parte, remontam ao próprio Jesus). Por isso também os en
quadramentos do sermão da montanha e do discurso do
campo constituem composição redacional, isto é, não rela
tam simplesmente uma situação histórica na vida de Jesus.
Apesar disso, estes enquadramentos têm grande valor neste
contexto, pois eles mostram, pelo menos, quem são - para
os autores dos dois evangelhos maiores - os destinatários
de uma parte decisiva do ensinamento moral de Jesus. mas
Cf. a reconstrução do sermão do monte na fonte Q, em A. PolAG, Frag
menta Q. Textheft zur Logienquelle, Neukirchen-Vluyn, 1979, 32-38.
41
62 A igreja que Jesus queria
como são os enquadramentos? mateus introduz o sermão
da montanha da seguinte maneira:
[Jesus] percorria toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas,
pregando o Evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença
e enfermidade do povo. A sua fama espalhou-se por toda a Síria, de
modo que lhe traziam todos os que eram acometidos por doenças
diversas e atormentados por enfermidades, bem como endemoni
nhados, lunáticos e paralíticos. E ele os curava. Seguiam-no mul
tidões numerosas vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém,
da Judeia e da região além do Jordão. Vendo ele as multidões, su
biu à montanha. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discí
pulos. E pôs-se a falar e os ensinava (mt 4,23-5,2).
mateus antepõe conscientemente ao sermão da mon
tanha um extenso sumário. Ele quer mostrar qual é o
pressuposto histórico-salvífico das exigências do sermão da
montanha: o Reino de Deus já anunciado, e que Jesus tor
na presente não só por palavras, mas também por obras
de poder nos doentes do povo de Deus. Ao mesmo tempo
todo Israel está reunido diante de Jesus; todas as regiões
do país são enumeradas cuidadosamente: Galileia, Ju
deia, Jerusalém, a região do além Jordão. Jesus proclama,
portanto, diante de todo Israel a nova ordem social do povo
de Deus, assim como no monte Sinai fora proclamada a
ordem social do Antigo Testamento. Decisiva, porém, é a
menção específica dos discípulos como ouvintes de Jesus.
Será que o sermão da montanha talvez não se dirija a todo
o povo, mas só aos discípulos? Será que a presença do
povo é apenas um artifício para tornar mais imponente
o discurso de Jesus? Esta hipótese será definitivamente
excluída três capítulos mais adiante, pela conclusão do
sermão da montanha.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 63
Aconteceu que ao terminar Jesus estas palavras, as multidões fi
caram extasiadas com o seu ensinamento, porque as ensinava com
autoridade e não como os seus escribas (mt 7,28s).
Aqui, os discípulos não são mais mencionados. O ser
mão da montanha era dirigido, sem dúvida, ao povo, a To-
do-Israel. E, no entanto, a menção dos discípulos em mt 5,1
não foi mero acaso. Os discípulos são o cerne do círculo dos
ouvintes de Jesus. Em todo o caso, eles devem ouvir e prati
car aquilo que foi dito a todo povo de Deus.
A situação em Lucas é muito semelhante. Depois de
contar que, na montanha, Jesus chamou os Doze de um nú
mero maior de discípulos, introduz o discurso do campo da
seguinte maneira:
Desceu com eles e parou num lugar plano, onde havia nume
roso grupo de discípulos e imensa multidão de pessoas de toda
a Judeia, de Jerusalém e do Litoral de Tiro e Sidônia. Tinham
vindo para ouvi-lo e ser curados de suas doenças. Os atormen
tados por espíritos impuros também eram curados. E toda a
multidão procurava tocá-lo, porque dele saía uma força que a
todos curava. Erguendo então os olhos para os seus discípulos,
dizia (Lc 6,17-20).
O cenário teológico é semelhante ao de mateus. A Mag
na Charta das exigências éticas de Jesus pressupõe a salva
ção, já anunciada e concretizada até corporalmente através
de muitas curas de doentes, do Reino de Deus. Lucas orde
na os ouvintes do discurso do campo ainda melhor do que
mateus: lá está o recém-constituído círculo dos Doze, junto
dele “o grande número” dos outros discípulos e, num círcu
lo ainda maior, a massa do povo. Ao contrário de mateus,
Lucas até chama o povo laos. A expressão laos tem, vindo do
64 A igreja que Jesus queria
Antigo Testamento grego, um tom solene: é o povo de Israel
eleito e guiado por Deus.
mas, será que, pelo menos em Lucas, o grande discurso
de Jesus não é dirigido somente para os discípulos?
Pois em 6,20 ele fala: “E erguendo então os olhos para
os seus discípulos, dizia”. Com esta anotação fica eviden
te que os discípulos são os ouvintes principais do discurso
do campo. No entanto, no fim do discurso em Lucas, como
em mateus, é mencionado, sem nenhuma dúvida, o povo de
Deus como ouvinte do discurso. Pois o discurso do campo
termina com a frase:
Quando [Jesus] acabou de transmitir aos ouvidos do povo todas
essas palavras... (Lc 7,1).
“Falar aos ouvidos de alguém” novamente é linguagem
da Setenta. A fórmula, no Antigo Testamento, indica tratar
se de um discurso de caráter legal, obrigatório; proclamado
publicamente.42 Também em Lucas fica evidente: o grande
discurso programático de Jesus não é dirigido apenas aos
discípulos, mas a todo o povo de Deus.
Este duplo endereço do sermão da montanha, esta os
cilação do discurso entre o grupo dos discípulos e o povo,
não é, na verdade, um acaso. Ambos os evangelistas querem
enfatizar: o sermão da montanha é dirigido primeira e insis
tentemente aos discípulos, mas, além disso, a todo o povo
de Israel, que ouviu a Boa-nova do Reino de Deus e cujos
doentes foram curados pelo anunciador desta mensagem.
Tudo isso é, como foi dito, primeiramente teologia dos
dois evangelistas. mas esta teologia, em sua globalidade,
42 Cf. N. loHfink, “Das Hauptgebot, Eine untersuchung literarischer Ein
leitungsfragen zu Dtn 5-11” (AnBib 20), Roma, 1963, 59.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 65
está de acordo com as realidades históricas. Em Jesus exis
tiam seguramente as duas coisas: a proclamação pública do
Reino de Deus e pregação para o povo, de um lado, e o ensi
namento específico para os discípulos, do outro. As senten
ças usadas no sermão da montanha vêm de ambos. No caso
de uma sentença específica, dificilmente se poderá consta
tara situação original na vida de Jesus. Afinal, a questão, se
uma sentença determinada tem sua origem no ensinamento
aos discípulos ou na pregação ao povo, não é tão decisiva.
Pois mesmo que o destinatário de uma determinada instru
ção tenha sido originalmente apenas o grupo dos discípulos
- ele representa Todo-Israel e, por isso, tudo o que foi dito a
ele, foi dito, em última análise, a todo povo de Deus.
Daí resulta o direito objetivo de mateus e Lucas de com
por dessa maneira o enquadramento do sermão da montanha
(do campo). Daí resulta também o direito dos evangelistas
de relacionar o conceito, originalmente bem determinado,
dos “discípulos de Jesus” com todos os crentes, assim como
de ampliar gradualmente o conceito do seguimento” a todo
o povo de Deus.
Resumindo, o enquadramento do sermão da montanha
confirma nossa teoria: o destinatário da instrução ética de
Jesus não é o indivíduo isolado nem a humanidade como
um todo. O destinatário de sua instrução é Israel, respectiva
mente o grupo dos discípulos que representa Israel.
3. A NOvA FAMÍLIA
Os últimos dois capítulos nos colocam diante de uma
dificuldade que não podemos silenciar. Como vimos, Jesus
colocou exigências especialmente radicais ao grupo dos dis
cípulos que o seguia - sobretudo renunciar à profissão exer
cida e deixar a própria família. Devemos acrescentar ainda
66 A iGreJA que JeSuS queriA
mais, por exemplo: a renúncia à propriedade (cf. Lc 14,33)
e a renúncia à providência para o dia seguinte (cf. Lc 12,22
32). É impossível equiparar, sem maiores explicações, estas
exigências de Jesus feitas a um grupo reduzido de seguido
res com os ensinamentos dados a todo o povo de Deus. Es
clareçamos o problema num fato concreto:
Jesus mesmo não casou por causa do Reino de Deus (cf.
mt 19,12), e ele exigiu que os discípulos deixassem suas famí
lias. No Oriente, esta atitude tem, em certas circunstâncias,
consequências drásticas: “caso o pai de família resolvesse
acompanhar Jesus, não restava outra alternativa à mulher
a não ser a volta para a casa dos pais com seus filhos, o que
era considerado uma vergonha”.43 Independentemente do
modo de como estes problemas foram resolvidos, uma coi
sa está bem certa: o abandono da família era uma exigência
radical e dura. Por isso, Jesus propôs esta exigência apenas
àqueles que o seguiam, no sentido literal da palavra, mas
não ao povo todo, nem a seus discípulos” que permaneciam
em seus lugares”. Assim devemos admitir que para Jesus,
existe uma diferença entre a ética do seguimento e a ética de
todo povo de Deus.
Com esta afirmação, não estamos colocando em questão
todo resultado até agora conseguido? mais ainda: não está
surgindo imediatamente o problema conhecido de uma ética
de dois níveis, isto é, uma ética para os “melhores” e uma éti
ca para os “comuns”, com todas as consequências, que esta
ética provocou dentro da Igreja católica - até à separação do
povo de Deus em duas classes?
Olhando melhor, vemos em Jesus uma ética específica
do seguimento, mas não uma ética de dois níveis. Para es
clarecer melhor, fiquemos com nosso exemplo do abandono
43 J. JeremiAS, op. cit., 351.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 67
da família. Aqui não nasce uma classe de perfeitos frente a
uma classe de menos perfeitos, porque Jesus estabelece para
aqueles que ficam em casa com suas famílias, exigências tão
radicais como para aqueles que o seguem. Afinal, o sermão
da montanha contém um texto, que proíbe severamente ao
homem repudiar sua mulher - contra a práxis do divórcio co
mum em Israel naquele tempo (mt 5,21s). E o mesmo sermão
da montanha contém um texto, no qual o mero olhar de um
homem para uma mulher com desejo libidinoso é considera
do adultério (mt 5,27s). No fundo, são exigências tão duras
e radicais como aquela de deixar suas famílias, colocada aos
discípulos. De uns, Jesus exige fidelidade absoluta e inviolá
vel a suas esposas, e de outros, fidelidade absoluta e inviolá
vel a sua missão de anunciar. A forma concreta de vida, quer
seja no matrimônio, quer seja no serviço do anúncio, é levada
radicalmente a sério por Jesus. Ambos os modos de viver nes
ta forma radical só são possíveis em vista do Reino de Deus.
Somente a fascinação de um Reino de Deus, que já se torna
presente, é capaz de dar a liberdade interior para viver a fi
delidade conjugal ou o seguimento com essa radicalidade.
O que mostramos paradigmaticamente no caso do ma
trimônio e do celibato, poderíamos mostrar, em forma se
melhante, nos outros casos da ética do seguimento. Existe,
portanto, em Jesus, uma ética do seguimento, delimitável
pelo menos em teoria; mas não é uma forma mais alta de
ética em relação à ética de todo povo de Deus. muito mais,
ela é determinada - de maneira altamente funcional - pelo
modo de viver daqueles que andam com Jesus.
Com esta colocação, porém, apenas rejeitamos a existên
cia de uma ética de dois níveis em Jesus. Ainda nos resta a
tarefa de mostrar a vinculação intrínseca entre a ética do se
guimento e a ética de todo povo de Deus. Para perceber esta
vinculação, vamos primeiramente olhar um texto que, com
68 A iGreJA que JeSuS queriA
certeza, foi dirigido originalmente aos seguidores de Jesus,
no sentido literal da palavra. marcos reza:
Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos,
irmãs, mãe, pai, filhos e terras por minha causa ou por causa do
Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tem
po, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições;
e no mundo futuro, a vida eterna (mc 10,29s).
Na forma atual, a sentença já apresenta traços de rela-
boração por uma visão do cristianismo primitivo. Nela foi
introduzida a ideia do Evangelho; foram introduzidas as
palavras “com perseguições”; principalmente, porém, foi
acrescentado o esquema das duas épocas. A sentença origi
nal, na certa, deve ter sido uma promessa muito mais radical
e em vista do tempo presente.
Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos,
irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa, que não receba
cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs,
mãe e filhos e terras.
É necessário aperceber-se do inaudito nesta palavra de
Jesus: irmãos e irmãs - são os parentes de sangue, são o clã
ao qual pertence o oriental e ao qual deve satisfação; e ele,
em troca, o protege. Pai e mãe - no fundo está a estrutura
antiga, sagrada, confirmada na Escritura, da família patriar
cal. Filhos - eles são a maior alegria do homem oriental: seu
orgulho, também sua segurança social e, por assim dizer,
seu seguro de vida para mais tarde. E terras - elas são o qui
nhão do Israelita na herança sagrada prometida por Deus.
Sabemos, pelos Atos dos Apóstolos, de Barnabé, oriundo de
Chipre, que ele possuía um campo nos arredores de Jerusalém
JeSuS e SeuS diScíPuloS 69
(4,36s). Certamente ele comprara, como muitos outros ju
deus da diáspora, um campo na terra santa, para confirmar
sua vinculação a Israel e tornar-se participante das bênçãos
do tempo messiânico. Devemos, portanto, reconhecer na ex
pressão “terras” em mc 10,29s, aquele conceito de “Terra”
tão importante para todos os judeus piedosos.
Jesus, no entanto, relativiza tudo isto: o clã, os pais, os fi
lhos, a Terra. É possível e, em certas circunstâncias, até neces
sário, deixar tudo isto. Não se trata aqui, porém, de um mero
deixar por deixar, como se o simples fato de deixar já fosse algo
positivo. O motivo para deixar é que está acontecendo algo
novo: o Reino de Deus irrompe. Com isto, tudo muda. Aque
les, que agora seguem Jesus, que deixam tudo o que tinham
por causa do Reino de Deus, tornam-se uma nova família, onde,
paradoxalmente, existem de novo irmãos, irmãs, mães e filhos.
Desde agora, nesta hora, os discípulos vão receber cem
vezes mais tudo que deixaram. Jesus fala aqui a partir da
própria experiência que, mais e mais, tornou-se também a
experiência dos seus discípulos: eles deixaram suas famílias,mas acharam no grupo dos discípulos novos irmãos e irmãs.
Eles abandonaram a casa dos pais, mas acharam, no país
inteiro, onde eram recebidos amigavelmente, novas mães.
Eles deixaram seus filhos, mas constantemente acorreram
a eles pessoas novas e desconhecidas, todas elas realizadas
pelo novo que apareceu. Eles abandonaram seus campos,
mas, no lugar deles, acharam uma comunidade firme que os
sustentava como “nova Terra”.
Junto com todas estas experiências, deve-se pensar na
comunidade da refeição, para a qual os discípulos sempre
se encontram.44 Aqui Jesus é o dono da casa, que reúne ao
44 Cf. as belas exposições de R. rieSner, Formen gemeinsamen Lebens im
Neuen Testament und heute (Theologie und Dienst), Geissen, 1977, 21s.
70 A iGreJA que JeSuS queriA
seu redor a nova família e pronuncia a oração da benção
(mc 8,6s). mais tarde, os discípulos vão o reconhecê-lo ao par
tir o pão (Lc 24,30s.34). A comunidade da refeição com o Jesus
terreno deve ter-se gravado neles de modo inesquecível.
Na verdade, Jesus exigiu dos seus discípulos que deixas
sem tudo, no entanto, ele não os chamou para viver na so
lidão e no isolamento (não é este o sentido do seguimento),
mas para uma nova família de irmãos e irmãs, que é sinal do
Reino que irrompe.
A questão decisiva agora é, se é possível relacionar aqui
lo que, a partir de mc 10,29s, foi descrito como a realida
de da nova família, com todo povo de Deus. A promessa
(mc 10,29s) só é dada aos discípulos de Jesus, portanto, pres
supõe a ética do seguimento. mas existe um texto que nos
conduz adiante, a saber mc 3,20s.31-35.
Jesus encontra-se numa casa, cercado de muita gente de
tal modo que ele e seus discípulos nem sequer podem ali
mentar-se (3,20). Aí chegam seus parentes no intuito de o le
var para casa à força. A família de Jesus sente-se comprome
tida pela atividade pública de Jesus. Aqueles que mandam
na família estão convictos: ele enlouqueceu (3,21). Quando
dizem a Jesus: “Eis que tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs
estão lá fora e te procuram”, ele responde (3,33-35):
“Quem é minha mãe
e meus irmãos?”
E, repassando com o olhar
os que estavam sentados ao seu redor,
disse:
“Eis a minha mãe
e os meus irmãos.
Quem fizer a vontade de Deus,
esse é meu irmão, irmã e mãe”.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 71
Aqui aparece novamente a temática da nova família. Je
sus desvincula-se da sua família “num discurso altamente
retórico e jurídico, em estilo antigo”,45 e se junta a uma outra
família. melhor, neste momento ele constitui esta outra fa
mília: “Esses são meus irmãos!”
Quem é esta nova família? Apenas o grupo dos discípu
los? A observação de marcos em 3,32: “havia uma multidão
sentada em torno dele” fala em sentido contrário. mas não
vamos nos perder demais nesta observação narrativa. mais
importante é a própria palavra de Jesus:
Quem fizer a vontade de Deus,
esse é meu irmão, irmã e mãe.
O que quer dizer neste contexto: fazer a vontade de Deus?
Num contexto rabínico significaria: cumprir a Torá, a lei do
Sinai. mas aqui o sentido não pode ser esse, pois a família de
Jesus cumpre a lei. Nesta nossa situação, porém, ela não está
conforme a vontade de Deus. Por isso, a vontade de Deus
aqui, como também em muitos outros trechos do Novo Tes-
tamento46 só pode ser o plano da salvação, que Deus realiza
agora e ao qual se deve aderir - com uma disponibilidade
sem reservas, para deixar transformar a própria vida pela
ação de Deus. Formulando ainda mais concretamente: aqui
a vontade de Deus é a vinda do Reino e a reconstituição do
verdadeiro Israel (cf. mt 6,9s). Quem faz a vontade de Deus,
são aqueles que acreditam na mensagem de Jesus do Reino
de Deus que está próximo e se deixam unir para formar o
povo escatológico de Deus. Logo, em mc 3,35, Jesus não fala
45 N. loHfink. Kirchenträume. Reden gegen den Trend. Friburgo. 1982, 40
(trad. bras. A Igreja dos meus sonhos, Edições Paulinas, São Paulo, 1986).
46 Cf. especialmente Ef 1.3-14.
72 A iGreJA que JeSuS queriA
apenas dos seus discípulos, mas de todos que reconhecem
agora a iniciativa de Deus em Israel e acorrem para o Reino
de Deus.
Com isto fica claro, que a nova família dos irmãos e ir
mãs de Jesus vai muito mais além do grupo dos discípulos
em sentido estrito. Em toda parte de Israel, onde se acredita
no Evangelho do Reino de Deus, e não apenas no grupo da
queles que seguem a Jesus, no sentido literal da palavra, sur
ge agora algo novo. O Reino de Deus abre caminho com po
der (mt 11,12). Jesus lança sua mensagem à terra como fogo,
e ele gostaria de incendiar tudo (Lc 12,49). A mensagem do
Reino de Deus provoca separação e divisão em Israel:
Doravante, numa casa com cinco pessoas,
estarão divididas três contra duas
e duas contra três;
ficarão divididos: pai contra filho
e filho contra pai,
mãe contra filha
e filha contra mãe,
sogra contra nora
e nora contra sogra
(Lc 12,52s).
A divisão por causa do Evangelho atravessa as famílias de
Israel. Isto significa que em toda parte existem pessoas que
se decidem em favor do Reino de Deus e têm que assumir o
conflito com a própria família, o próprio clã. Elas formam,
atravessando Israel e atravessando as famílias antigas e clãs,
a nova família de Jesus.
Cheguemos a uma conclusão: deve-se ver que existe em
Jesus uma ética específica do seguimento que tem seu lugar
no grupo dos discípulos (mais tarde no grupo dos profetas
JeSuS e SeuS diScíPuloS 73
do cristianismo primitivo e dos missionários itinerantes). mas
também se deve ver que, de muitas formas, esta ética está li
gada à ética do restante povo de Deus (concretamente: dos
discípulos que permanecem em seus lugares). Existem aqui
constantes irradiações, repercussões, intercomunicações.
Para o exemplo concreto que escolhemos, isto signifi
ca: só relativamente poucos dos que, em Israel, aceitam a
mensagem de Jesus deixam sua pátria e seguem Jesus pela
Palestina. A maioria permanece com suas famílias. E ape
sar disso, as famílias daqueles que ficam, transformam-se.
Elas tornam-se mais disponíveis, abertas. Não giram mais
apenas em torno de si mesmas. Oferecem acolhida a Jesus
e seus mensageiros. Entram em relação umas com as ou
tras. - Ou acontece algo bem diferente: as famílias dividem-
se. Jesus e seu movimento torna-se sinal de contradição
(Lc 2,24). muitos indivíduos desvinculam-se das formas an
tigas (mc 2,21s) e unem-se à nova família da qual Jesus fala
em mc 10,29s. Assim surge, no meio do antigo Israel, no iní
cio ainda pouco perceptível, mas irresistivelmente, a nova
sociedade, planejada por Deus.
4. O FIM DOS PAIS
Jesus promete àqueles que o seguem que desde agora
vão reencontrar tudo o que deixaram: casas, irmãos, irmãs,
mães, filhos e terras. mas não vão receber pais! Os pais não
são mais mencionados na segunda parte do paralelismo
tão cuidadosamente elaborado em mc 10,29s. Será acaso?
Dever-se-ia deixar esta questão em aberto, se não existis
sem outros textos que mostram: aqui não há acaso ou es
quecimento.
Conscientemente, os pais não são mais mencionados na
segunda parte da sentença, porque na nova família não deve
74 A iGreJA que JeSuS queriA
haver mais “pais”. Eles são demasiadamente símbolo de do
mínio patriarcal. A comunidade dos discípulos de Jesus e,
com ela, o verdadeiro Israel, deve ter um único pai: o do céu!
mt 23,9 mostra-o.
mateus inclui no seu grande discurso contra os doutores
da lei e os fariseus (23,1-36) um trecho, que é uma espécie de
catequese para os líderes das comunidades cristãs. O trecho
parte da constatação de que os doutores da lei, com muito
gosto, se deixam chamar de rabi (= meu senhor!) (23,7), e diz
em contraposição consciente:
Quanto a vós, não permitais que vos chamem ‘Rabi', pois um só é
o vosso Mestre
e todos vós sois irmãos.
A ninguém na terra chameis ‘Pai',
pois um só é o vosso Pai,
o celeste.
Não permitais que vos chamem ‘Guias',
pois um só é o vosso guia,
Cristo.
Antes, o maior dentre vós será aquele que vos serve.
Aquele que se exaltarserá humilhado,
e aquele que se humilhar será exaltado
(mt 23,8-12).
É evidente: a formulação é, em parte, de mateus ou da tra
dição anterior a mateus; o título cristológico no terceiro versí
culo já prova isso. É evidente também, que aqui são abordados
uma série de problemas que se manifestaram na Igreja primi
tiva. A tentação de gozar de dignidades eclesiásticas em forma
de títulos honoríficos já deve ter seduzido no primeiro século.
mateus coloca-se contra isso com veemência extraordinária.
Para os ministros eclesiásticos, ele proíbe não apenas o uso de
JeSuS e SeuS diScíPuloS 75
títulos honoríficos como “pai” ou “rabi” - qualquer nobre em
Israel podia ser chamado de rabi (literalmente: meu grande!) -
mas também o uso de designações da função como “mestre”.
Por que mateus chega a tantas sensibilidades numa ques
tão, em que, mais tarde, a Igreja infelizmente nunca mais mos
trou sensibilidade? Ela não só criou um número elevado de
designações ministeriais e títulos honoríficos, mas introdu
ziu também, em desobediência direta a mt 23,9, o tratamento
“Santo Padre” (Pai Santo) para o Papa. De onde, então, ma
teus tem esta sensibilidade, que é muito menos evidente, nesta
questão? Só pode tê-la de Jesus mesmo. A catequese mt 23,8-12
já está em parte formada redacionalmente (de modo especial
no primeiro e terceiro versículo); porém, em cada linha dela
fala o espírito de Jesus. Vejamo-la pormenorizadamente:
Primeiramente temos aqui a questão dos títulos honorí
ficos (primeiro e terceiro versículo). De fato, Jesus em geral,
foi chamado rabi, também por seus discípulos.47 mas isso era
simplesmente a linguagem de cortesia, e esta Jesus tolerou.
mas quando esta linguagem respeitosa, então habitual, era
intensificada, mesmo levemente, Jesus podia cessar imedia
tamente com a sua tolerância. Quando alguém o chama de
“bom rabi” (o que se poderia traduzir por exímio mestre) ele
interpreta o outro literalmente e o corrige numa forma tão
severa que até quase se torna indelicado: “Por que me cha
mas bom? Ninguém é bom senão só Deus” (mc 10,17s). Esta
expressão, por razões cristológicas mudada e assim redigida
imprecisamente por mateus (cf. mt 19,16s), prova suficien
temente: Jesus manda parar imediatamente, quando seus
interlocutores ultrapassam a cortesia usual.
Na catequese mt 23,8-12, além da proibição de títulos ho
noríficos cristãos, também desempenha um papel importante
47 Cf. mc 11,21; mt 26,25.49; Jo 1,38.
76 A iGreJA que JeSuS queriA
a questão do exercício correto de uma função. O maior da
comunidade deve ser o servo de todos (quarto versículo).
No fundo vê-se também aqui o comportamento de Jesus.
Geralmente, ele tolerava o tratamento rabi, mas questionava
exatamente a práxis dos rabinos de se deixar servir pelos
próprios discípulos. Por trás desta práxis estava, em si, uma
bela ideia: os discípulos dos rabinos deveriam aprender a
Torá não apenas no ensinamento do mestre, mas também
no trato cotidiano com ele. Trato cotidiano, porém, queria
dizer concretamente: que eles servissem a seu mestre como
pajens. A regra em vigor era: conhecimento da Torá não
se pode adquirir sem servir os doutores. O rabi Jochanan
expressá-la-á, mais tarde, nestes termos: “quem proíbe os
seus discípulos de o servirem, é como alguém, que lhes nega
o amor”.48 mas foi exatamente isto que Jesus fez na última
ceia: ele impediu os seus discípulos de o servirem. Não dei
xa que os discípulos lavem os seus pés, mas ele mesmo lhes
presta este serviço pertencente à ceia (Jo 13,1-20). Ele está no
meio deles como alguém que serve (Lc 22,27). Ele não veio
para ser servido mas para servir (mc 10,4.5). A palavra de
Jesus referente ao serviço, dentro da tradição de Jesus, faz
parte da tradição mais testemunhada. Com tudo isto está
ligado um segundo ponto, em que a catequese mt 23,8-12
preservou o espírito de Jesus com maior sensibilidade. “O
maior dentre vós será aquele que vos serve” (23,11). O fato,
que Jesus - e não apenas na última ceia - não se deixava ser
vir, mas servia, deve ter ficado tão profundamente gravado
na sua comunidade de discípulos, que ela mais tarde desig
nava as suas próprias funções de diakoniai, isto é, serviços.
48 Keth 96 a. mais sentenças referentes ao serviço do discípulo ao seu
rabi, em P. billerbeck, Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und
Midrasch I, 3a ed., munique, 1961, 920.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 77
mas a parte mais importante, no nosso contexto, da cate
quese aos dirigentes das comunidades, é o segundo versículo:
A ninguém na terra chameis ‘Pai',
pois um só é o vosso Pai, o celeste.
Aqui não se mostra apenas o espírito de Jesus, aqui fala
o próprio Jesus histórico. mateus considera a palavra “pai”
título honorífico, como prova o contexto: na comunidade
cristã ninguém se deve fazer tratar por “pai”. Assim, ma
teus, atualiza corretamente a palavra original de Jesus. Je
sus, porém, vai mais longe.
Nesta sentença, ele usa com toda a probabilidade o ter
mo abbá, que era, nessa época, o tratamento familiar habitual
para o pai no aramaico palestinense, e que era usado não
só pelas crianças, mas também pelos adultos: a ninguém na
terra chameis abbá, isto é “papai”. Será que Jesus proíbe ge
nericamente este tratamento terno e afetuoso para o pai nas
famílias de Israel? Isto parece tão absurdo, que muitos exe
getas não consideram mais mt 23,9 uma palavra autêntica
de Jesus. Outros supõem que por trás desta palavra esteja
uma advertência de Jesus, para não apelar aos patriarcas da
história da salvação de Israel - mais ou menos no sentido
da palavra do Batista: “Não penseis que basta dizer: ‘Temos
por pai a Abraão'...”49 No primeiro momento uma constru
ção atraente e engenhosa! mas ela é desnecessária.
Se quisermos entender mt 23,9, devemos tomar seria
mente em consideração que aqui se trata, originalmente, de
uma palavra da ética radical do seguimento, que primei
ramente se dirigia apenas ao grupo dos discípulos. Pois os
49 Assim por exemplo, E. ScHweizer, Das Evangelium nach Matthäus (NTD 2),
Göttingen, 1973, 281s.
78 A iGreJA que JeSuS queriA
discípulos de Jesus deixaram tudo, sua profissão e sua famí
lia. À família, que não pode ser equiparada à nossa família
pequena, encolhida e atrofiada, pertencia também o pai (cf.
mc 1,20). Os discípulos estão distantes de seu pai, a quem até
agora, confiantes e cheios de amor, chamavam de abbá. Nes
ta situação Jesus diz-lhes: vocês não vão chamar mais abbá
a ninguém aqui na terra, nem devem fazer isso. Pois quem
não se separa radicalmente de sua família, não pode ser meu
discípulo (Lc 14,26). mas vocês não precisam mais chamar
pai a ninguém na terra, porque vocês têm outro abbá, no céu.
Se esta interpretação é correta, então Jesus está convicto,
que seus discípulos, pelo seguimento, iniciaram um relacio
namento novo para com Deus. Em lugar do pai terrestre Deus
torna-se seu pai, e eles podem, como Jesus mesmo e contra
riando os costumes do tratamento religioso, podem dirigir-se a
ele com a palavra familiar abbá. Exatamente aqui, nesta nova
situação dos discípulos de Jesus, teria seu Sitz im Leben a ex
pressão jesuânica “vosso pai” que originalmente nunca se
dirige a estranhos, mas sempre aos discípulos.50 Com esta
expressão, Jesus quer tornar claro, que os discípulos, pelo
abandono de suas famílias, receberam Deus como pai, num
sentido novo e radical. Eles, na verdade, não têm mais seu pai
terrestre, que cuidava deles com a visão de um homem de ex
periência, mas eles têm, agora, em seu lugar, o próprio Deus:
Por isso, não andeis preocupados, dizendo: Que iremos comer?
Ou, que iremos beber? Ou, o que iremos vestir? De fato, são os
gentios que estão à procura de tudo isso: o vosso Pai celeste sabe
que tendes necessidade de todas essas coisas. Buscai, em primeiro
lugar, o Reino de Deus, e todas essas coisas vos serão acrescenta
das (cf. mt 6,31-33 par. Lc 12,29-31).
50 Cf. mt 5,48; 6,32; mc 11,25; Lc 6,36; 12,32.
JeSuS e SeuS diScíPuloS79
É exatamente aqui, nesta situação singular do grupo
dos discípulos, que o Pai-nosso teria seu Sitz im Leben mais
antigo. Este é, originalmente, uma oração redigida para os
discípulos que deixaram tudo. Nesta oração, eles chamam a
Deus seu “abbá”, seu paizinho amado, a quem pedem o pão
de cada dia.
Assim, mt 23,9 adquire um sentido preciso. Os discípu
los não podem nem precisam chamar abbá a ninguém a não
ser a Deus. Em Deus, eles receberam um pai cuidadoso e
bondoso, no qual podem confiar incondicionalmente.
mas o dito também tem um reverso. O poder e a sobe
rania pertencem unicamente a este Deus, a quem os discí
pulos podem chamar abbá. E se para eles não existem mais
os pais cuidadosos e bondosos de outrora, mas apenas o
único pai no céu, muito menos ainda os pais dominadores
e autoritários. Seria paradoxal abandonar os pais ternos, e
então reencontrar pais autoritários no grupo dos discípulos.
Eis a razão porque Jesus não menciona mais os pais em mc
10,30. Na nova família de Deus, os discípulos vão reencon
trar tudo: irmãos, irmãs, mães e filhos, mas não mais os pais.
Domínio patriarcal não pode mais existir na nova família,
apenas sentimento materno, fraterno e filial diante de Deus
que é Pai.
O trecho mc 10,35-45, que fala do pedido dos filhos de
zebedeu, faz sentir o quanto Jesus levou a sério este ponto.
Em marcos, este trecho termina com uma pequena composi
ção retórica com caráter programático:
Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os
seus grandes [isto é, seus altos funcionários] as tiranizam. Entre
vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser
grande, seja o vosso servidor, e aquele que quer ser o primeiro den
tre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para
80 A igreja que Jesus queria
ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos
(mc 10,42-45).
Este texto, em que novamente, por trás de cada linha,
estão o pensar e o agir de Jesus, visa exatamente aquilo
que hoje chamaríamos estruturas de domínio. Elas são o ha
bitual nas sociedades deste mundo. Na comunidade dos
discípulos, porém, não pode haver mais relações de domi
nação. Nela, quem quiser ser o primeiro, deve ser o escra
vo de todos. E o maior deve-se tornar como o menor (cf.
Lc 22,26). Jesus exige, portanto, dos seus discípulos um
relacionamento mútuo totalmente diverso daquele que é
normal na sociedade. Em outras palavras: ele exige uma
sociedade de contraste. O que isto significa, deve ser explica
do seguidamente, a partir de uma temática, que tem sido
cada vez mais ventilada nos últimos anos: a exigência da
não-violência.
5. A NãO-vIOLêNCIA
O texto que formula com maior clareza a exigência da
não-violência, por parte de Jesus, encontra-se em mt 5,39-42
par. Lc 6,29s. Ele não consta em marcos. Disto torna-se cla
ro que ele remonta à fonte Q. mateus conservou, manifesta
mente, neste nosso caso especial, o texto original melhor do
que Lucas. A partir de uma comparação sinótica, pode-se
reconstruir o trecho sobre a não-violência na fonte Q da se
guinte maneira:51
51 Para a reconstrução cf. H. merklein, Die Gottesherrschaft als Handlung
sprinzip. Untersuchung zur Ethik Jesu (FzB 34), Wurzburg, 1978, 269-275.
Incerta (e também discutida) é a pertença da terceira sentença (mt 5,41)
à fonte Q.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 81
Eu vos digo:
àquele que te fere na face direita
oferece-lhe também a esquerda,
e àquele que quer pleitear contigo,
para tomar-te a túnica,
deixa-lhe também a veste,
e se alguém te obriga a andar uma milha,
caminha com ele duas.
Dá ao que pede
e não voltes as costas ao que te pede emprestado.
Aproximadamente assim deveria ter sido o texto na
fonte Q. É uma composição de sentenças bem estruturada e
com quatro partes, colocadas em escalação decrescente. Isto
é: o mal, ao qual não devemos resistir, vai-se tornando cada
vez pior, partindo do final do trecho para o seu início. A
gradação vai do pedido descarado, passando pela coação e a
ameaça de processo até chegar à brutalidade. Outros indícios
mostram também que aqui temos uma composição redacio-
nal cuidadosamente elaborada de sentenças isoladas. Não
precisamos nos interessar pela questão da história literária
e da tradição da composição como um todo. Decisivo é que
esta composição de quatro frases reflete em cada uma delas
a linguagem provocante e a ética radical de Jesus em assun
tos da não-violência. Existe um consenso bastante amplo
na exegese neotestamentária de que estas palavras são do
próprio Jesus. Examinemos um pouco mais detalhadamente
estas quatro sentenças referentes à não-violência.
No fim da escalação decrescente fala-se de emprestar.
Provavelmente trata-se de dinheiro. Alguém vem e quer
tomar dinheiro emprestado. Até aí, tudo em ordem. mas é
desagradável. Pode ser até uma impertinência, pois o judeu
piedoso não podia cobrar juros. Além disso, pode-se supor,
82 A iGreJA que JeSuS queriA
a partir do contexto, ainda uma pressão da parte daquele
que quer dinheiro emprestado. Jesus, porém, diz: “Não vol
tes as costas ao que te pede emprestado”.
Seguidamente fala-se em pedir. A situação não é mais
detalhada. Talvez se pense em mendigos. Se considerarmos
o fato que no Oriente a mendicância é muito difundida e in
sistente, podemos imaginar o que se exige aqui. O contexto
supõe novamente uma certa pressão por parte daquele que
pede. O pedinte torna-se importuno e insolente. Jesus, po
rém, diz: “Se alguém te pede, dá-lhe”.
No degrau seguinte da escalação decrescente começa a
coação. No texto grego está um verbo (aggareuo), que é ter
minus technicus para a extorsão de serviços de empregados
e escravos por uma potência de ocupação. Tudo indica que
a terceira sentença visa a situação da Palestina dominada
pelos romanos. As coortes romanas arrogavam-se o direito
de obrigar um judeu a acompanhá-las como guia e carrega
dor gratuito (cf. mc 15,21). Jesus diz; se alguém te obrigar
desta maneira a andar uma milha, faze o dobro, caminha
com ele duas.
O caso seguinte é mais grave. De alguém é tirada a úni
ca roupa que possui. A coação chega a tal ponto, que até se
ameaça com o juiz. Talvez tenhamos aqui um caso de penho
ra, talvez de indenização - a situação concreta fica em aber
to. Trata-se, em todo caso, de um pobre que apenas possui
uma única veste e um único manto. Não se podia tomar-
lhe o manto - isto já estava juridicamente determinado em
Ex 22,25 - porque os pobres tinham de se cobrir com o manto
no frio da noite. Eles não possuíam outra coisa. Jesus diz: não
lutes diante do juiz para ficar com tua veste. Deixa que a to
mem imediatamente. mais ainda, dá-lhes também o manto.
No cume da escalação decrescente está o caso pior. Até
agora tratava-se de coação crescente, talvez de violência
JeSuS e SeuS diScíPuloS 83
velada, dissimulada. Agora estamos diante da erupção de
violência aberta e brutal e que deve ser considerada, simul
taneamente, um insulto grave. Pois é dito expressamente
que o primeiro golpe é desferido na face direita e não na face
esquerda. Bate-se, portanto, não com a palma, mas com as
costas da mão. E o golpe com as costas da mão é considera
do, no Oriente, uma ofensa extremamente grave. Jesus diz:
deixa que te ofendam com brutalidade. Oferece, ainda a ou
tra face ao adversário.
A intenção das quatro sentenças é evidente. É inculcado
nos ouvintes: renuncie a qualquer sanção jurídica! Desista
de qualquer retaliação! Não responda à violência com vio
lência! Quando é cometida injustiça contra você, porém, não
fique passivo e sem fazer nada! Vá ao encontro do seu adver
sário. Responda à sua coação ou brutalidade com bondade
transbordante. Talvez, deste modo, consiga recuperá-lo.
Estas exigências ganham uma expressividade especial
pelo fato de não mencionar em casos extraordinários ou re
lativamente raros, mas fatos tirados do dia-a-dia real dos
ouvintes de Jesus. São fatos que pressupõem uma escala de
possibilidades deviolência velada ou aberta desde a imper
tinência até ao ato de violência direta.
Esta última observação já fala bem claramente contra
interpretações apenas metafóricas de mt 5,39-42. É eviden
te que Jesus não oferece uma casuística. E é evidente que
o texto contém elementos metafóricos. Eles aparecem mais
claramente na segunda parte de cada sentença. “Caminhar
até duas milhas”, “deixar também o manto”, “oferecer tam
bém a outra face” - com isto o suportar meramente passi
vo da injustiça transforma-se num sumamento ativo “ir ao
encontro do adversário”, e, ainda mais, num “preocupar-se
com o rival”, num “querer transformá-lo num irmão”. Nes
te sentido, fala-se aqui também em linguagem metafórica.
84 A iGreJA que JeSuS queriA
Como em muitos lugares, Jesus fala uma linguagem pro
fética e provocativa. mesmo assim, ele aponta para atitudes
reais, que, como tais, devem ser praticadas e iluminam, como
modelos, casos semelhantes. Jesus proíbe, de fato, o uso da
violência, e ele está convicto de que todos que acolhem sua pa
lavra, podem viver sem responder com violência e retaliação.
Como é importante cuidar-se para não diluir em sím
bolos o apelo de Jesus à não-violência ou não o enfraquecer
com artifícios de interpretação, mostra-nos a assim chamada
regra do equipamento. Ela remonta com toda a probabilidade
ao envio dos Doze a todas as partes de Israel.52 Já falamos
sobre a ação profética simbólica, que está por trás do en
vio (cf. 1,2). A regra do equipamento pertence, do ponto de
vista da história da tradição, ao complexo do “discurso dos
mensageiros”, que pode ser encontrado em quatro lugares
nos evangelhos sinóticos: em mc 6,7-11 par. Lc 9,2-5 e em
Lc 10,2-16 par. mt 10,5-42.
Na regra do equipamento Jesus proíbe os doze discípu
los, que deviam percorrer Israel dois a dois para proclamar
a chegada do Reino de Deus, de levar consigo dinheiro, al
forje, uma segunda túnica, sandálias ou bastão. Em Lucas
lemos assim:
Não leveis para a viagem, nem bastão, nem alforje, nem pão, nem
dinheiro; tampouco tenhais duas túnicas (Lc 9,3; cf. mt 10,9s).
Naturalmente pode-se entender esta regra do equipa
mento num sentido figurado, e alguns intérpretes fizeram-
no conscientemente. Pode-se falar de despreendimento interno
52 Não se pode negar, por princípio, o fato de um envio dos discípu
los por Jesus. Contra esta atitude fala já o fenômeno estranho, que a
tradição do envio não contém nenhuma cristologia.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 85
dos mensageiros enviados ou coisa semelhante. mas, com
isto, perde-se o sentido real do texto. Primeiro porque se tem
aqui o gênero literário da instrução que dá diretivas bem con
cretas e obrigatórias. Segundo porque sabemos da história
da Antiguidade e do judaísmo primitivo que o equipamen
to de filósofos e pregadores itinerantes ou de membros de
certos grupos religiosos era, frequentemente, escolhido com
cuidado e, não raras vezes, até determinado com precisão.
Sejam lembrados Pitágoras, os filósofos itinerantes cínicos,
os essênios e João Batista.
Nesses casos, o traje, respectivamente o equipamento, ti
nha significado simbólico. Deviam dizer alguma coisa sobre
a natureza do homem ou do grupo em questão.53 A regra do
equipamento, na sua forma mais antiga, é muito rigorosa.
Ela é inconcebível sem o pressuposto da hospitalidade cor
dial, com que os enviados eram recebidos sempre de novo
quando, à noite, entravam numa casa.
No nosso contexto, porém, muito mais importante é a
impossibilidade de defender-se, mostrada pelo equipamen
to - ou melhor: pela falta do equipamento. O bastão, na Pa
lestina, não era apenas apoio ao caminhar, mas também, ao
mesmo tempo, a arma do pobre contra ladrões e animais. E
sem calçado era impossível uma fuga rápida. A renúncia ao
bastão e às sandálias levava à impossibilidade de defender
se e obrigava à não-violência, ela tinha de se tornar sinal de
absoluta disponibilidade para a paz. Por isso, no contexto
está também o seguinte: “Eis que eu vos envio como ovelhas
entre lobos” (mt 10,16 par. Lc 10,3).
53 A respeito da dimensão dos “sinais” no contexto do discurso dos
mensageiros cf. I. boSold, Pazifismus und prophetische Provokation. Das
Grussverbot Lk 10,4b und sein historischer Kontext (SBS 90), Stuttgart,
1978, 81-92.
86 A iGreJA que JeSuS queriA
Seria uma falha exegética muito grave não querer inter
pretar literalmente a regra do equipamento em sua concretu-
de. É assim, que ela nos fornece uma indicação metodológica
importante para a interpretação de mt 5,39-42. No entanto,
só se pode interpretar literalmente a regra do equipamento
se se toma a sério o contexto social do discurso aos mensa
geiros: a hospitalidade e solicitude da nova família de Jesus,
que surge por toda parte. Já existem por toda a parte, em
Israel, pessoas que acolheram a mensagem de Jesus e dei
xaram transformar sua vida pelo Reino de Deus. E, em toda
parte de Israel, novas pessoas são atraídas para o Reino pró
ximo, pelos Doze. Sobre todas elas desce a paz escatológica
de Deus que repousa sobre a nova família de Jesus. Por isso,
é dito aos mensageiros de Jesus (Lc 10,5-7; cf. mt 10,10-13):
Em qualquer casa em que entrardes,
dizei primeiro: ‘Paz a esta casa!'
E se lá houver um filho de paz,
a vossa paz irá repousar sobre ele;
se não, voltará a vós.
Permanecei nessa casa,
comei e bebei do que tiverem,
pois o operário é digno do seu salário.
Não se pode, pois, compreender a severidade da regra
do equipamento se não se considera o background da nova
família de Jesus que está se formando. Tão pouco se pode
compreender a radicalidade do apelo de Jesus à não-violên
cia, se não se considera o contexto social deste apelo: o gru
po dos discípulos, a nova família de irmãos e irmãs de Jesus,
o Israel a ser reconstituído, os filhos da paz.
A ética radical da não-violência não se dirige, portan
to, nem ao indivíduo isolado, nem ao mundo inteiro, mas
JeSuS e SeuS diScíPuloS 87
precisamente ao povo de Deus marcado pela proclamação
do Reino de Deus. Este conhecimento é da maior importân
cia para a discussão sobre a paz, que surge de modo cada
vez mais forte em nossos dias. Pois, nesta discussão, um
lado defende o ponto de vista que só o indivíduo, que não
é responsável pelos outros, pode aderir à não-violência; o
outro lado, pelo contrário, preferiria que, por princípio, toda
a ação política e social no mundo fosse orientada pelas exi
gências do sermão da montanha. mas nenhuma das duas
posições, de fato, faz justiça ao Evangelho.54
A teoria, de que só o indivíduo, que não tem nenhuma
responsabilidade pelos outros, se pode permitir a não-vio
lência é completamente errada não corresponde nem à prá-
xis da Igreja primitiva e nem à vontade de Jesus que pensa
em categorias eminentemente sociais: seu olhar visa sempre
Israel, respectivamente a comunidade dos discípulos enquan
to prefiguração de Israel, onde deve brilhar a soberania de
Deus. O apelo de Jesus à não-violência absoluta está, por
tanto, relacionado com a sociedade. Ele tem caráter público.
Ele não se dirige, no entanto, às nações, aos Estados, à so
ciedade em geral. Jesus nunca se preocupou com estes desti
natários; não se dirigiu a eles. Ele não tentou entrar em contato
nem com Herodes Antípas nem com Pôncio Pilatos para lhes
dizer como deveriam governar. A estas pessoas teria dito, na
melhor das hipóteses, apenas aquilo que o autor do Evangelho
de João formula apropriadamente da seguinte maneira:
Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo,
meus súditos teriam combatido, para que eu não fosse entregue
aos judeus (Jo 18,36).
54 mais extensivamente sobre este problema G. loHfink, “Der ekklesiale
Sitz im Leben der Aufforderung Jesu zum Gewaltverzicht (mt 5,39b-
42/Lk 6,29)”, ThQ 162 (1982), 236-253.
88 A iGreJA que JeSuS queriA
Fixemo-nos detalhadamente na formulação: aqui não se
fala do céu. O Reino de Jesus, sem dúvida, é neste mundo.
mas não é deste mundo, isto é, não correspondeàs estrutu
ras. deste mundo.
Se correspondesse às estruturas deste mundo, então,
dever-se-ia lutar, também neste Reino, pelos próprios di
reitos - e, em caso de necessidade, até com violência. mas
lá, onde o Reino de Deus irrompe, lá, onde já está brilhan
do, estão em vigor, segundo Jesus, outras leis. O verdadei
ro povo de Deus, a verdadeira família de Jesus, não pode
impor mais nada pela força - nem para dentro nem para fora.
Lá não se pode mais lutar pelos próprios direitos com os
meios de força, que são habituais na sociedade e, muitas
vezes, até protegidos pela lei. Lá deve-se antes sofrer in
justiça do que impor o próprio direito pela força. Lá deve
se dar a todo o que pede. Lá é dever deixar-se coagir. Lá
deve-se dar, não apenas a única veste, mas também o único
manto. Lá deve-se antes deixar bater na face do que devol
ver o golpe.
Acentue-se mais uma vez: Jesus não quer com tudo isto
descrever apenas uma atitude interior, mas ele visa uma
práxis concreta dentro de uma nova ordem social. Jesus
compreende o povo de Deus a ser reconstituído (como já nos
mostrou mc 10,42-45) como sociedade de contraste. Isto não
significa de modo algum: como um Estado ou uma nação.
mas como comunidade que forma seu próprio espaço vital
e na qual se vive de modo diferente e se convive de modo
diferente do que é comum no resto do mundo. Poder-se-ia
designar o povo de Deus que Jesus quer reconstituir, como
sociedade alternativa. Nela não devem reinar as estruturas
de violência das potências deste mundo, mas reconciliação
e fraternidade.
89JeSuS e SeuS diScíPuloS
6. O FARDO LEvE
mas é possível viver a não-violência em um sentido tão
radial e incondicional de mt 5,39-42? Esta pergunta coloca
se não apenas em relação a não-violência, mas, em princípio,
em todas as sentenças do ensinamento ético de Jesus. Pois
este é sempre uma ética radical - e, como vimos, não apenas
quando se trata de uma ética específica do seguimento (cf.
2,3). Pode-se viver uma ética tão radical? Foi pensado muito
a respeito desta pergunta. Geralmente ela é tratada sob o
título “A possibilidade de cumprir o sermão da montanha”.
uma das respostas mais influentes, dada sobretudo a
partir de kAnt e do idealismo alemão, diz: as exigências de
Jesus nada mais são do que instrução para a reta atitude do
coração. Por isso, todas essas exigências, muitas vezes for
muladas com extrema acuidade, no fundo só querem uma
coisa: a atitude interior da caridade abnegada.
Certamente não é falso dizer que Jesus dá valor à reta
atitude. Para ele, o pecado não se dá só no fato consumado,
mas já começa no coração do homem. É de dentro, do cora
ção do homem, que provém todo o mal: fornicação, roubo,
assassinato, adultério, ambição, maldade (cf. mc 7,21-23).
O homem bom, do bom tesouro do coração tira o que é bom, mas o
mau, de seu mal tira o que é mau (Lc 6,45).
Jesus descreve em muitas imagens que o coração, o inte
rior do homem, deve estar em ordem.
A ética dos sentimentos em todas suas formas vê algo que
é certo. mas este conhecimento correto não nos deve levar a
considerar menos importante a realização concreta das exi
gências de Jesus. Pode-se mostrar que Jesus atribui impor
tância decisiva ao “ato concreto” (no grego: poiein). Na fonte
90 A iGreJA que JeSuS queriA
Q, o primeiro discurso programático, aquele que mateus,
mais tarde, coloca como base do seu sermão da montanha,
termina com uma parábola final, que visa a ação real dos
ouvintes de Jesus:
Assim, todo aquele que ouve essas minhas palavras e as põe em prática
será comparado a um homem sensato
que construiu a sua casa sobre a rocha.
Caiu a chuva,
vieram as enxurradas,
sopraram os ventos
e deram contra aquela casa,
mas ela não caiu,
porque estava alicerçada na rocha.
Por outro lado, todo aquele que ouve essas minhas palavras, mas
não as pratica,
será comparado a um homem insensato
que construiu a sua casa sobre a areia.
Caiu a chuva,
vieram as enxurradas,
sopraram os ventos
e deram contra aquela casa,
e ela caiu.
E foi grande sua ruína
(mt 7,24-27 par. Lc 6,47-49).
A parábola construída segundo a estrutura e também
com o material (de imagens) das parábolas rabínicas, pres
supõe as condições da região montanhosa da Palestina. Na
construção de uma casa não se faziam fundamentos, mas
construía-se sobre as rochas. As chuvas, enxurradas e o ven
to não simbolizam as tempestades da vida, mas o juízo de
Deus. No ambiente rabínico, a comparação seria iniciada
JeSuS e SeuS diScíPuloS 91
da seguinte maneira: “Alguém que pode apresentar muitas
boas obras e estudou muito a Torá, a quem se pode compa
rar? A um homem que...”55
A grande proximidade da parábola da casa sobre a ro
cha ao material das parábolas rabínicas é muito importante
para sua interpretação. Pois, deste modo torna-se claro: em
mt 7,24-27, no lugar da Torá entra o ensinamento de Jesus.
mas a Torá é a norma da vida, a ordem social de Israel.
Assim, mt 7,24-27 trata a palavra de Jesus no sentido de ser
a norma da vida e a ordem social para o povo escatológico
de Deus. É evidente que não se pode satisfazer as exigên
cias de uma ordem social apenas com sentimentos puros. É
necessário praticá-lo para que o povo de Deus possa existir
como comunidade. Deste modo a parábola diz: seria um
erro catastrófico apenas ouvir a palavra de Deus. Ela deve
ser praticada.
É surpreendente a insistência com que este tema do
pôr em prática do ensinamento de Jesus atravessa todas
as camadas das fontes da tradição sinótica. Recordemos,
mais uma vez, a palavra de Jesus em mc 3,35: “Quem fizer
a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe”. Es
pecialmente significativa é uma pequena narrativa, que
provém do material próprio de Lucas. Nas traduções ela
geralmente leva o título: “uma bem-aventurança da mãe
de Jesus”:
Enquanto [Jesus] assim falava, certa mulher levantou a voz ao
meio da multidão e disse-lhe: “Felizes as entranhas que te trou
xeram e os seios que te amamentaram!” Ele, porém, respondeu:
“Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam!”
(Lc 11,27s).
55 Cf. a parábola de Elischa ben Abuja, Aboth RN 24.
92 A iGreJA que JeSuS queriA
Levando a sério os costumes orientais de expressão, só
muito indiretamente existe aqui uma bem-aventurança da
mãe de Jesus. O alvo da exclamação de admiração não é
maria, mas o próprio Jesus. Jesus é chamado bem-aventu
rado numa formulação tipicamente semítica. Ele responde
ao cumprimento - pois é um cumprimento - como oriental
bem-educado, com outro cumprimento: “Felizes, antes os
que ouvem (agora de mim) a palavra de Deus!” Pois a mu
lher do povo ouvira-o o tempo todo.
mas, como é típico de Jesus (cf. mc 10,18), ele também
corrige o cumprimento da mulher: não é importante procla
má-lo bem-aventurado, mas somente ouvir na sua palavra,
a palavra de Deus e observá-la.
A exortação, para pôr em prática sua palavra (respec
tivamente: a palavra de Deus) é, portanto, característica de
Jesus. Ela também é expressa em outros textos (cf. sobretu
do mt 21,28-32). Jesus está interessado na práxis concreta, e
nisto ele está bem dentro do contexto bíblico e judaico. Isto
é tão evidente, que hoje uma redução do ensinamento de
Jesus a uma mera ética de sentimentos interiores carece hoje
de viabilidade exegética.
É viável cumprir o sermão da montanha? Existe todavia
uma resposta bem diferente a esta pergunta, desenvolvida
no protestantismo (se bem que ela não está sendo defendida
por todos os teólogos protestantes); ela parte da exigência
de Jesus para pôr em prática sua palavra, e argumenta da se
guinte maneira: quem é capaz de amar realmente seu inimi
go, de não resistir à violência, de ser absolutamente veraz, de
não desejar uma mulher nem sequer com os olhos? Somente
uma pessoa viveu tudo isto: o próprio Jesus. Ele cumpriu
estas exigências em lugar de todos os homens. Os demais,
porém, só podem fracassar diante do sermão da montanha e
admitir sua culpa. É exatamente este o sentido do sermãoda
JeSuS e SeuS diScíPuloS 93
montanha. Ele quebra a autoconfiança do homem. Ele o jul
ga sem a menor compaixão. Ele descobre a sua verdadeira
situação. E assim, ele o faz capaz de não esperar mais nada
de si mas tudo de Deus.
É evidente: com a ajuda daquilo que Paulo diz em Rm 3,20
e 7,7-13 sobre o papel da lei de moisés, adquire-se uma cha
ve teológica, para poder resolver o problema do sermão da
montanha, e ainda conseguir um sentido para ele. A interpre
tação mencionada tem, portanto, aparentemente um apoio
teológico em Paulo. O seu erro, porém, é que aproxima com
demasiada facilidade as declarações de Paulo sobre a lei e so
bre o homem subjugado à lei, do sermão da montanha. Pois o
sermão da montanha está no nível daquilo que em Paulo é a
admoestação cristã (a paráclese) e não ao nível, que a temática
da lei do Sinai ocupa. Em mateus e Lucas, o sermão da mon
tanha possui, como vimos, uma parte antecedente de caráter
programático que deve tornar claro: todas as exigências pro
nunciadas pressupõem, como com absoluto antecedente, a
salvação de Deus, que já se realiza. Especialmente no próprio
Jesus, a realidade libertadora e salvadora do Reino de Deus é,
por princípio, pressuposto de todas as exigências.
Deve-se, portanto, interpretar a instrução ética de Jesus
diante do horizonte da sua proclamação do Reino de Deus.56
Somente a partir daqui podemos responder corretamente
ao problema da viabilidade do cumprimento do sermão da
montanha. Dever-se-ia perguntar, então: a Boa-nova do Rei
no de Deus coloca nos ombros dos homens fardos pesados,
ou sai do Reino de Deus uma fascinação que tira o fardo e
o peso de todas as exigências que traz consigo? A resposta
é inequívoca. A dupla parábola do tesouro escondido e da
pérola (mt 13,44-46) no-la mostra muito bem.
56 Cf. para este tema o importante trabalho de H. merklein, op. cit.
94 A iGreJA que JeSuS queriA
O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido no campo;
um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai, vende
tudo o que possui e compra aquele campo.
O Reino dos Céus é ainda semelhante a um negociante que anda
em busca de pérolas finas. Ao achar uma pérola de grande valor,
vai, vende tudo o que possui e a compra.
Jesus não diz: o Reino de Deus é tão precioso quanto
um tesouro escondido ou uma pérola de grande valor. Ele
diz: em relação ao Reino de Deus dá-se o mesmo que se dá
na história, em que um pobre diarista encontra um tesouro
escondido; em relação ao Reino de Deus dá-se o que se dá
na história, em que um negociante rico acha uma pérola de
grande valor. O que é decisivo nestas duas histórias? Não a
procura desesperada dos dois homens para achar um tesouro
ou uma pérola! Também não uma separação heróica de seus
bens! Eles dão tudo, eles agem com radicalidade, mas sem
desespero e sem qualquer heroísmo. Eles agem como gente,
que faz um achado precioso e tem uma sorte incrível. O bri
lho do achado os domina e cobre de brilho tudo que fazem.
“Na sua alegria, ele vai...”, esta é a palavra decisiva da pará
bola dupla. uma alegria profunda, o deslumbramento pelo
achado faz com que a venda de seus bens se torne uma coisa
evidente. Eles nem sequer precisam refletir...
Jesus, pois, descreve aqui a fascinação sedutiva que sai
do Reino de Deus, que está irrompendo. O Reino de Deus
que agora vem ao encontro dos homens, que já está no meio
deles, é tão atraente e fascinante, que já não existe nenhuma
dificuldade para mudar de vida e, a partir daí, viver na fas
cinação do achado.
As parábolas do tesouro e da pérola oferecem-nos uma
chave de interpretação, com cujo auxílio podemos compreen
der melhor a existência de Jesus e da sua nova família. Todo
JeSuS e SeuS diScíPuloS 95
texto realmente bom que alguém fala ou escreve é, até certo
ponto, sempre autobiográfico. Isto vale também para esta
dupla parábola. Aqui Jesus contou algo da experiência fun
damental de sua vida e da vida dos seus discípulos - porém
com maior discreção e tato. É a história de um achado grati
ficante, por causa do qual Jesus e seus discípulos deixaram
tudo. mas não foi uma decisão heróica. E viver doravante
sob as exigências do Reino de Deus não fez deles homens
atormentados, desesperados e deprimidos. Em vez disso,
eles fizeram a experiência de uma leveza nova e de uma li
berdade profunda, conhecidas somente por quem se deixa
envolver de coisas bem grandes. Os fardos de suas vidas
se tornaram leves. Jesus (ou talvez um dos seus sucessores)
fala desta experiência fundamental num outro trecho - no,
assim chamado, apelo do salvador (mt 11,28-30):
Vinde a mim todos
os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei
descanso.
Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de mim,
porque sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para vossas almas,
pois o meu jugo é suave
e o meu fardo é leve.
Por trás desta exclamação está um texto da literatura sa
piencial: Jesus Sirac 51,23-27. Aí o autor convida os homens
para curvarem sua cerviz sob o jugo da sabedoria e tomar
sobre si o fardo dela. Ele promete-lhes que encontrarão des
canso junto à sabedoria.
É importante notar, que no tempo de Jesus a “sabedo
ria” que vem de Deus e ilumina os homens, há muito que
96 A iGreJA que JeSuS queriA
tinha sido equiparada à Torá (cf. já Eclo 24,23.25). Em lu
gar do “jugo da sabedoria” os rabinos falam do “jugo dos
mandamentos” e, com isso, entendem uma obediência fiel
à lei.57 “Curvai vossa cerviz sob o jugo da sabedoria” signi
fica, portanto, no tempo de Jesus: vivei fiel e rigorosamente
seguindo a Torá! Somente considerando este pano de fundo
se pode entender a interpretação nova e profunda que é feita
em mt 11,28-30. O “jugo de Jesus” é colocado em lugar da
Torá, isto é, sua palavra, seu ensinamento no lugar da lei do
Sinai.
E deste ensinamento de Jesus, colocado no lugar da or
dem social do Sinai, é dito que é um jugo que não pesa e
um fardo leve. Por quê? Porque Jesus é manso e humilde de
coração. Ele não procura, como os grandes das nações (cf.
mc 10,42), dominar os seus e violentá-los. Ele é o servo de
todos. Ele não vive para si, para seu poder e seus interes
ses, mas total e exclusivamente para a causa de Deus, para o
Reino de Deus. Assim também por trás deste texto, que não
pode ser entendido de modo individualizante, está o Reino
de Deus como realidade libertadora, salvadora e animadora.
O texto, com certeza, não é de interpretação muito fácil -
mas uma coisa é clara: o ensinamento de Jesus não é uma lei
que julga o homem com severidade, diante da qual só pode
dizer cheio de temor: “Deus tenha piedade de mim porque
sou um pobre pecador”, mas um jugo suave e um fardo leve
que deixa o homem respirar aliviado.
Se tentarmos lançar um olhar sobre a longa e movimen
tada discussão dos últimos séculos sobre o problema da via
bilidade do cumprimento do sermão da montanha - nem de
longe foram mencionadas aqui todas as tentativas de solu
ção - não nos podemos livrar de uma impressão discrepante.
57 Cf. P. billerbeck, op. cit., 608s.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 97
De um lado a discussão, até hoje não terminada, é compreen
sível. As exigências de Jesus são radicais e intransigentes. E
o sermão da montanha resiste a todas as tentativas de ser
usado para um cristianismo barato.
De outro lado, porém, surge também a impressão de que
toda discussão parte de uma base de experiência muito es
treita demais. Se as exigências de Jesus podem ser cumpri
das ou não, é uma questão que não pode ser decidida pelo
indivíduo e, muito menos ainda, numa escrivaninha. Pois a
ética de Jesus não é dirigida ao indivíduo, mas ao grupo dos
discípulos, à nova família de Jesus, ao povo de Deus a ser
constituído. Ela tem uma dimensão eminentemente social. Se
o cumprimento desta ética é viável ou não, só pode ser deci
dido por grupos de pessoas que se colocam conscientemente
sob o Evangelho do Reino de Deus e que querem ser comu
nidades reais de irmãos e irmãs -comunidades que formam
um espaço vital da fé onde todos se apoiam mutuamente.
mas, nossas paróquias são tais comunidades? Será que
elas têm uma consciência de comunidade, da qual só se
pode falar quando uma comunidade sabe que tem sua his
tória própria diante de Deus? Elas não são, muito mais, uma
aglomeração de muitos indivíduos, dos quais um mal toma
conhecimento do outro?
Aqui tem-se a impressão de que praticamente nos esca
pou o contexto social no qual Jesus coloca suas exigências e
onde elas podem ser vividas. Ora, Jesus dirigiu-se ao povo
de Deus, e reuniu discípulos em torno de si para fazer de
Israel o verdadeiro povo de Deus. Não podemos falar da
viabilidade de cumprir o sermão da montanha sem conside
rar tudo isto.
Se queremos realmente saber, se se pode viver o sermão
da montanha, devemos perguntar àqueles grupos e comuni
dades, onde os cristãos não vivem apenas lado ao lado, mas
98 A iGreJA que JeSuS queriA
onde eles se puseram a caminho como povo de Deus. Estas
comunidades, seguramente, não nos ocultariam, que tam
bém nelas existe, sempre e de novo, fracasso e culpa pro
funda. mas também nos contariam como nelas os antigos
textos da salvação do Reino de Deus de repente se tornaram
vivos e como o experimentaram: tudo isto é verdade; acon
tece também entre nós; o Reino de Deus é uma fascinação
infinita; o fardo de Jesus é leve.
Aliás, também Paulo pode falar do fardo do cristão. Ele
escreve aos gálatas:
Carregai o peso uns dos outros
e assim cumprireis a lei de Cristo (6,2).
Com isto, ele quer dizer: lá, onde a comunidade cristã
é comunidade de verdade, onde ela é unida, onde todos se
apoiam e se ajudam, é viável cumprir a “lei de Cristo”.
7. A CIDADE SOBRE O MONTE
Ainda não há muito tempo, os católicos alemães canta
ram, cheios de entusiasmo, nas suas celebrações, um canto,
que exaltava a Igreja como castelo fortificado, que todos os
inimigos atacam em vão. Somente nos dois últimos decênios
se foi tomando cada vez mais consciência do triunfalismo
deste canto. No livro Gotteslob (“louvor a Deus”), publicado
desde 1975 livro de cantos obrigatório em todo território da
Alemanha, ele reaparece com quatro novas estrofes, onde
também se fala da cidade santa no monte Sião, da tenda de
Deus aqui na terra e do povo de Deus peregrino.58 Apenas a
primeira estrofe ficou inalterada:
58 Gotteslob. Katholisches Gebet - und Gesangbuch, Stuttgart, 1975, n. 639.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 99
Ein Haus voll Glorie schauet
weit über alles Land,
aus ewgem Stein erbauet
von Gottes Meisterhand.
Gott, wir loben dich,
Gott, wir preisen dich.
O lass im Hause dein
uns all geborgen sein.
(Uma casa cheia de glória
abrange com a vista todos os países,
construída de pedra eterna
pela mão do mestre-Deus.
Ó Deus, nós vos louvamos,
Ó Deus, nós vos bendizemos.
Ó deixai-nos todos abrigados
dentro de vossa casa).
Partindo do texto antigo do canto, pode-se analisar
quanto mudou a consciência eclesial na Europa ocidental
em brevíssimo tempo. Ninguém mais quer ser representan
te de uma ecclesiologia gloriae. Como reação, porém, aparece
uma imagem de Igreja - articulada ainda por poucos teólo
gos, mas existente no background da consciência de um nú
mero bem maior - exatamente contrária: é a imagem de uma
Igreja completamente inaparente e profundamente mergu
lhada na sociedade humana, que renuncia à sua estrutura
própria quase até à dissolução de si mesma, que se perde
no mundo para penetrar o mundo todo. No fundo está a
imagem do fermento que penetra a massa e do qual, no fim,
não resta mais nada. Esta imagem da Igreja está marcada
por uma profunda vergonha por causa da história de domí
nio da Igreja desde a mudança constantiniana e, ao mesmo
100 A iGreJA que JeSuS queriA
tempo, pela aversão a toda e qualquer mentalidade elitista
e triunfalista, pelo desejo de solidariedade com todos os ho
mens e pelo propósito de evitar, para todo futuro, um erro
do passado: identificar Igreja e Reino de Deus.
Certamente, uma parte das tendências nesta imagem
de Igreja é correta e indispensável: a renúncia a qualquer
triunfalismo eclesiástico; o desejo de solidariedade com
todos os homens de boa vontade; a recusa de uma iden
tificação infantil de Igreja e Reino de Deus. A questão que
se coloca é se aqui, como reação aos triunfalismos anterio
res, não ameaça o perigo de uma nivelação total da Igreja;
se aqui não é canonizada uma doença perigosa da Igreja
atual com auxílio de uma eclesiologia adaptada: a saber, o
fato de muitas comunidades cristãs mal poderem ser reco
nhecidas como comunidades e o fato de muitos cristãos se
terem adaptado cada vez mais à sociedade restante. Aqui
não está sendo feito, de uma deficiência atual do cristianis
mo europeu, uma virtude altamente questionável? A ideia,
que a Igreja deve mergulhar na sociedade restante até qua
se ao abandono de si mesma, será realmente o caminho
certo para mudar a sociedade? Sem dúvida, os Evangelhos
pensam aqui de modo bem diferente. O texto decisivo em
sentido contrário é mt 5,13-16:
Vós sois o sal da terra.
Ora, se o sal se tornar insosso,
com que o salgaremos?
Para nada mais serve,
senão para ser lançado fora
e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade
situada sobre um monte.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 101
Nem se acende uma lâmpada
e se coloca debaixo do alqueire,
mas no candelabro,
e assim ela brilha para todos os que estão na casa.
Brilhe do mesmo modo a vossa luz
diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
eles glorifiquem vosso Pai
que está nos céus.
No primeiro momento poder-se-ia pensar que o texto
confirme a ideia de que a Igreja deva mergulhar tão profun
damente na sociedade que mal possa ser reconhecida. O sal
não se dissolve completamente na comida?
mas isso significa errar totalmente o alvo apontado pela
imagem. Na verdade, fala-se de um estoque de sal bom e
puro que está à disposição em casa e que não se estraga,
como acontecia então muitas vezes com o sal tirado do mar
morto que estava cheio de misturas químicas. Os discípulos,
de quem se fala aqui e que, na concepção de mateus, signi
ficam a Igreja toda, devem estar dispostos, em todos os tem
pos, a salgar o mundo, isto é, fazê-lo saboroso e preservá-lo
de podridão. Provavelmente, a imagem vai adiante. A Igreja
não apenas tem obrigação de fazer o mundo saboroso, mas
também santo diante de Deus. Pois no culto de Israel existia
o seguinte princípio:
Salgarás toda oblação que ofereceres e não deixarás de pôr na tua
oblação o sal da aliança de teu Deus;
a toda oferenda juntarás uma oferenda de sal a teu Deus (Lv 2,13).
Caso esta função cultual esteja por trás do texto, ele quer
até dizer: a Igreja, enquanto povo santo de Deus no mundo
102 A igreja que Jesus queria
tem a tarefa de santificar o mundo restante, pelo simples
fato de existir (cf. 1Pd 2,9).
Além disso, também a imagem da luz e da cidade se
encaixam muito bem neste contexto. Na composição de
mateus, ambas as imagens formam um conjunto. Não se
trata de uma cidade qualquer, mas da cidade santa, de Je
rusalém escatológica, da qual os profetas dizem, que um
dia sobressairá de todas as montanhas e sua luz ilumina
rá as nações pagãs (cf. Is 2,2-5). Às boas obras em mt 5,16
corresponde em Is 2,3s a Torá, que sai de Sião e se torna
plausível a todas as nações, porque está sendo vivida real
mente em Israel.59 Em mateus, no lugar da Torá de Sião
está a ordem de vida e a ordem social do grande discurso
programático que Jesus pronuncia no monte. No entanto,
segundo mateus, já não são as nações que acorrem a Sião
para participar do verdadeiro Israel, mas os discípulos
vão ao mundo inteiro, para fazer que todos os povos se
tornem discípulos (mt 28,19s). A direção externa do movi
mento, portanto, inverteu-se, fica igual, porém, o poder de
convicção da ordem social escatológica do povo de Deus,
plausível para as nações e aceitas por elas. “O sentido é
exatamente o seguinte: por sua vidasegundo a vontade de
Deus, os discípulos transformarão a humanidade inteira.
Cada vez mais pessoas juntar-se-ão à comunidade daque
les que se orientam pela vontade de Deus.”60
A Igreja, aqui descrita, é tudo menos uma comunidade
que gira, de modo elitista, em torno de si mesma, ou se pro
tege do mundo. Ela é sal da terra, luz do mundo, cidade que
brilha ao longe. Ela vive uma ordem social plausível para os
59 Cf. N. loHfink, op. cit., 12-26.
60 L. ScHottoff, Die enge Pforte, em: V. Hochgrebe (ed.), Provokation Berg
predigt, Stuttgart, 1982, 117-129, especialmente 122.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 103
homens (mt 5,16). Ela é Igreja para o mundo. Ela é isso exata
mente pelo fato de ela mesma não se tornar mundo ou se dissolver
no mundo, mas guardar seus contornos próprios.61 Isto mostram
não só as imagens do sal, da luz e da cidade, mas também o
contexto em que está mt 5,13-16. Este texto é precedido ime
diatamente pelas Bem-aventuranças que, na verdade, não
descrevem uma sociedade adaptada; e é seguido imediata
mente pela nova Torá do povo de Deus que começa com a
descrição da justiça melhor.
Lendo mt 5,13-16 no seu contexto e a partir do pano de fun
do do Antigo Testamento, fica claro: a cidade luminosa sobre o
monte é uma expressão que indica a Igreja como uma socieda
de de contraste, a qual, exatamente, enquanto sociedade de con
traste, transforma o mundo. Perdendo seu caráter de contraste,
seu sal torna-se insosso e se ela apagar sua luz suavemente (no
texto: colocar a luz debaixo do alqueire para ela se apagar), ela
perde o seu sentido. Ela é desprezada pelos demais homens
(no texto: pisada) e então, a sociedade não é mais capaz de re
conhecer a Deus (no texto: glorificar a Deus, como Pai).
Nos parágrafos precedentes, mt 5,13-16 foi interpretado
conscientemente como texto do evangelista. Por isso, tam
bém se podia e devia falar da Igreja. mas o Jesus histórico
pensou e exatamente assim? Isso não se pode simplesmente
pressupor. Em mt 5,13-16 é usado material de sentenças an
terior, mas no conjunto estamos frente a uma composição de
mateus. Nosso texto corresponde à pregação e à intenção de
Jesus? Em todo o caso podem-se lançar largas pontes até o
Jesus histórico. Isto será feito, a seguir, em três passos:
1. Por trás de mt 5,13 está uma imagem do sal, que em
Jesus deve ter tido o seguinte teor (cf. Lc 14,34s; mc 9,50):
61 E. ScHweizer, op. cit., 61.
104 A iGreJA que JeSuS queriA
O sal, de fato, é bom. Porém se até o sal se tornar insosso, com
que se há de temperar? Não presta para a terra, nem é útil para
estrume; jogam-no fora.
É controverso a quem Jesus dirigiu estas palavras. Trata
se de uma admoestação aos discípulos? Nesse caso o sentido
seria: “Se vocês não são mais sal, isto é, se sua condição de dis
cípulo perde sua irradiação, então sua existência como discí
pulos não tem nenhum valor. Os homens vão desprezá-los”.
mais provável, porém, será pensar numa ameaça contra Israel.
Nesse caso o sentido seria: “Se Israel já não é sal, isto é, se não
mais assume sua tarefa de ser povo santo e, no momento de
cisivo, não faz a vontade de Deus, então perdeu sua existência
como povo de Deus. Ele é jogado fora e pisado pelas nações”.
Em virtude de se tratar de uma imagem desta natureza, trans
mitida isoladamente, dificilmente se poderá constatar qual das
duas possibilidades é correta. mas a questão também não é tão
decisiva. Como quer que se interprete a imagem do sal: em
todo caso, ela indica uma função de contraste para outros: o sal
tem que ter força para salgar outros. Não faz muita diferença,
se Jesus falou de Israel ou dos discípulos. mateus relacionou,
de modo realmente correto, a palavra com o verdadeiro Israel.
2. Por trás de mt 5,14b também deveria estar uma sen
tença mais antiga, que o evangelista combinou com um afo
rismo da luz (cf. mc 4,21; Lc 8,16; 11,33). A sentença antiga
era do seguinte teor:
Não se pode esconder uma cidade
situada sobre um monte.
Embora a sentença formule uma regra de experiência co
mum, ela dificilmente pode ser pensada sem a teologia de
JeSuS e SeuS diScíPuloS 105
Sião, comum no Antigo Testamento e no judaísmo antigo.
Isto também pelo fato do motivo da peregrinação das nações
estar documentado em Isaías (cf. 1,5). Se este motivo estiver
por trás, então deve-se interpretar a sentença da cidade situ
ada sobre o monte à luz do anúncio do Reino de Deus. Para
Jesus, o Reino de Deus não é algo absolutamente futuro, mas
já irrompe no tempo presente. Assim também a cidade es-
catológica de Deus não pode ser algo absolutamente futuro.
Ela já se delineia: no grupo dos discípulos que seguem Jesus.
Eles são, já agora, juntamente com Jesus, a cidade situada so
bre o monte. Este é o pressuposto da sentença transmitida em
mt 5,14b. mas no modo em que ela está formulada, pressu
põe além disso uma situação em que se colocam questões e
dúvidas - como, por exemplo: este pequeno, pouco aparen
te, grupo dos discípulos é realmente o Israel escatológico; a
cidade situada sobre o monte, de que os profetas falaram?
A realidade não corresponde de modo algum à profecia! Je
sus poderia ter respondido a objeções como esta com a regra
da experiência comum, no modo em que é transmitida em
mt 5,14b: “Por mais pequenos e menos aparentes que sejam
os inícios, a cidade de Deus já começou a brilhar. E não se
pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Portanto, não
se preocupem, o brilho da cidade será notado!” O pressu
posto para a formulação, por parte de Jesus, de uma regra
de experiência comum, como em mt 5,14b, seria, portanto,
por um lado, a sua convicção, que a cidade santa já começa
a brilhar dentro do movimento da reconstituição que ele ini
ciou; e também para responder a perguntas e dúvidas dos
ouvintes, talvez inclusive, dos seus próprios discípulos.
3. As chamadas “parábolas do crescimento” pressupõem
uma situação semelhante e, por isso, confirmam a interpre
tação de mt 5,14b, aqui apresentada. Trata-se das parábolas
do semeador (mc 4,3-9) e da semente que cresce por si mesma
106 A iGreJA que JeSuS queriA
(mc 4,26-29), do grão de mostarda (mc 4,30-32) e do fermento
(Lc 13,20s). Em todas estas parábolas, contrapõe-se a um co
meço pequeno e pouco aparente ou mesmo ameaçado a um
término maravilhoso, rico e magnífico: os agricultores tra
zem uma colheita grande; um pequeno pedaço de fermento
fermentou 35 quilogramas de massa de pão; de um minús
culo grão de mostarda cresceu um grande arbusto, a cuja
sombra os pássaros fazem ninhos. Jesus conta também as
parábolas do crescimento, por se ter deparado com pergun
tas e dúvidas. Deve ter sido questionado aproximadamente
nestes termos: “Como é que aquilo que acontece por você e
seus discípulos em Israel, tem alguma coisa a ver com o Rei
no de Deus?” Quando irromper a soberania de Deus, então
Israel já estará convertido, os gentios já terão sido expulsos
do país, tudo, então, será glória!” Jesus responde a estas ob
jeções: “Tão certo como na horta e no campo, de um peque
no começo surge uma farta colheita, aquilo que seus olhos
agora vêem e seus ouvidos agora ouvem (cf. Lc 10,23s),
transforma-se na glória plena. O Reino de Deus já está no
meio de vocês (cf. Lc 17,21), e ninguém mais pode parar a
obra de Deus. O brilho da cidade escatológica de Deus já
reluz, e ninguém mais pode destruí-la. Não se preocupem:
seu brilho não vai ficar escondido”.
Nossa interpretação, que aproxima mt 5,14b das pará
bolas do crescimento, pressupõe que, conforme a convicção
de Jesus, o Reino de Deus brilhe não apenas isoladamen
te na sua própria atividade, mas também na atividade dos
discípulos e, ainda mais, em sua comunidade de discípulos.
Nunca se deveria colocar isso em dúvida.62 Pois não é só Jesus
62 A tese, “que Jesus nunca descreveu a soberania de Deus como atuante
no tempo presente no círculo de seus discípulos ou seguidores” foi
defendida especialmente por W. G. kummel. Sobre a evolução de sua
JeSuS e SeuS diScíPuloS107
que proclama o Reino de Deus, mas também seus discípulos
(cf. Lc 10,9.11). E não é só Jesus que cura possessos, mas tam
bém seus discípulos (cf. mc 3,15). Quem concentrar a pre
sença oculta do Reino de Deus apenas em Jesus e excluir os
discípulos da presença simbólica do Reino, não leva a sério
o envio dos discípulos nem entendeu que no pensamento bí
blico-judaico o Reino de Deus tem de ter um povo. R. ScHnA-
ckenburG diz com toda razão:63 “A comunidade que se forma
ao redor de Jesus, o messias, é da mesma maneira símbolo
do poder presente do Reino de Deus como o são sua palavra,
seu agir salvífico, o perdão dos pecados, as expulsões dos
demônios e as curas”. De certo, a Igreja primitiva formulou,
mais tarde, em termos de Espírito, exatamente aquilo que em
Jesus é o início, em sinais, da plenificação; a saber, a presença
já existente do Reino: a vida dos fiéis no Espírito Santo é an
tecipação da realização escatológica. É preciso, portanto, ser
consequente: como, no entender da Igreja primitiva, todos
os cristãos possuem o Espírito, assim também, já antes da
Páscoa, todos aqueles que, em Israel, se deixam reunir por
Jesus, são sinal vivo da presença do Reino de Deus.
A nossa investigação sobre o fundo histórico de mt 5,13-16,
cuja explicação demorou um pouco mais, deveria ter mostra
do: mateus não tirou do ar esta interpretação fascinante que
nos dá neste texto sobre a Igreja. Ele podia-se apoiar na tra
dição antiga de Jesus, que já aponta na mesma direção. Jesus
não falou da Igreja. mas ele reuniu, no meio de Israel e para
Israel, pessoas em torno de si, que eram para ele a nova fa
mília de Deus, o verdadeiro Israel, a cidade escatológica de
posição, que exerceu uma grande influência e ainda exerce, cf. G.
Heinz, Das Problem der Kirchenentstehung in der deutschen protestanti
schen Theologie des 20. Jahrhunderts (Tubinger Theologische Studien 4),
mainz, 1974, 232-235.
63 R. ScHnAckenburG, op. cit., 154.
108 A iGreJA que JeSuS queriA
Deus. Para Jesus, nessas pessoas já brilha o Reino de Deus,
nelas o futuro Reino já se torna presença em sinais.
Nas últimas décadas foi acentuado repetidamente e com
razão, que não se devia identificar a comunidade dos dis
cípulos, respectivamente a Igreja, com o Reino de Deus.64
Quem conhece a história da ideia do Reino de Deus no âm
bito das Igrejas cristãs sabe como isto foi necessário. mas se
esta contraposição corretora se tornou co-responsável pelo
fato de na nossa consciência atual a separação entre a Igreja e
o Reino de Deus se ter tornado cada vez mais profunda, são
necessárias novas correções. Decisivo na escatologia de Jesus
é - e nisso ele se distingue de todos os apocalípticos - que
o Reino de Deus se faz presente já agora no meio de Israel:
visível, palpável, mesmo se ainda não plenamente realizado.
mas sendo assim, então, uma eclesiologia somente é cor
reta, quando mantém com firmeza que também na Igreja e
nas comunidades cristãs o Reino de Deus já deveria estar
presente: visível, palpável, experimentável, ainda que não
plenamente realizado. A situação das pessoas do tempo de
Jesus deveria ser a situação dos tempos de hoje:
Felizes os olhos que vêem o que vós vedes! Pois eu vos digo que
muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes, mas não viram,
ouvir o que ouvis, mas não ouviram (Lc 10,23s par. mt 13,16s).
8. A vONTADE DE FORMAR COMUNIDADE EM JESUS
Antes de terminar esta segunda parte, vale a pena um
breve olhar retrospectivo. Nossa análise da tradição sinó-
64 Assim, por exemplo, R. ScHnAckenburG, id., 247s; J. R. W. Stott, op. cit.
Stott, porém, aponta com ênfase o relacionamento profundo entre o
Reino de Deus e o povo de Deus (13s).
JeSuS e SeuS diScíPuloS 109
tica deveria ter mostrado: Jesus está altamente interessado
na comunidade. Evidentemente, ele dirige-se a indivíduos;
evidentemente cada um deve decidir-se em liberdade e re
fletir sempre de novo sobre esta decisão. mas Jesus não está
interessado na soma de muitos indivíduos, mas em Israel.
O povo de Deus, porém, depois de uma história de mais
de mil anos, não pode ser fundado nem criado, mas apenas
reunido e reconstituído. É exatamente o que Jesus quer. No en
tanto, a reconstituição do povo de Deus, termo que se impõe
cada vez mais na exegese do Novo Testamento para desig
nar a intenção de Jesus relacionada com Israel, deve ser le
vada a sério na sua acentuação escatológica. Não se trata de
qualquer movimento de reconstituição, mas da reconstitui
ção escatológica do povo de Deus. O conteúdo central da pre
gação de Jesus é que agora, com sua aparição, os tempos se
completam. As antigas promessas que dizem respeito ao fim
dos tempos se tornam realidade. O Reino de Deus irrompe.
Nesta situação escatológica, Israel deve agarrar a salvação a
ele oferecida, deve converter-se e deixar-se reconstituir para
o Reino de Deus.
Quando a maioria de Israel recusa este apelo, Jesus con
centra sua atenção cada vez mais nos discípulos. O grupo
dos discípulos, porém, para ele, não é, de maneira alguma,
o “resto sagrado” de Israel ou uma comunidade separada
ao lado de Israel ou até um substituto de Israel. Ele é, muito
mais, representante de Todo-Israel que, no momento, ain
da não pode ser reconstituído na sua totalidade. Ao mesmo
tempo, o grupo dos discípulos é prefiguração daquilo, que
o Israel escatológico, reconstituído em todos seus membros,
deve ser um dia. Isto, porém, significa: mesmo na crise de
Israel, Jesus não abandona sua pretensão a Todo-Israel, que
ele, desde já, reivindica com a constituição dos Doze em si
nal profético.
110 A iGreJA que JeSuS queriA
Esta concentração total em Israel que atinge seu ponto
culminante na última ceia (cf. 1,7), não exclui, de modo al
gum, o universalismo da salvação. Pelo contrário! A ideia
da peregrinação dos gentios prova que Jesus vê o papel de
Israel no horizonte universal da tradição de Isaías: Israel não
é eleito por causa própria, mas como sinal da salvação uni
versal para todas as nações. O Reino de Deus na sua forma
definitiva é, por isso, para Jesus, uma grandeza universal,
que ultrapassa o Israel atual. mas isto não quer dizer que
a soberania de Deus se impõe de uma vez ao mundo intei
ro. Não cai das nuvens, mas é mediada historicamente. Ela
impõe-se brilhando num povo concreto, a saber, em Israel,
e manifestando assim sua natureza, no meio do mundo. O
Reino de Deus não é, portanto, de modo algum, algo que:
paira livremente e sem lugar, mas está ligado a um povo
concreto, o povo de Deus. Como poderia chegar a soberania
de Deus na terra, se não fosse aceita por homens - mais, por
homens que possam manifestar as dimensões sociais do Rei
no de Deus dentro de sua própria textura social?
Na medida, em que o povo de Deus se deixasse envol
ver pela soberania de Deus, ele mudaria em todas as dimen
sões da sua existência. Ele tornar-se-ia uma sociedade de
contraste. Isto não significaria, de modo algum, um Estado
teocrático. Tornar-se-ia, isso sim, uma família de irmãos e
irmãs, como Jesus a constituiu no seu grupo de discípulos.
O que se delineia no grupo dos discípulos de Jesus e,
para além dele, como início do Israel escatológico, é mais do
que uma comunidade meramente ideal, mais do que uma
societas in cordibus. Aqui existem, conforme a vontade de Je
sus, relações sociais diferentes das existentes na sociedade
restante: não existe retaliação, não existem mais estruturas
de domínio. Já nestes pontos torna-se evidente, que se trata
aqui de uma realidade social bem concreta.
JeSuS e SeuS diScíPuloS 111
A ética de Jesus aponta para um povo escatológico de
Deus, renovado neste sentido. Não se dirige ao indivíduo
isolado, pois este não é capaz de representar nem de viver
as dimensões comunitárias do Reino de Deus. A ética de Je
sus também não se dirige ao mundo em sua totalidade. Pois
ao mundo em sua totalidade só pela força podem ser im
postas uma nova ordem social e uma nova ordem de vida.
mas exatamente istoseria contra a natureza mais íntima da
soberania de Deus. Deste modo resta apenas um caminho:
que Deus começa, em qualquer lugar no meio do mundo, a
criar o novo no seu povo. E quando este povo se nega a co
operar, então, num grupo ainda menor: na nova família dos
discípulos que Jesus reúne em torno de si.
mas é correta esta imagem global desenvolvida nas pri
meiras duas partes deste livro? Isto decide-se, em última
análise, pelo fato de se conseguir, ou não, colocar sempre de
novo todos os textos da tradição sinótica, sem os forçar, den
tro desta imagem. Existe, porém, um segundo critério: como
agiu a Igreja primitiva, em cujo início estão as testemunhas
oculares e sucessores imediatos de Jesus, em assuntos de co
munidade? Sua práxis e autocompreensão é a melhor e mais
antiga interpretação da vontade de Deus, de que dispomos.
Coloquemos, pois, numa terceira parte, a questão da Igreja
primitiva. uma apresentação abrangente da autocompreensão
das comunidades neotestamentárias é, naturalmente, im
possível no âmbito deste trabalho. Podemos apenas apre
sentar algumas amostras, em pontos especialmente impor
tantes, que resultaram das primeiras duas partes.
Terceira Parte
AS COMUNIDADES
NEOTESTAMENTÁRIAS
NO SEGUIMENTO DE JESUS
1. A IGREJA COMO POvO DE DEUS
A autocompreensão dos discípulos, depois da Páscoa,
mostra-se primeiramente no seu comportamento; ela mani
festa-se na sua maneira concreta de agir. E imediatamente
cai na vista: os discípulos deixam a Galileia, apesar de as
primeiras aparições pascais terem acontecido lá; eles se reú
nem em Jerusalém e ficam na capital. O movimento cristão
não parte da Galileia, mas de Jerusalém. É lá que ele tem
seu centro durante anos. A comunidade primitiva surge em
Jerusalém, não na Galileia.
A razão deste comportamento fora do comum dos dis
cípulos é sua escatologia. Eles estão convencidos de estar no
meio dos acontecimentos finais e, por isso, esperam a ma
nifestação definitiva do Reino de Deus exatamente lá onde,
conforme a fé judaica, os acontecimentos finais têm início:
em Jerusalém.65
Exatamente pelo fato de os discípulos interpretarem es-
catologicamente sua existência, eles sentem-se diante da tarefa
de chamar, mais uma vez, Todo-Israel à conversão. A parusia
65 Cf. aqui mais detalhadamente: G. loHfink, “Der Ablauf der Ostere
reignisse und die Anfänge der urgemeinde”, ThQ 160 (1980), 162-176.
116 A iGreJA que JeSuS queriA
do Filho do Homem está iminente, por isso a conversão do
povo de Deus é mandamento imperioso. Os Atos dos Apósto
los narram, paradigmaticamente, a pregação cristã da con
versão ao Israel descrente em quatro discursos dos apóstolos
(2,14-40; 3,12-26; 4,8-12; 5,29-32). Em sua formulação, estes
discursos são obra do autor dos Atos dos Apóstolos. mas
não se pode duvidar do fato de uma pregação pós-pascal de
conversão dirigida a Israel.
O fato de a comunidade dos discípulos se dirigir a Israel
é mostrado também no fenômeno do batismo cristão antigo
(cf. At 2,38-42). Este batismo é pensado como sacramento
escatológico para Israel: diante do fim iminente, o povo de
Deus deve ser selado para poder subsistir no juízo do Filho
do Homem. A situação do batismo de João se repete sob
um novo signo: também o batismo do cristianismo primi
tivo serve para a reconstituição e preparação escatológica
de Israel.66
Ainda um terceiro fenômeno ilumina a autocompreen-
são da comunidade primitiva: depois da separação de Judas
Iscariotes, o círculo dos Doze é completado por eleição (cf.
At 1,15-26). Esta complementação só é compreensível, tendo
em vista a função original do círculo dos Doze: os Doze são
testemunhas escatológicas em favor, respectivamente contra Is
rael (cf. acima 1,2). No momento em que, em virtude da morte
expiatória de Jesus, a conversão é oferecida mais uma vez ao
povo, o círculo dos Doze deve ser “capaz de ser símbolo”, isto
é, em vista do povo das doze tribos, estar completo.67
A complementação do círculo dos Doze, a oferta do batis
mo e a volta dos discípulos a Jerusalém provam: a reconstituição
66 mais extensamente: G. loHfink, “Der ursprung der christlichen
Taufe”, ThQ 156 (1976), 35-54.
67 Cf. G. loHfink, op. cit., 170s.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 117
escatológica de Israel, começada por Jesus, está sendo continuada
pela comunidade pós-pascal dos discípulos em fidelidade a Jesus.
No entanto, este movimento da reconstituição acontece sob o
signo da possibilidade de conversão; concedida novamente
ao povo pela morte expiatória de Jesus. Em relação ao movi
mento da reconstituição é imprescindível, portanto, conside
rar a mudança da situação histórico-salvífica, surgida pela
morte de Jesus. A situação de Israel é qualificada, a partir
de agora, pela entrega da vida de Jesus em favor do povo
de Deus. Por isso, nesta situação histórico-salvífica mudada
não é mais suficiente anunciar, como Jesus, o Reino de Deus.
Para além disso, tem de ser anunciada a morte de Jesus, como
fundamento de possibilidade de nova conversão para Israel.
Esta nova situação histórico-salvífica mostra-se muito visi
velmente no batismo cristão antigo: a comunidade primiti
va recorre ao batismo de João, mas agora ela realiza-o “em
nome de Jesus” (cf. At 2,38), o que significa, que o Israelita
batizado é posto dentro da salvação dada e efetuada por Je
sus. Assim continua, portanto, o movimento da reconstitui
ção, iniciado por Jesus, mas continua sob signo cristológico.
Esta práxis extremamente consciente e teologicamente
muito significativa da comunidade primitiva mostra que ela
não se compreende, de modo algum, como conventículo que
se distingue do resto de Israel somente por sua fé concreta no
messias, mas que se confunde com o judaísmo em todos os
demais aspectos. A vontade renovada de reconstituir Israel
já supõe que a comunidade dos discípulos se compreende a
si mesma como o verdadeiro Israel. Isto torna-se claro também
por duas autodesignações, que podem ser encontradas já na
comunidade primitiva de Jerusalém.
A comunidade cristã de Jerusalém chama-se a si mesma
a “ekklesia de Deus” (cf. 1Cor 15,9; Gl 1,13). Em si, no gre
go, ekklesia significa reunião pública, a reunião do povo da
118 A iGreJA que JeSuS queriA
comunidade política. A Setenta, porém, traduz, em muitas
e importantes passagens, o termo qahal, isto é, a reunião do
povo da aliança do Antigo Testamento diante de Iahweh,
por ekklesia. Importante é especialmente Dt 23,2-9 e sua in
terpretação judaica antiga. Aqui ekklesia é compreendida
como verdadeiro povo de Deus que se separa de tudo que
é profano e impuro. Diante do pano de fundo desta lingua
gem bíblica, a comunidade primitiva, quando se chama a si
mesma “ekklesia de Deus”, deve ter-se compreendido como
o povo eleito de Deus, como o verdadeiro Israel.68
Estreitamente ligado a ekklesia está o conceito “os san
tos”, que também remonta ao tempo da comunidade pri
mitiva de Jerusalém (cf. especialmente At 9,13; Rm 15,25).
Ela já o encontrou como terminus technicus e o relacionou
consigo mesma. Desde Dn 7 ele significa o povo de Deus do
fim dos tempos.69
Não sabemos com exatidão, quando os discípulos de
Jerusalém se designaram a si mesmos como “os santos” e
como a “ekklesia de Deus”. Ambos os termos, porém, devem
remontar aos tempos mais antigos da comunidade primitiva
de Jerusalém, pois eles estão relacionados com o movimen
to pós-pascal da reconstituição, acima esboçado. Ambos os
termos deixam transparecer uma autoconsciência extraordi
nária. Já pouco tempo depois da Páscoa, a comunidade pri
mitiva compreende-se a si mesma como o verdadeiro Israel,
como o povo escatológico de Deus. uma autoconsciência
como esta seria impensável, se Jesus não tivesse aparecido
68 uma boa visão da discussão recente sobre ekklesia oferecem H. merk
lein, “Die Ekklesia Gottes. Der Kirchenbegriff bei Paulus und in Jeru
salem”, Bz 23 (979), 48-70, e W. klAiber, Rechtfertigung und Gemeinde.
Eine Untersuchungzum paulinischen Kirchenverständnis (FRLANT 127),
Göttingen, 1982, 11-21.
69 Cf. W. klAiber, op. cit., 22.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 119
antes com a pretensão de reconstituir Israel em vista da imi
nência do Reino de Deus iminente.
Pelo menos tão notável como a reivindicação imediata
da ideia do povo de Deus pela comunidade primitiva, é o fe
nômeno seguinte: mesmo naquela fase histórica, em que as
antigas comunidades se abrem para as nações pela aceitação
de gentios incircuncisos e assim nasce uma Igreja de judeus e
gentios, a ideia de ser o povo de Deus é mantida. Não apenas
as comunidades judaico-cristãs na Palestina se consideram
a si mesmas povo de Deus, mas também, desde o começo, as
comunidades novas das missões, onde os cristãos vindos do
paganismo logo são em número maior.
Foi Paulo quem, em primeiro lugar, realizou a reflexão
teológica deste fenômeno extraordinário. Ele reflete sobre
a questão da filiação dos cristãos vindos do paganismo ao
povo de Deus sob o título da “descendência de Abraão” (cf.
Rm 4; Gl 3). Paulo pressupõe como evidente que, quem qui
ser participar da salvação, deve pertencer ao povo de Deus,
deve ser “descendência de Abraão”. mas como é possível
tornar-se descendente de Abraão? Não é pela mera circun
cisão; nem pela observância da lei do Sinai! Alguém só se
torna descendência de Abraão se crê como Abraão. Por isso,
todos que creem no Cristo, são os verdadeiros descendentes
de Abraão, isto é, o verdadeiro povo de Deus.
É surpreendente até que ponto a teologia paulina utili
za conceitos rigorosamente orientados para a ideia do povo
de Deus e que só podem ser compreendidos a partir dela.70
Sem distinção entre cristãos, judeus e gentios, os privilégios
de Israel valem para todos os que creem no Cristo: Abraão
70 Cf. para o seguinte: N. A. dAHl, Das Volk Gottes. Eine Untersuchung zum
Kirchenbewusstsein des Urchristentums, Darmstadt, 1963; W. klAiber. op.
cit., 11-50.167-170.
120 A iGreJA que JeSuS queriA
é seu pai (Rm 4,12); eles são os herdeiros (Gl 3,29); eles são
os filhos da promessa (Gl 4,28); eles são os eleitos (Rm 8,33);
eles são os chamados (Rm 1,6s); eles são os amados (Rm 1,7);
eles são os filhos, os filhos de Deus (Rm 8,16; Gl 3,26).
Devem-se considerar que estes conceitos não são com
preendidos por Paulo num sentido vago, individualista; to
dos eles, sem exceção, pertencem ao contexto da ideia de
“povo de Deus”. Assim, por exemplo, a declaração da filia
ção divina não pode ser equiparada à ideia estóica da filia
ção divina de todos os homens. Aqui trata-se daquela filiação
que, conforme a fé judaica, pertence apenas ao povo de
Deus e a seus membros:
Amados (por Deus) são os israelitas,
pois eles foram chamados filhos de Deus;
um amor especial foi manifestado a eles,
que fossem considerados filhos de Deus,
pois está escrito:
“Sois filhos de Iahweh vosso Deus” (Dt 14,1)
(Rabi Akiba, Abot III 15).
A extensão consequente dos títulos honoríficos do an
tigo povo de Deus à Igreja de judeus e gentios, em Paulo,
é ainda muito mais ampla: aqueles que creem em Cristo,
estão sob a nova aliança do fim dos tempos (2Cor 3,6); seu
rosto reflete a glória do Senhor, este esplendor brilhante
de sua poderosa presença com que ele acompanhou os
antepassados de Israel através do deserto, e que depois
recebeu no Templo seu lugar definitivo (2Cor 3,8). As co
munidades daqueles que creem em Cristo são templo de
Deus repleto do Espírito Santo (1Cor 3,16); são a planta
ção de Deus (1Cor 3,5-9); são o edifício de Deus (1Cor 3,9).
Até são a verdadeira circuncisão (Fl 3,3), pois circuncisão
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 121
somente é aquilo que acontece pelo Espírito no coração
(Rm 2,29).
Em nenhum lugar, Paulo designa diretamente a Igre
ja como o “verdadeiro Israel” - ele teria de falar, então, do
“Israel segundo o Espírito”. Apesar disso, a realidade como
tal é sempre expressa indiretamente. O mesmo vale para
os outros autores dos escritos do Novo Testamento. Quem
se dirige aos cristãos como às “doze tribos da dispersão”
(Tg 1,1), entende a Igreja como o verdadeiro Israel.
Não é necessário continuar com considerações semelhan
tes. Seja dito apenas o seguinte: já a argumentação escriturís-
tica, usada em toda a parte no Novo Testamento, pressupõe
a convicção de ser o verdadeiro Israel. Pois a argumentação
escriturística manifesta a pretensão das comunidades cris
tãs às escrituras. mais ainda, ela manifesta sua pretensão de
possuir a verdadeira compreensão das escrituras, concedida
pelo Espírito (cf. 2Cor 3,14-16).
A pretensão das comunidades cristãs de serem elas mes
mas o verdadeiro Israel, criou, contudo, um problema que
não pode ser, de modo algum, ignorado aqui. Exatamente
esta pretensão devia levar facilmente a recusar pura e sim
plesmente ao Israel, que não acreditava em Cristo, a fun
ção de povo de Deus e a negar sua função histórico-salvífica
posterior.
De fato, este passo teológico com consequências graves
já foi dado no século primeiro por uma série de autores do
Novo Testamento - de modo mais decidido por mateus71 e
Lucas.72 O texto mt 21,43 fornece a prova mais clara:
71 Cf. W. trillinG, Das wahre Israel. Studien zur Theologie des Matthäus
Evangeliums (StANT 10), 3a ed., munique, 1964.
72 Cf. G. loHfink, Die Sammlung Israels. Eine Untersuchung zur lukanischen
Ekklesiologie (StANT 39), munique, 1975.
122 A iGreJA que JeSuS queriA
Por isso vos afirmo
que o Reino de Deus vos será tirado
e confiado a um povo
que produza seus frutos.
Esta desqualificação histórico-salvífica da sinagoga, no
entanto, era teologicamente muito problemática (abstraindo
agora completamente das terríveis perseguições dos Judeus
que ela favoreceu). Pois Jesus queria exatamente a reconsti
tuição de todo povo de Deus e, mesmo na sua morte, manteve
sua missão para com Todo-Israel. Sua comunidade dos dis
cípulos não foi concebida como substituta ou até sucessora
de Israel, mas ela devia estar aberta para Israel e, constan
temente, orientada para Israel. Ela devia prefigurar o Israel
escatológico; ela devia representar, como sinal, aquilo que
em si deveria ter acontecido em Todo-Israel.
Tendo em vista esta pretensão persistente de Jesus a todo
o Israel, toda a eclesiologia que não elabora o relacionamento
histórico-salvífico permanente entre Igreja e sinagoga, deve
ser questionada como algo que não é de Jesus.
Felizmente, no conjunto das teologias do Novo Testa
mento, existe pelo menos uma voz que afirma clara e decidi
damente a função histórico-salvífica do Israel que não crê no
Cristo: é Paulo nos três capítulos sobre Israel na Epístola aos
Romanos (Rm 9-11). Ele declara com toda clareza:
Nem todos que são descendentes de Israel são, só por isso,
Israel (9,6). Israel são apenas aqueles que creem em Cristo (9,30
10,21). No entanto, a história de todos que creem em Cristo per
manece indissoluvelmente vinculada com a história do outro
Israel. Paulo ilumina esta vinculação de vários pontos de vista:
1. Exatamente pelo fracasso de Israel a salvação veio às
nações (11,11). Foi exatamente pelo fracasso de Israel que os
gentios foram inseridos na história de eleição de Israel.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 123
2. O fracasso de Israel é colocado como advertência cons
tante diante dos olhos da Igreja: ninguém que foi chamado
pode se tornar presunçoso; Deus não poupa uma Igreja des
crente como não poupou o Israel descrente (11,20-22).
3. O fracasso de Israel dá uma esperança contínua, in
destrutível: a Igreja pode aprender com Israel que Deus é
fiel e nunca retira a sua graça. Apesar do seu fracasso, Israel
continua chamado (11,29). Não é rejeitado (11,1), mas é ama
do para sempre por Deus (11,28). um dia tornar-se-á, nova
mente, o verdadeiro Israel (11,26s) e dará vida ao mundo
todo pela sua salvação (11,12).
4. Neste meio tempo, a Igreja tem, principalmente, a
tarefa de tornar Israel ciumento(11,11.14). Com isto, Paulo
quer dizer: a Igreja deve viver sua existência messiânica de
maneira tão convincente que Israel abandone sua reserva e
chegue à fé. A descrença de Israel, portanto, é uma interro
gação constante à Igreja, se está realizando com credibilida
de sua existência como povo de Deus.73
Conforme Paulo, portanto, a Igreja sem Israel nem se
quer pode existir. Não é apenas o fato de viver, enquanto
ramo enxertado, da força da antiga oliveira Israel (Rm 11,17).
Também chega a conhecer, através do Israel que se tornou
culpado, o perigo constante do orgulho dos eleitos e o amor
irrevogável de Deus que elege. mais ainda: somente Israel
é capaz de colocar radicalmente a Igreja sempre e de novo
frente à pergunta, se está, de fato, vivendo sua existência
messiânica. Por isso a Igreja perderia sua identidade se se
esquecesse de sua relação contínua com Israel.
73 Bem elaborado por B. klAPPERT, Traktat fur Israel (Röm 9-11). Die pau
linische Verhältnisbestimmung von Israel und Kirche, em: m. STöHR (ed.),
Judische Existenz und die Emeuerung der christlichen Theologie, munique,
1981, 58-137, cf. esp. 111-113.
124 A iGreJA que JeSuS queriA
Somente agora, que as declarações de Rm 9-11 foram ex
postas em toda a sua abrangência, podemos dizer, resumin
do, como conclusão do capítulo: os discípulos retomaram,
depois da Páscoa, a reconstituição de Israel, iniciada por Je
sus. Eles compreendiam-se a si mesmos como o verdadeiro
Israel, levando, com isso, a sério a ideia de Jesus referente ao
grupo dos discípulos, enquanto prefiguração do Israel esca-
tológico. Quando a Igreja estava em perigo de desqualificar
o Israel descrente na sua função histórico-salvífica, Paulo
elaborou a vinculação permanente entre Igreja e sinagoga,
mantendo, deste modo, a orientação da comunidade dos
discípulos para Todo-Israel, no sentido de Jesus.
2. A PRESENçA DO ESPÍRITO
O fato de a comunidade primitiva se compreender a si
mesma como o verdadeiro Israel, não era uma pretensão ide
ológica, que não tivesse o respaldo com a realidade. Por trás
desta autocompreensão estava, muito mais, uma história de
experiências muito concretas: primeiro o movimento da re
constituição do próprio Jesus, que levou a divisão em Israel;
para além disso especialmente as manifestações imponentes
do Espírito, que aconteceram repentinamente na comunida
de primitiva depois da Páscoa. Segundo as Escrituras, a vin
da do Espírito de Deus é um fenômeno do fim dos tempos: o
Espírito é descrito como a dádiva de Deus à comunidade escato-
lógica, mais ainda: como a força de Deus que cria realmente
o Israel escatológico (cf. Is 32,15; 44,3; Ez 11,19; 36,26s; 37,14;
Jl 3,1s). As experiências profundamente impressionantes do
Espírito na comunidade primitiva tinham de aprofundar a
consciência já despertada por Jesus: agora acontece a reali
zação escatológica, agora o povo de Deus é reconstituído!
Não é por acaso que Lucas, no contexto de sua narrativa dos
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 125
acontecimentos de Pentecostes, cita, em lugar de destaque
(de forma levemente modificada) Joel 3.
Sucederá nos últimos dias, diz o Senhor,
que derramarei do meu Espírito sobre toda carne.
Vossos filhos e filhas profetizarão,
vossos jovens terão visões
e vossos velhos sonharão.
Sim, sobre meus servos e minhas servas
derramarei do meu Espírito.
E farei aparecerem prodígios em cima, no céu,
e sinais embaixo, sobre a terra... (At 2,17-19).
Provavelmente, a comunidade primitiva já interpretou
muito cedo com este texto os fenômenos carismáticos que
nela aconteciam (profecias, visões, milagres de cura) como
dons do Espírito Santo concedidos ao Israel verdadeiro, es-
catológico. Por isso é impossível falar da autocompreensão
da Igreja primitiva sem se ocupar com a experiência da pre
sença viva do Espírito em seu meio. Experiência do Espírito,
porém, existia em várias formas dentro da Igreja primitiva;
vamo-nos ocupar seguidamente, apenas com uma espécie
de acontecimentos carismáticos, os milagres da cura. Por
que, no nosso contexto, não interessa uma descrição deta
lhada da Igreja primitiva, mas a sua fidelidade a Jesus e a
sua continuidade com sua obra.
Vimos acima (cf. 1,3): as curas de doentes não podem
ser separadas da vida de Jesus. Elas estão unidas insepara
velmente com seu anúncio do Reino de Deus. O Reino de
Deus não vem apenas na palavra, mas também nas obras.
Ele envolve o homem todo. O homem todo, porém, nunca é
indivíduo isolado. A ele pertence a sociedade que o envolve.
Por isso os milagres de cura operados por Jesus não podem
126 A iGreJA que JeSuS queriA
ser vistos como obras feitas em indivíduos. Elas sempre têm
a ver com o povo de Deus em sua totalidade. muitas doenças
somente são curáveis, quando é curado, conjuntamente, todo o
ambiente em volta do doente. A doença do indivíduo é sempre
uma ferida aberta de uma sociedade doente. Esta vinculação
entre doença e ambiente aparece especialmente nos fenômenos
de possessão, que são primeiramente objetivações psicossomá
ticas de coações e desumanidades de uma sociedade doente.74
Quando o Reino de Deus se faz presente, deve, portanto, não
se limita a curar a corporalidade do homem até seus níveis
mais profundos; mas também tem que curar até a dimensão
mais profunda do social; deve tornar livre para a nova comu
nidade; deve libertar dos demônios isoladores e destruidores
de uma sociedade doente; deve libertar da possessão.
Somente a partir daqui se pode compreender o enlace
entre anúncio e terapia em Jesus. Ele envia os Doze não só
para pregar, mas também para curar:
Convocando os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os
demônios, bem como para curar doenças e enviou-os a proclamar
o Reino de Deus e a curar (Lc 9,1s).
É fascinante que o enlace entre anúncio e cura perma
nece na Igreja primitiva. Depois da narração da primeira
apresentação dos apóstolos no dia de Pentecostes - o gran
de discurso de Pedro terminara nesse instante - Lucas re
lata imediatamente num sumário: “Apossava-se de todos
o temor, pois numerosos eram os prodígios e sinais que
se realizavam por meio dos apóstolos” (At 2,43). Após o
sumário, Lucas descreve imediatamente, para ilustrar, um
74 Cf. os importantíssimos estudos de C. ernSt, Teufelaustreibungen. Die
Praxis der katholischen Kirche im 16. und 17. Jahrhundert, Berna, 1972.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 127
milagre concreto: a cura do coxo no Templo por Pedro e
João (At 3,1-10).
mas, de acordo com Lucas, não são somente os apóstolos
que operam milagres, mas todos os grandes anunciadores: Es
têvão (6,8), Filipe (8,6-8.13), Barnabé (15,12) e Paulo (13,6-12;
14,3.8-18; 16,16-18; 19,11s; 20,7-12; 28,1-6.8-10). Os Atos dos
Apóstolos estão cheios de relatos de milagres ou de notícias
sumárias sobre a atividade de milagres dos anunciadores. As
curas dos doentes e expulsões de demônios, que Lucas pode
narrar com base numa numerosa tradição, apoiam o anúncio
como “sinais legitimadores”.75 Elas mostram a força irresis
tível do Evangelho que ninguém consegue parar. mostram
também que o Evangelho é uma força libertadora e salvado
ra. Enquanto o Israel descrente é incapaz de operar milagres
(At 19,13-16), o milagre floresce no verdadeiro povo de Deus
(cf. ainda At 5,12-16; 9,17-19.32-35.36-43).
O que Lucas conta deste modo, não é um enfeite pos
terior, transfigurando romanticamente o tempo inicial da
Igreja. O autor da Epístola aos Hebreus, completamente
independente de Lucas, vê as coisas exatamente da mesma
maneira. Logo no começo da epístola ele exorta os leitores
a não desprezarem o Evangelho pelo qual chegaram à fé. E,
em seguida, ele diz deste Evangelho:
Como escaparemos nós (do Juízo de Deus), se negligenciarmos tão
grande salvação? Esta começou a ser anunciada pelo Senhor. De
pois foi-nos fielmente transmitida pelos que a ouviram, testemu
nhando Deus juntamente com eles, por meio de sinais, de prodí
giose de vários milagres e por dons do Espírito Santo, distribuídos
segundo a sua vontade (Hb 2,3s).
75 J. Jervell, Die Zeichen des Apostels. Die Wunder beim lukanischen und
paulinischen Paulus: Studien zum Neuen Testament und seiner Umwelt 4
(1979), 54-75, especialmente 68.
128 A iGreJA que JeSuS queriA
Também conforme a Epístola aos Hebreus, os milagres
fazem parte do anúncio apostólico como sinais acompa
nhantes (cf. também mc 16,20). Eles testemunham a verdade
do Evangelho. O autor da Epístola aos Hebreus, no entanto,
não pensa aqui numa confirmação exterior, por assim di
zer, jurídica da mensagem. Os milagres que acompanham o
Evangelho também tornam claro que a “salvação” de Deus
(cf. versículo 3) se torna uma realidade palpável. A comuni
dade experimenta desde já as forças da era futura (Hb 6,5).
Paulo mostra como esta concepção dos Atos dos Após
tolos e da Epístola aos Hebreus está difundida dentro da
Igreja primitiva. Em nenhum lugar ele se pronuncia contra
os milagres. Ele pressupõe, muito mais, como evidente que
em toda a parte onde uma comunidade cristã vive do Evan
gelho, irrompem forças milagrosas. De acordo com Paulo
os carismas de cura são tão evidentes para uma comunidade
como os carismas da profecia ou de governo:
E aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar,
apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, douto
res... Vêm, a seguir, os dons dos milagres, das curas, da assistên
cia, do governo e o de falar diversas línguas (1Cor 12,28; cf.12,9s).
Onde uma comunidade aceita o Evangelho, é libertada
uma nova realidade, que alcança profundamente a dimen
são da corporalidade. Por isso, Paulo está convicto de que os
milagres fazem parte constitutiva do anúncio do Evangelho
(cf. 1Cor 2,4s; 2Cor 12,12; 1Ts 1,5). J. Jervell apontou com
toda a razão que, na maior parte das vezes, este aspecto do
trabalho missionário de Paulo é passado por alto ou mes
mo reprimido.76 Na imagem hodierna de Paulo, o apóstolo
76 J. Jervell, id., o mesmo, Der unbekannte Paulus, em: S. PederSen (ed.), Die pau
linische Literatur und Theologie (Skandinavische Beiträge), Göttingen, 1980, 29-49.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 129
aparece exclusivamente como o homem da palavra. A reali
dade histórica era completamente diferente. No fim da Epís
tola aos Romanos, Paulo lança um olhar retrospectivo sobre
a sua atividade apostólica no Oriente e fala aqui - quase aci
dentalmente e com a maior naturalidade - dos milagres que
acompanhavam, em toda a parte, seu anúncio da palavra:
Tenho, portanto, de me gloriar em Cristo Jesus, naquilo que se
refere a Deus, pois eu não ousaria falar de coisas que Cristo não
tivesse realizado por meio de mim para obter a obediência dos gen
tios, em palavra e ações, pela força de sinais e prodígios, na força
do Espírito de Deus: como desde Jerusalém e arredores até a Ilíria,
eu levei a termo o anúncio do Evangelho de Cristo (Rm 15,17-19).
A Epístola aos Gálatas também é muito instrutiva. Em
3,5, Paulo pergunta se os cristãos da Galácia receberam a
salvação pela observância da lei ou pela aceitação do Evangelho.
Ele pode pressupor sem discussão que as comunidades da
galácia receberam realmente a salvação. Só precisa aludir a
isso. E de onde sabem os gálatas, que a salvação se tornou
presente neles? Resposta: pelo Espírito que receberam. E de
onde eles sabem que receberam o Espírito? Resposta: pelos
prodígios que aconteceram e ainda acontecem no meio deles:
Ó gálatas insensatos!... Só isto quero saber de vós: foi pelas obras
da Lei que recebestes o Espírito ou pela adesão à fé? Sois tão insen
satos que, tendo começado com o espírito, agora acabeis na carne?
Foi tão em vão que experimentastes tão grandes coisas! Se é que
fui em vão! Aquele que vos concede o Espírito e opera milagres
entre vós o faz pelas obras da Lei ou pela adesão à fé? (Gl 3,1-5).
Em Gl 3,1-5 aparece uma conexão, que é da maior im
portância para nós: os milagres nas comunidades não podem
130 A iGreJA que JeSuS queriA
ser descritos apenas como sinais legitimadores que acompanham
o anúncio do Evangelho, mas também como sinais da presença do
Espírito. Evidentemente, os dois aspectos estão intimamente
relacionados entre si, pois a fé no Evangelho dá o Espírito.
No entanto é necessário realçar expressamente a conexão
entre a presença do Espírito e os milagres nas comunidades.
Exatamente aqui mostra-se novamente com que fidelidade
as linhas básicas da atividade de Jesus continuam na Igreja
primitiva. Como?
A peculiaridade característica do anúncio de Jesus está
no fato de os acontecimentos finais não serem agio exclusi
vamente futuro. O Reino de Deus já desponta. Diante dos
olhos daqueles que entendem os sinais dos tempos, já se tor
na presente. Que o Reino de Deus já está presente, mostra
se, sobretudo, nos milagres de cura de Jesus.
Contudo, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, en
tão o Reino de Deus já chegou até vós (Lc 11,20; cf. 17,21).
Pode-se estabelecer mesmo a seguinte regra: em toda a
parte onde Jesus fala da presença do Reino de Deus, ele pensa
nos seus milagres e nas suas obras de poder. A presença do
Reino de Deus, para Jesus, manifesta-se claramente na liber
tação dos homens de doenças e possessão.
A Igreja primitiva manteve firme esta peculiaridade
decisiva do anúncio de Jesus, que os acontecimentos finais
já começaram e que a salvação esperada já se faz presen
te? A resposta é um sim incondicional. As comunidades
do Novo Testamento mantêm firme a tensão entre o já da
presença da salvação que agora se realiza e o ainda não da
consumação que está para vir. A salvação já é presença -
mesmo que a consumação ainda não tenha chegado. No
entanto, a Igreja primitiva já quase não fala da presença
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 131
do Reino de Deus (cf. porém Rm 14,17; 1Cor 4,20). A sua
experiência decisiva, na qual ela compreendeu realmente
o já da salvação concedida, é a experiência do Espírito. A
efusão do Espírito de Deus esperada para o fim dos tem
pos já aconteceu, ele já age nas comunidades nos múltiplos
carismas. Jesus fala da presença do Reino de Deus; a Igreja
primitiva fala da presença do Espírito. A linguagem, por
tanto, mudou, partindo das experiências depois da Páscoa.
mas a linha básica da mensagem de Jesus continua: o futu
ro da salvação escatológica já começou!
Por causa disso não é por acaso que os milagres de Je
sus têm continuação na Igreja primitiva pelos milagres dos
mensageiros e carismáticos. E, muito menos ainda, é por
acaso que eles são descritos como milagres na força do Espí
rito (cf. At 2,13,9; 1Cor 12,9s; Gl 3,5). milagres e sinais fazem
parte da essência das comunidades do Novo Testamento,
do mesmo modo que eram essenciais para a proclamação de
Jesus. Onde a salvação de Deus se torna presente, doença e
possessão têm de desaparecer.
As nossas comunidades de hoje fariam bem em refle
tir, porque no meio delas não acontecem mais milagres
- ou porque ninguém mais conta os milagres que acon
tecem. Evidentemente hoje deveremos falar de maneira
muito mais diferenciada dos milagres do que os cristãos
da Igreja antiga. E devemos ter clareza de que existe, de
vido à história, uma mudança na maneira do desenrolar
dos milagres. Pois a cura concreta é sempre também a
realização inconsciente psicossomática de uma esperança
determinada e condicionada pela época e ambiente. Ape
sar disso, lá onde as comunidades cristãs se transformam
novamente em verdadeiras comunidades, vai começar o
milagre.
132 A iGreJA que JeSuS queriA
3. A ABOLIçãO DAS BARREIRAS SOCIAIS
No capítulo precedente encontramos o texto de Joel
3,1-5. manifestamente este texto desempenhou um papel
importante para a autocompreensão da Igreja antiga. É
pouco provável que tenha sido Lucas o primeiro a fazer
uso dele para interpretar os acontecimentos de Pentecos
tes. Joel 3,1-5 já poderia ter dado à comunidade primitiva a evidência de que os fenômenos extáticos e proféti
cos que nela irrompem abruptamente77 a partir do dia de
Pentecostes, signifiquem a efusão escatológica do Espírito.
O texto de Joel, porém, não colaborou apenas para uma
interpretação escatológica de glossolalia e profecia, ele
podia também tornar compreensível um fenômeno social
do qual cada vez mais se tomava consciência: os discípu
los de Jesus, que se reuniam em Jerusalém, tornaram-se
cada vez mais comunidade, a saber, uma comunidade, na
qual todos estavam tomados por Deus e assim também
entraram entre si num novo relacionamento, que excluiu
privilégios e marginalizações.
Joel anuncia esta nova estrutura social do povo de
Deus, quando diz: quando Israel for chamado novamente
à vida, Deus derramará seu Espírito sobre todo o povo. Is
rael inteiro vai-se tornar, então, um “povo de profetas”.78 O
dom do Espírito, a partir de então, não é mais o privilégio
de um profeta ou de um grupo de profetas. muito mais, to
dos em Israel tornam-se pessoas dotadas do Espírito: tanto
as mulheres como os homens, tanto os jovens como os ve
lhos, tanto os escravos como os livres:
77 Cf. sobre este tema G. loHfink, op. cit., 164-174.
78 H. W. wolff, Dodekapropheton 2 Joel und Amos (Bk.AT 14, 2), Neukirch-
en-Vluyn, 1969, 79.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 133
Sucederá nos últimos dias, diz o Senhor,
que derramarei do meu Espírito sobre toda carne.
Vossos filhos e vossas filhas profetizarão,
vossos jovens terão visões
e vossos velhos sonharão.
Sim, sobre meus servos e minhas servas
derramarei do meu Espírito (At 2,17s).
Vê-se claramente que o profeta não fala apenas da vinda
escatológica do Espírito de Deus, mas também da concessão
do Espírito a todo povo de Deus com a supressão de todas
as diferenças sociais. “Toda a carne” significa - como o con
texto mostra claramente - não a humanidade inteira, mas
o povo de Deus com todos os seus grupos e em toda a sua
extensão. As barreiras sociais em Israel são derrubadas pelo
Espírito; a experiência avassaladora do Espírito levou a uma
nova comunidade. Em At 2 esta dimensão social da profe
cia de Joel não é suprimida, mas, ao contrário, ainda mais
ampliada. É constatado expressamente, através de uma am
pliação do texto do Antigo Testamento (de acordo com a Se
tenta), que os servos e as servas não apenas têm participação
no Espírito, mas que também eles “profetizam”.
Se a nossa tese, anteriormente desenvolvida, que a pre
sença do Reino de Deus em Jesus corresponde à presença do
Espírito na Igreja primitiva, está certa; então a abolição das
barreiras sociais no povo escatológico de Deus, da qual a
comunidade primitiva tomou consciência a partir de Joel
3, deve ter tido o seu início já na Práxis-do-Reino-de-Deus,
por parte de Jesus. O Novo, que tomou forma na comuni
dade primitiva através das experiências pascais do Espírito,
deve ter sido, então, ao mesmo tempo, continuação daqui
lo que o próprio Jesus já iniciara. Este é também, realmen
te, o caso: é característico de Jesus edifica, constantemente,
134 A iGreJA que JeSuS queriA
comunidade79 - exatamente para aqueles que eram excluídos
da comunidade ou que eram desconsiderados do ponto de
vista religioso. Por sua palavra e, mais ainda, por seu compor
tamento concreto, Jesus deixa claro que não reconhece delimi
tações e desclassificações de caráter religioso-social. O Reino
de Deus não tolera classes e, em princípio, ele está aberto para
todos os homens em Israel que aceitam a mensagem de Jesus.
Jesus quer Israel como sociedade reconciliada. Por isso diri
ge-se aos ricos (Lc 19,1-10) e aos pobres (Lc 6,20), às pessoas
cultas (Lc 14,1-6) e às incultas (mt 11,25s), à população rural
da Galileia (mc 1,14) e à população urbana de Jerusalém (mt
23,37), aos que têm saúde e aos doentes (mt 4,23), aos justos
(apesar de mc 2,17) e aos pecadores (Lc 19,10). Deve-se até di
zer: Jesus tomou partido em favor dos pobres (Lc 7,22), dos
famintos (Lc 6,21), dos que choram (Lc 6,21), dos que estão
sobrecarregados (mt 11,28), dos doentes (mc 3,1-6), dos peca
dores (mc 2,17), dos cobradores de impostos (mt 11,19), das
prostitutas (mt 21,31s), dos samaritanos (Lc 10,25-37), das mu
lheres (mt 5,31s), das crianças (mc 10,13-16) - e fez isso, por
que a sociedade judaica do seu tempo negava a estes grupos a
igualdade e até a convivência. A palavra, muitas vezes usada
abusivamente para interpretação sentimentais, em mt 10,14:
Deixai as crianças virem a mim.
Não as impeçais,
pois delas é o Reino de Deus,
quer tornar claro que no Reino de Deus todos são pessoas
que recebem e, por isso, onde irrompe o Reino de Deus, não se
pode desqualificar religiosamente ninguém.
79 Cf. G. loHfink, Jesus hat Gemeinschaft hergestellt, em: o mesmo, Glaube
braucht Erfahrung, 3a ed., Wurzburg, 1977, 129-132.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 135
Isto quanto à práxis de Jesus! Antes de passarmos à
Igreja primitiva para verificar se ela continuou esta práxis,
deve ser abordada uma grave objeção: apesar de sua prá-
xis ousada, que rompia a consciência do seu tempo, Jesus
não se comportou de modo restritivo num ponto determina
do, a saber, em relação à mulher? Ele não aceitou nenhuma
mulher no círculo dos Doze, e ele celebrou a decisiva ceia
pascal antes da sua morte somente com homens. Com isso,
o papel da mulher no Reino de Deus não era maciçamente
desvalorizado? mais ainda: já não foram traçadas, com isto,
as linhas decisivas para a formação posterior das estruturas
ministeriais da Igreja?80
Poder-se-á chegar a uma avaliação errada nesta questão,
se não se tiver em conta que a constituição dos Doze por par
te de Jesus é uma ação simbólica profética. Os Doze discípulos
significam a pretensão de Jesus ao povo das doze tribos (cf.
1,2). A comunidade primitiva leva tão a sério esta dimensão
simbólica que, depois da saída de Judas Iscariotes, recons
titui imediatamente o número doze (At 1,15-26) - de outro
modo, o sinal teria perdido sua força simbólica. Do mesmo
modo faltaria força simbólica ao sinal, se Jesus tivesse admi
tido mulheres no círculo dos Doze. Pois os nomes das doze
tribos são os nomes dos filhos de Jacó: Rúben, Judá, Levi,
José, Benjamim, Dã, Simeão, Issacar, zabulon, Gad, Aser e
Neftali (Ez 48,30-35). Numa ação profética simbólica que
vive do fato de ser imediatamente compreensível, estas tribos
80 Assim a declaração da Congregação da fé “Sobre a questão da admis
são da mulher à função de sacerdotes” do dia 15 de outubro de 1976.
Lá argumenta-se: Jesus não chamou nenhuma mulher para fazer parte
do círculo dos Doze, embora o seu comportamento diante das mu
lheres fosse diferente, de maneira singular, daquele do seu meio am
biente. Conclusão: Jesus exclui, em princípio, a mulher da função de
sacerdote.
136 A iGreJA que JeSuS queriA
simplesmente não podem ser representadas por mulheres
- pelo menos num ambiente de mentalidade patriarcal. Se
Jesus tivesse tido essa ousadia, teria privado a própria ação
simbólica de luminosidade e de plausibilidade.
Agora já se pode compreender, porque Jesus celebrou
sua última ceia pascal apenas com homens. Em si, a ceia
pascal é uma ceia da família. Os peregrinos para a festa em
Jerusalém formavam comunidades de ceia (charurot) com
10 a 20 membros, que imolavam um cordeiro e o comiam.
uma comunidade de ceia, formada ad hoc podia ser compos
ta apenas por homens, mas normalmente participavam dela
também mulheres.81 No entanto, Jesus, neste caso especial,
não deixa participar nenhuma das mulheres que subiram
com ele a Jerusalém (mc 15,40s) da sua chabura, mas ele cele
bra a ceia pascal exclusivamente com os Doze:
Ao cair da tarde, ele foi para lá com os Doze. E quando estavam à
mesa, comendo, Jesus disse... (mc 14,17s).
Por que esta estranha exclusão das mulheres? A resposta
só pode ser a seguinte: na ceia, a dimensão dos sinais, que já an
tes tinha um papel extraordinário em Jesus, alcança a supremaconcentração. Jesus simboliza no pão e no vinho sua vida que
é entregue à morte. Sua morte, porém, é em favor de “muitos”:
Isto é meu sangue, o sangue da Aliança,
que é derramado em favor de muitos (mc 14,24).
Vimos que os “muitos” representam, primeiramente, Is
rael (I, 7). Israel, porém, na última ceia, não está presente ape
nas a nível de palavra interpretativa, mas também a nível de
81 Cf. billerbeck, op. cit., Tomo IV 44-46.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 137
sinal, isto é, na pessoa dos Doze. É aos Doze e a mais ninguém
que Jesus dá, num gesto solene, pão e vinho para deixar cla
ro que a entrega de sua vida, simbolizada no oferecimento
do pão e do vinho, é feita em favor do povo das doze tribos,
Israel. Também aqui teria sido destruída a claridade do sím
bolo, se Jesus tivesse celebrado sua última Páscoa com um
número qualquer de convivas ou com uma chabura mista de
homens e mulheres.
Levando a sério as ações simbólicas, sempre precisas em
Jesus, segue-se de nossas observações: a ausência de mulhe
res no círculo dos Doze ou no cenáculo não diz nada a res
peito da função que Jesus atribui à mulher dentro do povo
de Deus. Esta ausência é devida pura e simplesmente ao fato
de que os Doze representam as tribos de Israel - e tribos
não podem ser representadas por mulheres, pelo menos no
Oriente daquela época.
Não é no símbolo dos Doze, mas na composição do gru
po dos discípulos, que se pode ver qual foi, para Jesus, a
função da mulher dentro do Reino de Deus que já desponta.
E lá se mostra que Jesus integra mulheres no círculo de seus
discípulos com uma liberdade espantosa e sem consideração
para com as ideias do judaísmo da época. No final do trecho
da crucifixão, marcos narra que Jesus era acompanhado não
apenas por discípulos, mas também discípulas:
E também estavam lá algumas mulheres, olhando de longe. Entre
elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor e de Joset, e
Salomé. Elas o seguiam e serviam enquanto esteve na Galileia. E ain
da muitas outras que subiram com ele para Jerusalém (mc 15,40s).
Com base em outras informações, Lucas está em condi
ções de ampliar e modificar esta lista de nomes. Ele escreve
em 8,1-3:
138 A iGreJA que JeSuS queriA
Depois disso, ele andava por cidades e povoados, pregando e anun
ciando a Boa-nova do Reino de Deus. Os Doze o acompanhavam,
assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de espí
ritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual ha
viam saído sete demônios, Joana, mulher de Cuza, o procurador
de Herodes, Susana e várias outras, que o serviam com seus bens.
Para nós, é decisiva a notícia mais antiga em mc 15,40s.
Quando aí se diz que mulheres, das quais apenas três são
mencionadas nominalmente como representantes, serviam
Jesus durante sua atividade na Galileia, isso já indica que se
tratava de discípulas. Pois, já vimos antes (2,1) que, de acor
do com a compreensão judaica, o discípulo acompanhava
seu mestre auxiliando e servindo. mais importante, porém, é
o seguinte: marcos usa o verbo akolouthein (seguir), define,
portanto, o acontecimento contido na palavra “servir” com
o mesmo termo que caracteriza, na linguagem da Igreja pri
mitiva, a existência dos discípulos de Jesus. Podemos tirar
a conclusão: Jesus também chamou mulheres e as colocou a
serviço do Reino de Deus.
Ao grupo dos discípulos pertencem, portanto, homens e
mulheres. mais, conforme a vontade de Jesus, o grupo dos
discípulos já é o começo do povo escatológico de Deus. Nele
deve ser visto, representativamente, como é pensada a co
munidade do verdadeiro Israel. Com a integração natural
de mulheres dentro do grupo daqueles que o seguiam, Jesus
mostra: na nova ordem do Reino de Deus que se torna realidade
no povo escatológico de Deus, não deve existir a discriminação da
mulher - tão pouco quanto a discriminação dos pobres, dos fracas
sados e das crianças.
A Igreja primitiva manteve este programa? Pelo menos
Paulo assumiu-o de uma maneira congenial na sua teologia
e aprofundou-o ainda mais. Ele escreve em Gl 3,26-29:
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 139
Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, pois todos
vós que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há
judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem
mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus. E se vós sois
de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo
a promessa.
É importante ver a afirmação decisiva do versículo 28
dentro do seu contexto. Por isso citamos também o contex
to. Este mostra imediatamente: não se trata da humanidade
em geral, mas da descendência (do sêmen) de Abraão, trata
se daqueles que são herdeiros da promessa feita a Abraão,
trata-se da verdadeira filiação (cf. 3,1) - com uma palavra:
trata-se do povo de Deus. E, mais precisamente ainda, daque
le povo de Deus que aqui é determinado como unidade em
Jesus Cristo. Isto, porém, quer dizer: trata-se da Igreja. Ela é
o verdadeiro povo, o povo escatológico de Deus, que nasce
pela fé e pelo batismo. Aqueles que creem em Cristo e se
deixam incorporar no Corpo de Cristo pelo batismo (o texto
diz: deixar-se vestir de Cristo), em Jesus Cristo tornam-se
uma nova comunidade, na qual as divisões, que existem na
sociedade restante, são abolidas. Em 1Cor 12,12s, a ideia do
corpo aparece ainda mais clara e também foi entrelaçado
com o tema do Espírito:
Com efeito, o corpo é um e, não obstante, tem muitos membros,
mas todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam
um só corpo. Assim também acontece com Cristo. Pois fomos to
dos batizados num só Espírito para ser um só corpo, judeus e gre
gos, escravos e livres, e todos bebemos de um só Espírito.
Como em Joel 3, o Espírito cria uma nova ordem. Somente
pelo dom escatológico do Espírito, derramado abundantemente,
140 A iGreJA que JeSuS queriA
pode realizar-se a nova comunidade, que escapa às possibi
lidades humanas. Somente no Espírito é possível abolir as
barreiras étnicas e sociais, os interesses de grupos, diferen
ças de classes e domínio do sexo. O religioso e o social aqui
não se podem separar um do outro. Aquilo que acontece
“diante de Deus” na área da fé, tem consequências sociais
imediatas dentro da Igreja. Pois o povo de Deus, respecti
vamente, o corpo de Cristo, a Igreja, é uma realidade social.
Paulo não fala, pois, em Gl 3,28 e 1Cor 12,13, nem da
igualdade de todos os homens no sentido de uma cida
dania mundial geral, nem da igualdade dos fiéis apenas
“diante de Deus”. Ele fala, muito mais, do “início do novo
mundo de Deus que acontece com Cristo e já começou na
comunidade”82 - com consequências sociais bem concretas
para o povo de Deus.
Deve-se dizer que em Gl 3,28 e 1Cor 12,13 a profecia de
Joel e a práxis do Reino de Deus foram aproveitadas com
uma audácia surpreendente. Deve-se dizer também, que
aqui não é formulado apenas um programa. Por trás dos
textos citados (aos quais se deveria acrescentar ainda Cl
3,10s) está a práxis concreta das comunidades missionárias
de Paulo:
Aí não há mais nem judeu nem grego. Não é necessário mos
trar aqui em seus pormenores a luta de Paulo para integrar
plenamente os gentios incircuncisos no povo de Deus. Paulo
levou radicalmente até o fim aquilo que já fora começado,
antes dele, pelos helenistas (cf. At 11,19-26). Ele enfrenta
abertamente a Pedro quando este, em Antioquia, aboliu no
vamente a já praticada comunhão da mesa com os cristãos
vindos do paganismo. Para Paulo, este comportamento de
82 E. S. GerStenberGer-W. ScHrAGe, Frau und Mann (Biblische Konfronta
tionen), Stuttgart, 1980, 123.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 141
Pedro põe em risco, entre outras coisas, também a unidade
da Igreja no sentido de Gl 3,28. O que Pedro faz é, para ele, o
estabelecimento da distinção entre judeus e gregos no povo
de Deus.
Paulo, porém, não defendeu apenas com persistência
a liberdade doscristãos vindos do paganismo em relação
à Lei, também se esforçou constantemente para tornar vi
sível a comunhão eclesial com os judeu-cristãos na Judeia
que continuavam fiéis à lei. Sinal concreto desta comunhão
foi, para ele, a coleta para Jerusalém (Gl 2,9s) à qual ele
dedicou muito tempo (cf. 2Cor 8s) e que o levou, enfim,
à morte. Paulo afirmou em toda sua existência: “Não há
judeu nem grego”.
Também a frase: não há escravo nem livre não ficou apenas
em mera teoria. Paulo, certamente, nunca tentou lutar con
tra a antiga instituição da escravidão num nível universal
social. Para esta luta faltar-lhe-ia não só qualquer possibili
dade, mas uma luta como esta nem sequer podia estar nos
planos dele. Em vez disso, o seu interesse estava decidida
mente na comunidade. Onde a comunidade se reunia como
comunidade, onde ela representava o povo escatológico de
Deus, a diferença escravo-livre não podia ter papel algum. O
resultado concreto não nos é narrado nas epístolas de Paulo
porque era conhecido pelas comunidades. um ponto de re
ferência, pelo menos, nos dá a Epístola a Filêmon:
um escravo pagão, de nome Onésimo, escapara do cris
tão Filêmon. Ele recorrera a Paulo e fora convertido por este
para a fé cristã. Embora Paulo tivesse gostado de ficar com
Onésimo, mandou-o de volta a seu patrão - “não mais como
escravo, mas, bem melhor do que escravo: como um irmão
amado” (Fm 1s.). Que, nesse meio tempo, Onésimo fora bati
zado, não aboliu necessariamente sua condição de escravo,
mas o fato de se ter tornado para Paulo e Filêmon “irmão”,
142 A iGreJA que JeSuS queriA
isto é em cristão, foi uma mudança decisiva. Onésimo, no
futuro, é “igual a seu Senhor no serviço do Evangelho”.83
Ele participa das reuniões da comunidade de casa de Filê-
mon (Fm 1s) e nas celebrações eucarísticas desta comunida
de domiciliar, ele troca o ósculo de irmão com seu Senhor.84
Com certeza, este fato tem consequências para além das ce
lebrações da Eucaristia. Filêmon tratará Onésimo como seu
“irmão amado” - “segundo a carne e segundo o Senhor”
(Fm 16), isto é, não apenas no ambiente interno da fé e da
comunidade, mas também no relacionamento do dia-a-dia.
Sabemos, do Novo Testamento, muito pouco a respei
to do convívio concreto entre escravos cristãos com seus
senhores cristãos85 - a completa igualdade dos escravos no
âmbito da comunidade, porém, nunca foi contestada. Neste
assunto não existiam pontos de divergência. Acrescentando
que nas comunidades cristãs dos primeiros três séculos ha
via um número surpreendentemente elevado de escravos, e
que eles não foram excluídos nem sequer das funções ecle-
siais mais elevadas,86 torna-se aqui visível algo da nova or
dem escatológica do Reino de Deus.
Recentemente, porém, foi acentuada a antiga acusação
de que Paulo se tornou infiel ao cerne da própria mensagem
83 H. Gulzow. Christentum und Sklaverei in den ersten drei Jahrhunderten.
Bonn, 1969, 40.
84 Cf. P. Stuhlmacher. Der Brief an Philemon (EKK 18), 2a ed., Zurique/
Neukirchen-Vluyn, 1981, 42.
85 Nos textos 1Cor 7,17-24; Cl 3,22-4,1; Ef 6,5-9; 1Tm 6,1s; Tt 2,9s; 1Pd
2,18-25 trata-se, na maior parte, de parênese para escravos; estes tex
tos, porém, não esclarecem muito a nossa questão - com exceção de
1Tm 6,2.
86 Cf. A. von HArnAck, Die Mission und Ausbreitung des Christentums in den
ersten drei Jahrhunderten, Tomo I, 3a ed., Leipzig, 1915, 174-178; J. GnilkA.
Der Philemonbrief (HThK X4), Friburgo, 1982, 78-80 no extenso e valioso
excurso: “Die Sklaven in der Antike und im fruhen Christentum”.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 143
da justificação, por não ter combatido em público a antiga
sociedade escravagista e suas chamadas ordens sociais.87
Esta acusação, porém, desconhece o princípio fundamen
tal da teologia bíblica, que já encontramos várias vezes:
o assunto é realmente a transformação escatológica do
mundo inteiro, mas esta transformação supõe que o povo
de Deus viva primeiramente, ele mesmo, a nova realida
de. De resto, quando Paulo diz que na comunidade cristã
a distinção entre escravos e livres não desempenha mais
papel algum, as estruturas sociais do mundo antigo não
ficam sem ser atingidas. Pois não se pode atacar de ma
neira mais forte os sistemas associais e corruptos de uma
sociedade dominante do que formando em seu meio uma
contra-sociedade. Esta é, por sua mera existência, um ataque
muito mais eficiente às estruturas antigas do que todos os
programas de uma transformação geral do mundo que
pessoalmente nada exigem.
Sobre o terceiro antagonismo: não há homem nem mulher.
Não é evidente que as comunidades do Novo Testamento
ficaram longe da realização desta frase? Elas não negaram,
em larga escala, à mulher o acesso às funções eclesiais?
Deve-se conceder que lá, onde se forma a função ecle
siástica clássica, isto é, a função do bispo, a mulher é excluí
da desde o começo. À função dos epíscopos corresponde
no cristianismo judaico a função dos presbíteros, e também
aqui é muito duvidoso, se uma mulher conseguiu chegar a
ser “presbítera”. Quando foi desenvolvida a tríade clássi
ca das funções bispo, diácono e presbítero, a mulher partici
pava apenas do diaconato - e, também só no Oriente, não
87 Esta crítica é levantada especialmente por S. ScHulz, Gott ist kein Skla
venhalter. Die Geschichte einer verspäteten Revolution, zurique/Hambur-
go, 1972.
144 A iGreJA que JeSuS queriA
no Ocidente.88 É discutido até hoje o momento em que lhe
foi proibido de falar em público e ensinar nas reuniões das
comunidades. A decisão depende de se considerar 1Cor
14.34s como interpelação posterior ou não. muitas coisas fa
lam contra a autenticidade deste trecho, especialmente 1Cor
11,5. De qualquer modo, as epístolas pastorais, no fim do
primeiro século, acentuam que não é permitido à mulher en
sinar em público (1Tm 2,11s). A delimitação frente à gnose,
de necessidade vital para a Igreja, contribuiu, provavelmen
te, para este desenvolvimento. Em todo o caso é certo que o
programa de Gl 3,28 com respeito à mulher já não está sendo
mais realizado no segundo século.
Este resultado negativo, porém, não nos deve levar a
passar por alto o tempo inicial da Igreja. Nas primeiras déca
das, a mulher desempenhou dentro da Igreja um papel bem
diferente daquele que estamos acostumados a ver mais tar
de. Naquela época ainda era possível que mulheres se apre
sentassem como profetisas sem que se formasse logo uma re
sistência dentro da Igreja. O evangelista Filipe tinha quatro
filhas que profetizavam (At 21,8s) - certamente, não dentro
do seu quarto, mas diante da comunidade reunida. Também
Paulo pressupõe, sem nenhuma discussão, em 1Cor 11,5-16,
que mulheres profetizam na celebração. Ele exige apenas
que façam isto “com a cabeça coberta” (com traje de cabeça
correspondente aos bons costumes?). De resto, é evidente
para Paulo, que o Espírito concede a todos dentro da Igreja o
carisma, que quer dar (1Cor 12,11). Por que não o carisma da
profecia a mulheres? Para uma avaliação correta do fenôme
no da profecia feminina dentro da Igreja primitiva, deve-se
considerar o seguinte: naquele tempo, profecia é muito mais
88 Para o diaconato da mulher na visão do Novo Testamento cf. G. loHfink,
Weibliche Diakone im Neuen Testament: Diakonia 11 (1980), 385-400.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 145
do que predição. Profecia também é interpretação do tem
po presente, condenação, exortação, consolação, anúncio da
vontade de Deus, condução da comunidade para uma meta
concreta, desejada por Deus. A vasta gama da ação profética
estende-se até aquilo que hoje chamaríamos direção da co
munidade.
Tão importante como a atividade profética de mulheres
na Igreja primitiva é o serviço de casais missionários. Temos que
mencionar Pedro e sua mulher (1Cor 9,5), áquila e Prisca (Rm
16,3-5), Andrônico e Júnia (Rm 16,7). Aqueles de que temos
maior quantidade de notícias são áquila e Prisca.89 São mencionados sempre juntos; ambos participavam ativamente das
obras das missões. Com sua fidelidade e abnegação, devem ter
sido uma ajuda extraordinária para a missão de Paulo, de modo
que Paulo pôde dizer que todas (!) as comunidades cristãs do
gentios lhes devem gratidão (Rm 16,4). Ele chama a ambos ex
pressamente seus “colaboradores” (Rm 16,3). E ainda é signifi
cativo que Prisca geralmente é mencionada antes do marido.90
H. J. klAUCk91 explica certo: “Isto não se pode compreender
como cortesia... ao contrário, aqui estão sendo quebradas as an
tigas convenções. Tudo isso mostra a importância especial desta
mulher para a missão cristã primitiva. Ela desenvolvia sua am
pla atividade a partir da base de sua comunidade doméstica...”
um outro casal missionário que é mencionado na lista
dos cumprimentos em Rm 16, é Andrônico e Júnia.92 Como
89 A respeito de Aquila e Prisca cf. W. H. ollroG, Paulus und seine Mi
tarbeiter. Untersuchungen zu Theorie und Praxis der paulinischen Mission
(WmANT 50), Neukirchen-Vluyn, 1979, 24-27.
90 Cf. At 18,18.26; Rm 16,3; 2Tm 4,19.
91 H. J. klAuck, Hausgemeinde und Hauskirche im fruhen Christentum (SBS
103), Stuttgart, 1981, 26.
92 Cf. para o seguinte B. brooten, “Junia ... hervorragend unter den
Aposteln” (Rm 16,7), em: E. Moltmann - Wendel (ed.), Frauenbefreiung,
146 A iGreJA que JeSuS queriA
áquila e Prisca, eles são judeu-cristãos. Paulo diz deles que
já tinham chegado à fé antes dele e que são “considerados
entre os apóstolos” (Rm 16,7). Isto dificilmente se pode ex
plicar de outro modo que pelo fato de neles (como em Pau
lo) a conversão e a vocação terem coincidido. Ambos per
tenciam, evidentemente, àquele grupo maior de apóstolos
que, segundo 1Cor 15,7, teve uma aparição do Ressuscitado.
Por algum tempo eles trabalharam juntos com Paulo na obra
missionária (a partir de Antioquia?) e, certo dia, foram pre
sos, juntos com ele (Rm 16,7).
Júnia foi considerada, sem exceção, pelos Padres da
Igreja como apóstolo feminino. Somente a partir da Idade mé
dia, seu nome foi interpretado cada vez mais frequentemen
te como nome de homem, porque não se queria admitir que,
nas origens da Igreja, uma mulher era apóstolo e ainda por
cima era designada por Paulo como “considerada entre os
apóstolos”.
Prisca e Júnia podem mostrar-nos que a atividade mis
sionária das mulheres no primeiro século não se limitava, de
modo algum, a obras de caridade e ao âmbito da família. A
menção de Evódia e Síntique em Fl 4,2s confirmam este fato.
Paulo designa as duas mulheres como “suas companheiras
na luta pelo Evangelho”. De outras mulheres, a saber, de
maria, Trifena, Trifosa e Pérside, ele diz em Rm 16,6.12, que
“se afadigaram no Senhor”. “Fadiga” e “afadigar-se” são ter
mini technici de Paulo para um duro trabalho missionário.93
Não se deve subestimar a função da mulher na obra
missionária de Paulo e também na missão cristã aos gentios
em geral. O capítulo 16 da Epístola aos Romanos ilumina,
Biblische und theologische Argumente, 2a ed., munique/mainz, 1978, 148
151; ainda G. loHfink, op. cit., 391-395.
93 Cf. W. H. ollroG, op. cit., 75.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 147
por um momento, de modo surpreendente uma área da qual
quase não temos notícias. Com base naquilo que Paulo diz
aí, mais acidentalmente, podemos admitir com certeza, que
soube ganhar um grande número de colaboradores para sua
obra missionária, aproveitando os carismas da mulher para
o anúncio do Evangelho e, assim, cumprindo, também neste
aspecto, seu programa formulado em Gl 3,28: “não há ho
mem nem mulher”.
O fato de a realização de Gl 3,28 dar certo, pelo me
nos aproximadamente, dependia não apenas do exemplo
do apóstolo e da estrutura carismática de suas comunida
des, mas também do fato de os cristãos se reunirem para
o culto em comunidades domésticas, ainda relativamente
pequenas e simples, das quais dava para ter uma visão. P.
STUHlMAcHER diz acertadamente:94 “O significado das co
munidades domésticas do cristianismo antigo não devia
ser subestimado. O próprio Paulo viveu e ensinou em co
munidades domesticas e fundou tais comunidades. Para
ele não era apenas as grandes comunidades, mas também
a comunidade doméstica o lugar onde eram rompidas e se
tornavam irrelevantes, em favor da nova vinculação de to
dos a Cristo enquanto Senhor e a partir dela, as barreiras
sociológicas e etnorreligiosas entre judeus e gentios, livres
e escravos, homens e mulheres, ricos e pobres, culto e in
culto, tão profundas na Antiguidade (Gl 3,27; 1Cor 1,26ss;
12,12s). Eram exatamente também as comunidades domés
ticas os lugares, onde os cristãos, através das celebrações
em comum da ceia do Senhor, cresciam para serem o único
e pluriforme Corpo de Cristo, a comunhão dos reconcilia
dos. Onde isto acontecia, podia-se falar, sem cair no perigo
de um entusiasmo ingênuo, da comunidade como ‘nova
94 P. STUHlMAcHER, op. cit., 74.
148 A iGreJA que JeSuS queriA
criação', isto é, da prefiguração do mundo novo de Deus. E
podia-se falar também da obrigação e realidade de uma vida
nova (Gl 6,15s; Rm 6,44)”.
4. A PRÁxIS DA RECIPROCIDADE*
Estamos examinando, através de uma amostragem ba
seada na literatura epistolar do Novo Testamento, se a prá-
xis do Reino de Deus em Jesus foi continuada na Igreja pós-
pascal. No capítulo precedente mostrou-se que a intenção
de Jesus de transformar o povo de Deus dividido e doente
numa sociedade reconciliada foi continuada na união de ju
deus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres das co
munidades missionárias de Paulo.
Devemos seguir esta união para além do programa de
Gl 3,28. Poder-se-ia fazer isso, por exemplo, a partir do ter
mo comunhão (koinonia), altamente importante para a Igreja
primitiva.95 Vamos, porém, em seguida, partir de um con
ceito bem diferente ou melhor: de um fenômeno linguístico,
onde podemos estudar com maior clareza e exatidão a causa
da reciprocidade do que a partir do termo da communio ecle-
sial. Trata-se do insignificante pronome recíproco “uns aos
outros” (allêlõn).96 O Dicionário Teológico do Novo Testa
mento de kITTEl-fRIEDRICH, de dez volumes, que até mencio
na preposições isoladas, não dedica nenhum artigo a allêlõn,
embora se pudesse desenvolver com base nesta pequena
palavra uma parte importante da teologia da comunidade
* Derivado do adjetivo recíproco. O original usa o termo Miteinander, que,
traduzido literalmente, significa: uns com os outros (N. do T.).
95 Cf. At 2,42; Rm 15,26; 2Cor 8,4; 9,13; Gl 2,9; Fl 2,1; Hb 13,16; 1Jo 1,3.7.
96 No lugar do pronome recíproco allêllõn aparecem no Novo Testa
mento também às vezes heautos (Ef 4,32; Cl 3,13.16; 1Ts 5,13; Hb 3,13;
1Pd 4,8.10) ou heis ton hena (1Ts 5,11).
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 149
cristã antiga. Vejamos a lista seguinte que não faz questão
de ser completa:97
ter carinho uns para com os outros (Rm 12,10)
ter a mesma estima uns pelos outros (Rm 15,14)
acolher-se uns aos outros (Rm 15,14)
admoestar-se mutuamente (Rm 15,14)
saudar-se uns aos outros com o ósculo santo (Rm 16,16)
esperar uns aos outros (1Cor 11,33)
ter igual solicitude uns com os outros (1Cor 12,25)
colocar-se a serviço uns dos outros (Gl 5,13)
carregar o peso uns dos outros (Gl 6,2)
consolar-se mutuamente (1Ts 5,11)
edificar-se mutuamente (1Ts 5,11)
viver em paz uns com os outros (1Ts 5,13)
procurar o bem uns dos outros (1Ts 5,15)
suportar-se uns aos outros com amor (Ef 4,2)
ser bondosos e compassivos uns com os outros (Ef 4,32)
submeter-se uns aos outros (Ef 5,21)
perdoar-se mutuamente (Cl 3,13)
confessar uns aos outros, os pecados (Tg 5,16)
orar uns pelos outros (Tg 5,16)
praticar o amor fraternal (1Pd 1,22)
ser hospitaleiros uns para com os outros (1Pd 4,9)
revestir-se de humildade nas relações mútuas (1Pd 5,5)
estar em comunhão uns com os outros (1Jo 1,7).
Já à primeira vista, a lista mostra que a estrutura linguís
tica da reciprocidade tem seu lugar, dentro da literatura das
epístolasdo Novo Testamento, na admoestação (paráclese).
97 Os demais textos são Rm 1,12; 12,5.10; 13,8; 14,19; 15,5; 1Cor 16,20;
2Cor 13,12; Ef 4,25.32; Fl 2,3; Cl 3,13; 1Ts 3,12; 4,9.18; 2Ts 1,3; Hb 10,24;
5,14; 1Jo 3,11.23; 4,7.11.12; 2Jo 5.
150 A iGreJA que JeSuS queriA
O uso do pronome recíproco é muito frequente e de várias
maneiras nas epístolas paulinas autênticas e naquelas que
estão dentro da tradição paulina (Ef, Cl, 1Pd). Existe apenas
uma exceção. Nas epístolas pastorais (1Tm; 2Tm; Tt) allêlõn
não aparece, nem mais uma vez, no sentido positivo - um si
nal claro, de que aí a responsabilidade mútua dos membros
da comunidade, tão importante para Paulo, não era mais as
sunto de carta.
Para tornar mais visível a temática da reciprocidade na
eclesiologia do Novo Testamento, vamos pegar da nossa lis
ta uma das fórmulas. Escolhemos “edificar-se uns aos ou
tros” (1Ts 5,11).
Por trás da palavra “edificação” (oikodome / oikodomein)
está escondido um dos conceitos mais importantes do Novo
Testamento,98 que, mais tarde, no pietismo, teve uma reper
cussão extraordinária. Aí, porém, teve início uma evolução,
em que o conceito “edificação” foi reduzido à vida religiosa
interior da personalidade cristã. Paulo, pelo contrário, pen
sava principalmente na edificação da comunidade local, na
qual, para ele, a Igreja tomava forma concreta. A partir do
conceito de edificação poder-se-ia desenvolver uma boa parte
da eclesiologia de Paulo.
As raízes do discurso cristão de edificação estão no Anti
go Testamento, especialmente em Jeremias. Nele os termos
“edificar e destruir” formam um lema (cf. Jr 1,10). Deus pode
edificar povos, também pode destruí-los (Jr 12,14-17). mas so
bretudo: depois de terminado o exílio, Deus vai edificar Israel
para ser uma comunidade nova:
98 Para o tema seguinte aproveitei com gratidão do trabalho de PH. vie
lHAuer: OIKDOME. Das Bild vom Bau in der christlichen Literatur Vom
Neuen Testament bis Clemens Alexandrinus, em: o mesmo, Oikodome. Au
fsätze zum Neuen Testament, Tomo 2 (TB 65), munique, 1979, 1-168.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 151
Eis que dias virão - oráculo de Iahweh -
em que semearei a casa de Israel e a casa de Judá
com uma semente de homens e uma semente de animais.
E assim como velei sobre eles
para arrancar, para arrasar,
para exterminar e para afligir,
assim também velarei sobre eles
para construir e para plantar, oráculo de Iahweh
(Jr 31,27s).
O texto mostra: “edificar” significa levantar, chamar à
vida e está relacionado imediatamente com o povo de Deus.
Esta relação torna-se mais evidente ainda no discurso de
Deus em Jr 24,5-7:
Eu vou olhar com bondade aos exilados de Judá
que eu mandei deste lugar para o país dos caldeus.
Vou colocar os meus olhos sobre eles para o bem
e fazê-los retornar a esta terra.
Eu vou reconstruí-los e não demoli-los,
plantá-los e não arrancá-los.
Dar-lhes-ei um coração para que me conheçam,
que eu sou Iahweh.
Eles serão o meu povo
e eu serei o seu Deus,
porque eles retornarão a mim de coração.
Paulo compreende sua própria vocação à luz da vocação
de Jeremias, como mostram o início da Epístola aos Romanos
(1,1-7) e Gl 1,15. Ele toma de Jr 1,4-10 a fórmula do edificar e
destruir. Ele recebeu de Deus o poder de “edificar” a comu
nidade de Corinto, “não de destruí-la” (2Cor 10,8; 13,10). A
edificação das comunidades é ministério apostólico. Nisso,
152 A iGreJA que JeSuS queriA
Paulo distingue ainda entre a colocação do fundamento das
comunidades e a construção posterior. A construção ou
tros vão fazer; sua função específica é, como primeiro, co
locar em toda parte o fundamento que é Cristo (1Cor 3,6.10;
Rm 15,20).
Lembremo-nos da intenção de Jesus de reconstituir Is
rael (cf. 1,1-8)! Parece que o conceito paulino da edificação das
comunidades corresponde exatamente à expressão da reconsti
tuição de Israel em Jesus. Jesus teria então recorrido mais a Eze-
quiel, Paulo mais a Jeremias. Jesus sabe que é o próprio Deus
que reconstitui seu povo (mt 6,9). E, apesar disso - este é seu
segredo - ele mesmo reconstitui Israel (mt 12,30; 23,37). Do
mesmo modo, Paulo sabe que a reunião dos gentios é a gran
de obra escatológica de Deus (Rm 14,20; 15,18; 1Cor 3,9). E,
apesar disso, a edificação das comunidades cristãs gentílicas
é sua tarefa apostólica fundamental. Ambos, Jesus como Paulo,
estão interessados na reconstituição, respectivamente edificação do
único povo de Deus, que agora, no fim dos tempos, vai ser constituí
do definitivamente, conforme a vontade inalterável de Deus.
Em virtude de tudo isto deveria estar claro: edificação
não se refere ao indivíduo que deve amadurecer para uma
personalidade espiritual, mas à Igreja que, para Paulo, existe
nas comunidades locais concretas. PH. vielHAuer exprime-o
de uma forma muito bela:99
“A meta dos caminhos de Deus não é o indivíduo pie
doso, mas a Igreja una, Santa, universal no sentido radical
mente escatológico do Novo Testamento; sua criação e con
servação, promoção e realização são designados por Paulo
com oikodomein”.
É fascinante que Paulo só raramente fala do seu po
der apostólico de construir comunidades. Ele fá-lo apenas,
99 PH. vielHAuer, id., 108.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 153
quando é forçado por seus adversários (como em Corinto;
cf. 2Cor 10,7,9; 13-10). Quando fala da “edificação da comu
nidade”, então fala no contexto da responsabilidade que todos
na comunidade têm uns para com os outros.
Esta responsabilidade mútua mostra-se, por exemplo,
no culto. O culto daquele tempo tinha uma variedade de
formas, nas quais a comunidade podia participar e onde os
carismas podiam desenvolver-se.
Quando estais reunidos, cada um de vós pode cantar um cântico,
proferir um ensinamento ou uma revelação, falar em línguas ou
interpretá-las (1Cor 14,26).
um problema, porém, é o falar em línguas, a glossolalia.
Ela é um louvor das obras maravilhosas de Deus numa língua
extática, incompreensível. Quem, no culto, fala em línguas,
tem muito proveito para si mesmo - Paulo diz: ele edifica-se
a si mesmo -, os outros, porém, não têm proveito nenhum.
Pois ninguém o entende. Quem, pelo contrário, profetiza, fala
de modo compreensível, “ele edifica, ele anima, ele consola”
(1Cor 14,2-4). Por isso. Paulo exige um culto estruturado de
tal maneira, que edifique a comunidade (14,26). As orações
extáticas somente são permitidas quando são interpretadas
depois para todos (14.13.27s). mas também o falar profético
deve ser um depois do outro, não desordenadamente - para
que seja compreensível para todos (14,29-33).
Em tudo isto torna-se claro: a edificação da comunida
de reunida para o culto não é apenas tarefa do dirigente
da reunião (de um dirigente, neste sentido, Paulo não diz
nada em 1Cor 14), mas tarefa de todos que estão reunidos.
uma meta como esta, naturalmente, não pode ser alcançada
sem uma forma altamente comunicativa de culto. mas Pau
lo quer, exatamente, que aconteça no culto um máximo em
154 A iGreJA que JeSuS queriA
comunicação cheia de sentido e edificante. Ele quer que os
participantes do culto esperem uns pelos outros, saúdem-se
uns aos outros, encoragem-se uns aos outros, consolem-se
uns aos outros, admoestem-se uns aos outros, ensinem uns
aos outros e cuidem uns dos outros. Em outras palavras, a
lista no começo deste capítulo está relacionada não apenas
com o cotidiano dos cristãos daquele tempo, mas também
em grande parte com um comportamento no culto, esperado e
desejado por Paulo.
Então, o olhar para 1Cor 14 parece um olhar para um
mundo diferente. Se Paulo já estava tão infeliz por causa de
uma glossolalia que destruía a comunicação, o que ele teria
dito sobre a grande maioria das celebrações dominicais de
hoje na Europa central, nas quais quase não acontece mais
comunicação social e, quando acontece, é extremamente ri-
tualizada? Onde, em nossas celebrações, o visitante normal
(já a expressão é significativa) tem a possibilidadede edifi
car o restante da comunidade com um consolo, um ensina
mento, com um conhecimento dado pelo Espírito, com um
(novo) salmo (que ele mesmo compôs)?
Deve-se continuar ainda mais. Até formas ritualizadas
de comunicação, com a saudação da paz, encontram, entre
nós, não raras vezes, indiferença ou rejeição. O que diriam os
“visitantes do culto” de hoje, se fossem convidados a trans
mitir a paz da maneira como era costume nas comunidades
do cristianismo antigo: “Saudai-vos uns aos outros com o
ósculo santo” (Rm 16,16; 1Cor 16,20; 2Cor 13,12; 1Pd 5,14)?
Para ser justo, porém, deve-se dizer que a saudação da
paz, introduzido novamente, em parte, foi recebido com
entusiasmo. Por trás deste entusiasmo está o desejo de um
culto mais humano, mais comunicativo. Tanto a rejeição
como o desejo é sinal de que muita coisa não está certa em
nossas celebrações. Elas não levam a estar uns com os outros,
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 155
mas uns ao lado dos outros. E o fato, de as nossas celebrações
impedirem tanto a expressão comunitária, é, novamente,
apenas um sinal de que, em nossas comunidades, a comu
nicação fora da celebração não funciona. Apenas acontece
em forma bem reduzida. Aquilo que está na lista, no início
deste capítulo, existe, na verdade, muitas vezes no “âmbito
privado” cristão, mas muito mais raramente a nível da co
munidade cristã.
Também as comunidades cristãs primitivas terão fracas
sado muitas vezes naquilo que Paulo exigia delas nas suas
exortações. Não se trata, de maneira alguma, neste livro, de
pintar um quadro romântico-ideal da Igreja primitiva. Já a
simples leitura da primeira Epístola aos Coríntios impede de
o fazer. O que é realmente perigoso não é a nossa culpa ou o
nosso fracasso. O que é realmente perigoso é o fato de nem
sequer estarmos mais conscientes de distanciarmos bastante
daquilo que comunidade e povo de Deus, conforme o Novo
Testamento, deviam ser. Consideramos a realidade das nos
sas grandes comunidades, anônimas, bem administradas,
mas praticamente sem comunicação normal talvez até dese
jada por Deus. Não percebemos mais, quão pouco se podem
realizar, neste tipo de paróquias, exigências elementares de
vida comunitária do Novo Testamento, por exemplo:
ter a mesma estima uns pelos outros (Rm 12,16)
ter igual solicitude uns com os outros (1Cor 12,25)
edificar- se mutuamente (1Ts 5,11)
confessar, uns aos outros, os pecados (Tg 5,16)
admoestar-se mutuamente (Rm 5,14).
Permaneçamos, mais um momento, com a última fra
se: admoestar-se mutuamente. Paulo escreve à comunidade
de Tessalônica: “Nós vos exortamos, irmãos: admoestai os
156 A iGreJA que JeSuS queriA
indisciplinados” (1Ts 5,14). O contexto mostra que Paulo
quer proteger esta exortação contra mal-entendidos e exage
ros. Pois ele continua:
Reconfortai os pusilâmines,
sustentai os fracos;
sede pacientes para com todos.
mas esta proteção, certamente necessária, não muda
nada a afirmação de que Paulo considera a admoestação
mútua de importância vital dentro da comunidade cristã.
Isto mostra também Rm 15,14:
Pessoalmente estou convicto, irmãos, de que estais cheios de
bondade e repletos de todo conhecimento e em grau de vos poder
admoestar mutuamente.
Gl 6,1 prova, afinal, como a exortação para a admoestação
mútua está firmemente enraizada na paráclese de Paulo:100
Irmãos, caso alguém seja apanhado em falta, vós, os espirituais,
corrigi esse tal com espírito de mansidão, cuidando de ti mesmo,
para que também tu não sejas tentado.
Paulo diferencia aqui muito cuidadosamente: examinar
a própria consciência é algo que cada um deve fazer para si
(singular!). Trazer de volta ao bom caminho o irmão ou a
irmã é algo que todos devem fazer (plural!). Eles podem fa
zê-lo porque todos eles são espirituais. mostra-se novamente,
como o cumprimento de Joel 3 é tomado a sério na Igreja
100 Cf. também ainda os reflexos da prática paulina em 2Ts 3,15 e
1Tm 5,20.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 157
primitiva. A comunidade toda recebeu o Espírito e por isso
tem direito e capacidade de conduzir o culpado à conversão.
A prática da admoestação mútua não existe apenas nas co
munidades de Paulo. Textos como Tg 5,19s e Didaquê 15,3 mos
tram isso. Em mt 18,15-17, o caminho da admoestação fraterna
até é regulado num procedimento de três níveis: primeiro, a
admoestação deve acontecer entre duas pessoas; se não adian
tar, então na presença de uma ou duas testemunhas; se tam
bém não der certo, então, por fim, diante da comunidade toda.
Os textos mencionados tornam claro: uma falha grave
de um membro da comunidade não é considerada, na Igreja
primitiva, assunto particular que o indivíduo tem de resol
ver sozinho com Deus. Existe, muito mais, a convicção: uma
falha afeta a comunidade toda, ela prejudica a comunhão,
ela é sua própria deficiência.101 uma visão de pecado como
esta, com certeza, pressupõe uma consciência altamente in
tensiva de comunidade.
Devemos considerar mais um ponto: a admoestação
correta exige muito daquele que admoesta: por exemplo, a
coragem de se deixar admoestar também a si mesmo; mas
também o conhecimento de que, numa comunidade verda
deiramente fraterna, conflitos não podem ser reprimidos ou
ocultos artificialmente, mas devem ser esclarecidos a todo
custo. A coragem de admoestar outros, bem como a humil
dade de se deixar admoestar a si mesmo, são dos indícios
mais seguros para saber, se existe comunidade verdadeira,
se existe consciência de comunidade.
Novamente, como já no fenômeno da edificação mútua, de
ve-se permitir a pergunta: ainda existe hoje, nas comunidades
paroquiais comuns das grandes Igrejas cristãs algo semelhante
101 Cf. N. brox, Fruhkirchliche und heutige Nöte mit der chistlichen Gemeinde:
Diakonia 11 (1980), 364-384, aqui 369s.
158 A iGreJA que JeSuS queriA
à admoestação fraterna? Se não - qual é o motivo? O motivo
não é que não existe mais a consciência de ser comunidade
diante de Deus, onde existe solidariedade, responsabilidade e
que tem uma história comum de salvação e também de culpa?
mostra-se assim, numa observação mais exata, que no
termo allêlõn, à primeira vista tão insignificante, existe um
critério muito duro para a realidade de comunidade. A lista
no começo do capítulo é tudo menos insignificante. Ela con
tém uma decisão eclesiológica fundamental. Por trás dela
está, em última análise, a intenção de Jesus de reconstituir o
povo de Deus para ser comunidade verdadeira.
5. O AMOR FRATERNO
Jesus promete àqueles que o seguem em seus caminhos
pela Palestina e que, por esta razão, deixaram suas famílias, já
agora, no tempo presente, o cêntuplo de tudo que deixaram:
de agora em diante, Deus é seu pai (mt 23,9), e eles recebe
rão em abundância mães, irmãos e irmãs (mc 10,29s). Como
vimos (cf. 2,3), é este o programa de uma nova família. Esta
nova família, porém, não deve abranger apenas os sucessores
imediatos de Jesus, mas todos que aceitam sua mensagem do
Reino de Deus e, assim, cumprem “a vontade de Deus”:
Quem fizer a vontade de Deus,
esse é meu irmão, irmã e mãe.
(mc 3,35).
Pois, no meio do antigo povo de Deus, começou agora o
Israel escatológico, onde as estruturas familiares antigas ou
são suprimidas ou, pelo menos, relativizadas.102
102 Cf. W. ScHrAGe, op. cit., 124.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 159
Também neste ponto a Igreja primitiva permaneceu fiel
a Jesus. Ela continuou o programa da nova família e conti
nuou a refleti-lo. Nesta tarefa, uma função importante é de
sempenhada pelos apóstolos e missionários itinerantes do
cristianismo primitivo, que são os que transmitem do modo
mais intensivo a ética radical de Jesus103 e procuram realizá-
la em suas próprias vidas. Eles praticam a tropous Kyriou,
a “maneira de viver como o Senhor” (Didaquê 11,8). mais
tarde, a tradição destes missionários itinerantes será assu
mida e levada adiante pelo ascetismo sírio, pelos mongesir
landeses e escoceses, pelos franciscanos e dominicanos. Em
geral, o programa da nova família permanecerá vivo dentro
da Igreja, sobretudo pelo monaquismo.
No início, porém, ao lado dos missionários itinerantes e
seus simpatizantes, são as comunidades domésticas do cris
tianismo primitivo o lugar próprio, onde a fraternidade cristã
pode ser realizada concretamente. Em cada cidade onde vi
vem cristãos, existem uma ou mais famílias que oferecem
suas casas para as reuniões da comunidade.104 Os donos des
tas casas desenvolvem, muitas vezes, uma viva atividade
missionária (cf. Prisca e áquila); com hospitalidade abnega
da transformam suas casas em centros de vida comunitária
e também em pontos de apoio para cristãos que estão de
passagem. E não abrigam apenas os mensageiros que via
jam por incumbência de uma comunidade, mas também
acolhem com hospitalidade os cristãos que estão em viagem
103 Cf. G. tHeiSSen. Wanderradikalismus Literatursoziologische Aspekte der
Uberlieferung von Worten Jesu im Urchristentum, em: o mesmo, Studien
zur Soziologie des Urchristentums (WuNT 19), Tubingen, 1979, 79-105.
tHeiSSen, porém, desenha um abismo profundo demais entre carismá
ticos itinerantes e comunidades locais. As passagens eram mais bran
das e a simpatia mútua maior.
104 Cf. At 12,12; Rm 16,5.23; 1Cor 16,15.19; Cl 4,15; Fm 2.
160 A iGreJA que JeSuS queriA
por conta própria, por exemplo, por motivos profissionais.
O acolhimento de “irmãos” desconhecidos desempenha um
papel importante na Igreja primitiva.105 De um modo geral
deve-se dizer que a estrutura da família nova e aberta, que
abre suas próprias fronteiras em direção à comunidade, se
mostra de modo exemplar nas famílias daqueles que ofe
recem suas casas à comunidade. No ambiente das comuni
dades domésticas a fraternidade é vivida concretamente.
Quando mateus fala para sua comunidade:
Quanto a vós, não permitais que vos chamem ‘Rabi',
pois um só é vosso mestre
e todos vós sois irmãos (mt 2,8),
“irmão” não é uma determinação eclesiológica (Igreja como
irmandade). Por trás desta frase está muito mais a práxis
bem concreta nas comunidades: eles tratam-se uns aos ou
tros de “irmão e irmã”. Este tratamento, que hoje é limitado
a seitas, comunidades religiosas ou “confrades no ministé
rio sacerdotal” era, na Igreja primitiva, o tratamento natural
dentro das comunidades. O “irmão” e a “irmã” são os com
panheiros da fé cristã.
Do ponto de vista da linguagem, isso não constitui no
vidade. Já a reforma deuteronômica introduzira em Israel o
tratamento de irmão. Também nas antigas associações de cul
to, em Qumran e no judaísmo em geral, o companheiro de
fé é tratado de “irmão”. Não é a linguagem, portanto, que é
nova. Nova é a motivação: a fraternidade das comunidades
da Igreja primitiva está fundamentada na efusão escatológica
105 Cf. Rm 12,13; 16,1-2; Hb 13,2; 1Pd 4,9. A respeito do tema: F. J. ortkemPer,
Leben aus dem Glauben. Christliche Grundhaltungen nach Röm 12-13
(NTA 14), munster, 1980, 208-210. 247.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 161
do Espírito. Pois a experiência do Espírito significa, ao mes
mo tempo, a experiência da filiação divina prometida para o
fim dos tempos (Rm 8,14-16; Gl 4,5-7). A consciência, porém,
de ser filhos e filhas amados de Deus, faz com que todos se
tornem irmãos uns dos outros.
Com certeza, “irmão” e “irmã” não são apenas palavras
bonitas; mas o espírito da fraternidade é concretamente pal
pável. Ouçamos, novamente, como Paulo escreve a Filêmon
por causa do escravo fugitivo Onésimo:
É na qualidade de Paulo, velho e agora também prisioneiro de
Cristo Jesus, que venho suplicar-te em favor do meu filho Onési-
mo, que eu gerei na prisão. Outrora ele te foi inútil, mas doravante
será muito útil a ti, como se tornou para mim. Mando-o de volta
a ti; ele é como se fosse meu próprio coração. Eu queria segurá-lo
comigo para que, em teu nome, ele me servisse nesta prisão que
me valeu a pregação do Evangelho. Entretanto, nada quis fazer
sem teu consentimento, para que tua boa ação não fosse como que
forçada, mas espontânea. Talvez ele tenha sido retirado de ti por
um pouco de tempo, a fim de que o recuperasses para sempre, não
mais como escravo, mas, bem melhor do que como escravo, como
um irmão amado; muitíssimo para mim e tanto mais para ti, se
gundo a carne e segundo o Senhor. Portanto, se me consideras
teu amigo, recebe-o como se fosse a mim mesmo. E se ele te deu
algum prejuízo ou te deve alguma coisa, põe isso na minha conta.
Eu, Paulo, escrevo de meu punho, eu pagarei... para não dizer que
também és devedor de ti mesmo a mim! Sim, irmão, eu quisera
mesmo abusar da tua bondade no Senhor! Dá este conforto a meu
coração em Cristo (Fm 9-20).
Para o nosso contexto, não é apenas importante que o
texto da epístola realce bem concretamente o tratamento
cristão primitivo de irmão. Tão importante como isso é o
162 A iGreJA que JeSuS queriA
modo por que Paulo argumenta. Sua argumentação vive
da sua identificação com Onésimo: “Recebe-o, como se fos
se a mim mesmo, se ele te deu algum prejuízo, põe isso na
minha conta; mando-o de volta para ti, ele é como se fosse
meu próprio coração, prepara-me também um alojamento...
O cumprimento deste pedido não seria nada mais do que o
cumprimento do amor cristão e fraterno. Por isso, Filêmon
é tornado ciente de que ele está nos mesmos relacionamen
tos familiares. Também ele é irmão, também ele se deve ao
apóstolo, também ele é seu devedor... Como cristão, ele é
obrigado ao amor fraterno”. Assim, com razão, J. GnilkA.106
Ainda mais importante do que tudo isto, porém, é o tom
em que Paulo escreve. A pequena epístola mostra algo di
fícil de ser encontrado no cristianismo primitivo, por falta
de fontes: a viçosidade, a cordialidade, a amabilidade que
florescem, onde foi experimentado o Novo, a saber, a co
munidade de irmãos e irmãs, que provém do novo início
tornado possível pelo Espírito. A palavra mais bela da Igreja
primitiva para descrever este Novo, que se alastra na comu
nidade de Deus, é agape (amor).
Vale a pena, neste contexto, observar melhor esta pala
vra. Quando hoje, no cristianismo, se fala do amor, e não
se pensa no amor a Deus ou a Cristo ou ao cônjuge mas no
amor ao próximo, a palavra tem, quase sempre, um acen
to universal. O amor ao próximo, diz-se sempre com razão,
deve romper todos os limites de grupo, nação, raça, religião.
Todo aquele que precisa de mim, é meu próximo. Não se
vai analisar aqui os motivos que levaram à universalização
radical do conceito do amor ao próximo. De qualquer modo,
o próprio Jesus contribuiu decisivamente para isso. Na pa
rábola do Bom Samaritano, ele dá uma definição nova do
106 J. GnilkA, op. cit., 90.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 163
conceito de próximo e, além disso, ainda exortou para amar
até os inimigos.
Amai os vossos inimigos,
fazei o bem aos que vos odeiam,
bendizei os que vos amaldiçoam,
orai por aqueles que vos difamam
(Lc 6,27s).
A experiência quase apocalíptica da morte diária de mi
lhares de pessoas no mundo por causa da fome, possibilitada
pelos meios da comunicação social, é muito importante para
a formação do conceito hodierno do amor ao próximo. A
ampla ressonância que as campanhas quaresmais das Igre
jas (na Alemanha: “Pão para o mundo” e “misereor”) encon
traram desde o início, mostra que, entre os cristãos, há uma
profunda necessidade de ajudar as vítimas da miséria em
todo o mundo, independentemente da sua religião. É aqui
que, pelo menos na Europa central, o conceito “amor” tem
seu “Sitz im Leben”. Ele desvinculou-se, em grande parte, da
orientação para o companheiro de fé dentro da Igreja. Isto,
naturalmente, não quer dizer que dentro das comunidades
cristãs, não exista mais amor ao próximo. mas este amor é
considerado apenas uma parte do grande amor universal
que deve abranger todos os homens no mundo.
Diante desta situação da consciência cristãcausa um cho
que quando se constata, como exegeta, que no Novo Testa
mento, - abstraindo da palavra de Jesus sobre o amor aos
inimigos - amor entre os homens significa, quase sem exce
ção, o amor ao irmão na fé, isto é, o amor dos cristãos entre si.107
107 A. Textos onde agape significa com certeza “amor fraterno”: Jo 13.35;
Rm 14,15; 1Cor 4.21; 8,1; 13,1.2.3.4.8.13; 14,1; 16,24; 2Cor 2,4.8; 8,7.8.24;
164 A iGreJA que JeSuS queriA
Dificilmente se encontra no Novo Testamento um fenômeno
que seja tão intensivamente recalcado como esta realidade.108
A presença maciça de certas expressões como “amar
uns aos outros”,109 “amar os irmãos”, 110 “amar o irmão”111
“amar a irmandade”112 “amar os filhos de Deus”,113 “o amor
mútuo”,114 “o amor aos santos”115 deveria, porém, chamar a
atenção.
muito mais importante, porém, é a observação de que,
na literatura epistolar neotestamentária não é usada a pala
vra agape/agapan (amor/amar) para descrever a dedicação
ao próximo fora da comunidade, mas uma terminologia
completamente diferente. Em virtude desta observação ser
importante, deve ser realçada, a seguir, com alguns textos.
O que chama mais a atenção é 1Pd 2,17, onde o autor da pri
meira Epístola de Pedro diferencia cuidadosamente:
Gl 5,13; Ef 1,15; 4,2.15.16; Fl 2,1-2; Cl 1,4; 3,4; 1Ts 3,12; 5,13; 2Ts 1,3 Fm
5,7.9; 1Pd 4,8; 5,14; 2Pd 1,7; 1Jo 4,7; 3Jo 6.
B. Textos onde não podemos perceber o significado exato de agape,
mas o significado “amor fraterno” é mais provável: mt 24,12; Rm 12,9;
13.10; 1Cor 16.14; 2Cor 6,6; Gl 5.6; Ef 1.4; 3.17; 5,2; Fl 1,16; Cl 1,8; 2,2;
1Ts 1,3; 3,6; 5,8; 1Tm 1,5; 2,15; 4,12; 6,11; 2Tm 1,7.13; 2,22; 3,10; Tt 2,2;
Hb 10,24; 2Jo 6; Ap 2,4.19.
C. O verbo agapan, com certeza com o significado de “amor frater
no”: mc 12.31.33; mt 5,43; 19.19; 22,39; Lc 6,32; Jo 13.34; 15.12.17; 2Cor
11,11; 12,15; Gl 5,14; Ef 5,25.33; Cl 3,19; 1Ts 4,9; Tg 2,8; 1Pd 1,22; 2,17;
1Jo 2,10; 3,10.11.14.18.23; 4,7.8.11.12.19.20.21; 5,2; 2Jo 1,5; 3Jo 1; Jd 1.
A linguagem real do Novo Testamento é bem esclarecida por C. SPicq,
Agapè dans le Nouveau Testament I-III, Paris, 1957-1959, e H. montefiore,
“Thou shalt love the Neighbour as thyself”, NT 5 (1962) 157-170.
Jo 13,34; 15,12.17; Rm 13,8; 1Ts 4,9; 1Pd 1,22; 1Jo 3,11.23; 4,7.11.12; 2Jo 5.
1Jo 3,14.
1Jo 2,10; 3,10; 4,20.21.
1Pd 2,17.
1Jo 5,2.
1Ts 3,12; 2Ts 1,3; 1Pd 4,8; cf. Rm 12,10.
Ef 1,15; Cl 1,4.
108
109
110
111
112
113
114
115
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 165
Honrai a todos,
amai os irmãos,
temei a Deus,
tributai honra ao rei.
Evidentemente é uma sequência altamente retórica, cujas
expressões não devem ser forçadas; logicamente, de acordo
com o autor, deve-se amar também a Deus. mas a exortação
de quatro frases cuidadosamente elaboradas mostra que a
terminologia usada para descrever o comportamento dentro
do âmbito interno da comunidade (2° e 3° versículos) deve
ser diferente do comportamento para fora da comunidade
(1° e 4° versículos).
Também a primeira Epístola aos Tessalonicenses é im
portante para a nossa questão. Em 3,12, encontramos o úni
co testemunho do Novo Testamento (além do mandamento
de Jesus de amar os inimigos em Lucas e mateus), onde aga
pe também abrange os não-cristãos fora da comunidade: “A
vós, porém, o Senhor faça crescer e ser ricos em amor mútuo
e para com todos os homens”. mas já nos dois capítulos seguin
tes, Paulo distingue melhor. Para descrever o comportamen
to dentro do âmbito interno das comunidades, ele escreve:
Não precisamos vos escrever sobre o amor fraterno; pois aprendes
tes pessoalmente de Deus a amar-vos mutuamente; e é o que fazeis
muito bem para com todos os irmãos em toda a Macedônia. Nós, po
rém, vos exortamos, irmãos, a progredir cada vez mais (1Ts 4,9s).
mas para descrever o comportamento que ultrapassa o
âmbito das comunidades, Paulo formula um pouco adiante:
Vede que ninguém retribua o mal com o mal; procurai sempre o
bem uns dos outros e de todos (1Ts 5,15).
166 A iGreJA que JeSuS queriA
Esta distinção entre “amar” e “fazer o bem” tem um pa
ralelismo em Gl 5s. Lá, Paulo diz em 5,13-15:
Pela caridade, colocai-vos a serviço uns dos outros. Pois toda a Lei
está contida numa só palavra: Amarás a teu próximo como a ti
mesmo. Mas se vos mordeis e vos devorais reciprocamente, cuida
do, não aconteça que vos elimineis uns aos outros.
Sem dúvida, o mandamento do amor de Lv 19,18 está
aqui num contexto que determina somente o comportamento
da comunidade entre si. O “próximo”, portanto, é, como em
outros lugares nos escritos de Paulo, o companheiro de fé.116
Paulo continua, no texto seguinte (Gl 5,16-6,8), suas exor
tações sobre o comportamento correto no âmbito interno da
comunidade. Somente a partir de 6,9, no fim de toda a pa-
rênese, ele dirige o olhar para os não-cristãos fora da comu
nidade, agora, significativamente, não usando mais o termo
“amar”, mas, como em 1Ts 5,15, o termo “fazer o bem”:
Não desanimemos na prática do bem, pois, se não desfalecermos,
a seu tempo colheremos. Por conseguinte, enquanto temos tempo,
pratiquemos o bem para com todos, mas, sobretudo para os irmãos
na fé (Gl 6,9s).
Os “irmãos na fé” evidentemente são os cristãos. Aqui
Paulo considera a comunidade como uma família de crentes
que têm, entre si, um tratamento diferente daquele dispensado
aos que estão fora. Foi exatamente isto que alguns teólogos en
tenderam mal Paulo. H. weinel117 fala de um “estreitamento
116 Decisivo e Rm 15,2; cf. pos-paulino Ef 4,25.
117 H. weinel, Paulus, Der Mensch und sein Werk: Die Anfänge des Christen
tums, der Kirche und des Dogmas, 2a ed., Tübingen, 1915, 188.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 167
eclesial do amor”, H. PREISkER118 de um “corte na plenitude
de vida do amor”. Vê-se claramente: o apóstolo está sendo
censurado a partir do conceito do amor ao próximo de hoje.
mas o conceito de hoje é também o conceito da Bíblia? Antes
de tentarmos uma resposta, consideremos os capítulos 12 e
13 da Epístola aos Romanos.
Em 12.9, começa um novo parágrafo dentro da parácle-
se. Paulo trata, sob o lema “vosso amor seja sem hipocrisia”
(12,9), primeiramente o comportamento correto dentro da
comunidade. A partir de 12,14 é incluído também o com
portamento para com os não-cristãos, e, a partir de 12,17,
o comportamento para com os não-cristãos é tratado com
exclusividade. O olhar para fora vai até 13,7. Dentro de todo
o trecho que fala do comportamento fora da comunidade
(12,17-13,7) não se encontra nenhuma vez o termo “amor”.
Encontra-se, porém, de novo a exortação já conhecida de
1Ts 5,15 e Gl 6,10: “Seja vossa preocupação fazer o que é
bom para todos os homens” (12,17). Aqui, ela é ainda am
pliada pelas seguintes frases:
...Procurando, se possível, viver em paz com todos, porquanto de
vós depende. Não façais justiça por vossa conta, caríssimos, mas
dai lugar à ira, pois está escrito: A mim pertence a vingança, eu é
que retribuirei, diz o Senhor. Antes, se o teu inimigo tiver fome,
dá-lhe de comer, se tiver sede, dá-lhe de beber. Agindo desta forma
estarás acumulando brasas sobre a cabeça dele. Não te deixes ven
cer pelo mal, mas vence o mal com o bem (12,8-21).
Aqui, Paulo apresenta a exposição mais extensa para o
mandamento do “amor ao inimigo” de todos os seus escri
tos. Só que ele não usa a expressão amor. muito mais, ele
118 H. Preisker, Das Ethos des Urchristentums, 2a ed., Gutersloh, 1949, 184.
168 A iGreJA que JeSuS queriA
recorre a uma exortação altamente ética do Antigo Testa
mento, encontrada em Pr 25,21s, que fala do tratamento do
inimigo, evitando também o termo “amor”, embora coin
cida no seu conteúdo perfeitamente com o mandamento de
amor ao inimigo, apresentado por Jesus.119 Somente em 13,8-10
aparece novamente a expressão amor. Como em Gl 5,14,
também aqui é citado Lv 19,18: “Ama teu próximo como a ti
mesmo”. Como em Gl 5,14, aqui também entende-se o amor
fraterno, pois fala-se do amor mútuo (13,8). O “amor mútuo”pressupõe sempre um grupo bem delineado e está em opo
sição ao amor “a todos” (cf. 1Ts 3,12)! Além disso, deve-se
considerar, que também em Rm 15,2 o “próximo”, sem dú
vida significa o companheiro de fé.120
Nesta interpretação de Rm 13,8-10, a passagem nos ver
sículos de 7 a 8 apresenta dificuldades. Pois, no versículo 7
Paulo falou do que os cristãos devem aos órgãos do Estado
(impostos, tributos, respeito, honra) e continua:
Não devais nada a ninguém
a não ser o amor mútuo (13,8).
A partir do contexto (versículo 7) e da construção da fra
se supõe-se que se fale do amor para todos os homens. mas
por causa da expressão “amor mútuo” podemos excluir esta
hipótese.121 Por isso só se pode interpretar o versículo 8 do
119 A respeito do tratamento do inimigo no Antigo Testamento compa
rado com o mandamento de Jesus do amor aos inimigos: N. loHfink,
Grandes manchetes de ontem e de hoje, Edições Paulinas, São Paulo,
1984, 280ss.
120 Cf também Ef 425; Tg 2,8; 4,12; o “próximo” significa sempre o com
panheiro de fé.
121 Visto corretamente por H. montefiore, op. cit., 161. Exegetas como
H. lietzmAnn, O micHel, E. käSemAnn e H. ScHlier também viram o
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 169
seguinte modo: Paulo fala, primeiramente, daquilo que se
deve a todos os homens. Disto não se pode ficar devendo
nada. Existe, porém, algo que nunca se pode saldar e com o
que nunca se chega ao fim - o amor. Ele, porém, pressupõe
um outro ambiente: o ambiente da mutualidade, da comuni
dade. Por isso, Paulo muda o ponto de referência: a partir
do versículo 8b fala novamente do tratamento para com os
companheiros da fé.
Dessa forma, também Rm 12s confirma: quando o Novo
Testamento fala do amor entre os homens, tem em mente, quase
sem exceção, o amor fraterno dentro das comunidades. Por
tanto, a literatura joanina, na qual este fenômeno sempre foi
observado, não está, de modo algum, sozinha. As Epístolas
e o Evangelho de João apenas refletem com especial clareza
o que vale para todo o Novo Testamento.
Sendo assim, surge inevitavelmente a pergunta, se as
comunidades neotestamentárias não traíram a posição de
Jesus. Pois Jesus exige expressamente amar os inimigos. A
exortação apostólica não teria de assumir a mesma termino
logia? Aqui devem-se considerar dois pontos:
1. A realidade que Jesus tinha em mente ao falar do amor
ao inimigo existe de fato na literatura epistolar do Novo Tes
tamento. As comunidades são exortadas: “Abençoai os que
vos perseguem” (Rm 12,14; 1Pd 3, 9), “a ninguém pagueis
o mal com o mal” (Rm 12,17; 1Pd 3,9), “vencei o mal com
o bem” (Rm 12,21) e “se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe
de comer” (Rm 12,20). Tudo isto corresponde, na realidade,
àquilo que Jesus queria, ao falar do amor aos inimigos. A
frase “abençoai os que vos perseguem” remonta mesmo a
uma palavra de Jesus (Lc 6,28 par. mt 5,44). Homens como
problema e tentaram resolvê-lo a seu modo nos seus comentários à
Epístola aos Romanos.
170 A iGreJA que JeSuS queriA
Paulo ou o autor da primeira Epístola de Pedro apenas têm
receio de designar estas atitudes com a palavra “amor”.
2. A posição de Jesus seria mal-entendida, se fosse de
finida indiferenciadamente como amor universal a todos os
homens.122 Jesus se move completamente sobre a base do
Antigo Testamento, onde o próximo era, primeiramente, o
vizinho e o companheiro de fé. Jesus relativiza o conceito de
próximo, deixando claro que toda pessoa que está em difi
culdade, se torna irmão. Interpretando rigorosamente, isto
significa que o amor fraterno, que tem seu lugar próprio e
permanente no povo de Deus, se deve estender a quem es
tiver passando necessidade. O conceito de “próximo” perde
assim radicalmente os seus limites, mas não cai, de modo al
gum, numa “abstração universal”.123 A perda constante dos
limites do amor fraterno guarda sua base no povo de Deus,
que, primeiramente, vive o amor ao próximo dentro do seu
âmbito interno. Exatamente enquanto a base é conservada,
os limites podem ser ultrapassados constantemente.
Considerando as coisas sem preconceitos, deve dizer-se
que, também neste ponto, a Igreja primitiva segue os passos
de Jesus - provavelmente com mais exatidão do que nós.
As comunidades neotestamentárias nunca pensaram em
entregar-se a sonhos ingênuos com lemas como: “Todos os
homens tornam-se irmãos” ou ainda “Sejam abraçados mi
lhões”. Tentaram, muito sobriamente, realizar o amor frater
no primeiramente dentro das próprias fileiras e, ao mesmo
tempo, esforçaram-se por ultrapassar os limites para fora.
Deste modo, cada vez mais pessoas são envolvidas pela fra
ternidade das comunidades e tornam-se possíveis novos re
lacionamentos com o próximo.
122 Cf. N. loHfink, op. cit., 280ss.
123 Assim com razão F.-J. ortkemPer, op. cit., 183.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 171
6. A RENúNCIA À DOMINAçãO
Jesus rejeita decididamente para a comunidade dos dis
cípulos a dominação e as estruturas de domínio, como são
comuns na sociedade. Numa comunidade de irmãos, não
pode haver mais domínio de pais. A soberania de Deus quer
dizer não-soberania do homem. A Igreja primitiva levou a
sério este programa de uma nova sociedade sem estruturas
de domínio? Pode-se realizar uma tal sociedade?
uma coisa, em todo o caso, pode-se dizer: a Igreja primi
tiva reconheceu com clareza a vontade de Jesus de recons
truir o Israel verdadeiro não mais sobre domínio do homem,
formulou-a num texto decisivo e, depois, transmitiu o texto.
Hoje, ele está em lugar de destaque no Evangelho de mar
cos. Imediatamente antes, é narrado um pedido dos filhos
de zebedeu, Tiago e João (mc 10,35-41):
“Mestre, queremos que nos faças o que vamos te pedir”. Ele per
guntou: “Que quereis que vos faça?” Disseram: “Concede-nos, na
tua glória, sentarmo-nos um à tua direita, outro à tua esquerda”.
Jesus lhes respondeu: “Não sabeis o que estais pedindo. Podeis
beber o cálice que eu vou beber e ser batizados com o batismo com
que serei batizado?” (...)
A cena evoca uma imagem como das “mil e uma Noites”.
um novo rei subiu ao trono e iniciou seu reinado. Ele convida
seus dois subalternos mais importantes a sentarem-se à sua
direita e à sua esquerda, também em tronos. Eles reinarão e
julgarão juntamente com ele. Com certeza, Tiago e João estão
interessados em assegurar para si poder real no Reino de Deus
que se aproxima, antes que cheguem os outros. Os outros no
círculo dos Doze entendem perfeitamente a jogada dos dois.
Eles ficam indignados com os dois filhos de zebedeu (10,41).
172 A iGreJA que JeSuS queriA
A esta cena segue o texto de que se trata aqui. É uma
pequena composição literária que reflete com bastante exa
tidão a opinião do Jesus histórico sobre o poder humano.
Em sua forma atual, porém, o texto é uma composição pós-
pascal, na qual já se refletem problemas de poder na Igreja:
“Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e
os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrá
rio, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor,
e aquele que quer ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos.
Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir
e dar a sua vida em resgate por muitos (10,42-45).
Como já foi dito, o texto alude a problemas do poder
dentro da Igreja. Aqui trata-se da estrutura básica dos mi
nistérios eclesiásticos, definidos a partir da existência servi
çal de Jesus. Autoridade e poder devem, pois, existir dentro
da Igreja. Isto pressupõe-se. mas esta autoridade não pode
ser de dominação, como é exercido na sociedade restante.
Aí, o domínio procura, muitas vezes, os interesses de quem
domina. A autoridade no povo de Deus, porém, deve nascer
do serviço. Na Igreja, só se pode tornar autoridade aquele
que renuncia a si mesmo e a seus interesses e vive sua exis
tência em favor dos outros.
mas o texto vai muito mais além. Deve-se partir do fato
(embora ele não seja expressamentemencionado) que existe
entrega altruística em favor dos outros também na socieda
de restante. Há tiranos, mas há também soberanos que, em
sua função, colocam em primeiro lugar os interesses do bem
comum. mas mesmo eles devem impor ou defender o bem
da sociedade pela força - a força que a lei coloca em suas
mãos. Na contra-sociedade divina, que o nosso texto tem em
vista, nem mesmo isto pode acontecer. A autoridade, de que
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 173
se fala aqui, nem sequer pode impor pela força aquilo que
é legítimo e correto. Apenas pode testemunhá-lo e, se for
preciso, morrer por isso. É tudo menos coincidência, que no
fim do texto se fala da entrega da vida de Jesus em favor de
muitos (10,45). Jesus não usou meios de poder para impor
sua mensagem. Nem sequer organizou o movimento que
originou em Israel. Ele foi apenas testemunha, e fez dos seus
discípulos testemunhas. Quando, por causa de sua mensa
gem, estavam para eliminá-lo pela força, ele prefere deixar-
se matar a responder a seus adversários pela força. Esta é a
autoridade de Jesus. Ela é, até ao extremo, uma autoridade
paradoxal, que em sua desproteção e vulnerabilidade inverte
todas as espécies atuais de soberania.
A partir desta atitude de Jesus, mc 10,42-45 define,
com consequência espantosa, toda espécie possível de au
toridade dentro da Igreja. A não-violência, a renúncia ao
domínio e, por isso, a desproteção assustadora são inal
teravelmente instituídas na Igreja e em seus ministérios
pela práxis de Jesus.
O programa, portanto, é claramente conhecido. Não
apenas por marcos, mas também por mateus (20,25-28) e
Lucas (22,24-27). Lucas ainda acentuou mais do que mar
cos a referência à Igreja da composição de sentenças (cf.
Lc 22,26). mas a Igreja primitiva também viveu este pro
grama que se afasta tão radicalmente de todas as formas de
vontade de domínio humano? Pelo menos não o esqueceu.
Por mais vezes que tenha fracassado no cumprimento de
mc 10,42-45 - pelo menos, ela sabia que, neste texto, estava
o critério que decidia se ela era o verdadeiro povo de Deus,
a contra-sociedade de Deus no mundo.
Sobretudo, Paulo é, neste ponto, a consciência vigilante
da Igreja primitiva. Em si, ele possui uma consciência acen
tuada de sua autoridade apostólica - muito mais acentuada
174 A iGreJA que JeSuS queriA
do que certos exegetas querem admitir.124 Paulo não era, de
modo algum, apenas um “exortador” paternal ou, em situa
ções de limite, também um “juiz carismático”, como k. we
GenASt afirma.125 w. ScHrAGe mostrou em seu trabalho sobre
“os mandamentos concretos na parânese paulina”, até que
ponto Paulo ditou normas para suas comunidades - em vir
tude de seu poder apostólico. “Não se pode acentuar demais o
momento autoritário e impositivo (cf. 2Cor 1,24; 8,8), mas
também não podemos esquecê-lo e reduzir as instruções
apostólicas a simples recomendações e conselhos”.126
Paulo é primeiramente anunciador do Evangelho, mas
neste anúncio, o homem não experimenta apenas a miseri
córdia de Deus, mas também suas exigências. Por isso, com
a mesma autoridade com que anuncia o Evangelho, o após
tolo dá normas obrigatórias para a vida moral do indivíduo
e para a vida em comum na comunidade. Estas normas es
tendem-se até a esfera jurídica: no Espírito do Senhor res
suscitado, o apóstolo pode tomar decisões que obrigam e
adquirem valor de lei.127
Paulo está bem consciente de sua autoridade apostólica
(exousia) que lhe foi conferida pelo próprio Cristo. mas isto é
apenas um lado da questão. Pois o exercício desta autorida
de sempre é integrado na estrutura do serviço (diakonia). As
sim o exercício de sua autoridade apostólica nem sequer cai
124 Cf. para o que segue, G. loHfink, Paulinische Theologie in der Rezeption
der Pastoralbriefe, em: K. Kertelge (ed.), Paulus in den neutestamentlichen
Spätschriften. Zur Paulusrezeption im Neuen Testament (QD 89), Fribur-
go, 1981, 70-121, la 109-114.
125 Cf. K. weGenASt, Das Verständnis der Tradition bei Paulus und in den
Deuteropaulinen (WmANT 8), Neukirchen-Vluyn, 1962, 141.
126 W. ScHrAGe, Die konkreten Einzelgebote in der paulinischen Paränese. Ein
Beitrag zur neutestamentlichen Ethik, Gutersloh, 1961, 107.
127 Cf. G. loHfink, op. cit., 111-113.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 175
na suspeita de ser domínio sobre a comunidade. Ela tem o
caráter de entrega serviçal.128 Paulo prefere ir a Corinto “no
Espírito do amor e da mansidão” do que com dureza (1Cor
4,21). Em Tessalônica, ele poderia fazer valer o peso de sua
autoridade “como apóstolo de Cristo”, em vez disso, ele foi
aos Tessalonicenses “cheio de bondade como uma mãe que
acaricia seus filhos” (1Ts 2,7). Ele poderia “ordenar” a Filê-
mon, “tendo toda liberdade em Cristo”, mas, em vez disso
“prefere pedir por amor” (Fm 8). Apesar das graves disputas
que ele tem com os Coríntios, escreve à comunidade: “Não
tencionamos dominar a vossa fé, mas colaboramos para que
tenhais alegria” (2Cor 1,24).
Textos como estes poderiam ser meras declarações. Por
isso é importante o fato de que não estamos dependendo
apenas de frases isoladas como estas. A forma das epístolas
em si já mostra que Paulo não quer dominar a fé das comu
nidades. Do ponto de vista literário, as epístolas pertencem
às cartas mais extensas e pessoais que possuímos dos tem
pos antigos. Isto está ligado ao fato de Paulo primeiramente
não decretar, mas argumentar com um profundo engajamen
to teológico. Ele quer convencer suas comunidades, ele luta
por sua compreensão, para que, pelo conhecimento alcança
do, possam decidir juntos. Paulo leva a sério a liberdade e a
responsabilidade própria de suas comunidades.
As epístolas mostram claramente, que Paulo não se limi
ta a ordenar e mandar, tanto em sua primeira parte que ar
gumenta como também na segunda que exorta: a paráclese. A
paráclese de Paulo também é certamente ordem e instrução,
mas, ao mesmo tempo, apelo, estímulo, conselho, consolo,
128 Esta tensão paradoxal de exousia e diakonia em Paulo é bem elaborada
por W. tHuSinG, “Dienstfunktion und Vollmacht kirchlicher Ämter
nach dem Neuen Testament”, BiLe 14 (1973), 77-88.
176 A iGreJA que JeSuS queriA
convite, até pedido.129 Tudo isto esta contido na palavra gre
ga parakalein, palavra característica para a segunda parte das
epístolas de Paulo (cf. especialmente Rm 12,1). Quando Pau
lo ordena, o pedido pessoal e cordial está sempre - unido a
todas as ordens e rompe-as constantemente.
mais eloquente do que a forma em que Paulo escreve, é
a maneira como trata os seus colaboradores e que se torna
conhecida, constantemente, pelas epístolas. Já a palavra “co
laboradores” (synergos) é significativa. Não só é usada rela
tivamente muitas vezes por Paulo,130 mas também recebeu
dele um significado especial. Com esta palavra, Paulo desig
na os homens e as mulheres que trabalham juntamente com
ele na obra comum da missão. w. H. ollroG mostrou numa
pesquisa brilhante sobre “Paulo e seus colaboradores”, que
a forma missionária paulina deve ser chamada como “mis
são de colaboradores” - o que não era coisa evidente para
a Igreja primitiva.131 ollroG mostrou ainda que, em vista
do grande número de seus colaboradores, Paulo não fez de
sua pessoa “o centro que garantia a união”, mas “da obra
comum” (ergon). Ele mesmo é “colaborador” nesta obra
(1Cor 3,9) e trata os demais colaboradores não como ajudan
tes, mas como parceiros adultos e autônomos.132
Também os fracassos e derrotas fazem parte da “prá-
xis” de Paulo. Os sofrimentos do apóstolo não vêm apenas
das perseguições, mas também da constante “preocupa
ção por todas as comunidades” (1Cor 11,28). Numa série
de igrejas locais, especialmente em Corinto, parece que
Paulo teve pouco êxito ou um êxito pouco duradouro em
129 Cf. A. GrAbner-HAider, Paraklese und Eschatologie bei Paulus. Mensch
und Welt im Anspruch der Zukunft Gottes (NTA 4), munster, 1968, 7-11.
130 Cf. Rm 16,3.92; 1Cor3,9; 2Cor 1,24; 8,23; Fl 2,25; 4,3; 1Ts 3,2; Fm 1.24.
131 W.-H. ollroG, op. cit., 111-161.
132 W.-H. ollroG, ib., 63-72.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 177
fazer valer a sua concepção teológica de comunidade. A cau
sa disso não estava apenas no fato que, desde o conflito de
Antioquia, delegações judaico-cristãs invadiam constante
mente sua área missionária e perturbavam as comunidades;
mas também no fato de que Paulo não queria manter suas
comunidades dependentes, mas concedia-lhes um espaço
carismático muito grande. Paulo queria uma obediência li
vre e vinculava os carismas à razão e ao amor133 - e assu
miu, com isto, um grande risco. mas é esse precisamente o
risco de uma autoridade não dominante, no seguimento de
Jesus. A Igreja terá sempre que se decidir entre a segurança
da não-liberdade e o risco da liberdade.
De resto, Paulo refletiu muito mais do que qualquer
outro sobre esta alternativa. Ele sabia muito bem que uma
autoridade, que tem de renunciar ao poder, chega muito ra
pidamente perto da cruz de Cristo. Seu serviço apostólico é
realizado na fraqueza, e esta fraqueza tem muito a ver com
a importância do Cristo crucificado.
Incessantemente e por toda parte trazemos em nosso corpo a ago
nia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada
em nosso corpo. Com efeito, nós embora vivamos, somos sempre
entregues à morte por causa de Jesus, a fim de que também a vida
de Jesus seja manifestada em nossa carne mortal (2Cor 4,10s).
No entanto, esta fraqueza e impotência da existência
apostólica (cf. também 1Cor 4,9-13) é exatamente seu poder
e sua força: “Pois quando sou fraco, então é que sou forte”
(2Cor 12,10). Como? Também o serviço pode, de maneira su
blime, transformar-se em domínio. Desta tentação mais pro
funda o portador de autoridade somente se livra, quando
133 E. Kasemann, Der Ruf der Freiheit, Tubingen, 1968, 128.
178 A iGreJA que JeSuS queriA
entende seus fracassos e suas derrotas como morrer junto
com Cristo. Somente nesta impotência o seu serviço se torna
inteiramente altruísta e assim ganha uma força que supera
tudo. Somente nesta impotência o mensageiro pode dizer
verdadeiramente:
Não pregamos a nós mesmos,
mas a Cristo Jesus, Senhor.
Quanto a nós mesmos, apresentamo-nos como
vossos servos, por causa de Jesus (2Cor 4,5).
uma das mais trágicas ilusões da Igreja é o fato de ela
querer assegurar sua autoridade (que em si é necessária e le
gítima) mediante a dominação. Na realidade, deste modo, ela
destrói sua autoridade e prejudica gravissimamente o Evan
gelho. A verdadeira autoridade só pode brilhar na impo
tência da renúncia ao poder. É a autoridade do crucificado.
Paulo sabia disso como nenhum outro, e por isso relacionou
sempre de novo o paradoxo de sua autoridade apostólica
com o paradoxo do crucificado e ressuscitado. É surpreen
dente, com que intensidade o conteúdo de mc 10,42-45 é re
encontrado em Paulo.
É necessário ainda dizer expressamente que o serviço às
comunidades a partir da impotência da cruz de Cristo não
é, de modo algum, apenas uma atitude íntima ou sentimen
tos corretos daqueles que exercem um ministério? Seria fatal
interpretar mc 10,42-45 e seus paralelos apenas com ética
interna e individualista. Nos textos neotestamentários desta
espécie trata-se sempre também da forma concreta da função
eclesiástica que não pode refletir as estruturas do poder e
domínio deste mundo.
A tentação de impor a dominação e fazer valer seu direi
to pela força não existe apenas naqueles que exercem uma
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 179
função. Em Corinto, membros da comunidade têm litígios
entre si. Eles procuram tribunais gentios. Paulo está profun
damente indignado com estes acontecimentos:
Não se encontra entre vós alguém suficientemente sábio para po
der, julgar entre os seus irmãos? No entanto, acontece que um
irmão entra em litígio contra seu irmão, e isto diante de infiéis!
(1Cor 6,5s).
Segundo a opinião de Paulo, os cristãos não podem pro
curar tribunais gentios quando tiverem litígios entre si. Eles
devem resolver seus conflitos dentro da própria comunidade.
Esta é a primeira coisa que Paulo tem a dizer aos Coríntios.
mas então recomeça de modo mais radical ainda e escreve:
De qualquer modo, já é para vós uma falta a existência de litígios
entre vós. Por que não preferis, antes, padecer uma injustiça? Por
que não vos deixais, antes, defraudar? (1Cor 6,7).
Neste lugar da argumentação de Paulo irrompe exa
tamente o Espírito de Jesus (cf. 2,5). Dentro do verdadei
ro povo de Deus não pode existir mais luta pelos direitos.
Quem pratica estas lutas, leva as estruturas da sociedade
descrente para dentro do povo de Deus e ofusca o caráter da
Igreja como sociedade de contraste.
A proscrição da luta pelos direitos não significa, porém,
que não possa mais haver direito dentro da Igreja. Isto seria
tão absurdo como a exigência de que não possa mais haver
autoridade ou instituições dentro da Igreja. Em última análi
se, tais exigências levam a uma Igreja invisível que não teria o
mínimo a ver com o conceito de Igreja do Novo Testamento.
Evidentemente deve existir direito na Igreja. Caso contrário,
ela não seria “povo de Deus”, ou “Corpo de Cristo”; não
180 A iGreJA que JeSuS queriA
seria o “espaço concreto da soberania de Cristo neste mun
do”. mas o direito dentro da Igreja só pode ser um direito
análogo em comparação com o direito do mundo. Em tudo
deve estar aberto ao Espírito de Jesus e ser, por ele, relativi-
zado. Não se pode, na verdade, excluir autoridade e obri
gatoriedade, nem tão pouco ser sustentado por instituições
que só conseguem alcançar este direito com os meios da for
ça. Só pode ser sustentado por comunidades que se colocam
unanimemente134 e em obediência livre sob um tal direito e o
vivem. A partir do homem, esta unanimidade é impossí
vel. mas é possível como milagre constante pelo Espírito de
Deus.135 Onde Deus age, de repente, consegue-se aquilo que,
de outro modo, apesar de todos os esforços morais, sempre
fracassa: pensar a partir do outro, confiar nele e encontrar a
unidade.
7. A IGREJA COMO SOCIEDADE DE CONTRASTE
O conceito de sociedade de contraste (ou mesmo contra-
sociedade), já usado várias vezes neste livro, provavelmente
encontra incompreensão, talvez até resistência em alguns
leitores. De fato, não é um conceito bíblico. mas a realidade
que este conceito exprime, preenche a Bíblia do começo até
o fim. Só que esta realidade nos escapa, não a percebemos
mais na Bíblia. Por isso impõe-se buscar ajuda num outro
conceito, para que a realidade entendida pela Bíblia, oculta
sob o verniz de uma linguagem que, para nós, muitas vezes,
soa como edificante-inofensiva, possa aparecer de novo.
134 Para o tema unanimidade de sentimentos da comunidade cf. At 1,14; 2,46;
4,24; 5,12; 15,25; Rm 12,16; 15,55.
135 Considerações sobre a Igreja enquanto milagre originário, que Deus ope
ra, em N. loHfink, op. cit. (25), 49-71; o mesmo op. cit. (45), 152-155.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 181
Na Bíblia, o povo de Deus foi sempre compreendido
como sociedade de contraste. Povo de Deus - é algo dife
rente da configuração nacional do tempo de Salomão ou dos
Asmoneus. Povo de Deus não significa, portanto, Estado de
Israel. Povo de Deus também não é apenas a comunidade es
piritual dos devotos que, sendo os mansos da terra, esperam
a salvação. Povo de Deus é aquele Israel que tem consciência de
ser eleito e chamado por Deus, com toda a sua existência - o
que quer dizer também: em toda sua dimensão social. Povo
de Deus é aquele Israel que, segundo a vontade de Deus, se
deve distinguir de todas as nações da terra:
Pois tu és um povo consagrado a Iahweh teu Deus; foi a ti que
Iahweh teu Deus escolheu para que pertencesses a ele como seu
povo próprio, dentre todos os povos que existem sobre a face da
terra. Se Iahweh se afeiçoou e vos escolheu, não é porserdes o mais
numeroso de todos os povos - pelo contrário: sois o menor dentre
os povos! - e sim porque Iahweh vos ama, e para manter a pro
messa que ele tinha jurado a vossos pais; por isso Iahweh vos fez
sair com mão forte e vos resgatou da casa da escravidão, da mão de
faraó, rei do Egito (Dt 7,6-8).
À ação libertadora de Deus, que elegeu Israel de todos
os povos e o salvou do Egito, deve corresponder a conduta
do povo de Deus. Deve ser um povo santo com uma ordem
social que o distingue das outras nações,
Observa, pois, os mandamentos, os estatutos e as normas que eu
hoje te ordeno cumprir (Dt 7,11).
Há duas razões para Israel ser um povo santo: primeiro
o amor de Deus que o chamou e fez dele, de entre todas as
nações, o povo de sua propriedade. mas a santidade de Israel
182 A iGreJA que JeSuS queriA
também depende do fato de ele viver realmente a ordem
social que Deus lhe concedeu e que está em nítido contraste
com as ordens sociais de todos os outros povos. Esta cone
xão está formulada de modo especialmente incisivo na cha
mada “lei da santidade” (Lv 17-26), por exemplo, quando aí
se diz:
Sereis consagrados a mim,
pois eu, Iahweh, sou santo
e vos separei de todos os povos para serdes meus (Lv 20,26).
O fato de Deus ter elegido e santificado seu povo, para
fazer dele uma sociedade de contraste entre os outros po
vos é também para Jesus o background evidente de toda
sua atividade. A diferença entre Jesus e os textos citados
de Levítico e Deuteronômio está apenas no fato que, para
Jesus, por causa da mensagem dos profetas, tudo isso tem
uma dimensão escatológica: as ações de Deus no passado
ficam muito atrás em relação à ação escatológica de Deus
que ainda está para vir, na qual ele restaura seu povo, ou,
mais ainda, o constitui de novo, para realizar, enfim, assim
definitiva e irrevogavelmente seu plano de ter um povo
santo no meio das nações.
Sem este pano de fundo o movimento da reconstitui
ção em Israel por parte e Jesus é incompreensível. Ele visa
o verdadeiro Israel escatológico, no qual é vivida a ordem
social do Reino de Deus. Jesus nunca convocou para uma
mudança político-revolucionária da sociedade judaica. mas
a conversão que ele exige como consequência de sua men
sagem do Reino de Deus quer desencadear, dentro do povo
de Deus, um movimento, frente ao qual, as revoluções cos
tumeiras são bagatelas. Pensemos, por exemplo, no apelo de
Jesus para a não-violência absoluta (cf. 2,5). Esta não-violência
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 183
não é de modo algum, uma atitude meramente interior;
trata-se de práxis concreta. Também não é apenas assunto
do indivíduo; pressupõe homens que em conjunto levam a
sério esta não-violência. Isto é ainda mais claro no fato da
renúncia à dominação! (cf. 3,6). Não-violência e renúncia ao
domínio só se podem realizar no contexto da realidade so
cial, e elas querem transformar exatamente esta realidade. O
apelo de Jesus à não-violência e à renúncia à dominação já
implica, portanto, a perspectiva de uma nova sociedade, que
está em contraste nítido com as sociedades do mundo, mar
cadas pela violência e desejo de domínio.
De resto, na “oração da reconstituição”, no Pai-Nosso,
Jesus fala uma linguagem clara. Nela é retomada toda temá
tica da santidade do Antigo Testamento. Já vimos antes (cf.
I, 4): “Santificado seja teu nome” - não significa nada senão:
“Reconstitui e renova teu povo; faze que seja o verdadei
ro povo de Deus”. Diante do pano de fundo de Dt 7,6-11 e
Lv 20,26 podemos dizer com mais exatidão ainda: “Santifi
cado seja teu nome” - significa também: “Reúne para ti um
povo renovado, santo de verdade, para que assim possa bri
lhar o Reino de Deus e teu nome esteja diante dos olhos das
nações em todo seu esplendor”.
A Igreja primitiva compreendeu esta intenção de Jesus?
Deu-lhe continuidade? Ela compreendeu-se a si mesma, ou
melhor, as comunidades neotestamentárias compreende
ram-se, em princípio, como contraste ao paganismo, como
povo santo que deveria ser diferente da sociedade pagã?
Esta pergunta é tão importante pelo fato de, há séculos, as
igrejas cristãs quase não conhecerem mais o sentimento do
“contraste” para com a sociedade. Apenas as seitas ou as
Igrejas das missões puderam realmente compreender o que
significava crer contra a sociedade restante. Nas igrejas cristãs
populares esta noção relampejou apenas de vez em quando
184 A iGreJA que JeSuS queriA
- para os católicos alemães, por exemplo, no Kulturkampf do
tempo de biSmArck, ou para uma parte dos protestantes e
católicos alemães na resistência contra o Terceiro Reich. Ao
todo, porém, as igrejas da Europa ocidental identificaram-se
em sua mentalidade de uma maneira consternadora com a
sociedade restante e suas estruturas. Elas apenas oferecem
esporadicamente resistência ou recusa. Os cristãos da Europa
ocidental não estão mais conscientes - ou somente nos últi
mos anos começaram novamente a tomar consciência - de
que a Igreja, como um todo, deveria ser uma espécie alter
nativa de sociedade.
No Novo Testamento ainda é diferente. Em múltiplos
conceitos, mas também em estruturas mais amplas de dis
curso aparece o conhecimento da Igreja como sociedade-de-
contraste de Deus no meio da sociedade restante. uma des
tas estruturas de discurso aparece em Ef 5,8:
Outrora éreis trevas,
mas agora sois luz no Senhor:
andai como filhos da luz.
Num contraste nítido estão frente a frente as duas si
tuações: o outrora e o agora. Os fiéis, a quem o discurso se
dirige, outrora eram “trevas”. Agora são “luz”. “Trevas” aqui
é metáfora para a antiga existência no paganismo, “luz” é
metáfora para a existência atual na Igreja, pois a expressão
“no Senhor” significa a vida no âmbito da soberania de Cristo,
e este é, na tradição linguística paulina, a Igreja. Às consta
tações no indicativo segue ainda um imperativo: os cristãos,
em princípio, são “luz”, mas devem realizar em suas vidas
aquilo que são.
Estruturas de discursos semelhantes são tão frequentes
na literatura das epístolas, que se pode falar de um esquema
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 185
fixo.136 Ele foi chamado o esquema de “outrora e agora”.137
Nem sempre é formulado com tanta brevidade quanto em
Ef 5,8. muitas vezes, sua elaboração é mais extensa. Assim,
por exemplo, em Tt 3,3-6:
Porque também nós antigamente éramos insensatos, desobedientes,
extraviados, escravos de toda sorte de paixões e de prazeres, viven
do em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Mas
quando a bondade e o amor de Deus, nosso salvador, se manifesta
ram, ele salvou-nos, não por causa dos atos justos que houvéssemos
praticado, mas porque, por sua misericórdia, fomos lavados pelo po
der regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele ricamente
derramou sobre nós, por meio de Jesus Cristo, nosso salvador.
Novamente são contrapostos o outrora e o agora. O outro-
ra da existência pagã, porém, desta vez, não é descrito com
um único conceito, mas com todo um catálogo de vícios. As
sim, estamos diante de uma segunda estrutura de discurso,
usada pelos pregadores do cristianismo primitivo para con
frontar a sociedade pagã e a Igreja. Eles opuseram, simples
mente, em longas listas, a situação sem saída do paganismo
e a vida na força do Espírito Santo. um dos exemplos mais
belos é Cl 3,8-14:
Mas agora abandonai tudo isto: ira, exaltação, maldade, blasfêmia,
conversa indecente. Não mintais uns aos outros. Vós vos desvestistes
136 Cf. Rm 5,8-11; 6,15-23; 11,30-32; 1Cor 6,9-11; Gl 1,13-17.23; 4, 3-7.8-10;
Ef 2.1-22; 5,8; Cl 1,21s; 2,13; 3,7-11; 1Tm 1,13; Tt 3,3-7; Fm 11;
1Pd 2,10; 2,25; 2Clem 1,6-8.
137 Extensamente: P. tAcHAu, “Einst” und “Jetzt” im Neuen Testament.
Beobachtungen zu einem urchristlichen Predigtschema in der neutestamen-
tlichen Briefliteratur und zu seiner Vorgeschichte (FRLANT 105), Göttin
gen, 1972.
186 A iGreJA que JeSuS queriA
do homem velho com as suas práticase vos revestistes do novo, que
se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu criador.
Aí não há mais grego nem judeu, circunciso e incircunciso, bár
baro, cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo em todos. Portanto,
como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimentos
de compaixão, de bondade, humildade, mansidão, longanimidade,
suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se
alguém tem motivos de queixa contra outro; como o Senhor vos
perdoou, assim também fazei vós. Mas sobre tudo isso, revesti-vos
do amor, que é o vínculo da perfeição.
É claro: aqui se contrapõe uma lista negativa (ira, exal
tação, maldade, blasfêmia, conversa indecente, mentira)
a outra lista positiva (compaixão, bondade, humildade,
mansidão, longanimidade, amor). A lista negativa deve
caracterizar o homem pagão, a positiva o cristão. A parte
do meio mostra que não se trata apenas de virtudes de in
divíduos. Trata-se também e sobretudo da sociedade pagã
em sua totalidade, pois é-lhe contraposta a nova sociedade
de Deus, na qual foram abolidas radicalmente as antigas
barreiras sociais entre gregos e bárbaros, judeus e gentios,
escravos e livres (cf. 3,3).
Especialmente instrutiva é, em Cl 3,8-14, também a ca
tegoria do novo que é introduzida para definir a existência
do batizado. Ao homem velho é contraposto o homem novo
em Cristo (cf. também Ef 2,15; 4,24). A irrupção do radical
mente novo dentro do mundo velho pelo novo se trata de
um acontecimento escatológico. O mesmo motivo da nova
criação mostra com toda a clareza que na substituição do
homem velho pelo novo se trata de um acontecimento es-
catológico. O mesmo motivo também torna claro porque
a Igreja primitiva podia distinguir tão radicalmente entre
o outrora e o agora. Deus trouxe em Cristo a transformação
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 187
escatológica; em Cristo, ele criou seu povo novamente. Por
isso vale:
Se alguém está em Cristo,
é nova criatura.
Passaram-se as coisas antigas;
eis que se fez uma realidade nova (2Cor 5,17).
mais uma vez seja mencionado que: estar em Cristo sig
nifica viver no âmbito da soberania de Cristo - e o âmbito
desta soberania é a Igreja. 2Cor 5,17 tem em vista, do mes
mo modo que Tt 3,3-6, o batismo, pelo qual o indivíduo
foi incorporado ao corpo de Cristo que é a Igreja. Esta in
corporação não atinge apenas a interioridade do batizado;
para Paulo, ela tem consequências radicais que atingem
profundamente a dimensão social.
Pois Cristo morreu, a fim de “livrar do presente mun
do mau” todos os que creem (Gl 1,4). Nada indica que,
com a expressão “livrar do presente mundo mau”, Paulo
entenda o acolhimento futuro dos fiéis no céu. O que ele
tem em mente, é uma separação fundamental do cristão
em relação ao mundo, que acontece pela fé e pelo batismo.
O batizado é salvo do mundo para dentro do âmbito da
soberania de Cristo. O mundo, que aqui é chamado mau,
porém, é mais do que o conjunto de muitos indivíduos que
praticam o mal. Ele é, simultaneamente, também o poten
cial do mal que, pelos pecados de muitos, se sedimentou
nas estruturas da sociedade e assim perverteu o mundo,
tornando-o o âmbito do poder do mal. A Igreja é tirada
deste mundo, porque vive da obra salvífica de Cristo; isto
é, ela não precisa mais viver na escravidão do mal e con
forme as falsas estruturas da sociedade pagã. Por isso,
Paulo exige em Rm 12,2:
188 A iGreJA que JeSuS queriA
Não vos conformeis com este mundo, mas
transformai-vos, renovando a vossa mente.
É necessário repetir isso muitas vezes porque, em virtu
de de um hábito muito prolongado, na maior parte das ve
zes, todos estes textos foram interpretados, de modo muito
unilateral, como visando a renovação interior ou mesmo o
equipamento moral do cristão individual. Em Rm 12,2 e em
muitos outros textos não se trata apenas de mudança das
atitudes interiores ou de uma motivação nova, e muito me
nos ainda, apenas do indivíduo. A renovação da mente está
ligada à transformação escatológica, que iniciou uma nova
criação no meio do mundo onde a Igreja se estende como
âmbito da soberania de Jesus. Esta nova criação não atinge
apenas o espírito da Igreja, mas também seu corpo, sua con
figuração - hoje devemos dizer quase forçosamente: suas
estruturas. Rm 12,2 diz, portanto: a estrutura e o espírito das
comunidades não se devem acomodar à estrutura e ao espí
rito da sociedade restante.
Já vimos, num caso concreto, consequências deste prin
cípio para Paulo: os cristãos, em seus litígios privados, nem
sequer podem recorrer a tribunais gentios. Pois também es
tes conflitos atingem a comunidade toda e, por isso, devem
ser resolvidos dentro da própria comunidade (cf. 3,6). Com
isto, está traçada uma nítida linha de separação entre Igreja
e sociedade, que não admite transições. Esta linha de sepa
ração adquire expressão linguística no fato de Paulo distin
guir, sem embaraço, entre os “fiéis” e os “infiéis”.138 Quem
de nós hoje se lembraria de fazer tais diferenciações linguís
ticas no seu ambiente? Paulo, porém, separa por princípio
- com base no novo que teve início com Cristo e a Igreja no
138 1Cor 14,22; cf. 1Cor 6,15.6.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 189
meio do mundo. Acontece, assim, que ele até distingue os
de “dentro” (1Cor 5,12) e os de “fora” (1Cor 5,12s; 1Ts 4,12).
mas Paulo nunca distingue entre cristãos que pertencem
apenas externamente à comunidade e fiéis “praticantes”; ser
cristão e participar da comunidade visivelmente reunida, para
ele, manifestamente, coincidem.139 mais ainda! Ser cristão exi
ge também que a santidade recebida no batismo e a vida mo
ral do batizado coincidam. Caso se abra uma brecha profunda
entre ambas, Paulo exige que medidas sejam tomadas:
Eu vos escrevi em minha carta que não tivésseis relações com im
pudicos. Não me referia, de modo geral, aos impudicos deste mun
do ou aos avarentos ou aos ladrões ou aos idólatras, pois então te
ríeis que sair deste mundo. Não; escrevi-vos que não vos associeis
com alguém que traga o nome de irmão e, não obstante, seja im
pudico ou avarento ou idólatra ou injurioso ou beberrão ou ladrão.
Com tal homem não deveis nem tomar refeição (1Cor 5,9-11).
Este mandamento muito duro que - visto isoladamente
- causa até a impressão de que para Paulo nem sequer existe
misericórdia cristã para quem se tornou culpado, expressa
claramente um princípio bíblico básico que se poderia cha
mar santidade da comunidade. A Igreja não só é santificada
pela obra salvífica de Jesus, ela também tem que realizar
esta santidade numa vida correspondente. Se não, ela torna
se igual ao mundo. Paulo não tem dificuldades em explicar
à comunidade de Corinto uma fórmula da lei, que devia as
segurar a santidade do povo de Deus do Antigo Testamen
to: “Afastai o mau do meio de vós” (cf. Dt 17,7; 1Cor 5,13).
Também aqui se mostra a oposição radical entre comunida
de e mundo.
139 W. klAIbER, op. cit., 60.
190 A iGreJA que JeSuS queriA
Este contraste profundo só nos é familiar nos escritos
de João. Olhando melhor, no entanto, vê-se que Paulo tra
ça a linha de separação tão nitidamente como os escritos
joaninos. O texto seguinte é tirado do Evangelho de João.
Ele é uma parte da chamada oração sacerdotal de Jesus. Os
ouvintes desse discurso são os discípulos que, no Quarto
Evangelho, representam toda a Igreja:
Eu lhes dei a tua palavra,
mas o mundo os odiou,
porque não são do mundo,
como eu não sou do mundo.
Não peço que os tires do mundo,
mas que os guardes do Maligno.
Eles não são do mundo.
como eu não sou do mundo.
Santifica-os na verdade;
a tua palavra é verdade.
Como tu me enviaste ao mundo,
também eu os enviei ao mundo.
E, por eles, a mim mesmo me santifico,
para que sejam santificados na verdade
(Jo 17,14-19).
Seria importante, novamente, traduzir corretamente as
fórmulas que se tornaram familiares demais pelo tanto ou
vir, e a linguagem quase mítica do Evangelho:
Elesnão são do mundo
como eu não sou do mundo
significa o seguinte: com Cristo entrou na história algo
completamente novo, que a sociedade humana por si mesma
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 191
não era capaz de produzir. Cristo é o absolutamente Outro e
Novo, no qual a santidade e a verdade de Deus se tornaram,
definitivamente, presentes no mundo. E em toda parte onde
se acredita em sua palavra e se vive a partir de sua verdade,
surge - no meio do mundo - igualmente o Novo e o Outro:
o espaço sagrado da verdade. Aqueles que são santificados
por Cristo e vivem na sua verdade, distinguem-se assim da
forma mais radical da sociedade restante: de sua mentira,
de sua não-verdade institucionalizada. Eles são odiados pe
los outros homens, porque desmascaram a sua construção
social da realidade como mentira. Pois o mundo se ajeitou
de tal maneira que, na sua interpretação da realidade, o ver
dadeiro Deus não aparece mais. No momento, porém, em
que Cristo e, em seu seguimento, a comunidade dos discí
pulos vive a verdadeira construção da realidade vinda de
Deus, a mentira do mundo cai por terra. Então, à medida
que os homens amam a verdade, eles chegam também à fé e
juntam-se à comunidade dos discípulos. À medida, porém,
que querem permanecer seguindo o “mundo” devem rea
gir com ódio e perseguição, para poderem continuar na sua
mentira. E não é apenas a mentira de vida particular, mas
também a mentira da sociedade, que construiu uma pseudo
realidade em torno de si:
Se o mundo vos odeia,
sabei que, primeiro odiou a mim.
Se fosseis do mundo,
o mundo amaria o que era seu;
mas porque não sois do mundo
e minha escolha vos separou do mundo,
o mundo, por isso, vos odeia
(Jo 15,18s).
192 A iGreJA que JeSuS queriA
Também o Evangelho de João mostra, portanto, a gran
de distância entre o mundo e a comunidade dos discípulos.
Importante é que, em João, exatamente no contexto em que
ele formula esta distância, aparece o conceito da santificação
dos discípulos (Jo 17,17-19). Nisto vê-se, não só que as linhas
básicas do Antigo Testamento continuam no Novo Testa
mento, mas também se torna definitivamente claro que o
conceito santidade da comunidade é o conceito central, com
que a Bíblia expressa, em sua linguagem característica, sua
noção de povo de Deus, enquanto sociedade divina de contraste
com o mundo: a Igreja é um povo santo (1Pd 2,9); ela é um
templo santo de Deus (1Cor 3,17); ela é santificada e purifi
cada pelo banho da água do batismo (Ef 5,26); os fiéis são os
ramos santos na oliveira nobre de Israel (Rm 11,16s) e eles
são chamados por Deus para sua santificação (1Ts 4,3).
mas, antes de tudo, os cristãos chamam-se a si mesmos
“os santos”. Este termo, originalmente, era uma autodesig-
nação da comunidade primitiva de Jerusalém.140 Esta auto
-designação é assumida, depois, por todas as comunidades,
também na Igreja cristã convertida do paganismo. Em Pau
lo, “os santos” são sinônimo de “comunidade”.141 O termo
continuaria a autodesignação característica dos cristãos até à
crise montanista; a partir daí seu uso vai diminuindo pouco
a pouco. No tempo seguinte, os cristãos tinham consciên
cia “de não serem santos, mas de ter santos mártires, santos
ascetas, santos sacerdotes”.142 Há indícios de que o acrésci
mo ao credo apostólico, surgido no quarto século: “(Creio)
na comunhão dos santos” originalmente não significava
apenas a comunhão com os santos do céu, mas também a
140 Cf. Rm 15,25.26.31; 1Cor 16,1; 2Cor 8,4; 9,1.12.
141 Cf. Rm 1,7; 16,15; 1Cor 1,2; 2Cor 1,1; 13,12; Fl 1,1; 4,22.
142 A. von HArnAck, op. cit., 388s.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 193
communio com toda a Igreja.143 Teríamos, então, aqui tam
bém, como na palavra “espirituais”, um daqueles estrei
tamentos de noção, tão características na evolução eclesial
posterior. No Novo Testamento, pelo menos, todos os mem
bros da Igreja são “santos”, “espirituais”, “irmãos”, “irmãs”.
Nós ficamos constrangidos com a autodesignação “os
santos”, usada na Igreja primitiva. Ela tem um pouco de sa
bor dos “santos dos últimos dias”. mas a palavra, antiga
mente, exprimia muito daquilo que nós chamamos “socie
dade de contraste”. A Igreja compreendia-se como o povo
santo da propriedade de Deus com uma ordem de vida dife
rente da do mundo pagão. Esta consciência está por trás do
texto seguinte:
Mas vós sois uma raça eleita,
um sacerdócio real,
uma nação santa,
o povo de sua particular propriedade,
a fim de que proclameis as excelências daquele
que vos chamou das trevas para a sua luz
maravilhosa (1Pd 2,9).
Este texto mostra, mais uma vez, como o Antigo Testa
mento (cf. especialmente Ex 19,6) continua vivo no Novo.
Ele mostra também que não se trata, em primeiro lugar, da
santidade particular do indivíduo cristão. um povo inteiro
deve dar testemunho do plano de Deus para o mundo. Este
povo pode ser pequeno; importante é que cumpra com co
ração alegre sua missão. “A decisão de preferir ficar uma
143 Cf. J. N. D. kelly, Altchristliche Glaubensbekenntnisse, Geschichte und
Theologie, 3a ed., Göttingen, 1972, 381-390. Importante é o testemunho
de Nicetas de Remesiana.
194 A iGreJA que JeSuS queriA
minoria com identidade inequívoca (a secularizar a Igreja) é
a condição prévia da ação transformadora do mundo”, diz
R. RIESNER com razão.144 O decisivo não é o tamanho da ci
dade, mas que ela esteja situada sobre um monte. Lá ela tor
na-se luz para o mundo todo. Paulo aproxima-se muito de
mt 5,14-16 quando escreve à comunidade de Filipos:
Fazei tudo sem murmurações nem reclamações, para vos tornar
des irreprováveis e puros, filhos de Deus, sem defeitos, no meio
de uma geração má e pervertida, no seio da qual brilhais como no
mundo (Fl 2,14s).
Encerremos, com esta citação da Epístola aos Filipenses,
a longa série de textos! Ela poderia ser continuada. Todo o
Novo Testamento vê a Igreja como sociedade de contraste,
que está em nítida oposição ao mundo. Deve-se perguntar
com muita tristeza, como foi possível reprimir, no cristianis
mo, este fato, durante tantos séculos. Em última análise, este
mecanismo da repressão só funcionava, não tanto porque o
apelo do Novo Testamento à santidade tivesse sido esque
cido, mas porque foi sistematicamente estreitado e relacio
nado com o indivíduo cristão e a sua santidade particular,
ou com determinados grupos como sacerdotes e religiosos.
Talvez a destruição definitiva e radical da ilusão de vi
ver numa sociedade totalmente cristã seja uma bênção. Isto
poderia abrir os olhos para compreender que a Igreja deve
seguir seu próprio caminho.
Talvez seja mais eficiente ainda o fato de o nosso mun
do atualmente se aproximar cada vez mais do ponto de sua
autodestruição definitiva e, manifestamente, não ter a força
144 R. rieSner, Apostolischer Gemeindebau. Die Herausforderung der paulini
schen Gemeinden, Giessen/Basel, 1980, 86.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 195
de questionar ou abandonar sua construção de sociedade,
baseada principalmente em poder e desconfiança. Exata
mente esta necessidade terrível deveria, finalmente, forçar
os cristãos a mostrar ao mundo que é possível, por parte
de Deus, uma forma de sociedade totalmente diferente. No
entanto, isto não se pode fazer plausível pelo ensino, mas só
pela práxis.
8. SINAL PARA AS NAçõES
uma imagem da Igreja, como a que foi delineada no ca
pítulo precedente, levanta muitas perguntas. Como é que
comunidades, em cuja autoconsciência o contraste para com
a sociedade restante desempenha um papel tão extraordiná
rio, se harmonizam com o mandato missionário de mt 28,19:
“Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discí
pulos...”? Este mandato da missão universal não exige que
uma comunidade se identifique profundamente com a situ
ação dos povos em todas as partes do mundo? mais ainda:
como se coadunam consciência de contraste e distância para
o mundo com a palavra Jo 3,16: “Pois Deus amoutanto o
mundo que entregou o seu Filho único...”? Esta frase, levada
a sério, não exige um completo sair-de-si, assim como Deus
entregou o que lhe é mais próprio por amor ao mundo?
Comunidades, cuja autoconsciência está profundamente
marcada pela oposição à sociedade pagã e que querem manter
sua autenticidade, não cairão, pelo contrário, num isolamen
to espiritual e não se tornarão seitas? Seu horizonte não se
terá estreitado de modo insuportável dentro de pouquíssimo
tempo? Não girarão constantemente em torno de si mesmas?
Elas não cultivarão, dentro em breve, uma mentalidade eli
tista de eleitos, que é repugnante e ridícula e, em todo o caso,
não-cristã? Não desenvolverão quase forçosamente aquela
196 A iGreJA que JeSuS queriA
consciência que encontramos em 2Cor 6,14-7,1? Esta passa
gem, na segunda Epístola aos Coríntios dá a impressão de
um bloco errático. Ela interrompe a conexão entre 6,13 e 7,2,
provavelmente não é do próprio Paulo, e é declarada, por
muitos exegetas, como um dos textos mais duvidosos do
Novo Testamento:
Não formeis parelha incoerente com os incrédulos. Que afinidade
pode haver entre a justiça e a impiedade? Que comunhão pode ha
ver entre a luz e as trevas? Que acordo entre Cristo e Belial? Que
relação entre o fiel e o incrédulo? Que há de comum entre o templo
de Deus e os ídolos? Ora, nós é que somos o templo do Deus vivo,
como disse o próprio Deus: Em meio a eles habitarei e caminharei,
serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Portanto, saí do meio
de tal gente, e afastai-vos, diz o Senhor. Não toqueis o que seja
impuro, e eu vos acolherei. Serei para vós um pai, e sereis para
mim filhos e filhas, diz o Senhor poderoso. Caríssimos, de posse
de tais promessas, purifiquemo-nos de toda mancha da carne e do
espírito. E levemos a termo a nossa santificação no temor a Deus.
Trabalhos mais recentes tentaram mostrar que este tex
to tem um caráter semelhante à literatura de Qumran.145 De
fato, a comunidade de Qumran vivia isolada; ela tinha-se
retraído até do restante judaísmo. Ela considerava-se a si
mesma como o santuário verdadeiro e a Jerusalém celeste já rea
lizada. Ela constituía, sem dúvida, a “tentativa mais radical
e mais grandiosa” do judaísmo antigo, “de realizar a comu
nidade santa de Deus”.146 mas ela também cultivava uma
consciência elitista sumamente desagradável; ela isolou-se e
retraiu-se da sociedade. mesmo que, por diversos motivos,
145 Cf. brAun. Qumran und das Neue Testament I, Tubingen, 1966, 201-204.
146 G. JeremiAS. Der Lehrer der Gerechtigkeit (StuNT 2), Göttingen, 1963, 350.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 197
se possa duvidar que 2Cor 6,14-7,1 seja um texto diretamen
te originário de Qumran, o parentesco interior deste texto
com os escritos de Qumran não mostra muito claramente a
que perigosas consequências tem de levar uma compreen
são de Igreja enquanto sociedade de contraste?
Embora a resposta a estas perguntas já se encontre, ba
sicamente, em capítulos anteriores (cf. 2,5; 2,7), vamos reto
mar mais uma vez toda a problemática. Isto, porque surge,
sempre de novo, de modo estereótipos, a acusação de elitis
mo, de sectarismo e de traição no universalismo cristão, quando
a Igreja do Novo Testamento é descrita como sociedade de
contraste.
Comecemos com 2Cor 6,14-7,1. Podemos partir tran
quilamente do pressuposto de que este texto tem muitos
pontos comuns com a autocompreensão da comunidade de
Qumran; estes pontos comuns podem-se observar também
em outros textos da paráclese neotestamentária.147 Eles pro
vêm, não em último lugar, do fato de tanto os homens de
Qumran como a Igreja primitiva estarem interessados em
reconstituir o verdadeiro Israel, em formar a comunidade
santa de Deus e em deixar-se edificar para serem templo es-
catológico no Espírito - numa palavra, pelo fato de estarem
interessados em fazer frutificar para o seu próprio presente
e tomar radicalmente a sério conteúdos centrais do Antigo
Testamento. Nenhum cristão poderá censurar a comunida
de de Qumran só por causa disso. Pois, pelo menos neste
aspecto, fez exatamente o mesmo. Talvez nós devêssemos
mesmo nos desacostumar de colocar a etiqueta “seita” rápi
do demais em toda a parte onde não existe “Igreja popular”
ou “Igreja grande”. Pois poderia ser que as “seitas” somente
147 Como na Epístola aos Efésios. Cf. J. GNIlkA, Der Epheserbrief (HThK X
2), Friburgo, 1971, 27-29.
198 A igreja que Jesus queria
existam porque suas irmãs maiores reprimiram conteúdos
centrais da Bíblia.
De resto, vale a pena juntar aqueles conteúdos de
2Cor 6,14-7,1 que também se encontram em Paulo.
Também Paulo distingue radicalmente entre fiéis e infiéis
(1 Cor 6,1). Também Paulo usa o binômio de opostos luz-tre-
vas quando quer destacar a comunidade da sociedade pagã
(1Ts 5,4-8). Também Paulo contrapõe a justiça da existência
cristã à desordem da vida pagã (Rm 6,19). E também Paulo
designa a comunidade como templo santo de Deus (1Cor 3,17).
A diferença realmente incisiva entre a interpolação
2Cor 6,14-7,1 e o Paulo autêntico é a exigência da santidade
ritual: “Saí do meio... não toqueis o que seja impuro... puri
ficai-vos de toda mancha da carne e do espírito!” Estas exi
gências indicam um grupo judeu-cristão extremo, no qual
ainda se cumprem todos os preceitos veterotestamentários
de pureza (ritual). Esta dimensão ritual da exigência de san
tidade do Antigo Testamento, de fato, está abolida desde Je
sus (cf. mc 7,1-23). O que não quer dizer, de modo algum,
que a exigência da santidade tenha sido simplesmente abo
lida. Jesus apenas a reconduziu de uma esfera coisificada
- pré-pessoal, ao seu sentido verdadeiro: ao seu significado
verdadeiro: à santidade do próprio povo de Deus.
Neste contexto, os teólogos geralmente falam de uma
santidade pessoal e interna em oposição à santidade ritual e
externa. No entanto, é necessário exatamente aqui olhar mais
atentamente. Pois também a santidade desligada da coisifi-
cação externa significa, na Bíblia, muito mais do que uma
qualidade interna da alma ou do indivíduo moral. Segundo
a Bíblia, a santidade abrange sempre também a dimensão
social, ligada inseparavelmente com a personalidade do in
divíduo. Santo deve ser não só o coração do homem, santas
devem ser também as condições de vida, as estruturas sociais
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 199
e as formas do meio ambiente em que o homem vive e onde
ele se projeta constantemente. Provavelmente a santidade
coisificada e externa do Antigo Testamento e do judaísmo já
tinham isto em mente. Portanto, deve-se ser muito cauteloso
em reduzir a exigência da santidade à dimensão puramente
moral. Não se pode perder, de modo algum, a dimensão do
social.
O Novo Testamento, evidentemente, sabe porque cha
ma “os santos” a todos os fiéis de uma comunidade, por
que fala do “povo santo” e porque chama “templo santo” à
comunidade. “Santo” significa, em todas estas expressões,
sempre também “separado”. Separado, porém, não em um
gueto, numa autossatisfação religiosa ou num isolamento
cultural e espiritual, mas separado para um outro estilo de
vida e novas formas de viver que, em oposição às estruturas
de uma sociedade distante de Deus e doente, realizam aqui
lo que, a partir de Deus, a sociedade deve ser.
Visto a partir desta colocação, o fragmento 2Cor 6,14-7,1
talvez não seja uma planta exótica demais dentro do jardim
das escrituras neotestamentárias. Talvez até tenha entrado
no Corpus Paulinum errore hominum et providentia Dei, para
forçar à convicção, de que a Igreja cristã tem de ser realmen
te uma sociedade de contraste - com formas de sociedade
próprias e um estilo de vida alternativo.
E como fica mt 28,19? Lá não se diz num sentido sim
plesmente universal:
Ide, portanto,
e fazei que todas as nações se tornem discípulos...
e um mandato como este não exige uma identificação pro
funda com a situação dos povos no mundo inteiro? Este é,
sem dúvida, ummandato universal. A universalidade do
200 A iGreJA que JeSuS queriA
mandato corresponde à soberania universal de Cristo que,
segundo o Evangelho de mateus, deu aos discípulos este
mandato missionário (cf. 28,18). Só que, por causa da grande
influência entre nós da tradição da Bíblia de Lutero, o texto
grego geralmente foi mal traduzido. O texto grego não diz:
“ensinai todos os povos”, mas “fazei que todas as nações se
tornem discípulos” - o que é diferente. mateus não quer,
de modo algum, dizer que a Igreja deve ensinar todas as
nações. Este ensinamento, contudo, hoje acontece constan
temente. Os meios modernos de comunicação social tornam
possível a irradiação da doutrina social da Igreja e de outros
ensinamentos, ao mundo inteiro. Também não se deve ne
gar que este processo impressionante tenha sua razão de ser.
mas mateus tinha em mente algo inteiramente diferente. Ele
falou que todos os povos devem ser transformados em “dis
cípulos”.
“Os discípulos” - este termo, como a expressão “os san
tos”, é uma autodesignação das comunidades cristãs mais
antigas.148 Assim a expressão: fazer das nações discípulos,
só pode querer dizer: fazer crescer sempre mais no mundo o
número das comunidades cristãs - até que um dia todas as
nações se tenham tornado Igreja, mateus não diz como isto
deve acontecer, Pelo menos, no texto dele não aparece ne
nhuma mensão de uma propaganda das missões. Provavel
mente, ele imaginou o crescimento das comunidades sobre
o mundo então conhecido da maneira como, de fato, acon
teceu no primeiro século: os apóstolos, e não apenas eles,
fundaram comunidades diversas, e a partir destas comuni
dades, a Igreja cresceu para um número maior de comu
nidades - especialmente pela atração que estas comunida
des exerciam sobre a sociedade pagã.
148 At 6,1.2.7; 9,1.19.15.26.38; 11,26; 13,52 e outros lugares.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 201
Então não é: “ensinar todas as nações”, mas “fazer que
todas as nações se tornem (comunidades de) discípulos”. Só
o versículo 20 fala de ensinar e, mesmo aqui, não num senti
do geral, mas com uma determinação concreta: “Ensinando-
os a observar tudo quanto vos ordenei”. Não se trata, por
tanto, de sentenças dogmáticas, mas do modo de viver que
Jesus ofereceu ao verdadeiro Israel como práxis do Reino de
Deus. Com certeza, mateus pensa no sermão da montanha
(mt 5-7), onde ele compôs a estrutura social do povo escato-
lógico de Deus, a partir das várias tradições de Jesus.
Assim, pode-se resumir o grandioso final do Evange
lho de mateus da seguinte maneira: os apóstolos devem
empenhar-se na formação de comunidades de discípulos no
mundo inteiro. Nelas vive-se a práxis-do-Reino-de-Deus de
Jesus; podemos dizer também: a estrutura social do verda
deiro Israel, em fidelidade radical a Jesus. mateus desenvol
ve, portanto, uma concepção realmente mundial, universal.
mas não perde, de modo algum, de vista as comunidades
concretas, nas quais, somente, pode ser vivida a “nova justi
ça” do sermão da montanha (mt 5,20).
universalismo, mentalidade que abrange o mundo todo
e amplitude de horizonte não podem, para a Igreja, ser co
locados em questão. Neste ponto mateus, Paulo, João e to
dos os outros autores de escritos do Novo Testamento falam
uma linguagem altamente inequívoca. Com isto, porém,
ainda não está, nem de longe, decidido, como, de que maneira,
com que estratégia se deve processar até alcançar todos de que
mt 28,19s fala.
Tínhamos visto que o próprio Jesus, seguindo, neste pon
to, um conjunto importante de motivos proféticos, absteve-se
completamente de uma missão entre as nações. Ele limita-se à
reconstituição de Israel. mas também tínhamos visto que esta
limitação não exclui, de modo algum, o universalismo. Jesus
202 A iGreJA que JeSuS queriA
pensa na categoria veterotestamentária da peregrinação das
nações. Quer dizer que ele pressupõe como evidente que, no
momento em que o Reino de Deus irrompe em Israel, as na
ções venham por si mesmas para tomar parte na fascinação
da soberania de Deus. Sua tarefa só podia ser a reconstitui
ção de Israel, em vista da aproximação do Reino de Deus e,
através desta reconstituição fazer brilhar o Reino de Deus
num lugar determinado do mundo. A concentração total de
Jesus em Israel não é, portanto, uma falta de universalismo, não é
um horizonte limitado, não é uma retirada do mundo, mas, ao con
trário, pressuposto imprescindível para que a soberania de Deus
possa atingir todas as nações. J. munck diz com razão:149 “Jesus
vem exatamente para Israel porque sua missão é destinada
ao mundo todo”.
Aliás, também eleição deve ser compreendida neste sen
tido. A eleição de um único povo de entre muitos não quer
dizer preferência de um povo único frente aos outros ou es
quecimento dos outros em favor de um, mas significa elei
ção de um povo por causa dos outros. O povo eleito deve tor
nar-se para os povos restantes sinal do plano de Deus para o
mundo na sua totalidade.
Quem acusa tal concepção de estreiteza de horizonte
ou de mentalidade elitista de eleição, não somente desqua
lifica a práxis de Jesus, mas mostra também a incapacidade
de se desprender de noções de missão de uma determina
da época, que não eram as noções nem da Igreja primitiva
nem da Igreja da Antiguidade, mas, na melhor das hipóte
ses, do tempo presente. Aliás, a palavra “missão” hoje não
é mais usada com tanta frequência como no século XIX.
Em seu lugar é usada, por muitos cristãos, a expressão
149 J. munck, Paulus und die Heilsgeschichte (Acta Jutlandica 26,1), Cope
nhague, 1954, 266.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 203
“transformação do mundo”. Suponhamos que esta expres
são “transformação do mundo” seja usada não em senti
do marxista, mas em sentido cristão. De qualquer modo,
é válido para a transformação cristã do mundo o mesmo
que foi dito acima a respeito do termo “missão”: ela não
corresponde ao Novo Testamento se não tiver seu apoio
no povo de Deus. O mundo só pode ser transformado se
o povo de Deus se transformar a si mesmo. Não se pode
querer libertar outros, se no próprio grupo não brilhar a
liberdade. Não se pode pregar conversão social aos outros,
se não se vive numa comunidade que tenta realizar a nova
sociedade do Reino de Deus.150
mas a Igreja primitiva pensou realmente assim? Tam
bém aqui devemos perguntar novamente - e agora pela
última vez - se as comunidades do Novo Testamento con
tinuaram o que Jesus tinha feito no início. Já vimos o tex
to mt 28,19s que, neste contexto, deve ser considerado um
texto eclesial. Em seguida vamos fazer além de mt 28, uma
amostragem com quatro passagens do Novo Testamento:
At 15; Lc 2; Rm 9-11 e a Epístola aos Efésios.
Esta amostragem mostrará a fidelidade com que a Igre
ja primitiva continuou o caminho de Jesus. Ela não perdia
de vista o modelo da peregrinação das nações mas, baseada
neste modelo, colocava a própria experiência missionária
num quadro histórico-salvífico maior. À primeira vista, isto
parece uma contradição, pois o motivo da peregrinação das
nações ainda não conhece nada semelhante à missão. Aqui,
de fato, na Igreja primitiva mudou alguma coisa em relação
150 Cf. as excelentes reflexões em R. J. Sider, Jesus und die Gewalt, maxdorf,
1982, 53.66-74. Não apenas na América Latina, mas também num nú
mero grande de Igrejas da América do Norte existem tentativas de
síntese entre teologia da libertação e renovação da comunidade, das
quais, entre nós, ainda mal se toma conhecimento.
204 A iGreJA que JeSuS queriA
a Jesus. Depois de uma fase temporariamente limitada na
qual, mais uma vez, a preocupação era a reconstituição de
Israel,151 a Igreja primitiva, muito em breve, exerce missão
no sentido próprio - primeiramente em Samaria, depois
entre os não-judeus. Decisivo, porém, é que também esta
missão fora de Israel fica inserida no quadro geral: “Israel e
as nações”, da maneira que a dinâmica própria da ideia damissão sai da ideia da presença simbólica do povo de Deus
entre as nações. mas vamos agora a nossa amostragem:
1. Dentro da apresentação de Lucas do Concílio dos
Apóstolos existe um discurso do irmão do Senhor, Tiago,
que começa assim:
Irmãos, escutai-me: Simeão acaba de expor-nos como Deus se
dignou, primeiro, escolher dentre os gentios um povo dedicado
ao seu Nome. Com isto concordam as palavras dos profetas, se
gundo o que está escrito: Depois disto voltarei e reedificarei a
tenda arruinada de Davi, reconstruirei as suas ruínas e a re
erguerei. Então o resto dos homens procurará o Senhor, assim
como todas as nações dedicadas ao meu Nome, diz o Senhor que
faz estas coisas (At 15,13-17).
Não precisamos de nos interessar pela continuação do
discurso; importante para nós é a citação do profeta Amós.
Também não nos devemos interessar se o Tiago histórico de
fato pronunciou este discurso e nele citou Am 9,11s. mui
ta coisa fala em contrário. Lucas, porém, também não com
pôs este discurso de Tiago sem nenhum fundamento. Ele
tira das tradições antigas. Também a citação de Amós, nesta
forma estranha em que é apresentado, deve provir de uma
151 Cf. para este assunto o artigo importante de R. PeScH, op. cit. (30),
11-70, especialmente 45-54.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 205
tradição mais antiga; ela interpretava a partir de Am 9,11s as
experiências missionárias do seu próprio tempo.
Estranhamente a história destas experiências começa
com o reerguimento de Israel (a tenda arruinada de Davi).
Evidentemente isso não significa uma renovação nacional
do Estado de Israel. Trata-se da reconstituição do povo de
Deus, começado por Jesus e continuado pelos seus discípu
los depois da Páscoa. É o próprio Deus que reergue na Igreja
o Israel disperso e arruinado.
Decisivo é agora: o reerguimento de Israel acontece para que
também as nações pagãs busquem o Senhor (cf. versículo 17).
Seu nome foi invocado sobre elas, isto é, também elas estão,
há muito tempo, sob a soberania de Deus - mas somente
conseguem achar a Deus e entrar na soberania de Deus, se
Israel for reerguido. Não se fala, aí, de uma atividade do
Israel reerguido. É dito muito mais: logo que Israel for reno
vado, as nações podem começar a buscar o Senhor. Elas en
contram-no, então, em Israel. Pode-se interpretar: logo que
Israel aparece, entre todas as outras sociedades do mundo
como a sociedade corretamente construída (é esta a termi
nologia do texto), a sociedade pagã poderá buscar a Deus
e achá-lo - em Israel, na sociedade modelo de Deus que é,
então, totalmente orientada para Deus.
Aqueles que transmitiram este texto de Amós, sabiam,
evidentemente, que, para tudo isto, era necessário esfor
ço missionário ativo. mas também sabiam que este esforço
missionário em nada transformaria as nações se o próprio
povo de Deus não estivesse, como sociedade transformada,
por trás da missão. A missão recebia sua força de convic
ção pela construção social concreta do povo de Deus que
a exercia.
2. Para o próximo ponto da amostragem escolhemos a
oração de ação de graças de Simeão, em Lc 2,29-32:
206 A iGreJA que JeSuS queriA
Agora, Soberano Senhor, podes despedir
em paz o teu servo, segundo a tua palavra;
porque meus olhos viram tua salvação,
que preparastes em face de todos os povos,
luz para iluminar as nações,
e glória de teu povo, Israel.
Este pequeno hino é muito mais antigo do que o Evan
gelho de Lucas. Ele reflete, como o Magnificat e o Benedictus,
uma antiga autocompreensão da Igreja. As comunidades
que assim falavam compreendiam-se como povo escatológi-
co de Deus; com a maior naturalidade eles chamavam-se a si
mesmas “Israel”.152 Deve ter-se tratado, portanto, de comu
nidades judaico-cristãs na Palestina. Elas dizem de si mes
mas (pela boca de Simeão): nós vimos a salvação - portanto,
aquilo que muitos profetas e reis quiseram ver e não viram
(Lc 10,23s). Agora apareceu em nosso meio.
Evidentemente esta salvação é o próprio Jesus. mas não
somente ele. A salvação que brilha é, igualmente, o novo
que veio com Jesus: a presença do Reino de Deus em Israel,
a renovação messiânica do povo. Esta salvação messiânica,
concedida por Deus, brilha agora no povo de Deus da Igreja
para todas as nações; ela é luz para iluminar as nações e, ao
mesmo tempo, glória para Israel.
O hino exprime-se na linguagem do Deuteroisaías;153 o
motivo da peregrinação das nações pelo menos transpare
ce. Pois a salvação messiânica que irrompe em Israel brilha
diante de todos os povos, sem que, nem de longe, se fale de algo
como a missão. Pode-se perguntar até, por um momento, se
a expressão “glória de Israel” não significa a “riqueza das
152 Cf. nos seus pormenores G. loHfink, op. cit. (72), 1732.
153 Cf. Is 40,5; 42,6; 46,13; 49,6; 52,10.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 207
nações” que os gentios trazem consigo em sua caminhada
para Sião (cf. Is 60,11-13); pois o hino fala primeiro da “ilu
minação dos gentios” e somente depois da “glória de Isra
el”. mas esta questão pode ficar em aberto. Em todo o caso
é certo que o nosso texto coloca a salvação messiânica, que
brilha no povo de Deus, numa firme conexão histórico-sal-
vífica com a revelação aos gentios. Nisto ele é semelhante a
At 15,13-17.
3. Perguntando a Paulo que significado tem, para ele, a
existência da Igreja para a sociedade pagã, ele dá diferen
tes respostas. Ele pode dizer, por exemplo, que em Cristo,
Deus reconciliou o mundo consigo e que agora a Igreja é o
lugar onde esta reconciliação, que aconteceu em princípio,
deve-se realizar concretamente. Por isso Deus incumbiu a
Igreja com o serviço da reconciliação. A Igreja é o lugar onde
Deus, numa nova criação, inaugurou a sociedade reconcilia
da (2Cor 5,17-21).
mas Paulo também pode dizer que uma vida da Igreja
segundo o Evangelho pode tornar-se para o mundo sinal
de sua ruína (Fl 1,27s). A Igreja pode, portanto, tornar-se
sinal da salvação, mas também sinal da condenação para
a sociedade pagã, de acordo com a sua resposta à vida de
sinal dos fiéis. Ainda mais importante para a nossa ques
tão é a ampla reflexão histórico-salvífica do apóstolo sobre
a fidelidade de Deus à aliança, respectivamente, sobre o
destino de Israel, em Rm 9-11. O que Paulo diz nesse tex
to é incompreensível sem o motivo veterotestamentário da
peregrinação das nações.
Em si, o decorrer histórico-salvífico deveria ter sido que
um Israel crente no Cristo trouxesse a salvação às nações,
(Paulo pressupõe este decorrer “regular” da história da sal
vação em Rm 9-11 sem o formular especificamente ). mas
as coisas aconteceram de modo diferente: com exceção de
208 A iGreJA que JeSuS queriA
um “resto sagrado” (11,1-7), a maioria de Israel escandalizou-
se com seu messias (9,32s) e não acreditou no Evangelho
(11,20). Com isso, porém, a mediação da salvação por parte
de Israel não estava terminada: não realizando a mediação
da salvação às nações por sua fé, realiza-lo-á por sua descren
ça: a reconstituição de Israel foi substituída pela missão aos
gentios, os mensageiros para Israel tornaram-se mensagei
ros para as nações; pelo fracasso de Israel a salvação chegou
aos gentios (11,11), Deus não permite que os homens destru
am seus planos.
Assim a salvação está com os gentios. mas Deus não
pensa apenas nos povos gentios. Ele pensa constantemen
te no seu povo. Ele concedeu a salvação aos gentios não só
por causa deles, mas também para tornar Israel ciumento
(10,19). Com isto, inverteu-se a direção da peregrinação das
nações: em si, a salvação, brilhando em Israel, deveria atrair
as nações para o povo de Deus. mas agora, por causa da des
crença em Israel, Deus fez brilhar a salvação messiânica na
Igreja dos gentios e transformou o Não-povo em Povo (9,25)
- exatamente para tornar Israel ciumento. A credibilidade da
sociedade messiânica, que agora se concretiza na Igreja dos
gentios, deve, por sua parte, atrair Israel e torná-loansioso.
Paulo está profundamente convencido: esta estratégia
de Deus em relação ao seu povo terá êxito. Logo que a sal
vação messiânica tenha alcançado entre os povos o “valor
crítico” que somente Deus conhece,154 todo Israel será salvo
(11,26) - evidentemente pelo fato de, em virtude da atração
messiânica da Igreja dos gentios, poder, finalmente, acre
ditar em Jesus como messias. E novamente é retomado o
154 Paulo diz literalmente: “Até que chegue a plenitude dos gentios”
(11,25). A “plenitude” significa a medida escatológica que o próprio
Deus estabelece, não a totalidade numérica.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 209
esquema da peregrinação das nações e, desta vez, em sua di
reção original: naquela hora escatológica em que todo Israel,
por causa da atração messiânica da Igreja dos gentios, che
gar à fé, o efeito para a sociedade pagã até lá ainda descrente
vai ser incalculável:
E se a sua queda reverte em riqueza para o mundo e o seu esvazia
mento em riqueza para os gentios, quanto maior fruto não dará a
sua plenitude! (11,12). - Pois se a sua rejeição resulta na reconci
liação do mundo, o que será seu acolhimento senão a vida que vem
dos mortos? (11,15).
Todos estes pensamentos de Paulo são tão difíceis de en
tender para nós, porque pressupõem, até nos detalhes, o mo
tivo da peregrinação das nações. mesmo sem analisarmos
pormenorizadamente estes detalhes, deveria ter-se tornado
claro: para Paulo, o destino das nações está indissoluvelmente li
gado com o caminho de Israel e, vice-versa, o destino de Israel com
o caminho das nações. Não se trata aqui do indivíduo judeu
ou do indivíduo pagão. Trata-se, muito mais, da existência
da Igreja dos gentios, respectivamente, de Israel; trata-se da
credibilidade da sociedade messiânica realizada. Só assim
pode ser ganho o outro lado.
Decisivo, porém, em Rm 9-11 é que Israel continua sendo
o verdadeiro espaço da salvação: os gentios são enxertados na
oliveira nobre de Israel (11,17), não inversamente (11,18). Em
lugar de destaque, em 11,25s, Paulo diz: a totalidade das na
ções entrará, isto é, as nações pagãs, tornando-se crentes pela
missão cristã, entrarão na comunidade salvífica escatológica
de Israel.155 Aqui, portanto, a aceitação do Evangelho pelas
155 U. Wilckens, Der Brief an die Romer (EKK 6,2), Zurique/Neukirchen-
Vluyn, 1980, 254s.
210 A iGreJA que JeSuS queriA
nações e sua entrada na Igreja é identificada com a peregri
nação das nações para Sião. Provavelmente Paulo não está
sozinho com esta ideia (cf. também Lc 2,30-32 e At 15,16s),
Talvez os primeiros passos da missão aos gentios somente
tenham sido possíveis porque a Igreja primitiva via na res
surreição de Jesus o início dos acontecimentos escatológicos
e, com isto, esperava a entrada dos gentios, prometida pelos
profetas.
4. O último ponto da nossa amostragem será da Epístola
aos Efésios. O grande tema desta epístola é a Igreja, A Igre
ja é o verdadeiro Israel, no qual os cristãos do paganismo,
que outrora eram estranhos à comunidade de Israel (2,12),
se tornaram concidadãos dos santos e membros da família
de Deus (2,19).
Até aqui a eclesiologia do autor corresponde de um
modo geral à compreensão de Igreja do seu tempo. A par
ticularidade da Epístola aos Efésios consiste no fato de ela
refletir sobre a imagem tradicional da Igreja a partir de um
novo sistema de referência, que era muito atual na filosofia
helenística daquele tempo: a partir de uma filosofia do cos
mos. A Igreja já não é só o verdadeiro povo de Deus, mas
corpo cósmico que chega até ao céu (2,5s) e que é vivificado
por sua cabeça, o Cristo ressuscitado e glorificado (1,22s).
Do Cristo, a cabeça, corre uma plenitude de bênçãos para
dentro do corpo da Igreja (1,3.23). Esta plenitude de bênçãos
possibilita aos fiéis crescerem, cada vez mais, em direção a
sua cabeça celeste (4,15) e edificarem o corpo da Igreja no
amor (4,16). O próprio Cristo, como cabeça, porém, não é
apenas princípio de vida da Igreja mas também o soberano
de todas as potências cósmicas (1,20-22). Ele não só enche a
Igreja com a plenitude de bençãos, mas ele domina também
o cosmos com seu poder (4,10) e o traz sempre mais para
dentro do âmbito da sua soberania (1,10). Evidentemente
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 211
a Igreja é a dimensão pela qual Cristo plenifica o cosmos
(1,23). De qualquer modo é por ela que a sabedoria de Deus
é anunciada aos poderes cósmicos (3,10).
É preciso apenas traduzir esta linguagem estranha
para nós, mas muito atual entre os sábios de então, em
sistemas de conceitos hodiernos, para se tornar imediata
mente claro com que intensidade se reflete aqui sobre o
relacionamento Igreja-mundo. A sociedade pagã apresenta
se como um amplo espaço que é dominado por potências
e principados:
Vós estáveis mortos em vossos delitos e pecados. Neles vivíeis
outrora, conforme a índole deste mundo, conforme o Príncipe
do poder do ar, o espírito que agora opera nos filhos da desobedi
ência. Com eles, nós também andávamos outrora nos desejos da
nossa carne, satisfazendo as vontades da carne e os seus impul
sos (2,1-3).
Por trás destas imagens míticas está um conhecimento
profundo, que infelizmente perdemos, que toda a sociedade
humana não vive somente das decisões de hoje, mas também
do potencial mau do passado não elaborado e não remido,
que age no presente como potência terrível. A Epístola aos
Efésios quer dizer: dentro desta sociedade do paganismo,
dominada por potências escravizadoras foi aberto, por Cris
to, um novo espaço de liberdade. Cristo domina todas as po
tências e forças da sociedade. mas ele não pode reinar sem
seu corpo, a Igreja. Pois ela é o espaço no qual a liberdade e
reconciliação, iniciadas em princípio por Cristo, devem ser
vividas de um modo socialmente concreto.
O que cai na vista é que, para o autor da Epístola aos
Efésios, o anúncio do Evangelho às nações como tarefa atual
já não desempenha mais nenhum papel. A Igreja atual é o
212 A iGreJA que JeSuS queriA
resultado, mas não mais o portador da missão. Ao contrário, o
crescimento interno da Igreja tem uma importância decisiva:
...até que alcancemos todos nós a unidade da fé e do pleno conheci
mento do Filho de Deus, o estado do Homem Perfeito, a medida da
estatura da plenitude de Cristo. Assim não seremos mais crianças,
joguetes das ondas, agitados por todo vento de doutrina, presos
pela artimanha dos homens e de sua astúcia que nos induz ao erro.
Mas, seguindo a verdade em amor, cresceremos em tudo em dire
ção àquele que é a Cabeça, Cristo. cujo Corpo, em sua inteireza,
bem ajustado e unido por meio de toda junta e ligadura, com a
operação harmoniosa de cada uma das suas partes, realiza o seu
crescimento para a sua própria edificação no amor (4,13-16).
A tarefa decisiva da Igreja, portanto é, que ela se edifique
como sociedade de contraste para o mundo, como espaço da
soberania de Cristo onde o amor fraterno é a lei da vida. Se a
Igreja cumprir esta tarefa, a sociedade pagã compreenderá o
plano de Deus com o mundo. A Epístola aos Efésios exprime
este pensamento, porém, novamente, em linguagem mítica:
...para dar agora a conhecer aos príncipes e às Autoridades nas
regiões celestes, por meio da Igreja, a multiforme sabedoria de
Deus... (3,10).
Digamos tranquilamente: quando a Igreja corresponde
ao plano de Cristo, ela cresce automaticamente para den
tro da sociedade pagã e Cristo pode plenificar tudo através
dela.
Sendo correta esta interpretação, então temos na Epísto
la aos Efésios numa terminologia completamente diferente e
diante de um horizonte de pensar inteiramente diverso, algo
semelhante ao modelo da peregrinação das nações: o povo
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 213
de Deus cresce, sem trabalho missionário, pela fascinação
que ele irá ter, para dentro da sociedade. A Igreja é, então,
simplesmente sinal eficaz da presença da salvação de Deus
no mundo.Nossa amostragem realizada em At 15, Lc 2, Rm 9-11
e na Epístola aos Efésios mostrou claramente: Igreja como
sociedade de contraste não significa oposição à sociedade
restante por causa da oposição. Igreja como sociedade de con
traste significa muito menos ainda desprezo da sociedade
restante a partir de um pensamento elitista. Significa sim
ples e unicamente o contraste em favor dos outros e por causa
dos outros, isto é, aquela função de contraste, formulada de
modo insuperável nas imagens do “sal da terra”, da “luz do
mundo” e da “cidade situada sobre um monte” (mt 5,13s).
Exatamente porque a Igreja não existe para si mesma, mas única e
exclusivamente para o mundo, ela não pode tornar-se mundo, mas
deve preservar sua própria fisionomia.
Se perder seus contornos, se sua luz se apagar, se dei
xar seu sal tornar-se insosso, ela não pode mais transformar
a outra sociedade. Então nenhuma atividade missionária
adianta mais nada; então também não adianta mais nada
um engajamento social para fora por mais ativo que seja. Da
Índia de hoje vem o seguinte relatório que pode iluminar,
mais uma vez, de um golpe, todo o problema:156
“O vigário do povoado de Silvepura, perto de Bangalore, é
um padre de mentalidade missionária. Com dinheiro alemão
ele comprou uma kombi e, à noite, depois de terminar seu tra
balho paroquial, ele vai aos povoados vizinhos. Ele para nas
praças, reúne em torno de si as crianças e os lavradores que
descansam e mostra-lhes filmes (o carro tem equipamento
156 De m. kämPcHen, “Indisches Christentum zwischen Ideal und Wirkli
chkeit”, Orientierung 46 (1982), 91-94, especialmente 91.
214 A iGreJA que JeSuS queriA
para isto) ou apresenta-lhes pequenas mágicas. Depois fala
de Cristo. uma noite, um velho hindu levantou e disse: ‘Pre
zado vigário, nós ouvimos com interesse, até com respeito,
suas palavras sobre Jesus Cristo. Amamos Jesus e o vene
ramos como homem extraordinário e como Deus. Também
gostamos de ler a Bíblia quando temos tempo e não estamos
cansados demais. No entanto, permita-me que lhe diga, nem
por isso queremos tornar-nos cristãos. Não sabemos como
eles vivem? Quanta briga e desentendimento, bebedeira e
mentira não existe entre eles? Também eles não são melho
res do que nós'. Assim contou o vigário de Silvepura”.
Com isso está dito quase tudo. O texto, contudo, pode
levar novamente a um mal-entendido, ou melhor, ao mal
entendido mais profundo e mais grave: será que a Igreja
deve ser um instituto de moralidade, deve ver seu ideal
na moralização dos costumes, deve desenvolver-se para
ser uma sociedade de produção ético-moral que funciona
bem? Assim também se tiraria à Igreja o que lhe é mais
próprio e interior.
O que torna a Igreja sociedade divina de contraste, não
é a santidade adquirida por própria força, não são esforços
desesperados e obras morais, mas é a ação salvífica de Deus,
que justifica os ímpios, acolhe os fracassados e reconcilia
os que se tornaram culpados. Somente nesta reconciliação
concedida e no milagre da vida reconquistada contra toda a
esperança floresce aquilo que aqui é designado como socie
dade de contraste.
O que se tem em mente não é uma Igreja em que não
haja culpa, mas uma Igreja na qual da culpa perdoada cresce
esperança infinita.
O que se tem em mente não é uma Igreja em que não
haja divisões, mas uma Igreja que encontra reconciliação
por cima de todos os abismos.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE JESUS 215
O que se tem em mente não é uma Igreja em que não
haja mais conflitos, mas uma Igreja que resolve os conflitos
de maneira diferente da sociedade restante.
O que se tem em mente, por fim, não é uma Igreja em
que não haja mais cruz nem histórias de sofrimentos, mas
uma Igreja que constantemente pode festejar a Páscoa, por
que ela morre, na verdade, com Cristo, mas também ressus
cita com ele.
Quarta Parte
A IGREJA ANTIGA
NO SEGUIMENTO DE JESUS
A terceira parte deste livro quis tornar claro: a Igreja
primitiva assumiu as linhas básicas da práxis do Reino de
Deus realizada por Jesus e a levou adiante correta e adequa
damente, mesmo onde as circunstâncias externas se tinham
mudado. Não se queria afirmar com esta frase que não tives
se havido, da parte das comunidades do Novo Testamento,
atrasos e fracassos em relação a Jesus. Muito menos ainda
se queria afirmar que a Igreja primitiva tivesse esgotado to
talmente e realizado plenamente o potencial crítico, frente a
todas as outras sociedades do mundo, que fora colocado ir-
revogavelmente por Jesus através da reconstituição do ver
dadeiro Israel. Afirmou-se sim: as comunidades do Novo
Testamento reconheceram - de um modo geral - a vontade
de Jesus; elas transmitiram a palavra de Jesus e a realiza
ram, pelo menos, incipientemente, de modo que ficou para
sempre fundada dentro da Igreja e pôde ser reconhecida por
todos os tempos. De outro modo não se poderia explicar o
fato de este potencial crítico ter suscitado, até hoje, sempre
de novo, dentro e fora da Igreja, novas conversões e novos
movimentos de transformação social.
Na quarta parte, que agora segue, deve-se mostrar, pelo
menos de modo incipiente, que esta recepção fundamental
da práxis do Reino de Deus por parte de Jesus continuou
para além das comunidades do Novo Testamento pelo tempo
220 A iGreJA que JeSuS queriA
da Igreja antiga adentro. Isto só pode ser feito, realmente, de
modo incipiente, pois a tentativa ultrapassa a competência
de um exegeta do Novo Testamento. Por outro lado este es
forço é necessário e urgente, pois depara-se hoje, e não raras
vezes, em detentores de cargos eclesiásticos (mas também
em outros cristãos) com uma desvalorização do Novo Testa
mento. As comunidades do Novo Testamento, então, geral
mente figuram como campo de experiência um tanto exótico
de ideias e estruturas ainda não bem amadurecidas. Elas só
teriam sido levadas ao ponto querido por Deus através da
evolução eclesiástica e dogmática posterior. No primeiro sé
culo - diz-se então - muita coisa ainda estava em fase de
experiência, e certas utopias do começo mostraram-se muito
rapidamente irrealizáveis frente à realidade concreta.
Frente a esta opinião, deve-se mostrar, a seguir, que a
audácia e a “loucura” daquilo que designamos como so
ciedade de contraste, continuou muito para além da Igreja
primitiva até o século terceiro, e marcou tão inconfundivel
mente a imagem da Igreja antiga que ninguém pode falar
aqui de meras utopias e, muito menos, de utopias meramen
te neotestamentárias.
1. O POvO ESCOLHIDO DENTRE AS NAçõES
Os Padres da Igreja afirmam constantemente que Deus
reúne sua Igreja de todas as nações e de todos os cantos do
mundo. Assim, os Padres retomam conscientemente o pen
samento bíblico da reconstituição escatológica do povo de Deus.
A conhecida oração eucarística da Didaquê reza assim:
Lembrai-vos, Senhor, de vossa Igreja,
para que a salveis de todo o mal,
e a torneis perfeita no vosso amor.
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 221
Reuni-a, a santificada,
dos quatro cantos no vosso Reino,
que preparastes para ela.
Pois vosso é o poder e a glória para sempre.
(Did. 10,5).
As semelhanças com o Pai-nosso são evidentes; não
apenas com a sétima prece (“livrai-nos do mal”), mas espe
cialmente com a segunda (“santificado seja o vosso nome”).
Aqui a segunda prece do Pai-nosso é entendida de maneira
congenial como prece pela reconstituição do povo de Deus
(cf. acima 1,4).
O autor da primeira carta de Clemente mostra como a ideia
do povo de Deus permaneceu viva nos Padres da Igreja. Ele
escreve:
Aproximemo-nos, pois, dele (de Deus) com a alma santa, levante
mos a ele mãos puras e sem mácula, amemos nosso pai bondoso e
misericordioso que nos fez sua parte eleita. Pois assim está escrito:
quando o Altíssimo dividiu as nações, quando dispersou os filhos
de Adão, ele dispôs de regiões para as nações segundo o número
dos anjos de Deus. Parte do Senhor tornou-se seu povo Jacó, qui
nhão da suaherança, Israel. E em outro trecho está escrito: eis que
o Senhor toma para si um povo do meio das nações, assim como
um homem toma os primeiros frutos de sua eira; e daquele povo
vai sair o santíssimo. Visto nós sermos uma parte santa, vamos
fazer tudo que pertence a santidade (1Clem 29,1-30,1; da tradu
ção para o alemão de J. A. fIScHER).157
Aqui não só é pressuposto como evidente que a Igreja é
o verdadeiro Israel, mas também é reconhecida claramente
157 J. A. Fischer, Die Apostolischen Vater, Munique, 1956.
222 A iGreJA que JeSuS queriA
a conexão bíblica entre a ideia do povo de Deus e a ideia da
santificação. A Igreja é o povo eleito, propriedade de Deus.
Esta condição traz consigo a consequência impreterível de
que ela deve ser santa no meio das nações - isto é, funda
mentalmente diferente das outras sociedades deste mundo.
A ideia da escolha da Igreja dentre as nações aparece
mais uma vez na primeira carta de Clemente, perto do fim,
na “oração comum” que teve seu lugar na liturgia romana e
corresponde às nossas “preces dos fiéis”:
...Vós que fazeis numerosas as nações na terra e de todas escolhes
tes aqueles que vos amam, por Jesus Cristo, vosso servo amado,
por quem nos educastes, santificastes e elevastes. Nós vos roga
mos, Senhor, que sejais nosso auxílio e proteção. Salvai nossos
perseguidos, levantai os caídos, mostrai-vos aos que oram, curai
os doentes, reconduzi os errantes do vosso povo para o caminho
certo. Saciai os que têm fome, libertai nossos presos, levantai os
fracos, consolai os desalentados. Todas as nações devem reconhe
cer que vós sois o único Deus, Jesus Cristo é vosso servo, e nós
somos vosso povo, o rebanho das vossas pastagens (1Clem 59,3s;
da tradução para o alemão de J. A. fISCHER).
A estrutura sintática da última frase coloca-nos diante
de uma pergunta que, por causa de 1Clem 59,4, é difícil de
ser respondida, mas mesmo assim muito importante: Cle
mente quer dizer que, pela existência fidedigna do povo de
Deus no meio das nações, Jesus se torna conhecido como
Messias e, pelo Messias, o próprio Deus? Formulando em
outros termos: Cristo só se torna cognoscível pela Igreja e
Deus só se torna cognoscível por Cristo? Este seria um pen
samento teológico cheio de consequências que, aliás, já apa
rece no Evangelho de João (cf. 17,21) e que também não é
estranho aos Padres da Igreja (cf. a seguir 4,8). Em relação a
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 223
1Clem 59,3s pode-se deixar esta questão em aberto. Porque,
também independentemente da resposta a esta questão, se vê
claramente que aqui se pensa e formula a partir da ideia do
povo de Deus. Pois os sofredores de quem fala a “oração co
mum” não são todos os sofredores do mundo, mas os perse
guidos, famintos e presos do povo de Deus. É por eles que está
sendo rezado primeiramente e mais longamente. Somente no
fim da “oração comum” se reza também pela paz no mundo
e o bem dos que governam (cf. 1Clem 60,4-61,2). Assim se tor
na claro que a consciência de comunhão, extraordinariamente
intensa, da Igreja, que já apareceu muitas vezes no Novo Tes
tamento, foi continuada no tempo da Igreja antiga.
2. A RELIGIãO DA CURA
Na “oração comum” de Clemente de Roma pede-se pela
cura dos doentes do povo de Deus (1Clem 59,4). Com isto
é abordado um segundo tema básico que, tendo seu início
na práxis do Reino de Deus em Jesus e, passando pelas co
munidades do Novo Testamento, continua até ao tempo da
Igreja antiga. A consciência da presença do Espírito que era
tão viva na Igreja primitiva, aos poucos começa a retroceder.
Mas permanecem a preocupação pelos doentes, as curas dos
doentes e as expulsões dos demônios. Todas estas atividades
estão envolvidas numa rica terminologia que descreve Cristo
como médico, os sacramentos como meios da cura, a fé cristã
como religião da cura. A. vON HARNACk descreveu longamen
te o campo dos conceitos medicinal-teológicos, aqui mencio
nado, na sua obra “Missão e propagação do cristianismo”.158
Muito mais raramente é mencionado o papel extraor
dinário que as curas milagrosas desempenhavam na Igreja
158 A. vON HARNACk, op. cit. (86), 115-135.
224 A iGreJA que JeSuS queriA
antiga. Orígenes pressupõe milagres da cura como algo evi
dente nas comunidades159 e diz expressamente que viu, com
os próprios olhos, muitos dos que foram curados (Contra
Celsum II, 8, III, 24). Para ele, as ações milagrosas de Jesus
até “criaram” o povo de Deus, a Igreja (Contra Celsum II, 51).
Para Gregório Magno, o Reino de Deus torna-se visível
nos milagres que acontecem nas igrejas, junto aos túmulos
dos santos.160 Gregório já pertence a um tempo bem poste
rior, no entanto é instrutivo o fato de ele, no sentido dos
Evangelhos, colocar o Reino de Deus em conexão com as
obras do poder divino no povo de Deus.
Na sua obra: “A cidade de Deus”, Agostinho dedica um
extenso parágrafo aos milagres (De civitate Dei XXII, 7-10).
Ele está interessado, sobretudo, na descrição protocolar dos
milagres de cura nas comunidades de seu tempo. E ele quer
mostrar: milagres não foram realizados apenas por Jesus e
pelos apóstolos, mas ainda acontecem em milão, Cartago,
em Hipona e em todas as partes. Eles devem ser anotados,
lidos às comunidades e assim, não caiam no esquecimento
dos homens:
Também agora acontecem milagres em nome de Cristo, seja por
seus sacramentos, seja pelas orações e relíquias dos seus santos, só
que eles não aparecem tanto, de modo a espalhar-se com a mesma
fama que os milagres do início. Pelo cânon das sagradas escritu
ras, que um dia tinha de ser concluído, é providenciado que os
milagres do início sejam lidos em toda parte e se gravem na me
mória de todas as nações. Os milagres atuais, porém, nem mesmo
159 oríGeneS, Contra Celsum I, 67; II, 33; III, 28; VIII, 58.
160 H. J. voGt, Das sichtbare Reich Gottes in abendländisch-patristischer Deu
tung, em: B. Ludger-Th. michels (ed.), Reich Gottes - Kirche - Civitas
Dei. 16. Forschungsgespräch des Internationalen Forschungszentrums Salz
burg, Salzburgo, 1981, 77-102, especialmente 80.89s.
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 225
onde acontecem, são conhecidos na cidade inteira (De civitate dei
XXII, 8; da tradução para o alemão de A. ScHröder).161
Os Padres da Igreja, no entanto, sabem muito bem que
todos os milagres exteriores só adquirem sua última clareza
na conversão do povo de Deus, causada pelo milagre.162 So
mente a história do resultado dos milagres prova sua origem
em Deus. E os Padres da Igreja sabem também que o milagre
mais profundo da Igreja não consiste no fato de os homens
serem curados das suas doenças, mas no fato de romperem
com sua vida pagã - contrariando qualquer esperança hu
mana - e de poderem começar uma vida nova em Cristo.
Assim narra Cipriano que ele considerava impossível o “des
pir-se do homem velho”:
Mas depois que haurira o Espírito celeste dentro de mim e o se
gundo nascimento me transformara em homem novo, de maneira
milagrosa, o duvidoso adquiriu de repente existência firme, o que
estava fechado abriu-se, a escuridão ficou clara, o que antes parecia
difícil tornou-se realizável e o que na considerado impossível tor
nou-se possível (Ad Donatum 4; da tradução para o alemão
de A. von HArnAck).163
Consequentemente, o maior milagre era considerado o
fato de pessoas receberem de Deus a força de morrer, como
mártires, pela sua fé. Por esta razão, descrevia-se a morte
dos mártires como segundo batismo, como o vestir definiti
vo do homem novo, como a suscitação de novas forças mi
lagrosas dentro da Igreja. A existência de mártires, lê-se no
161 A. ScHröder, Des heiligen Kirchenvaters Aurelius Augustinus zweiundzwan
zig Bucher uber den Gottesstaat (BKV), Kempten/munique, 1911-1916.
162 Cf. p. e. Orígenes, Contra Celsum III, 28-30.
163 A. von HArnAck, op. cit. (86), 213.
226 A iGreJA que JeSuS queriA
final da Passio Perpetuae, é um sinal infalível da continuação
da presença do Espírito na Igreja (Passio Perpetuae 21).3. A FRATERNIDADE CRISTã
Também a ideia da fraternidade, profundamente enrai
zada nas comunidades cristãs do Novo Testamento, conti
nua viva na Igreja antiga. Assim, Clemente escreve à comu
nidade de Corinto:
Dia e noite, existia entre vós uma competição em favor de toda
comunidade dos irmãos (literalmente: irmandade), para que, por
misericórdia e por ação conscienciosa, o número dos eleitos fosse
salvo. Vós éreis leais e sem malícia e não guardáveis rancor uns
dos outros. Cada revolta e cada divisão era um horror para vós.
Vós sentíeis tristeza com os pecados do próximo, vós consideráveis
suas faltas como vossas (1Clem 2,4-6; da tradução para o ale
mão de J. A. fIScHER).
Esta não é mais a situação atual da comunidade de Co
rinto. Agora a comunidade vive em revolta e divisão. Mas
esta situação não pode ser aceita pelas outras comunida
des. Na primeira carta de Clemente, não é apenas notável
o pensamento da responsabilidade mútua da “irmandade”
toda, isto é, da comunidade de Corinto, que constantemente
está sendo inculcada, mas também o fato da comunidade de
Roma se sentir responsável pela comunidade de Corinto e,
apesar de todos os tormentos que ela mesma sofre (cf. 1,1),
a exortar, por esta carta, a retornar à situação antiga. Assim,
a primeira carta de Clemente começa da seguinte maneira:
A Igreja de Deus, que mora no exílio em Roma à Igreja de Deus,
que mora no exílio em Corinto...
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 227
Podemos ver a responsabilidade mútua das comunida
des novamente no contexto da atividade caritativa cristã.
Em todo o caso, esta responsabilidade tem seu fundamen
to na fraternidade de toda a Igreja. Até os fiéis consideram
extraordinário o fato de que todos os cristãos são irmãos e
irmãs uns dos outros. Os apologistas realçam exatamente o
tratamento de irmão como sinal cristão de distinção frente
aos costumes dos gentios. Assim, observa Cecílio, no diálo
go “Octavius” de Minúcio Félix:
Sem distinção eles chamam uns aos outros irmãos e irmãs (Octa
vius 9,2).
Cecílio que, no diálogo, representa o paganismo, men
ciona esta frase no meio de uma longa lista de boatos e pre
conceitos que, naquela época, circulavam a respeito dos
cristãos. Aristides de Atenas (Apologia 15,7) e Tertuliano (Apo-
logeticum 39,8s) dizem o mesmo. Tertuliano, porém, acres
centa ainda uma grande motivação teológica para o trata
mento cristão de irmãos:
Somos irmãos também de vocês (os gentios) segundo o direito da
natureza, nossa mãe comum... Mas com quanto mais razão cha
mamos, e eles são-nos de fato, irmãos àqueles que (pela fé e pelo
batismo) reconheceram Deus como seu único pai, que sorveram o
único Espírito da santidade, que despertaram do único corpo da
mesma ignorância para a única luz da verdade (Apologeticum
39,8s; da tradução para o alemão de C. becker).164
Que o tratamento de irmão e irmã nas comunidades cris
tãs não era apenas uma expressão bonita, mostra o serviço de
164 C. Becker, Tertullian, Apologeticum, 2a ed.; Munique, 1961.
228 A iGreJA que JeSuS queriA
assistência, que se estendia, em princípio, a todos os mem
bros da comunidade, que necessitavam de auxílio; algo
que era revolucionário frente à sociedade pagã. Tratava-se,
principalmente, das viúvas, dos órfãos, dos idosos e doen
tes, dos inválidos, dos desempregados, dos presos e dos
desterrados, dos cristãos que estavam em viagem e de to
dos os membros da comunidade que passavam necessida
des. Além disso vinha ainda a preocupação por um enterro
digno dos pobres.165
Dos elementos mencionados nesta lista, temos que des
tacar de maneira especial o cuidado da comunidade por
seus inválidos e desempregados. As comunidades exigiam
de todos os que podiam trabalhar, que trabalhassem e até
arranjava, na medida do possível, empregos para eles. mas
quem não podia mais trabalhar podia estar seguro de rece
ber auxílio da comunidade. Assim foram criados um siste
ma de mediação de empregos e uma rede de segurança so
cial, que eram únicos no tempo antigo.166 Eles baseavam-se
na ajuda mútua e em ofertas espontâneas, que geralmente
eram recolhidas durante a celebração eucarística aos do
mingos. Assim, dentro de sua conhecida descrição da cele
bração cristã, Justino diz:
Mas quem tem os meios e a boa vontade, dá, conforme seu próprio
parecer, o que quer, e aquilo que é recolhido, é depositado com
o dirigente; com isto, ele ajuda órfãos e viúvas, aqueles que por
causa de doença ou por qualquer outra razão passam necessida
des, os presos e os estrangeiros que estão presentes na comunidade
165 Cf. 1Clem 1,2; Policarpo, Fil 6,1; Justino. Apologia I, 14.67; Aristides,
Apologia 15,7-9; Tertuliano, Apologeticum 39; Cipriano, Ep. 62,4; Eusé-
bio. Hist. ecl. IV, 23,10.
166 Cf. H. J. drexHAGe. “Wirtschaft und Handel in den fruhchristlichen
Gemeinden (1.-3. Jh. n. Chr.); RQ 76 (1981), 1-72, especialmente 35-40.
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 229
(Justino, Apologia I. 67; da tradução para o alemão de G.
rAuScHen).167
Este sistema de assistência altamente eficiente, contudo,
não se limitava à própria comunidade local. Temos uma sé
rie de provas de que a ajuda se estendia também a comu
nidades cristãs vizinhas nas quais surgira uma necessidade
especial. Especialmente a comunidade de Roma era conheci
da por sua ajuda a comunidades de outras cidades. O bispo
Dionísio de Corinto escreve à comunidade de Roma, por volta
do ano 170:
Desde o começo, vocês tinham o costume de ajudar a todos os irmãos
de várias maneiras e de mandar auxílios a muitas comunidades em
todas as cidades. Pelos donativos que desde outrora mandaram,
mantendo assim, como Romanos, uma tradição romana antiga, vo
cês aliviam a pobreza dos necessitados e auxiliam os irmãos que vi
vem nas minas. Seu santo bispo Sóter não só manteve este costume,
mas ainda o ampliou (Eusébio, História da Igreja IV, 23.10; da
tradução para o alemão de PH. HäuSer-H. A. Gärtner).168
Tanto dentro das diversas comunidades como na Igre
ja em sua totalidade, irmandade não era uma palavra va
zia. “Enquanto a doutrina cristã, aos olhos de seus adver
sários parecia utópica e irreal, ela mostrava-se no seu uso
prático como orientação concreta para resolver as necessi
dades econômicas e sociais, pelo menos, dos membros das
comunidades”.169
167 G. rAucHen, em: Fruhrhristliche Apologeten und Märtyrerakten I (BKV),
Kempten/munique, 1913.
168 H. krAft, Eusebius von Caesarea. Kirchengeschichte, Darmstadt, 1967.
169 H. J. drexHAGe, op. cit., 40.
230 A iGreJA que JeSuS queriA
Com tudo isto é claro o que a Igreja antiga entendia com
o termo amor (agape). Não um sentimento nobre, mas uma
ajuda bem concreta - dada especialmente aos irmãos na fé.
Esporadicamente agape pode envolver também pessoas fora
da Igreja, segundo a tradição de mt 5,43-48.170 mas geralmen
te o termo é entendido da mesma maneira como é usado na
linguagem do Novo Testamento, isto é, amor mútuo dentro
da comunidade. Assim Aristides, em correspondência exata à
terminologia da literatura das epístolas do Novo Testamen
to, diz, no capítulo 15 de sua apologia, dos cristãos:
Aos ímpios, eles oferecem benefícios com solicitude (15,5), uns aos
outros eles amam-se (15,7).
Inácio fala na sua carta à comunidade de Esmirna dos
hereges que não se preocupam com o agape e concretiza seu
pensamento da seguinte maneira: eles não se preocupam
com as viúvas e os órfãos, os presos e libertados, os que pas
sam fome e sede. Eles morrem em suas contendas. mas seria
tão importante para eles, amar (In. Esm 6s). Quando o mes
mo Inácio, no prescrito de sua carta aos Romanos, diz da
comunidade em Roma preside no agape, pensa, com certeza,
no mesmo comportamento que Dionísio de Corinto mencio
nou, umas década mais tarde na carta citada acima: o auxí
lio a comunidades de outras cidades Inácio, portanto, quer
dizer: a comunidade de Roma é a autoridade competente
naquilo que constitui o essencial da Igreja, isto é, no amor
fraterno. Ela tem a presidênciano amor.171
mesmo que a Igreja antiga tenha fracassado muitas ve
zes no agape, os textos seguintes mostram, em todo o caso,
170 Cf. p. ex. a carta à Diogneto 5s; Teófilo, Ad Autolycum III, 14.
171 Cf. J. A. fIScHER, op. cit., 129s.
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 231
que o amor fraterno era considerado pelos cristãos e, em
parte, pelos gentios, como algo especificamente cristão:
Vejam como eles se amam!
(Tertuliano, Apologeticum 39,7). Eles amam-se uns aos outros
quase antes de se conhecerem (minúcio Félix, Octavius 9,2).
Por isso - mesmo que isto cause mal-estar a vocês (gentios) - nós
amamo-nos com amor mútuo - pois o ódio é-nos estranho. Por isso
chamamo-nos irmãos uns aos outros - pelo que vocês nos invejam.
Pois somos filhos do único Pai que é Deus, co-eleitos na fé, co-
herdeiros na esperança. Mas vocês não querem se conhecer uns aos
outros, vocês enfurecem-se no ódio mútuo e somente se reconhe
cem como irmãos quando o assunto é o homicídio de um parente
(minúcio Félix, Octavius 31,8; da tradução para o alemão de
B. kyTzlER).172
4. A SOCIEDADE DE CONTRASTE DE DEUS
Com a última citação chegamos ao tema central desta
quarta parte: também a Igreja antiga se compreende como
sociedade de contraste. As expressões “outrora e agora”, “tre
vas e luz” são, como no Novo Testamento, confrontadas ca-
tegoricamente.173
Se outrora nos comprazíamos em coisas obscenas, agora cultivamos
a castidade. Se outrora nos entregávamos à magia, agora consa
gramo-nos ao bom e ingênito Deus. Se outrora apreciávamos di
nheiro e posses acima de tudo, agora colocamos tudo que temos ao
serviço da causa comum e o repartimos com todos os necessitados.
172 B. kyTzlER, m. minucius Felix. Octavius, munique, 1965.
173 Cf. p. ex. Orígenes, Contra Celsum I, 9.26; 1Clem 59,2.
232 A iGreJA que JeSuS queriA
Se outrora nos odiávamos e assassinávamos uns aos outros e, nem
sequer nos colocávamos ao redor da lareira com aqueles que não
eram da nossa tribo, por causa dos diferentes costumes de vida,
agora, depois que Jesus apareceu, vivemos juntos como comensais
(Justino, Apologia I, 14; da tradução para o alemão de G.
rAuScHer).
Especialmente a última observação de Justino é impor
tante, porque ele torna claro que, para a consciência da Igre
ja antiga, todas as fronteiras nacionais tinham sido abolidas.
Não há mais grego, bárbaro ou cita (Cl 3,11); a comunidade
cristã une todos os povos em torno da mesa comum da euca
ristia. Não contam mais as divergências entre as nações, mas
apenas a divergência fundamental entre a sociedade pagã e
a nova sociedade de Deus:
Orem sem cessar pelos outros homens. Porque neles existe
esperança da conversão, para que se tornem participantes de
Deus. Concedem-lhes, pois, pelo menos, serem ensinados por
suas obras. Frente aos seus acessos de cólera, vocês devem
ser mansos, frente à sua fanfarronice, humildes, às suas blas
fêmias contraponham suas orações, frente ao seu erro devem
permanecer firmes na fé, frente à sua selvageria, vocês devem
ser controlados, não pretendam entrar em competição com eles
imitando-os (In. Ef 10,1s; da tradução para o alemão de J.
A. fiScHer).
Ora, Inácio não fala aqui apenas de maus exemplos indi
viduais entre os gentios, mas da sociedade pagã como um todo;
mostra-o um texto significativo de sua carta à comunidade
de Magnésia. Aí, ele compara o paganismo e o cristianis
mo com duas moedas diferentes. Cada uma delas tem um
cunho especial:
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 233
Os infiéis o cunho deste mundo,
os fiéis, porém, no amor, o cunho de Deus (In Magn. 5,2).
Neste contexto devem-se mencionar, antes de tudo, os
apologistas cristãos. um aspecto decisivo de seus escritos é
sempre a elaboração do contraste entre Igreja e paganismo;
este contraste, não raras vezes, é formulado com acuidade
extraordinária:
Vocês proíbem o adultério e, no entanto, cometem-no - nós esta
mos no mundo como maridos exclusivamente para nossas esposas.
Vocês punem os crimes somente depois de cometidos - entre nós
até o pensamento neles já é pecado. Vocês têm medo de cúmpli
ces - nós tememos a nossa consciência que nunca nos deixa. E,
afinal, as cadeias estão cheias de gente sua - um cristão somente
é encontrado lá quando é acusado por causa desta sua religião ou
quando se tornou infiel a ela (Minúcio Félix, Octavius 35,6; da
tradução para o alemão de B. kyTzlER).
Este e muitos outros textos mostram a imensa autocons
ciência da Igreja daquele tempo frente à sociedade pagã.
Quem de nós se poderia atrever a declarar, que nas cadeias
de hoje não se encontram cristãos a não ser os persegui
dos por causa da sua fé? manifestamente, minúcio Félix
podia falar assim sem se expor ao ridículo. mas deixemos
de lado a questão dos fatos: o abismo para com a Igreja de
hoje não está apenas nos fatos. A nós nem sequer agrada o
ponto de partida do pensamento que é expresso na citação
acima. Nós, simplesmente, não consideramos mais a Igre
ja como uma sociedade que está em oposição à sociedade
restante. Por isso, hoje, este texto de Minúcio Félix parecerá,
até à maioria dos leitores cristãos, uma arrogância insuportá
vel. Infelizmente deve-se dizer: foi exatamente assim que a
234 A iGreJA que JeSuS queriA
maioria dos gentios de então reagiu ao cristianismo. O que
lhes era levado mais a mal era o fato de um grupo numerica
mente muito reduzido de pessoas se colocar, em sua fé e em
seu modo de viver, contra toda a restante sociedade. Por isso
os cristãos foram acusados de “ódio à humanidade” (odium
generis humani).174 A autoconsciência que fala do “Octavius”
não era, de maneira alguma, uma exceção. Quando, por vol
ta do ano 260, a peste assolava Alexandria, o bispo local,
Dionísio, escreveu uma carta:
Visto que a maioria dos nossos irmãos estar unida entre si e, em
amor superabundante, de modo amigo, não se ter poupado a si
mesma, mas ter-se ocupado, sem medo, dos doentes, tê-los tratado
cuidadosamente e tê-los servido em Cristo, morreu, como os doen
tes, alegremente, contagiada pelo mal dos outros, deixando-se con
tagiar pela doença das pessoas assumindo livremente suas dores...
Deste modo deixaram esta vida os melhores de nossos irmãos:
presbíteros, diáconos, leigos... Por tomarem os corpos dos santos
em seus braços e em seu colo, por lhes fecharem os olhos e a boca,
os carregarem nos ombros e, depois de os terem lavado e vestido,
os sepultarem com abraços cordiais, recebiam pouco depois os mes
mos serviços, enquanto os sobreviventes tomavam o lugar daque
les que os tinham precedido. Bem diferente era entre os gentios.
Eles repeliam de si os que começavam a ficar doentes, fugiam dos
seus entes mais caros, jogava-os semimortos nas ruas e deixavam
os seus mortos, sem enterra-los, jogados como lixo (Eusébio, His
tória da Igreja VII, 22; da tradução para o alemão de PH.
HäuSer-H. A. Gärtner).
174 Cf. Tacitus, Annales XV, 44. - Que a crítica do ódium também quer
caracterizar a vida comunitária dos cristãos, mostra muito bem o pa
ralelo nas Historiae V, 5,1 (onde, contudo, se trata de fenômenos se
melhantes entre os judeus): “Entre eles reinam a solidariedade fiel e a
compaixão solícita, para os outros, porém, existe ódio hóstil”.
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 235
O cristão moderno costuma dizer diante de tais textos:
não se pode generalizar deste modo. É o preto-branco da
lenda. Há sempre cristãos que fracassam e há sempre con
duta exemplar também entre aqueles que não são cristãos.
Não é raro, os não-cristãos serem até melhores do que os
cristãos. - É mais ou menos deste modo que, hoje, se apre
senta um esquema cristão de argumentação estereótipo,
que até já se tornou esquema de pregação. Ele manifesta
com muita clareza o bem difundido complexo de inferiorida
de cristão. Os cristãos dos primeiros três séculos abanariam
a cabeça, admirados. Eles estavam em condições de argu
mentar de modo completamente diferente. Até um homem
tão prudente e sábio como Orígenes podia ousarescrever o
seguinte:
Deus... fez surgir em toda a parte comunidades, que atuam contra
as comunidades de homens supersticiosos, desregrados e injustos;
pois em quase toda a grande massa dos cidadãos nas comunida
des citadinas consiste em gente desta espécie. As comunidades de
Deus, porém, cujo mestre e pedagogo é Cristo, são, em comparação
com as sociedades dos povos, entre os quais vivem como estrangei
ros, “luzes do céu no mundo”. Porque quem poderia negar que até
aqueles membros da nossa Igreja, que deixam bastante a desejar
em sua conduta e são de menos valor, quando comparados com
os melhores, estão muito mais acima dos membros das sociedades
civis? (Orígenes, Contra Celsum III, 29; da tradução para o
alemão de P. kOETScHAU).175
Orígenes, contudo, não se limita a estas afirmações ge
rais. Em seguida, ele compara as comunidades cristãs em
175 P. kOETScHAU, Des Origenes Acht Bücher gegen Celsus (BKV), munique,
1926s.
236 A iGreJA que JeSuS queriA
Atenas, Corinto e Alexandria com as sociedades civis des
tas três cidades, para mostrar, assim, que o texto de Fl 2,15
(“como luzes do céu no mundo”) citado por ele, também
tem validade no seu próprio tempo (III, 30).
Mesmo onde os apologistas cristãos não argumentam
diretamente no esquema de contraste, mas desenvolvem
positivamente a beleza do modo cristão de viver, no fundo
está sempre com muita clareza o contraste para com a so
ciedade pagã. Assim, por exemplo, no grandioso capítulo
15 da apologia de Aristides que pode resumir tudo quanto
dissemos até agora:
Os cristãos, ó Imperador, procurando acharam a verdade e, como
vimos dos seus escritos, estão mais próximos da verdade e do co
nhecimento exato do que os outros povos. Porque eles conhecem a
Deus e creem nele enquanto criador e mestre-de-obras do univer
so. Dele receberam os mandamentos que gravaram dentro de suas
mentes e que observam.
Por isso eles não cometem adultério e luxúria, não dão falso teste
munho, não defraudam bens a eles confiados, não cobiçam o que
não é deles, honram pai e mãe, fazem o bem a seu próximo e, quan
do juízes, julgam segundo a justiça, Não adoram ídolos em forma
humana, e o que não querem que outros lhes façam, também eles
não fazem aos outros. Aqueles, que os ofendem, procuram persua
dir e torná-los seus amigos; aos inimigos fazem o bem. Aos escra
vos e às escravas, porém... eles persuadem a tornarem-se cristãos,
porque os amam; e se eles se tornam cristãos, chamam-nos sem
distinção irmãos... Eles andam em toda humildade e amabilidade.
Não se encontra mentira no meio deles. Eles amam-se uns aos
outros.
Não desprezam as viúvas; eles libertam o órfão daquele que o mal
trata. Aquele que tem, dá, sem inveja àquele que não tem. Quando
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 237
encontram um estrangeiro, levam-no para dentro de suas casas e
alegram-se com ele como se ele fosse um verdadeiro irmão. Pois
eles não se chamam a si mesmos irmãos segundo a carne, mas
(irmãos) no Espírito de Deus. Mas se um de seus pobres parte
deste mundo e qualquer um deles o vê, cuida, conforme as suas
posses, do seu enterro. E quando ouve que algum deles esta preso
ou é perseguido por causa do nome de Cristo, todos cuidam do que
lhe faz falta e, sendo possível, libertam-no. E se existe entre eles
algum pobre ou necessitado, e eles não têm nada sobrando, então
eles jejuam dois ou três dias, para dar ao necessitado o necessário
em alimento. Observam conscientemente os mandamentos de seu
Cristo, vivendo reta e honestamente, como o Senhor, seu Deus,
lhes ordenou... E se um dos seus justos parte deste mundo, eles
alegram-se e agradecem a Deus e acompanham seu corpo, como se
ele partisse (apenas) de um lugar para o outro... Esta, ó Imperador,
é a lei dos cristãos e a sua conduta. (Apologia 15; da tradução
para o alemão de K. JUlIUS).176
Para poder julgar corretamente um texto como este não
se pode deixar de levar em consideração seu gênero literário
e sua maneira de falar. É um texto apelativo, até um texto
propagandístico que desenha um quadro ideal. Era assim que
os cristãos queriam ser vistos e era assim que eles mesmos
queriam ser. O mesmo vale para muitos outros textos dos
Padres, citados aqui, mas também para muitos textos do
Novo Testamento, citados anteriormente. mesmo quando
falam no indicativo, eles, muitas vezes, têm caráter exorta-
tivo. “Assim somos nós” significa sempre também: “Assim
deveríamos ser e assim gostaríamos de ser”. Por isso não é
possível descobrir, imediatamente e sem reflexão prévia, de
176 K. JUlIUS, em: Fruhchristliche Apologeten und Märtyrerakten I (BKV),
Kempten/munique, 1913.
238 A iGreJA que JeSuS queriA
textos como este, a realidade concreta das comunidades cris
tãs. mas, em todo o caso, estes textos mostram a autocom-
preensão das comunidades daquele tempo, sua autoconsci
ência extraordinária, seu arrogo de ser sociedade divina de
contraste frente a uma sociedade pagã corrupta e, em virtu
de de sua missão, ter de o ser. Já por esta razão trata-se aqui
de textos excitantes; só isto deveria ser suficiente para nos
sacudir.
mas na realidade, estes textos mostram muito mais do
que a autocompreensão e a autoconsciência cristãs. Sem dú
vida, eles refletem também a realidade das próprias comuni
dades. Seria uma hermenêutica miserável nivelar textos cristãos
antigos somente porque nós, homens de hoje, em nossa resignação
cética, já não consideramos possíveis comunidades que levam a
sério o Evangelho. Já as poucas, mas importantes vozes dos
inimigos do cristianismo daquela época nos deveriam livrar
de uma tal hermenêutica da má consciência, que gostaria de
criar um álibi histérico para a própria situação. Assim conta
Luciano de Samosata, em seu escrito satírico sobre o fim da
vida do embusteiro Peregrino, como este se tornou cristão
apenas aparentemente, deixou-se festejar pelas comunida
des e como um dia foi preso na Síria por ser cristão.
Quando estava preso, os cristãos, considerando este fato uma infe
licidade acontecida a todos eles, tentaram o possível e o impossível
para o tirar da prisão. Como não lhes foi possível, pelo menos não
lhe deixaram faltar nada em tratamento e cuidado. Já ao romper
do dia viam-se ao redor da prisão mulheres velhas viúvas e órfãos
jovens. Os nobres entre eles até subornavam os guardas e passa
vam noites inteiras com ele. Também foram trazidas boas refeições
e feitas conversações sagradas...
Até veio gente de várias cidades da Ásia mandada pelos cristãos
de lá, para ajudá-lo, para serem seus defensores no tribunal e para
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 239
o consolar. Pois esta gente, sempre que tais coisas atingem sua
comunidade, é de uma atividade e atuação incompreensíveis, e não
poupa esforços nem despesas. Por isso foi enviada também a Pere
grino uma vultosa soma de dinheiro e, deste modo, ele conseguiu
bons rendimentos (Peregrinus 12s; da tradução para o alemão
de Ch. M. Wieland-K. Honn).177
Este escrito satírico de Luciano sobre a ingenuidade dos
cristãos, mostra, apesar de sua ironia sarcástica, muito con
cretamente, a fraternidade profunda das comunidades cris
tãs que apoiam sem reserva seus confessores nas prisões e
minas (cf. os textos correspondentes em Aristides, apologia
15!). mais importante ainda é uma carta do imperador ro
mano Juliano, totalmente insuspeito, na qual é dado o mais
belo testemunho da solidariedade cristã por parte de um
adversário do cristianismo:
Será que não entendemos que o ateísmo (= cristianismo) foi pro
movido de modo mais eficiente pelo humanitarismo (dos cristãos)
para com os estranhos e pelos cuidados (dos cristãos) com os en
terros dos mortos?...
Os ímpios galileus alimentam, além dos seus pobres, também os
nossos; os nossos, porém, evidentemente, carecem de nossa assis
tência (Juliano, a Arsácio).178
O que os apologistas falavam sobre a solidariedade inter
na das comunidades cristãs, era, portanto, verdade. O siste
ma social da Igreja funcionava tãobem, que até pessoas que
não eram cristãs, podiam receber ajuda. Esta solidariedade
177 E. ermAtinGer-k. Hönn, Lukian. Parodien und Burlesken (Bibliothek der
Alten Welt), zurique. 1948.
178 Juliano, Epistula ad Arsacium, em Sozomenos V, 15s.
240 A iGreJA que JeSuS queriA
deve ter causado uma impressão muito profunda a pessoas
de fora; ela foi uma das razões da rápida expansão do cris
tianismo. Juliano, aliás, tentou imitar o programa da assis
tência das comunidades numa “criação artificial para privar
os cristãos desta arma”.179 Sua tentativa fracassou. A força e
o caráter inimitável do sistema assistencial da Igreja consis
tia no fato de não ser centralizado nem decretado de cima,
mas de ter seu lugar nas diversas igrejas locais, e de lá sur
gir sempre de novo, da convicção interna e do livre consen
so das comunidades. Sua origem mais profunda estava no
amor fraterno e seu lugar próprio era a celebração da Euca
ristia da comunidade reunida no dia do Senhor.
5. A INSUBORDINAçãO CRISTã
Não se pode escrever sobre a Igreja antiga enquanto so
ciedade de contraste sem tratar também o tema de sua insu
bordinação social. Até certo ponto, os cristãos são leais para
com o Estado. Eles pagam seus impostos, eles aceitam em
princípio a autoridade civil, eles oram pelo imperador. Estes
pontos são incontestados pelos cristãos e acentuados cons
tantemente por eles, por causa da desconfiança dos gentios.
Apesar disso existe - especialmente nos primeiros dois sé
culos - uma distância nítida entre as comunidades cristãs e
a sociedade restante. Esta distância concretiza-se em recusas
constantes. Assim Cecílio, no “Octavius” de Minúcio Félix ex
pressa bem acertadamente a crítica dos gentios:
Os romanos não governam o seu império sem o vosso Deus, usam
o mundo todo e dominam também vocês? Vocês, pelo contrário,
vivem sempre em preocupações e medo, abstêm-se de todas as
179 A. von HArnAck, op. cit. (86), 169.
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 241
diversões, mesmo das mais honestas. Não assistem aos espetácu
los, não participam nas procissões festivas, desprezam as alimen
tações públicas; vocês detestam os jogos em homenagem aos deu
ses, a carne do sacrifício e o vinho do sacrifício dos altares. Vocês
têm tanto medo dos deuses cuja existência vocês negam!
Vocês não enfeitam suas cabeças com flores, não cuidam do seu
corpo com essências aromáticas; vocês só usam especiarias para os
mortos, e nem sequer colocam coroas de flores nos seus túmulos.
Vocês, figuras pálidas e assustadas, somente merecem compaixão
- mas a compaixão dos nossos deuses! Vocês, coitados, nem podem
ressuscitar, nem, neste meio tempo, gozar da vida (minúcio Fé
lix, Octavius 12ss; da tradução para o alemão de B. kyTzlER).
Esta longa lista de críticas da parte dos gentios mostra
claramente uma parte das recusas cristãs frente à socieda
de. Para os cristãos existia a proibição de assistir aos jogos
dos gladiadores e lutas de animais,180 de participar das pro
cissões e cortejos181 e de participar em refeições e banquetes
públicos, por exemplo, nos dias de festa do imperador.182 O
texto citado de “Octavius” também mostra muito claramen
te que os cristãos se distanciavam da sociedade pagã até em
pequenos detalhes: os cristãos não se enfeitavam com flores
e não usavam coroas.
Seria errado reconhecer a recusa cristã apenas onde esta
va em jogo a veneração aos deuses ou o culto ao imperador.
Estes dois elementos tinham, na Roma antiga, uma impor
tância extraordinária, mas, nem de longe podem explicar
tudo. A recusa cristã dava-se também em outras áreas, por
180 Cf. Atenágoras, Presbeia 35: Teófilo, Ad Autolreum III, 15; Tertuliano,
Apologeticum 38,4s; 42,7; minúcio Félix, Octavius 12,5; 37,l1s.
181 Cf. minúcio Félix, Octavius 12,5; 37,11; Orígenes, Contra Celsum VIII, 21.
182 Cf. Tertuliano, Apologeticum 35,1; 42,4; minúcio Félix, Octavius 12,5.
242 A iGreJA que JeSuS queriA
exemplo, na cremação, no abandono de crianças recém-nas
cidas e, sobretudo, na moral matrimonial pagã.183 O motivo
último e mais profundo da distância cristã para com a socie
dade pagã deve ter sido o conhecimento persistente de que
Jesus quisera reunir o povo de Deus como contra-sociedade
divina. Se não fosse assim, como se poderia compreender a
incrível frase de Tertuliano:
Nenhum assunto nos é mais estranho
do que o assunto de todos: o Estado?184
Com certeza, nem todos os cristãos da época concorda
riam com esta frase tão polêmica. mas ela era possível! Ela
tinha sua base, em última análise, na consciência de que as
comunidades cristãs formavam um “povo” próprio. Com a
morte de Jesus, entrou algo de novo no mundo, acentua Orí
genes contra Celso, e ele tem em mente
o surgimento do povo dos cristãos
que nascem praticamente de uma vez (Contra Celsum VIII, 43).
Quando Orígenes, como também muitos outros teólogos
dos primeiros séculos, designa os cristãos como um “povo”,
então ele não pensa apenas na dimensão religiosa ou espiritual,
mas sempre também na dimensão social. A maneira, como ele
caracteriza os judeus, já mostra claramente esta tendência:
Oh, se não tivessem pecado contra a lei e não tivessem matado
primeiramente os profetas e, mais tarde, Jesus! Neste caso, nós
183 Cf. Orígenes, Contra Celsum VIII, 55; A Diogneto 5; Tertuliano, Apolo-
geticum 9,8; minúcio Félix, Octavius 7,4; 31,5.
184 Tertuliano, Apologeticum 38,3: nec ulla magis res aliena quam publica.
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 243
teríamos o modelo exemplar daquele Estado celeste, que também
Platão tentou descrever; mas eu duvido, que este tenha estado em
tão boas condições de o fazer como Moisés e os homens que vieram
depois de Moisés, eles que foram uma geração escolhida e uma
estirpe santa e consagrada a Deus (Contra Celsum V, 43; da
tradução para o alemão de P. kOETScHAU).
O que vale do povo do Antigo Testamento vale, segun
do Orígenes, muito mais, daqueles “que se uniram de modo
admirável” (Contra Celsum VIII, 47), a saber, “do povo dos
cristãos”. “Em cada cidade” do império Romano, eles for
mam uma “comunidade pátria” própria, “fundada pela pa
lavra de Deus”, e assim surge” a cidade do Pai que corres
ponde à vontade de Deus”, isto é, a Igreja (Contra Celsum
VIII, 75).
Com termos sempre novos, os teólogos daquele tempo
procuram conceitualizar a dimensão social da Igreja. A Igreja
é um povo, ela é uma geração,185 ela é uma cidade.186 Quem
vai mais longe é Hipólito, que caracteriza o Estado Romano
como uma caricatura diabólica do verdadeiro Estado, isto é,
do “povo dos cristãos”:
Pois quando no décimo segundo ano do domínio do imperador Au
gusto, a partir do qual o Império Romano se desenvolveu, o Senhor
nasceu e chamou, através dos apóstolos, todas as nações e línguas
e criou o povo fiel dos cristãos, isto é, o povo do Senhor e o povo
daqueles que trazem um novo nome dentro do coração - então o
império daquela época, que domina pela obra de satanás, imitou
185 Neste lugar deveríamos tratar da ideia dos cristãos como a “terceira
geração”. Cf. A. vON HARNARk, op. cit. (86), 238-267.
186 Cf. especialmente Agostinho, De civitate Dei, em muitos lugares. Tam
bém Tertuliano, Adv. Marcionem 3,23.
244 A iGreJA que JeSuS queriA
com exatidão essa obra e reuniu, por seu lado, os mais nobres de
todos os povos, armou-os para a luta, chamando-os Romanos (Hi
pólito, Comentário de Daniel para IV, 9; da tradução para o
alemão de A. von HArnAck).187
Por trás desta estranha argumentação está um esquema
apologético muito usado na Igreja antiga: tudo o que há de
grande e bom no paganismo é imitação (em certas circuns
tâncias até caricaturização diabólica) da herança judaico-
cristã. Não precisamos de nos ocupar aqui com a ingenui
dade deste esquema e a questionabilidade da visão histórica
de Hipólito. Decisivo para o nosso contexto é o pressupos
to de Hipólito que a igreja é um povo criado por Cristo de
todos os povos, que está frente ao império Romano como
contra-sociedade.
Hipólitonão está sozinho com esta autoconsciência ex
traordinária. mesmo que nem de longe todos os teólogos da
Igreja antiga tenham tido uma posição tão adversa ao Es
tado Romano como ele - a ideia da constituição social da
Igreja e de sua função de contraste para com a sociedade
restante eram uma evidência. Olhamos, mais uma vez, para
Orígenes. O filósofo platônico Celso, contra quem Orígenes
defende o cristianismo, acusara a Igreja, entre outras coisas,
de se colocar, por escolha própria, ao lado da sociedade,
o que se concretiza, para ele, na recusa cristã de jurar pela
tyche (o gênio) do imperador (Contra Celsum VIII, 67). Nesta
recusa, Celso só pode ver uma profunda irresponsabilidade
em relação ao Estado:
Se todos agirem como vocês, nada mais impedirá que o imperador
fique só e solitário; o domínio da terra, porém, cairá nas mãos dos
187 A. von HArnAck, op. cit., 257.
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 245
bárbaros anárquicos e selvagens, de tal modo que não constará
notícia entre os homens nem de vossa veneração a Deus nem da
sabedoria verdadeira (Orígenes, Contra Celsum VII, 68; da tra
dução para o alemão de P. kOETScHAU).
No que diz respeito ao juramento pelo gênio do impe
rador, Orígenes tem uma opinião completamente diferente.
Ele diz: ou a tyche do imperador é apenas uma palavra vã:
então não é permitido fazer com que esta coisa, que nem se
quer existe, seja um deus, por quem se possa jurar; ou a tyche
do imperador é um demônio mau: então é melhor morrer
do que jurar por um demônio que seduz o imperador para
o mal (Contra Celsum VIII, 65). Neste ponto só se pode con
cordar com Orígenes. O que era a tyche do imperador senão
a personificação de uma vontade de poder humano sem li
mites? E onde o poder humano é deificado, os demônios são
colocados à solta.188
Aliás, Orígenes também não pode estar de acordo com
a objeção de Celso, que deve ser levada a sério, de que os
cristãos deixem o imperador só e fogem de sua responsabi
lidade social:
Se, como diz Celso, todos agissem como nós, também os bárbaros
que, então, se teriam voltado para a palavra de Deus, seriam, na
turalmente, conformes à lei e de bons costumes. Então seria aboli
da toda a outra veneração a Deus, mas a cristã dominaria sozinha.
E, um dia, ela (de fato) reinará sozinha, porque a doutrina cristã
atrai sempre mais pessoas (Contra Celsum VIII, 68; da tradu
ção para o alemão de P. kOETScHAU).
188 Assim, com razão m. HenGel, Christus und die Macht. Zur Problema
tik einer “politischen Theologie” in der Geschichte der Kirche, Stuttgart,
1974, 12.
246 A iGreJA que JeSuS queriA
Orígenes está, portanto, convencido: não existe outro
caminho para converter profundamente a sociedade para o
bem, a não ser a expansão cada vez maior da Igreja, a contra-
sociedade de Deus, no mundo. Viver na Igreja, de acordo
com a palavra de Deus, não significa, portanto, de modo
algum, fugir da responsabilidade social, que todo homem
tem, mas causa exatamente o contrário, isto é: que os cris
tãos assumam, do modo mais radical que é possível, a sua
responsabilidade social. Por isso, Orígenes pode responder
ao apelo de Celso, para que os cristãos assumam cargos pú
blicos em suas cidades natais, da seguinte maneira:
Sabemos que, pela palavra de Deus foi fundada, em cada cidade,
mais uma comunidade pátria, e, por isso, exortamos aqueles que
por sua eloquência e sua conduta moral têm capacidade de gover
nar, que dirijam as comunidades. Não admitimos homens seden
tos de poder, porém forçamos (para assumirem cargos de direção
dentro da Igreja) aqueles, que por causa de grande modéstia, não
querem assumir apressadamente o cuidado comum pela Igreja de
Deus... E quando os dirigentes eclesiásticos governam correta
mente a cidade pátria correspondente à vontade de Deus - falo da
Igreja então eles governam também segundo os mandamentos
de Deus, sem, por isso, violarem alguma das leis (estaduais) dadas
(Contra Celsum VIII, 75; da tradução para o alemão de P.
koetScHAu).
Segundo a opinião de Orígenes, os cristãos realizam sua
responsabilidade para com o Estado pelo engajamento na
Igreja, que é a sociedade correspondente à vontade de Deus.
Decisiva, neste contexto, é a exclusão de toda ambição. Den
tro da nova sociedade de Deus não pode existir de novo a
dominação de homens sobre homens. A maneira de melhor
servir ao Estado é, pois, o aparecimento, no meio de uma
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 247
sociedade pagã marcada pelos demônios do poder, de uma
nova sociedade livre de ambições, que torna claro como
Deus quer, realmente, a sociedade. Assim, Orígenes pode
continuar:
Portanto, quando os cristãos se recusam a aceitar cargos públicos,
eles não o fazem para se furtarem ao serviço à comunidade, mas
para se reservarem para o serviço mais divino e mais necessário à
Igreja de Deus para a salvação dos homens (Contra Celsum VIII,
75; da tradução para o alemão de P. kOETScHAU).
Que texto grandioso! Ele merecia muito mais atenção
porque realça exatamente, no sentido do Novo Testamen
to, a função específica da Igreja: o melhor modo dela servir ao
mundo é tomar radicalmente a sério sua tarefa de ser um
“povo santo” no sentido de 1Pd 2,9s. Exatamente quando
ela mesma vive como sinal a estrutura social de Deus, ela se
torna sal da sociedade. É muito duvidoso o fato de não poucos
cristãos engajados agirem como se a responsabilidade pelo
mundo e a transformação do mundo só fossem possíveis
além e fora da Igreja. Evidentemente, hoje o cristão é obriga
do a assumir, conforme as circunstâncias, responsabilidade
imediata dentro do Estado.189 Neste ponto especial, a posi
ção de Orígenes não pode ser mais normativa para nós. mas
normativo ainda deveria ser aquilo que Orígenes viu com
uma clareza digna de nota, com muito mais clareza do que
muitos teólogos do tempo presente: o serviço mais importante
e insubstituível que os cristãos devem prestar à sociedade, é sim
plesmente ser verdadeiramente Igreja.
189 A. respeito dos conflitos que esta atitude pode causar cf. G. loHfink,
op. cit. (54), 250-253.
248 A iGreJA que JeSuS queriA
6. A IGREJA E A GUERRA
No capítulo precedente, já aflorou o problema da não-
violência e da renúncia ao poder. Não só a Igreja primitiva,
mas também a Igreja da época seguinte se confrontou, sem
pre de novo com este problema. A questão: é permitido ao
cristão e, em que circunstâncias seria permitido ao cristão
prestar serviço militar, ocupou as comunidades cristãs até
o século quarto. “No ocidente e nas províncias fronteiriças
ameaçadas havia mais inclinação para compromissos neste
ponto do que nas províncias apaziguadas de língua grega.
De acordo com a ordem eclesial de Hipólito de Roma, um
soldado batizado devia comprometer-se a não realizar exe
cuções e a não prestar juramentos militares; um catecúmeno
ou cristão que se apresentasse voluntariamente para o ser
viço militar, era expulso”.190 Existiam também vozes mais
radicais, que consideravam absolutamente incompatíveis o ser
cristão e o serviço militar. Assim, por exemplo, o rigoroso
Tertuliano no seu tempo montanista declara:
Não podemos estar simultaneamente sob o juramento da bandeira
de Deus e dos homens, sob o estandarte de Cristo e do diabo, no
acampamento da luz e das trevas; o mesmo homem não pode estar
comprometido com dois: Cristo e o diabo (De idolatria 19, da
tradução para o alemão de H. kellner).191
Sem dúvida havia cristãos que recorriam à Bíblia para le
gitimar seu serviço militar, por exemplo, ao “sermão aos sol
dados” de, João Batista em Lc 3,14 ou ao batismo do centurião
190 m. HenGel, op. cit., 48s.
191 K. A. H. kellner, Tertullians private und katechetische Schriften (BKV),
Kempten/munique, 1912.
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 249
Cornélio em At 10. A resposta de Tertuliano não pode ser
mais clara:
Como pode alguém fazer guerra, como pode alguém prestar ser
viço militar, mesmo em tempo de paz, se o Senhor lhe tirou a es
pada? De