Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

A
Expiação Infinita
 
Tad R. Callister
 
 
Originalmente publicado como The Infinite Atonement © 2000 Tad R. Callister Tradução em
português © 2015 Deseret Book Company
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida de qualquer maneira
ou por qualquer meio sem permissão por escrito da editora, Deseret Book Company, a
permissions@deseretbook.com ou P. O. Box 30178, Salt Lake City, Utah 84130. Esta obra não é
uma publicação oficial de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Os pontos de vista
aqui expressos são de inteira responsabilidade do autor e não representam obrigatoriamente a
posição da Igreja ou da Deseret Book Company.
Deseret Book é marca registrada da Deseret Book Company.
Visite-nos no site deseretbook.com
Primeira impressão em capa dura 2000
Primeira impressão em capa de couro 2006
Primeira impressão em português 2016
 
sumário
Reconhecimentos
Prefácio
1 Qual É o Significado da Expiação?
2 Por Que Estudamos a Expiação?
3 É Possível Compreender Plenamente a Expiação?
4 Quais São os Propósitos da Expiação?
5 A Queda de Adão
6 A Relação entre a Queda e a Expiação
7 Quais Seriam as Consequências Se Não Houvesse a Expiação?
8 A Natureza Infinita da Expiação
9 Infinita na Divindade do Escolhido
10 Infinita em Poder
11 Infinita no Tempo
12 Infinita na Abrangência
13 Infinita em Profundidade
14 Infinita em Sofrimento
15 Infinita em Amor
16 A Bênção da Ressurreição
17 A Bênção do Arrependimento
18 A Bênção da Paz de Consciência
19 A Bênção do Socorro
20 A Bênção da Motivação
21 A Bênção da Exaltação
22 A Bênção da Liberdade
23 A Bênção da Graça
24 Que Relação as Ordenanças Têm com a Expiação?
25 Como a Justiça e a Misericórdia Se Relacionam com a Expiação?
26 A Expiação Era Necessária ou Havia Outro Modo?
27 Gratidão pela Expiação
Bibliografia
 
Reconhecimentos
A cada uma das seguintes pessoas expresso minha profunda gratidão por
seu apoio e seus comentários sinceros, porém sempre muito úteis:
A minha esposa, Kathy, e a cada um de nossos filhos (com seu
respectivo cônjuge) — mais especificamente, Kenneth e Angela Dalebout,
Richard e Heather Callister, Nathan e Bethany Callister, Robert e Rebecca
Thompson, Jeremy Callister e Jared Callister — por sua paciência e sua
disposição de dizer-me não apenas o que eu queria ouvir, mas o que eu
precisava saber. Eles formaram uma rede inestimável de apoio que não
apenas me incentivou, mas também fez muitas contribuições úteis ao longo
do caminho.
À minha secretária, Julie McLaren, que por 18 anos digitou inúmeros
manuscritos, pesquisou, discutiu muitas questões comigo, sempre fez
comentários construtivos sobre estilo e conteúdo, e me incentivou do
princípio ao fim.
A meu irmão, Douglas L. Callister, cuja formação doutrinária é extensa
e que me ajudou a refinar e a moderar meu modo de pensar e de julgar
muitas questões doutrinárias importantes e difíceis.
A Howard e Joyce Swainston, que corajosamente sugeriram que eu lesse
o manuscrito em voz alto na presença de outros — e depois paciente e
arduamente participaram desse processo. Eles fizeram muitas contribuições
significativas, com base em sua ampla formação cultural e espiritual.
A cada uma das seguintes pessoas que revisaram cuidadosamente o
manuscrito e muito contribuíram com suas perguntas e seus comentários
perspicazes: Joseph Bentley, Stephen R. Callister, Stephen M. D’Arc,
Cathie Humphries, Ty Jamison, Paul A. Manwaring, Thomas M. Pearson e
John S. Welch.
A Randall Pixton da Deseret Book Company pela bela capa e
diagramação interna; a Tonya Rae Facemyer e Laurie C. Cook por seu
trabalho tipográfico profissional; a Jay Parry por sua meticulosa revisão,
sua assombrosa aptidão editorial e sua sensibilidade ao ensinar a doutrina
da Expiação com pureza.
 
Prefácio
Algumas coisas são simplesmente mais importantes que outras. Mesmo
algumas doutrinas, embora interessantes e até agradáveis de discutir,
devem ser colocadas em segundo plano em favor de doutrinas mais
fundamentais e básicas. É isso que acontece com a Expiação de Jesus
Cristo. A Expiação é o ato central da história da humanidade, o ponto
crucial de todos os tempos, a doutrina das doutrinas. Tudo o que fazemos e
ensinamos deve de alguma forma estar ancorado na Expiação. O Élder
Boyd K. Packer testificou: “A verdade, a gloriosa verdade, proclama que
há (…) um Mediador. (…) Por meio Dele, a misericórdia pode ser
plenamente oferecida a cada um de nós sem ofensa à lei eterna da justiça.
Essa verdade”, prossegue ele, “é o cerne da doutrina cristã. Podemos saber
muito do evangelho, de suas ramificações, mas se tudo o que conhecermos
forem os ramos e esses ramos não estiverem ligados à raiz, se tiverem sido
cortados, separados, dessa verdade, neles não haverá vida, nem substância,
nem redenção” (Conference Report, abril de 1977, p. 80).
Esse sem dúvida é o motivo pelo qual o Profeta Joseph Smith referiu-se à
ressurreição e à Expiação como os princípios fundamentais de nossa
religião, sendo que “todas as outras coisas referentes à nossa religião” são
meros apêndices (Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p. 118). Um
apêndice é algo extra, algo que auxilia, algo anexo ao corpo. Doutrinas
extraordinárias como a existência prémortal ou pós-mortal do homem, a
salvação dos mortos e o conhecimento dos vários graus de glória no porvir
acrescentam vitalidade e conteúdo a nosso conhecimento do plano do Pai e
fornecem respostas para antigas perguntas do mundo religioso, mas elas
somente têm significado para nós por causa da mediação e da Expiação de
Jesus Cristo.
Por esse motivo, graças ao fato de a Expiação estar no cerne e no âmago
de tudo o que fazemos, é vital que a estudemos, que a compreendamos e
que a apliquemos. O Élder Bruce R. McConkie deixou-nos este sábio
conselho: “A Expiação de Cristo é a doutrina mais básica e fundamental do
evangelho, e a menos compreendida de todas as nossas verdades reveladas.
Muitos de nós têm um conhecimento superficial e confiam no Senhor e em
Sua bondade para que nos ajude a vencer as provações e os perigos da
vida. Mas, caso queiramos ter fé como Enoque e Elias, precisamos
acreditar no que eles acreditavam, saber o que sabiam e viver como
viviam. Convido-os a unirem-se a mim para adquirirmos um conhecimento
sólido e seguro da Expiação. Devemos deixar de lado as filosofias dos
homens e a sapiência dos sábios e ouvir o Espírito que nos é concedido
para guiar-nos a toda a verdade. Precisamos examinar as escrituras, aceitá-
las como a mente, a vontade e a voz do Senhor e o próprio poder de Deus
para a salvação” (“O Poder Purificador do Getsêmani”, A Liahona, julho
de 1985, p. 9).
Felizmente, não há um capítulo específico das santas escrituras que
possamos consultar para aprender tudo o que precisamos saber sobre a
Expiação. Sabiamente, o Senhor falou com frequência e regularidade por
meio de Seus porta-vozes do convênio a respeito dessa verdade primordial,
de modo que o refrão doutrinário da redenção de Cristo aparece repetidas
vezes em todas as escrituras. Embora Leí e Jacó ofereçam uma abordagem
sublime da Expiação, também precisamos consultar João e Paulo e Pedro e
Benjamim e Alma e Amuleque e Isaías para aprender detalhes específicos.
A Expiação é o tema principal de todas as escrituras. Tendo em vista essa
enorme necessidade de centrar nosso coração e nossa mente em tão
importante mensagem, fiquei muito feliz por descobrir um livro como este,
que enfoca e aborda a Expiação de maneira tão clara e vigorosa. Ao
organizar e escrever este livro, Tad Callister merece elogios por este
importante trabalho, que na verdade deve ter sido para ele um grande
trabalho de amor. Considero este livro uma das abordagens sobre a
Expiação mais completas que já vi na vida. O livro flui de modo
sistemático e ordeiro, o texto é claro, conciso e pungente, e a doutrina é
sólida e verdadeira. Ele é fiel à intenção dos antigos videntes e
particularmente leal à mensagem subjacente do Livro de Mórmon e dos
profetas da Restauração, sem a qual estaríamos extremamentelimitados em
nosso conhecimento da Expiação.
Não é fácil alcançar o delicado equilíbrio entre uma obra que nos
expande intelectualmente e nos fortalece espiritualmente, e criar algo que
proporcione um motivo ainda mais profundo para a esperança que temos
dentro de nós (I Pedro 3:15). Não é sempre que surge um livro que faça
exatamente isso: ampliar nossa mente e consolar e acalmar nosso coração.
A obra do irmão Callister me proporcionou isso. Minha leitura inicial do
livro me fez refletir profundamente sobre uma questão doutrinária em
particular, e em minutos passei a diligentemente procurar referências
remissivas de passagens selecionadas, cuja conexão umas com as outras
me passara despercebida.
Depois de instruir os nefitas (e a nós, leitores do Livro de Mórmon)
sobre a necessidade de reconciliar-nos com Deus por meio de Cristo, Jacó
perguntou: “E agora, amados, não vos admireis de que eu vos diga estas
coisas; por que não falar, pois, da expiação de Cristo e conseguir um
perfeito conhecimento dele, assim como um conhecimento da ressurreição
e do mundo futuro?” (Jacó 4:12). De fato, por que não? Com certeza,
conseguir um perfeito conhecimento de Cristo e da Expiação é uma meta
audaciosa, e talvez não a alcancemos plenamente nesta vida. Mas somos
conclamados na mortalidade a buscar um curso que nos leve a isso, e esse
curso pressupõe examinar as escrituras, ler e ponderar os ensinamentos dos
profetas e receber orientação e sabedoria divina daquele Deus que Se
deleita em honrar aqueles que O servem em retidão e verdade (D&C 76:5).
As escrituras. Os profetas. Revelação pessoal. Essas são as principais
ferramentas com as quais edificamos nossa casa de fé. E somos auxiliados
no processo de construção buscando nos melhores livros palavras de
sabedoria. Assim, procuramos “conhecimento, sim, pelo estudo e também
pela fé” (D&C 88:118). Acredito que o leitor vai concluir, assim como eu,
que este livro vale a pena ser estudado muitas vezes, por ter sido tão bem
escrito; mas o mais fundamental é que ele aborda um tema — o tema —
que é de importância eterna para todo filho e toda filha de Deus.
Robert L. Millet
Diretor de Educação Religiosa e
Professor de Escrituras Antigas,
Universidade Brigham Young
 
Capítulo 1
Qual é o Significado da Expiação?
 
Uma Doutrina para todas as Épocas
A pessoa que estuda a Expiação se assemelha ao homem que se retira
para sua cabana nas montanhas para desfrutar a paisagem. Se ele olhar pela
janela para o Leste, verá os picos cobertos de neve das Montanhas
Rochosas. Mas se deixar de apreciar a vista para o Oeste, perderá o pôr do
sol rajado de vermelho no horizonte. Se negligenciar a paisagem para o
Norte, jamais verá o reluzente lago verde esmeralda, e se ignorar a janela
para o Sul, jamais testemunhará as flores silvestres em sua brilhante glória,
dançando ao sabor da suave brisa das montanhas. A beleza o cerca por
todos os lados. Assim também acontece com a Expiação. Seja qual for o
ângulo pelo qual a contemplemos, é gloriosa de se ver. Todo princípio
subjacente, toda consequência que dela flui recompensa nosso intelecto,
revigora nossas emoções e vivifica nosso espírito. É uma doutrina para
todas as épocas.
A tentativa de conhecer profundamente essa doutrina exige a imersão de
todos os nossos sentidos, todos os nossos sentimentos e de todo o nosso
intelecto. Sendo-lhe dada a oportunidade, a Expiação invadirá cada uma
das paixões e faculdades humanas, e ao fazê-lo nos convidará a exaurir
cada uma delas para que captemos mais plenamente seu significado.
Aqueles que refinaram suas sensibilidades culturais abordarão a Expiação
com uma empatia mais genuína pela ternura e compaixão que ela
representa. Aqueles que sacrificaram a vida no serviço ao próximo ficarão
ainda mais maravilhados com Aquele que sacrificou tudo. Aqueles que
aperfeiçoaram os poderes do raciocínio investigarão com profundidade
ainda maior os “porquês?” e os “como?”, e não apenas as consequências
dessa doutrina extremamente sublime. E aqueles que têm o espírito puro e
a vida limpa sentirão uma afinidade ainda maior por Aquele cuja vida
imitaram, ainda que em pequena medida.
A Expiação não é uma doutrina que se restringe a uma abordagem única,
como uma fórmula universal. Ela deve ser sentida, e não apenas
“imaginada”, deve ser incorporada, e não apenas analisada. A busca dessa
doutrina exige a pessoa como um todo, porque a Expiação de Jesus Cristo
é a doutrina mais sublime, esclarecedora e apaixonante que este mundo ou
universo conhecerá.
O acontecimento Mais importante da História
Havia chegado a última semana do ministério do Salvador na
mortalidade. Por 400 anos, os profetas haviam pregado e profetizado os
acontecimentos que culminariam naquela semana específica. Todos os
acontecimentos da história, por mais memoráveis que tenham sido ou que
venham a ser, perdem seu brilho em comparação àquele momento. Esse foi
o ponto central de toda a história do mundo.
Aquele que criou mundos sem fim estava prestes a entrar num jardim
sereno e isolado, um humilde pedaço de terra de seu vasto universo
cósmico. Não houve fanfarra nem multidão que se aglomerava para
testemunhar o mais profundo acontecimento que Suas criações viriam a
conhecer. Era um momento tão sagrado, tão sublime, que nenhum olho
humano poderia penetrar completamente, nenhuma mente humana poderia
compreender plenamente sua importância transcendental. Somente outros
três mortais — Pedro, Tiago e João — estavam nas proximidades; e
mesmo o testemunho deles estaria debilitado pela pouca luz e prejudicado
pelo sono.
A hora marcada estava próxima. O Filho de Deus ficou sozinho, em Seu
majestoso poder, diante de toda a artilharia do Maligno. Ali estava o amor
divino em sua expressão mais sublime batalhando contra o mal diabólico
em suas proporções mais cruéis. Aquele foi o lugar e o momento da
Expiação de Jesus Cristo.
Se uma pesquisa fosse feita sobre os acontecimentos mais significativos
da história, as respostas mais comuns incluiriam o uso do fogo, a
descoberta da América, a divisão do átomo, o pouso na Lua ou a invenção
do computador. Cada um deles é um acontecimento maravilhoso, mas sem
ter ao fundo a Expiação, cada um deles teria apenas importância transitória
— não passaria de uma estrela cadente iluminando o céu por um breve
momento e depois desaparecendo na noite. A Expiação dá propósito e
potência a todo acontecimento da história. O Presidente Gordon B.
Hinckley falou da relação entre a Expiação e todos os outros
acontecimentos da história do mundo: “No final de tudo, quando toda a
história for analisada, quando os recônditos mais profundos da mente
humana tiverem sido explorados, nada será tão maravilhoso, tão majestoso,
tão imenso quanto esse ato de graça”.1 Esse não foi apenas mais um
acontecimento grandioso na narrativa da história. Ela foi, como Hugh
Nibley comentou, “a suprema realidade de nossa vida nesta Terra!”2
O profeta Alma compartilhava essa crença. Ele decidiu abdicar de seu
cargo de juiz supremo para poder dedicar seu tempo ao trabalho de ensinar
as pessoas. Com visão profética, ele contemplou o curso do tempo e viu
“muitas coisas [que estavam] para vir” (Alma 7:7) e depois concluiu: “Há
uma coisa mais importante que todas as outras — pois eis que não está
longe o tempo em que o Redentor viverá e estará no meio de seu povo”
(Alma 7:7). O Élder Bruce R. McConkie acrescentou seu testemunho ao de
Alma: “O evento mais transcendental de toda a sua existência eterna, o
mais glorioso acontecimento desde a aurora da criação até a continuação
eterna das eternidades eternas, a obra suprema de sua infinita bondade —
isso ocorreu num jardim chamado Getsêmani”.3
Todos os outros eventos, doutrinas e princípios são secundários e
apêndices desse ato divino. Foi isso que o Profeta Joseph ensinou: “Os
princípios fundamentais de nossa religião são o testemunho dos Apóstolos
e Profetas de que Jesus Cristo morreu, foi sepultado, ressuscitou no terceiro
dia e subiu aos céus; e todas as outras coisas que pertencem a nossa
religiãosão meros complementos dessa verdade”.4
Leí sabia da condição preeminente da Expiação entre os princípios do
evangelho. Sentindo que o fim estava próximo, ele proferiu a última
exortação a seus filhos, e ao fazê-lo explicou com simplicidade magistral a
essência da Queda e da Expiação. Concluiu, então, dizendo: “Disse-vos
estas poucas palavras, meus filhos, nos últimos dias de minha provação; e
eu escolhi a boa parte” (2 Néfi 2:30).
A “boa parte” do evangelho e, de fato, de toda a história humana é o
Salvador e Seu Sacrifício Expiatório. A Expiação de Jesus Cristo
sobrepuja, supera e transcende qualquer outro evento da mortalidade,
qualquer nova descoberta e qualquer aquisição de conhecimento, porque
sem a Expiação, tudo o mais na vida perde seu sentido.
O Élder McConkie presta um tributo propício a esse que é o mais nobre
de todos os feitos: “Nada em todo o plano de salvação se compara de
maneira alguma em importância ao mais transcendental de todos os
eventos: o Sacrifício Expiatório de nosso Senhor. Essa é a coisa mais
importante que já ocorreu em toda a história da criação; é a rocha sobre a
qual se alicerça o evangelho e todas as outras coisas”.5 Sendo assim, era de
se esperar que todo o mundo se voltasse com ansiedade para o Salvador.
Infelizmente, não foi o que aconteceu. O Salvador comentou: “ (…) Vim
para os meus e os meus não me receberam” (D&C 6:21). Néfi previu essa
deplorável situação: “O mundo, devido à iniquidade, julgá-lo-á como uma
coisa sem valor” (1 Néfi 19:9). Que comentário trágico! É sem dúvida
muito grave rejeitar o Salvador, mas ignorá-Lo, menosprezá-Lo, considerá-
Lo “uma coisa sem valor” é algo que desagrada em extremo ao Senhor.
Não há dúvida quanto à postura Dele em relação a esse assunto: “Quem
dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno (…) vomitar-te-ei da
minha boca” (Apocalipse 3:15–16).
Em marcante contraste com os santos mornos tão detestados pelo
Senhor, Néfi falou da paixão com que seu povo se referia a Cristo:
“Falamos de Cristo (…) regozijamo-nos em Cristo . (…) pregamos a Cristo
(…) profetizamos de Cristo (…) para que nossos filhos saibam em que
fonte procurar a remissão de seus pecados” (2 Néfi 25:26). Esse regozijo
decorria de sua absoluta confiança na futura Expiação de Cristo. Eles
sabiam que esse era o único evento da história que poderia salvá-los, e
assim, por essa razão — a redenção do homem — o Salvador faria Sua
entrada na mortalidade.
A vida terrena do Salvador pode ser convenientemente dividida em três
categorias: Sua mensagem, Seu ministério e Sua missão. Somente os
eventos associados a Sua missão, porém, exigiram Sua presença física, e
portanto, Sua missão, o Sacrifício Expiatório, tornou-se o motivo
obrigatório de Sua condescendência.
A Sua Mensagem
A mensagem do Salvador, ou o evangelho de Jesus Cristo, fora pregada
antes do meridiano dos tempos e viria a ser pregada novamente. Dos lábios
de Adão as verdades puras do evangelho haviam sido declaradas milênios
antes do ministério do Salvador. O Senhor deixou bem claro que “o
Evangelho começou a ser pregado desde o princípio” (Moisés 5:58).
Enoque, Noé e Abraão também pregaram o evangelho na dispensação
deles. Após o meridiano dos tempos, o Profeta Joseph restauraria o
evangelho em sua plenitude, porque, conforme lhe foi prometido pelo
Senhor: “Esta geração (…) receberá minha palavra por teu intermédio”
(D&C 5:10).
Sem dúvida foi uma grande bênção ouvir o Salvador pregar pessoalmente
Sua mensagem do evangelho, mas esse não foi o motivo essencial pelo
qual Ele veio. Outros foram seus porta-vozes, tanto antes quanto depois de
Sua experiência mortal. A respeito desses porta-vozes, o Senhor declarou:
“Seja pela minha própria voz ou pela voz de meus servos, é o mesmo”
(D&C 1:38). A mensagem do Salvador era essencial para nossa salvação,
mas não era essencial que Ele próprio a pregasse. O Presidente J. Reuben
Clark Jr. fez esta advertência: “Irmãos, não há problema em falar do
Salvador, da beleza de Suas doutrinas e da beleza da verdade. Mas
lembrem-se, isso é algo que desejo que vocês (…) (…) tenham em mente:
o Salvador deve ser visto como o Messias, o Redentor do mundo. Seus
ensinamentos eram apêndices e auxílios para esse grande fato”.6
O Seu Ministério
O ministério do Salvador inclui a realização de milagres, mas Enoque,
Moisés, Elias e outros haviam realizado maravilhas semelhantes, antes de
Seu nascimento. Pedro, Paulo e outros realizariam milagres semelhantes
após Sua ascensão.
Entre os milagres realizados pelo Salvador estava Seu domínio sobre os
elementos da natureza. Quem não fica admirado ao ler a respeito do
embate entre o Salvador e a tempestade no Mar da Galileia? Os ventos
açoitavam em fúria incontrolável. As ondas se lançavam contra o pequeno
barco pesqueiro com impetuosa violência. Toda esperança parecia perdida.
“Mestre”, disseram, “não se te dá que pereçamos?” Então Jesus se levantou
e, com uma voz que transpassou os elementos em fúria, clamou: “Cala-te,
aquieta-te”. Em resposta, as inexoráveis forças da natureza, forças que
pareciam não conhecer restrições, acalmaram-se em humilde submissão.
Tão assombrados ficaram com aquela manifestação de poder, que até os
discípulos clamaram: “Quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?
(Marcos 4:38–39, 41).
No entanto, o domínio que o Salvador tinha sobre a natureza e os
elementos não pertencia somente a Ele. Agindo com poder divino, Josué
ordenou ao Sol que permanecesse parado, e isso foi feito. Sob o comando
inspirado de Moisés, o Mar Vermelho se abriu. Pela palavra proferida por
Enoque, as montanhas moveram, os rios mudaram de curso e a terra
tremeu. Será que, após o meridiano dos tempos, esse poder sobre os
elementos chegou ao fim? Mórmon fez uma pergunta semelhante:
“Cessaram os milagres porque Cristo subiu aos céus?” Então veio sua
resposta inequívoca: “Eis que eu vos digo que não” (Morôni 7:27, 29). O
Salvador prometeu aos fiéis das gerações futuras: “Aquele que crê em mim
também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas” (João
14:12).
O Salvador levantou os mortos em diversas ocasiões, mas não foi o
único a realizar esse feito extraordinário. As escrituras relatam que Elias, o
profeta, levantou dos mortos o filho da viúva (I Reis 17:20–22). Pedro e
Paulo restauraram vida aos mortos (Atos 9:39–41; 20:9–13). Joseph Smith
disse a Elijah Fordham, em seu leito de morte: “Irmão Fordham, em nome
de Jesus Cristo, levanta-te e anda”. A história relata que o irmão Fordham
então pulou da cama, recuperando-se instantaneamente.7 Sem dúvida o
poder sobre a morte não se restringiu unicamente ao ministério do Salvador
na mortalidade.
O Salvador tinha o poder de suplantar as leis da gravidade — ele andou
sobre as águas, mas não foi o primeiro. Acaso Eliseu, séculos antes, não
havia feito a cunha de um machado de ferro flutuar para que pudesse ser
recuperada pelo aflito homem que o tomara emprestado (II Reis 6:5–6)?
Acaso não houve cura de cegos, coxos e leprosos em todas as outras
dispensações? O poder subjacente a cada milagre realizado pelo Salvador
esteve presente em todas as dispensações do evangelho, e com toda a
propriedade. Um dos sinais da igreja verdadeira é contar com o mesmo
poder e os mesmos dons e milagres que existiam na igreja primitiva.
O ministério do Salvador incluiu a realização de ordenanças sagradas
(TJS, João 4:1–4) e também milagres, mas será que Seus apóstolos também
não batizaram, concederam o dom do Espírito Santo e realizaram todas as
outras ordenanças essenciais do evangelho? O ministério do Senhor na
mortalidade deixou-nos um maravilhoso legado de atos compassivos,
milagres e ordenanças do evangelho, mas essas coisas não ficaram restritas
exclusivamente a Seu ministério.
A Sua Missão
Embora outros pudessem pregar a mensagem do Salvador e até realizar
um ministério de milagres e ordenanças do sacerdócio, somente Ele
poderia cumprir a missão designada por Deus, ou seja, a redenção do
mundo. Nenhum procurador, substituto, representante e nem mesmo anjos
enviados do céuou profetas poderiam fazê-lo. A Expiação exigia a vida e o
poder de um ser perfeito. Ele era o único candidato, o único nome “debaixo
do céu (…) pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12). Esse é o principal
motivo pelo qual Ele veio à Terra. “Eis que vim ao mundo para trazer
redenção ao mundo e salvar o mundo do pecado” (3 Néfi 9:21; ver também
D&C 49:5; 76:40–42).8 Mateus, citando o Messias mortal, registrou a
mesma verdade: “O Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido”
(Mateus 18:11; ver também Mórmon 7:6–7). Por mais importantes que
fossem Sua mensagem e Seu ministério pessoal, eles eram secundários à
Sua missão: o Sacrifício Expiatório.
O Cerne do Evangelho
A Expiação não é apenas um ensinamento primordial do evangelho, mas
sim, o seu cerne. Ela dá vida a toda doutrina, a todo princípio e a toda
ordenança, transformando em uma vibrante verdade espiritual algo que, de
outra forma, seria um ideal grandioso, mas sem vida. Tão essencial é a
Expiação para uma vida cheia de propósito que, em certa ocasião, foi
chamada de “o evangelho”. Ao pregar aos nefitas, o Salvador confirmou
esse fato: “Este é o evangelho (…) — que vim ao mundo para fazer a
vontade de meu Pai. (. . .) E meu Pai enviou-me para que eu fosse
levantado na cruz” (3 Néfi 27:13–14) Essa mesma doutrina foi
audivelmente declarada dos céus para o Profeta Joseph: “E este é o
evangelho, as alegres novas, (…) — Que ele veio ao mundo, sim, Jesus,
para ser crucificado pelo mundo e para tomar sobre si os pecados do
mundo” (D&C 76:40–41). O LDS Bible Dictionary9 define o evangelho
como “boas novas” e depois acrescenta: “As boas novas são que Jesus
Cristo realizou uma expiação perfeita”.10
Num sentido mais amplo, o termo evangelho se refere a todos os
princípios e as ordenanças que compõem o plano de salvação (ver D&C
39:6). Mesmo quando usado neste último sentido, porém, precisamos
lembrar que esses princípios e essas ordenanças somente têm validade e
eficácia por causa do Sacrifício Expiatório do Salvador. E foi exatamente
isso que Enoque ensinou: “Este é o plano de salvação para todos os
homens, por meio do sangue de meu Unigênito” (Moisés 6:62). A
Expiação é a força vital que vivifica todos os preceitos do evangelho. Ela é,
como disse o Presidente Gordon B. Hinckley, “a pedra angular do arco do
grande plano”.11 Sem ela, tudo o mais desmorona.
Nenhuma doutrina supera ou sequer se aproxima da Expiação em
importância. É o maior milagre que já aconteceu. C. S. Lewis comentou
que se alguém eliminar os milagres atribuídos ao budismo, não haveria
“perda alguma” para a religião. Se todos os milagres fossem eliminados do
islamismo, acrescenta ele, “nada essencial seria alterado”. Depois, ele faz
este comentário pungente: “Mas não é possível fazer isso com o
cristianismo, porque a história cristã é precisamente a história de um
grande milagre, a asserção cristã” de que Cristo veio “em forma humana,
descendo para Seu próprio universo, e que Ele Se levantou novamente,
levando a Natureza consigo. É precisamente um grande milagre. Se
tirarmos isso, nada resta que seja especificamente cristão”.12
A Expiação, como comentou o Élder McConkie, “é o centro, o cerne e o
âmago da religião revelada”.13 É de fato a pedra angular do cristianismo e
o alicerce de uma vida espiritual. É o facho de luz para um mundo
obscurecido pelas trevas. É a fonte da qual emana toda a esperança.
Qualquer teologia, qualquer filosofia, qualquer doutrina que ensine de
modo contrário à Expiação está edificada sobre a areia. Brigham Young
ensinou: “No dia em que a Expiação do Salvador deixar de existir, nesse
momento, de uma só vez, serão destruídas todas as esperanças de salvação
do mundo cristão, pois o alicerce de sua fé terá sido retirado e nada restará
em que possam fundamentar-se”.14 A Expiação é nossa esperança
específica de uma vida significativa.
 
Notas
1. Hinckley, Ensinamentos de Gordon B. Hinckley, p. 495. (Observação: As
referências completas de todas as notas de rodapé se encontram na bibliografia.) 2.
Nibley, Of All Things, p. 6.
3. McConkie, Promised Messiah, p. 2.
4. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p. 118.
5. McConkie, Mormon Doctrine, p. 60; grifo do autor.
6. Clark, Selected Papers, p. 187.
7. Pratt, Autobiography of Parley P. Pratt, p. 254.
8. O Presidente Joseph F. Smith falou sobre outro motivo pelo qual Cristo veio à
Terra: “Cristo não veio ao mundo apenas para expiar os pecados da humanidade,
veio também para dar ao mundo o exemplo de perfeição no cumprimento da lei de
Deus e de perfeita obediência ao Pai” (Smith, Gospel Doctrine, p. 270). Isso
condiz com o comentário de Pedro: “Porque para isto sois chamados; pois também
Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas”
(I Pedro 2:21).
9. O dicionário bíblico elaborado pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos
Dias e publicado com a edição SUD da Bíblia é citado em toda esta obra com esta
referência: LDS Bible Dictionary.
10. LDS Bible Dictionary, p. 682.
11. Hinckley, Ensinamentos de Gordon B. Hinckley, p. 497.
12. Lewis, Grand Miracle, p. 55.
13. McConkie, New Witness, p. 81.
14. Journal of Discourses, vol. 14, p. 41.
 
Capítulo 2
Por Que Estudar a Expiação?
O Conhecimento Conduz à Salvação
Se a Expiação é o alicerce de nossa fé (e realmente é), então ninguém
deve contentar-se com um conhecimento superficial dessa doutrina. Em
vez disso, a Expiação deve ser o foco principal de nossa busca intelectual e
espiritual. O Presidente John Taylor, que fervorosamente ponderou as
complexidades da Expiação, comentou: “Deve haver um motivo pelo qual
foi permitido que [Cristo] sofresse e suportasse tantas coisas, um motivo
pelo qual foi necessário que Ele desse a vida como sacrifício pelos pecados
do mundo. (. . .) Nós e o mundo inteiro estamos intimamente interessados
nesses motivos. Há algo de grande importância para nós em tudo isso. Os
motivos e as consequências desses grandiosos acontecimentos são de
extrema importância para todos nós”.1
Leí compreendia a necessidade de examinar e ensinar a doutrina da
Expiação. Ao aconselhar seu filho Jacó, ele disse: “Quão importante é
tornar estas coisas [a Expiação] conhecidas dos habitantes da Terra, para
que saibam que nenhuma carne pode habitar na presença de Deus, a menos
que seja pelos méritos e misericórdia e graça do Santo Messias” (2 Néfi
2:8). Jacó captou a visão desse conselho, pois ao pregar a seu povo ele
perguntou com seriedade: “Por que não falar, pois, da expiação de Cristo e
conseguir um perfeito conhecimento dele (. . .)?” (Jacó 4:12). O Profeta
Joseph explicou até que ponto devemos nos aprofundar para adquirir esse
“perfeito conhecimento”.
“As coisas de Deus são profundamente importantes; e somente com o
tempo, a experiência e cuidadosa e solene reflexão podemos descobri-las.
Tua mente, ó homem, (. . .) deve elevar-se à altura do último céu e
esquadrinhar e contemplar o abismo mais escuro e a amplitude da
eternidade — deves estar em comunhão com Deus.”2
B. H. Roberts, um dos mais renomados estudiosos da Igreja, referiu-se à
“difícil doutrina da Expiação”.3 Depois de árduos estudos, ele escreveu:
“Ao abordar profundamente o assunto, meu intelecto também passou a
concordar plena e completamente com a solidez da filosofia e com a
absoluta necessidade da Expiação de Jesus Cristo. (. . .) Tenho-a para mim
como uma nova conversão à Expiação de Jesus Cristo, uma conversão
intelectual, e recentemente tenho me regozijado ao extremo com isso”.4
Para o Élder Roberts, esse profundo estudo da Expiação foi uma
experiência que lhe abriu a mente e ampliou a alma. O intelectual e o
espiritual mesclaram-se em maravilhosa harmonia.
O rei Benjamim sabia que nosso estudo da Expiação não devia ser
apenas um exercício intelectual para satisfazer a curiosidade mental,
tampouco que se tratasse de uma doutrina para ser compreendida apenas
por uma pequena elite. Ela é essencial para a nossa salvação. Assim ele
declara em seu último sermão: “Digo-vos que se haveis adquirido
conhecimento da bondadede Deus e de seu incomparável poder (…) e
também da expiação que foi preparada desde a fundação do mundo, (…)
[se guardares] diligentemente seus mandamentos (. . .) digo que este é o
homem que recebe a salvação” (Mosias 4:6–7). Não há como escapar disso
— nossa salvação depende da compreensão e da aceitação do Sacrifício
Expiatório de Cristo.
Uma Doutrina Mal-Entendida
Parece paradoxal que a própria doutrina que é essencial para nossa
salvação também seja uma das menos entendidas do mundo cristão. Há um
entendimento errôneo, há confusão e heresias doutrinárias em profusão
associadas a essa doutrina fundamental e à sua precursora, a Queda.
Seguem-se exemplos de conceitos equivocados ensinados atualmente por
muitos do mundo cristão:5
1. Adão e Eva teriam tido filhos no Jardim do Éden se lhes fosse
permitido permanecer ali.
2. Adão e Eva não estavam num estado de inocência no Jardim, mas
vivenciavam ali uma alegria inigualável.
3. A Queda não fazia parte do plano mestre de Deus, mas foi um trágico
retrocesso. Foi uma pedra de tropeço e não um degrau ascendente na
jornada eterna do homem.
4. Se Adão não tivesse caído, todos os seus filhos teriam nascido num
estado de felicidade, para viver “felizes para sempre” em condições
paradisíacas.
5. Por causa da Queda de Adão, todas as criancinhas estão maculadas
pelo pecado original.
6. Somente a graça pode nos salvar (i.e., exaltar), independentemente de
quaisquer obras que façamos.
7. A ressurreição física do Salvador foi meramente simbólica. Seremos
ressuscitados como espíritos sem as “limitações” de um corpo físico.
8. A Expiação não tem o poder de transformar-nos em deuses. Na
verdade, esse conceito é blasfemo.
Cada uma dessas declarações doutrinárias acima é falsa. Elas não são
questões insignificantes, mas, sim, pontos teológicos importantes que
abordam a essência doutrinária da Expiação. Sem uma compreensão
correta deles acabaremos tendo muitos conceitos errôneos a respeito desse
ensinamento cristão de primordial importância. Felizmente, a verdade a
respeito de cada um desses pontos doutrinários é ensinada no Livro de
Mórmon,6 com apoio adicional das escrituras modernas. (Cada uma dessas
doutrinas é discutida detalhadamente em capítulos posteriores.) Há também
muitos pontos-chave da Expiação que não são ensinados incorretamente
pelas outras religiões — eles simplesmente não são ensinados de forma
alguma. Por exemplo: que outra religião aborda não apenas o fato de Cristo
tomar sobre Si todos os nossos pecados, mas também todas as dores,
enfermidades e doenças inerentes à vida mortal? Quem mais prega que o
poder da Expiação se estende aos que não têm lei ou que ela tem um efeito
retroativo sobre os santos que viveram antes do meridiano dos tempos?
Quem fala de Seu poder de transcender a morte e de redimir os espíritos da
esfera pós-mortal? Quem mais aborda as infinitas implicações da
Expiação, conforme citadas pelos profetas do Livro de Mórmon?
Ironicamente, a resposta para essas perguntas não se encontra no que
chamamos de cristianismo tradicional, mas sim, na Igreja restaurada de
Jesus Cristo. O Presidente Ezra Taft Benson ensinou: “Boa parte do mundo
cristão hoje rejeita a divindade do Salvador. Eles questionam Seu
nascimento miraculoso, Sua vida perfeita e a realidade de Sua Ressurreição
gloriosa. O Livro de Mórmon ensina de modo simples e inequívoco sobre a
veracidade de todos esses fatos. Também contém a explicação mais
completa da doutrina da Expiação. Esse livro divinamente inspirado é
verdadeiramente uma pedra angular ao testificar ao mundo que Jesus é o
Cristo”.7
Há alguns anos, estive num jantar com um juiz aposentado. Durante
nossa conversa, acabamos falando do Livro de Mórmon. Em dado
momento, ele fez esta surpreendente declaração: “Já li o Livro de Mórmon
e não há nada de novo nele que já não esteja na Bíblia”. Fiquei sem
palavras. Era óbvio que ele não tinha lido o Livro de Mórmon ou então não
o compreendera. Se não fosse pelo Livro de Mórmon, seríamos vítimas de
todas as noções equivocadas a respeito da Queda e da Expiação, como
mencionei acima, simplesmente porque há muitas “coisas claras e
preciosas” que foram suprimidas da Bíblia, por mais inspirada que ela seja.
Néfi profetizou, porém, que nos últimos dias “outros livros”
restaurariam as “coisas claras e preciosas que (…) foram suprimidas [da
Bíblia]” (1 Néfi 13:39, 40). Felizmente, o Livro de Mórmon veio em nosso
resgate. Ele esclarece certos pontos doutrinários que estão ambíguos na
Bíblia, confirma outros e até, mais importante, preenche muitas lacunas
que são flagrantemente evidentes. Como disse o Élder Jeffrey R. Holland:
“Grande parte dessa doutrina [da Expiação] foi perdida ou removida dos
registros bíblicos. Portanto, são imensas as consequências de que os
profetas do Livro de Mórmon tenham ensinado essa doutrina de modo
detalhado e com grande clareza”.8
Às vezes, é difícil para nós, membros da Igreja, distinguirmos entre as
nossas crenças a respeito da Expiação e as do restante do mundo cristão.
Muitos de nós crescem achando que aquilo que conhecemos e cremos em
relação a essa doutrina central é o mesmo que faz o restante do mundo,
mas não é verdade. Sem as escrituras modernas, principalmente o Livro de
Mórmon, seria extremamente difícil, se não impossível, compreender os
muitos princípios básicos da Expiação. Quase 2.000 mil anos de
interpretações da Bíblia e as diversas conclusões a que chegaram muitos do
mundo cristão deveriam ser uma evidência abrangente da necessidade do
ponto de vista de outras escrituras.
Para muitos, a beleza e a profunda doutrina da Expiação são
sumariamente descartadas e colocadas de lado com a fácil resposta:
“Simplesmente creia e seja salvo”. Por que essa abordagem? Acho que
Hugh Nibley é quem melhor explica o motivo disso: “Tão fria foi a
recepção da mensagem [da Expiação] que ao longo dos séculos, enquanto
surgiam ardorosos debates e controvérsias sobre a evolução, o ateísmo, os
sacramentos, a Trindade, a autoridade, a predestinação, a fé e as obras, e
assim por diante, não houve nenhum debate ou discussão no tocante ao
significado da Expiação. Por que não houve debates nem pronunciamentos
nos sínodos? As pessoas ou não se preocupavam o bastante ou sequer
conheciam o suficiente para discutir o assunto. Porque a doutrina da
Expiação era por demais complicada para despertar o interesse do mundo
religioso”.9
Satanás conseguiu distrair a atenção do mundo cristão para longe da
única doutrina que pode nos salvar, a Expiação de Jesus Cristo,
concentrando-a nas doutrinas secundárias que somente têm significado por
causa desse evento redentor. Tal como um mágico habilidoso, cada
movimento de Satanás visa distrair nossa atenção e desviar nosso enfoque
do objetivo principal, que é o Sacrifício Expiatório de Jesus Cristo, na
esperança de que nos concentremos exclusivamente nas doutrinas
secundárias e bem menos importantes. Suas táticas de distração foram e
serão de proporções tão globais, que João tragicamente exclamou: “Satanás
(…) engana todo o mundo” (Apocalipse 12:9; ver também D&C 10:63).
Depois de acabarem todos os truques de mão e a fumaça se dissipar, é
ainda Jesus Cristo, Sua Expiação e nossa obediência a Ele que vai nos
salvar — nada mais pode fazê-lo.
Uma fonte de fé e Motivação
Alguns podem questionar a diferença que faz compreendermos ou não a
Expiação, desde que acreditem e aceitem suas consequências. Essa
necessidade é ilustrada por algo que aconteceu a Florence Chadwick,
conforme relatado por Sterling W. Sill. Foi em 4 de julho de 1952.
Chadwick, que já havia atravessado o Canal da Mancha a nado, estava
tentando fazer a travessia de 34 quilômetros da costa sul da Califórnia até a
Ilha Catalina. A água estava bem gelada, a 9 graus de temperatura. A
neblina estava densa, e a visibilidade era quase nula. Por fim, faltando
apenas 800 metros de seu destino, ela perdeu a coragem e desistiu. No dia
seguinte, os repórteres a cercaram perguntando por que havia desistido —
tinha sido o frio ou a distância? No final, nãofoi nenhum dos dois. Ela
disse: “Fui derrotada pela neblina”. Relembrou algo semelhante que
acontecera enquanto cruzava o Canal da Mancha. Evidentemente a neblina
estava igualmente densa. Ela estava exausta. Quando estava prestes a pegar
a mão do pai no barco próximo, ele apontou para a praia. Ela ergueu a
cabeça fora da água o suficiente para ver a terra logo adiante. Com aquela
visão, esforçou-se um pouco mais e tornou-se a primeira mulher a cruzar o
Canal da Mancha a nado.10
Essa história ensina um princípio magnífico: a visão ampliada pode
aumentar a motivação. Assim também acontece com a Expiação. À medida
que nossa visão da Expiação é ampliada, nossa motivação para aceitar seus
plenos efeitos é proporcionalmente aumentada. O Presidente Howard W.
Hunter fez esta promessa: “À medida que compreendemos Sua missão e a
Expiação que Ele realizou, desejamos viver de modo mais semelhante a
Ele”.11 As consequência divinas de estudar assim foram explicadas pelo
Élder Neal A. Maxwell: “Quanto mais conhecemos a respeito da Expiação
de Jesus, mais iremos com humildade e alegria glorificar a Ele, à Sua
Expiação e ao Seu caráter”.12 Por fim, o Élder Bruce R. McConkie prestou
seu testemunho da necessidade dessa busca espiritual em nossa vida: “A
Expiação de Cristo é a doutrina mais básica e fundamental do evangelho, e
a menos compreendida de todas as nossas verdades reveladas. Muitos de
nós têm um conhecimento superficial e confiam no Senhor e em Sua
bondade para que nos ajude a vencer as provações e os perigos da vida.
Mas caso queiramos ter fé como Enoque e Elias, precisamos acreditar no
que eles acreditavam, saber o que sabiam e viver como viviam.
Convido-os a unirem-se a mim para adquirirmos um conhecimento
sólido e seguro da Expiação”.13
Toda tentativa de refletir sobre a Expiação, de estudá-la, de aceitá-la, de
expressar gratidão por ela, por menor ou mais débil que seja, vai avivar a
chama da fé e fazer acontecer o milagre de tornar-nos mais semelhantes a
Cristo. É uma consequência inevitável desse empenho. Tornamo-nos mais
semelhantes às coisas que habitualmente amamos e admiramos. Portanto, à
medida que estudarmos a vida de Cristo e vivermos Seus ensinamentos,
tornamo-nos mais semelhantes a Ele.
Notas
1. Journal of Discourses, volume 10, pp. 115–116; grifo do autor.
2. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p. 133.
3. Madsen, “The Meaning of Christ”, p. 277.
4. Conference Report, abril de 1911, p. 59.
5. Ver Smith, Religious Truths Defined, pp. 99, 353 e 365 para um resumo de várias
declarações cristãs equivocadas a respeito da Queda e da Expiação, ver também
Roberts, The Truth, The Way, The Life, pp. 345–348, 428; e Smith, O Caminho da
Perfeição, p. 34.
6. As respostas corretas são ensinadas, entre outros lugares, nas seguintes passagens:
Primeiro conceito equivocado: 2 Néfi 2:23; Moisés 5:11
Segundo conceito equivocado: 2 Néfi 2:22–23
Terceiro conceito equivocado: 2 Néfi 2; Alma 42
Quarto conceito equivocado: 2 Néfi 2:22–23
Quinto conceito equivocado: Morôni 8
Sexto conceito equivocado: 2 Néfi 25:23
Sétimo conceito equivocado: Alma 40:23; 3 Néfi 11:13–17
Oitavo conceito equivocado: 3 Néfi 12:48; 27:27; Morôni 10:30–33.
7. Benson, Witness and a Warning, p. 18.
8. Holland, Christ and the New Covenant, p. 199.
9. Nibley, Approaching Zion, pp. 600–601.
10. Conference Report, abril de 1955, p. 117.
11. Hunter, “Speeches of President Hunter”, p. 7.
12. Maxwell, “Enduring Well”, p. 10.
13. McConkie, New Witness, p. xv.
 
Capítulo 3
Podemos Compreender Plenamente a Expiação?
Receber Conhecimento sobre Conhecimento
Ao estudarmos a Expiação, será que conseguimos dominar suas
complexidades e seus detalhes? Será que conseguimos conhecer os por
quês e o como tão bem quanto conhecemos as consequências? O Élder
James E. Talmage esclareceu nossa incapacidade de compreender
plenamente essa doutrina: “Talvez não estejam ao alcance do entendimento
do homem todos os pormenores do glorioso plano por meio do qual se
assegura a salvação da raça humana; porém, o homem aprendeu, por meio
de seus fúteis esforços em sondar as causas primárias dos fenômenos da
natureza, que suas faculdades de compreensão são limitadas, e é obrigado a
admitir que, ao negar um efeito por sua incapacidade de determinar a
causa, ele estaria renunciando a suas pretensões de ser um indivíduo
observador e racional.
Por mais simples que seja o plano de redenção em seus aspectos gerais,
para a mente finita ele é reconhecidamente um mistério nos seus
detalhes”.1
Nossa incapacidade de “conhecer todas as coisas”, porém, não elimina a
necessidade que temos de conhecer o que é passível de ser conhecido
(tampouco diminui nosso desejo de adquirir conhecimento). Talvez ao
exaurir o que é possível de se conhecer, sondamos mais profundamente e
ocasionalmente até penetramos o infinito. O Profeta Joseph foi nosso
exemplo nesse sentido. Ele foi o grande “mestre inquiridor”. Suas
perguntas desencadearam a Primeira Visão, a Palavra de Sabedoria, a
revelação sobre o casamento celestial, a visão dos três graus de glória,
enfim, praticamente toda outra revelação digna de nota desta dispensação.
Ele derrubou os parâmetros do conhecimento divino porque fez perguntas
justas. Ele foi a prova empírica deste convite divino: ‘Se pedires, receberás
revelação sobre revelação, conhecimento sobre conhecimento, para que
conheças os mistérios e as coisas pacíficas” (D&C 42:61; ver também 1
Néfi 10:19; D&C 6:7; 11:7).
Esse mesmo processo espiritual de inquirição permitiu que Néfi visse e
compreendesse a visão que seu pai havia testemunhado concernente à
árvore da vida. É de admirar que Néfi tenha ficado frustrado com seus
irmãos quando ficou sabendo de suas reclamações em relação ao sonho de
Leí? Ele lhes fez esta pergunta pungente: “Haveis perguntado ao Senhor?”
Sua resposta foi extremamente decepcionante: “Não perguntamos, pois o
Senhor não nos dá a conhecer essas coisas”. Néfi não estava disposto a
deixar essa resposta prevalecer. Falando em nome do Senhor, ele
respondeu com o princípio correto que destranca a porta do conhecimento
divino: “Se não endurecerdes vosso coração e (…) pedirdes [a Deus] com
fé, (…) guardando diligentemente os meus mandamentos, certamente estas
coisas vos serão dadas a conhecer” (1 Néfi 15:8, 9, 11). O Senhor fez esta
promessa reconfortante a todos os que diligentemente buscam a verdade:
“E se perguntares, conhecerás mistérios que são grandes e maravilhosos”
(D&C 6:11).
Poderíamos refletir quais teriam sido as consequências se o Presidente
Joseph F. Smith não tivesse feito a pergunta a respeito dos espíritos que
estão além do véu. Ou se o Presidente Spencer W. Kimball não tivesse
buscado revelação em relação a estender o sacerdócio a todos os membros
dignos do sexo masculino. Se esses bons homens não tivessem ousado em
retidão, buscado mais, as gloriosas verdades que receberam teriam
permanecido sem ser reveladas nas esferas celestiais. Enquanto houver
verdade a ser conhecida e homens justos que façam perguntas, o Senhor
pode e vai, no seu devido tempo, derramar ‘conhecimento do céu sobre a
cabeça dos santos dos últimos dias’ (D&C 121:33). As possibilidades para
revelações futuras parecem ilimitadas, conforme predito pelo Senhor: “A
eles revelarei todos os mistérios, sim, todos os mistérios ocultos de meu
reino desde a antiguidade; e por eras futuras.(. . .) Sim, até as maravilhas da
eternidade conhecerão. (. . .) Porque pelo meu Espírito os iluminarei e pelo
meu poder dar-lhes-ei a conhecer os segredos de minha vontade — sim, até
as coisas que o olho não viu nem o ouvido ouviu e ainda não entraram no
coração do homem” (D&C 76:7–8, 10; ver também Regras de Fé 1:9).
Depois dessa promessa, o Senhor abriu Seus tesouros do céu e derramou
joias sem preço a respeito da ressurreição e dos graus de glória eterna no
que muitos poderiam considerar a mais esclarecedora revelação dada nesta
dispensação. Sem dúvida as portas do céu continuarão a se abrir, e os
tesouros divinos concederão suas joias sagradas em resposta a homens emulheres honestos que sincera e humildemente buscam mais luz. São essas
almas que terão o privilégio de “[compreender] no coração” (3 Néfi 19:33),
e também na mente, a profunda doutrina e a purificadora paixão da
Expiação.
Nenhuma Geração Deve Conhecer Mais
Com a conclusão da edição SUD da Bíblia do Rei Jaime, em 1979, uma
nova era de conhecimento acadêmico do evangelho teve início. Como
resultado disso, a geração atual está descobrindo verdades, pontos de vista
e confirmações adicionais que eram desconhecidos para muitos de seus
antepassados — não porque a geração atual seja necessariamente mais
justa, nem porque tenha maior intelecto, mas porque tem ferramentas
melhores. O melhor fazendeiro com um cavalo e um arado não tem como
competir com um fazendeiro igualmente capaz que tenha um trator de alta
tecnologia a seu dispor. O matemático com uma régua de cálculo não é
páreo para seu colega com um computador de alta velocidade. Um Galileu
com um telescópio manual jamais descobrirá o universo como um Galileu
com o telescópio mais avançado à sua disposição. O Senhor deve esperar
muito mais de nós em termos de conhecimento acadêmico do evangelho do
que esperava das gerações anteriores, porque temos muito mais a nosso
dispor.
O Élder Boyd K. Packer comentou: “A geração mais velha foi criada
sem eles, mas existe outra geração em desenvolvimento. Ela terá acesso às
revelações como nenhuma outra teve antes na história do mundo. (. . .) E
desenvolverá um conhecimento do evangelho muito maior do que seus
antepassados conseguiram alcançar”.2
Néfi viu nossos dias e profetizou que os fiéis “virão a conhecer seu
Redentor e os pontos essenciais de sua doutrina, para que saibam como
chegar a Ele e ser salvos” (1 Néfi 15:14). Embora seja verdade no
momento que “não podemos suportar todas as coisas”, também é verdade
que o Senhor nos deu esta esperança consoladora: “Tende bom ânimo,
porque eu vos guiarei” (D&C 78:18). Se formos pacientes e permitirmos
que o Senhor nos lidere em nosso estudo do evangelho, por fim seremos os
beneficiários desta gloriosa promessa: “Dia virá em que compreendereis
até o próprio Deus, sendo vivificados nele e por ele” (D&C 88:49).
Os capítulos a seguir visam tirar proveito desse reservatório de
ferramentas espirituais com que o Senhor nos abençoou nesta geração e
assim auxiliar-nos em nosso empenho de exaurir as coisas “que podem ser
conhecidas”, e ocasionalmente talvez arranhar a superfície daquilo que
agora parece estar no infinito. Ao fazermos isso, que possamos aumentar
nossa devoção e gratidão pelo Autor da Expiação, e por fim “chegar a ele e
ser salvos” (1 Néfi 15:14).
 
Notas
1. Talmage, Regras de Fé, pp. 76–77; grifo do autor.
2. Packer, Let Not Your Heart Be Troubled, p. 9.
 
Capítulo 4
Quais são os Propósitos da Expiação?
Três propósitos
O Que é a Expiação de Jesus Cristo? Em resumo, ela é o sofrimento
suportado, o poder demonstrado e o amor manifestado pelo Salvador em
três lugares principais, que são: o Jardim do Getsêmani, a cruz do Calvário
e o sepulcro de Arimateia. Num sentido mais amplo, a Expiação começou
quando o Salvador Se ofereceu abnegadamente no conselho prémortal,
dizendo “Eis-me aqui, envia-me” (Abraão 3:27), e prossegue sem fim à
medida que Ele “[leva] a efeito a imortalidade e a vida eterna do homem”
(Moisés 1:39).
Há pelo menos três propósitos principais da Expiação:
Primeiro: Restaurar tudo o que foi perdido com a Queda de Adão. Isso
foi feito (1) trazendo a ressurreição a todos os homens,1 vencendo assim a
morte física (ver I Coríntios 15:21–22); e (2) levando todos os homens de
volta à presença de Deus para serem julgados, vencendo assim o que as
escrituras chamam de primeira morte espiritual (ver Helamã 14:16; D&C
29:41). Essas duas mortes foram impostas a toda a humanidade por causa
de Adão. As duas mortes foram vencidas para todos os homens por meio
de Cristo.
Segundo: Prover a possibilidade de arrependimento para que os homens
possam ser limpos de seus pecados individuais, vencendo assim o que as
escrituras chamam de segunda morte espiritual (ver Helamã 14:18).
 
Terceiro: Prover o poder necessário para exaltar-nos à condição de um
deus (ver D&C 76:69).
Esses são os três propósitos que visam ajudar-nos a retornar
permanentemente à presença de Deus e a tornar-nos semelhantes a Ele.
Tornar-nos “Um” com Deus e Semelhantes a Ele
A palavra Expiação usada nas escrituras geralmente se refere aos
acontecimentos centralizados no Getsêmani, no Calvário e no sepulcro —
ou aos sacrifícios que foram um “modelo” desses acontecimentos. Os
acontecimentos nesses três lugares constituem a fonte principal da missão
do Salvador. Alguns sugerem que a estrutura dessa palavra também nos
ajuda a compreender o propósito principal subjacente a esses
acontecimentos sagrados, ou seja, nossa comunhão com Deus.
A palavra atonement (Expiação, em português), não deriva do grego
nem do latim, mas tem suas origens no idioma inglês. Hugh Nibley
explicou que a estrutura dessa palavra “realmente significa, ao ser grafada,
atone-ment, que denota um estado de união (‘at one’) com outra pessoa e o
processo pelo qual esse fim é alcançado”.2 Um esclarecimento adicional
para o significado da palavra é oferecido pelo Élder James E. Talmage: “A
estrutura da palavra em sua forma atual sugere seu verdadeiro significado.
Trata-se literalmente de at-one-ment, ‘termo que denota a reconciliação de
duas partes que estavam afastadas uma da outra’”.3 Stephen Robinson fez
um comentário semelhante: “A palavra atonement (Expiação, em
português) significa tomar duas coisas que se separaram, que se
distanciaram, que se tornaram incompatíveis, como um Deus perfeito e
você ou eu, que somos
 
imperfeitos, e voltar a uni-las novamente, fazendo com que as duas se
tornem ‘at one’ (uma só)”.4 Um corolário disso aparece no LDS Bible
Dictionary: “A palavra [atonement] descreve o processo de tornar um [at
one] duas coisas que se distanciaram, denotando a reconciliação do homem
com Deus”.5 Jacó explica essa união ao instar seus irmãos a
“[reconciliarem-se] com [Deus] pela expiação de Cristo” (Jacó 4:11; ver
também II Crônicas 29:24). O significado literal da palavra atonement
(Expiação, em português) tem mais esta explicação por Hugh Nibley: “Não
há nenhuma palavra entre as que são usadas para traduzir o termo
‘atonement’ (Expiação, em português) que não indique claramente o
retorno a um estado ou condição anterior: a pessoa volta a reunir-se com a
família, retorna ao Pai, torna-se um e reconcilia-se, abraça os outros e volta
alegremente ao convívio deles após uma triste separação”.6
Consequentemente, o propósito da Expiação, como denota a estrutura da
palavra, é ajudar-nos a tornar-nos um com Deus, no sentido de que
poderemos habitar fisicamente em Sua presença. A Expiação proporciona
um meio pelo qual podemos reconciliar-nos com Deus e voltar à nossa
morada original. Hugh Nibley comentou sobre essa reunião divina: “A lei
nos conduz de volta ao lar. A Expiação é levada a efeito quando para lá
voltamos”.7
Nossa vida mortal é uma luta constante entre a escolha da união com
Deus ou da união com o mundo. Para auxiliar-nos nessa busca, Cristo “se
deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século
mau” (Gálatas 1:4). Ele quer nos levar de volta para a Sua casa em
segurança. É por isso que o Salvador suplicou: “Pai, aqueles que me deste
quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo” (João 17:24). O
Salvador prometeu aos fiéis que “onde meu Pai e eu estivermos, aí estareis
também” (D&C 98:18). Essa é a qualidade redentora da Expiação —
limpar nossa vida de tal maneira que sejamos dignos de habitar com Deus
eternamente, porque “nada que é impuro pode habitar com Deus” (1 Néfi
10:21; ver também D&C 25:15). Essa é a condição gloriosa que buscava
Eliza R. Snow, como revela a última estrofe de seu hino “Ó Meu Pai”: E
terminada a tarefa
Que me mandaste executar,
Dá-me santo assentimento
Para a teu lado sempre estar!8
Mas a Expiação tem ainda mais um propósito, como denotaa estrutura
da palavra. É o de ajudar a tornar-nos um com Deus, no sentido de que
sejamos semelhantes a Ele. Essa é a qualidade exaltadora — que nos
tornemos tão aperfeiçoados em nossa vida que não apenas habitemos com
Deus, mas nos tornemos semelhantes a Ele. Essa é a mais sublime união. A
união não é apenas uma questão de geografia, mas de identidade. A
questão não é apenas onde vamos habitar, mas em quem vamos nos tornar.
Habitar com Deus não nos assegura que seremos semelhantes a Ele. Todos
que moram no reino celestial habitam com Deus, mas somente os que
forem exaltados se tornarão semelhantes a Ele. O objetivo da Expiação não
é apenas limpar-nos, mas transformar de tal modo a nossa vida e nosso
modo de pensar e agir que nos tornemos semelhantes a Deus. Hugh Nibley
comentou sobre essa união: “Deve ficar claro qual tipo de união é esperada
na Expiação — significa sermos recebidos num abraço apertado de filho
pródigo, expressando não apenas o perdão mas a união de coração e mente,
que corresponde à identidade, uma identidade familiar literal, tal como
João descreve tão vividamente nos capítulo 14 a 17 de seu evangelho”.9
Quase no final da missão do Salvador, Ele orou por todos os que
acreditavam Nele. Ele orou, dizendo: “Para que todos sejam um, como tu,
ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós” (João
17:21; ver também D&C 35:2). Ele afirmou: “E eu dei-lhes a glória que a
mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (João 17:22). Por
fim, Ele suplicou: “Para que eles sejam perfeitos em unidade” (João
17:23). Essa é a mais sublime união, sermos um com Deus.
Se não tivesse havido a Expiação de Jesus Cristo, haveria uma terrível
união — uma expiação negativa, por assim dizer — em
que viveríamos com o Maligno e nos tornaríamos semelhantes a ele. Jacó
se referiu a essa tenebrosa verdade ao dizer que “[permaneceríamos] com o
pai das mentiras” e, pior ainda, nós nos tornaríamos “como ele mesmo” (2
Néfi 9:9). Em termos simples, seríamos um com Satanás em local e em
semelhança. Esse pensamento aterrorizante ajuda a colocar a Expiação na
devida perspectiva. Sem ela, tudo está perdido. Com ela, tudo pode ser
alcançado. Por mais sombria ou desesperadora que pareça a nossa
condição, por mais tenebrosos e ameaçadores que pareçam os céus,
Mórmon deixou esta resposta tranquilizadora: “Eis que vos digo que deveis
ter esperança (…) por intermédio da Expiação de Cristo” (Morôni 7:41).
Graças ao Salvador, podemos reconciliar-nos com Deus. Podemos voltar a
ser um [com Ele].
A capacidade que o homem tem de ser um com Deus tanto em local de
habitação quanto em semelhança somente é possível porque o Salvador
primeiro Se tornou um com o homem em local de habitação, por meio de
Seu nascimento na mortalidade, e um com o homem em semelhança, ao
assumir as fraquezas humanas — sem, contudo, jamais abandonar seu
caráter divino. Paulo comentou que o Salvador Se tornou “semelhante
Houve algo na condescendência do Salvador que tornou possível a
ascensão do homem.
Um Símbolo físico da Expiação
Essa reconciliação entre Deus e o homem é figurativa e literalmente
simbolizada por um abraço. Leí fez menção a isso em seu sermão no leito
de morte para seus filhos: “O Senhor redimiu a minha alma do inferno; eu
contemplei a sua glória e estarei eternamente envolvido pelos braços de seu
amor” (2 Néfi 1:15). Doutrina e Convênios sugere essa mesma imagem:
“Sê fiel e diligente na observância dos mandamentos de Deus e envolver-
te-ei nos braços de meu amor” (D&C 6:20). Amuleque pregou o mesmo:
“A misericórdia pode satisfazer as exigências da justiça e envolve-os nos
braços da segurança” (Alma 34:16). Que bela metáfora! Que filho não se
sente seguro nos braços de seu bondoso e amoroso pai? Que paz, que calor,
que segurança é saber que em seus braços ele está a salvo de crimes, da ira,
da rejeição, da solidão e de todos os males deste mundo.
Isaías falou dos ternos momentos em que o Senhor “entre os seus braços
recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço” (Isaías 40:11). O
Élder Orson F. Whitney testemunhou um glorioso momento como esse
quando viu uma maravilhosa manifestação do Salvador. Em seu sonho,
conta ele: “Corri [para encontrá-Lo] (. . .) , a Seus pés, abracei-O ao redor
dos joelhos e supliquei-Lhe que me levasse com Ele. Nunca me esquecerei
do modo amável e gentil com que Ele Se inclinou e me levantou e me
abraçou. Foi muito vívido, muito real. Senti o calor de Seu corpo, quando
Ele me abraçou”.10 Quem não ansiaria por esse calor, esse abraço?
Quem entre nós será seguramente envolvido nos braços desse amor?
Será que só a uns poucos escolhidos está reservada essa honra? Alma nos
faz saber que não há uma norma de exclusão: “Eis que ele envia um
convite a todos os homens, pois os braços de misericórdia lhes estão
estendidos” (Alma 5:33; ver também 2 Néfi 26:25–33). É isso que o
Salvador disse aos nefitas quando apareceu a eles. “Eis que meu braço de
misericórdia está estendido para vós e aquele que vier, eu o receberei” (3
Néfi 9:14). Esse convite não foi apenas por um breve momento, mas para
todo o nosso estado probatório. Néfi compreendia isso: “Serei
misericordioso para com eles, (…) pois o meu braço está estendido o dia
todo” (2 Néfi 28:32; ver também 3 Néfi 10:6). Até nos momentos de ira do
Senhor, Seus braços ainda estão estendidos, incentivando ansiosamente a
alma arrependida.
O Salvador falou a Enoque sobre o dia glorioso de reconciliação para os
justos, ao declarar: “E recebê-los-emos em nosso seio e eles ver-nos-ão; e
debruçar-nos-emos sobre seu colo e eles debruçar-se-ão sobre nossos
ombros; e beijaremos um ao outro” (Moisés 7:63). É difícil visualizar uma
reunião mais gloriosa do que essa.
Em retrospectiva, Mórmon se afligiu com o destino inevitável da
civilização nefita que rapidamente se degenerava: “Ó vós, formosos, como
pudestes rejeitar aquele Jesus que estava de braços abertos para vos
receber?” (Mórmon 6:17). Essa dor era quase maior do que ele podia
suportar. Se eles simplesmente tivessem se arrependido poderiam ter sido
“[envolvidos] pelos braços de Jesus” (Mórmon 5:11); poderiam ter sido
“envolvidos pela incomparável generosidade de seu amor” (Alma 26:15).
O Élder Neal A. Maxwell sugere que o principal motivo pelo qual o
Salvador atua pessoalmente como guardião do portão do reino celestial não
é para excluir pessoas, mas para pessoalmente dar as boas-vindas e abraçar
os que conseguirem voltar para casa. É um pensamento tocante e íntimo,
expresso da seguinte maneira: “Uma imagem que eu gostaria de enfocar
para encerrar são duas escrituras do Livro de Mórmon. Uma delas, na qual
somos lembrados que o próprio Jesus é o guardião do portão, é a de que
‘ele ali não usa servo algum’. (2 Néfi 9:41.) (. . .) Vou dizer-lhes (…) com
toda a convicção da minha alma (…) qual imagino ser o principal motivo
de Ele ‘ali não [usar] servo algum’, conforme lemos em outra escritura do
Livro de Mórmon que diz que Ele nos espera ‘de braços abertos’. (Mórmon
6:17.) É por isso que Ele está ali! Ele nos espera ‘de braços abertos’. Essa
imagem é poderosa demais para ser deixada de lado. (. . .) É uma imagem
que deve penetrar no âmago de nossa mente — um encontro iminente, um
momento no tempo e no espaço, ao qual nenhum outro se compara. E esse
encontro é real. Posso garantir-lhes isso. Ele realmente nos espera de
braços abertos, porque Seu amor por nós é perfeito”.11
Contemple por um momento a atração magnética que existe quando um
filhinho vê o pai agachar-se de braços abertos. O convite é irresistível. A
reação de voltar é automática. Não há análise intelectual. É como estender
a mão para um cobertor quando faz frio, como acender a luz num quarto
escuro. Algumas coisas não são dirigidas pela mente, mas, sim, pelo
coração. São anseios naturais da alma — a necessidade de calor, de luz e
de amor. Da mesma forma, nosso Pai Celestial está estendendo os braços
com a intenção de motivar-nos a voltar para casa. Como são irresistíveis
esses braços para os que buscam Seu calor, Sua luz e Seuamor! Ele nos
convida para o dia da reconciliação, o retorno a nosso verdadeiro lar, o dia
da reunificação de nossa família primitiva; Ele nos convida a correr para
Seus braços e aquecer-nos em Seu abraço. Foi isso que o Senhor prometeu
aos filhos de Israel: “Eu (…) vos resgatarei com braço estendido. (. . .) E
eu vos tomarei por meu povo, e serei vosso Deus” (Êxodo 6:6–7).
A necessidade de Entender a Queda
A estrutura da palavra atonement, Expiação, em português, nos dá uma
visão de seu propósito. Da mesma forma, as definições do dicionário
também são úteis. Essas definições nos dizem que Expiação significa
“redimir”, “reconciliar-se”, “resgatar”, “pagar as dívidas”, “fazer as
pazes”.12 Mas para quê? Resposta: para a Queda de Adão ou para a
“queda” de cada pessoa que peca. A Queda de Adão necessitava da
Expiação. Consequentemente, não há como entender a Expiação sem
primeiro entender a Queda. Essas doutrinas estão inextricavelmente
conectadas. A esse respeito, o Élder Bruce R. McConkie comentou: “A
infinita e eterna Expiação de nosso Senhor (…) fundamenta-se em dois
alicerces. Um deles é a Queda de Adão, e o outro é fato de Cristo ser o
Filho de Deus”.13 O Presidente Benson ensinou uma verdade correlata:
“Ninguém sabe devida e adequadamente por que precisa de Cristo até que
compreenda e aceite a doutrina da Queda e seu efeito sobre toda a
humanidade”.14 Tentar entender a Expiação sem entender a Queda seria
como encarar a geometria sem ter uma noção dos princípios básicos da
álgebra. Seria uma tentativa fútil e frustrante; por isso, precisamos estudar
primeiro a Queda.
 
Notas
1. O capítulo 16 explica detalhadamente por que a ressurreição faz parte da Expiação.
2. Nibley, Approaching Zion, p. 556.
3. Talmage, Articles of Faith, p. 75.
4. Robinson, Believing Christ, p. 7.
5. LDS Bible Dictionary, p. 617.
6. Nibley, Approaching Zion, p. 581.
7. Nibley, Approaching Zion, p. 578. Esse retorno, porém, de modo algum é
garantido. O Élder Joseph Fielding Smith nos fez esta advertência: “Com
frequência ouvimos dizer que a palavra Expiação é definida como o processo de
tornar-nos um com Deus. Essa é apenas uma pequena parte da questão. Na
verdade, a grande maioria da humanidade jamais se torna um com Deus, embora
se beneficie com a Expiação. ‘Porque estreita é a porta, e apertado o caminho que
leva à vida, e poucos há que a encontrem’” (Smith, Doutrinas de Salvação, comp.
por Bruce R. McConkie, 3 vols., 1954–1956, vol.I , p. 136).
8. Snow, Ó Meu Pai, Hinos, nº 177.
9. Nibley, Approaching Zion, pp. 567–568.
10. Whitney, Through Memory’s Halls, p. 83; grifo do autor.
11. Maxwell, “But a Few Days”, p. 7.
12. Roget’s 21st Century Thesaurus, s.v. “atone”.
13. McConkie, New Witness, p. 110.
14. Benson, Witness and a Warning, p. 33.
 
Capítulo 5
A Queda de Adão
As Condições Existentes antes da Queda
Enquanto Adão e Eva viviam no Jardim do Éden, eles estavam sujeitos a
quatro condições básicas — duas positivas e duas negativas.1 Primeiro,
eles eram imortais,2 não estando sujeitos à dor, às doenças ou à morte.
Falando da árvore do conhecimento do bem e do mal, Deus disse: “No dia
em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17), o que implica
que nesse ínterim, até que isso acontecesse, Adão e Eva desfrutariam um
estado de imortalidade. Isso era positivo.
Em segundo lugar, Adão e Eva andavam na presença de Deus e
conversavam com Ele. Isso também era positivo. O Profeta Joseph falou
daqueles dias gloriosos em que “Deus conversava com ele [Adão] face a
face. Em Sua presença foi-lhe permitido ficar, e de Seus próprios lábios
foi-lhe permitido receber instrução. Ele ouviu Sua voz [de Deus], andou
diante Dele e contemplou Sua glória, enquanto a inteligência irrompia em
sua compreensão”3
Parley P. Pratt teve uma visão semelhante do Jardim: “Ele [Adão] estava
na presença de seu Criador, conversava com Ele face a face e vislumbrava
Sua glória, sem um véu que lhe obscurecesse a visão. Oh, leitor, imagine
por um momento essa bela criação, cheia de paz e abundância: a Terra
repleta de animais inofensivos, (…) o céu repleto de aves maravilhosas
cujo canto incessante enchia o ar de melodias variadas, (…) enquanto
legiões de anjos postadas a seu redor elevavam a voz jubilosa em gratos
hinos de louvor e brados de alegria. Nenhum suspiro ou lamento era
ouvido por todo o vasto firmamento; tampouco havia tristeza, temor, dor,
choro, doença ou morte; nem contendas, guerras ou derramamento de
sangue; mas a paz coroava as estações que passavam, e a vida, a alegria e o
amor reinavam sobre todas as obras de Deus”.4
É difícil imaginar um ambiente mais idílico para morar. Adão e Eva
estavam espiritualmente vivos, aquecendo-se na presença de nosso divino
Pai.
Ao contrário das duas primeiras condições, a terceira era negativa. Adão
e Eva estavam num estado de inocência, sem o pleno conhecimento do
bem e do mal, e não podiam, portanto, vivenciar uma plenitude de alegria.
Leí descreve essa condição: “E todas as coisas que foram criadas deveriam
ter permanecido no mesmo estado em que estavam depois de haverem sido
criadas; e deveriam permanecer para sempre e não ter fim. (…) Portanto
teriam permanecido num estado de inocência, não sentindo alegria por não
conhecerem a miséria; não fazendo o bem por não conhecerem o pecado”
(2 Néfi 2:22–23). Isso era um obstáculo para seu desenvolvimento e
progresso pessoais. Sem um completo conhecimento do bem e do mal,
Adão e Eva não podiam exercer o pleno arbítrio moral necessário para
levá-los à divindade. John Fiske, um filósofo de Harvard, captou esse
dilema: “Fica bem claro que para homens e mulheres fortes e resolutos, o
Éden seria um paraíso de tolos. Como é que algo passível de se chamar
caráter poderia ser produzido ali? (…) No mínimo, podemos começar a
perceber distintamente que, a menos que nossos olhos tivessem sido
abertos em algum momento para que pudéssemos conhecer o bem e o mal,
jamais teríamos sido moldados à imagem de Deus. Teríamos sido
habitantes de um mundo de fantoches, no qual nem a moralidade nem a
religião teriam encontrado lugar ou significado”.5
O professor Fiske entendeu a natureza transitória do Jardim no plano de
Deus. O Éden era um ponto do caminho, não o destino final. Era uma
parada temporária na jornada da vida. Ninguém poderia esperar tornar-se
semelhante a Deus no Jardim do Éden, assim como seria impossível dirigir
de Los Angeles a Nova York no ponto morto. Com exceção da árvore do
conhecimento do bem e do mal, não havia desafios, não havia tentações e
não havia obstáculos naquele ambiente quase celestial. Consequentemente,
não poderia haver progresso. Eles estavam temporariamente retidos num
mundo de esterilidade espiritual.
Leí falou das criações caso tivessem sido colocadas num estado no qual
não houvesse oposição: “Portanto teriam sido criadas em vão; portanto não
haveria propósito na sua criação” (2 Néfi 2:12).
A quarta condição era igualmente negativa. Enquanto permanecessem
naquele estado do jardim, Adão e Eva não teriam filhos (2 Néfi 2:23), não
teriam alegria em sua posteridade. Que infortúnio devastador! Sob aquelas
condições, não poderiam ter obedecido ao divino mandamento de
multiplicar-se e encher a Terra, que era o desígnio e o objetivo principal de
sua vida de casados. Aquela condição, se fosse prolongada, teria negado
completamente o motivo pelo qual os filhos de Deus bradaram de alegria
nos tempos prémortais. A continuidade dessa condição literalmente
malograria o plano de salvação.
As Condições após a Queda
Quando Adão e Eva transgrediram, foram expulsos do Jardim.
Consequentemente, a expressão “a Queda de Adão” é usada por no mínimo
dois motivos: primeiro, para descrever a queda de Adão e Eva da presença
física do Pai e, segundo, para descrever sua queda do estado de
imortalidade para o de seres mortais.6 Essa terminologia foi usada por
Alma ao descrever as consequências do fato de terem comido o fruto
proibido: “Sabemos que Adão caiu” (Alma 12:22; ver também 2 Néfi 9:6;
Alma 42:6). O Élder Talmage também confirmouque a Queda foi
resultado do fato de terem comido do fruto proibido e não uma
consequência de qualquer outro ato: “Agora, deixem-me dizer que nisto
consistia a queda: o fato de eles terem comido coisas impróprias; (…) e
aproveito esta ocasião para erguer a voz contra a falsa interpretação das
escrituras, (…) que é mencionada de modo sussurrado e quase secreto, de
que a queda do homem consistiu em algum tipo de ofensa contra as leis da
castidade e da virtude. Essa doutrina é uma abominação”.7
Que condições Adão e Eva passaram a encontrar como seres decaídos?
Ironicamente, as quatro condições que existiam antes da Queda se
reverteram. As positivas se tornaram negativas, e as negativas se tornaram
positivas.
Primeiro, eles deixaram de ser imortais. Deus decretou: “No dia em que
dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17). É interessante notar
que Adão, que viveu pouco menos de mil anos, morreu em um “dia” no
tempo do Senhor (II Pedro 3:8; Abraão 3:4). Quando essa promessa de
morte foi proferida, a Terra ainda estava sujeita ao “tempo do Senhor, que
era segundo o tempo de Colobe” (Abraão 5:13). A natureza literal da
promessa de Deus fica evidente quando consideramos o relato histórico de
Edward Stevenson, que citou o Profeta Joseph, da seguinte maneira: “O pai
Adão começou seu trabalho e terminou o que devia ser feito em sua época,
tendo vivido até mil anos de idade, menos seis meses. É verdade que a
Bíblia concede a Matusalém o crédito de ter sido o mais idoso, mas o
Profeta Joseph recebeu uma revelação de que não foi assim. Trata-se
apenas de um erro humano na tradução do registro”.8 No cronograma do
Senhor, Adão morreu no mesmo “dia” em que comeu do fruto, assim como
Deus havia decretado.
Quando Adão e Eva comeram do fruto, as sementes da morte foram
plantadas em suas veias, e nós, seus filhos, herdamos sua natureza mortal.
Como resultado disso, a raça de Adão ficou sujeita à morte física, à dor, às
doenças e a todos os males que afligem a humanidade. A imortalidade se
transformou em mortalidade, e uma condição positiva se tornou
temporariamente negativa no plano eterno.
Em segundo lugar, a transgressão de Adão e Eva resultou na expulsão
deles da presença de Deus, e essa separação de Deus é morte espiritual. Os
últimos versos de O Paraíso Perdido, de John Milton, captam esse tocante
momento da expulsão: Tinham o mundo inteiro diante deles, para que escolhessem
Seu lugar de repouso, e a Providência seria seu guia;
De mãos dadas, errantes e vagarosos,
Atravessaram o Éden e seguiram seu caminho solitário.9
Doutrina e Convênios descreve o destino de Adão da seguinte forma:
“Eu, o Senhor Deus, fiz com que ele fosse expulso do Jardim do Éden, de
minha presença, por causa de sua transgressão, na qual ele se tornou
espiritualmente morto” (D&C 29:41). Jacó descreve essa morte espiritual,
desencadeada pela Queda, como a condição de estar “[afastado] da
presença do Senhor” (2 Néfi 9:6; ver também Helamã 14:16). Adão e Eva
já não caminhavam com Deus nem conversavam com Ele. Estavam
separados da companhia Dele. Milton dramatiza poeticamente o trágico
lamento de Adão, quando nossos primeiros pais refletem sobre a ideia de
serem “expulsos” da presença do Senhor: Assim, submeto-me a Seu grande
mandado.
Aflige-me muito ter que partir deste lugar
Pois da Sua face estarei oculto, privado
Do Seu abençoado semblante. Pude aqui frequentar, Com
adoração, cada lugar ao qual Ele concedia A presença
divina, e assim a meus filhos podia relatar:
“Neste monte Ele apareceu. Sob esta árvore
Visível Se fez. Entre estes pinheiros Sua voz
Eu ouvi. Aqui, junto desta fonte, com Ele conversei”.10
Adão e Eva rapidamente se deram conta das severas consequências da
Queda: “[Eu, o Senhor,] multiplicarei grandemente tua dor” e “maldita será
a terra por tua causa” (Moisés 4:22–23). Pela primeira vez haveria
espinhos e abrolhos para espetá-los e animais selvagens para ameaçá-los.
Adão já não mais apanharia tranquilamente os frutos do suprimento
inesgotável do Jardim, porque o Senhor decretara: “Pelo suor de teu rosto
comerás o pão” (Moisés 4:25).
Depois da expulsão, o Senhor falou com Adão e Eva “do caminho, em
direção ao Jardim do Éden”, ao que Moisés então acrescenta: “e eles não o
viram, porque estavam excluídos de sua presença” (Moisés 5:4). Ser
expulsos da presença de Deus não significava perder toda a comunicação
com Ele. Isso arruinaria o plano de salvação. Em vez disso, isso significava
ser expulso de Sua presença física, deixando todas as outras formas de
comunicação abertas. Essa separação física causada pela Queda parece ter
sido desencadeada por duas forças inexoráveis: primeira, a eterna lei que
proíbe que um ser mortal decaído esteja na presença de Deus,11 porque
“homem natural algum [pode] suportar a presença de Deus” (D&C 67:12);
e, segunda, a inerente compulsão do transgressor de afastar-se fisicamente
daquilo que é santo. Moisés ficou tão envergonhado com sua
desobediência que “ocultou sua face do Senhor” (ver TJS Êxodo 4:26).
Pedro suplicou perante o Salvador: “Senhor, ausenta-te de mim, que sou
um homem pecador” (Lucas 5:8). Foi como se o rei Benjamim estivesse
lendo o espírito de todo homem errante, quando comentou: “As exigências
da divina justiça despertam-lhe a alma imortal para um vivo sentimento de
sua própria culpa, que o leva a recuar diante da presença do Senhor”
(Mosias 2:38).
Adão e Eva deviam estar se encolhendo assim quando procuraram
“esconder-se da presença do Senhor” (Moisés 4:14). O fato de se
ocultarem parece ter sido bem mais do que apenas uma questão de recato.
O Élder Talmage conclui o seguinte: “Eles se ocultaram, porque foram
despertados para o fato de que havia algo vil neles, algo impróprio, algo
impuro, e por isso se esconderam”.12 Como deve ter sido constrangedor
para eles estar na presença daquele Ser Sagrado que lhes havia “soprado” o
sopro da vida, que lhes havia provido o sustento e o ambiente, e que nada
havia exigido deles a não ser uma restrição, a qual eles haviam quebrado.
É difícil compreender plenamente por que Deus deu mandamentos
aparentemente conflitantes no Jardim. Algumas pessoas sentem que o
“mandamento” de não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e
do mal era mais um aviso do que um mandamento, e assim, Adão e Eva
deliberadamente “desobedeceram” a uma lei menor para poderem cumprir
uma lei maior.13
As escrituras, porém, sugerem que Eva foi ao menos parcialmente
enganada. Esse “conflito” de mandamentos parece ter sido uma parte
necessária do grande plano, para que o homem não pudesse posteriormente
alegar que Deus o havia forçado a aceitar a esmagadora responsabilidade
da mortalidade. O homem já havia tomado a decisão de aceitar a vida
terrena na época prémortal, mas isso foi feito sem que tivesse a perspectiva
de como seria a vida na Terra. Naquele momento, Adão e Eva, como os
representantes designados da raça humana, confirmariam aquela decisão no
ambiente terrestre. Depois da Queda, eles não poderiam culpar a Deus por
seus labores mortais. Ele não os havia ordenado a fazer aquela escolha. Em
vez disso, em aparente oposição ao mandamento de Deus, eles e somente
eles haviam escolhido prosseguir. Talvez dessa maneira Deus levou a efeito
“seus eternos propósitos” porque Ele disse que “era necessária uma
oposição; até mesmo o fruto proibido em oposição à árvore da vida” (2
Néfi 2:15).
Em resposta à pergunta de Deus sobre o que Eva havia feito, ela disse:
“A serpente enganou-me e eu comi” (Moisés 4:19; ver também Gênesis
3:13; II Coríntios 11:3). No cabeçalho do capítulo 3 de Gênesis, na edição
SUD da Bíblia, lemos: “A serpente (Lúcifer) engana Eva”. Paulo fez um
comentário semelhante: “Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo
enganada, caiu em transgressão” (I Timóteo 2:14). Doutrina e Convênios
nos diz “que o diabo tentou Adão e ele comeu do fruto proibido e
transgrediu o mandamento, pelo que se tornou sujeito à vontade do diabo
porque cedeu à tentação” (D&C 29:40).
Se Adão e Eva tivessem comido do fruto com “pleno” conhecimento de
estaremobedecendo a uma lei maior, como alguns sugerem, perguntamo-
nos por que as escrituras usariam palavras e termos como “enganou”,
“cedeu” e até “espiritualmente morto” (D&C 29:41) para descrever a
conduta deles no Jardim do Éden e o subsequente estado das coisas.
Também nos perguntamos como eles poderiam ter tido “pleno”
conhecimento, se viviam num estado de inocência, sem conhecer o bem
nem o mal. Nesse estado de inocência, não teria sido possível para eles
entender plenamente qual escolha era boa e qual era ruim. Perguntamo-nos
ainda por que Adão, ao responder à pergunta do Senhor: “Comeste tu da
árvore de que te ordenei que não comesses (. . .)?” (Moisés
4:17),“culparia” ou responsabilizaria Eva, e da mesma forma, por que ela
passaria a “culpa” à serpente (Moisés 4:18–19). Se eles tivessem agido
com um conhecimento pleno ou mesmo parcial das consequências, esta
seria a resposta apropriada para aquele momento: “Violamos
deliberadamente a lei menor para cumprir uma lei maior. Compreendemos
que haveria consequências severas por enquanto, mas na escala eterna das
coisas, será uma bênção, e não uma maldição, para nós e nossa
posteridade”. Esse não teria sido um momento de culpar alguém, mas, sim,
de explicar o motivo da escolha feita.
Poderíamos perguntar-nos: “Mas e se Adão e Eva não tivessem
transgredido? E se eles nunca tivessem cedido e comido do fruto proibido,
independentemente de quanto tempo tivessem ficado no Jardim? Será que
o plano de Deus teria sido frustrado?” Evidentemente, a resposta é não. A
obra de Deus nunca é frustrada (ver D&C 3:3). Sem dúvida, com Sua
onisciência, Ele sabia que Adão e Eva, por seu próprio arbítrio, comeriam
do fruto. Não obstante, o Élder Talmage responde às perguntas hipotéticas
feitas acima: “Se nossos primeiros pais não tivessem caído, sem dúvida
outros meios teriam sido empregados para iniciar a condição da
mortalidade na Terra”.14
Não sabemos todas as condições sob as quais Adão e Eva fizeram aquela
fatídica, porém maravilhosa escolha da mortalidade. Sejam quais forem os
motivos subjacentes, podemos apegar-nos a duas verdades fundamentais.
Primeira, o que Adão e Eva fizeram é digno de louvor, e não de
condenação. Um dia saberemos a plena estatura da nobreza deles. Se
conscientemente comeram do fruto, entendendo suficientemente as
consequências, nós os honramos. Se comeram o fruto em inocência ou
foram parcialmente enganados, e depois disso tiveram conhecimento do
plano de salvação por causa de sua obediência e fidelidade, e ensinaram
esse plano depois disso então também os honramos. Falando da Queda,
Brigham Young explicou: “Tudo estava nos planos do céu. (…) Tudo está
certo. Não devemos jamais culpar a mãe Eva, de modo algum”.15 Nesse
espírito, as escrituras a chamam de “nossa gloriosa Mãe Eva” (D&C
138:39). O Élder Talmage acrescentou seu testemunho: “Nossos primeiros
pais foram puros e nobres, e quando atravessarmos o véu talvez
aprenderemos algo a respeito de sua elevada condição”.16
A segunda verdade a ser aprendida é a de que a Queda fazia parte do
plano mestre de Deus. Não foi um adendo acrescentado após um ato
impensado da parte de nossos primeiros pais. Ao falar da Queda, Leí
comentou: “Todas as coisas foram feitas segundo a sabedoria daquele que
tudo conhece” (2 Néfi 2:24). O Presidente John Taylor ensinou: “Era
sabido que o homem cairia? Sim. Foi-nos dito claramente que se sabia que
o homem cairia”.17 O LDS Bible Dictionary acrescenta: “A queda não foi
uma surpresa para o Senhor. Era um passo necessário para o progresso do
homem”.18
Ainda viria a hora em que Adão e Eva se regozijariam com sua decisão;
mas, no momento da expulsão, eles tinham ciência apenas dos espinhos,
dos cardos e do suor. Dia após dia, Adão ofereceu sacrifícios, sem saber o
motivo, sem compreender plenamente o plano de salvação. Após “muitos
dias” (Moisés 5:6), significando que Adão e Eva haviam gerado filhos e
filhas, que por sua vez haviam gerado “filhos e filhas” (Moisés 5:3), um
anjo veio e ofereceu estas palavras de extremo consolo: “Para que, assim
como caíste, sejas redimido e toda a humanidade, sim, tantos quantos o
desejarem”. Adão regozijou-se ao extremo. Ele “bendisse a Deus” e
“começou a profetizar” e declarou “nesta vida terei alegria”. Sem dúvida,
ele rapidamente correu para contar as boas novas a Eva, que “ouviu todas
essas coisas, e alegrou-se”. Foi somente nessa ocasião posterior, e não no
momento em que foram expulsos do Jardim, que Eva, com uma nova
visão, declarou: “Se não fosse por nossa transgressão, jamais teríamos tido
semente e jamais teríamos conhecido o bem e o mal e a alegria de nossa
redenção” (Moisés 5:9–11).
Talvez, como uma mulher em trabalho de parto, Adão e Eva estivessem
esperançosos de que o resultado final da Queda seria glorioso, mas o
período logo após sua expulsão foi de dor e labuta. O Salvador falou a
Seus discípulos a respeito de um momento semelhante. Na última semana
de seu ministério mortal, Ele profetizou sua iminente crucificação e
partida. Ele sabia que eles ficariam “tristes” com essa separação, mas
também prometeu que no devido tempo sua “tristeza se [converteria] em
alegria” (João 16:20). O mesmo aconteceria com Adão e Eva. As palavras
do salmista se aplicam a essa situação: “O choro pode durar uma noite,
mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5).
Nossa mente finita sequer consegue captar a enormidade da Queda e
suas esmagadoras consequências. Adão e Eva desfrutavam uma associação
celeste na presença física de Deus. Melvin J. Ballard, que teve o privilégio
de sonhar por um breve momento como seria estar nessa presença, relata:
“Nem que eu viva um milhão de anos, jamais me esquecerei daquele
sorriso. Ele [o Salvador] me tomou em Seus braços e me beijou, apertou-
me contra o peito e me abençoou, até que a medula de meus ossos pareceu
derreter! (. . .) O sentimento que tive na presença Dele que tinha todas as
coisas em Suas mãos, Seu amor, Seu afeto e Sua bênção, foi tamanho que,
para poder receber aquilo do qual tive apenas um vislumbre, eu daria tudo
o que sou, tudo o que espero ser, para sentir o que senti naquele
momento!”19
Davi, que conhecia as dores da separação, cantou: “Na tua presença há
fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Salmos
16:11). Mais tarde, ele suplicou: “Não me lances fora da tua presença”
(Salmos 51:11). Há certa sociabilidade na presença de Deus que se
manifesta em uma plenitude de alegria. O Élder Ballard a vivenciou. Davi
ansiava por ela, e Caim a perdeu. Ao saber que havia sido “[expulso] (…)
da face do Senhor”, Caim clamou: “Meu castigo é maior do que me é
possível suportar” (Moisés 5:38–39). Até Caim em sua condição depravada
tremeu ao pensar em ser banido da presença de Deus, aquele ser que havia
derramado calor e amor, até para ele.
Ser expulso da presença do Senhor é o pior tipo de banimento. É como
tirar-nos aquilo que nos é mais significativo — o sentimento de
pertencermos à família divina. É como despojar-nos da segurança e do
amor próprio em um único golpe fatal. É como arrancar o lactente do seio
da mãe, como enviar um filho rebelde para o quarto ou sentenciar o
incorrigível ao confinamento solitário. É semelhante a restringir nossa
comunicação com um ente querido ao telefone; as linhas podem estar
desimpedidas, a conversa pode ser frequente, mas fica faltando a felicidade
decorrente de estarmos na presença da pessoa. João compreendia esse
princípio, pois aos escrever aos santos, ele disse: “Tendo muito que
escrever-vos, não quis fazê-lo com papel e tinta; mas espero ir ter convosco
e falar de face a face, para que o nosso gozo seja cumprido” (II João 1:12;
grifo do autor). Esse privilégio passou a ser negado a Adão e Eva, pois eles
haviam caído da presença de Deus.
Não foram apenas Adão e Eva que caíram, mas toda a sua posteridade
passou a ser relegada a um destino semelhante, que era o de nascer e ser
criados afastados da presença de Deus, uma forma de morte espiritual. Essa
condenação universal foi observada por Alma: “Por sua queda, toda ahumanidade se transformou num povo perdido e decaído” (Alma 12:22).
Duas das consequências da Queda foram negativas, sendo elas a morte
física e a morte espiritual. Mas também havia duas boas. As duas
condições anteriormente negativas do Jardim se tornaram positivas. Adão e
Eva passaram a ser abençoados com o conhecimento do bem e do mal, e do
modo apropriado, porque haviam comido do fruto da árvore do
conhecimento do bem e do mal. Isso permitiu que eles “[se tornassem]
como deuses, discernindo o bem do mal” (Alma 12:31). Satanás havia
contado uma meia verdade: “Certamente não morrereis” [essa era a
mentira], mas “no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e
sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gênesis 3:4–5; ver também
Alma 42:3). A última parte da promessa de Satanás era verdadeira. Ao
menos no final, eles se tornariam como Deus em seu entendimento do bem
e do mal; a inocência foi substituída pelo conhecimento; e a alegria em
potencial se tornou realidade. Uma condição negativa se tornou uma
gloriosa condição positiva no plano eterno.
Além disso, o corpo mortal de Adão e Eva passou a ser capaz de procriar e
de cumprir o mandamento divino de multiplicarem-se e encherem a
Terra.20 Leí escreveu: “Adão caiu para que os homens existissem” (2 Néfi
2:25; ver também Moisés 6:48); ou, nas palavras de Eva, uma das melhores
testemunhas de tudo o que aconteceu: “Se não fosse por nossa
transgressão, jamais teríamos tido semente” (Moisés 5:11). Assim ocorreu
a Queda da raça humana. Tudo isso era condizente com o plano mestre de
Deus.
A Queda não foi um trágico retrocesso. Pelo contrário, foi um doloroso,
porém gigantesco passo adiante em nossa jornada eterna. Foi o trampolim
de nossa ascensão.
 
Notas
1. A palavra negativa conforme utilizada aqui, não tem a intenção de sugerir que
havia qualquer coisa no plano de Deus que fosse imprópria, mas sim, que as
condições existentes no Jardim do Éden e subsequentemente as resultantes da
Queda, teriam sido uma barreira para nosso progresso eterno se tivessem
continuado permanentemente. Para cada uma dessas condições, porém, Deus
havia preparado uma solução.
2. A palavra imortal é usada neste contexto significando que Adão e Eva poderiam
ter vivido indefinidamente. Não pretende dar a entender que eles possuíam o
mesmo corpo que os seres ressuscitados imortais receberão.
3. Smith, Lectures on Faith, p. 13.
4. Pratt, Key to the Science of Theology and Voice of Warning, p. 85.
5. Fiske, Studies in Religion, pp. 252, 266, citado em Roberts, The Truth, The Way,
The Life, p. 349.
6. O Élder Talmage escreveu: “Sua [de Adão e Eva] transição do estado não mortal
para o mortal é chamada de Queda” (Talmage, Sunday Night Talks, p. 63).
7. Talmage, Essential James E. Talmage, p. 109. O Élder Joseph Fielding Smith
ensinou: “A transgressão de Adão não envolvia o pecado sexual, como alguns
falsamente acreditam e ensinam. Adão e Eva foram casados pelo Senhor enquanto
ainda eram seres imortais no Jardim do Éden” (Smith, Doutrinas de Salvação,
comp. por Bruce R. McConkie, 3 vols., 1954–1956, vol.I , pp. 123–124).
8. Joseph Grant Stevenson, “The Life of Edward Stevenson”, tese de mestrado
(Provo, Utah: Universidade Brigham Young, 1955), p. 73; em Matthews, “A
Plainer Translation”, p. 85.
9. Milton, Paradise Lost, p. 343.
10. Ibid., p. 308.
11. Evidentemente, certos mortais estiveram na presença de Deus, como Joseph
Smith, mas somente (1) por um período de tempo limitado e (2) depois que seu
corpo mortal foi transfigurado para esse propósito. Depois que Moisés viu Deus,
ele explicou que se não tivesse sido transfigurado, “teria fenecido e morrido em
sua presença” (Moisés 1:11).
12. Talmage, Essential James E. Talmage, p. 111.
13. O Élder John A. Widtsoe expressou este sentimento: “[A instrução de que Adão
poderia escolher por si mesmo] realmente converte o mandamento em um aviso,
como se você dissesse, se você fizer isso, vai fazer cair sobre si determinado
castigo, mas faça o que decidir fazer”. O Élder Widtsoe sugere ainda que “o
evangelho havia sido ensinado [a Adão e Eva] durante o tempo em que moraram
no Jardim do Éden. Eles não poderiam ter sido deixados em completa ignorância
em relação ao propósito de sua criação” (Widtsoe, Evidences and Reconciliations,
pp. 193– 194). Joseph Fielding Smith achava o mesmo: “Esta é a minha
interpretação: O Senhor disse a Adão: Aqui está a árvore do conhecimento do bem
e do mal. Se quiser continuar aqui, você não pode comer desse fruto. Se quiser
permanecer aqui, eu o proíbo de comê-lo. Mas você pode agir por si mesmo e
pode comê-lo se quiser. Mas se comê-lo, você vai morrer”. (“Fall—Atonement—
Resurrection—Sacrament”, em Church Educational System, Charge to Religious
Educators, p. 124.) 14. Talmage, Sunday Night Talks, p. 69. Ver, porém, 2 Néfi
2:22-23
15. Journal of Discourses, vol. 13, p. 145.
16. Talmage, Essential James E. Talmage, p. 110.
17. Taylor, Gospel Kingdom, p. 97.
18. LDS Bible Dictionary, p. 670.
19. Hinckley, Sermons and Missionary Services of Melvin J. Ballard, p. 156.
20. Os relatos referentes ao Jardim nas escrituras canônicas sugerem que Eva não
recebeu seu nome até que ela e Adão tivessem comido do fruto proibido. Logo que
Eva foi criada, Adão decretou que “esta será chamada mulher” (Gênesis 2:23;
Moisés 3:23; Abraão 5:17). Todo diálogo ocorrido no Jardim entre Eva e Deus ou
Satanás visivelmente omite qualquer referência ao nome Eva. Em vez disso, ela é
chamada de “a mulher”, ou a esposa de Adão. Há uma única referência feita por
Moisés ao nome Eva, mas não no contexto de qualquer diálogo propriamente dito.
Ele meramente se referia à mulher, que em retrospectiva ele soube tratar-se de
Eva. Depois da transgressão do Jardim, o Senhor anunciou a maneira pela qual
Eva conceberia: “Com dor darás à luz filhos” (Gênesis 3:16; Moisés 4:22).
Depois, quando os futuros pais de todos os mortais estavam prestes a ser expulsos
de seu lar no jardim, “chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a
mãe de todos os viventes” (Gênesis 3:20; Moisés 4:26). Moisés revelou que esse
nome foi escolhido pelo Senhor
 
“Pois assim eu, o Senhor Deus, chamei a primeira de todas as mulheres, que são
muitas” (Moisés 4:26).
O momento exato em que Eva recebeu seu nome é importante porque confirma que ela
não se tornaria a mãe de toda a raça humana até depois que os efeitos do fruto proibido
corressem por suas veias. Isso condiz com outros relatos das escrituras: Em outras
palavras, ela não foi chamada Eva até se tornar capaz de ser Eva (i.e., a mãe de todos
os viventes).
 
Capítulo 6
A Relação Entre a
Queda e a Expiação
A Expiação corrige a Queda
De que modo os pontos negativos da Queda, a saber, a morte física e a
espiritual, poderiam ser corrigidas, consertadas e reconciliadas no plano
eterno? De que valor teria uma posteridade ou o conhecimento das coisas
divinas se os homens e as mulheres permanecessem na sepultura,
separados da presença de seu Deus? Não havia solução sem um Redentor
— alguém que expiaria, redimiria, reconciliaria e consertaria essas
condições negativas. Leí declara isso de modo simples e sucinto: “E o
Messias vem na plenitude dos tempos para redimir da queda os filhos dos
homens” (2 Néfi 2:26). Leí compreendia que a Queda não era irremediável,
pois declarou: ”O caminho está preparado desde a queda do homem; e a
salvação é gratuita” (2 Néfi 2:4).
O Élder Talmage ensinou que a Expiação se tornou “uma sequência
necessária à transgressão de Adão”.1 Morôni explicou claramente a
necessidade dessa sequência: “Por Adão veio a queda do homem. E por
causa da queda do homem veio Jesus Cristo, (…) e por causa de Jesus
Cristo veio a redenção do homem” (Mórmon 9:12). Alma passou um
tempo considerável discutindo as consequências da Queda e então
declarou: “Era necessário que a humanidade fosse resgatada dessa morte
espiritual” (Alma 42:9). A Expiação foi o meio pelo qual esse resgate foi
realizado.
Mas como isso aconteceu? Por meio de um sacrifício infinito e eterno.
Como disse o Élder Bruce R.McConkie: “De algum modo
incompreensível para nós, o Getsêmani, a cruz e o sepulcro vazio se unem
num grandioso e eterno drama, no curso do qual Jesus aboliu a morte e do
qual provêm a imortalidade para todos e a vida eterna para os justos”.2
Vencer a Morte física e a primeira Morte Espiritual para todos
Se for perguntado “Quais foram as consequências da Expiação?” muitas
pessoas responderiam: “Ela venceu a morte física para todos os homens e a
morte espiritual para os que se arrependerem”. Embora essa resposta esteja
correta, ela está incompleta. A Queda trouxe a morte física e, além disso,
um tipo de morte espiritual para todos os homens. Isso foi causado pela
transgressão de nossos primeiros pais no Jardim, a qual é conhecida pelo
mundo como o “pecado original”. Todos os homens morrem fisicamente
por causa da transgressão de Adão. Não há escapatória dessa consequência.
Da mesma forma, todos os homens serão ressuscitados por causa de Cristo.
Não há exceção a essa reparação. A morte física, porém, não é a única
consequência universal da Queda. Como outra consequência da
transgressão de Adão, todos os homens nascem em um ambiente separado
da presença física de Deus. Essa separação é conhecida nas escrituras
como a primeira morte espiritual (ver Helamã 14:16–18; D&C 29:41).
Trata-se de um afastamento de Deus causado por Adão.
Há também uma segunda morte espiritual. É uma separação de Deus
causada por nossos pecados individuais.
Cada forma de morte espiritual tem sua cura. A Expiação corrige a
primeira morte espiritual para todos os homens sem que esses façam
qualquer esforço próprio, e isso é compreensível, porque eles de modo
algum a causaram. A Expiação corrige a segunda morte espiritual de modo
individual para aqueles que se arrependem, já que cada um de nós que
pecou precisa individualmente contribuir para sua própria redenção: “Pois
sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que
pudermos fazer” (2 Néfi 25:23).
 
Os efeitos universais da primeira morte espiritual foram impostos
externamente por Adão e externamente corrigidos por Cristo para toda a
humanidade. Paulo testificou: “Assim como todos morrem em Adão, assim
também todos serão vivificados em Cristo” (I Coríntios 15:22). Robert J.
Matthews salienta que muitos não entendem essas palavras de Paulo. “A
maioria acha que isso se refere apenas à morte do corpo e sua ressurreição.
Na verdade, a declaração de Paulo abrange tanto a morte física quanto a
morte espiritual”,3 ou seja, a primeira morte espiritual causada por Adão. O
irmão Matthews então sugere esta explicação muito útil: “Há uma noção
muito difundida de que embora a ressurreição seja gratuita, somente
aqueles que se arrependem e obedecem ao evangelho retornarão à presença
de Deus. Aqueles que adotam esse conceito, porém, parecem ter deixado
de compreender um conceito muito essencial e fundamental da Expiação, o
de que Jesus Cristo redimiu toda a humanidade de todas as consequências
da Queda de Adão.
As escrituras ensinam que todas as pessoas, santos ou pecadores,
retornarão à presença de Deus após a ressurreição. Pode ser que seja
apenas uma reunião temporária em sua presença, mas a justiça exige que
tudo que foi perdido em Adão seja restaurado em Jesus Cristo. Todas as
pessoas vão retornar à presença de Deus, contemplar Seu rosto e ser
julgadas por suas próprias obras. Então, aquelas que obedeceram ao
evangelho poderão permanecer em Sua presença, ao passo que todas as
outras terão que ser expulsas de Sua presença uma segunda vez e assim
sofrer o que é chamado de segunda morte espiritual”.4
As escrituras ensinam que: “nada que é impuro pode habitar com Deus”
(1 Néfi 10:21). Isso não significa, porém, que não retornaremos à presença
de Deus temporariamente para sermos julgados — porque na verdade todas
as pessoas vão retornar. Simplesmente significa que não podemos “habitar”
ou permanecer na presença de Deus de modo permanente ou “[ser
recebidos] no reino de Deus” (Alma 7:21) se estivermos impuros. No
mesmo versículo em que Néfi declara que nada impuro pode “habitar com
Deus”, ele também ensina que os impuros serão levados “diante do tribunal
de Deus” (1 Néfi 10:21). Leí ensinou claramente que todos os homens,
mesmo os iníquos, vão retornar à presença de Deus. “Por causa da
intercessão feita por todos, todos os homens vão a Deus; portanto se
acharão em sua presença para serem julgados por ele, de acordo com a
verdade e santidade que estão nele” (2 Néfi 2:10; ver também Alma 33:22).
Jacó, que aprendeu muito sobre a Expiação com seu pai, também falou
dessa reunião temporária, mesmo para os iníquos: “Ai de todos os que
morrem em seus pecados; porque voltarão a Deus e verão sua face e
permanecerão em seus pecados” (2 Néfi 9:38). Jacó então profetizou que
aqueles que rejeitarem os profetas comparecerão “com vergonha e terrível
culpa, ao tribunal de Deus” (Jacó 6:9; ver também Mórmon 9:5).
Alma deixa claro que o retorno à presença de Deus não é um programa
opcional e não será uma reunião alegre para os iníquos, porque “dar-nos-
íamos por felizes se pudéssemos ordenar às pedras e montanhas que
caíssem sobre nós, para esconder-nos de sua presença”. Como se isso não
fosse suficiente, sua descrição acrescenta o seguinte ao terror daquele
momento: “Teremos que nos apresentar perante ele em sua glória e em seu
poder e em sua força, majestade e domínio; e reconhecer, para nossa eterna
vergonha, que todos os seus julgamentos são justos” (Alma 12:14– 15).
Esse será um dia de prestação de contas, quando se “[defrontarão] (…)
com os julgamentos de Deus” (Helamã 4:23).
Amuleque advertiu que naquele momento fatídico de nosso julgamento
teremos “uma viva lembrança de toda a nossa culpa” (Alma 11:43). Jacó
sabia que teríamos “um conhecimento perfeito de todas as nossas culpas e
nossa impureza” (2 Néfi 9:14), e Alma previu que teríamos “uma perfeita
lembrança” (Alma 5:18) de todos os nossos atos iníquos. Que pensamento
intimidador! Foi com essa aterrorizante realidade que Alma teve que se
defrontar: “Sim, lembrei-me de todos os meus pecados e iniquidades, (…)
sim, resumindo, tão grandes haviam sido minhas iniquidades que a simples
ideia de entrar na presença de meu Deus atormentava-me a alma com
inexprimível horror” (Alma 36:13–14).
Tão aterrorizante era a perspectiva desse encontro com o Senhor que
Alma ansiava pelo banimento e a aniquilação, para não ser “levado à
presença de meu Deus” (Alma 36:15).
Então, aconteceu um milagre. Em meio ao sofrimento, Alma relembrou
que seu pai havia falado do Salvador e de Seu Sacrifício Expiatório 'pelos
“pecados do mundo” (Alma 36:17). O simples fato de pensar no Salvador
foi um bálsamo para sua alma ferida e sua mente atormentada, tanto que
ele exclamou: “Já não fui atormentado pela lembrança de meus pecados”
(Alma 36:19). Ele então viu “Deus sentado em seu trono”; e, numa
extraordinária reviravolta espiritual, sua “alma [sentiu] o desejo de lá estar”
(Alma 36:22). Ele, que antes havia desejado ser banido da presença de
Deus e que sua alma fosse aniquilada, passara a ansiar pela vida eterna na
presença de Deus.
As escrituras são claras nesse ponto: seja ela agradável ou não, haverá
uma reunião para todos os homens perante seu Criador.
Em resumo, a Expiação visava restaurar tudo o que foi perdido devido à
Queda, inclusive a ressurreição e o retorno à presença de Deus,
independentemente de nosso estado de retidão. Alma explicou: “A
expiação efetua a ressurreição dos mortos: e a ressurreição dos mortos
devolve os homens à presença de Deus; e assim são restituídos a sua
presença para serem julgados de acordo com suas obras” (Alma 42:23).
Esse retorno à presença de Deus venceu a primeira morte espiritual
desencadeada por Adão, e assim, tudo que foi perdido pela Queda foi
igualmente restaurado pela Expiação. Como ensinou Amuleque de modo
tão belo: “Esta restauração acontecerá com todos” (Alma 11:44). Em
alguns casos, essa restauração é temporariamente acelerada. Devido à fé
exercida pelo irmão de Jarede, o Senhor prometeu a ele: “Porsaberes estas
coisas, ficas redimido da queda; portanto és conduzido de volta a minha
presença; portanto, mostro-me a ti” (Éter 3:13; grifo do autor).
Não há nada que alguém possa fazer para rejeitar esse poder de salvação
da Expiação. Isso será concedido a cada homem “a despeito de si
mesmo”,5 conforme comentou Joseph F. Smith. Não há ninguém a quem
esse poder não se aplica, seja santo ou pecador. Essas bênçãos estão
garantidas — na verdade, elas são obrigatórias a todos os homens. Assim,
todos os homens são salvos da morte física e da primeira morte espiritual.
Vencer a Segunda Morte Espiritual para os Que Se arrependerem
A segunda morte espiritual é a usada por nossos próprios pecados
individuais. Ela é separada e distinta da transgressão original de Adão,
embora esteja relacionada a ela. Resulta em uma separação permanente da
presença de Deus, a menos que tiremos proveito do arrependimento antes
do dia do juízo. Samuel, o lamanita, explicou a diferença entre o que as
escrituras chamam de primeira morte e a segunda morte. Ao fazê-lo,
Samuel falou da morte do Salvador como uma morte que “leva a efeito a
ressurreição e redime toda a humanidade da primeira morte — dessa morte
espiritual; porque toda a humanidade, tendo sido afastada da presença do
Senhor pela queda de Adão, é considerada como morta”. Aquele profeta
lamanita então ensinou que a ressurreição leva todos os homens “de volta à
presença do Senhor”, salvando-nos assim da primeira morte. Ele então
declarou o destino dos que deixarem de se arrepender: “Todo aquele que se
arrepende não é cortado nem atirado ao fogo; mas todo aquele que não se
arrepende é cortado e atirado ao fogo; e recai sobre eles novamente uma
morte espiritual; sim, uma segunda morte, porque novamente são
separados das coisas concernentes à retidão” (Helamã 14:16–18; ver
também Alma 12:16; Mórmon 9:13–14).
O “pecado original” propriamente dito não foi herdado pela humanidade,
mas seus efeitos universais, sim. Há uma diferença substancial nas
consequências. Joseph Smith fez essa distinção: “Cremos que os homens
serão punidos por seus próprios pecados e não pela transgressão de Adão”
(Segunda Regra de Fé). Isso é absolutamente correto no sentido eterno. As
consequências do “pecado original” são temporárias, porque foram
corrigidas pelo Salvador de modo incondicional. As consequências dos
pecados individuais, porém, são permanentes, a menos que nos
arrependamos. Assim, a Expiação proporciona uma redenção incondicional
do “pecado original”, mas uma redenção condicional dos pecados
individuais.6 As escrituras ensinam claramente que a Expiação corrige
automaticamente todos os efeitos das transgressões de Adão, sem que
tenhamos que fazer nada, e além disso, ela redime cada um de nós de
nossos pecados individuais, se simplesmente nos arrependermos.
O Que Significa Sermos Salvos pela Expiação?
Sermos “salvos” pela Expiação tem múltiplas conotações. Em grande
parte do mundo cristão, o termo “salvo” é usado como se tivesse um
significado universal e único. Na verdade, ele não tem. Num sentido
religioso, a palavra “salvo” significa ser resgatado de alguma coisa ruim ou
de uma consequência negativa. Joseph Smith a definiu da seguinte
maneira: “Salvação significa um homem ser colocado além do poder de
todos os seus inimigos”.7 Seguem-se quatro maneiras pelas quais a palavra
“salvo” ou “salvação” é usada num contexto religioso: Primeira, todos os
homens, até os filhos da perdição, serão ressuscitados, sendo assim salvos
da morte física. Paulo ensinou essa verdade: “Porque, assim como todos
morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (I
Coríntios 15:22).8 Amuleque ensinou de modo semelhante: “Todos [serão
levantados] dessa morte física” (Alma 11:42; ver também Alma 11:41).
Nesse sentido, todos os homens serão salvos.
Segunda, todos os homens, exceto os filhos de perdição, serão salvos de
uma outra forma, ou seja, serão ressuscitados com um corpo glorificado e
serão designados a um reino de glória sobre o qual um ou mais membros
da Trindade presidirá (D&C 76:71, 77, 86). Nesse aspecto, todos os
homens serão resgatados do poder e domínio de Satanás. Embora aqueles
que herdarem o reino teleste “não serão redimidos do diabo até a última
ressurreição” (D&C 76:85), não obstante, no devido tempo, eles serão
salvos de suas garras. Era a isso que o Senhor Se referia quando disse que
Ele “salva todas as obras de suas mãos, exceto os filhos de perdição” que
“irão para o castigo infinito (…) para reinar com o diabo e seus anjos na
eternidade” (D&C 76:43– 44). Consequentemente, os filhos da perdição
são “os únicos que não serão redimidos no devido tempo do Senhor”
(D&C 76:38). Todos os demais herdarão um reino de glória e serão salvos
do domínio de Satanás.
Terceira, a maioria dos cristãos usa o termo salvo no sentido de terem a
garantia de uma vida de alegria eterna na presença de Deus. Esse uso
equivale de perto, porém sem dúvida não perfeitamente, ao nosso conceito
do reino celestial. Aqueles que herdarem o reino celestial, mas não o mais
alto grau de exaltação, são salvos no sentido de que não serão banidos da
presença do Pai. Esses santos “permanecem separados e solteiros, sem
exaltação, no seu estado de salvação, por toda a eternidade” (D&C
132:17). Eles não serão salvos, porém, de todas as formas de condenação
(i.e., a incapacidade de progredir). Não terão semente eterna e não poderão
tornar-se semelhantes a Deus. Consequentemente, eles são salvos somente
num sentido restrito.
Quarta, sermos salvos no sentido mais amplo significa sermos exaltados.
Isso significa que não somos apenas resgatados da morte física, de Satanás
e do banimento da presença do Pai, mas além disso somos salvos de todas
as formas de condenação. Em outras palavras, não há absolutamente nada
que possa impedir nosso progresso. Poderemos ter descendência eterna,
criar mundos sem fim e tornar-nos semelhantes a Deus (D&C 132:19–20,
37; ver também capítulo 21). Depois de falar do estado exaltado de Abraão
como um deus, o Senhor disse: “Guardai minha lei e sereis salvos” (D&C
132:32; ver também 2 Néfi 25:23). Referindo-se à exaltação, o Élder
McConkie ensinou: “Com poucas exceções, essa é a salvação a que se
referem as escrituras”.9 Nesse sentido, a Expiação de Jesus Cristo não
apenas nos salva dos efeitos da Queda, mas além disso nos investe com
esses poderes necessários para salvar-nos de todas as fraquezas, de toda
ignorância e de todos os obstáculos que podem impedir ou atrapalhar de
alguma forma o nosso progresso. Essa é a salvação final, que nas escrituras
é chamada de exaltação. Esse é o objetivo principal da Expiação.
 
Notas
1. Talmage, Regras de Fé, p. 76.
2. McConkie, Mortal Messiah, volume 4, p. 224.
3. Matthews, A Bible!, pp. 260, 262.
4. Ibid., p. 262.
5. Smith, Gospel Doctrine, p. 69.
6. Orson Pratt nos ajuda a compreender a diferença entre a redenção incondicional e a
condicional: “A redenção universal dos efeitos do pecado original não tem nada a
ver com a redenção de nossos pecados pessoais, porque o pecado original de Adão
e os pecados pessoais de seus filhos são duas coisas completamente diferentes. (. . .)
Os filhos de Adão não tiveram arbítrio na transgressão de seus primeiros pais e,
portanto, não são obrigados a exercer qualquer arbítrio para sua redenção dessa
punição. (. . .) A redenção condicional também tem natureza universal. Ela é
oferecida a todos, mas nem todos a recebem. (…) Seus benefícios somente podem
ser obtidos por meio da fé, do arrependimento, do batismo, da imposição de mãos e
da obediência a todas as exigências do evangelho.
A redenção incondicional é uma dádiva imposta a toda a humanidade, que não a
pode rejeitar, mesmo que quisesse. O mesmo não acontece com a redenção
condicional. Ela pode ser recebida ou rejeitada de acordo com a vontade da criatura.
(. . .) (. . .) Ambas são dádivas gratuitas da graça. (. . .) A redenção de uma é
compulsória. O recebimento da outra é voluntária. O homem não pode por seus atos
impedir sua redenção da Queda;mas ele pode recusar e impedir totalmente sua
redenção do castigo dos próprios pecados” (Millennial Star, volume 12, p. 69; citado
em Smith, Doutrinas de Salvação, comp. por Bruce R. McConkie, 1954–1956, 3
vols., vol. II, pp. 9–10).
7. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p. 293.
8. Os filhos de perdição serão ressuscitados, mas surgirão com um corpo sem glória,
destinados a “erguer-se para a condenação de sua própria imundície” (Smith,
Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, pp. 352–353). A Encyclopedia of
Mormonism acrescenta o seguinte: “Foi sugerido que na ausência dos poderes do
Espírito de Deus que sustêm a vida, os filhos de perdição acabarão se tornando
desorganizados e retornarão a seu ‘elemento nativo’ (JD, volume 1, pp. 349–352;
volume 5, p. 271; volume 7, pp. 358–359). Contudo, as escrituras declaram que ‘a
alma nunca pode morrer’ (Alma 12:20). (. . .) O destino final dos filhos de perdição
somente será dado a conhecer aos que participarem dele, e não será definitivamente
revelado até o juízo final (D&C 29:27–30; 43:33; 76:43–48; TPJS, p. 24)”
(Encyclopedia of Mormonism, s.v. “Sons of Perdition”, volume 3, pp.
1391–1392). Ver também 2 Néfi 1:22.
9. McConkie, Mormon Doctrine, p. 670.
 
Capítulo 7
Quais Seriam as
Consequências se não houvesse a Expiação
 
Uma Vida sem esperança
Certa manhã de domingo, nosso filho adolescente se postou ao lado de
outros sacerdotes para ministrar o sacramento, como havia feito em
ocasiões anteriores. Eles puxaram a toalha branca, mas para sua
consternação, não havia pão. Um deles dirigiu-se rapidamente à salinha de
preparação, na esperança de encontrar pão. Não encontrou nada. Por fim,
nosso angustiado filho foi até o bispo e disselhe qual era o problema. O
bispo, sabiamente, levantou-se, explicou a situação à congregação, então
perguntou: “Como seria se a mesa do sacramento estivesse vazia hoje por
não ter havido Expiação?” Pensei muito nisso — como seria se não
houvesse pão por não ter havido a crucificação, se não houvesse água por
não ter havido derramamento de sangue? Se não houvesse Expiação, quais
seriam as consequências para nós? Evidentemente, a pergunta agora é
retórica, mas ela realmente nos dá a visão de nossa total dependência do
Senhor. Fazer e responder essa pergunta apenas nos deixa mais conscientes
do Salvador e gratos a Ele. O que poderia ter acontecido, mesmo para os
“justos”, se não tivesse havido um Sacrifício Expiatório é algo
profundamente tocante para a humanidade.
Em primeiro lugar, não haveria ressurreição, ou como Jacó sugere em
termos bem explícitos: “Esta carne teria que apodrecer e desfazer-se em
sua terra mãe, para não mais se levantar” (2 Néfi 9:7).
Segundo, nosso espírito se tornaria sujeito ao diabo. Ele teria “sobre vós
todo o poder” e “vos [selaria] como seus” (Alma 34:35). Na verdade, nós
nos tornaríamos semelhantes a ele, sim, “anjos de um diabo” (2 Néfi 9:9).
Terceiro, seríamos “afastados da presença de nosso Deus” (2 Néfi 9:9),
para permanecer para sempre com o pai das mentiras.
Quarto, teríamos que “padecer um tormento sem fim” (Mosias 2:39).
Quinto, não teríamos esperança, porque “se Cristo não ressuscitou, logo
é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. (. . .) Se esperamos em
Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (I
Coríntios 15:14, 19). O poeta John Fletcher consegue captar o desespero
das pessoas que herdam a vida de Lúcifer: E quando ele cair, cai como Lúcifer,
Para jamais ter esperança novamente.1
Dante falou desse mesmo destino quando descobriu estas palavras
gravadas nos portões do inferno: “DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS
QUE AQUI ENTRAIS!”2 Sem a Expiação, a visão fatalista que Macbeth
tinha da vida estaria tragicamente correta. Ela seria uma peça de teatro sem
propósito: A vida é uma sombra errante, um pobre comediante,
Que se pavoneia no breve instante que lhe reserva a cena,
Para depois não ser mais ouvido. É um conto de fadas,
Narrado por um idiota, cheio de voz e fúria, que nada
significa.3
A vida nada significaria sem o ato redentor de Cristo. Os profetas do
Livro de Mórmon ensinaram essa verdade com muito vigor e frequência.
Abinádi profetizou que sem a redenção “toda a humanidade (…) estaria
para sempre perdida” (Mosias 16:4; ver também Mosias 15:19). Amuleque
ensinou com inegável clareza que sem a Expiação “toda a humanidade
inevitavelmente perecerá” (Alma 34:9). Alma, que havia sentido as dores
do inferno, ensinou em seu discurso a Coriânton que a alma de todos os
homens seria miserável, “sendo afastada da presença do Senhor” (Alma
42:11). Talvez nenhum profeta tenha conhecido, como Alma, algo “tão
intenso e cruciante como o foram (…) [suas] dores” (Alma 36:21), ao ser
expulso da presença do Senhor. Leí ensinou a Jacó: “Nenhuma carne pode
habitar na presença de Deus a menos que seja por meio dos méritos e
misericórdia e graça do Santo Messias” (2 Néfi 2:8).
Os profetas do Livro de Mórmon predisseram as trágicas consequências
que adviriam naturalmente se não tivesse havido o Sacrifício Expiatório.
Os profetas modernos fizeram o mesmo. Brigham Young ensinou que
nenhum reino de glória, nem o mais baixo, pode ser obtido sem a
Expiação. “[Os santos dos últimos dias] acreditam que Jesus é o Salvador
do mundo. Acreditam que todos os que alcançam alguma glória, em
qualquer reino, conseguirão fazê-lo porque Jesus o adquiriu por meio de
Sua expiação”.4
Se não tivesse havido Expiação, a possibilidade de qualquer reino de
glória, quanto mais a divindade e a exaltação, seria apenas um sonho fútil,
e a ressurreição, uma esperança vã. A Ofélia de Shakespeare deve ter
sentido isso, pois em sua melancolia, ela lamentou: Eu vos daria algumas
violetas, mas todas murcharam quando meu pai morreu.5
Em certa ocasião, pediram-me que falasse num funeral em honra de um
bom homem que falecera. Antes do funeral, conversei com a família no
velório. Era evidente pelo número de pessoas presentes que o falecido era
muito amado e querido. Por alguns momentos, enquanto a família se reunia
em volta do caixão, tentei oferecer algumas palavras de conselho e
consolo. Fizemos então uma oração e seguimos todos para o funeral.
Fiquei um pouco mais ali, porém, e vi a aflita viúva aproximar-se do
caixão pela última vez, beijar o amado companheiro na testa e dizer:
“Adeus, querido, amo você”. Como a vida seria sem sentido se aquele
adeus fosse para sempre. Mas isso é o que aconteceria se não houvesse o
Salvador.
Se não tivesse havido a Expiação, cada alvorada seria um lembrete para
nós de que um dia o sol não mais se ergueria, que para cada um de nós a
morte proclamaria sua vitória, e o sepulcro ainda teria seu aguilhão. Toda
morte seria uma tragédia, e todo nascimento, apenas uma tragédia em
embrião. O ponto culminante do amor entre marido e mulher, pais e filhos,
mães e filhas pereceria na sepultura, para jamais ressurgir. Sem a Expiação,
a futilidade substituiria o propósito, a desesperança tomaria o lugar da
esperança e a felicidade seria trocada pela miséria. O Élder Marion G.
Romney declarou que, se não houvesse a Expiação, “todo o propósito da
criação e de nossa vida nesta Terra teria fracassado”.6 O Presidente David
O. McKay citou James L. Gordon a esse respeito: “Uma catedral sem
janelas, um rosto sem olhos, um campo sem flores, um alfabeto sem
vogais, um continente sem rios, uma noite sem estrelas e um céu sem o sol
— nada disso seria tão triste quanto (…) uma alma sem Cristo”.7 A
contemplação de um mundo assim seria o pensamento mais desesperador
que poderia obscurecer a mente ou entristecer o coração do homem. Mas
felizmente, há um Cristo, e houve uma Expiação, e ela é infinita para toda
a humanidade.
 
Notas
1. Fletcher, “Henry VIII”, em Cook, Famous Poems, p. 44.
2. Dante, Divine Comedy, p. 5.
3. Shakespeare, Macbeth, 5.5.24–28.
4. Journal of Discourses, vol. 13, p. 328.
5. Shakespeare, Hamlet, 4.5.183–185.
6. Conference Report, outubro de 1953, p. 34.
7. Conference Report, outubro de 1952, p. 12.
 
Capítulo 8
A Natureza Infinita da Expiação
Infinitaem múltiplos aspectos
O que os profetas do Livro de Mórmon querem dizer ao referir-se a uma
“expiação infinita”? Jacó ensinou: “É necessário que haja uma expiação
infinita — porque se a expiação não fosse infinita, esta corrupção não
poderia revestir-se de incorrupção” (2 Néfi 9:7). Néfi profetizou que a
Expiação seria “infinita para toda a humanidade” (2 Néfi 25:16). E
Amuleque ensinou de modo semelhante: “É necessário que haja um grande
e último sacrifício. (. . .) Nada pode haver, a não ser uma expiação infinita,
que seja suficiente para os pecados do mundo” (Alma 34:10,12). Repetidas
vezes, a palavra-chave é “infinito”.
A expressão “expiação infinita” ou “sacrifício infinito” pode se referir a
uma expiação ou um sacrifício feito por um Deus, um ser que é infinito em
conhecimento, poder e glória. Amuleque infere isso ao observar que
“aquele grande e último sacrifício será o Filho de Deus, sim, infinito e
eterno” (Alma 34:14). Consequentemente, a Expiação é “infinita” porque
sua fonte é “infinita”.
Mas a Expiação é infinita em outros aspectos também. B. H. Roberts, ao
referir-se ao uso da expressão “expiação infinita” pelos profetas nefitas,
comenta: “Acho que eles procuraram expressar a ideia de sua suficiência,
de sua natureza completa, de sua universidade e poder para restaurar tudo o
que foi perdido, tanto espiritual quanto fisicamente, e também expressar a
grandiosidade e a dignidade Daquele que realizaria a Expiação”.1 Néfi se
referia aos efeitos da Expiação, mais do que a sua fonte, ao observar: “A
expiação (…) é infinita para toda a humanidade” (2 Néfi 25:16). A palavra
infinita, conforme usada neste contexto, pode referir-se a uma expiação
que é infinita em sua abrangência e cobertura, ou a uma expiação que se
aplica tanto ao passado quanto ao futuro simultaneamente, sem ser afetada
pelas restrições ou medidas do tempo. Pode referir-se a um sacrifício sem
limites, sem fronteiras, sem fim no tocante ao sofrimento que seria
suportado. Pode referir-se a uma expiação que se aplica a todas as criações
de Deus do passado, do presente e do futuro, e por isso é infinita em sua
aplicação, duração e efeito. O Élder McConkie apoia todos esses pontos de
vista: “Quando os profetas se referem a uma expiação infinita, é isso
mesmo que eles querem dizer. Seus efeitos abrangem todos os homens, a
própria Terra e todas as formas de vida que nela existem, e se estende para
a imensidão sem fim da eternidade”.2
A Expiação parece infinita, conforme definida pelos profetas do Livro
de Mórmon, ao menos por oito motivos, conforme será discutido
posteriormente nos capítulos de 9 a 23:
Primeiro, como sugeriu o Élder Maxwell, ela é “infinita na divindade
daquele que é sacrificado”.3 O título daquele tocante hino, “O Divine
Redeemer” [Ó Divino Redentor], é um bom lembrete de que Aquele que
realizou a Expiação é a expressão suprema da divindade.
Segundo, é infinita em poder. O Salvador progrediu de graça em graça
até que “recebeu todo o poder, tanto nos céus como na Terra” (D&C
93:17).
Terceiro, a Expiação é infinita no tempo. Ela se aplica tanto ao passado
quanto ao futuro ao longo de tempos imemoriais.
Quarto, é infinita em abrangência. Ela se aplica a todas as criações de
Deus e a todas as formas de vida deste mundo. O Élder Maxwell a chamou
de “infinita (…) na abrangência de sua cobertura”.4
 
Quinta, é infinita em profundidade. É infinita não apenas no tocante a
quem ela cobre, mas também a o que ela cobre. “O Filho do Homem
desceu abaixo de todas elas” (D&C 122:8).
Sexta, é infinita no grau de sofrimento suportado pelo Redentor.
Sofrimento esse que fez com que “Deus, o mais grandioso de todos,
tremesse de dor e sangrasse por todos os poros” (D&C 19:18).
Sétima, é infinita em amor. A letra do hino “He Died! The Great
Redeemer Died” [Ele Morreu! O Grande Redentor Morreu] é um vigoroso
lembrete de seu infinito amor: Eis aqui amor e sofrimento imensuráveis,
O Senhor da glória morreu pelos homens.5
Oitava, é infinita nas bênçãos que concede. As bênçãos da Expiação se
estendem até muito além do bem conhecido triunfo sobre a morte física e a
morte espiritual. Algumas dessas bênçãos se sobrepõem, outras se
complementam mutuamente, mas no conjunto o efeito desse evento
abençoa imensamente nossa vida de inúmeras maneiras, tanto conhecidas
quanto ainda por descobrir, de modo que seria adequado dizer que é
infinita na natureza de suas bênçãos.
 
Notas
1. Roberts, Seventy’s Course in Theology, Fourth Year, p. 95.
2. McConkie, Mormon Doctrine, p. 64.
3. Maxwell, Not My Will, But Thine, p. 51; grifo do autor.
4. Ibid., p. 51.
5. Isaac Watts, “He Died! The Great Redeemer Died”, Hymns, nº 192.
 
Capítulo 9
Infinita na Divindade do Escolhido
 
Infinita em Características Divinas
A Expiação é infinita na divindade Daquele que foi sacrificado. As
escrituras se referem ao Salvador como aquele “Deus no céu, que é infinito
e eterno” (D&C 20:17; ver também D&C 20:28). Ele possuía toda paixão
digna e atributo divino em níveis imensuráveis, por isso a referência à sua
natureza infinita.
Sem dúvida, Cristo “tem todo o poder, toda a sabedoria e todo o
entendimento; ele compreende todas as coisas” (Alma 26:35), sendo,
portanto, onisciente. Jacó confirmou essa verdade: “Não há nada que [Ele]
não conheça” (2 Néfi 9:20). Ele dominou cada uma das leis. Ele fala todas
as línguas, não há idioma estrangeiro para Ele. Ele conhece a cura de todos
os vírus, todas as doenças e todas as enfermidades. Ele criou mundos
incontáveis. Nada escapa à Sua compreensão. Como declarou Davi: “O seu
entendimento é infinito” (Salmos 147:5). O Élder McConkie referiu-se à
relação existente entre o infinito conhecimento do Salvador e Sua condição
de escolhido ao dizer: “Por obediência e devoção à verdade, Ele atingiu o
pináculo da inteligência que o classifica como um Deus, como o Senhor
onipotente, enquanto ainda estava em Seu estado pré-existente (…) e Ele
foi então escolhido para levar a efeito a infinita e eterna expiação”.1
Assim como não há limite para a onisciência do Salvador, não há limite
para Seu amor e poder (João 3:16; 15:13; Efésios 3:19; D&C 132:20). John
Greenleaf Whittier escreveu estes versos muito perspicazes:
 
Caminho descalço e silencioso
Pelas veredas que trilhas com destemor;
Não ouso tentar medir ou avaliar
O amor e o poder de Deus. (. . .)
Não sei onde Suas ilhas erguem
Suas frondosas palmeiras para o céu;
Sei apenas que jamais estarei por demais distante
De Seu amor e cuidado.2
Perguntamo-nos se Milton quase transpôs o véu ao escrever estes versos
igualmente cheios de visão:
Incomparável é a visão do Filho de Deus
Imensamente glorioso; tudo Nele reluz o Seu Pai
Substancialmente expresso; e em Sua face
A compaixão divina é visivelmente aparente,
Amor sem fim, e graça sem medida.3
As necessidades do homem, por mais onerosas que sejam, jamais
esgotarão o amor de Deus. Seu suprimento é ilimitado.
Deus não apenas possui infinito amor e poder, mas também “infinita
bondade” (2 Néfi 1:10; Mosias 5:3; Helamã 12:1; Morôni 8:3); Ele
demonstra “infinita misericórdia” (Mosias 28:4; ver também I Crônicas
16:34); e Ele é cheio de “infinita (…) graça” (Morôni 8:3). Tão
abrangentes e inclusivas são as virtudes do Senhor que o Profeta Joseph
enumerou algumas dessas qualidades divinas em sua oração dedicatória do
Templo de Kirtland. O Profeta Joseph se referiu ao Salvador como um ser
que Se “[assenta] entronizado, com glória, honra, poder, majestade, força,
domínio, verdade, justiça, juízo, misericórdia”, e depois, talvez sentindo a
futilidade de tentar relacionar as infinitas virtudes de Deus, ele concluiu
descrevendo-O como alguém que possui “plenitude infinita, de eternidade
em eternidade” (D&C 109:77; grifo do autor). Os profetas do Livro de
Mórmon também reconheceram as qualidades divinas do Salvador. O
Presidente Ezra Taft Benson observou que o Salvador “recebeu mais de
cem nomes diferentes no Livro de Mórmon”. Depois, comentou que “esses
nomes têm especial significado na descrição de Sua natureza divina”.4 Emestilo poético, Isaías recorreu a esse vasto reservatório de nomes para
escrever: “E se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus
Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6). Ele era tudo isso, e
muito mais.
Amuleque pregou que o “grande e último sacrifício será (…) infinito e
eterno” porque “será o Filho de Deus” (Alma 34:14). Consequentemente, é
adequado chamarmos a Expiação de infinita porque ela expressa a natureza
e o caráter Daquele que fez esse assombroso sacrifício.
A Condescendência de Deus
Há vários anos, minha mulher e eu viajamos pela Terra Santa. Ao
subirmos o Campo dos Pastores, vislumbramos a singular e pequenina
cidade de Belém. Foi como se o tempo parasse. Tentamos imaginar a cena,
2.000 mil anos no passado, sem estradas pavimentadas, sem água corrente,
sem eletricidade, sem shopping centers. A vida se resumia a seus termos
mais simples: toscos abrigos para proteger as pessoas dos elementos, um
poço central de onde tirar água, transporte a pé ou no dorso de jumentos ou
cavalos. As pessoas passavam o dia arando o campo, cuidando das ovelhas
ou vendendo algumas mercadorias simples. Era difícil acreditar que
estivéssemos vendo o lugar onde Deus nasceu.
Ao visualizar essa cena, captamos por um fugaz momento um minúsculo
entendimento do que as escrituras chamam de “a condescendência de
Deus” (1 Néfi 11:16, 26; ver também 2 Néfi 9:53).5 A palavra
condescendência vem das raízes latinas con e descendere, que significa
descer com. A vinda do Salvador para a humanidade foi pessoalmente
anunciada pelo Salvador a Néfi, naquela primeira “véspera de Natal”: “É
chegada a hora (…) amanhã virei ao mundo” (3 Néfi 1:13). Oh, a
magnitude desse sacrifício, dessa condescendência! Naquela noite, Deus, o
Filho, trocou Seu lar celeste com todos os seus adornos celestiais por uma
morada terrena com todas as suas características primitivas. Ele, o “Rei do
céu” (Alma 5:50), “o Senhor Onipotente que reina” (Mosias 3:5), deixou
um trono para herdar uma manjedoura. Trocou o domínio de um Deus pela
condição indefesa de um bebê. Desistiu da riqueza, do poder, do domínio e
da plenitude da glória — em troca do quê? — da zombaria, do escárnio, da
humilhação e da submissão. Foi uma troca de dimensão incomparável, uma
condescendência de proporção inimaginável, uma descida de profundidade
incalculável. E além disso, o grande Jeová, criador de mundos sem fim,
infinito em virtude e poder, entrou neste mundo envolto em panos, numa
manjedoura.
Uma trilha de Divindade
Seja como for, ninguém conseguiu mascarar Sua divindade. Seu espírito
podia estar revestido de carne e ossos, Suas roupas podiam ser mortais, o
véu do esquecimento podia ter sido colocado sobre Sua mente, mas
ninguém, absolutamente ninguém, conseguiu despojá-lo das características
divinas que herdou. Elas não podiam ser sepultadas em Sua estrutura
mortal. Não podiam ser silenciadas. A cada momento de Sua vida diária,
Seus atributos divinos eram gravados em Sua aparência externa. Eles se
manifestavam em cada sorriso, cada olhar, cada palavra proferida. A
divindade exsudava em cada pensamento, em cada ação, em cada ato. Em
apenas 33 anos, ele deixou uma contínua trilha de divindade que ninguém
— a não ser que esteja espiritualmente morto — pode negar. Sermão após
sermão, milagre após milagre, bondade após bondade testificaram Sua
origem divina.
Foram essas qualidades transcendentais que fizeram com que o povo da
Galileia se assombrasse com Sua doutrina. Ao concluir o Sermão da
Montanha, as escrituras relatam que Ele “os ensinava como tendo
autoridade; e não como os escribas” (Mateus 7:29). Foram essas
características celestiais que compeliram os espiritualmente iluminados a
se aproximarem Dele. “Vinde após mim”, disse Ele (Mateus 4:19), e os
homens largaram suas redes, deixaram o trabalho que lhes garantia o
sustento e O seguiram. Foi esse esplendor divino que fez com que os
iníquos se encolhessem na Sua presença quando Ele, um homem — ou
melhor, um Deus — os expulsou do templo, quando o mal, em toda a sua
hediondez, recuou perante a virtude em todo o seu vigoroso fulgor. É de
admirar que esse Jesus, coroado de espinhos, vestindo um manto púrpura,
açoitado e escarnecido, fizesse com que Pilatos O apresentasse, dizendo:
“Eis aqui o homem!” (João 19:5).
Há quem se pergunte como foi essa emergente divindade, enquanto Ele
passava da infância para a juventude e da juventude para a idade adulta.
Quais foram Seus sentimentos? Como Se sentia, sendo um Deus entre
mortais? Com quem Ele conversava a respeito de Seus fardos? É verdade
que havia outros homens que caminhavam fisicamente a Seu lado, mas
ninguém estava à altura de Seu intelecto e de Sua espiritualidade. Ninguém
podia ver e sentir e entender o que Ele via, sentia e entendia. Como foi para
Cristo percorrer as empoeiradas sendas da própria criação, ver Suas obras
divinas através de olhos mortais? Quando foi que Ele soube que os
pássaros que chilreavam melodias em Seus ouvidos, as flores que
perfumavam o ar, os montes e os vales nos quais adorava correr e brincar, o
pôr do sol e as estrelas que Ele ansiava contemplar e ponderar foram
criações Suas? Ele foi o projetista, o arquiteto, o compositor — sim, o
criador de todas essas coisas.
Não sabemos exatamente quando Cristo ficou sabendo de Sua missão
divina, mas uma consciência de Sua divindade estava emergindo desde
bem jovem. A cada momento da vida diária, Suas qualidades divinas se
manifestaram até que Seu tabernáculo mortal se viu imerso em divindade.
Depois, chegou o momento de Sua missão designada. Tudo que podia ser
lembrado o foi, todos os poderes que podiam ser invocados foram
recuperados. A hora designada chegou. O tão antecipado momento de
confrontação estava ali. A divindade e o mal haviam trilhado seus
caminhos diferentes. Cristo estava pronto para salvar Seus filhos, mas
ironicamente eles “andavam procurando como o matariam” (Lucas 22:2).
Aquele foi o momento do confronto — o clímax. O enfoque era o
confronto entre o poder do Infinito e o poder do Maligno.
Notas
1. McConkie, Mormon Doctrine, p. 129.
2. Whittier, “The Eternal Goodness”, em Cook, Famous Poems, pp. 113, 115.
3. Milton, Paradise Lost, pp. 95–96.
4. Benson, Witness and a Warning, p. 53.
5. Esta discussão não tem a intenção de sugerir que essa expressão não tenha também
outras interpretações.
 
Capítulo 10
Infinita em Poder
O poder É proporcional aos atributos Divinos da pessoa
Por que era essencial que a Expiação fosse realizada por Jesus, que é
“infinito e eterno” (Alma 34:14)? Porque a Expiação exigia poder, um
poder incrível, sim, um poder infinito. Exigia poder para ressuscitar os
mortos, poder para conquistar a morte espiritual e poder para exaltar uma
pessoa comum à condição de um deus. Esse poder somente poderia ser
exercido por um ser que fosse infinito, ou seja, um ser que possuísse todas
as virtudes divinas de modo ilimitado, sendo, portanto, um Deus. Na
grande oração intercessora do Salvador, Ele Se referiu ao poder que o Pai
lhe dera: “[Tu me] deste poder sobre toda a carne” (João 17:2). Pilatos não
compreendeu isso. Ele achava que tinha “poder para crucificar” e “poder
para soltar”, mas o Salvador rapidamente o corrigiu, dizendo: “Nenhum
poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado” (João 19:10–11).
Sem dúvida Satanás tinha seu poder naquele momento, sua hora
tenebrosa, mas quando o final chegar, o Salvador, a fonte de todo poder,
vai “[aniquilar] todo o império, e toda a potestade e força” (I Coríntios
15:24). O Salvador vai exercer Seu poder, que é muito superior ao que Ele
permitiu que Satanás possuísse momentaneamente, “para destruir Satanás e
suas obras no fim do mundo” (D&C 19:3). Consequentemente, o Salvador
tem esse poder infinito exigido para realizar a Expiação, o qual se origina
das virtudes divinas manifestadas infinitamente. Tão abrangente é o poder
possuído pelo Salvador que Alma ensinou: “Ele tem todo o poder para
salvar cada homem” (Alma 12:15; ver também Alma 9:28). O rei
Benjamim reconheceu a presença dessepoder mesmo nos tempos
prémortais: “Pois eis que o tempo se aproxima (…) em que, com poder, o
Senhor Onipotente que reina (…) descerá dos céus no meio dos filhos dos
homens” (Mosias 3:5). Milton reconheceu o poder de Jeová: “Grandes são
tuas obras, Jeová, infinito é o teu poder. Que pensamento pode medir-te, ou
que língua pode descrever-te?”1
Não é de admirar que ao tornar-nos mais semelhantes a Deus, tornamo-
nos mais poderosos. O conhecimento traz poder; a pureza traz poder; o
amor traz poder. A aquisição de cada característica divina traz poder. O
poder e a divindade estão diretamente relacionados entre si. Paulo citou
essa verdade ao escrever que Jesus possuía “corporalmente toda a
plenitude da divindade”, acrescentando, em seguida, que Ele “é a cabeça
de todo o principado e potestade” (Colossenses 2:9–10; ver também I
Crônicas 29:12; Salmos 66:7). A vida do Salvador é uma confirmação
dessa verdade. Ele progrediu de graça em graça até receber a plenitude do
Pai, e então “recebeu todo o poder, tanto nos céus como na Terra” (D&C
93:17; ver também 1 Néfi 1:14; Alma 26:35; D&C 100:1).
Falando daqueles que podem tornar-se deuses, o Senhor declarou:
“Então serão colocados sobre tudo, porque todas as coisas lhes serão
sujeitas. Então serão deuses, porque terão todo o poder” (D&C 132:20). O
Salvador era infinito em Seus atributos divinos. Isso significa que Ele tinha
poder infinito, e com esse poder podia realizar uma Expiação infinita.
No mundo da física, há uma lei da termodinâmica conhecida como a lei
da entropia. Ela sugere que o universo, se for deixado por conta própria,
move-se constantemente para um estado de desordem. Stephen W.
Hawking, o renomado matemático, descreveu essa lei em termos leigos: “É
um fato bem conhecido por todos que a desordem tem a tendência de
aumentar, se as coisas forem deixadas por conta própria. (Basta deixarmos
de consertar o que estraga em casa para vermos que isso é verdade!)”
Depois, ele amplia o conceito, assim: “A explicação geralmente dada para
o motivo pelo qual não vemos xícaras quebradas juntando os pedaços
espalhados no chão e pulando de volta para a mesa é a de que isso é
proibido pela segunda lei da termodinâmica. Ela diz que em qualquer
sistema fechado, a desordem, ou seja, a entropia, sempre aumenta com o
tempo. Em outras palavras, essa é uma forma da lei de Murphy: As coisas
sempre tendem a dar errado! Uma xícara intacta na mesa é um elevado
estado de ordem, mas uma xícara quebrada no chão é um estado de
desordem. É fácil uma xícara que estava sobre a mesa no passado passar a
ser uma xícara quebrada no chão no futuro — mas não o contrário”2
Essa desordem, ou condição progressiva de aleatoriedade, continuaria
ininterruptamente a menos que houvesse uma força inteligente e poderosa
no universo que pudesse de alguma forma reverter esse curso natural. John
Taylor falou dessa força inteligente: “Essas leis [que governam o universo]
estão sob a vigilância e o controle do grande Legislador, que gerencia,
controla e dirige todos esses mundos. Se não fosse assim, eles se moveriam
pelo espaço em atroz confusão, e os sistemas colidiriam uns com os outros,
e mundo após mundo seriam destruídos, juntamente com seus habitantes”.3
Sem dúvida a criação foi uma assombrosa demonstração desse poder de
reversão. A Expiação foi outra manifestação assim. Repetidas vezes, nas
escrituras, a Expiação é chamada de poder. Com a possível exceção da
palavra amor, essa parece ser a palavra mais repetidamente usada para
descrever o processo expiatório. Esse poder era um corolário natural da
própria natureza infinita do Salvador. Assim como a felicidade não pode
ser adquirida independentemente da obediência às leis de Deus, da mesma
forma o poder não pode ser adquirido de modo permanente
independentemente do desenvolvimento de virtudes divinas. Não podemos
ter uma coisa sem a outra. Elas estão inseparavelmente conectadas.
Exercício e aquisição de poder
A Expiação foi tanto um exercício quanto uma aquisição de poder. Uma
das ironias da vida é que adquirimos amor quando o damos, e aumentamos
o conhecimento quando ofertamos o que temos. E é isso que acontece com
certos poderes. Ao exercermos poder em retidão, adquirimos mais poder.
Ao exercermos poder em injustiça, perdemos ainda mais do que “doamos”.
Trata-se simplesmente de um reflexo da parábola dos talentos.
O Salvador exerceu poder ao suportar as consequências do pecado,
sujeitar-se à dor e, por fim, oferecer a própria vida. Morôni admoestou:
“Eu vos exorto a não negardes o poder de Deus, pois ele opera com poder”
(Morôni 10:7). O exercício dos poderes necessários para suportar os
sofrimentos de toda a humanidade pode por sua vez ter aberto as portas
para poderes adicionais necessários para ressuscitar, redimir e exaltar. O
coro celestial um dia cantará: “Digno é o Cordeiro, que foi morto, de
receber o poder (Apocalipse 5:12; grifo do autor). Observem a referência
ao recebimento futuro de poder. Parece que o Cordeiro recebe um novo
poder depois de ser morto. As escrituras deixam claro que o Salvador não
poderia ter ressuscitado os homens se não tivesse morrido primeiro. Paulo
referiu-se a essa sequência necessária ao comentar que “pela morte [Ele
aniquilaria] o que tinha o império da morte, isto é, o diabo” (Hebreus
2:14). Alma fez alusão a essa mesma relação de causa e efeito: “E tomará
sobre si a morte” — para quê? — “para soltar as ligaduras da morte”
(Alma 7:12). Mais tarde, ele pregaria: “A morte de Cristo desatará as
ligaduras dessa morte física” (Alma 11:42). Cada um desses profetas
ensinou que a morte do Salvador era um pré-requisito necessário para a
ressurreição do homem. A morte do Ungido resultou no poder de vida
eterna para todos. O Salvador também ensinou este princípio: “Se o grão
de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito
fruto” (João 12:24; grifo do autor).
Poderíamos questionar: Será que o Salvador conseguiria redimir-nos da
morte espiritual se não tivesse sofrido as consequências de nossos
pecados? Ou então, será que Ele poderia exaltar uma pessoa comum se não
tivesse tomado sobre si as angústias dos seres mortais? Por um lado, a
Expiação foi um exercício de incrível poder, permitindo que Cristo
suportasse toda a carga de aflição humana. Por outro lado, o processo
expiatório foi uma aquisição e depois uma manifestação de incrível poder
para vencer essa condição aflitiva, conforme demonstrado pelo poder de
ressuscitar, de redimir e de exaltar. Será que esse exercício de poder para
suportar era essencial para a aquisição do poder de vencer? Será que este
último poder foi gerado pelo anterior? Seja como for, o assombroso poder
tanto de suportar quanto de vencer foi uma consequência direta e refletia a
natureza infinita do Salvador.
 
Notas
1. Milton, Paradise Lost, p. 213.
2. Hawking, Uma Breve História do Tempo, pp. 144–145.
3. Taylor, Gospel Kingdom, pp. 67–68.
 
Capítulo 11
Infinita no Tempo
Seres Mortais Que Viveram antes do Sacrifício do Salvador
A Expiação foi sem dúvida eficaz para os homens mortais que viveram
depois do suplício do Salvador no Jardim e na cruz. Mas e quanto aos seres
mortais que viveram antes do Salvador ou até mais para o passado, na
época dos espíritos da esfera prémortal? Será que a Expiação se estende até
tão longe assim? Ela é infinita no tempo tanto retroativa quanto
prospectivamente?
A Expiação se aplica retroativamente aos seres mortais que viveram
antes de Seu sacrifício? Em outras palavras, o povo do Velho Testamento
podia se arrepender e ser purificado de seus pecados antes que a missão do
Salvador tivesse sido realizada? A resposta é Sim. No cabeçalho de Alma
39, lemos: “A redenção de Cristo é retroativa na salvação dos fiéis que a
precederam”. Paulo ensinou que o evangelho foi “[anunciado] primeiro
(…) a Abraão” (Gálatas 3:8). A fé, o arrependimento e o batismo foram
ensinados em todas as dispensações do evangelho, a partir de Adão. É isso
que querem dizer as escrituras quando declaram: “O evangelho começou a
ser pregadodesde o princípio” (Moisés 5:58; ver também D&C 20:25–26).
Sem o efeito retroativo da Expiação do Salvador, o ensino dos princípios
do evangelho e a realização das ordenanças correlatas na época do Velho
Testamento teriam sido atos fúteis. O Senhor fez esta declaração
incondicional a respeito do irmão de Jarede, que viveu uns 2200 anos antes
da Expiação do Salvador: “Por saberes estas coisas, ficas redimido da
queda” (Éter 3:13). O rei Benjamim calou todas as dúvidas a respeito da
natureza retroativa da Expiação em seu magnífico discurso: “Para que,
assim, todo aquele que acreditar na vinda de Cristo receba a remissão de
seus pecados e regozije-se com grande alegria, como se ele já tivesse vindo
a eles” (Mosias 3:13; grifo do autor). Depois, o rei Benjamim confirmou a
natureza atemporal da Expiação ao testificar que os homens serão
condenados a menos que “acreditem que a salvação veio e vem e virá no
sangue e pelo sangue expiatório de Cristo” (Mosias 3:18; grifo do autor).
Como isso é possível? Como Deus pode estender retroativamente as
bênçãos da Expiação antes de o preço ter sido pago? Isso não violaria os
princípios da justiça? E se o Salvador decidisse não prosseguir? E se não
fosse derramado nenhum sangue?
O princípio do crédito retroativo não deve parecer estranho para nós hoje
em dia. Na verdade, é algo utilizado todos os dias. Diariamente,
compramos mercadorias com nossos cartões de crédito e então pagamos
por elas depois de tê-las desfrutado. À medida que provamos ser dignos de
confiança e pontuais em nossos pagamentos, o valor de nosso crédito
aumenta. Uma vez provado que somos dignos desse crédito, as empresas
até solicitam nosso crédito com empenho. Elas sabem que há certas
pessoas que sempre pagarão suas contas.
Quanto mais no caso do Salvador. Ao longo de eras infinitas na esfera
prémortal, Ele Se provou fiel, digno de confiança e honrado em todos os
compromissos, todas as responsabilidades e todos os encargos. As
escrituras nos dizem que “de eternidade em eternidade ele é o mesmo”
(D&C 76:4).1 Ele nunca se desviou da linha, nunca foi negligente ao agir,
jamais faltou com a palavra. Ele sempre guarda cada mandamento com
exatidão, cumpre cada dever com precisão e “não retarda a sua promessa”
(II Pedro 3:9). Suas promessas são “imutáveis e inalteráveis” (ver D&C
104:2).
Como resultado disso, Seu crédito espiritual cresceu vertiginosamente
até se tornar ouro puro, sim, de valor infinito. É por isso que as leis da
justiça puderam reconhecer os benefícios da Expiação antes que o preço
fosse pago, porque Sua promessa, Seu compromisso, Seu crédito eram
“bons”, e todos os que honraram seu primeiro estado sabiam disso.
Nos conselho prémortal o Salvador fez convênio com o Pai de que
realizaria a Expiação. John Taylor escreveu: “Um convênio foi realizado
entre Ele e Seu Pai, no qual Ele concordou em expiar os pecados do
mundo”2 e assim Se tornou conhecido como o “Cordeiro que foi morto
desde a fundação do mundo” (Apocalipse 13:8; ver também Moisés 7:47).
O evangelho de Filipe, um dos livros da série Nag Hammadi, sugere de
modo semelhante: “Não foi somente ao surgir que ele voluntariamente
ofereceu a vida, mas ele o fez no próprio dia em que o mundo veio a
existir. Depois, ele veio para tomá-lo, já que havia sido dado como
penhor”.3 Com base nesse penhor ou convênio, tivemos fé Nele. Com base
nesse convênio, o Pai pôde prometer a remissão de pecados antes do
Sacrifício Expiatório porque Ele “sabia” que Seu Filho não falharia. A
questão não era que Ele não pudesse quebrar Seu convênio, mas sim, que
não o faria. De modo retórico, o Salvador nos relembra essa verdade:
“Quem sou eu, diz o Senhor, para prometer e não cumprir?” (D&C 58:31;
ver também Números 23:19). Salomão reconheceu a respeito do Senhor
que “nem uma só palavra caiu de todas as suas boas palavras que falou
pelo ministério de Moisés” (I Reis 8:56; ver também Deuteronômio 7:8).
Abraão foi outra testemunha: “Nada há que o Senhor teu Deus se proponha
a fazer que não faça” (Abraão 3:17). Não admira que Neemias tenha se
referido a Ele como o “Deus, que [guarda] a aliança” (Neemias 9:32).
Qualquer dúvida sobre a integridade subjacente das promessas do Senhor
foi respondida quando Ele declarou no passado: “Nunca invalidarei a
minha aliança convosco” (Juízes 2:1; grifo do autor).
Em Um Conto de Natal, Charles Dickens aborda a importância do
cumprimento de promessas, conforme é visto ao retratar o personagem
Scrooge. Após uma vida de parcimônia, o coração de Scrooge finalmente
se enternece por causa do espírito de Natal. Ele promete um aumento a
Bob Cratchit ; promete ajudar a família necessitada de Cratchit — na
verdade, ele promete começar a fazê-lo naquela mesma tarde. E depois,
lemos este magnífico tributo a Scrooge: “Ele fez mais do que manter a
palavra. Ele fez tudo isso, e infinitamente mais”.4 Nesse espírito, o
Salvador fez tudo. Ele cumpriu Sua palavra. Ele realizou uma Expiação
infinita.
Ponderem por um momento o sério compromisso que era um juramento
na época do Velho Testamento e do Livro de Mórmon. Agora elevem isso
ao nível de um convênio com Deus, que fica “obrigado” (D&C 82:10)
quando faz esse convênio e que “nunca se desvia do que disse” (Mosias
2:22). Referindo-se ao juramento e convênio do sacerdócio, o Senhor
declarou: “Todos os que recebem o sacerdócio recebem este juramento e
convênio de meu Pai, que ele não pode quebrar” (D&C 84:40; grifo do
autor).
Se um Deus “não pode quebrar” um convênio, então por que as leis da
justiça não poderiam reconhecer os efeitos de um convênio antes de ele ser
cumprido? B. H. Roberts acredita que foi isso que aconteceu: “Os efeitos
da Expiação foram reconhecidos pelos antigos santos antes da vinda de
Cristo à Terra e, portanto, antes de Ele ter de fato realizado a Expiação;
mas isso se deu porque a Expiação pelos pecados dos homens, a satisfação
da Justiça, foi pré-determinada [por meio de um convênio], e esse fato deu
validade à fé, ao arrependimento e à obediências às ordenanças do
evangelho por parte deles”.5
Pode ter sido um convênio assim que ajudou a dar alento ao Salvador no
Jardim, quando aparentemente todas as suas energias espirituais e físicas
tinham se exaurido, quando “nada restava” para combater o Maligno e o
pecado propriamente dito, a não ser o puro convênio de expiar. Quantos
desses convênios elevaram os homens a sublimes alturas, conferindo-lhes
mais forças e gerando reservas recém-descobertas de resistência, quando
tudo o mais parecia desabar a seu redor? Pode ser então que, de alguma
forma, esse convênio satisfez as leis da justiça para aqueles que viveram
antes da realização da Expiação, e além disso, ajudou a dar alento ao
Salvador em Sua hora de maior necessidade.
Espíritos PréMortais
Uma vez estabelecida a natureza retroativa da Expiação, a próxima
pergunta lógica é: “Até onde ela se estende?” Será que a Expiação recua
até a esfera prémortal de espíritos? Será que precisa fazê-lo? É evidente
que os espíritos prémortais possuíam o arbítrio moral, tendo a capacidade
de fazer escolhas. Joseph Fielding Smith deixou isso bem claro ao declarar:
“Deus deu a Seus filhos o arbítrio, ainda no mundo espiritual, pelo qual os
espíritos, individualmente, tinham o privilégio, exatamente como os
homens aqui, de escolher o bem e rejeitar o mal ou então participar do mal
e sofrer as consequências de seus pecados. Por causa disso, mesmo lá
alguns eram mais fiéis que outros no cumprimento dos mandamentos do
Senhor”.6
Em outra ocasião, ele disse algo semelhante: “Os espíritos dos homens
não eram iguais. Todos podem ter começado em pé de igualdade, e
sabemos que todos eram inocentes no princípio, mas o direito ao arbítrio
que lhes foi concedido permitiu que uns ultrapassassem outros e que,
assim, ao longo das eras da existência imortal, se tornaram mais
inteligentes, mais fiéis, pois tinham liberdade de agir por si mesmos, de
raciocinar por si mesmos, de aceitar a verdade ou rebelar-se contra ela”.7
Alma descreveu os espíritos prémortais dizendo que eram “livrespara
escolherem o bem ou o mal” (Alma 13:3), possuindo, portanto, o poder de
pecar. Os discípulos do Salvador acreditavam que uma pessoa tinha
capacidade de pecar na pré-mortalidade, como demonstra sua pergunta
feita ao Salvador: “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse
cego?” (João 9:2). Um terço dos espíritos prémortais cometerem um
pecado muito grave ao aliarem-se a Lúcifer, de modo que foram expulsos
da presença de Deus (D&C 29:36; Apocalipse 12:4). Pedro explicou que
“Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, (…) [lançou--os] no
inferno” (II Pedro 2:4). Aquela não foi uma transgressão inocente, mas
uma total rebelião contra Deus, liderada pelo Maligno, que “peca desde o
princípio” (I João 3:8). Aquele terço das hostes celestes escolheu Satanás
em lugar de Deus “por causa do arbítrio que possuíam” (D&C 29:36). Os
dois terços remanescentes não eram iguais em sua lealdade e obediência a
Deus. Em seu nascimento espiritual, eles estavam “na mesma posição que
seus irmãos” (Alma 13:5), mas por meio das leis do arbítrio, cada espírito
avançou em seu próprio ritmo, de modo que somente alguns se tornaram
“nobres e grandes” (Abraão 3:22).
Todos os espíritos prémortais começaram sua jornada espiritual
inocentes (ou seja, livres de pecados), mas todos esses espíritos perderam
sua inocência por meio de pecados individuais. Alguns pecados eram de
natureza tão grave que resultaram na expulsão do céu. Caim, que não foi
expulso, mesmo assim pecou gravemente na esfera prémortal, porque o
Senhor decretou: “Serás chamado Perdição; pois também existias antes do
mundo” (Moisés 5:24; grifo do autor). O Élder McConkie escreveu:
“Embora fosse rebelde e associado a Lúcifer na pré-existência, e embora
fosse mentiroso desde o princípio, cujo nome era Perdição, Caim
conseguiu alcançar o privilégio de nascer na mortalidade”.8
Conceitos tais como arbítrio, expulsão e preordenação, todos eles
presentes na vida prémortal, implicam a escolha e a oportunidade de
obedecer ou de pecar. Se não houve pecado depois que Satanás foi expulso,
então devemos assumir que os dois terços remanescentes viveram em um
estado de inocência ou eram perfeitos — nenhuma das quais é condizente
com as condições prémortais do arbítrio e da preordenação. Obviamente,
se vivemos num estado de inocência ou perfeição, não haveria distinção
entre os espíritos e, portanto, não haveria motivo para rotular apenas alguns
como “nobres e grandes” e outro como “Perdição”. Da mesma forma, não
haveria motivo para designar alguns, mas não todos, como “governantes”
ou “escolhidos” ou como “bons” (Abraão 3:22–23), se todos fossem
inocentes ou perfeitos. Tanto as escrituras quanto a lógica nos conduzem à
inevitável conclusão de que o pecado estava presente nos tempos
prémortais. Joseph Fielding Smith Jr. concluiu o mesmo: “O quadro está
completo. O homem podia pecar antes de seu nascimento na
mortalidade”.9
Alguns podem perguntar, porém: “Como esse conceito se reconcilia com
a escritura que diz que ‘nada que é impuro pode habitar com Deus’?” (1
Néfi 10:21; ver também 1 Néfi 15:33). Uma leitura dessa e de outras
escrituras relacionadas revelam que a palavra “habitar” usada nesse
contexto se refere a uma condição permanente ou eterna que existirá depois
que os homens forem levados “diante do tribunal de Deus” (1 Néfi 10:21;
ver também 3 Néfi 27:19; Mórmon 7:7; D&C 76:62). Habitar, nesse
sentido, é uma condição futura. Até que o julgamento ocorra parece não
haver proibição nas escrituras de que seres imperfeitos residam
temporariamente na presença de Deus. Na verdade, as escrituras deixam
claro que os pecadores de fato viveram temporariamente na presença de
Deus nos tempos prémortais, como mostra a rebelião de Satanás e a
subsequente guerra no céu. Sabemos que todos os homens, mesmo os
iníquos, vão retornar à presença de Deus para ser julgados e “verão sua
face” (2 Néfi 9:38). Até Paulo, quando ia perseguir os santos em Damasco,
esteve na presença do Senhor ressuscitado (Atos 9:3–6, 17). Além disso, o
Salvador glorificado “habitou” entre os justos, porém, ainda imperfeitos
nefitas, que testemunharam Sua vinda. A eles, Ele pregou: “[Arrependei-
vos] de vossos pecados” (3 Néfi 9:13; ver também 3 Néfi 11:23, 37).
Consequentemente, não parece incoerente com as escrituras o fato de que
Deus nos tempos prémortais tenha permitido que Seus filhos imperfeitos
residissem temporariamente em Sua presença enquanto Ele os ensinava,
nutria e preparava para o dia de sua provação na mortalidade. Ali eles
“receberam suas primeiras lições no mundo dos espíritos” (D&C 138:56).
Eliza R. Snow escreveu sobre aquela época em seu adorado hino, “Ó Meu
Pai”: Tua morada sempre fora De minha alma doce lar?
E na minha alegre infância
Pude a teu lado habitar?10
Se forem fiéis, esses filhos espirituais um dia retornarão ao pai de todos
nós, e então viveremos permanentemente (ou seja, habitaremos) com Ele
— “para todo o sempre” (D&C 76:112).
Supondo que pecamos na pré-mortalidade, como nossos pecados
prémortais poderiam ser “lavados” para que pudéssemos nascer inocentes?
Talvez a Expiação infinita do Salvador também abrangesse essa fase de
nossa jornada eterna e assim nos provesse a necessária purificação. Orson
Pratt acreditava nessa doutrina e a ensinava: “Não vemos nada impróprio
no fato de Jesus Se oferecer como sacrifício e oferta aceitáveis perante o
Pai para expiar os pecados de Seu irmãos, cometidos não apenas no
segundo, mas também no primeiro estado”.11 Robert J. Matthews cita
Orson Pratt e depois acrescenta: “Ele não está falando da doutrina da
Igreja, mas o que ele disse é claro, coerente e razoável, e acredito nisso”.12
Doutrina e Convênios parece confirmar essa crença: Todo espírito de
homem era inocente no princípio [referindo-se a nosso nascimento
espiritual]; e Deus, tendo redimido o homem da queda [referindo-se à
Expiação], os homens tornaram-se outra vez, em sua infância [referindo-se
ao nascimento na mortalidade], inocentes perante Deus” (D&C 93:38;
grifo do autor).
Começamos nossa existência espiritual num estado inocente, ou seja,
éramos puros e livres de pecados.13 Evidentemente, por meio da Expiação
de Jesus Cristo e Seus poderes redentores, da mesma forma nascemos
inocentes na mortalidade — sem a marca e a mancha de nossos pecados
prémortais. Embora seja prematuro chegar a uma conclusão definitiva
antes que mais revelações sejam recebidas, parece que a Expiação se
estende o suficiente para abranger todos os nossos pecados, incluindo, se
necessário, nossa vida prémortal. Desse modo, ela se aplica
retroativamente com efeito infinito.
As consequências da Expiação não são menos eficazes em termos
prospectivos. Os poderes redentores do Salvador se estendem para o futuro
de modo a abranger os espíritos dos que faleceram tanto quanto para o
passado até nossa vida prémortal.
Em 3 de outubro de 1918, o Presidente Joseph F. Smith sentou-se em sua
sala ponderando as escrituras e refletindo sobre o grande Sacrifício
Expiatório do Salvador. Ele ficou impressionado com o relato de Pedro a
respeito da visita do Salvador aos mortos (I Pedro 3:18–20; 4:6). Enquanto
meditava dessa maneira, os olhos de seu “entendimento foram abertos”
(D&C 138:11) e ele viu as hostes dos que haviam falecido de quem Pedro
falara. Ele notou que o Salvador organizou Seus exércitos de missionários
e os enviou para pregar o evangelho aos que ainda não haviam ouvido suas
gloriosas verdades. Usando uma linguagem que não deixa margem a
dúvidas, o Presidente Smith relatou que a redenção e seus efeitos foram
ensinados aos espíritos que partiram da Terra: “Ali [o Salvador]14 pregou-
lhes o evangelho eterno, a doutrina da ressurreição e a redenção do gênero
humano da queda e dos pecados individuais, desde que houvesse
arrependimento” (D&C 138:19). Depois, segue-se este pronunciamento
conclusivo do Presidente Smith: “Os mortos que se arrependerem serão
redimidos” (D&C 138:58). A Expiação foi e está sendo ensinada aos
mortos, e mais que isso, ela é eficaz para aqueles dentre eles que decidiremse arrepender.
É tarde Demais para a Redenção?
E quanto aos homens mortais e os espíritos que partiram da Terra tendo
ouvido plenamente o evangelho e o rejeitado definitivamente? Há um
momento na jornada do homem a partir do qual o poder purificador da
Expiação já não pode mais ser aplicado? Há uma hora em que é “tarde
demais”, um momento em que as bênçãos da redenção deixam de estar
disponíveis? Samuel, o lamanita, falou sobre esse momento ao pregar aos
nefitas iníquos: “Vossos dias de provação se passaram; procrastinastes o
dia de vossa salvação até que se tornou, para sempre, demasiado tarde; e
vossa destruição é certa” (Helamã 13:38).
Amuleque igualmente vislumbrou esse dia e ensinou a respeito dele. Ele
rogou a seu povo que “não [deixasse] o dia do arrependimento para o fim;
porque depois deste dia de vida que nos é dado a fim de nos prepararmos
para a eternidade, eis que, se não fizermos melhor uso de nosso tempo
nesta vida, virá a noite tenebrosa, durante a qual nenhum labor poderá ser
executado” (Alma 34:33; ver também 3 Néfi 27:33). Amuleque então
enfocou aquele momento crucial no tempo em que o princípio glorioso do
arrependimento já não estará mais disponível, quando o último raio de
esperança desaparecerá para os que não se arrependerem, o último facho de
luz se dissipará, e a noite descerá com todo o seu negrume. Amuleque
prosseguiu, dizendo: “Não podereis dizer, quando fordes levados a essa
terrível crise: Arrepender-me-ei para retornar a meu Deus. Não, não
podereis dizer isso; (. . .) Pois eis que, se deixastes o dia do arrependimento
para o dia da vossa morte, eis que vos tendes submetido ao espírito do
diabo e ele vos sela como seus; portanto o Espírito do Senhor se apartou de
vós e não tem lugar em vós; e o diabo tem sobre vós todo o poder e este é o
estado final dos iníquos” (Alma 34:34–35; grifo do autor).
Mórmon viu que “passado era o dia da graça (…) tanto física como
espiritualmente” para seu povo impenitente (Mórmon 2:15). Oseias
profetizou a respeito desse dia em que “o arrependimento [estará]
escondido [dos] olhos [de Deus]” (Oseias 13:14). O Senhor generosamente
concedeu um período de tempo no qual Seus poderes de cura são
oferecidos, mas por fim chegará uma hora em que o bálsamo espiritual já
não estará mais disponível. Emily Dickinson falou desse momento: O céu é
um médico?
Dizem que Ele pode curar;
Mas a medicina póstuma
Não está disponível.15
Naquele momento saberemos que “passada é a colheita, findo é o verão;
e a minha alma não está salva!” (D&C 56:16; ver também Jeremias 8:20;
D&C 45:2).
A Expiação realmente se aplica pela “infinita vastidão da eternidade”16
retroativamente e prospectivamente. Esse foi o claro pronunciamento do
Senhor, porque a salvação virá “não somente [para] os que creram após sua
vinda na carne, no meridiano dos tempos, mas [para] todos, desde o
princípio, sim, todos os que existiram antes de sua vinda” (D&C 20:26).
Os efeitos da Expiação de Cristo são eternos. O tempo para o
arrependimento não é. Para aqueles que se arrependerem, porém, o
processo de purificação é mais do que um alvejante temporário — é uma
cura permanente para os pecados de todos esses homens, em todas as eras,
em todos os estágios de sua existência. Além disso, a ressurreição dura por
tempos imemoriais. Consequentemente, a Expiação é infinita no tempo.
Paulo falou dessa atemporalidade quando ensinou que Cristo “[ofereceu]
para sempre um único sacrifício pelos pecados” (Hebreus 10:12; grifo do
autor). Esse também foi o testemunho do Salvador: “A minha salvação
durará para sempre” (Isaías 51:6, grifo do autor; ver também Isaías 51:8).
E assim é.
 
Notas
1. O Élder Bruce R. McConkie explicou que essa escritura significa que em todo
estado da existência do Salvador (inclusive, mas não limitada a Sua vida
prémortal) Ele “possuía e personificava todas as características e todos os atributos
divinos em sua plenitude e perfeição” (Promised Messiah, p. 197).
2. Taylor, Mediation and Atonement, p. 97.
3. “Gospel of Philip”, p. 132; grifo do autor. O Evangelho de Filipe é um dos livros
da biblioteca Nag Hammadi, conjunto de escritos cristãos que foram descobertos
em dezembro de 1945, nas proximidades da cidade egípcia de Nag Hammadi.
4. Charles Dickens, Um Conto de Natal, p. 151.
5. Roberts, Seventy’s Course in Theology, Fourth Year, p. 123, nota c.
6. Smith, Doutrinas de Salvação, comp. por Bruce R. McConkie, 3 vols., 1954–1956,
vol. I, p. 65).
7. Ibid., p. 59.
8. McConkie, Mormon Doctrine, pp. 108–109.
9. Smith, Religious Truths Defined, p. 94.
10. Snow, Ó Meu Pai, Hinos, nº 177.
11. Pratt, The Seer, volume 1 (nº 4), p. 54, grifo do autor.
12. Matthews, “The Price of Redemption”, p. 4.
13. Webster, An American Dictionary of the English Language, s.v. “Innocent”.
14. Nos versículos 29–32 dessa mesma seção, o Presidente Joseph F. Smith deixa
claro que o Salvador não pregou pessoalmente o evangelho aos “iníquos e
rebeldes”, mas Ele “organizou suas forças” em meio aos justos e os enviou a
pregar.
15. Dickinson, “Life LVI”, em Emily Dickinson, p. 42.
16. McConkie, Mormon Doctrine, p. 64.
 
Capítulo 12
 
Infinita na Abrangência
 
Homem, animais, plantas e a terra
Os seres mortais que vivem nesta Terra são os únicos beneficiários da
Expiação? E quanto aos outros mundos e às outras formas de vida? Quem
os salva da morte física e, se necessário, da morte espiritual?
A Expiação cobre não apenas a humanidade. O Élder Joseph Fielding
Smith abordou diretamente esse assunto: “É um conceito muito incoerente
que alguns têm de que a ressurreição virá apenas para as almas humanas,
que os animais e as plantas não têm espírito e, portanto, não são redimidos
pelo sacrifício do Filho de Deus, e consequentemente não têm direito à
ressurreição”.1 Joseph Smith ensinou: “Creio que João viu lá [no céu] seres
que tinham sido salvos de dez mil vezes dez mil planetas como o nosso —
bichos estranhos que nem conseguimos conceber: pode ser que todos
estejam presentes no céu. João aprendeu que Deus glorificou-Se salvando
tudo o que Suas mãos criaram, quer animais, aves, peixes ou homens”.2 O
Senhor prometeu que “todas as coisas velhas passarão e todas as coisas
tornar-se-ão novas (…) tanto homens como animais, as aves do céu e os
peixes do mar” (D&C 29:24). Mas como a Expiação se aplica a essas
outras formas de vida? Elas ressuscitarão e receberão um corpo imortal
para a eternidade? Elas também precisam vencer a morte espiritual? O
Élder McConkie abordou essa questão fazendo a seguinte pergunta, como
se fosse uma declaração de resposta: “Será doutrina do evangelho (…) que
essa morte física seja aplicada a todas as formas de vida, aos homens, aos
animais, aos peixes e às aves e às formas de vida vegetal; que Cristo veio
resgatar o homem e todas as formas de vida dos efeitos da morte física,
que foi trazida ao mundo por meio da Queda; e no caso do homem também
da morte espiritual; que esse resgate inclua a ressurreição para o homem e
para todas as formas de vida?”3
Jacó parece confirmar o fato de que a redenção da morte espiritual se
restringe ao homem, porque ele ensinou que Cristo “sofre as dores dos
homens, sim, as dores de toda criatura vivente, tanto homens como
mulheres e crianças, que pertencem à família de Adão” (2 Néfi 9:21; grifo
do autor).
E quanto à própria Terra? Ela precisa de redenção? Precisa, sim. Tal
como as plantas e os animais, ela precisa ser redimida da morte física. O
Presidente Brigham Young expressou estes sentimentos: “Cristo é o autor
deste Evangelho, desta Terra, dos homens e das mulheres, de toda a
posteridade de Adão e Eva, e de toda criatura viva que há na face na Terra,
que voa nos céus, que nada nas águas ou que habita no campo. Cristo é o
autor da salvação de toda essa criação, de todas as coisas pertencentes a
este globo terrestre que ocupamos. (. . .) Ele redimiu a Terra. Ele redimiu a
humanidade e todo ser vivo que se move sobre ela”.4
O Élder McConkie discute certas heresias concernentes à Queda, uma
das quais é a de que Adão foi o produtofinal do processo evolutivo. Em
resposta a isso, ele comentou: “Quando aqueles que seguem esse ponto de
vista falam de uma queda e de uma expiação, eles falsamente presumem
que ela se aplica somente ao homem e não à Terra e a todas as formas de
vida, como atestam as escrituras”.5 O Élder Talmage expressou
sentimentos semelhantes: “Aprendemos nas escrituras que a transgressão
de Adão trouxe uma condição decaída não apenas para a humanidade, mas
para a própria Terra. Nesse e em inúmeros outros eventos históricos (…) a
natureza parece estar intimamente relacionada ao homem”.6
Como, então, o Salvador redimiu a Terra? Ela vai morrer? As escrituras
declaram claramente isso. Isaías se referiu a uma época em que “a terra se
envelhecerá como roupa, e os seus moradores morrerão semelhantemente”
(Isaías 51:6; ver também 2 Néfi 8:6). A revelação moderna confirma essa
verdade, pois ao falar desta esfera terrestre, o Senhor comentou: “Será
santificada; sim, embora vá morrer, tornará a ser vivificada e suportará o
poder pelo qual será vivificada; e os justos herdá-la-ão” (D&C 88:26).
Joseph Fielding Smith igualmente falou a respeito da morte da Terra e sua
subsequente vivificação ou ressurreição, que somente se tornou possível
graças à Expiação: “A Terra, como corpo vivo, terá de morrer e ser
ressuscitada, pois ela também foi redimida pelo sangue de Jesus Cristo”.7
Evidentemente, a ressurreição da Terra ocorrerá quando ela morrer e for
renovada e restaurada à sua glória paradisíaca. Será necessária alguma
outra redenção da Terra além de sua “ressurreição”? A queda de Adão não
apenas trouxe a morte física para o homem e a Terra, mas também trouxe a
morte espiritual para o homem na forma de uma queda da presença de
Deus, conhecida como a primeira morte espiritual. Será que a Terra
igualmente sofreu uma queda da presença de Deus? O Profeta Joseph
ensinou: “Esta Terra será conduzida de volta à presença de Deus e coroada
com glória celestial”.8 De que modo a Terra poderia ser “conduzida de
volta à presença de Deus” a menos que estivesse geograficamente
localizada ali a princípio? Lorenzo Snow, sem dúvida, aprendeu essa
verdade com o Profeta Joseph, pois se expressou em termos semelhantes a
respeito da Queda e do retorno da Terra: “A Terra será conduzida de volta
em pureza pristina, para sua órbita original, e os seus habitantes nela
habitarão em perfeita paz e retidão”.9
John Taylor ensinou que a Terra “foi organizada a princípio perto do
planeta Colobe”.10 Isso nos dá uma ideia do quanto a Terra estava próxima
de Deus na época de sua criação, uma vez que Colobe é o planeta mais
próximo de Deus (Abraão 3:3, 16; facsímile Nº 2, Figura 1).
Brigham Young ensinou que a Terra “foi banida de seu mais glorioso
estado ou órbita de revolução por causa do homem”.11 Em outro lugar, ele
ensinou: “Quando o homem caiu, a Terra caiu no espaço e estabeleceu sua
morada neste sistema planetário. (. . .) Essa é a glória de onde a Terra veio,
e quando estiver glorificada, ela retornará à presença do Pai”.12 Este era o
sentimento do Élder Bruce R. McConkie: “Quando Adão caiu, a Terra
também caiu e se tornou uma esfera mortal”.13
A transgressão de Adão não apenas resultou na morte do homem e na
queda da presença de Deus, mas também a morte da Terra e sua queda da
presença de Deus. As consequências que afetaram a Terra após a Queda
espelharam as consequências que sobrevieram ao homem. Na realidade, é
surpreendente reconhecer as extraordinárias semelhanças entre a Terra e o
homem. Ambos estão sujeitos à morte, ambos serão ressuscitados, ambos
caíram da presença de Deus, ambos precisam nascer da água para ser
purificados (ou seja, a Terra foi batizada na época de Noé), ambos
precisam ser purificados pelo fogo (ou seja, a Terra será batizada com fogo
na Segunda Vinda e também logo antes de seu julgamento final) e ambos
anseiam pelo dia de sua celestialização e retorno à presença de Deus. Por
meio dos poderes da Expiação, a Terra será “ressuscitada” e restaurada à
presença física do Senhor. Cada uma das consequências negativas da
Queda, quer afetem o homem ou este globo terrestre, serão corrigidas pela
Expiação. Podemos vislumbrar a abrangência dos poderes da Expiação,
mesmo para a Terra, quando refletimos a respeito do doloroso clamor
vindo das profundezas das entranhas da Terra: “Quando descansarei e serei
purificada da imundície que saiu de mim? Quando me santificará o meu
Criador, para que eu descanse e a justiça permaneça sobre minha face por
algum tempo?” (Moisés 7:48).
Animais, peixes, aves, árvores e até a própria Terra são herdeiros do
plano de redenção. Tão abrangentes e gloriosos são os poderes da Expiação
que toda forma de vida vai “[louvar] o nome do Senhor” (Salmos 148:13;
ver também Apocalipse 5:7–9, 13) e “[proclamar] seu nome para todo o
sempre” (D&C 128:23; ver também D&C 77:2–3).
A Expiação é universal e não seletiva em sua abrangência. Todas as
formas de vida são libertadas da morte física. Além disso, o resgate do
homem inclui um meio de escapar de todas as formas de morte espiritual.
Basta dizer que a Expiação estende plenamente seus poderes redentores a
toda a Terra e a todas as suas formas de vida, na medida do necessário para
salvá-las da morte física, e se necessário, da morte espiritual.
O Redentor do Universo
Será que a Expiação do Salvador se estende para além deste mundo? O
Élder McConkie ensinou: “A jurisdição e o poder de nosso Senhor se
estendem até bem além dos limites desta pequena Terra em que habitamos.
Ele é, sob o Pai, o Criador de incontáveis mundos. (Moisés 1:33). E, por
meio do poder de Sua Expiação, os habitantes desses mundos, conforme
declara a revelação, são ‘filhos e filhas gerados para Deus’ (D&C 76:24), o
que significa que a Expiação de Cristo, sendo literal e verdadeiramente
infinita, aplica-se a um infinito número de Terras”.14
Esse conceito realmente amplia nossa visão das coisas! Moisés postulou
que mesmo que pudéssemos enumerar milhões de Terras, “não seria sequer
o princípio do número de tuas [de Deus] criações; e tuas cortinas ainda
estão estiradas” (Moisés 7:30). O Élder Marion G. Romney, que escreveu
um artigo sobre Cristo como criador de mundos sem fim, declarou: “Jesus
Cristo, no sentido de ser seu Criador e Redentor, é o Senhor de todo o
universo. Com exceção de Seu ministério mortal realizado nesta Terra, Seu
serviço e relacionamento com outros mundos e seus habitantes são os
mesmos que com a Terra e seus habitantes”.15 O Élder Romney discutiu o
papel do Salvador na existência prémortal como o Redentor escolhido, e
acrescentou: “Em resumo, Jesus Cristo, por meio de quem Deus criou o
universo, foi escolhido [como o Redentor nos conselhos pré-terrenos] para
colocar 90
em funcionamento em todo o universo o grande plano de Eloim de ‘levar a
efeito a imortalidade e a vida eterna do homem’.”16 Ele concluiu com seu
testemunho da universalidade do Salvador como aquele que realizaria a
Expiação: “Todos os que têm um verdadeiro conceito de Jesus Cristo e que
receberam pelo espírito um testemunho de Sua divindade ficam tocados
com os registros de sua vida. Eles veem em tudo o que Ele disse e fez uma
confirmação de Sua condição de Senhor universal, tanto como Criador
quanto como Redentor”.17
Evidentemente, o Profeta Joseph ensinou essa doutrina em um poema
cuja autoria foi atribuída a ele, no qual ele expressa em versos um trecho
de Doutrina e Convênios 76:
Ouvi uma grande voz, e do alto foi testificado:
Ele é o Salvador e o Unigênito de Deus — Por Ele, Dele e por
meio Dele foram os mundos criados, Bem como tudo o que
cruza a vastidão dos céus.
Cujos habitantes, do primeiro ao último,
Por nosso mesmo Salvador também salvos hão de ser;
Sendo, sem dúvida, filhos e filhas gerados por Deus,
Pelas mesmas verdades e por esse mesmo poder.18
O cabeçalho de Doutrina e Convênios 76 resume os versículos 18–24
desta maneira: “Os habitantes de muitos mundos são filhos e filhas gerados
para Deus por meio da expiação de Jesus Cristo” (grifo do autor). Lorenzo
Snow se refere a essadoutrina ao falar sobre a confiança que o Pai tinha
em Seu Filho. Ele observa: “Milhares de anos antes que [o Salvador] viesse
à Terra, o Pai observara Seu procedimento e sabia que podia contar com
Ele na questão da salvação de mundos; e Ele não teve do que Se
arrepender”.19
Em outras palavras, o Salvador é redentor de muitos planetas. Isso
parece condizente com o fato de que Ele também criou muitos planetas,
conforme é ensinado por intermédio de Moisés: “E mundos incontáveis
criei; (…) e criei-os por meio do Filho, o qual é meu Unigênito” (Moisés
1:33). Paulo ensinou o mesmo: “Deus (…) falou-nos nestes últimos dias
pelo Filho (…) por quem fez também [mundos]” (Hebreus 1:1–2; grifo do
autor). Uma vez que o Filho “fez mundos”, uma interpretação adequada de
Doutrina e Convênios 76:42 — “para que, por intermédio dele, fossem
salvos todos os que o Pai havia posto em seu poder e feito por meio dele”
(grifo do autor) — sugere que o Salvador salvou todas as pessoas de todos
os mundos “feitos por meio dele”. O versículo seguinte parece substanciar
ainda mais esse ponto: “Ele [o Salvador] que glorifica o Pai e salva todas
as obras de suas mãos” (D&C 76:43). O Élder Russell M. Nelson
confirmou esses pensamentos: “A misericórdia da Expiação estende-se não
apenas a um número infinito de pessoas, mas também a um número infinito
de mundos criados por Ele”.20
Hugh Nibley cita o Evangelho da Verdade, que diz: “Todos os outros
mundos olham para Deus como a um sol que têm em comum”; e depois
acrescenta sua própria observação: “A crucificação é eficaz em outros
mundos além deste”.21 O irmão Nibley cita outros escritores antigos que
tiveram a visão do papel universal de governante que exerce o Salvador.
Falando de outros mundos, a Décima Segunda Ode de Salomão escreve:
“Eles conheciam Aquele que os fez por estarem de acordo uns com os
outros. Eles tinham um governante em comum, um mesmo senhor, por isso
estavam de acordo uns com os outros, e se comunicavam com Ele e por
meio Dele uns com os outros, porque a boca do Altíssimo lhes falara”.22
Outro escrito da igreja primitiva (1 Clemente) relata: “Deus é o Pai de
todos os mundos. (. . .) Assim como o Pai da grandeza está no mundo
glorioso, por isso seu Filho governa em meio a esses cosmos como o
primeiro senhor supremo de todas as potestades”.23 Por fim, Robert J.
Matthews expressa isso da maneira mais simples possível:
“Frequentemente surge a dúvida: Jesus é o Salvador de outros mundos? A
resposta é Sim”.24
Doutrina e Convênios 88 fala da “Terra e todos os planetas” (D&C
88:43). E depois se refere a essas criações coletivamente como “reinos”
(D&C 88:46). Esses reinos são comparados a um homem que tem um
campo e envia seus servos para cavar e preparar o solo. O senhor do campo
visita cada reino (i.e., planeta) em seu devido tempo, um na primeira hora,
outro na segunda hora e finalmente o último na décima segunda hora, para
que cada um veja a alegria de seu semblante. Uma parte da parábola é
assim: “E assim todos eles receberam a luz do semblante de seu senhor,
cada homem em sua hora e em seu tempo e em sua estação — começando
pelo primeiro e assim por diante, até o último (…), cada homem em sua
própria ordem, (…) para que seu senhor fosse nele glorificado e ele em seu
senhor, a fim de que todos fossem glorificados. Portanto a esta parábola
compararei todos estes reinos [i.e. planetas] e seus habitantes” (D&C
88:58–61; grifo do autor).
Quem é esse Senhor que visita esses planetas e seus habitantes, para que
eles sejam glorificados? Orson Pratt nos dá a resposta. Ele fala do reino
milenar do Salvador e dos puros de coração que ficarão felizes em ver Seu
semblante por mil anos. Depois, diz Orson Pratt: “Ele Se retira. Para quê?
Para cumprir outros propósitos, porque tem outros mundos ou criações e
outros filhos e filhas, talvez tão bons quanto os que habitam neste planeta,
e eles, tal como nós, serão visitados, e ficarão felizes com o semblante de
seu Senhor. Assim, Ele irá, em Seu tempo e em Sua estação, de reino em
reino, ou de mundo em mundo, fazendo com que os puros de coração, a
Sião que é tirada dessas criações, regozijem-se em Sua presença”.25
Por que esses outros habitantes devem ser glorificados na presença de
nosso Salvador (D&C 88:60)? Porque Ele também é o Salvador deles.
Como Cristo também os criou, Ele os amou e os redimiu. Ele é o Salvador
de todas as obras de Suas mãos. Ele não apenas é o Criador, mas também o
Redentor e Senhor de todo o universo.
Por Que Esta terra Como planeta Redentor?
Se a Expiação teve essas consequências infinitas em meio a infinitos
mundos, poderíamos perguntar por que esta Terra foi selecionada dentre
todas as demais, “sim, de milhões de terras como esta” (Moisés 7:30)? Por
que esta Terra como campo de provas — o planeta redentor? Seguem-se
três possibilidades.
A primeira possibilidade é a de que Cristo pode ter vindo a esta Terra
para contrabalançar a grande iniquidade que nela há. Depois que Enoque
edificou sua “Cidade de Santidade” e alguns homens mortais conheceram a
perfeita paz e felicidade, Enoque teve uma visão da época em que a Terra
seria inundada com extrema iniquidade. O Senhor observou tragicamente:
“Posso estender minhas mãos e segurar todas as criações minhas; e meus
olhos podem trespassá-las também e entre todas as obras de minhas mãos,
jamais houve tanta maldade como entre teus irmãos” (Moisés 7:36; grifo
do autor).
Evidentemente esta Terra conheceu grandes profundezas de iniquidade
que não poderiam ser encontradas em nenhuma outra das criações de Deus.
Que comentário trágico! Milhões, bilhões de mundos, mais ainda do que o
homem pode enumerar, e este mundo se destaca preeminentemente por sua
iniquidade. Como o Élder Joseph Fielding Smith testificou: “Sua presença
era necessária aqui por causa da extrema iniquidade dos habitantes desta
Terra”.26 Esperamos que o oposto também seja verdade, que essas
profundezas de iniquidades sejam contrapostas por alturas incomparáveis
de retidão. Pode ser que a vida mortal do Salvador, e portanto Sua
Expiação, tenha sido reservada para esta Terra como uma influência
niveladora, uma medida necessária para contrabalançar sua imensa
iniquidade.
Um segundo motivo possível para que Cristo tenha vindo a nosso mundo
talvez seja o fato de que nenhum outro mundo seria iníquo o suficiente
para crucificar seu Deus. Enoque nos relembra que o Salvador viria “no
meridiano dos tempos, nos dias de iniquidade e vingança” (Moisés 7:46).
Tão degenerada estaria a condição espiritual do povo daquela época que
Néfi comentou que “nenhuma outra nação na Terra crucificaria seu Deus”
(2 Néfi 10:3). Que coisa aparentemente inimaginável! Quando
consideramos as miríades de nações que ocupavam esta Terra, as guerras e
os crimes e a imoralidade promovidas por seus líderes, a disseminada
decadência em meio a países civilizados e não civilizados, perguntamo-nos
como pode ser que apenas uma nação crucificaria seu Deus. Mas as
escrituras declaram que assim foi. Como somente uma nação desta Terra
crucificaria seu Deus, e como este mundo tem mais iniquidade do que
qualquer outro (Moisés 7:36), então onde, em meio às infinitas criações de
Deus, Ele encontraria outra nação que crucificaria seu Salvador? O Élder
Joseph Fielding Smith cogitou esta proposição: “Talvez esse seja o motivo
pelo qual Jesus Cristo foi enviado para cá em vez de para algum outro
mundo, porque em algum outro mundo eles não o teriam crucificado”.27
Existe ao menos uma terceira possibilidade para Cristo ter vindo
especificamente para esta Terra. Talvez aqui Ele encontraria uma mescla
abrangente de Seus filhos, dos melhores aos piores — representando
aqueles que testemunhariam Sua Expiação.
Tão iníqua estava a Terra nos dias do ministério de Cristo que o
Presidente Joseph F. Smith observou: “Não obstante suas grandes obras e
milagres e a proclamação da verdade com grande poder e autoridade,
foram poucos os que deram ouvidos a sua voz” (D&C 138:26). Essa
rejeição foi tão disseminada que o Senhor disse: “Vim aos meus e os meus
nãome receberam” (3 Néfi 9:16). Felizmente, em meio a essa disseminada
iniquidade era possível encontrar pessoas de suprema retidão. Pedro, Tiago
e João estavam entre os melhores que esta Terra já conheceu. Eles eram
gigantes espirituais em uma nação de bebês espirituais. A lei dos opostos
estava em pleno vigor e validade: o bem e o mal estavam ali em seus
extremos. A observação de Charles Dickens a respeito da época que
precedeu a Revolução Francesa parece adequar-se à época do ministério de
Cristo na mortalidade: “Era a melhor das épocas, a pior das épocas”28; e a
isso pode ser acrescentado: eram os melhores dentre os homens, os piores
dentre os homens. Noah Webster falou a respeito dessa diversidade
cultural: “A história dos judeus apresenta o verdadeiro caráter do homem
em todas as suas formas. Todos os traços do caráter humano, bons e maus;
todas as paixões do coração humano, todos os princípios que guiam e
desviam os homens na sociedade são retratados naquela breve história,
com uma simplicidade natural que não tem paralelo nos escritos
modernos”.29
Esse clima de contrastes parece ter sido preparado para a chegada do
Salvador. Haveria zombaria, escárnio, descrença e, por fim, a crucificação.
Por um lado, haveria devoção, fé, compreensão e gratidão inabaláveis entre
uns poucos humildes. A nação de Israel vivenciava simultaneamente as
profundezas da iniquidade e as alturas da retidão. A Expiação do Salvador
seria mal compreendida, porém compreendida, negligenciada, porém
valorizada pelos extremos dessa divergência espiritual. As consequências
opostas do arbítrio moral estavam em plena floração. Haveria alguns que O
trairiam, outros que pagariam “muito dinheiro” (Mateus 28:12) para
silenciar os lábios daqueles que sabiam. Haveria apáticos, alguns que quase
foram persuadidos a ser cristãos, e outros que estavam no limiar da
perfeição, mas não conseguiam consagrar tudo o que tinham. Em meio a
esse pano de fundo de multidões que falharam, havia uns poucos que nada
retiveram, nem mesmo a vida — que com destemor, ousadia e fervor
prestaram testemunho da divina missão Dele.
Talvez tenham sido essas condições opostas de suprema bondade e
maldade irrestrita que tornaram esta Terra “madura” para a jornada mortal
de Cristo. Os habitantes da Terra exibiam toda a gama de níveis de
espiritualidade. Essa foi a mescla da humanidade que o Senhor encontrou.
Este era um planeta em que a Expiação poderia ser simultaneamente
testemunhada, depois rejeitada ou aceita por uma amostra abrangente da
raça universal e, portanto, talvez por esse motivo, ele se tornou o campo de
provas escolhido.
Seja qual for o motivo, Deus sem dúvida tinha um propósito ao
selecionar esta Terra dentre as Suas infinitas criações. Leí falou a verdade
ao declarar: “Todas as coisas foram feitas segundo a sabedoria daquele que
tudo conhece” (2 Néfi 2:24).
 
Notas
1. Smith, Answers to Gospel Questions, volume 5, p. 7.
2. Smith, Words of Joseph Smith, p. 185.
3. McConkie, “Seven Deadly Heresies”, pp. 7–8; grifo do autor.
4. Journal of Discourses, volume 3, pp. 80–81.
5. McConkie, New Witness, p. 99.
6. Talmage, Essential James E. Talmage, p. 211.
7. Smith, Doutrinas de Salvação, comp. por Bruce R. McConkie, 3 vols., 1954–1956,
vol. I, p. 81). Em outra ocasião ele escreveu: “Por meio de Sua morte, por meio de
Seu ministério, pelo derramamento de Seu sangue, Ele levou a efeito a redenção
da morte para todos os homens, para todas as criaturas — não apenas para o
homem, mas para toda coisa viva, e até para a própria Terra, sobre a qual
estamos, pois fomos informados por meio de revelação de que ela também
receberá a ressurreição” (Smith, Doutrinas de Salvação, vol. I, p. 150).
8. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, pp. 176–177.
9. Snow, Biography and Family Record of Lorenzo Snow, p. 333.
10. Taylor, The Mormon, 29 de agosto de 1857.
11. Smith, Words of Joseph Smith, p. 84, nota 12.
12. Journal of Discourses, volume 17, p. 143; ver também Journal of Discourses,
volume 9, p. 317.
13. McConkie, Mormon Doctrine, p. 211; ver também Times and Seasons 3: (1º de
fevereiro de 1842) p. 672.
14. McConkie, Mormon Doctrine, p. 65; grifo do autor.
15. Romney, “Jesus Christ, Lord of the Universe”, p. 46; grifo do autor.
16. Ibid., p. 48.
17. Ibid., p. 48.
18. Holzapfel, “Eternity Sketch’d in a Vision”, p. 145. Embora se acredite que Joseph
Smith escreveu ou ao menos aprovou este poema, ver ibid., pp. 141–143, para
uma discussão mais profunda sobre a autoria do poema.
19. Snow, Teachings of Lorenzo Snow, p. 93; grifo do autor.
20. Nelson, “A Expiação”, A Liahona, janeiro de 1997, p. 35.
21. Nibley, Old Testament and Related Studies, p. 142.
22. Ibid., 142; grifo do autor.
23. Ibid., p. 143.
24. Matthews, A Bible!, p. 210.
25. Journal of Discourses, vol. 17, p. 332.
26. Smith, Signs of the Times, p. 10.
27. Ibid., p. 10.
28. Dickens, Um Conto de Duas Cidades, p. 35.
29. Bennett, Our Sacred Honor, p. 397.
 
Capítulo 13
Infinita em Profundidade
Ele Desceu abaixo de todas as Coisas
Se a Expiação cobre todas as criações de Deus e todas as Suas formas de
vida, a pergunta seguinte é: “Será que a Expiação cobre todos os nossos
pecados e dores, ou há alguns que pecaram e sofreram além da graça
redentora de Cristo?” Em Um Conto de Inverno, Shakespeare escreve a
respeito de Leontes, um homem que parece estar além da possibilidade de
redenção. Ele estava consumido em ciúmes. Aprisionou injustamente sua
esposa, rejeitou o oráculo de Delfos e, por fim, exilou sua filha recém
nascida. Em uma aparente reação em cadeia, uma série de eventos
catastróficos se desenrolou em resposta a suas ações impróprias. Incapaz
de suportar mais, Paulina, a esposa de um dos soberanos de Leontes,
censurou-o da seguinte maneira: Não te arrependas destas coisas, pois são por
demais pesadas
Para que com tuas dores consigas demovê-las.
Portanto entrega-te
Somente ao desespero. Mil joelhos,
Dez mil anos seguidos, inteiramente nu, jejuando,
Numa montanha desolada, num inverno gelado,
Em tempestade perpétua, não poderiam fazer com que os deuses
Olhassem para o lugar em que estiveres.1
Essa foi uma previsão sombria, mas felizmente Paulina subestimou a
misericórdia de Deus para os que verdadeiramente se arrependem. O
Salvador desceu abaixo de todos os pecados, todas as transgressões, todas
as enfermidades e todas as tentações conhecidas pela humanidade. Ele
conhecia a soma total da aflição humana, não apenas por tê-la
testemunhado, mas por tê-la tomado sobre Si. Em certa ocasião, o Senhor
falou a Joseph Smith a respeito das provações pelas quais ele passava,
dizendo: “E se fores lançado na cova ou nas mãos de assassinos e receberes
sentença de morte; se fores lançado no abismo; se vagas encapeladas
conspirarem contra ti; se ventos furiosos se tornarem teus inimigos; se os
céus se cobrirem de escuridão e todos os elementos se unirem para obstruir
o caminho; e, acima de tudo, se as próprias mandíbulas do inferno
escancararem a boca para tragar-te, sabe, meu filho, que todas essas coisas
te servirão de experiência e serão para o teu bem” (D&C 122:7).
A escritura então acrescenta este pensamento pungente: “O Filho do
Homem desceu abaixo de todas elas. És tu maior do que ele?” (D&C
122:8). Em outras palavras, o Senhor estava dizendo: “Joseph, não importa
o que o mundo o faça sofrer; não importa o que você tenha que suportar,
não importa quais tentações você venha a enfrentar — passei por tudo isso,
e ainda mais”.
Quando o Salvador entrou na mortalidade, não foi uma experiência
superficial. Foi total imersão. Ele não apenas sentiu algumas dores, e
outras, não. Sua vida não foi uma amostra aleatória, uma auditoria pontual,
mas sim, foi um confronto total e a incorporação de todas as experiências,
aflições e provações humanas. De alguma forma, Ele conseguiu absorver
toda a infinidade de aflições, fraquezas e sofrimentos da humanidade. Ao
descer entre nós, Ele Se expôs completamente. Não haveria poderes
divinos exercidos que O protegeriam das dores da humanidade. Paulo sabiadisso: “Porque, na verdade, ele [o Salvador] não tomou os anjos, mas
tomou a descendência de Abraão. Por isso convinha que em tudo fosse
semelhante aos irmãos” (Hebreus 2:16–17).
Na Expiação, Cristo desceu para o aparente “poço sem fundo” da agonia
humana. Ele tomou sobre Si os pecados do mais miserável de todos os
pecadores. Ele desceu abaixo das mais cruéis torturas inventadas pelos
homens. Sua jornada para baixo abrangeu as transgressões daqueles que
pecaram em ignorância, incorporou aquele quinhão de sofrimento não
relacionado aos erros espirituais, mas não obstante extremamente
dolorosos: a agonia da solidão, a dor da incapacidade, o sofrimento das
enfermidades e doenças. No transcorrer de Sua divina jornada, Ele foi
submetido a todas as tentações infligidas à raça humana.
Depois de nossas fúteis tentativas de explicar a assombrosa
profundidade dessa “terrível jornada”, voltamos novamente às simples,
porém expressivas palavras das escrituras: Ele “desceu abaixo de todas as
coisas” (D&C 88:6). Não há como equivocar-nos, recuar ou nos desculpar
— a Expiação é infinita em sua profundidade.
Se a totalidade do sofrimento e da ansiedade humana pudesse ser
classificada, ela poderia ser dividida da seguinte maneira: primeiro,
sofrimento causado pelo pecado; segundo, sofrimento decorrente de
transgressões inocentes da lei; terceiro, sofrimento relacionado a
enfermidades, fraquezas, incapacidade ou provações que nada têm a ver
com pecados ou transgressões; quarto, sofrimento ocasional em nosso
confronto com as tentações do mundo; e quinto, sofrimento ou ansiedade
exigidos pelo exercício da fé. As escrituras estão repletas de evidências de
que o Salvador não Se isentou de quaisquer desses sofrimentos, mas, sim,
encarou cada um deles.
Sofrimento Causado pelo pecado
Pedro explicou que o Salvador “padeceu uma vez pelos pecados, o justo
pelos injustos, para levar-nos a Deus” (I Pedro 3:18). Esse sofrimento não
se limitou a uns poucos pecadores rebeldes. O próprio Salvador declarou
que “[sofreu] essas coisas por todos“ (D&C 19:16; grifo do autor; ver
também D&C 18:11). João Batista, ao anunciar o Salvador, apresentou-O
como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29).
Quando o Salvador visitou os nefitas, Ele falou da taça amarga que bebeu
100
ao “[tomar] sobre [Si] os pecados do mundo” (3 Néfi 11:11). Não havia
como beber apenas parte da taça, não havia discriminação seletiva ao
absorver certos pecados e não outros. Ele tomaria sobre Si, como disseram
as escrituras, “[os pecados] de todo o mundo” (I João 2:2). Nada seria
deixado de lado. Essa foi a doutrina ensinada por revelação por Joseph
Smith, de que Jesus foi “crucificado pelo mundo e para tomar sobre si os
pecados do mundo e para santificar o mundo e purificá-lo de toda
iniquidade” (D&C 76:41; grifo do autor).
O sofrimento do Salvador incluiria aqueles que eram “os mais vis
pecadores” (Mosias 28:4), aquele que era conhecido como “um homem
muito iníquo e idólatra” (Mosias 27:8), aquele que era “blasfemo, e
perseguidor” (I Timóteo 1:13), aqueles que “se haviam extraviado” e
“praticavam toda sorte de iniquidades” (Alma 13:17), os que foram
resgatados de seu “estado terrível, pecador e corrompido” (Alma 26:17),
aqueles que estavam “no mais tenebroso abismo” (Alma 26:3) e aqueles
que reconheciam ser “os mais perdidos de todos os homens” (Alma 24:11).
Incluiria até o sofrimento daqueles que decidem não se arrepender. Em
outras palavras, o Salvador sofreu não apenas pelos que Ele sabia que se
arrependeriam, mas até por aqueles que decidiriam jamais aceitar a oferta
de Seu sacrifício. Brigham Young deixou isso claro: “Ele [o Salvador]
pagou a dívida completa, quer recebamos a dádiva ou não”.2 Ele seria
“contado”, como disse Isaías, “com os transgressores” (Isaías 53:12).
Haverá limite para os poderes aparentemente infinitos da Expiação? Há
alguma profundeza na qual nem o Salvador mergulhou? As escrituras dão a
resposta: “[O Salvador] desceu abaixo de todas as coisas” (D&C 88:6). De
fato, Ele “sofreu a dor de todos os homens, para que todos os homens se
arrependessem e viessem a ele” (D&C 18:11; grifo do autor).
Mas e quanto ao pecado imperdoável? O Profeta Joseph falou da
situação terrível daqueles que cometeram esse pecado: “Depois que um
homem pecou contra o Espírito Santo, não há arrependimento para ele. (. .
.) Ele tem de negar Jesus Cristo quando os céus forem abertos para ele, e
negar o plano de salvação com os seus olhos abertos para a veracidade
dele”.3
Em essência, essas pessoas “de novo crucificam o Filho de Deus, e o
expõem ao vitupério” (Hebreus 6:6; ver também D&C 76:35; 132:27). Para
essas pessoas, conhecidas como filhos de perdição, há uma ressurreição e
um retorno à presença de Deus para serem julgados, mas não há
escapatória da segunda morte espiritual. Isso não acontece porque a
Expiação careça em qualquer grau de sua natureza infinita, mas porque
essas almas rejeitaram o dom do arrependimento que lhes foi oferecido.
Isso me faz lembrar de um amigo de Galileu que se recusou a olhar pelo
seu telescópio “porque realmente não queria ver o que havia tão
firmemente negado”.4 Da mesma forma, esses filhos de perdição rejeitaram
o instrumento (ou seja, a Expiação) que proporciona o poder purificador
para redimir sua vida. As escrituras falam do triste estado daqueles que não
se arrependerem: “Pois de que vale a um homem ser-lhe conferida uma
dádiva e não a receber? Eis que ele não se regozija no que lhe foi dado nem
se regozija naquele que faz a doação” (D&C 88:33).
O pecado imperdoável é uma rejeição consciente, calculada e
irreversível do Salvador e de Seu Sacrifício Expiatório. Alegar então que a
Expiação não é infinita seria como dizer que o filho que rejeitou o legado
do pai teve sua herança roubada. Basta dizer que a rejeição de uma dádiva
não refuta sua existência. Os filhos de perdição decidiram deserdar-se
espiritualmente, tornando-se órfãos espirituais. O Senhor falou a Alma
sobre aqueles que “não quiseram ser redimidos” (Mosias 26:26; ver
também D&C 88:33). Como alguém poderia alegar que a Expiação não é
infinita quando o único motivo para ela não ser aplicada nesta vida é a
rejeição da dádiva? Sob essas circunstâncias, não podemos reivindicar
misericórdia. Foi exatamente a esse respeito que Mórmon advertiu: “O que
fizer isso se tornará como o filho de perdição, para o qual não houve
misericórdia, segundo a palavra de Cristo” (3 Néfi 29:7).
As escrituras declaram que o Salvador “salva todas as obras de suas mãos,
exceto os filhos de perdição, que negam o Filho depois que o Pai o revelou.
Portanto ele salva todos exceto esses” (D&C 76:43–44; grifo do autor). Em
outras palavras, o Salvador salva todos das trevas exteriores exceto os
filhos de perdição, porque “amam as trevas mais que a luz” (D&C 10:21;
ver também D&C 29:44). Há um único motivo apenas pelo qual Ele não
pode salvá-los — porque eles decidiram rejeitar a Ele e a Seus poderes de
salvação. Tragicamente, tal como Caim, eles “[amaram] Satanás mais que
a Deus” (Moisés 5:18). Tornaram-se sujeitos à condenação mencionada
pelo Presidente Joseph F. Smith: “Se um homem rejeita Cristo, o Filho de
Deus, como o rei de Israel, deixem que o faça, e que vá para o inferno tão
rapidamente quanto desejar”.5
A Expiação salva todos nós no sentido de que todos seremos
ressuscitados e retornaremos à presença de Deus para sermos julgados, sem
qualquer esforço de nossa parte. Ela não pode, porém, exaltar-nos a menos
que nos arrependamos. Se uma pessoa não alcançar a exaltação, o
problema não é a natureza infinita da Expiação, mas, sim, o espírito
impenitente da própria pessoa. Ela pode ter a exaltação se simplesmente
desejar arrepender-se. Todos nós temos a chave que abre as portas dos
poderes purificadores da Expiação, mas precisamos girá-la. Em termos
simples, a Expiação pode abrir as portas para a divindade, se apenas
tivermos o desejo de girar a chave.
Assim como a verdadeira onipotência é a capacidade de fazer qualquer
coisa, a qualquer momento, em qualquerlugar dentro dos limites da
inexorável lei da justiça, da mesma forma a natureza infinita da Expiação
redime todas as pessoas de todos os pecados em todas as épocas por todo o
universo, desde que isso seja possível dentro das leis da justiça. Em algum
ponto, as leis da justiça exigem um esforço de nossa parte, um
abrandamento do coração e um refinamento de nossa alma antes que a
exaltação possa ser alcançada.6 Alma ensinou esse princípio: “A
misericórdia advém em virtude da expiação (…) e a misericórdia também
reclama tudo quanto lhe pertence; e assim ninguém, a não ser o verdadeiro
penitente, é salvo” (Alma 42:23–24).
Reconhecendo a abundante misericórdia do Salvador, Truman Madsen
proferiu estas palavras consoladoras: “Houve homens que se ergueram em
púlpitos e em outros lugares — grandes homens — e testificaram que seus
joelhos jamais dobraram, que tal como um disse a respeito do outro: ‘Ele
nada tinha a esconder’. Tivemos homens monumentais que não
necessitavam de redenção tanto quanto necessitavam de poder, e que nunca
caíram muito longe da luz da comunhão que mencionei. Não posso prestar
esse tipo de testemunho. Mas se há alguns de vocês que foram ludibriados
pela convicção de que foram longe demais, que se sobrecarregaram de
dúvidas das quais somente vocês têm o monopólio, que beberam em
demasia do veneno do pecado de modo que seja impossível voltar a ser o
que poderiam ter sido — peço que me ouçam.
Presto testemunho de que vocês não podem afundar tanto que a luz e a
abrangente inteligência de Jesus Cristo não consiga alcançá-los. Presto
testemunho de que, enquanto houver uma centelha de vontade de
arrepender-se e de estender a mão, Ele estará a seu lado. Ele não apenas
desceu até onde vocês estão. Ele desceu abaixo disso, ‘para que fosse em
tudo e através de todas as coisas a luz da verdade’ (D&C 88:6)”.7
A Expiação do Salvador cobre todo pecado conhecido pelo homem do
qual é possível se arrepender.8 Isso é ao mesmo tempo lógico e consolador.
Sem dúvida, no conselho prémortal, o Senhor deve ter conhecido as
profundezas nas quais a humanidade afundaria. Ele não era iniciante na
criação. Já fizera isso muitas e muitas vezes. Tinha observado nossos
espíritos ao longo de muitas eras. Entendia como funcionava por dentro o
coração de cada homem. Como Ele disse ao profeta Samuel: “O Senhor
não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos,
porém o Senhor olha para o coração” (I Samuel 16:7). Ele testemunhara a
trágica guerra no céu e vira um terço de Seus irmãos e irmãs em espírito
voltar-se contra Ele para escolher o mais notório infiel de todos os tempos.
Sem dúvida, Ele compreendia que haveria Sodomas e Gomorras e os mais
hediondos crimes. E sem dúvida Ele levou isso em consideração quando
trabalhou com o Pai na elaboração de uma redenção que abrangeria tudo
isso.
O Profeta Joseph confirma a onisciente visão e a redenção universal do
Senhor: “O grande Jeová contemplou todos os acontecimentos
relacionados com a Terra, no que concerne ao plano de salvação. (. . .) Ele
sabia da queda de Adão, das perversidades dos antediluvianos, da grande
maldade em que viveria a família humana, suas fraquezas e força, seu
poder e glória, apostasias, crimes, sua retitude e iniquidade; Ele entendia a
queda do homem e o seu resgate; conhecia o plano de salvação e o
manifestou; estava inteirado sobre as nações e seu destino; ordenou todas
as coisas de acordo com o conselho de Sua própria vontade; entende a
condição dos vivos assim como a dos mortos, e providenciou todo o
necessário para que sejam redimidos’.9
O rei Benjamim não estava desinformado em relação a esses abrangentes
planos prémortais, pois ensinou que a Expiação “foi preparada desde a
fundação do mundo para toda a humanidade que existiu, desde a queda de
Adão, ou que existe ou que existirá” (Mosias 4:7).
Em resumo, a Expiação do Salvador salva todos os homens da primeira
morte espiritual, porque as leis da justiça não são violadas e, além disso,
ela exalta todos os homens que se arrependerem, porque as leis da
misericórdia assim o permitem. A Expiação não pode, porém, exaltar
qualquer pessoa que a tenha rejeitado ou fechado irreversivelmente as
portas do arrependimento, porque as leis da justiça não são tão permissivas.
Essa foi a mensagem de Amuleque para Zeezrom: “Não podeis ser salvos
em vossos pecados” (Alma 11:37; ver também Mateus 1:21). Abinádi sabia
disso, porque ao falar daqueles que morreram em seus pecados, ele
comentou: “O Senhor a nenhum deles redimiu; sim, nem pode o Senhor
redimi-los; porque ele não pode contradizer-se; porque ele não pode negar
à justiça os seus direitos” (Mosias 15:27; ver também Alma 11:37).
Enquanto tivermos a mínima centelha de arrependimento dentro de nós,
Cristo e Sua Expiação estão a postos, esperando ansiosamente serem
reivindicados. A questão não é se o Salvador pagou o preço de todos os
pecados — Ele o fez — mas sim, se estamos dispostos a tirar proveito de
Seu sacrifício, arrependendo-nos.
Transgressão de Leis
O Salvador não apenas sofreu por nossos pecados conscientes e
deliberados, mas também por nossas transgressões inocentes e por aqueles
que morreram “em ignorância, não lhes havendo sido declarada a
salvação” (Mosias 15:24). Isso condiz com a lei mosaica. Moisés ensinou:
“Se toda a congregação de Israel pecar por ignorância, (…) o sacerdote por
eles fará propiciação, e lhes será perdoado o pecado” (Levítico 4:13, 20). O
rei Benjamim também declarou a abrangência dos poderes purificadores da
Expiação: “Pois eis também que seu sangue expia os pecados dos que
caíram pela transgressão de Adão, que morreram sem conhecer a vontade
de Deus acerca de si mesmos ou que pecaram por ignorância” (Mosias
3:11; ver também Alma 34:8). Essa Expiação, porém, não era isenta de
custo. Mesmo que uma lei fosse inocentemente violada, mesmo assim, um
preço precisava ser pago. Alguém pode beber veneno inocentemente, mas
as consequências físicas serão iguais às de quem o beber por motivos
suicidas. Quando uma lei é violada, deve haver um pagamento. Esse
pagamento envolve sofrimento, e seja pelo inocente ou pelo arrependido,
esse sofrimento se centraliza no Sacrifício Expiatório do Salvador.
Jacó observou que “onde nenhuma lei é dada (…) as misericórdias do
Santo de Israel têm poder sobre eles, por causa da expiação” (2 Néfi 9:25).
Depois, acrescentou: “A expiação satisfaz as exigências de sua justiça
sobre todos a quem não foi dada a lei” (2 Néfi 9:26). Sem dúvida isso
inclui as criancinhas e também os que ainda não ouviram a mensagem do
evangelho. Mórmon abordou esse mesmo tema: “Todas as criancinhas
estão vivas em Cristo, assim como todos os que estão sem a lei, porque o
poder da redenção atua sobre todos os que não têm lei” (Morôni 8:22; ver
também D&C 137:7–10). O Salvador explicou por que as criancinhas são
salvas: “As criancinhas são sãs. (. . .) Portanto, a maldição de Adão é delas
removida por minha causa” (Morôni 8:8; ver também Morôni 8:20). O
Salvador ensinou essa mesma lição a Seus discípulos: “Estes pequeninos
não necessitam de arrependimento, e eu os salvarei” (ver TJS, Mateus
18:11).
Embora o rei Benjamim compreendesse claramente que as criancinhas e
os pecadores “inocentes” são protegidos pela Expiação, ele também sabia
que tempo viria em que “o conhecimento de um Salvador se espalhará por
toda nação, tribo, língua e povo. (. . .) E (…) ninguém será declarado
inocente diante de Deus, salvo as criancinhas, a não ser por meio de
arrependimento e fé no nome do Senhor Deus Onipotente” (Mosias 3:20–
21). Isaías também viu o dia em que “toda a carne saberá que eu sou o
Senhor, (…) e o teu Redentor” (Isaías 49:26; ver também Jeremias 31:34).
Tão completo será esse influxo de conhecimento que Habacuque
profetizou: “Porque a terra se encherá do conhecimento da glória do
Senhor, como as águas cobrem o mar” (Habacuque 2:14; ver também 2
Néfi 30:15). Esses profetas predisseram a época em que o evangelho seria
pregado no mundo inteiro. Nesse dia ninguém se enquadrará no perfil de
“pecadorignorante” porque a mensagem do evangelho estará no mundo
inteiro. Sem dúvida essa condição não existirá até a era milenar (D&C
101:25–29).
A Expiação não apenas desce abaixo dos atos do pecador intencional
que se arrepende, mas também abaixo das leis violadas por aquelas
criancinhas que são “incapazes de cometer pecado” (Morôni 8:8), e
também daquelas almas mais maduras que ainda não ouviram a verdade e
que, portanto, “pecaram por ignorância” (Mosias 3:11).
Sofrimento não Relacionado a pecados ou transgressões
Jacó não impôs limites ao dizer que o Salvador sofreria “as dores de toda
criatura vivente, tanto homens como mulheres
e crianças, que pertencem à família de Adão” (2 Néfi 9:21). Trata-se tanto
de dores relacionadas ao pecado ou à transgressão quanto as que não estão
relacionadas a essas coisas. Em outras palavras, o Salvador
voluntariamente tomou sobre Si não apenas o fardo cumulativo de todos os
pecados e transgressões, mas também o fardo cumulativo de toda
depressão, solidão, tristeza, sofrimento mental, emocional e físico e de
todo tipo de fraquezas que afligem a humanidade. Ele conhece as
profundezas da tristeza decorrentes da morte, ele conhece a angústia da
viúva. Compreende a agonia dos pais cujos filhos se desviaram do rumo
certo. Ele sentiu a pungente dor do câncer e de todas as outras
enfermidades debilitantes que acometem os homens. Por mais impossível
que pareça, de alguma forma Ele tomou sobre Si os sentimentos de
incapacidade e às vezes até o total desespero que acompanha nossas
rejeições e fraquezas. Não há condição mortal, por mais dolorosa ou
hedionda ou desesperada que pareça, que tenha sido deixada de lado por
Ele em Seu sofrimento. Ninguém será capaz de dizer: “Mas você não
entende a aflição por que estou passando”. As escrituras são enfáticas
nesse ponto — “[Ele] compreendeu todas as coisas” porque “desceu abaixo
de todas as coisas” (D&C 88:6; ver também D&C 122:8). Tudo isso,
explica o Élder Neal A. Maxwell, “de alguma forma também fez parte da
terrível aritmética da Expiação”.10
O Presidente Ezra Taft Benson ensinou: “Não há condição humana —
seja sofrimento, incapacidade, inadequação, deficiência mental ou pecado
— que Ele não possa compreender ou para a qual o Seu amor não possa
alcançar a pessoa”.11 Esse é um pensamento assombroso, ao
contemplarmos o Monte Everest de dor exigido para isso. Que pesos são
lançados nas balanças de dor ao calcular o sofrimento de inúmeros
pacientes em incontáveis hospitais? Acrescentem a isso a solidão dos
idosos que são esquecidos nas casas de repouso da sociedade, ansiando
desesperadamente por um cartão, uma visita, um telefonema — um
simples reconhecimento do mundo externo. Continuem acrescentando a
dor de crianças famintas, o sofrimento causado pela fome, seca e peste.
Acrescente-se a isso a dor de pais que chorosamente imploram diariamente
para que um filho ou filha rebelde retorne ao lar. Incluam o trauma de
todos os divórcios e a tragédia de todos os abortos. Somem-se o remorso
decorrente de cada filho perdido na alvorada da vida, cada cônjuge tirado
no princípio de um casamento. Adicionem a isso a miséria de prisões,
centros de recuperação e instituições para deficientes mentais lotados de
gente. Multipliquem tudo isso por século após século de história, e criação
após criação, sem fim. Esse é apenas um horrível vislumbre do fardo
carregado pelo Salvador. Quem pode suportar esse fardo ou escalar uma
montanha como essa? Ninguém, absolutamente ninguém, exceto Jesus
Cristo, o Redentor de todos nós.
Os profetas há muito testificaram a respeito da natureza infinita do
sofrimento do Salvador. Muitos anos antes de Seu nascimento, Isaías
declarou: “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e
as nossas dores levou sobre si” (Isaías 53:4); e mais tarde: “Em toda a
angústia deles ele foi angustiado” (Isaías 63:9; ver também D&C 133:53).
Alma compreendeu até onde o Salvador desceu, ao comentar: “Ele seguirá,
sofrendo dores e aflições e tentações de toda espécie; e isto para que se
cumpra a palavra que diz que ele tomará sobre si as dores e as
enfermidades de seu povo” (Alma 7:11; grifo do autor). Tão profunda seria
essa descida que o rei Benjamim comentou: “[Ele] sofrerá tentações e
dores corporais, fome, sede e cansaço maiores do que o homem pode
suportar” (Mosias 3:7). Ninguém nas limitadas experiências da mortalidade
sequer arranha a superfície da dor imposta sobre o Salvador. Ele suportou
tudo, até a agregação de dores que não têm origem no pecado ou na
transgressão.
Sofrimento Decorrente de tentações
Parte da experiência humana é enfrentar tentações. Ninguém escapa
disso. É onipresente. As tentações vêm de fora e também de dentro. É
como um inimigo que ataca de todos os lados. Elas nos atacam
ousadamente nos programas de televisão, filmes, cartazes e jornais, em
nome do entretenimento ou da liberdade de expressão. Caminham pelas
ruas e se sentam em nossos escritórios em nome da moda. Dirigem por
nossas estradas em nome do estilo. Representam-se como atitudes
politicamente corretas ou necessidades do trabalho. Reivindicam sanção
moral sob o disfarce do livre arbítrio. Ocasionalmente, rugem como trovão.
Em outros momentos, sussurram sutilmente. Com habilidade de camaleão,
camuflam sua natureza sempre presente, mas estão — sempre — a nosso
redor.
Toda tentação se mostra como uma encruzilhada em que temos de
escolher entre o caminho mais elevado e o caminho mais baixo. Em
algumas ocasiões, é uma prova de agonizante frustração. Em outras, é um
mero inconveniente, um aborrecimento de proporções mínimas. Mas em
cada caso há algum elemento de inquietação, ansiedade e agitação
espiritual — e por fim uma situação que nos obriga a escolher um dos
lados. Não existe neutralidade nesta vida. Sempre temos que escolher,
sempre temos que tomar partido. Isso faz parte da experiência humana —
enfrentar tentações diariamente, quase a cada momento — não apenas nos
dias bons, mas nos dias em que estamos deprimidos, cansados, rejeitados,
desanimados ou doentes. Em todos os dias de nossa vida combatemos a
tentação — e o mesmo aconteceu com o Salvador. É parte integral da
experiência humana, que não apenas nós, mas Ele também enfrentou. Ele
bebeu da mesma taça.
Pouco sabemos sobre a juventude do Salvador, mas assim que Sua
missão começou, Ele “foi deixado para ser tentado pelo diabo” (ver TJS,
Mateus 4:2). O Salvador saiu-Se triunfante, mas Satanás retornaria. As
escrituras relatam: “[Satanás] ausentou-se dele por algum tempo” (Lucas
4:13). Os fariseus O tentariam em várias ocasiões. Um doutor da lei
tentaria pegá-lo em uma armadilha — tudo em vão. Mesmo na cruz,
Satanás lançaria seu último dardo envenenado: “Se és Filho de Deus, desce
da cruz” (Mateus 27:40).
As tentações não se limitaram a confrontos diretos com o Maligno e seus
emissários. Alma sabia que Ele sofreria “tentações de toda espécie” (Alma
7:11). Isso incluiria tentações relacionadas a “dores corporais, fome, sede e
cansaço” (Mosias 3:7). Sem dúvida enfrentaria tentações de ganância,
poder e fama. Todas as tentações da carne lhe seriam impostas. Como disse
Paulo, Ele “como nós, em tudo foi tentado” (Hebreus 4:15; grifo do autor).
Abinádi deixou claro, porém, que embora ele “[sofra] tentações”, “não
cede a elas” (Mosias 15:5). Doutrina e Convênios confirma essa mesma
verdade: “Sofreu tentações, mas não lhes deu atenção” (D&C 20:22).
Houve escolhas, confrontos e encontros, mas nunca incorporação,
racionalização ou indulgência. Stephen Robinson expressa com grande
beleza esse mesmo princípio: “Não me levem a mal. Não estou sugerindo
que Jesus de forma alguma tolerou pensamentos impuros, porque isso seria
pecado, e Ele não tolerou nada pecaminoso. Não creio que Ele tenha
‘lutado’ ou Se ‘debatido’ com a tentação. O único ponto que quero
salientar é que Ele estava vulnerável a sugestões e impulsos que Lhe
vinham à mente provenientes de Sua natureza mortal, uma natureza
herdada de Sua mãe mortal, como qualquer um de nós. Ele simplesmente
não deu atenção a essassugestões, colocando-as imediatamente para fora
da mente. A capacidade que a carne tem de sugerir, incitar, era a mesma
para Ele como é para nós, mas ao contrário do restante de nós, Ele jamais
cedeu a ela. Ele não ponderou, analisou ou cogitou as opções pecaminosas,
nem mesmo como possibilidades teóricas — Ele ‘não lhes deu atenção’.”12
O Presidente David O. McKay escreveu alguns versos que ecoam
declarações semelhantes:
Embora as vagas da tentação arrebentassem a meu redor, Elas
simplesmente reforçaram minha hombridade!
Minha alma está imaculada!13
Resta sempre a pergunta: Por que o Salvador teve que sofrer tentações?
Por que condescender assim? A resposta é sempre a mesma: “Porque
naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são
tentados” (Hebreus 2:18). Ao fazê-lo, Ele podia tornar-Se nosso
“advogado, que conhece as fraquezas dos homens e sabe como socorrer os
que são tentados” (D&C 62:1). Brigham Young falou sobre esse mesmo
assunto: “Era preciso que Deus conhecesse algo sobre as coisas temporais,
e que tivesse um corpo e estivesse na Terra, caso contrário Ele não saberia
como julgar os homens em retidão, de acordo com as tentações e os
pecados com os quais eles tiveram de contender”.14
Alguns podem argumentar que o Salvador não pode ter empatia pelos
que sucumbiram à tentação, porque Ele nunca cedeu, de modo que não
pode compreender as circunstâncias aparentemente exclusivas daqueles
que o fizeram. A falácia desse argumento é exposta por C. S. Lewis:
“Nenhum homem sabe o quanto é mau até que tenha tentado muito
arduamente ser bom. Um conceito tolo atual é que as pessoas boas não
sabem o que significa a tentação. Isso evidentemente é mentira. Somente
aqueles que procuram resistir à tentação sabem o quanto ela é forte. Afinal
de contas, descobrimos a força do exército alemão lutando contra ele, e não
rendendo-nos. Descobrimos a força de um vento tentando caminhar contra
ele, e não deitando-nos. Um homem que cede à tentação após cinco
minutos simplesmente não sabe como teria sido uma hora depois. É por
isso que as pessoas más, em certo sentido, conhecem bem pouco sobre a
maldade. Tiveram a vida protegida por cederem. Jamais descobrimos a
força do impulso mau que há dentro de nós até tentarmos lutar contra ele;
e Cristo, como foi o único homem que jamais cedeu à tentação, também é
o único homem que sabe em sua plenitude o que significa a tentação — o
único que é completamente realista”.15
Exercício de fé
As escrituras sugerem que o Salvador suportou todo pecado, toda dor e
tentação vivenciados pela raça humana. Mas poderia ter havido alguma
experiência humana que Ele jamais encontrou plenamente devido à Sua
natureza inigualável? Será que Ele teve que exercer fé, ou Seu
conhecimento espiritual especial e Sua herança divina excluíram essa
possibilidade? Acaso todos não nos deparamos com momentos na vida em
que a fé e a razão do mundo parecem incompatíveis e temos que escolher
um dos dois? Vemo-nos em uma encruzilhada espiritual — um caminho
pavimentado com o conhecimento e a razão do homem, e outro
pavimentado com a fé em Deus. Isso pode acontecer quando nos falta
dinheiro para pagar o dízimo. Pode acontecer quando o Senhor nos chama
para um cargo que está bem além de nossas capacidades naturais. Talvez
quando somos chamados para servir num momento inconveniente. Pode
acontecer com a perda de um emprego, a morte de um ente querido ou uma
doença súbita e inesperada, mas com certeza esse momento virá. Todos os
homens, em algum momento da vida, enfrentam o dilema — a razão do
mundo em oposição à fé em Jesus Cristo.
Moisés passou por isso. Ele tinha acabado de libertar os filhos de Israel.
Estava conduzindo-os num rumo aparentemente suicida, diretamente para
o Mar Vermelho. Os exércitos egípcios os estavam perseguindo
implacavelmente. Os poderes da razão sem dúvida clamaram: “Vire para a
esquerda ou para a direita. Se seguir em frente vai cair numa armadilha —
ficará prensado entre o Mar Vermelho, de um lado, e o exército egípcio que
rapidamente se aproxima, do outro. Mas Moisés seguiu firme em seu
curso. Eles iriam marchar diretamente para o Mar Vermelho. Os israelitas,
vendo seu destino, clamaram atemorizados: “Melhor nos fora servir aos
egípcios, do que morrermos no deserto” (Êxodo 14:12). Moisés estava
sozinho. O poder da razão e o poder do povo combinaram-se contra ele
com imensa fúria. Mas no fundo de sua alma havia um poder que excedia
em muito os poderes conhecidos pelo homem, um poder que o impeliu
contra o mundo, contra todas as probabilidades aparentemente contrárias,
contra tudo que era racional e razoável na vida. Era o poder da fé. Ela
provou ser a salvação física e espiritual dele e de seu povo.
Pedro enfrentou um momento assim. O Salvador pregava nas praias da
Galileia. Ali perto havia dois barcos vazios. Seus pescadores estavam na
praia lavando as redes. Haviam trabalhado a noite inteira sem nada pescar
em sua incansável vigília. O Salvador falou a Simão Pedro e disse: “Faze-
te ao mar alto, e lançai as vossas redes para pescar” (Lucas 5:4). Pedro,
surpreso, replicou: “Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada
apanhamos” (Lucas 5:5). Como deve ter parecido ridícula a sugestão do
Salvador para as mentes racionais deste mundo. Será que Ele não sabia que
aqueles eram pescadores experientes? Aquele era seu ramo de trabalho, seu
ganha-pão, seu negócio, “seu” lago. Durante a noite inteira eles tinham
lançado as redes, puxado e lançado novamente, repetindo isso inúmeras
vezes. Eles conheciam aquele lago, as correntes, os ventos e os padrões de
pesca. Por que desperdiçar esforços e tentar de novo? Ali estava um
simples carpinteiro. O que Ele entendia de pesca? Pedro estava numa
encruzilhada. Tinha que escolher entre a razão e a fé. Então, veio a resposta
tocante de Pedro: “Mas, sobre a tua palavra, lançarei a rede” (Lucas 5:5).
Então houve o milagre. Pescaram uma imensa quantidade de peixes —
tantos que as redes não conseguiam contê-los. Outro barco foi chamado
para ajudar naquela fartura. O Senhor não enviou aqueles fiéis pescadores
para pescar um ou dois ou um cesto cheio. Não — não havia nada de
mesquinho na natureza de Sua bênção. Eles tinham passado no teste da fé e
seriam abençoados com abundância.
Cada um de nós se depara com momentos em que os poderes da razão
entram em conflito direto com a fé. Toda a lógica, toda a compreensão do
homem pode elevar a voz em uníssono, mas ali sozinha, em oposição,
ergue-se a fé — inalterada, inatacável, imovível — a âncora de nossa alma.
As ondas da provação podem vir, as marés do oceano da razão mundana
podem lançar-se contra nossa alma, a correnteza e as tendências populares
podem puxar-nos com toda a força, mas ali, inamovível, inabalável, intacta
se encontra a alma que está ancorada pela fé. O filósofo George Santayana
escreveu sobre aqueles que deixam de escolher esse “caminho melhor”: Ó
mundo, tu não escolheste a melhor parte!
Não há sabedoria em ser apenas sábio, E
fechar os olhos da visão interior, Mas é
sabedoria acreditar no coração.
Colombo encontrou um mundo, e não tinha mapa,
A não ser aquele que a fé decifrou nos céus;
A confiança na invencível conjectura de sua alma
Era toda a sua ciência e sua única arte.
Nosso conhecimento é uma tocha de pinho fumegante Que
ilumina o caminho apenas um passo adiante Através de um
vazio de mistério e medo.
Ordena, pois, que a tênue luz da fé brilhe
Por meio da qual o coração mortal é conduzido
A pensar o pensamento divino.16
Jó tinha essa fé. Tinha perdido a família, a riqueza, a saúde e os amigos.
Até sua mulher não via razão nas provações. Por fim, ela exclamou:
“Amaldiçoa a Deus, e morre” (Jó 2:9). Mais tarde, Jó, um pilar de fé,
responderia: “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13:15). Nada
neste mundo poderia extinguir sua chama de fé.
Essa mesma chama brilhava resplendente na alma de Néfi quando voltou
para a casa de Labão novamente: “E fui conduzido pelo Espírito, não
sabendo de antemão o que deveria fazer” (1 Néfi 4:6). Aquela era umafé
pura, absoluta e imaculada. Todos os poderes da razão tinham sido
exauridos. Néfi e seus irmãos tinham pedido as placas de Labão e seu
pedido fora rejeitado. Tinham oferecido toda a riqueza de sua família, e
novamente sua oferta fora rejeitada. Parecia que todas as opções tinham se
esgotado. Néfi não tinha ideia da solução que se desdobraria. Quem, em
um milhão de anos, teria sonhado na resposta do Senhor?
Mas a fé, aquele poder invisível, conduziu-o adiante.
Moisés, Pedro, Jó, Néfi e os santos fiéis de todas as eras tiveram que
fazer essa difícil escolha em diversas ocasiões — a fé ou a razão. Mas será
que o Salvador, com Suas infinitas faculdades, tanto espirituais quanto
intelectuais, teve realmente que enfrentar o mesmo dilema? Será que houve
sequer um momento em que Ele não soubesse o fim desde o princípio?
Como todos os outros mortais, será que Ele teve de escolher a fé em Deus
em vez de Sua própria capacidade de raciocínio? Será que isso também
fazia parte de Sua experiência? Se não fazia, será que Ele realmente
vivenciou a totalidade da aflição humana?
Houve momentos na vida do Salvador que sugerem que
Ele também teve que prosseguir com fé. Lucas nos conta que, quando
jovem, Ele “crescia (…) em sabedoria” (Lucas 2:52), o que implica o fato
de que a onisciência não lhe foi conferida de uma vez. Evidentemente Seu
conhecimento e Sua capacidade de raciocínio progrediram passo a passo
durante Sua jornada mortal. Esse progresso sugere ter havido momentos
em que Ele não conhecia todas as coisas.
Mesmo no término de Sua vida mortal, quando o conhecimento de Sua
missão estava no auge e Sua capacidade de raciocínio era suprema, parece
que havia questões não resolvidas, até para Ele. A súplica: “Meu Pai, se é
possível, passe de mim este cálice” (Mateus 26:39) era um pedido sincero
para que outra alternativa fosse procurada, se houvesse, em lugar do
Sacrifício Expiatório. Sua mente inquiridora examinou todas as opções e
todas as possibilidades, mas não conseguiu encontrar alternativa, por isso
Ele Se voltou esperançoso para o Ser que conhecia e tinha ainda mais
experiência do que Ele. A resposta foi negativa. Não havia outro modo. Ele
devia depositar Sua confiança em Deus e prosseguir com fé.
C. S. Lewis falou a respeito da presciência que Cristo tinha antes de Sua
morte iminente. Ele também acreditava que o Salvador devia vivenciar
todas as condições da mortalidade, inclusive as ansiedades que
acompanham o exercício da fé. Ele reconciliou essas posições
aparentemente conflitantes da seguinte maneira: “Fica claro que esse
conhecimento [de Sua morte] deve de alguma forma ter sido retirado Dele
antes que Ele orasse no Getsêmani. Ele não podia, quaisquer que fossem as
reservas em relação à vontade do Pai, ter orado pedindo que a taça fosse
passada Dele e simultaneamente saber que ela não seria. Essa seria uma
impossibilidade tanto em termos lógicos quanto psicológicos. Percebem o
que isso envolve? Para que nenhuma provação inerente à humanidade
ficasse faltando, os tormentos da esperança — o suspense, a ansiedade —
foram no último momento despejados sobre Ele — a suposta possibilidade
de que, afinal de contas, Ele poderia, ao menos teoricamente, ser poupado
do horror supremo. Havia um precedente. Isaque tinha sido poupado. Ele
talvez também pudesse, no último momento, contra todas as probabilidades
aparentes. (. . .) Mas se não fosse essa última (e equivocada) esperança
contra a esperança, e o consequente tumulto na alma, o suor de sangue,
talvez Ele não teria sido o Homem verdadeiro. Viver num mundo
plenamente previsível não é ser um homem”.17
Viver uma vida plenamente previsível, conforme sugerido por C. S.
Lewis, uma vida isenta de ansiedade, de suspense e de fé, é uma vida
pseudo-humana — não passa de uma farsa. Mas não foi esse o caso com o
Salvador. De homem algum foi exigido mais fé, em qualquer momento, do
que quando o Salvador enfrentou a terrível solidão nas horas que
antecederam a cruz. Aquele foi o momento em que o Pai retirou Seu
espírito e O deixou sem consolo.
A experiência do Salvador teve algumas semelhanças com a prisão do
Profeta Joseph na cadeia de Liberty. Por meses, ele definhou naquela cela
lotada e mal cheirosa, sem nenhum socorro à vista. Estava separado da
esposa, dos filhos e dos amigos. Suas petições e apelos tinham caído
aparentemente em ouvidos surdos. Naquela desesperadora e aparentemente
insolúvel situação, Joseph clamou: “Ó Deus, onde estás? E onde está o
pavilhão que cobre teu esconderijo? Até quando tua mão será retida (. . .)?”
(D&C 121:1–2). Podemos entender sua frustração. Ele havia sido chamado
para um santo e elevado chamado. Havia muito trabalho a fazer, e então,
no meio de sua missão, ele se sentiu temporariamente abandonado pelo
próprio Senhor que o havia chamado. Os céus pareciam não responder.
O Salvador também teve o seu momento de abandono. O clímax de Sua
missão estava próximo. Se havia um momento em que Ele precisava de
apoio e consolo, era aquele. Poucas horas antes, Ele havia declarado: “Não
estou só, porque o Pai está comigo” (João 16:32). Sem dúvida, Ele sabia do
dia profetizado de “solidão” — mas sem a experiência real, talvez não
conseguisse compreender plenamente sua terrível e até aterrorizante
magnitude. Então, em Seu momento de agonia, Ele clamou: “Deus meu,
Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46).
O Salvador enfrentava Sua grande provação sem nada para dar-lhe alento a
não ser Sua vontade e Sua fé. Mais fé foi exigida Dele do que de qualquer
outro mortal. Os mortais reconhecem sua inferioridade intelectual em
comparação a Deus. Em outras palavras, eles sabem que não conhecem
tudo. Esperam ter momentos em que lhes será exigido ter fé. Mas ali estava
um Deus cujo conhecimento reinava supremo, mas ainda havia um “por
quê?” — um vão entre Seus poderes cognitivos e Seu senso empírico. Ele
havia encontrado uma zona escura, um local “fora dos limites” intelectuais,
até mesmo para Ele. Talvez não esperasse isso. Talvez não contemplasse
um total abandono. Talvez não compreendesse previamente a totalidade da
solidão que deveria suportar. Talvez Sua mente infinita soubesse e
entendesse tudo que é possível saber com antecedência, mas até isso estava
aquém da dura realidade proveniente da experiência real. De qualquer
forma, aquele foi um momento de angústia para a alma. Será que Ele
continuaria a ter fé naquele Deus que havia então Se retirado? O salmo
messiânico de Davi nos dá uma visão mais profunda da tristeza daquele
momento, quando refletimos na pergunta pungente do Salvador: “Por que
te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido?” (Salmos 22:1).
Era um momento de crise da mais sublime fé. O Élder Erastus Snow falou
daquele momento crítico em que o Salvador precisou ter fé: “Por fim havia
chegado o momento em que o Pai disse: Tu deves sucumbir, tu deves
tornar-te a oferta. E naquela hora sombria, o poder do Pai se retirou Dele
de modo palpável. (. . .) Ele foi levado a exclamar em Sua agonia final na
Cruz: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? O Pai não Se
dignou a responder. Não havia chegado ainda o momento de explicar e
contar a Ele. Mas após um tempo, quando Ele venceu a prova, fez o
sacrifício e pelo poder de Deus foi ressuscitado dos mortos, então tudo
ficou claro, tudo foi explicado e compreendido plenamente”.18 Foi como se
a peça perdida do quebra-cabeça espiritual não tivesse sido dada a Ele até
depois da ressurreição. Então, o quadro ficou completo.
Enquanto isso, o Salvador estava disposto a prosseguir, sabendo que havia
um único caminho que passava pelo Getsêmani e o Calvário, o caminho
invisível da fé.
Há poucas coisas em nossa experiência mortal com que possamos
comparar o que Cristo vivenciou — uma criança pulando no escuro para
um pai que ela não consegue ver; o trapezista dando um salto mortal para
os braços de seu colega, sem uma rede de segurança embaixo; Moisés, sem
saber, seguindo direto para o Mar Vermelho; Jó, sem entender, mas
confiando; Abraão, questionando, mas comprometido;Néfi, sem resposta,
mas voltando ainda mais uma vez; Joseph Smith perguntando por que,
sendo-lhe dito que não importa o que aconteça, mesmo que “receberes
sentença de morte”, mesmo que “as próprias mandíbulas do inferno
escancararem a boca para tragar-te”, “o Filho do Homem desceu abaixo de
todas elas. És tu maior do que ele?” (D&C 122:7–8).
O Salvador teve fé; Ele exerceu fé; e pelo poder dessa fé Ele prosseguiu
com firmeza por águas não mapeadas para consumar o Sacrifício
Expiatório. Como Lorenzo Snow confirmou: “Foi preciso toda a Sua força
e toda a fé que Ele conseguiu reunir para cumprir o que o Pai exigia
Dele”.19
A Expiação foi realizada por um ser infinito de poder infinito, mas, de
igual importância, os efeitos dessa Expiação foram infinitos no tempo, na
abrangência e na profundidade. Esse evento não tem limites geográficos —
não há nenhum estado, país ou limite galáctico que ela não possa e que não
vá cruzar. Ela não é restringida no tempo. Ela desce abaixo de todas as
transgressões, todas as dores, todas as tentações e todas as exigências de fé.
Sua influência e efeito permeiam todo o espaço, todos os mundos e todas
as formas de vida. Não há fenda que ela não tenha preenchido, não há
abismo que não tenha sondado. A Expiação é infinita em sua profundidade.
 
Notas
1. Shakespeare, Conto de Inverno, 3.2.209–215.
2. Discursos de Brigham Young, comp. por John A. Widtsoe, 1961, pp. 156–157.
3. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, pp. 348–349.
4. Maxwell, A More Excellent Way, p. 66.
5. Smith, Gospel Doctrine, p. 72.
6. Evidentemente, o assassino esclarecido e intencional endureceu tanto o coração,
talvez de modo irreversível, a ponto de que na balança da justiça ele adiantou seu
dia de julgamento no tocante à sua exaltação e cerrou para sempre as portas do
progresso eterno. Os ânti-néfi-leítas arrependidos se deram conta dessa trágica
possibilidade. Eles haviam derramado sangue antes de seus dias de iluminação do
evangelho. Passaram então a se dar conta das severas consequências de pegarem
novamente na espada “porque, se novamente as mancharmos, talvez não possam
mais ser lavadas pelo sangue do Filho de nosso grande Deus” (Alma 24:13).
7. Madsen, Christ and the Inner Life, p. 14; grifo do autor.
8. Conforme discutido anteriormente, não há arrependimento para o “pecado
imperdoável”.
9. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, pp. 214–215; grifo do autor.
10. Maxwell, “Willing to Submit”, p. 73.
11. Benson, “Jesus Christ”, p. 6.
12. Robinson, Believing Christ, p. 115.
13. McKay, Home Memories of President David O. McKay, p. 33.
14. Journal of Discourses, vol. 4, p. 271.
15. Lewis, Inspirational Writings of C. S. Lewis, pp. 337–338; grifo do autor.
16. Santayana, “O World”, em Untermeyer, Treasury of Great Poems, p. 1034.
17. Lewis, Joyful Christian, pp. 171–172.
18. Journal of Discourses, volume 21, p. 26.
19. Snow, Teachings of Lorenzo Snow, p. 98; grifo do autor.
 
Capítulo 14
Infinita em sofrimento
 
O Salvador Sofreu tanto Quanto nós?
A Expiação de Jesus Cristo custou o sangue, a vida e um sofrimento
indescritível de um Deus. Ao contrário do que alguns pensam, não foi
apenas um sofrimento mental. Foi uma angústia intensa e prolongada
“tanto no corpo como no espírito” (D&C 19:18; grifo do autor). Foi uma
dor física, espiritual, intelectual e emocional do mais alto grau, tudo de
uma só vez. Foi algo de magnitude tão colossal que fez com que até “Deus,
o mais grandioso de todos, tremesse de dor e sangrasse por todos os poros”
(D&C 19:18).
Por mais significativo que tenha sido o sofrimento do Salvador, será que
ele foi amenizado pelo fato de Ele possuir atributos divinos? Será que Ele
tinha poderes sobre-humanos de resistência que Lhe permitiram suportar e
enfrentar com mais facilidade a aflição humana? Em outras palavras, será
que Ele tinha um escudo do qual ninguém mais dispunha? É verdade que
Ele jejuou por 40 dias — mas será que teve fome, será que Seu corpo
ansiava por alimento e Seus lábios por água, será que Seus músculos
tremeram e Ele teve dores pelo corpo? Ou será que poderes sobre-humanos
Lhe deram uma vantagem em relação aos demais mortais? Alguns alegam
que Ele fez o que tinha de fazer, mas não assimilou a dor — que Ele
caminhou pela fornalha da vida, tal como Sadraque, Mesaque e
Abedenego, sem jamais sentir o calor das chamas. Paulo analisou essa
dúvida e deu a resposta: “Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas
tomou a descendência de Abraão. Por isso convinha que em tudo fosse
semelhante aos irmãos” (Hebreus 2:16–17). Mais tarde, Paulo confirmou
que o Salvador “[compadeceu-se] das nossas fraquezas” (Hebreus 4:15).
A vida mortal para Cristo não foi apenas um exercício acadêmico. Foi a
mais dura realidade que pressionou os sentimentos de um homem em um
ser que era Deus. Paulo comentou que o Salvador “[provou] a morte por
todos” (Hebreus 2:9). Essas palavras, sentir e provar, são dolorosamente
descritivas. Não foi apenas uma intelectualização, mas uma assimilação da
angústia humana. Alma ensinou essa verdade, declarando que “o Filho de
Deus padece segundo a carne” (Alma 7:13). Jacó acrescenta seu
testemunho de que o Salvador “se [sujeitou] ao homem na carne” (2 Néfi
9:5; ver também Filipenses 2:7). Paulo pregou que Cristo “[Se fez]
semelhante aos homens” (Filipenses 2:7). E Isaías profetizou que Ele seria
“homem de dores, e experimentado nos trabalhos” (Isaías 53:3). Repetidas
vezes, os profetas testificam que o Salvador não apenas sofreu o que
sofreu, mas de igual maneira. Talvez Robert Browning não estivesse se
referindo a si mesmo quando escreveu: Sempre fui lutador, portanto, que venha
mais uma luta, A melhor e a última!
Detestaria deixar que a morte vendasse meus olhos, abstendo-me,
Fazendo-me rastejar para longe.
Não! Deixe-me sentir tudo, tal como meus colegas, Os heróis do
passado,
Sofrendo os golpes, pagando num instante da vida as dívidas De dor,
escuridão e frio.1
O Salvador sentiu e provou tudo. Passou o mesmo que o restante dos
mortais e muito mais. Néfi compreendia isso: “O Deus de nossos pais (…)
como homem, entregar-se-á (…) nas mãos de iníquos” (1 Néfi 19:10).
 
O Élder Bruce R. McConkie citou o estudioso Alfred Edersheim, em sua
discussão sobre a humilhação sofrida pelo Salvador. O Élder McConkie
então comentou: “Quando Edersheim fala da exinanição de Jesus, ele quis
dizer que o Senhor voluntariamente Se exauriu, ou seja, esvaziou-Se de
todo o Seu divino poder, ou enfraqueceu-Se confiando apenas em Sua
humanidade e não em Sua divindade, para que fosse como os outros
homens e assim fosse plenamente provado por todas as provações e
tormentos da carne”.2 C. S. Lewis expressou sentimentos semelhantes:
“Deus poderia, se quisesse, ter incarnado em um homem de nervos de aço,
do tipo estoico que não deixava escapar um único suspiro. Em Sua grande
humildade, Ele decidiu incarnar num homem de sensibilidade delicada”.3
O Salvador voluntariamente permitiu que Seu lado humano tivesse
precedência sobre Sua divindade. Isaías falou profeticamente sobre os dias
da submissão messiânica: “As minhas costas ofereci aos que me feriam (. .
.) não escondi a minha face dos que me afrontavam e me cuspiam” (Isaías
50:6). Naqueles poucos momentos do espectro eterno denominados
mortalidade, o Salvador cedeu à angústia mortal; submeteu-Se à
desumanidade dos homens; Seu corpo ansiava dormir; sentiu fome; sentiu
as dores da enfermidade. Submeteu-Se em todos os aspectos a todas as
experiências de fracasso da mortalidade vivenciadas pela família humana.
Nem uma vez sequer ergueu o escudo da divindade para amenizar os
golpes. Nem uma vez sequer vestiu o colete à prova de balas da divindade.
O fato de ter poderes divinos não tornou Seu sofrimento menos
excruciante, menos pungente ou menos real. Pelo contrário, é por esse
exato motivo que Seu sofrimento foi maior, e não menor, do que aquele
que os demais mortais podiam vivenciar. Ele tomou sobre Si um
sofrimento infinito, mas decidiu defender-Se apenas com Suas faculdades
mortais, com uma única exceção— Sua divindade foi invocada para
impedir a perda da consciência e a morte (ou seja, o duplo mecanismo de
alívio do homem) que, de outra forma, subjugariam um mero mortal
quando atingisse o limiar da dor que Ele suportou. Para o Salvador, porém,
não haveria esse alívio. Sua divindade foi invocada não para imunizá-Lo
da dor, mas para ampliar o receptáculo que a conteria. Ele simplesmente
bebeu um cálice maior da amarga bebida.
 
Sangrar por todos os poros
Lucas substanciou a realidade de Seu sofrimento. “E, posto em agonia,
orava mais intensamente” (Lucas 22:44). Acaso Suas orações não eram
todas intensas? Será que conseguimos compreender a intensidade do
sofrimento, a profundidade da dor que fez com Ele orasse ainda mais
intensamente? Que peso arrasador Ele deve ter suportado nos ombros para
fazer com que Ele, um Deus, admitisse que Sua alma estava “cheia de
tristeza” (Mateus 26:38)? Que tormento o pressionou tão profundamente a
ponto de fazê-Lo “[prostrar-se] sobre o seu rosto” em súplica fervorosa
(Mateus 26:39)? Aquele foi um momento de crise na galáxia.
À medida que Sua agonia aumentava, aproximando-se rapidamente de
seu clímax inexorável e irreprimível, Seu corpo físico finalmente Se
revoltou, e Ele suou grandes gotas de sangue. Há alguns anos assisti a uma
aula da Escola Dominical em que o professor sugeriu que o Salvador não
suou literalmente sangue, mas suou tanto a ponto de sua perspiração pingar
no chão como gotas de sangue. Aquele professor buscou apoio nas palavras
de Lucas, que escreveu: “Seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue,
que corriam até ao chão” (Lucas 22:44). O rei Benjamim, porém, viu com
olhos proféticos o verdadeiro estado das coisas: “Eis que sairá sangue de
cada um de seus poros, tão grande será a sua angústia pelas iniquidades e
abominações de seu povo” (Mosias 3:7; ver também TJS, Lucas 22:44).
Além disso, temos o incontestável testemunho de uma pessoa que estava
presente, o próprio Salvador, que declarou: “Sofrimento que fez com que
eu, Deus, (…) sangrasse por todos os poros” (D&C 19:18). Seu corpo,
numa violenta reação à dor sobre-humana que Lhe foi imposta,
literalmente, não apenas figurativamente, verteu sangue por todos os poros.
Por Que Era preciso Haver Derramamento de Sangue?
Paulo pregou que “quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam
com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão” (Hebreus
9:22; ver também Hebreus 9:17–18). Essa é uma verdade ensinada desde a
antiguidade. Moisés declarou: “É o sangue que fará expiação pela alma”
(Levítico 17:11). É o “sangue de Jesus Cristo” que “nos purifica de todo o
pecado” (I João 1:7). O sangue do Salvador atua como agente purificador
por meio do qual nossas “vestimentas são branqueadas” (1 Néfi 12:10).
Até aprendemos que a terra da América foi “[redimida]” pelo
“derramamento de sangue” (D&C 101:80). Portanto, de alguma forma, o
sangue atua como agente purificador e redentor. Como isso é feito, não
sabemos. John Taylor ensinou: “O motivo pelo qual foi necessário que Seu
sangue fosse derramado é aparentemente um mistério. (. . .) Sem
derramamento de sangue não há remissão de pecados. Mas, por quê? Por
que existe essa lei? Isso nos foi deixado como uma questão de fé”.4 Joseph
Fielding Smith chegou à mesma conclusão: “A maneira exata como o
derramamento do sangue do Salvador expiou a Queda (…) é algo que não
foi plenamente explicado por nosso Pai Celestial”.5
Paulo nos dá um esclarecimento parcial, porém, do motivo pelo qual é
preciso haver derramamento de sangue. Ao se referir ao sacrifício de
animais sob a lei mosaica e o poder redentor do sangue, ele acrescentou:
“De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no
céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais com sacrifícios
melhores do que estes” (Hebreus 9:23). É como se ele dissesse que os
sacrifícios de animais eram um protótipo terreno ou correspondente dos
sacrifícios celestiais, mas que Cristo é o sacrifício real ou “melhor” que
satisfaz todas as exigências celestes para a purificação. O Presidente
Joseph F. Smith sugere essa mesma verdade: “As coisas da Terra, desde
que não tenham sido pervertidas pela iniquidade, são um modelo das coisas
do céu. O céu era o protótipo desta bela criação”.6 Até que mais luz seja
lançada sobre a questão, podemos consolar-nos nas consequências
decorrentes do derramamento do sangue do Salvador, sem compreender
plenamente as razões subjacentes para a necessidade disso.
Embora Joseph Fielding Smith não tente responder como o sangue de
Cristo nos purifica, ele aborda o motivo pelo qual esse sangue tem que ser
derramado: “Como foi por meio da criação do sangue que sobreveio a
mortalidade, é pelo sacrifício do sangue que a redenção da morte foi
realizada, e todas as criaturas foram libertadas das garras de Satanás. De
nenhum outro modo poderia ser realizado o sacrifício para redimir da
morte o mundo”.7
A referência a seu ato de sacrifício no Jardim foi o ponto central da
súplica do Salvador em nosso favor perante o Pai: “Em virtude do sangue
que derramei, por eles intercedi perante o Pai” (D&C 38:4). Depois de
lembrar o Pai do “sangue de teu Filho, que foi derramado, (…) para que
fosses glorificado”, Cristo suplicou ao Pai que “[poupasse] estes meus
irmãos que creem em meu nome” (D&C 45:4–5). Como nosso advogado,
Ele sabia que havia algo naquele ato de tamanha pungência espiritual que
deveria ser o ponto central de sua súplica por misericórdia. Com inabalável
convicção, ele podia declarar que tinha “[efetuado] esta expiação perfeita
pelo derramamento de seu próprio sangue” (D&C 76:69).
O Derramamento de Sangue É Simbólico
Entre outras coisas, o derramamento de sangue é simbólico. O
derramamento do sangue de um homem traz a morte física. Por outro lado,
o derramamento do sangue de Cristo traz a vida espiritual. Repetidas vezes,
nas escrituras, o mesmo símbolo pode ter significado duplo, até mesmo
oposto. No Jardim do Éden, foi a serpente que representou o diabo, o pai
da morte e das trevas. Mais tarde, porém, foi a serpente de bronze que
representou o Salvador, a fonte de vida e luz. As águas da época de Noé
destruíram todas exceto oito almas, mas as águas do batismo
simbolicamente purificam e salvam toda alma que busca a vida eterna. O
fogo é o sinal do castigo para os aflitos no inferno, mas Isaías falou dos
justos que vão habitar em “fogo consumidor” (Isaías 33:14; ver também
Apocalipse 15:2). Na Segunda Vinda é o fogo que vai destruir os iníquos,
mas nesse ínterim é o fogo do Espírito Santo que purifica e preserva os
espiritualmente arrependidos. Num dualismo semelhante, o derramamento
do sangue de um homem simboliza a morte, mas o derramamento do
sangue de Cristo simboliza a vida eterna.
Parece adequado que o lugar para esse derramamento de sangue seja um
jardim chamado Getsêmani. Como Truman Madsen explica: “Geth ou gat
em hebraico significa ‘prensar’, Shemen significa ‘azeite’. Aquele era o
Jardim da prensa de azeite”. O irmão Madsen explica então como
funcionava a prensa de azeite: “Para produzir azeite de oliva, as azeitonas
refinadas tinham que ser esmagadas numa prensa. As azeitonas maduras e
curtidas eram colocadas dentro de fortes sacos e aplainadas sobre uma
pedra sulcada. Então uma imensa pedra de mó circular era rolada sobre
elas, movida por uma mula ou boi atiçado a chicote. Outro método usava
pesadas alavancas ou parafusos de madeira que pressionavam vigas contra
a pedra, com o mesmo efeito: pressão, pressão, pressão — até o azeite
fluir”.8
Portanto houve “pressão, pressão, pressão” de infinitos pecados até que
o sangue fluiu de cada poro. “De fato”, como comentou o irmão Madsen,
“o simbolismo do local é indiscutível”.9
Um anjo o fortalece
Qual era o estado mental, físico e espiritual do Salvador naquele
momento de crise no jardim a ponto de ser necessário vir um anjo do céu
“que o fortalecia” (Lucas 22:43), mesmo sendo Ele um Deus? Devemos
presumir que Ele, um Deus, estivesse tão enfraquecido por aquela
provação a ponto de precisar de fortalecimento?Que mensageiro divino
ofereceu essa ajuda? Foi Adão? Noé? Abraão? Sem dúvida, naquele
momento crítico do destino do homem, aquele anjo deve ter sido um ser de
estatura muito elevada. O Élder Bruce R. McConkie sugere que tenha sido
o “poderoso Miguel [Adão]”.10 Embora não saibamos com certeza a
identidade daquele consolador enviado pelo céu, há pelo menos quatro
motivos pelos quais realmente pode ter sido Adão.11 Primeiro, Adão, que
foi cocriador desta Terra e pai dos homens mortais, teria supremo interesse
no destino final do homem. Sem dúvida ele tinha interesse em ver que esta
Terra e todos os seus domínios não tivessem sido criados em vão. Segundo,
parece apropriado que aquele que desencadeou em parte a necessidade da
Expiação devesse então ser o agente em nome da humanidade que
auxiliasse Aquele que intercedia por sua redenção. Terceiro, conforme
ensinado por Joseph Smith, Adão tinha um papel de presidência na
hierarquia dos seres divinos, já que todos “os anjos estão sob a direção de
Miguel ou Adão”12 e, portanto, aparentemente nenhum mensageiro estaria
mais bem qualificado para fortalecer e abençoar do que aquele que era o
arcanjo presidente. Quarto, Adão desfrutava um relacionamento especial
com o Salvador. Não apenas tinha se unido a Ele no processo da criação,
mas também liderara as forças celestes em batalha (Apocalipse 12:7).
Naquele momento, mais uma vez, Adão pode ter estado momentaneamente
ao Seu lado, quando o Salvador participava da mais crucial das batalhas.
Adão não podia tomar o lugar do Salvador (porque o Salvador precisava
suportar aquilo sozinho), mas o que pudesse fazer, sem dúvida desejaria
fazê-lo. Talvez estivesse ali para consolá-Lo, para confortá-Lo, para dar-
Lhe apoio e talvez até para abençoá-Lo.
As escrituras se calam quanto à natureza da interação entre Cristo e Seu
visitante angelical. Sem dúvida esse foi um daqueles momentos tão
sagrados que não deveria ser escrito nos registros dos homens.13
Evidentemente certos pensamentos do espírito são tão sublimes, tão
pungentes, que não podem ser reduzidos à linguagem oral ou à palavra
escrita do homem. Simplesmente estão além da capacidade humana de
expressão. Sem dúvida, aquele foi um desses momentos.
Sejam quais tenham sido os detalhes daquele encontro divino, sem
dúvida o convidado angelical deve ter concedido a Cristo a mais plena
bênção que o céu podia oferecer. Sem dúvida aquele foi um momento de
transcendental tristeza. Talvez os dois tenham chorado e expressado uma
intensidade de amor somente conhecida por deuses e anjos. Talvez o anjo
tenha proferido palavras de consolo e conforto. Ou talvez a força de sua
silenciosa presença tenha sido suficiente. Seja qual tenha sido a interação
que ocorreu, o Salvador encontrou forças suficientes, em meio à dor
inimaginável, para prosseguir. Truman Madsen nos lembra de que o anjo
veio “fortalecer — e não salvar”.14
Havia chegada a hora. O momento mais crucial da história era aquele.
As palavras do poeta jamais foram tão aplicáveis quanto naquele momento:
“O dom glorioso, divinal, (…) a este mundo vil, amor e esperança traz”.15
Todos os outros eventos, por mais significativos que pareçam ter sido,
perdem o brilho em comparação a este. Sem esse momento, toda a história
teria sido em vão.
As profundezas de Seu Sofrimento
Cristo havia jejuado por 40 dias, confrontado Satanás face a face,
enfrentado a zombaria, o escárnio e os maus-tratos, tinha suportado as
dores da rejeição, até o brutal golpe da traição. A que novas profundezas
deve ter afundado para clamar: “Pai, se é possível, passa de mim este
cálice” (Mateus 26:39)? Mas não era possível!
Talvez os que estavam mais próximos do Senhor pudessem compreender
melhor Seu sofrimento, um sofrimento que transcendia a compreensão
finita do homem. O Presidente John Taylor explicou: “Sobre Ele
sobrevieram o peso e a agonia de eras. (. . .) Sua indescritível agonia, Sua
avassaladora tortura, tudo isso vivenciado na submissão ao decreto eterno
de Jeová e às exigências de uma lei inexorável. (. . .) Gemendo sob aquele
peso concentrado, aquela intensa e incompreensível pressão, aquela terrível
cobrança da justiça divina, diante da qual a débil humanidade recuava, e na
agonia que vivenciava suando grandes gotas de sangue, Ele foi levado a
exclamar: ‘Pai, se é possível, passa de mim este cálice’”.16
O Presidente Taylor chama nossa atenção para a visão de Enoque, que “viu
o Filho do Homem levantado na cruz, (…) e os céus foram cobertos; e
todas as criações de Deus choraram; e a Terra gemeu; e as rochas partiram-
se” (Moisés 7:55–56). Então, ele comentou: “Assim foi a torturante
pressão daquela intensa e indescritível agonia, que transbordou através de
Seu corpo, convulsionando toda a natureza e espalhando-se por todo o
espaço”.17 Assim como o homem treme de dor e sofrimento, a natureza
também parece reagir de igual modo.
Podemos nos perguntar se a resposta da natureza no Novo Mundo ao
Sacrifício Expiatório do Salvador foi indicativo do que ocorreu em outros
mundos. Seja qual tenha sido a resposta ambiental no Velho Mundo,
manifestações correspondentes de maior magnitude apareceram no Novo
Mundo. Parece ser uma lei divina de compensação — as nações e os
mundos que não foram privilegiados com o ministério mortal do Salvador
receberam maior testemunho físico como compensação. O Velho Mundo
teve sua estrela celeste para apresentar a entrada do Salvador na
mortalidade. No Novo Mundo, houve “muitos sinais e maravilhas no céu”
(Helamã 14:6) — mas o testemunho mais conclusivo de todos foi um dia,
uma noite e um dia de luz. Tão vigoroso e convincente foi esse
testemunho, que “todo o povo (…) ficou tão assombrado que caiu por
terra” (3 Néfi 1:17). O Velho Mundo teve seus tremores de terra e suas três
horas de escuridão, mas esses eventos perdem o brilho quando comparados
com os eventos cataclísmicos ocorridos no Novo Mundo.
As terras em que a presença física do Salvador estava ausente sem
dúvida responderam com mais reações elementais poderosas como
testemunho compensador. O Novo Mundo sofreu relâmpagos
extremamente fortes, terríveis trovões, tempestades, tornados e um
terremoto de intensidade tão monumental que “[sacudiu] toda a terra como
se ela fosse rachar-se ao meio” (3 Néfi 8:6). Mas houve mais. Trevas, uma
densa, nebulosa e total escuridão envolveu a terra por três dias. Não foi
uma escuridão de sombras, mal-iluminada, uma escuridão à qual os olhos
acabam se adaptando; não, foi um negrume impenetrável, “de modo que
luz nenhuma foi possível haver” (3 Néfi 8:21). Foi uma escuridão fria,
implacável e opressiva, simbolizando o mal e a tragédia em sua maior
medida. Foi uma escuridão semelhante à lançada sobre o Egito na época de
Moisés, “trevas que se [apalpam]. (. . .) E houve trevas espessas em toda a
terra do Egito por três dias” (Êxodo 10:21–22).
A natureza e todos os seus componentes se uniram em aterrorizante
harmonia. Até os reis das ilhas do mar exclamaram: “O Deus da natureza
sofre!” (1 Néfi 19:12). Os elementos se retorceram e contorceram em toda
a sua fúria como prova inegável de um sofrimento que sem dúvida era
galáctico — afetando todo homem, todo animal, todo peixe, toda planta e
todo elemento daquela expansão do espaço chamada universo. O
sofrimento do Salvador foi como uma prodigiosa pedra lançada no meio de
um lago transparente — as ondas que se originaram no Getsêmani e no
Calvário iriam, como disse o Presidente John Taylor, “espalhar-se por todo
o espaço” 18 e por um momento “toda a eternidade está aflita” (D&C
38:12).19 John Taylor compreendia que o sofrimento do Salvador afetou a
natureza do universo: Mundo após mundo, as coisas eternas,
Pendem em tua angústia, ó Rei dos reis.20
Por mais inadequadas que sejam as palavras para descrever essa infinita
provação, Frederik Farrar foi quem melhor se expressou, com grande
eloquência nas palavras e precisão de pensamentos:
“Jesus sabia que a terrível hora de Sua mais profunda humilhação havia
chegado — que a partir daquele momento até o do grande clamor com queexpirou nada Lhe restava na Terra a não ser a tortura da dor física e a
opressão da angústia mental. Tudo o que a estrutura humana pode tolerar
foi acumulado sobre Seu corpo encurvado, toda miséria que o insulto cruel
e esmagador pode infligir pesaria sobre Sua alma; e, nesse tormento do
corpo e agonia da alma, até a sublime e radiante serenidade de Seu espírito
divino sofreria um breve, porém terrível eclipse. A dor em sua expressão
mais pungente, a vergonha em sua brutalidade mais assoberbante, todo o
fardo do pecado e mistério da existência humana em sua apostasia e queda
— era isso o que Ele precisava enfrentar, em todo o seu acúmulo mais
inexplicável”.21 Como se isso não fosse suficiente, Farrar prossegue:
“Morrer é tão natural quanto nascer. Não é necessário explicar ao cristão
que não foi esse temor vulgar que fez com que o Salvador suasse sangue.
Não, foi algo infinitamente maior: infinitamente maior do que o mais
longínquo salto que nossa imaginação pode dar. Foi algo infinitamente
mais mortal do que a morte. Foi o fardo e o mistério do pecado do mundo
que pesou intensamente em Seu coração. Foi o gosto, na divina
humanidade de uma vida sem pecados, da taça amarga que o pecado havia
envenenado. (. . .) Foi a capacidade de suportar, perfeitamente sem culpa, a
pior maldade que o ódio humano pode cogitar, foi a experiência de sentir
no seio da perfeita inocência e do perfeito amor tudo o que é detestável na
ingratidão humana, tudo o que é pestilento na hipocrisia humana, tudo o
que é cruel na ira humana. Foi o peso de enfrentar o triunfo final do
desprezo e da fúria de Satanás, unindo contra Sua solitária pessoa todos os
dardos inflamados da falsidade judaica e da corrupção dos gentios — a ira
combinada dos ricos e respeitáveis, a fúria veemente da multidão cega e
brutal. Foi o fato de sentir que os Seus, para quem Ele veio, amavam as
trevas mais do que a luz — que a raça do povo escolhido estava totalmente
absorta numa insana aversão comum à infinita bondade, pureza e amor.
Por tudo isso Ele passou naquela hora em que, num recuo de horror sem
pecado, inconcebível para nós, provou uma amargura mais intensa do que a
pior amargura da morte”.22
Mesmo a mente mais brilhante, a mais fluente oratória, não consegue
descrever adequadamente a provação do Salvador. Farrar nos lembra de
que ela “transcendeu tudo que, mesmo em nossos momentos mais puros,
podemos fingir que entendemos”.23 Está além de qualquer experiência
conhecida ou concebida pelo homem. John Taylor declarou simplesmente:
“De um modo para nós incompreensível e inexplicável, Ele tomou sobre Si
o peso dos pecados do mundo inteiro”24 O Élder Orson F. Whitney
compartilhou este sentimento: “Nossas pequenas aflições finitas são apenas
uma gota no oceano se comparadas à infinita e inexprimível agonia que Ele
suportou por nossa causa porque não éramos capazes de suportá-la por nós
mesmos”.25 Numa tentativa inspirada de definir Seu sofrimento, o Élder
Neal A. Maxwell chamou-o de “enormidade multiplicada por infinito”.26
Por mais arduamente que tentemos, o Senhor nos lembra nossa
incapacidade de ter total empatia, pois ao falar ao Profeta Joseph, Ele
descreveu Seu próprio sofrimento: “Quão dolorosos tu não sabes, quão
intensos tu não sabes, sim, quão difíceis de suportar tu não sabes” (D&C
19:15; grifo do autor). O sofrimento suportado pelo Salvador não pode ser
traduzido em uma massa quantificável nem reduzido a uma equação
matemática. A verdade simples é que não temos ferramentas para medi-lo
nem linguagem suficiente para explicá-lo. Parte da natureza sagrada desse
evento jaz no fato de que sentimos muito mais do que podemos expressar.
A letra do hino expressa isso: Quem pode perceber De sua dor a extensão?
Mas cremos que sofreu
Para conceder-nos salvação.27
Se o sofrimento for proporcional à sensibilidade física, intelectual,
espiritual e emocional de uma pessoa, então o Salvador sofreu mais do que
o homem mortal, porque Ele conhecia mais, sentia mais e Se importava
mais do que qualquer outro ser mortal. Joseph Fielding Smith testifica a
respeito do sofrimento do Salvador: “Um homem mortal não poderia ter
suportado — ou seja, um homem como nós. Por mais forte e vigoroso que
seja, jamais nasceu neste mundo um homem capaz de resistir ao peso do
fardo suportado pelo Filho de Deus, quando Ele arcou com os nossos
pecados. (. . .) Isso estava muito além do poder de um homem mortal
realizar ou suportar”.28
O sacrifício do Salvador exigiu uma resistência inesgotável para suportar
as consequências de nossos pecados e resistir às tentações do Maligno.
Mas Seu sofrimento deve ter sido mais do que submeter-Se
resignadamente ou aguentar algumas chibatadas. Deve ter sido mais do que
um simples ato de defesa para desviar os dardos inflamados do Maligno.
Parte da jornada expiatória do Salvador deve ter incluído um elemento de
conquista, algum tipo de ofensiva, por assim dizer. Era preciso que o
Salvador voluntariamente entregasse a vida para poder “[romper] (…) as
ligaduras da morte” (Mosias 15:8) e “aniquilasse o que tinha o império da
morte” (Hebreus 2:14; ver também I Coríntios 15:26). Havia a necessidade
de resgatar e libertar almas das “correntes do inferno” (Alma 12:11). Essa
parte da batalha pode ter necessitado uma invasão do campo de Satanás,
talvez até uma intrépida incursão no escuro abismo do domínio do diabo.
Orson F. Whitney se refere a esses momentos do clássico conflito: Porque
a cimitarra flamejante, a espada de luz,
Desembainhada com fulgor,
Fende os reinos das trevas e Desfaz as ligaduras da morte.
Os calabouços do inferno explodem! Escancaradas se encontram
As portas eternamente lacradas,
Por onde as almas resgatadas alcançarão
As alturas que estão além das estrelas.29
 
A redenção do Salvador foi uma missão de resgate de um só homem
para libertar da morte e do inferno os prisioneiros de todas as eras, que
Satanás guardava sempre vigilante. A descrição de Tennyson da “Brigada
Ligeira” pode ter algumas semelhanças com a batalha do Salvador no
Getsêmani:
Canhões à sua direita,
Canhões à sua esquerda,
Canhões à sua frente
Sob saraivadas e ribombos
Atacados à bala e bombas
Cavalgaram destemidos
Para as mandíbulas da morte
Para a boca do inferno.30
O ataque do Salvador, porém, seria solitário. Ele sozinho cavalgaria para
as mandíbulas da morte e do inferno. Era uma guerra total. Era preciso
“lutar (…) contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes
das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares
celestiais” (Efésios 6:12). Era uma luta para encerrar — uma guerra até a
morte de todas as mortes. Vimos homens lutarem contra inimigos
incrivelmente mais fortes para salvar-se, homens lutarem com total
arrebatamento para preservar o país e a liberdade, e homens lutarem com
forças sobre-humanas para proteger esposa e filhos, mas naquela ocasião a
causa era maior do que todas essas. O Élder James E. Talmage aborda a
ferocidade dessa batalha ocorrida na “hora” da Expiação: “O temível
incidente da luta contra as tentações ocorrido logo após o batismo do
Senhor foi superado e ofuscado por essa suprema batalha contra os poderes
do mal”.31
Com implacável fúria, as forças de Satanás devem ter atacado o
Salvador em todas as frentes, frenética e diabolicamente procurando um
ponto vulnerável, uma fraqueza, um calcanhar de Aquiles no qual
pudessem infligir uma ferida “mortal”, tudo na esperança de conseguirem
deter o iminente ataque, mas isso não aconteceria. O Salvador prosseguiu
com firmeza em seu destemido ataque até que todos os prisioneiros fossem
libertados dos tenazes tentáculos do Maligno. Aquela era uma missão de
resgate com infinitas implicações. Todo músculo do Salvador, toda virtude,
toda reserva espiritual que pudesse ser invocada seria reunida na batalha.
Sem dúvida exauriram-se todas as energias, acionaram-se todas as
faculdades, exerceram-se todos os poderes. Somente então, quando tudo
parecia esgotado, é que as forças do mal abandonaram seus postos e
recuaram em horrívelderrota. Somente então Cristo “[libertou] seus santos
daquele horrível monstro, o diabo, e da morte e do inferno” (2 Néfi 9:19).
Davi viu esse momento glorioso, porém aterrorizante de triunfo, quando
cantou: “Livraste a minha alma do inferno mais profundo” (Salmos 86:13).
Néfi também se regozijou: “[Ele] redimiu minha alma do inferno” (2 Néfi
33:6). Por fim, os santos de todas as eras reconhecerão “o Filho de Deus
como seu Redentor e Libertador da morte e das cadeias do inferno” (D&C
138:23; ver também Apocalipse 20:13). O Grande Libertador nos resgatou
— salvou o dia, salvou a eternidade. Mas, oh, que batalha! Que ferimentos!
Que amor! Que preço!
Talvez os mortais jamais compreendam plenamente o Getsêmani, porque
a morte teria vindo a outros homens como um bem-vindo alívio muito
antes que a intensidade e a duração daquela infinita provação tivessem
chegado a seu ponto culminante. Não houve esse alívio, porém, para o
Salvador, porque Ele “[sofreria] tentações e dores corporais, fome, sede e
cansaço maiores do que o homem pode suportar” (Mosias 3:7; grifo do
autor). O Profeta Joseph Smith testificou: “[O Salvador] teve sofrimentos
maiores e foi exposto a contradições mais poderosas do que qualquer
homem é capaz de suportar”.32
Dor, agonia, escárnio e insultos conspirariam em terrível fúria para
combater o Redentor, exigindo cada partícula de angústia que a justiça
viesse a requerer e que o Maligno pudesse cobrar. Tal como para os
mortais, Sua válvula de escape era a morte. Somente Ele tinha poder para
“[dar a Sua] a vida” (João 10:17), mas Ele não o faria e não Se libertaria da
dor antes do momento certo. Para Ele, não haveria inconsciência nem
sedativos, nem analgésicos. Em vez disso, haveria uma vívida consciência
de tudo o que Lhe estava sendo imposto. Ele beberia do cálice
transbordante. Como Ele disse aos nefitas: “Bebi da taça amarga que o Pai
me deu (…) tomando sobre mim os pecados do mundo” (3 Néfi 11:11).
Edna St. Vincent Millay conta a respeito de um mortal que foi
momentaneamente investido de onisciência, pela qual ele “pagou [o] preço
/ com infinito remorso da alma”. Os versos a seguir, que simbolizam o
sacrifício do Salvador, captam a angústia de Sua hora de Expiação: Todo
pecado era meu pecado, toda Expiação era minha, e meu era o fel de todos os pesares.
Meu era o peso
De todo mal cometido, o ódio
Que estava por trás de cada confiança invejosa,
Minha era toda ganância, meu era toda a concupiscência.
E o tempo todo, para cada dor,
Cada sofrimento, eu ansiava por alívio
A cada desejo individual —
Ansiei em vão! E senti o fogo voraz. (. . .) Todo sofrimento era meu, e toda vara.
Minha, a piedade como a piedade de Deus.
Oh, terrível peso! O infinito
Imposto a mim, finito! (. . .)
E assim, sob o peso eu me encontro,
E sofri a morte, mas não pude morrer.33
 
As últimas palavras são significativas: “mas não pude morrer”. No caso
do Salvador, estaria mais correto assim: “mas decidi não morrer”. O preço
total seria pago. Cada pecado de Sodoma, Gomorra, Babilônia, os seus e os
meus pecados, seriam cobrados, sofridos e pagos antes que o Salvador
decidisse deixar a morte chegar.
É um pensamento tocante dar-nos conta de que nossos pecados
contribuíram para o imenso sofrimento de nosso Salvador! O Élder James
E. Faust ponderou a esse respeito: “Não há como deixar de nos perguntar
por quantas daquelas gotas de precioso sangue cada um de nós é
responsável”.34
O Sofrimento Continua na Cruz
O Élder McConkie expressou sua crença de que “a infinita agonia [do
Jardim do Getsêmani] — aquele sofrimento incomparável — prosseguiu
por umas três ou quatro horas”.35 Por mais terrível que tenha sido o
sofrimento do Salvador, não terminou no Jardim — Ele ainda teria que
suportar a cruz. Mas por que a cruz? Por que não o apedrejamento ou outra
forma de execução? A cruz era considerada a mais terrível forma de
execução que o homem poderia infligir a outro homem. Foi dito pelo
Presidente J. Reuben Clark Jr. “que era a mais dolorosa [morte] que os
antigos conseguiram inventar”.36 Ela mantinha a vítima por horas no limiar
da vida, sem liberá-la, mas o tempo todo infligindo-lhe nos nervos e nos
sentidos tudo o que podia dolorosa e conscientemente suportar. Levava o
homem até o limiar da dor, mas não além disso. Uma dor lancinante e
pulsante era sentida pela vítima, que aceitaria de bom grado a morte, mas
não conseguia encontrar esse alívio rápido. O Salvador suportaria
nobremente a cruz, tudo o que o homem poderia suportar, e muito mais.
Mas em meio a tudo isso, não houve vingança, não houve amargura, sua
alma não ficou envenenada. O Élder Maxwell observou: “Jesus partilhou
do mais amargo cálice da história sem ficar amargo!”37 Eliza R. Snow
expressou isso em versos: Embora em agonia pendesse,
Nenhuma reclamação escapou de seus lábios.38
Aqueles que menosprezam o sacrifício do Salvador, dizendo não ser um
feito sobre-humano, já que outros foram da mesma forma crucificados e
morreram “nobremente” assim, esquecem-se dos momentos no Jardim. A
dor física da cruz somente, quando comparada à dor acumulada no Jardim
e na cruz, era como comparar a luz de uma lanterna com a do sol. Talvez a
cruz tenha sido escolhida porque o Salvador queria que soubéssemos que
Ele suportou a maior forma de desumanidade imposta ao homem; mas,
mesmo então, essa aflição era relativamente insignificante comparada à
agonia espiritual do Jardim que prosseguiu na cruz. O Élder Joseph
Fielding Smith atestou essa verdade: “Muitas pessoas imaginam que,
quando Ele estava na cruz, e os cravos foram pregados em Suas mãos e em
Seus pés, esse foi o Seu grande sofrimento. O maior sofrimento de Cristo
ocorreu antes de Ele ser colocado na cruz. Foi no Jardim do Getsêmani”.39
O Élder McConkie faz esta comparação entre o Jardim e a cruz: “Ao sair
do Jardim, entregando-Se voluntariamente nas mãos de homens iníquos, a
vitória já havia sido conquistada. Ainda restavam a vergonha e a dor de
Sua prisão, Seus julgamentos e Sua cruz. Mas todas essas coisas foram
ofuscadas pelas agonias e pelos sofrimentos do Getsêmani”.40
O Élder Marion G. Romney compartilhou sentimentos semelhantes:
“Jesus então foi para o Jardim do Getsêmani. Ali foi que Ele mais sofreu.
Sofreu imensamente na cruz, é claro, mas outros homens haviam morrido
por crucificação; na verdade, havia um homem pendurado a cada lado dele
quando morreu na cruz. Mas nenhum homem, nem conjunto de homens,
nem todos os homens juntos já sofreram o que o Redentor sofreu no
jardim”.41
Que doutrina! O sofrimento combinado de todos os homens de todas as
eras, de todos os mundos não supera o sofrimento do Salvador no Jardim.
Como podemos começar a compreender o sofrimento acumulado de toda a
humanidade, ou conforme ensinado pelo Élder Orson F. Whitney, “a
agonia acumulada de toda a raça humana”?42 O que é lançado na balança
do remorso, conforme observou Truman Madsen, quando somamos “o
impacto cumulativo de nossos pensamentos, motivações e atos torpes”?43
Tal como o Élder Vaughn J. Featherstone perguntou, “qual é o peso e a
imensidade dos castigos de todas as leis violadas clamando do pó e do
futuro — um vagalhão incompreensível de culpa”?44 Quantas consciências
pesadas esse mundo produziu e até que profundezas de depravação
afundou esta esfera terrestre? Alguém consegue calcular as horrendas
consequências de tal pecado? O Salvador não apenas calculou: Ele o sentiu
e sofreu.
Muitos escritores contrastam a infinita dor sofrida pelo Salvador no
Jardim com a dor finita da morte física na cruz. Essa comparação é
adequada, já que o Jardim é o lugar em que o Salvador começou Seu
sofrimento pelos pecados e onde sangrou por todos os poros em
decorrência desse sofrimento. Consequentemente, o Jardim é
frequentemente considerado o lugar ou símbolo de Seu sofrimento
espiritual, ao passo que a cruz é considerada o lugar ou símbolo de Seu
sofrimento físico. Não creio, porém, que todos esses escritores quiseram
dizer que o sofrimento do Salvador pelos pecados se restringia
exclusivamente ao Jardim. Essesestudiosos, como o Élder Talmage e o
Élder McConkie, ajudam-nos a compreender que não houve uma linha
demarcatória precisa entre o Jardim e a cruz. Em vez disso, eles sugerem
que o sofrimento do Getsêmani continuou a afligir o Salvador na cruz. O
Élder Talmage expressa sua opinião: “Deixa-nos a impressão de que, além
do terrível sofrimento característico da crucificação, a agonia do
Getsêmani havia voltado intensificada além da capacidade humana de
suportar. Naquela hora mais pungente, o Cristo agonizante estava só, da
maneira mais terrivelmente real”.45 O Élder McConkie sentia algo
semelhante: “Novamente, no Calvário, nas três últimas horas de Sua
paixão na mortalidade, os sofrimentos do Getsêmani retornaram, e Ele
bebeu o cálice completo que o Pai Celestial Lhe deu”.46 Em outra ocasião,
ele expressou sentimentos semelhantes: “A isso acrescentamos, se
interpretarmos as escrituras sagradas corretamente, que toda a angústia,
toda a dor e todo o sofrimento do Getsêmani voltaram nas três horas finais
na cruz, as horas em que as trevas cobriram a Terra”47 Comentando sobre a
escuridão que envolveu a crucificação, o Élder McConkie perguntou: “Não
poderia ser que esse tenha sido o período de maior provação, ou que nele
tenham retornado as agonias do Getsêmani até intensificadas?”48
O Élder McConkie e o Élder Talmage acreditavam que a dor que iniciou
no Getsêmani, mas concluiu no Calvário, supera em muito a dor física
associada unicamente à cruz. Aqueles que diminuem o sacrifício do
Salvador porque dois ladrões, um de cada lado, sofreram de modo
semelhante, equivocam-se completamente. É claro que o sofrimento físico
na cruz foi tremendo, é claro que os dois ladrões sentiram as mesmas dores
da crucificação que o Salvador sentiu. Mas a angústia dos cravos foi
ofuscada de longe pelo sofrimento espiritual, emocional e físico absorvido
pelo Salvador ao tomar sobre Si os pecados e as enfermidades do mundo
— um sofrimento que evidentemente continuou na cruz. Essa doutrina é
condizente com o comentário de Pedro de que o Salvador “[levou] ele
mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro” (I Pedro 2:24;
grifo do autor). Outras escrituras, embora não necessariamente conclusivas,
sugerem que o papel do Salvador na cruz incluía o confronto com o
pecado. Paulo falou a respeito da reconciliação do Salvador pelo “sangue
da sua cruz” (Colossenses 1:20). Néfi escreveu que viu o Salvador
“levantado na cruz e morto pelos pecados do mundo” (1 Néfi 11:33). Mais
tarde, o Profeta Joseph Smith acrescentou seu testemunho de que “Jesus foi
crucificado por homens pecadores, pelos pecados do mundo” (D&C 21:9).
Os eventos conclusivos da vida do Salvador, conforme discutidos abaixo,
sugerem que as provações do Getsêmani de fato retornaram e até se
intensificaram na cruz.
Primeiro, depois da pungente experiência do Jardim, o Salvador passou
por uma noite de flagelação, escárnio e zombaria que O deixou exausto e
abandonado. No Jardim, Ele poderia ter recorrido a Suas plenas faculdades
físicas, emocionais e mentais para encarar a enxurrada torrencial de dor
lançada sobre Ele. Ao entrar no Jardim, Ele estava em Suas melhores
condições. Um anjo se colocou a Seu lado com a expressa missão de
fortalecê-Lo (Lucas 22:43). Mas, então, ao ser estendido sobre a cruz, Suas
reservas físicas e emocionais rapidamente se dissipavam. Sua substância
mantenedora da vida já havia vazado de cada poro. Ele tinha sido açoitado,
cuspido e golpeado. As horas insones estavam cobrando o seu preço em
Sua estrutura temporal. Um dos Doze O havia traído. Outro O havia
negado. A crescente investida da dor O encontraria despojado de consolo
mortal ou divino. Todo recurso físico e celeste estava sendo metodicamente
esgotado e retirado Dele até que nada restou a não ser o amor abnegado e o
compromisso de expiar.
Talvez alguns dos que apenas alguns dias antes O saudaram como seu rei
e clamaram “Hosana ao Filho de Davi” (Mateus 21:9) uniram-se depois,
tragicamente, ao brado maldito: “Crucifica-o, crucifica-o” (Lucas 23:21).
Seria de admirar que num dia futuro Ele lamentasse: “Estas são as feridas
com que fui ferido na casa de meus amigos” (D&C 45:52; ver também
Zacarias 13:6). O Salvador havia sido “rejeitado por seu povo” (Mosias
15:5). Como Ele tragicamente observou: “Vim aos meus e os meus não me
receberam” (3 Néfi 9:16). Se houve algum momento de especial
suscetibilidade à tentação para o Salvador, poderia ter sido aquele. Nessa
condição de esgotamento e rejeição, Ele enfrentaria a cruz. Perguntamo-
nos como podia ter alguma resistência restante, algum desejo de lutar,
alguma reserva de forças para vencer, algum amor a mais para dar. Ele
estava caminhando sobre a tênue linha que separa a vida da morte, a
consciência da inconsciência. Do ponto de vista de Satanás, o momento de
vulnerabilidade estava ali.
Não admira que Satanás tenha surgido naquele momento propício,
vomitando sua insidiosa tentação por meio dos lábios de seus asseclas
mortais: “Se és Filho de Deus, desce da cruz” (Mateus 27:40). O corpo do
Salvador Se contorcia de dor. Seu espírito puro e imaculado Se revoltava
em violenta reação contra o pecado e suas consequências. Os céus
pareciam de bronze. Oh, como deve ter sido tentadora aquela sugestão do
Maligno, mesmo para um Deus — descer da cruz e obter alívio, mesmo
que momentaneamente, daquela dor cruciante. Farrar se referiu a um
momento análogo em que Satanás confrontou o Salvador em Sua condição
enfraquecida, após um jejum de 40 dias: “Aquele era o momento propício
para o tentador. Todo o período tinha sido de tensão moral e espiritual.
Nessas horas de emoções exacerbadas, os homens conseguem suportar,
sem sucumbir, um volume quase inacreditável de trabalho, e os soldados
lutam um longo dia de batalha inconscientes ou esquecidos de seus
ferimentos. Mas quando o entusiasmo se esgota, quando a exultação se
dissipa, quando o fogo se abranda, quando a Natureza, cansada e
sobrecarregada, volta a cobrar seus direitos — em resumo, quando se inicia
uma reação vigorosa, deixando o homem sofrendo, desanimado, exausto
— então essa é a hora de extremo perigo, tendo sido em muitos casos, um
momento fatal no qual homens caíram vítimas de seduções insidiosas ou
ataques ousados. Foi num momento assim que a grande batalha de nosso
Senhor contra os poderes do mal foi travada e vencida”.49
O fato de Satanás ter aparecido num momento como aquele na cruz
indica que o Salvador estava chegando ao limite de Sua dor, ao clímax de
Sua missão. Aquela era a última chance de Satanás, sua desesperada
esperança final de frustrar o plano de redenção. Era agora ou nunca. Não
havia anjo para fortalecer o Salvador, não havia influência de apoio do Pai.
Sem dúvida, Satanás gostou das probabilidades. Milton escreveu a respeito
de probabilidades semelhantes ao visualizar o encargo do Salvador de
enfrentar as forças rebeldes na guerra prémortal. Jeová, no prelúdio de Seu
confronto com as forças do mal, observou que pelejaria contra elas: Que [as
forças rebeldes] tenham o que desejam, que coloquem à prova
Quem na batalha se mostrará mais forte, todos eles
Ou Eu sozinho contra eles.50
Este era o confronto: Satanás, acompanhado talvez de suas legiões de
forças nefastas, contra o Salvador em toda a Sua tocante solidão — o
Salvador em Sua condição enfraquecida, quase sem vida, lutando contra
um acúmulo universal de sofrimento. Satanás escolheu o momento certo. A
luz de cura proveniente do Pai estava sendo retirada, a força torturante da
mais hedionda forma de execução do homem estava chegando ao auge, e a
natureza estava prestes a se revoltar em linguagem sísmica. Enquanto isso,
Satanás espreitava nos bastidores, esperando confrontar seu adversário no
exato momento em que o Salvador estivesse mais vulnerável e as
consequências do pecado mais aguçadas. Esse foi o momento de crise em
que Satanás estava mais forte do que nunca, e o Salvador estava em Sua
condição mais fraca. Esse era o momento de crise na cruz, o momento em
que a dor sentida pelo Salvador era mais intensa,e Sua vulnerabilidade
mais aguda. Mas Milton estava certo: “O amor celestial vencerá o ódio
infernal”.51
Um segundo fator que evidenciava a intensificação do sofrimento na
cruz é a retirada do Espírito de Deus. As escrituras afirmam repetidas vezes
que o Salvador “[pisou] sozinho o lagar” (D&C 76:107; D&C 88:106;
D&C 133:50). Contudo, Ele parece não ter estado completamente sozinho
no Jardim, porque ali um anjo surgiu para oferecer-Lhe consolo divino. Se
“sozinho” fazia parte de Sua jornada, parte de Seu infinito sofrimento,
parte do clímax de Sua agonia, então esse requisito parece não ter sido
plenamente consumado no Jardim; mas na cruz o anjo estava ausente, o Pai
havia Se retirado, e o clamor da triste solidão foi ouvido em toda a sua
severa realidade: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
(Mateus 27:46; Marcos 15:34). Sem dúvida, as consequências físicas da
cruz não ditaram essa retirada do Espírito de Deus. Em vez disso pode ter
sido uma resposta natural à avalanche de mal acumulado sobre o Inocente.
Quando o Salvador atingiu o clímax de Sua provação — quando os
infinitos pecados de infinitos mundos se abateram sobre Ele — o Espírito
de Deus Se retirou em decorrência desse mal universal. Isaías ensinou essa
verdade quando declarou: “Nossas iniquidades como um vento nos
arrebatam”. E, além disso, Deus ocultou “de nós o [Seu] rosto, (…) por
causa das nossas iniquidades” (Isaías 64:6, 7). Se Deus retirou Seu Espírito
devido às iniquidades dos mundos, que Jesus tomou sobre Si, então os
sofrimentos do Getsêmani realmente retornaram na cruz.
Terceiro, o Élder Talmage acreditava que o Salvador literalmente morreu
na cruz por ter o coração quebrantado, sugerindo que esse evento foi o
ponto culminante e conclusivo de Sua missão. Talvez essa fosse a sequela
física de Seu sangramento por todos os poros. Sem esquecer-se do controle
que o Salvador tinha sobre a vida e a morte, o Élder Talmage expressou seu
ponto de vista: “Conquanto, conforme afirmado no texto, a entrega da vida
tivesse sido voluntária da parte de Jesus Cristo, pois que Ele tinha vida em
Si mesmo e ninguém Lha poderia tirar, a menos que Ele quisesse permitir
que Lhe fosse tirada, (João 1:4; 5:26; 10:15–18) houve necessariamente
uma causa física direta para o desenlace. (. . ). O forte e alto brado,
imediatamente depois do qual pendeu a cabeça e “entregou o espírito”,
quando considerado em conexão com outros detalhes registrados, aponta
para uma ruptura física do coração como causa direta da morte. (. . .)
Grande estresse mental, emoção avassaladora, tanto de aflição quanto de
júbilo, e intensa luta espiritual, estão entre as causas reconhecidas de
ruptura cardíaca”.52
Talmage então acrescenta: “Este autor acredita que o Senhor Jesus
morreu de rompimento do coração”.53 Talvez o inspirado salmista tenha
visto literal e figurativamente a causa da morte do Salvador ao cantar:
“Afrontas me quebrantaram o coração” (Salmos 69:20). Se o coração
quebrantado do Salvador foi a última gota, o golpe final que simbolizava a
quintessência do sofrimento em toda a sua terrível realidade, então essa
ruptura pode igualmente simbolizar aquele momento de clímax em que Sua
estrutura mortal e espiritual já não podiam suportar mais nem precisavam
fazê-lo. Ele havia doado tudo que tinha. Seu coração se rompera no
processo de doação. Nada havia restado para dar nem nenhum preço a mais
a ser pago.
É adequadamente simbólico que, da mesma forma, precisemos ter um
“coração quebrantado” para desfrutar as bênçãos do Sacrifício Expiatório.
Leí ensinou que “[Cristo] se oferece em sacrifício pelo pecado (…) para
todos os quebrantados de coração e contritos de espírito” (2 Néfi 2:7). O
Salvador ensinou aos nefitas que eles também precisavam sacrificar-se de
igual modo, pois lhes ordenou: “E oferecer-me-eis como sacrifício um
coração quebrantado e um espírito contrito” (3 Néfi 9:20; ver também
D&C 59:8). Tal como o Salvador, também precisamos consagrar tudo o
que temos, tanto material quanto espiritualmente, para nos qualificarmos
para as bênçãos sublimes do sacrifício infinito de Cristo. Rudyard Kipling
reconheceu esse remédio espiritual consagrado pelo tempo: O tumulto e os
brados se calam; Os capitães e os reis partem:
Ainda resta Teu antigo sacrifício,
Um coração humilde e contrito.54
A princípio, poderíamos concluir que o maior sofrimento do Salvador
foi no Jardim, quando sangrou por todos os poros. Ali, a intensidade de
Seu sofrimento se manifestou num fenômeno físico que resultou na
transudação de sangue por todos os poros. Essa liberação externa parece ter
sido uma reação física à dor sobre humana que Lhe foi imposta. Mas isso
suscita uma dúvida: “Se o Salvador sofreu em igual medida ou mais na
cruz, por que não houve uma reação física semelhante no cruel madeiro —
um sangramento por todos os poros ou outra forma de reação física
extrema?” Talvez essa reação física tenha se manifestado na forma de uma
ruptura cardíaca. Se realmente Seu coração se rompeu em reposta ao
sofrimento infinito, então o fato de que isso aconteceu na cruz, e não no
Jardim, sugere que a cruz pode de fato ter sido o clímax de Seu sofrimento
universal.
Uma Expiação pessoal
Em algum ponto, os inumeráveis pecados de incontáveis eras foram
acumulados sobre o Salvador, mas Sua submissão foi muito mais do que
uma resposta fria às exigências da justiça. Não foi uma Expiação
inominável e desprovida de paixão realizada por um ser estoico e
indiferente. Em vez disso, foi uma oferta motivada por um amor infinito.
Foi uma Expiação personalizada, e não generalizada. De alguma forma,
pode ser que a prestação de contas, o sofrimento e a redenção dos pecados
de cada alma foram realizados individualmente (e também
cumulativamente), tudo isso com um amor desconhecido pelo homem.
Cristo provou “a morte por todos” os homens (Hebreus 2:9; grifo do autor),
talvez querendo dizer em favor de cada pessoa, individualmente. Uma das
versões de Isaías sugere que Cristo pode ter visualizado cada um de nós
quando o Sacrifício Expiatório cobrou seu preço — “quando a sua alma se
puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade” (Isaías 53:10; grifo
do autor; ver também Mosias 15:10–11). Assim como o Salvador abençoou
“as criancinhas, uma a uma” (3 Néfi 17:21); assim como os nefitas
sentiram Suas feridas “um por um” (3 Néfi 11:15); assim como Ele ouve
nossas orações uma a uma, então talvez Ele tenha sofrido por nós, um por
um.
O Presidente Heber J. Grant abordou esse enfoque individual: “Jesus não
veio apenas como dádiva universal, Ele veio como oferta individual com
uma mensagem pessoal para cada um de nós. Para cada um de nós Ele
morreu no Calvário e Seu sangue nos salvará sob certas condições. Não
como nações, comunidades ou grupos, mas como indivíduos”.55
Sentimentos semelhantes foram compartilhados por C. S. Lewis: “[Cristo]
tem uma atenção infinita para dedicar a cada um de nós. Ele não tem que
lidar conosco em massa. Estamos sozinhos com Ele como se fôssemos o
único ser que Ele criou. Quando Cristo morreu, Ele o fez individualmente
por você, como se você tivesse sido o único homem no mundo”.56 O Élder
Merrill J. Bateman falou não apenas sobre a natureza infinita da Expiação,
mas também de seu modo íntimo de afetar-nos: “A expiação do Salvador
no jardim e na cruz é tanto íntima quanto infinita. Infinita no sentido de
que se estende pelas eternidades. Íntima no sentido de que o Salvador sente
as dores, o sofrimento e as enfermidades de cada pessoa”.57 Como o
Salvador, sendo um Deus, tem a capacidade de ter simultaneamente
múltiplos pensamentos, não seria impossível para o Jesus mortal
contemplar cada um dos nomes e transgressões de modo concomitante, à
medida que a Expiação progredia, sem sacrificar a atenção pessoal
dedicada a cada um de nós. Seu sofrimento nunca perdeu sua natureza
pessoal. Embora esse sofrimento tenha dimensões macro e microscópicas,
a Expiação, no final, foi oferecida para cada um de nós, individualmente.
A visão do mundo que teve Moisés pode oferecer alguma perspectivasobre como as dores e enfermidades de incontáveis pessoas puderam ser
percebidas num período de tempo relativamente curto, talvez até
simultaneamente. Moisés viu os inúmeros habitantes da Terra, mas as
escrituras deixam claro que não foi meramente um tipo de visão
panorâmica em massa, uma varredura de um microssegundo das hostes da
humanidade, como um filme épico rodado à velocidade da luz. Pelo
contrário, o registro sagrado relata: “Não houve uma só alma que não
tivesse visto; e discerniu-as pelo Espírito de Deus” (Moisés 1:28; grifo do
autor; ver também Éter 3:25). Que pensamento assombroso, porém,
reconfortante. Ninguém, nem “uma só alma” foi esquecida ou
menosprezada, ou negligenciada no processo de redenção. Foi um
sacrifício e um carinho pessoal, concentrado, íntimo, um a um, por todos
nós, individualmente.
Por Que Deus Retirou Seu Espírito?
Ao contrário do que aconteceu no Jardim, não houve um ministro
angélico na cruz. Em vez disso, a luz de cura proveniente do Pai parece ter
sido retirada plenamente, e naquele momento de extrema necessidade, o
Salvador, um Deus em todos os aspectos, proferiu aquele brado que jamais
será esquecido: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
(Mateus 27:46; Marcos 15:34). Brigham Young ensinou que naquele
momento de crise: “O Pai Se retirou, retirou Seu Espírito e cobriu-Se com
um véu”. Naquele momento comovente, o Filho suplicou ao Pai que não O
abandonasse ao que o Pai respondeu: “‘Não, (…) tu deves ter as tuas
provações, assim como os outros’”.58 O Salvador não conhecia em plena
medida como era ser afastado da presença de Deus. Seu sofrimento pelos
pecados não foi uma experiência acadêmica. Ela foi a amarga realidade.
Isso suscita a pergunta: “Por que era necessário que Deus retirasse Seu
Espírito?” Talvez a melhor resposta seja com outra pergunta: “O que
acontece com o Espírito de Deus quando pecamos?” Obrigatoriamente, o
Espírito Se retira. Quando pecamos, nosso espírito é afastado ou separado
de Deus e de Seu divino Espírito. O rei Benjamim ensinou: “Se
transgredirdes (…) de modo que vos afasteis do Espírito do Senhor e não
tenha ele lugar em vós” (Mosias 2:36; ver também D&C 97:17). Quando o
Salvador tomou sobre Si os infinitos pecados de infinitos mundos e todas
as suas consequências correlatas, parece que o Espírito de Deus
naturalmente Se retirou. Foi apenas um cumprimento da lei de que “o
Senhor está longe dos ímpios” (Provérbios 15:29). O Salvador,
evidentemente, não é ímpio, mas Ele sem dúvida tomou sobre Si os
pecados dos iníquos. Se essa retirada não houvesse acontecido, o Salvador
não teria pleno conhecimento das consequências do pecado, como
vivenciariam aqueles por quem Ele sofreu. Se fosse esse o caso, os homens
diriam: “Ele nunca compreendeu todas as ramificações do pecado. Sim,
Ele sofreu, sentiu a agonia, mas nunca provou a solidão, a rejeição, o
afastamento que acompanha a retirada da luz de Deus”. Mas não foi o que
aconteceu.
Por fim, a provação do Senhor chegou a seu clímax. A tormenta da
culpa, do remorso, da vergonha e desesperança que acompanha o pecado
derramou-se sobre Ele com todo o seu peso e sua fúria. Sua alma pura e
sensível, que não tinha mancha nem mácula, que jamais conheceu o pecado
em qualquer grau, em qualquer momento, em qualquer lugar, encarava
então o mal em proporções cataclísmicas. O preço do mal em infinita
medida foi contabilizado e pago. Todos os sentidos que um homem tem —
intelectuais, emocionais, espirituais e psicológicos (muito mais afinados na
alma sensível do Salvador) — foram monopolizados pelos efeitos que se
abatem após o mal. A última centelha da luz que cura proveniente de Deus
se retirou, deixando os efeitos do mal correrem seu curso livres e sem
restrições. O Espírito do Pai já não permaneceu na presença do mal
infinito, que estava sendo assumido justamente por Aquele que
incorporava a infinita bondade. Naquele ponto, o Filho do homem,
extremamente solitário no mais pleno sentido da palavra, clamou num
momento de extrema tristeza: “Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?” (Mateus 27:46; Marcos 15:34). Ninguém poderia alegar
que Ele foi poupado de qualquer consequência do pecado. Não houve nada
que amenizasse o impacto. Ele desceu abaixo de todas as coisas.
Essa retirada do Espírito foi sentida em pequenas proporções pelo
Profeta Joseph Smith quando as 116 páginas do manuscrito do Livro de
Mórmon foram perdidas. Naquela ocasião, o Senhor disse: “Ordeno outra
vez que te arrependas, para que eu não te humilhe com minha onipotência;
e que confesses teus pecados para que não sofras esses castigos dos quais
falei, os quais experimentaste em pequeníssima, sim, em ínfima proporção,
quando retirei meu Espírito” (D&C 19:20: grifo do autor).
Tão avassalador foi o pesar daquele momento que a mãe de Joseph,
Lucy Mack Smith, mais tarde comentaria: “Lembro-me muito bem daquele
dia tenebroso, tanto por dentro quanto por fora. Para nós, ao menos, o céu
parecia coberto de negridão, e a Terra encolhera de melancolia. Eu disse
muitas vezes para mim mesma que se um castigo contínuo, tão severo
quanto o que vivenciamos naquela ocasião, fosse infligido sobre as pessoas
mais iníquas que já se puseram diante do pedestal do Todo-Poderoso — se
o castigo delas não fosse maior do que aquele, eu sentiria pena de sua
condição”.59
Como podemos extrapolar essa experiência para a do Salvador, que sentiu
não apenas uma “ínfima proporção”, mas, sim, em nível infinito, a retirada
do Pai? A verdade é que não podemos.
Ele Suportou tudo Sozinho
O Élder James E. Talmage sugeriu outro motivo convincente para o Pai
ter retirado Seu Espírito: “A fim de que o supremo sacrifício do Filho
pudesse consumar-se em toda plenitude, o Pai parece ter retirado o apoio
de Sua presença imediata, deixando ao Salvador dos homens a glória da
completa vitória sobre as forças do pecado e da morte”.60 Havia algo na
abrangência de Seu sacrifício, em sua profundidade, que exigia que Ele
cortasse todos os laços mortais e celestes, ficando sozinho, absolutamente
sozinho.
Assim, nos momentos finais de escuridão, quando Deus, o Pai, retirou
Seu Espírito e até a própria natureza clamou, o salvador da humanidade
sofreu o fardo combinado da cruz e o fardo do Jardim, e fez isso sozinho!
A respeito dessa verdade, Ele prestou fervoroso testemunho: “Eu sozinho
pisei no lagar, e dos povos ninguém houve comigo. (. . .) e não havia quem
me ajudasse” (Isaías 63:3, 5; ver também D&C 76:107; 88:106; 133:50).
Não havia ninguém com Ele, ninguém para ajudar? E quanto a Seus três
apóstolos principais no Jardim? Eles não O consolaram e O apoiaram em
Sua hora de necessidade? Marcos registrou aqueles momentos no Jardim e
relatou o assombro dos apóstolos. Eles evidentemente não conseguiam
reconciliar no coração que o Messias prometido sucumbiria à morte.
Parecia que para eles a condição de Messias e o martírio eram teologias
irreconciliáveis. O momento da verdade estava ali, e foi temporariamente
mais do que podiam suportar. Marcos relata isso: “E foram a um lugar
chamado Getsêmani, que era um jardim; e os discípulos começaram a ter
pavor e a angustiar-se e a lamentar-se em seu coração, perguntando-se se
aquele era o Messias. E Jesus, conhecendo-lhes o coração, disse a seus
discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu oro. E tomou consigo a Pedro e
a Tiago e a João e repreendeu-os e disselhes: A minha alma está
profundamente triste, sim, até a morte; ficai aqui e vigiai” (TJS, Marcos
14:36-38; grifo do autor).
Por melhor que fossem aqueles homens, eles momentaneamente
questionaram se Jesus era o Messias. Naquela hora de suprema
necessidade, quando Seu espírito ansiava por apoio mortal, aqueles em
quem Ele mais confiava, os três apóstolos principais que mais tarde
liderariam a Igreja, não apenas duvidaram, mas também adormeceram. Por
três vezes Ele pediu que vigiassem com Ele, e por três vezes o sono os
venceu. Como devem ter sido duras para Pedro estas palavras de
repreensão: “Então nem uma hora pudeste velar comigo?” (Mateus 26:40).
O salmo messiânicode Davi foi uma trágica descrição: “Afrontas me
quebrantaram o coração, e estou fraquíssimo; esperei por alguém que
tivesse compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores, mas não
os achei” (Salmos 69:20; grifo do autor).
O crepúsculo do Getsêmani se tornou na mais tenebrosa das noites. Os
principais sacerdotes e anciãos foram conduzidos por Judas até o retiro
sagrado do Salvador. Naquele momento, quando a conspiração e a traição
estavam rubras com sua sinistra mácula, as escrituras revelam: “Então,
todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (Mateus 26:56). Isso não foi uma
surpresa para o Salvador: “Eis que chega a hora, e já se aproxima, em que
vós sereis dispersos cada um para sua parte, e me deixareis só” (João
16:32; ver também Marcos 14:27). A descrição de Samuel Taylor
Coleridge do velho marinheiro relembra a aflição do Salvador: Sozinho,
sozinho, totalmente sozinho, Sozinho no vasto, vasto mar!
E nem um santo se compadeceu
Da minha alma em agonia. 61
Morôni sentiu, em parte, essa condição nada invejável de total solidão.
Ele escreveu: “Estou só. Meu pai foi morto em combate, bem como todos
os meus parentes; e não tenho amigos nem tenho para onde ir” (Mórmon
8:5). Moisés tinha Aarão e Hur para sustê-lo em sua hora de necessidade
— mas para o Salvador não havia ninguém. Nunca houve solidão como a
Dele — nenhuma palavra de consolo,62 nenhum braço no ombro, nenhum
anjo para fortalecê-Lo na cruz, então, por fim, nada restava do Espírito de
Seu Pai. Ele estava extremamente sozinho contra o pecado, a morte e todos
os cruéis ataques do maligno, até que pôde dizer em glória triunfante: “Está
consumado” (João 19:30).
O Salvador então entregou a vida. Seu sacrifício de infinitas dimensões
estava concluído, mas Sua missão ainda não terminara. Ele ainda tinha que
vencer a morte pelo poder da ressurreição. O Élder Joseph F. Smith ajuda a
colocar esses acontecimentos finais da vida do Salvador em sua devida
perspectiva: “Muitos do mundo cristão acreditam que nosso Salvador
concluiu Sua missão quando expirou na cruz, e Suas últimas palavras na
cruz, conforme registradas pelo Apóstolo João — ‘está consumado’ — são
frequentemente citadas como prova do fato. Mas isso está errado. Cristo
não concluiu Sua missão na Terra até depois que Seu corpo Se levantou
dos mortos. (. . .) Além disso, a missão de Jesus estará inacabada até que
Ele redima toda a família humana, exceto os filhos de perdição, e também
esta Terra, da maldição que caiu sobre ela, e tanto a Terra quanto seus
habitantes possam ser apresentados perante o Pai redimidos, santificados e
gloriosos”.63
O Sofrimento infinito pode Ser Comprimido num tempo finito?
Como o Salvador pôde naqueles “limitados” momentos do Getsêmani e
do Calvário sofrer de modo a poder socorrer aqueles que tinham sofrido
por longos períodos de tempo? Haverá um meio pelo qual possamos
igualar o sofrimento do Getsêmani e da cruz à dor e à agonia de alguém
que lutou contra o câncer por 20 anos, à solidão da viúva cujo marido
faleceu na flor da idade? As escrituras inequivocamente declaram: “O
Filho do Homem desceu abaixo de todas elas” (D&C 122:8). A verdadeira
pergunta não é se Ele sofreu, mas como o fez? Como comprimiu num
“breve” momento um sofrimento de tal magnitude a ponto de poder
afirmar que vivenciou tudo o que os mortais sofreram e mais? Os seguintes
pensamentos são oferecidos não como certezas doutrinárias, mas como
algo possível de ser levado em consideração.
Primeiro, no contexto da Expiação, talvez o tempo seja imaterial ou pelo
menos de reduzidas consequências. Com nossa mente finita traduzimos
toda ação em tempo, mas Alma ensinou: “O tempo somente é medido
pelos homens” (Alma 40:8). Para Deus parece não haver passado, presente
ou futuro. Em vez disso: “Todas as coisas estão presentes diante de [Seus]
olhos” (D&C 38:2; ver também D&C 130:7). Ele não vive momento por
momento, dia por dia. Ele não usa um relógio nem consulta um calendário,
mas “tudo é como um dia para Deus” (Alma 40:8). Como Deus conhece
todas as coisas, o futuro é tão real quanto o presente. Não há linha divisória
entre o presente e o passado. Joseph Smith observou que “o passado, o
presente e o futuro foram e são para Ele um eterno ‘agora’”.64 C. S. Lewis
compartilhou sentimentos semelhantes: “A meu ver, Deus não vive de
modo algum num tempo sequencial. Sua vida não é gotejada momento a
momento como a nossa. (. . .) Todos os dias são ‘agora’ para Ele. Ele não
Se lembra das coisas que você fez ontem. Ele simplesmente vê você as
fazendo, porque, embora você tenha perdido o ontem, Ele não perdeu. Ele
não ‘prevê’ você fazendo coisas amanhã. Ele simplesmente vê você as
fazendo. Porque embora o amanhã ainda não tenha chegado para você, já
está ali para Ele”.65
Morôni teve um pequeno vislumbre da atemporalidade ao olhar para o
futuro distante e declarar: “Eis que eu vos falo como se estivésseis
presentes e, contudo, não estais” (Mórmon 8:35). Talvez o Salvador tenha
vivenciado um senso semelhante de inexistência do tempo ao tomar sobre
Si os nossos pecados. Nesse contexto, as palavras “breve” ou “prolongado”
não teriam sentido. Consequentemente, talvez a quantidade de dor
suportada pelo Salvador simplesmente não possa ser medida pelas
restrições de tempo do homem.
Segundo, é conhecimento comum que a área de um retângulo é igual a
seu comprimento multiplicado por sua altura. Não importa quão pequena
seja a altura, a área ficará constante se aumentarmos proporcionalmente a
largura. Será que o mesmo se aplica ao sofrimento? Talvez o sofrimento
total seja expresso por uma fórmula semelhante: Sofrimento = Intensidade
da Dor x Tempo. Se for assim, será que podemos diminuir o tempo e
inversamente aumentar a dor para que uma vida inteira de sofrimento seja
comprimida em um dia, uma hora ou até um segundo, mas ainda assim o
sofrimento total permaneça constante?
O conceito de dor do homem é limitado, na melhor das hipóteses.
Quando chegamos a nosso limiar de dor, uma válvula de escape entra em
funcionamento. Ou perdemos a consciência ou morremos.
Consequentemente, não podemos saber nem podemos relatar uma
intensidade de dor que transcenda a morte ou a inconsciência.
No caso do Salvador, porém, não houve esse mecanismo de escape. A
dor continuaria a aumentar muito além do que já foi sentido ou visualizado
por qualquer homem mortal. O Élder Erastus Snow sugeriu que naquele
momento de crise, quando “o fim estava bem próximo, todas as
enfermidades da carne, por assim dizer, acumularam-se sobre Ele”.66 O rei
Benjamim nos lembrou que os sofrimentos do Salvador foram “maiores do
que o homem pode suportar” (Mosias 3:7). Se não houver morte nem
inconsciência e a dor puder aumentar sem limites, parece razoável supor
que o sofrimento poderia permanecer constante — mesmo que o fator
tempo fosse drasticamente reduzido.
Terceiro, talvez o sofrimento do Salvador não tenha se limitado ao
Jardim e à cruz. Talvez uma parte de Seu sofrimento estivesse não apenas
no evento desencadeador que fez vir a dor, mas também na antecipação
desse ato. Joseph Smith ensinou: “Não há dor tão terrível quanto o
suspense”.67 Essa dor corrói o réu enquanto ele espera sem fôlego que o
júri revele seu veredito. Essa dor faz com que mães ansiosas passem a
noite insones imaginando se seus filhos estão seguros em distantes campos
de batalha. Essa dor é mais do que psicológica. É extremamente real.
Também é sofrimento.
Se a antecipação é dor, então podemos supor que o sofrimento do
Salvador não teve início ao tornar-se humano, mas sim, muitas eras antes
disso — na existência prémortal quando Ele proferiu estas palavras: “Eis-
me aqui, envia-me” (Abraão 3:27). A antecipação de Sua Expiação deste a
época prémortal não substituiu a assombrosa realidade do Getsêmani e da
cruz (que estava além até de Suas expectativas telescópicas), mas, sem
dúvida, deve ter aumentado a magnitude das dores que suportou. Nesse
sentido, Seu sofrimento se estendeu até bem além dos confins do Jardim e
da cruz.
Quarto, em outro sentido o sofrimento do Salvadornão foi “breve”, mas
sem fim. Ele envolve mais do que o Jardim e a cruz, mas do que Sua
jornada mortal, mais do que a dor do suspense. Se Deus sofre como os pais
mortais quando seus filhos sofrem, então enquanto Deus gerar filhos, Ele
vai sofrer. Enquanto Suas criações vivenciarem o pecado, a solidão, as
doenças, a rejeição ou quaisquer dos labores que constituem a provação
humana, Deus vai sofrer e chorar. Em certa ocasião, Abigail Adams
expressou para uma amiga sua profunda devoção por seu marido que era
presidente dos Estados Unidos: “Quando ele é ferido, eu sangro”.68 De
igual modo, o Salvador continua a “sangrar” a cada uma de nossas feridas
e dores. Quando Satanás foi expulso da presença de Deus, “os céus
prantearam por ele” (D&C 76:26). Quando Enoque teve a visão dos
habitantes da Terra, Ele se admirou de ver que “o Deus do céu olhou o
restante do povo e chorou” (Moisés 7:28). Depois que o Salvador ficou
sabendo da morte de Lázaro e a tristeza que Marta e Maria sentiram, as
escrituras relatam: “Jesus chorou” (João 11:35). Foi esse mesmo Jesus que
vivenciou uma “plenitude de alegria” quando visitou os nefitas, mas
profetizou a eles que “[se entristecia] por causa da quarta geração” a partir
daquela (3 Néfi 27:31–32).69 Deus sentiu e ainda sentirá nossas
enfermidades porque nos ama, regozija-Se conosco, sofre conosco e chora
conosco. Seu sofrimento é um processo sem fim do qual a Expiação era
uma parte integral.
Nesse sentido, o sofrimento do Salvador continua, para sempre e
sempre. B. H. Roberts estava de pleno acordo com esse conceito: “O
sofrimento de Jesus Cristo não foi um único episódio — uma breve hora,
uns breves três anos — o sofrimento de Jesus Cristo foi a revelação do fato
eterno de que Deus é por toda a eternidade Aquele que dá a vida, e isso
custa algo a Deus e a nós também”.70
Por mais que analisemos, pesemos e avaliemos, temos que admitir que
não sabemos com certeza como o Salvador cobriu toda a gama de
sofrimentos do homem. Talvez uma revelação futura nos dirá. Talvez nossa
mente precise adquirir mais qualidades semelhantes ao infinito para que
possamos compreender plenamente. No momento, podemos apenas supor.
Essa “dificuldade” pode lembrar as reflexões de John Keats a respeito de
uma antiga urna funerária grega, mencionada em seu poema “Ode a uma
Urna Grega”.
Tu, forma silenciosa, atiça-nos o pensamento Tal
como a eternidade.
Então vem este consolo:
“Beleza é verdade, verdadeira beleza” — isso é tudo que
sabeis na Terra, e tudo o que precisais saber.71
“[O Salvador] desceu abaixo de todas as coisas” (D&C 88:6). Essa é a
importante conclusão doutrinária. Sabemos as consequências — um dia
saberemos o significado. Nesse ínterim, isso é tudo que precisamos saber.
Será Que o Salvador tinha Conhecimento prévio de Seu intenso
Sofrimento?
O Salvador foi avisado do Getsêmani e do Calvário? Será que Ele
poderia ter exercido Seu pleno arbítrio se tivesse sido conduzido
cegamente a ele, ou se tivesse sido inadequadamente informado? Será que
o crédito ou a culpa existe em toda a sua glória ou infâmia quando alguém
age tendo apenas informações parciais? A resposta a essas perguntas é bem
evidente. Nenhum princípio é mais sagrado na esfera celestial do que o
direito ao arbítrio. Ele é a pedra fundamental sobre a qual o céu e a Terra
são governados. Sem decisões com conhecimento de causa, o arbítrio é
apenas zombaria. O Salvador estava ciente e informado de Sua iminente
provação.
Mas como Ele sabia? Talvez Sua mente altamente superior conhecesse
todas as coisas do passado, presente e futuro, até as coisas que jamais tinha
vivenciado. Ou talvez o Pai Lhe tenha revelado tudo o que Ele precisava
saber — ensinando-O, instruindo-O e preparando-O para a provação
divina.72 Sejam quais forem os métodos empregados para preparar o
Salvador para Seus momentos no Getsêmani e na cruz, um ponto parece
claro: Sua submissão era baseada em conhecimento, e não na falta dele.
“Ao seguir para o Getsêmani”, declarou o Élder McConkie, “foi com total
consciência do que estava por vir”.73 O Élder Vaughn J. Featherstone
expressou sentimentos semelhantes: “Nosso Senhor reuniu todos os
poderes de Sua Divindade e Sua força mortal e física com absoluta e
desimpedida compreensão do que estava ainda por vir naqueles breves
momentos. Ele foi preparado para aquela noite”.74 Sem dúvida, o Salvador
sabia intelectualmente tudo o que se poderia saber com antecedência sobre
o evento. Nada estava oculto ou era desconhecido. Na última ceia, Ele
deixou claro que conhecia Seu destino iminente: “Desejei muito comer
convosco esta páscoa, antes que padeça” (Lucas 22:15; grifo do autor). Em
outra versão, lemos: “Sabendo Jesus que já era chegada a sua hora” (João
13:1; grifo do autor). João comentou ainda que “Jesus (. . .) [sabia] (…) as
coisas que sobre ele haviam de vir” (João 18:4). Ele foi para o altar do
sacrifício com total compreensão intelectual do que haveria de vir. Foi esse
conhecimento que Lhe permitiu prosseguir com pleno arbítrio. Mas
perguntamo-nos se não havia, mesmo para Ele, alguma lacuna entre o que
Ele conhecia intelectualmente e o que Ele conheceria em breve por
experiência própria. O Élder Neal A. Maxwell ensinou que havia: “Jesus
sabia cognitivamente o que precisava fazer, mas não por experiência. Ele
jamais tinha conhecido pessoalmente antes o processo doloroso e árduo de
uma expiação. Portanto, quando a agonia chegou em sua plenitude, foi
muito, muito pior do que Ele, com todo o Seu intelecto especial, tinha
imaginado!”75
O brado do Senhor vindo do fundo da alma: “Deus meu, Deus meu, por
que me desamparaste?” (Marcos 15:34) não foi uma pergunta retórica. Foi
a sincera súplica de um ser divino que, sob intensa dor, procurou respostas
e consolo em sua hora de necessidade. Chega um momento na vida de todo
homem, independentemente de sua capacidade intelectual, em que ele
precisa confiar na fé, e somente na fé. Abraão vivenciou isso ao tirar a faca
da bainha no monte Moriá. Moisés sentiu isso ao marchar em direção ao
Mar Vermelho. Em cada caso, não havia solução aparente à mão, a não ser
simplesmente obedecer. Todas as opções do raciocínio mortal tinham se
esgotado. Havia apenas a fé em que se apegar, fé em sua forma mais pura.
O Salvador tinha chegado a um momento assim, quando o Pai Se retirou
e Ele estava sozinho na cruz. Por que Ele tinha que ser abandonado? Acaso
não era Ele o Cordeiro Escolhido? O Salvador conhecia previamente
aquele momento decisivo, em que ficaria sozinho, porque os profetas assim
o declararam (Salmos 22:1; 69:20; Isaías 63:3) —, mas quando o momento
da verdade realmente chegou, talvez tenha sido muito mais pungente na
realidade do que na contemplação, que mesmo Sua mente não poderia
plenamente imaginar o horrível trauma físico, emocional e espiritual que
Lhe seria imposto. Essa experiência simplesmente não podia ser
intelectualizada. O mesmo se dá com o amor. Por mais que leiamos sobre o
assunto, sempre estará aquém da experiência real. E o mesmo pode ter sido
com o Salvador em sua hora da Expiação. Naquele momento de crise foi a
fé, não a onisciência, que O susteve.
Novamente o Salvador provou ser o Grande Exemplo. Não apenas Ele
conhecia a totalidade da tentação mortal, não apenas conheceu a dor e as
enfermidades do homem, não apenas conheceu as consequências de todos
os pecados, mas também passou a conhecer como era ser despojado de
todo o vestígio da razão, de modo que a fé, e a fé somente, era tudo o que
restava para levá-Lo adiante. Tudo o que Ele tinha intelectualmente era um
“por quê?” sem resposta, mas o que Ele tinha espiritualmente era a fé, e
com essa fé Ele prosseguiu com firmeza e desceu abaixo de tudo.
Quando o Salvador pediu que o cálice fosse passado, Ele demonstrou
Sua compreensão da situação. Ele sabia intelectualmente o que o cálice
continha, ou não teria pedido que ele fosse passado Dele. Tanto a opção e o
poder de recuar, de desistir ou de abandonar a provação em qualquer
estágio estavam prontamente disponíveis. A provocação final de Satanás— “Se és Filho de Deus, desce da cruz” (Mateus 27:40) — não foi uma vã
sugestão, mas um vigoroso lembrete de que Ele poderia fazê-lo!
Em todo sentido do termo, a Sua decisão foi consciente e deliberada. Ele
sabia tudo que podia ser conhecido (ou que o Pai desejava que Ele
conhecesse) antes do infinito sofrimento que em breve seria Seu, e Seu
somente. Seus olhos estavam bem abertos quando Ele proferiu a mais
amorosa oferta de todos os tempos: “Eis-me aqui, envia-me” (Abraão
3:27).
Não há dúvida: o sofrimento do Salvador foi infinito Ele suportou Tudo
— com conhecimento, disposição e amor.
 
Notas
1. Browning, “Prospice”, em Untermeyer, Treasury of Great Poems, p. 876; grifo do
autor 2. McConkie, Mortal Messiah, volume 3, p. 88, nota de rodapé 1.
3. Lewis, Inspirational Writings of C. S. Lewis, p. 501.
4. Journal of Discourses, vol. 10, p. 114.
5. Smith, Religious Truths Defined, p. 121.
6. Smith, Gospel Doctrine, p. 21.
7. Smith, Answers to Gospel Questions, volume 3, p. 103.
8. Madsen, “Olive Press”, p. 58; grifo do autor.
9. Ibid., p. 60.
10. McConkie, “Purifying Power”, p. 9.
11. Embora a conclusão pareça lógica, não é uma certeza com base nas escrituras. O
Élder Maxwell escreveu a respeito desse mensageiro celeste: “Um anjo, cuja
identidade não conhecemos, veio para fortalecê-Lo” (“Enduring Well”, p. 10; grifo
do autor).
12. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p. 153.
13. Néfi se referiu a um momento semelhantemente terno. O Salvador ajoelhou-Se no
chão e orou a Seu Pai pelos nefitas que haviam sobrevivido à destruição. Foi uma
expressão de amor que penetrou e tocou cada coração. Precisamos reler o relato
para sentir a alegria e a emoção avassaladoras sentidas por todos os presentes.
Néfi comentou: “As coisas que disse em sua oração não podem ser escritas (…) e
os ouvidos jamais ouviram, até agora, coisas tão grandes e maravilhosas como as
que vimos e ouvimos Jesus dizer ao Pai; e não há língua que possa expressar nem
homem que possa escrever nem pode o coração dos homens conceber coisas tão
grandes e maravilhosas como as que vimos e ouvimos Jesus dizer” (3 Néfi 17:15–
17).
14. Madsen, “Olive Press”, p. 61.
15. Phillips Brooks, “Pequena Vila de Belém”, Hinos, nº. 129.
16. Taylor, Mediation and Atonement, pp. 149–150.
17. Ibid., p. 152.
18. Ibid., p. 152.
19. Embora o contexto dessa escritura se refira aos “últimos dias”, ele foi inserido
aqui porque a verdade que ensina parece ter dupla aplicabilidade à Expiação.
20. Taylor, Mediation and Atonement, p. 151; grifo do autor.
21. Farrar, Life of Christ, p. 575.
22. Ibid., p. 579.
23. Ibid., p. 577.
24. Taylor, Mediation and Atonement, pp. 148–149.
25. Whitney, Baptism, p. 4.
26. Maxwell, “Willing to Submit”, p. 73.
27. Cecil Frances Alexander, “No Monte do Calvário”, Hinos, nº 113.
28. Smith, Doutrinas de Salvação, comp. por Bruce R. McConkie, 3 vols., 1954–
1956, vol. I, p. 142.
29. Whitney, Saturday Night Thoughts, p. 149.
30. Tennyson, “A Carga da Brigada Ligeira”, Harvard Classics, volume 42, p. 1006.
31. Talmage, Jesus, o Cristo, p. 592.
32. Smith, Lectures on Faith, p. 59.
33. Millay, “Renascence”, em Cook, Famous Poems, pp. 175–176.
34. Faust, “Supernal Gift”, p. 13.
35. McConkie, “Purifying Power”, p. 9.
36. Clark, Conference Report, outubro de 1955, p. 24.
37. Maxwell, “Enduring Well”, p. 10.
38. Snow, “Behold the Great Redeemer Die”, Hymns, nº 191.
39. Smith, Doutrinas de Salvação, vol. I, p. 141.
40. McConkie, Mortal Messiah, volume 4, pp. 127–128.
41. Conference Report, outubro de 1953, p. 35; grifo do autor.
42. Whitney, Saturday Night Thoughts, p. 152.
43. Madsen, Christ and the Inner Life, p. 4.
44. Featherstone, Disciple of Christ, p. 4.
45. Talmage, Jesus, o Cristo, p. 638.
46. McConkie, “Os Sete Cristos”, p. 54.
47. McConkie, Mortal Messiah, volume 4, p. 232, nota 22.
48. Ibid., 225; grifo do autor.
49. Farrar, Life of Christ, p. 115.
50. Milton, Paraíso Perdido, p. 192.
51. Ibid., p. 100.
52. Talmage, Jesus, o Cristo, p. 646, nota 8; grifo do autor.
53. Ibid., p. 647, nota 8.
54. Kipling, “Recessional”, em Untermeyer, Treasury of Great Poems, p. 1047.
55. Grant, “Marvelous Growth”, p. 697.
56. Lewis, Quotable Lewis, p. 248.
57. Bateman, “Power to Heal”, p. 14.
58. Journal of Discourses, vol. 3, p. 206.
59. Smith, History of Joseph Smith, p. 132.
60. Talmage, Jesus, o Cristo, p. 638.
61. Coleridge, “The Rime of the Ancient Mariner”, em Williams, Immortal Poems, p.
287; grifo do autor.
62. Isso deve ter sido amenizado pelo fato de que as três Marias e João, o amado,
podem ter proporcionado consolo por sua simples presença “junto à cruz” (João
19:25), e também pela bênção proporcionada pelas “muitas mulheres que tinham
seguido Jesus desde a Galileia para o servir” (Mateus 27:55).
63. Journal of Discourses, volume 23, pp. 173, 175.
64. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, pp. 214–215.
65. Lewis, Inspirational Writings of C. S. Lewis, pp. 475–477.
66. Journal of Discourses, volume 7, p. 357.
67. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, pp. 279–280.
68. Bennett, Our Sacred Honor, p. 137.
69. Talvez a esse respeito o Salvador seja como os três nefitas, que “não [sofriam]
dores nem penas, a não ser pelos pecados do mundo” (3 Néfi 28:38; ver também 4
Néfi 1:44).
70. B. H. Roberts, The Seventy’s Course in Theology, pp. 158–159.
71. Cook, Famous Poems, p. 151.
72. O Apóstolo João abordou essa última possibilidade: “Porque o Pai ama o Filho, e
mostra-lhe tudo o que faz” (João 5:20; grifo do autor). O Élder McConkie citou
essa escritura e depois parafraseou as palavras de Jesus da seguinte maneira:
“Contemplei em visão todas as obras do Pai; vi o que Ele fez no passado; o que
Ele faz até agora; e Ele Me manifestou Suas obras futuras, sim, ‘tudo o que faz’”
(Mortal Messiah, volume 2, p. 71). Joseph Fielding Smith compartilha de uma
opinião semelhante: “A declaração de nosso Senhor de que não podia fazer nada
que não tivesse visto o Pai fazer significa simplesmente que aquilo que o Pai
fizera Lhe fora revelado” (Doutrinas de Salvação, vol. I, p. 36; grifo do autor).
Desse modo o Salvador pode ter aprendido a natureza do sacrifício que estava por
vir.
73. McConkie, Mortal Messiah, volume 4, p. 126; grifo do autor.
74. Featherstone, Disciple of Christ, p. 3.
75. Maxwell, “Willing to Submit”, pp. 72–73.
 
Capítulo 15
Infinita no Amor
 
Sacrifício — a Mais Elevada forma de amor
Se o sacrifício por outras pessoas é a mais elevada manifestação de
amor, então a Expiação de Jesus Cristo é a mais grandiosa demonstração
de amor que o mundo já conheceu. A grande força motivadora por trás de
seu sacrifício foi o amor, não o dever ou a glória ou a honra ou qualquer
outra recompensa material. Foi o amor em seu sentido mais puro, profundo
e duradouro.
A visão que o Presidente Joseph F. Smith teve do mundo espiritual foi
precedida e motivada por sua reflexão sobre “o grande e maravilhoso amor
manifestado pelo Pai e o Filho na vinda do Redentor ao mundo” (D&C
138:3). Com sentimentos semelhantes, Amon falou da “incomparável
generosidade [do] amor [do Salvador]“ (Alma 26:15).
Foi esse amor que motivou a dádiva da Expiação feita pelo Salvador.
Emerson ajuda a colocar o valor dessa dádiva na devida perspectiva: “A
única dádiva é uma porção de nós mesmos”.1 Nesse espírito, o sacrifício
do Salvador foi a mais nobre dádiva de todas, porque Ele tinha tudo e
ofereceu tudo. Seus poderes espirituais, emocionais, psicológicos e
vivificadores foram colocados no altar do sacrifício, sem restrições. Ele
doou tudo até que nada Lhe restasse para doar, nada Lhe restasse a fazer —
até ter esgotado o imenso reservatório de virtudes que possuía para levar a
efeito um sacrifício infinito. Brigham Young declarou: “Não há uma única
coisa que o Senhor poderia fazer pela salvação da família humana que Ele
tenha negligenciado em fazer. (…) Tudo que podia ser realizado para a
salvação deles, independentemente de quem fossem, foi realizado no
Salvador e por Ele”.2
De todos os atos de amor, o Sacrifício Expiatório excede e transcendeem muito todos eles. Ninguém jamais doou tanto para tantos com tanta boa
vontade. A letra deste hino é um pungente lembrete disso: Ele derramou mil
gotas por vós, Mil gotas de precioso sangue.
Eis aqui amor e dor sem medida.3
O amor do filho
Desde o conselho prémortal até Seu último suspiro no Calvário, o
Salvador foi impelido por amor não fingido, pois “em seu amor e em sua
piedade redimiu-os” (D&C 133:53). Néfi recebeu entendimento dos maus-
tratos que seriam despejados sobre o Salvador por um mundo insensível e
ingrato: “Portanto o açoitam e ele suporta-o; e ferem-no e ele suporta-o.
Sim, cospem nele e ele suporta-o” (1 Néfi 19:9). Por que essa submissão?
Néfi dá uma resposta simples, porém profunda. “Por causa de sua amorosa
bondade e longanimidade para com os filhos dos homens” (1 Néfi 19:9).
Não houve outros motivos ocultos no ministério do Salvador — apenas
amor, concedido de modo irrestrito e voluntário.
João, o amado, que caminhou lado a lado com o Salvador, que
compartilhou com Ele a experiência do Monte da Transfiguração, que
esteve tão perto e viu mais claramente do que qualquer outro mortal o
Sacrifício Expiatório, referiu-se a Ele em termos muito reverentes como
“aquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados”
(Apocalipse 1:5). Paulo comentou com muita propriedade que “apenas
alguém morrerá por um justo (. . .) Mas Deus prova o seu amor para
conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”
(Romanos 5:7–8).
O amor do Salvador não era um amor apenas pelos justos; não era um
amor abstrato; tampouco era demonstrado por um único e drástico ato de
sacrifício e nada mais. Pelo contrário, era um amor diário, de hora após
hora, até momento após momento! Era um amor que se estendia desde a
pré-mortalidade até a eternidade. Era um amor que carinhosamente
preparou uma pequena fogueira com brasas e peixe e pão para os famintos
e cansados discípulos, quando saíam de uma exaustiva noite de pesca no
Mar da Galileia. Era um amor que abençoava as criancinhas, curava os
enfermos e oferecia esperança aos desesperançados. Era um amor que
estendia a mão a todas as pessoas à medida que eram elevadas a um nível
mais alto. O amor era demonstrado em cada momento consciente em que
caminhou por Sua vida mortal. O amor fluía de todos os poros, em cada
pensamento, em cada ato. Tão natural e regularmente quanto buscamos o
ar, Ele procurava abençoar. Repetidas vezes, naqueles momentos de
exaustão física e “agenda” lotada, Ele estava ali para cada um — para
ouvir, para amar e para abençoar. Toda a Sua vida foi um acúmulo de atos
de amor, coroados pelo mais significativo de todos — seu Sacrifício
Expiatório. Pedro resumiu Sua vida nesta simples, porém expressiva frase:
‘[Andou] fazendo bem” (Atos 10:38).
Contemplem por um momento o amor de uma mãe por seu filho recém-
nascido. Suponham agora que a criança seja tirada dos braços da mãe.
Mesmo que essa mãe venha a viver até os cem anos de idade, duvido que
ela se esqueça da criança enviada pelos céus que ela segurou com tanto
carinho em seu amoroso abraço. Algumas lembranças jamais podem ser
apagadas, alguns relacionamentos jamais são desfeitos, alguns sentimentos
jamais são esquecidos; essas coisas perduram além do tempo e da morte.
Sabendo de tudo isso, o Senhor perguntou: “Pode uma mulher esquecer o
filho que está amamentando e deixar de sentir compaixão do filho de suas
entranhas?” (1 Néfi 21:15). Então, o Senhor declarou: “Sim, [a mãe] pode
esquecer; eu, porém, não te esquecerei, ó casa de Israel” (1 Néfi 21:15;
grifo do autor). Se havia alguma dúvida sobre o comprometimento e amor
do Senhor pela casa de Israel, Ele a dissipou. A magnitude de Seu carinho
foi colocada na devida perspectiva. Ele supera em muito tudo o que o
homem tem a oferecer, mesmo o amor de uma mãe pelo filho. Depois, Ele
nos deixa um maravilhoso lembrete: “Eis que te tenho gravada nas palmas
de minhas mãos” (1 Néfi 21:16). As feridas em Suas mãos são Seu
testemunho, Sua prova tangível e inegável de Seu sacrifício e amor.
Suponham que pudéssemos voltar as páginas da história até o meridiano
dos tempos. Suponham que pudéssemos ter estado ali naquela noite em que
o Salvador declarou de Seu lar celestial: “Eis que (…) amanhã virei ao
mundo” (3 Néfi 1:13). Suponham que tivéssemos o poder de ver aquela
pequena e singela cidade de Belém, em nítido contraste com a morada
divina do Salvador. Quem entre nós poderia imaginar quão profundo é o
amor que O fez trocar naquela noite a divindade pela humanidade? Assim,
o Salvador, o onipotente, o criador de mundos sem fim, fez Sua entrada
neste mundo como um bebê indefeso.
Mas por que — por que tudo isso por nós? Por que largar Seu poder e
Sua honra em troca do escárnio, da zombaria, da condenação e, por fim, da
crucificação? Paulo ensinou que Cristo Se tornou “em tudo (…)
semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote”
(Hebreus 2:17). E Alma escreveu que o Senhor tomou sobre Si as
enfermidades do homem “para que se lhe enchessem de misericórdia as
entranhas” (Alma 7:12). Mas o Salvador foi quem melhor respondeu a essa
pergunta: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida
pelos seus amigos” (João 15:13). Era verdade. Ele “amou o mundo de tal
maneira que deu a própria vida” (D&C 34:3; ver também I João 3:16; Éter
12:33). O Presidente Ezra Taft Benson falou desse amor inextinguível:
“Talvez jamais entendamos ou compreendamos na mortalidade como Ele
realizou o que fez, mas não podemos deixar de compreender o motivo pelo
qual Ele fez o que fez. Tudo o que Ele fez foi motivado por Seu abnegado
e infinito amor por nós”.4 Essa foi a humilde conclusão de Néfi, que em
resposta à pergunta do anjo a respeito da condescendência de Deus,
replicou: “Sei que ele ama seus filhos; não conheço, no entanto, o
significado de todas as coisas” (1 Néfi 11:17).
O amor do Pai
Acaso o sofrimento e o amor do Filho, por mais significativos que
tenham sido, não magnificam ainda mais o amor do Pai? Que Pai amoroso,
tendo a chance, não tentaria ávida e desesperadamente trocar de lugar com
Seu filho que sofria? O rei Davi, por exemplo, ao saber da morte de um
filho rebelde, clamou: “Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão!
Quem me dera que eu morrera por ti” (II Samuel 18:33; grifo do autor; ver
também Alma 53:15). Davi sabia por experiência própria que podia haver
um sacrifício maior do que o sofrimento pessoal. E que maior sacrifício
pode haver do que o de testemunhar o incomparável sofrimento de um
filho, tendo o poder de aliviá-lo? Suponham que a seu comando vocês
pudessem libertar seu filho das dores excruciantes que o fizeram clamar:
“Pai, se queres, passa de mim este cálice” (Lucas 22:42). Qual de nós
resistiria a um pedido assim de um filho que jamais errou, jamais
reclamou, jamais pediu algo para si mesmo — que por toda a vida nos
honrou, obedeceu e serviu cujos únicos pensamentos eram para os outros, e
que naquele momento de suprema agonia suplicou ajuda, apenas dessa vez,
para si mesmo? Será que nosso coração não explodiria de compaixão? Será
que esse triste clamor, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”,
feito pelo mais puro de todos os seres, o mais obediente dos filhos, não nos
subjugaria a ponto de quebrantar-nos o coração e enfraquecer nossa
determinação? Até quanto àquele que era o mais amoroso de todos os pais
poderia suportar? Mas as palavras do salmo messiânico transpassariam
ainda mais profundamente o terno coração do mais amoroso dos pais. “Por
que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido?” (Salmos
22:1). Será que a avassaladora emoção do momento inundaria de tal forma
nossa capacidade de raciocínio a ponto de diluir nossa visão de modo a
fazer-nos ceder e libertá-Lo? Será que em nossa sabedoria teríamos
enviado uma legião de anjos para curar os poros que sangravam e remover
os cravos de Sua carne trespassada? Felizmente, mesmo com Seu
incomparável amor por Seu Filho, nosso Pai Celestial não cedeu.
Paulo prestou tributo a nosso Pai, que decidiunão exercer Seu poder de
salvação em favor de Seu Filho Unigênito, para que pudéssemos ser
salvos: “Nem (…) a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos
nós” (Romanos 8:32). Verdadeiramente, “Deus amou o mundo de tal
maneira que deu o seu Filho unigênito” (João 3:16), ou como João
comentou mais tarde: “Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco:
que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos”
(I João 4:9). Por que Deus não libertou Seu Filho? Porque Ele sabia que
não havia nenhum outro meio de salvar o restante de Seus filhos. Cristo era
nossa única esperança, nosso único meio de salvação.
O Élder Melvin J. Ballard, com uma terna visão que parecia penetrar o
véu, comentou sobre a decisão do Pai de não resgatar Seu Filho:
“Deus ouviu o clamor de Seu Filho naquele momento de grande
sofrimento e agonia, no jardim, quando lemos que os poros de Seu corpo se
abriram e gotas de sangue O cobriram, e Ele clamou: ‘Pai, se queres, passa
de mim este cálice’.
Pergunto: que pai e mãe poderiam ficar de lado e ouvir o clamor de seus
filhos em sofrimento, neste mundo, e não prestar ajuda e auxílio? (. . .)
Não conseguimos ficar de lado e ouvir esses clamores sem que isso nos
toque o coração. O Senhor não nos deu o poder de salvar nossos próprios
filhos. Ele nos deu fé, e nos submetemos ao inevitável, mas Ele tinha o
poder de salvar, e Ele amava Seu Filho e poderia tê-Lo salvo. (. . .) Ele viu
aquele Filho, por fim, no Calvário; viu Seu corpo estendido sobre a cruz de
madeira; viu os cravos serem cruelmente pregados em Suas mãos e em
Seus pés, e os golpes que feriram a pele, rasgaram a carne e derramaram o
sangue da vida de Seu Filho. Ele olhou para aquilo.
No caso de nosso Pai, a faca não foi contida, mas caiu, e o sangue da vida
de Seu Amado Filho foi derramado. Seu Pai olhou com grande sofrimento
e agonia para Seu Filho Amado, até que pareceu ter chegado um momento
em que até nosso Salvador clamou em desespero: ‘Deus meu, Deus meu,
por que me desamparaste?’
Naquela hora, penso que posso ver nosso querido Pai por trás do véu
olhando para aquela agonia de morte, até que não pôde mais suportar; e
como a mãe que se despede do filho moribundo tem que ser tirada do
quarto, para não ver a agonia final, então Ele abaixou a cabeça e Se ocultou
em alguma parte de Seu universo, com o Seu grande coração quase partido
pelo amor que tinha por Seu Filho. Oh, naquele momento em que Ele podia
ter salvado Seu Filho, agradeço a Ele e O louvo por não nos ter falhado,
pois Ele não tinha apenas o amor por Seu Filho na mente, mas também
tinha amor por nós”.5
As palavras de Eliza R. Snow confirmam essa eterna verdade:
Da corte celestial chegou,
Com grande amor desceu,
O Cristo nosso Salvador
E o mundo renasceu.6
Um ato Conjunto de amor
Como um Deus transmite tamanho amor para os mortais? Talvez em
nosso estado temporal não possamos, mas na história de Abraão e Isaque
temos nosso paralelo mais próximo. Jacó se refere ao sacrifício de Isaque
como algo que foi “à semelhança de Deus e seu Filho Unigênito” (Jacó
4:5). Abraão havia chegado aos cem anos de idade antes que um filho
nascesse para herdar seu legado. Esse filho era tudo o que ele esperava que
fosse um filho. Então, chegou o dia fatídico em que a voz divina decretou:
“Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas (…) e
oferece-o (…) em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi”
(Gênesis 22:2). Como podia ser aquilo? Aquele filho herdaria o legado e se
tornaria pai de muitas nações. Aquele era o filho prometido. Abraão daria
de boa vontade sua terra, seus rebanhos, seu dinheiro, toda a riqueza do
mundo que lhe fora concedida — “Mas, por favor”, deve ter ele pensado,
“não o meu filho”. Para mérito eterno de Abraão, ele não resistiu, mas se
submeteu humildemente à vontade de Deus.7
Bem cedo, na manhã seguinte, Abraão se levantou e iniciou sua jornada
com Isaque até o local determinado. Ao subirem a montanha, “tomou
Abraão a lenha do holocausto, e pô-la sobre Isaque seu filho” (Gênesis
22:6), talvez como simbolismo da cruz que seria colocada sobre os ombros
do Salvador. Isaque então perguntou, com inocência: “Onde está o cordeiro
para o holocausto?” (Gênesis 22:7). Abraão somente conseguiu responder:
“Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto” (Gênesis 22:8).
Gênesis se cala quanto à conversa travada entre pai e filho no alto daquele
monte sagrado. Sem dúvida foi um daqueles momentos sagrados em que o
silêncio é tonitruante.
O Livro de Jasher relata a primeira resposta de Isaque ao ser informado:
“Farei tudo o que o Senhor te ordenou com alegria e regozijo no coração”.8
Embora a autenticidade desse livro seja questionada, o princípio ensinado
parece correto. Abraão queria confirmar que os sentimentos de seu filho
não desmentissem suas palavras. Consequentemente, ele perguntou se
Isaque tinha alguma reserva. Isaque respondeu conforme foi registrado por
Jasher: “Nada há em meu coração que me faça desviar para a direita ou
para a esquerda da palavra que Ele te falou. (. . .) Mas tenho o coração
alegre e regozijante a esse respeito, e digo: Bendito seja o Senhor que hoje
me escolheu para ser um holocausto perante Ele”.9 Josefo também relatou
esse mesmo espírito obediente: “Isaque tinha um espírito tão generoso,
como convinha ao filho daquele pai, (…) e disse: ‘Que ele não seria digno
de ter nascido, se rejeitasse a determinação de Deus e de seu pai. (. . .)’ E
ele foi imediatamente até o altar para ser sacrificado”.10
Quão semelhante ao Salvador era Isaque. Seu sacrifício não seria
oferecido com rancor, nem motivado pelo senso de dever. Não havia força,
coerção nem mesmo gentil persuasão. Tudo seria voluntário em todos os
aspectos. Toda pintura, história ou inferência que sugira que Abraão tomou
Isaque à força prejudicaria de tal modo o paralelo com o sacrifício do
Salvador a ponto de destruir o cerne e a consistência de qualquer
semelhança significativa. O princípio subjacente e predominante é o de que
a Expiação foi a resposta voluntária do Salvador: “Eis-me aqui, envia-me”
(Abraão 3:27). E o mesmo deve ter acontecido com Isaque — um protótipo
do Salvador.
O Livro de Jasher consegue captar a ternura desse “diálogo final” entre
pai e filho: “Abraão ouviu as palavras de Isaque e ergueu a voz e chorou
quando Isaque proferiu aquelas palavras; e as lágrimas de Abraão foram
derramadas sobre Isaque, seu filho”.11 Abraão então atou Isaque sobre o
altar, talvez a pedido de Isaque, para que ele não atrapalhasse
involuntariamente o ato sacrificial. Abraão então estendeu a faca para
derramar o sangue da vida de seu amado filho, quando o anjo de
misericórdia clamou: “Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe
faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu
filho, o teu único filho” (Gênesis 22:12). Abraão então encontrou um
carneiro que ficara preso nos arbustos e o ofereceu como holocausto em
lugar de seu filho — mas para nosso Pai Celestial não houve anjo que
retivesse a mão da morte, nem carneiro algum foi encontrado nos arbustos.
Todo elemento de Seu sacrifício seria concluído. Não haveria substitutos,
não houve meios alternativos, nenhum caminho mais fácil a ser trilhado.
Aquele era o único meio possível de salvar a humanidade.
Abraão entendeu então, mais vividamente do que antes, o significado do
Sacrifício Expiatório. Quando seu coração estava prestes a explodir
naquele breve momento em que ergueu o cutelo, ele sentiu uma dor
semelhante à que o Pai sentiria e um amor semelhante ao amor do Pai.
 
Notas
1. Emerson, “Gifts”, volume 5, p. 220.
2. Journal of Discourses, volume 13, p. 59.
3. Isaac Watts, “He Died! The Great Redeemer Died”, Hymns, nº 192.
4. Benson, Teachings of Ezra Taft Benson, p. 15.
5. Hinckley, Sermons and Missionary Services of Melvin J. Ballard, pp. 153–154.
6. Snow, “Da Corte Celestial”, Hinos, nº 114.
7. As escrituras sugerem que Abraão não esperava que um anjo de misericórdia o
liberasse do mandamento que havia recebido. Em vez disso, ele aparentementeacreditava que a vida de Isaque seria tirada, conforme ordenado, embora achasse
que “Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar” (Hebreus 11:18).
Talvez Abraão acreditasse que Isaque seria ressuscitado para que pudesse gerar
sua semente em cumprimento da promessa divina.
8. Book of Jasher, p. 61.
9. Ibid., p. 62.
10. Josephus, Complete Works, p. 37.
11. Book of Jasher, p. 62.
 
Capítulo 16
A Bênção da Ressurreição
 
Uma Demonstração de Vigoroso poder
A Expiação é infinita em seus poderes de abençoar. Ela resulta em “uma
multiplicidade de bênçãos (…) sempre” (D&C 97:28; ver também D&C
104:2). Uma dessas bênçãos é a ressurreição. Alguns se perguntam se a
ressurreição fazia parte da Expiação, ou se a Expiação foi concluída na
cruz, e a ressurreição era um ato separado, que não estava relacionado a
ela. Num senso restrito, a Expiação envolve o sofrimento de Cristo no
Jardim e na cruz para “expiar” nossos pecados. No sentido mais amplo e
completo, também abrange o poder exercido pelo Salvador para reconciliar
todas as consequências da Queda, incluindo a morte física.
Consequentemente, a Expiação foi não apenas o sofrimento de Cristo no
Jardim e na cruz, mas também Seu exercício do poder necessário para
ressuscitar-nos.
O LDS Bible Dictionary se refere a sua natureza abrangente: “Por meio
de (…) sua vida sem pecados, do derramamento de Seu sangue no jardim
do Getsêmani, de Sua morte na cruz e da subsequente ressurreição de Seu
corpo do sepulcro, Ele realizou uma perfeita expiação para toda a
humanidade”.1 É isso que Jacó compreendia, pois ele ensinou que sem
uma “expiação infinita (…) esta carne (…) não mais se [levantaria]” (2
Néfi 9:7), querendo com isso dizer que a ressurreição foi o componente
necessário da Expiação que venceu a morte física. Alma ensinou de modo
semelhante: “A expiação efetua a ressurreição dos mortos” (Alma 42:23).
Jacó salientou que sem um poder que levasse isso a efeito “esta carne
teria que apodrecer e desfazer-se em sua terra mãe” (2 Néfi 9:7). Essa é
uma manifestação da entropia, que é o processo de passar de um estado
mais organizado para um menos organizado. Hugh Nibley comentou: “Sem
a ressurreição, a entropia — a boa e velha segunda lei da termodinâmica —
assumiria o comando”.2 Não é de surpreender que Jacó, que afirmou que
“a morte tem efeito sobre todos os homens”, também disse que “deve
existir um poder de ressurreição” (2 Néfi 9:6; grifo do autor). Tinha que
haver algum poder de reversão para impedir o inexorável avanço do
apodrecimento, da decomposição e da desordem final. A decomposição e a
morte são forças, ou poderes, constantes que causam grande estrago nas
criações de Deus. Davi chamou isso de “poder da sepultura” (Salmos
49:15). Paulo fez referência ao “que tinha o império da morte, isto é, o
diabo” (Hebreus 2:14). Não admira que nas escrituras ele seja às vezes
chamado de “destruidor” (I Coríntios 10:10). Com visão poética, Goethe
chamou o maligno de “filho do caos”.3
Isaías viu o dia em que o Senhor finalmente “castigará (…) o leviatã”
(Isaías 27:1), que é referido nas notas de rodapé da edição SUD da Bíblia
como “um lendário monstro marinho que representava as forças do caos
que se opunham ao Criador”. Por mais poderosa que seja essa sinistra força
que promove a morte, o caos e a destruição sobre todas as coisas vivas, há
um poder compensador e neutralizador que emana da Expiação. É o poder
da ressurreição.
O Salvador tinha poder para entregar a própria vida e o poder de “tornar
a tomá-la” (João 10:18). Ele é “a ressurreição e a vida” (João 11:25). As
escrituras deixam bem claro que ele também “nos ressuscitará a nós pelo
seu poder” (I Coríntios 6:14), e que embora o corpo “semeia-se em
fraqueza, ressuscitará com vigor” (I Coríntios 15:43). A ressurreição é um
ato de vigoroso poder. Jacó se referiu a isso como “o poder da ressurreição
que está em Cristo” (Jacó 4:11; ver também 2 Néfi 10:25). Alma falou da
“ressurreição dos mortos (…) que se [realizaria] pelo poder (…) de Cristo”
(Mosias 18:2). Alma, o filho, falou da “ressurreição dos mortos, de acordo
com a vontade e poder e libertação de Jesus Cristo” (Alma 4:14). E Morôni
falou da morte como o sono “do qual todos os homens serão acordados
pelo poder de Deus” (Mórmon 9:13).
Repetidas vezes as escrituras revelam a solução para a morte. É o poder
— não o poder do homem, não o poder atômico, mas o poder divino da
ressurreição. O efeito desse poder divino é bem maior do que erguer
Lázaro de entre os mortos — multiplicado muitas e muitas vezes. Ele não
apenas restaura os mortos para a vida mortal. Ele não apenas coloca em
remissão o processo da entropia. Esse é o poder infinito que se encontra
apenas num ser infinito, levando a efeito tanto a cura permanente quanto
um melhoramento eterno. Esse poder de alguma forma modifica nosso
corpo para um estado livre do processo entrópico. Um corpo imortal e
terrestre, como o de Adão no Jardim, é isento de degeneração. Mas um
corpo ressuscitado e exaltado é a antítese direta da entropia. Ele tem os
poderes da divindade, o poder de semente eterna, o poder de criar e de
povoar outros mundos (ver D&C 132:19–20).4 À medida que um corpo
exaltado exerce seus poderes criativos, seus descendentes se tornam
agentes divinos para proporcionar ordem e harmonia a um universo que de
outra forma se torna cada vez mais caótico. Esse é apenas um vislumbre do
incrível poder da ressurreição.
Como esse poder é desencadeado? Pela Expiação de Jesus Cristo. Jesus
Cristo rompeu as cadeias da morte para todos os homens, e ao fazê-lo
venceu a morte física para todos. Abinádi confirmou essa verdade: “A
sepultura não tem vitória e o aguilhão da morte é desfeito em Cristo”
(Mosias 16:8).
O que é, então, a ressurreição? Assim como a morte é a separação do
espírito e do corpo, a ressurreição é o reverso disso. É uma reunião
permanente do corpo com o espírito em um ser imortal (ver Alma 11:45).
Quanto ao processo exato por meio do qual isso ocorre, não sabemos —
mas podemos estar seguros, tal como Alma, de que isso vai acontecer: “A
alma será restituída ao corpo e o corpo, à alma; sim, e todo membro e junta
serão restituídos ao seu corpo; sim, nem mesmo um fio de cabelo da
cabeça será perdido, mas todas as coisas serão restauradas na sua própria e
perfeita estrutura” (Alma 40:23).
A natureza física de um Corpo Ressuscitado
Um corpo ressuscitado não está sujeito a dores nem doenças, nem
cansaço. Não há bala que possa feri-lo, não há veneno que possa poluí-lo
nem câncer que possa invadi-lo. Não há seres ressuscitados que sofrem a
perda de um membro, que tenham impedimento de fala ou que percam a
visão. Um ser ressuscitado tem um corpo glorificado e imortal, livre dos
elementos destrutivos deste mundo temporal. O Salvador testificou
pessoalmente a Seus discípulos a respeito da natureza física de Seu corpo
ressuscitado: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo;
apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes
que eu tenho” (Lucas 24:39). Mais tarde, Ele comeu peixe assado e favos
de mel na presença deles, como evidência adicional de Sua natureza
corpórea. Algumas testemunhas confirmaram que também “[comeram e
beberam] juntamente com ele, depois que ressuscitou dentre os mortos”
(Atos 10:41).
Apesar de abundantes evidências, muitos negam a ressurreição física do
Salvador. Alguns acreditam que Suas aparições físicas pós-mortais foram
meramente manifestações temporárias para motivar o homem mortal, mas
que Sua natureza real não estava “limitada” a um corpo tangível. Essa
crença, porém, está em direta oposição aos ensinamentos de Paulo. Aquele
erudito apóstolo ensinou que o Senhor ressuscitado “já não morre”
(Romanos 6:9). Isso não se referia ao corpo espiritual, porque ele não
morre de forma alguma, muito menos “já”. Isso se referia à morte física,
pois Cristo já havia sofrido uma morte física, mas “já” não morreria mais.
Como as escrituras definem a morte como “o corpo sem o espírito” (Tiago
2:26), a declaração de Paulo deve significarque o corpo físico ressuscitado
do Salvador jamais poderia ser separado de Seu espírito. Caso contrário,
Ele novamente sofreria a morte física, algo que Paulo declarou
especificamente que jamais voltaria a acontecer. Amuleque ensinou que a
união eterna do corpo e do espírito de Cristo, após Sua ressurreição, era um
protótipo que se aplica a todos os seres ressuscitados. Referindo-se à
ressurreição de todos os homens, ele disse que “o espírito unir-se-á a seu
corpo para não mais serem divididos” (Alma 11:45).
Todos que morrerem, tal como Cristo, terão um corpo que será
restaurado “na sua própria e perfeita estrutura” (Alma 40:23). Joseph
Fielding Smith deixou claro que as marcas dos cravos nas mãos e nos pés
de Cristo são apenas temporárias, atuando como uma “manifestação
especial”5 para alguns grupos selecionados. Quando Ele aparecer aos
judeus em seus momentos de aflição, eles vão olhar para Ele, e Ele dirá:
“Estas são as feridas com que fui ferido na casa de meus amigos. Eu sou
aquele que foi levantado. Eu sou Jesus, que foi crucificado” (D&C 45:52;
ver também Zacarias 12:10). Quando todos forem julgados aparentemente
a razão para Suas feridas terá fim.
Um corpo ressuscitado é composto de carne e ossos e espírito, mas não
sangue. Os profetas testificaram que o sangue, o elemento mortal que por
fim traz a morte, um dia será substituído por uma substância espiritual que
fluirá em nossas veias. John Taylor escreveu: “Quando a ressurreição e a
exaltação do homem forem consumadas, embora mais puro, refinado e
glorioso, ele ainda será à mesma imagem, e terá a mesma semelhança, sem
variação ou alteração em qualquer de suas partes ou faculdades, exceto a
substituição do espírito em lugar do sangue”.6
Foi isso que disse o Profeta Joseph: “Quando nossa carne for vivificada
pelo Espírito, não haverá sangue neste tabernáculo”.7 Naquele momento
“nosso corpo abatido” será “[transformado] conforme o (…) corpo glorioso
[de Deus]” (Filipenses 3:21). Nesse estado ressuscitado, nosso semblante,
nosso brilho e nossa beleza exterior serão apenas uma manifestação de
nossa espiritualidade interior — assim, o ser interno e o externo serão, em
essência, espelhos um do outro. Os corpos celestiais irradiarão glória
celestial; os corpos terrestres, glória terrestre; e os corpos telestes, glória
teleste.
Quem ressuscitará?
Qual é a resposta à antiga pergunta de Jó: “Morrendo o homem,
porventura tornará a viver?” (Jó 14:14). A resposta, evidentemente, é sim.
Todos que tiveram um corpo mortal serão ressuscitados — os justos, os
iníquos, até os mornos — porque a ressurreição é universal. É uma dádiva
gratuita a todos os homens independentemente de sua retidão. Mas por
quê? Por que os desobedientes, os rebeldes, os ateus? Isso é justo? É, sim.
Adão trouxe a morte física ao mundo por meio de sua transgressão e assim
transmitiu sua natureza mortal, as sementes da morte, para todas as
criaturas vivas sem nenhuma ação da parte delas. Elas não fizeram nada
para merecer a morte em sua jornada terrena, por isso, em troca, o Salvador
restaurou a vida imortal sem nenhuma ação redentora por parte do homem.
O plano é justo e misericordioso. Com notável brevidade, Paulo cristalizou
essa doutrina: “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim
também todos serão vivificados em Cristo” (I Coríntios 15:22). A solução
provou ser tão ampla quanto à maldição. Essa parte da Expiação de Cristo
sobrepujou a morte física para todos os homens. Foi universal. Nesse
sentido, todos os homens serão salvos.
Além disso, o Élder McConkie observou que não apenas os habitantes
desta Terra serão ressuscitados. “Assim como os poderes de criação e
redenção de Cristo se estenderam à Terra e a todas as coisas que nela
existem, o mesmo se deu com a infinita expansão de mundos da
imensidade, portanto o poder da ressurreição é universal em sua
abrangência. O homem, a Terra e toda a vida sobre ela ressurgirão na
ressurreição. E a ressurreição se aplica e está acontecendo em outros
mundos e outras galáxias”8
Cristo É as primícias
A ressurreição de Jesus Cristo foi predita muitos anos antes de acontecer
realmente. Séculos antes daquele dia glorioso, Néfi profetizou: “Eis que
eles o crucificarão; e depois de permanecer numa sepultura pelo espaço de
três dias, levantar-se-á dentre os mortos, com poder de cura em suas asas”
(2 Néfi 25:13). Mateus relata: “E matá-lo-ão, e ao terceiro dia ressuscitará”
(Mateus 17:23; ver também Mateus 16:21). O terceiro dia chegou. Ele foi
ressuscitado e Se tornou “as primícias dos que dormem” (I Coríntios
15:20), “o primogênito dentre os mortos” (Colossenses 1:18), ou como
João também declarou, “o primogênito dentre os mortos” (Apocalipse 1:5).
O Élder Joseph Fielding Smith sugere que o Salvador não adquiriu as
chaves da ressurreição para todos os homens até depois de ser crucificado e
vencer a morte. Ele disse: “No terceiro dia após a crucificação, Ele tomou
Seu corpo e recebeu as chaves da ressurreição, e assim teve o poder para
abrir as sepulturas para todos os homens, mas não o podia fazer até que
Ele mesmo tivesse passado primeiro pela morte e a conquistado”.9 Assim,
o Salvador não podia ter destrancado as sepulturas de nenhum dos mortos
até que primeiro adquirisse as chaves necessárias por meio de Sua própria
ressurreição (ver também Mosias 16:7; Alma 11:42). Com essas chaves,
Cristo imediatamente abriu as comportas da ressurreição, pois as escrituras
nos dizem que tanto em Jerusalém quanto nas terras do Livro de Mórmon
“abriram-se os sepulcros” (Mateus 27:52) e “muitos santos se levantaram e
apareceram a muitos” (3 Néfi 23:11). Talvez essas mesmas chaves abriram
simultaneamente os sepulcros de esferas mais distantes.
A Morte É Destruída
Que golpe devastador contra a morte quando Cristo abriu as portas para
as multidões de espíritos aprisionados que tanto aguardavam o dia de Sua
triunfante ressurreição! Ele Se levantou do sepulcro “com poder de cura
em suas asas” (2 Néfi 25:13) para todos os homens. Ele abriu a porta que
estivera fechada por milhares de anos em bilhões de sepulturas. Ele foi o
primeiro a atravessar aquela porta, e então, numa demonstração de
misericórdia sem igual, deixou-a aberta para que outros saíssem, numa
sequência divinamente determinada. John Donne captou esse momento
nestes tocantes versos: Morte, não te orgulhes, embora alguns te considerem
Poderosa e temível, porque não és; (. . .)
Um breve sono se passará, e acordaremos para a eternidade,
E a Morte não existirá mais. Morte, tu hás de morrer.10
Com a ressurreição de Cristo, as tão ansiadas palavras de Oseias serão
cumpridas: “Eu os remirei da mão do inferno, e os resgatarei da morte.
Onde estão, ó morte, as tuas pragas? Onde está, ó inferno, a tua perdição?”
(Oseias 13:14). É de admirar que Amon e seus irmãos, que tinham a
ardente e inabalável convicção da futura ressurreição de Jesus, pudessem
enfrentar a morte, muitas e muitas vezes, sem temor? As escrituras relatam:
“Nunca consideraram a morte com qualquer grau de terror, graças a sua
esperança e compreensão de Cristo e da ressurreição; portanto, para eles a
morte foi tragada pela vitória de Cristo sobre ela” (Alma 27:28). Esse era o
sentimento dos justos do passado: “Todos esses haviam partido da vida
mortal com a firme esperança de uma gloriosa ressurreição” (D&C
138:14).
Testemunhas de Sua Ressurreição
A ressurreição de Cristo “não se fez em qualquer canto” (Atos 26:26).
As testemunhas desse evento são muitas e diversas. Havia as mulheres no
sepulcro (Lucas 24:1–10), Maria Madalena no jardim (João 20:11–18), os
dez apóstolos (Lucas 24:36–43), Tomé (João 20:24–29), os dois discípulos
na estrada para Emaús (Lucas 24:13–34), “mais de quinhentos irmãos” (I
Coríntios 15:6) e Paulo na estrada para Damasco (Atos 9:3–9). Para Seus
Apóstolos Cristo diria: “Destas coisas sois vós testemunhas” (Lucas
24:48). De todos esses relatos de primeira mão, nenhum foi mais profundo
do que a primeira aparição do Salvador ressuscitado aos nefitas, como está
registrado no Livro de Mórmon: Uma multidãode 2.500 pessoas — uma a
uma — “se adiantou e meteu as mãos no seu lado e apalpou as marcas dos
cravos em suas mãos e seus pés (…) até que todos viram com os próprios
olhos, apalparam com as mãos e souberam com toda a certeza,
testemunhando que ele era aquele sobre quem os profetas escreveram que
haveria de vir” (3 Néfi 11:15).
O Senhor ressuscitado apareceu a pessoas, a grupos e a multidões.
Homens, mulheres e crianças constituem as testemunhas espirituais de Sua
ressurreição. Alguns deles ouviram o testemunho do Pai de todos nós,
alguns de anjos e outros do próprio Senhor ressuscitado. Alguns viram com
os próprios olhos, outros apalparam com as mãos, alguns ouviram com os
ouvidos e outros sentiram o coração arder dentro deles. Tão notório foi o
conhecimento da ressurreição de Cristo para os espiritualmente iluminados,
que Pedro testificou: “Deus (…) fez que se manifestasse, não a todo o
povo, mas às testemunhas que Deus antes ordenara” (Atos 10:40–41; grifo
do autor).
O Senhor ressuscitado apareceu na serenidade do jardim, na poeirenta
estrada para Emaús, no aposento fechado em que os apóstolos se reuniram
e nos arredores do templo em Abundância. Com o passar do tempo, as
testemunhas continuam a aumentar — Joseph Smith, Oliver Cowdery,
Sidney Rigdon, Lorenzo Snow e, sem dúvida, uma multidão de pessoas
espiritualmente humildes cujo testemunho foi registrado nos diários do
céu, para um dia ser revelado aos homens na carne, como vigorosos
lembretes de que “Ele vive!” (D&C 76:22).
Por fim, na hora designada, o Salvador ressuscitado visitará todos os
reinos dos quais é o criador (D&C 88:56–61). As testemunhas sinceras e
dignas de crédito de todas as eras acrescentarão seu testemunho ao do
mensageiro angélico que proclamou: “Já ressuscitou” (Mateus 28:6). E da
mesma forma, um dia, essas palavras históricas serão proferidas para cada
um de nós.
 
Notas
1. LDS Bible Dictionary, p. 617.
2. Nibley, Approaching Zion, p. 555.
3. Goethe, Faust, p. 163.
4. Para continuar a abordagem dessas doutrinas, ver capítulo 21.
5. Smith, Doutrinas de Salvação, comp. por Bruce R. McConkie, 1954–1956, 3 vols.,
vol. II, pp. 287–288.
6. Taylor, Mediation and Atonement, p. 166.
7. Smith, Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, pp. 358–359.
8. McConkie, Mormon Doctrine, p. 642; grifo do autor.
9. Smith, Doutrinas de Salvação, vol. I, pp. 139–140.
10. Donne, “Death, Be Not Proud”, em Untermeyer, Treasury of Great Poems, p.
368.
 
Capítulo 17
As Bênçãos do Arrependimento
 
Outra Demonstração de Vigoroso Poder
Uma bênção significativa da Expiação decorre do poder de Cristo para
redimir os espiritualmente mortos. A Morte espiritual é uma forma de
alienação espiritual ou dissolução do relacionamento divino. Mas é mais do
que um banimento geográfico da presença de Deus. Assim como o corpo
físico enfraquece quando acometido por uma doença, da mesma forma
parece que enfraquecemos espiritualmente à medida que nos envolvemos
com cada novo pecado. Talvez percamos nossa capacidade ou vontade de
absorver luz e verdade. Talvez, como um músculo lesado, perdemos força
e resiliência para confrontar cada nova tentação. Sejam quais forem os
aspectos técnicos, a morte espiritual parece resultar numa forma de
degeneração ou entropia espiritual. Tal como acontece com a morte física,
é preciso algum poder para reverter o processo de decadência, para curar
nossas feridas espirituais, para fortalecer nossa fibra espiritual. Novamente,
a Expiação é a fonte desse poder de reversão, a fonte na qual os homens
podem “procurar a remissão de seus pecados” (2 Néfi 25:26).
O salmista cantou o bálsamo que cura que é o Salvador: “Refrigera a
minha alma” (Salmos 23:3). Helamã testificou: “Ele tem poder, recebido
do Pai, para redimi-los de seus pecados” (Helamã 5:11). O Salvador
perguntou: “Tanto se encolheu a minha mão, que já não possa remir? Ou
não há mais força em mim para livrar?” (Isaías 50:2; ver também Alma
7:13). E depois respondeu a sua própria pergunta: “O Filho do homem tem
na terra autoridade para perdoar pecados” (Mateus 9:6). Com esse poder,
Ele “vivificou” aqueles que estavam “mortos em ofensas e pecados”
(Efésios 2:1). Essa vivificação foi uma cura de nosso ser espiritual. Nas
próprias palavras do Salvador, Ele disse: “Não volvereis a mim agora,
arrependendo-vos de vossos pecados e convertendo-vos, para que eu vos
cure?” (3 Néfi 9:13). Por meio desse processo de cura Ele “nos tirou da
potestade das trevas” (Colossenses 1:13). Verdadeiramente, Satanás foi
vencido pelo “sangue do Cordeiro” (Apocalipse 12:11).
Repetidas vezes, as escrituras revelam que a Expiação é a fonte sublime
do poder redentor. Jacó concluiu isso. Ele ensinou a respeito da redenção
“da morte eterna, pelo poder da expiação” (2 Néfi 10:25). Tão abrangente é
esse poder de salvar os espiritualmente perdidos que, ao falar daqueles que
tomarão parte na primeira ressurreição, João proclamou conclusivamente
que “sobre estes não tem poder a segunda morte” (Apocalipse 20:6).
A purificação Depende do arrependimento
Não há dúvida de que a Expiação gerou suficiente poder para restaurar e
purificar a alma errante. Mas como isso é feito e quem é elegível para os
benefícios desse poder abençoado? Como uma pessoa que pecou pode ser
suficientemente purificada para retornar à presença de Deus e desfrutar
novamente do convívio Dele? Ao contrário da ressurreição, essa parte da
Expiação não é universal. Foi individual, querendo dizer que o sofrimento
de Deus, que tornou o processo de purificação possível, torna-se eficaz
somente para aqueles que se arrependem. Embora “o Senhor não [possa]
encarar o pecado com o mínimo grau de tolerância”, não obstante, Ele
prometeu que “aquele que se arrepender e cumprir os mandamentos do
Senhor será perdoado” (D&C 1:31–32).
 
Essa natureza condicional da purificação espiritual foi revelada ao
Profeta Joseph: “O Senhor vosso Redentor sofreu (…) a dor de todos os
homens, (…) para trazer a si todos os homens, sob condição de
arrependimento” (D&C 18:11–12). Samuel, o lamanita, também ensinou
que a Expiação “[tornou] operantes as condições do arrependimento”
(Helamã 14:18). Em outras palavras, se não houvesse Expiação, não
haveria oportunidade para arrependimento. Os homens poderiam sentir
tristeza, poderiam mudar seu comportamento dentro de certos parâmetros,
mas nenhum processo de reabilitação divina estaria em andamento. Em
termos simples, sem a Expiação, não haveria purificação da alma do
pecador, independentemente de quaisquer coisas que ele fizesse.
Com a Expiação, essa purificação pode ocorrer —, mas apenas se nos
arrependermos. O rei Benjamim ensinou: “A nenhum desses será
concedida salvação, a não ser pelo arrependimento e fé no Senhor Jesus
Cristo” (Mosias 3:12). O Élder Marion G. Romney salientou a natureza
condicional dessa fase da Expiação: “Ele pagou a dívida dos seus pecados
pessoais e dos pecados pessoais de toda alma vivente que já habitou na
Terra ou que vai habitar na mortalidade na Terra. Mas Ele o fez de modo
condicional. Os benefícios desse sofrimento por nossas transgressões
individuais não chegará até nós incondicionalmente no mesmo sentido que
a ressurreição virá independentemente do que façamos. Se quisermos
partilhar das bênçãos da expiação no tocante a nossas transgressões
individuais, temos que obedecer à lei”.1
O Presidente David O. McKay declarou: “Todos os princípios e
ordenanças do evangelho de Jesus Cristo são significativos e importantes (.
. .), mas não há nenhum que seja mais essencial à salvação da família
humana do que o princípio divino e eternamente operante do
arrependimento. Sem ele, ninguém pode ser salvo. Sem ele, ninguém pode
sequer progredir”.2 Por quê? Porque ele é a chave que abre o poder
purificador da Expiação.
Foi exatamente isso que Helamã ensinou: “E ele [Cristo] tem poder,
recebido do Pai, para redimi-los de seus pecados por causa do
arrependimento” (Helamã 5:11; grifo do autor).
O arrependimento não é um princípio negativo, mas, sim, positivo,
extremamente glorioso. Não foi algo queveio de um pai irado e autoritário,
mas do mais amoroso Pai de todos. Não é apenas para os iníquos, mas para
todas as boas e excelentes pessoas que desejam se tornar melhores. É para
todo indivíduo que ainda não atingiu a perfeição. É o único caminho para a
paz de consciência, o perdão dos pecados e, no final, a própria divindade.
O Que É o arrependimento?
O que é, então, o verdadeiro arrependimento e como ele se relaciona
com a Expiação? Não é apenas um processo de cinco ou sete passos pelo
qual avançamos mecanicamente. Não é apenas deixar de fazer coisas
erradas, deixar o tempo passar ou expressar pesar. Nenhuma dessas coisas
por si só constitui arrependimento. Alma, o filho, descreveu o verdadeiro
arrependimento quando falou ao povo de Zaraenla. Ele contou a vida de
seu pai, Alma, o pai, que tinha sido um dos iníquos sacerdotes de Noé. Um
dia, o profeta Abinádi entrou em cena. Alguma coisa na mensagem de
Abinádi penetrou no coração e na alma de Alma, o pai. Alma, o filho,
comentou: “E em virtude de sua fé, verificou-se uma grande mudança em
seu coração. Alma então acrescentou: “[Meu pai] pregou a palavra a
vossos pais e em seus corações também se verificou uma grande
transformação”. Depois, seu sermão chegou a seu clímax: “E agora, eis que
vos pergunto, meus irmãos, (. . .) Haveis experimentado esta poderosa
mudança em vosso coração?” (Alma 5:12–14).
Isso é arrependimento verdadeiro. É um processo suavizador,
amenizador, refinador que provoca uma grande mudança no coração. É
manifestado por aqueles que chegam com um coração quebrantado e um
espírito contrito. É uma ardorosa determinação de reconciliar-nos com
Deus a todo custo. Essa mudança significa que “não temos mais disposição
para praticar o mal, mas, sim, de fazer o bem continuamente” (Mosias 5:2).
Lamôni e seus servos sofreram essa mudança. Ao acordarem de seu sono
espiritual “todos disseram ao povo a mesma coisa — que seu coração havia
sido transformado; que não desejavam mais praticar o mal” (Alma 19:33).
E quanto aos que não sentem essa mudança, mas obtêm uma
recomendação para o templo? E quanto aos que têm pecados graves, mas
escapam da repreensão ou da ação disciplinar, enquanto outros na mesma
situação carregam sua cruz? O Presidente Harold B. Lee falou diretamente
sobre esse assunto: “Não há pecadores bem-sucedidos”.3
Há vários anos um pai me expressou algumas preocupações que ele
tinha com sua filha adolescente. Ela havia compartilhado alguns de seus
planos com ele. Ela queria “viver a vida” por algum tempo, experimentar
de tudo, e depois, três meses antes da época de se casar, ela iria “limpar
seus atos” e obter uma recomendação para o templo. Ele ficou
extremamente decepcionado, e com razão. Alguém poderia perguntar:
“Será que isso é um coração quebrantado e um espírito contrito — a
determinação de reconciliar-se com Deus a todo custo?” Será que ela
achava realmente que o bispo ou o presidente de estaca assinaria uma
recomendação para alguém que tivesse uma atitude dessas? Mesmo que o
fizessem, deixaria de ser uma bênção na vida dela. Essa atitude refletia a
mentalidade dos fariseus e saduceus que consideravam a lei judaica como
uma longa lista de leis mecânicas — muitos passos a ser dados — muito
tempo a passar. Tornou-se uma questão de forma em oposição à substância.
Ezequiel revelou o ponto-chave da verdade: “Lançai de vós todas as vossas
transgressões (…) e fazei-vos um coração novo e um espírito novo”
(Ezequiel 18:31). A santificação finalmente foi alcançada pelos nefitas
devido à “entrega de seu coração a Deus” (Helamã 3:35). Repetidas vezes
nas escrituras o arrependimento é relacionado ao coração. É um novo
coração, um coração quebrantado, uma mudança no coração, um coração
contrito.
O Élder Spencer W. Kimball contou a respeito de Holman
Hunt, o artista, que um dia mostrou a um amigo sua pintura de Cristo
batendo na porta. De repente, o amigo exclamou: “‘Há uma coisa errada
em sua pintura’.
‘O que é?’ perguntou o pintor.
‘A porta na qual Jesus está batendo não tem maçaneta’, respondeu o
amigo.
‘Ah’, disse o Sr. Hunt, ‘não foi um erro, não. Sabe, essa é a porta do
coração humano. Ela só pode ser aberta por dentro’”. O Élder Kimball
continuou, dizendo: “E é isso que acontece. Jesus pode estar junto à porta,
mas cada um de nós decide se vai abrir a porta”.4 Os líderes do sacerdócio
podem advertir, aconselhar, disciplinar e incentivar carinhosamente, mas
tudo será em vão a menos que haja em algum momento, em algum lugar,
uma mudança interna no coração.
Arrependimento ou Racionalização?
Como ocorre essa mudança no coração? Primeiro, deve haver um
reconhecimento sincero e irrestrito de nossos pecados, e não uma
racionalização deles. Alma deu este maravilhoso conselho a seu filho
Coriânton: “Não procures, mesmo nas mínimas coisas, desculpar-te de teus
pecados” (Alma 42:30). Que grande contraste com a filosofia de Corior de
que “nada que o homem fizesse seria crime” (Alma 30:17) ou com a crença
dos lamanitas de que “tudo que fizessem estaria certo” (Alma 18:5). É
preciso, no final, escolher uma dessas doutrinas conflitantes. Não pode
haver arrependimento e racionalização ao mesmo tempo. A racionalização
é a resposta do mundo ao pecado. O arrependimento é a resposta do
Senhor. São duas estradas diferentes com destinos opostos. Robert Frost
conta a respeito de uma bifurcação que encontrou na estrada ao viajar. Ele
ficou indeciso em relação a qual caminho deveria tomar, e então escreveu o
seguinte a respeito de sua escolha: Faço este relato com um suspiro.
Há muito e muito tempo
Dois caminhos divergiam em um bosque, e eu
Optei pelo menos percorrido, E
isso fez toda a diferença.5
Toda vez que pecamos encontramo-nos numa bifurcação espiritual.
Podemos racionalizar o pecado ou arrepender-nos imediatamente. A
estrada “menos percorrida” fará “toda a diferença”.
Na época do Livro de Mórmon havia leis morais que eram bem
semelhantes às leis civis. O mesmo não ocorre hoje em dia. A lei civil não
pune vários crimes morais graves, como o adultério e o aborto. Ouvimos
desculpas para esses pecados sob os rótulos de “livre arbítrio” ou de que
“todo mundo está fazendo isso” ou então “ninguém vai ficar sabendo”.
Mas não há justificativa, não há desculpa, não há um álibi para se quebrar
as leis de Deus. Foi isso que o Senhor disse a Joseph Smith: “Não tens
desculpa para tuas transgressões” (D&C 24:2). Quando honestamente
reconhecemos isso, estamos na estrada do arrependimento.
O principal obstáculo ao arrependimento sempre é o ego. Thomas
Carlyle expressou-se desta forma: “O maior dos erros é não ter consciência
de nenhum”.6 Foi esse o aviso que Alma tentava dar a seu filho rebelde,
Coriânton: “Reconhece as tuas faltas e o mal que praticaste” (Alma 39:13).
Aqueles que, em vez disso, decidem viver uma vida de negação e defender-
se da lei de Deus descobrem esta amarga verdade: “Vossos pecados
subiram a mim e não são perdoados, porque procurais aconselhar a vossa
própria maneira” (D&C 56:14).
A racionalização é a droga intelectual que anestesia a dor na consciência.
Mórmon testemunhou essa overdose letal numa época em que seu povo
estava sem “princípios nem sentimentos” (Morôni 9:20). Néfi viu os sinais
de perigo na vida de Lamã e Lemuel quando comentou: “[Deus] vos falou
numa voz mansa e delicada, mas havíeis perdido a sensibilidade” (1 Néfi
17:45). Compare isso com o lamento de Néfi: “Oh! Que homem miserável
sou! (. . .) Meu coração geme por causa de meus pecados; não obstante, sei
em quem confiei” (2 Néfi 4:17, 19), É difícil imaginar essas palavras ditas
por um profeta de Deus. A vida de Néfi era uma vida de devoção e
obediência, mas ele nunca esteve mais consciente da distância que ainda
tinha que percorrer para atingir a perfeição. Quanto mais espiritual se torna
uma pessoa, mais sensível ela fica em relação a suas imperfeições. Quanto
melhor ele se torna, pior se dá conta de que é.
Como todos nós pecamos, tal como Néfi, a questão não é apenas se
erramos, mas se erramos e estamos agora dispostos a nos arrepender. JohnDonne falou sobre a eficácia do arrependimento:
Ensiname a arrepender-me; porque isso é como
Se tivesses selado meu perdão com teu [de Cristo] sangue.7
O propósito desta vida na Terra é ser um estado probatório, para ver se
vamos nos arrepender e seguir Cristo. O Senhor determinou “para o
homem os dias de sua provação” (D&C 29:43). De fato, o Senhor tomou
providências para que a semente de Adão “não [sofressem] a morte física
até que eu, o Senhor Deus, mandasse anjos para pregar-[lhes] o
arrependimento e a redenção” (D&C 29:42). Foi isso que Leí ensinou
claramente: “E os dias dos filhos dos homens foram prolongados (…) para
que se arrependessem enquanto estivessem na carne” (2 Néfi 2:21). Alma
ensinou da mesma forma que se não houvesse “tempo para o
arrependimento (…) a palavra de Deus teria sido vã e estaria frustrado o
grande plano de salvação” (Alma 42:5).
A iniquidade por si só raramente foi a causa da destruição do homem. A
maior tragédia é a iniquidade associada à falta de vontade de arrepender-se.
A destruição predita dos iníquos de Nínive foi suspensa porque eles
estavam dispostos a voltar-se a Deus. O povo de Melquisedeque
“entregara-se à prática de iniquidades” (Alma 13:17), mas foram poupados
porque “se arrependeram” (Alma 13:18). Alma, o pai, “[fez] muitas coisas
abomináveis aos olhos do Senhor” (Mosias 23:9), e os filhos de Mosias
foram chamados de “os mais vis pecadores” (Mosias 28:4), ainda assim
cada um deles encontrou ímpeto para reverter seu curso. Em cada um
desses casos, ainda restavam brasas de arrependimento. Para aqueles que
deixaram as brasas morrerem, o Senhor proferiu a consequência: “Aquele
que não se arrepender, dele será tirada até a luz que recebeu, pois meu
Espírito não contenderá sempre com o homem” (D&C 1:33). Foi a mesma
mensagem que o Senhor enviou ao iníquo povo de Amonia: “Se
persistirdes em vossas iniquidades” e “não vos arrependerdes”, “vossos
dias não serão prolongados na terra” (Alma 9:18). Era algo simplesmente
lógico. A razão desta vida terrena foi proporcionar um período probatório
para arrepender-nos. Se alguém se recusar a fazê-lo depois de lhe ser
oferecidas todas as oportunidades razoáveis, ele desperdiçou seu direito de
permanecer. Nesse ponto, como dizem as escrituras, ele está
“[amadurecido] para a destruição” (Helamã 13:14).
Em certo ponto, Oliver Cowdery se desassociou da Igreja. Joseph estava
ansioso para que ele se arrependesse e voltasse. Ele instruiu seu secretário:
“Quero que você escreva para Oliver Cowdery e pergunte se ele não sofreu
o suficiente”.8 A racionalização e a procrastinação trazem o restolho da
vida — o arrependimento traz os frutos.
Tristeza Segundo Deus
Aqueles que vivenciaram uma mudança no coração manifestam pesar,
não apenas tristeza, mas a tristeza segundo Deus. A tristeza do mundo e a
tristeza segundo Deus são coisas bem distintas. Paulo diferencia as duas:
“Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes
contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus. (.
. .) Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação”
(II Coríntios 7:9–10). Não há duas tristezas iguais. Há a tristeza do mundo,
que é um reconhecimento intelectual de nosso erro. É a tristeza do
criminoso que é apanhado. É a tristeza da jovem imoral por ter ficado
grávida. É a tristeza do transgressor porque seus planos malignos não
deram certo. O profeta Mórmon foi testemunha dessa tristeza. Ele foi líder
dos exércitos nefitas. Devido à iniquidade deles, muitos foram mortos em
batalha. O coração dele se regozijou momentaneamente, quando viu o
lamento e o pranto deles perante o Senhor. Mas as escrituras então
acrescentam: “Mas eis que esta minha alegria foi vã, porque seu pesar não
era para o arrependimento, (…) ao contrário, era mais o pesar dos
condenados, porque o Senhor não lhes permitiria deleitar-se continuamente
no pecado” (Mórmon 2:13). Pelo contrário, Alma suplicou a seu filho:
“Deixes apenas teus pecados te preocuparem, com aquela preocupação que
te levará ao arrependimento” (Alma 42:29).
A tristeza segundo Deus é de uma qualidade infinitamente
transcendental. Não há necessidade de pressão externa. A transformação
vem de dentro. Pode haver lágrimas abundantes. Haverá uma dor do fundo
da alma, às vezes até excruciante. Podemos nos sentir “[humilhados] até o
pó” (Alma 42:30). Até os justos, ocasionalmente, podem clamar: “Oh! Que
homem miserável sou!” (2 Néfi 4:17). Os filhos de Mosias conheciam o
processo: “Eles padeceram muita angústia (. . .) sofrendo muito e temendo
que viessem a ser lançados fora para sempre” (Mosias 28:4). Alma
reconheceu que seu passado de atos iníquos “causou penoso
arrependimento” (Mosias 23:9). Haverá recém-descobertas reservas de
compaixão por aqueles que podem ter sido magoados, talvez algum
embaraço e finalmente e sempre uma disposição de submeter-se a qualquer
coisa necessária para reconciliarem-se com Deus — sejam desculpas,
confissão, ação disciplinar ou qualquer outra exigência divina. Haverá uma
total ausência de justificativas, álibis e tentativas de culpar outros. Haverá
uma completa aceitação de responsabilidade por nossas atitudes e ações, e
um compromisso inabalável de estar bem com Deus. Em essência, o
arrependimento pode trazer-nos um momento de total integridade
intelectual, emocional e espiritual — quando podemos dizer que
dominamos o conselho de Polônio: “Sê verdadeiro consigo mesmo”.9
O Salvador ensinou que se não nos arrependermos, teremos que sofrer
como Ele sofreu. Isso não significa, porém, que não haja arrependimento
se nos arrependermos. De fato, o Presidente Kimball ensinou que o
sofrimento pessoal “é uma parte muito importante do arrependimento.
Uma pessoa não começa a se arrepender até que tenha sofrido
intensamente por seus pecados”.10 O Presidente Kimball depois
acrescentou: “Se a pessoa não sofreu, ela não se arrependeu. (. . .) Ele tem
que passar por uma mudança em seu sistema que o fará sofrer e então o
perdão é uma possibilidade”.11 Esse sofrimento, por mais intenso que seja,
não obstante é substancialmente menor para alma arrependida do que para
o impenitente. O Salvador toma para Si parte do fardo em favor daqueles
que se arrependem. Esse princípio é ilustrado por uma história que B. H.
Roberts adorava compartilhar.
“É relacionada com Lord Byron que quando era jovem e frequentava a
escola, um colega seu caiu no desagrado de um valentão cruel e opressor,
que batia nele sem misericórdia. Byron, por acaso, estava presente, mas
sabendo como seria inútil tentar lutar com o valentão, aproximou-se dele e
perguntou por quanto tempo pretendia bater em seu amigo. ‘O que você
tem com isso?’ perguntou o valentão, com rudeza. ‘Porque’, respondeu o
jovem Byron, com lágrimas nos olhos, ‘Eu apanho no lugar dele, se você o
deixar ir’.”12
O Salvador “apanha no lugar” daqueles que se submetem à Sua vontade.
Isaías profetizou que Ele seria “moído por causa das nossas iniquidades” e
depois prometeu que “pelas suas pisaduras fomos sarados” (Isaías 53:5; ver
também I Pedro 2:24). Essa cura derivava das raízes medicinais do
Getsêmani.
O Élder Vaughn J. Featherstone conta a respeito de um rapaz que o
procurou para uma entrevista para a missão. O Élder Featherstone
perguntou a respeito das transgressões do rapaz. De modo petulante, o
rapaz respondeu: “Não há nada que eu não tenha feito”. O Élder
Featherstone perguntou especificamente o que ele havia feito:
transgressões morais, drogas e assim por diante. Novamente ele respondeu:
“Eu lhe disse que fiz de tudo”. O Élder Featherstone perguntou: “O que o
faz pensar que vai para a missão?” “Porque eu me arrependi”, foi a
resposta. “Não faço nenhuma dessas coisas há um ano”. O Élder
Featherstone então olhou para o rapaz que estava do outro lado da mesa —
21 anos de idade — sarcástico, petulante, com uma atitude bem distante do
arrependimento sincero. “Meu querido jovem amigo”, disse ele, “sinto
dizer-lhe isso, mas você não vai para a missão. (. . .) Você não devia ter
sido ordenado élder e, na verdade,devia ser julgado para saber se
continuará sendo membro da Igreja. O que você cometeu foi uma série de
transgressões monumentais. Você não se arrependeu. Apenas parou de
fazer algo. Um dia, depois de ter visto o Getsêmani e voltado,
compreenderá o que é o verdadeiro arrependimento”. Ao ouvir isso, o
rapaz começou a chorar. Continuou chorando por cinco minutos. Não
houve troca de palavras, apenas silêncio. Então, o Élder Featherstone saiu
da sala.
Uns seis meses depois, o Élder Featherstone estava falando para um
grupo do instituto, no Arizona. Depois da reunião, ele viu aquele mesmo
rapaz caminhando pelo corredor na sua direção e os detalhes da sua
entrevista lhe voltaram à lembrança. O Élder Featherstone desceu do
púlpito para apertar-lhe a mão. Quando o jovem ergueu o rosto, o Élder
Featherstone percebeu que algo maravilhoso havia acontecido na vida dele.
Lágrimas escorreram pelo rosto do rapaz, e um brilho quase sagrado
irradiava de seu semblante. “Você esteve lá, não foi?” perguntou o Élder
Featherstone. Em meio às lágrimas, ele disse: “Sim, Bispo Featherstone,
estive no Getsêmani e voltei”. “Eu sei”, replicou o Élder Featherstone. “Dá
para ver em seu rosto. Creio agora que o Senhor o perdoou”.13
Uma tristeza segundo Deus envolve partilhar com o Salvador do
sofrimento do Getsêmani. É uma tristeza que promove um novo coração e
um novo espírito.
Um abandono absoluto
Mas o arrependimento exige mais do que apenas tristeza. O verdadeiro
arrependimento exige abandono absoluto do pecado. Dante fala de uma
alma que fingia ter-se arrependido, que era bom de promessas, mas carecia
de bons atos. Crendo que somente os juramentos o salvariam, reivindicou
uma coroa celestial. Pouco antes de sua esperada ascensão, porém, um
“querubim negro” apareceu em cena. O trágico personagem, então no
inferno, relembrou o encontro e as palavras de maldição do intruso
infernal: “Você não vai levá-lo. Não trapaceie comigo! Porque com meus asseclas
ele deve vir. (. . .) Aquele que não se arrepende não pode ser absolvido.
Ele não pode se arrepender e agir ao mesmo tempo
Porque a contradição não o permitiria!”
Ai de mim! Com que violência tremi
Quando ele me agarrou e disse: “Talvez
Você não achasse que eu fosse versado em lógica!”14
Mesmo os escravos do mundo inferior sabiam que não poderia haver
perdão sem abandono do pecado.
O Élder Matthew Cowley nos dá a consoladora certeza de que o
abandono de qualquer pecado é possível: “Não há nenhum de nós aqui na
Terra que não seja maior que seus pecados, que não seja maior que suas
fraquezas e suas faltas”.15 Isso é verdade. “Mas por quanto tempo devo
abandonar o pecado?” é uma pergunta muito repetida. “Quanto tempo até
eu poder ser reintegrado ou até que eu possa ser batizado?” A resposta é
sempre a mesma — quando houver uma vigorosa mudança no coração e
uma nova mente para tornar a vontade do Senhor suprema em sua vida,
independentemente de seus próprios desejos passionais — quando houver
uma determinação inequívoca de deixar para trás os antigos caminhos. Há
um modo de avaliar isso, mas trata-se de um medidor principalmente de
atitude, e não de tempo.
Bjorn Borg, considerado o melhor tenista de nossa época, segundo a
revista Time, era “imperturbável na quadra, um jogador educado que
raramente contestava as decisões do bandeirinha ou fazia caretas ou jogava
a raquete no chão ou arremessava bolas com raiva. Era chamado de
‘Iceborg’”. O artigo continua: “Ele controla tão plenamente suas emoções
que até um leve franzir de sobrancelhas na quadra causa assombro em seus
fãs e nos outros jogadores”. Mas nem sempre foi assim. A revista Time
revela um lado mais sombrio antes que houvesse uma extraordinária
mudança.
“Aos 11 anos, o jovem Bjorn xingava como um marinheiro, arremessava
a raquete, ameaçava os juízes e reclamava de cada falta marcada. ‘Eu agia
como maluco na quadra. Era horrível. Então o clube do qual eu fazia parte
me suspendeu por cinco meses, então minha mãe pegou a raquete e a
trancou no armário. Por cinco meses, ela deixou minha raquete trancada.
Depois disso, jamais abri a boca de novo na quadra de tênis. Desde o dia
em que voltei daquela suspensão, não importava o que acontecesse, eu
sempre me comportava bem na quadra.’”16
Quando tomamos a decisão de abster-nos de certas maneiras de agir,
independentemente do que acontece, então o arrependimento está atuando.
Abandonamos o pecado quando dominamos o hábito em quaisquer
circunstâncias que ele nos seja imposto. Não se trata da passagem do
tempo, mas uma mudança no coração é o ponto-chave.
Restituição
O arrependimento exige restituição plena, no espírito de Zaqueu, que
disse: “Se nalguma coisa tenho defraudado alguém, (. . .) restituo
quadruplicado” (Lucas 19:8; ver também Levítico 6:4). Esse espírito
exsudava do Élder Spencer W. Kimball quando ele foi chamado ao
apostolado. E quanto às pessoas que ele poderia ter ofendido? Será que
tinham ressentimentos contra ele? Ele visitou cada homem com quem fazia
negócios para explicar a situação. “‘Fui chamado para um cargo elevado na
minha Igreja. Não posso servir com a consciência tranquila a menos que
saiba que minha vida foi honrosa. (. . .) Se houve alguma injustiça, quero
corrigi-la, e trouxe meu talão de cheques’. A maioria apertou-lhe a mão e
recusou-se a ouvir mais alguma coisa. Alguns deles, [porém], acharam que
seria justo terem obtido algumas centenas de dólares a mais em certas
vendas. [O Élder Kimball] preencheu os cheques.”17
A restituição vem de muitas maneiras. Pode envolver a devolução de
dinheiro, um pedido de desculpas, orações oferecidas em benefício da parte
lesada, a compensação por anos de serviço perdido por meio de esforço
redobrado, ou a compensação do negativismo com ações e palavras
positivas. O espírito do arrependimento exige uma restauração de tudo o
que for possível, tudo que estiver a nosso alcance.
O povo dos ânti-néfi-leítas compreendia esse princípio. Antes de
ouvirem o evangelho, em seu estado de espírito obscurecido, haviam
cometido inúmeros assassinatos e transgressões contra os nefitas. Num
sincero empenho de restituição, o rei arrependido dos lamanitas fez esta
oferta a Amon: “Seremos (…) escravos [dos nefitas] até repararmos os
muitos homicídios e pecados que cometemos contra eles” (Alma 27:8; ver
também Helamã 5:17). Aquele humilde rei sabia que seu povo não poderia
restaurar a vida daqueles nefitas que eles haviam matado, mas ardia em seu
coração o desejo de fazer tudo o que pudessem para reparar seus erros. Ele
e seu povo serviriam àqueles a quem tinham prejudicado e, se necessário,
até se tornariam seus escravos. Esse era o espírito da restituição. Esse era o
espírito que ardia no coração dos arrependidos filhos de Mosias, porque
foram “procurando zelosamente reparar todos os danos que haviam
causado à igreja” (Mosias 27:35).
Confissão
O verdadeiro arrependimento, porém, é um capataz zeloso. Exige mais
do que apenas o abandono do pecado. Moisés ensinou: “Culpado sendo
numa destas coisas, (…) confessará aquilo em que pecou” (Levítico 5:5;
ver também Números 5:6–7; Neemias 9:3). Davi prometeu: “Eu declararei
a minha iniquidade” (Salmos 38:18). Aqueles que procuraram João Batista
chegaram “confessando os seus pecados” (Mateus 3:6). Para o Profeta
Joseph, o Senhor declarou: “Ordeno outra vez que te arrependas (…) e (…)
que confesses teus pecados” (D&C 19:20). Mais tarde, Ele admoestou:
“Desta maneira sabereis se um homem se arrepende de seus pecados — eis
que ele os confessará e abandonará” (D&C 58:43). Samuel Taylor
Coleridge, falando por meio de um antigo marinheiro, conhecia muito bem
as dores do sigilo: Imediatamente aquele estado de espírito foi arrancado
Com lastimosa agonia,
Obrigando-me a começar a minha história; E
então me libertou.
Desde então, numa hora incerta, A
agonia retorna:
E até que a minha medonha história seja contada
Este meu coração arde dentro de mim.18
Felizmente, o homem verdadeiro arrependido, ao contrário do
marinheiro, não precisa confessar seus pecados repetidas vezes, depois que
umaconfissão sincera tiver sido feita para o devido líder do sacerdócio —,
mas até que essa confissão ocorra, que lhe arda o coração. O Senhor deixou
absolutamente claro que “o que encobre as suas transgressões nunca
prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia”
(Provérbios 28:13). Quando Alma perguntou ao Senhor como ele deveria
tratar certos transgressores na Igreja, o Senhor respondeu: “Se confessar
seus pecados diante de ti e de mim e arrepender-se com sinceridade de
coração, tu o perdoarás e eu também o perdoarei” (Mosias 26:29; ver
também D&C 64:7). Mas se não confessarem “seus nomes [seriam]
riscados” (Mosias 26:36), querendo dizer que seriam excomungados da
Igreja.
Quando devemos confessar? Quando os pecados são de magnitude tão
séria que possam resultar numa ação disciplinar ou continuar a assombrar-
nos a mente de modo a não termos paz. Davi compreendia essa última
condição, como comprova sua admissão: “O meu pecado está sempre
diante de mim” (Salmos 51:3). Se então deixarmos de confessar, nosso
horizonte espiritual se torna limitado. É como estar cercado por uma
muralha circular e impenetrável. Nessa situação, podemos ter espaço
limitado para nos mover, mas estamos presos numa armadilha. Vamos
procurar em vão uma fenda pela qual possamos nos espremer, uma
abertura pela qual possamos passar, uma extremidade ao redor da qual
possamos dar a volta. Não há fim do muro, aberturas secretas, passagens
ocultas. Anos de serviço não remediam a confissão, anos de abstinência
não apagam sua necessidade, uma súplica pessoal ao Senhor não a
substitui. Em algum lugar, em algum momento, de alguma forma teremos
que encarar o muro e escalá-lo. Isso é confissão. Quando fazemos isso,
nosso horizonte espiritual se expande.
Oscar Wilde conhecia essa verdade quando narrou a história de Dorian
Gray. Certo dia, Dorian trocou sua alma pela promessa de eterna
juventude. Wilde descreve a decadência de Dorian de um jovem inocente
para um matador impassível — até que nada restou dele a não ser a sórdida
visão do ser infeliz e desgraçado em que se tornara. Mesmo nesse estado
de aparente desesperança moral, a consciência de Dorian fez cintilar uma
última esperança: “Mas era seu dever confessar, sofrer a humilhação
pública e expiar seus erros perante todos. Havia um Deus que conclamava
os homens a confessar seus pecados na Terra e no céu. Nada que ele fizesse
o purificaria até que confessasse seus próprios pecados”.19
E da mesma forma, quando necessário, nada há que possa nos
proporcionar a purificação desejada a não ser uma confissão sincera àquele
que foi designado pelo Senhor aqui na Terra.
Em que espírito fazemos essa confissão? O Senhor mostrou-nos o ponto-
chave: “Eu, o Senhor, perdoo pecados e sou misericordioso para com
aqueles que confessam seus pecados com o coração humilde” (D&C 61:2).
Esse é o espírito. Não há lugar para fingimento ou falsidade, não há como
amenizar os fatos, não podemos divulgar 99% e reter 1%. Temos de revelar
toda a verdade e nada mais que a verdade. O pai de Lamôni tinha o espírito
certo: “Abandonarei todos os meus pecados para conhecer-te” (Alma
22:18; grifo do autor). A confissão e o arrependimento envolvem uma
desnudação irrestrita da alma, uma rendição incondicional do ego. A
revelação deve ser voluntária, e não compelida pelas circunstâncias
externas. Uma das almas condenadas de Dante descobriu de modo árduo
que a confissão no leito de morte jamais invocaria o processo de
purificação: Quando percebi que havia chegado à idade
Em que a prudência de todo homem recolhe as velas E guarda seus
equipamentos para enfrentar a tempestade, Aquilo em que antes me
deleitava passou a me causar vergonha:
Em penitência confessei, abandonando tudo.
Ah, que infeliz sou eu — pois ainda assim não estou salvo!20
A resistência à confissão é algo que acontece até aos bons santos. Eles
podem sentir-se envergonhados ou embaraçados. Talvez acreditem que
seus líderes do sacerdócio tenham um conceito pior deles depois que o
pecado for confessado. Precisamos lembrar que os bispos e os outros
líderes do sacerdócio são amigos que desesperadamente querem ajudar e
aliviar fardos. São seres humanos que cometeram erros, mas que querem
melhorar. São pais para seus rebanhos. Posso honestamente dizer que como
líder do sacerdócio, jamais passei a ter um conceito pior de um homem ou
de uma mulher que voluntária e humildemente confessou. Pelo contrário,
regozijei-me por estarem tentando colocar sua vida em ordem. Em cada
caso, creio que os laços de irmandade foram fortalecidos, e não
enfraquecidos.
Quando Mahatma Gandhi tinha 15 anos, ele roubou algo do irmão. Seu
irmão carregava no braço um pedaço de ouro sólido. Gandhi achou fácil
arrancar um pedacinho para si mesmo. Disse que a dor da culpa foi tão
forte que ele decidiu nunca mais roubar. Tendo saldado a dívida com o
irmão, disse que tomou a decisão de confessar a seu pai — mas tinha
medo, não que o pai fosse bater nele, mas pela dor que isso causaria a ele.
Por fim, ele disse: “Senti que devia correr o risco, porque não poderia
haver uma purificação sem uma clara confissão”. Gandhi resolveu escrever
sua confissão. Fez isso, confessando sua culpa, prometendo nunca mais
roubar e pedindo o devido castigo. Concluiu pedindo ao pai que não se
punisse pelo que Gandhi tinha feito. Naquela época, o pai de Gandhi estava
muito doente e confinado ao leito, que nada mais era que uma tábua de
madeira. Gandhi, tremendo, entregou a confissão ao pai, depois se sentou
diante dele e esperou ansiosamente uma resposta. Em suas próprias
palavras ele conta o que aconteceu: “Ele leu tudo, e lágrimas cor de pérola
escorreram-lhe pelo rosto, molhando o papel. Por um momento, ele fechou
os olhos em pensamento e depois rasgou o bilhete. (. . .) Pude ver a agonia
do meu pai. Se eu fosse pintor, poderia fazer uma gravura da cena ainda
hoje. Tudo está bem vívido em minha mente.
Aquelas lágrimas de amor cor de pérola limparam meu coração e
lavaram meu pecado. Somente quem sentiu esse amor pode saber o que é.
(. . .) Ele transforma tudo em que toca. Não há limite para seu poder.
Esse tipo de perdão sublime não era algo natural para meu pai. Achei
que ele ficaria zangado, diria palavras ásperas e bateria na testa. Mas ele
ficou maravilhosamente sereno, e creio que foi devido à minha clara
confissão. Uma clara confissão, combinada à promessa de jamais cometer
o pecado de novo, quando oferecida ao que tem o direito de recebê-la, é o
mais puro tipo de arrependimento. Sei que minha confissão fez meu pai
sentir-se absolutamente seguro a meu respeito, e isso aumentou o afeto que
ele tinha por mim”.21
Que belo comentário. A confissão sincera aumenta, e não diminui, o
afeto que um líder do sacerdócio tem pela alma arrependida.
O Élder Marion G. Romney comentou: “Meus irmãos e irmãs, há muitos
entre nós cuja aflição e sofrimento são desnecessariamente prolongados
porque não completaram seu arrependimento confessando seus pecados”.22
Naamã, o leproso, foi ao profeta Eliseu em busca de cura. Eliseu disse a
Naamã que fosse lavar-se sete vezes no Rio Jordão. Podemos nos perguntar
o que teria acontecido se Naamã, o sírio, tivesse mergulhado três vezes no
Rio Jordão e depois desistido. Será que ficaria três sétimos limpo? Ou e se
ele tivesse mergulhado seis vezes e desistido — será que estaria seis
sétimos limpo? Sabemos a resposta. A purificação só veio depois que ele
mergulhou pela sétima vez, após total submissão à palavra de Deus. E
então se seguiu a purificação! As escrituras relatam: “Sua carne tornou-se
como a carne de um menino, e ficou purificado” (II Reis 5:14). O mesmo
acontece com o pecador, o leproso espiritual. Deve haver total submissão à
vontade do Senhor, um coração quebrantado e um espírito contrito, até
uma confissão, se necessário, para completar o sétimo mergulho, e então o
espírito é purificado “como o espírito de um menino”.
Por que o Senhor exige uma confissão? É tão difícil. Talvez porque esse
ato a mais do que todos os outros nos faz ajoelhar-nos namais profunda
humildade. Falando do processo do arrependimento Alma declarou: “Deixa
que te humilhem até o pó” (Alma 42:30). Mas, oh, como é grandiosa a
promessa para os que assim o fazem: “Se confessarmos os nossos pecados,
Jesus Cristo é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de
toda a injustiça” (I João 1:9). Por outro lado, o Senhor advertiu: “O que
encobre as suas transgressões nunca prosperará” (Provérbios 28:13). A
verdadeira natureza do homem sempre acabará sendo revelada. Todo
disfarce, toda farsa, todo subterfúgio pode durar alguns dias, semanas,
meses, talvez até anos, mas por fim o verdadeiro caráter do homem será
expresso em suas palavras, traído em suas ações e manifestado em seu
semblante. Quão melhor seria revelar voluntariamente o verdadeiro caráter
do que ser descoberto involuntariamente. A confissão é um modo de
transpor esse vão.
Um poder purificador
Os frutos do arrependimento nos deixam puros. Isaías declarou: “Ainda
que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos
como a neve” (Isaías 1:18). Na antiga Israel, o Dia da Expiação
simbolizava as consequências que fluiriam do verdadeiro dia da expiação.
Lemos nas escrituras: “Porque naquele dia se fará expiação por vós, para
purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o
Senhor” (Levítico 16:30; ver também Levítico 23:27–28). Isso somente era
possível por causa do futuro dia de redenção do Salvador. Por meio dessa
Expiação, o Senhor prometeu aos justos que suas “vestes [serão]
branqueadas por meio do sangue do Cordeiro” (Éter 13:10; ver também
Alma 13:11).23
Davi suplicou ao Senhor: “Lava-me completamente da minha iniquidade, e
purifica-me do meu pecado”. Depois, ele descreveu o milagre: “Purifica-
me (…) e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve”
(Salmos 51:2, 7). Não existe uma pessoa arrependida com manchas ou de
cor acinzentada. Não há mancha negra que venha a emergir das águas do
batismo, não há mácula que sobreviva aos rigores do arrependimento. A
alma arrependida se torna branca como a neve. Para esse santo, é como se
o ato nunca tivesse sido cometido.24 Esse é o milagre do arrependimento.
Como disse o Élder Matthew Cowley: “Creio que quando nos
arrependemos algo é apagado lá em cima, de modo que quando lá
chegarmos, seremos julgados pelo que somos e talvez não pelo que
fomos”. Ele também comentou: “É disso que eu gosto a esse respeito — o
apagamento”25 Para o que não se arrepende, isso não acontece. O Senhor
advertiu: “Eis que meu sangue não os purificará se eles não me ouvirem”
(D&C 29:17).
O Senhor ama cada um de Seus filhos e anseia por perdoá-los. Se
simplesmente nos arrependermos: “Grandioso é [Deus] em perdoar” (Isaías
55:7). Pedro explicou que o Senhor “não [quer] que alguns se percam,
senão que todos venham a arrepender-se” (II Pedro 3:9). Até Acabe, o
malvado rei de Israel, teve um momento transitório de arrependimento que
foi recompensado pelo Senhor: “Porquanto se humilha perante mim, não
trarei este mal nos seus dias” (I Reis 21:29). É como se o Senhor quisesse
nos abençoar a cada tentativa, por menor ou mais débil que seja de
colocarmos nossa vida em Suas mãos. Àqueles que sinceramente se
arrependem o Senhor prometeu: “Eis que aquele que se arrependeu de seus
pecados é perdoado e eu, o Senhor, deles não mais me lembro” (D&C
58:42). Ezequiel assegurou-nos dessa mesma grande verdade: “De todos os
seus pecados que cometeu não se terá memória contra ele” (Ezequiel
33:16; ver também Ezequiel 18:22). É um pensamento glorioso: O Senhor
vai julgar-nos pela pessoa que nos tornamos, e não pela que éramos antes.
Se nos arrependermos, Ele vai julgar o novo homem, não o velho. Essa foi
a súplica de Davi: “Não te lembres dos pecados da minha mocidade, nem
das minhas transgressões; mas segundo a tua misericórdia, lembra-te de
mim, por tua bondade” (Salmos 25:7).
O perdão do Senhor é total e incondicional, depois que nos
arrependemos. Samuel, o lamanita, ensinou aos nefitas que o Senhor, por
meio de Sua Expiação, tornou possíveis “as condições do arrependimento”
(Helamã 14:18). O Senhor declarou ao Profeta Joseph Seus sentimentos a
respeito desse princípio divino: “Pois eis que eu, Deus, sofri essas coisas
por todos, para que não precisem sofrer caso se arrependam; mas se não se
arrependerem, terão que sofrer assim como eu sofri” (D&C 19:16–17). O
Élder Neal A. Maxwell resumiu isso muito bem: “Acabaremos tendo que
escolher o modo de vida de Cristo ou Seu sofrimento!”26 Se escolhermos
Seu modo de vida vamos vencer a morte espiritual por meio dos
milagrosos poderes purificadores da Expiação.
 
Notas
1. Conference Report, outubro de 1953, p. 35.
2. McKay, Gospel Ideals, p. 13.
3. Lee, Stand Ye in Holy Places, p. 221.
4. Kimball, O Milagre do Perdão, pp. 203–204.
5. Frost, “The Road Not Taken”, p. 105.
6. McKay, Gospel Ideals, p. 13.
7. Donne, “Holy Sonnets VII”, p. 249.
8. Smith, Doutrinas de Salvação, comp. por Bruce R. McConkie, 1954–1956, 3 vols.,
vol. I, pp. 245–246.
9. Shakespeare, Hamlet, 1.3.78.
10. Kimball, Teachings of President Spencer W. Kimball, p. 88.
11. Ibid., p. 99.
12. Roberts, Gospel and Man’s Relationship to Deity, p. 25.
13. Featherstone, Generation of Excellence, pp. 156–159.
14. Dante, A Divina Comédia, p. 48.
15. Smith, Matthew Cowley, p. 298.
16. Phillips, “The Tennis Machine”, pp. 56–57.
17. Kimball e Kimball, Spencer W. Kimball, p. 197.
18. Coleridge, “The Rime of the Ancient Mariner”, em Williams, Immortal Poems, p.
287; grifo do autor.
19. Wilde, O Retrato de Dorian Gray, p. 176; grifo do autor.
20. Dante, A Divina Comédia, p. 48.
21. Gandhi, Autobiography, pp. 23–24; grifo do autor.
22. Conference Report, outubro de 1955, p. 124.
23. O poeta John Donne expressou-se eloquentemente sobre o sangue expiatório de
Cristo e Seu maravilhoso poder de transformar um pecador num santo: Não
carecerás de graça, se te arrependeres.
Mas quem te dará essa graça, afinal?
Oh, torna-te a ti mesmo obscurecido pelo santo pesar,
E rubro de vergonha, tal como o és devido ao pecado;
Ou lava-te no sangue de Cristo, que tem o poder de,
Sendo vermelho, tingir de branco a rubra alma.
(Donne, “Holy Sonnets IV”, p. 248)
24. Mesmo quando nos arrependemos, porém, talvez ainda soframos as
consequências de nossos pecados — oportunidades perdidas, relacionamentos
feridos e coisas assim.
25. Smith, Matthew Cowley, p. 295.
26. Maxwell, “Overcome (. . .) Even As I Also Overcame”, p. 72.
 
Capítulo 18
A Bênção da Paz
de Consciência
 
Um poder Consolador
Entre suas muitas bênçãos, a Expiação proporciona paz. Não apenas nos
purifica, mas nos consola. Descobri por experiência própria que essas duas
bênçãos nem sempre vêm juntas. Em certa ocasião, conheci bons santos
que creio que se arrependeram completamente e partilharam do poder
purificador do sacrifício do Salvador, mas que ainda confessam viver com
a consciência pesada. Não veem como o Senhor pode perdoá-los pelo que
fizeram. Notei isso vividamente quando realizava uma entrevista para
recomendação para o templo com um converso de uns 15 anos. Ele tinha
sido fiel e devotado desde o dia do seu batismo, mas ainda se questionava
se o Senhor poderia realmente perdoá-lo pela vida desregrada que levara
antes de ouvir a mensagem do evangelho. Esse perdão lhe parecia algo
grande demais para pedir.
Não creio que ele seja o único a ter esses sentimentos.
Embora creiam em Cristo e em Sua Expiação, algumas pessoas, de
modo inocente, porém incorreto, estabelecem limites para Seus poderes
regenerativos. De alguma forma, converteram a Expiação infinita em algo
finito. Pegaram a Expiação e a circunscreveram com um limite artificial
que não cobre o seu pecado específico. Stephen Robinson fez um
comentário semelhante: “Descobri que há muitos que acreditam que Jesus
é o Filho de Deus e que Ele é o Salvador do mundo, mas não acreditam que
Ele possa salvá-los. Acreditam em Sua identidade, mas não em Seu poder
de purificar, de limpá-los e de salvar. Ter fé em Sua identidade é apenas
metade

Mais conteúdos dessa disciplina